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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A PÉTALA VERMELHA / Octávio Augusto
A PÉTALA VERMELHA / Octávio Augusto

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "SEBO"

 

 

 

 

   

E se os acontecimentos aparentemente banais da vida revelassem suas conexões mais profundas? E se oportunidades inesperadas trouxessem de volta os laços de vidas anteriores, onde vínculos de amor e afeto pudessem ser reatados? Nesse livro encontraremos Denise, Rosemeire, Maria, José Antonio e outros personagens e momentos como este. Os fatos desencadeados e encontros que se sucedem vão convencer o leitor de que o acaso não existe ou, como dizem alguns, de que o acaso seria o verdadeiro nome de Deus.

 

 

 

 

Rosemeire chegou a sua casa cansada do trabalho. Artur, o filho, estava na cozinha preparando um cappuccino. Agitada e ofegante, ela se aproximou dele, beijando-lhe a face.

— Quer que eu prepare um cappuccino para a senhora?

— Obrigada, meu filho. Estou atrasada para a minha última consulta com a doutora Cláudia. Passei em casa apenas para pegar o talão de cheques e já estou de saída.

Artur, misturando o pó do café na água da xícara, lamentava, em seu íntimo, a decisão da mãe de interromper as sessões de terapia.

Receoso de que sua mãe pensasse que ele estava se intrometendo demasiadamente em sua vida, mas ao mesmo tempo preocupado com aquela decisão, Artur resolveu manifestar, de forma sutil, o seu ponto de vista.

— Mamãe, às vezes, leva-se um longo tempo até que esse tipo de terapia surta efeito. Pense com mais calma na hipótese de reconsiderar sua decisão. Não interrompa as sessões com a doutora Cláudia. Ela é uma psicóloga muito conceituada. Tenha um pouco mais de paciência.

Rosemeire olhou com ternura para o filho, agradecida pelo carinho, atenção e zelo com que Artur a tratava, sobretudo após a separação do marido.

— Obrigada pela sua preocupação. Você tem sido um anjo, mas, sinto muito, eu já tomei a decisão de interromper a terapia. De fato, a doutora Cláudia é muito competente e tem me ajudado bastante nesses seis meses de tratamento, mas eu penso que devo caminhar com minhas próprias pernas a partir de agora. Sei o que preciso fazer para resgatar a alegria de viver. Não posso ficar lamentando o fato de ter me separado do seu pai pelo resto da minha vida. Tem me faltado coragem para tomar certas atitudes, mas sei que vou conseguir. Fique tranqüilo.

Em seguida, Rosemeire abraçou carinhosamente o filho, pegou o talão de cheques sobre o móvel da sala e saiu.

O trânsito até o consultório da doutora Cláudia estava terrível. Rosemeire começava a achar que não chegaria a tempo e foi ficando impaciente, imaginando que a psicóloga poderia achar que era por descaso de sua parte que chegaria atrasada justamente naquele que seria o último de seus encontros.

Rosemeire, inquieta com a lentidão do tráfego, pegou o celular e discou para o consultório da doutora, avisando à sua secretária, Magda, sobre o possível atraso.

Não demorou muito e os veículos passaram a fluir com mais velocidade, fazendo com que, para seu alívio, chegasse ao consultório com apenas dez minutos de atraso.

— Boa tarde! Entre, a doutora está à sua espera.

— Obrigada, Magda. Esse trânsito está de deixar qualquer um estressado. Rosemeire abriu a porta e deparou-se com a psicóloga a ler um livro. Assim que viu sua cliente, Cláudia fechou o livro e, serenamente, levantou-se para cumprimentá-la.

— Desculpe-me pelo atraso. Acabei saindo tarde do serviço e, como tive de passar em casa, primeiro, para pegar o talão de cheques, acabei pegando um trânsito terrível para chegar aqui.

— Não se preocupe, sente-se e relaxe um pouco, enquanto sirvo-lhe uma água, pois você está até ofegante. Como foi sua semana?

— A mesma rotina de sempre, sem novidades.

— Que tal colocarmos uma música bem suave?

— Boa idéia. Você está pensando em fazermos mais uma sessão de terapia de regressão?

— Estou sim. O que acha?

— Tudo bem, mas pode ser que eu não consiga relaxar o suficiente; estou agitada — completou Rosemeire.

— Feche os olhos — disse Cláudia, enquanto se levantava para colocar o CD. — Farei a leitura de um texto muito bonito, que auxiliará você a entrar em estado de relaxamento profundo. Procure ficar bem concentrada em minhas palavras, esqueça todos os seus problemas. A partir de agora, você entrará provisoriamente em outro mundo, retornando ao passado. Traga à tona os fatos relevantes. Tudo de importante que você viveu, nesta e em outras vidas, está armazenado, de alguma forma, em seu inconsciente. Fatos pretéritos que causaram algum tipo de impacto ruim em sua vida podem estar refletindo no seu momento presente. Concentre-se em sua respiração e relaxe.

Cláudia fez uma pequena pausa, deixando que a música auxiliasse a paciente a relaxar. Quando sentiu que era o momento oportuno, começou a fazer a leitura de um texto, na tentativa de induzir Rosemeire a entrar em transe.

Lentamente, a respiração de Rosemeire ficou mais intensa.

— O que você está sentindo? - perguntou à psicóloga.

— Medo.

— De quê?

— Estou grávida do Artur. Namoro o Alexandre há apenas dois meses. Ele veio passar férias em Trancoso e ficou hospedado na pousada da minha mãe. Estou com medo de que ele retorne para Belo Horizonte e me abandone. Temo criar um filho sem a presença do pai, assim como ocorreu com a minha mãe.

Cláudia fez uma pequena pausa. Ela sabia que os maiores traumas vivenciados por sua paciente ocorreram durante a vida intra-uterina. O seu desafio era fazer com que Rosemeire mergulhasse naqueles fatos, de forma a trazê-los à tona, identificando as conseqüências danosas que refletiam em seu comportamento no momento presente.

— Por que sua mãe criou você sem a presença do seu pai?

— Por que ele morreu.

Cláudia começou a induzir sua paciente a uma viagem mental mais distante no tempo. Usando técnicas apropriadas, levou Rosemeire à adolescência, depois à infância, até chegar ao momento do parto. A partir dali, o desafio tornava-se mais difícil. As emoções vivenciadas pelo neném durante a gestação eram importantíssimas para a formação da personalidade do mesmo. Daí, a insistência da psicóloga, sobretudo porque ela sabia das dificuldades enfrentadas pela mãe de Rosemeire para trazê-la ao mundo.

— Você agora é um feto. Retorne aos primeiros dias da gestação de sua mãe. O seu pai ainda é vivo. — O que ele sente por você?

Rosemeire tinha a respiração longa. Uma gota de suor escorreu pela sua testa. Após alguns segundos, ela respondeu:

— Ele não sente nada por mim, não sabe que a minha mãe está grávida.

— A sua mãe sabe que está grávida?

— Também não. Ninguém sabe.

— Os seus pais são felizes?

— São. Sinto que eles se amam e que eu sou fruto desse amor. Eles planejam ter muitos filhos.

— O seu pai se relaciona bem com a família da sua mãe?

— Apenas com o tio Sílvio, irmão da mamãe. Somente ele aprovou a união dos dois.

— Por qual razão os demais não aprovaram?

— Disputa política. Eles vivem em Pedra Rosada, uma pequena cidade do interior de Minas. O meu pai é do Partido Branco e a família da minha mãe é do Partido Vermelho. Há uma rivalidade terrível entre esses dois partidos. O pai da minha mãe é o coronel Teodoro, chefe do Partido Vermelho. Ele não suporta o meu pai. O tio Fausto, outro filho dele, também odeia o papai. Como eu disse apenas o tio Sílvio é amigo do papai. Foi ele quem intercedeu para que o casamento dos meus pais se consumasse.

— A família do seu pai se dá bem com a sua mãe?

— O meu pai não tem família. Foi criado em um orfanato.

Cláudia sentiu que estava alcançando seu objetivo. Rosemeire estava completamente em transe.

— Há alguma disputa política envolvendo o seu pai e alguém da família de sua mãe?

— Há sim e o clima está muito tenso. Mamãe mostra-se extremamente preocupada. O papai será candidato a prefeito de Pedra Rosada, pelo Partido Branco, e o tio Fausto, irmão da mamãe, será o candidato do Partido Vermelho. Sou capaz de sentir a angústia da mamãe. Ela está muito triste com o próprio pai, o coronel Teodoro, porque ele disse que, se ela não convencer o papai a abandonar a disputa pela prefeitura, ela deverá se separar, sob pena de que ele não mais a reconheça como filha.

— Como você está se sentindo?

— Eu estou triste com a tristeza da mamãe. Ela terá de escolher entre o papai e a família dela. Caso o papai não desista da candidatura, ela votará contra o próprio irmão.

— Vá um pouco mais adiante. Veja se o seu pai levou a candidatura para frente ou se ocorreu algum fato que o impediu de ser candidato. Rosemeire ficou em silêncio por alguns segundos. De repente, a sua expressão mudou, tornando-se mais tensa.

— O que você está vendo?

— O papai chegou a casa; ele está apavorado, chorando muito. Mamãe levantou-se da cadeira de balanço e foi ao encontro dele. Algo de grave aconteceu. Meu Deus! Ele está falando que matou o tio Sílvio. Ele está explicando que foi um acidente. Ele discutiu em um bar com um vereador do Partido Vermelho e achou que esse vereador iria atirar nele. Por isso, ele sacou a arma e atirou no vereador. O tio Sílvio estava próximo. Ele havia entrado no bar para separar a briga. Um dos tiros acertou no coração dele, matando-o. O papai está desesperado. Ele matou a única pessoa da família da mamãe que gostava dele. Eles só se casaram porque o tio Sílvio intercedeu junto ao próprio pai para que este não tentasse impedir.

— Como a sua mãe recebeu a notícia?

— Ela está em estado de choque. Posso sentir a dor que se instalou no coração dela. Ela amava o tio Sílvio. Era com ele que ela se aconselhava. O papai entrou no quarto para pegar umas roupas. Ele está na companhia de dois amigos. Eles o estão apressando a fim de saírem rapidamente dali, antes que o vovô Teodoro chegue.

— Como você está se sentindo?

— Estou com medo de ficar órfã. Temo que o vovô Teodoro mate o meu pai. Não sei o que ele é capaz de fazer com a minha mãe. O que será de mim? Não sei se quero nascer nesse ambiente de guerra. Espere, há um espírito de luz que veio me consolar. Ele está dizendo para eu ficar confiante, que a situação se resolverá da melhor forma possível. Ele diz que eu terei um papel muito importante quando nascer e que não posso desistir. Ele está emanando uma espécie de fluido em minha direção. Estou ficando mais tranqüila. Agora ele está agindo diretamente em minha mãe, passando os fluidos para ela.

— O seu pai ainda está na casa?

— Está sim. Eles estão se despedindo. Ele disse que vai se esconder em algum lugar e que voltará para buscá-la quando a situação estiver mais calma, a fim de que eles possam fugir dali.

Pela primeira vez, Rosemeire estava conseguindo externar informações detalhadas sobre o drama vivido por ela durante o período de sua vida intra-uterina. Isso deixava a psicóloga entusiasmada com a possibilidade de cura de alguns de seus traumas.

— Tente relembrar o momento em que o coronel Teodoro encontrou-se com a sua mãe após esses fatos.

Novo momento de silêncio se fez.

— Ele está furioso. Ele está dizendo que a mamãe é responsável pela tragédia que aconteceu com o tio Sílvio, porque o papai só aceitou ser candidato a prefeito por ser casado com ela, o que lhe conferia uma chance maior de ganhar a eleição. Agora, ele está falando que não sossegará enquanto não matar o papai. Ela tenta argumentar que o papai não teve a intenção de matar o tio Sílvio, mas o vovô vai embora, ignorando os apelos dela.

— Onde está escondido o seu pai?

Após longa pausa, Rosemeire respondeu:

— Não sei. A mamãe está angustiada. Ela reza sem parar. Deixou as malas prontas, esperando que o papai venha buscá-la para fugirem. Ela está revoltada com o meu avô, porque ele contratou jagunços para matar o meu pai.

— Vá até o momento em que sua mãe recebeu notícias de seu pai — ordenou à psicóloga.

Outra vez, Rosemeire fez uma pausa antes de responder:

— O vovô está entrando na casa. O coração da mamãe está disparado. Ela pressente uma notícia ruim. Ele diz que o papai está morto. Ela fica desesperada e quer ver o corpo. O vovô explica que o papai estava escondido em uma fazenda e que ele foi até lá com os seus capangas. Houve troca de tiros, com alguns mortos de cada lado. O papai fugiu em uma caminhonete, em companhia de um amigo, mas foi perseguido. A caminhonete desgovernou-se e caiu no rio Bonito quando atravessava uma ponte. O corpo foi levado pelas águas do rio e não foi localizado, por causa da enchente. É um período de muita chuva. Chove sem parar, há vários dias. A mamãe ficou revoltada.

— Como você recebeu a notícia da morte de seu pai?

— Com muita dor. Antes mesmo de nascer já tive uma perda dessa magnitude. O meu pai morreu sem saber que teria uma filha. Eu não tive, em momento algum, o amor de um pai. O primeiro amor de um homem, que toda filha recebe, eu não tive. Sinto carência por esse fato. Parece um presságio de que terei perdas ligadas aos homens que cruzarem no meu caminho. Eles não ficarão ao meu lado. Cheguei a pensar em recuar e desistir de nascer, mas mudei de idéia para não deixar a minha mãe completamente desamparada.

Novamente, a psicóloga interrompeu a narrativa de sua cliente para dar uma nova explicação:

— O fato de você ter perdido o seu pai nessas circunstâncias indica apenas uma perda; a ausência do amor paterno nada tem a ver com o amor dos homens que aparecerem em sua vida. Você nasceu para amar e ser amada. A energia do amor jamais se apaga de nosso âmago.

Quanto mais amamos, ficamos mais próximos de nosso centro. Não falo do amor ligado ao sexo, mas do amor por toda e qualquer criação da obra de Deus. A troca de energias ligadas ao amor deve ser constante. Dor alguma tem a capacidade de impedir essa troca. Libere o amor que está reprimido dentro de você. Em nossa essência, somos amor e atraímos amor. Esta é a energia que torna a vida perene. Deus é amor e nós somos feitos à sua imagem e semelhança.

Cláudia deu alguns segundos para que as suas afirmações fossem assimiladas por Rosemeire e depois prosseguiu:

— O que aconteceu nos dias que se seguiram?

— Mamãe tem esperança de que o papai não tenha morrido e que voltará para buscá-la. O corpo dele não apareceu.

— Sua mãe já descobriu que está grávida?

— Ainda não.

— O que ela sentiu quando soube da gravidez?

Mais uma vez, a resposta de Rosemeire demorou certo tempo.

— Ela está nervosa, sem saber como fará para me criar, pois acredita que não receberá qualquer ajuda do próprio pai. Acha que não conseguirá me dar uma boa educação e me enxerga como um problema sem solução.

Novamente, a psicóloga tentou desativar os pensamentos ruins da mente de sua paciente.

— Você deve relevar esses sentimentos, pois foram frutos de momentos de desespero. Mesmo as grandes relações de amor passam por momentos difíceis, onde é preciso muita paciência para compreender as razões do outro. Depois dessa fase difícil, a sua mãe deu demonstrações de um amor puro e ilimitado por você. Agora, quero que me fale sobre a reação do seu avô, quando soube da gravidez.

Logo veio à mente de Rosemeire o sentimento que o avô tinha por ela.

— Ele quer me matar. Não aceita um herdeiro com o sangue do papai. Diz que sujará o nome da família para sempre. A mamãe ficou sabendo que ele está tramando com o tio Fausto para levá-la a um médico que faça o aborto. Estou com medo. Não sou benquista, principalmente para os homens. Tenho apenas o amor da minha mãe.

Cláudia voltou a interromper sua paciente.

— Os motivos que os levam a não querer o seu nascimento são egoístas. Eles foram injustos e o seu pai não teve a oportunidade de exercer amor por você. O seu tio e o seu avô materno são exemplos de sentimentos ruins. Esses sentimentos ruins deles eram direcionados a várias pessoas, sem exclusividade para quem quer que seja. Desconsidere-os. Qual a reação da sua mãe?

— Ela decidiu que não aceitará interromper a gravidez. Aquele mesmo espírito de luz que a consolou na ocasião da morte do tio Sílvio, veio durante o sono, aconselhando-a a fugir para Trancoso, onde está morando uma amiga dela. Ela ficou insegura, porque ainda tem esperanças de que o papai volte, mas, mesmo assim, escreveu uma carta para essa amiga e está aguardando a resposta. O meu avô está tentando convencê-la a abortar. Ela pediu um prazo para pensar no assunto, apenas para ganhar tempo. No fundo, ela sabe que não terá alternativa. Ele a forçará a fazer o aborto, caso ela não fuja.

Levou mais um curto espaço de tempo, e Rosemeire prosseguiu:

— A carta chegou. A amiga da mamãe a convidou para ficar na casa dela. A minha mãe está decidida a partir, mas está sentindo um aperto no coração, pois alimenta esperança de que o papai volte para buscá-la. Ela insiste em crer que ele conseguiu escapar depois que a caminhonete caiu no rio, pois o corpo ainda não foi encontrado.

“Vamos partir de madrugada, às escondidas. Minha mãe contratou um motorista de táxi que nos levará até Vitória, no Espírito Santo. De lá, nós seguiremos para Porto Seguro e, depois, Trancoso. Mamãe está com muita raiva do pai dela. Ela atribui a ele todo o sofrimento por que está passando. Ela acha que jamais será feliz novamente com outro homem. Está profundamente decepcionada com a experiência do casamento, descrente da existência da felicidade a dois. Eu absorvo todos esses pensamentos."

— Esses pensamentos são falsos — afirmou Cláudia. — São fruto de um momento difícil que a sua mãe viveu. A felicidade a dois é possível.

Vários casais são felizes por décadas, até serem separados pela morte. Outros casais encontram a felicidade em um segundo casamento, com novos parceiros. Por fim, outros são felizes juntos, depois de um período de separação. As experiências traumáticas no campo afetivo preparam-nos para uma felicidade a dois, desde que aproveitemos as lições aprendidas com os nossos erros. Essas dificuldades jamais poderão nos desacreditar da existência da felicidade conjugal. Agora, responda-me: vocês chegaram sãs e salvas a Trancoso?

— Chegamos, sim. Fomos bem recebidas pela amiga da mamãe. Ela tem uma venda e a mamãe trabalhará lá.

Cláudia decidiu passar para a etapa seguinte de suas perguntas.    

— Conte-me agora sobre o seu nascimento. O que você sentia, às vésperas de vir ao mundo?

— Os laços que prendem meu espírito ao meu corpo estão muito fortes. No início da gestação, eles eram frágeis e poderiam ser rompidos facilmente. Tenho a sensação de que, nas primeiras semanas, eu tinha alguma liberdade de ação no mundo espiritual. Agora, o meu espírito está completamente preso ao corpo físico que me abrigará. Recebo uma visita de um espírito de muita luz, que veio me desejar boa sorte. Eu sinto um amor imenso por ele. Não consigo ver a sua fisionomia, mas sei que se trata de alguém muito próximo a mim. Pergunto se é o meu pai e ele diz que não, mas que cuidará de mim e da minha mãe e que um dia nós cuidaremos dele, porque o amor que nos une é indestrutível, fruto de vidas passadas, e que voltaremos a nos reunir em uma mesma família.

À medida que narrava os fatos que se passavam em sua mente, as lagrimas rolavam pela face de Rosemeire. A psicóloga ficou impressionada com aquela narrativa.

Há algum outro fato relevante durante sua vida intra-uterina? Rosemeire pensou por alguns segundos e respondeu: Não estou me lembrando de mais nada. Acredito que esses sejam os principais fatos.

Em seguida, Cláudia começou a induzir Rosemeire a sair do transe.

— Abra os olhos. Está tudo bem com você? Rosemeire balançou a cabeça, fazendo gesto afirmativo. — — Lembra-se do que você falou durante o transe?

— Sim. Foi fruto da minha imaginação?

— Não. Você narrou fatos com riqueza de detalhes. Acho importante repensar sua decisão de interromper a terapia. Podemos tentar fazer regressões a vidas passadas.

Rosemeire não gostou da idéia e, de imediato, disse o que pensava a respeito do assunto:

— Não quero viver essas experiências, doutora. Com todo respeito aos que pensam de forma diferente, eu não acredito em vidas passadas.

Sinceramente, não estou segura de que os fatos que narrei aconteceram realmente. Eu já sabia dos fatos que marcaram a gravidez da minha mãe. Talvez, esse conhecimento tenha influenciado na minha narrativa. A nossa mente é muito poderosa. A minha mente pode ter criado fatos para encontrar respostas para os meus bloqueios emocionais. A terapia foi muito útil, mas agora preciso caminhar sozinha. Caso mude de idéia, recorrerei ao seu auxílio novamente.

Cláudia ficou desapontada, pois sentiu que a continuidade da terapia de regressão poderia ser valiosíssima para a sua cliente. Todavia, decidiu não insistir.

A despedida foi marcada por um abraço afetuoso. Rosemeire voltou para casa pensando nos fatos que vieram à sua mente durante a sessão.

 

Artur acordou com sua mãe batendo na porta de seu quarto. De segunda a sexta-feira, impreterivelmente às sete e trinta da manhã, ela acordava o filho.

Ele espreguiçou-se demoradamente sobre a cama, buscando coragem para se levantar. Fechou os olhos e ficou pensando no sonho que tivera há pouco.

Estava em uma cidade pequena, cortada por um rio. Havia uma linda ponte, em forma de arco, que ligava as duas partes da cidade. Artur estava apreciando o pôr-do-sol, quando um homem louro, com uma mancha vermelha no lado direito da face, aproximou-se dele, sentando-se no parapeito da ponte. Em seguida, o estranho perguntou:

— Bonito o rio, você não acha?

Artur olhou para ele, sentindo uma estranha familiaridade naquela fisionomia. De certa forma, ficou hipnotizado pelo olhar meigo daquele desconhecido. Após alguns segundos, Artur respondeu:

— Sem dúvida, o rio é lindo. Por acaso, nós já nos conhecemos?

— Talvez. Acredito que temos alguns amigos em comum.

— Você mora aqui?

— Não, mas já morei.

— Onde você está morando atualmente?

— Em um lugar muito bonito, onde as pessoas são livres, porque exercitam o perdão, sabendo que não podemos julgar o próximo. O ressentimento aprisiona a alma, o perdão liberta.

Artur deu um leve sorriso, estranhando o comentário feito; afinal, tinha acabado de conhecer aquele cidadão. Em seguida, perguntou:

— Por que está falando isso?

— Consulte o seu coração. Você está carregando mágoa de uma pessoa muito importante em sua vida.

Artur surpreendeu-se com a resposta. Franziu a testa, demonstrando certa tensão. O estranho prosseguiu:

— Vá mais fundo ainda no seu coração e verifique como a mesma mágoa está fazendo mal a outra pessoa que você ama.

— Quem é você? — perguntou Artur, não escondendo a irritação que aqueles comentários provocaram.

O homem deu um sorriso meigo, antes de responder:

— No momento certo você saberá quem eu sou. Posso lhe adiantar apenas que nós temos laços mais fortes do que você imagina. Por ora, peço-lhe que ouça o que tenho a dizer. É importante para você.

— Está bem — respondeu Artur, sentindo-se hipnotizado pelo olhar daquele homem.

— Esta ponte sobre a qual pisamos liga o norte ao sul da cidade. Através dela, a pessoa de um lado comunica-se com as pessoas do outro lado. A construção da ponte facilitou o relacionamento entre elas. Antigamente, noventa por cento das pessoas que moravam no norte casavam-se entre si. Da mesma forma, as pessoas que moravam no sul. No comércio, dava-se o mesmo. Os moradores do norte não se davam com os do sul. Com a construção desta ponte, eles puderam se conhecer melhor. Hoje, são todos amigos e alguns são parentes, pois o morador do norte casou-se com os do sul. Você é um bom engenheiro e tem colaborado muito na construção de obras belíssimas. No plano pessoal, entretanto, você está erguendo muralhas, impedindo a aproximação de pessoas importantes em sua vida. Deixe as muralhas de lado e construa pontes, aproximando as pessoas umas das outras, bem como de você.

Em seguida, o homem sorriu para Artur e começou a andar pela ponte. Artur quis segui-lo, mas os seus pés deslizaram no chão e ele não conseguiu sair do lugar.

Com a imagem daquele homem gravada em sua mente, Artur ouviu Rosemeire, sua mãe, bater na porta do quarto.

Depois de curtir uma preguiça por dois minutos, ele tomou o banho, colocou a roupa e dirigiu-se à mesa de café, onde sua mãe já o aguardava.

— Você está um pouco aéreo nos últimos dias, meu filho. Aconteceu alguma coisa?

— Não. Está tudo bem. Acho que estou apenas um pouco estressado com o trabalho. Todo dia aparece um pepino para resolver.

— Por que você não tira uns dias de férias e faz uma viagem?

— Bem que eu gostaria, mas agora não dá. Nos próximos meses, será impossível tirar férias.

Rosemeire balançou a cabeça, reprovando o ponto de vista do filho. Tinha receio de que a dedicação exagerada ao trabalho pudesse lhe prejudicar a saúde. Aproveitou a ocasião para aconselhá-lo.

— Viva a vida enquanto você é jovem, bonito e solteiro. A responsabilidade de uma vida a dois não é brincadeira. Depois que vêm os filhos, então, aí é que você não terá mais vida própria mesmo! Você está trabalhando muito e se divertindo pouco. O trabalho sempre é pretexto para você não se cuidar. Se continuar nesse ritmo frenético, em breve a qualidade do seu trabalho irá cair.

Em seu íntimo, Artur sabia que sua mãe estava com a razão, mas não quis dar o braço a torcer.

— Eu estou curtindo a vida dentro das minhas possibilidades. Não tenho nada a reclamar.

Rosemeire não se deu por vencida.

— Acho que você está precisando de uma namorada. Já tem um tempinho que eu não vejo você se envolver mais seriamente com uma garota.

Artur tomou um gole de café, enquanto os seus pensamentos iam de encontro da colega de trabalho.

— Pode ficar tranqüila. Na hora certa aparecerá uma pessoa muito especial em minha vida. Para ser franco, acho que essa pessoa já apareceu.

A fisionomia de Rosemeire mudou após ouvir a confissão do filho. Um largo sorriso precedeu a pergunta que veio a seguir:

— É mesmo? Como você não me disse nada?

— É uma arquiteta que começou a trabalhar na construtora, há pouco mais de um mês — respondeu Artur, sem esconder a timidez.

— Que notícia boa! Ela já sabe que você está interessado nela?

— Ainda, não. Fiquei sabendo que ela tem namorado.

— Isso não quer dizer nada — ponderou Rosemeire. — Hoje em dia, as pessoas trocam de namorado com a mesma facilidade com que trocam de roupa. Qual é o nome dela?

— Renata — respondeu ele, com um brilho no olhar. — O papo está bom, mas eu preciso ir.

— Gostei do nome. Boa sorte.

— Obrigado.

Artur beijou a face de sua mãe e saiu.

À medida que dirigia o carro pelas ruas engarrafadas da cidade, ele olhava pela janela do carro, percebendo que não havia sequer uma nuvem. O céu estava com um azul maravilhoso. O sol deixava o dia bem claro, tornando indispensável o uso dos óculos escuros. A brisa fresca da manhã trazia uma agradável sensação de frescor. Era outono e as calçadas estavam cobertas pelas folhas das árvores.

Artur ficou feliz por conseguir apreciar novamente uma manhã ensolarada de outono. Desde a separação dos pais, não conseguia acordar de bom humor. Decidiu ligar o rádio. Para sua surpresa, estava tocando a canção Epitáfio, do grupo Titãs, cuja letra, entre outras coisas, aconselhava a apreciar mais o nascer e o pôr-do-sol, bem como a trabalhar menos e a aceitar as pessoas como elas são. Era exatamente o oposto do que ele estava fazendo em sua vida. Estava trabalhando muito, sem apreciar as belezas da vida, e não perdoava o pai por haver se separado da sua mãe.

Quando chegou à construtora, a reunião já havia começado. O doutor Alfredo falava da necessidade da redução de custos para a sobrevivência da empresa. Pedia a colaboração de todos na fiscalização do desvio e do desperdício de material de construção.

No decorrer da reunião, Renata fez observações bastante pertinentes, aumentando ainda mais a admiração de Artur. Ao final, ambos permaneceram trocando idéias sobre o projeto da construção do edifício de luxo que deveria ser lançado em breve. Quando deram por si, já passava do meio-dia. Entusiasmado pela perspectiva de continuar a conversa, Artur convidou-a para almoçar em uma cantina que ficava perto dali. O convite foi aceito prontamente.

Caminharam lentamente os três quarteirões que separavam a construtora do restaurante. Ao chegarem à cantina, foram atendidos por um simpático garçom, o qual sugeriu que pedissem o prato do dia: canelone de ricota ao molho de amêndoas. A sugestão foi aceita por ambos.

Após o garçom se afastar, Artur deu seqüência à conversa:

— Você está gostando de trabalhar na construtora?

— Estou sim. Depois de desfazer a sociedade no escritório de arquitetura, este emprego caiu do céu. Eu moro com a minha irmã e não gosto de ficar pedindo dinheiro aos meus pais.

— Eles moram em outra cidade?

— Moram em uma fazenda, no sul de Minas, a trinta e três quilômetros da cidade de Três Pontas. Eles mexem com plantação de café, mas vêm aqui pelo menos uma vez por mês.

— A sua irmã é mais velha que você?

— Não. A Denise tem vinte e três anos. Está se formando em arquitetura também.

— Interessante que vocês duas não tenham escolhido alguma profissão para trabalhar no campo. Eu acho a vida na cidade grande muito estressante. Caso eu fosse nascido no interior, acho que não ficaria na capital.

— Eu também acho a vida aqui estressante, sobretudo por causa da violência. Sinto saudades da fazenda e de Três Pontas. A qualidade de vida por lá é bem melhor. O difícil será convencer a minha irmã a voltar Comigo. Ela é muito urbana e eu não tenho coragem de largá-la aqui. Acho que ela não tem responsabilidade suficiente para morar sozinha.

Artur sorriu, antes de perguntar:

— Você é do tipo que fica tomando conta da irmã mais nova?

— Eu me sinto responsável por ela. A Denise é boa pessoa, mas um pouco imatura para a idade que tem.

A conversa foi interrompida pelo garçom, que chegou com os pratos. Durante o almoço, conversaram pouco. Após olhar no relógio, Renata viu que já passava da hora de retornar ao trabalho.

— Vamos pedir a conta. Tenho muito serviço à minha espera.

Artur assentiu com um movimento de cabeça. Estava feliz por ter conseguido se aproximar mais de Renata. Em sua mente, havia dado um importante passo para estreitar ainda mais o relacionamento com ela.

A semana de trabalho chegou ao fim e o relacionamento entre Artur e Renata tornou-se mais estreito depois do almoço na cantina italiana.

Após o habitual lanche na sala de café, aproveitando que somente os dois estavam no recinto, Renata decidiu convidá-lo para sair.

— Você tem algum programa para hoje?

A pergunta pegou Artur de surpresa. Ele estava tentando encontrar um meio de convidá-la para algum programa, mas estava receoso pelo fato dela ter namorado. Não escondendo o espanto com a pergunta, ele respondeu:

— Não. Eu estava até pensando em qual programa poderia fazer hoje. Por que você perguntou?

— Gostaria de apresentá-lo à minha irmã. Poderíamos ir a algum bar.

A resposta veio como uma ducha de água fria. O simples fato de Renata querer apresentá-lo à irmã já era sinal de que não tinha o menor interesse por ele. Um tanto quanto sem graça, Artur respondeu:

— Desculpe-me, mas não acredito que esses encontros arrumados vão para frente. Não me leve a mal.

Renata lamentou a resposta do colega de trabalho. Apesar do pouco tempo de convívio, teve uma boa impressão de Artur, vendo nele a pessoa ideal para namorar a irmã, a qual estava levando uma intensa vida de solteira, deixando-a preocupada.

— Tudo bem, mas acho que você está perdendo. A Denise é linda e está precisando tanto arrumar um namorado!... Sempre que chega a sexta-feira, eu já acordo preocupada. Sei que ela vai para a balada e não consigo dormir direito enquanto ela não chega. Eu achei você uma pessoa tão bacana e pensei em armar um encontro. Atualmente, não está fácil encontrar um cara solteiro que queira levar um relacionamento a sério. O elogio de Renata deixou Artur envaidecido.

— Obrigado pela parte que me toca. A verdade é que vários homens e mulheres interessantes estão livres. A maioria deles, por opção. Não sei por qual razão há tanta cobrança da sociedade para as pessoas namorarem e casarem. Acho que a nossa geração está numa fase de transição.

Antigamente, as pessoas procuravam um par a todo custo. Eram muito cobradas, se não tivessem sequer um companheiro ou uma companheira. Em função disso, elas sujeitavam-se a relacionamentos deteriorados, apenas para não serem incluídas no rol das 'titias' ou 'titios'. Hoje, esse quadro está mudando. As pessoas já não namoram apenas por namorar.

O namoro tem que valer a pena. Do contrário, é melhor ficar solteiro, pois, enquanto alguém mantém um namoro que nada acrescenta, perde oportunidades de conhecer pessoas interessantes.

Renata balançou a cabeça, concordando com Artur.

— Você está certo. As pessoas estão mais seletivas. Acho que a conquista do mercado de trabalho pelas mulheres ajudou nessa mudança.

A independência financeira fez com que as mulheres não aceitassem mais qualquer tipo de relacionamento. Elas já não precisam de um homem para sustentá-las.

Após uma pequena pausa, Renata acrescentou:

— Não é porque a Denise é minha irmã, mas hoje você está perdendo a oportunidade de conhecer uma dessas pessoas interessantes.

Artur deu um sorriso tímido, olhou nos olhos de Renata e disse:

— Vamos deixar para sair em uma próxima ocasião. Tenho certeza de que não faltarão outras oportunidades.

— Está bem. Tenho que ir. Já acabei o meu serviço. Vou aproveitar e passar na academia para malhar um pouco. Caso mude de idéia em relação à minha irmã, pode me avisar que eu dou um jeito para vocês se conhecerem hoje, ainda.

Artur balançou a cabeça, fazendo sinal afirmativo, e ficou observando Renata sair pela porta e caminhar pelo corredor.

Naquela sexta-feira, ele decidiu passar em uma locadora de vídeo. Havia trabalhado muito durante a semana e estava cansado. O seu maior desejo era fazer pipoca, tomar guaraná e deitar no sofá para assistir a um bom filme.

O filme escolhido mostrava os motivos e as conseqüências da invasão americana ao Iraque. Era baseado no relato de um coronel que havia participado das operações bélicas.

Ao final, Artur temeu por uma invasão americana em solos brasileiros, a pretexto de salvar a Amazônia. O filme deixou-o chocado com a política imperialista do governo Bush. Ficou pensando sobre o sofrimento de milhões de pessoas, em todas as partes do mundo, vítimas das diversas guerras. Que mal teriam cometido para sofrer tanto? Onde estaria à justiça de Deus para com os inocentes que perderam toda a família e para com aqueles que tiveram membros decepados? Muitos não haviam praticado tantas maldades nesta vida para merecerem aquela dor, pensava Artur.

Algumas questões começaram a borbulhar em sua mente: quem é Deus? Como Ele surgiu? Por que Ele decidiu criar o mundo? Por que permite tanta dor e fica impassível diante de tanta maldade? Até quando o mal vai suplantar o bem?

Pensando nessas questões, Artur lembrou-se do homem que apareceu em seu sonho, dando-lhe conselhos sobre o perdão.

O sonho parecia muito real. Desde então, Artur começou a pensar seriamente na possibilidade de estreitar o relacionamento com o seu pai, afetada decisão dele em separar-se de sua mãe, fato ocorrido há seis meses, com o argumento de incompatibilidade de gênio.

Artur pensava em seu pai quando o telefone celular tocou. O relógio já marcava meia-noite e meia. Ele não costumava receber ligações naquele horário. O que teria acontecido?

Ao atender, ouviu a voz de Renata do outro lado da linha: Artur desculpe-me estar telefonando a esta hora. Eu sei que é tarde, mas preciso muito da sua ajuda — dizia ela, entre soluços.

O desespero demonstrado acusava que algo de muito grave tinha acontecido. Artur sentiu o coração disparar.

— Tudo bem. O que houve?

Ela soluçava e não conseguia conversar.

— Procure manter a calma. Desesperar não vai ajudar em nada.

Com dificuldade, ela começou a explicar o ocorrido:

— Denise me telefonou agora. Ela e mais dois amigos estão presos em uma delegacia. Eles estavam fumando maconha dentro do carro, quando a polícia chegou e deu uma batida. Parece que encontraram cocaína também. Estão sendo acusados de tráfico de droga. Por favor, vá à delegacia comigo. Eu estou com medo, sem condições de dirigir.

A notícia deixou Artur com as pernas bambas. Jamais havia entrado em uma delegacia, mas sabia que o ambiente era péssimo, haja vista que o pai era advogado e fazia comentários sobre as causas mais importantes que atuava. Sem alternativa, Artur respondeu:

— Eu irei com você. Fique calma. Vou apenas colocar uma roupa. Qual é o seu endereço? — perguntou Artur, enquanto caminhava em direção ao móvel onde havia uma caneta.

Após escrever o endereço, Artur começou a pensar em uma forma de ajudar a irmã de Renata. Queria fazer algo mais do que apenas estar presente fisicamente naquele momento difícil. Certamente, Denise precisaria de um bom advogado. Artur já tinha ouvido falar que o crime de tráfico de drogas era inafiançável, o que significava que o autor ficava preso durante a tramitação do processo. Pensou em telefonar para o seu pai. Ele era o único criminalista que Artur conhecia e confiava. Já havia visto o seu pai conseguir ganhar causas tidas como perdidas.

Artur chegou a pegar o telefone. Entretanto, seus dedos não conseguiram discar o número do pai. Depois de evitá-lo por seis meses, seria muito abuso telefonar para ele naquela circunstância.

Após colocar a roupa, Artur saiu apressado de casa. No caminho, voltou a pensar na hipótese de telefonar para o pai. Pensou, ainda, na razão que levou Renata a telefonar para ele e não para o namorado.

Ao chegar, ela já o esperava na portaria do prédio. Assim que Renata entrou no veículo, Artur percebeu que ela estava trêmula e com os olhos muito inchados. Ela o abraçou, sem conseguir conter os soluços.

— Você foi à única pessoa que me veio à mente, neste momento difícil. Desculpe-me incomodá-lo.

— Está tudo bem. Não se preocupe em pensar que está me incomodando. É bom saber que você confia em mim. Os seus pais já estão sabendo?

— Não avisei nada ao meu pai, por enquanto. Não sei como ele reagirá, pois ainda está abalado com a morte da minha mãe, no final do ano passado. Primeiro, eu vou tentar resolver tudo. Se não conseguir tirar a Denise da cadeia, então eu ligarei para ele. Estou com medo de que ele tenha um ataque de nervos. Isso não podia acontecer, logo agora que ele está entusiasmado, em razão da formatura dela.

Artur segurou firmemente as mãos de Renata, tentando encorajá-la. A expressão de medo estava visível na face dela. Em seguida, disse algumas palavras de consolo:

— Procure ficar calma. Tudo vai dar certo. Vamos lá verificar o que está acontecendo.

Enquanto Artur dirigia, Renata desabafava:

— Eu sabia que a Denise estava fazendo uso de maconha. Já havia falado para ela sair dessa vida, mas ela falou que não era viciada e que fumava raramente. Jamais poderia imaginar que ela estava usando cocaína e, muito menos, que estivesse traficando.

Artur ouvia as lamentações de Renata, mas não encontrava palavras para confortá-la. Imaginava que a situação de Denise poderia ser mais grave do que Renata estava imaginando e não quis passar falsas esperanças.

Assim que chegaram à delegacia, eles viram uma senhora chorando, enquanto ouvia o que o advogado lhe dizia.

Renata identificou-se como irmã de Denise para o homem que estava atrás do balcão. Ele era gordo, baixinho, bem moreno e com uma calvície acentuada.

— A sua irmã está muito nervosa. Ela está na área da carceragem, mas fora da cela, por enquanto. Daqui a pouco, irei buscá-la para a senhora conversar com ela.

Virando-se para Artur, ele perguntou:

— O senhor é o advogado?

— Não. Eu sou apenas um amigo. Ela precisará de advogado?

O homem franziu a testa, diante da pergunta ingênua.

— Precisará, sim. A situação dela não é simples. Eu já li o boletim de ocorrência e o doutor delegado, também. É provável que ela seja indiciada por tráfico ilícito de entorpecentes, que é considerado crime hediondo.

Renata sentiu as pernas bambearem. Achou que fosse desmaiar. Virou-se para Artur, abriu a boca para falar algo, mas sentiu falta de ar. Artur abraçou-a, apertando-a em seu peito, enquanto alisava os seus cabelos. Nesse momento, sentindo as lágrimas dela molharem a sua camisa, Artur esqueceu as desavenças com o pai. Seria menos mal uma reação indesejável dele do que ver a mulher pela qual estava interessado naquela situação desesperadora.

— Eu vou telefonar para o meu pai. Ele é um excelente advogado criminalista.

A afirmação de Artur trouxe ânimo novo para Renata, pois ela não conhecia nenhum advogado que fosse da sua confiança. Com os olhos marejados, ela disse:

— Faça isso por mim. Eu não vejo à hora de tirar a minha irmã deste lugar.

Artur tirou o celular do bolso, suspirou fundo e discou para o seu pai. O telefone tocou até dar sinal de ocupado. Ninguém atendeu.

— Ele não atendeu? - perguntou Renata.

— Não. Acho que ele não irá me atender. Eu fui muito duro com ele, depois que se separou da minha mãe. Eu me afastei e recusei as suas tentativas de aproximação. Acho que vou ter de pensar em outro advogado.

Nesse momento, o telefone tocou. Era o seu pai.

— Artur, você me telefonou?

— Telefonei, sim. Eu estou na delegacia de tóxicos e entorpecentes.

O coração de Alexandre veio à boca. Tinha plena convicção de que Artur não fazia uso de drogas.

— O que aconteceu, meu filho? Você foi preso?

— Não. Eu estou acompanhando uma amiga que teve a irmã presa. Parece-me que ela foi pega com maconha e cocaína. O policial está falando que ela deve ser enquadrada em tráfico de droga. É uma amiga muito especial para mim. O senhor é o único criminalista que eu conheço. Eu não queria incomodá-lo, mas eu não conheço mais ninguém.

À medida que Artur falava, as lágrimas brotavam nos olhos de Alexandre. A rejeição do filho doía-lhe no fundo da alma, deixando-o sufocado. Era uma dor para a qual ele não estava encontrando alívio.

Um silêncio breve se fez, mas aquele momento pareceu uma eternidade para Artur. O orgulho que habitava em seu espírito era semelhante a uma imensa rocha, dificílima de ser removida.

Artur quis falar, mas uma força poderosa travou o som das palavras. Seria preciso muito esforço para vencer esse orgulho e pedir ajuda ao seu pai. Fechou os olhos e viu a imagem do homem com o qual sonhou. De repente, teve a sensação de que esse homem tocou levemente em sua garganta. Como num passe de mágica, as palavras saíram:

— Por favor, papai, venha à delegacia. A irmã da minha amiga irá prestar depoimento. Eu gostaria que o senhor acompanhasse o caso dela, se possível.

Alexandre sentiu uma explosão de alegria. Estava em pé, de olhos fechados, ao lado do sofá da sala quando ouviu o pedido do filho.

— Claro! Eu já vou colocar o terno. Diga ao policial que a moça tem advogado e que está a caminho. — Obrigado.

Após desligar o telefone, aos poucos, os batimentos do coração de Alexandre foram voltando ao normal. Sentiu uma sensação de liberdade, como se tivesse tirado um peso imenso das suas costas.

— Ele vem? — perguntou Renata, enquanto estalava os dedos, tamanho o nervosismo.

— Está vindo.

Artur viu a fisionomia de Renata externar certo alívio e também ficou aliviado por vê-la mais tranqüila.

Depois de colocar o terno, Alexandre mentalizou a imagem de Jesus, fechou os olhos e orou em silêncio:

 

"Senhor: obrigado pela oportunidade de poder reatar o relacionamento com o meu filho amado. Com a Sua graça, tenho tido sucesso em praticamente todas as causas. O dinheiro que ganho no meu trabalho tem proporcionado conforto a mim e à minha família. Esta será a causa mais importante da minha vida, porque poderá reaproximar o meu filho de mim. Então, ilumine os meus passos neste caso, a fim de que eu consiga ajudar essa moça. Obrigado por tudo. Amém".

 

Alexandre pegou sua pasta e saiu apressado de casa, pensando nas possíveis teses de defesa. Chegando à delegacia, viu o filho sentado em um banco de madeira, ao lado de uma mulher bonita, e foi direto ao encontro dele.

— Obrigado por ter vindo, papai. Esta é a Renata, minha colega de trabalho. A Denise, irmã dela, está presa.

— Muito prazer. Fique tranqüila, porque a sua irmã terá toda a assistência que for necessária. Eu vou me inteirar dos fatos.

Após limpar as lágrimas com um lenço branco, Renata agradeceu.

— Obrigado por ter vindo, doutor. Faça o que for preciso para tirar a minha irmã daqui.

Alexandre assentiu com a cabeça e caminhou em direção ao policial.

— O senhor é o pai do garoto, doutor Alexandre?

— Exatamente, inspetor Álvaro. Como está a situação da minha cliente?

O inspetor franziu a testa e balançou a cabeça antes de responder, indicando que o advogado teria dificuldade em conseguir a liberdade de Denise.

— Um pouco complicada. Ela estava no carro com dois rapazes, em um local ermo, em atitude suspeita. Os policiais fizeram a abordagem e pegaram os três fumando maconha. Eles ainda tentaram se livrar da droga quando viram os policiais, mas não conseguiram. Depois de apreender a maconha que eles estavam fumando, os policiais revistaram o veículo e encontraram quinze papelotes de cocaína, embaixo do tapete do banco de trás. Todos negam a propriedade da droga. Os rapazes são primos e já foram orientados pelo advogado deles. É o doutor Magela, aquele homem de terno que está conversando com aquela senhora, a mãe de um deles.

Alexandre olhou para o seu colega de profissão, preocupado com a versão que ele orientaria seus clientes a falar em juízo. Magela era um advogado de péssima reputação no meio jurídico. Voltando-se para o inspetor, perguntou:

— Quem é o proprietário do veículo?

— A proprietária do veículo é a sua cliente. Por isso, a situação dela é a mais complicada.

— Eu gostaria de ter uma entrevista com ela antes do depoimento

— Perfeitamente, doutor.

Álvaro encaminhou o advogado para uma sala reservada e foi à carceragem buscar a presa.

Alexandre começou a pensar no caso concreto. A falta de escrúpulos do doutor Magela poderia levá-lo a bolar a defesa de seus clientes inventando uma falsa história que viesse a incriminar Denise.

Quando a porta da sala se abriu, Denise entrou e o inspetor retirou-se, deixando-os sozinhos. A beleza dela era de impressionar, mesmo na situação em que se encontrava. Denise estava bastante assustada, o seu queixo tremia sem parar e os olhos verdes estavam inchados de tanto chorar. Os cabelos dourados estavam molhados de suor. O desespero estava estampado nos traços finos de seu rosto. Não usava uma única maquiagem. Vestia uma camiseta branca e uma calça jeans. Jamais havia entrado em uma delegacia de polícia. Agora, estava em um corredor da carceragem, próximo às celas, vendo presas de alta periculosidade dividindo cada centímetro daquela masmorra. Estava à beira de ter um ataque de pânico só de imaginar que, em poucos minutos, poderia ser posta dentro de uma daquelas celas fétidas. Ao ver o advogado, ela voltou a chorar.

— Meu nome é Alexandre, sou advogado e fui contratado pela Renata, sua irmã, para fazer a sua defesa.

Os lábios de Denise começaram a tremer de forma descontrolada. Começou a chorar compulsivamente, chegando a perder o fôlego entre um soluço e outro.

Alexandre abriu a porta e foi ao bebedouro buscar um copo de água. Em seguida, retirou um lenço do bolso, entregando-o à cliente. Aos poucos, Denise foi recuperando o controle.

— Procure ficar calma. Eu preciso saber de toda a verdade, mesmo que seja culpada. Não esconda nada de mim. Terei melhores possibilidades de fazer a defesa se souber dos fatos como realmente eles aconteceram.

Denise acenou positivamente com a cabeça. Ainda soluçando, começou a explicar o ocorrido:

— Eu fui para a faculdade pegar o resultado das provas. A minha formatura será daqui a duas semanas. Como todos os alunos passaram, resolvemos ir a um bar para comemorar. Depois de algum tempo, Leandro e o Carlos me chamaram para fumar maconha. O Leandro ligou para uma pessoa e combinou o local de pegarmos a droga. Nós saímos no meu carro e fomos até lá. Era uma rua escura, próxima à entrada de uma favela. Quando estacionei o carro, dois homens que estavam sentados no meio fio vieram até nós. Um deles entregou a maconha para o Leandro, que estava no banco da frente, enquanto o outro ficou conversando com o Carlos, que estava no banco de trás. Nós pagamos e fomos embora. Foi tudo muito rápido. Depois disso, nos fomos para uma rua deserta. Ficamos assustados, quando os policiais mandaram que descêssemos do carro. Nós estávamos começando a fumar. Eles pegaram o baseado e depois revistaram o carro. Acharam quinze papelotes de cocaína embaixo do banco traseiro.

— De quem era a cocaína?

— Eu não sei! — gritou Denise, completamente desesperada. — Eu fumo maconha, mas nunca cheirei cocaína. Alguém a colocou no meu carro, mas eu não sei quem foi. Eu não tenho culpa!

A experiência de vários anos atuando como advogado criminalista deu a Alexandre a certeza de que sua cliente estava falando a verdade, deixando-o ainda mais animado para fazer a sua defesa.

— Você não viu se os traficantes entregaram os papelotes de cocaína para um dos dois?

— Estava escuro. Como eu disse, foi tudo muito rápido. O Leandro estava no banco da frente. Eu prestei mais atenção na conversa dele com o traficante. Tenho certeza de que ele não recebeu nada, além da maconha. Se alguém recebeu, só pode ter sido o Carlos, mesmo porque o Leandro não saiu do banco da frente depois que pegou a maconha, e a cocaína foi encontrada embaixo do tapete do banco de trás.

— Qual é o seu nível de amizade com eles?

— Nós somos amigos, mas não muito. O nosso contato se resume aos encontros na faculdade e em algumas festas, mas não temos muita intimidade.

— Foi a primeira vez que você fumou maconha em companhia deles?

— Foi sim. O meu pai já está sabendo?

— A sua irmã está lá fora, com o meu filho. Acredito que já deve tê-lo avisado.

Os lábios de Denise tremiam à medida que as lágrimas ficaram mais intensas, receosa da reação de seu pai. Tudo o que desejava, naquele momento, era que estivesse tendo um pesadelo. Jamais imaginou que o uso de maconha pudesse lhe acarretar conseqüências tão danosas, afinal não se considerava uma criminosa. A sua esperança estava depositada naquele senhor à sua frente, o qual ela via pela primeira vez. Com a vista embaçada, tentou olhar dentro dos olhos dele, na tentativa de obter uma resposta positiva para a sua pergunta.

— O senhor vai me tirar daqui?

— Nós estamos na madrugada do sábado. Quando amanhecer, farei o requerimento de liberdade provisória. Não há a menor possibilidade de você sair daqui esta noite. Vou conversar com o delegado, para que deixe você permanecer fora da carceragem, mas não prometo.

De imaginar que passaria a noite naquela masmorra, Denise enfiou a cabeça entre as mãos e chorou mais alto ainda.

— Você prestará o depoimento agora e irá dizer exatamente o que me disse. Não precisa esconder nada. Negue a propriedade da droga.

— Eu vou ser solta?                             

— Farei o que estiver ao meu alcance para isso.

Alexandre saiu do recinto à procura de Álvaro, a fim de que Denise pudesse ser encaminhada à sala do delegado para prestar depoimento.

Decorridos cinco minutos, o inspetor veio buscá-la para ser ouvida. Quando ela entrou no gabinete, o delegado estava em pé, tomando um copo de água. Era magro, mulato e possuía uma fisionomia tranqüila, o que trouxe certo alívio a Denise. Sobre a sua mesa, uma placa preta com inscrição dourada, indicava o nome e o cargo que ocupava: Walmir Ramos Neto — Delegado de Polícia.

— Por favor, sente-se — disse o delegado, educadamente.

Artur e Renata aguardavam ansiosos no recinto da recepção. Acatando a sugestão de Alexandre, eles deixaram para ter contato com Denise após o depoimento. Renata ficou um pouco mais tranqüila após a chegada do advogado.

O depoimento teve início e Denise seguiu à risca as orientações do doutor Alexandre. As perguntas do delegado eram respondidas sem vacilar. Denise relatou a sua versão dos fatos sem entrar em uma única contradição.

Quando o depoimento terminou, ela foi encaminhada para ter o primeiro contato com a sua irmã. Assim que a viu, Renata correu para abraçá-la. O choro recíproco das irmãs comoveu o experiente Alexandre e seu jovem filho.

— Tudo vai dar certo. Eu estarei ao seu lado o tempo que for necessário. O meu coração está doendo tanto! Se pudesse, ficaria presa no seu lugar.

— O papai já está sabendo?

— Não. Eu ainda não contei nada a ele. Vou conversar primeiro com o doutor Alexandre para me inteirar da situação jurídica do seu caso.

— Eu estou com muita vergonha. Não queria trazer essa preocupação para vocês. Desculpe-me! Quero apenas que você acredite que a droga encontrada no carro não era minha. Você sabe que eu só faço uso de maconha e nunca curti outra droga.

Renata suspirou e limpou a lágrima que escorria pela sua face. Encarou a irmã, segurou o choro e acariciou os cabelos dela, antes de reforçar o apoio moral.

— Está bem. Eu acredito em você. A verdade virá à tona e você sairá desta encrenca.

Denise sentiu-se um pouco aliviada pelo simples fato de a irmã ter acreditado que ela não estava envolvida com a cocaína achada no carro. Contando com o apoio de Renata, seria mais fácil convencer o pai. Em seguida, ela deu seqüência ao diálogo.

— Tenha muito cuidado quando for dar a notícia ao papai. Ele pode ter um ataque do coração. Se isso acontecer, eu nunca vou me perdoar. Peça a ele para vir a Belo Horizonte, mas não diga toda a verdade sobre a gravidade da situação.

— Confie em mim — disse Renata, enquanto acariciava a face da irmã.

Um longo e apertado abraço marcou a despedida. Denise retornou à cela, deixando a irmã com uma dor aguda no peito quando a porta que dava acesso ao interior da delegacia se fechou. Em seguida, Renata voltou a sentar-se no banco de madeira, de onde observou o advogado conversar com o inspetor.

— Por favor, Álvaro, permita que a minha cliente fique dez minutos na sala de entrevistas, enquanto eu converso com o doutor Walmir.

— Está bem. Eu não a colocarei na carceragem, enquanto o doutor Walmir não der a ordem.

Enquanto Alexandre caminhava para o gabinete do delegado, Denise lembrou-se de Deus e começou a rezar o que não acontecia a muito, implorando para não ser colocada em uma das celas. Sentia náusea ao lembrar-se do cheiro. Durante os minutos em que permaneceu no corredor da carceragem, algumas presas a observaram com interesse suspeitíssimo, deixando-a bastante amedrontada.

Alexandre bateu na porta e entrou no gabinete do delegado.

— Qual é a conclusão que você está chegando neste caso, doutor Walmir?

— Para ser sincero, acho que a sua cliente não é traficante. Pela minha experiência, acredito que ela é apenas usuária de maconha. A co¬caína deve ser de um dos dois. O problema é que o carro pertence a ela e não há prova de que eles tenham colocado a droga embaixo do tapete. A situação dela é muito ruim.

O fato de o delegado acreditar que Denise não era a proprietária da cocaína, apesar dos indícios, era um ótimo sinal, pois indicava que ele não se deixaria levar pelas aparências e aprofundaria ao máximo as investigações. Animado com a resposta do doutor Walmir, Alexandre entrou na parte da conversa que lhe interessava.

— Amanhã eu farei o pedido de liberdade provisória ao juiz. Gostaria de ponderar com o senhor, todavia, a respeito da importância de não colocar a minha cliente na cela com as demais presas. O senhor viu que ela é uma moça muito bonita, com um padrão sócio-cultural diferenciado de todas as outras presas. Além disso, é extremamente frágil, chegando a ser ingênua. Temo pela segurança dela, se ficar em companhia das outras sentenciadas. Devemos observar, ainda, que daqui a duas semanas ela estará colando grau em curso superior e terá direito a uma cela especial. Eu invoco o bom senso do senhor para que ela seja colocada em uma sala fora da carceragem.

Walmir concordou com a ponderação do advogado.

— Perfeitamente. Eu tenho um quarto neste andar exatamente para colocar as presas que têm curso superior. Os rapazes que foram presos com ela ficarão na área da carceragem, mas em uma cela especial, separada das celas dos demais presos por uma grade. Para legitimar a minha decisão, peço ao senhor que traga os documentos da faculdade que comprovem a formatura da sua cliente daqui a quinze dias.

— Pode ficar tranqüilo. Segunda feira, eu os trarei para o senhor. Sabia que poderia contar com o seu senso de justiça.

Despediram-se com um aperto de mão e Alexandre saiu em direção ao banco de madeira onde estavam Artur e Renata.

— Alguma novidade, doutor? — perguntou Renata.

— Conseguimos uma primeira vitória. A Denise ficará em um quarto fora da carceragem. Não terá contato com as demais presas. Ela não tem direito a esse benefício, porque ainda não colou grau, mas o doutor Walmir foi compreensivo e agiu com bom senso. Preciso apenas que você providencie um atestado de freqüência ao curso e uma declaração do reitor sobre a data da colação de grau. Segunda feira, eu virei à delegacia trazer esses documentos.

— Graças a Deus, ela não ficará em uma cela! E a situação jurídica dela?

— Bem... O grande problema é que os rapazes negam a propriedade da cocaína. Em minha opinião, o rapaz que estava no banco de trás pegou a droga do traficante, sem que ela visse, escondendo-a embaixo do tapete, exatamente para se livrar de um possível flagrante. Ele pegaria a cocaína quando saísse do carro. Nós vamos trabalhar com duas teses: a primeira será a de negativa de autoria e a segunda será a de desclassificação do tráfico para o crime de uso. Eu somente farei uso da segunda tese, caso não consiga fazer uma prova concreta de negativa de autoria.

Renata já estava mais calma nesse momento. Teve uma ótima impressão do doutor Alexandre e ficou confiante em que sua irmã sairia em breve da cadeia. Aproveitou a ocasião para se inteirar sobre o preço do serviço.

— Não sei como agradecê-lo. Agora eu gostaria de saber o valor dos honorários do senhor.

O advogado sinalizou negativamente com o dedo.

— Eu não vou cobrar.

— Não é justo. É o seu trabalho e o senhor vive disso.

— Eu sei, mas esta é uma situação especial. Por favor, não insista.

Em seu íntimo, Renata ficou aliviada com a informação, pois ouvira dizer que o serviço de um bom advogado era caríssimo.

— Está bem.

Artur, que até então estava calado, falou pela primeira vez:

— Eu também não sei como agradecê-lo.

— Não precisa agradecer. Tenho certeza de que você faria o mesmo. Nessas horas, nós precisamos contar com as pessoas de que gostamos e em que confiamos.

— Obrigado, papai — tornou Artur, um pouco constrangido, enquanto apertava a mão de Alexandre.

O advogado sorriu feliz com a reaproximação do filho. Despediram-se com um abraço apertado. Artur ficou observando o seu pai caminhar em direção ao carro, sem perceber que uma lágrima rolava pela sua face. Em seguida, em companhia de Renata, seguiu até o seu veículo.

No trajeto da delegacia para casa, coube a Renata interromper o silêncio.

— Parece que eu estava adivinhando que algo de ruim aconteceria com a Denise esta noite. Senti uma vontade grande de sair com ela, evitando, assim, que se encontrasse com as más companhias. Queria até apresentá-la a você, lembra-se? Infelizmente, vocês acabaram se conhecendo em uma situação indesejável.

Novo momento de silêncio se fez. Renata lembrou-se de Adriano, o namorado, e sentiu-se aliviada por não ter necessitado pedir auxílio a ele. Imaginou que Artur poderia estar curioso pelo fato dela não ter se socorrido com o namorado e então explicou o que havia acontecido.

— Sei que você deve estar estranhando o fato de eu não ter pedido ajuda ao meu namorado. Nós tivemos uma briga feia esta noite, e eu não tinha a menor condição de chamá-lo para vir comigo à delegacia. Por outro lado, a sua imagem surgiu muito forte em minha mente.

— Lamento a briga que tiveram, mas é bom saber que você confia em mim.

Enfim, Artur compreendeu a atitude de Renata. A briga com o namorado abria uma nova perspectiva para ele, sobretudo pelo fato dela ter-lhe pedido ajuda.

— Não sei como dar a notícia ao meu pai. Estou insegura, sem coragem para telefonar.

— Você está querendo telefonar a esta hora?

— Eu não posso deixar para depois. Ele ficaria revoltado comigo, se eu deixar para ligar pela manhã. Além do mais, eu preciso dividir esta responsabilidade com ele.

Artur viu na angústia de Renata a possibilidade de conseguir uma aproximação ainda maior. Imediatamente, ofereceu novo apoio.

— Caso ache que a minha presença ajude, eu posso subir com você até o apartamento.

Renata sentiu-se mais aliviada. A presença de Artur estava sendo importantíssima para encorajá-la a fazer o que fosse necessário.

— Eu gostaria muito, mas não quero explorar a sua boa vontade.

— Não se preocupe. É um prazer poder ajudá-la.

Artur estacionou o veículo em frente à portaria do prédio. Do outro lado da rua, um pouco mais adiante, estava estacionado o carro de Adriano, o qual havia decidido procurar por Renata após a briga que tiveram.

Depois de ser informado pelo porteiro que ela havia saído, Adriano decidiu esperar. Em sua mente, tentava adivinhar se ela estaria sozinha ou acompanhada. Já estava quase desistindo de esperar, quando a viu sair do carro de Artur. Em um primeiro momento, ficou estático, sem reação. A seguir, sentiu a face ficar corada. Mordeu os lábios de raiva. Teve o ímpeto de descer do automóvel e ir ao encontro dela para tirar satisfação. Viu Artur descer do carro e desistiu de seu intento. Adriano parecia não acreditar no que via. Ao vê-los entrando pela portaria do prédio, pensou que se tratasse de um pesadelo.

Jamais suspeitou que sua namorada estivesse de caso com outro homem. Aquela era a primeira vez que ele experimentava a sensação de estar sendo traído. Pensou em tocar o interfone e fazer um escândalo. Inútil, raciocinou, pois a traição já deveria estar acontecendo há mais tempo.

O ódio de Adriano aumentou quando viu as luzes do apartamento sendo acesas. Sentiu um nó em sua garganta. Mais uma vez pensou em tocar o interfone. Novamente desistiu, reconhecendo que estava em situação de fragilidade. Um escândalo ali iria afundá-lo ainda mais no atoleiro que se encontrava. Decidiu ir embora, a fim de planejar a vingança quando chegasse a casa.

Dentro do apartamento, encorajada pela presença de Artur, Renata telefonou para o pai. A notícia caiu como uma bomba, conforme já era esperado.

O senhor Leônidas levou um choque. Denise era uma garota rebelde e ele não gostava das companhias em que ela andava. Entretanto, nunca imaginou que a filha pudesse ser presa sob a suspeita de ter praticado o crime de tráfico de entorpecentes.

Imediatamente, Leônidas telefonou para Laerte, taxista em Três Pontas, contratando-o para levá-lo até Belo Horizonte.

Rapidamente, fez as malas e partiu da fazenda. Em menos de meia chegou à casa de Laerte. Dali seguiu no próprio carro de Leônidas, ficando combinado que Laerte voltaria de ônibus.

Após desligar o telefone, Renata ficou mais aliviada. A presença de Artur ao seu lado, naquele momento difícil, estava sendo essencial para fortalecê-la.

— Você está sendo incrível — disse ela. — Não queria chamar uma mulher para ir comigo à delegacia. Não sabia como seria tratada. Nesses momentos, é sempre bom contar com a companhia de um homem. Apesar de sermos amigos há pouco tempo, você não mediu esforços para me ajudar. Não sei como lhe agradecer.

Artur deu um leve sorriso. Por alguns segundos, ficaram em silêncio, apenas olhando um para o outro. Ele baixou o olhar, segurou nas mãos de Renata e voltou a olhar fixamente em seus olhos, dando seqüência ao diálogo:

— Nessas horas a gente precisa contar com os amigos. Eu não fiz nada demais.

— Engano seu. Você me deu força, ficando ao meu lado em uma situação muito desagradável, além de arrumar um advogado para a minha irmã. Ainda pediu ajuda ao seu pai, mesmo não tendo bom relacionamento com ele. Sei que fez isso por mim. Obrigada, do fundo do meu coração.

O olhar de Renata externava toda a gratidão que ela estava sentindo pelo seu colega de trabalho. Ela havia percebido o esforço hercúleo de Artur para vencer o orgulho e telefonar para o pai, pedindo-lhe ajuda.

— De fato, tenho mágoas do papai.

— Pela separação?

— Sim.

Artur não gostava de tocar no assunto da separação dos pais, mas, diante do olhar curioso de Renata, decidiu desabafar.

— Nunca imaginei que os meus pais pudessem se separar um dia.

Eles tinham alguns problemas, como todos os casais têm, mas nada de muito grave. De repente, as brigas começaram a ficar mais freqüentes, até o dia em que ele arrumou as malas, após mais uma briga, e disse para a minha mãe que não dava mais. Foi um choque terrível para ela e para mim. Tivemos uma forte suspeita de que ele estava de caso com outra mulher, mas até agora não descobrimos nada.

Artur sentiu um nó na garganta ao comentar sobre o assunto que tanto o incomodava. Sentir-se-ia melhor se descobrisse que o seu pai tinha uma amante. Assim, encontraria uma justificativa para ser tão duro com ele. Mas, até aquele momento, tudo o que sabia era que seu pai estava sozinho. A sensação de remorso foi reforçada pelo carinho demonstrado por Alexandre através do serviço prestado naquela madrugada. Artur, percebendo que iria chorar se continuasse falando da separação dos pais, tratou de mudar de assunto:

— Você não se parece nem um pouco com a sua irmã.

Renata havia percebido que ele ficou incomodado e voltou a falar sobre Denise.

— Ela é minha irmã adotiva.

A afirmação de Renata despertou a curiosidade em Artur, fazendo com que esquecesse momentaneamente de seu pai.

— Que legal! Eu acho o ato da adoção uma demonstração de amor ao próximo. Eu pretendo ter filhos, mas também tenho vontade de adotar uma criança, quando me casar. Por que os seus pais decidiram adotar a Denise? Não é comum entre casais que já têm filhos.

— Na verdade, os meus pais nunca pensaram em adotar uma criança. A adoção da Denise foi um compromisso da minha mãe com a mãe biológica dela, a fim de evitar que ela fizesse o aborto.

— Como assim? — perguntou Artur, curioso para saber os detalhes.

— A mãe da Denise era muito bonita e se chamava Imelda. Ela e o marido, de nome Alan, trabalharam juntos na fazenda por um tempo. Depois que ela engravidou, eles se desentenderam e o Alan foi embora. Ela pediu ajuda à minha mãe para pagar o aborto. Esta foi à sorte da Denise, pois, se minha mãe não tivesse ficado sabendo das intenções da Imelda, provavelmente a Denise não teria nascido. A minha mãe só conseguiu convencê-la a não abortar, depois que assumiu o compromisso de adotar a filha dela.

— Denise chegou a conhecer a mãe biológica?

— Não. Depois da adoção, Imelda nunca mais deu notícias. Além disso, Denise nunca teve vontade de conhecê-la, mesmo porque soube que ela somente não fez o aborto porque minha mãe impediu. Denise entra em pânico, só de pensar que algum dia poderá encontrar Imelda.

Na verdade, meus pais tiveram que contar a história real para minha irmã, porque ela carregava um complexo de rejeição muito grande, sendo necessário submeter-se à terapia por longo tempo. Particularmente, acredito que a rebeldia dela tem alguma ligação com as emoções negativas sentidas durante a gestação.

Renata interrompeu a fala ao perceber que Artur estava com o pensamento distante.

— Desculpe-me, estou falando muito, não é?

— De forma alguma. Eu é que lhe peço desculpas. Você disse que a Denise tem pânico só em pensar que algum dia pode encontrar a mãe biológica. Pelo menos, ela tem um motivo para ter ódio dela. Eu tenho nutrido raiva do meu pai, talvez sem um motivo justo. Eu não estou me sentindo bem por agir assim.

Renata percebeu que, desta feita, era a sua vez de retribuir a ajuda recebida e decidiu aconselhar o colega de trabalho.

— Pelo que você me disse, já faz um tempo que você não mantém um relacionamento saudável com o seu pai. Nós não sabemos como será o dia de amanhã. A qualquer hora, podemos partir para o outro mundo. Eu digo isso de carteirinha, porque não esperava perder a minha mãe tão cedo. Você não imagina como eu queria ter mais tempo ao lado dela, um minuto que fosse. Certa feita, eu tive um sonho em que o morto tinha a autorização de Deus para ficar mais alguns dias com os familiares e amigos, todos cientes de que ele já estava morto e partiria em breve. Essa autorização tinha algumas finalidades, como, por exemplo, permitir aos seus parentes e amigos que dissessem a ele certas coisas que gostariam de dizer, mas não haviam dito, ou promover a reconciliação, ou, ainda, apenas dar-lhes uma oportunidade de despedida. Só que as coisas não são assim. Às vezes, o ente querido morre e quem fica não tem a oportunidade de se despedir, de dizer que ama ou mesmo de promover a reconciliação com o falecido. Sabe por quê?

Artur deu de ombros, indicando que não sabia a resposta.

— Isso acontece porque temos, em nosso dia-a-dia, a oportunidade de fazer todas essas coisas. Não devemos esperar o amanhã para pedir desculpas ou dizer do amor que sentimos por alguém. Amanhã é um tempo que pode ser tarde demais para determinadas atitudes. Além disso, a vida passa rapidamente e o tempo perdido é irrecuperável. Certamente, um dia você irá perdoar o seu pai. O seu arrependimento será menor quanto mais rápido você fizer isso.

Artur ficou pensativo. Em seu íntimo, sabia que Renata estava certa em seu ponto de vista.

— Está bem. Vou pensar a respeito desse assunto. Acho que já é hora de ir.

Levantou-se para se despedir, sendo seguido por Renata, que reforçou o agradecimento.

— Você foi um anjo que apareceu na hora certa. Conte comigo sempre que precisar.

Despediram-se com um abraço longo e apertado. Dali, ele seguiu direto para a sua casa. No caminho, alternava pensamentos que envolviam o seu pai com outros que envolviam um possível relacionamento com Renata.

Ela, por sua vez, voltou-se para Deus e começou a orar pela liberdade da irmã.

 

Renata preparou o café da manhã e ficou esperando o pai chegar. Estava ansiosa. Como teria sido a noite de Denise na delegacia? Teria ela conseguido dormir? Estaria confiante em obter a liberdade provisória? E se o pedido fosse negado pelo juiz? Como reagiriam ela própria, a irmã e o pai?

Envolvida por essas indagações, não teve apetite para tomar o café. Ficou sentada no sofá. Quando o telefone tocou, correu para atendê-lo, à espera que o doutor Alexandre trouxesse novidades.

Para sua total surpresa, ouviu a voz de Adriano do outro lado da linha:

— Você é a pior das pessoas que eu já tive o desprazer de conhecer! Imaginava tudo de você, menos isso! Só uma mulher muito falsa mesmo para me enganar por tanto tempo!

O tom de voz do namorado externava o ódio que ele estava sentindo. Sem entender o motivo de tanta raiva, ela perguntou:

— Do que você está falando?

Adriano fechou os olhos e sentiu o sangue ferver, inconformado com o fingimento da namorada.

— Você ainda tem a coragem de perguntar? Você sabe sua falsa! Leva o amante para dentro do apartamento e age como se nada estivesse acontecendo?

Só então Renata percebeu que Adriano havia visto Artur subindo em sua companhia para o apartamento. A raiva que estava sentindo dele tornou-se ainda maior, seja pelo julgamento equivocado, seja pela atitude em vigiá-la.

— Você está julgando sem saber nada do que está acontecendo. Eu não tenho amante e nunca tive. Quem subiu no apartamento comigo foi o Artur, meu colega de trabalho. Sabe por quê? Denise está presa, suspeita de praticar tráfico de drogas. Ontem, você teve aquela crise idiota de ciúme e disse para eu sumir da sua vida. Logo depois a Denise foi presa. Você queria que eu pedisse ajuda a quem? Cansei de satisfazer os seus caprichos. Procurei o Artur, mas não tenho nada com ele, mesmo porque eu queria apresentá-lo à minha irmã.

A notícia da prisão de Denise causou impacto em Adriano, que passou a considerar a possibilidade de ter cometido uma injustiça com a namorada, sobretudo pela forma enérgica como ela reagiu à sua acusação. Mesmo assim, ele não queria dar o braço a torcer.

— Provavelmente, você precisou de uma ajuda a domicílio. Por que ele precisou subir ao seu apartamento e ficar sozinho com você?

Renata estava indignada com a desconfiança do namorado. Com a voz trêmula, tamanha a revolta, ela respondeu:

— Eu estava completamente abalada, sem coragem para dar a notícia ao meu pai. Não sabia o que dizer e pedi a ele para me fazer companhia. Precisava conversar com alguém. Você é muito insensível. Falo que a minha irmã está presa, suspeita de praticar tráfico de drogas, e você sequer se preocupa em saber como estou, ou como ela está! Quando vai deixar o seu orgulho de lado? Eu não tenho nada com o Artur. Pode ficar tranqüilo, você não foi traído. Agora, vou fazer o mesmo pedido que você me fez ontem: suma da minha vida.

Em seguida, Renata desligou o telefone. Estava tremendo. Não bastasse o drama na vida da sua irmã, agora vinha à acusação infundada do namorado. O mundo parecia estar desabando sobre sua cabeça.

Renata estava decidida a recusar qualquer tentativa de aproximação. Ela ainda se recuperava da discussão com Adriano, quando ouviu o barulho da chave abrindo a porta da sala. A fisionomia do pai estava bastante abatida. Os olhos inchados denunciavam que não havia dormido sequer um minuto. Renata correu para abraçá-lo.

— Oh, minha filha, que tragédia!

— Foi horrível ver a Denise presa. Queria tirá-la de lá à força! Que bom que você chegou! Está difícil segurar essa barra sozinha...

— O advogado já deu notícias?

— Ainda não. Ele ficou de avisar assim que tivesse alguma novidade.

Eu preparei um café para você. Vamos comer alguma coisa, depois a gente vai à delegacia tentar conversar com ela.

Leônidas estava ansioso para se encontrar com o doutor Alexandre. Queria mostrar para ele que, se fosse por uma questão de dinheiro, sua filha não ficaria presa.

Gostaria de conversar com o advogado ainda esta manhã. A minha filha terá a melhor defesa que for possível. Se necessário, a gente mudada de advogado.

— Acho que não será preciso. Senti muita firmeza no doutor Alexandre. Segundo o Artur, ele está conseguindo resultados expressivos nas causas que defende. Pude observar que ele é muito respeitado na delegacia.

— Como está sua irmã?

— Mais ou menos. Ela estava muito preocupada com a sua reação. Procure demonstrar confiança e não deixe transparecer qualquer sinal de reprovação à atitude dela. Ela ficará menos mal.

Leônidas concordou com a filha. Primeiro, deveria preocupar-se em tirar Denise da cadeia. Só depois teria uma conversa franca com ela. Após guardar as malas, ele e Renata tomaram café rapidamente e saíram em direção à delegacia. Fazia uma linda manhã de sol e uma brisa fria balançava os ramos das árvores.

Assim que chegaram, Renata percebeu que os policiais de plantão eram outros. O policial que fazia o atendimento não demonstrava boa vontade com o público. Estavam esperando há mais de dez minutos e apenas uma pessoa havia sido atendida, havendo mais duas na frente deles. Leônidas já estava a ponto de perder a paciência, quando o celular de Renata tocou. Era o advogado.

— Eu tenho duas notícias. A primeira é ruim. Fiquei sabendo que o promotor de justiça deu o parecer contrário à liberdade e o juiz acompanhou o seu parecer, negando a concessão do pedido. Alegaram que há indícios fortes de que ela seja autora do crime de tráfico.

Renata sentiu as mãos ficarem fria, pois confiava na libertação da irmã, naquele dia. A sua fisionomia transpareceu para o pai que a notícia era ruim.

A segunda notícia é razoavelmente boa. Telefonei para a delegacia e conversei com o inspetor Álvaro. Ele disse que o carcereiro, ao levar o café para o Carlos e o Leandro, acabou ouvindo Carlos dizer que estava com a consciência pesada, porque Denise não tem nada a ver com a cocaína encontrada no carro. Isso significa que ela não tem culpa. A minha esperança é de que Carlos inocente Denise, quando for interrogado em juízo.

— Até lá, ela permanecerá presa?

— Infelizmente, sim.

— Quando será o interrogatório deles, em juízo?

— Acredito que entre duas e três semanas.

Renata colocou a mão sobre a cabeça, evidenciando o desespero com a notícia. Leônidas ficou ainda mais tenso com a reação da filha.

— A situação não é tão ruim — prosseguiu Alexandre. — Ela ficará isolada das demais presas nesse período.

— E se o Carlos não confessar que a minha irmã não tem envolvimento com o tráfico?

— Esta é uma possibilidade real. Neste caso, a situação de Denise continua ruim. De qualquer forma, eu vou arrolar o carcereiro como testemunha. Não posso garantir qual será a credibilidade que o juiz dará ao depoimento dele. Deixe o celular ligado. Qualquer novidade que aparecer, voltarei a fazer contato.

Ao desligar o telefone, Renata tinha a respiração ofegante. Leônidas percebeu a preocupação dela e seus olhos marejaram.

— O doutor Alexandre disse que o pedido de liberdade provisória foi negado, mas falou também que o carcereiro ouviu o Carlos dizer que a Denise é inocente.

Leônidas sentiu uma forte dor no peito, fruto da certeza de que sua filha estava presa, suspeita de praticar tráfico de drogas, injustamente.

— Quem é Carlos?

— É um dos rapazes que foram presos com ela.

— Se é assim, ela tem de ser solta!

— As coisas não funcionam dessa forma, papai. O Carlos será interrogado em juízo, daqui a duas ou três semanas.

— A Denise ficará presa esse tempo todo?

Renata abaixou a cabeça, triste pela situação da sua irmã e preocupada com a reação paterna. Após breve período de silêncio, ainda de cabeça baixa, ela respondeu:

— Provavelmente. Menos mal que ela não está na cela com as demais presas. Como irá ter diploma de curso superior em poucos dias, o delegado deixou que ela ficasse em um quarto isolado da carceragem.

— Graças a Deus, graças a Deus! — exclamou Leônidas.

— Próximo da fila! — gritou o policial.

Leônidas percebeu que não poderia mesmo contar com a boa vontade do policial, pois a sua fisionomia demonstrava uma profunda irritação.

— Bom dia. A minha filha foi presa ontem à noite. O nome dela é Denise. Eu gostaria de vê-la.

— Hoje não é dia de visita — respondeu secamente o policial. Senhor permita-me explicar a minha situação — insistiu Leônidas. — Moro em uma fazenda, no interior. Viajei a noite toda para vê-la. Preciso saber como ela está. Ela nunca havia entrado em uma delegacia. Deve estar desesperada. Por favor, entenda como estou me sentindo. Leve-nos até ela.

— Não será possível. Somos poucos policiais de plantão e eu tenho muito serviço à minha espera. Preciso atender as pessoas que estão na fila.

A vontade de Leônidas era a de avançar no policial. Conteve-se, porque sabia que qualquer grosseria de sua parte poderia ser descontada em Denise.

Afastaram-se um pouco do guichê de atendimento. Decidiram esperar por ali, na expectativa de que aparecesse outro funcionário que os ajudasse.

Mais um pouco e começaram a ouvir uma gritaria que vinha do interior da delegacia. Um detetive, que estava do lado de fora, entrou correndo, de arma em punho, para verificar o que estava se passando. O policial que estava no guichê abandonou o atendimento e seguiu o detetive.

Renata e seu pai ficaram preocupados. O que significava toda aquela movimentação? Por que o nervosismo demonstrado pela equipe de plantão? De repente, ouviram três estampidos.

— Oh, meu Deus, proteja a minha filha! Não permita que nada de ruim aconteça — suplicou Leônidas, em total desespero, antes de desmaiar.

— Papai! Socorro, alguém me ajude! Rapidamente, um senhor veio com um copo de água, molhou as mãos, esfregando-as lentamente na testa de Leônidas

Aos poucos, ele foi abrindo os olhos, recobrando os sentidos.

— O senhor trabalha aqui? — perguntou Leônidas.

— Trabalho, sim.

— O que está acontecendo lá dentro? A minha filha está presa e nós estamos muito preocupados.

— Está acontecendo uma briga de presos, mas é na ala masculina. Podem ficar despreocupados.

— Eu sou filha dele. A minha irmã está presa em um quarto fora da carceragem. O meu pai mora no interior e viajou a noite toda. Ela foi presa ontem e ele ainda não a viu. Por favor, leve-nos ao encontro dela.

O policial olhou ao redor e constatou que não havia outro colega de serviço por perto. Sabia que não poderia atender aquele pedido, sob pena de sofrer uma reprimenda de seu superior, mas a expressão de desespero daquele pai mexeu com o seu coração.

— Você é o pai daquela moça loura? Vou levá-los à presença dela, mas por poucos minutos, pois hoje não é dia de visita. Apenas para que vocês fiquem mais tranqüilos.

Leônidas fez o sinal da cruz antes de agradecer ao policial.

— Muito obrigado por compreender o nosso drama.

O policial sorriu e encaminhou os dois para o quarto onde estava Denise.

Assim que viu o pai, Denise levantou-se do colchão, estendido no canto do quarto, e foi ao encontro dele, abraçando-o com uma força jamais utilizada antes.

— Minha filha! Fique tranqüila que nós vamos tirar você daqui.

— Desculpe-me pela preocupação que eu estou trazendo a você. Quero apenas que acredite que eu não sou traficante. Estava usando maconha, mas os papelotes de cocaína que encontraram no carro não me pertencem.

— Nós acreditamos. O carcereiro ouviu o Carlos confessar que você não tem nada a ver com a cocaína encontrada no carro — disse Renata, procurando consolá-la.

Denise voltou a abraçar o pai. Este, por sua vez, não conseguiu conter o choro.

— Sempre quis abraçá-lo assim, papai. Perdoe-me!

Leônidas tentou falar, mas sentiu a emoção sufocar as suas palavras. Ficou, por alguns instantes, abraçado com sua filha, acariciando os seus cabelos, enquanto as lágrimas escorriam pela sua face, caindo nos ombros dela. Assim que conteve um pouco a emoção, ele respondeu:

— Você não tem que pedir perdão. Estou certo de que esse fato triste nos deixará mais unidos. Nós faremos o que for preciso para tirá-la daqui. Tenha fé, que tudo dará certo.

— Este lugar é horrível. Eu ouvi gritos dos presos a noite inteira. Alguns estavam gritando de dor, pedindo atendimento médico, mas parece que não foram atendidos. Agora, essa confusão toda, barulho de tiro e gritos de pânico. Vocês sabem o que está acontecendo?

— O policial falou que é uma briga na ala masculina. Não precisa ficar preocupada. Você dormiu bem esta noite? — perguntou Renata.

— Eu não consegui dormir. Senti tanta falta do meu quarto e da minha cama! Fui dormir depois das cinco da manhã. Acordei com o sol batendo no meu rosto. Eu estava grogue de sono e, quando abri os olhos não entendi que lugar era esse. Só depois de alguns segundos fui lembrar de que estava presa. Isso parece um pesadelo.

A conversa foi interrompida pelo policial.

— Não me levem a mal, mas vocês precisam sair.

Denise abraçou novamente o pai e a irmã. Leônidas teve o ímpeto de levá-la dali, mas apenas entregou um terço para a filha.

— Acredite no poder da oração, Denise. Você é inocente e Deus fará justiça. Reze com fé.

— Eu vou rezar. Não vejo à hora de sair daqui e tirar uns dias de férias para me recuperar deste trauma.

Com os olhos carregados de lágrimas, despediram-se. O policial conduziu-os até a saída. Nesse ínterim, ouviram novos gritos e estampidos de tiros.

— Qual o motivo dessa confusão? — perguntou Leônidas.

A expressão do policial era tensa. Ele caminhava a passos rápidos e não parou para responder.

— Os presos de uma cela conseguiram serrar as grades e estavam fugindo quando foram interceptados. Eles resolveram pegar dois homens que estavam em uma cela fora da carceragem e transformá-los em reféns.

Imediatamente, Renata teve a intuição de que os reféns eram os amigos de Denise.

— O senhor sabe informar os nomes dos reféns?

— Carlos e Leandro. Os rebelados estão ameaçando matá-los, se o Estado não diminuir o número de presos nesta cadeia. A capacidade aqui é para cinqüenta presos, mas hoje nós estamos com duzentos e setenta e um, divididos em sete celas. É humanamente impossível ficar em uma cela nessas condições.

O coração de Renata gelou quando o policial citou os nomes dos reféns.

— Os reféns são os amigos da minha irmã. O senhor acha que os outros presos poderão matá-los?

O policial abriu a porta de ferro, olhou nos olhos de Renata e respondeu:

— Esse risco existe, sim. Esta cadeia está um verdadeiro barril de pólvora.


Eles estão prometendo iniciar a ciranda da morte há um bom tem­po. Nós teremos de agir rápido para conseguir algumas transferências, de forma a diminuir o número de presos. Do contrário, eles matarão os amigos da sua irmã. Agora, eu preciso voltar para a carceragem. Podem ficar tranquilos, porque a filha de vocês está segura naquele quartinho. Leônidas segurou firmemente as mãos do policial e suplicou:

Não deixe nada de ruim acontecer com a minha filha. Ela é ino­cente. O tempo mostrará que estou certo. O senhor foi muito gentil conosco. Por favor, cuide dela.

O policial conseguiu detectar o grau de desespero de Leônidas pela força com que ele segurava a sua mão. Comovido, respondeu:

Enquanto ela estiver recolhida nesta cadeia, o senhor pode ter certeza de que será bem tratada. Eu preciso retornar para a carcera­gem. Vão com Deus.

Leônidas estava com os olhos marejados. Em sinal de agradeci­mento, deu um pequeno sorriso, largou as mãos do policial e cami­nhou em direção à saída da delegacia, sendo seguido por Renata.

Assim que eles se afastaram, o policial fechou a porta de ferro, re­tornando para o local da rebelião.

— Não queria estar na pele dos pais desses garotos — disse Leônidas. — Já imaginou a reação deles quando souberem que os filhos viraram reféns nas mãos de bandidos perigosíssimos? E se eles forem mortos?

— Vou telefonar para o doutor Alexandre — disse Renata. — Acho importante colocá-lo a par deste acontecimento.

Renata pegou o telefone e discou o número do celular. Relatou o que estava acontecendo na cadeia e perguntou:

— Caso eles sejam mortos, o que isso implicará na situação da Denise?

— Será muito difícil absolvê-la. A minha esperança maior é a de que Carlos confesse o crime de tráfico. Caso ele seja morto, além da impos­sibilidade da confissão, o próprio depoimento do carcereiro perderá valor. O juiz poderá pensar que nós conseguimos um testemunho falso para colocar a culpa exclusiva em um morto. Portanto, vamos rezar para que eles sejam liberados pelos outros presos.

Renata ficou ainda mais assustada com a informação recebida. A sua reação foi captada imediatamente pelo pai. Ansioso, ele aguardava o fim da conversa com o advogado para se inteirar do assunto.

Após desligar o telefone, Renata olhou fixamente para ele, sem coragem para falar das consequências de uma possível morte de Carlos e Leandro.


— Fale logo, minha filha. O que disse o advogado.

— Será difícil absolver a Denise, se o pior acontecer ao Carlos e ao Leandro. O doutor Alexandre tem esperança de que eles inocentem a Denise durante o interrogatório. Se eles forem mortos, obviamente não poderão confessar que a Denise é inocente. Além disso, o depoi­mento do carcereiro perderá valor, pois o juiz poderá concluir que a defesa obteve um testemunho falso para colocar a culpa no morto.

Leônidas esfregou as mãos na face, como se não estivesse acreditando em mais um forte motivo de preocupação.

Por alguns segundos, permaneceram em silêncio, abatidos com a nova informação.

— E agora? O que vamos fazer? — perguntou Leônidas.

— Rezar, papai. Não nos resta alternativa. Vamos para casa. Ficar aqui não resolverá o problema.

Quando saíram da delegacia, presenciaram as equipes de reportagem chegando para fazer a cobertura da rebelião.

No trajeto para casa, Leônidas começou a rezar em voz alta, en­quanto a filha acompanhava a oração em pensamento. Já na portaria do prédio, o porteiro entregou um lindo buque de flores para Renata. No cartão, um manjado pedido de desculpas:

 

"Estou arrependido por ter brigado com você. Sei que fui muito grosso. Você tem razão: o meu ciúme está matando o nosso namo­ro. Prometo que vou tentar ser menos ciumento. Desculpe-me por ter suspeitado da sua honestidade e ter sido injusto com você. Espero que tudo saia bem com a Denise. Amo você, hoje e sempre".

 

Adriano acabara de deixar as flores com o porteiro. Renata não ficou sensibilizada com o pedido de desculpas. Não sentia mais sinceridade nas palavras dele, mesmo porque eram as mesmas de sempre. A decepção pelas suas atitudes não poderia mais ser apagada por um buque de flores e um cartão. Renata estava cansada da instabilidade emocional do namorado.

— Nós brigamos ontem e ele está tentando a reconciliação.

— O que aconteceu desta vez? — perguntou Leônidas.

— Ciúmes. Não aguento mais. Ontem, ele ficou bravo porque eu falei para nós sairmos com um casal de amigos. Ele veio com um papo de que eu estava a fim do moço. O Adriano está louco. O ciúme dele é doentio.

Renata pegou o buque de flores e o entregou à faxineira do prédio, que era apaixonada por plantas. Em seguida, rasgou o bilhete, jogando-o no lixo.


— Vamos subir. Não quero nada que venha do Adriano dentro da­quele apartamento.

— Você tem certeza do que está fazendo?

— Tenho sim, papai.

Leônidas fitou a filha, torcendo para ela se manter firme em sua decisão, e voltou ao assunto da prisão da Denise.

— Gostaria que me apresentasse o doutor Alexandre. Esse negócio dele não cobrar honorários não está certo. Acho que ele se esforçará mais se combinarmos um preço pelo trabalho. Temos que encontrar uma saída para livrar a minha filha de qualquer jeito.

Mais uma vez, naquele sábado, Renata telefonou para o doutor Alexandre e marcou uma reunião no escritório dele, explicando que seu pai gostaria de tirar algumas dúvidas.

À medida que os minutos passavam, a angústia de Leônidas au­mentava. Quando chegaram ao escritório, o advogado já os aguardava. Sobre a mesa dele, uma foto de Artur chamou a atenção dela.

Leônidas estava ansioso. Mal sentou na cadeira e logo entrou no assunto.

Doutor, inicialmente gostaria de agradecer toda a assistência que está prestando à minha filha. A Renata disse que o senhor não cobraria nada pelo serviço. Eu estive pensando e cheguei à conclusão de que não acho isso justo. Eu vou ser franco e espero que o senhor não fique ofendido.

Após limpar a testa com um lenço, Leônidas prosseguiu:

O dinheiro é um estímulo para o trabalho de qualquer ser hu­mano. Faço questão que a minha filha tenha a melhor defesa possível e estou disposto a pagar para isso. Acredito que o senhor se dedicará a provar a inocência da Denise. Só que eu quero dedicação total, se for necessário, está compreendendo?

Com a experiência de quase trinta anos de advocacia, Alexandre sentiu onde Leônidas pretendia chegar. Calmamente, ele respondeu:

— Estou sim, senhor Leônidas. Apesar de já ter feito o pedido de li­berdade provisória, quero que o senhor fique à vontade para entregar a causa a outro advogado. Da minha parte, renovo o que já falei para a Renata, ontem: eu não vou cobrar honorários de uma pessoa que tem uma ligação estreita com o meu filho, tendo ele próprio pedido para eu defendê-la naquele momento difícil. Dentro da minha capacidade, eu farei o que for preciso para inocentar a Denise. Posso afiançar ao senhor que o pagamento não alteraria a minha dedicação. Todavia, volto a frisar: fique à vontade para contratar um advogado da sua confiança.

Leônidas coçou a cabeça. Viu que não adiantaria insistir. Por outro Indo, teve uma forte empatia com o advogado. Apesar do pouco con­tato, em seu íntimo tinha forte convicção de que a defesa de Denise estava entregue em boas mãos.


— Está bem. O senhor me convenceu. Eu vou aceitar a sua gentileza. Não vou procurar outro advogado. Acredito que o senhor fará o melhor para a minha filha. Se o seu melhor não for o suficiente para tirá-la da cadeia, quero que saiba que estou disposto a gastar dinheiro com quem for preciso para comprar a liberdade dela.

A afirmação de Leônidas confirmou a suspeita do experiente advogado. Ele já havia recebido pedidos de clientes para tentar corromper funcionários da justiça, mas jamais aceitou tomar tal medida.

— Vamos fazer o seguinte: eu lhe aviso caso eu sinta que o meu me­lhor trabalho não será capaz de inocentar a Denise, a fim de que o senhor possa procurar outro advogado. Eu tenho uma ética no trabalho que é inviolável. Levei anos para construir uma imagem de respeito perante os representantes do Judiciário. Não irei destruí-la agora, por nada neste mundo. A minha honra não tem preço. Eu jamais tentaria subornar um funcionário da Justiça para conseguir sucesso em uma causa.

Leônidas sentiu a face corar. Não sabia o que falar. A garganta ficou seca e voz saiu fraca na tentativa de justificar a sua conduta.

Eu nunca pensei que algum dia poderia fazer uma proposta dessas, mais jamais imaginei que passaria por uma situação semelhante. Espero que o senhor me compreenda.

— Eu compreendo o seu desespero — respondeu o advogado. — Deus permita que não seja necessário o senhor tentar se valer de meios escusos para libertar a sua filha. Vamos torcer para que a rebelião acabe de forma pacífica. Acredito que o Carlos poderá inocentar a Denise durante o interrogátorio, caso não seja morto pelos rebelados. Entretanto, se tivermos sucesso em livrá-la da acusação de tráfico de drogas, não esqueça de que não existe a menor possibilidade de sua filha escapar de uma punição, pois, na melhor das hipóteses, ela praticou o crime previsto no artigo 28, da Lei n° 11.343, já que possuía maconha para consumo, o que ela não nega. Menos mal que, nesta hipótese, podemos fazer um acordo com o promotor para ela sofrer apenas uma punição branda, como, por exemplo, advertência, prestação de serviços à comunidade por um determinado tempo, ou fre­quência a curso educativo, a fim de não ser processada.

As palavras do advogado fizeram com que Leônidas se sentisse mais confiante. Para ele, tirar a filha da cadeia era o objetivo principal.


Isso não tem problema, doutor. O importante é que ela não fique presa. Agora, se não houver a colaboração do Carlos e do Leandro, ain­da mais na situação difícil em que eles se encontram, há algum outro meio de provar que ela não é traficante?

Alexandre demonstrou estar preparado para aquela pergunta, aumentando a confiança de Leônidas na capacidade profissional dele.

No trajeto para o escritório, eu vim pensando em algumas alternativas. Acho que poderemos tentar quebrar o sigilo telefónico de Carlos. A Denise falou que ele telefonou para o traficante, combinando a compra da droga. Se nós conseguirmos provar que a pessoa para a qual ele telefonou mora perto de onde pegaram a droga e que tem envolvimento com tráfico, acredito que as nossas chances serão maiores. Por ora, só nos resta aguardar.

Percebendo que seu pai estava mais tranquilo, Renata chamou-o para irem embora. Antes de sair, agradeceu ao advogado pela dedicação à causa e compreensão por recebê-los em seu escritório em pleno sábado. Ao final, pediu para mantê-los informados sobre qualquer novidade.

Em seguida, saíram juntos do escritório. Despediram-se quan­do já estavam na calçada.

Já no carro, o celular de Renata tocou. Era Artur, buscando notícias. Conversaram por um breve momento. Como estava dirigindo, Renata abreviou a conversa. A frieza demonstrada por ela foi interpretada por Artur como sinal do momento difícil por que ela estava passando.

Ao chegarem em casa, ligaram a televisão e viram a notícia da rebelião no jornal. Leônidas levou a mão à testa, quando o repórter mencionou que os rebelados haviam matado um preso. Os minutos seguintes foram de uma tensão ainda maior. O esclarecimento somente veio quando a rebelião che­gou ao fim. O preso morto era de uma facção contrária à dos que promove­ram a rebelião. As vidas de Carlos e Leandro foram poupadas.

O sol se pôs no horizonte, em um bonito espetáculo, deixando o céu avermelhado. A lua nasceu, clareando a cidade, trazendo uma nova esperança para o pai e a irmã de Denise.

 

A ensolarada manhã de domingo contrastava com a angústia que os membros daquela família estavam vivenciando.

Renata acordou antes mesmo de os raios de sol despontarem no horizonte. Levantou-se com cuidado para não acordar seu pai e foi para a cozinha fazer o café que vinha da própria fazenda. Depois, colocou pão de queijo para assar.

Logo em seguida, Leônidas se levantou atraído pelo aroma do café.

— Gostaria de levar um lanche para a minha filha. Você sabe se é permitido?

Acredito que não. Talvez, no dia da visita, eles deixem entrar com alguma comida. Vou procurar me informar.

De repente, a conversa foi interrompida pelo barulho do telefone. Renata correu para atender. A fisionomia de ambos demonstrava uma enorme expectativa. Afinal, passavam-se poucos minutos das sete horas, o que indicava tratar-se de uma notícia urgente.

— Renata?

— Sou eu mesma. É o doutor Alexandre?

— Sim.

— Alguma novidade, doutor?

Preparada para ouvir uma boa notícia?

Renata sentiu o coração disparar e seus olhos umedeceram. O en­tusiasmo contido na pergunta do advogado indicava que a soltura de Denise estava mais próxima do que ela imaginava.


— Claro! — respondeu ela.

O advogado segurava um papel na mão, tal qual um capitão de uma equipe de futebol segura uma taça de campeão. De fato, a ordem contida naquele papel era um importante triunfo para Alexandre.

Estou com o alvará de soltura da Denise em minhas mãos — disse Alexandre, com a natural euforia que a situação demandava.

Renata ficou muda diante da informação do advogado. A emoção da informação mexeu no íntimo de sua alma. Em sua expressão, as lágrimas demonstravam todo alívio que estava sentindo.

Eu estou com o alvará de soltura da sua irmã — tornou Alexandre.

O senhor está com o alvará de soltura da Denise em mãos? Leônidas deu um pulo da cadeira quando ouviu a pergunta da filha.

A notícia era melhor do que a previsão mais otimista que poderia ter.

— É isso mesmo. Durante a rebelião, o Carlos fez a promessa de fa­lar a verdade para a polícia caso escapasse com vida. Ontem à noite, ele prestou novo depoimento, confirmando que a cocaína foi comprada por ele e que a Denise não sabia de nada. Diante deste novo fato, eu fiz outro pedido de liberdade provisória ao juiz. A decisão saiu há menos de meia hora. Eu não telefonei ontem para não criar expectativa em vocês. Já estou na delegacia. Em poucos minutos, sairemos daqui. Pode ficar despreocupada, porque eu a levarei para casa.

Renata, enfim, soltou a emoção em um choro incontido. Do outro lado da linha, o advogado ficou sensibilizado com a alegria dela.

— Eu não sei como agradecê-lo, doutor Alexandre. É a melhor notí­cia que eu já recebi em toda minha vida. Muitíssimo obrigada.

Renata desligou o telefone e abraçou seu pai. Em seguida, explicou-lhe como o advogado havia conseguido a liberdade provisória. Ambos choraram um choro de alívio que lhes encheu de paz o coração.

Leônidas segurou firme nas mãos da filha e iniciou a oração do Pai Nosso, sendo acompanhado por ela. Depois, enxugou as lágrimas, deu um sorriso e completou:

Ontem, antes de dormir, eu fiz uma oração e pedi à sua mãe para interceder junto a Deus pela soltura de Denise. Ela foi uma pes­soa muito boa. Tenho certeza de que está em bom lugar no céu e tem crédito com o Pai Celestial. Este é o meu primeiro momento de alegria, após a morte dela. Vamos celebrar. Irei à padaria comprar a broinha de milho, de que Denise tanto gosta.


O sorridente pai colocou uma camisa e saiu a passos largos, com a felicidade estampada na face. Renata arrumou a mesa e tirou o pão de queijo do forno.

Leônidas voltou da padaria com uma sacola cheia de guloseimas. A mesa ficou bonita, com as broas, biscoitos, roscas, iogurtes, queijo, presunto, pao francês, suco e as jarras de café e leite. Com tanta comida, sobrou pouco espaço para colocar as xícaras. Havia muito tempo que pai e filha não tinham tanto entusiasmo em preparar um café da manhã.

Quando ouviram o barulho da chave, correram para a porta de entrada do apartamento.

Denise estava com os olhos inchados. Assim que abriu a porta, ela largou a bolsa com os seus pertences e correu para abraçar o pai e a irmã.

Alexandre observou o reencontro da sua cliente com a família. A satisfação pessoal por ter proporcionado alegria àquelas pessoas com­pensava o sacrifício de uma noite sem dormir.

A gratidão demonstrada por Leônidas, Denise e Renata emocionaram o experiente advogado.

Tomaram a refeição sem pressa. Denise relatou a desagradável experiência de duas noites passadas em uma delegacia. A sensação da liberdade jamais foi tão curtida em toda a sua vida.

Alexandre informou que Carlos assumiu a propriedade da droga, alegando, em sua defesa, que se destinava a uso próprio.

— E quais são as chances dele não ser enquadrado como traficante? perguntou Denise.

Vai depender da prova a ser feita e também do juiz que julgará o caso. O mesmo fato pode ter interpretações diversas, dependendo do juiz que o analisar. Infelizmente, vários jovens cumprem pena por tráfico. Depois que começam a ganhar dinheiro fácil, fica complicado procurar um trabalho honesto. Não bastasse, a posição de traficante confere status em algumas comunidades. Quando saem da cadeia, a maior parte volta para o mundo do crime. Um bom número deles morre na mão de outro bandido, geralmente um traficante mais forte, enquanto outros morrem em confrontos com a polícia. A média de vida é curta. Por essa razão, eles querem aproveitar ao máximo cada momento. Cada farra pode ser a última. Obviamente, há casos de erros judiciários, em que um usuário é enquadrado como traficante. A experiência de alguns anos de prisão marca uma pessoa para o resto da vida, sobretudo quando a condenação é injusta. A revolta pode transformar um inocente em bandido.


Denise suspirou aliviada. Por pouco não fora vítima de um erro judiciário.

Após breve momento de silêncio, Leônidas voltou a demonstrar sua gratidão para com o advogado.

— Tome mais um café, doutor Alexandre. Os grãos vêm da nossa fa­zenda. Gostaria muito de ter a honra de receber a sua visita lá. Imagino que o trabalho do senhor seja muito estressante. Passar uns dias na roça será muito bom para o senhor. Vou lhe ensinar tudo sobre a terra.

— Eu não vou desprezar o convite. Assim que tiver uma oportu­nidade, vou visitá-lo em sua fazenda. Agora, com a licença de vocês, eu vou embora. Gostaria apenas de lembrar-lhes que o promotor de justiça deverá fazer uma proposta de prestação de serviços à comu­nidade para que a Denise não seja processada. Ela será enquadrada no crime previsto no artigo 28 da Lei nº 11.343, que prevê uma pena restritiva de direitos de no máximo cinco meses àqueles que trazem consigo substância entorpecente para consumo pessoal. Esta lei, que foi publicada em 2006, alterou a Lei n° 6.368, de 1976. A lei anterior previa a pena privativa de liberdade, a conhecida prisão, para esta mo­dalidade de crime. A lei atual não tem esta previsão. Caso a pessoa não cumpra a pena restritiva de direito, via de regra a prestação de serviços à comunidade, o máximo que o juiz pode fazer é convertê-la em multa. Algumas pessoas fazem confusão ao imaginar que não é mais crime fumar maconha ou usar outra droga ilícita. Continua sendo crime, pois para usar a droga é preciso ter a posse dela, só que não é mais apenado com pena privativa de liberdade. A verdade é que o Governo Federal tem abrandado o rigor das leis penais, pois manter uma pessoa presa custa caro aos cofres públicos. Para vocês terem uma ideia, o mínimo da pena de tráfico, que era de três anos na lei anterior, passou para um ano e oito meses. A meu ver, o abrandamento indiscriminado da lei penal, como está sendo feito, acaba estimulando a criminalidade, pois aumenta a sensação de impunidade.

Em seguida, Alexandre levantou-se da mesa, despediu-se de todos com um abraço terno e saiu. Ao entrar no carro, decidiu telefonar para Artur, a fim de contar a boa nova. O seu entusiasmo era semelhante ao de um filho que leva o boletim escolar para os pais, após ser aprovado na escola.

Assim que recebeu a notícia, Artur não se conteve. Decidiu que teria uma conversa com seu pai naquele momento. Não deixaria persistir aquela situação de afastamento, provocada por ele próprio, e convidou o pai para acompanhá-lo à padaria, onde tinha o hábito de tomar café da manhã aos domingos.


Alexandre sentiu o coração bater mais forte. Era óbvio que Artur trataria sobre a reaproximação entre eles. Com um sorriso na face, o advogado tomou o rumo da sua antiga casa.

Ao chegar, o filho já o esperava na calçada. Assim que entrou no carro, Artur deu um abraço longo em seu pai. Com a voz sufocada pela emoção, agradeceu o empenho de Alexandre para atender a um pedido seu.

— Eu estou muito grato e orgulhoso do senhor. Não imaginava que a Denise fosse sair tão rápido da prisão. O senhor é um herói para mim.

Por uma fração de segundo, Alexandre relembrou momentos da infância de Artur, quando este o considerava uma pessoa perfeita, sem defeitos.

— Eu tive sorte. Seria muito difícil conseguir a liberdade dela, se Carlos não mudasse o depoimento.

Em seguida, já com lágrimas nos olhos, concluiu:

— Fiquei muito feliz por você ter confiado em mim.

— Eu nunca deixei de confiar no senhor. Vamos conversar na padaria. Estou com fome.

Chegando lá, ele pediu um misto-quente, um biscoito de queijo e um suco de laranja. Enquanto a funcionária preparava o lanche, ele iniciou a conversa.

Sei que pegou este caso em consideração a mim.

Artur fez uma breve pausa, olhou nos olhos do pai e continuou:

— Infelizmente, eu não tenho tido a mesma consideração em relação ao senhor. Desculpe-me. O problema está em mim. Eu preciso aceitar a sua decisão de querer a separação da mamãe. Francamente, eu imaginei que o senhor estava se separando por causa de outra mulher. Mesmo que tenha sido por este motivo, eu tenho que respeitar a sua decisão.

— Filho! Eu entendo a sua situação — disse Alexandre, colocando a mão carinhosamente no ombro de Artur.— Sei que causei dor a você e a sua mãe, quando saí de casa. O casamento estava indo de mal a pior. Sua mãe e eu estávamos perdendo o respeito um pelo outro. Aos poucos, o desgaste causado pelas brigas acabou com a atração entre nós, mas eu posso lhe afiançar que não teve e não tem nenhuma mulher envolvida nesta história.


A conversa foi interrompida pela funcionária da padaria, ao trazer o lanche. Artur tomou um gole de suco e retomou o diálogo.

— Eu estou arrependido por ter me afastado do senhor. A prisão da Denise acabou tendo um lado positivo, que foi a nossa reaproximação. A partir de agora, eu quero voltar a ser seu amigo, como sempre fomos. Perdoe-me pela minha infantilidade.

Por uma fração de segundos, ambos ficaram em silêncio.

Em seguida, as lágrimas de Artur começaram a rolar. Em vão, Alexandre tentou segurar o choro. Assim que se refez, Artur prosseguiu.  

— Eu nunca deixei de amar o senhor. Esse amor está represado em minha alma. Pai, eu estou me afogando nesse amor que não consigo passar a você. Tive um sonho horrível, hoje. A minha boca estava cheia de comida podre. Eu estava morrendo engasgado com aquela comida, pas­sava o dedo na boca para jogá-la fora, mas logo a comida se multiplicava, vindo de dentro do meu organismo. Eu já não conseguia respirar e fiquei desesperado. Acordei dando um grito. Fui à cozinha pegar um copo de água e depois sentei no sofá para ver televisão. Estava passando uma missa ao vivo e o padre estava explicando o seguinte trecho do Evangelho: "O que torna alguém impuro não é o que entra pela boca, mas o que sai da boca, isso é o que o torna impuro". Eu entendi que o que nos torna bons ou ruins são as coisas que vêm do coração. Comecei a me sentir impuro por carregar um sentimento ruim em relação ao meu próprio pai. Senti que o alimento podre que entupia tanto a minha boca, quanto a minha garganta, eram produzidos pelos maus sentimentos que estavam em meu coração. Foi nessa hora que o senhor me ligou. Eu estava fazendo um pa­ralelo do sonho com a explicação do padre. Perdoe-me!

Entre lágrimas, Alexandre deu um sorriso. Sentiu o seu coração ficar leve e ser inundado por uma paz imensa, difícil de descrever.

— Eu compreendo a sua posição, meu filho. Você já está perdoado. Vamos esquecer o que passou e ter vida nova daqui para frente.

Depois de mais alguns minutos de conversa, Artur e Alexandre se des­pediram com um abraço afetuoso. Artur decidiu aproveitar a bonita ma­nhã para caminhar pelo bairro. Enquanto caminhava, pensava em Renata. Certamente, ela telefonaria mais tarde para dar a boa nova. O triste fato acontecido com Denise serviu para aproximá-lo também dela.

Enquanto ele caminhava pelas ruas vazias da cidade, curtindo o belo domingo de sol, Renata e seu pai estavam reunidos para uma conversa com Denise.


— Eu estou preocupado com você há muito tempo — disse Leônidas. — Já desconfiava que pudesse estar fazendo uso de drogas. Gostaria de poder lhe dar maior atenção, mas os compromissos na fazenda não permitem que eu venha a Belo Horizonte com a frequência que gostaria. Estou muito triste com esta situação, porque acho que você não precisa usar maconha para ser feliz. Você é uma moça bonita e dotada de inteligência, além de ser uma companhia agradável. Não bastasse, temos uma situação financeira confortável, que me permite não deixar faltar absolultamente nada nesta casa. Em nossa família, não temos maiores proble­mas. Profissionalmente, você está em vias de se formar e poderá montar um escritório em sociedade com a sua irmã. Eu gostaria de entender o motivo que levou você a buscar o caminho das drogas.

Esperaram pela resposta de Denise. Ela estava de cabeça baixa, ouvindo em silêncio o sermão do pai. De repente, respirou fundo, levan­tou a cabeça, olhou dentro dos olhos do genitor antes de se explicar.

— O senhor tem razão quando diz que não me falta nada. Comecei a fumar maconha porque os meus amigos usavam, e eu não queria ser discriminada. Hoje, eu fumo porque a maconha me relaxa e, sincera­mente, eu não acredito que faça mal.

— Desculpe-me, Denise — interrompeu Renata —, mas é um grande equívoco pensar que o uso da maconha não traz efeitos negativos. Já li artigos de pessoas respeitadíssimas afirmando que o uso da maconha pode levar à depressão, pensamentos suicidas, esquizofrenia e desordens psicóticas.

— O uso de álcool também é nocivo — rebateu Denise.

É verdade, mas não é considerado crime — retrucou Leônidas. — Você ouviu o doutor Alexandre falando que continua sendo crime a posse de maconha, apesar de não ser mais punido com a pena de prisão?

Denise ficou pensativa e concluiu que não adiantaria tentar con­vencê-los de seu posicionamento.

Eu vou pensar sobre os argumentos de vocês — disse ela.

Então, pense em mais outro argumento: o risco de ser presa novamente, na hipótese de ser confundida com um traficante. Imagine se você é pega com maconha e o juiz entende que não era para consumo pessoal, mas sim para vender. Desta vez você teve sorte. Já imaginou você presa naquela delegacia, cumprindo pena por crime de tráfico? — tornou Leônidas.


Denise sentiu um arrepio só de lembrar do ambiente dantesco da carceragem.

— Você acha que é viciada? — perguntou Leônidas.

Denise demonstrou irritação com a pergunta do pai.

— Não sou. Eu fumo de vez em quando. Posso parar a hora que quiser.

— Este é o grande problema dos usuários — disse Renata. — Nunca se consideram viciados e acreditam que param de usar droga quando bem entenderem.          

— Eu já disse que não sou viciada — bradou Denise.       

— Se você não é viciada, tente ficar seis meses sem fumar maconha — tornou a irmã.

Denise lançou um olhar desafiador para Renata, ficou muda por alguns instantes, depois respondeu:

— Está bem. Ficarei seis meses sem colocar um único cigarro de maconha na boca. Vou provar que não sou viciada.

A promessa de Denise trouxe alívio para o pai e a irmã. Apesar dis­so, Leônidas decidiu fazer uma última abordagem sobre o assunto.

Além de tudo o que falamos, outro risco do uso de maconha é o de servir como porta de entrada para as drogas mais fortes, como a cocaína, heroína, drogas sintéticas e mesmo o crack.

Denise impacientou-se com a conversa sobre drogas, lá havia feito a sua promessa de ficar seis meses sem usar maconha; portanto, não precisava continuar ouvindo as advertências de seus familiares.

— Eu prometi que vou ficar seis meses sem fumar. Nesse período, eu vou pensar sobre os argumentos de vocês. Agora, caso vocês não se incomodem, eu prefiro mudar de assunto.          

— Está bem — concordou Leônidas. — Daqui a seis meses a gente volta a conversar. Nós vamos almoçar fora hoje?          

— Que tal experimentarem o macarrão que aprendi a fazer em um programa de televisão? — sugeriu Renata. — É muito saboroso e facílimo de fazer. Vou à mercearia comprar os ingredientes que faltam.      

Ante a aquiescência dos dois, Renata pegou a carteira e saiu. Ela também estava sentindo certa carência, fruto da briga com Adriano. Estava decidida a não reatar o namoro. Aproveitaria para conviver mais tempo com a irmã, a fim de tentar desviá-la das más companhias.

Assim que virou a esquina, Renata sentiu a força de uma mão se­gurá-la pelo braço. Deu um grito de susto, pensando ser um assalto.


— Não se assuste — disse Adriano. — Você não recebeu as flores que mandei?

Renata estava trêmula, com as pernas bambas. O coração batia descompassado.

— Você me mata de susto! Nunca mais faça isto.

Estou esperando a resposta: você não recebeu as flores com o cartão?

O olhar de Adriano faiscava de raiva. Renata percebeu que ele estava descontrolado e ficou com medo.

— Eu recebi as flores, sim.

E por que não telefonou para nós conversarmos?

— Nós não temos mais nada para conversar. Está tudo resolvi­do entre nós.

Você está de caso com aquele colega de trabalho. Por isso, está querendo se ver livre de mim.

— Eu não tenho nada com ele. O ciúme doentio deixa você cego. Deixe-me em paz!

Adriano sentiu o sangue ferver. Ela nunca havia demonstrado tanta convicção em terminar o namoro. Em sua mente, veio a imagem da namorada nos braços de Artur.

Movido pelo ciúme, Adriano apertou fortemente os braços dela, empurrando-a, em seguida. Depois, entrou no carro e saiu em alta velocidadem.

O gesto estúpido de Adriano deixou Renata chocada. Em um pri­meiro momento, ela ficou sem compreender o que ele havia feito; parecia irreal, como se fosse um pesadelo. Era a primeira vez que ele a agredia daquela forma. Por alguns segundos, ela ficou parada, sem ação. Assim que se refez, caminhou até a mercearia.

Enquanto pegava os ingredientes, dizia para si mesma que nunca mais voltaria a conversar com ele.

Ao voltar para casa, antes de começar a cozinhar, lembrou-se de telefonar para Artur, a fim de lhe contar sobre a soltura de Denise e agradecer por todo o apoio recebido. Renata teve o ímpeto de desabafar com ele sobre a agressão de Adriano, mas teve receio de que o seu pai ouvisse. Certamente, ele iria querer tirar satisfação com o ex-namorado dela.

Pouco depois, Denise e seu pai foram para a cozinha, atraídos pelo cheiro agradável. Enquanto o molho fervia no fogo baixo, Leônidas abriu uma garrafa de refrigerante. Por alguns momentos, todos ali esqueceram os momentos difíceis que vivenciaram naquele final de semana.

 

Renata chegou cedo ao serviço e foi direto para a sua sala. A fisio­nomia cansada denunciava que não havia tido uma boa noite de sono. De fato, as surpresas do final de semana mexeram com as suas emoções. Primeiro, a preocupação com a irmã, presa em uma delegacia de poíicia, sob a acusação da prática de tráfico de entorpecente. Depois, a preocupação com a reação violenta do namorado.

Renata não estava conseguindo concentrar-se no trabalho. Ao ouvir o barulho da porta da sala de Artur, levantou-se e foi até lá.

Ao entrar, percebeu que ele carregava um ar de felicidade, até então desconhecido dela. Seu semblante estava radiante. Ela sentiu um forte desejo de abraçá-lo e assim o fez.

— Graças a Deus, tudo acabou bem — disse Renata. — Devo isso a você. Nunca esquecerei o seu gesto de solidariedade.

Artur ficou emocionado. Sentiu que ela estava falando com o cora­ção. Fitou-a nos olhos por um momento e respondeu:

— Eu não fiz nada demais. Tenho certeza de que você faria o mesmo por mim. Todos saímos lucrando. Tão importante quanto a liberdade da Denise, foi a minha reconciliação com o papai. Eu estou mais leve. Nós saímos para conversar e selamos a paz. A partir de agora, voltare­mos a conviver como pai e filho.

— Parabéns pela sua atitude. Eu achei o seu pai uma pessoa ótima. Está escrito nos olhos dele o amor que sente por você.

Graças a Deus, enxerguei a tempo a burrada que estava fazendo. Foi um erro terrível tomar as dores da minha mãe e cortar relações com ele. Os desentendimentos entre os pais não podem afetar o relacionamento com os filhos. Eu julguei o meu pai e fui muito rigoroso na punição que apliquei a ele. Você não imagina o alívio que estou sentindo.


— Imagino, sim. Deve ser parecido com o meu alívio pela liber­dade da Denise.

Renata abaixou a cabeça e Artur percebeu que algo a incomodava. Ele sentiu que ela queria lhe falar algo, mas estava insegura.

Você não parece estar tão feliz com a soltura da Denise. Aconte­ceu alguma coisa? 

Renata ficou quieta, em dúvida sobre falar da agressão de Adriano. Após breve reflexão, respondeu:

— Tudo estaria muito bom se não fosse uma outra briga que tive com meu ex-namorado.

— Outra briga? — perguntou Artur, sem esconder a surpresa.

— Exatamente. Ele viu você subindo comigo para o apartamento. Na verdade, ficou arrependido de ter brigado comigo e foi à minha casa pedir desculpas. Ele decidiu ficar esperando eu chegar e viu quando nós subimos para o apartamento. Na manhã seguinte, ele me telefonou para tirar satisfação. Eu expliquei a situação da Denise e disse que você subiu ao apartamento para me encorajar a telefonar para o meu pai. Depois, ele mandou flores, com um cartão pedindo desculpas. Eu dei as flores para a faxineira do prédio e joguei o cartão fora. Ontem, quando eu estava saindo para ir à mercearia, fui pega de surpresa quando ele me puxou pelo braço, questionando se eu não havia recebido o buque de flores. Depois, falou em reconciliação. Eu fui clara para ele, dizendo que tudo estava acabado entre nós, mas ele não aceitou.

Artur encheu-se de esperança, sentindo a determinação de Renata em colocar um ponto final no relacionamento afetivo.

— Você tem certeza de que não quer mais nada com ele?

— Desta vez, eu vou lutar com todas as minhas forças para não vol­tar. Eu gosto dele, mas nós brigamos muito. Ontem, pela primeira vez, ele me agrediu, apertando os meus braços com muita força, antes de me dar um empurrão. Tudo tem um limite!

Artur pareceu não acreditar. Balançou a cabeça, externando a sua revolta pela covardia de Adriano. Em sua mente, não entendia como uma mulher bonita e inteligente aceitava tanta grosseria.


— Você é uma mulher muito atraente. Merece uma pessoa carinhosa ao seu lado. Qual homem não gostaria de ter uma namorada como você?... Até quando aceitará os pedidos de desculpas dele?

— Não haverá outra ocasião para ele me pedir desculpas — tornou Renata. — Está tudo acabado.

Sentindo a firme determinação dela em não retomar o namoro, Artur decidiu arriscar.

— Posso lhe fazer um convite?

— Qual?

— Vamos sair para jantar, hoje à noite. Você está precisando se distrair um pouco.

O convite de Artur pegou Renata de surpresa. Ela ficou em dúvida sobre a resposta que daria. Por um lado, poderia ter uma noite agradável, que abrisse porta para um futuro relacionamento. Por outro, sair com outro homem poderia fazer com que pensasse mais ainda em Adriano, tornando a missão de esquecê-lo ainda mais difícil. Afinal, a briga ainda estava muito recente. Depois de alguns segundos, respondeu:

— Desculpe-me. Eu ainda estou muito envolvida com o Adriano. Além do mais, meu pai continua lá em casa e preciso dar uma assistência para ele.

A resposta de Renata desapontou Artur.

— Está tudo bem. Fiz o convite apenas para que você pudesse dar uma refrescada na cabeça. O final de semana foi tenso.

— Foi sim. Bom... Eu vim aqui apenas para lhe agradecer. Vou voltar para a minha sala, porque tenho muito serviço à minha espera.

— Eu também estou atarefado. O doutor Alfredo me pediu para ir a Pampulha solucionar com um fornecedor o problema de atraso na entrega de um piso.

Artur abriu a porta gentilmente para Renata sair. Em seguida, desceu de elevador até a garagem, onde estava a caminhonete da empresa. Durante o trajeto, começou a pensar que poderia ter mais dificuldade do que estava imaginando para conquistar o coração de Renata. Ela demonstrava estar muito envolvida com Adriano.

Artur tentou compensar a decepção com essa conclusão fazendo o caminho mais bonito para chegar ao fornecedor, passando pela avenida que margeava a lagoa, a fim de apreciar o belo visual. O trânsito estava tranquilo, possibilitando que se atingisse uma velocidade maior do que a usual.


Após fazer uma curva para a direita, uma bicicleta entrou na fren­te da caminhonete, obrigando-o a desviar bruscamente para evitar o acidente. A roda da caminhonete chocou-se no meio fio, fazendo com que o veículo capotasse, caindo de cabeça para baixo na lagoa.

Rapidamente, a água começou a entrar no automóvel. Artur ficou em estado de choque ao ver aquela cena. Apertou o botão do cinto de segurança, mas não conseguiu destravá-lo. Em questão de segundos, a água cobriu toda a cabine, aumentando o desespero dele, que, lenta­mente, começava a ficar sem fôlego. Em sua mente, veio a imagem dos pais e a vontade de abraçá-los pela última vez. Quando a vida parecia lhe escapar por entre os dedos, Artur sentiu uma mão puxando-o para fora do carro. Misteriosamente, o cinto havia sido destravado. A água turva não permitiu que ele visse o rosto da pessoa que o ajudava.

Quando subiu para a superfície, o ar no pulmão já estava no limite. Ao olhar para o lado, viu de relance um vulto muito parecido com o homem louro que apareceu no sonho para ele, dando-lhe conselhos de amor e perdão.

Artur virou-se, procurando aquele homem, mas não viu nin­guém ao seu redor.

Um carro que vinha no outro sentido da avenida parou. Um ho­mem moreno desceu para socorrê-lo.

— Você está bem? Tem mais alguém aí dentro?

— Não tem mais ninguém. Eu estava sozinho. Você viu onde está o homem que me ajudou?

— Qual homem?

— Um louro — tornou Artur, com o corpo trêmulo.

— O senhor deve estar em estado de choque. Eu acompanhei todo o acidente. Sou o primeiro a chegar aqui. Não tem ninguém neste lo­cal, além de nós dois. Vamos sair da lagoa, o senhor está com alguns ferimentos na face.

Artur abraçou-se ao desconhecido e saiu da água. Seu coração esta­va disparado. Pela primeira vez em sua vida, viu a morte tão de perto.

Artur sentou-se à margem da lagoa. Sentiu um gosto amargo na boca. Passou a mão e viu que era sangue.

— Eu estou muito ferido?

— Tem um corte profundo na testa e alguns arranhões embaixo dos olhos.


Artur tornou a olhar ao redor, em busca do homem que o retirou do veículo. Novamente, constatou que só estavam os dois por ali.

— Você tem certeza que ninguém me ajudou a sair do carro?

O homem riu e respondeu:

— Eu tenho certeza absoluta. Você nasceu de novo. Mas eu o vi — insistiu Artur. — Eu não estava conseguindo tirar o cinto de segurança. Tenho certeza de que ele destravou o cinto. Senti que ele me puxou pelo braço. Não estou delirando. Além dos mais, eu o vi quando subi para a superfície.

O desconhecido olhou para Artur, certo de que aquela reação era fruto do susto.

Você gostaria que eu avisasse a alguém sobre o acidente?

— Gostaria, sim. Deixe o recado na construtora.

O homem telefonou para o número indicado por Artur e falou rapidamente sobre o acidente, informando, ainda, o hospital para o qual iria levá-lo.

— Esqueci de me apresentar. Meu nome é Willian — disse o homem, após Artur entrar em seu carro.

Aos poucos, Artur foi se tranquilizando. O sangue escorria pela sua face, mas ele não sentia dor. Em sua mente, a imagem do homem que o salvou continuava bem nítida. Ele estava em pleno gozo de suas faculdades mentais e sabia que não estava delirando. Foi salvo, sim, pela mesma pessoa que lhe apareceu em sonho alguns dias antes.

Durante o trajeto, Willian relatou ter sofrido acidente gravíssimo no passado, sendo salvo por um milagre.

— Eu entrei com um Gol debaixo de um caminhão. Preste atenção no que eu vou falar: nada nesta vida acontece por acaso. Tudo tem um sentido, ainda que oculto. Na época em que tive o acidente, eu já era casado, só que estava em uma fase de muita gandaia, vivendo uma vida de homem solteiro. Trabalhava em outra empresa, como re­presentante, e viajava muito para o interior, visitando os clientes em cidades diferentes. Conheci muitas mulheres, algumas foram minhas amantes. Eu dava atenção e carinho para elas. Como consequência, varias ficaram apaixonadas por mim. Eu não me preocupava se iria ferir os sentimentos delas. Também não me preocupava com o que pensaria a minha mulher, caso viesse a descobrir. Em uma das viagens para o interior, quando faltavam menos de dois quilómetros para chegar ao meu destino, um caminhão cruzou o meu caminho, em um trevo, e não consegui evitar o acidente. Estou vivo por obra e graça de Deus. Quando vi aquele gigante na minha frente, não quis acreditar no que estava acontecendo. Foi tudo muito rápido. Eu dei um grito: "Não". Pisei no freio, mas vi que entraria debaixo dele. Tive a certeza da morte. A violência da batida foi impressionante. Para minha sorte, acabei acertando o baú de combustível. O Gol fez um giro de noventa graus para a direita e caiu em cima do jardim que tinha no trevo. Pen­sei que tivesse morrido. Quando abri os olhos, vi que estava vivo. Saía muita fumaça do motor. A dianteira do carro estava toda retorcida. O teto havia abaixado bastante. Fiquei com medo de que o automóvel começasse a pegar fogo. Movimentei os pés e os braços, para certificar-me de que não havia ficado paralítico. Havia um espaço mínimo na janela do lado do motorista, por onde consegui sair. Fiquei de pé, a alguns metros do carro. Um motorista que estava passando pelo local aproximou-se para prestar socorro e levou o maior susto quando me viu do lado de fora do veículo. Ele perguntou com espanto: "Você está vivo?" Depois, levou-me para a Santa Casa de Misericórdia, onde fiz alguns exames. Tive apenas lesões superficiais, sendo a mais grave um corte na testa, onde levei onze pontos — disse Willian, enquanto passa­va a mão na cicatriz.


Durante algum tempo, fiquei me perguntando a razão daquele aci­dente. Se eu passasse no local cinco segundos antes, ou cinco segundos depois, o acidente não teria ocorrido. Por que, então, o caminhão cruzou a rodovia exatamente no momento em que o meu carro estava passando?

— Umas três semanas depois, consegui decifrar o sentido oculto do acidente.

— E qual foi esse sentido? — perguntou Artur, envolvido pela história narrada.

Eu pisei no freio, talvez por uns oito metros, mas não foi o suficien­te para fazer o veículo parar. Havia uma mensagem oculta naquele fato. Eu deveria pisar no freio dos meus impulsos. Não dava para abusar do sentimento alheio e sair ileso, como se nada de errado estivesse aconte­cendo. Foi um aviso: ou eu mudava o meu jeito de ser, ou uma tragédia me esperaria na próxima esquina. Veja bem: o corte mais profundo que tive foi exatamente na testa, o lugar do chifre. Quer recado mais claro?

Artur limpou com a camisa o sangue que escorria da sua face.


— Qual é o significado deste acidente que tive? Você sabe dizer?

— Não. Esta charada deverá ser desvendada por você.

Quando o carro chegou ao hospital, Renata já esperava por Artur. Logo que ele desceu do automóvel, ela veio abraçá-lo e ficou preocupada com as manchas de sangue na camisa e na face.

— Que susto, Artur! Você está bem?

— Acho que renasci. Cheguei a pensar que não escaparia.

Artur retirou a carteira do bolso. Todos os documentos estavam molhados. Um enfermeiro o levou para a sala de raios X.

Em menos de dois minutos, um jovem médico, aparentando a mesma idade que a sua, abriu a porta e iniciou o procedimento com as perguntas de praxe.

O médico limpou as feridas e aplicou anestesia para dar os pontos necessários. Encaminhou Artur para fazer alguns exames e depois o conduziu a outra sala, onde Renata ainda o esperava.

— Você não acha melhor avisar à sua mãe?

— Melhor, não. Prefiro conversar com ela pessoalmente.

Mas ela levará um susto enorme quando vir você neste estado. O seu rosto está inchado e com hematomas.

Mesmo assim, eu prefiro contar pessoalmente. Se eu telefonar e contar como foi o acidente, é perigoso ela desmaiar. Talvez, nem acredite em mim. Poderá pensar que eu estou escondendo a verdade e que o caso seja mais grave. Além disso, o meu acidente foi muito parecido com o acidente que matou o meu avô, pai dela. A morte dele deixou alguns traços de revolta nela.

— E como foi que o seu avô morreu?

— É uma longa história. Envolve briga política, homicídio e perseguição.

— Agora eu fiquei mais curiosa. Adoro ouvir esses casos.

Artur deu um leve sorriso. Não gostava de falar sobre a tragédia que envolveu seu avô materno, mas atenderia ao pedido de Renata.

 


Após breve pausa, Artur começou a narrativa.

Os meus avós moravam em Pedra Rosada, uma pequena cidade no vale do rio Bonito, interior de Minas. O vovô Zezé era político e foi o vereador eleito com o maior número de votos da história da cidade, apesar de não ser de família tradicional. Ele havia sido criado no orfanato local. Sua mãe morreu logo depois do parto e o pai o entregou para o padre, o qual, por sua vez, encaminhou-o para o orfanato.

Ele era apontado como o eventual candidato do Partido Branco para a prefeitura. Na época, existiam dois partidos fortes na cidade: o Partido Branco e o Partido Vermelho. A disputa política em Pedra Rosada era brava, mas o Partido Vermelho era um pouco mais forte. Até então, todos os prefeitos eleitos de Pedra Rosada pertenciam ao Parti­do Vermelho. O vovô Zezé tinha o sonho de ser o primeiro prefeito do Partido Branco a administrar Pedra Rosada. Só para você ter uma ideia de como a cidade era dividida, em uma das eleições municipais o can­didato do Partido Branco perdeu por apenas um voto de diferença.

A disputa não se resumia ao campo político. Para fazer negócios ou contratar serviços, as pessoas davam preferência para alguém que fosse do mesmo partido.

Nesse contexto, o vovô Zezé começou a namorar a vovó Maria, cujo pai era o coronel Teodoro, chefe do Partido Vermelho. Desne­cessário dizer que o namoro não foi bem visto pelo pai da vovó. Ele não aceitaria que sua filha se casasse com uma pessoa do Partido Branco. De todas as formas, ele tentou impedir o casamento, que só se realizou porque o Sílvio, outro filho dele, intercedeu para que ele respeitasse a decisão da própria filha.


Depois que eles se casaram, o nome do vovô continuou sendo cogi­tado para ser o candidato do Partido Branco, exatamente para enfrentar o Fausto, o outro irmão da minha avó, que seria o candidato do Partido Vermelho. A vovó Maria tinha dois irmãos, o Sílvio e o Fausto. O Sílvio era muito amigo dela, mas o Fausto nunca combinou com ela e odiava o vovô Zezé. Esse ódio aumentou depois que o vovô Zezé decidiu disputar o cargo de prefeito justamente contra ele. Seria uma disputa de cunha­dos e todos na cidade já estavam fazendo as suas apostas.

Renata estava absorvida pela história narrada e mal piscava os olhos. Ela adorava os casos dos coronéis políticos.

Certa noite, o vovô estava em um bar com mais alguns amigos traçando a estratégia da campanha. Em uma outra mesa, um vereador do Partido Vermelho começou a falar alto que havia suspeita de corrupção na presidência da câmara de vereadores. Ora, o meu avô era o presidente da câmara. Se ele ficasse calado, estaria consentindo na veracidade daquela afirmação. Então, ele se levantou da mesa e foi ti­rar satisfação com esse vereador, formando-se uma confusão. O Sílvio estava passando na rua e foi lá para separar a briga. Lembre-se de que ele era o cunhado amigo e foi quem intercedeu para que o pai dele não impedisse o casamento.

Após a turma do “deixa disso” separar a contenda, o vovô retor­nou para a sua mesa. Naquele momento, o vereador com o qual ele discutiu falou que ele teria o que merecia. O vovô Zezé olhou para trás e viu que ele estava levando a mão à cintura. Imediatamente, o vovô sacou o revólver e começou a atirar, acertando cinco tiros no vereador e, acidentalmente, um tiro no Sílvio, que estava ao lado. O vereador não morreu, mas o Sílvio morreu na hora, pois o tiro o acertou em cheio no coração.

Renata arregalou os olhos. Não imaginava que os ascendentes de Artur tivessem envolvimento com tiroteios, muito menos entre eles mesmos.

Artur percebeu o espanto da sua ouvinte, mas continuou a sua narrativa:

Vendo que o Sílvio estava morto, os amigos do vovô fugiram com ele dali, pois sabiam que o coronel Teodoro, pai da vovó e do Silvio, vingaria a morte do filho. Levaram o vovô para a fazenda de um companheiro do Partido Branco. Lá, ele ficou escondido por dois meses, até que foi descoberto.


O coronel Teodoro chegou à fazenda em dois carros que estavam apinhados de jagunços. Houve um tiroteio horroroso, com sete mortes e outros tantos feridos. Do lado do vovô, tirando os mortos e feridos, só restaram ele e outro companheiro. Havia uma caminhonete do dono da fazenda estacionada no terreiro, exatamente entre os dois grupos. O vovó e o amigo dele estavam próximos ao curral. Eles soltaram os cavalos em direção ao terreiro e correram para a caminhonete, no meio dos cavalos para se protegerem. O amigo do vovô entrou no carro, do lado do motorista e o vovô pulou para dentro da carroceria, porque não conseguiu abrir a porta do outro lado. Eles fugiram, espalhando barro para todos os lados. Era mês de janeiro e estava chovendo sem parar em Pedra Rosada. O coronel Teodoro saiu no encalço deles.

Quando a caminhonete estava passando por uma ponte sobre o rio Bonito, o motorista perdeu o controle e o carro caiu no rio, matando o vovô e o amigo dele.

Artur fez mais uma pausa e concluiu: Foi assim que o vovô morreu. Pela semelhança com o acidente que eu tive, não quero falar nada com a minha mãe pelo telefone. Ela ficaria preocupadíssima.

Fascinada com a história, Renata procurou saber mais detalhes.

— Quantos anos a sua mãe tinha quando isso aconteceu?

— Ela não era nascida. A minha avó sequer suspeitava de que pudesse estar grávida. O meu avô morreu sem saber que seria pai.

— A sua avó deve ter enfrentado uma barra muito difícil. Perdeu a única pessoa da família que apoiou o casamento dela, morto exatatamente pelo marido. Depois, perdeu o marido e descobriu que estava grávida. Não deve ter sido fácil para ela enfrentar o próprio pai.

— Não foi mesmo. Quando ele descobriu que a filha estava grávida do assassino de seu filho dileto ficou mais irado ainda. Ela o ouviu falar com o Fausto, o outro filho, que iria levá-la ao médico para abortar. Não aceitaria um herdeiro com o sangue do meu avô.

A minha avó ficou desesperada e fugiu para Trancoso, na Bahia, para onde tinha se mudado uma amiga dela. Ela passou dois anos sem dar notícias. Quando deu, o coronel Teodoro não quis mais saber dela.

Renata estava impressionada com as passagens da vida da avó de Artur. Teve vontade de conhecê-la pessoalmente, pois viu naquela mu­lher uma força interior invejável, enfrentando a tudo e a todos com altivez. Em seu íntimo, Renata desejou ter um décimo da força interior que enxergou na avó materna de Artur, pois não se sentia com coragem o suficiente para enfrentar situações infinitamente menos complica­das, como o rompimento definitivo com o namorado, por exemplo.


— Que raça teve a sua avó! Ela voltou a se casar?

— Teve alguns relacionamentos, mas não se casou com ninguém. Como o corpo do vovô Zezé nunca foi encontrado, no início ela che­gou a alimentar esperanças de que ele não tivesse morrido. Ele foi o grande amor da vida dela; por isso, não quis casar novamente.

— Você conhece Pedra Rosada? — tornou Renata.

— Não. A cidade traz lembranças horríveis para a vovó Maria. Ela nunca mais voltou lá. A mamãe também nunca quis conhecer Pedra Rosada, pois sabia o quanto aquele lugar significava em termos de so­frimento para a vovó. Nós não temos mais nenhum parente por lá.

— A sua avó ainda mora em Trancoso?

— Mora, sim. Apesar de não ter encontrado outro homem pelo qual viesse a se apaixonar, ela encontrou paz naquele lugar. Ela tem uma pousada no Quadrado, próxima à igrejinha. Você conhece Trancoso?

— Não. Já estive em Porto Seguro e Arraial D'ajuda, mas não che­guei a ir para Trancoso.

Artur lançou um olhar para Renata e sentiu-se tentado a convidá-la para passar uns dias na pousada de sua avó, mas lembrou-se do convite para o jantar que foi recusado por ela e desistiu de fazer nova investida.

Eles ouviram barulhos de passos e olharam para a direita. Era o médico trazendo os resultados dos exames. Como era de se esperar, nenhuma lesão grave foi detectada. Artur deveria ir para casa e repousar durante o resto do dia.

Renata se dispôs a levá-lo à empresa, onde ele pegaria o carro.

Se não for incômodo, prefiro que você me leve direto para a minha casa. Não quero dirigir agora. Vou deixar o meu carro na garagem da construtora.

Durante o percurso, Artur contou para Renata sobre o misterioso ho­mem que apareceu dentro do veículo para retirá-lo, salvando a sua vida.


— Você não o viu do lado de fora do carro, depois de ser salvo?

— Eu o vi de relance, mas fui informado pelo Willian que não tinha ninguém por perto. Ele disse que eu saí do carro sozinho, mas tenho certeza de que fui socorrido por esse homem. Eu não estou ficando louco.

— Você tem certeza de não ter desmaiado por alguns breves segundos?

Artur olhou para Renata, com certo desapontamento.

— Você também não acredita em mim, não é?

— Não é isso. Apenas acho que não se pode descartar nenhuma hipótese para explicar o ocorrido. Procure descansar, Artur. Não fique pensando sobre o que ocorreu. Tome um banho quente e vá dormir. O acidente, por si só, já deixará um trauma.

Renata estacionou o carro em frente à portaria do prédio onde Artur morava e beijou carinhosamente a sua face. Por alguns segundos, seus olhares se cruzaram. Ambos permaneceram em silêncio. A vontade dele era de beijá-la e abraçá-la, mas sentia que ela ainda gostava de Adriano e que uma atitude precipitada poderia colocar tudo a perder. Despediram-se com um abraço afetuoso. Artur desceu do carro e ficou esperando Renata arrancar o veículo. Depois, virou-se e entrou no edifício.

Rosemeire levou um susto quando o viu com os curativos na face e a camisa suja de sangue.

— O que é isso?

— Nada de mais grave. Tive um acidente de carro, mas estou bem. Fui ao hospital, fiz todos os exames necessários e nada de sério foi constatado.

Artur teve de contar todos os detalhes do acidente, apenas omitindo a parte em que recebeu a ajuda de um homem.

Rosemeire chorou bastante ao ouvir o ocorrido. A lembrança da morte do pai foi inevitável, ante a semelhança entre os dois acidentes.

— Só me faltava esta: perder o único filho. Se você morresse, eu não sei se suportaria a vida.

Artur levantou o dedo indicador, movendo-o para um lado e outro, em sinal de reprovação.

Não coloque tanta responsabilidade assim sobre mim. É preciso que a senhora encontre outros motivos para ser feliz. Não me leve a mal, mas não quero que a senhora fique dependente de mim.

Eu também não quero meu filho. Desculpe-me, mas eu só tenho você perto de mim. A mamãe está a mil quilómetros de distância e seu pai... Ah!


Esse é como se não existisse. A minha vida é marcada por tragédias.

— Não jogue a culpa na vida pela sua infelicidade. Nós somos res­ponsáveis por tudo que nos acontece. Com essa mágoa que a senhora carrega do papai, será difícil encontrar paz.

— Um dia a mágoa passará.

— Antecipe a chegada desse dia — tornou Artur. — Eu fiz isso. Procu­rei o papai e pedi desculpas por tê-lo ignorado nesses meses. A partir de agora, eu quero voltar a conviver com ele.

Rosemeire não escondeu o ciúme pelo fato de o filho ter reatado o relacionamento com o pai. Até então, para se vingar do ex-marido, ela fazia chantagem emocional com o filho, para que ele evitasse o pai.

Artur percebeu a indignação de sua mãe. Sentiu que teria trabalho para convencê-la de que ele precisava reatar o relacionamento com o pai, pois o isolamento estava sendo prejudicial para ele próprio.

A irmã da Renata foi presa, sexta-feira à noite. Ela me telefonou, pedindo para acompanhá-la à delegacia, pois não conhecia nenhum advogado e havia brigado com o namorado. Eu não tive alternativa.

O olhar de Rosemeire não escondeu a surpresa com a atitude do filho. Artur tentou contornar a situação.

— Foi um erro terrível este afastamento nosso. Ele nunca deixará de ser o meu pai, independente dos erros que venha a cometer. O problema que vocês enfrentaram não diminuiu em nada o amor que ele tem por mim, nem o que eu tenho por ele. É preciso que a senhora entenda isso.

Rosemeire balançou a cabeça, em sinal afirmativo, demonstrando resignação com a aproximação entre o filho e o ex-marido.

— Você está certo. Quando você decidiu, por conta própria, afastar-se dele, eu confesso que achei bom, porque tinha esperança de que o seu dis­tanciamento o fizesse rever a decisão da separação. Infantilidade minha. Nós não seríamos felizes, se ele voltasse para casa por sua causa e não por sauda­des de mim. Parabéns pela decisão de reatar o relacionamento com ele.

Em seguida, Rosemeire levantou-se do sofá e caminhou lenta­mente em direção ao seu quarto. A fisionomia abatida denunciava que não havia esquecido o ex-marido. Sempre que o assunto girava em torno dele, sentia uma aperto no coração e uma vontade enorme de telefonar para ele. Os oito meses de separação não foram suficien­tes para tornar menor a saudade que sentia.

 

Quando Alexandre recebeu a notícia do acidente do filho, o coração do experiente advogado bateu mais forte. Logo agora, que eles haviam feito as pazes, a morte do filho seria um golpe muito duro de absorver. Alexandre sentiu imensa gratidão por Deus ter poupado a vida de Artur. Essa gratidão ele fez questão de externar na conversa telefônica, a fim de que o filho também reconhecesse o dedo de Deus guiando a sua vida.

— Isso foi um milagre, Artur. As mãos do Senhor livraram você da morte. Para Deus tudo é possível; a vontade d'Ele é soberana. Ele quer que você viva porque tem um plano perfeito para executar em sua vida.

Artur lembrou-se da longa data em que evitou ter contato com seu genitor. Sentiu-se aliviado por ter pedido desculpas a ele antes de o acidente acontecer.

Pai, seria muito ruim se eu tivesse morrido sem lhe pedir perdão.

Alexandre percebeu que a voz de Artur estava saindo engasgada. Mais um pouco e ele ouviu os soluços. O choro do filho emocionou o advogado, pois este percebeu o arrependimento do filho pelo período de afastamento. Por alguns instantes, ambos choraram, sem nada dizer.

Assim que se recompôs, Artur continuou:

— Obrigado por me perdoar. Eu estou triste comigo, por ter me comportado de forma tão infantil.

Eu seria tolo, se não o perdoasse, meu filho, Jesus nos ensinou: "atire a primeira pedra quem não tem pecado". Qual de nós nunca errou? A minha vida é repleta de erros; por isso mesmo, não posso exigir que as pessoas não errem comigo. O importante é que Deus nos mostrou o caminho da reconciliação e poupou a sua vida. Vamos olhar para frente e lembrarmo-nos do passado apenas quando for útil para evitar novos erros.

As palavras de seu pai aliviaram a dor moral sentida por Artur. Após curto silêncio, Alexandre prosseguiu.

— Eu imagino o aperto por que você passou. Deve ter sido horrível.

— Tudo aconteceu muito rápido — respondeu Artur. — De uma hora para outra eu vi a morte na minha frente. Em poucos segundos, muitas coisas passaram pela minha cabeça.

— Quais coisas?

— O que mais chamou a minha atenção foi o pouco valor que nós damos ao que é necessário para sermos felizes. Em nosso dia-a-dia, muitas vezes, corremos atrás de objetivos que não fazem a diferença para a nossa felicidade. Por outro lado, deixamos de empregar a nossa energia e o nosso tempo com o que tem valor, como, por exemplo, o perfume das flores, um abraço amigo, um sorriso espontâneo, um pe­dido de perdão, dar a mão a quem precisa, aceitar a ajuda de quem se oferece. Tudo isso tem valor, entre outras coisas simples. Infelizmente, a corrida desenfreada pela aquisição de bens materiais ou pela pró­pria sobrevivência acabam nos cegando para os verdadeiros valores da vida. Sinto que estou no meio dessa corrida louca, mas quero sair fora dela e seguir o meu caminho no meu próprio ritmo. Hoje, eu renasci na carne, mas quero ir mais longe. A partir de agora, quero renascer no espírito. Ao invés de ficar olhando para os outros, quero olhar para dentro de mim e descobrir quem eu sou e o que posso fazer para me­lhorar o mundo. Sinto que, se eu tivesse morrido hoje, teria feito muito pouco da minha vida. Quero aproveitar o meu tempo e a minha capa­cidade para realizar projetos que sejam úteis para as pessoas.

— Fico feliz com a sua postura diante de um momento delicado em sua vida, meu filho. As dificuldades que enfrentamos podem ser úteis para o nosso fortalecimento.

— A situação por que passei foi suficiente para me despertar. Vi o tanto que o nosso corpo físico é frágil. Em uma fração de segundos, uma pessoa forte e saudável pode perder a vida. Quando chega a hora de partir, não tem dinheiro que segure a pessoa nesta vida. Há uma vontade superior, à qual estamos ligados ininterruptamente. Essa vontade superior tem o controle sobre as nossas vidas. Do mais poderoso ao mais humilde, sem distinção, todos estão ligados a essa vontade su­perior. Portanto, nada mais certo do que exercer a humildade. É o que vou procurar fazer a partir de agora. Esse mundo dá muitas voltas e as pessoas mudam de posições nessas voltas. O rico fica pobre e o pobre fica rico; o saudável perde a saúde e o doente fica curado.

Definitivamente, Artur não era a mesma pessoa de quando Alexandre saiu de casa, oito meses atrás. Àquela época, ele se preocupava basicamente com o trabalho e com as paqueras. Encerraram o diálogo com um cordial “até mais”.

Sozinha em seu quarto, Rosemeire lembrava-se com nostalgia do período feliz do casamento. A solidão daquele momento trouxe uma profunda saudade de sua mãe. Não se viam há cinco meses, desde quando Rosemeire voltou de Trancoso, onde passou férias de quinze dias. Após esse período, mesmo as conversas por telefone tinham se tornado mais raras.

Impulsionada pela saudade, Rosemeire pegou o telefone e discou para ela. Assim que Maria atendeu a chamada, ouviu o choro da filha.

— O que aconteceu, Rosemeire?

— Nada, mamãe. Estou triste porque estou me sentindo muito só. Queria tanto o colo da senhora!

Maria sentiu o coração ficar apertado, diante da tristeza da filha. Não fosse a distância que separa Belo Horizonte de Trancoso, correria até ela para abraçá-la.

Fique calma, essa dor vai passar. Tudo nessa vida passa. Veja o quanto eu já sofri! Hoje, eu tenho paz em meu coração.

— Paz: isso é tudo o que eu quero para a minha vida — tornou Ro­semeire. — Não aguento mais essa dor.

— Eu já passei por isso, minha filha. Sei o que você está sentindo. Nessa situação, a gente não consegue enxergar uma luz no fim do tú­nel. Mesmo que assim seja, não olhe para trás, siga sempre para frente. Em cada passo, deixe um pouco de mágoa para trás. As lágrimas de hoje prepararão o terreno para a alegria e a paz brotarem em seu co­ração, desde que você aceite as coisas que aconteceram e procure tirar as lições para melhorar sua conduta. Não resista à nova realidade da sua vida, adapte-se a ela. Siga o fluxo dos acontecimentos, buscando o melhor para si, sem revolta.

A medida que Maria falava, Rosemeire começou a sentir o coração mais aliviado. O seu sofrimento poderia ser considerado pequeno, caso compara­do com o da sua mãe após a morte do irmão pelo próprio marido.


Minha filha, tire uma semana de licença no serviço e venha visitar-me. Tenho certeza de que os ares da Bahia lhe farão muito bem.

Rosemeire enxugou uma lágrima; já estava se sentindo mais fortalecida.

— Prefiro que a senhora passe uns dias comigo. Quando virá a Belo Horizonte?

— Em breve, aparecerei por aí.

— Venha fazer uma visita ao Artur. Ele sofreu um acidente de carro, mas está tudo bem, sofreu apenas alguns cortes.

— Eu já falei para ele dirigir com cuidado. O que aconteceu?

— Um acidente parecido com o que vitimou o papai. Ele capotou o carro e caiu na lagoa. Foi salvo por um milagre.

Maria sentiu as pernas bambearem. Em sua mente, logo veio a lembrança da morte do marido.

Diga ao Artur que, em breve, eu irei visitá-lo. Em minhas ora­ções, vou agradecer a Deus por esse milagre.

Rosemeire despediu-se da mãe e desligou o telefone. Decidiu que tiraria uma semana de licença médica no serviço. Precisava ter tran­quilidade para traçar metas a serem seguidas.

Aos quarenta e sete anos de idade, apesar de se mostrar uma mu­lher bonita, que atraía a atenção dos homens, Rosemeire não estava disposta a começar um relacionamento com outro homem.

Distante dali, Maria saiu da pousada para passear pelo Quadrado de Trancoso. Em sua mão, carregava uma fotografia do marido. Qua­renta e oito anos após a morte dele, ela guardava o mesmo amor por Zezé. Nesse período, vários homens tentaram conquistar seu coração, mas nenhum deles conseguiu alcançar este objetivo. Maria tinha cer­teza de que o encontraria quando morresse.

O céu sobre Trancoso estava sem nuvens. Maria caminhou pelo gramado até o centro do Quadrado. De um lado e de outro, as lojinhas recebiam turistas de todos os continentes. Algumas pessoas jantavam na Portinha, o restaurante mais popular dali. A escuridão do Quadra­do realçava o brilho das estrelas, tornando-as ainda mais belas. Maria olhou para o alto e mentalizou o marido, pedindo a ele que intercedes­se junto aos anjos para acalmarem a sua filha.


Ali, ela permaneceu por alguns minutos em oração. Aproveitou para agradecer pela vida do neto ter sido poupada. Depois, seguiu em direção ao mirante que ficava atrás da igrejinha. Ficou observando o mar, ouvindo o barulho das ondas, enquanto sentia o vento soprar seus cabelos. Fechou os olhos e imaginou Zezé aproximando-se para abraçá-la, como ele tinha o hábito de fazer sempre que ela estava no quintal da casa onde moravam em Pedra Rosada, à beira do rio Bonito.

Maria beijou a fotografia de Zezé, na certeza de que algum dia, em algum lugar, eles se reencontrariam, a fim de viverem o grande amor que foi interrompido por uma fatalidade.

Ao retornar para a pousada, decidiu parar no meio do caminho para comer uma torta de chocolate com maracujá. Sentou-se em uma cadeira e ficou escutando o rapaz que cantava, acompanhado apenas de um violão.

 

Na casa de Renata, todos ficaram chocados com a notícia do aci­dente de Artur. A gratidão pela ajuda dispensada a Denise era um sentimento unânime na família. Denise decidiu retribuir a solidariedade, acompanhando Renata na visita que a irmã faria a ele.

Renata telefonou para Artur e marcou a visita. A notícia foi mal recebida por Rosemeire. Em depressão, ela não queria receber ninguém em sua casa. Naquele dia, ela havia ido ao médico pegar o atestado de licença médica por uma semana.

Quando Renata e Denise chegaram, Rosemeire estava em seu quarto, de onde ouvia a conversa. Uma voz meiga chamou a sua atenção e Rosemeire ficou curiosa para conhecer a moça. Então, ela caminhou até a sala. Lá chegando, foi apresentada às irmãs e descobriu que a voz delicada era de Denise.

Rosemeire fitou-a, atraída por uma força misteriosa. Naquele mo­mento, esqueceu a depressão. Sentiu por Denise um carinho diferente, semelhante ao de uma mãe por uma filha.

Denise era uma moça muito bonita. Rosemeire enxergou nela a filha que sempre quis ter, somente não levando o sonho adiante pela resistência de Alexandre em ter outro filho.

O encantamento que Rosemeire teve com Denise foi tamanho, que ela decidiu permanecer na sala, visando conhecê-la melhor.


No transcorrer da conversa, Rosemeire e Denise descobriram algu­mas afinidades. Após a mãe de Artur revelar o seu gosto pela culinária, sobretudo a de origem portuguesa, Denise se ofereceu para retornar na sexta-feira seguinte para preparar um bacalhau.

Quando os visitantes foram embora, Rosemeire estava sentindo-se melhor. Em seus pensamentos, a imagem de Denise estava muito forte e ela estava feliz por poder reencontrá-la ainda naquela semana.

Pela primeira vez, naquele dia, ela dirigiu a palavra a Artur de­monstrando certo contentamento.

— Elas são muito simpáticas.

— São pessoas boníssimas, mamãe. O que a senhora achou da Renata? Serve para ser sua nora?

Rosemeire encarou o filho, lamentando não poder dar a resposta que ele desejava ouvir.

— Posso ser franca?

— Claro!

— Ela parece ser uma pessoa excelente, mas, no meu coração de mãe, eu não vi muita afinidade entre vocês dois.

Artur estranhou a convicção com que sua mãe expôs o ponto de vista; afi­nal, ela teve pouquíssimo contato com Renata para chegar àquela conclusão.

— Como assim? — perguntou ele.

Rosemeire deu um leve sorriso antes de responder.

— Coisas de mãe. Acho que vocês dois não têm nada a ver um com o outro.

— A senhora não a conhece o suficiente para falar isso — disse Artur, desapontado com a resposta.

— Coração de mãe costuma acertar. Sinceramente, eu achei a De­nise mais bonita e mais simpática do que a Renata. Ela parece ter o coração tão bom! O fato de ter sido presa não denigre a imagem dela. Creio que ela esteja precisando de um homem maduro ao seu lado para influenciá-la positivamente. Quem sabe esse homem não é você?

— Eu percebi que a senhora gostou dela, mas eu estou a fim é da Renata. É nela que vou investir.

— A Denise estava olhando para você de um jeito diferente — tornou Rosemeire.

— A senhora quer dizer que ela estava me olhando com um certo interesse?


— Exatamente. Eu vi nos olhos dela um interesse especial por você. Que olhos lindos ela tem!

Artur deu um sorriso tímido. Apesar de estar interessado em Renata, achou Denise muito atraente.

Realmente, ela é muito bonita. Quando a vi na delegacia, eu não percebi a beleza dela. Talvez porque ela estava com o rosto inchado, de tanto chorar.

— Acho que você está investindo na pessoa errada. Ainda é tempo de corrigir.

— A senhora sabe que eu não curto drogas. Eu não me casaria com uma menina que fizesse uso de maconha.

Ela é uma menina nova — ponderou Rosemeire. — Qualquer momento é tempo de largar as drogas. Talvez você possa ajudá-la nesse sentido.

— Ela é uma moça bastante atraente, mas eu acho que a Renata tem mais a ver comigo.

— O tempo mostrará que você está errado. O meu coração não está enganado.

Artur aproveitou a descontração de sua mãe para incentivá-la a buscar meios de afastar o estado depressivo.

— Falando em coração, volto a insistir: está na hora de a senhora olhar para frente e viver a sua vida. Até quando ficará nesta situação? O que a senhora viveu com o papai foi muito bom, mas acabou. Não

adianta ficar olhando para trás. Levante a cabeça e siga em frente. A vida é uma caixinha de surpresas, boas e ruins. Da mesma forma que a sua vida piorou, nada impede que possa voltar a melhorar. Agora, se a senhora não reagir, as coisas podem piorar. Por que a senhora não continua a terapia com a doutora Cláudia?

Não estou com ânimo para fazer terapia. Acho difícil a minha vida piorar. Já cheguei ao fundo do poço. Só o tempo irá me ajudar.

— Não fale bobagem. Preste atenção nas pessoas que passaram pela mesma dor e conseguiram dar a volta por cima.

Rosemeire ficou em silêncio por alguns segundos, lembrando-se das pessoas que haviam partido da sua vida.

Não é simples sair dessa situação. A minha vida registra traumas consideráveis, a começar pela morte do meu pai, quando eu sequer havia nascido. Não bastasse, veio a revolta do meu avô querendo que a mamãe abortasse. Tudo isso está registrado em minha mente. Em se­guida, a fuga dela para salvar a minha vida. Apesar de estar no útero, eu vivenciei todo esse drama. Como a mamãe está a mil quilômetros de distância, posso dizer que a minha única companhia tem sido você.


Artur balançou a cabeça, mostrando-se ciente da dor que a sua mãe estava sentindo.

— Eu sei que é difícil. Não é fácil lidar com as perdas. É como se um pedaço da gente fosse junto com a pessoa que partiu, mas não resta alternativa que não seja lutar para reconstruir a vida.

As lágrimas rolaram pela face de Rosemeire, em um choro si­lencioso.

Às vezes, fico me perguntando o que eu fiz para passar por tantos momentos ruins. Um dia, espero encontrar a resposta para esta pergunta.

Artur estava ficando cada vez mais preocupado com a depressão de sua mãe. Sentiu que precisaria se desdobrar para ajudá-la a encarar vida com mais otimismo e alegria de viver. O acidente na lagoa serviu para lhe mostrar que possuía uma imensa força interior, a qual ele estava disposto a usar em prol do próximo.

— Depois do acidente, comecei a rever alguns conceitos. Pude per­ceber que os meus problemas são pequenos em vista do que algumas pessoas sofrem. Na verdade, desde sexta-feira, quando procurei o meu pai, comecei a pensar que poderia estar agindo de forma equivoca­da ao manter um isolamento dele. O acidente me trouxe a certeza do quanto eu estava sendo injusto com ele.

Rosemeire ouvia atentamente o posicionamento do filho.

Com o acidente, eu senti o tanto que nós somos frágeis. Muitas vezes, nos achamos os donos da verdade, ficamos arrogantes, mas não passamos de simples mortais, sujeitos a todo tipo de intempérie. Por que julgar os outros? Nós não somos melhores do que ninguém para crucificar aqueles que erram. Também temos os nossos defeitos e as nossas fraquezas. Quem sou eu para julgar o próximo? Nós nos co­nhecemos muito superficialmente. Só Deus tem uma visão completa de tudo. A passagem bíblica em que Pedro nega Jesus por três vezes retrata bem isso. Pedro disse que estava preparado para ir com Jesus até a prisão e a morte, mas Jesus respondeu que, antes que o galo cantasse três vezes, Pedro o negaria, ainda naquela noite, o que de fato ocorreu. Essa é a verdade: nós não nos conhecemos o suficiente para saber como agiríamos em determinadas situações. Por isso, não devemos julgar ninguém. O julgamento e a justiça pertencem a Deus. Eu sempre olhei muito para o defeito dos outros e nunca procurei fazer uma análise do meu comportamento diante de determinadas situações. Confesso que o acidente fez com que eu voltasse a atenção para as coisas que se passam em meu íntimo. Sinto que hoje sou um homem mais sensível.


Rosemeire ficou admirada com o novo posicionamento do filho. Sentiu que ele poderia estar com a razão.

— Talvez, eu não tenha chegado ao fundo do poço e seja necessário acontecer algo de ruim comigo para eu despertar, como você está falando.

— Não fale assim! A situação já começa a melhorar só porque pensamos de maneira positiva. Nada de ruim precisa acontecer. Procure ter o coração mais leve e já verá uma mudança na sua vida.

— Está bem. Se isso o deixa mais tranquilo, eu vou tentar seguir o seu conselho. Agora, eu vou assistir à minha novela.

Em seguida, Rosemeire se levantou, beijou a testa do filho e foi para o seu quarto, onde voltou a pensar em Denise. A imagem dela estava viva em sua mente.

 


Atendendo ao pedido do doutor Alexandre, que tinha interesse em dar celeridade ao caso de Denise, o juiz de direito designou a audiência para aquela semana mesmo, às treze horas da sexta-feira. A finalidade da audiência era verificar se Denise aceitaria ou não a proposta que o promotor de justiça faria.

Denise telefonou para Rosemeire e combinou de ir à sua casa após a audiência, a fim de prepararem o bacalhau que seria servido no jantar daquele mesmo dia.

Era a primeira vez que Denise estava pisando em um fórum. Logo na entrada, assustou-se com o aparato de segurança. Ao passar pela porta com o detector de metais, o alarme soou e ela precisou abrir a bolsa para o segurança conferir o que tinha em seu interior.

O encontro com o doutor Alexandre foi marcado para as doze horas e quarenta e cinco minutos, na lanchonete do fórum.

Denise chegou antes do horário marcado e ficou prestando atenção no vai e-vem de pessoas. Os advogados caminhavam elegantemente, com seus ternos e pastas de couro. Já as advogadas desfilavam com vestidos de muito bom gosto.

A beleza e a elegância deles contrastavam com a tristeza da maioria das pessoas que ali estavam. Eram mães de presos que aproveitavam a presença dos filhos nas audiências para matarem a saudade; por ali, passavam também os casais que estavam sacramentando a separação, trazendo no rosto a marca da tristeza por um relacionamento que não havia dado certo.

Um homem passou por Denise resmungando contra a lentidão da justiça. Há mais de quinze anos, aguardava uma decisão judicial em uma ação ajuizada contra o Estado.


É melhor ser credor de bandido do que do Estado — bradou ele, furiosamente.

Em pouco tempo, Denise percebeu que o ambiente de um fórum era tão pesado quanto o de um hospital. Depois de alguns minutos, viu o doutor Alexandre aproximar-se em passos rápidos.

— Vamos lá, porque eu tenho outra audiência dentro de trinta mi­nutos. Você está tranquila?

— Mais ou menos. Acho que estou envergonhada por estar aqui.

— É natural que assim seja. A audiência é muito simples, não preci­sa ficar nervosa. Eu estarei ao seu lado para esclarecer qualquer dúvida. Quanto antes você cumprir a pena, melhor será.

A audiência começou com dez minutos de atraso, mas foi mais rápida do que Denise esperava. Ela não hesitou em aceitar a pro­posta feita pelo promotor de justiça: cumprir prestação de serviços à comunidade pelo prazo de dois meses, durante sete horas por se­mana. O cumprimento desta pena evitava o processo criminal. Após ela assinar o termo de compromisso de cumprimento da pena, foi encaminhada para o setor de fiscalização das penas substitutivas. Lá, despediu-se do doutor Alexandre, que seguiu para a outra vara cri­minal, onde o seu cliente já o aguardava.

Denise enfrentou uma pequena fila para saber a entidade onde cumpriria a pena. Foi atendida pela psicóloga de nome Judite, rece­bendo da mesma uma folha fazendo o encaminhamento para a Casa de Apoio, local destinado a receber crianças com câncer, até que fosse concluída a construção do Hospital Infantil do Câncer.

Denise ficou abatida com a informação. Definitivamente, ela não gostava de ir a hospitais. Sofria ao ver a dor dos doentes e acidenta­dos, bem como o desespero dos parentes e amigos. Atendendo recomendação da doutora Judite, Denise seguiu diretamente do fórum para a Casa de Apoio. Lá chegando, foi atendida pela secretária de nome Carla, a qual, depois de analisar o documento expedido pelo setor de fiscalização das penas substitutivas, decidiu encaminhar Denise para auxiliar a doutora Beatriz, médica que trabalhava voluntariamente no hospital uma vez por semana.


Venha cá para você conhecer as dependências da nossa Casa de Apoio, que é considerada a unidade número um do Hospital Infantil do Câncer. O hospital está sendo construído no município de Juatuba, num terreno de cento e dois mil metros quadrados.

“Este é o ambulatório, onde fica o consultório da doutora Beatriz. Temos ainda consultórios de psicologia, fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, psicopedagogia e odontologia."

A medida que caminhavam, passavam por algumas crianças, cuja idade variava de três a doze anos.

— Nesta ala, nós temos a brinquedoteca e a sala de computação. Ali, a seção da assistência social.

Denise começou a achar interessante o lugar e procurou ter novas informações.

— Esta Casa de Apoio tem capacidade para atender quantas pessoas?

— Nós temos vinte leitos, todos com acompanhante.

Que tipo de trabalho ficarei incumbida de fazer?

— Você marcará todos os tratamentos de quimio e radioterapia que a doutora Beatriz designar, providenciando o transporte das crianças até o hospital. Além disso, você entregará aos pais das crianças os me­dicamentos prescritos pela doutora Beatriz que não forem fornecidos pelo SUS. Nós temos uma pequena farmácia aqui, de forma que ne­nhum paciente fica sem medicamento.

Denise começou a ficar admirada com o trabalho realizado naquela instituição. A atenção de Carla deixou-a bem impressionada com a qualidade do trabalho prestado.

— Como você já deve ter percebido, os nossos pacientes são pessoas humildes. Nós fornecemos, inclusive, vale transporte para eles. Esta será mais uma tarefa para você cumprir. Por fim, você nos ajudará a montar a cesta básica mensal que damos a cada um. Agora, vamos aguardar a doutora Beatriz terminar a consulta para eu apresentá-la a você.

Mal acabou de se acomodar na cadeira, Denise presenciou quando um casal entrou chorando pela porta principal.

— Eles são do vale do Jequitinhonha. O filho fez tratamento conosco por um ano. Infelizmente, ele morreu hoje pela manhã. Estão providenciando o transporte do corpo para ser enterrado na cidade de Almenara.


— Vocês recebem muitos pacientes do interior?

— A maioria. Acredito que noventa por cento. Eles ficam alojados aqui mesmo. Quando é preciso fazer algum procedimento hospitalar, nós providenciamos o transporte. Muitos ficam vários meses sem voltar para casa. Alguns, nunca mais voltam.

— Deve ser muito triste ver morrer uma criança lutando contra o câncer.

— De fato é doloroso, mas tem o lado bom — ponderou Carla. — É muito gratificante quando conseguimos curar uma criança que aqui chegou em estado precário de saúde. Você não imagina as lições de vida que presenciamos. Muitos adultos que reclamam da vida sem motivo deveriam vir aqui para ver a garra como esses garotos lutam pela sobrevivência.

— Vocês atendem à demanda de todo o Estado?

— Atendemos. O nosso trabalho está sendo divulgado em todas as cidades. Já estamos com dificuldade para liberar vaga. A Casa de Apoio está sempre lotada. Esperamos resolver este problema com a construção do hospital. Será um local espaçoso, com muito verde e com todos os equipamentos necessários para desempenharmos um bom trabalho.

A porta da sala de consulta foi aberta, saindo de lá uma garota de onze anos de idade, aproximadamente. Tinha cabelos ralos, em função do tratamento de quimioterapia.

Carla aproveitou para levar Denise à presença da médica.

— Vou apresentá-la à doutora Beatriz. Ela é uma da melhores onco­logistas de Belo Horizonte.

A médica estava sentada em uma cadeira atrás da mesa. Vestia roupa branca e usava óculos. Os cabelos presos e os óculos não es­condiam a sua beleza.

— Doutora Beatriz, esta é a Denise. Ela foi encaminhada para cum­prir a pena de prestação de serviços à comunidade.

A médica lançou um olhar para Denise, como se quisesse saber o crime que ela havia praticado.

— Muito prazer. Por favor, sente-se.

A aparente calma de Denise desapareceu diante do olhar pene­trante da médica. Dali em diante, ela deveria cumprir ordens. Carla retirou-se, deixando-as a sós.

Uma moça bonita e saudável tendo problemas com a justiça. O que você fez de errado?

Denise sentiu o coração acelerar. Não esperava pela pergunta. Pensou que apenas deveria prestar o serviço, sem precisar dar maiores satisfações de sua vida. Falar sobre o uso de droga era constrangedor, sobretudo para uma desconhecida que estava em uma posição de superioridade hierárquica.

— Eu fui flagrada fumando maconha — respondeu a contragosto.

— Este é um grande problema da sociedade — tornou a médica. — Os jovens são assediados, cada vez com maior frequência, para fazerem uso de drogas ilícitas. Aqui na Casa de Apoio nós tivemos problemas sérios com um usuário de crack. Suspendemos a prestação de serviços gratuitos por um bom tempo. Você é a primeira pessoa que estamos recebendo após esse fato. Só retomamos o convênio com a Vara de Execuções Penais, porque nos garantiram que não mandariam pessoas com desvio acentuado de conduta. Portanto, a sua responsabilidade é muito grande. Se tivermos problemas com você, suspenderemos o convênio novamente.

Denise teve vontade de sair correndo. Não estava ali para assumir tal responsabilidade. À primeira vista, a médica não demonstrou ter o coração generoso mencionado por Carla.

— Eu vou me esforçar para não decepcioná-la — afirmou Denise.

— Por favor, eu não quis constrangê-la, mas é minha obrigação esclarecer sobre a necessidade de você manter uma boa conduta, pois o bom ambiente aqui é fundamental para a melhora dos nossos pacientes.

A médica sorriu para Denise, demonstrando ternura em seu olhar, o que mudou a primeira impressão ruim que Denise havia tido dela. Em seguida, Beatriz prosseguiu:

— Eu não vou julgá-la, mesmo porque, quando jovem, eu também me envolvi com drogas. Foi um período difícil da minha vida, de amargas recordações. Eu levei alguns tombos feios e decidi dar outro rumo a minha vida. Desculpe-me, mas sinto-me na obrigação de dar este breve testemunho porque vejo que você também levou um tombo causado pelo uso de maconha.

Denise deu um sorriso sem graça, como se estivesse concordando com a médica. Sentiu-se atraída pelo olhar sofrido dela e teve vontade de ajudá-la de alguma a forma, pois o seu semblante não escondia a tristeza que habitava a sua alma.

Em seguida, Beatriz mudou de assunto, passando a tratar do serviços a ser prestado por Denise.


O trabalho que você desempenhará é muito simples, mas eu pre­ciso do seu compromisso com o horário que nós combinarmos.

— A senhora pode ficar tranquila, porque eu farei tudo certinho. Quero cumprir a pena o mais rápido possível.

— Podemos marcar para você vir às segundas-feiras, das nove à dezessete horas, com uma hora de intervalo para o almoço?

— Perfeitamente. O horário está bom para mim.

— Então, boa sorte. Espero que tenha um bom final de semana.

— Igualmente, doutora.

Denise despediu-se da médica e saiu em direção à casa de Rosemeire. Enquanto dirigia o carro pelas ruas engarrafadas, começou a pensar em uma forma de agradar Artur. Ao passar por uma loja de chocolate caseiro, Denise decidiu comprar trufas para ele. Após visitá-lo, a imagem dele não saía de sua mente.

Quando Rosemeire recebeu as trufas, ficou ainda mais encantada com Denise e viu nela a esposa que sempre desejou para o filho.

— Obrigada pela gentileza. Você acertou em cheio. O Artur é vi­ciado em chocolate.

— Ele está melhor?

— Está sim. Hoje já foi trabalhar.

— Ele irá jantar conosco?

— Com certeza. Ele disse que está louco de vontade de comer bacalhau. Enquanto preparavam o bacalhau, Denise comentou sobre a audiência.

— O Alexandre foi com você? — perguntou Rosemeire, ansiosa por ter notícias do ex-marido.

— Foi, sim. Eu tenho uma gratidão imensa por ele. Graças a Deus está dando tudo certo. Já fui encaminhada para o Hospital Infantil do Câncer. Vou trabalhar com uma médica que tem fama de ser muito competente. Ela parece ser uma pessoa muito boa, apesar de carregar um semblante sofrido.

O assunto da médica não interessava a Rosemeire, que logo tratou de obter mais informações sobre o ex-marido.

Você falou ao Alexandre sobre o bacalhau?

— Não. O nosso encontro foi muito rápido.

— É um dos pratos prediletos dele. — A Renata comentou que vocês estão separados. Deve ser uma fase difícil.


Apesar do pouco contato, Rosemeire estava se sentindo à vontade para falar do seu sofrimento com Denise. Via de regra, ela evitava falar sobre o ex-marido com outras pessoas, com exceção do próprio filho.

— Toda separação é dolorosa. Implica em romper com uma situação na qual, bem ou mal, você tinha a falsa percepção de segurança. Estou tentando me recuperar, mas não é fácil.

— Apesar de nunca ter casado, nem namorado sério por muito tem­po, imagino que a vida a dois não seja fácil — comentou Denise.

— De fato não é, mas acho que todas as pessoas deveriam passar pela experiência do casamento. O relacionamento a dois traz muito aprendizado.

Denise balançou a cabeça, concordando com Rosemeire.

— Eu não tive vontade de me casar com nenhum namorado. Acho que nao gostava o suficiente deles. Atualmente, eu sinto falta de gostar de alguém e dividir com esse alguém as minhas preocupações, as mi­nhas dificuldades e também as minhas alegrias. Chega um momento da vida em que tudo o que desejamos é uma pessoa ao nosso lado. Acho que estou nessa fase.

Rosemeire olhou para Denise e teve a sensação de que ela pensou em Artur ao fazer aquele comentário.

A medida que elas conversavam, tornavam-se mais íntimas e descobriam novos gostos em comum, aumentando a afinidade entre si. Ao final de duas horas, terminaram de montar a travessa de bacalhau. Denise agradeceu e despediu-se, dando um abraço afetuoso em Rosemeire.

 

No horário combinado, Artur e Rosemeire saíram de casa para o jantar. Durante o trajeto, Artur pensou na gentileza de Denise ao levar trufas para ele. Se ela estava querendo agradá-lo, havia feito o correto, pois ele adorava ganhar flores e chocolates. Começou a considerar a hipótese de sua mãe ter razão com relação ao suposto interesse de Denise. Tal fato deixou-o um pouco balançado, já não tendo ele a convicção de que estava tão interessado assim em Renata. Denise, além de bela, havia demonstrado ternura ao levar o chocolate, e ele gostava de mulheres com essa característica.

Ouando chegaram, foram recebidos por Leônidas.

— Vamos entrar. Fiquem à vontade. Infelizmente, a Renata não participará do jantar.

Artur ficou surpreso com aquela afirmação. Em seu íntimo, achava que o jantar seria uma boa oportunidade para estreitar os laços com Renata.

Aconteceu alguma coisa? — perguntou ele, preocupado com ela.

Sem esconder a reprovação com a atitude da filha, Leônidas respondeu:

— Não aconteceu nada. Peço desculpas a vocês pela falta dela. Tentei convencê-la a ficar, mas ela disse que precisava conversar com o namorado. Eles brigaram, mas o rapaz está insistindo para reatar o namoro. Já cansei de falar para ela esquecer esse moço, mas não tem jeito. Ela sempre aceita os pedidos de desculpas. Aposto que vai ceder novamente aos argumentos dele. A Denise nos fará companhia. Ela está se aprontando.

A informação deixou Artur profundamente decepcionado. Primeiro, por ela aceitar sair para conversar com o namorado. Segundo, porque considerou uma indelicadeza da parte dela não ficar para o jantar.


Leônidas levantou-se para pegar os petiscos. Para entrada, comprou queijo holandês, presunto italiano, azeitonas chilenas, castanha de caju e bolinho de bacalhau.

Artur sentiu o cheiro de um agradável perfume. Levantou a cabeça e viu Denise caminhando em sua direção. Ela estava com os cabelos molhados e não usava maquiagem. Assim que seus olhares se cruzaram, ela sorriu, demonstrando alegria pela presença dele em sua casa

O seu rosto está menos inchado.

— As trufas que ganhei estão ajudando a desinchar. São deliciosas. Não precisava se preocupar. Muito obrigado.

— Imaginei que você gostasse de chocolate.

— Por quê?

— Você me parece ser chocólatra — respondeu Denise. — Eu também sou. Um chocólatra reconhece o outro.

Após cumprimentar Rosemeire, Denise sentou-se ao lado de Ar­tur. Naquela noite, ela parecia estar ainda mais bela.

Denise aproveitava todas as oportunidades para dispensar mais atenção a Artur. Quando algum dos petiscos acabava, ela ia à cozinha e voltava com outro prato.

Rosemeire, que a tudo observava, reforçou sua convicção. Ela gos­tou da ausência de Renata, pois assim seu filho poderia conhecer De­nise melhor. Por um motivo ainda desconhecido, Rosemeire sentia um carinho inexplicável por Denise. Em seu íntimo, ela sabia que esse cari­nho não era fruto da carência que experimentara nos últimos meses.

O jantar foi servido. A comida estava extremamente saborosa. As lascas de bacalhau desprendiam-se com um simples toque do garfo. Uma autêntica bacalhoada portuguesa era acompanhada de batatas, azeitonas pretas, pedaços inteiros de alho, cebola, pimentão, brócolis, tomate e alguns pedaços de linguiça.

Rosemeire ficou lisonjeada com a unanimidade dos elogios, mes­mo porque a sinceridade dos mesmos ficou evidenciada pelo tanto que todos comeram. O bacalhau, calculado para sete pessoas, foi inteira­mente devorado pelos quatro.

 

Distante dali, Renata conversava com Adriano em um restaurante.

— Eu estou pedindo uma última chance — insistiu Adriano. — Pensei muito durante a semana e consegui enxergar que tenho cometido vários erros com você. As coisas vão ser diferentes, eu prometo. Antes, quando nós brigávamos, eu não conseguia ver os meus erros e achava que você era a culpada pelas nossas brigas. Agora, não é mais assim. Admito que estou sendo muito ciumento e sei que preciso melhorar. As palavras de Adriano mexeram com Renata. Ela estava em dúvidas sobre aceitar ou não o pedido de reconciliação.


— Das outras vezes, você também disse que procuraria melhorar.

— Era diferente. Eu falava da boca pra fora. Agora eu estou convencido de que preciso mudar. Prometo que me esforçarei.

Apesar de não estar convencida de que o namorado cumpriria a promessa, em seu íntimo Renata queria fazer mais uma tentativa. Ainda gostava dele e tinha uma ponta de esperança de que poderiam ser felizes juntos.

— Você tem certeza de que não vai ter mais as crises de ciúmes?

— Claro que tenho! Vamos começar outra fase em nosso relaciona­mento. Nós precisamos fazer uma última tentativa. Se desistirmos agora, nunca saberemos se a decisão foi acertada. Poderemos nos arrepender amargamente, no futuro. Nós não esgotamos os nossos esforços para ficarmos juntos. O importante é que nos gostamos um do outro.

— Gostar não é tudo. Respeito e amizade são fundamentais no namoro. Sinto que faltam esses dois requisitos no nosso relacionamento.

Faltavam. Você não imagina o quanto eu me senti mal depois daquela briga. Não quero isso para mim. Eu sofri muito nos últimos dias. Você não imagina a dor que senti quando vi o seu amigo subindo para o apartamento com você. Tive vontade de fazer uma bobagem. Não consegui dormir. Fiquei contando os minutos, esperando o dia amanhecer. Quando você me contou sobre a prisão da Denise, tive vontade de cavar um buraco no chão e enfiar a minha cara lá dentro, de tanta vergonha que senti. Primeiro, por ter brigado com você, não estando ao seu lado naquele momento difícil. Depois, por ter suspeitado da sua fidelidade.

Adriano fez uma breve pausa, segurou as mãos de Renata, apertando-as levemente, e prosseguiu:

Teve um lado bom em tudo isso: eu tive a certeza de que você é a mulher que eu quero para ser a minha esposa, mãe dos meus filhos. Não suportaria ver você nos braços de outro homem.

Renata olhou bem nos olhos do namorado. Pela primeira vez, acreditou que ele estava disposto a mudar o seu comportamento.


— Está bem. Eu vou dar um voto de confiança a você, mas é a última tentativa. Não tenho mais estrutura emocional para lidar com o seu ciúme.

Adriano soltou um sorriso, aliviado com a resposta da namorada. Não imaginou que precisaria gastar tanta saliva para convencê-la.

— Pode ter certeza de que você tomou a decisão correta.

— Só o tempo dirá se eu fiz bem ou mal.

— Você não perderá por esperar, minha querida. Eu vou fazer de você a mulher mais feliz desta cidade.

Em seguida, eles se abraçaram e começaram a beijar-se repetidas vezes. Quando deram por si, eram os últimos clientes a permanecer no restaurante. Pediram a conta e foram embora.

Renata não estava segura de ter tomado a decisão correta. Sabia que não seria fácil Adriano acabar com o ciúme doentio de uma hora para outra. Esse processo poderia ser demorado. Teria ela paciência para esperar pela mudança do namorado? Só o tempo diria.

Já em casa, Artur pensava nas duas irmãs. Por Renata, sentiu-se atraído em razão da elegância, charme, postura e competência profissional. Por Denise, foi atraído pela beleza física, sensualidade e pelo carinho e atenção que ela lhe estava dispensando.

Ele lembrou-se de uma fase da sua vida, na qual se apaixonava, platonicamente, com muita frequência. Da mesma forma que a paixão vinha arrebatadora, queimando o seu coração, saía para dar lugar a outra pai­xão, que sempre parecia ser mais forte do que a anterior. Coincidente­mente, justo quando estava apaixonado, aparecia em sua vida outra mu­lher muito atraente, que tentava conquistar o seu amor. Envolvido pela paixão platônica que nunca virava namoro, Artur desprezava a mulher que tentava conquistá-lo. Uma vez superada a paixão, ele ficava arrepen­dido por não ter se envolvido com quem gostava dele. Agora, poderia estar se repetindo o mesmo filme em sua vida. Denise poderia significar a oportunidade de viver o relacionamento que ele sempre sonhou.

Ao comparar como seria o namoro com as duas irmãs, Artur chegou a algumas conclusões. O relacionamento ao lado de Renata poderia ser mais tranquilo, tendo em vista que ela era mais madura do que a caçula. Por outro lado, o namoro com Denise poderia trazer o gosto da novidade, em função de nunca ter namorado uma mulher seis anos mais nova do que ele. Provavelmente, seria um relacionamento mais intenso em termos de programas e encontros. Pensando nas duas irmãs, ele adormeceu.

 

Aproveitando a ausência do pai, que havia saído para fazer as compras do mês, Renata conversou com Denise sobre a reconcilia­ção com Adriano.

Até quando você vai insistir com o Adriano? Vocês nunca tiveram um período de paz no namoro. Eu não vejo você feliz, há muito tempo. Está na hora de partir para outra, não acha?

Renata já imaginava que teria dificuldades em convencer a irmã e o pai de que havia tomado a atitude correta ao reatar o namoro, mas, mesmo assim, procurou mostrar que eles poderiam estar equivocados.

Semana passada, depois da nossa briga, eu estava certa de que estava tudo acabado. Só que o coração tem razões que a própria razão desconhece. Eu fiquei inclinada a fazer mais uma tentativa. De repente, as coisas poderão ser diferentes. Pela primeira vez, eu vi nos olhos dele a disposição em mudar. Acho que desta vez ele teve medo de me perder. Talvez comece a agir de forma diferente.

Denise balançou a cabeça, recriminando a atitude da irmã.

— Você é tão madura para umas coisas, mas é muito ingênua para outas. Com tanto tempo de convivência, já deu para você saber quem é o Adriano. Ele não vai mudar. Eu sei que não é fácil a gente se separar da pessoa amada, mas, às vezes, não nos resta alternativa. O mal tem que ser cortado pela raiz, como um tratamento de choque para uma doença grave. É impossível não enxergar que ele está estragando a sua vida!

Renata sabia que havia uma grande possibilidade de Denise estar com a razão. Nesse ponto, ela admirava e invejava a caçula. De fato Denise era muito mais decidida.


Você não acha que a gente deve fazer sacrifício por um grande amor? É isso o que estou fazendo.

— Até quando? Você está confundindo amor com obsessão. Quando há amor, tudo flui de forma mais leve, sem tanto desgaste. Desculpe-me, mas você está perdendo oportunidades de conhecer pessoas bem mais interessantes do que o Adriano. Esse tempo perdido não voltar mais. Sinceramente, acho que você não termina com o Adriano porque tem medo de ficar sozinha. Papai está muito chateado por você aceitar submeter-se a tanto sofrimento. Ele ficou muito triste com a sua au­sência, ontem. Eu também acho que foi uma grosseria da sua parte.

Renata deu um longo suspiro e fechou os olhos, mostrando certo arrependimento por não ter participado do jantar.

— Você tem razão. Depois de tudo o que o Artur fez por nós, eu não poderia ter faltado ao jantar. Ocorreu tudo bem?

— Foi ótimo. Conversamos bastante e a comida estava perfeita. Até a Rosemeire parecia estar muito feliz. Ontem à tarde, ela confessou que está tendo muitas dificuldades para superar a dor da separação, porque ainda tem mágoa do doutor Alexandre. Aqui em casa, ela se soltou e conversou bastante. Não sei por qual razão, mas eu gostei dela desde o primeiro momento em que a vi. Acredito que ela sentiu o mesmo.

Denise fez uma pausa e ficou encarando a irmã.

— O que foi? — perguntou Renata.

— Não sei se devo falar.

— Agora eu estou curiosa. Pode começar a falar.

— Eu estou a fim do Artur — confessou Denise.

Renata ficou de queixo caído, como se não acreditasse no que acabara de ouvir.

— É sério?

— É sim. Ele mexeu comigo, como nenhum homem conseguiu mexer até hoje.

— Denise, você mal o conhece! Como pode falar assim?

— É a primeira vez em minha vida que tenho tanta vontade em con­quistar um homem. Eu levei umas trufas para ele ontem à tarde, mas não nos encontramos. Somente à noite nos vimos. Ficamos o tempo todo sentados um ao lado do outro e conversamos sem parar. Depois que ele foi embora, fiquei com saudades e custei a dormir.

 


— Nao me lembro de ter visto você falar com tanto entusiasmo de alguém. O Artur é um cara muito legal. Eu até queria apresentá-lo a você na sexta-feira passada, mas ele falou que não acreditava em encontro arrumado.

— Acho que ontem ele começou a mudar de idéia — disse Denise, com um sorriso na face. — A confusão do final de semana passado pode ter sido uma enorme bênção em minha vida. Sinto que a prisão pode ter aberto portas para mim. Não falam que Deus escreve certo por linhas tortas? Não foi a melhor maneira de conhecer um homem interessante, mas quem somos nós para contestar os desígnios de Deus?! Havia um bom tempo que eu não me apaixonava. Já estava ficando preocupada. O simples fato de estar a fim do Artur já me fez sentir melhor. Por outro lado, eu fiquei sensibilizada com a luta das crianças contra o câncer. Acho que tenho reclamado da vida sem razão. Se eu for considerar o problema de milhões de outras pessoas, acho que vou enxergar que não tenho problema. Estou refletindo bastante sobre tudo que aconteceu e estou chegando à conclusão de que nada muda em nossa vida, se não mudarmos o nosso comportamento. Estou aprendendo muito nestes últimos dias e espero mudar para melhor.

A conversa foi interrompida pela campainha do telefone. Denise levantou-se para atender.

Você pode falar dois minutinhos? — perguntou Rosemeire.

— Claro! Está tudo bem com você?

— Está sim. Eu estou telefonando, porque percebi um caroço no seio. Você disse que a médica da Casa de Apoio é muito conceituada. Gostaria que pegasse com ela a indicação de um mastologista.

Está bem. Segunda-feira, eu me encontrarei com ela. Você está certa em procurar logo um médico. Pode não ser nada, mas é importante verificar.

Denise estava desligando o telefone, quando seu pai chegou, tra­zendo dois carrinhos lotados de compras.

— Com esse tanto de comida, o senhor deve estar querendo que a gente engorde — observou Renata.

Nada disso. Eu decidi ficar para a formatura da Denise. Não se justifica voltar à fazenda amanhã para retornar a Belo Horizonte na sexta-feira.

Denise não escondeu a felicidade pela presença do pai na semana de sua colação de grau.


— Que notícia boa! A sua presença é muito importante.   Renata aproveitou a ocasião em que todos estavam bem humora­dos para dar a notícia da volta do namoro com Adriano.

— Eu não quero ter notícias desse namoro. Como seu pai, fico muito triste em ver você perdendo tempo com esse cidadão desequilibrado.

— Ele é o meu namorado. Por favor, não fale assim. Imediatamente, Denise entrou na conversa para defender o posi­cionamento do pai.

— O papai tem razão. O Adriano nunca fará você feliz. Um dia, você verá que nós temos razão.

— Espero que você não esteja rogando praga em meu namoro. Vocês não precisam gostar do Adriano, a única coisa que peço é que o tratem com educação.

— Com relação a isso, você pode ficar tranquila — frisou Leônidas. — Eu não vou permitir que a conduta dele determine a minha forma de agir. Aprendi a ser educado com todas as pessoas. Não vou mudar por conta dele. Apenas estou alertando você sobre esse relacionamento porque essa é a minha função como pai. Mas a vida é sua e você faz dela o que bem entender.

Renata achou melhor encerrar o assunto por ali e calou-se. Em seguida, foi para a cozinha ajudar a guardar as compras.

 

Denise acordou várias vezes durante a noite, ansiosa por começar a cumprir a pena aplicada pela justiça. O sono ia e voltava, deixando-a irritada. Quando olhou as horas no relógio, viu que já estava atrasada.

Com a rapidez que a circunstância exigia, ela ficou pronta em trinta minutos e partiu para a Casa de Apoio, sendo recepcionada por Carla.

— Bom dia, Denise! Animada para começar o trabalho?

— Estou sim. Espero corresponder às expectativas. A doutora Beatriz já chegou?

— Ela só virá à tarde. Na parte da manhã, você irá montar as cestas básicas. A relação dos itens está aqui. É só colocá-los nestas sacolas e depois fechá-las. Quando acabar, faça uma relação dos vales-transporte que ainda temos. Por fim, dê uma arrumada na brinquedoteca. Boa sorte.

Denise começou a fazer o serviço. No início, teve dificuldade em montar as cestas básicas, principalmente porque alguns produtos eram pesados. Depois de poucos minutos, o trabalho começou a fluir, de modo que ela não viu a manhã passar. Quando percebeu, já estava na hora do intervalo.

Conforme combinado, Denise foi almoçar em casa com a família. Seu pai foi a um restaurante e comprou bife de porco acebolado, batata frita, tutu à mineira, arroz, couve e salada.

Quando viu a mesa posta, sentiu a sua boca salivar. O cheiro da comida aguçava ainda mais o apetite.

Após o almoço, Denise voltou rapidamente para a Casa de Apoio.

Lá chegando, enquanto esperava a médica, ficou conversando com as crianças que tinham consulta marcada.


Uma delas, de nome Robertinho, conversava sobre diversos assuntos. Aos onze anos de idade, ele sempre foi o melhor aluno da sala. Agora, em função da leucemia, deixou de ir à escola por vários dias razão pela qual a média de suas notas havia diminuído.

Robertinho era um exemplo de determinação para as outras crian­ças. Ao contrário da maioria dos que ali estavam, ele morava em uma favela de Belo Horizonte. Além dos estudos, ele cuidava dos irmãos menores quando os pais saíam para trabalhar.

Denise estava conversando com Robertinho quando a doutora Beatriz chegou.

— Boa tarde para todos. Passaram bem o final de semana? Robertinho foi o primeiro a responder.

O final de semana foi ótimo, principalmente porque eu sabia que encontraria com a senhora hoje.

A médica sorriu com o elogio de Robertinho, mas Denise percebe que o sorriso dela escondia uma tristeza muito grande.

— Fico feliz com o seu carinho. Como está passando?

Cada vez melhor, doutora Beatriz. Em seguida, a doutora chamou Denise para dentro do seu consultório.

— Como está sendo o seu primeiro dia de trabalho?

Está sendo bom. Garoto interessante esse Robertinho. Fiquei im­pressionada com a inteligência dele.

— É uma das crianças mais admiráveis que já conheci. Está conosco há um ano.

— O caso dele é grave?      

— Ele tem leucemia linfóide aguda. — É muito grave?

É sim. Ela se origina nos gânglios, que são os filtros do corpo, e no timo, uma glândula localizada no tórax, responsável pela produção dos linfócitos, que são células de defesa do organismo. O Robertinho submeteu-se a um autotransplante de medula e a várias sessões de quimioterapia.

— Autotransplante de medula? Como funciona?

— As doses de quimioterapia são eficientes contra o tumor, mas também destroem a medula óssea. No autotransplante, células da me­dula do próprio paciente são retiradas antes das sessões de quimioterapia. Depois, essas células são injetadas novamente, a fim de que seja iniciado um novo ciclo de produção.


Vendo o interesse de Denise, Beatriz prosseguiu:

— O Robertinho tem boas chances de sobreviver. Aos pouquinhos, está conseguindo superar a doença. Se ele conseguir sair dessa, como espero, pode ter certeza de que será um profissional brilhante. Poucas vezes conheci alguém tão esforçado e inteligente ao mesmo tempo. O referencial que ele tem de família também ajuda. Os pais são pessoas muito íntegras e educadas. Quero acompanhar este menino bem de perto.

— De fato, ele parece ser uma criança especial — concordou Denise.

— Vamos começar o trabalho? Por favor, faça entrar a Maria José.

Denise lembrou-se do pedido de Rosemeire e tocou no assunto antes de chamar a paciente.

Doutora Beatriz, eu comentei com uma amiga sobre o trabalho da senhora. Coincidentemente, nesse final de semana ela sentiu um ca­roço no seio. Ela me telefonou, pedindo que eu pegasse com a senhora a indicação de um médico mastologista.

— Perfeitamente. O doutor Rafael é um médico muito competente. A sua amiga estará em boas mãos.

Beatriz pegou um pedaço de papel em branco e escreveu o nome e telefone do médico, entregando-o para Denise. Em seguida, a médica começou a atender os pacientes.

Robertinho estava lendo uma revista e sempre fazia um comentário interessante sobre alguma reportagem, ora concordando com o repórter, ora discordando. Em todos os comentários, ele apresentava uma razão lógica para o seu ponto de vista. Parou de ler a revista apenas quando a sua mãe chegou.

— Achei que a senhora tivesse esquecido da minha consulta.

— Não esqueci, meu filho. Acabei a faxina na casa da dona Iolanda só agora. A doutora Beatriz já chegou?

— Já, sim. Daqui a pouco vai me chamar. Esta aqui é a Denise, a nova secretária.

— Muito prazer. Meu nome é Janaína.

— Parabéns pelo seu filho. Ele é uma criança muito amável.

Pouco depois, Robertinho e sua mãe entraram para o consultório. Após analisar os últimos exames, Beatriz concluiu que ele havia tido uma boa melhora em seu quadro geral de saúde.

Uma a uma, as crianças foram atendidas. A admiração de Denise pela doutora Beatriz aumentou, ao ver o carinho que ela dispensava a cada paciente, mesmo não recebendo um centavo pelo serviço.

 


O caroço que sentiu no seio direito trouxe preocupação a Rosemeire. Na família não havia nenhum histórico de câncer, mas ela já ou­viu dizer que o câncer de mama era de altíssima incidência no Brasil. Portanto, deveria estar preparada para qualquer resultado.

Durante o café da manhã, ela relatou a Artur sobre a sua ida ao medico. A notícia deixou o filho preocupado.

— Tem muito tempo que a senhora percebeu esse caroço?

— Não. Foi no último final de semana.

Deus permita que não seja nada de grave. De qualquer forma, é bom procurar o médico. Todo mal que é cortado no início produz menos dano. Quem indicou o médico para a senhora?

— Ee foi indicado pela doutora Beatriz, oncologista que trabalha na casa de Apoio, onde a Denise está cumprindo a pena. Aliás, quanto mais eu conheço a Denise, mais encantada eu fico com ela. Acho que você se apaixonou pela irmã errada.

— Eu não cheguei a ficar apaixonado pela Renata. Tive um encantamento com ela, mas já desisti. Ela está mais envolvida com o namorado do que eu imaginava. Curioso, quanto mais ela sofre, mais ela gosta desse cara.

Por que você não investe na Denise?

A senhora está louca de vontade para me ver namorando, não é, mamãe?

Desde que seja uma moça boa, que goste de você. Talvez a Denise se encaixe nesse perfil.

 


— Eu andei pensando sobre isso. Ela é muito bonita e parece ser carinhosa. Confesso que ela mexeu comigo também. Por acaso, a se­nhora continua desconfiada de que ela está interessada em mim?

— Desconfiada? Só não enxerga quem não quer! Está escrito nos olhos dela. Vocês, homens, não conseguem enxergar um palmo na frente do nariz, quando o assunto é mulher.

Artur tomou o último gole de café, levantou-se da mesa e desejou boa sorte à mãe na consulta com o mastologista. Em seguida, colocou o paletó que estava pendurado na cadeira e saiu.

Ao chegar à construtora, viu um recado em sua mesa para compare­cer à sala de reunião às nove horas da manhã. O assunto não foi adianta­do, deixando Artur intrigado. Então, dirigiu-se à sala de Renata.

— Você também foi convocada para uma reunião?

Fui sim.

— Por acaso, está sabendo do que se trata?

— Não. Também estou curiosa. Algo me diz que não é coisa boa. Desde que comecei a trabalhar aqui, as reuniões são agendadas com o mínimo de antecedência e todos ficam sabendo do que se trata.

— Tem razão. Em breve, saberemos. Vou voltar para a minha sala e esperar que me chamem.

A ansiedade de Artur aumentou. Tudo indicava que alguma notí­cia urgente e inesperada seria trazida à tona. Poderia ser boa ou ruim.

Alguns minutos depois, Artur caminhou para a sala de reuniões. Estavam presentes o doutor Alfredo, Morais, o seu braço direito, Olím­pio, que cuidava da área financeira, e Marta, a arquiteta mais antiga da construtora. A fisionomia tensa de todos sinalizava que a notícia não era boa. Mais um pouco e Renata também chegou. Assim que ela en­trou, o doutor Alfredo tomou um gole de água e deu início à reunião.

— Todos estão presentes. Podemos começar.

Renata e Artur trocaram um olhar, externando a mesma expressão de preocupação.

Inicialmente, gostaria de pedir desculpas por ter marcado a reu­nião sem avisar previamente.

Alfredo estava tenso. Ao colocar café na xícara, todos perceberam que suas mãos estavam trémulas.

— Nós estamos enfrentando dificuldades financeiras muito sérias.


Vocês estão vendo como o mercado imobiliário está parado. Somos obrigados a dar descontos altos para conseguirmos vender alguns poucos imóveis. Elaboramos um plano para tentar salvar a empresa da falência. Vamos ter que cortar na carne e sacrificar alguns funcionários valiosos. Não temos alternativa.

Alfredo olhou fixamente nos olhos dos dois e prosseguiu:

— Vocês dois estão na lista dos funcionários que serão demitidos. Lamento profundamente informá-los desta decisão. Confesso que, esta noite, eu não consegui pregar o olho, pensando em alguma alternativa. Infelizmente, não encontrei. Vamos ficar apenas com um engenheiro e uma arquiteta. Tanto eles, quanto eu, iremos nos desdobrar para tentar substituir vocês dois.

Renata assentiu com a cabeça, concordando com a decisão do patrão, mais os seus olhos ficaram cheios de lágrimas. Ela havia criado muitas expectativas em relação ao novo emprego. Seria uma experiência fascinante, bem como uma oportunidade excelente de crescimento profissional.

Aparentemente, Artur ficou menos abatido do que ela, demonstrando ter absorvido melhor o impacto da notícia.

— Foi um prazer trabalhar com o senhor. Eu entendo a posição da empresa — disse ele.

Com lágrimas nos olhos, Renata demonstrou compreensão com a atitude do patrão.

Eu fico triste, porque não tive tempo de desenvolver o traba­lho que pretendia. Mas, assim como o Artur, eu também entendo a posição da empresa.

Os olhos de Alfredo também estavam lacrimejando. Ele tinha um carinho especial por Artur e estava impressionado com a qualidade do trabalho de Renata. Com pesar, ele finalizou a reunião.

Vocês podem passar hoje mesmo na Administração de Recursos Humanos. Espero conseguir reerguer a empresa e contar com vocês, no futuro. Deus permita que esta fase comercial ruim seja a mais curta possível.

Um clima de velório instalou-se na sala de reunião. Renata retornou para a sua sala. Deveria começar a juntar os seus pertences. Ainda estava sob o impacto da notícia. A sensação do desemprego deixou gélido o seu espírito.

A situação de Artur era melhor, pois, por ter mais tempo de casa, teria vários direitos trabalhistas a receber. Era certo que ele estava precisando descansar por alguns dias, devido ao ritmo intenso de trabalho nos últimos meses. Não obstante, ausentar-se da cidade poderia significar a perda de alguma oportunidade interessante de trabalho.


Preocupado com a reação de Renata ante a notícia, ele decidiu ir à sala dela para consolá-la. Assim que abriu a porta, percebeu que ela ficou mais abatida do que havia imaginado. Renata estava com os cotovelos sobre a mesa, segurando a cabeça com as duas mãos, sendo nítido o seu desânimo diante da nova situação.

Vim ver como você está. Achei que a notícia deixou você bem triste.

— Deixou, sim — confessou Renata. — Eu estava muito envolvida com os projetos. Na verdade, esse envolvimento estava me ajudando a lidar com alguns problemas na minha vida pessoal. Acho que estava fazendo do trabalho uma fuga. Certo mesmo é que agora eu estarei desocupada. Detesto ficar à toa. O pior é que as perspectivas de emprego não são boas. A gente anda pelas ruas e vê poucas obras. Está difícil trabalhar na área de constru­ção civil. Este país não melhora. Os presidentes mudam, mas o Brasil, não. Dizem que é o país do futuro, mas eu ouço isso desde que era garotinha. Que futuro é esse que nunca chega? Estarei viva para vê-lo?

Artur sentou-se na cadeira, do outro lado da mesa. Ficou obser­vando sua colega por alguns instantes, imaginando algo para dizer que pudesse transmitir esperança para ela.

— Realmente, a economia do país cresce em ritmo lento e o desemprego é cada vez maior, mas ficar desempregado, principalmente em uma situação como a que você tem, não é o pior dos problemas — ponderou Artur.

— Por que você pensa assim?

— Há situações bem piores que podem acontecer com uma pessoa. Talvez eu esteja pensando assim porque ainda estou sob o trauma do acidente. Eu perdi o meu emprego, é verdade, mas eu tenho saúde, inteli­gência e, acima de tudo, eu estou vivo. O que significa perder o emprego, diante do aperto por que passei? Todas as pessoas têm problemas em suas vidas. O importante é dar ao problema o valor que ele merece, acei­tando o que não pode ser mudado e tendo coragem para mudar o que for possível. Pode ter certeza de uma coisa: as melhores oportunidades aparecem nos momentos de crise. Aqueles que têm melhor visão saem lucrando. Podemos ter perdido o emprego para conseguirmos um outro melhor. Lembre que você não tem filhos e o seu pai tem condições de arcar com as suas despesas, enquanto não aparecer outro trabalho.


— Eu não quero ficar dependendo do meu pai. Não foi para isso que estudei durante todos esses anos. Acho que você está um pouco fora da realidade com esse otimismo exagerado.

Tudo é possível — tornou Artur. — Talvez o acidente tenha me deixado mais otimista. Independente do que venha a acontecer, já estou mais feliz pelo simples fato de estar mais otimista.

— Deus queira que o seu otimismo me contagie. Quero continuar sua amiga. Eu só tenho a agradecer toda a força que você me deu, sobretudo quando passei por aqueles momentos difíceis durante a prisão da Denise. Jamais vou esquecer a sua solidariedade. Conhecer você foi uma das melhores coisas que me aconteceram ultimamente — concluiu Renata, olhando no fundo dos olhos de Artur, sem esconder a admiração que nutria por ele.

— Obrigado. Eu também gosto muito de você e tenho certeza de que não perderemos contato. Vamos dar as mãos para conse­guirmos outro emprego.

— Claro! Mudando de assunto, você irá à formatura da minha irmã?

— Com certeza. Não apenas eu, mas também a minha mãe faz questão de ir. A Denise nos convidou para um jantar, em um restaurante italiano. Será uma noite divertida.

— É bom saber que não precisamos nos despedir. As despedidas são tristes e trazem a idéia de que as pessoas demorarão a se encontrar novamente. Quero apenas abraçá-lo — finalizou Renata.

Naquele momento, Artur sentiu que ela era sua amiga e assim de­veria continuar. Ele detectou que a admiração que nutria por ela estava mais ligada à amizade do que qualquer outro interesse.

Após se abraçarem, foram juntos até o estacionamento, onde cada um seguiu o seu caminho.

Renata estava triste por ter que dar a notícia do desemprego ao pai em uma semana de alegria para ele, com a formatura da filha caçula. Artur estava mais preocupado com o caroço que apareceu no seio da mãe e desejava ter notícias da consulta. A parte financeira não era a que mais o preocupava, pois tinha uma aplicação no banco com a qual cobriria as suas despesas no período em que estivesse desempregado.

 

Rosemeire chegou ao consultório do doutor Rafael dez minutos antes do horário marcado. O prédio era novo e possuía vários equipamentos de segurança. O consultório ocupava duas salas no décimo-primeiro andar. Quando Rosemeire entrou, viu uma mulher sentada no sofá, com um lenço indiano envolto na cabeça para esconder a calvície. Além dela, apenas a secretária.

— Você deve ser a Rosemeire, que tem consulta marcada para as onze e meia.

Sou eu mesma.

— O doutor Rafael está terminando uma consulta. Depois, irá analisar alguns exames dessa senhora. Logo após, será a sua vez. Não vai demorar.

— Tudo bem. Eu aguardo.

Quando estendeu a mão para pegar a revista que estava sobre um móvel à sua direita, Rosemeire ouviu o barulho da porta se abrindo. Uma mulher jovem, muito bonita, saiu lá de dentro com um sorriso nos lábios, demonstrando alívio. Em seguida, a senhora que estava sentada no sofá foi convidada a entrar.

A medida que esperava pela consulta, crescia a ansiedade de Rosemeire. O tempo passava e a consulta daquela senhora não acabava, gerando impaciência e até mesmo uma certa antipatia pelo médico, antes mesmo de conhecê-lo.

Após meia hora, a paciente que antecedeu Rosemeire saiu cabisbaixa, enxugando as lágrimas com um lenço branco.


Imediatamente, a secretária encaminhou-a para a sala do doutor Rafael. Rosemeire estava irritada com o atraso. Pensou em reclamar com ele, afinal a consulta era particular. "Se fosse através do convénio, o atraso seria admissível", raciocinava.

Assim que abriu a porta, o sorriso meigo do médico acabou desarmando o seu espírito de contrariedade.

— Perdoe-me o atraso. O caso daquela senhora é grave e eu tive que atendê-la em caráter de urgência, sem marcação de consulta — disse o médico, enquanto estendia a mão para cumprimentá-la.

— Está tudo bem, doutor. Eu sei que esses atropelos acontecem em to­dos os lugares. Não faz mal, eu não tenho nenhum compromisso agora.

— Em que posso ajudá-la?

— Eu senti um caroço no seio direito enquanto estava tomando ba­nho no último fim de semana e resolvi consultar. Sei da possibilidade de se tratar de algum tumor maligno e, nesse caso, quanto antes iniciar o tratamento, mais chances eu terei de ser curada.

— Exato. Seu ponto de vista é correto. Por favor, sente-se naquela cadeira; eu vou dar uma examinada.

Rosemeire levantou-se e caminhou para a cadeira que estava a sua direita.

O mastologista sentou-se em outra cadeira e iniciou o exame, após ela apontar com o dedo indicador o local onde estava o caroço.

— De fato, tem um nódulo aqui. Desde quando você não faz mamografia?

— Dois anos.

— Vou fazer um pedido de mamografia. A senhora tem antecedente de câncer na família?

— Não. A minha família é muito pequena. O meu pai morreu em um acidente de carro. Eu não tenho irmãos. A minha mãe está mais saudável do que eu.

— No aspecto emocional, houve algum fato que aumentou o nível de estresse da senhora?

Rosemeire já esperava por esta pergunta. Sabia que várias doenças, dentre elas o câncer, poderiam ter o estresse entre uma de suas causas. A separação do marido, seguida por todo um processo de mágoa, ainda instalada em seu coração, poderia estar diretamente ligada a uma eventual doença.

 


— De fato, eu passei por um processo doloroso de separação. Foi um fato que me deixou bastante magoada.

A senhora procurou algum tipo de ajuda terapêutica?  

— Eu até comecei a fazer terapia, mas parei logo depois.    

— Algum auxílio espiritual?

— Nao. Na verdade, eu não acreditava que alguém pudesse me ajudar. Para ser franca, eu cheguei a desejar a morte, algumas vezes.

— Dona Rosemeire, eu não quero entrar em detalhes da sua vida pessoal, mas a senhora é uma mulher jovem e muito bonita, com todas as condições de reconstruir a sua vida ao lado de outra pessoa. Hoje em dia, todos nós estamos sujeitos a vários tipos de infortúnios. Existem recursos que nos ajudam a lidar com as perdas, de forma a trazer paz e alegria aos nossos corações. Independente dos resultados dos exames, eu acho que a senhora deve procurar uma ajuda externa para aceitar a separação e dissolver a mágoa que está no seu coração, porque, se isso não tiver deixado a senhora doente, ainda poderá deixar — advertiu o jovem doutor.

Rosemeire ficou encarando o médico por alguns segundos, consciente de que ele estava correto em sua explanação. Depois, respondeu:

— Eu sei que o senhor tem razão. Preciso me esforçar para superar , essa etapa da minha vida.

Fará muito bem. A senhora pode trazer o resultado da mamografia amanhã?

Perfeitamente. A que horas posso retornar?

— Na parte da manhã, entre onze e meia e meio dia.

Ali se despediram e Rosemeire saiu bem impressionada com o doutor Rafael, mudando o conceito que havia formado dele, minutos antes de conhecê-lo pessoalmente.

No trajeto para casa, o pensamento de estar com uma doença mais grave do que imaginava foi motivo de preocupação. Apesar do momento difícil de sua vida, não estava preparada para morrer. Chegando em casa, surpreendeu-se ao encontrar Artur.

— O que você está fazendo aqui? Não deveria estar no trabalho?

— Deveria, mas aconteceu um imprevisto. Depois eu conto. Antes, quero saber sobre a consulta.

Artur percebeu certa tensão na fisionomia de sua mãe. Rosemeire sentou-se na cadeira, deixou a bolsa sobre a mesa e relatou a consulta.

— Tive uma ótima impressão do médico. Vou fazer a mamografia amanhã e retornarei ao consultório dele entre onze e meia e meio dia.


— Como está a sua expectativa?

— Estou com medo. Depois de tudo que eu tenho enfrentado em minha vida, encarar uma doença tão grave, como o câncer, não é brin­cadeira. Estou me sentindo enfraquecida para lidar com essa situação. Deus permita que o tumor não seja maligno.

Artur decidiu falar sobre a perda do emprego. Sem rodeios, foi direto ao assunto.

— Amanhã, eu ficarei por conta da senhora. Vou levá-la para fazer mamografia e depois iremos juntos ao médico. Quero ficar ao seu lado.

E o seu trabalho? Está podendo sair assim, no meio do expediente? Artur coçou a cabeça, passou a mão na testa e contou o ocorrido:

— Eu fui demitido.

— Demitido? — perguntou Rosemeire, parecendo não acreditar na notícia.

— Isso mesmo. Entrei no plano de enxugamento das despesas. A construtora tem apenas mais três obras em andamento. O doutor Al­fredo demitiu também a Renata. Eu compreendo o posicionamento do dono da empresa. Na verdade, ele está um pouco desanimado de mexer com construção. O lucro caiu bastante ultimamente e ele já não tem o mesmo vigor de alguns anos atrás.

Rosemeire sabia das dificuldades para a obtenção de novo emprego e temeu que o filho ficasse um bom tempo sem qualquer ocupação.

— Você já tem alguma ideia do que irá fazer?

— Vou deixar o meu currículo em outras firmas e comunicar aos amigos que estou desempregado, a fim de que eles me avisem de al­guma oportunidade.

— É impressão minha ou você não está muito abalado? — pergun­tou Rosemeire.

— Chateado eu estou, mas os problemas já não me incomodam tan­to. Era só um emprego. Em breve estarei empregado. É só ter paciência e correr atrás. Depois de ter renascido após o acidente, não é qualquer notícia ruim que irá me abalar. O milagre do meu salvamento indica que Deus deve ter um propósito muito bom para a minha vida. Vou descobrir que propósito é esse.

Rosemeire sentiu certa inveja do otimismo do filho. Queria ela pensar da mesma forma para a sua vida.

Acho que você é um felizardo, por Deus ter um propósito para a sua vida. Estou vendo tantas pessoas sofrerem que não consigo acreditar que Deus tenha um propósito para a vida delas.


Não fale assim, mamãe. Deus tem um propósito para a vida de todo mundo. O problema é que as pessoas acham que vieram ao mundo apenas para se divertir e esquecem de tentar saber qual é o propósito que Deus tem para a vida delas.

Incomodada com a tranquilidade do filho diante da perda do emprego, Rosemeire tornou a questioná- lo, demonstrando impaciência.

Você não acha que todos nós temos o direito à felicidade?

— Acho, sim, mas nós também temos deveres, sobretudo com o bem-estar do nosso próximo. O problema é que nós somos egocêntricos e só enxergamos os nossos problemas e as nossas necessi­dades. Devemos tentar aprender as leis de Deus. Há regras a serem seguidas. Temos que aprender a agir com amor em todas as circunstâncias. Estou acreditando que todos nós temos um potencial que sequer conhecemos, porque temos medo de nos conhecer melhor. Se fizermos uma análise profunda sobre quem somos e sobre a nossa missão, certamente descobriremos o caminho a seguir. Muitos infortúnios acontecem em nossas vidas, quando nos desviamos de nossos caminhos. Deus deseja que nós coloquemos os nossos dons a serviço da humanidade. Ele tem um plano para a Terra. Só que ele realizará esse plano através de nós. Cada ser humano precisa descobrir o seu papel, dentro desse plano.

A medida que o filho falava, aumentava a expressão de espanto de Rosemeire. Aquele era um assunto pelo qual ele jamais havia demonstrado interesse.

— Artur, o que está acontecendo com você? Que tipo de lugar você está frequentando?

Artur sorriu, ante a perplexidade materna. Ao olhar fixamente nos olhos de sua mãe, ele percebeu que teria uma importante missão para ajudá-la a encontrar a paz perdida após a separação. Pacientemente, respondeu:

— Não estou frequentando lugar algum. Simplesmente estou co­meçando a enxergar que a vida é muito mais abrangente do que imaginava. Há muitos mistérios a serem desvendados e verdades a serem descobertas. A humanidade está engatinhando, apesar do avanço da ciência. A Terra passará por um período de revelações surpreendentes, sinto isso. Quero me preparar para um novo padrão que será estabelecido no nosso planeta. Há uma força imensa, dentro de mim, querendo descobrir logo as verdades que serão trazidas à tona. Aliás, quero ajudar a esclarecer a população sobre essas verdades. Arrependo-me de não ter enxergado isso antes. Não faz mal, tudo tem o seu tempo.

Rosemeire balançava a cabeça, em sinal de reprovação às palavras do filho. Chegou a pensar que ele estivesse delirando.


— Você está muito esquisito.

Com o olhar distante dali, Artur completou:

Grave bem o que vou falar: quero ultrapassar a fronteira do meu saber. Nada na vida é mais importante do que adquirir conhecimenlo e saber utilizá-lo. Freud já dizia: "todo poder emana do conhecimento". Quero descobrir o meu poder pessoal, que emana dos meus talentos e da minha força interior; quero exercer um autodomínio sobre as minhãs ações; quero vencer as minhas limitações e os meus medos. O tempo está passando muito rápido. Está na hora de agir!

Rosemeire ficou boquiaberta com as palavras do filho. Pelo visto, a mudança de comportamento, após o acidente, havia sido mais radical do que ela estava imaginando. Decidiu levantar-se para tomar um copo de água.

 

Em outra parte da cidade, Renata e Adriano almoçavam em um restaurante de uma famosa rede de alimentação fastfood.

— Eu estava adorando o emprego. Já estava acostumada com as pessoas, na construtora. Por essa, eu não esperava...

— Você conseguirá outro emprego, meu amor. Arquiteta competente como você não está fácil de encontrar.

— Engano seu. Eu conheço algumas que estão desempregadas.

— Avise-me, se você precisar de dinheiro. Eu posso emprestar alguma quantia, enquanto você não consegue outro emprego.

— Obrigada. Não será preciso. Eu tenho uma pequena reserva e papai tem condições de me ajudar quando o meu dinheiro acabar.

Adriano, demonstrando estar sensibilizado com a situação da namorada, acariciou seus cabelos e tornou a consolá-la.

— Não gosto de ver você triste assim. Acho que fico mais triste do que você. O pior é que eu não consigo ajudá-la.

— Você está me ajudando. Só de estar ouvindo as minhas lamentações já é uma ajuda.


— Conte comigo para o que der e vier.

— Pode deixar. É bom saber que tenho um homem que está ao meu lado para os momentos bons e os ruins.

Após o almoço, Adriano deixou Renata em casa e seguiu para o trabalho. Em sua mente, a certeza de ter valido a pena o dinheiro gasto com o pai-de-santo para afastar a namorada de Artur. A perda do emprego de Renata, além de concretizar o intento de Adriano, causaria uma baixa auto-estima nela, o que poderia ajudá-lo a reconquistá-la.

 

Conforme combinado, Artur levou sua mãe para a realização da mamograria. Rosemeire não havia dormido bem durante a noite e a sua fisionomia estava visivelmente abatida. A preocupação estava estampada em sua face. A possibilidade de perder uma mama aos quarenta e sete anos de idade era outro fator deprimente.

Enquanto Rosemeire realizava a mamografia, Artur esperava em uma sala. O exame causou menos desconforto do que ela imaginou. O resullado ficaria pronto em meia hora e ela deveria levá-lo imediata­mente ao doutor Rafael.

— Estou com medo, meu filho. A minha intuição não está boa.

— Procure manter bom ânimo, mamãe. O tumor pode ser benigno. Ainda que seja maligno, a medicina evoluiu muito e o câncer tem cura, hoje em dia. Vamos aguardar o resultado com confiança.

— Independente do resultado, sinto que preciso esquecer tudo de ruim que aconteceu recentemente em minha vida.

— Fico feliz em saber que a senhora está pensando dessa forma. A vida continua e a gente tem que seguir em frente, não é mesmo?

A conversa foi interrompida com o toque do celular de Artur. Ao olhar no visor, sentiu o coração bater mais forte de alegria ao ler o nome de Denise.

Só agora eu fiquei sabendo que você e Renata foram despedidos. Ontem, quando ela conversou com o meu pai, eu já estava dormin­do. Estou telefonando para externar a minha solidariedade. Às vezes, a gente fica querendo conversar com alguém, nesses momentos difíceis.


— Obrigado pelo seu apoio. Eu não esperava perder o emprego, mas isso também faz parte da vida. Agora, vou correr atrás de outro trabalho. Por enquanto, vou ficar mais próximo da mamãe. Estamos indo ao mastologista levar o resultado da mamografia.

— Diga a ela que estou torcendo para tudo dar certo. Tenho certeza de que esse mastologista é um excelente profissional. Do contrário, não seria indicado pela doutora Beatriz. Aguardo vocês na minha formatura.

Quando Artur desligou o telefone, Rosemeire não perdeu a oportunidade de elogiar Denise.

Eu já disse que essa moça está apaixonada por você. Ela é uma menina de muito valor. Aproveite esta oportunidade. Não é todo dia que o cavalo passa arreado na porta da nossa casa. Quando ele passa, nós temos que aproveitar a oportunidade.

Enquanto guardava o telefone no bolso, Artur refletia sobre a pon­deração de sua mãe.

— Estou começando a achar que a senhora tem razão. O meu cora­ção bateu mais rápido quando vi que era ela no telefone.

— Coração de mãe não costuma errar.

Artur deu um sorriso, demonstrando alegria pelo flerte que estava rolando entre ele e Denise.

Pegaram o elevador e subiram até o andar onde ficava o consultório do doutor Rafael.

— Ele já está chegando — disse a secretária.

Nesse exato momento, o doutor Rafael entrou pela sala, cumprimentando a todos, ocasião em que Rosemeire apresentou seu filho para ele. O médico pediu à secretária um copo de água e abriu a porta para a paciente e seu filho entrarem.

Pouco depois, o mastologista abriu o exame. Havia uma anotaçã feita pelo radiologista. A expressão do médico estava séria. Em silêncio ele analisava cuidadosamente o exame. Rosemeire percebeu que ele ficou preocupado, após analisar a mamografia.

— Então, doutor? O que o senhor me diz?

— Em princípio, o resultado não está bom. Há algumas anormali­dades detectadas. Vamos precisar fazer uma biópsia. Gostaria que fosse o mais rápido possível.

Rosemeire deixou o corpo deslizar pela cadeira. A notícia veio como um nocaute.


— Como assim, doutor?

Os olhos dela encheram-se de lágrimas. Os seus lábios começaram tremer. Artur afagou seus cabelos, tentando confortá-la.

— Eu não posso dar nenhum parecer conclusivo agora, mas, pelo resultado da mamograna, há uma forte suspeita de que o tumor seja maligno.

Meu Deus, ajude-me! — exclamou Rosemeire, levantando a cabeça para o alto.

— Calma! O doutor falou que a senhora fará outro exame. Deus é grande — disse Artur, apertando as mãos da mãe.

Por que o senhor está pensando que o tumor é maligno? — indagou Rosemeire.

Pelo tipo de calcificação do nódulo.

Quais são as chances de cura se ficar constatado que estou com câncer? — tornou ela.

Em torno de setenta e cinco por cento, se não houver envolvimento metastático dos linfonodos axilares.

Caso a cirurgia seja necessária, eu vou perder o meu seio todo?

— Talvez não. Há a possibilidade de fazermos a quadrantectomia, retirando apenas parte da mama. No mesmo ato, pode-se fazer a re­construção do seio.

— O seio fica muito mutilado? — tornou Rosemeire.

— Nada fica perfeito como a obra de Deus, mas esteticamente ficará bom. Houve um enorme avanço da medicina nessa área.

Mamãe, não é hora de a senhora ficar preocupada com a estética — disse Artur, recriminando a preocupação dela com a aparência do seio após uma provável cirurgia.

Rosemeire não deu ouvidos à observação do filho. Voltando-se para o médico, perguntou:

Quando eu farei a biópsia?

Coincidentemente, uma paciente desmarcou uma biópsia que faria amanhã. Eu tenho disponível o horário que era dela, às nove horas.

— Por mim, está bom. Onde será o procedimento?

— Será no hospital aqui em frente. A senhora pode chegar às oito e meia da manhã. O procedimento da biópsia é tranquilo, feito com anestesia local. Nós vamos retirar fragmentos de tecidos alterados e encaminhá-los para análise. Se tudo correr bem, a senhora retornará para casa amanhã mesmo.


Ao sair do consultório, Rosemeire já estava menos nervosa, acreditava que estava em boas mãos e que receberia o melhor tratamento possível. O plano de saúde cobriria os gastos. Portanto, tudo que tinha a fazer era entregar a sua sorte nas mãos de Deus.

— Estou com fome. Desde ontem que não me alimento direito, preocupada com a mamografia. Vamos almoçar?

— Vamos. O que a senhora está com vontade de comer?

— Galinha caipira ensopada, com angu, arroz e couve. O prato que a minha mãe sabe fazer melhor.

— Conheço um restaurante típico muito bom. Vamos lá.

— Por via de dúvida, quero fazer tudo o que tiver vontade. Não sei até quando estarei viva.

— Não fale assim. Nada de ficar achando que está no fim da vida. Faça-me o favor!

O restaurante ficava a dez quilómetros do centro da cidade, no alto de uma montanha. Da varanda do restaurante, tinha-se uma bela paisagem. O canto dos pássaros trazia ainda mais paz àquele local. No quintal havia uma horta plantada, de onde se recolhia a verdura servida nas refeições. O prato foi servido quarenta minutos após o pedido. A demora foi compensada pelo sabor da comida. Quando deixaram o restaurante, Rosemeire já estava mais tranquila. Assim que chegou em casa, ela decidiu telefonar para sua genitora.  

— Mamãe, como a senhora está passando?     

— Eu estou bem. E você, melhorou?  

— Com relação à depressão, estou melhor. Só que agora surgiu outro problema...

Por uma fração de segundos, Maria ficou imaginando qual era o novo problema que estava afligindo sua filha.

— O que foi desta vez?

— Eu senti um nódulo no seio e fui ao médico. Fiz a mamografia e ele ficou preocupado com o exame. Há indícios de que o tumor seja maligno. Amanhã, eu farei uma biópsia.

Maria sentiu a pressão abaixar. Ultimamente, sempre que a filha lhe telefonava, era para dar uma notícia ruim. Até quando persistiria essa situação?

— O que mais o médico falou?

— Ele disse que, se não houver metástase, as chances de cura são de setenta e cinco por cento.


— Deus proteja você, minha filha. Tenha fé de que não há de ser nada de grave. Você está confiante?

— Não sei, mamãe. Estou um pouco confusa. Tudo está acontecendo muito rápido. De qualquer forma, estou com muita vontade de ficar curada, caso o resultado não seja bom. Eu irei lutar, com todas as minhas forças, pela minha vida. Estou disposta a viver e buscar a felicidade. O que passou, passou. Chega de sofrimento.

— É assim que se fala! Assim que sair o resultado, favor me avisar. Caso seja preciso, irei a Belo Horizonte imediatamente. O movimento da pousada está bem tranquilo.

Obrigada, mamãe. Qualquer novidade, eu aviso a senhora.

Após desligar o telefone, Maria concluiu que deveria visitar a filha independente do resultado dos exames. A presença dela poderia ser importante para Rosemeire superar a depressão.

 

O telefone tocou quando Artur havia acabado de estacionar o carro em frente à casa de seu pai. Novamente, sentiu uma sensação gostosa quando viu que era Denise.

— Estou ligando para ter notícias de sua mãe. O que o médico disse sobre a mamografia?

A notícia não é boa. Ele não gostou do resultado e pediu a reali­zação de uma biópsia. Ele disse que há urgência em verificar o quadro dela, porque o tumor tem características cancerígenas. Ela ficou muito abatida quando recebeu a notícia, mas já está um pouco melhor. Conversamos bastante e ela está mais confiante. Eu a deixei em casa e agora estou chegando à casa do papai para dar a notícia.

— O resultado da biópsia pode indicar algo de menos grave — disse Denise, tentando consolar Artur. — Não adianta se desesperar. Além do mais, o câncer hoje é uma doença que tem cura. Ela precisará muito do seu apoio. Amanhã, irei visitá-la.

— Tenho certeza de que ela ficará muito feliz com a sua presença. Ela fará a biópsia às nove horas da manhã. O procedimento não é muito demorado.

Então, até amanhã.

— Um momento, Denise.

— O que foi?

Artur hesitou, sem saber se deveria dizer o que estava sentindo.

— Há algo que eu gostaria de falar.


Um momento de silêncio se fez. Ansiosa, Denise esperou pelas suas palavras. Aqueles poucos segundos custaram a passar. Artur sentia-a desencorajado para dizer.

— Artur, pode falar, eu estou ouvindo.

Mais um pouco e ele criou coragem para dizer:

— O seu apoio está sendo fundamental para mim. Fico feliz quando toca o telefone e vejo que é você. Tem pouco tempo que nos conheçomos, mas você está sendo importante para mim, neste momento.

Denise sentiu um frio na barriga. Começou a achar que estava conseguindo conquistar o amor de Artur. A sua voz saiu rouca, talvez pela emoção:

Não sei dizer o motivo, mas desde o momento em que fui visita-lo, depois do acidente, tenho pensado bastante em você. No início, era mais um sentimento de gratidão por tudo o que você havia feito. Depois, a gratidão foi cedendo a um sentimento de admiração. Tenho uma sensação estranha de que somos antigos conhecidos e de que temos muito em comum. Não sei se deveria falar isso.

Artur sentiu o coração transbordar de alegria com a confissão de Denise.

— Posso afirmar que é bom ouvir isso. Não será apenas a minha mãe que ficará feliz com a sua visita.

Denise sorriu, parecendo não acreditar no que ouvia.

— Então, até amanhã.

Em seguida, ela desligou o telefone, tendo nos lábios um sorriso que demonstrava a esperança de começar a viver um grande amor.

Renata estava na cozinha, fazendo café, e ouviu a conversa entre Denise e Artur. Pôde perceber que a irmã estava tendo progressos em seu objetivo de conquistá-lo e isso fez com que sentisse ciúme. No seu íntimo, estava cada vez mais convencida de que havia tomado a decisão errada ao reatar o namoro com Adriano, desprezando as investidas do ex-colega de trabalho.

Após desligar o telefone, Artur deu alguns passos e tocou o interfone na casa do seu pai. Quando saiu do elevador, seu pai já o esperava na porta da sala.

— Entre. Está tudo bem?

Pela expressão do filho, Alexandre percebeu que o assunto que o levara ali tinha uma certa gravidade.

Aconteceu alguma coisa?

— Aconteceu, sim.


— O que houve?

— Infelizmente, o que me traz aqui é uma notícia preocupante.

— O que aconteceu? É algo relacionado à sua mãe?

Artur balançou a cabeça, fazendo sinal afirmativo.

Alexandre sentiu o coração disparar, preocupado com o que Artur tinha para lhe dizer.

— Fale logo, meu filho!

— Ela está com um tumor no seio. Fez a mamografia hoje e, amanhã, realizará uma biópsia. Segundo o médico, há forte probabilidade do tumor ser maligno.

Alexandre ficou estático, como se não estivesse acreditando no que acabara de ouvir. Ante a perplexidade do pai, Artur prosseguiu:

— Ela ficou abatida com a notícia. Tudo aconteceu muito rápido. No final de semana, ela sentiu um caroço no seio. Na segunda-feira, telefonou para a Denise, pedindo que a oncologista da Casa de Apoio indicasse um mastologista. Ontem, ela foi ao médico e, hoje, ela fez a mamografia. A biópsia será feita amanhã no hospital, em frente ao próprio consultório.

— Minha Nossa Senhora! — exclamou Alexandre, enquanto levava a mão à boca.

Os olhos dele ficaram carregados de lágrimas.

— Quando ficará pronto o resultado da biópsia?

— Não sei dizer.

— Acho que vou visitá-la para levar o meu apoio. O que você acha?

— Talvez não seja propício o senhor aproximar-se dela neste momento. Estou apenas trazendo a notícia, porque acho que é do seu interesse saber. Vamos aguardar o desenrolar dos fatos.

— Você tem razão, Artur. Agora, a minha intervenção não será benéfica. Deus queira que tudo transcorra bem. Eu vou rezar por ela.

— Obrigado, papai.

— A sua mãe precisa muito de você neste momento. Quero que você me mantenha a par de tudo que acontecer. Não deixe de falar nada comigo. Eu farei o que for preciso para ajudá-la.

— Eu sei. Estarei ao lado dela o tempo que for preciso, ainda mais agora que perdi o emprego.

A expressão de preocupação na face de Alexandre deu lugar à de espanto, após ouvir a notícia da demissão do filho.


— Como assim?   

— Eu perdi o emprego. A construtora está passando por uma grave crise financeira. Do jeito que as coisas estão caminhando, em pouco tempo irá à falência. Eu e a Renata fomos demitidos.

Alexandre coçou a cabeça, em sinal de preocupação.

— Vou conversar com alguns amigos influentes. Talvez conheçam o dono de alguma outra construtora. Você está precisando de dinheiro?

— Não. Eu tenho uma quantia razoável aplicada no banco. Obrigado.

— A que horas será a biópsia?

— Às nove horas da manhã. Ela deve receber alta no final da tarde.

— Você aceita um café?

— Obrigado, papai. Preciso ir.

Despediram-se com um abraço apertado e Artur retornou para sua casa.

Enquanto dirigia, pensava no melhor meio de encorajar a sua mãe para enfrentar um possível câncer de mama. De repente, em sua mente surgiu a imagem do homem que apareceu em seu sonho e, depois, ajudou a sair do carro, quando do acidente. Quem seria ele? Qual razão de ter aparecido em sua vida? Seria um anjo?

Chegando em casa, encontrou a mãe costurando uma camisa sua.

Eu estava arrumando o seu guarda-roupa e separei algumas camisas que estão furadas.

Artur sentou-se no sofá, ao lado de sua mãe. Estava em dúvida sobre se falava a respeito do homem com o qual sonhou. Decidiu falar na expectativa de que sua mãe trouxesse alguma pista a respeito dele.

— Mãe, recentemente aconteceram dois fatos interessantes em minha vida. Eu preferi omitir da senhora, mas agora acho que devo falar. Aconteceu um milagre e acho importante falar para a senhora sentir o poder de Deus

Rosemeire interrompeu a costura, tirou os óculos e perguntou:

— Que fatos são esses?

— Alguns dias atrás, eu tive um sonho com um homem. Eu estava em uma ponte muito bonita, em forma de arco, que cruzava um rio largo. Esse homem aproximou-se e eu tive uma forte sensação de já conhecê-lo. Eu perguntei a ele se nós já nos conhecíamos e ele respondeu que provavelmente tínhamos amigos em comum. Depois, eu perguntei se ele morava naquela cidade, tendo ele respondido que já morou ali, mas estava morando em outro lugar, onde ninguém guardava mágoa.


De repente, ele me perguntou se havia uma pessoa muito especial em minha vida da qual eu havia me afastado. Eu fiquei surpreso, sem saber o que responder. Ele tornou a perguntar se havia uma outra pessoa muito próxima a mim que estava precisando exercer o perdão. Foi então que eu perguntei: quem é você? Ele disse que estava apenas fazendo um alerta para eu não continuar errando. Depois, ele foi embora. Eu tentei segui-lo, mas não consegui sair do lugar.

Estranho esse sonho. Foi antes de você procurar o seu pai?

— Isso ocorreu às vésperas da prisão da Denise.

— Você acha que ele se referiu ao seu pai, quando mencionou uma pessoa de quem você havia se afastado?

Eu tenho certeza. Ele foi claro ao dizer que, tanto eu, quanto uma pessoa muito próxima a mim, estávamos precisando exercer o perdão. O papai é quem precisa do perdão e a pessoa próxima a mim é você.

— Eu sei que preciso perdoar o seu pai. Tenho pensado muito a esse respeito ultimamente.

— Esse senhor do sonho voltou a aparecer em minha vida.

— E o que ele disse dessa vez? Que, se eu não perdoar o seu pai, vou morrer de câncer?

— Não ridicularize a situação. Ele não disse nada na segunda vez.

— Se ele não disse nada, por que apareceu em seu sonho novamente?

— Ele não me apareceu em sonho. Ele me ajudou a sair do carro, quando tive o acidente.

Rosemeire deu um sorriso irônico e perguntou:

— Artur, do que você está querendo me convencer? Não precisa inventar histórias mirabolantes. Vá logo ao cerne da questão.

A incredulidade de sua mãe deixou Artur irritado.

— Eu não estou tentando convencê-la a fazer nada. Também não estou ficando louco. Eu estava com dificuldade em tirar o cinto de segurança. De repente, senti uma mão puxando o meu braço. Aí, eu vi que o cinto estava destravado. Consegui sair pela janela e fiquei com a impressão de ter visto um vulto idêntico a esse homem. Eu me virei para procurá-lo e já não o vi mais. Não havia ninguém próximo a mim. Fiquei com a sensação de que se tratava de um anjo.

— Você estava em estado de choque. Não teve essa impressão a sério.

— Eu gostaria que a senhora acreditasse em mim. Milagres existem e eu sou testemunha de um que ocorreu comigo.


A incredulidade de Rosemeire estava estampada em sua face. Artur viu que não adiantava continuar falando daquele fato, sob pena de ficar ainda mais irritado, e resolveu mudar de assunto.

A Denise telefonou para ter notícias suas e mandou um abraço. Talvez, ela vá visitá-la, amanhã.

Sempre que Artur fazia algum comentário sobre Denise, a fisionomia de sua mãe ficava mais leve.

— Estou com saudades dela. Como está o relacionamento de vocês?

A senhora não perde por aguardar as cenas do próximo capítulo. Rosemeire deu um sorriso, demonstrando o seu contentamento e in­dicando ter entendido perfeitamente a disposição do filho em investir no relacionamento com aquela moça de beleza ímpar e coração doce, a qual exercia uma misteriosa e pura atração sobre ela, como se entre as duas houvesse mais pontos em comum do que as aparências demonstravam.

 

Alexandre não conseguiu dormir direito durante a noite que antecedeu a biópsia de sua ex-esposa. O sono sempre era interrompido por algum pesadelo, e aí ele custava a pregar os olhos novamente. A imagem de Rosemeire não saía da sua cabeça. Como em um filme, lembrou-se de todos os momentos importantes que tiveram, desde o dia em que se conheceram em Trancoso, até o dia em que ele saiu de casa.

Decidiu que deveria fazer o possível para ajudar Rosemeire. Caso necessário, iria inclusive chamá-la para terem uma conversa franca, na qual poderiam expressar sentimentos represados.

Na casa de Rosemeire, ela e Artur já estavam de saída para o hospital. Rosemeire parou em frente à imagem de Nossa Senhora Aparecida e pediu proteção. Não se lembrava qual teria sido a última vez em que tinha recorrido ao socorro da santa de sua devoção. Ultimamente, a única função da imagem era decorar o ambiente.

Conforme combinado, chegaram ao hospital às oito e trinta, meia hora antes do horário marcado para a biópsia.

Rosemeire assinou os documentos apresentados pelo hospital, a fim de que o convênio cobrisse o custo do exame, e ficou aguardando ser chamada.

Decorridos alguns minutos, um enfermeiro apareceu e chamou pelo seu nome. Uma forte ansiedade tomou conta dela. O resultado daquele exame diria a gravidade do tumor. Quando viu o doutor Rafael, ela ficou mais tranquila.


— Está tudo bem?

— Mais ou menos. A apreensão é muito grande.

— Como eu disse, o procedimento é simples. Nós faremos uma anestesia local e, se tudo correr bem, terminaremos em uma hora.

— Em quanto tempo fica pronto o resultado?

— Em cinco dias.

Rosemeire achou que aqueles dias demorariam uma verdadeira eternidade. Sentiu-se angustiada só de imaginar a espera pelo resultado.

— Não vou pensar em outra coisa nesses próximos dias.

— O importante é que você está tomando as medidas necessárias. — tornou o médico, procurando encorajá-la. — Se o tumor for maligno, vamos derrotá-lo. A confiança é fundamental para vencer qualquer doença. Você não ouviu falar que a fé remove montanhas?

As palavras do médico seduziram Rosemeire, deixando-a mais confiante. O doutor Rafael tinha um olhar bondoso, de alguém que faz da profissão um meio de cumprir uma missão. A sua simples presença trazia segurança.

A biópsia teve início e tudo transcorreu dentro do previsto. Alguns minutos depois de finalizado o procedimento, Rosemeire foi encaminhada a um quarto, onde repousaria até o final da tarde.

Artur já a aguardava, quando ela entrou no recinto. Sobre a cama, um lindo buque de flores do campo.

— Não precisava se preocupar. Que flores lindas! Obrigada.

— Verifique quem as enviou, antes de me agradecer. Rosemeire olhou espantada para o filho.            

— Não foi você?

— Não.

— Aposto que foi a Denise. Deixe-me ler o cartão. Após ajeitar o corpo na cama, Rosemeire abriu o cartão. Quando leu o conteúdo, a sua fisionomia mudou, demonstrando surpresa.

— Posso saber quem mandou as flores?

— Você contou ao seu pai sobre o meu estado de saúde?

— Contei, sim. É importante ele saber o que está acontecendo. — Posso ler o cartão?

Rosemeire entregou o cartão ao filho. Este, por sua vez, ficou emocionado ao ler a mensagem.

 

"Receba estas flores pela história que construímos juntos e que jamais será apagada. Estou rezando para que tudo saia bem.”

Afetuosamente, Alexandre.

 

Artur levantou-se e pegou as flores, colocando-as em uma jarra que estava sobre uma mesinha. Rosemeire exprimiu o que estava sentindo:

— Elas são bonitas. O seu pai sempre teve bom gosto para flores. No início do nosso casamento, ele não deixava passar uma data importante sem comprar um lindo buquê. Com o passar do tempo, ele parou com esse hábito.

A senhora já deu flores para ele alguma vez?

— Não.

— E por que não?

Isso é coisa que cabe aos homens fazer. As mulheres devem receber flores, e não dá-las.

— A senhora está enganada. O homem também adora receber flores. Lembra-se de uma menina, alguns anos atrás, que durante várias semanas deixava para mim uma única flor na portaria do prédio? Não me esqueço da primeira vez que recebi a flor. Junto dela, tinha um cartão com apenas duas palavras escritas: "Bom-dia".

— Acho que a moça estava tão apaixonada por você que não teve coragem de se revelar.

— É uma possibilidade. Besteira dela, porque eu estava curioso para conhecê-la.

Rosemeire olhou para o buque de flores ao seu lado. Não conse­guiu esconder a felicidade com a atitude do ex-marido.

— A senhora gostou de receber estas flores, posso ver em seus olhos.

Rosemeire tentou, em vão, controlar o sorriso.

— Gostei, sim. Foi uma atitude carinhosa do seu pai. Na verdadee, eu sei que ele deve estar preocupado comigo. Ele tem um coração muito bom.

A conversa foi interrompida pelo barulho de alguém batendo na porta. Artur levantou-se para abri-la. Quando viu Denise, sentiu o coração bater mais forte.

Ela o abraçou com uma força mais intensa do que das outras vezes, aproveitando para acariciar as suas costas. Artur sentiu uma sensação ansiosa de aconchego. A sensação daquele abraço para ele era como se um fosse o número do outro, pois cada parte dos seus corpos se encaixavam em perfeita harmonia.

Como está passando a sua mãe?

— Está bem. Entre.


Denise caminhou até Rosemeire que abriu um largo sorriso assim que a viu.

— Fico feliz por você ter vindo.

— Eu não poderia deixar de vir. Está tudo bem?

— Agora, eu estou melhor — respondeu Rosemeire, enquanto recebia o abraço da visitante.

Novamente, a conversa foi interrompida pelo barulho de algumas batidas na porta.

— Pode entrar! — gritou Artur.

O doutor Rafael abriu a porta e caminhou em direção à sua paciente, após cumprimentar Artur e Denise.

Vim ver como você está passando.

— Eu estou bem. Deixe-me apresentar a Denise. Ela pegou a sua indicação com a doutora Beatriz.

— Muito prazer, Denise. A Beatriz é uma grande amiga, além de excelente profissional.

Em seguida, o médico saiu, prometendo voltar na parte à tarde. Denise permaneceu no quarto por alguns minutos, sentada ao lado de Artur no sofá. Vez ou outra, propositadamente, encostava o seu braço no braço dele. Artur sentiu o coração acelerar os batimentos e teve forte desejo de beijá-la.

Assim que Denise decidiu ir embora, Artur apressou-se em acompanhá-la até o carro.

O coração dela disparou, como uma adolescente que está diante de uma grande paixão.

Rosemeire ficou feliz com a postura do filho. Sentiu que ele partiria para a investida.

Tanto Artur quanto Denise sentiram um frio na barriga. Desceram os cinco andares pelo elevador. O carro de Denise estava a alguns metros de distância da portaria do hospital. Artur pensava sobre a melhor forma de fazer a abordagem. Denise estava ansiosa, querendo que ele a beijasse.

Ela abriu a porta do carro e jogou a bolsa sobre a poltrona. Virou se para Artur e trocaram um longo olhar, em silêncio. Artur acariciou os seus cabelos e a sua face. Ela fechou os olhos e sentiu um arrepio subindo pela espinha. Ainda de olhos fechados, sentiu a respiração dele bem próxima. Mais um pouco e seus lábios se tocaram. Imediatamente abraçaram-se e beijaram-se demoradamente. Depois, Denise fitou Artur, suspirou fundo, criou coragem e confessou:


Você é o melhor presente que eu poderia ganhar na minha for­matura. Desejava tanto estar com alguém interessante no dia da colação de grau, mas já tinha perdido as esperanças.

Os olhos de Artur estavam brilhando de contentamento. Naqueles poucos minutos, ele esqueceu o problema de saúde da mãe.

Denise, eu tenho pensado muito em você. Estou até um pouco confuso, porque tudo está acontecendo muito rápido. Na verdade, desde o dia que você foi me visitar lá em casa, eu comecei a pensar em você de uma forma diferente. Confesso que não havia sentido nada naquele contato inicial. Também, o momento e o local não eram propícios...

Denise abaixou a cabeça, envergonhada pela situação em que se conheceram.

Você deve ter tido uma impressão horrível de mim, aquele dia na delegacia — disse ela.

Artur pegou carinhosamente no queixo dela, levantando a sua cabeça.

— Confesso que a primeira impressão não foi boa, mas eu já estou com outra impressão de você. Pode ficar tranquila.

— Você está falando sério ou só para me agradar?

Estou falando sério. Se não fosse assim, você não estaria despertando em mim todo esse interesse. Aliás, você está conquistando também a minha mãe. Ela ficou sua fã.

Denise sorriu, pois já havia percebido o carinho de Rosemeire.

Eu também fiquei fã dela. Não sei explicar o motivo, mas tive muita afinidade com a sua mãe. Tenho a impressão de que algum laço misterioso nos une. Uma coisa meio inexplicável.

— Quem sabe, um dia, vocês duas encontram uma explicação para essa simpatia recíproca?

Quem sabe? — tornou Denise.

— Veja que interessante — disse Artur. — O nosso primeiro encontro foi em uma delegacia e o primeiro beijo em frente a um hospital. Parece brincadeira!

— Artur, estou feliz por estar aqui com você. É importante começar um relacionamento com tanta solidariedade. Conheço alguns casais que se separam porque solidariedade é uma palavra que não existe no vocabulário deles. O egoísmo é tanto, que não enxergam as necessidades do outro.

É verdade. Nesse sentido, estamos começando bem. Denise voltou a abraçá-lo, desta vez apertando com mais força o seu corpo junto ao dele. Depois, falou baixinho:

— Eu preciso ir embora. Você me liga?

— Claro! Vou ficar com a mamãe, na parte da tarde. À noite, quan­do eu chegar em casa, telefono para conversarmos.

Despediram-se com mais um beijo longo, seguido de outro abraço apertado.

Artur viu o carro de Denise ganhar distância, até sumir depois de uma lombada, e retornou para o quarto do hospital. Estava muito feliz, certo de que poderia começar um relacionamento com boas chance, de dar certo. Mais uma vez, parecia que sua mãe tinha razão nos assuntos referentes à vida afetiva dele. Ela costumava acertar todos os palpites sobre as suas namoradas.

Assim que ele abriu a porta do quarto, Rosemeire o acompanhou com os olhos, esperando o filho contar o que havia acontecido.

Não vai me contar nada?

— Está bem, mamãe, eu conto. Ela tem uma boca muito macia e um beijo apaixonante. É isso o que a senhora gostaria de saber, não é?

Rosemeire sorriu e acenou afirmativamente com a cabeça.

— Coração de mãe não se engana! Parabéns por ter cativado uma me­nina tão boa. Eu vejo nos olhos dela a admiração que tem por você e como ela deseja estar ao seu lado. Parece que você se tornou um herói para ela, depois de tudo o que fez para livrá-la da cadeia. Sinceramente, espero que você valorize essa moça. Não a menospreze por estar apaixonada.

— Eu acho que a senhora está exagerando no sentimento que ela tem por mim. Do meu ponto de vista, ela está a fim de mim, mas não chega a ser uma paixão.

— Engano seu. Apesar do pouco contato que tive com a Denise, sinto que a conheço como se fôssemos velhas amigas. Essa a razão que me autoriza a dizer que ela está apaixonada por você.

— Ela disse que também teve uma afinidade muito grande com a senhora.

— Neste momento difícil que estou vivendo, é muito bom saber que vocês dois estão começando a se entender. Ainda bem que você não insistiu em conquistar a Renata. Ela é uma boa moça, mas não faria você feliz.

A conversa foi interrompida pelo celular de Artur tocando. Assim que olhou no visor do telefone, viu que era a sua avó quem estava chamando.

Artur conversou alguns minutos com ela, tendo que narrar os detalhes do acidente de carro na lagoa. Depois, passou o telefone para a sua mãe.


Minha filha, eu decidi ir a Belo Horizonte visitá-la. Já comprei a passagem, sairei depois de amanhã, às quinze e quarenta. Fale com o Artur que não precisa me buscar no aeroporto, eu pego um táxi.

A notícia da visita de sua mãe encheu de alegria o espírito de Rosemeire.

— Já estava sentindo saudades da vovó — disse Artur.

— Eu também. A presença dela será muito importante para mim. Agora, acho que vou tirar um cochilo, estou cansada.

Rosemeire ajeitou o corpo na cama e, em menos de dez minutos, estava dormindo. O pretendido cochilo virou um sono restaurador, de duas horas ininterruptas.

Quando acordou, tomou a refeição que estava posta sobre a mesa. Pouco depois, o doutor Rafael retornou ao quarto e a liberou.

Na casa de Denise, o sorriso constante denunciava que algo de muito bom havia lhe acontecido.

— Você está feliz, assim, por causa da formatura?

— Exatamente, papai. Amanhã será um dia muito especial.

Renata conhecia bem a irmã e desconfiou que o motivo da alegria dela fosse outro, atendendo pelo nome de Artur. Mais uma vez, ela sentiu certo arrependimento por ter aberto o caminho para Denise conquistá-lo.

 

Quando se preparava para dormir, já em seu quarto, Beatriz levou um susto ao ouvir o barulho da televisão sendo ligada. Estava sozinha em casa, como de costume. Lili, a secretária doméstica, havia ido em­bora às sete da noite. O apartamento tinha três quartos, sendo que o dela era o mais distante da porta de entrada. Logo pensou que tinha entrado ladrão em sua casa e que não tinha ouvido o barulho da porta se abrir, em função da distância entre o quarto e a sala. Em um repente, deu três passos, com cuidado para não fazer barulho, e encostou a porta, que estava semi-aberta, girando a chave para trancá-la. O coração estava disparado e ela sentia falta de ar. Tentava respirar sem fazer barulho. Apagou a luz e começou a rezar, em silêncio, implorando a Deus para que o bandido não tentasse abrir a porta de seu quarto. Fora o barulho do som da televisão, não ouvia mais nada. Pensou em telefonar para a polícia, mas desistiu, receosa de que o ladrão ouvisse a sua voz. Os minutos passavam lentamente e ela não ouvia barulho que denunciasse a presença de alguém em seu apartamento.

De repente, outro susto: a luz do seu quarto se acendeu. Veio-lhe à mente o pensamento de que tanto a televisão quanto a luz poderiam ler sido ligadas por algum tipo de fenômeno. Passou a considerar a possibilidade de que não havia ladrão em casa.

Beatriz criou coragem, abriu a porta do quarto, acendeu a luz da sala, percorreu todo apartamento e constatou que não havia ninguém em casa. Deixou a televisão ligada, mas não estava prestando atenção no programa que estava passando. Pensava no fenômeno ocorrido. Como teriam sido ligadas a televisão e a luz do quarto?


Sozinha em sua casa, Beatriz sentiu saudades da sua irmã e da sua mãe, ambas mortas: a primeira, vítima de câncer, vinte anos atrás, e segunda, vítima de acidente de carro, há apenas um ano.

Ela pegou o álbum de fotografia e começou a olhar as fotos, sentindo uma intensa emoção, sobretudo quando viu as que retratava a sua infância, o melhor período da sua vida, quando a família toda estava reunida. Agora, só lhe restava o pai, que morava em um sítio, em Macacos, um vilarejo próximo a Belo Horizonte.

Como o sono não vinha, ela aproveitou para estudar. Caminhou até o quarto que transformara no seu escritório e puxou um livro da escrivannha. Nesse momento, caiu um envelope no chão. Era o convite de formatura de André, filho de Jaqueline, sua colega de faculdade. Beatriz havia esquecido completamente da formatura dele. Para sua sorte, a solenidade seria no dia seguinte. Não poderia deixar de prestigiar André.

Após uma hora de leitura, o sono veio e ela teve vários sonhos com mãe e a irmã, mas não se recordava de como tinham sido os sonhos. A acordar, olhou o relógio e viu que estava atrasada. Tomou banho rapidamente e pegou uma maçã na geladeira, para comer no trabalho.

 

Durante todo o dia, Denise pensou bastante em Artur. O seu entusiasmo pelo relacionamento que se iniciava era visível.

Artur também estava ansioso, não sabendo como se comportar na frente da família de Denise, haja vista a timidez que sentia no iní­cio de um namoro.

Completando o ciclo das pessoas que estavam apreensivas, Rena­ta rezava para que Adriano não fizesse nenhum escândalo por causa de ciúmes de Artur.

Aos poucos, os convidados foram chegando. O auditório onde se­ria a colação de grau era relativamente pequeno.

Artur saiu na frente de Rosemeire, que acabou se atrasando e ficou de pegar um táxi.

Quando ela chegou ao auditório, restavam poucas cadeiras desocupadas.


Olhou para a sua direita e viu que a quarta estava vazia. Pediu licença às pessoas que ocupavam as outras cadeiras e sentou-se.

Rosemeire procurou localizar o ex-marido no auditório. Como não o viu, ficou mais tranquila para cumprimentar Denise no final da solenidade.

Os formandos foram para um salão em anexo, a fim de receberem os cumprimentos.

Beatriz ficou surpresa ao perceber que Denise era da mesma sala de André, filho de Jaqueline. Quando a viu, teve dificuldades em se aproximar, pois várias pessoas aguardavam na fila para cumprimentá-la, entre elas Rosemeire, que estava justamente à sua frente.

Ao abraçar Rosemeire, Denise viu que a médica estava logo atrás e ficou feliz ao vê-la. Deu um sorriso para ela, externando o seu contentamento.

— Que surpresa agradável, doutora Beatriz!

Parabéns e muito sucesso na vida profissional. Eu recebi o convite do André, seu colega. Sou muito amiga da família dele.

— Eu gostaria de apresentá-la ao meu pai e à minha irmã. Por favor, venha aqui — disse Denise, enquanto puxava a médica pelo braço.

Não se preocupe. Dê atenção aos seus convidados.

— Faço questão, doutora.

— Pai, esta aqui é a doutora Beatriz, médica da Casa de Apoio.

— Muito prazer! A minha filha falou muito bem da senhora. Estou orgulhoso com a sua presença.

— Parabéns pela formatura da sua filha.

Tenho a impressão de que a conheço — tornou Leônidas.

Beatriz sorriu, antes de responder.

— Pode ser, mas não estou me lembrando do senhor.

Nesse momento, Denise aproximou-se, trazendo Rosemeire em sua companhia.

Doutora Beatriz, esta é a Rosemeire, minha amiga que está con­sultando com o doutor Rafael.

— Muito prazer. Espero que esteja satisfeita com o médico que eu indiquei.

— Eu estou muito feliz com o acompanhamento do doutor Rafael.

— O que ele está achando do seu caso?

— Eu fiz a mamografia e a biópsia. Ele disse que há a suspeita de o tumor ser maligno. Vou aguardar o resultado da biópsia. Espero que saia tudo bem, mas, na hipótese de estar com câncer, gostaria de fazer tratamento pós-cirúrgico com a senhora. O doutor Rafael falou muito bem a seu respeito. Por acaso a senhora teria um cartão?


— Perfeitamente — respondeu Beatriz, enquanto abria a bolsa. Após entregar o cartão, Beatriz retirou-se.

Logo em seguida, Rosemeire sentiu alguém segurar o seu ombro, Ao virar o corpo, quase caiu para trás ao ver Alexandre.

— Tudo bem? — perguntou ele.

— Graças a Deus. E com você? — perguntou ela, tendo o coração acelerado e a respiração ofegante.

— Estou bem. O Artur me falou sobre o nódulo que apareceu no seu seio. Espero que não seja nada de grave.

— Eu também. Obrigado pelas flores e pelo cartão. Foi muita gentileza da sua parte.

— Eu pedi ao Artur para me colocar a par de todos os acontecimentos. Quero que saiba que você pode contar comigo para o que precisar.

— Obrigada. Eu não vou dispensar a sua ajuda.

— Você está muito bonita.

O elogio do ex-marido deixou-a desconcertada e a sua face ficou rosada.

— Bondade sua. Você também está muito bem.

Denise observava de perto a conversa entre os dois. Por Alexandre, tinha uma imensa gratidão. O empenho dele para conseguir a sua liberdade era algo de que se recordaria pelo resto da sua vida. Já, por Rosemeire, Denise sentia uma enorme afinidade, como se fosse fruto de vidas passadas, além de enxergar nela a sogra que sempre desejou ter.

O fato de os dois conversarem amistosamente em sua formatura era motivo de muita alegria. Em função do sentimento que nutria por eles, desejava que pudessem manter um relacionamento pacífico, caso a reconciliação não fosse possível.

Alexandre despediu-se de Rosemeire, dando-lhe um forte abraço. No caminho para casa, lembrou-se dos bons momentos que viveram juntos e pensou nela com um carinho que há muito não sentia. Pela primeira vez, nos últimos anos, os seus pensamentos eram desprovidos de qualquer censura em relação ao modo de ser e de agir da ex-mulher.

Distante dali, Rosemeire seguia com o filho para o restaurante onde Leônidas havia reservado algumas mesas. Artur estava curioso para saber qual tinha sido a reação de sua mãe após o encontro com Alexandre.


Como foi à sensação de ter visto o papai?

— Eu levei um susto quando o encontrei — confessou ela. — Já havia procurado por ele no auditório, mas não o tinha visto. Por isso, fiquei tranquila, certa de que ele não tinha ido à formatura. Acho que foi bom o encontro. Parece que eu tirei um peso das costas. Estou sentindo que não tenho tanta raiva dele como imaginava. Está na hora de seguir a minha vida. Eu não posso ficar aprisionada sentimentalmente a ele. Tinha tanto medo desse encontro e, de repente, percebi que eu sou mais forte do que imaginava.

— Tudo na vida passa, mamãe. Essa dor também passará e a senhora voltará a ser feliz. Esse encontro foi muito importante.

Artur estacionou o carro exatamente atrás do carro de Adriano e percebeu que, no interior do veículo, ele e Renata discutiam acaloradamente.

Olhe a Renata discutindo com o namorado. Quando ela vai enxergar que esse relacionamento não tem futuro?

— Meu filho, cada um tem o seu tempo. O que parece lógico para alguns pode ser extremamente complexo para outros. Ela ainda não esgotou as esperanças de ser feliz ao lado dele. Às vezes, esse processo é lento e penoso.

Ao descerem, passaram ao lado do carro de Adriano fingindo nada terem visto.

Alguns minutos depois, Renata e Adriano entraram no restaurante. A insatisfação recíproca estava estampada no rosto de cada um.

 

Quando Denise acordou, ela começou a recordar os fatos ocorridos no restaurante. Lembrou-se do beijo de Artur. Ela percebeu a alegria do pai por vê-la acompanhada de um rapaz íntegro, que ele admirava. Depois do primeiro beijo, os outros vieram com mais naturalidade. A noite foi perfeita para Denise. Agora, ela estava com vergonha de encarar o pai, principalmente porque Artur estava sendo esperado para o almoço.

Para sua surpresa, seu pai e Renata não fizeram qualquer comentário sobre os beijos da noite anterior. Apenas Leônidas perguntou qual bebida deveria comprar para Artur.

Ao ver a forma carinhosa como o pai estava tratando o seu ex-colega de trabalho, Renata ficou sentida por ele não dar o mesmo tratamento a Adriano. Ela sabia que dificilmente Adriano seria uma pessoa benquista em sua casa, em função das inúmeras vezes que a fizera sofrer.

O almoço foi preparado por Leônidas, que fez estrogonofe.

O interfone tocou, anunciando a chegada do convidado. Denise foi recepcioná-lo. Quando viu que ele carregava um buque de flores, sentiu a face ficar corada. Segurou Artur pela mão, conduzindo-o até a presença de seu pai. Depois, colocou as flores em uma jarra.

Renata sentiu uma ponta de inveja ao ver o carinho que Artur dispensava a irmã. Definitivamente, aquela não era a forma como Adriano a tratava.

Artur e Leônidas conversavam como se fossem velhos amigos.

O almoço foi servido e todos saboreavam o estrogonofe, quando Leônidas teve um sobressalto, levando a mão à testa.

— O que aconteceu? Você está passando mal? — perguntou Renata.

Leônidas olhou para a filha, sem saber o que responder. A sua expressão era de espanto. Começou a suar pela testa. Ficou mudo, aumentando a apreensão de todos.

Denise estava ao lado dele e ficou preocupada com a fisionomia do pai. Ele parecia ter perdido o fôlego.

— Tenha calma, papai. Beba um copo de água.

Leônidas levou a mão ao peito, fechou os olhos e respirou lentamente.

— Está tudo bem. Apenas me assustei com uma pontada no peito, mas já está passando. Vou procurar um médico. Não custa fazer um check-up.

— Coma mais devagar — aconselhou Renata.

— Eu estou comendo devagar. O mal-estar não tem nada a ver com a comida. Desculpem-me, mas eu perdi o apetite. Vou deitar para me refazer do susto.

Leônidas levantou-se e caminhou para o seu quarto, a passos lentos.

Artur percebeu que havia algo de errado, afinal, de uma hora para outra, Leônidas mudou de humor. Diante dessa circunstância, após comer a sobremesa de goiabada com queijo, conhecida como “Romeu e Julieta”, Artur decidiu ir embora, a fim de deixá-los à vontade. Denise o acompanhou até a portaria do prédio.

Ao voltar para o apartamento, passados aproximadamente dez minutos, Leônidas e Renata esperavam-na sentados no sofá da sala. Pela expressão do pai, Denise percebeu que ele tinha algo a falar.

— O que aconteceu?

— Sente-se, minha filha. Preciso conversar com você e sua irmã.

O olhar do pai denunciava a gravidade do assunto que ele trataria com as filhas.

Leônidas tomou um gole de água, suspirou fundo e introduziu o assunto.

— Eu carrego um segredo comigo, há vinte e três anos, e preciso compartilhá-lo com vocês, senão vou explodir.

Era a primeira vez que Leônidas procurava as filhas para fazer um desabafo, o que as deixou ainda mais ansiosas.

— É difícil falar o que eu tenho para dizer, porque se trata de um erro muito grave que eu cometi em minha vida. O pior é que eu não fui homem para assumi-lo.

Denise procurou confortar seu pai, pois sempre recebeu apoio dele, inclusive por ocasião do erro que a levou à prisão.

— Não fique envergonhado, pois todos nós erramos. Independente do seu erro, nós lhe daremos apoio, o mesmo apoio que o senhor sempre nos deu.

Os olhos de Leônidas brilhavam, um pouco pela lágrima que ameaçava cair, um pouco pela sensação de liberdade ao decidir relatar um segredo por tanto tempo armazenado em sua mente.

— Obrigado, minha filha. Precisarei muito da compreensão de vocês duas, mas, sobretudo, de você.

Denise arregalou os olhos, pois pressentiu que o erro mencionado por seu pai tinha alguma relação com ela.

— Eu vou ser direto.

Leônidas fechou os olhos, respirou fundo, elevou seus pensamentos a Jesus Cristo e confessou.

— Eu tive um relacionamento amoroso com a Imelda.

Denise teve a impressão de que iria desmaiar, já que a sua vista ficou embaçada. Renata ficou chocada com a afirmação do pai. Jamais suspeitaram de tal fato.

— É isso mesmo. Eu tive um caso com a Imelda.

Leônidas aproximou-se de Denise, sentada à sua direita no sofá, pegou as mãos dela, acariciando-as com doce ternura, olhou em seus olhos verdes, e prosseguiu.

— Filha, o período em que eu vivi um romance com a Imelda coincidiu com a sua concepção. Segundo ela, eu sou o seu pai biológico.

Instantaneamente, as lágrimas rolaram pela face de Denise. Renata estava perplexa. Ambas jamais suspeitaram de nada acerca daquela afirmação. Para elas, Denise era filha de Imelda com Alan, o namorado que morava com ela na mesma casa na fazenda.

— Eu não acreditei quando ela me disse que estava esperando um filho meu. Afinal, ela vivia com o namorado. Questionei isso, mas ela afirmou que não tinha nada com Alan. Aliás, ela falou que ele era homossexual. Apresentaram-se como casal porque acreditavam que facilitaria a obtenção do emprego. Segundo ela, ele era traficante e estava foragido da cidade de Maringá, no Paraná. Ela também morava lá e fugiu com ele em função de uma briga com o pai. Na época, não existia exame de DNA e eu não aceitei assumir a paternidade. O Alan foi embora da fazenda antes dela me contar sobre a gravidez. Não tive oportunidade de conversar nada com ele sobre este assunto. Segundo a Imelda, ele voltou para Maringá quando obteve informação de que o traficante que o estava ameaçando havia sido morto. Ela sentiu-se abandonada, mesmo porque estava brigada com o pai, e decidiu abortar, somente não levando a cabo o seu intento pela intervenção de sua mãe, que nem sonhava do meu romance com ela. Sei que o meu comportamento, não acreditando nela, foi decisivo para ela querer fazer o aborto.

— A mamãe chegou a tomar conhecimento desta história? — perguntou Renata, receosa de que os problemas cardíacos de sua genitora pudessem ter se agravado, após ela tomar conhecimento daqueles fatos.

Leônidas balançou a cabeça, em gesto negativo.

— Eu poupei a sua mãe desse desgosto, mesmo porque a saúde dela sempre foi debilitada. Na verdade, eu fui apaixonado pela Imelda, cheguei a pensar em me separar de sua mãe para ficar com ela, mas levei em consideração o fato de que eu tinha uma família estabilizada e que a Vera era uma esposa fora do comum.

— Por que o senhor está nos contando isso agora? — perguntou Denise, enquanto limpava uma lágrima.

Leônidas voltou a suspirar fundo.

— A Imelda me contou que tinha uma irmã gêmea, de nome Beatriz.

Denise sentiu um calafrio dos pés à cabeça.

— Ontem, quando você me apresentou para a doutora Beatriz, eu tive a nítida sensação de já conhecê-la. Durante o nosso almoço de hoje, eu me lembrei que ela se parece muito com a Imelda. Acho que ela pode ser a irmã gêmea da Imelda.

Denise começou a chorar compulsivamente, sendo abraçada por seu pai.

— Não posso afirmar que a doutora Beatriz é a irmã da Imelda, mas esta é uma possibilidade que deve ser investigada — tornou Leônidas.

— Como nós faremos para tirar essa dúvida? — perguntou Renata.

— Primeiro, eu preciso saber se a Denise me autoriza a fazer a investigação.

Denise ficou em silêncio por um tempo. Depois respondeu.

— Eu já tive muita mágoa dela, não é segredo para vocês. Hoje, isso faz parte do passado. Com tantas coisas boas acontecendo na minha vida, não vou deixar espaço para mágoas em meu coração. Além do mais, eu gosto muito da doutora Beatriz e não quero ter raiva da irmã dela, caso se concretize a sua suspeita.

— Há outra vantagem em encontrar a Imelda, minha filha: ao fazer o exame de DNA, com o resultado positivo, poderei desculpar-me com ela e corrigir o grande erro que cometi.

Denise sorriu e abraçou carinhosamente Leônidas.

— Isso não fará a menor diferença para mim, papai. No meu coração, o senhor é o meu pai, independente de termos ou não o mesmo sangue. É o que importa.

— Você não sabe qual é o sobrenome da doutora Beatriz? - indagou Renata.

— Não, mas isso eu descubro na segunda-feira.

— Caso o nome dela seja Beatriz Moraes de Carvalho, você estará diante da irmã gêmea da mulher que carregou você no ventre — disse Leônidas.

De súbito, Denise afastou-se.

— Já sei. A doutora Beatriz deu o cartão dela para a Rosemeire na minha formatura.

Imediatamente, Denise pegou o telefone que estava na cabeceira da cama e telefonou para a amiga.

— Rosemeire, você está com o cartão da doutora Beatriz?

— Está na minha bolsa.        

— Por favor, olhe qual é o nome completo dela.

— Aguarde um momentinho.

Denise tinha a respiração ofegante. Aqueles segundos pareciam durar uma eternidade.               

— Quer anotar o nome dela? — sugeriu Rosemeire.    

— Não. Apenas fale.

— Beatriz Moraes de Carvalho.

Quando ouviu a resposta, Denise deu um grito de emoção.

— O que foi Denise? — tornou Rosemeire.

Renata pegou o telefone da mão da irmã, imaginando a preocupação de Rosemeire, e cuidou de acalmá-la.

— Está tudo bem com a Denise. O nome completo da médica é Beatriz Moraes de Carvalho, não é?

— Exatamente. O que está acontecendo?

— Depois, eu explico com calma. A Denise está muito emocionada, porque que a doutora Beatriz é a irmã da Imelda e mãe biológica da Denise.

Em seguida, Renata desligou o telefone e abraçou a irmã. Os três choraram de emoção. Leônidas retomou a conversa.

— Esse mundo é muito pequeno. Até agora, eu estou impressionado com a coincidência. Desde a prisão da Denise, parece que tudo que acontece está direcionando para este encontro.

— De fato, a Denise somente veio a conhecer a doutora Beatriz, em função da prisão. Esse encontro parece ter sido agendado pelos anjos de Deus. Será que a Imelda está viva? — indagou Renata.

— Em breve, nós saberemos — tornou Leônidas. — Mesmo que não esteja, será importante saber o que foi feito da vida dela.

Em seu íntimo, Leônidas almejava reencontrar Imelda. Há vinte e quatro anos, eles viveram um amor proibido, mas, agora, com a morte de Vera, poderiam ter um bonito futuro juntos.

Jamais havia conseguido esquecê-la por completo, apesar do longo tempo decorrido. A morte de Vera foi um golpe duro para ele, em face da cumplicidade que havia no relacionamento, mas agora ele sentia-se pronto para viver novamente o amor. Guardava ainda, em seu coração, o desejo de fazer o exame de DNA, pois seria motivo de muita alegria descobrir que era o pai verdadeiro de Denise.

A conversa foi interrompida pela chamada, no celular de Denise. Por meio do identificador de chamadas, ela viu que era Artur e decidiu atender.

— Denise, está tudo bem com você? A mamãe acabou de me falar que a doutora Beatriz é irmã da sua mãe biológica. Como você chegou a esta conclusão?

— A Imelda tinha uma irmã gêmea, de nome Beatriz. O papai achou a doutora Beatriz muito parecida com a Imelda. Por isso, desconfiou que fossem irmãs. O sobrenome da Imelda é Moraes de Carvalho, o mesmo sobrenome da doutora Beatriz.

— O que você está pensando em fazer?

— Saber onde está a Imelda. Temos alguns assuntos para conversar. Agora, prepare-se para a maior surpresa.

— Surpresa maior do que essa?

— O papai confessou que teve um romance com a Imelda e que ela falou que ele é o meu pai biológico.

Artur ficou pasmado com a revelação. Se o exame desse positivo, então Denise seria filha adotiva de seu próprio pai biológico.

— Eu estou um pouco confusa e gostaria de ficar sozinha. Você se incomoda se não sairmos hoje à noite?

— Claro que não. Eu compreendo a sua situação e acho que o momento é de você ficar sozinha para refletir sobre tudo isso que está acontecendo. De qualquer forma, se precisar estou à sua disposição. — Obrigada. Sei que posso contar com você.

Em seguida, após desligar o telefone, Denise pediu licença e foi para o seu quarto, deixando o pai conversando com a irmã. Custou a dormir, pensando em como estaria a sua mãe biológica.

Artur foi sozinho até o aeroporto internacional Tancredo Neves, em Confins, buscar sua avó. Rosemeire preferiu ficar em casa, repousando.

A avó Maria era uma pessoa muito especial. Ele adorava ouvir as histórias que ela contava e tinha uma profunda admiração por tudo que ela havia conseguido superar em sua vida.

Assim que a avistou, ele levantou os braços, saudando-a, e correu para abraçá-la.

— Quem bom encontrá-lo! Eu falei para sua mãe que não havia necessidade de você vir me buscar.

— Eu estava à toa em casa, vovó. Não me custava vir aqui. Além do mais, eu estou com muitas saudades da senhora.

— Você está com uma cara tão boa! Aposto que está apaixonado.

Artur sorriu. Os seus olhos tinham um brilho diferente, denunciando uma felicidade incomum.

— A senhora acertou. Estou começando um namoro com uma menina muito legal. Sinceramente, desta vez eu estou entusiasmado.

Maria deu uma leve tapinha na face do neto. Estava feliz por vê-lo bem.

— Se você amar essa menina faça de tudo que estiver ao seu alcance para fazê-la feliz. Isso é o mínimo que podemos fazer quando encontramos um grande amor. Muitas pessoas passam uma vida inteira sem encontrar alguém que amem verdadeiramente.

Artur sabia que ela falava isso de experiência própria. Depois da morte de Zezé, Maria até que tentou, mas não conseguiu amar ninguém.

Dali, eles seguiram direto para o apartamento. Durante o trajeto, Maria inteirou-se da situação de sua filha.

Quando chegaram, Rosemeire já os esperava com a mesa do café posta. Assim que ouviu o barulho da porta, ela levantou-se da cadeira para abraçar sua mãe.

— Que saudade da senhora! Com certeza, irá passar pelo menos um mês conosco.

— Infelizmente, não poderei minha filha. Ficarei poucos dias, pois tenho a formatura da minha afilhada. Ela está tirando o segundo grau e eu já assumi o compromisso com ela. Não posso faltar ao momento mais importante da vida dela, depois de ter custeado os seus estudos durantes todos esses anos.

— Então, a senhora irá retornar em seguida para Belo Horizonte. Que papo é esse de ficar poucos dias conosco?

— Vamos ver como as coisas caminharão. Dependendo do que acontecer, eu voltarei com mais calma.

Artur estava colocando a mala de sua avó no quarto de hóspede quando o seu celular tocou. Era Denise.

— Estou com saudades. Mudei de idéia e gostaria de vê-lo. Posso ir à sua casa?

— Claro! Será bom, pois você conhecerá a vovó Maria.

A mesa de lanche foi posta e os três conversavam de forma descontraída, à espera de Denise. Quando esta chegou, Maria já havia sido informada de todas as suas qualidades por Rosemeire.

— Então, você é a responsável pelo brilho nos olhos do meu neto. Muito prazer, eu sou a vovó Maria.

— A senhora é muito simpática. O prazer é todo meu.

Maria ficou impressionada com a beleza de Denise. O sorriso cativante indicava que ela era uma moça simples, de fácil trato.

Durante o lanche, Denise conversou com os três sobre a sua descoberta. Maria ficou fascinada com o relato de sua história, causando uma admiração ainda maior por ela.

Denise chegou a cogitar em telefonar naquela noite para a doutora Beatriz, mas foi convencida pelos demais de que a conversa deveria ocorrer pessoalmente, sobretudo porque ela não gozava de intimidade com a médica.

Quando Denise foi embora, os três ficaram conversando sobre ela.

 

O final de semana custou a passar para Denise. Durante a madrugada de domingo para segunda, ela acordou várias vezes. À medida que as horas passavam, ficava mais inquieta.

Quando chegou à Casa de Apoio, Denise recebeu de Carla as tarefas que deveria desempenhar. A falta de concentração atrapalhou o seu rendimento.

— Estou achando você distraída, como se estivesse preocupada com alguma coisa. Está tudo bem? —perguntou Carla.

— Estou bem. Apenas um pouco cansada, pelo final de semana corrido que tive.

As crianças também perceberam que havia algo de errado com ela, pois não estava sorridente como na semana anterior. Quando deu o horário do almoço, Denise foi para a sua casa. Assim que retornasse, teria o aguardado encontro com a doutora Beatriz.

Após o almoço, sentou-se no sofá, aguardando o horário de voltar a Casa de Apoio. O telefone tocou e ela foi atender. Para sua surpresa, era da Casa de Apoio.

— Denise, aconteceu uma tragédia. Não precisa voltar aqui, na parte da tarde — disse Carla, entre soluços.

O desespero demonstrado por Carla indicava que algo de muito grave havia acontecido. O coração de Denise disparou e ela logo imaginou que a tragédia estava relacionada à doutora Beatriz. Seria muito azar, logo agora que ela estava tão próxima de ter notícias de sua mãe biológica.

— O que aconteceu?

Carla soluçava, sem conseguir falar, o que aumentou a ansiedade de Denise.

— O que aconteceu? Fale logo, Carla, pelo amor de Deus! Com muito custo, Carla conseguiu falar.

— Mataram o Robertinho.

Denise sentiu as pernas bambearem. Por um lado, sentiu alívio por estar tudo bem com a doutora Beatriz, mas, por outro lado, ficou chocada com o assassinato de uma criança tão doce.

— Mataram o Robertinho? Você tem certeza?

— A mãe dele acabou de ligar. O crime foi hoje cedo, dentro da casa dele. O enterro será às três da tarde. Anote o endereço.

Denise pegou uma caneta e um pedaço de papel. Suas mãos estavam trêmulas. Não estava acreditando que encontraria Robertinho morto, dentro de um caixão. Anotou o endereço e saiu em direção a cemitério. Ficou tão desorientada com a notícia, que sequer perguntou o motivo do crime e quem havia sido o autor da barbárie.

Rapidamente, Denise comentou com o pai sobre o garoto quem ela aprendeu a gostar em tão pouco tempo de convívio. Em seguida, pegou a chave do carro e rumou para o cemitério.

A notícia da morte de Robertinho deixou Denise tão atordoada que ela parou de pensar em Beatriz, por alguns momentos. Era difícil aceitar que Robertinho estivesse morto.

A caminho do cemitério, sentiu a revolta crescer em seu peito e o desejo de que a justiça fosse feita, com a prisão do assassino, seguida por uma pena exemplar.

Assim que chegou ao cemitério, Denise viu Janaína, a mãe dele desconsolada. Ela estava do lado de fora do recinto onde estava o caixão do filho, chorando compulsivamente.

Denise deu alguns passos e viu algumas pessoas em volta do caixão, inclusive crianças. Vagarosamente, caminhou em direção a elas. O coração estava apertado e ela não conteve as lágrimas quando viu Robertinho morto. Parecia que estava vivendo um pesadelo e que, qualquer momento, Robertinho levantaria e daria um sorriso para todos, dizendo: "enganei vocês, eu estou vivo".

Infelizmente, o sorriso dele ficaria apenas na lembrança. As brincadeiras não aconteceriam mais e o clima na Casa de Apoio seria de dor por algum tempo. Por certo, aquela morte seria bastante sentida, inclusive pelas outras crianças que lutavam contra o câncer.

Robertinho vestia uma roupa branca. O rosto tinha vários hematomas e estava bastante deformado. Em sua fisionomia havia a expressão de espanto, como se tivesse morrido tentando entender o motivo de tamanha brutalidade.

Ao lado de Denise, uma menina acariciava a cabeça de Robertinho, enquanto buscava explicação pelo ocorrido.

— Por que fizeram isso com o meu irmão?

Um homem mulato, mais adiante, era consolado por todos que chegavam. Logo, Denise descobriu que era o pai de Robertinho e caminhou em sua direção para lhe dar os pêsames. O homem já não tinha mais lágrimas.

Até então, Denise não sabia nada sobre o crime. Ao olhar para o lado de fora do recinto, viu a doutora Beatriz conversando com Janaína. O seu coração voltou a disparar, mas ela decidiu ir até lá para saber os detalhes do assassinato.

Quando Denise aproximou, Janaína estava explicando as circunstâncias do crime.

— Os traficantes da favela onde moramos apedrejaram o Robertinho e deixaram um bilhete junto ao corpo dele, insinuando que ele estava sendo informante da polícia. Eles disseram que ele era o responsável pelas prisões que aconteceram no final de semana. Acho que pensaram assim porque o Robertinho conversava com os meninos de morro para sair da vida do tráfico.

— Que monstruosidade! Como um ser humano tem coragem para fazer uma maldade dessas? Tenho pavor de traficantes — disse Beatriz.

Denise sentiu uma revolta crescer em seu peito. Jamais havia conhecido alguém que tivesse tido uma morte tão estúpida. A sua vontade naquele momento era a de fazer justiça com as próprias mãos. A dor daquela família era irreparável. Nada traria Robertinho de volta. Apenas a prisão dos assassinos poderia trazer certo conforto.

— Vocês não imaginam as barbaridades que os traficantes fazem — tornou Janaína. — Somente quem mora nas favelas pode avaliar o estrago que eles causam. O Robertinho foi apenas mais uma vítima.

Amanhã, tudo volta ao normal e, daqui a pouco, ninguém se lembrará deste crime. Outras vítimas aparecerão para atrair o foco da atenção. É sempre assim. Espero que os meus outros filhos tenham melhor sorte.

Em seguida, Janaína pediu licença e caminhou para onde estava caixão, deixando Denise e Beatriz a sós. Por um momento, os olhos das duas se cruzaram. Denise criou coragem e tocou no assunto.

— Talvez o momento não seja oportuno, mas eu preciso muito conversar com a senhora. É um assunto delicado e eu estou com certa urgência.  

Beatriz ficou surpresa, pois não imaginava que Denise pudesse ter algum assunto delicado para conversar com ela.

— Está bem. Temos que retornar à Casa de Apoio. Nós conversaremos depois da última consulta. Você quer uma carona?

— Obrigada, eu estou de carro.

Durante o trajeto, a imagem de Robertinho veio forte à mente de Denise. Ela ficou pensando em como teriam sido os últimos momentos sua vida. Teria ele sentido dor? Quais foram os seus últimos sentimento Depois, voltou a pensar na conversa que teria com Beatriz. A sua ansiedade só não era maior em função do abalo pela morte de Robertinho.

Chegando à Casa de Apoio, Denise constatou que o ambiente era similar ao do cemitério. A tristeza estava estampada na face de todos os funcionários. As crianças, igualmente, estavam bastante abatidas. Robertinho era um exemplo para todas elas.

À medida que os minutos passavam, aumentava a ansiedade de Denise. Já passava das cinco horas, quando terminou a última consulta. Beatriz abriu a porta e chamou Denise para a conversa.

— Sobre qual assunto tão urgente você deseja conversar comigo?

Denise não sabia por onde começar. Na verdade, ela não sabia se Imelda havia comentado sobre a filha que teve. Decidiu ser direta.

— Você tem uma irmã de nome Imelda?

Beatriz levou um susto com a pergunta. Como poderia Denise saber daquele fato? Sentiu a garganta ficar seca e ficou confusa com resposta que daria. Passados alguns segundos, respondeu.

— Tenho sim, mas está morta. Por quê?

A resposta frustrou Denise. Por muitos anos ela teve pânico só de pensar que poderia encontrar sua mãe biológica, mas agora, talvez em função da maturidade adquirida, ou pelo bom momento da sua vida acreditava que seria um encontro muito frutífero.

— O que está acontecendo? Por favor, explique-me — implorou Beatriz,

— Ela morreu há muito tempo?

— Quase vinte anos.

Denise olhou nos olhos da médica. Caso Imelda estivesse viva, provavelmente teria aquelas feições. — Ela teve filhos?

— Não. Por favor, aonde você quer chegar?

Denise não sabia por onde começar a falar. Decidiu ser o mais objetiva possível.

— Eu sou filha da Imelda.

Beatriz deixou o corpo cair para trás, ficando apoiada pelo encosto da cadeira. De repente, começou a suar.

— Um copo d'água, por favor.

Denise levantou-se rapidamente, foi ao bebedouro e encheu o copo de água para a médica, cuja face estava molhada de suor.

— Calma doutora. Desculpe-me, eu não deveria ter sido tão direta. A senhora quer que eu peça ajuda?

Enquanto tomava água, Beatriz sinalizou com o dedo que não precisava de ajuda. Colocou o copo sobre a mesa, fixou seu olhar lacrimejante em Denise, permanecendo em silêncio por alguns segundos, e retornou a conversa assim que seu coração começou a desacelerar.

— Você é filha da Imelda? Como assim?

Denise decidiu ser mais minuciosa, a fim de não deixar dúvida em Beatriz.

— Quando ela fugiu de casa em companhia de um traficante, brigada com os pais, foi trabalhar e morar na nossa fazenda, perto de Três Pontas. Teve um envolvimento com o meu pai e engravidou de mim. Como o meu pai não acreditava que ela estava esperando um bebê dele, não aceitou assumir o compromisso. Ela decidiu abortar, tendo pedido auxílio à minha mãe, sem falar quem era o pai. A minha sorte foi que mamãe foi contra o aborto e assumiu o compromisso de me adotar. Quando nasci, eles fizeram o processo de adoção e a Imelda foi embora, não tendo dado mais notícias.

— Como você descobriu que eu era a irmã da Imelda?

— Lembra-se de que meu pai ficou com a impressão de que já conhecia você? Quando ele associou a sua fisionomia à de Imelda, eu telefonei para a Rosemeire e pedi para olhar o seu nome no cartão que havia dado para ela. O meu pai sabia o sobrenome da Imelda, bem como tinha conhecimento de que ela possuía uma irmã gêmea.

Beatriz estava em estado de choque. Em seu íntimo, a mistura de emoções era maior do que Denise podia imaginar.

— Você é minha sobrinha?

Denise balançou a cabeça, fazendo gesto afirmativo.

— A Imelda era muito parecida com você?

— O jeito de ser era bem diferente, mas fisicamente éramos idênticas. Várias vezes os nossos próprios pais nos confundiam. Para você ter uma idéia de como éramos parecidas e do tanto que éramos amigas, quando a mamãe colocava uma de nós de castigo, a outra cumpria parte do castigo e a mamãe não percebia que havíamos trocado.

— Você acha que, se ela estivesse viva, ainda se pareceria com você?

— Eu não tenho dúvida. Ela seria exatamente como você está me vendo agora — respondeu Beatriz, com a mão no queixo e os olhos fixos em Denise.

Depois de mais um momento de silêncio, foi à vez de Beatriz perguntar:

— Você tem ressentimento da Imelda?

— Durante um bom tempo eu tive. Hoje, eu consigo aceitar as atitudes dela. Acho que, se estivesse viva, teria me procurado para pedir desculpas e ter informações sobre a minha vida. Talvez, a morte tenha impedido que ela tomasse essa atitude. É muito estranho saber que ela morreu há tanto tempo. Eu tinha apenas três anos.

Denise fitou Beatriz por uns instantes e sorriu. Depois, prosseguiu.

— É estranho saber que, se a Imelda estivesse viva, seria fisicamente a sua cara. É como se eu estivesse diante dela. É interessante que, em um primeiro momento, não fui muito com a sua cara, mas depois eu vi que estava equivocada. Em pouco tempo você conquistou a minha admiração.

Já que eu não posso usufruir a companhia da Imelda, gostaria de ser sua amiga. É uma pena que ela não esteja aqui. Pelo menos, agora eu sei qual foi o destino dela. É estranho, muito estranho, porque eu tinha comigo a intuição de que há encontraria um dia. A ficha ainda não caiu. Talvez, eu leve certo tempo para acostumar com a idéia de que ela morreu.

Beatriz tossiu e raspou a garganta antes de fazer nova pergunta.

— Qual foi à reação do seu pai, quando descobriu que eu era a irmã da Imelda?

— Acho que ficou feliz. Ele confessou que foi apaixonado por ela e que chegou a pensar em separar-se da minha mãe. Ele disse que errou ao não acreditar quando ela disse que eu era a filha legítima dele. Disse que errou duas vezes, pois deveria ter assumido a paternidade, mais não o fez porque ficou com medo da reação da mamãe, já que a saúde dela nunca foi boa.

Denise suspirou e completou:

— Eu vi nos olhos dele o quanto ele gostaria de reencontrar a Imelda. Desde que mamãe morreu, ele não se envolveu com outra mulher. Os olhos dele brilharam quando falou do amor que teve por Imelda. Francamente, tive a sensação de que o amor dele por ela foi mais forte do que o amor que sentiu por minha mãe.

Uma lágrima escorreu pela face de Denise.

— A impressão que tenho é de que algumas coisas acontecem em nossas vidas para nos mostrar a existência de Deus no controle de tudo — prosseguiu. — Sei que fui guiada ao seu encontro por Ele e que algum dia Ele me guiará ao encontro da Imelda.

— Sem dúvida — concordou Beatriz.

Em seguida, Denise levantou-se e abraçou-a. A médica, por sua vez, envolveu-a carinhosamente em seus braços, permanecendo assim por alguns segundos. Depois, Denise abriu a porta do consultório e partiu.

 

Quando Denise chegou a casa, Leônidas e Renata estavam ansiosos por saber sobre a conversa que ela tivera com Beatriz. O olhar de Denise era de tristeza.

— E então? — indagou seu pai.

— Não será possível encontrar a Imelda. Ela está morta.

Leônidas engoliu seco. Sentiu uma dor aguda no coração, pois ansiava reencontrá-la na expectativa de que pudessem viver um grande amor e ele tivesse a oportunidade de se redimir dos erros pretéritos. Involuntariamente, seus lábios começaram a tremer e as lágrimas rolaram.

— Não sei por que estou chorando — disse ele, tentando despistar as filhas das suas reais intenções.

— Talvez o senhor esteja triste porque não conseguirá pedir desculpas para ela — disse Renata.

— Talvez, sim — tornou ele, enquanto limpava as lágrimas com a manga da camisa.

Com o olhar distante, Denise retomou a conversa.

— De algum tempo para cá, eu comecei a pensar que eu e a Imelda tivemos um relacionamento forte e conturbado em vidas passadas, e que viemos ao mundo, como mãe e filha, para nos reconciliarmos.

— Você acredita que existem várias vidas? — perguntou Leônidas, surpreso com o posicionamento da filha.

— Não só acredito como acho que o senhor também já se relacionou com ela em outras vidas. Em uma dessas vidas, é possível que uma de nós duas tenha feito mal à outra, e isso gerou uma inimizade. Acho que houve um planejamento familiar, no plano espiritual, e eu vim como filha dela, nesta vida, para que nós duas pudéssemos nos perdoar. Se o senhor foi utilizado como instrumento de Deus para o meu nascimento, certamente que se relacionou com ela em vidas passadas. Como explicar uma paixão tão forte em tão pouco tempo que ela estava na fazenda? Surpreendente, sobretudo, porque o senhor tinha um relacionamento muito bom com a mamãe.

Leônidas ficou surpreso com o pensamento da filha. Caso ela tivesse razão, certamente ele teria tido algum tipo de envolvimento com as duas em vidas passadas, pois nesta vida foi amante de Imelda e pai de Denise. Curioso, ele decidiu fazer perguntas sobre o assunto.

— Seguindo esta linha de raciocínio, por que eu fui envolvido?

— O senhor não foi envolvido. O senhor usou do livre-arbítrio para se envolver. Obviamente, a atração que vocês sentiram pode ter como origem um fato da vida passada. Talvez, todos nós estejamos corrigindo os erros cometidos em vidas passadas, devido aos sofrimentos que impusemos a outras pessoas. Acredito que apenas a Renata não esteja envolvida nesse ciclo. A minha impressão é a de que ela tinha uma afinidade conosco em vidas passadas e não foi atingida por nenhum erro nosso. Por isso, nasceu em nossa família, a fim de ser o ponto de equilíbrio, para colocar “panos quentes” nos nossos desentendimentos e promover a nossa união.

— É interessante o seu ponto de vista, mas sem qualquer comprovação científica — tornou Leônidas.

— Nada acontece por acaso, papai. O nascimento de uma pessoa numa determinada família é planejado por espíritos de luz e visa fortalecer laços de amor ou desfazer laços de mágoa. Podemos nos reunir em grupo familiar por simpatia ou por comprometimentos anteriores que nosso livre-arbítrio contraiu. A família atende a uma finalidade clara, que é oferecer a um grupo de espíritos a oportunidade de ajustamento recíproco. A reconciliação não representa apenas um sinal de evolução individual, mas também ajuda no crescimento e equilíbrio do próprio planeta.

— Como é que se decide, então, a família que nos receberá? — perguntou Renata, curiosa para saber mais sobre a teoria exposta pela irmã.

— Dependendo do grau de evolução do espírito reencarnante, ele poderá participar ativamente da escolha das provas que suportará quando reencarnado, bem como da família onde nascerá. Caso ele seja um espírito com certo esclarecimento, ele terá a possibilidade de participar do seu projeto reencarnatório, junto com os seus mentores. Do contrário, se for um espírito de pouca luz, as provas lhe serão impostas e, inclusive, a família que o receberá. Por exemplo, um espírito que cometeu seguidos suicídios em reencarnações anteriores poderá reencarnar, forçadamente, com total paralisia de seus membros, a fim de que não incida no mesmo erro.

Leônidas e Renata estavam surpresos com os conhecimentos de Denise, pois não sabiam que ela estava se dedicando àquele gênero de estudo.

Apesar de não concordar com a teoria da filha, Leônidas achou bom que ela estivesse se dedicando a estudar esses assuntos. Poderia encontrar apoio para não se envolver mais com drogas.

Renata levantou-se do sofá para trocar de roupa. Tinha encontro marcado com o namorado. Leônidas não perdeu a oportunidade de externar o seu descontentamento com Adriano.

— Você não faz mais qualquer comentário sobre o seu namorado. Eu não o vejo telefonar, nem você telefonar para ele. Fiquei feliz, achando até que vocês tivessem terminado.

O comentário de seu pai deixou Renata irritada. Ela já estava bastante incomodada com o tratamento indiferente que ele estava dando a Adriano, sobretudo se comparado à atenção dispensada a Artur.

— É por isso mesmo que eu não faço comentários sobre o nosso namoro. Sei que você não gosta dele e quer ver-nos separados. Fui eu que pedi ao Adriano para só ligar no meu celular. Não quero ficar ouvindo comentários ruins a respeito dele.

— Está bem. Eu não farei mais comentários sobre esse rapaz, mas você sabe o meu ponto de vista.

Pouco depois, Renata e Denise saíram. Renata desceu à portaria, onde Adriano já a esperava, e Denise desceu um andar abaixo, até a garagem. Pegou o seu carro e partiu em direção à casa de Artur.

No caminho, voltou a pensar em Robertinho e sentiu o gosto amargo da revolta. Definitivamente, aquela segunda-feira ficaria marcada para sempre em sua vida. As emoções vivenciadas levaram Denise a alguns questionamentos e, certamente, deixariam marcas que o tempo custaria a apagar.

A imagem de Robertinho estava bem nítida em sua mente. Era difícil acreditar que o sorriso espontâneo e meigo daquela criança havia sido silenciado de forma tão bárbara.

Artur, assim que a viu, percebeu um ar de desolação em sua namorada. Abraçado a ela, comentou:

— Estou achando você tão triste! As notícias devem ser ruins, não é?

Denise acenou positivamente com a cabeça.

— Vamos sentar. Desabafe comigo.

Denise cumprimentou Rosemeire e Maria e pediu que elas participassem da conversa. Explicou detalhadamente sobre a morte de Robertinho.

Uma lágrima desceu pela face dela. Maria, Artur e Rosemeire não encontraram palavras para consolá-la. Cabisbaixa, ela confessou o arrependimento que estava sentindo por ter se envolvido com drogas.

— De certa forma, sinto-me culpada pela morte de Robertinho.

— Por quê? — perguntou Artur.

— Pela primeira vez, eu consegui enxergar que prejudico alguém quando compro um baseado. Sei que a minha participação é pequena, mas é inegável que eu alimento o tráfico, quando compro maconha. Alimentando o tráfico, eu e todas as outras pessoas que compram drogas acabamos contribuindo para todo o tipo de violência praticada pelos traficantes. Não dá para continuar fumando maconha e fechar os olhos para essa realidade. Sei que outros Robertinhos serão vítimas dos traficantes, mas quero ter a minha consciência tranqüila de não estar contribuindo financeiramente para que eles pratiquem esses crimes.

Artur sentiu sinceridade nas palavras dela. Denise demonstrava estar falando com o coração. A dor do arrependimento estava visível em sua face.

— Estou triste por um lado, mas confesso que estou feliz por outro. Triste pela tragédia acontecida com o Robertinho, e feliz por você ter enxergado que não é legal usar drogas. Várias pessoas passam a vida usando drogas, sem perceber os estragos que causam, mesmo porque a violência praticada pelos traficantes, como no caso do Robertinho, geralmente acontece em favelas, sendo que muitos consumidores de droga moram em bairros da classe média e alta.

— É uma pena que eu só tenha enxergado isso depois dessa tragédia — lamentou Denise.

— Muitas vezes, as tragédias por obra da natureza e do homem servem para despertar o inconsciente coletivo, onde cada um enxerga parte da sua missão pessoal — tornou Artur, com um brilho diferente nos olhos.

Maria, que até então estava calada, resolveu se manifestar.

— Esta vida é uma verdadeira escola, minha filha. Você aprendeu sobre o mal que o uso de drogas traz para a sociedade. Em Trancoso, vejo pessoas velhas se drogarem em vias públicas. É um péssimo exemplo para os mais novos. Com a minha experiência de vida, posso lhe dizer que, toda vez que o sol nasce no horizonte, ele traz consigo vários aprendizados. Se prestarmos atenção ao que se passa ao nosso redor, verificaremos que raros são os dias em que não aprendemos nada de útil para as nossas vidas. Por isso, eu sou fã daquela frase do Raul Seixas: "Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo".

Rosemeire estava curiosa para saber se Denise havia conversado com a doutora Beatriz e aproveitou o breve silêncio para entrar no assunto.

— Você conversou com a doutora Beatriz?

Denise suspirou fundo, acenando positivamente com a cabeça.

— Conversei. Infelizmente, a Imelda morreu há vinte anos.

Artur acariciou os cabelos louros da namorada, tentando confortá-la. Em seguida, perguntou:

— O que mais a doutora Beatriz falou?

— Ela ficou surpresa quando eu disse que era filha da Imelda. É incrível, mas a Imelda nunca falou sobre a minha existência para ninguém da família. Bom... Vamos mudar de assunto. Rosemeire, como está a sua expectativa em relação ao resultado do exame?

— Eu estou mais confiante. O resultado da biópsia sai amanhã. O mais importante é que eu quero viver e ser feliz. Vou dar a volta por cima, você verá.

Quando Denise ficou sozinha com Artur, decidiu fazer uma confissão.

— Eu me sinto muito segura ao seu lado, apesar do pouco tempo em que estamos juntos. A cada dia, eu passo a gostar mais de você.

As palavras da namorada tocaram o coração de Artur. Sentiu que sua mãe tinha razão quando falava que Denise estava apaixonada por ele. Olhando nos olhos dela, ele também se abriu.

— Eu quero ser o seu porto seguro e quero que você seja o meu. A nossa história está apenas começando. Bendita à hora em que a Renata pediu que eu a acompanhasse até a delegacia. Imaginava conhecer a mulher da minha vida em qualquer lugar, menos em uma delegacia.

— Estou vendo que com você as coisas funcionam na base do toma lá, dá cá — observou Denise.

— Por quê?           

— Por um lado, você foi fundamental para eu ganhar a liberdade, mas por outro prendeu o meu coração ao seu.

Artur sorriu feliz por verificar que ela era espirituosa.

— É sério, você ganhou o meu coração. Eu quero ser totalmente sua de corpo e alma. Jamais senti por um homem o que eu estou sentindo por você. Farei o que estiver ao meu alcance para continuarmos juntos.

Despediram-se com um beijo cálido. O brilho dos olhos de cada um refletia o estado da alma.

Denise entrou no carro e rumou para a sua casa. No caminho, pensou em três conseqüências boas advindas da sua prisão: a primeira conhecer Artur; a segunda, conhecer a irmã gêmea de sua mãe biológica; a terceira, enxergar o mal que o uso de maconha causa à sociedade. Concluiu que Deus escreve certo por linhas tortas.

Ao chegar a casa, Denise viu o carro de Adriano estacionado em frente à portaria do prédio. Reduziu a velocidade e viu que ele estava agredindo a sua irmã, segurando-a com força pelo braço e sacudindo seu corpo contra a porta do carro.

Ela parou o veículo no meio da rua e desceu para ajudar a irmã. Abriu a porta do lado do motorista e puxou Adriano pelo cabelo, jogando-o na poltrona.

— Você está ficando louco? Larga a minha irmã!

Renata estava trêmula. Assim que Denise puxou Adriano, ela aproveitou para descer do carro. Os seus braços estavam vermelhos, com as marcas das mãos do namorado. Em pé, na calçada, ela ouviu as ameaças dele:

— Eu vou acabar com você! Pode esperar! Isso não vai ficar assim, não!

Em seguida, ele bateu violentamente a porta e arrancou com o carro, cantando os pneus, saindo em alta velocidade.

Renata chorava incrédula com o que acabara de acontecer. O coração de Denise disparou e a sua respiração ficou ofegante. Ela abraçou Renata, conduzindo-a para o seu carro. Depois, estacionou o automóvel na garagem. Renata voltou a abraçá-la. Chorava compulsivamente.

— Esta foi à última vez que ele me tratou assim. Eu não agüento mais!

Denise sentiu vontade de falar que ela e o pai já haviam alertado para o comportamento impulsivo do namorado, mas percebeu que aquele comentário deixaria a irmã ainda mais deprimida. Assim, decidiu incentivá-la, mais uma vez, a esquecer Adriano.

— Você merece ser feliz. Encerre este ciclo em sua vida. Você já teve várias amostras de que este relacionamento não tem futuro.

Renata enxugou as lágrimas que caíam pela sua face. Ainda estava trêmula e, em seu íntimo, revoltada consigo própria por não ter dado ouvidos aos conselhos do pai e da irmã.

— É verdade. Pode ficar tranqüila, porque, desta vez, não tem retorno. Por favor, não comente nada com o papai. É perigoso ele querer tirar satisfação com o Adriano. Ele não precisa ficar sabendo do que aconteceu.

— Está bem, mas se você voltar a ficar com ele, eu contarei tudo o que vi.

Renata balançou a cabeça, fazendo gesto negativo.

— Caso eu volte com ele, vocês podem providenciar a minha internação em um hospício.

Pela firmeza de sua voz, Denise sentiu que desta vez ela não voltaria atrás.

— O que aconteceu para ele agir daquela forma?

— Ciúme doentio. Eu elogiei o Artur, falando que você tinha encontrado a pessoa certa. Ele falou que eu estava apaixonada pelo Artur e começou a discutir comigo, levantando suspeita sobre a minha fidelidade em vários outros casos, todos sem o menor cabimento. Ele precisa se tratar, mas acho que não procura tratamento exatamente para usar o ciúme como pretexto para as suas reações.

— Ainda bem que você enxergou isso antes que acontecesse uma tragédia.

Renata enxugou as lágrimas e chamou a irmã para subir. Chegando a casa, cumprimentou o pai e retirou-se para o seu quarto.

Admitiu para si mesma que as reações de Adriano estavam ficando cada vez mais violentas e que o relacionamento deles poderia ter um fim trágico, se ela não desse um “basta”.

Lamentou o tempo perdido, mas sentiu-se aliviada por tudo isso ter ocorrido antes do casamento. Em seu coração, agora sim, sentia que estava livre, desimpedida, pronta para dar um rumo novo a sua vida.

 

Rosemeire dormiu mal durante a noite. Ficou ansiosa para o dia amanhecer. Quando o relógio marcou quatro horas da manhã, ela ligou a televisão e ficou mudando de canal, sem encontrar um programa que agradasse. Levantou-se às seis horas, em ponto. Tomou um banho demorado. Enquanto apalpava o nódulo em seu seio, pedia a intercessão divina para mantê-la viva. Depois, foi para a cozinha preparar o café. Estava fazendo frio e uma fina serração tampava a visibilidade do lado de fora, fazendo com que o sol se mostrasse tímido. O aroma do café, aliado à baixa temperatura, aguçou o seu apetite. Rosemeire partiu alguns biscoitos de maisena e colocou-os na xícara de café com leite, comendo-os com uma colher de sopa.

Sentada na cadeira, com os cotovelos apoiados sobre a mesa, voltou seus pensamentos para a surpreendente descoberta de Denise. A incrível coincidência daquele encontro deu a Rosemeire à certeza da existência de Deus, guiando os passos de todas as pessoas. Esta conclusão, que lhe parecia óbvia, fez com que se sentisse mais confiante. Da mesma forma que Denise havia sido guiada ao encontro da irmã de sua mãe biológica, através de um fato extremamente negativo em sua vida, que foi a sua prisão, ela também poderia ser guiada a algo de bom através de um fato negativo, caso viesse a ser confirmado que estava com câncer de mama.

Em outro ponto da cidade, Alexandre também não havia dormido bem, ansioso pelo resultado da biópsia feita na ex-mulher. Depois de vê-la na formatura de Denise, começou a pensar nela com mais freqüência.

Alexandre saiu de casa cedo. Estava querendo caminhar pelas ruas do bairro. À medida que caminhava, pensava sobre como deveria ser a sua conduta, caso a ex-esposa estivesse com câncer. Senti um aperto no peito. Lembrou-se do dia em que a conheceu. Era um lindo dia de sol, como naquele momento, e ele havia viajado a noite inteira para chegar a Porto Seguro. Pegou a primeira balsa para Arraial D'Ajuda e de lá seguiu para Trancoso, acatando a sugestão de um amigo. Ao chegar, constatou que existiam pouquíssimas ofertas de hospedagem. Simpatizou com uma pequena pousada que ficava próxima à igreja. Bateu à porta por várias vezes, até que uma moça gritou lá de dentro, pedindo para aguardar um momento. Quando ela abriu a porta, usava uma camiseta branca e um short jeans. De imediato, Alexandre sentiu-se hipnotizado pelos olhos negros, amendoados, irradiando tanta luz. Era Rosemeire, no esplendor de seus dezoito anos de idade. Nascia ali uma paixão fulminante, que culminou com a gravidez dela três meses depois.

No início, eles combinaram perfeitamente bem. Com o passar dos anos, todavia, vieram às cobranças de parte a parte, que começaram a minar o relacionamento, até que, pouco a pouco, o respeito começou a faltar nas divergências que apareciam. Como conseqüência, perderam até mesmo a admiração que nutriam um pelo outro. O resultado de todo esse processo desgastante acabou sendo a separação.

Enquanto caminhava, Alexandre pensava em todos os momentos importantes que tinha vivido ao lado de Rosemeire. Pela primeira vez, em muitos anos, começou a pensar nas virtudes da ex-mulher. Reconheceu nela a mãe dedicada, que socorria o filho em suas necessidades a qualquer hora do dia. Enxergou, ainda, a mulher carinhosa, que sempre tentava lhe agradar. Constatou a qualidade da responsabilidade com os seus afazeres, fossem domésticos ou profissionais. Anotou, também, a disciplina econômica dela, nunca permitindo que os gastos fossem superiores à receita e sempre correndo atrás de melhores preços, a fim de que nada faltasse dentro de casa.

É certo que algumas dessas qualidades desapareceram com as rusgas do casamento. Mas era igualmente certo que ele havia contribuído para tanto. Por outro lado, ele também havia mudado, sendo que, nos últimos anos de casamento, já não era tão carinhoso como no início.

Estaria tendo uma recaída pela ex-mulher? Caso a resposta fosse positiva, seria um sentimento passageiro? A mente de Alexandre estava a mil por hora. Passados quatro dias do seu encontro com Rosemeire, ele não conseguia pensar em outra coisa.

Rosemeire não tinha a menor suspeita de que o encontro com o ex-marido havia mexido tanto com ele, mais até do que com ela. Ao vê-lo na formatura, ela teve a nítida impressão de que ele estava feliz.

Acompanhada de Artur, que dirigia o carro, ela foi para a consulta com o doutor Rafael.

O sol já se mostrava alto no horizonte, elevando a temperatura que estava muito baixa no início do dia. Poucas palavras eles trocaram no percurso da residência até o consultório médico. Artur não conseguiu disfarçar a ansiedade.

Chegando ao consultório, foram informados pela secretária de que o doutor Rafael iria atendê-los em breve.

Enquanto aguardava, Rosemeire tentava encontrar forças, visando se preparar para receber qualquer notícia. O tempo de espera, entretanto, aumentava a angústia. Artur também estava impaciente e ficou nervoso quando seu celular tocou.

— Esse telefone não me deixa sossegado — resmungou.

Após olhar o número indicado no visor, não escondeu sua surpresa.

— É o papai. Estranho ele telefonar a esta hora. Será que aconteceu alguma coisa?

Ao atender a chamada, Artur verificou que o seu pai estava bastante preocupado.

— Estou ligando para ter notícias da sua mãe. Já saiu o resultado?

— Nós estamos no consultório, aguardando atendimento. Nesse exato instante, a secretária convidou-os para acompanhá-la.

— Depois eu ligo para o senhor. O médico está nos chamando. Rosemeire e Artur levantaram-se e foram à sala indicada, onde o doutor Rafael os aguardava, trazendo na face uma expressão serena. Após cumprimentá-los, o médico começou a sua explanação.

A notícia que eu tenho não é a que eu gostaria de dar, mas também não é a que eu não gostaria de dar.

Rosemeire sentiu um aperto no coração e começou a suar frio nas mãos.

— O tumor é maligno — prosseguiu o médico —, mas não parece ser dos mais graves. É um tumor de dois centímetros e meio. Acredito que está em fase inicial, não tendo ocorrido à metástase. Será feita a cirurgia para retirá-lo. Durante a cirurgia, verificaremos se não há envolvimento metastático dos linfonodos axilares. A princípio, a cirurgia não causará danos estéticos maiores, exatamente pelo diagnóstico precoce do câncer. Não será necessária uma mastectomia total, ou seja, a senhora não irá perder a mama. Faremos uma quadrantectomia, removendo apenas a parte doente.

Rosemeire olhava para o médico, sem saber o que falar. Procurava palavras para se expressar, mas a mente confusa bloqueava o perfeito raciocínio do cérebro.

— E quando será essa cirurgia? — perguntou Artur.

— Eu pretendo operá-la amanhã. O quanto antes, melhor.

— Está bom para a senhora desse jeito? — tornou Artur.

Rosemeire balançou a cabeça, concordando com a proposta do médico.

— Quando começarei o tratamento com a quimioterapia?

— A senhora será encaminhada para a oncologista. Porventura, será a doutora Beatriz?

— Será sim.

— Ela definirá como será o tratamento, mas pode se preparar para a quimioterapia.

— Então, o senhor acha que o meu caso não é tão grave?

— O câncer é uma doença grave, que exige muitos cuidados. Dentro desse quadro, a princípio parece-me ser um câncer em estágio inicial, onde a porcentagem de cura é alta, desde que o paciente siga as orientações médicas. Além disso, é sempre importante ter vontade de se curar e alegria de viver. Quando o coração fica muito triste, a imunidade fica comprometida.

— Eu quero viver, doutor. Pode ter certeza de que eu vou encontrar motivos em minha vida para ficar feliz e espantar a depressão. Estou muito nova, pronta para recomeçar. Eu vou ficar curada.

— É assim que se diz — tornou o médico.

Quando saiu do consultório, Rosemeire estava mais confiante. A expectativa pela resposta do exame foi pior do que a notícia que acabara de receber. Ainda não haviam deixado o prédio, quando o celular de Artur voltou a tocar.

— Qual foi o resultado do exame? — perguntou Alexandre.

— A mamãe está com câncer. O tumor tem dois centímetros e meio. O médico acredita que as chances de cura são boas, exatamente por ter sido diagnosticado precocemente. Não será necessária a mastectomia total. A cirurgia para retirada do tumor será amanhã.

A informação de que o tumor era maligno deixou Alexandre preocupado. Ele sentiu o coração disparar.

— Como ela reagiu quando soube da notícia?

— Ela reagiu bem. Está disposta a fazer o que for necessário para se curar.

— Passe o telefone para ela.  

— Um momentinho.

Artur entregou o celular para a sua mãe.      

— Ele quer falar com a senhora.

Rosemeire ficou surpresa com a atitude do ex-marido. Era a primeira vez que ele pedia para conversar com ela, desde a separação.

— Só queria dizer que estou à disposição para o que você precisar, a qualquer hora do dia ou da noite.

— Obrigada pelo apoio. Eu sei que posso contar com você.

Alexandre quis prolongar a conversa, mas não encontrou assunto.

Despediu-se de Rosemeire com a vontade de estar ao lado dela nos momentos que antecederiam a cirurgia.

Artur conhecia bem o seu pai e começou a desconfiar de que ele estava tendo uma recaída pela sua mãe.

— Não sei se é impressão minha, mas estou achando o papai muito carinhoso com a senhora.

— Acho que é impressão sua — respondeu Rosemeire, procurando liquidar o assunto.

Artur deixou sua mãe em frente à portaria do prédio e saiu para ir ao banco. Rosemeire começou a limpar a casa. Queria deixar tudo em ordem para não ter trabalho algum após a cirurgia. Estava ansiosa para retirar o tumor e começar o tratamento. Enquanto passava a vassoura no chão da casa, sentiu que precisava fazer uma faxina também em seu coração e em sua mente, que ficaram carregados de sentimentos e pensamentos ruins no transcorrer do último ano. Estava envolvida com esses pensamentos quando o interfone tocou, deixando-a um pouco irritada por ter que interromper o serviço. Quando o porteiro anunciou a presença de Alexandre na portaria, ela chegou a perder o fôlego. Esperava que fosse qualquer pessoa, menos ele.

Rosemeire correu para colocar o vestido que estava usando antes de começar a faxina. Depois, foi ao banheiro retocar o batom e voltou para atender a campainha. Alexandre vestia terno azul, camisa branca e gravata vermelha. Em sua mão direita, trazia um caixa de bombons belgas.

— Desculpe-me, mas eu precisava vê-la antes da cirurgia.

O coração de Rosemeire acelerou os batimentos. Alexandre sempre comprava bombons belgas quando queria agradá-la. A caixa nas mãos dele tinha um significado especial.

— Por favor, entre.

— Trouxe esses bombons para você.

— Obrigada. Não precisava se preocupar.

Rosemeire pegou a caixa de bombons, fechou a porta e caminhou até o sofá, fazendo um gesto para Alexandre sentar-se.

— Está animada para a operação?

— Estou sim. Sinceramente, estou confiante até demais. Tenho certeza de que estou em boas mãos. Está tudo bem com você?

Alexandre franziu a testa e respondeu:

— Estarei mentindo se disser que sim.               

— Aconteceu alguma coisa?

— Estou preocupado com você.

— Eu estou bem — tornou Rosemeire. — Não há motivo para se preocupar. Acredito que você sentiria a minha morte, como eu sentiria sua, mas não mudaria muita coisa em sua vida. Talvez, a única mudança seria na forma de você se relacionar com o Artur.

Alexandre coçou a cabeça, olhou no fundo dos olhos de Rosemeire e disse:

— Antes fosse assim. A mudança seria muito maior.    

— Por quê?

— Porque eu precisaria mudar os meus planos — respondeu Alexandre.

Rosemeire ficou surpresa com aquela afirmação. Alexandre olhava-a de uma forma diferente, como se quisesse convencê-la de algo.

— Quais planos?

Alexandre manteve o olhar fixo nela. Teve vontade de abraçá-la, mas se conteve. Fechou os olhos e deixou uma lágrima cair. Em seguida, buscou a mão dela, segurando-a com carinho.

— Já tem um tempo que comecei a repensar sobre a nossa separação disse ele, com a voz baixa. — Estou questionando bastante a minha atitude. Fico pensando em nós dois, no tempo em que éramos felizes.

— Pena que essa época passou, não é Alexandre?

— É verdade. Passou porque nós não soubemos lidar com as dificuldades. Com o passar dos anos, ficamos mais egoístas e menos tolerantes. Não conseguimos enxergar que estávamos destruindo o nosso bem maior: o amor que nos uniu. Esse foi o nosso primeiro erro. O segundo foi não acreditar que poderíamos resgatar esse amor.

— Desculpe-me, mas quem não acreditou foi você.

— Discordo — tornou Alexandre. — Nós nunca tentamos resgatar os nossos bons momentos. A diferença é que você se contentou com a vida que estávamos levando e eu achei melhor buscar a separação, até mesmo para poupar futuros desgastes, já que estávamos perdendo até o diálogo.

Rosemeire fitou Alexandre, tentando decifrar o motivo daquela conversa.

— Por que você está falando disso?

— Porque acredito que podemos evitar um terceiro erro — respondeu Alexandre.

— Qual erro?

Alexandre encarou a ex-mulher, dando um tempo para responder à sua pergunta. Ela estava muito bonita, despertando forte atração nele, o que não ocorria nos últimos anos de união. Rosemeire ficou aguardando a resposta, incomodada com o silêncio dele e com a forma como a olhava.

— Acredito que, depois de ficar quase um ano separado de você, eu consegui enxergar a nossa relação de outro ângulo. Antes de separar-mos, eu não observava os erros que nós dois cometíamos. Da minha parte, acredito que tenho condições de ser um homem diferente, caso você me dê uma nova chance.

Rosemeire parecia não acreditar no que ouvia. Jamais esperava que Alexandre fosse lhe fazer aquela confissão.

— Você está falando sério?

— Estou sim. Fique tranqüila que eu pensei bastante antes de procurá-la. Não estou sendo inconseqüente.

Rosemeire sentiu um frio subindo pela coluna e o coração disparar. Com a voz rouca pela emoção, ela perguntou:

— Desde quando você começou a pensar em voltar comigo?

— Confesso que levei certo tempo para sentir a sua falta. Não via a menor possibilidade de reatar com você. Aos poucos, a impressão ruim dos últimos anos se desfez. De repente, consegui pensar em você como aquela mulher doce e faceira que me conquistou. Depois que o Artur me procurou, comecei a sentir muita falta de você.

Rosemeire ficou contrariada com a afirmação de Alexandre e foi objetiva na pergunta:

— Será que você não está falando em reconciliação porque está com pena de mim? Acho que você está com medo de que eu morra rápido e quer me agradar no tempo que me resta de vida.

Rapidamente, Alexandre tratou de desfazer a impressão negativa da ex-mulher.

— Em hipótese alguma! Eu já estava sentindo a sua falta antes de saber do tumor. A descoberta de que você está com câncer apenas precipitou um processo de saudade que estava instalado em meu coração. Jamais faria a proposta de voltar com você, só por estar com pena.

Rosemeire permanecia com dificuldades para acreditar no que estava ouvindo. Ela jamais imaginaria que o ex-marido a procurasse tão cedo para pedir a reconciliação.

Estava pasmada. Naquele instante, ela teve a exata noção do erro que cometeu ao instigar Artur para evitar o pai, a fim de que Alexandre sentisse falta do filho e decidisse voltar para casa. Afinal, Alexandre acabara de confessar que voltou a enxergá-la como uma mulher doce e faceira, depois que Artur o procurou.

Por alguns segundos, eles ficaram imóveis e quietos, apenas se olhando. Alexandre estava ansioso para saber o que a ex-mulher estava pensando sobre a sua revelação.

— O que você me diz disso tudo?

Rosemeire suspirou fundo antes de responder:

— Estou surpresa. Na verdade, eu estou bastante surpresa. Jamais esperava ouvir isso de você. Passei por um período muito difícil, mas agora estou conseguindo me recuperar. Sinceramente, já estava conformada com a nossa separação, pensando em fazer planos para o futuro. Esse futuro não incluía você.

Preocupada com a sua aparência física após a quimioterapia, Rosemeire voltou a testar o ex-marido.

— Você já parou para pensar que eu vou perder os meus cabelos em poucos dias e que a cirurgia em meu peito poderá ser mais invasiva do que o previsto?

— Eu sei dessas conseqüências. Estou pedindo uma nova oportunidade de viver ao seu lado pelo sentimento que tenho por você, e não pela beleza dos seus seios ou pelo brilho dos seus cabelos.

Rosemeire sentiu o coração se desmanchar com o elogio de Alexandre. Suas faces estavam a poucos centímetros de distância, de forma que podiam sentir a respiração um do outro. Alexandre tocou a face dela com a mão, deslizando-a carinhosamente até o pescoço. Rosemeire sentiu um arrepio subindo pela espinha e fechou os olhos. Quando Alexandre aproximou-se para beijá-la, eles ouviram o barulho da chave abrindo a porta e deram um salto para trás.

Artur ficou surpreso com a presença do seu pai.

— Que bom ver o senhor!

Alexandre levantou-se do sofá, sem conseguir disfarçar o incômodo com o flagrante do filho.

— Vim desejar boa sorte para sua mãe. Não me leve a mal, mas eu já estava de saída. Por favor, mantenham-me a par de todos os acontecimentos.

Alexandre despediu-se do filho, depois trocou longo olhar com Rosemeire e saiu.

Artur ficou encarando a mãe, à espera que ela abrisse o jogo sobre o verdadeiro motivo da visita do seu pai. Ante o silêncio dela, ele decidiu perguntar:

— Quer dizer que o papai veio apenas desejar boa sorte para a senhora?

Rosemeire sabia que o filho tinha percebido a mentira contada por Alexandre, mas mesmo assim confirmou a versão do ex-marido.

Em seguida, caminhou em direção à cozinha. Artur acompanhou-a com os olhos, tendo em seus lábios um sorriso de felicidade.

 

Desta feita, o motivo que levou Rosemeire a ter dificuldade em adormecer foi outro. Por muito tempo, ela esperou pela volta ao lar do ex-marido. Chegou a perder as esperanças, acreditando que ele tinha encontrado o seu caminho longe dela. Agora, regozijava-se ao lembrar-se da conversa que tiveram algumas horas antes. Durante toda noite, ela pensou na proposta de Alexandre. Quando adormeceu, já passava das três horas da madrugada.

Às sete e meia da manhã, em companhia de Artur e de sua mãe, ela saiu de casa. Chegando ao hospital, Rosemeire apresentou a carteira do convênio médico e assinou alguns papéis. Pouco depois, despediu-se e seguiu em uma maca para o bloco cirúrgico. Em seus pensamentos, a vontade de que tudo desse certo, a fim de que voltasse a desfrutar de saúde plena.

A cirurgia começou às oito e meia. A simples presença do doutor Rafael trazia tranqüilidade e confiança. Além de extrair o tumor, o médico adotou o procedimento que visava recolher material para o exame que detectaria a ocorrência ou não de metástase de linfonodos.

Quando Rosemeire acordou, já estava no quarto do hospital, com um dreno em seu seio. Ao lado da cama, sentados em um sofá, Artur e Maria assistiam a um programa na televisão.

— Venci a primeira batalha. Tenho certeza de que vencerei as outras. Artur sorriu e levantou-se para beijar a face de sua mãe.

— Você ficará boa. Daqui a alguns anos estará brincando com os netos.

— Quero muito ter herdeiros. Eu sou filha única. Portanto, se você não me der netos, o ciclo da nossa família estará encerrado, não é mesmo, mamãe?

Maria sorriu feliz por ver a disposição da filha em lutar contra o câncer. O simples fato de ela desejar curtir os netos já era sinal de que tinha planos para um futuro mais distante.

A conversa foi interrompida por uma batida na porta. Artur caminhou e a abriu. Era o doutor Rafael. Logo atrás dele, vinham Denise e Renata.

— Vamos entrar doutor. A minha mãe acabou de acordar.

Em seguida, Artur beijou a namorada e cumprimentou Renata, convidando-as para entrar.

Os olhos de Rosemeire brilharam de alegria quando viu o médico e as irmãs. Após Artur apresentá-las para o doutor Rafael, este começou a explicar os próximos passos a serem adotados no tratamento de Rosemeire.

— Provavelmente, a senhora será liberada ainda hoje. Não tivemos nenhuma complicação cirúrgica. Daqui a cinco dias, nós saberem se houve envolvimento metastático. Seria bom a senhora ligar para a doutora Beatriz e agendar uma consulta.

Rosemeire fez gesto de positivo com o polegar.

— O senhor tem sido bastante atencioso comigo. Daqui a uma semana, eu estarei completando mais um ano de vida. Há muitos anos não comemoro um aniversário. Caso o resultado do exame seja negativo, irei reunir os amigos mais próximos em meu apartamento. Ficaria muito satisfeita se o senhor puder ir.

Virando-se para Denise e Renata, Rosemeire completou:

— Não aceito desculpas. Não marquem compromisso para a próxima quarta-feira. Estou confiante em que não houve a metástase. Vamos comemorar o meu aniversário.

— Com certeza, nós estaremos presentes — respondeu Renata.

A resposta de Renata deixou o doutor Rafael animado com o convite. Ele não conseguiu disfarçar o encanto que sentiu por ela.

— Eu fico grato pela sua atenção. Segunda-feira à tarde, a senhora deverá comparecer ao meu consultório a fim de ser informada sobre o resultado do exame. Caso seja negativo, com o maior prazer irei ao seu aniversário. Estou gostando de ver o estado espírito da senhora. Desse jeito, vai derrotar o câncer mais rapidamente do que eu imaginava.

— Pode ter certeza de que estou determinada a ficar curada.

Em seguida, o médico encarou Renata no fundo dos olhos e despediu-se de todos, saindo do quarto.

— Você viu o jeito que ele olhou para você? — perguntou Denise.

— Não houve nada demais. Ele me olhou normalmente, sem segundas intenções. Bem que eu gostaria que você tivesse razão. Ele é muito charmoso.

— E o seu namorado? — questionou Rosemeire.

— Nós terminamos. Desta vez foi pra valer. Cansei de sofrer.

— Você é uma mulher bonita e inteligente — tornou Rosemeire. — Caso não se dê valor, nenhum homem dará. Mesmo que sinta falta dele, não volte o namoro. O sofrimento passará e você estará pronta para viver um novo amor. As oportunidades aparecem para as pessoas que estão abertas para a vida. Não perca o seu tempo com um relacionamento que não tem futuro.

Renata ouviu em silêncio os conselhos de Rosemeire. Estava se sentindo mal por não ter colocado um ponto final no namoro quando começaram as cenas de ciúmes. Imaginou quantas pessoas interessantes poderia ter conhecido, caso estivesse desacompanhada.

O celular de Artur tocou. Era o seu pai, querendo ter notícias de sua mãe.

— Como foi à cirurgia?         

— Ocorreu tudo bem. Hoje à tarde, ela deverá estar em casa. Segunda feira sairá o resultado do exame.

— Ela está podendo falar?

— Está sim. O senhor quer que eu passe o telefone para ela?

— Por favor.

Artur entregou o celular para a sua mãe, dando um sorriso maroto de quem estava percebendo tudo o que estava acontecendo.

— Você não sai da minha cabeça. Pensou sobre a proposta que eu lhe fiz?

— Não.

— Está difícil para conversar agora, não é?

— Exatamente.

— Além do Artur, tem mais alguém com você?

— A Denise, a Renata e a mamãe.

— Posso visitá-la amanhã, pela manhã?

— Claro!

— Você está com muita vergonha de conversar na frente de todos, não é mesmo?

— Claro.

— Está querendo que eu desligue o telefone?

Rosemeire sorriu com a brincadeira de Alexandre, não respondendo a pergunta.

— Está bem. Amanhã a gente se vê — disse ele.

Após desligar o telefone, Rosemeire pediu a Artur para agendar uma consulta com a doutora Beatriz, conforme orientação do doutor Rafael. Denise e Renata se levantaram para ir embora.

— Fiquem mais um pouco — pediu Artur.

— Não podemos meu amor. Papai retornará hoje para a fazenda. Vamos ficar com ele nesse restinho de tempo.

— Lembrem-se do meu aniversário.

— Pode ficar tranqüila.

Em seguida, as duas irmãs partiram. No trajeto para casa, Renata lembrou-se do olhar do doutor Rafael para ela. Sabia que a irmã estava certa quando fez o comentário, mas não queria render o assunto. De fato, achou-o um homem bastante interessante, não apenas pela beleza física, mas, sobretudo, por ser mais velho do que ela, talvez uns dez anos. Depois das inúmeras brigas com Adriano, ela estava disposta a namorar um homem mais experiente.

Quando chegaram a casa, Leônidas estava acabando de arrumar as malas.

— Decidi viajar mais cedo. Consegui resolver uns problemas no banco mais rápido do que imaginava e vou aproveitar para sair agora, pois tenho muito que fazer na fazenda. Fiquem com Deus. No final de semana, estarei de volta.

Denise e Renata deram um abraço carinhoso em Leônidas. A presença dele dava segurança a elas.

— Desculpe-me pelo aborrecimento que eu dei a você. Prometo que não voltará a acontecer. Eu decidi parar definitivamente de usar maconha — confessou Denise.

Leônidas já estava emocionado pela despedida e não conseguiu falar nada. Apenas deu uma tapa carinhosa na face da filha.

Antes que seu pai partisse, Renata decidiu contar sobre o término do namoro.

— Eu tenho uma notícia pra dar. Acho que você gostará de saber, terminei o namoro. Desta vez, é definitivo.

Leônidas sorriu, parecendo não acreditar no que acabara de ouvir. Resumiu a sua alegria em um comentário:

— Vou embora com o coração apertado de saudades, mas feliz porque as minhas filhas largaram duas coisas ruins: a maconha e um namorado desequilibrado pelo ciúme.

Renata e Denise acompanharam o pai até a garagem. Quando ele partiu, ficou uma sensação de vazio no apartamento.

 

Alexandre acordou cedo para visitar Rosemeire e seguiu para a floricultura. Seguindo sugestão da florista, comprou uma orquídea branca para a ex-mulher. A emoção daquele momento era semelhante à vivenciada em Trancoso, nos momentos que antecederam ao primeiro beijo. Em sua mente, a possibilidade de receber uma resposta negativa era mínima. Ainda que Rosemeire levasse alguns dias para dar a resposta, ele tinha certeza de que seria positiva.

Ao chegar, cumprimentou o porteiro Joel com a confiança de que brevemente não precisaria mais anunciar a sua presença. Depois, pegou o elevador e ficou se olhando no espelho, ajeitando algumas mechas de cabelos. Ao chegar, foi recepcionado pela ex-sogra e por Artur.

— Quanto tempo, Alexandre! Você não mudou nada.

— Bondade sua, dona Maria. O espelho não me deixa iludir. A senhora sim, está muito bem.

— Eu amo a vida, este é o meu segredo.

Maria já estava desconfiada das intenções de Alexandre, em face de uma conversa que teve com Artur, e torcia para que ele voltasse com sua filha.

— Mamãe está lá no quarto. Nós iremos ao supermercado. Até mais.

Com um beijo na face, Artur e Maria despediram-se de Alexandre e saíram. A ida ao supermercado era fantasiosa; apenas uma desculpa para deixar Rosemeire e Alexandre a sós. Estava muito claro para eles qual era a real intenção de Alexandre com aquela aproximação repentina. A vontade de reconciliar com a ex-esposa estavam estampadas em seus olhos.

Quando Alexandre entrou no quarto, Rosemeire estava recostada na cabeceira da cama, assistindo a um programa na televisão. Assim que ela viu a orquídea, soltou um suspiro, seguido de um sorriso meigo.

— Como você está?

— Estou bem. A cirurgia correu dentro da expectativa.

— Trouxe esta orquídea para você.

— É linda! Vou deixá-la aqui em meu quarto para encher o ambiente de vida. Obrigada, mas não precisava se preocupar.

— Este quarto já está cheio de vida. A sua presença já deixa o ambiente cheio de vida. Você está linda.

Rosemeire sorriu novamente e respondeu:

— Você também está bem. Parece estar leve.

Alexandre sentou-se na cama, ao lado dela. O olhar penetrante estava inquieto para saber se ela havia decidido voltar para ele.

— Você refletiu sobre a nossa conversa?

Antes de responder, Rosemeire procurou ler nos olhos de Alexandre o que o estava movendo para ter aquela atitude.

— Eu pensei, sim, mas não tive tempo de chegar a uma conclusão. Conforme disse, você me pegou de surpresa, em um momento difícil da minha vida. Confesso que fiquei balançada. Ainda gosto de você e não consegui me envolver com outro homem.         

Alexandre encheu-se de alegria com aquela confissão.    

— Então, por que você ainda não decidiu?         

— Gostar é fundamental, mas não é o suficiente. Sofri muito com a separação, mais do que você possa imaginar. Agora, estou conseguindo dar a volta por cima. Tenho medo de reatar o casamento e sofrer de novo. Eu não sei se o desgaste de todos esses anos inviabiliza uma convivência harmoniosa. Será que seremos capazes de resgatar a felicidade que um dia tivemos?

— Só há uma forma de saber: tentarmos novamente.

— Tenho medo de tentar e me arrepender — ponderou Rosemeire

— É melhor se arrepender pela ação do que pela omissão — retrucou Alexandre. — Aceitando o meu pedido, você poderá saber se agiu certo ou errado. Recusando, você nunca saberá se a sua decisão foi acertada.

— É difícil argumentar com advogados — tornou Rosemeire. — Vocês têm sempre outro argumento para combater o nosso. Eu prometo que não vou demorar a decidir. Não é justo você ficar aguardando a minha decisão indefinidamente. Tenha um pouco de paciência comigo.

— Eu terei. Independente da sua resposta, quero que saiba que eu estou rezando todos os dias pela sua saúde.

— Eu sei que você está torcendo por mim. O seu apoio é muito importante. Em breve, você saberá a minha decisão.

— Está bem. Vou deixar você descansar.

Em seguida, Alexandre beijou a face de Rosemeire e saiu.

Pouco depois, Artur e Maria retornaram para o apartamento. Estavam curiosos e decidiram perguntar para Rosemeire sobre o teor da conversa com Alexandre.

— Você e o Alexandre estão reatando?

Rosemeire fitou a mãe enternecidamente e respondeu:  

— Ele está querendo voltar, mas eu ainda não dei a resposta. Não quero tomar uma decisão precipitada. A possibilidade de arrependimento é grande.

— A senhora sempre sonhou com a volta dele — disse Artur.

— É verdade. Antes eu desejava que ele voltasse para mim, em qualquer circunstância. A minha auto-estima estava péssima. Atualmente, as coisas mudaram. Eu não quero ficar com o Alexandre apenas por ficar. Eu só vou voltar se sentir que valerá a pena. Hoje, eu consigo enxergar que posso ser feliz sem ele. A minha felicidade não pode depender de homem algum; ela tem que estar em minhas mãos.

— Eu acho que a senhora está certa. Torço muito para vocês voltarem, desde que seja para o bem comum de ambos.

— Minha filha, quando você dará a resposta a ele?

— No mais tardar, na próxima semana. Não quero precipitar, mas também não posso ficar enrolando.

Artur ficou admirado com a postura de sua mãe. Há pouco tempo, era inimaginável que ela tivesse uma atitude que demonstrasse tanta independência e maturidade.

Maria procurou demonstrar apoio a qualquer decisão que sua filha tomasse.

— Gosto do Alexandre como se fosse um filho e torço muito para que você volte com ele, mas, acima de tudo, eu torço pela sua felicidade. Que Deus ilumine o seu caminho e o dele! Não sei se ainda estarei aqui quando você der a resposta para ele, pois retornarei para Trancoso no dia do seu aniversário. De qualquer forma, mesmo de longe, estarei rezando por você todos os dias da minha vida.

Rosemeire sorriu agradecida pelo apoio materno. Em seu íntimo queria que sua mãe ficasse mais tempo com ela.

— Por que a senhora não deixa para retornar a Trancoso no dia seguinte ao do meu aniversário? Eu farei um jantar para alguns poucos amigos.

— Sinto muito, minha filha! Eu tenho a formatura da minha afilhada no mesmo dia. Há mais de seis meses ela fala comigo dessa formatura todos os dias. Eu não posso nem pensar em não comparecer! De qualquer forma, eu almoçarei com você, pois o vôo partirá para Porto Seguro às dezesseis horas. Prometo que voltarei em breve e ficarei mais dias com vocês.

Rosemeire acenou com a cabeça, demonstrando que compreendia as razões de sua mãe.

 

Enquanto Alexandre aguardava a resposta de Rosemeire, Adriano decidiu tentar nova reconciliação com Renata.

No sábado pela manhã, ele estacionou o carro próximo ao prédio onde ela morava e ficou à espreita, aguardando-a sair. Assim que a viu, correu em sua direção.

— Renata, espere um momento!

Ela olhou assustada para o ex-namorado. Em sua mente, estava bem nítida a cena da agressão.

— Nós não temos mais nada para conversar. Não se aproxime de mim.

— Calma, eu não vou machucá-la. Não tenha medo. Quero apenas conversar com você.

Renata olhou ao redor e viu que não havia ninguém por perto. A portaria do prédio estava a uns vinte metros de distância. Receosa da reação que ele poderia ter diante de uma resposta negativa, ela decidiu aceitar seu pedido.

— Está bem. Vamos conversar na portaria do prédio.

— Eu prefiro um local mais discreto, porque nós vamos conversar sobre a nossa intimidade. O porteiro e os moradores que passarem por ali poderá ouvir o que não precisam.

— Sinto muito. Eu não vou sair com você para lugar algum. Caso queira conversar comigo, será na portaria do meu prédio.

Adriano sentiu o sangue ferver de raiva, mas procurou se conter. Sabia que mais uma atitude explosiva não seria aceita pela namorada.

— Vamos lá. Não é o local ideal para conversarmos, mas eu preciso muito lhe dizer algumas coisas.

Em silêncio, caminharam até a portaria. Passaram por Silvestre, o porteiro, andaram mais cinco metros e assentaram no sofá, que ficava próximo aos elevadores. Coube a Adriano dar início à conversa.

— Primeiro, eu quero lhe pedir desculpas por ter perdido a cabeça naquele dia, quando estávamos dentro do meu carro. Eu fiquei muito arrependido. Quando cheguei em casa, vi a besteira que havia feito. Eu cheguei à conclusão de que tenho estado muito nervoso, precisando de ajuda para lidar com o meu ciúme. Eu vou procurar um psicólogo.

— Acho que você já deveria ter feito isso.

— Só agora, eu enxerguei que preciso de um tratamento. Eu tenho certeza de que ficarei menos ciumento. Gosto muito de você e não estou sabendo conviver com esse sentimento. Fico muito inseguro, com medo de você gostar de outro homem. A partir de agora, será diferente. É só você me dar uma última chance, que verá outro homem,

Renata observava Adriano, olhando-o no fundo dos olhos. Aquela deveria ser a enésima vez que ouvia seu pedido de desculpas. Sentiu que ele estava disposto a procurar ajuda terapêutica, mas esse fato não foi suficiente para que sentisse vontade de reatar o namoro. Ao contrário das vezes anteriores, desta feita ela estava decidida a seguir outro rumo.

— Fico feliz de saber que você irá se tratar, mas não existe a menor chance de volta. O desgaste de nossas brigas foi muito grande. Hoje, eu não vejo a possibilidade de ser feliz com você. Pode até ser que, algum dia, isso mude.

— Vamos fazer uma última tentativa — insistiu Adriano. — Eu sei que você nunca seria feliz se eu continuasse agindo daquela forma. Só que eu pretendo ser outro homem a partir de agora. Eu vou procurar um psicólogo que me ajude a vencer o ciúme.

Renata teve dó de Adriano, porque sabia o quanto seria difícil para ele superar o ciúme e porque o amor dele já não era mais correspondido por ela.

— As cicatrizes das nossas brigas estão muito vivas em mim. Vamos deixar que o tempo as apague. Se for da vontade de Deus que algum dia fiquemos juntos, certamente nós seremos encaminhados um para o outro.

— Nós não podemos agir assim — contestou Adriano. — Corremos o risco de conhecer outras pessoas e ficarmos apaixonados por elas. Se isso acontecer, dificilmente voltaremos a ficar juntos.

— Esse é um risco que precisamos correr. Se tivermos que ficar juntos, mesmo que nos apaixonemos por outras pessoas, voltaremos um para o outro.

Adriano segurou firmemente as mãos de Renata. Ele estava suando frio e a respiração, pouco a pouco, foi ficando mais longa, demonstrando o seu nervosismo.

— Eu estou implorando: dê-me uma última oportunidade. Prometo que, se não der certo, nunca mais telefonarei para você.

Renata desvencilhou-se das mãos dele e respondeu:

— Você não precisa se humilhar. A minha decisão está tomada e eu não vou mudá-la. De qualquer forma, não deixe de procurar um psicólogo. Ele poderá ajudá-lo a ser um namorado melhor para outra menina. Tente me esquecer. Eu não sou a única mulher no mundo que poderá fazê-lo feliz. O nosso relacionamento desgastou-se de tal forma que hoje é impossível resgatar o amor que eu sentia por você.

À medida que Renata falava, as lágrimas caíam pela face de Adriano.

— Tenho certeza de que, depois que você ficar curado desse ciúme doentio, terá totais condições de fazer uma mulher feliz.

— Essa mulher é você! — insistiu Adriano.

— Não. Você ainda conhecerá essa mulher. Será alguém que passe segurança a você; que não deixe você desconfiado de que está sendo traído. Infelizmente, eu não consegui isso. Coloque na sua cabeça que a nossa história chegou ao fim.

Desesperado, em prantos, Adriano ajoelhou-se aos pés de sua ex-namorada.

— Por favor, não faça isso comigo. Nós podemos superar este momento difícil. Dê-me a última chance.

Renata sentiu vontade de chorar, tamanha pena dele que sentiu.

— Por favor, não faça isso. Acabou, Adriano.

— Não. Eu não aceito o término. Dê-me um beijo, vamos recomeçar disse ele, levantando-se na tentativa de aproximar a sua boca da dela.

— Por favor, pare. Se você tentar, eu chamarei o porteiro.

Adriano ficou perplexo diante da firmeza demonstrada pela ex-namorada. Não havia outro jeito de Renata demonstrar, com tanta clareza, que não sentia mais nada por ele. Diante daquela postura irredutível, ele emudeceu e saiu.

Renata ficou observando Adriano caminhar, meio cambaleante. Sentiu um aperto no peito por vê-lo naquela situação, mas sabia que estava agindo corretamente. Terminava ali um relacionamento marcado pela insegurança, desconfiança e cobranças.

 

Os cinco dias após a retirada do tumor custaram a passar para Rosemeire. Nesse período, Alexandre visitou-a duas vezes, mas evitou conversar sobre a reconciliação. Percebeu a angústia dela e decidiu não pressioná-la a uma decisão.

Durante o final de semana, como Leônidas não pôde retornar da fazenda, Rosemeire aproveitou a freqüente companhia de Denise para conversar sobre outros assuntos que não fossem a sua doença, na tentativa de vencer a angústia.

Denise aproveitou para falar do seu entusiasmo com a possibilidade de conhecer a família materna.

A semana que estava se iniciando prometia fatos novos, que poderiam mexer com a emoção das duas.

No dia seguinte, segunda-feira, Rosemeire acordou bastante ansiosa para saber o resultado do exame linfonodo sentinela. Deveria comparecer ao consultório do doutor Rafael à tarde.

Denise levantou cedo e foi cumprir a pena de prestação de serviços à comunidade. Chegando à Casa de Apoio, percebeu o ambiente triste pela recente morte de Robertinho. O impacto da tragédia continuava marcado na fisionomia dos funcionários e dos pacientes. Era muito difícil mesmo acreditar que eles não ouviriam mais as brincadeiras daquele garoto extrovertido.

O encontro com a doutora Beatriz aconteceria apenas no período da tarde, quando ela chegaria para as consultas. Naquele clima de velório, Denise cumpriu as suas obrigações. No horário do almoço, retornou à sua casa. Lá, o clima também não era dos melhores. A ausência do pai começou a ser sentida naquela segunda-feira, pois, durante o final de semana, ela havia permanecido mais tempo na casa de Artur do que na sua própria casa. Por outro lado, Renata mostrava-se abatida pelo término do namoro e pelo desemprego.

Logo após o almoço, Denise retornou à Casa de Apoio. O encontro com a doutora Beatriz foi mais informal do que das outras vezes. Antes de começar o atendimento às crianças, a médica chamou-a em seu consultório.

— Como foi o seu final de semana?

— Foi bom. Eu procurei fazer companhia à Rosemeire. O resultado do exame deve sair hoje e ela está muito angustiada.

— A consulta dela em meu consultório está marcada para amanha. Bem... Eu chamei você aqui porque gostaria de marcar um encontro para nós conversarmos.

— Tudo bem. Vamos dar seqüência à nossa conversa.

— Exatamente. Eu tenho muito a lhe falar. Você tem algum compromisso hoje à noite? — perguntou Beatriz.

— Eu gostaria de passar na casa do meu namorado, mas acredito que não demorarei muito tempo por lá. Podemos marcar um encontro às nove horas da noite.

— Ótimo. Eu tenho o seu telefone no cadastro. Vou ligar apenas para marcarmos o lugar.

Em seguida, Denise se retirou e Beatriz começou o atendimento. Entre uma consulta e outra, pensava nas novas revelações que faria a Denise. Estava convicta de que não poderia aguardar mais tempo. Não havia outro caminho: deveria correr o risco que a situação exigia. Até então, não havia comentado nada com o seu pai. Isso a estava deixando incomodada, mas ela queria primeiro falar toda a verdade para Denise, só depois, colocaria o pai a par de tudo.

Já no final da tarde, quando Denise preparava-se para ir embora, um senhor aparentando ter setenta e poucos anos de idade aproximou-se e pediu para conversar com a doutora Beatriz.

— Ela está atendendo uma paciente. O senhor pode esperar, ela não deverá demorar. É a última consulta de hoje.

— Perfeitamente. Eu sou o pai dela.

Denise surpreendeu-se com a revelação. Diante dela, o avô materno. Pelo comportamento formal que ele teve, não desconfiou de que ela fosse à filha de Imelda. Denise ficou em dúvida sobre falar ou não a sua identidade. Sentiu uma vontade enorme de dizer quem era certa de que a doutora Beatriz já havia comentado sobre sua existência com ele.

— Eu sou a Denise, filha da Imelda.

A afirmação causou forte impacto em seu interlocutor, cuja expressão tornou-se séria.

— Eu sou filha da Imelda e, portanto, sua neta.

— Você é filha da Imelda, minha filha?

— Sim. Eu imaginei que o senhor soubesse. A doutora Beatriz não falou nada?

Agora, a expressão daquele senhor demonstrava um espanto ainda maior.

— Desculpe-me, mas não estou entendendo mais nada.

A conversa foi interrompida quando Beatriz abriu a porta para a menina sair. Ao ver o seu pai conversando com Denise, ela quase caiu de costas. Antes que pudesse pensar no que dizer, seu pai deixou-a em um beco sem saída.

— Beatriz, esta menina está falando que é sua filha.

Imediatamente, Denise corrigiu a afirmação daquele homem.

— Eu não disse isso. Eu falei que sou filha da Imelda e, não, da Beatriz. Desculpe-me, doutora, mas eu achei que ele soubesse.

Beatriz levou as mãos à face, em sinal de desespero.

— O que está acontecendo? — questionou José Antônio.

Beatriz ficou muda, sem encontrar resposta. Apenas olhava para o pai e para Denise.

— Responda-me — tornou José Antônio. — Quem é esta menina?

— Desolada, Beatriz não viu alternativa que não fosse a de antecipar a conversa que teria com Denise e seu pai.

— Entrem. Era sobre isso que eu iria conversar com você, hoje à noite, Denise. Papai, o senhor não deveria ter vindo aqui sem me avisar.

— Eu fiz compras no supermercado aqui perto e aproveitei para fazer-lhe uma visita. Afinal, tem um bom tempo que não nos vemos.

Beatriz abriu a porta e puxou duas cadeiras para eles. Estava visivelmente transtornada diante daquela situação. Quando todos estavam sentados, José Antônio voltou a perguntar:

— Que história é essa que esta menina está falando?

Denise olhou para Beatriz, sem entender o que estava acontecendo, afinal a mãe biológica dela havia morrido vinte anos atrás.

— Esta é uma longa história.

Agora foi a vez de Beatriz olhar para Denise, tendo os olhos marejados de lágrimas. Denise, por sua vez, sentiu um aperto no coração, pressentindo o que ouviria nos segundos seguintes. Beatriz foi direto ao assunto.   

— A Denise é minha filha.     

O impacto da resposta deixou Denise e José Antônio estupefatos, como se não tivessem acreditado no que acabavam de ouvir. O pai jamais desconfiou que ela tivesse tido uma filha. Denise, por sua vez, já estava conformada que sua mãe biológica estava morta e que Beatriz era a irmã gêmea dela.

Diante dos olhares atônitos deles, Beatriz prosseguiu:

— O senhor sabe que eu trabalhei em uma fazenda, no sul de Minas, quando saí de casa. Era a fazenda dos pais da Denise.

Ao ouvir estas palavras, Denise começou a chorar. Sentiu que Beatriz estava falando a verdade, mas a sua cabeça estava confusa, pois já não sabia mais qual era a identidade real de sua mãe biológica.

— Acabei tendo um relacionamento com o Leônidas, pai dela. Foi um momento extremamente difícil em minha vida. Eu estava brigada com o senhor e a mamãe e não queria voltar para casa com uma filha que eu não tinha condições financeiras de criar. Não sabia como seria recebida por vocês. Além do mais, Leônidas não acreditou que o bebê era dele e não me deu o menor apoio. Pensei em abortar, mas fui convencida pela dona Vera, mãe da Denise, a não fazer essa besteira. Ela se comprometeu a adotar a minha filha assim que nascesse. Foi isso que aconteceu. A Denise é minha filha. Depois, eu retornei para casa, nós fizemos as pazes e eu nunca mencionei nada sobre a minha filha porque tive medo de ser repreendida.

José Antônio passava as mãos pelo rosto, limpando o suor. Estava inquieto, sem conseguir aceitar que sua filha tivesse escondido fato daquela importância por tanto tempo.

— Por que você não falou a verdade? Jamais iria desampará-la. Eu sempre desejei ter netos. Por que você agiu assim?

Beatriz não conseguiu segurar mais a emoção e começou a chorar.

— Eu era muito nova e estava completamente confusa. Eu não tinha recursos para criá-la e ninguém no mundo para me ajudar. Fiquei completamente desesperada e pensei várias vezes em abortar.

José Antônio apenas balançava a cabeça, desaprovando totalmente a atitude da filha. Denise continuava a chorar ainda sem entender o que estava se passando.

— Você disse que a Imelda havia morrido e que era a irmã gêmea dela. Os meus pais sabiam que a Imelda tinha uma irmã gêmea, cujo nome era Beatriz. Todos conhecem você por Beatriz. Como você pode ser a Imelda, sendo a Beatriz?

— Eu explico. Eu sou a Imelda. De fato, eu tinha uma irmã gêmea, a Beatriz. Era a minha melhor amiga e a pessoa que eu mais admirei, em toda minha vida. Ela teve uma leucemia fulminante e morreu. Foi uma dor horrível. Antes da morte dela, eu já estava pensando em mudar o meu nome. Não gostava das brincadeiras que as pessoas faziam comigo. Quando queriam me provocar, chamavam-me de “Imerda”. Além disso, eu estava envergonhada pelos erros cometidos na fazenda dos seus pais. Ao mudar de nome, de certa forma, eu estava deixando para trás a pessoa que havia cometido aqueles erros. Eu já não seria a Imelda, mas sim a Beatriz, a pessoa que eu mais admirava. Por isso, eu contratei um advogado e troquei o meu nome para Beatriz. Depois, eu fiz residência em oncologia para homenageá-la.

Agora, a história estava fazendo sentido para Denise. Como num passe de mágica, a mãe que ela acreditava estar morta reaparece diante dela, em carne e osso.

— Por que você não disse a verdade naquela conversa que tivemos?

— Porque eu fui pega de surpresa. Quando eu poderia imaginar que você era a moça que eu gerei em meu ventre? Eu fiquei em estado de choque, sem saber o que dizer.

Denise lembrou-se da conversa que Beatriz pediu para ter com ela naquela noite.

— Era sobre isso que você queria conversar comigo, quando me convidou para sair?

— Exatamente. Eu estava me sentindo sufocada, para falar a verdade, pois até então não havia comentado nada com o papai. Queria conversar com você, primeiro, a fim de esclarecer a verdade.

José Antônio continuava atônito. Depois da morte de Beatriz, a esperança de um dia ser avô recaiu em Imelda, a filha que permaneceu viva. Com o passar dos anos, acabou desistindo daquele sonho.

Denise, de igual forma, estava perplexa. Quanto mais ela olhava para a médica, mais difícil ficava acreditar que estava diante de sua mãe biológica. A caridade e as outras virtudes que enxergou em Beatriz contrastavam com a idéia que ela tinha de Imelda. Após a surpresa, a respiração de Denise já estava controlada. Pouco a pouco, ela sentiu uma paz profunda vibrar em seu espírito e tentou explicar o que estava se passando em seu interior.

— Eu simplesmente não sei o que dizer. Santo Deus parece que estou num sonho! Eu sempre tive pânico de reencontrar a Imelda. A rejeição dela durante a gravidez causou vários traumas em mim.

De repente, a justiça determina que eu cumpra uma pena de prestação de serviços junto a uma entidade na qual tenho a oportunidade de conhecer uma médica que cativou o meu coração. Então, eu descubro que ela é irmã gêmea de minha mãe biológica. Em seguida a revelação de que ela não é a minha tia, mas, sim, a minha própria mãe biológica. Deus cruzou os nossos caminhos, fazendo com que eu a conhecesse e a admirasse antes de descobrir a sua real identidade a fim de não ter o menor rancor quando a verdade viesse à tona. É isso que está acontecendo. Eu estou feliz, muito feliz e orgulhosa por saber que eu saí do seu ventre. A meu ver, este encontro é uma bênção em minha vida. Aliás, bendita a hora em que eu fui presa. Não fosse por isso, continuaria fumando maconha, não teria conhecido você, o Artur e a Rosemeire.

As palavras sinceras de Denise emocionaram Beatriz, que sentiu o peito esquentar e o coração acelerar. A respiração ficou mais curta e as lágrimas se misturavam ao suor. Teve vontade de gritar de alegria, de dizer a todos da sua felicidade, mas sentiu o corpo sem forças, tocado pela explosão de sentimentos.

Denise percebeu que ela estava sem forças sequer para se levantar e deu dois passos em sua direção. Em seguida, abraçou-a com a ternura dos puros de coração. José Antônio abaixou a cabeça para esconder o choro. Apesar de ter ficado chateado com Beatriz por ela ter omitido fato tão relevante, sabia que tinha a sua parcela de culpa na decisão dela e, também, que não cabia ressentimento naquele momento.

— O meu pai ficará muito feliz quando souber da verdade. Provavelmente, ele quererá conversar com você. Acho que ele lhe deve pedidos de desculpas. Mesmo que você não o desculpe, por favor, aceite conversar com ele.

Beatriz acenou positivamente com a cabeça.

— Depois de você ter tamanho carinho comigo, mesmo diante de tudo de ruim que fiz, é impossível eu negar um pedido seu. Se eu recebi a bênção do seu perdão, por que não perdoaria o seu pai? Pode ter certeza, ele já está perdoado e eu conversarei com ele na hora que ele quiser.

Em mais um momento de confraternização, Denise abraçou José Antônio. Em seguida, despediram-se e cada qual tomou o seu rumo.

Chegando a casa, Denise telefonou para o namorado e revelou todo o teor da conversa com Beatriz e José Antônio. Artur balançava a cabeça de um lado para o outro, como se não acreditasse no que ouvia.

— Estas coisas estão acontecendo na sua vida porque você merece. Eu estou muito orgulhoso de você, sobretudo pelo coração que está demonstrando ter. Confesso que fiquei curioso para conhecer a doutora Beatriz. Incrível, a sua mãe biológica vai ser a médica responsável por curar o câncer da minha mãe. É impressionante como existe uma teia invisível que interliga sentimentos e fatos.

De uma forma ou de outra, todos estamos conectados a essa teia e, conseqüentemente, uns aos outros.

Denise concordou com Artur. Pouco depois, desligaram o telefone.

Em seguida, Denise telefonou para o seu pai. Não sabia como dar a notícia. Decidiu ser direta, assim como ele foi ao falar sobre o romance que havia tido com Imelda.

— Papai, aconteceu algo fantástico. O senhor está sentado?

Pelo entusiasmo da filha, Leônidas notou que ela deveria dar uma notícia muito boa.

— Pode falar filha. Eu estou sentado.

— Prepare o seu coração, papai.

Antes que ela completasse, ele interrompeu.

— A doutora Beatriz mentiu ao dizer que a Imelda havia morrido. É isso que você vai me falar?

Denise ficou frustrada diante da descoberta feita por seu pai.

— É isso mesmo, papai.

Leônidas suspirou, aliviado. A alegria sentida só foi comparada à alegria que teve ao ver a filha fora das grades.

— Conte-me tudo sobre a Imelda.

Denise relatou a conversa que havia tido com Beatriz, com riqueza de detalhes. Leônidas vibrou quando Denise lhe disse que Beatriz aceitava conversar com ele e que não guardaria ressentimento.

Assim que desligou o telefone, Leônidas decidiu que iria para Belo Horizonte no final do expediente do dia seguinte. Cancelaria todos os compromissos do restante da semana, pois não via a hora de ter uma conversa a sós com Beatriz, à mesma Imelda pela qual foi apaixonado.

 

Artur levou sua mãe ao médico. No trajeto, comentou sobre a descoberta de Denise. Tal fato serviu para aumentar a fé de Rosemeire, pois viu o dedo de Deus guiando Denise ao encontro da mãe biológica.

Quando chegaram ao consultório, a secretária pediu para ela se dirigir à sala de consulta. Rosemeire sentiu uma fraqueza nas pernas. Ajudada pelo filho, levantou-se e caminhou para a sala do doutor Rafael. Ao abrir a porta, percebeu que o médico estava com a fisionomia tranqüila. A sua ansiedade era tanta, que ela perguntou pelo resultado do exame antes mesmo de cumprimentá-lo.

— Então, doutor Rafael? Qual notícia o senhor tem para me dar?

— O resultado do exame ficou pronto agorinha. Por isso, eu não telefonei. Imaginei que você já estivesse a caminho e preferi lhe falar pessoalmente.

Rosemeire teve a sensação de que o seu coração sairia pela boca. Naquele momento, sentiu-se uma ré à espera do veredicto. Quando os lábios do doutor Rafael moveram-se para falar o resultado do exame, ela fechou os olhos.

— Felizmente, o resultado deu negativo: não acusou metástase.

Rosemeire levantou as mãos para cima e depois abraçou o filho, tomada pela emoção.

— Mais uma vitória. Graças a Deus, graças a Deus!

Artur, enfim, conseguiu relaxar. Durante todos aqueles dias, ele sentiu uma angústia muito grande, mas fez o possível para não demonstrar sua preocupação com a saúde de sua mãe.

— Acho que está na hora de a senhora começar um novo ciclo em sua vida. As coisas estão mudando para melhor. Aproveite o embalo dessa maré positiva.

Rafael, que até então observava a alegria estampada na face dos dois, aproveitou o momento de entusiasmo para perguntar sobre o jantar na casa de sua cliente.

— A confraternização pelo seu aniversário está confirmada?

Rosemeire recostou-se na cadeira e suspirou fundo antes de responder:

— Mais do que confirmada. Deus está sendo muito generoso comigo. Nós vamos celebrar o meu aniversário. Estou nascendo de novo, em todos os sentidos. Dê-me uma caneta e um pedaço de papel para anotar o meu endereço.

— Irei com o maior prazer — disse o médico, enquanto passava o papel e a caneta para Rosemeire. — Quando a senhora irá se consultar com a doutora Beatriz?

— Amanhã, às cinco horas da tarde.

Rosemeire anotou o endereço, passando-o para o médico. Pouco depois, deixaram o consultório. Mal saíram do prédio e ela telefonou para sua mãe, dando a notícia.

— Eu estava rezando o terço, minha filha. Tinha certeza de que tudo acabaria bem. Graças ao bom Deus, agora posso voltar para Trancoso mais tranqüila.

Em seguida, Rosemeire telefonou para Alexandre. Ele deu um longo suspiro, aliviado com a notícia.

— Você não imagina como estou mais tranqüilo com esta informação. À noite passada, eu não consegui dormir, pensando no resultado desse exame. É uma preocupação a menos. Dará tudo certo, você verá.

Espero estar ao seu lado nessa nova etapa da sua vida. Acredito que agora você terá cabeça para pensar no meu pedido.    

— Sem dúvida. Eu estava preocupadíssima com esse exame. Prometo que, no máximo até sexta-feira, lhe comunicarei a minha decisão.

Por um momento, ambos ficaram calados. Alexandre já havia falado tudo que precisava. Não lhe restava outra opção que não fosse aguardar. Rosemeire, em seu íntimo, já sabia qual resposta daria, mais queria ter a certeza de não estar dando um passo errado em sua vida.

— Eu gostaria de poder abraçá-la em seu aniversário.

— Claro! Venha me visitar.

— Eu irei. Pode me aguardar.

Pouco depois, eles chegaram a casa. Assim que ouviu o barulho da porta se abrindo, Maria veio ao encontro da filha para abraçá-la.

— Mamãe, estou entusiasmada pela vida, quero viver e ser feliz com a vida que tenho, independente daquilo que não tenho. Olha, se eu pudesse definir o que estou sentindo, eu diria que descobri um gigantesco poço de petróleo dentro de mim; como se esse petróleo estivesse jorrando, levando-me para cima. Estou me sentindo rica, não de bens materiais, mas de uma energia que me empurra para a vida.

Maria voltou a abraçar a filha e elevou os seus pensamentos a Deus, agradecendo por aquele momento. Em sua mente, veio a imagem do finado marido. Em seu íntimo, ela acreditou que ele intercedeu junto ao Criador pela saúde de sua filha.

 

A alegria de Denise contrastava com a tristeza da irmã. Renata estava triste com a falta de perspectiva de emprego. Para piorar o seu estado de humor, ela foi informada pelo porteiro de que Adriano havia rondado o prédio várias vezes, no dia anterior. Pensou em passar alguns dias na fazenda, caso Adriano voltasse a fazer novas investidas. Ela queria evitá-lo ao máximo, até que a poeira pelo término do relacionamento baixasse.

Enquanto esperava pela resposta de algumas empresas onde havia deixado o seu currículo, Renata fazia entrevista em outras firmas. Artur, por sua vez, decidiu aumentar o ritmo pela busca de emprego. Até então, estava muito envolvido com a saúde de sua mãe. Após o resultado do último exame, ele ficou mais tranqüilo. Decidiu telefonar para Renata a fim de se inteirar melhor sobre as ofertas de trabalho. Depois, saiu para deixar o seu currículo em algumas empresas. No final da manhã, seu pai lhe telefonou, convidando-o para almoçarem juntos.

Rosemeire, depois da ausência justificada no serviço, deu uma passadinha, na Secretaria de Estado da Fazenda, para informar aos colegas sobre o seu quadro de saúde. O retorno ao trabalho levaria mais algum tempo, haja vista que, em breve, ela começaria o tratamento com a quimioterapia.

No final da tarde, ela pegou um táxi e foi para o consultório da doutora Beatriz. Ao chegar, ficou impressionada com a beleza do prédio. O consultório ficava no oitavo andar e ocupava duas salas. Assim como ela imaginava, um expressivo número de pacientes aguarda para ser atendido. O telefone tocava a cada cinco minutos. Era sempre um paciente tentando agendar consulta. Após uma longa espera, Rosemeire foi levada ao encontro da oncologista.

— Boa tarde, Rosemeire. Como está passando?

— Boa tarde, doutora. Agora eu estou mais aliviada. O doutor Rafael lhe passou os exames?

— Passou, sim. Eu já dei uma olhada e verifiquei que o seu caso não é dos mais graves. Isso não significa que nós podemos relaxar. Pretendo começar o seu tratamento o mais breve possível. No máximo, na próxima semana.

Vencida a preocupação com a metástase, agora Rosemeire esta preocupada com os efeitos colaterais do tratamento, mas estava disposta a fazer o que fosse preciso para ficar curada.

— Dizem que os efeitos colaterais da quimioterapia são terríveis.

— Realmente, existem efeitos colaterais. Os pacientes costumam sentir muitas náuseas durante a quimioterapia e mesmo alguns dias depois. Nós procuramos minimizar esse efeito dando medicamento ao paciente para evitar o vômito. A quimioterapia é um coquetel com três drogas, que é ingerido por via venosa e dura, aproximadamente duas horas. Não vou descartar a possibilidade de entrar com a radioterapia também, mas esta não apresenta desconforto para o paciente. O tratamento será feito em uma clínica especializada. Você prefere começar nesta semana mesmo?

— Já que eu não tenho como evitá-lo, seria bom iniciar o tratamento ainda nesta semana, de preferência na sexta-feira, porque amanhã será o meu aniversário e decidi fazer uma reunião em minha casa. Inclusive, convidei o doutor Rafael e ele confirmou presença. Eu gostaria muito que a senhora também fosse, mesmo porque a Denise estará lá e eu já fiquei sabendo do encontro dela com a senhora e com o seu pai. Aliás, será uma boa ocasião para vocês se aproximarem ainda mais. Aproveite e leve o seu pai. O meu filho falou que está curioso para conhecê-lo.

Beatriz ficou surpresa com o convite, afinal, mal conhecia Rosemeire, mas concordou que seria uma excelente oportunidade para ela e seu pai se aproximar ainda mais de Denise. Assim, aceitou o convite e tomou nota do endereço.

Logo depois, despediram-se e Rosemeire tomou um táxi rumo à casa de Eunice, a fim de encomendar o jantar do dia seguinte.

Eunice fazia jantares nas casas de empresários e políticos. Freqüentemente, ela era contratada para organizar jantares no Rio e em São Paulo.

Após acertar os detalhes da festa, Rosemeire retornou para sua casa. Ao chegar, foi para o seu quarto refletir sobre a proposta de Alexandre. Estava decidida a fazer uma tentativa de reconciliação, mas não sabia se daria a resposta no dia do seu aniversário ou se deixaria para o dia seguinte.

Rosemeire estava pensando nisso, quando se deu conta de que Artur não tinha chegado a casa, o que ela achou estranho, afinal, nos últimos dias, ele sempre avisava para onde estava indo quando saía à noite. Tentou falar em seu celular, mas ninguém atendeu. Então, ela decidiu dormir, pois queria acordar cedo no dia seguinte. Certamente, Artur estaria em companhia de Denise.

Pouco depois que ela adormeceu, teve a sensação de estar ouvindo o som de um violino. Virou-se de lado, abriu os olhos e viu no rádio-relógio que era exatamente meia-noite. Ela voltou a fechar os olhos. Mais um pouco, Rosemeire ouviu uma bela voz cantando: "nunca se esqueça, nem um segundo, que eu tenho o amor maior do mundo. Como é grande o meu amor por você".

O som do violino ficava cada vez mais alto e nítido. Ela levantou o corpo, com a impressão de que os músicos estavam dentro de sua casa. Mais alguns segundos, confirmou tal fato. Agora, entendeu o motivo do sumiço do filho. Com certeza, ele estava por trás daquela homenagem.

Imediatamente, Rosemeire vestiu-se e abriu a porta do quarto. Para sua surpresa, junto com os músicos estavam sua mãe, Artur, Denise e Alexandre.

Quando os músicos acabaram de tocar a música de Roberto Carlos, começaram a cantar parabéns para você. Ao fixar o olhar em Alexandre, Rosemeire não conseguiu conter a emoção. Correu para os seus braços, em prantos.

Assim que seus lábios se tocaram, ambos sentiram o gosto das lágrimas. Até os músicos ficaram emocionados. Saíram do apartamento com a certeza de que a missão estava cumprida.

Logo depois, sentaram-se todos ao redor da mesa para comerem o bolo de chocolate. Rosemeire ainda estava sob o impacto do acontecimento. Certamente, de todas as surpresas que Alexandre preparou para ela, aquela causou a maior emoção.

Depois de alguns minutos de conversa, Maria foi a primeira a se retirar, alegando que precisava dormir. Assim que entrou em seu quarto, ela começou a rezar, reforçando o pedido para que Deus iluminasse o caminho de sua filha e do genro.

Artur e Denise perceberam, pelos olhares dos dois, que eles queriam ficar sozinhos. Denise pediu a Artur para levá-la para casa.

Finalmente, Alexandre e Rosemeire ficaram a sós e puderam compartilhar novamente a cama que testemunhou o amor deles por tantos anos.

Enquanto dirigia o carro em direção à casa da namorada, Artur não cabia em si de tanto contentamento. Depois de presenciar a mãe sofrer tanto, ver aquele momento de alegria, exatamente no dia do aniversário dela, era um presente que não tinha preço.

Assim que entrou em casa, Denise deparou-se com o seu pai sentado no sofá. Ele havia chegado a pouco da fazenda. Estava decidido a telefonar para Beatriz no dia seguinte. Apesar de ser um homem experiente, Leônidas estava sentindo um friozinho na barriga e conversou com Denise sobre o melhor horário para telefonar e a melhor forma de introduzir a conversa.

 

Quando acordou e viu que estava na cama que foi sua por tantos anos, Alexandre elevou os pensamentos a Deus e agradeceu. Em seguida, ficou observando o sono da esposa. Acariciou os cabelos dela, beijou a sua face e saiu em direção à cozinha. Pouco depois, retornou com uma bandeja de café da manhã. Os ingredientes foram escondidos na geladeira assim que chegaram, na noite anterior.

Rosemeire acordou com os beijos dele. Ao ver a bandeja com os tipos de comida de que ela mais gostava, pensou estar no paraíso. Depois do período difícil que viveu, receber a boa notícia do resultado do exame e ter o marido de volta, com o carinho dos primeiros anos de casamento, era os melhores presentes que ela poderia receber no dia de seu aniversário.

Depois do café, Alexandre saiu para o trabalho. Rosemeire queria deixar o seu armário arrumado ainda na parte da manhã, pois à tarde levaria a sua mãe ao aeroporto e depois ficaria envolvida com os afazeres do jantar.

Leônidas passou a manhã inteira olhando para o telefone. Quando começava a discar o número de Beatriz, sentia falta de ar e interrompia a ligação. A falta de coragem para conversar com ela o incomodava.

O empurrão que faltava para ele fazer a ligação veio quando Denise chegou a casa.

— Já conversou com ela, papai?

Leônidas apenas balançou a cabeça, respondendo negativamente.

— Papai, não há o que temer. Ela já disse que irá conversar com o senhor assim que telefonar. Deixa de bobagem, o senhor veio da fazenda só pra isso e agora fica sem coragem. Não tem cabimento uma coisa dessas.

Leônidas suspirou fundo e, enfim, telefonou. Quando Beatriz disse "alô", ele temeu que a voz lhe faltasse, mas, com custo, iniciou o diálogo.

— Beatriz, desculpe-me por incomodá-la. É Leônidas que está falando. Desta feita, foi à vez de Beatriz sentir o coração bater descompassado.

— Olá, tudo bem?

— Graças a Deus. Imagino que você já esperava pela minha ligação.

— Esperava, sim. A Denise disse que você telefonaria.

Movido pelo nervosismo, Leônidas decidiu ser o mais breve possível, já que estava com dificuldade inclusive de respirar.

— Eu gostaria de conversar pessoalmente com você. É possível?

— Claro. Hoje, eu trabalho até as cinco da tarde. Caso queira, podemos marcar as seis e meia, pois à noite eu tenho um aniversário para ir.

— Perfeitamente. Onde podemos nos encontrar?

— Há uma cafeteria perto da casa aonde eu irei ao aniversário. Podemos nos encontrar lá, o que acha?

— Por mim, tudo bem.

Em seguida, Leônidas pegou caneta, papel e anotou o nome e o endereço da cafeteria.

Ambos sentiram-se aliviados quando desligaram o telefone.

Ao meio-dia e meia, Alexandre passou no apartamento para buscar a esposa e a sogra a fim de almoçarem em um restaurante. Seguindo sugestão de Artur, foram à cantina italiana que ficava nas proximidades da construtora onde ele trabalhou.

Quando chegaram, Artur e Denise já estavam à espera deles. Todos usaram dos argumentos imagináveis para convencer Maria a ficar para o jantar, mas ela estava irredutível, pois precisava voltar para Trancoso a fim de assistir à colação de grau da afilhada, cujos estudos foram custeados por ela.

Após o almoço, voltaram para casa. Maria não aceitou que fosse levá-la ao aeroporto. Antes de partir, contudo, sentou-se com Rosemeire e Alexandre no sofá da sala e deu alguns conselhos.

— Construam uma história de vida bonita, a partir de agora, pois vocês não sabem durante quanto tempo ficarão juntos. Deixem para trás o que passou. E, quando tiverem algum entrevero, não façam menção a fatos passados. Mantenham sempre o diálogo e usem o tom de voz baixo e respeitoso. Lembrem-se de que os defeitos das pessoas que vivem mais próximas de nós são notados com maior freqüência, porque se evidenciam no dia-a-dia. Não usem as fraquezas um do outro para agressão. O amor reclama cultivo. O verdadeiro amor é conhecido não por aquilo que reclama, mas sim pelo que oferta. A melhor relação é aquela em que o amor excede a necessidade.

Os conselhos de Maria tocaram não apenas os corações de Rosemeire e Alexandre, mas principalmente os de Artur e Denise.

Em seguida, Maria abraçou um a um. Rosemeire telefonou para o ponto de táxi e todos desceram para se despedirem da matriarca da família.

Depois que Maria partiu, Rosemeire ficou por conta de acertar os detalhes finais de sua festa. Não se lembrava de ter comemorado um aniversário com tanto entusiasmo como aquele.

Às seis e meia em ponto, Beatriz chegou à cafeteria. Leônidas já a aguardava. Assim que os seus olhares se cruzaram, os fatos passados vieram como um flash na mente de ambos. Um tanto quanto sem graça, Beatriz caminhou em direção ao seu antigo amor.

Leônidas recebeu-a com um abraço e dois beijos, sendo um em cada face.

— Como este mundo é pequeno, não é mesmo, Imelda?

— É menor do que imaginamos. Jamais reconheceria você sem a barba.

— Há anos eu não uso mais barba. Com relação a você, acho que eu a reconheceria em qualquer lugar do mundo. Os anos não mudaram muito as suas feições.

Beatriz deu um sorriso tímido e fez um pedido para Leônidas.

— Por favor, não me chame de Imelda. Agora o meu nome é outro.

Leônidas deu de ombros, indicando que por ele estava tudo bem.

O garçom aproximou-se, trazendo o cardápio, e cada um pediu um tipo de café diferente.

Em seguida, Leônidas entrou no assunto que o trouxera ali.

— Nós convivemos por pouco tempo, mas o suficiente para você me conhecer bem. Sabe que eu não costumo rodear para falar o que quero.

— É verdade — concordou Beatriz.

— Pois bem. Inicialmente, quero pedir desculpas por não ter acreditado que a Denise era minha filha. A nossa relação foi muito intensa e eu conheci você o suficiente para saber que não estava mentindo. Escolhi o caminho mais fácil para não complicar o meu casamento com a Vera. Sei que errei e causei um estrago em sua vida.

— Eu não tenho mágoa de você. No seu lugar, talvez eu fizesse o mesmo. Agora, se você não se incomoda, eu gostaria que você fizesse o exame de DNA, caso a Denise concorde. Não adianta você falar que acredita em mim. Eu quero provar que fui sincera.

Leônidas franziu a testa e coçou a cabeça.

— Não há a necessidade deste exame. Eu confio em você.

— Não me leve a mal Leônidas, mas a realização do exame de DNA é fundamental para mim.

Diante da determinação da médica, nenhuma alternativa restou a Leônidas.

O garçom trouxe os cafés, interrompendo novamente a conversa. Leônidas tomou um gole e prosseguiu.

— O segundo motivo que me trouxe aqui é o sentimento que eu tenho por você.

Os olhos dele brilharam e ela sentiu a face ficar corada.

— O que eu senti por você foi muito forte. Eu fiquei balançado para terminar o casamento e só não o fiz porque a Vera era uma excelente esposa e tinha a saúde debilitada. Não resistiria a tamanha decepção. Eu senti muito a sua falta quando você se foi. A verdade é que eu nunca consegui esquecê-la totalmente. Vez ou outra, a sua imagem vinha à minha mente, isso quando não sonhava com você. Após a morte da Vera, há quase nove meses, eu passei a pensar com mais freqüência em você. Desde então, não me relacionei com nenhuma outra mulher.

A confissão de Leônidas não pegou Beatriz de surpresa. No fundo, ela suspeitava de que ele pudesse fazer tal tipo de declaração.

— Eu gostaria de me reaproximar de você, Beatriz. Claro, isso se você não estiver comprometida.

Leônidas interrompeu a fala, esperando por uma resposta dela. Beatriz ficou em dúvida sobre o que responder. De uma forma ou de outra, sabia que o convívio com ele seria inevitável, pois estava entusiasmada com o fato de se relacionar com Denise. Depois de raciocinar por alguns segundos, ela respondeu:

— Eu não estou comprometida, mas não vou dar um passo antes que você faça o exame de DNA. Mesmo com o resultado em mãos, acho que não deveremos nos precipitar, pois não sei até que ponto as minhas feridas estão totalmente cicatrizadas. Contudo, certamente passaremos a conviver a partir de agora, já que temos um elo que nos une. Vamos deixar as coisas acontecerem naturalmente. Sinceramente, não sei se serei capaz de amá-lo novamente. Só o tempo dirá. Por isso, a única coisa que realmente desejo agora é a realização do exame de DNA.

— Tudo bem. Eu vou conversar com a Denise. Não haverá problema algum e nós poderemos fazer o exame ainda nesta semana.

O telefone de Beatriz tocou. Era o seu pai, querendo saber se já podia pegar o táxi para encontrar com ela na cafeteria. Dali iriam juntos para a casa de Rosemeire.

— Pode vir papai. Já estou liberada.

Em seguida, pediram a conta e se despediram apenas com um abraço, sem os beijinhos na face que marcaram o reencontro.

José António e Beatriz foram os primeiros a chegar, sendo recepcionados pela aniversariante e por seu marido. Artur havia ido buscar Denise e Renata.

— Que flores lindas, doutora Beatriz! Obrigada.

— Desejo que elas perfumem sua vida neste ano que está começando para você.

Pouco depois, o doutor Rafael também chegou. Ao ser apresentado para Alexandre, o doutor entendeu o ânimo de Rosemeire para comemorar o seu aniversário.

— Agora eu entendi porque você está tão animada em fazer uma festa — disse ele baixinho, para que Alexandre não ouvisse.

— Isso não é uma festa. Apenas uma reunião para pouquíssimos amigos. Além de vocês, convidei apenas a Denise e a Renata.

Ao ouvir o nome de Renata, Rafael ficou entusiasmado e seus olhos buscaram por ela.

— Elas ainda não chegaram?

— Estão vindo. O meu filho foi buscá-las. Pode ficar tranqüilo, a Renata está chegando.

— Eu não fiz a pergunta com a intenção que você está imaginando — tornou o médico.

— Eu não estou imaginando nada, doutor. Apenas fiz uma brincadeira.

Cinco minutos após, Artur chegou à companhia da namorada e da cunhada.

Rafael, assim que viu Renata, não conseguiu mais tirar os olhos dela. Após cumprimentá-la, esperou que escolhesse a cadeira onde sentaria a fim de ficar bem ao lado.

Renata sentiu um frio subindo pela espinha. Há muito tempo não conseguia ficar interessada por homem algum, mesmo nos períodos de crise com Adriano. Rapidamente, começaram a conversar e ele descobriu que ela era arquiteta. Notícia melhor, ele não poderia receber.

— Estou precisando de uma arquiteta. Comprei um lote e estou querendo começar a construir minha casa. Acho que encontrei a pessoa certa.

Renata arregalou os olhos, não acreditando no que acabam de ouvir. Em uma tacada só, ao que tudo indicava, estava aparecendo à oportunidade de um novo relacionamento e de um novo trabalho.

— Podemos marcar uma reunião para conversarmos sobre este assunto — disse ela.

— Claro! Você tem escritório?

— Como eu estava trabalhando em uma construtora até recentemente, no momento estou sem escritório. Podemos nos reunir em outro lugar.

— Você aceitaria um convite para jantar?

— Sem problemas.

— Podemos marcar para amanhã?

— Tudo bem.        

Rosemeire e Denise logo perceberam o entrosamento entre Renata e Rafael. As duas torciam para que ela pudesse começar outro relacionamento logo, a fim de esquecer Adriano de uma vez.

José Antônio, por sua vez, não conseguia disfarçar o encantamento pela neta. Como ele próprio previa, ficou emocionado, pois mais uma vez lembrou-se da esposa e da filha, que já haviam falecido. Tentando disfarçar as lágrimas que ameaçavam rolar, ele perguntou a Rosemeire onde ficava o banheiro. Em seguida, levantou-se, tomando a direção indicada. Ao passar por um aparador, viu uma fotografia antiga em um porta-retrato. Parou subitamente, aproximando-se para enxergar melhor a fotografia, em preto e branco, de um jovem casal. Quase instantaneamente, sentiu a vista embaçar. Ao perceber que desmaiaria apoiou-se na parede e gritou por ajuda:

— Socorro!

Artur, que estava mais próximo dele, correu em sua direção, chegando ao exato momento em que seu corpo desfalecia, a tempo de evitar a sua queda.

— Papai! — gritou Beatriz.    

Rafael e Alexandre também correram para socorrê-lo.

— Tragam um copo de água — pediu o médico.

Rosemeire, Renata e Denise ficaram estáticas, assustadas com o que poderia estar acontecendo com aquele senhor.

Rafael molhou as mãos na água fria, esfregando-as na cabeça de José Antônio.

Beatriz ficou impotente para ajudar, sentindo que seu coração sairia pela boca, tal era a preocupação com o estado de saúde de seu pai.

Lentamente, José Antônio abriu os olhos. A vista continuava embaçada e ele via duas imagens de cada pessoa que estava ao seu redor. As vozes pareciam distantes. Ele fechou novamente os olhos e a sua mente voltou quase cinqüenta anos no tempo.

— O que o senhor está sentindo? — perguntou Rafael.

José Antônio abriu os olhos e fitou o médico. Seu olhar denunciava perplexidade. Abriu a boca para responder, mas sentiu-se fraco. Buscava o ar no pulmão com dificuldade. Ao respirar, sentia uma dor no peito.

— Vamos levá-lo ao hospital — tornou Rafael.

Com o dedo indicador, José Antônio fez sinal de que não era necessária tal providência.

— Eu estou melhorando — falou, em baixo tom.

Rafael ajudou José Antônio a se levantar e a sentar-se na cadeira. Depois, deu um copo de água para ele tomar. Lentamente, José Antônio bebeu a água. Depois, apontou com o indicador para a fotografia que estava sobre o aparador, dizendo:

— Por favor, traga-a para mim.

Beatriz percebeu que o mal súbito de seu pai estava ligado àquela fotografia. Deu três passos para pegá-la. Após examiná-la, suas pernas ficaram bambas e ela precisou usar toda a sua força para não desmaiar.

Com cuidado, entregou o porta-retratos nas mãos do pai. Ao olhar novamente a fotografia, José Antônio começou a chorar. Rosemeire tentava, em vão, compreender o motivo de tanta emoção.

Enquanto chorava, José Antônio acariciava o casal que estava na foto.

— Por favor, explique o que está acontecendo. Agora, sou eu quem está ficando nervosa — disse Rosemeire.

José Antônio olhou para ela e passou a chorar copiosamente, sem forças para parar.

— Tome um pouco de água e procure se acalmar — disse Rafael. O que há de tão especial nessa fotografia?

José Antônio estendeu as mãos trêmulas e pegou o copo de água, levando-o à boca. Para cada pouco de água que bebia, deixava outro tanto derramar em sua camisa. Apenas Beatriz descobriu o que estava se passando com seu pai; os demais estavam atônitos.

— O que está se passando? — tornou Rafael a perguntar.

— Eu vou explicar.

Em seguida, José Antônio fitou Rosemeire. Era muita emoção para uma pessoa da idade dele.

 

Após dar um longo suspiro, José Antônio iniciou os seus esclarecimentos. Dirigindo-se a Rosemeire, ele apontou com o dedo para o casal da fotografia e perguntou:

— São parentes ou amigos?

— São meus pais.

José Antônio suspirou fundo e voltou a chorar. Novamente, todos ficaram preocupados com o seu estado emocional.

— O senhor os conhece? — perguntou Rosemeire.

José Antônio assentiu com a cabeça, enquanto tirava o lenço do bolso para enxugar a lágrima que escorria.

— De onde o senhor os conhece? — tornou Rosemeire.

José Antônio não sabia o que responder. Pensou em inventar uma desculpa, pois não sabia qual seria a reação de Rosemeire quando soubesse a verdade. Ele ficou alguns segundos analisando a foto, ganhando tempo para responder. Como não encontrou nenhuma desculpa que justificasse a sua reação, optou por falar a verdade. Apontando com o dedo indicador para o homem da fotografia, José Antônio respondeu:

— Eu sou este homem que você diz ser o seu pai.

Deslocando o indicador para o lado, ele completou:

— Esta aqui é a Maria, minha primeira esposa. Nós tiramos está fotografia no quintal da nossa casa, em Pedra Rosada.

A afirmação de José Antônio confirmou a convicção de Beatriz, já que naquela fotografia ele estava muito parecido, quase idêntico, às fotografias que ela tinha do casamento dele com a sua mãe. Ela sabia que seu pai havia sido casado em Pedra Rosada, mas desconhecia existência de uma filha dele.

Rosemeire, por sua vez, pensou tratar-se de um trote ou equívoco.

— O senhor me desculpe, mas deve estar havendo um engano, meu pai morreu muitos anos atrás, antes mesmo do meu nascimento.

José Antônio chorava como um menino perdido após encontrar os pais. Ele olhava para Rosemeire, as lágrimas rolando pela face, os soluços dificultando a fala.

— Eu sou o seu pai.

Rosemeire permanecia incrédula. Em sua mente, a confusão feita por aquele senhor se devia ao fato de alguma semelhança física dele de sua ex-esposa com os pais dela.

— Volto a dizer: o senhor está enganado. O meu pai morreu em um acidente de carro. É impossível o senhor ser o meu pai.

— Eu não morri naquele acidente. Estou vivo, mais do que nunca.

Pela primeira vez, Rosemeire começou a admitir que ele pudesse estar falando a verdade. Sentiu o coração acelerar as batidas.

— O senhor se refere a qual acidente?

— Você sabe. Estou falando do acidente em que a caminhonete caiu no rio Bonito.       

Rosemeire começou a suar frio.          

— Como o senhor sabe deste acidente?

— Eu sou o seu pai, acredite. O corpo dele nunca foi encontrado nem poderia, pois eu estou aqui, vivinho da silva.

Desta vez, foi Rosemeire quem teve um princípio de desmaio. Alexandre estava ao seu lado e segurou o seu corpo, evitando que tombasse de lado.

— Acalme-se, meu amor. Você não está podendo ter emoções fortes. Beba um pouco de água.

Rosemeire bebeu apenas um gole. Permanecia renitente em acreditar que estava diante de seu pai. Logo, deu as suas razões para o fato de o corpo não ter sido encontrado.

— Na época do acidente, o rio Bonito teve uma grande cheia, em função do período de chuva. Foi por isso que não encontraram o corpo. A correnteza arrastou o corpo para bem longe. Como ninguém encontrou, deve ter servido de alimento para os animais.

— Como chamava o seu pai? — perguntou José Antônio.

Rosemeire imaginou onde ele queria chegar. Com a voz rouca, ela respondeu:

— José Antônio Pereira Carvalho.

O velho riu e puxou a carteira do bolso. Abriu-a e retirou do seu interior o documento de identidade, entregando-o a Rosemeire.

— Veja o meu nome, o lugar onde nasci à data do meu nascimento e os nomes de meus pais.

Ao checar os dados, Rosemeire começou a chorar compulsivamente. Era a prova de que ele estava falando a verdade. Alexandre abraçou-a, procurando consolá-la. Ele também estava em estado de choque. Artur olhava para José Antônio, incrédulo, sem entender como ele poderia ter escapado do acidente. Beatriz não tinha palavras para descrever a sua emoção, afinal percebeu que Rosemeire, além de sua paciente, também era sua irmã.

Assim que se acalmou, Rosemeire dirigiu a palavra a José Antônio:

— Por favor, esclareça-me tudo.

Novamente, as atenções se voltaram para o pivô daquela confusão.

José Antônio, pacientemente, começou a explicar os fatos.

— Está bem, eu vou resumir. Você sabe que o meu casamento com a sua mãe não foi aceito pelo coronel Teodoro e pelo Fausto, respectivamente pai e irmão dela. Não fosse a intercessão do Sílvio, o outro irmão, nós não teríamos nos casado.

— Essa parte eu sei — disse Rosemeire. — Sei também que você matou o Sílvio e que por isso o meu avô saiu em sua perseguição.

— Calma lá — interrompeu José Antônio, levantando a mão direita. - Matei o Sílvio acidentalmente. Eu estava em vias de brigar com um vereador do Partido Vermelho e o Sílvio apartou a nossa confusão. Quando estava voltando para a minha mesa, ouvi o vereador falando: “você terá o que merece". Ao me virar para trás, vi que ele estava levando a mão à cintura. Imaginei que ele sacaria um revólver e não pensei duas vezes: puxei o meu revólver da cintura e descarreguei os tiros nele. Infelizmente, uma das balas atingiu o Sílvio. Eu somente atirei porque achei que estava agindo em legítima defesa. Como vaso ruim não quebra fácil, o vereador conseguiu sobreviver e o Sílvio morreu.

— Esta parte, eu sei. A mamãe já me contou a história. Eu quero que você fale o que aconteceu depois.

— Eu vou chegar lá. Bem... Depois do crime, eu fiquei refugiado em uma fazenda por vários dias, até o seu avô descobrir onde eu estava. Ele apareceu por lá, acompanhado de vários jagunços. Houve um tiroteio danado. Alguns companheiros morreram e outros fugiram. Comigo, só ficou o Tião. Eu e ele estávamos acuados atrás do curral. Vimos os jagunços de seu avô se posicionando para nos encurralar. Tínhamos apenas uma saída: soltar os cavalos e sair correndo no meio deles, até chegar à caminhonete que estava no terreiro. Era uma decisão arriscada, mas não tínhamos escolha. Foi o que fizemos: soltamos os cavalos e corremos no meio deles. Deu dó, porque alguns animais foram atingidos pelos tiros. O Tião estava com a chave da caminhonete e entrou pela porta do motorista. Eu tentei entrar pela outra porta, mas não consegui. Decidi pular na carroceria. O Tião acelerou, jogando barro para todo lado.

— Vocês conseguiram matar algum jagunço? — perguntou Artur, fascinado por ouvir a história do avô, que julgava estar morto.

— Eu sei que algumas pessoas que estavam com eles foram atingidas, mas não sei se morreram.

— Como foi à perseguição que o coronel Teodoro fez?

— Eles vieram atrás de nós em dois carros. A estrada estava toda enlameada. Eu não vi que o Tião havia sido atingido antes de entrar na caminhonete. Quando percebi que estávamos perdendo distância, olhei para dentro do carro e vi que a camisa dele estava ensangüentada. Naquele momento, eu achei que era o nosso fim.

— Qual era a distância entre vocês e eles?

— Entre cinqüenta e cem metros. Eles vinham atirando sem parar; acho que tinham muita munição. Eu revidava os tiros apenas quando a distância ficava muito curta, pois tinha poucas balas. Em um determinado momento, fiquei completamente sem munição. Foi quando olhei para dentro da cabine e vi o Tião se contorcendo de dor. Deitei-me na carroceria da caminhonete e entreguei o meu destino a Deus. Comecei a rezar e ouvi uma voz dizendo: "Pula". Abri os olhos, mas não vi ninguém ao meu lado. A voz era muito familiar. Fechei os olhou e voltei a rezar. Novamente, a mesma voz: "Pula". Naquele momento, eu reconheci a voz como sendo a do Sílvio.

— O cunhado que você matou? — perguntou Denise, absorvida pela história.

— Exatamente. Eu fiquei com medo e comecei a rezar em alto tom. Pela terceira vez, ouvi o aviso: "Pula". Com certeza, era a voz do Sílvio. Eu levantei a cabeça e vi que o carro faria uma curva para a direita, sendo que o mato ao redor da estrada estava alto. Logo depois da curva eu pulei, aproveitando que o mato tampava a visão deles. A ponte onde ocorreu o acidente vinha logo depois, talvez uns cem metros. Eu ouvi primeiro os carros passando e depois ouvi o barulho de um automóvel caindo no rio. Em seguida, ouvi os capangas do coronel Teodoro gritando para se espalharem pela margem do rio a fim de que eu e o Tião não escapássemos. Levantei-me, corri na direção contrária à deles e depois retornei para a margem do rio. Peguei carona em uma canoa, com um índio, e atravessei para o outro lado do rio, a fim de chegar novamente à estrada.

— Onde você foi parar depois do acidente? — indagou Rosemeire.

— Quando retornei à estrada, peguei carona em um caminhão de leite até a cidade de Santa Clara. Lá chegando, procurei um companheiro do Partido Branco e relatei o meu drama. Ele me emprestou uma boa quantia em dinheiro e, no mesmo dia, eu peguei um ônibus para São Paulo, onde consegui emprego em uma empresa de laticínios e conheci o Oscar, meu colega de trabalho. Fiquei nessa empresa durante oito meses, até ser demitido, juntamente com o Oscar e outros empregados. O Oscar era do Paraná e decidiu voltar para a casa dos pais. Ele era o meu melhor amigo naquela época e sabia a minha história. Quando ele retornou para o Paraná, convidou-me para passar uns dias na fazenda do pai dele. Eu fui, conheci a Rosa, começamos a namorar e eu fiquei por lá, trabalhando com o pai dela. Logo depois nos casamos.

— Qual lugar do Paraná? — perguntou Rosemeire.

— Chama-se Venda do Bispo, zona rural de Indianópolis, perto de Maringá. Por coincidência, o lugar tem esse nome porque um cidadão de sobrenome Bispo, que era dono de uma venda, matou outro e sumiu de lá.

Rosemeire sentiu certa revolta com seu pai, por ele nunca mais ter dado notícias.

— Por que o senhor nunca mais procurou a mamãe?       

— Eu não sabia que ela estava grávida. Ela não comentou nada comigo sobre a gravidez. Por outro lado, não havia a menor possibilidade de ficarmos juntos. Eu conhecia o seu avô e sabia que ele não sossegaria enquanto não me matasse. Eu não tive alternativa: a única saída era sumir. Além disso, eu havia matado um homem e a pena poderia chegar a trinta anos. Fiquei sabendo que o crime prescreveria em vinte anos e decidi não aparecer nesse período. Mesmo assim, quando eu estava em São Paulo, contratei um detetive particular para ir atrás de sua mãe. Queria trazê-la para junto de mim. Esse detetive ficou um mês em Pedra Rosada, tentando obter alguma informação. Infelizmente ela havia sumido e ninguém na cidade sabia onde estava, nem o motivo de seu desaparecimento.

A visão do pai em sua frente parecia um sonho para Rosemeire. Em toda a sua vida, ela jamais suspeitou de que ele pudesse estar vivo

— Mamãe chegou a pensar que o senhor tivesse sobrevivido e teve esperanças de que voltaria para buscá-la.

José Antônio fechou os olhos e lembrou-se dos momentos de amor vividos ao lado de Maria. Ele acreditava que, se não fosse pela tragédia ocorrida, certamente estariam juntos até aquele momento. Agora, era ele que desejava ter notícias dela. Procurou fortalecer o espírito para ouvir as respostas que esperava obter e começou a sessão de perguntas.

— O que ela fez depois que eu fui embora?

— Quando o vovô Teodoro e o Fausto descobriram que ela estava grávida, planejaram providenciar o aborto, pois não aceitavam um descendente com o sangue do senhor. Felizmente, a mamãe descobriu o plano e fugiu para Trancoso, na Bahia, onde uma amiga dela estava morando. Foi por isso que o detetive que o senhor contratou não a encontrou em Pedra Rosada. Com exceção do vovô Teodoro e do tio Fausto, ninguém sabia que ela estava grávida e ninguém ficou sabendo onde ela foi se esconder. Quase dois anos depois de fugir, ela deu notícias para o vovô Teodoro informando sobre o meu nascimento e sobre a vida dela em Trancoso.

À medida que Rosemeire falava, Denise identificou mais um motivo para ter tamanha afinidade com ela, pois ambas haviam passado pelo mesmo drama quando estavam no útero de suas mães: escaparam por pouco do aborto. O sentimento de rejeição ficou marcado nas duas.

José Antônio continuava curioso para saber o desenrolar da história, sobretudo o comportamento do antigo sogro com relação à neta indesejada.

— Qual foi à reação do coronel Teodoro, quando sua mãe o avisou sobre o seu nascimento?

— Ele não quis me conhecer. Influenciado pelo tio Fausto, ele fez um testamento excluindo a mamãe da herança, tendo inventado umas mentiras, ao dizer que ela havia cometido injúria contra ele por diversas vezes. Pouco depois, ele morreu vítima de ataque cardíaco. Como ele era viúvo, o tio Fausto herdou metade da herança, ficando a outra metade para a Letícia, filha do tio Silvio. Por ironia do destino, quando o tio Fausto estava caminhando em uma das fazendas herdadas, levou uma picada de cobra e morreu. Ele estava sozinho, distante da sede da fazenda, e ninguém ouviu os seus gritos de socorro. As más línguas falam que a cobra foi encontrada morta, ao seu lado, porque ele era mais venenoso do que ela.

José Antônio guardou as duas perguntas, cujas respostas mais desejava saber, para o fim. Suspirou fundo e fez a primeira delas.

— A sua mãe voltou a se casar?

Rosemeire olhou para o pai, pensando no amor que sua mãe sempre nutriu por ele e na esperança que ela um dia teve de que ele voltasse para buscá-la.

— Ela nunca mais se casou. Teve alguns relacionamentos, mas nunca esqueceu o senhor e isso acabou atrapalhando a vida afetiva dela. Até hoje, ela pensa no senhor todos os dias.

Sem que José Antônio perguntasse, Rosemeire acabou por responder a outra pergunta que ele faria.

— Quer dizer que ela está viva?

Rosemeire sorriu, imaginando ter sido o dedo de Deus que conduziu sua mãe de volta há Trancoso algumas horas antes, pois a emoção seria muito forte para o coração dela.

— Ela está viva, sim. Esteve conosco até agorinha, mas retornou no final da tarde para Trancoso. Não sei qual seria a reação dela, se estivesse aqui. Também não sei como nós iremos dar esta notícia para ela.

— Eu conheço a sua mãe e sei como fazer — disse José Antônio.

— O senhor não a conhece mais — tornou Rosemeire. — Passaram-se quarenta e oito anos; ela é outra mulher.

— Eu quero reencontrá-la o mais breve possível para explicar o que aconteceu. Por favor, me ajude.

Rosemeire olhou para o pai e sentiu sinceridade em seu olhar. A expressão dele era a de quem clama por misericórdia.

— Está bem, eu vou ajudá-lo, mas será à minha maneira. Não colocarei em risco a saúde de minha mãe.

José Antônio sorriu, aliviado por contar com o apoio da filha, cuja existência acabara de descobrir.

— Ela está morando em Trancoso?

— Está sim. Ela tem uma pousada dentro do Quadrado, o lugar mais nobre de Trancoso.

— Como chama a pousada?

— Pouso das Borboletas.

José Antônio sorriu.

— Ela ainda gosta de borboletas?

— Cada vez mais. Parece que elas sentem isso; o senhor precisa ver o jardim da pousada, como é cheio de borboletas.

Rosemeire fitou carinhosamente o pai. A ficha ainda não havia caído.

— Eu nunca esquecerei este aniversário. No dia anterior, recebo a notícia de que não houve metástase do câncer. À meia-noite, em ponto, sou acordada por uma serenata organizada pelo meu marido, ocasião em que reatamos o casamento depois de quase um ano de separação. Por fim, venho a conhecer o meu pai, o qual eu pensava ter morrido antes mesmo do meu nascimento. É muita alegria para um dia apenas. O senhor me desculpe, mas eu preciso me acostumar com a idéia de que tenho um pai.

— Não seja por isso; eu preciso me acostumar com a idéia de que tenho uma filha com a Maria. Parece que estou vivendo um sonho.

José Antônio lembrou-se da finada Rosa. A morte dela havia sido um baque duro para ele.

— Tanto eu, quanto a Beatriz, ainda sofremos com a morte da Rosa, minha companheira durante mais de quarenta anos. Foi um golpe terrível para mim, porque um acidente de carro é um fato inesperado. Posso estar enganado, mas acho que ela ficou em minha companhia o tempo certo.

Confesso que o meu coração está batendo diferente só de pensar que vou reencontrar a Maria. Como ficaria a minha situação, se a Rosa estivesse viva? Sinceramente, acho que eu ficaria dividido. Bom... Besteira ficar falando nisso! Sequer sei qual será a reação da Maria quando me vir.

Voltando-se para Rosemeire, José Antônio perguntou:

— Posso abraçá-la?

Rosemeire começou a chorar e não respondeu. José Antônio levantou-se e caminhou até a cadeira onde ela estava sentada, abraçando-a. Mais um pouco e todos começaram a chorar. Em seguida, Rosemeire levantou-se e também abraçou o seu pai. O seu gesto foi seguido pelos demais, que começaram a se abraçar entre si.

Quando os abraços terminaram, Rosemeire enxugou as lágrimas e pediu licença para esquentar a comida, que já estava pronta. Beatriz acompanhou-a até a cozinha, sendo seguida por Denise e Renata. As mulheres ficaram na cozinha, fazendo companhia para Rosemeire, enquanto os homens conversavam na sala, comentando que apenas a intervenção divina poderia orquestrar uma situação como aquela.

Poucos minutos depois, a mesa estava posta e os convidados foram atraídos pelo cheiro. Apesar da comida apetitosa, José Antônio não estava com apetite para jantar. A imagem de Maria não saía de sua mente. Para não fazer desfeita com Rosemeire, ele colocou no prato um pouquinho de frango ao molho champanhe, acompanhado de uma colher de arroz e uma pequena porção de batata palha. Depois, aguardou os convidados terminarem de comer para fazer mais uma pergunta a Rosemeire.

— Por acaso, você tem alguma fotografia mais recente da sua mãe para me mostrar?

— Tenho, sim. Aguarde um momento, que vou buscá-la.

Rosemeire se levantou e caminhou em direção aos quartos. Instantes após, voltou com a fotografia, entregando-a para José Antônio. Este, assim que a viu, abriu um sorriso por constatar que ela continuava bonita, apesar das marcas do tempo.

— Para quando será possível marcarmos um encontro e, assim, esclarecer todo o ocorrido? Estou muito ansioso para revê-la.

— O senhor deverá ter um pouquinho de paciência. Para quem esperou quarenta e oito anos, esperar alguns dias a mais não será tão penoso, ela acabou de retornar para Trancoso. Vou tentar convencê-la a voltar a Belo Horizonte na próxima semana, pois até lá não pensarei em outra coisa que não seja encontrar a melhor forma de dar a notícia.

José Antônio não ficou satisfeito com o prazo de uma semana pedido por Rosemeire. Ele se conhecia o suficiente para saber que não teria apetite nem sono durante aquele período, mas percebeu que não conseguiria convencê-la a abreviar o prazo mencionado.

Depois do jantar, Rosemeire serviu trufas de sobremesa. Logo depois, os convidados começaram a se retirar.

Ao se despedir da anfitriã, José António encarou-a no fundo de seus olhos, segurou suas mãos e disse:

— Acho que você está tão aérea quanto eu, porque a ficha vai demorar um tempo para cair, mas, quando ela cair, sentirei por você o mesmo amor que sinto pela Beatriz. Saiba que estou muito feliz com tudo que descobri hoje e jamais esquecerei esta data.

Com lágrimas nos olhos, Rosemeire confessou:

— A sua presença foi o melhor presente de aniversário que já recebi em toda minha vida. De fato, estou muito aérea, mas sei que vou amá-lo como uma filha ama um pai. Fique tranqüilo, porque, naquilo que depender de mim, muito em breve o senhor estará frente a frente com a mamãe.

Em seguida, abraçaram-se carinhosamente. Depois, foi à vez de Beatriz abraçar a irmã recém-descoberta.

No trajeto para casa, José Antônio se manteve calado, pensando na idéia que lhe veio à mente.

Denise, assim que chegou a casa, encontrou seu pai acordado, assistindo televisão. Ele pediu que ela se sentasse e contou sobre o encontro com Beatriz. Denise não opôs qualquer resistência à realização do exame de DNA.

Imediatamente, Leônidas telefonou para Beatriz e marcaram de ir ao laboratório no dia seguinte.

 

Durante toda a noite, com o pensamento fixo em Maria, José Antônio não conseguiu dormir. Os pássaros começaram a cantar e ele percebeu que o dia já estava amanhecendo. José Antônio levantou-se da cama, colocou algumas mudas de roupa na mala e saiu em direção do aeroporto de Confins.

Durante o trajeto, ficou imaginando a melhor forma de fazer a abordagem à ex-esposa. Sabia que a sua atitude era arriscada, mas não podia esperar o prazo sugerido por Rosemeire.

Assim que chegou ao aeroporto, José António correu para o balcão de informação.

— Por favor, a que horas sai o próximo vôo para Porto Seguro?

— Às dez horas — respondeu a simpática atendente. — O senhor pode dirigir-se ao balcão daquela companhia aérea.

— Muitíssimo obrigado.

José Antônio virou-se e saiu apressado na direção indicada. Para sua sorte, o vôo não estava lotado.

Após comprar a passagem, ele foi para a sala de embarque, onde ficou andando de um lado para o outro, esperando a hora de partir.

Quando, enfim, o serviço de alto falante do aeroporto chamou os passageiros para se apresentarem no portão quatro, José Antônio usou da prerrogativa de embarcar antes dos demais, em face da sua idade.

— Que loucura estou fazendo! — disse ele em baixo tom.

Após cumprimentar o comandante e os comissários, ele caminhou para a sua poltrona, que ficava na janela, do lado direito do Boeing. Aqueles minutos que antecediam ao vôo pareciam uma eternidade para ele.

Com dez minutos de atraso, o avião partiu rumo ao litoral sul da Bahia. Alguns trechos de forte turbulência deixaram-no mais apreensivo ainda. José Antônio somente relaxou quando viu o mar se abrindo à sua frente. O cenário de águas verdes, cristalinas, tocando a areia da praia junto às falésias, era ideal para um reencontro tão aguardado por ele.

Quando sobrevoaram um pequeno povoado, o comandante anunciou que estavam sobre Caraíva. Pouco depois, ao passarem por uma praia cheia de coqueiros, com as águas ainda mais transparentes, o comandante anunciou que aquela era a praia do Espelho, uma das mais caras do Brasil, com condomínios luxuosos, onde magnatas do Rio e de São Paulo tinham suas casas de praia. Logo em seguida, o comandante voltou a chamar a atenção dos passageiros para a vila de Trancoso, com a famosa igrejinha do Quadrado. Nesse momento, José Antônio sentiu as batidas do coração ficarem mais fortes. Pouco depois, passaram por Arraial d'Ajuda e chegaram a Porto Seguro.

Assim que pegou sua mala, ele caminhou em direção aos táxis que estavam estacionados à sua frente.

— Quanto está uma corrida para Trancoso, companheiro?

— Cento e cinqüenta reais.

— Vamos fechar em cento e vinte reais?

— Negócio fechado. Vamos rápido, porque estou com pressa.

— Quanto tempo leva a viagem daqui a Trancoso?

— Entre cinqüenta minutos e uma hora. É a primeira vez que o senhor vai lá?

— É sim. Ouvi dizer que é um local muito bonito.

— Paradisíaco — corrigiu o motorista.

A estrada cortava várias fazendas enormes, sendo possível observar o gado pastando e as plantações de mamão e eucalipto. À medida que o táxi se aproximava de Trancoso, José Antônio sentia a ansiedade aumentar. Assim que o motorista virou à esquerda em um trevo e as primeiras casas, surgiu à frente deles, José Antônio sentiu a ansiedade aumentar.

— Ponto final — disse o motorista, apontando para a cerca de tocos de madeira. — Ali começa o Quadrado.

José Antônio agradeceu, pagou ao motorista e saiu.

Quando entrou no Quadrado, viu uma iogurteria à sua direita e caminhou para lá. A ansiedade aumentava em velocidade espantosa, fazendo com que ele, trêmulo, suasse frio.

— A senhora poderia me informar onde fica a Pousada das Borboletas? — perguntou ele à balconista.

— É ali naquele beco — respondeu a moça. — O senhor caminhará uns vinte metros e verá o portão da pousada à sua direita.

— Obrigado, depois eu retorno para tomar um iogurte.

José Antônio deu alguns passos em direção à pousada e parou bem no meio do Quadrado. De repente, sentiu-se sem coragem para prosseguir, com medo de uma reação indesejada da mulher que mais amou em sua vida. Ali, ele permaneceu estático por algum tempo, sem saber o que fazer. Olhou para a sua direita e viu uma pequena lojinha. Decidiu caminhar até lá para comprar um boné e óculos. Caso não tivesse coragem de falar a verdade para Maria, passaria por um mero turista, pois dificilmente ela o reconheceria.

Assim ele fez. Saiu da loja com boné e óculos escuros. Daquele jeito, até sua filha teria dificuldade em reconhecê-lo.

A distância que separava a loja da pousada era apenas de poucos metros. À medida que caminhava, José Antônio ficava mais tenso e sentia a respiração ficar mais difícil. De repente, ele se viu em frente à pousada. Sobre o portão, uma linda placa de madeira, com o entalho de uma borboleta vermelha e amarela, seguida por outras três menores e o nome: "Pousada O Pouso das Borboletas".

José Antônio fechou os olhos, suspirou fundo e adentrou o local. O terreno era grande, com uma área gramada, onde havia uma piscina no centro. À sua esquerda, uma linda casa de dois andares; à sua direita estavam os cinco apartamentos para os hóspedes, cada qual com sua varanda e rede; à sua frente, a área onde era servido o café da manhã.

Exatamente ali, uma menina lavava os pratos e talheres. Assim que o viu, ela lhe perguntou:

— Posso ajudá-lo?

— Pode, sim. Tem algum apartamento vago?

— Tem, sim. Aguarde um momento, que vou chamar a dona da pousada.

A moça saiu em direção a casa e José Antônio sentiu os lábios tremerem, indicando a vontade de chorar. Rapidamente, ele tirou os óculos e enxugou uma lágrima que escorreu pela sua face.

Pouco depois, ouviu a voz da menina conversando com uma mulher. Ele estava de costas e ficou sem coragem para se virar, mas percebeu que estavam vindos em sua direção. Naquele momento, o seu batimento cardíaco disparou.

— Bom dia, senhor, tudo bem? — perguntou à senhora assim que se aproximou dele.

José Antônio criou coragem e virou-se. Sentiu faltar-lhe o ar. Com esforço tremendo, respondeu:               

— Tudo bem.        

— O senhor deseja um quarto, certo?

José Antônio fez um sinal de positivo com a cabeça.

— O senhor deseja conhecer o quarto?

Novamente, ele acenou com a cabeça. Maria percebeu que havia algo de estranho com aquele hóspede.

— Vamos lá, acompanhe-me.

Maria seguiu na frente e não viu os lábios dele tremendo. Os óculos escuros escondiam a lágrima que descia.

— Este é o nosso quarto — disse Maria, após abrir a porta. — Temos ar-condicionado, frigobar e televisão. A cama é de casal e o colchão é muito confortável. O banheiro é amplo e tem água quente. O preço da diária em baixa temporada é sessenta reais.

— Tudo bem, eu vou ficar.

— O senhor pode deixar sua mala aí e vir comigo para preencher uma ficha com os seus dados. Está pensando em ficar quantos dias?

— Talvez uns cinco dias.

Maria e José Antônio retornaram à área onde o café era servido. Anexo a ela, havia uma pequena sala de televisão, onde funcionava a recepção.

Maria entregou a ficha ao hóspede e pegou um caderno de anotações para relembrar os seus compromissos naquele dia.

José Antônio, assim que recebeu a ficha, ficou sem saber se escrevia os dados corretos. Certamente, Maria iria reconhecê-lo assim que lesse a sua qualificação. Por outro lado, estava sem coragem para tocar no assunto que o havia levado a Trancoso. Com as mãos trêmulas, ele começou a escrever o seu nome verdadeiro. Depois, preencheu os espaços destinados à data e local de nascimento, ocupação e residência. Após, deixou a caneta em cima do balcão, sobre a ficha.

Displicentemente, Maria pegou a ficha e começou a lê-la. Pouco depois, a expressão tranqüila sumiu e ela demonstrou o espanto que tomou conta de sua fisionomia ao olhar para José Antônio. Este, por sua vez, percebeu que ela havia descoberto a sua identidade. Com o coração quase saindo pela sua boca, ele levantou a mão direita e tirou o boné da cabeça. Em seguida, tirou os óculos escuros.

Ao ver diante de si o marido que julgava estar morto há mais de quarenta e oito anos, Maria sentiu a pressão abaixar e desmaiou. José Antônio, com a agilidade de sua mocidade, antecipou-se à queda dela, segurando-a em seus braços.

— Socorro! — gritou ele. — Ajude-me, pelo amor de Deus!

Imediatamente, a moça que o recepcionou quando ele chegou à pousada veio correndo.

— O que aconteceu?

— Acho que ela teve uma forte emoção e acabou desmaiando. Onde podemos encontrar um médico?

— Vamos colocá-la aqui no sofá. Eu já vou telefonar para o doutor.

Com a ajuda da funcionária, José Antônio colocou Maria deitada no sofá. Logo depois, a moça pegou um copo de água, molhou a ponta dos dedos e começou a dar leves tapas na face da patroa.

— Dona Maria, acorde. Por favor, volte.

— Chame logo o médico — ordenou José Antônio.

Assustada, a moça levantou-se e caminhou em direção ao telefone, quando começou a discar, viu a patroa se mexendo, levando a mão à testa.

— Ela está acordando — disse a funcionária, aliviada com a recuperação de Maria.

José Antônio estava junto à ex-mulher, rezando para ela recuperar-se completamente, pois, do contrário, nunca se perdoaria, haja vista ter sido alertado por Rosemeire de que o coração de sua mãe não suportaria tamanha emoção.

Maria abriu os olhos e ficou olhando para José Antônio. Estava aérea, sem entender o que estava se passando.

— Quem é você? Por que está fazendo esta brincadeira comigo?

— Isso não é uma brincadeira. Eu sou o seu Zezé, lembra-se?

Maria voltou a fechar os olhos. Por um segundo, pensou que tivesse morrido, tendo encontrado o finado marido.

— Onde estou?

— Você está na sua pousada.

Maria abriu os olhos novamente e olhou ao seu redor, vendo a funcionária Diana e todos os móveis que guarneciam a sala de televisão. Tornou a olhar para José Antônio. Indubitavelmente, era ele mesmo. Diante dela, o marido que não via há quarenta e oito anos. Apesar das marcas do tempo, poderia reconhecê-lo em qualquer lugar do mundo.

— O que está fazendo aqui? Você está morto.

José Antônio balançou a cabeça, fazendo gesto de negativo.

— Toque em mim e veja que estou vivo, em carne e osso. Maria seguiu a sugestão dele, apertando a sua mão.

— Apesar das rugas, é a mesma mão que tantos carinhos lhe fez — disse ele.

Maria começou a entender o que estava se passando e os seus olhos encheram-se de lágrimas.

— Eu vim para lhe explicar tudo o que aconteceu.

— Por que você demorou tanto? — perguntou ela, enquanto limpava as lágrimas que rolavam pela sua face.

— Esta é uma longa história. Contratei um detetive particular para buscá-la em Pedra Rosada, alguns meses após eu sair fugido de lá, mas você tinha desaparecido. Ninguém na cidade tinha qualquer informação a seu respeito. Por que você não me disse que estava grávida?

Maria ficou ainda mais surpresa com aquela pergunta.

— Como você descobriu que tenho uma filha com você? 

— Eu a conheci ontem, no jantar de aniversário dela. Por muito pouco, não nos encontramos na casa da Rosemeire.

Maria não estava entendendo nada. Como ele descobriu que Rosemeire era filha deles?

— Zezé, por favor, explique-me o que está se passando. Como você chegou até a Rosemeire? Como você conseguiu se salvar daquele acidente? O que você fez da sua vida?           

— Vamos ter uma longa conversa. Eu fiquei ensopado de suor, tamanha a preocupação quando você desmaiou. Seria possível tomar um banho primeiro?

— Claro! Eu vou preparar um suco enquanto você toma banho.    

José Antônio levantou-se e caminhou até seu quarto. Antes de entrar no banheiro o seu telefone celular tocou. Era Beatriz.     

— Filha, tudo bem com você?             

— Onde o senhor está papai?

José Antônio ficou em dúvida sobre qual resposta daria. Como estava a mil quilômetros de distância, decidiu falar a verdade, pois a bronca pelo telefone era melhor do que pessoalmente.

— Eu estou em Trancoso, na pousada da Maria.

— Eu não acredito que o senhor fez isso! — disse Beatriz, enquanto levava as mãos à cabeça.

— Papai, o senhor está ficando velho e perdendo o juízo. O senhor não poderia ter agido sozinho. Nós havíamos combinado que a Rosemeire daria um jeito de trazer a mãe dela aqui a Belo Horizonte. Ela já descobriu quem é o senhor?

— Acabou de descobrir.

— Qual foi à reação dela?

— Ficou um pouco assustada, mas já passou. Não precisa se preocupar, pois está tudo bem. Eu preciso desligar, porque vou tomar um banho para ter uma longa conversa com ela.

— Espere papai...

Antes que acabasse de falar, Beatriz ouviu o sinal de telefone desligado, o que a deixou ainda mais irritada.

José Antônio desligou o celular e entrou no banho, satisfeito por ter superado a primeira etapa.

 

Maria fez o suco de abacaxi e ficou aguardando Zezé retornar do banho. Aqueles poucos minutos custaram a passar. Em sua mente, ela pensava na época em que teve a certeza de que ele havia escapado do acidente. Durante alguns anos, ela carregou esta certeza consigo. Com o passar do tempo, mudou de idéia, convencendo-se da morte do marido. Agora, a presença dele ali provou que a sua primeira intuição estava correta.

Pouco depois, José António retornou para a sala de televisão. Estava usando calção, camiseta e sandália.

— Tome um pouco de suco.

— Eu aceito, muito obrigado.

Maria serviu-lhe um copo de suco. Suas mãos ainda estavam trêmulas.

— Como você conseguiu escapar do acidente? Os jagunços se espalharam na beira do rio para não deixar você fugir.

— Eu pulei da caminhonete alguns metros antes da ponte. Como foi em uma curva e o mato ao redor da estrada estava alto, ninguém me viu pular. Logo depois, eu ouvi o barulho da caminhonete caindo no rio. Por isso, eles não me acharam.

— Você teve muita sorte.

José Antônio estava em dúvida se falava ou não o motivo que o levou a pular da carroceria da caminhonete. Após breve reflexão, decidiu não omitir nada.

— Não foi bem sorte. Eu ouvi o Sílvio falar para eu pular da caminhonete.

— Como isso pode ter ocorrido, se o meu irmão estava morto? — perguntou Maria, com a expressão de quem não tinha acreditado naquela afirmação.

— Depois daquele dia, eu passei a ter certeza de que a vida continua após a morte. Eu estou lhe dizendo: ouvi o Sílvio falar para eu pular e foi somente este o motivo que me levou a pular da carroceria. Do contrário, eu não teria escapado.

Apesar do longo tempo sem se verem, Maria conhecia bem o ex-marido e sabia pela expressão de seu olhar, que ele estava falando a verdade.

— No meu coração, eu carregava a certeza de que você estava vivo.

Noite após noite, eu esperei você vir me buscar, até que, certo dia, eu me convenci de que você havia morrido.

Olhando nos olhos dela, ele falou:

— Há quarenta e oito anos eu aguardo por este momento.

Maria deu um sorriso, demonstrando não acreditar nas suas palavras.

— Você tornou a me procurar depois que o detetive não conseguiu me localizar?

José Antônio ficou pensativo.

— Não. Eu fiz uma forte amizade com o Oscar, meu colega de trabalho em São Paulo. Certo dia, nós fomos demitidos e ele me convidou para passear na terra dele, que fica no norte do Paraná. Lá, conheci a irmã dele, Rosa, com a qual me casei.

Maria sentiu a face ficar corada de raiva quando o ouviu falar sobre o novo casamento, o que foi logo captado por José Antônio.

— Eu ainda amava você quando me casei com ela, mas eu não tinha alternativa. O detetive me falou que o seu pai não estava totalmente convencido da minha morte e que pagava caro por qualquer informação a meu respeito, inclusive para quem achasse o meu cadáver. Ele queria ter a certeza da minha morte. Por outro lado, o Fausto acabou sendo eleito prefeito e estava com muito prestígio junto ao governador, o qual deu ordem para que eu fosse localizado, vivo ou morto.

Não havia a menor possibilidade de eu voltar a Minas. Por outro lado, você havia desaparecido. O detetive falou que era perigoso continuar procurando por você, pois poderia levantar suspeita maior de que eu estivesse vivo. Daí, cheguei à conclusão de que o melhor era eu ficar escondido na zona rural de Indianópolis, no Paraná. Quando a Rosa se apaixonou por mim, eu vi que era a oportunidade para seguir a minha vida de uma forma segura, sem colocá-la em risco.

— Você ainda está casado com ela?

— Não. Ela morreu há um ano.

A resposta deixou Maria ainda mais enciumada, pois constatou que ele permaneceu casado por longo tempo. Por outro lado, sentiu-se aliviada por ele não estar comprometido, pelo menos era o que demonstrava à primeira vista.

— Vocês tiveram filhos?

— Tivemos duas filhas gêmeas. Uma delas morreu de câncer, há vinte anos, e a outra ainda está viva.

— Eu ainda não estou entendendo como você descobriu que a Rosemeire é nossa filha. Você sequer sabia que tinha uma filha comigo.

— Esta é uma longa história, mas vou tentar resumir. A minha filha Imelda saiu de casa brigada comigo, há vinte e três anos, e foi morar em uma fazenda no sul de Minas, sem que eu soubesse onde ela estava. Acabou tendo um caso com o patrão, que era casado, e ficou grávida. Como não tinha condições de criar a menina, deixou-a com o patrão. Passado um tempo, nós fizemos as pazes, mas ela não me falou nada sobre a filha. Após a morte da irmã, que se chamava Beatriz, a Imelda decidiu homenageá-la e mudou o seu nome para Beatriz. Depois, formou-se em medicina e veio morar em Belo Horizonte. A Denise cumpre a pena de prestação de serviços no mesmo local em que a Beatriz trabalha. Foi ela que indicou a Beatriz para cuidar da doença da Rosemeire.

Maria ficou abismada com tamanha coincidência.

— A Denise a que você se refere é a namorada do meu neto Artur.

— Exatamente. A Rosemeire convidou a mim e a minha filha para o aniversário dela, para que nós estreitássemos mais o relacionamento com a Denise. Foi lá que eu vi uma fotografia nossa e descobri que a Rosemeire é nossa filha.

— Desculpe-me, mas ela é minha filha. Você não é o pai dela, porque pai é quem cria.

José Antônio percebeu que a ex-mulher estava mais chateada do que ele imaginou que fosse ficar.

— Eu fiquei sem ninguém — prosseguiu ela, em tom de desabafo. — Não me casei novamente, e olha que propostas não faltaram. Alguns homens quiseram muito fazer o papel de pai da Rosemeire.

— Por que você não se casou?

Com lágrimas nos olhos, Maria respondeu:        

— Eu não me casei porque nunca deixei de amar você.

José Antônio sentiu uma energia diferente vibrar em seu interior, quando ouviu a confissão de Maria.

— Eu passei por muitos momentos marcantes, nos últimos quarenta e oito anos, tendo vivido coisas boas e ruins, mas nunca me esqueci de você. Não posso reclamar da minha falecida esposa e seria falso se falasse que não a amei, mas quero que você acredite que eu sempre sonhei com este momento e jamais deixei de acreditar que algum dia, em algum lugar, nós nos reencontraríamos.

Por alguns segundos, ambos ficaram calados, apenas se olhando. O silêncio foi interrompido por Maria.

— Durante um bom tempo, eu fiquei revoltada com a nossa separação. Eu não estava casada, porque não tinha a sua companhia, mas também não me considerava uma mulher viúva, apesar de as pessoas dizerem que você estava morto, pois só aceitaria este fato se visse o seu corpo. A incerteza sobre a sua morte corroia a minha alma. Vendo você, agora, fico pensando em qual teria sido o propósito de Deus para nossas vidas ao permitir que tudo isso acontecesse.

José Antônio olhou para o céu, coberto por algumas nuvens, como se procurasse ver Deus.

— Certamente, Deus teve um propósito para nossas vidas, ao submeter-nos a uma prova tão difícil quanto esta. Nada nesta vida acontece por acaso — completou José Antônio.

— Que erro nós cometemos para sermos afastados um do outro durante quarenta e oito anos? Veja bem, acho que tive uma atitude nobre ao fugir de Pedra Rosada para salvar a vida da Rosemeire. Caso tivesse ficado, teria sido forçada por meu pai a me submeter a um aborto, mas pelo menos, o detetive que você contratou teria a chance de me encontrar e nós não teríamos nos separado. É isso que não entendo, pois sinto que fui punida, com a nossa separação, exatamente por praticar uma boa ação, que foi preservar uma vida, a vida da minha filha. Sou temente a Deus e sei que Ele é justo, mas, por algumas vezes, eu não entendo a Sua justiça.

— Talvez os nossos erros tenham sua origem em vidas passadas. Certamente, você não foi punida por fugir de Pedra Rosada para salvar a vida da nossa filha. Caso não tivesse agido assim, acredito que o preço que nós pagaríamos seria maior, ainda que o detetive levasse você para junto de mim.

Você tem alguma dúvida de que Deus nos guiou para este reencontro?

— Não.

— Pois, então, acho que o melhor é acreditarmos que Ele guiou os nossos passos durante todos esses anos, tendo feito o melhor para nós. Talvez o nosso reencontro permita-nos entender qual foi o propósito d'Ele para que tudo isso tenha ocorrido.

Maria balançou a cabeça, concordando com aquelas ponderações. José Antônio levantou-se da cadeira e deu dois passos para frente, ficando próximo a ela. Por alguns segundos, ficaram apenas se olhando. Desta feita, ele quebrou o silêncio.

— Maria, dê-me um abraço.

Maria sentiu as pernas ficarem pesada demais para se levantar. José Antônio estendeu as mãos para ajudá-la. Ela limpou uma lágrima e lhe deu as mãos, sendo erguida por ele. Novamente se encararam, enquanto um desejo irresistível tomava conta deles, levando-os ao abraço tão aguardado.

Após o longo e apertado abraço, eles se beijaram com a mesma paixão do último beijo, como se nada tivesse acontecido nos quarenta e oito anos de separação. Os batimentos cardíacos deles estavam acelerados e a respiração ofegante. A paixão demonstrada não escondeu certo nervosismo que ambos estavam sentindo.

Após o beijo, José Antônio levou a mão ao bolso e pegou um pequeno porta-jóias, entregando-o para Maria.      

— O que tem aqui dentro?

— Abra e veja.

Cuidadosamente, Maria abriu o porta-jóias. Para sua surpresa, ali estava à aliança do casamento deles.

— Você guardou a aliança!

José Antônio deu um leve sorriso. A alegria estampada na face de Maria deixou-o ainda mais emocionado.

— Venha até minha casa, eu também tenho uma surpresa para você.

Maria segurou a mão de José António e eles caminharam até a casa, que ficava no fundo do lote, atrás da piscina. Subiram as escadas de madeira e chegaram ao andar superior, onde havia uma sala, um banheiro, dois quartos e uma suíte, com uma linda banheira e uma varanda com rede, de onde se tinha uma bela vista da praia. Ela abriu a porta do armário do seu quarto, depois a gaveta e pegou um objeto que José Antônio não conseguiu identificar. Voltando-se para ele, disse:

— Eu também guardei a minha aliança.

José Antônio pegou a aliança e beijou-a, colocando-a na mão esquerda dela.

Maria, por sua vez, pegou a aliança das mãos de José Antônio e repetiu o gesto dele. Depois, apontando para o imenso cômodo da casa, ela falou:

— Zezé, se for da sua vontade, o seu lugar será aqui.

O convite de Maria levou José Antônio a uma emoção profunda. Ele tentou responder, mas sentiu um nó na garganta. Em seguida, as lágrimas rolaram, seus lábios começaram a tremer de tal forma que ele apenas respondeu:

— O meu desejo é ficar com você para o resto das nossas vidas.

— Então, vamos lá embaixo pegar os seus pertences - disse Maria. Deram novo abraço e tornaram a se beijar, como dois adolescentes descobrindo a magia do amor.

Em seguida, desceram de mãos dadas para buscar a mala de José Antônio.

Aquela tarde parecia ainda mais especial que as outras, pois, além de ensolarada e colorida, como de costume em Trancoso, até os pássaros e as borboletas pareciam felizes com aquele reencontro. Sabiás, bem-te-vis e uma infinidade de outros pássaros cantavam na maior altura que podiam, beija-flores voavam de uma flor para outra, como se estivessem extasiados de alegria, e as borboletas, das quais Maria tanto gostava, vieram em grande número, colorindo os jardins ao redor da piscina.

 

Até então, apenas Beatriz estava sabendo da proeza de seu pai. Os demais não desconfiavam do que estava se passando em Trancoso. Estavam todos impressionados com o que viram e ouviram durante o jantar comemorativo do aniversário de Rosemeire e mal conseguiram dormir durante a noite.

No início da tarde, Denise e Leônidas foram ao laboratório para realizar o exame de DNA. O resultado ficaria pronto em dez dias.

Quando Denise chegou à sua casa, telefonou para Artur. Somente naquele momento ela se deu conta do parentesco com o namorado.

— Está recuperado das emoções de ontem?

— Ainda não. Estou encabulado, com vontade de encontrar o avô que descobri para saber mais da vida dele. Tudo que eu soube, até então, foi através da minha mãe. Os fatos que ele vivenciou são impressionantes.

— Acho que você não percebeu uma coisa.

— O que foi? — perguntou Artur.

— Você é sobrinho da Beatriz.

— Eu sei disso. Ela é irmã da minha mãe.

— Artur, você não percebeu que nós somos primos?

A pergunta da namorada deixou Artur boquiaberto. Ele não havia atentado para o fato de que Imelda era irmã de sua mãe, por parte de pai.

— É verdade. Eu não havia pensado nisso. Você vê algum problema?

— Claro que não! Eu conheço vários primos que se casaram. Além do mais, as nossas mães são irmãs apenas por parte de pai. Estou começando a achar engraçado tudo o que está acontecendo.

— Nunca vi, nem ouvi falar de tantas coincidências na vida de uma pessoa — tornou Artur.

— Quer ver outra coincidência? — perguntou Denise. — Você acredita que o doutor Rafael estava procurando indicação de um arquiteto para começar a construir a casa dele? Ele combinou de jantar com a Renata. Você percebeu a forma como ele a tratou?

— Você está brincando ou está falando sério?

— Estou falando sério. Eles vão sair para jantar e conversar sobre a construção da casa. Do jeito que as coisas estão indo, não vou ficar espantada se ela fizer o projeto da própria casa.

— Isso é profecia — tornou Artur.

— Profecias existem. Quer ver uma incrível? O escritor Morgan Robertson, autor do livro Vaidade, escrito em 1898, narrou o afundamento de um luxuoso transatlântico, chamado Titã. Quatorze anos depois, ocorreu o naufrágio do Titanic. O autor descreveu o número de tripulantes, passageiros e botes salva-vidas, além do mês da tragédia, tonelagem do navio e velocidade do impacto com o iceberg.

— Já que você profetizou que a Renata irá se casar com o doutor Rafael, o que acha de profetizar algum fato para as nossas vidas?

Denise pensou, pensou e respondeu:

— Nós também iremos nos casar.

— Isso eu já sei. Faça outra profecia — desafiou Artur.

— Iremos ter um casal de gêmeos.

— Gostei da profecia. Poderemos colocar os nomes de Francisco e Clara, tal qual no filme Irmão Sol, Irmã Lua, que narra às vidas de Francisco e Clara de Assis.

— Estamos combinados — emendou Denise. — Se tivermos um filho e uma filha, colocaremos os nomes de Francisco e Clara.

Após desligarem o telefone, ambos começaram a pensar na brincadeira que fizeram. Apesar do pouco tempo de namoro, a afinidade entre eles aumentava a cada dia, tal como a atração. A continuar naquele ritmo em breve estariam conversando seriamente sobre casamento. Antes disso, precisavam encontrar trabalho. Denise decidiu que já havia descansado o suficiente após a formatura. Portanto, começaria a procurar emprego.

Durante o almoço, Denise comentou com Renata sobre a conversa com Artur e recebeu o apoio da irmã para levar adiante a idéia do casamento. Renata, por sua vez, estava entusiasmada com o jantar de logo mais. A imagem de Rafael não lhe saía da mente, pois ela percebeu o jeito galanteador com que ele a tratou. Ansiosa para as horas passarem rapidamente, ela almoçou apenas um pouco, tão somente para não ficar com o estômago vazio.

Depois do almoço, Renata foi ao salão. Queria estar impecável para o encontro. Quando retornou, experimentou algumas roupas, mas não chegou à conclusão sobre qual delas usaria. A decisão veio somente quando Denise voltou do banco. Seguindo palpite da irmã, Renata separou uma bata vinho, na altura do joelho, e uma bota de cano longo, feita de couro cru.

Em seu consultório, Rafael estava na mesma expectativa. Entre uma consulta e outra, seus pensamentos iam ao encontro de Renata. Na noite anterior, ele saiu da casa de Rosemeire com a sensação de ter sido correspondido em seu sentimento. Após um período de aridez afetiva, enfim ele voltava a ficar verdadeiramente interessado por uma mulher.

Quando retornou para casa, ele começou a pensar em qual restaurante poderia levá-la. Após selecionar mentalmente cinco restaurantes, ele decidiu ir a um restaurante de comida francesa, por considerá-lo mais romântico do que os outros. No horário combinado, Rafael chegou à casa de Renata. Quando ela surgiu na portaria, ainda mais bonita do que das outras vezes em que se viram, ele sentiu o coração disparar.

Cumprimentaram-se com um beijo na face. Apesar da ansiedade, ambos estavam confiantes em que aquela noite seria marcante. Até a temperatura amena estava contribuindo. No caminho, conversaram sobre os cantores de que mais gostavam. Em menos de dez minutos, chegaram ao restaurante. Coube a Renata iniciar o assunto que os levou ali.

— Como é o tipo de casa que você pretende construir?

— Uma casa para uma família de quatro ou cinco pessoas. Quero me casar e ter filhos.

Renata ficou com a face corada. Ela não sabia se a resposta havia sido uma indireta. Para seu alívio o garçom aproximou-se trazendo o cardápio. Como entradas decidiram pedir carpaccio de carne. Assim que o garçom saiu, Renata retomou o assunto:

— Onde fica o seu lote?

— Em um condomínio, localizado em Nova Lima.

— O lote é muito inclinado?  

— Não tanto. Acho que dará para fazer uma linda construção.

— Quantos metros?

— Novecentos metros quadrados.

Antes que Renata fizesse nova pergunta, foi surpreendida pela presença de Adriano.

— Você vai pagar muito caro pelo que está fazendo. Eu não vou perdoá-la jamais. Você não sabe do que sou capaz.

Rafael levantou-se e ficou entre os dois, a fim de defender a sua acompanhante de uma eventual agressão.

Renata ficou em pânico, com medo do escândalo que se desenhava. Com a voz trêmula, dirigiu-se ao ex-namorado.

— Eu não tenho mais nada com você. Além disso, estou aqui a trabalho. Ele vai construir uma casa e estamos discutindo o projeto. Apenas isso.

— Você está de caso com ele. Eu sei muito bem o tipinho de mulher que você é.

Em seguida, Adriano fez menção de partir para cima de Renata, mas foi contido pelo segurança do restaurante. Logo, um garçom aproximou-se para ajudar o segurança a retirá-lo do recinto.

Adriano tentou se desvencilhar dos dois, chegando, inclusive, a dar uma mordida no braço do segurança.

Renata tremia como vara verde. A cena histérica proporcionada por Adriano serviu para reforçar nela a convicção de que havia tomado a decisão correta ao terminar o namoro. Ao tentar beber um gole de água, deixou a bebida entornar em sua bata.

Rafael, percebendo o estado emocional alterado dela, segurou carinhosamente a sua mão e procurou confortá-la.

— Fique calma. Ele já se foi. Está tudo bem.

Naquele momento, por um instante, Renata temeu que o escândalo feito por Adriano pudesse interferir em um eventual interesse de Rafael por ela.

— Desculpe-me, Rafael. Eu terminei o namoro com o Adriano recentemente, mas ele não aceitou a minha decisão.

— De fato, perder uma namorada atraente como você mexe com a cabeça de um homem. Vocês namoraram muito tempo?

Renata voltou a sentir a face corar. Após um tímido sorriso, ela respondeu:

— Pouco mais de dois anos. A insegurança e o ciúme dele minaram o amor que eu sentia. Cansei de ser acusada por algo que não havia feito. Para você ter uma idéia, eu e o Artur apenas trabalhávamos na mesma construtora, mas o Adriano achava que eu dava em cima dele.

Renata, aos poucos, tranquilizou-se. Tomou um gole de água, já não tremia tanto. A presença de Rafael trazia-lhe segurança, uma segurança que ela nunca sentiu durante o período de namoro com Adriano.

— Ele disse que faria terapia, mas pelo visto não procurou nenhum terapeuta.

— A vida se incumbirá de dar alguns ensinamentos a ele. Agora, vamos voltar ao projeto da casa. Quero saber quanto custa o seu trabalho.

Renata ficou em dúvida sobre o preço que cobraria. Não queria perder o serviço por causa de dinheiro, mesmo porque ela se sentiu atraída pelo médico. Após refletir por alguns segundos, deu a resposta:

— Eu não tenho condições de falar sobre o preço agora. Vou lhe passar umas revistas de arquitetura para você analisar diferentes estilos de construção. Quero que separe aquelas de que mais gostar e que me diga tudo àquilo que você faz questão que tenha na casa. Além disso, preciso verificar o seu terreno para saber o que pode ser feito em termos de construção. A partir daí, começarei a elaborar o projeto. Para que você tenha uma idéia, o preço do meu serviço deve girar em torno de vinte e cinco mil reais. Talvez, um pouco mais ou um pouco menos. Posso facilitar o pagamento da forma que ficar melhor para você.

Rafael sentiu nas palavras de Renata o desejo de pegar o serviço. O olhar dela transmitia uma carência que ele desejava suprir. Ele percebeu, ainda, que havia certo interesse dela em conhecê-lo melhor. Ficou feliz ao sentir o coração bater mais forte.

— O preço está bom. Quero levá-la ao lote o mais rápido possível. Não vejo a hora de começar a construir.

— Tudo bem. Você já tem engenheiro?

— Ainda, não — respondeu Rafael.

— O Artur é um excelente engenheiro. Como disse, trabalhamos juntos em uma construtora e pude verificar o quanto ele é competente.

— Ótimo. Vou conversar com ele também. Como vocês já têm entrosamento, será muito bom se ele for o engenheiro responsável pela obra.

Rafael e Renata conversaram sobre mais alguns detalhes da construção e depois jantaram. Quando saíram do restaurante, ele teve o cuidado de olhar para os lados, a fim de não ser surpreendido por um ataque repentino de Adriano.        

Gentilmente, abriu a porta do carro para ela entrar. Durante o trajeto, pouco conversaram. Renata estava com receio de que Adriano estivesse esperando por ela em frente à portaria de seu prédio, como aconteceu na noite em que foi à delegacia com Artur.

Assim que chegaram, ela quis despedir-se rapidamente de Rafael, evitando um provável ataque de ciúmes de Adriano.

— Calma! Não precisa ter pressa.

— Estou com medo de que o Adriano apareça — justificou-se ela, olhando para os lados.

Rafael segurou a mão de Renata, acariciando-a, momento em que percebeu que estava fria e um pouco trêmula. Ela sentiu o coração disparar e abaixou a cabeça, demonstrando timidez. Rafael abraçou-a e falou baixinho:

— Desculpe-me, mas já tem certo tempo que eu não conheço uma mulher tão interessante.

Quando os seus olhares se cruzaram, Rafael não resistiu ao desejo, beijando-a. Em princípio, Renata achou estranho beijar outro homem que não fosse Adriano, fato que nunca aconteceu no período de namoro. Em um segundo momento, ela gostou do beijo de Rafael, entregando-se em seus braços.

— Estou achando estranho. Está tudo acontecendo muito rápido. Tem pouco tempo que eu terminei o namoro. Pensei que não ficaria a fim de outro homem tão cedo. De repente, nós nos conhecemos e eu me senti atraída por você. Não esperava por isso.

— Quando você disse que era arquiteta, eu tive certeza de que era um sinal.

Renata abraçou Rafael e acariciou seus cabelos. Trocaram mais alguns beijos antes de se despedir.

— Estou adorando ficar aqui com você, mas é perigoso. Eu vou subir. O jantar estava ótimo. Farei o melhor para que você goste do meu trabalho.

— Tenho certeza de que vou gostar, assim como estou gostando de você.

Antes de Renata sair do carro, eles deram mais um longo beijo. Desta vez, Adriano não estava à espreita.

Assim que abriu a porta do apartamento, Renata começou a separar as revistas de arquitetura para mostrar a Rafael. Denise aproximou-se para saber como havia sido o encontro e pulou de alegria quando Renata contou que havia indicado Artur para ser o engenheiro da obra. Imediatamente, telefonou para ele, contando a boa nova.

— Artur tem uma ótima notícia para você.

— Então, fale logo; fiquei curioso.

— A Renata foi contratada pelo doutor Rafael para fazer o projeto arquitetônico da casa dele e indicou você para ser o engenheiro.

A notícia deixou Artur extasiado de alegria, pois sentia como estava difícil conseguir emprego.

Pouco depois, o telefone tocou novamente e Rosemeire atendeu a chamada. Ficou ansiosa quando ouviu a voz de sua mãe, pois não sabia como fazer para lhe falar sobre seu pai.

— Minha filha, eu estou no Quadrado observando as estrelas, mas estou sentindo falta de uma delas.

— Como assim, mamãe? A senhora conta o número de estrelas?

— Somente as mais bonitas. Estou dando falta da mais bonita de todas, exatamente aquela que eu imaginava ser o seu pai.

Rosemeire pensou que sua mãe poderia estar sabendo de tudo.

— O que a senhora quer dizer com isso?

— Você sabe minha filha, você sabe. Um momentinho só... Rosemeire percebeu pelo tom de voz de sua mãe que ela estava sentindo uma felicidade incomum.

— Desculpe-me, Rosemeire, mas eu não tive como cumprir o trato que fizemos. Eu não poderia esperar mais um dia sequer para encontrar o grande amor da minha vida. Por favor, espero que compreenda a minha situação e não se aborreça comigo.

Rosemeire ficou abobada com o que acabara de ouvir. Então, sua mãe não apenas estava sabendo de tudo, como também estava ao lado de seu pai.

— O senhor foi para Trancoso?

— Eu não pude evitar, o desejo do meu coração falou mais alto.

— Como a mamãe recebeu a notícia? Eu estava preocupadíssima com a reação dela.

— Ela levou um susto muito grande, mas já passou e agora estamos muito felizes. Depois desse tempo todo, tudo o que queremos e ficar juntos e curtirmos um ao outro. Amanhã, nós iremos para Belo Horizonte, porque também queremos reunir toda a família para celebrar este reencontro.

Após desligar o telefone, Rosemeire contou a boa nova para o marido e o filho.

Enquanto isso, em Trancoso, Maria e José Antônio passeavam de mãos dadas pelo Quadrado, fato este que chamou a atenção dos demais moradores da vila, pois Maria era muito popular e há muito tempo ninguém ali a via namorando. A todos que paravam para cumprimentá-la ela fazia questão de apresentar José Antônio, explicando, resumidamente, que aquele era seu ex-marido, pai de Rosemeire. A reação dos moradores era unânime, demonstrando espanto com a série de coincidências que possibilitaram aquele reencontro.

Depois de caminharem por alguns minutos, decidiram jantar. Maria indicou o restaurante Victória, que ficava no início do Quadrado. As mesas ficavam embaixo de um imenso pé de jaca. Como não havia luz elétrica no local, o jantar era servido à luz de velas. Difícil encontrar lugar mais romântico para jantarem juntos pela primeira vez, após tanto tempo de separação.

Seguindo sugestão de Maria, decidiram pedir bobó de camarão. Enquanto o prato era preparado, pediram suco de grávida. Era o primeiro brinde que fariam após o reencontro.

— Ao nosso reencontro — disse Maria, levantando o copo.

— Ao nosso reencontro, à nossa filha e ao nosso amor, sobretudo ao nosso amor, porque venceu todos os obstáculos, mostrando ser mais forte do que a dor e o sofrimento causados pela separação involuntária.

Ao olhar para o alto, José António viu várias jacas enormes sobre a sua cabeça.

— Não tem perigo das jacas caírem nas cabeças dos clientes?

— Nunca aconteceu. Todas as semanas uma pessoa passa recolhendo aquelas que já estão maduras.

O bobó não demorou a ser servido. Para alegria de Maria, José Antônio adorou a comida.

Pouco depois, retornaram para a pousada. Assim que Maria abriu a porta de seu quarto, viu um pequeno inseto, uma esperança, na janela.

— Olha Zezé! É uma esperança que veio nos abençoar!

— Esperança?

— Sim. Sempre que aparece uma esperança para alguém significa que a pessoa terá boas chances de ser bem sucedida no seu projeto de vida mais imediato. Tudo está conspirando ao nosso favor.

— Meu amor, depois de tudo que passamos, nós merecemos está bênção — disse José Antônio, tomando-a em seus braços.

Maria deixou-se envolver pelos braços do seu grande amor. Enfim, à noite tão sonhada por ela havia se tornado realidade. Testemunhando aquele momento, as estrelas e a brisa do mar que entrava pela varanda do quarto.

Abraçados, eles adormeceram observados pela esperança.

 

No dia seguinte, por volta das nove horas da manhã, Rosemeire pegou um táxi em direção à clínica onde Beatriz trabalhava para realizar a primeira sessão de quimioterapia. Artur não acompanhou a mãe, tendo ficado em casa para recepcionar os avós que chegariam de Trancoso.

Os recentes fatos ocorridos em sua vida deram ânimo novo a Rosemeire para fazer o tratamento e vencer o câncer. Durante o trajeto para a clínica, pensou no tanto que a sua vida mudou no último ano. Primeiro, a separação do marido, ocasionando uma depressão profunda, que culminou com a descoberta do câncer; depois, em um espaço curtíssimo de tempo, a reconciliação com Alexandre e o aparecimento do pai, que ela julgava ter morrido antes mesmo do seu nascimento. Junto a isso, a descoberta de uma irmã viva e outra morta, sendo aquela a mãe biológica da namorada de seu filho. Diante de todos esses fatos, Rosemeire concluiu que, de fato, o mundo dava muitas voltas, assim como a vida das pessoas.

Logo que chegou à clínica, foi atendida por Beatriz.

— Olá, Rosemeire, como passou estes últimos dois dias?

— Feliz, por tantas bênçãos recebidas em tão pouco tempo. Não paro de pensar em todas estas coincidências. E com você, está tudo bem?

— Graças a Deus, apesar de estar um pouco chateada com o papai por ele ter descumprido o trato que fez com você. Ele não poderia ter ido a Trancoso sem nos avisar. Ele não me falou nada e, quando eu descobri, ele já estava com a sua mãe. Peço-lhe desculpas pela conduta dele.

— Você não tem que me pedir desculpas, afinal ele é meu pai também. Não fiquei chateada, eu compreendo a situação dele. Acho que eu poderia esperar esse tipo de comportamento, pois a mamãe sempre me falou que, quando ele queria uma coisa, não tinha nada que o fizesse mudar de idéia, ele sempre ia atrás daquilo que queria e agia da forma dele, ignorando o conselho dos outros.

— Ele é exatamente desse jeito — concordou Beatriz. — A mamãe sempre reclamava dessa forma de ser dele. Que Deus a tenha! Pelo coração bondoso que ela tinha, acredito que, onde ela estiver, está feliz por ver a felicidade do papai. Ele ficou muito abatido depois da morte dela.

— E você? Já conseguiu superar essa perda?

— Aos poucos eu vou reconstruindo a minha vida. Ainda sinto muita falta dela, mas estou mais conformada, sobretudo agora que reencontrei a única filha que tive e descobri que tenho uma irmã.

— Eu também estou muito feliz por saber da sua existência. Tenho certeza de que nos daremos muito bem.

Beatriz sorriu e acenou positivamente com a cabeça, concordando com a previsão de Rosemeire.

— Você está preparada para começar o tratamento?

— Estou sim. Quero ficar curada o mais rápido possível.

— Pois bem, a sessão de quimioterapia dura em torno de duas horas. O coquetel de drogas é administrado por via endovenosa e, como já lhe adiantei, você pode ter náuseas e outros desconfortos durante e após a aplicação do medicamento; por isso, concomitantemente ao tratamento, nós iremos cuidar para que as reações adversas à medicação sejam minimizadas. Podemos começar?

— Vamos lá.

O tratamento teve início e Rosemeire sentia fortes náuseas à medida que o medicamento era aplicado. O mal-estar, entretanto, não era suficiente para abalar a paz que ela começou a resgatar a partir do momento em que deixou a mágoa sentida pelo marido esvair-se de seu coração.

Enquanto Rosemeire submetia-se ao tratamento, José Antônio e Maria chegavam ao apartamento dela, sendo recepcionados por Artur, o qual jamais havia visto a avó com a fisionomia demonstrando tanta felicidade.

— Vamos entrar. A mamãe está na clínica fazendo a quimioterapia.

— Como ela está? — indagou Maria.

— Em toda a minha vida, nunca vi minha mãe tão feliz. Agora, a senhora é que está com a felicidade estampada na face. Parabéns, vocês merecem o que estão vivendo.

Voltando-se para José Antônio, Artur perguntou:               

— Posso lhe chamar de vovô?

— Claro, meu filho! Eu sou o seu avô e sempre sonhei em ter um neto como você. Aliás, sempre sonhei em ter netos como você e a Denise. Por favor, telefone para ela e diga para não marcar compromisso. Eu e Maria queremos reunir toda a família ainda hoje. Queremos curtir a presença de todos até o próximo final de semana, quando faremos uma viagem.

— Vocês nem chegaram e já querem viajar novamente? Com todo respeito, eu nunca vi tamanha disposição em duas pessoas com a idade de vocês.

— É o amor — tornou José Antônio. — Você conhece Pedra Rosada?

— Não. Quando eu era mais novo, tinha vontade de conhecer, mas, com o tempo, essa vontade passou. O senhor ainda tem parentes por lá?

— Não. A minha família era pequeníssima. Eu sou filho único. Mamãe morreu logo após o parto e o papai faleceu quando eu ainda morava em Pedra Rosada. As famílias deles eram de Goiás, mas nunca mantivemos contato, mesmo porque fui criado no patronato da cidade. Até antes de ontem, a minha família resumia-se a mim e a Beatriz. Agora, descobri que tenho dois netos, outra filha e um genro. Iremos a Pedra Rosada por outro motivo.

— Qual motivo?

José Antônio fixou o olhar em Artur, mas os seus pensamentos voltaram no tempo. Após alguns instantes, respondeu:

— Eu gostava muito da Conceição, esposa do Sílvio. Quando ocorreu o incidente, eles tinham uma filhinha, a Letícia, que tinha apenas dois anos de idade. Imagino a dor que eles sentiram com a morte do Sílvio. Eu não tive oportunidade de explicar o ocorrido, muito menos de pedir desculpas pelo transtorno que causei à vida delas.

— O senhor não teve culpa.

José Antônio deu um sorriso amargo, balançou a cabeça e respondeu:

— Eu tive culpa pela morte do Sílvio, apesar de não ter tido a intenção de matá-lo. Eu não deveria estar armado naquele bar. Um homem fica muito valente com uma arma na mão e costuma fazer besteira.

Percebendo que o marido ficou abatido com a lembrança da morte de Sílvio, Maria cuidou de mudar de assunto.

— Quem sabe você se anima a viajar conosco? Chame a Denise. Será um prazer enorme ter a companhia de vocês nesta viagem.

Artur não esperava o convite da avó e ficou pensativo, mas gostou da idéia.

— Estou procurando emprego e não posso me ausentar de Belo Horizonte por muito tempo, mas, acho que não haverá problema se eu ficar fora apenas o final de semana. Eu vou telefonar agora para

Denise; caso ela aceite, nós iremos com vocês. Por algum motivo desconhecido, penso que todas as pessoas deveriam conhecer as origens de suas famílias.

José Antônio e Maria ficaram animados com a possibilidade de ter a companhia dos dois na viagem.

Em seguida, Artur telefonou para Denise. Ela não pensou duas vezes para aceitar o convite.

— Será a primeira de muitas viagens que faremos juntos — profetizou Denise. — Por ser a primeira, jamais esqueceremos. É justo que comecemos as nossas viagens por Pedra Rosada, afinal, foi lá que tudo começou. Depois, quero ir à Venda do Bispo, em Indianópolis, no Paraná, para conhecer a terra de Beatriz. Você vai comigo?

— Claro, meu amor! Vamos conhecer a terra da sua mãe biológica, o lugar que acolheu o nosso avô depois que ele foi obrigado a fugir de Minas.

José Antônio e Maria vibraram com a confirmação dos dois novos companheiros de viagem. Ele, sobretudo, queria desfrutar ao máximo da presença dos netos, especialmente por tê-los conhecido recentemente.

Pouco depois, Rosemeire chegou, com a aparência um pouco abatida em função da quimioterapia, mas logo seu humor melhorou, ao ver a alegria da sua mãe ao lado do grande amor da sua vida.

À noite, Denise e Beatriz foram à casa de Rosemeire para a reunião de família pedida por José Antônio e Maria. Até então, José Antônio não tinha se encontrado com Beatriz, com receio que estava de ouvir o sermão dela pela sua desobediência em ir a Trancoso.

Quando viu o seu pai, Beatriz lançou um olhar de reprovação pela sua atitude, mas logo depois o beijou, felicitando-o pelo reencontro com a ex-esposa.

Logo que todos se sentaram, José Antônio pediu a palavra para explicar a razão pela qual havia pedido a reunião. Antes de começar a falar, concentrou-se para segurar a emoção, a fim de evitar as lágrimas.

— Acho que todos já imaginam o motivo de estarmos reunidos. Eu e Maria quisemos falar pessoalmente para vocês que decidimos viver juntos novamente. Por um motivo desconhecido, fomos separados um do outro na nossa juventude e seguimos cada qual o seu caminho. Eu fui muito feliz na companhia da saudosa Rosa e ela também teve seus bons momentos com alguns pretendentes, mas, uma vez solteiros, quis a bondade e misericórdia de Deus que nos uníssemos novamente, e aqui estamos. Eu sempre quis morar em uma cidade litorânea. Agora, vou realizar o meu desejo, de forma esplendorosa. Moraremos em Trancoso e será um prazer imenso receber vocês em nossa casa.

Uma salva de palmas interrompeu o discurso de José Antônio. Percebendo a emoção de seu pai, Beatriz mudou de assunto. Pouco depois, começaram a falar sobre a viagem para Pedra Rosada.

Rosemeire serviu o lanche e todos permaneceram conversando por mais algum tempo.

Em determinado momento, Artur sentou-se ao lado de seu avô para acertar detalhes da viagem.

— Vovô Zezé, o que o senhor acha da idéia de irmos de carro para Pedra Rosada? A viagem de trem levará nove horas, enquanto de carro, pelos meus cálculos, nós gastaremos em torno de seis horas. Será muito desgastante para o senhor e a vovó fazerem esta viagem de trem.

— Ah, meu neto, eu quero tanto fazer esta viagem de trem...

— Vovô, pense melhor na minha sugestão, pois, além da viagem de carro ser menos cansativa do que a de trem, nós poderemos parar onde desejarmos e teremos o carro à disposição para passearmos em Pedra Rosada. Além do mais, o senhor precisa conhecer uma lanchonete, à beira da estrada, em São Gonçalo. Caso o senhor aceite ir de carro, nós sairemos cedinho e tomaremos o café da manhã lá. O senhor irá comer a melhor empada, o melhor pão de queijo e o melhor pastelzinho português da sua vida, eu prometo.

Percebendo a vontade do neto em fazer a viagem de carro, José Antônio cedeu aos seus argumentos.

Beatriz, que ouvia atentamente a conversa, ficou admirada com a facilidade com que Artur convenceu o pai dela, tido como teimoso por todos. Ela via a mudança de temperamento do pai, sempre acostumado a dar a última palavra, como um dos primeiros sintomas da doçura e flexibilidade de que o ser humano é tomado ao tornar-se avô ou avó. Provavelmente, aquele seria o primeiro sinal de várias mudanças que aquela convivência promoveria.

  

No transcorrer da semana, dia após dia, aumentou em Artur a convicção de que Denise era a mulher de sua vida. Apesar do pouco tempo de namoro, tudo que havia acontecido entre eles e entre as pessoas que os cercavam levava-o à certeza de que o amor que sentia por ela e o que ela sentia por ele era o suficiente para se casarem. Diante da convicção que sentia em seu íntimo, Artur não estava disposto a esperar para fazer o pedido de casamento. Essa idéia não saía de sua mente, até mesmo quando estava deitado preparando-se para dormir. Apesar disso, cuidou para que Denise não suspeitasse de nada. Ela, Leônidas e Beatriz estavam ansiosos com o resultado do exame, que ficaria pronto na sexta-feira, no final da tarde. A ansiedade maior era de Beatriz, pois não estava convicta de que Denise e Leônidas acreditaram cem por cento em sua afirmação de que ele era o pai. Beatriz não via a hora de exibir o resultado do exame para Leônidas.

Na quinta-feira cedo, Artur telefonou para Denise e convidou-a para sair.

— Estou com muitas saudades. Nem parece que nos encontramos ontem. Vamos dar uma volta?

Denise estranhou o convite do namorado. Afinal, nos dias de semana eles sempre se encontravam apenas à noite.

— Fico feliz que sinta saudades de mim, porque eu sinto muita saudade sua também. Mas, é a primeira vez que você me chama para sair de manhã. Aconteceu alguma coisa?

Artur sentiu o coração disparar, pois não sabia o que responder.

— Está tudo bem. Só estou com muitas saudades — despistou.

— A que horas você passa aqui?

— Em trinta minutos.

Após desligar o telefone Artur percebeu que suas mãos estavam molhadas de suor. Estava decidido a fazer o pedido de casamento, mas tinha receio de que Denise o julgasse precipitado. Não tinha idéia também de onde levá-la para conversar, já que não havia bar ou restaurante aberto às dez horas da manhã.

Enquanto se aprontava Denise sentiu um arrepio correr-lhe por todo corpo. Suspeitava que Artur tivesse algo importante a lhe falar, mas não fazia idéia do que era. No horário marcado ele a pegou.

— Que bom ver você logo cedinho! Você está lindo.

Artur tinha a respiração ofegante. Ao olhar para ela, pensou em desistir de tocar no assunto, com medo de que a resposta fosse negativa.

— Você também está linda, como sempre.

— Aonde vamos? — perguntou ela.

— Vamos dar uma volta de carro, sem rumo. Tudo bem?

Ela sorriu e acenou positivamente com a cabeça. Artur arrancou o carro, sem saber para onde ir e se teria coragem para tocar no assunto. Ligou o rádio para distrair. Estava tocando a música Dia Branco, de Geraldo Azevedo. Era o sinal que ele precisava. Olhando para Denise, cantou:

— Eu lhe darei o sol, se hoje o sol sair, ou a chuva, se a chuva cair. Se você vier até onde a gente chegar, numa praça ou beira de mar, num pedaço de qualquer lugar. Nesse dia branco, se branco ele for, esse tanto esse tão grande amor. Se você vier pro que der e vier comigo.

Os olhos de Denise encheram-se de lágrimas com a declaração sincera do namorado. Com um sorriso de contentamento estampado na face ela respondeu:

— Eu vou com você para onde você quiser, quando você quiser.

Artur suspirou fundo, olhou para frente e viu a alguns metros de distância um cartório de registro civil. Não hesitou em parar o carro na única vaga que havia, exatamente em frente ao cartório.

Sem entender nada, mesmo porque não havia visto o cartório, Denise perguntou:

— Para onde vamos? Não conheço nenhum lugar legal aqui perto. Artur sorriu e respondeu:

— Tenho uma surpresa para você. Desça do carro.

Foi à vez de Denise ficar ansiosa. Qual seria a surpresa que ele havia preparado?

Após saírem do carro, Artur deu a mão a ela e conduziu-a ao cartório. Até então, ela não sabia o que estavam fazendo ali.

— Você veio tirar algum documento aqui?

Artur aproximou o seu rosto do dela, olhou fixamente em seus olhos e respondeu:

— Não. Eu vim aqui para olharmos quais são os documentos que precisamos para nos casar. Eu amo você; quero que se case comigo.

Diante do olhar atônito de sua amada, ele prosseguiu.

— Sei que temos pouco tempo de namoro, mas o tempo importa menos que o sentimento. O amor que sinto por você é muito forte. Parece que nos conhecemos há vários anos.

Denise limpou a lágrima que escorria pela sua face. Apesar de ter sido pega de surpresa, não hesitou em responder.

— O amor que sentimos um pelo outro vem de outras vidas. Sinto que você me conhece o suficiente para fazer este pedido e eu o conheço o suficiente para dar a minha resposta: é sim. Eu quero me casar com você, hoje mesmo se fosse possível.

Abraçaram-se e deram um beijo caloroso. Em seguida, conversaram com o funcionário do cartório e decidiram que o casamento se daria dentro de dois meses, tempo suficiente para encontrarem um apartamento de dois quartos, mobiliado, para alugar. Decidiram, também, que só dariam a notícia do casamento aos familiares quando retornassem de Pedra Rosada. Iriam para lá no dia seguinte, sexta-feira, e retornariam na segunda-feira.

Envolvidos pela expectativa do casamento, mal conseguiram dormir durante a noite. De igual forma, José Antônio e Maria mal conseguiram dormir. Em suas mentes, tentavam imaginar como estaria a cidade de Pedra Rosada. Teria se modernizado? Quais seriam os chefes políticos atuais? Teriam a oportunidade de reencontrar velhos amigos? E, caso positivo, qual seria a reação deles ao vê-los juntos, descobrindo que José Antônio não tinha morrido? Um turbilhão de perguntas alimentava as mentes dos dois.

Exatamente às seis horas da manhã, o despertador tocou no quarto de Artur, acordando-o. Quando ele abriu a porta para ir ao quarto dos avós acordá-los, surpreendeu-se ao vê-los sentados na poltrona da sala, com a mala arrumada, prontos para partir.

— Achei que estivessem dormindo. Vou tomar um banho rápido para sairmos.

Artur telefonou para Denise, combinando de buscá-la em meia hora. O banho quente, naquela manhã friorenta, era tudo de que ele precisava para começar o dia com disposição.

Quando estava lavando os cabelos, de olhos fechados, veio à sua mente a imagem do homem que salvou sua vida ao retirá-lo do interior da caminhonete que havia caído dentro da lagoa da Pampulha. Nesse momento, lembrou-se do sonho que teve com o mesmo homem, recordando-se perfeitamente dos seus conselhos para ele perdoar o seu pai e incentivar a sua mãe a fazer o mesmo. Quem seria aquele homem?

Passados alguns meses, após ele e sua mãe seguirem o conselho daquele desconhecido, tudo tinha melhorado na vida de ambos.

Com dez minutos de atraso, Artur e seus avós passaram na casa de Denise. Fazia uma linda manhã de sol, não havendo uma nuvem sequer sobre o céu de Belo Horizonte.

A estrada cortava as montanhas de Minas, em uma sucessão de curvas acentuadas, sendo raros os trechos com pequenas retas. A compensação era o belo visual proporcionado pelo desfiladeiro de montanhas, parcialmente coberto pela serração.

Uma hora após saírem, chegaram a São Gonçalo, local onde ficava a lanchonete preferida de Artur.

Várias pessoas faziam fila para serem atendidas. Quando chegou a vez deles, pediram empadas de frango e de queijo, pastelzinho português de frango e bacalhau, e o tradicional pão de queijo. Para beber, café com leite para todos.

José Antônio deu o braço a torcer, pois somente aquela parada já compensava a ida de carro para Pedra Rosada. A comida estava tão gostosa que até os pássaros aproximavam-se dos clientes para comer as migalhas que caíam ao chão.

Depois de meia hora, retomaram a viagem e logo subiram uma serra de oito quilômetros. As curvas pareciam não ter fim, fazendo com que Denise começasse a sentir enjôos. Quando a estrada melhorou, ela conseguiu dormir. Após quatro horas de viagem, José Antônio emocionou-se ao rever o rio Bonito, o qual, para muitos, havia levado a sua vida. A partir dali, até Pedra Rosada, boa parte da estrada margearia o rio.

Em determinado momento, ao atravessarem uma bela ponte, José Antônio viu, à sua direita, a uns cem metros de distância, uma ponte em ruínas. Na hora, sentiu o seu coração bater mais forte.

— Vejam! Aquela é a ponte de onde a caminhonete caiu no rio.

Assim que acabou de atravessar a ponte, Artur estacionou o veículo no acostamento. Queria observar melhor a ponte de que tanto ouvira falar. Todos aproveitaram para esticar as pernas e desceram do carro.

— A estrada passava por ali e não era asfaltada — disse José Antônio, apontando com o indicador.

— Não estou vendo a curva de onde o senhor pulou da carroceria da caminhonete — comentou Artur.

Ao olhar para a sua frente, José Antônio viu, pouco acima, o local da antiga curva e sentiu um arrepio subindo pelo corpo.

— A curva era ali, atrás daquele mato.

José Antônio fechou os olhos e viu, como em um filme, a cena de quando se jogou da caminhonete. Apesar do tempo, a imagem veio nítida em sua mente.

Após alguns minutos, seguiram viagem. À medida que o carro se aproximava de Pedra Rosada, Artur começava a sentir um frio na barriga, com receio da reação que a mulher e a filha de Sílvio poderiam ter ao encontrarem seu avô.

— O senhor não acha que será muito arriscado esse encontro?

— O risco que se corre para fazer um pedido de perdão é abençoado por Deus — respondeu José Antônio.

Exatamente às treze horas, eles chegaram a Pedra Rosada. Quando Maria segurou a mão de José Antônio, ele percebeu que ela estava chorando.

— Fique tranqüila, tudo dará certo. O que passou, passou.

As primeiras casas foram aparecendo e José Antônio parecia estar anestesiado. Ele percebeu que as ruas estavam calçadas, não sendo mais de chão batido. Quando candidato a prefeito, a principal promessa dele era calçar todas as ruas da cidade.

O frio que fazia no início da viagem havia ficado para trás; afinal, Pedra Rosada era uma das cidades mais quentes de Minas Gerais.

Logo na entrada da cidade, eles viram a placa de um hotel, simpatizaram com o nome e decidiram ficar hospedados nele.

Já na recepção, Artur tomou a iniciativa e pediu três quartos: um para ele, um para seus avós e o outro para Denise. O quarto de Denise ficava em um andar superior, mas todos tinham uma pequena vista do rio. Apesar de pequenos, os quartos eram equipados com televisão, uma pequena geladeira e ar condicionado, item que não poderia faltar em função do calor causticante de Pedra Rosada.

Atendendo ao pedido de Artur, que disse estar cansado, combinaram de descansar e marcaram encontro na portaria do hotel, às dezesseis horas.

No horário marcado, Denise foi a primeira a descer. Pouco depois, ouviu os passos de seu namorado e, por fim, Maria e José Antônio desceram.

José Antônio dirigiu-se ao proprietário do hotel, a fim de obter a informação que procurava.

— Por gentileza, eu morei em Pedra Rosada há muitos anos e gostaria de ter notícias da viúva de um amigo. Talvez, o senhor possa me ajudar.

O homem gordo, de bigodes e cabelos fartos e grisalhos, respondeu atenciosamente:

— Eu sou nascido e criado em Pedra Rosada. Não há uma pessoa aqui que eu não conheça. Provavelmente, poderei ajudá-lo. Qual é o nome da mulher que o senhor procura?

— Conceição, viúva do Sílvio e nora do coronel Teodoro.

O dono do hotel sorriu, satisfeito por poder ajudar o seu hóspede.

— Ela é minha sogra. Eu sou casado com a Letícia, filha dela. Qual é o nome do senhor?

José Antônio sentiu o corpo gelar. Não imaginava que estava conversando com o genro de Sílvio.

— O meu nome é José.

— Pois não, senhor José. A dona Conceição foi para a fazenda antes de ontem, mas deverá retornar amanhã à tarde. Eu levarei o senhor a casa dela.

— Obrigado. Como ela está de saúde? — Perguntou José Antônio, não escondendo o espanto com mais uma coincidência.

— Ela teve uma forte depressão alguns anos atrás, mas agora está muito bem. Tenho certeza de que ela se lembrará do senhor, pois a memória dela está ótima, melhor do que a minha. Esqueci de me apresentar. O meu nome é Geraldo Magela.

José Antônio estendeu a mão para cumprimentá-lo. Em seguida, de mãos dadas com Maria, chamou os netos para darem uma volta pela cidade.

Desceram a rua do hotel até a praça da estação e pararam em um bar para tomar sorvete, pois o calor estava castigando. Por ali, ficaram observando o movimento da cidade. José Antônio e Maria tentavam reconhecer algum amigo antigo, mas não conseguiram. Certamente, assim como eles, os seus amigos deveriam estar muito diferentes fisicamente.

Sentados à mesa do bar, pensavam em como seria o encontro com Conceição e Letícia. Maria demonstrava estar mais ansiosa do que José Antônio. Ela tinha um carinho especial pela ex-cunhada e, sobretudo, por Letícia, a sobrinha.

Quando o sol começou a se pôr, levantaram-se para passear, aproveitando que o dia ainda estava claro. Seguiram pela rua que beirava a linha férrea. Logo à frente, havia uma travessia. Eles atravessaram a linha e seguiram em direção à ponte. À medida que se aproximou, Artur começou a sentir uma sensação diferente e o corpo ficou todo arrepiado.

— Artur, você está bem? — perguntou Denise. Artur apenas balançou a cabeça, em sinal positivo.

— Os pêlos dos seus braços estão todos arrepiados — tornou Denise.

— Eu já estive neste lugar.

José Antônio ficou impressionado com a convicção do neto ao fazer tal afirmação.

Quando começaram a atravessar a ponte, Artur lembrou-se com nitidez de uma cena marcante de sua vida.

— Foi aqui nesta ponte — disse ele.

— O que tem esta ponte? — perguntou o seu avô.

— É esta a ponte do meu sonho. Eu estava encostado no parapeito, conversando com uma pessoa que me deu lições de perdão. Não sei quem era. Ele disse que eu precisava perdoar o meu pai e ajudar a minha mãe a perdoá-lo também. Ao final da conversa, ele seguiu nessa direção, mas eu não consegui acompanhá-lo. Quando eu tive o acidente, foi ele que salvou a minha vida, retirando-me de dentro da caminhonete. Virando-se para os avós, Artur completou:

— Eu não estou delirando. Tenho certeza absoluta de que tudo isso aconteceu. Agora, só me resta descobrir quem é esse homem.

O sol se punha atrás das montanhas e as primeiras estrelas surgiam. Quando voltaram para o centro da cidade, o telefone de Denise tocou. Era o seu pai.

— O resultado do exame ficou pronto. Exatamente o que esperávamos. Eu sou o seu pai biológico.

A notícia já era esperada e não abalou o equilíbrio emocional de Denise.

— Fico feliz pela Beatriz; ela deve estar aliviada. Para mim, esta notícia não altera nada o meu sentimento pelo senhor, como já havia dito.

Denise evitou perguntar ao seu pai se ele havia combinado novo encontro com Beatriz. Não queria interferir em absolutamente nada na vida dos dois. O papel dela, de incentivá-lo a telefonar para Beatriz a fim de marcar o primeiro encontro, ela já havia feito. Agora, cabia aos dois decidir o que fazer de suas vidas.

Foram jantar em um restaurante. O silêncio reinou durante a maior parte do tempo. Artur estava visivelmente incomodado por ter identificado o local do sonho, sem ter descoberto quem seria a pessoa com a qual sonhou.

Após o jantar, passearam pelo centro da cidade a fim de fazerem a digestão. José Antônio e Maria puderam constatar que a cidade tinha mudado menos do que haviam imaginado. Pouco depois, os dois decidiram retornar ao hotel.

Artur e Denise sentaram no banco do jardim, em frente à igreja, próximos a um pipoqueiro, e ficaram observando o movimento das pessoas. Ao lado deles, um casal comia pipoca, quando um homem carregando um violão aproximou-se, convidando-os para assistirem ao show que ele faria em um bar que ficava à beira do rio.

Artur e Denise anotaram o nome do bar e seguiram para lá pouco depois. Logo que chegaram, ficaram impressionados com o aconchego do local, que ficava a dois quilômetros da cidade. Tratava-se de um bar rústico, com mesas no quintal, a alguns metros do rio.

Ao som suave do violão, tendo o rio Bonito como testemunha, eles trocaram promessas de uma vida a dois, permanecendo ali até altas horas da madrugada.

Enquanto isso, no plano espiritual as almas de Sílvio e Beatriz, irmã de Imelda, preparavam-se para mais uma reencarnação. Com a ajuda de seus mentores, traçaram um plano para a missão que cada um deveria desempenhar. Beatriz tinha uma ligação forte com Denise, por ter sido mãe adotiva dela em uma encarnação passada. Chegara o momento de Denise retribuir parte de todo carinho e afeto recebido de Beatriz naquela outra vida. Silvio, por sua vez, seria bisneto de José Antônio, que havia lhe tirado a vida na encarnação passada.

Por serem espíritos muito evoluídos, Silvio e Beatriz, entre outros espíritos, receberam a missão de ajudar a promover as mudanças que estavam por acontecer no planeta Terra, já que a era do amor ao próximo, da justiça e da espiritualidade estava chegando.

Quando chegaram ao hotel, Artur acompanhou Denise até o quarto. Assim que ela abriu a porta, eles ficaram se olhando, percebendo, então, que o desejo que sentiam era o mesmo. Sem dizer uma única palavra eles se entregaram nos braços um do outro e, envolvidos por uma paixão incontrolável e ao mesmo tempo pura, amaram-se de maneira sublime.

Através de um laço fluídico, as almas de Sílvio e Beatriz uniram-se ao corpo de Denise, onde permaneceriam nos próximos nove meses. Com a concepção, começava uma nova reencarnação. Nesta nova vida, eles receberiam os nomes de Francisco e Clara.

 

Maria e José Antônio acordaram cedinho e foram caminhar pela cidade. Seguiram até o local onde era a casa deles, mas decepcionaram-se ao ver que a casa havia sido destruída, tendo sido erguido um pequeno prédio comercial em seu lugar.

À medida que caminhavam, olhavam para as pessoas na expectativa de reconhecer alguém, o que não ocorreu.

Retornaram ao hotel e encontraram Artur e Denise tomando o café da manhã. Não havia muito que fazer até a hora do encontro. Atendendo ao pedido de Artur, foi até a fazenda onde José Antônio ficou escondido do coronel Teodoro.

Encostaram o carro na beira da estrada, nas proximidades da porteira. A casa velha havia dado lugar a uma linda casa, com piscina e área de churrasqueira. Onde ficava o curral, agora havia um lindo gramado, enfeitado com diversas espécies de flores. Nada lembrava o palco do tiroteio ocorrido há quase cinqüenta anos atrás.

José Antônio narrou, com riqueza de detalhes, a sua aventura naquela fazenda. Não fosse pela intercessão divina, teria tombado morto naquele local.

De volta à cidade, foram almoçar. Em seguida, retornaram ao hotel, onde dormiram um sono relaxante.

Denise foi acordada com o celular tocando. Novamente era o seu pai.

— Estou ligando apenas para dizer que saí com Beatriz ontem à noite para jantar. Conversamos bastante e tivemos bons momentos.

— Por acaso, vocês já ficaram juntos?

— Não, minha filha. Nós apenas conversamos. Sinto que devo agir com cautela. De qualquer forma, a noite foi super-agradável e combinamos de nos encontrar novamente no próximo final de semana, já que retornarei para a fazenda hoje. Quero que saiba que estou muito feliz e confiante em viver um grande amor.

A alegria de seu pai foi mais um motivo de felicidade para Denise. Apesar de não querer interferir, ela desejava que seu pai se acertasse com Beatriz.

No horário aprazado, todos estavam na recepção, esperando por Geraldo. Enquanto aguardavam pelo genro de Conceição, José Antônio orava a Deus, pedindo que abençoasse aquele encontro.

Às dezessete horas e quinze minutos, Geraldo chegou para buscá-los, desculpando-se pelo pequeno atraso. Maria procurava acalmar seu marido, que estava visivelmente nervoso, não com o atraso em si, mas com o temeroso encontro.

Artur e Denise ajudaram os avós a se acomodarem na caminhonete de cabine dupla, onde entraram em seguida. O carro partiu, virando a primeira rua à esquerda e seguindo em linha reta por cerca de cinco quarteirões.

A casa era branca, com as janelas pintadas de amarelo e, apesar de simples, chamava a atenção pela beleza e cuidado dos jardins. Junto ao muro, havia um imenso pé de jambo. Outro detalhe que chamou a atenção, principalmente de Maria e José Antônio, foi à presença de grades reforçadas em todas as janelas.

— É nesta casa que ela mora; podemos descer — disse Geraldo.

José Antônio sentiu um frio na barriga, temeroso pela reação de Conceição quando soubesse que ele estava vivo.

— Na minha época, nós dormíamos com as janelas abertas — disse Maria. — Hoje, apenas fechar as janelas não basta; as pessoas precisam ser aprisionadas por grades dentro de sua própria casa, como se fossem marginais. Isso é um absurdo!

Geraldo abriu o portão e entrou sem tocar campainha. Quando estava de frente para a porta da sala, gritou pelo nome de sua esposa.

A porta foi aberta por uma senhora morena, de cabelos curtos, o que realçava a beleza e intensidade do azul de seus olhos. Geraldo a beijou carinhosamente e colocou-se a apresentar os visitantes.

— Esses dois casais estão à procura de sua mãe. O senhor José foi amigo do seu pai há muitos anos e gostaria de ter notícias da sua mãe. Esta é a esposa dele e estes são os netos.

— Muito prazer, eu sou a Letícia. Mamãe ficará muito feliz com a visita. Ela adora rever amigos antigos.

Geraldo despediu-se e retornou para o hotel, onde havia deixado compromissos pendentes.

Letícia fez um gesto para eles entrarem e seguiu na frente, em direção a outra sala.

Conceição estava sentada em uma cadeira de balanço, assistindo a um programa de culinária na televisão.

— Temos visita, mamãe. O senhor José foi amigo de papai e gostaria de ter notícias da senhora.

Pela primeira vez, Maria sentiu forte ansiedade, com receio de que Conceição a reconhecesse antes mesmo que os motivos da visita fossem esclarecidos.

Conceição cumprimentou a todos sem desconfiar de nada.

— O meu falecido marido era um homem bom e tinha muitos amigos. Por favor, sentem-se.

Assim que os quatro se acomodaram, Conceição pediu a Letícia que lhes servissem um cafezinho, quando então, melancolicamente, começou a recitar uma poesia.

— “Cafezinho" — suspirou Conceição.

 

"Faça o favor. Entre para tomar um cafezinho.

"Símbolo da hospitalidade. Em torno da xícara do licor negro, desdobra-se toda a vida brasileira.

"Café, para os brasileiros, quer dizer cortesia, confiança, amor, solidariedade...

"Na xícara de porcelana ou na caneca de lata, o licor negro é sempre um gesto hospitaleiro.

"No café que oferecem os ricos e pobres a pobres e ricos, os brasileiros não dão apenas a bebida saborosa.

"Dão a alma."

 

— Desculpem-me, mas, nestes últimos dias, tenho estado um pouco nostálgica e esta poesia, de Rui Ribeiro Couto, faz-me lembrar o meu finado marido, que sabia apreciar como poucos as particularidades de um bom café.

Por um breve momento, José Antônio sentiu-se acolhido por aquela senhora, talvez, pelo impacto das palavras amor, confiança e solidariedade, que faziam parte da linda poesia que ela acabara de recitar.

Denise, que de imediato reconhecera aquela poesia, sussurrou no ouvido de Artur que aquela, por ser a poesia predileta de seu pai, sempre esteve afixada na entrada da sede da fazenda, como um amuleto de sorte.

Conceição, dirigindo-se a José Antônio, comentou:

— O senhor vai me desculpar, mas, apesar da sua fisionomia ser familiar, não consigo recordar de onde o conheço...

José Antônio pigarreou, aproveitando para ganhar tempo e recuperar o fôlego, escasso em função da tensão.

— De fato, eu saí de Pedra Rosada há vários anos.

— Qual era o tipo de relacionamento que você tinha com o meu finado marido?

José Antônio olhou para Conceição com uma vontade enorme de falar logo a verdade. Há quase cinqüenta anos, ele esperava por aquele momento.

— Nós fizemos alguns negócios, compra e venda de gado, e também tínhamos amigos em comum.

— A família do senhor é daqui?

— Eu fui criado no patronato, mas considero as pessoas que moravam e trabalhavam lá como membros de minha família.

Sentada na cadeira de balanço, Conceição inclinou o corpo para frente, demonstrando um maior interesse pelo assunto, após ouvi-lo dizer ter sido criado no patronato.

— O senhor disse que foi criado no orfanato. Provavelmente, deve ter sido contemporâneo do homem que matou o meu marido. Este homem morreu alguns dias depois, em um acidente de carro, e, se estivesse vivo, teria a idade do senhor, creio eu.

Maria rezava para que Deus guiasse as palavras de seu marido. Este, por sua vez, sentiu o coração disparar, pois era o momento propício para esclarecer toda a verdade.

Suspirando fundo, José Antônio encheu-se de coragem e começou a falar:

— Este é o motivo que me traz aqui, dona Conceição.

Atrás de José Antônio, Letícia trazia uma bandeja, onde um rústico bule de café, exalando o aroma e o calor daquela bebida, e quatro xícaras de porcelana pintadas à mão, com estampa de rosas, repousavam sobre um singelo forro de bandeja.

— O senhor veio falar da morte do Sílvio?

Aquela indagação fez José Antônio concluir que não teria como voltar atrás. Todas as cenas daquele infeliz episódio de seu passado, que por anos e anos ele havia tentado esquecer, deveriam ser passadas a limpo. Então, olhando fixamente no fundo dos olhos de Conceição, ele respondeu:

— Não. Estou aqui para dizer que o José Antônio não morreu.

Ao ouvir as palavras que aquele senhor dizia, Letícia deixou a bandeja cair sobre a mesa de centro. Apesar da queda e do barulho, nenhuma das delicadas xícaras se quebrou.

Conceição permaneceu com a fisionomia inalterada, como se não estivesse levando a sério as palavras daquele senhor.

— Eu acredito que deve estar havendo algum engano. Depois da tragédia que vitimou meu marido, José Antônio escondeu-se em uma fazenda, tendo sido encontrado, pouco tempo depois, pelo meu sogro e pelo meu cunhado, que foram até o local com jagunços armados. Houve tiroteio e o José Antônio fugiu em uma caminhonete com outro companheiro, sendo implacavelmente perseguidos pelo coronel Teodoro, Fausto e seus capangas. Contam que a caminhonete perdeu o controle ao atravessar a velha ponte sobre o rio Bonito, caindo no rio e matando seus dois ocupantes.

Nesse momento, José Antônio a questionou em tom desafiador:

— Os corpos dos dois ocupantes da caminhonete foram encontrados?

— Apenas o do motorista, que foi encontrado dentro do carro. Ele tinha perfurações, provocadas por tiros, espalhadas por todo corpo. Há quem diga que, por isso, ele perdeu o controle da direção, deixando o automóvel cair no rio. Já o José Antônio, por estar na carroceria da caminhonete, teve o corpo arrastado pelas águas do rio, que estava com um volume de água bem acima do normal, pois aquele ano registrou a maior enchente que já vimos por aqui. A intensidade das corredeiras era mais do que suficiente para justificar o fato de o corpo nunca ter sido encontrado.

José Antônio olhou para Letícia. Ela tinha os olhos azuis, arregalados de espanto, voltados para ele, parecendo adivinhar o que ele diria.

— A senhora está enganada, dona Conceição, pois ele não morreu.

Diante da perplexidade dos olhares de mãe e filha, José Antônio, com a voz trêmula, repleta de emoção, completou:

— Eu sou o José Antônio.

Letícia sentiu as pernas enfraquecerem e sentou-se para evitar uma queda. Seus pensamentos tomaram formas confusas. Por algum motivo, ela sabia que aquele senhor estava falando a verdade.

Conceição ficou estática com aquela revelação, mas preferiu acreditar que tudo não passava de um trote.

Maria não parava de rezar, enquanto Denise e Artur, calados, observavam o desenrolar dos fatos.

— Eu matei o seu marido — tornou José Antônio. — Foi um acidente.

Ele era um ser humano excepcional, por quem eu tinha o maior apreço e admiração. Eu não tinha motivos para matá-lo, e você sabe disso. Atirei em outro homem, pensando estar agindo em legítima defesa. Tinha certeza de que aquele vereador sacaria um revólver, pois ele havia acabado de me ameaçar, dizendo que eu receberia o que merecia. Quando me virei e o vi pegando algo dentro do embornal, tive certeza de que ele sacaria uma arma. Somente por isso, eu atirei. Infelizmente, um dos tiros, acidentalmente, acertou o Sílvio.

José Antônio abaixou a cabeça, fez uma breve pausa e prosseguiu:

— Eu me escondi, pois tive medo do coronel e do Fausto. Por isso, não prestei nenhum auxílio a vocês. Somente agora estou tendo a oportunidade de procurá-las e contar os fatos como eles realmente aconteceram, pedindo desculpas pela dor que lhes causei. Eu jamais deveria ter ido àquele bar armado e muito menos ter aceitado provocações políticas. Até hoje, carrego comigo a dor de ter matado não apenas meu cunhado, mas, sobretudo, um grande amigo.

As lágrimas começaram a rolar pelas faces de Letícia e Conceição, a qual, voltando-se para Maria, perguntou:

— Você é a minha cunhada, que nunca mais deu notícias?

Maria acenou com a cabeça, respondendo afirmativamente à pergunta, enquanto as lágrimas caíam sobre o seu vestido.

— Sou eu mesma, a Maria, irmã do seu finado marido. Conceição estava perplexa diante do que via e ouvia.

— Vocês continuaram juntos esse tempo todo?

Maria antecipou-se ao marido em responder:

— Não. Eu descobri que o Zezé está vivo há menos de duas semanas.

Houve um terrível desencontro em nossas vidas, e ficamos quarenta e oito anos sem termos notícias um do outro. Eu fiquei tão chocada quanto você está agora.

— Vocês ficaram quarenta e oito anos sem se verem? Como isso foi possível?

— Esta é uma longa história, melhor deixarmos para contar a vocês em outra ocasião.

— Então, diga-me como você conseguiu escapar do acidente. Era impossível sair com vida daquele rio. O coronel Teodoro e seus companheiros disseram ter visto a caminhonete cair da ponte. Eles ficaram ali por algum tempo e correram pelas margens do rio à sua procura. Como você conseguiu escapar deles?

José Antônio retirou um lenço do bolso, limpou o suor da testa e começou a explicar os fatos.

— Antes que a caminhonete entrasse na ponte, eu ouvi a voz do Sílvio por três vezes, dizendo para eu pular. Achei que estava delirando, mas, após a terceira vez, decidi saltar da carroceria. Ele salvou a minha vida. Depois disso, ele me apareceu durante um sonho, dizendo que estava bem e que eu deveria me conformar com o acontecido. Vocês podem não acreditar, mas o que eu estou falando é a mais pura e cristalina verdade.

Após ouvir aquelas palavras, Conceição olhou para a filha, que, imediatamente, entendeu que deveria buscar a mensagem deixada pelo pai.

Letícia, ainda com as pernas trêmulas, levantou-se e caminhou em direção ao quarto, de onde retornou trazendo um caderno, em que as folhas, amareladas pelo tempo, despertavam grandes expectativas de que novas revelações estavam por vir.

Conceição olhava com piedade para José Antônio. Ela sabia que a morte do seu marido havia sido acidental.

— Eu acredito em você — tornou Conceição. — O Sílvio também entrou em contato conosco. Foi há muito tempo atrás, numa época em que eu estava passando por dificuldades financeiras. Eu pensava em você com muita mágoa, mesmo sabendo que não tinha tido a intenção de matar meu marido. Naquela época, uma manicure veio aqui em casa fazer minhas unhas. De repente, ela pegou um caderno e uma caneta que estavam sobre a mesa e começou a escrever. Era uma mensagem do Sílvio. Ela não chegou a conhecê-lo, mas a letra era rigorosamente igual à letra dele, inclusive a assinatura, e, além do mais, a mensagem era endereçada à "Zinha", e vocês sabem que apenas o Sílvio me chamava assim. Estendendo a mão com o caderno em direção a José Antônio, ela disse:

— Leia. Servirá de consolo para você também.

Após hesitar por um momento, José António pegou o caderno e leu a mensagem em voz alta:

 

"Zinha, o que aconteceu foi um acidente. O Zezé não teve culpa. Não guarde mágoas em seu coração, e eduque a nossa filha segundo os ensinamentos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Eu estou em paz. Não questione o ocorrido. Deus, em Sua suprema sabedoria, sabe o que faz. Estarei zelando por vocês. Nada lhes faltará. Com amor, Sílvio".

 

Quando terminou de ler, José Antônio sentiu um nó na garganta e começou a chorar.

Maria sentiu uma saudade imensa do irmão e perguntou a Conceição se ela não tinha alguma fotografa de Sílvio.

— Claro! Letícia, por favor, volte ao quarto e pegue o porta-retratos sobre a mesinha da cabeceira.

Letícia limpou as lágrimas de sua face e dirigiu-se novamente ao quarto. Ao voltar, entregou o porta-retratos para Maria.

Denise e Artur, que estavam sentados no sofá em frente, se aproximaram para ver a foto de Sílvio.

Assim que olhou a fotografia, Artur deu um grito de espanto:

— Minha Nossa Senhora!  

Todos olharam para ele, sem entender o motivo da sua reação.

— O que foi Artur? Você está passando mal? — perguntou Denise.

Artur tremia e chorava, sem conseguir responder as perguntas da namorada.    

— Letícia, busque um copo de água para ele — ordenou Conceição.

Letícia veio correndo da cozinha e entregou o copo ao rapaz. Entre um gole e outro, enquanto boa parte da água entornava em sua camisa, Artur olhava admirado para o retrato de Sílvio, aumentando a tensão em todos que ali estavam.

Quando acabou de beber, sentindo-se um pouco mais tranqüilo, Artur explicou:

— Foi ele que salvou a minha vida, retirando-me de dentro da caminhonete, depois que capotei na lagoa da Pampulha. O carro estava de cabeça para baixo e eu não conseguia tirar o cinto de segurança. A água já tinha tomado o interior da cabine e eu não tinha mais fôlego no pulmão. Eu o senti puxando o meu braço, retirando-me do carro. Eu o vi assim que olhei para o lado. Sei que é o Sílvio, porque ele apareceu para mim em sonho, aconselhando-me a perdoar o meu pai e a convencer minha mãe a fazer o mesmo.

— Meu filho, você pode estar enganado — disse Maria.

Voltando-se para a sua avó, Artur completou:

— Não estou enganado. Esta mancha vermelha que ele tem embaixo do olho, em forma de pétala de rosa, é inconfundível. Eu o reconheceria em qualquer lugar do mundo.

— Eu sei que você está certo — disse José Antônio. — Da mesma forma que ele salvou a minha vida naquele acidente, ele salvou a sua em um acidente muito parecido.

Letícia, que até então estava calada, emitiu sua opinião.

— Desculpe-me, eu acredito que ele tenha aparecido em sonho para você, mas acho difícil ele ter tirado você do carro, porque ele precisaria de um corpo para tanto.

— Eu sei que não é fácil acreditar, mas fato semelhante aconteceu na Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte — insistiu Artur.

— Como foi esse fato? — tornou Letícia.

— Uma jovem senhora estava no corredor da Santa Casa, já em trabalho de parto, mas não havia médicos para atendê-la. A enfermeira, sentindo pena daquela pobre mulher desamparada, saiu à procura de alguém que pudesse fazer o parto. Alguns minutos depois, quando ela voltou, a criança já havia nascido e a mãe falou para a enfermeira que o parto havia sido realizado por um médico, mas que, devido ao nervosismo e intensidade das dores que sentia, acabou se esquecendo de perguntar o seu nome. Quando eles estavam levando a mulher para o quarto, ela viu a fotografia de um homem na parede e disse: "foi aquele médico ali que fez o meu parto". Todos ficaram arrepiados, porque o médico que ela apontou, no retrato, era um dos fundadores da Santa Casa e já havia falecido há um bom tempo.

O relato de Artur foi suficiente para convencer Letícia a mudar de opinião.

— A influência do mundo espiritual sobre o material é muito maior do que imaginamos — disse Denise. — Nós estamos falando de dois exemplos claros disso. Imaginem quanta coisa extraordinária acontece à nossa volta e nós não percebemos ou sequer ficamos sabendo.

Maria sentiu uma saudade gigantesca do falecido irmão, como, até então, nunca havia sentido.   

— Depois de reencontrar o Zezé nesta vida, o meu grande desejo é poder reencontrar o Sílvio quando falecer — disse ela, sem saber que em breve se tornaria bisavó do antigo irmão, uma vez que o espírito dele já estava ligado ao embrião no ventre de Denise.

Logo em seguida, todos começaram a sentir um perfume intenso e envolvente de rosas. Hipnotizados pelo cheiro, todos se dirigiram para o jardim. À medida que caminhava, o cheiro ia se tornando mais acentuado, até que eles conseguiram detectar as flores que exalavam aquele magnífico perfume. Eram duas flores, uma vermelha e outra branca, isoladas em um canteiro.

A mesma bri