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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A PROFECIA DA BABILÔNIA / Tim Lahaye
A PROFECIA DA BABILÔNIA / Tim Lahaye

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

 

Bem-vindo à minha nova série de ficção profética, A profecia da Babilônia. Espero que venha partilhar do meu enorme entusiasmo com este primeiro romance, que leva o nome da série, seja você um dos milhões que leram a saga Deixados para trás (em co-autoria com Jerry B. Jenkins) ou um marinheiro de primeira viagem na leitura da minha obra de ficção.

Estou mais empolgado com A profecia da Babilônia do que com qualquer outro de meus livros anteriores. Rezo para que este tenha — como os que o precederam — efeito positivo na vida dos leitores.

A fantástica popularidade da série Deixados para trás (mais de 54 milhões de exemplares impressos) nos Estados Unidos convenceu-me de que a ficção é um poderoso meio para compartilhar com os leitores um pouco do que considero totalmente fascinante sobre as profecias do fim dos tempos. Felizmente, os leitores foram estimulados pela combinação de grandes aventuras e importantes revelações.

A profecia da Babilônia é minha mais recente tentativa de criar mais uma combinação singular e satisfatória de suspense e conteúdo. Baseio esta emocionante história na única e mais importante profecia da Bíblia relacionada com acontecimentos internacionais, e que tem um incrível impacto em nossa sociedade atual. As profecias da Bíblia e sua interpretação são claros sinais do que guardam para este mundo nosso presente e futuro, e são a base permanente de tudo que escrevo. Na série A profecia da Babilônia você encontrará um material verdadeiramente fascinante e importante, fundamentado em minhas permanentes pesquisas sobre as profecias bíblicas.

Minha esperança é que você não considere A profecia da Babilônia apenas uma leitura fascinante, mas que a série o ajude a entender que a profecia do fim dos tempos pode ser consumada em nossa época, e que isso o ajudará a compreender os “sinais dos tempos” que percebemos em todo o mundo sempre que assistimos a acontecimentos mostrados nos meios de comunicação. O enredo de Deixados para trás, como você deve saber, começa com o arrebatamento da Igreja e depois conduz o mundo por um período de tribulação, o reino milenar de Cristo, e para o céu. A profecia da Babilônia começa na época atual e avança para o arrebatamento — um dos períodos mais emocionantes da história do mundo.

Para fazer deste um romance que realmente não se consegue largar, você verá que A profecia da Babilônia é estrelado por um herói que enfrenta muitos dos desafios de nossos dias, que são bem conhecidos de todos nós. Para mim, o herói, Michael Murphy, é uma das verdadeiras atrações da série. Gosto tanto de Murphy que lhe dei o nome do meu genro. Há demasiadas maravilhas em nosso mundo, mas também muitos perigos, e quis centralizar esta série num herói que creio ser extremamente insinuante porém muito real e bastante capaz de enfrentar uma crescente maré de perigo ao longo da série.

Murphy é versado tanto em arqueologia quanto em profecias bíblicas, mas, ao contrário de outros eruditos, é também um grande aventureiro e corre todos os riscos quando se vê diante de uma descoberta, ou artefato, que possa ajudar a autenticar mais ainda a verdade da Bíblia. Murphy é um homem de ação e de fé, um verdadeiro herói de nossos tempos — o que é positivo, pois, como você verá logo no início desta série, Murphy terá de enfrentar um terrível mal. Uma força maligna que — ele logo descobrirá — o envolve numa contagem regressiva daquilo que a Bíblia chama de “o tempo do fim”.

Agradeço pelo seu interesse por minha obra. A partir deste volume, espero que você passe a sentir, como eu, que A profecia da Babilônia é uma verdadeira série de livros que não se consegue largar, capaz de ser igualmente uma história absorvente e de extrema relevância para os nossos dias.

Desejando-lhe uma grande experiência de leitura, entrego-lhe agora A profecia da Babilônia!

 

 

 

 

EXATAMENTE 33 HORAS E 47 MINUTOS depois de ter estado na igreja pela última vez, Michael Murphy era arremessado em um terrível abismo negro. Orar nunca pareceu tão necessário para ele quanto naquele momento. Na escuridão como o breu, com apenas o som de seu corpo contra o ar, Murphy não fazia idéia para onde estava seguindo.

A não ser para baixo. Rapidamente. Todo o seu um metro e noventa.

Apenas um momento antes, Murphy estivera de pé no telhado do que parecia ser um armazém abandonado numa rua desolada em Raleigh, na Carolina do Norte. Era um lugar inusitado para ele estar numa noite de segunda-feira durante o semestre universitário, quando normalmente deveria estar se preparando para a aula do dia seguinte.

Bastou, porém, uma única palavra para fazê-lo largar todas as atividades habituais e correr para aquela altura deserta e úmida. Com certeza, a tal palavra estava em aramaico, uma das muitas línguas antigas que Michael Murphy conseguia ler com certa fluência.

As letras em aramaico tinham sido caligrafadas em um esmerado estilo com uma tinta azul brilhante, que penetrara profundamente em um grosso e caro papel lustroso cor de marfim, enrolado com grande cuidado e amarrado por uma fita translúcida em volta de uma pesada pedra.

Uma pedra que, no final daquela tarde, atravessou ruidosamente a janela inferior da sala de Murphy no campus.

Quem quer que tivesse jogado a pedra em sua sala desaparecera antes que Murphy chegasse à janela. Ao desenrolar o papel e traduzir a única palavra ali estampada, ele primeiro arregalou os olhos e depois começou a contar.

Trinta segundos até o telefone de seu escritório tocar. Ele sabia que voz ouviria do outro lado da linha, embora nunca tivesse visto o dono daquela voz.

— Alô, Matusalém, seu velho patife.

Houve em resposta uma cacarejante risada aguda, um som que Murphy reconheceria em qualquer lugar.

— Oh, Murphy, você nunca me decepciona. Acredito ter despertado seu interesse.

— E me custado uma vidraça para trocar. — Olhou de novo a solitária palavra no papel. — Isto é verdade?

— Murphy, algum dia eu já o deixei na mão?

— Não. Várias vezes você fez o máximo possível para me matar, mas me deixar na mão, nunca. Quando e onde?

Agora o cacarejo foi substituído por um estalar de língua.

— Não me apresse, Murphy. Minhas regras. Meu ritmo. Meu jogo. Mas, pode confiar, este será o melhor de todos. Pelo menos para mim.

— Então devo deduzir que, como antes, nenhum homem são aceitaria esse desafio?

— Somente um rapaz ávido como você. Mas, como sempre, tem a minha palavra. Você sobreviverá, conseguirá o que procura. E, confie em mim, você vai querer sobreviver para essa recompensa.

— Eu sempre quero sobreviver, Matusalém. Para mim, ao contrário de você, a vida é preciosa.

O velho deu uma bufada.

— Não tão preciosa a ponto de não querer sair farejando como um cão ansioso atrás desse osso que acabei de jogar para você. Mas chega de conversa. Esta noite. Nove e dezessete. Esteja no telhado do armazém no número 83 da Cutter Place, em Raleigh. E aceite meu conselho, Murphy meu rapaz. Se for, e acredito que irá, tire o máximo proveito dessas últimas horas.

Com outro cacarejo, a linha emudeceu.

Murphy sacudiu a cabeça, pousou o fone e ergueu o papel. Checou novamente sua tradução. Dessa vez, o nome que leu fez sua mente trabalhar mais depressa.

Para Michael Murphy, um erudito que não conseguia ficar confinado em uma biblioteca com velhos livros repletos de poeira, um arqueólogo dedicado a caçar e resgatar artefatos antigos que poderiam autenticar eventos descritos nas páginas da Bíblia, aquele era o nome do profeta que certamente o deixava mais intrigado do que qualquer outro: DANIEL

 

Pelo resto do dia, Murphy conseguiu pensar pouca coisa além de especular sobre seu encontro noturno com Matusalém. Fazia aproximadamente dois anos desde que Murphy tivera seu primeiro contato com essa excêntrica figura. A cada vez, sem aviso e sem jamais mostrar o rosto, Matusalém enviava uma mensagem a Murphy, sempre uma única palavra em uma língua antiga que acabava se revelando o nome de um dos livros da Bíblia.

Logo depois, seguiam-se misteriosas indicações, sempre para algum lugar deserto, onde Matusalém observava de um esconderijo seguro e escarnecia de Murphy enquanto este tentava sobreviver a um verdadeiro, bem verdadeiro, desafio físico mortal.

A cada vez o risco de morte era sempre grande e muito real. Ao que parecia, Matusalém era tão sério em relação a seus jogos sádicos quanto o era em relação à erudição por trás de suas descobertas. E, aparentemente, tinha dinheiro suficiente não apenas para patrocinar a aquisição dos artefatos, como para imaginar idéias mais loucas para atrair Murphy às suas esmeradas armadilhas mortais. Se fosse o caso, será que ele permitiria que Murphy realmente morresse? Até então, Murphy chegara cada vez mais perto de perder a vida, e não tivera dúvida de que Matusalém o deixaria morrer.

Entretanto, apesar de duas costelas quebradas, um pulso fraturado e muitas cicatrizes como lembrança, Murphy até aqui conseguira, de algum modo, juntar todas as suas consideráveis habilidades para permanecer vivo tempo suficiente para reivindicar sua recompensa.

E que recompensas tinham sido! Três artefatos que, de outra maneira, Murphy nunca teria visto. Cada qual provado em laboratório ser genuíno, embora Matusalém nunca tivesse pronunciado qualquer palavra sobre suas fontes. Havia vários aspectos que incomodavam Murphy em relação a essas loucas e vertiginosas caçadas, mas todas as vezes que expôs os artefatos, nenhuma organização, governo ou colecionador se apresentou para declarar que fora roubado.

Portanto, a despeito de como e onde Matusalém conseguia seus tesouros eventuais, eles provaram ser justamente o que eram.

Matusalém permanecia um completo mistério para Murphy. Dizer que ele era excêntrico não chegaria a explicar seus atos. Claramente, o homem era um conhecedor de artefatos antigos, mas Murphy não conseguia nenhuma pista sobre a origem dele ou como encontrava tais objetos, capazes de atrair qualquer arqueólogo. Era especialmente intrigante o motivo pelo qual Matusalém não mantinha aqueles tesouros com ele, ou os entregava a um museu, ou o fato de escolher jogos realmente estranhos para dar a Murphy uma chance de consegui-los.

Homem íntegro que era, Murphy acreditava que podia ignorar qualquer fato obscuro relacionado à fonte desses artefatos. Algum colecionador rico, bem relacionado, mas totalmente maluco era o máximo a que Murphy conseguia chegar para uma explicação sobre a identidade de Matusalém. Entretanto, havia o perturbador aspecto religioso.

Matusalém, claramente, não era um homem religioso. Muito pelo contrário. Sentia uma grande dose de prazer ao zombar da fé de Murphy. Até então, Murphy conseguira superar cada situação, e tinha de admitir que, além de conseguir os artefatos, parte do que o impelia era a chance de desafiar os sórdidos insultos verbais de Matusalém contra sua crença.

O que não era boa desculpa para arriscar a vida, percebia Murphy. Entretanto, orgulho, temperamento e teimosia estavam bem no alto da lista de imperfeições de Michael Murphy. Provavelmente, a maior restrição que havia contra suas aventuras matusalênicas era a profunda fé religiosa, o que tornava muito mais difícil justificar o extremo risco a que submetia sua integridade física.

Justificar o risco não apenas para si, mas para sua mulher, Laura.

Até então, a paixão pela busca de artefatos tinha sido um verdadeiro teste para a paixão de Laura por Murphy. Certamente, o ajudava o fato de ela também ter graduação em estudos antigos. Contudo, havia muita discussão após cada conquista, muitos apelos para que ele tentasse resistir à tentação seguinte — mas Laura sabia que sempre haveria uma outra armadilha, insanamente perigosa, de Matusalém. Tudo o que o homem precisava fazer era sacudir outro artefato diante dos olhos de seu marido.

Foi pensando nisso que Murphy esboçou um rápido bilhete para Laura, antes de sair naquela noite para Raleigh. Ela participava de uma conferência em Atlanta e só voltaria para casa na noite seguinte, e Murphy comunicou-lhe que mal sabia aonde estava indo. Deixou o bilhete sobre a lareira da sala de estar. Por via das dúvidas.

 

Murphy manteve uma leve pressão no acelerador durante todo o caminho de Preston a Raleigh, para ter certeza de não ser multado por excesso de velocidade. Era certamente o único risco que poderia evitar naquela noite. O endereço que Matusalém havia fornecido para ele era o de um prédio de oito andares em uma rua vazia, em um bairro deserto. Ao chegar ao telhado, Murphy procurou algum sinal para a ação seguinte.

Sem aviso, o próprio chão sob seus pés abriu-se, e foi então que ele se viu caindo edifício adentro.

Queda livre.

Nos fugazes segundos após começar a descida, sua mente em turbilhão refletiu como Laura estava linda na tarde anterior antes de sair para pegar o avião. Fez uma rápida oração e forçou-se a se concentrar nos anos de treinamento em artes marciais, principalmente na melhor posição em que seu corpo deveria estar quando finalmente aterrissasse.

Sabia que acabaria pousando, e que o pouso não seria nada acolhedor.

Concentrou-se na combinação que chamava de Último Suspiro do Gato, sua péssima interpretação de uma manobra de pouso tibetana. Pensava nela como os movimentos que um gato faria em sua sétima vida para pousar em segurança. Murphy descontraiu todos os músculos, lutando contra o instinto natural de ficar tenso por antecipar o que está determinado a ser um terrível impacto.

Em vez disso, ele quicou. No espaço negro, seu corpo atingiu o que parecia ser uma enorme rede, e Murphy foi lançado para cima e para baixo, o que rapidamente o deixou mais desorientado do que se tivesse caído duramente.

A sensação que foi intensificada por um raio de luz brilhante que o ofuscou completamente.

— Que bom você ter dado um pulo aqui, Murphy.

Matusalém. Embora Murphy não conseguisse enxergar, não havia como se enganar com a gargalhada que encheu o espaço. Também sabia que, mesmo se pudesse enxergar direito, Matusalém estaria bem escondido, como sempre.

— Você ainda deve estar desorientado, hein, Murphy, para não apreciar o quanto é genial este prédio aqui. Construíram esta calha atravessando todos os andares para que pudessem jogar coisas do telhado para cá, o andar principal de serviço. Mandei meu pessoal preparar esta armadilha especialmente para você, mas, no último momento, senti pena, e providenciei a rede. Estou ficando sentimental. Espero que você não esteja.

Murphy finalmente parou de quicar e rolou para a beira da rede. Sua visão começava a ficar normal, mas não parecia haver muito a ser visto no interior do prédio. Eram paredes brancas cercando um imenso espaço térreo. O teto, se havia algum, devia estar a vários andares acima, mas a combinação da lúgubre escuridão com o agora incandescer penetrante de holofotes montados nas paredes tornava impossível ter alguma certeza.

A rede estava localizada em um dos lados do andar térreo. Era feita de cordas grossas entrelaçadas num padrão de linhas cruzadas. Fora esticada entre quatro resistentes varas de madeira que estavam presas ao chão e estabilizadas por pesados sacos com algo que Murphy supunha ser areia. No outro lado do enorme aposento, o que parecia ser uma porta de correr de um reluzente metal prateado corrugado permanecia fechada.

Cercando o andar, havia uma área de serviço suspensa, protegida por um vidro grosso. Era onde Matusalém devia estar, pensou Murphy, mas não conseguiu distinguir nenhuma figura específica ali. Sua mente clareava, e a respiração começava a se normalizar.

— Certamente, valeu a viagem até aqui, Matusalém. Agora posso reclamar minha recompensa e voltar para casa?

— Acha que mereceu alguma coisa só por isso, Murphy? Esta foi apenas a minha maneira especial de colocar você no interior da tenda. Prepare-se para o espetáculo de verdade. Agora mesmo.

Pela primeira vez, Murphy ouviu um som terrível, um estrondo surdo que enchia o espaço vazio, mas não tinha certeza sobre o que ouvia.

— Aaah, percebo, professor Murphy, pelos seus ouvidos aguçados, que está pronto para medir forças.

Murphy suspirou. Então é agora que começa realmente, pensou ele. Então, surgiu um segundo som, muito mais terrível. Algo se chocando contra o outro lado da porta metálica. Algo que, Murphy subitamente deu-se conta, estava para atravessar a porta metálica e seguir diretamente para ele.

— Diga, hum, Matusalém, não vai me provocar antes com uma visão de seu artefato mais recente? Pelo menos eu ficaria sabendo o que o faz tentar, com tanta insistência, me matar.

— Sim, sabe que eu adoro zombar de você, Murphy. Aliás, desejo muito que consiga sobreviver a isto. É algo quente. Diga-me, por que ficou tão empolgado ao ver a palavra “Daniel” que lhe enviei hoje?

Antes que Murphy pudesse responder, surgiu uma batida, ainda mais alta, contra a porta. Ele não pôde evitar de recuar e olhar ansiosamente para o metal chocalhante.

— Até agora, Matusalém, você colocou em jogo maravilhosos artefatos dos tempos bíblicos. Não sei como os consegue, mas, por minha conta, eu nunca os teria encontrado. E, Daniel, bem, você sabe que foi um dos profetas mais importantes. Eu o estudo há anos. Deixe-me pelo menos dar uma boa olhada em seja lá qual for o artefato de Daniel que está em suas mãos.

— Não. Chega de conversa, Murphy. Você o verá mais de perto do que desejaria. Porque esta noite você não vai estudar Daniel, você vai ser Daniel.

Com um tinido metálico, a porta de correr foi levantada no outro lado do aposento.

Um leão surgiu rugindo no vão da porta. Murphy não pôde evitar seu deslumbramento com a cor fulva, os músculos elásticos ao longo de seus flancos, sua basta juba e o modo como a forte luz dos holofotes fazia suas garras praticamente faiscarem.

O leão, contudo, não perdeu seu tempo admirando Murphy. Com um rugido que ecoou de parede a parede e um salto impulsionado pelas pernas poderosas, lançou-se sobre Murphy como se este fosse uma refeição fácil de se conseguir.

Por puro instinto, Murphy jogou-se no chão, aterrissando com um tremendo baque surdo um pouco à esquerda, mas perto o bastante para sentir muito bem o hálito quente e malcheiroso do leão.

— Ora vamos, Murphy, não fuja. Lute, seja homem.

As garras do leão frearam no chão de madeira, enquanto a fera rugia e balançava a cabeça. Furiosos salpicos de saliva choveram sobre Murphy. Após o primeiro atingir seu rosto, ele já estava novamente em movimento, rolando duas vezes e esforçando-se para se pôr de pé. Sem parar, alcançou uma das varas de madeira que sustentavam a rede e balançou-se de volta para cima dela. O leão o seguiu de perto e arrastou a pata dianteira a poucos centímetros da perna de Murphy. Tendo errado uma vez, o leão, sem descansar, agitou novamente as garras afiadas, e novamente atacou-o. O terceiro golpe transformou em retalhos a manga esquerda de Murphy.

Antes que pudesse ser atingido novamente, Murphy deu um salto na rede. Pousou alguns metros adiante nas cordas e, sem parar, pulou novamente. O leão golpeou várias e várias vezes a corda, mas parecia frustrado e confuso com aquela presa saltitante.

Entre o assoalho de madeira, que era escorregadio para suas garras traseiras, e a rede, que se enroscava nas dianteiras, o leão estremecia e rugia de frustração. Murphy continuou quicando a cada momento o mais longe possível da fera, pois sabia que no instante em que o leão entrasse em contato com ele, mesmo com uma pancada de raspão, aquele poderia ser seu último momento na Terra.

— Murphy, pare de saltitar, desça daí e dê ao gatinho uma chance de brincar de verdade com você.

Eu descerei, pensou Murphy, mas não do modo como você imagina. Enfiou a mão no bolso e tirou seu canivete do Exército. Não pretendia tirar intencionalmente a vida de uma outra criatura, embora a fera tivesse quatro patas repletas de lâminas e ele apenas uma lâmina. Em vez disso, enquanto o leão agitava as garras, Murphy se atirou até uma das quatro estacas. Ali, cortou a corda que prendia a rede à estaca.

— Murphy, isso não é justo — berrou Matusalém.

— Não me venha falar sobre o que é justo, seu sádico.

Murphy saltou para a estaca seguinte. O leão virou-se furiosamente, mas parecia estar cansando, bem semelhante a um peso-pesado em meio a um assalto. Ou talvez fosse a racionalização de um desejo, Murphy deu-se conta, mas o leão parecia realmente confuso com seus rápidos movimentos.

Quando o segundo lado da rede cedeu ao canivete de Murphy, o leão não percebera que deveria ter saído dali. As patas dianteiras estavam agora irremediavelmente enroscadas na corda grossa. Murphy deslizou mais do que saltou para o chão, tomando o cuidado de ficar fora do alcance do leão.

Ou assim ele pensou, até uma dor intensa queimar seu ombro esquerdo quando a pata traseira o atingiu ao se livrar bruscamente das cordas. Murphy forçou uma corrida em direção a uma das cordas que sustentavam a rede, agora capaz de se movimentar com mais rapidez sobre o assoalho. Na melhor das hipóteses, ele teve talvez outros dez segundos antes de o leão se libertar das cordas que caíam à sua volta.

A dor no seu ombro indicou-lhe que teria de se erguer novamente usando apenas o braço direito, e ele agradeceu às centenas de flexões obrigatórias da academia. Ergueu-se e virou-se, depois pulou novamente para agarrar a estaca e cortou a terceira correia exatamente quando o leão acabava de se livrar do monte de cordas que arrancara do corpo.

Agora, com aquele novo punhado de cordas prendendo-o, o leão caiu momentaneamente ao chão. Rugiu entre ásperas e fortes bufadas, ainda tentando se livrar com as patas. Murphy rolou para o chão, mas tomou cuidado para se manter completamente fora do alcance do leão.

— Ora, Murphy, você estragou tudo. — Matusalém estava realmente chateado. — Mas é bom na luta. Confesso que, para um inútil professor da Bíblia, você tem iniciativa.

Murphy respirava quase tão depressa quanto o leão. Arfando, conseguiu dizer:

— Que tal, em vez disso, me dar o artefato?

— Bem, acho que o merece. Só que não vai ser o que você pensa.

Murphy endireitou-se e olhou para a plataforma acima.

— Que trapaça está tentando fazer, Matusalém?

— Cale-se e ouça. Está bem na sua frente. Só precisa pegar.

— Pegar o quê? Onde? — Murphy estava com mau pressentimento.

— Ah, seu corpo continua vigoroso, Murphy, mas afirmo que todas essas escavações transformaram seu cérebro em pó. Olhe o pescoço do leão.

Realmente, Murphy notou pela primeira vez que havia uma fina tira de couro amarrada em volta do pescoço do leão. Presa a ela havia um tubo vermelho com o tamanho e a forma de uma piteira bem grande.

— Essa não, Matusalém. Você acha que vou lutar novamente contra o leão para pegar essa coisa do pescoço dele? Isso é loucura demais, mesmo pelos seus padrões. — Murphy fez uma pausa, sentindo que sua chance escapava. — Além disso, o que há no tubo?

Matusalém começou novamente com sua gargalhada cacarejante.

— Ah, Murphy, eu contaminei sua bondade esta noite. Não consegue resistir. Sei muito bem disso. Você voltará a ele; não consegue evitar. E, desta vez... ré-ré-ré, certamente sua curiosidade fará com que o gato mate você.

Murphy olhou para o canivete em sua mão e sentiu-se tentado, mas voltou a fechá-lo e o enfiou no bolso.

— Ooh, sempre o bom escoteiro, Murphy. Vai tornar a luta justa.

Murphy sacudiu a cabeça ao caminhar até a estaca mais perto do leão, humilhado.

— Não, Matusalém, não será exatamente justa, mas posso viver com isso. Nunca mataria esse leão mais do que mataria você esta noite, e sabe Deus que você me deu mais tempo para pensar do que ele. Mas isso não vai evitar que tire vantagem dele quando tiver uma chance.

Murphy pegou o pesado saco que contrabalançava a estaca mais próxima. Precisava de ambos os braços para erguê-lo, mas o ombro sangrando fez com que gritasse de dor, e quase deixou o saco cair sobre os pés. Em vez disso, arrastou o saco até onde o leão ainda rasgava a rede enroscada em suas impotentes patas.

— Isso certamente vai doer mais em você do que em mim — resmungou Murphy, e largou o pesado saco sobre a cabeça do leão. O animal evacuou involuntariamente.

Murphy observou a fera imobilizada respirar várias vezes com dificuldade antes de se aproximar lentamente da tira de couro que prendia o tubo ao seu pescoço. Prendeu a própria respiração e, com um puxão, libertou o tubo da juba do leão.

Segurou sua recompensa. Era tão leve que temeu estar vazia.

— O que temos aqui, Matusalém? É melhor que seja algo além de um charuto.

A princípio, Matusalém não disse nada em resposta. Então a porta de metal foi enrolada para cima.

— Você venceu, Murphy, agora dê o fora. Aproveite seu momento de vitória enquanto pode. Entretanto, eu lhe direi três coisas, pois um guerreiro vencedor merece algum respeito. Primeiro, como lhe disse, isso é mesmo quente.

— Quente porque foi roubado?

— Não importa como consegui. Como os outros que lhe dei, não haverá nenhum proprietário furioso atrás de você. Mas há quem vá querer ir atrás de você, assim que souberem que conseguiu isso. Não sei quem são ou por que estão tão interessados, mas disfarço muito bem meu rastro, como sabe, e tive muitas dicas de que alguém está desesperado para conseguir essa coisa, e nada o deterá... nada mesmo... para obtê-la.

— Mas obter o quê? O que tem aqui dentro?

— Essa é a segunda coisa. O tubo não contém o artefato. Contém a chave para encontrá-lo. E o que é a chave e o que é o artefato você terá que decifrar por si mesmo. Mas creio que você talvez seja uma das poucas pessoas capazes de decifrar o que é isso. E também sei que, se decifrar, esse será o achado de sua vida. Se você sobreviver.

— Mas... Daniel, isso tem algo a ver com Daniel? — Murphy já estava ficando exasperado.

— Essa é a terceira, e depois não lhe direi mais nada. A associação não será tão óbvia para você, mas eu lhe dou total garantia de que é a coisa verdadeira, e ela o fará o rei soberano do seu precioso círculo da Bíblia. Eu garanto. Agora, dê o fora.

— Ora vamos, Matusalém, não pode me deixar desse modo, no ar. O que é?

— Posso e deixarei, Murphy. Dê o fora. Sou um péssimo perdedor e você sabe disso.

Estremecendo, com um último olhar doloroso sobre o ombro ferido para o leão, Murphy caminhou em direção à porta, apertando fortemente o tubo na mão.

— Adeus então, seu maluco senil. E obrigado, acho.

Pouco antes de Murphy cruzar a porta, Matusalém vociferou:

— Murphy, não deposite tanta confiança em seus heróicos rapazes bíblicos. Estou lhe avisando para ter cuidado com este agora. Se alguém tiver de matá-lo, quero que seja eu em uma das nossas pequenas competições.

Murphy ergueu o olhar para a plataforma.

— Sempre um sentimental, Matusalém. Obrigado pelo alerta, mas até agora no meu placar está: cristãos um, leões zero.

 

Babilônia, 604 a.C.

O GRITO PERFUROU A NOITE babilônica como o uivo de um grande animal sofrendo dor mortal. Reverberou pelos corredores de pedra e pôde ser ouvido mesmo além das paredes do palácio, na praça da feira, sob o luar, nos becos labirínticos onde dormem os mendigos. Até a ave aquática na beira do grande rio grasnou em inquieta reação ao grito, depois irrompeu num vôo acima dos imponentes barrancos sobre os quais a cidade fora construída.

O grito foi seguido por um silêncio, no mínimo, ainda mais arrepiante.

Então o agitar, a convulsão, o descontrolado revirar de olhos que derramavam lágrimas verdadeiras sobre o mais terrível dos sonhos. Ambiente sobrenatural, caos turbilhonante, imagens e ruídos de um reino entre a vigília e o sono.

O governante da maior potência da Terra foi impotente para resistir ao inexorável ataque de dentro de sua própria mente.

Uma dúzia de seus guardas da elite real, homens fortes cujas pernas vigorosas martelavam as grandes lajes de pedra, gritavam ordens para todos os lados. A luz das flamejantes tochas acesas apressadamente iluminava rostos protegidos por capacetes e contraídos de medo que corriam para enfrentar qualquer que fosse o terror que falharam em antever.

Espadas curtas desembainhadas, os guardas abarrotaram a alcova do rei, olhos nervosos vasculhando as sombras tremeluzentes atrás do lampejo da adaga do assassino. As sombras da alcova não revelaram qualquer figura ameaçadora, mas não houve sensação de alívio, pois cada um dos guardas antes preferiria enfrentar um assassino a dirigir seu olhar aterrorizado para o corpo do rei.

Nabucodonosor, senhor do Império babilônico, conquistador do exército egípcio na Caxemira, destruidor de Jerusalém duas vezes em uma década, cujo nome incute terror no mais duro dos corações, agora estava sentado ereto na grande cama de ébano, olhos arregalados, boca trêmula, a pele do seu torso de um pálido fantasmagórico. Os travesseiros reais estavam encharcados de suor.

— Meu senhor. — Arioque, comandante da guarda real, aproximou-se mais um passo, consciente de que chegar perto demais da pessoa do rei era um convite à morte. Mas ele precisava ter certeza. O corpo do rei parecia incólume, e certamente não houvera tempo para um assassino ter realizado sua fuga. Teria ele sido envenenado, então? A respiração do rei era um áspero ofegar, a mão adejando sobre o coração. Embora atordoado, parecia não sentir dor. Se tivesse sido envenenado, a essa altura já estaria em agonia, pressionando a barriga.

Controlando-se, ciente de que precisava acalmar, pelo exemplo, seus comandados aterrorizados, o capitão esperou.

— Um sonho.

A voz do rei era um sussurro. O habitual trovejar reduzido a um bafejo.

— Um sonho, meu senhor? — Os olhos do capitão se estreitaram. Isso ainda podia ser perigoso. Enviado por um feiticeiro com um verdadeiro conhecimento das artes negras, um sonho podia matar tão certamente quanto uma lâmina.

— Perdoe-me, senhor. Que tipo de sonho foi esse? — O rei virou-se para encará-lo. — Certamente foi um bem terrível — acrescentou rapidamente.

O rei fechou os olhos, pensativo, como se tentasse se lembrar de um nome esquecido ou trazer à mente o rosto de um amigo há muito tempo falecido.

— Não — disse ele, finalmente, fazendo uma careta de irritação. Sua voz elevou-se para um nível que se aproximava do timbre normal, ao mesmo tempo que agarrava o cântaro de vinho e o arremessava no chão. — Não sei dizer. Não me lembro de nada!

 

— Falem! — O rei apertou os braços do seu trono de ouro, os dedos amassando as cabeças de leão caprichosamente esculpidas enquanto examinava os homens diante de si.

Eram uma estranha visão. Dois caldeus com cabeças rapadas e olhos vendados, nus, exceto por tangas de linho e os amuletos sagrados pendendo de seus pescoços. Um núbio de pele negra com uma pele de guepardo em volta dos ombros finos. Um egípcio, cuja veste simples de algodão contrastava com os impressionantes círculos de kohl preto em volta dos olhos. E um babilônio, um sacerdote do próprio deus Marduk, o causador de pestes.

“Tragam-me os melhores feiticeiros da atualidade”, fora seu decreto. “Busquem-nos nos quatro cantos da Babilônia, pois meu espírito está aflito. Preciso saber o significado do meu sonho.”

Eles formavam um semicírculo abaixo do trono do rei, os rostos reluzindo com o suor do medo, quando o rei bradou novamente:

— Falem, seus cães, ou prometo que suas carcaças inúteis servirão de alimento para chacais antes de o sol se pôr.

Eles não tinham motivo algum para duvidar de suas palavras. Desde seu sonho, o rei não pensava em mais nada. Suas noites eram uma agonia de agitação insone e seus dias eram gastos em tentativas infrutíferas para recordar o menor fragmento que fosse da visão.

Agora cabia aos adivinhos recordá-la por ele. Se não conseguissem, a tensa fileira de soldados atrás do trono do rei, lanças curtas de prontidão, deixava claro quais seriam as conseqüências.

Enquanto o silêncio se estendia agonizantemente, Amukkani, líder dos feiticeiros caldeus, pigarreou e ensaiou um sorriso insinuante.

— Talvez o próprio Kishar tenha concedido uma visão ao meu senhor... uma visão digna apenas do senhor. Talvez o deus tenha levado embora sua memória para que não pudesse contá-la a homens comuns.

Ele se curvou bem baixo enquanto Nabucodonosor o fixava com seus penetrantes olhos negros.

— Qual o sentido disso, seu idiota? Conceder-me uma visão e depois levá-la embora. Se era destinada somente a mim, então preciso saber do que se trata!

O rei cofiou os fios oleosos de sua barba e virou-se para Arioque.

— Cuide para que suas lanças tenham pontas bem afiadas. Esses supostos sábios são escorregadios como enguias.

O comandante da guarda sorriu maliciosamente. Como a maioria dos babilônios, ele temia o poder de feiticeiros quase tanto quanto os demônios. Seria bom vê-los se contorcer na ponta de uma lança. Sentindo que o tempo se esgotava depressa, o egípcio ofegou teatralmente, como se lhe tivesse ocorrido uma idéia repentina.

— Meu senhor! Estou vendo! Minha mente está repleta de luz, como se mil tochas estivessem queimando. E ali, no meio das chamas, há um rio de fogo, e acima do rio...

— Silêncio! — estrondeou a voz do rei. — Você pensa que me engana? Pensa que sou uma dessas velhas tolas que lhe pagam para lhes dizer seu futuro? Quando alguém me contar o meu sonho, eu o reconhecerei. E saberei quando um vira-lata sarnento fingir que o conhece. Basta! Uma barriga cheia de ferro porá um fim em suas mentiras!

Levantou a mão, sinalizando para os lanceiros se prepararem.

— Espere! Eu lhe imploro, senhor. — O segundo caldeu se aproximara, como se, em seu terror, estivesse prestes a tocar no rei.

— Poupe-nos e juro que saberá qual foi seu sonho.

Nabucodonosor deixou a mão cair. Observou o porta-voz com um sorriso divertido.

— Nenhum de vocês me disse nada além de mentiras e evasivas. Se eu poupá-los, o que lucrarei com isso?

O caldeu engoliu em seco.

— Não fomos capazes de lhe dizer qual foi seu sonho, senhor. Isso é verdade. Mas conheço alguém que é capaz.

O rei pôs-se de pé num salto, e os adivinhos, ao mesmo tempo, curvaram-se de medo.

— Quem, então? Quem é esse homem?

— Um dos hebreus, senhor — continuou o caldeu. — Trazido de Jerusalém. — Agora estava empertigado, quase acreditando que viveria para ver mais uma alvorada.

— Esse hebreu se chama Daniel.

 

SHANE BARRINGTON ERA UM HOMEM que jamais conhecera o medo. Quando criança, crescendo nas ruas barra-pesada de Detroit, ele rapidamente aprendeu que sobrevivência significava nunca demonstrar fraqueza, nunca deixar seu oponente saber que você estava com medo, por maior e mais brutal que fosse.

E as lições das ruas lhe serviram muito bem nas salas de reuniões da América corporativa. A Comunicações Barrington era atualmente uma das gigantes em mídia e tecnologia do planeta, e seu sucesso fora construído tanto em cima da destruição implacável dos concorrentes feita por Barrington quanto sobre sua habilidade quase genial de manipular números.

Agora, enquanto o seu Gulfstream IV particular se aproximava da costa escocesa, ele olhava a escuridão gelada lá fora e sentia um calafrio que ia até os ossos. Pela primeira vez em sua vida, Shane Barrington estava com medo.

Pela centésima vez, seus olhos vasculharam a folha impressa, agora amarrotada e manchada de suor. Pela centésima vez, leu as colunas de cifras, as pequenas fileiras de números que poderiam significar o fim de tudo pelo que ele havia trabalhado, tramado e mentido. Pequenas fileiras de números que poderiam destruí-lo tão certamente quanto uma bala no cérebro.

Ele já desistira de tentar imaginar como a prática de maquilagem da contabilidade da Comunicações Barrington havia vazado. Sistemas de última geração de criptografia de dados feitos sob encomenda, combinados com a ameaça de terríveis conseqüências para qualquer um que ousasse denunciá-los, mantiveram a salvo esses segredos durante 20 anos. Com certeza, nenhum dos seus empregados era inteligente o bastante — ou burro o bastante — para traí-lo. Um dos seus antigos rivais nos negócios, então? Uma galeria de nomes e rostos surgiu, mas ele pôs todos de lado. Um deles era agora um bêbado falido; outro tinha se enforcado na garagem. Todos haviam falido, de uma maneira ou de outra.

Então, quem lhe enviara o e-mail?

Saberia em breve. Quando o primeiro rubor da alvorada se tornou visível no horizonte, ele consultou seu Rolex e calculou a hora de chegada do jato em Zurique. Um pouco antes do horário exigido pelo chantagista. Mais algumas poucas horas e estariam cara a cara. E ele descobriria qual seria exatamente o preço da sobrevivência.

 

Quando o Gulfstream taxiou e parou em uma pista externa perto de Zurique, Barrington já havia tomado banho, se barbeado e se trocado para um terno azul-escuro cortado à perfeição a fim de sugerir a constituição física atlética que havia debaixo dele. Examinando-se no espelho do banheiro, viu um rosto duro demais para ser verdadeiramente bonito, lábios finos e severas maçãs do rosto iluminadas por olhos cinza-sílex ainda ardendo com a intensidade da ambição da juventude. O suavizante toque de grisalho nas têmporas, ele sabia, era o que não o deixava parecer o guerreiro executivo de coração frio que era.

Usara as últimas horas para se recompor, sugando profundamente do poço de autoconfiança em seu âmago para concentrar suas energias. Ao pisar na área macadamizada, sentiu-se concentrado, alerta, como um guerreiro pronto para a batalha. Uma coisa era certa: ele não cederia sem lutar.

Uma reluzente Mercedes preta estava estacionada perto do avião. Ao lado dela, um motorista uniformizado com pele pálida e olhar vazio mantinha-se em posição de sentido no gelado ar da manhã, abriu a porta traseira quando Barrington se aproximou e, calado, fez sinal para que ele entrasse.

— Aonde estamos indo? — perguntou Barrington quando a Mercedes diminuiu a velocidade em uma sinuosa estrada na montanha que parecia seguir direto para o meio das nuvens. No espelho retrovisor ele viu apenas um sorriso de lábios cerrados de seu motorista.

— Eu lhe fiz uma pergunta. E espero uma resposta. Eu exijo uma resposta. — O gélido tom de ameaça em sua voz era inconfundível, mas o motorista nem tremeu. Encarou Barrington por um momento com aqueles olhos vazios antes de voltar a atenção novamente para a estrada que serpeava sempre acima.

Em um instante a raiva que Barrington reprimira nas últimas 24 horas irrompeu na superfície. Inclinou-se para a frente e agarrou o ombro do motorista, rosnando ao mesmo tempo:

— Fale comigo, ou juro por Deus que você vai viver para se arrepender disso.

Com toda a tranqüilidade, o motorista parou o carro no meio de uma curva fechada que abraçava a montanha. Lentamente, virou o rosto até olhar diretamente nos olhos de Barrington. Alcançou a luz superior interna do carro e acendeu-a. Então, abriu a boca para mostrar que não tinha língua.

Quando Barrington desabou de volta em seu assento, a própria boca aberta pelo choque, o carro acelerou mais uma vez, os únicos sons o constante ronronar do motor e o inexorável bater de seu coração.

O castelo parecia crescer na encosta da montanha como uma malévola gárgula presa ao campanário de uma igreja. Suas maciças paredes de granito, encimadas por torrinhas com espigões, estendiam-se para o céu carregado de nuvens como se cingisse a escuridão, enquanto um punhado de antigas janelas chumbadas emitiam uma luz bruxuleante, doentia.

Era perto do meio-dia pelo relógio de Barrington, mas quando o céu se abriu e a chuva tamborilou no teto do carro, pareceu que era noite. E, nas trevas adiante deles, o castelo parecia ter saído de um pesadelo.

Enquanto Barrington ainda tentava se acostumar àquela aparição medieval de torres ocultas pela água da chuva, o motorista já abria a porta traseira, segurando um enorme e antiquado guarda-chuva, e sinalizava com a cabeça na direção da sólida entrada de ferro do castelo.

Inspirando fundo e silenciosamente dizendo a si mesmo que ainda era dia, que estava em um país moderno, civilizado, no século XXI — embora seus sentidos lhe dissessem o contrário —, Barrington foi em frente.

Apenas ficou surpreso quando a pesada porta se abriu silenciosamente para dentro e ele foi conduzido por um cavernoso corredor que se alongava para o interior das sombras adiante. O que o surpreendeu foi o repentino feixe de luz iluminando parte da parede à sua esquerda, que parecia ser de aço cintilante. Era para ali que ele deveria ir? Virou-se na direção do motorista, mas a escuridão o havia tragado. Barrington estava sozinho e, apesar da friagem sinistra, sentiu uma gota de suor escorrer pela espinha.

Avançando, caminhou na direção da porta de aço, que se abriu com um delicado sibilar à sua aproximação. Ao entrar no elevador e a porta se fechar sussurrante atrás dele, chegou o mais perto do que já estivera de fazer uma prece.

Quando o elevador o expeliu, Barrington sentiu como se tivesse mergulhado nas próprias entranhas da montanha, e o sinistro silêncio provocou um instante de pânico sufocante, como se ele tivesse sido sepultado vivo.

A voz estrondosa trouxe-o de volta à razão.

— Bem-vindo, sr. Barrington. Estamos muito contentes por ter vindo. Por favor, sente-se.

Cambaleando como um zumbi, Barrington apalpou o caminho através das sombras em direção à cadeira de madeira com adornos entalhados à sua direita. Acomodando-se nela com todo o cuidado, como se fosse uma cadeira elétrica que tiraria sua vida, ergueu a cabeça na esperança de, finalmente, fazer contato visual com seu algoz.

Em vez disso, viu as silhuetas completas de sete pessoas sentadas a uma pesada mesa de obsidiana que parecia atrair toda a luz do aposento.

Iluminadas por trás, cada figura permanecia negra e bidimensional, como a lua durante um eclipse solar, sem revelar nenhuma feição que ele pudesse discernir.

A voz falou novamente. Parecia vir da figura sentada no meio das sete. Não voltou a estrondear, mas, sob as vogais articuladas suavemente, havia uma rilhadora aspereza que fez Barrington pensar em unhas arranhando um quadro-negro.

— Sua presença aqui indica que entende a gravidade de sua posição, sr. Barrington. Portanto, há esperança para você. Mas apenas se, de agora em diante, seguir exatamente nossas ordens.

Barrington sentiu-se lânguido, como uma rã hipnotizada por uma víbora, mas aquilo era demais.

— Ordens? Não sei quem são vocês... nem mesmo tenho mais certeza de onde estou... mas de uma coisa eu sei: Ninguém dá ordens a Shane Barrington.

Suas palavras ecoaram na escuridão, e por um momento perguntou-se se havia conseguido uma vitória, alterado um pouquinho o equilíbrio de poder. Muito bem, vamos seguir na ofensiva, pensou.

Então a gargalhada começou. Suave a princípio, depois ganhando força até cascatear pelo aposento como um riacho transbordante. Era uma risada de mulher, e vinha da última figura sentada à esquerda.

— Ora, sr. Barrington. Nós sabemos que não tem moralidade. Mas achávamos que tinha inteligência. Não está entendendo? Você agora pertence a nós. O lote todo. E usaríamos o lote também para enterrar sua alma... se você tivesse uma.

Ela estava claramente se divertindo quando fez uma pausa para permitir que suas palavras fossem absorvidas.

— As informações que temos sobre os negócios da Comunicações Barrington nas duas últimas décadas seriam suficientes para mandá-lo para a cadeia pelo resto de sua vida... se todas viessem a público.

Novamente, fez uma pausa de efeito.

— Isto é, se antes os acionistas furiosos, a quem trapaceou tão completamente, não invadissem seu escritório e o espancassem até virar uma pasta de sangue.

Uma outra voz soou nas sombras, uma voz com um tom profundo e um inconfundível sotaque britânico.

— Não se engane, sr. Barrington, nosso convite ao senhor foi breve por necessidade, apenas a ponta de um grande acúmulo de transgressões que fez em seus negócios. Como um iceberg, um iceberg de impropriedades nos negócios, senhor, que poderia afundá-lo tão horrivelmente, que faria o Titanic parecer um barquinho de brinquedo.

Barrington levantou-se da cadeira, reunindo os últimos trapos de sua arrogância.

— Impossível. Vocês compraram algumas pessoas para conseguir uma pequena sujeira, posso ver isso, mas não é possível que tenham mais do que umas poucas embaraçosas manipulações de fundos que posso fazer com que...

A voz inglesa o interrompeu.

— Não nos tome por idiotas, sr. Barrington. Temos tudo... as despesas de capital que foram lançadas como lucro, as companhias com isenção fiscal planejadas para parecer que têm ativos quando na verdade ocultam passivos. Sem falar nas ameaças aos seus concorrentes, as intimidações. Ora, mesmo nesta impressionante época de lucros adquiridos desonestamente, o senhor tem sido um executivo pecador digno do Guinness.

Então é isso, afinal, pensou Barrington. Recuperação de investimentos. Ele sempre pensou que era esperto demais, durão demais, para ser apanhado por qualquer um dos seus pecados. Agora, apesar dele mesmo, os rostos das pessoas a quem arruinara no caminho para se tornar um dos homens mais ricos e mais poderosos do mundo começaram a lampejar em sua mente. A viúva aflita de um ex-sócio que ele levara ao suicídio. Os idosos cujos fundos de pensão ele dizimara para cobrir suas dívidas.

— Quer dizer, então, que vão me entregar? — coaxou Barrington debilmente.

Uma nova voz respondeu. Era uma voz masculina, hispânica, com uma aguda rispidez parecida com o grasnido de uma ave de rapina.

— Não o chamamos aqui para lhe dar o Prêmio de Destaque da Câmara de Comércio, señor Barrington, mas, não, não temos interesse em denunciá-lo às autoridades.

Um vislumbre de compreensão iluminou os olhos de Barrington.

— Ah, entendi. Isso tudo é porque vocês mesmos querem sentir um gostinho.

Sua boca fechou-se de repente ao som de uma forte palmada, que se tornou ainda mais impressionante quando Barrington se deu conta que partira da mulher.

— Sente-se e pare com sua tagarelice.

Barrington afundou de volta na cadeira.

— Um gostinho? Isto não é uma extorsão da máfia. Ainda não entendeu? Nós somos seus donos, Barrington.

Seguiu-se um pigarrear, e então a voz inglesa falou novamente.

— Agora que vejo que entende nossa posição, deixe-me oferecer-lhe uma alternativa para uma vida atrás das grades... bem curta, como essa vida sem dúvida seria.

Barrington quase pôde ver o ar de escárnio no rosto escurecido.

— Nós o escolhemos, sr. Barrington, por aquilo que pode fazer por nós. De que modo pode nos ajudar em nossos... esforços. Estamos preparados para injetar um mínimo de 5 bilhões de dólares na Comunicações Barrington, o suficiente para liquidar as dívidas que tão astuciosamente ocultou, o suficiente para continuar a engolir os seus concorrentes que restaram.

— O suficiente para torná-lo o... número uno no negócio da comunicação global. Exceto, é claro, que estará trabalhando para nós. Os Sete.

Barrington ficou subitamente tonto. Sentiu-se como um condenado que estivera contando os segundos finais e então o governador chegou com a suspensão temporária da sentença — e um cheque de bilhões de dólares. Com um sorriso, deu-se conta de que faria qualquer coisa — qualquer coisa — que lhe fosse pedida.

— Bem, acho que ficarei com a segunda opção — afirmou Shane Barrington, sua compostura rapidamente recuperada quando uma cálida descarga de adrenalina inundou suas veias. — Basta me dizer o que querem que eu faça.

 

Lá fora, as nuvens pareciam abraçar as paredes do castelo ainda mais fortemente enquanto um vento cortante dançava em volta dos baluartes. Em meio à intensidade dos elementos, o castelo permanecia frio, negro e silencioso.

No silêncio impenetrável da câmara subterrânea, o baque surdo e ressonante da porta de ferro do castelo não pôde ser ouvido ao ser fechada. Nem puderam os Sete ouvir o rugido abafado quando a Mercedes iniciou sua viagem de volta ao aeroporto. Mas sabiam que Barrington estava a caminho, a mente em chamas com sua nova missão, a escolha deles justificada.

Luzes suaves de refletores escondidos iluminaram os espectros sombreados dos Sete e os devolveram à aparência humana. Entretanto, mesmo cedendo a uma certa descontração em total privacidade, emanava de cada um deles uma aura medonha. O terceiro à direita, um sujeito de rosto redondo com uma juba prateada de cabelos rareando ajustou os óculos meia-lua e virou-se, sorrindo, para o homem cuja voz estrondeante fora a primeira a romper o silêncio.

— Bem, John, aceite minhas desculpas. Barrington foi realmente uma excelente escolha. Quase me surpreendi por ele não ter se oferecido antes à causa. Pareceu realmente adorar seus novos deveres. — Seu inglês cadenciado foi se transformando em uma risadinha suave.

Sem sorrir, sem desviar o olhar da cadeira em que Barrington estivera sentado momentos antes, John Bartholomew falou, e seu tom permaneceu arrepiante.

— O momento para nos felicitarmos está muito distante de nós, creio eu. Nosso grande projeto está apenas começando, e ainda há muito a ser feito.

— Mas, John, John! Certamente o que agora iniciamos não pode ser detido. Não está escrito? — prosseguiu o inglês. — Eu me curvo à sua sabedoria superior no reino das finanças. Mas, como homem do clero, creio que posso reivindicar algum conhecimento especial sobre, digamos, a dimensão espiritual. Pense em Daniel, pense no sonho de Nabucodonosor. Pense no que isso significa! — Na empolgação, ele apertou o braço de Bartholomew. — Certamente, com os nossos planos, dos Sete, o verdadeiro poder da Babilônia... o obscuro poder da Babilônia ressuscitará!

 

M

URPHY NÃO SABIA O QUE ERA PIOR, as listras ardentes de dor que riscavam seu ombro ou a abrasadora descarga de raiva que sua mulher despejava sobre ele. Pelo menos a raiva acabaria por se esgotar. Ele esperava.

— Vamos lá, Michael — era sempre Michael quando ele estava em maus lençóis —, diga-me por que sou tão especial.

Ele grunhiu quando ela passou em seu ombro um cotonete com anti-séptico. Um pouco mais severamente do que o estritamente necessário, pensou ele.

— Outras esposas chegam em casa, inesperadamente, nas primeiras horas da manhã, e encontram seus maridos na cama com outra mulher, ou apostando num jogo de pôquer a poupança das crianças, ou simplesmente no maior porre. — Fez uma pausa para colocar mais anti-séptico em um novo cotonete. — Mas eu, a sortuda, eu chego em casa e descubro que o meu marido foi quase morto por um leão! — Parou um momento de cuidar do ombro e sorriu docemente para ele. — Por favor, explique exatamente o que eu fiz para ser tão abençoada.

Não pela primeira vez, Murphy fez uma silenciosa oração de agradecimento por ter conseguido encontrar uma mulher tão maravilhosa e que, miraculosamente, ou assim lhe parecia, concordara em ser sua esposa. No momento, levava uma surra verbal — e tampouco não era a primeira —, mas ele sabia que era apenas porque ela se importava. E, como sempre, era bem merecida.

Também foi providencial, para dizer o mínimo, que ela tivesse chegado em casa naquele momento. O último dia de sua conferência sobre mapeamento de cidades perdidas fora cancelado depois que o astro da apresentação, o professor Delgado, do Instituto Arqueológico Mexicano, adoecera, e, com um misto de decepção por ter perdido as lendárias histórias do grande homem e alegria por ter sido encurtado em um dia o tempo que ficaria longe de Murphy, ela pegou o primeiro avião que partia de Atlanta.

— Eu esperava lhe fazer uma surpresa — disse ela com sarcasmo. — Mas devia ter adivinhado. Sou a única a ser surpreendida por aqui, não é mesmo?

Ela terminou de colocar no lugar as hastes com algodão, e Murphy pôde vê-la no espelho do banheiro, assentindo para o resultado de seu trabalho, antes de ajudá-lo a passar uma camiseta limpa pela cabeça. Ambos sabiam que ele não teria conseguido se cuidar sozinho.

No andar de baixo, ela o acomodou em uma das cadeiras de balanço, depois foi para a pequena cozinha. Voltou com duas fumegantes canecas de chá.

— Bem, professor Murphy, parece que não vai morrer de seus ferimentos. Sua maravilhosa e há tempos sofredora esposa já se acalmou o suficiente para ouvir seja lá qual for o ridículo absurdo que está para lhe contar. Portanto, fique sentadinho aí e tente não cair pela segunda vez de sua cadeira de balanço esta noite e deixe-me ouvir sua lamentável história.

Murphy suspirou. Ela não ia gostar.

— Foi ele, Matusalém. Recebi um recado quando estava no meu escritório. Muito atraente.

— E você simplesmente largou tudo e foi seja lá aonde esse maluco mandou que fosse? — Ela revirou os olhos. — Ah, mas eu estava esquecendo, você é Michael Murphy, o mundialmente famoso arqueólogo aventureiro. Nenhuma tarefa é suficientemente perigosa. E quanto mais maluca, melhor.

Ela ficou apenas sacudindo a cabeça. Ele esperou até ter certeza de que ela havia acabado. Finalmente, ela deu um gole no chá. O sinal para ele prosseguir.

— Ele disse Daniel. O Livro de Daniel. Como eu poderia não me interessar?

— Ah, por isso, o covil do leão. Entendi.

— Exatamente. — Murphy pousou sua caneca na mesinha de centro entre as cadeiras de balanço e inclinou-se na direção dela.

— Um dos mais importantes livros de toda a Bíblia. O filão-mãe da profecia. Está tudo lá. O sonho de Nabucodonosor, a estátua, tudo. — Na empolgação, o latejar de seu ombro foi esquecido. — Matusalém me ofereceu um artefato relacionado com o Livro de Daniel. Uma prova cabal como essa certamente faria os céticos a pensar duas vezes antes de rejeitar Daniel como sendo mera ficção. Imagine!

Laura recostou-se em sua cadeira de balanço, fora de alcance.

— E tudo o que tinha a fazer era agüentar três assaltos com um leão carnívoro. — Seu tom era gelado.

— Ora, meu bem, poderia ter sido pior — disse Murphy com um sorriso forçado. — Se tivesse sido o Livro do Apocalipse, talvez eu tivesse que disputar marradas com a própria Besta.

O olhar que ela lhe lançou foi ainda mais gelado. Nada divertido. Nada divertido mesmo!

Murphy tentou uma manobra diferente.

— Querida, a questão é: Matusalém pode ser mais pirado do que um balde de cobras, mas sempre joga pelas regras...

— As regras dele — interrompeu Laura. — As regras de um louco misterioso que não tem nada melhor para fazer com o próprio dinheiro do que enganar você, fazendo com que arrisque sua vida. E você cai todas as vezes!

— Sim, porque as regras dele dizem — prosseguiu Murphy, sereno — que, se eu ganhar o jogo dele, recebo o prêmio. Olhe, já discutimos isso antes, Laura. Eu sei que parece insano, mas é verdadeiro. Eu não sou simplesmente um tipo de homem de meias medidas. Adoro meu trabalho em tempo integral, tento amar a Deus em tempo integral e, acima de tudo mais, eu amo você em tempo integral. É um acordo global, meu bem, mesmo em noites como esta, quando você sente que o prêmio com o qual ficou entalado é o prêmio de consolação.

Laura franziu a testa, derrotada. Ela havia feito seu discurso. Sabia que Murphy não conseguia resistir à atração dos artefatos de Matusalém mais do que conseguia decidir não respirar. E, embora não estivesse disposta a contar a ele, a destemida paixão de Murphy para trazer à luz a verdade da Bíblia era em grande parte o motivo pelo qual ela o amava.

Relutou por mais dez segundos e cedeu, aproximando-se para abraçá-lo.

— Michael Impossível Murphy — sussurrou, chamando-o pelo nome do meio que lhe dera vários anos antes —, você sabe muito bem que o mais impossível a seu respeito continua sendo o fato de que não consigo ficar zangada com você mais tempo do que leva para se meter numa nova encrenca.

Ele gesticulou com a cabeça em direção à mesinha. Ambos olharam para o tubo vermelho inocentemente pousado ali entre eles como uma bomba que não explodiu.

— Então está bem, Murphy. — Ela deu o mais doce de seus sorrisos, e ele ficou pensando o que viria a seguir, ao ver seu sorriso transformar-se numa careta de preocupação. — Esse é pior do que eu pensava. O golpe do leão foi mais profundo do que parece. Vou levá-lo ao hospital para você levar uns pontos. Sem discussão.

Embora tivesse rejeitado sua insistência anterior em levá-lo para o pronto-socorro, Murphy agora nem sequer esboçou a mais fraca resistência.

Laura amoleceu novamente.

— Olhe — disse ela, colocando as mãos em volta do ombro de Murphy —, já que teve tanto trabalho para conseguir essa coisa, que tal amanhã, depois da sua aula, eu ir ao seu laboratório e ajudá-lo a ver o que tem aí dentro?

 

-QUER DIZER ENTÃO QUE você arrisca sua vida todos os dias?

— Isso mesmo, meu amigo. Um deslize e plaft!

O garçom do bar, que se encontrava perto o bastante dos seus únicos fregueses para ouvir sua conversa, sacudiu a cabeça e continuou folheando o jornal. Ali, numa indolente tarde de terça-feira naquele bar de uma esquálida região de Astoria, à sombra de uma não muito distante Manhattan, ele se sentia milhões de quilômetros distante da agitação da cidade grande.

Estivera ouvindo por 20 minutos aqueles dois papearem e com apenas uma cerveja entre eles. Só por causa de Farley, o grande herói, um dos seus fregueses habituais.

O outro homem era um desconhecido. Só podia ser, para estar conversando tanto tempo com Farley. Qualquer outro freguês sabia que Farley era um chato que não parava de falar sobre como seu trabalho era arriscado. O sujeito era um lavador de vidraças, não um fuzileiro combatente! O garçom voltou a encarar o desconhecido. Poderia achar que o homem devia ser surdo para continuar ouvindo Farley tagarelar sem parar, mas o desconhecido ouvia atentamente. E não bebia nada mais forte do que água.

Quando o estranho pediu água — nem ao menos água mineral —, o garçom ia começar com sua reprimenda habitual de que aquele era um bar e não uma fonte de água pública, mas algo nos modos do desconhecido o deteve. Não porque parecia ameaçador. Farley era um tipo de figura de aparência desleixada, pegajosa, e o estranho, no mínimo, tinha uma aparência ainda mais prosaica — cabelos grisalhos, óculos desgraciosos, um nariz grosso com marcas de bexiga, um pronunciado relaxamento na postura. Entretanto, se por um lado Farley era apenas uma ameaça capaz de matar você de tédio, por outro lado, havia algo em relação àquele dócil estranho que levou o garçom a não querer desafiá-lo.

— Ei — ele ouviu o desconhecido perguntar —, você topa um hambúrguer? — Então, mostrando que era um bom observador, já que todo mundo sabia que Farley era o maior pão-duro de toda a Astoria, o estranho acrescentou: — Eu pago.

Enquanto observava os dois homens saírem do bar arrastando os pés, o garçom sabia muito bem que não precisava checar se Farley tinha lhe deixado uma gorjeta, mas ergueu uma sobrancelha ao avistar uma nota de cinco dólares pousada ao lado do copo de água vazio do estranho. Puxa, pensou o garçom, tomara que ele apareça novamente em breve.

Ele não tinha como saber que nunca mais veria nenhum dos dois.

 

Do lado de fora do bar, o desconhecido sugeriu:

— Que tal pegarmos o meu carro? Ele está logo depois da esquina.

Farley concordou com a cabeça e o seguiu.

— Escute amigo, me diga novamente seu nome.

— Eu ainda não tinha lhe dito. — Deteve-se diante de um Jipe verde-escuro, e Farley parou, um ar intrigado no rosto.

— Ei, é isso mesmo. Bem, como é o seu nome? — O estranho não ligou, movendo rapidamente a cabeça à esquerda e à direita para inspecionar a rua deserta. Então Farley viu o estranho fazer movimentos rápidos em volta de sua cabeça. — Hã? — Farley pareceu ainda mais intrigado.

Só então o estranho se virou para olhar para Farley. Mas o rosto que Farley viu diante de si era agora completamente diferente. Haviam sumido a peruca grisalha, os óculos e o nariz.

— Você não precisará saber meu nome.

Quase tão rapidamente para se poder ver, o estranho varreu a mão direita diante da garganta de Farley. Um fino fio de sangue apareceu ali antes que Farley conseguisse gritar. Agora, ao tentar emitir um som, nada saiu.

— Você não precisará saber de mais nada. — Esticou-se para agarrar Farley e jogar seu corpo mole para dentro do carro. — Agora que eu sei as únicas coisas que você sabia que valiam a pena saber.

O estranho foi para trás do volante. Limpou o pouco de sangue que havia em seu dedo indicador direito na camisa do homem morto a seu lado. Farley não se importaria, pensou ele. Pegou o celular e observou o dedo indicador sob a luz verde do visor do telefone enquanto teclava. O dedo, que parecia um indicador normal até um olhar mais de perto, era um dígito artificial, cuidadosamente esculpido e pintado para parecer verdadeiro. Exceto pela ponta, onde deveria estar a unha, que tinha uma afiada lâmina mortal.

Sua ligação foi atendida com uma única palavra: “Condição.”

O estranho respondeu com uma voz fria, inexpressiva, sem sotaque, uma diferença e tanto do tom cordial que usara com Farley.

— Estou pronto para prosseguir, de acordo com suas ordens. — Empertigou-se na expectativa.

— Vá — foi-lhe dito. — E, Garra, não falhe... e não caia.

O homem conhecido como Garra fechou o telefone com um clique, demorando uma fração de segundo para se certificar de que todo o sangue fora limpo do dígito que lhe dera o nome pelo qual era conhecido. Empurrou Farley para baixo, fora da linha de visão da janela do carro, e seguiu para o local onde deveria se livrar do corpo. Um lugar onde este nunca seria encontrado.

Permitiu-se um sorriso medonho. Falhar ou cair não eram opções para ele mais do que respirar novamente seria uma opção para o sr. Farley.

 

O REI E O PRISIONEIRO DE JUDÁ olharam-se nos olhos, e o rei ficou intrigado ao ver que o escravo manteve seu olhar. É bem verdade que não havia guardas ao lado dele para intimidar o homem com suas espadas e olhares assassinos. Mas não era a simples presença real, a majestade e o poder de Nabucodonosor, cujo nome fazia reis e príncipes tremerem, o suficiente para aterrorizar um humilde escravo judeu?

Entretanto, o homem parecia a própria tranqüilidade enquanto esperava pacientemente o rei falar. Era realmente estranho. Aquelas pessoas tinham a fama de ser inteligentes. Contudo, aquele homem parecia não entender que perderia a própria vida se não conseguisse dar uma resposta ao rei. Uma resposta que os mais sábios homens do reino até então não tinham conseguido dar.

O rei vestiu o manto simples de lã, adotou uma postura descontraída — nem arrogante nem submissa — e o olhar inexpressivo, paciente, e ficou imaginando se aquele poderia ser realmente o homem que lhe revelaria seu sonho. Se ele fracassasse, como todos os demais, então uma coisa era certa: Daniel seria apenas o primeiro de muitos a sentir sua ira. Os esgotos da Babilônia seriam inundados de sangue antes que sua ira fosse aplacada.

O rei mudou de posição em sua cadeira de cedro entalhado e rompeu o silêncio.

— Bem, Daniel. — Sua pronúncia do nome hebreu do escravo era zombeteira, como se tivesse se referido a algum segredo vergonhoso. — Sem dúvida, não preciso lhe explicar por que está aqui.

— Estou aqui porque o senhor ordenou, meu rei.

Nabucodonosor examinou-o minuciosamente atrás de vestígios de atrevimento. Seu tom era enlouquecedoramente neutro, como era sua expressão sob as tochas bruxuleantes.

— Exatamente, Daniel. E tenho certeza de que, em sua sabedoria, entende por que dei essa ordem. E o que quero que você faça.

Daniel curvou ligeiramente a cabeça.

— O senhor foi perturbado por um sonho, meu rei. Um sonho terrível que agitou seu espírito e, mesmo assim, quando acordou, não restou dele nenhum fragmento, nenhuma partícula. Apenas um eco vazio, como o som de uma palavra em uma língua estrangeira.

Nabucodonosor descobriu-se apertando o amuleto de Anu que usava pendurado no pescoço. Pelos deuses, como esse homem conhecia tão bem seus pensamentos mais íntimos?

— Sim, sim, toda a Babilônia sabe disso. Mas consegue me dizer qual foi o sonho, Daniel? Consegue recuperá-lo para mim? — Deu-se conta, alarmado, de que sua voz estava falhando, seu habitual tom autoritário substituído pelo choramingar aflito de uma criança.

Daniel fechou os olhos e inspirou profunda e lentamente. O instante estendeu-se e Nabucodonosor sentiu seus nervos se esticarem até o ponto de rompimento. Finalmente, Daniel abriu os olhos, agora brilhantes com uma nova intensidade, e falou:

— Os segredos que exige não podem ser proclamados ao rei por adivinhos, mágicos, astrólogos ou feiticeiros. Somente o Deus do céu é capaz de revelar tais segredos. — Daniel silenciou sua voz enquanto se concentrava profundamente.

— Sim, sim, não pare agora — bradou Nabucodonosor.

Daniel não se deixaria apressar. Finalmente, olhou calmamente para o rei e falou de forma lenta e alta para que sua mensagem não fosse interpretada erroneamente:

— O Deus do céu, nesse sonho, revelou ao senhor, rei Nabucodonosor, coisas que virão nos Últimos dias.

 

AO CAMINHAR INTENCIONALMENTE em direção ao Salão de Conferências B, Michael Murphy não parecia, certamente, um acadêmico. Sem dúvida, tinha a aparência ligeiramente amarfanhada de alguém que se importava mais com idéias do que com a aparência — a gravata ligeiramente torta sobre uma amarrotada camisa de sarja, um velho paletó de cânhamo gasto nos cotovelos e um par de tênis em que era visível sua assustadora quilometragem.

Se, porém, você olhasse com mais atenção, poderia distinguir pelas suas passadas rítmicas, moderadas, pelas mãos calejadas e leves cicatrizes que nitidamente destacavam suas belas feições, que ele não era nenhum habitante de uma torre de marfim. Aquele era um homem que sentia mais prazer no espaço aberto do que no fechado — e mais prazer ainda quando enfrentava duros desafios físicos.

Por apenas um momento, Murphy descobriu-se desejando que fosse subitamente convocado para executar um desafio desses. Qualquer desafio físico serviria. Normalmente, longe de ser um homem perseguido pela falta de confiança, durante toda a sua animada caminhada pelo campus da Universidade de Preston, no calor do final de agosto, ele estivera se preparando para um comparecimento modesto e constrangedor.

O curso de Arqueologia e Profecia Bíblica fora um recente acréscimo ao currículo. As aulas normais de Murphy atraíam uma platéia entusiasmada, mas muito pequena. Em uma universidade como Preston, não eram muitos os alunos que desejavam se dedicar ao estudo do passado — muito menos do passado bíblico. Então, ao final do último semestre, alguns dos ex-alunos mais ricos fizeram pressão sobre o reitor da universidade para haver uma oferta maior de cursos sobre a Bíblia.

Benditos sejam, pensou Murphy, embora isso pudesse gerar alguma confusão. Os dois aspectos negativos mais perturbadores eram que ele teria muitas explicações a dar aos doadores se ninguém aparecesse para fazer o curso, e o fato de que o diretor Fallworth da faculdade de Artes e Ciências detestava ter de manter outro curso de arqueologia bíblica.

Murphy tentava não ser um homem vaidoso apesar de sua crescente notoriedade pelas descobertas de artefatos bíblicos. Até então, ele tinha estrelado três especiais de televisão a cabo sobre seu trabalho, o que atraiu algumas verbas de empresas para o departamento e algum aumento dos rendimentos nas exposições do museu da universidade.

Toda essa atenção atraiu o ciúme e a ira de Dean Fallworth. Houve, por parte do diretor, vários comentários velados que tachavam Murphy de anti-religioso, mas Fallworth era direto e sem papas na língua quando exprimia sua opinião de que aquilo que Murphy estudava e ensinava não tinha validade científica nem era uma história verossímil.

Isso, vindo de um homem, como salientara Murphy para Laura na semana anterior, cuja tese universitária mais recente fora “Materiais para Botões de Plantações da Geórgia do Século XVIII”.

O positivo de lecionar o novo curso de Arqueologia e Profecia Bíblica era que Murphy adorava ensinar e as verbas adicionais permitiriam que ele instituísse o novo programa que divulgara no sumário como “Estudando o Passado, Comprovando a Bíblia e Interpretando os Sinais dos Profetas”.

Ali, pela primeira vez, estava uma oportunidade para qualquer aluno, não importava no que estivesse se formando, fazer um dos seus cursos. Seu plano era animar as coisas incorporando alguns dos vídeos de pano de fundo que não tinham sido exibidos nos especiais de televisão, e ele achava que também devia incluir observações sobre suas descobertas mais recentes.

Contudo, andara desconfiado e não quis verificar a quantidade de matrículas antes de dar a primeira aula. Torcia pelo melhor, mas uma voz resmungona dizia, como às vezes fazia quando ele permitia que o mundo real habitasse seus freqüentes pensamentos sobre os estudos dos antigos: Este é o século XXI, alguém num mundo de hip-hop está ligando para os hititas?

— Bem, eu ligo — disse Murphy em voz alta, sem pretender. — Vou dar uma excelente aula, mesmo que só compareçam eu e os meus slides.

 

Quando o agitado murmúrio do interior tornou-se audível, ele respirou fundo e entrou no salão de conferências. Para seu assombro, todos os assentos estavam ocupados, havia vários alunos encostados nas paredes laterais e alguns até mesmo se acocoravam no chão abaixo da tribuna.

Murphy bateu as mãos, e o falatório logo parou.

— Muito bem, pessoal, vamos começar. Estamos lidando aqui com milhares de anos de história, e temos apenas 40 minutos, portanto não há tempo a perder. — Vasculhou as fileiras de rostos e imaginou o que estariam desejando. O que esperavam? Ele seria capaz de oferecer-lhes? Avistar os olhos brilhantes e o ávido sorriso de Shari Nelson na primeira fila levou um meio sorriso aos próprios lábios. Pelo menos tinha uma amiga na platéia. Se as pessoas começassem a jogar coisas, talvez Shari conseguisse acalmá-las.

— É genial ver tantos de vocês aqui, portanto deixem-me apenas avisar no que estão se metendo. Este curso se chama Arqueologia e Profecia Bíblica e, de acordo com o folheto, é um estudo sobre o Antigo e o Novo Testamentos, com ênfase nas evidências arqueológicas que sustentam a exatidão histórica e a natureza profética da Bíblia. Quem se perdeu no caminho para o seminário sobre o filme Matrix ou para o Projeto do Nosso Futuro, esta é a chance de sair de fininho.

Algumas risadinhas, mas ninguém se levantou para sair. Ótimo, ainda estavam com ele.

— Bem, o que significa arqueologia bíblica? Deixem-me fazer algumas perguntas: Noé construiu realmente uma arca e a encheu com um casal de cada animal?

“Moisés separou realmente o mar Vermelho com um movimento de seu cajado?

“Um homem chamado Jesus viveu, respirou e andou realmente na Terra Santa dois mil anos atrás, ensinando, curando e realizando milagres?

“Como podemos saber realmente se essas coisas são mesmo verdade?”

Uma esguia mão ergueu-se no fundo do salão. Pertencia a uma loura com longos cabelos lisos e grandes óculos redondos, que ele vira uma ou duas vezes na capela da universidade.

— Porque a Bíblia nos diz isso — afirmou com uma voz baixa mas confiante.

— E porque Hollywood nos diz isso — interrompeu outra voz. Pertencia a um aluno corpulento, de cabelos negros, os braços cruzados sobre seu suéter da Preston e um sorriso presunçoso no rosto. — Se Charlton Heston acredita nisso, só pode ser verdade, não é mesmo? — Isso provocou algumas risadas e até mesmo uma pequena agitação de aplausos.

Murphy sorriu e esperou que os estudantes se acalmassem.

— Sabem, quando eu tinha a idade de vocês, também era cético. Talvez ainda seja. Pressupõe-se que os cristãos devam aceitar de boa-fé a verdade da Bíblia. Mas, às vezes, a fé precisa de uma mãozinha. E é aí que entra a arqueologia bíblica.

Apontou para o ainda sorridente jovem na fila logo atrás de Shari.

— O que preciso fazer para lhe provar que a arca de Noé existiu? O que convenceria você?

O estudante pareceu pensativo por um momento.

— Acho que eu teria de ver alguma prova concreta, sabe?

Murphy pareceu ruminar a questão.

— Prova concreta. Parece justo. Bem, vejamos, quando se trata de pesquisa científica, você tem que estar disposto a ir aonde quer que a evidência o leve. Nos últimos 150 anos houve mais de trinta mil diferentes escavações arqueológicas que desenterraram evidências que sustentavam somente a parte do Antigo Testamento da Bíblia.

“Durante séculos, os céticos zombaram da idéia de ter havido uma nação hitita, como registra a Bíblia, até evidências arqueológicas terem desenterrado provas irrefutáveis da existência dos hititas. Do mesmo modo, a simples menção da cidade de Nínive costumava levar risadas e palavras de escárnio aos lábios dos incrédulos até a cidade inteira ser descoberta perto do rio Tigre pelo grande arqueólogo A. H. Layard.

“Por outro lado, até esta data, nenhum fragmento de evidência capaz de contestar a autenticidade da Bíblia foi descoberto.”

— Uau! Impressionante! — gritou alguém lá do fundo. O estudante que queria prova concreta ainda não estava satisfeito. — Eu ainda gostaria de ver, tipo o leme de Noé, se quiserem me convencer de que a Arca era verdadeira.

Murphy sorriu.

— Bem, ninguém ainda encontrou o leme da Arca. Mas existe algo que talvez você ache interessante.

Murphy projetou seu primeiro slide na enorme tela atrás da tribuna. Mostrava uma caixa coberta por um pano. O slide seguinte revelava abaixo do pano uma caixa de pedra clara com uma tampa sobreposta. Tinha cerca de 60 centímetros de comprimento e 40 de largura, com 25 de profundidade e ainda guardava as marcas das ferramentas primitivas que tinham sido usadas para esculpi-la de um maciço bloco de pedra calcária.

— Alguém sabe o que é isso? — perguntou Murphy.

— Que tal a lancheira de Fred Flintstone? — disse uma voz agora já conhecida.

Shari virou-se e lançou um olhar intimidador para o gaiato antes de dar sua própria resposta.

— Um sarcófago? Talvez um sarcófago de criança?

— Ótimo palpite, Shari. — Murphy deu-lhe um sorriso afetuoso. — É mesmo um caixão... um caixão para ossos. O que podemos chamar de ossuário. Há milhares de anos, era prática comum, em algumas partes do mundo, depois da decomposição da carne dos mortos enterrados, os ossos serem desenterrados, envoltos em musselina e colocados num desses recipientes.

— De quem é então esse caixão que estamos vendo? — veio uma voz do fundo. — De Russell Crowe talvez?

Murphy ignorou as gargalhadas.

— Bem, vamos dar uma olhada. — O slide seguinte era um close da lateral da caixa, mostrando sua inscrição gasta e desbotada. — Diz aqui, Jacó...

— Ei, Jacó Bramais, por onde você andava?

Aparentemente perdido em pensamentos, Murphy não ouviu o comentário nem as risadinhas que se seguiram. Ele estava em outro lugar. Outro lugar, distante no tempo. Clicou para uma enorme ampliação de um close da inscrição do ossuário e começou a ler.

— Jacó, filho de José...

Um silêncio descera sobre o salão.

— ...irmão de Jesus.

Ele deixou o silêncio se estender, depois virou-se de volta para a platéia.

— Nesta pequena caixa que vêem aqui... na qual eu já toquei... estão os ossos do irmão de Jesus.

“Normalmente, apenas o nome do pai do falecido seria inscrito num ossuário, a não ser que o falecido tivesse um outro parente extremamente conhecido. E ninguém foi mais famoso, ou mal-afamado, do que Jesus naquela parte do mundo durante aquele período.

“O significativo aqui é que esse ossuário não apenas confirma a historicidade de Jesus... isto é, que Ele foi uma figura histórica verdadeira... mas também confirma que Ele teve tal notoriedade que a família de Jacó identificou seu irmão morto através Dele. Assim que se provar que esse ossuário é legítimo, ficará provado que Jesus não apenas viveu nesse período de tempo, mas foi uma pessoa proeminente em Sua época. Exatamente como Ele é mostrado na Bíblia.”

Como fazia todas as vezes que olhava fotos daquela caixa de pedra, Murphy experimentou uma estranha e desorientadora sensação, como se tivessem sido colocados de lado os milhares de anos que o separavam daquele homem há muito tempo falecido, como se eles, de alguma forma, estivessem presentes juntos naquele momento imortal.

Seu estado de espírito foi subitamente abalado por uma voz que surgiu próxima de Shari.

— Talvez isso esteja dito na caixa, mas como vamos saber se não é uma falsificação? Sabe como é, com todas essas relíquias de santos que costumavam ser produzidas na Idade Média para serem vendidas como lembranças baratas. Como o Santo Sudário. Trata-se de uma falsificação, não é mesmo, professor Murphy?

Murphy olhou fixamente para o indagador. Este tinha mesmo a aparência de um cético, mas parecia mais sério, mais sensato e mais bem informado do que o piadista da classe que desde o início atraíra as luzes dos refletores. Notou que Shari se virara para também fazer uma fria avaliação.

—Você levantou uma boa questão...

— Paul — apresentou-se o estudante, em seguida começou a enrubescer, obviamente não desejando toda a atenção que atraiu dos presentes.

— Muito bem, Paul. Alguns especialistas concluíram que o Santo Sudário é provavelmente uma falsificação medieval. Eu não estou convencido. Entretanto, como separar o falso do verdadeiro? O que me faz pensar que o ossuário continha realmente os ossos do irmão de Cristo?

— Datação por carbono? — A resposta foi rápida e confiante.

— Obrigado, Paul. Quando você quiser subir aqui e fazer a palestra, é só me avisar. Ao que parece, você sabe todas as respostas — disse Murphy com um sorriso.

Paul enrubesceu outra vez, e Murphy rapidamente deu-se conta de que fora duro demais com ele. O sujeito não estava tentando fazê-lo cortar um dobrado, era apenas mais inteligente do que o aluno médio.

— Sim, a datação por carbono é o meio pelo qual podemos praticamente determinar o ano em que um artefato foi feito ou foi usado — continuou Murphy. — O carbono 14 é um isótopo radioativo encontrado em qualquer objeto orgânico. Se o objeto se deteriora a uma determinada velocidade, a quantidade de C-14 nele restante pode revelar sua idade.

Paul parecia agora mais encabulado. Claramente, não queria ficar sob os refletores. Mas também não podia guardar suas perguntas para si.

— Hã... professor Murphy, a datação de carbono não nos diria apenas quando a pedra original foi formada e não quando a caixa... o ossuário... foi entalhado nela?

— Você está absolutamente certo, Paul. Mas dentro da caixa, incrustados em minúsculas rachaduras, encontramos pedaços de musselina e fragmentos de pólen que o carbono datou como pouco após a época de Cristo... por volta de 60 d.C. E não apenas isso, a inscrição foi feita em uma forma de aramaico exclusiva daquele período. E, se quiser mais provas, o exame microscópico da pátina que se formou na inscrição prova que ela não foi feita em uma data posterior.

Murphy fez uma pausa e notou os rostos atentos. Ninguém mantinha conversinhas particulares no fundo da sala. Nem enviava mensagens de texto nos seus celulares. Ninguém embromava. Mesmo se não estivessem convencidos, pelo menos ele parecia ter atraído sua atenção. Agora, o teste verdadeiro.

— Está tudo muito bem, senhoras e senhores, mas tudo o que acabo de lhes dizer é um balde de lavagem de porco. Essa caixa é uma completa falsificação.

A classe irrompeu em gritos de desalento e confusão. A velha e sonolenta arqueologia já era, pensou Murphy.

— Vê se se decide, cara.

— É verdade, o ossuário é um embuste. É o que disse mais de um grupo de cientistas e estudiosos. Eu, porém, fiquei impressionado pelo teste de carbono 14, que examinaremos numa aula posterior, e também pela escrita em aramaico que era limitada ao século I. Essa descoberta é relativamente recente, por isso haverá muito mais estudos e debates sobre o ossuário nos anos que virão. Levantei tudo isso, ao iniciarmos a jornada deste curso, por um motivo.

Murphy fez uma pausa.

— Sou um cientista, as pessoas que têm desafiado a autenticidade do ossuário são cientistas. Tenho muito orgulho de ser também um crente cristão sério, praticante e combatente. Desconfio que os cientistas que estão alegando que o ossuário é falso talvez tenham sido motivados a negar essa importante descoberta porque ela os forçaria a mudar suas dúvidas preconcebidas sobre Cristo. É a minha religião nublando meu pensamento? É a falta de religião deles distorcendo sua avaliação? Pessoal, estes são apenas alguns dos interessantes assuntos extras que busca um arqueólogo para provar as faces da Bíblia. Estou ansioso para explorar com vocês tudo isso e muito mais nas próximas semanas.

Que azar o dele. Notou o diretor Fallworth caminhar pelo fundo da sala. Por quanto tempo ele esteve ali?, perguntou-se Murphy.

— Agora, para não deixá-los em suspense, quero lhes garantir que a pergunta se Jesus de Nazaré era uma pessoa genuína da história não depende da autenticidade desse ossuário. Neste curso, estudaremos algumas das provas. Entretanto, quando for provado que o ossuário é autêntico, como acredito que irá acontecer, essa será mais uma prova para aqueles que acreditam em Jesus e que Ele caminhará novamente entre nós.

Murphy consultou o relógio.

— Bem, vamos ver agora a lista de leitura do curso antes que eu esgote todo nosso tempo.

— Um momento, Murphy.

Uma ossuda mão agarrou-o pela sua mochila, quando saía do salão.

— Diretor Fallworth. Que belo exemplo deu aos alunos ao acompanhar minha palestra.

— Bobagem, professor Murphy. — Fallworth era tão alto quanto Murphy, mas amaldiçoado com uma palidez de rato de biblioteca que, por comparação, faria algumas múmias parecerem saudáveis. — Chama aquilo de palestra? Eu chamo de desgraça. Ora, a única coisa que o separa de um pregador de barraca dominical é o fato de que não passa o pires para a coleta.

— Eu aceitarei com prazer qualquer doação que quiser fazer, diretor. A propósito, precisa de um sumário do curso?

— Não, sr. Murphy, eu tenho tudo de que preciso para levar a diretoria da universidade a iniciar as audiências para reconhecimento oficial dessa farra evangélica que chama de aula.

— Calma — murmurou Murphy para si mesmo. — Diretor, se acha que o meu trabalho não é profissional, então, por favor, ajude-me a melhorar minhas habilidades docentes, mas, se quiser atacar os cristãos, não preciso ficar aqui para ouvir.

— Você sabe como aqui no campus já estão chamando esse circo tolo? Bíblia para Bobocas, Jesus para Jericos e Geléia da Galiléia.

Murphy não pôde deixar de rir.

— Gostei da última. Minha pretensão é dar um curso intelectualmente estimulante, diretor, mas confesso que não exijo nenhum teste de QI para quem quiser fazê-lo. O conhecimento vai estar lá, eu lhe garanto, mas é provável que eu não corresponda à sua aparente exigência de que o único método educativo é entediar os alunos até torná-los um antigo ossuário.

— Escreva o que eu lhe digo, Murphy. Sua esperança desse curso sobreviver e suas esperanças de se tornar um professor estável nesta universidade estão tão mortas quanto o que há dentro dessa sua caixa.

— Ossuário, diretor. Ossuário. Estamos em uma universidade, vamos tentar usar palavras multissilábicas. Se você estiver mesmo disposto, posso lhe arranjar uma bem fácil e poderá matutar sobre ela. Agora, se me dá licença, tenho um novo artefato no qual devo começar a trabalhar.

 

MURPHY RESPIROU ALIVIADO ao fechar a porta do laboratório atrás de si. Aquele era o seu santuário íntimo, um lugar onde egos inflados e mesquinhas rivalidades acadêmicas não tinham lugar. A única coisa que interessava era a verdade. Apropriadamente, o espaço imaculado era pintado de branco puro. Iluminado por luz halógena, o aposento era revestido de bancadas de laboratório estilo industrial e prateleiras cromadas para equipamentos, e o único som o zumbido dos computadores e do sistema de ponta de controle ambiental.

No meio da sala havia uma mesa especialmente equipada para fotografar artefatos, com dois spots de luz halógena para iluminação sem sombra e sem cor e escalas de referência de tamanho. Empoleirada num tripé, encontrava-se uma câmera digital de última geração. Shari Nelson, num limpíssimo jaleco branco de laboratório, estava curvada sobre ela carregando um disquete.

— Oi, Shari — cumprimentou Murphy. — Obrigado por ceder seu horário para me ajudar esta tarde. Laura vai tentar se livrar do dela, mas vamos começar logo, pois tenho certeza de que ela está com a sala repleta de um amontoado de jovens ansiando por reclamar à toa.

— Professor Murphy, às vezes chego a pensar que nunca foi jovem.

— Nunca fui. Minha alma é velha. Pergunte à minha múmia.

— Em todo caso, as piadas são. — Ela ergueu o olhar e lhe deu um sorriso radiante. — Já estou aqui há uma hora preparando tudo. Isso é tão emocionante! — Apontou para o tubo de metal agarrado firmemente na mão dele. — É isso aí?

Ele o colocou na mesa diante dela.

— Não quero que fique decepcionada, Shari, se descobrirmos que não é nada. Enquanto não o examinarmos, não faço mesmo a menor idéia do que seja.

— Mas acredita que é algo importante, não é? Você disse. Isto é, eu pude perceber, pela sua mensagem, o quanto estava empolgado.

Ela estava com a razão. Às três da madrugada, meio fora de si por causa da dor e da exaustão, Murphy se convencera de estar de posse de algo de importância monumental, e seu e-mail ligeiramente alucinado para Shari refletia isso. Agora, à fria luz do dia, dúvidas o assolavam, juntamente com a latejante dor no ombro.

— Espero que seja, Shari. Mas lembra da primeira lei da arqueologia bíblica?

— Sei, sei — rebateu. — Sempre estar preparado para se decepcionar.

— Exatamente. Não deixe suas esperanças anuviarem sua objetividade.

Ela conhecia os rudimentos, mas não parecia que levava isso realmente muito a sério. Torcia por causa de ambos para que o tubo tivesse mais do que um punhado de areia antiga.

Antes de ele e Laura terem caído em um sono espasmódico, examinaram o tubo minuciosamente e descobriram a junção quase invisível no meio. Pareciam duas metades enroscadas com precisão para formar um encaixe perfeito.

Shari pareceu hipnotizada quando Murphy pegou o tubo com as mãos e preparou-se para desenroscá-lo.

— Espere! — gritou Shari. — Não há algo que precisamos fazer antes?

Murphy pareceu intrigado.

— Ah, radiografá-lo? Shari, você é uma segurança para seu velho professor. Tem razão, normalmente iríamos querer alguma idéia do objeto que há aí dentro, antes de o expormos ao dano potencial do ar. Mas aposto um almoço com você que o que temos aqui é um rolo de papiro. É a única coisa que poderia ser tão pequena e leve e ainda conter as pistas que me disseram haver no tubo. E se é um papiro que sobreviveu mais ou menos dois mil anos sem apodrecer, significa que está bem ressecado, o que também significa que, assim que você tirar suas fotos...

— Teremos de reidratá-lo!

Murphy não pôde evitar de sorrir do entusiasmo de Shari. Embora ainda fosse uma estudante, era provavelmente a pessoa mais dotada de bom senso que ele já conhecera. Entretanto, a perspectiva de um achado bíblico genuíno fazia com que ela ficasse tão agitada quanto uma hiperativa criança com dois anos.

— Exatamente. Então, está tudo pronto? Bem, vamos começar.

Quando Murphy apertou o tubo e fez pressão sobre o fecho, Shari empurrou uma bandeja branca de plástico pela mesa até debaixo das mãos dele. A bandeja colheria quaisquer detritos que pudessem ser usados para uma datação de carbono. O zunido de fundo das máquinas parecia aumentar de volume enquanto eles se concentravam atentamente no tubo. O fecho cedeu com um estalo. Ele tinha toda a certeza de que Matusalém já devia ter aberto o tubo para verificar o que havia dentro, mas, de algum modo, o lacrara tão perfeitamente quanto o fizera o proprietário original. Agora as duas metades estavam separadas, revelando um desbotado rolo de papiro. Delicadamente, com as pontas dos dedos, Murphy colocou-o sobre a bandeja.

— Acho que o almoço é por minha conta, professor — disse Shari ansiosa. — Eu diria que é um papiro genuíno. — Hesitou. — Não é?

A princípio, Murphy pareceu não ouvi-la. Estava todo curvado, já tentando decifrar as tênues marcas na superfície do rolo. Tinta? Ou apenas manchas de deterioração? Era uma forma feita por um ser humano ou apenas uma mancha? Após um momento, abriu um sorriso e deu um tapinha no ombro dela.

— Por favor, Shari, vou comer o de sempre. Cheeseburger de chili com porção extra de picles.

— E soda-limonada — acrescentou ela, contente.

Começaram a trabalhar, Shari revezando-se em tirar fotos e sugar poeira e detritos da bandeja com um aspirador do tamanho de uma lanterna, ao mesmo tempo que Murphy examinava o rolo de todos os ângulos. Depois que ela terminou, Murphy levou a bandeja para o que parecia ser um forno de microondas tamanho gigante, com porta envidraçada e painel de controle eletrônico na lateral. Deslizou a bandeja para o interior da câmara hiperbárica, trancou a porta e ajustou os controles para umidade e pressão barométrica.

Com sorte, as antigas fibras do papiro absorveriam gradualmente a umidade até ficar bem maleável para ser desenrolado sem se desintegrar. Caso contrário, as fotografias que Shari acabara de tirar seriam então tudo o que eles teriam para desvendar os seus segredos.

Juntos, olharam através do vidro opaco como ansiosos pais de primeira viagem olhando um bebê numa incubadora.

— E, agora — disse Murphy —, esperamos.

Quando Shari Nelson deixou o laboratório do professor Murphy, Paul Wallach precisou apressar o passo para alcançá-la. Ele corria o risco de perdê-la enquanto ela caminhava vigorosamente pelo labirinto de corredores do prédio histórico.

— Com licença, posso lhe falar um instante?

Shari virou-se, e Paul ficou surpreso em vê-la sorrindo para ele. Com seu cabelo preto-azeviche preso para trás num pequeno rabo-de-cavalo, e calça de moletom azul-escuro e suéter, ela parecia não trabalhar tanto quanto aparentava. O efeito, porém, principalmente com aqueles cintilantes olhos verdes, era cativante. Paul ficou subitamente sem palavras.

— Olhe, eu... eu sei que trabalha com o professor Murphy, e só quero me desculpar pelo que falei durante a palestra. Não queria que você pensasse que eu estava tentando bancar o cara esperto ou coisa assim.

Ela inclinou o queixo como se estivesse avaliando as palavras dele em uma balança.

— Você levantou uma questão importante. Não é isso que vivem nos dizendo para fazer aqui? Fazer perguntas?

— Acho que sim. É que eu notei que você estava... você sabe. — Os olhos dele se dirigiram diretamente para a cruz simples de prata no seu pescoço.

Ela franziu a testa e ele sentiu-se enrubescer. Ela estava sendo amável, e agora ele a tinha ofendido. Se ele era tão inteligente, por que ela o fazia se sentir tão burro?

— Cristãos também podem fazer perguntas, sabe. E aqui vai uma. Quem é você?

Ele enrubesceu ainda mais.

— Paul Wallach. Acabo de mudar para a Preston este semestre.

Shari estendeu a mão.

— Shari Nelson. Prazer conhecê-lo, Paul. E não achei, de modo algum, que você estava bancando o idiota. Aliás, quando se trata das perguntas realmente importantes, talvez sejam os ateus que não gostem que elas sejam feitas. — Ela riu. — Desculpe, tenho certeza de que não veio para a Preston para ouvir um sermão meu.

— Bem, não, isto é, tudo bem, se puder...

Ele inspirou fundo e se recompôs. Vamos lá, assuma o controle.

— Eu gostaria de lhe perguntar umas coisas, se você concordar. Se tiver tempo. Sobre a palestra e o professor Murphy. Ouvi dizer que há umas roscas na lanchonete que precisam urgentemente de uma datação por carbono. Que tal?

— E que tal o professor Murphy? — perguntou Paul. — Ele parece um cara legal.

— Para um arqueólogo bíblico, você quer dizer.

Paul e Shari já estavam conversando havia 20 minutos. Uma rosca de aparência antiga repousava sem ser comida sobre um prato descartável diante deles, juntamente com duas canecas de café agora vazias, e pelo que ele podia perceber, ela não se entediava com sua companhia. Shari, porém, ainda mantinha aquela enervante habilidade de fazê-lo sentir-se totalmente sem jeito.

— Não, não quis dizer isso. Palavra. Quis dizer um professor legal.

Ela lhe lançou um sorriso para mostrar que acreditava nele, ou talvez que estava apenas caçoando. De qualquer modo, seu suspiro de alívio deve ter sido audível.

— Murphy é legal. É o melhor no que faz. Tenho aprendido demais com ele.

— Você disse que às vezes ele a deixa trabalhar em seu laboratório. É mesmo? — quis saber Paul.

— Isso é o melhor de tudo. Sou uma sortuda. Às vezes, nem acredito que ele confia em mim para não deixar aquelas coisas caírem... são importantes artefatos históricos, sabe?

Olhou para Paul com aqueles olhos verdes que agora ele percebia que podiam ser tão intimidadores quanto sedutores. Talvez ela lhe tivesse dito mais do que pretendia.

— Bem, Paul, chega de mim e chega do professor Murphy. — Olhou-o de cima a baixo. — Ainda não me disse uma só coisa sobre você. Hmmm. — Colocou o dedo sob o queixo. — A julgar pela calça e camisa bem passadas, o cabelo bem cortado... sem falar nos mocassins lustrosos... eu diria que você não é exatamente um aluno típico da Preston. Aliás — prosseguiu num tom mais baixo, curvando-se sobre a mesa na direção dele —, nem tenho certeza se é mesmo um estudante.

Ele tremeu, sufocando uma resposta, e Shari imediatamente se deu conta de que fora longe demais. Divertia-se à custa dele, e isso era errado.

— Olhe, eu não quis...

— Não, tem razão — disse ele, os olhos fixos desoladamente nas canecas vazias. — Eu não combino mesmo com este ambiente. Não sei mais onde combino.

— Por que diz isso? Deve ter tido algum motivo para se transferir este ano para a Preston.

Paul estava decidindo se devia contar sua história. Ele gostou muito de Shari, por isso resolveu contar.

— Bem, foi você quem pediu. Eu vim transferido da Duke aqui para a Preston.

Shari ficou surpresa.

— Uau, não há muitos estudantes que desistem da Duke para vir para cá.

— Não, e não fiz isso do modo mais fácil. Sabe, meu pai é um burro de carga no trabalho. Não fez faculdade; criou o negócio da família, uma gráfica, na marra, ao estilo antigo. Quando eu ainda era muito novo, minha mãe foi embora, de tanto que ele trabalhava dia e noite, e quase o tempo todo que tinha para mim era para me dizer que eu tinha de ir para a faculdade e aprender o negócio do “jeito legal”, como chamava. Ganhava dinheiro suficiente para me mandar para um colégio interno, onde adquiri o hábito de me vestir bem para as aulas, e, além disso, sempre havia empregados em casa, as pessoas que realmente me criaram, e eram bastante exigentes. Fui para a Duke estudar administração de empresas porque era aonde papai sempre sonhara em ir. Então, no inverno passado, meu pai morreu de um ataque cardíaco... bam!... sem aviso.

Instintivamente, Shari alcançou a mão de Paul do outro lado da mesa.

— Paul, eu lamento. Deve ter sido terrível.

Paul tentava duramente se concentrar em falar e não no tão legal que era ter a mão tocada pela de Shari.

— Sabe, eu nunca conheci realmente o meu pai e, por mais infame que isso pareça, não senti muita falta dele quando morreu. A pior parte veio quando começaram a aparecer contadores e advogados na sua firma e descobriram que ele estava atolado em dívidas. Tranquei a matrícula na Duke, para tentar ajudar a ajeitar as coisas, mas foi inútil. Vendendo o negócio e a nossa casa a preço de liquidação, pude pagar as dívidas, mas não teria recursos para voltar para a Duke, mesmo se eu quisesse. Eu gostava da área da Preston, me dei conta de que era mais próximo da casa que uso agora como base, e achei que poderia pagar esta universidade. Ou pelo menos poderei pagar se conseguir um emprego.

— E por que se matriculou no curso de administração de empresas se você o detestava na Duke?

— Por causa de todos esses anos que meu pai martelou isso em minha cabeça, e porque ainda parece ser o meu destino. Quero terminar a faculdade, estou tentando duramente não desmoronar, e administração é o mais perto de um plano que já tive. Prometi a mim mesmo que tentaria alguns outros cursos como ouvinte, só para experimentar, e o professor Murphy me pareceu interessante.

Shari sorriu.

— Eu sei. Sinto a mesma coisa. Claro que nunca sonhei ser arqueóloga.

Distraidamente, Paul olhou outra vez para a cruz no pescoço dela.

— Bem, pelo menos você tem algum conhecimento religioso. Eu nunca tive isso. A religião foi uma da longa lista de coisas para as quais meu pai nunca teve tempo... ou utilidade.

— Nem os meus pais, enquanto estiveram vivos, mas o grande barato de nossa Igreja é que você pode começar a qualquer momento.

— Creio que sim. Mas antes acho que vou me preocupar em me formar em administração. Sinto-me como um atleta que andou treinando e não conseguiu ir à Olimpíada. Tudo o que meu pai fez foi me forçar a me concentrar nisso, e eu odeio realmente essa coisa.

Shari olhou para seu relógio.

— Preciso correr para a minha próxima aula, mas aposto que, por ser um novato no campus, uma comida caseira lhe cairia bem. Por que não aparece para jantar, uma noite desta semana, e a gente conversa mais um pouco?

Paul não hesitou.

— Não precisa me convidar duas vezes.

 

DIFERENTEMENTE DE MUITOS moradores de apartamentos de alto luxo na cidade grande, que pagam uma fortuna por um terraço, mas raramente se dão um tempo para ir lá e admirar a vista, Shane Barrington faz questão de todas as manhãs examinar a deslumbrante silhueta urbana que circunda seu apartamento de cobertura. Bem semelhante aos senhores de solares de antigamente, Barrington achava que, um dia, possuiria tudo que estivesse no seu campo de visão.

Na maioria das manhãs, Barrington se perdia nos próprios planos de curto prazo e nas conquistas de negócios a longo prazo, e não se deixava distrair por qualquer ruído que viesse da rua a 62 andares abaixo. Naquela manhã em particular, ele foi incomodado em sua maquinação por um som repetitivo que, a princípio, não conseguiu localizar. Como se algo estivesse sendo bombeado.

Quando uma sombra caiu momentaneamente sobre o muro da frente do terraço, Barrington virou-se para ver o que vinha se aproximando por trás dele, o que o levou à surpreendente visão de um enorme falcão-peregrino que arremeteu do céu e pousou a não mais de um metro e meio dele sobre uma mesa de ferro batido no deque da cobertura.

A ave tinha um porte majestoso e altivo, muito parecido com o do próprio Barrington. Os dois seres predadores olharam-se com um gélido respeito.

O olhar de Barrington desviou-se primeiro, ao notar algo na garra dianteira do falcão. Notou que a ave agarrava um binóculo compacto e ultra-sofisticado. Então, percebendo que o binóculo fora localizado por Barrington, a ave deixou-o cair com um leve ruído sobre a mesa. Barrington esperou até o falcão abrir novamente as asas e se afastar sobrevoando os telhados, antes de se aproximar e pegar o binóculo.

O falcão começou lentamente a pairar majestosamente no céu logo acima de sua cabeça, quando Barrington ficou mais uma vez surpreso ao ver uma bandeirola se desfraldar da outra garra da ave. Rapidamente, apontou o binóculo para o pedaço de pano e leu as palavras que estavam escritas nele:

 

                ENDICOT ARMS 14º ANDAR 12 MINUTOS

 

Agora curioso, Barrington buscou na diagonal do próprio edifício o prédio de apartamentos Endicott Arms, contou 14 andares desde a rua, e então colocou o binóculo nos olhos. As lentes do binóculo meticulosamente manufaturadas lascaram mas não se quebraram quando Barrington o deixou cair, chocado com o que vira através delas.

Pois, através das janelas do 14º andar do Endicott Arms estava um rosto que ele facilmente reconheceu. Não era exatamente o rosto de um conhecido que via regularmente; aliás, não via o tal indivíduo havia uns três anos. O rosto, porém, tinha muitas semelhanças com um que ele vira tão recentemente quanto naquela mesma manhã, e todas as manhãs de sua vida — o seu próprio.

Ali, através do binóculo, Barrington fitara o rosto de Arthur, seu filho de 25 anos. O único fruto de seu curto casamento, o filho crescera e se tornara uma bela versão mais jovem do pai. Barrington tivera muito pouca participação além de sustentar o filho e nas superficiais visitas de festas de fim de ano durante quase toda a infância de Arthur, principalmente depois que a ex-mulher se mudou para a Califórnia com o novo marido.

Através dos anos, Barrington mandou que suas secretárias ficassem de olho na ex-mulher e em Arthur como defesa para se precaver quando recorressem a ele em busca de apoio financeiro. Assim, não ficou surpreso quando Arthur foi expulso do quarto ano de sua escola de belas-artes e se mudou para o centro de Manhattan com a intenção de fazer com que seu pai rico o ajudasse a se estabelecer como escultor.

O Barrington mais velho estava, portanto, preparado quando seu filho surgiu em seu escritório, com o cabelo roxo, calça de couro rasgada e um piercing na língua, exigindo dinheiro para abrir uma galeria de escultura. Arthur Barrington conseguiu um furioso sermão de um minuto e 30 segundos do pai sobre não dispor de dinheiro para um “extravagante mendicante fracassado”, e aquelas foram as últimas palavras que haviam trocado antes de os seguranças o retirarem das dependências da Comunicações Barrington.

Agora Barrington foi capaz de reconhecer seu filho instantaneamente através do binóculo, mas o filho não podia vê-lo do outro lado da rua e muitos andares abaixo. Sua cabeça, porém, estava virada na direção de Barrington. Estava sendo forçado a encarar o pai, por uma figura de pé a seu lado na janela.

Essa figura estava claramente apertando com força a cabeça do rapaz, com uma enluvada mão, enquanto a outra mão enluvada segurava uma comprida e muito ameaçadora faca diante da garganta dele. A última imagem registrada pelo Barrington mais velho antes de o binóculo escorregar de suas mãos abaladas e cair ruidosamente no deque foi a placa escrita a mão pendurada no pescoço do seu filho:

 

PAPAI, VOCÊ TEM

11 MINUTOS E 30 SEGUNDOS

PARA VIR AQUI, AO AP. I4C,

OU ESTE HOMEM VAI

ME MATAR

 

— Vocês são maníacos homicidas? — gritava Shane Barrington com o fôlego que conseguiu reunir após sua corrida para fora do apartamento e através da Park Avenue até o 14º andar do Endicott Arms, como lhe fora ordenado. Levou apenas oito minutos para chegar, e apenas três minutos desde então seu mundo novamente desabava sobre ele, do mesmo modo como no castelo na Suíça.

Os Sete.

Ele estava gritando com o homem que apenas minutos antes segurava a faca diante da garganta de seu filho. A faca não se encontrava mais à vista, porém Arthur Barrington estava agora estendido em uma cama, aparentemente inconsciente, o rosto preso a uma máscara respiradora, que por sua vez se ligava a uma máquina um tanto quanto complicada que acendia e apitava.

— Sr. Barrington, sinto-me honrado por ter aceito meu convite. Mas não haverá nenhuma recepção calorosa para seu filho, que não vê há tanto tempo? — A voz do homem parecia ter uma nuance de sotaque da África do Sul, mas não havia nela vestígio algum de emoção.

— Quem é você e por que está fazendo isso com Arthur?

— Eu sou o homem que os Sete disseram que iria fazer contato, sr. Barrington. Entretanto, não acredito que tenham mencionado meu nome. Tenho muitas identidades, tantas quantas exige meu trabalho, mas pode me chamar como os Sete chamam: Garra.

A raiva de Barrington, e agora o medo, não cessaram.

— Garra? Que tipo de nome é esse, primeiro nome ou sobrenome?

— Não faz diferença. Eu o uso porque é um tributo ao único ferimento sério que já recebi em minha vida como guerreiro. O primeiro falcão que criei e treinei quando criança na África do Sul, a última coisa a que me permiti ficar afeiçoado, certo dia virou-se contra mim e arrancou o dedo indicador de minha mão.

Retirou a luva da mão direita, e demorou um momento para Barrington se dar conta do que lhe estava sendo mostrado. Num olhar de relance, a mão de Garra parecia perfeitamente normal, mas ele notou que o indicador fora substituído por um tipo de material duro cor de carne modelado para parecer um dedo, só que na ponta onde deveria haver uma unha toda a extremidade fora afiada até se tornar o que certamente era uma afiada ponta mortal.

— Matei o falcão, e carrego isto para me lembrar do que acontece quando a gente é mole ou descuidado. É bastante útil em situações nas quais uma arma não é conveniente. Algo que, como sabe, por ser um cidadão do mundo, acontece com mais freqüência agora que vivemos em uma época tão agitada.

— Quer dizer que devo acreditar que os Sete querem que eu aceite ordens suas?

— Exatamente, sr. Barrington.

— Mas o que meu filho tem a ver com qualquer coisa disso? Há anos que não o vejo.

— Três anos e dois meses, para ser exato. Ele é apenas um recurso do qual precisamos lançar mão, para satisfazer os Sete e me convencer de que você está realmente pronto para fazer o que lhe será ordenado. Não importa o que seja. Embora não seja um homem conhecido pelo seu amor ao filho, imagino que deve ter algum sentimento fundamental por ele, mesmo que seja o de um ser humano para outro.

— Sentimento em que sentido? O que fez com Arthur?

— É um pouco tarde agora para uma preocupação paterna, não é, Barrington? Na verdade, porém, trata-se de uma atuação razoavelmente convincente. E digo isso na condição de um homem insensível para outro. — Garra aproximou-se do tubo plástico ligado à máscara respiradora que cobria o rosto de Arthur Barrington.

— Não estou entendendo. Por que ele está deitado aí inconsciente? Está doente? Você fez alguma coisa com ele? — Apesar de si mesmo, havia desespero na voz de Barrington.

Garra segurou o tubo plástico com a mão direita.

— Bem, Barrington, terei que lhe dar ordens progressivamente para ações ocasionais e muito específicas que os Sete precisarão que execute. Algumas podem ser ilegais, outras desagradáveis, mas todas surgirão quando eu decidir transmiti-las diretamente a você, e terá que executá-las instantaneamente, sem perguntas por explicações, sem desculpas e sem falhas.

— Eu sei. Já concordei com tudo isso naquele castelo na Suíça.

Os olhos de Garra cortaram tão aguçadamente através de Barrington quanto seu dedo indicador agora cortava o tubo, causando o repentino sibilar do ar que escapava. A máquina ao lado do leito começou a balir um alarme agudo e quatro diferentes luzes vermelhas passaram a piscar urgentemente.

— Sim, Barrington, é fácil fazer um simulacro de promessa quando não há nada de imediato correndo risco. Mas mostre-me se tem o que é necessário.

— Se tenho o necessário para quê? O que está acontecendo com meu filho?

— Não finja um grande amor repentino por esse garoto. Está certo, é uma vida, mas ele não vive. Não tem amigos de verdade nem objetivo, ninguém sentirá falta dele depois que morrer.

— Morrer? Do que está falando? Por que ele deve morrer?

— Porque eu quero. Bem aqui, agora. Este é o nosso teste. É completamente arbitrário, sem sentido, brutal. Exatamente como muitas das coisas que os Sete farão você fazer. Que eu farei você fazer. Coisas que, se não fizer... morrerá.

Barrington avançou para cima de Garra.

— Ora, seu...

Garra agarrou seu braço, detendo-o instantaneamente.

— Nem mesmo pense nisso, Barrington. Nem por um segundo. Ora, não sou totalmente desalmado. Se me pedir para salvar seu garoto, eu o farei. — Com o dedo indicador cobriu o buraco feito no tubo de onde irrompia o ar. O sibilar cessou imediatamente; os alarmes pararam. Após alguns segundos, ele levantou o dedo, o ar voltou a sair e os alarmes recomeçaram. — Sim, vou parar por alguns segundos. Apenas tempo suficiente para cortar sua garganta. — Manteve o dedo afiado como uma navalha a apenas poucos centímetros do olho de Barrington. — Depois, matarei o garoto.

Barrington desabou no chão do quarto, mas não pôde evitar que os olhos se movessem de seu filho para Garra. Após dois minutos, a máquina emitiu um longo e contínuo bipe, e o gráfico no monitor tornou-se uma linha reta.

— Parabéns, sr. Barrington. Os Sete se orgulhariam de você. Eu estou orgulhoso de você. Agora, continue fazendo a coisa certa toda vez que eu entrar em contato com você e terá sucesso e poder além dos seus sonhos mais loucos. — Jogou uma folha de papel para Barrington. — Eis suas primeiras instruções. Algumas informações de que preciso.

— O que acontecerá com meu filho?

— Suponho que seu afeto familiar não sentirá nenhum arrependimento tardio para enterrá-lo no jazigo da família, portanto cuidarei para que o corpo suma, e ninguém jamais saberá. Na verdade, isso é parcialmente verdadeiro. As pessoas saberão muita coisa sobre Arthur Barrington e sua morte. Há, como sempre, um plano. Por enquanto, não deve saber as partes seguintes do plano. Isso lhe será revelado quando eu estiver pronto. Por enquanto, apenas consiga essa informação. Você conhece o caminho até a porta.

 

LAURA MURPHY OBSERVOU o jovem com a cabeça raspada e jeans largos seguir pelo corredor, e sacudiu a cabeça, sorrindo. Lembrava-se bem de seu tempo de estudante para sentir uma pontada de afinidade sempre que um estudante surgia à sua porta com olhos vermelhos e unhas roídas, com a aparência de quem não dormia ou comia havia uma semana, e porque os jovens e as jovens de hoje em dia pareciam ter mais dificuldade do que sua geração em se adaptar ao mundo grande e malvado, ela não os julgava tão severamente.

Negociar naquela complicada terra de ninguém entre a infância e a idade adulta nunca fora fácil, e atualmente havia mais tentações e distrações para eles lidarem. Quando se leva em conta todas as imagens e mensagens perturbadoras fornecidas diariamente pela tevê e pela música que escutam, ela às vezes se admira pelo fato de qualquer um deles sair-se tão bem quanto costuma.

Mesmo se o gosto deles por roupas continuar ocasionalmente além de sua compreensão.

E, se pudesse desempenhar um pequeno papel ajudando-os em sua transição para a idade adulta, ela ficaria mais do que feliz. Havia dois anos era conselheira estudantil da universidade. Ela não se arrependia disso, embora algumas pessoas mais chegadas a ela — particularmente seu pai — a repreendessem por desperdiçar uma carreira potencialmente brilhante, como arqueóloga de campo, só para poder ouvir alguns adolescentes cheios de espinhas “lamuriando-se por causa de suas notas”. Conhecia poucos triunfos profissionais capazes de se igualar ao seu sentimento de realização quando uma ex-suicida formada em Letras, que ela ajudara, conseguiu publicar seu livro de poesias, e depois passou a realizar seminários de redação criativa, ajudando outros a canalizar para algo positivo seus distúrbios emocionais internos.

Além do mais, Laura ainda conseguiu tempo para trabalhar em seu livro sobre cidades perdidas. Pode não ter chegado à lista dos mais vendidos ou gerado um filme de sucesso, mas quando, orgulhosa, entregou um exemplar para seu pai, no mínimo ela deve ter criado uma espécie de artefato arqueológico só seu.

Também compartilhava totalmente o trabalho do marido, não agindo simplesmente como uma diplomata não remunerada nos freqüentes atritos dele com as autoridades, mas acrescentando sua considerável perícia à dele na missão de busca e autenticação de artefatos bíblicos.

Algo que, percebeu ela com forte tremor de antecipação, deveria estar fazendo naquele momento. Ela perdera a investigação inicial do pergaminho de Murphy, no dia seguinte, por causa da costumeira sala apinhada de estudantes, mas agora era hora de ver se o pergaminho reidratado estava pronto para revelar algum segredo maravilhoso sobre Daniel.

Fechou atrás de si a porta da sala, colocou a placa que dizia EU SEI QUE DISSE QUE MINHA PORTA ESTÁ SEMPRE ABERTA, MAS VOLTO JÁ, PROMETO! e caminhou animadamente pelo corredor e para fora do prédio. Após alguns minutos chegou à porta de Murphy, deu uma forte batida e entrou.

Murphy estava sentado em uma bancada de trabalho, mangas de uma camisa jeans arregaçadas, cabelo pendendo para um lado, observando algo através de uma lupa e aparentemente perdido em pensamentos. Este é o Murphy do qual acho que gosto mais, pensou ela com um sorriso, o Murphy tão-absorto-em-seu-trabalho-que-é-incapaz-de-notar-que-o-prédio-está-em-chamas. O Murphy que, minutos antes, ligara para ela com exultante empolgação contando, aos gritos, que o papiro estava pronto.

Deu um aperto em sua mão, disse alô para Shari e dirigiu sua atenção para a câmara hiperbárica.

— Acha mesmo que o papiro está adequadamente reidratado?

— Creio que está rechonchudo e suculento como um dos perus de sua mãe no Dia de Ação de Graças — declarou Murphy. — Aliás — acrescentou —, talvez esteja ligeiramente mais suculento.

— Eu sei, seu sei, provavelmente deve ter um sabor melhor — comentou Laura, revirando os olhos.

Murphy vestiu um par de luvas brancas de algodão, abriu a porta da câmara e retirou cuidadosamente o pergaminho.

— Vejamos o que a gente assou — falou baixinho.

Delicadamente, passou a desenrolar o papiro sobre uma bandeja de plástico. Laura prendeu a respiração, maravilhada com a firmeza das mãos dele, levando-se em conta que segurava algo que fora feito no reino de Nabucodonosor, à época de Daniel. Neste momento, pensou ela, nesta sala, nós três, seres vivos e que respiram, estamos ligados ao passado bíblico através desse objeto impossivelmente frágil capaz de se esmigalhar em poeira a qualquer momento.

Mas o antigo papiro não se esmigalhou. Como uma borboleta emergindo de uma crisálida, ele se abriu lentamente, intacto e belo.

— Olhem só para isso — disse Murphy enquanto surgia linha após linha de antigos cuneiformes. Sólidos triângulos com caudas lineares e formas em V como pássaros contra o céu apinhavam-se em estreitas colunas. Totalmente desenrolada, a folha de papiro media cerca de 23 por 38 centímetros. Estava marcada por longos vincos através de sua superfície marrom-tabaco, as bordas despedaçadas e grande parte da superfície descascada. No entanto, permanecia muito mais das inscrições do que Murphy ousara esperar.

— Eu diria que era caldeu.

Laura não conseguia desviar os olhos dos estranhos símbolos geométricos, para o caso de eles se desvanecerem diante dela.

— Isso faz sentido. Na época de Nabucodonosor, metade dos sacerdotes e feiticeiros da Babilônia eram caldeus. Consegue ler isso?

Murphy inclinou ligeiramente o pergaminho para um ângulo melhor.

— Bem, não sou exatamente fluente. Consigo pedir uma salada ou perguntar a direção dos correios, porém algo mais complicado do que isso...

Laura apertou seu braço.

— Fale sério. Já vi você rabiscando em caldeu. O que diz aí?

— Bem, isso é o engraçado. — Murphy olhou intencionalmente de esguelha para as letras. — Consigo identificar o símbolo de “bronze”, e aqui — apontou para uma mancha quase invisível — está o símbolo de “serpente”. E, olhem, lá estão eles novamente, com o símbolo de “os israelitas”.

Ficaram em silêncio por um momento, e Shari observava enquanto, aparentemente, as mentes de ambos os Murphy pareciam correr para tirar algum sentido das imagens diante deles.

— O que significa tudo isso? — perguntou ela.

— A Serpente de Bronze — sussurrou Laura.

— Exatamente — concordou Murphy. — Feita por Moisés há 3.500 anos...

— E feita em pedaços pelo rei Ezequiel em 714 a.C.

— Mas, senhoras, isso não faz sentido. Matusalém disse que esse prêmio era um artefato que tinha a ver com Daniel. Ele viveu na época de Nabucodonosor... quase 150 anos depois da época do rei Ezequiel.

Murphy empurrou sua cadeira para trás e começou a andar.

— Não faz sentido. O que um escriba caldeu escreveria sobre a Serpente de Bronze? E qual a ligação com Daniel?

Laura examinou o papiro para ver se conseguia decifrar mais algum detalhe.

— Há alguma chance de perguntar ao maluco que lhe deu isso?

— Me deu?

— Você sabe o que quis dizer.

Murphy sacudiu a cabeça.

— Matusalém gosta que eu saque as coisas por mim mesmo. Faz parte do jogo. — Estalou os dedos. — Mas não há nenhum motivo para eu não pedir uma ajudazinha. Venham, vamos tirar umas fotos. Conheço alguém que praticamente fala caldeu dormindo.

Laura cruzou os braços e deu-lhe um olhar severo.

— Não — acrescentou ele rapidamente — que eu saiba por experiência própria. Aliás, nós nunca nos encontramos.

— Fica frio, Murphy. Eu sei que você só ama a mim... e qualquer coisa que ficou enterrada por dois mil anos. Quem é esse oráculo?

— Não vai acreditar, mas o nome dela — informou Murphy, pronunciando cuidadosamente cada sílaba como se estivesse pedindo uma exótica garrafa de vinho num restaurante chique — é Ísis Prosérpina McDonald.

 

A FUNDAÇÃO PERGAMINHOS DA LIBERDADE era uma das centenas de organizações não-governamentais sediadas no interior dos prédios de pedra de aparência bastante oficial em Washington, D.C., e muita gente, automaticamente, supunha que deviam ser repartições do governo. Na placa existente na porta do escritório no segundo andar do prédio da FPL lia-se simplesmente DRA. I. P. MCDONALD, e somente os iniciados sabiam que atrás da porta se encontrava uma das mais talentosas especialistas em culturas antigas.

E quem passava diante daquela sala nem fazia a ligação entre o estudo de civilizações empoeiradas e esquecidas e a ruidosa, persistente agitação que vinha de trás da porta fechada.

O ruído surdo de livros derrubados um por um no chão foi seguido pelo suave sussurro de papéis cascateantes, e depois o estrondo da queda de um objeto pesado (um abajur? um peso de papéis?) ligado com algo maciço. Sorte do causador do caos que pouquíssimas pessoas passavam por aquele corredor em particular.

A pequena sala sem janelas era revestida de estantes nos três lados, mas muitos dos livros — alguns insubstituíveis, quase todos raros ou no mínimo esgotados — jaziam em montes esparramados sobre o desbotado carpete marrom de praxe. De pé, no meio do amontoado, uma figura pequena e ágil vasculhava os documentos de uma enorme pilha sobre uma antiga escrivaninha de tampo de correr e jogava-os furiosamente para os lados.

— Tem que estar aqui. Tem que estar — estridulava uma voz enquanto uma bamboleante coluna de periódicos acadêmicos ondulava sobre o chão. Agora as gavetas da escrivaninha estavam expostas e eram sistematicamente saqueadas, mas, a julgar pelo ciciar raivoso que acompanhava a busca, o objeto desejado não se encontrava ali dentro.

A figura parou subitamente, a cabeça empinada na direção da porta. Passadas. Saltos altos seguindo pelo corredor. No escritório tudo ficou imóvel. As passadas continuaram, aproximando-se. Então pararam. Uma pausa. Em seguida, uma batida na porta, leve, experimental. Depois outra, mais alta, mais insistente.

— Dra. McDonald? Precisa de alguma ajuda?

A empertigada jovem vestida com um conjunto azul-marinho hesitou. Às vezes, quando a dra. McDonald não respondia, era porque simplesmente estava tão concentrada em um manuscrito que, literalmente, não ouvia ninguém bater, e ai de quem entrasse sem ser convidado. Uma coisa que a jovem aprendeu bem cedo foi que a dra. McDonald não gostava nem um pouco de ser interrompida em seu trabalho. Era um pouco como sonâmbulos, pensou consigo mesma — se você os acorda, eles podem ficar terrivelmente confusos e até mesmo violentos. É melhor deixá-los em paz até encontrarem seu caminho de volta à terra dos vivos.

Aquilo, porém, era diferente. Ouvira nitidamente vários estrondos ruidosos, ao virar para o corredor, e quando se aproximou da porta não teve dúvida de que alguém estava destruindo a sala da dra. McDonald.

Fiona Cárter não era corajosa. A idéia de algum tipo de violência física a deixava nauseada de medo. Mas se havia algo que ela mais temia do que encarar um ladrão determinado era tentar explicar à dra. McDonald por que permitira que alguém dizimasse sua preciosa biblioteca.

Sua mão tremeu quando torceu lentamente a maçaneta e empurrou a porta.

Esta se abriu suavemente, revelando uma esguia figura feminina vestindo saia de tweed e um disforme suéter de pescador, de pé no meio de periódicos em pedaços e páginas de manuscritos à altura do joelho, alguns dos quais se agitaram brevemente com a súbita corrente de ar. A figura olhou-a fixamente.

— Dra. McDonald! — Fiona deu um passo à frente e quase tropeçou num enorme volume preto. —A senhora está bem? Ouvi tanto barulho... Pensei que fosse um intruso. Pensei que alguém estava...

— Não consigo achar o maldito poema de Caribdes! Ainda ontem eu o estava lendo, e agora desapareceu. Fiona, você andou mexendo novamente nos meus manuscritos?

Fiona reprimiu uma risada nervosa. Como poderia alguém, por mais mal intencionado, tornar mais caótica do que já era a sala da dra. McDonald?

— O poema de Caribdes? É possível que estivesse consultando o Literatura primitiva copta de Merton enquanto o lia?

A dra. McDonald pareceu em dúvida.

— É possível, creio eu.

— Nesse caso, talvez tenha colocado o poema dentro do livro, por segurança? — Se ela se lembrava corretamente, o Literatura primitiva copta tinha encadernação em tecido verde-escuro com letras vermelhas na lombada. Não estava em seu lugar habitual, na estante da parede mais afastada. Pouca coisa estava. Ela olhou para o chão coalhado de livros.

— É ele? Bem ali, ao lado de O sagrado e o profano, de Eliade?

A dra. McDonald virou-se na direção em que Fiona apontava e desenterrou um grosso livro verde. Folheou ligeiramente suas páginas e uma única folha de pergaminho flutuou para o chão. O poema de Caribdes.

A dra. McDonald virou-se novamente para Fiona, sorridente. Com suas roupas matronais e expressão permanentemente severa, era fácil deixar escapar o fato de que Ísis Prosérpina McDonald era uma mulher deslumbrantemente bela. Foi apenas um de seus raros sorrisos que deixou escapar. Não que fosse provável que você visse seu sorriso se a chamasse pelo seu primeiro nome.

— Garota esperta. Por que cargas-d’água você me agüenta?

Antes que Fiona pudesse inventar uma resposta apropriada, ambas ficaram congeladas no mesmo lugar por causa de um trinado repentino. Viraram-se instintivamente para a escrivaninha vazia, depois vasculharam o chão, tentando determinar de onde vinha o som. Fiona afastou uma pilha de periódicos e apanhou o telefone.

— Alô, escritório da dra. McDonald, Fiona falando. Ah, bom-dia, professor Murphy. — Virou-se para a dra. McDonald, que continuava parada em meio ao entulho da biblioteca, sacudindo furiosamente a cabeça e exclamando surdamente não.

— Não, ela não está nem um pouco ocupada, professor Murphy. Tenho certeza de que vai adorar falar com o senhor. — Fiona sorriu docemente e entregou-lhe o fone.

 

Ísis estava sentada à sua escrivaninha, braços cruzados, lábios franzidos, esperando que seu computador transferisse um e-mail. Enquanto esteve parada no meio dos destroços da sua sala, ouvindo o professor Murphy e sua história um tanto maluca sobre um papiro babilônico, ela mal havia notado que Fiona começara a trabalhosa tarefa de restaurar a ordem. Agora quase tudo estava, se não no lugar, pelo menos fora do chão e em filas e pilhas de aparência ordenada. Ela até mesmo fizera o melhor possível para rearrumar a coleção de Ísis de cerâmica antiga — suas deusas — na correta seqüência cronológica em cima de seu único arquivo.

Enquanto seus olhos viajavam pelas queridas formas familiares, começando com uma intumescida deusa da fertilidade do vale do Neandertal na Alemanha e terminando com uma graciosa divindade lunar sumeriana, Ísis sentiu uma lágrima brotar e piscou rapidamente para contê-la. As estatuetas eram um precioso legado de seu pai, outro dr. McDonald e um dos mais eminentes arqueólogos de sua época, o resultado de uma existência escavando em volta do Mediterrâneo e no Oriente Próximo.

“Para a minha pequena deusa, venerada e adorada acima de todas as outras”, disse ele quando a presenteou com a grande caixa quadrada de papelão amarrada com fitas. Para seus olhos de 13 anos, as estatuetas, algumas sem um braço ou a mãozinha, todas sulcadas e contendo terra e poeira de civilizações há muito desaparecidas, eram melhores do que qualquer boneca Barbie. O presente marcou o início de seu apaixonado envolvimento com os segredos do passado.

Infelizmente, as deusas não foram os únicos legados da obsessão que o pai lhe transmitira. Havia também o nome.

Ela supunha que havia meninas chamadas Fréia que nunca sofreram caçoadas na escola. Conhecia uma paleontóloga grega chamada Afrodite que nem parecia ligar para isso. E não havia uma tenista chamada Vênus? Ninguém nunca implicou com ela por ter recebido o nome da deusa romana do amor. Mas Ísis Prosérpina era uma questão bem diferente. Era como ter nascido com uma coroa de estrelas na cabeça. Ou cobras contorcendo-se no lugar de cabelos. Era muito difícil se enturmar.

Na pequena escola Highland era Isca ou Pepina, coisa que ela detestava. Por que não podia ser Mary, Kate ou Janet como as outras meninas? No museu, no paraíso do seu escritório, pelo menos ela podia insistir no dra. McDonald. Com os amigos, porém, era mais complicado. O que talvez fosse o motivo, supunha ela, para que não tivesse nenhum.

Martelava os dedos — delgados, elegantes, com unhas roídas até o sabugo — sobre a escrivaninha, impaciente pela promessa de fotos do papiro. Leite vigiado nunca ferve etc. Franziu a testa.

O professor Michael Murphy lhe parecera um tanto amalucado. Muito preocupado com profecias bíblicas. Tagarelando sobre o Livro de Daniel. Mas o papiro parecia intrigante. Podia ser uma falsificação, é claro, ou se revelar algo um tanto quanto mundano — uma lista de compras com três mil anos ou um formulário para licenciamento de hienas. Sabe Deus como esses babilônios podiam ser burocratas.

Através dos anos, com o aumento de seu conceito como filóloga, o gotejar de enigmas antigos necessitando de suas habilidades com línguas tornara-se um estável riacho. Se você desenterrasse um caco de cerâmica com uma inscrição enigmática ou descobrisse um fragmento de papiro coberto com rabiscos sem sentido, você acabaria recorrendo a Ísis McDonald. E, de nove entre dez, mesmo que levasse seis meses e quase chegasse à perturbação mental no processo, ela solucionava a charada, quebrava o código, ou desfazia o nó lingüístico que deixara estupefatos os demais especialistas. Esse era o seu raro dom.

O pai, vendo alegremente sua carreira começar a florescer enquanto a dele murchava, especulava que aquilo devia ser mais uma questão de memória do que de habilidade. Certamente, só alguém que fora uma sacerdotisa egípcia numa existência anterior poderia ter tal facilidade com os seus sagrados hieróglifos. Ridículo, é claro. Mas era o tipo de bobagem que ele dizia quase ao final da vida. Talvez fosse seu esquisito modo arqueológico de dizer o quanto a amava.

Afastou a lembrança com uma piscadela quando a tela começou a se encher com imagens do papiro, e saiu aliviada do perturbador mundo da emoção para um mais direto da antiga Babilônia.

O que ela viu atraiu imediatamente sua atenção. E a manteve, durante as duas horas seguintes, encarando a tela e furiosamente rabiscando anotações.

 

Com um tranco, ele foi trazido ao presente pelo telefone.

— Professor Murphy? Dra. McDonald. Estive lendo seu papiro.

Delicadamente, ele colocou a Bíblia de lado.

— Que bom ouvi-la. E, por favor, o nome é Michael. Embora muita gente prefira o Murphy.

Seguiu-se uma pausa constrangida.

— Bem, sr. Murphy, parece que tem razão. Estamos certamente lidando com a Serpente de Bronze bíblica...

— Mas o papiro data de um período de 150 anos após a serpente ser destruída. — Ele pôde senti-la franzir a testa diante de sua impaciência. — Desculpe. Essa coisa me tirou do sério. Por favor, prossiga.

— Bem, o papiro parece ser uma espécie de diário escrito por um sacerdote caldeu chamado Dakkuri. Pelo que posso deduzir, a Serpente foi realmente quebrada em três pedaços, como nos conta a Bíblia, mas, aparentemente, alguém esqueceu de jogar os pedaços no lixo. Os pedaços devem ter sido guardados no Templo e, quando os babilônios foram saquear Jerusalém, encontraram-nos em algum lugar do Templo e obviamente acharam que valeria a pena levar aquilo de volta para casa.

— E, quando os pedaços chegaram à Babilônia, esse sacerdote, Dakkuri, juntou novamente os pedaços da Serpente de Bronze?

— Creio que sim. Mas isso foi apenas o começo. Acho que Dakkuri acreditava que essa tal Serpente tinha mais valor do que como apenas uma bela escultura de bronze.

A mente de Murphy correu adiante.

— Então o que está dizendo é que os babilônios ouviram em Jerusalém as histórias sobre os poderes de cura da Serpente, quando foi feita por Moisés, e acharam que valia a pena deixar Dakkuri ver se podia fazê-la funcionar novamente.

Ísis não gostava das interrupções de Murphy, e deu-se conta de que precisaria também forçar a barra se quisesse seguir em frente com seu relato.

— Na verdade, professor Murphy, na minha opinião, Dakkuri tentou usar a Serpente como parte de um culto.

— Quer dizer que Dakkuri fez seus babilônios adorarem a Serpente do mesmo modo que os israelitas na época de Ezequiel?

— Não muitos. O papiro parece indicar que houve uma espécie de círculo interno sacerdotal, liderado por Dakkuri, que envolve as linhas de poder que são tiradas do símbolo da Serpente.

— E então não parece que a adoração da Serpente se tornou um grande erro para os babilônios, como o foi para os israelitas no tempo de Ezequiel?

— Bem, há alguma referência de problema com a Serpente, mas o papiro está danificado em um ponto crucial. — Ísis fez um ruído como se isso fosse devido a um descuido por parte de Murphy.

Ele deixou isso passar.

— Parece que esse problema, como o chama, foi um problemão. O símbolo do rei está lá, o que pode significar que o culto da Serpente de Dakkuri foi banido pelo próprio Nabucodonosor, certo?

— Sim. Estou certa de que não precisa que eu lhe ensine a sua bíblia, sr. Murphy — disse Ísis complacentemente. — De acordo com o Livro de Daniel, Nabucodonosor erigiu uma grande estátua com uma cabeça de ouro, semelhante à de seu famoso sonho. E os príncipes de todas as partes receberam ordens de lhe fazer reverência e venerá-la em certas ocasiões. Quando ouvissem o som do cornetim, da flauta, da harpa... vejamos, do que mais?

— Sacabuxa, saltério e dulcimer — disse Murphy sem hesitar.

— Obrigada. Sim, saltério e dulcimer. Como era poético o rei Jacó. Isso me leva de volta direto às manhãs de domingo em nossa igrejinha na Escócia. — A lembrança pareceu descarrilá-la por um instante, mas rapidamente voltou aos trilhos. — De qualquer modo, a história completa é que Deus tornou o rei mais louco do que a Lebre de Março como castigo por sua arrogância, e quando, finalmente, recuperou a sanidade, Nabucodonosor se mancou de que idolatria era uma coisa ruim. E, por isso, a proibiu.

— Certo, e, é claro, a proibição teria incluído o culto da Serpente.

— É o que eu imagino.

Murphy tentou arrumar tudo aquilo em sua cabeça.

— Então esse sacerdote... Dakkuri... recebe a ordem de parar com a adoração da Serpente, de se livrar dela.

— Mas estou começando a pensar que é muito difícil alguém conseguir se livrar dessa Serpente. Todos que a possuíram jamais quiseram simplesmente derretê-la e refundi-la.

Murphy deu um pulo da poltrona.

— Sim! É isso! O motivo do papiro. Dakkuri não se deu ao trabalho de escrever tudo isso só para deixar as pessoas saberem que foi um malvado adorador da Serpente. Nada disso. Fez parecer que a tinha quebrado novamente e se livrado dela, como ordenado por Nabucodonosor. Não era burro. Mas escondeu os três pedaços, e é isso que está nos dizendo no papiro, não é mesmo, dra. McDonald?

— Melhor do que isso, sr. Murphy. Acredito que o que Dakkuri escreveu aqui não foi apenas que ele escondeu os pedaços, mas os indícios de como encontrá-los.

Murphy afundou na poltrona como se tivesse sido esvaziado pelo último comentário dela.

— Como assim “os indícios de como encontrá-los”?

— A última parte do papiro na verdade tem duas partes. A primeira prossegue o relato de Dakkuri dos acontecimentos. Aparentemente, escolheu três dos seus acólitos para espalhar os pedaços da Serpente por todos os cantos do Império babilônio.

— Mas ele nos revela aonde foram esconder os pedaços?

Ísis estava ficando boa em superar as interrupções de Murphy.

— Essa é a segunda parte do fim do papiro. Parece que Dakkuri estava armando uma espécie de caça ao lixo sacerdotal pelos pedaços da Serpente, e as últimas linhas são uma chave para se encontrar o primeiro pedaço. Em seguida, parece indicar que, assim que você encontrar o primeiro pedaço, este o levará ao restante da Serpente.

Murphy olhou para a ampliação do papiro diante dele.

— E, baseado neste padrão aqui, a curva com os sulcos no fundo, o primeiro pedaço deve ser a cauda, certo?

— A cauda da Serpente tem o meu voto.

— Dakkuri certamente teve muito trabalho para salvar a Serpente, mas cuidou para que fosse tremendamente difícil para alguém achar os pedaços.

Ísis achava que conversar com Murphy fazia emergir totalmente seus ímpetos gêmeos de erudição e competição com homens inteligentes.

— Não é difícil para alguém suficientemente inteligente perceber as pistas dele.

Murphy sentiu cada osso de arqueólogo em seu corpo começar a vibrar de emoção.

— Isso significa que podemos encontrar a Serpente de Bronze feita por Moisés! Melhor ainda: se nós encontrarmos a Serpente, baseados nesse pergaminho, isso prova que ela ainda existia durante a época de Daniel!

Uma risada particularmente indigna de uma dama escapou da boca de Ísis antes que ela conseguisse detê-la.

— Esqueça esse negócio de “nós”, sr. Murphy. Eu mal consigo encontrar os objetos no meu escritório. Não participo de expedições. Contudo, sinta-se livre para partir em busca do primeiro pedaço da Serpente. Nada pode ser mais simples. Desde que saiba a localização dos Chifres do Boi.

 

CHIFRES DO BOI.

Chifres do Boi.

Murphy continuou repassando a frase em sua mente, maravilhado com a aparente facilidade com a qual Ísis McDonald deduzira esse local a partir dos símbolos no finalzinho do papiro. Por mais que ele tivesse examinado bem os mesmos símbolos, não chegara nem perto dessa associação.

É claro que, agora que ela lhe fornecera a interpretação, parecia óbvio. Um pouco mais recuperado emocionalmente, tanto em relação ao profissionalismo quanto ao orgulho masculino, Murphy notou que foi naquele momento que sua experiência de campo conseguiu ativar a habilidade lingüística livresca da dra. McDonald.

Os Chifres do Boi teriam de se referir a um marco bastante proeminente razoavelmente perto da antiga Babilônia. Dakkuri, provavelmente, teria escolhido um marco natural em vez de um ponto de referência feito pelo homem, pois não saberia quanto tempo levaria antes que o pedaço da Serpente pudesse ser desenterrado.

Por algumas horas ele estudou seus mapas, mas concluiu que ninguém conhecia melhor as paisagens antigas do que sua mulher. Os estudos sobre as cidades antigas feitos por ela deram-lhe um conhecimento enciclopédico do qual ele agora precisava.

Desesperadamente.

Murphy finalmente localizou Laura na sala de descanso da faculdade.

— Querida, precisa pegar todos os seus livros e mapas. Acho que encontrei a localização da Serpente.

— Murphy, foi você mesmo que deduziu onde está a Serpente? — Instantaneamente, Laura vestiu sua capa de advogada e tornou-se cem por cento arqueóloga.

— Bem, na verdade foi a dra. McDonald. E é apenas a pista de onde o primeiro pedaço da Serpente está escondido. De acordo com ela, o papiro é uma espécie de mapa de tesouro caldeu, com o pedaço da Serpente como tesouro.

— Que emocionante! — exclamou Laura. — Mas onde está ele?

Murphy ajoelhou-se e mostrou a Laura onde ele havia escrito Chifres do Boi e feito vários esboços a lápis de paisagens que poderiam ter inspirado o apelido. Todos tinham dois altos pontos verticais curvados como chifres, escarranchados sobre um morro que poderia ser considerado como a caveira de um boi.

— Foi o máximo aonde eu cheguei. A verdade é que preciso de sua habilidade de leitura de mapas antigos. Já faz algum tempo que Dakkuri anotou as direções, e acredito que, desde então, os arredores devem ter mudado um pouco.

Laura deu uma risada. Segurou Murphy pela mão e os dois saíram pelo corredor.

— Não sei não, Murphy — observou ela, sacudindo a cabeça. — Por que os homens simplesmente não sabem ler mapas?

 

Assim que ele mostrou a Laura a tradução parcial do papiro, ela entrou no automático. Em poucos minutos, a já entulhada sala de estar da casa se tornara um tempestuoso mar de papéis, com mapas, livros de referência e impressos de computador espalhados pelo chão. Laura estava sentada no meio do caos, apanhando mapas, jogando-os para o lado, rabiscando furiosamente anotações enquanto cantarolava uma dissonante cantiga para si mesma.

Como Laura observou, não era o mesmo que procurar uma agulha num palheiro. Era o mesmo que tentar reconstruir um palheiro de dois mil anos, imaginando onde cada palha se encontrava originalmente antes de ser jogada de um lado para o outro por dois milênios de ventanias, enchentes e terremotos — e aí, então, tentar achar a agulha.

As indicações de Dakkuri — supondo-se que Murphy e Ísis tivessem decifrado corretamente o papiro — para o esconderijo final da cauda da Serpente foram bem específicas. Laura fez uma interpretação mais sofisticada dos Chifres do Boi do que os grosseiros esboços de Murphy, adiantando que com toda probabilidade se referiam a um acidente geográfico em particular — provavelmente, com a extremidade de um cume curvado em dois pontudos promontórios. Talvez com uma enorme corcunda de pedra ou protuberante colina por trás — o “corpo” do boi. E tudo, provavelmente, devia ser visto de alguma distância, e portanto a área em volta devia ser relativamente plana.

Entretanto, a paisagem que Dakkuri gravara em sua mente era mutante. Níveis de mares avançaram e recuaram, a erosão mudou colinas de um lado para o outro como peças de xadrez, os cursos de rios e canais podem ter sido desviados, transformando desertos em pastos e vice-versa. E, acima de tudo, terremotos podem ter sacudido as coisas como em um caleidoscópio, mudando totalmente a imagem de um ano para o seguinte.

Para ver as coisas como Dakkuri, era necessário inverter o processo. De algum modo, olhar a paisagem moderna e enxergar a antiga, que havia antes.

Tal tarefa exigia a fantástica habilidade de ler mapas de relevos em três dimensões, um conhecimento detalhado de geografia antiga e um senso intuitivo de transformações geológicas através do tempo — sem falar num sexto sentido ao qual não se consegue dar um nome.

Felizmente, Laura era uma entre várias pessoas no planeta que possuía o conjunto dessas habilidades. Murphy a observava estudar sua papelada, e ficava maravilhado com aquele raro e poderoso talento. Encontrar a cauda da Serpente nos Chifres do Boi ia testar esse talento ao limite.

 

FOI O SEGUNDO SOCO de que Murphy se arrependeu. Ninguém estava lutando contra ele; estava socando um saco pesado no ginásio de esportes da Universidade de Preston. O primeiro soco, um forte jab de direita, fez com que se sentisse bem, tão bem que rapidamente estalou o punho esquerdo contra o saco, o que enviou um choque da luva de boxe diretamente acima para seu ombro. O ombro, que ele esquecera momentaneamente, ainda latejava do arranhão da garra do leão.

Quando Murphy deixou cair ambos os braços para deixar a dor ricochetear em redor da parte superior do corpo, a figura robusta a seu lado emitiu um áspero rosnado.

— Vamos lá, Murphy. Nada de intervalos para o café. Isto não é uma repartição pública, a gente está aqui para malhar. — Levi Abrams empurrou o ombro de Murphy para forçá-lo a reiniciar. Seu ombro esquerdo.

Agora Murphy precisou se curvar para evitar que a dor envolvesse seu tronco.

— Levi! Não me ouviu dizer que hoje eu precisava maneirar esse ombro?

— Agüente firme, Murphy. Intensidade. Concentração. Não lembra nada do seu tempo de Exército? Treino, treino e um pouco mais de treino. É a única maneira de evitar que você se deteriore como uma de suas múmias do deserto.

Murphy teve de gargalhar enquanto olhava para o israelense de l,95m que sempre levava muito a sério as sessões de treino deles. Aliás, pelo que constava a Murphy, Levi Abrams levava a sério tudo que fazia. Fora recrutado para os Estados Unidos pelas empresas de alta tecnologia da área de Raleigh-Durham como um muito bem pago especialista em segurança. Tão bem pago que pôde se dar ao luxo de uma aposentadoria precoce da Mossad e se transferir com a família para Raleigh.

Murphy, porém, estava certo de que Levi não se aposentara completamente. Nunca perguntou a Levi diretamente, e Levi era sério e fechado demais para contar qualquer coisa, mas ele continuava extremamente bem-relacionado no Oriente Médio, nos países árabes, como também em Israel. Tanto que Levi fora capaz de ajudar Murphy em várias ocasiões com documentos de despacho para desembaraçar sua saída e, o mais importante, a retirada de alguns objetos do Oriente Médio.

De sua parte, embora nunca desse para se adivinhar baseado na sua expressão séria e conversa direta, Levi parecia respeitar Murphy. Como Murphy, a seu modo, Levi era um instrutor natural, entretanto, se Murphy malhasse seus alunos da maneira como Levi o malhava, já teria sido expulso da universidade acusado de maus-tratos.

Conheceram-se havia dois anos vigiando um ao outro, antes de o sol nascer, na pista de corridas, quando Levi supervisionava a necessidade de segurança de um sistema de computação de alta potência doado à universidade pela sua então empresa de tecnologia. Posteriormente, Levi ofereceu-se para aumentar as habilidades de Murphy em artes marciais, o que levou a sessões de treinamento intensivo sempre que os dois conseguiam. Com Levi, Murphy sempre era estimulado a ir além do esforço a que se submetia, e normalmente forçava a barra. No momento, tanto exagero levara à dor que mantinha seu corpo curvado.

Naquela manhã, Murphy teria dispensado inteiramente a malhação para permitir que seu ombro sarasse, mas ele tinha um motivo urgente para estar com Levi. Decidiu cuidar disso enquanto esperava a dor passar.

— Levi, meu amigo, preciso de um enorme favor seu. Consegui uma pista de uma descoberta arqueológica realmente imensa que preciso aproveitar.

— Outra de suas bugigangas empoeiradas? — O respeito de Levi por Murphy como lutador não se estendia exatamente à sua opção profissional. — Deixe-me adivinhar, você precisa, como diria o meu filho, de “borracha”? Transporte para algum lugar perigoso e incerto do Oriente Médio?

— Você me conhece bem demais, meu amigo. Levi, preciso que leve Laura e a mim o mais depressa possível a Samaria, para tentarmos encontrar o esconderijo desse objeto que estamos procurando e trazê-lo para a Preston sem dificuldades com funcionários públicos ou com a alfândega. Ah, e que isso não custe nenhuma grana.

Levi soltou um demorado e baixo assobio.

— Ora, não vai dedicar algum tempo às conversações de paz, enquanto estiver nas redondezas? Verei o que posso fazer. Quando poderá partir?

— Temos toda a semana que vem de licença para estudos independentes, e já adiantei a matéria para os meus alunos, portanto posso partir imediatamente. Laura também já adiantou o serviço dela. Vou ficar lhe devendo essa, Levi.

— Vamos ver primeiro o que posso conseguir. Enquanto isso — Levi socou o ombro de Murphy —, acabou seu intervalo para o café. Volte para o saco.

 

— SOMOS DOIS HOMENS, mas formamos um par interessante, não é mesmo, professor Murphy?

Murphy assentiu respeitosamente para seu anfitrião, o xeique Umar al-Khaliq, mas ficou pensando aonde levaria aquela conversa inicial. Estavam sentados tomando o forte café árabe na bela casa de al-Khaliq em Samaria, após um dia de viagem, tudo providenciado por Levi Abrams com espantosa rapidez.

Laura tinha ido para o quarto de hóspedes dos dois, alegando que estava exausta por causa do vôo, mas particularmente confessou a Murphy que sentia que o xeique não acreditava que mulheres fossem dignas de participar de qualquer conversa séria.

— É característico — comentou ela — de muitos árabes de sua geração. Aliás — cutucou Murphy com o dedo —, é característico de muitos homem de todos os países.

— Ei, não aponte esse dedo para mim. Ele está carregado — disse Murphy. — Sou inocente.

— Mas podia ajudar o xeique a chegar pelo menos ao século XX.

Murphy suspirou.

— Concordo, querida, mas vamos evitar ofender a mão generosa que tornou esta viagem possível? Pelo menos até ela terminar. Então, eu prometo, que deixarei você para trás para instruí-lo. Você será o meu presente especial ao anfitrião samariano que aparentemente já tem tudo.

— Ainda bem que tenho os meus mapas para estudar, Murphy. Porque, amanhã, quando sairmos para explorar, vou escolher um lugar bem legal para deixar você para trás. Não fique acordado até tarde com essa conversa de machão.

Na verdade, Murphy tinha quase certeza sobre o que o xeique queria conversar, graças a Levi Abrams, que o colocara em contato com ele. Após 15 minutos de ligações pelo celular, enquanto Murphy terminava sua malhação, Levi disse:

— Acho que consegui um companheiro perfeito para você, meu amigo. O xeique Umar al-Khaliq.

— E ele é perfeito porque...?

Levi fez Murphy sentar-se.

— Isto pode parecer a última coisa que você esperaria que eu dissesse sobre o Oriente Médio, Murphy, mas sabia que há cada vez mais árabes em busca do seu Deus?

— Já li alguma coisa sobre o movimento do cristianismo entre os muçulmanos, mas acredito honestamente que eles estão indo em direção ao seu Deus. Sem ofensa.

— Tudo bem. De qualquer modo, al-Khaliq é inacreditavelmente rico, tem imunidade diplomática para sua frota de jatos particulares e, de algum modo, creio, isso não foi suficiente. Ouvi dizer que ele anda infiltrando alguns discretos exploradores em grupos missionários da região. Como pode imaginar, tal busca não é um popular hábito extracurricular no Oriente Médio, não importa o quanto você seja poderoso. Então, disse a ele que você teria prazer em assessorá-lo, em retribuição às passagens de ida e volta e suprimentos para uma pequena escavação.

— Levi, você é um gênio. Posso confiar nele?

— Anos atrás, ajudei o xeique numa questão complicada com uns beduínos provocadores que estavam criando problemas para ele combatê-los em seu próprio território. Eu confiaria nele.

— Obrigado, Levi. Eu devo demais.

— Não me deve coisa alguma. Cuide dessa sua esposa maravilhosa. De você eu não sentirei muitas saudades. Dela eu sentirei. E, Murphy, confie no xeique, não confie necessariamente em mais ninguém que esteja trabalhando para ele. Mas conhece os macetes, por assim dizer, de escavar em terras estranhas.

 

Agora, dois dias depois, Murphy estava diante do xeique à espera de que ele lhe explicasse no seu inglês por vezes arrevesado por que os dois formavam um “par interessante”. A viagem não poderia ter sido mais tranqüila. O principal assessor do xeique, Saif Nahavi, providenciara tudo, e a fortuna e o status diplomático de al-Khaliq superaram todas as barreiras burocráticas.

É claro que, como Laura frisara, “Suas viagens, Murphy, são sempre muito parecidas com uma prisão, muito mais fácil de entrar do que sair”.

Certamente, Murphy tinha de ser muito agradecido pela generosidade do xeique, e queria cumprir sua parte da barganha de Levi orientando al-Khaliq sobre todos e quaisquer aspectos de seu aparente interesse pelo cristianismo. Entretanto, as muitas viagens ao Oriente Médio lhe ensinaram que precisava esperar que o xeique abordasse a seu modo um tema tão sensível. Se é que chegaria a puxar o assunto.

— Professor Murphy, é um cristão que vem à minha terra muçulmana à procura de algo que está perdido há séculos, algo que imagina ainda ser vital hoje em dia. Eu sou um homem que tem dez vezes mais qualquer possessão moderna, mas sinto que procuro algo mais antigo, mais simples do que busca em sua viagem até aqui.

— Xeique, respeito sua coragem em sua busca. Você tem perguntas?

— Muitas perguntas, Murphy, mas me basta conhecer você e ajudar um homem de sua fé. Na minha posição e a despeito de eu permanecer aqui na terra de meus ancestrais e de tudo que eu possa dispor, não tenho a liberdade de que você desfruta, você, que vem aqui com o chapéu na mão.

Novamente, Murphy precisou reprimir uma gargalhada diante do jeito não intencional que o xeique tinha para produzir frases constrangedoras.

— Deixe-me dizer apenas que estou a seu dispor, xeique, a qualquer hora do dia ou da noite. Sou grato pela generosidade que teve em relação ao meu trabalho e com a urgência. Mas, depois desta noite, dei-me conta de que sou duplamente abençoado, porque me lembrou do quanto tenho sorte por ser americano e livre para adotar qualquer religião que desejar.

— Sou eu quem deve agradecer a você, Murphy. Algum dia, talvez, nós seremos capazes de discutir muitas coisas em sua terra.

— Tem certeza de que precisaremos esperar a ocasião, xeique? Sei que não há tempo esta noite para todas as suas perguntas, mas que tal me apresentar agora as duas de maior interesse?

O xeique sorriu.

— Percebo, professor, que é muito bom em suas escavações. Está bem. Diga-me, qual é a principal diferença, em sua opinião, entre Alá e seu Deus? Muitas pessoas acham que são a mesma coisa.

Murphy chegou mais à frente.

— Existem várias semelhanças. Nós acreditamos que o nosso Deus é o criador de todas as coisas, e vocês concordam. Mas também acreditamos na trindade de Deus, um Deus composto de três personalidades divinas com tarefas individuais. Ele é um piedoso Pai celestial, soberano, sustentáculo do universo que ama a humanidade, e que fez Seu único Filho morrer na cruz pelos nossos pecados para que tenhamos vida eterna. Envia Seu Espírito Santo aos nossos corações para criar um novo espírito em nós e levarmos uma vida com propósito.

O xeique suspirou.

— Há muita coisa para tentar entender. A minha segunda pergunta importante é: o que eu teria de fazer se quisesse me tornar um cristão?

— De acordo com a Bíblia, uma pessoa se torna cristã ao acreditar que Jesus Cristo não é apenas o Filho de Deus que morreu pelos pecados do mundo, mas que Ele ressuscitou no terceiro dia e salvará todos aqueles que tiverem fé Nele.

— Isso é tudo? Parece tão fácil, tão simples.

Murphy fez que sim.

— Sim, é. Esse é o motivo por que muitas pessoas não entendem. Mas a verdade é que não foi fácil, para Ele, sofrer uma das mortes mais martirizantes da história. Como sabe, xeique, os de sua fé acreditam que Ele foi simplesmente um homem bom, um professor, ou mesmo um profeta. Jesus, porém, foi muito mais do que isso. O fato de Ele ter ressurgido dos mortos mostra que Seu sacrifício agradou ao Pai, que se dispõe a salvar todos aqueles que tiverem fé Nele.

O xeique aparentava cansaço. Murphy, amavelmente, acrescentou:

— Xeique, o que expliquei esta noite é uma questão essencial. Na tranqüilidade de seus próprios pensamentos, pode invocar o Pai em nome do Filho, e o Espírito Santo o salvará e lhe dará vida eterna.

— Obrigado, professor Murphy, por não me arrochar por causa disso. — Murphy tremeu novamente diante do arreveso da linguagem. — E obrigado por responder às minhas perguntas.

— Disponha, xeique. Rezarei para que tome logo sua decisão. Só lhe peço uma coisa: quando tomá-la, por favor, mande-me um bilhete informando. Eis meu cartão. Pode entrar em contato por telefone ou e-mail.

— Excelente. Agora precisa descansar, professor. Amanhã, meu ajudante, Saif, o acompanhará pela minha terra e cuidará para que retorne à sua... com a menor interferência possível.

 

Uma hora após o xeique ter-se retirado, meia hora após Murphy ter desligado sua luz de leitura nos aposentos dos hóspedes, o braço direito do xeique, Saif Nahavi saiu sorrateiramente e, sem ser notado, foi à praça do mercado. Aparentemente, foi providenciar suprimentos de última hora para a excursão de Murphy na manhã seguinte.

Ao passar por uma loja de aparelhos eletrônicos, que estava fechada, uma voz o chamou:

— Nahavi, é Behzad. Não se vire. Fique olhando a vitrine.

Nahavi fez como lhe foi instruído. Behzad falou da escuridão do vão de porta recuado da loja.

— Está pronto para amanhã?

— Estou. O motorista habitual já alegou doença. Você, Behzad, será o nosso substituto de última hora. Haverá apenas o casal Murphy e eu. Para dizer o mínimo, eles estarão viajando com pouca coisa.

— O que estão procurando?

— Não sei o que Murphy está caçando em nosso país. Já que ele está fazendo tanto segredo, acredito que essa coisa deve valer um monte de dinheiro.

— É melhor que valha. — A frieza no tom de voz de Behzad não era de se esquecer facilmente.

— Não duvide de mim, Behzad. Nunca trabalhamos juntos, apesar de todas as vezes que tentou me convencer de usar minha posição junto ao xeique para eu roubar coisas para você vender no mercado negro. Mas reconheço uma boa oportunidade, e seja lá o que os Murphy encontrarem amanhã, deverá valer uma fortuna. Além do mais, há a não tão insignificante questão das minhas dívidas de jogo, que este mês finalmente ultrapassaram o que consigo tirar do xeique.

— Você, Nahavi, com sua posição de poder junto ao xeique, sempre olhou para mim como se eu fosse lixo. Mas sempre achei que era um ladrão igual a mim.

— Você é o ladrão profissional, Behzad, e é por isso que faremos negócio amanhã. Mas lembre-se que o faremos à minha maneira. Precisa parecer um assalto praticado por estranhos. Não colocarei em risco minha posição junto ao xeique.

— Sim, Nahavi, tomarei cuidado para proteger sua preciosa inocência nisso tudo. Contanto que venha do mercado negro o dinheiro do que eu roubar dos Murphy.

— O dinheiro virá, Behzad. Metade para você, metade para mim, e, só para ser justo, se fizer bem sua parte, duas quotas extras pela morte dos Murphy.

 

MURPHY PASSOU A MANGA pela testa, apertou os olhos, para protegê-los da luminosidade, na direção da distante linha de colinas empoeiradas e inspirou fundo enchendo os pulmões com o ar do deserto. Como era bom estar em casa.

Aliás, jamais colocara o pé naquela região em particular de Samaria, mas assim que seus tênis pisaram o crestado solo seco e uma debilitada manada de cabras passou por ele, deixando o tinir de sinos e um forte cheiro almiscarado no ar, soube que era ali mesmo que devia estar. Os primeiros cristãos talvez tivessem passado por ali. Talvez um dos apóstolos tivesse descansado um pouco sob a sombra daquela enorme pedra empoleirada no precipício. No seu entender, ele poderia estar, literalmente, seguindo os passos de Jesus.

Fez uma careta por causa do vôo de sua imaginação. Talvez fosse um exagero. Mas não havia dúvida de que aquele era o palco onde haviam se desenrolado alguns dos acontecimentos-chave da Bíblia. E estava convencido de que aquela paisagem aparentemente morta e vazia era capaz de lhe contar a história milagrosa, se você soubesse lê-la.

Essa, infelizmente, era a parte mais complicada. O pretexto oficial da visita dos Murphy a Samaria era gravar algumas cenas para um especial de televisão. Portanto, enquanto Laura prosseguia em sua metódica busca pela paisagem, Murphy continuava a erguer e baixar sua câmera digital, fingindo fazer o trabalho principal.

Através do monitor de sua câmera, Murphy observava Laura caminhar lentamente de um lado para o outro, esquadrinhando uma elevação baixa ao sul, conferindo-a com um punhado de mapas que levava enfiado nos bolsos da calça de seu macacão, subitamente virando 180 graus como se tivesse se lembrado de algo de repente — e, em seguida, virando de volta, frustrada, como se a lembrança lhe tivesse escapado. Murphy sabia muito bem que não devia apressar Laura quando ela estava na área.

Os outros membros do grupo, providenciado pelo xeique, eram Saif Nahavi e um motorista chamado Behzad. Ambos ficaram lá embaixo com o Land Cruiser, para ficar atentos contra intrusos, mas não pareciam prestar atenção a nenhum dos Murphy. Eles nada disseram a Nahavi sobre o que procuravam, além da vaga vizinhança do local aonde queriam ser levados. Indo além do alerta dado por Levi, Murphy não falou nem mesmo ao xeique sobre a cauda da Serpente.

Estavam, portanto, sozinhos no seu pequeno canto de deserto, um anfiteatro circular natural formado pelos chifres curvados do cume. Os sinos das cabras haviam sumido na distância e o único som era o sibilar da areia suavemente soprada pelo deserto.

Após o estudo dos mapas que fizera na noite anterior, e depois bem cedo naquela manhã, Laura ficou completamente zonza de emoção e de café forte. Estava convencida de que havia feito a localização. Após examinar incontáveis colinas e gargantas, sem se permitir qualquer distração, espetou o dedo no mapa aberto na mesa da cozinha.

— É isso! Tenho certeza. Logo ao norte do antigo leito fluvial, antes de se chegar ao uádi. Aqui!

E Murphy esperava que ela estivesse certa. Afinal de contas, Laura era fora de série.

Agora, ele podia dizer, aquela sensação de certeza desaparecera, evaporando como o orvalho sob o ardente sol do deserto. Laura ia na direção dele com a cabeça baixa, os ombros caídos como os de um atleta derrotado, ao escolher o caminho por entre as rochas e os pequenos afloramentos de pedra.

Então, num instante, ela desapareceu.

 

MURPHY PERMANECEU PARADO e boquiaberto por um momento, como se fosse um integrante de uma platéia de um número de mágica olhando a caixa vazia, incapaz de imaginar para onde a garota fora. Em seguida, saiu correndo.

Laura estava a cerca de 50 metros de distância, calculou ele, quando sumiu. O coração martelando, ele sentiu o solo fofo sugar seus pés, ao correr pela areia na direção da coluna de pó que marcava a última vez que a vira. Era como um daqueles sonhos no qual você corre de um monstro mas suas pernas parecem não funcionar. De repente, teve uma imagem de Dakkuri, os olhos negros cintilando de maldade, e sussurrou uma prece silenciosa.

Cambaleou, endireitou-se e, finalmente, alcançou o cume da baixa elevação que separara os dois. Ali, onde Laura devia estar, havia um enorme buraco com cerca de 1,20 metro de largura, a areia despejando-se nele como água descendo por um ralo. Jogou-se no chão, curvando-se o máximo que se atrevia para o interior do buraco. Lembrou-se de certo inverno, quando salvou um colega de classe que caíra através do gelo, torcendo para que este não cedesse com seu peso à medida que se aproximava milimetricamente. A areia do deserto se comportava da mesma maneira?

Pensou ter ouvido alguma coisa, um grito abafado que poderia ter sido Laura, e inclinou-se mais ainda. De repente, o sólido chão cedeu e ele mergulhou como uma criança no escorrega do parquinho. Pousou com um baque surdo e rolou para o lado, engasgado com um punhado de areia. Enquanto a cuspia, a poeira começou a clarear e o mundo entrou em foco novamente.

Em três lados havia paredes de inteiras pedras escuras desbastadas. O quarto foi enterrado na onda de maré de areia que o sugara junto com ela. E ali, aparentemente alheia ao caos à sua volta, estava Laura. Com dificuldade, Murphy pôs-se de pé e aproximou-se dela.

— Laura, você está bem? Está machucada?

A calça de seu macacão estava retalhada nos joelhos, com uma mancha escura infiltrando-se, e parecia cair areia sobre cada centímetro dela. Mas, quando sacudiu um grande turbilhão de areia dos cabelos, Murphy pôde ver que ela sorria.

— Sabe... eu estava certa! Estava o tempo todo bem debaixo de nossos pés. Não admira que não tenhamos conseguido ver.

Murphy envolveu-a em um abraço de urso e deu uma risada de alívio.

— Nunca duvidei um segundo de você, querida. — Afastou-se um pouco para ver se ela estava realmente inteira, depois seguiu seu olhar até a parede mais distante.

Seus olhos se ajustavam à mistura de luzes, dos buracos por onde caíram, com a sombria penumbra quase toda tomada pelo ar viciado da caverna subterrânea de areia na qual pousaram. Perceberam que a areia já começava a ceder 50 metros à frente de uma certa pedra. Esta formava degraus que levavam à entrada do que parecia ser o tipo de caverna natural de pedra que estavam costumados a ver quando faziam caminhadas pela Carolina do Norte.

Cambalearam pela areia até os degraus, onde puderam se movimentar mais rapidamente até a entrada da caverna. Então, ambos os Murphy retiraram suas lanternas das calças e varreram a entrada da caverna com semicírculos de luz.

— O que estamos procurando? — perguntou Laura.

— Provavelmente, uma ânfora.

Laura traçou uma imagem mental dos antigos jarros de barro que tinham uma forma bulbosa e duas alças que emergiam como orelhas de seus estreitos gargalos. Ânforas eram usadas para armazenar grãos, peixe seco, água, vinho e objetos de valor. Ela localizou uma das que estavam pousadas na areia e a entregou a Murphy.

— Sim, parecem realmente com os “vasos” dos quais fala a Bíblia, e que nós chamamos de ânforas, o tipo que os babilônios levaram quando saquearam Jerusalém. Se eu estiver certo, a cauda da Serpente está numa dessas. — Murphy virou de cabeça para baixo o jarro de barro. Algo horrível e serpeante rastejou para fora e deslizou adiante. — Mas não nesta.

Laura arrepiou-se e saltou para o lado quando a coisa viscosa passou escorregando perto dela. Perdeu o equilíbrio, tropeçou para trás contra a parede da caverna e caiu por entre uma estreita fenda vertical.

Murphy ouviu-a gritar e virou com sua lanterna, vasculhando a escuridão atrás dela. Mas Laura havia sumido.

— Laura? Laura, onde você está? — gritou ele, cambaleando por causa de um surto de aflição. — Laura?

— Aqui, Murphy — respondeu Laura finalmente, após ter-se passado o que pareceu uma eternidade. — Aqui. Acho que encontrei!

Murphy ficou aliviado por ouvir sua voz, mas ainda não conseguia vê-la. Tensos momentos se passaram antes que ele visse o facho da lanterna dela através da estreita fissura. Disparou em sua direção e deslizou pelo meio da brecha na parede da caverna que engolira Laura.

Murphy viu-se em outra caverna, consideravelmente menor o que a primeira.

— Laura, você precisa parar de tentar sumir de mim.

Laura estava parada ali, varrendo com a luz da lanterna sobre que havia descoberto.

— Olhe, Murph! — exclamou Laura, maravilhada. — Não é incrível?

Murphy juntou o facho de sua lanterna ao da de Laura, e ambos ficaram de queixo caído.

— Murph, está vendo o que eu estou vendo?

— Depois de tudo isso, é bom demais para ser verdade.

A boca de um enorme jarro de pedra sobressaía de um monte e sujeira e areia como se estivesse apenas esperando por eles para ser aberta.

Aproximaram-se dele juntos, como caçadores espreitando um do o qual temiam que fugisse em disparada antes de conseguirem colocá-lo em suas miras. Silenciosamente, ajoelharam-se e retiraram a sujeira e a areia de cima do jarro. Este tinha quase meio metro de altura e a boca era larga o suficiente para caber uma mão.

Murphy vibrava de antecipação, e apressou-se a retirá-lo. Tentando não pensar em escorpiões, víboras ou outros bichos peçonhentos, enfiou a mão. Laura, por ser a mais cautelosa do casal, apontou o facho para o chão da caverna entre a ânfora e o lugar onde estava, para ter certeza de que não havia nada rastejando por ali, antes de dar outro passo em direção ao marido. O caminho pareceu seguro e ela estava para se juntar alegremente ao esposo aos berros quando, por via das dúvidas, apontou sua lanterna para parede mais distante da caverna.

Também não havia nada rastejante por ali, mas o que ela viu em vez disso fez seu coração disparar.

— Hãã... Murph... temos um problema.

 

O RESTANTE DA CAVERNA ESTAVA repleto de ânforas. Centenas e mais centenas de ânforas. Ânforas de todas as formas e tamanhos.

Murphy pousou a que estivera segurando, a tal que apenas segundos antes parecera, com certeza, o esconderijo da cauda da Serpente.

O chão era plano e livre de água, o que levava a crer que provavelmente as ânforas tinham sido armazenadas ali muitos séculos antes.

— Genial — resmungou Murphy. — Este devia ser o lugar aonde as ânforas vinham serem finalizadas. Eu não tinha planejado passar os próximos seis meses aqui embaixo.

— E eu estava me saindo tão bem!

— Sim, estava, meu bem. Chegamos perto um tantinho assim.

— Tem idéia de como vamos saber em qual delas está escondida a cauda de Serpente?

— Hum... Acho que Dakkuri, aquele sacerdote malandro, andou fazendo uma tremenda armação. E se ele mandou seus subordinados não apenas esconder esse pedaço da Serpente, mas irem além, e talvez deixá-lo à vista?

— É, como talvez procurar a agulha em um monte de outras agulhas em vez de um palheiro.

— Talvez não seja tão ruim assim, Laura. Conhece esse tipo de coisa melhor do que eu por causa de suas pesquisas... como é que essas ânforas eram usadas?

Laura começou a selecionar a informação em seu vasto conhecimento de artefatos antigos.

— Normalmente, eles as fechavam, quando fechavam, com tampas feitas de rolha, barro ou madeira — explicou Laura. — Mas algo tão importante quanto o que estamos procurando era lacrado com cera.

— Se encontrarmos alguma cheia de pennies saberemos que é falsa.

Laura foi para um lado da caverna, Murphy para o outro, e começaram a examinar ânforas às dúzias. A maioria estava vazia. Algumas continham ossos de animais, outras, primitivos utensílios domésticos e objetos pessoais. Cada uma das ânforas, sem contar seu conteúdo, era um artefato antigo que, em circunstâncias diferentes, teria levado Murphy, ou qualquer arqueólogo, a dar cambalhotas.

Procuraram em ânfora após ânfora e já estavam para enlouquecer quando uma idéia assaltou Murphy.

— Espere — disse ele naquele tom que usava quando não conseguia acreditar o quanto estivera cego diante de alguma coisa. — Se você quisesse esconder um pedaço da Serpente, supostamente comprido, fino e duro, não o colocaria numa dessas mais gordas, pois poderia chocalhar e chamar atenção toda vez que fosse mudada de lugar. Você o envolveria em algo macio e enfiaria numa destas, certo? — Ergueu uma ânfora alta e estreita que parecia um vaso de flor. — Se procurarmos uma igual a esta, lacrada com cera, encontraremos.

A maioria das ânforas na caverna era do tipo barrigudo e bulboso. O momento de percepção de Murphy eliminara cada uma delas. Ele e Laura recolheram rapidamente as candidatas em potencial, e com a mesma rapidez eliminaram as que não estavam lacradas com cera.

— Que tal esta aqui? — perguntou Laura logo depois, mostrando a Murphy uma cuja boca fechada estava tão justa e lisa que a tampa só podia ter sido feita de cera.

Murphy começou a cavoucá-la com uma faca, colocando em primeiro lugar toda a cera removida em um saco plástico para estudo futuro. A tampa logo pipocou para fora com um leve ploft. Seus olhos se arregalaram de antecipação quando enfiou a mão lá dentro e retirou algo envolto em um tecido grosseiramente trançado.

O que encontrou, ao desenrolar o pano, foi um pedaço de bronze fundido perfeitamente preservado com cerca de 30 centímetros de comprimento e cinco de diâmetro. Era afilado e sinuoso em uma extremidade e quebrado na outra. Murphy não teve dúvida de que tinha nas mãos a cauda da Serpente de Bronze.

 

— MURPHY, NÓS A ENCONTRAMOS. Deixe-me segurá-la. Laura ficou maravilhada com o peso da cauda da cobra de bronze em sua mão; — Imagine só, Murphy, foi Moisés quem fez isto!

— Espantoso. Hoje fomos abençoados. Agora vamos tentar sair daqui para podermos sobreviver e amanhã contar a respeito disso.

Retrocederam, mas se deram conta de que não poderiam escalar de volta pelos buracos por onde caíram para chegar à caverna subterrânea. Havia duas passagens levando de volta na direção oposta à entrada da caverna. Murphy escolheu a que era menos arenosa. Após várias centenas de metros, a areia virava terra e o chão era uniforme e até mesmo um pouquinho úmido, indicando que havia água por perto. Mais alguns metros adiante surgiram raízes de árvores e arbustos através de uma parte do solo, e Murphy conseguiu içar a si mesmo até um misto de pedras e raízes e enfiou a cabeça acima do solo.

— Querida, acho que podemos nos espremer por aqui.

— Murph, estou entalada.

Murphy virou-se e viu que o pé de Laura estava preso à rede de raízes entrelaçadas. Agachou-se e soltou-a, precisando, no processo, afastar um pedaço cheio de nós. Estava para se livrar dele quando notou um pequeno broto com a forma quase perfeita de uma cruz saindo dele. Quebrou-o e o entregou a Laura.

— Para você, minha maravilhosa esposa. Uma lembrança de sua visita à bela Serpente de Bronze.

Um fino feixe de luz do dia vindo de cima passou exatamente entre os dois. A pequenina cruz foi atingida pela luz. Isso lhe deu uma aura cintilante que pareceu providencial. Murphy e Laura ficaram sem fala. Ela apertou a cruz contra o peito e Murphy passou os braços à sua volta. Ficaram parados sob o feixe de luz, abraçados, ambos esquecendo por um momento onde estavam. Mas foram lembrados subitamente quando a primeira bala bateu na rocha a cinco centímetros do rosto de Laura.

 

A segunda bala atingiu um galho pendente logo acima do buraco no chão através do qual Murphy enfiara a cabeça. Ambos foram salpicados com fragmentos de casca de árvore.

Murphy jogou seu corpo na frente do de Laura, para protegê-la, empurrando as costas de ambos contra a parede de pedra.

— O que está havendo, Murphy?

— Balas. Alguém não está de brincadeira. A não ser que possamos recuar na esperança de achar uma ânfora cheia de armas e munição, temos que nos mandar daqui. Agora.

Nunca tinham atirado contra Laura, mas ela logo entendeu o recado. A terceira bala, espirrando areia nos pés de Murphy, ajudou-a a se mandar. Começaram a correr para mais longe pelo subsolo, mas atingiram uma parede de pura rocha.

— Teremos de nos arriscar a subir pelo buraco. E quem está atirando na gente sabe disso. Vamos.

Murphy conduziu Laura de volta à maçaroca de raízes na qual seu pé ficara preso, já que aquela seria a melhor proteção contra o tiroteio. Não era muita coisa, mas pelo menos não estariam a céu aberto.

— Fique aqui e abaixada.

— Murph, aonde você vai? Não me deixe!

Murphy correu para as pedras do lado mais distante do buraco.

— Shh. Tenho uma idéia que pode funcionar, mas será um tanto ruidosa.

Quem estava atirando podia disparar buraco abaixo, mas não conseguia muito raio de ação, a não ser que enfiasse nele a sua arma. Que era com que Murphy contava.

Seguiu-se um momento de silêncio assim que o pistoleiro chegou por conta própria à conclusão de que não via mais os Murphy correndo abaixo do buraco no solo. Primeiro, surgiu no buraco a ponta do cano de um AK-47, depois o resto do cano. Ao ser enfiado pelo buraco, disparou dezenas de tiros no chão, criando uma zoeira ensurdecedora e tornando o solo numa raivosa nuvem de poeira, terra e areia.

Murphy esperava que seu timing estivesse correto ao saltar para o cano da arma, quando ela ainda cuspia descarga após descarga, e puxá-la para baixo. Com um horrendo berro, o rifle e o homem que o segurava foram arremessados no chão através do buraco. Murphy endireitou-se, posicionando-se para golpear o atirador assim que ele atingisse o solo perfurado contra o qual estivera disparando. Murphy calculou que tinha, no máximo, uma fração de segundo para aproveitar sua única vantagem, o momentâneo elemento surpresa.

No final das contas, a surpresa foi maior. Pois o atirador não permaneceu muito tempo no chão. Caiu direto através dele e continuou caindo. As balas haviam dilacerado o solo de tal modo que séculos de areia, terra e pedra que formavam uma cobertura relativamente fina se desprenderam, formando um fundo buraco de areia abaixo do chão.

Enquanto Murphy olhava espantado, o atirador finalmente pousou com um baque surdo. Como o rifle ainda estava em suas mãos, Murphy deduziu que o atirador não tinha mais nada com que atirar. Espreitou o interior do buraco agora muito mais fundo. Não precisava se preocupar mais com o atirador. Ou com o que restou dele.

Murphy tentou não ouvir o horrível grito agudo, enquanto conseguia ver o corpo do atirador ser enterrado vivo. Toneladas de areia que não eram tocadas havia séculos, ou jamais, por seres humanos, precipitaram-se para cobrir seu corpo em questão de segundos. Mesmo se quisesse, não haveria nada que Murphy pudesse ter feito para salvar o pistoleiro. Mais quinze segundos depois, e só havia um monte de areia onde estivera a cabeça na câmara subterrânea.

Antes, porém, de ela ter desaparecido, Murphy reconheceu a cabeça ao jogar o facho de sua lanterna sobre ela. Bezhad, o motorista.

Com o rifle ainda nas mãos, Murphy virou-se rapidamente, pronto para disparar, quando sentiu uma mão em seu ombro.

— Ei, Murph, calminha aí. Sou eu.

— Oh, desculpa, querida. Vamos subir logo pelo buraco, antes que todo este solo desabe. — Em seguida, para si mesmo, a fim de não assustar Laura, ele murmurou: — E já que o nosso motorista tentou nos matar aqui embaixo, fico imaginando o que nos espera lá em cima.

 

ESCORRIA SANGUE NA DIREÇÃO DELES. Murphy e Laura tinham saído do buraco após ele ter inspecionado cuidadosamente a abertura, o rifle a postos. Estava abençoadamente silencioso após o tiroteio no subsolo. Eles haviam descido o cume até onde o Land Cruiser se encontrava, chamando por Saif.

Ao chegarem ao carro, perceberam por que Saif não respondera nem os ajudara. Estava inclinado sobre o assento do passageiro, a cabeça sangrando do que parecia ser um ferimento feito por objeto pesado.

— Ele está... morto, Murphy?

No instante em que ela fez a pergunta, Saif emitiu um leve gemido e o corpo se agitou.

— Minha opinião profissional, Laura, é não, o sr. Saif não está morto.

Laura encarou Murphy.

— Sai da frente, sabichão, e deixe-me olhar o ferimento. — Ela alcançou a parte de baixo de sua camisa, que era o mais perto de um pano limpo que viu nas redondezas. — Sr. Saif, consegue me ouvir? Alguém o agrediu, provavelmente Behzad, o motorista, o bandido que foi atrás de nós. Viu alguma coisa antes de ser atacado?

Saif abriu um olho, depois o outro e gemeu:

— Aaah, sra. Murphy, está tudo bem. Você... Vocês... Louvado seja Alá por estarem salvos. Creio que aquele motorista substituto devia ser um assaltante. Ele me subjugou e deve ter ido atrás de vocês. Lamento muito. O xeique vai ficar indignado. Lamento que o ladrão tenha roubado o seu objeto.

Murphy olhou intrigado para Saif.

— O que quer dizer, Saif? Fomos atacados pelo mesmo motorista que agrediu você, mas ele não nos roubou. E nunca mais vai roubar ninguém.

Saif tentou parecer aliviado.

— Então conseguiram o que vieram procurar?

— Sim, e muito mais... na maioria balas. Vamos agora para o aeroporto.

 

Duas horas depois, os Murphy estavam instalados em segurança a bordo do jato do xeique, seguindo para casa.

— Que dia, Murph! — Laura se aninhou ao lado do marido, os olhos fechando rapidamente apesar da descarga de adrenalina.

— O primeiro pedaço da Serpente de Bronze.

— E a primeira vez em que atiraram em mim. Mas fiquei tão impressionada pela Serpente que praticamente o perdôo por me ter arriscado a quase levar um tiro mortal.

— Eu talvez leve um pouco mais de tempo para me perdoar. — Murphy virou-se e colocou a mão em seu rosto. — Querida, se eu tivesse tido a menor idéia de que estava colocando você em risco...

Laura sorriu e colocou a mão sobre a dele.

— Eu sei, você teria me deixado em casa para lavar a louça e remendar suas meias. Agora que tudo acabou, posso desfrutar o direito de me gabar na semana que vem na sala de descanso da faculdade.

— E eu acho que jamais perdoarei ou esquecerei o nosso amigo Saif.

Laura disparou um olhar intrigado para Murphy.

— Como assim, Murph? O pobre sujeito praticamente quase foi morto.

— É, “praticamente” é a palavra certa. Não sou médico, mas você já tinha visto um ferimento na cabeça mais perfeito? Uma bela porção de sangue para chamar nossa atenção, mas nem um pouco profundo para causar qualquer dano à cabeça.

Laura empertigou-se na poltrona.

— Oh, não! Murphy, eu estava tão apavorada e surda dos tiros para perceber isso na ocasião, mas, quando ele abriu os olhos, não havia como ele estar saindo de um estado inconsciente. As pupilas estavam brilhantes como as dunas.

— Sim, eu notei. Acho que Saif estava metido nisso e apenas fingindo parecer que também era vítima, para o caso de sobrevivermos, mas supostamente não deveríamos passar pelo motorista bandido para ver o número fajuto de Saif.

— Mas como ele sabia que estávamos procurando a Serpente?

— Não sabia. Nem podia saber. Ninguém por lá sabia. Creio que ele soube que o xeique estava nos ajudando a encontrar algo de valor. Não lhe importava o que fosse, ele queria apenas roubar essa coisa da gente. Não acredito que o xeique tenha algo a ver com a trapaça. Mas, assim que aterrissarmos, vou informá-lo sobre o tipo de patife trapaceiro que está trabalhando para ele.

— Olhe, Murphy, o xeique foi nosso anfitrião. Não perca sua famosa calma quando falar com ele pelo telefone.

— Nada disso. Só acho que ele precisa saber a verdade. Por falar no xeique, que tal darmos uma olhada mais de perto no que hoje quase causou nossa morte? — Alcançou o malote diplomático do xeique e retirou a peça de metal envolta por um pano.

Já sem lutar com sua exaustão, Laura sorriu.

— Por que demorou tanto assim?

Murphy começou a desfazer os nós, quase como se esperasse que a cauda da Serpente fugisse deslizando com um sibilar por entre os assentos. Retirou o pano e segurou a peça sob a luz. Fora forjada 3.500 anos antes, mas a magnífica superfície parecia incólume às forças corrosivas do homem ou da natureza.

A textura da pele da Serpente habilmente fundida estava intacta. Cada escama do réptil fora fielmente executada, e Murphy reconheceu o inconfundível padrão de uma venenosa víbora-cornuda.

— Moisés fez isto — sussurrou. — Moisés teve realmente isto nas mãos.

Laura estendeu a mão e tocou-a com o dedo.

— Em obediência a Deus, eles confiaram Nele e foram curados. Foi um símbolo de sua fé.

Murphy podia ver que seu braço estava arrepiado.

— Mas, após Moisés terminar com ela, o que se tornou esta Serpente? Desde então, tem sido esta a pergunta através dos séculos.

Murphy inclinou a cauda da Serpente para que a luz da janela varresse sua superfície, fazendo as escamas brilhar e dançar. Parecia quase viva.

— Olhe, querida. Você viu isso?

Laura inclinou-se para mais perto.

— Está se referindo a quê? É apenas... — Então ela viu. Outro conjunto de sinais. Quase invisíveis, como se tivessem sido toscamente entalhados, praticamente rabiscados no bronze. Mas, assim que se concentrava neles, tornavam-se estranhamente elegantes — e instantaneamente familiares — triângulos com caudas lineares e formas em V, como pássaros vistos contra o céu. — Cuneiformes caldeus — arfou Laura. — Exatamente como no papiro.

— É. E aposto como esta também é a caligrafia de Dakkuri. — Murphy virou-se e pressionou o rosto contra a janela. Nove mil metros abaixo, o deserto ondulava em direção ao distante horizonte.

— Sabe, o que quer que pretendesse esse sumo sacerdote, Dakkuri, parece que cumpriu o prometido em seu papiro. Deixou algo no primeiro pedaço que, ao que tudo indica, poderá nos levar ao que resta da Serpente.

 

— BEM, ALGUÉM FEZ ALGO interessante na semana que se passou? Eu estive em Samaria.

Houve apenas uma leve agitação de interesse entre os seus alunos. Turma difícil, pensou Murphy. Resistiu à tentação de atrair a atenção deles, acrescentando: Um árabe atirou em mim.

Em vez disso, alcançou sua mochila ao lado da tribuna.

— E olhem o que achei.

— Um cano de chuveiro? — gritou alguém do fundo da sala.

— Não, mas o próximo engraçadinho será mandado para o chuveiro. Estes espantosos cerca de 30 centímetros de bronze, senhoras e senhores, são uma cobra. — Várias cabeças da primeira fila recuaram. — Calma, ela nunca teve vida, mas teve várias vidas, todas mais interessantes do que qualquer vida que já teve uma cobra de verdade.

Murphy deu vida ao seu projetor de slides com um clique.

— Bem, eu sei que esses nomes e reinos bíblicos são difíceis de se pronunciar, portanto tentarei ajudar vocês projetando na tela a imagem deles. Todos esses cavaleiros governaram muito antes de poderem sair na capa da People, portanto não tenho fotos grandes, coloridas e nítidas para ajudar vocês a lembrar deles.

— Este slide mostra um documento de aparência decrépita, um antigo papiro que não faz muito tempo caiu em minhas mãos. Entretanto, como costuma acontecer com os arqueólogos, eu não tinha nenhum contexto do que estava procurando. Seria muito mais fácil se esses artefatos já viessem com uma fita de áudio com o registro de sua história, como as que se obtêm num museu para uma visita, mas ainda não encontrei nenhum assim. Portanto, nós mesmos temos que descobrir todos esses fatos.

O slide seguinte era um close do papiro.

— Não se preocupem. Quem pensa que está de ressaca, isso aí não é inglês. Nem mesmo perto. É uma língua conhecida... ou hoje em dia quase desconhecida... como caldéia, e data da época de Nabucodonosor, o grande rei da Babilônia.

Murphy clicou o nome do rei para a tela, seguido de um mapa da Babilônia. Em seguida, avançou para o desenho no papiro que ele interpretou como uma representação do rei.

— Novamente, isso não veio com um vídeo instrutivo, mas como eu sei que esse adorável desenhista está representando Nabucodonosor? Sabendo o período da escrita e conhecendo a sucessão de reis, o que significa dizer, pessoal, comam seus legumes, rezem antes de dormir e estudem, estudem, estudem. Nesse negócio não há atalhos hollywoodianos.

— Bem, por que esse papiro é tão empolgante? Grande parte do que os arqueólogos têm encontrado dos tempos babilônicos é composta de recibos de armazéns e registros comuns do dia-a-dia, pois os babilônios eram a versão antiga dos administradores de universidade. Adoravam anotar tudo.

Clicou no slide seguinte.

— Bem, isso pode parecer uma pestana na lente do projetor, mas é o símbolo cuneiforme para uma serpente. Combinando isso com o símbolo seguinte, que acreditamos significar o que chamamos de bronze, comecei a ficar empolgado. E quando combinei o suficiente do restante do papiro, comecei a me dar conta de que não era uma lista de compras babilônica.

Esse foi o último slide, e Murphy desligou o aparelho.

— Numa próxima palestra, voltarei a detalhar melhor os métodos para se interpretar a escrita antiga. Por enquanto, vamos pular adiante, passando pelo que aprendi lendo o papiro, e como isso me levou a encontrar a minha amiga serpente aqui. — Puxou novamente da mochila a cauda da Serpente de Bronze. — Porque a questão que quero tratar hoje é como ter a coragem de dar alguns saltos na lógica e no conhecimento, pois muitas vezes são as idéias extravagantes, malucas, impossíveis que levam até mesmo velhos arqueólogos maçantes como eu a descobrir novas verdades.

“Eu acredito que esta peça de bronze, assim que for testada em laboratório, provará ser a cauda da Serpente de Bronze, a qual, segundo o Antigo Testamento, foi feita por Moisés em 1458 a.C. Os israelitas começaram a reclamar porque estavam vagando havia tanto tempo pelo deserto e iniciaram atos de ‘descrença’ contra Deus. Como castigo pela rebeldia, Deus enviou serpentes venenosas para picar os pecadores. Isso levou todo mundo de volta aos trilhos, e rezaram e pediram ajuda a Moisés. Este rezou a Deus, que teve piedade dos israelitas e disse a Moisés: ‘Faz uma Serpente ardente e coloca-a num poste; e viverá todo aquele que, tendo sido picado, olhar para ela.’

“Moisés interpretou ‘ardente’ como bronze, porque fez esta imagem de Serpente e colocou-a diante dos afligidos, e aqueles que se arrependiam eram curados. Todo esse simbolismo com a Serpente, é claro, é uma forte conseqüência da Serpente que tentou Eva no Jardim do Éden, que jogou o mundo no caminho do pecado e da condenação. Um dia desses, eu gostaria de voltar a falar sobre o que curou os israelitas. Foi algum mágico poder oculto da cobra de bronze, ou o fato de os israelitas terem renovado sua fé em Deus? Mas o diretor Fallworth começará a me acusar de pregador de barraca se eu ousar desviar para questões de fé. Além disso, hoje quero ir direto ao verdadeiro objetivo da minha investigação.

“Há dois momentos na história, registrados na Bíblia, em que aparece a Serpente de Bronze. O primeiro foi em 1458 a.C, quando Moisés faz a Serpente com o propósito de curar os israelitas. Então avançamos para 714 a.C, para a única outra ocasião em que é mencionada na Bíblia, em Reis II 18:1-5, onde, contrariando o Primeiro Mandamento, a Serpente de Bronze se torna um objeto especial de adoração.

“O jovem rei Ezequiel, um dos mais devotos reis de Judá, descobre que seu povo está começando a adotar a prática da idolatria, que era comum entre as tribos vizinhas. Evidentemente, essa Serpente de Bronze fora secretamente preservada e usada como objeto de adoração. Algumas pessoas até mesmo atribuíam a ela misteriosos poderes de cura.

“Quando Ezequiel descobriu o povo de Judá se curvando em adoração diante da Serpente, uma adoração que pertencia somente a Deus, ele ficou tão furioso que a quebrou em três pedaços.

“E essa, no que concerne à Bíblia, foi a última vez que soubemos da Serpente de Bronze. Até este papiro me colocar na pista de algumas ligações com fatos de que a Serpente estava presente na época do grande Império da Babilônia, durante o reinado de Nabucodonosor. Isso é tempo demais e muito distante de onde a Bíblia deixa a Serpente quebrada em três pedaços aos pés de Ezequiel.”

Murphy fez uma pausa.

— Conseqüentemente, visto que os arqueólogos procuram algum meio, além de máquinas do tempo, para explicar como artefatos conseguem sobreviver a saltos de tempo e distância, eu tenho uma teoria, e essa teoria me ajudou, semana passada, a encontrar este pedaço da Serpente. Creio que quando Ezequiel ordenou que a Serpente fosse destruída em Judá, ela foi quebrada em três pedaços e colocada no antigo Templo. Naquela época, mesmo se um rei mandasse destruir um ídolo, simplesmente não se jogaria fora um pedaço de cerca de um metro de um bom e perfeito bronze. Cerca de 140 anos depois, quando os babilônios atacaram Judá e saquearam o Templo, levaram para a Babilônia qualquer coisa que parecia ter algum valor, e alguém acabou resgatando os três pedaços da Serpente.

“Pois bem, sumiu parte do texto do papiro que descobri, portanto foi necessária uma especulação bem maior do que a normal, mas juntamos o suficiente da mensagem para revelar que algum sumo sacerdote entre os babilônios adoradores de ídolos juntou de volta os pedaços da Serpente, provavelmente acreditando que ela possuía grandes poderes.

“Na minha próxima palestra, começarei a falar sobre as profecias, e como Nabucodonosor adquiriu seu temor do verdadeiro Deus e ordenou que ídolos fossem destruídos a torto e a direito... e lá se vai mais uma vez para o cepo a Serpente de Bronze. Só que o sumo sacerdote que escreveu o papiro queria salvar mais uma vez a Serpente e dividiu os pedaços, deixando instruções no papiro de como encontrá-los para juntá-los novamente. Algo que, se tiver sorte em ler o que está escrito aqui na parte de baixo da cauda, pretendo fazer. Portanto, enquanto me dedico a isso, a classe está dispensada.”

Um aluno chamou.

— Professor Murphy? Ninguém ficou curado quando você ergueu a cauda, mas não acha que, se encontrar os outros dois pedaços desse Lego e deixá-los novamente unidos, conseguirá curar pessoas?

— Sim, esta é a grande pergunta. Pode ser possível, pois, de acordo com os crentes nas assim chamadas artes negras, que vêm procurando a Serpente há séculos, se seus pedaços forem juntados, você poderia usá-la para o mal.

 

SHANE BARRINGTON forçava-se a não pensar em seu filho. Naturalmente, mesmo um mestre em revelar a mais fria indiferença diante dos atos mais corruptos e impiedosos pecados empresariais que perpetrara em sua vida, o assassinato de Arthur pelo Garra, enquanto ele permanecera indefeso, revelou-se uma difícil lembrança para Barrington ignorar completamente. Principalmente por não fazer idéia do que Garra fizera com o corpo, apesar de sua enigmática promessa de que tinha um plano.

Estranho, pensou ele, como após desligar completamente seu filho de sua vida por tantos anos, agora, na morte, Arthur continuava em seu pensamento. Não que Barrington corresse o risco de se tornar um sentimental em relação à família. Além de sua ex-mulher, com quem acertara as contas havia mais de duas décadas, Arthur era seu único parente ainda vivo. E ele não tivera necessidade nem interesse em algo tão prosaico quanto um amigo. Sócios, equipe, criados, sim; amigos, não.

Nem tinha Barrington grande apego a lugares. Não havia nenhum ao qual pudesse chamar realmente de lar, embora possuísse casas suntuosas em três continentes. Seu local de origem certamente não tinha nenhum valor sentimental para ele. Era um lugar do qual você fugia, se tivesse sorte, e não ao qual sonhava em voltar. Quanto à atração pela esplêndida arquitetura ou obras de arte de valor incalculável, isso era para almas fracas. A verdade era que ele sentia-se mais feliz quando estava a caminho de algum lugar, num avião ou num carro veloz. Movimentar-se, em velocidade, sentir o mundo encolher sob seus pés. E, com os sistemas de última geração fabricados pela Comunicações Barrington, ele podia fazer as coisas acontecerem onde quer que se encontrasse.

Se tivesse, porém, de escolher um lugar onde se sentia mais à vontade, como se estivesse de pé no próprio centro do universo, seria ali, na cobertura, observando a vasta e recortada paisagem de torres de aço e vidro ganhar vida na nascente alvorada. Entretanto, após aquele terrível momento em que avistou de seu terraço Arthur sendo torturado por Garra, Barrington nunca mais olhou pela janela, muito menos usou o terraço.

Agora, quatro minutos antes de seu convidado chegar, disse a si mesmo que era hora de ser conhecida a determinação do grande Barrington. Forçou-se a abrir as cortinas e as portas deslizantes para o terraço. Não seria como cada criatura fraca que conquistara no passado. Não havia lugar para sentimento de culpa na estratégia de Barrington para atingir seu objetivo. Caminhou a passos largos em direção ao parapeito e olhou abaixo para o Endicott Arms. Por um segundo, sentiu um arrepio, e então clareou a mente.

De imediato, passou a sentir o retorno do domínio total, como se fosse um rei bárbaro de pé sobre os cadáveres de seus inimigos derrotados. A Comunicações Barrington tornara-se recentemente bilhões de dólares mais rica e nunca fora tão forte quanto era agora. Os rombos em sua estrutura financeira haviam sido tapados, sobrando dinheiro mais do que suficiente para outra expansão, outras conquistas. Qualquer magnata tolo o bastante para pensar que conseguiria ficar em pé de igualdade com Shane Barrington estava prestes a descobrir seu erro.

Pousou a mão no vidro e sorriu. Tudo isso, e tão pouco, pouco mesmo, eles pediram em troca. Agora, iniciaria sua segunda tarefa para os Sete. Semelhante à primeira, esta parecia estranha, arbitrária e sem ligação com qualquer grande plano-mestre, e fora transmitida de maneira sucinta, sem nenhuma explicação auxiliar. Contudo, obter a lista de itens de checagem de informações de segurança da ONU era algo que ele podia conseguir facilmente por causa de sua posição de poder.

Consultou seu Rolex. O encontro fora marcado para as sete horas. Tarde o bastante para tê-la forçado a cancelar quaisquer planos que ela pudesse ter para aquela noite. E ele a fez esperar mais uns dez minutos. Tempo suficiente para a confiança se esvair e ser substituída pelo medo. Truques ordinários, talvez, e quase não mais necessários. Mas o exercício do poder, embora mesquinho, era o que lhe dava prazer, e se não pudesse se beneficiar disso, a vida certamente seria de fato muito chata.

Afastou-se de seu sombrio reflexo e falou num microfone preso no forro de seu paletó.

— Mande-a entrar.

 

Stephanie Kovacs, ativa jornalista da reportagem nacional da Barrington News Network, determinou-se a não checar o cabelo, a maquilagem, mais uma vez, quando a recepcionista loura à escrivaninha gesticulou para ela mostrando a porta com um ligeiro abanar de sua mão perfeitamente manicurada. Ali estava ela, Stephanie Kovacs, habilidosa repórter investigativa, destemida denunciadora dos trapaceiros e corruptos, uma mulher que havia levado um tiro, fora agredida por um maníaco portando uma faca e ameaçada por salivantes cães de guarda — que sempre ficara firme e mantivera a cabeça fria ao enfrentar homens com o dobro de seu tamanho e dez vezes mais agressivos —, ali estava ela, nervosa como um gatinho só porque o presidente de sua rede de televisão a convocara para uma reunião.

O que poderia acontecer de pior? Está bem, ele poderia demiti-la. Este era o pensamento que andara percorrendo seu cérebro nos últimos cinco minutos, forçando-a a folhear urgentemente seu fichário mental. Para quem eu telefonaria primeiro? Quem foi aquele executivo que disse, na entrega de prêmios: “Se algum dia você pensar em deixar o programa...” Que rede de televisão estava precisando de uma cara nova para aumentar a audiência? Que programa jornalístico está precisando desesperadamente de um pouco de credibilidade?

Entretanto, arrumar um novo emprego na tevê não era exatamente a questão. Ela era bem-sucedida e respeitada o bastante no ramo para não se preocupar indevidamente com esse tipo de coisa. O que a corroía e lhe dava nós no estômago era uma certa compreensão de que, quando Shane Barrington demitia alguém, ele simplesmente não o mandava embora. Providenciava para que ficasse liquidado. A carreira terminada. Se era isso que ele tinha em mente, ela teria sorte se, um mês depois, estivesse diante de uma câmera falando sobre o efeito das chuvas fora de época de junho sobre a safra da soja.

Parou diante da porta, passou a mão num fio de cabelo desgarrado para devolvê-lo ao seu lugar e entrou torcendo para que ele não enxergasse atrás de seu experiente aspecto confiante.

— Mandou me chamar, sr. Barrington?

Shane Barrington parecia mais alto do que nas fotografias e nas raras cenas gravadas em videoteipe, mas as duras feições e os olhos negros eram terrivelmente familiares. Sem uma palavra ou mudança de expressão, ele gesticulou na direção de um sofá de couro preto encostado na parede mais afastada. Permaneceu de pé enquanto ela se acomodava, forçando-a a olhá-lo de baixo para cima.

— Srta. Kovacs — começou. — Stephanie. Estou contente por você poder me dedicar poucos momentos de seu valioso tempo. Espero não tê-la afastado de alguma investigação importante. Detestaria pensar que algum malfeitor escapou do anzol porque a desviei de seu trabalho.

Ela tentou dar uma risada.

— Ora, sempre há muito peixe no mar. É o que tem de bom nesse trabalho... nunca há falta de alvos que valem a pena.

Barrington olhou para ela sem sorrir.

— Claro. Sei exatamente o que quer dizer. — Virou-se e sentou atrás da comprida mesa de vidro fume no centro da sala.

Ela não pôde deixar de notar a ausência de um telefone ou um computador. Aliás, nada havia sobre a mesa para macular sua perfeita superfície cristalina.

— Às vezes ouço pessoas dizerem que não dou muita atenção a essa parte da empresa. Que eu não me interesse pela tevê. Como se fosse uma velha tecnologia, uma coisa do passado. E Shane Barrington sempre está interessado no futuro, certo?

— Certo — ela descobriu-se confirmando.

— Mas de modo algum é verdade, Stephanie. Presto muita atenção no que passa no canal de notícias. E tenho prestado particular atenção às suas reportagens. Às suas destemidas investigações.

A Stephanie pareceu que a palavra destemida era seu modo de zombar dela. Se uma outra pessoa tivesse usado aquele tom zombeteiro, ela teria agarrado imediatamente sua garganta. Ninguém caçoava dela e ficava por isso mesmo. Mas, para sua própria surpresa, continuou sorrindo mansamente, como se fosse um cão sendo acariciado, não uma ovelha na fila do matadouro.

Os olhos de Barrington pareceram se iluminar um pouco, como se desfrutasse do desconforto dela.

— Você sabe realmente como cutucar os vilões. Sem piedade. Sem quartel. Eu gosto disso.

Ele fez com que Stephanie parecesse uma pugilista, não uma repórter, mas, se gostava de seu estilo, tudo bem com ela. Continuava, porém, sem saber aonde aquilo ia parar, mas seu nível de aflição começava a baixar um pouquinho. Talvez ela não fosse ser demitida afinal de contas.

— As pessoas também dizem que sou um presidente que não se mete. Não digo aos produtores da estação o que fazer. Desde que consigam índices de audiência, o que me importa, certo? Faça programas sobre qualquer coisa de que goste. Baratas assassinas, vovós serial killers. O que lhe der na telha.

Cada vez melhor. Ele gostava do critério dela. Acreditava na liberdade editorial. Com que ela estava preocupada?

Barrington recostou-se na poltrona e pousou as mãos abertas na mesa. Seus olhos escureceram novamente.

— Mas, às vezes, simplesmente não se pode confiar que as pessoas façam seu trabalho. Às vezes, elas precisam de alguma orientação. — Sorriu desanimado. — De cima.

Vá lá, não tão bem assim. A conversa, se se pode chamar assim, sofrera uma terrível reviravolta.

— Decidi que alguém deve fazer uma investigação... uma denúncia impiedosa, sem limites... sobre um certo grupo de pessoas que representam uma grande ameaça a este país... ao mundo. Alguém precisa denunciá-los pelos perigosos fanáticos que são.

Fez uma pausa.

Xiii, aí vem a jogada, pensou ela.

— É um grupo de cristãos evangélicos. E esse alguém será você.

Fiiiu, ela não esperava isso, nem imaginava o rumo que a conversa estava seguindo, mas Stephanie Kovacs não havia superado à toa outros talentos televisivos desesperadamente ávidos por ter dificuldade em entender as coisas. Recuperou-se rapidamente de sua perplexidade exibindo um humilde sorriso.

— Sinto-me honrada com sua confiança em mim, sr. Barrington. Tentarei não decepcioná-lo.

— Cuide para não decepcionar. Eu estarei de olho.

 

O HOMEM CHAMADO GARRA parou o que estava fazendo e se permitiu alguns segundos para observar a parte de Manhattan que se estendia abaixo dele. Aliás, apenas um estreito parapeito e cordas evitavam que Garra caísse na rua.

Encontrava-se dez andares acima, na plataforma do lavador de vidraças, descendo do telhado de uma das estruturas mais reconhecíveis do mundo: o prédio do Secretariado da Organização das Nações Unidas.

Garra voltou-se para uma das centenas de janelas que tornaram o exterior do mais alto prédio da ONU parecer uma torre de vidro. Havia 39 andares, mas ele fizera seus cálculos cuidadosamente e estava interessado apenas em andares do quinto ao 12º. Isso seria uma demonstração suficiente de suas intenções.

Shane Barrington fizera o que lhe fora determinado e obteve para Garra alguns dos acessos de segurança de que precisava para executar sua tarefa. Ele dissera a Barrington o que queria e deixara que este, cujas muitas subsidiárias faziam projetos de comunicação, segurança e sistemas utilitários para milhares de empresas, imaginasse como conseguir o que ele queria.

Garra não precisara de muita coisa, pois o extremamente maçante sr. Farley lhe fornecera detalhes intermináveis sobre sua rotina de lavagem de janelas. E Garra levantara todos os dados de identificação pessoal de Farley antes de se desfazer de seu corpo. O que fez somente após despir Farley, como também despojá-lo das necessárias partes corporais para o escaneamento de impressões digitais e de retina ao qual teria de se submeter para conseguir acesso à ONU.

Agora, com a maquilagem que o transformara no falecido sr. Farley, e tendo colocado enchimentos no corpo para preencher o uniforme, que dizia MANUTENÇÃO DO PRÉDIO EXECUTIVO, Garra consultou a folha em sua mão. Era um papel quadriculado no qual ele desenhara meticulosamente para si mesmo cada janela do prédio do secretariado. Se conseguisse continuar a se erguer e se baixar com a mesma velocidade na plataforma motorizada para lavagem de janelas, tudo estaria em seus lugares bem antes da zero hora.

 

O EGO DE MURPHY como macho orgulhoso e vaidoso arqueólogo profissional estava levando uma boa surra.

— Preciso admitir, Shari, que estou perplexo. Por nada neste mundo consigo saber o que está escrito aqui na cauda.

Shari desejou que houvesse algo mais que pudesse fazer para ajudar. Eles já haviam realizado os vários testes de datação para os quais seu laboratório estava equipado, e ela tirara cuidadosamente fotos digitais de todos os ângulos. No momento, olhavam as ampliações.

— Não creio que possa ampliá-las mais do que isso, professor Murphy, ou não conseguiremos enxergar nada além de manchas.

Murphy passou a mão pelo cabelo num distraído gesto de frustração.

— Não, seja qual for a ferramenta que Dakkuri usou para gravar essa mensagem na cauda, ele a fez para permanecer intacta por todos esses anos, e enxergá-la não é o meu problema. O que eu não sei é onde estão a cabeça e a cauda, ou seja, onde a mensagem começa e onde termina. Ele não teve muito espaço, e precisou usar algum tipo de taquigrafia antiga. E desconfio que Dakkuri deve ter tentado ser mais do que enigmático, pois estava fornecendo indicações para a descoberta do pedaço seguinte do que ele acreditava ser seu ícone mais poderoso.

Shari inspirou fundo antes de dizer o que já estava em sua mente havia vários minutos.

— Hum... professor Murphy... já pensou em...

— Nem mesmo termine a frase. Sei quando estou derrotado. Preciso de outra conversa telefônica com Ísis McDonald.

— Uau, professor Murphy, isso é uma grande cascat... hã... história. — Ísis McDonald olhou novamente suas anotações rabiscadas rapidamente e mudou o fone para a outra orelha só para dar uma chance ao seu pescoço de se livrar da cãibra. — Mas, por mais tentador que seja, não posso fazer o que me pede.

— Por quê? Olhe, ainda não nos encontramos pessoalmente, mas precisa saber que não sou nenhum maluco e costumo entender do meu ofício. Você me ajudou com o papiro e ele provou ser verdadeiro. Agora trata-se da etapa seguinte. Estou mais perto do que alguém já esteve em milhares de anos, provavelmente, para encontrar a Serpente de Bronze inteira.

— Sim, sim, professor Murphy. É tudo muito bom, está muito bem, mas sou filóloga da Fundação Pergaminhos da Liberdade, não uma sonhadora arqueóloga em busca de glória, e tenho uma escrivaninha repleta com minhas próprias pesquisas. Aliás — esticou o pescoço para olhar em volta —, é mais uma sala cheia de coisas que eu deveria ter feito meses atrás.

— Por favor, Ísis, acredite em mim, eu não queria pedir sua ajuda, mas não posso mais esperar... e também detesto admitir que não sou inteligente o suficiente para decifrar isso, e você é.

Ísis suspirou, mas, para sua surpresa, seus lábios formaram um sorriso.

— Ah, professor Murphy, posso ver como consegue todos esses seus feitos. É perito na antiga arte da lisonja.

— Sou um profissional formado. Vai me ajudar, por favor?

— Olhe, Murphy. Eis o que estou disposta a fazer. Preciso estar aqui nos próximos dias para reuniões de auditagem da fundação, e você também é um homem ocupado. Entretanto, a coisa boa da fundação é que os recursos em geral não são insuficientes. E é por isso que preciso estar presente às nossas reuniões de auditagem, já que você não é o único habilidoso praticante de lisonja necessária. Mas enviarei a minha bastante capaz e confiável secretária, Fiona, no jato de nossa fundação, para apanhar sua cauda da Serpente e trazê-la para mim.

— Uau! Isso é um exagero, mas não posso deixar que escape de minhas mãos. Como posso ter certeza de que o artefato estará seguro?

— Murphy, você está aí no que imagino ser uma esquisita escola-de-uma-perfeita-pequenina-cidadezinha e eu estou aqui sentada no maior centro do mundo de pesquisa histórica financiado por verba particular e dotado de sistemas de segurança de última geração. Está brincando?

Mais uma vez, Murphy percebeu que levaram a melhor sobre ele.

— Entendi o recado, Ísis. Antes de eu enfiar o meu rabo entre as pernas e lamber o meu orgulho ferido de cidadezinha, gostaria apenas de lhe agradecer, e dizer que a cauda da Serpente é sua por quanto tempo for preciso. Quando Fiona estará aqui?

 

Murphy surpreendeu Laura em sua sala. Ele carregava uma caixinha.

— Murphy, o que faz aqui? Isso significa que aquele diretor velho malvado mandou você para cá de castigo novamente?

— Querida, eu estava no meu laboratório enxugando as lágrimas porque precisei ligar para Ísis McDonald mandar apanhar a cauda da Serpente, pois claramente não sou inteligente o bastante para decifrá-la. Então me dei conta de que ainda sou bom em alguma coisa, portanto desencavei isto e dei um trato. Pretendia lhe dar desde que voltamos de Samaria.

Entregou a caixa para Laura. Ao arrancar a tampa, ela pareceu tão ansiosa quanto uma criança de cinco anos na manhã do Natal.

— Oh, Murph, é a cruz formada por aquelas raízes na caverna. Estava pensando aonde isto tinha ido parar.

Ergueu a madeira agora polida para admirá-la. Tinha aproximadamente quatro centímetros de comprimento e um e meio de largura. Murphy fizera um furinho na parte de cima e dera um acabamento com algumas gotas de óleo, que revelaram a textura e realçaram a cor da madeira. O ponto de cruzamento era um nó redondo do qual cresceram os quatro apêndices de raiz que formaram a cruz. Esta brilhava como uma jóia de madeira de lei.

— Coloquei uma tira de couro do meu melhor mocassim. Nenhuma despesa foi poupada para que tivesse uma jóia digna de sua posição, milady. — Fez uma mesura diante dela.

Laura curvou-se e abraçou-o fortemente.

— Levante-se, nobre rapaz. Sua rainha tem coisas melhores guardadas para você. Venha, leve-me para casa, deixe-me mostrar-lhe por que é bom ser o rei.

 

PAUL WALLACH OBSERVAVA enquanto Shari mergulhava uma concha no molho. Ela deu uma rápida lambida de gato, e fez um gesto de cabeça como se dissesse, Por mim, nada mau, e voltou a mexer a massa. Na cozinha apinhada, o vapor fazia com que ela parecesse corada, como se tivesse estado correndo e não tivesse tido tempo de se trocar. Para ele, o brilho da perspiração de algum modo fazia com que ela parecesse ainda mais bonita.

Ela virou-se e captou seu olhar abstraído.

— Ei. — Ela franziu a testa. — Você devia estar vigiando. Quanto tempo eu falei que a massa teria que cozinhar?

— Cinco minutos? — arriscou. — Não... 15.

O franzido dela continuou no mesmo lugar e sua mão apertou a concha.

— Ah, já sei — disse ele. — É uma pergunta enganosa. Até estar, deixa eu ver como é mesmo a palavra... al dente.

Ela afastou da testa um fio úmido de cabelo negro e virou-se de volta para as panelas fumegantes.

— Hum. Não creio que ouviu uma só palavra que eu disse, Paul Wallach. Foi você quem disse que vivia de atum em lata e pizza para viagem e que seria legal de vez em quando aprender a fazer uma refeição que tivesse algum sabor. Sei que isto aqui não é exatamente pato com laranja, mas podia demonstrar um pouco mais de apreço.

Ele colocou rapidamente sobre o balcão o seu copo de Coca e adotou uma expressão sincera.

— Eu sinto apreço por isso, Shari, sinto mesmo. E está com um cheiro incrível. É que tenho dificuldade de me concentrar em coisas que não me interessam de verdade...

— Aposto como ficará interessado o suficiente para comer isso — interrompeu ela.

— Sim, é claro, você tem razão. O que quero dizer é que não creio que algum dia eu vá ser bom nisso. Por mais que eu tente, não creio que jamais venha a ser um ótimo cozinheiro.

— Do mesmo modo como nunca será o próximo Bill Gates, certo? — observou ela, dando uma rápida olhadela por cima do ombro para se certificar de que ele não ficara chateado.

Paul suspirou.

— Exatamente. Sinto como se tivesse perdido a vida inteira tentando ser bom em coisas que não sou. Fingindo estar interessado em coisas para as quais eu estaria... me lixando. Isto é, queria que meu pai se orgulhasse de mim, coisa e tal. Não queria que ele pensasse que eu era tipo um fracassado ou coisa assim. E foi ele quem acabou sendo o fracassado.

Shari prometera a si mesma que o deixaria falar sem interrupções, mas deu as costas para o fogão a fim de encará-lo.

— Paul, não deve pensar isso de seu pai. Ele pode ter fracassado nos negócios, mas durante muito tempo proporcionou uma boa vida para você.

— É, uma boa vida e tanto. Não sei onde ele fracassou mais, nos negócios ou estar presente para mim.

— Paul Wallach, deixe-me dizer-lhe algo que descobri quando meus pais morreram num acidente de carro anos atrás. Você pode culpá-los por qualquer coisa que você acha que está errado em sua vida, pode se sentir culpado por coisas que ficaram sem resolver enquanto eles estavam vivos, mas, em alguma ocasião, boa ou ruim, você terá que viver sua própria vida, tenham eles lhe dado ou não um bom alicerce, e pare de usá-los como desculpa.

Paul caiu em sua poltrona.

— É, eu vivo me dizendo coisas assim. É por isso que me forcei a voltar à faculdade e estudar aqui na Preston, pois não queria apenas ficar sentado lamentando minha pouca sorte. Pelo menos meu pai me deu o exemplo do trabalho árduo. Mas é difícil trabalhar arduamente com coisas nas quais não está o seu coração.

Shari entregou-lhe dois pratos fumegantes de espaguete e molho vermelho de mariscos, e por um momento ele se distraiu com o magnífico cheiro cálido.

— Uau! — exclamou ele. — Falo sério. Uau! Você precisa me dar a receita — acrescentou sorrindo.

— Ha-ha! — fez ela, tocando-o para a pequena sala de estar, onde pusera a mesa. — Sente-se e coma. E então poderá me contar onde exatamente está o seu coração.

— Obrigado — disse Paul, entregando a Shari uma caneca de café. — E não apenas pela deliciosa refeição. Obrigado por ouvir os meus problemas desse modo. Sinto-me péssimo tomando seu tempo com esse tipo de coisa, quando você poderia estar, sei lá, fazendo coisas mais legais.

Ela sorriu.

— Gosto de ajudar pessoas, Paul. E sei, por experiência própria, que pode ser uma grande ajuda alguém apenas ficar ouvindo.

Paul tivera a esperança de que ela fosse dizer algo mais, algo um pouco mais pessoal. Algo que indicasse que estava interessada nele. Queria ser mais do que a sua boa ação daquele dia. Mas talvez estivesse esperando demais. Ou talvez apenas ainda fosse cedo demais.

— Bem — prosseguiu ela —, a primeira coisa que tem de fazer é ser honesto consigo mesmo. Não precisa mais viver sua vida em função do que o seu pai sente. Se você se convenceu de que está fora das altas rodas financeiras, então encontre algo que lhe interessa.

— Acho que já encontrei um assunto que quero estudar.

— Ótimo. — Ela ficou radiante. — E o que é?

Ele hesitou. Será que ela pensaria que ele estava fingindo interesse só para impressioná-la, para abrir caminho para seu afeto? Não queria estragar tudo.

— É o mais distante do ramo dos negócios que consigo chegar. Arqueologia bíblica — afirmou, observando a expressão dela.

Shari olhou-o fixamente por um momento. Sem sorrir, mas também sem franzir muito a testa. Como se a sinceridade dele estivesse sendo pesada em uma balança e o prato não tivesse descido para um lado nem para o outro. Finalmente, ela disse:

— Acho que você sabe o que eu sinto a respeito disso. Não consigo imaginar nada tão fascinante, que mais valha a pena. E, se você quer entrar nisso, bem, acho ótimo. Mas tem certeza de que entende realmente o que significa isso? Isto é, não se trata apenas de escavar artefatos e descobrir de onde eles vieram. Isso é o que fazem arqueólogos comuns. Trata-se de provar a verdade da Bíblia.

Paul começou a articular uma resposta, mas se deteve. Ele tinha uma resposta, pelo menos achava que possuía, mas não estava seguro de que era capaz de reproduzi-la com palavras. Não, não podia alegar que era um perfeito e pleno membro da fé cristã. Nem mesmo tinha convicção no que acreditava realmente. Mas, ao ver as fotos de Murphy do ossuário na sala de palestras, quando o ouviu ler a inscrição, sentiu bem no fundo algo que nunca sentira antes. Tudo de que tinha certeza era que queria mais daquilo.

Uma estridente campainha rompeu o embaraçoso silêncio. Salvo pelo gongo, pensou ele.

— Não sei quem pode ser — disse Shari com um vestígio de aborrecimento ao se levantar da mesa e ir até a porta da frente. Abriu o trinco, seguiu-se um momento de silêncio, e sua mão voou para a boca. De pé na porta encontrava-se um jovem com sujos cabelos louros desgrenhados, uma barba de dois dias e um sorriso desagradável. Abriu caminho empurrando Shari com o ombro e plantou-se no centro do aposento.

— Não vejo balões. Não vejo serpentina. — Escaneou a sala, olhando através de Paul como se ele não estivesse presente. — Positivamente, não vejo birita. Devo confessar que não são nada boas suas festas de boas-vindas, mana.

Família é coisa complicada, pensou Paul enquanto caminhava de volta ao seu apartamento. Lá estava ele desabafando com Shari a perturbação que sentia em relação aos assuntos deseu pai e de seu futuro, e ela parecendo tipo uma pessoa serena, Perfeita, sábia, que sacava tudo. De repente — buum — aquele sujeito horrível entra sem pedir licença e fica-se sabendo que é o irmão dela, preso por furto, que acabara de ser libertado e fora lhe fazer uma surpresa.

E que surpresa. Chuck Nelson não se demorou. Apenas trocou de roupas e deu logo o fora. Shari parecia realmente transtornada, e por isso Paul acabou ficando mais uma hora inteira, conversando, só que dessa vez sobre ela. Paul ficou ainda mais impressionado ao ouvi-la.

— Meus pais morreram instantaneamente no desastre, quando Chuk e eu éramos adolescentes. Eles nunca haviam nos levado à igreja, portanto não conhecia Cristo em pessoa. Entretanto, passei a freqüentar uma igreja crente com as amigas de minha mãe, e foi lá que aconteceu algo maravilhoso. Recebi Cristo pessoalmente como meu Senhor e Salvador, e Ele mudou minha vida. A salvação me deu algo para me apoiar quando estava mais necessitada. Mas Chuck deixou-se perder rapidamente.

Paul sacudiu a cabeça.

— Deve ter mesmo, para acabar na prisão.

— Chuck juntou-se aos piores elementos da redondeza, cometeu crimes desde furto a tráfico de drogas, e acabou sendo preso. Nunca escutou nada do que eu tinha a dizer e recusou-se a me colocar na sua lista de pessoas que podiam visitá-lo na prisão, portanto deixei de vê-lo. Mas nunca deixei de rezar por ele.

— O que você vai fazer agora?

— Não sei. Você sabe tanto quanto eu. Você viu o modo como ele entrou e saiu. Acho que pensa que vai morar aqui comigo, e eu jamais o expulsaria, mas não aceitarei que ele volte à sua antiga vida desregrada. Vou precisar de alguma ajuda nisso. Creio que Laura Murphy e o pastor Bob da Igreja são pessoas boas para se falar. E você, Paul, é um ouvinte muito bom.

Paul enrubesceu.

— Ora, você me ouviu e eu ouvi você. Amigo é para essas coisas. E, ei, acho que isso significa que somos amigos.

Shari deu uma palmadinha amigável em sua mão.

— Bem, amigo, é melhor ir para casa. Mas quero lhe fazer um convite: por que não se junta a nós para ir à igreja quarta-feira à noite? Os Murphy estarão lá, e eu gostaria de lhe apresentar Laura. Ela também pode ajudá-lo. E entrará logo no espírito chegando cedo para dar uma ajuda no porão, separando as roupas que a Igreja está arrecadando. Digamos, seis e meia de quarta?

Acho que vou gostar aqui da Prestou, pensou Paul, enquanto assobiava o tempo todo a caminho do seu apartamento.

 

AS QUASE 200 BANDEIRAS dos países-membros da Organização das Nações Unidas tremulavam na leve brisa da noitinha que vinha do East River. Às 18 horas, à medida que o crepúsculo seguia rapidamente para a escuridão total através de Manhattan, as reluzentes luzes noturnas do prédio da ONU foram ligadas.

Seguiu-se uma imediata explosão de lampejos, milhares de luzes transformando os 39 andares do prédio do Secretariado em uma das jóias da silhueta noturna da cidade de Nova York.

Como ainda não estava completamente escuro, as luzes não criaram a totalidade de seu efeito ofuscante. Entretanto, a explosão de atenção foi imediata.

Buzinas tocaram, enquanto os carros, que passavam, cantavam pneus ao frear na First Avenue. Pedestres engoliram em seco, gritaram e apontaram acima para a fachada de vidro da ONU. E, às 18h02, o primeiro dos inúmeros telefonemas soou na sala do chefe da Segurança das Nações Unidas naquela que ia ser uma noite muito longa.

Pois, pintado na metade das janelas do quinto andar ao 12º do prédio do Secretariado das Nações Unidas, em uma viva cor vermelha que exibia um brilho sobrenatural sob as luzes noturnas, o mundo todo agora lia: J 3 16

 

Meia hora depois, havia ainda mais luzes varrendo o prédio do Secretariado.

O recinto foi evacuado, assim como prédios e ruas do entorno, exceto para dezenas de carros oficiais. As unidades móveis que pareciam ser de todas as estações de televisão e rádio do mundo estavam agora amontoadas o mais próximo que conseguiam da ONU.

Tratava-se de uma reação a uma situação de desastre total sem qualquer desastre aparente. Equipes de buscas preliminares e avaliação não encontraram vítimas nem qualquer dano ao prédio da ONU. Exceto pelo que parecia ter sido sangue meticulosamente utilizado, que cascateava o equivalente a oito andares de janelas da frente do prédio do Secretariado. Se o que estava escrito nas janelas era uma espécie de alerta contra uma explosão ou ataque iminentes, nenhuma outra pista foi encontrada, apesar das muitas horas empregadas para uma inspeção completa.

Porque a ONU, tecnicamente, ocupava cerca de 73 mil metros quadrados de propriedade internacional, o chefe de Segurança da Organização das Nações Unidas, Lars Nugent, estava encarregado das operações naquela noite, mas a polícia municipal de Nova York, o FBI e outros grupos de emergência federal enxameavam por toda a volta, prestando serviço e dando orientações.

Por volta de 9:20, Nugent havia reunido Burton Welsh, o funcionário mais graduado do FBI no local, com o comissário de polícia de Nova York e o subsecretário de Estado dos Estados Unidos, que voara de Washington para tentar coordenar os muitos serviços do governo que seriam convocados no caso de haver um ataque às Nações Unidas. Apesar de sua condição de organismo internacional seria tanto um perigo quanto um constrangimento para os Estados Unidos se a ONU estivesse sob ameaça iminente de um ataque de qualquer natureza.

Nugent, um homem que aparentava mais distinção do que muitos diplomatas que protegia, disse:

— Vou resumir o que sabemos. A mensagem foi pintada do lado externo das janelas do quinto andar ao 12º. Precisamos realizar alguns exames de verdade, mas já determinamos que se trata de tinta, não sangue, como andaram especulando os repórteres de tevê. A tinta que foi usada é uma espécie de substância química incolor que só mostra sua cor quando luzes muito fortes a atingem, uma espécie de substância química de superincandescência na luz.

O comissário de polícia interpôs:

— Como isso chegou lá?

— Deduzimos que foi feito da plataforma de lavagem de janelas. Estava funcionando hoje nesses andares, mas até agora tudo parece normal em relação ao lavador e as checagens de segurança. A polícia está tentando localizar o lavador de vidraças, um tal de Joseph Farley, que vive em Astoria. Não tivemos sorte ainda, mas ele está no serviço há dez anos e nada há de incomum em sua ficha, nem aqui no trabalho nem com a polícia.

O subsecretário ergueu o olhar de suas anotações.

— É quase cem por cento certo que quem pintou isso lá em cima quis fazer uma declaração para o mundo todo ver. A ONU é, obviamente, a organização mundial. Até agora, porém, não fomos contatados por nenhum grupo terrorista reivindicando o crédito.

Burton Welsh sacudiu a cabeça. Antes de falar, abriu o zíper de sua jaqueta do FBI.

— Não estamos necessariamente procurando estrangeiros.

— Refere-se a terroristas domésticos? Como em Oklahoma? Qual é a reclamação que eles têm da ONU que valeria a pena tentar quebrar um dos sistemas de segurança mais perfeitos do mundo?

Nugent abanou a mão desgostoso.

— Essa segurança não parece ter funcionado hoje. Qual a mais recente análise dos sinais?

Welsh apanhou o livro diante dele.

— Muito tosca, bem básica. — Abriu o livro. — Supomos que se refere à Bíblia, ao Novo Testamento: o “J”, ao Livro de João; o “três”, ao capítulo 3; e o “dezesseis”, ao versículo 16, que citarei: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.”

Nugent assentiu.

— Sim, talvez seja a citação mais famosa da Bíblia, mas por que aqui, por que agora?

Welsh apanhou o celular.

— Temos algumas idéias, mas se este é o telefonema que estou esperando, conseguiremos o beneficio de uma ajuda externa.

 

MURPHY CONTINUAVA TENTANDO. Os símbolos começavam a serpear diante de seus olhos, de tanto que já vinha fitando os cuneiformes. Pareciam se movimentar de acordo com uma batida rítmica, até Murphy se dar conta de que o telefone de seu escritório estava tocando.

Ao levantar o fone, sacudiu a cabeça, para tentar desanuviá-la. Era Laura, ligando de casa.

— Murph, graças a Deus ainda está no laboratório.

— Que coisa mais gentil para se dizer ao marido no meio da noite.

— Murph. Um agente do FBI acabou de sair daqui, à sua procura.

— FBI? Por que eu, e por que a esta hora?

— Está indo ao laboratório para pegá-lo. O FBI quer interrogar você.

 

O agente do FBI Hank Baines estava sentado no escritório de Murphy 20 minutos depois, mantendo num ouvido a extensão do telefone deste, enquanto Murphy andava de um lado para o outro. Laura lhe dissera para ligar a tevê da sala de estar do departamento ele assistira ao noticiário da BNN transmitido ao vivo da ONU. Murphy ficou completamente aturdido, como todos os Estados Unidos, com o que viu.

O agente Baines recebera ordens de Washington para correr do escritório de campanha de Charlotte até a Preston e acordar o professor Michael Murphy para interrogatório. O interrogatório, entretanto, não seria feito por Baines; foi-lhe ordenado que simplesmente colocasse Murphy em condições de manter um diálogo telefônico com Burton Welsh, chefe do escritório de Nova York.

— Sr. Baines, isso não faz sentido. O que isso tem a ver comigo?

— Não creio que seja a seu respeito, senhor.

— Claro que tem, já que se apressou a vir até aqui para me interrogar.

— Como já disse, professor, não vou interrogá-lo.

— Isso faz menos sentido ainda. Se tudo isso é para eu manter uma conversa telefônica, o que você está fazendo aqui? Vai atirar em mim, se eu responder errado a uma pergunta?

Baines falou ao fone:

— Agente Baines em posição, Nova York. Colocarei o professor Murphy diretamente no telefone. — A um gesto de cabeça de Baines, Murphy atendeu o telefone de sua escrivaninha.

— Professor Murphy, sou Burton Welsh, o funcionário do FBI mais graduado no local, aqui na ONU. O senhor está no viva voz com o chefe de segurança da ONU, Lars Nugent. Obrigado por dispor de tempo para conversar conosco.

Murphy franziu a testa, e então falou no fone:

— Cavalheiros, não sei o que acham que posso fazer pelos senhores.

— Sr. Murphy, lamentamos incomodá-lo, mas temos um problema aqui na ONU.

— Acabei de ver a cobertura da tevê. O que tenho a ver com isso?

— Senhor, estamos a par de sua especialização em tudo o que se refere à Bíblia.

— Bobagem, agente Welsh. Nunca lidei com vocês antes, mas sempre achei que o FBI fosse sempre certeiro em todos os aspectos. Há dezenas de especialistas a quem poderiam ter recorrido, que conhecem muito mais sobre a Bíblia do que eu, inclusive muitos aqui em Nova York, portanto não era necessário tirar dos seus afazeres o agente Baines aqui presente para bancar a minha babá.

— Senhor, posso lhe perguntar o que deduz dessa mensagem, J 3 16?

— Welsh, sou especialista em história bíblica antiga e não em pichação moderna.

— Mesmo assim, sr. Murphy, dê um palpite, por favor.

Murphy inspirou fundo antes de responder.

— João 3, 16, como sabe, é o versículo que muitos cristãos acreditam ser o mais importante de toda a Bíblia.

— Porque...

— Porque nos diz que pela fé no filho de Deus, Jesus Cristo, receberemos a dádiva da vida eterna.

— Então acha que isso é coisa de um fanático religioso? — interpôs Nugent.

— Devagar, senhor! Fanático religioso? Só porque se refere a uma citação da Bíblia? Olhe, fanático pareceria ser uma conclusão mais acertada, pois alguém, obviamente, teve uma trabalheira para pintar isso lá em cima da ONU. Mas há milhões de pessoas, eu inclusive, que pensam nessa citação todos os dias de sua vida, e se sentiriam ofendidas se fossem descritas como fanáticos religiosos.

— Olhe, Murphy. — O moderado tom oficial do agente Welsh desaparecera. — Não tenho tempo para discutir semântica com você. Precisa admitir que existe uma porção de cristãos evangélicos extremistas neste país.

— Ah, já entendi. Recorreu a mim porque devo ser o único especialista na Bíblia que pipocou nos seus computadores como um conhecido cristão evangélico. Fanático religioso é sua definição para cristão evangélico, não é mesmo? Esse é o tipo de lugar-comum horrível que eu achava não ter espaço na mente do FBI.

— Ora, sem essa, Murphy, temos fichas e fichas de grupos de cristãos extremistas que andam furibundos com a ONU. Não concorda que isso parece com uma declaração de guerra de um deles?

Murphy olhou para Baines, que escutava na extensão, mas o agente estava esfregando os olhos, talvez para evitar encará-lo. A voz de Murphy ficou muito mais baixa ao esperar alguns segundos a mais para tentar recuperar a calma.

— E eu não me considero extremista, lunático, reacionário, maluco ou qualquer outra palavra cifrada com a qual queira me tachar por causa de minha fé. Portanto, não vejo de que modo posso ajudá-lo.

— Não pode ou não quer? — disparou Welsh de volta.

Antes que Murphy pudesse responder, a porta de seu escritório abriu-se e Laura entrou apressada.

— Murph, o que está havendo? O que quer o FBI com essas maluqueira lá da ONU?

— Não faço a mínima idéia, querida. Mas está começando a cheirar como se fosse uma sujeira maior da que cobre as tais janelas. — E, no fone, disse: — Welsh, minha esposa está aqui comigo. Ela compartilha minha fé. É melhor chamar de volta o agente Baines... os fanáticos religiosos agora estão em vantagem numérica. Vou colocar você no viva voz.

Laura, a princípio, pareceu chocada, e depois intrigada com o rompante do marido.

— Professor Murphy, sra. Murphy, olá, sou o agente Burton Welsh em Nova York. Olhem, acho que andamos forçando a barra um do outro...

— Eu estou forçando a barra para desligar, Welsh. Não vejo nenhum modo de poder ajudar nisso, e tenho um texto com alguns milhares de anos com o qual posso fazer alguma coisa útil. Portanto, a não ser que queira que o agente Baines aqui presente prenda a mim e minha mulher, e depois prenda a Igreja toda, eu vou embora.

Em Nova York, Welsh agitou-se em sua cadeira.

— Pode ir, sr. Murphy. Mas não vá muito longe.

— O que isso quer dizer?

O agente Baines esticou a mão e interrompeu a ligação antes que Murphy pudesse obter uma resposta.

— Lamento, professor Murphy. Parece que as coisas saíram um pouco de controle esta noite. — Fez uma pausa, e Laura sentiu um constrangimento oculto em sua hesitação.

— Agente Baines, há mais alguma coisa que deveríamos saber?

— Não. — Desviou a vista de ambos.

— Baines, pode nos dizer. Não somos monstros, não importa o que Nova York pense.

— Não, senhora, eu sei disso. O agente Welsh é uma ótima pessoa e um excelente agente. Eu o vi em ação em Quântico. Mas... eu sou daqui, e sei o que algumas pessoas de cidade grande pensam da religião. Só queria que soubessem que, no FBI, não somos todos assim.

Murphy apertou sua mão.

— Obrigado, agente Baines. Às vezes é preciso um homem especial para defender tanto seu Deus quanto seu trabalho. Você parece ter percebido essa coisa, e admiro isso. Talvez eu tivesse tido necessidade de seu equilíbrio esta noite.

Laura colocou o braço em volta do marido e deu-lhe um apertão amoroso.

— Você, escolhendo equilíbrio em vez de explosão? Se o agente Baines conseguir lhe ensinar isso, daremos a ele um cargo vitalício aqui na Preston. Agente Baines, foi um prazer conhecê-lo, apesar das estranhas circunstâncias.

— Ei, sou apenas um mensageiro nisso tudo, mas estou contente de ter me livrado dessa, seja lá o que estiver acontecendo lá em cima.

Laura colocou ambos os braços em volta de Murphy.

— O homem do FBI não deve achar que você teve algo a ver com essa coisa da ONU, não é, Murph?

— Não, creio que está apenas desesperado para entender por que alguém deixaria uma importante citação da Bíblia na ONU, e, como muita gente, age como se todos nós, os crentes, participássemos de uma espécie de enorme conspiração contra os pensadores individuais. Entretanto, está certo em uma coisa: alguém teve uma enorme trabalheira para pintar aquilo lá em cima.

Murphy refletiu, como o fizera durante a última meia hora, sobre os possíveis motivos. Toda a mensagem da Bíblia foi condensada nessa pequena frase pelo Espírito Santo, que inspirara João a escrevê-la. Essa mesma passagem ficara em voga poucos anos atrás quando um sujeito iniciou o hábito de segurar um tosco cartaz de papelão com a enorme inscrição em preto, JOÃO 3:16 em numerosos eventos esportivos televisionados por todo o país, sempre dirigindo-o para as câmeras.

Algum tempo depois, essa passagem sobreviveu à tolice de um profissional de luta livre que usava uma variação dela como parte de seu número. Agora, porém, as coisas estavam prestes a ficar muito feias. Baseado apenas na exagerada cobertura daquela noite, Murphy percebeu que a mídia estava inclinada a usar a mesma passagem, a mais bela e comovente de todas as passagens, que levara esperança a inúmeros milhões de pessoas através das eras, como parte de uma campanha suja, um processo de condicionamento contra os cristãos evangélicos. Murphy não perdera a ironia.

— João 3,16 é uma boa mensagem para se exibir lá em cima — observou Laura.

— Sim — concordou Murphy —, mas algo me diz que não foi um professor de catecismo que a colocou lá.

 

SHANE BARRINGTON ASSISTIA à cobertura ao vivo dos acontecimentos na ONU, feita pela sua própria BNN, sozinho em seu apartamento, após ser alertado de ligar o televisor pelo chefe do setor de notícias, que tinha ordens expressas para ligar para sua linha exclusiva sempre que houvesse uma notícia importante em edição extra.

Claro, o chefe do setor de notícias de sua rede de televisão não fazia idéia de que Barrington estivera envolvido como cúmplice. Como poderia?, pensou Barrington. Nem mesmo eu estou certo de que estive envolvido. Essas pessoas para quem ele agora trabalhava, os tais Sete, juntamente com seu arrepiante capanga, Garra, eram um grupo muito estranho. Não ousava fazer-lhes perguntas, e não tinha como contatá-los mesmo se quisesse. Pareciam, porém, saber tudo sobre seus negócios, e ele supunha que também deviam saber sobre sua vida pessoal, se ele tivesse uma.

Na maioria das noites, como aquela, ele analisava relatórios e números sozinho em seu apartamento. Com a segurança financeira garantida pelos Sete, Barrington ficara ainda mais fortalecido em sua ganância, e estava impelindo cada setor a se expandir, efetuar encampações, procurar novos meios de esmagar a concorrência.

O apoio dos Sete também lhe permitia remunerar muito bem os poucos assistentes confiáveis dentro de sua organização para que tivesse a certeza de que não haveria traições e quebras de fidelidade. A exceção eram os espiões que obviamente faziam relatórios para os Sete, mas ele não se importava com esse pessoal, no momento, pois de modo algum tinha intenção de trair os Sete na condução de seus negócios. Os Sete sabiam o que estavam conseguindo quando se aliaram a ele: um magnata impiedoso, firme nos negócios e que não se detinha por coisa alguma para alcançar seu objetivo.

Ele só queria ter idéia de quem eram aquelas pessoas, aqueles Sete. Qual era o seu objetivo? Além de ganhar dinheiro e construir um império de sistemas de comunicações e eletrônica ainda maior e controlador, qual era seu papel no plano deles?

Peguem essa façanha realizada na ONU, por exemplo. Ele recebera instruções específicas de Garra para descobrir um modo de enganar algum dos sistemas de segurança da ONU e conseguira fazer isso com um complicado conjunto de manobras que jamais poderiam ser associadas ou rastreadas mesmo diante da enorme atenção que agora seria dirigida à ONU.

Entretanto, assim que transmitiu pessoalmente a informação a Garra, ele não ouviu mais nenhuma palavra a respeito da ONU até aquela noite. Deduziu que, de algum modo, o Garra e os Sete estavam por trás da façanha, mas com que finalidade?

Barrington ficou maravilhado, como sempre, com a rapidez e a esperteza dos produtores de sua rede, que já haviam bolado uma de suas marcas registradas, um nome alarmista para aquela crise mais recente: ONU VIOLENTADA. Contudo, a mensagem pintada na parte da frente do prédio mais parecia uma peça pregada por estudantes do que uma ameaça à segurança mundial.

Seu telefone tocou. Esperando o chefe do noticiário do outro lado da linha, atendeu:

— Quais são as últimas, Jim?

— Não receberá as últimas notícias esta noite, Barrington, mas fará algumas.

Garra. Apesar de si mesmo, Barrington gelou ao som de sua voz.

— Você vai dar à sua principal repórter, a tal de Kovacs, o grande furo desta noite.

— Eu?

— Apenas escute e anote. Trata-se de uma casa na 164th Street com a 74th Avenue no Queens, uma casa alugada por Joe Farley, um dos lavadores de vidraças da ONU. Não era lá que ele morava, mas um esconderijo secreto que mantinha. Aliás, tão secreto que ele nem mesmo sabia que o alugava, se é que me entende. Diga a Kovacs que um dos seus amigos advogados caixa alta deu a dica para você de que o FBI está para estourar o local. O FBI ainda nem sabe disso, portanto ela terá uma dianteira nessa reportagem.

— E daí? Qual a importância desse tal de Farley se esconder lá?

— “Daí” que esse cara mantém essa outra casa, que está repleta de frases malucas, de Bíblias e de todo tipo de periódicos religiosos malucos... e planos para explodir a ONU.

— Como sabe disso? Não pode ter conseguido isso através da informação que lhe forneci.

— Digamos apenas que forneci a mim mesmo toda essa informação.

— Quer dizer que plantou as provas para culpar esse tal de Farley? Quando o FBI o encontrar, não ficará claro que alguém armou para cima dele?

— Acontece que o FBI jamais encontrará Farley. Nem ninguém. E, vá por mim, nunca ninguém encontrará você, se me fizer mais uma pergunta. Apenas ligue para Kovacs, dê-lhe o furo de reportagem e diga-lhe para seguir para lá com uma câmera e começar a transmitir. Posteriormente, ela poderá arrumar alguma desculpa para ter invadido. Depois, amanhã, diga-lhe para redobrar os esforços em sua missão de investigar esses cristãos evangélicos pirados. Ora, é uma desgraça o que poderiam fazer com um tesouro nacional como a ONU.

Barrington não sabia se devia rir, mas a linha emudeceu. Ao teclar o número de discagem rápida de Kovacs, ele decidiu usar as mesmas palavras com ela.

 

“AQUI É STEPHANIE KOVACS, transmitindo para o mundo uma reportagem exclusiva da BNN. Estou no momento em uma rua enganosamente tranqüila do Queens, Nova York. Aqui, num prédio de dois andares aparentemente comum que vêem atrás de mim, o suposto responsável pelo chocante ataque contra as Nações Unidas tinha sua célula de terror.”

Garra assistia em seu quarto de hotel e soltou uma horrenda risadinha. Essa mulher é boa, pensou. Talvez corra mais água gelada em suas veias do que nas de seu patrão, Barrington.

Ficaria de olho nela, para uso futuro.

 

Na sede da Segurança da ONU, Burton Welsh passou depressa por Nugent e ligou o televisor.

— Veja isso, por favor. Essa repórter da BNN, Kovacs, está transmitindo do esconderijo secreto do lavador de vidraças.

Nugent praguejou.

— Como foi que ela chegou lá?

Welsh deu de ombros.

— O meu pessoal disse que ela só citou “fontes da rua”. E talvez a gente jamais consiga arrancar essa informação dela. Mas olhe o que encontrou lá.

Ele aumentou o volume do televisor. “(...) Embora não haja sinais do suposto inquilino, Joseph Farley, aqui nesta casa, a BNN confirmou que ele era um dos lavadores de vidraças habituais da ONU, que poderia facilmente ter executado o chocante ataque desta noite. Também confirmamos que ele é novo na vizinhança, que esta não é sua residência oficial, e pelo menos uma vizinha me contou que já o vira entrando e saindo da casa em horas estranhas.”

O câmera então fez uma panorâmica, afastando-se de Kovacs, e em meio ao brilho ofuscante das luzes da tevê deu uma zoom em pilhas de livros e papéis sobre a mesa no que parecia ser uma sala de jantar.

“Eis o que a BNN encontrou, ao sermos os primeiros na cena da casa do Fanático Farley. Bíblias aparentemente assinaladas nas passagens-chave sobre Cristo e a ressurreição. Plantas baixas do prédio da ONU também assinaladas para o que receio que poderia ser um ataque terrorista.”

Nugent praguejou novamente.

— Quanto tempo vai levar para a polícia de Nova York chegar lá e tirá-la do ar?

Welsh mantinha o celular numa orelha enquanto colocava a mão em concha na outra.

— Tempo calculado de chegada: um minuto e meio. Vou me conectar com ela assim que a polícia chegar. Isto está se transformando em uma noite no circo.

 

Garra não quis perder tempo e esperar até que Kovacs entrevistasse a velha maluca que morava vizinha à casa que ele alugara em nome de Farley. Ele sabia que Kovacs era uma repórter boa demais para deixar escapar a meio cega mas bisbilhoteira sra. Sorcatini, a tal que Garra garantira tê-lo visto quando ele fez suas duas incursões tarde da noite vestido como Farley para preparar a casa.

Não, ele já tinha visto o suficiente da bastante satisfatória cobertura jornalística sensacionalista da BNN. Aparentemente, também o seu contato no castelo. No segundo toque, ele destravara seu telefone protegido com scrambler. Como esperado, a voz era de John Bartholomew, seu contato principal com os Sete.

— Estou lhe dizendo, Garra, se Cristo tivesse o milagre da televisão por satélite 24 horas, não haveria necessidade de evangélicos. Creio que podemos afirmar que esta noite você deu início à mesma coisa, usando aquela repórter de tevê para começar a destruí-los.

— Não sei não, senhor — rebateu Garra. — Isso é algo ilusório e passageiro. Não vai dar em nada, depois que as autoridades investigarem, e elas jamais conseguirão achar Farley para provar qualquer coisa.

— Ora, Garra, não é hora de falsa modéstia. Você criou um grande evento mundial de mídia. Hoje em dia, isso é que é notícia. Ninguém liga para os detalhes, a retificação, a continuidade... logo as pessoas já estarão ligadas no escândalo seguinte. Mas elas lembrarão que algum cristão pirado, como são chamados nos programas de entrevistas, ia explodir a ONU. Eu diria que esta noite foi muito produtiva.

— Se está contente, eu também estou. Quer que eu aumente a próxima onda?

— Não, Garra, apenas continue seu trabalho preparatório. Meus colegas e eu precisamos decidir que caminho tomar e em que momento. Queremos fazer isso direito para que possamos permanecer no controle. O caos é uma ocupação nobre se orquestrado adequadamente. Caso contrário, é apenas isso, caos, a não ser que você consiga manipulá-lo a seu favor. Manterei contato.

 

Stephanie Kovacs colocou o celular a 30 centímetros do ouvido enquanto Burton Welsh gritava com ela. A rede de tevê voltara ao estúdio para a bancada do âncora e o noticiário da hora.

— Sr. Welsh, sabe que não vou revelar as minhas fontes de rua que me levaram a chegar antes da polícia... e do FBI... à casa de Farley.

Welsh recusava-se a baixar seu nível de decibéis.

— Toda a liberdade de imprensa existente no país não vai salvá-la de uma acusação de arrombamento e invasão, srta. Kovacs. Não tinha o direito de invadir a casa esta noite, e sabe muito bem disso.

Kovacs usou o tom mais inocente de sua voz.

— Ora, agente Welsh, eu estava no meu furgão de noticiário, observando a tal casa, por causa da dica que recebi, quando achamos ter visto fumaça saindo de lá. Só estávamos fazendo nosso dever de cidadãos para salvar do fogo quem estivesse lá dentro.

Welsh bufou.

— Fogo, uma ova. Você vai ver o que é fogo, quando eu fritar o seu traseiro no tribunal!

Kovacs sorriu.

— Sr. Welsh, não acha que um psicopata ameaçando um ato violento já não é o bastante por uma noite? Se tiver mais perguntas, peço que se dirija ao departamento jurídico da BNN. Adeus, FBI.

 

— OH, GARRA, JURO QUE ISSO é o bastante para fazer alguém acreditar num poder superior. — A geralmente sombria voz de John Bartholomew soou quase alegre na linha telefônica de segurança. — A fase seguinte de nosso plano caiu em nossos colos. Faça as malas.

Garra, como de hábito, não demonstrou qualquer emoção.

— Aonde irei?

— Você, meu jovem, vai fortalecer sua nova e inspirada devoção ao cristianismo evangélico.

— Dessa vez, espero fazer algo mais importante do que lidar com latas de tinta.

— Creio que fará, mas terá que praticar um pouco de paciência, Garra. Temos mais alguém fazendo o trabalho pesado para nós no início dessa fase seguinte. Só que ele ainda não sabe.

Garra pareceu alerta.

— Quem? Nosso acordo foi de que eu teria o controle total das ações nos Estados Unidos.

— E terá, seu menino desconfiado. Vai apenas monitorar o nosso ajudante insuspeito enquanto ele avança em seus desafios. Ele tem um conjunto de habilidades que nem mesmo você é capaz de superar.

— Que habilidades são essas?

— De encontrar coisas. Coisas velhas. Você irá a Preston, Carolina do Norte, ficar de olho no professor Michael Murphy.

— Eu caço coisas, eu mato coisas. Por que me quer vigiando um professor?

— Você é um homem de poucas palavras, Garra, mas que frases tão claras, tão pitorescas. Sabe, uma de nossas fontes no Oriente Médio nos avisou que esse tal de Murphy topou com algo que desejamos muitíssimo.

— Então me deixe apenas pegar essa coisa que querem.

— Ah, você vai pegar, mas não é tão simples assim. Já fizemos uma verificação, e o que queremos está em pedaços, pedaços que talvez ninguém mais no mundo conseguiria encontrar.

— Isso é um absurdo. Vocês já provaram que têm poder e dinheiro suficiente para fazer quase tudo que desejam.

— Murphy não pode ser comprado. Ele tem moral, princípios, coisas que você não entenderia. E ele tenta ser um bom cristão, algo que certamente você não entenderia. Entretanto, surpreendentemente, ele também é um sujeito que corre riscos, muito parecido com você, é um homem de ação, às vezes de ação tola. E é por isso que eu gostaria de estar presente quando você finalmente for enfrentá-lo, Garra, pois isso seria algo a que valeria a pena assistir.

— Você não me mete medo.

— Não estou tentando fazer isso. Estou alertando-o de que não é um lavador de vidraças balofo do Queens que você vai enfrentar. Ele é esperto, capaz, e principalmente a única pessoa no mundo que tem essa combinação incomum de conhecimento, coragem e capacidade de reconhecer o valor desses pedaços que queremos que ele encontre.

— Que são esses pedaços que ele está encontrando para vocês? Ele encontra lixo velho bíblico, não é mesmo?

— Que fraseado eloqüente, Garra. Sim, ele encontra artefatos antigos que têm ajudado a confirmar acontecimentos descritos na Bíblia como eventos históricos verdadeiros.

— Por que esse interesse de vocês? Pensava que detestassem religião de qualquer tipo.

— Não, não detestamos todas as religiões. Em breve, teremos uma nova religião, e apenas uma religião. Para ajudar a levar todos esses milhões de cristãos em direção à nossa religião única, queremos atraí-los com alguns de seus próprios símbolos de sua própria Bíblia. Se pudermos mostrar que a nós foram confiados esses símbolos pelo seu Deus, isso nos dará muito mais legitimidade e ajudará a distraí-los enquanto os afastamos de seu antigo Deus para o nosso novo Deus.

— E para que precisam dos artefatos verdadeiros? Por que não fazem os seus próprios?

— Porque há no mundo pessoas como Murphy capazes de reconhecer uma falsificação. Além do mais, esse artefato em particular que ele anda caçando, segundo tem sido propalado através dos séculos, tem seu próprio poder verdadeiro. A Serpente de Bronze da Bíblia.

— Está querendo me dizer que vocês, os Sete, têm todo o poder que o dinheiro pode comprar mas ainda acreditam numa quinquilharia da Bíblia?

— Bem, Garra, quando Murphy encontrar os três pedaços da Serpente e juntá-los, nós iremos ver. Se ela tiver ou não um poder negro, nós a usaremos como uma peça decorativa para congregar crentes para a nossa religião. Portanto, deverá ficar de olho no Professor Murphy enquanto ele encontra os outros dois pedaços, e depois pegará todos para nós. Entendeu?

— Vou precisar fazer algo mais do que bancar a babá na Carolina do Norte.

— Ah, grandes mentes pensam do mesmo jeito, Garra. Você sabe que andamos pensando em quais deverão ser as nossas próximas ações para os nossos outros objetivos, tais como incutir o medo generalizado e desconfiança em todas as organizações e instituições do mundo. Nosso foco tem sido nos centros urbanos, mas decidimos combinar vários de nossos objetivos para a sua próxima ação. Vamos levar o terror a uma cidadezinha. E continuar nossa ofensiva contra os nossos caros irmãos e irmãs evangélicos.

Pela primeira vez na conversa entre os dois, Garra pareceu mais empolgado do que o habitual.

— Deixe-me adivinhar. A cidadezinha é Preston, Carolina do Norte. E a Igreja evangélica é a de Murphy.

— Muito bem, Garra. Você vai ser direto o primeiro da classe. Aliás, você está pronto para a universidade.

 

NABUCODONOSOR NÃO AGÜENTAVA mais esperar. Daniel parecia se esforçar para ouvir uma voz interior.

Finalmente, ele falou outra vez.

— Você viu uma grande imagem, ó rei. Sonhou com uma estátua...

— Uma estatua! Sim! Estou vendo-a! — O rei estava de pé, sorrindo de orelha a orelha como um cego que acabara de ter sua visão milagrosamente devolvida.

Daniel prosseguiu, sem ligar para a emoção do rei.

— A estátua que viu em seus sonhos, seu esplendor era primoroso em forma, impressionante. Uma estátua enorme que se elevava inteiramente 90 cúbitos acima de sua altura.

— A cabeça da estátua era de ouro, magnificamente reluzente, como fogo líquido, o peito e os braços de prata brilhante como a lua quando está cheia. — Ele fez uma pausa enquanto o rei avançava e apertava fortemente seus ombros. Era como se a estátua estivesse diante deles sob um grande véu negro e Daniel afastasse o véu centímetro por centímetro com suas palavras.

— A barriga e as coxas da estátua eram de bronze, as pernas de ferro, os pés de barro e ferro misturados. — Fez uma pausa, e o rei permaneceu parado, sem ousar se mexer ou falar, para a visão não se perder.

Nabucodonosor recostou-se em sua cadeira de cedro e bebeu intensamente de um copo de vinho. A alegria que veio com a recordação de seu sonho foi embriagadora, mas de curta duração. Agora ele estava tomado por uma atormentadora ânsia de descobrir que significado podia haver por trás de tal extraordinária visão.

Ergueu os olhos, e Daniel pareceu perceber sua pergunta antes de fazê-la.

— As quatro partes da estátua representam quatro impérios. Primeiro ouro, depois prata e, em seguida, bronze. Cada império menos poderoso do que o anterior. Até o império final de ferro, que será o mais fraco, pois suas fundações, os pés de ferro e barro misturados, serão igualmente divididas.

— Quatro impérios — refletiu o rei. — E apenas quatro?

— Sim, haverá apenas quatro impérios mundiais até os Últimos dias. É desse modo que as pessoas saberão que apenas o Deus do céu é capaz de revelar corretamente a história antes de ela acontecer. Então, nos Últimos dias, dez reinos do mundo se juntarão numa tentativa de reconstruir um império mundial semelhante ao seu, ó rei. Depois disso, o fim virá.

Era extraordinário. Nabucodonosor vivia num mundo onde mentiras eram moeda corrente. Nem mesmo aqueles mais próximos a ele — talvez principalmente eles — eram confiáveis. Havia muito tempo ele concluíra que apenas em um homem subjugado e acorrentado e vendo o ferro em brasa na mão do torturador se aproximando podia se confiar que dissesse a verdade.

Não tinha dúvidas, porém, nem mesmo a menor delas, de que cada palavra pronunciada por Daniel seria concretizada. Pois, pela primeira vez em sua vida, ele, o governante de incontáveis nações, sentiu que não havia um solo maciço debaixo de seus pés.

Novamente, o escravo hebreu antecipou seu pensamento seguinte.

— E o que será de Babilônia e de Nabucodonosor em tudo isso? — Daniel olhou o rei nos olhos mais uma vez, e sua voz grave, ressonante, pareceu encher o aposento.

— Eis a interpretação do sonho. O senhor foi escolhido por Deus para ser o governante de todas as coisas e todos os homens. O Deus do céu deu-lhe um reino, poder, força e glória. Antes do advento do reino de Deus, o seu será o maior império que o mundo já conheceu. O senhor, meu rei, é a cabeça de ouro da estátua do sonho. Quando se originar o quarto reino, este será tão forte quanto ferro. Esse reino se romperá em pedaços e esmagará todos os demais reinos.

— Ele se romperá em pedaços? — bradou o rei.

— Esse é o resto de seu sonho. O senhor observou enquanto uma pedra era formada sem mãos. A pedra atingiu a imagem com muita força e despedaçou os pés feitos de ferro e barro. A imagem desabou ruidosamente no chão. Seu ferro, barro, bronze, prata e ouro foram todos esmagados juntos e tornaram-se como joio no chão da debulha. Então surgiu o vento e soprou tudo para longe de modo a não deixar nenhum vestígio. E a pedra que atingiu a imagem cresceu até o tamanho de uma montanha e envolveu toda a Terra.

O rei levantou-se e iniciou um caminhar agitado.

— Meu rei, os pés que viu, feitos com uma parte de barro e uma parte de ferro, indicam um reino dividido, igualmente forte e frágil. Como está ciente, ó rei, o ferro não pode se misturar ao barro. E, nos dias desse reino dividido, o Deus do céu instalará seu próprio reino, que nunca será destruído. Este não será governado por homens comuns. Ele destruirá todos os outros reinos e durará para sempre.

Daniel, então, concluiu:

— O Deus do céu fez com que soubesse dessas coisas, ó rei. O sonho e sua interpretação são corretos.

O rei Nabucodonosor então ordenou a seus homens que fizessem uma oferta de presentes e incenso a Daniel. E colocou as mãos sobre os ombros do hebreu.

— Deste dia em diante, será o governante de toda esta província e encarregado-chefe de todos os sábios da Babilônia. Pois você, Daniel, serve a um Deus que é maior do que qualquer outro.

 

CHUCK NELSON VASCULHOU O BOLSO de seu jeans e retirou um punhado de cédulas amarrotadas. Olhou-as amargurado. Dez pratas, mais ou menos. O suficiente para um hambúrguer, talvez um chili. Afastou dos olhos uma mecha de cabelo louro untuoso e olhou as notas de esguelha, como se fitá-las bem fosse mudar alguma coisa.

Nada. As mesmas dez pratas que tinha no bolso quando os tiras o agarraram no Chevy roubado. Como também usava o mesmo jeans manchado de óleo com rasgos em ambos os joelhos, o mesmo pulôver verde desbotado e tênis enlameados. Pelo menos eles tinham lavado suas roupas. Não parecia que tivessem feito o mesmo com seu dinheiro.

Sua barriga começou a roncar e ele tentou lembrar quando tinha comido pela última vez uma refeição digna de um ser humano e não de um porco. Uma grande tigela de chili certamente desceria bem. E precisava imediatamente de um trago.

Precisaria de cada centavo, a não ser, é claro, que tivessem aprovado uma lei de distribuição gratuita de cerveja enquanto ele estivera fora. Eram apenas uns três quilômetros até a cidade. E, quem sabe, talvez alguém encostasse e lhe desse carona. Mas duvidava muito. Sabia que aparentava o que realmente era. Encrenca. E o pessoal tão bonzinho de Preston sempre que podia gostava de evitar encrenca.

Apertou contra o corpo o velho casaco da escola secundária de Preston ao sentir as primeiras pancadinhas de chuva, e começou a caminhar rapidamente pela estrada rural de mão dupla.

Primeiro, conseguir a tal cerveja. Depois, acertar algumas contas.

 

Duas horas depois Chuck estava sentado a uma mesa da Mooney’s Tavern sacudindo as últimas gotas de uma jarra vazia. Agora sentia um leve zumbido, mas seu dinheiro tinha sido todo gasto e o garçom, um cara novo talvez saído diretamente da escola de garçons, recusara-se a lhe fazer um fiado. Chuck bateu com a jarra na mesa e cuspiu no chão. Quanto dinheiro ele já tinha gasto naquela maldita espelunca através dos anos, bebendo sua maldita cerveja aguada? Matemática não era seu forte, mas devia ter sido uma grande quantidade. E agora o garçom o olhava como se ele fosse algo repelente que pretendesse raspar da sola do sapato. Podia sentir a raiva aumentar, aquela sensação formigante nas extremidades dos dedos como se um estopim tivesse acabado de ser aceso.

Um grito agudo seguido de uma risada rouca desviou sua atenção do garçom, e ele girou para ver uma bela loura engasgar-se com cerveja, enquanto outra garota batia em suas costas e os dois sujeitos sentados defronte às duas estapear a mesa, apupando.

Não precisou ver as palavras “Universidade de Preston” em seus pulôveres para saber que eram estudantes. E, provavelmente, também menores de idade. Chuck já se embriagava naquele lugar quando aquele pessoal ainda usava aparelho nos dentes, e agora era para ele que o garçom olhava de cara feia.

Ele foi até lá e colocou as mãos nos ombros dos dois sujeitos.

— Ei, pessoal, não têm uma aula para ir? Acho que sua amiginha aqui adoraria uma aula de como beber cerveja. — Sorriu e deu-lhes um tapinha amigável nas costas.

A loura limpou a cerveja dos lábios com a manga e o olhou fixamente enquanto os outros dois sujeitos se punham de pé num salto e apertavam a mão de Chuck. Eram ambos uns cinco centímetros mais baixos do que ele e pareciam fora de forma. Tempo demais lendo livros e pouco tempo malhando, deduziu. Podia perceber que não queriam parecer mal diante de suas namoradas, mas o ar preocupado em seus olhos lhe dizia que não iam lhe causar qualquer problema.

— Seguinte. Vocês me pagam uma jarra de cerveja e eu lhes faço uma demonstração grátis. Mostro como se faz. Que tal? — Lançou-lhes o melhor sorriso animado e piscou para as garotas. Elas ainda o olhavam fixamente como feras selvagens. Ei, não tenho culpa se seus namorados são uns trouxas, pensou.

Ele estava para forçar a barra quando sentiu seu casaco ser puxado por trás. Desequilibrado, cambaleou de costas e caiu pesadamente sobre uma mesa. Antes que pudesse se pôr de pé, alguém prendeu seus braços para trás e começou a empurrá-lo na direção da porta.

— Ei, tire as mãos de mim. — Conseguiu se livrar da chave de braço e virou o corpo. O garçom estava parado, com um sorriso forçado e os braços cruzados. A seu lado estava um homem que Chuck nunca vira antes, parrudo, barba por fazer, com tatuagens descoloridas nos antebraços. Deve ter vindo da cozinha, pensou ele. O homem deu um passo à frente e ficou cara a cara com Chuck.

— Dê o fora. Já. Antes que a gente decida engrossar. Não queremos mais aqui uma escória como você.

Chuck avaliou que conseguia enfrentar o garçom, sem problemas. Mas a barra do cara da cozinha parecia pesada. Não fazia sentido levar uma surra por uma jarra de cerveja, não importava o quanto estivesse sedento. Saiu se limpando e não olhou para trás.

 

Poucos minutos depois, o homem conhecido por Garra largou uma cerveja intocada numa mesa de canto e deixou o bar. Vasculhou a rua. Nem sinal de Chuck em ambas as direções. Não importava. Não era exatamente difícil prever o que faria a seguir. Farejou o ar e então virou à direita. Em direção ao rio.

Enquanto caminhava através da cidade, ele passou pela pequena drogaria da esquina, depois o brechó com sua coleção de ursinhos de pelúcia na vitrine, e ficou pensando quanto tempo aquele trabalho o manteria em Preston. Tempo suficiente, tinha certeza, para ele dar uma contribuição duradoura à cidade. Parou na loja de mágicas Hey Preston! com sua placa pintada a mão, mostrando um coelho sorridente bisbilhotando sobre a aba de uma cartola, e sorriu. Ah, sim. Antes de acabar, ele lhes mostraria alguns truques novos.

Outros dez minutos e as lindas lojinhas e restaurantes familiares começaram a dar lugar a frentes de lojas tapadas com madeira e terrenos baldios. Até mesmo Preston tinha uma parte ruim de cidade, onde a iluminação de rua não era tão boa e nas cercas brancas faltavam uma ou outra ripa e uma demão de cal. Ele passou a procurar um local provável.

Encontrou-o quase que imediatamente. Um beco entre um restaurante chinês de comida para viagem e uma loja de bebidas. Um ótimo atalho se você não tivesse medo das sombras e de alguém que poderia estar espreitando ali. Alguém, por exemplo, que poderia estar muito necessitado de grana e não se importasse como consegui-la.

Esquadrinhou a escuridão. Havia um forte fedor de legumes podres. Sem dúvida, era ali onde o restaurante despejava seu lixo. Os sons de briga e correria lhe revelaram que não fora o primeiro a deduzir isso. Deu mais alguns passos para o interior do beco e ficou escutando. Bem a tempo. Caminhou mais dez metros por entre caixas jogadas fora, então acocorou-se atrás de um contêiner de lixo e pegou seu celular.

 

Chuck mantinha o homenzinho colado à parede com uma das mãos enquanto tentava vasculhar a carteira dele com a outra. O sujeito estava tão apavorado que talvez nem tivesse fugido, quanto mais reagido. Mas as lições aprendidas na cadeia permanecem com você. Nunca dar as costas. Nunca baixar a guarda. E nunca supor que seu oponente está derrotado a não ser que ele tenha deixado de respirar.

A outra regra é aguçar os ouvidos. Você talvez não veja a encrenca se aproximando, mas talvez consiga ouvi-la. E, naquele momento, Chuck conseguiu ouvir uma sirene. Era difícil avaliar a que distância estava, mas parecia ficar cada vez mais alta. Hora de encerrar os trabalhos e dar no pé.

De repente, uma lanterna varreu o beco, ofuscando-o por um momento. Atrás dela vinha um tira, cassetete a postos.

— Parado aí — gritou ele. — Afaste-se da parede com as mãos para cima e para a frente, onde eu possa vê-las.

Chuck enfiou a carteira no casaco e largou o homenzinho, que caiu contra a parede e desabou no chão. E agora? Ele não tinha arma e o tira avançava firmemente. Em um segundo estaria em cima dele.

Se não bolasse algo depressa, voltaria em breve para a cela 486, e desta vez jogariam as chaves fora.

O tira mirou novamente a lanterna em seu alvo, e agora Chuck não conseguia ver coisa alguma. Então, de repente, ouviu-se uma pancada, um grito agudo de dor, e a luz voltou-se para o meio das sombras. Quando seu olhos se adaptaram novamente às trevas, ele distinguiu uma forma escura — um homem alto parado acima do tira com o que parecia um porrete de um metro na mão. O tira agora não emitia nenhum som.

O homem virou-se na direção de Chuck e este viu seu rosto. Feições macilentas e olhar inexpressivo que lhe causaram arrepios. Acenou com uma enluvada mão para Chuck seguir adiante.

— Os amigos dele estarão aqui em um ou dois minutos. Hora de se mandar, Chuck.

Chuck gelou, incerto sobre o que aquele demônio devorador de cadáveres tinha em mente. Seu cérebro estava travado.

O demônio pareceu sentir seu medo. Jogou o porrete numa pilha de caixas e abriu ambos os braços.

— Você não tem nada a temer de mim, Chuck. Muito pelo contrário. Aliás, pode dizer que sou seu salvador. — Ele gargalhou, mas Chuck não entendeu a piada. Era um som áspero, animal, não uma gargalhada de verdade.

A sirene agora estava alta. Apenas a poucos quarteirões de distância.

— Venha. Tenho um lugar onde pode se limpar. Dinheiro. E até mesmo um trabalho para você. A não ser, é claro, que queira voltar para a cadeia.

O cérebro de Chuck destravou o suficiente para entender que não tinha nenhuma outra opção.

— Tá legal, cara — disse ele. — Você é o patrão. Vá mostrando o caminho.

 

STEPHANIE KOVACS PEGOU-SE OLHANDO através da janela pela terceira vez na última meia hora, ao imaginar como fora parar naquela conversa com um dos homens mais chatos do mundo, ao pesquisar uma matéria que, para sua grande surpresa, foi uma das mais sensacionais de sua carreira. Desde sua exclusiva mundial na casa de Farley, o Fanático, o lavador de vidraças da ONU que ainda não aparecera, a estrela de repórter de Stephanie subia ainda mais depressa do que antes na BNN.

Claro, não fazia nenhum mal o fato de o próprio Shane Barrington acompanhar essa reportagem com maior interesse pessoal do que demonstrara por qualquer outra anteriormente. Desde o momento em que recebeu o telefonema anônimo com a dica para ir correndo ao apartamento alugado de Farley no Queens, na noite do ataque à ONU, Stephanie ficara intrigada com a coincidência entre Barrington reunir-se com ela pela primeira vez, para ordenar especificamente que investigasse o movimento cristão evangélico, e aquela descoberta digna das manchetes. Levando-se em conta que ela mal tinha pegado em uma Bíblia desde os 12 anos, agora conversas sobre religião preenchiam seus dias.

A repórter competitiva que havia nela estava mais do que ciumenta por não poder acompanhar o resultado das investigações sobre a pintura nas janelas da ONU. Aquilo parecia uma notícia sensacional ou, mais apropriadamente, uma sensacional falta de notícia, pois não foi encontrada qualquer evidência a mais que ligasse Farley a um grupo evangélico conhecido nem qualquer outro indício físico sobre a trama de explodir a ONU. Mas as revelações que ela fizera naquela noite continuavam presas à lembrança das pessoas.

Agora ela seguia uma dica do próprio Shane Barrington. Quando ele telefonou para parabenizá-la — a primeiríssima vez — pelo seu furo de reportagem, deixou escapar que gente da alta de Washington lhe dissera que o FBI interrogara ninguém menos do que o professor Michael Murphy sobre o ataque à ONU. Stephanie sugerira que talvez tivessem conversado com Murphy, por ser um especialista na Bíblia, para conseguir algumas indicações sobre a mensagem pintada, do mesmo modo como as redes de televisão entrevistam autoridades nos vários assuntos que estão em voga.

Barrington, porém, sugeriu que ela fosse à Universidade de Preston e bisbilhotasse a respeito de Murphy. Afinal de contas, ele era uma personalidade da tevê, e o pessoal da televisão gosta mais do que tudo de uma sugestão de escândalo sobre outro astro da tevê, mesmo que seja apenas o astro de especiais empoeirados sobre arqueologia que passam em tevê a cabo.

Era por isso que agora ela estava ouvindo o diretor Archer Fallworth falar e falar monotonamente sobre a média de pontuação da universidade e iniciativas de serviços comunitários dos estudantes. Ela não quis revelar seu interesse por Murphy enquanto não conseguisse perceber de que modo ele se ajustava à vida universitária, mas agora chegara a hora de ir direto ao ponto.

— Diretor, e os cristãos evangélicos? São muito ativos no campus?

Os olhos de Fallworth estreitaram-se.

— Evangélicos? Bem, sim, temos alguns membros muito — agitou a mão, à procura da palavra certa — ativos desse grupo religioso em particular na Preston. Apenas um punhado, na verdade, mas fazem muito barulho. — Abriu um sorriso, tentando parecer conspirador. — Qual é exatamente o seu interesse?

— Digamos que há muita preocupação entre os cidadãos comuns porque esses grupos evangélicos estão se tornando muito grandes, muito assustadores. Quero descobrir como está sendo afetada uma excelente universidade liberal de belas-artes como a Preston. Instituições como a sua estão na linha de frente da batalha contra o fanatismo. Nossos telespectadores estariam interessados nisso.

O sorriso de Fallworth tornou-se um arreganhar de dentes igual ao do gato de Cheshire.

— Gosto de pensar que fazemos o máximo possível. Lutar a boa luta contra ignorância e intolerância. — Juntou as mãos e inclinou-se sobre a escrivaninha. — Mas nem sempre é fácil. Eles são muito bem organizados, sabe. E alguns de seus líderes são tremendamente astutos.

Lá vamos nós, pensou Stephanie.

— Algum em particular?

Fallworth apertou os lábios.

— Não quero falar mal de qualquer membro da faculdade, é claro...

— A não ser no interesse público.

— Exatamente. Bem, há um professor aqui que tem por missão fazer agitação, encher as cabeças de jovens impressionáveis com o pior tipo de disparates ritualísticos. Seu nome é Murphy. — Estremeceu, como se Stephanie tivesse arrancado dele uma confissão desagradável. — Professor Michael Murphy.

Na mosca. Era o nome que Barrington tinha lhe dado, quando telefonara duas noites antes. Apenas um pequeno desdobramento, dissera. O foco da investigação. Ela não fazia idéia por que estava tão a fim de pegá-lo, mas não havia dúvida da força de seus sentimentos. De seu modo frio, ele praticamente bafejou fogo no telefone. E Murphy parecia igualmente impopular com Fallworth.

Ele deve ser uma figura, pensou ela.

— E o que esse tal de Murphy ensina?

— Arqueologia Bíblica, com perdão da má palavra. Sua missão é autenticar a Bíblia descobrindo em escavações artefatos que confirmem suas histórias. Na minha opinião, o oposto da ciência.

— E já encontrou algum?

— É o que ele diz.

— E as aulas dele são muito freqüentadas?

— Receio que sim. Os estudantes tendem a achá-lo... carismático. É uma espécie de figura cultuada no campus, e digo isso no pior sentido que existe. Talvez seja porque ele é do tipo ar livre. — Ao contrário de eruditos de verdade como o senhor, pensou Stephanie, notando a compleição pançuda e descorada de Fallworth. — Alpinismo, arco e flecha, tudo com bastante entusiasmo.

Stephanie levantou-se e apanhou sua pasta.

— É muito intrigante. Se eu quiser ir atrás desses evangélicos, parece que esse tal de Murphy é a pessoa certa para começar. Onde é que o encontro?

 

O HOMEM CONHECIDO COMO Garra entrou na casa e deixou a porta de tela se fechar na cara de Chuck Nelson, que vinha atrás.

Chuck estava realmente intrigado ao pelejar para abrir a porta de tela que dava acesso àquele lugar onde Garra disse que morava. O cara tinha muita grana, gastou uma porção de notas miúdas em cada loja, mas morava naquela casa que Chuck achava estar abaixo de um depósito de lixo. Ficava fora de Preston cerca de 30 quilômetros, portanto nem mesmo perto de coisa alguma exceto de estradas vicinais e mata. A varanda estava afundada a ponto de desabar, havia uma goteira no telhado acima dos dois quartos de dormir e a pia do banheiro tinha apenas uma torneira, incrustada com anos de uma lodosa mistura de ferrugem e sujeira.

Os reflexos de Chuck estavam um pouco lentos por causa do cansaço de ter conduzido Garra de um lado para o outro de carro. Houve paradas em três diferentes lojas de departamentos — cada qual num município diferente, distantes quilômetros um do outro. Nada do que compraram fez sentido para Chuck, e não fez sentido especialmente o fato de não poderem comprar tudo aquilo num mesmo lugar, mas Garra, antes de mais nada, deixou claro que perguntas de qualquer tipo não faziam parte de sua rotina.

— Comece a tirar as sacolas e caixas do carro — ordenou Garra.

— Estou morto. Isso não pode esperar até amanhã?

— Vá tirar. Agora. A escola está funcionando.

Chuck franziu a testa.

— Que escola?

— Cale a boca e aprenda, gênio. Vou lhe ensinar a fazer as coisas, mas fazê-las direito, nesta sua cidade caipira.

 

Em uma hora, a mesa de carteado no que outrora devia ter passado por sala de visitas transbordava com sacolas rasgadas e caixas de papelão com a tampa arrancada. Enquanto Garra mostrava a Chuck como queria que misturasse os ingredientes, este ficou surpreso ao vê-lo mais animado e falante do que antes.

— Essa sua irmã, ela tem um caso com esse tal de professor Murphy?

— Já lhe disse, não nos falamos muito desde que fui em cana. Só estou morando lá porque ainda não posso pagar um lugar para mim, é limpo, muito mais limpo do que isto aqui. Mas duvido muito. Ela é uma moça certinha, sempre foi.

— O que sabe sobre Murphy, ou a mulher dele?

— Não me faça rir. Espera que eu saiba alguma coisa sobre um professor e a idiota de sua mulher? Minha irmã o conheceu na igreja, antes de entrar para a faculdade, é o tanto que sei. Por que está curioso a respeito de Murphy?

— Um guerreiro sempre estuda o inimigo.

 

Após Garra mandar que Chuck passasse a noite em casa, deixando-o ficar com o carro alugado e ordenando que voltasse pela manhã para apanhá-lo para um dia inteiro de compras, pegou seu telefone com linha de segurança via satélite e teclou um número em Nova York.

Levou algum tempo para Shane Barrington atender.

— Não é um homem religioso, Barrington, eu sei disso, mas providencie sua braçadeira de luto e seu terno de enterro. Dentro de dois dias vai anunciar a trágica morte do seu único filho, Arthur.

Barrington começara a temer os telefonemas de Garra. O único consolo: eles eram breves e melhores do que suas visitas.

— Você sabe que matou meu filho dias atrás. O que fez com o corpo? Como posso simplesmente anunciar que ele morreu?

Garra apanhou sua lista de lembretes para se certificar de que não esquecera nenhum detalhe.

— É bastante simples. Antes de mais nada, você é rico e poderoso, o que, neste país, significa que pode fazer o que quiser e muito mais. Ora, um patife rico como você consegue até mesmo comprar a compaixão do público americano. E é exatamente o que vai fazer.

 

— NÓS ESTAMOS ATUALMENTE na melhor das épocas ou na pior das épocas? Levantem as mãos. — Murphy estava parado diante da tribuna. — Primeiro, os pessimistas. Quem acha que estamos vivendo na pior das épocas?

Somente as mãos de poucos alunos ergueram-se imediatamente, a maioria, porém, pareceu hesitante em se comprometer.

— Vamos lá, pessoal, a resposta de vocês não vai contar para a nota final. Pelo menos não neste curso. E, então, a pior das épocas?

— Cerca de metade dos alunos levantou a mão.

— Muito bem, agora os mais otimistas. Quantos de vocês acham que estão vivendo na melhor das épocas? — Um pouco menos da metade dos alunos levantou a mão. — Para o resto de vocês que não levantou a mão, vou dar o benefício da dúvida sobre se estão ou não vivendo.

— E qual é a resposta certa? — gritou um aluno sentado na última fila.

— Bem, não estou aqui para dar minha opinião, apesar dos temores do diretor Fallworth, mas posso lhes afirmar que, desde que Eva caiu em desgraça no Jardim do Éden, muita gente em cada geração tem acreditado que as melhores épocas da raça humana estão no passado, que a civilização do modo como a conhecem, ou talvez como nostalgicamente preferem lembrá-la, está decaindo e que talvez esteja próxima uma época ainda mais tenebrosa.

Uma voz ressoou:

— O fim está próximo.

— Sim, muitos de vocês provavelmente já devem ter visto o lugar-comum dos cartuns, um louco percorrendo as ruas carregando uma placa: ARREPENDA-SE! O FIM ESTÁ PRÓXIMO.

“Bem, muita gente acha a idéia tão radical que chega a ser risível.

“Entretanto, na maioria das sociedades através da história as pessoas recorreram a símbolos, deuses, ídolos, superstição, ciência... sim, ciência... para tentar alguma previsão sobre o que reserva o futuro, principalmente sobre qualquer época tenebrosa no horizonte. Na maioria dessas sociedades, aos homens e mulheres que conseguiam de forma convincente fazer interpretações e previsões era reservado um lugar de honra, pelo menos até se provar que eram farsantes ou, às vezes, quando suas previsões impopulares se tornavam realidade.

“Os praticantes formais desse conhecimento vaticinador eram chamados de profetas.

“Vocês, provavelmente, nunca conheceram algum profeta, mas talvez fiquem surpresos em saber que, hoje em dia, muitos de seus familiares, amigos e vizinhos, milhões de pessoas de todas as idades, de todas as condições sociais, em todas as partes do país, todas elas acreditam em profecias. Essas pessoas crêem em especial que o fim está próximo, e crêem que o fim está próximo não porque leram as entranhas de um bode que sacrificaram em seu quintal, nem por terem ligado para o Disque-médium, ou porque seus calos doem quando vai chover, ou por causa de sinais secretos enviados por marcianos verdes, mas por causa deste livro.”

Murphy ergueu a Bíblia.

— Exatamente, a Bíblia não é apenas uma história sobre o que aconteceu na Antiguidade e uma compilação de lições de como devemos viver nossas vidas. A Bíblia também está repleta de muitas profecias que já se realizaram e muitas mais que um imenso número de pessoas acredita que vão se realizar. Pessoas que não são malucas suponho. Pessoas como eu.

“Pois bem, espero que algum dia a universidade me permita dar um curso de profecias bíblicas, pois creio que é uma disciplina intelectual igualmente fascinante e importante, independente da questão da crença do que as profecias nos reservam. Contudo, aqui, na boa e velha Arqueologia Bíblica, darei destaque em vez de apenas mostrar como uma descoberta arqueológica, que espero estar prestes a escavar, pode ajudar a autenticar os fatos históricos que servem de pano de fundo para a profecia que muitos acreditam ser a mais importante da Bíblia, a profecia de Daniel baseada no sonho do rei Nabucodonosor.

“Nabucodonosor foi o maior governante do grande Império da Babilônia e tinha à disposição os melhores profetas e sumos sacerdotes de seu mundo pagão. Nenhum deles foi capaz de interpretar seu sonho com uma estátua, mas um dos escravos hebreus, Daniel, conseguiu dizer-lhe, e não em termos incertos, que o sonho tinha sido uma visão que lhe fora dada pelo único Deus verdadeiro.

“Daniel explicou que a enorme imagem no sonho era uma estátua do próprio Nabucodonosor, construída em quatro níveis. Cada nível representava um dos únicos impérios absolutos do mundo: primeiro, a Cabeça de Ouro, representando a Babilônia; o seguinte, o peito e os braços de prata, representava o Império Medo-persa, que compreendia os dois países que conquistaram a Babilônia; depois vinha a barriga de latão, que representava os gregos; e esta era seguida pelas pernas de ferro dos romanos. Quanto mais você se aproxima do presente, mais fracos esses impérios se tornam, como s e pode ver pelo declínio da qualidade dos materiais usados para reproduzir cada parte da estátua.

“Profecia, que é história escrita antecipadamente, é um dos caminhos de Deus para provar que Ele existe. Por exemplo, o fato de Deus revelar há 2.500 anos a Nabucodonosor que haveria apenas quatro impérios mundiais até ‘o tempo do fim’ é por si só um milagre.

“Pois, como todo estudante de história sabe, só houve quatro impérios mundiais desde os tempos do império babilônico. O mais espantoso é que muitos líderes impiedosos tentaram governar o mundo, como Gengis Khan, Napoleão, Hitler, Stalin, Mao e outros. Mas todos fracassaram. Por quê? Porque Deus do céu disse que haveria apenas quatro impérios até os Últimos dias.

“Nada mau para uma profecia, devemos admitir, considerando-se que foi escrita 500 anos antes de Cristo.

“E o verdadeiro motivo para milhões estudarem a profecia de Daniel é que, com base na exatidão de seu relato sobre o passado, há todos os motivos para se crer no seu relato do que acontecerá no futuro.

“Novamente, o tempo e o nosso curso impedirão que eu entre em maiores detalhes por enquanto, mas sintam-se livres para passar na minha sala, a qualquer momento, e terei o prazer de explicar por que esta geração tem mais motivos para acreditar que, ao se estudar a profecia de Daniel e outros, há mais motivos bíblicos para se acreditar que Cristo retornará para instalar Seu reino em nossa época do que já houve em qualquer geração antes de nós.

“Mas, voltando aonde a arqueologia se insere em tudo isso. Aposto como é seguro supor que há alguns céticos entre vocês que imaginam que Daniel nunca existiu e que suas profecias não têm base em fatos. Pois bem, vocês se lembram de que em minha última palestra eu lhes falei sobre a Serpente de Bronze feita por Moisés, de acordo com instruções de Deus, e lhes mostrei um pedaço da verdadeira Serpente como prova de que é verdade o que a Bíblia narra? E devem se lembrar de que lhes contei a incrível viagem que a Serpente de Bronze fez por muitas décadas e por tantas sociedades antigas acabando, finalmente, tendo por base onde e como a encontrei, bem ali na Babilônia dos tempos das profecias de Daniel para Nabucodonosor.

“Bem, enquanto recorria a uma cientista muito mais inteligente do que eu para tentar interpretar para mim as próximas pistas que me levarão a encontrar o resto da Serpente, espero, voltei a estudar o pergaminho que me fez começar tudo isso, a nova interpretação da vida e da época da Serpente de Bronze. Uma vida muito mais longa e uma época muito mais interessante do que sabíamos até agora sobre essa Serpente.”

Murphy projetou um slide na tela atrás dele.

— Lamento que, mais uma vez para os ociosos da classe, a mensagem subjacente aqui não seja religiosa; ela é: quando em dúvida sobre o que está fazendo, estude, estude, estude e estude mais ainda. Ainda não consegui imaginar qual a ligação existente para quem me forneceu esse pergaminho dizer que ele tinha algo a ver com Daniel e sobre o que conhecíamos sobre a Serpente de Bronze.

“Agora que encontrei a cauda da Serpente de Bronze, graças a um papiro datado da época de Daniel na Babilônia, um papiro aparentemente escrito por Dakkuri, o mais confiável sumo sacerdote de Nabucodonosor, creio que podemos colocar a Serpente na época de Daniel, embora o Antigo Testamento não a mencione após ter sido destruída por Ezequiel, no Segundo Livro de Reis.

“Entretanto, nem mesmo eu alegaria que se trata de uma prova cabal da existência histórica de Daniel ou que isso ajuda inequivocamente a autenticar suas profecias.

“Então, ao olhar atentamente, caiu a ficha. Aliás, foi quando eu fazia um intervalo na sala de descanso, ao passar pelo aviso de NÃO FUMAR pelo qual eu já havia passado milhares de vezes, que caiu a ficha. Vocês conhecem o sinal internacional, uma faixa em diagonal sobre o desenho de alguma coisa, que tira todos os prazeres da vida da gente?

“Pois bem, eu achava que essa marca aqui sobre o símbolo representando o rei — que seria Nabucodonosor —, esta linha apontando para sua cabeça, era apenas uma linha causada pela decomposição ou alguma sujeira no pergaminho. Mas me dei conta de que era o redator do papiro fazendo sua versão do sinal de NÃO FUMAR, exceto que dizia “não rei”. Isso, porém, não faria sentido, um sumo sacerdote fazendo um sinal contra seu rei. Afinal, e se o papiro caísse em suas mãos? Uma olhada para o sinal de “não rei” e podem apostar que, em vez disso, não haveria cabeça de sumo sacerdote. A não ser, deduzi, que o rei Nabucodonosor tivesse dito que não tinha problema ele ficar sem a própria cabeça.

— Está dizendo que o rei Nabucodonosor cometeu suicídio? — perguntou alguém.

— Não o suicídio como o conhecemos, mas ele destruiu a si mesmo. Novamente, no Livro de Daniel, ficamos sabendo que Nabucodonosor deixou que a informação sobre o seu império supremo, a Cabeça de Ouro da estátua de seu sonho, lhe subisse à cabeça.

“Nabucodonosor mandou construir a estátua do sonho e posteriormente enlouqueceu adorando a si mesmo. Após sete anos inteiros, recuperou-se da loucura e se corrigiu perante Deus mandando destruir a estátua, que foi feita em pedaços, bem parecido com o que Ezequiel fez com a Serpente de Bronze, quebrada em três partes.

“Pois bem, Nabucodonosor caiu na farra — literalmente — quando deixou de ser maluco e foi reconduzido ao poder. Hipotecou sua renovada lealdade a Deus ordenando que todos os ídolos e estátuas fossem destruídos — inclusive a Serpente de Bronze que foi novamente quebrada em três pedaços —, inclusive sua própria estátua gigante. O significado da linha descendo na direção da cabeça do rei é que o próprio Nabucodonosor ordenou a destruição da estátua.

“E foi essa a espantosamente emocionante conclusão a que cheguei, senhoras e senhores. Pois eu acho que aqui há uma enorme pista para uma descoberta que provará de forma absoluta que os acontecimentos narrados no Livro de Daniel ocorreram realmente.

“O que o papiro nos mostra, e o que a minha descoberta da cauda da Serpente seguindo suas indicações parece provar, é que quem o escreveu foi secretamente contra as ordens do rei Nabucodonosor. De algum modo, resgatou os pedaços da Serpente de Bronze do monte de lixo real.

“E por que Dakkuri, o sumo sacerdote de Nabucodonosor, salvou os pedaços da Serpente de Bronze? Para que um dia pudessem ser descobertos por uma pessoa digna que tornaria de novo a Serpente inteira, como Dakkuri fizera após Ezequiel tê-la destruído.

“E porque o sumo sacerdote foi contra as ordens diretas do seu rei, que acabara de renovar sua fé em Deus, Dakkuri, ao que tudo indica, não acreditava no Deus do céu. Estava apegado a um ídolo. Ou penso que é possível que ele achasse que receberia algum poder especial, mais exatamente um poder negro, da Serpente de Bronze.

“E creio que ele está nos dizendo, diretamente no papiro, que quem encontrar os pedaços da Serpente e juntá-los será capaz de adquirir os mesmos poderes em que Dakkuri acreditava e que Nabucodonosor quis destruir.

“Mas isso não é tudo. Ele está nos mostrando algo mais aqui no papiro. Que, além dos poderes especiais da Serpente, você consegue um prêmio ainda maior, de acordo com o sumo sacerdote Dakkuri, um prêmio maior que Nabucodonosor tentava ocultar do mundo. De algum modo, a Serpente novamente juntada nos levará a outro objeto que Dakkuri salvou e escondeu contra os desejos de Nabucodonosor.

“Creio que ele nos promete um prêmio que a Bíblia nos diz que é de tamanho gigantesco. Creio que ele quer que alguém use a Serpente para localizar e desenterrar a Cabeça de Ouro da estátua de Nabucodonosor.”

 

LAURA ESTAVA SENTADA NO BANCO que havia no topo do outeiro que dava vista para o campus. Era um lindo dia, uma brisa morna soprava as folhas através da grama enquanto estorninhos chilreavam no pequeno renque de vidoeiros atrás dela. O tipo de dia em que você se pega rindo sem nenhum motivo. Ela se encontraria com Shari, depois da aula de Murphy, para um almoço rápido.

A tranqüilidade foi quebrada por um carro que ela não reconheceu cantando pneu numa súbita freada diante do banco onde ela estava. Involuntariamente, fez uma careta quando viu Chuck Nelson no assento do motorista, embora tivesse certeza de que aquele carro não podia ser dele. Devia pertencer ao homem pálido e magro usando óculos escuros e vestido todo de preto que se encontrava a seu lado no assento do passageiro. Nenhum dos dois parecia muito contente por ter dado uma carona a Shari, que vinha desembarcando do assento traseiro.

— Obrigada, Chuck. Vai jantar em casa?

Sem responder, aliás sem sequer esperar o clique de fechamento da porta de trás, Chuck partiu a toda. Apesar dos óculos escuros que ele usava, Laura teve a inquietante impressão de que o estranho estivera olhando para ela todo o tempo que Shari levou para desembarcar. Laura ficou contente por ele estar usando óculos escuros, pois, mesmo protegidos, havia algo no rosto e nos modos do estranho que lhe dava arrepios apesar da calidez do sol.

Ela não estava sozinha em relação a esse incômodo. Quando Shari foi se sentar ao lado dela, Laura quase pôde ver nuvens negras pairando sobre sua cabeça. Sem nada dizer, aproximou-se e envolveu Shari num abraço apertado. Após se soltar suavemente do abraço e recuar, Shari tinha lágrimas nos olhos.

Laura sentiu brotarem as próprias lágrimas e decidiu ser forte. Mas era muito difícil. Lembrou-se da demorada reunião que tiveram em sua sala falando sobre a dor que Shari ainda sentia anos depois da morte de seus pais em um engavetamento de carros na interestadual, seu pai ao volante com o equivalente a um copo cheio de Wild Turkey dentro dele. Como ela tentara ajudar Shari para que aquilo fizesse algum sentido. Ajudá-la a superar a raiva que sentia do pai e tentar reconduzi-la ao amor que havia outrora. Ajudá-la a encontrar um meio de ela dar graças por tudo que sua mãe fora e sempre seria.

E o mais difícil de tudo: Laura tentara dar-lhe forças para estender a mão a seu irmão. Chuck passara a fazer travessuras desde o dia em que começara a andar, e quando completou 16 anos, os vizinhos não apostavam mais em quanto tempo levaria para ele acabar na cadeia. Por toda a sua perturbada adolescência, ele tratara ambos os pais com tudo que havia desde a obstinada indiferença ao desprezo total — e Shari tinha certeza de que o problema de bebida do pai era seu modo de entorpecer a dor, enquanto o coração de sua mãe despedaçava-se silenciosamente atrás de seu sempre adorável sorriso.

Entretanto, quando soube que os pais haviam partido para sempre, Chuck pareceu entrar numa espécie de estado de choque. Como se subitamente percebesse que agora não havia mais chance de ajeitar as coisas. Por um breve período Shari arriscou-se a ter esperança de que a morte trágica dos pais seria uma terrível espécie de desconfiômetro para ele.

Infelizmente, passado o choque, Chuck alçou o mau comportamento a uma nova altura — bebedeiras, brigas, tráfico de drogas. Era difícil perceber quem ele estava realmente querendo castigar, seus pais ou a si mesmo, mas não havia dúvida de que agora trilhava um caminho de autodestruição e seria apenas uma questão de tempo até alcançar o seu objetivo.

Para uma irmã ainda convivendo com a própria dor, era demais ver Chuck fazendo o possível para se destruir. Portanto, quando o juiz Johnson condenou-o a passar algum tempo na prisão, depois que a polícia o deteve num carro roubado repleto de drogas, isso deu a Shari a muito necessitada tranqüilidade. Ela podia dormir à noite sabendo que ele não estaria se metendo em nenhuma encrenca, e talvez suas preces diárias para o irmão finalmente tivessem uma chance de funcionar.

Contudo, o Chuck que surgiu à sua porta era pior do que nunca.

E agora havia uma preocupação a mais, o tal novo amigo. Laura sabia que o estranho foi o principal motivo que levou Shari a convidá-la para almoçar.

— Encontrei-me com ele pela primeira vez agora no carro. Nem mesmo pude ver seu rosto por causa daqueles arrepiantes óculos escuros e o boné puxado para baixo. O modo como Chuck fala dele é como se fosse uma espécie de chefão. Disse que ele vai lhe dar trabalhos importantes para fazer.

— Que tipo de trabalhos?

— Não me disse. Apenas sorriu maliciosamente como se o restante de nós estivesse sendo vítima de uma gozação. Mas seja lá o que estiver fazendo, não creio que seja apenas roubando carros. — Ela apertou a mão de Laura. — Estou preocupada. Muito preocupada, Laura. Não quero que ele seja morto.

Laura apertou de volta.

— Não se preocupe, Shari. Não vamos deixar isso acontecer. — Ela não fazia a menor idéia de como, mas era importante parecer confiante e determinada. Shari precisava saber que seus amigos eram bastante fortes para ajudá-la a enfrentar praticamente qualquer coisa.

Laura pensou por um momento.

— Se o sujeito é um criminoso, acha que Chuck o conheceu na prisão? Talvez, por esse meio, possamos descobrir quem ele é.

— Não creio. Chuck disse que o conheceu na cidade. Contou que teve problema na hora de fazer um saque de dinheiro e esse sujeito o ajudou. — Franziu a testa. — Mas não me falou mais nada a respeito dele.

— Bem, isso não é muita coisa, mas que tal eu pedir ao de legado Rawley para ele ficar de olho em Chuck e em seu amigo, e talvez a gente consiga saber melhor a respeito do que os dois andam fazendo.

— Laura, não quero que Chuck fique zangado comigo fazendo-o pensar que estou pedindo à polícia para espioná-lo.

— Oh, Shari, ambas sabemos que Chuck vai ficar zangado se você tentar ajudá-lo ou não. Você é uma irmã afetuosa e já fez tudo o que podia. Ele vai acabar tendo que tomar a decisão de ajudar a si mesmo.

— Eu sei. Foi sorte eu ter a amiga de minha mãe, que começou a me levar para a igreja depois que os meus pais morreram. E você e Murphy têm sido fantásticos cuidando de mim.

— Sim, e por falar em cuidar, e quanto a você, Shari? Quando foi a última vez que saiu com um amigo... um namorado?

— Bem, já que tocou no assunto, conheci alguém recentemente, um aluno transferido, Paul Wallach, que está comigo na classe do professor Murphy.

— Legal. E daí?

— Daí nada. Ainda estou apenas conhecendo o Paul. Ele tem grandes problemas com sua formação, ainda luta contra o curso de administração que seu pai forçou-o a fazer, embora seu pai tenha morrido meses atrás.

— Por que não sugere que ele venha falar comigo?

— Ah, já fiz isso, Laura, principalmente porque o curso que ele curte mais é o do professor Murphy.

— Fiiu, é um salto e tanto, da mina de ouro da administração para a sufocação na poeira, à procura de ossos em velhas minas.

— Bem, vocês sabem disso melhor do que ninguém. Espero que não vá se importar por eu ter sugerido que ele conversasse essas coisas com você.

— Eu me importar? É para isso que estou aqui. Caso contrário, passaria mais tempo no campo com o meu gato arqueólogo.

— Não é ele que vem vindo aí?

Murphy deu uma volta com seu Dodge diante do banco e enfiou a cabeça pela janela.

— Senhoras, alguma de vocês está interessada em uma caminhada nos Bosques do Norte, onde vou disparar algumas dezenas de flechas contra árvores inocentes só para manter a forma?

— Não creio que Shari tenha se encantado com o seu número de Robin Hood, mas vamos almoçar. Murph, está embromando só porque pedi que você juntasse as roupas que quer doar para a igreja?

— Fui apanhado. Farei isso depois.

Pisou no acelerador antes que pudesse ouvir Laura berrando com ele.

Laura sacudiu a cabeça e olhou para Shari.

— Está vendo o que eu tenho de enfrentar? Certa vez, nós dois contamos 12 línguas em que Murphy sabe dizer “depois”, a maioria delas tão antigas quanto suas promessas de cuidar de qualquer tarefa.

— Ah, eu forcei a barra de Paul para ele comparecer à nossa reunião de quarta-feira da Igreja e disse-lhe que poderia entrar no esquema ao ajudar a separar as roupas estocadas no porão.

— Ótimo. Mas é melhor irmos comer para manter a força, pois se formos confiar nos homens, vamos acabar fazendo sozinhas todo o trabalho de transporte e seleção.

 

Garra olhou zangado para Chuck.

— Eu lhe disse para diminuir a velocidade. Não quero ser parado em cada blitz de trânsito que há por aqui.

— Tá legal, tá legal. É que fazia uma porção de tempo que eu não pegava num volante. Me diga, por que a gente está fazendo esta viagem até Raleigh para fazer compras, como ontem? Tem uma porção de lojas mais perto.

— Não quero que ninguém se lembre do que estamos comprando.

— E por que quis dar uma carona para a minha irmã? Cara, saquei logo que ela não gostou de você.

— É, o sentimento é mútuo. É por isso que você não pode contar nada para sua irmã. Ela entregaria você aos tiras num piscar de olhos. Portanto, não diga nada para ela sobre o que estamos fazendo.

O olhar entediado de Chuck se iluminou.

— Eu não sei de nada, o que posso contar para ela? Ei, cara, quando é que vai me contar o que você está planejando? Seja lá o que for, pode contar comigo.

Garra sacudiu a cabeça.

— Claro que estou contando com você, seu idiota. Agora, cale a boca e nos leve até o shopping. Vamos comprar roupas. Uma porção de roupas.

— Roupas. Legal. Tô mesmo precisando de umas becas novas.

— Não são para você. Nós vamos doá-las.

— Não saquei. Por que vamos comprar roupas para doar? Qual é a jogada?

— Não ouviu sua irmã tagarelar aí no banco traseiro sobre a tal arrecadação de roupas que a Igreja Comunitária de Preston está fazendo?

— E daí? Não me diga que vai me fazer ir à igreja! — Chuck deu uma freada e parou bruscamente no meio da estrada. — Afinal de contas, que tipo de jogada você está armando aqui?

Garra estapeou a cabeça de Chuck apenas uma vez, mas uma vez foi o bastante.

— Já mandei você calar a boca e dirigir. Fica frio. Vamos apenas fazer uma doação especial para a Igreja esta semana.

 

— APESAR DE MINHA DOR E COMOÇÃO, tive de me apresentar para alertar o povo americano. — Shane Barrington falava diante de dezenas de repórteres. Embora não costumasse dar entrevistas, descobriu-se entusiasmado com sua tarefa.

A tarefa fora a mais recente imposta por Garra, ir a público anunciar a morte de Arthur Barrington, seu filho. É claro que a história que ele agora contava estava longe da verdade. Nenhuma menção foi feita ao modo como Garra assassinara seu único filho. Em vez disso, Barrington enfeitara as concisas instruções de Garra e inventara um relato totalmente fictício da morte de Arthur.

Barrington olhou para as câmeras, avaliando se devia tentar fabricar uma lágrima, ao contar sua história.

— Três dias atrás, foi enviado ao meu escritório um bilhete de pedido de resgate informando que meu único filho, Arthur, fora seqüestrado em plena luz do dias nas ruas de Nova York. Os seqüestradores exigiam 5 milhões de dólares para devolver Arthur são e salvo... desde que eu não contatasse qualquer autoridade. Como qualquer pai, fiquei perturbado, e meu único pensamento foi fazer o que fosse preciso para salvar meu filho.

Tentando não se distrair com a verdadeira imagem de como ele realmente ficou parado observando Garra matar Arthur, Barrington olhou fixamente para as câmeras.

— Sem querer desrespeitar os nossos excelentes executores da lei, a fim de fazer o que achava necessário para salvar o meu filho, instruí minha equipe de segurança particular para fazer os contatos e combinar o pagamento do resgate. Ontem pela manhã, em vez de acolher em casa o meu filho vivo, minha equipe de segurança descobriu seu cadáver horrivelmente mutilado por esses abomináveis criminosos.

Até mesmo os jornalistas habitualmente cínicos engoliram em seco diante da terrível revelação de Barrington.

— Se meu filho não está a salvo neste país, seus filhos também não estão. Enquanto pranteio a perda de Arthur, coloco de lado minha dor e empenho minhas energias pessoais e recursos pessoais para dirigir uma ação pública a fim de pôr um fim ao incontrolado e alarmante aumento da violência criminosa em nossa sociedade. Obrigado.

Perguntas irromperam dos jornalistas.

— Sr. Barrington. — Ele reconheceu o repórter de sua própria rede de televisão. — Pode especificar que tipo de empenho vai realizar em sua campanha para reagir, por assim dizer, aos indivíduos violentos que há por aí?

Barrington recitou tranqüilamente a resposta de Garra a esta pergunta natural.

— Há muitas ações que planejo para liderar nos próximos meses a reação dos cidadãos contra a descontrolada violência em nosso país. Como muitos de vocês, estou farto dos políticos que não fazem o suficiente.

Outra pergunta foi gritada:

— Sr. Barrington, está querendo dizer que pretende concorrer a um cargo público?

— Ao povo deste país — Barrington fixou o olhar friamente nas câmeras —, farei esta promessa: se os políticos não nos protegerem, então deixarei de lado o meu trabalho na Comunicações Barrington e liderarei este país de volta à segurança de seus cidadãos.

 

— Meus colegas estão mais do que satisfeitos com o nosso sr. Barrington. — Garra ouvia John Bartholomew dos Sete pelo telefone via satélite. — Você o deixou muito bem preparado, Garra. Com o tempo, exploraremos esse seu horrível assassinato transformando-o em um poder político todo novo, se Barrington continuar seguindo nossas ordens.

Garra escarneceu:

— Se não continuar, encontrará sua própria morte de um modo infeliz e precoce.

— Bem, Garra, estivemos examinando o mais recente relatório sobre o seu progresso em Preston. Algo que você observou de passagem chamou muito a atenção de um dos meus diabólicos colegas, e isso pode combinar otimamente com essa nova fase de Barrington.

— O que querem que eu faça?

— Esse rapaz que você mencionou, o tal de Wallach, que está animado com Murphy e com a irmã do seu burro de carga. Temos uma pequena mudança de plano para ele.

 

NA QUARTA-FEIRA DE TARDINHA, Paul Wallach estacionou diante da Igreja Comunitária de Preston. Na luz mortiça, a fachada de tábuas caiadas fulgurava de modo convidativo. Seu coração apresentava um leve descompasso e ele não sabia ao certo se era porque estava prestes a ver Shari ou porque estava prestes a optar por entrar pela primeira vez para uma igreja.

A porta estava aberta, mas ele não entrou. Quis ir direto ao porão para mostrar a Shari que tinha sido sincero ao se oferecer para selecionar as roupas. Caminhou pela lateral do prédio até a porta de aço que levava ao porão. Empurrou-a para abri-la e desceu a estreita escada de madeira.

Quando seus olhos se adaptaram à escuridão, Paul pôde distinguir um chão nu de concreto com montes de pranchas de madeira empilhadas ordenadamente e algumas caixas de papelão na extremidade mais afastada. Tateou a parede atrás de um interruptor e uma solitária lâmpada descoberta inundou de luz o porão. Pôde ver mais caixas e pilhas de roupas transbordando de sacos de lixo.

— Olá, estou aqui para trabalhar como voluntário — gritou. — Onde está todo mundo?

No canto havia o que parecia uma velha caldeira e uma arcada que levava a uma outra parte do porão. Curvando-se sob o teto baixo, ele tropeçou — e quase caiu sobre um saco de roupas. Só que não era um saco de roupas.

Era um corpo.

Paul ajoelhou-se e o rosto de um jovem com compridos cabelos louros encarou-o de volta cegamente, um braço arremessado adiante num estranho ângulo. Não reconheceu o homem, mas instintivamente recuou, batendo a cabeça dolorosamente contra a parede, a boca aberta pelo choque. Inspirando fundo, ajoelhou-se e colocou a mão trêmula sobre a carótida do jovem. Nada. Tentou pensar no que fazer a seguir, mas seu cérebro não queria funcionar. Nunca vira um cadáver. Então um único pensamento ocorreu-lhe com perfurante claridade.

“Shari!”

Pôs-se de pé cambaleante e olhou desesperadamente em volta do porão. Havia uma mesa de metal com o que parecia ser um laptop e um emaranhado de fios, mais caixas — e debaixo da mesa...

Correu para lá. Uma garota. Mas não era Shari. Sentiu a garganta se apertar. O lindo rosto oval emoldurado com um grande volume de cabelo ruivo lhe era familiar. Onde a tinha visto? No campus? Em algum lugar da cidade? Isso não importava — verifique a pulsação, seu idiota. Havia, muito fraca, mas certamente havia uma pulsação. Muito bem, lembre da respiração boca a boca. Primeiro, a respiração. Colocou o ouvido perto da boca da moça, torcendo por um sussurro de ar.

— Olá, Paul.

Ele engoliu em seco. Chuck Nelson, vestido com um training folgado, ria zombeteiramente para ele de cima para baixo.

— Quem é a sua amiga? Pensei que estava a fim da minha irmãzinha. Ela vai ficar uma fera quando souber disso. — Chuck sacudiu a cabeça. — E, além disso, numa igreja, seu cachorro.

— O que faz aqui, Chuck? E onde está Shari?

O sorriso desapareceu. Chuck deu de ombros.

— Sei lá. Quem se importa?

Paul estava dividido entre tirar algum sentido daquela situação e tentar ajudar a moça.

— Olhe, Shari falou para eu encontrá-la aqui. O que está havendo, Chuck? — Colocou o ouvido novamente sobre o rosto da moça. — Precisamos de ajuda. Você tem celular? Temos de ligar para o 911.

— Poxa, acho que deixei em casa. — Chuck estava se divertindo a valer. — Que pena. Acho que você mesmo vai ter que acordar a Bela Adormecida. É melhor se apressar. Acho que ela está apagando bem depressa.

Paul colocou-se de pé com um salto e agarrou Chuck pela parte da frente do seu training.

— Olhe, isto não é uma brincadeira. A garota está gravemente ferida. Vá buscar ajuda enquanto eu tento fazê-la respirar.

Chuck livrou-se com um movimento dos ombros.

— Ela já teve toda a ajuda que merecia. — Deu um passo para a frente, deixando que algo escuro deslizasse pela manga da roupa até sua palma. — E já estou ficando um pouco farto das suas lamúrias.

Paul deu um passo para trás, a mão adiante erguida defensivamente. Pelo menos seu cérebro parecia estar funcionando novamente. Se ele conseguisse distrair Chuck por um ou dois segundos, talvez conseguisse alcançar a escada. Virou meio de lado, à procura de algo que pudesse jogar no rosto de Chuck — seguiu-se um movimento repentino ao mesmo tempo que algo muito duro o perfurou, o derrubou e sua cabeça bateu no chão.

Então seu mundo escureceu.

 

O ESTACIONAMENTO DEFRONTE à igreja estava ficando lotado quando Murphy encostou seu velho Dodge numa vaga. Deu a volta até o lado do passageiro para ajudar Laura a sair, mas ela dispensou-o com um gesto de mão.

— Pode deixar, Murph. Não vai querer dar mau exemplo para a comunidade.

Parado diante da porta da igreja com um sorriso acolhedor, o reverendo Wagoner estendeu os braços.

— Laura, Michael. Que bom ver vocês dois.

Murphy olhou em volta para o estacionamento quase lotado.

— Igualmente, pastor Bob. Parece que teremos casa cheia esta noite. Acho que os cachorros-quentes gratuitos não estão funcionando.

Wagoner deu uma risada. Estava vestido confortavelmente com calça e paletó esporte sobre uma camisa pólo verde que revelava uma insinuação de pança. Com suas feições bronzeadas e cabelos grisalhos rareando, parecia ter saído direto do campo de golfe. O que devia ser provável.

— Preciso corresponder a tudo isso. Aliás, creio que vocês dois são os responsáveis por esse grande comparecimento. As pessoas estão empolgadas com a descoberta do pedaço da Serpente, Murphy.

— Desde que não queira que eu vá ao púlpito para falar sobre ela diante de todo mundo, Bob. Você sabe que venho aqui para ficar longe de tudo isso. Mas não vá me pôr para dormir, sim?

Laura deu-lhe uma cutucada nas costelas.

— Não ligue para ele, Bob. Ele está com ciúmes. Reconhece um orador inspirado quando ouve um.

— Ora, obrigado, minha cara. Agora me deixou nervoso.

— Venha, Laura, vamos ver se conseguimos um lugar na primeira fila. Como é mesmo que a garotada a chama... a fila do gargarejo?

Lá dentro, um burburinho de expectativa já crescia por entre os bancos simples de madeira. Eles localizaram Shari sentada perto da frente, procurando alguém, e abriram caminho até ela.

Laura deu-lhe um abraço e então notou seu ar preocupado.

— O que houve?

— É Paul. Desafiei-o a vir aqui esta noite e falei para que aparecesse cedo para ajudar a selecionar as roupas que foram doadas, mas fiquei retida na biblioteca e vim direto para cá. O celular dele parece não estar funcionando.

— Parece que já vai começar. Vamos guardar um lugar para ele. Se for como Murphy, provavelmente fará uma retardatária entrada teatral, principalmente se andou fazendo algum trabalho antes disso. Tenho certeza de que ele chegará a qualquer momento.

Shari sorriu, mas ainda havia preocupação em seus olhos.

— Sentarei com vocês, mas espero que isso não afugente Paul.

 

O instinto natural de Garra era socar o corpo de Chuck contra a parede para que ele concentrasse sua cabeça dura no serviço em curso. Mas tinha uma utilização para Chuck aquela noite e não muito tempo. Não podia se dar ao luxo de deixar aquela lesma humana ficar emburrada. Portanto, tentou algo mais moderado. Estapeou violentamente o rosto de Chuck, duas vezes sucessivas.

— Ei! Ui, o que...?

— Cale-se e preste atenção. Já largamos o namorado de sua irmã aqui no porão da igreja e espalhamos todos os panfletos que eu trouxe. O que falta fazer?

Chuck ofegava e esfregava as bochechas, sem prestar atenção . Que vontade de socar sua cabeça, pensou Garra.

— A mochila, lembra? Tire-a para que eu possa enchê-la.

— Tá legal, tá legal. Está um pouco apertada sobre meu casaco. — Chuck pelejou para soltar as alças da mochila, mas não conseguiu passá-la por cima do casaco da escola secundária de Preston.

— Então abra o zíper do casaco. — Garra revirou os olhos, exasperado.

— Não consigo. Está emperrado. O zíper vive prendendo.

— Como conseguiu sair do jardim-de-infância? — Garra segurou o casaco com ambas as mãos e deu um puxão sem sucesso no zíper. Tentou arrancar o zíper do encaixe. Irritado ao máximo, o braço direito de Garra avançou velozmente acima e de lado a lado do casaco de Chuck, cortando-o em duas metades exatas. Ele puxou a mochila dos ombros de Chuck.

— Ei, era o único casaco que eu tinha. Está fazendo frio.

Garra golpeou novamente com o seu afiado dedo indicador, dessa vez transversalmente à garganta de Chuck, afastando-se agilmente para o lado a fim de permitir que o pesado corpo desabasse no chão do porão.

— Não esquenta, Chuck, faz calor aonde você está indo.

 

ERA UMA EXCELENTE NOITE para a Igreja Comunitária de Preston, pensou o reverendo Wagoner ao examinar os rostos nos bancos. A multidão podia ser descrita como quieta e esperançosa, mas o que tornava aquele evento gratificante era que quase todas aquelas pessoas podiam ser chamadas de uma comunidade. Apertou firmemente o púlpito e pigarreou.

— Bem-vindos, amigos. É verdadeiramente maravilhoso ver tantos de vocês aqui esta noite. Gostaria de agradecer a Deus por nos reunir em um dia que não é domingo. Muitos de vocês devem ter ouvido falar sobre a espantosa descoberta arqueológica que nossos caros amigos Michael e Laura Murphy trouxeram da Terra Santa.

“E se não ouviram, deixem-me lhes dar a boa notícia. Eles encontraram um pedaço da Serpente de Bronze de Moisés. A tal que o rei Ezequiel destruiu em Reis II, capítulo 18, versículo 23. — Seguiram-se alguns suspiros. Obviamente, algumas pessoas não tinham ouvido a notícia. — Bem, não vou falar sobre o significado arqueológico dessa descoberta. Deixarei isso para os profissionais.

“Entretanto, esta semana, o fato de muitas notícias intrigantes e perturbadoras terem sido relatadas na Organização das Nações Unidas e tantas coisas vergonhosas ditas na imprensa sobre o cristianismo me faz querer falar um pouquinho esta noite sobre algo do significado que ainda podemos tirar do que a Bíblia nos diz a respeito da Serpente de Bronze.”

O reverendo Wagoner fez uma pausa, e seu olhar pareceu pousar sobre cada pessoa sentada no salão.

— Vocês devem recordar que os hebreus que fugiram do Egito em busca da Terra Prometida passaram por maus momentos. Às vezes, quando a coisa ficava ruim, eles começavam a questionar, começavam a duvidar dos desígnios de Deus para eles. Em suma, perderam a fé...

Seguiu-se um lampejo, e Murphy teve tempo de se perguntar por que o reverendo Wagoner voava pelo ar na direção deles antes de o estrondo da explosão o atingir, e então o próprio Murphy foi erguido de seu banco pela onda de choque, o braço instintivamente estendendo-se para Laura enquanto voava lateralmente para o corredor.

Depois disso, tudo pareceu acontecer em câmara lenta.

As janelas com vitrais implodiram com uma chuva de vermelho e dourado, e o chão pareceu se erguer, derrubando bancos e derramando seus ocupantes no entulho. Os lustres começaram a sacudir violentamente, as luzes piscaram uma vez e se apagaram, e em seguida houve apenas fumaça e escuridão e os gemidos dos feridos, uma desfalecida meia-voz por trás do zumbido em seus ouvidos.

Murphy pôs-se de pé e, sem pensar, cambaleou em direção às chamas que começavam a emergir do enorme buraco atrás do púlpito destroçado. Por um momento sentiu como se estivesse olhando diretamente para as profundezas do próprio inferno. Então parou, e pareceu-lhe levar uma eternidade para virar a cabeça para trás para o lugar onde aterrissara. Com os pulmões queimando com a acre fumaça que era despejada no interior da igreja, ele tateou o caminho por entre os destroços até encontrar Laura. Segurou o braço dela, sentiu seus dedos o agarrarem e soube que estava viva.

Sair. Temos de dar o fora, pensou ele, deslizando os braços em volta de Laura e colocando-a de pé. Murphy não estava seguro se tinha força para carregá-la nas costas, mas então sentiu-a dar um passo e, juntos, cambalearam através da névoa, sobre bancos que brados e enormes pedaços de reboco, em direção à porta.

Ar, pensou ele. Ar e luz. Ao passarem pelo vão da porta, o ar da noite os golpeou com um abençoado banho de alívio, e ambos inspiraram enchendo os pulmões. Murphy depositou Laura no chão o mais delicadamente possível.

Ajoelhou-se ao lado dela, soprou pedacinhos de madeira que estavam em volta de seus olhos fechados e limpou de sua face e cabelo partículas enegrecidas. Laura tossiu e abriu os olhos, que revelaram medo e estavam margeados de lágrimas enfumaçadas.

— Estou bem, Murphy — disse ela ofegante. — Foi uma explosão?

— Deve ter sido, mas não creio que tenha sido a caldeira explodindo. Sente alguma coisa quebrada?

— Meus joelhos estão esfolados e meu cotovelo dói um pouco... Você está bem?

— Devo parecer pior do que me sinto. Se você prometer ficar deitada aqui quietinha e poupar o fôlego, posso voltar lá e ver se dou uma ajuda.

— Murph, vou ficar bem aqui, mas não acha que você também deveria ficar? Não sabemos o que causou tudo isso. Parece que a igreja ficou realmente danificada. Não se sabe o que ainda pode acontecer. Por favor.

— Não sabemos o que aconteceu e, se há alguém ferido lá, preciso achar um meio de entrar. — Virou-se novamente para a igreja. Fumaça negra saía pelas portas. Uma dezena de outras pessoas haviam saído ilesas de dentro da igreja e estavam sentadas ou deitadas na grama. Restariam quantas?

Ficou observando enquanto um pequeno vulto coberto de pó de reboco caminhava oscilante na direção deles. Shari.

Murphy foi até ela, pronto para segurá-la se caísse, mas ela sacudiu a cabeça e o empurrou para o lado.

— Paul — falou com uma voz áspera e baixa. — Temos de encontrar Paul.

Ela está em estado de choque, pensou Murphy.

— Está tudo bem, Shari. Paul não está aqui. Ele não estava na igreja.

Ela segurou-lhe o braço com um furioso aperto.

— O carro dele. Está no estacionamento. Ele deve ter chegado mais cedo. Ele está aqui.

— Mas onde? Nós o teríamos visto.

Os olhos dela se arregalaram.

— O porão!

Delicadamente, Murphy segurou as mãos dela e as apertou.

— Está bem. Fique aqui com Laura. Não se preocupe, eu o encontrarei.

Pegou um lenço e colocou-o no nariz e na boca, ao retornar para o inferno. A fumaça agora estava menos densa, e na turva escuridão das luzes de emergência ele viu pessoas seguindo aos tropeções em direção às portas enquanto outros cuidavam dos feridos. Sobrepujando o crepitar das chamas e o ruído das vigas de madeira se estilhaçando como uma sucessão de tiros rápidos, ele conseguiu ouvir alguém gemendo.

Avistou Wagoner curvado sobre uma figura prostrada e escalou um banco revirado para alcançá-lo.

— Bob. Graças a Deus. Você está bem?

— Acho que meu braço está quebrado, e sinto minha cabeça como se tivesse levado uns cascudos, mas estou inteiro. Mas não sei quanto a Jenny — disse ele, olhando abaixo para uma mulher de meia-idade em um despedaçado vestido branco com listras negras. Seus olhos estavam fechados e não se mexia. Murphy colocou o ouvido contra sua boca ao mesmo tempo que sentia seu pulso.

— Creio que está morta.

Wagoner fechou os olhos dela.

— Meu bom Deus.

Murphy apertou seus ombros.

— Precisamos conseguir ajuda, Bob.

— Já telefonei. Está a caminho.

— Ótimo. Consegue ir até a porta?

— Não vou a lugar nenhum. Pode haver outras pessoas...

— O pessoal da emergência estará aqui a qualquer momento. Não é seguro. As vigas do teto podem começar a desabar.

Wagoner pôs-se de pé e, relutante, dirigiu-se à frente da igreja. Virou-se.

— O que está fazendo, Michael?

Murphy já estava seguindo em direção ao púlpito destroçado.

— Estarei bem aqui. Trata-se de algo que preciso fazer. — Então Wagoner perdeu-o no meio da fumaça.

A explosão fizera um enorme buraco no chão atrás do altar e, através das chamas, Murphy podia ver trapos de roupas flutuando em meio a uma confusão de metal retorcido e madeira despedaçada. Ele não fazia idéia do quanto estava quente lá embaixo ou se havia ar para respirar, mas conseguia enxergar um lugar no chão de concreto que parecia livre de escombros, então inspirou fundo e pulou.

Pousou agachado, as mãos afundando em uma pilha de roupas que ainda não haviam pegado fogo, e em seguida pôs-se de pé, lenço no rosto, gritando acima do estrondo de madeira desabando.

— Paul! Pode me ouvir? Paul!

Pensou ter ouvido um ruído — algo fraco mas humano vindo da parte de trás do porão, o ponto mais distante do ponto da explosão. Contornando pilhas de latas de tinta enegrecidas e arquivos virados de cabeça para baixo, seguiu caminho ao longo da parede até poder enxergar uma mão estendida para fora de uma pilha de caixas. Levantou-as, e ali estava Paul, enroscado, uma das mãos sob o queixo como se estivesse dormindo. Não havia tempo de examiná-lo adequadamente, para ver se havia algum osso importante quebrado, e Murphy apenas torceu para que não houvesse danos em seu pescoço ou coluna. Baixou-se apoiado em um joelho, colocou os braços por baixo dele e pôs-se de pé cambaleante. Por ali, pensou, virando-se na direção da estreita arcada. Só espero que haja uma saída.

Houve um forte estrondo atrás dele, e sentiu uma torrente de calor atingir-lhe a nuca. Deu uma guinada à frente e seu joelho chocou-se com algo duro. Quase caiu, mas agora estava na parte principal do porão e conseguia avistar os degraus de concreto. Fazendo careta por causa do esforço, mudou a posição das mãos para melhor se posicionar sob o ombro de Paul e colocou um pé no primeiro degrau.

— Apenas um... — Colocou o pé no degrau seguinte e forçou-se acima, esforçando-se como um halterofilista. — E... uuh... outro — gemeu.

Estava com os olhos fechados e só se deu conta de que tinha chegado em cima quando o pé bateu na parte de baixo da porta com um retinido. Manobrando em redor para poder segurar a maçaneta enquanto mantinha Paul agarrado, ele deu um forte puxão. Nada. Fez uma pausa para poder inspirar uma boa quantidade de ar e dar tudo o que podia. A porta não cedia. Ou estava trancada ou, de alguma forma, a explosão a tinha emperrado.

Recuou, a mente disparando. Não havia sentido em gastar suas últimas reservas de energia investindo contra a porta. Teria de voltar pelo caminho pelo qual viera e torcer para que o fogo não os tivesse isolado e, de alguma forma, atravessar o buraco no chão antes que toda a estrutura desabasse sobre os dois.

Virou-se para descer os degraus e de repente houve um rugido estridente de metal, em seguida um jorro de ar fresco quando a porta foi arrancada de suas dobradiças e ele encontrou o que procurava no rosto de um jovem bombeiro.

— Muito bem, sr. Murphy — disse ele, braços estendidos na direção de Paul. — Vamos dar o fora daqui.

Dois paramédicos pegaram Paul e pousaram-no cuidadosamente em uma maca. Subitamente, Murphy sentiu como se os braços estivessem flutuando acima e todos os seus músculos pareceram relaxar imediatamente. Caiu de joelhos, fechou os olhos, e estava para agradecer por ter conseguido salvar Paul quando o pensamento lhe ocorreu como um soco na têmpora.

Paul parecia estar morto.

 

QUANDO RAIOU A ALVORADA sobre Preston, os caminhões dos bombeiros e as vans dos paramédicos haviam sumido, deixando apenas um bando de viaturas da polícia diante da igreja.

O agente do FBI Burton Welsh levantou o colarinho da capa de chuva para se proteger da friagem matinal e inspirou o viscoso cheiro de cinzas molhadas. A estrutura de madeira continuava intacta, o orgulhoso pináculo de pé contra um céu tingido de rosa, mas ele sabia que se passaria algum tempo até o som de hinos sair daquela casca enegrecida.

A causa de natureza desconhecida da explosão, a suspeita de uma bomba, foi que levou à convocação do FBI. Hank Baines fora o primeiro agente na cena, fazendo a viagem de volta de Charlotte para Preston. Então, depois que sua busca preliminar no porão da igreja revelou alguns materiais suspeitos, Welsh recebeu uma convocação de emergência, interrompendo suas investigações na ONU.

O delegado Rawley da polícia de Preston estava à espera quando Welsh chegou.

— Seu agente está lá embaixo, no porão.

— Alguma mudança no número de vítimas, nas últimas horas?

— Sim, mais uma. Ainda não sei quem é, mas devia estar praticamente em cima do local da explosão. Houve mais duas embaixo e duas em cima. Estas estão mortas. Por algum milagre, embora houvesse muita gente na igreja esta noite, não houve muitos feridos gravemente. Exceto o rapaz que tiraram do porão, Paul Wallach.

— Como está ele?

— A última informação que eu tive foi de que ele ainda não recuperou a consciência.

— Bem, vamos em frente. — Welsh seguiu Rawley degraus abaixo até o porão. Quase toda a água já havia sido bombeada para fora, mas ficava sob seus pés uma espuma de cinzas encharcadas enquanto seguiam para o local da explosão,

Pararam diante dos restos chamuscados e retorcidos de uma mesa de metal que tivera suas pernas arrancadas. Cadeiras de dobrar que se fundiram na explosão e pareciam esculturas modernistas estavam em volta dela juntamente com pedaços de ferramentas elétricas espalhados.

Welsh curvou-se até seu rosto ficar a centímetros do tampo da mesa. As profundas marcas de queimadura em sua superfície eram inconfundíveis. Baines também examinara as marcas.

— Baines. Bom trabalho, o seu relatório por telefone.

— Agente Welsh. Que bom vê-lo novamente, senhor. Quântico parece estar uma porção de casos no passado. O que acha? Estou certo?

O delegado franziu a testa.

— Certo sobre o quê? Explosivo?

Welsh bufou.

— Delegado, não se consegue isso com um vazamento de gás.

Rawley estava disposto a mostrar que não era nenhum matuto.

— Refere-se ao explosivo plástico C-4?

— Dez. Causa essas estrias verdes. — Welsh passou a examinar o chão em volta da mesa. — Vejamos o que mais temos aqui.

Baixou-se para pegar uma sacola de papel de supermercado no canto e puxou um fio que pendia de sua parte superior.

— Ora, ora. — Examinou através de um rolo de fio de telefone e então ergueu um par de detonadores. Imitou o gesto de enfiar cabos em um bloco de explosivo plástico.

Rawley permaneceu boquiaberto enquanto Welsh remexeu mais um pouco e achou uma placa de circuito chamuscada e os estojos semiderretidos de dois telefones celulares de última geração.

Tirou do bolso do paletó um envelope de plástico para provas e colocou dentro os restos dos telefones.

— Baines, mande o laboratório trabalhar nisto aqui imediatamente. Não sou nenhum técnico, mas ou os sujeitos por aqui guardam coisas muito estranhas nos bolsos de seus ternos velhos, ou esta não é uma arrecadação normal de doação de roupas.

Rawley pareceu atordoado.

— Sei o que estou olhando, mas vou lhe dizer, isso não é possível.

— Delegado, até agora todos os vestígios que vejo aqui embaixo apontam em uma direção. Alguém estava usando a igreja como uma fábrica de bombas. Pelo menos esta noite.

— Welsh, isso é impossível. Essas pessoas são meus vizinhos. Não são mais dados a atentados do que eu.

O agente Welsh olhou o delegado como se fosse dizer que se tratava de um argumento nada convincente.

— Essa também não foi uma operação insignificante. Eles não estavam fazendo bombas de chocolate.

— Quer dizer então que esse explosivo plástico explodiu acidentalmente?

— Claro. Terroristas vivem explodindo a si mesmos. Faz parte do jogo.

— Terroristas. Nem posso acreditar que estou dizendo esta palavra. Não neste lugar.

— Rawley, hoje em dia, pode haver terroristas em qualquer lugar. Basta uma olhada rápida aqui embaixo e você enxerga um mercado das pulgas de coisas capazes de explodir. Com poucas diferenças nas maneiras de explodir as pessoas, não parece que foi um terrorista que bombardeou este lugar. Ou talvez eu deva dizer que alguns dos vizinhos pelos quais bota a mão no fogo andaram brincando de terroristas caseiros e explodiram o porão por engano. Acontece com freqüência, principalmente quando amadores se metem a mexer com esse tipo de coisa.

O agente Welsh apanhou do chão um folheto chamuscado e leu alto.

— Você será deixado para trás?!?!

— Embora talvez não seja nada importante, mas o reverendo da igreja disse que nunca viu antes este folheto, e nenhum desses outros. — Baines apontou para o chão onde estavam alguns pacotes dos agora encharcados volantes e brochuras.

— É mesmo? Eu estava começando a pensar que era o único homem nos Estados Unidos que não estava na mala direta dessa bobagem religiosa. Mas parece que o reverendo precisava ter dado uma olhada com mais freqüência no seu porão. Os mortos e feridos são todos da cidade?

— Que eu saiba, são. Exceto o tal rapaz, Paul Wallach. Está cursando a universidade, mas não sei de onde ele veio.

— Delegado, uma faculdade de cidade pequena como esta não reúne uma porção de pirados, aberrações e desordeiros em volta do campus? Isto é, aposto como você não conhece esse tal de Wallach. Seria o mesmo que dizer: ele não é um forasteiro que está aqui para agitar um pouco as coisas?

— Bem, tudo que sei a seu respeito é que ele é amigo de Shari Nelson, uma estudante que trabalha para Michael Murphy. É uma moça legal, e não conseguiria imaginá-la envolvida com transviados.

— Transviados. É um termo bastante esquisito. Ela é membro desta boa igreja?

— É. Welsh, não pode estar falando sério em relação a alguém como Shari Nelson ou qualquer uma dessas pessoas estar fazendo bombas aqui embaixo.

— Delegado, enquanto não seguirmos a pista de cada fragmento dessa coisa e solucionar a autoria do atentado, a única pessoa que não é suspeita sou eu... e isso só porque é a primeira igreja em que eu boto os pés desde que tinha 15 anos.

 

GARRA PREFERIA FICAR BEM PERTO, olhar suas vítimas cara a cara. Era mais requintado, arriscado e sempre mais memorável ver seu medo antes de golpeá-las. Claro, ele também obtinha extremo prazer da precisão mortal dos falcões que treinava havia muitos anos.

Explosões causavam muita bagunça, mesmo com aquelas novas bombas finas, de alta potência.

Mas esta noite foi eficaz. Admirou a cena protegido pelas sombras do estacionamento. Havia na mochila força explosiva suficiente para derrubar metade do prédio, e fora comprimida no interior de um pedaço de plástico que parecia um protetor de bolso laminado para canetas. Havia também outros materiais explosivos nos sacos que ele e Chuck plantaram por todo o porão, mas o FBI não demoraria muito para descobrir que se tratava apenas de uma fachada.

Ele ficou satisfeito em perpetrar um ato de grande destruição, com vítimas de verdade, em vez de todo o seu trabalho realizado em Nova York.

Pena que o imbecil do Chuck não tivesse sobrevivido para ver o resultado de sua armação. Assim que o matara no porão, Garra instalou na mochila o pedaço de explosivo C-10, pois não ia querer Chuck andando por lá com aquilo, e depois colocou a mochila com o fio em suas costas e deixou-o no porão. Ele havia checado para ver se Chuck deixara Paul Wallach longe da explosão, para que este pudesse sobreviver.

Caos e medo, estes seriam os legados daquela noite. O terror chegando a uma cidadezinha, e não a uma grande metrópole, e nada menos do que a uma igreja. A aparência de uma explosão acidental de uma fábrica de bombas instalada em um porão e dirigida por cristãos evangélicos extremistas não resistiria muito tempo ao escrutínio do FBI. Exatamente como a tênue trilha que deixara para trás após sua façanha em Nova York para fazer parecer que extremistas planejavam explodir a ONU.

Haveria dias de noticiário histérico seguindo as conexões dos membros da Igreja, de Murphy e de Shari, assim que encontrassem o suficiente de seu irmão para fazer uma identificação, e sua ligação com Wallach, o aluno amigo transferido, que seria tachado de forasteiro desordeiro. E aquele homem misterioso que foi visto com Chuck. Quando o FBI descobrisse que a “prova” da fábrica de bombas era apenas uma fachada, a imprensa seria afastada. Em seu rastro haveria um período de barulheira e confusão, e as pessoas recordariam principalmente que deveriam ter medo de um bando de evangélicos malucos. Nada mau para uma noite de trabalho.

Então Garra deu-se conta. Duramente. Chuck, aquele fracassado miserável, conseguiu ferrar as coisas mesmo depois de morto! A porcaria de seu casaco ficara preso, e Garra tivera de arrancá-lo dele cortando-o. O casaco caíra no chão e, por causa de tudo o que tivera de fazer sozinho para completar o ponto de impacto da bomba no porão da igreja, ele esquecera de apanhá-lo. E, no bolso da casaco, estavam as chaves do carro, que também tinham as impressões digitais de Garra e, além do mais, ele vira Chuck enfiar a última lista de compras. As chances de o casaco sobreviver à explosão, e do FBI descobri-lo a partir do que encontrasse no bolso eram diminutas.

Eram, porém, suficientes para deixar Garra intranqüilo. Teria de voltar, o que não seria tão difícil com toda aquela equipe de salvamento entrando e saindo.

 

Garra entrou despercebido na igreja pelo que fora outrora a porta para o porão.

Enquanto ele fazia isso, Laura Murphy circundava o prédio em direção ao Dodge, em cuja mala ela sempre mantinha bebidas, estojo de pronto socorro, cobertores e outros suprimentos para o caso de ela e Murphy decidirem sair de repente para fazer uma exploração. Deu uma boa olhada no vulto que entrava no porão, e este não parecia alguém da equipe de salvamento, e certamente não era um membro da Igreja. Nem parecia alguém que ela conhecesse de Preston, mas tinha certeza de reconhecê-lo como um dos rostos que andavam circulando pela cidade.

O sujeito repulsivo que andava com o irmão de Shari.

Laura esqueceu de apanhar os suprimentos e resolveu seguir o colega de Chuck para ver por que estava indo ao local da explosão.

Será? Ficou horrorizada com o pensamento que lhe ocorreu. Será que esse estranho e o pobre e irado Chuck estavam envolvidos no bombardeio?

Desceu os degraus para o porão, tremendo quando seus joelhos feridos sentiram o impacto. Houve um ruído na escuridão adiante, e ela manquejou em sua direção. Ao que parecia, a dor nas pernas ia permanecer com ela por algum tempo.

Entretanto, instantaneamente esqueceu a dor, pois uma dor intensa e ainda maior percorreu seu corpo quando, na escuridão, um par de mãos incrivelmente fortes agarraram seu braço e sua garganta.

— Olá, sra. Murphy. Deve ser a noite do bingo na igreja, pois acabo de ganhar o grande prêmio. — A voz era rouca. — Não posso fazer nada com esse seu marido enquanto ele ainda nos for útil. Mas ninguém disse nada sobre precisar de você. E, sem você, talvez marido tenha tempo de trabalhar um pouco mais depressa.

Laura não sabia sobre o que aquele maluco estava falando, mas não conseguia falar, tão forte era a pressão da mão dele em garganta. Já começava a esmagar sua traquéia.

Garra continuou pressionando, decidido a não usar novamente sua lâmina. O resultado seria o mesmo.

Laura Murphy olhava no rosto de Garra, recusando-se a dar a satisfação de desviar a vista, embora estivesse chocada com a aparência que a pura maldade podia assumir.

Começou a rezar em silêncio e não demonstrou nenhum medo.

 

O DELEGADO RAWLEY ACOMPANHOU-OS à sala de interrogatório e apontou-lhes três cadeiras de um lado da mesa de metal aparafusada ao chão nu.

— Desculpem não podermos usar minha sala. Não creio que pudesse acomodá-los todos confortavelmente. Não com tudo isso... — Indicou as duas enormes caixas de papelão no centro da mesa sem olhar para elas. Baines estava de pé do outro lado da mesa e ofereceu a mão com uma expressão neutra.

— Reverendo Wagoner. Professor Murphy. — Apertou solenemente a mão de cada um, antes de sentar-se novamente, e seu olhar voltou para as caixas.

Rawley conduziu-os como um atencioso maître.

— Como está o braço, Bob? Sabe, as pessoas dizem que é um milagre você estar vivo.

Wagoner tremeu ao se instalar em uma cadeira e ajustou o gesso no braço.

— Para ser honesto, não sinto muita coisa, Ed. E isso vale também para a minha cabeça. — Deu um tapinha na bandagem em volta da testa. — Alma diz que isso prova que o Senhor sabia o que fazia quando Ele a fez de material maciço.

— E você, Murphy?

— Ah, eu estou bem, Ed. Apenas alguns cortes e machucados. Acho que também fui feito do mesmo material.

Com um leve sorriso, Rawley prosseguiu e parou desajeitadamente ao lado de Welsh. Parecia relutar em ocupar a cadeira vazia seguinte à dele, como se quisesse distanciar-se do que estava para acontecer.

— Somos os sortudos — observou Wagoner. — Quatro caros amigos mortos, além de um corpo no porão ainda por ser identificado. O pobre jovem Wallach em coma... — Sua voz foi minguando. — Mas vamos começar a reconstrução assim que pudermos. E então retornaremos àquela adorável igreja para orar novamente ao Senhor.

— Não faça nenhuma obra ainda, reverendo — disse Welsh friamente. — Por enquanto sua igreja ainda é uma cena de crime.

— Cena de crime? Não entendo.

— A explosão não foi acidental. A velha caldeira no porão foi uma das poucas coisas que não foram afetadas na explosão.

— Então, o que a causou?

Welsh olhou-o fixamente.

— Eu estava esperando que pudesse me dar a resposta.

Murphy pôs-se de pé e curvou-se sobre a mesa.

— O que está sugerindo? Bob quase foi morto lá.

Welsh não hesitou. Esperou até Murphy sentar-se novamente, e então levantou a aba de uma das caixas.

— A explosão foi causada por uma bomba. Explosivo plástico. E encontramos detonadores e outros materiais para fazer mais bombas. O porão de sua igreja estava sendo usado como uma fábrica de bombas, reverendo. Seus paroquianos estavam fazendo bombas.

Ele esperou que aquilo fosse absorvido, observando enquanto Wagoner empalidecia.

— Isso é um absurdo — exclamou Murphy. — Por que membros dessa Igreja fariam bombas?

Welsh coçou o queixo como se estivesse fazendo aquela pergunta pela primeira vez a si mesmo.

— Que tal explodir a ONU?

— A ONU? Do que está falando?

— Esse garoto, Paul Wallach, que tiraram do porão, não é daqui, não é mesmo? Sei que é um estudante, supostamente, mas soube que ele só começou a freqüentar as aulas recentemente, isso é correto?

— O que está sugerindo? Que Paul Wallach foi de algum modo responsável pela explosão? Isso é loucura. É apenas um garoto.

Welsh deu um sorriso amargo.

— Sei por experiência que garotos fazem as coisas mais esquisitas. Principalmente quando são influenciados por fanáticos. — Pronunciou a última palavra como se cuspisse algo desagradável.

Murphy deu um salto.

— Fanáticos? Quem é você, Welsh, o Joe McCarthy dos federais? Conspirações por todos os lados. Fanáticos como?

— Como o tipo de gente que acredita que a ONU é maléfica. Cristãos evangélicos, por exemplo.

— Nós não acreditamos que a ONU é maléfica — interveio Wagoner. — Acreditamos que ela faz um bom trabalho. Como manter a paz em certos países do Terceiro Mundo, onde reina o caos, ajuda humanitária, programas de saúde e assim por diante. Mas desconfiamos de seu empenho em promover a globalização, tentando unir todas as religiões desrespeitando suas crenças e unir todos os governos do mundo sob uma única entidade. Em particular, me preocupa muito a transferência da soberania do governo dos Estados Unidos para uma corte mundial.

— Está dizendo que se opõe ao esforço pela paz mundial por meio da unidade global?

— Cada uma das tentativas feitas no passado de se assegurar uma única religião mundial ou um único governo mundial resultou num regime totalitário, causando inevitavelmente a morte de um número incontável de cidadãos inocentes. Precisamos aprender com a história. O homem, sozinho, é incapaz de promover a paz neste planeta. Este mundo não vai desfrutar a paz enquanto o Cristo em pessoa não vier instalar o Seu reino. O Seu reino durará mil anos, e a Bíblia é muita clara em relação a essa profecia.

— Então talvez sua gente ache que algumas bombas possam acelerar isso.

Wagoner ficou aturdido.

— Nossa gente? Os cristãos evangélicos não armam bombas, agente Welsh.

Welsh espetou-lhe um dedo.

— Que tal gente que explode clínicas de planejamento familiar? Que mata médicos que fazem abortos? São cristãos, não são?

— Não no meu entender — declarou Wagoner furiosamente. — Sim, é algo terrível tirar a vida de fetos, porém mais assassinatos não é a solução. A comunidade cristã se opõe universalmente à matança, mesmo para salvar o feto de ser morto.

O agente Baines ficara calado enquanto o agente Welsh expusera seus argumentos, mas não pôde mais se conter.

— Senhor, sei que é impróprio, mas preciso falar. Eu, certamente, não tenho pretensões de conhecer os fatos da explosão, e há uma certa prova circunstancial que leva a crer que algo maluco estava acontecendo no porão. Só que eu conheço essas pessoas. Não essas especificamente, não é isso que estou dizendo. O que pretendo dizer é que conheço pessoas que freqüentam a igreja numa comunidade como esta, porque é isso que eu sou. Conheço seus corações, e elas nunca seriam terroristas, usariam bombas ou assassinariam por qualquer causa, por mais que fosse justa.

“Olhe, aconteceu algo terrível aqui em Preston. Pessoas morreram e outras estão hospitalizadas. E todo mundo quer saber por quê. Nós queremos saber por quê. O professor Murphy arriscou a vida para salvar alguém. Isso é ato de um assassino desumano? O reverendo Wagoner teve sorte de não ser morto. Não são essas as pessoas que devemos caçar. Sei que isso são apenas palavras, sem comprovação, senhor, mas às vezes temos de escutar uma evidência maior do que os nossos olhos nos revelam, não é mesmo?”

Welsh deu apenas um olhar ácido, irado, para Baines e não teve chance de rebater, pois Laura Murphy entrou cambaleante, parecendo perturbada e com dores.

Por um momento, ela olhou fixamente adiante como se tentasse pensar na palavra certa, então Murphy viu horrorizado seus olhos revirarem e todo o seu corpo amolecer como uma marionete cujos cordões tivessem sido cortados repentinamente. Esticou a mão para se equilibrar e a cadeira tombou no chão quando Murphy a colheu nos braços.

— Chame uma ambulância — gritou para Baines. — Já!

 

PELA SEGUNDA VEZ EM QUESTÃO de semanas, pensou Stephanie Kovacs, os deuses da sorte na mídia lhe sorriam. Ela decidira passar a noite no hotel esmiuçando um pouco mais sua pesquisa antes de sair, no dia seguinte, para bisbilhotar por Preston e conseguir mais informações sobre o professor Michael Murphy.

De seu quarto no hotel ouviu a bomba explodir e já estava bipando o seu câmera quando o chefe da central nacional da BNN lhe telefonou. Uma hora após a explosão, entrou ao vivo com sua primeira reportagem. Mesmo após mais repórteres enxamearem o local, continuou à frente do grupo por causa de uma combinação de seu empenho e algumas dicas adicionais fornecidas pelas redações de Nova York e Atlanta. Agora, no dia seguinte, estava pronta para a sua próxima reportagem exclusiva.

— Stephanie Kovacs, BNN, ao vivo da terrível explosão da Igreja Comunitária de Preston, Preston, Carolina do Norte. Enquanto prosseguem desesperadamente a busca por vítimas e avaliação dos danos, há terríveis realidades começando a vir à tona no local.

“O mais chocante desta reportagem é que não estamos falando de um ataque terrorista contra inocentes devotos de uma religião, mas de um pesadelo muito maior para os cidadãos de nosso país. Já há evidências de que, ao contrário das primeiras informações que sugeriam que a igreja foi o alvo de uma bomba terrorista, a verdade pode ser mais mortal e covarde.

“Fontes revelaram à BNN que a causa da explosão foi, na verdade, uma fábrica de bombas existente no porão... uma fábrica de bombas que resultou tragicamente, terrivelmente errada para quatro membros dessa unida congregação. E essas mesmas fontes sugeriram ainda que as provas encontradas nos escombros aqui em Preston apontam para uma ligação com outro recente ataque terrorista.”

Ela fez uma pausa dramática, como se precisasse se recompor antes de fazer sua revelação mais importante.

— Embora as autoridades ainda não estejam fazendo declarações, soubemos que há indicações de que membros de um grupo terrorista dessa paróquia estão ligados a Farley, o Fanático, sim, o suspeito que continua à solta e é procurado para interrogatório sobre seu papel no recente ataque ao prédio das Nações Unidas em Nova York.

“Fomos informados de que foram encontrados intrigantes materiais semelhantes nos dois locais investigados, o porão da Igreja Comunitária de Preston, que fica a poucos metros de onde me encontro agora, e a casa de Farley, o Fanático, de onde, devem recordar, fiz uma reportagem há apenas poucos dias. Fui informada de que esses materiais incluem publicações e panfletos religiosos de diversas variedades evangélicas e sugerem que a explosão do prédio da ONU foi uma arrepiante possibilidade. E talvez ainda pudesse ocorrer por intermédio de sobreviventes da célula terrorista, cuja trama deu terrivelmente errado esta noite aqui nesta igreja.”

Com relutância, ela desfez por um momento o contato visual com seus telespectadores e se dirigiu a um homem calvo vestido com camisa pólo preta e paletó esporte marrom.

— Estou aqui com o dr. Archer Fallworth, diretor da Escola de Artes e Ciências da Universidade de Preston. Muitos de seus alunos freqüentam o culto desta paróquia. — Seu sorriso pesaroso foi sincero. — Muito obrigada por dispor de alguns minutos para estar conosco nesta trágica ocasião, diretor Fallworth.

Fallworth parecia como se tivesse acabado de se impedir de dizer O prazer é meu. Assentiu e apertou os lábios.

— Diretor, creio que estamos todos em estado de choque diante dessas revelações. Isto é, membros de uma congregação religiosa fabricando bombas? E possivelmente ligados aos que planejam cometer ataques terroristas em nossas cidades grandes? Pode nos dar alguma explicação sobre o que está havendo? É capaz de tirar algum sentido disso para nós?

O diretor Fallworth olhou para cima, com uma expressão séria.

— Não tenho certeza se sou capaz de explicar o que aconteceu aqui em Preston, Stephanie. Não sei se alguém é capaz. Quando fanáticos mutilam e matam pessoas inocentes, eu penso que todos nós... eu... — sacudiu a cabeça, aparentemente dominado pela emoção.

Stephanie decidiu ajudá-lo.

— Quando se refere a fanáticos, diretor Fallworth, o que está querendo dizer realmente? Quem são essas pessoas? Qual é o seu objetivo?

Fallworth pigarreou.

— Bem, já estou há muitos anos na universidade, e tenho visto muitas mudanças perturbadoras em épocas recentes.

A testa de Stephanie ficou franzida de preocupação.

— Que tipo de mudanças?

— Sempre tivemos aqui uma forte presença evangélica. Não há nada de errado com isso, é claro. Mas acredito que elementos mais extremistas... evangélicos fundamentalistas, se podemos chamá-los assim... estão gradualmente assumindo o controle. E acredito que esses elementos possam estar por trás da terrível tragédia que testemunhamos ontem aqui.

— Deve estar familiarizado com esse grupo. No que eles acreditam exatamente? E se é verdade o que nos informaram, e tenho certeza de que, como eu, muitos de nossos telespectadores estão achando difícil de acreditar nisso, por que eles têm como alvo instituições como a ONU?

— Stephanie, creio que o mais importante a se dizer é que, seja lá no que acreditem — na proximidade do fim do mundo, no Segundo Advento ou o que seja —, eles simplesmente não aceitam que você ou eu tenhamos um ponto de vista diferente, que a gente talvez tenha uma fé diferente... mesmo uma fé cristã diferente.

— Então, o que estão tentando fazer... nos bombardear para crermos?

Fallworth lançou-lhe um meio sorriso padronizado muito conhecido de seus alunos.

— Acredito que se expressou muito bem, Stephanie. Sim, é exatamente isso.

E acabo de redigir a manchete de amanhã, pensou Stephanie.

— Stephanie, o bem-estar de nossos alunos é minha mais alta prioridade, e precisamos estar alerta contra qualquer um que possa tentar influenciá-los de forma negativa ou perigosa.

— Diria que Paul Wallach, que se encontra em coma, foi influenciado do modo como descreveu?

Ele pendeu a cabeça.

— Acredito que sim, tragicamente.

— E sabe quem é o responsável por transformar um aluno tão promissor no que poderia ser definido como um assassino fanático?

Fallworth vacilou um pouco. Talvez ela estivesse forçando um pouco a barra. Mas ele não podia recuar agora. Vamos, pensou ela, você sabe o que tem a fazer. E você quer realmente fazer isso.

— Dói-me profundamente ter que dizer isso, mas acredito que um integrante do nosso próprio corpo docente é a voz condutora por trás desse pernicioso movimento. — Estremeceu para mostrar o quanto isso o magoava profundamente.

Stephanie levou o microfone para mais perto, quase como se fosse um picador de gado.

— O professor Michael Murphy.

Ela fingiu uma surpresa horrorizada.

— E que assunto ensina o professor Murphy?

— Arqueologia Bíblica — disse ele, fazendo isso soar como se fosse uma doença. — Pelo menos é o que fazia até hoje. — Virou-se e olhou diretamente para a câmera. — No interesse dos alunos, estou recomendando ao conselho universitário que suspenda o professor Murphy até concluirmos uma investigação interna apropriada.

 

MURPHY ACOCOROU-SE NO CHÃO da ambulância e segurou a mão de Laura enquanto um dos paramédicos enfiava uma intravenosa em seu braço e outro a envolvia com mantas térmicas.

— Ela simplesmente desmaiou?

As últimas horas eram apenas um borrão. Murphy mal conseguia pensar.

— Sim. Ela estava na igreja quando a bomba explodiu. Nós dois estávamos. Mas disseram que ela estava bem. Apenas contusões, nada sério.

Enquanto a ambulância disparava pela rota 147, o paramédico transmitia as informações à equipe da traumatologia que estava à espera. Quando terminou, já estavam deixando a rodovia e entrando na estrada principal do campus que levava ao hospital, sirenes bramindo. Murphy pressionou a mão fria no rosto dela.

— Agüente firme, meu bem.

Frearam bruscamente e os paramédicos puxaram a maca metálica com rodinhas para o asfalto e passaram a empurrá-la em direção ao centro de traumatologia como se fosse uma equipe de trenó de corrida tentando adquirir velocidade. As portas automáticas abriram-se e fecharam-se como uma boca ávida, e eles se encontraram na áreas de recepção, onde a equipe da traumatologia rodeou imediatamente a maca, os carrinhos de aço escovado com o S equipamentos a postos.

Mais agulhas com intravenosa foram enfiadas. Um monitor de sinais vitais foi conectado. Uma enfermeira passou a medir a pulsação e a pressão sangüínea. Tudo isso enquanto a maca acelerava em direção a uma porta dupla onde se lia RESTRITO À EQUIPE DE TRAUMATOLOGIA.

Murphy ia sugado no seu vácuo, tentando manter o rosto de Laura à vista enquanto a equipe de traumatologia trabalhava impetuosamente em volta dela. Então a maca foi empurrada através das portas e uma mão delicadamente impediu-o de segui-la.

— Lamento. Terá de esperar aqui fora. Você será informado sobre o estado de sua esposa assim que tivermos novas notícias.

Ele murmurou um obrigado e a enfermeira desapareceu atrás da maca. Conseguiu ouvir por um momento o urgente vaivém da equipe de traumatologia, depois as portas fecharam-se com um baque surdo e ele ficou sozinho.

 

— Professor Murphy, o que está havendo? Que faz aqui? — Os olhos de Shari estavam vermelhos de chorar.

— É Laura. Ela simplesmente desmaiou. Não sabem o que há de errado com ela... — Sua voz foi diminuindo.

Ela desabou numa cadeira e colocou a mão na boca.

— Oh, não. Oh, não. Laura também, não.

Murphy puxou sua cadeira para mais perto e colocou o braço em volta dos ombros dela. Olhou na direção das portas duplas.

— Paul também está ali, não é?

Ela fez que sim, soluçando baixinho. Permaneceram assim, a cabeça de Shari em seu ombro, sem saber o que mais fazer, além de orar silenciosamente. Os minutos se passaram e Murphy perdeu toda a noção de tempo e estava argumentando com Laura sobre algo e então ela começou a rir e o coração dele disparou porque ela estava certa e então se deu conta de que devia estar sonhando e acordou sobressaltado.

O dr. Keller estava parado ali perto. Gesticulou com a cabeça em direção a Shari.

— Não houve mudança no estado de Paul. Mas não estávamos mesmo esperando algo de imediato. — Dirigiu-se a Murphy.

— Laura está estável, mas não sabemos ainda por que ela desmaiou. Os sinais parecem como se algo terrivelmente forte tivesse tentado esmagar sua traquéia.

“Estamos fazendo todo o possível. E continuaremos a fazer. Mas, no momento, tenho de lhe dizer que nós a estamos perdendo.”

Shari ofegou e Murphy instintivamente apertou o braço em volta de seus ombros, embora fosse ele quem precisava desesperadamente de consolo. Então levantou-se e estendeu a mão firme para Keller.

— Obrigado, doutor. Sei que estão fazendo todo o possível. E nós faremos todo o possível.

Keller apertou sua mão e assentiu solenemente antes de atravessar de volta as portas do centro de traumatologia. Surpreendentemente para ele, ficara sem palavras.

Murphy notou as olheiras de cansaço de Shari.

— Venha, tenho certeza de que nós dois precisamos de um pouco de água ou uma xícara de café. Temos muitas orações a fazer.

 

VÁRIAS HORAS DEPOIS Murphy foi ao leito de Laura e deu-lhe um aperto na mão. Apesar do respirador, das intravenosas e das máquinas que a cercavam, achou que ela parecia uma princesa de um conto de fadas. Sua pele parecia quase uma porcelana branca, os lábios de um pálido inacreditável. A pílula que a fazia dormir era muito forte, mas suas pálpebras tremiam enquanto ele observava, mostrando que ela continuava presente, lutando para se libertar da prisão.

Ele pensou ter ouvido algo mais alto do que o sibilar do respirador — uma lamúria de protesto, como se ela estivesse dizendo Por favor, alguém me tire daqui, mas não tinha certeza se ainda podia confiar nos seus sentidos.

Curvou-se e beijou-a delicadamente na testa.

— Ei, meu bem, eu estou aqui. Não se preocupe. Vai acabar tudo bem.

Olhou mais abaixo e ficou surpreso em ver que mantinha algo seguro na mão. O dr. Keller devia ter dado aquilo a ele. Era um pequeno saco plástico com fecho com os pertences de Laura. Uma fina aliança de ouro, relógio de pulso, brincos de pérola, chaves. E a pequena cruz de madeira e seu cordão.

Ele imaginou-se deixando o hospital ainda segurando o saco e lágrimas subitamente embaraçaram sua visão.

— Não me deixe, querida. Por favor, não me deixe. — Ouviu a porta se abrir, sentiu uma pontada de constrangimento e então pensou: Não seja tão burro... ela já viu esse tipo de coisa.

Mas não era a enfermeira.

Parada na porta, olhando além dele para Laura com uma expressão de infinita tristeza, estava uma mulher ruiva vestida com um casaco comprido que parecia grande demais para ela.

— Sr. Murphy? — disse ela com uma voz trêmula. Tinha um sotaque cantado e familiar, mas, na ocasião, Murphy não conseguiu reconhecê-lo. — Sou Ísis McDonald. — Fez um breve contato visual com Murphy, depois seu olhar retornou para Laura. — Lamento muitíssimo.

Ele parecia perplexo, como se ela fosse uma personagem de um sonho, e não conseguia entender o que fazia parada ali, aparentemente sólida, falando com ele como se fosse uma pessoa de verdade.

— Vai me perdoar — disse ela. — Eu não devia ter vindo deste modo. Não queria me intrometer na sua... Não queria interferir. Nós nem nos conhecemos. Mas é que simplesmente...

Murphy expirou e tentou relaxar os ombros. Indicou-lhe a cadeira.

— Desculpe. Por favor, sente-se. Veio de muito de longe.

Ela sentou-se, apertando firmemente contra o colo uma pasta de aparência gasta. Parecia não saber o que dizer ou fazer a seguir.

O embaraçoso silêncio foi quebrado quando a enfermeira voltou com um recipiente de café. Notou Ísis, cumprimentou-a com um gesto de cabeça e entregou uma xícara a Murphy com um sorriso solidário.

— Não queria mesmo isto — comentou ele quando a porta se fechou atrás dela. — Gostaria de tomá-lo? Receio que não tenha creme nem açúcar.

Ela apanhou a xícara, agradecida pela interrupção.

— Obrigada. Está ótimo.

Ficaram em silêncio pelo que parecia um longo tempo, apenas olhando para Laura e ouvindo o suave sibilar do respirador.

— Olhe, agradeço sua preocupação — disse ele. — Mas não conhecia Laura. Não quero ser rude, mas o que faz aqui?

Ísis colocou a xícara na borda da janela e estendeu as mãos sobre a pasta.

— Eu lhe trouxe algo. — Abriu o fecho e puxou da pasta um envelope de papel pardo. Enfiou a mão, virou o envelope de cabeça para baixo e algo caiu.

A cauda da Serpente pousou sobre a pasta, reluzindo brevemente.

— Não entendo.

Ela a apanhou e estendeu-a em sua direção.

— Pensei que você pudesse querer. Pensei que pudesse ajudar.

— Ajudar? Como isso vai ajudar?

Ela não conseguiu olhar para ele.

— Isto não é capaz de... Não acredita nos seus poderes curativos?

Subitamente ele entendeu por que ela viera.

— Não! Definitivamente, não. É apenas um pedaço de bronze.

Ela pareceu desconcertada.

—Apenas um pedaço de bronze? Mas você arriscou a vida para consegui-lo. Pensei que isto tivesse curado os israelitas quando foram picados por cobras venenosas. Pensei que era nisso que acreditava.

— Não é nisso que acredito. Foi Deus quem os curou, por causa de sua fé. O poder estava na fé que eles tinham, não na Serpente. Quando passaram a adorá-la, como se tivesse poderes mágicos, Deus mandou que Ezequiel a destruísse.

Ela ainda a segurava, desejando que ele a pegasse.

— Mas como sabe? Como sabe se ela não tem algum poder? Como sabe se não ajudará Laura?

Murphy pigarreou.

— Porque eu sei que não é assim que Deus age. Não há truques mágicos.

— E os que se curam pela fé? Para mim, parecem truques mágicos.

— Não. Não sabemos por que Deus, às vezes, cura pessoas. Exatamente como não sabemos por que... por que, às vezes, Ele deixa que elas adoeçam. — Não pôde evitar de olhar de relance para Laura. — Até mesmo pessoas boas. Até mesmo as melhores. As melhores de todas.

Ela agora estava de pé, e Murphy pensou que fosse enfiar a coisa em sua mão, como alguém desesperado para vender algo.

— Mas por que não tentar? Talvez não funcione, mas também não causaria nenhum mal, não é mesmo? Não vale a pena tentar?

Ele colocou as mãos em seus finos braços e olhou-a, implorando para que entendesse.

— Seria errado. Seria o mesmo que dizer a Deus: “Eu tenho mais fé neste pedaço de metal do que no Senhor.” Seria pecaminoso.

— O que importa? E daí se cometer um pecado se isso salvar a vida de Laura? Está sendo egoísta, em se preocupar com a limpeza de sua alma enquanto ela pode morrer. — Enrubesceu novamente e colocou a mão sobre a boca. — Desculpe, eu não devia ter dito isso.

Ele nada falou. Apenas apanhou a cauda da Serpente, colocou-a de volta no envelope e depois dentro da pasta. Fechou o trinco e estendeu-a para ela.

— Leve isto de volta ao museu. Tranque no cofre. Depois, se quiser orar por Laura...

Ela pegou a pasta, sem olhar para ele.

— Sim. Sim, está bem. Desculpe. — Ele achou que ela parecia com uma menininha ao ser apanhada fazendo alguma travessura.

— Olhe, tem mais uma coisa. Acabei de traduzir a inscrição. Sei que não é o momento apropriado, mas eu a trouxe comigo. É... um tanto extraordinário. Achei que devia lhe entregar o mais cedo possível.

Murphy olhou-a inexpressivamente.

— Eu lhe telefonarei. Quando isto... quando isto terminar.

Ela assentiu e saiu, a pasta agarrada firmemente contra o peito.

Ele segurou a mão de Laura e encostou nela o rosto.

— Gostaria que pudesse falar comigo, querida. Você sempre sabe o que fazer.

A exaustão finalmente dominou Murphy, e ele mergulhou num sono inquieto. Quando acordou, 20 minutos depois, havia um urgente som de alarme vindo do respirador artificial.

Algo no quarto havia mudado. Ergueu a vista, confuso por um instante, e então entendeu o que era. O bipe normal do monitor de sinais vitais havia se transformado numa única nota urgente de alarme. Saltou da cadeira e estava a meio caminho da porta quando ela foi aberta violentamente e o dr. Keller entrou, seguido por outro médico e uma enfermeira empurrando um carrinho.

Observou-os se curvar. A enfermeira segurava as almofadas elétricas, à espera do sinal do dr. Keller, e então mãos fortes o seguraram e ele fechou os olhos.

 

OS INVESTIGADORES DA CENA DO CRIME haviam finalmente ido embora, o último pedaço da fita de plástico da polícia fora retirado, e a Igreja Comunitária de Preston voltou a ser o que sempre tinha sido, um lugar de culto religioso.

Restaurar os danos materiais, porém, levaria mais tempo. Embora a estrutura tivesse sido reforçada com escoras de aço debaixo do assoalho enfraquecido, um andaime sustentando a parede leste e folhas de plástico cobrindo a maioria das janelas estraçalhadas, o caixilho da porta chamuscada e preta de fumaça era uma recordação de dias antes nos quais o interior da igreja ficara parecido com uma visão do inferno. Apenas o campanário, um dedo branco imaculado apontando para o céu, permaneceu incólume à explosão, e à medida que os freqüentadores da igreja começaram a encher o interior, não foi difícil vê-lo como um símbolo de esperança e resistência.

Wagoner estava na entrada, como estivera na noite da explosão, dando as boas-vindas aos fiéis. Com um braço ainda na tipóia, não podia dar os abraços de urso que achava serem necessários em algumas ocasiões, mas seu aperto de mão era firme e forte como sempre. Um por um os paroquianos lotaram o interior da igreja, acomodando-se em um dos 12 bancos que permaneceram intatos e dirigindo a vista para o pódio improvisado que estava no lugar do púlpito destruído.

Murphy sentou-se na primeira fila, Shari a seu lado, a mão segura à dele. Da janela leste, agora sem o vitral, um raio de sol descia em diagonal, batia na beira de um caixão colocado transversalmente diante do pé do altar e fazia o arranjo de flores à sua volta resplandecer em cores. Sentado à direita de Murphy, o pai de Laura olhava fixamente à frente, focalizando algum lugar distante que apenas ele conseguia enxergar. Sua esposa segurava-lhe o braço, soluçando baixinho.

Olhando-se o rosto de Laura deitada no caixão aberto, era difícil acreditar que estivesse morta. Seu vestido marfim parecia luminescente, emprestando às suas pálidas feições um brilho vibrante que quase se igualava ao das flores que emolduravam o caixão e as margaridas colocadas em seu cabelo. Pela janela sem vidraça, Murphy podia ouvir passarinhos cantando e se perguntava se eles, também, se deixaram enganar pela aparência de vida de Laura. Alguém devia avisar a eles, pensou. Eu devia falar com o pastor Bob. Preparou-se para se levantar e sentiu a mão de Shari ancorando-o. Acomodou-se novamente no banco. Talvez fosse melhor deixar os passarinhos cantar por enquanto. Parariam certamente quando a vissem ser sepultada.

Wagoner subiu vagarosamente os degraus do pódio, mantendo o tempo todo os olhos em Laura, e então olhou para a congregação.

— Este é um momento muito difícil para todos nós — começou. — Às vezes, parece que foi há uma existência, às vezes, eu sei, parece que foi poucos momentos atrás, que estivemos reunidos aqui pela última vez. Alguns de nós perderam entes queridos ou familiares, todos nós perdemos amigos. E todos nós suportamos as cicatrizes daquele dia terrível... e não me refiro às cicatrizes físicas. Refiro-me à dor da perda que permanecerá conosco para sempre.

Colocou a mão sobre a boca e tossiu, e por um momento pareceu como se a igreja estivesse novamente cheia de fumaça. Então continuou, a voz forte, e o ar desanuviou.

— Se vocês são iguais a mim, alguns períodos daquela noite ficarão um pouco enevoados por um tempo — disse ele com um sorriso torto. — Mas eu me lembro sobre o que planejava falar. Eu ia falar sobre ter fé no que Deus planeja para nós. Em ter fé mesmo quando pode parecer que Ele se esqueceu de nós. — Fez uma pausa. — E creio que este pode parecer um desses momentos. Como pôde acontecer uma coisa tão terrível dessas? E agora, acrescentando insulto à injúria, as próprias pessoas que mais sofreram nessa tragédia estão sendo acusadas de crimes terríveis. Na tevê e nos jornais estamos sendo chamados de assassinos e terroristas. Como isso é possível?

Mudou um pouco de posição o braço na tipóia antes de continuar:

— A verdade é: eu não sei. Deus não me revelou o que Ele pretende exatamente para todos nós. Mas sei que Ele tem um plano para nós. E sei que Ele está observando para ver como enfrentamos essas provações e tribulações. — Agarrou a beira do pódio com a mão sadia. — E o que Deus vê quando Ele olha abaixo para nós? Bem, eu lhes direi o que vejo. Vejo pessoas começando a reconstruir o que foi destruído. Vejo pessoas retornando a um lugar que foi profanado por um terrível ato de violência e tornando-o novamente sagrado pela sua adoração. Vejo pessoas mantendo a fé. Porque, em última análise, o plano de Deus nos será revelado. Será necessário muito trabalho árduo... serão necessárias todas as habilidades, e energia e dedicação que temos para restaurar esta igreja. E será necessário cada grama de nossa fé em Deus para atravessarmos o tumulto que agora nos cerca. Mas juntos, com a ajuda de Deus, conseguiremos.

Ele inspirou fundo e enxugou a testa com um lenço. Esperava ter conseguido levantar um pouquinho os ânimos da congregação. Ela precisaria de toda a sua força para o que viria a seguir.

Todos os olhares estavam agora no caixão de Laura. A luz mudara de posição e agora seu rosto estava na sombra. As flores tinham esmaecido para um brilho mais brando.

Wagoner pigarreou e começou:

— Vocês não precisam que eu lhes diga que Laura Murphy era uma bela pessoa, interna e externamente. Quem viu seu sorriso, ouviu sua risada, o modo como fazia os outros rirem — sorriu —, às vezes à sua própria custa... e falo isso por experiência própria... sabe que mulher alegre e transmissora de alegria ela era. Era também uma arqueóloga muito talentosa que poderia ter tido uma carreira brilhante... mas, em vez disso, preferiu dedicar-se a ajudar os outros, ajudar os estudantes a realizar o melhor que conseguiam. Há muitas pessoas nesta cidade que têm para com ela uma dívida de gratidão pela ajuda que receberam para seguir o caminho certo ou deixar o caminho errado, e tenho certeza de que hoje há algumas delas aqui. Se algum de vocês se pergunta por que uma pessoa tão maravilhosa foi abatida quando ainda tinha tanto para dar, quero que pensem em tudo que ela já nos dera. Quantas pessoas deram tanto durante toda a sua vida?

Ouviu alguns soluços e fungados por toda a igreja e deu às pessoas um momento para que se recuperassem. Ou seria para ele se recuperar? Quantas vezes fizera isso — distribuir palavras consoladoras aos desolados? E quantas vezes, secretamente, necessitou de alguém que também o consolasse? Mas essa era a missão que Deus lhe dera, e felizmente Ele providenciara a força para que fosse executada.

— Laura amava a vida e amava Deus... e amava seu marido Michael. — Baixou a vista para Murphy, cujos olhos estavam fixos em Laura com um estranho meio sorriso, e perguntou-se se ele tinha se dado conta de que ela realmente fora embora. — Somente aqueles que perderam um ente querido sabem o que Michael está sentindo neste dia. Nossos corações estão sinceramente com ele. Oramos para que Deus lhe dê forças para suportar a terrível dor que está sentindo.

Empertigou-se no pódio o máximo que conseguiu. Uma velha Bíblia com encadernação em couro foi aberta diante dele, mas não precisou olhar para ela.

— No início do cristianismo, quando um crente morria, os vivos ficavam um pouco confusos sobre o que aconteceria com ele quando Cristo retornasse por ele no Arrebatamento. O apóstolo Paulo escreveu em 1 Tessalonicenses 4:14 a 18 que quando Jesus vier do céu Ele descerá... com um brado... e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficamos vivos e perduramos, seremos arrebatados, nas nuvens, ao encontro do Senhor nos ares. E sempre estaremos com o Senhor.

“A Bíblia diz que devemos consolar uns aos outros com essas palavras. E que maior consolo poderia haver? Laura está agora com Jesus. Não está triste nem sente dor, como nós. Seu corpo pode estar danificado, mas sua alma, sua alma perfeita, está no céu. E a promessa de Deus a nós é a de que, se acreditarmos que Seu Filho morreu na cruz pelos nossos pecados, e que Deus o fez ressurgir dos mortos, nós a reencontraremos e a todos os amigos crentes, ‘e sempre estaremos com o Senhor’. Não admira que o apóstolo conseguisse nos dizer diante de nossa dor: ‘Portanto, consolem uns aos outros com essas palavras’, pois vocês verão Laura novamente.”

As últimas palavras foram ditas de modo lento, e ele olhou diretamente para Murphy enquanto as pronunciava.

Então Wagoner pegou seu hinário. Murphy pôs-se de pé e logo o suave som de vozes unidas na dor e na gratidão elevaram-se dos bancos danificados.

Murphy caminhou até o caixão para um último olhar em Laura. Ao baixar a vista, demorou um momento para notar, e pensou que as lágrimas em seus olhos estavam distorcendo sua percepção. Mas, ao estender a mão, seus dedos confirmaram a chocante visão. Alguém entrara sorrateiramente e levara a cruz de madeira que Murphy havia pendurado no pescoço de Laura, e a quebrara parcialmente de tal modo que agora havia três pedaços pendendo do cordão.

 

MURPHY OUVIU A ÚLTIMA PÁ DE TERRA ser despejada no topo da sepultura e finalmente deu-se conta de que Laura tinha ido embora. O corpo no caixão, embora continuasse belo, não era ela. Ela estava em algum lugar, algum lugar em que ele pensara muito durante anos, mas que agora não conseguia imaginar. Sabia que ali ela nunca envelheceria; sempre seria como ele a vira pela última vez. Perfeita.

Os pais de Laura estavam abraçados diante da sepultura, e ele tentou pensar em algo que pudesse fazer pelos dois, mas, ao penetrar dentro de si mesmo, descobriu apenas um imenso vazio e percebeu que se tentasse consolá-los as palavras adequadas não sairiam.

Shari aproximou-se.

— Vou levar Kurt e Susan de volta ao hotel. Ela precisa descansar e eu poderei ficar algum tempo por lá, se eles quiserem que eu fique.

Ele concordou com a cabeça, agradecido pela generosidade que permitiu a ela ler sua mente.

Wagoner estava de pé próximo à porta da igreja, cumprimentando os pranteadores de partida e distribuindo palavras finais de consolo de seu estoque aparentemente inesgotável. Murphy deu-se conta de que nada mais havia para ele fazer ali.

Entrou no carro e ficou sentado por um momento, então deu partida no motor e saiu lentamente do estacionamento. Não conseguiria ir para casa. Ainda não. Lá, a presença dela estaria forte demais, e só de ver sua escova de cabelo ou uma xícara de café onde ela a havia largado o deixaria paralisado de dor. Dirigiu algum tempo sem rumo até descobrir que estava em uma estrada que levava à universidade. Aquilo também não era bom. Fez a volta, desejando encontrar um lugar que não guardasse qualquer lembrança, um lugar que Laura não conhecera e que não apregoasse seu nome quando ele se aproximasse. Decidiu continuar dirigindo até se encontrar numa estrada desconhecida, e prosseguiu até... até o quê?

Não sabia. Até algo mudar, talvez. Passou por um posto de gasolina e uma fileira de oficinas de carros, e quando avistou uma placa que dizia 80 quilômetros para algum lugar, fez a volta e pisou fundo. O volante parecia ficar mais leve em suas mãos e o mundo começou a fluir atrás dele. Perdeu toda a noção de tempo.

Ouviu uma buzina soar e jogou o volante para a direita, livrando-se por um triz de um caminhão que vinha em sentido contrário. Encostou o carro prontamente e descansou a cabeça sobre o volante, esperando que o martelamento em seu peito reduzisse.

Não adiantava. Não havia sentido em tentar escapar. Sabia aonde tinha de ir. Enfiou-se no tráfego e seguiu de volta pelo caminho de onde viera.

Meia hora depois parou diante da igreja e saiu do carro. Ficou feliz em ver que o estacionamento estava vazio, a não ser pela velha picape de Wagoner.

Caminhou de volta até a sepultura e ficou parado diante dela, olhando a pálida lápide com sua inscrição simples. Um dia, trarei flores aqui e ela estará lisa e gasta, pensou ele. O musgo crescerá nas fendas.

Ergueu a vista e Bob Wagoner estava parado do outro lado da sepultura, os braços cruzados à frente.

— Achei que você voltaria — observou ele.

Murphy sentiu algo se agitar dentro dele e deu-se conta de que tinha sido por causa disso que viera.

— Continuo pensando no que você disse, sobre o plano de Deus, e... simplesmente não consigo aceitá-lo. Como Ele pôde fazer isso? Como Ele pôde deixar que acontecesse? Se eu tivesse sido morto em Samaria, ou no incêndio... mas Laura. Ela era uma mulher de fé. Nunca houve um pensamento mau em sua cabeça. Ela era... como um anjo.

Wagoner aproximou-se e colocou o braço em volta do seu ombro.

— Deus entende sua dor, Michael. Ele também não se ofende com o seu questionamento. Lembre-se, Seu próprio Filho O questionou. — Notou que Murphy segurava a pequena cruz de madeira. Reconheceu-a como a cruz que Laura usava no pescoço. — Você tem a resposta na palma de sua mão, Michael. Quando Jesus estava morrendo na cruz, perguntou ao Seu pai: “Por que me desamparastes?” Ele também sentiu-se abandonado, exatamente como você. Mas Deus não O abandonou. Como Ele também não abandonou você. Precisa confiar Nele, Michael. É difícil, eu sei. Mas é nesse momento, quando estamos numa situação ruim, que devemos nos agarrar à nossa fé. Vamos orar juntos, Michael, e Deus vai nos ouvir.

— Ele vai nos ouvir, Bob? Ele estava ouvindo quando todos gritamos de dor e terror na noite da explosão, quando, agora me parece claro, aqueles que explodiram a nossa igreja não acharam que fizeram maldade suficiente por uma noite? E então tiveram que atacar Laura no porão e de um modo garantido para que levasse algum tempo até ela morrer. E não pararam por aí.

Murphy ergueu a cruz de madeira em sua mão.

— A afronta final. Os responsáveis por isso, durante algum momento do dia do funeral, ousaram entrar sorrateiramente na igreja e quebrar sua cruz em três pedaços. É como se houvesse alguma ligação com a busca dos três pedaços da Serpente, embora eu não consiga imaginar que ligação maléfica possa ser essa. Mas, acima de tudo, Bob, não consigo ver a razão de todo esse sofrimento. Perdi a coisa mais importante da minha vida. O que pode Deus fazer por mim agora?

O pastor Wagoner suspirou:

— É natural você fazer esta pergunta neste momento terrível, Michael. Tudo o que posso lhe dizer é que já vi isso muitas vezes. O que Deus pode fazer por você agora é que, diante da maior das tragédias, do mais profundo sofrimento, Ele nos oferta o que chamo de ápice da graça. Ele nos dá a força de que precisamos para superar isso. A força para sobrepujar nossa dor e cumprir o Seu plano para nós.

Murphy bufou.

— Você acha que Deus ainda tem planos para mim?

— Eu sei que Ele tem — disse Wagoner firmemente.

— Bem, não estou muito certo se me interessa.

— Olhe, Michael. Laura foi uma pessoa especial. Mas você também é. Tem uma coragem especial, não tem medo de enfrentar o mal. E, no momento, creio firmemente que necessitamos que você faça isso.

Murphy olhou-o, intrigado.

— Do que está falando?

— Olhe em volta, Michael. Você mesmo começou a dizer isso. Alguém tentou destruir esta igreja. Literal e metaforicamente. Tenho certeza de que não liga a tevê nem lê um jornal desde que Laura morreu, mas, se tivesse feito isso, teria visto as manchetes sobre “terroristas evangélicos” e ‘bombas cristãs”. Alguém está tentando a todo custo nos desacreditar... e até agora realizam um excelente trabalho, a julgar pelo modo como os órgãos de comunicação repetem uns aos outros.

Murphy pensou por um instante.

— Mas o que posso fazer? Sou apenas um arqueólogo.

— Não estou muito certo, Michael. Mas creio que Deus tem uma tarefa para você. E creio que se você deixar Ele lhe dirá qual é.

— Vou tentar, Bob. Mas acho que no momento estou furioso demais por causa de Laura para ouvir o que Ele tem a dizer.

Wagoner deu-lhe um tapinha no ombro.

— Vou para casa agora, Michael. Mas voltarei amanhã. Ainda há muito trabalho para fazer a igreja ficar novamente em forma. Temos de mostrar que o mal não pode vencer.

Murphy baixou a vista para o monte de terra diante deles.

— Talvez já tenha vencido, Bob.

— Bobagem, Michael. Laura está no céu com o seu Senhor, lembre-se disso. Talvez você deva também ir para casa. Vá para casa e reze. Ele lhe dará o que você precisa.

Murphy permaneceu parado diante da sepultura e ouviu os passos de Wagoner afastando-se. As sombras das lápides se encompridaram sobre a grama e o sol começou a mergulhar atrás das árvores. Após alguns momentos, uma pomba branca pousou no topo da lápide de Laura, aparentemente ignorando a presença dele, arrulhando suavemente enquanto alisava com o bico suas perfeitas asas brancas. Ele se pegou sorrindo.

— Bendita seja, querida — disse Murphy baixinho. Colocou a cruz dela em volta do pescoço.

A pomba empinou a cabeça para olhá-lo, então subitamente alçou vôo e precipitou-se através das lápides e atrás da igreja.

Ele ergueu a vista para ver o que a tinha assustado. Bem alto, nos galhos de uma árvore, uma enorme ave de rapina esgaravatava as garras com seu enorme bico curvo. Soltou um único guincho penetrante e soltou-se preguiçosamente no ar, lentas batidas de asas levando-a de volta para as trevas do bosque. Murphy observou-a sumir de vista, então caminhou penosamente em direção à igreja. Resolvera permanecer na igreja porque sabia que ali estaria sozinho, e porque ainda não suportaria ir para casa. E também porque achava que se Deus queria falar com ele, a comunicação seria mais fácil em um lugar de culto. Estava cansado e confuso por causa de tantas coisas. Se Deus queria que ele entendesse o Seu plano, Ele teria de falar alto e claro para comunicar Sua mensagem.

 

SE TIVESSE SIDO UMA CONVERSA CARA A CARA, um dos homens mais poderosos do mundo cairia morto num minuto. Em vez disso, Garra teve que ouvir o intenso berrar de John Bartholomew dos Sete sem reagir, exceto roçar seu afiado dedo indicador na escrivaninha do motel, para lá e para cá, para lá e para cá. Se a conversa tivesse durado mais de dois minutos, é possível que a escrivaninha tivesse sido cortada ao meio, tão fortes eram seus talhos.

— Garra, fui bastante explícito em lhe dizer que Murphy não devia ser afetado.

— Do que está falando? Nem toquei nele, eu matei a mulher dele.

— E se houvesse algum tipo de gene normal na sua estrutura, você se daria conta de que, se alguém perde um ente querido, isso pode ter conseqüências devastadoras. Estamos nos lixando para o fato de ela estar morta, mas se isso o afastar da missão de conseguir os outros dois pedaços da Serpente, você terá fracassado perante nós. E até mesmo você deverá temer as conseqüências.

— Olhe, eu fiz um julgamento subjetivo. Ela estava no caminho e poderia ter me denunciado. Foi apenas uma questão de oportunidade. Além do mais, no mínimo, eu ia pirar só ficando por ali com apenas um arqueólogo para vigiar e um bombardeio para planejar que não teve nenhuma... satisfação pessoal.

— Quero crer, Garra, que entendemos um ao outro e que este tipo de conversa não será nunca mais necessária.

Experimente dizer isto na minha cara e veja qual será a duração de nossa próxima conversa, pensou Garra.

— Aquela mulher da Fundação Pergaminhos da Liberdade visitou Murphy no hospital e eu a ouvi dizer que decifrou a cauda.

— Está vendo? É mais um motivo para trazer Murphy de volta ao caso. Então esse pedaço será nosso. Acredito que ele vai se recuperar rapidamente. Assim que ele o fizer, você poderá voltar à ação. Ainda, repito, sem machucar Murphy. Mas está na hora de reivindicar o primeiro pedaço da Serpente.

— Voltar à ação, é isso que gosto de ouvir.

 

Murphy disparou sua 15ª flecha do mesmo modo como disparara as flechas anteriores naquela tarde. Sem mirar, apenas retesando a corda do arco e arremessando-a no meio das árvores.

Normalmente, a dedicação de Murphy à arte do arco-e-flecha era de meticulosa disciplina. Desde a adolescência, era um perito atirador. Caçava ocasionalmente, mas era a prática do tiro ao alvo que realmente estimulava sua natural energia competitiva.

Mesmo na confusão mental de sua ira, Murphy executou todos os movimentos de um arqueiro habilidoso. Ajustou o protetor de plástico em volta do antebraço esquerdo antes de apanhar uma flecha da aljava pendurada em sua cintura. Lentamente, puxou a corda do arco feito de uma lâmina de fibra de carbono. Retesado ao máximo, o sistema de cabos e roldanas excêntricas montado nas extremidades do arco fornece uma força espantosa às pontas dos seus dedos. Ele precisava apenas expirar, largar, e sua flecha viajaria em direção ao alvo a mais de 100 metros por segundo, igual a um míssil guiado a laser.

Nessa tarde, porém, as lágrimas que escorriam de seus olhos inopinadamente, a ira que inquietava sua mente e a dor residual em seu ombro se combinavam para fazer as flechas correrem errantes através das árvores, mas ainda de maneira mortal.

Murphy não parecia ligar. O relaxamento dos músculos com cada disparo de uma flecha parecia tão natural, mas tão incontrolável quanto suas lágrimas.

Sem que ele notasse, o homem conhecido por Garra o tinha seguido e o observava de várias centenas de metros distante através de um binóculo. Com os Sete tendo alertado que se aproximar de Murphy ainda lhe era proibido, ele sabia que não podia atacá-lo naquela tarde. Sem poder canalizar suas habilidades assassinas para uma ação imediata, Garra ficou bastante surpreso por se descobrir admirando a evidente força de Murphy. Sua força física, os músculos do braço e a coordenação necessária na utilização do arco para até mesmo atirar distante de qualquer alvo, e não sua força de caráter, pois, como Garra fora agraciado com zero de empatia, não era capaz de apreciar o quanto Murphy era fustigado pela dor.

Garra agitou-se e fixou a vista quando surgiu um som se aproximando de Murphy pelo lado aposto. No momento seguinte, ouviu a voz de um homem, mas ainda não conseguia enxergar ninguém além de Murphy. Por um segundo, pensou que o perturbado Murphy estivesse gritando consigo mesmo.

— Arre! Chama isso de disparo, Murphy? Já vi cegos acertarem mais perto do alvo. — Levi Abrams chegou ruidosamente através das árvores pelo outro lado de Murphy.

— Levi, vá embora. Por favor.

— Não posso. Fui enviado pelo ursinho protetor das matas contra incêndio para proteger as árvores de você. Com toda a sua raiva, disparando todas essas flechas nas árvores, poderia destruí-las mais do que um incêndio florestal.

— Levi, estou lhe avisando, não estou bem-disposto. E me deixe em paz.

— Negativo, Murphy. Vou ficar aqui, quebrando um galho, até quando restar um galho numa árvore de todo esse bosque. Vou lhe dizer francamente, Murphy. O que aconteceu com Laura foi terrível. Mal consigo imaginar sua dor.

Murphy não parou seu modo automático de disparar contra as árvores. Só lhe restavam algumas poucas flechas.

— Aliás, Murphy, consigo imaginar realmente o que você está passando. Quando minha primeira mulher e minha filha morreram na explosão de um ônibus em Tel Aviv cinco anos atrás, achei que não conseguiria seguir em frente. Para mim, não foi um arco e flechas. Foram 210 disparos no estande de tiro ao alvo ao mesmo tempo em que engolia um litro de uísque em tempo recorde. Isso foi apenas na primeira noite. Levei seis meses para me firmar. E sabe de uma coisa?

Murphy disparou sua última flecha. Pela primeira vez na tarde toda, esta acertou o centro do alvo colocado no tronco de uma árvore, aquela mais próxima de onde Levi se encontrava. Murphy largou no chão o arco e encarou Levi com um olhar selvagem.

— O quê?

— Foram seis meses desperdiçados. Eu estava deixando aqueles cães árabes vencerem. Estava deixando que levassem, em suas sangrentas mãos sujas de assassinos, as doces lembranças que tinha de minha mulher e de minha filha e só lembrando delas como vítimas. Você não vai querer isso para Laura. Ela era boa demais para isso. E você também, meu amigo.

Murphy recuou. As lágrimas pararam.

— Levi, isso não faz sentido para mim.

Levi estendeu o braço para envolver o amigo.

— Para mim também não, Murphy. Não sou nenhum especialista, mas recorri a duas pessoas que são e sei que elas podem ajudá-lo a seguir em frente novamente, como você precisa. Conversei com o seu pastor Bob. Como cristão, você acredita na ressurreição, uma vida após a morte, quando estará novamente com Laura para sempre. Aguarde com fé esse acontecimento e, nesse meio tempo, volte a trabalhar! Sabe que é isso o que Laura gostaria que você fizesse. Não finjo entender essa parte de sua fé, mas sei que você entende, e está na hora de colocá-la em ação.

“Em segundo lugar, Murphy, falei com Ísis McDonald. Ela está pronta para repassar a tradução da cauda da Serpente com você. Já consegui um avião para levá-lo a Washington, D.C., esta tarde.”

Murphy apanhou seu arco. Agarrou Levi pelo pescoço.

— Obrigado, Levi, meu amigo. Você daria um bom cristão se algum dia decidisse se chegar a nós. Sabe que rezo para isso. Tomarei seu avião, mas antes preciso fazer uma escala.

 

Garra observou os dois caminharem através do bosque. Ótimo, pensou. Agora ele também podia esperar ansioso para voltar à ação. Em Washington.

 

LAURA TERIA FICADO DESGOSTOSA, mas não surpresa ao ver o sujo e exausto Michael Murphy com a barba por fazer caminhar lenta mas intencionalmente até o púlpito da igreja.

O reverendo Wagoner estendeu a mão, de boas-vindas.

— Pastor, posso dirigir algumas palavras à igreja?

— Claro, Michael.

— Amigos... muitos de vocês são meus amigos, e creio que se trata de um conceito que se torna mais importante somente quando você está sofrendo, mas não senti muita vontade de estar entre amigos desde a morte de Laura.

“Creio que é porque está claro para mim que quem a matou foi um arremedo de pessoa, um mal ambulante.

“E não pude detê-la. E é por isso que não senti muita disposição em me aproximar das pessoas.

“E o pior de tudo, não senti muita disposição de me aproximar de Deus, porque fiquei com raiva e andei culpando-O, sentindo-me tão incapaz de seguir em frente, tão abandonado por Ele e confuso. Mas me dei conta de que Deus tem um plano para mim, não importa o quanto tenha sido dolorosa essa parte dele.

“Creio que comecei a me dar conta disso quando uma bem-intencionada colega minha me levou o pedaço da Serpente de Bronze de Moisés no hospital. O pedaço que Laura e eu encontramos em nossa última aventura juntos. Por um momento, fiquei quase tentado a renunciar ao meu Deus quando essa colega sugeriu a troca de minha fé por esse falso ícone.

“Dei-me conta esta manhã de que a Serpente é um sinal para eu não desistir de minha fé, mas renová-la. Acredito que era sobre isso que o pastor Bob se preparava para falar na noite em que houve a explosão. De todas as pessoas que me ajudaram a retomar meu rumo, foi o meu amigo israelense Levi Abrams que me mostrou que, se nos abrirmos, a orientação e a inspiração vêm de todos os tipos de lugares.

“Aqui, diante da maior das dores e do mais desconhecido mistério de minha vida, a perda de minha alma gêmea, do mesmo modo que Moisés com a Serpente, minha fé está sendo testada, mas não recuarei. Do mesmo modo que Moisés com a Serpente, tenho uma responsabilidade a cumprir, meus deveres, meu serviço, em face de todo o mal, do medo e da desordem do mundo à minha volta.

“Portanto, hoje quero anunciar a vocês, meus amigos cristãos, que confiarei o futuro ao Senhor e acredito que Ele ainda tem um plano para a minha vida, mesmo enquanto sofro. E com Sua força e esperança posso superar a pior tragédia da minha vida e voltar a trabalhar. Portanto, obrigado pelas suas preces e por me deixarem arrancar isso do peito. Agora partirei para encontrar os outros dois pedaços da Serpente de Bronze. Estou convencido de que é o que Deus e Laura iam querer que eu fizesse.

 

FOI UM DIA REPLETO DE EMOÇÕES contraditórias. Durante a vigília que Shari mantinha com Paul ainda inconsciente, ele começou a se mexer, e depois, de repente, abriu os olhos. Estava muito fraco, mas conseguiu falar, e parecia revelar poucos efeitos de sua inconsciência. Conseguiu até mesmo sorrir para ela. Os médicos e as enfermeiras entraram correndo e quiseram começar a examinar Paul, e por isso pediram que Shari se retirasse.

O agente Baines do FBI estava à espera dela no corredor do hospital. A notícia que trazia era terrível, um dos seus piores pesadelos tornado realidade, mas também deu a Shari uma sensação de alívio. Os exames haviam finalmente revelado a identidade da pessoa que restava e que fora vitimada no porão da igreja. O corpo estava completamente destruído, portanto o exame de DNA fora um desafio. Contudo, estavam agora convencidos de que era o irmão dela, Chuck. E o FBI acreditava que fora ele quem detonara a bomba que estava de alguma forma amarrada em suas costas.

Shari não via Chuck desde a manhã de quarta-feira, o dia da explosão, e, é claro, ficara preocupada com seu paradeiro, mesmo admitindo a possibilidade de que ele poderia estar envolvido de alguma forma no bombardeio, embora fosse o sujeito mais ateu e apolítico que conhecia. Estranhamente, andara torcendo para que o irmão estivesse apenas fazendo alguma farra com o seu novo amigo.

Agora a aparente verdade foi estabelecida e ela sentiu as lágrimas quentes escorrerem pela face. Qual teria sido a intenção dele ao explodir a igreja? Só podia ter sido influência do seu estranho amigo. Shari preparou-se para a artilharia de perguntas do agente Baines. Para sua surpresa, ele foi muito gentil.

— Srta. Nelson, lamento pela sua perda. Há uma porção de perguntas por intermédio das quais você poderia nos ajudar a descobrir como e por que o seu irmão teria bombardeado a igreja. Mas, se precisar de tempo para tratar disso, eu entenderei.

Shari olhou para a equipe médica que cuidava de Paul, sua alegria, e deu-se conta de que talvez passasse horas sem vê-lo. Virou-se para o agente Baines.

— Não, vamos tratar logo de Chuck e deixar essa tragédia de lado.

 

Rapidamente ficou perfeitamente claro que Chuck estava mais para vítima do que cruel idealizador do atentado contra a igreja. Baseado em sua ficha criminal, o FBI verificou que ele não tinha experiência nem inteligência para lidar com explosivos, e Shari frisou a total falta de interesse dele em fazer parte de qualquer grupo religioso, mesmo se tivesse havido uma fábrica de bombas de fanáticos religiosos naquele porão — algo em que o FBI não estava inclinado a acreditar assim que analisaram os destroços e fizeram seus interrogatórios.

Uma hora depois, o agente Baines conduziu Shari de volta ao hospital.

— Por mais bizarro que pareça, quase desejei que todos vocês fossem um bando de fanáticos religiosos, como diz a imprensa. Isso parece uma sórdida tentativa de envolver os cristãos evangélicos, do mesmo modo como aconteceu com a mensagem na ONU. Com que objetivo, além de desordem, nós não sabemos. Mas vamos descobrir, e pegá-los.

— Espero que sim, agente Baines. Todos nós ficaremos aliviados em deixar a perturbadora luz do holofote que alguém está projetando sobre a nossa fé, aparentemente para afetar pessoas inocentes e nos constranger.

 

Quando Shari retornou ao quarto de Paul no hospital, ficou feliz em ver que os médicos tinham ido embora, mas ele não estava sozinho. Um homem de aparência muito distinta, vestido com um terno bem cortado, debruçava-se bem próximo de onde Paul estava deitado, falando muito seriamente.

— Oi, Paul.

Paul sorriu quando ela entrou no quarto.

— Oh, Shari, que bom que voltou. Este é Shane Barrington, o Shane Barrington. Veio aqui me visitar. Imagina!

— Como vai, srta. Nelson. Paul me falou da boa amiga que tem sido para ele. Que tragédia para um jovem ter que lidar com o ano que tem tido até agora.

Havia algo em Barrington que fazia Shari ficar com um pé atrás.

— Sim, sr. Barrington. Mas, perdoe-me, por que um homem rico e poderoso como você se importaria com a vida de Paul?

Paul estava fraco, e a pergunta de Shari fez com que empalidecesse ainda mais.

— Shari, não há motivo para ser indelicada com o sr. Barrington.

— Ora, não vejo isso como indelicadeza, Paul. Recentemente, sofri uma terrível violência em minha família, que levou de mim o meu único filho. Ao saber desse bombardeio e o que aconteceu ao professor Murphy e a você, senti que devia vir e oferecer meu apoio. Foi exatamente isso que falei na entrevista coletiva de imprensa. Quero ajudar as vítimas e combater criminosos de todo tipo.

Paul sorriu.

— Bem, com certeza foi bom ter vindo, senhor.

Barrington deu um tapinha no ombro de Paul.

— Não estou aqui apenas para ser sociável, Paul. Minha equipe pesquisou sua história e ela me fez lembrar do meu filho, das chances que ele agora não terá e, lamento dizer, das oportunidades em que eu teria de estar presente, enquanto ele amadurecia e enfrentava alguns problemas. — Puxou um envelope do bolso. — Portanto, tomei a liberdade de oferecer a você uma bolsa especial da Comunicações Barrington para a Preston. Não terá qualquer problema financeiro enquanto permanecer na escola.

Os olhos de Paul ficaram marejados com lágrimas agradecidas. Shari passou a desconfiar ainda mais desse sr. Barrington e seu repentino interesse em Paul. Aquele estava se tornando um dia e tanto.

 

NABUCODONOSOR PAROU NO LUGAR mais alto dos baluartes do palácio enquanto uma leve brisa do rio agitava delicadamente seu manto e enchia suas narinas com os odores de nova vida. Que estranhos são os procedimentos da mente, refletiu. Há poucos meses ele fora atormentado pelo sonho de uma enorme estátua, reduzida a um impotente destroço pela sua inabilidade de lembrar um único detalhe dele. Então o escravo hebreu, Daniel, o reconstruíra para ele, e desde aquele dia ele sonhara com a estátua todas as noites, intensos, nítidos devaneios quase insuportáveis que não o deixavam esgotado e confuso como antes, mas ávido e revigorado quando acordava.

Desde que Daniel explicara o significado do sonho, que não haveria nenhum império na história do mundo maior do que o da Babilônia, nenhum governante maior do que ele, Nabucodonosor, rei dos reis, ele sentiu uma nova energia correr por suas veias, uma sensação de exuberância, inebriante, de um poder quase sobre-humano. Certamente, ninguém lhe poderia resistir agora; certamente, cada tribo, cada nação, desde as distantes montanhas onde o sol se levanta até as praias desconhecidas onde ele mergulha de volta ao mundo inferior, devem reconhecer sua autoridade, devem curvar-se diante de seu poder imperial e sentir seu pé em seus pescoços.

Olhando a planície adiante, já conseguia ver muitos de seus súditos labutando no calor da primavera. Centenas, milhares de homens, puxando cordas, erguendo enormes vigas, enxameando como formigas sobre o chão árido. Mesmo àquela distância, ele podia ouvir vagamente o estalar dos chicotes, sentir a ferroada do couro picando a pele nua, enquanto seus capatazes os forçavam além do limite da exaustão.

Era apenas sua imaginação, ou ele sentia na brisa o cheiro do suor dos seus operários? Sua esposa, Amitis, enchera seus jardins com todo o tipo de flores e plantas para lembrá-la dos viçosos refúgios de sua nativa Pérsia, e ele costumava passear por lá, enchendo os pulmões com suas magníficas fragrâncias. Contudo, mesmo a mais exótica de suas flores não cheirava tão bem quanto aquilo: o suor de homens que morreriam por nenhum outro motivo a não ser glorificar seu nome.

Quando o sol ficou mais alto e o ar começou a tremer com o aumento do calor, seus olhos desviaram-se das fervilhantes multidões de operários para o enorme objeto no centro da planície. Este jazia como um gigante prostrado atado por uma imensa teia de cordas. As cordas, porém, não eram para mantê-lo no lugar. Estavam ali para erguê-lo. E, ao ouvir os gritos de seus capatazes e os cruéis golpes de açoites aumentar de intensidade, percebeu que a estátua, finalmente, estava para ser colocada no local que lhe fora designado. Que seu sonho, finalmente, se tornava realidade.

Por um tempo, a enorme figura não se mexeu, e por um terrível momento ele se perguntou se seus engenheiros haviam calculado mal, que era simplesmente impossível erguer do chão um peso tão grande, não importava quantos escravos ele tivesse às suas ordens. Pois, certamente, um feito tão ambicioso nunca fora tentado, nunca sequer fora imaginado antes.

Mas, então, o gemido de milhares de metros de cânhamo torcido misturado com os gritos agonizantes de músculos comprimidos além da resistência deu lugar a um som mais forte, de deslocamento, enquanto a estátua parecia erguer-se sozinha da poeira e começar a flutuar acima. O rei abriu a boca em admiração, incapaz de livrar-se da convicção de que a estátua estava de algum modo viva, investindo sozinha na direção dele.

Gritos de terror e dor subitamente cortaram o ar quando várias cordas presas ao imenso torso da estátua romperam, e dezenas de operários foram arremessados ao solo pelo terrível rechaço. A figura pareceu hesitar, então, quando Nabucodonosor, os dentes trincados, desejou que fosse à frente, ela pareceu recuperar o momento linear e, com um último e possante esforço, seus grandes pés, com um ruído surdo, encaixaram-se no lugar, enviando para o alto uma imensa nuvem de pó amarelo.

Nabucodonosor não ouviu o ruído de milhares de homens gritando, fosse de dor pelos músculos dilacerados e tendões rompidos, ou simplesmente de alívio pelo seu tormento ter chegado ao fim. Tudo o que conseguiu ouvir foi o bater de seu coração e a aspereza de sua respiração, enquanto agarrava a parede e engolia grandes lufadas de ar. Lentamente, agonizantemente, lentamente, a poeira que envolvia a estátua começou a se dissipar no vento e sua visão começou gradualmente a ganhar vida diante dele.

Como se alguém tivesse colocado uma chama num caldeirão de óleo em um quarto escurecido pela noite, o sol subitamente banhou a enorme extensão da testa e imediatamente a grande cabeça explodiu numa luz dourada. Protegendo os olhos do rosto ofuscante, Nabucodonosor soltou demorados soluços de exaltação quando o resto da estátua se revelou. Primeiro o peito e os braços de prata, depois a barriga e as coxas de bronze e, finalmente, as pernas de ferro escarranchadas acima das pilhas de andaimes quebrados e cadáveres ensangüentados.

Medindo plenos 90 cúbitos de altura, sua musculosa conformação gravada em duras linhas metálicas, a estátua assomava sobre a Babilônia como um grande, cruel deus.

Quando seus olhos se adaptaram ao clarão, o rei pôde finalmente distinguir as feições do rosto dourado. Os grossos lábios estavam curvados para baixo num vingativo ar de desdém, os olhos vazios queimando com ferocidade.

Com uma trovejante gargalhada que ressoou pela planície, ele reconheceu o rosto como seu.

 

ÍSIS DEU UMA ÚLTIMA OLHADA na cauda da Serpente, suas escamas de bronze reluzindo sob as luzes de halogênio, e jogou-a num saco de náilon. Pegou o cartão magnético que levava pendurado no pescoço e o inseriu numa pesada porta de aço, que abriu girando com um leve silvo. No seu interior, as metálicas prateleiras cinzentas estavam quase vazias. Apenas uma caixa-forte que ela sabia conter um inestimável colar do sítio de Tróia e dois tubos de aço recheados com papiros da tumba de uma princesa egípcia da Terceira Dinastia recentemente escavada. Depositou o saco entre os tubos, empurrou a porta e a fechou firmemente.

— Este lugar é como Forte Knox — disse ela. — Não imagino como alguém sem autorização consiga descer aqui. E, se passar pelos alarmes e os seguranças e sei lá o quê, terá que atravessar isto aqui. — Deu uma pancadinha na porta com os nós dos dedos. — Digamos que, às vezes, tenho pesadelos em que sou trancada aqui por engano. Quando, finalmente, abrem a porta, encontram apenas uma velha múmia ressecada — disse ela, estremecendo.

— Creio que isso seria uma justiça poética, não é mesmo? — comentou Murphy.

— Como assim?

— Sabe como é, ser transformada em um artefato antigo.

Ela deu uma fungada.

— Talvez, se eu fosse arqueóloga. Creio que é você quem precisa tomar cuidado. — Pestanejou e colocou a mão na testa. — Olhe desculpe...

Murphy colocou a mão sobre o braço dela.

— Vamos esclarecer uma coisa. Não precisa pisar em ovos. Não tem de ficar preocupada com o fato de que eu vá me desfazer em pedaços, se acidentalmente você fizer uma menção à morte. Pode até mesmo falar sobre Laura, se quiser.

Ela soltou um suspiro de alívio.

— Ótimo. Eu gostaria disso. Isto é, falar sobre Laura.

Ela caminhou até uma porta na parede de arame de gaiola, que ia do chão ao teto, e abriu-a com um cartão magnético. Quando a porta se fechou automaticamente atrás deles, Murphy observou de relance uma placa de metal onde se lia: ÁREA DE ARMAZENAGEM DE SEGURANÇA — PROIBIDO PARA PESSOAS NÃO AUTORIZADAS ALÉM DESTE PONTO. Viu Ísis desaparecer ao dobrar num canto e apressou o passo para alcançá-la. Deu-se conta de que, sozinho, jamais conseguiria achar o caminho naquele labirinto subterrâneo.

— Este lugar foi projetado pelo mesmo sujeito que construiu a pirâmide de Senaqueribe?

— A tal com passagens sem saída e corredores falsos? A tal que chamam de... Labirinto do Esquecimento? — Soltou uma gargalhada. — Eu não ficaria surpresa.

Finalmente, ela o conduziu escada acima até uma porta que, para surpresa de Murphy, abria diretamente para o estacionamento dos funcionários. Ísis percebeu que Murphy olhava para a cabine de segurança ali ao lado.

— Há uma em cada entrada — informou ela. — Os guardas mantêm contato pelo rádio com a estação central de segurança no prédio principal. É onde são monitorados todos os sistemas eletrônicos de vigilância.

Ele pareceu satisfeito.

— Bem, aonde estamos indo?

— Receio não ser uma especialista nos restaurantes locais. Não costumo muito comer fora. Geralmente, como uma pizza na minha sala.

— E à noite?

Ela pareceu sem jeito.

— A mesma coisa.

— Sempre pizza?

— Por que não? Carboidrato puro. Nutrição mínima. Poderia ser o prato nacional dos escoceses.

— Uma pizza, então.

Ela apertou os lábios.

— Acho que podemos fazer melhor do que isso. Que tal o segundo prato nacional favorito dos escoceses: curry?

— Qualquer coisa quente para mim está ótimo.

— Talvez você se arrependa disso — disse ela, dando-lhe o braço.

Um táxi levou-os pela via expressa da 12th Street, um dos vários túneis que atravessavam o Mall, a grande extensão de cerca de cinco quilômetros com áreas verdes, monumentos e edifícios do governo no coração da cidade. Emergiram na E Street e logo seguiram para Chinatown.

O Estrela da Índia, improvavelmente aninhado entre a Yip’s Noodle House e o Jade Palace, estava escuro e praticamente vazio. Acompanhados por chá e popaduns, eles vasculharam o menu enquanto os mais recentes sucessos em hindi tocavam ao fundo, Ísis deteve-se no camarão em vinha-d’alho enquanto Murphy reconhecia a derrota antes mesmo de a competição ter começado, pedindo uma galinha ao curry.

— Bem, fale-me da inscrição.

— Achei que nunca ia perguntar — comentou ela, abrindo um espaço na mesa. Tirou da bolsa um pedaço de papel amassado e alisou as beiradas. — Levou uma eternidade. Foi realmente o trecho de caldeu mais complicado com que me deparei. Mas, após o seu telefonema, creio que finalmente o decifrei... pelo menos as partes mais importantes. Acho que sua teoria é correta, que o sumo sacerdote Dakkuri escreveu esse enigma com duas intenções: ele queria que o leitor entendesse como encontrar o restante da Serpente, mas, por outro lado, pretendia que não caísse nas mãos de pessoas erradas. Por isso, ocultou tudo em uma linguagem metafórica realmente bastante difícil de se penetrar. Como uma espécie de concha em volta de sua mensagem.

— Quem são as pessoas erradas?

— É difícil dizer. Sabemos que Dakkuri recebeu ordem de Nabucodonosor para se livrar da Serpente, juntamente com todos os demais ídolos. Presumivelmente, se alguém leal ao rei encontrasse onde Dakkuri a escondera, ele a destruiria... e o próprio Dakkuri não se sairia muito mal.

— Isso faz sentido. Mas quem são as pessoas certas? Quem Dakkuri queria que encontrasse a Serpente?

— Boa pergunta. — Seu dedo percorreu as linhas até encontrar o que queria. — Aqui. Há um encantamento convencional. E bastante comum. A gente vê em todo tipo de inscrição. Algo do tipo “somente os puros de coração conseguirão o que procuram”.

— Parecem os mocinhos.

— Eu diria que era algo parecido. Aliás, ele substitui o “puros” por outra palavra. Não faz muito sentido, porém o mais próximo que consigo é “somente o escuro de coração” ou “somente aqueles com escuridão no coração”. — Sorriu. — Portanto, creio que isso liquida com suas chances, não é mesmo?

— Você ficaria surpresa — disse Murphy. — Neste momento, há bastante escuridão em meu coração. — Ela olhou-o e mordeu o lábio. Ele gesticulou com a cabeça em direção ao papel. — Continue. O que mais diz o homem?

— Bem, há mais alguns encantamentos para alguns dos menos conhecidos deuses babilônicos... e depois chegamos ao que interessa. — Apontou para um parágrafo. — “Os pedaços da cobra sagrada estão espalhados e distantes, porém ainda unidos. Aquele que for sábio o bastante”... na verdade, “determinado” talvez seja uma palavra melhor... “para encontrar o primeiro já tem o segundo nas mãos. Encontre o terceiro e o mistério deverá retornar.” Este último trecho me deixou algum tempo desnorteada. Ainda não tenho certeza se traduzi corretamente. Mas ‘mistério” é o único modo que vejo para traduzir isso.

— Mistério — repetiu Murphy. — Muito bem. O que ele está dizendo é que cada pedaço da Serpente tem uma inscrição informando onde achar o seguinte.

— Creio que sim.

Ele sorriu.

— Bem... onde está o segundo pedaço?

Ela virou o papel de lado.

— Bem no final. Suponho que Dakkuri supôs que, se você chegou até aqui, era certamente o tipo de pessoal dele. Lá vamos nós. “Olhe para o deserto e o amo de Erigal pegará sua mão esquerda...”

— Que significa isso?

— Bem, Erigal é um demônio babilônico bem inferior. Alguns especialistas nem mesmo o incluem nos livros didáticos. Mas meu pai era um pouco mais radical do que a maioria — observou ela orgulhosamente. — Encontrei-o em uma de suas cadernetas de anotações. Pois bem, a função de Erigal é fazer serviços ocasionais para Shamash, o principal deus babilônico. Tipo Zeus ou Odin. Pelo menos o principal masculino. Só consegui imaginar o que Dakkuri pretendia ao me dar conta de que Shamash foi originalmente um deus do sol.

— E daí?

— E daí que o amo de Erigal... Shamash... pegar a sua mão pode significar o sol nascente.

— E se ele pegar sua mão esquerda você estará encarando o sul.

— Exatamente.

—E se você estiver perto de Babilônia e olhar para o sul, estará olhando na direção da... Arábia Saudita.

— O deserto.

Ísis levantou da mesa o pedaço de papel quando um garçom com uma ofuscante camisa branca e gravata-borboleta preta colocou os pratos diante dos dois. Inspirando os vapores aromáticos, Murphy subitamente deu-se conta do quanto estava com fome. Mas não conseguiria comer enquanto não tivesse a resposta.

— É um grande deserto — observou ele. — Fácil de se perder um exército por lá, quanto mais um pedaço de bronze com 30 centímetros.

— Ele é bem mais específico do que isso — disse ela, ofendida, como se Murphy a estivesse criticando pessoalmente. — Ele prossegue dizendo que “daqui a 20 dias, aquele que busca vai aplacar sua sede. E sob seus pés ele encontrará”.

Murphy encarou-a inexpressivamente.

— Não percebe? Ele deve estar se referindo a um oásis. Vinte dias ao sul da Babilônia. — Cruzou os braços, triunfante.

Murphy abriu um sorriso.

— Esse lugar tem nome?

— Ah — fez ela, o rosto abatido. — Esse é o problema. Ele tem nome, claro. E uma população de cerca de um milhão de pessoas. Se o segundo pedaço da Serpente estiver debaixo de Tar-Qasir, você terá que escavar por toda uma cidade moderna para encontrá-lo.

 

— OLHE, SOU GRATO POR TUDO que você tem feito. — Murphy estava sentado na área-de-desastre-de-Ísis-que-se-fazia-passar-por-escritório e sentia-se em casa. — Gostaria que houvesse algum modo de recompensá-la, mas de modo algum deve ir a Tar-Qasir. Por enquanto, vou deixar aqui a cauda da Serpente, sob a guarda da fundação, depois providenciarei uma viagem ao Oriente Médio para descobrir o que falta dela. Sozinho.

— E se encontrar o segundo pedaço em Tar-Qasir? — insistiu Ísis. — Precisará de mim para traduzir a inscrição que houver nela. Sou a única capaz disso. — Ela sabia que sua voz se tornava mais aguda quando a raiva aumentava, mas não se importou com isso.

— Você me orientou em relação à inscrição da cauda. Acho que agora posso me virar sozinho. Eu ligarei, se ficar entalado.

Ela bufou em menosprezo.

— Rá! Não saberia nem por onde começar. Não creio que consiga distinguir esse tipo de cuneiforme de um buraco no chão e, levando-se em conta que você é um arqueólogo e eu sou uma filóloga, isso faz muito sentido, não acha?

Ele suspirou.

— Olhe, não entendo por que está fazendo toda essa confusão a respeito disso. Ser pesquisadora de campo não é a sua.

Aliás, ela também não entendia. Até poucos dias atrás, o máximo que chegara perto de uma pesquisa de campo tinha sido tentar desenterrar alguns livros ou papéis de pilhas empoeiradas que havia em seu escritório. Agora se oferecia para viajar meio mundo numa busca bizarra por um artefato que, se não fosse realmente amaldiçoado, com certeza parecia ter uma aura nitidamente desagradável em volta dele.

Ela inspirou fundo e tentou dar um jeito na confusão de emoções que redemoinhavam em seu interior.

— Tenho certeza de que está tentando ser cavalheiro e toda essa bobagem, mas quero apenas que admita que, se pretende seriamente encontrar todos os pedaços, vai precisar de mim.

Murphy continuou calado.

— Sei que você acha que sou uma mulher frouxa que passou a vida com a cara enfiada em livros velhos. — Percebeu uma insinuação de sorriso no rosto de Murphy. — E talvez tenha razão. Mas talvez eu tenha decidido que está na hora de limpar um pouco as teias de aranha. Talvez eu tenha decidido que está na hora de mostrar ao mundo que o meu pai não era o único dr. McDonald disposto a correr alguns riscos para conseguir o que queria.

Murphy impediu-se de comentar E veja o que aconteceu com ele.

— Você é uma mulher muito teimosa, sabia?

— Sim. Teimosa... e despachada. Tomei a liberdade de falar ontem com o nosso presidente. Ele concordou que a Fundação Pergaminhos da Liberdade fornecerá o avião e a verba para a sua expedição... para a nossa expedição... em troca de poder exibir a Serpente aqui no museu da FPL. Isto é, supondo-se que a Serpente tenha um corpo e uma cabeça, e, se os encontrarmos, possamos trazê-los para casa.

— Ísis, você saiu da linha ao solicitar essa verba antes de eu concordar com sua ida. — Murphy soltou um demorado suspiro — Mas obrigado, pois não creio que pudesse ir a Tar-Qasir sem a generosidade da fundação.

Ísis olhou-o com nervosa expectativa.

— Está bem. — Murphy sorriu. — Nós vamos a Tar-Qasir. Mas, se as coisas fugirem ao controle, e falo sério, você voltará no primeiro avião. Combinado?

 

NA TARDINHA DO DIA EM QUE Ísis McDonald e Michael Murphy voaram para o Oriente Médio, o segurança na cabine da entrada da FPL não notou a dupla de falcões-peregrinos emergir do telhado de uma van preta no estacionamento. Mas como o seu serviço exigia que se concentrasse por longos períodos com muito pouco incentivo, é possível que durante o anoitecer ao final de um longo dia ele estivesse começando a ficar apático por causa da desmedida rotina de observar monitores e checar de hora em hora os registros.

Se ele tivesse notado os falcões, teria visto as delgadas formas escuras seguindo em direção ao céu numa clássica subida em espiral, usando as tiragens ascencionais do asfalto abaixo castigado pelo sol para aumentar as batidas uniformes de suas asas musculosas. Se ele fosse um passarinheiro, as elegantes silhuetas dos falcões teriam sido imediatamente reconhecidas e talvez até sorrisse para si mesmo enquanto observava, seu ânimo renovado pela inesperada visão.

Falcões-peregrinos, de certa forma, eram o epítome da beleza selvagem, indomável, e não foi surpresa o fato de a ganância e a voracidade do homem terem-nos expulso de vários de seus habitats naturais. Ainda assim, adaptaram-se surpreendentemente bem a viver no coração das cidades mais modernas e densamente povoadas. No agreste, eram mais felizes fazendo seus ninhos em altos rochedos e apresando outras aves; nas cidades, arranha-céus e pombos satisfaziam suas necessidades numa abundância quase sobrenatural.

Talvez, se fosse dado a um modo de pensar espiritual, o guarda pudesse refletir que chegará uma época quando muitas cidades serão abandonadas com o mundo mergulhado em conflito e caos e os falcões herdarão os arranha-céus vazios, como se o tempo todo lhes tivessem pertencido.

O que o guarda não conseguiria imaginar era que em questão de minutos um dos pássaros o mataria.

Seu colega, postado diante da porta pela qual Murphy e Ísis haviam deixado o prédio, estava igualmente alheio. No momento em que os dois pássaros atingiram o ápice, aproximadamente 300 metros acima do solo, sua mente ruminava sobre um conhecido enigma. O magro salário não era suficiente para cobrir as dívidas de jogo, quanto mais sustentar uma esposa, que parecia culpá-lo pelo modo como o tempo devastava seu rosto e seu corpo, e ela se vingava nos cartões de crédito dele.

Ali, porém, o guarda estava literalmente sentado sobre uma mina de ouro. Uma mina de ouro da qual tinha a chave — ou pelo menos algumas das muitas chaves — na mão. No fundo, sabia que seria preciso alguém muito mais inteligente e muito mais inventivo do que ele para apostar dinheiro vivo contra o seu acesso de segurança, mas, do mesmo modo que algumas pessoas mascam tabaco ou esculpem gravetos, ele achava relaxante esse processo aparentemente sem sentido.

Ele estava bem relaxado quando a maior das aves, a fêmea, firmou-se no ar com uma leve pancada de suas asas e dirigiu sua penetrante visão túnel para o sujeito alto de pé no estacionamento a 300 metros abaixo. Ele estava vestido de preto dos pés à cabeça e, para quem olhasse para o estacionamento, poderia facilmente ser confundido com as sombras que aumentavam de tamanho. Entretanto, para o falcão, ele parecia como um farol. Em parte por causa de sua visão extraordinariamente aguçada — e em parte porque a ave o conhecia muito bem.

Também sabia o que ele esperava dela.

O homem erguia acima da cabeça a mão com luva de falcoaria. Para quem passasse, poderia parecer um homem acenando para um táxi. Sem dúvida, algo estranho para alguém fazer no meio de um estacionamento. Na realidade, porém, ele fazia algo muito mais estranho.

Chamava a morte para baixar do espaço.

Garra ergueu a vista e viu a mancha preta contra um céu de delicado cor-de-rosa de início de noite. A ave parecia sem peso e empoleirada no ar, ele quase podia sentir sua impaciência. Ela queria que ele cortasse o fio invisível que a mantinha presa e a libertasse.

Baixando a mão com um movimento brusco, ele fez exatamente isso. Vendo o gesto, ela girou uma vez para se localizar, fixou os olhos no alvo e dobrou as asas para baixo do corpo. A gravidade fez o resto.

Um falcão descendo de uma altitude dessas pode acelerar a uma velocidade de cerca de 300 quilômetros por hora. Rápido demais para o olho humano acompanhar, a melhor orientação para mostrar seu avanço é o som do ar sendo cortado ao meio por essa bala veloz de músculos, penas e ossos. Garra preferia olhar o alvo e simplesmente esperar pelo inevitável.

Enquanto sua mente vagueava por conhecidas fantasias de ficar-rico-depressa, o segurança notou um homem vestido de preto parado entre duas fileiras de carros olhando diretamente para ele. Seria sua imaginação ou um truque do desaparecimento gradual da luz, ou havia um ar de divertida expectativa no rosto do homem? Um ar que parecia dizer Eu sei de uma coisa que você não sabe.

Instintivamente, virou para a direita quando o canto de seu olho registrou um borrão de movimento, e então as lâminas presas às garras do falcão-peregrino rasgaram sua garganta com ofuscante velocidade. Com as carótidas escoando, ele deu alguns passos cambaleantes, a mão agarrada à laringe estraçalhada, em seguida desabou, um monte de membros contorcendo-se.

Garra esperou até tudo acabar, então aproximou-se e examinou o corpo, tendo o cuidado de evitar a poça de sangue que se alastrava. Enfiando a mão no interior do paletó, retirou um molho de chaves e começou a apalpar em busca da forma que desejava. Atrás de si, podia ouvir passos vindos da direção da cabina da segurança, lentos e cautelosos a princípio, e então acelerando para um trote ao se aproximar. Ele colocou as chaves no bolso e esperou.

— Muito bem, cara. Levante-se devagar e vire-se. Mantenha as mãos onde eu possa vê-las.

Garra ergueu as mãos e mostrou o seu melhor sorriso do tipo Quem, eu? O guarda manteve-o na mira do revólver e desviou um olhar para o corpo no chão. Vendo que não podia ajudar o colega e ficar de olho em Garra, alcançou o rádio em seu cinturão. Garra deixou um dos braços baixar bruscamente.

— Eu mandei manter as mãos... — Mas as palavras morreram em sua garganta quando o segundo falcão-peregrino atacou com força sua nuca, rompendo sua medula espinhal com uma única perfuração de suas garras. Garra afastou-se para o lado quando o guarda desabou pesadamente no asfalto. Abrindo um saco plástico com fecho, ele retirou um casal de pombos selvagens e segurou-os com os braços esticados. Após alguns segundos, ambos os falcões surgiram mergulhando do meio das sombras e pousaram nos punhos dele, mastigando contentes o inesperado regalo enquanto suas garras se enfiavam nas braçadeiras de couro que ele usava sob as mangas do paletó.

Caminhou de volta até a van e instalou a fêmea no seu poleiro. Ela sibilou furiosamente quando ele enfiou o capuz em sua cabeça, e então acalmou-se instantaneamente, confortada pelo casulo de escuridão que a envolveu subitamente. Segurou o macho, que era menor, pelos seus pios e virou-se na direção da cabina, rindo baixinho.

— Você ainda tem um trabalho a fazer, pequenino. — Lá dentro, ele encontrou rapidamente o que procurava.

A porta do museu da Fundação Pergaminhos da Liberdade abriu-se com um satisfatório clique, e Garra deslizou para dentro.

 

Era sábado, mas Fiona Cárter decidira se aproveitar da ausência da dra. McDonald para tentar organizar o escritório. Dera-se ao luxo de almoçar num restaurante de verdade, coisa que raramente fazia quando precisava ficar de olho na dra. McDonald. Fiona ficou pensando em como sua chefe e o professor Murphy estavam se ajeitando no campo e qual dos dois ficaria mais abalado.

Sua boca escancarou-se com uma descoberta mais imediata. Os corpos dos dois guardas de segurança estavam horrivelmente mutilados e enroscados juntos, como se estivessem dançando um tango repulsivo quando o assassino atacou. Fiona curvou-se e tentou tirar algum sentido dos ferimentos deles, mas não conseguiu, e tudo o que conseguiu fazer foi não gritar e fugir. Em vez disso, forçou-se a entrar no prédio e ligar para 911.

No interior, os corredores estavam assustadoramente silenciosos. Não havia motivo para esperar que houvesse alguém trabalhando àquela hora num fim de semana, mas o silêncio era de certa maneira muito espesso, como se o prédio todo tivesse parado de respirar.

O instinto levou Fiona a seguir para a área de depósito de segurança. Virando o canto, ela pôde ver que a porta de malha de arame estava aberta. Ao chegar ao cofre, a pesada porta estava aberta. Fiona olhou lá dentro, já sabendo o que iria encontrar. Ou melhor dizendo, não encontrar.

A cauda da Serpente havia sumido.

No seu lugar, cortados bem fundos, talhos recentes na prateleira metálica do depósito, encontrava-se a reprodução entalhada rapidamente de uma cobra. A cobra estava separada em três partes — cabeça, corpo e cauda. Próximo a ela um símbolo ainda mais perturbador. Ela teria de bipar o presidente Compton da FPL. Depois tentaria localizar o professor Murphy e a dra. McDonald. Tinha esperanças de que não era tarde demais para eles voltarem.

 

O PRIMEIRO TRECHO DO VÔO OS LEVARA de Washington até o Heathrow de Londres, onde o avião foi reabastecido e houve troca de tripulação. Murphy e Ísis apressaram o passo em direção ao portão de embarque. Seu corpo delgado, oprimido por uma volumosa pasta de couro repleta de livros — edições raras que ela simplesmente não tinha coragem de despachar —, pelejava para acompanhá-lo. Por outro lado, repetidas ofertas para ele carregar sua pasta encontraram dura resistência.

— Eu posso me arranjar muito bem, obrigada. E, de qualquer modo, você também tem sua própria carga preciosa para cuidar.

Era verdade, o arco de competição em seu estojo à prova de choque não era exatamente pesado, mas sem jeito de se carregar, e ela estava resolvida a não aumentar o fardo de Murphy.

Pelo menos ele havia parado de argumentar contra a vinda dela. Enquanto ela se visse como uma profissional do mesmo nível de Murphy e conseguisse não competir com sua perda pessoal mais recente, relembrando a morte do pai, Ísis sentia que também podia se identificar com ele.

 

Murphy e Ísis não conversaram muito durante a longa viagem a Tar-Qasir. Ele dormiu durante quase todo o vôo para Londres, a inconsciência baixando sobre ele inesperadamente como uma bênção praticamente assim que afivelou o cinto. Enquanto esperavam o avião ser reabastecido, ele passeou em silêncio pelos cavernosos corredores e lojas do Heathrow, como alguém experimentando um par de sapatos novos. Não ia pensando em nada. Apenas acostumava-se à sua nova vida, sua nova existência: uma vida sem Laura.

Ísis teve a compreensão de que devia deixá-lo sozinho, de que precisaria de tempo para reunir as forças para o que viria, e ficou feliz em poder mergulhar nos seus livros. Embora não quisesse admitir, ela estava preocupada com o fato de que retardaria Murphy e, conseqüentemente, estava resolvida a que pelo menos suas habilidades lingüísticas estivessem afiadas como uma navalha. Se conseguissem encontrar o segundo pedaço da Serpente, ela queria estar certa de poder decifrar seus segredos.

Em particular, ia reler um antigo volume que pertencera ao seu pai. O Apócrifos do caldeu inferior do bispo Henry Merton. Ela já o tinha lido, é claro, mas não, começava a perceber, com sua total atenção. Ou talvez fosse simplesmente porque o estudo de Merton sobre alguns dos mais obscuros recônditos da antiga crença religiosa mesopotâmica nunca pareceram terrivelmente irrelevantes. Agora, contudo, sua exaustiva análise da adoração dos ídolos babilônicos parecia sob medida às suas necessidades.

Claro que ele não era o “bispo” Merton quando escreveu o livro. Apenas um jovem vigário do interior em uma paróquia semi-esquecida de Dorset, no sonolento sudoeste inglês. Foi lá que seu pai o encontrou pela primeira vez. A história que ele contou foi que ambos pegaram a mesma primeira edição de O ramo de ouro de Frazer, num sebo de Dorchester. Após uma demorada discussão, durante a qual cada um dos dois insistia que o outro tinha o direito ao livro, seu pai finalmente conseguiu vencer (o inabalável desprendimento escocês superando a cortesia inglesa), praticamente empurrando o jovem clérigo com seu prêmio até o caixa.

Após isso, é claro, Merton nada pôde fazer a não ser convidar seu benfeitor para um chá e bolinhos de aveia no pequenino estabelecimento da esquina. Foi ali, entre coloridos tecidos estampados e porcelana, que foi revelado seu interesse pelos rituais negros das religiões esquecidas do mundo. Um interesse, seu pai recordava, beirando a obsessão. Não que necessariamente houvesse nisso algo errado ou mesmo estranho, em vista da própria propensão do pai — exceto que Merton usava a camisa negra e o colarinho de um vigário ordenado pela Igreja anglicana. “Parecia um tanto estranho”, recordara ele, “ouvir aquele jovem que, por direito, devia estar passando seu tempo colhendo almas para Jesus, falar com tal intensidade apaixonada sobre os demônios que habitavam os recantos mais sombrios do submundo sumério.”

Apesar dos instintivos receios do velho arqueólogo, seguiu-se intensa correspondência depois que eles se separaram. O atrativo da vasta erudição de Merton era simplesmente demais para ser resistida. Poucos meses depois, porém, seu pai deixara de responder às cartas de Merton, e ficou claro para a adolescente Ísis que algo o perturbara muito profundamente.

Ela nunca descobriu o que foi. Mas agora, enquanto virava lentamente as páginas do Apócrifos do caldeu inferior, lembrou-se que era exatamente esse volume que seu pai segurava quando o encontraram.

Sentiu um arrepio e seus dedos foram instintivamente para o amuleto pendurado no pescoço. Era a cabeça da deusa babilônica Istar, um presente de seu pai e um constante consolo nos momentos de tensão.

Com uma leve sacudida de cabeça, ela retornou ao livro. Fosse qual fosse a verdade sobre o bispo Merton, ele conhecia seus rituais caldeus. Se havia alguém capaz de fornecer uma compreensão íntima da mente de Dakkuri, esse alguém era ele.

Durante o vôo de Londres para Riad, Murphy não interrompera a leitura dela. Aquilo pareceu ter o efeito de recarregar as baterias dela — algo de que necessitava realmente após o trauma dos últimos dias. Realmente, após a longa viagem de táxi através do deserto para a própria Tar-Qasir, e se instalar num enorme e moderno hotel chamado, bem apropriadamente, Oásis, ela pareceu de fato rebentar de energia. Murphy apagara novamente, assim que deitara nos refrescantes lençóis brancos, antes de ter tempo para imaginar qual seria o passo seguinte dos dois. E agora, algumas horas depois, o incisivo toc-toc-toc em sua porta, que o arrancou de um sono sem sonho, pareceu ter todo o jeito de seu agitado espírito.

Após tomar banho, trocar de roupa e se reorientar, Murphy encontrou-se com ela no espaçoso saguão.

— Creio que deviam rebatizar este hotel para Aposentos Vazios — brincou ele. — Somos os únicos hóspedes, não acha?

— Tar-Qasir não é exatamente um destino turístico — admitiu ela. — Mas isso não quer dizer que não tenha seus pontos de interesse.

— Por exemplo?

— Andei pesquisando um pouquinho enquanto você se entregava ao sono — disse ela com uma piscadela. Parecia como se o sono fosse algo ao qual ela se dava ao luxo apenas raramente, como um drinque ocasional. — Como sabemos, isto aqui começou como um oásis. Um conveniente local de passagem para várias rotas comerciais através do deserto. Aos poucos, foi crescendo, até se tornar uma perfeita cidade de feira quando comerciantes começaram a se instalar aqui em vez de apenas usá-la como bebedouro. E, por volta da Idade Média, tornou-se uma cidade de verdade. Aliás, uma cidade única e incomum.

Ela estava claramente se divertindo, e Murphy ficou alegre em ver isso.

— Única e incomum? Deixe-me adivinhar, havia sorveterias? Não... o beisebol foi inventado aqui!

Ela sacudiu a cabeça.

— É muito mais interessante do que isso. Ela possuía esgotos subterrâneos. Sabe, a fonte que alimentava o oásis original fornecia água suficiente para um sistema espantosamente eficiente. Provavelmente, o primeiro de sua espécie.

Murphy coçou o queixo.

— E ainda funciona?

— Céus, não. Mas os túneis originais devem continuar intactos. Naquela época, construíam coisas para durar. Se quisermos descobrir o que há sob a superfície do centro de Tar-Qasir, talvez os esgotos sejam a resposta.

— É uma porção de talvez — observou Murphy. — Como entramos lá? E como encontraremos nosso caminho quando estivermos lá embaixo?

Ísis suspendeu sua mochila e pôs-se de pé. Estava vestida com bermuda cargo e botas de marcha, mas de algum modo ainda conseguia parecer com uma filóloga em vez de uma alpinista.

— Sugiro que façamos uma visita à biblioteca municipal de Tar-Qasir e ver o que conseguimos descobrir.

Murphy suspirou. Uma biblioteca. É claro. Aonde mais Ísis iria sugerir que eles fossem?

Na rua o calor os atingiu como uma parede maciça, e ficaram aliviados quando um táxi com ar condicionado encostou um minuto depois. Esse tempo, porém, fora suficiente para o suor ter ensopado a camisa de Murphy. Ísis, por outro lado, parecia tão fresca e alva como se estivessem caminhando pelas montanhas de sua nativa Escócia. Talvez ser uma donzela de gelo tenha suas vantagens, pensou Murphy.

Pelo lado de fora, a biblioteca de Tar-Qasir não prometia muito. A fachada vitoriana da modesta edificação de três andares ostentava mais personalidade do que os desbotados blocos de concreto que pareciam compor a maior parte da área do centro da cidade, mas suas vidraças quebradas e o empoeirado saguão de entrada sugeriam que seus melhores dias haviam ficado no passado. Uma impressão que foi confirmada pelo homem que parecia ser seu único habitante.

— É verdade que estamos necessitando de uma reforma — admitiu Salim Omar, cofiando a barba bem aparada. — Tar-Qasir é uma cidade moderna que olha para o futuro, não para o passado, e tudo isso — gesticulou para as prateleiras, ou, em alguns casos, pilhas de caixas de livros que entupiam o aposento — é considerado irrelevante e indigno de estudo. — Suspirou. — É uma vergonha. No meu entender, acredito que somente olhando o passado com profundidade podemos entender o que nos guarda o futuro.

Murphy deu um gole em sua xícara com um fumegante chá de hortelã e concordou com a cabeça.

— Concordo com você, Omar. — Ele sentiu uma torrente de sentimento de companheirismo pelo bibliotecário de fala mansa que parecia estar ilhado em um afloramento do passado enquanto a onda de maré da modernidade passava veloz por ele, e desejou poder ter mais tempo para gastar bebendo chá e ouvindo sua história. Mas Ísis era toda eficiência.

— Esgotos, sr. Omar. Estamos interessados em esgotos.

Omar deu-lhe um olhar intrigado, e ela não teve certeza se ele ficou surpreso por alguém querer saber sobre essas coisas ouse ficou particularmente chocado por ouvir uma mulher expressar tal interesse.

— Dra. McDonald, é bastante raro alguém vir aqui atrás de um livro. Agora duas pessoas surgem à minha porta, vindas da distante América, e querem saber a respeito de esgotos. Devo admitir que isso é muito estranho.

— Estou estupefata — exclamou Ísis com, pelo que constava a Murphy, uma expressão franca. — Certamente, todo mundo sabe a respeito dos esgotos de Tar-Qasir.

Ele olhou-a como se ela fosse levemente louca.

— Talvez. Mas muitos poucos se dão ao trabalho de vir ver o que restou deles.

— E o que restou deles? — perguntou Murphy.

Omar abriu os braços.

— Quem sabe? Ninguém desce ali há anos.

— E se alguém quiser descer lá? Há algum mapa, algum registro da construção? Algum modo de se orientar?

Omar olhou de relance para o telefone coberto de poeira sobre a escrivaninha, e Murphy pensou por um momento que ele ia ligar para a polícia para vir prender aqueles estrangeiros suspeitos com seu interesse altamente duvidoso em esgotos. Com certeza, começara a aparentar um extremo nervosismo.

— Não adianta. Há túneis desabando e coisas assim. Não posso ajudá-los.

Murphy já ia se levantando, mas Ísis pousou uma alva mão em seu braço.

— Sr. Omar — começou ela, lançando-lhe o seu mais caloroso sorriso. — Teremos um grande prazer em dar uma contribuição para ajudar a restauração de sua excelente biblioteca, se puder nos ajudar.

Ele estreitou os olhos.

— Algumas estantes a mais seriam muito bem-vindas. Talvez alguma ajuda para a catalogação...

Ísis continuou sorrindo.

— Quanto?

Ele fez uma careta, como se esse tipo de coisa estivesse abaixo dele.

— Digamos mil dólares?

— Quinhentos — disparou Ísis de volta.

— Algumas prateleiras estão bastante perigosas. Levei um tombo feio, semana passada. Oitocentos.

— Seiscentos.

— Setecentos e cinqüenta.

— Fechado.

Antes que Murphy pudesse se adaptar àquela nova Ísis categórica que conhecia, ela enfiou a mão na mochila e contou um maço de notas. Omar olhou-as sem nada comentar, então levantou-se e fez um gesto para que o seguissem. Espremendo-se por uma minúscula porta na extremidade do aposento, penetraram numa caótica caverna de Aladim de livros e manuscritos em pilhas amontoadas contra as paredes. Após alguns minutos de buscas infrutíferas, Omar finalmente emergiu com seu troféu. Soprou a poeira de um fino volume encadernado em couro marroquim antes de entregá-lo com um floreio.

— Um verdadeiro tesouro. A primeira edição, de 1844 de Uma curiosa história da Arábia antiga, do barão de Tocqueville. Creio que achará excelentes ilustrações do sistema de esgoto de Tar-Qasir como ele era no século XIX.

Murphy observou Ísis folhear as duras páginas amareladas. Parecia estar no paraíso dos filólogos.

— Uma primeira edição — ofegou. — Não sabia que ainda existia qualquer edição. Meu pai teria...

Ele a conduziu de volta em direção à porta, preocupado com o fato de que, se eles ficassem mais algum tempo, ela jamais conseguiria ser afastada daquela casa-tesouro de livros.

— Obrigada pela sua ajuda, sr. Omar. E boa sorte com a restauração.

Omar assentiu.

— E a melhor da sorte para ambos — declarou solenemente.

Depois que a pesada porta da frente se fechou atrás dos dois, ele sentou-se à sua escrivaninha, serviu-se de outra xícara de chá e, pensativo, bebeu-a com pequenos goles. Após um tempo, um jovem vestido com um djelaba branco saiu silenciosamente de trás de uma pilha de livros. Começou a folhear as anotações sobre a escrivaninha de Omar.

— Você deixou que fossem embora?

Omar deu de ombros.

— O que eu podia fazer? Eles pareciam muito determinados.

— A mulher era linda. Nunca vi pele tão alva. Acha que voltaremos a vê-los?

Omar pousou seu chá.

— Está falando sério? Sabendo o que há ali embaixo?

O rapaz suspirou.

— Que pena. Ela era realmente linda.

 

GARRA ATRAVESSOU A ARCADA ADORNADA que levava ao grande salão e ficou pensando se estava prestes a morrer. Raramente fora chamado ao castelo durante os dois anos como empregado do conselho, e cada vez fora levado à caixa-forte subterrânea, com seus empregadores sentados atrás de uma enorme mesa de obsidiana, sete anônimas silhuetas negras, as quais ele sabia eram distorcidas para ocultar suas identidades.

Agora, pela primeira vez, um criado cego, que parecia se orientar pelo castelo por uma espécie de sentido extra, apontava para um assento na extremidade de uma comprida mesa de carvalho onde os Sete estavam sentados sob a clara luz do dia, suas feições expostas. Se não se importavam mais que ele pudesse identificá-los, isso podia significar apenas duas coisas: ou confiavam nele plenamente ou não pretendiam deixá-lo sair com vida do castelo. Se era esta última, não havia sentido em tentar esboçar um plano de fuga. Portanto, Garra ficou pensando de que modo eles fariam isso.

Desconfiava que seria eficiente, mas também um pouco teatral. Eles, realmente, pareciam adorar um espetáculo. E também tinham um aguçado senso de história. Algo medieval, para combinar com o cenário do castelo? Talvez, naquele exato momento, um soldado vestido com cota de malha ferro estivesse parado atrás de seu assento, pronto para decapitá-lo com uma afiada alabarda. Ou, talvez, algo mais para o religioso. Seria ele esfolado vivo, como São Bartolomeu, ou destroçado na roda de tortura como Santa Catarina? Isso certamente seria espetacular. Aliás, de um modo curioso, ele quase ansiava por isso.

Na outra extremidade da comprida mesa um homem de cabelos grisalhos com olhos severos e nariz igual a um machadinho sorria para ele como se conseguisse ler seus pensamentos.

— Bem-vindo, Garra. — Falou baixinho, mas sua voz tinha força suficiente para encher a sala. — Sem dúvida, deve estar pensando por que está aqui. Ou, mais especificamente, por que lhe foi permitido nos ver sem o benefício do... artifício tecnológico. Deixe-me lhe garantir que não é porque decidimos dispensar os seus serviços. Muito pelo contrário. Você tem provado ser muito eficiente e confiável. Eu até mesmo diria, indispensável. — Cabeças em volta da mesa confirmaram com um gesto. — Sintonizado com o nosso objetivo de governo global. Tudo feito em nome da paz mundial, é claro. Se tudo sair de acordo com o plano, haverá muito para você realizar no futuro... um futuro que duvido que você consiga até mesmo começar a imaginar. Mas lhe prometo que o achará extremamente compensador.

Garra nada disse. Nem mesmo mudou a habitual expressão de máscara neutra que usava habitualmente. Não queria que pensassem que ele tinha se preocupado em morrer. Nem queria que notassem sua emoção com a perspectiva de mais mortes. Embora eles estivessem preparados para se revelar a ele, Garra ainda não tinha certeza se estava pronto para retribuir o favor.

Notou um homem gorducho, de óculos, à esquerda do porta-voz, que parecia um tanto agitado.

— Creio que agora está na hora de ver o que o sr. Garra trouxe para nós, não acham? — disse ele.

O homem de cabelos grisalhos concordou com a cabeça e o criado cego surgiu subitamente ao lado de Garra. Este puxou um saco de algodão de dentro do paletó e o entregou a ele. Segurando-o à frente como se fosse feito de vidro, o criado caminhou lentamente para a outra extremidade da mesa e o largou ali.

Houve um momento de silêncio enquanto todos os olhos se fixaram no saco, e Garra demorou-se observando cada membro do conselho. Mais próximo a ele, à sua esquerda, um asiático num terno cinzento sob medida estava sentado todo empertigado, seu olhar neutro insondável. A seu lado, estava uma mulher, corpulenta, de aparência germânica, com o cabelo louro puxado firmemente para trás da testa. Ela, também, parecia apenas ligeiramente interessada no que Garra trouxera. Mas o membro seguinte do conselho, um hispânico numa luminosa jaqueta azul e com um bigode bem-aparado, estava recostado na cadeira, sorrindo afetado. Na cabeceira da mesa, o homem de cabelos grisalhos mantinha seu olhar frio na direção de Garra.

A julgar pela aparência exterior, nada parecia associar aquelas sete pessoas completamente diferentes. Mesmo assim, Garra conhecia, por experiência própria, a força de seu propósito comum. Algo os unira. Algo que requeria imensos recursos mas também um rígido sigilo. Algo pelo qual valia a pena derramar boa quantidade de sangue. Algo que recuava ao passado bíblico e tornava os cristãos evangélicos seus inimigos mortais.

Ao vasculhar a mente à procura da ligação oculta, Garra perguntou-se se devia olhar dentro de si mesmo. Afinal, pareciam pensar que ele agora era quase um deles. Então, o que viu, quando olhou dentro de seu coração? Ele se permitiu um leve sorriso. A mesma coisa de sempre. Apenas sangue, terror e trevas. Garra era movido pelo fascínio com a maldade e atos impiedosos. Seu único interesse nos planos globais dos Sete era que estes podiam lhe fornecer os meios e os ilimitados recursos para satisfazer seus desejos distorcidos.

Então uma mulher ossuda num chamativo vestido esmeralda e com uma indomada cabeleira ruiva pousou a mão no braço do homem com cara de lua e ciciou:

— Vamos ver isso. Já esperamos demais.

Lentamente, sir William Merton esticou-se e puxou do saco o pedaço de bronze medindo 30 centímetros. Ao erguê-lo para a luz, Garra pôde ver que sua mão gorducha tremia. Então aconteceu algo curioso. O ar pareceu engrossar, houve um audível estalido de eletricidade e a mão de Merton firmou-se. Devia ter sido um truque da luz, pensou Garra, mas seus olhos pareceram mudar de cor, de cinzento para um intenso azul-escuro. E quando ele falou, o sotaque inglês sumiu, substituído por algo mais profundo e difícil de identificar.

— Em breve você voltará a ser inteira. Como era nos primeiros dias. E, mais uma vez, o sacrifício será seu. — Então, fechou os olhos e expirou demoradamente, parecendo esvaziar, tornar-se fisicamente menor. Quando abriu os olhos, parecia mais uma vez como um corpulento clérigo inglês.

Garra tivera bastante tempo para examinar a cauda da Serpente, mas olhava-a agora com nova curiosidade. Se esse único pedaço conseguia fazer aquilo, o que eles estariam esperando quando tivessem todos os três?

Merton havia tirado os óculos e examinava atentamente a parte inferior da Serpente. Em volta da mesa, crescia uma excitação de expectativa.

— Sim, sim — declarou finalmente Merton. — Sim, estou vendo. Lindo, lindo. — Pousou a cauda e cruzou os braços sobre sua barriga com um sorriso satisfeito.

— E então? — indagou Bartholomew.

— Murphy ainda trabalha com Ísis... dra. McDonald?

Bartholomew confirmou com a cabeça.

— Foram vistos pela última vez a caminho de Riad.

— O Reino do Deserto. Claro, claro. Bem, se ela é filha do pai, não terá problemas para decifrar a pequena charada de Dakkuri. Talvez Murphy até mesmo já tenha o segundo pedaço nas mãos enquanto falamos. — Merton deu uma risadinha.

O general Li virou a cabeça só um pouquinho na direção de Merton.

— E, então, não devemos tirá-lo de suas mãos, enquanto falamos?

Merton pareceu imperturbado pelo tom de voz do general.

— Não mesmo. Creio que não. Ela deve ter tempo para traduzir a parte seguinte da charada. Como sabem, o segundo pedaço leva ao terceiro e o terceiro leva... bem, não preciso lhes dizer ao que leva. — Os olhares de voraz expectativa em torno da mesa confirmaram que ele não precisava. — Precisamos ser pacientes. Quando Murphy tiver o último pedaço em seu poder — gesticulou com a cabeça em direção a Garra —, será o momento de atacar. E talvez então — acrescentou com um ar malicioso — a dra. McDonald e eu talvez tenhamos uma oportunidade para recordar um pouco.

 

MURPHY SEGUROU O ANEL DE FERRO com ambas as mãos, escorou-se na parede do beco estreito e puxou. Sentiu as gotas de suor começarem a escorrer testa abaixo enquanto seus braços começavam a tremer por causa do esforço, mas a laje de pedra continuava firme no lugar, exatamente onde estivera, segundo suas estimativas, durante vários séculos.

— Tem certeza de que é o melhor meio de entrarmos? — resmungou ele.

— Toda. Isso nos levará diretamente ao cano de esgoto principal.

— Supondo-se que ele ainda exista.

— Tenha um pouco de fé, Murphy. Vamos lá, tem certeza de que está realmente tentando o melhor que pode?

Do canto do olho, Murphy olhou-a enquanto ela se recostava a seu lado sob o luar, a boca franzida em concentração. Se houvesse um açoite à mão, não tinha dúvidas de que ela teria usado nele. Murphy estava para lhe pedir que desse uma ajuda, quando sentiu a enorme laje deslocar-se um tantinho. Inspirou fundo, sem relaxar a pressão das mãos, e trincou os dentes. A laje de pedra começou a afrouxar, e ele finalmente conseguiu afastá-la para o lado. Caindo de joelhos, esquadrinhou o buraco escuro e sem ar.

— Por favor, me passe a lanterna.

Ela a entregou, e ele curvou-se ainda mais para dentro.

— O que consegue enxergar?

A escuridão sugou avidamente o raio de luz para suas profundezas.

— Não muita coisa. A alvenaria parece intacta perto da parte de cima, mas embaixo... não sei não. Acho que só há um meio de descobrir.

Ela agora começava a parecer um pouco nervosa.

— Como vamos...?

— Quando em dúvida, mergulhar de cabeça. Esta é a minha filosofia.

O entusiasmo dela certamente enfraquecia.

— Não pode estar falando sério. Devem ser uns 30 metros até o fundo.

Ele enfiou as pernas no buraco e apoiou-se nas laterais.

— Se não me engano, a idéia foi sua. Venha. — Ele percebeu o ar de pânico no rosto dela e abrandou. — Tudo bem, eles construíram pequenos apoios nas laterais. Basta descer devagar e me acompanhar.

Não eram nem 30 metros e, espantosamente, os degraus de cerâmica estavam quase intatos. Afora as poucas vezes que Ísis perdeu o apoio de um pé e uma bota desceu com um baque no ombro de Murphy, eles desceram sem problemas. Baixaram num entroncamento de quatro túneis, e Murphy deu-lhe um momento para que ela se recuperasse.

— E agora, para onde?

O raio da lanterna fazia seu alvo rosto flutuar na escuridão como um fantasma, enquanto ela folheava as páginas de Tocqueville.

— Bem, o ponto mais provável é na origem do poço inicial. Devia ser a ele que Dakkuri se referia.

Murphy apanhou um punhado de pó e deixou que escoasse entre os dedos.

— Como vamos encontrar isso. Aqui embaixo está seco como um osso.

O franzido de testa de Ísis fez com que ela parecesse ainda mais fantasmagórica.

— Precisamos apenas determinar a direção do fluxo, e então seguir na direção contrária.

Murphy acocorou-se e dirigiu o raio de luz para o chão.

— Bem, quando a água secou finalmente, deve ter deixado algumas estrias na lama e, com um pouco de sorte, devem ter sido preservadas, como fósseis. — Arrastou os pés mais um pouco adiante e focalizou o raio no que parecia ser uma pedra comprida e achatada.

— Ali. A não ser que eu esteja muito equivocado, precisamos seguir naquela direção.

Ísis o seguiu na escuridão, guiada pela sua lanterna que varria de lado a lado ao longo das paredes. Avançando lentamente através da estreita passagem de tijolos, sugando o ar morto com séculos de idade para o interior de seus pulmões, ela começava a se lembrar por que nunca quis ser arqueóloga. O hotel moderno e limpo em algum lugar acima de suas cabeças parecia a centenas de quilômetros e mil anos distante.

Chocou-se com as costas de Murphy.

— Beco sem saída — disse ele.

Recuaram refazendo os passos até o entroncamento e examinaram o chão à procura de mais vestígios de passagem de água.

Murphy apontou para um outro túnel.

— Tem certeza? — perguntou Ísis.

— Não sei quanto a você, mas esta é a minha primeira vez num esgoto medieval. Para ser honesto, estou apenas seguindo meu faro.

— Parece uma boa idéia — observou Ísis. — Num esgoto, quero dizer.

Seguiram pelo túnel, agora menos confiantes, esperando algum sinal que lhes indicasse que estavam no rumo certo. Após vários minutos de lenta peleja, Murphy parou. Apontou para o chão com sua lanterna.

— O que acha que é isso?

Não parecia com coisa alguma. Apenas uma sombra. Então ela engoliu em seco.

— Uma pegada.

— É, foi o que eu pensei. E parece recente. Creio que isso quer dizer que estamos indo na direção certa.

Para Ísis, não significava nada dessa espécie. Significava que havia alguém mais lá embaixo. Talvez Omar tenha mandado alguém atrás deles para pegar o resto do dinheiro. Ela queria desesperadamente recuar o mais depressa possível e voltar à luz, às pessoas e ao século XXI. Entretanto, não tentaria isso por conta própria. Deu um puxão nervoso no seu amuleto, e correu na direção das costas de Murphy, que iam se afastando.

Após alguns minutos, viram outra pegada. Então mais outra. As pegadas agora vinham em bandos, juntando-se num emaranhado, como rastros de uma manada de animais. Ela puxou a manga de Murphy.

— Você acha mesmo que devemos segui-las? Parece haver uma porção delas.

— Tem uma idéia melhor?

— Quer dizer, além de voltar?

Murphy virou o rosto para ela.

— Olhe, isto pode ser uma caçada inútil, mas, no momento, é a única caçada inútil de que dispomos. Pelo menos sabemos que não vamos dar em outro beco sem saída. Estas pegadas devem ir para algum lugar. — Murphy levou a lanterna na direção que tinham vindo, e quando a luz passou pelo rosto de Isis, ele viu o medo em estado bruto gravado em suas feições de fada. — Olhe, não vou forçar você a seguir em frente. Você quer mesmo voltar?

Uma onda de alívio percorreu o corpo dela, seguida por uma curiosa sensação de vazio, como se naquele instante sua vida de repente tivesse se tornado sem sentido. Inspirou fundo, então virou-o para a frente e deu-lhe um delicado empurrão.

— Não, não. Foi apenas uma pequena bobeira momentânea. A poeira, provavelmente. Estou bem agora.

Ele deu uma resmungada e se puseram novamente a caminho. Ísis mantinha o raio da lanterna apontado diretamente à frente, sem querer ver mais vestígios de seus companheiros invisíveis.

Quando chegaram a outro entroncamento, com túneis ramificando-se à esquerda e à direita, ela fechou os olhos e concentrou-se em manter a respiração estável.

— Está ficando mais estreito — falou Murphy por cima do ombro. — Você está bem?

— Não sou claustrofóbica, sabe — disse ela com o máximo de indignação que conseguiu reunir. Era verdade, nunca sentira medo em espaços confinados. Certa vez, quando a srta. McTavish a trancou numa despensa por toda uma tarde, ela nada sentiu além de uma abençoada sensação de alívio por ficar livre durante algumas horas do controle de suas colegas de escola e poder deixar a mente vagar livre entre deuses e criaturas mitológicas que já invadiam sua imaginação.

Mas aquilo era diferente. Não apenas estavam em uma catacumba de túneis escuros e cada vez mais abafados, como não estavam sozinhos. De acordo com Omar, ninguém ia ali embaixo havia gerações. Então, a quem pertenciam as pegadas? Sua aflição era aumentada pela falta de preocupação de Murphy. Claramente sua filosofia era realmente investir cegamente à frente, confiando em algum poder superior que o impediria de cair num buraco profundo e escuro. Sem falar nela.

Ísis se estimulara a precipitar-se no próximo túnel, mas Murphy continuou enraizado no mesmo lugar.

— Você ouviu algum coisa?

Ela empinou a cabeça para um lado.

— Tipo o quê?

— Sei lá. De vento, talvez.

Ela colocou a mão diante do rosto e abanou a cabeça.

— Nem um suspiro. Não, soa como... água.

Murphy concordou com a cabeça.

— E as pegadas vão na mesma direção. Olhe.

Ele seguiu pelo túnel da esquerda, agachando-se para não bater com a cabeça no teto. Ísis agarrou seu braço, sem mais se preocupar com o que ele pensava. À medida que avançavam, o som de corrente aumentava, até ela ter certeza de que conseguia realmente sentir o odor da água sobrepujando o cheiro de poeira e deterioração.

Quando passaram a ouvir outro som, pararam instintivamente. Dessa vez, ambos sabiam o que era. Vinha em ondas, alto, depois baixo, e então alto novamente. Ísis pousou a mão trêmula no seu amuleto e esperou Murphy falar alguma coisa.

— Consegue distinguir que língua é essa? Não parece arábica.

Ela aguçou o ouvido. A língua, um estranho caráter cantarolado, um ritmo preciso, como se eles estivessem cantando.

— Eu... Eu não sei. Parece haver uma insinuação de aramaico. Pode ser imaginação minha. O que vamos fazer?

— Tomar cuidado — disse Murphy, puxando-a à frente.

Enquanto ela cambaleava atrás dele, uma louca mistura de pensamentos girava em sua cabeça. Teria trancado o armário, o tal onde mantinha seu diário particular? Teria lembrado de devolver seu exemplar do comentário de Gilroy sobre a Epopéia de Gilgamesh ao professor Hitashi? Teria recolhido todas as ratoeiras que Fiona insistira em colocar em seu escritório?

Com um sobressalto, ela se deu conta de que não esperava retornar a Washington. Convencera-se de que ia morrer. Bem, se tivesse de ir agora, pelo menos não deixaria para trás nenhuma família. Um pensamento que a levou a especular sobre quem compareceria ao funeral. Não muita gente, admitiu. Mas é claro que nunca encontrariam o seu corpo. Portanto, não haveria funeral. Ela simplesmente desapareceria, para sempre. Como uma alma perdida...

Murphy estava tocando-lhe no ombro e apontando para cima. Havia um inconfundível ruído corrente como o de água movendo-se rapidamente sobre pedras, e a monorritmia agora soava terrivelmente próxima. E havia luz, também, um fantasmagórico bruxulear contra as paredes do túnel.

Avançaram milimetricamente, e Ísis sentiu o dedão do pé atingir algo duro. O chão do túnel estava entulhado de tijolos. Ela olhou para cima e avistou um tosco buraco na parede do túnel. As pernas a carregaram na direção dele, independente de sua vontade. Ela não mais sentia medo. Sua mente parecia ter-se fechado, tendo restado apenas um núcleo primitivo — o suficiente para manter seu corpo se movendo. O último pensamento que teve foi que devia ser assim que se sentia um zumbi.

Murphy a estava sacudindo, levando-a, aos trancos, de volta à consciência. Sob a luz incerta, ele olhava-a com uma expressão firme, um dedo sobre os lábios. Ela fez que sim e lentamente virou a cabeça para olhar através do buraco na parede do túnel. Seus olhos pareciam se fechar por conta própria, e ela forçou-os a se abrir.

Os crânios foi a primeira coisa que ela viu. Havia sete deles arrumados num tosco semicírculo como abóboras de Halloween, as órbitas oculares flamejantes com a luz oleosa que se derramava vorazmente sobre o corpo arrumado sobre o chão sujo. O corpo estava rijo, mas era claramente uma menina que não tinha mais do que dez anos. Uma esfarrapada manta de algodão cobria a maior parte de seu corpo, e seu estreito rosto parecia ceroso, mas podia-se ver vestígios da beldade que ela seria quando crescesse.

Isto é, se já não estivesse morta.

Os três homens estavam nus da cintura para cima, oscilando para a frente e para trás, impulsionados pelo cântico rítmico que preenchia o espaço sombrio. Ísis engoliu em seco quando viu a comprida faca de açougueiro que cada um apertava contra o colo, e Murphy tapou-lhe a boca com a mão.

Ela inspirou fundo e ele lentamente recolheu a mão, e então apontou para além das caveiras.

Na ponta de uma estaca enfiada na terra havia um grosso pedaço de metal reluzente em forma de S.

A parte do meio da Serpente de Bronze!

Quando ela percebeu o que era, sentiu-se sendo sugada para baixo através dos séculos, para um mundo de primitiva escuridão. Era como estar na despensa da srta. McTavish, mas dessa vez os deuses e demônios eram verdadeiros e não havia esperança de escapar dali. Um soluço formou-se em sua garganta e ela mal conseguiu contê-lo.

Então Murphy estava puxando-a de volta para o túnel e ela sentiu o corpo inteiro relaxar. Eles iam voltar. Eles iam sobreviver.

 

MURPHY AGARROU ÍSIS PELOS OMBROS e tentou avaliar sua expressão. Na escuridão do túnel, tudo o que conseguia ver eram seus olhos, que pareciam suplicar silenciosamente.

— Você consegue se virar sozinha? — perguntou ele.

Um sussurro escapou de sua garganta. Seria um sim? Ele apertou mais forte, quase a sacudindo, e ela fez que sim com a cabeça. Isso teria de resolver. Não havia tempo para se ocupar com ela novamente. Murphy rastejou de volta até o buraco na parede e ela ficou observando enquanto ele esperava o momento certo, então deslizou para as sombras bruxuleantes.

Arrastando-se atrás dele, Ísis agachou-se na entrada, uma das mãos tapou-lhe a boca para evitar que gritasse. Ela mal agüentava olhar para ele. Mas não conseguia afastar os olhos. Se o perdesse de vista, ficaria verdadeiramente sozinha. Segurou a lanterna como um náufrago agarraria uma bóia.

Murphy arriscou um olhar para trás na direção dela enquanto se arrastava de barriga sobre os tijolos e as pedras soltas do outro lado da parede do túnel. Podia sentir os olhos dela nele, mas Ísis era apenas mais uma sombra se misturando às trevas.

Ele confiava que a poeira que cobria o chão abafasse sua aproximação, mas quando um joelho atingiu um tijolo e enviou-o escorregando pela escuridão, o corpo ficou todo tenso. Enterrou o rosto na poeira, sem ousar olhar para cima, mal ousando respirar. Mas o cântico dos três carrascos manteve seu triste ritmo. Eles pareciam estar numa espécie de transe, talvez chapados por causa de alguma coisa, mas ele sabia que em algum momento o cântico iria parar e aquelas facas de aparência cruel entrariam em ação.

Ele culpou a si mesmo por ter deixado seu arco de competição no hotel. Quem poderia imaginar que ele se veria interrompendo um sacrifício humano num esgoto medieval, mas ele já devia ter aprendido a esperar o inesperado. Lembrou-se do telefonema inicial de Matusalém. Se ele soubesse aonde isso levaria, teria dito ao velho o que deveria fazer com o seu artefato, com Daniel ou sem Daniel? As mortes, a explosão na igreja, Laura — tudo, de alguma forma, parecia ter começado com aquele telefonema. Mas ele sabia que não fazia sentido pensar nisso. Ele agora tinha certeza de que Deus o conduzira para um certo caminho e nada havia que ele pudesse fazer a não ser trilhá-lo até o fim.

Custasse o que custasse.

A imagem da menina deitada, a poucos momentos de se tornar um sacrifício humano, voltou-lhe à mente, sua coragem aumentou, e ficou pensando se Ísis seria capaz de ir em frente. Quando ele a conheceu, ela parecia tensa como a corda de um arco. Agora, tendo sido arremessada para fora de seu casulo acadêmico, ele temia que ela estivesse à beira de um completo colapso nervoso.

Rezou para que os nervos dela agüentassem.

Começou novamente a se movimentar, mantendo-se distante o máximo possível dos três corpos balouçantes. Seria sua imaginação, ou o ruído corrente ficava mais alto? Ele não queria acabar como uma vítima-bonificação de um sacrifício, mas também não queria desaparecer num rio subterrâneo. Se eles virassem a cabeça para a direita, ele ficaria no seu ângulo de visão. Não podia confiar no estado drogado deles para mantê-los muito mais tempo alheios à sua presença. Girou o pulso e o visor luminoso de seu relógio informou-lhe que ainda havia um minuto para esperar. Tempo demais. Convenceu-se subitamente de que os três carrascos encerrariam suas preces a qualquer segundo e então seria tarde demais.

Continuem, rapazes. Só mais alguns versos. Concentrou-se no som tantalizante e sentiu sua concentração fugir. Queria que os ponteiros de seu relógio andassem mais depressa. Então, no momento exato em que sua cabeça começou a latejar e seu apego ao mundo real afrouxar, ele ouviu uma barulheira de terra e pedras e esticou o pescoço para olhar para trás.

O que viu fez seu coração entalar na garganta.

Emoldurada pelo buraco no túnel onde vira Ísis pela última vez, havia agora uma aparição fantasmagórica, como se o canto pagão tivesse convocado um demônio. Iluminada por baixo pela lanterna, seu pálido rosto cadavérico parecia emitir um brilho sobrenatural próprio, ao flutuar sem nenhum apoio na escuridão.

Por um louco momento, Murphy não teve certeza se era mesmo Ísis, então a realidade assumiu novamente o controle e ele saltou à frente. Como esperava, os três homens tinham agora se colocado de pé, gesticulando em direção a Ísis em meio a um silêncio horrorizado. Não pareceram notar quando ele passou tropeçante por eles na direção da estaca e da reluzente Serpente, mas quem podia saber por quanto tempo dariam crédito ao número circense de Ísis? Ele se baixou para segurar os ombros da menina inconsciente.

Ela não estava amarrada mas permanecia dura como um anjo de pedra. Vamos esperar que ela já não tenha desempenhado esse papel, pensou Murphy. Se ela ainda estava viva, então eles devem tê-la drogado para deixá-la inconsciente, e seria um erro tentar fazê-la voltar a si rapidamente, mas, quaisquer que fossem as conseqüências, Murphy deduziu que seria melhor do que serem massacrados pelos adoradores da Serpente.

Após duas firmes sacudidas em seus ombros, os olhos da menina abriram-se de repente e ela começou a gritar ao ver Murphy. Ele confiava que Ísis mantivesse os homens completamente distraídos, mas, para ter certeza, cobriu a boca da menina com uma das mãos enquanto colocava a outra sobre a sua própria para fazer o gesto de silêncio. Os olhos da menina estavam quase saltando da cabeça, de medo, sem qualquer sinal de efeitos posteriores de uma droga, mas ela conseguiu gesticular com a cabeça mostrando que entendera o gesto de Murphy pedindo silêncio.

Ele levantou-se e foi na direção da estaca que mantinha o corpo da Serpente. Seu intenso brilho refletindo as tochas ardentes era hipnotizante. Ergueu a mão e, com dedos trêmulos, começou a desatar as cordas de cânhamo que prendiam o pedaço de bronze à estaca. Murphy segurou-o e maravilhou-se com seu peso, que parecia combinar perfeitamente com a sensação de tato da cauda.

Seu exame foi abreviado abruptamente quando atrás dele se elevou um grito que partiu dos três sacrificadores. Sua atenção fora desviada de Ísis pela visão da menina correndo em direção ao buraco na parede. Pararam de gesticular na direção da vítima de sacrifício fujona quando um deles avistou Murphy segurando seu ícone. Abandonaram seu interesse nas duas mulheres e dirigiram a atenção a Murphy, com toda a fúria por terem tido uma noite estragada, prestes a explodir contra ele.

Avançaram para Murphy, grunhindo de raiva, facas erguidas, e sem revelar nenhum dos sinais da lerdeza do transe de um momento atrás.

Murphy estava sem idéias. Não podia sair correndo. Isso deixaria Ísis à mercê deles. E, de modo algum, havia uma maneira de enfrentar três loucos brandindo facas e esperar vencer. Já fizera o melhor possível; nada mais restava que pudesse fazer. Torceu para que Ísis tivesse a presença de espírito para correr de volta pelo caminho por onde tinham vindo, enquanto ele era massacrado pelos três.

Tentou eliminar o medo e começou a orar. Em poucos minutos ele estaria com Laura novamente.

Foi sacudido do devaneio quando o cântico recomeçou. Mas agora era diferente. Mais agudo. Uma voz de mulher. Olhou por cima dos ombros de seus agressores e deu-se conta de que era Ísis. Ela apontava uma imperiosa mão na direção dele e despejava uma sucessão de um blablablá numa estranha voz autoritária. Pelo menos, para ele, parecia blablablá. Os três homens haviam parado imediatamente e olhavam para trás, na direção dela, boquiabertos, como se acreditassem no que estavam ouvindo.

Quando a atenção deles foi desviada, Murphy entrou em ação, mas, ao passar correndo pelos três, uma mão moveu-se repentinamente, e ele sentiu uma dor perfurante do lado. Caiu sobre um joelho, esperando que o golpe seguinte cortasse sua garganta. Então, um som entre um grito e um rugido atravessou a escuridão, e ele ouviu os três homens baixarem para o chão.

Ísis agora aumentava a velocidade, bradando furiosamente e agitando os finos braços em largos círculos. Fosse lá o que ela estivesse dizendo, eles pareciam ter entendido o recado. Dando um pontapé na precaução, Murphy passou cambaleante por ela e para o interior do túnel. Ele agarrou seu braço, e ela lhe dirigiu um olhar furioso como se afrontada pelo fato de um mero mortal ter ousado tocar numa deusa.

— Vamos lá, deusa, sai dessa — cochichou. — Temos de dar o fora daqui antes que o seu fã-clube perceba que foi passado para trás.

Ísis soltou uma gargalhada desdenhosa, mas permitiu que ele a conduzisse de volta pelo lugar de onde tinham vindo.

— Não creio que eles queiram ir a qualquer lugar por algum tempo. Não se quiserem acabar como comida dos homens-escorpião.

— Não sabia que falava o dialeto deles — comentou Murphy enquanto a empurrava pelo túnel adentro.

— Surgiu por acaso. Um dialeto de Terammasic. Supostamente morto há mil anos.

— E você, por acaso, sabe falar isso?

— Aprendi na universidade. Só por diversão. É tão singular que achei que alguém devia mantê-lo vivo.

— E o que foi que gritou para eles? Atraiu mesmo sua atenção.

Estavam passando pela bifurcação e rapidamente se aproximando do entroncamento por onde penetraram nos túneis. Murphy não ouviu qualquer sinal de perseguição.

— Eu apenas lembrei que eles deviam sua miserável existência à deusa da criação, e se tocassem no meu conhecido, o espírito-cão, iam se arrepender.

Murphy empurrou-a para o primeiro degrau.

— Seu espírito-cão? A melhor coisa que conseguiu pensar sobre mim é que sou o seu espírito-cão?

— Eu ia lhe chamar de meu espírito-cobra, mas não achei nada crível a sua aparência má.

— Obrigado, assim mesmo.

— Murphy, se preferir, posso voltar lá e dizer que você é um arqueólogo bíblico.

— Pensando bem, espírito-cão está legal — bufou Murphy.

Ísis deslizou para o topo e segurou a barriga da Serpente enquanto ele subia atrás dela. Juntos, empurraram de volta para seu lugar a pesada laje de pedra e sentaram-se apoiados na parede, o mundo bizarro do qual tinham acabado de sair banido para sempre como se fosse um sonho apavorante.

— O que acha que aconteceu com a pobre menina? — perguntou Ísis após algum tempo.

Murphy ergueu um trapo.

— Parece que conseguiu escapar. Isto é um pedaço do vestido que ela usava e que ficou preso numa das bordas pontudas dos apoios para as mãos. — Olhou para Ísis. Com olhos fechados, o rosto dela parecia fantasmagórico sob o luar. — Bom trabalho lá embaixo, dra. McDonald. Foi mesmo um número teatral que executou.

Ela se colocou de pé e começou a bater a poeira das calças.

— Não foi nada. Meu pai sempre me disse que eu era a reencarnação de uma ou outra deusa. Acho isso natural em mim. — Ela agora parecia sem jeito, como se Murphy a tivesse visto nua e que nunca mais poderiam ser apenas amigos da mesma maneira que antes. — Venha, vamos voltar ao hotel — disse ela. — Não sei quanto a você, mas eu toparia um enorme copo de uísque.

Murphy não respondeu, e Ísis ficou pensando se ele desaprovava aquilo. Estava para lhe dizer que tomaria uma garrafa inteira se estivesse a fim, muito obrigada, depois do que ele a fez passar, quando percebeu que seus olhos estavam fechados. Então, enquanto ela olhava, Murphy escorregou lentamente parede abaixo até sua cabeça pousar na terra.

Só então ela notou o sangue.

 

A SRTA. KOVACS CHEGOU, SENHOR.

Shane Barrington estivera ansioso pela chegada dela ao seu escritório.

— Mande-a entrar. E não quero ser incomodado.

A mulher que ficou parada na porta parecia ligeiramente diferente da Stephanie Kovacs que estivera pela primeira vez em seu escritório um mês antes. Ainda usava salto alto fino, saia curta daquele estilo provocador-mas-não-me-toque, o casaco abotoado até em cima sobre a blusa com gola rulê, seu cabelo cuidadosamente assanhado e uma maquilagem aplicada de modo sutil reforçavam a imagem de uma mulher atraente que tinha mais coisas importantes a fazer do que cuidar da boa aparência. Suas passadas continuavam confiantes, afirmativas, quase chegando a ser agressivas quando se encaminhou à poltrona solitária diante da escrivaninha dele e sentou-se.

Seus olhos, porém, lhe diziam que ela passara por uma drástica mudança desde a última vez que se encontraram. Em vez de reluzir com aquele brilho moralmente superior que seus telespectadores passaram a adorar, estavam opacos e vazios, como se algo atrás deles tivesse morrido. Eram os olhos de alguém que vendera a alma.

— Stephanie. Obrigado por ter vindo. Queria lhe agradecer pessoalmente pelo trabalho que vem fazendo.

Ela olhou-o atentamente.

— Lamento que a reportagem da explosão na igreja não tenha dado resultado. A princípio, os agentes do FBI foram todos afobação, mas agora estão muito cautelosos. E o diretor Fallworth não passa de um fanfarrão. Nada do que me forneceu foi o suficiente para pegar Murphy do jeito que você queria. Acredite, eu...

Barrington gesticulou com a mão, pondo aquilo de lado.

— Tudo bem, Stephanie. Você se saiu bem. Nós só queríamos tomar algum tempo do professor Murphy, plantar algumas sementes na cabeça do público. No devido tempo, você revelará mais coisas de nossos amigos evangélicos.

Stephanie observou-o com a enfadonha diferença de quem já perdera a coisa mais importante que tinha.

— Você referiu-se a “nós”. Estive pensando quem está realmente por trás de tudo isso. Você não me parece o tipo que se aborrece por causa de religião, sr. Barrington.

Ele sorriu.

— Sempre a destemida repórter investigativa. Creio que esse seu focinho de cão de caça nunca pára de farejar. Mesmo quando a mantenho presa e com focinheira — acrescentou, desfrutando o repentino enrubescer que coloriu sua face.

Barrington levantou-se e foi até um armário de vidros escuros.

— Deixe-me pegar um drinque para você.

Ela sacudiu a cabeça.

— Não quando estou trabalhando.

Ele deu uma risada.

— Ora, vamos. — Pegou uma garrafa escura e passou a desenrolar o arame da cápsula que mantinha a rolha no lugar. — Uma taça de champanhe.

— Champanhe? Estamos festejando algo?

— Espero que sim, Stephanie. Espero muito mesmo.

Afrouxou a rolha com a ajuda de um guardanapo, seguiu-se um estouro abafado e serviu duas taças. Inexpressiva, ela aceitou a sua.

— E brindamos a quê?

Ele ergueu sua taça em direção a ela, com um sorriso sombrio.

— Ao domínio do mercado, é claro.

As taças tiniram uma na outra.

— Eu sempre beberei a isso — disse ela, com um olhar esquisito.

Barrington pousou sua taça e apoiou-se na escrivaninha. Stephanie ficou desconfortavelmente ciente da proximidade dele.

— Em breve, isso pode ser uma realidade, Stephanie. Como sabe, a Comunicações Barrington é a empresa de comunicação mais poderosa do planeta. Mas isso é apenas o começo. Logo poderá ser muito mais.

Ela olhou-o com ceticismo.

— O que vai fazer, concorrer para presidente?

— Estou falando de poder de verdade, Stephanie. O tipo sobre o qual a gente consegue apenas sonhar.

Ela deu um gole no seu champanhe.

— Bem, à sua, sr. Barrington. Mas não entendo o que isso tem a ver comigo.

— Por favor, chame-me de Shane. — Levantou-se e foi até a janela. — Poder e riqueza podem conseguir muitas coisas, Stephanie. Mas, serei honesto, é muito solitário no topo. Tem havido mulheres, desde o meu divórcio, é claro, mas, quando se tem tanto dinheiro quanto eu, é difícil encontrar alguém em quem se pode confiar realmente. Alguém com quem se possa realmente compartilhar. Entende o que estou falando?

Stephanie começava a pensar que entendia completamente. Ele comprara sua alma, e agora queria o resto. Seu instinto inicial foi entrar em pânico, mas então começou a pensar no assunto. Talvez não fosse um negócio tão ruim assim. Se era para ela ser vendida, que conseguisse o melhor preço. Barrington parecia imaginar que seria o rei do mundo. Ela poderia se sair pior do que ser a rainha dele.

Ela foi até onde ele estava e juntos olharam a cidade embaixo. Após algum tempo, uma imagem do seu recente surto de estudo da Bíblia lhe veio à mente, Satã e Jesus no topo da montanha. Ele não Lhe oferecera os reinos do mundo se Ele simplesmente se curvasse e o adorasse?

Ela pousou a cabeça no ombro de Barrington. Ora, era mais esperta do que se imaginava. O sr. Barrington... Shane... nem mesmo precisou lhe pedir duas vezes.

 

ÍSIS OBSERVOU O DR. AZIZ desaparecer dentro do elevador, uma bojuda maleta preta enfiada sob o braço, e fechou a porta atrás de si. Pela última contagem, ela falava uma dúzia de variações do árabe como também outras dez línguas diferentes do Oriente Médio e do Oriente Próximo, além de conhecer milhões de palavras. Mas começava a perceber que apenas uma bastava.

Baksheesh.

Por alguns poucos dólares, o rapaz da recepção se dispusera a chamar o dr. Aziz, garantindo-lhes que ele era “muito discreto”. E o próprio médico, por outra razoável recompensa, ficara feliz em remendar Murphy. Quando Ísis o acompanhou até a saída, ele lhe dera aquele velho e devasso sorriso de dente de ouro. “Não polícia, não polícia!” disse ele, colocando o dedo sobre os lábios.

Se podia confiar em qualquer um dos dois para não bancar os quintas-colunas e atrair rapidamente os tiras, ela não sabia. Se isso acontecesse, ela e Murphy nada tinham feito de ilegal, tinham? Pelo que lhe dizia respeito, não haviam assassinado ninguém, e quanto à barriga da Serpente era difícil determinar a quem ela pertencia realmente. Ísis começava a pensar que a idéia de Ezequiel fora a correta: seria melhor que ninguém a possuísse.

Encostou-se na porta, o corpo subitamente pesado.

— Aparentemente, você vai sobreviver. Ele me deu uns analgésicos com uma aparência horrível, que acho que devem ser para cavalos, mas, sabendo que você é teimoso como uma mula... Murphy?

Seus olhos estavam fechados e ele parecia muito pálido, mas Ísis pôde ver o lento movimento de sua respiração. Aproximou-se da cama e sentiu o impulso de tocá-lo. Só para ter certeza de que está realmente vivo, disse a si mesma.

A pele dele estava fria, mas indiscutivelmente ela conseguiu sentir o sangue latejando acima de sua clavícula.

— Boa-noite, Murphy — sussurrou. — Bons sonhos.

Retornando ao seu próprio quarto, deitou-se na cama e fechou os olhos por alguns minutos, deixando girar na cabeça o confuso fluxo de emoções. Finalmente, inspirou fundo, soltou lentamente a respiração e sentou-se. Trabalho. Este era o único modo de ela recuperar o equilíbrio.

Serviu-se de uma dose de Famous Grouse, arrumou uma dúzia de lápis apontados ao lado de um uma pilha de blocos de papel ofício amarelo e em seguida colocou a barriga da Serpente na poça de luz projetada pelo abajur da escrivaninha. Seria uma longa noite.

Acordou com o ruído de vidro se quebrando. Páginas amarelas corriam em volta do quarto em meio a rajadas com o vento se projetando pela janela aberta. As roupas de cama tinham sido arrancadas pelo vento, deixando-a tremendo. O abajur jazia no chão, tremeluzindo com a crepitação de fios esfiapados.

Alguém martelava a porta e ela instintivamente procurou algo para se cobrir. Sua mão esquerda sentiu o macio algodão de sua camisola. Confusa, tateou atrás da lâmpada de cabeceira.

Tudo estava no lugar. O abajur na escrivaninha. As páginas numa pilha bem arrumada, com a Serpente no topo. As janelas estavam fechadas. Afora sua áspera respiração, tudo estava em silêncio.

Rindo aliviada, ela foi à escrivaninha e leu o que escrevera na folha de cima. Pelo menos não sonhara aquilo. Leu mais uma vez, tentando fixar o texto na mente, então enfiou-se no meio dos lençóis. Estava dormindo antes de conseguir dizer o texto em voz alta.

Na manhã seguinte, Murphy não demonstrava a provação pela qual passara. Quando se juntou a ele na única mesa ocupada do cavernoso restaurante, estava na maior felicidade se banqueteando com pãezinhos e café.

— Você parece bem esperto — observou ela.

Ele deu uma piscadela.

— O sonho dos justos.

— Bem, vá com calma. O dr. Aziz disse que devia ficar de cama por pelo menos dois dias.

Murphy deu uma bufada.

— Ele só estava forçando você a lhe dar mais alguma grana, fazendo parecer que se tratava de uma situação de vida ou morte. Foi apenas um arranhão. De qualquer modo, temos um trabalho a fazer.

Ela enfiou a mão na bolsa com um ar de triunfo.

— Relaxe. Está todo feito.

Murphy apanhou o pedaço de papel amarrotado e leu-o.

— Estou começando a achar que seu pai tinha razão a seu respeito. Você não costuma dormir?

Ela examinou a toalha de mesa.

— Não levou muito tempo.

— E tem certeza de que está correto?

Ísis tentou pegar de volta a folha de papel, mas ele a afastou de seu alcance.

— Brincadeirinha. — Leu novamente. “Na terra da enchente, ela descansa com uma rainha.” A “terra da enchente”. Pode ser o Dilúvio bíblico.

Ela concordou com a cabeça.

— Há muitas referências a isso na literatura babilônica. A questão é, onde é isso exatamente?

— Muita gente acredita que a Arca pousou no monte Ararat. Talvez Anatólia, na época. Conhecemos alguma rainha naquelas redondezas?

— Não na época apropriada. Ficam muito para o norte.

— Bem, talvez ele não tenha se referido ao Dilúvio, mas apenas a um lugar onde há regularmente uma enchente.

Ela serviu-se de uma xícara de chá e despejou nele um pouco de leite.

— Por exemplo?

— Que tal o Egito? O Nilo enche todos os anos com a regularidade de um relógio. Sem isso, não teria havido a civilização egípcia. Nada de Esfinge, nada de pirâmides.

— Faz sentido. Leia a parte seguinte.

— “Sepultada na pedra, ela flutua no ar.” — Murphy sacudiu a cabeça. — Dancei nessa.

Ísis pousou a xícara.

— Espere. Se você está certo e Dakkuri refere-se ao Egito, então sepultada na pedra e descansando com uma rainha só pode significar uma pirâmide, certo?

— Certo.

— Ora, vamos, você é que é o arqueólogo. Quantas pirâmides há lá?

— Mais do que você imagina.

— Mas essa não é uma pirâmide comum.

Ele bateu com a mão na mesa, e um garçom surgiu correndo da cozinha para ver o que havia de errado. Ísis fez uma careta e gesticulou para que voltasse.

— Já ouviu falar na Pirâmide dos Ventos?

— Não posso dizer que já ouvi. Tem certeza de que não inventou isso?

Murphy abriu um sorriso.

— Existe de verdade. No platô de Gizé, a oeste do Cairo, bem solitária. Não perto o bastante das três grandes... Quéops, Quéfren e Miquerinos... para sair nos cartões-postais, por isso ninguém presta muita atenção nela.

— E de onde vem esse nome gracioso?

— Segundo a lenda, há supostamente algum tipo de corrente de ar no centro da pirâmide, tão forte que seria capaz de manter um homem suspenso acima do chão para sempre.

— Um homem... ou a cabeça de uma Serpente de bronze? — arriscou ela.

— Por que não? Se me lembro direito, também é o local do descanso final da rainha Hephrat Segunda.

— Bingo! Sepultada na pedra, mas flutuando no ar. E o que faremos agora?

— Vamos dar uma olhada nela, é claro. Venha.

De volta ao quarto de Murphy, ela ficou olhando sobre seu ombro enquanto ele ligava seu laptop e entrava no banco de dados da Universidade Preston. Após alguns segundos, um complexo diagrama da Pirâmide dos Ventos surgiu na tela do computador, revelando seu interior em três dimensões.

Ísis apontou para a série de buracos quadrados que rodeavam a base da pirâmide.

— O que é isso?

— Condutores de ar. O ar é sugado para a grande câmara... aquele grande espaço vazio no centro da pirâmide, acima da câmara funerária de Hephrat... e sai aqui, nesses buracos menores, dois terços acima.

— Impressionante. Creio que os egípcios inventaram o ar-condicionado três mil anos antes.

— Apenas para a realeza — comentou Murphy. — E mesmo ela, tinha de morrer primeiro. Talvez esse tipo de lógica explique por que a civilização egípcia não durou.

Ísis deu-lhe um sorriso enviesado.

— E de onde veio a lenda sobre coisas flutuando no ar?

— Eu mal me lembro de minhas aulas de Física na escola secundária, mas eis minha teoria: o ar é sugado pelos condutores da base. Dentro da grande câmara ele se aquece, eleva-se e é comprimido nos buracos menores. Isso aumenta sua velocidade e ele sai forte pelas aberturas no topo, ao mesmo tempo que mais ar é sugado de baixo. Uma espécie de ciclo incessante.

— Você acha que a cabeça da Serpente vai estar flutuando em pleno ar na grande câmara?

— Duvido muito. Aposto na câmara mortuária ou, mais provavelmente, em uma das aberturas de saída do vento.

Ísis examinou a imagem na tela com uma expressão cética.

— Você sabe que eu disse que não sofria de claustrofobia, mas esses condutores de ar me parecem um tanto estreitos. Como vamos...?

Murphy teclou mais algumas vezes e a Pirâmide dos Ventos desapareceu. No seu lugar, um gráfico rotativo que parecia uma espécie de aspirador de pó high-tech encheu a tela.

— Veja o Rastejador da Pirâmide dos Ventos. Um robô por controle remoto projetado especificamente para percorrer condutores de ar de pirâmides.

— Está brincando. Alguém faz realmente essas coisas?

— Claro. Não sei se é o item da iRobot que mais vende, mas no momento é exatamente do que precisamos. De que cor você quer? Acho que as opções são cinza-escuro ou cinza-um-pouco-mais-escuro.

Ísis estava lendo as especificações do produto: um veículo rastreador controlado por computador, com duas esteiras tipo tanque, uma sobre a outra, uma fazendo pressão sobre o chão do condutor de ar e a outra sobre o teto, fornecendo uma supertração. Uma seqüência de sensores, luzes e câmeras de tevê em miniatura completavam o quadro.

— Digamos que você consiga uma dessas coisas. Ainda não vejo de que modo conseguiremos ter acesso à pirâmide. Sei que você não é fã de burocracia, mas não pode simplesmente alugar um ou dois camelos e começar a cavar, não é mesmo?

Murphy pareceu ofendido.

— Você acha que não tenho minhas relações? Já ouviu falar no dr. Boutrous Hawass, o diretor das pirâmides? Pois bem, o meu melhor amigo na escola primária se chamava Jassim Amram. Atualmente, é professor de Arqueologia na Universidade Americana do Cairo, e acontece que é o braço direito de Hawass. Se conheço bem Jassim, ele já treinou um desses Rastejadores de Pirâmides para misturar um martíni decente e levá-lo para ele diante da tevê.

— Está bem — disse Ísis, abrindo a porta. — Você ajeita as coisas com o seu amigo, o professor Amram, e eu procuro o nosso piloto e digo para ele se preparar para nos levar ao Cairo.

Murphy tinha fechado o laptop e já jogava roupas na sua mochila.

— Para mim parece ótimo.

O telefone tocou. Era a voz de uma secretária.

— Oh, graças a Deus, dra. McDonald. Por favor, aguarde na linha pelo presidente Compton da Fundação Pergaminhos da Liberdade.

— Ísis. — Harvey Compton parecia um tanto tenso, avaliou Ísis. Provavelmente, estava preocupado se ela desgastara o interior de seu avião. Ela apressou-se em lhe assegurar que estava fazendo seu dinheiro valer a pena.

— Harvey, conseguimos o segundo pedaço e já estamos de olho na cabeça da Serpente.

— Sim, está bem, deixe isso para lá. Andei tentando localizá-la. Duas pessoas foram assassinadas aqui e a cauda da Serpente foi roubada. Ísis, você e o professor Murphy precisam desistir da viagem e voltar imediatamente para casa.

 

ESTRANHO. ESTRANHO E HORRÍVEL. O assassinato dos dois guardas tinha ocorrido, literalmente, a um mundo de distância, entretanto, porque foram as vidas reais de homens com quem ela havia trabalhado, Ísis ficou arrasada.

— Ísis, lamento ter envolvido você e a fundação nisso. — Murphy sabia que não servia de consolo. — O presidente Compton está certo, é claro, devemos retornar.

Ísis estava sentada encarando a parede.

— Não vamos voltar, Murphy. Agora não. Principalmente agora. Quem quer que seja, seja lá que força esteja tentando tomar posse da Serpente, precisa ser detido.

— Ísis, você está em estado de choque. Aqui em Tar-Qasir, corre mais perigo do que imaginamos, e esta não é nenhuma excursão jardim-de-infância. Faça as malas.

— Não, Murphy. Vamos continuar. O presidente Compton está longe demais para nos impedir agora. Além do mais, há algo que não lhe contei sobre o local do crime na fundação.

— O quê?

— Murphy, quem levou a cauda da Serpente foi atrevido demais. Não teve nenhuma pressa para deixar o que só pode ser um recado zombeteiro para você. Ele entalhou o símbolo de uma cobra na prateleira de metal onde ficava a cauda. Uma serpente quebrada em três pedaços.

Murphy caminhou até a janela. Após refletir alguns momentos, virou-se e disse:

— Bem, quem foi atrás da cauda da Serpente está bem a par de nossa busca. Dentre as poucas pessoas a quem confiamos os detalhes do que procuramos não havia assassinos ou ladrões.

— Pelo menos até agora, é o que quer dizer. Obviamente, há algo em relação a essa Serpente que, através dos séculos, tem feito uma porção de gente fazer uma porção de coisas estranhas.

— Sim, o que nos leva a pensar que não se trata de algum arqueólogo rival capaz de assassinar e roubar por causa da cauda. Portanto, devemos supor que quem anda atrás de nós está decididamente agindo do lado escuro da rua.

Ísis tinha um ar estranho nos olhos ao segurar a mão de Murphy antes de acrescentar uma outra notícia.

— Murphy, há algo mais que preciso lhe contar sobre a cena do crime na fundação. Lembra do que me falou sobre o cordão com a cruz que deu a Laura e que você notou que alguém a tinha quebrado no funeral, quando deu uma última olhada no caixão? Pois bem, ao lado da cobra, na prateleira da FPL, o mesmo maníaco entalhou uma cruz quebrada em três pedaços.

Murphy permaneceu calado, em silêncio, chocado. Então, seguiu até a parede e a socou bem forte três vezes com os punhos.

— A pior das suspeitas se confirmou. Tudo começa a fazer um estranho tipo de sentido. Todos os sinais apontam para um misterioso elemento de ligação para muitas das coisas que têm acontecido com a gente. O estranho que chegou a Preston e se juntou a Chuck Nelson para causar encrencas, a explosão na igreja, o roubo da cauda...

— Sua voz falhou quando pensou no elemento final.

Ísis terminou o pensamento.

— O fato de que Laura não morreu porque alguns destroços caíram sobre ela. Que ela realmente foi morta.

— Ísis, isso agora está além da arqueologia, ou mesmo da fé e da validação da Bíblia. Trata-se de algo pessoal. Vamos encontrar a cabeça da Serpente mesmo que a gente morra. E, continuando a nossa busca, será apenas uma questão de tempo até enfrentarmos cara a cara esse estranho cruel.

 

— E O QUE FAREMOS DEPOIS que encontrarmos a cabeça da Serpente?

Murphy estava concentrado no ruidoso, empoeirado, fervilhante caos que era o Cairo enquanto o táxi em que estavam avançava milimétrica e laboriosamente o caminho por entre carros, bicicletas, pedestres e os bois ocasionais que se aglomeravam nas ruas estreitas.

A pergunta pegou-o desprevenido.

— Isto é — continuou Ísis —, não poderemos juntá-la novamente. O homem que invadiu a fundação está agora com a cauda. Refiro-me à autenticação do relato bíblico. Você poderá fazer isso com dois pedaços. Mas não é por isso que estamos aqui, não é mesmo?

Ela tomou um pouquinho de sol desde que chegaram ao Oriente Médio, e isso lhe caiu muito bem. Parecia mais confiante, menos como uma criatura das sombras prestes a correr de volta para sua toca na fundação ao menor sinal de que o mundo exterior estava chegando perto demais. Mas não tinha certeza se, no momento, queria lidar com sua nova ação afirmativa.

— Provar que a Bíblia é a verdade é o que faço. Não consigo pensar em nada mais importante.

Ela estudou-o ceticamente, então buscou apoio na maçaneta da porta quando o motorista deu uma guinada para evitar um senhor idoso em uma bicicleta balouçante. Recuperando o equilíbrio, ela rebateu:

— Não? E as profecias? As profecias bíblicas?

— Isso faz parte. Se conseguirmos demonstrar que os profetas do Antigo Testamento escreveram na época em que dizem ter escrito, então isso prova que foram verdadeiros.

— Não entendi.

Relutantemente, ele desviou o olhar da atordoante confusão das ruas.

— Parte do que eles previram aconteceu. Os céticos dizem que isso é porque escreveram depois do acontecido, e portanto olhavam para trás e não para a frente. Se pudermos mostrar que escreveram na época em que afirmam ter escrito, então isso prova que eles realmente conseguiam enxergar antecipadamente a história.

— E por que isso é tão importante?

— Por causa das previsões que ainda não viraram realidade. Para que as pessoas se convençam de que vão acontecer.

Ísis assentiu, como se ele tivesse confirmado algo que ela já sabia.

— Então me fale da parte do Livro de Daniel que ainda não virou realidade.

— Daniel? Pensei que você estivesse mais interessada em Marduk e Ereshkigal e nessa turma toda.

Ísis olhou-o com uma intensidade que ele nunca vira antes, e deu-se conta de que estava sendo duro demais com ela. Pela primeira vez, notou que ela não usava seu amuleto.

— Desculpe. Sim, eu lhe falarei sobre Daniel, se desejar. Mas, por que agora?

— Você me contou que a busca pela Serpente de Bronze começou com uma misteriosa mensagem sobre Daniel. Acho que é por isso. Estamos arriscando a vida por causa dessa coisa. Portanto, acho que seria bom eu saber no que estou metida.

Ela tentou um tom de voz casual, mas ele não engoliu.

— Está bem. Através de Daniel, Deus disse a Nabucodonosor que por toda a história haveria quatro impérios mundiais: o dele, o babilônico, representado pela Cabeça de Ouro de sua estátua; depois o Império dos medas e persas; em seguida os gregos; e, finalmente, os romanos. Cada qual se enfraqueceria progressivamente, até os romanos se dividirem em dois... como as duas pernas da estátua.

— Roma e Bizâncio.

— Exatamente. Portanto, quatro impérios. Apenas quatro. Ninguém, desde os romanos... nem Napoleão, nem Hitler... conseguiu estabelecer um quinto.

Ela pareceu intrigada.

— Então, que previsão ainda não se concretizou?

— Ainda resta uma parte da estátua de Nabucodonosor. Os dez dedos dos pés. Especialistas em profecias acreditam que os dedos... feitos de barro e ferro... representam uma forma instável de governo que, num futuro próximo, assumirá o controle de nações-estados atuais. Provavelmente dez reis ou algum tipo de governantes pavimentando o caminho para o anti-Cristo.

Ela desviou a vista, dando-se um momento para absorver o que ele dizia. Viajavam agora confortavelmente ao seguirem pela Corniche al-Nil, a via que seguia paralela à margem leste do Nilo, e as opulentas mansões do distrito das Embaixadas passavam rapidamente pela janela numa constante procissão.

— E você acha que o segredo, o mistério, de que falava Dakkuri pode ter algo a ver com isso?

Ele deu de ombros.

— Meu instinto diz que tem algo a ver com as previsões de Daniel, isso sim. Algo andava me perturbando no fundo da mente e levei algum tempo para entender o que era. A palavra que você acabou de usar: mistério. No Livro das Revelações, isso significa Babilônia. Dakkuri disse que o mistério retornaria.

— Não entendo. Babilônia vai retornar?

Ele concordou com a cabeça.

— O poder de Babilônia, sim. Quando o anti-Cristo estabelecer seu governo mundial.

Ela passou os dedos pelo cabelo.

— Agora me deixou perdida. Vamos voltar um momento à Serpente. Se o que vimos no esgoto é para se levar a sério, há gente a adorando... ou pelo menos um pedaço dela... em segredo, há anos, possivelmente há milhares de anos. Sabe Deus quantos inocentes foram sacrificados desde então.

— Eu sei. É inacreditável. Apavorante.

— Mas esse culto tem algo a ver com o que você falou... o retorno da Babilônia?

Murphy coçou o queixo.

— Digamos que há uma forte ligação implícita. As forças das trevas. O mal. No final das contas, é tudo a mesma coisa.

— E nós dois estamos indo direto para as mandíbulas do dragão, não é mesmo?

Ele pelejou para dizer algo, algum modo de tranqüilizá-la, mas, naquele momento, o táxi havia encostado no prédio principal da Universidade Americana, e um homem alto, de terno branco, com um largo e brilhante sorriso estava abrindo a porta, conduzindo-os para o calor semelhante ao de um alto-forno.

— Murphy, seu cachorro velho! Bem-vindo novamente ao Cairo. — Dez minutos depois Jassim estava sentado de volta numa escurecida cadeira metálica de aparência desconfortável, que de alguma forma parecia acomodar com perfeição sua deselegante figura. Deu um gole prazeroso em seu martíni.

— Tem certeza de que não quer?

— Está me gozando? Eu sei o que você coloca nesse troço. O álcool é menos importante.

Jassim soltou sua suntuosa e melíflua gargalhada.

— O velho Murphy de sempre.

— O velho Jassim de sempre. — Murphy ergueu seu copo de limonada.

— Sim, infelizmente, sou um péssimo muçulmano.

— Não sei nada disso, mas, para mim, continua sendo um homem bom. Sua carta, por ocasião da morte de Laura, ajudou muito.

A expressão entusiasmada de Jassim arrefeceu.

— Sei que não adiantou, mas eu precisava lhe dizer o que se passava em meu coração.

Beberam em silêncio por algum tempo, perdidos nas recordações de Laura.

Finalmente, Jassim falou:

— A dra. McDonald é legal? Pareceu-me muito agradável, mas talvez um pouco distraída.

Ísis havia pedido desculpas e ido direto para os aposentos que Jassim conseguira para eles na parte do campus reservada a professores e suas famílias.

— Ela tem muita coisa na cabeça — justificou Murphy.

Jassim não insistiu.

— Bem, espero que amanhã ela esteja bem e em forma. Teremos um longo dia à nossa frente. — Mudou de posição na cadeira,radiante como um menino na véspera de Natal.

— E, então, o professor Hawass topou?

— Em grande estilo. Quando radiografaram o túmulo da rainha Hephrat, nos anos 60, ele estava completamente vazio. Os ladrões de túmulos haviam novamente chegado antes de nós.

— Uns dois mil anos, provavelmente — observou Murphy.

Jassim gargalhou.

— Tudo que restava era um buraco profundo, escuro e vazio na base da pirâmide. Daí a idéia de que ainda há algo ali, algo que talvez tenha escapado aos ladrões... algo que um sacerdote caldeu da época de Nabucodonosor pode ter escondido ali... nada menos do que a cabeça da Serpente de Bronze de Moisés! Essa seria uma história espantosa. O professor Hawass ficou encantado em colocar todos os humildes serviços dele a seu serviço.

— Podemos começar por guardar aqui a parte do meio da Serpente? Em vista do que aconteceu em Washington, eu entenderia se você dissesse que não.

Jassim abanou a mão.

— Nós aqui não nos amedrontamos tão facilmente. Vamos guardar a peça com honra e discrição.

Murphy deu um tapinha no ombro do velho amigo.

— Ótimo. É um alívio. E aí, conseguiu um Rastejador de Pirâmide para mim?

— Ah, sim. E estou ansioso para vê-lo em ação. Os ladrões de túmulos às vezes usavam criancinhas ou mesmo anões para entrar naquelas estreitas passagens. — Sacudiu a cabeça. — Infelizmente, com freqüência, alguns desses infelizes não conseguiam voltar. Felizmente, com o Rastejador de Pirâmide, conseguiremos penetrar nos segredos mais recônditos de nossa pirâmide sem perda de qualquer vida!

— Espero que sim, amigo Jassim — disse Murphy, o rosto tornando-se sombrio. — Tenho muita esperança nisso.

 

QUANDO SE ENCONTRARAM BEM CEDO na manhã seguinte, prontos para dirigir até a pirâmide o Land Rover repleto com o equipamento de Jassim, Murphy sentiu que Ísis estava decidida a alguma coisa. Ela não falou muito, mas o modo avaliador, metódico com que andou verificando para ver se tinham tudo de que necessitavam sugeriu uma calma interior que ele nunca vira nela.

Ao pegarem a ponte da ilha de Rodah através do Nilo e para o Shar’a al-Haram, seguindo direto pelo distrito de Gizé até a beira do deserto, ele ia pensando por que não se sentia do mesmo modo. Após algumas horas terríveis agitando-se e revirando-se nas garras de um sono febril, ele desistira de dormir e passara o resto da noite caminhando pelo jardim nos fundos de seu alojamento.

Murphy andara esperando por algo — um sinal, talvez, de que estava fazendo a coisa certa, que fazia parte do plano de Deus ele estar ali. Mas a alvorada rompeu, deixando-o desassossegado e em nada mais sensato do que antes.

Olhava para o sorriso semelhante à da Esfinge nos lábios de Ísis, enquanto ela ouvia as ridículas histórias de Jassim sobre maldições de múmias e escaravelhos assombrados, e perguntou-se se Deus escolhera enviar o sinal a ela, não a ele. Talvez, como o filho pródigo, fora ela a quem Deus favorecera. Não que a invejasse. Contanto que alguém soubesse que estavam no caminho certo.

Estrada da Pirâmide. Lembrou que era assim que eles chamavam a aproximação do deserto. E, quando ele dirigira por ali pela primeira vez numa lata velha Citroën com Laura, ainda viram vestígios de viçosos pomares de acácias, tamarindos e eucaliptos que agora haviam desaparecido totalmente sob a onda de maré do crescimento urbano.

Quando os edifícios de apartamento finalmente cederam lugar e as três pirâmides de Gizé apareceram no horizonte, provocando em Ísis um arfar de espanto, acompanhado por uma risadinha de Jassim, Murphy ficou pensando se a notável justaposição de antigo e moderno não seria o sinal que andara esperando.

Ali no Cairo, as pessoas precipitavam-se de cabeça no futuro, enquanto os monumentos do passado mais profundo da humanidade continuavam observando, imutáveis, como se dissessem: Se você quer saber que realidade existe adiante, olhe para trás.

A estrada subiu para o topo de um planalto com cerca de um quilômetro e meio quadrado e contornou a Esfinge com seu fitar de mil anos, e então as três formidáveis pirâmides estavam bem ali diante deles, abrigando respectivamente pai, filho e neto reais. Aglomeradas em volta das Três Grandes, pirâmides muito menores de rainhas e princesas apenas aumentavam a sensação de escala majestosa. Enquanto o Land Rover prosseguia, circundando a beira nordeste do planalto, as grandes pirâmides começaram novamente a diminuir a distância. Isis esticou o pescoço, tentando gravar na mente cada detalhe fugaz do extraordinário panorama, até Jassim bater em seu ombro e apontar diretamente à frente.

Afastada, naquele canto do planalto, a Pirâmide dos Ventos poderia ter sido construída no dia anterior, tão perfeita que era em sua antiga geometria. Menor do que suas primas mais famosas era, a seu modo, igualmente impressionante, suas paredes nuas de blocos de pedras ajustados sem saliências, um testamento da genialidade atemporal de seus criadores.

— Impressionante — exclamou Ísis, saltando com dificuldade do Land Rover e forçando a vista em meio ao terrível mormaço.

— Um dos maiores feitos da engenharia mundial — concordou Jassim.

— Ajuda um pouco ter milhares de escravos para colocar os blocos de pedra no lugar — acrescentou Murphy.

— Claro. É por isso que os nossos edifícios modernos são tão insignificantes em comparação — riu Jassim. — Hoje em dia, não se consegue mais escravos.

Ísis desenrolou o mapa tridimensional do interior da pirâmide, enquanto Jassim e Murphy verificavam se o sistema do Rastejador estava funcionando direito.

— Perfeito — declarou finalmente Jassim, quando surgiu na tela do laptop em seus joelhos uma imagem nítida da pirâmide. — E parece reagir corretamente a todos os meus comandos. — Acariciou o Rastejador como se fosse um cão fiel e apontou na direção da pirâmide. — Vá pegar — disse ele, seriamente.

Enfiando o Rastejador debaixo do braço, Murphy começou a escalar os imensos blocos de pedra calcária na direção do primeiro condutor de ar.

— O vento predominante é o do sul — explicou Ísis para Jassim —, e, portanto, esse condutor é provavelmente o que recebe o influxo mais forte. Aparentemente, é o lugar mais lógico para se começar.

Jassim concordou com a cabeça.

— Vamos torcer para que o vento não o tenha entupido de areia.

Murphy caminhou pesadamente de volta pela areia e Jassim ligou o Rastejador para sua viagem através do condutor de ar. Acima de seus ombros, Murphy e Ísis observavam as imagens granuladas lentamente encherem a tela.

— O caminho parece estar desimpedido. O Rastejador avança sem problemas. Calculo que chegará ao final do condutor em cerca de três minutos. Até agora não parece haver nenhum objeto em seu caminho.

Três minutos pareceram 30 enquanto se acotovelavam no interior do Land Rover com ar condicionado, tentando interpretar as escuras imagens que o Rastejador transmitia com suas minicâmeras. Finalmente, Jassim pressionou uma tecla e fez com que ele parasse.

— Ela já foi longe o bastante, creio. Deve estar na beira do condutor. Não vamos querer perdê-la. Se houvesse algo no interior do condutor, já teríamos visto.

Murphy ficou pensando quando era que o Rastejador tinha virado ela.

— Deixe-a seguir mais alguns centímetros, Jassim. — Olhou atentamente a tela. — O que é isso? Posso ver algo se mexendo.

Com relutância, Jassim avançou com o Rastejador.

— Pode ser um pequeno animal, um rato talvez, embora eu duvide que atualmente haja muita coisa para mordiscar dentro do túmulo.

— Está bom, pare. Ali novamente. Com toda a certeza, há algo se mexendo no final do condutor de ar.

Jassim ajustou o foco das câmeras gêmeas.

— Deixa-me eu ver, assim está melhor?

Murphy fez que sim.

— Deve ser algo além do condutor de ar. Algo no interior da grande câmara.

— Como a cabeça de uma serpente de bronze flutuando no ar? — riu Jassim.

Murphy olhou-o firmemente.

— Só há um meio de descobrir.

Enquanto Jassim manobrava o Rastejador de volta pelo condutor de ar, resmungando baixinho, Murphy verificou se tinha tudo de que precisava. Corda, lanterna, faca de usos diversos. E seu arco.

Jassim deu-lhe um olhar como se ele tivesse enlouquecido.

— Para que diabos você precisa disso?

— A última vez em que desci num buraco atrás de um pedaço da Serpente, ele teria sido muito útil. Não vou cometer novamente o mesmo erro.

Ísis nada disse enquanto caminharam até a base da pirâmide, mas quando ele se preparou para escalar até a entrada do condutor de ar, ela colocou a mão sobre seu braço.

— Tome cuidado.

Murphy olhou-a nos olhos.

— Eu sempre tento tomar cuidado. — Mas o sorriso imprudente que ele tentou dar não saiu.

— Eu falo sério — disse ela.

Com o arco firmemente preso ao corpo, e joelhos, ombros e cotovelos pressionados fortemente contra as paredes, Murphy começou a entender por que os ladrões de túmulos deixavam para crianças e anões a incumbência de entrar nos condutores de ar das pirâmides. Entretanto, um verão de escavações no México lhe ensinara que mesmo um homem de tamanho normal, se conseguisse controlar seus nervos, era capaz de rastejar todo o caminho através de um espaço surpreendentemente apertado. Mais freqüentemente, era o pânico que fazia você entalar, não as dimensões físicas do buraco em que se espremia. Deu um tempo para diminuir a respiração, tentar relaxar os músculos e avançou milimetricamente, sentindo passar por ele o ar quente que era sugado. Posso nunca mais sair daqui, mas pelo menos não vou sufocar, pensou.

Após dez minutos, seus joelhos e cotovelos estavam em carne viva e ele começava a pensar se não fora um erro levar junto o incômodo arco. Sem isso, já teria alcançado a borda do condutor. Fechou os olhos, sabendo por experiência que a escuridão total paradoxalmente diminuía sua sensação de claustrofobia, e continuou deslizando adiante.

Poucos minutos depois, seus dedos se fecharam sobre a borda do condutor e ele abriu os olhos. Empurrando o corpo adiante, olhou para o abismo abaixo. Em algum lugar daquela escuridão estava o túmulo da rainha Hephrat, mas a inclinação das paredes da pirâmide garantiam que escalá-las seria uma façanha impossível. Não conseguia imaginar como os primitivos ladrões de túmulos haviam feito isso.

Espremeu-se para fora e rolou para uma estreita borda. Quando teve certeza de que podia ficar de pé em segurança sem tombar para a escuridão, ele ergueu a vista. O vento rodopiava à sua volta, vindo aparentemente de todas as direções. A força do vento não era suficiente para arrancá-lo de seu poleiro na plataforma, mas, em meio às correntes mutáveis, seu cabelo e suas roupas começaram a chicotear em todas as direções.

Ao começar a se acostumar com a ventania, notou que não estava parado numa escuridão total. Um estreito jato de luz de um dos condutores de ar no topo da pirâmide brilhava diretamente abaixo para o abismo. Essa luz parecia ter sido propositadamente projetada para produzir o incrível espetáculo a que Murphy agora assistia.

Provavelmente, não mais do que 30 metros do condutor onde ele se encontrava, bem acima de sua cabeça, havia um objeto quase miraculosamente dando cambalhotas no vazio. O jato de luz produzia um brilho embaciado no que parecia ser um pedaço de metal do tamanho de um punho que rodopiava em pleno ar. Do tamanho exato, avaliou Murphy, para ser a cabeça da Serpente de Bronze.

Murphy não sabe quanto tempo ficou ali parado, pasmado com a visão da cabeça da Serpente, olhando-a dançar no ar como ficara, sem ser observada, por milhares de anos, e parecia impossível afastar os olhos dela. Sabia que nunca veria algo tão extraordinário enquanto vivesse.

Como se sua mente estivesse sendo lida, uma voz abalou seu devaneio.

— Uma visão magnífica, Murphy. Mas deve perguntar a si mesmo: será sua última?

 

MURPHY OLHOU ALÉM DA CABEÇA da Serpente, através da escuridão que o cercava, para ver de onde tinha vindo a voz. Na borda oposta, ele mal conseguiu distinguir a silhueta de uma figura humana.

— Quem é você?

— Meu nome é Garra. Disse isso à sua mulher, mas acho que ela não chegou a lhe contar.

Finalmente o mal que abatera Laura tinha um nome e um rosto. Cada fibra do ser de Murphy clamava por vingança, e se apenas a raiva fosse capaz de o prover de energia, ele teria atravessado o vazio com apenas um pulo para agarrar o pescoço desse tal de Garra. Em vez disso, tentou controlar a raiva a fim de se concentrar no impasse que surgiu diante dele.

— Seu monstro. Então eu estava certo. Você é o mesmo homem responsável por todos os horrores das últimas semanas.

— Sim, quem imaginaria que um arqueólogo se envolvesse em tanta ação. Foi muito longe, Murphy, reconheço, mas com dinheiro e poder suficientes contra você, não há segredos, seus ou dos antigos, que não possam ser revelados.

— O que você quer com a Serpente? Ela vale tantos assassinatos?

— Não tenho de lhe revelar os meus segredos, Murphy. Tudo que precisa saber é que, graças a você, terei a cabeça da Serpente e depois irei à Universidade Americana, onde você guardou o pedaço do meio.

— Vejo que é um monstro tremendamente confiante, Garra. Mas não me parece que esteja mais próximo para pegar a cabeça da Serpente do que a posição em que me encontro aqui. Todo o poder e o dinheiro modernos dos quais se vangloria não parecem páreo para uma mente antiga e um pouco de vento.

Garra deu uma gargalhada.

— É aí, professor, que se engana. Parece que você é o tal que não tem como chegar até o meio para pegar a cabeça, ao passo que eu tenho uma solução que é quase tão antiga quanto a própria pirâmide.

Murphy viu um movimento adejante na escuridão, e por um momento foi como se dois objetos estivessem sendo lançados ao ar no centro da pirâmide. Um era a cabeça da Serpente, o outro parecia mover-se sozinho, lutando contra o vento.

Um pássaro, pensou ele. Claro. Um falcão. A despeito de si mesmo, Murphy teve de admitir que Garra imaginara um método engenhoso de arrancar do vórtice a cabeça da Serpente.

Mesmo na duvidosa luz do interior da pirâmide, Murphy pôde ver que criatura magnífica era o falcão. Pôde ver o brilho castanho de suas asas, as pintas cor de creme de seu peito. Um quiriquiri. Seu nome antigo, windhover (flutuar no ar), surgiu em sua mente ao vê-lo pairar miraculosamente a poucos metros do campo de ação do vórtice. Ele costuma percorrer correntes de ar ascendentes e correntes secundárias, pensou Murphy, mas nada igual a isso. Deve estar se sentindo como se tivesse sido colhido por uma nevasca. Mas aprende depressa. Mais algumas passadas por ali e ele conseguirá.

Sem pensar, deslizou o arco para fora do estojo e encaixou uma flecha.

Mirou no falcão, que agora estava a poucos centímetros da cabeça flutuante. Sentindo sua força de vontade se esgotar, Murphy desviou o arco na direção do alvo ao qual não conseguia resistir. Garra. Puxou o cordão até cada molécula do arco implorar por relaxamento. Com apenas o afrouxar dos dedos, uma flecha percorreria o espaço entre eles e atravessaria o coração negro de Garra.

A vingança é minha.

O assassino de Laura permaneceu parado ali. Seria imaginação dele, ou Garra estava sorrindo? Ele sabe que o tenho na mira, pensou Murphy. Será que pensa que não farei isso? Sentiu o corpo todo estremecer com o esforço para evitar que a flecha se soltasse sozinha como se tivesse vontade própria.

O tempo pareceu parar enquanto ele esperava para ver o que sua mente faria. A câmara subitamente ecoou o som das mãos de Garra se chocando.

— Vamos, Murphy. Faça isso! O que o está impedindo? Só estamos nós dois agora. Seu precioso Deus não pode vê-lo! Faça!

Murphy sentiu seu dedo no arco tremer. Não conseguiria segurar por mais tempo.

Virou o arco para a esquerda e disparou.

Apesar do vento, a flecha atingiu o alvo. O falcão.

Murphy não poderia tirar a vida de um outro homem. Mesmo do monstro que assassinara Laura. Também se deu conta, no segundo final, de que Garra o atormentava para desviar sua atenção do pássaro, que agarrara a cabeça da Serpente.

E ele não podia deixar o monstro de Garra se apossar da cabeça da Serpente.

O quiriquiri mergulhou no fluxo sólido de ar, as garras estendidas. Ele segurava a cabeça pela pequena curva de bronze que a ligava à parte do meio e batia as asas furiosamente para virar na direção de Garra.

A flecha de Murphy acertou o falcão bem na beira de sua asa esquerda. Com um guincho horrível que ecoou por todo o condutor de ar, a cabeça da Serpente foi arrancada da garras do pássaro. Ela pareceu flutuar no ar por um momento, como se tivesse renunciado para sempre à força da gravidade, então mergulhou verticalmente na escuridão. De alguma forma, por ter abandonado a força particular de suas rotações seculares, a cabeça agora estava livre para mergulhar verticalmente no vazio. O quiriquiri ferido caía quase tão velozmente.

Murphy observou-o cair. Esteve perto o bastante para poder esticar o braço e tocá-lo. Agora a Serpente nunca mais conseguiria ser inteira novamente.

Girou de volta na direção de Garra, mas as sombras o tinham engolido.

Em seguida, sentiu uma dor aguda penetrar na sua nuca e ouviu um horripilante grasnido ainda mais alto. Era um segundo pássaro. Murphy conseguiu se recuperar a tempo de afugentá-lo, em seguida a ave pareceu se distrair com a queda do primeiro falcão e saiu voando, talvez para ajudá-lo.

Murphy observou-o afastar-se voando, levando nas garras a cruz de Laura, que fora arrancada de seu pescoço.

 

A SUBIDA DE VOLTA PELO CONDUTOR de ar teve a característica de um pesadelo. Cada centímetro parecia levar uma eternidade enquanto Murphy imaginava Ísis e Jassim massacrados pelo assassino que ele teve em sua mira. O pensamento o atormentava à medida que forçava pelo condutor o corpo ferido e sangrando: Eu devia tê-lo detido. Eu devia tê-lo detido.

Quando finalmente escorregou para fora e caiu na areia, não conseguiu enxergar nada — a luz do sol o tinha cegado temporariamente. Então, sentiu braços à sua volta, puxando-o para colocá-lo de pé, e conseguiu escutar suas vozes emocionadas. Eles estavam bem.

De volta ao Land Rover, entre goles em uma garrafa de água mineral, Murphy contou-lhes o que acontecera no interior da pirâmide.

— Ainda bem que eu sei que você é um homem de imaginação limitada — comentou Jassim, revirando os olhos —, ou teria certeza de que inventou tudo isso. Um pássaro, você disse, treinado para apanhar a cabeça em pleno ar onde estivera rodopiando há eras!

Ainda não sei se acredito.

— Apenas fique de olho em outro veículo — sugeriu Murphy. — Ele deve ter se aproximado da pirâmide pelo outro lado.

— Como ele sabia que estávamos aqui? É isso que não entendo — disse Isis.

Murphy sacudiu a cabeça.

— Sei lá. — Fechou os olhos, subitamente exausto. — Fracassei — falou mais para si mesmo do que para os outros. — Pensei que fosse isso que Deus queria que eu fizesse. Encontrar a Serpente. Que era esta minha missão.

Ísis deu seu sorriso de Esfinge.

— O que o faz pensar que fracassou?

Murphy bateu o punho no vidro da janela.

— Perdi a cabeça da Serpente. Está agora no fundo da pirâmide. Ninguém jamais a encontrará ali.

— Talvez tenha sido melhor — observou Ísis. — Creio que a Serpente... cada pedaço dela... nada mais é do que o mal. Se Deus tinha uma missão para você, talvez fosse a de encontrar a inscrição. A mensagem final de Dakkuri.

— Bem, adivinhe só, ela também está no fundo da pirâmide.

Ísis ignorou seu tom sarcástico.

— Não necessariamente.

— Do que está falando?

— A câmera do Rastejador focalizou a cabeça por dois ou três minutos. As imagens podem não ter uma nitidez cristalina, mas, como girava no espaço, certamente teremos todos os seus ângulos. Se o laboratório de Jassim tiver metade dos equipamentos que ele alega, poderemos reconstruir e realçar cada fotograma. Talvez possamos montar uma imagem composta... o suficiente para lermos os cuneiformes.

— Claro — concordou Jassim. — É bastante possível.

Murphy passou toda a viagem de volta à Universidade Americana repassando a seqüência de acontecimentos ocorridos no interior da pirâmide. Estivera para matar Garra. Não se lembrava de ter mudado de idéia. Nem mesmo lembrava de ter mirado no falcão — apenas aconteceu, como se o arco estivesse mirando ele, não o contrário.

Era assim que sempre parecia um disparo perfeito. Como se tivesse inspiração divina. Bem, talvez tivesse tido mesmo, pensou.

Jassim estava tão impaciente quanto Ísis para ver o que revelariam as fitas do Rastejador e mantinha o acelerador no fundo, embora a hora do rush da manhã começasse a se congelar em volta deles. Ísis mantinha as mãos juntas e pressionadas contra o colo e os olhos fechados. Quando finalmente chegaram diante do elegante prédio com paredes recobertas com estuque que abrigava o laboratório de Jassim, este insistiu, ao entrarem, que deveriam primeiro ajeitar tudo, no caso de Murphy, trocar o curativo de seu ferimento a faca e também colocar Band-Aids em seus vários cortes e arranhões.

Meia hora depois, estavam curvados diante de uma tela de computador vendo os compridos dedos de Jassim voar sobre as teclas. Após alguns momentos, apareceu uma imagem granulada da cabeça da Serpente, cintilando fracamente na luz mortiça enquanto girava em seu próprio eixo.

— E pensar que permaneceu ali durante 2.500 anos — produziu um ruído de desaprovação — e agora... puf... sumiu.

— Temos as imagens para mostrar ao pessoal de casa, e é isso que importa — frisou Murphy.

— Mas elas não mostram nada. Ainda não — advertiu Ísis. — Mova à frente... devagar.

Jassim avançou cada fotograma digital do filme até começar aparecer a parte de baixo da cabeça.

— Pare aí! — ordenou Ísis, e Murphy não pôde deixar de lembrar-se do efeito que ela causara nos adoradores de ídolos no esgoto. — Amplie o máximo que puder.

A imagem foi crescendo lentamente até encher toda a tela. Então, à medida que Jassim ampliava ainda mais, o contorno sumiu e tudo que conseguiam ver era a paisagem de um bronze cicatrizado e esburacado, como a superfície de uma distante lua amarela.

Jassim sacudiu a cabeça.

— Isso é o máximo que...

— Aí! — Ísis soltou um gritinho.

Murphy aproximou-se. Ela estava certa. O que momentos antes pareciam arranhões e fissuras casuais de um pedaço de metal atacado pelo tempo subitamente assumiu a forma ordenada de caracteres de uma escrita: os inconfundíveis cuneiformes gravados por Dakkuri.

Jassim preparou a impressão da imagem.

— Presumo que seja outra coisa que eu acharei impossível de acreditar — disse ele —, mas talvez agora seja o momento de me contarem o que significa tudo isso.

Murphy pôs a mão sobre o ombro do amigo.

— Espere até Ísis decifrar o que significa. Então eu lhe prometo contar tudo.

Jassim concordou com a cabeça enquanto Ísis praticamente arrancava a folha da impressora. Nenhum deles se mexeu. Por mais tempo que levasse, eles não iriam mesmo a lugar nenhum.

— Pelo menos é curto — disse ela, após algum tempo. — Suponho que ele pensou que, se o leitor chegou até aqui, não havia mais sentido para fazer charadas.

Seus olhos dispararam de um lado a outro do pedaço de papel, e Murphy sentia como se pudesse quase ouvir o cérebro dela trabalhando. Seus lábios moviam-se em silêncio, pronunciando repetidamente as palavras até fazerem sentido. Então pousou cuidadosamente a folha sobre a escrivaninha.

— E então? — Jassim parecia ainda mais agitado do que Murphy, que parara de respirar.

Ela levou um momento para se recompor, e começou:

— Inicia com uma exortação ritual, como sempre: Os servos da cobra mantiveram esse segredo. Honra e poder a eles no futuro.

Tossiu.

— Depois vem a parte importante.

 

“As grandes torres de Babilônia são pó, o vento sopra-o aonde lhe apraz.

“Mas encontre a cabeça e o corpo se erguerá depois, projetando sua sombra por toda a Terra.

“Ela é de ouro e indica um rei, o mais poderoso.

“Na moradia de Marduk você a encontrará.

“Ó fiel servo da escuridão, seja ordenado a erguê-la.

“Do pó da Babilônia também se erguerá para governar novamente.

 

O silêncio se arrastou, e Ísis falou:

— É isso aí.

— É o bastante — disse Murphy baixinho.

— Mas o que significa? — perguntou Jassim.

— Significa que a Babilônia ressurgirá. Pelo menos ressurgirá se as pessoas erradas se apossarem da Cabeça de Ouro.

Ísis olhou-o solícita, mas Jassim já estava fora de sua cadeira, torcendo as mãos em frustração.

— Você fala através de enigmas, Murphy. Como a Babilônia vai ressurgir? O que é essa Cabeça de Ouro? Pensei que estivesse procurando... e acabou de perder... a cabeça da Serpente de Bronze.

— Desculpe, Jassim. Deixe-me explicar. De acordo com a interpretação de Daniel do sonho de Nabucodonosor, o Império babilônico era o mais poderoso que o mundo jamais conheceria. Esse poder era simbolizado pela Cabeça de Ouro da estátua do sonho... a tal que ele depois construiu. Quando Nabucodonosor percebeu o erro de seus modos, mandou destruir a estátua. Mas aposto como a cabeça foi enterrada em algum lugar pelas pessoas que idolatravam a Serpente de Bronze.

— Mas por quê? Se não queriam destruí-la, por que não a derreteram? O ouro devia valer uma fortuna inacreditável.

— Eu tenho toda a certeza porque eles acreditavam que se preservassem a cabeça algum dia a pessoa certa a encontrará, e a Babilônia se erguerá novamente.

Jassim esfregou os olhos como se verificasse que não estava sonhando.

— E o que significa isso: Babilônia se erguerá novamente? A antiga cidade será reconstruída?

— Não apenas isso — rebateu Murphy. — Significa que o poder da Babilônia também será reconstruído. Dessa vez, como um poder cruel dominando o mundo.

Jassim voltou-se para Ísis.

— Gostaria de saber o que pensa de tudo isso, dra. McDonald. Penso que é uma pessoa sensível, como eu. Acredita realmente que um culto da maldade escondeu a Cabeça de Ouro de Nabucodonosor durante 2.500 anos, esperando por uma chance de dominar o mundo?

Ísis levou algum tempo para responder.

— Não tenho certeza. Minha opinião do que é possível, do que é real e do que não é, andou mudando recentemente. Sabe, acho que tenho visto o mal agir... o puro e genuíno mal. Pessoas inocentes mortas por causa de um pedaço de latão. — Seus olhos fizeram contato com os de Murphy por um segundo. — Não sei no que acreditar sobre a Cabeça de Ouro, a volta da Babilônia e tudo mais. Tudo que sei é que estou com medo. Muito mais medo do que já senti em toda a minha vida.

Jassim assentiu solenemente, e depois dirigiu-se a Murphy:

— Eu sou como a dra. McDonald. Não sei em que acreditar. Mas, só por garantia, acho uma boa idéia encontrar essa Cabeça de Ouro antes de qualquer um.

— Apoiado — disse Murphy.

— Bem, onde você supõe que fica a moradia de Marduk?

— Essa é fácil — observou Ísis. — O templo de Marduk ficava na Babilônia.

— Então você está dizendo...

Murphy fez que sim.

— Exatamente. Para isso, terei que convocar todo mundo: a Fundação Pergaminhos da Liberdade, a Universidade Americana e o meu amigo Levi para mexer todos os pauzinhos na região. Temos de ir para o Iraque.

 

— OS JARDINS SUSPENSOS DA BABILÔNIA — disse Ísis, sonhadora, mexendo seu chá gelado. — Não consigo imaginar cinco mundos mais misteriosos e sedutores. Eles parecem tão familiares... mas ninguém sabe realmente como se pareciam.

Murphy observava seus pequenos goles felinos.

— Tem certeza disso? Você não teve uma lembrança de caminhar por eles há 2.500 anos?

Ísis apanhou um cubo de gelo e jogou nele.

— Pare com isso.

Jassim franziu a testa. Ele escolhera o restaurante porque era tranqüilo e era possível conseguir uma mesa em um recanto onde você podia falar sem ser ouvido. E não estava a fim de brincadeiras.

— Então, é onde fica localizado o templo de Marduk? Nos Jardins Suspensos?

— Ou acima deles. Só saberemos com certeza quando chegarmos lá — alegou Murphy.

— Você faz tudo parecer tão simples. Certamente, não é possível aparecer no sítio e simplesmente começar a cavar. Muitas das antiguidades iraquianas já foram saqueadas.

— Esta é a questão, Jassim. Atualmente, o melhor lugar para os antigos tesouros do Iraque é num museu localizado bem longe. Quando a lei e a ordem forem restauradas, e os próprios museus do Iraque passarem a funcionar novamente, então tudo poderá ser devolvido e os iraquianos poderão apreciar sua antiga herança sem se preocupar se algum criminoso vai roubá-la e colocá-la à venda no mercado negro.

Jassim pareceu cético.

— É difícil acreditar que algo tão grande... Quanto foi mesmo que disse? Quatro metros e meio de altura e uns dois de diâmetro? ...possa ter escapados dos saqueadores. Dos que vieram depois da guerra ou dos que governaram o país por 30 anos. Acho que foi derretida há muito tempo e transformada em torneiras de ouro para os banheiros de Saddam.

— É muita torneira — observou Murphy.

— Ele tinha muitos banheiros.

Murphy bebericou sua água, pensativo.

— Até agora, Dakkuri tem se mostrado muito esperto. Conseguiu esconder um artefato bíblico de modo que ninguém o encontrasse até... até o momento certo. Aposto como ele também escondeu muito bem a cabeça.

— E agora é o momento certo de encontrá-la?

— Não estou certo se haverá um tempo certo para se encontrar uma coisa assim. Mas qualquer momento é o momento certo para se evitar que pessoas erradas coloquem as mãos nela.

Ísis consultou o relógio e apanhou a mochila que estava no chão.

— Então vamos nessa. Nosso avião parte dentro de duas horas.

Jassim colocou a mão sobre seu braço.

— Espere só um minuto, por favor, dra. McDonald.

— Ísis. Por favor. — Era estranho, mas agora que sua deusa não lhe parecia tão real, ela sentia-a mais à vontade com seu nome. — O que é, Jassim?

Ele pareceu sem jeito.

— Você, Murphy, é um homem corajoso. Ou talvez apenas imprudente... mas não importa. Talvez seja tudo a mesma coisa. E você, Ísis, tem suportado experiências realmente terríveis com uma firmeza extraordinária. Eu, por outro lado, não sou nenhum herói. As pessoas que desejam se apossar da Cabeça de Ouro são, obviamente, muito poderosas e totalmente cruéis. Não é uma combinação de que eu goste.

— Estou entendendo o que quer dizer, Jassim — interrompeu-o Murphy. — Eu não o censuraria se você não se sente à vontade em ir conosco ao Iraque. Admito que será um trabalho mais difícil, sem você para ajudar com a logística. Mas vamos nos arranjar. Entretanto, duas coisas me fazem pensar que não voltaremos a enfrentar pessoas como o passarinheiro. Primeiro, porque ele não chegou a ver a inscrição na cabeça da Serpente, e você destruiu o filme e deletou tudo o que havia no computador. Nós somos as únicas três pessoas que sabem onde está a Cabeça de Ouro.

— Gostaria de ter sua confiança. — Jassim olhou nervosamente em volta do restaurante. — Se não se importa de eu dizer isto, esse homem terrível, o tal de Garra, parece estar um passo atrás de você a cada centímetro do caminho. Como podemos ter certeza de que ele, de alguma forma, não está escutando nossa conversa neste exato momento?

— Talvez esteja — admitiu Murphy. — Mas há a segunda coisa. Nós não estaremos sozinhos quando formos ao templo de Marduk. No momento, uma unidade dos Fuzileiros Navais americanos está protegendo o sítio.

Jassim coçou o queixo.

— Bem, espero que tenham ordens de atirar contra qualquer pessoa suspeita... aliás, em qualquer ave de rapina suspeita.

— Estou certo de que têm. E, então, está nessa?

— Acredito que estou tomando uma decisão muito tola — suspirou. — Mas acho que se vocês acharem a cabeça e eu não estiver lá para compartilhar a maior descoberta arqueológica dos tempos modernos, eu me matarei de qualquer maneira. Está bem, sim, estou nessa.

 

O LAND CRUISER SACOLEJAVA pelo caminho lentamente através das ruínas dispersas da cidade antiga, e Ísis se beliscava para ter certeza de que não era um sonho. Desde que a adorável presença de seu pai ausentou-se, ela passara a vida em reclusão. Seus estudos acadêmicos foram uma maneira de evitar todas as coisas que a apavoravam, e sua salinha abarrotada na fundação era na verdade um bunker do qual se mantivera com sucesso fora de um mundo em apuros.

Isto é, até Michael Murphy surgir em sua vida.

Agora, num espaço de poucos e curtos dias, ela fora exposta ao perigo, ao medo e à morte. Tinha se aventurado, literalmente, no desconhecido. Viajara pelos escuros subterrâneos de uma cidade medieval. Vira o interior de uma pirâmide. E agora estava para caminhar no próprio solo da Babilônia.

Nas paredes que ladeavam o famoso portão de Istar, ferozes dragões encontraram seu olhar esbugalhado, sobreviventes de três mil anos de chuva, vento e tempestades de areia. Seu coração, porém, não disparou do modo como esperava. Talvez após uma existência de estudo dos variados deuses e deusas que os homens adoraram através das eras ela finalmente captara um vislumbre de algo maior.

— É ali — apontou Murphy para uma ladeira próxima, onde paredes desintegrando-se ainda se mantinham de pé nos terraços escalonados do projeto original da rainha Amitis. No topo, o templo de Marduk era marcado com um solitário pináculo de arenito.

Como previra Jassim, o sítio parecia como se chacais há muito tempo tivessem limpado seus ossos. Partes inteiras da ladeira haviam desabado, cobrindo com terra e entulho o que fora outrora restos de vãos de portas e escadarias. Qualquer pedaço remanescente de pedra com algum tipo de gravação ou desenho havia sido retirado, desde fragmentos do tamanho de uma mão aos pilares originais.

Murphy examinava a devastação quando um oficial dos Fuzileiros com óculos de piloto subiu apressado a encosta da colina para se apresentar.

— Coronel Davis, dos Fuzileiros Navais dos EUA. Você deve ser o professor Murphy.

Murphy foi submetido a um aperto de mão de quebrar os ossos.

— Prazer em vê-lo, coronel. — Pela primeira vez, ele notou o punhado de soldados com camuflagem de deserto formando um indefinido contorno em volta da encosta. — E a seus homens.

— O prazer é nosso. O que pudermos fazer, é só gritar.

— Nem sei por onde começar — admitiu Murphy. — Precisamos ver o que há sob os escombros. Procuramos uma espécie de câmara subterrânea.

O coronel deu um sorriso largo.

— Imaginei que precisaria. Por isso, quando chegamos, fizemos algumas escavações aqui em volta. Parece que os sujeitos que limparam este local deixaram algumas coisas que acharam que não teriam utilidade no mercado negro.

Murphy ficou radiante.

— Por exemplo?

— Um trenó sonar lhe serviria para alguma coisa?

Murphy soltou uma gargalhada.

— Coronel, me serviria demais.

Meia hora depois, Murphy e Jassim arrastavam o trenó — um pedaço retangular de plástico leve do tamanho de um colchão de criança — lentamente pelo deslizamento de pedras, enquanto Ísis, a poucos metros dali, observava as imagens que se formavam na tela do laptop.

Até o momento, tudo o que ela vira tinham sido escuros contornos de câmaras desabadas e galerias vazias. Então sua atenção foi atraída para a espantosa simetria de um par de escuras linhas paralelas na tela.

— Parem! Podem voltar um pouco?

Murphy e Jassim conduziram o trenó em ziguezague sobre as pedras. Agora não havia como se confundir. Algum tipo de objeto feito pelo homem estava lá embaixo, talvez uns quatro metros abaixo da superfície. E não era pequeno.

Murphy e Jassim se aproximaram e olharam para a tela. Jassim fez que sim.

— Um conjunto de portas, talvez? De todo modo, uma espécie de entrada.

— Mas como chegaremos lá? — indagou Ísis.

O coronel Davis estava ali perto, observando-a trabalhar.

— Com licença, senhor, mas uma escavadeira ajudaria?

Ele se afastou, sem esperar a resposta, e poucos minutos depois ouviu-se o ruído do motor de uma escavadeira escalando a colina. Ela parou a poucos metros de onde Murphy e Jassim estavam trabalhando com o trenó. Murphy levantou o polegar e a escavadeira começou a cavar o entulho e colocá-lo de lado. Sua primeira passada pareceu apenas arranhar a superfície, mas o jovem fuzileiro empoleirado na cabina da escavadeira logo se entusiasmou com seu trabalho e 20 minutos depois Murphy fez o sinal para parar.

Foi até a área de terra recém-escavada e então virou-se para o coronel Davis.

— Agora, só precisamos mesmo de algumas pás.

Davis bateu fortemente uma continência.

— É para já. E, se precisar, tenho 20 homens com muita experiência em cavar buracos.

Quando eles já haviam cavado cerca de três metros, Murphy e Jassim sentiram-se tontos de cansaço, mas a meia dúzia de fuzileiros que os ajudavam ainda nem tinham começado a suar.

— Epa! Isso parece metal — exclamou um deles, quando sua pá quicou em algo duro. De quatro, afastaram com as mãos o que restava de terra solta.

Acompanhados por Ísis, Murphy e Jassim olharam abaixo para um imenso conjunto de portas de bronze. Cobertas com crostas de depósitos minerais e uma pátina de sedimento descolorante, os painéis esculpidos ainda tinham poder de maravilhar, quando imagens das conquistas de Nabucodonosor começaram a entrar em foco após um intervalo de três mil anos. E ali, assomando até mesmo o grande Nabucodonosor, estava a imagem de Marduk, o deus-guerreiro.

Por instantes, ninguém falou. Então Jassim comentou:

— Eu diria que estamos realmente no lugar onde Marduk habita. Vamos entrar?

As portas quase na posição horizontal pareciam como se tivessem sido lacradas pela eternidade, e como nem mesmo a força combinada de todos os presentes foi capaz de abri-las, eles não tinham como saber se havia algo mais do que areia atrás delas. Toda a estrutura há muito tempo havia se deslocado da vertical, talvez em um dos freqüentes terremotos aos quais a região está sujeita, e era possível que as portas se abrissem para o nada.

Sob a orientação de Murphy, três fuzileiros se apoiaram em uma das portas e tentaram alavancar a outra com suas pás. Em pouco tempo, até mesmo eles estavam suando, e Murphy começou a desconfiar de que as portas tinham sido astutamente projetadas para sugerir uma câmara que de fato não existia.

Então, de repente, ouviu-se um som de distensão, uma pá voou das mãos de um dos soldados, surgiu uma abertura e uma torrente de ar viciado escapou de baixo. Agarrando a beira da porta, eles a forçaram e, lentamente, ela se abriu com um rangido de antigas dobradiças.

Segurando-se em uma das portas, Murphy escorregou para a escuridão abaixo, suas pernas pendendo livres no espaço vazio. Ah, então as portas abriam para alguma coisa. O ar fétido agora era quase insuportável, um fedor acre de decomposição mais forte do que qualquer coisa que ele já havia cheirado. Sentiu um acesso de náusea e então seus pulmões começaram a pesar. Ouviu Ísis gritar quando seus dedos escorregaram da beirada da porta, e então ele estava caindo aos trambolhões.

O momento pareceu se estender, e Murphy pensou em afogados cujas vidas passam repentinamente por eles numa fração de segundo. Então, um impacto ressonante enviou uma fremente pulsação de dor sacolejante através de suas pernas. Antes que ele conseguisse dar um berro, sua cabeça bateu em algo duro e inflexível e, dentro dela, uma nuvem negra encheu-se como um balão, apagando tudo que havia do lado de fora.

Quando voltou a si, pôde ouvir vozes vindas do alto. Por um momento, era apenas ruído, e então os sons voltaram novamente a formar palavras, e ele percebeu que eram Ísis e Jassim perguntando se ele estava bem. Ouviu a segunda porta sendo aberta.

— Estou bem — conseguiu falar, ao erguer-se apoiando-se nas mãos e nos joelhos. Outro acesso de tosse o atacou quando mais quantidade do ar negro foi forçado para seus pulmões já oprimidos, e ele sentiu os olhos arderem de lágrimas. Esperou até o acesso passar, depois limpou o rosto com as costas da mão. A cabeça retinia, mas a dor nas pernas fora substituída por um constante latejar. Abriu os olhos.

Em seguida, fechou-os novamente e sua cabeça se encheu de um brilho agnonizante. A pancada na cabeça, pensou, isso me deixou cego momentaneamente. Reagindo a um acesso de pânico, estabilizou a respiração e olhou de esguelha através das pálpebras semi-abertas. A luz dourada ainda era esmagadora, mas ele se forçou a manter os olhos abertos, e gradualmente a névoa que enchia seu campo de visão foi se tornando um objeto sólido.

Ele estava olhando para a íris de um imenso olho de ouro.

Ainda de quatro, arrastou-se para trás na terra até o restante do objeto entrar em foco. A princípio, os fortes sulcos e as linh