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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A PIRAMIDE ASSASSINADA / Christian Jack
A PIRAMIDE ASSASSINADA / Christian Jack

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

Série O Juiz do Egito

Volume I

 

A PIRÂMIDE ASSASSINADA

 

Aconteceu o que os antepassados vaticinaram. O crime propagou-se, a violência invadiu os corações, a infelicidade assola o país, o sangue corre, o ladrão enriquece, o sorriso apagou-se, os segredos foram divulgados, as árvores arrancadas, a pirâmide violada, o mundo desceu tão baixo que um pequeno número de loucos se apoderou do trono, e os juizes são perseguidos.

Mas lembrem-se do respeito à Regra, da justa sucessão dos dias, dos dias felizes em que os homens construíam pirâmides e cultivavam pomares para os deuses, dessa bendita época em que uma simples esteira bastava para as necessidades de todos e todos eram felizes.

 

Uma noite sem lua envolvia a grande pirâmide num manto de trevas. Uma raposa das areias introduziu-se furtivamente no cemitério dos Nobres que, no além, continuavam a venerar o faraó.

 

O monumento onde apenas Ramsés, o Grande, entrava uma vez por ano a fim de prestar homenagem a Quéops, seu glorioso antepassado, era vigiado por guardas; corria o boato de que a múmia do pai da pirâmide mais alta estava encerrada num sarcófago de ouro coberto de riquezas incalculáveis. Mas quem ousaria aproximar-se de tesouro tão bem guardado? Ninguém, à excepção do soberano, podia transpor a porta de pedra e encontrar o caminho certo no labirinto do gigantesco monumento. O corpo de elite encarregado de o proteger disparava o arco sem aviso; várias flechas trespassariam o imprudente ou o curioso.

 

O reinado de Ramsés era feliz; próspero e em paz, o Egipto resplandecia aos olhos do mundo. O faraó era o mensageiro da luz, os cortesãos serviam-no com respeito, o povo louvava o seu nome.

 

Os cinco conjurados saíram juntos de uma cabana de operários onde se haviam escondido durante o dia; repetiram o plano vezes sem conta para terem a certeza de não deixarem escapar nenhum pormenor. Se o concretizassem, tornar-se-iam mais cedo ou mais tarde donos do país e imprimir-lhe-iam o seu cunho.

 

Vestidos com uma túnica de linho grosseiro, atravessaram o planalto de Gize, mas não sem lançarem olhares febris à grande pirâmide.

 

Atacar os guardas seria uma loucura; antes deles, já outros haviam tentado apoderar-se do tesouro sem o conseguirem.

 

Um mês antes, a grande esfinge fora libertada da camada de areia acumulada por várias tempestades. O gigante, de olhos permanentemente erguidos para o céu, era alvo de menos cuidada protecção. O seu nome de estátua viva e o terror que inspirava eram suficientes para afastar os profanos. A esfinge, faraó de corpo de leão esculpido na rocha calcária em tempos que não cabem na memória, fazia nascer o Sol e conhecia os segredos do Universo. A sua guarda de honra era formada por cinco veteranos. Dois deles, encostados à parte de fora do muro, dormiam a sono solto. Não veriam nem ouviriam nada.

 

O mais ágil dos conjurados escalou o muro; resoluto e silencioso, estrangulou o soldado que dormia perto do flanco direito da fera de pedra, aniquilando de seguida o companheiro, que se encontrava perto do quarto dianteiro esquerdo do animal.

 

Os outros conjurados juntaram-se a ele. Eliminar o terceiro veterano não seria tão fácil. O chefe dos guardas estava postado frente à esteia de Tutmósis IV, erguida entre as patas dianteiras da esfinge, para lembrar aos homens que esse faraó lhe devia o seu reinado. Armado com uma lança e um punhal, o soldado defender-se-ia.

 

Um dos conjurados despiu a túnica.

 

Nua, avançou para o guarda.

 

Surpreso, ele fitou a aparição. Não seria aquela mulher um dos demónios da noite que vagueavam pelas pirâmides para roubar as almas? Ela aproximou-se sorrindo. Desnorteado, o veterano levantou-se agitando a lança; o braço tremia-lhe. Ela parou.

 

Nota: Tutmósis IV (1412-1402) adormeceu junto da esfinge depois de uma caçada no deserto. Em sonhos, a esfinge falou com ele: se a libertasse da areia que a cobria, tornar-se-ia rei. Ambas as partes cumpriram o prometido. A esteia ainda lá permanece, dando testemunho do acontecimento. (N. do A.)

 

Para trás, fantasma, arreda-te daqui!

 

Não te vou fazer mal. Deixa-me acariciar-te.

 

O olhar do chefe da guarda estava preso ao corpo nu, àquela mancha branca na escuridão. Hipnotizado, deu um passo em frente.

 

Quando a corda se enrolou à volta do seu pescoço, o veterano largou a lança, caiu de joelhos, tentando em vão gritar, e desfaleceu.

 

O caminho está livre.

 

Vou preparar as candeias.

 

Os cinco conjurados, em frente à esteia, consultaram pela última vez o plano e encorajaram-se mutuamente a continuar, apesar do medo que os atormentava. Deslocaram a esteia e contemplaram o vaso selado que assinalava a localização da boca do inferno, da porta das entranhas da terra.

 

Afinal, não era lenda!

 

Vejamos se existe mesmo uma passagem.

 

Por baixo do vaso estava uma laje com uma argola. Eram precisos quatro para a levantar.

 

Um corredor estreito, muito baixo e quase a pique, mergulhava nas profundezas.

 

Depressa, as candeias!

 

Deitaram o óleo de pedra, muito gorduroso e fácil de inflamar em taças de dolerite.

 

O faraó interditara o seu uso e a sua venda pois o fumo negro que resultava da combustão fazia perigar a saúde dos artesãos encarregados da decoração de templos e sepulturas, e sujava os tectos e as paredes. Os sábios afirmavam que este petróleo2, como lhe chamavam os bárbaros, era uma substância nociva e perigosa, uma exsudação maligna das pedras, carregada de miasmas. Mas os conjurados não se preocuparam com isso.

 

Nota: Uma das pedras mais duras que existem, e que os Egípcios sabiam trabalhar sem a partir. (N. do A)

2 - Embora conhecessem o petróleo, os Egípcios não aprovavam o seu uso. (N. do A)

 

Dobrados em dois, batendo muitas vezes com a cabeça no tecto de calcário, encetaram uma marcha forçada através da passagem estreita, em direcção à parte subterrânea da grande pirâmide. Iam calados; à memória vinha-lhes aquela fábula sinistra segundo a qual um espírito partia o pescoço a quem tentasse violar o túmulo de Quéops. Quem sabe se aquele subterrâneo não os desviaria do seu objectivo? Circulavam mapas falsos a fim de enganar eventuais ladrões; seria aquele que possuíam o correcto?

 

Chocaram com uma parede de pedra que atacaram com cinzéis; por sorte, os blocos, pouco pesados, giraram sobre si mesmos. Os conjurados penetraram numa grande câmara de terra batida, com três metros e cinquenta de altura por catorze de comprimento e oito de largura. No centro, havia um poço.

 

A câmara baixa... Estamos na grande pirâmide!

 

Tinham conseguido.

 

O corredor, esquecido há tantas gerações, conduzia da esfinge ao gigantesco monumento de Quéops cuja primeira sala se situava trinta metros abaixo da base. Aqui, nesta matriz, evocação do seio da terra-mãe, tinham sido praticados os primeiros ritos de ressurreição.

 

Agora, tinham de descer por um poço que conduzia ao interior da massa rochosa e desembocava no corredor que começava do outro lado das três buchas de granito.

 

O mais ágil trepou agarrando-se às saliências da rocha e apoiando-se com os pés; quando chegou lá acima, atirou a corda que levava amarrada à cintura. Um dos conjurados quase desmaiou com falta de ar; os companheiros levaram-no até à grande galeria, onde se recompôs.

 

A imponência do local deixou-os fascinados. Que mestre de obras teria sido tão louco a ponto de construir tal dispositivo constituído por sete socalcos de pedra? Com quarenta e sete metros de comprimento e oito e meio de altura, a grande galeria, obra única...

 

Nota: A existência deste corredor, afirmada por fontes antigas, permanece uma mera hipótese, pois até à data nenhuma escavação foi levada a cabo para o descobrir. (N. do A.)

 

...pelas suas dimensões e localização mesmo no coração da pirâmide, desafiava o tempo. Os mestres de obras de Ramsés haviam afirmado que jamais arquitecto algum realizaria proeza semelhante.

 

Um dos conjurados, intimidado, pensou em desistir; o chefe da expedição obrigou-o a continuar empurrando-o violentamente para a frente. Desistir tão perto do fim teria sido estúpido; até agora, podiam felicitar-se pelo rigor do plano traçado. Contudo, uma dúvida permanecia: teriam as grades de pedra, colocadas entre a extremidade superior da grande galeria e o início do corredor de acesso à câmara do rei, sido baixadas? Se assim não fosse, não conseguiriam contornar o obstáculo e teriam de regressar derrotados.

 

O caminho está livre.

 

Ameaçadoras, as cavidades destinadas aos enormes blocos estavam vazias. Os cinco conjurados tiveram de se curvar para conseguirem entrar na câmara do rei, cujo tecto era formado por nove blocos de granito de quatrocentas toneladas cada um. Com seis metros de altura, a sala protegia o coração do império. O sarcófago do faraó repousava num chão de prata que mantinha a pureza do local.

 

Hesitaram.

 

Até agora, haviam-se comportado como exploradores em busca de um país desconhecido. É certo que tinham cometido três crimes e teriam de responder por eles perante o tribunal do outro mundo, mas não tinham eles agido para o bem do país e do povo ao prepararem o destronamento de um tirano? Se abrissem o sarcófago, se o despojassem dos seus tesouros, estariam a violar a eternidade, não a de um homem mumificado, mas a de um deus presente no seu corpo de luz. Cortariam o último laço com uma civilização milenária com o objectivo de fazer surgir um novo mundo que Ramsés jamais aceitaria.

 

Tinham vontade de fugir embora experimentassem uma sensação de bem-estar. O ar chegava-lhes por dois canais escavados nas paredes norte e sul da pirâmide. Uma estranha energia emanava do lajedo insuflando-lhes uma força desconhecida.

 

Então era assim que o faraó se regenerava, absorvendo a força nascida da pedra e da forma do edifício!

 

O tempo esgota-se.

 

Vamos embora.

 

Nem pensar.

 

Aproximaram-se primeiro dois, depois o terceiro, depois os dois últimos. Juntos, levantaram a tampa do sarcófago e pousaram-na no chão.

 

Uma múmia luminosa... uma múmia coberta de ouro, de prata e de lápis-lazúli, tão nobre que os larápios não conseguiram manter os olhos sobre ela. Com um grito enraivecido, o chefe dos conjurados arrancou a máscara de ouro.

 

Os cúmplices apoderaram-se do colar e do escaravelho do mesmo metal, que estavam pousados sobre o coração, dos amuletos de lápis-lazúli e do enxó de ferro celeste, da talhadeira de marceneiro que servia para abrir a boca e os olhos no outro mundo. Estas maravilhas quase lhes pareceram irrisórias ao olharem para o côvado em ouro que simbolizava a lei eterna pela qual o faraó era o único responsável, e sobretudo para o pequeno estojo em forma de cauda de andorinha.

 

Lá dentro, encontrava-se o testamento dos deuses.

 

Nesse texto, o faraó recebia o Egipto como herança e devia mantê-lo feliz e próspero. Assim que fizesse cinquenta anos seria obrigado a mostrá-lo à corte e ao povo, como prova da sua legitimidade. Impossibilitado de apresentar o documento, mais cedo ou mais tarde seria obrigado a abdicar.

 

Em breve, desgraças e calamidades se abateriam sobre o país. Ao violar o santuário da pirâmide, os conjurados perturbavam a principal central de energia e inquietavam a emissão do ka, poder imaterial que animava todas as formas de vida.

 

Os ladrões apossaram-se de uma arca com lingotes de ferro celeste, um metal tão raro e tão precioso quanto o ouro. Serviria para concluir a trama.

 

Aos poucos, a injustiça expandir-se-ia pelas províncias e as vozes elevar-se-iam contra o faraó, numa torrente avassaladora.

 

Agora só tinham de sair da grande pirâmide, esconder o saque e tecer a teia.

 

Antes de se separarem, fizeram um juramento: quem se lhes atravessasse no caminho seria eliminado. Era este o preço da conquista do poder.

 

 

Depois de uma longa carreira dedicada à arte de curar, Branir gozava de uma reforma tranquila na sua casa em Mênfis.

 

Robusto e de ombros largos, o velho médico ostentava uma elegante cabeleira prateada que coroava um rosto severo de onde transpareciam a bondade e a dedicação. A sua distinção impunha-se tanto aos poderosos como aos humildes, e não havia memória de alguém lhe ter faltado ao respeito.

 

Filho de um fabricante de perucas, Branir havia deixado a casa paterna para se tornar escultor, pintor e desenhador; um dos mestres de obras do faraó chamara-o para trabalhar no templo de Carnaque. Durante um banquete da confraria, um talhador de pedra sentiu-se mal e Branir magnetizou-o por instinto, arrancando-o a uma morte certa. O serviço de saúde do templo não desprezou este dom tão precioso e Branir formara-se em contacto com mestres reputados, antes de abrir o seu próprio gabinete. Insensível aos pedidos da corte, indiferente às honrarias, vivia apenas para curar.

 

Contudo, se deixara a grande cidade do Norte para se dirigir a uma pequena aldeia da região de Tebas, não fora por razões profissionais. Tinha uma outra missão a cumprir. Uma missão tão delicada que parecia destinada ao insucesso; mas não desistiria enquanto não tivesse tentado tudo.

 

Comovido, reencontrou a sua aldeia escondida num palmeiral. Branir mandou parar a liteira perto de um tufo de tamargueiras cujos ramos tocavam o solo. A atmosfera e o sol eram suaves; observou os camponeses enquanto ouvia a melodia saída de uma flauta.

 

Um velho e dois jovens trabalhavam a terra com enxadas nas altas culturas que acabavam de irrigar; Branir pensava na estação em que o lodo, trazido pela enchente, acolhia as sementes que as manadas de porcos e carneiros enterravam. A natureza oferecia ao Egipto riquezas inestimáveis que o trabalho dos homens preservava; dia após dia, uma eternidade feliz vivia nos campos do país amado pelos deuses.

 

Branir continuou o seu caminho. À entrada da aldeia cruzou-se com uma parelha de bois; um era preto, o outro branco com malhas castanhas. Sob o jugo de madeira colocado junto à base dos cornos, avançavam tranquilamente.

 

Em frente de uma das casas de terra, um homem acocorado ordenhava uma vaca que tinha as patas de trás amarradas. O seu ajudante, um rapazote, deitava o leite num jarro.

 

Comovido, Branir recordou-se da manada de vacas que tivera; chamavam-se elas ”bom conselho”, ”pomba”, ”água do sol” ou ”feliz inundação”. Feliz daquele que a possuía: a vaca encarnava a beleza e a brandura. Aos olhos de um Egípcio não existia animal mais sedutor; tal como ele, as vacas, com as suas grandes orelhas, recebiam a música das estrelas sob a protecção da deusa Hathor. ”Que dia maravilhoso, cantava frequentemente o vaqueiro, o céu é-me favorável e o meu trabalho doce como o mel”.

 

Por vezes, o vigilante dos campos chamava-o à atenção pedindo-lhe que se apressasse e deixasse o gado avançar em vez de se distrair com ninharias. E, como era habitual, as vacas seguiam o seu caminho sem apressar a marcha. O velho médico quase tinha esquecido aquelas cenas simples, aquela existência sem surpresas e aquela serenidade do quotidiano onde o homem era apenas um olhar entre outros; os gestos repetiam-se, século após século, a cheia e a baixa ritmavam as gerações.

 

Nota: Este cântico e os nomes das vacas estão inscritos nos baixos-relevos dos túmulos do Antigo Império. (N. do A.)

 

De repente, uma voz forte quebrou a tranquilidade da aldeia.

 

O promotor de justiça chamava a população para o tribunal, enquanto o responsável pelas contendas, encarregado de manter a segurança e de fazer respeitar a ordem, agarrava uma mulher que clamava a sua inocência. O tribunal estava instalado à sombra de um sicómoro; era presidido por Paser, um jovem de vinte e um anos em quem os anciãos depositavam a maior confiança. De uma maneira geral, os ilustres designavam pessoas mais maduras, dotadas de sólida experiência, responsáveis nas decisões sobre os seus bens, se os tivessem, e sobre as suas pessoas, se nada possuíssem; do mesmo modo, os candidatos a esta função, ainda que de pequeno juiz de província, não eram muitos. Os magistrados apanhados em falta eram punidos mais severamente do que um assassino; a prática justa da justiça assim o exigia.

 

Paser não tivera escolha; graças à sua força de carácter e ao seu gosto pela integridade, fora eleito unanimemente pelo conselho dos anciãos. Apesar de ainda muito jovem, o juiz dava provas de competência ao estudar os processos com o maior cuidado.

 

Bastante alto, de acentuada magreza, cabelos castanhos, rosto largo e alto, olhos verdes acastanhados e olhar vivo, Pazer impressionava pelo seu ar irredutivelmente sério: nem a cólera, nem o choro, nem a sedução o perturbavam. Ouvia, investigava, procurava, e só formava o seu juízo após longas e pacientes investigações. Às vezes, as pessoas da aldeia espantavam-se com tamanho rigor, mas felicitavam-no pelo seu amor à verdade e pela sua capacidade de apaziguar os conflitos. Muitos temiam-no, sabendo que excluía qualquer concertação e se mostrava pouco inclinado para a indulgência; mas nenhuma das suas decisões fora alguma vez posta em causa.

 

De ambos os lados de Paser encontravam-se sentados oito jurados: o alvazir e respectiva esposa, dois agricultores, dois artesãos, uma viúva de idade avançada e o encarregado da irrigação. Todos tinham mais de cinquenta anos.

 

O juiz deu por aberta a sessão invocando Maât, a deusa que encarnava a Regra à qual a justiça dos homens se devia sujeitar; depois leu o auto de acusação contra a jovem mulher que o responsável pelas contendas mantinha agarrada frente ao tribunal. Uma das suas amigas acusava-a de ter roubado a enxada do marido. Paser ordenou à queixosa para confirmar em voz alta as suas razões de queixa, e à acusada para apresentar a sua defesa.

 

A primeira exprimiu-se com cuidado, a segunda negou tudo com veemência. De acordo com a lei desde sempre em vigor, nenhum advogado se podia interpor directamente entre o juiz e os protagonistas de um processo.

 

Paser ordenou que a acusada se acalmasse. A queixosa pediu a palavra para se mostrar surpreendida com a negligência da justiça; pois não tinha ela feito há um mês um relatório dos acontecimentos ao escriba que assistia Paser, sem ter sido convocada pelo tribunal? Vira-se por isso obrigada a apresentar uma segunda petição. Entretanto, a ladra tivera tempo de fazer desaparecer a prova.

 

Há alguma testemunha do delito?

 

Eu mesma respondeu a queixosa.

 

Onde foi escondida a enxada?

 

Em casa da acusada.

 

Esta última negou de novo com tal entusiasmo que impressionou os jurados. A sua boa-fé parecia evidente.

 

Investiguemos o local exigiu Paser.

 

Um juiz tinha também de ser investigador, e ir verificar com os seus próprios olhos as declarações e os indícios, nos locais incriminados.

 

Não têm o direito de entrar em minha casa! rugiu a acusada.

 

Isso é uma confissão?

 

Não! Estou inocente!

 

Mentir perante o tribunal é uma falta muito grave.

 

Nota: Maât é simbolizada por uma mulher sentada, com uma pena de avestruz na cabeça Ela encarna a harmonia celeste. (N do A)

 

Foi ela quem mentiu.

 

Nesse caso será severamente punida. Confirma as acusações? perguntou Paser, olhando a queixosa directamente nos olhos.

 

Ela confirmou.

 

O tribunal pôs-se a caminho, conduzido pelo responsável das contendas.

 

Foi o próprio juiz quem procedeu à busca. Encontrou a enxada na cave, enrolada em farrapos e escondida por detrás de uns potes de azeite.

 

A culpada desfaleceu. De acordo com a lei, os jurados condenaram-na a dar à vítima o dobro do furto, ou seja, duas enxadas novas. Além disso, o perjúrio era passível de trabalhos forçados perpétuos, e até de pena capital em caso de crime. A mulher foi forçada a trabalhar vários anos nas terras do templo local, sem qualquer benefício pessoal.

 

Antes de os jurados dispersarem, ansiosos por voltarem às suas ocupações, Paser pronunciou uma sentença inesperada: cinco vergastadas para o escriba que o assistia, culpado de ter deixado o processo atrasar-se. Segundo os sábios, como os homens tinham as orelhas nas costas, ouviam a voz da vara e mostravam-se menos negligentes no futuro.

 

Seria possível o juiz conceder-me uma audiência? Paser voltou-se intrigado. Aquela voz... Seria possível?

 

Branir!

 

Branir e Paser abraçaram-se.

 

Branir, tu na aldeia!

 

Voltei às origens.

 

Vamos para debaixo do sicómoro.

 

Os dois homens ocuparam dois assentos baixos dispostos sob o grande sicómoro onde os ilustres saboreavam a sombra. Num dos ramos maiores estava pendurado um odre cheio de água fresca.

 

Lembras-te, Paser? Foi aqui que te revelei o teu nome secreto, depois da morte dos teus pais. Paser, ”o vidente, aquele que discerne o longínquo”... Quando o conselho dos anciãos te deu esse nome, não se enganou. Que mais se pode pedir a um juiz?

 

Fui circuncidado, a aldeia ofereceu-me a minha primeira tanga da função, deitei fora os brinquedos, comi pato assado e bebi vinho tinto. Aquilo é que foi uma festa!

 

O adolescente depressa se fez homem.

 

Depressa de mais?

 

Cada qual tem seu ritmo. Tu combinas juventude e maturidade no mesmo coração.

 

Foste tu, Branir, que me educaste.

 

Sabes bem que não; cresceste sozinho.

 

Ensinaste-me a ler e a escrever, deixaste-me descobrir a lei e dedicar-me a ela. Se não fosses tu ter-me-ia tornado camponês e teria trabalhado a terra com amor.

 

Tu tens outra índole; a grandeza e a felicidade de um país dependem da qualidade dos juizes.

 

Ser justo... é uma luta constante. Quem pode gabar-se de vencer sempre?

 

Tens a força de vontade, que é o essencial.

 

A aldeia é uma enseada de paz; este triste acontecimento foi uma excepção.

 

Não foste nomeado responsável pelo celeiro de trigo?

 

O alvazir quer dar-me o posto de intendente das searas do faraó para evitar os conflitos na época das colheitas. A tarefa não me agrada muito; espero que ele não consiga.

 

Tenho a certeza, de que não.

 

Porquê?

 

Porque o teu destino é outro.

 

Não compreendo.

 

Confiaram-me uma missão, Paser.

 

O palácio?

 

O tribunal de Mênfis.

 

Cometi algum erro?

 

Pelo contrário. De há dois anos a esta parte, os inspectores dos juizes da aldeia têm vindo a fazer relatórios lisonjeadores sobre o teu comportamento. Acabas de ser nomeado para a província de Gize, como substituto de um magistrado que faleceu.

 

Gize é tão longe!

 

Alguns dias de barco. Ficas a morar em Mênfis.

 

Gize, lugar de todos o mais ilustre, Gize onde se erguia a grande pirâmide de Quéops, o misterioso centro de energia do qual dependia a harmonia do país, imenso monumento onde apenas o faraó podia entrar.

 

Sou feliz na minha aldeia; aqui nasci, aqui cresci, aqui trabalho. Deixá-la seria um grande desafio.

 

Apoiei a tua nomeação pois julgo que o Egipto precisa de ti. Tu não és homem de dar ouvidos ao egoísmo.

 

Isso já está decidido?

 

Podes recusar.

 

Tenho de pensar.

 

O corpo humano é maior que um celeiro de trigo; está cheio de respostas incalculáveis. Escolhe a melhor; e que a pior lá fique encarcerada.

 

Paser encaminhou-se para a berma do campo; era a sua vida que estava em jogo. Não tinha a menor vontade de abandonar os seus hábitos, os prazeres tranquilos da aldeia e do campo da região de Tebas para se perder numa grande cidade. Mas como poderia recusar algo a Branir, o homem que venerava acima de todos? Jurou corresponder àquele pedido, fossem quais fossem as circunstâncias.

 

Um grande íbis branco, de cabeça, cauda e pontas das asas salpicadas de preto, deslocava-se majestosamente na margem do rio. A ave magnífica parou, mergulhou o bico no lodo e olhou para o juiz.

 

Foste escolhido pelo animal de Tot disse Pépi, o pastor, estendido nos juncos, com a sua voz áspera. Não tens escolha.

 

Com os seus setenta anos, Pépi era um resmungão e não gostava de conviver com as outras pessoas. Estar só com os animais era para ele o cúmulo da felicidade. Recusava-se a receber ordens fosse de quem fosse, manejava o cajado com destreza e sabia bem esconder-se nas florestas de papiros quando os agentes do fisco, qual praga de pardais, se faziam à aldeia. Paser não quisera convocá-lo ao tribunal. O velho não admitia que se maltratasse uma vaca ou um cão, e encarregar-se-ia de corrigir o torturante; por isso o juiz via-o como um auxiliar da polícia.

 

Olha bem para o íbis insistiu Pépi o comprimento do seu passo é de um côvado, símbolo de justiça. Que o teu caminho seja correcto e justo como o do pássaro de Tot. Vais partir, não é assim?

 

Como sabes?

 

O íbis voa muito alto. Escolheu-te.

 

O velho levantou-se. Tinha a pele curtida pelo vento e pelo sol, e trazia vestida apenas uma tanga de juncos.

 

Branir é o único homem honesto que conheço; ele não quer enganar-te ou prejudicar-te. Quando fores viver para a cidade, desconfia dos funcionários, dos bajuladores e dos aduladores: trazem a morte nas palavras.

 

Não me apetece abandonar a aldeia.

 

E a mim? Achas que me apetece procurar a cabra que fugiu?

 

Pépi desapareceu entre os juncos.

 

A ave branca e preta levantou voo. As suas grandes asas bateram de uma forma que só ela conhecia e dirigiu-se para o norte.

 

Branir leu a resposta nos olhos de Paser.

 

Tens de estar em Mênfis no princípio do próximo mês; ficarás em minha casa antes de iniciares as tuas funções.

 

Já te vais embora?

 

Já não exerço, mas ainda tenho uns doentes que precisam de mim. Bem gostaria de poder ficar.

 

A liteira desapareceu na poeira da estrada. O alvazir falou com Paser.

 

Temos um assunto delicado a tratar; três famílias reclamam a posse da mesma palmeira.

 

Estou ao corrente; esse litígio já dura há três gerações. Confia-o ao meu sucessor; se ele não o conseguir resolver, verei o que posso fazer quando regressar.

 

Vais partir?

 

A administração chama-me a Mênfis.

 

E a palmeira?

 

Deixem-na crescer.

 

Paser verificou a resistência do seu saco de viagem de couro desbotado, munido de dois paus que se enterravam na areia para o manter direito. Quando estivesse cheio, colocá-lo-ia às costas, preso por uma correia que passaria à volta do peito.

 

O que meteria lá dentro além de uma tira de tecido rectangular para fazer uma tanga nova, uma capa e a indispensável esteira de trama entrelaçada? Feita de tiras de papiro cuidadosamente ligadas entre si, a esteira serviria de cama, de mesa, de tapete, de tapeçaria, de cortina diante de uma porta ou uma janela, e de embalagem para objectos valiosos; a sua última aplicação seria a de mortalha para envolver o seu cadáver. Paser tinha comprado um modelo muito resistente, era a sua melhor peça de mobiliário. Quanto ao odre, feito com duas peles de cabra curtidas e cosidas, serviria para conservar a água fresca durante horas.

 

Assim que o saco se abriu, um rafeiro de cor negra precipitou-se a farejá-lo. Com três anos de idade, o Bravo era resultado do cruzamento de um galgo com um cão selvagem; patas altas, focinho curto, orelhas caídas que se erguiam ao menor ruído, cauda enrolada, era muito afeiçoado ao dono. Amante de longas caminhadas, caçava pouco e preferia pratos cozinhados.

 

Vamos, Bravo.

 

O cão contemplou o saco, ansioso.

 

Fazer uma viagem a pé e de barco, em direcção a Mênfis.

 

O cão sentou-se nas patas traseiras, à espera de más notícias.

 

O Pépi arranjou-te uma coleira; esticou bem o couro e curtiu-o com sebo. Vais ver como é confortável.

 

Bravo não parecia lá muito convencido. Contudo, aceitou a coleira cor-de-rosa, verde e branca, munida de pregos. Se outro cão ou alguma fera tentasse apanhá-lo pelo pescoço, estaria bem protegido; além disso, Paser havia gravado a inscrição hieroglífica: ”Bravo, companheiro de Paser”.

 

O juiz ofereceu-lhe uma refeição de legumes que o cão saboreou avidamente, sem deixar de fitar o dono pelo canto do olho. Sabia que não era o melhor momento para brincadeiras.

 

Os habitantes da aldeia, com o presidente à frente, vieram despedir-se do juiz; alguns choravam. Desejaram-lhe felicidades e entregaram-lhe dois amuletos, um representando um barco e o outro, umas pernas vigorosas; eles protegeriam o viajante que, todas as manhãs, deveria pensar em Deus para que os talismãs não perdessem a eficácia. Agora, Paser tinha apenas de pegar nas suas sandálias de couro, não para as calçar, mas para as levar na mão; tal como os seus compatriotas, caminharia descalço e utilizaria estes objectos valiosos apenas para entrar numa habitação, depois de sacudir a poeira do caminho. Verificou a resistência da correia que passava entre o primeiro e o segundo dedo do pé, e o bom estado das solas; e, satisfeito, abandonou a aldeia sem olhar para trás.

 

Quando já ia no caminho estreito que serpenteava entre os outeiros do Nilo, sentiu na mão direita um focinho molhado.

 

Vento do Norte! Fugiste... Tenho de te levar de volta para o teu campo.

 

O burro era surdo daquela orelha, e interrompeu o diálogo estendendo a pata direita que Paser agarrou. O juiz arrancara-o à sanha de um camponês que o espancava com uma vara por ter rebentado a corda que o amarrava. Vento do Norte manifestava...

 

Nota: A descrição desta cena reproduz um baixo-relevo. Animal preferido do deus Seth, senhor das tempestades e da pujança cósmica, o burro foi um auxiliar privilegiado do homem no Antigo Egipto. (N. do A.)

 

...um certo gosto pela independência e uma enorme capacidade para transportar pesadas cargas.

 

Decidido a carregar até aos quarenta anos os sacos de cinquenta quilos amarrados de um e outro lado do seu lombo, Vento do Norte estava consciente de valer tanto quanto uma boa vaca ou um bom féretro. Paser oferecera-lhe um campo onde só ele tinha o direito de pastar; agradecido, o burro estrumava-o até à inundação. Dotado de um excelente sentido de orientação, Vento do Norte orientava-se perfeitamente no labirinto de azinhagas do campo, e andava muitas vezes sozinho de um lado para o outro a entregar mercadorias. Comedido, sereno, só conseguia dormir ao pé do dono.

 

Vento do Norte tinha este nome pois, desde o nascimento, levantava as orelhas sempre que soprava a suave brisa setentrional, tão apreciada durante a estação quente.

 

Vou para longe repetiu Paser. Não ias gostar de Mênfis.

 

O cão roçava-se na pata direita dianteira do burro. Vento do Norte, compreendendo o sinal de Bravo, virou-se de lado, desejoso de receber o saco de viagem. Paser acariciou suavemente a orelha esquerda do quadrúpede.

 

Quem é o mais teimoso?

 

Paser desistiu de lutar; até outro burro o teria feito. Vento do Norte, agora responsável pela bagagem, tomou orgulhosamente a cabeça do cortejo e, sem se enganar, seguiu pelo caminho mais curto para o cais.

 

No reinado do grande Ramsés, os viajantes percorriam sem receio veredas e caminhos; caminhavam de espírito aberto, sentavam-se a cavaquear à sombra das palmeiras, matavam a sede com água dos poços, passavam noites tranquilas nas orlas das culturas ou nas margens do Nilo, levantavam-se e deitavam-se com o Sol.

 

Cruzavam-se com mensageiros do faraó e funcionários do correio; em caso de necessidade, dirigiam-se aos polícias em patrulha. Longe ia o tempo em que se ouviam gritos de horror, ou em que os salteadores roubavam ricos ou pobres que ousassem percorrer os caminhos; Ramsés fazia respeitar a ordem pública, sem a qual a felicidade não seria possível.

 

Sem vacilar, Vento do Norte abeirou-se da encosta íngreme que descia até ao rio, como se soubesse que o dono desejava apanhar o barco que partia para Mênfis. O trio embarcou; Paser pagou o preço da viagem com um pedaço de fazenda. Enquanto os animais dormiam, ele contemplava o Egipto, que os poetas comparavam a um imenso barco cujas altas amuradas eram formadas por cadeias de montanhas. Colinas e paredes rochosas, elevando-se a trezentos metros de altura, pareciam proteger as culturas. Planaltos entrecortados por pequenos vales mais ou menos cavados interpunham-se por vezes entre a terra negra, fértil, produtiva, e o deserto vermelho, onde vagueavam forças perigosas.

 

Paser queria voltar para trás, para a sua aldeia, e não mais de lá sair. Esta viagem rumo ao desconhecido perturbava-o e tirava-lhe toda a confiança que tinha nas suas capacidades; o pequeno juiz de aldeia perdia uma tranquilidade que nenhuma promoção lhe poderia oferecer. Apenas Branir o conseguira convencer; mas não estaria Branir a conduzi-lo a um futuro que ele não seria capaz de dominar?

 

Paser estava atordoado.

 

Mênfis, a maior cidade do Egipto, a ”balança das Duas Terras”, capital administrativa, havia sido criada por Menes, o unificador.

 

Enquanto Tebas, a meridional, era devota da tradição e do culto a Ámon, Mênfis, a setentrional, situada entre o Alto e o Baixo Egipto, abria-se à Ásia e às civilizações mediterrânicas.

 

Notas: No Antigo Egipto viajava-se muito, sobretudo pela auto-estrada natural, o Nilo, mas também pelos caminhos que atravessavam os campos e pelas pistas do deserto Competia ao faraó garantir a segurança dos viajantes.

Menes foi o primeiro faraó que uniu as duas terras, o Alto e o Baixo Egipto. (N do A.)

 

O juiz, o burro e o cão desembarcaram no porto de Perounefer, cujo nome significava ”boa viagem”. Centenas de barcos comerciais de todos os tamanhos vinham atracar às docas efervescentes de actividade; as mercadorias eram encaminhadas para os imensos armazéns, vigiados e geridos com o maior dos cuidados. Pelo preço de um trabalho digno dos construtores do Antigo Império, fora construído um canal paralelo ao Nilo ladeando o planalto onde tinham sido edificadas as pirâmides. Assim, as embarcações navegavam sem perigo e a circulação de mercadorias e materiais estava assegurada em todas as estações; Paser reparou que as paredes do canal haviam sido revestidas com um trabalho de maçonaria de solidez exemplar.

 

O trio dirigiu-se para o bairro norte onde morava Branir, atravessou o centro da cidade, admirou o célebre templo de Ptah, deus dos artesãos, e atravessou a zona militar. Aí, fabricavam-se armas e construíam-se barcos de guerra. Aí, treinavam-se os corpos de elite da Armada egípcia, aquartelados em grandes casernas, entre os arsenais de carroças, de espadas, de lanças e de escudos.

 

Tanto a norte como a sul, alinhavam-se celeiros ricos em cevada, trigo miúdo e sementes diversas, contíguos aos edifícios do Tesouro, que guardavam ora dinheiro, ora cobre, fazendas, unguentos, óleo, mel ou outros produtos.

 

Mênfis, tão imensa, entontecia o jovem camponês. Como orientar-se no emaranhado de ruas e ruelas, na profusão de bairros com nomes como ”Vida das Duas-Terras”, ”O Jardim”, ”O Sicómoro”, ”O Muro do Crocodilo”, ”A Fortaleza”, ”Os Dois Outeiros” ou ”O Colégio de Medicina”?

 

Enquanto Bravo se mostrava pouco tranquilo e não se afastava do dono, o burro seguia confiante o seu caminho. Guiava os companheiros de viagem no bairro dos artesãos, onde se trabalhava a pedra, a madeira, o ferro e o ouro em pequenas oficinas abertas para a rua. Paser nunca tinha visto tantas peças de cerâmica, vasos, baixelas e utensílios domésticos. Cruzava-se com inúmeros estrangeiros, hititas, gregos, cananeus e asiáticos, vindos de pequenos reinos; folgados, bisbilhoteiros, gostavam de se enfeitar com colares de lótus, proclamavam que Mênfis era um cálice de frutos e celebravam os seus cultos nos templos do deus Baal e da deusa Astarte, cuja presença era tolerada pelo faraó.

 

Paser dirigiu-se a uma tecedeira e perguntou-lhe se ia na direcção correcta; verificou então que o burro não se tinha enganado. O juiz observou que os sumptuosos palacetes dos nobres, com os seus jardins e os seus lagos, se misturavam com as pequenas casas dos mais humildes. Grandes pórticos, guardados por porteiros, abriam-se sobre alamedas floridas ao fundo das quais se escondiam edifícios de dois ou três andares.

 

Finalmente, a casa de Branír! Era tão bonita, tão sedutora com os seus muros brancos, a verga da porta decorada com uma grinalda de dormideiras vermelhas, as janelas ornamentadas com acianos de cálice verde e com flores-amarelas-da-pérsea, que o jovem juiz admirava com prazer. Uma porta dava para uma ruela onde havia duas palmeiras que davam sombra à açoteia da pequena habitação. Via-se que a aldeia estava bem distante, mas o velho médico conseguira manter o perfume do campo no coração da cidade.

 

Branir estava na soleira.

 

Fizeste boa viagem?

 

O burro e o cão estão com sede.

 

Eu trato deles; tens aqui uma bacia para lavares os pés e pão salpicado com sal para te dar as boas vindas.

 

Paser desceu até à primeira sala por um lanço de escadas; recolheu-se em frente a um nicho com as estatuetas dos antepassados. Depois viu a sala de recepção, escorada por duas colunas coloridas; encostados às paredes, estavam armários e arcas de arrumações. No chão, havia esteiras. Uma sala de trabalho, uma sala de água, uma cozinha, dois quartos e uma cave completavam aquele interior delicado.

 

Branir convidou o seu hóspede a subir as escadas que levavam à açoteia onde lhe ia servir bebidas frescas, bolos e tâmaras recheadas com mel.

 

Nota: Árvore de grande porte cujos frutos eram conhecidos pela sua doçura, estes últimos pareciam-se com um coração e as folhas com uma língua (N do A)

 

Sinto-me perdido confessou Paser.

 

O contrário seria de estranhar. Um bom jantar e uma boa noite de sono, e estarás pronto para a cerimónia de investidura.

 

Já a partir de amanhã?

 

Os processos acumulam-se.

 

Gostaria de me adaptar a Mênfis.

 

O trabalho urge. Aceita este presente, visto que ainda não estás em funções.

 

Branir ofereceu a Paser o manual de comportamento dos escribas. Permitia-lhes adoptar a atitude correcta em qualquer circunstância, graças ao respeito pela hierarquia. Primeiro, os deuses, as deusas, os espíritos transfigurados no além, o faraó e o Reino; depois, a mãe do rei, o vizir, o conselho dos sábios, os altos magistrados, os chefes militares e os escribas da casa dos livros. Seguiam-se uns tantos cargos, de director do Tesouro a encarregado dos canais, passando pelos representantes do faraó no estrangeiro.

 

Um homem de coração violento não passa de um causador de problemas e de um linguareiro; se queres ser forte, sê o artesão das tuas palavras, aperfeiçoa-as, pois a linguagem é a arma mais forte para quem a sabe utilizar.

 

Tenho saudades da aldeia.

 

E terás para o resto da vida.

 

Porque me mandaram para aqui?

 

É a tua própria conduta que determina o teu destino.

 

Paser dormiu pouco e mal, com o cão aos pés e o burro deitado junto à sua cabeça. Os acontecimentos sucediam-se vertiginosamente e não lhe davam tempo de readquirir o equilíbrio; apanhado num turbilhão, já não dispunha dos pontos de referência habituais e devia, contra sua vontade, abandonar-se a uma aventura de matizes desconhecidos.

 

Acordou de madrugada, tomou banho, limpou-se com natrão e tomou o pequeno almoço na companhia de Branir, que...

 

Nota: O natrão é um composto natural de carbonato de soda e bicarbonato de soda. (N do A)

 

...o levou a um dos melhores barbeiros da cidade. Sentado num banquinho de três pernas em frente ao cliente, instalado da mesma forma, o barbeiro humedeceu o cabelo de Paser e cobriu-o com uma pasta gordurosa. Tirou de um estojo de couro uma navalha de barba com uma lâmina de cobre e um cabo de madeira, que manejava com destreza e perfeição.

 

Com uma tanga nova e uma camisa diáfana larga e perfumada, Paser parecia pronto a defrontar o desafio.

 

Tenho a impressão de estar mascarado confiou ele a Branir.

 

A aparência nada vale, mas não a descures; aprende a manobrar o leme para não deixares que a torrente dos dias te afaste da justiça, pois o equilíbrio de um país depende da sua prática. Sê digno de ti próprio, meu filho.

 

Paser seguiu Branir, que o conduziu pelo bairro de Ptah, a sul da antiga cidadela de paredes brancas. Tranquilo quanto à sorte do burro e do cão, o jovem não sentia o mesmo em relação a si próprio.

 

Perto do palácio haviam sido construídos vários edifícios administrativos cujos acessos eram guardados por soldados. O velho médico dirigiu-se a um graduado; depois de ouvir o seu pedido, o homem desapareceu por um momento e voltou acompanhado de um alto magistrado, o delegado do vizir.

 

Que bom rever-te, Branir; então é este o teu protegido?

 

Paser está muito emocionado.

 

É uma reacção compreensível para a sua idade. Suponho, contudo, que estará pronto para desempenhar as suas novas funções?

 

Paser, chocado com a ironia daquela personagem, interveio num tom seco.

 

Duvidas?

 

O delegado ergueu as sobrancelhas.

 

Vou levá-lo comigo, Branir; devemos proceder à investidura.

 

O olhar caloroso que o velho médico deu ao seu discípulo deu-lhe a coragem que ainda lhe faltava; quaisquer que fossem as dificuldades, ele não o deixaria ficar mal.

 

Levaram Paser para uma pequena câmara rectangular com as paredes brancas e nuas; o delegado convidou-o a sentar-se numa esteira, diante do tribunal composto por si próprio, o administrador da província de Mênfis, o representante da repartição do trabalho e um dos servidores do deus Ptah que ocupava um alto cargo na hierarquia sagrada. Todos eles usavam enormes perucas e vestiam amplas tangas. Os seus rostos não exprimiam qualquer sentimento.

 

Vais ser submetido à ”avaliação da diferença”] declarou o delegado do vizir, chefe da justiça.

 

Aqui serás um homem diferente dos outros, chamado a julgar os teus semelhantes. Tal como os teus colegas da província de Gize, procederás aos inquéritos, presidirás aos tribunais locais que estejam sob tua jurisdição e enviarás aos teus superiores os casos que ultrapassem a tua competência. Comprometes-te a fazer isso?

 

Sim, comprometo-me.

 

Tens consciência de que não podes voltar atrás com a palavra?

 

Sim, estou consciente disso.

 

Que este tribunal proceda de acordo com os mandamentos da Regra ao julgar o futuro juiz.

 

O administrador da província falou com uma voz grave e bem colocada.

 

Que jurados vais convocar para formar o teu tribunal?

 

Escribas, artesãos, polícias, homens experientes, mulheres respeitáveis, viúvas.

 

De que maneira intervirás nas suas deliberações?

 

De maneira nenhuma. Cada qual poderá exprimir-se sem ser influenciado e respeitarei cada opinião para poder formar o meu juízo.

 

Em todas as circunstâncias?

 

À excepção de uma só; se um dos jurados for corrupto. Interromperei o processo em curso para o acusar sem qualquer demora.

 

Nota: A expressão é utilizada no Livro dos Mortos para distinguir o justo do injusto. (N. do A.)

 

Como deves agir em caso de crime? perguntou o representante da repartição do trabalho.

 

Fazer um inquérito preliminar, abrir um processo e transmiti-lo ao vizir.

 

O servidor do deus Ptah colocou o braço direito sobre o peito com o punho fechado a tocar no ombro.

 

Nenhum acto será esquecido no julgamento do além; o teu coração será colocado num dos pratos da balança e confrontado com a Regra. De que forma será transmitida a lei que queres fazer respeitar?

 

Existem quarenta e duas províncias e quarenta e duas leis diferentes; mas o seu juízo não foi escrito e não o deve ser. A verdade só pode ser transmitida oralmente, da boca do mestre aos ouvidos do discípulo.

 

O servidor de Ptah sorriu; mas o delegado do vizir ainda não estava satisfeito.

 

Como defines a Regra?

 

O pão e a cerveja.

 

O que significa essa resposta?

 

Justiça para todos, grandes e pequenos.

 

Porque é que a justiça é simbolizada por uma pena de avestruz?

 

Porque ela é a passagem entre o nosso mundo e o mundo dos deuses; as penas são as rectrizes, o leme do pássaro assim como do ser. A Regra, sopro de vida, deve estar presente na vida do homem e expurgar os males do coração e do corpo. Se a justiça desaparecesse, o trigo não mais brotaria, os rebeldes tomariam o poder, não mais se celebrariam festas.

 

O administrador da província levantou-se e pousou um bloco de calcário em frente de Paser.

 

Põe as mãos nessa pedra branca. O jovem obedeceu. Não tremia.

 

Que ela seja testemunha do teu juramento; a pedra nunca se esquecerá das palavras que proferiste e será tua acusadora caso traias a Regra.

 

O administrador e o representante da repartição do trabalho colocaram-se um de cada lado do juiz.

 

Levanta-te ordenou o delegado do vizir.

 

Eis o teu selo disse ele dando-lhe uma pequena placa rectangular soldada a um anel que Paser colocou no dedo médio. Na face plana da placa estava inscrito em ouro ”Juiz Paser”.

 

Os documentos que tiverem o teu selo terão valor oficial e serão da tua responsabilidade; não o uses irreflectidamente.

 

O escritório do juiz situava-se no subúrbio sul de Mênfis, entre o Nilo e o canal do oeste, e a sul do templo de Hathor. O jovem do campo, que esperava um edifício imponente, ficou cruelmente decepcionado. A administração concedera-lhe apenas uma casa baixa de dois andares. Sentada à entrada, estava uma sentinela a dormir. Paser tocou-lhe no ombro e o homem sobressaltou-se.

 

Queria entrar.

 

A repartição está fechada.

 

Sou o juiz.

 

Duvido... o juiz morreu.

 

Sou Paser, o seu sucessor.

 

Ah, és tu... O escrivão larrot deu-me o teu nome. Podes identificar-te?

 

Paser mostrou-lhe o selo.

 

A minha missão era guardar este local até tu chegares; missão comprida.

 

Quando poderei ver o meu escrivão?

 

Não faço ideia. Tinha um problema para resolver...

 

Que problema?

 

A lenha para o aquecimento. De Inverno faz muito frio; no ano passado, o Tesouro recusou-se a entregar aqui a lenha, pois o pedido não fora feito em três exemplares. larrot foi ao serviço de arquivos para regularizar a situação. Desejo-lhe boa sorte, juiz Paser; em Mênfis, não corre o risco de se aborrecer. A sentinela foi-se embora.

 

Paser abriu devagar a porta do seu novo domínio. A repartição era bastante grande, atulhada de armários e cofres onde se encontravam arrumados rolos de papiro amarrados ou lacrados. No chão, uma camada de poeira suspeita. Perante perigo tão inesperado, Paser não hesitou. Apesar da dignidade das suas funções, pegou numa vassoura feita com cordéis presos por fibras duras entrançadas; o cabo permitia um manuseamento suave e regular.

 

Terminada a limpeza, o juiz fez um inventário do conteúdo dos arquivos: papelada do cadastro, do fisco, vários relatórios, queixas, relações de contas e transferências de salários em cereais, cestos ou tecidos, cartas, listas de pessoal... A sua competência estendia-se aos mais variados domínios.

 

No maior dos armários, estava o material indispensável ao escriba: paletas com recortes na parte superior para se deitar tinta vermelha e preta, blocos de tinta sólida, godés, bolsas de pigmentos em pó, bolsas com pincéis, raspadeiras, borrachas, trituradores de pedra, cordéis de linho, uma carapaça de tartaruga para fazer as misturas, um babuíno de argila evocando o deus Tot, mestre dos hieróglifos, lascas de calcário para os rascunhos, tabuinhas de argila, de calcário e de madeira.

 

O conjunto era de boa qualidade.

 

Num pequeno cofre de acácia, encontrava-se um dos objectos mais preciosos: um relógio de água. O pequeno vaso tronco-cónico era graduado no interior, segundo duas escalas diferentes, com doze entalhes; a água corria por um buraco, ao fundo do relógio, medindo assim as horas.

 

Sem dúvida que o escrivão devia julgar necessário tomar nota do tempo passado no local de trabalho.

 

Havia uma coisa a fazer. Paser pegou num pincel de junco delicadamente talhado, mergulhou a extremidade num godé cheio de água e deixou cair uma gota na paleta de que se ia servir. Murmurou a prece que todos os escrivães recitavam antes de começar a escrever: ”água de tinteiro para o teu Ka, Imhotep”; assim era venerado o criador da primeira pirâmide, arquitecto, médico, astrólogo e modelo daqueles que faziam hieróglifos.

 

O juiz subiu ao primeiro andar.

 

A tipografia não era ocupada há muito tempo; o predecessor de Paser, que preferia morar numa casa no limite da cidade, tinha-se esquecido de tratar daquelas três divisões, que eram ocupadas por pulgas, moscas, ratos e aranhas.

 

O jovem não desistiu; apetecia-lhe vencer aquela batalha. No campo, tinha muitas vezes de desinfectar as casas e caçar os hóspedes indesejáveis.

 

Depois de ter procurado os ingredientes necessários nas tendas do bairro, Paser meteu mãos à obra. Borrifou as paredes e o chão com água onde dissolvera natrão, depois salpicou-as com um composto de carvão pulverizado e de planta bebet, cujo perfume forte enxotava insectos e vermes. Por fim, misturou incenso, mirra, cinamono e mel e fez uma defumação que purificaria o local dando-lhe um cheiro agradável. Para comprar estes produtos caros, teve de ficar a dever e gastou a maior parte do seu próximo salário.

 

Exausto, desenrolou a esteira e deitou-se de costas. Algo o incomodava e o impedia de dormir: o anel. Não o tinha tirado. O pastor Pépi não se havia enganado: já não tinha escolha.

 

Nota: Inula Graveleous, uma das variedades da énula (N do A)

Nota: Arbusto aromático do qual algumas espécies dão a canela. (N do A)

 

O Sol já ia alto quando o escrivão larrot chegou ao escritório no seu passo pesado. Sombrio, bochechudo, rubicundo e com o rosto congestionado, caminhava ao ritmo de uma bengala com o seu nome gravado, o que o tornava uma personagem importante e respeitada. Quarentão, larrot era pai extremoso de uma menina, alvo de todas as suas preocupações. Todos os dias discutia com a mulher por causa da educação da criança, a quem não queria contrariar sob qualquer pretexto. A casa retumbava com estas discussões, cada vez mais violentas.

 

Para sua grande surpresa, um operário misturava gesso com calcário triturado para o tornar mais branco e verificava a qualidade do produto deitando-o em seguida num cone de calcário, para tapar um buraco na sala do juiz.

 

Não encomendei qualquer trabalho disse larrot, furibundo.

 

Mas eu, sim; mais ainda, executo-os sem demora.

 

Com que direito?

 

Sou o juiz Paser.

 

Mas... Ainda és tão novo!

 

És o meu escrivão?

 

Exactamente.

 

O dia já vai longo.

 

Sim, sim... É que tive uns problemas familiares a resolver...

Há assuntos urgentes? perguntou Paser continuando o seu serviço.

 

Há a queixa de um construtor. Tinha tijolos, mas faltavam-lhe os burros para os transportar. Acusa o alugador de lhe sabotar o telheiro.

 

Assunto resolvido.

 

Como assim?

 

Estive com o transportador esta manhã. Vai indemnizar o construtor e transportar os tijolos a partir de amanhã; um processo a menos.

 

Também és trolha?

 

Amador pouco dotado. O nosso orçamento é bastante baixo; na maioria dos casos teremos de nos desembaraçar. Que mais há?

 

Esperam-te para o recenseamento de um rebanho.

 

O escriba especializado não dará conta do recado?

 

O perito no assunto, o dentista Qadash, julga que um dos seus empregados o rouba. Requereu um inquérito: o teu predecessor atrasou-o o mais que pôde. Para dizer a verdade, compreendia-o bem. Se desejares, encontrarei argumentos para o diferir outra vez.

 

Não será necessário. A propósito, sabes utilizar uma vassoura?

 

Como o escrivão ficasse mudo, o juiz estendeu-lhe o precioso objecto.

 

Vento do Norte não estava descontente por saborear de novo o ar do campo; carregando o material do juiz, o burro avançava depressa, enquanto Bravo vagabundeava pelos arredores todo contente à procura de ninhos. Como era seu hábito, Vento do Norte esticou a orelha quando o juiz lhe disse que se dirigiam para a propriedade do dentista Qadash, que ficava para sul, a duas horas de caminho do planalto de Gize; o burro tomara a direcção correcta.

 

Paser foi bem recebido pelo intendente da propriedade, feliz por receber por fim um juiz com vontade de resolver um mistério que envenenava a vida dos boiadeiros. Os criados lavaram-lhe os pés e ofereceram-lhe uma tanga nova enquanto lavavam a dele; dois moços encarregaram-se de dar de comer ao cão e ao burro. Avisaram Qadash da chegada do magistrado e levaram-lhe de pronto um estrado encimado por um pórtico vermelho e negro assente em colunetas lotiformes; nele se instalariam, ao abrigo do sol, Qadash, Paser e o escriba dos rebanhos.

 

Quando o dono da propriedade apareceu, com uma longa bengala na mão direita, seguido pelos carregadores das sandálias, do guarda-sol e da poltrona, umas raparigas tocaram tamborim e flauta e jovens camponesas ofereceram-lhe flores de lótus.

 

Qadash tinha cerca de sessenta anos e uma cabeleira branca e farta; forte, de nariz proeminente salpicado de veiazinhas violetas, cabeça baixa, maçãs do rosto salientes, limpava muitas vezes o suor dos olhos lacrimosos. Paser espantou-se com a cor vermelha das suas mãos; sem dúvida, o dentista sofria de má circulação sanguínea.

 

Qadash observou-o com alguma desconfiança.

 

És tu o novo juiz?

 

Para te servir. É agradável constatar que os camponeses são felizes quando o dono da propriedade tem coração nobre e é firme a comandar.

 

Irás longe, meu jovem, se respeitares os superiores.

 

A voz do dentista, a princípio incómoda, tornara-se agradável. A tanga em forma de avental, o corpete de pele de felino, o grande colar com sete voltas de pérolas azuis, brancas e vermelhas, e as pulseiras davam-lhe um ar distinto.

 

Sentemo-nos propôs.

 

Sentou-se na poltrona de madeira pintada; Paser num assento em forma de cubo, à sua frente; à frente do escriba dos rebanhos estava uma pequena mesa baixa para o material de escrita.

 

Segundo as declarações prestadas relembrou o juiz possuis cento e vinte e uma cabeças de gado, setenta carneiros, seiscentas cabras e outros tantos porcos.

 

Exactamente. No último recenseamento, feito há dois meses, faltava um boi! Ora, os meus animais são de grande valor; o mais magro poderia ser trocado por uma túnica de linho e dez sacos de cevada. Quero que apanhes o ladrão.

 

Não procedeste a um inquérito por conta própria?

 

Não é a mim que me compete fazê-lo.

 

O juiz voltou-se para o escriba dos rebanhos, que estava sentado numa esteira.

 

Que escreveste tu nos registos?

 

O número de animais que me apresentaram.

 

Quem interrogaste?

 

Ninguém. O meu trabalho consiste em anotar e não em fazer interrogatórios.

 

Paser não diria mais nada; irritado, tirou do cesto uma tabuinha de sicómoro coberta por uma fina camada de gesso, um pincel de junco talhado com um comprimento de vinte e cinco centímetros e um godé com água onde preparou tinta preta. Quando estava pronto, Qadash fez sinal ao chefe dos vaqueiros para começar o desfile.

 

Com uma pequena palmada no cachaço do boi que seguia à frente, iniciou-se a procissão. O animal bamboleava-se lentamente, seguido pelos seus congéneres pesados e plácidos.

 

Esplêndidos, não achas?

 

Dá os meus parabéns aos criadores recomendou Paser.

 

O ladrão deve ser asiático ou núbio disse Qadash. Há muitos estrangeiros em Mênfis.

 

O teu nome não é de origem líbia?

 

O dentista disfarçou mal o seu aborrecimento.

 

Há muito que vivo no Egipto e pertenço à alta sociedade; não é a riqueza da minha propriedade prova disso mesmo? Fica sabendo que cuidei dos mais ilustres cortesãos, e, como tal, põe-te no teu lugar.

 

Carregadores de frutas, réstias de alho, cestos cheios de alface e vasos de perfume, acompanhavam os animais. Não se tratava sem dúvida de uma simples verificação do recenseamento; Qadash queria seduzir o novo juiz e mostrar-lhe a vastidão da sua fortuna.

 

Bravo deslizara sorrateiramente para debaixo do lugar do dono e olhava as cabeças de gado que se sucediam.

 

De que província és tu? perguntou o dentista.

 

Quem faz as perguntas sou eu.

 

Uma parelha de bois passou em frente ao estrado; o mais velho sentou-se e recusou-se a seguir. ”Pára de te fingires de morto” disse o vaqueiro; o acusado olhou-o receoso mas não se mexeu.

 

Dá-lhe ordenou Qadash.

 

Um momento exigiu Paser descendo do estrado.

 

O juiz acariciou o ventre do boi sossegando-o e, com a ajuda do vaqueiro, tentou fazê-lo levantar-se. Mais tranquilo, o boi levantou-se. Paser voltou ao seu lugar.

 

És muito terno ironizou Qadash.

 

Odeio a violência.

 

Mas por vezes não achas que é necessária? O Egipto teve de lutar contra os invasores, muitos homens morreram pela nossa liberdade. Serão de condenar?

 

Paser concentrou-se no desfile dos animais; o escriba dos rebanhos contava-os. No fim do recenseamento, de acordo com a declaração do proprietário, faltava um boi.

 

Inadmissível trovejou Qadash, cuja face ficava púrpura. Sou roubado na minha própria casa e ninguém quer denunciar o culpado.

 

Os animais devem ter sido marcados.

 

Sem dúvida!

 

Traz-me os homens que procederam à marcação.

 

Eram quinze; o juiz interrogou-os um após o outro, isolando-os de forma a que não pudessem comunicar entre si.

 

Já sei quem é o ladrão anunciou Paser a Qadash.

 

Como se chama?

 

Kani.

 

Peço a convocação imediata de um tribunal.

 

Paser aceitou. Escolheu como jurados um vaqueiro, uma pastora, o escriba dos rebanhos e um dos guardas da propriedade.

 

Kani, que não tentara fugir, apresentou-se de sua livre vontade no estrado, suportando o olhar furioso de Qadash, ali ao lado. O acusado era um homem pesado e robusto, de pele morena e enrugada.

 

Consideras-te culpado?

 

Não.

 

Qadash bateu com a bengala no chão.

 

Este bandido é um insolente! Que seja castigado no campo!

 

Cala-te ordenou o juiz.  Se perturbares a audiência, interrompo o processo.

 

Enervado o dentista afastou-se

 

Marcaste um boi com o nome de Qadash? perguntou Paser.

 

Sim respondeu Kani.

 

Esse animal desapareceu.

 

Fugiu-me. Encontrá-lo-ás num campo vizinho.

 

Porquê essa negligência?

 

Não sou vaqueiro, mas sim jardineiro. O meu verdadeiro trabalho consiste em irrigar as pequenas parcelas de terra; durante o dia transporto uma vara aos ombros e despejo nas culturas o conteúdo dos pesados cântaros. À noite, não tenho descanso; é preciso regar as plantas mais frágeis, abrir os regos, reforçar os aterros. Se quiseres provas, olha para a minha nuca; tem a marca de dois abcessos. É a doença do jardineiro e não do vaqueiro.

 

Porque mudaste de ocupação?

 

Porque o intendente de Qadash se apoderou de mim quando eu entregava legumes. Fui forçado a ocupar-me dos bois e a abandonar o meu jardim.

 

Paser chamou as testemunhas; a veracidade do relato de Kani foi comprovada. O tribunal absolveu-o; como indemnização, o juiz ordenou que o boi fugido se tornasse propriedade de Kani e que Qadash lhe oferecesse uma quantidade razoável de alimentos em troca dos dias de trabalho perdido.

 

O jardineiro curvou-se frente ao juiz; Paser leu nos seus olhos um profundo agradecimento.

 

O rapto de camponeses é um crime grave disse ele ao proprietário.

 

O sangue subiu à cara do dentista.

 

Não sou responsável! Não estava ao corrente; que o meu intendente seja castigado como merece.

 

Conheces a natureza da pena; cinquenta bastonadas e perda do estatuto social, voltando a ser camponês.

 

Lei é lei.

 

Acusado em tribunal, o intendente não negou nada; foi condenado e a sentença imediatamente executada.

 

Quando o juiz Paser saiu da propriedade, Qadash não foi despedir-se dele.

 

 

 

Bravo dormia aos pés do dono, sonhando com um festim, enquanto Vento do Norte, refastelado com forragem fresca, fazia plantão à porta do gabinete onde Paser estava desde a madrugada a consultar os processos em curso. As dificuldades não diminuíam, muito pelo contrário, e ele estava decidido a pôr a papelada em dia, sem deixar nada pendente.

 

O escrivão larrot chegou a meio da manhã, com um semblante cadavérico.

 

Estás um pouco abatido disse Paser.

 

Discuti com a minha mulher. Está insuportável; casei-me para ela me preparar pratos suculentos, e agora recusa-se a cozinhar! Está impossível de aturar.

 

Pensas divorciar-te?

 

Não, por causa da minha filha; quero que ela seja bailarina mas a minha mulher tem outros projectos com os quais não concordo. E nem um nem outro estamos dispostos a ceder.

 

Temo que a situação seja complicada.

 

Eu também. E a investigação sobre Qadash, correu bem?

 

Estou quase a terminar o meu relatório: boi encontrado, jardineiro absolvido e intendente condenado. Estou convencido de que o dentista também estava envolvido, mas não tenho como prová-lo.

 

Não te metas com ele; tem muitos conhecimentos.
Clientela abastada, não?

 

Já tratou da boca dos habitantes mais ilustres; as más línguas dizem que perdeu o jeito e quem quiser manter os dentes sãos mais vale não ir lá.

 

Bravo rosnou; o dono acalmou-o com uma festa. Quando ele se comportava assim, manifestava uma hostilidade comedida. À primeira vista, não gostava lá muito do escrivão.

 

Paser carimbou os papiros onde tinha registado as conclusões sobre o caso do roubo do boi. larrot admirou a escrita fina e regular; o juiz traçava os hieróglifos sem a mínima hesitação, desenhando o pensamento com grande segurança.

 

Mas, apesar disso, não o incriminaste?

 

É claro que sim.

 

Olha que é perigoso.

 

De que tens receio, larrot?

 

Bem, eu... eu não sei.

 

Sê mais preciso, larrot.

 

A justiça é tão complexa...

 

Eu não acho: de um lado está a verdade, do outro está a mentira. Se se ceder a esta última, por pouco que seja, a justiça perde o seu domínio.

 

Pensas assim porque ainda és jovem; à medida que fores adquirindo experiência, as tuas opiniões serão mais realistas.

 

Espero que não. Na aldeia de onde vim muita gente me confrontou com o mesmo argumento. Mas não me parece que tenha qualquer valor.

 

Queres ignorar o peso da hierarquia?

 

Será que Qadash está acima da lei? larrot suspira.

 

Pareces ser um homem inteligente e corajoso, juiz Paser; por isso, não faças de conta que não estás a compreender.

 

Se a hierarquia é injusta, o país avança para a sua extinção.

 

A hierarquia aniquilar-te-á como fez aos outros; limita-te a resolver os problemas que te dizem respeito e deixa os assuntos delicados ao cuidado dos teus superiores. O teu antecessor era um homem sensato que soube evitar as ratoeiras. Deram-te uma bela promoção; não a desperdices.

 

Se fui destacado para aqui, foi devido aos meus métodos; por que razão deveria eu mudá-los?

 

Agarra esta oportunidade sem perturbar a ordem estabelecida.

 

Não conheço outra ordem senão a da lei. Enfurecido, o escrivão bate no peito.

 

Estás a correr em direcção ao precipício! Não digas que não te preveni.

 

Amanhã, vais levar o meu relatório à administração da província.

 

Como achares melhor.

 

Há um pormenor que me intriga; não estou a pôr em causa o teu zelo, mas és tu todo o meu pessoal?

 

larrot pareceu embaraçado.

 

De certa forma, sim.

 

Que significa esse subentendido?

 

Bom, há também o Kem...

 

Qual é a sua função?

 

Polícia. É ele que prende quem o juiz decretar.

 

Parece-me de extrema importância.

 

O teu antecessor não mandou prender ninguém; se suspeitasse que havia um criminoso à solta, recorria a uma jurisdição melhor armada. Como Kem se aborrece de estar no escritório, patrulha a cidade.

 

Será que vou ter o privilégio de o conhecer?

 

Ele vem cá de vez em quando. Não te impressiones ao primeiro contacto: o seu carácter é detestável. Tenho medo dele, por isso não contes comigo para lhe fazer qualquer advertência desagradável.

 

”Não será nada fácil restabelecer a ordem no meu próprio escritório”, pensou Paser, constatando que dentro em breve ficaria sem papiro.

 

Onde é que costumas comprar o papiro?

 

No Bel-Tran, o melhor fabricante de Mênfis. Lá os produtos são caros, mas de excelente qualidade. Aconselho-te a ires lá.

 

Diz-me uma coisa, larrot; esse réu conselho é perfeitamente desinteressado?

 

Como te atreves!

 

Desculpa. Foi sem intenção.

 

Paser examinou as queixas mais recentes; nenhuma delas apresentava qualquer urgência ou gravidade. Depois deu uma vista de olhos às listas de pessoal que devia controlar e às nomeações que tinha de aprovar; um trabalho administrativo banal que requeria somente o seu carimbo.

 

larrot estava sentado sobre a perna esquerda e mantinha a direita estendida; tinha uma paleta sobre o braço, e um cálamo atrás da orelha esquerda, e enquanto observava Paser ia limpando os pincéis.

 

Estás a trabalhar há muito tempo?

 

Desde o nascer da aurora.

 

É muito cedo.

 

É um hábito de aldeão.

 

É um hábito... quotidiano?

 

O meu mestre ensinou-me que bastava um dia de negligência e era uma catástrofe. O coração só pode aprender se as orelhas estiverem bem abertas e a razão obediente; e para se conseguir isso, não há nada melhor do que bons hábitos, não achas? Senão o macaco que dormita em nós põe-se a dançar e a capela fica privada do seu Deus.

 

O tom do escrivão agravou-se.

 

Não é uma existência muito agradável.

 

Nós somos servidores da justiça.

 

A propósito, o meu horário de traba...

 

Oito horas por dia, seis dias por semana, dois dias de descanso, entre dois e três meses de feriados graças às diversas festas... Estamos de acordo?

 

Nota: Pena de escrever. (N do A)

 

Nota 2: Ritmo habitual de trabalho dos egípcios. (N. do A.)

 

O escrivão aquiesceu, compreendendo, sem que o juiz precisasse de insistir, que tinha de fazer um esforço para chegar a horas.

 

Um pequeno dossier intrigou Paser. O guardião-mor encarregado de vigiar a esfinge de Gize tinha sido transferido para as docas. Brutal retrocesso na carreira: o homem havia cometido uma falta grave. Contudo esta última não estava registada, como era habitual. No entanto, o juiz principal da província tinha-lhe posto a sua chancela; só faltava a de Paser, visto que o soldado pertencia à sua jurisdição. Uma simples formalidade que deveria ser cumprida sem grande reflexão.

 

Ninguém cobiça o posto de guardião-mor da esfinge?

 

Candidatos não faltam admite o escrivão, mas o titular actual desencoraja-os.

 

Porquê?

 

É um soldado experiente, com uma folha de serviço exemplar e, além disso, um homem honrado. Toma conta da esfinge com um desvelo invejável, ainda que aquele velho leão de pedra seja suficientemente impressionante para se defender a si próprio.

 

Quem sonharia sequer atacá-lo?

 

Parece-me um posto honorífico.

 

Exactamente. O guardião-mor recrutou outros veteranos para que estes tivessem direito a uma pequena pensão; e entre os cinco asseguram a vigilância durante a noite.

 

Estavas a par desta transferência?

 

Transferência... Deves estar a brincar?

 

Ora vê, aqui está o documento oficial.

 

É inacreditável. O que é que ele fez?

 

Seguiste exactamente o mesmo raciocínio que eu; mas os factos foram omitidos.

 

Não te preocupes; deve ser com certeza uma decisão militar cuja lógica nos transcende.

 

Vento do Norte soltou um zurro característico: o burro chamava a atenção para o perigo iminente. Paser levantou-se e saiu. Estava frente a frente com um babuíno que o dono deixara à solta.

 

O olhar agressivo, a cabeça robusta, o busto coberto por uma capa de pêlo, a sua reputação de macaco feroz não lhe era atribuída em vão. Era raro um animal selvagem não sucumbir aos golpes e às ferradelas de um babuíno, já se tinham visto até leões fugirem à aproximação de um bando enfurecido destes animais. O dono, um núbio de músculos salientes, impressionava tanto quanto o animal.

 

Espero que o tenhas bem preso.

 

Este babuíno-polícia está às tuas ordens, juiz, tal como eu.

 

Tu és o Kem?

 

O núbio acenou afirmativamente com a cabeça.

 

És conhecido em todo o bairro. Parece que andas a ”trabalhar” de mais para um juiz.

 

O teu tom não me agrada.

 

Tens de te habituar.

 

De modo nenhum. Ou mostras o respeito devido a um superior, ou podes pedir já a tua demissão.

 

Os dois homens desafiaram-se longamente; assim como o cão do juiz e o macaco do polícia.

 

O teu antecessor dava-me total liberdade de movimentos.

 

Agora a situação muda de figura.

 

Não estás a proceder bem; quando passeio pelas ruas com o meu babuíno, desencorajo os ladrões.

 

Vamos tomar as devidas providências. A tua folha de serviço?

 

Mais vale prevenir-te já: o meu passado é sombrio. Eu pertencia à corporação de arqueiros encarregada de guardar uma das fortalezas do Grande Sul. E, tal como muitos dos jovens da minha tribo, apaixonei-me pelo Egipto. Fui feliz durante muitos anos; até que um dia, sem querer, descobri um tráfico de ouro, entre oficiais. A hierarquia não me deu ouvidos; por essa altura, numa rixa matei um dos ladrões, que era meu superior directo. Então fui levado a tribunal onde me condenaram a cortar o nariz.

 

Nota: Pode ver-se no Museu do Cairo, num baixo-relevo do túmulo de Tepemankh, um enorme babuíno-polícia a prender um ladrão. (N. do A.)

 

O que tenho hoje é de madeira pintada. Perdi o medo às pancadas. Entretanto, os juizes reconheceram a minha lealdade; e foi por isso que me deram um posto na polícia. Se desejares verificar, o meu processo está arquivado na secretaria do exército.

 

Então vamos.

 

Kem não esperava por esta reacção. Enquanto o burro e o escrivão guardavam o escritório, o juiz e o polícia, acompanhados pelo cão e pelo babuíno, que continuavam a observar-se mutuamente, caminharam em direcção ao centro administrativo do exército.

 

Há quanto tempo vives em Mênfis?

 

Há um ano respondeu Kem; sinto saudades do Sul.

 

Conheces o responsável pela segurança da esfinge de Gize?

 

Cruzei-me com ele duas ou três vezes.

 

Inspira-te confiança?

 

É um veterano célebre; a sua reputação chegou até à fortaleza onde eu estava. Não é a qualquer um que se confia um posto tão honorífico.

 

É um posto perigoso?

 

De modo algum! Quem atacaria a esfinge? Trata-se de uma guarda de honra, cujos membros deviam sobretudo vigiar o aumento do nível da areia, para que esta não soterre o monumento.

 

Os transeuntes afastavam-se do quarteto; todos conheciam a rapidez com que um babuíno atacava; capaz de cravar as presas na perna de um ladrão ou de lhe partir o pescoço antes que o dono tivesse tempo de intervir. Quando Kem e o seu macaco patrulhavam a cidade, as más intenções desapareciam.

 

Sabes onde vive esse veterano?

 

Sei, numa casa cedida pelo exército, perto do quartel principal.

 

Mudei de ideias; regressemos ao escritório.

 

Já não queres verificar o meu processo?

 

Queria consultar o teu processo; mas não me ia ”dizer” nada de novo. Estarei à tua espera amanhã de manhã, bem cedo. Como se chama o teu babuíno?

 

Matador.

 

Ao cair da noite, o juiz fechou o escritório e saiu para passear o cão nas margens do Nilo. Deveria debruçar-se sobre este dossier minúsculo quando podia encerrá-lo, bastando para isso colocar-lhe a sua chancela? Meter-se em trabalhos por causa de um processo administrativo não tinha qualquer sentido. Pura rotina; mas sê-lo-ia na verdade? Um camponês em contacto com a natureza e com os animais apurava a intuição; Paser experimentava uma sensação estranha, quase inquietante, que o levaria a conduzir uma breve investigação para poder aprovar, livre de remorsos, esta transferência.

 

Bravo era brincalhão, mas não gostava da água. Saltitava a boa distância do rio onde passavam barcos de carga, veleiros elegantes e pequenas embarcações. Uns passeavam, outros transportavam, outros viajavam. O Nilo não só alimentava o Egipto como também lhe oferecia uma via de circulação natural e rápida, com os ventos e as correntes a completarem-se miraculosamente. Grandes embarcações com tripulações experimentadas deixavam Mênfis em direcção ao mar; algumas empreendiam longas expedições a terras longínquas. Paser não as invejava; o seu destino parecia-lhe cruel, pois estas viagens afastavam-nas de um país do qual ele amava cada centímetro de terra, cada colina, cada pista do deserto, cada aldeia. Todo o Egípcio tinha medo de morrer no estrangeiro; a lei mandava que repatriassem o corpo de forma a que pudesse viver a sua eternidade junto dos seus antepassados, sob a protecção dos deuses.

 

Bravo emite um som semelhante a um guincho; um pequeno saguim, ágil como uma nortada, acabara de lhe borrifar a parte traseira com água.

 

O cão, aflito e humilhado, arreganhou os dentes sacudindo-se; o brincalhão desnorteado saltou para os braços da dona, uma jovem de vinte e poucos anos.

 

Ele não é mau afirmou Paser, mas detesta que o molhem.

 

A minha macaca merece bem o nome que tem: Diabrete. Não pára de fazer travessuras, principalmente aos cães. Passo a vida a ralhar-lhe, mas não adianta.

 

A sua voz era tão doce que acalmou Bravo, que farejou a perna da proprietária da macaca e lhe deu uma lambidela.

 

Bravo!

 

Não faz mal; penso que me adoptou e isso deixa-me muito contente.

 

Será que a Diabrete aceita ser minha amiga?

 

Aproxime-se e verá.

 

Paser estava petrificado: não se atrevia a avançar. Na aldeia, andavam algumas raparigas atrás dele, mas ele nunca lhes prestava muita atenção, obcecado que estava com os seus estudos e com a aprendizagem do seu ofício; não tinha tempo para se distrair com paixonetas e namoricos. A aplicação da lei tinha-se aperfeiçoado com a idade mas, perante esta jovem, sentia-se completamente desarmado.

 

Era belíssima.

 

Bela como a aurora da Primavera, como um lótus a desabrochar, como uma vaga cintilante no meio do Nilo. Um pouco mais baixa do que ele, de cabelos aloirados, rosto fino e terno e uns olhos azul-céu de onde se desprendia um olhar sincero. No pescoço fino trazia um colar de lápis-lazúli; nos pulsos e nos tornozelos, pulseiras de coralina. O vestido de linho deixava adivinhar os seios firmes e bem desenhados, as ancas modeladas até à perfeição e as pernas longas e esguias. Os pés e as mãos encantavam os olhos com a sua delicadeza e elegância.

 

Estás com medo? perguntou ela, intrigada.

 

Não... claro que não.

 

Aproximar-se dela seria poder contemplá-la mais de perto, respirar o seu perfume, quase tocar-lhe... Mas faltava-lhe a coragem.

 

Apercebendo-se de que ele não tomaria a iniciativa, ela deu três passos na sua direcção e apresentou-lhe a pequena saguim.

 

Com a mão ainda a tremer, Paser fez uma festa no focinho da macaca. Com um dedo ágil, a Diabrete arranha-lhe o nariz.

 

É assim que ela identifica um amigo.

 

Bravo não protestou; a trégua entre o cão e a macaca estava feita.

 

Comprei-a numa feira onde se vendem produtos da Núbia; parecia tão triste e desamparada que não consegui resistir-lhe.

 

No punho esquerdo a rapariga trazia um objecto estranho.

 

Estás intrigado com a minha clépsidra portátil? É indispensável para exercer a minha profissão. Chamo-me Néféret e sou médica.

 

Néféret, ”a bela, a perfeita, a realizada”... Que outro nome poderia ter? A sua tez dourada parecia irreal; cada palavra que pronunciava assemelhava-se a uma sedutora melodia campestre ao pôr do Sol.

 

Posso perguntar-te como te chamas?

 

Era imperdoável. Não se tinha apresentado, que falta de educação a dele.

 

Paser... sou um dos juizes da província.

 

Nasceste cá?

 

Não, na região de Tebas. Acabei de chegar a Mênfis.

 

Também nasci lá em baixo! Sorriu, alegremente.

 

Nota: Foi no Egipto que apareceu o primeiro relógio, um relógio de água, portátil, destinado aos cientistas (astrónomos, médicos, etc.), para quem o cálculo do tempo era necessário. (N. do A.)

 

O teu cão já acabou o passeio?

 

Não, não! Ele nunca se cansa.

 

Então queres passear um pouco? Preciso de apanhar ar; esta semana foi extenuante.

 

Já estás a exercer a tua profissão?

 

Ainda não; estou a acabar o 5.o ano de aprendizagem. Primeiro estudei Farmácia e a preparação dos remédios, depois fui veterinária no templo de Dendara. Ensinaram-me a verificar a pureza do sangue dos animais para os sacrifícios e tratar todo o tipo de animais, do gato ao touro. Os erros cometidos foram duramente punidos: com vergastadas, exactamente como para os rapazes!

 

Paser sofria só de pensar no suplício infligido àquele corpo maravilhoso.

 

A severidade dos nossos velhos mestres é a melhor educação afirmou ela. Se tivermos as orelhas bem abertas, já não esquecemos o que aprendemos. Em seguida fui admitida na escola de Medicina de Sais, onde recebi o título de ”servidora dos que sofrem”, após ter estudado e praticado várias especialidades da medicina: dos olhos, do ventre, do ânus, da cabeça, dos órgãos íntimos, dos líquidos segregados pelos gânglios do pescoço e da cirurgia.

 

Que mais vão exigir ainda de ti?

 

Podia ser especialista, mas é o escalão mais baixo; e só me contentarei com ele se não for capaz de ser médica de clínica geral. O especialista só trata um aspecto da doença, uma manifestação limitada da verdade.

 

Uma dor num dado órgão não significa que se conheça a origem do mal. Um especialista só pode fazer um diagnóstico parcial. Ser médico de clínica geral é o verdadeiro ideal de todo o médico; mas a prova que se tem de prestar é tão difícil que a maior parte desiste logo à partida.

 

Em que posso ajudar-te?

 

Em nada. Tenho de enfrentar sozinha os meus mestres.

 

Então, boa sorte!

 

Saltaram por cima de um canteiro de lóios onde Bravo brincava, e sentaram-se à sombra de um vimeiro-amarelo de folha avermelhada.

 

Já falei muito, lamentou-se ela; não é meu costume. É assim que arrancas as confissões?

 

Faz parte do meu trabalho. Roubos, dívidas, contratos de venda, desavenças familiares, adultérios, agressões e maus tratos, impostos injustos, calúnias, e mil e um delitos mais, eis a rotina que me espera. Tenho de conduzir os inquéritos, verificar os testemunhos, reconstruir os factos e julgar.

 

Deve ser cansativo!

 

A tua profissão não o é menos. Gostas de tratar as pessoas, eu gosto que a justiça seja feita; se não déssemos o nosso melhor, seria uma traição.

 

Detesto aproveitar-me das circunstâncias, mas...

 

Diz, peço-te.

 

Um dos meus fornecedores de ervas medicinais desapareceu. É um homem rude, mas honesto e competente; eu e alguns colegas apresentámos queixa recentemente. Talvez pudesses acelerar as buscas?

 

Encarregar-me-ei do caso pessoalmente; como se chama ele?

 

Kani.

 

Kani!

 

Conhece-lo?

 

Ele tinha sido incriminado pelo intendente da jurisdição de Qadash. Mas já foi declarado inocente.

 

Graças a ti.

 

Fui eu que investiguei e julguei o caso. Ela beijou-lhe ambas as faces.

 

Paser, que não era sonhador por natureza, viu-se transportado para um dos paraísos reservados aos justos.

 

Qadash... o dentista famoso?

 

Esse mesmo.

 

Diz-se que foi um bom dentista, mas que já se devia ter reformado há muito tempo.

 

A saguim bocejou e foi aconchegar-se no ombro de Néféret.

 

Bem, tenho de ir embora; tive muito prazer em conversar contigo. Certamente não nos voltaremos a encontrar; agradeço-te do fundo do coração teres salvo Kani.

 

Ela não andava, dançava; o seu passo era leve, o seu andar esplendoroso.

 

Paser permaneceu imóvel debaixo do vimeiro-amarelo, para gravar na memória o mínimo dos seus gestos, o mais ínfimo dos seus olhares, a cor da sua voz.

 

Bravo pousou a pata direita nos joelhos do dono.

 

Já percebeste que... estou perdidamente apaixonado.

 

Kem e o seu babuíno foram ao encontro marcado.

 

Estás disposto a levar-me a casa do guardião-mor da esfinge? perguntou Paser.

 

Estou às tuas ordens.

 

Esse tom não me agrada mais do que o outro; a ironia não é menos mordaz que a agressividade.

 

A observação do juiz feriu o amor-próprio do núbio.

 

Não tenciono curvar-me diante de si.

 

Basta que sejas um bom polícia e nós nos entenderemos. O babuíno e o dono fitaram Paser; nos dois pares de olhos, um furor contido.

 

Vamos.

 

Neste início de tarde, as ruelas animavam-se; as donas de casa tagarelavam, os carregadores de água distribuíam o precioso líquido, os artesãos gravavam as peças com os buris. Graças ao babuíno, a multidão afastou-se.

 

O guardião-mor vivia numa casa semelhante à de Branir, mas menos elegante. Na soleira de uma porta, brincava uma menina com uma boneca de madeira; quando viu o enorme macaco, desatou a gritar assustada, entrando em casa a chorar. No mesmo instante, a mãe veio cá fora indignada.

 

Porque assustaste a criança? Prende já esse monstro!

 

És a mulher do guardião-mor da esfinge?

 

Com que direito me estão a interrogar!

 

Eu sou o juiz Paser.

 

O ar sério do jovem magistrado e o comportamento do babuíno convenceram a mulher a acalmar-se.

 

Já aqui não mora. O meu marido também é um veterano. Por isso o exército concedeu-nos este alojamento.

 

Sabes para onde ele foi?

 

A mulher parecia contrariada; quando me cruzei com ela no dia da mudança, falou-me numa casa, num bairro suburbano, lá para o Sul.

 

Não te disse nada de mais concreto? Porque havia eu de estar a mentir?

 

O babuíno deu um esticão à trela; a mulher recuou, encostando-se ao muro.

 

Mais nada?

 

Não, juro-te que não!

 

Encarregado de levar a filha à escola de dança, o escrivão larrot tinha sido autorizado a sair a meio da tarde, não sem antes se ter comprometido a entregar na sede da administração da província os relatórios dos casos resolvidos pelo juiz. Em poucos dias, Paser tinha resolvido mais casos do que o seu antecessor em seis meses.

 

Quando o Sol se pôs, Paser acendeu várias candeias; tinha de se desembaraçar o mais rápido possível de uma dezena de conflitos com o fisco, os quais tinha decidido todos a favor dos contribuintes. Todos, excepto um, que dizia respeito a um transportador chamado Denes. O juiz principal da província tinha acrescentado, à mão, umas palavras ao processo: ”Arquivar sem processo.”

 

Acompanhado pelo burro e pelo cão, Paser foi fazer uma visita ao seu mestre, pois ainda não tinha tido tempo de lá voltar depois de se ter mudado. No caminho interrogava-se sobre o destino curioso do guardião-mor que, além de ter deixado um cargo de prestígio, perdera também a casa.

 

O que estaria por detrás desta cascata de contratempos? O juiz tinha pedido a Kem que encontrasse o rasto do veterano. Enquanto não o tivesse interrogado, Paser não aprovaria a transferência.

 

Com a pata esquerda, Bravo esfregou várias vezes o olho direito; ao examiná-lo Paser viu uma ligeira irritação. O velho médico saberia como curá-lo.

 

A casa estava iluminada; Branir gostava de ler à noite, quando os barulhos da cidade já tinham desaparecido.

 

Paser bateu à porta principal, desceu ao vestíbulo, seguido do cão, e parou estupefacto. Branir não estava sozinho. Conversava com uma mulher, a quem o juiz reconheceu a voz de imediato. Ela, aqui!

 

O cão meteu-se entre as pernas do dono e mendigou umas festas.

 

Entra, Paser!

 

O juiz, inquieto, acedeu ao convite. Só tinha olhos para Néféret, sentada à escriba em frente ao velho médico, segurando um fio de linho entre o polegar e o indicador, no fim do qual oscilava uma pequena pedra de granito, talhada em forma de losango.

 

Néféret, a minha melhor aluna; o juiz Paser. Depois das apresentações feitas, aceitas um pouco de cerveja fresca?

 

A tua melhor aluna...

 

Nós já nos conhecemos, disse ela alegremente.

 

Paser agradeceu à sua boa estrela; revê-la enchia-o de felicidade.

 

Dentro em breve, Néféret vai enfrentar a última prova antes de poder exercer a sua arte lembrou Branir. É por isso que estamos a repetir os exercícios de radiestesia que lhe serão indispensáveis para fazer um diagnóstico. Estou convencido de...

 

Nota: Um pêndulo. Conhecem-se também as varas dos rabdomantes e sabe-se que certos faraós, como Seti I, foram grandes radiestesistas capazes de encontrar água no deserto. (N. do A’.)

 

...que vai ser uma excelente médica, pois sabe ouvir. E quem sabe ouvir sabe agir. Saber ouvir é o melhor tesouro que se pode possuir. E só o nosso coração pode oferecer-nos essa qualidade.

 

O segredo do médico está em conhecer o coração, não é assim? perguntou Néféret.

 

É esse o segredo que te será revelado se fores digna de o receber.

 

Gostaria de ir descansar.

 

É o que deves fazer.

 

Bravo coçou o olho; Néféret apercebeu-se da sua aflição.

 

Penso que está a sofrer diz Paser. O cão deixou-se examinar.

 

Não é nada de grave concluiu ela; basta pôr-lhe um colírio e isso passa.

 

Branir foi logo buscar o remédio; as infecções oftalmológicas são frequentes e não faltam remédios para as curar. O produto fez efeito rapidamente; o olho de Bravo desinchou enquanto a jovem o acariciava. Pela primeira vez, Paser teve ciúmes do seu cão. Procurou uma forma de a fazer demorar-se, mas teve de se contentar em cumprimentá-la quando saiu.

 

Branir serviu uma cerveja excelente, feita na véspera.

 

Pareces cansado; não te deve faltar trabalho.

 

Tenho tido problemas com um tipo chamado Qadash.

 

O dentista das mãos vermelhas... é um homem atormentado e mais vingativo do que realmente parece.

 

Penso que é culpado no rapto de um camponês.

 

Tens provas consistentes?

 

Não, só meras conjecturas.

 

Tens de ser mais rigoroso nas tuas diligências, pois os teus superiores não perdoam faltas de exactidão.

 

Dás frequentemente aulas a Néféret?

 

Transmito-lhe a minha experiência, pois tenho confiança nela.

 

Ela nasceu em Tebas.

 

É filha única de um fabricante de ferrolhos e de uma tecedeira; conheci-a quando tratava deles. Fez-me mil e uma perguntas, e eu encorajei a sua vocação inata.

 

Uma mulher médica... não vai ter muitos obstáculos para ultrapassar?

 

Inimigos também; mas a sua coragem não é menor que a sua doçura. O médico-chefe da corte está à espera que ela reprove, e ela sabe-o.

 

Um adversário de respeito!

 

Ela está consciente disso; uma das suas maiores qualidades é a tenacidade.

 

É casada?

 

Não.

 

Tem noivo?

 

Que eu saiba, nada de oficial.

 

Paser passou a noite em claro. Não conseguiu deixar de pensar nela; de ouvir a sua voz; de sentir o seu perfume; de engendrar mil e uma estratégias para a rever, sem encontrar uma solução satisfatória. Vezes sem conta a angústia se apoderou dele. Será que ele lhe era indiferente? Néféret não tinha demonstrado a mínima atracção, só um vago interesse pela sua profissão. Até a justiça ficava com um gosto amargo; como podia continuar a viver sem ela, como podia aceitar a sua ausência? Paser nunca tinha acreditado que o amor fosse uma torrente tão arrebatadora, capaz de arrastar diques e de se apoderar do ser na sua totalidade.

 

Bravo apercebeu-se do desassossego do dono; os seus olhos transmitiram-lhe uma ternura que, embora Paser a tenha sentido, não era suficiente para apaziguar o seu tumulto interior. Paser sentiu-se com remorsos por fazer o cão ficar triste; se pudesse escolher, preferiria contentar-se com esta amizade desprovida de nuances, mas não conseguia resistir ao olhar de Néféret, ao seu rosto límpido, ao turbilhão de sentimentos que ela lhe provocava.

 

O que devia fazer? Esconder este sentimento seria o mesmo que condenar-se ao sofrimento. Declarar-lhe a sua paixão era arriscar-se a uma recusa que o levaria ao desespero. Tinha de a conquistar, de a seduzir; mas que subterfúgios possuía ele, um simples juiz de bairro sem fortuna?

 

O nascer do Sol não apaziguou os seus tormentos, mas incitou-o a embrenhar-se no seu papel de magistrado. Deu de comer ao Bravo e ao Vento do Norte, e confiou-lhes o escritório, convencido de que o escrivão chegaria atrasado. Munido de um cesto em papiro, que continha tabuinhas, um estojo com pincéis e tinta já preparada, dirigiu-se para as docas.

 

No cais estavam vários barcos que eram descarregados por marinheiros sob as ordens de um cabo. Após ter sido colocada uma prancha a servir de ponte, os homens, com compridas varas atravessadas sobre o ombro, às quais amarravam com cordas sacos, cabazes e seiras, desciam o plano inclinado. Os mais robustos carregavam pesados pacotes às costas.

 

Paser dirige-se ao cabo.

 

Onde posso encontrar Denes?

 

O patrão? Por aí!

 

As docas não são dele?

 

As docas, não, mas um grande número de barcos, sim! Denes é o transportador mais importante de Mênfis e um dos homens mais ricos da cidade.

 

Onde poderei encontrá-lo?

 

Ele só cá vem quando chega um dos grandes navios de carga... Procura-o na doca central. Acabou de atracar uma das suas embarcações.

 

Com uns cinquenta metros, o enorme navio podia transportar mais de seiscentas e cinquenta toneladas. De fundo chato, o barco era composto por inúmeras tábuas cortadas na perfeição e unidas como tijolos; as do revestimento do casco eram muito grossas e ligadas por correias de couro. Uma vela de grandes dimensões tinha sido içada num mastro trípode, desmontável e firmemente amarrado. O capitão mandava tirar o manto de juncos preso à proa e descer a âncora redonda.

 

Quando Paser quis subir a bordo, um marinheiro barrou-lhe a passagem.

 

Não pertences à tripulação.

 

Sou o juiz Paser.

 

O marinheiro desviou-se e o juiz atravessou o passadiço até à cabine do capitão, um homem mal-humorado de cinquenta e tal anos.

 

Gostaria de falar com Denes.

 

O patrão, aqui a esta hora? Nem penses!

 

Trago uma queixa dentro dos requisitos legais.

 

A que propósito?

 

Denes cobra uma taxa nas descargas dos navios que não lhe pertencem, o que é ilegal e injusto.

 

Ah! Essa velha história! É um privilégio que o patrão tem, concedido pela administração; é habitual todos os anos emitirem uma queixa. Não tem qualquer importância: podes deitá-la ao rio.

 

Onde é que ele mora?

 

Na maior vivenda que há atrás das docas, na entrada da zona dos palácios.

 

Sem o burro, Paser tem alguma dificuldade em orientar-se; sem o babuíno-polícia ele tem de enfrentar o grupo de comadres em grande discussão à volta de vendedores ambulantes.

 

A enorme vivenda de Denes era vedada por muros altos e guardada por um polícia armado com um bastão, na entrada monumental. Paser apresentou-se e pediu para ser recebido. O porteiro transmitiu o pedido a um intendente, que veio buscar Paser uns dez minutos mais tarde.

 

Quase não teve tempo de apreciar a beleza do jardim, o encanto do lago de recreio e a sumptuosidade dos canteiros de flores, pois foi conduzido directamente a Denes, que tomava o pequeno-almoço numa ampla sala com quatro colunas, com as paredes decoradas com cenas de caça.

 

Com a idade de cinquenta anos, o transportador era um homem robusto, atarracado, de rosto quadrado, bastante grosseiro, orlado por um fino colar de barba branca. Sentado numa poltrona com patas de leão, era ungido com um óleo fino por um criado solícito, enquanto um segundo criado lhe arranjava as unhas. Um terceiro penteava-o, um quarto friccionava-lhe os pés com um unguento perfumado e um quinto lia-lhe a ementa.

 

Juiz Paser! Que bons ventos te trazem?

 

Uma queixa.

 

Já tomaste o pequeno-almoço? Eu ainda não.

 

Denes mandou sair os criados; logo em seguida, entraram dois cozinheiros que traziam pão, cerveja, pato assado e bolos de mel.

 

Serve-te.

 

Não, obrigado.

 

Um homem que não se alimenta bem de manhã não trabalha bem durante todo o dia.

 

Fizeram uma queixa muito grave contra ti.

 

O quê!?

 

A voz de Denes perdia toda a nobreza; acentuando-se por vezes mais nos agudos, traduzia um nervosismo que contrastava com a aparência da personagem.

 

Cobras uma taxa iníqua sobre as descargas e suspeita-se que cobras também um imposto ilegal às populações ribeirinhas dos dois desembarcadouros estatais, que usas frequentemente.

 

Isso é habitual. Não te preocupes. O teu antecessor preocupava-se tanto quanto o juiz principal da província. Esquece isso e come um lombinho de pato.

 

Creio que seja impossível. Denes parou de mastigar.

 

Não tenho tempo para me preocupar com essas coisas. Vai falar com a minha esposa; ela te provará que estás a dar demasiada importância ao caso.

 

O transportador com um estalar de dedos chamou um intendente.

 

Acompanha o juiz ao gabinete da senhora Nénophar. Denes concentrou-se no seu pequeno-almoço.

 

Nénophar era uma mulher de negócios. Escultural, ligeiramente nutrida, petulante, vestida à última moda, usava uma pesada e majestosa peruca negra toda de tranças; trazia uma gargantilha de turquesa, um colar de ametista, pulseiras de prata muito caras e uma rede de pérolas verdes sobre o seu longo vestido. Proprietária de grandes extensões de terra produtiva, de várias casas e de uma vintena de quintas, dirigia ainda uma equipa de agentes comerciais que vendiam diversos produtos no Egipto e na Síria. Controladora dos armazéns reais, inspectora do Tesouro Público, intendente da fazenda do palácio, tinha sucumbido ao charme de Denes, bem menos abastado que ela. Considerando-o um mero administrador, tinha-lhe atribuído a direcção do transporte de mercadorias. Deste modo, o marido viajava bastante, alargando o vasto leque de relações sociais, as quais lhe possibilitavam entregar-se ao seu maior prazer: longas conversas regadas com bom vinho.

 

Ela observou com desdém o jovem juiz que ousava aventurar-se no seu feudo. Chegara-lhe aos ouvidos que este camponês ocupava agora o lugar do falecido magistrado com o qual mantinha uma excelente amizade. Com certeza era uma visita de cortesia: excelente ocasião para o meter na linha.

 

Mesmo não sendo bonito, ele tinha um ar elegante; o seu rosto era fino e sério, o seu olhar profundo. Ela apercebeu-se, contrariada, de que ele não se inclinava como um vassalo perante o suberano.

 

Foste destacado recentemente para Mênfis?

 

Exactamente.

 

As minhas sinceras felicitações; é um posto que augura uma carreira brilhante. Por que razão me querias falar?

 

Trata-se de uma taxa cobrada indevidamente que...

 

Estou ao corrente, e o Tesouro também.

 

Então reconheces que a queixa tem fundamento.

 

Todos os anos emitem uma queixa que é anulada de imediato; possuo um direito adquirido.

 

Não está em conformidade com a lei, muito menos com a justiça.

 

Devias estar mais resignado à amplitude do meu poder, juiz Paser, e, enquanto inspectora do Tesouro Público, anulo esse tipo de queixa. Os interesses comerciais do país não devem ser afectados por um processo antiquado.

 

Abusas então dos teus poderes?

 

Quantas palavras vazias de conteúdo! Vê-se bem que não tem qualquer experiência da vida, meu jovem.

 

Agradeço que te abstenhas de qualquer tipo de familiaridade, ou terei de recordar-te que te interrogo a título oficial?

 

Nénophar não ignora o aviso. A um juiz, mesmo modesto, não lhe faltavam poderes.

 

Estás bem instalado em Mênfis? Paser não respondeu.

 

Disseram-me que a tua casa não era muito confortável; como tu e eu vamos ser amigos, podia alugar-te, por um preço módico, uma vivenda agradável.

 

Contentar-me-ei com o alojamento que me atribuíram. O sorriso congelou-se nos lábios de Nénophar.

 

Essa queixa é grotesca, acredita.

 

No entanto reconheceste os factos.

 

Mas tu não serias capaz de desrespeitar uma ordem dada por um superior teu.

 

Se ele estiver enganado, não hesitarei um minuto sequer.

 

Não te iludas, juiz Paser. Não és assim tão poderoso.

 

Estou consciente disso.

 

Então, estás mesmo decidido a investigar essa tal queixa?

 

Serás intimada a comparecer no meu escritório.

 

Faz o favor de te retirares. Paser obedeceu.

 

Furiosa, Nénophar irrompeu nos aposentos do marido. Denes experimentava uma nova tanga de panos largos.

 

Já domaste o juizeco?

 

Não, idiota! É uma verdadeira fera.

 

Tu és muito pessimista; basta oferecer-lhe alguns presentes.

 

É inútil. Em vez de te pavoneares por aí, vê se tratas dele Temos que o matar o mais rapidamente possível.

 

 

É aqui, disse Kem.

 

Tens a certeza? perguntou Paser, estupefacto.

 

Sem dúvida; esta é mesmo a casa do guardião-mor da esfinge.

 

Porquê tanta certeza? O núbio sorriu.

 

Graças ao meu babuíno, as línguas soltaram-se. Quando ele mostra as garras, até os mudos falam.

 

Esses teus métodos...

 

São eficazes. Querias resultados e aí os tens.

 

Os dois homens observavam o subúrbio mais miserável da grande cidade. Aqui comia-se muito bem, como em todo o Egipto, mas havia numerosos casebres deteriorados e a higiene deixava muito a desejar. Viviam ali sírios, que tinham esperança de arranjar trabalho, camponeses que vinham fazer fortuna na cidade e que depressa ficavam desencantados, e viúvas sem grandes recursos. O bairro não era certamente o mais adequado para o guardião-mor da mais famosa esfinge do Egipto.

 

Vou interrogá-lo.

 

O sítio não é muito seguro; não te devias aventurar sozinho.

 

Como queiras.

 

Paser, admirado, verificou que as portas e as janelas iam-se fechando à sua passagem. A hospitalidade, tão cara ao coração dos egípcios, não parecia faltar neste terreno. O babuíno nervoso avançava com passo irregular. O núbio não parava de perscrutar os telhados.

 

Que receias?

 

Um arqueiro.

 

Porque atentariam contra nós?

 

O investigador és tu; se viemos aqui parar, é porque o assunto é obscuro. Eu, no teu lugar, desistiria.

 

A porta em madeira parecia sólida. Paser bateu. No interior alguém se mexeu, mas não respondeu.

 

Abre, sou o juiz Paser.

 

Fez-se silêncio. Forçar a entrada de um domicílio sem autorização era delito; o juiz debatia-se com a sua consciência.

 

Achas que o teu babuíno...

 

O Matador é ajuramentado; a sua alimentação é fornecida pela administração e nós devemos dar explicações dos seus passos.

 

A prática é bem diferente da teoria.

 

Bem dito, avaliou o núbio.

 

A porta não resistiu muito tempo ao grande babuíno, cuja força surpreendeu Paser; era bom que ele estivesse do lado da lei.

 

As duas divisões pequenas estavam mergulhadas na escuridão, por causa das esteiras que tapavam as janelas. O chão era de terra batida, havia uma arca para a roupa branca, uma outra para a loiça, uma esteira para se sentarem, e um estojo com artigos de higiene: conjunto modesto mas decente.

 

A um canto da segunda divisão escondia-se na terra uma mulherzinha de cabelos brancos, vestida com uma túnica castanha.

 

Não me batas, implorou ela; eu não disse nada, juro-te.

 

Fica sossegada; eu gostaria de te ajudar.

 

Ela aceitou a mão do juiz, levantou-se e, de repente, o medo tomou conta do seu olhar.

 

O macaco! Ele vai fazer-me em pedaços.

 

Não, sossegou-a Paser; é da polícia. És a mulher do guardião-mor da esfinge?

 

Sou...

 

A voz quase não se ouvia. Paser convidou-a a sentar-se na esteira e colocou-se à frente dela.

 

Onde está o teu marido?

 

Ele... ele partiu em viagem.

 

Porque deixou ele o emprego?

 

Porque se demitiu.

 

Estou a tratar da regularização da transferência dele, revelou Paser; os documentos oficiais não mencionam nenhuma demissão.

 

Talvez eu esteja enganada.

 

O que é que se passou? perguntou o juiz com doçura. Quero que saibas que não sou teu inimigo; se te puder ser útil, agirei.

 

Quem te mandou aqui?

 

Ninguém. Investigo por conta própria, para não confirmar uma decisão que não compreendo.

 

Os olhos da velha senhora encheram-se de lágrimas.

 

Estás a ser... sincero?

 

Pela vida do faraó.

 

O meu marido faleceu.

 

Tens a certeza?

 

Os soldados garantiram-me que seria enterrado conforme os ritos. Mandaram-me mudar de casa e instalar-me aqui. Se ficar calada, receberei uma pequena pensão até ao fim da minha vida.

 

Que te revelaram eles sobre as circunstâncias da sua morte?

 

Um acidente.

 

Descobrirei a verdade.

 

Não tem importância.

 

Deixa-me levar-te para um lugar seguro.

 

Vou ficar aqui à espera da morte. Vai-te embora, suplico-te.

 

Nébamon, médico-chefe da corte do Egipto, podia estar orgulhoso de si mesmo. Já passava dos sessenta anos e continuava a ser um homem bonito e forte; o rol das suas conquistas femininas ia continuar a alongar-se ainda por muito tempo Coberto de títulos e distinções honrosas, passava mais tempo em recepções e banquetes do que no consultório, onde médicos ainda jovens e ambiciosos trabalhavam para ele. Cansado do sofrimento dos outros, Nébamon tinha escolhido uma especialidade divertida e rendável: a cirurgia plástica. As belas senhoras desejavam apagar qualquer imperfeição para permanecerem deslumbrantes e fazer empalidecer de ciúmes as suas rivais; e só Nébamon podia dar-lhes uma nova juventude e preservar os seus encantos.

 

O médico-chefe pensava na magnífica porta de pedra que, por favor especial do faraó, iria adornar a entrada do seu túmulo; fora o próprio soberano quem tinha pintado os umbrais de azul escuro, com grande prejuízo dos cortesãos que sonhavam com semelhante privilégio. Adulado, rico, célebre, Nébamon tratava príncipes estrangeiros, prontos a depositar nas suas mãos honorários muito elevados; antes de aceitar um pedido, fazia longas investigações e só concedia as consultas a pacientes aflitos, com males benignos e fáceis de curar. Um erro iria denegrir a sua reputação.

 

O seu secretário particular anunciou-lhe a chegada de Néféret.

 

Manda-a entrar.

 

A jovem irritava Nébamon, pois tinha recusado fazer parte da sua equipa. Humilhado, só pensava em vingar-se. Se ela obtivesse o direito de exercer, ele trataria de a privar de qualquer poder administrativo e de a afastar da corte. Alguns afirmavam que ela possuía a faculdade inata da medicina e que o seu dom para a radiestesia lhe permitia ser rápida e precisa; só por essa razão, ele conceder-lhe-ia uma última hipótese antes de dar início às hostilidades e de a remeter a uma existência medíocre. Ou ela se submetia ou ele a destruiria.

 

Mandaste-me chamar?

 

Tenho uma proposta a fazer-te.

 

Parto para Sais depois de amanhã.

 

Estou ao corrente, mas a tua intervenção seria breve.

 

Néféret era na verdade muito bela; Nébamon sonhava com uma amante assim jovem e deliciosa, que ele exibiria na sociedade mais fina. Mas a sua nobreza natural e a vida que emanava dela impediam-no de a elogiar com as costumeiras parvoíces, tão vulgares quanto eficazes; seduzi-la era sem dúvida uma tarefa difícil, mas particularmente excitante.

 

A minha cliente é um caso interessante prosseguiu ele: uma burguesa, de uma família numerosa e muito abastada, de boa reputação.

 

Que lhe aconteceu?

 

Um feliz acontecimento: vai-se casar.

 

E isso é doença?

 

O marido impôs uma condição: remodelar as partes do corpo dela que não lhe agradam. Algumas partes são fáceis de modificar; eliminaremos a gordura aqui e ali, conforme as instruções do marido. Tirar um pouco às coxas, diminuir as bochechas e pintar os cabelos vai ser fácil.

 

Nébamon não precisou o que tinha recebido, em troca da sua intervenção: dez boiões de unguento e de perfumes raros, uma fortuna que excluía um erro.

 

A tua colaboração iria dar-me grande alegria, Néféret; tens a mão muito segura. Além disso dar-te-ia uma carta de recomendação que te seria muito útil. Aceitas ver a minha paciente?

 

Usava o tom mais enganador que conseguia; e, sem dar tempo a Néféret para responder, mandou entrar a senhora Silkis. Aflita, ela escondia a cara.

 

Não quero que olhem para mim disse ela com voz de menina aflita; sou muito feia!

 

O corpo estava cuidadosamente dissimulado num vestido largo; a senhora Silkis tinha formas roliças.

 

Que tipo de alimentação fazes? perguntou Néféret.

 

Eu... eu não tenho cuidado.

 

Gostas de bolos?

 

Muito.

 

Comer menos bolos seria benéfico; posso examinar o teu rosto?

 

A doçura de Néféret venceu a indecisão de Silkis, que baixou as mãos.

 

Pareces ser muito jovem.

 

Tenho vinte anos.

 

A cara enfeitada era, certamente, um pouco bochechuda, mas não aparentava nem horror nem desgosto.

 

Porque não te aceitas tal como és?

 

O meu marido tem razão, sou horrorosa! Devo agradar-lhe.

 

Não te parece que é uma submissão demasiado grande?

 

Ele é tão forte... E eu prometi!

 

Convence-o de que ele está errado. Nébamon sentiu a cólera a invadi-lo.

 

Não temos de julgar os motivos dos pacientes interveio ele secamente. A nossa função é satisfazer os seus desejos.

 

Recuso-me a fazer sofrer inutilmente esta jovem.

 

Sai já daqui.

 

Com todo o prazer.

 

Vais arrepender-te do teu comportamento, Néféret.

 

Creio estar a ser fiel ao ideal da medicina.

 

Tu não sabes nada, e nada obterás. A tua carreira terminou.

 

O escrivão larrot tossicou; Paser levantou a cabeça.

 

Algum aborrecimento?

 

Uma convocação.

 

Para mim?

 

Sim. O Ancião do vestíbulo quer ver-te imediatamente. Constrangido, Paser pousou o pincel e a paleta.

 

À frente do palácio real, tal como à frente de cada templo, era construído um pequeno vestíbulo em madeira onde um magistrado fazia justiça. Ele ouvia as queixas, distinguia a verdade da corrupção, protegia os fracos e salvava-os dos poderosos.

 

O Ancião exercia a justiça à frente da residência do soberano a edícula, sustida por quatro pilares e encostada à fachada, tinha a forma de um grande quadrilátero, no fundo do qual se encontrava a sala de audiências. Quando o vizir ia a casa do faraó, nunca perdia a oportunidade de conversar com o Ancião.

 

A sala de audiências estava vazia. Sentado numa cadeira de madeira dourada, vestido com uma tanga em forma de avental, o magistrado mostrava um semblante franzido. Todos conheciam o seu carácter fechado e o vigor das suas resoluções.

 

És o juiz Paser?

 

O jovem inclinou-se com respeito; encarar o juiz mais importante da província angustiava-o. Esta convocação repentina e esta conversa pessoal não eram um bom presságio.

 

Um início de carreira tonitruante apreciou o Ancião. Estás satisfeito?

 

Algum dia estarei? O meu sonho mais caro era que a humanidade se tornasse honesta e que os escritórios dos juizes desaparecessem; mas esse sonho de menino vai-se esfumando.

 

Já ouvi falar muito de ti, apesar de estares em Mênfis há pouco tempo. Estás bem consciente dos teus deveres?

 

São toda a minha vida.

 

Trabalhas muito e depressa.

 

Não o suficiente, a meu ver; logo que perceba melhor as dificuldades da minha função, serei mais eficiente.

 

Eficiente... Que significa esse termo?

 

Distribuir a justiça por todos. Não é esse o nosso ideal e a nossa regra?

 

Quem pretende o contrário?

 

A voz do Ancião tornou-se rouca. Levantou-se e começou a andar de um lado para o outro.

 

Não gostei das tuas insinuações a propósito do dentista Qadash.

 

Já suspeitava.

 

Onde está a prova?

 

O meu relatório precisa bem que não a consegui obter; foi por isso que não conduzi nenhuma acção contra ele.

 

Nesse caso, para quê essa agressividade inútil?

 

Para chamar a tua atenção para ele; as tuas informações são, sem dúvida, mais completas que as minhas.

 

O Ancião ficou imóvel, furibundo.

 

Cuidado, juiz Paser! Estás a insinuar que oculto algum dossier?

 

Longe de mim tal ideia; se achar necessário, prosseguirei as minhas investigações.

 

Esquece Qadash. E porque persegues Denes?

 

Nesse caso, o delito é flagrante.

 

A queixa formal feita contra ele não era acompanhada de uma recomendação?

 

”Arquivar sem julgamento”, de facto; por isso me ocupei do assunto em primeiro lugar. Jurei a mim mesmo rejeitar este género de práticas com o mesmo vigor da última vez.

 

Sabias que fui eu o autor desse... conselho?

 

Compete-lhe a si dar o exemplo e não se aproveitar da sua riqueza para explorar os humildes.

 

Estás a esquecer-te das necessidades económicas.

 

No dia em que elas ultrapassarem a justiça, o Egipto estará condenado à morte.

 

A réplica de Paser abalou o Ancião. Quando jovem, também ele tinha emitido essa opinião, com o mesmo entusiasmo. Depois, tinham vindo os casos difíceis, as promoções, as conciliações necessárias, as disposições, a idade madura...

 

Que tens a censurar a Denes?

 

Tu sabes bem.

 

Achas que o comportamento dele justifica uma condenação?

 

A resposta é evidente.

 

O Ancião do vestíbulo não podia revelar a Paser que tinha acabado de estar a conversar com Denes e que o transportador lhe tinha pedido para transferir o jovem juiz.

 

Estás decidido a levar o inquérito por diante?

 

Sim.

 

Sabes que posso enviar-te de imediato para a tua aldeia?

 

Sim, sei.

 

E esta perspectiva não modifica o teu ponto de vista?

 

Não.

 

Serás inacessível a todas as formas de raciocínio?

 

Trata-se apenas de uma tentativa de influência. Denes é um trapaceiro; beneficia de privilégios injustificáveis... Visto que o caso dele é da minha competência, porque é que o iria negligenciar?

 

O Ancião reflectiu. Frequentemente, ele respondia categoricamente, com a convicção de servir o seu país; a atitude de Paser trazia-lhe à memória tantas outras situações, que se via no lugar deste jovem juiz desejoso de exercer a sua função sem tibiezas. O futuro encarregar-se-ia de lhe dissipar as ilusões; mas seria injustiça deixá-lo tentar o impossível?

 

Denes é um homem rico e poderoso; a sua mulher é uma mulher de negócios de grande reputação. Graças a eles, o transporte de materiais efectua-se de maneira regular e satisfatória; para quê perturbá-lo?

 

Não me ponhas no papel de acusado. Se Denes for condenado, os barcos de carga não vão por isso deixar de subir e descer o Nilo.

 

Depois de um longo silêncio, o Ancião sentou-se.

 

Faz o teu trabalho como entenderes.

 

 

Há dois dias que Néféret meditava num quarto da célebre escola de medicina de Sais, no Delta, onde os futuros praticantes eram submetidos a uma prova cuja natureza nunca tinha sido revelada. Muitos falhavam; num país em que a esperança de vida ia até aos oitenta anos, o serviço de saúde dependia do recrutamento de elementos de valor.

 

Conseguiria a jovem realizar o seu sonho lutando contra o mal? Ela conhecia muitos fracassos, mas não iria renunciar a combater o sofrimento. Além disso, ainda era preciso satisfazer as exigências do tribunal de Sais.

 

Um sacerdote tinha-lhe trazido carne seca, tâmaras e manuscritos médicos que tinha lido e relido; algumas noções começavam a baralhar-se na sua mente. Ora inquieta, ora confiante, tinha-se refugiado na meditação, contemplando o vasto jardim plantado de alfarrobeiras que havia à volta da escola.

 

Quando o Sol se escondeu, o guarda da mirra, farmacêutico especializado em fumigações, veio buscá-la. Levou-a para o laboratório e deixou-a na presença de muitos colegas. Cada um pediu a Néféret que executasse uma receita, preparasse remédios, avaliasse...

 

Nota: Esta árvore dava um fruto, a alfarroba, uma vagem que continha um suco muito doce, que encarnava por excelência, aos olhos dos egípcios, a doçura. (N do A.)

 

...a toxicidade de uma droga, identificasse substâncias complexas, relatasse detalhadamente a colheita de várias plantas, da goma-resina e do mel. Ela ficou várias vezes perturbada e foi obrigada a recorrer aos recônditos da memória.

 

Ao fim de um interrogatório de cinco horas, quatro dos cinco farmacêuticos deram-lhe um voto positivo. O que se opôs explicou a sua atitude: Néféret enganou-se em duas dosagens. Sem mostrar piedade pela sua fadiga, exigiu continuar a pôr à prova os seus conhecimentos. Se ela recusasse, teria de deixar Sais.

 

Néféret não fraquejou, suportou as investidas do detractor sem deixar esmorecer a sua doçura habitual. Foi ele quem cedeu primeiro.

 

Ela, sem ter recebido a mínima felicitação, refugiou-se no seu quarto e adormeceu logo que se estendeu na esteira.

 

O farmacêutico que a tinha tão duramente posto à prova, acordou-a de madrugada.

 

Tens o direito de continuar; ainda queres?

 

Estou à tua disposição.

 

Tens meia-hora para a purificação e para o pequeno-almoço. Aviso-te de que a prova seguinte é perigosa.

 

Não tenho medo.

 

Reflecte bem.

 

À porta do laboratório, o farmacêutico repetiu o aviso.

 

Leva a sério as minhas advertências.

 

Não vou voltar atrás.

 

Se é essa a tua vontade... Pega nisto. E deu-lhe um pau bifurcado.

 

Entra no laboratório e prepara um remédio com os ingredientes que descobrires.

 

O farmacêutico fechou a porta atrás de Néféret.

 

Em cima de uma mesa baixa, encontravam-se pequenos frascos, cadinhos e jarros; no canto mais afastado, no parapeito da janela, estava um cesto fechado. Ela aproximou-se. Os filamentos da tampa estavam suficientemente espaçados para que ela pudesse ver o conteúdo.

 

Aterrorizada, recuou.

 

Era uma serpente de chifres.

 

A mordedura era mortal, mas o veneno fornecia a base de remédios muito activos contra hemorragias, problemas de origem nervosa e doenças cardíacas. Assim, compreendeu o que o farmacêutico esperava.

 

Depois da respiração ter regularizado, levantou a tampa com uma mão, que não tremia nem um pouco. Prudente, a serpente não saiu de imediato da sua toca; concentrada, imóvel, Néféret observou-a a transpor a borda da cesta e a rastejar pelo chão. Com um metro de comprimento, o réptil deslocava-se depressa; os dois chifres pareciam sair-lhe da cabeça, ameaçadores.

 

Néféret apertou o pau com todas as suas forças, deslocou-se para o lado esquerdo da serpente e tentou fixar-lhe a cabeça na bifurcação. Fechou os olhos por um instante; se falhasse, a víbora subiria pelo pau acima e mordê-la-ia.

 

O corpo da serpente agitava-se, furioso. Tinha-se saído bem.

 

Néféret ajoelhou-se e agarrou a víbora por trás da cabeça. Ia obrigá-la a cuspir o seu precioso veneno.

 

No barco que a levava para Tebas, Néféret quase não teve tempo de descansar. Muitos médicos fatigavam-na com perguntas sobre as suas respectivas especialidades, que ela tinha praticado durante os estudos.

 

Néféret adaptava-se bem a novas situações; nas circunstâncias mais imprevistas, não vacilava, aceitava os sobressaltos do mundo, as variações dos seres, e pouco se interessava por si mesma, para melhor perceber as forças e mistérios. Tinha o gosto pela felicidade, mas a adversidade não lhe desagradava; através dela, a jovem procurava uma alegria futura dissimulada na desgraça.

 

Em nenhum momento sentiu animosidade contra os que a atormentaram; não a tinham ajudado eles a construir e a provar a solidez da sua vocação?

 

Rever Tebas, a sua cidade natal, foi um enorme prazer; o céu parecia-lhe mais azul do que em Mênfis, o ar mais suave. Um dia voltaria a viver aqui, junto dos pais, e voltaria a passear nos campos onde passara a meninice. Pensava na sua macaca, que tinha deixado com Branir, esperando que ela respeitasse o velho mestre e se mostrasse menos endiabrada.

 

Dois sacerdotes de cabeça rapada abriram-lhe a porta do recinto onde tinham sido erguidos muitos santuários, dentro dos altos muros. Era lá, sob o domínio da deusa Mut, cujo nome significava simultaneamente ”mãe” e ”morte”, que os médicos recebiam a sua investidura.

 

O superior recebeu a jovem.

 

Recebi os relatórios da escola de Sais; se desejares podes continuar.

 

É o que desejo.

 

A decisão final não pertence aos humanos. Vai recolher-te, pois vais comparecer perante um juiz que não é deste mundo.

 

O superior passou pelo pescoço de Néféret uma corda de treze nós e pediu-lhe que se ajoelhasse.

 

O segredo do médico, revelou ele, é o conhecimento do coração; dele partem todos os vasos visíveis e invisíveis que chegam a todos os órgãos e a todos os membros. É por isso que o coração fala no corpo todo; quando auscultares um paciente, ao pores a mão na sua cabeça, na nuca, nos braços, nas pernas, ou em qualquer outra parte do corpo, procura em primeiro lugar a voz do coração e as pulsações. Certifica-te de que está sólido na base, que não se alonga, não enfraquece e que palpita normalmente. Certifica-te de que os canais percorrem todo o corpo e transportam as energias subtis, tal como o ar, o sangue, a água, as lágrimas, o sémen ou as matérias fecais; avalia tudo isso pela pureza dos vasos e da linfa. Se a doença aparece, é porque existe...

 

Nota: O texto do ”segredo do médico” era conhecido por todos os praticantes e era a base da sua ciência. (N. do A)

 

...um funcionamento irregular da energia; para além dos efeitos, investiga a causa. Sê sincera com os pacientes e dá-lhes um dos três diagnósticos possíveis: é uma doença que conheço e vou tratar; é uma doença que vou tentar combater; é uma doença contra a qual nada posso fazer. Segue o teu destino.

 

O santuário estava em silêncio.

 

Sentada sobre os calcanhares, com as mãos sobre os joelhos e de olhos fechados, Néféret esperava. O tempo já não existia. Através da meditação, dominava a ansiedade. Como podia não confiar na confraria dos sacerdotes médicos que, desde as origens do Egipto, consagravam a vocação dos curandeiros?

 

Dois sacerdotes levantaram-na; à sua frente abriu-se uma porta de cedro, que dava acesso a uma capela. Os dois homens não a acompanharam. Ausente de si mesma, para além do medo e da esperança, Néféret penetrou num compartimento oblongo, mergulhado nas trevas.

 

A pesada porta fechou-se atrás de si.

 

No mesmo instante, Néféret sentiu a presença de alguém que a observava, mas que estava tapado pela escuridão do compartimento. De braços caídos ao longo do corpo, com a respiração ofegante, a jovem não cedeu à loucura. Tinha chegado até aqui sozinha, e sozinha se ia defender.

 

De repente, um raio de luz desceu do tecto do templo e iluminou uma estátua em diorite encostada à parede do fundo. Representava a deusa Sekhmet, que não tinha sido destruída, a aterradora leoa que, em cada fim de ano, tentava destruir a humanidade contaminando as hordas de miasmas com doenças e germes nocivos. Estes germes percorriam a terra para espalhar a infelicidade e a morte. Só os médicos podiam opor-se à temível divindade que também era sua padroeira; ela só lhes ensinava a arte de curar e o segredo dos remédios.

 

Nenhum mortal, tinham dito bastantes vezes a Néféret, olhava de frente a deusa Sekhmet, sob pena de perder a vida.

 

Deveria ter baixado os olhos, desviado o olhar da estátua extraordinária, do focinho da leoa furiosa, mas enfrentou-a.

 

Néféret observou Sekhmet.

 

Suplicou à divindade que descobrisse nela a sua vocação, que descesse ao mais profundo do seu coração e julgasse a sua autenticidade. O raio de luz intensificou-se e iluminou toda a figura de pedra, cuja força natural esmagou a jovem.

 

O milagre deu-se. A temível leoa sorriu.

 

O colégio de médicos de Tebas estava reunido na grande sala das colunas; no centro havia um lago. O superior aproximou-se de Néféret.

 

Tens a certeza de que queres lutar contra as doenças?

 

A deusa foi testemunha do meu juramento.

 

Os conselhos que se dão aos outros aplicam-se em primeiro lugar a nós mesmos.

 

O superior colocou à sua frente uma taça cheia de um líquido avermelhado.

 

Eis um veneno. Depois de o beberes, vai identificá-lo e fazer o diagnóstico. Se estiver correcto podes recorrer ao antídoto certo. Se estiver errado, morrerás. A lei de Sekhmet terá desta forma preservado o Egipto de um mau médico.

 

Néféret aceitou a taça.

 

Podes recusar-te a beber; mas terás de deixar esta assembleia.

 

Ela bebeu lentamente o líquido de gosto amargo, tentando descobrir imediatamente a sua natureza.

 

Nota: Os árabes não destruíram esta estátua de Sekhmet porque ela os aterrorizava; chamavam-lhe ”a ogre de Carnaque”. Hoje, ainda se pode admirar esta estátua numa das capelas do templo de Ptah. (N. do A.)

 

A procissão fúnebre, seguida por carpideira, percorreu o recinto do templo e começou a descer em direcção ao rio. Um boi puxava o carro sem rodas onde tinha sido colocado o sarcófago.

 

Do alto do templo, Néféret assistia ao jogo da vida e da morte.

 

Enfraquecida, apreciava as carícias do sol na sua pele.

 

Ainda vais sentir frio mais algumas horas; mas não vai ficar nenhum vestígio do veneno no teu organismo, A tua rapidez e precisão impressionaram bastante todos os nossos colegas.

 

Tinhas-me salvado, se eu me tivesse enganado?

 

Quem se preocupa com os outros deve ser impiedoso consigo mesmo. Logo que estiveres restabelecida, vais regressar a Mênfis e começar a trabalhar pela primeira vez. Pela vida fora, não te faltarão emboscadas. Uma terapeuta tão jovem e tão dotada vai certamente suscitar invejas. Não sejas imprudente nem ingénua.

 

Por cima do templo brincavam algumas andorinhas. Néféret pensava no seu mestre, Branir, o homem que tudo lhe tinha ensinado e a quem devia a vida.

 

 

Paser tinha cada vez mais dificuldades em se concentrar no trabalho: em cada hieróglifo, via o rosto de Néféret.

 

O escrivão trouxe-lhe uma vintena de tabuinhas de argila.

 

É a lista dos operários envolvidos no arsenal, o mês passado; temos de verificar se algum tem registo criminal.

 

Qual é o meio mais rápido de o saber?

 

Consultar os registos da grande prisão.

 

Podes tratar disso?

 

Só amanhã; hoje tenho de ir cedo para casa, porque estou a organizar uma festa para o aniversário da minha filha.

 

Diverte-te, larrot.

 

O escrivão foi-se embora e Paser releu o texto que tinha redigido para convocar Denes e lhe comunicar a acusação. Os olhos enevoaram-se-lhe. Cansado, empurrou o Vento do Norte, que estava encostado à porta do escritório, e foi dar uma volta com Bravo. Foi dar a um bairro calmo, que ficava para os lados da escola dos escribas, onde a futura elite do país aprendia o ofício. O barulho de uma porta cortou o silêncio, seguido de ruídos de vozes e de música mal tocada, em que se misturavam a flauta e o tamborim. As orelhas do cão arrebitaram-se; intrigado, Paser parou. A discussão agravava-se e às ameaças sucederam-se socos e gritos de dor. Bravo, que detestava a violência, encostou-se à perna do dono.

 

A uma centena de metros do local onde Paser tinha parado, um jovem, vestido com um fato de escriba de bom corte, escalou o muro da escola, saltou para a viela e correu até mais não poder na sua direcção, a recitar a letra de uma música lasciva, glorificando as prostitutas. Assim que passou pelo juiz, um raio de luz iluminou-lhe a cara.

 

Suti!

 

O fugitivo parou e voltou-se.

 

Quem me chama?

 

Além de mim, não está aqui mais ninguém.

 

Não tenho muito tempo; querem estripar-me. Vem, temos de fugir!

 

Paser aceitou o convite. Bravo, louco de alegria, lançou-se em desenfreada correria. O cão ficou admirado com a pouca resistência dos dois homens que, passados uns dez minutos, pararam para retomar fôlego.

 

Suti... és mesmo tu?

 

Tal como tu és o Paser. Mais um esforço e estamos em segurança.

 

O trio escondeu-se num armazém vazio, na margem do Nilo, longe da zona patrulhada pelos guardas armados.

 

Esperava encontrar-te um dia destes, mas noutras circunstâncias.

 

Digo-te que estas são extremamente divertidas! Acabei de me evadir desta prisão.

 

Prisão, a grande escola de escribas de Mênfis?

 

Estava a morrer de tédio.

 

No entanto, quando deixaste a aldeia, há cinco anos, querias ser um letrado.

 

Teria inventado qualquer coisa para conhecer a cidade. O único desgosto foi deixar-te, a ti, o meu único amigo, entre aqueles camponeses todos.

 

Lembras-te de como éramos felizes lá em baixo? Suti estendeu-se no chão.

 

Tivemos bons momentos, tens razão... Mas nós crescemos! Divertir-me na aldeia, viver a verdadeira vida não era possível. O meu sonho era Mênfis.

 

Realizaste esse teu sonho?

 

A princípio fui paciente: aprender, trabalhar, ler, escrever, escutar o ensinamento que abre o espírito, conhecer tudo o que existe, o que o criador criou, o que Tot transcreveu, o céu com os seus elementos, a terra e o seu conteúdo, o que escondem as montanhas, o que arrasta a onda, o que faz andar a terra... Que tédio! Por sorte, bem depressa comecei a frequentar os bordéis.

 

Os lugares de deboche?

 

Não sejas moralista, Paser.

 

Tu gostavas mais das escritas do que eu.

 

Ah, os livros e a sabedoria máxima! Há cinco anos que me dizem sempre a mesma coisa. Queres que me junte aos professores, eu também? ”Ama os livros como amas a tua mãe, nada os ultrapassa; os livros dos sábios são as pirâmides, o escritor é o filho delas. Ouve os conselhos dos que sabem mais que tu, lê as palavras que ficam vivas nos livros; torna-te um homem instruído, não sejas nem preguiçoso, nem ocioso, guarda o conhecimento no teu coração”. Então, recitei bem a lição?

 

É soberba.

 

Miragens para cegos.

 

Que se passou esta noite?

 

Suti riu-se às gargalhadas. O rapaz mais agitado e apaixonado, o galhofeiro da aldeia, tinha-se tornado num homem extremamente franco. Com os cabelos pretos bastante compridos, um rosto franco, um olhar directo, uma voz forte, parecia animado de um fogo devorador.

 

Esta noite organizei uma pequena festa.

 

Na escola?

 

Sim, na escola! A maior parte dos meus colegas são ternos, meigos e não têm personalidade; tinham necessidade de beber vinho e cerveja para esquecerem os seus amados estudos. Tocámos música, embebedámo-nos, vomitámos e cantámos!

 

Nota: Suti cita o princípio de um dos livros da sabedoria que os aprendizes de escriba liam e copiavam. (N. do A.)

 

Os melhores alunos tocaram tamborim sobre o ventre e puseram grinaldas de flores. Suti endireitou-se.

 

Este divertimento desagradou aos vigilantes, que invadiram a sala armados de varapaus. Eu defendi-me, mas os meus camaradas denunciaram-me. Tive de fugir.

 

Paser estava aterrado.

 

Vais ser expulso da escola.

 

Tanto melhor! Não fui feito para ser escriba; não prejudicar ninguém, não atormentar o coração, não deixar os outros na pobreza e no sofrimento... Deixo esta utopia aos sábios! Anseio viver uma aventura, Paser, uma grande aventura!

 

Qual?

 

Ainda não sei... Sim, já sei: o exército. Vou viajar e descobrir outros países, outros povos.

 

Vais arriscar a vida.

 

Depois do perigo, ela será mais preciosa. Para quê construir uma existência, uma vez que a morte a vai destruir? Acredita em mim, Paser, é preciso viver o dia-a-dia e ir agarrar o prazer onde ele se encontra. Nós que somos menos que uma borboleta, saibamos ao menos voar de flor em flor.

 

Bravo rosnou.

 

Aproxima-se alguém; temos de ir embora.

 

Tenho a cabeça a andar à roda.

 

Paser estendeu o braço; Suti agarrou-se a ele para se levantar.

 

Apoia-te em mim.

 

Não mudaste nada, Paser. Sempre firme como uma rocha.

 

És meu amigo e eu sou teu amigo.

 

Saíram do armazém, caminharam ao longo do rio e embrenharam-se num labirinto de vielas.

 

Eles não me vão encontrar, graças a ti.

 

O ar da noite dissipou a embriaguez de Suti.

 

Eu já não sou escriba. E tu?

 

Só a custo to vou confessar.

 

És procurado pela polícia.

 

Não exactamente.

 

És contrabandista.

 

Também não.

 

Então, roubas as pessoas honestas.

 

Sou juiz.

 

Suti parou, agarrou na gola de Paser e olhou-o nos olhos.

 

Estás a gozar?

 

Não sou capaz.

 

Esta agora. Juiz... Por Osíris, é inacreditável! Costumas prender os culpados?

 

Tenho esse direito.

 

És um juiz importante ou não?

 

Não, mas exerço em Mênfis. Levo-te para minha casa; lá estarás em segurança.

 

E não estás a violar a lei?

 

Não foi feita nenhuma queixa contra ti.

 

E se surgisse uma?

 

A amizade é uma lei sagrada. Se a traísse tornar-me-ia indigno da minha profissão.

 

Os dois homens estavam muito felizes por se terem reencontrado.

 

Podes contar sempre comigo, Paser; juro-te pela minha vida.

 

Isso não passa de uma repetição, Suti; no dia em que misturámos o nosso sangue, na aldeia, tornámo-nos mais do que irmãos.

 

Diz-me... Tens polícias às tuas ordens?

 

Dois: um núbio e um macaco; tão perigoso um como o outro.

 

Até me fazes calafrios.

 

Fica sossegado: a escola de Mênfis contentar-se-á com a tua expulsão. Trata de não cometeres nenhum delito grave; o assunto escapar-me-ia.

 

Como é bom reencontrar-te, Paser!

 

O cão dava pulos em volta de Suti e, para grande alegria do animal, este desafiou-o para uma corrida; Paser estava muito feliz por eles gostarem um do outro. Bravo era muito educado e Sutitinha um coração muito grande. Era certo que ele não aprovava a sua maneira de viver, nem de pensar, e receava que ambas o levassem a lamentáveis excessos; mas sabia que Suti pensava o mesmo dele. Aliando-se, podiam aproveitar algumas coisas boas dos respectivos caracteres.

 

Como o burro não urrou como sinal de aviso, Suti franziu o sobrolho por causa da demora de Paser; não se deteve no escritório, onde os papiros e as tabuinhas de argila lhe traziam más recordações, e subiu ao primeiro andar.

 

Não é nenhum palácio, constatou ele, mas aqui o ar é respirável. Vives sozinho?

 

Nem pensar; o Bravo e o Vento do Norte vivem às minhas custas.

 

Quero falar-te de uma mulher.

 

Estou assoberbado de trabalho e...

 

Paser, meu amigo! Será que ainda és um jovem... inocente?

 

Creio que sim.

 

Então vamos resolver o assunto. Eu, já não. Na aldeia não tive sorte por causa da vigilância de algumas mulheres malvadas. Aqui, em Mênfis, é o paraíso! Fiz amor pela primeira vez com uma núbia que já tinha tido tantos amantes que não tinha dedos que chegassem para os contar. Quando o prazer me invadiu, acreditei que ia morrer de alegria. Ela ensinou-me a acariciar, a esperar pelo seu próprio prazer e a recobrar forças para entrar em jogos em que ninguém perde. A segunda vez foi a noiva do porteiro da escola; ela queria, antes de se tornar fiel, saborear um rapaz que ainda mal tivesse saído da adolescência. A sua voracidade satisfez-me os desejos. Tinha uns seios magníficos e umas nádegas tão belas quanto as ilhas do Nilo antes da cheia. Ensinou-me artifícios deliciosos e gritámos imenso de prazer. Depois, diverti-me com duas sírias de um bordel. A experiência nunca se repete, é sempre diferente. Paser, as mãos delas eram mais suaves que um bálsamo, e até os pés sabiam roçar a minha pele para me fazerem vibrar.

 

Suti riu-se de novo às gargalhadas; Paser, incapaz de manter um ar digno, participou da alegria do amigo.

 

Sem me querer gabar, fazer a lista das minhas conquistas seria fastidioso. É mais forte do que eu: não posso passar sem o calor do corpo de uma mulher. A castidade é uma doença vergonhosa que precisa de ser tratada com energia. A partir de amanhã ocupo-me do teu caso.

 

Talvez...

 

Um clarão malicioso animou o olhar de Suti.

 

Não aceitas?

 

O trabalho, os dossiers...

 

Nunca soubeste mentir, Paser. Tu, tu tens amor para dar e estás a guardar-te para a tua amada.

 

Ordinário, quem formula as acusações sou eu.

 

Não é uma acusação! Não acredito no grande amor, mas contigo tudo é possível. Seres juiz e meu amigo, demonstra-o bem. Como se chama essa maravilha?

 

Eu... Ela não sabe de nada. É provável que esteja iludido.

 

Casada?

 

Nem penses nisso.

 

Sim, justamente. Uma boa esposa não consta do meu catálogo, Não irei forçar o destino, porque tenho moral, mas se a oportunidade surgir, aproveito-a.

 

A lei pune o adultério.

 

Só se se vier a saber. No amor, com excepção da loucura, a primeira qualidade é a discrição. Não te vou torturar por causa da tua promessa; descobrirei tudo sozinho e, se for preciso, dou-te uma mãozinha.

 

Suti estendeu-se na esteira, com uma almofada por baixo da cabeça.

 

És mesmo juiz?

 

Dou-te a minha palavra.

 

Nesse caso, preciso de um conselho.

 

Paser já estava à espera de uma catástrofe deste género; invocou Tot, na esperança de que o delito cometido por Suti fosse da sua competência.

 

É uma história idiota, revelou o amigo. A semana passada seduzi uma jovem viúva; uma trintona de corpo ágil e lábios picantes... Uma infeliz, maltratada por um marido, cuja morte foi uma felicidade. Ela foi tão feliz nos meus braços que me confiou uma missão comercial: um leitão para ir vender ao mercado.

 

Proprietária de uma quinta.

 

De um simples eido.

 

Trocaste o leitão por quê?

 

Eis o drama: por nada. Ontem à noite, o pobre bicho foi assado na nossa festita. Eu confio nos meus encantos, mas a jovem viúva é avarenta e muito agarrada ao seu património. Se apareço de mãos vazias, arrisco-me a ser acusado de roubo.

 

Mais alguma coisa?

 

Umas ninharias. Algumas dívidas por aqui e por ali; mas o leitão é a minha maior preocupação.

 

Dorme tranquilo. Paser levantou-se.

 

Onde vais?

 

Ao escritório para consultar alguns dossiers; existe sem dúvida uma solução.

 

 

Suti não gostava de se levantar cedo, mas a força das circunstâncias obrigou-o a sair de casa do juiz antes da alvorada. O plano de Paser, ainda que um pouco arriscado, parecia-lhe excelente. Paser teve de lhe deitar uma jarra de água gelada na cara para o acordar.

 

Suti dirigiu-se para o centro da cidade onde se realizava a grande feira; camponeses e camponesas vinham ali vender os seus produtos num concerto de negociações e garrulices. Dentro de pouco tempo chegariam os primeiros fregueses. Infiltrou-se entre os hortelãos e baixou-se a alguns metros do seu objectivo: um local onde se vendiam aves de capoeira. O tesouro de que ele desejava apoderar-se estava bem na sua frente: um galo magnífico, que os egípcios não consideravam como o rei da capoeira, mas acima de tudo como um voador, demasiado convencido da sua importância.

 

O rapaz esperou que a sua presa passasse perto e, num gesto rápido, apanhou-a, apertando-lhe o pescoço de tal forma que o bicho não emitiu nem um cacarejo inoportuno. A façanha era arriscada; se fosse apanhado, a porta da prisão abrir-se-ia para o receber. Era evidente que Paser não lhe tinha indicado aquele vendedor por acaso; considerado culpado de uma fraude, este último teria de oferecer o valor de um galo à vítima. O juiz não tinha diminuído a pena, mas apenas modificado ligeiramente o processo. Sendo a vítima a administração, esta seria substituída por Suti.

 

Com o galo debaixo do braço, chegou calmamente a casa da jovem senhora, que estava a dar de comer às galinhas.

 

Surpresa! anunciou ele, mostrando o galináceo. Ela voltou-se, feliz.

 

É magnífico! Fizeste uma boa compra.

 

Não foi fácil, confesso.

 

Acredito: um galo desse tamanho vale pelo menos três leitões.

 

Quando somos guiados pelo amor, sabemos ser convincentes.

 

Ela pousou o saco do milho, pegou no galo e colocou-o entre as galinhas.

 

Sabes convencer uma pessoa, Suti; sinto nascer dentro de mim um calor suave que gostaria de partilhar contigo.

 

Quem seria capaz de recusar tal convite? Abraçados, encaminharam-se para o quarto da viúva.

 

Paser não se sentia bem; uma languidez apoderava-se dele e privava-o do seu dinamismo habitual. Entorpecido, lento, já nem a leitura dos grandes autores clássicos, que antigamente lhe encantavam as noites, lhe servia de consolo. Tinha conseguido esconder o seu desânimo do escriba, mas não o conseguia ocultar do seu mestre.

 

Estás doente, Paser?

 

Apenas um pouco cansado.

 

Talvez devesses trabalhar menos.

 

Tenho a impressão de estar submerso em processos.

 

Estás a ser posto à prova, para que se consiga descobrir

 

os teus limites.

 

Esses já estão ultrapassados.

 

Estarão? Imaginemos então que a sobrecarga de trabalho não é a causa do teu estado.

 

Paser, triste, não respondeu.

 

A minha melhor aluna passou, revelou o velho médico.

 

Néféret?

 

Passou nos exames, tanto em Sais, como em Tebas.

 

Ei-la, pois, formada em medicina.

 

Para nossa grande alegria.

 

Onde vai exercer?

 

Em Mênfis, para começar; convidá-la-ei para um modesto banquete amanhã à noite, para celebrar a sua formatura. Poderemos contar contigo?

 

Denes apresentou-se no escritório do juiz Paser; a maravilhosa liteira pintada de azul e vermelho tinha maravilhado os transeuntes. A entrevista que se avizinhava, por mais delicada que fosse, seria possivelmente menos desagradável que o seu recente confronto com a mulher. Nénophar tinha acusado o marido de ser um incapaz, uma cabeça de pardal, um tacanho; pois não se tinha a sua intervenção junto do Ancião do vestíbulo revelado inútil? Remando contra a maré, Denes tentou justificar-se; normalmente esta prática traduzia-se por um sucesso total. Por que razão o velho magistrado não o teria escutado desta vez? Não só não transferira o jovem juiz, como ainda o autorizara a enviar-lhe uma convocatória oficial como se ele fosse um qualquer habitante de Mênfis! Devido à falta de perspicácia de Denes, ele e a mulher viam-se incluídos na lista de suspeitos, sujeitos à sanha de um magistrado sem futuro, vindo da província com a intenção de fazer cumprir a lei à risca. Uma vez que o transportador se mostrava tão brilhante nas discussões de negócios, que agradasse a Paser e invertesse a situação. Durante muito tempo, apenas se ouviram no grande casarão os gritos de Nénophar, que não suportava ser contrariada. As más notícias esbatiam-lhe as cores.

 

Nota: O pardal, pela sua permanente agitação e a sua tendência para se multiplicar rapidamente, era considerado como um dos símbolos do mal (N. do A.)

 

Vento do Norte barrou-lhe a passagem. Como Denes fizesse menção de o afastar com uma cotovelada, o burro arreganhou os dentes. O transportador recuou.

 

Tira este animal do meu caminho! exigiu ele.

 

O escriba larrot saiu do escritório e puxou o quadrúpede pela cauda; mas Vento do Norte apenas obedecia à voz de Paser. Denes circundou o burro para não sujar o fato, que lhe tinha custado uma fortuna.

 

Paser estava debruçado sobre um papiro.

 

Senta-te, por favor.

 

Denes procurou uma cadeira, mas nenhuma lhe agradava.

 

Tens de concordar, juiz Paser, que me mostro cooperante ao responder à tua convocatória.

 

Não tinhas por onde escolher.

 

A presença de uma terceira pessoa é mesmo necessária? larrot levantou-se, pronto para se retirar.

 

Gostaria de sair mais cedo. A minha filha...

 

Escriba, tomarás notas quando to pedir.

 

larrot colocou-se num canto da sala, esperando passar despercebido. Denes não se deixaria tratar assim sem reagir. Se exercesse represálias contra o juiz, o escriba seria chamado a intervir

 

Sou uma pessoa muito ocupada, juiz Paser; e tu não figuravas na lista de entrevistas que tinha agendada para hoje.

 

Mas tu figuravas na minha.

 

Não nos devemos enfrentar desta maneira; tu queres resolver um pequeno problema administrativo e eu ver-me livre disto o mais depressa possível. Porque não chegamos a um consenso?

 

O tom estava a tornar-se conciliador; Denes sabia estar à altura dos seus interlocutores e como bajulá-los. Assim que a atenção deles esmorecia, desferia os seus golpes decisivos.

 

Estás enganado, Denes.

 

Como?

 

Não se trata de uma transacção comercial.

 

Deixa-me contar-te uma fábula: um cabrito indisciplinado sai do rebanho, onde está protegido; um lobo ameaça-o. Quando ele vê a boca do lobo a abrir-se, declara: ”Senhor Lobo, sem dúvida que serei para si um belo festim, mas sou, antes de mais, capaz de o distrair. Por exemplo, eu sei dançar. Não acredita? Toque flauta e verá. Divertido, o lobo aceitou. Enquanto dançava, o cabrito alertou os cães, que atacaram o lobo e o obrigaram a fugir. O animal selvagem aceitou a derrota. Sou um caçador, pensou ele, e pus-me a brincar aos músicos. Tanto pior para mim.”

 

Qual é a moral da tua fábula?

 

Cada um no seu lugar. Quando queremos desempenhar um papel com o qual estamos pouco familiarizados, arriscamo-nos a dar um passo em falso e a lamentarmo-nos amargamente.

 

Estou impressionado.

 

Muito me alegro com isso; continuamos?

 

No domínio da fábula, sim.

 

És mais compreensivo do que imaginava; não vais apodrecer muito mais tempo neste escritório exíguo. O Ancião do vestíbulo é um grande amigo meu. Quando souber que trataste a situação com tanto tacto e inteligência, pensará em promover-te. E, se me pedir a opinião, ela será favorável.

 

É bom ter amigos.

 

Em Mênfis é essencial; estás no bom caminho.

 

A cólera de Nénophar era despropositada; tinha receado que Paser não fosse como os outros e tinha-se enganado. Denes conhecia bem os seus semelhantes; excepto para alguns padres refugiados nos templos, o objectivo dos homens era apenas e só a satisfação dos seus interesses.

 

O transportador virou-se e fez tenção de se retirar.

 

Onde vais?

 

Acolher um barco que vem do Sul.

 

Ainda não acabámos, nem por sombras. O empresário virou-se.

 

Os pontos da acusação são: imposição de uma taxa única e de um imposto não prescrito pelo faraó. A multa será elevada.

 

Denes ficou rubro de raiva; a voz falhava-lhe.

 

Nota: Esta fábula é um clássico. Esopo inspirou-se nas fábulas egípcias, que tiveram o seu último arauto em La Fontaine. (N. do A.)

 

Estás louco?

 

Anota, escriba: ofensa a um magistrado.

 

O transportador avançou para larrot, arrancou-lhe a tábua e pisou-a furiosamente.

 

Pára!

 

Destruição de material pertencente à justiça observou Paser. Só estás a piorar as coisas.

 

Basta!

 

Vou dar-te este papiro, onde encontrarás os detalhes jurídicos e o montante da multa. Não reincidas, senão um registo criminal com o teu nome será aberto nos registos da grande prisão.

 

Não passas de um cabrito e serás devorado!

 

Na fábula, o lobo é que é vencido.

 

Assim que Denes saiu do escritório, o escriba larrot escondeu-se atrás de uma arca de madeira.

 

Branir acabava de preparar um manjar requintado. Tinha retirado as ovas das tainhas fêmeas, compradas num dos melhores vendedores de peixe de Mênfis e, de acordo com a receita do caviar egípcio, lavou-as em água ligeiramente salgada antes de as prensar entre duas placas e de as secar numa corrente de ar. A butarga seria suculenta. Grelharia costeletas de boi, servidas com puré de favas; figos e bolos completariam a ementa, sem esquecer um delicioso vinho oriundo do Delta. Por toda a casa havia coroas de flores.

 

Sou o primeiro? perguntou Paser.

 

Ajuda-me a pôr os pratos.

 

Enfrentei Denes com unhas e dentes; o meu processo está sólido.

 

Qual é a pena?

 

Uma pesada multa.

 

Arranjaste um inimigo de peso.

 

Apenas apliquei a lei.

 

Tem cuidado.

 

Paser não teve tempo de protestar; a visão de Néféret fê-lo esquecer Denes, o escriba larrot, o escritório, os processos.

 

Vestida com uma túnica de alças de um azul muito claro que lhe deixava os ombros a descoberto, tinha pintado os olhos de verde. Ao mesmo tempo frágil e segura, iluminava a casa do seu anfitrião.

 

Cheguei atrasada.

 

Pelo contrário disse Branir deste-nos tempo para acabarmos o jantar. O padeiro acabou de me vir entregar o pão; podemos começar a jantar.

 

Néféret tinha enfiado uma flor de lótus nos cabelos; fascinado, Paser não conseguia deixar de a contemplar.

 

O teu sucesso dá-me uma imensa alegria confessou Branir. Como agora és médica, ofereço-te este talismã. Proteger-te-á como me tem protegido; trá-lo sempre contigo.

 

Mas... e tu?

 

Na minha idade, os demónios já não querem nada comigo.

 

Colocou à volta do pescoço da jovem um fino trancelim de ouro no qual estava suspensa uma magnífica turquesa.

 

Esta turquesa vem das minas da deusa Hathor, no deserto do Este; ela preserva a juventude do espírito e a alegria do coração.

 

Néféret inclinou-se perante o mestre, com as mão juntas em sinal de veneração.

 

Também eu te quero felicitar diz Paser, só não sei como...

 

Basta-me saber que pensaste em mim afirmou ela, a sorrir.

 

Trouxe-te, contudo, um modesto presente.

 

E Paser ofereceu-lhe uma bracelete de pérolas coloridas. Néféret descalçou a sandália direita, enfiou a jóia pelo pé desnudado e colocou-a no tornozelo.

 

Graças a ti, sinto-me mais bonita.

 

Estas palavras deram ao juiz uma esperança louca; pela primeira vez, teve a sensação que ela reparava em si.

 

O banquete foi acolhedor. Descontraída, Néféret relatou todos os passos do seu difícil percurso que não traíam o segredo; Branir garantiu-lhe que nada tinha mudado; Paser mal tocou na comida, mas comeu Néféret com os olhos e bebeu as palavras dela. Na companhia do mestre e da mulher que amava, passou um serão feliz, atravessado por pontadas de angústia; será que Néféret não o ia repelir?

 

Enquanto o juiz trabalhava, Suti passeava o burro e o cão, fazia amor com a dona do galinheiro, lançava-se em novas conquistas fugazes, e não incomodava nada o seu amigo; desde que se tinham encontrado, não pernoitou uma vez que fosse em casa deste; apenas uma vez Paser se mostrou intratável: entusiasmado com a vitória na operação ”leitão”, Suti tinha expressado o desejo de a reiterar. O juiz opôs-se veementemente. E como a amante se mostrou generosa, Suti não insistiu.

 

O babuíno apareceu à porta. Quase tão grande como um homem, tinha uma cabeça de cão e dentes muito aguçados. As patas e a barriga eram brancas, ao passo que os ombros e o dorso eram de um pelo avermelhado. Atrás dele vinha Kem, o núbio.

 

Até que enfim, que chegaram!

 

O interrogatório foi longo e difícil. larrot já saiu?

 

A filha está doente. Que descobriste?

 

Nada.

 

Nada como? É esquisito!

 

O núbio apalpou o nariz de madeira para se assegurar de que estava no lugar.

 

Consultei os meus melhores informadores. Nem um único indício sobre o paradeiro do guardião-mor da esfinge. Mandaram-me ir ao chefe da polícia, como se seguissem uma recomendação.

 

Irei, pois, visitar essa alta personalidade.

 

Não to aconselho; ele não gosta de juizes.

 

Tratarei de me mostrar afável.

 

Mentmosé, o chefe da polícia, possuía duas casas: uma em Mênfis, onde residia a maior parte do tempo, e a outra em Tebas. Baixo, gordo, cara redonda, inspirava confiança; mas o nariz pontiagudo e a voz nasalada desmentiam a primeira aparência de boa pessoa. Solteiro, Mentmosé pensara desde muito cedo apenas na sua carreira e nas condecorações; a sorte estivera sempre do seu lado ao proporcionar-lhe uma série de mortes oportunas. Quando estava encarregado da vigilância dos canais, o responsável pela segurança da província torceu o pescoço ao cair de uma escada; sem qualificações especiais, mas pronto a apresentar-se, Mentmosé conseguiu o lugar.

 

Sabendo tirar o melhor partido do trabalho feito pelo seu antecessor, rapidamente viu o seu nome reconhecido. Alguns contentar-se-iam com esta promoção, mas ele era ambicioso; porque não haveria de pensar na chefia da polícia fluvial? Esta era chefiada por um homem novo e empreendedor. Ao pé dele, Mentmosé não brilhava. Mas o malogrado funcionário iria morrer afogado numa operação de rotina, deixando o caminho livre para Mentmosé, que logo se candidatou, apoiado por numerosas pessoas influentes. Eleito em detrimento de concorrentes mais fortes, mas menos trabalhadores, aplicou o seu método infalível: aproveitar os esforços do outro e deles tirar o melhor partido. Já bem colocado na hierarquia, sonhava alcançar o lugar mais alto, completamente inacessível, uma vez que o chefe da polícia, na flor da idade, era bastante activo e só contava sucessos. O seu único fracasso foi um acidente de carroça em que morreu, esmagado pelo rodado. Mentmosé candidatou-se, apesar dos opositores notórios que teve de enfrentar; particularmente hábil a evidenciar-se e a valorizar a sua folha de serviços, tinha obtido a vitória. Instalado no topo, Mentmosé preocupava-se sobretudo em permanecer nesse lugar; assim, rodeava-se de pessoas medíocres, incapazes de o substituírem; sempre que encontrava uma pessoa de personalidade forte, tratava de a afastar. Agir na sombra, manipular as pessoas sem que elas se apercebessem e urdir intrigas eram os seus passatempos preferidos.

 

Estava ele a estudar as nomeações no corpo da polícia do deserto, quando o seu intendente o avisou da visita do juiz Paser. Normalmente, Mentmosé enviava os pequenos magistrados para o seus subordinados; mas este intrigava-o. Não fora ele que tinha recentemente contrariado Denes, cuja fortuna lhe permitia comprar toda a gente? O jovem juiz iria brevemente soçobrar, vítima das suas ilusões, mas talvez Mentmosé pudesse tirar proveito da sua inquietação. Que tinha tido a audácia de o importunar já estava provado pela sua determinação.

 

O chefe da polícia recebeu Paser na sala do seu palacete onde tinha em exposição condecorações, colares de ouro, pedras semipreciosas, bastões em madeira dourada.

 

Muito obrigado por me teres recebido.

 

Sou um devotado ajudante da justiça; dás-te bem em Mênfis?

 

Venho aqui para te falar de um assunto algo estranho. Mentmosé mandou servir cerveja da melhor e deu ordens ao seu intendente para não o incomodar.

 

Explica-te.

 

É-me impossível ratificar um direito de transmissão sem saber o que aconteceu ao interessado.

 

É evidente; de quem se trata?

 

De um antigo guardião-mor da esfinge de Gize.

 

Um lugar honorífico, se não me engano; reservado aos veteranos.

 

Neste caso particular, o veterano foi destituído.

 

Será que cometeu algum erro grave?

 

Isso não vem mencionado no meu dossier; para além disso, o homem foi obrigado a deixar a sua casa e a refugiar-se no bairro mais pobre da cidade.

 

Mentmosé pareceu inquieto.

 

É realmente estranho.

 

Mais grave ainda: a mulher, que eu já interroguei, afirma que o marido está morto. Mas não viu o cadáver e não sabe onde ele está enterrado.

 

Porque é que ela está convencida de que ele morreu?

 

Foram os soldados que lhe deram a triste notícia; ordenaram-lhe que ficasse calada, se quisesse receber uma pensão.

 

O chefe da polícia bebeu lentamente uma taça de cerveja; quando esperava que Paser evocasse o caso Denes, deparou-se com um enigma desagradável.

 

Brilhante inquérito, juiz Paser; fazes jus à reputação que começaste a ganhar.

 

E faço tenções de continuar.

 

Como assim?

 

Temos de encontrar o corpo e descobrir as causas da morte.

 

Não deixas de ter razão.

 

A tua ajuda é-me indispensável; como diriges a polícia da cidade e das aldeias, a fluvial e a do deserto, vai facilitar-me as investigações.

 

Infelizmente, isso é impossível.

 

Estou surpreso.

 

Os teus indícios são demasiado vagos; além disso, no centro de toda esta questão estão um veterano e alguns militares. Por outras palavras, o exército.

 

Já imaginava; é por isso que peço a tua ajuda. Se fores tu a pedir explicações, a hierarquia militar ver-se-á obrigada a responder.

 

A situação é mais complexa do que imaginas; o exército orgulha-se da sua independência face à polícia. Não costumo interferir nos assuntos do exército.

 

Contudo, conhece-los bem.

 

Boatos. Receio que te vás meter por maus caminhos.

 

Não posso deixar uma morte sem explicação.

 

Concordo contigo.

 

Que me aconselhas então?

 

Mentmosé reflectiu demoradamente. Este jovem magistrado não recuaria. Manipulá-lo não seria tarefa fácil. Só investigações aprofundadas lhe permitiriam encontrar os seus pontos fracos e utilizá-los convenientemente.

 

Vai falar com o homem que nomeou os veteranos para o lugar honorífico: o general Asher.

 

 

O devorador de sombras movia-se como um gato na noite escura. Sem fazer barulho, evitando os obstáculos, caminhava colado aos muros e confundia-se com a escuridão. Ninguém se podia gabar de o ter visto. E quem poderia pressenti-lo? O bairro mais pobre de Mênfis estava adormecido. Ali, não havia nem porteiros nem guardas como nas grandes casas. O homem escondia a cara por detrás de uma máscara de chacal em madeira, com o queixo articulado, e entrou sub-repticiamente na casa da mulher do guardião-mor da esfinge.

 

Sempre que recebia uma ordem, não a discutia; há muito que havia deixado de ter sentimentos. Falcão humano, emergia das trevas onde ia buscar forças.

 

A velha senhora acordou sobressaltada; a visão de horror que se lhe deparou cortou-lhe a respiração. Soltou um grito aflito, e caiu morta. O assassino não precisou de utilizar qualquer arma, nem de ocultar o crime. A grande faladora não mais abriria a boca.

 

Notas: Tradução literal da expressão egípcia que significa ”assassino”. (N. do A)

2 Tipo de máscara utilizada pelos padres que representavam o papel de deuses na celebração dos rituais. (N. do A.}

3 Expressão egípcia que corresponde a ”lobisomem”. (N do A)

 

O general Asher deu um murro nas costas do aspirante; o soldado caiu no chão do pátio poeirento do quartel.

 

Os indolentes não merecem melhor sorte. Um arqueiro destaca-se das filas.

 

Ele não cometeu falta nenhuma, meu general.

 

Falas de mais; abandona imediatamente o exercício. Quinze dias de detenção rigorosa e uma longa temporada numa fortaleza do Sul ensinar-te-ão a seres disciplinado.

 

O general ordenou ao pelotão que corresse durante uma hora com os arcos, as aljavas, os escudos e os sacos de comida; sabia que assim que partisse em campanha, encontraria condições bastante mais adversas. Se um dos soldados parasse, esgotado, ele puxá-lo-ia pelos cabelos e obrigá-lo-ia a regressar à formação. O reincidente apodreceria nas masmorras.

 

Arsher tinha experiência suficiente para saber que só uma formação rígida conduzia à vitória; cada dor suportada, cada gesto dominado davam ao combatente uma oportunidade suplementar de sobreviver. Após uma carreira activa nos campos de batalha da Ásia, Asher, herói de proezas retumbantes, fora nomeado intendente da Cavalaria, director dos recrutas e instrutor do principal quartel de Mênfis. Com uma alegria feroz, era a última vez que exercia esta função; a sua recente nomeação, tomada oficial na véspera, dispensá-lo-ia deste dever enfadonho. Na qualidade de mensageiro do faraó para os países estrangeiros, transmitiria as ordens reais às guarnições de elite destacadas nas fronteiras, poderia transportar Sua Majestade e ser o porta-estandarte, seguindo à sua direita.

 

De baixa estatura, Asher possuía um físico repugnante: cabelo rapado, ombros cobertos de pêlos negros e hirsutos, tronco largo, e pernas curtas e musculadas. Uma cicatriz cruzava-lhe o peito, do ombro ao umbigo, lembrança de uma espada que quase lhe tinha cortado a vida cerce. Acometido de um riso inextinguível, tinha estrangulado o agressor com as próprias mãos. A sua cara, sulcada de rugas, parecia a de um roedor.

 

Após esta última manhã passada no seu quartel preferido, Asher sonhava com o banquete organizado em sua homenagem.

 

Dirigia-se para a sala dos banhos quando um oficial de ligação se dirigiu a ele, segundo as regras do protocolo.

 

Perdoa o incómodo, meu general; mas está aqui um juiz que deseja falar-te.

 

Quem é ele?

 

Não sabemos.

 

Diz-lhe que não o recebo.

 

Ele diz que é urgente e sério.

 

Assunto?

 

Confidencial.

 

Trá-lo até aqui.

 

Paser foi conduzido até ao meio do pátio, onde se encontrava o general, de mãos cruzadas atrás das costas. À sua esquerda, um grupo de recrutas fazia exercícios de musculação; à direita treinava-se o tiro ao arco.

 

Nome?

 

Paser.

 

Detesto juizes.

 

Que tens contra eles?

 

Querem saber tudo.

 

Estou a conduzir um inquérito sobre um desaparecimento.

 

Os regimentos que comando não se ocupam dessa área.

 

Mesmo quando se trata da guarda de honra da esfinge?

 

O exército é o exército, mesmo que se trate de veteranos. A guarda da esfinge foi assumida sem problemas.

 

Segundo a mulher dele, o antigo guardião-mor terá sido morto; contudo, a hierarquia manda-me regularizar a sua transferência.

 

Pois bem, regulariza-a! Não se contestam as ordens da hierarquia.

 

Neste caso contestam-se.

 

O general emite um grunhido.

 

És novo e inexperiente. Estás dispensado.

 

Não estou sob as tuas ordens, general, e quero saber a verdade sobre este guardião-mor. Foste mesmo tu quem o nomeou para aquele posto?

 

Presta atenção, oh juizeco: ninguém importuna o general Asher!

 

Não estás acima da lei.

 

Acaso ignoras quem eu sou? Mais um falso passo, e esmago-te como se fosses um insecto.

 

Asher deixou Paser sozinho no meio do pátio. Esta reacção surpreendeu o juiz. Porquê tanta veemência se não tinha nada a esconder?

 

No momento em que Paser transpunha o portão do quartel, o arqueiro que tinha sido suspenso interpelou-o.

 

Juiz Paser...

 

Que desejas?

 

Talvez te possa ajudar; que procuras?

 

Informações sobre o antigo guardião-mor da esfinge.

 

O processo militar dele está guardado nos arquivos; segue-me.

 

Porque ages assim?

 

Se descobrires algum indício contra Asher, vais incriminá-lo, não vais?

 

Claro.

 

Então vem comigo. O arquivista é meu amigo; também ele detesta o general.

 

O arqueiro e o arquivista tiveram um breve conciliábulo.

 

Para consultares os arquivos do quartel disse o arquivista necessitas de uma autorização do gabinete do vizir. Vou ausentar-me por um quarto de hora, o tempo que demoro para ir à cantina buscar a minha refeição. Se ainda aqui estiveres quando eu voltar, serei obrigado a dar o alarme.

 

Cinco minutos para entender o método de arquivação, mais três para encontrar o rolo de papiro que procurava, os restantes para ler e memorizar o documento, repô-lo no seu lugar e desaparecer.

 

A carreira do guardião-mor era exemplar: nem uma nódoa sequer. No fim do documento, encontrava-se uma informação interessante: o veterano dirigia uma equipa de quatro homens, os dois mais velhos colocados dos lados da esfinge e os outros dois por baixo da rampa que dava acesso à pirâmide de Quéfren, no exterior do recinto. Uma vez de posse do nome deles, interrogá-los revelaria provavelmente a chave do enigma. Kem, impressionado, entrou no escritório.

 

Ela está morta.

 

Ela quem?

 

A viúva do guardião. Patrulhei o bairro esta manhã; o Matador apercebeu-se de que havia qualquer coisa errada: a porta da casa estava entreaberta. Fui eu que descobri o corpo.

 

Vestígios de violência?

 

Nenhum. Sucumbiu à velhice e ao desgosto.

 

Paser pediu ao seu escriba que averiguasse se o exército se ocuparia das exéquias; senão, ele próprio arcaria com as despesas do funeral. Sem ser responsável pela morte da pobre mulher, não teria ele perturbado os últimos minutos da sua vida?

 

Fizeste progressos?

 

Decisivos, assim espero; contudo o general Asher não me ajudou nada. Estão aqui os nomes dos quatro veteranos colocados sob o comando do guardião-mor; arranja-me as moradas deles.

 

O escriba larrot chegou no preciso momento em que o núbio se retirava.

 

A minha mulher persegue-me confessou larrot carrancudo; ontem recusou-se a preparar-me o jantar! Se isto continuar assim, não tarda muito proíbe-me de me deitar com ela. Felizmente a minha filha dança cada vez melhor.

 

Mal-humorado e rezingão, arquivou as tábuas de má vontade.

 

Ah, já me esquecia... Investiguei os artesãos que desejam trabalhar no arsenal. Apenas um me intriga.

 

Um delinquente?

 

Um homem ligado ao tráfico de amuletos.

 

Antecedentes?

 

larrot pôs um ar satisfeito.

 

Devem interessar-te. É um marceneiro de biscates: estava empregado como intendente nas terras do dentista Qadash.

 

Na sala de espera de Qadash, onde foi admitido sem grandes problemas, Paser estava sentado ao pé de um homem de baixa estatura, algo franzino. Os cabelos e o bigode negros, aparados cuidadosamente, a pele baça, o rosto seco e alongado, salpicado de sinais, davam-lhe um ar carrancudo e quezilento.

 

O juiz cumprimentou-o.

 

Momento doloroso este, não é verdade?

 

O homenzinho inclinou a cabeça num movimento afirmativo.

 

Muitas dores?

 

Ele respondeu com um gesto evasivo.

 

É a primeira vez que venho ao dentista confessou Paser; já alguma vez foste a um dentista?

 

Qadash apareceu.

 

Juiz Paser! Estás com muitas dores?

 

Infelizmente, estou!

 

Já conheces Chéchi?

 

Ainda não tive esse prazer.

 

Chéchi é um dos mais brilhantes cientistas do palácio; é o melhor. É por isso que lhe encomendo emplastros e chumbos; acabou precisamente de me propor uma novidade. Descansa, não vai demorar nada.

 

Qadash, apesar de não ser eloquente, mostrou-se prestável, como se recebesse um amigo de longa data. Se o tal Chéchi continuasse tão pouco falador como até ali, a entrevista com o dentista arriscava-se a ser muito breve. Com efeito, o dentista veio chamar o juiz cerca de dez minutos mais tarde.

 

Senta-te nessa cadeira e inclina a cabeça para trás.

 

Não é muito conversador, o teu químico.

 

Tem uma personalidade algo reservada, mas é uma pessoa com a qual se pode contar. De que te queixas?

 

De uma dor generalizada.

 

Deixa-me ver.

 

Qadash, utilizando um espelho e servindo-se de um raio de sol, examinou a dentição de Paser.

 

Já alguma vez foste ao dentista?

 

Uma única vez, na aldeia. Um dentista ambulante.

 

Vejo uma cárie muito pequena. Vou chumbar o dente de forma eficaz: resina de terebinto, terra da Núbia, mel, aparas de mó, colírio verde e pedaços de cobre. Se abanar, ligá-lo-ei ao molar vizinho com um fio de ouro... Não, não será necessário. Tens uma dentição sã e muito sólida. Em contrapartida, tem cuidado com as gengivas. Contra a piorreia, recomendo-te que laves a boca com colocíntia, goma, anis e faltos entalhados de sicómoro; deixarás o composto ao frio durante uma noite para que se impregne de orvalho. Escovarás as gengivas com uma pasta composta de cinamono, mel, goma e óleo. E não te esqueças de mascar frequentemente talos de aipo; não só é uma planta tónica e que serve de aperitivo, como também fortalece os dentes. Neste momento sejamos francos; o teu estado não é assim tão grave que necessitasses de uma consulta tão urgente. Porque me quiseste ver, agora que já te tratei?

 

Paser levantou-se, feliz por poder escapar aos vários instrumentos que o dentista costumava utilizar.

 

O teu intendente.

 

Já despedi esse incompetente.

 

Queria falar sobre o anterior a esse. Qadash lavou as mãos.

 

Já não me lembro dele.

 

Puxa pela memória.

 

Não, de verdade...

 

És coleccionador de amuletos?

 

Apesar de bem tratadas, as mãos do dentista continuavam vermelhas.

 

Notas: O terebinto é uma pistaceira brava que fornece uma resina muito utilizada em medicina e nos ingredientes dos rituais. (N. do A)

2 Figuras, normalmente em faiança, que representavam divindades, símbolos como a cruz da vida ou o coração, etc. Os egípcios gostavam de os trazer para se protegerem das forças nocivas. (N. do A.)

 

Tenho alguns, como toda a gente; mas não é coisa a que ligue muito.

 

Os mais bonitos são muito valiosos.

 

Sem dúvida...

 

O teu antigo intendente interessava-se por eles; chegou mesmo a roubar alguns belos exemplares. Daí a minha inquietação: será que tu também foste uma das suas vítimas?

 

Cada vez há mais ladrões, pois cada vez há mais estrangeiros em Mênfis. Esta cidade deixará dentro em pouco de ser egípcia. O vizir Bagey, com a sua obsessão pela honestidade, é o grande responsável. O faraó tem tanta confiança nele que ninguém o pode criticar. E muito menos tu, já que ele é teu superior. Por sorte, devido à tua modesta posição, não tens de o ver.

 

Ele é assim tão assustador?

 

Intratável; os juizes que se esqueceram disso foram demitidos, mas todos eles cometeram erros. Ao recusar expulsar os estrangeiros sob o pretexto de ser justo, o vizir está a estragar o país. Sempre é verdade que prendeu o meu antigo intendente?

 

Estava a tentar arranjar emprego no arsenal, mas uma inspecção de rotina revelou o seu passado. Triste história a dele; vendia amuletos roubados numa fábrica, foi denunciado e substituído por outro que escolheste.

 

Roubava por conta de quem?

 

Não sei: se tivesse tempo, investigava; mas não tenho sequer uma pista e com tantos outros assuntos com que me ocupar... O importante é que não tenha sofrido danos. Muito obrigado pela tua atenção, Qadash.

 

O chefe da polícia tinha reunido, em sua casa, os seus principais colaboradores; esta sessão não constaria em nenhum documento oficial. Mentmosé tinha estudado os relatórios deles sobre o juiz Paser.

 

Não tem vícios ocultos, nem paixões ilícitas, nem amantes, nem é bem relacionado... estão a fazer-me o retrato de um semideus! As tuas investigações não servem para nada.

 

O seu pai espiritual, um tal Branir, mora em Mênfis; Paser vai muito a casa dele.

 

Um velho médico reformado, inofensivo e sem poder!

 

Era bem conceituado na corte objectou um polícia.

 

Há já muito que não o é ironizou Mentmosé. Ninguém era perfeito; e Paser não era excepção!

 

Dedica-se ao seu trabalho afirmou um outro polícia e não recua perante personalidades como Denes e Qadash.

 

Um juiz íntegro e corajoso; quem acreditaria em tal coisa? Trabalhem mais com mais afinco e tragam-me informações verosímeis.

 

Mentmosé meditou à beira do lago onde costumava ir pescar. Tinha a estranha sensação de não dominar uma situação delicada, não muito bem delineada, e temia cometer um erro que manchasse o seu bom nome.

 

Seria Paser um ingénuo perdido nos meandros de Mênfis ou antes um carácter fora do comum, decidido a seguir o caminho certo sem se preocupar com os perigos e inimigos?

 

Havia ainda uma terceira hipótese, altamente inquietante: que o jovem juiz fosse emissário de uma outra pessoa, dum cortesão astuto que encabeçasse uma maquinação em que Paser fosse apenas o testa de ferro. Furioso com a hipótese de um imprudente se atrever a desafiá-lo no seu próprio terreno, Mentmosé chamou o seu intendente e ordenou-lhe que arreasse o cavalo e a caleche. Precisava de ir caçar lebres para o deserto; perseguir e matar alguns bichos assustados ia acalmar-lhe os nervos.

 

 

A mão direita de Suti subiu ao longo das costas da amante, acarinhou-lhe o pescoço, voltou a descer e roçou-lhe os rins.

 

Mais suplicou ela.

 

O jovem não se fez de rogado. Gostava de dar prazer. A sua mão tornou-se mais insistente.

 

Não, não quero!

 

Suti continuou, felino; conhecia bem os gostos da sua companheira e satisfazia-os, sem esperar nada em troca. Ela fingia resistir, virava-se e abria-se para acolher o amante.

 

Estás contente com o teu galo?

 

As galinhas estão radiantes. És uma bênção, meu querido. Plenamente satisfeita, a dona do galinheiro preparou um almoço substancial e obrigou-o a prometer que voltaria no dia seguinte.

 

Ao fim da tarde, após ter dormido duas horas no porto, à sombra de um cargueiro, Suti dirigiu-se para casa de Paser. O juiz tinha acendido as candeias e escrevia, sentado como um escriba e com o cão encostado à perna esquerda. Vento do Norte deixou passar Suti, que lhe agradeceu com uma festa.

 

Acho que vou precisar da tua ajuda disse o juiz.

 

Uma história de amor?

 

Não me parece.

 

Terá a ver com intrigas policiais?

 

Receio bem que sim.

 

Perigosas?

 

Possivelmente.

 

Muito interessante. Posso saber primeiro do que se trata, ou vais deixar-me às escuras?

 

Armei uma cilada a um dentista chamado Qadash.

 

Uma celebridade! Trata apenas dos ricos. O que é que ele fez?

 

O comportamento dele intriga-me. Gostaria de me servir dos préstimos do meu polícia núbio, mas está ocupado com outro serviço.

 

É para lhe revistar o apartamento?

 

Nem por sombras! Tens apenas de seguir Qadash se ele sair de casa e se comportar de forma estranha.

 

Suti trepou a uma árvore de onde podia ver a entrada da casa do dentista e o acesso aos anexos. Esta noite de repouso não lhe desagradava por completo; enfim só, poderia apreciar o ar da noite e a beleza do céu. Quando as candeias se apagaram e o silêncio cobriu toda a casa, uma sombra esquivou-se pela porta das cavalariças. O homem trazia um casaco vestido; os cabelos brancos e a silhueta condiziam com a descrição que Paser tinha feito do dentista.

 

A perseguição foi fácil. Qadash, algo nervoso, avançou lentamente e não se virou. Dirigiu-se a um bairro em reconstrução. Vetustos edifícios administrativos, degradados, que tinham sido demolidos; um monte de tijolos obstruía o caminho. O dentista contornou um monte de entulho e desapareceu. Suti trepou ao monte cuidadosamente para não partir nenhum tijolo e denunciar a sua presença. Chegado ao alto, viu uma fogueira à volta da qual se encontravam três homens, um dos quais era Qadash.

 

Tiraram as túnicas e ficaram nus, à excepção de uma protecção de couro que lhes cobria o pénis; nos cabelos, tinham três plumas. Agitando um pequeno pau em cada mão, começaram a dançar, simulando uma luta. Mais novos do que Qadash, os seus companheiros flectiam as pernas bruscamente e saltavam em seguida soltando um grito bárbaro. Embora não conseguisse acompanhar o ritmo dos outros, Qadash manifestava grande entusiasmo.

 

A dança durou mais de uma hora. De repente, um dos intervenientes tirou o protector de couro e ostentou toda a sua virilidade, logo imitado pelos amigos. Como Qadash dava mostras de cansaço, os amigos fizeram-no beber vinho de palma antes de o iniciarem num novo delírio.

 

Paser tinha ouvido o relato de Suti com toda a atenção.

 

Muito estranho.

 

É porque não conheces os costumes líbios; este género de rituais é bastante típico entre eles.

 

Qual o objectivo?

 

A virilidade, a fecundidade, capacidade de sedução... Ao dançar, absorvem uma nova energia. Para Qadash parece ser um pouco difícil.

 

O nosso dentista deve ter-se sentido diminuído.

 

Pelo que pude constatar, ele não fez nada de errado. Mas o que será que há de ilegal no seu comportamento?

 

A priori, nada; ele, que finge detestar os estrangeiros, não consegue, contudo, esquecer a sua origem líbia, e mergulha em costumes que a alta sociedade, base da sua clientela, desaprovaria vigorosamente.

 

Fui, pelo menos, útil? - Insubstituível.

 

Da próxima vez, juiz Paser, manda-me antes espiar uma dança de mulheres.

 

Fazendo uso da sua força de persuasão, Kem e o babuíno tinham revistado Mênfis e arredores com o intuito de encontrarem o rasto dos quatro subordinados do guardião-mor desaparecido.

 

O núbio tinha esperado que o escriba se retirasse para se encontrar com o juiz; larrot não lhe inspirava confiança. Assim que o grande macaco entrou no gabinete, Bravo refugiou-se debaixo da mesa do dono.

 

Dificuldades, Kem?

 

Consegui as moradas.

 

Sem violência?

 

Sem um vestígio de brutalidade.

 

A partir de amanhã de manhã, serão todos interrogados.

 

Desapareceram todos. Estupefacto, Paser pousou o pincel.

 

Não imaginava que, ao recusar caucionar um mísero documento administrativo, iria levantar a ponta de um véu repleto de mistérios.

 

Alguma pista?

 

Dois foram viver para o Delta e dois para a região de Tebas. Tenho aqui os nomes das cidades.

 

Prepara-te para viajar.

 

Paser passou a noite em casa do seu mestre. Ao dirigir-se para lá, teve a sensação que estava a ser seguido; abrandou o passo, virou-se duas ou três vezes, mas deixou de ver o homem que julgava estar a segui-lo. Estava, certamente, enganado.

 

Sentado em frente de Branir, na açoteia da residência florida, foi saboreando a cerveja gelada enquanto ouvia a respiração da grande cidade a adormecer. Aqui e além, luzes assinalavam os noctívagos e os escribas atarefados.

 

Na companhia de Branir, o mundo parava; Paser gostaria de poder guardar aquele momento como uma jóia, de o manter entre as mãos e de o impedir de se dissolver na escuridão do tempo

 

Néféret já recebeu o seu destacamento?

 

Ainda não, mas não deve tardar. Por agora, está num quarto, na escola de medicina.

 

Quem decide?

 

Uma assembleia de médicos que é dirigida pelo médico-chefe Nébamon. Néféret será chamada a ocupar sozinha uma função não muito pesada, e a dificuldade aumentará com a experiência. Pareces-me sempre triste, Paser; dir-se-ia que perdeste a alegria de viver.

 

Paser fez um resumo dos factos.

 

Uma série de coincidências estranhas, não achas?

 

Que hipóteses estás tentado a pôr’

 

Ainda é demasiado cedo para formular alguma. Cometeu-se um erro, disso estou certo; mas de que natureza e com que amplitude? Estou preocupado, talvez sem razão; por vezes, hesito em continuar, mas não me posso demitir da minha responsabilidade, por mais pequena que ela seja, sem o pleno acordo da minha consciência.

 

O coração traça os planos e guia o indivíduo; quanto ao carácter, esse conserva o que foi adquirido e preserva as visões do coração.

 

O meu carácter não fraquejará; o que recebi, explorarei.

 

Nunca me esqueço do destino do Egipto, não te preocupes com o teu bem-estar. Se o acto é justo, acabará por vingar.

 

Se admitirmos o desaparecimento de um homem sem nos revoltarmos, se um documento oficial equivale a uma mentira, não estará a grandeza do Egipto ameaçada?

 

Os teus receios têm fundamento.

 

Se o teu espírito é como o meu, enfrentarei os piores perigos.

 

Coragem não te falta; sê mais lúcido e evita determinados obstáculos. Enfrentá-los só te trará dissabores. Contorna-os, aprende a utilizar a força do inimigo. Sê mais flexível, como o junco, e paciente como o granito.

 

Nota: Branir transmite ao seu discípulo as palavras dos sábios, recolhidas nos Ensinamentos”, sob a forma de máximas (N do A)

 

A paciência não é o meu forte.

 

Molda-te como se fosses o arquitecto a trabalhar o material.

 

Achas que é melhor não ir ao Delta?

 

Creio que a tua decisão já está tomada.

 

Elegante na sua veste de linho pregueada com franjas coloridas, de unhas arranjadas com engenho, imponente, Nébamon abriu a sessão plenária que se realizava na grande sala da escola de Medicina de Mênfis. Uma dezena de médicos de renome, e que nunca tinham sido responsabilizados pela morte de um doente, tinham como função atribuir a primeira missão aos jovens médicos recém-empossados. Normalmente, as decisões, cunhadas de benevolência, não eram contestadas. E também desta vez a tarefa seria executada rapidamente.

 

E agora, o caso Néféret anunciou um cirurgião. Referências elogiosas vindas de Mênfis, Sais e Tebas. Um elemento brilhante, mesmo excepcional.

 

Sim, mas é mulher contrapôs Nébamon.

 

Não é a primeira.

 

Néféret é inteligente, admito-o, mas falta-lhe energia; a experiência arrisca-se a destruir todos os seus conhecimentos teóricos.

 

Foi submetida a numerosos estágios, sempre com pleno êxito!

 

Os estágios são acompanhados frisou Nébamon com alguma displicência; quando estiver sozinha perante os doentes, será que vai saber desenvencilhar-se? A sua capacidade de resistência preocupa-me. Pergunto-me se não se terá enganado ao querer ser médica.

 

Que propões então?

 

Uma prova bastante dura e doentes difíceis; se dominar a situação, felicitá-la-ei. Caso contrário, comunicar-lhe-emos a nossa decisão.

 

Sem elevar a voz, Nébamon convenceu os seus colegas. Tinha reservado a Néféret a surpresa mais desagradável da sua nova carreira; assim que ela estivesse despedaçada, ele ajudá-la-ia a sair do fosso em que se encontrava e recolhê-la-ia, reconhecida e submissa.

 

Aterrorizada, Néféret retirou-se para chorar.

 

Nenhum sacrifício a desencorajaria, mas não esperava ver-se responsável por uma enfermaria militar onde estavam internados os soldados que regressavam da Ásia, doentes e feridos. Cerca de trinta homens estavam deitados em cima das esteiras; uns respiravam com grande dificuldade, outros deliravam, outros estavam incontinentes. O responsável sanitário do quartel não lhe tinha transmitido nenhuma directiva, tinha-se apenas limitado a colocá-la lá. Limitara-se a obedecer às ordens recebidas.

 

Néféret recompôs-se. Fosse qual fosse a razão desta brincadeira, tinha de cumprir o seu dever e tratar estes infelizes. Depois de ter examinado a farmácia do quartel, sentiu-se mais confiante. A tarefa mais urgente era aliviar as dores mais agudas; esmagaria também raízes de mandrágora, frutos gordos com folhas longas e flores verdes, amarelas e cor-de-laranja, para deles extrair uma substância bastante activa que serviria, ao mesmo tempo, de analgésico e de narcótico. Depois, misturou aneto perfumado, sumo de tâmaras e sumo de uva, e ferveu o preparado em vinho; durante quatro dias consecutivos daria aquela poção aos doentes.

 

Chamou um jovem recruta que limpava o pátio do quartel.

 

Anda cá, vais ajudar-me!

 

Eu? Mas eu...

 

Agora és enfermeiro.

 

O comandante...

 

Vai e diz-lhe que trinta homens morrerão se ele me recusar a tua assistência.

 

O recruta inclinou-se; o jogo cruel no qual era obrigado a participar não lhe agradava.

 

Ao entrar na enfermaria, o aspirante sentiu-se desfalecer; Néféret reconfortou-o.

 

Levantarás muito devagar a cabeça deles para que eu lhes possa dar o remédio; depois, vamos lavá-los e limparemos a enfermaria.

 

De início, o recruta fechou os olhos e susteve a respiração; tranquilizado pela calma de Néféret, o enfermeiro-aprendiz esqueceu a repugnância que sentia e ficou contente ao ver que a poção actuava rapidamente. A respiração dos doentes acalmou, e os gritos começaram a desaparecer; vários soldados adormeceram.

 

Um deles agarrou-se à perna direita da médica.

 

Solta-me.

 

Nem penses, beleza; uma presa como tu não se deixa escapar. Vou-te dar prazer.

 

O enfermeiro largou a cabeça do paciente, que bateu violentamente no chão, e deu-lhe um murro; os dedos do doente afrouxaram e Néféret libertou-se.

 

Muito obrigada.

 

Não... não tiveste medo?

 

Claro que tive.

 

Se quiseres, anestesio-os a todos da mesma forma!

 

Só se for estritamente necessário.

 

De que sofrem?

 

Disenteria.

 

É grave?

 

É uma doença que conheço muito bem e que sei como curar.

 

Na Ásia, bebem água estagnada; eu cá prefiro varrer o quartel.

 

Zelando para que uma higiene perfeita fosse mantida, Néféret administrou aos seus doentes poções à base de coentros para acalmar os espasmos e limpar os intestinos. Em seguida, esmagou raízes de romã com levedura de cerveja, filtrou o composto por um pano e deixou-o a descansar durante a noite. O fruto amarelo...

 

Nota: Planta cujo fruto depois de seco produz um aroma. (N. do A)

 

...cheio de bagos de um vermelho brilhante, era um remédio eficaz contra a diarreia e a disenteria.

 

Néféret tratou os casos mais graves com um clister de mucilagem fermentada, cerveja doce e sal, que injectou no ânus dos pacientes com a ajuda de um chifre de cobre cuja extremidade mais fina tinha a forma de um bico. Cinco dias de cuidados intensivos deram excelentes resultados. Leite de vaca e mel, os únicos alimentos autorizados, permitiram curar os doentes.

 

Muito bem-humorado, o médico-chefe Nébamon visitou as instalações sanitárias do quartel seis dias depois de Néféret ter iniciado as suas funções. Declarou-se satisfeito e terminou a sua inspecção na enfermaria onde tinham sido isolados os doentes atacados de disenteria na última campanha na Ásia. Esgotada, completamente exausta, a jovem suplicar-lhe-ia que a colocasse noutro lugar e até aceitaria trabalhar na sua equipa.

 

Um recruta varria a entrada da enfermaria pelo que a porta estava aberta; uma corrente de ar purificava o lugar, vazio e caiado.

 

Devo ter-me enganado disse Nébamon ao soldado. Sabe onde trabalha a médica Néféret?

 

Primeiro gabinete à esquerda.

 

A jovem escrevia nomes num papiro.

 

Néféret! Onde estão os doentes?

 

Em convalescença.

 

Impossível!

 

Aqui tens a lista dos doentes, a natureza dos tratamentos e a data de saída da enfermaria.

 

Mas como...

 

Agradeço-te imenso teres-me confiado esta tarefa, que me permitiu comprovar a eficácia da nossa medicação.

 

Exprimia-se sem animosidade, com um brilho doce no olhar.

 

Creio que me enganei.

 

Nota: Substância vegetal utilizada como espessante. (N do A)

 

De que estás a falar?

 

Portei-me como um imbecil.

 

Não é isso que dizem, Nébamon.

 

Ouve, Néféret...

 

Terás o relatório completo a partir de amanhã de manhã; será que posso contar com a tua amabilidade para me dizeres o mais rapidamente possível qual vai ser o meu próximo destacamento?

 

Mentmosé estava furioso. No casarão imenso, nenhum servidor se ousaria mexer enquanto a fúria desenfreada do chefe da polícia não passasse.

 

Durante os períodos de extrema tensão, tinha comichão na cabeça e coçava-se até fazer sangue. Aos seus pés, pedaços de papiro, miseráveis restos de relatórios rasgados, elaborados pelos seus subordinados.

 

Nada.

 

Nenhum indício palpável, nenhum sinal de prevaricação’ Paser comportava-se como um juiz honesto e, por isso, perigoso. Mentmosé não costumava subestimar o adversário; este pertencia a uma espécie temível e não seria fácil fazer-lhe frente. Não desencadearia nenhuma acção decisiva antes de conhecer a resposta a uma pergunta: quem o manipulava?

 

O vento estirava a vela larga do barco de um só mastro que vogava na vastidão aquática do Delta. O piloto manejava o leme com perícia e tirava partido da corrente, enquanto os passageiros, o juiz Paser, Kem e o seu babuíno policial, repousavam no camarote construído no meio da embarcação; por cima do camarote iam colocadas as bagagens. Na proa, o capitão verificava a profundidade da água com uma percha e dava ordens ao resto da tripulação. Desenhado na proa e na popa, o Olho de Hórus protegia a navegação.

 

Paser saiu do camarote e apoiou os cotovelos no parapeito, para contemplar a paisagem que se ia abrindo à sua frente. Como o vale estava distante, com as suas culturas entaladas entre os dois desertos! Aqui, o rio dividia-se em braços e em canais que irrigavam cidades, aldeias, palmares, campos e vinhas; centenas de aves, andorinhas, poupas, garças reais, gralhas, calhandras, pardais, alcatrazes, pelicanos, patos bravos, canários, grous, cegonhas sulcavam um céu azul celeste, por vezes nublado. O juiz tinha a sensação de estar a contemplar um mar repleto de plantas aquáticas e papiros; nos outeiros que subitamente se elevavam, as matas de salgueiros e as acácias resguardavam as casas térreas, todas brancas. Será que não se tratava daquele pântano primordial de que falavam os autores antigos, dessa encarnação terrestre do oceano que envolvia o mundo e de onde rompia, a cada manhã, o novo Sol?

 

Uns caçadores de hipopótamos fizeram sinal à embarcação para mudar de rumo; perseguiam um hipopótamo macho. Ferido, acabara de mergulhar, e havia o risco de, de um momento para o outro, ele voltar à superfície, podendo virar uma embarcação, mesmo das grandes. O monstro debatia-se ferozmente.

 

O capitão não ignorou o aviso; conduziu ”As Águas de Ra” para nordeste, seguindo o braço mais oriental do Nilo. Perto de Bubastis, a cidade da deusa Bastet, simbolizada por um gato, entrou no ”canal de água doce”, ao longo de Ouadi Toumilat, em direcção aos Lagos Amargos. O vento soprava forte; à direita, situava-se um lugarejo, ao abrigo de tamarizes e, do outro lado, um lago onde alguns búfalos se banhavam.

 

A embarcação acostou; lançou-se a ponte. Com a embarcação sacudida pelas ondas, Paser, que não tinha equilíbrio de marinheiro, atravessou a ponte aos tropeções. Um grupo ”de crianças fugiu ao ver o babuíno. Os gritos alertaram os aldeões que, erguendo as suas forquilhas ameaçadoramente, foram ao encontro dos recém-chegados.

 

Nada têm a temer; sou o juiz Paser, acompanhado de forças policiais.

 

Os aldeões baixaram as forquilhas e conduziram o magistrado até ao chefe da aldeia, um ancião rude.

 

Gostava de falar com o veterano que chegou aqui há algumas semanas.

 

Neste mundo, isso não vai ser possível.

 

Morreu?

 

O corpo foi trazido pelos soldados. Enterrámos o corpo no nosso cemitério.

 

Sabes de que morreu?

 

De velhice.

 

Examinaste o cadáver?

 

Estava mumificado.

 

Que te disseram os soldados?

 

Não eram muito faladores.

 

Exumar uma múmia teria sido um sacrilégio. Paser e os seus companheiros voltaram para a embarcação e partiram em direcção à aldeia onde vivia o segundo veterano.

 

É preciso atravessar o pântano, determinou o capitão; daquele lado, existem ilhéus perigosos. Tenho de me manter afastado da margem.

 

O babuíno não gostava de água, Kem teve uma longa conversa com ele e conseguiu convencê-lo a aventurar-se por um caminho aberto pelo meio das plantas aquáticas. O macaco, inquieto, não parava de se virar para trás e olhar para a direita e para a esquerda. O juiz, impaciente, caminhava à frente em direcção às pequenas casas agrupadas no cimo do outeiro. Kem vigiava as reacções do animal; seguro da sua força, ele não se comportava assim sem razão.

 

O babuíno soltou um grito estridente, empurrou o juiz e agarrou a cauda de um pequeno crocodilo que serpenteava na água lamacenta. No momento em que o sáurio abriu a boca, ele atirou com o crocodilo para trás. ”O grande veneno”, como lhe chamavam os ribeirinhos, sabia como apanhar desprevenidos os carneiros e as cabras que vinham beber aos charcos.

 

O crocodilo debatia-se, mas era demasiado jovem para resistir à fúria do babuíno que o arrancou do pântano e arremessou para bem longe.

 

Tens de lhe agradecer, disse Paser ao núbio. Vou pensar numa promoção.

 

O chefe da aldeia estava recostado num cadeirão de espaldar baixo, redondo, e de superfície inclinada; muito robusto, saboreava à sombra de um sicómoro uma abundante refeição de carne, alhos e uma bilha de cerveja colocada num cesto de fundo raso.

 

Convidou os hóspedes a partilharem da comida; o babuíno, cuja façanha já tinha percorrido todo o pântano, dilacerou uma coxa de galinha.

 

Procuramos um veterano que veio viver para cá depois da reforma.

 

Ah! A esse só o voltaremos a ver em forma de múmia, juiz Paser. O exército encarregou-se do transporte e pagou o enterro. O nosso cemitério é modesto, mas aqui a eternidade não é menos abençoada que em qualquer outro.

 

Deram-te a conhecer o motivo da morte?

 

Os soldados não queriam falar muito, mas insisti. Acho que foi um acidente.

 

De quê?

 

Não me disseram mais nada.

 

Na embarcação que o levava de volta a Mênfis, Paser não escondia a sua decepção.

 

Foi um fracasso total: o guardião-mor desaparecido; dois dos seus subalternos mortos; os outros dois provavelmente mumificados; e estes também.

 

Vais desistir de fazer nova viagem?

 

Não, Kem, quero saber exactamente como as coisas se passaram.

 

Vai-me saber bem voltar a ver Tebas.

 

Que achas disto tudo?

 

Acho que todos esses homens que foram mortos te impediram de descobrir a chave deste enigma, e isso é bom!

 

Não queres conhecer a verdade?

 

Quando ela é muito perigosa, prefiro não saber. Já me custou os olhos da cara, e a ti pode custar-te a vida.

 

De madrugada, quando Suti entrou, Paser já estava a trabalhar, com o cão deitado aos seus pés.

 

Não conseguiste dormir? Eu também não. Preciso de descansar... A dona do galinheiro dá cabo de mim. É insaciável e ávida de todas as excentricidades. Trouxe uns mil-folhas quentes; o padeiro acabou de os fazer.

 

Bravo foi o primeiro a ser servido; os dois amigos tomaram o pequeno-almoço juntos. Apesar de estar a cair de sono, Suti apercebeu-se de que Paser estava preocupado.

 

Ou estás muito cansado ou então é assunto muito sério; é esse teu mistério insondável?

 

Não posso falar.

 

Guardas segredo do inquérito até mesmo para mim? Deve ser mesmo muito sério?

 

Ainda não encontrei o fio à meada, Suti, mas tenho a certeza de que fui meter o nariz nalgum assunto criminal.

 

Com... um assassino?

 

Talvez.

 

Se eu fosse a ti, Paser não tinha assim tanto a certeza; no Egipto, é raro cometerem-se crimes. Não foste meter-te com uma dessas feras de respeito? Corres o risco de contrariar altas personalidades.

 

São os ossos do ofício.

 

Mas os assuntos criminais não são da competência do vizir?

 

São, se o crime for aprovado.

 

Suspeitas de quem?

 

Só tenho a certeza de uma coisa: há soldados que se prestaram entrar em alguma tramóia. E esses soldados devem estar sob as ordens do general Asher.

 

Suti deu um assobio de espanto.

 

Tu voas muito alto! Uma conspiração militar?

 

Não ponho de parte essa possibilidade.

 

Com que intenção?

 

Não sei.

 

Sou a pessoa de que precisas, Paser!

 

Que queres dizer com isso?

 

O meu alistamento no exército não é um sonho. Depressa me revelarei um excelente soldado, chegarei a oficial e, quem sabe, a general! Enfim, um herói. Vou descobrir tudo sobre Asher. Se for culpado de algum delito, logo saberei, e tu também.

 

É demasiado arriscado.

 

Pelo contrário, é excitante! Enfim, a aventura que sempre quis! E se salvássemos o Egipto, nós dois juntos? Quem fala de conspiração militar, fala da tomada de poder por uma casta.

 

É um grande plano, Suti; mas ainda não tenho a certeza de que a situação seja assim tão desesperada.

 

Sabes lá? Deixa-me agir!

 

A meio da manhã, um tenente da cavalaria, acompanhado por dois arqueiros, apresentou-se no escritório de Paser. O homem era rude e discreto.

 

Fui mandado para regularizar uma transferência de posto que precisa da tua aprovação.

 

Não será a do guardião-mor da esfinge?

 

Afirmativo.

 

Recuso-me a colocar o meu selo, até mesmo porque esse veterano ainda não veio apresentar-se.

 

A minha missão é precisamente levar-te onde ele se encontra, para o processo ser encerrado.

 

Suti dormia profundamente, Kem andava em patrulha, o escriba ainda não tinha chegado. Paser pressentiu o perigo; que força armada, mesmo o exército, ousaria atentar contra a vida de um juiz? Concordou em subir para o carro do oficial, depois de ter feito festas a Bravo, cujo olhar revelava inquietação.

 

O veículo atravessava velozmente os arrabaldes, saiu de Mênfis, meteu por uma rua que ladeava as culturas e embrenhou-se no deserto. Ali, reinavam as pirâmides dos faraós do Antigo Império, rodeadas por magníficos túmulos onde pintores e escultores tinham patenteado um talento incomparável. A pirâmide com degraus de Saqqarah, obra de Djeser e de Imhotep, dominava a paisagem; os gigantescos degraus de pedra formavam uma escada em direcção ao céu, permitindo que a alma do rei subisse para o Sol e de lá descesse. Só se via o topo do monumento, pois o recinto fechado que o rodeava, com uma única porta sempre guardada, isolava-o do mundo profano. No grande pátio interior, o faraó vivia os ritos da regeneração quando o seu poder e capacidade de governar fossem corroídos.

 

Paser respirou fundo a brisa acre e árida do deserto; amava aquela terra vermelha, aquele mar de rochedos assoleimados e areia dourada, aquele vazio povoado de vozes ancestrais. Ali, o homem despojava-se do supérfluo.

 

Onde me levas?

 

Chegámos.

 

O carro parou em frente a uma casa crivada de minúsculas janelas, situada longe de toda a aglomeração; havia muitos sarcófagos encostados às paredes. O vento levantava nuvens de areia. Não havia arbustos, nem flores, e ao longe avistavam-se pirâmides e túmulos. À beira da morte, no coração da solidão, o lugar parecia abandonado.

 

É aqui.

 

O subalterno fez a continência.

 

Intrigado, Paser desceu do carro. O lugar era ideal para uma cilada e ninguém sabia onde se encontrava. Pensou em Néféret. Desaparecer sem lhe revelar a sua paixão seria uma eterna desgraça.

 

A porta da residência abriu-se, rangendo. Na soleira da porta, surgiu um homem magro, de tez muito branca, com mãos enormes e pernas compridas e delgadas. Da cara longa, sobressaíam as sobrancelhas negras e espessas que quase se uniam sobre o nariz. Os lábios finos pareciam privados de sangue. Tinha manchas acastanhadas no avental de pele de cabra.

 

Os olhos negros fixaram Paser. O juiz nunca tinha sentido um olhar assim, intenso, glacial, afiado como uma lâmina. Mas Paser resistiu-lhe.

 

Djoui é o mumificador oficial, explicou o tenente da cavalaria.

 

O interpelado inclinou a cabeça.

 

Segue-me, juiz Paser.

 

Djoui afastou-se para deixar passar o oficial, seguido pelo magistrado que encontrou a oficina de embalsamento, onde numa mesa de pedra, mumificava os cadáveres. Nas paredes, estavam pendurados ganchos de ferro, facas obsidianas e pedras aguçadas; nas prateleiras, havia bilhas de óleo e de unguento e sacos cheios de natrão, indispensável à mumificação. O mumificador, em conformidade com a lei, devia habitar fora da cidade. Pertencia a uma casta temida, de seres ariscos e reservados.

 

Os três homens desceram os degraus da escada que conduzia a uma enorme cave. Estavam gastos e escorregadios. A tocha que Djoui transportava oscilava. No chão, havia múmias de diversos tamanhos. Paser estremeceu.

 

Recebi um relatório relativo ao ex-guardião-mor da esfinge, explicou o tenente. O pedido foi-lhe transmitido por erro. Na realidade, ele faleceu a seguir a um acidente.

 

Um terrível acidente, na verdade.

 

Porquê essa observação?

 

Porque matou pelo menos três veteranos, se não foram mais.

 

O subalterno levantou a cabeça.

 

Não estava ao corrente disso.

 

Há falta de informações precisas. Encontrámos o guardião-mor no local de trabalho e o cadáver foi encaminhado para aqui. Infelizmente, o escriba enganou-se, em vez de ordenar a inumação, pediu uma mutação. Foi um simples erro administrativo.

 

E o corpo?

 

Fica descansado que vou mostrar-to, para pôr fim a este incidente desagradável.

 

Se bem entendi, foi mumificado?

 

Sim, entendeste bem.

 

O corpo foi colocado num sarcófago?

 

O tenente parecia perdido. Olhava para o mumificador que abanou a cabeça em sinal de discordância.

 

Os últimos ritos não foram então celebrados, concluiu Paser.

 

Exactamente, mas...

 

Muito bem, mostra-me então a múmia.

 

Djoui conduziu o juiz e o oficial ao local mais fundo da cave. Apontou para os restos mortais do guardião-mor, envolvidos em faixas, que estavam de pé numa cavidade rochosa. Trazia um número escrito a tinta vermelha.

 

O mumificador apresentou ao tenente a etiqueta que seria fixada na múmia.

 

Não falta mais nada a não ser colocar o selo, sugeriu o oficial ao magistrado.

 

Djoui colocou-se atrás de Paser. A luz oscilava cada vez mais.

 

Esta múmia fica aqui, tenente, e como está. Se desaparecer ou for danificada, vou responsabilizar-te por isso.

 

 

Podes dizer-me onde foi colocada Néféret?

 

Pareces preocupado comentou Branir.

 

É muito importante insistiu Paser. Tenho comigo o que é talvez uma prova material, mas não posso analisá-la sem ajuda médica.

 

Vi-a ontem à noite. Ela foi brilhante, debelou uma epidemia de desinteria e curou uns trinta soldados em menos de oito dias.

 

Soldados? Que foi que a mandaram fazer?

 

Uma repreensão imposta por Nébamon.

 

Vou dar-lhe uma sova até ele cair morto.

 

Isso não vai contra o dever de um juiz?

 

Esse tirano merecia ser condenado.

 

Ele contenta-se em exercer a autoridade.

 

Sabes bem que isso é mentira. Diz-me a verdade: qual foi a nova prova a que esse inútil a sujeitou?

 

Acho que ele se emendou; Néféret ocupa o lugar de farmacêutica.

 

Perto do templo da deusa Sekhmet, existiam laboratórios farmacêuticos que tratavam de centenas de plantas, principal ingrediente de misturas milagrosas. As entregas diárias feitas aos médicos das cidades e das aldeias garantiam que as poções entregues fossem frescas. Néféret fiscalizava a boa execução das receitas. Tratava-se de um retrocesso em relação à sua função anterior; Nébamon tinha-lhe dito que era uma fase obrigatória, e um período de descanso, antes de voltar outra vez a cuidar dos doentes. Fiel à sua linha de conduta, a jovem médica não tinha protestado.

 

Os farmacêuticos, ao meio-dia, saíam do laboratório e dirigiam-se à cantina. Conversava-se de bom grado com os colegas, falava-se de novos remédios, lastimava-se os fracassos. Dois especialistas conversavam com Néféret, que sorria; Paser tinha a certeza de que se estavam a meter com ela.

 

O seu coração batia descompassadamente; atreveu-se a interrompê-los.

 

Néféret... Ela deteve-se.

 

Andavas à minha procura?

 

Branir falou-me das injustiças que sofreste. Fiquei revoltado.

 

Tive a sorte de os curar. O resto já não importa.

 

Preciso das tuas qualidades médicas.

 

Estás doente?

 

Um inquérito subtil que exige a colaboração de um médico. Um simples parecer clínico, nada mais.

 

Kem conduzia o carro com mãos firmes; o babuíno, agachado, evitava olhar para a estrada. Néféret e Paser iam lado a lado, para não caírem, e os seus pulsos estavam presos por alças...

 

Nota: Perto dos templos encontravam-se laboratórios destinados a experimentar e fabricar diferentes tipos de remédios. O que se sabe sobre eles é ainda muito pouco, devido a dificuldades existentes na tradução de termos técnicos. (N. do A)

 

,,,à carroçaria do veículo. Com os balanços, os seus corpos tocaram-se.

 

Néféret pareceu ficar indiferente, enquanto Paser sentiu um prazer tão intenso quanto ardente. Desejava que esta curta viagem nunca mais acabasse e que o caminho se tornasse cada vez mais irregular. Quando a sua perna direita tocou ao de leve na dela, não a desviou; receava ser repreendido, mas não foi.

 

Estar assim tão perto dela, sentir o perfume dela, acreditar que ela aceitava este contacto... O sonho era sublime.

 

Dois soldados montavam guarda em frente da oficina de mumificação.

 

Sou o juiz Paser. Deixem-nos passar.

 

As nossas ordens são claras. Não deixar entrar ninguém. O lugar está requisitado.

 

Ninguém se pode opor à justiça. Será que se esqueceram que estamos no Egipto?

 

As nossas ordens...

 

Afastem-se.

 

O babuíno levantou-se e arreganhou os dentes; de pé, com os olhos fixos e os braços arqueados, estava prestes a saltar. Kem afrouxava a trela.

 

Os dois soldados cederam. Kem abriu a porta a pontapé.

 

Djoui, sentado à mesa de mumificação, comia peixe seco.

 

Leva-nos lá ordenou Paser.

 

Kem e o babuíno, desconfiados, examinaram o compartimento mergulhado na penumbra enquanto o juiz e a médica desciam ao antro, iluminados por Djoui.

 

Que lugar horrível murmurou Néféret. E eu que gosto tanto de ar e de luz!

 

Para ser franco, também não me sinto lá muito bem.

 

O mumificador, sem se apressar, seguia no seu passo compassado.

 

A múmia continuava no mesmo sítio; Paser constatou que ninguém lhe tinha mexido.

 

Eis o teu paciente, Néféret. Vou desenfaixá-lo sob a tua supervisão.

 

O juiz desenrolou as faixas com muito cuidado; apareceu um amuleto em forma de olho, colocado na testa. No pescoço, havia uma profunda ferida, sem dúvida provocada por uma flecha.

 

Não vale a pena continuar; na tua opinião, quantos anos achas que o defunto tem?

 

Uns vinte anos calculou Néféret.

 

Mentmosé perguntava a si próprio como havia de resolver os problemas de circulação que envenenavam a vida diária dos habitantes de Mênfis; demasiadas mulas, demasiados bois, demasiados carros, demasiados vendedores ambulantes, demasiados papalvos entupiam as ruelas e impediam a paisagem. Em cada novo ano, redigia decretos uns mais inaplicáveis que outros, e não os submetia ao vizir. Contentava-se em prometer melhorias em que já ninguém acreditava. De tempos a tempos, uma rusga policial acalmava os ânimos; desobstruía-se uma rua onde era proibido estacionar durante alguns dias, aplicavam-se multas aos transgressores, mas logo os maus hábitos eram retomados.

 

Mentmosé fazia recair as responsabilidades nos ombros dos subalternos e isentava-os de meios para acabar com as dificuldades; ao manter-se acima da confusão onde enterrava os seus colaboradores, assegurava a sua excelente reputação.

 

Quando lhe anunciaram a presença do juiz Paser na sala de espera, saiu do escritório para o cumprimentar. Amabilidades deste tipo só lhe ficavam bem.

 

A face sombria do magistrado não fazia antever nada de bom.

 

Estou com a manhã toda ocupada, mas estou disposto a receber-te.

 

Acho que é indispensável.

 

Pareces transtornado.

 

E estou.

 

Mentmosé coçava a testa. Conduziu o juiz ao seu escritório e mandou sair o secretário.

 

Recostou-se numa soberba cadeira com patas de touro. Paser permaneceu de pé.

 

Sou todo ouvidos.

 

Um tenente da cavalaria conduziu-me a casa de Djoui, o mumificador oficial do exército. Mostrou-me a múmia do homem

 

que eu procurava.

 

O ex-guardião-mor da esfinge? Então, sempre morreu!

 

Pelo menos, fizeram um grande esforço para eu acreditar nisso.

 

Que queres dizer com isso?

 

Como os últimos ritos não foram celebrados, desenfaixei a parte superior da múmia sob a inspecção da doutora Néféret. O corpo pertencia a um homem de vinte anos, e não restaram dúvidas de ter sido mortalmente ferido por uma flecha. Não se tratava, como é evidente, do corpo do veterano.

 

O chefe da polícia pareceu ficar atordoado.

 

Essa história é pouco provável.

 

E mais continuou o juiz. Dois soldados tentaram impedir-me de entrar na oficina de embalsamento. E, quando saí, dispararam sobre mim.

 

O nome do tenente da cavalaria?

 

Não sei.

 

Foi uma falha imperdoável.

 

Não achas que ele me mentiu? Contrariado, Mentmosé aquiesceu.

 

Onde está o cadáver?

 

Em casa de Djoui e sob a sua guarda. Redigi um relatório pormenorizado que incluirá os testemunhos da doutora Néféret, do mumificador e do meu ajudante Kem.

 

O Mentmosé franziu as sobrancelhas.

 

Estás satisfeito com ele?

 

É exemplar!

 

O passado dele não advoga a seu favor.

 

Ajuda-me muito.

 

Não confies nele.

 

Voltemos ao assunto da múmia.

 

O chefe da polícia detestava este género de situação em que não dominava os acontecimentos.

 

Os meus homens vão procurá-la e vamos examiná-la. Precisamos descobrir a identidade dessa múmia.

 

Também é preciso saber se estamos perante um falecimento imediatamente posterior a um alistamento militar, ou a um crime.

 

Um crime! Não te parece excesso de imaginação?

 

Por mim, vou continuar o inquérito.

 

Em que direcção?

 

Prefiro não dizer mais nada.

 

Desconfias de mim?

 

Essa pergunta foi inoportuna.

 

Estamos os dois perdidos neste imbróglio. Não devíamos trabalhar juntos?

 

Prefiro a independência da justiça.

 

A cólera de Mentmosé fez tremer as paredes dos quartéis da polícia. No mesmo dia, cinquenta altos funcionários foram sancionados e privados de muitos privilégios. Pela primeira vez, depois da sua subida ao topo da hierarquia policial, não fora correctamente informado. Será que uma falha de tal monta não condenava o seu sistema? Não se deixaria abater sem luta.

 

Aí está, o exército parecia ser o instigador destas manobras cujas razões continuavam incompreensíveis. Avançar por este terreno escorregadio comportava riscos que Mentmosé não queria correr; se o general Asher, que as promoções recentes haviam tornado intocável, fosse realmente o cabecilha, o chefe da polícia não tinha qualquer hipótese de o vencer.

 

Deixar o caminho livre para aquele juizeco insignificante teria muitas vantagens. Só ele se comprometia, e o fogo da mocidade impedi-lo-ia de se precaver.

 

Corria o risco de abrir portas interditas e violar leis que ignorava. Seguindo-lhe o rasto, Mentmosé exploraria pela calada os resultados da investigação. Para tanto bastava fazer-se seu aliado até ao dia em que já não precisasse mais dele.

 

No entanto, uma questão incomodativa subsistia: porquê toda esta encenação? O seu autor tinha substimado Paser, convencido de que a estranheza do lugar, o clima abrasador e a presença opressiva da morte impediriam o juiz de se interessar pela múmia e obrigá-lo-iam a retirar-se rapidamente mal tivesse colocado o selo. Ora o resultado obtido fora exactamente o contrário; longe de perder o interesse, o magistrado apercebera-se da amplitude da trama.

 

Mentmosé tentou acalmar-se: o desaparecimento de um modesto veterano, titular de um posto honorífico, não podia de forma alguma enganar o Estado! Tratava-se sem dúvida de um crime cometido por um soldado, para encobrir um oficial de alta patente: Asher ou algum dos seus acólitos. Era nesta direcção que a investigação devia prosseguir.

 

No primeiro dia da Primavera, o Egipto honrou os mortos e os antepassados. Ao sair de um Inverno ameno, as noites tornaram-se, porém, subitamente frescas, devido às rajadas de vento oriundas do deserto. Em todas as grandes necrópoles, abertas ao exterior, as famílias veneravam os defuntos depondo flores nos jazigos. Não havia uma fronteira estanque a separar a vida da morte, pela simples razão de que os vivos se banqueteavam na companhia dos mortos, cuja alma encarnava na chama de uma lamparina. A noite iluminou-se, celebrando o reencontro deste mundo com o outro. Em Abido’, a cidade santa de Osíris, os padres colocaram barcas na superestrutura dos túmulos para evocarem a viagem ao paraíso.

 

Depois de ter acendido o fogo em frente às mesas das oferendas dos principais templos de Mênfis, o faraó dirigiu-se para Gize. Como fazia todos os anos na mesma data, Ramsés, o Grande, preparava-se para entrar sozinho na pirâmide e para se recolher diante do sarcófago de Quéops. No coração do imenso monumento, o faraó detinha o poder essencial para unir as duas terras, o Alto e o Baixo Egipto, e torná-las prósperas. Contemplaria a máscara de ouro do construtor e o côvado do mesmo...

 

Nota: Abido, cidade do Médio Egipto, onde se pode visitar um admirável templo de Osíris. (N. do A.)

 

...metal, inspirador da sua causa. Quando chegasse a altura, pegaria no testamento dos deuses e apresentá-lo-ia ao país, no momento do ritual da sua regeneração.

 

A lua cheia iluminava o planalto onde se erguiam as três pirâmides.

 

Ramsés transpôs a porta do recinto de Quéops, guardada por uma força de elite. O rei vestia apenas uma simples tanga branca e um largo colar de ouro. Os soldados curvaram-se e correram os ferrolhos. Ramsés, o Grande, atravessou a soleira de granito e entrou na calçada ascendente, coberta de lajes de calcário. Estaria dentro em pouco diante da entrada da grande pirâmide, de que só ele conhecia os mecanismos secretos de abertura que revelaria ao seu sucessor.

 

Cada ano que passava, o rei vivia cada vez com mais intensidade este reencontro com Quéops e com o ouro da imortalidade. Reinar no Egipto era uma tarefa estimulante, mas esgotante; só os ritos concediam ao soberano a energia indispensável.

 

Ignorando ainda que o centro energético do país se tinha transformado num inferno estéril, Ramsés escalou paulatinamente a grande galeria e penetrou na sala do sarcófago.

 

Nas docas, era dia de festa; os barcos adornavam sob o peso das flores, a cerveja corria com fartura, os marinheiros dançavam com as raparigas menos ariscas, os músicos ambulantes alegravam a multidão. Paser, depois de um curto passeio com o cão, afastava-se desta agitação quando foi interpelado por uma voz familiar.

 

Juiz Paser, já te vais embora?

 

O rosto grosseiro e quadrado de Denes, orlado de fina barba branca, destacou-se da multidão de foliões. O transportador empurrou os que estavam a seu lado e foi ter com o magistrado.

 

Que rico dia! Todos se divertem, os problemas são deitados para trás das costas.

 

Não gosto muito de barulho.

 

Não devias ser tão sério na tua idade!

 

É difícil mudar de personalidade!

 

A vida se encarregará disso.

 

Pareces muito contente.

 

Os negócios correm-me bem, as minhas mercadorias estão prontas a tempo, os meus empregados não protestam. De que me posso queixar?

 

Acho que não me guardas rancor.

 

Fizeste o que tinhas de fazer, não posso censurar-te. Aliás, há aquela boa notícia.

 

Que notícia?

 

O palácio, por ocasião desta festa, anulou várias condenações. Um costume antigo de Mênfis, já um pouco esquecido. Tive a sorte de estar entre os felizes contemplados.

 

Paser empalideceu. Não conseguiu controlar a sua cólera.

 

Como é que conseguiste?

 

Já te disse: foi por causa da festa, nada mais! No processo de acusação, esqueceste-te de explicitar que o meu caso devia escapar a esta clemência. Vá, sê um bom jogador, tu ganhaste e eu não perdi.

 

Volúvel, Denes tentava partilhar o seu contentamento.

 

Não sou teu inimigo, juiz Paser. Nos negócios, por vezes ganham-se maus hábitos. A minha mulher e eu sabemos que tinhas razão em nos dares uma boa lição; não nos vamos esquecer dela.

 

Estás a ser sincero?

 

Estou. Agora, vais desculpar-me, mas estão à minha espera.

 

Ao negligenciar a carta, Paser tinha sido impaciente e vaidoso, demasiado apressado em fazer justiça. Arrependido, o juiz viu o seu caminho interrompido por uma parada militar que o general Asher liderava, triunfante.

 

Se te chamei, juiz Paser, foi para te dar novas das minhas investigações.

 

Mentmosé parecia muito seguro de si.

 

A múmia era de um jovem recruta morto na Ásia depois de uma escaramuça; atingido por uma flecha, o soldado teve morte imediata. Por causa de uma identidade de nomes, o processo dele foi confundido com o do guardião-mor da esfinge. Os escribas responsáveis por esta confusão dizem estar inocentes; na realidade, ninguém procurou enganar-te. Nós imaginávamos uma conspiração onde apenas havia um erro administrativo. Estás céptico? Pois estás muito enganado. Verifiquei cada pormenor.

 

Não duvido da tua palavra.

 

Ainda bem.

 

Contudo, o guardião-mor continua sem aparecer.

 

Concordo contigo. Lá que é estranho, é; e se ele se escondeu para fugir a uma inspecção do exército?

 

Dois veteranos sob as suas ordens morrem depois de terem tido um acidente.

 

Paser acentuou bem esta última palavra; Mentmosé coçou a cabeça.

 

Que tem isso de suspeito?

 

O exército tinha de saber alguma coisa e tu terias de ter conhecimento.

 

De maneira nenhuma. Este tipo de ocorrências não me diz respeito.

 

O juiz tentava encostar à parede o chefe da polícia. Segundo Kem, ele era bem capaz de tecer toda esta trama para levar a cabo uma limpeza geral da sua própria administração, onde alguns funcionários começavam a criticar os seus métodos.

 

Não vamos agora dramatizar a situação. Este assunto é uma sucessão de circunstâncias infelizes.

 

Eis os factos: dois veteranos e a mulher do guardião-mor, falecidos, e ele desaparecido. Não poderias pedir às autoridades militares para te enviarem o relatório sobre o... acidente?

 

Mentmosé fixou o olhar na ponta da pena.

 

Essa atitude seria considerada inconveniente. O exército não gosta da polícia e...

 

Nesse caso, trato eu pessoalmente do assunto.

 

Os dois homens cumprimentaram-se de modo glacial.

 

O general Asher acaba de partir em missão para o estrangeiro, anunciou o escriba do exército ao juiz Paser.

 

Quando volta?

 

É segredo militar.

 

A quem me devo dirigir, na ausência dele, para obter um relatório sobre o acidente que recentemente ocorreu junto da grande esfinge?

 

Certamente poderei ajudar-te. Ah! Já me esquecia! O general confiou-me um documento para te entregar logo que possível. Já que aqui estás, entrego-to pessoalmente. Assina o livro de registos.

 

Paser desatou o cordel de linho que mantinha o papiro enrolado.

 

O texto relatava as circunstâncias deploráveis que tinham causado a morte do guardião-mor da esfinge de Gize e dos outros quatro guardiães logo a seguir a uma inspecção de rotina. Os cinco veteranos subiram à cabeça da grande estátua para verificarem o estado da pedra e assinalarem eventuais sinais de degradação deixados pelas tempestades de areia. Um deles, mais desastrado, escorregou e arrastou os seus companheiros para uma queda fatal. Os veteranos foram enterrados nas suas aldeias natais, dois no Delta e os outros dois no Sul.

 

Quanto aos restos mortais do guardião-mor, devido ao carácter honorífico do posto, ficaram guardados numa capela do exército e beneficiariam de uma mumificação longa e cuidada. Após o seu regresso da Ásia, o general Asher iria ele próprio presidir aos funerais.

 

Paser assinou o livro de registo, atestando ter recebido o documento.

 

Mais alguma formalidade a cumprir? perguntou o escriba.

 

Não vai ser necessário.

 

Paser arrependeu-se de ter aceitado o convite de Suti. Antes de ficar noivo, o seu amigo queria festejar o acontecimento no bordel mais célebre de Mênfis. O juiz sonhava incessantemente com Néféret, com aquele rosto brilhante que irradiava os seus sonhos. Perdido entre os estróinas que veneravam o lugar, Paser não se interessava pelas dançarinas nuas, jovens núbias de formas esbeltas.

 

Os clientes estavam sentados em fofas almofadas; diante deles, jarros de vinho e de cerveja.

 

Não se pode tocar nas raparigas, explicou Suti, radiante; estão aqui só para nos excitarem! Fica tranquilo, Paser, a patroa forneceu um contraceptivo de excelente qualidade, feito com espinhos de acácia moídos, mel e tâmaras.

 

Todos sabiam que os espinhos de acácia continham ácido láctico que destruía o poder fecundador do esperma; os adolescentes, desde as primeiras folias amorosas, utilizavam este meio simples de se entregar ao prazer.

 

Umas quinze raparigas, cobertas por véus de linho transparentes, saíram dos cubículos colocados em torno do salão principal. Muito pintadas os olhos contornados com grossos traços negros, os lábios corados de vermelho, nos cabelos soltos uma flor de lótus, nos pulsos e tornozelos pesadas pulseiras aproximaram-se dos hóspedes, rendidos aos seus encantos. Os casais formaram-se por instinto e desapareceram nos cubículos isolados uns dos outros por cortinas.

 

Como Paser tinha recusado as ofertas de duas bailarinas lindíssimas, ficou na companhia de Suti, que não o quis deixar sozinho.

 

Nisto, apareceu uma mulher de cerca de trinta anos, vestida apenas com um cinto de conchas e pérolas coloridas. Chocaram um com o outro enquanto ela dançava em ritmo dolente, tocando lira. Fascinado, Suti reparou nas tatuagens: uma flor-de-lis sobre a coxa esquerda, perto do púbis, e um deus Bés debaixo dos pêlos negros do seu sexo, para afastar as doenças venéreas. Com uma pesada peruca de caracóis claros, Sababu, a dona do bordel, era ainda mais fascinante do que a mais bela das suas raparigas. Flectindo as longas pernas depiladas, dava passos sensuais antes de efectuar uma série de piruetas sem perder o ritmo da melodia. Ungida de ládano, irradiava um perfume inebriante.

 

Quando ela se aproximou dos dois homens, Suti não pôde controlar a sua paixão.

 

Agradas-me e creio que te agrado também disse ela.

 

Não deixo o meu amigo sozinho.

 

Deixa-o em paz; não vês que está apaixonado? O coração dele não está aqui. Vem comigo.

 

Sababu levou Suti para o cubículo mais espaçoso. Fê-lo sentar-se numa cama baixa coberta de almofadas de várias cores, ajoelhou-se e beijou-o. Ele quis tomá-la nos braços mas ela afastou-o docemente.

 

Nós temos a noite toda por nossa conta, não tenhas pressa. Aprende a conter o teu prazer, a fazê-lo crescer nos teus rins, a saborear o fogo que circula nas tuas veias.

 

Sababu desapertou o cinto de conchas e deitou-se de barriga para baixo.

 

Massaja-me as costas.

 

Suti, por alguns instantes, entrou no jogo; mas a visão daquele corpo magnífico, muito bem cuidado, o contacto com aquela pele perfumada, impediram-no de se conter por mais tempo. Apercebendo-se de como era intenso o seu desejo, Sababu não se opôs mais, e ele, cobrindo-a de beijos, amou-a furiosamente.

 

Deste-me prazer. Não és parecido com a maioria dos meus clientes; bebem de mais, tornam-se flácidos e moles.

 

Não homenagear os teus encantos seria uma ofensa ao espírito.

 

Nota: Aroma tirado da goma-resina. (N do A.)

 

Suti acariciava-lhe os seios, atento às suas mínimas reacções; graças às mãos sábias do amante, Sababu encontrava de novo sensações já esquecidas.

 

És escriba?

 

Dentro em breve serei soldado. Antes de ser um herói, quero conhecer a mais doce das aventuras.

 

Nesse caso, devo oferecer-te tudo.

 

Com pequenos toques da língua dados na ponta dos lábios, Sababu fez renascer o desejo de Suti. Entrelaçando-se, novamente desfrutaram um do outro, num só grito. Olhos nos olhos, retomaram o fôlego.

 

Seduziste-me, meu bezerrinho, pois tu amas o amor.

 

É a mais bela ilusão.

 

Mas tu és bem real.

 

Como é que te tornastes dona de um bordel?

 

Por desprezo pelos falsos nobres e os poderosos de discurso hipócrita. Afinal, são como tu e eu, submetidos às exigências do sexo e das paixões. Se tu soubesses...

 

Conta-me.

 

Queres arrancar de mim os meus segredos?

 

Porque não?

 

Apesar de toda a sua experiência, apesar de tantos homens, bonitos e feios, Sababu não sabia resistir às carícias do seu novo amante. Ele despertava nela uma vontade de se vingar do mundo onde fora tantas vezes humilhada.

 

Quando fores um herói, vais ter vergonha de mim?

 

Muito pelo contrário! Vou fazer com que recebas muitas honrarias.

 

Muito bem dito.

 

Como deve ser divertido...

 

Ela colocou o seu dedo pequenino sobre os lábios do jovem.

 

Só o meu diário sabe de tudo. Se vivo tranquila, é por causa dele.

 

Anotas os nomes dos teus clientes?

 

Nomes, hábitos, confidências.

 

Um verdadeiro tesouro!

 

Se me deixarem em paz, nem sequer lhe toco. Quando for velhinha, hei-de reler as minhas recordações.

 

Suti coloca-se em cima dela.

 

Sou um curioso de gema. Dá-me pelo menos um nome.

 

Impossível.

 

Diz-me a mim, só a mim.

 

O jovem beijou-lhe a ponta dos seios. Estremecendo, ela entregou-se.

 

Um nome, só um.

 

Podia falar-te de um modelo de virtude. Mas quando divulgar os seus vícios, a carreira dele estará acabada.

 

Como se chama?

 

Paser.

 

Suti afastou-se do corpo sumptuoso da amante.

 

Que te mandaram fazer?

 

Espalhar boatos.

 

Conheces esse tal homem?

 

Nunca o vi mais gordo.

 

Estás enganada.

 

Como assim?

 

Paser é o meu melhor amigo. Está aqui esta noite. Não só sonha com a mulher que ama, mas também com a causa que defende. Quem te mandou sujar o nome dele?

 

Sababu ficou calada.

 

Paser é um juiz retomou Suti. É o juiz mais honesto que conheço. Não o calunies. És demasiado poderosa para ficares preocupada.

 

Não te prometo nada.

 

Sentados lado a lado nas margens do Nilo, Paser e Suti assistiram ao alvorecer do novo dia. Vencendo as trevas e a serpente monstruosa que tentara destruí-lo durante a sua nocturna viagem, o novo Sol jorrou do deserto, ensanguentando o rio e fazendo estrebuchar os peixes de alegria.

 

Consideras-te um juiz sério, Paser?

 

De que me acusas?

 

Um magistrado que aprecie em excesso a vadiagem arrisca-se a ficar com as ideias baralhadas.

 

Foste tu que me levaste àquela taberna. E enquanto tu te divertias, eu pensava nos meus dossiers.

 

Ou talvez na tua bem-amada?

 

O rio cintilava. O sangue da aurora já se esvaía, dando lugar aos dourados da hora primeira.

 

Quantas vezes já foste àquele antro de prazeres proibidos?

 

Deves estar bêbado, Suti.

 

Então nunca tinhas visto a Sababu?

 

Claro que não. Nunca.

 

No entanto, ela estava pronta a contar a quem a quisesse ouvir que tu estás na lista dos seus melhores clientes.

 

Paser empalideceu. Preocupava-se mais com o que Néféret pudesse pensar do que com a sua reputação de juiz, que ficaria para sempre arruinada.

 

Subornaram-na!

 

Evidentemente.

 

Mas quem?

 

Fizemos amor tão bem, que ela, agradecida, contou-me tudo. Falou-me da conspiração em que a tinham envolvido, mas não me disse o nome do mandatário. Que, no entanto, me parece bem fácil de adivinhar. São os processos habituais de Mentmosé, o chefe da polícia.

 

Defender-me-ei.

 

Não será preciso. Convenci-a a ficar calada.

 

Não nos iludamos, Suti. Ela vai acabar por nos trair, a ti e a mim.

 

Não me convences. Aquela rapariga tem moral.

 

Permite-me que duvide.

 

Há certas alturas em que uma mulher não mente.

 

Pouco antes do meio-dia, o juiz Paser bateu à porta da taberna, acompanhado por Kem e pelo babuíno. Assustada, uma jovem núbia escondeu-se debaixo das almofadas; uma das suas colegas, menos medrosa, atreveu-se a enfrentar o magistrado.

 

Quero falar com a proprietária.

 

Eu sou apenas uma empregada, e...

 

Onde está Sababu? Não mintas. O falso testemunho é punido com prisão.

 

Se te contar, ela vai bater-me.

 

E se te calares, acuso-te de obstrução à justiça.

 

Mas eu não fiz mal nenhum!

 

Ainda não te acusei; vá, diz-me a verdade.

 

Partiu para Tebas.

 

Tens o endereço?

 

Não.

 

Quando volta?

 

Não sei.

 

Era óbvio que a prostituta tinha preferido fugir e esconder-se noutro lugar.

 

De agora em diante, o juiz não podia dar o mais pequeno passo em falso. Na sombra, conspiravam contra ele. Alguém, sem dúvida Mentmosé, dera dinheiro a Sababu para o caluniar; se a prostituta cedera às ameaças, não hesitaria em difamá-lo. Se o juiz ainda gozava de uma reputação sem mácula, isso devia-se apenas ao poder de sedução de Suti.

 

Por vezes, pensou Paser, o deboche não é inteiramente condenável.

 

Depois de longa reflexão, o chefe da polícia tomara uma decisão que teria graves consequências: pedir uma audiência privada ao vizir Bagey. Nervoso, ensaiou várias vezes o seu discurso diante de um espelho de cobre, estudando minuciosamente a expressão do rosto. Conhecia melhor que ninguém a intransigência do primeiro-ministro do Egipto. Parco nas palavras, Bagey tinha horror a perder tempo. As suas funções obrigavam-no a ouvir todas as queixas, de quem quer que elas viessem, desde que tivessem fundamento; os inoportunos, os fingidores e os mentirosos lamentavam amargamente terem-se dado ao trabalho. Diante do vizir, cada palavra, cada atitude tinha o seu peso certo.

 

Mentmosé dirigiu-se ao palácio ao fim da manhã. Às sete horas, Bagey estivera reunido com o rei; em seguida, dera as suas directivas aos seus principais colaboradores e consultara os relatórios chegados das províncias. Depois dera início à sua audiência diária, durante a qual foram tratadas múltiplas questões que os outros tribunais não haviam podido resolver. Antes de tomar um pequeno-almoço frugal, o vizir concedia algumas audiências privadas, sempre que a urgência o justificava.

 

Recebeu o chefe da polícia num escritório austero, cuja decoração despojada não reflectia a elevação do seu cargo: cadeira de espaldar alto, uma esteira, baús e estantes com papiros. As pessoas poderiam pensar estar diante de um simples escriba, se Bagey não envergasse uma longa veste de um pesado tecido, ficando apenas com os ombros a descoberto. Ao pescoço, um colar de onde pendia um enorme coração de cobre, evocativo da sua inesgotável capacidade para ouvir queixas e reclamações.

 

Alto, curvado, de rosto comprido e dominado por um nariz proeminente, cabelos encaracolados e olhos azuis, o vizir Bagey, de sessenta anos de idade, era um homem de rija têmpera. Nunca tinha praticado desporto, e a sua pele detestava o sol. As suas mãos, finas e elegantes, tinham jeito para o desenho; depois de ter sido artesão, passara a ser professor na sala da escrita e, mais tarde, tornara-se um famoso geómetro, tendo dado nessa especialidade provas de um rigor inultrapassável. Tornando-se notado no palácio, fora nomeado chefe dos geómetros, juiz principal da província de Mênfis, deão do pórtico e por fim vizir. Muitos foram os que tentaram, em vão, apanhá-lo em falta; temido e respeitado, Bagey entrava na linhagem dos grandes vizires que, desde Imhotep, mantinham o Egipto no rumo certo. Se por vezes lhe censuravam a severidade dos seus julgamentos, e a inflexibilidade das sentenças, ninguém podia contestar a sua justeza.

 

Até ao momento, Mentmosé havia-se contentado em obedecer às ordens do vizir e procurava não lhe desagradar. O encontro desta manhã deixava-o pouco à vontade.

 

O vizir, fatigado, parecia dormitar.

 

Sou todo ouvidos, Mentmosé. Sê breve.

 

Não é assim tão simples...

 

Trata de simplificar.

 

Vários veteranos encontraram a morte num acidente, ao caírem da grande esfinge.

 

Foi aberto inquérito administrativo?

 

O exército encarregou-se disso.

 

Anomalias?

 

Aparentemente, não. Não consultei os documentos oficiais, mas...

 

Mas os teus contactos permitiram-te conheceres o seu conteúdo. Isso não é lá muito regular, Mentmosé.

 

O chefe da polícia temia esta investida.

 

São hábitos velhos.

 

Que devíamos modificar. Se não existe nenhuma anomalia, qual a razão da tua visita?

 

O juiz Paser.

 

Trata-se de algum magistrado indigno?

 

A voz de Mentmosé tornou-se mais nasalada.

 

Não se trata propriamente de uma acusação, é antes o seu comportamento que me inquieta.

 

Estará ele a infringir a lei?

 

Está convencido de que o desaparecimento do guardião-mor, um veterano de excelente reputação, se deu em circunstâncias anormais.

 

Tem provas?

 

Nenhuma. É minha convicção que este jovem juiz pretende fomentar uma certa agitação, para forjar uma reputação, o que é, a meu ver, uma atitude deplorável.

 

Estou a ficar interessado, Mentmosé. E a tua opinião sobre tudo isto, qual é?

 

A minha opinião não vale nada.

 

Pelo contrário. Estou impaciente por conhecê-la. A armadilha estava montada.

 

O chefe da polícia temia comprometer-se de uma maneira ou de outra, para não poder ser acusado de ter tomado esta ou aquela posição.

 

O vizir abriu os olhos. O seu olhar, azul e gelado, traspassava a alma.

 

É provável que não haja mistério nenhum à volta da morte destes infelizes, mas conheço muito mal o dossier, para poder pronunciar-me de forma definitiva.

 

Se até o próprio chefe da polícia tem dúvidas, porque não as há-de ter um juiz? O seu primeiro dever é não aceitar verdades acabadas.

 

Bem entendido murmurou Mentmosé.

 

Não se nomeia um incompetente para juiz de Mênfis; Paser foi certamente escolhido pelas suas qualidades.

 

O ambiente da grande cidade, a ambição, o excesso de poder... Não serão responsabilidades pesadas de mais para um homem tão jovem?

 

Veremos rematou o vizir. Se for caso disso, demiti-lo-ei. Entretanto, deixemo-lo continuar. Conto consigo para o ajudar.

 

Bagey encostou a cabeça para trás e fechou os olhos. Convencido de que ele o observava por detrás das pálpebras semicerradas, Mentmosé levantou-se, fez uma vénia e saiu, reservando a raiva que sentia para os seus servidores.

 

Bem constituído, vigoroso, com a pele bronzeada pelo sol, Kani chegou ao escritório do juiz Paser pouco depois do alvorecer. Sentou-se em frente à porta fechada, ao lado de Vento do Norte. Um burro, pensava ele. Ajudá-lo-ia a carregar os fardos mais pesados e libertaria as suas costas cansadas do peso dos cântaros de água que tinha de acarretar, um a um, para regar o jardim. Como Vento do Norte arrebitasse as orelhas, falou-lhe dos dias que corriam eternamente iguais, do seu amor pela terra, do zelo com que abria os regos de irrigação, do prazer que lhe dava ver as plantas crescerem.

 

As suas confidências foram interrompidas por Paser, que se aproximou em passo lesto.

 

Kani... desejas falar comigo? O jardineiro aquiesceu.

 

Entra.

 

Kani hesitou. O escritório do juiz amedrontava-o, tal como a cidade. Sentia-se pouco à vontade longe do campo. Eram os barulhos da cidade, os cheiros nauseabundos, os horizontes limitados. Se o seu futuro não estivesse em jogo, jamais se teria aventurado pelas ruelas de Mênfis.

 

Perdi-me dez vezes, até chegar aqui explicou.

 

Novos problemas com Qadash?

 

Sim.

 

De que te acusa ele agora?

 

Quero vir-me embora e ele não deixa.

 

Vires-te embora?

 

Este ano, o meu jardim produziu três vezes mais legumes do que a quantidade fixada. Por conseguinte, posso tornar-me trabalhador independente.

 

Isso é de lei.

 

Mas Qadash não o admite.

 

Explica-me como é o teu terreno.

 

O médico-chefe recebeu Néféret no parque sombreado de árvores do seu sumptuoso palacete. Sentado sob uma acácia em flor. bebia um vinho rosado, fresco e leve. Um servo abanava-o.

 

Bela Néféret, como estou contente por te ver!

 

A jovem vestia com sobriedade e trazia uma peruca curta, à moda antiga.

 

Que austeridade no trajar! Essas vestes não te parecem já fora de moda?

 

Interrompeste-me a meio do meu trabalho no laboratório; gostaria de saber o motivo da tua convocatória.

 

Nébamon mandou o servo retirar-se. Confiante no seu poder de sedução, convencido de que a grande beleza dos lugares encantaria Néféret, estava decidido a dar-lhe uma última oportunidade.

 

Não pareces gostar muito de mim.

 

Aguardo a tua resposta.

 

Saboreia este dia magnífico, este vinho delicioso, este paraíso em que vivemos. És bela e inteligente, mais dotada para a medicina que o mais galardoado dos nossos médicos. Mas falta-te a fortuna e a experiência; se eu não te ajudar, acabarás a vegetar numa aldeola qualquer. A princípio, a tua força moral ajudar-te-á a venceres a prova; mas, com o avançar dos anos, vais arrepender-te desta tua pretensa pureza de princípios. Uma carreira não se constrói sobre um ideal, Néféret.

 

De braços cruzados, a jovem contemplava o lago, onde os patos se divertiam entre as flores de lótus.

 

Aprenderás a amar-me, a mim e ao meu carácter.

 

As tuas ambições não me interessam.

 

És digna de seres a esposa do médico-chefe da corte.

 

Desilude-te.

 

Conheço bem as mulheres.

 

Tens assim tanto a certeza?

 

O sorriso sedutor de Nébamon crispou-se subitamente.

 

Não estarás a esquecer-te de que o teu futuro está nas minhas mãos?

 

O meu futuro está nas mãos dos deuses, não nas tuas. Nébamon levantou-se, carrancudo.

 

Deixa os deuses em paz e pensa antes em mim.

 

Não contes com isso.

 

Este é o meu último aviso.

 

Posso voltar para o laboratório?

 

Segundo os relatórios que acabei de receber, os teus conhecimentos de farmacologia deixam muito a desejar.

 

Néféret não perdeu a compostura; descruzou os braços e fitou o seu acusador.

 

Sabes bem que isso é falso.

 

Os relatórios são oficiais.

 

E quem os fez?

 

Farmacêuticos que prezam o lugar que ocupam e que merecem ser recompensados pela sua vigilância. Se não és capaz de preparar remédios complicados, não tenho o direito de te integrar num corpo de elite. E julgo que sabes o que isso significa? Significa a impossibilidade de subires na hierarquia. A tua carreira estagnará, se não puderes usar os melhores produtos dos laboratórios; uma vez que a sua distribuição é do meu pelouro, o acesso a eles ser-te-á interdito.

 

São os doentes que condenas.

 

Entregarás os teus doentes a colegas mais competentes do que tu. E quando a mediocridade da tua existência se tornar demasiado pesada, vir-te-ás lançar aos meus pés.

 

A liteira de Denes acabava de deixá-lo diante da porta do palacete de Qadash precisamente no momento em que o juiz Paser se dirigia ao guarda do portão.

 

Dores de dentes? perguntou o transportador.

 

Assunto jurídico.

 

Tanto melhor! Eu cá sofro das gengivas, tenho os dentes todos a abanar. Qadash está em maus lençóis?

 

Uma simples questão de pormenor.

 

O dentista das mãos vermelhas saudou os clientes.

 

Por quem devo começar?

 

Denes é teu cliente; quanto a mim, estou aqui para resolver a questão de Kani.

 

O meu jardineiro?

 

Já não é teu jardineiro. O trabalho desenvolvido dá-lhe direito à independência.

 

Balelas! Ele é meu empregado e vai continuar a sê-lo.

 

Põe a assinatura neste documento.

 

De maneira nenhuma. A voz de Qadash vacilava.

 

Nesse caso, vou abrir-te um processo. Denes interveio.

 

Não percamos a calma! Deixa lá o jardineiro ir-se embora, Qadash; eu arranjo-te outro.

 

É uma questão de princípio protestou o dentista.

 

Antes um bom acordo que um mau processo! Esquece esse Kani.

 

Contrariado embora, Qadash seguiu os conselhos de Denes.

 

Letópolis era uma cidadezinha do Delta rodeada de searas de trigo; o seu colégio de sacerdotes era consagrado aos mistérios do deus Hórus, o falcão alado, cujas asas abarcavam o cosmos.

 

Néféret foi recebida pelo sumo-sacerdote, um amigo de Branir, de quem ela não ocultara a sua exclusão do corpo oficial de médicos. O alto dignitário conduziu-a à capela onde se encontrava a estátua de Anúbis, o deus com corpo de homem e cabeça de chacal, que revelara aos homens os segredos da mumificação e franqueava às almas dos justos as portas do outro mundo. Era ele quem transformava a carne inerte em corpo de luz.

 

Néféret contornou a estátua; na coluna traseira, estava inscrito um longo texto hieroglífico, verdadeiro tratado de medicina consagrado ao tratamento das doenças infecciosas e à purificação da linfa. Néféret gravou-o na memória. Branir tinha decidido trasmitir-lhe uma arte de curar à qual Nébamon jamais teria acesso.

 

O dia havia sido esgotante.

 

Paser estava estendido na açoteia de Branir a gozar a paz do entardecer. Bravo, que tinha ficado de vigia ao escritório, entregava-se, também ele, a um merecido repouso. A luz extinguia-se no firmamento, até aos confins do céu.

 

Fizeste progressos no teu inquérito? perguntou Branir.

 

O exército está a tentar travá-lo. Além disso, há uma conspiração contra mim.

 

Quem é o instigador?

 

Só pode ser o general Asher.

 

Nada de ideias pré-concebidas.

 

Uma avalanche de documentos administrativos a que tenho de dar despacho impede-me de sair do escritório. O responsável deve ser Mentmosé. Tive de desistir da viagem que tinha planeado.

 

O chefe da polícia é uma personagem temível. Destruiu muitas carreiras para fazer a sua.

 

Pelo menos fiz alguém feliz, o jardineiro Kani! Tornou-se trabalhador livre e já deixou Mênfis em direcção ao Sul.

 

Era um dos meus fornecedores de plantas medicinais. Um homem difícil, mas que gosta do seu ofício. Qadash não deve ter gostado nada da tua intervenção.

 

Seguiu os conselhos de Denes e curvou-se perante a lei.

 

A prudência a isso o obrigou.

 

Denes finge ter aprendido a lição.

 

Antes de mais, é um comerciante.

 

Acreditas na sinceridade da sua transformação?

 

A maioria dos homens comportam-se de acordo com os seus interesses.

 

Tornaste a ver Néféret?

 

Nébamon não abranda o cerco. Propôs-lhe casamento. Paser empalideceu. Bravo, apercebendo-se do embaraço do dono, ergueu os olhos para ele.

 

E ela... recusou?

 

Néféret é terna e doce, mas ninguém a consegue obrigar a agir contra vontade.

 

Então recusou, não foi? Branir sorriu.

 

Consegues imaginar, por um momento que seja, um casal formado por Nébamon e Néféret?

 

Paser não escondeu o alívio que sentia. Tranquilizado, o cão voltou a adormecer.

 

Nébamon quer dominá-la continuou Branir. Com base em relatórios falsos, decretou a sua incompetência e expulsou-a do corpo oficial dos médicos.

 

O juiz cerrou os punhos.

 

Destruirei esses falsos testemunhos.

 

Não tens qualquer hipótese; há muitos médicos e farmacêuticos a soldo de Nébamon que confirmarão todas as mentiras.

 

Ela deve estar desesperada.

 

Decidiu sair de Mênfis e instalar-se numa aldeia perto de Tebas.

 

Vamos partir para Tebas anunciou Paser a Vento do Norte.

 

O burro recebeu a notícia com satisfação. Quando o escrivão larrot se apercebeu dos preparativos para a viagem, mostrou-se inquieto.

 

Vai ser longa a ausência?

 

Não faço ideia.

 

Onde poderei encontrar-te, em caso de necessidade?

 

Os documentos terão de esperar.

 

Mas...

 

E vê se és pontual. A tua filha não sofrerá com isso.

 

Kem morava perto do arsenal, num prédio de dois andares dividido em apartamentos de duas ou três divisões. O juiz tinha escolhido o dia de repouso do núbio para a visita, pois decerto estaria em casa.

 

O babuíno, de olhar fixo, veio abrir a porta.

 

A sala principal estava repleta de facas, lanças e fundas. O polícia consertava um arco.

 

Tu, aqui?

 

Tens o saco pronto?
Não tinhas desistido de viajar?

 

Mudei de ideias.

 

Às tuas ordens.

 

Funda, lança, punhal, clava, bastão, machado, escudo rectangular de madeira: em três dias, Suti tinha aprendido a manejar todas estas armas com grande destreza. Para atrair a atenção dos oficiais encarregados de alistar os futuros recrutas, dera mostras da segurança de um soldado já calejado.

 

No fim das provas, os candidatos à vida militar foram reunidos na parada do quartel-general de Mênfis. A um dos lados, erguiam-se os estábulos, de onde os cavalos assistiam ao espectáculo; ao centro havia um enorme reservatório de água.

 

Suti visitara as cavalariças, construídas com chão de saibro retalhado de regos por onde escorriam as águas das lavagens. Os cavaleiros e os condutores enfeitavam os cavalos; bem alimentados, limpos, bem tratados, viviam com todo o conforto e higiene. O jovem ficara também muito bem impressionado com as casernas dos soldados, abrigadas à sombra de uma fiada de árvores.

 

Mas continuava a ser alérgico à disciplina. Três dias de ordens e de berros dos militares de baixa patente acabaram com o fascínio da aventura e dos uniformes.

 

A cerimónia de recrutamento desenrolava-se segundo regras precisas; dirigindo-se aos voluntários, um graduado tentava convencê-los, descrevendo-lhes as alegrias que os esperavam nas fileiras do exército. Segurança, respeitabilidade, uma reforma confortável figuravam entre as vantagens principais. Os porta-insígnias mantinham bem alto os estandartes dos regimentos principais, dedicados aos deuses Ámon, Ra, Ptah e Seth. Um escriba real preparava-se para inscrever nos registos os nomes dos alistados. Por detrás dele, amontoavam-se cabazes cheios de vitualhas; os generais iriam oferecer um banquete onde seriam servidos bois, aves, legumes e frutos.

 

A vida está para nós murmurou um dos companheiros de Suti

 

Para mim, não.

 

Vais renunciar?

 

Prefiro a minha liberdade.

 

Estás louco! Segundo o capitão, foste o mais bem classificado nos treinos; ias apanhar logo um bom posto

 

Ando à procura da aventura, não do recrutamento.

 

No teu lugar, eu pensava melhor.

 

Um mensageiro do palácio, munido de um papiro, atravessou a parada. Ia apressado. Mostrou o documento ao escriba real. Este levantou-se e distribuiu algumas ordens breves. Em menos de um minuto todos os portões do quartel foram fechados.

 

Um sussurro elevou-se entre os voluntários.

 

Tenham calma ordenou o oficial que fizera o discurso encomiástico. Acabámos de receber instruções. Por decreto do faraó, estão todos alistados. Uns irão para os quartéis da província, outros partirão amanhã para a Ásia.

 

Estado de sítio, ou então guerra comentou o companheiro de Suti.

 

E eu ralado.

 

Não te armes em parvo. Se tentares fugir, serás considerado desertor.

 

Era com efeito um argumento de peso Suti avaliou as hipóteses de saltar o muro e desaparecer nas ruelas da vizinhança: nenhumas. Aquilo ali não era a escola dos escribas, mas um quartel apinhado de arqueiros e lanceiros.

 

Um a um, os recrutas desfilaram perante o escriba real. Tal como os outros militares, trocaram o sorriso esperançado por uma expressão determinada.

 

Suti.. excelentes resultados. Destacamento: exército da Ásia. Serás arqueiro, às ordens do oficial-condutor. Partes amanhã de madrugada. O seguinte.

 

Suti viu o seu nome ser inscrito numa tabuinha. Por ora era impossível desertar, a menos que quisesse refugiar-se no estrangeiro e não mais voltar ao Egipto, nem a ver Paser. Estava condenado a ser um herói.

 

Irei ficar sob as ordens do general Asher? O escriba ergueu para ele uns olhos irados.

 

Eu disse: o seguinte.

 

Suti recebeu uma camisa, uma túnica, um manto, uma couraça, perneiras de couro, um capacete, uma machadinha de lâmina dupla, e um arco de madeira de acácia, bastante mais grosso ao centro do que nas extremidades. Com um metro e sessenta e cinco de altura, o que o tornava difícil de manejar, o arco lançava flechas a uma distância de sessenta metros em tiro recto, e a cento e oitenta metros em tiro parabólico.

 

E o banquete?

 

Têm pão, meio quilo de carne seca, azeite, e figos respondeu o oficial da intendência. Come, bebe água da cisterna e dorme, que amanhã vais mas é comer poeira.

 

No barco que se dirigia para o sul, não se falava de mais nada a não ser do decreto de Ramsés, o Grande, amplamente divulgado por muitos arautos. O faraó tinha mandado purificar todos os templos, avaliar todos os tesouros do país, inventariar o conteúdo dos celeiros e depósitos públicos, duplicar as oferendas aos deuses e preparar uma expedição militar à Ásia.

 

Os boatos tinham exagerado as notícias, e já se falava de desastre iminente, de motins armados nas cidades, revoltas nas províncias, e uma invasão hitita para breve. Paser, como todos os outros juizes, deveria zelar pela manutenção da ordem pública.

 

Não teria sido melhor termos ficado em Mênfis? perguntou Kem.

 

A nossa viagem será breve. Os alvazires das aldeias dir-nos-ão que os dois veteranos, vítimas de um acidente, foram mumificados e inumados.

 

Não estás nada optimista.

 

Cinco quedas fatais: eis a verdade oficial.

 

Mas tu não acreditas.

 

E tu?

 

Que importa isso agora? Se a guerra rebentar, serei chamado outra vez.

 

Ramsés preza a paz com os Hititas e os principados da Ásia.

 

Mas eles jamais renunciarão a invadir o Egipto.

 

O nosso exército é muito forte.

 

Porquê esta expedição neste momento, e estas medidas tão estranhas?

 

Estou perplexo. Talvez seja um problema de segurança interna.

 

O país é rico e feliz, o rei beneficia do afecto do povo, cada um tem o que precisa, as estradas são seguras. Nenhuma desordem nos ameaça.

 

Tens toda a razão, mas o faraó parece não ser bem da mesma opinião.

 

O vento fustigava-lhes as faces; de vela descida, o barco deixava-se ir na corrente. Dezenas de outras embarcações cruzavam o Nilo nos dois sentidos, obrigando o capitão e a tripulação a uma vigilância permanente.

 

Quando estavam a cerca de cem quilómetros a sul de Mênfis, uma vedeta rápida da polícia fluvial colocou-se a par deles e ordenou-lhes que abrandassem. Um polícia agarrou-se às amarras e saltou para a ponte.

 

O juiz Paser encontra-se entre os passageiros?

 

Estou aqui.

 

Tenho de te levar de volta a Mênfis.

 

Qual a razão?

 

Foi feita uma queixa contra ti.

 

Suti foi o último a levantar-se e a vestir o uniforme. O responsável pela caserna empurrou-o para o fazer recuperar o atraso. O jovem tinha sonhado com Sababu, com as suas carícias e os seus beijos. Ela havia-lhe proporcionado prazeres insuspeitados que ele estava decidido a explorar de novo sem perda de tempo. Sob o olhar invejoso dos outros recrutas, Suti subiu para um carro de assalto, obedecendo às ordens de um tenente de cerca de quarenta anos e musculatura impressionante que o chamara lá de cima.

 

Agarra-te, rapaz, recomendou-lhe ele com voz grave. Mal dando tempo a Suti de passar a mão esquerda por uma alça de couro, o tenente meteu os cavalos a toda a velocidade. O carro foi o primeiro a sair do quartel, lançando-se rumo ao norte.

 

Já combateste, rapaz?

 

Só contra os escribas.

 

E mataste-os?

 

Acho que não.

 

Não desesperes: vou dar-te coisa melhor.

 

Para onde vamos?

 

Sempre em frente, direitos ao inimigo! Atravessamos o Delta, metemos ao longo da costa, e vamos dar uns safanões ao sírio e ao hitita. Cá a mim, este decreto cheira-me muito bem. Já há muito tempo que não espezinhava um destes bárbaros. Prepara o arco.

 

Não seria melhor abrandar um pouco?

 

Um bom arqueiro atinge o alvo nas piores condições.

 

E se eu falhar?

 

Corto a correia que te prende ao carro e faço-te morder o pó.

 

És um duro.

 

Dez campanhas na Ásia, cinco ferimentos, recebi por duas vezes o ouro dos bravos como recompensa, e o próprio Ramsés me felicitou; achas que chega?

 

Nem sequer uma margem de erro?

 

Ou ganhas, ou perdes.

 

Tornar-se um herói parecia mais difícil que o previsto. Suti respirou fundo, vergou o arco o mais que pôde, esqueceu o carro, os solavancos, a estrada irregular.

 

Acerta naquela árvore, lá adiante!

 

A flecha partiu em direcção ao céu, descreveu uma curva graciosa e cravou-se no tronco da acácia ao pé da qual o carro passou a alta velocidade.

 

Bravo, rapaz!

 

Suti soltou um longo suspiro.

 

De quantos arqueiros já te desembaraçaste?

 

Já lhes perdi a conta! Tenho horror a incompetentes. Esta noite convido-te para um copo.

 

Na tenda?

 

Os oficiais e os seus impedidos têm direito ao albergue.

 

E... a mulheres?

 

O tenente respondeu a Suti dando-lhe uma formidável palmada nas costas.

 

Ah, meu danado! Foste mesmo feito para o exército. Primeiro bebemos e, depois, toca a farrear até o dinheiro acabar.

 

Suti abraçou-se ao arco. A sorte continuava do seu lado.

 

Paser havia subestimado a capacidade de reacção dos seus inimigos. Por um lado, queriam impedi-lo de sair de Mênfis e ir prosseguir o seu inquérito em Tebas; por outro, retirar-lhe o cargo de juiz, para acabar de vez com as investigações, pois Paser tentava desvendar o mistério de um assassínio, ou melhor, de vários.

 

Tarde de mais, porém.

 

Como ele temia, Sababu, amante do chefe da polícia, acusara-o de deboche, e a corporação dos magistrados consideraria a vida dissoluta de Paser incompatível com a sua função.

 

Kem entrou no escritório de cabeça baixa.

 

Conseguiste desencantar Suti?

 

Foi incorporado no exército da Ásia.

 

Já partiu?

 

Como arqueiro de um carro de combate.

 

Então fiquei sem a minha única testemunha abonatória.

 

Eu posso substituí-lo.

 

Não posso aceitar, Kem. Vão provar que não estavas em casa de Sababu e serás condenado por falso testemunho.

 

Ver-te caluniado desta maneira deixa-me revoltado!

 

Fiz mal em ter levantado a ponta do véu.

 

Se já ninguém, nem mesmo um juiz, pode proclamar a verdade, para que serve viver?

 

A desolação do núbio era tocante.

 

Não vou desistir, Kem, mas não tenho nenhuma prova.

 

Eles acabam por te calar a boca.

 

Não me calarei.

 

Estarei ao teu lado, com o meu babuíno. Os dois homens abraçaram-se.

 

O julgamento decorreu sob o pórtico de madeira construído diante do palácio, dois dias depois do regresso do juiz Paser. A rapidez do processo era justificada pela personalidade do acusado; uma suspeita de violação da lei por um magistrado tinha de ser alvo de um exame imediato.

 

Paser não esperava qualquer indulgência por parte do deão do pórtico; ficou, no entanto, estupefacto com a amplitude da conspiração ao saber quem eram os membros do júri: o transportador Denes, a sua mulher, Nénophar, o chefe da polícia, Mentmosé, um escriba do palácio e um sacerdote do templo de Ptah. Os seus inimigos representavam a maioria, ou talvez a unanimidade, se o escriba e o sacerdote não passassem de mais dois comparsas.

 

De cabeça rapada, tanga em forma de avental, e rosto crispado, o deão do pórtico estava sentado ao fundo da sala de audiências. A seus pés, um côvado em madeira de sicómoro evocava a presença de Maât. Os jurados estavam de pé à sua esquerda; à sua direita estava um escrivão. Atrás de Paser, uma multidão de curiosos.

 

És o juiz Paser?

 

Com jurisdição em Mênfis.

 

Entre o teu pessoal, figura um escrivão chamado larrot.

 

Exactamente.

 

Que entre a queixosa.

 

larrot e Sababu: uma aliança imprevista! Fora então traído pelo seu colaborador mais próximo.

 

Todavia, não foi Sababu que entrou na sala, mas sim uma morena de pernas curtas, de formas arredondadas e com a ingratidão estampada no rosto.

 

És a esposa do escrivão larrot?

 

Sou eu, sim disse ela com voz áspera e nada inteligente.

 

Estás a prestar declarações sob juramento. Faz as tuas acusações.

 

O meu marido bebe cerveja... muita cerveja... sobretudo à noite. De há uma semana para cá, insulta-me e bate-me na presença da nossa filha. Ela anda assustada, coitadinha. Fiquei toda marcada; mas um médico fez desaparecer as nódoas negras.

 

Conheces o juiz Paser?

 

Só de nome.

 

Que vens pedir ao tribunal?

 

Que o meu marido e o seu patrão, responsável pela sua conduta imoral, sejam condenados. Quero dois vestidos novos, dez sacos de milho e cinco gansos assados. E exijo o dobro se larrot voltar a bater-me.

 

Paser estava estupefacto.

 

Que se apresente o principal acusado.

 

Contrito, larrot obedeceu. Com as faces mais vermelhas que o habitual, apresentou uma defesa atabalhoada.

 

A minha mulher provoca-me, recusa-se a cozinhar para mim. Bati-lhe sem querer. Foi uma reacção impensada. Precisam de entender: o juiz Paser mata-me de trabalho, os horários são muito duros, a quantidade de assuntos a tratar justificaria a presença de mais um escriba.

 

Alguma objecção, juiz Paser?

 

Estas afirmações não correspondem à verdade. Temos muito trabalho, é verdade, mas sempre respeitei a personalidade do escriba larrot, sempre entendi os seus problemas familiares, e estipulei-lhe um horário leve.

 

Quem pode testemunhar a teu favor?

 

Os vizinhos, julgo eu.

 

O deào do pórtico dirigiu-se a lartol.

 

Queres que os faça comparecer perante o tribunal, e queres contestar a opinião do juiz Paser?

 

Não, não... Mas, seja como for, não deixo de ter razão.

 

Juiz Paser, tinhas conhecimento de que o teu escrivão batia na esposa?

 

Não.

 

Mas tu és responsável pela conduta moral do teu pessoal.

 

Não o nego.

 

Por negligência, não verificaste as qualidades morais de larrot.

 

Não tive tempo para o fazer.

 

Negligência é o termo exacto.

 

O deão do pórtico tinha Paser à sua mercê. Perguntou aos protagonistas se desejavam acrescentar mais alguma coisa; só a mulher de larrot, excitadíssima, reiterou as acusações.

 

O júri reuniu-se.

 

Paser sentia quase vontade de rir. Como poderia ele imaginar que ia ser condenado por causa de uma desavença conjugal? A cobardia de larrot e a estupidez da sua mulher constituíam armadilhas imprevisíveis, ao serviço dos seus adversários. Os procedimentos jurídicos seriam respeitados, e o jovem juiz seria afastado sem recurso à violência.

 

O júri demorou menos de uma hora a deliberar.

 

O deão do pórtico, sempre carrancudo, transmitiu o resultado.

 

Por unanimidade, o escrivão é declarado culpado de má conduta para com a sua esposa. É condenado a oferecer à vítima o que ela pede e a receber trinta bastonadas. Se reincidir, o divórcio será imediatamente declarado a expensas suas. O acusado deseja protestar contra a sentença?

 

Satisfeito por se livrar da situação com uma pena tão leve, larrot submeteu as costas ao castigo. O direito egípcio não se compadecia dos homens que usavam de brutalidade para com as mulheres. O escrivão gemia e lamentava-se; um polícia levou-o para a enfermaria da esquadra.

 

Por unanimidade, continuou o deão do pórtico, o juiz Paser é declarado inocente. O tribunal recomenda-lhe que não demita o seu escriba e que lhe dê uma oportunidade de se emendar.

 

Mentmosé limitou-se a cumprimentar Paser; apressado, ia fazer parte de um outro júri formado para julgar um ladrão. Denes e a esposa felicitaram o magistrado.

 

Uma acusação grotesca sublinhou Nénophar, cujo vestido multicolor faria tema de conversa da cidade.

 

Não importa que tribunal te absolveu afirmou Denes, enfático. Precisamos de um juiz como tu aqui em Mênfis.

 

É verdade reconheceu Nénophar. O comércio só se pode desenvolver numa sociedade justa e em paz. A tua firmeza impressionou-nos muito; nós apreciamos um homem de coragem. De hoje em diante, iremos consultar-te sempre que surja alguma dúvida jurídica nos nossos negócios.

 

Depois de uma viagem rápida e tranquila, o barco que transportava o juiz Paser, o seu burro, o seu cão, Kem, o babuíno-polícia e mais alguns passageiros, chegou à vista de Tebas.

 

Fez-se silêncio.

 

Na margem esquerda, os templos de Carnaque e Luxor ostentavam a sua arquitectura divina. Por detrás dos muros altos, ao abrigo dos olhares profanos, um pequeno grupo de homens e mulheres celebravam as divindades, para que se deixassem ficar na terra. Acácias e tamarindos sombreavam as alamedas cheias de carneiros, que conduziam às colunatas, portas monumentais de acesso aos santuários.

 

Desta vez, a polícia fluvial não tinha interceptado o barco. Paser reencontrava com grande alegria a sua província natal; desde que partira, havia passado duras provas, amadurecido e, sobretudo, descoberto o amor. Nem por um instante conseguia deixar de pensar em Néféret. Perdera o apetite e tinha cada vez maior dificuldade para se concentrar; passava as noites acordado, à espera de a ver surgir da penumbra a todo o momento. Apático, mergulhava pouco a pouco num vazio que o devorava por dentro. Só a mulher amada poderia curá-lo; mas seria ela capaz de identificar a doença que o afligia? Nem os deuses nem os sacerdotes lhe podiam restituir o gosto pela vida, não havia triunfo capaz de lhe mitigar o sofrimento, leitura capaz de o acalmar.

 

Tebas, onde Néféret se escondia, era a sua última esperança.

 

Paser já não tinha esperanças no êxito das suas investigações. Desiludido, sabia que o plano tinha sido traçado até à perfeição. Fossem quais fossem as suas suspeitas, jamais conheceria a verdade. Precisamente antes da partida, teve conhecimento da inumação da múmia do guardião-mor da esfinge. Como não se sabia quanto tempo demoraria a missão do general Asher na Ásia, as autoridades militares tinham achado melhor não atrasar por mais tempo os funerais. Tratar-se-ia do corpo do veterano, ou de um outro cadáver’ Estaria o desaparecido ainda vivo e escondido em qualquer lugar? Paser continuaria para sempre na dúvida.

 

O barco acostou a pouca distância do templo de Luxor.

 

Estamos a ser observados avisou Kem. Um homem, ainda muito novo, ali na popa. Foi o último a embarcar.

 

Embrenhemo-nos na cidade; logo veremos se ele vem atrás de nós.

 

O homem não os largou.

 

Mentmosé?

 

Provavelmente.

 

Queres que o despiste?

 

Tenho uma ideia melhor.

 

O juiz apresentou-se no posto da polícia principal, onde foi atendido por um funcionário obeso cujo escritório estava repleto de pequenos cestos com frutos e bolos.

 

Não nasceste nesta região?

 

Nasci, sim. Numa aldeia da margem ocidental. Fui nomeado para Mênfis, onde tive o privilégio de conhecer Mentmosé, um seu superior.

 

E agora voltaste.

 

Mas só por pouco tempo.

 

Férias ou trabalho?

 

Venho tratar do imposto sobre a lenha. Os apontamentos que o meu antecessor deixou sobre o assunto são pouco precisos.

 

Nota: A madeira era um material muito raro no Egipto (N do A)

 

O obeso engoliu algumas passas.

 

Há falta de combustível em Mênfis?

 

Certamente não; o Inverno foi ameno, e não esgotámos as nossas reservas de lenha para o aquecimento. Mas o serviço rotativo de podadores não me parece muito bem organizado: há demasiados menfitas e poucos tebanos. Queria consultar as vossas listas, aldeia por aldeia, para detectar possíveis fraudes. Há quem não esteja disposto a apanhar o mato rasteiro, os arbustos e as fibras das palmeiras para os levar aos centros de selecção e de redistribuição. Não achas que está na hora de intervir?

 

Certamente, certamente.

 

Pelo correio,     Mentmosé tinha avisado o responsável da polícia de Tebas da chegada de Paser, descrevendo-o como um juiz temível, colérico e demasiado curioso; mas, em vez desta personagem inquietante, o obeso via na sua frente um magistrado minucioso, preocupado com assuntos de pormenor.

 

A comparação das quantidades de árvores abatidas fornecidas pelo Norte e pelo Sul fala por si continuou Paser. Em Tebas não cortamos correctamente os troncos das árvores secas. Haverá algum tráfico?

 

É possível.

 

Não te esqueças de tomar nota do assunto que me traz por cá.

 

Está descansado.

 

Quando o obeso recebeu o jovem polícia encarregado de seguir o juiz Paser, contou-lhe a conversa que tivera e logo os dois polícias concordaram que o magistrado havia esquecido as suas anteriores motivações e preocupava-se apenas com questões de rotina. Era uma atitude sensata que lhes poupava muitas maçadas.

 

O devorador de sombras desconfiava do macaco e do cão. Sabia até que ponto ia a intuição dos animais, e a sua capacidade para pressentirem as más intenções. Também ele espiava de longe Paser e Kem.

 

Ao abandonar a perseguição, o outro perseguidor, sem dúvida um agente de Mentmosé, facilitava-lhe a tarefa. Se o juiz se aproximasse do objectivo, o devorador de sombras seria obrigado a intervir; caso contrário, contentar-se-ia em observar.

 

As ordens eram rigorosas, e ele nunca desobedecia às ordens que recebia. Não mataria sem que isso fosse estritamente necessário. A morte da mulher do guardião-mor devera-se apenas à insistência de Paser.

 

Depois da tragédia da esfinge, o veterano refugiou-se na pequena aldeia da margem ocidental onde nascera. Aí viveria uma reforma tranquila, depois de ter servido lealmente o exército. A versão do acidente servia-lhe às mil maravilhas. Para quê travar uma batalha perdida na sua idade?

 

Depois do seu regresso, consertou o forno do pão e abraçou o ofício de padeiro, para grande alegria de toda a aldeia. Depois de ter peneirado o milho para o limpar de todas as impurezas, as mulheres partiam-no sobre a mó e trituravam-no num grande almofariz com um pilão. Obtinham assim uma primeira farinha, ainda grosseira, que voltavam a triturar por várias vezes, para a tornarem cada vez mais fina. Humedeciam-na depois com água e preparavam uma massa consistente a que juntavam fermento. Umas utilizavam uma vasilha de boca larga, onde amassavam a massa; outras colocavam-na sobre uma pedra inclinada, para a água escorrer. Era nesta altura que o padeiro intervinha, cozendo os pães mais simples sobre as brasas, e os mais elaborados num forno composto de três pedras verticais, com uma pedra horizontal em cima, por baixo da qual se fazia uma fogueira. Usava também formas para bolos, com buracos, e placas de pedra onde deitava a massa, de forma a preparar pãezinhos redondos, pães oblongos ou bolachas. Quando as crianças lhe pediam, fazia pães com a forma de um veado deitado, que elas comiam num instante. Na altura da festa de Min, o deus da fecundidade, cozia falos de crosta dourada e miolo muito branco que eram servidos entre espigas de ouro.

 

Deixara para trás o ruído dos combates e os gritos dos feridos; como lhe sabia bem ouvir o cantar da chama, como ele gostava do toque do pão acabado de fazer! Um carácter autoritário era tudo o que restava do seu passado militar. Assim que punha as pedras a aquecer, mandava sair as mulheres e só admitia a presença do seu ajudante, um rapaz robusto de quinze anos, seu filho adoptivo, e que seria seu sucessor.

 

Naquela manhã o rapaz estava atrasado. O veterano já estava a ficar zangado, quando ouviu passos nas lajes da padaria. O padeiro voltou-se.

 

Vou-te... Quem és tu?

 

Venho substituir o teu ajudante. Ele está com dores de cabeça.

 

Tu não és cá da aldeia.

 

Trabalho com outro padeiro, a meia hora daqui. Foi o chefe da aldeia quem me mandou.

 

Então ajuda-me.

 

Como o forno era fundo, o veterano tinha de lá entrar até à cintura para acomodar o maior número possível de formas e pães; para isso, o ajudante segurava-o pelas coxas, para depois o puxar para trás se alguma coisa corresse mal.

 

O veterano julgava-se em segurança. Porém, naquele mesmo dia, o juiz Paser visitaria a aldeia, ficaria a conhecer a sua verdadeira identidade e iria interrogá-lo. O devorador de sombras não tinha escolha.

 

Agarrou o veterano pelos tornozelos, levantou-o do chão e, com todas as suas forças, empurrou-o para dentro do forno.

 

A entrada do burgo estava deserta. Nem uma mulher na soleira da porta, nem um homem a dormir à sombra de uma árvore, nem uma criança a brincar com uma boneca de madeira.

 

O juiz ficou com a certeza de que algo de anormal tinha acontecido, e disse a Kem que não fizesse barulho. O babuíno e o cão olhavam para todos os lados.

 

Paser percorreu lesto a rua principal, orlada de casas baixas.

 

À volta do forno encontrava-se a aldeia em peso. As pessoas acotovelavam-se, invocavam os deuses. Um adolescente explicava pela décima vez que tinha levado uma pancada na cabeça ao sair de casa, para vir ajudar o padeiro, seu pai adoptivo. Culpava-se pelo horroroso acidente e chorava lágrimas amargas.

 

Paser meteu-se pelo meio da multidão.

 

Que aconteceu?

 

Foi o nosso padeiro que acabou de morrer de uma maneira horrível, respondeu o chefe da aldeia. Deve ter escorregado e caiu para dentro do forno. Geralmente o ajudante segurava-lhe nas pernas para evitar que uma desgraça destas acontecesse.

 

Tratava-se de um veterano regressado de Mênfis?

 

Exactamente.

 

Alguém presenciou o... acidente?

 

Não. Mas porquê tantas perguntas?

 

Sou o juiz Paser e vinha interrogar esse infeliz.

 

A que propósito?

 

Nada de importância.

 

Uma mulher histérica puxou Paser pelo braço esquerdo

 

Foram os demónios da noite que o mataram, por ele ter aceitado fazer pão, o nosso pão, para Hattusa, a estrangeira que é rainha e senhora do harém.

 

O juiz afastou-a sem rudeza.

 

Já que representas a lei, vinga o nosso padeiro e prende essa diaba!

 

Paser e Kem almoçaram no campo, junto a um poço. O babuíno ia descascando cebolas doces com toda a delicadeza. Começava a habituar-se à presença do juiz, e mostrava-se menos desconfiado. Bravo regalava-se com pão fresco e pepino, e Vento do Norte comia luzerna.

 

O juiz, nervoso, apertava contra si um odre de água fresca.

 

Um acidente e cinco vítimas! O exército mentiu, Kem. O relatório é falso.

 

Simples erro administrativo.

 

Trata-se de um assassínio. Um novo assassínio.

 

Não há provas. O padeiro sofreu um acidente. É facto consumado.

 

O assassino chegou antes de nós, porque sabia que estávamos a chegar à aldeia. Ninguém podia descobrir o rasto do quarto veterano, ninguém podia meter-se no assunto.

 

Não precisas de ir mais longe. Vieste parar no meio de um ajuste de contas entre militares.

 

Se a justiça se demite das suas responsabilidades, a violência reinará no lugar do faraó.

 

E a tua vida, não é mais importante que a lei?

 

Não, Kem.

 

És o homem mais irredutível que já encontrei.

 

Como o núbio se enganava! Paser não conseguia afastar Néféret do seu espírito, nem mesmo nestas horas dramáticas. Depois deste episódio que lhe provou que as suas suspeitas eram fundadas, deveria ter-se concentrado no inquérito; mas o amor, violento como o vento suão, tirava-lhe o poder de decisão. Levantando-se, encostou-se ao poço de olhos fechados.

 

Sentes-te mal?

 

Não é nada. Isto passa.

 

O quarto veterano ainda estava vivo lembrou Kem. Que seria feito do quinto?

 

Se pudéssemos interrogá-lo, desvendaríamos o mistério.

 

A sua aldeia por certo não fica longe.

 

Mas não iremos lá. O núbio sorriu.

 

Estás finalmente a ser razoável!

 

Não iremos, porque estamos a ser seguidos e precedidos.

 

Foi por nossa causa que o padeiro morreu. Se o quinto veterano ainda é deste mundo, ir lá, seria condená-lo à morte.

 

Que propões então?

 

Ainda não sei. Para já, regressemos a Tebas. Aquele ou aqueles que nos espiam julgarão que perdemos o fio à meada.

 

Paser examinou os resultados do imposto sobre a lenha do ano anterior. O funcionário obeso abriu os arquivos e refrescou-se com sumo de alfarroba. O juizeco não tinha decididamente categoria nenhuma. Enquanto ele consultava uma série de tabuinhas de contabilidade, o funcionário tebano escreveu uma carta a Mentmosé a tranquilizá-lo. Paser não provocaria nenhuma tempestade.

 

Apesar do quarto confortável que lhe deram, o juiz passou a noite em claro, dilacerado entre a obsessão de ver Néféret outra vez e a necessidade de prosseguir com as investigações. Revê-la para quê, se ele lhe era indiferente; prosseguir as investigações para quê, se o caso já estava encerrado?

 

Triste com o desespero do dono, Bravo foi deitar-se ao seu lado. O seu calor dar-lhe-ia a energia de que ele precisava. O juiz afagou o cão, e pensou nos passeios que dava ao longo do Nilo quando era mais jovem e inocente, convencido de que levava uma existência serena na sua aldeia, onde a única mudança era a alternância das estações. O destino apoderava-se dele com a brutalidade e a violência de uma ave de rapina; renunciando aos sonhos loucos da mocidade, a Néféret, à verdade, não iria ele reencontrar a serenidade de outrora?

 

Em vão tentava iludir-se. Néféret seria o seu único amor.

 

A aurora trouxera-lhe uma esperança. Havia um homem que podia ajudá-lo. Assim, dirigiu-se ao cais de Tebas, onde todos os dias se fazia um grande mercado. Mal os produtos eram desembarcados, os comerciantes expunham-nos nas suas bancas. Homens e mulheres montavam as suas lojas ao ar livre, vendendo os mais variados alimentos, tecidos, roupa e mil e um objectos. Sob o tecto de junco de uma barraca, alguns marinheiros iam bebendo cerveja e olhando as lindas burguesas que vinham à procura das novidades. Um peixeiro, com um cesto de vimes entrelaçados cheio de percas do Nilo, trocava duas por um pote de unguento; um pasteleiro trocava bolos por um colar e um par de sandálias; um merceeiro trocava favas por uma vassoura. Em cada transacção, a discussão decorria animada e terminava sempre em conciliação. Se a causa da discussão era o peso dos produtos, era possível ir pesá-los a uma balança manejada por um escriba.

 

Finalmente, Paser avistou-o.

 

Tal como desconfiava, Kani ia ao mercado vender lentilhas, pepinos e pêras.

 

O babuíno, dando de repente um violento puxão à trela, atirou-se a um ladrão em quem ninguém tinha reparado. O homem, assustado, até deitou ao chão umas alfaces magníficas, mas o macaco abocanhou a coxa do delinquente. Gritando de dor, o ladrão tentou em vão livrar-se do agressor. Kem interveio antes que o babuíno lhe dilacerasse a perna. O ladrão foi depois entregue a dois polícias.

 

Não há dúvida de que és o meu protector constatou Kani.

 

Preciso da tua ajuda, Kani.

 

Dentro de duas horas já devo ter vendido tudo e então poderemos ir para minha casa.

 

A horta estava enfeitada com bordaduras de centáureas, mandrágoras e crisântemos, que Kani tinha disposto geometricamente à volta das parcelas cultivadas. Em cada uma, um legume diferente: favas, grão-de-bico, lentilhas, pepinos, cebolas, alhos-porros, alface, funcho. Ao fundo do quintal, um pequeno palmeiral protegia-o do vento, e, do lado esquerdo, havia uma vinha e um pomar. Kani mandava a maior parte da sua produção para o templo e vendia o resto no mercado.

 

Estás contente com a tua nova situação?

 

O trabalho é tão duro como antes, mas agora o benefício é meu. O intendente do templo gosta muito de mim.

 

Também cultivas plantas medicinais?

 

Vem comigo.

 

Kani mostrou a Paser a sua obra-prima: um canteiro de ervas medicinais, umas para tomar directamente, outras para a preparação de remédios. Salicária, mostarda, hortelã-pimenta, piretro, camomila, só para dar alguns exemplos.

 

Sabias que Néféret está a viver em Tebas?

 

Estás enganado. Ela ocupa um posto importante em Mênfis.

 

Nébamon mandou-a embora.

 

Uma emoção intensa toldou o olhar do jardineiro.

 

Ele atreveu-se... esse réptil atreveu-se!

 

Néféret já não pertence ao corpo de elite dos médicos e já não tem acesso aos grandes laboratórios. Terá de se contentar em trabalhar numa aldeia e terá de enviar os casos mais graves aos colegas mais qualificados.

 

Kani, completamente fora de si, bateu com os pés no chão.

 

É vergonhoso, injusto!

 

Então ajuda-a.

 

O jardineiro ergueu os olhos, sem entender.

 

Como?

 

Se lhe forneceres plantas medicinais raras e muito caras, ela poderá preparar os remédios de que os seus doentes precisam. E lutaremos para que a sua reputação seja restabelecida.

 

Onde está ela?

 

Não sei.

 

Eu saberei encontrá-la. Era essa a missão que querias confiar-me?

 

Não.

 

Qual era, então?

 

Procuro um veterano da guarda de honra da esfinge. Voltou para a aldeia dele, na margem ocidental, para aí gozar a reforma. Anda escondido

 

Porquê?

 

Porque conhece um segredo. Se falar comigo, corre perigo de vida. Eu ia procurar o seu colega, que agora era padeiro, e ele foi vítima de um acidente.

 

Que desejas que eu faça?

 

Encontra-o. Em seguida, eu falarei com ele com a maior discrição. Anda alguém a espiar-me; se for eu a investigar, o veterano será assassinado antes de falar comigo.

 

Assassinado!

 

Não escondo a gravidade da situação, nem os riscos que vais correr.

 

Na tua qualidade de juiz...

 

Não tenho provas e estou a investigar um assunto do exército.

 

E se estás enganado?

 

Quando ouvir o testemunho do veterano, se ele ainda for vivo, todas as dúvidas se dissiparão.

 

Conheço bem as aldeias e as vilas da margem ocidental.

 

Corres um grande risco, Kani. Há quem não hesite em matar e perder a sua alma.

 

Desta vez, deixa-me ser eu a julgar.

 

Denes dava festas todos os fins de semana, para entreter os capitães dos seus cargueiros e alguns altos funcionários que, assim, assinavam mais facilmente as licenças de circulação, de carga e descarga. Todos apreciavam o esplendor dos vastos jardins, os lagos e a gaiola cheia de pássaros exóticos. Denes a todos atendia, para todos tinha uma palavra amável, a todos perguntava por notícias das famílias. A senhora Nénophar brilhava como anfitriã.

 

Naquela noite o ambiente era, porém, menos alegre. O decreto de Ramsés, o Grande, tinha espalhado o pânico entre as elites dirigentes. Todos suspeitavam uns dos outros, desconfiando mutuamente de possuírem informações secretas que guardavam para si próprios. Denes, entre dois colegas a quem contava arrebatar o negócio, depois de lhes ter comprado os barcos, cumprimentou um conviva raro, o químico Chéchi. Passava a maior parte do tempo no laboratório mais secreto do palácio e frequentava pouco as casas dos nobres. De baixa estatura, taciturno e rebarbativo, tinha um ar competente e modesto.

 

A tua presença é uma honra, caro amigo!

 

O químico esboçou um sorriso de circunstância.

 

Como vão as tuas experiências? O segredo é a alma do negócio, claro, mas na cidade não se fala de outra coisa! Consta que descobriste uma liga extraordinária que nos permitirá fabricar espadas e lanças inquebráveis, capazes de resistir a qualquer impacto.

 

Chéchi abanou a cabeça, duvidoso.

 

Segredo militar, evidentemente! Vê se te sais bem. Com o que te espera...

 

Explica-te exigiu um dos convivas.

 

Segundo o decreto do faraó, uma bela guerra! Ramsés quer esmagar os hititas e livrar-nos dos pequenos príncipes asiáticos, que estão a preparar uma revolta.

 

Ramsés ama a paz contrapôs um capitão da marinha mercante.

 

Uma coisa é o discurso oficial, outra os actos.

 

Mas isso é inquietante.

 

Não sei porquê! De quem, ou de quê, teria medo o Egipto?

 

Então não se diz que este decreto representa um enfraquecimento do poder?

 

Denes soltou uma gargalhada.

 

Ramsés é o mais poderoso e continuará a sê-lo! Não transformemos em tragédia um incidente menor.

 

De qualquer maneira, o melhor é verificarmos como estão as nossas reservas de alimentos...

 

A senhora Nénophar interveio.

 

As medidas a tomar são bem claras: a preparação de um novo imposto e a reforma fiscal.

 

É preciso financiar o rearmamento das tropas alvitrou Denes. Se Chéchi quisesse, podia contar-nos mais sobre a decisão de Ramsés e o que a motivou.

 

Todos os olhares se voltaram para o químico. Mas Chéchi permaneceu calado. Como hábil dona de casa que era, Nénophar conduziu os convidados até um quiosque onde lhes foram servidos refrescos.

 

Mentmosé, o chefe da polícia, puxou pelo braço de Denes e levou-o para um local mais afastado.

 

Espero que os teus aborrecimentos com a justiça tenham terminado.

 

Paser não voltou à carga. É mais inteligente do que eu imaginava. Um jovem magistrado cheio de ambições, é certo, mas será isso louvável? Também nós já passámos por essa fase antes de nos tornarmos personagens importantes.

 

Mentmosé torceu o nariz.

 

Mas o seu carácter, no conjunto...

 

Isso melhora com o tempo. Estás a ser optimista.

 

Apenas realista. Paser é um bom juiz.

 

Incorruptível, na tua opinião?

 

Um incorruptível inteligente e que sabe respeitar os que cumprem a lei. É graças a homens desta têmpera que o comércio prospera e o país vive em paz. Que mais se pode desejar? Acredita no que te digo, meu caro: apoia a carreira de Paser.

 

Um aviso precioso.

 

Com ele, nada de prevaricações.

 

De facto, é uma questão a considerar.

 

No entanto, pareces-me reticente.

 

As iniciativas dele assustam-me um pouco; a maleabilidade não me parece ser o seu forte.

 

Juventude e inexperiência. Qual é a opinião do deão do pórtico?

 

É da tua opinião.

 

Como vês!

 

As notícias que o chefe da polícia recebera de Tebas pelo correio especial corroboravam as opiniões de Denes. Mentmosé preocupava-se sem razão. Pois não diziam as notícias que o juiz só pensava no imposto sobre a lenha e na sinceridade dos contribuintes?

 

Talvez não devesse ter avisado tão depressa o vizir. Mas estariam a tomar-se todas as precauções?

 

 

Longos passeios pelo campo na companhia de Vento do Norte e Bravo, a consulta de processos nos escritórios da polícia, a elaboração de uma lista correcta de contribuintes obrigados ao imposto sobre a lenha, a inspecção das aldeias recenseadas, reuniões administrativas com conselheiros municipais e proprietários: assim decorriam os dias tebanos do juiz Paser, que findavam com uma visita a Kani.

 

Pela atitude do jardineiro, com a cabeça debruçada sobre as suas plantas, Paser percebia que ele não havia descoberto nem Néféret nem o quinto veterano.

 

Uma semana se passou. Os funcionários a soldo de Mentmosé expediam-lhe relatórios sem qualquer elemento de surpresa sobre a actividade do juiz, Kem contentava-se em percorrer os mercados, prendendo os ladrões. Em breve seria necessário regressar a Mênfis.

 

Paser atravessou o palmeiral, enveredou por um caminho de terra ao longo do canal de rega e desceu a escada que conduzia ao jardim de Kani. Quando o Sol principiava a pôr-se no horizonte, ele tinha o hábito de se ocupar das plantas medicinais que reclamavam cuidados regulares e delicados. Dormia numa cabana, depois de se ter ocupado da rega durante uma boa parte da noite.

 

O jardim parecia deserto.

 

Surpreendido, Paser contornou-o e abriu a porta da cabana.

 

Vazia. Sentou-se sobre um pequeno muro apreciando o pôr do Sol. A lua cheia emprestava ao rio reflexos prateados. À medida que os minutos passavam, a angústia apoderava-se do seu coração. Talvez Kani tivesse identificado o quinto veterano, talvez o tivesse seguido, talvez... Paser censurava-se por ter envolvido o jardineiro numa investigação que os ultrapassava. Se alguma tragédia acontecesse, considerar-se-ia o principal responsável.

 

Quando a frescura da noite caiu sobre o seus ombros, o juiz não saiu de onde estava. Esperaria até à alvorada e saberia, então, que Kani não voltaria mais. De dentes cerrados, os músculos doloridos, Paser censurava-se pela sua leviandade.

 

Uma barca atravessou o rio.

 

O juiz ergueu-se e correu para a margem.

 

Kani!

 

O jardineiro atracou, amarrou a barca a um pilar e subiu lentamente a rampa.

 

Porque chegas tão tarde?

 

Estás a tremer?

 

Tenho frio.

 

O vento da Primavera traz doença. Recolhamos à cabana. O jardineiro sentou-se num cepo, com as costas encostadas às tábuas, e Paser sobre uma arca de ferramentas.

 

O veterano?

 

Nenhuma pista.

 

Estiveste em perigo?

 

Nem por um momento. Compro plantas raras, aqui e ali, troco confidências com os anciãos.

 

Paser fez a pergunta que lhe queimava nos lábios.

 

E Néféret?

 

Não a vi, mas sei onde se encontra.

 

O laboratório de Chéchi ocupava três grandes cómodos na cave de uma caserna anexa. O regimento que aí se alojava apenas reunia soldados de segunda categoria, afectos a trabalhos de aterro.

 

Todos acreditavam que o químico trabalhava no palácio, quando afinal ele prosseguia as suas verdadeiras pesquisas neste ambiente discreto. Aparentemente, nenhuma vigilância particular; mas quem quer que tentasse descer pela escadaria que conduzia às profundezas do edifício era interceptado sem cerimónia e interrogado com rudeza.

 

Chéchi fora recrutado pelos serviços técnicos do palácio devido aos seus excepcionais conhecimentos no domínio da resistência dos materiais. Bronzista de origem, não parava de aperfeiçoar o tratamento do cobre bruto, indispensável ao fabrico de utensílios para cortar a pedra.

 

Devido ao seu êxito e à sua seriedade, a sua fama não cessava de aumentar, e no dia em que forneceu ferramentas de uma resistência surpreendente para talhar os blocos do templo ”dos milhões de anos” de Ramsés, o Grande, edificado na margem ocidental de Tebas, a sua reputação chegou aos ouvidos do rei.

 

Chéchi havia convocado os seus três principais colaboradores, homens maduros e experientes homens de ciência. As lamparinas, de cujos pavios não saía fumo, iluminavam a cave. Chéchi, lento e meticuloso, ordenava os papiros nos quais anotara os seus cálculos mais recentes.

 

Os três técnicos aguardaram, sentindo-se pouco à vontade. O silêncio do químico não augurava nada de bom, ainda que ele fosse pouco falador. Aquela convocação súbita e imperativa não fazia parte dos seus hábitos.

 

O homem baixo de bigode negro voltou as costas aos seus interlocutores.

 

Qual de vós deu com a língua nos dentes? Nenhum respondeu.

 

Não repetirei a pergunta.

 

Ela não faz qualquer sentido.

 

Por altura de uma reunião social, um notável falou de novas ligas e armas.

 

 

Impossível! Mentiram-te.

 

Eu estava presente. Quem falou? Novamente, o silêncio.

 

Não tenho possibilidades de levar a cabo uma investigação incerta. Mesmo que as informações difundidas sejam incompletas, e portanto inexactas, a confiança foi destruída.

 

Quer isso dizer ...

 

Quer isso dizer que estais despedidos.

 

Néféret escolhera a vila mais pobre e remota da região tebana. Situada nos limites do deserto e, como tal, mal irrigada, aí se registava um número anormalmente elevado de doenças de pele. A jovem não se sentia triste nem abatida; o facto de ter escapado das garras de Nébamon alegrava-a, mesmo que em troca da sua liberdade, tivesse sacrificado uma carreira promissora. Trataria os mais pobres com os meios de que dispunha, e ficaria satisfeita com uma existência solitária no campo. Assim que um barco sanitário descesse o rio em direcção a Mênfis, iria visitar o seu mestre Branir. Conhecendo-a como conhecia, não tentaria fazê-la mudar de ideias.

 

Logo no segundo dia após a sua chegada, Néféret havia curado a personagem mais importante do povoado, um especialista na engorda de patos, que sofria de arritmia cardíaca. Uma longa massagem e uma manipulação vertebral devolveram-no à vida normal. Sentado no chão, junto de uma mesa baixa sobre a qual se encontravam pousadas as bolas de farinha saídas de um recipiente de água, ele segurava um pato pelo pescoço. A ave debatia-se, mas o técnico não a largava e, cuidadosamente, fazia deslizar a massa pela goela do bicho, acompanhando a operação com palavras de afecto. Alimentado, o pato bamboleava-se, como que embriagado; depois, lançava-se num passeio digestivo. A engorda dos grous exigia uma maior atenção, pois os belos pássaros roubavam as bolas de farinha. Quanto às pastas de fígado, figuravam entre as mais afamadas da região.

 

Como consequência dessa primeira cura, julgada milagrosa, Néféret tornara-se a heroína da aldeia. Os camponeses haviam solicitado o seu conselho sobre a melhor forma de lutar contra os inimigos das colheitas e dos pomares, nomeadamente os gafanhotos e os grilos; mas a jovem havia preferido lutar contra um outro flagelo que se lhe afigurava estar na origem das infecções cutâneas que afectavam crianças e adultos: as moscas e os mosquitos. A sua abundância explicava-se pela presença de um charco de água estagnada que não era drenado havia três anos. Néféret mandou-o secar, recomendou a todos os aldeões a desinfecção das suas casas e tratou as picadas com gordura de verdelhão e unções de azeite fresco.

 

Apenas o caso de um ancião de coração cansado lhe causava preocupações; se o seu estado piorasse, seria necessário hospitalizá-lo em Tebas. Certas plantas raras ter-lhe-iam evitado essa contrariedade. Quando se encontrava no seu consultório, um garoto veio avisá-la da presença de um estranho que inquiria a seu respeito.

 

Nem mesmo aqui Nébamon a deixava em paz! De que a acusaria agora, para que decadência a empurraria? Tinha de se esconder. Os aldeões nada diriam, o emissário do médico-chefe partiria.

 

Paser sentia que os seus interlocutores mentiam; o nome Néféret era-lhes familiar, apesar do mutismo em que se obstinavam. Fechada sobre si mesma, com as suas casas ameaçadas pelo deserto, a aldeia receava as intrusões; quase todas as portas se lhe fecharam.

 

Irritado, preparava-se para abandonar a povoação quando avistou uma mulher a dirigir-se para as colinas pedregosas.

 

Néféret!

 

Intrigada, ela voltou-se. Reconhecendo-o, voltou para trás.

 

Juiz Paser ... que fazes aqui?

 

Desejava falar-te.

 

Ela tinha o sol no olhar. O ar do campo dourara a sua pele Paser sentiu desejo de revelar-lhe os seus sentimentos, de traduzir as suas sensações, mas foi incapaz de proferir a primeira palavra da sua declaração.

 

Subamos ao cimo desta colina.

 

Ele tê-la-ia seguido até aos confins da terra, ao fundo do mar, ao coração das trevas. Caminhar a seu lado, sentar-se junto dela, ouvir a sua voz, eram para ele prazeres inebriantes.

 

Fui informado por Branir. Desejas apresentar queixa contra Nébamon?

 

Seria inútil. São muitos os médicos que lhe devem as suas carreiras e testemunhariam contra mim.

 

Eu acusá-los-ia de falso testemunho.

 

São demasiados e Nébamon impedir-te-ia de agires. Apesar do doce calor da Primavera, Paser estremeceu. Não pôde conter um espirro.

 

Um resfriado?

 

Passei a noite ao relento, esperando o regresso de Kani.

 

O jardineiro?

 

Foi ele que te encontrou. Vive em Tebas e aí explora o seu próprio jardim. Eis a tua oportunidade, Néféret: ele produz plantas medicinais e poderá cultivar as mais raras!

 

Montar um laboratório, aqui?

 

E porque não? Os teus conhecimentos farmacológicos conferem-te toda a legitimidade. Não só tratarias doenças graves, como também a tua reputação seria restabelecida.

 

Não tenho qualquer desejo de empreender essa luta. A situação actual já me satisfaz.

 

Não desperdices os teus dons. Fá-lo pelos doentes. Paser espirrou uma segunda vez.

 

Não serias tu o primeiro interessado? Os tratados afirmam que o catarro despedaça os ossos, fractura o crânio e escava o cérebro. Devo evitar esse desastre.

 

O seu sorriso, onde a bondade excluía qualquer traço de ironia, enchia-o de prazer.

 

Aceitas a ajuda de Kani?

 

Ele é teimoso. Se a sua decisão está tomada, como poderia opor-me? E agora ocupemo-nos deste caso urgente: o resfriado é uma doença séria. Suco de palma nas narinas e, se persistir, leite de mulher e goma odorífera.

 

A constipação persistiu e agravou-se. Néféret fez entrar o juiz na modesta residência que ocupava, no centro da aldeia. Porque a tosse sobreveio, ela prescreveu-lhe o rosalgar, sulfureto natural do arsénico, que o povo designava por ”aquele que desafoga o coração”.

 

Tentemos interromper a evolução. Senta-te naquela esteira e não te mexas.

 

Dava as suas ordens sem levantar a voz, tão terna quanto o seu olhar. O juiz desejou que os efeitos da doença fossem duradouros para permanecer o máximo de tempo possível naquele quarto humilde.

 

Néféret misturou rosalgar, resina, folhas de plantas desinfectantes e triturou todos os ingredientes, reduzindo-os a uma pasta que aqueceu. Espalhou-a sobre uma pedra que pousou diante do juiz, cobrindo-a de seguida com um recipiente virado em cujo fundo havia um orifício.

 

Pega nesta cana disse ela ao paciente coloca-a no orifício e aspira, ora pela boca, ora pelo nariz. A inalação vai aliviar-te.

 

Um fracasso não teria desagradado a Paser, mas a medicação revelou-se eficaz. A congestão atenuou-se e começou a respirar melhor.

 

Já não sentes arrepios?

 

Apenas uma sensação de fadiga.

 

Durante alguns dias, recomendo-te uma alimentação rica, e de preferência gorda: carne vermelha e azeite fresco para temperar os alimentos. E um pouco de repouso também seria aconselhável.

 

Tenho de renunciar a ele.

 

Que te trouxe a Tebas?

 

Ele teve vontade de gritar: ”Tu, Néféret, apenas tu!”, mas as palavras não lhe saíram da garganta. Estava certo de que ela sabia da sua paixão e esperava que lhe desse a possibilidade de a exprimir, não ousando perturbar-lhe a serenidade com uma loucura que, sem dúvida, ela desaprovaria.

 

Talvez um crime, talvez vários crimes.

 

Ele sentiu-a preocupada por um drama que não lhe dizia respeito. Teria ele o direito de a envolver num caso cuja verdadeira natureza ele próprio ignorava?

 

Deposito em ti a maior confiança, Néféret, mas não é meu desejo importunar-te com as minhas preocupações.

 

Não estás obrigado ao segredo?

 

Até ao momento em que formulo as minhas conclusões.

 

Assassínios... seriam essas as tuas conclusões?

 

Essa é a minha convicção íntima.

 

Há tantos anos que não é cometido nenhum assassinato!

 

Cinco veteranos que compunham a guarda de honra da grande esfinge morreram ao caírem de cabeça, e de muito alto, no decorrer de uma inspecção. Acidente: essa é a versão oficial do exército. Ora, um deles escondia-se numa aldeia da margem ocidental onde tinha o ofício de padeiro. O meu desejo era interrogá-lo, mas, desta vez, estava mesmo morto. Um novo acidente. O chefe da polícia mandou um homem seguir-me, como se eu fosse culpado por investigar. Estou perdido, Néféret. E agora, esquece as minhas confidências.

 

Desejas renunciar?

 

Tenho um gosto ardente pela verdade e pela justiça. Se renunciasse, destruir-me-ia.

 

Posso ajudar-te?

 

Uma outra febre inundou o olhar de Paser.

 

Se pudéssemos conversar, de vez em quando, isso dar-me -ia mais coragem.

 

Um resfriado pode ter consequências secundárias que é melhor vigiar de perto. Serão necessárias outras consultas.

 

A noite na hospedaria havia sido tão divertida quanto fatigante. Postas de carne de vaca grelhada, beringelas com natas, bolos à discrição e uma soberba líbia de quarenta anos que fugira do seu país para distrair os soldados egípcios. O tenente do carro de combate não mentira a Suti: um único homem não a satisfazia. Ele que se considerava o mais enérgico dos amantes teve de baixar o pavilhão e passar a tarefa ao seu superior. A Líbia adoptava as posições mais inacreditáveis, risonha e excitada.

 

Assim que o carro retomou a estrada, Suti mal conseguia manter os olhos abertos.

 

É preciso aprender a passar sem sono, meu rapaz! Não esqueças que o inimigo ataca logo que estejas cansado. Uma boa notícia: nós somos a guarda avançada da guarda avançada! Os primeiros golpes serão para nós. Se era teu desejo tornares-te um herói, aí tens a tua oportunidade.

 

Suti apertou o arco contra o peito.

 

O carro seguia ao longo das Muralhas do rei, formidável alinhamento de fortalezas construídas pelos soberanos do Médio Império, e constantemente aperfeiçoado pelos seus sucessores; verdadeira muralha gigante cujos vários elementos se encontravam...

 

Nota: Conjunto de construções defensivas que protegiam a fronteira do Nordeste do Egipto

 

...ligados entre si graças a sinais ópticos, ela impedia toda a tentativa de invasão por parte de beduínos e asiáticos. Estendendo-se desde as margens do Mediterrâneo até Heliópolis, as Muralhas do rei davam simultaneamente abrigo a guarnições permanentes, a soldados especializados na vigilância das fronteiras e a alfandegários. Ninguém entrava no Egipto sem ter dado o nome e exposto o motivo da sua viagem; os comerciantes especificavam a natureza das suas mercadorias e pagavam um imposto. A polícia repelia os estrangeiros indesejáveis e não emitia os vistos senão após uma análise atenta dos processos, devidamente visados por um funcionário da capital encarregado da imigração. Como proclamava a esteia do faraó: ”Aquele que franquear esta fronteira torna-se meu filho.”

 

O tenente apresentou os seus papéis ao comandante de uma fortaleza cujas muralhas de dupla inclinação, com seis metros de altura, estavam rodeadas de fossos. Nas ameias, arqueiros; nos torreões, vigias.

 

Reforçaram a guarda notou o oficial. Estão mesmo bem defendidos.

 

Dez homens armados rodearam o carro.

 

Desce, ordenou o chefe do posto.

 

Estás a brincar?

 

Os teus papéis não estão em ordem.

 

O tenente agarrou as rédeas, pronto a lançar os cavalos em grande galope. Lanças e flechas apontavam na sua direcção.

 

Desce imediatamente.

 

O tenente voltou-se para Suti.

 

Que achas, rapaz?

 

Temos melhores combates em perspectiva. Apearam-se ambos.

 

Falta o selo do primeiro fortim das Muralhas do rei, explicou o chefe do posto. Meia-volta.

 

Estamos atrasados.

 

O regulamento é para ser cumprido.

 

Podemos discutir o assunto?

 

No meu gabinete, mas não acalentes grandes esperanças.

 

A reunião durou pouco. O tenente saiu do gabinete a correr, pulou para as rédeas e lançou o carro em direcção à estrada da Ásia.

 

As rodas chiaram, levantando uma nuvem de poeira.

 

Porquê tanta pressa? Agora já estamos dentro da lei.

 

Mais ou menos. Eu dei-lhe forte, mas o idiota pode acordar mais depressa que o previsto. Aquela espécie de obstinado tem sempre a cabeça dura. Eu próprio regularizei os nossos papéis. No exército, meu rapaz, é preciso saber improvisar.

 

Os primeiros dias da viagem foram sossegados. Longas etapas, cuidados com os cavalos, verificação do material, noites sob o belo manto das estrelas, abastecimento nas aldeolas onde o tenente contactava um mensageiro do exército ou um membro dos serviços secretos, encarregando-os de avisar o grosso das tropas de que nada contrariaria a sua progressão.

 

O vento mudou, tornando-se penetrante.

 

As Primaveras na Ásia são por vezes frias; põe a tua capa.

 

Pareces inquieto.

 

O perigo aproxima-se. Farejo-o como um cão. Como estamos de comida?

 

Restam-nos algumas bolachas, uns pedaços de carne, cebolas e água para três dias.

 

Deve ser suficiente.

 

O carro entrou numa aldeia silenciosa; na praça principal não se via ninguém. O estômago de Suti revirou-se.

 

Nada de pânico, meu rapaz. Talvez estejam nos campos. O carro avançava muito lentamente. O tenente empunhava a lança e olhava em seu redor com olhar penetrante. Deteve-se diante do edifício oficial onde se alojavam o delegado militar e o intérprete. Vazio.

 

O exército não receberá qualquer relatório. E saberá que aconteceu um grave acidente. Rebelião caracterizada.

 

Ficamos aqui?

 

Eu prefiro ir em frente. E tu?

 

Depende.

 

De quê, rapaz?

 

Onde se encontra o general

Asher?

 

Quem te falou dele?

 

O seu nome é célebre em Mênfis. Gostaria de servir sob o seu comando.

 

És mesmo sortudo. É a ele que nos devemos reunir.

 

Terá ele evacuado esta aldeia?

 

Certamente que não.

 

Então, quem foi?

 

Os beduínos. Os seres mais vis, mais fanáticos e mais velhacos. Razias, pilhagens, detenção de reféns, é essa a sua estratégia. Se não conseguirmos exterminá-los, eles destruirão a Ásia, a península entre o Egipto e o mar Vermelho e todas as províncias circundantes. Estão dispostos a aliarem-se com qualquer invasor, desprezam as mulheres do mesmo modo que nós as amamos, cospem na beleza e nos deuses. Eu não tenho medo de nada, mas a eles receio-os, com aquelas barbas mal aparadas, os panos enrolados à volta das cabeças e as suas longas vestes. Lembra-te, meu rapaz: são uns covardes. Atacam pelas costas.

 

Terão eles massacrado todos os habitantes?

 

É provável que sim.

 

Estará então o general Asher isolado, separado do exército principal?

 

É possível.

 

Os longos cabelos negros de Suti dançavam ao vento. Apesar da sua robustez e do seu tronco forte, o jovem sentia-se frágil e vulnerável.

 

Entre ele e nós, os beduínos. Quantos?

 

Dez, cem, mil...

 

Dez, aceito. Cem, hesito.

 

Mil, rapaz, é número para um verdadeiro herói. Não me abandonarás?

 

Nota: Os beduínos foram, com os líbios, perturbadores permanentes da paz que os egípcios combateram desde as primeiras dinastias. Os antigos chamavam-lhes os corredores da areia”. (N. do A.)

 

O tenente voltou a lançar os cavalos. Galoparam até à entrada de um barranco orlado de vertentes abruptas. Pequenos arbustos, agarrados à rocha, enredavam-se deixando apenas uma passagem estreita.

 

Os cavalos relincharam e empinaram-se; o tenente sossegou-os.

 

Pressentem a armadilha.

 

Também eu, meu rapaz. Os beduínos estão escondidos nos arbustos. Tentarão cortar as patas dos cavalos à machadada, fazer-nos cair e cortar-nos as goelas e os testículos.

 

O preço do heroísmo parece-me demasiado elevado.

 

Graças a ti, não arriscamos quase nada. Uma flecha em cada arbusto, um bom andamento e venceremos.

 

Estás certo disso?

 

E tu, duvidas? Pensar é pior.

 

O tenente agarrou as rédeas com firmeza. Contrariados, os cavalos precipitaram-se para o barranco. Suti nem teve tempo de sentir medo. Disparava flecha atrás de flecha. As duas primeiras perderam-se nos arbustos desocupados, a terceira cravou-se no olho de um beduíno que saiu do seu esconderijo, gritando.

 

Continua, rapaz!

 

Com os cabelos caídos sobre a testa, o sangue gelado, Suti visava cada arbusto, voltando-se ora para a direita ora para a esquerda, a uma velocidade de que se julgara incapaz. Os beduínos iam caindo, atingidos no ventre, no peito, na cabeça.

 

Pedras e silvados impediam a saída do barranco.

 

Segura-te, rapaz, vamos saltar!

 

Suti parou de atirar para se agarrar ao rebordo do carro. Dois inimigos, que ele não havia podido trespassar, lançaram os seus machados em direcção aos egípcios.

 

A toda a velocidade, os dois cavalos transpuseram a barreira no seu ponto mais baixo. As silvas arranharam-lhe as patas, uma pedra quebrou os raios da roda direita, uma outra danificou o lado direito da carroçaria. Por um instante, o carro vacilou; com um último golpe de rins, os cavalos transpuseram o obstáculo.

 

O carro percorreu vários quilómetros sem abrandar. Sacudido, aturdido, mal conservando o equilíbrio, Suti agarrava-se ao arco.

 

Sem fôlego, cobertos de suor, as narinas espumando, os cavalos imobilizaram-se no sopé de uma colina.

 

Meu tenente!

 

Com um machado enterrado entre as omoplatas, o oficial abateu-se sobre as rédeas. Suti tentou erguê-lo.

 

Lembra-te, meu rapaz ... os covardes atacam sempre pelas costas...

 

Não morras, meu tenente!

 

Agora, és tu o único herói...

 

Os olhos reviraram-se, a respiração extinguiu-se.

 

Suti apertou longamente o cadáver contra si. O tenente não mais se moveria, não mais o encorajaria, não mais tentaria o impossível. Estava sozinho, perdido num país hostil, ele, o herói cujos feitos apenas um morto poderia exaltar.

 

Suti enterrou o seu superior, tomando o cuidado de guardar o local na sua memória. Se sobrevivesse, viria buscar o corpo e levá-lo-ia para o Egipto. Não havia destino mais cruel para um filho das Duas Terras do que ser enterrado longe do seu país.

 

Voltar para trás significava cair de novo na armadilha; seguir em frente, arriscar-se a encontrar outros adversários. Optou, todavia, por esta última solução, esperando estabelecer rapidamente o contacto com os soldados do general Asher, partindo do princípio de que não haviam sido exterminados.

 

Os cavalos aceitaram voltar à estrada. Se uma nova emboscada estivesse preparada, Suti não poderia conduzir o carro e, simultaneamente, manejar o arco. Com um nó na garganta, seguiu por um caminho pedregoso que conduzia a uma casa em ruínas. O jovem apeou-se e muniu-se de uma espada. De uma chaminé rudimentar elevava-se um rasto de fumo.

 

Sai daí!

 

Na soleira, uma figura bravia, vestida de trapos, de cabeleira imunda, brandia um facão grosseiro.

 

Sossega e larga essa arma.

 

A silhueta parecia fraca, incapaz de se defender. Suti não desconfiou de nada. Quando se aproximou, ela precipitou-se para ele e tentou enterrar-lhe a lâmina no coração. Ele esquivou-se, mas sentiu um ardor no braço esquerdo. Solta, ela atacou novamente. Com um golpe de pernas, ele desarmou-a e pregou-a ao chão. O sangue escorria-lhe pelo braço.

 

Sossega ou amarro-te.

 

Ela debatia-se como uma fúria. Ele voltou-a e desferiu-lhe um golpe na nuca. As suas relações com as mulheres, na qualidade de herói, tomavam um rumo desfavorável. Levou-a para o interior do casebre, de chão de terra batida. Paredes em ruínas, mobiliário miserável, a lareira repleta de fuligem. Suti pousou a sua pobre presa sobre uma esteira esburacada, amarrando-lhe os pulsos e tornozelos com uma corda.

 

Um cansaço brutal abateu-se sobre ele. Sentou-se com as costas contra a chaminé, cabeça metida entre os ombros, enquanto tremuras percorriam todo o seu ser. Sentia o medo a sair-lhe da carne.

 

A imundície repelia-o. Nas traseiras da casa, encontrou um poço. Encheu alguns cântaros, limpou o ferimento e lavou o único quarto existente.

 

Também estás a precisar de uma limpeza.

 

Borrifou a jovem que despertou aos gritos, mas o conteúdo de um outro cântaro abafou-lhos. Quando lhe arrancou as vestes imundas, ela agitou-se como uma serpente.

 

Não quero violar-te, idiota!

 

Teria ela percebido as suas intenções? Submeteu-se a ele. De pé, nua, pareceu apreciar o banho. Enquanto ele a secava, ela esboçou um sorriso. A claridade dos seus cabelos louros surpreendeu-o.

 

Tu és linda. Já alguma vez te beijaram?

 

Pelo seu modo de abrir os lábios e movimentar a língua, Suti percebeu que não era o primeiro.

 

Se me prometeres que te portas bem, desato-te.

 

O olhar dela assim lho implorava. Ele desamarrou a corda que lhe prendia os pés, acariciou-lhe as pernas, as coxas e pousou a boca sobre os caracóis dourados do seu sexo. Ela retesou-se como um arco e, com as mãos livres, enlaçou-o.

 

Suti dormira dez horas, de um só sono sem sonhos. O ferimento latejava; levantou-se de um salto e saiu do casebre.

 

Ela havia roubado as suas armas e cortado as rédeas do carro. Os cavalos tinham fugido.

 

Não tinha arco, nem punhal, nem espada, nem botas, nem capa. O carro ali se enterraria, inútil, sob a chuva persistente que caía desde o meio da tarde. Ao herói, reduzido à categoria de imbecil ridicularizado por uma gata brava, nada mais restava senão caminhar rumo ao norte.

 

Furioso, despedaçou o carro com a ajuda de uma pedra para que não caísse mas mãos do inimigo. Vestido com uma simples tanga e carregado como um jumento, Suti caminhava sob os aguaceiros ininterruptos. Num saco, um pouco de pão duro, um pedaço do timão do carro em cuja inscrição hieroglífica se podia ler o nome do tenente, bilhas cheias de água fresca e a esteira esburacada.

 

Percorreu um desfiladeiro, atravessou um pinhal e desceu uma encosta íngreme que vinha morrer num lago; contornou-o, caminhando ao longo da margem escarpada.

 

A montanha tornou-se pouco hospitaleira. Depois de uma noite passada ao abrigo de um rochedo que cortava o vento leste, escalou a custo uma vereda escorregadia e aventurou-se numa região árida. As suas reservas de alimento esgotaram-se rapidamente. Começou a sofrer os efeitos da sede.

 

Enquanto se saciava bebendo alguns goles num charco de água salobra, Suti ouviu o ruído de ramos a estalar. Vários homens se aproximavam. Rastejando, ocultou-se atrás do tronco de um pinheiro gigante.

 

Cinco homens empurravam um prisioneiro que cambaleava de mãos amarradas atrás das costas. O chefe, de baixa estatura, agarrou-o pelos cabelos e obrigou-o a ajoelhar-se. Suti encontrava-se muito longe para escutar o que o homem dizia, mas os gritos do supliciado logo perturbaram a calma da montanha.

 

Um contra cinco, e sem armas... o jovem não tinha qualquer hipótese de salvar aquele desgraçado.

 

O carrasco encheu-o de golpes, interrogou-o, bateu-lhe novamente, e depois ordenou aos seus acólitos que o levassem para uma gruta. Ao fim de um último interrogatório, cortou-lhe o pescoço.

 

Depois de os criminosos se afastarem, Suti permaneceu imóvel por mais de uma hora. Pensava em Paser, no seu amor pela justiça e pela busca de um ideal; como teria ele reagido perante aquela selvajaria? Ignorava que existia tão perto do Egipto um mundo sem lei onde a vida humana não tinha qualquer valor.

 

Obrigou-se a descer até à gruta. As suas pernas vacilavam, os gritos do moribundo ecoavam ainda na sua cabeça. O supliciado já tinha entregue a sua alma. Pela tanga que envergava e pelas feições, o homem era um Egípcio, sem dúvida um soldado do exército de Asher que caíra nas mãos dos rebeldes. Com as mãos, Suti escavou-lhe um túmulo no interior da gruta.

 

Chocado, esgotado, prosseguiu o seu caminho, entregando-se nas mãos do destino. Face ao inimigo, não teria já forças para se defender.

 

Quando dois soldados munidos de capacetes o interpelaram, desabou sobre a terra húmida.

 

Uma tenda.

 

Uma cama, uma almofada sob a cabeça, um cobertor.

 

Suti soergueu-se. A ponta de uma faca obrigou-o a deitar-se.

 

Quem és tu?

 

O interrogador era um oficial egípcio, de rosto burilado.

 

Suti, arqueiro da unidade de carros de combate.

 

Donde vens?

 

Ele narrou as suas aventuras.

 

Podes provar aquilo que dizes?

 

No meu saco há um pedaço do carro com o nome do meu tenente.

 

Que é feito dele?

 

Os beduínos mataram-no, eu enterrei-o.

 

Tu fugiste.

 

Claro que não! Com as minhas flechas, atingi uma boa quinzena deles.

 

Data do teu alistamento?

 

Princípio do mês.

 

Pouco mais de quinze dias e já és um arqueiro de elite. Não querias mais nada?

 

Um dom natural.

 

Só acredito no treino. E se dissesses a verdade? Suti atirou com o cobertor.

 

Esta é a verdade.

 

Não terás tu matado o tenente?

 

Divagas!

 

Uma estada prolongada num buraco de fossa pôr-te-á as ideias em ordem.

 

Suti arremeteu para o exterior. Dois soldados placaram-lhe os braços, um terceiro atingiu-o no ventre e desferiu-lhe um golpe na nuca.

 

Fizemos bem em tratar deste espião. Falará pelos cotovelos.

 

Sentado numa das mais frequentadas tabernas de Tebas, Paser lançou para a mesa a conversa sobre Hattusa, uma das esposas diplomáticas de Ramsés, o Grande. Aquando da conclusão do tratado de paz com os hititas, o faraó recebera uma das filhas do soberano asiático como testemunho de sinceridade. Colocada à cabeça do harém de Tebas, ela levava aí uma existência luxuosa.

 

Inacessível, invisível, Hattusa não gozava de popularidade. A coscuvilhice oprimia-a; não praticava ela a magia negra, não se ligava ela aos demónios da noite, não se recusava ela a aparecer por ocasião das grandes celebrações?

 

Por causa dela declarou a proprietária da taberna os preços dos unguentos duplicaram.

 

E porque afirmas ser ela a responsável?

 

As suas damas de companhia, cujo número cresce permanentemente, passam o dia a pintar. O harém utiliza uma quantidade inacreditável de unguentos de primeira qualidade, comprando-os a preços elevados e acarretando um aumento dos preços. Relativamente aos óleos passa-se o mesmo. Quando nos veremos nós livres dessa estrangeira?

 

Ninguém assumia a defesa de Hattusa.

 

Uma vegetação luxuriante rodeava os edifícios que compunham o harém da margem oriental. Um canal passava pelo local; abundante, a água irrigava os vários jardins reservados às damas da corte, viúvas e idosas, um grande pomar, e um parque floral onde descansavam as fiandeiras e as tecelãs. Tal como os outros haréns do Egipto, o de Tebas abrigava numerosas oficinas, escolas de dança, música e poesia, e um centro de produção de ervas odoríferas e produtos de beleza; especialistas trabalhavam a madeira, o esmalte e o marfim; aí se criavam soberbos vestidos de linho e se desenvolvia a arte refinada das composições florais. Numa actividade incessante, o harém era também um centro educativo onde se formavam egípcios e estrangeiros destinados à alta administração. Ao lado das elegantes, ornadas dos enfeites mais deslumbrantes, passavam os artesãos, os mestres e os administradores encarregados de abastecer os alunos de géneros frescos.

 

O juiz Paser apresentou-se de manhã cedo no palácio central. O seu cargo permitia-lhe ultrapassar a barreira dos guardas e avistar-se com o intendente de Hattusa. Este último recebeu o requerimento do juiz e mostrou-o à patroa que, para surpresa do empregado, não se recusou a vê-lo.

 

O magistrado foi introduzido numa sala com quatro colunas, e com as paredes decoradas com pinturas representando pássaros e flores. Um pavimento multicolor enriquecia o encanto do local. Em redor de Hattusa, sentada num trono de madeira dourada, cirandavam duas cabeleireiras. Manejavam boiões e colheres de pintura, frascos de perfume, terminando a toilette matinal pela operação mais delicada, o ajuste da peruca, à qual a mais habilidosa acrescentava mechas postiças após ter substituído os caracóis defeituosos.

 

Trinta anos triunfantes, porte desdenhoso, a princesa hitita contemplava a sua beleza num espelho cujo cabo dourado lembrava um caule de lótus.

 

Um juiz em minha casa, a hora tão matinal! Estou deveras intrigada. Qual o motivo da tua visita?

 

Gostaria de te colocar algumas questões.

 

Ela pousou o espelho e dispensou as cabeleireiras.

 

Acharias conveniente um encontro face a face?