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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A PRISIONEIRA DO FOGO / Edmund Cooper
A PRISIONEIRA DO FOGO / Edmund Cooper

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "SEBO"

 

 

 

  

Nascido em 1926 e vivendo afastado da capital inglesa, Edmund Cooper estudou na Manchester Grammar School, tendo dedicado uma parte da sua vida à actividade de homem do mar na marinha mercante britânica, ao mesmo tempo que desenvolvia a faceta de escritor freelance.

A primeira história que publicou foi The Unicom, em 1951, e poucos anos depois, em 1958, surgiu a público o seu primeiro trabalho de fôlego, na Uncertain Midnight, que descreve o mundo após um holocausto, no qual os homens são gradualmente suplantados por andróides.

As obras mais recentes de Edmund Cooper têm o denominador comum de nos oferecer uma perspectiva melhor para um mundo que se pretende mais sadio: Kronk (1970 - número( 22 desta colecção), The Overman Culture (1971), O Décimo Planeta (1973 - número 28 desta colecção), The Slaves of Heaven (1974) e A Prisioneira do Fogo (1974) - que agora publicamos).

Sob o pseudónimo de Richard Avery publicou uma série de space operas com o título genérico de The Expendables. Colabora no prestigiado jornal Sunday Times como crítico de livros de ficção científica.

Edmund Cooper movimenta-se bem em áreas consideradas um pouco áridas, tais como antropologia, holocausto e sociologia.

 

 

 

 

                         CAPÍTULO 1

Era uma tarde de fim de Primavera. Vanessa estava livre (se o termo pudesse ser usado propriamente) até à chamada e à refeição da noite, às dezoito horas. às dezanove haveria uma sessão de grupo com meia dúzia de outros paranormais com o Dr. Lindernann ou o Dr. Dumbarton, ou ambos. às vinte, ela e a maior parte das outras crianças paranormais teriam permissão para umas horas de TV tridimensional, ou xadrez, ou pingue-pongue ou jogos de cartas. Depois disso, cama e o fim de outro dia.

Vanessa suspirou. A vida na Escola Residencial de Random Hill era terrivelmente, maçadoramente previsível. Pensamento perigoso (baixa tonalidade). Alguém pode estar a ouvir (também baixa tonalidade). Vanessa mudou subitamente o seu pensamento e deu uma alta tonalidade às encantadoras palavras de A Viagem Dourada à Samarcanda, o que deixou os pensamentos de baixa tonalidade na sua privacidade. Isto era uma forma de esquizofrenia intelectual a que se disciplinara durante os últimos anos.

Em baixa tonalidade, e pela centésima vez, considerou a perspectiva de fugir. Tinha disciplina suficiente para manter as áreas de transmissão fortemente ocupadas com a poesia de James Elroy Flecker, o que, pelo menos, lhe garantia a privacidade para contemplar a sua situação.

Random Hill era uma instituição em que, segundo o pessoal, havia mais liberdade para as crianças dotadas do que em qualquer outra escola do género em todo o país. Então, porquê as vedações electrificadas a seguir às altas linhas de arame farpado que rodeavam os cem acres da Escola? Porquê os guardas e os cães que a patrulhavam? Porquê as infinitas variações da resposta "Amanhã", sempre que alguém exprimia o desejo de ver o mundo lá de fora?

"Tenho dezassete anos", pensou Vanessa (tonalidade baixa). "Estou aqui presa há mais de dez anos. Tenho de sair, mesmo que o mundo seja tão perigoso como eles dizem. Tenho de sair."

Mas onde estavam os poderes paranormais que lhe permitiriam atravessar uma vedação electrificada?

Vanessa estava sentada numa pequena elevação com relva, debaixo de um grande carvalho, a cerca de cento e cinquenta metros da grande casa do século XIX que fora convertida numa escola para paranormais. Estava bem à vista da ala do pessoal, e escolhera deliberadamente aquele local precisamente por isso, achando que se permanecesse visível, as pessoas ficariam, provavelmente, menos curiosas por saber em que pensava. Algumas vezes era assim que acontecia, outras vezes não. Mas se alguém se escondesse ou parecesse misterioso, havia fortes hipóteses de que eles usassem um relator ou um sondador para descobrir em que é que a pessoa pensava e onde é que estava.

Não se podia sentir um relator, mas podia-se sentir um sondador. Ela interpretara sempre a pesquisa de um sondador como uma mão muito suave a acariciar o seu cabelo. Assim que ela notava essa sensação, sabia que os seus pensamentos já não eram privados.

Vanessa deitou-se na relva e espreguiçou-se luxuosamente. Cansou-se do jogo com Samarcanda e mudou para música - uma melodia folclórica simples: Greensleeves. Alguém lhe disse que fora composta por um antigo rei de Inglaterra.

Com Greensleeves a dominar a área de alta tonalidade, Vanessa permitiu aos seus pensamentos de baixa tonalidade vaguear. Realmente, pensou ela, estava em perigo de ficar paranóica. Não havia ninguém em Random Hill de quem devesse ter medo. Possuía a melhor classificação extrasensorial de entre todas as quarenta e três crianças. O mais próximo era Dugal Nemo, que tinha apenas nove anos. E era amigo de Vanessa. O problema com Dugal era que ele era um rapaz confiado, facilmente levado; e era um sondador de primeira classe, assim como um relator em desenvolvimento. Mas certamente que não haveria nada a recear de Dugal?!

Tanto ele como ela eram órfãos, e não sabiam nada de nada acerca dos pais, o que era um laço. Mesmo que não fossem bons ter-se-iam do mesmo modo sentido como irmãos.

Vanessa afastou os seus medos e a vigilância, e concentrou-se no problema da fuga.

Dugal tentou pôr-se confortável na cadeira, que era demasiado grande para ele, e tirou a barra de chocolate que o Dr. Lindernann lhe oferecia.

- Posso comê-la agora?

O Dr. Lindernann riu.

- Que farias se eu dissesse que não? Apertá-la-ias na tua mãozinha até ela se tornar uma porcaria pegajosa. Sim, Dugal, come o chocolate, mas por favor não o espalhes pela tua cara toda, assim mesmo, pois.

Estavam no estúdio do Dr. Lindernann. Pela janela podia ver-se Vanessa deitada na relva debaixo de uma grande árvore. Dugal gostava muito do Dr. Lindernann. Ele era o mais novo dos cientistas em Random Hill, e tinha sentido de humor, ria muito. E era também uma fonte inesgotável de barras de chocolate.

- Estamos muito satisfeitos contigo, Dugal. És o nosso melhor aluno. Um dia, quando cresceres, vais manter uma linha de comunicação com as colónias solares. Serás um homem importante.

Dugal mastigava o seu chocolate. Lançou uma sonda impetuosa a mente do Dr. Lindernann. Como esperava, bateu na barreira. Engraçado como todos estes cientistas tinham a mesma barreira mental. Se calhar, eram deformados.

- Vanessa é melhor do que eu - disse Dugal.

O Dr. Lindernann contraiu-se.

- Ela é muito mais velha que tu, e é apenas uma rapariga.

- Algumas raparigas não são más - disse Dugal cuidadosamente. - Quer dizer, Vanessa não tem de ser menos boa só porque é uma rapariga.

- Não. Mas as raparigas são geralmente menos ambiciosas que os rapazes, Dugal. Provavelmente Vanessa vai-se casar, ter filhos e esquecer tudo acerca dos seus dotes especiais.

- Eu quero ser o melhor telepata do mundo - disse Dugal, mastigando. - Quero ser capaz de falar com pessoas longe, pelas estrelas fora.

- E poderás ser - disse o Dr. Lindernann. - Tu sabes que as pessoas como eu são cegas, Dugal. Mas mesmo cegos, nós, os cientistas, sabemos muito sobre os poderes paranormais. Se seguires os nossos ensinamentos, poderás muito bem tornar-te no melhor telepata do mundo... Gostas muito de Vanessa, não gostas?

- Ela é a maior!... Quer dizer, para rapariga.

O Dr. Lindernann riu-se.

- Aposto que não a podes sondar.

Dugal mostrou-se surpreendido.

- Claro que posso, Dr. Lindernann. O senhor sabe isso. Peça-lhe que ela se abra, e eu sondarei aquilo que o senhor quiser.

- O que quero dizer é que acho que tu não consegues sondá-la se nós não lhe pedirmos que ela se abra - disse o Dr. Lindernann aveludadamente.

Dugal acabou o seu chocolate e lambeu os dedos.

- Conseguiria, sim. Mas será que eu devia?

- Ela é tua amiga, não é?

- É.

- Nesse caso, claro que não havia mal nisso.

- Tem a certeza?

- Tenho... Tenta, Dugal. Diz-me em que está ela a pensar.

Dugal fechou os olhos. E depois disse:

- Quando os grandes mercados à beira-mar subitamente fecham, em todo aquele calmo domingo que continua. Quando mesmo os amantes encontram finalmente a sua paz. E a Terra não passa de uma estrela que em tempos brilhou. - Ele abriu os olhos. - É nisto que ela está a pensar, Dr. Lindernann. Não faz muito sentido, pois não? Mas é nisto que ela estava a pensar.

- Poesia - disse o Dr. Lindernann. - É o que é. Vanessa está a divertir-se. - Olhou-a pela janela, ela não pareceu ter-se movido. - Achas que Vanessa sentiu a tua sonda, Dugal?

- Não sei, mas não me parece. Fui muito brando. Posso ir-me embora, Dr. Lindernann?

O cientista sorriu.

- Espera um pouco. Sem dúvida que queres ir brincar para o sol. Muito bem, isso está certo. As crianças devem ser como animais jovens e saudáveis... Gostas de Random Hill, Dugal?

- Sim, senhor, gosto muito.

- És feliz aqui, connosco?

- Sim, senhor. Toda a gente é muito boa.

- Bem. Bem... Só para nos divertirmos, Dugal, tenta sondar Vanessa outra vez. Vamos ver se ela continua a deliciar-se com a sua poesia.

Obedientemente, Dugal fechou de novo os olhos.

- É música - disse depois de uns momentos - Música bonita. Quer que eu a assobie um pouco?

- Não, não é preciso. Vanessa parece estar de bom humor... Mas pergunto-me se ela não estará a pensar noutra coisa além da música. às vezes as pessoas entretêm-se com umas musiquinhas, enquanto outras partes de si estão ocupadas com outros pensamentos. Podes sondar mais fundo, Dugal?

Dugal pareceu angustiado.

Vanessa pode não gostar.

O Dr. Lindernann contraiu-se, mas miraculosamente apareceu na sua mão outra barra de chocolate.

- É só uma experiência, Dugal. Nós fazemos experiências como esta durante o dia todo, não fazemos?

Dugal hesitou.

- E se eu for num instante pedir-lhe, Dr. Lindernann? Quer dizer, pedir-lhe que me deixe tentar uma sonda profunda?

O Dr. Lindernann fingiu sufocar um bocejo.

- Não é assim tão importante, Dugal. - Avançou o chocolate para o rapaz. - Além disso, podíamos guardar segredo desta experiência, não podíamos? Mas se achas que não és capaz de fazer uma sonda profunda em segredo...

- Oh, sim, posso! - disse Dugal com toda a confiança de uma criança.

- Bom, então vamos fazer a nossa experiência secreta. E depois podes ir-te embora gastar a energia que absorveste das duas barras de chocolate. - O Dr. Lindernann ria. - Mas se apareceres com manchas e fores chamado à matrona, eu negarei ter-te dado qualquer chocolate, hem!

Dugal arreganhou-se conspirativamente, depois fechou os olhos.

- A mesma música bonita, muito alto. Agora estou a passar por debaixo, mas ela está a sentir-me. Sabe que alguém está lá... A música agora está mais alta, e os seus pensamentos, os seus pensamentos estão a tentar dissipar-se... Há qualquer coisa sobre electricidade. É tudo o que consigo apanhar. A música está mesmo muito alta.

Dugal abriu os olhos. Parecia perturbado.

- Electricidade - disse o Dr. Lindernann. - Música e electricidade. Que interessante! Foste muito bem, Dugal.

- Posso ir-me embora?

- Sim, podes ir-te embora, Dugal. Não te esqueças de que isto foi uma experiência secreta. Posso assegurar-te de que Vanessa não se vai importar.

- Sim, senhor. - Dugal saiu do estúdio sentindo-se vagamente infeliz.

Vanessa tremeu. Por duas vezes sentiu o vento no seu cabelo. Mas quando veio a sonda profunda, soube que não era o vento. E só uma pessoa poderia passar as suas barreiras - se quisesse. Mas porque faria Dugal isso? Não apenas pela sua curiosidade infantil. Ele era demasiado delicado, demasiado sensível para isso. Alguém o intrigara. Lindernann, Dunibarton, o Prof. Holroyd - alguém.

- Era importante qual deles? - Eles eram todos inimigos, todos eram carcereiros. Tudo o que importava era o que Dugal tivesse descoberto e o que tivesse contado. Enquanto pensava na situação, Vanessa usou aquilo que ela considerava a sua mais forte barreira: uma velha canção maluca com um refrão monótono - Dez garrafas verdes, Uma vez que pusesse aquela sequência compulsiva a correr na cabeça, podia estar razoavelmente segura de que nem mesmo Dugal poderia vencer esta repetição idiota.

O importante era não deixar ninguém perceber que sentira a sonda. O importante era deixar-se estar deitada na relva, parecendo apreciar o céu azul, a luz do sol primaveril.

Vanessa fechou os olhos e pareceu não tomar consciência da presença do Dr. Lindernann até que ele lhe falou.

- Estás a dormir? - perguntou suavemente.

Ela abriu os olhos e olhou-o de soslaio, contra o céu. Não tinha mau aspecto para um homem de meia idade, com quarenta anos, mais ou menos. Ela sabia que, para além do seu interesse profissional, ele também a achava sexualmente atraente.

- Estou acordada, Dr. Lindernann. Sonhava um pouco.

- Oh! Com alguma coisa em especial?

Portanto, fora ele quem usara Dugal. Vanessa teve uma inspiração, levar a guerra até ao inimigo.

- Nada importante. Estava só a pensar nas vedações electrificadas.

O Dr. Lindernann pareceu cofiar uma barba que não existia.

- Interessante. E sabes porque estavas a pensar nas vedações electrificadas?

Ela sentou-se.

- Sim. Parece-me tão triste, especialmente num dia de Primavera, nós estarmos fechados para o resto do mundo e o resto do mundo fechado para nós.

O Dr. Lindernann sorriu.

- Precauções, Vanessa. Apenas precauções. Tu tens sorte, tens uma vida resguardada. O mundo lá fora podia ser um sítio perigoso para pessoas como tu. Vês televisão, sabes o nível de violência que existe na nossa sociedade chamada civilizada. As massas estão sempre à procura de bodes expiatórios, comunistas, católicos, imigrantes, anarquistas, espiões. Até mesmo pessoas como tu. Já pensaste na sorte que tens de ser assim tão bem protegida?

- Sim, e estou grata por ter uma vida tão segura, com bons amigos e bons professores. Mas, ocasionalmente, sinto-me um pouco prisioneira.

O Dr. Lindernann riu-se.

- Um pensamento mórbido. Tu não és prisioneira, Vanessa. Tu és uma pessoa privilegiada. Em breve terás dezoito anos, durante mais alguns meses continuarás a ser uma menor, e o teu bem-estar é da nossa responsabilidade. Mas quando atingires a maturidade, se então te quiseres ir embora, nós não te impediremos. Se então te quiseres ir embora, poderás sair o portão com cerca de mil euros no bolso e sem quaisquer obrigações para com Random Hill.

Vanessa lembrou-se (baixa tonalidade) da última pessoa que fizera isso. James Grey, um rapaz que era o melhor telepata que Random Hill jamais desenvolvera. Isso acontecera há quase um ano.

Vanessa e James tinham sido psicologicamente íntimos. Por acordo mútuo, combinaram não usar barreiras um com o outro. James estava convencido de que a instalação de Random Hill fazia parte de uma conspiração complicada contra a liberdade dos paranormais.

No seu décimo oitavo aniversário decidira sair de Random Hill e tentar a sua sorte no mundo exterior. Deram-lhe dinheiro, o seu cartão de identidade e as roupas de que precisava. Uma hora depois de ter saído da instituição foi encontrado morto - horrivelmente assassinado.

O seu corpo foi trazido de volta, e as crianças mais velhas foram autorizadas a vê-lo, se quisessem. Algumas delas quiseram, e Vanessa estava entre elas. As feridas tinham sido cuidadosamente dissimuladas, mas não demasiadamente, especialmente para jovens com alguma imaginação.

Vanessa lembrou-se da sua última e angustiosa transmissão:

"Não o tentes! Assim, não! Eles têm rufiões à espera... "

Portanto, ela disse ao Dr. Lindernann:

- Não penso que alguma vez queira sair de Random Hill ou rejeitar o treino que recebi. Tenho aqui demasiados amigos. Onde encontraria eu amigos lá fora?

- Talvez tenhas razão. Mas não me deixes influenciar-te. Decide por ti, tens ainda muito tempo.

- Sim, tenho ainda muito tempo - disse Vanessa.

Apesar de saber que o tempo escasseava. Por quanto tempo se pode viver numa situação em que tem de se usar barreiras mentais para manter a privacidade e viver a própria vida?

 

                         CAPÍTULO 2

No Verão de 1973, Jenny Smith, de dezoito anos, filha de um agricultor do Sussex, fugiu de casa. Jenny era uma criança excepcionalmente inteligente e conseguiu distinguir-se na escola. Os seus professores descobriram uma peculiaridade: em qualquer forma de exame oral em que o professor soubesse as respostas às perguntas feitas, ela alcançava sempre cem por cento. Se o professor não soubesse as respostas, ela teria notas altas, mas nunca cem por cento. Em exames escritos, quer o professor que assistia soubesse as respostas quer não, Jenny obteria cem por cento ou muito perto disso.

Os seus professores queriam que fosse para a Universidade, e ela também. O pai de Jenny, um bom, mas tolo, homem de cinquenta e três anos, não queria. Tendo enterrado recentemente a sua mulher, não via razões para continuar a pagar um bom salário a uma empregada doméstica quando Jenny já tinha idade para a substituir.

Jenny desejava tirar um curso de Literatura Inglesa, mas o pai vetou essa ideia. Tornou-se uma empregada doméstica sem salário numa quinta isolada, a mais de quinze quilómetros da vila mais próxima. Suportou o isolamento (físico, emocional, intelectual) durante um longo Inverno. Depois fugiu.

Tirou dez libras (do dinheiro da casa), juntou as suas poucas roupas numa mala já batida, andou nove quilómetros até à estrada principal e aí arranjou uma boleia para Londres.

Dirigiu-se a uma agência de empregos e arranjaram-lhe um emprego provisório. Uma vez que não sabia dactilografia nem estenografia, o trabalho era bastante humilde: consistia em arquivar papeis de uma companhia da City especializada em marketing de produto da indústria petroquímica.

Encontrou um quarto para alugar em Bayswater, e por uns tempos contentou-se em cozinhar refeições num fogão com um único bico, em ouvir a rádio e em ler os livros que era necessário ler para poder acalentar a esperança de tirar um curso de Literatura, como externa.

Entretanto foi promovida à importante posição de assistente de informações, o que queria dizer que tinha de atender o

v-fone e procurar dados pedidos por executivos poderosos. Por vezes queriam saber sobre os levantamentos sísmicos no Brasil, ou os depósitos de gás natural na Austrália, ou sobre a produção da borracha butílica nos E. U. A. ou ainda sobre as reservas de petróleo bruto na U. R. S. S. Ela era bastante boa neste tipo de problemas, sobretudo se tivesse de contactar um especialista. Parecia saber as respostas quase antes de terem sido dadas.

Por esta altura conheceu John. Este vivia num quarto no mesmo edifício do dela. Possuía um bom emprego como supervisor de raparigas que empacotavam chocolate numa grande fábrica. Era rodesiano e tinha uma tez suficientemente escura, maçãs do rosto suficientemente largas e cabelo suficientemente preto para sugerir um toque de sangue negro algures na sua linhagem.

John estudara arte em tempos, era um idealista. Poderia ter arranjado uma boa posição num museu de belas-artes ou numa galeria de pintura, ou mesmo na sub-indústria em expansão de pesquisa pós-graduação. Em vez disso, escolheu antes flutuar. O emprego na fábrica de chocolate era, como ele dizia, simplesmente a maneira de comprar uma passagem aérea para o Japão. Dizia que queria observar a cultura japonesa e também descobrir o que os estudantes radicais estavam a fazer.

John e Jenny nunca se apaixonaram, mas cada um deles tinha a misteriosa capacidade de saber o que o outro pensava e sentia. Por vezes pareciam entregar-se a conversas em que nenhum deles abria os lábios. Acabaram por dormir juntos, tanto por conforto mútuo e uma extensão de intimidade como por simples desejo sexual.

Apenas se conheciam há seis semanas, quando John foi morto (absurda e estupidamente) numa manifestação em frente à Embaixada Americana, na Praça Grosvenor. A manifestação começara mais ou menos pacificamente, como um protesto disciplinado contra as acusações de incompetência a um médico negro no Estado do Alabama. Estava um lindo dia e apareceu muita gente. Os provocadores tornaram-se violentos e foi chamada a Polícia Montada, esse esplêndido anacronismo britânico. Alguém lhes atirou uma bomba de gelinhite, mas falhou. Morreram dois manifestantes e sete ficaram feridos; John foi um dos mortos.

Por essa altura, apesar de não o saber, Jenny estava grávida. Ela conformou-se de algum modo com a morte de John, continuou a desempenhar impecavelmente o seu trabalho e começou a prosperar.

Aprendeu muito a respeito da companhia para que trabalhava, também aprendeu alguma coisa a respeito da manipulação de acções na Bolsa. Não tanto pelo que as pessoas diziam, mas sobretudo pelo que pensavam.

Enquanto o bebé crescia no seu abdome, ela aprendeu a ganhar dinheiro. Quando a criança nasceu, decidiu dedicar-se a ganhar dinheiro como meio para alcançar poder.

Conheceu também um jovem brilhante, que não lhe era simpático no sentido estranho em que John o era, mas suficientemente sensível e atraente para despertar o seu desejo físico e o seu respeito. Ele, por sua vez, queria casar com ela, mas não queria o embaraço de suportar uma criança que não era dele.

Quando a bebé nasceu, ela pô-la numa instituição. Depois casou com o jovem brilhante e acabou por tornar-se muito, muito rico. Nunca voltou à quinta no Sussex, e nunca perguntou nada sobre bem-estar da filha. Com trinta e nove anos tomou uma dose excessiva de comprimidos para dormir. Mas já então sabia o que acontecera a Vanessa.

 

                             CAPÍTULO 3

Passava pouco da meia-noite. Vanessa deixou o dormitório e roubou no ginásio uma vara e no armazém do guarda-florestal um machado de lenhador. Esta noite, a liberdade ou a morte.

Ela vinha a praticar salto à vara já há vários dias, o que esperava que ninguém tivesse reparado, mas sem contar muito com isso. Nos seus treinos, conseguira ultrapassar quase três metros e a vedação eléctrica tinha dois metros e meio de altura. Teoricamente, não seria muito difícil. Mas antes de lá chegar ainda havia o arame farpado através do qual teria de abrir uma estreita passagem. Ia precisar de correr vinte passos, pelo menos, antes do salto.

Vanessa vestia apenas umas calças e um colete azul-escuros e trazia calçados os seus ténis leves que usava para a ginástica. Eram as únicas coisas que ela achou suficientemente práticas para o que tinha de fazer. Felizmente, estava uma noite cálida e, felizmente também, havia algum luar.

O luar era tanto um aliado como um inimigo. Ela precisava de luz para cortar caminho através do arame farpado, para ver onde estava a vedação e para firmar a vara para o salto. Mas também a expunha, fazia-a sentir-se nua.

Já não era a primeira vez que Vanessa saía durante a noite. Durante várias noites viera verificar quando é que os guardas faziam as suas rondas com os cães. Eles eram muito regulares, passavam com intervalos de meia hora até à meia-noite e depois com intervalos de uma hora até de madrugada. Naquele momento acabavam de fazer a ronda da meia-noite.

Vanessa escolheu para o seu salto aquela parte da vedação que ficava mais longe da escola. Ficava a quase meio quilómetro dos edifícios principais e tinha a vantagem adicional de ficar parcialmente encoberta por um grupo de faias.

Cortar caminho através do arame farpado ia ser barulhento, e ia ter de evitar cuidadosamente os toros que seguravam o arame, mas estes riscos não podiam ser evitados. Aliás, era melhor enfrentá-los do que permanecer prisioneira ou, em desespero, sair como o pobre James saíra.

Expondo-se o mínimo possível ao atravessar os relvados banhados pelo luar, Vanessa lançou-se de sombra em sombra, como uma verdadeira criatura da noite, olhando ansiosamente para trás, por cima do ombro, a cada momento. Permanentemente também, ia passando na sua mente uma barreira de palavras com que esbarrasse qualquer sonda acidental ou deliberada. Dugal estava a dormir e sem ele os parapsicólogos de Random Hill eram quase cegos.

Quando chegou ao local escolhido, pousou o machado e a vara e encostou-se a uma faia por uns momentos, para recuperar o fôlego e renovar a sua coragem. Olhou à sua volta e o mundo estava curiosamente quieto e belo. Seria tão fácil pôr de volta a vara e o machado, rastejar para o dormitório e aceitar a segurança dos lençóis lavados, refeições regulares, uma vida ordeiramente vivida!

Mas o preço a pagar por essa segurança era demasiado alto, tinha de se prescindir da liberdade de acção. Bom, isso podia ser suportado. O que não podia ser suportado era que também se tinha de prescindir da liberdade de pensamento. Vanessa, apesar de ter apenas dezassete anos, sabia muito bem o que os parapsicólogos de Random Hill estavam a fazer. Estavam a trabalhar para transformar um grupo de crianças dotadas, em máquinas controladas. O Governo precisava de pessoas com poderes paranormais para sofisticadas técnicas de comunicação, para espionagem pura e simples, para interrogatórios não verbais, para segurança interna e para todos os jogos sujos que os Governos de todo o mundo estavam preparados para jogar, para manter a sua autoridade. Por causa de comentários estranhos que o Dr. Lindernann tinha feito, Vanessa sabia que a China, a Rússia, a América e a maior parte dos outros países que pareciam jogar em política internacional estavam a desenvolver rapidamente os seus recursos paranormais.

Vanessa não queria entrar em nenhum jogo político, sujo a limpo. Queria simplesmente ser ela própria, uma mulher, viver em paz. Era uma ambição simples e, no mundo de 1990, uma ambição admirável. Havia também um preço a pagar por isso.

Olhou por uma última vez à sua volta aquele mundo nocturno e pacífico. Tudo parecia tão limpo. Tão limpo e claro. Olhou para as estrelas. Muitas estavam escondidas pelo brilho do luar, mas ainda luziam as suficientes para afirmar que o universo era demasiado belo para que as pessoas se deixassem destruir em vão.

Limpou as lágrimas da cara, pegou no machado e aproximou-se do arame farpado. Tivera oportunidade de se treinar em salto à vara, mas nunca experimentara deitar abaixo arame farpado. Não tinha ideia de quanto tempo levaria e que barulho faria.

Agora era a altura de experimentar.

Um mocho piou.

Vanessa escolheu um ponto e brandiu o machado. Tentou acertar baixo, onde a madeira dura entrava na terra. A primeira vez falhou e a lâmina enterrou-se no chão. Puxou-a imediatamente e brandiu-a de novo. Desta vez o machado feriu, não profundamente, mas feriu. O arame estremeceu, e algumas farpas precediam-se-lhe no cabelo, arranharam-lhe a cara, embaraçaram-se-lhe no colete. Ignorou-as e brandiu de novo com toda a sua força. O choque do machado contra a madeira soou como um tiro, na noite clara e tranquila. Não ligou ao sangue que sentia na cara e aos arranhões no corpo, soltou o machado e brandiu-o de novo. E outra vez, e outra vez ainda.

Depois de uns dez golpes, ouviu-se um estalido. Então, uma parte daquela vedação caiu para a frente, quase sobre ela. Sem ligar às farpas aguçadas, tentou arrancá-la para o lado, mas ainda estava presa ao chão por algumas irritantes lascas de madeira.

Brandiu o machado uma vez mais, e com toda a força do desespero, pois já ouvia o ladrar de cães, ao longe. Dentro de alguns minutos, talvez alguns segundos, os guardas estariam aqui. O último golpe quebrou as lascas que restavam e ela conseguiu afastar aquela secção de arame farpado, e ficar com uma passagem.

Agora podia fazer uma corrida sem obstáculos, desde que não se esquecesse de evitar o coto do toro de suporte. Largou o machado e procurou a vara de saltos. Agarrou-a, mas não conseguia apertá-la correctamente, tinha as mãos húmidas e pegajosas com suor e sangue.

Mas agora ou nunca. Já podia ver os cães e as lanternas eléctricas balanceando nas mãos dos guardas, que corriam atrás deles.

Subitamente caiu sobre ela um frio de gelo. Era como se toda a emoção tivesse desaparecido, como se tivesse sido fisicamente separada do seu corpo. Calmamente, aproximou-se da vedação eléctrica, virou-se e calculou a distância que teria de correr, contando os passos. Virou-se de novo, com a vara nas mãos, avaliando o seu peso e força. Os cães e os guardas já estavam a pouco mais de cem metros, agarrá-la-iam em poucos segundos.

Ela ainda olhou o luar, que fazia brilhar os formidáveis fios, também farpados da vedação eléctrica.

- Só posso morrer uma vez - disse ela friamente, como se isso fosse uma espécie de consolação.

Quando se concentrava para começar a corrida, ouviu uma voz de mulher na sua cabeça. Não era uma voz que ela conhecesse, mas no entanto parecia-lhe familiar.

"Não faças isso! Não faças isso! Não faças isso!"

- Faço, sim! - gritou Vanessa bem alto.

Com uma elegância adquirida na prática, começou a sua corrida, em passos largos e poderosos, lembrando-se de evitar o coto na passagem que abrira, mas sem perturbar o seu ritmo essencial. Todo o seu pensamento consciente desapareceu, o seu corpo tornou-se uma máquina bem afinada.

Adquiriu velocidade, enquanto a vedação se agigantava à sua frente. Forçou a ponta da vara num ponto daquela terra mole, e saltou. A vara dobrou-se sob o seu ímpeto e, respondendo à sua elevação, voltou à sua forma direita com uma sacudidela, que a arremessou por cima da vedação.

Depois de se ter largado, sentiu estalidos - faíscas debaixo de si, e então caiu na terra macia. Levantou-se logo, virou-se viu os guardas com os seus cães, impotentes, no outro lado da vedação. Levariam bastante tempo a atingir o portão principal, mas talvez pudessem pedir ajuda pela rádio. Só havia uma direcção em que correr, era para longe. Correu até sentir os seus pulmões rebentar. Tinha ainda várias horas até ao nascer do sol, que seria o princípio das buscas mais intensas. Durante as horas restantes de escuridão, tinha de pôr a maior distância possível entre ela e Random Hill.

Num apartamento luxuoso situado no terraço de um prédio fino de Londres, Jenny Pargetter, nascida Jenny Smith, acordava aos gritos.

- Não faças isso! Não faças isso! Não faças isso!

Simon, o seu marido, acendeu a luz e tentou confortá-la.

- Que foi, querida? Um pesadelo?

Ela tremia, soluçava.

- Sim, um pesadelo.

Simon beijou-a, apertou-a nos braços, tentando desvanecê-lo.

- Não te preocupes, querida. Comeste demasiada lagosta, ou talvez seja do gim. Bem feito para mim, que te meti com horrorosos corretores da Bolsa. Não voltarei a fazê-lo.

Jenny tentou responder às suas carícias, mas não conseguiu.

- Foi tão real, Simon. Tão vividamente real.

- Conta-me, então.

Ela passou a mão pela testa e apertou fortemente as têmporas.

- Bem, parecia que eu era uma rapariga, em alguma instituição, tentando fugir. Havia uma vedação electrificada que me aterrorizava porque eu sabia que tinha de a saltar com uma vara.

Simon saiu da cama, vestiu o seu roupão de seda, deixou o quarto por uns momentos e voltou com uma garrafa de brande e dois copos.

- Queres um?

- Não, obrigada, querido. Como disseste, talvez fosse por causa do gim.

- Bom, isso não era uma acusação.

- Eu sei que não era.

Simon serviu-se de bastante brande.

- Uma rapariga, dizes tu?

- Sim.

- Lembras-te de mais alguma coisa?

- Não muito mais. Havia cães e homens de uniforme. Era assustador.

- Conseguiste... ou conseguiu ela... saltar?

- Parece-me que sim...

Simon engoliu um grande gole de brande.

"Caramba, que vandalismo", pensou ele, "devia-se engolir isto devagar, para poder saborear."

- Uma rapariga nova - disse ele -, de que idade?

- Dezasseis, dezassete, dezoito, não sei.

- Vanessa?

Jenny soltou uma gargalhada aguda.

- Tu lês demasiado nos pesadelos.

- Era Vanessa?

- Podia ser, suponho...

Simon serviu-se de mais brande.

- Querida, tu subestimaste-me. Eu não ficaria melindrado com ela. Pelo menos, não me parece que ficaria... Bom, verificarei esta história amanhã, OK?

- OK.

- Então, combinado. Toma um brande e vem-te aconchegar, anda. Acabaram-se os pesadelos, prometo.

 

                       CAPÍTULO 4

Vanessa correu até já não sentir a dor nas suas pernas doridas, e apenas sabia que continuava viva porque continuava a sentir a dor no peito e porque parecia ter de mostrar um esforço de vontade gigantesco para forçar cada inspiração, convulsamente, para alimentar a já cansada e sobrecarregada máquina que era o seu corpo.

Ela correu como um autómato, desprovido de cérebro, atravessou bosques, fossos e campos lavrados, e passou por uma pequena ribeira cuja água gelada a refrescou temporariamente. Ao princípio, ouvia os cães atrás de si, e o som do seu ladrar atiçado aumentava ainda mais o bombeamento de adrenalina na sua corrente sanguínea.

Por um bom pedaço, parecia que os seus pés mal tocavam no chão - Agora, o barulho dos cães já estava muito longe. Eles poderiam correr tanto como ela, mesmo mais depressa; eram mais eficientes, cansavam-se menos; mas os homens seguravam-nos. Os guardas, eram mais fortes que Vanessa; mas não tinham a sua força de vontade. Para eles esta perseguição não era um caso de vida ou de morte, para ela era. E assim ela perdeu-os facilmente na primeira hora de sua fuga.

Enquanto corria, uma canção sem sentido ia-se repetindo sem fim na sua cabeça: Dez garrafas verdes penduradas numa parede.

Repetia-a sempre, logo que a última garrafa verde caía, havia logo uma nova parede com mais dez garrafas verdes para a substituir.

Instintivamente, dirigiu-se para sul. Atravessou duas estradas principais e uma secundária, quase sem reparar nos faróis que a cegavam, nas buzinas que a ensurdeciam. Trepou vedações e caiu em valetas; correu pela noite fora até que as estrelas deixaram de piscar uma por uma, e a Lua dançou loucamente ao vento, como um balão amarelo. Acabou por cair na terra, e assim ficou, inconsciente, gasta. Ela não o sabia, mas mais cinquenta passos tê-la-iam levado a um celeiro onde teria suficiente feno para fazer uma cama quente e suave.

Jazia num campo de trigo de Inverno, com a cara para baixo, enquanto aranhas minúsculas percorriam o seu corpo inconsciente e gotas de orvalho se formavam no seu cabelo.

Voltou à consciência pouco depois do nascer do Sol. Acordou porque o seu corpo era todo uma única e enorme dor. Tentou levantar-se, mas gritou de dor. Devagar, e miseravelmente, obrigou os seus membros a obedecer-lhe. Esqueceu tudo a respeito das barreiras mentais. Agora podiam sondar-lhe a mente. Tudo o que descobririam seria agonia. Mais do que manter o segredo, era agora mais importante que ela se concentrasse em fazer os seus membros obedecer-lhe, para encontrar alguma coisa que comer e beber.

Estava com sorte. Havia galinhas em liberdade naquela quinta e uma fizera um ninho no campo de trigo, onde tinha posto ovos com a sublime crença de que seria autorizada a criar uma ninhada de pintos. Vanessa viu os ovos e começou a parti-los. Felizmente, a galinha nunca fora coberta, e os ovos eram estéreis. Vanessa sentou-se com as pernas cruzadas, e, depois de partir os ovos, engolia o seu conteúdo avidamente, enquanto a galinha cacarejava por ali, eriçando as penas do pescoço e protestando furiosamente. Vanessa tentou fazer sons apaziguadores, mas a galinha não se mostrou impressionada. Ainda no campo de trigo, encontrou uma velha tina de pedra, sem dúvida reminescente dos dias há muito tempo passados, quando os lavradores usavam cavalos para arar as terras. A tina tinha muitos musgos e líquenes incrusados na pedra; mas possuía ainda alguma água, provavelmente de alguma chuvada recente.

Vanessa pôs as mãos em concha e bebeu avidamente. A água era vagamente salobra, mas soube-lhe bem. Juntamente com os ovos crus, pareceu dar vida e energia ao seu corpo elástico. Assim que acabou de beber, ouviu uma voz. Olhando por cima do ombro, viu um homem, perto do celeiro, que lhe acenava.

Ela entrou em pânico. A dor decrescente nos seus membros foi esquecida, e começou a correr de novo. Atravessou o campo, saltou um portão de madeira. Para o sul... Para o sul...

O Sol levantava-se no horizonte. Ela começou a ouvir vozes na sua cabeça.

"Vanessa, volta, volta para casa! Não serás castigada! O Dr. Lindernann promete que não serás castigada."

Ela reconheceu o padrão de Dugal. Querido e ingénuo Dugal! Estava a transmitir aquilo que eles queriam que ele transmitisse. Sem dúvida que o preço seria uma barra de chocolate.

Ela não tentou dizer nada a Dugal. Não fazia sentido dizer-lhe nada. Quaisquer que fossem os pensamentos que ela emitisse, apenas o fariam mais infeliz. Ele não seria capaz de compreender a razão por que ela fugira. Era demasiado novo, demasiado confiado, para ser capaz de compreender a tirania. Não fazia sentido levantar confusão à sua cabeça, criar conflitos entre ele e as pessoas que controlavam o seu destino.

Portanto, enquanto corria levantou de novo, desgostosamente, a mesma barreira mental tresloucada: Dez Garrafas Verdes. Se eles não conseguissem persuadir Dugal a sondar por baixo dessa barreira, tentariam com Meriona, ou com Thomas ou Greg. Meriona era quase da idade da Vanessa e odiava-a, pois ela era vulgar, enquanto Vanessa era bonita. Mas, felizmente, Meriona não tinha um factor muito alto, havia pouco a recear dela. Nem havia muito a recear quer de Thomas quer de Greg. Dugal era o único perigoso, e ele era amigo de Vanessa.

Automaticamente, Vanessa evitou as aldeias. Atravessou terras cultivadas e florestadas. Mesmo em 1990, a maior parte da Inglaterra do Sul continuava intocada pela civilização. Se excluirmos a incursão das superauto-estradas, postes telefónicos e alguma ocasional falange de postes de uma pista de aviação, os campos tinham mudado pouco em cem anos.

A corrida depressa a cansou e provocou o retorno das dores. Então tentou uma rotina que consistia em correr cem passadas e depois andar cem passos, o que de facto ajudou, apesar de custar muito recomeçar a correr depois da série de passos. Frequentemente, por causa de uma fadiga Total, ela relaxava a barreira mental; e então os sussurros voltavam à sua cabeça: "Volta! Volta para casa!" às vezes os padrões de transmissão eram de Dugal, outras vezes eram irreconhecíveis.

Ela manteve-se atenta aos encontros com pessoas. Quando via alguém, quase sempre lavradores, fingia que vagueava por ali, num passeio despreocupado.

O Sol atingia o seu zénite. Pouco antes do meio dia, Vanessa viu um helicóptero. Este não tinha o tipo de rota direita que os helicópteros geralmente percorrem, do ponto A ao ponto B. Andava em círculos, pairando; andava à procura.

Encontrava-se num campo de cevada ainda muito baixa quando o viu aproximar-se vindo do Norte. Ela não estava a mais de vinte passos de uma pequena mata que seria uma óptima cobertura, e correu mais depressa do que pensava que poderia correr, saltou um portão, caiu num montão de terra, levantou-se e cambaleou para debaixo das árvores.

Aí, desmaiou.

Quando recuperou a consciência, sentiu que estava frio e tremia. Havia estrelas no céu, e a Lua estava pálida e aguada. Ela estremeceu e chorou. Depois, levantou-se e tentou continuar. Não foi muito longe.

 

                     CAPÍTULO 5

O Dr. Roland Badel tinha sido um recluso durante quase um ano.

Gostava da sua vida solitária, apesar de notar, com imparcialidade clínica, os sintomas de isolamento dos eremitas. As cicatrizes da sua cara quase desapareceram, e a fina linha branca que mostrava onde a sua garganta fora ineficazmente cortada estava mais ou menos permanentemente escondida por uma gravata; apesar de haver poucas possibilidades de alguém a ver. Mas uma vez por dia, quando se barbeava, ele era obrigado a vê-la. Ainda tinha os pesadelos; mas já não tremia nem sentia o suor correr quando via a cicatriz, o que era certamente, bom sinal.

Ele era um psicólogo treinado. Durante quase dez anos trabalhara para o Laboratório Nacional de Psicologia, no desenvolvimento de programas de remodelação de personalidades. Fazia parte de uma equipa que testava esses programas em pessoas anti-sociais. Ou, como costumava dizer, sem rodeios, era o mecânico-chefe numa loja de reparações em humanos. Tinha principalmente testado o seu programa em criminosos, psicopatas, anarquistas, terroristas e pervertidos sexuais. Nestes destroços de gente, ele e a sua equipa tentaram terapia pela aversão, psicanálise (ungiana e freudiana), sono crepuscular, sequências de privações, animação suspensa, estimulação por stress, lobotomia, electroplexia, programas de jejum controlado, hipnoterapia e puras lavagens ao cérebro. Ocasionalmente, alguns dos tratamentos haviam resultado (pareciam ter resultado) com alguns dos sujeitos. Outras vezes não resultaram. Outras ainda, depois de um tratamento completo, o resultado era uma couve, não uma pessoa.

Os fins do projecto eram louváveis. Se se podiam usar técnicas psicológicas para reabilitar pessoas anti-sociais, podia-se acabar com as prisões e com um grande número de instituições do género. A pequena capital encontrava-se desacreditada como meio de responder à violência e o sistema prisional convencional já provara a sua ineficácia. De modo que alguma coisa nova tinha de ser tentada. A remodelação de personalidade agradara não só à imaginação popular, mas também ao Governo. Era suposta como mais humana, e de qualquer modo, se resultasse, pouparia muito dinheiro dos impostos dos cidadãos.

O problema era que às vezes resultava e outras não, e nem sequer havia maneira de prever o resultado. Roland Badel confiava que as suas pesquisas revelassem diferentes fórmulas de remodelação para diferentes tipos psicológicos. Mas não revelaram. Deixaram-no com metade da cara e com uma risca branca na sua garganta.

O desastre aconteceu porque ele estava demasiado seguro de si, demasiado confiante no tratamento que planeara para uma rapariga de dezoito anos chamada Susan Stride é que assassinara o pai.

Susan não era uma louca criminosa. Era apenas uma rapariga que suportara demasiada pressão e que acabara por explodir numa crise de violência incontrolável, sob uma provocação extrema. Pelo menos assim parecia.

O seu caso parecia o padrão clássico de rejeição. A sua mãe morrera quando ela tinha quinze anos. Ela era filha única, e desde então tentou tomar conta da casa para o pai, e fazer todas as coisas que a sua mãe teria feito, tão eficientemente como ela. O seu pai tinha uma galeria de arte próspera e o nível de vida deles era bom. Depois da morte da mulher, apesar de satisfeito em deixar Susan tomar conta da casa, ele arranjou uma série de amantes, trazendo-as para casa à vez, até se cansar delas e as mandar fazer as malas. O ritual era monotonamente invariável: Susan devia ser simpática com cada uma das mulheres; quanto chegava a altura da partida, o pai dela, curiosamente, estava sempre fora, deixando uma adolescente a lidar com mulheres adultas rejeitadas, a ajudá-las a secar as lágrimas, a ajudá-las a fazer as malas, a ajudá-las a deixar o apartamento tão dignamente quanto possível.

Uma noite, o pai de Susan veio para casa bêbedo, completamente bêbedo. Pelo menos foi isso que Susan disse, sob hipnose e com a droga da verdade. Portanto, foi assim que aconteceu.

Com o raciocínio muito nebuloso, ele aparentemente pensou que Susan era a sua última conquista e que ela se estava a fazer difícil. O seu único método de resolver dificuldades com mulheres era levá-las para a cama. Tentou fazer amor com Susan. Ele era um homem forte, e estava sob o efeito de demasiado álcool e de demasiadas ilusões. Susan partiu uma garrafa de gim na sua cabeça, sem grandes efeitos. Pelo menos, foi como ela contou. E a história era muito convincente.

Ele conseguiu pô-la tonta e arrastou-a para o quarto, segundo Susan. E lá, enquanto ele se debatia com a sua roupa, ela encontrou outra garrafa de gim e despedaçou-a na cabeça dele. Então, tresloucada, cortou-lhe a garganta com um caco de vidro.

Esta era a história que não podia ser desmentida pela hipnose nem por drogas nem pela análise.

O Dr. Badel chegou à conclusão de que realmente não havia muita complexidade no caso de Susan. Não lhe encontrou sinais de esquizofrenia e era até uma rapariga muito inibida; e era perfeitamente normal que ficasse deprimida, alheada, insaciável, depois de uma experiência tão traumática. O que ela precisava sobretudo era de se libertar da carga de culpa que se tinha atribuído, de trazer à consciência a provocação extrema que temporariamente a desequilibrara.

O problema era que Susan não responderia nem cooperaria se não estivesse drogada ou hipnotizada, e ela precisava de estar na posse de todas as suas faculdades para atravessar com êxito o processo de integração. Uma solução simples mas brutal poderia ser encontrada na lobotomia e uma solução temporária na electroplexia, mas o Dr. Badel não queria chegar a medidas tão extremas. A pequena ainda era nova; se pudesse ser ajudada a sair da crise, poderia ter esperanças de uma vida longa e criativa.

O Dr. Badel escolheu o truque mais velho que sabia para tentar fazê-la responder. O resto do pessoal do laboratório foi instruído para ser deliberadamente hostil para com ela, para lhe fazer a vida difícil, para se zangar com ela, para a privar dos seus prazeres, para lhe interromper o sono e mesmo para piorar a comida dela. Apenas Badel seria simpático, sempre pronto para ouvir as suas queixas. Assim esperava ganhar confiança dela.

Quando a situação já estava madura, encenou-se um pequeno drama muito cuidadosamente. Uma das psicólogas mais atraentes, que fora instruída para ser especialmente hostil, seria descoberta por Badel a maltratar Susan. Desenrolar-se-ia então a seguinte cena: Badel gritaria com a mulher, suspendê-la-ia de funções e expulsá-la-ia violentamente do quarto de Susan. Os paralelos negativos que o Dr. Badel visava estabelecer eram óbvios: isto era o que Susan gostaria que o pai dela tivesse feito às mulheres que vieram invadir o seu mundo.

O drama correu na perfeição, como por encanto. Pela ciência, a bonita colega do Dr. Badel deixou-se esbofetear, enquanto, lutando e protestando, era atirada para fora do quarto de Susan.

O Dr. Badel prometeu que aquela mulher odiada nunca mais voltaria. Depois deste incidente, Susan começou aos poucos a responder. No principio, durante as suas sessões diárias com Badel apenas respondia às perguntas, a maior parte das quais sim ou não. Depois, começou a dar respostas voluntariamente, e acabou por aprender a falar livremente sobre a sua infância, sobre as suas relações com a mãe e mesmo sobre a sequência traumática que levou à morte do pai.

Essas sessões diárias realizaram-se no gabinete do Dr. Badel, e o diálogo era discretamente gravado. Depois ele revia cada sessão e anotava os seus comentários e descobertas. Passaram duas semanas, e confiadamente previu que em breve Susan voltaria a uma vida normal. Chegou a pensar que ela poderia obter alguma forma de satisfação, uma expiação, trabalhando num hospital.

Um dia, Susan perguntou se a sessão de análise poderia realizar-se no seu próprio quarto, e o Dr. Badel não viu nenhum impedimento. Mas quando entrou no quarto ficou pasmado ao ver que ela apenas vestia um curto vestido de noite.

Enquanto ele tentava compreender o significado daquela atitude, ela prendeu uma cadeira sob a maçaneta da porta, trancando-a. Então aproximou-se dele, passou-lhe os braços à volta do pescoço e disse:

- Amo-o! Amo-o! Por favor, faça amor comigo! Por favor! Eu também sou uma mulher, sabe. Posso dar-lhe prazer, também!

Enquanto ela o beijava nos lábios, ele percebeu subitamente que se tinha enganado redondamente, e era demasiado tarde.

- Susan, eu acho-te uma rapariga maravilhosa, mas...

- Mas não sou suficientemente boa para fornicar? - perguntou ela imperiosamente, afastando-se. A transformação de rapariga em tigre foi demasiado rápida para as reacções do Dr. Badel.

- Gosta de mim? - perguntou ela com uma voz alterada.

- Claro, mas...

- Nada de mas. Ama-me? - Os seus olhos tinham um brilho selvagem.

- Sim, mas não da maneira que tu pensas.

- Eu disse nada de mas. - A sua voz tinha endurecido. - Se gosta de mim, se me ama, faça comigo aquilo que faz com todas aquelas malditas mulheres!

Ele nem teve tempo de balbuciar uma resposta. Ela leu-a nos seus olhos.

Susan foi então buscar a garrafa de água junto à cama. Agarrou-a e bateu-lhe rapidamente com ela. Susan era jovem e estava fora de si e os seus movimentos eram demasiado rápidos para ele.

Já ela lhe batera várias vezes com a garrafa quando esta se partiu, pois o vidro era grosso. Ele caiu, Protestando fracamente, sem saber o que dizia, porque a pesada garrafa não parava de descer sobre si. E Susan gritava.

Alguém ouviu o barulho e acabaram por arrombar a porta. Encontrariam Susan Stride sentada no peito do Dr. Roland Badel, psicólogo-chefe, ocupada a cortar a sua garganta com um pedaço de vidro grosso, e tendo já desfeito uma das suas faces com ele.

Susan, que depois caiu num alheamento total, foi mandada para um asilo de doentes mentais incuráveis.

Enquanto estava no hospital e recuperava dos ferimentos que segundo todas as leis conhecidas deviam ter provocado a sua morte, o Dr. Roland Badel compreendeu que nunca mais se armaria em Deus.

Devia ter percebido que Susan Stride tinha morto o pai não porque ele a atacara, mas porque a rejeitara. Devia ter sido capaz de diagnosticar esquizofrenia, devia ter receitado sedativos profundos, pelo menos enquanto pensava no assunto. Devia ter sido competente.

Portanto, retirara-se da sociedade e vivia a vida de um recluso numa casa de campo isolada, e sabendo que uma grande parte da sua vida tinha sido em vão.

Programas de remodelação de personalidade! Ele nem conseguia remodelar a sua própria personalidade o suficiente para poder ter contactos sociais, para se deslocar no mundo das pessoas!

Tinha galinhas, produzia os seus próprios vegetais e cozinhava ele mesmo. Não tinha TV tridimensional, nem sequer um v-fone. As vezes lia romances, romances do século XIX: Dickens, Thackeray, Jane Austin, as irmãs Brontê. Outras vezes ouvia música: Tchaikowsky, Beethoven, Chopin, Grieg, Liszt. Bebia bastante e dava longos passeios nos bosques. Tentava abolir o século XX, juntamente com as recordações de psicólogo falhado. Havia noites em que acordava aos gritos.

Uma manhã, depois de uma má noite, levantou-se cedo e foi levar a comida às galinhas. Estava muito húmido, as colinas estavam cobertas de nevoeiro e um finíssimo chuvisco caía sobre a terra.

Perto do galinheiro, encontrou uma rapariga inconsciente, molhada e sujíssima. Numa das suas mãos estavam os restos de dois ovos partidos. Uma galinha com fome bicava uma das suas orelhas, que já sangrava.

A rapariga, que estava de cara para baixo, vestia calças e colete azul-escuros. Estava magra, tão magra que metia dó. O chuvisco tinha já deixado uma rede de pérolas no seu cabelo. Surpreendido e tremendo, Roland Badel virou-a e olhou-a na cara. Durante alguns terríveis instantes, teve de se esforçar por não fugir aos berros, pois pensou estar a olhar para Susan Stride. Depois, acalmou-se e viu que ela era bastante diferente, apesar de ser da mesma idade, provavelmente.

Enlameada, a sua cara estava tremendamente pálida, mas ainda respirava. Ele conseguiu levantá-la e levou-a para dentro de casa.

Deitou-a num velho sofá, procurou um cobertor com que a cobrir e acendeu um fogo na lareira. Então serviu-se de um grande uísque, bebeu-o e serviu-se de um outro. Depois sentou-se numa cadeira, olhando-a, tentando pensar no que fazer.

joluso

 

                         CAPÍTULO 6

Vanessa abriu os olhos. Não tinha força para se levantar, mas podia mover um pouco a cabeça. Levou-lhe algum tempo a focar o olhar, e a primeira coisa que viu foi um fogo, um fogo brilhante e confortável, que se deixou ficar a olhar, com gratidão, por uns momentos. A sua cabeça começou a trabalhar, devagar, como se estivesse a descongelar; percebeu então que estava numa sala.

Depois reparou num homem que estava sentado numa cadeira, que a olhava, com um copo na mão. Tentou sondar a sua mente, mas estava muito fraca, e de qualquer modo, havia uma espécie de nevoeiro sobre os seus pensamentos. Perguntou-se vagamente o que seria que ele estava a beber; depois perguntou-se há quanto tempo beberia ele.

Havia sussurros na sua cabeça, fracos, exaustos. Ela reconheceu o padrão; pobre Dugal. Deviam estar a fazê-lo trabalhar muito duro, em Random Hill. Ele agora era o seu melhor, e eles estavam a puxar o seu máximo.

"Vanessa", dizia o fraco sussurro, querida Vanessa, onde estás?

Eu estou tão cansado, mas o Dr. Lindernann não pára de me mandar... Vanessa, diz só que estás viva, só para mim. Não direi nada... Não..."

Ela sentiu uma grande onda de pena. Decerto o fornecimento de barras de chocolate do Dr. Lindernann estava a diminuir, também. Perguntou-se se teria forças para mandar uma mensagem, e resolveu tentar.

"Dugal, eu estou bem", emitiu ela, debilmente. "Não tentes localizar-me. Finge, a não ser que eles tenham um monitor. Ouve, eu não quero voltar. Beijinhos."

"Voltarás!", murmurou um novo padrão, estranho e desigual, ondulante na sua intensidade. "Podes crer que vais voltar, Vanessa. Nós encontrar-te-emos."

Quem seria este? Poderia ser Meriona, mas mais provavelmente era Thomas, o rapaz de treze anos, cujos poderes variavam enormemente. Vanessa lembrou-se de que um dos cientistas afirmou que Thomas deveria tornar-se muito bom, uma vez que estabilizasse emocionalmente depois da puberdade.

Imediatamente fechou a sua mente, e tentou uma barreira musical, mas o homem na cadeira estava a falar com ela, e ela tinha de ouvir o que ele dizia. Estava demasiado fraca para instalar uma barreira, e, ao mesmo tempo, perceber o que se passava.

- Como te chamas? - perguntou o homem, com voz dura. - Donde saíste? Que estavas a fazer no meu galinheiro? Que se passa contigo?

Ela olhou para ele por uns momentos e não disse nada, não conseguia pensar em nada para dizer.

- Fala, miúda! - gritou ele. - Fala! Já estou cheio de raparigas adolescentes. - Serviu-se de um outro uísque, tremendo. - Tenho de decidir se chamo a polícia ou a brigada psiquiátrica. Portanto, fala!

Correram lágrimas pelas faces de Vanessa. Parecia que a sua sorte tinha acabado. Tentou pensar.

- Não podia pôr alguma música? - perguntou.

- Não posso pôr o quê?

- Música. Preciso de música na minha cabeça. Sei que parece estúpido, mas por favor ponha música a tocar, e então poderei falar.

Ela sabia que não poderia manter as suas próprias barreiras por ar muito mais tempo, a música ajudaria.

Ele franziu-se.

- Tu és maluca. - Riu-se. - Também eu. Todos nós somos malucos. Sim, tenho alguma música gravada. Que preferes?

- A 1812? - perguntou ela com esperança. O volume, por si só, ajudaria a desorientar qualquer sonda.

Ele pareceu compreender.

- Sim, tenho. Queres toda, ou só a parte barulhenta?

- Só essa, e se possível repetida.

- Pode arranjar-se.

Ele levantou-se instavelmente da sua cadeira e dirigiu-se à sua aparelhagem, compactamente arrumada num canto da sala. Vanessa não podia ver o que ele seleccionava, mas em poucos segundos as sequências trovejantes da 1812 soaram na sala. Ele baixou um pouco o volume.

- E agora, minha anormal, responde-me.

Ela aproveitara o tempo para pensar.

- Chamo-me Elizabeth Winter. Fugi de um orfanato e estava a tentar roubar comida quando desmaiei, suponho... - Olhou para ele suplicantemente. - O senhor tem mesmo de chamar a polícia? Eu vou-me embora e prometo que não lhe dou mais nenhum problema.

Ele soltou uma gargalhada terrível e aproximou a cara da de Vanessa. Esta viu a cicatriz no pescoço e as manchas de carne cor-de-rosa na sua cara, e as suas rugas naturais, zangado, lívido.

- O meu nome é Gengiscã, e eu como as raparigas que mentem. Agora, diz-me a verdade, miúda. Não estás em posição para te armar em esperta.

A 1812 atingiu os crescendos de trombetas e bimbalhes, e Vanessa olhou para a cara do homem, aterrorizada. Os seus olhos eram dementes, ele poderia ser algum maníaco. Ela pensou em usar hipnose telegráfica, mas não, não assim. Não nestas condições, e não com um sujeito zangado e bêbedo. Mas também não se atrevia a contar-lhe a verdade.

- Então, miúda?

A sua voz cortava a música ruidosa como uma faca.

Debilmente e com as lágrimas a caírem pelas faces, ela tentou de novo, sabendo que não resultaria.

- Eu disse-lhe a verdade. Fugi.

- Pronto, fugiste. Mas fugiste de quê?

- De um orfanato.

Ele bateu-lhe, esbofeteou-a. A dor não lhe importou, mas sim o choque.

- Tu és uma telepata - disse ele. - Escolheste o homem errado, miúda, eu sei coisas acerca de telepatas. crias músicas como uma barreira, para não poderes emitir e não poderes ser sondada. Então, espertalhona, que tal?

Era o fim, Vanessa sabia que era o fim. Estava demasiado, demasiado esfomeada para se importar. Perguntou-se vagamente qual seria o castigo que ia receber quando voltasse, mas também isso não parecia importar muito.

- Muito bem - conseguiu dizer. - O meu nome é Vanessa Smith e fugi de Random Hill, uma escola para paranormais. Acho que o senhor pode até ganhar uma recompensa por me entregar. Não tem nada que eu possa comer, por favor?

Ele sentou-se de novo, com um ar de triunfo, e serviu-se de mais um uísque.

- Bom, pequena, começamos a entender-nos. Portanto, és uma das jovens dotadas da nação, que interessante! Mas façamos jogo limpo. Eu sou Roland Badel, doutor em Psicologia. Não, esquece, Ex-doutor em Psicologia. Fui feito ex-doutor por uma pequena deliciosa e manhosa da tua idade. Na altura fiquei bastante apanhado por isso, se bem me lembro.

- Vanessa não sabia de que estava ele a falar, e nem mesmo se as palavras que dizia faziam sentido. Mas acabou por dizer:

- Lamento imenso. Não tem qualquer coisa que eu coma?

- Se tenho alguma coisa que comas?

O sorriso desvaneceu-se na sua face, quando se lembrou de como a encontrara, inconsciente e com dois ovos partidos na mão.

- Perdoa-me. Lamentável hospitalidade. Já estou só há muito tempo. De que gostarias?

- Leite? - perguntou ela esperançada. - E pão?

- Leite e pão - disse ele pesarosamente. - E ainda presunto, ovos, peixe; que querias sobretudo?

A sala estava hesitante, irresoluta. Ele estava hesitante, a 1812 estava hesitante.

- Sobretudo - disse Vanessa -, gostaria de morrer.

E então veio a abençoada escuridão, e ela não tinha mais nada com que se preocupar.

joluso

 

                       CAPÍTULO 7

Jenny Pargetter estava sentada no Bar Americano na velha Dorchester, bebericando um gim tónico, tristemente. Simon prometera encontrar-se com ela às seis horas, de que já passavam dez minutos, às seis e meia iam levar um administrador de uma companhia petrolífera francêsa e a esposa a jantar e depois iam ao teatro.

Quando falou com ela ao v-fone, Simon disse que tinha notícias sobre Vanessa. Não tinha tempo de as dar naquele momento porque estava a caminho de uma maldita conferência. Se não se despachasse, o casal francês chegaria, e então Jenny teria de esperar durante o jantar, com conversa cortês, uma peça chata e mais conversa cortês ainda mais umas bebidas, até a sua curiosidade ser satisfeita. Ela esperava que o francês não quisesse ir a uma discoteca, porque muitos destes administradores em visita queriam. Era quase um reflexo condicionado.

Jenny olhou à sua volta e suspirou. Algumas personalidades da TV tridimensional conversavam animadamente com uma rapariga perfeitamente revoltante, mas que provavelmente tinha montes de dinheiro; um actor idoso embebedava-se tranquila e sistematicamente com uísque; uma notável mulher indiana, com um seri vermelho e dourado, ouvia atentamente as péssimas e ruidosas piadas de um homem feio e gordo, que parecia familiar, mas que podia muito bem ser qualquer coisa, desde um negociante de diamantes até um ditado sul-americano; e, um pouco por todo o lado, pequenos grupos de suburbanos, a fazer de conta que viviam bem.

Em breve Dorchester seria demolida, para dar lugar a qualquer coisa abominável e com meio quilómetro de altura; Park Lane nunca mais seria a mesma.

A divagação de Jenny foi interrompida pela chegada de Simon. Eram agora seis horas e vinte minutos.

- Desculpa chegar atrasado, querida. Idiotices de última hora. Queres que mande vir outra bebida para ti?

- Não temos tempo - disse ela desanimadamente. - Então, sobre Vanessa?

- Primeiro as boas notícias: Jean Baptista foi mandado regressar a Paris. A noite é nossa.

Jenny sorriu, aliviada.

- Alá é clemente. Sim, quero outra bebida, e uma grande.

Simon fez sinal a um empregado.

- As notícias sobre Vanessa são más?

- Não, não exactamente. Convenci a companhia a emprestar-me um dos nossos melhores ESs por uns dias, um homem chamado Draco. Ele foi ao infantário de Richmond, onde deixaste a criança, e deparou-se-lhe um vazio. Disseram que não tinham nenhum registo de Vanessa Smith.

Jenny entornou a sua bebida.

- Meu Deus, mas tem de haver!

- Pois tem. Mas não há nenhum registo público. Draco tentou até com dinheiro, mas não resultou. Então, quando ia a sair, viu uma pobre velhota que já parecia trabalhar lá há um milhão de anos e fez-lhe uma sonda-relâmpago.

- Que é uma sonda-relâmpago?

- Ele disparou à sua mente tudo o que sabia sobre Vanessa, o que não era muito, e depois ouviu os ecos. Inacreditavelmente, a velhota lembrava-se do ano, lembrava-se da criança, lembrava-se de ti.

Portanto, Draco voltou ao escritório e ameaçou-os com a imprensa, com a TV, com investigações criminais, com perguntas na Câmara, e tudo o mais que se lembrou. Eles cederam, mas em privado. Parece que Vanessa ficou lá até aos sete anos. Então, quando o Departamento de Recursos Humanos mandou brigadas psiquiátricas a todos os orfanatos do país para encontrar potenciais paranormais e lhes dar treino intensivo, descobriram que Vanessa tinha um alto factor ES. Levaram-na para uma escola especial, chamada Random Hill Draco, foi a Random Hill e falou com um Dr. Lindernann. Tentou com ele a mesma coisa, mas ele não caiu. Negou a existência de Vanessa, reclamou que estava protegido pela Acta dos Segredos Oficiais e ameaçou chamar a polícia se Draco, não saísse a toda a pressa.

- Portanto perdemos a pista, foi?

- Não. Draco é persistente. Ele é bem pago pela sua persistência, entre outras coisas. Esperou cá fora um bocado, atrás de uma vedação electrificada, a propósito, até ver umas crianças a brincar no parque. Então disparou outra vez uma sonda-relâmpago. Recebeu uma resposta, mas foi logo cortada. - Simon tomou um longo gole do seu gim tónico. - Santo Deus, eu precisava disto!

- Que ficou Draco a saber? - Jenny apertava os dedos até as articulações ficarem brancas.

- Apenas que ela saltou recentemente a vedação. Ninguém parece saber se está viva ou morta.

- Está viva! - disse Jenny. - Caramba, quantos sonhos já tive desde aquela noite? Lembras-te daquela vez que acordei e comi ovos crus porque dizia que estava esfomeada? - A sua voz alterava-se.

- Acalma-te, querida. As pessoas estão a reparar em nós.

- E aquela vez que gritei - disse Jenny, sem o ouvir - porque vi um homem com a cara cheia de cicatrizes?

- Jenny, faz-me o favor de te compores. Ainda nos correm daqui!

- A Vanessa está viva - disse Jenny. - Sei que está. Mas precisa de ajuda! Que posso eu fazer, Simon? Oh, meu Deus, que posso eu fazer?

Sir Joseph Humboldt, primeiro-ministro do Reino Unido, passeava no jardim do número 10 da Downing Street, com Richard Haynes, o seu primeiro-secretário particular, e meia dúzia de paras. A presença dos paranormais (dois sensíveis, um relator, dois bloqueadores e um sondador) era necessária mesmo quando Sir Joseph admirava as suas rosas. Nunca se sabia quando um agente ambicioso podia tentar sondar a mente do primeiro-ministro.

- Então, Dick, que te parece isto para um sol ocidental? - Sir Joseph parara junto de um arbusto carregado de grandes botões dourados.

- Magnífico, senhor. - Haynes sabia perfeitamente do grande orgulho que o primeiro-ministro tinha em arranjar sempre tempo para tratar das suas próprias rosas. Tentou então uma fraca piada, mas arrependeu-se logo. - Até a oposição concordará que o senhor tem dedos verdes.

O Honorável Thomas Green era o chefe do Partido do Novo Consenso; e na última sessão Sir Joseph infligira-lhe uma séria derrota, sobretudo no decreto da segurança do Estado, pelo qual o Governo se reserva o direito de recrutar e dar ordens a todas as pessoas de talentos paranormais conhecidos, para a protecção do Estado.

Sir Joseph, que estava numa boa disposição, riu-se.

- Pode fazer-se qualquer coisa com isso! Pense nisso e tente com os nossos amigos da imprensa. Eles precisam de frivolidades desse género para encher as páginas nesta tola estação.

- Sim, senhor. - Hayes percebeu que se saíra bem. Sir Joseph tinha jeito para fazer elogios como se desse murros.

Os dois homens, com a sua escolta de paras, passaram por um único arbusto, que possuía rosas vermelhas, brancas e azuis. Tinha sido um presente do presidente da França. Sir Joseph olhou para o arbusto e fungou. Não gostava do presidente francês, mas estava espantado como aquele arbusto se desenvolvia tão bem.

- E que há sobre o Prof. Raeder? - perguntou ele bruscamente. - Não temos notícias, senhor. As forças de segurança estão em alerta máximo.

- Quero esse homem morto - disse Sir Joseph. - Não me interessa como o façam, mas quero-o morto. Espalhe isso.

- Sim, senhor.

- Só porque ele me quer morto a mim - continuou o primeiro-ministro. - Como uma pessoa particular eu poderia tomar riscos. Mas não como primeiro-ministro do rei, compreende?

- Sim, senhor.

- Então trate disso, Dick. Faça aqueles bem pagos agentes da segurança mexer os seus gordos traseiros. Caramba, o homem é mortal. Ele existe e encontra-se no Reino Unido. Se os nossos homens não são capazes de o limpar, então não valem o sal que comem.

- Sim, senhor... Senhor, tenho aqui uma pergunta parlamentar.

- Haynes tirou do bolso uma folha oficial da Câmara dos Comuns e começou a ler: - "Pergunta vinte e três: perguntar ao primeiro-ministro se ele pode garantir à Câmara que Vanessa Smith, uma cidadã britânica, não está a ser retida à força na Escola Residencial de Random Hill, uma instituição para crianças com poderes paranormais, contra a sua vontade."

Sir Joseph parou em frente a uma estupenda roseira curvada sob o peso de um grande número de rosas vermelhas completamente desabrochadas. Cortou uma das melhores e deu-a ao seu secretário.

- Ponha-a na sua lapela, Dick, é uma beleza.

Olhou desgostosamente para um arbusto de Papá Meilland, também coberto de botões.

- Muito superior a esta porcaria francesa... Vanessa Smith

Quem diabo é Vanessa Smith?

- É uma órfã, senhor. Tem dezassete anos e é uma paranormal de poderes excepcionais.

- Tom Green está a divertir-se, suponho. Quer mostrar que eu tenho as minhas razões para fazer sair o decreto. Bom, e que tal é esta Vanessa Smith? Está em Random Hill? Podemos produzir. Podemos pô-la a dizer que adora lá estar e gosta de toda a gente - Haynes engoliu em seco, enquanto remexia na rosa que acabara de receber.

- Ela estava em Random Hill, senhor, mas não a podemos produzir. Saltou o muro.

O primeiro-ministro explodiu.

- Por amor de Deus! Se ela existe e nós não a podemos fazer dizer que tudo está óptimo, o meu decreto vai chumbar de certeza. Que resposta arranjaram?

Dick Haynes, tirou outra folha de papel do seu bolso.

"O Governo de Sua Majestade não tem conhecimento da pessoa referida como Vanessa Smith. No entanto, ordenou inquéritos, eventuais informações recolhidas serão transmitidas à Câmara assim que possível. O Governo de Sua Majestade assume que a pergunta foi feita de boa-fé e que a referida pessoa não é um produto de imaginação política."

Sir Joseph pensou por uns momentos.

- Isso é ou muito fraco ou muito forte, os acontecimentos decidirão. Descubram essa Vanessa Smith rapidamente e façam-lhe dizer o que interessa. Se ela não disser o que interessa, arranjem um acidente. Se não a encontrarem, apaguem os registos, ela nunca existiu. Percebido?

- Perfeitamente, senhor.

- Estou a farejar Raeder neste assunto - disse Sir Joseph, irritado. - É o género de coisa que ele gostaria de dar ao Tom Green. Sim, parece-me coisa de Raeder... Ponha a segurança em movimento, Dick. E se eles limparem também essa Vanessa Smith, não reclamarei. Os mortos são geralmente menos embaraçosos que os vivos.

- Sim, senhor.

- As rosas - disse Sir Joseph, cheirando uma Marilyn Monro - são uma grande consolação.

 

                       CAPÍTULO 8

Vanessa acordou aos gritos. Sentou-se direita, sem saber onde estava, com o suor a cair-lhe da testa e com lágrimas a rolar-lhe pelas faces; e gritou incontrolavelmente na semi-obscuridade, lembrando-se dos pesadelos, dos fantasmas, da cacofonia de vozes insistentes que pareciam ter transformado a sua mente numa lixeira psicológica.

Subitamente o quarto foi inundado por uma luz suave e o homem com a cara desfigurada sentou-se na cama; Vanessa verificou que se encostara ao seu peito e sentiu o seu cabelo a ser acariciado, com movimentos lentos e relaxantes, enquanto soluçava convulsivamente.

- Criança, criança - disse Roland Badel suavemente -, acalma-te, não chores, eu não chamei a polícia. Ninguém sabe onde estás, acalma-te.

- Eu não sou uma criança - fungou Vanessa a despropósito.

- Já sou praticamente uma mulher.

Ele riu-se.

- Lá isso és. Já tenho razões para saber isso.

Então ela percebeu que estava numa cama, entre lençóis suaves e limpos, vestindo apenas uma camisa de homem que lhe estava ridiculamente grande.

Ela arrepiou-se, e depois sentiu-se corar, embaraçada.

- Será que te devia ter deixado nas tuas roupas molhadas? Será que não devia ter tratado as feridas e os arranhões que tinhas?

- Largou-lhe a mão. - Ouve, Vanessa. Perdoa-me a estupidez de ter bebido, de ter sido bruto. Sabes, foste um choque grande para mim. Fizeste-me lembrar... Bom, isso é uma longa história, que te contarei noutra altura, talvez... Agora, estou sóbrio. Suficientemente sóbrio para perceber que, no estado em que estavas, devo ter parecido como uma personagem de um pesadelo particularmente horrível. Perdoa-me. Tentei redimir-me atendendo às necessidades da criança. Não toquei na mulher, podes crer... Sonda a minha mente se puderes, se quiseres.

Vanessa disparou uma sonda rápida. A sua mente estava aberta, à espera. O que ele dissera era verdade; mas descobriu mais do que isso, muito mais.

- O senhor confundiu-me com Susan Stride - disse ela, ainda insegura. - A rapariga que tentou matá-lo. E agora quer ajudar-me porque pensa em nós como uns refugiados. E também - hesitou, corando de novo - porque sente uma espécie de amor.

- Portanto, agora deves perceber porque é que as pessoas como eu têm medo das pessoas como tu - disse ele. - Vocês enervam-nos, fazem-nos sentir nus. - Riu-se outra vez. - Que é mais chocante, eu despir o teu corpo ou tu despires a minha mente?

- Desculpe - disse Vanessa, pesarosa. - Foi por convite. Não voltarei a fazê-lo, a não ser que me permita, ou então que...

- Ou então que penses que te vou trair?

Ela assentiu.

- Isso não é razoável?

- É. - Ele sorriu. - Mas não te esqueças de que posso sentir uma sonda. Dou-te esta informação de boa-fé. A propósito, não te preocupes com o meu amor, posso contê-lo. Vou tentar não te ofender.

- Que tenciona fazer a meu respeito?

- Queres sondar-me outra vez?

- Não, estou só a perguntar.

- Está bem. Vou tomar conta de ti, alimentar-te, ajudar-te a recuperar as tuas forças.

- E depois?

- Depois? Os refugiados como nós dificilmente conseguem conceber essa abstracção a que chamam depois. Nós vivemos de hora para hora, de dia para dia.

Subitamente, Vanessa contraiu-se. As vozes do pesadelo voltavam. Elas estavam como que a mordiscar de longe a sua mente. Tentou erguer uma barreira, mas tinha pouca força para garantir a sua defesa.

- Que foi?

- Eles estão a tentar sondar-me - disse ela tão calmamente quanto possível. - Não podia pôr um pouco de música, por favor? Não consigo detê-los sozinha.

Ele não disse nada; levantou-se, dirigiu-se a uma cómoda, encontrou um pequeno rádio, que ligou, e a que aumentou o volume.

O quarto encheu-se de música pop, o que fez Vanessa sentir imensa gratidão, pois pôde relaxar o seu bloqueio e deixar a música dominá-la.

- Porque são eles tão persistentes? - Ele tinha de falar altíssimo para se fazer ouvir.

- Não sei.

- És assim tão boa?

- Acho que era a melhor que eles tinham. Mas noutras escolas deve haver muitos tão bons como eu, e melhores.

Badel coçou o queixo.

- Talvez não tantos como pensas. Os paranormais, dos bons, estão a ter muita procura... Eles deixavam-te ver muita "tridi", em Random Hill?

- Bastante, mas era censurada.

- Então pode ser que não saibas que o Joe Humboldt está fascinado pelos paranormais. Estão mesmo na moda. O primeiro-ministro precisa deles para a segurança política, portanto tem medo deles. - Riu sinistramente. - O animal político pensa assim: quem não está connosco é contra nós... Talvez seja essa a razão por que eles insistem tanto em te ter de volta. Talvez sejas, ou possas ser, uma arma valiosa na guerra psíquica.

- Eu não quero tomar parte em nenhum tipo de guerra - disse ela veementemente. - Só quero que me deixem em paz... Não são só os de Random Hill que estão a tentar descobrir onde estou. Eu conheço os padrões deles, e há outros padrões, outras sondas. A princípio pensei que estivessem todos a trabalhar com a polícia, ou alguma coisa assim, mas há em alguns deles um cheiro de mal, um cheiro a morte. - Estremeceu. - Eles assustam-me, assustam-me horrivelmente... Tenho tanta fome! Posso comer qualquer coisa, por favor?

Ele pegou-lhe na mão.

- Tenho montes de comida à tua espera, minha querida. Sopa, leite, ovos, peixe, carne, tudo o que quiseres. Terás tudo o que quiseres num minuto. Mas vamos pensar, o tempo pode ser decisivo. Tu queres que te deixem em paz, e eu quero que me deixem em paz, os nossos interesses são comuns... Eu disse-te o meu nome. Lembras-te dele?

- Sim é...

- Não o digas. Nunca penses nele. Tudo o que te disse era um monte de mentiras. Agora vou dizer-te a verdade. O meu nome verdadeiro é Oliver Anderson. Fui ferido num acidente de hovercar. Eu era pintor, e talvez quando estiver totalmente recuperado pinte de novo... Qual é o meu nome?

- Oliver Anderson.

- Onde moro?

- Eu... Não sei.

- Não sabes, realmente?

- Não. Eu só corri até não poder mais. Não sei onde estou.

- Ainda bem. E não to direi, deves saber o menos possível. Qual é o meu nome?

- Oliver Anderson.

- Que é que eu faço?

- É pintor, e foi ferido num acidente de hovercar.

- Acho bem que acredites nisso - disse ele intensamente. - Porque senão eu bato-te. Como me chamo?

- Oliver Anderson. - Brotaram lágrimas dos seus olhos. - Tenho tanta fome! Pode dar-me comida, por favor?

- Diz assim: "Por favor, Oliver, posso comer qualquer coisa?"

- Por favor, Oliver, posso comer qualquer coisa?

- Assim está melhor. Agora descansa por uns momentos.

Então ele trouxe sopa, leite, pão e carnes frias. Ela comeu avidamente, até que ele a obrigou a comer devagar.

 

                       CAPÍTULO 9

Denzil Ingram era um extrovertido, um pragmático, um caçador profissional. Era também muito inteligente, e como chefe do Grupo de Rapto no Departamento de Segurança Interna, politicamente poderoso. Tinha uma classificação P2, o que lhe dava, se precisasse, acesso directo a Sir Joseph Humboldt.

Por causa de uma determinada pergunta feita na Câmara dos Comuns, tomara controlo pessoal sobre a equipa encarregada de descobrir Vanessa Smith. Nesse momento estava a tratar de fazer o Dr. Lindernann suar profusamente.

- O senhor não era pessoalmente responsável pelo treino, bem-estar e segurança da rapariga?

- Sim, senhor.

Não havia maneira de o Dr. Lindernann se descartar dessa responsabilidade. Estava tudo escrito, tudo no papel.

- Vocês os espertalhões, põem-me doente - disse Ingram friamente. - Aqui estão vocês, a tomar conta de uma quinta de produção de crianças paras, considerada classificada, e todas as precauções de segurança que se lembraram de tomar foram vedações electrificadas, guardas e cães!...

- A segurança não é da minha responsabilidade.

- Mas Vanessa Smith é. Devia ter sabido, Lindernann. Mesmo considerando o seu doutoramento, deveria saber se a rapariga ia tentar fugir. Um guarda prisional vulgar ter-se-ia apercebido. Há um alheamento nos olhos, um ar evasivo, uma sensação de afastamento. Isso leva sempre à evasão.

- Eu não sou um guarda prisional - retorquiu o Dr. Lindernann. - Sou um cientista.

- Antes de esta brincadeira ter terminado - disse Ingram - pode muito bem tornar-se um lavador de urinóis recondicionado... Bem, vejamos agora em que solo pisamos. Já destruiu todos os registos da existência da rapariga?

- Já.

- Tem a certeza?

- Claro que tenho... senhor.

- Bom. Porque, Lindernann, se há alguma coisa em papel, microfilme ou na memória do computador que prove que ela existiu, eu, pessoalmente, esmago-lhe os tomates. De momento, não estamos a ganhar, e portanto temos de estar preparados para tudo. Se a encontrarmos nas próximas vinte e quatro horas, e ela disser o que nos interessa, teremos uma vitória total. Mas o meu nariz diz-me que não a encontraremos nas próximas vinte e quatro horas, e mesmo que a encontrássemos, não teríamos tempo para lhe lavar o cérebro para exposição pública. Portanto, restam-nos as negativas. Devemos assegurar-nos de que a oposição não a encontra primeiro. E quando nós a encontrarmos, temos de limpá-la sem barulho.

- Porque se tornou ela tão importante? - perguntou o Dr. Lindernann. - Ela é altamente dotada, mas há outras crianças altamente dotadas; ela não é insubstituível!

Ingram suspirou.

- Errado de novo, menino universitário. Ela já não é só Vanessa Smith. Tornou-se uma pergunta parlamentar. Sir Joseph Humboldt não gosta de perguntas parlamentares quando não pode pontuar... Bom, vamos rever calmamente a nossa posição. Um lavrador viu-a a roubar ovos. Um lenhador viu-a a dirigir-se para sul. Qual é a sua contribuição?

O Dr. Lindernann falou para o intercomunicador:

- Mande entrar Dugal, por favor.

A porta abriu-se e Dugal Nemo entrou no escritório. Parecia muito pequeno, tinha a face pálida e os olhos inflamados.

O Dr. Lindernann tirou de uma gaveta da sua secretária uma barra de chocolate. Denzil Ingram viu-a expressão feita pelo rapaz e quase revirou os olhos.

- Guarde o chocolate, Lindernann, ainda vai fazer o rapaz vomitar. Então não vê que ele é um dos seus cães pavIovianos?

Então dirigiu-se a Dugal.

- Muito bem, pequeno, diz-me como te chamas.

- Dugal Nemo, senhor.

- Gostas de cá estar?

- Sim, senhor.

- Eles tratam-te bem?

- Sim, senhor.

- Gostas de Vanessa?

- Sim, senhor.

- Não querias que ela voltasse? Não gostavas que tudo voltasse a ser como era antes de ela ter fugido?

- Sim, senhor! Muito! Eu gosto muito de Vanessa e ela gosta muito de mim.

- Muito bem, pequeno, então nós podemos ajudar-nos um ao outro. Eu também quero Vanessa de volta. Ainda não gosto assim tanto dela como tu, compreendes, mas penso que posso vir a gostar, quando chegar a conhecê-la bem. É por isso que a quero conhecer, percebes, e quero compreender o que a levou a fugir. Se puder, vou também tratar de resolver esses problemas, está prometido. Então, que é que tu sabes?

- Não muito, senhor. O Dr. Lindernann tem-me pedido que faça muitas sondas ultimamente. Estou muito cansado, parece que não consigo acertar com os padrões. Talvez faça melhor se puder ter um bom descanso.

- Desculpa lá isso, Dugal. Agora o Dr. Lindernann vai-te deixar ter um bom descanso, depois de nós termos falado. Bom, que é que tu sabes?

Dugal hesitou.

- Por favor, senhor, Vanessa não vai ter sarilhos, pois não?

Ingram afagou-lhe a cabeça.

- Claro que não, pequeno, não faremos nada que a faça infeliz. Só queremos ter a certeza de que ela está bem, e segura, é tudo. Sabes, ela é importante para nós assim como é importante para ti; portanto estamos do mesmo lado.

Dugal animou-se.

- Ainda bem, estou contente. Vanessa vai ficar contente, também. Vou emitir assim que possa.

- Sabes onde ela está, rapaz?

- Não, senhor, mas sei como ela está. Está muito cansada e com muita fome. Acho que esteve doente. Ela não quer voltar.

- Como é que sabes?

- Ela disse-me.

O Dr. Lindernann abriu a boca e parecia que ia explodir. Só um olhar de Ingram o fez conter-se.

- Ela disse-te?!

- Sim, senhor. Estava muito fraca, mas emitiu. Desde então só tenho ouvido barreiras musicais... Mas eu tentei uma vez quando ela devia estar a dormir e havia formas assustadoras na sua mente. E havia alguém perto dela, também. Senti-o, muito frio... Tive medo, e saí.

Ingram, que sabia pouco acerca dos processos telepáticos, tentou o melhor que pôde.

- Tens a certeza de que havia, mais alguém?

- Sim, senhor.

- Podes descrevê-lo, contar-nos coisas sobre ele?

Dugal sorriu.

- Não se pode descrever uma sonda, senhor. Ou é quente ou é fria, pronto. Esta era fria, demasiado fria.

- Demasiado fria para quê?

- Demasiado fria para ser boa - disse Dugal inocentemente. - É isso.

Ingram tentou de novo:

- A música. Fala-nos mais sobre ela.

- A primeira vez estava muito alta e tinha muitos barulhos, que pareciam canhões. Acho que já a tinha ouvido, mas não sei onde.

- E a segunda vez?

Dugal, franziu o nariz.

- Algumas velharias. Pop clássico, música popular, até mesmo os Beatles. Tudo horroroso e já com barbas.

- Isso é tudo que nos podes dizer?

Dugal coçou a cabeça.

- Eu não sei, senhor, não tenho a certeza.

- Não tens a certeza de quê?

- Estou a pensar num homem cuja cara tem qualquer coisa de errado.

- Ele está ligado a Vanessa? Ela conhece-o?

- Não sei, talvez seja só uma coisa que eu criei, como um pesadelo. Já estou a tentar contactar Vanessa há tanto tempo... - Correu-lhe uma lágrima pela face. - Mas ela não quer falar comigo! Posso ir-me embora? Estou tão cansado!...

- Vai descansar. O Dr. Lindernann não vai precisar de ti pelo menos até amanhã.

Jenny Pargetter acabava de ouvir a abertura da 1812 pela terceira vez. Não sabia porquê, já que não era uma música de que gostasse, era demasiado lampejante, demasiado primitiva. Mas quando a ouvia, sobretudo quando começava a sequência dos tiros de canhão, ela obtinha uma estranha sensação de segurança. Era como se precisasse de barulho para poder pensar livremente, o que era absolutamente ridículo, pois pensa-se melhor sem distracções. Mas, enquanto esperava por Simon, permitiu-se satisfazer essa sua necessidade idiota, e encheu a sala de som.

Naquele dia ele chegou cedo, o que era raro. Beijou-a, olhou para a aparelhagem estereofónica, franziu a testa e baixou o volume.

- Querida, como é que podes suportar isto?

Jenny olhou-o intricada.

- Não sei, Simon, nem sequer gosto disto, mas faz-me sentir bem...

- Posso desligá-la?

Ela levantou-se da poltrona.

- Sim, já não preciso disso agora que tu chegaste.

- E porque é que precisaste?

Ela pareceu quase surpreendida pela pergunta.

- Para poder pensar, é um bom fundo enquanto pensava... É estranho, nunca achei a 1812 como uma ajuda para pensar.

Simon serviu-se de um grande uísque, com um pouco de água.

- Queres um para ti, Jenny? Acho que talvez precises.

- Trazes más notícias?

- Não sei se são boas ou se são más.

Simon engoliu metade da sua bebida, cobriu o seu copo, e serviu a Jenny um uísque puro.

- Houve uma pergunta parlamentar esta tarde. Tom Green perguntou ao primeiro-ministro se ele podia garantir à Câmara que Vanessa Smith não estava a ser retida contra a sua vontade na Escola Residencial de Random Hill.

Jenny engoliu o seu uísque de uma vez.

- E que respondeu Joe Negro?

- Negou que ela existisse. Foi uma resposta evasiva, para ganhar tempo.

- Estou a ver. Dá-me outro uísque. Parece que Draco tinha razão. - Jenny começou a rir. - Maravilhoso, não é? Agora a minha criança é um assunto de importância nacional. Ela saltou o muro, embaraçando o Governo de Sua Majestade... - O riso de Jenny dissolveu-se em lágrimas. - Eu queria tê-la conhecido! Eu queria tê-la conservado! Oh, meu Deus, se eu tivesse tomado conta dela!

Simon apertou-a nos braços.

- Acalma-te, querida, já não podemos mudar o passado. Tenho tanta culpa como tu... Mas devemos ver os factos como eles são no presente. Onde quer que Vanessa esteja, está em grande perigo. Porque - continuou Simon, apertando-a o suficiente para lhe doer - Humboldt vai ter de provar a sua declaração, senão o seu decreto sobre a segurança do Estado pode ficar esmagado. Portanto, seja como for, temos de a encontrar primeiro.

O Prof. Marius Raeder deu o caramelo à criança a que ele chamava Quasímodo. O nome verdadeiro de Quasímodo era Hubert Fislier, que tinha 12 anos de idade, mas o seu corpo era disforme e a sua personalidade também estava deformada: parecia um anão murcho. O Prof. Raeder sentiu que o rapaz fora tratado como um objecto de compaixão por demasiado tempo, e então tratou-o como um objecto de ridículo. Ele respondeu bem; desde que escapou da Escola Residencial de Coniston, os seus talentos paranormais aumentaram prodigiosamente.

Depois do terceiro pedaço de caramelo, o Prof. Raeder achou que ele estava pronto para a experiência. Um rato castanho mastigava alegremente perto de um montinho de aveia, na sua pequena jaula, no lado oposto da sala.

- Mata! - disso o Prof. Raeder.

Quasímodo, com os lábios pegajosos e com baba açucarada no seu queixo, olhou para o professor sem compreender.

- Mata o rato! - disse Raeder. - Se conseguires matá-lo, dou-te mais desta porcaria. Percebes, Quasímodo?

O rapaz assentiu. Fechou os olhos e concentrou-se. Então o rato caiu. Mas uns segundos depois levantou-se e recomeçou a comer a aveia.

- Não foi suficiente! - gritou o Prof. Raeder. - Não és suficientemente bom, Quasímodo, nem consegues matar um rato!

Quasímodo cerrou os dentes cheio de raiva. Soltou então um grande suspiro, olhando sonhadoramente para a caixa de caramelos que o professor tinha na mão, e fechou novamente os olhos. Desta vez o rato caiu morto.

- Ali! - disse Quasímodo triunfantemente. - Dá-me mais, tu prometeste!

O Prof. Marius Raeder e o seu pequeno e grotesco companheiro estavam numa pequena sala que fora convertida no estúdio ao professor, numa casa do século XIX. A casa estava situada numa clareira de uma floresta nas montanhas do Noroeste da Escócia. Do ar, a casa era praticamente invisível, pois o telhado e as paredes estavam biliosamente camuflados; e um piloto de helicóptero teria de ser bom observador e saber o que procurava para dar com ela. Atlético piloto de helicóptero se tornar demasiado curioso e tentar usar o rádio para investigar mais profundamente, um neutralizador automático impediria a sua transmissão; e, se necessário, um feixe laser ia explodir nos céus.

Até há dois anos, o Prof. Raeder ocupara a cátedra de Psicologia Paranormal na Universidade de Cambridge. Era considerado a maior autoridade da Europa neste assunto. Estava prestes a receber o Prémio Nobel de Parapsicologia pelas suas pesquisas sobre os efeitos materiais das influências telergéticas. Então Sir Joseph Humboldt ascendeu ao poder político. O Prof. Raeder foi demitido do seu lugar ignominiosamente depois de uma série de fotografias que o mostravam a participar numa orgia sexual terem sido publicadas. O Pré mio Nobel foi concedido a um cientista americano pelo seu trabalho sobre a precognição; o Prof. Raeder tornou-se rapidamente o homem mais indesejado do Reino Unido.

As fotografias eram falsas. Tinham sido montadas pelos agentes de Sir Joseph Humboldt. O Prof. Raeder não era nem homossexual, era simplesmente assexual, um facto que muitas pessoas achavam impossível de acreditar.

As fotografias foram montadas porque Sir Joseph tinha boa memória e era um perito na arte de se cobrar de dívidas antigas. Ele e Raeder tinham andado juntos na Universidade. Na juventude, cada um deles fora idealista à sua maneira. O intelectual Marius Raeder a era um membro proeminente de um grupo universitário anarquista, cuja actividade principal era falar bastante. Joseph Flumboldt, ambicioso e sem escrúpulos, era o chefe de uma organização estudantil neofascista cujo objectivo era dominar a Associação de Estudantes e, finalmente, a própria Universidade. Humboldt e os colegas não eram avessos à violência e já a tinham usado para desintegrar duas organizações estudantis de esquerda. Marius Raeder percebeu que não levaria muito tempo até o pequeno grupo anarquista receber as atenções de Humboldt e dos seus gorilas, e estava pronto para eles.

As reuniões dos anarquistas, muito alardeados, faziam-se na cripta de uma igreja abandonada. Quando Joe Humboldt e o seu ganga chegaram para boicotar a reunião e aterrorizar os presentes, Marius Raeder retirou-se diligentemente da confusão que se seguiu. Ele tinha trabalho para fazer com a sua máquina fotográfica. Fotografou as cenas que ali se viveram. Registou os esbirros de Humboldt a espancarem um anarquista míope, cujos óculos foram deliberadamente esmagados. Tirou mesmo a fotografia de uma aterrorizada estudante a ser forçada a beijar as botas de Joe Humboldt, e conseguiu até capturar o olhar extático de Humboldt, quando ele percebeu que a sua manobra de desmoralização fora um êxito total.

No dia seguinte as fotos estavam na secretária do vice-reitor. No fim da semana, Joseph Humboldt e os seus seguidores que podiam ser identificados foram suspensos da Universidade.

Portanto, o primeiro-ministro resgatara a sua dívida, e o Prof. Raeder foi obrigado a refugiar-se nas montanhas escocesas. Mas a contenda ainda não estava resolvida. O Prof. Raeder ainda tinha uma grande arma contra o poderio político do primeiro-ministro, que era a psicologia paranormal.

O rapaz disforme, Quasímodo, era uma unidade na pequena equipa de paranormais brilhantes com os quais o Prof. Raeder, agora tornado um velho amargo e vingativo, esperava não só tratar de Sir Joseph Humboldt de uma vez por todas, mas também derrubar um Governo que se tornara uma autocracia mal disfarçada.

Em Cambridge, durante as suas pesquisas, o Prof. Raeder tinha acesso às fichas dos mais dotados jovens - paranormais descobertos pelo Departamento de Recursos Humanos. Várias das crianças cujos casos ele estudara viviam agora e eram treinadas nas montanhas escocesas e, com a hábil assistência de Raeder, estendiam as suas capacidades, sob a discrição e protecção daquela casa. Algumas tinham fugido das escolas especiais com o encorajamento ou a ajuda de Raeder.

Outras fugiram pela sua própria iniciativa e foram encontradas e recrutadas por ele. Lenta e sistematicamente, programou-as todas para desenvolver e combinar técnicas de destruição psicológica.

Faltava ainda uma pessoa, ou melhor, um tipo de pessoa, para unificar os talentos destas crianças dotadas e pervertidas para que elas se tornassem uma brigada mortal eficaz. Essa pessoa, esse tipo de pessoa, devia ter a capacidade de receber e controlar simultaneamente várias telemensagens diferentes. Essa pessoa teria de ser um telepata extremamente sensível, mais passivo que agressivo. Essa pessoa teria de saber aceitar uma invasão total da sua mente.

Essa pessoa era Vanessa. Já há algum tempo que os melhores alunos do Prof. Raeder vinham a seguir as suas transmissões incontroladas. Sabiam quando e como fugiu ela de Random Hill, e puderam mesmo seguir algumas das suas posteriores experiências.

O Prof. Raeder apontou para outro rato, numa jaula contígua àquela que continha o rato já morto.

- Mata! - ordenou a Quasímodo, e desta vez não houve hesitação. Quasímodo contentou-se com a sua dose de caramelo durante pouco tempo. Assim, fechou os olhos, concentrou-se e o rato caiu morto.

- Muito bem! - disse o Prof. Raeder. - Mesmo muito bem! Tudo o que agora precisamos é da lente de aumento!

Quasímodo abriu os olhos e assentiu, movendo vigorosamente a cabeça.

- Vanessa - disse ele, com ar conhecedor. - Vanessa Smith. - Posso comer mais caramelos?

 

                       CAPÍTULO 10

Vanessa restabeleceu-se rapidamente, pois era jovem e muito viva. Tudo aquilo de que tinha necessidade era de descanso, calor, comida, e isso ela obteve. O homem que a obrigara a chamar-lhe e, pensar nele como Oliver tratou de lhos garantir. Ele não podia fazer muito para a proteger da frequência com que vozes suplicantes, insistentes e malignas entravam na sua cabeça, ela teria de tratar a sua própria protecção psíquica. Mas segurança física ele podia dar-lhe, e deu-lha, e isso já era suficiente para despertar a sua gratidão. Ela estava grata até pelo rigor monótono do processo de acondicionamento, pelas sessões desgastantes de perguntas e respostas! Com um extremo cuidado com os pormenores, ele construiu um passado inteiramente novo para si próprio. O condicionamento tinha de ser total, ele próprio tinha de estar convencido da credibilidade da sua nova pessoa.

Uma manhã, enquanto Vanessa dormia, foi ele no seu carro, quase raramente, a uma vila que nunca visitara na vida, e que ficava a setenta quilómetros. Aí comprou uma grande quantidade de materiais de pintor: telas, tintas, pincéis, paletas, um cavalete, blocos de desenho, lápis de carvão, e alguns livros sobre técnicas avançadas. Comprou também um blusão de pele, camisas, calças e botas de campo para Vanessa, mas nada feminino.

Quando voltou, queimou as roupas com que Vanessa tinha vindo. Depois, começou a transformar um dos quartos da casa num estúdio típico. Enquanto Vanessa observava, abismada, ele espalhava deliberadamente tintas na alcatifa, e depois terebintina, e então pisou e repisou até achar o efeito satisfatório. Em seguida bebeu um pouco de uísque e começou a misturar cores numa grande tela colocada no cavalete. Conseguiu arranjar as cores, com a ajuda duma faca, de modo que o efeito final era o de uma paisagem primitiva, cheia de violência e mistério. Esse efeito era agradável, ou pelo menos alarmante. Ele olhou a tela com prazer, e decidiu passar ainda uma linha negra irregular por ela; então encostou a tela a um canto e começou outra coisa.

Enquanto trabalhava ia inventando o seu passado. Tinha um ouvido apurado para sotaques e a habilidade para os reproduzir.

Roland Badel nascera no Sul de Inglaterra, possuía um sotaque de uma educação universitária. Mas Roland Badel tinha de ser posto em vida suspensa. Oliver Anderson era do Norte, vindo de uma família pobre, possuindo uma educação pobre. Os seus pais separaram-se quando ele ainda era muito novo; viveu com a mãe por uns tempos, e aos dezasseis anos fugiu de casa. Andou à deriva, trabalhando por aí para evitar morrer à fome. Lavou pratos em restaurantes, ajudou a construir as linhas do monocarril que ligava Londres aos seus quatro aeroportos, aparou os relvados de velhotas, trabalhou nas torres petrolíferas do mar do Norte, apanhou maçãs nos pomares de Devonshire.

O estranho chamado Dr. Roland Badel conhecia todas estas actividades intimamente, os seus doentes tinham-lhe contado. Portanto, Oliver Anderson podia criar um passado que não era muito difícil de absorver.

Quando tinha vinte anos, conheceu um vagabundo que possuía um talento fantástico para a pintura. Em poucas horas, e com os materiais necessários, ele podia produzir um Picasso, ou um Mode digliani, ou um Klee, ou um Van Gogue, ou um Pollock que confundiria os peritos. (O Dr. Badel, ex-psicólogo, conhecera uma pessoa assim, que trabalhara sete anos em falsificações de arte.) Fora então por esse vagabundo que Oliver Anderson aprendera a apreciar a magia da cor, a beleza oculta do traço Enquanto trabalhava noutra tela e falava com a espantada rapariga que o observava, Badel verificou que assumia o seu novo papel com facilidade. Apanhou naturalmente o sotaque do Norte. Descobriu que gostava de pintar. Talvez devesse antes ter sido um pintor, um pintor verdadeiro...

- Como me chamo, amor?

- Oliver. - A resposta era já automática.

- Oliver quê, sua puta?

- Oliver Anderson.

- Onde é que te conheci?

- Em Londres. Eu era uma drogada, tu arrancaste-me de lá.

- Está certo. Eu arranquei-te de lá só pelos fornicanços, percebes. Nada sério.

- Sim, Oliver, tu tiraste-me de lá só pelos fornicanços. - Para Vanessa, aquele jogo ainda era irreal. - E então, sou boa na cama?

Ele olhou para ela calmamente.

- Já tive melhor, já tive pior. Serves, por agora.

Vanessa riu-se. Ele bateu-lhe.

- Põe uma música qualquer que te bloqueie, estúpida criança. Percebes?

Com lágrimas nos olhos, Vanessa obedeceu, atónita. Escolheu mais uma vez a 1812. Os canhões pareciam estar dirigidos para ela.

Ele aproximou-se e agarrou-a nos braços.

- Ouve, minha pequena. Isto é a sério, nós estamos a tentar assegurar que eles não te possam localizar através de mim. Tu não sabes onde estás, mas sabes com quem estás. Deixa-os roubar essa informação enquanto dormes ou estás distraída, sem defesas, e o céu ficará escuro com helicópteros da segurança... Quem sou eu?

- Oliver Anderson. - Ela limpou as lágrimas e sorriu. - Provavelmente, o pior pintor do Reino Unido.

- Incompreendido - disse ele no seu melhor sotaque nortista, apenas incompreendido. - Sou demasiado avançado para a minha época, amor. Não te preocupes, a posterioridade me dará a honra que me é devida.

- Amo-te! - disse Vanessa, enquanto o canhão rufava. - Importas-te mesmo comigo. És o primeiro adulto que gosta realmente de mim. Amo-te!

Ele beijou-a.

- Querida Vanessa, eu também te amo, como muito bem sabes. Mas não te esqueças de que só deves estar aqui pelos fornicanços. A não ser que possas estar segura das tuas barreiras, e tu não podes, deves ver-me como um homem maduro, falhado, bastante rude, ainda pensando em vencer na vida, como eles diziam nos filmes da Idade da Pedra. Sirvo por causa da cama e da comida e de alguns presentes, mas nada mais. Estás simplesmente a usar-me e à espera de conseguires roubar dinheiro suficiente para ires para França, ou para a Alemanha, ou para a Dinamarca. Se tu és tão boa como eu penso que és, as pessoas que estão à tua procura não terão quaisquer escrúpulos. Nada as impedirá de te levarem ou de te limparem. Ajudará se elas pensarem que estás para deixar o país.

- Limparem-me? - Vanessa não compreendia.

- Quer dizer matar, querida. Muito provavelmente, se eles pensarem que és um embaraço, eles tentarão matar-te.

Ela estava atónita.

- Porque é que alguém me quereria matar?

Ele suspirou.

- Até tu apareceres eu não queria ter nada a ver com o resto do mundo. Como sabes, não tenho "tridi", não tenho v-fone. Tenho música gravada e um transístor que nunca usava. Mas desde que chegaste, comecei a ouvir as notícias. Houve uma pergunta parlamentar sobre ti, Vanessa, e Sir Joseph Humboldt não gostou. Ele respondeu implicitamente que tu não existias. Haverá pessoas que quererão provar que ele está a mentir e especialistas muito bem treinados que quererão provar que ele está a falar verdade. Estás a compreender?

Vanessa estremeceu.

- Estou assustada, estou tão assustada! Nunca pensei que... - A 1812 acabou. Oliver Anderson disse:

- Não te preocupes, amor, o Oliver tomará conta de ti. Abre as pernas nas alturas exactas, faz as tuas poses quase eróticas quando eu precisar, e estás safa.

Vanessa olhou para ele e forçou-se a ver nele apenas um pintor de meia-idade e de quarta categoria. A muitos quilómetros de distância, Dugal Nemo recebeu essa impressão e manifestou-a.

E, ainda mais longe, o mesmo aconteceu com Quasímodo.

 

                         CAPÍTULO 11

Denzil Ingram sentou-se, brincando com o gim tónico que Simon Pargetter acabara de lhe servir. Jenny, sentada em frente dele, também com um gim tónico, tentava parecer calma e distante, mas não conseguia disfarçar a sua angústia. Os seus olhos estavam brilhantes, demasiado brilhantes, e ela não estava quieta um minuto.

O cérebro treinado de Ingram forneceu a explicação: drogas, ou, possivelmente, sedativos receitados para um trauma emocional. Ela sabia alguma coisa, e se não a contasse, teria de ser sondada. Normalmente, Ingram teria deixado este tipo de trabalho a um subalterno, mas o que estava em jogo tornara-se de repente demasiado alto.

A oposição parecia pensar que encontrara uma oportunidade de ouro, com o caso de Vanessa Smith, de conseguir a derrota do decreto sobre a segurança do Estado. Se isso acontecesse, o primeiro-ministro poderia cair, pois ainda não concitara suficiente apoio para assumir poderes ditatoriais. Sir Joseph Humboldt, com a perspectiva de poder absoluto ao alcance da sua mão, não era homem para hesitar. Chegara até Ingram a palavra de que se ele o desembaraçasse de Vanessa antes de a oposição a ter podido usar, seria bem recompensado, possivelmente com um título, certamente com benefícios financeiros, e ainda com a perspectiva de subir até ao Controlo de Segurança. Se, pelo contrário, falhasse, só poderia esperar uma completa desgraça profissional.

Assim, Denzil Ingram estava a delegar em mãos alheias o mínimo possível no processo da investigação.

- Sr. Pargetter - disse ele -, lamento imenso ter de a incomodar, mas é importante. Sabe alguma coisa do paradeiro da sua filha?

Ela bebeu o seu gim tónico de um gole.

- Ela não existe - disse Jenny com voz trémula. - Segundo Sir Joseph Humboldt, não existe nenhuma pessoa com o nome de Vanessa Smith.

Ingram encolheu os ombros.

- Burocracias. Sabe como são os registos, neste nosso mundo automatizado os computadores de vez em quando dizem idiotices.

Jenny olhou para Simon.

- Arranja-me outra bebida, por favor.

- Sim, querida, mas não te esqueças de que tomaste comprimidos.

- Comprimidos?! - disse Ingram. - Lamento imenso, não sabia que a Sra.. Pargetter estava doente.

- Sedativos - apressou-se Simon a dizer. - A minha mulher tem estado muito tensa ultimamente, e esta história não ajuda, compreende?

- Sim, claro, e detesto ter de a incomodar nesta altura... Sra. Pargetter, sabe onde está Vanessa?

- Ela não está em lado algum - respondeu Jenny, pastosamente.

- Joe Negro disse isso, e ele diz sempre a verdade... Sabe o que fiz esta tarde, Sr. Ingram? Não, claro que não sabe. Fui à Casa de Somerset verificar a data de entrada dela. Não havia nada.

- O sistema não é perfeito - disse Ingram. - Sem dúvida que os homens de Sir Joseph tiveram as mesmas dificuldades, o que talvez explique a resposta que ele deu na Câmara.

- Por favor não me trate como uma idiota! - disse Jenny, muito pálida. - O senhor sabe que Vanessa existe, o senhor localizou-me. Porque não disse a Joe Humboldt que ela existe?

- Os assuntos parlamentares não me dizem respeito, Sra. Pargetter. O meu dever é apenas tentar descobrir Vanessa e garantir que nada lhe aconteça. Pode ajudar-me?

Jenny bebeu num só trago o seu segundo gim tónico.

- Ajudá-lo! O senhor é um dos homens de Joe Negro. Eu nem o ajudaria a encontrar um táxi!

- Por favor, Sr. Ingram, desculpe! - disse Simon, angustiado.

- Este é um período muito difícil. Como vê, a minha mulher está bastante nervosa. Talvez o senhor pudesse voltar amanhã de manhã? Tenho a certeza de que Jenny se sentiria então muito melhor.

- Lamento imenso, Sr. Pargetter. O tempo é um factor importante para nós, como compreenderá.

Jenny forçou uma gargalhada.

- Acabo de me lembrar de uma coisa. Nós ainda vivemos numa democracia, Humboldt ainda não pode fazer tudo o que quer. Acho que vou convocar uma conferência de imprensa e dizer a toda a gente que sou a mãe de Vanessa. Dir-lhes-ei tudo o que sei e...

- E afinal que é que sabe? - cortou Ingram como uma serpente.

Simon, alertado para todas as implicações do que ela pudesse dizer, lançou-lhe um olhar desesperado, mas Jenny não estava em condições para se acautelar.

- Apareça na conferência de imprensa e saberá!

Ingram suspirou.

- Não vai haver nenhuma conferência de imprensa, Sra. Pargetter. E mesmo que houvesse, a senhora seria simplesmente desacreditada como uma mulher neurótica; oficialmente a sua filha não existe. Mas não vai haver nenhuma conferência de imprensa.

Simon pousou a mão no ombro de Jenny, tentando acalmá-la, dar-lhe confiança, refreá-la. Mas ela não estava em condições de ser refreada.

Soltou outra gargalhada.

- Eu sou uma cidadã livre e não cometi nenhum crime. Tente impedir-me, e veremos quem será desacreditado.

Mesmo antes de ela ter acabado de falar, Denzil Ingram premiu um botão num pequeno aparelho electrónico que trazia no bolso. Não estava nada satisfeito; este ia ser um daqueles trabalhos em que tudo ia ter de ser feito da pior maneira.

Simon Pargetter, sem saber que já era demasiado tarde, fazia o possível para evitar a colisão.

- A minha mulher está muito agitada, Sr. Ingram. Talvez se eu falar com ela a sós por alguns minutos, ela... - Não chegou a completar a frase.

Ouviu-se um barulho na porta, rápido e seco, e esta abriu-se para deixar passar quatro homens de rompante. Quando viram Denzil Ingram calmamente sentado detiveram-se e assim ficaram, como que aguardando ordens. Jenny olhava-os boquiaberta, enquanto Simon parecia paralisado.

- Sr. Pargetter - disse Ingram -, tenho realmente muita pena, mas a atitude da sua mulher não me deixa escolha possível. Não posso correr riscos.

- Que estão estes homens aqui a fazer? - rebentou Jenny.

- Mande-os embora! Mande-os embora da minha casa! Vou processá-lo criminalmente por causa disto!

- Jenny, por favor! Estás só a piorar as coisas. - Simon Pargetter tinha suficiente controlo da realidade para saber o que se estava a passar.

Denzil Ingram levantou-se.

- Sra. Pargetter, vou colocá-la juntamente com o seu marido em custódia preventiva. Serão bem tratados e num ambiente confortável. Talvez queiram levar algumas coisas?...

- Custódia preventiva! Quem são estas pessoas? Os esbirros de Joe Negro? - gritou ela; e então atirou-lhe com o seu copo vazio.

Apontou bem e como ele estava desprevenido, o copo despedaçou-se na sua testa, deixando um pequeno golpe.

"Eh, pá, estou a ficar velho!", pensou ele em voz alta. "Com mulheres nunca se sabe."

Um dos homens sacou de uma arma; Ingram fez-lhe sinal para que a guardasse. Depois tirou um lenço e com ele fez secar o sangue que sentia correr sobre o olho esquerdo.

- Sra. Pargetter, estou convencido de que a senhora sabe alguma coisa sobre Vanessa. Pode ser importante, ou pode não ser, a senhora terá de ser sondada.

- Não pode fazer uma coisa dessas! - disse Simon, irritado. - O senhor não tem poder para isso!

Ingram sorriu, vagamente.

- Ficaria espantado se soubesse o poder que tenho, Sr. Pargetter. Ficaria mesmo. E agora, não percamos mais tempo!

O Dr. Lindernann partiu a ampola e encheu rapidamente a sua seringa hipodérmica, enquanto Dugal estava passivamente sentado, olhando pela janela. Estava com umas olheiras enormes. Uma criança em crescimento precisava de dormir muito e Dugal fizera-o muito insuficientemente durante os últimos três dias.

Lindernann não era simplesmente indiferente; ele sabia que o rapaz estava extremamente cansado, e até tentara usar algumas das suas outras estrelas paranormais para lhe dar algum descanso. Mas também sabia que Dugal era o único que poderia efectivamente chegar a Vanessa. Dugal, no auge das suas capacidades, e querendo, poderia mesmo ultrapassar todas as suas barreiras e sondar em profundidade.

O cientista sabia agora que o seu futuro profissional dependia dos resultados que produzisse. Certamente não ignorava o poder extraordinário de Denzil Ingram. Tinha pena de Dugal, mas numa questão de sobrevivência, presidia a velha lei: sauve qui peut.

Dugal sabia o que o Dr. Lindernann estava a fazer, mas não queria ver a agulha, era natural. O efeito da injecção fora-lhe explicado, tão bem quanto se podia explicar a uma criança um complicado processo bioquímico.

Ele sabia que ia receber uma injecção de uma droga-maravilha chamada Amplia Nove. O Dr. Lindernann disse-lhe que o deixaria cheio de energia, que lhe destruiria todo o cansaço e que lhe faria sentir que poderia fazer tudo o que quisesse.

O Dr. Lindernann não lhe disse que a Amplia Nove, um derivado da pesquisa sobre alucinógenos, lhe aumentaria temporariamente os seus poderes mentais. Também pareceu esquecer-se de o informar de que esta amplificação a curto prazo das suas capacidades naturais acabaria por ser paga pela destruição de vários milhões de células cerebrais.

As pesquisas permitiram concluir que uma injecção de Amplid Nove reduziria o quociente de inteligência de uma pessoa em cinco a sete pontos. Uma segunda injecção reduzi-lo-ia em oito a quinze pontos. Uma terceira injecção produziria, como resultado, um imbecil.

- Então, Dugal?

- Estou pronto, Dr. Lindernann. - Dugal ofereceu o braço, mas continuou a olhar pela janela. - Jura que é para ajudar Vanessa?

- Sim, juro. - Lindernann premiu a agulha contra o braço do rapaz.

Dugal arrepiou-se, mas não se queixou.

- Durante a próxima hora - disse o Dr. Lindernann - vais-te sentir um pouco tonto. Mas depois ficarás bem acordado, sentir-te-às melhor do que nunca. Quando isso acontecer, quero que te concentres em encontrar Vanessa. Pode ser que ela tenha barreiras, mas não me parece que elas te possam deter. Quero que sondes em profundidade e que descubras tudo o que puderes. Não te esqueças, nós precisamos de saber onde ela está, precisamos de saber se ela está bem, nós queremos ajudá-la.

Dugal bocejou. O seu braço fazia-lhe sentir comichão, mas não tinha importância.

- Eu vou sondá-la - disse ele. - Mas posso falar com ela?

- Falar com ela?!

- Explicar-lhe que todos nós a queremos ajudar.

O Dr. Lindernann sorriu.

- Sim, claro, fala com ela, Dugal. Mas não te esqueças de que ela pode não acreditar nisso. Pessoalmente, penso que ela está muito doente. O importante é que tu não te esqueças de nada do que conseguires perceber. Compreendes?

Dugal bocejou mais uma vez.

- Compreendo, Dr. Lindernann. Mas será que Vanessa vai compreender?

O Prof. Raeder estava numa disposição pedagógica. Dirigia-se ao seu pequeno grupo de paranormais como se fossem estudantes numa aula, o que, bem vistas as coisas, até eram.

Mas, que estudantes! Quasímodo, pueril e no entanto telepáticamente letal; Janine, de vinte anos e a mais velha do grupo, ninfomania e uma sondadora de poderes excepcionais; Alfred,, de dez, esquelético mas extrovertido, mas que derrubaria praticamente qualquer barreira e que seria capaz de erguer uma parede que faria deter a qualquer sonda, incluindo as de Janine; Robert, de onze anos, cujos e poderes de sugestão telepática eram, tanto quanto o Prof. Raeder sabia, únicos; Sandra, de nove anos, uma tele-hipnotizadora de capacidades ímpares.

- Como eu a vejo - disse o Prof. Raeder - a situação é de uma simplicidade clássica. É o caso de Maomet e da montanha. Nós, colectivamente, somos Maomet e Vanessa Smith é a montanha. Temos de a chamar para vir ter connosco, e vamos usar todos os meios, persuasão, sugestão hipnótica, terror. Temos de criar nela uma compulsão para vir para as montanhas escocesas. Mas, se isso falhar, temos de estar preparados para irmos ter com ela. Ela é a lente de aumento de que nós precisamos; ela é a pessoa que pode receber as vossas transmissões e focalizá-las num feixe poderoso. Ela é a pessoa que possibilitará aos vossos talentos combinados destruir esta criatura chamada Humboldt. A partir de agora, vocês vão conduzir um ataque a Vanessa durante vinte e quatro horas por dia, por turnos. Janine vai enfraquecê-la, suavizá-la, parece-me que é a expressão. Então, Alfred vai bloquear contactos indesejáveis, enquanto Sandra e Robert em conjunto tratam de a fazer vir a nós. Bom, que há falhas neste programa, nós sabemos, tenho consciência disso.

- Nós não sabemos, exactamente onde ela está. Nós não sabemos isso porque ela própria não o sabe, mas sabemos que está num ambiente confortável, que está fisicamente em forma e que se sente segura. Sabemos que está numa casa de campo e que está a ser protegida (se esta é a palavra correcta...) por um artista que se chama a si próprio Oliver Anderson. Descobrimos todas estas coisas na mente de Vanessa.

- Ele ainda não a comeu - interrompeu Janine. - Eu teria sabido se ele já tivesse. - Sorriu maliciosamente. - Mesmo que não a contactasse no momento exacto eu teria sabido!

- Querida Janine - disse o Prof. Raeder, num tom falsamente simpático -, desgraçadamente, estamos todos ao corrente do teu principal interesse na vida. Por favor, não o deixes interferir com a discussão racional de um problema. Senão, posso ver-me obrigado a aplicar-te eléctrodos nas frontes.

Janine empalideceu com esta ameaça.

- Pensei que fosse importante - disse ela em sua defesa. - Se ele a fornicar como deve ser, ela não conseguirá manter qualquer bloco, e então poderemos obter uma imagem clara.

- Janine, a crueza da tua expressão só é igualada pela tua incapacidade de te concentrares em qualquer coisa excepto na tua satisfação pessoal. - A voz do professor endureceu. - Vais ter mesmo de te controlar, minha cara. Podes crer que a ameaça da terapia electroconvulsiva não era vã... Bom, onde ia eu?

Sandra, que mastigava amendoins, ajudou:

- Coisas que nós encontrámos na mente de Vanessa.

- Ali, sim! A partir dos dados que vocês forneceram, minhas crianças, podem ser feitas algumas deduções acerca deste Sr. Anderson. Sabemos que ele tem alguma forma de desfiguração facial, isso é uma coisa que Vanessa não consegue esconder. Também sabemos que, ao princípio, havia alguma confusão acerca do seu nome e profissão. Vanessa construiu uma barreira profunda sobre esse assunto, o que, em si mesmo, é bastante interessante. Consideremos duas hipóteses: uma é a de que o Sr. Anderson é muito inteligente, a outra é a de que não é o que diz ser.

Alfred, que fumava "erva", estava suficientemente envolvido no processo e disse:

- Essas suposições não nos vão ajudar. O que nós precisamos é de coisas concretas.

O Prof. Raeder juntou as mãos e sorriu benevolentemente.

- E estas não são, Alfred, meu rapaz? Não são? Vejamos, vejamos por associação de ideias. Por exemplo, que é que o nome Oliver vos sugere? Vá, digam-me, não interessa se é ridículo, digam-me!

Houve silêncio por um momento ou dois, e então Sandra, que se servia de mais amendoins, disse, insegura:

- Biscoitos?

O Prof. Raeder sentiu-se feliz. Por uns momentos sentiu-se como se estivesse realmente numa aula com alguns alunos bem escolhidos.

- Muito bem, Sandra. De facto, Olivers de Bath são uns biscoitos que eu, pessoalmente, considero bastante civilizados... Agora, outras associações?

Houve silêncio de novo. Então Robert, que não estava a comer amendoins nem a fumar "erva", nem a pensar em orgasmos que ela tivesse experimentado por intermédio de outro, disse com alguma hesitação:

- Roland.

O Prof. Raeder pareceu simultaneamente surpreendido e deliciado.

- Ah, sim, Roland! Porque é que disseste "Roland", meu rapaz? Robert parecia vazio.

- Não sei, Professor. Apareceu-me na cabeça, é tudo.

Raeder estava triunfante. Nenhum dos seus paranormais podia realmente compreender as suas fúrias e as suas alegrias, o que era talvez uma das razões porque ele mantinha o seu poder sobre eles.

Sabiam também que ele era excepcionalmente esperto e algo vingativo. Ele tinha um grande talento para dividir, para conquistar, mas também para imaginar castigos particularmente eficazes.

Janine tentou uma sonda-relâmpago muito suave e foi imediatamente presenteada com uma imagem de si própria, inconsciente, com espasmos horríveis devido a estímulos de terapia electroconvulsiva. Ficou extremamente pálida.

- Não o tentes de novo, Janine - disse o professor suavemente -, tens sido repetidamente avisada das penalidades por atentados à minha privacidade. Estás a brincar com o fogo!

- Peço desculpa, Professor - disse ela docilmente -, eu não estava a pensar.

- Mantém-te então nessa situação, por favor! - respondeu ele friamente. - Eu estou aqui para pensar por ti. Mas nunca, nunca desobedeças! Este é o meu último aviso... - Voltou-se para os outros. - E então, porque é que Oliver pode ser associado a Roland?

Ninguém sabia. Robert achou que ele tinha de saber; mas não sabia. Sub-repticiamente, começou a masturbar-se, só pela angústia.

- Carlos Magno - disse o Prof. Raeder - era o rei dos Francos há cerca de doze séculos. Possuía dois grandes cavaleiros, ou generais, que lutavam tão bem, igualmente bem, que ninguém os superava. Um chamava-se Oliver e o outro...

- Roland - disse Quasímodo para ajudar.

- Exactamente. Suponhamos que este homem, Oliver Anderson, acerca de cuja identidade Vanessa parece ter voluntária ou involuntariamente criado uma barreira profunda, não é realmente Oliver Anderson. Suponhamos que ele, assim como nós um mero mortal, também está sujeito ao processo conhecido como associação de ideias. Se ele, numa situação difícil, tivesse de inventar rapidamente um nome novo para si próprio, não poderia ter escolhido um nome remotamente relacionado com o seu nome verdadeiro?

- Mas se ele o fez, se o seu verdadeiro nome é Roland, como é que isso nos pode ajudar? - Alfred estava tão intrigado como o resto do grupo.

- Ali! - O Prof. Raeder esfregou as mãos. - E que mais é que nós sabemos a respeito deste misterioso Oliver que pode ou não ser Roland?

- Há qualquer coisa de estranho na sua cara.

- Pois é. Há qualquer coisa de estranho na sua cara. E isso, minhas crianças, leva-me à absurda conclusão que o homem que abriga Vanessa Smith é o Dr. Roland Badel, um psicólogo que, se bem me lembro, foi uma vez atacado por uma doente psicótica e foi severamente desfigurado. Nós vamos conduzir o nosso ataque telepático contra Vanessa; mas se falhar, começaremos à procura do Dr. Roland Badel.

 

                           CAPÍTULO 12

Estava uma bela manhã e Vanessa andava pelos bosques, gozando o sol e tentando esquecer os terrores nocturnos. Oliver tinha-lhe mostrado os sítios onde ela poderia ir com relativa segurança. A sua antiga casa ficava a quase dois quilómetros da casa mais próxima, que era ocupada por um velho guarda-florestal empregado na Comissão dos Parques Nacionais.

O vale em que Oliver Anderson vivia era, assim ele o assegurou a Vanessa, afastado das vias de comunicação. Ocasionalmente, poderiam aparecer turistas; mas o gemido dos seus hovercars era um óptimo aviso da sua chegada. A não ser que alguém soubesse realmente onde estava Vanessa, seriam remotas as possibilidades de ela ser descoberta por acidente.

Vanessa deliciava-se a passear num tapete de campainhas, sentindo-se grata por poder inspirar o seu aroma, usando-o com os feixes de luz que penetravam através das árvores, cerradamente dispostas, para exorcizar os fantasmas da escuridão. Oliver deslocara-se à aldeia mais próxima para reabastecer-se de comida e comprar uma TV tridimensional portátil. Agora que tinha de tomar conta de Vanessa, achava que lhe era necessário saber o que se passava no mundo exterior.

Ela tivera uma noite desgastante. Depois de passar algumas horas a ouvir música, o que, além de lhe dar prazer, lhe permitia relaxar as suas barreiras, Vanessa deitara-se cedo. Dormia no pequeno quarto do sótão, mesmo por cima do quarto de Oliver.

Ela tentou seriamente dormir, mas pareceu-lhe que no momento em que fechou os olhos e se descontraiu foi implacavelmente invadida.

Os invasores não produziram padrões que ela reconhecesse.

Eram frios e estranhos aqueles padrões de pensamento, faziam pressão, cheios de ameaças. Eram como vermes malignos, rastejando para dentro dela, comendo-lhe a Personalidade, implantando nela idéias mórbidas.

Um deles sussurrou: "Eu sou Janine, sua puta relaxada. Eu conheço-te, posso-me transformar em ti se eu quiser. Podes lutar contra mim, mas acabarás por fazer o que eu quiser... Deixa-o, Vanessa, deixa-o! Ele vai-te trair. Nós amamos-te, nós precisamos de ti, nós nunca te trairemos."

Outra disse: "Posso fazer com que te mates a ti própria, Vanessa. Eu posso matar ratos só por fazê-los desejar morrer. Posso matar-te! Vai levar mais tempo, mas posso matar-te."

E depois disto vieram imagens de montanhas, com céus azuis e lagos plácidos, imagens de paz e segurança, que fizeram Vanessa sentir que se ao menos ela pudesse encontrar aquelas montanhas e aqueles lagos, todos os seus problemas terminariam. Mas ela não sabia se aquelas visões eram criações suas ou se tinham sido criadas pelos invasores da sua mente.

E vieram mais sussurros, insidiosos, ameaçadores: "Junta-te a nós, Vanessa, ou então nós te procuraremos. Junta-te a nós ou nós te destruiremos. Nós conhecemo-te, Vanessa, nós sabemos tudo a teu respeito."

Então vieram imagens de morte, um caixão, uma coroa de flores, o esgar de um crânio vazio, um cadáver em decomposição avançada, uma rapariga sem cabeça, nua numa encosta, incrivelmente mutilada e com sangue a jorrar das suas horríveis feridas.

Vanessa não respondeu a estes invasores desconhecidos e sinistros. Tentou vários bloqueios, que eram suficientes talvez para manter a privacidade dos seus pensamentos e sentimentos mais profundos; mas não eram suficientemente fortes para afastar aquelas imagens obscenas. A sua mente estava tão ultrajada como se fosse o seu corpo que estivesse a ser beliscado e picado por dedos cruéis.

E de novo voltaram as imagens serenas. Florestas de pinheiros e abetos, rodeando lagos, montanhas, uma velha casa que parecia afastada de todos os problemas e preocupações do mundo. Longe de todos os pesadelos...

E uma vez mais as vozes.

"Estaremos sempre contigo, Vanessa. Não nos podes escapar." "Querida Vanessa, tu és tão aberta! Acho que te posso matar já."

"Porque é que ele ainda não te comeu, sua puta relaxada e falsa? És assim tão feia?"

"Vanessa, tu vais morrer. Um dia destes, a não ser que te juntes a nós, vais morrer. Vai ser engraçadíssimo, ainda nunca matei uma rapariga!"

 

"DESAPAREÇAM. SAIAM JÁ, FORMAS FRIAS E NOJENTAS! VÃO-SE EMBORA, SENÃO EU SIGO-VOS E QUEIMO-VOS AS MENTES!"

 

Foi muito alto.

Foi muito forte.

Foi terrivelmente forte.

Não foi Vanessa.

Mas ela sabia quem era. Felizmente, ela sabia.

"Dugal!"

"Vanessa!" Os padrões de pensamento fundiram-se em afecto, alívio, gratidão."

"A tua forma é tão forte, Dugal. Que aconteceu? Nunca foste assim tão forte!" Ela sentiu o impacte daquela rajada explosiva nos invasores, que devia tê-los ensurdecido. Eles foram desbaratados, obrigados a rastejar como vermes para onde vieram.

"Lindernann deu-me uma injecção. Ele disse-me que me permitiria fazer qualquer coisa que eu quisesse. E foi, não achas? Nem mesmo tu me podes bloquear agora, nem com música nem com poesia nem com nada. Posso andar onde quiser, por entre os teus pensamentos. Mas não farei nada que te magoe, prometo!"

Subitamente, Vanessa encheu-se de medo, e medo acentuado pelo facto de ela saber que Dugal seria capaz de o sentir, imediatamente.

"Lindernann? Oh!"

"Qual é o problema, Vanessa? O Dr. Lindernann é um amigo, não é? Ele quer saber se tu estás bem, ele quer saber onde estás, com quem estás."

"Dugal, desculpa-me, tu és tão novo, tão confiante. Eu quero ser livre, mas o Dr. Lindernann quer-me de volta para a prisão, ou pior ainda."

"Tens a certeza?"

"Tenho a certeza."

Houve uma pausa, ela sentiu a sua perplexidade.

 

"ELE SERIA CAPAZ DE ME MENTIR, VANESSA?"

 

"Dugal, por favor. A tua sonda está a doer."

"Desculpa. Ele seria capaz de me mentir, Vanessa? Como é possível? Ouve, como está a sonda agora?"

"Está melhor, muito melhor. Sim, ele seria capaz de te mentir.

Ele seria capaz de mentir a qualquer pessoa, desde que isso servisse os seus objectivos."

"Oh... Gosto tanto de ti, Vanessa! Sempre gostei, tu és a minha verdadeira irmã. Eu nunca tive uma irmã, nem nunca soube onde estavam os meus pais. Mas tu és a minha verdadeira irmã!"

"Tu és o meu verdadeiro irmão, Dugal, e eu também te amo."

"Abrir-te-ás para mim?"

"Dugal, querido, és tão novo!"

"Abrir-te-ás para mim? Eu posso ir tão fundo quanto quiser, mas abrir-te-ás para mim?... Não sou tão novo quanto tu pensas...

Eu não sabia que o Dr. Lindernann era mau, Vanessa, mas se tu dizes que é, acredito em ti. Não lhe direi nada que tu não queiras, prometo... Engraçado, ele é uma das poucas pessoas que não posso submeter a uma sonda-relâmpago."

"Acho que isso é porque ele tem um interruptor implantado no crânio, Dugal. Pode ver-se uma cicatriz quando ele se dobra."

"Que é um interruptor?"

"Não sei ao certo. Um aparelhinho electrónico qualquer que isola o pensamento das interferências exteriores. Não lhe garante a privacidade, a não ser em relação aos paranormais como nós. Alguém, não sei onde, pode sondar o Dr. Lindernann electronicamente, assim como nós podemos sondar os normais telepaticamente."

"Abrir-te-às para mim?"

Ela fez o que pode ser considerado como um encolher de ombros telepático.

"Não é preciso. Já me mostraste o teu poder, Dugal, eu não te posso deter."

Dugal mostrou-se angustiado.

"Tu, és a minha irmã, eu não te vou magoar. Mas preciso de te conhecer, não posso suportar o ficar de fora."

Vanessa resignou-se.

"Então eu vou-me abrir, Dugal, só para ti. Não dês os meus segredos ao Dr. Lindernann, isso seria um desastre."

"Prometo, palavra de honra."

Vanessa, deitada no escuro, abandonou toda a sua rigidez mental. Dugal, bem vistas as coisas, era a única espécie de irmão que ela alguma vez teve. Tinha de haver alguém em que se podia confiar completamente, mas será que uma criança...

Ele foi suave, não pressionou nem fez doer. Foi suave e amigável, passeando por entre os seus pensamentos com o espanto de uma criança, maravilhado. Não demorou muito tempo; não demora muito a ver todos os elementos de um quadro pendurado na parede, o que demora é apreciar a subtileza do seu arranjo, o equilíbrio da sua interdependência... Para Dugal, foi como admirar uma pintura muito especial numa colecção privada.

"Tu gostas deste homem, deste Roland Badel que te protege sendo Oliver Anderson. Vejo que ele é velho e tem uma cara assustadora, mas tu gostas dele."

Era uma afirmação, não uma pergunta. Dugal vira-o no quadro.

Vanessa não via isso tão bem, estava confusa.

"Não sei, talvez. Devo pensar nele como Oliver Anderson. Tu também. Ajuda-me!"

"Querida Vanessa, claro que te ajudo. Não me importo que tu gostes dele. Vou tentar gostar dele também... Porque é que não sabes onde estás?"

"Oliver pensa que é melhor eu não saber... As formas que tu expulsaste, elas querem descobrir."

"Quem são elas? Conhece-las?"

Ela estremeceu.

"Só sei que são horríveis. Estão cheias de ódio e de morte... Que dirás a Lindernann?"

"Que queres que eu diga?"

"Diz-lhe, diz-lhe que estou num lugar qualquer na Escócia." Vanessa não sabia porque é que dizia Escócia. "Diz-lhe que eu me juntei a um grupo de paranormais foragidos... Diz-lhe qualquer coisa, Dugal, menos a verdade. Dugal, e quando te fores embora, não voltes a mim, é demasiado perigoso. Um dia seremos felizes juntos, mas não agora."

A sua mente produziu uma imagem de uma longa praia dourada. Ela e Dugal passeavam-se por ela, apanhavam conchas, atiravam pequenos calhaus chatos para a água, tentando fazê-los ricochetear na sua superfície brilhante. - Dugal entrou no espírito do sonho. Inventou um grande calhau, liso como um disco, e arremessou-o para o mar. Ricocheteou uma vez e outra e outra e não parou de deslizar até ao horizonte.

E eles os dois, de mãos dadas, olharam-no, maravilhados.

"Vanessa, o calhau vai continuar a ricochetear pelo mar fora até chegar a outro país. Nós vamos em cima dele, e nesse outro país estaremos seguros."

"Sim, Dugal, estaremos seguros." E Vanessa dissolveu a visão porque a fazia querer chorar. "Não te esqueças de que o Dr. Lindernann é um inimigo nosso."

"Não me esquecerei. Vou-te deixar agora, estás muito cansada."

"Sim, estou tão cansada, preciso tanto de descansar."

Mas Dugal voltou durante a noite, voltou porque estava de guarda, esperando, olhando por ela. E voltou quando as formas frias a invadiram de novo, tentando submetê-la pelo terror.

E ele voltou com uma explosão de energia tão feroz, que a centenas de quilómetros de distância Quasímodo entrou em choque, depois do que se queixou de um fogo na sua mente, enquanto Jaime se retorceu de dores e olhava aterrorizada para as bolhas que se formavam nas suas mãos. O Prof. Raeder observou-as e sabia o que elas eram. Como parapsicólogo, estava familiarizado com estigmas, com os estigmas dos malditos.

Durante as últimas horas antes do nascer do Sol, Vanessa conseguiu dormir um pouco; mas era um sono agitado e cheio de sonhos. Nem todos os sonhos foram maus. Sonhou com um rapaz disforme, desconhecido e no entanto familiar, cuja mente estava cheia de ódio.

Mas também sonhou com dias de Verão, com grandes braços de água, lisos como vidro e, tal como o vidro, espalhando perfeitamente as grandes montanhas que se erguiam à sua volta. E sonhou com florestas suspirantes e com um dia em que ela, Oliver e Dugal estavam juntos sob um sol brilhante e eterno.

Agora, enquanto passeava por um tapete de campainhas que se estendia como uma neblina de fadas, espalhada por todos os bosques banhados pelo sol, tentava descontrair-se; mas subitamente sentiu um terror indefinido encher a sua mente.

Reconheceu o sintoma. Sem querer, estabelecera contacto com alguém que estava sob uma imensa tensão. Sentiu as gotas de suor formar-se na sua testa, as suas mãos tremeram, o seu coração rufou.

E subitamente já não estava na neblina mágica das campainhas; estava em Random Hill com Dugal.

Estava num balneário.

"Tentei não contactar contigo, Vanessa. Eu tentei... Tentei!" Ele chorava, tremia, cheio de medo. Através dos seus olhos, Vanessa viu os azulejos, a retrete em que ele estava de pé, a porta. Viu o reservatório do autoclismo sobre a sua cabeça e a gravata que lhe estava atada. A outra ponta estava à volta do seu pescoço, presa por um nó simples. Ela sentiu a pressão no seu pescoço...

"Caramba, Dugal, tu não me contactaste. Eu é que te contactei. Que se passa, irmão?"

"Lindernann Não acreditou no que lhe contei... Vanessa, desculpa, eu não sei mentir. Ele não acreditou na Escócia e nos paras. Ele vai-me injectar qualquer coisa que me vai fazer dizer a verdade mesmo que eu não queira."

Ela tentou acalmá-lo.

"Não faz mal, Dugal, tinha de acontecer. Não chores, irmãozinho, tinha de acontecer. Olha, eu sei tomar conta de mim."

"Vanessa, eu tinha-te prometido."

"Bolas, não faz mal!"

"Faz! Faz, sim!. Faz porque eu amo-te e não vou faltar ao que prometi... Perguntei-lhe se podia ir à casa de banho antes de ele me dar a injecção. Não tenho muito tempo, Vanessa, minha irmã. Diz que me amas, diz outra vez. Diz que um dia vamos apanhar conchas os dois!"

"Dugal, querido, não podes fazer isso!"

"Diz, Vanessa! DIZ!"

"Dugal, eu amo-te muito, tu és o meu querido irmão. Um dia nós procuraremos conchas os dois... Por favor, Dugal, por favor, meu querido irmão, não faças isso!"

"Amo-te. Sou uma criança sozinha, um filho único, mas amo-te. E mesmo uma criança pode morrer por aqueles que ama. Lembra-te das conchas."

"Dugal, não faças isso! Não, Dugal, não!"

Já era demasiado tarde. Ouviram-se batimentos na porta, e a voz do Dr. Lindernann.

Então Dugal saltou da retrete.

Ela sentiu a mordedura da gravata no seu pescoço, súbita e total. Sentiu também o relâmpago brilhante quando a sua coluna vertebral se partiu. E depois a escuridão em que Dugal mergulhou, e onde ela também mergulhou.

Caiu inconsciente sobre o tapete de campainhas.

 

                     CAPÍTULO 13

O Dr. Lindernann conseguiu finalmente arrombar a porta. Dugal pendia, com os pés quase a tocar o chão, com a cabeça dobrada num ângulo impossível e a cara distorcida. O tubo de aço inoxidável onde a gravata estava atada encontrava-se consideravelmente dobrado; o Dr. Lindernann desejou vagamente e em vão que ele se tivesse partido antes do pescoço de Dugal. Um olhar rápido permitiu concluir que não havia esperança de ressuscitação. O corpo, patético e terrível, balouçava-se lentamente, e os braços moles moviam-se numa grotesca ilusão de vida.

O Dr. Lindernann, menos preocupado com a morte de uma criança do que com os seus próprios problemas, contemplou o seu futuro imediato. Pareceu-lhe sombrio.

Mais tarde, tentou justificar-se junto do Prof. Holroyd, director de Random Hill. O Prof. Holroyd, de cabelos brancos, já próximo da reforma, nunca gostara de Lindernann, nunca aprovara os seus métodos. Holroyd era um humanista, Lindernann era um pragmático, um carreirista que sacrificaria qualquer coisa, incluindo pessoas, aos seus objectivos. Durante algum tempo, Lindernann fora considerado quase por toda a gente, excluído o Prof. Holroyd, como um menino prodígio, isto porque ele produzia resultados. Mas agora as suas técnicas de treino intensivo das crianças paranormais demonstravam outros efeitos.

A entrevista ocorreu poucos minutos depois da morte de Dugal. O Prof. Holroyd notou com satisfação que o Dr. Lindernann ainda estava em estado de comoção.

- Isto é mau, Lindernann, isto é péssimo. Vou fazer o que puder por si, mas se calhar não vai ser muito... Bem vistas as coisas, um jovem do seu grupo fugiu e outro suicidou-se. Vai ter de haver um inquérito, sobretudo desde que Vanessa Smith se tornou um penhor político... Você sabe porque é que esta criança, de nome Dugal, se enforcou?

O Dr. Lindernann disse desesperadamente:

- Sr. Director, eu apenas posso concluir que ele era instável.

- Bom. E você não sabia que ele era instável?

- Não, senhor.

- Então você é um incompetente, Dr. Lindernann. Você não está à altura de se encarregar de treino e desenvolvimento de crianças dotadas!

- Estava numa situação muito difícil, Prof. Holroyd. Os homens da segurança têm estado a pressionar-me muito, por causa de Vanessa. Este rapaz, Dugal, era a minha melhor hipótese de ficar a saber o que se passava com ela, porque havia uma relação muito profunda entre eles!

- Está bem. Mas este rapaz, Dugal, está morto, e não me parece que ele se tenha suicidado porque estivesse enfastiado. Porque é que ele se matou, Dr. Lindernann? Como é que você o pressionou?

- Prof. Holroyd, eu não fiz nada que não possa ser justificado. Dei-lhe uma dose de Amplia Nove, para que ele pudesse ler em Vanessa com ou sem o consentimento dela. Depois, apercebi-me de que ele não queria dizer aquilo que descobrira, e então preparei uma injecção de Veranon.

- E disse-lhe que lha ia dar?

- Sim, senhor. Eu não queria usar o soro da verdade, pensei que a ameaça seria suficiente. Apesar de tudo, ele era apenas uma criança.

- Pois era - disse o Prof. Holroyd pesadamente -, ele era apenas uma criança... Mas algumas crianças vêem melhor que os adultos, Dr. Lindernann. É óbvio que Dugal não queria ser quimicamente violentado. A relação dele com Vanessa era ainda mais forte do que você supunha, evidentemente. Portanto, ele escolheu a sua própria maneira de preservar a sua liberdade... Logo, vou fazer um brinde a isso, mas entretanto temos de pensar na sua situação.

- Sim, senhor - disse o Dr. Lindernann, com esperança -, que é que me recomenda?

O Prof. Holroyd sorriu, com ar distante.

- Recomendo que vá verificar se o seu passaporte está em ordem. A leal oposição de Sua Majestade já está ao corrente do caso de Vanessa, e procura comprometer o Governo. O caso já tem alguma magnitude. Sem dúvida que o dirigente do Partido do Novo Consenso vai também ficar ao corrente da morte de Dugal pela mesma fonte que revelou o desaparecimento de Vanessa Smith. Penso que isso vai com certeza endurecer a resistência parlamentar ao decreto sobre a segurança do Estado, e o sério comprometimento político de Sir Joseph. O primeiro-ministro não gosta de ficar comprometido; e você, Lindernann, tornou-se uma grande fonte de embaraço... Sim, no seu lugar, eu estaria a pensar em termos de uma viagem ao estrangeiro, uma grande viagem. Ouvi dizer que faz alargar o espírito.

Gotas de suor formavam-se na testa de Lindernann.

- Não posso compreender como é que se escoaram as notícias sobre Vanessa! - disse ele desesperadamente. - A não ser que haja aqui em Random Hill um espião paranormal, e isso é completamente impossível. Portanto, como é que eles podiam descobrir a morte de Dugal, senão através...

Ele calou-se, subitamente.

O Prof. Holroyd divertia-se.

- Exactamente. Senão através de alguém com autoridade.

- O senhor!

- Dr. Lindernann, ainda existem algumas pessoas que são suficientemente conservadoras para acreditar que os seres humanos devem ser tratados como seres humanos. Essa é uma das razões por que aceitei o meu presente cargo, para ser um travão em relação a pessoas como você, carreiristas sedentos de poder, apoiados pelos esbirros de Humboldt. Você não é um cientista, você nem sequer é grande coisa como ser humano. Você não passa de um homenzinho a querer subir na vida. Bem, Lindernann, você jogou... E perdeu!

- O senhor!

Lindernann correu para o v-fone. Holroyd encolheu os ombros.

- Isso, caro colega, use-o. O seu emissor-estrela fugiu e o seu sondador-estrela suicidou-se. E agora você vai acusar-me de indiscrição profissional! Use V-fone, se lhe apetece, é a melhor maneira de chamar a si os esbirros de Humboldt.

Lindernann desfaleceu, tremendo.

- Que é que eu vou fazer? Que é que eu vou fazer?

- Verifique se o seu passaporte está em ordem - disse o Prof. Holroyd, pacientemente - e despache-se. Não fique muito tempo em nenhum sítio. - Sorriu. - Pode até oferecer os seus serviços e experiências na Europa de Leste. Se eles o aceitarem será a solução mais segura.

- Não sou um criminoso nem um traidor. Não quero fugir!

- Tem razão, há ainda uma alternativa - sugeriu o Prof. Holroyd com alguma malícia. - Aquela que Dugal Nemo escolheu...

Jenny Pargetter estava esgotada, fisicamente, emocionalmente, intelectualmente. Os paranormais do Departamento de Segurança Interna haviam sondado a sua mente com os seus requintes profissionais, examinando com cuidado todas as imagens, memórias e associações que encontraram.

Jenny sentia-os, sentira uma invasão que ela não podia impedir, sentira uma sucessão de fantasmas frios, quase impessoais, depenando os seus pensamentos mais privados, olhando friamente as suas memórias mais queridas. Ela estremecia cada vez que recordava o processo, e algumas vezes até a deixava fisicamente enjoada lembrar-se dele. Tal como se fosse violada sucessivamente por estranhos que nem sequer tinham prazer na sua violação.

Encontrava-se sentada, num quarto pequeno, mas confortavelmente mobilado, que fora posto ao seu dispor. O quarto ficava no que, aparentemente, se considerava uma casa retirada, suficientemente longe de Londres, para dar uma sensação de isolamento. Não sabia onde estava Simon, mas tinham-na autorizado a falar com ele pelo V-fone há menos de meia hora. Ele não parecia muito feliz, provavelmente também fora sondado. Provavelmente, também ele se sentia miserável.

O último interrogador dissera-lhe que a sua provação acabara.

Numa voz fortemente controlada, ela perguntara-lhe quando é que seria libertada e reunida com o marido. O interrogador não respondeu, fez apenas gestos simpáticos e corteses, disse-lhe para se descontrair, mostrou-lhe os cigarros e as bebidas num carrinho, a TV tridimensional, a aparelhagem estereofónica, as cassetes, os livros na estante. Disse-lhe que Denzil Ingram viria a qualquer momento, e que entretanto a melhor coisa a fazer seria tentar esquecer todas as coisas lamentáveis mas necessárias que lhe sucederam.

Depois, apressou-se a deixar o quarto. Foi então que Jenny reparou que a porta não tinha puxador. Ela perguntou-se como é que ele a tinha aberto.

Segundo o seu relógio, o interrogador saíra há pouco mais de vinte minutos. Durante esse tempo, Jenny fumou três cigarros e bebeu cerca de um quarto de garrafa de uísque. Era muito bom, mas tirando o facto de a ter feito sentir-se mais quente, não pareceu ter grande efeito.

Estava a servir-se de mais uma bebida quando Denzil Ingram entrou, sem ruído. Ficou tão surpreendida por o ver que quase deixou cair o seu copo de uísque.

- Perdoe-me, Sra. Pargetter, não queria assustá-la!

- Bom, suponho que o rastejo é uma coisa que as pessoas na sua profissão adquirem naturalmente...

Ele ignorou a ofensa.

- Posso sentar-me?

Jenny, que ouviu a sua voz elevar-se, fez um esforço para a controlar.

- Isto é o seu território, Sr. Ingram. Já demonstrou que não precisa da minha permissão para fazer nada.

Ele sorriu.

- Então, vou também beber algum do uísque do Estado. - Ingram serviu-se de uma dose generosa. - Relaxemo-nos e conversemos.

- Como pode ver - disse ela, amarga -, não estou com boa disposição para me relaxar, e não quero conversar. Só quero ir-me embora deste lugar com o meu marido tão depressa quanto possível.

- Tudo na sua devida altura - disse ele, tentando apaziguá-la.

- Creia-me, Sra. Pargetter, quero tornar as coisas fáceis para si. Eu sei o que é ser sondado. - Tomou um gole e sorriu. - De cada vez que fui promovido, tive de ser sujeito a uma sondagem total. Já fui completamente "lavado", como dizemos, três vezes. - Olhou-a intensamente. - Sabe, isto é uma violação da mente. Vivemos em tempos muito cruéis. Se é isso que você sente, porque permite que o façam a pessoas inocentes como o meu marido e eu?

Ele encolheu os ombros.

- Necessidade. Eu tenho um dever para cumprir. às vezes gosto dele, às vezes não gosto. Desta vez, não gosto...

- Necessidade! Tudo, desde a chantagem ao assassínio, pode ser justificado por esse chavão.

- Isso é verdade - disse ele calmamente -, mas a minha preocupação é a segurança do reino, e empregarei qualquer método para cumprir a minha obrigação.

- Pelo menos é honesto.

Jenny engoliu o seu uísque e começou a sentir alguma admiração por Ingram, embora relutantemente.

- Tento ser. Se for desonesto, não é porque queira ser... Bom, Sra. Pargetter, serei totalmente honesto consigo. Espantosamente, gosto de si, e é por isso que estou pronto a declarar-lhe todas as minhas opções. Mas falemos primeiro sobre Vanessa.

Jenny serviu-se de outra bebida. Ingram levantou um sobrolho, mas não fez nenhum comentário.

- Sim, falemos sobre Vanessa. Os seus lacaios lixaram-me a cabeça: até eu ter de vomitar.

- Eu sei, e lamento.

- Tomo nota da sua mágoa. Falemos então sobre Vanessa.

- Ajudou-nos muito. Já sabemos quem está a proteger.

Jenny estava atónita.

- Eu não sabia; portanto, como é que vocês... ?

- É fácil, é a magia do homem branco. Computadores. Você deu-nos a pista mais importante: a imagem de um homem com a cara desfigurada. Pusemos isso nos nossos computadores, que têm acesso a todos os registos hospitalares dos últimos vinte anos. Incrivelmente, há quase trinta mil pessoas com severas lesões faciais. Quase metade são mulheres. A imagem que recebemos de si era a de homem que sofrera lesões faciais recentemente, e assim pudemos limitar-nos a quatro mil pessoas. A imagem sugerida numa área etária de trinta e cinco a quarenta e cinco, o que baixou o número a mil e oitocentos.

Tem cabelo escuro e uma voz educada, o que nos deixou com quatrocentos e oitenta e um homens. Vive retirado numa zona rural, o que reduz as possibilidades a cento e doze... Você nasceu nas planícies do Sul, não foi?

- Sim. - Jenny segurava o seu copo de uísque tensamente, sem o beber. - Que tem isso a ver para o caso?

- Você reconheceu o aspecto dos campos que Vanessa atravessou durante a sua fuga, o que nos reduziu a dezassete possibilidades.

Os meus homens têm estado bastante ocupados; oito delas foram eliminadas. Isso deixa-nos nove, que não podem ser localizadas de momento. Destas nove, o computador seleccionou uma probabilidade máxima. O seu nome é Roland Badel, doutor em Psicologia. É ele que, nas planícies do Sul, algures, dá refúgio a Vanessa.

- Mesmo que o seu computador seja infalível, o que eu duvido, como é que isso afecta o meu marido e eu?

Denzil Ingram suspirou. Agora vinha a parte mais difícil, em que ele não apostaria no resultado. As mulheres eram as criaturas mais terríveis, mas às vezes podiam ser práticas. às vezes.

- Sra. Pargetter, sejamos francos um com o outro, é o único meio de chegarmos a um entendimento. Se eu a libertasse agora, com o seu marido, que fariam vocês?

Ela soltou uma gargalhada amarga.

- Sonde-me para descobrir.

- Eu podia mandar fazê-lo, mas não quero. Repugna-me a violência desnecessária... Não é elegante partir uma avelã com martelo-pilão.

- Elegante! Boa escolha de palavras... Portanto, considera-me como uma avelã pronta para ser partida?

- Perdoe-me, usei uma má metáfora. Mas não se deve esquecer que tenho poderes para usar o martelo-pilão metafórico, é importante que se lembre disso. E agora, por favor, diga-me honestamente o que fariam vocês, e eu serei também honesto consigo.

- Sr. Ingram, continua a surpreender-me. É o brutamontes mais cortês que jamais encontrei!

Espantosamente, Jenny sentia-se menos tensa. A confrontação ia obviamente atingir um clímax, e, por outro lado, isso aliviava-a.

Ingram serviu-se de mais uísque.

- Receio que a sua experiência acerca de brutamontes seja bastante limitada, Sr. Pargetter. Mas, por favor, responda à minha pergunta, é importante.

Jenny respirou fundo.

- Bem, vejamos. Vou falar aos jornais, dir-lhes-ei tudo o que se tem passado, acrescentando a informação que acaba de me dar, que Vanessa está sã e salva. Que pensa disto, Sr. Ingram?

Ele sorria.

- Gosto da sua honestidade. Dos jornais posso eu tratar, naturalmente. Não imprimirão uma palavra do que você disser.

- Nesse caso, se for necessário, contarei tudo a quem me quiser ouvir, mesmo de cima de um caixote! Ainda temos alguma liberdade neste país.

- Lamento desiludi-la, mas a liberdade já não passa de uma contingência, na nossa época... Mas, voltando ao que interessa; o caso de Vanessa já adquiriu importância política, Sra. Pargetter. Se nós a tivéssemos encontrado pouco depois de ela ter fugido, tudo teria acabado bem, relativamente falando. Mas agora é politicamente necessário que ela não exista. Temos um problema!

- Você tem um problema! - disparou Jenny. - O que eu tenho a fazer é claro como o cristal.

- Não, Sr.a Pargetter. Você tem um problema, porque, como vê, eu estou a dominar a situação.

- Que quer dizer com isso?

Jenny tremia. Ela esperava que isso não se notasse, mas sabia que Ingram o via.

- Você foi honesta, e eu vou honrar o meu compromisso. Bom, tenho várias opções. Se necessário, e espero que o não seja, posso fazer que você e o seu marido morram. Claro que pareceria um acidente, digamos, um acidente de hovercar. Ou então um pacto de suicídio, com notas explicativas que os peritos sem dúvida confirmariam ser autênticas. Tudo depende na estratégia dos nossos departamentos. Apenas menciono estas possibilidades desagradáveis para lhe chamar a atenção para a gravidade da situação.

Jenny caía visivelmente em pedaços. Serviu-se de mais uísque e tornando tanto à volta do copo quanto o que conseguia que caísse nele.

- Estou a ver - disse ela, com uma voz artificialmente calma. - Está a oferecer-me um negócio: a minha vida e a vida do meu marido em troca da vida de Vanessa. Quer matá-la e quer que nós nos conservemos calados.

- Não é tão mau assim - mentiu ele. - Apenas quero o vosso silêncio em troca de conservarmos Vanessa fora da arena política.

Quero mantê-la escondida até que este assunto se tenha dissipado por completo.

- E até que Joe Negro tenha o que quer e se sinta seguro?

- Digamos que é isso.

- Sim... E como posso ter a certeza de que você não mata Vanessa, de qualquer modo?

- Posso fazer que você lhe escreva e ela a si, por exemplo.

Jenny sufocou um soluço.

- Eu nem sequer conheço a letra dela. Você podia pôr alguém a escrever por ela.

- Você também podia receber fotografias, pronto.

Jenny atirou com o copo contra a parede.

- Os seus violadores fizeram o seu trabalho! Você já sabe que eu não tenho ideia alguma sequer de como é o seu aspecto!

- Então pode-se combinar que você se encontre com ela regularmente.

Ingram mantinha-se calmo, desesperadamente calmo.

- Mas nem assim eu a vou poder reconhecer! - disse Jenny, desesperada - Porque nunca a cheguei a conhecer. Você podia fazer qualquer miúda passar por Vanessa!

Denzil Ingram jogou o seu ás:

- Se você é tão intima telepaticamente com ela como as nossas investigações sugerem, você será capaz de a reconhecer, sim. Encontrará um meio de a conhecer, e, se tiver qualquer dúvida, pode mandar sondá-la por quem quiser.

- Percebo. Dê-me mais uísque, por favor. Peço desculpa por estar a fazer uma cena, detesto cenas. Mas, pensando bem, não é todos os dias que uma pessoa é friamente ameaçada com um assassínio.

Em todo o caso, mesmo que eu concorde em me calar, como é que você podia ter a certeza de que eu mantinha a minha promessa?

Ingram deu-lhe o uísque.

- Tenho as garantias necessárias, Sr. Pargetter. Se você fosse tão louca que tentasse provar que Vanessa existia, ela teria de morrer. Como sabe, já tivemos que destruir todos os registos relativos à sua existência. Não há nenhum registo do nascimento dela, todos os dados foram retirados dos computadores cujos sistemas de memória pudessem ser consultados. Legalmente, e para todos os fins práticos ela é agora uma rapariga que nunca existiu. É fácil desembaraçarmo-nos de uma pessoa que nunca existiu. Segue o meu raciocínio.

- Sigo o seu maldito raciocínio, sim. E quando Vanessa já não tiver importância política, vai libertá-la?

- Sim, mas ela vai precisar de uma nova identidade, e não haver qualquer dificuldade a esse respeito.

- Então aceito o seu negócio, Sr. Ingram. Abomino-o abomino-me a mim própria, mas quero que Vanessa viva, e aceito.

- Sábia decisão, Sr. Pargetter, muito sensata. Lamento que tenha de ter passado por momentos tão difíceis. Poderá sair com o seu marido dentro em breve. Naturalmente, será vigiada discretamente durante algum tempo; mas nunca será incomodada, posso assegurar-lhe.

- E Vanessa?

- Não se preocupe com Vanessa. Nós vamos trazê-la e tomar conta dela com muito cuidado, ela será bem tratada. Você vai vê-la em breve, julgará por si própria.

Denzil Ingram conseguia parecer extremamente sincero, o que era uma das suas grandes forças. Conseguia sempre parecer extrema mente sincero.

Não havia qualquer sinal de que já assinara mentalmente as ordens de execução para Jenny e Simon Pargetter. Tudo o que ainda precisava era de um pouco de tempo, o suficiente para limpar. Jenny Pargetter dar-lhe-ia esse tempo porque acreditava nele, quando Vanessa morresse, já não haveria problema:, os Pargetter poderiam ter um triste acidente, com inúmeras testemunhas acima de suspeita, e então o assunto Vanessa Smith ficaria encerrado para sempre.

O Prof. Reader reunira o seu pequeno grupo para umas palavras finais. Olhou-os cuidadosamente. Não tinham um ar muito poderoso.

Pareciam, de facto, ridiculamente novos, ridiculamente incapazes e, no caso de Quasímodo, algo grotescos. Mas ele também os via de outro modo: como os componentes de uma grande máquina psicológica de destruição; uma máquina que destruiria o Governo do Reino Unido e que daria ao Prof. Reader o poder que ambicionava há tanto tempo. Havia ainda o problema do componente que faltava, o mecanismo vital que daria vida à máquina. Tinha de ser obtido rapidamente.

- Então, minhas crianças, a nossa campanha de terror ainda não produziu resultados. Não vos culpo inteiramente a vocês, apesar de ter de confessar que estou um pouco desapontado. Mas é claro que a interferência não ajudou, veio numa altura em que Vanessa perdia confiança no seu poder de bloqueio, e, cos diabos, reforçou-a e deu-lhe uma nova determinação para resistir ao nosso assalto.

Sorriu benevolentemente.

- Segundo os efeitos provocados em Quasímodo e em Janine, que, felizmente, não produziram estragos permanentes, o emissor tinha fluxos de uma força excepcional. Isso leva-me a concluir que possuía poderes paranormais nunca vistos, ou então que usava uma das drogas de ampliação, possivelmente Amplia Nove, e esta segunda hipótese é mais provável. Neste caso, o nosso amigo das interferências vai arrepender-se da sua extravagância. No entanto, isso está um pouco fora de questão.

"O tempo é o nosso inimigo, jovens amigos. Vanessa não virá até nós. Nesse caso, iremos nós até Vanessa." Levarei Quasímodo e Jaime, os outros ficarão aqui. Manter-nos-emos em contacto telepático durante a viagem. Penso que seremos capazes de descobrir onde é que Vanessa se esconde. Já temos imagens de colinas e bosques e uma vegetação luxuriante. Um mar de campainhas foi o último contacto visual, e creio que isso é importante. Além disso, estive a traçar o percurso mais provável de Vanessa a partir de Random Hill.

O Prof. Reader fez uma pausa.

- Para aqueles que cá ficam, uma palavra de aviso: não tentem fugir! Sendo uma pessoa com alguma capacidade de previsão, como sabem, cerquei esta casa de minas, que podem ser activadas e desactivadas electronicamente. Quando eu, Quasímodo e Janine nos dirigirmos para o Sul no hovercar, activarei as minas. Recomendaria que nenhum de vocês se afastasse mais de vinte metros da casa...

Têm amplas reservas de comida, e espero que nós não nos demoremos. Alfred, tu estás no comando. e prestar-me-às contas. Sabes como o nosso sistema de defesa funciona; mas não o vais usar sem me consultares através de Janine ou de Quasímodo. Um deles estará sempre aberto para ti e, além disso, entrarei em contacto contigo de três em três horas, para perguntas de rotina." Não peço de vocês mais do que um comportamento sensato por dois ou três dias. É pedir demasiado?

- Não, senhor - disse Alfred, com o sentido do dever.

- Então - disse o Prof. Reader alegremente - vamos agora tratar de arranjar a nossa lente de aumento!

 

                   CAPÍTULO 14

O homem que se autocondicionara a ser Oliver Anderson dirigiu-se à sua casa de campo retirada com a estranha e agradável sensação de estar a regressar ao lar. Aquela casa nunca antes lhe parecera um lar, mas agora essa sensação era uma realidade. Isso era devido inteiramente à presença de Vanessa. Ela era a primeira pessoa que conhecia acerca da qual sentia um interesse não profissional, mas pessoal, profundamente pessoal. Dizia a si próprio que a diferença de idades era demasiado grande, pois separavam-nos quase vinte anos; mas isso parecia não Importar.

Via-a como uma mulher com quem podia dormir ou como uma criança que podia adorar? Não sabia, escolheu não tentar saber. O simples facto do amor era suficientemente perturbante em si mesmo.

Já o Sol ia alto quando chegou a casa. O aparelho tridi que comprara era um modelo portátil, pequeno, com uma pilha atómica permanente incorporada. A imagem tridimensional que produzia não tinha a alta fidelidade de um aparelho de salão, mas isso não tinha importância. O tridi era simplesmente uma janela necessária através da qual podiam ser observadas pelo menos algumas das maquinações, muito discretamente expostas, de Sir Joseph Humboldt.

Oliver comprara também bastante comida, não porque previsse qualquer espécie de cerco ou dificuldades na obtenção de mais comida, mas porque queria deixar Vanessa sozinha o menos tempo possível.

Não ficou muito surpreendido com a ausência dela à sua chegada. O céu estava azul, o sol brilhante, e o ar estava quente. Sentiu-se contente por ela andar a passear pelos bosques, gozando um dia de Primavera quase perfeito. Ela contara-lhe as suas aterrorizantes experiências nocturnas; ele ralhou-lhe, delicadamente, por não o ter chamado. Fez-lhe prometer que, no caso de futuras invasões nocturnas, o chamaria imediatamente. A sua mente profissional, ainda activa e penetrante, apesar de estar a assumir um novo papel, disse-lhe que os invasores queriam possuir Vanessa, queriam usá-la para um fim ainda desconhecido. Sentia-se apreensivo perante a persistência e os métodos que eles usavam, mas sempre o tranquilizava, pelo menos parcialmente, o facto de eles não poderem saber onde ela estava, simplesmente porque ela própria também não o sabia.

Vanessa também lhe contou a intervenção de Dugal. Ele achou bem que ela tivesse um amigo, apesar de ser apenas um garoto, mas enchia-o de angústia ela ter-se aberto deliberadamente à sua sonda. Mesmo que o rapaz fosse absolutamente leal, era depositar nele demasiada responsabilidade. Mas, por outro lado, a força do seu fluxo era tal, aparentemente, que mesmo que Vanessa não se tivesse aberto, ele teria forçado as suas barreiras e lido o que quisesse. Segundo Vanessa, ele nunca fora capaz de uma emissão tão poderosa. Ele dissera-lhe que lhe tinham dado uma injecção, o que sugeria uma droga ampliadora, possivelmente Amplia Nove. E se era esse o caso, por quanto tempo aguentaria aquela criança o assédio daqueles que tão sem escrúpulos o usavam para obter informações? Não por muito tempo, respondeu o fantasma profissional que vivia dentro de Oliver Anderson. Eles saberiam quando ele estivesse a omitir, e espetar-lhe-iam simplesmente outra agulha no braço. E assim, muito em breve, os esbirros de Humboldt estariam perfeitamente ao corrente das excentricidades de um certo Roland Badel.

Olhou para as mercearias que adquirira, e apercebeu-se de que eram supérfulas. Devia ter pensado na situação horas atrás e devia ter feito planos concretos. Uma coisa era evidente: ele e Vanessa teriam de se pôr em movimento, e não parar até que a crise passasse completamente. Até que ninguém se interessasse pelo destino de uma Vanessa Smith. Amanhã, decidiu ele, começariam a viagem. Vanessa falara sonhadoramente de calmos braços de água, de montanhas e pinhais; essas coisas podiam ser encontradas na Escócia. Talvez fosse uma boa ideia perderem-se pelas montanhas escocesas...

Metodicamente, arrumou as mercearias, umas no frigorífico, outras na parte mais fresca da despensa; sempre era alguma coisa para fazer até Vanessa voltar. Quando ela voltasse, teria uma conversa séria com ela. Discutiriam os factos, as possibilidades, as probabilidades. Ele sabia, sem sombra de dúvida, que não a queria perder, nunca. Uma sensação estranha para uma pessoa que estivera determinada a rejeitar o mundo e qualquer envolvimento emocional com pessoas, mas em todo o caso um facto a ter em consideração, juntamente com o facto da vulnerabilidade de Dugal, juntamente com o facto de existirem uns sinistros desconhecidos que lutavam pela posse da mente de Vanessa.

Olhou para o relógio e verificou espantado que já era quase uma e meia. Ele dissera a Vanessa que voltaria à uma, e ela concordara em estar de volta a essa hora. Ela tinha um relógio de pulso, mas o dia estava cheio de sol, o ar estava quente. Sem dúvida que se encontrava extasiada com o mágico tapete de campainhas que lhe mostrara. Provavelmente, estava absorvida a colher um grande ramo para trazer para casa, para a encher da sua fragrância subtil mas passageira. Decidiu ir procurá-la. Como lhe mostrara até onde ela podia ir, sabia que não levaria muito tempo a encontrá-la. E de facto não levou muito tempo.

Vanessa jazia ainda entre as campainhas, no mesmo sítio onde caíra. Já não estava inconsciente; o seu corpo era sacudido por um soluçar terrível, mas quase silencioso.

Ajoelhou a seu lado, levantou-a pelos ombros, viu a sua face banhada de lágrimas e apertou-a contra o peito, afagando-lhe o cabelo.

- Que foi, Vanessa? Que aconteceu? Diz-me, pequenina, por favor.

Durante alguns segundos ela foi incapaz de falar. Cada vez que abria a boca, mais lágrimas jorravam dos seus olhos, o seu corpo estremecia e a garganta prendia-se-lhe, tudo porque não queria ouvir as palavras que teria que usar. As palavras que tornariam a morte de Dugal um facto, uma parte da história.

Por fim, conseguiu controlar-se, e contou:

- Dugal está morto. Oh, Oliver, ele matou-se por causa de mim. Eu estava com ele, eu vi onde ele estava, eu senti-o morrer! Pobre Dugal... Pobre Dugal, tão confiante!

E então, conseguiu, de algum modo, contar mesmo o que se passara. Contou-o coerentemente, quase sem emoção, como se estivesse a descrever um pesadelo, o que talvez fosse, em todo o caso. Uma tragédia de pesadelo num mundo de pesadelo.

Oliver não disse nada por uns momentos. Limitava-se a apertá-la e a afagar-lhe o cabelo, pensando na miséria que ela sofrera e no medo e solidão que a dominaram durante a maior parte da sua infância.

Finalmente, quebrou o silêncio para dizer, suavemente:

- Eu tinha medo de Dugal, tinha medo da tua relação com ele, tinha medo que ele te traísse. Pensei nele apenas como uma criança dotada, mas indefesa. Eu, que devia perceber acerca do funcionamento da mente, aprendi que um rapazinho pode ter a coragem de um homem, a força e a estatura de um homem, e simplesmente porque ama alguém. Sinto-me humilde perante esta criança. Eu e os da minha espécie sempre tratámos as pessoas como se elas não passassem de máquinas complicadas. Temos vindo a tentar desumanizar a humanidade. Parece-me agora que temos muito a aprender daqueles que estamos a tentar corromper.

Vanessa mostrou um sorriso triste.

- Isso é a voz de um fantasma. O Oliver Anderson que eu conheço só está interessado em pintar, beber e fornicar!

Ele apertou-a com gratidão pelo seu dócil ralhete, e tentou mudar de espírito.

- Tens razão, amor - disse ele, adoptando um sotaque nortista.

Sou um homem dedicado, e, como todos os grandes artistas, basicamente um homem simples. Tudo o que quero fazer é pintar, apanhar grossuras e fornicar em paz, sem interferências dos malditos filistinos. Portanto, amanhã a gente pira-se daqui, a gente vai-se retirar mesmo, para qualquer lugar bem longe de todas as cidades. E então vamos viver a sério a vida simples e boa: pintar, beber e fornicar.

Ajudou-a a levantar-se.

- Vamos embora, Vanessa, temos algum trabalho a fazer; temos de fazer as malas e pensar.

Que tal a Escócia? - sugeriu Vanessa. - Não sei porquê, mas tenho pensado muito na Escócia, recentemente. É ridículo, nunca lá estive, mas até parece que conheço as montanhas. Há lá pouca gente. Adoraria ver as montanhas nuas, as florestas, os veados, os vales, desfiladeiros e lagos... Não é estranho?

Ele deitou-lhe um olhar curioso.

- Então a Escócia, hem? Peço desculpa, Vanessa, mas estava antes a pensar na Comualha ou em Gales. Bom, de qualquer forma ainda há tempo para chegarmos a um acordo amigável até amanhã.

Vanessa arrepiou-se subitamente, como se tivesse sido apanhada por uma rajada fria.

- Eu amava Dugal - disse ela. - Amava-o muito.

Oliver pegou-lhe na mão.

- E agora eu amo-o também, pequenita. Ele ganhou tempo para ti, a um preço altíssimo. Não abusemos da sua dádiva. Amanhã iremos para um lugar realmente seguro. Não me perguntes onde é.

De mãos dadas, atravessaram o tapete de campainhas, percorrendo o caminho de volta para casa, sem saberem que amanhã já era demasiado tarde.

 

                   CAPÍTULO 15

A última noite que Roland Badel passou na casa de campo das planícies do Sul seria lembrada com todo o pormenor até ao fim da sua vida. Foi a primeira e a última vez que ele e Vanessa se deitaram juntos como homem e mulher. Foi também o fim de um breve idílio, de uma triste charada.

Deitaram-se tarde, depois de terem preparado cuidadosamente todas as roupas e objectos pessoais que precisariam de levar no hovercar, mais tarde, Roland, ainda no seu papel de Oliver Anderson, seleccionou tintas, pincéis, algumas telas ainda não terminadas e o seu cavalete. Então, por um pedaço, ele pôs-se ainda a bebericar uísque e a esquadrinhar um mapa.

Encorajara Vanessa a beber algum uísque. Ela estava ainda num estado de depressão aguda e precisava de qualquer coisa para lhe dissipar o sofrimento e, possivelmente, afastar os pérfidos invasores do pensamento que pareciam empenhados em que ela não tivesse repouso durante a noite.

O que era, de facto, a razão mais importante que o fez dizer-lhe para partilhar a sua cama, mais do que qualquer compulsão sexual incontrolável. Ele queria confortá-la com a sua presença física. Queria abraçá-la, envolvê-la, dizer-lhe a mentira inconveniente de que não havia nada a recear.

Vanessa não gostou do sabor do uísque, mesmo misturado com água. Arrepiou-se quando o provou, mas bebeu-o ordeiramente porque Oliver disse que provavelmente ajudaria.

Estava meio ébria quando foram para a cama. A experiência agonizante da morte de Dugal estava pelo menos temporariamente envolvida pelos vapores alcoólicos. Além de estar meio ébria, estava muito cansada.

Ele sabia que ela era virgem. Além disso, tinha metade da sua idade. O seu dever real era protegê-la e fazê-la sentir-se segura.

Mas quando ela se deitou e se enroscou nele, nada disso parecia tão importante como o corpo vivo e excitante que se pressionava contra o seu.

Tentou dormir, tentou calar todo o desejo, todos os pensamentos eróticos. Mas Vanessa não parava quieta, suspirava e gemia. Os invasores tinham voltado, com os seus sinistros sussurros. Penetraram na neblina alcoólica e tentavam agredi-la. Ela agarrou-se a ele com mais força, procurando conforto.

Ele tentou permanecer insensível, tentou distrai-la, ajudá-la a repelir as presenças intangíveis que pareciam ter rastejado para a cama. Mas viu-se a tocá-la, a afagá-la, a acariciá-la, viu-se a beijá-la e a agarrá-la com paixão.

O sexo era pelo menos uma forma de diversão, pensou ele, arrebatadamente. Naquela escuridão, ele podia ver os seus olhos muito abertos, a sua boca aberta e activa.

Vanessa, com a sua tensão um pouco aliviada pelo uísque, estava espantada, excitada e agradada pelas estranhas sensações que sentia crescer em todo o seu corpo. Sentiu maravilhada as líquidas revelações do desejo, o modo como os seus pequenos seios doíam, quase como se fossem independentes dela, o modo como a sua pele se tornou extra-sensível, ampliando a sensação produzida por cada toque e cada carícia.

Ela lembrava-se de, em criança, ter sentido flocos de neve pela primeira vez. A neve parecia ter gelado a sua pele, mas ao mesmo tempo tornou-a estranhamente viva. Os flocos que agora sentia não eram frios, muito pelo contrário; eram flocos de fogo, mas um fogo que, em vez de consumir, aquecia e dava vida.

Vanessa, aos dezassete anos, era completamente inocente. Era como se a natureza lhe tivesse feito uma partida: por um lado possuía poderes paranormais, e, ao contrário dos seres humanos vulgares, a sua mente não estava fechada dentro da sua cabeça, podia-se estender, receber mensagens directamente de outras mentes; por outro lado, parecia que a natureza a obrigara a pagar o seu talento com um certo atraso físico. Até ao momento em que Roland Badel/Oliver Anderson a apertou bem nos braços, nunca conhecera o desejo.

Agora, descobria que era uma coisa maravilhosa, e queria tempo para o saborear, para o examinar. Mas a mulher fechada dentro de si sabia que não havia tempo.

No escuro, Oliver quebrou o silêncio:

- Talvez eu não devesse estar a abraçar-te assim. Tenho o dobro da tua idade, já conheci outras mulheres, tu ainda és virgem... Querida Vanessa, a minha única desculpa é que te amo!

Ela apertou-o num ombro; sentiu a sua pele macia e os seus duros músculos. Havia uma mistura de força e suavidade.

- Meu amor, faz o que tu queres, isso é o que eu mais quero. Já estou a sentir o meu corpo cantar...

Ela mal sentiu o seu hímen a ser rasgado, estava demasiado maravilhada com a coisa misteriosa que pulsava e pulava dentro dela, e que fazia o seu corpo palpitar e arquear-se com um prazer quase insuportável.

E Vanessa, com a sua mente e o seu corpo intoxicados pelo êxtase físico e um pouco pelo uísque, nem reparou quando o invasor a penetrou, explorando os labirintos da sua mente, sondando, observando, gozando; absorvendo avidamente toda a experiência sensual derivada do acto de amor.

Mas quando tudo terminou, quando Roland e Vanessa descansavam enlaçados do dispêndio da sua paixão, Janine não conseguiu reprimir um grito telepático de triunfo.

"Ele fornicou-nos bem, não achas, querida?" Houve um riso silencioso e terrível. "Que pena ele não saber que estava a ter duas pegas pelo preço de uma!"

Vanessa gritou, afastou-se de Roland, e ficou a tremer, sentindo-se exposta, suja, horrível. Tentou afastar o invasor da sua mente, desesperadamente, mas faltava-lhe a força, a clareza e a disciplina para o fazer.

- Que foi, querida? Que aconteceu? Magoei-te?

Roland estava perplexo; num momento, ela parecia à beira de um sono repousante, e, de repente, parecia um destroço em frangalhos.

Mas ela conseguiu falar calmamente.

- Alguém me esteve a sondar, e ainda está. Alguém me estava a sondar quando... - ela não era capaz de o dizer, porque o que fora maravilhoso era agora humilhante e sujo.

Roland, agora bem acordado, tentou puxá-la para si mais uma vez.

- Não entres em pânico, querida! Não a podes rejeitar? Não a podes obrigar a sair?

- Estou a tentar! - disse Vanessa, desesperada. - Estou a tentar!

"Diz-lhe que gosto dos ombros dele", sussurrou Janine maliciosamente. "Diz-lhe que ele tem um grande futuro, especialmente entre as pernas, para raparigas como eu e tu."

Vanessa saltou para longe de Roland, mesmo para a beira da cama, onde ficou aos vómitos.

"Não és grande coisa como mulher, pois não, pequena? Não te preocupes, eu vou consolá-lo. As minhas mamas são melhores que as tuas... Agora sabemos onde estás, querida, e não tardaremos a apanhar-te!"

Vanessa estava fisicamente doente. Começou a vomitar incontrolavelmente no chão do quarto, o que foi, sem ela o saber, a melhor coisa que poderia ter feito. Janine não conseguiu suportar essa experiência, e fugiu.

Roland Badel acendeu a luz e olhou para Vanessa com pena e consternação, pois ela, que há tão pouco tempo tinha gozado os prazeres do amor, jazia agora com a cabeça esticada para fora da cama, com o seu corpo esgrimo em convulsões, enquanto, simultaneamente, chorava e vomitava.

- Apaga a luz! - conseguiu ela dizer. - Não quero que me vejas assim.

Ele pousou suavemente a mão nas suas costas, que afagou como se fosse as costas de uma criança.

- Não vou apagar a luz - disse delicadamente. - Nós vamos partilhar o sofrimento e a humilhação assim como partilhámos o amor.

Em breve terminaram as horríveis ondas e nós no seu estômago.

Vanessa sentia-se indefesa, debatia-se por respirar, enquanto as lágrimas continuavam a correr, juntando-se ao vomitado ainda quente.

Agora que o pior já passara, Roland entrou em acção. Ainda nu, correu para a casa de banho e trouxe toalhas com que limpou a indefesa Vanessa. Depois, limpou o chão junto à cama, vaporizando-o em seguida, generosamente, com um desodorizante airosso.

- Ela estava dentro de mim - disse Vanessa fracamente -, sentindo-te assim como eu te sentia, observando, espiando... - Estremeceu. - Gozando, mesmo... Eu não posso pensar mais nisso, vou ficar agoniada outra vez.

- Então não penses nisso - disse ele com firmeza. - Não penses em nada do que se passou esta noite. Pensa apenas que nós amanhã nos vamos embora, para muito, muito longe. E mais, vamos arranjar maneira de nos vermos livres desta espécie de tortura para sempre. Conheço um cirurgião, um bom homem, que tem trabalhado muito com paranormais com lesões na cabeça. Quando tudo acalmar, vou contactá-lo. Se bem me lembro, existe uma operação bastante simples que permitirá...

- Oliver, por favor - disse ela debilmente. - Agora não. Contas-me isso amanhã ou depois, mas agora não...

Ele amaldiçoou a sua estupidez.

- Sou um imbecil, perdoa-me. - Soltou uma gargalhada amarga. - E devia ser inteligente. Perdoa-me. Amanhã vamos tratar de fazer umas centenas de quilómetros, e então...

- Encantador - disse uma voz masculina -, muito informal, mas encantador. Que cheiro horroroso é este?

Roland virou-se e viu um homem na porta do quarto.

- Quem é você, cos diabos? Como entrou? Que quer daqui?

- Tenha calma, Dr. Badel. Não tente fazer nada estúpido.

- Eu chamo-me Anderson.

- Sim? - O homem entrou no quarto, conservando uma das mãos no bolso. - Então eu sou um dos irmãos Criam. - Permitiu-se um esgar, quase um sorriso. Então franziu-se e olhou para Vanessa com uma expressão reprovadora. - Não devias ter feito isso, minha querida, um pouco de conhecimento é às vezes uma coisa perigosa.

Vanessa sentou-se na cama, os seus pequenos seios bonitos e firmes, o seu cabelo emaranhado pelos ombros, os seus olhos escuros de fadiga, a sua face manchada por uma angústia muito recente.

Ela olhou para Roland e disse sem emoção:

- O nome dele é Denzil Ingram. É um agente do Governo e tem uma pistola laser no bolso. Veio aqui para nos matar.

 

                       CAPÍTULO 16

- Lamento muito que tenhas feito isso, Vanessa - disse Ingram. - Aliás, nem devias ter sido capaz. Mas, é verdade, ouvi dizer que tens poderes excepcionais.

Agora que finalmente encontrara as suas vitimas, Ingram descobriu com grande irritação, e pela primeira vez na sua carreira, talvez, que odiava verdadeiramente a sua tarefa. Era um caçador altamente treinado, um perito em morte súbita. No decorrer das suas missões tivera de matar muitas pessoas: espiões, sabotadores, revolucionários, possíveis assassinos. Nunca gostara de matar, era como destruir uma máquina em bom funcionamento, era como mandar para o ferro-velho um hovercar em perfeitas condições.

Mas, formalmente, matar podia ser justificado logicamente. Era necessário limpar espiões, assassinos e outros no género; para isso era pago pelo Estado e fora empossado por ele com poderes para zelar pela sua segurança. Um homem ou mulher adultos que escolhessem perturbar o status que estavam perfeitamente ao corrente do preço que pagariam se falhassem, e deviam estar preparados para pagá-lo na devida altura.

Mas Vanessa Smith não era um revolucionário nem um assassino. Era apenas uma criança, tudo o que fizera foi fugir de uma escola para paranormais. A tragédia para ela era que a oposição estava a usar a sua existência para fins políticos. A tragédia para ela era que Sir Joseph Humboldt precisava da sua não existência também para fins políticos. Do ponto de vista dos políticos, ela não era uma pessoa, era apenas uma pergunta parlamentar explosiva.

E no entanto era apenas uma criança - não, metade criança, metade mulher -, pateticamente sentada numa cama onde tinha sem dúvida acabado de experimentar o sexo pela primeira vez e, tristemente, pela última.

Era estranho como as pessoas pareciam tão vulneráveis quando nuas. Ela e Badel pareciam paralisados pelo choque. Denzil Ingram desejou muito que tivessem gostado do que acabara evidentemente de acontecer entre eles. De outro modo seria duplamente terrível morrer nestas circunstâncias. Mas precisariam eles de morrer? Precisava de tempo para pensar.

- Vistam-se - disse ele irritado. - Vocês lamentam que eu esteja aqui, eu lamento estar aqui. Vistam-se, e tentemos ser civilizados. Mas não faça nada de estúpido, Dr. Badel, estou treinado para este género de coisa, o senhor não está.

- Imagino que será mais fácil para você matar-nos quando não estivermos a olhar para si - disse Roland, pegando na mão de Vanessa e olhando para Ingram com um ar decidido. - Um pequeno acto de tolerância vai fazê-lo sentir-se melhor, certo?

- Errado - disse Ingram. - Vista-se, Dr. Badel. Vanessa pode dizer-lhe que não tenciono disparar enquanto o senhor estiver a abotoar as calças. Ela pode também dizer-lhe com certeza que estou desesperadamente à procura de uma alternativa.

Vanessa olhou Roland e assentiu. Começaram-se a vestir, e, enquanto o faziam, Denzil Ingram continuou a falar.

- Não temos tempo para delicadezas, nem para rodear o assunto. A minha missão, como Vanessa sabe, era limpá-la, eliminá-la.

E, como o senhor se envolveu com ela, isso agora também o inclui, infelizmente, a si.

- Vivemos num mundo agradável... - comentou o Dr. Badel, vestindo umas calças e uma camisa, sempre a olhar Ingram. - Que fez ela de tão terrível? Bateu numa velhinha com uma barra de ferro? Sondou alguma pessoa na posse de segredos do Estado? Gravou os sonhos eróticos do Joe Humboldt?

Ingram suspirou.

- Não vamos falar dessa coisa da justiça, Dr. Badel. Vanessa ainda é muito nova, mas o senhor e eu já sabemos que a justiça é uma quimera. Tudo o que Vanessa fez foi saltar o muro da escola.

Mas, caramba, ao fazer isso transformou-se numa pergunta parlamentar. Da sua existência ou não existência depende agora o destino de um decreto e possivelmente o destino de um Governo. Sou pago para proteger o Estado e o Governo. Está a ver o meu problema?

- Perfeitamente. Mas consegue dormir, à noite?

- Muito bem, obrigado. Tenho os meus calmantes... Acontece que mandei os meus homens embora. Estou a dizer-lhe isto, Dr. Badel, não para lhe dar nenhuma esperança, mas para que possa compreender a minha posição antes de nós falarmos. É um procedimento rotineiro nos dias que correm; eles descobriram o que eu queria que descobrissem, mas sem saber bem o que era. Uma precaução sensata pois se algum deles for sondado só saberá que andou à procura de um homem com a cara desfigurada. Não poderá revelar se esse homem viveu ou morreu, ou mesmo se estava acompanhado. Estou a ser claro?

- Raivosamente claro. - A voz do Dr. Badel elevava-se, apesar de se esforçar por manter a calma. - Qual vai ser o cenário? Amantes desconhecidos fazem o pacto de suicídio? Ou vai pegar fogo à casa e criar um mistério local temporário?

Vanessa acabou de se vestir e agarrou-se a Roland, que a apertou, e lhe afagou o cabelo.

- Existem vários cenários possíveis, já que lhes quer assim chamar, Dr. Badel. Mas vamos conversar.

Roland não conseguia conter - a sua fúria.

- Então é essa a sua pequena perversão? Desceu tão baixo que precisa de ver as suas vítimas a debater-se?

Ingram suspirou de novo. Devia ter sido tão fácil! As coisas não estavam a correr conforme os planos. Se ao menos tivesse entrado no quarto de repelão e disparado sem pensar! Era um erro fatal pensar demasiado, estava a ficar velho.

- Diz-lhe, Vanessa. Desta vez eu vou abrir-me para ti, diz-lhe o que encontrares.

Vanessa fechou momentaneamente os olhos, e então dirigiu-se Roland Badel:

- Ele descobriu-nos, ou a ti, através da minha mãe. Ela tem estado em contacto comigo, e possuía a imagem de um homem com face desfigurada. Ele decidira matar a minha mãe e o seu marido de pois de mim, mas agora não sabe o que fazer. Ele quer evitar a morte, se puder.

- Mas porquê? - Roland não podia compreender.

Vanessa disparou um olhar inquiridor a Denzil Ingram.

- Diz-lhe!

- Ele viu-me indefesa na cama, viu-me como uma criança, lembrou-se da sua própria infância - Também cresceu numa instituição do Estado, porque foi enjeitado, e teve de lutar muito para subir na vida.

Denzil Ingram disse:

- Bem, Dr. Badel, está satisfeito? Eu disse que queria que compreendesse a minha posição antes de nós falarmos. Mas também disse que não queria despertar nenhuma esperança. Portanto, vamos falar ou devo cumprir o meu dever tão eficiente e rapidamente quanto possível?

De algum modo, Vanessa perdeu subitamente o medo, ou talvez o bloqueasse tão profundamente que não o sentia conscientemente.

- Vamos falar, Sr. Ingram - disse ela calmamente. - Não me parece que o senhor nos queira ver a argumentar consigo, mas falemos.

Ingram conservava a mão firmemente na pistola laser que tinha no bolso.

- Ainda bem, Vanessa. Pode ser que cheguemos a algum lado, pode ser que não, mas falaremos. Se existir uma alternativa que não afecte a minha integridade, aceitá-la-ei com prazer. A minha missão não mudou: garantir que Vanessa Smith nunca existiu. Não há tempo para outro caminho.

- Integridade! - explodiu Roland. - O senhor a falar de integridade!

Ingram sorriu.

- Dr. Badel, como psicólogo, certamente concordará que qualquer pessoa que permaneça fiel aos seus princípios e à sua função jurada conserva uma integridade subjectiva, não?

Vanessa disse:

- Fale-me sobre a minha mãe, Sr. Ingram. Gostaria de saber coisas sobre ela, mesmo que em segunda mão.

- É uma mulher muito atraente, Vanessa, acho que gostarias dela. Razoavelmente alta, magra, muito sensível e volátil. Uma vez atirou-me um copo e fez-me um corte na testa. Sim, gostarias dela.

Chama-se Jenny Pargetter, e ainda não tem quarenta anos. Tem cabelo castanho, que usa curto, é muito fina, bem tratada. Tem uma face alongada, uns grandes olhos castanhos, lábios expressivos. O seu marido, Simon, é um próspero homem de negócios. É óbvio que eles se amam muito. Noutras circunstâncias, considerar-me-ia feliz se eles fossem meus amigos.

- Simon é o meu pai?

- Não. O teu pai morreu antes de nasceres. Parece que era um jovem rodesiano estudante de arte. Morreu durante uma manifestação em frente à Embaixada Americana, que se tornou violenta.

- Compreendo. Obrigada. Agradeço-lhe por me ter dado algumas recordações que eu posso guardar. O resto eu invento, Sr. Ingram; deve saber que as pessoas como eu são boas a inventar.

Roland mudou de assunto:

- O senhor falou de alternativas. Sugere algumas?

Denzil Ingram contraiu-se.

- Sim, tenho uma. Mas de um ponto de vista profissional, o senhor vai considerar a cura pior que a doença, passe a expressão... Será que tem uísque?

- Sim, lá em baixo. Vou buscá-lo.

Ingram sorriu.

- Por favor. Ainda não estou completamente imbecil. Vamos todos lá para baixo. Vocês vão os dois à minha frente, muito devagar. Não cometam nenhum erro, detestaria que o fizessem, os erros fazem coisas horríveis aos meus reflexos.

Uma vez na sala de estar, Denzil Ingram sentou-se numa poltrona confortável, com um uísque na mão, como se estivesse a fazer uma visita de cortesia, agradável e descontraída.

- Obrigado pelo uísque. Não me faz companhia, Dr. Badel?

- Peço desculpa, mas não bebo com carrascos.

- Caramba, tantos preconceitos sociais nem ficam bem para um psicólogo tão distinto... E tu, Vanessa, não tens já idade para um uísque?

Ela esboçou um sorriso.

- Eu já bebi há pouco, mas fiquei mal disposta.

- Voltemos ao que interessa, por favor - disse o Dr. Badel, irritado. - Vejamos então o que tem para nos oferecer, se é que tem alguma coisa. Pode ser que o senhor aprecie o suspense, mas nós não.

- Olhou para Vanessa, que estava muito pálida. - Ela já suportou tanto quanto podia.

Denzil Ingram respirou fundo.

- Bom, vejamos então. Primeiro, como disse, é agora necessário que o Dr. Roland Badel e Vanessa Smith deixem de existir. Segundo, como Vanessa verificou, não quero matar se isso puder ser evitado. Terceiro, a prisão está fora de causa, é demasiado arriscada. Quarto... Bem, Dr. Badel, pelo menos o senhor já deve estar a ver a alternativa.

Roland assentiu, devagar.

- Cirurgia, lavagem ao cérebro, personalidades sintéticas...

- Pode ser feito - disse Ingram calmamente. - O senhor sabe melhor do que eu das recentes técnicas em cirurgia cerebral e implantação de personalidades. Ouvi dizer que é perfeitamente possível criar novas personalidades em seis semanas.

- Robots - disse Roland. - Já tenho estudado casos desses. Eles vivem, funcionam biologicamente, mas que são eles?

Ingram encolheu os ombros.

- Pelo menos estão vivos, podem sentir satisfação, mesmo uma certa realização.

- Isso também os ratos de laboratório, que é aquilo que propõe que nós nos tornemos. Mesmo o senhor pode compreender que destruir a personalidade conservando o corpo é apenas uma outra forma de morte... E depois? Ia ter de manter os seus Meninos X e Sr. Y sob vigilância para o resto das suas vidas, para o caso de as suas antigas personalidades emergirem alguma vez.

- Isso é verdade. Mas a Menina X e o Sr. Y não precisariam de saber isso.

Roland Badel soltou uma gargalhada amarga.

- A Menina X e o Sr. Y não saberiam nada do que realmente importa. Eu não posso falar por Vanessa, mas posso falar por mim: isso não me serve, Ingram.

Vanessa disse suavemente:

- Também deves decidir por mim, Roland. sei que é uma grande responsabilidade, mas preciso que alguém seja responsável por mim na vida, e mesmo na morte. Perdoa-me por pôr todo este peso nos teus ombros...

Ele apertou-lhe mais a mão, e depois virou-se para Denzil Ingram.

- Ainda há outra solução, a mais simples. Deixe-nos ir, digamos, para a América do Sul, para um país à sua escolha. Dê-nos passaportes e novos nomes, mantenha-nos sob vigilância, se acha que deve. Nós não íamos causar qualquer problema.

Ingram abanou lentamente a cabeça.

- Lamento, isso é tentador, mas os riscos são demasiado grandes. A oposição vai fazer tudo para encontrar Vanessa. Se eles o conseguissem, a minha cabeça ficaria por um fio... Tem alguma outra sugestão, Dr. Badel?

- Existe uma técnica de amnésia induzida que...

- Fora de uso. O meu departamento já a experimentou, e os seus efeitos são imprevisíveis, como sabe, claro. - Ingram parecia genuinamente triste, enquanto falava.

- Acabo de me lembrar de uma coisa - disse Vanessa numa voz que tremia. - Parece que só eu sou o verdadeiro problema aqui, Sr. Ingram. Se o senhor me matasse e... - faltou-lhe momentaneamente a voz - destruísse as provas, como eu sei que o senhor poderia, então não havia necessidade de matar o Dr. Badel.

- Farias isso por ele? - Havia uma nota de respeito na voz de Denzil Ingram.

- Eu amo-o, compreende. Além disso - ela sorriu a Roland - se eu não tivesse tentado roubar ovos do seu galinheiro, o senhor não estaria agora aqui. Percebo que tenho de morrer, apesar de não saber muito acerca da situação política que torna necessária a minha morte, e nem quero saber. Mas, repare, quando eu tiver desaparecido vão deixar de haver provas de que alguma vez existi, e o senhor não vai ter de matar Roland nem a minha mãe nem o marido dela... E mesmo que eles não lhe dêem a sua palavra, tenho a certeza de que ma darão a mim.

O Dr. Roland Badel não disse nada, sabia que não conseguiria produzir palavras. Corriam lágrimas na sua face. Era uma sensação estranha, e tentou lembrar-se da última vez que chorara.

Denzil Ingram tirou do bolso a sua pistola laser. Olhou-a por um momento, depois pousou-a na mesinha ao lado da sua poltrona.

- Estou a envelhecer, Vanessa. Já vivo pelas minhas regras há mais tempo do que quero pensar. A sobrevivência do mais forte. - Sorriu. - Parecia-me um bom código, era até um código clássico. Mas quando uma jovem rapariga me faz duvidar do seu valor, isso significa que ultrapassei os meus limites morais. - Olhou para Roland. - Dr. Badel, o senhor sugeriu a América do Sul...

- Foi - disse ele, curioso.

- Pode arranjar passaportes, dinheiro, etc.?

- Penso que sim.

- Ainda bem. Eu recomendaria o Chile ou. Peru. Nós não teremos relações muito boas, no momento, com qualquer destes países. Acho que poderão estabelecer lá novas identidades sem grande dificuldades... Bom, agora vou servir-me de um grande uísque e fumar um cigarro. Estou a ficar descuidado na minha velhice. Está a ver a minha pistola laser? Ficar-lhe-ia muito grato se não a usasse antes de pousar o meu copo. Gostaria que apontasse um pouco para a esquerda de minha espinha e trinta centímetros abaixo do meu ombro. Combinado?

- Combinado, Sr. Ingram - disse um Roland Badel espantado.

- Continuo a não querer beber com carrascos, mas seria para mim um grande privilégio beber com um bravo. Posso servir o uísque.

- Não, Dr. Badel - disse Ingram com um sorriso apertado. - Perdoe-me uma pequena fraqueza, mas eu queria o privilégio de não beber com o meu executor.

Vanessa ainda disse violentamente:

- Mas será que tudo tem de acabar assim? Tem sempre de morrer alguém? O mundo está completamente louco?

- Sim, Vanessa - disse Ingram. - O mundo está completamente louco, e alguém tem de morrer. - Depois acrescentou ferozmente: - Deixem-me por favor o meu orgulho, é tudo o que me resta... E agora não digam mais nada, por favor, só quero saborear o meu uísque.

Levantou-se, dirigiu-se ao carrinho antigo que servia de bar e serviu-se de uísque. Tomou um primeiro gole, conservando-o na boca durante um pedaço, saboreando-o, tentando não pensar em nada excepto em recordações, os poucos bons momentos que tinha vivido: uma corrida de tobogã numa colina do Derbyshire num Natal muito, muito longínquo, com um homem que parecia saber tudo sobre ele e que poderia ser ou não o seu pai; o seu primeiro emprego, fazer chá para homens misteriosos num departamento secreto do Governo, homens que falavam sem entusiasmo de lugares exóticos como Sófia, Belgrado, Lisboa, Istambul, Banguecoque; uma mulher chamada Elise que uma vez lhe ensinou muita coisa sobre o amor, em Marselha, apesar das precárias circunstâncias. No geral, reflectiu ele, tinha sido uma vida interessante, mas solitária. Tirava alguma satisfação do facto de a ir terminar voluntariamente, num ponto em que, ironicamente, a sua carreira ia ser grandemente avançada, nas planícies do Sul da Inglaterra. Maldita Vanessa! Ela era a filha que ele gostaria de ter tido, se tivesse havido tempo...

Denzil Ingram nunca chegou a acabar o seu uísque.

Roland Badel não chegou a ser o seu executor.

Vanessa não chegou a encontrar a paz na América do Sul.

Quando Ingram engolia o segundo gole de uísque, um dos vidros da janela estilhaçou-se para deixar passar uma esfera azul, que caiu na alcatifa.

Todos a olharam, mas só Ingram sabia o que era. A esfera dissolveu-se e uma nuvem de vapor expandiu-se instantaneamente pela sala. E os três caíram no vazio.

 

                             CAPÍTULO 17

Vanessa abriu os olhos. A princípio não conseguiu focá-los, mas quando finalmente conseguiu ver claramente descobriu que havia três desconhecidos na sala. Não, não inteiramente desconhecidos, porque, apesar de fraca, ela lançou-lhes uma sonda-relâmpago e verificou que dois dos padrões eram horrivelmente familiares.

Viu um rapaz disforme, uma rapariga com olhos ávidos e maliciosos e um velho de cabelos brancos. Superficialmente, esse velho correspondia à ideia que toda a gente tem de um avô excêntrico, mas havia nele algo de frio, uma frieza mortal. A frieza de um animal que mata.

- Bem-vinda, Vanessa - disse Quasímodo. - És bem-vinda aos meus pensamentos. Em breve estarás bem cheia deles, tantos quanto podes suportar.

- Olá, pequena! - disse Janine com malícia. - Pensando bem, o fornicanço não foi mau de todo, considerando o teu material. Por que raio ficaste mal disposta?

O Prof. Raeder disse:

- Foste extraordinariamente favorecida pela sorte, Vanessa. Podes não acreditar, de momento, mas nós somos teus amigos. - Ele empunhava a arma de Ingram. - Parece que chegámos no momento exacto, teria sido extremamente frustrante encontrar-te morta.

Vanessa não disse nada. Ergueu a barreira mental mais forte que podia e depois olhou para Roland e para Denzil Ingram. Estavam ambos inconscientes, deitados no chão, com os pulsos ligados pelo que parecia ser arame fino e muito forte.

O Prof. Raeder reparou nesse olhar.

- Eles estão vivos, Vanessa. Sem dúvida que nos farão companhia a qualquer momento... Mas deixa-me dizer-te, minha querida, os teus problemas estão agora terminados. Estás prestes a juntar-te ao meu pequeno e cordial grupo de paranormais, e trabalharemos construtivamente e em grupo para derrubar o Governo reaccionário que está agora no poder neste país. Somos poucos, mas juntos, pela nossa acção decisiva, vamos restaurar a antiga tradição democrática desta nação. A história vai-nos agradecer, Vanessa. Seremos sem dúvida comparados àqueles gloriosos homens que resistiram à tirania nazi várias décadas antes de teres nascido. A batalha deles foi uma batalha do ar; a nossa será uma batalha do espírito. Posso assegurar-te que não será menos maravilhosa!

- Quem é o senhor? - acabou Vanessa por perguntar. Ela percebeu subitamente que ainda estava sentada na sua cadeira e que as suas mãos não estavam atadas. Sentiu um impulso de se levantar e correr, mas sabia que não iria muito longe. Cerrou os dentes e rezou para que Roland voltasse depressa à consciência, talvez ele soubesse o que fazer.

- Peço perdão. Marítis Raeder, professor emérito de Psicologia Paranormal na Universidade de Cambridge, recentemente reformado. A minha reforma um pouco precoce foi devida às atenções dos esbirros de Sir Joseph Humboldt, um dos quais, se não estou em erro, repousa pacificamente ao lado do teu namorado.

Vanessa não compreendia algumas palavras que o homem dizia, mas percebeu sem sombra de dúvida que ele era mau.

O Prof. Raeder suspirou.

- Vejo que o meu nome não te diz nada. Mas porque é que te deveria dizer alguma coisa? Com certeza que em Random Hill não te diriam que todos os programas que eles praticam são basicamente devidos ao trabalho de Marítis Raeder. Eu quase recebi o Prémio Nobel, minha querida. Mas isso não vem ao caso, e é uma história triste. Basta agora dizer que estás em boas mãos, e os teus talentos serão apreciados e recompensados devidamente. Virás connosco para a Escócia e tudo vai correr bem.

- Eu não quero ir a lado nenhum consigo... Por favor... Por favor, deixe-me em paz.

O professor sorriu.

- Lamento, querida, mas não posso fazer isso. Sabes, é que eu conheço o teu perfil psicológico, e, devo dizer, mesmo muito bem. Tu és absolutamente essencial para os meus planos. Tens um talento, um talento raro, do qual ainda nem tens consciência. Tu és a minha lente de aumento.

O Dr. Badel voltou à consciência abruptamente, com um esticão súbito, como se alguém lhe tivesse batido ou lhe tivesse gritado. Tentou levantar-se, mas descobriu que tinha as mãos atadas e debateu-se para conseguir ficar sentado. Sacudiu a cabeça, como para fazer dissipar alguns efeitos residuais do gás narcótico, e olhou à sua volta

Ficou visivelmente aliviado ao verificar que Vanessa estava aparentemente bem.

- Mas que raio é isto? - exigiu ele de Raeder.

- Olá, Dr. Badel, já se nos juntou! Estou tão contente por vê-lo! Vou-me apresentar, eu sou...

- Não se mace, eu conheço-o, Prof. Raeder. Assisti a bastantes lições suas. Que se passa?

Ele quer levar-me para a Escócia - disse Vanessa, a tremer. - Só fala de coisas que eu não entendo!

Denzil Ingram também mostrou sinais de voltar à consciência. Gemeu, debateu-se para mover as mãos e sentou-se subitamente, olhando para Marius Raeder.

- Eu conheço-o!

- E eu conheço-o a si, Sr. Ingram. Talvez não precise de acrescentar que este nosso breve encontro não lhe será vantajoso. Já tolerei mais inconveniências dos cães de Humboldt do que as que estou disposto a tolerar.

Surpreendentemente, Ingram riu-se.

- Sei apreciar uma boa ironia. Se tivesse atirado a sua bomba de gás cinco minutos mais tarde, Prof. Raeder, eu já estaria morto.

- Não se preocupe - retorquiu o professor -, o seu destino não será atrasado por muito mais tempo. Isso lhe prometo.

Denzil Ingram olhou calmamente à sua volta.

- Há várias testemunhas, Raeder, o que é desagradável, para si, não para mim. Mais tarde ou mais cedo terá de os liquidar a todos ou então um deles, muito possivelmente essa coisa - apontou Quasímodo -, o liquidará a si..

- Deixa-o para mim! - disse Quasímodo. - Eu gostava de brincar com ele, eu gostava tanto!

O professor suspirou.

- Ouve, criança, tenta desenvolver um sentido das proporções. Nós temos coisas mais importantes a fazer do que torturar cães extraviados.

- Que é tão importante para si, Prof. Raeder? - perguntou Ingram. - Vocês vieram por causa de Vanessa, isso é óbvio. Mas porque é que ela é tão importante para si?

O Prof. Raeder apontou a pistola a Denzil Ingram.

- O seu tempo está a escoar-se rapidamente - disse ele calmamente. - Mas não há razão para que um morto não deva ser presenteado brevemente com as confidências dos vivos. Tenciono assassinar Sir Joseph Humboldt, que trouxe este país para a beira do totalitarismo e a mim próprio um grande descrédito. Tenciono destruir este Governo e tudo o que ele representa. Vanessa é a minha lente de aumento. Não me parece que o senhor compreenda as implicações disto, portanto desejo-lhe uma boa noite.

O Prof. Reader apontou a arma firmemente e premiu o gatilho. Num segundo, tudo terminou. Na testa de Denzil Ingram apareceu um pequeno buraco, donde saía fumo; os seus olhos abriram-se como que de espanto, soltou um grande suspiro e caiu morto. Havia no ar um cheiro acre de tecido queimado. Vanessa não suportou a experiência, depois de tudo o que lhe acontecera naquela noite. Deu um pequeno grito, tentou em vão tapar a cara com as mãos e caiu desmaiada.

- Assim não teve muita piada! - queixou-se Quasímodo

- Não era minha intenção divertir ninguém - cortou, o Prof. Raeder, que olhou para Vanessa. - Traz água, parece que a nossa nova recruta é uma flor sensível.

Roland Badel, pálido, a tremer, tentou controlar as suas emoções.

- Esta cena foi significativa, Prof. Raeder. Teria preferido recordá-lo não como um psicopata, mas como um homem brilhante que chegou a inspirar centenas de estudantes.

- Ele é amoroso quando está zangado - observou Janine. - Era capaz de o comer, juro que era!

Reader ignorou-a.

- Meu caro Badel, muito obrigado pelo seu elogio indirecto. Lamento que os seus valores estejam distorcidos pela tensão. Eliminei simplesmente um cão, um dos cães de Humboldt. Se tem algum conhecimento do que se passa hoje em Inglaterra, terá de concluir, depois de uma reflexão mínima, que acabo de executar um acto de justiça social. A propósito, imagino que a missão do nosso falecido amigo fosse liquidá-lo a si e a Vanessa. Estou enganado?

- Não, está certo.

- Então prestei-lhe um serviço, Dr. Badel, está em dívida para comigo.

- Não, Prof. Raeder, causou-me um grande dissabor. Antes de a sua bomba ter entrado pela janela, Denzil Ingram havia renegado a sua missão. Pagando com a sua própria vida, ele ter-nos-ia Permitido deixar o país e começar uma nova vida em qualquer outro lugar.

- Sério? Então o cão virou-se contra o dono. Um pensamento engraçado.

- Eu não estava a falar de um cão, Prof. Raeder, estava a falar de um homem.

Badel - disse o professor -, se deseja continuar a viver, não me aborreça. A sua existência depende de mim e de Vanessa.

Mantenha-a feliz, convenças a cooperar, e viverá. Faça-me o favor de não esquecer isso. Espero não precisar de lho lembrar.

Quasímodo voltou da cozinha com um jarro de água.

- Dá-me isso! - disse Janine. Com um sorriso malévolo, entornou metade da água sobre Vanessa. Ela levantou-se, tossindo e gaguejando.

- Olá de novo, pequena! - disse Janine. - tiveste um dia tremendo, hem?

- O que fizeste foi bastante supérfluo - disse Reader. - De futuro não farás absolutamente nada sem a minha autorização. Vanessa deverá tornar-se um membro voluntário do nosso dedicado grupo. Até agora tudo o que fizeste foi agredi-la. Olha que estás mais perto dos eléctrodos do que pensas!

Janine sentou-se, amuada, pálida, resmungando.

Vanessa olhou para Denzil Ingram, estremeceu, depois encontrou os olhos de Roland, onde se podia ler angústia. Ela pensou que, sem dúvida, o mesmo se poderia ler nos seus.

- Estás bem, Roland?

- Claro que está bem, miúda - cortou o professor. - Tudo o que fiz foi eliminar um dos teus inimigos, devias estar-me grata por isso.

Encharcada, com frio, miserável, exausta, Vanessa conseguiu confrontar o Prof. Raeder com coragem.

- Não lhe estou grata por absolutamente nada. Odeio aquilo que fez e sei agora que o senhor é monstruoso. Se eu tivesse sabido que ia ser a causa de tanta tragédia, teria ficado em Random Hill e feito tudo o que me tivessem pedido.

O Prof. Raeder sorriu.

- Bem falado. Claro que discordo da tua análise acriançada, mas gosto do teu espírito. - Olhou para Janine e Quasímodo.

Tem de se trabalhar com o material disponível, o que às vezes é desesperante... No entanto, estou confiante de que te tornarão tolerante, Vanessa. Juntos, conseguiremos grandes coisas.

- Se o senhor pensa que eu estou disposta a ajudar alguém que é capaz...

Acho que tu vais ajudar, sim. - Raeder levantou a pistola mais uma vez e apontou-a à testa de Roland. - Acho que vais ajudar, quer ele viva, quer ele morra.

Vanessa e Roland olharam um para o outro. Os olhos dele pareciam curiosamente distantes, quase como se ele de repente se tivesse tornado um desconhecido.

- Penso - disse ele suavemente - que será melhor para ti que eu permaneça vivo.

Vanessa soltou um grande suspiro, de derrota e miséria.

- Ainda bem que resolvemos o problema amigavelmente - disse o Prof. Raeder com ironia. - E agora devemos apressar-nos a sair daqui, antes que os outros cães voltem. Temos um longo caminho a percorrer, mas asseguro-vos que o meu hovercar está bem equipado. Vanessa, sugiro que te mudes para umas roupas secas. Uma constipação ser-me-ia nesta altura algo prejudicial. Poderias talvez também embrulhar algumas coisas pessoais para ti e para o Dr. Badel. Janine vai ajudar-te. Sabes, vamos para um lugar onde as possibilidades de fazer compras são, lamento, um pouco restritas.

As montanhas escocesas - disse Vanessa sem interesse. - Era para aí que queria que eu fosse, não era?

- Ah, sim, ainda bem que recebeste a mensagem. Nós tentámos, claro, provocar-te um padrão compulsivo, mas tínhamos pouco tempo disponível.

Quasímodo olhou para Roland.

- Professor, vamos limpá-lo. Ele é só problemas, acabo de o sondar. Além disso gostava de o ver morrer, deixa-me lá...

- Mas que criança mais sedenta de sangue - observou o professor. - Talvez te venha a fazer a vontade, mas não agora. Não estás a perceber nada, Quasímodo. Enquanto Vanessa viver e estiver fora de perigo, o Dr. Badel será muito prestativo. Enquanto o Dr. Badel tiver e estiver fora de perigo, Vanessa será muito prestativa. Não poderíamos ter um compromisso mais satisfatório... Concorda com a minha análise, Dr. Badel?

- Sim, Prof. Raeder. Eu usaria outras palavras, mas a situação é essa.

- Estou satisfeito por termos chegado a um acordo. A propósito, espero que a sua casa esteja no seguro, Dr. Badel, pois tenciono pegar-lhe fogo quando nós sairmos. Não vai confundir muito os esbirros, infelizmente, mas vai certamente atrasá-los. Eles terão de fazer análises por peritos e toda a espécie de observações, especialmente depois de encontrarem o corpo carbonizado. A lei é uma chatice, mas às vezes as chatices podem ser úteis. Nós vamos seguir os noticiários e mantê-lo-emos informado.

- Prof. Raeder - disse Roland -, acho que não poderia estar nas mãos de um homem mais atencioso.

Raeder sorriu.

- Ainda bem que vê as coisas desse modo, Dr. Badel.

 

                   CAPÍTULO 18

Jenny e Simon Pargetter estavam de volta ao seu apartamento, tentando ajustar-se ao que lhes acontecera, tentando ajustar-se às ameaças que lhes fizeram, ao acordo que celebraram.

Sentiam-se como almas perdidas, como prisioneiros em liberdade condicional. E, talvez por causa das sondagens forçadas, de toda aquela humilhação, do facto amargo que foi terem de comprar as suas vidas e a vida de Vanessa com a promessa do silêncio (ou pelo menos nisso tentavam acreditar), sentiam-se estranhamente pouco limpos.

Simon, ainda jovem e atraente, apesar de ter já passado a idade crítica dos quarenta, tivera uma vida mais resguardada que a de Jenny. Encontrara quase automaticamente um emprego bem pago que lhe permitira viver com algum luxo. A liberdade era uma coisa que ele sempre sentira sem se dar conta disso. Independentemente do que acontecesse aos pobres, aos presunçosos ou aos demasiado ambiciosos, ele e os seus sempre puderam levar uma vida satisfatória e sem restrições. Eles, os da classe média superior, o estrato administrativo, foram habituados a aceitar a segurança e a liberdade como uma espécie de direitos que já lhes assistiam desde o nascimento.

Pela primeira vez na sua vida defrontara o poder da autoridade despersonalizada. Fora confrontado e submetido a um poder a que não podia resistir, que não podia comprar, com quem não se podia fazer um acordo. O efeito disto era traumático; descobrira, pela primeira vez, que não era livre e que não estava em segurança.

Ele gostava de beber em sociedade. Gostava de um bom vinho às refeições, de um bom brande com o seu café. Mas não era um alcoólico, ou pelo menos não o fora até agora. Quando se servia do seu quarto uísque, que ia beber puro, Jenny reparou no nível da garrafa e tomou atenção aos sintomas clínicos.

- Acho que o melhor é juntar-me a ti, Simon. Se vais ficar zangado com a grossura, então tenho de me pôr nas mesmas condições. Assim, nenhum de nós reparará em como o outro é estúpido ou repulsivo!

- Querida, desculpa-me, eu devia estar a animar-te! Mas, como vês, primeiro tenho de me animar a mim, ou então tenho de ficar suficientemente tonto para não me importar muito. - Encheu um copo para ela. - Queres gelo? água? Soda?

- Assim como está, querido, tenho de te apanhar.

Ele passou-lhe o copo sem insistir.

- O problema é que, com gente como Ingram, como podemos nós ter a certeza de que ele diz a verdade? Para ser bem sucedido nesta espécie de emprego, tem de se estar pronto para obter resultados a qualquer preço.

Jenny engoliu um grande gole de uísque e depois soltou uma gargalhada.

- Sempre suspeitei que por debaixo do teu aspecto bem disposto se escondia um homem de ideias. Não, esquece isso, querido, eu não quero armar-me em chata... É claro, não podemos ter a certeza do que Ingram prometeu. Mas a única maneira de podermos sair daquele lugar infernal parecia ser fingirmos aceitar o negócio dele conforme ele nos oferecia...

- Portanto, mantém-se a possibilidade de eles eliminarem Vanessa, e também nós, como possíveis fontes de comprometimento político.

- Sim, acho isso muito possível. - Jenny acabou a sua bebida.- Dá-me mais, por favor.

Simon encheu ambos os copos.

- Então temos de fazer planos de contingência!

- Planos de contingência! Que linda expressão administrativa!

Como é que fazemos planos para a contingência da nossa morte, Sr. Executivo? Compramos mais seguros?

- Sê construtiva, querida. Se nós estamos para desmaiar depois de uma sessão de uísques ou acordarmos de manhã em frente de uma personagem anónima pronta a encher-nos a cabeça de buracos laser, precisamos de ser construtivos.

Jenny sorriu.

- Essa é uma boa palavra. Gosto dela, é uma palavra que dá confiança. Mas como podemos nós ser construtivos, Simon? O tempo passa depressa.

Simon coçou a cabeça.

Uma precaução imediata seria escrevermos tudo o que sabemos e depositar o depoimento no banco, para ser publicado no caso de morrermos.

- Eu acho que os rapazes de Joe Humboldt descobririam uma maneira de corromper o banco incorruptível.

- Então também mandaremos os depoimentos aos nossos advogados!

- Com os advogados, idem - Tomou outro grande gole.

- Gravaremos os depoimentos e mandaremos uma cópia a cada um dos nossos amigos, com instruções sobre o que fazer.

- Detestas tanto os nossos amigos para pô-los assim em risco?

- Caramba, temos de fazer qualquer coisa! - queixou-se ele.

- Sim, temos de fazer qualquer coisa. - Jenny estendeu o seu copo vazio. - Dá-me outro, e depois leva-me para a cama e fornica-me até eu perder a cabeça, se ainda conseguires. Faz-me isso para que não possa sentir, pensar, ou permanecer consciente. Dá-me o esquecimento de que preciso... Querido Simon, amo-te, e lamento ter trazido tudo isto sobre ti!

Ele beijou-a.

- Também te amo, Jenny. Depois de todos estes anos, continuas a ser uma mulher excitante. Não precisas de pedir desculpa por Vanessa.

- Não estou a pedir desculpa por Vanessa... Estou a pedir desculpa por mim própria. Segundo um poeta já morto há muitos anos, talvez Andrews MarvelI, a sepultura é um local óptimo e privado, mas parece que lá ninguém faz amor. Vamos para a cama.

- Eu também quero. Mas que fazemos quanto a Denzil Ingram?

- Esquece Denzil Ingram. Vamos para a cama e tentar fazer amor. Se não conseguirmos, podemos pelo menos agarrar-nos com muita força...

- Querida, nós não podemos simplesmente despachar este problema.

- Nós não podemos. Alguém já o fez.

- Como é que sabes?

Jenny bebeu mais um uísque.

- Como é que achas que sei... Pobre Vanessa! Parece que estou a ficar cada vez mais sincronizada com ela. É uma coisa que desejo, mas é uma coisa terrível. Vem para a cama, que eu conto-te.

Subitamente, a esperança passou pelo rosto de Simon.

- Então, se Ingram está morto, nós podemos estar...

Lentamente, Jenny abanava a cabeça.

- Pensa, isto não funciona assim. O rei morreu: viva o rei. Aperta-me bem, Simon. Bate-me, maltrata-me, faz amor comigo, mas aperta-me bem! Tenho de provar que sou eu própria, Jenny Pargetter, preciso de saber que estou viva!

Sir Joseph Humboldt, como de costume, tomava o seu pequeno-almoço no seu quarto no número 11. O da Downing Street. E, como de costume, enquanto comia ia discutindo os assuntos do dia com Dick Haynes, o seu secretário privado.

- Com que então, o Tom Green tem outra pergunta parlamentar horrorosa para me pôr, não é?

Sir Joseph comia o seu pequeno-almoço habitual de salsichas, bacon e ovos. Afundava as salsichas em ketchup até elas parecerem iscos de pequenos roedores perversamente cozinhados vivos e então espetava-as com o garfo e mastigava-as com um prazer evidente.

Hayries susteve um arrepio. O seu pequeno-almoço consistia em café, uma torrada e uma toranja.

- Sim, senhor. Pergunta quarenta e dois: "Perguntar ao primeiro-ministro, que já garantiu à Câmara que Vanessa Smith, alegadamente detida na Escola Residencial de Random Hill, não existe, se ele sabe que Dugal Nemo, também interno em Random Hill, se suicidou por ter sido sujeito a coacções."

Sir Joseph abocanhou o último pedaço de salsicha e por um momento demonstrou satisfação.

- Dois pelo preço de um, Dick. Gosto de Tom Green, é um grande lutador. Mas certamente terá de ser travado... Então Ingram morreu?

- Sim, senhor.

- E Vanessa Smith fugiu?

- Sim, senhor.

- E agora temos o embaraço adicional provocado por esta criança chamada Dugal Nemo. É uma situação muito delicada, não me agrada nada... Não poderíamos provar que Dugal Nemo nunca existiu?

- Poderíamos, sim, senhor, mas não é aconselhável.

Sir Joseph teve um sorriso frio.

- Sim, estou a percebê-lo, não devemos perder credibilidade... Bem, e será que não poderíamos provar que foi um acidente?

- Senhor, o rapaz enforcou-se numa casa de banho... Pelo menos, foi o que me disseram.

- Estou a perceber.

Depois de acabar com as salsichas, Sir Joseph atacou metodicamente o bacon.

- Temos ainda a possibilidade de assassínio, suponho, seria mais aceitável que a de suicídio... Se Dugal Nemo tivesse sido assassinado, poderíamos parecer muito preocupados com a justiça, se, é claro, pudéssemos descobrir um assassino.

- Isso seria muito difícil, senhor - disse Haynes sem entusiasmo. - Sobretudo porque é evidente que não se trata de um assassínio.

Sir Joseph olhou para o seu primeiro-secretário.

- Dick, você não é parvo, senão não estaria a ocupar o seu presente posto. Tem-me servido bem, e uma promoção espreita já na esquina mais próxima. Mas isso depende do êxito da minha política e do meu Governo. Sabe que em política às vezes temos de ser capazes de fazer coisas que nos são pessoalmente repugnantes. Somos servos da nação, Dick. É uma responsabilidade pesada. Como pessoas privadas, podemos prezar muito a liberdade do indivíduo. Como pessoas colocadas no Poder, é nosso dever considerar acima de tudo a segurança do país. Estou a fazer-me entender?

- Muito lucidamente, senhor.

Haynes odiava-se a si próprio, odiava a sua fraqueza. Odiava o facto de o primeiro-ministro saber que ele era ambicioso e usar esse conhecimento. Mas que poderia fazer?

- Muito bem, então - continuou Sir Joseph. - Suponhamos, no entanto, que era politicamente necessário para nos arranjar aqui um caso de assassínio. Quem é a pessoa mais indicada para desempenhar o papel de assassino?

- O Dr. Lindernann - disse Haynes, odiando-se ainda mais. - Foi a pessoa que arrombou a porta da casa de banho e encontrou o corpo de Dugal Nemo.

- Ele é a pessoa que alega ter arrombado a porta... - corrigiu Sir Joseph, molhando na gema do seu ovo um pedaço de bacon. - Quem é o Dr. Lindernann? Que faz ele?

- Ele tem uma alta-reputação, senhor. Está encarregue do grupo de crianças paranormais a que pertenciam tanto Dugal Nemo como Vanessa Smith.

- O facto de duas crianças das suas crianças-prodígios se terem tornado grandes fontes de aborrecimentos políticos não ajuda muito a sua reputação. Poderia ele ser um elemento subversivo?

Haynes inquietou-se.

- Segundo estes registos - disse ele, desconfortável -, isso seria uma coisa difícil de provar.

- Mas não impossível?

- Não senhor, não é impossível. Existem pessoas no Departamento que poderiam arranjar...

- Poupe-me os pormenores, não quero saber. Se ele fosse um elemento subversivo e, talvez, um pervertido sexual, pondo-o em tribunal poderíamos ser vistos como os defensores dos direitos das crianças dotadas. Isso seria uma vantagem. Nós precisamos de recrutar talentos paranormais, mas estamos preparados para criar problemas aos que puserem os portadores em perigo...

- Senhor, há uma dificuldade. Se o Dr. Lindernann vai a tribunal, defender-se-á revelando toda a verdade sobre Vanessa Smith. Chamará testemunhas de Random Hill, e...

- Não se lhe oferecermos um negócio - disse Sir Joseph imperturbavelmente. - Precisamos da sua confissão, precisamos da sua culpa, mas ele precisa da sua vida. Pelo menos, assim o imagino. Isso é uma coisa que nós teremos de verificar antes de chegarmos a uma conclusão. Mas, supondo que preza a sua vida, deverá ser fácil fazermos um acordo. Se ele confessar ser um agente, digamos dos Chineses ou dos Russos, ou mesmo, por exemplo, de uma nação africana

em crescimento, damo-lhe a sentença máxima em público, mas combinamos trocá-lo por alguns espiões britânicos inexistentes assim que o assunto sair das primeiras páginas. Se ele preza de facto a sua pele, aceitará o negócio.

- E nós honraríamos a nossa palavra, senhor? - perguntou Haynes displicentemente.

- Claro que sim - disse Sir Joseph, terminando o seu ovo.- Deve-se sempre honrar a palavra dada, a não ser que as circunstâncias exijam o contrário. Em todo o caso, ainda há dois pontos preocupantes. Não posso compreender porque é que um homem como Ingram, cheio de experiência, falhou a sua missão tão desastradamente. Ele tinha autoridade para usar toda a força que fosse necessária, o seu falhanço inquieta-me. O outro problema é: quem passou a notícia da morte de Dugal Nemo?

- Ambos os mistérios estão a ser investigados primeiro-ministro.

- Já tem alguns resultados?

- Não, senhor.

- Quem dirige Random Hill?

- O Prof. Holroyd, senhor. Um académico distinto.

- Temos a ficha dele?

- Claro, senhor. É um homem muito distinto, foi um dos quatro que pegaram no assunto onde Rhine chegou e avançaram através da barreira psíquica. Na sua juventude fez várias contribuições significativas à ciência da remodelação de personalidades. O seu posto presente é quase apenas honorífico. Oficialmente é responsável pelo programa de desenvolvimento dos paranormais na Escola, mas na prática é apenas um disfarce para pessoas como Lindernann... É muito velho, senhor.

- Hum... Sabemos alguma coisa sobre as suas inclinações políticas?

Haynes sorriu.

- Ele é inofensivo, senhor, está quase senil. Um liberal da velha-guarda.

- Não me diga! - disse Sir Joseph, coçando o queixo., - Os liberais da velha-guarda, supostamente quase senis, têm uma assustadora capacidade para morder... Agora sei como é que a noticia da morte de Dugal Nemo chegou a Tom Green. Mande eliminar o Prof. Holroyd.

- Mas, senhor, nós não podemos destruir um homem apenas baseado numa hipótese!

Sir Joseph passou um guardanapo pelos lábios.

- Podemos, se eu assim o disser, Dick. A minha preocupação é a segurança do Reino. Vamos tratar de reduzir as incertezas. O Prof. Holroyd deve ser eliminado. Então veremos quanto tempo duram as munições de Tom Green.

 

                     CAPÍTULO 19

Quando Vanessa acordou, sentiu-se dormente, fria e esfomeada. Por uns momentos não conseguiu ter ideia nenhuma de onde estava ou do que se passara. Depois, os acontecimentos da noite anterior voltaram a si. Lembrou-se de ter as mãos amarradas e de ser empurrada para fora da casa, juntamente com Roland, para a tranquila noite de luar. Lembrou-se de ter podido estar de pé por uns segundos, sobre a erva húmida, antes de a terem empurrado para dentro do grande hovercar de safari do Prof. Raeder.

A Lua parecera-lhe bela, as estrelas pareceram-lhe belas; e a casa onde ela encontrara um breve santuário parecia uma casa encantada. Se ao menos lá tivesse podido ficar para sempre! Se ao menos pudesse queimar até à extinção os poderes paranormais que lhe haviam trazido tanta miséria!

O Prof. Raeder, de pistola laser em punho, empurrou-os para a parte de trás do hovercar, enquanto Janine e Quasímodo, obviamente divertidos com a sua tarefa, espalhavam os combustíveis que destruiriam o único lar que Vanessa alguma vez tivera.

O fogo depressa cresceu e dominou completamente a casa. Enquanto ela observava as chamas lamberem avidamente a sala e o quarto, com a porta da frente aberta para aumentar o arejamento, Roland tentou dizer-lhe qualquer coisa; mas não conseguiu. Soltou um grande suspiro, e a sua cabeça afundou-se no peito, sem sentidos. Então Vanessa sentiu uma ligeira picada no seu braço, depois do que ouviu o Prof. Raeder dizer, como que de muito longe: "dorme bem, Vanessa. Invejo-te, para mim só há agora trabalho a ser feito, decisões a tomar. E os teus esforços só serão necessários mais tarde..."

Depois caiu no vazio. Até que acordou, miserável e esfomeada, numa cama estreita, num quarto pequeno com barras na janela. Estava completamente vestida, mas tinham estendido sobre ela uma colcha. Levantou-se, retraindo-se com dores no corpo, e aproximou-se da janela.

Tudo o que podia ver através da janela eram algumas nuvens felpudas e iluminadas pelo sol, em baixo um pedaço de chão bravio, que em tempos talvez tivesse sido um jardim e uma muralha de pinheiros altos e densamente dispostos. Deixou-se a ficar a olhar pela janela por um pedaço, à procura de vida, de movimento; mas apenas via o céu, floresta, erva e algumas flores silvestres. Deixou-se ficar quieta a ouvir, mas nenhum som chegou até ela, nem da casa.

Então foi à porta, e tentou abri-la com a maçaneta, mas estava trancada. Lembrou-se de bater nela ou de gritar, mas mudou de ideias, e sentou-se na cama. Precisava de saber qual era a melhor coisa a fazer.

O Prof. Raeder, por muito louco que fosse, e mesmo outras coisas, parecia ser o tipo de homem que prestava muita atenção aos pormenores. Sem dúvida que Roland estava fechado num quarto semelhante àquele, também pensando no que seria melhor fazer.

Ela fechou os olhos, formou uma imagem mental de Marius Raeder, tacteando por um contacto e tentou uma sonda-relâmpago.

Então ouviu uma gargalhada, disfarçada mas clara, que parecia vir do centro do quarto. Abriu os olhos assustada, quase esperando ver Raeder. Mas ele não estava lá.

- Boa tarde, Vanessa! Eu devia ter-te avisado de que uma das regras da casa diz que é proibido sondar a minha mente. A transgressão desta regra pode dar direito a um castigo algo doloroso. Mas tu és nova aqui, e deve ser-te perdoada uma ou outra indiscrição. Descansaste bem?

- Onde está o senhor?

- Noutro lugar, como é óbvio. É tudo o que precisas de saber. Eu posso ver-te a ti, mas tu não me podes ver a mim. - E ouviu-se de novo a cínica gargalhada. - Espero que gostes do teu quarto, Vanessa. Escolhi-o para ti pela beleza da vista. Por favor, não te esqueças de que estás sempre a ser observada, isso pode ajudar a inibir-te de actos idiotas.

- Onde está Roland? - Ela sabia que era um erro essa pergunta, denunciar a sua preocupação, mas não o conseguiu evitar.

- Que comovente! - observou o professor. - A tua primeira preocupação é saber se ele está bem. Isso quase me faz recuperar a fé na natureza humana. Não te preocupes, pequena, não sou nem um monge. O Dr. Badel ainda dorme, no seu quarto. Nada de mal lhe aconteceu, e nada lhe acontecerá se tu colaborares.

- Por quanto tempo nos tenciona ter aqui?

- Não por muito tempo, minha querida. Pelo menos, assim espero. Isso depende também da tua capacidade, da quantidade de telergia que fores capaz de conter e de focalizar. Devo dizer que tenho muito altas expectativas em relação a isso. O teu perfil psicológico é único. Tu és extraordinariamente receptiva, e eu duvido que exista outro paranormal com a tua capacidade em toda a Europa... Bem, se os teus poderes forem tão impressionantes quanto penso, tu e o Dr. Badel serão livres para seguir o vosso caminho muito em breve.

- Que é a telergia?

- Essa agora! Estou a ver que eles não se preocuparam muito com a tua educação em Random Hill... Mas não te inquietes, Vanessa, muito em breve teremos uma lição, e tudo te será explicado.

- Estou com muita fome, e também com bastante frio.

- Tens um regulador de temperatura ao lado da cama, é muito eficaz. Podes fazer do teu quarto um frigorífico ou uma sauna, se quiseres. Janine vai já levar-te comida.

- Quando é que posso ver Roland?

- Quando for a hora da lição, minha querida, assim que tiveres comido e estiveres de novo em forma. Vamos todos reunir-nos, e vocês vão conhecer os outros membros do nosso pequeno grupo. Tenho a certeza de que os vão achar todos muito simpáticos e razoavelmente sociáveis.

- O senhor está louco, Prof. Raeder! - Assim que acabou de dizer, arrependeu-se. Esta não era a melhor maneira de ela se ajudar e a Roland.

Mas o Prof. Raeder estava divertido.

- Minha querida Vanessa, como é que se define a loucura objectivamente? Parafraseando Bertrand Russell, um filósofo de algum mérito, eu sou imaginativo, tu és excêntrica e ele é completamente maluco... Não tenhas receios, pequena. A minha loucura" se o é, é uma loucura contida. Só te exijo pequenos serviços; se tu os prestares com o máximo das tuas capacidades, serei suficientemente louco para vos libertar, a ti e ao Dr. Badel... Bom, então até à nossa lição!

 

                     CAPÍTULO 20

Escureceu antes de Vanessa sair do seu quarto. Janine veio buscá-la, mostrando-se desagradada, tratando-a com desprezo, tal como no seu primeiro encontro físico. Por qualquer razão que Vanessa não conseguia compreender, Janine parecia mesmo desprezá-la. Ela tentou uma sonda-relâmpago. Janine esbofeteou-a com toda a força, e, deliciou-se com a marca vermelha que apareceu rapidamente na face de Vanessa.

- Portanto agora já sabes, miúda!

- Sim, agora já sei.

Não era desprezo, era apenas ódio. Janine pensava que Vanessa era bonita e que ela era feia.

- Eu posso não ser uma boneca falante, miúda, mas tenho melhores mamas que tu, e respondo melhor. Sei tudo sobre o assunto...

Vanessa aguentou as lágrimas, determinada a não chorar.

- Sim, tenho a certeza de que sabes tudo sobre o assunto. Eu, de facto, sei muito pouco, não há muito tempo para aprender... Temos mesmo de ser inimigas, Janine?

Janine riu-se.

- Sim, pequena, nós somos inimigas naturais. Nada pode mudar isso. Vou roubar-te o teu Roland, de uma maneira ou de outra. E agora é melhor vires lá para baixo comigo, o Professor não gosta de esperar.

Vanessa foi levada para uma grande sala, apenas iluminada por dois candeeiros, cuja luz chegava à justa para que tudo e todos fossem vistos claramente. A mobília era antiga, bastante usada e confortável. Uma das paredes estava quase completamente coberta por estantes bem recheadas. Num dos cantos da sala havia vários aparelhos electrónicos, alguns dos quais Vanessa reconheceu como sendo semelhantes aos que o Dr. Lindernann usava para testar a intensidade das transmissões telepáticas e o nível de recepção.

Havia também um grande sofá, várias cadeiras e duas mesas pequenas.

Roland estava sentado num cadeirão confortável e parecia bastante descontraído. Tinha as mãos desamarradas. O Prof. Raeder ocupava uma cadeira de espaldar alto, em frente a ele.

Quasímodo estava estirado num cadeirão perto de Roland; um rapaz adolescente e magro ocupava por sua vez uma cadeira do outro lado; no sofá estavam deitadas, despreocupadamente, duas estranhas crianças, um rapaz e uma rapariga.

- Vanessa! - disse o professor num tom sedoso. - Que bom, já te nos juntaste. - Havia uma pistola laser na mesinha ao lado da sua cadeira. - Acabei de explicar os nossos dispositivos de segurança ao Dr. Badel, e ele esteve muito atento. Para teu bem, vou repeti-los rapidamente. A casa está completamente rodeada de minas, que posso activar ou desactivar electronicamente. Talvez nem valha a pena dizer que, uma vez que estamos já todos aqui reunidos para o que poderemos chamar a sagrada comunhão - permitiu-se uma rápida gargalhada -, as minas vão permanecer permanentemente activadas até que levemos o nosso projecto a bom termo. Escusado será dizer que tanto tu como o Dr. Badel ficarão sob vigilância permanente. Mas se, por acaso, um de vocês se aventurar sem autorização para fora desta casa, voará em pedaços. Isto seria uma coisa lamentável, mas tem de se tomar as precauções elementares. Em todo o caso, tendo cumprido estas formalidades desagradáveis, deixem-me assegurar-lhes que a vossa estada connosco será mutuamente compensadora.

- Quando nos poderemos ir embora, Prof. Raeder? - Enquanto falava, Vanessa lançou um olhar a Roland; os seus olhos estavam estranhamente ausentes.

- Assim que o nosso propósito for alcançado, Vanessa, o que não deverá demorar muito. Permite-me que te apresente os teus colegas, aqueles que ainda não conheces... O jovem sentado ao lado do Dr. Badel é Alfred, com quem me parece que te irás dar bem. É um jovem com bom feitio e bastante bom a erguer e a quebrar barreiras mentais. Os nossos jovens amigos sentados no sofá são Robert e Sandra. Robert tem algum talento em sugestão telepática e Sandra, nos seus dias bons, é capaz de tele-hipnose. Temos de ser algo pacientes com Sandra, pois ela ainda não aprendeu a usar os seus poderes propriamente... Janine e Quasímodo já tu conheces e já aprendeste a gostar deles, portanto o nosso pequeno círculo está completo.

Roland falou:

- Prof. Raeder, Vanessa e eu estamos ao corrente dos seus objectivos, e a minha opinião profissional é a de que o senhor é louco. Mas será que estas... estas crianças compreendem os riscos em que o senhor as pretende envolver?

- Estas... estas crianças - repetiu o Prof. Raeder com alguma ironia - são mais velhas do que parecem. Compreendem perfeitamente as implicações do meu projecto, e aprovam-no. A sociedade foi dura para com elas, Dr. Badel. A sociedade rejeitou-as, e depois decretou que elas não passariam de instrumentos do Estado. Eu devolvi-lhes a sua individualidade, e elas estão dispostas a ajudar-me a mudar o presente estado das coisas e obter um regime mais flexível em que elas possam desabrochar.

Quasímodo arreganhou-se e completou cinicamente:

- Cresce, grande estúpido! Tu a falar de riscos! Tu devias ser esperto, e afinal não sabes nada. Todos acabamos por ser esmagados, mais tarde ou mais cedo, acontece sempre. Esmagados. Tenho estado na mó de baixo, agora vou para a mó de cima. O Professor toma conta de nós. Ele sabe o que nós queremos e vai fazer que a gente o consiga, portanto vai-te lixar!

O Prof. Raeder exultava.

- A filosofia é um pouco crua, mas Quasímodo tem uma certa eloquência primária, Dr. Badel. Não me parece que o recrute facilmente para as legiões do pacifismo. - Olhou para o relógio. - E agora tenho uma guloseima para todos nós. Devido ao turbilhão político recentemente levantado, imagino que pela fuga de Vanessa e pela morte subsequente de um rapaz chamado Dugal Nemo, em Random Hill, Sir Joseph Humboldt vai falar à nação sobre o seu decreto sobre a segurança do Estado. Daqui a aproximadamente quarenta e oito horas ele estará morto. Concedemo-lhe, portanto, de uma forma cortês, atenção no que, provavelmente, será o seu último discurso público. Alfred, por favor traz-nos a tridi grande e coloca-a de modo a que todos possamos ver bem. Dentro de cerca de quarenta segundos, o primeiro-ministro vai sem dúvida comover-nos com a nobreza dos seus propósitos.

Obedientemente, Alfred deixou a sala e voltou pouco depois com um grande tridi que estava montado num carrinho e que obviamente não precisava de uma fonte de energia exterior. Colocou-o de maneira a todos poderem ver de uma boa posição.

- Um pouco de caramelo? - sugeriu Quasímodo, esperançado.

O professor franziu as sobrancelhas.

Mais tarde, criançola. Caramelo parece-me bastante impróprio para o momento... Primeiro canal, Alfred, e por favor tenta obter uma nitidez perfeita. Penso que é importante que todos possam ver Sir Joseph Humboldt com muita clareza,

Alfred ajustou os botões. O locutor, que já estava a apresentar o primeiro-ministro, pareceu materializar-se como um perfeito e real manequim, quase com um metro de altura. Era como se estivesse de facto naquela sala. Então as câmaras viraram-se para Sir Joseph Humboldt, que estava sentado à sua secretária no número 10 da Downing Street. Parecia muito calmo, muito confiante, muito seguro.

Boa noite - disse ele. - A todos, independentemente da raça, credo ou ideologia política, nesta nossa ainda bela ilha, desejo uma boa noite. Falo-vos, claro, na qualidade de vosso primeiro-ministro e de vosso primeiro servo, mas preferia falar-vos como um amigo. Portanto, vamos esquecer-nos dos assuntos da política interna, eu estou de bom humor. Deixem-me falar-vos como um amigo, peço-vos. Não estou à procura de votos, nem de qualquer recompensa para mim. Estou a tentar cumprir o meu dever como um amigo dizendo a verdade.

- Esplêndido! - exclamou o Prof. Raeder. - Ele fala realmente bem, não acham?

Sir Joseph tirou uma rosa de um vaso que estava sobre a sua secretária e mostrou-a na sua mão. Era uma rosa vermelha, desabrochada, belíssima. Aproximou-a do nariz e cheirou-a, estaticamente.

- Uma rosa inglesa, meus amigos. Não é maravilhosa? Mas estas rosas, para desabrocharem, têm de ser protegidas.

Afastou-a então um pouco de si e as pétalas começaram subitamente a murchar.

- Um truque, meus amigos, um simples truque. Apenas coloquei a rosa no caminho de um feixe de radiação infravermelha. Vocês não podiam ver o feixe, nem tinham meios para saber que ele estava lá, pois a radiação é invisível.

Pegou noutra rosa e colocou-a na mesma posição, ao mesmo tempo que com a outra mão segurava um escudo transparente. A rosa conservou-se bela e fresca.

- Como vêem, o escudo protege a rosa... Detesto ver a destruição de rosas. Como muitos de vocês sabem, tenho rosas no meu jardim. Elas acalmam-me em alturas em que estou tenso... E sobretudo, meus amigos, repugna-me a destruição da rosa inglesa, e farei tudo o que estiver ao meu alcance para o evitar!

- Bravo! - exclamou o Prof. Raeder. - Um apelo ao coração! Ele é meio alemão como eu, claro.

- A rosa e o escudo são bons símbolos do assunto que gostaria de discutir convosco esta noite. Como sabem, foram recentemente desenvolvidas técnicas surpreendentes no domínio da psicologia. - Sir Joseph riu-se. - Como a maior parte das pessoas, não tento compreendê-las, deixo isso para os peritos. A telepatia tem-nos acompanhado talvez desde o nascimento do homem, mas só recentemente a ciência nos deu a possibilidade de desenvolver as técnicas para a explorar totalmente. Estou a usar a palavra "explorar" com algum receio, pois é uma palavra feia, e no entanto precisa. Através de toda a história da humanidade, as nações mais agressivas sempre usaram sem escrúpulos as descobertas científicas para atingirem os seus fins.

- O seu fim, Sir Joseph, está mais perto do que imagina! - gracejou o Prof. Raeder, esfregando as mãos.

- Uma vez foi a pólvora - continuava o primeiro-ministro -, depois foi a energia atómica, os mísseis intercontinentais e a exploração do espaço; agora é a telergia... energia telepática. Não preciso de vos nomear, e por razões diplomáticas não o vou fazer, as nações que procuram destruir o papel tradicionalmente civilizador da Grã-Bretanha nos assuntos internacionais. Será suficiente dizer que elas estão a explorar as novas descobertas, a telergia e o desenvolvimento dos poderes paranormais, como meios para fortalecer as suas próprias posições e para destruir a segurança dos outros. "É por isso que peço não apenas ao Parlamento mas a toda a nação para aprovar o meu decreto sobre a segurança do Estado. Deste modo poderemos recrutar todas as pessoas dotadas de talentos paranormais, onde quer que as encontremos. Elas serão o escudo que protege a rosa. Nos novos tipos de guerra psicológica que os nossos inimigos estão a desenvolver, tanto cá como no estrangeiro, os paranormais serão a nossa brigada de guardas, um corpo de elite que despertará o nosso respeito, devoção e gratidão. Tomaremos bem conta deles, que não haja dúvidas a esse respeito. Tomaremos bem conta deles, para que eles nos possam proteger e ajudar a manter a nossa liderança política na Europa, o lugar a que temos direito nos assuntos internacionais. Mas não é apenas no campo da segurança e da contra-espionagem que eles se mostrarão, e de facto já se estão a mostrar, de valor incalculável. Existem, felizmente, formas mais pacíficas, mais construtivas, de eles usarem os seus maravilhosos talentos: nas comunicações espaciais, na psicoterapia, no ensino, em reformas criminais, até mesmo em orientação matrimonial." Sei que muitos de vós estão preocupados por causa dos vossos filhos; sabem que equipas de cientistas do Governo já estão a visitar escolas por todo o país onde testam a capacidade paranormal das crianças. Receiam talvez que se o vosso filho mostrar algum talento, será levado para receber treino intensivo. "Deixem-me assegurar-vos de duas coisas. A primeira é que, para o talento paranormal ser desenvolvido ao máximo, deve ser descoberto o mais cedo possível e treinado por pessoal experiente. A segunda é que, em caso algum, uma criança será afastada dos seus pais. Neste país ainda temos uma grande reverência pela vida familiar, pelos laços familiares. E posso prometer-vos, com a minha mão sobre o coração, que os poderes que nós consideramos necessários para a segurança do Estado não serão abusados. Além disso..."

- Corta! - disse o Prof. Raeder. - Corta estes vómitos antes que eu fique com indigestão, Alfred.

E Alfred ordeiramente desligou o aparelho, a imagem tridimensional dissolveu-se. Houve um breve silêncio.

- Muito bem, Vanessa - disse o Prof. Raeder, alegremente -, este é o homem que nós em breve destruiremos. Este é o homem que, para atingir os seus fins políticos, anunciou publicamente que tu não existias. Foi este o homem que ordenou que o registo do teu nascimento fosse apagado, que ordenou que a tua mãe fosse submetida a um interrogatório humilhante e que decretou a tua morte. Suponho que até terás alguma satisfação em ajudar a eliminar este homem.

- Eu concordo com Roland - disse Vanessa calmamente. - Penso que o senhor está louco.

- Pronto, tens direito à tua opinião, pequena. O que quer dizer que precisas de um encorajamento para desempenhares o teu papel, não é? - O professor sorriu a Quasímodo, a Robert e a Sandra. - Estão prontos a harmonizar os vossos pensamentos, crianças? Já praticámos este exercício muitas vezes...

Quasímodo assentiu, com uma expressão de tédio.

- Sim, Professor, estamos prontos.

- Janine, tu vais reforçar a Sandra. Ajuda-a se ela vacilar. Alfred, tens de estar pronto para derrubar qualquer barreira que eventualmente se forme.

O Prof. Raeder voltou-se então para Roland.

- Dr. Badel, está prestes a participar de uma experiência muito interessante. Nós já a tentámos várias vezes com mamíferos pequenos e grandes, de uma forma bastante bem sucedida, mas ainda não tentámos no homem. Pessoalmente, tenho confiança no resultado...

"Alfred, Janine, Robert, Sandra, Quasímodo, agora fechem os olhos. Procurem-se, unam-se todos, descubram a vossa harmonia. Agora, estão todos juntos, só têm uma vontade... É a minha vontade... Vou contar até cinco, e então darei a minha ordem. Executem-na nesse mesmo instante, Um dois, três, quatro, cinco... matem o Dr. Badel!"

As palavras finais foram proferidas com grande ferocidade.

Vanessa olhava esgazeada os cinco paranormais, com os olhos fechados, com as faces subitamente vazias de expressão.

- Parem! - pediu ela fracamente. - Parem com esta coisa horrorosa!

- Agora já não é possível - disse o Prof. Raeder. - Cinco era a palavra final. Agora observa bem.

Roland Badel, extremamente surpreendido com os acontecimentos, tentou levantar-se da sua cadeira. Soltou então um grito estranho, debateu-se como se estivesse a ser agarrado por um adversário invisível e depois caiu de novo na cadeira. Os seus membros tremiam, aos repelões, os seus olhos estavam injectados. A sua garganta emitia sons estranhos, como se estivesse a engolir forçosamente. Então soltou um grande suspiro e ficou quieto, branco. Os seus olhos conservaram-se muito abertos.

- Bem, parece que o Dr. Badel já está clinicamente morto, Vanessa - disse o Prof. Raeder calmamente. - Pessoalmente, nunca tive dúvidas sobre o resultado, como disse, mas uma confirmação é sempre agradável. - Olhou para o relógio. - Tens cerca de três minutos para manifestar um entusiasmo total pela morte de Sir Joseph Humboldt.

 

                       CAPÍTULO 21

- Por favor! Por favor! - gritou Vanessa. - Que quer que eu faça? - Ela olhava à sua volta com horror, miseravelmente, incapaz de voltar a olhar para o corpo de Roland, para aqueles olhos sem vida, para aquela expressão fixa e terrível da sua face.

Os jovens paranormais voltaram a abrir os olhos. Alfred parecia intrigado, Janine tinha agora uma expressão petulante e Quasímodo concedeu um sorriso malicioso. Robert e Sandra olhavam com uma curiosidade sem limites para o corpo.

- Bom, conseguimos, Professor - disse Quasímodo. - Não custou nada, mesmo nada. Como nos estás sempre a dizer, tudo o que precisamos é de harmonia e vontade.

- Eu não duvidei da vossa capacidade, pequenos - disse o Prof. Raeder benignamente. - Mas o resultado não deixa de ser espectacular. Ver as próprias teorias confirmadas com tanta, tanta precisão, é muito agradável!

Sem saber bem o que fazia, Vanessa ajoelhou-se em frente ao Prof. Raeder.

- Por favor! Por favor, ajude-o! Faça qualquer coisa! Sei que pode fazer qualquer coisa! Por favor!

- Ainda pensas que sou louco, Vanessa?

- Sim! Não! Não sei, eu não sei nada. Por favor, ajude-o!

- Achas que um louco, uma pessoa sem a posse das suas faculdades mentais podia desenvolver uma técnica tão perfeita?

Ela inclinava-se de um lado para o outro, com as lágrimas a correr copiosamente.

- Não sei! Não sei! Por favor não me atormente mais, já sei que tem um grande poder... Devolva-lhe a vida! Eu faço qualquer coisa, mas devolva-lhe a vida!

- Mas que vaca tão fraquinha! - disse Janine. O Prof. Raeder silenciou-a com um olhar.

Então dirigiu-se a Vanessa.

- A morte é um fenómeno interessante - observou ele. - Consideremos o Dr. Badel. O seu coração parou e, em breve, as células do seu cérebro, sem oxigénio, entrarão num processo irreversível de degradação. Por outro lado, a sua barba continuará a crescer durante várias horas, e ainda vai demorar algum tempo até que os microrganismos do seu tubo digestivo sejam afectados pela falta do seu hospedeiro. Sem dúvida, a morte é um fenómeno interessante!

- Por favor! - gemeu Vanessa. - Já não posso suportar isto mais tempo. Ajude-o. Faço qualquer coisa que me pedir, seja o que for.

- Uma oferta tipo carta branca - observou o professor. - Que agradável! Eu nem pedia tanto... Farás exactamente como eu disser, Vanessa, independentemente de me achares louco ou de boa saúde?

- Sim, sim!

- Obedecer-me-ás em todas as situações, com precisão, com todos os pormenores, uma vez que sabes os poderes que posso usar se quiser.

- Sim! Por favor, Prof. Raeder, peço-lhe. Ajude-o!

O Prof. Raeder bocejou e olhou para o relógio.

- Não te esqueças da tua promessa, Vanessa, nunca te esqueças das consequências de a quebrares... Alfred, encontrarás uma pequena mala em cima da minha secretária. Por favor, traz-ma. Acho que sou suficientemente indulgente para dar a ressurreição e a vida. O falecido Dr. Badel ainda tem cerca de setenta segundos de pseudonorte, depois disso é capaz de ser uma coisa mais ou menos permanente.

Voltou-se para o corpo do Dr. Badel e, sem ligar ao olhar sem vida, começou cuidadosamente a desabotoar a camisa do morto. Vanessa continuou de joelhos, gelada, a olhar com uma expressão em que o horror estava misturado com a esperança.

Alfred trouxe obedientemente a mala. O professor abriu-a o suficiente para tirar dois fios cuidadosamente isolados, que estavam ligados a uma caixa dentro da mala, e que terminavam num pequeno disco de cobre do tamanho de uma moeda pequena. O Prof. Raeder inspeccionou uma escala visível através de um orifício aberto na mala, depois regulou com atenção um botão externo e então ligou um interruptor. Ouviu-se um pequeno zumbido.

- O estimulador cardíaco leva cerca de oito segundos a carregar - disse ele a Vanessa informalmente. - Idealmente, a pele do Dr. Badel devia estar húmida para uma condutividade máxima. Vou passar a corrente para o seu corpo neste e neste ponto. - Indicou pontos logo abaixo dos mamilos do morto. Dirigiu-se a Vanessa com um breve sorriso malicioso. - Talvez não te importasses de tocar nestas áreas com a tua língua. Se não quiseres, tenho a certeza que Janine nos fará esse favor.

Maquinalmente, Vanessa fez o que ele disse. Ficou invulgarmente surpreendida por a pele ainda estar tão quente, e espantada por ter reparado nesse pormenor.

- Obrigado - disse o Prof. Raeder. - Um mecanismo esplêndido, o coração. Tão simples, é uma bomba genialmente estudada.

Dá-se-lhe um pontapé e ele pára. Dá-se-lhe outro pontapé e ele recomeça a funcionar. Pelo menos assim o esperamos.

Premiu os terminais de cobre na pele que Vanessa humedecera.

Os membros de Roland sacudiram-se convulsivamente, o seu peito arquejou, as pálpebras tremeram. O Prof. Raeder retirou os terminais, mas o corpo voltou a ficar quieto, ainda sem vida.

- Que maçada! - disse o Prof. Raeder moderadamente. - O Dr. Badel parece relutante em voltar para junto de nós. Vou ter de aumentar a voltagem.

- Despache-se, por favor! - disse Vanessa. A expressão "processo irreversível de degradação" parecia ter sido escrita na sua cabeça com letras de fogo.

O Prof. Raeder consultou de novo a escala, ajustou o botão e ligou o interruptor. Olhou para Vanessa.

- Mais oito segundos, minha querida... Vais manter a tua promessa, sim?

- Vou manter a minha promessa. Se ele viver.

- E se ele não viver?

Ela levantou-se, os seus olhos chispavam.

- Vou matá-lo, ou então morrerei a tentá-lo. Odeio-o!

- Bom, pelo menos compreendemo-nos perfeitamente, como pensei que poderíamos. Eu preciso de ti e tu precisas de mim. Nunca te esqueças disso... E agora, não te preocupes mais, Vanessa, o Dr. Badel está prestes a voltar a si.

- O senhor não estava a tentar! - Vanessa olhou-o, com os olhos enormes de espanto.

- Pelo contrário, estava até a conseguir. Mas tratemos antes do nosso falecido amigo.

Mais uma vez, o Prof. Raeder aplicou os terminais, e de novo os membros de Roland se sacudiram, as suas pálpebras tremeram e o seu peito se convulsionou. Mas desta vez ele continuou a respirar quando os terminais foram retirados. O seu coração continuou a bater e ele voltou quase instantaneamente à completa consciência.

O Prof. Raeder sorriu.

- Seja bem-vindo, como dizem, à terra dos vivos!

Roland estava pálido e muito fraco, olhava à sua volta sem expressão.

- Por favor, não se mova nem faça qualquer esforço por um bocado, Dr. Badel. O seu coração, como deve saber, precisa de algum tempo para se ajustar. E para que a sua mente (ou deveria dizer cérebro?) possa ficar descansada, tenho o prazer de o informar de que a sua ressuscitação correu bem, dentro dos limites aceitáveis. Não haverá qualquer dano permanente.

- Então, gostaste de estar morto? - perguntou Quasímodo com um interesse malévolo. - Eu acho que gosto deste jogo! A gente podia continuar a matar-te e o Professor podia continuar a trazer-te de volta. Quanto tempo é que o jogo duraria?

Roland ignorou-o.

- Prof. Raeder, o senhor é um homem esperto e sem escrúpulos, e reduziu-nos a meros bonecos nas suas mãos. Mas mesmo o senhor deve compreender que não poderá escapar à justiça. Volte à realidade! O senhor já demonstrou um controlo da energia telepática sem precedentes. Publique um relatório das suas pesquisas e técnicas e será considerado como o maior parapsicólogo deste século. E deixe as coisas assim.

Vanessa afagou-lhe a testa e segurou-lhe na mão.

- Roland, por favor não o antagonizes mais, por favor. Já não posso suportar mais isto.

Roland suspirou.

- Que é que ele exigiu em troca da minha vida?

- Obediência absoluta, Eu prometi, e vou manter a promessa enquanto viveres.

- Pagaste demasiado caro pela minha vida, eu não valho tanto.

Por outro lado, já devias saber que o Diabo faz sempre batota nos seus negócios.

O Prof. Raeder riu-se.

- Pactos com o Diabo? Meu caro Dr. Badel, o trauma da morte distorceu obviamente o seu sentido das proporções, confio que o recupere depois de um bom descanso. Além disso, se o meu conhecimento da literatura e da mitologia não me está a enganar, o Diabo é precisamente conhecido por cumprir os seus contratos... à letra!... E agora, é minha opinião profissional, como sabe também sou formado em Medicina, que o senhor deve descansar bastante, por várias horas. O nosso Alfred vai levá-lo ao seu quarto, e eu irei lá mais tarde dar-lhe um sedativo leve. O coração é uma máquina curiosa mas vulnerável, assim como o cérebro. Interrompendo a sua função corre-se o risco de haver uma retroacção psicossomática. Mas é claro que o senhor sabe tudo isto, portanto, cama consigo, Dr. Badel.

- Amanhã, se não se importar, como primeiro homem a experimentar eutanásia telergética, talvez me queira fazer um relato subjectivo para o registo... Vamos lá, deixe-nos ajudá-lo a levantar-se. Por favor, deixe-me manter o meu pacto do Diabo com Vanessa não fazendo nenhum movimento brusco por uns tempos.

- Posso ir com ele? - perguntou Vanessa.

- Podes, pequena, mas quando te tiveres assegurado de que ele fica confortável, voltarás aqui. Tenho de te explicar exactamente o que precisamos fazer para conseguirmos a destruição de Sir Joseph Humboldt.

Quando Roland se tentou levantar é que percebeu como estava fraco. O trauma psicológico que experimentara estava agora a tornar-se visível. Explodiram gotas de suor na sua testa, e ele cambaleou como um bêbado, só suportado por Alfred e por Vanessa.

- Está a ver - disse o Prof. Raeder. - Isto foi um nada de mais para si, mas com uma boa noite de sono vai sentir-se como um novo homem. - Riu-se. - Sim, literalmente como um novo homem. Até breve, Dr. Badel.

Roland tentou dizer alguma coisa, mas ainda arquejava e sentia o seu coração bater descontroladamente, e não conseguiu formar palavras. Deixou então que Alfred e Vanessa o levassem para fora da sala. Ele tinha estado morto e agora estava vivo de novo. Mas a vida para a qual voltava parecia mais uma outra forma de morte.

joluso

 

                 CAPÍTULO 22

Quando Vanessa voltou para junto do Prof. Raeder, reparou que os outros haviam sido mandados embora. E Alfred, que vinha com ela, levou o mesmo destino.

- Espero que o Dr. Badel já esteja a descansar.

- Ele está na cama, Prof. Raeder. Não sei se está a descansar.

- Bom, eu depois vou tratar dele. Não precisas de ter medo, eu vou cumprir a minha parte do negócio. Ele vai ficar como novo.

- Como foi capaz de lhe fazer aquilo? Como foi capaz de fazer uma coisa daquelas? - Vanessa tremia. Tentou parar, mas não conseguiu.

O Prof. Raeder observou-a calmamente.

- Fúria. Cólera. Frustração. Tu até gostarias de me ver morrer horrivelmente já aqui à tua frente... Tudo muito natural, perfeitamente natural. Não te censuro... Mas tenta, ao menos tenta ver as coisas do meu ponto de vista, Vanessa. Estou prestes a livrar este país de um tirano, um tirano desprezível, que não olha a nada para atingir os seus fins. Ele ordenou a tua morte, Vanessa, não te esqueças disso.

- Um tirano, um tirano desprezível - ecoou ela, encontrando o olhar do Prof. Raeder. - Essa foi uma descrição muito exacta.

Ele sorriu.

- Estou a ver a tua piada. Mas há um velho adágio que fala em responder ao fogo com o fogo, não há? A diferença entre Humboldt e eu está em que eu não gosto dos métodos que sou forçado a usar; ele gosta... E agora, senta-te, pequena. Sei que é tarde e que deves descansar, mas há assuntos de que devemos falar ainda. Deves compreender claramente aquilo que eu peço de ti. Em breve, as tuas provações estarão terminadas e tu e o Dr. Badel serão livres de fazer o que quiserem. Foi necessário encenar esta pequena demonstração para te convencer e ao Dr. Badel de que devem colaborar comigo plenamente. Mais tarde, tenho a certeza de que ficarás contente de o ter feito.

- Mais tarde - disse Vanessa -, vou-me detestar a mim própria!

- Bom, terás esse direito. Mas vamos agora preocupar-nos com o presente. Tu és uma paranormal rara, Vanessa. Estudei os teus registos e descobri que tens o mais alto quociente de receptividade jamais testado, pelo menos neste país. Podes receber inserções telergéticas de vários paranormais simultaneamente, podes assimilá-las, armazená-las e emiti-las como e quando necessário. Tive acesso ao dossier sobre ti escrito pelo Dr. Lindernann. As suas experiências eram primárias, mas os resultados são fenomenais!

- Só fiz o que o Dr. Lindernann me pediu - disse Vanessa. - Não sei nada sobre inserções telergéticas ou sobre quocientes de receptividade.

- Pobre criança, nem há nenhuma razão para saberes, deixa as teorias para mim. Basta saberes que amanhã à noite, com a tua ajuda, destruirei Sir Joseph Humboldt. Tu serás o transmissor do impulso, é tudo.

- Porque é que precisa de mim? - gritou Vanessa. - Porque tenho eu de ser envolvida? Porque não pode matar o primeiro-ministro assim como... como matou Roland?

O Prof. Raeder suspirou.

- Minha querida, o Dr. Badel estava nas imediações muito próximas da minha pequena equipa. Estava sem protecção, estava muito tenso, estava psicologicamente vulnerável e estava também sensível à sugestão... Era um alvo... Aqui há umas décadas, em certas tribos africanas, o feiticeiro, que era um homem respeitado e temido pela comunidade, podia ordenar a alguém que morresse. E a ordem seria cumprida, não porque o feiticeiro fosse todo-poderoso, mas porque a vitima acreditava que ele fosse todo-poderoso. Este foi mais ou menos o caso que se passou com o Dr. Badel. Ele era um estudante quando eu estava no auge da minha carreira profissional. Conhece o meu trabalho e sabe que sou um dos maiores parapsicólogos vivos. Tirando o Dimitrov, na Rússia e o Dr. Sun, na China, sou provavelmente o maior... Portanto, já estava inconscientemente condicionado a aceitar a minha autoridade. Acreditou que eu seria capaz de o matar porque sabia que eu acreditava que o seria. Talvez o tivesse conseguido mesmo sem a assistência dos nossos jovens amigos! Uma ideia interessante... A aceitação do símbolo "feiticeiro" pela mente culta. Talvez até escreva uma monografia sobre este termo... Mas estou a divagar! Tu perguntaste porque é que eu precisava de ti, e eu vou-te dizer porquê. Bom, vou tentar dizer-te porquê... Sabes alguma coisa sobre gravitação, ou radiação electromagnética ou sobre a lei do inverso dos quadrados?

- Prof. Raeder, tenho dezassete anos e passei a maior parte da minha vida a servir de cobaia para pessoas como o Dr. Lindernann.

- Estou a ver, é de facto lamentável. Mas pelo menos compreendes a palavra "telergia", não?

- É energia telepática, penso.

- Sim, é a energia telepática, uma entidade muito misteriosa. Assim como para a gravitação, a sua fonte pode ser descoberta e os seus efeitos definidos e medidos. Mas não se pode tratar um feixe de telergia como se trata, por exemplo, um feixe de luz, e medir a sua intensidade e comprimento de onda. Por outro lado, pode-se focar a telergia, assim como se pode usar uma lente para focar a luz... Consideremos esta analogia da luz por um momento. Imagina o farol de um hovercar normal numa noite de nevoeiro. Pode ver-se o feixe através do nevoeiro que ele ilumina. Que forma tem?

- É como uma grande barra - respondeu Vanessa.

- Não, pequena - cortou o professor, enfastiado -, não é como uma grande barra, a tua imaginação está a enganar-te. É um grande cone. O vértice é a fonte de luz, o filamento da lâmpada, e o diâmetro da base aumenta proporcionalmente à distância do vértice. E assim a intensidade da luz recebida pela base do cone varia inversamente com a distância ao ponto onde a luz é emitida. Estou a ser claro?

- Não, não estou a perceber.

Prof. Raeder soltou um grande suspiro.

- Esta agora! Nós estamos a produzir uma geração de ignorantes!... Não interessa, vamos tentar outra vez. Tentemos uma perspectiva diferente, mas ainda com a analogia da luz. Supõe que eu tinha um holofote muito poderoso, e que numa noite clara iluminava com ele um avião que voasse alto. Achas que o feixe de luz que atingia o avião teria o mesmo diâmetro que à saída do holofote, a sua fonte?

Vanessa pensou por um momento.

- Não, teria um diâmetro maior.

- Precisamente, e, logo, menos in tensa seria a luz. Mas supõe que eu usava um feixe de luz laser, um feixe de luz coerente?

- Esse conservaria a sua intensidade! - disse Vanessa, percebendo subitamente onde o professor queria chegar.

- Exactamente. Agora, em termos telergéticos, tens a capacidade de transformar um feixe convencional num feixe de transmissão coerente. Por outras palavras, Vanessa, se canalizarmos telergia através de ti, tu ainda serás melhor que uma lente, tu transformarás o feixe numa espécie de feixe laser telepático. Sir Joseph Humboldt, o que não acontecia com o Dr. Badel, está longe de nós, falando em termos físicos. Além disso, está protegido por um grupo altamente treinado de paranormais, que podem facilmente bloquear qualquer transmissão de fraca intensidade. Mas eles não serão capazes de bloquear um laser telepático. Portanto, amanhã à noite, vamos tomar Sir Joseph de surpresa, mesmo quando ele menos esperar. Acontece que descobri que, depois de um jantar que vai oferecer ao primeiro-ministro israelita, ele vai passar a noite com a sua amante, que tem um apartamento muito discreto fora da cidade. Claro que os esbirros irão com ele, mas ele vai estar relaxado, e é aí que nós atacaremos.

- E depois? Quando Sir Joseph estiver morto?

O Prof. Raeder sorriu.

- Vamos pensar nisso quando ele estiver morto, pequena. Agora vai dormir. Amanhã ensinar-te-ei uma técnica de condicionamento simples, e então estaremos prontos!

 

                   CAPÍTULO 23

Jenny Pargetter acordou aos gritos. Simon acendeu a luz.

- Que foi amor? Que aconteceu, tiveste um pesadelo?

- Sim, foi um pesadelo.

- Conta-me.

- Vanessa. Ela caiu nas mãos de um louco. O nome dele é Reader ou Raeder, qualquer coisa assim, e tem uma colecção de crianças assustadoras, que não são dele, são crianças que fugiram de escolas para paranormais. Acho que é na Escócia.

- Raeder - cismou Simon. - Esse nome diz-me qualquer coisa... Houve um escândalo aqui há uns anos... Um parapsicólogo, parece que fazia coisas esquisitas com rapazinhos... Uma coisa deste género. Raeder... Sim, é isso. Prof. Marius Raeder.

Jenny suspirou.

- Ele tem a Vanessa na Escócia, ela não sabe onde, portanto eu também não. Este Raeder quer usá-la para assassinar Joe Negro.

Jenny agarrou a cabeça com as mãos.

- Não me perguntes como, eu não sei, só apanho ecos vindos desta criança que rejeitei... Simon, temos de chamar a polícia, a segurança, alguém!

Ele olhou-a, com um olhar inquiridor.

- Temos? Porquê? Eu pensava que tu não morrias de amores por Joe Negro. Foi ele que ordenou que Vanessa fosse eliminada. Seria uma forma poética de justiça ele ser eliminado em vez dela.

Jenny cobriu os olhos.

- Meu Deus, preciso de uma bebida!

- Leite quente?

- Não sejas parvo!... Desculpa, querido. Brande, uísque, vodca, qualquer um destes venenos. E traz a garrafa!

Quando Simon voltou com uma garrafa de brande e copos, tentou aliviar a tensão.

- Que tal uma orgia? Fazer uma orgia com a própria mulher pode ser até uma ideia de estilo!

Foi uma frase inapropriada, Jenny repreendeu-o com um olhar.

- Temos de chamar a polícia, ou a segurança, alguém, é óbvio.

- Porque é que é óbvio?

- Porque se Joe Negro for morto, e olha que eu adorava que ele caísse morto de causas naturais e dolorosas, é certo e sabido que este Raeder vai arranjar maneira de deitar todas as culpas para cima de Vanessa. Então ela ficará no pior sarilho possível.

- isso não é verdade - apontou Simon. - Oficialmente, ela não existe e na prática já a mandaram matar... - Bebericou o seu brande e calou-se por uns momentos. Depois continuou: - Se o Joe Humboldt for morto, este Governo cairá. Se houver eleições gerais, aposto que o Tom Green sairá delas a rir-se. Consegues imaginá-lo a mandar eliminar Vanessa? Mais provavelmente ser-lhe-á concedido o perdão régio, uma sentença nominal e ainda um título daqui a uns anos. - Riu-se. - Isso seria maravilhoso, não achas? A tua querida filha perdida há tanto tempo a mudar o curso da história!

Jenny engoliu o seu brande e sentou-se na cama, pensativamente. Finalmente disse:

- Este Raeder é provavelmente um lunático total, mas as pessoas como ele acabam por ser bastante espertas. Supõe que o plano dele resulta, seja lá o que for. Pode muito bem também ter planeado as coisas de modo que as culpas caiam sobre Vanessa e a que ele saia desta história completamente limpo. Ou então, depois de a ter usado, pode simplesmente matá-la. Como fizeste notar, ela oficialmente não existe, portanto ele não poderia ser castigado por matar uma rapariga inexistente. Não, Simon, por mais que eu gostasse de ver Joe Humboldt morto, temos de chamar a polícia, é a única esperança de Vanessa. Se a encontrarem a tempo, podem fazer este Raeder falar e estabelecer a inocência dela. - Estendeu o copo para mais brande. - Mesmo um bruto como Humboldt deve ficar grato por lhe salvarem a vida!

Simon encheu os copos de ambos novamente.

- Volta à realidade, querida! Se nós chamamos agora a polícia ou a segurança, pode ser que eles consigam encontrar Vanessa antes de este maluco, Raeder, concretizar o seu plano, seja ele qual for.

Nesse caso, limitar-se-ão a limpá-los tranquilamente aos dois, deves ver isso tão claramente como eu. Mas se eles não a encontrarem antes de o facto estar consumado, o resultado ainda será o mesmo, porque vai levar tempo a Tom Green tomar o poder e conseguir autoridade sobre as forças de segurança. Quando ele chegar a uma posição em que possa confirmar a existência dela, e garantir a sua inocência, etc., já ela estará morta. Não me parece que a glória póstuma signifique muito, quer para ela quer para ti. Portanto, não vamos chamar a polícia.

- Eu vou chamar a polícia - disse-lhe Jenny, olhando-o, muito pálida. - É a única hipótese que ela tem!

- Não, amor, não vais. - Desta vez estava a ser inflexível. - Porque se fores tu e eu podemos considerar-nos mortos. Oficialmente, Vanessa não existe. Se nós agora declararmos que ela existe, os rapazes do Humboldt vão sondar-nos outra vez e depois silenciam-nos. - Soltou uma gargalhada amarga, cínica. - Ou pensas que nos darão um agradecimento público por colaboração com a polícia?

- Já me detesto tanto a mim própria, que nem tenho a certeza de que quero continuar a viver! - gemeu Jenny. - E tu dizes que eu devo abandoná-la outra vez...

- É a única forma de lhe dares uma hipótese.

- Mas tenho de fazer qualquer coisa!

- Está bem, vamos fazer uma coisa - disse Simon. - Vamo-nos meter no hovercar e vamos para a Escócia à procura dela.

- Mas eu não sei onde ela está... Nem sequer posso ter a certeza absoluta de que ela está na Escócia!

- Pode ser que recebas mais informações durante a viagem, sobretudo se tentares dormitar ou manter a tua mente aberta... Sei que não é uma grande jogada, querida, mas é tudo o que posso sugerir. E pelo menos sempre é qualquer coisa para fazermos!

- Sim - concordou Jenny -, pelo menos sempre é qualquer coisa para fazermos.

Sir Joseph Humboldt já tinha uma ligação com Maria Mancini há vários anos. A senhora Mancini era viúva de um embaixador italiano que morrera num acidente de aviação pouco depois de Sir Joseph ter começado a interessar-se pela sua mulher.

A ligação era um segredo aberto nos círculos políticos e diplomáticos, o tipo de segredo que, em Inglaterra, era mais sussurrado que falado. Um jornalista mais sensacionalista que fizera uma ligação entre os dois nomes na sua coluna, menos por idealismo político que por motivos de promoção pessoal, cometeu aparentemente suicídio três dias depois. Um comentarista da tridi que fez uma alusão infeliz durante um programa sobre a vida do primeiro-ministro e a sua carreira enlouqueceu uma noite na Oxford Street e foi mais tarde mandado para um asilo de loucos criminosos.

Embora ao longo dos anos, Sir Joseph tenha tirado e continuasse a tirar, apesar da sua idade já avançada, muita satisfação nos prazeres sensuais proporcionados pelo corpo bem provido e extremamente italiano de Maria Mancini, nunca teve a menor inclinação para casar com ela. Teria sido politicamente indesejável. Sir Joseph não era de modo nenhum um belo homem, mas sabia que era fisicamente impressionante. Fora comparado por vários comentaristas políticos a Lloyd George no seu auge. Lloyd George nunca poderia ser descrito como bonito; mas tinha certamente algum magnetismo. Sir Joseph possuía agressivas mulheres de meia-idade que, se não eram a coluna vertebral do seu partido, eram pelo menos a sua divisão de choque. Uma esposa italiana e gorda, por mais deliciosa que fosse entre os lençóis, ter-lhe-ia custado pelo menos um milhão de votos. Era um preço demasiado alto a pagar pela felicidade pneumática.

Mas embora Sir Joseph não estivesse disposto a dar à senhora Mancini o casamento por que ela suspirava, conseguira fornecer-lhe algumas compensações. Era recebida na corte, era convidada para as melhores casas, tinha crédito ilimitado e uma extraordinária colecção de jóias, e podia usar jovens aspirantes a ministros como moços de recados. Era uma pessoa com quem convinha ser visto nas grandes ocasiões, era uma pessoa a ser consultada pelo primeiro-ministro italiano sobre a política britânica em relação aos países árabes produtores de petróleo. E era suficientemente esperta para não exigir demasiado.

Quando Sir Joseph estava a chamar a Senhora Mancini pelo V-fone devidamente protegido do seu quarto, não estava preocupado com o protesto do primeiro-ministro israelita acerca da não entrega dos cinco submarinos nucleares de ataque devido às pressões dos estados árabes, mas sim com as suas recentes e inexplicáveis perdas de potência sexual.

A cara de Maria Mancini apareceu no écran.

- Querido, que simpático teres telefonado - disse ela. - Eu não te esperava por causa deste assunto de Israel. Vai ser uma maçada para ti?

Sir Joseph, como sempre, ficou encantado pelo seu sotaque. e por uma insistência em usar expressões fora de moda.

- Sim, vai ser uma maçada, meu amor. Muito cansativo. Provavelmente terei de lhes conceder dois submarinos até ao fim deste ano e três até ao fim do ano que vem. Secretamente, é claro. Em público, o Sr. Mendelson vai gritar que foi traído, e eu vou discursar sabiamente sobre o equilíbrio de forças... o jantar deve acabar às dez, minha querida. Vou dar instruções para que acabe às dez, e portanto devo estar contigo às dez e meia.

A Senhora Mancini registou a informação sobre os submarinos para a transmitir para Roma, talvez valesse um milhão de liras novas. Então lembrou-se do seu papel como amante deslumbrante e verificou se a lente do V-fone lhe estava a apanhar o peito. O vestido que usava era tão decotado quanto possível.

- Vais querer comer alguma coisa? - perguntou ela.

- Meu amor - respondeu Sir Joseph galanteadoramente -, vou querer comer-te a ti.

- Não, que estúpida, não vais querer comer - corrigiu ela. - Mas talvez queiras uma colher de caviar, regada com Veuve Clicquot...

- Minha querida, vou-te comer a ti.

Ela riu-se, com uma gargalhada italiana.

- Ainda tenho marcas da tua última refeição!

Sir Joseph Humboldt apanhou a deixa para dizer uma frase final.

- "àqueles que já têm, mais lhes será dado" - citou ele. E então desligou o aparelho, para o caso de ela não compreender e pedir uma explicação.

 

                           CAPÍTULO 24

Parecia haver um nevoeiro sem fim na mente de Roland Badel. Não conseguia pensar claramente, não se lembrava de coisas que tinham acontecido e sentia-se desesperadamente cansado. Já há algum tempo um jovem (Alfred?) tinha-lhe trazido comida e água. Seria um pequeno-almoço ou um almoço? Não sabia, e talvez não fosse importante. Depois de ter comido sentiu-se mais sonolento que nunca. Sentiu-se grato por poder simplesmente ficar na cama e relaxar-se. Teve a impressão de que Vanessa o visitara, acompanhada por aquele maníaco do Raeder, mas também podia ter sido um sonho, apenas um sonho.

Tacteando desesperadamente através do nevoeiro, Roland tentou voltar a si. A comida tinha obviamente sido drogada, isso seria mesmo o estilo paranóico do professor.

O paranóico do professor...

Ele riu-se infantilmente.

Houve uma vez um professor paranóico

Cuja amante não o deixava acariciá-la...

"Não! Pára com isso! Pensa!"

Ele pensou. Pensou em Vanessa...

Houve uma vez um professor paranóico

Que queria uma rapariga chamada Vanessa...

"Não! Não! Não! Pensa!"

Esbofeteou a sua própria face violentamente na esperança de que a dor penetrasse na sua mente e clareasse as suas ideias. Mas estava fraco, não conseguiu provocar dor suficiente.

Houve uma vez um... Não!

Então teve uma inspiração. Mordeu o dedo. Parecia haver muita energia nas suas mandíbulas. - Mordeu um dedo até que a dor irrompeu como uma flecha de luz através do nevoeiro mental. Mordeu até precisar de gritar, até que começou a tossir e se engasgou devido a um fluido estranho que lhe correu pela garganta.

Só depois percebeu o que era. Sangue.

Isso despertou-o. Deitou-se de novo, fraco e a suar, com o dedo a latejar onde fora cortado até ao osso. Mas o nevoeiro estava a levantar. Era como vir à superfície depois de uma grande embriaguez, da maneira mais difícil.

Ele tinha de se lembrar de que não podia comer mais, nem beber nada mais. Não serviria de nada a Vanessa se estivesse sempre em estado de estupor. Teria de conseguir clarear o seu espírito e não fazer qualquer coisa. Glória ou morte!

Riu-se, fracamente.

Morte, já ele experimentara.

A porta abre-se. Entra o professor paranóico. Roland tenta sentar-se mas volta a cair para trás.

- Boa noite, Dr. Badel... Ena, que grande confusão! Tudo sujo de sangue. Que tem andado a fazer, meu caro amigo? Ah, a morder os seus próprios dedos. Mas que diversão tão curiosa. Vamos ter de o lavar, e vamos ter de o tornar sensível, também.

- Já estou sensível - disse Roland, com voz pastosa.

Raeder riu-se.

- Isso é mais uma opinião subjectiva que profissional. Volto dentro de alguns minutos com umas ligaduras. Parece que o seu dedo vai, precisar de alguns pontos. Realmente, não devia ser tão perverso.

Roland desmaiou quando o seu dedo estava a ser cosido. Esteve sem sentidos por pouco tempo. Voltou à consciência a tempo de ver uma agulha hipodérmica ser retirada do seu braço.

- E pronto, já voltou a estar connosco. Não se tente mover por um pedaço, acabo de lhe dar um estimulante. Tem de esperar um pouco pelo efeito. O senhor vai testemunhar em breve o nascimento da eutanásia telergética à distância, Dr. Badel. Acho que lhe vai parecer muito interessante, e vai precisar de uma mente lúcida para observar tudo com atenção. Ao fim e ao cabo, temos de pensar no seu futuro.

- No meu futuro? - perguntou Roland amargamente. Queria saber o que lhe tinham injectado no corpo, Mas decidiu não perguntar, não era importante. O que quer que fosse que Raeder dissesse, não estava inclinado a acreditar. Em todo o caso, estava a começar a sentir-se mais forte, as suas ideias estavam a ficar mais claras. Talvez fosse um estimulante normal, ou uma droga para neutralizar o efeito da outra que lhe tinham dado. - Não tenho ilusões acerca do meu futuro, Prof. Raeder. E tenho o prazer de dizer que o seu também não me parece muito brilhante.

O professor conservou a sua jovialidade.

- Meu caro, não tenha essas ideias pessimistas e depressivas. Virá um tempo em que achará muito bem o que eu fiz, que isso foi bom para si, para Vanessa, e, caramba, para todo o país! Quando o actual tirano for afastado, haverá lugar para homens como o senhor. Isto é uma promessa!

- Prof. Raeder, se o senhor me prometesse que o Sol ia nascer amanhã, eu duvidaria do fenómeno pela primeira vez!

- Esplêndido, estou a ver que já recuperou. Agora, se quiser, juntar-se ao nosso pequeno grupo de crianças dotadas... Apenas um aviso, certamente desnecessário: não interfira com a experiência. Teria de fazer um buraco fumegante na sua cabeça depois de um tão meticuloso trabalho de reparação no seu dedo, que desperdício! E, também, por favor, não tente falar com Vanessa. Ela está num estado muito vulnerável e relaxado. Passei a maior parte do dia a implantar nela um simples reflexo condicionado, necessário para a nossa acção. Se tentar interferir com a sequência do meu programa, não posso responder pela saúde dela, nem, julgo mesmo, pela vida dela.

 

                           CAPÍTULO 25

A sala estava escura. Vanessa estava deitada de costas, imóvel sobre uma marquesa. Um feixe de luz vermelha que vinha de uma lâmpada colocada sobre a marquesa estava focado nos seus olhos, que estavam abertos mas imóveis. Na semi-obscuridade, Roland podia ver os membros do grupo de paranormais do Prof. Raeder espalhados pela sala, sentados relaxadamente em cadeiras confortáveis. Tinham os olhos abertos, mas nenhum deles se movia.

- Hipnose subliminar - disse o Prof. Raeder. - Espero que esteja impressionado. Levou tempo a estabelecer, claro, mas consigo-a com o meu sistema de palavra-chave. Usando as palavras-chave em sugestão pós-hipnótica, posso fazer que o paciente entre na condição de hipnose subliminar a uma ordem. Ao contrário do que acontece na verdadeira hipnose, a hipnose subliminar não inibe o talento paranormal. De facto, o paciente retém todas as suas faculdades, excepto vontade própria. Os outros já estavam condicionados, o seu processo de condicionamento foi levado a cabo durante um longo período de tempo. Infelizmente tive de usar um programa intensivo com Vanessa, foi muito cansativo, mas no entanto os resultados foram muito compensadores. A mente dela está já completamente aberta, Dr. Badel. Ela vai aceitar, acumular, e, a uma ordem minha, descarregar sob a minha orientação a energia depositada pelos nossos jovens amigos... Passa pouco da meia-noite. Espero que Sir Joseph esteja bastante descontraído. Não vamos ter de esperar muito tempo, por favor sente-se naquela cadeira. - Indicou uma cadeira no canto da sala. - E, por favor, não se levante daí. Em caso algum se deve deslocar daí sem a minha autorização.

Roland não se moveu na direcção da cadeira. Estava a olhar directamente para Vanessa. Os olhos dela pareciam vazios, e no entanto... No entanto, de algum modo ele sentiu que aquele vazio não era totalmente convincente.

- Por favor, Dr. Badel - repetiu o Prof. Raeder, desta vez exibindo a sua pistola laser. - Ninguém notaria se eu fosse obrigado a matá-lo agora. O nosso projecto não seria interrompido. Seja bom rapaz e sente-se naquela cadeira. Vanessa já passou muito por sua causa, não ponha em risco o sacrifício dela. O senhor é um cientista treinado. Observe e não se esqueça, é tudo.

Roland olhou para a pistola laser e encolheu os ombros.

- Tem razão, Prof. Raeder, sou um cientista treinado, vou observar e não esquecerei - Cambaleou para a cadeira que lhe fora indicada e deixou-se afundar nela. Suava pela testa e sentia os joelhos absurdamente fracos. Gostaria de acreditar que estava apenas a viver um pesadelo, mas sabia que era mesmo uma horrível realidade.

O Prof. Raeder continuou de pé, sempre a olhar cautelosamente para Roland, sempre a apontar-lhe a pistola laser.

- Londres! - disse ele alto, aparentemente para ninguém em particular. - Procurar o alvo!

Houve um silêncio, que se estendeu por uns minutos, e depois:

- Alvo encontrado. - Era a voz de Janine. - Alvo encontrado... Na cama... Mulher... Oh, que bom!... Oh, não, perdi-o! Barreiras! Barreiras! GIásgua! - chamou o Prof. Raeder. - Neutralizar as barreiras. Verificar neutralização das barreiras e fazer cessar o alarme.

De novo um silêncio, e depois a voz de Alfred:

- Barreiras neutralizadas. Alarme cessou... Barreiras não estão com vo... Barreiras cansadas, encontradas, perto mas não muito... Alvo deve estar a gozar... Alvo encontrado de novo. Mulher... Delicioso! Delicioso! Apertada pelo vo... a o por mulher... Delicioso. - gemeu Janine.

- Londres, GIásgua, aguentar - ordenou o Prof. Raeder.

- Paris, Berlim, preparar para entrar Londres... Entrar... Londres entrado. - Era a voz de Robert.

- Sugerir satisfação e terminação ao alvo.

- Londres entrado. - A voz de Sandra.

- Compelir o alvo a rejeitar a mulher.

Roland observava e ouvia fascinado. Observava e ouvia enquanto a pistola laser continuava decididamente apontada a ele. Aqui estava a ser escrita história, uma horrível forma de história.

- Oh! Oh! Acabou. Parou. - A voz de Janine estava cheia de desapontamento. - Eles afastam-se.

- Satisfação sugerida.

- Rejeição conseguida.

- Londres, GIásgua, Paris, Berlim, aguentar. Atenção, Varsóvia. Entrar Londres. Que vês?

- Alvo e mulher agora separados. - Era a voz de Quasímodo.

- Alvo intrigado. Alvo intrigado, mas não assustado.

- Todos aguentar! - O Prof. Raeder falou com voz dura mas calma. - Todos aguentar! GIásgua manter neutralização das barreiras. Permanecer separado... Outros manter unidade. Aguentar o alvo. Manter unidade. Aumentar potência agora. Máxima harmonia... Preparar para transferir.

Roland, ainda dolorosamente consciente da pistola laser na mão segura do Prof. Raeder, espreitava através da semi-obscuridade. Os jovens paranormais já não estavam descontraídos, e tinham fechado os olhos. Mexiam-se impacientemente nas suas cadeiras, gemendo, suspirando.. Janine soltou uma gargalhada infantil. Quasímodo produziu um ruído que parecia um rugido de um animal. Sandra choramingou.

- Nós estamos prontos. - Era Quasímodo de novo. - Potência é boa. Alvo em frente. Estamos prontos.

- Atenas está aberta - disse o professor. - Atenas está aberta e à espera. Procurar unidade total. Transferir para Atenas! - A ordem final foi um grito.

Na sua marquesa, Vanessa estremeceu, convulsionou-se. Soltou um grito de angústia, e então o seu corpo parou de novo, apesar de os seus olhos continuarem abertos.

- Londres, encontraste unidade?

Os lábios de Vanessa moveram-se, mas o que se ouviu foi a voz de Janine.

- Encontrámos unidade.

- Paris, encontraste unidade?

De novo se moveram os lábios de Vanessa, mas a voz era a de Robert.

- Encontrámos unidade.

- Berlim, encontraste unidade?

Agora eram os lábios de Vanessa e a voz de Sandra.

- Encontrámos unidade.

Roland observava, fascinado, horrorizado. As técnicas usadas pelo Prof. Raeder eram brilhantes e terríveis.

- Varsóvia, encontraste unidade? - A voz do professor conservava-se extraordinariamente calma.

- Encontrámos unidade! Tornaram-se num só?

E Vanessa respondeu - impassivelmente - num coro de cinco vozes:

- Tornámo-nos num só.

- Atenas vai aguentá-los. Agora, todos são apenas um em Atenas. O alvo está seguro por Atenas. Vou contar até dez. Mantenham a potência, deixem-na crescer. Vou contar até dez, então darei a ordem. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez... Matar!

Numa sala directamente em baixo do quarto ocupado por Sir Joseph Humboldt e por Maria Mancini, os três paras da noite, uma mulher e dois homens, jogavam às cartas.

A mulher contraiu-se, parou.

- Estou a sentir qualquer coisa. - Fechou os olhos.

Os dois homens também fecharam os olhos para melhor concentração. Depois voltaram a abri-los. Um serviu-se de mais um copo de vinho sem álcool.

- Não descobri nada.

- Eu também não... Merda, odeio este serviço nocturno e odeio este mijo não alcoólico!

- Viram em profundidade?

- Pensas que sou parvo? Joe não gosta de bisbilhoteiros quando está a dar a sua. Se ele sentisse uma sonda profunda, punha-nos na bicha do pão. Tudo o que tem medo de perder é a merda dos segredos de Estado, e olha que não está a pensar neles quando está em cima da vaca italiana.

A mulher continuava com os olhos fechados.

- Estou ainda a sentir qualquer coisa.

Um dos homens bocejou.

Deixa pra lá, miúda. Estás provavelmente a receber reflexos de Maria. Joe já deves estar teso por esta altura, talvez até lho esteja a meter neste momento; e como tu és uma mulher, estás a receber transmissão periférica.

Ela era obstinada.

- Continuo a sentir qualquer coisa.

- Esquece. Quantas horas de serviço já fizeste esta semana?

- Umas sessenta.

- Então já ultrapassaste o limite, querida. Esquece Joe, volta para nós. Se alguém tentar uma sonda-relâmpago, todos o sentiremos... De quem é a vez?

A mulher também abriu os olhos e bocejou.

- Meu Deus, como eu detesto o serviço nocturno... Para o registo, como tu és o mais antigo, Jack, interpreto isso como uma ordem.

A propósito, é a minha vez. Ena, parece que vou ganhar uma data de dinheiro!

Sir Joseph Humboldt afastou-se de Maria Mancini. Algo estava errado. Sabia que não atingira o orgasmo, mas sentia-se como se o tivesse atingido. Já lhe acontecera antes, ele já não possuía o rendimento de um jovem garanhão, mas não como este sentimento de já ter atingido a satisfação quando sabia que a não tivera.

Esperou que Maria não tivesse reparado na sua insuficiência, e provavelmente não reparara. Geralmente, ela conseguia ter três ou quatro mesmo antes de ele começar o verdadeiro espectáculo.

- Joseph, meu querido, que foi? Diz à tua Maria que é que correu mal? Exigi demasiado de ti? É que tinha tanta fome de ti!

Ele ficou contente por haver escuridão, não queria ver a cara dela. Estendeu a mão para acariciar e apertar o seu amplo peito. Por vezes um mero toque daquele peito era suficiente para renovar o seu ardor. Mas não naquela noite, parecia-lhe apenas carne quente; carne mole e flácida. Retirou a mão, desapontado. E ele sabia que ela sentia o seu desapontamento.

- Que foi, Joseph, meu homem? Queres que acenda a luz? Estás cansado?

- Não toques na luz. Estou bem, obrigado. - Como ele detestava a expressão teatral "meu homem"... Era uma ternura preferida de Maria. Que vaca italiana mais parva!

- Algo está mal - insistiu ela. - Não te dei prazer.

- Está tudo bem, Maria, tu deste-me prazer. Pára de me irritar!

Ainda tentou dar à sua voz um tom suave, mas falhou. Ouviu soluços sufocados pela almofada; era Maria a chorar. Que chatice de mulher!

Alguma coisa estava mal. Ele arrepiou-se, sentiu frio. Mas não era um frio físico. Não podia ser uma sonda, os paras de serviço bloqueá-la-iam. Algo estava mal. Ele queria ficar sozinho, e não sabia porquê. Normalmente, por esta altura, devia estar a contar as marcas que fizera naquele voluptuoso corpo italiano e a derramar champanhe sobre aqueles seios suaves enquanto Maria se divertia com o seu gosto habitual pelas brincadeiras depois do amor.

- Deixa-me. Vai para o teu quarto, toma uma bebida, qualquer coisa. Quero ficar sozinho. - Ele ouviu a sua voz e não acreditou. Soava tão impessoal! Algo estava mal.

- Eu vou acender...

- E deixa a luz! - rugiu ele. - E deixa-me! - Queria pedir desculpa, mas as palavras não lhe saíam da garganta. Algo estava mal.

Sem qualquer palavra, Maria saiu da cama. Pensou que a poderia ver na escuridão, mas não podia. Ela tropeçou em qualquer coisa, mas lá encontrou a porta da casa de banho, que abriu. Uma nesga de luz mostrou o seu corpo numa cruel silhueta. A gorda e disforme vaca italiana! Admirou-se que a tivesse aturado por tanto tempo. Grande barriga, peitos descaídos, podia encontrar-se melhor em qualquer bordel decente. Então a porta fechou-se e ele ficou de novo na escuridão. Soltou um suspiro de alívio. Mas algo continuava errado.

Sem dúvida que algo estava errado.

Mas Já era demasiado tarde.

Houve um brilho na escuridão.

Olhou para o brilho, incrédulo. Queria gritar, abriu a boca para chamar os paras, mas não se formou qualquer som.

Ele olhava hipnotizado, viu o brilho tomar forma, adquiriu o contorno de uma rapariga incandescente.

"O meu nome é Vanessa", disse a rapariga. "Tu ordenaste a minha morte." Ela era de um brilho que cegava, pulsante.

- Não! Não! - Sir Joseph Humboldt não sabia se o seu protesto era vocal ou se estava apenas a debater-se na sua mente.

"O meu nome é Vanessa Smith", continuou a rapariga, implacavelmente. "Tentaste destruir-me, e agora destruir-te-ei a ti."

- Não! Por favor, não! Tenho tanto que fazer! Tu não percebes, tenho tantas responsabilidades! - Agora sabia que as palavras não saíam da sua boca, ela tinha sido silenciada. As palavras formavam-se apenas na sua mente.

O fantasma avançou.

"Vou deitar-me contigo, Sir Joseph Humboldt. Eu sou fogo, tu és carne. Vou deitar-me contigo! O meu beijo vai queimar a carne da tua cara, o meu abraço vai consumir toda a tua virilidade, e os meus braços, ao acariciar-te, vão deixar à vista as tuas costelas carbonizadas. De facto, será uma grande consumação!" Não!

Ela aproximou-se dele, brilhando, pulsando, queimando. Ele podia sentir o calor. De alguma forma, conseguiu sair da cama. Estava nu e sentiu-se nu. Sabia agora que não tinha defesa possível, mas a vida era tão preciosa. Tão preciosa!

Recuou até à janela, e ela seguiu-o. Ele sentiu o calor. Toda a racionalidade tinha desaparecido. Ele não estava em condições de considerar as implicações filosóficas de uma aparente mulher de fogo.

Recuou para longe. O fantasma seguiu-o sempre.

Acabou por conseguir abrir as portas que davam para a varanda. O ar da rua estava limpo, fresco, húmido. Talvez o ajudasse a afastar a aparição.

Cambaleou na pequena varanda. Era já tarde, as ruas estavam silenciosas. Queria chamar os cidadãos de Londres em sua defesa; mas, num momento de clarividência, soube que ninguém o quereria defender. Soube, finalmente, que estava só.

O fantasma foi inexorável.

"Só um beijo, meu caro Sir Joseph. Um beijo antes de morreres."

- Não! Não! - gritou ele, ainda tentando fugir, com horror.

Inclinou-se para trás. O fantasma avançou.

Inclinou-se para trás, e caiu, com um longo grito desesperante.

O fantasma dissolveu-se.

Os paras no quarto de baixo ouviram o grito; a Senhora Mancini também o ouviu.

Mas não havia nada a fazer.

Vanessa suspirou.

O Prof. Raeder disse:

- Bem-vinda a casa, Atenas. Missão cumprida?

- Missão cumprida. - A voz era de Quasímodo.

- Então descontrai-te, Atenas, estou satisfeito. Quando acabar de contar até dez, executarão a minha ordem. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez. Dispersar!

Subitamente, os paranormais inertes naquela sala começaram a mover-se, a sacudir-se, a esfregar os olhos.

Só Vanessa não se mexeu.

O Prof. Raeder olhou para ela.

- Parece que Atenas continua em choque. Vou verificar o seu EEG.

Alfred foi o primeiro a recuperar a total consciência.

- Alfred, grande homem, felicito-te pela eficiência do teu bloqueio. Por favor, segura nesta pistola laser e aponta-a cuidadosamente ao Dr. Badel enquanto verifico a situação de Vanessa. Em breve vamos todos descansar, mas temos de deixar o assunto bem arrumado.

Alfred, que ainda bocejava, segurou na pistola e apontou-a a Roland. O Prof. Raeder empurrou o que parecia uma máquina de electroencefalogramas para junto da marquesa de Vanessa e colocou-lhe o capacete na cabeça.

- Incrível! Ela ainda está supercarregada! Teoricamente não é possível. Toda a energia devia ter sido descarregada em Sir Joseph, mas ela ainda está sobrecarregado. Como é possível?

Os outros, Janine, Quasímodo, etc., estavam a mostrar sinais de vida.

Roland Badel pensou que era agora ou nunca. Teve uma inspiração relampejante.

- Descarrega-te neles, Vanessa! - gritou ele. - Descarrega neles! Atenas, rejeitar.

Vanessa gemeu.

O Prof. Raeder olhou para Alfred.

- Mata-o, meu rapaz. Ele passou dos limites.

Mas os olhos de Alfred abriram-se assustadoramente; estremeceu e caiu para trás, contorcendo-se, balbuciando sons incompreensíveis.

O professor atirou-se para a pistola laser, e apanhou-a. Mesmo na semi-obscuridade, Roland Badel podia ver o seu sorriso de triunfo.

Subitamente, a pistola caiu da mão de Raeder. Este olhou para o chão, cheio de espanto; deixou-se cair de joelhos e começou a ladrar como um cão. Depois caiu, espumando pela boca. Contorceu-se ainda um pouco, até que tudo acabou.

Quasímodo levantou-se. Sem uma palavra, caiu para a frente. Janine agitou-se e contorceu-se para uma posição fetal, gemeu lastimosamente e calou-se.

Robert e Sandra mal se moveram; morreram com um suspiro.

Então houve silêncio.

Instavelmente, Roland Badel pôs-se de pé. Vacilou, mas quase correu para a marquesa de Vanessa.

- Vanessa, minha querida, como estás?

Ela olhou para ele. Olhava com uns grandes olhos, cheios de inocência. Olhava com o ar maravilhado e apreensivo de uma criança.

- Papá? Tu és o meu papá, não és? Vieste para me levar para casa.

Clinicamente, o Dr. Badel verificou os sintomas de alheamento.

- Sim, eu vou levar-te para casa.

- Tu és o meu papá?

Isso partiu-lhe o coração, apesar de os corações não se partirem. Quis morrer, mas queria viver. Olhava para uma rapariga pálida mas bela que regressara à infância.

- Sim, Vanessa, eu sou o teu papá.

- E gostas de mim?

- Adoro-te.

- Tenho tido pesadelos, terríveis pesadelos. Por favor, leva-me para casa... tenho sido uma menina boazinha?

Era uma pergunta tão inocente.

- Sim, Vanessa, tens sido uma menina muito boazinha, e eu vou levar-te para casa.

- E eu vou ficar contigo para sempre?

- Sim, vais ficar comigo para sempre.

Vanessa sentou-se.

- Tive um sonho mau - disse ela. - Mas todas as meninas devem ter sonhos maus... Têm, não têm?,

- Sim, minha querida, todas as meninas têm sonhos maus.

- Já é de manhã?

- Não sei, vamos ver.

Roland foi à janela e puxou as cortinas para trás.

- Sim, já é quase de manhã.

Havia no céu uma grande claridade. Em breve o Sol começaria a sua escalada. Vanessa afastou-se da marquesa e olhou para os mortos à sua volta.

- Quem são estas pessoas, Papá? Porque estão elas a dormir no chão?

. - Estavam muito cansadas, Vanessa. Não tiveram tempo de ir para a cama.

- Podemos ir para casa agora? Não quero estar aqui, não estou a gostar deste sítio.

- Claro, minha querida. Podemos ir para casa.

De alguma maneira, Roland conseguiu levá-la daquela casa. Lembrava-se dos avisos do Prof. Raeder acerca das minas, mas não ligou nem um pouco. Na semi-obscuridade, levou Vanessa para fora da casa, à espera da morte a qualquer momento. Teria sido bem-vinda.

Mas a morte não veio. Ou as minas tinham sido desactivadas ou então ele e a Vanessa tiveram imensa sorte. De qualquer modo, não interessava.

- A nossa casa é muito longe, papá?

- Muito longe, Vanessa. Vamos ter de atravessar um oceano. Importas-te?

Ela apertou a sua mão, firmemente.

- Não, se estiver contigo.

 

                     EPíLOGO

Com a sensacional morte de Sir Joseph Humboldt, o Governo caiu. O Partido da Unidade Britânica, uma força política autoritária gerada pelo movimento multipartidário Lei e Ordem nos turbulentos anos 70, ficou indefeso sem o seu chefe reconhecido, mostrando assim a fraqueza inerente aos sistemas políticos monolíticos.

Nas eleições gerais que se seguiram, o Partido do Novo Consenso, basicamente radical-liberal, ganhou estrondosamente. Ao tornar-se primeiro-ministro, o Honorável Thomas Green anulou o decreto sobre a segurança do Estado, que o seu predecessor esperara transformar num acto parlamentar. Mais tarde, foi em grande parte responsável pela existência de um tratado internacional, sob a égide das Nações Unidas, que baniu o desenvolvimento do talento paranormal para quaisquer fins que não fossem psicoterapia, investigações científicas e médicas estritamente controladas e comunicações espaciais.

No preciso momento da morte de Sir Joseph Humboldt, Jenny Pargetter dormitava no hovercar que o seu marido conduzia a caminho das montanhas escocesas. Acordou aos gritos. A atenção de Simon quebrou-se, e o hovercar embateu de frente num veículo pesado que vinha na direcção oposta. Simon Pargetter morreu instantaneamente. Jenny Pargetter, com ambas as pernas amputadas acima do joelho, sobreviveu às lesões. No entanto, suicidou-se depois de ler o relato da história da sua filha, que foi publicado em todos os jornais importantes do mundo, e que foi grandemente responsável por inspirar à Grã-Bretanha a necessidade de levar às Nações Unidas o caso da exploração internacional das crianças paranormais.

O Dr. John Lindernann conseguiu fugir para a U. R. S. S., onde os seus serviços foram muito apreciados, até que as provações de Vanessa Smith foram tomadas públicas. A partir daí, desapareceu, e o seu destino continua desconhecido. Os serviços secretos britânicos e americanos concluíram que ele fora liquidado como possível fonte de comprometimento político.

O Prof. Holroyd, director da Escola Residencial de Random Hill, suicidou-se, aparentemente, algumas horas antes da morte de Sir Joseph Humboldt. No inquérito que se seguiu, os peritos em caligrafia recusaram-se a confirmar que a nota de suicídio era autêntica. Foi dado então o veredicto de assassínio por uma pessoa ou pessoas desconhecidas.

Richard Haynes, o primeiro-secretário privado de Sir Joseph Humboldt, tornou-se um alcoólico. Depois de ler o relato da história de Vanessa Smith, entrou voluntariamente num hospital psiquiátrico. Quando foi declarado curado, pediu para lá ficar, e lá trabalhou muitos anos como porteiro.

Maria Mancini voltou a Itália e casou com um homem bastante mais novo que ela, um ambicioso membro do serviço diplomático. Nunca mais voltou ao Reino Unido.

O Dr. Roland Badel, sob o nome de Oliver Anderson, acabou por levar Vanessa Smith, que acreditava ser sua filha, para São Francisco, onde se estabeleceu rapidamente como um artista de importância. O relato das experiências de Vanessa que enviou para os meios de comunicação social continha suficientes pormenores para poder ser verificado a sua autenticidade, mas não referia onde ela se encontrava no momento em que foram escritos. Todas as cartas tinham um carimbo dos correios peruanos.

Vanessa Smith morreu aos trinta e dois anos de idade, de avançada senilidade tísica. Conservou até ao fim o espírito de uma criança muito nova. Morreu com um urso de peluche chamado Dugal nos seus braços.

Depois da sua morte, o seu corpo foi cremado e as cinzas devolvidas a Inglaterra, para serem enterradas ao lado de um caixão que continha os restos de uma criança chamada Dugal Nemo.

Oliver Anderson, naturalizado americano, sobreviveu-lhe por treze anos. O seu quadro mais conhecido, um retracto intitulado "Prisioneira do Fogo", pelo qual recusou todas as ofertas enquanto viveu, foi vendido por cento e oitenta mil dólares, depois da sua morte.

Uma pessoa desconhecida estabeleceu um fundo pelo qual seria deposta todos os dias uma rosa branca e uma vermelha sobre os túmulos de Vanessa Smith e Dugal Nemo, perpetuamente.

 

                                                                                Edmund Cooper 

 

 

                      

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