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A PRÓXIMA VÍTIMA / Michael Palmer
A PRÓXIMA VÍTIMA / Michael Palmer

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A PRÓXIMA VÍTIMA

 

10 de Janeiro

- Dois... trés... quatro.

Toby Nelrus deitou‑se de costas e contou as lâmpadas que cintilavam por cima da sua cabeça. Tinha oito anos, mas até para a sua idade era pequeno; tinha cabelos vermelho‑acastanhados e sardas que lhe atravessavam as maçãs do rosto e a cana do nariz. Pouco tempo depois de o pai ter sido transferido do Norte de Nova Iorque para a T. J. Carter Paper Company de Sterling, em New Hampshire, os colegas de Toby na escola primária de Bouquette chamavam‑lhe "cara sarapintada" e "camarão", maltratando‑o na cafetaria. Mas tudo passou a correr muito melhor desde o dia em que conseguiu aguentar uma tareia dada por Jimmy Bames, o valentão da escola.

Cinco... seis... sete...

Toby friccionou a zona do inchaço no topo da perna, próximo da pilinha onde a dor tivera início e ainda persistia. Os médicos disseram‑lhe que a injecção tiraria a dor, mas tal não aconteceu.

A música que segundo garantiram as enfermeiras, iria ajudá‑lo a descontraIr, também não fazia efeito. A canção era bonita, mas não tinha letra. Com a mão a tremer, Toby ergueu o braço e tirou os auscultadores almofadados.

Oito... nove... As luzes mudavam de branco para amarelo, rosa e por fim vermelho. Dez.. onze...

Após a luta com Jimmy, os miúdos deixaram de o maltratar e começaram a convidá‑lo para irem juntos para casa, depois das aulas. Chegaram mesmo a elegê‑lo representante da turma no conselho de alunos. Após alguns meses de doenças inventadas para ficar em casa, era agradável voltar a querer ir à escola todos os dias. Agora, por causa do inchaço, iria faltar durante uma semana inteira. Não era justo.

Doze... treze... As cintilantes luzes vermelhas tornaram‑se mais brilhantes e intensas. Toby cerrou os olhos o mais que póde, mas o vermelho tornou‑se ainda mais quente e brilhante. Tentou tapá‑los com os braços, mas a luz quente e cor de sangue atravessou‑os e começou a queimá‑los. Ele começou a chorar baixinho.

‑ Então, Toby, não é preciso chorar. O senhor doutor vai tratar desse altinho e sentir‑te‑ás muito melhor. Tens a certeza que não queres ouvir música? Quase todos os nossos doentes dizem que se sentem bastante melhor quando a ouvem.

Toby abanou a cabeça e baixou lentamente o braço. As luzes tinham desaparecido de cima de si. Em vez delas, viu o rosto da enfermeira a sorrir‑lhe. Tinha cabelo grisalho, rugas e era velha ‑ tanto quanto a tia Amelia. Os dentes eram amarelados, e a maquilhagem, em tons de vermelho‑vivo, brilhava nas faces. Enquanto a examinava, a pele do rosto dela tornou‑se mais enrugada e encovada. As rugas desapareceram e os espaços por baixo e por cima da maquilhagem, onde os olhos tinham estado, tornaram‑se escuros e ocos.

‑ Vamos, vamos, Toby... Vamos, vamos lá... Vamos, vamos...


Mais uma vez, Toby colocou um braço á frente dos olhos e mais uma vez não resultou. A pele da enfermeira tornou‑se ainda mais enrugada e começou a pelar, até aparecer o branco dos ossos. O vermelho pingou como sangue sobre o rosto esquelético e as cavidades onde os olhos tinham estado brilharam.

‑ Vamos lá... Vamos lá...

‑ Deixe‑me levantar. Por favor, deixe‑me levantar.

Toby pediu aos gritos, mas ouviu apenas um resmungar baixo, como o som de um gira‑discos, quando ele fazia rodar o disco com um dedo.

‑ Deixe‑me levantar. Por favor, deixe‑me levantar.

O lençol foi afastado do corpo e ele tremeu devido ao ar frio.

‑ Tenho frio ‑ murmurou. ‑ Por favor, tape‑me. Por favor, deixe‑me levantar. Mamã. Quero a minha mãe.

‑ Está bem, rapaz. Toca a subir.

Era uma voz de homem, profurida e lenta. Toby sentiu umas mãos em redor dos tornozelos e por baixo dos braços a levantarem‑no cada vez mais acima da cama com rodas. Acima, acima, cada vez mais acima. Ouvia‑se a mesma música no quarto. Agora, mesmo sem os auscultadores, ele ouvia‑a.

‑ Então, rapaz. Acalma-te.

Toby abriu os olhos. O rosto acima do seu estava desfocado. Pestanejou e voltou a pestanejar. O rosto, sob uma touca azul, continuou desfocado. Na verdade, nem sequer era um rosto ‑ apenas pele, onde deveriam estar os olhos, o nariz e a boca.

Toby voltou a gritar. E mais uma vez, só houve silêncio. Ele flutuava indefeso.

- Mamã, por favor, Quero a minha mãe.

‑ Toca a descer, rapaz ‑ disse o homem sem rosto.

Toby sentiu a marquesa fria sob as costas. Sentiu apertar o cinto que lhe cruzava o peito. "É só um alto", disse para consigo. "Não magoem a minha pilinha. Vocês prometeram. Por favor, não me magoem."

‑ Está bem, Toby, agora vais adormecer. Descansa, ouve a música e conta para trás a partir de cem. Assim: cem... noventa e nove... noventa e oito...

....... noventa e nove... ‑ Toby ouviu a sua própria voz dizer as palavras, mas sabia que não as dizia em voz alta. Noventa e oito... noventa e sete... ‑ Sentiu água muito gelada a ser deitada sobre o espaço entre a barriga e o topo da perna ‑, primeiro sobre o inchaço e depois sobre a pilinha. ‑ Noventa e seis... noventa e cinco. ‑ Porfavor, parem. Estão a magoar‑me. Por favor.

‑ Já está, meus senhores, já dorme. Pronto, Jack? Equipa? - A voz, de homem, era uma voz que Toby já tinha ouvido. Mas onde? Onde? ‑ Bom, Marie, aumenta ligeiramente o volume. Está óptimo. Muito bem, vamos a isto. Faca, por favor...

A voz do médico. Sim, pensou Toby. Era ele. O médico que o examinara na sala de urgências. O médico que tinha um olhar carinhoso. O médico que lhe prometera não...

Faca? Que espécie de faca? Para quê?

Então, Toby viu‑a. A luz reflectiu‑se na lâmina de uma pequena faca prateada, á medida que esta se aproximava cada vez mais do inchaço logo acima da perna. Tentou mover‑se para se afastar, mas o cinto colocado por cima do peito prendia‑lhe fortemente os braços em ambos os lados.


Por um instante, o medo de Toby foi substituido por confusão e uma curiosidade estranha. Viu a fina lâmina a descer, até tocar apenas na pele junto á pilinha. Depois a dor, diferente de todas as que sentira antes, partiu daquele ponto e espalhou‑se por todo o corpo.

‑ Estou a sentir tudo! Estou a sentir tudo ‑ gritou. ‑ Esperem! Parem! Estou a sentir tudo.

A faca cortou mais fundo, depois começou a deslocar‑se sobre o topo do inchaço e voltou em direcção à base da pilinha. O sangue jorrava em redor da lâmina, á medida que esta ia cortando a pele.

Toby fartou‑se de gritar.

‑ Já está. Sucção, agora ‑ ouviu o médico dizer calmamente.

‑ Por favor, por favor, estão a magoar‑me. Estou a sentir tudo ‑ implorou Toby, histericamente.

Esperneou e lutou com todas as forças contra o cinto.

‑ Mamã, papá. Por favor, ajudem‑me.

‑ Metzenhaums.

A lâmina da faca luzidia, agora coberta de sangue, foi retirada da incisão que acabara de fazer. No seu lugar, Toby viu as pontas de uma tesoura penetrarem no corte, primeiro abrindo, depois fechando e a seguir voltando a abrir, aproximando‑se cada vez mais da base da sua pilinha. Cada um dos movimentos causava uma dor tão intensa que quase não se sentia. Quase.

‑ Não percebem? ‑ gritou Toby, lutando para falar no tom de argumentação de um adulto. ‑ Estou a sentir tudo. Dói. Estão a magoar‑me.

A tesoura penetrou mais fundo, próximo da base da sua pilinha.

‑ Não! Não toquem aí! Não toquem aí!

‑ Esponja, preciso de uma esponja aqui. óptimo, está melhor. Está melhor.

A tesoura avançou um pouco mais. Toby sentiu a pilinha e os testículos a serem separados do corpo.

- Não façam isso... não façam isso... - As palavras foram ditas mentalmente e não em voz alta.

De novo, com todas as forças, Toby tentou empurrar o cinto colocado sobre o peito. Por cima de si, viu o médico ‑ o homem cujo olhar fora tão carinhoso, o homem que prometera não magoar. Ele tinha qualquer coisa na mão ‑ qualquer coisa ensanguentada ‑ e mostrava‑a a todos os que ali estavam presentes. Toby esforçou‑se por compreender o que era aquilo que ele mostrava, que coisa tão interessante era aquela. Então, subitamente, percebeu. Aterrorizado, olhou para o local onde o inchaço havia estado. Tinha desaparecido, mas também desaparecera a sua pilinha... e os seus testículos. No seu lugar não restava mais nada a não ser um tremendo buraco cheio de sangue.

Nesse instante, o cinto colocado sobre o peito de Toby abriu‑se em dois. Golpeando com os braços e as pernas, atirou‑se para fora da marquesa, dando pontapés nos médicos, nas enfermeiras e em tudo o que lhe aparecia pela frente. A intensa lâmpada por cima de si estilhaçou‑se. Vários tabuleiros com instrumentos de aço brilhante caíram ao chão.


‑ Apanhem‑no, apanhem‑no! ‑ ouviu o médico gritar. Toby atacou violentamente com os pés e os punhos, derrubando uma prateleira de frascos. O sangue de um deles salpicou‑lhe as pernas. Correu para a porta, para longe da mesa dura... para longe do cinto.

‑Agarrem‑no!... Agarrem‑no!

Umas mãos fortes apanharam‑no pelos braços, mas ele deu um pontapé e conseguiu libertar‑se. Momentos mais tarde, as mãos prenderam‑no de novo. Uns braços poderosos apertaram‑lhe o peito e prenderam‑lhe o queixo.

‑ Calma, Toby, calma ‑ disse o médico. ‑ Tu estás bem. Estás em segurança. Sou eu. E o papá.

Toby torceu‑se e contorceu‑se o mais que pôde.

‑ Toby, por favor. Pára. Escuta. Estás a ter um pesadelo. É só um sonho. Mais nada. Só um sonho mau.

Toby animou‑se ligeiramente, mas continuou a lutar. A voz já não era a do médico.

‑ Bem, filho, já chega. Basta. Agora, acalma‑te. E o papá:

Ninguém te vai magoar. Estás em segurança. Ninguem te vai magoar.

Toby parou de lutar. Os braços que lhe apertavam o peito e o queixo afrouxaram. lentamente, fizeram‑no rodar. Toby abriu os olhos. O rosto do pai, carregado de preocupação, estava a um palmo do seu.

‑ Toby, consegues ver‑me? É o papá. Sabes quem sou?

‑ Toby, é a mamã. Também estou aqui.

Toby Nelrus olhou primeiro para o pai e depois para o rosto preocupado da mãe. Então, sentindo um vazio horrível no peito, deixou a mão escorregar pela parte da frente da calça do pijama. A pilinha estava ali, exactamente onde era suposto estar. Os testículos também.

Terá sido um sonho?

Muito fraco e confuso para desatar a chorar, Toby caiu no chão. O quarto começou a rodopiar. Havia brinquedos e livros por todo o lado. A estante de livros tinha sido arrastada e o tampo da secretária estava vazio. O rádio estava desfeito em pedaços. O pequeno aquário, a casa de Benny, o seu peixinho‑dourado, estava estilhaçado no tapete. Benny estava morto entre os pedaços de vidro.

Bob Nelrus estendeu os braços para o filho, mas este afastou‑se.

Com os olhos ainda fixos nos pais, Toby recuou um passo e depois subiu para a cama e deitou‑se. Mais uma vez, apalpou‑se.

- Toby, estás bem? ‑ perguntou‑lhe a mãe, suavemente.

O rapaz não respondeu. Em vez disso, encolheu as pernas, voltou‑se de lado e ficou a olhar para a parede.


 

Era domingo, 30 de Junho, e o dia estava quente e entorpecedor. Na Estrada 16 de New Hampshire, o ligeiro tráfégo da estrada em forma de serpentina que partia de Portsmouth até quase à fronteira canadiana deslocava‑se lentamente através das vagas de ar quente. Lá longe, para oeste, uma mancha de escuras nuvens de tempestade emoldurava o horizonte.

A estrada do Norte em especial numa tarde como aquela, era uma das que Zack' Iversou gostava de percorrer desde há muito tempo Já ali tinha passado pelo menos umas cem vezes, mas cada passagem pelos campos de pastagem até ao Sul, as aldeias, as colinas e por último as próprias White Mountains, originava novas visões e novas sensações.

A sua carrinha, uma amolgada caravana VW, estava apinhada de caixas de roup'as e peças de mobiliário esquisitas. Empoleirado no lugar do passageiro, Cheapdog tinha o focinho apoiado na janela e saboreava a oportunidade esporádica de ver o mundo, enquanto o pêlo era soprado para trás, afastando‑se dos olhos.

Enquanto conduzia Zack estendeu um braço e afagou a parte de trás da orelha ao animal. Com Connie fora da sua vida e quase todo o mobiliário vendido, Cheapdog era um rochedo, uma ilha num mar de mudanças e incertezas.

Mudanças e incertezas. Zack sorriu, tenso. Desde há muitos anos que os dias 30 de Junho e 1 de Julho eram sinónimos daquelas palavras. Empregos de Verão em liceus, quatro anos independentes na universidade e mais quatro na faculdade de medicina; estágio em hospitais; oito anos de estágio em cirurgia e depois em neurocirurgia ‑ tantas mudanças, tantos trintas de Junho significativos. Agora, este dia seria o último dessa série - um nitido corte entre a primeira e a segunda metade da sua vida.

No ano seguinte, a data passaria provavelmente a ser um dia como outro qualquer.

A Estrada 16 estreitou‑se e deu início a uma espécie de montanha‑russa através da zona montanhosa. Zack olhou para o relógio. Duas e meia. Nesse momento, Frank e o juiz deviam estar no clube, provavelmente no quarto ou quinto buraco. O jantar só seria depois das seis. Não era preciso ter pressa. Parou numa zona de descanso.

Cheapdog, pressentindo que esta seria uma paragem substancial, agitou‑se ansiosamente no banco.

‑ Pois é, franjinhas ‑ disse Zack. ‑ Podes desaparecer por momentos. Mas primeiro...

Retirou um livro rasgado de entre os bancos e colocou‑o sobre o tablier. Imediatamente, a agitação do cão parou. A cabeça inclinou‑se.

‑ Vejo que dás valor ao preço que é preciso pagar pela liberdade de que estás prestes a gozar. Sim, cães e cadelas, chegou o momento. ‑ Tirou uma moeda de um dólar do bolso da camisa e leu a página. ‑ Chegou o momento de fazer desaparecer a moeda, ao estilo italiano.

O livro, Magia com Moedas, de Rufo, era uma reedição de 1950 que Zack encontrara casualmente numa livraria de livros em segunda mão, em Cambridge.


Surpreenda os seus amigos... Divirta a sua família... Impressione membros do sexo oposto... Aumente a sua destreza manual.

Cada uma das quatro reivindicações, gravadas a ouro na capa, causava‑lhe um certo fascínio. Mas a última do grupo era a que mais o atraía.

‑ Não percebeste? ‑ Tentara explicar a um colega neurocirurgião, enquanto executava os exercícios do Capítulo Um. - Só ficamos na SO... quanto tempo?... Algumas horas por dia, no máximo. Precisamos de algo como isto para manter as mãos ágeis, entre operações... para aumentar a nossa destreza manual. Do modo como as coisas estão, somos como atletas que nunca treinam entre os jogos, não é verdade?

Infelizmente, apesar de o princípio por trás daquela ideia ser suficientemente nobre, a implementação deu origem a um problema bastante desconcertante. Embora as mãos de Zack fossem bastante hábeis na sala de operações, mesmo para um neurocirurgião, nem sequer conseguia executar os truques mais elementares de Rufo, ficando reduzido à prática diante de espelhos, animais e crianças que não entendessem qual era a sua vocação.

‑ Muito bem, cão ‑ disse ‑, prepara‑te. Vou omitir a conversa fiada que acompanha este número, porque sei que estás de olho naqueles vidoeiros além. Bem, coloco a moeda aqui... e viro o pulso assim, e... e voilá! A moeda desapareceu. Obrigado, obrigado. Agora, passo simplesmente a minha outra mão por cima, assim, e...

A moeda de um dólar escorregou‑lhe da mão, bateu na alavanca do travão manual e foi parar debaixo do banco.

A cabeça do cão inclinou‑se para o outro lado.

‑ Merda ‑ murmurou Zack. ‑ Foi o sol. O sol afectou‑me as mãos. Bem, desculpa, cão, mas foi só um truque.

Apanhou a moeda e depois esticou o braço para abrir a porta do passageiro.

Cheapdog saltou da carrinha e, em menos de um minuto, aliviou‑se em meia dúzia de árvores, deslizou por uma íngreme ladeira cheia de ervas e atirou‑se de barriga para dentro de um regato de montanha.

Zack seguiu‑o á distância. Era um homem alto, de bonitos olhos verdes e aspecto austero, que Connie um dia descrevera como "terrivelmente bonitão... com um ar rufia".

Caminhou junto á ladeira, exercitando a perna de modo a afastar a rigidez que a condução lhe causara no joelho debilitado e vendo Cheapdog lançar‑se como um lamikaze sobre um gaio azul e falhar.

Sabes, rapaz? pensou. Sabes que o ensaio terminou? Que não voltaremos á cidade?

Desviou o olhar para as montanhas. As Rockies, as Tetons, as Smokies, as Sierras, os Apalaches setentrionais ‑ sendo um ávido alpinista desde a adolescência, escalara todas numa ou noutra ocasião. Contudo, havia algo de especial, algo intimo e particular que sentia nas White Mountains e em mais lugar algum; pareciam enviar‑lhe uma mensagem: que o mundo e a sua vida estavam exactamente onde deviam estar.


As exigências da prática cirúrgica tinham imposto um tributo em todos os aspectos da sua existência. Mas, de todos esses compromissos e sacrificios, a inevitável redução da prática de alpinismo foi aquele que aceitou com a maior relutância. Agora, com quase trinta e seis anos, sentia‑se ansioso por recuperar o tempo perdido.

Thin Air... Tumabout and Fair Play... The Widow‑Maker... Garsan's Cliff... Cada uma das escaladas seria como voltar a encontrar um velho amigo.

Zack fechou os olhos e inspirou o ar da montanha. Durante meses tinha lutado entre a escolha de uma carreira na medicina académica e a prática de medicina privada numa pequena cidade. De todas as decisões que tomara na vida ‑ a escolha da universidade, da faculdade de medicina, da especialidade, do programa de estágio ‑, esta provara ser a mais difícil.

Mesmo depois de a tomar ‑ após ter pesado todos os prós e contras, obtido o acordo de Connie e optado por regressar a Sterling ‑ a sua débil decisão foi desafiada. A tinta do contrato com a Ultramed, Corporação de Hospitais Ultramed, ainda mal secara quando Connie anunciou começar a ter dúvidas acerca da mudança de Back Bay para o Norte de New Hampshire; acrescentara que, na verdade, estava também a ficar com medo de estar comprometida com um tipo de homem que nem sequer punha em causa uma tal mudança.

Pouco menos de duas semanas depois, o anel chegou ao seu apartamento na caixa original, atada a uma garrafa de Cold Duck.

Zack suspirou e passou os dedos pelo cabelo castanho‑escuro. Eram dedos muito expressivos ‑ vigorosos e muito compridos, mesmo para as mãos de alguém com um metro e oitenta, que se habituara a encomendar luvas especiais a um fornecedor de artigos médicos em Milwaukee. Tempos antes, aqueles dedos tinham‑no destacado na sala de operações e, antes disso, na superficie rochosa.

Olhou para noroeste e jurou ter conseguido ver Mirror; uma superficie quase só de granito, tão cheia de mica que o sol de Verão se reflectia nela como uma estrela a transformar‑se numa nova.

Lion Head... Tuckerman Ravine... Wall of Tears,... Havia muita magia nas montanhas, havia tanto a descobrir. É verdade que a vida em Sterling podia ser menos estimulante do que na cidade. Mas seria pacifica e, desde que pudesse escalar, teria animação mais do que suficiente.

E, claro, haveria a prática em si: os desafios que o esperavam por ser naquela zona o primeiro neurocirurgião desde sempre.

Em menos de vinte e quatro 1~~I_~Is. estaria no seu próprio consultório, na clínica ultramoderna dos Médicos e Cirurgiões da Ultramed, adjacente ao rejuvenescido Hospital Regional UItramed‑Davis.

Após três décadas de preparação e sacrificio, estava finalmente apto a seguir o negócio da sua vida: mostrar ao mundo e a si próprio exactamente aquilo que era capaz de fazer. A perspectiva afastou suavemente as apreensões que tinha, dispersando‑as como folhas secas.

Com Connie ou sem ela, tudo iria correr bem.

 

Pão caseiro e sopa de legumes; pâté de ganso sobre pequenas bolachas de sésamo; copos para vinho e copos de pé alto em cristal Waterford; costeletas de carneiro com geleia de hortelã‑pimenta; porcelana Royal Doulton; batata‑doce e pilau; feijão‑verde com amêndoa pelada; fina roupa branca irlandesa.


A refeição foi preparada por Cinnie Iverson. Jack sentiu uma mistura de admiração e mal‑estar quando viu a mãe, com um avental bordado por ela própria, esvoaçar entre a cozinha e a sala de jantar, colocando um prato após outro sobre a enorme mesa de cerejeira, levantando a loiça, parando para entrar e sair das conversas, e até mesmo servindo água; e ao mesmo tempo hábil e resolutamente recusando a ajuda de Lisette e a sua.

A mesa estava posta para oito pessoas, embora Cinnie raramente ocupasse o seu lugar. O juiz dominava o seu imutável lugar à cabeceira. A pesada cadeira de espaldar não era muito diferente da colocada atrás da tribuna, na sua sala do tribunal municipal. Foi dado a Zack o lugar de honra, no outro extremo da mesa, de frente para o pai. Entre eles sentou‑se o irmão mais velho, Frank, a esposa, Lísetre, as filhas gémeas, Lucy e Manhe, e Arinie Doucette, a governanta dos Iverson, actualmente viúva com setenta e muitos anos e um membro da família desde o nascimento de Frank.

Em total contraste com a animação de Cinnie, como sempre, a atmosfera á mesa era formal, com períodos de silêncio interrompidos por exclamações esporádicas. Zack sorriu para consigo, imaginando o barulhento e animado caos no refeitório do Hospital Municipal de Bóston, onde nos últimos sete anos tomara a maior parte das refeições. Fora criado nesta casa e nesta cidade e, por isso, pertencia ali; mas em relação a tudo o resto, após quase dezassete anos, era como se tivesse reunido em Bóston todos os seus haveres e mudado para outro planeta.

Zack reparou que, de todos os que se encontravam á mesa, Lisette era quem mais mudara ao longo dos anos. Antigamente uma beleza vibrante, se não frívola, usava o cabelo curto, uma maquilhagem muito leve e parecia ter‑se adaptado muito bem á sua condição de mãe e esposa. Ainda era elegante e muito bonita, mas o brilho de aventura dos seus olhos, que um dia fora para ele um foco de fantasia, tinha desaparecido. Sentou‑se entre as gémeas, á frente de Frank e Arinie, e reservou a maior parte da conversa para as filhas, controlando cuidadosamente as regras de etiqueta e sorrindo quando uma ou outra entrava na conversa sem interromper.

Lisette era um ano mais nova do que Zack e durante quase dois anos ‑ desde metade do penúltimo ano deste no liceu de Sterling até à única viagem que ela fizera para o visitar em Yale ‑ fora o seu primeiro amor real. A dor e a confusão daquele fim‑de‑semana em família em New Haven, e a percepção de como apenas seis semanas os tinham afastado, marcaram um momento decisivo nas vidas de ambos.

Durante uns tempos e após o regresso de Lisette a Sterling, telefonaram‑se esporadicamente e até escreveram algumas cartas. No entanto, tudo deixara de existir.

Por fim, ela mudou‑se para Montreal onde o atraiçoou primeiro na universidade e depois ao casar ‑ com um pedicura ou oculista, pensava Zack. Após a ruptura do casamento, ela regressou a Sterling e, passado um ano, ficou noiva de Frank. Zack foi o padrinho de casamento e das gémeas.


Tal como Lisette, Annie manteve‑se bastante calada, debicando a comida mais do que a comendo e falando apenas para se lamentar, de tempos em tempos, da artrite, das crises de tonturas, ou dos tornozelos inchados, o que a impedia de dar uma maior ajuda a "madame Cinnie". Para Zack foi difícil e algo doloroso recordar a prudente e entroncada mulher da sua juventude que, no campo atrás da casa, dava uns toques na bola de futebol e a levava a seguir aos pontapés até Frank, para que este a chutasse para o irmão mais novo.

Uma das maldições de ser médico era considerar demasiadas vezes as pessoas em termos de diagnóstico e, por isso, sempre que Zack regressava a casa e via Annie Doucette, adicionava inconscientemente um ou dois sintomas à sua lista. Hoje, Annie estava mais contraída e pálida do que nunca.

De todos os que estavam na sala, Frank era quem menos

mudara ao longo dos anos. Actualmente com trinta e oito anos, estava no quarto ano como administrador do Hospital Ultramed‑Davis. Entre outras coisas, também estava mais magro, bonito e confiante do que nunca.

- Quais são as possibilidades - perguntara Zack um dia a um professor de genética - de dois irmãos não partilharem nenhum dos genes?

O velho professor sorrira e pacientemente explicara que, com milhões de genes maternais e paternais a segregarem ao acaso para o interior do óvulo e do esperma, todos os irmãos ou irmãs eram na essência cinquenta por cento iguais e cinquenta por cento diferentes.

- Um dia devia conhecer o meu irmão ‑ respondeu Zack.

‑ Se é esse o caso ‑ afirmara o professor com um piscar de olhos ‑, então talvez fosse preferível conhecer o leiteiro da família.

A ciência acabou por triunfar, embora a noção de ele e Frank serem cinquenta por cento parecidos fosse ligeiramente menos difícil de aceitar do que a possibilidade de a mãe ter tido um filho por meio de genes que não os do juiz.

Eram quase sete horas e a refeição estava prestes a terminar. As gémeas começavam a ficar impacientes mas foram obrigadas a manter‑se sentadas, devido aos olhares de Lisette e à perspectiva da tarte de maçã da avó. Embora tivessem falado das novas funções de Zack, a conversa centrara‑se no golfe. O juiz, cego ao fastio que o tema causava em qualquer um, só relatou os pormenores da história do green dezasseis do jogo com Frank.

‑ Novecentos metros ‑ disse, entornando o copo de vinho, que foi enchido pela esposa em segundos. ‑ Talvez mais de mil. Juro, Zachary, que nunca vi o teu irmão fazer um putt como aquele... Marthe, uma menina não brinca com o vestido à mesa de jantar. Ele avança para a bola, depois olha para mim e, o mais calmamente possível, diz "o dobro ou nada". - Foi quanto, Frank? Três dólares?...

‑ Cinco ‑ respondeu Frank, sem tentar esconder o tédio que sentia.

‑ Mon dieu, cinco. Bem, deixem‑me dizer que foi por apenas três que ele deu uma tacada na bola e esta atravessou o monte e o vale, caindo exactamente no centro do buraco. Que desfaçatez. Talvez possamos ir os três no próximo fim‑de‑semana.

‑ Espere aí, juiz ‑ disse Frank. ‑ Deixe o homem em paz. Ele agora é um cirurgião do Ultramed. Está escrito no contrato: nada de golfe no primeiro ano. ‑ Virou‑se para o irmão, com as mãos erguidas em ar de troça. ‑ Estou só a brincar, Zack. Alguma vez jogaste em Bóston?


‑ Só aquele jogo em que se atira para a boca da baleia e a bola sai pela cauda ‑ respondeu Zack.

Annie deu uma gargalhada sonora, engasgando‑se ligeiramente com um pedaço de aipo.

‑ Já jogámos isso, tio Zack ‑ disse Lucy, entusiasmada. - A mamã levou‑nos. A Marthe bateu com o taco na cabeça. Quando puderes, levas‑nos outra vez?

‑ Claro que sim.

‑ Não te vais embora como das outras vezes, pois não?

‑ Não, Lucy. Vou ficar aqui.

‑ Vês, Marthe. Eu bem te disse que ele desta vez não se ia embora. Também nos levas ao McDonald's? Só conseguimos lá ir quando tu nos levas.

Zack encolheu‑se na cadeira, perante os olhares reprovadores de Lisette.

‑ às vezes, elas fazem confusão... ‑ titubeou ele.

‑ Falei com o Jess Bishop ‑ continuou o juiz. ‑ Ele é o presidente dos sócios do clube. lembras‑te dele, Zachary? Bem, não interessa. O Jess diz que, por sermos teu pai e irmão e sócios consagrados, nem sequer precisas de passar pelo processo de candidatura.

‑ Graças a Deus ‑ disse Zack que, mesmo ao ouvir as suas próprias palavras, esperou que o juiz não se tivesse apercebido do tom de gracejo na sua voz. ‑ Então, quem acabou por vencer hoje?

‑ Vencer? Porquê? Eu, é claro ‑ respondeu o juiz, mexendo‑se na cadeira. O seu nome de baptismo era Clayton, mas até a sua mulher raramente o chamava de outra forma que não juiz. Tal como ambos os filhos, tinha mais de um metro e oitenta mas, anos antes, o seu corpo atlético rendera‑se ao trabalho sedentário e às iguarias. Líder cívico e presidente do conselho de administração do Hospital Regional Davis até este ser vendido à Ultramed, o juiz tinha nada menos do que seis placas pregadas no gabinete, que o proclamavam o Homem do Ano de Sterling. Apesar de ter cerca de sessenta e cinco anos, também tinha um handicap de dez. ‑ Mas foi por pouco, Frank - continuou. ‑ Garanto-te.

‑ Por pouco ‑ resmungou Frank. ‑ Juiz, foi o senhor quem nos ensinou que "por pouco" só as granadas de mão e as ferraduras.

Annie Doucette deu novamente uma gargalhada sonora e mais uma vez o riso terminou num ataque de tosse. Zack reparou que desta vez ela massajara o peito depois de recuperar o controlo, e a sua cor estava substancialmente mais pálida do que antes.

‑ Está a sentir‑se bem, Annie? ‑ perguntou.

‑ Estou bem ‑ respondeu a mulher com um sotaque a Maurice Chevalier, que nunca mostrara a menor vontade de alterar. Baixou ligeiramente a mão, mas não por completo. ‑ Vê lá se paras de olhar para mim como se quisesses tirar‑me o fígado ou outra coisa qualquer, e continua a conversa. A partir de amanhã, terás muito tempo para brincares aos médicos. Todas as minhas amigas andam a inventar problemas cerebrais, só para poderem ir visitar‑te ao consultório.


Antes de Zack poder responder, Cinnie Iverson regressou com uma tarte em cada mão e começou a ronda à mesa, insistindo para que cada um tirasse uma fatia maior do que aquela que desejava. Annie lançou a Zack um olhar de aviso: "Não te atrevas a dizer nada que possa preocupar a tua mãe." Contudo, havia algo em relação à cor e ao aspecto da cara dela que o deixavam preocupado.

à sobremesa, a conversa foi dominada pelas gémeas, que competiam uma com a outra para dar ao "tio Jacques" o relatório mais pormenorizado do que lhes tinha acontecido na vida. Totalmente ianques por um lado da família e franco‑canadianas pelo outro, as raparigas eram bilingues e, quanto mais se entusiasmavam, mais difícil era compreendê‑las. O que fascinava e perturbava Zack era a falta de reacção recíproca entre as gémeas e o pai, ou entre Frank e Lisette.

Talvez fosse da disposição dos lugares à mesa, ou talvez Frank estivesse preocupado com assuntos do hospital, em particular com a chegada do irmão mais novo como o novo neurocirurgião das redondezas. Fosse qual fosse o motivo, Zack reparou que Frank mal dirigira uma palavra às raparigas e, que ele se lembrasse, nenhuma a Lisette. Em relação a tudo o resto, Frank era Frank: cheio de planos para expandir o campo de acção e os serviços do Ultramed‑Davis e muito atento a todos os potenciais e novos desenvolvimentos imobiliários na zona.

Ao ver o homem, ao ouvi‑lo expor os riscos e os beneficios de entrar nesta altura no mercado de acções, ou as possibilidades de transformar os prados a norte da cidade numa zona comercial, Zack não pôde deixar de ficar impressionado. Frank tinha vencido um dos maiores obstáculos da vida: o sucesso prematuro. E Zack sabia que não fora fácil.

Uma lenda em três modalidades desportivas do liceu de Sterling, eleito presidente de turma e certamente bem sucedido, foi para Notre Dame a meio de uma agitação de recortes de jornais que o destacavam como um dos maiores futuros quarterbacks do país. As notas e as pontuações do liceu foram apenas médias e os hábitos de estudo fracos, mas os treinadores e a administração do liceu de Indiana prometeram dar‑lhe todo o treino e ajuda necessários para se manter em campo. E foi o que fizeram... pelo menos até os passes se tornarem mais curtos.

A meio do segundo ano de universidade de Frank, começaram a chegar a casa cartas e telefonemas furiosos. Havia quarterbacks a mais. Os treinadores já não lhe prestavam a atenção suficiente. Os professores discriminavam‑no por ele ser um atleta. A seguir surgiu uma série de lesões inoportunas, tais como as dores nas costas, uma luxação muscular, um tornozelo torcido. Finalmente, um treinador adjunto foi fazer uma visita a Cinnie e ao juiz. Embora os pais nunca tivessem relatado a conversa, Zack conseguiu juntar os pedaços e concluir que Frank tinha desenvolvido um "problema de atitude" e preferia empurrar o adversário a controlar uma ofensiva.

A meio do segundo ano de universidade, Frank regressou a Sterling, fez exercicios, queixou‑se do tratamento que teve em Notre Dame, falou com os treinadores e com a administração da Universidade de New Hampshire e foi a festas. Uma lesão no joelho a meio da primeira época, na escola estatal, pôs fim à sua carreira de atleta.


E como se esses fracassos não tivessem sido suficientes, Frank teve de suportar a ascensão do seu irmão mais novo, cuja participação em todos os desportos, excepto no alpinismo, foi limitada por uma terrível lesão de esqui. Após esse acidente, Zack atravessou um breve período de depressão e revolta e depois, calma e firmemente, conseguiu obter uma média de notas que lhe permitiram ser aceite em Yale: o primeiro pós‑graduado de Sterling a receber tal honra.

Havia muitos motivos para Frank se curvar, tornar‑se amargo e invejoso, desligar‑se de tudo. Mas não o fez. Foi preciso mais de um ano, mas conseguiu acabar o curso. Então, para surpresa de muitos, continuou a estudar e obteve o mestrado em administração de empresas.

As paredes de expectativa erigidas pelo juiz eram de vidro muito fino mas, pouco a pouco e à sua maneira, Frank escalou‑as e era agora novamente bem sucedido, pelo menos em termos de estilo de vida, poder e realização pessoal.

Cinnie Iverson serviu a última rodada de café e as gémeas foram finalmente autorizadas a sair da mesa, quando Frank se levantou e ergueu o copo meio cheio de vinho.

‑ Um brinde - anunciou. Os outros ergueram os respectivos copos e as gémeas insistiram que os delas fossem enchidos de leite, para que pudessem participar. - Ao meu irmão mais novo, Zachary, que provou que o cérebro é sempre melhor do que os músculos, no que se refere à vida neste mundo. É bom ter‑te de novo em Sterling.

‑ Amen - disse o juiz.

‑ Amen - ecoaram as gémeas.

Zack levantou‑se e ergueu o copo em direcção a Frank, perguntando a si mesmo se mais alguém à mesa, além dele próprio, teria achado a mensagem do brinde um tanto estranha. Por momentos, o seu olhar e o do irmão cruzaram‑se. Quase imperceptivelmente, Frank assentiu com a cabeça. O brinde não fora acidental. Frank achava que a sua condição social e realização em termos pessoais se sobrepunham à licenciatura em Medicina do irmão mais novo.

‑ A todos vós - disse finalmente Zack. ‑ E em especial ao meu novo parceiro no crime. Frank, estou orgulhoso por trabalhar contigo.

‑ Amen ‑ gritaram as gémeas. - Ámen.


 

Os três, pai e filhos, sentaram‑se sozinhos à mesa. Lá fora, as nuvens de tempestade tinham‑se aproximado, trazendo com elas um anoitecer prematuro. As mulheres estavam na cozinha; Annie à mesa do pequeno‑almoço, Cirinie e Lisette junto ao lava‑louça, enchendo a máquina pela segunda vez, conversando sobre a próxima venda de bolos do Clube das Mulheres, e vigiando as gémeas, que tinham levado Cheapdog a brincar no prado.

Fiel à sua crença de que os assuntos de negócio e as mulheres devem ser separados sempre que possível, o juiz mantivera a conversa ligeira até a última, Annie, ter saído da sala. Então, depois de alguns goles de café, virou‑se abruptamente para Frank:

‑ O Guy Beaulieu veio visitar‑me ontem ‑ disse.

‑E então?

‑ Diz que o Ultramed e o tal cirurgião novo, o Mainwaring, estão prestes a despedi‑lo do hospital.

‑ O Jason Mainwaring não é novo, juiz ‑ afirmou Frank, pacientemente. ‑ Já aqui está há quase dois anos. E ninguém, nem ele, nem o Ultramed, nem eu ou quem quer que seja, está a tentar despedir o Beaulieu. A não ser o próprio Beaulieu. Se ele fosse um pouco mais cooperante e um pouco mais educado com o pessoal do hospital, nada disto estaria a acontecer.

‑ O Guy é um velho diabo casmurro ‑ disse o juiz. - Posso garanti‑lo. Mas já está nesta cidade há quase tanto tempo quanto eu e ajudou muita gente.

‑ De que estão a falar? ‑ perguntou Zack. O juiz era um homem pouco espontâneo e Zack não conseguiu deixar de pensar se haveria uma razão para ele ter adiado aquela conversa até então, depois de quatro horas de golfe.

Frank e o juiz avaliaram‑se mutuamente, questionando‑se sobre qual seria a versão da história que Zack ouviria primeiro. O desafio durou apenas alguns segundos.

‑ Há alguns tempos atrás ‑ começou o juiz, obviamente sem querer conceder de forma aberta os "quase dois anos" de Frank ‑, o Ultramed‑Davis trouxe para a cidade um novo cirurgião: um tal Jason Mainwaring.

‑ Julgo, que o conheço - disse Zack. Virou‑se para Frank. ‑ É um tipo alto e louro com sotaque do Sul? ‑ Frank concordou com a cabeça. Zack achara o homem um tanto distante mas polido, veemente e, no breve contacto que haviam tido, com bastantes conhecimentos... mais próximo do que esperaria ver num professor de um centro médico universitário do que num cirurgião geral do hospital de uma comunidade de montanha.

‑ Bem ‑ continuou o juiz ‑, segundo parece, o Guy já começara a ter problemas para conseguir que os seus doentes fossem admitidos no hospital.

Frank suspirou alto e mordeu o lábio inferior, tornando claro que só por educação não interrompia para protestar contra aquela afirmação.


‑ Cada vez mais os seus doentes, em especial os franco‑canadianos pobres, eram enviados para o hospital municipal em Clarion. Depois, começaram a correr boatos por toda a cidade sobre a competência do Guy e, de repente, todos os casos de cirurgia que pudessem ser pagos, como os dos seguros ou da Caixa de Previdência, eram entregues a este Mainwaring. Eu próprio ouvi alguns dos boatos e, deixem‑me dizer, são maldosos. Bebida, exames internos desnecessários a mulheres, ingestão de medicamentos muito fortes devido a um ligeiro enfarte...

‑ Há alguma verdade em tudo isso? ‑ perguntou Zack.

No Verão entre o segundo e o terceiro ano na Faculdade de Medicina de Yale, ele trabalhara como externo no então Hospital Regional Davis, e Beaulieu fizera todos os possíveis para o levar para a sala de operações e alimentar o seu crescente interesse pela cirurgia. Foi algo que ele nunca mais esquecera.

O juiz abanou a cabeça.

‑ Segundo o Guy, nunca houve uma queixa específica. Apenas boatos. Ele diz que agora cerca de oitenta por cento do seu trabalho é de caridade no município de Clarion e que não opera ninguém que não seja franco‑canadiano no Ultramed há quase um ano. Diz que tudo não passa de uma conspiração contra si por, em primeiro lugar, se ter oposto à venda do hospital à Ultramed.

‑ Isso é ridículo ‑ disse Frank. ‑ O Mainwaring está a ficar com os casos por ser bom e trabalhar arduamente. É tão simples quanto isto. Sabe, juiz, penso não ser justo que tome o partido do Beaulieu neste assunto.

Clayton Iverson deu um murro na mesa:

‑ Nunca mais te atrevas a dizer‑me o que é justo ou não, rapaz! ‑ exclamou. ‑ Ainda falta um mês para terminar a fase provisória do nosso contrato com a Ultramed. Para já, convenci o corpo de directores a vender‑lhes e, meu Deus, as três semanas que faltam até à reunião e votação são mais do que suficientes para os convencer a pôr em prática a nossa opção e voltar a comprar o maldito hospital.

Respirou fundo e acalmou‑se.

Zack olhou para Frank. Embora estivesse a olhar impassivelmente para o pai, tinha as mãos apertadas e os nós dos dedos brancos.

‑ E que fique bem claro ‑ continuou o juiz ‑ que não tomei o partido de ninguém. Na verdade, Frank, disse‑lhe ter ficado ofendido quando ele insinuou que estavas de certa forma envolvido nos seus problemas. Pediu‑me desculpas e tentou retirar algumas das coisas que dissera, mas estava magoado e furioso. Prometi‑lhe que teria uma conversa contigo, com ambos, sobre o assunto... que vos pediria para terem os olhos e os ouvidos bem abertos. Sinto que lhe devemos isso. Eras muito novo para te lembrares, Frank, mas aquele homem salvou‑te a vida quando o apêndice rebentou.

O punho de Frank descontraiu ligeiramente, embora Zack percebesse que ele ainda se remoía com a ameaça do juiz. Os feitios chocavam‑se mas o poder vencia e, como muito bem sabia, as maquinações políticas eram tão omnipresentes na vida hospitalar quanto nos tratamentos intravenosos e as arrastadeiras. Mas também sentiu que havia algo mais em tudo aquilo... algo virulento.

‑Annie!

O grito de Cinnie foi imediatamente seguido do ruido de loiça a cair. Devido aos reflexos desenvolvidos ao longo de anos de crise, Zack levantou‑se e correu para a cozinha, enquanto Frank e o juiz apenas começavam a reagir.


Annie Douceile encontrava‑se estendida no chão. As costas e o pescoço estavam torcidos e os membros agitavam‑se descontrolados numa convulsão muito forte.

Assim que Zack se ajoelhou ao lado da mulher, sentiu a mudança apoderar‑se dele. Tempos antes ouvira outros médicos mais velhos falar do fenómeno, mas só o sentira na pele a meio do segundo ano de estágio, quando testemunhara um ataque cardíaco num doente. Naquele momento, o mundo começara subitamente a mover‑se muito devagar. O tom de voz baixara e as palavras tornaram‑se mais compassadas; sentira a pulsação descer e todos os sentidos a subir. Fora diferente de tudo o que assistira em emergências semelhantes. Os movimentos tornaram‑se automáticos e as observações e ordens, instintivas. Vários factos e variáveis processaram‑se instantânea e simultaneamente.

Mais tarde, com o doente ressuscitado e estabilizado, soubera pelas enfermeiras que tinha agido rápida, decisiva e calmamente. Só depois de ouvir o que elas lhe disseram sobre o seu desempenho, é que percebeu completamente o que tinha feito.

Desde então, a mudança fazia parte de si.

‑ Mãe, chame uma ambulância, por favor ‑ pediu, enquanto rodava Annie para um lado a fim de evitar que ela aspirasse o conteúdo do estômago, caso vomitasse. Os dedos já estavam na parte lateral do pescoço, à procura de pulsação na carótida.

à medida que a mudança se intensificava, todos os sentimentos pela mulher enquanto amiga, pessoa querida e doente, foram substituidos pelo profissionalismo. Se viesse a ser necessário magoá‑la para a curar, então magoá‑la‑ia.

‑ Frank, o meu estojo está numa grande caixa de cartão na parte de trás da carrinha. Podes ir buscá‑lo, por favor? ‑ Por favor Obrigado. Suspeitava que o emprego destas palavras durante uma crise mantinha toda a gente mais calma, incluindo ele próprio. Um ataque cardíaco com arritmia; epilepsia; hemorragia interna súbita, originando estado de choque; hipoglicemia; um simples desmaio imitando uma forte convulsão; vieram‑lhe à mente todos os diagnósticos mais prováveis, cada um dos quais acompanhado de um algoritmo de observações e reacções necessárias.

A tez de Annie começou a perder as cores. As costas continuaram torcidas e os braços e as pernas mantiveram‑se em espasmo. Os maxilares estavam demasiado cerrados para se poder meter qualquer coisa entre os dentes. Vezes sem conta, os dedos de Zack percorreram os lados da traqueia à procura de pulsação. à mesa, ela tinha sentido uma dor no peito. Agora, Zack estava certo disso. Um ataque cardíaco com batida irregular e ineficaz ou uma paragem cardíaca completa surgiram como possibilidades após todas as outras que lhe vieram à mente.

‑ Juiz, sente‑se bem para vir até aqui dar uma ajuda? óptimo. Vou deitá‑la de costas. Se ela começar a vomitar, por favor volte a virá‑la de lado, independentemente do que eu estiver a fazer. Lisette, vê as horas, por favor, e está atenta ao relógio.


Zack deitou a mulher de costas. A convulsão continuou, embora os movimentos começassem a ser menos violentos. Voltou a verificar a pulsação, primeiro no pescoço e depois em ambas as virilhas. Nada. Com os dois punhos fechados, deu uma forte pancada no centro do peito e iniciou massagens cardíacas; Frank estava a entrar, com o estojo.

‑ Juiz, dobre qualquer coisa e coloque‑a por baixo do pescoço dela, depois deite aquela cadeira e levante‑lhe os pés, se puder. Isso. Frank, no fundo da mala há algumas seringas com agulhas já colocadas. Preciso de duas. Também encontrarás uma bolsa de cabedal com frascos de medicamentos. Preciso de Valium e de adrenalina. Nesse, deve ler‑se "epinefrina". Mãe, chamou a ambulância? óptimo. Quanto tempo levam?

‑ Cinco minutos, no máximo.

‑ Frank, sabes aplicar os primeiros socorros?

‑ Fiz o curso duas vezes.

- óptimo. Substitui‑me, por favor, enquanto tento dar‑lhe medicamento para parar a convulsão. Não te preocupes

com a respiração boca‑a‑boca até ela parar. Faz apenas a massagem. Estás a fazer correctamente. Todos estão a agir correctamente. ‑ Zack colocou os dedos sobre a artéria femoral. - Com um pouco mais de força, Frank, por favor ‑ disse. - O tempo, Lisette?

‑ Pouco mais de um minuto.

Sem sequer aplicar um torniquete, Zack injectou Valium e adrenalina numa veia da curvatura do braço de Annie Doucette. Em segundos, a convulsão parou. Frank continuou a massajar, enquanto Zack se debruçou sobre a mulher e administrou meia dúzia de respirações boca‑a‑boca. Momentos mais tarde, a própria Annie respirou uma vez.

‑ Pára, Frank, por favor - pediu Zack, enquanto procurava de novo sentir alguma pulsação na carótida. Desta vez, sentiu uma... lenta e fraca, mas definitiva. Verificou‑a na virilha. As pulsações em ambas as artérias femorais eram palpáveis. De novo, a mulher inspirou e voltou a inspirar. Vamos, Annie, disse mentalmente. Respira outra vez. Só mais uma vez.

à volta do braço dela colocou uma braçadeira para medir a tensão arterial e, depois, com uma mão prendeu o estetoscópio no lugar, enquanto com a outra voltou a apalpar o pescoço da mulher.

‑ Oiço alguma pressão ‑ anunciou em voz baixa. ‑ Não é muita, mas por agora é suficiente.

A respiração de Annie ainda era fraca, mas muito mais regular. Suave, mas firmemente, ela começou a gemer. Os lábios estavam escuros, mas a terrível palidez da sua pele tinha diminuido. Nesse momento, ouviram a sirene da ambulância e, segundos mais tarde, os faróis amarelos reflectiram‑se na janela da sala de estar.

Zack olhou para o irmão mais velho, o qual estava ajoelhado do outro lado da mulher. Por instantes, recordou‑se de dois garotos, ajoelhados à frente um do outro, num terreno vazio e empoeirado, a jogar aos berlindes.

Durante dez ou vinte segundos, nenhum dos homens se moveu ou falou. Então, Frank estendeu o braço e tomou a mão do irmão.

‑ Bem‑vindo a Sterling – disse.

 

A ambulância era uma das muitas carrinhas bem equipadas que pertenciam ao Ultramed‑Davis e operadas pelo Corpo de Bombeiros de Sterling. Zack sentou‑se atrás, ao lado de Annie, vigiando o monitor enquanto o veículo descia a estreita estrada montanhosa em direcção ao hospital. Um jovem paramédico, impressionantemente eficaz, ajoelhou‑se ao seu lado, verificando a pressão arterial todos os quinze ou vinte segundos.

Sterling, em New Hampshire, era pequena em vários aspectos, mas Zack notou a influência do Ultramed na resposta da equipa de urgências. Praticava‑se a medicina das grandes cidades no mais perfeito sentido das palavras. Annie ainda estava inconsciente, apesar de a respiração parecer menos forçada e a pressão arterial estar a subir lentamente.

- Oitenta sessenta - disse o paramédico. - Começa a ser mais fácil ouvir.

Zack anuiu e ajustou o tubo intravenoso que o jovem introduzira impecavelmente e mais depressa do que ele próprio o teria feito.

Frank ficara para trás, a fim de cuidar da família e contactar um cardiologista. Encontrar‑se‑íam mais tarde no hospital.

Zack sentia‑se tenso, mas também estava emocionado e animado. Quando tudo corria bem, não havia sensação que se comparasse. Vamos, meu caro Watson! Ojogo começou. Zack gostava da citação e muitas vezes pensava se Arthur Conan Doyle, médico, não teria transferido para o herói detective a energia da sua experiência em urgêncías médicas.

Depois de um breve percurso na estrada principal, a ambulância abrandou e virou para a longa pista de circulação do hospital. Um enorme letreiro iluminado na base da pista anunciava: HOSPITAL REGIONAL ULTRAMED‑DAvIS COMUNIDADE E CORPORAÇãO AMERICANA A TRABALHAR EM CONJUNTO PARA A MELHORIA DE TODOS.

Zack sorriu e perguntou a si mesmo se seria o único a achar piada ao estilo presunçoso da declaração.

A Melhoria de Todos.

Certamente que a Corporação de Hospitais Ultramed e o Hospital Regional Davis jamais podiam ser acusados de ambição. No entanto, apesar de ter algumas preocupações quanto ao facto de trabalhar para um componente daquilo a que alguns chamavam complexo médico‑industrial, as conversas com Frank e o juiz e as investigações sobre o hospital e respectiva empresa materna não lhe forneceram motivos para duvidar da declaração, ainda que audaciosa.

O Ultramed‑Davís, actualmente um moderno estabelecimento com duzentas camas, tinha um passado invejável, que remontava à viragem do século, quando as Irmãs da Caridade, instaladas no Quebeque, colocaram dez camas numa enorme casa doada, à qual deram o nome francês de Hôpital St. Georges. Ao longo das décadas seguintes, foram acrescentadas alas de tijolo até a casa velha ser, por fim, totalmente substituida. A capacidade do hospital aumentou para cinquenta doentes e, mais tarde, para oitenta. Em 1927, foi estabelecida a Escola de Enfermagem St. Georges e antes de fechar, no início dos anos 70, formou mais de 350 enfermeiras.


Em meados de 1971, a propriedade e o controlo administrativo do St. Georges foram transferidos das Irmãs da Caridade para uma corporação comunitária sem fins lucrativos, chefiada por Clayton Iverson, que já era juiz do circuito do município de Clarion. Foi‑lhe então atribuido o nome do Reverendo Louis Davis, o pastor que doara á cidade a estrutura inicial.

Ao longo dos anos seguintes, a sucessão de administradores inaptos, a maioria dos quais utilizando o Hospital Regional Davis como trampolim para lugares superiores, originou uma série de decisões infelizes, optando com muita frequência por projectos e beneficios pessoais que pareciam progressistas, mas que não os ajudavam a subsistir financeiramente.

Gradual mas inexoravelmente, o apoio comunitário ao estabelecimento foi diminuindo e os benfeitores tornaram‑se escassos. Os médicos mais antigos começaram a reformar‑se antecipadamente, e a falta de incentivos fazia com que os jovens formados não ocupassem os seus lugares. A falência e o fecho passaram a ser mais do que meras possibilidades teóricas.

Foi então que, com os lobos a uivar à porta do hospital, a Ultramed apareceu em cena. Subsidiária da muito diversificada RIATA Internacional, a Ultramed atacou o corpo de directores do hospital com projecções de sudes, revistas, relatórios de acções, gráficos de papelão e mais informações financeiras sobre o estabelecimento, que nem mesmo o mais diligente membro do corpo de directores possuía.

Suspeitando dos forasteiros e temendo perder o controlo de um empreendimento que, durante a maior parte do século, fora o coração da comunidade, a maioria dos directores opôs‑se à venda, preferindo fazer outra união e mais uma tentativa para que tudo corresse bem.

Clayton Iverson, citando aquilo a que chamava "escrita vermelho‑sangue na parede", sabia que a comunidade não tinha alternativa senão vender. Com as suas próprias palavras animadoras, convenceu um por um os membros do corpo de directores, lísonjeando, discutindo e recolhendo indicadores. No fim, foi com orgulho que informou Zack que o voto tinha sido unânime. Unânime, isto é, excepto um. Só Guy Beaulieu continuara a opor‑se, embora por respeito ao juiz não tivesse sequer votado.

Apesar de não ser pessoa para soltar o poder, o juiz impôs duas condições à organização em troca da venda do hospital: um período provisório de quatro anos, após o qual o corpo de directores poderia voltar a comprar O estabelecimento com todos os melhoramentos que tivessem sido feitos, pelo preço original de seis milhões de dólares; e a proposta firme do filho para a posição de administrador.

Quase como Zack concluíra com base no que o pai lhe contara, a seguir a uma série de entrevistas exaustivas, a Ultramed seleccionou Frank entre uma dúzia de candidatos... grande parte deles com uma extensa experiência hospitalar.

Essa decisão, fosse qual fosse o motivo, provou ter sido brilhante.


Orquestrada por Frank e auxiliada pela prática de negócios e técnicas de relações públicas, a reviravolta no hospital foi imediata e notória. Novos equipamentos e novos médicos sublinharam o lema da organização, "Mudar para Melhor", e os restantes antagonistas do estabelecimento, principalmente nos sectores comunitários mais pobres e não assegurados, tiveram cada vez mais dificuldade em descobrir uma plataforma a partir da qual pudessem dar voz às suas preocupações.

Em apenas alguns anos, o Hospital Ultramed‑Davis passou de um lugar atrasado para a vanguarda dos cuidados de saúde.

‑ Segure‑se, doutor ‑ disse o condutor da ambulância, virando‑se para trás, para Zack. ‑ Chegámos.

Zack agarrou‑se à maca de Anie, enquanto o homem fazia uma curva apertada e recuava para o bem iluminado parque das ambulâncias. Alertados pelo rádio da ambulância, um grupo de três enfermeiras de bata azul e uma de bata branca esperavam na plataforma de cimento.

Antes mesmo de Zack poder identificar‑se, duas enfermeiras, com uma eficiência notável, retiraram da ambulância a maca de Annie e correram com ela para a ala das urgências.

Zack seguiu a maca até uma sala bem equipada onde se lia simplesmente TRAUMA e, da porta, ficou a ver a equipa transferir Annie para uma maca hospitalar, trocar os tubos de oxigénio e cabos de monitor para a consola do hospital, e iniciar um rápido acesso aos seus sinais vitais. Uma enfermeira, aparentemente a chefe, fez uma breve observação do peito de Annie e em seguida tomou o lugar aos pés da cama, supervisionando o estado dela.

‑ Minha senhora ‑ disse Zack à mulher, que trazia uma capa de laboratório por cima da bata. ‑ Posso dar‑lhe uma palavra?

A mulher voltou‑se e Zack sentiu uma imediata faisca de interesse. Segundo os seus cálculos, deveria ter trinta e pouco anos, quando muito, tinha cabelo louro‑claro, possuia traços finos e muito femininos, e uns olhos azul‑esverdeados vibrantes e quase cintilantes. Instintivamente e contra a sua maneira de ser, dada a situação, Zack olhou para a mão esquerda da mulher. Não usava anel.

‑ Sou... o doutor Iverson, Zachary Iverson - disse. Teria mesmo gaguejado? ‑ Sou um neurocirurgião prestes a fazer parte deste corpo clínico a partir de amanhã. A mulher que acabámos de trazer e... quero dizer, foi... uma espécie de minha governanta quando eu era jovem. Minha e do meu irmão Frank.

‑ Eis um nome que reconheço ‑ afirmou a mulher, inclinando a cabeça para um lado, como se estivesse a apreciar um quadro num museu.

‑ Sim ‑ disse Zack. Passaram‑se vários segundos até perceber que não tinha acabado de explicar o que queria. Pigarreou. ‑ Bem. O Frank disse que ia pedir a um cardiologista... um tal doutor Cole, julgo que foi esse o nome que ele me disse... para vir examinar a Annie. Já chegou?

‑ Não ‑ respondeu a mulher, pensativamente. ‑ Ainda não, senhor doutor.

A expressão dela tornou‑se ao mesmo tempo esquiva e desafiadora, e Zack, que normalmente não prestava atenção às tentativas de interacção não verbal das mulheres, sentiu‑se mal preparado para responder com uma expressão própria.


‑ Compreendo ‑ disse por fim, perguntando a si mesmo se pareceria tão atrapalhado e inquieto quanto se sentia. O seu ego espicaçava‑o a ser agressivo... a lembrar à mulher que, embora ela o pudesse ter afastado momentaneamente, pelo menos até à chegada do Dr. Cole era ele quem comandava. Voltou a pigarrear e, inconscientemente, tomou uma posição mais altiva. ‑ Bem, então ‑ continuou, num tom um pouco mais oficioso do que pretendia ‑, é capaz de pedir a alguém que volte a chamá‑lo? Estarei ali dentro com Mistress Doucette. Mande‑o para aqui assim que chegar. E mais: é capaz de pedir um electrocardiograma e uma radiografia torácica?

‑ Com certeza, senhor doutor ‑ respondeu a mulher, enquanto ele passava por ela e entrava na sala.

Bravo, aplaudiu o ego. Reagiste bem. Olhou por cima do ombro. A mulher ainda ali estava.

‑ Por favor, chame também alguém do laboratório ‑ ordenou, desejando que o olhar dela deixasse de lhe sorrir daquela maneira. ‑ Análises de rotina.

‑ Com certeza ‑ respondeu ela. ‑ Enzimas cardíacas também?

Maldita frieza a dela, pensou Zack:

‑ Sim, claro ‑ respondeu. ‑ Eles que tragam também tubos extra. O doutor Cole poderá pedir tudo o mais que for necessário, quando aqui chegar.

Dirigiu‑se para a cabeceira da cama, sem esperar a resposta ao seu pedido e esforçando‑se por não olhar para trás.

Os olhos de Annie, ainda fechados, começavam a mover‑se.

‑ Sou o doutor Iverson ‑ disse às duas enfermeiras que cuidavam dela. ‑ Como é que ela está?

‑ A tensão subiu para cem sessenta ‑ respondeu uma delas, uma mulher robusta e matrona de cinquenta e alguns anos. Já mexeu os braços e as pernas e parece estar prestes a acordar.

‑ óptimo ‑ disse Zack, percebendo que pelo menos uma parte do pensamento não estava focado no assunto que tinha em mãos. Colocou o estetoscópio e auscultou o coração e os pulmões de Annie. ‑ Annie, sou eu, o Zack ‑ disse‑lhe ao ouvido. ‑ Consegue ouvir‑me?

Annie Doucette gemeu. Então, quase imperceptivelmente, ela concordou com a cabeça.

‑ Você desmaiou, Annie. Agora está no hospital e vai ficar boa. Compreende? ‑ Outra concordância. ‑ Muito bem. Descontraia‑se e descanse. Está a reagir bem. ‑ Virou‑se para a enfermeira. ‑ O doutor Cole deve estar a chegar. Até lá, vamos continuar a fazer o que estávamos a fazer.

A enfermeira olhou para ele de um modo esquisito e depois fixou a porta. Zack seguiu‑lhe o olhar e deu consigo a confrontar os enigmáticos olhos azuis‑esverdeados. Desta vez, contudo, a desconcertante mulher que se encontrava atrás deles aproximou‑se e estendeu a mão.

‑ Doutor Iverson, sou a doutora Suzarine Cole ‑ disse simplesmente.

A expressão dela foi totalmente profissional, mas tinha um inconfundível olhar brincalhão.

Zack sentiu as faces a corarem quando lhe estendeu a mão e cumprimentou.

‑ Peço desculpa ‑ murmurou. ‑ Foi estupidez presumir... quero dizer, não era exactamente...


‑ Eu sei ‑ replicou ela. O seu tom de voz sugeriu um pedido de desculpas por ter permitido que ele cavasse um buraco assim para si próprio. ‑ Tenho a certeza que foram estas roupas que o confundiram. ‑ Apontou para a bata azul. ‑ Mas acabei mesmo agora de colocar um pacemaker. ‑ Com a cabeça indicou Annie, que estava totalmente desperta e começava a olhar em redor. ‑ Parece que fez um trabalho excelente para ressuscitar esta mulher, doutor Iverson. Parabéns.

 

Era quase meia‑noite. Zack Iverson sentou‑se sozinho na sala dos médicos nas traseiras da ala das urgências, bebendo uma chávena de café morno, revendo aquele que talvez tivesse sido o 30 de Junho mais notável de todos e procurando acalmar as suas fantasias descontroladas em relação a Suzanne Cole.

Foram precisas muitas horas para arranjar uma cama para Annie na unidade de cardiologia e transferi‑la para lá. Durante esse tempo, Zack ficou ao fundo a ver Suzanne trabalhar: controlava a perigosa arritmia cardíaca da mulher, procedia ao controlo de tratamentos complexos contra os efeitos secundários, verificava a leitura do monitor, revia os resultados das análises, parava subitamente para limpar a testa de Annie ou afastar‑lhe uma madeixa de cabelo da testa, ou para simplesmente debruçar‑se a fim de a encorajar com alguma palavra, murmurada ao ouvido.

Ao contrário do que Zack imaginara com base na frieza do encontro inicial, ela agia de uma forma bastante tensa e impetuosa durante os momentos críticos, movendo‑se constantemente de um lado para o outro da cama, examinando e voltando a examinar, para se certificar de que as suas ordens estavam a ser correctamente cumpridas. No entanto, apesar de muitas vezes parecer estar no limite, nunca perdeu o controlo e viu‑se claramente que as enfermeiras gostavam da sua maneira de ser e, ainda mais importante, que ela confiava nelas.

Quem és tu? interrogou‑se vezes sem conta, enquanto a via trabalhar. O que fazes aqui no mato?

O juiz e Cinnie ligaram duas vezes para saberem notícias e, por volta das dez, apareceu Frank. Parecia inquieto e irritado e, apesar de não se referir ao episódio, Zack sentiu que ainda estava bastante aborrecido com os comentários e a ameaça mal dissimulada do juiz. Apesar de mencionar a necessidade de estar junto das gémeas durante a violenta tempestade que acabara de irromper, só foi para casa meia hora mais tarde. Mas antes da sua partida, Zack arranjou uma maneira, que esperou parecesse desinteressada, de sacar dele algumas informações em relação a Suzanne Cole.

Especializada em Dartmouth e membro do corpo clínico do Ultramed‑Davis há quase dois anos, tinha trinta e três ou trinta e quatro anos, era divorciada e mãe de uma rapariga de seis anos. Além disso, juntamente com outra divorciada da cidade, era proprietária de uma pequena loja de peças de arte e artesanato.

Com algum sucesso, Zack tentou obter informações mais subjectivas sobre ela, mas Frank, distraido e ansioso por partir, nem sequer percebeu.


Agora que ficara sentado sozinho, Zack perguntou a si próprio se valeria a pena esperar mais tempo que a mulher terminasse o trabalho na unidade e, tal como lhe prometera, parasse para tomar "um pouco de cafeína". As enfermeiras tinham‑lhe dito que não era invulgar Suzanne, como a tratavam, passar a noite no hospital quando tinha um doente particularmente em risco, e nessa noite, com Annie e o caso do pacemaker, ela tinha dois.

Quem és tu? O que fazes aqui?

O estado de fascinação por uma mulher era algo com que Zack não se sentia familiarizado nem confortável. Devorador de livros durante os anos de estudo e virgem até ao penúltimo ano da universidade, tivera um número razoável de namoradas e alguns romances de curta duração depois de Lisette, mas nenhuma relação prolongada até conhecer Connie. Em tempos descrevera a sua vida social de estudante como uma sucessão de telefonemas para mulheres, um dia após elas terem conhecido alguém especial.

Connie era cinco anos mais nova do que ele, mas exibia um mundanismo e uma sofisticação que ele sentia faltarem na sua própria vida. Licenciara‑se em Administração de Empresas na Northwestern e possuía uma posição administrativa numa das maiores empresas da cidade, um apartamento na Back Bay, um BMW prateado, amigos na orquestra sinfónica e interesse por pintores impressionistas. "O Pissarro tem mais profundidade e mais energia numa única pincelada, do que o Renoir numa dúzia de telas, não achas?") e por filmes estrangeiros ("Zachary, se parasses de insistir sempre no enredo e te concentrasses mais na universalidade das personagens e no talento técnico do realizador, este filme teria mais significado para ti.").

De tempos a tempos, alguns amigos diziam‑lhe que aquilo que observavam talvez fosse uma união incompatível, mas ele discordava enumerando os novos conhecimentos que Connie lhe trouxera para a vida. Nunca teve a certeza se amava verdadeiramente a mulher ou não, mas não havia dúvida de que, durante a maior parte do tempo em que estavam juntos, ele ficava absolutamente enfeitiçado com a beleza, a autoconfiança e o estilo dela.

A decisão de interromper o noivado magoara‑O, mas não tão profundamente quanto pensara no início. E durante os meses seguintes, passara todo o tempo livre a pilotar o avião telecomandado que construíra no liceu, a fazer exercícios para poder voltar a escalar rochedos, a passear a pé com Cheapdog e a andar a cavalo com amigos à beira‑mar, em Cape... mas nem um minuto numa galeria ou fechado em combate com um filme estrangeiro.

‑ Olá.

Sobressaltado, Zack derrubou a chávena de plástico, entornando o que restava do café e formando uma pequena poça sobre o verniz da mesa.

‑ Olá ‑ respondeu, enquanto Suzanne Cole retirava um monte de guardanapos de cima de um balcão próximo e os colocava sobre o líquido entornado. Será que nunca mais acabaria com a sua inépcia diante daquela mulher?

‑ Tudo indica que talvez tenha atingido o limite de cafeína por hoje ‑ afirmou ela.

Trocara a roupa por um traje de rua, calças cinzentas e uma camisola à pescador, de lã grossa... e tinha um aspecto tão fresco como se estivesse a começar o dia.

‑ Na verdade ‑ disse ele ‑, utilizo a cafeína para anular a minha inerente hipertensão. Penso que me acalma.

Ela sorriu.


‑ Conheço a síndroma. Estou admirada por ainda o encontrar aqui, apesar de amanhã ser o seu primeiro dia de trabalho e de tudo o resto.

‑ Quis ter a certeza de que a Annie estava fora de perigo. Ela é muito especial para mim e para a minha família. Além disso, ontem terminei o meu estágio. Provavelmente passarão meses até que a minha química interna exija algo mais do que uma soneca de quinze minutos numa poltrona.

‑ lembro‑me perfeitamente dessas poltronas - disse Suzanne, apoiando‑se no balcão. - Há uma velha em castanho desbotado na sala dos doentes cardíacos de Hitchcock que, suspeito, um dia terá um letreiro a dizer: "Suzanne Cole dormiu aqui... e só aqui..." Então, está à espera de um relatório de evolução. Bem, as notícias são boas. Pelo menos por agora. A sua Annie está acordada e estável, sem qualquer deficiência neurológica que eu pudesse identificar, embora talvez você possa examiná‑la de manhã. Na verdade, penso que será a sua primeira consulta, se estiver de acordo. Disse que ia praticar neurologia e neurocirurgia, não foi?

‑ Absolutamente. Gosto quase tanto de puzzles quanto de sangue e de entranhas.

‑ Não fala como um cirurgião ‑ afirmou ela. - Os que conheço têm letreiros nas salas onde se lê: "Cortar é curar" e "Todo o mundo é pré‑operatório."

‑ Também tenho disso. Acredite. Só que, como um erudito

cirurgião do Renascimento, o meu diz: "Quase todo o mundo é

pré‑operatório." ‑ Com o pé afastou uma cadeira da mesa. - Tome, sente‑se.

‑ Desculpe, mas não posso - respondeu ela. ‑ Tenho de ir‑me embora. Mistress Doucerte foi a minha terceira admissão desta semana e amanhã será um dia muito ocupado para mim. Também devia ir dormir um pouco para estar em boa forma para a minha consulta. Agora, boa noite. - Vestiu o casaco e dirigiu‑se à porta.

‑ Espere - disse Zack que, mesmo ao ouvir a sua própria voz, percebeu que a ordem vinha de algures fora da sua sensatez... de algures no meio do rodopio das suas fantasias.

- Sim?

Virou‑se para ele. A escuridão dos olhos e a expressão do rosto alertaram‑no para não avançar mais. Ele recebeu a mensagem demasiado tarde.

‑ Eu... hum... estava a pensar se um dia destes poderiamos jantar juntos, ou algo do género.

‑ Lamento - respondeu, aborrecida. ‑ Obrigada, mas não.

As fantasias de Zack deixaram de rodopiar e começaram a flutuar até ao solo, como penas.

‑ Oh - disse, sentindo‑se subitamente muito envergonhado. ‑ Não quis... O que quero dizer é... pareceu‑me...

‑ Zack, peço‑lhe desculpas por ter sido tão brusca. Já é tarde e estou exausta. Agradeço o convite, agradeço mesmo. E sinto‑me lisonjeada. Mas... não saio com as pessoas com quem trabalho. Além disso, estou comprometida com outra pessoa.

A última pena tocou no chão.

Zack encolheu os ombros

‑ Bem, então... - Procurou mostrar‑se animado. - Penso que devo esperar que apareça muita gente no hospital com doenças cardíacas e problemas neurocirúrgicos, não é assim?

Suzanne estendeu o braço e apertou‑lhe a mão:

- Estou ansiosa por trabalhar consigo ‑ afirmou. - Sei que seremos fantásticos.


Nesse momento, no outro extremo da ala das urgências, um homem começou a gritar:

‑ Não! Eu não vou! Vou morrer. Vou morrer!

Os dois correram em direcção ao local do distúrbio; tratava‑se de um velho de setenta anos, segundo os cálculos de Zack, a quem a enfermeira, o médico das urgêncías e um guarda da segurança fardado tentavam passar da maca para uma cadeira de rodas.

O homem, de longos cabelos muito prateados e barba muito cerrada, lutava por permanecer onde estava. O olhar de Zack caiu sobre as calças de algodão saijado e camisa de flanela, manchada de areia, suor e óleo, e o par de botas esfarrapadas e sujas de óleo. O braço esquerdo do velho estava firmemente atado ao peito com um imobilizador de ombro; os tecidos das faces e em redor do olho direito estavam muito inchados devido a contusões recentes.

‑ Não! ‑ voltou a gritar. ‑ Não me tirem daqui. Vou morrer se voltar para lá esta noite. Por favor. Só uma noite.

‑ O que se passa? ‑ perguntou Zack.

O médico das urgêncías, um gorducho e antigo médico de clínica geral na cidade, chamado Wílton Marshfield, soltou a presa e o velho voltou a deitar‑se na maca.

‑ Olá, Iverson, doutora Cole ‑ disse, abanando a cabeça. - Julguei que já tivesse ido para casa.

‑ Estávamos prestes a ir ‑ disse Zack. ‑ Há algum problema?

Conhecia Marshfield, um médico relativamente competente, formado numa escola que já não existia há anos, e ficara surpreendido ao vê‑lo a trabalhar na sala de urgêncías. Durante uma conversa que tinham tido antes nessa noite, o homem explicara que Frank o convencera a não se reformar até o problema do pessoal clínico das urgências ficar resolvido. "Arrancou‑me do refugo da medicina e ofereceu‑me um salário tão bom quanto o meu melhor ano no consultório", foi como se expressou.

‑ Claro que não, tudo corre bem ‑ respondeu Marshfield. ‑ Só que aqui o velho Chris Gow não compreende que o Ultramed‑Davis é um hospital e não o raio de um hotel.

‑ O que foi que lhe aconteceu? ‑ perguntou Suzanne.

‑ Nada tão grave quanto parece ‑ respondeu Marshfield, sem disfarçar o desdém. ‑ Apenas bebeu um tanto a mais da

bebida que prepara no barracão dele e caiu nos degraus da frente. Fracturou o braço junto ao ombro, mas nada podemos fazer excepto colocar gelo e imobilizá‑lo. As radiografias dos ossos faciais dão todas resultados negativos, assim como todos os restantes exames. Temos a ambulância preparada para o levar para casa, mas o velhote não nos deixa tirá‑lo da maca sem lutar. Mas vamos tratar do assunto. Não se preocupe.

Suzanne hesitou por um momento, como se quisesse comentar a situação, mas concordou com a cabeça e recuou um passo.

Contudo, Zack passou pelo médico corpulento e aproximou‑se da cabeceira.


‑ Mister Grow, sou o doutor Iverson - disse. O velho olhou para ele, mas nada disse. O rosto, sob a barba e a sujidade, tinha uma qualidade imutável e quase serena, mas havia uma tristeza no olhar que Zack vira muitas vezes durante os anos em que cuidara dos doentes mais necessitados do Municipal de Bóston... Uma tristeza originada pela solidão e desespero. O medo que se via também não era pequeno. ‑ Tem muitas dores?

‑ Segundo ele, não ‑ respondeu o homem, ainda a respirar profundamente devido às lutas. ‑ Pergunto a mim mesmo qual foi a última vez que ele caiu nas escadas como eu e partiu o braço.

‑ Com quem vive?

O velho deu uma gargalhada de desolação, gemendo de dor. Depois virou a cara para o outro lado.

Zack olhou para Marshfield à espera de uma resposta.

‑ Vive sozinho numa barraca, no fim da antiga rua de toros de madeira, à saída da duzentos e dezanove.

‑ Tem telefone, Chris?

O homem voltou a rir.

‑ Como veio para cá?

‑ Como julga que vim?

‑ Um camionísta encontrou‑o sentado junto à estrada e trouxe‑o para cá - explicou Marshfield. ‑ Chris não é propriamente um desconhecido. Corta madeira. É chamado periodicamente e corta‑se a si mesmo em vez de cortar a madeira. ‑ Riu com a sua própria piada e pareceu não notar que mais ninguém se juntou a ele. ‑ Cosemo‑lo e mandamo‑lo para casa até à próxima vez.

Zack olhou para o velho. Haveria um estado mais triste do que estar doente ou muito ferido e viver sozinho... sem sequer poder esperar que alguém aparecesse para ajudar?

‑ Porque é que ele não pode ser admitido por um ou dois dias? - perguntou. ‑ Há camas livres?

‑ Há camas disse Marshfield ‑, mas aqui o velho CIrris não tem qualquer tipo de seguro e, a não ser que o problema seja grave, que não é, ele vai para Clarion, se o quisermos mandar para lá, ou vai para casa.

- E se um médico interno insistir em admitir alguém que não possa pagar?

Marshfield encolheu os ombros:

- Não acontece. Se acontecesse, julgo que o médico teria de responder perante a administração. Olhe, Iverson, você não estava cá quando este hospital admitiu todos os Toms, os Dicks e Harrys que apareciam por aqui, independentemente de poderem ou não pagar, mas devo dizer‑lhe que era uma terrível confusão. Semanas houve em que não se conseguia realizar os pagamentos, nem sequer adquirir equipamento novo.

- Este homem fica - afirmou Zack.

O médico das urgências tornou‑se vermelho.

- Já lhe disse que tinhamos tudo sob controlo ‑ insistiu.

Zack olhou para o velho. Mandá‑lo para casa, para uma barraca isolada sem telefone e provavelmente sem comida, era contra todos os seus instintos de médico.

‑ Sob controlo ou não ‑ declarou calmamente ‑, ele fica. Admitam‑no para mim como... má nutrição e síncope. Eu preencho a baixa.

As bochechas de Marshfield tornaram‑se rubras.

‑ É o seu maldito funeral ‑ replicou. ‑ E será você quem vai ser chamado ao tapete pela administração.

‑ Penso que o Frank irá compreender ‑ disse Zack.

Desta vez, Marshfield deu uma sonora gargalhada.

‑ Existem por aí alguns médicos à procura de emprego por terem pensado o mesmo, Iverson.


‑ Como já disse, ele é admitido.

‑ E como eu disse, é o seu funeral. Está bem, - Tommy disse ao guarda. ‑ Pode continuar as suas rondas. Aqui o doutor Serviço Social está decidido a aprender as coisas da maneira mais difícil.

Deu meia volta e afastou‑se.

‑ Chris, você vai ficar pelo menos esta noite ‑ disse Zack, pegando na mão sã do homem. ‑ Voltarei dentro de minutos para verificar como está.

O homem, perplexo com a súbita mudança da sua sorte, apenas conseguiu olhar para ele e concordar com a cabeça. Mas os cantos dos olhos brilhavam.

Zack virou‑se para Suzanne.

‑ Venha ‑ disse. ‑ Acompanhá‑la‑ei até lá fora. Bem preciso de apanhar ar fresco.

Atravessaram as portas automáticas e dirigiram‑se para a plataforma das ambulâncias. Uma chuva firme e fustigada pelo vento precipitou‑se sobre o pavimento cor de carvão.

‑ Acho que tenho de fazer alguns ajustes se quiser sobreviver aqui ‑ comentou, tremendo momentaneamente de frio.

Suzanne puxou a aba do casaco para cima da cabeça.

‑ Faça‑nos um favor ‑ disse. ‑ Não faça senão os ajustes que forem absolutamente necessários. O que fez ali dentro foi muito simpático.

‑ Com seguro ou sem ele, aquele velhote já pagou o que devia.

‑ Talvez ‑ disse Suzanne. ‑ Sim, talvez já tenha pago. Bem, vejo‑o de manhã.

‑Sim.

Ela virou‑se, deu alguns passos e tornou a virar‑se.

‑ Zack, quanto ao jantar. Que tal na quarta‑feira à noite? Em minha casa.

Zack sentiu a pulsação fugir.

‑ Julguei que não saía com os homens com quem trabalha!

‑ Não há regra sem excepção ‑ respondeu ela. ‑ Você próprio sublinhou isso ali dentro, não foi?

‑ Sim. Sim, julgo que o fiz. E o seu... outro compromisso?

Ela afastou a aba do casaco da testa e sorriu, primeiro com os olhos e depois com os lábios.

‑ Menti ‑ afirmou.


 

Lisette Iverson encontrava‑se junto às portas de vidro da varanda do seu quarto, estremecendo quando meia dúzia de relâmpagos atravessaram o céu negro sobre o vale do rio Androscoggin. Lá em baixo e para sul, Sterling incandesceu misteriosamente sob o relâmpago. Um bombardeio de trovões ressoou, e depois explodiu, abanando a elevada costa montanhosa em forma de A como se fosse um brinquedo.

Apertou o roupão e depois, nas pontas dos pés, percorreu o corredor para ver como estavam as raparigas. Misericordiosamente, após duas terríveis horas a lutar contra os fantasmas da tempestade, ambas tinham adormecido. A própria Lisette nunca conseguira suportar muito bem as tempestades e não sentia qualquer remorso por ter transmitido esse medo às filhas.

Céus!, como ela desejava que Frank viesse para a cama, ou pelo menos conversasse com ela. Era quase uma da manhã e ele ainda estava lá em baixo na "sua" toca a olhar, ela sabia, para as brasas da "sua" lareira e a ouvir vezes sem conta o álbum de jazz soturno e progressista que elegia quando se zangava com ela.

Ela sabia que, como sempre, ele levaria o seu precioso tempo a explicar‑lhe a razão.

Era o trabalho, o hospital, que o mantinha tão tenso. Lisette tinha a certeza disso. Durante um ano... não, agora era mais do que isso, dois pelo menos... fora difícil viver com ele. E com o passar de cada semana, de cada mês, parecia haver cada vez menos coisas que ela pudesse fazer para lhe agradar. No silêncio, amaldiçoou o dia em que ele fechara o negócio em Concord e regressara a Sterling, mesmo que a pequena empresa de electrónica estivesse por um fio.

Para ser franca, o sucesso dele na Ultramed dera‑lhes mais do que ela algum dia podia imaginar. Mas, enquanto reflectia sobre o arrojado sonhador por quem se apaixonara e com quem casara, Lisette disse para consigo que o preço que estavam a pagar era demasiado alto.

Durante uns tempos, ela debatera‑se sobre se devia ir simplesmente para a cama. Quando ia, claro, Frank nunca subia. Passava a noite no sofá da sua toca e já se encontrava no gabinete do hospital quando ela e as gémeas acordavam. Com um suspiro de resignação, calçou uns chinelos e dirigiu‑se ao andar inferior. De modo algum podia ignorá‑lo. Preocupava‑se, e ele, pelo menos por agora, não.

A situação era tão simples quanto isso.

 

MONTE GARFIELD

ENSAIOS OLÍMPICOS PARA JUNIORES

 

A brilhar como néon contra a neve iluminada pelo sol, a faixa vermelha e branca dizia tudo.

Do seu lugar na base da encosta principal, Frankie Iverson olhou para a gigantesca pista de slalom ‑ uma irregular série de duas dezenas de portas marcadas com bandeiras vermelhas e azuis. Mais uma volta, disse para consigo. Só mais uma volta como a última e estaria a caminho do Cobrado.


A viagem, o troféu, tudo. Após anos de treino e anos de frustração, estavam tão perto que lhes sentia o gosto.

‑ O próximo ano será teu ‑ dissera‑lhe o juiz durante a agonia e as lágrimas que se seguiram à corrida do ano anterior. ‑ No próximo ano, o Tyler será velho de mais para competir e tu serás o número um.

Tyler. Que anedota. Porque é que o pai não compreendia que fora o percurso merdoso da encosta... os malditos sulcos que lhe prenderam os esquis... que o tinham feito perder por meio segundo? Não fora Tyler.

Mais uma volta.

‑ Ei, Frankie, estás a dormir ou quê?

Abismado, Frank rodopiou. O seu irmão, Zack, calçando botas pretas e vestindo um fato de correr preto, caminhou na sua direcção, passando por cima de um pequeno monte de neve.

‑ Estou só a estudar a pista, Zack ‑ respondeu Frank.

‑ Como se precisasses. Podias esquiar de costas que ninguém neste campo conseguiria apanhar‑te.

Frank apontou um dedo para o enorme quadro onde os tempos da primeira volta eram fixados.

‑ Tu conseguias.

Zack soltou uma sonora gargalhada.

‑ Superar‑te em três segundos, quando nunca consegui bater‑te numa volta? Deves estar a brincar. Escuta, tudo o que quero é continuar de pé e conseguir o troféu do segundo lugar. Haverá muito tempo para mim no próximo ano, quando fizeres parte dos Seniores.

‑ Claro, Zack. Vou pensar no teu caso. Desde quando começaste a pensar que podias psicanalisar‑me?

E ela também estava a psicanalisar, o pequeno verme, pensou Frank.

Tinham apenas cerca de dois anos de diferença, mas Zack crescera em altura depois de fazer os treze anos e, subitamente, durante o ano seguinte, a competição entre ambos intensificara‑se em todos os desportos ‑ em especial no esqui, onde a diferença entre eles foi diminuindo ao longo de todo o Inverno.

Frank voltou a olhar para o quadro. Havia uma vasta margem entre Zack e o rapaz que estava em terceiro lugar. A última volta era uma corrida entre dois homens e o irmão sabia‑o tão bem quanto ele. É certo que estava a ser psicanalisado. Zack correria em segundo, logo a seguir a si, e estava disposto a conseguir eliminar todas as paragens.

‑ Escuta, Frankie ‑ disse Zack, naquele tom de sinceridade que Frank sabia não passar de um monte de merda. ‑ Sou sincero. Farei o meu melhor, claro. Mas também irei forçar‑te a fazeres o teu. Acredita que irei. ‑ Estendeu‑lhe a mão. ‑ Boa sorte.

Frank olhou para a mão do irmão e depois para o rosto. Havia algo no olhar de Zack que quase o fez arrepiar: uma confiança e uma determinação que nunca antes vira nele. Contudo, era um olhar que ele muito bem conhecia ‑ um olhar que enfrentara muitas vezes nos olhos do pai. Frank hesitou por uma fracção de segundo e depois tirou a luva e apertou fortemente a mão de Zack.

‑ Vai em frente ‑ disse.

‑ Irei. Encontramo‑nos no topo.

Zack sorriu‑lhe, concordou com a cabeça e foi juntar‑se a


um grupo de corredores á espera do sinal de que a segunda volta estava prestes a ser iniciada.

Frank olhou para a multidão de pais que se preparavam para ver a pontuação ao longo da pista. Nesse instante, o juiz, que conversava com vários amigos, olhou para ele. Frank sorriu envergonhado e o pai respondeu com um sentido sinal de polegares para cima.

Mais uma volta.

Ansioso por acabar com aquilo, Frank dirigiu‑se ao local onde os seus esquis e os dos outros concorrentes estavam alinhados como estacas de uma vedação. Sabia que ficara abalado com o breve encontro com o seu irmão mais novo e com o olhar deste. E o facto de o saber aborrecia‑o ainda mais.

É verdade que três segundos era muito tempo mas, pela forma como Zack se comportara ao longo das últimas semanas, tudo era possível. Por momentos, Frank chegou a brincar com a ideia de pedir‑lhe para recuar, para esperar pela sua vez.

Não era justo, pensou. Primeiro aquele maldito sulco e agora isto. Este era o seu ano. Até mesmo o juiz o dissera. Nada iria afastá‑lo daquele troféu, daquela viagem... Nada nem ninguem.

Tirou os esquis e passou a mão pela parte inferior para testar a cera.

Calma, disse para consigo. Calma, mas mantém aquela vantagem de que o juiz está sempre a falar. Aquela vantagem vencedora.

Foi então que reparou nos esquis Rossignol pretos de Zack, apoiados próximo do local onde os seus próprios tinham estado. Extasiado, colocou os seus esquis no lugar e retirou uma moeda do bolso.

Este seria o seu ano. O próximo seria de Zack. Era assim que as coisas tinham de acontecer.

Olhou em redor. Ninguém estava a olhar. Utilizando a moeda, deu duas voltas aos parafusos de um dos esquis de Zack não o suficiente para se sentir a diferença, mas o suficiente para se perder um pouco de controlo, para alargar alguns centímetros em cada curva, para conservar a sua vantagem de três segundos.

Era o seu ano. A sua última oportunidade. Na verdade, estava a fazer um favor a Zack garantindo que, caso caísse, o esqui libertar‑se‑ia, o que ajudaria a evitar uma grave lesão no tornozelo.

Porém não haveria quedas, nem lesões. Somente alguns centímetros em cada bandeira. Somente algumas fracções de segundo. Somente o suficiente. O ano seguinte era tempo suficiente para Zack. Então o juiz teria dois juniores olímpicos para se gabar. Era o melhor para todos. Era assim que as coisas tinham de acontecer. Era o seu ano... o seu ano...

‑ Frank?

As cores e as sensações desse dia desapareceram, quando a voz de Lisette entrou em cena.

Frank esfregou os olhos e depois endireitou‑se no sofá.

A fogueira que acendera para combater o frio da tempestade de

Verão reduzira‑se a algumas cinzas em brasa. A boca sabia‑lhe

mal devido aos dois uísques ‑ ou seriam três? ‑ que bebera,

e a cabeça latejava nas têmporas.

‑ Querido, estás bem?


‑ Estou bem ‑ murmurou, esfregando os olhos. ‑ Muito bem. ‑ Passaram‑se anos desde que tivera aquele pesadelo. Anos.

‑ Frank, por favor, vem para a cama. Já passa da uma e meia.

‑ Não estou cansado.

‑ Estavas a dormir.

‑ Não estava nada a dormir. Estava a pensar.

‑ Queres alguma coisa? leite? Uma sanduíche?

‑ Já disse que estou bem. Deixa‑me em paz.

Tudo vai piorar, pensou. Tinha lutado muito desde o início, mas não lutara o suficiente. A última coisa que precisava na vida era que o irmão regressasse a Sterling. E agora, graças ao juiz e ao maldito leigh Baron, ali estava Zack e já a brincar aos heróis. Devia ter lutado mais. Baron dirigia a Ultramed, mas o Davis ainda era o seu maldito hospital e devia ter lutado mais.

‑ Frank, querido ‑ disse Lisette ‑, dizes que estás bem, mas sei que não é verdade. Não me dirigiste uma única palavra decente durante toda a noite.

Tentou afastar‑lhe da testa uma madeixa de cabelo, mas ele empurrou‑lhe a mão. Depois, baixou‑se, desajeitado, atirou um toro para a lareira e empurrou‑o com o atiçador de brasas.

‑ Foi um verdadeiro espectáculo o que fizeste esta noite, Lisette ‑ disse em tom seco. ‑ Um verdadeiro espectáculo.

‑ Não sei do que estás a falar. Realmente não sei.

‑ Não me digas. Eu bem te vi ali de pé, a olhar extasiada para o meu irmão. E também tenho a certeza de que não fui o único a reparar.

‑ Querido, que loucura. Nunca...

- Tão certo como nunca teres feito amor com ele. Céus, é de admirar que nessa altura não tenhas rasgado o vestido, mesmo ali na cozinha!

‑ Frank, por favor. Estiveste a beber. Só me dizes essas coisas depois de teres estado a beber. O que sabes de mim e do Zack foi tudo o que houve entre nós. Nada mais. E certamente nada que não tivesse terminado há muitos anos. Fiquei impressionada com o que ele fez pela Annie e não fui só eu, mas todos. Além disso, não lhe dirigi três palavras durante toda a noite. Agora, por favor, vem para a cama. Deixa‑me massajar‑te as costas ou fazer qualquer coisa.

‑ Vai tu para a cama. Subirei quando estiver pronto.

‑ Frank, tu acreditas em mim, não é? Eu amo‑te.

‑ Existe apenas uma razão, uma explicação para o facto de ele ter rejeitado todas aquelas grandes oportunidades de trabalho e voltar para cá - disse, mais para si próprio do que para ela. ‑ Uma razão. E essa é para me complicar a vida.

Deitou mais uísque no copo e bebeu‑o de imediato.

- Por favor, Frank, não bebas mais ho...

- Ele é um filho da puta vingativo, Lisette. Sob aquela doce imagem de benfeitor, ele é igualmente vingativo. E, quer admita quer não, tem de acertar as contas de todos aqueles anos em que teve de ficar a ver da bancada, enquanto todos me aplaudiam. Ele quer recuperar o favoritismo da mãe, do juiz e de toda a gente desta maldita cidade... incluindo tu.

‑ Isso é uma loucura.


‑ Ai sim? Bem, logo veremos se é loucura. Encostou‑se ao braço do sofá e deixou‑se cair nele pesadamente. ‑ Pode ficar com tudo: o hospital, o juiz, o leigh Baron, todos excepto tu... mas só quando eu disser. Só depois de eu ter realizado tudo o que tenho em mente. Só depois de eu...

Os olhos fecharam‑se e a cabeça tombou para um lado. Em segundos, começou a ressonar.

Lisette pegou num cobertor e tapou‑o. Era a bebida que falava. Nada mais. Seria de admirar que de manhã Frank se lembrasse de algo do que acabara de dizer. Ele amava o irmão, tal como a amava a ela e às gémeas.

Só não sabia demonstrá‑lo muito bem.

Alguma coisa estava a incomodá‑lo... algo que nada tinha a ver com Zack.

Só depois de eu ter realizado tudo o que tenho em mente. Que raio queria ele dizer com aquilo?

Prometendo silenciosamente que tudo faria para ajudar o marido a superar o que o deixava tão tenso, Lisette deu meia volta e dirigiu‑se ao andar superior.


 

A Sala de Conferências Carter do Ultramed‑Davis, reformada pelo Ultramed mas originalmente doada ao hospital pela fábrica de papel, era um vasto espaço para todo e qualquer fim, com alcatifa de pêlo alto, uma mesa e um atril numa extremidade e cadeiras para cerca de cem pessoas. Imagens litográficas a cores e com molduras metálicas, retratando importantes momentos da história da medicina, forravam um dos lados da sala, e fotografias de antigos presidentes do corpo clínico enchiam a parede traseira junto à porta. Por baixo de cada retrato, encontrava‑se uma pequena placa dourada gravada com o nome do director e a respectiva data de nascimento e de falecimento. Por baixo das fotografias de antigos presidentes ainda vivos, já estava gravada a data de nascimento, seguida de um hifen e um espaço demoniacamente à espera.

Eram sete e meia da manhã de quarta‑feira, 3 de Julho. O corpo clínico reunia‑se normalmente na primeira quinta‑feira de cada mês; porém, devido ao feriado, decidira que a sua reunião de Julho seria antes na quarta. O caloroso debate sobre o assunto, típico em qualquer grupo de médicos, ocupara mais de metade da reunião de Junho.

Quarenta médicos, praticamente todos os médicos do Ultramed‑Davis, agruparam‑se na sala, uns trocando entre si anedotas ou histórias obscenas, outros conseguindo "consultas livres" de vários especialistas. Alguns permaneceram simplesmente à janela a olhar com ar pensativo para o radioso dia de Verão que nunca poderiam gozar.

Zack Iverson sentou‑se isolado ao canto da sala, tentando mentalmente fazer corresponder os rostos e condutas de vários médicos com a respectiva especialidade médica (cabelo grisalho de corte à escovinha, gravata de laço vermelha... pediatra; casaco comprido desportivo de tamanho quarenta e quatro, oitenta e seis centímetros de cintura, nariz ligeiramente torto... ortopedista) e meditando nos seus primeiros dois dias de trabalho.

Estes tinham passado bastante bem, com algumas consultas no consultório e muitas no hospital. Zack chegou mesmo a passar uns breves momentos na sala de operações, auxiliando um dos ortopedistas na remoção de um enorme depósito de cálcio que ficara preso no nervo cubital do cotovelo direito de um jovem carpinteiro.

Por várias vezes em ambos os dias fora visitar Annie, que progredia razoavelmente bem. Também dera alta a Cliris Gow depois de um dia e meio de bons cuidados e após fazer com que os Serviços Sociais lhe dessem assistência médica, fisioterapia e uma refeição por dia em casa. Ao contrário da lúgubre previsão de Wilton Marshfield, não houve quaisquer repreensões de Frank ou de mais alguém quanto à hospitalização do velho.

No geral, tinham sido dois dias interessantes e recompensadores ‑ daqueles que ultrapassavam as responsabilidades da medicina como profissão.

Contudo, este era o dia por que Zack tanto ansiava. Começaria com o seu primeiro caso importante na SO ‑ a remoção da hérnia do disco cervical de uma mulher ‑ e terminaria com o jantar em casa de Suzanne. Sorriu ao lembrar‑se como fora injustificada a sua apreensão quanto ao regresso a Sterlíng.


‑ Muito bem, meus senhores, sentem‑se.

O director do corpo clínico, um pálido e melífluo médico chamado Donald Norman, deu a ordem enquanto cumprimentava e abria caminho até à parte da frente da sala.

Norman entrevistara duas vezes Zack em nome da Ultramed e, na verdade, fora por causa desse homem e das suas duas sessões que Zack decidira vir para o Davis. Formado numa das faculdades de medicina das Caraíbas, Norman fora subsidiado e treinado nos hospitais da Ultramed e era um verdadeiro empresário. Grande parte das entrevistas fora constituída por pouco mais do que uma triste ladainha sobre as políticas processual e médica da Ultramed, cada uma acompanhada de um conjunto de estatísticas que consideravam as "linhas de orientação" benéficas para o bem‑estar, tanto do doente como do hospital.

Enquanto Norman enaltecia o aerodinâmico tratamento da organização como "revolucionário e indiscutivelmente necessário", Zack imaginou se tal não se resumia a cuidados de saúde para gente de boas famílias.

E disse‑o, embora isso não lhe trouxesse beneficios.

Para piorar as coisas entre os dois, a espontaneidade de Zack e a forma calma e ecléctica como exercia a medicina não agradavam muito a Norman que, embora fosse apenas mais do que um ou dois anos mais velho do que Zack, vestia um fato de três peças, fumava um retorcido cachimbo e portava‑se geralmente como uma espécie de velho padroeiro da medicina.

No final, com a decisão de Zack ainda muito no ar, muitos dos outros médicos do quadro conseguiram convencê‑lo de que o Ultramed‑Davis era muito mais flexível na sua política e filosofia do que Donald Norman gostaria de acreditar.

Norman tomou o lugar na mesa da frente e bateu com um cinzeiro, para manter a ordem na sala.

Durante a leitura dos relatórios da secretaria, da tesouraria e das várias comissões, entraram vários atrasados, incluindo Suzanne, que tinha um aspecto gracioso e divertido, de sandálias e vestido florido. Entrou acompanhada de Jason Mainwaring que, como Zack verificou, não usava aliança, embora usasse um diamante razoável num dos mindinhos. Os dois sentaram‑se no lado oposto da sala e continuaram a conversa em segredo, durante a qual o carismático cirurgião lhe tocou num braço ou numa mão pelo menos meia dúzia de vezes.

Durante um ou dois minutos, Zack tentou sem êxito captar‑lhe o olhar; depois desistiu e voltou a concentrar‑se na reuníão.

- Algum aditamento ou correcção aos relatórios da comissão? - perguntou Norman. - Se não há, serão aceites como estão. Coisas antigas?

Ergueu‑se uma mão, acompanhada de murmúrios vindos de várias partes da sala.

‑ Sim, doutor Beaulieu ‑ disse Norman, sem se esforçar por disfarçar o aborrecimento na voz.

Do seu lugar, cinco ou seis filas à frente de Zack, Guy Beaulieu levantou‑se, olhou deliberadamente em redor e por fim avançou para o atril, um movimento que originou ainda mais murmúrios.


Zack, que não via Beaulieu há três ou quatro anos, ficou chocado com a mudança física do homem. Outrora enérgico e robusto, estava agora quase patologicamente magro. O fato ficava‑lhe grande e o seu rosto macilento tinha um tom acinzentado doentio. No entanto, continuava firme como sempre e, mesmo à distância, Zack conseguia ver o brilho desafiador por trás das lentes bifocais de armação dourada.

- Obrigado, senhor director ‑ começou Beaulieu, com uma formalidade que provavelmente teria soado pouco natural e condescendente, se vinda da maioria dos presentes na sala, mas que vinda dele não o era. O seu discurso ainda continha um inconfundível sabor franco‑canadiano. ‑ Sei que muitos de vós estão um tanto fartos de ouvir as minhas declarações em nome daqueles que não são tratados nesta instituição, bem como contra alguns de vós que me caluniaram nesta comunidade. Pois bem, prometo‑vos que esta será a última vez. Assim, se me prestarem um pouco de atenção...

Retirou duas folhas de papel do bolso do casaco e abriu‑as sobre o atril. Mais uma vez, ouviu‑se um leve murmurinho de vários pontos da sala.

Zack olhou para Jason Mainwaring, que agora estava sentado sem se mexer, a olhar impassivelmente para o homem. Nesse momento, Suzaune virou‑se e cruzaram o olhar. Zack fez um cumprimento subtil com três dedos e, em resposta, ela confirmou com a cabeça. Mesmo à distância, parecia preocupada.

‑ Gostaria de informar o corpo clínico do Hospital Ultramed‑Davis - leu Beaulieu, ajustando os óculos ‑ que contratei a Empresa Nordstorm & Perry, de Concord, e que processei este hospital, a administração, o corpo clínico e a Corporação de Hospitais Ultramed em nome dos pobres e das pessoas sem seguro que vivem na área de tratamento do Ultramed‑Davis. Para reforçar a causa, juntaram‑se a mim alguns dos actuais e antigos doentes que pertencem a esse grupo, incluindo Mister Jean lemoux, Mister Ivan MacGregor e a família de Madame Yvette Coulombe.

"As acusações, que incluem faltas ilícitas e desumanas deste hospital, transferência indevida de doentes e recusa de tratamento, estão actualmente a ser revistas pela Assistência legal de New Hampshire, que prometeu decidir durante as próximas duas semanas se irá ou não juntar‑se a nós. Tal como disse tantas vezes, os cuidados médicos são um direito de todos e não um privilégio. Ao longo dos últimos três anos, a forma de agir deste estabelecimento tem sido do género: "Por que razão tem de ter cuidados médicos só porque está doente?" Pretendemos lutar contra essa política.

Zack olhou em redor da sala e catalogou numerosissimas reacções entre os médicos; uns poucos, se é que havia algum, pareciam compreensivos, mas nenhum parecia sentir‑se muito ameaçado ou aborrecido. Alguns trocavam abertamente olhares e gestos de revolta e até havia um que rodava um dedo próximo de um dos ouvidos.

- Existem por aí alguns médicos à procura de emprego por terem pensado o mesmo, Iverson. - O aviso de Wilton Marshfield em relação ao facto de ir contra as regras da Ultramed ecoaram na mente de Zack enquanto estudava o mar de expressões lívidas e reprovadoras. Reparou que Suzanne pertencia vagamente ao segundo grupo.

O próprio Beaulieu fez uma pausa e olhou em volta, mas depois continuou imperturbável.


‑ Para além das acusações descritas acima, iremos documentar a pouco ética distinção entre fornecedores e abastecedores médicos, no que respeita ao cuidado dos doentes dentro e fora deste estabelecimento, o qual tem sido comprometido. Temos provas que apoiam a nossa posição, e todos os dias conseguimos mais. Espero que aqueles que pertencem ao corpo clínico e possuam informações que possam substanciar as nossas reclamações avancem e as apresentem a mim ou ao nosso advogado, Mister Everett Perry. Garanto‑vos que essas revelações serão mantidas no mais rigoroso sigilo.

Tal como o juiz tinha dito e por toda a sua "impertinência", o homem fora corajoso, admitiu Zack. Mais uma vez, olhou em redor da sala; coragem, sim, mas sem o mínimo apoio visível.

‑ Por último ‑ continuou Beaulieu ‑, gostaria de anunciar que eu próprio iniciei uma acção legal contra um membro deste corpo clínico, assim como contra a administração deste hospital, que julgo ser responsável pelos boatos caluniosos, incorrectos e bastante prejudiciais em relação à minha conduta pessoal e profissional. Peço a todo e qualquer médico que tenha conhecimento deste assunto que avance. Mais uma vez, prometo sigilo absoluto. lembrem‑se, só os que caírem na graça de Deus Todo‑Poderoso é que merecem o céu.

"Agradeço‑vos a paciência e estou pronto para responder às vossas perguntas e comentários.

Nem um braço se ergueu. Beanheu abanou a cabeça de uma forma calma e digna e depois regressou ao seu lugar, aparentemente desatento aos muitos rostos contorcidos e enfurecidos que estavam fixos nele.

A reunião dos médicos continuou rotineiramente. No fim dos "assuntos novos", Zack foi formalmente apresentado e acolhido, com um breve e bem medido aplauso. Sentindo que eram exigidos alguns cumprimentos verbais, levantou‑se.

‑ Muito obrigado ‑ começou. ‑ Sabe bem regressar a casa e pertencer ao corpo clínico do hospital onde nasci. Tal como o doutor Norman referiu quando me apresentou, para além de exercer neurocirurgia, tentarei trabalhar como neurologista até crescermos o suficiente e conseguirmos arranjar um. Espero cuidar de todos os que necessitarem de ajuda na minha área de especialização... ‑ Olhou para Guy Beaulieu. ‑ Independentemente de poderem ou não pagar.

"Também gostaria de agradecer aos nossos radiologistas, assim como ao meu irmão Frank, pelo empenho em conseguir o aparelho de TAC. É um belo equipamento e ambos os radiologistas se excederam para conseguir saber trabalhar com ele. Muito em breve, nós os três planeamos apresentar uma espécie de curso intensivo sobre o funcionamento e limitações da técnica.

"Visto o meu substituto mais próximo se encontrar a cerca de cento e cinquenta quilómetros, estarei á disposição vinte e quatro horas por dia, excepto durante as minhas férias, que estão marcadas de três a cinco de Agosto... daqui a três anos. Obrigado.

Ouviram‑se gargalhadas e aplausos por toda a sala.


‑ Mais uma coisa ‑ acrescentou Zack, quando o silêncio regressou à sala. ‑ Julgo que surgiram alguns problemas invulgares devido á minha decisão de regressar e exercer na cidade onde nasci e fui criado. Assim, gostaria de tornar perfeitamente claro que nada existe de verdade nos boatos, penso que iniciados ali pelo doutor Blunt, que me ajudou a nascer e foi meu pediatra, e que diz que não entro na sala de operações sem o ursinho zarolho que eu teimava em levar comigo para as suas consultas.

 

Suzaune, com Jason Mainwaring a reboque, foi ter com Zack no corredor.

‑ Olá, Zack ‑ cumprimentou. ‑ Obrigada pelas gargalhadas lá dentro. Já conhece o Jason?

‑ Penso que o conheci há alguns meses ‑ respondeu Zack, apertando a mão do cirurgião. ‑ Prazer em voltar a vê‑lo.

‑ Digo o mesmo ‑ disse Mainwaring, arrastando as palavras. ‑ Foi um discurso engraçado, Iverson. Gostei especialmente da referência ao ursinho.

‑ Obrigado ‑ agradeceu Zack, perguntando a si mesmo se o homem não estaria a gozar.

‑ E até gostei daquela outra. A que se referia ás suas férias... daqui a muito tempo. Você é uma pessoa cómica.

‑ Mais uma vez, obrigado.

‑ No entanto ‑ continuou o cirurgião ‑, aconselho‑o a não fazer mais declarações inflamatórias sobre o caso Beaulieu sem conhecer todos os factos. Veja, Iverson, sou o membro do corpo clínico a quem Beaulieu se referiu lá dentro, a quem ele processou. E por mais nobre que parecesse ser no seu pequeno discurso de há pouco, você e o Beaulieu não são os únicos que praticam a caridade. Eu também opero muita gente que não pode pagar.

Zack ficou abismado com a rudeza do homem.

‑ Bem ‑ disse ‑, fico feliz por sabê‑lo. Só espero que eles dêem o dinheiro por bem empregue.

‑ Sabe ‑ opôs‑se Mainwaring ‑, sempre ouvi dizer que só os cirurgiões mais arrogantes e sádicos são eleitos para passar a sua vida profissional a aborrecer os outros...

‑ Ei, malta, o que é isto? ‑ interrompeu Suzanne. ‑ Parece o tipo de desafio que ambos deviam ter deixado para trás quando desceram das vossas casinhas na árvore e começaram o liceu. Jason, o que é que lhe deu? Foi atacado na casinha por algum neurocirurgião louco ou algo do género?

Mainwaring sorriu de um modo formal.

‑ As minhas desculpas, Iverson.

Estendeu a mão mas, com Suzanne como escudo, a hostilidade do olhar foi cortante.

‑ Ora, não foi nada, Jason. Não foi nada.

‑ óptimo. Bem, então, teremos de ver o que se pode fazer para vos arranjar um pouco de trabalho neurocirúrgico.

‑ Obrigado.

‑ Entretanto, talvez seja melhor não se meter em políticas, pelo menos até cá estar o tempo suficiente para aprender o nome de todos. ‑ Olhou para o Rolex de ouro. ‑ Suzanne, querida, julgo que ainda temos tempo para terminar o nosso assunto. Prazer em vê‑lo, Iverson. Tenho a certeza de que irá adaptar‑se bem a este pequeno lugar adormecido.

Sem esperar pela resposta, tomou o braço de Suzanne e ambos seguiram pelo corredor.

 


Andy O'Meara, de faces rosadas, barriga de cerveja e grande sorriso, passou entre as mesas do Gillie's Mountainside Tavem, apertando a mão e dando palmadas nas costas dos cerca de vinte homens que gozavam o intervalo do meio‑dia, num ambiente quente e cheio de fumo. Durante cerca de vinte anos, acabara por conhecê‑los a todos muito bem e orgulhava‑se de os considerar amigos.

‑ Andy, seu peido fedorento. Bem‑vindo!

‑ Ei, é o Super Mick. Assim é que é, Andy. Assim é que é. Nós sabíamos que havias de conseguir.

Primeiro as cartas, os bombons e as flores quando estava no hospital e agora aquela recepção. Eram um grupo fantástico. O melhor que havia. E nesse momento, Andy sentiu‑se o homem mais afortunado da Terra. O dia seguinte seria o Dia da Independência ‑ o dia para celebrar o nascimento da liberdade. Mas esse era o dia para celebrar o seu próprio renascimento.

‑ Ei, Gilhe ‑ chamou, com a melodia e o ritmo da infância passada em Kilkenny ainda a afectar‑lhe a voz. ‑ Cerveja para todos, pago eu.

Após três meses de dores e preocupações, depois de mais de doze viagens a Manchester para fazer radioterapia e depois de se sentar vezes sem conta no consultório do médico, à espera que lhe dissessem: "Não conseguimos tirar tudo", estava de novo na estrada e curado. O cancro intestinal que ameaçara a sua vida encontrava‑se dentro de um frasco na secção de patologia do Hospital Ultramed‑Davis e todas as células cancerosas que pudessem ter ficado no seu corpo tinham sido queimadas pelas espantosas máquinas de raios X. O banco de trás e a bagageira do Chevy verde encontravam‑se de novo atulhados de caixas de sapatos, botas e sapatos de ténis, que gostava de expor para os negociantes ao longo da Estrada 16, e o ritmo da sua vida tinha sido finalmente restaurado.

‑ Ao futuro dos Irlandeses ‑ proclamou, enquanto erguia acima da cabeça a gelada caneca de cerveja.

‑ E ao teu, Andy O ‑ respondeu Gilhe. ‑ Estamos felizes por te termos de volta entre os vivos.

Andy O'Meara trocou apertos de mão e abraços com cada homem que ali estava e depois pousou a caneca meio cheia sobre o balcão. Era a sua primeira cerveja gelada em mais de doze semanas e, com uma tarde repleta de telefonemas dirigidos a si, não fazia sentido testar a tolerância à bebida.

Acertou as contas com Gilhe e saiu do sombrio bar forrado de pinho para o brilhante sol da tarde. Orgulhava‑se de nunca chegar atrasado a um encontro, e a Colson's Factory Outlet ficava a cerca de trinta minutos de viagem através das montanhas.

Ligou o rádio. Kenuy Rogers admoestava‑o com o saber quando parar e quando se abster. A música country/western, normalmente a que Andy mais ouvia, parecia de certo modo não acompanhar a paz e a serenidade daquele dia. Parou junto à berma da estrada e mudou para um programa clássico na WEco, a estação pública.

Melhor, pensou. Muito melhor

A música era conhecida. Quase instantaneamente, fez surgir imagens na mente de Andy: a neve a cair suavemente... uma lareira em pedra... o crepitar do fogo... a família. Enquanto acompanhava a música, Andy tentou lembrar‑se onde ouvira aquela melodia assombrosa.

- Que criança é esta, quem a deitou no colo de Maria, a dormir?...

Ficou surpreendido por saber uma grande parte da letra.


‑ Este, este é Cristo, o Rei, a quem os pastores guardam e os anjos cantam...

Subitamente, percebeu que se tratava de uma canção de Natal. Era isso. Na Irlanda, quando criança, fora uma das suas favoritas. Que estranho ouvi‑la a meio do Verão.

Fez uma pausa para deixar passar uma camioneta. O ruído desta era quase imperceptível, quase como se não fizesse qualquer som. Andy encolheu os ombros. Embora a sensação de estar de novo na estrada fosse maravilhosa, era também um tanto estranha.

‑ Apressem‑se, apressem‑se a dizer ao mundo, o bebé, o filho de Maria...

Fechou as janelas, ligou o ar condicionado, saiu da berma e entrou na Estrada 110. O verde das montanhas parecia desconfortavelmente brilhante. Semicerrou os olhos, depois esfregou‑os e perguntou a si mesmo se não seria melhor parar algures para comprar um par de óculos de sol. Não, decidiu. Nada de paragens. Pelo menos, até chegar à Colson's.

Acalma‑te, velhote, disse para consigo. Vê lá se te acalmas.

Ajustou o sinal do rádio, acomodou‑se no banco e voltou a cantarolar.

A Estrada 110 tinha duas faixas, com uma berma estreita em ambos os lados. Tinha curvas e contracurvas, subia e descia como uma montanha‑russa, desde Groveton na fronteira de Vermont, ao longo da crista do vale do rio Ammonoosuc, até Sterling e à Estrada 16. Havia uma protecção branca riscada e baixa paralela ao lado direito de Andy, e para lá desta encontrava‑se o desfiladeiro, com duzentos metros de profundidade em certos pontos.

A sensação de desassossego e mal‑estar de Andy tornou‑se mais intensa e ele percebeu que lhe era díficil concentrar‑se. Ajustou o encosto do banco e verificou o cinto de segurança. A protecção tornou‑se algo desfocada, e a sólida linha central continuou o seu percurso sob o pneu esquerdo da frente. Apertou com força o volante e verificou o velocímetro. Setenta. Porque é que parecia ir muito depressa?

Notou que, subitamente, as árvores das montanhas tinham começado a escurecer... a desenvolver um tom avermelhado. Esfregou os olhos e, mais uma vez, forçou o carro para a faixa direita. Vinte e cinco anos de estrada sem um único acidente. Maldito fosse se ia ter um agora.

à sua frente, a paisagem escureceu. Aproximou‑se um tractor, com o sol a bater no pára‑brisas.

Subitamente, Andy apercebeu‑se de uma voz que ecoava na mente ‑ uma voz profunda, lenta, ressonante e tranquilizadora, de inicio muito baixa para perceber, depois mais alta... e ainda mais alta:

‑ Okay, Andy ‑ disse a voz ‑, agora quero que conte para trás desde cem, conte para trás desde cem... conte para trás desde cem...

Em voz alta, Andy começou a contar:

‑Cem... noventa e nove... noventa e oito...

Por cima dele, surgiu um pano azul que depois pousou sobre o seu abdómen.

‑ Noventa e sete... noventa e seis...

Apareceram umas mãos com luvas de borracha no espaço onde estivera o pano.


‑ Noventa e cinco... noventa e quatro... Porque é que não estou a dormir? ‑ perguntou‑lhe a mente. ‑ Noventa e três... noventa e dois.

‑ Bisturi eléctrico, por favor ‑ disse a voz baixa. ‑ Regulem‑no para cortar e cauterizar.

Apareceu outro par de mãos com luvas, uma delas segurando um pedaço de gaze e a outra um pequeno bastão com uma ponta metálica. lentamente, baixaram a ponta metálica em direcção à barriga.

‑ Noventa e um... noventa...

Subitamente, um ruído sonoro encheu‑lhe a mente. A ponta metálica do bastão tocou na sua pele, logo abaixo do umbigo, enviando uma cauterizante dor eléctrica até às costas e pelas pernas abaixo.

‑ Jesus Cristo, parem! ‑ gritou Andy. ‑ Não estou a dormir! Ainda não estou a dormir!

A parede da parte inferior do abdómen separou‑se sob a lâmina eléctrica, expondo uma camada amarela de gordura.

‑ Oitenta e nove... oitenta e oito!... Por amor de Deus, parem! Não está a funcionar. Estou acordado! Eu estou a sentir! Eu sinto tudo!

‑ Metzenbaum e pinças, por favor.

‑Não! Por favor, não!

A tesoura Metzenbaum cortou o peritoneu de Andy dividindo a membrana luzidia como se fosse um lenço de papel e expondo os resplandecentes rolos cor‑de‑rosa dos seus intestinos.

Mais uma vez, gritou. Mas, desta vez, o som não só veio da sua voz como do interior da mente.

A visão tornou‑se clara no momento em que o farol direito da frente do seu automóvel tocou na protecção. O Chevy, agora a cerca de 140 quilómetros por hora, cortou o aço da protecção como se este fosse cartão, atravessou um pedaço de erva e cascalho e dirigiu‑se rapidamente para a beira do desfiladeiro.

Preso do banco, Andy O'Meara viu as árvores verde‑esmeralda a passarem velozmente. No quarto segundo da queda, percebeu o que estava a passar‑se. No quinto, o Chevy caiu nas rochas em baixo e explodiu.


 

A cantina do Ultramed‑Davis, tal como grande parte do estabelecimento, fora renovada num estilo leve e moderno, embora bastante previsível. No interior havia um enorme balcão, bem abastecido de saladas, e uma parede de portas de correr envidraçadas abria‑se para um terraço de lajes e meia dúzia de mesas e bancos de cimento.

Agradavelmente exausto devido à operação de três horas ao disco cervical, Zack sentou‑se na única mesa à sombra de uma árvore e viu Guy Beaulieu a caminhar na sua direcção, atravessando a multidão que estava a almoçar.

Durante o Verão em que Zack trabalhara como externo no então Hospital Regional Davis, Beaulieu estivera extremamente ocupado a exercer as suas funções de médico e também as de director do corpo clínico. No entanto, o homem parecera ter sempre tempo suficiente para interromper e ensinar, para animar um doente assustado, ou para consolar uma família consternada.

Desde esse Verão, a combinação de pericia e compaixão do cirurgião passou a ser uma espécie de modelo para Zack.

‑ Então ‑ disse Beaulieu, enquanto pousava o tabuleiro e se sentava no banco de pedra oposto a Zack. ‑ Obrigado por teres aceite almoçar comigo.

‑ Que disparate ‑ replicou Zack. ‑ Estou ansioso por estar consigo desde que cheguei á cidade. Como está a sua esposa? E a Marie?

‑ A Clothilde, Deus a abençoe, está tão bem quanto se pode esperar, considerando as histórias nojentas que tem aturado nestes últimos dois anos. Quanto à Marie, tal como ouviste, fartou‑se de esperar que te declarasses e acabou por se casar com um escritor, um poeta, caramba!, do Quebeque.

Zack sorriu. Ele e Marie Beaulieu eram amigos desde os primeiros tempos da primária, mas nunca haviam sido namorados.

‑ Conhecendo a Marie como conheço, tenho a certeza que ele é muito especial ‑ afirmou Zack.

‑ Tens razão. Uma vez que não te pôde ter, então este homem, o Luc, é o que eu teria escolhido para ela. Numa idade em que quase todos os jovens parecem não querer saber de mais nada senão de si próprios, ele é excepcional... empenhado na necessidade de ser diferente. Trabalha num jornal de aldeia e luta contra todos os tipos de injustiça social, enquanto espera que o mundo descubra os seus poemas.

‑ Filhos?

‑ Têm dois e não sei como conseguem alimentá‑los. Mas lá vão conseguindo.

‑ E são felizes ‑ disse Zack.

‑ Sim. Pobres e a lutar, mas felizes e tão apaixonados quanto no dia do casamento, ou talvez mais.

Zack afastou as mãos.

‑ C'est tout ce qui conte, n 'est ce pas?

O sorriso de Beaulieu tornou‑se um tanto amargo.

‑ Sim ‑ respondeu. ‑ Só isso é que interessa. ‑ Fez uma pausa e continuou. ‑ Assim, o teu velho amigo Guy Beaulíeu está com falta de aliados neste local.

‑ É o que parece ‑ afirmou Zack, dando uma garfada na salada, pensativo.


Beaulieu inclinou‑se para a frente, os olhos e a voz em tom de conspiração.

‑ Passa‑se aqui muita coisa que não está correcta, chary ‑ sussurrou. ‑ Parte do que está a acontecer é simplesmente errado. Mas há muito de perverso.

Zack olhou para a ala oeste recém‑construída, para o heliporto e para os grupos de enfermeiras e médicos a gozarem o intervalo do almoço no terraço e no interior da cantina.

‑ Espero que compreenda quando digo que não vejo grandes provas disso à minha volta. É capaz de ser mais específico?

‑ O teu pai já falou contigo, não é assim?

‑Por alto.

‑ Então já sabes das mentiras.

‑ Sei qualquer coisa sobre os boatos, se é a isso que se refere.

Beaulieu inclinou‑se ainda mais.

‑ Zachary, peço‑te segredo neste assunto.

‑ Nem é preciso pedir ‑ respondeu Zack. ‑ Mas devo alertá‑lo para uma coisa. Tanto o juiz no domingo, como o senhor esta manhã, sugeriram que uma parte da vossa disputa talvez possa ser com o Frank. Quero que saiba que neste desentendimento não pretendo tomar o partido de ninguém. A sua amizade significa muito para mim. Nem sei se hoje seria cirurgião se não fosse a sua influência. Mas o Frank é meu irmão. Não consigo imaginar‑me contra ele.

‑ Mesmo que ele aja de forma errada?

‑ Com a minha experiência, Guy, certo e errado são muito mais vezes tonalidades de cinza do que preto e branco. Além disso, tentei separar as coisas nos meus anos no Municipal de Bóston. Tudo o que consegui foi uma terrível dor de cabeça do tamanho do Alasca. Devia ter armazenado uma pilha de Tylenol antes de fazer a minha primeira queixa à administração do hospital. Ouvirei se lhe apetecer falar, mas por favor não espere nada.

‑ Obrigado pelo aviso ‑ agradeceu Beaulieu. ‑ Mesmo assim, tenho uma grande admiração e respeito por ti e, como sem dúvida já calculaste, apesar de não ter grande apoio por aqui, senti relutância em partilhar contigo aquilo que sei, principalmente por causa do Frank. Mas, quando disseste o que disseste na reunião desta manhã, e refiro‑me a tratar toda a gente sem pensar se podem ou não pagar, interpretei isso como uma espécie de convite para conversarmos.

Zack suspirou.

‑ Pensou correctamente ‑ disse por fim. ‑ Luto o mais que posso, mas quando não estou a olhar, o lado de mim que não suporta ver pessoas a serem sempre prejudicadas parece subir à superficie.

‑ E verdade, soube o que fizeste àquele pobre lenhador na outra noite.

‑ Soube?

‑ Não fiques surpreendido. Neste hospital, e na verdade em toda esta cidade, existe um sistema de comunicação que deixaria o Ministério da Defesa verde de inveja. É melhor que aceites esse facto e te adaptes a ele se quiseres sobreviver aqui. Deita uma pedra para o lago e todos, mesmo todos, sentirão a ondulação. É por isso que histórias como as que se espalharam a meu respeito são tão condenadoras. Sem a menor perda de tempo, todos ouviram uma versão.

‑ Como aquele velho jogo... o telefone.


‑Como?

‑ Um jogo que costumávamos jogar em dias de festa. Todos se sentam em círculo e a primeira pessoa diz um segredo ao ouvido da que estiver ao lado. Depois, o segredo é transmitido por todo o círculo e, quando regressa á pessoa que o iniciou, mudou completamente. Incomoda‑me bastante pensar que alguém faria deliberadamente qualquer coisa para o magoar, em especial através do tipo de acusações que o juiz diz ouvirem‑se por aí.

‑ São mentiras, Zack. Todas elas, sem excepção.

Zack analisou o rosto do francês: os maxilares, a profunda tristeza que lhe engolfava os olhos.

‑ Eu sei, velho amigo ‑ disse, por fim. ‑ Eu sei que são.

....... ‑ Beanheu bateu com os dedos uns nos outros, sem saber por onde começar. ‑ O que achaste do meu pequeno discurso desta manhã? ‑ acabou por perguntar.

‑ Bem, a verdade é que achei que se controlou e expressou muito bem.

Beaulieu sorriu.

‑ Muito diplomático, meu rapaz. Mas, por favor, continua e lembra‑te que os meus sentimentos não podem ser feridos.

Zack encolheu os ombros.

‑ Está bem. Se quer mesmo saber a verdade, não consegui deixar de pensar que só faltava na cena um cavalo, uma lança, um capacete em forma de bacia e o Sancho Pança.

Desta vez, o cirurgião mais velho deu uma sonora gargalhada.

‑ Então, achas que estou a remar contra a maré, não é? Bem, meu jovem amigo, vamos então analisar a maré. Richard Coulombe. Sabes quem é?

‑ O farmacêutico? Claro que sei. Ainda ontem me aviou uma receita.

‑ E sabes que já não é o proprietário da farmácia?

‑ O letreiro diz Farmácia Coulombe.

‑ Sei o que diz o letreiro. Também sei que agora o Richard é um empregado e não o proprietário. Há cerca de dois anos, vendeu‑a a uma organização chamada Eagle Pharmaceuticaís and Surgical Supplies. Não sei como surgiu esse determinado negócio com essa determinada empresa, mas hoje posso calcular que não foi por mero acaso. O Richard não queria vender, mas precisava do dinheiro para pagar uma dívida enorme... uma conta de hospital e uma conta de um cirurgião, Zachary... efectuadas pela mulher, Yvette, hoje falecida, durante uma série de operações ao cancro.

Beaulieu mastigou um pedaço de sanduíche, enquanto analisava a reacção de Zack.

‑ Foi o senhor quem efectuou as operações? ‑ perguntou Zack.

O cirurgião abanou a cabeça.

‑ Os Coulombe foram meus doentes durante muitos anos, mas pouco depois de a Yvette começar a ter os sintomas, os boatos sobre a minha pessoa começaram a circular. Tal como muitas das outras pessoas da cidade, decidiram ou foram aconselhados... ainda não sei muito bem... a consultar um tal Jason Mainwaring. Também foram avisados de que a apólice de seguro era muito limitada mas que, caso não surgissem complicações, cobriria grande parte das contas da Yvette.

‑ Mas surgiram complicações.


‑ Quatro operações distintas, todas elas indicadas e devido a circunstâncias imprevisíveis, tanto quanto sei. Seja como for, quatro. Depois houve uma estada prolongada na Casa de Saúde de Sterling. Na verdade, a Yvette não voltou para casa antes de morrer.

‑ Como é evidente, houve ainda mais contas por causa disso. Estou a perceber.

‑ Na verdade ‑ disse Beaulieu em tom grave ‑, não estás a perceber nada... ainda. A Ultramed não só é proprietária do nosso hospital, como também é dona das duas casas de saúde da cidade. Sabias disso?

‑ Não ‑ respondeu Zack. ‑ Não sabia.

‑ O nome da organização é leeward Company. É proprietária de casas de saúde e centros de reabilitação espalhados por todo o leste e no Midwest e, há cerca de três anos, compraram as duas de Sterling. Mas o que nem muita gente sabe, incluindo eu até há apenas alguns meses, é que a leeward é uma divisão da Ultramed, comprada por eles precisamente há quatro anos. As contas das três instituições, da Ultramed‑Davis e das duas casas de saúde, são emitidas pelo mesmo computador. Não te vou dizer quem é o responsável por esse computador, mas podes adivinhar se quiseres.

‑ Não preciso ‑ respondeu Zack, imaginando a razão por que Frank nunca lhe falara de compra das duas casas de saúde. A história do Coulombe é muito triste, em especial com o fim infeliz da mulher. Mas não vejo nisso nada de perverso, ou mesmo imoral.

‑ Isso porque te falta uma peça do puzzle ‑ afirmou Beaulieu. ‑ Uma peça crucial. E lembra‑te ‑ acrescentou ‑, o que estou prestes a revelar‑te é apenas a ponta do icebergue.

‑ Continue ‑ pediu Zack, agora esperando que o homem se calasse.

Beaulieu retirou um papel dobrado e dactilografado do bolso do casaco, endireitou‑o sobre a mesa e passou‑o a Zack.

‑ Tal como disse ‑ continuou ‑, não tenho muitos aliados na minha luta. Mas tenho alguns. Um deles passou cerca de seis meses a viajar de um lado para o outro, tentando recolher informações para mim. Ainda na semana passada me trouxe esta. É uma lista dos elementos da direcção de duas companhias.

Zack examinou as listas paralelas de nomes, cujo título era simplesmente R e EPSS. Cinco dos dez nomes de cada lista eram idênticos.

‑ O que significam estas iniciais? ‑ perguntou.

O fogo nos olhos de Beaulieu intensificou‑se.

‑ O R é a inicial do RIATA de Bóston, o proprietário da Ultramed. Num certo sentido, são os nossos patrões, Zachary. Teus, meus e de todos os outros médicos da cidade.

‑ E as outras?

‑ As outras, meu a migo, são as iniciais de Eagle Pharmaceuticaís and Surgical Supplies, a organização que comprou a farmácia ao Richard Coulombe. As direcções estão interligadas.

Beaulieu ilustrou o seu ponto de vista, colocando os dedos de uma mão entre os dedos da outra.

Antes de poder responder, Zack viu um movimento pelo canto do olho. Escondeu o papel no colo, no mesmo instante em que uma sombra surgiu sobre a mesa. Ele e Beaulieu olharam.


Frank, sorrindo maliciosamente, encontrava‑se a metro e meio de distância, segurando um tabuleiro de comida.

‑ Vocês, cavalheiros, estão a ter alguma conversa particular? ‑ perguntou. ‑ Ou têm espaço para mais um na mesa?

Cuidadosamente, Zack dobrou a folha de papel e guardou‑a no bolso, embora sentisse que o movimento fora infrutífero. Frank ouvira pelo menos uma parte da conversa. Disso, tinha ele quase a certeza.

 

Ouvia‑se uma fuga de Bach no pequeno leitor de cassetes junto ao lavatório. Barbara Nelrus, a olhar taciturnamente para o espelho da casa de banho, passou um dedo sobre as estrias da testa e os pés‑de‑galinha no canto dos olhos. Ao que parecia, as rugas tinham surgido durante a noite. Instintivamente, ela pegou no estojo de maquilhagem. Depois, do mesmo modo veloz, parou a cassete, deu meia volta e saiu da casa de banho. Se se sentia cansada, se se sentia sob tensão quase até ao esgotamento e se a frustração e o medo a haviam envelhecido seis anos em seis meses, por que raio deveria ela continuar a tentar escondê‑lo?

Fruto de uma educação perfeitamente simples em Dayton, no Ohío, e quatro anos idilicos como especialista em administração de empresas e marketing no pequeno Colégio St. Mary do Missouri, ela orgulhara‑se sempre de ser uma mãe, esposa e cidadã modelo e membro da sociedade. Estava registada como democrata, votava no Partido Republicano, era funcionária no Registo de Patentes há três anos, chefe dos escuteiros, leitora na igreja, pianista e tenista acima da média e, pelo menos segundo o marido, a melhor amante que um homem podia desejar.

Porém, agora, depois de aturar durante seis meses orientadores escolares e esgotantes trabalhadores de recursos escolares, psicólogos com comportamentos evasivos e bombásticos e pediatras desnorteados, já nada disso importava. Tinha desistido de todas as comissões, há semanas que não pegava numa raqueta de ténis e não se lembrava quando fora a última vez que ela e Jim tinham feito amor.

Algo estava errado, terrivelmente errado, com o filho. E não só nenhum dos chamados especialistas que consultaram diagnosticou o problema do rapaz, como todos pareciam unidos e determinados a convencê‑la de que o assunto era do foro de outra pessoa.

As crises violentas, que inicialmente ocorriam uma vez por mês, mas que agora aconteciam cerca de uma vez por semana, tinham envolvido Toby numa nuvem de melancolia e medo tão densa que ele já não sorria, brincava ou mesmo falava, excepto monossilabos ocasionais em resposta a perguntas directas... e somente em casa.

Depressão circunstancial; autismo retardado; esquizofrenia da infância; paragem evolucionária com ideação paranóica; representação para proveito secundário; os rótulos e as explicações para o estado de Toby eram tão variados ‑ e tão inaceitáveis ‑ quanto os educadores e os especialistas clínicos que os aplicavam.

O rapaz estava doente e piorava cada vez mais.

Tinha perdido quase cinco quilos num corpo que, para começar, não possuia um grama de gordura. Parara de crescer. Tinha fracassado nas provas de passagem para a quarta classe. Evitava o contacto com as outras crianças.


Foram‑lhe receitadas vitaminas, sedativos, Torazina, Ritalina e dietas especiais. Ela levara‑o a Concord e depois a Bóston, onde fora hospitalizado durante quatro dias. Nada. Nem uma única pista objectiva. Pelo contrário, regressara da Meca médica ainda mais reservado do que antes.

Agora, enquanto se preparava para levar o filho a um outro especialista ‑ um jovem especialista, novo na cidade, chamado Brookings ‑ Barbara Nelrus sentiu os dedos gelados e muito familiares da inutilidade a tocarem‑lhe.

No inicio, as crises de Toby pareciam pesadelos horriveis. Por várias vezes, ela testemunhara‑as: vira, impotente, como os olhos do filho se abriam e se tornavam vidrados enquanto se encolhia num canto, fugindo para um mundo assustador que não partilhava com mais ninguém. Ouvira o choro dele e tentara abraçá‑lo para o consolar, recebendo em troca murros na cabeça e no rosto.

Por fim, nada mais podia fazer a não ser ficar perto dele, fazer tudo para que não se magoasse e esperar. Umas vezes, as crises duravam apenas meia hora, outras mais do que isso. Acabavam sempre com o filho calado, encolhido e esgotado.

Talvez seja hoje o dia, disse para consigo. Talvez aquele homem, Brookings, o primeiro psiquiatra a tempo inteiro no vale, tivesse a resposta.

No entanto, mesmo enquanto se concentrava nesta ideia optimista, mesmo enquanto abotoava a blusa e alisava os vincos da saia que devia ter passado a ferro, mesmo quando foi buscar o filho ao quarto para mais uma avaliação no consultório de mais um médico, Barbara Nelrus sabia que não ia conseguir nada. Nada, excepto talvez outro rótulo.

E também sabia que o tempo estava a esgotar‑se.

O percurso de casa até à Clínica de Médicos e Cirurgiões do Ultramed‑Davis levou cerca de quinze minutos. Durante a maior parte do trajecto, Barbara Nelrus manteve uma determinada conversa com o filho, uma conversa essencialmente em monólogo.

‑ O médico chama‑se Brookings, Toby. É novo na cidade e é especialista em ajudar as pessoas com ataques como os teus... Havemos de conseguir resolver isto, querido. Havemos de descobrir o que está mal e vamos remediar tudo. Compreendes?

Toby estava placidamente sentado, com os braços cruzados sobre as pernas, e olhou pela janela.

‑ Seria mais fácil para o doutor Brookings fazer o seu trabalho se conversasses com ele... lhe dissesses o que vês e sentes quando tens as crises. Achas que és capaz?... Toby, por favor, responde‑me. Vais tentar conversar com o doutor Brookings?

Quase imperceptivelmente, o rapaz concordou com a cabeça.

‑ óptimo, querido. Isso é maravilhoso. Só queremos ajudar‑te. Ninguém te vai magoar.

Barbara Nelrus julgou ter visto o filho estremecer com aquelas palavras.

Estacionou a carrinha num dos poucos lugares vagos do parque de estacionamento, trancou a porta e contornou o carro para que Toby saísse. Era um sinal prometedor que ele próprio tivesse tirado o cinto de segurança. Instantaneamente, a esperança voltou a surgir.

Talvez seja hoje o dia.


A única vez que ela e Toby tinham estado na Clínica dos Médicos e Cirurgiões do Ultramed‑Davis fora para uma breve consulta de acompanhamento com o Dr. Mainwaring. O consultório do pediatra de Toby situava‑se numa velha casa vitoriana, na zona norte de Sterling. Uma lista, emoldurada por duas árvores da borracha no brilhante vestíbulo ladrilhado, apresentava cerca de duas dúzias de médicos ao lado das respectivas especialidades. Dr. Phillip R. Brookings: Psiquiatria Infantil e Adulta, encontrava‑se no segundo dos três andares.

‑ Toby, queres subir pelas escadas ou pelo elevador?... Querido, garanto‑te que o doutor Brookings só quer conversar. Então, por onde vamos?... Está bem, então vamos pelas escadas.

Barbara pegou‑lhe na mão e conduziu‑o pelas escadas, a desejar que ele reagisse ou fizesse alguma tentativa para fugir dali. Estava estático, sem qualquer emoção. No entanto, Barbara tinha a certeza de que ele sabia perfeitamente o que estavam a fazer.

Uma pequena placa na porta da sala com o número 202 dizia DR. P. R. BROOKINGS, TOQUE UMA VEZ A CAMPAINHA E ENTRE.

A sala de espera era pequena e sem janelas, com papel de parede em relevo, uma fila de fotografias a preto e branco de paisagens montanhosas e cadeiras para apenas quatro pessoas. Num dos lados, havia uma pequena área de lazer para crianças, constituída essencialmente por revistas com folhas dobradas, blocos de construção multicolores e puzzles que não despertariam o interesse de Toby, Barbara tinha a certeza. Tinha saudades da imagem do filho antes de tudo ter começado, sentado no chão com o pai, a brincar entusiasmado com os brinquedos.

Não, pai, é assim... vira‑o assim... Vês?

às três horas em ponto, Phillip Brookings saiu do gabinete interior, apresentou‑se formalmente a Barbara com um aperto de mão e a Toby com um movimento de cabeça. Parecia mais jovem do que ela previra; não mais de trinta e dois ou trinta e três anos, calculou, embora o bigode espesso dificultasse o cálculo.

Tal como acontecera tantas vezes ao longo dos meses anteriores, Barbara deu consigo a pensar se teria envelhecido muito ou se actualmente os médicos eram cada vez mais novos.

‑ Então ‑ disse ele, sentando‑se numa das duas cadeiras vagas ‑, bem‑vindo ao meu consultório. Toby, agradeço que tenhas vindo ver‑me e espero podermos ajudar‑te a sentir melhor.

Vestia uma camisa e uma gravata, mas não trazia casaco e, apesar da sua juventude, a primeira impressão de Barbara foi positiva. Independentemente de tudo, ele começara com o pé direito ao não tratar o rapaz com condescendência. Ela observou Toby, que estava sentado a olhar impassivelmente para as fotografias na parede.

‑ Está aqui o formulário clínico que nos enviou, doutor Brookings ‑ disse ela, entregando o papel. ‑ Recebeu os relatórios que lhe enviei?

Brookings anuiu e examinou rapidamente o papel.

‑ Penso que ‑ começou ‑, se o Toby concordar, gostaria de conversar só com ele no meu gabinete. O que achas, Toby?... Se quiseres, podemos deixar a porta aberta, está bem?

levantou‑se e recuou até à porta do seu gabinete interior.


‑ Vens?

‑ Vai, querido ‑ insistiu ela. ‑ Estarei aqui. lembra‑te do que eu disse. Não precisas de ter medo de nada.

lentamente, Toby levantou‑se da cadeira.

‑ Maravilha ‑ disse Brookings. ‑ Entra. Entra.

Silenciosamente mas com todo o vigor, Barbara Nelrus incitou o filho a avançar. Ele estava a colaborar mais e a ser mais aberto para este homem do que o fora com todos aqueles a quem ela o levava desde há algum tempo.

Talvez ele estivesse finalmente pronto. Talvez...

Viu Brookings desaparecer no interior do gabinete. Do local onde estava sentada, directamente oposto à porta, pôde ver um gabinete espaçoso e confortavelmente mobilado, uma grande janela panorâmica e plantas dispostas no chão e suspensas no tecto.

- Vai, querido. Entra. Está tudo bem. Está tudo bem.

Após uma breve hesitação, Toby seguiu Brookings.

Depois, após um simples passo para tentar passar a porta, ele parou, com o olhar fixo na janela panorâmica diante de si.

‑ Entra, Toby ‑ ouviu Barbara o médico dizer. ‑ Não vou magoar‑te.

Barbara viu o corpo de Toby ficar rigido. As suas mãos, que tinham estado imóveis junto ao corpo, começaram a contorcer‑se.

Meu Deus, pensou, vai ter um ataque. Aqui mesmo. Agora mesmo.

‑ Toby, sentes‑te bem? ‑ perguntou Brookings.

Toby recuou vários passos para dentro da sala de espera, o rosto pálido, os olhos ainda fixos na janela.

‑ Querido, o que se passa? ‑ Barbara sentiu os músculos tensos. A não ser ela e o marido, nunca ninguém testemunhara um dos ataques. Assustada como estava, sentiu que uma parte de si agradecia aquilo que estava prestes a acontecer. Pelo menos mais alguém ficaria a saber o que eles tinham passado durante todos aqueles meses.

Instintivamente, olhou em redor à procura de objectos com os quais Toby pudesse magoar‑se.

Então, subitamente, o rapaz virou‑se, abriu a porta principal e correu para fora.

‑ Toby! ‑ Barbara e Brookings, que saiu do gabinete, chamaram em coro.

O psiquiatra atravessou a sala de espera e passou a porta antes de Barbara se levantar. Ela chegou ao corredor no momento em que o médico desapareceu pela porta das escadas. Era quase impossível correr com os sapatos que trazia. No topo das escadas atirou‑os para o lado e desceu até ao primeiro andar, caindo nos últimos três degraus e esfolando a pele.

Quando entrou no vestíbulo a coxear, Barbara ouviu o guincho horrível dos pneus de um automóvel e gelou, prevendo o revoltante baque do carro a bater no filho. Não se ouviu nada. Pelo contrário, através das portas de vidro, ela viu‑o a atravessar o parque de estacionamento e a correr, como não o via desde há muitos meses. Phillip Brookings estava a dez metros e aproximava‑se dele.

Barbara atravessou o parque a correr, mal evitando ela própria de ser atropelada por um carro.

‑ Toby, pára! Por favor, pára!


O rapaz já tinha atravessado o parque e corria por um campo de trinta ou mais metros de relva, em direcção à densa floresta ao fundo. Brookings encontrava‑se a não mais de alguns passos dele. Com apenas um ou dois metros até á floresta, o psiquiatra atirou‑se para diante, apanhando Toby pela cintura e prendendo‑o com força.

‑ Graças a Deus ‑ disse Barbara com voz ofegante, atravessando o parque a correr. Era a primeira vez, em todos os ataques, que Toby reagia assim. Mesmo à distância, ela percebeu que, embora estivesse preso por baixo do psiquiatra, Toby lutava. Quando se aproximou, percebeu que ele começava a acalmar‑se.

‑ Toby, pára com isso ‑ ouviu Brookings dizer, firme, mas suavemente. ‑ Pára de lutar comigo e eu soltar‑te‑ei.

Barbara aproximou‑se cautelosamente, esperando ver o tão conhecido terror distante e vítreo nos olhos do filho. Pelo contrário, o que viu foi uma violenta mistura de fúria e medo. Era quase como se ele estivesse a rosnar para o homem.

Cuidadosamente, Brookings afastou‑se, embora mantivesse o rapaz preso pelo cinto.

Quando Barbara se ajoelhou ao lado do filho, percebeu que afinal não se tratava de um dos seus ataques ‑ pelo menos, não era igual aos outros. Ele estava acordado e atento. O que quer que tivesse despertado aquilo nele encontrava‑se neste mundo e não no mundo trancado dentro da sua mente.

‑ Toby, estás bem? ‑ perguntou. ‑ O que foi que aconteceu? O que foi que te assustou?

O rapaz não respondeu.

‑ Vou soltar‑te, Toby ‑ disse Brookings. ‑ Prometes‑me que não foges?

De novo, não houve resposta.

lentamente, Brookings soltou o cinto de Toby. O rapaz, ainda ofegante, não se mexeu.

‑ O que foi que aconteceu? ‑ perguntou Barbara.

‑ Como? ‑ A camisa e os joelhos das calças castanhas de Brookings estavam sujos de relva e ele próprio ainda estava ofegante.

‑ Doutor Brookings, o Toby viu qualquer coisa na sua janela... qualquer coisa que o assustou. Este não foi um dos seus ataques. ‑ Virou‑se para o filho. ‑ Não foi, pois não, querido?

Com as lágrimas a brilhar nos olhos, Toby olhou para ela. Depois, abanou a cabeça.

‑ Sabes dizer o que foi?

Desta vez não houve resposta.

Phillip Brookings esfregou o queixo:

‑ Mistress Nelrus, não sei o que dizer. Vi o Toby a olhar para a janela e segui a sua linha de visão. Mas não havia ninguém, nada.

‑ Nada?

Brookings abanou a cabeça:

‑ Somente um enorme carvalho, um parque de estacionamento e, ao fundo, a ala das urgêncías do hospital. Nada mais. Tenho a certeza.

A ala das urgências. Barbara Nelrus viu o filho ficar rígido com as palavras.

‑ Toby, foi isso? Foi a ala das urgências?

O rapaz continuou calado.


‑ Doutor Brookings, qual é a sua opinião? ‑ perguntou. - Pode ajudar‑nos?

O psiquiatra olhou para Toby.

‑ Talvez ‑ respondeu. ‑ Com o tempo, talvez consiga. Mas, antes de começar, gostaria de insistir numa coisa.

‑ Tudo.

‑ Quero que o Toby faça uma TAC e seja examinado por um neurologista. Tudo quanto percebi ao rever o material que me enviou é que ele ainda não fez nada disso. Não é verdade?

‑Acho... que não.

‑ Bem, se os ataques dele são uma espécie de convulsão, penso que deve ser visto por um neurologista, não concorda?

‑ Doutor, disse‑lhe no primeiro telefonema que estamos dispostos a fazer tudo. Absolutamente tudo. Recomenda alguém?

Brookings concordou com a cabeça.

‑ Há um homem novo na cidade. Formado em Yale. Treinado nos hospitais de Harvard. Na verdade, é neurocirurgião mas também exerce neurologia. Chama‑se Iverson. Zachary Iverson. Vou telefonar‑lhe e voltarei para falar consigo.

Barbara afagou a testa do filho. Não havia nada na sua expressão que indicasse que tinha seguido a conversa. Por um momento, analisando as covas profundas em redor dos olhos e a pele tensa e clara das faces, sentiu como se estivesse a olhar para um cadáver.

‑ Por favor, doutor ‑ pediu. ‑ Só uma coisa.

‑ Sim?

‑ Faça‑o rapidamente.

Brookings concordou com a cabeça, levantou‑se e regressou ao seu consultório.

Barbara pegou na mão do filho e conduziu‑o para o carro. No desespero, buscou nas ideias qualquer desagrado ou dificuldade que ele pudesse ter encontrado no Ultramed‑Davis ou em qualquer outra ala de urgências. Não descobriu nada. Nada, a não ser um corte no queixo quando tinha cinco anos e, claro, a operação à hérnia, no ano anterior.

Barbara Nelrus sabia ‑ tal como o cirurgião, o Dr. Mamwaring lhe dissera ‑ que o assunto da hérnia tinha sido um caso tão rotineiro quanto a rotina o era.


 

No Norte da cidade, Suzanne Cole e a sua filha de seis anos, Jennifer, partilhavam uma pequena casa de dois pisos com um gato gordo de pêlo amarelo, chamado Gulliver ("... porque", explicara Jennifer, "ele gosta de viajar") e um cão lavrador que parecia não ter qualquer nome.

Os quartos da modesta casa estavam desarrumados e eram quentes. Sapatos da neve, bastões da neve, raquetas de ténis e até mesmo um par de estetoscópios velhos encontravam‑se pendurados nas paredes de pinho escurecido pelo fumo, intercalados com cópias e algumas pinturas originais que representavam todos os tipos de estilo. Havia um fogão na sala de visitas e um tear num dos quartos das traseiras, assim como uma espineta danificada ("A mãe costumava tocar muito, mas agora só põe a tocar os Deep Purpie") e dúzias e mais dúzias de livros.

O jantar de espaguete, sobre o qual Zack fora orgulhosamente informado, foi sobretudo uma criação de Jennifer, e esta serviu‑o com um encanto e um entusiasmo que o impressionou quase tão profundamente quanto a mãe. Era alta para a sua idade, de nariz elegante, cabelo liso castanho‑avermelhado que atingia o meio das costas e a magia dos olhos e do sorriso de Suzanne. Falou da escola, dos animais e do ballet, e parecia muito feliz por mostrar as suas colecções de rochas e de animais de peluche.

Em troca, Zack prometeu apresentá‑la a Cheapdog e ensiná‑la a fazer voar o seu avião telecomandado. Até fez um número de prestidigitação, apesar de Jennifer lhe ter sorrido carinhosamente e dito:

‑ Esse número precisa de um pouco mais de treino, Eu vi a moeda.

à sobremesa ‑ brownies de chocolate com gelado ‑ todo o acanhamento que sentira quando ali chegara tinha desaparecido e Zack deu consigo a sentir‑se mais um amigo da família do que um convidado.

Se houve algum desconforto durante todo o jantar, ele deveu‑se a Suzanne, que por vezes parecia distante, distraída e satisfeita por Jennifer manter a conversa.

Porém, sem vontade de encontrar qualquer falha na mulher, Zack percebeu que havia nas mudanças de humor dela uma introspecção e vulnerabilidade que só a tornavam ainda mais interessante e atraente.

Ela estava a regressar à mesa com um tabuleiro de café, quando Jennifer se levantou e anunciou que ia ver o M*A *S*H na televisão e lavar o cabelo.

‑ Só há uma coisa que me preocupa ‑ disse a rapariga, enquanto apertava a mão de Zack.

‑O que é?

‑ Bem, o teu cão. Nunca ouvi um nome como Cheapdog.

‑ Bem ‑ disse Zack ‑, é um nome como outro qualquer. ‑ Pelo canto do olho viu Suzanne parar e encostar‑se à parede, a ver a cena. ‑ Sabes, um dia estava a passear na praia, num lugar chamado São Diego. Sabes onde fica?

‑ Na Califórnia?

Zack concordou com a cabeça:


‑ Existe lá um jardim zoológico fantástico e também têm uma orca que faz cálculos avançados e prepara a sua própria declaração de impostos. Bem, estava um homem na praia, era mexicano e um tanto... desleixado. Conheces a palavra? Nem todos os mexicanos são de modo algum assim, mas este tipo era.

"Seja como for, ali estava ele com a sua enorme caixa de cartão e dentro desta encontravam‑se muitos cachorros, uma série de cachorrinhos rafeiros. Ele meteu a mão dentro e pegou na nuca de uma bolinha de pêlo. Assim. E manteve‑o no ar para que eu o visse.

‑ Senhor ‑ disse ‑, não quer comprar este amiguinho aqui? Dou‑lhe a minha palavra, senhor, que ele é de raça pura, a velha raça inglesa cheapdog, guardador de rebanhos. Os papéis dele estão no cofre em minha casa. Compre‑o agora e trago‑lhe os papéis amanhã. Sim?

‑ Significa sim ‑ disse Jennifer.

‑ Sim.

‑ E tu disseste?...

‑ Sim. ‑ Os três disseram a palavra em coro e desataram a rir.

‑ E foi assim que o Cheapdog recebeu o nome.

‑ Não há nele nada do velho cão inglês guardador de rebanhos? ‑ perguntou Jennifer.

‑ Deve haver ‑ respondeu Zack ‑, porque, sempre que a princesa Diana e o principe Carlos aparecem na televisão, ele levanta‑se.

‑ Que parvoice. ‑ Jennifer pensou por momentos e depois continuou. ‑ Gostei dessa história. ‑ Voltou a apertar a mão de Zack. Depois deu meia volta e correu escadas acima.

‑ Mais uma vez, obrigado pelo jantar ‑ agradeceu‑lhe Zack.

‑ Eu também gostei da história ‑ disse Suzanne, depois dos passos no andar de cima deixarem de se ouvír. ‑ Gostei muito da forma como falaste com a Jen. De pessoa para pessoa e não de adulto para criança. Sem condescendência. E podes crer que ela também gostou.

‑ Obrigado. A conversa daquela miúda não tem nada de criança, podes crer.

Suzanne anuiu com alguma tristeza:

‑ Ela teve de crescer muito num espaço de tempo

terrivelmente curto. O meu casamento e o meu divórcio foram algo, como direi, turbulentos.

‑ Sim?

Por um momento, pareceu que ela queria continuar a falar do assunto, mas de súbito abanou a cabeça:

‑ Tema para outra noite ‑ disse.

Ela mordeu o lábio inferior, apoiou o queixo numa mão e ficou a olhar para a chávena de café. Havia tristeza no seu olhar, mas Zack observou que também havia algo mais: inquietação, talvez; tensão nos músculos do rosto e do pescoço.

‑ Há algum problema? ‑ perguntou.

Suzanne hesitou e depois afastou a cadeira da mesa e levantou‑se.

‑ Penso que é melhor ficarmos por aqui ‑ disse. ‑ Amanhã tenho um dia muito ocupado e tenho muitas coisas para tratar antes de me deitar. Foste uma óptima companhia... para ambas... mas acho que preciso de ficar algum tempo sozinha.

Perplexo, Zack olhou para o relógio. Ainda não faltava um quarto para as oito.

‑ Só isso?


Ela encolheu os ombros e concordou com a cabeça. Durante alguns segundos, pareceu estar prestes a chorar.

‑ Desculpa, Zack ‑ disse por fim ‑, mas acho que não foi a melhor noite para eu ser encantadora e divertida. Meu Deus, parece que tudo o que faço perto de ti é pedir‑te desculpas. Bem, seja como for, perdoa‑me. Compensar‑te‑ei numa outra altura. Prometo.

Esperou que ele se levantasse, passou um braço pelo dele e conduziu‑o através do pátio resguardado e dos degraus de madeira. O seu perfume suave e o toque do seio contra a manga da camisa fizeram com que a súbita saída de Zack se tornasse mais confusa e dolorosa.

Caminhou ao lado dela, desejando que fosse menos inexperiente na compreensão das mulheres e sentindo‑se pouco á vontade e tolo por não saber o que dizer.

Na carrinha, ela voltou a pedir‑lhe desculpas por ter encurtado a noite e prometeu que, muito em breve, o convidaria de novo e conversariam depois do jantar. Ele pegou no puxador da porta, mas depois parou e virou‑se para ela.

‑ Sim? ‑ perguntou, olhando para ele admirada, tal como o fizera naquela primeira noite.

‑ Suzanne, eu... sei que estás preocupada com alguma coisa ‑ ouviu‑se dizer a si próprio. ‑ Quero que saibas que, seja o que for, espero que se resolva como desejas.

Ele hesitou, esperando que ela agradecesse cortesmente a sua preocupação e o mandasse embora.

Ela não fez nenhuma das duas coisas.

‑ Temo ser culpado de não prestar atenção ‑ continuou. Acho que estava demasiado ocupado a satisfazer as minhas próprias fantasias. Olha, quero que saibas que estou feliz por nos termos conhecido e agradeço aos céus por nos tornarmos amigos. ‑ Abriu a porta da carrinha. ‑ Se algum dia quiseres conversar sobre aquilo que te preocupa, estou disponível... sem nenhum compromisso. Na verdade, por um preço modesto até omito os tmques com moedas.

Avançou para lhe dar um beijo na face, mas pensou melhor e subiu para o banco do condutor da carrinha.

‑ Zack, espera um minuto ‑ chamou, quando Zack começou a fazer marcha atrás. Ele parou e pôs a cabeça fora da janela. ‑ Há um local a meio da subida, por trás da casa, de onde se vê quase todo o vale. Numa noite como esta, é muito relaxante sentarmo‑nos lá e ver as luzes da cidade a piscar. Se me deres um minuto para ir verificar se a Jen está bem e trazer um cobertor e vinho, gostaria muito de ir para lá contigo.

‑ Sabes que não é preciso ser hoje.

Ela sorriu de um modo como não fizera durante todo o jantar.

‑ Eu sei ‑ respondeu.

 

No suave ar da noite só se ouvia o barulho das cigarras e o canto de aves e grilos. Durante cerca de uma hora, deitaram‑se lado a lado no ruidoso silêncio, a olhar para as sombras da montanha a envolverem todo o vale. Lá bem no alto, um falcão solitário voou agilmente, descrevendo um arco, a sua silhueta parecendo um crucifixo escuro contra o perfeito céu azul‑acinzentado.


‑ As raparigas da SO disseram que fizeste um trabalho magnífico no pescoço daquela mulher, esta manhã ‑ disse Suzanne por fim, dando um gole no pouco que sobrava de uma garrafa de vinho chardonnay.

‑ Andaste a recolher informações a meu respeito?

‑ Claro que andei. Julgas‑te assim tão irresistível?

‑ Não ‑ respondeu, procurando ignorar a súbita batida cardíaca que parecia querer fazer o peito saltar para fora do cobertor. ‑ Penso que não.

‑ Técnica, nota alta; velocidade, nota alta; aspecto fisico, nota alta.

Ele sorriu.

‑ Ainda bem que a primeira impressão que causei nas enfermeiras foi boa. Depois de nove anos em várias salas de operação e todo esse tempo em superficies rochosas, não existe muita coisa que me deixe atrapalhado. Esta manhã, no entanto, admito que estava um pouco nervoso.

‑ Eu compreendo. Os médicos estão sempre sob uma enorme lupa de fiscalização, mas nunca como durante os primeiros meses num hospital novo. Durante um tempo após ter entrado em cena, senti‑me como se tivesse um novo corte de cabelo. Todos tinham de expressar uma opinião... O caso que tiveste está a resultar bem?

‑ Sem dores pela primeira vez num ano e a mexer todas as partes que é suposto mexerem. ‑ Zack fez figas e levantou as mãos para que ela visse.

‑ Isso é óptimo. Sabes, estou curiosa. Pareces ser do tipo que prosperaria numa casa de loucos como o Hospital de Bóston... com todo aquele movimento.

‑ Na verdade, eu gostava muito daquilo. Mas, para além disso, havia casos e traumas a mais para tratar. Eu gostava dos doentes... de conversar com eles, saber como eram as suas vidas, tornar‑me importante para eles e até mesmo travar amizade com alguns. Mas nunca me dei bem com a pressão dos grandes hospitais universitários, para me poder tornar um perito mundial nalgum cantinho da neurocirurgia.

Suzanne anuiu.

‑ E se não suportamos isso ‑ disse ‑, então acabamos por ser os peritos mundiais em ficarmos para trás nas promoções ‑ comentou ela.

‑ Exactamente. Confesso que também estava um pouco cansado de politiquices... Construir um império e apunhalar os outros pelas costas. Ter de rastejar perante um chefe de departamento ou administrador, só para conseguir a porcaria de um equipamento que o hospital já poderia ter adquirido com o dinheiro da caixa se não fosse tão pouco eficiente.

‑ E então julgaste que exercer medicina aqui seria mais interessante... que responderia mais às necessidades do hospital e dos doentes?

‑ Foi o que pensei.

‑ Respondeste como se a tua opinião já tivesse mudado.

Zack apoiou o queixo nas mãos e olhou para o vale.

‑ Não sei ‑ disse. ‑ Desde que aqui cheguei, têm acontecido algumas coisas que...


A sua voz extinguiu‑se. Ao longo de todo o dia, fora‑se apercebendo cada vez mais de que não havia nada que pudesse desmentir as afirmações de Guy Beaulieu. E se estas eram verdadeiras, se a Ultramed, Mainwaring ou Frank tinham conspirado, fosse por que razão fosse, para correrem com o velho cirurgião, então a situação em Sterling era mais virulenta, mais assustadora, mais... inaceitável do que tudo o que ele alguma vez encontrara em Bóston.

Também percebeu que, se as preocupações do seu velho mentor sobre a ética e a prática da Ultramed tivessem fundamento, de modo algum poderia voltar as costas ao problema. Tinha regressado a Sterling para exercer a melhor neurocirurgia possível, no melhor ambiente possível, e apenas isso.

‑ Ei, doutor ‑ disse Suzanne ‑, sabes que a tua última frase não chegou a sair completamente das entranhas?

Zack olhou para ela.

‑ Fica para outra noite ‑ respondeu. ‑ Não foi o que ficou estabelecido?

‑ É isso. Bom, então chega de conversa.

Suzaune deitou‑se de lado, apoiando a cara numa mão. Após algum tempo, estendeu o braço e afagou suavemente o rosto dele.

‑ És realmente muito bonito ‑ afirmou.

‑ Obrigado. Tenho dificuldade em acreditar nisso, em especial depois de passar a vida á sombra de um homem com o aspecto do Frank, mas sabe bem ouvir.

‑ Sabe bem dizer.

Zack aclarou a garganta, a qual parecia estar cada vez mais seca e áspera à medida que o tempo passava. Sentiu‑se imediatamente relutante em tocar em Suzanne e ainda mais relutante em não lhe tocar.

‑ Então ‑ conseguiu dizer, lutando por afastar o pensamento da boca perfeita dela ‑, qual foi a história de crise e resolução que te trouxe até aqui?

Ela voltou a afagar‑lhe o rosto, desta vez permitindo que as pontas dos dedos roçassem os lábios dele.

‑ Julgo que não consegui explicar‑te a lei da montanha - disse. ‑ Desde que estejamos no meu miradouro na minha montanha, sou eu quem faz as perguntas. Essa é a lei. É pegar ou largar.

‑ Mas o que é que aconteceu aos infortunados, como eu, que não têm uma montanha?

Os olhos e os cantos da sua boca atraente formaram um sorriso, que foi talvez o mais fascinante.

‑ Nesse caso ‑ disse ‑,terás de adoptar uma. Enviar‑te‑ei os papéis de manhã e pedirei à nossa assistente social para te vir entrevistar o mais cedo possível. Entretanto, reservamos todas essas entrelinhas do meu curriculum vitae para quando fores aprovado, está bem?

Zack encolheu os ombros.

‑ A montanha é tua.

‑ Exactamente. A montanha é minha. Achas que estou a ser descarada ao tocar‑te assim?

‑ Não. Descarada não. Embora seja talvez um pouco difícil de perceber, considerando que há duas horas atrás me tentaste despachar para fora da tua casa e montanha abaixo.

‑ Ah ‑ exclamou ela ‑, mas isso foi antes de dizeres a palavra mágica.

‑ Claro. A palavra mágica. Como sou estúpido. Bom, tenho utilizado tantas vezes essa maldita palavra mágica, que está a tornar‑se automática... Na verdade, desta vez foi tão automática que me saiu da boca sem eu dar por isso.


Ela tomou‑lhe o rosto nas mãos e puxou‑o para si. De novo, tal como à mesa de jantar, ele viu‑lhe nos olhos uma tristeza estranha.

‑ A palavra mágica, Zachary, foi "amigo".

Os beijos dela, primeiro nos olhos, depois em redor da boca e finalmente sobre os lábios, foram tão doces e quentes quanto o ar da montanha. Durante um minuto, ou talvez dois, ela abraçou‑o, com a língua explorando suavemente a parte inferior dos lábios, depois os dentes e o interior das faces.

Por fim, ela afastou‑se.

‑ Foi satisfatório? ‑ perguntou.

Zack engoliu em seco.

‑ Há pelo menos cem palavras que escolheria antes de dizer "satisfatório".

‑ Ainda bem. No entanto, pareces perplexo. Acho que te devo um pedido de desculpas, ou pelo menos uma explicação, por ter sido tão volúvel.

Zack passou uma mão pelos cabelos dela, depois pelas costas e depois pela parte de trás das calças de ganga. O seu corpo era mais cheio do que o de Connie, mas mais firme e muito mais excitante de tocar.

‑ Não me deves nada ‑ respondeu. ‑ O Shaw escreveu que há duas tragédias na vida. Uma é não satisfazer um desejo do coração, e a outra é satisfazê‑lo. Neste momento, penso que ele errou quanto à número dois.

- Zack, há pouco junto à carrinha disseste: "Nada de compromissos." Essa promessa aplica‑se se fizermos amor... aqui e agora mesmo?

‑ Aplica‑se. ‑ Meteu a mão por baixo da blusa dela e acariciou‑lhe o seio. O mamilo endureceu instantaneamente com o toque. ‑ Seja o que for que está a acontecer, só quero torná‑lo melhor.

‑ Estás a torná‑lo melhor ‑ disse ela.

Beijaram‑se vezes sem conta. Havia ansiedade e fome nos lábios e no toque dela. Zack percebeu que era o segredo da tristeza dela que a conduzia para os seus braços. Percebeu que, pelo menos naquela noite, ela precisava mais dele do que de fazer amor com ele.

Mas aquela noite era, pelo menos, mais do que suficiente.

Ela ajudou‑o a tirar a camisa e apoiou a cabeça contra os pelos do seu peito.

‑ lentamente ‑ pediu ela. ‑ Fá‑lo durar. Por favor fá‑lo durar.

Zack desabotoou‑lhe a blusa, fazendo uma pausa entre os botões para beijá‑la nos lábios e nos seios maravilhosos; depois, despiu‑lhe as calças de ganga. Com a ponta dos dedos acariciou os mamilos, depois a barriga, junto à borda dos pelos púbicos e finalmente o clitoris tenso.

‑ Toca‑me aí ‑ murmurou. ‑ Com dois dedos. Isso. Oh, Deus, Zachary, isso.

Momento a momento, toda e qualquer pergunta que ela tivesse desapareceu na suavidade da pele e no desejo ardente que ela tinha por ele. Em cada toque e em cada beijo, Zack sentiu‑se cada vez mais apertado por ela.

Passou os lábios pelos tornozelos e pela suavidade da parte interior das coxas e depois passou a língua uma e outra vez por toda ela.

Ela cravou‑lhe as unhas na pele das costas, apertando‑o ainda mais.


‑ Não pares. Oh, não pares agora.

Ela era um anjo... ao mesmo tempo vulnerável e entendida, virtuosa e bastante experiente. E fazer amor com ela foi diferente de tudo o que Zachary alguma vez experimentara na vida.

Suzanne puxou o rosto dele contra o seu e fê‑lo deitar‑se de costas, acariciando‑o e depois chupando‑o até ele pedir para parar.

‑ Agora, ZachHary ‑ murmurou, com os lábios a roçarem a orelha dele. ‑ És tão maravilhoso. Por favor, agora.

Fizeram amor... lentamente no início e depois com mais fervor; cada um imerso no outro; cada um concentrado em satisfazer o outro e não a si próprio.

A escuridão estendeu‑se por todo o vale. Lá longe, abaixo deles, as luzes de Sterling piscavam como estrelas, reflectindo o firmamento.

‑ Zachary, que horas são?

‑ Meia‑noite. Na verdade, um pouco mais.

Estavam seminus, enrolados no cobertor para se protegerem do ligeiro frio da madrugada. A ligação entre ambos já tinha ultrapassado a relação sexual e tornava‑se cada vez mais profunda a cada minuto e a cada segundo.

‑ Sabes ‑ disse ela ‑ que em toda a minha vida nunca me vim assim? Que formigueiro maravilhoso.

Ele beijou‑a no pescoço e depois nos lábios.

‑ Deve ter sido do chardonnay.

‑ Sim, claro ‑ afirmou ela, abotoando as calças. ‑ Que estupidez a minha esquecer‑me disso. Na próxima vez, faremos sem o vinho. Uma experiência controlada. Só para me certificar.

‑ Na minha montanha?

Ela riu.

‑ Será na tua montanha. Sabes, estou sempre a repetir, mas és realmente um homem muito gentil e muito meigo. - Beijou‑o levemente nos lábios. ‑ Só espero que de manhã ainda me respeites. Acredites ou não, fazer amor assim está um tanto além da minha primeira saída normal.

‑ Não te preocupes ‑ disse ele. ‑ Fazer o que queremos em situações como esta é a paga de todas as dores de cabeça e responsabilidades de sermos adultos.

A expressão dela tornou‑se mais carregada.

‑ Zachary, quero que saibas o que se passa... porque é que reagi de uma forma tão estranha durante toda a noite. Bem, quase toda a noite.

‑ Ouve, está tudo muito bem se...

‑ Não. Eu quero. Além disso, até amanhã á noite ficarias a saber, de uma ou de outra forma.

Deitou‑se de costas, pegou na mão dele e conduziu‑a até ao seio direito.

‑ O quadrante superior e exterior ‑ disse. ‑ Bastante profundo.

Foram precisos breves instantes para os seus dedos encontrarem o caroço ‑ uma massa em forma de disco, talvez com o diâmetro de uma moeda de meio dólar e tão duro quanto a parede lateral de um pneu, ou seja, demasiado duro. O seu primeiro impulso foi animá‑la classificando a massa de quisto. Mas sabia que não bastava. Sem uma biopsia era absolutamente impossível dizer.


Subitamente, toda a noite ‑ a distracção, as mudanças de humor, a paixão, tudo ‑ fazia sentido.

‑ Quando foi que o sentiste pela primeira vez? ‑ perguntou.

Sentiu dor ao aperceber‑se agora do que ela estava a sofrer. Se nesse momento o caroço lhe fosse apresentado para exame com uma única resposta correcta, ele teria de o considerar como problema, do principio ao fim.

E sabia que ela também.

‑ Há um mês. Seis semanas, acho ‑ respondeu. ‑ Não houve alterações durante esse período. As mamografias foram equívocas. O resultado da biopsia foi "tecido normal do seio" e, em vez de passar por esse processo uma segunda vez, preferi avançar para uma excisão e, se necessário, um radical modificado.

‑ Quando?

‑ Entro amanhã à noite. A operação está marcada para sexta‑feira de manhã e, mesmo que não notes, estou morta de medo.

Ele abraçou‑a fortemente.

‑ Agradeço‑te muito que não me tenhas mandado embora esta noite. Já arranjaste quem olhe pela Jennifer?

‑ A minha sócia da galeria fica com ela. Ela tem um filho dois anos mais velho do que a Jen.

‑ óptimo. Sabes que tudo irá correr bem.

Suzanne anuiu penosamente.

‑ Continua a recordar‑me isso. Digo‑te que, sendo médica, sei de mais. E ainda te digo outra coisa: por mais que se leia, por mais espectáculos do Donahue que se veja, é impossível imaginar o que pode acontecer.

‑ Tudo vai correr bem ‑ voltou Zack a afirmar, esforçando‑se para que a voz soasse convicta. ‑ Tens um amigo que passará contigo toda a noite de amanhã. A excisão será feita com anestesia local?

Ela abanou a cabeça.

‑ Não ‑ respondeu. ‑ Tanto o anestesista como o cirurgião recomendam a geral. E, francamente, senti‑me aliviada.

- Quem é o anestesista?

‑ Pearl. Jack Pearl.

‑ óptimo. Ele tratou o meu caso desta manhã. Acho que é um pouco esquisito, uma espécie de personagem saída de um conto de terror gótico. Mas sabe muito bem o que faz na sala de operações. E o cirurgião?

Suzanne suspirou.

‑ É o teu amigo desta manhã - respondeu. ‑ O Jason Mainwaring. Penses o que pensares, Zack, ele é de longe o melhor cirurgião das redondezas.

‑ Assim me disseram. Bem, só espero que a sua habilidade na SO seja muito mais avançada do que nas relações pessoais.

‑Oh, é.

‑ Nesse caso ‑ afirmou Zack ‑, só temos de nos preocupar com uma coisa, não é assim?


 

O gabinete de Frank Iverson era constituído por duas salas espaçosas no rés‑do‑chão da ala oeste, a nova construção adicionada ao hospital. Do local onde se encontrava, numa das três poltronas de cabedal, Zachary viu as duas secretárias do irmão a desempenharem as suas funções com a maior eficiência. Uma das mulheres era morena, de aspecto sofisticado e polido. A outra era loura e com um ar sadio e sensual. Ambas eram jovens, esbeltas e notavelmente atraentes ‑ muito aquém do habitual em qualquer ambiente, mas quase deusas segundo a média de Sterling.

Secretárias bonitas, um gabinete luxuoso, negócios de muito dinheiro, um Porsche 911, um espectacular chalé na montanha. "O homem tem mesmo estilo", pensou Zack. E, apesar desse mesmo estilo não ser o que Zack realmente desejava para si próprio, Frank tinha feito um longo percurso desde os tempos da cerveja entre amigos.

Cinquenta por cento idênticos. Cada ano que passava, parecia que os dois confirmavam cada vez menos a verdade genética.

Contudo, Zack percebeu que houvera uma época em que as tendências e as metas de ambos não eram assim tão divergentes, uma época em que os dois irmãos navegavam pelo mundo em pistas virtualmente paralelas, orientados apenas pelos faróis do sucesso prematuro: troféus, fitas, medalhas e adulação.

Para ele tornara‑se um jogo ‑ um devaneio repetitivo imaginar como seria a sua vida se não tivesse caido naquele dia de Inverno, se não tivesse sofrido uma ruptura de ligamentos no seu joelho, ainda tão jovem.

Acidentes. Doença. Os actos violentos e negligentes dos outros. Como sempre, o devaneio levava‑o a reconhecer como a vida era frágil... quão fora de controlo. Uma mancha de gelo, uma fracção de segundo e, subitamente, num instante de agonia, as vendas eram arrancadas da sua protegida visão da vida; a sua invariável pista fora transformada num trajecto de curvas e sulcos, apenas negociável com um passo incerto de cada vez.

Os olhos de Zack fecharam‑se enquanto recordava aquele dia. Estava num local perfeito, a correr atrás de Frank. Três segundos era muito, mas nada que não conseguisse ultrapassar... em especial, estando o irmão a fazer a segunda corrida de uma forma tão invulgarmente cuidadosa.

E ele queria‑o. Queria‑o mais do que algum dia admitira a alguém até mesmo a si próprio, reflectiu.

As cores, a neve acumulada, o súbito desaparecimento do vento que soprara durante todo o dia ‑ um momento que ficaria gravado para sempre na memória. As condições eram perfeitas para uma disputa, uma demonstração de que Zachary Iverson tinha subitamente ganho a merecida fama. O juiz, a mãe e grande parte da cidade, assim parecia, estavam reunidos ao longo do declive, antecipando a sua corrida.

à espera para lá das bandeirolas vermelhas e azuis que marcavam a pista de sialom encontrava‑se um maravilhoso troféu, uma viagem para as Olimpíadas dos Juniores e uma grande quantidade de elogios e notícias de jornal que vira referirem‑se ao irmão durante anos a fio.

Tinha chegado a hora. Finalmente, tinha chegado o seu momento, a sua corrida.


Verificou a pista em baixo. Não havia problemas. Alguns segundos finais para traçar mentalmente o percurso; baixou os óculos de protecção e deslizou até á porta de partida electrónica.

Então, parou de súbito.

Algo estava errado. Algo simplesmente não parecia estar bem. A bota? A cera? Não. Percebeu no último segundo possível que era o esqui ‑ o esqui direito. De alguma forma, as fitas de aperto tinham‑se soltado.

Recuou uns passos e fez o ajuste necessário no parafuso, amaldiçoando‑se por, em primeiro lugar, não ter sido mais meticuloso na preparação. O descuido podia ter sido desastroso.

Agora, porém, nada o faria parar. Era a sua corrida e não havia mais do que dois minutos de esqui entre ele e o Colorado.

Nada, isto é, excepto uma pequena mancha de gelo.

Zack estremeceu e sentiu o corpo recuar e endurecer com a recordação da dor e desamparo da queda, dos saltos e cambalhotas ao longo do declive coberto de neve.

As fitas soltas, embora nunca uma causa, tinham certamente sido um presságio.

- Doutor Iverson, deseja alguma coisa? Um café? - Era uma das secretárias de Frank, a loura, asseada e sensual. A típica filha de um fazendeiro.

A impotência e a angústia duraram um momento e depois desapareceram. Inconscientemente, Zack esfregou a cicatriz ainda hipersensível que atravessava o joelho.

- Não ‑ respondeu em voz rouca. ‑ Não, obrigado.

Verificou as horas. Quatro horas. Um quarto para as quatro, dissera Frank; tinha sido muito especifico quanto às horas.

Zack tinha um doente para consulta e um pequeno monte de papéis à espera no seu consultório. Suzanne daria entrada no hospital em menos de duas horas. A última coisa no mundo que precisava nesse momento era de uma reunião com Frank. Contudo, o convite fora feito com palavras que lhe dificultaram o pedido de adiamento, ainda que por um dia.

A espera de quinze minutos, embora aborrecida, não foi surpreendente. Frank nunca fora pessoa para prestar muita atenção aos horários dos outros.

‑ Desculpe ‑ disse Zack à secretária ‑, sabe quanto tempo mais ele irá demorar?

A mulher sorriu suavemente.

‑ Não, doutor Iverson, lamento mas não sei. Mas já não deve demorar muito mais. Mister Iverson está em linha com o computador central da Ultramed, em Bóston. Comunica com ele todos os dias. ‑ Pareceu muito orgulhosa por trabalhar com alguém que comunicava regularmente com um computador central. ‑ Tem a certeza de que não gostaria de tomar um café? Ou uma Coca‑Cola?

Zack abanou a cabeça.

‑ O que eu gostaria ‑ disse, levantando‑se ‑ era de adiar esta reunião para uma hora que ele pudesse cumprir. Diga ao meu irmão para me mandar um bip quando terminar, está bem?


‑ Não será necessário, resmungão ‑ ouviu dizer a voz de Frank no intercomunicador da secretária da loura. ‑ Estava a chamar a Armeife para que ela te mandasse entrar. A porta está aberta.

Sem explicações, sem desculpas.

Zack perguntou a si mesmo há quanto tempo estaria o intercomunicador ligado. A ideia de ser escutado às escondidas não lhe agradava nada.

‑ Senta‑te, senta‑te ‑ disse Frank quando Zack fechou a porta atrás de si. ‑ Tens a certeza de que não queres que as raparigas te tragam alguma coisa? Uma bebida? Algo para comer?

‑ Não, obrigado, mas manda vir para ti se quiseres.

O gabinete estava ricamente decorado. Uma estante do chão até ao tecto, incluindo um bar incorporado e uma aparelhagem, cobria uma parede, e uma enorme fotografia aérea do Ultramed‑Davis enchia grande parte da outra. O teclado de um computador e um monitor ocupavam apenas uma porção da secretária de mogno maciço, a qual Frank um dia lhe descrevera com orgulho como "uma maravilha ímpar".

O próprio Frank, sentado numa cadeira de costas altas em cabedal castanho e vestido com um fato de linho acastanhado, gravata de seda e camisa feita por encomenda, parecia ter saltado de uma página da Gentleman's Quarterly.

‑ Então ‑ disse, empurrando uma caixa de cigarrilhas através da secretária ‑, como vão as coisas?

Zack voltou a empurrar a caixa.

‑ Vão bem, Frank.

‑ O consultório está bem?

‑ Perfeito.

O consultório de Zack, fornecido e pago pela Ultramed por um ano ("Com a forte possibilidade de um segundo ano, se tudo corresse bem") era um elegante espaço de três gabinetes no andar superior da Clínica de Médicos e Cirurgiões do Ultramed‑Davis.

‑ Diz‑se por aí que fizeste um grande trabalho na sala de operações.

‑ É bom ouvir.

‑ Bom para nós os dois. Não são muitos os hospitais com o tamanho deste que podem reclamar um neurocirurgião a tempo inteiro, formado em Harvard. E, claro, sou considerado como uma espécie de lacocca da saúde por te ter recrutado.

‑ Frank, não tiveste de arrombar a minha porta para conseguires que eu viesse.

‑ Disparate. Apenas tive algumas... dúvidas prévias, foi tu do. Mas o juiz e o pessoal do Ultramed ajudaram‑me a ver a luz e agora estou muito satisfeito com a forma como as coisas estão a correr. Foste uma autêntica injecção para a moral deste estabelecimento.

‑ Não encontrei quaisquer problemas de moral ‑ afirmou Zack, pressentindo que a palavra era um tipo de introdução para o assunto que estava em mãos.

‑ Bem, fazemos o nosso melhor para que não haja ‑ respondeu Frank. ‑ E tal como dizes, fazemo‑lo bem. Mas, de vez em quando, surge algo ou alguém que ameaça polarizar a nossa família do Ultramed‑Davis... para tal, virando irmão contra irmão. E sabes o que se diz de uma casa dividida, não sabes?

‑ Sei, Frank.

‑ Assim, Zack... Por falar em casas, que tal achas a tua?


Oh, valha‑me Deus, quis gritar Zack. Não sou um adversário frágil com quem tens de brincar ao gato e ao rato. Sou o teu irmão. Diz apenas o que raio queres e ficamos esclarecidos. Mas ficou calado. Fechou as mãos uma na outra, cruzou as pernas e encostou‑se à cadeira. Era o espectáculo de Frank.

‑ A casa é linda, Frank ‑ respondeu mecanicamente. - Não sei como foi que a descobriste, mas ainda bem que o fizeste.

Perguntou a si próprio onde poderia estar Suzanne nesse momento, o que estaria a fazer, como se sentiria.

‑ óptimo ‑ disse Frank. ‑ Não te esqueças do que te disse sobre a nossa cave cheia de mobílias a mais. Só tens de aparecer e levar o que quiseres até arranjares a tua própria mobília, está bem?

‑ Certo.

Zack lembrou‑se que o irmão, devido a toda a sua habilidade atlética, fora sempre um perito em ocultar o verdadeiro assunto de uma reunião. Fora uma arte que aprendera com um mestre: o pai. Se Frank estava a preparar‑se para actuar, esta conversa sem importância não era mais do que casual.

‑ A renda é bastante razoável para uma casa como aquela, não concordas?

Zack deu uma gargalhada. Razoável era uma palavra demasiado inofensiva. A renda do seu pequeno apartamento em Bóston era três vezes superior à da casa, a qual tinha um enorme terreno arborizado, duas lareiras e várias vezes mais espaço do que o apartamento.

‑ Nunca digas à agência imobiliária a quem pertence - pediu Zack ‑, pois estão a arruinar‑se por causa deste negócio. Durmo com o contrato debaixo da almofada, com medo que alguém entre e o roube.

‑ Oh, nós não o faremos ‑ afirmou calmamente Frank.

‑Nós?

Zack percebeu que o assunto oculto da reunião estava prestes a subir à superficie.

‑ A Ultramed‑Davis, Zack. A Pine Bough Realty Trust é uma... como direi?... uma forma conveniente de o hospital administrar algumas propriedades que possui por aqui. Somos o teu senhorio.

Frank estava radiante, obviamente satisfeito com a forma como dera a notícia.

‑ Sabes ‑ disse Zack, agora tentando manter conscientemente o cinismo à vista ‑, de certa forma, essa pequena informação não me deixa muito surpreendido. Não que isso fizesse grande diferença, Frank, mas podias ter‑me dito quando aluguei a casa que, para além do meu salário, do meu consultório, do meu equipamento e do meu seguro, a Ultramed estava a fornecer‑me o tecto.

Frank encolheu os ombros.

‑ Este pareceu‑me o momento mais indicado.

‑ Diz‑me uma coisa: é costume um hospital desempenhar esse... como poderei dizer... desempenhar esse papel no campo da propriedade?


‑ Eu empregaria a palavra progresso, campo do progresso. ‑ Frank sorriu e piscou um olho. ‑ Sabes, Zack, a meta deste ou de qualquer outro negócio é o dinheiro. Dinero. O grande D. ‑ Enquanto desenvolvia a retórica, foi‑se entusiasmando cada vez mais e fazendo gestos mais profissionais. - É isso que os administradores e os corpos dirigentes dos hospitais espalhados por todo o país começam a perceber. Felizmente, o Ultramed reconheceu‑o há muitos anos. Elimina programas não lucrativos; aumenta os lucros e as colectas. Transforma o défice financeiro em lucro, não importa como, e o resto resolve‑se por si só. Se são os bens imobiliários, então são os bens imobiliários. Se são outros investimentos, então são outros investimentos. As universidades como Harvard e Dartmouth possuem algumas das maiores carteiras de acções e bens imobiliários que existem por aí. Porque é que os hospitais não podem seguir‑lhes o exemplo?

- Não... não sei porque não devem poder ‑ respondeu Zack. Mas dá‑me tempo, pensou Zack, e tenho a certeza que me virá á ideia alguma coisa.

O casamento entre o negócio e a medicina era um casamento que ele não conseguia aceitar ‑ pelo menos por enquanto. Pensou no novo aparelho de TAC... na incrível oportunidade que lhe fora dada pela Ultramed de exercer medicina privada. Percebeu que esse casamento merecia, se não a sua bênção, pelo menos a sua compreensão.

Talvez fosse isso que o irmão necessitava ouvir.

‑ Sabes, Frank - continuou ‑, se pareço pouco à vontade em relação a este assunto, não te esqueças de que passei os últimos oito anos num hospital onde tudo era fornecido em quantidades incrivelmente reduzidas. Tudo, isto é, excepto a dedicação das enfermeiras e médicos e o amor... julgo que não há melhor palavra... que tinham pelos doentes.

"Estou grato por me encontrar numa situação como esta. Acredita que estou. Mas existem algumas partes dos anos que passei no Municipal de Bóston que dificilmente esquecerei. Deixa‑me dizer‑te, Frank, que naquele velho e imundo lugar havia algo tão puro na forma como se cuidava dos outros, algo tão... nem sei... sagrado, que muitas vezes os doentes pareciam melhorar quando todos os factos clinicos, todas as probabilidades, diziam que não. Isto faz algum sentido?

Frank levantou as mãos.

‑ Ei, Zack - disse ‑, faz todo o sentido do mundo. Foi o que te transformou numa valiosa adição para o corpo clínico daqui. Assim, desempenha só as funções de médico e deixa que me preocupe com a política, os aparelhos de TAC e coisas do género. Desse modo todos beneficiam, certo?

Dignidade, pensou Zack, ainda imerso nos anos em Bóston. Foi ao que tudo se reduziu. A dignidade nasceu por ter‑se sido cuidado com amor e respeito: por ter‑se sido tratado como algo mais do que um crédito ou um débito numa folha de balanço.

lembrou‑se das lágrimas a brilharem nos olhos de Chris Gow ao perceber que alguém se preocupava o suficiente para responder por ele, independentemente dos custos.

‑ Certo?

‑ Hum? Oh, sim, claro.

- óptimo - disse Frank. ‑ Então espero que deixes o assunto do Beaulieu comigo.

‑ O quê? ‑ Mais uma vez, Zack preferiu manter‑se de sobreaviso. Frank era, e provavelmente seria sempre, o mais temível dos concorrentes.

‑ O Beaulieu, rapaz. Ei, estamos os dois na mesma onda ou não?

‑ Frank, ainda não disseste uma palavra sobre...


‑ Bem, sobre que outro assunto achas que estamos a falar? Deixei escapar o assunto com o velho e o Wil Marshfield porque sabia que tu ainda não tinhas tido tempo para aprender as regras daqui. Mas o Beaulieu é outra história. Zack, esse homem está a vingar‑se porque pensa que o hospital é culpado da sua incapacidade em manter a prática cirurgica. Já ouviste esse tipo de conversa paranóica de mais alguém daqui?

‑Não, mas...

‑ Nos últimos anos, sempre que entra uma nova pessoa para o corpo clínico, o Beaulieu ataca com reclamações e histórias sobre a forma como estamos a correr com ele e como obrigámos o Richard Coulombe a vender a farmácia para poder pagar as contas do hospital. Credo, admira‑me como é que ele ainda não tentou associar‑nos à merda da fome na Etiópia. Deixa‑me dizer‑te uma coisa, Zack. Ninguém tem de tentar obrigar o Guy Beaulieu a reformar‑se. Ele sozinho está a fazê‑lo perfeitamente.

"E quanto aos seus disparates sobre o Coulombe, ele não devia dinheiro só a nós, acredita. Devia dinheiro a toda a gente. Podes confirmá‑lo. O Coulombe ou vendia a farmácia ou passaria o resto dos dias numa sala de tribunal.

‑Mas... - Zack parou no último momento, antes de quebrar a promessa que fizera a Beaulieu de não se referir à ligação entre o Ultramed‑Davis e a Eagle Pharmaceuticals and Surgical Supply. Também perguntou a si mesmo se o antigo proprietário da casa que alugara não teria sido um doente do hospital.

‑ Mas o quê? - perguntou Frank. Surgiu‑lhe uma súbita dureza nos olhos e impaciência na voz.

‑ Nada ‑ respondeu Zack. Esquece.

Com o pensamento concentrado em Suzanne e nos problemas no consultório, estava disposto a fazer quase tudo para evitar um conflito.

‑ Esquece - repetiu.

Frank abanou a cabeça.

‑ Estás a esconder‑me alguma coisa, Zack. Está escrito na tua cara. Vá, diz‑me o que se passa?

‑ Já disse, nada.

Zack sentiu a pele ficar tensa na nuca.

Parte do que está a acontecer é simplesmente errado. Mas há muito de perverso... Palavras de Guy Beaulieu, notando‑se nele a fúria e a tristeza. O teu velho amigo Beaulieu está com falta de aliados neste local...

‑ Está bem, Frank ‑ ouviu‑se a si próprio dizer. ‑ Queres saber o que se passa? Eu digo‑te. Acredito no Guy. Ouvi‑o e olhei‑o nos olhos, e sei que diz a verdade. É isso o que se passa. Não sei se é o Ultramed ou aquele estúpido pomposo do Mainwaring, ou outra coisa. E garanto‑te que não sei o porquê. Mas acho que o Beaulieu está a ser corrido, como ele diz. E se isso é verdade, então fico indignado. Fico muito indignado e isso faz‑me querer fazer o que for necessário para ajudar o velho. Toma, era isso que querias ouvir?

Frank soltou uma gargalhada sonora. Depois acendeu uma cigarrilha e lançou um anel de fúmo até ao tecto.


‑ Digamos que era o que esperava ouvir ‑ disse. - Sempre foste um tanto coração mole, Zack... um empata para a causa de qualquer um. O Vietname, a supostamente roubada quota de entrada do Timmy Goyette nas Olimpíadas dos Juniores, os direitos das mulheres, puré de batata insuficiente nos almoços escolares. Contem ao rapaz uma história comovente e ele dar‑vos‑á a sua coragem... e a sua mesada. lembras‑te de tudo isso? Eu lembro‑me. Então, porque será diferente com o Guy Beaulieu e as suas histórias?

‑ Frank, quando queres és um verdadeiro filho da puta, sabes?

‑ Cuidado, rapaz ‑ disse Frank, expelindo outro anel perfeito. ‑ Estás a referir‑te à tua mãe. Além disso, desta vez estás errado. Completamente errado.

‑O quê?

- Esta é uma causa em que é preferível ficares de fora, irmão. O Beaulieu está prestes a saltar da prancha e, se estiveres muito perto dele quando o fizer, então ficarás bastante molhado. Podes ter a certeza disso.

Abriu a gaveta da secretária, retirou um sobrescrito e empurrou‑o para Zack.

‑ Tenho mantido esta carta em segredo porque ainda esperei que o Beaulieu desistisse. Agora, temo não ter outra solução senão apresentá‑la á comissão de ética. Há pessoas do corpo clinico que queriam fazer qualquer coisa há meses atrás, a fim de limitar ou reduzir os privilégios dele, mas consegui impedi‑las. Tal como o juiz disse, o velho salvou‑me a vida. Toma, lê.

A carta estava escrita à mão e não tinha outro cabeçalho a não ser a data, 17 de Junho.

 

Caro Mister Iverson

Escrevo para partilhar consigo algumas das alegações contra o Dr. Guy Beaulieu, feitas por mim e muitas outras enfermeiras da ala das urgências. Ao longo dos últimos meses, ele tem‑se tornado cada vez mais inconstante e indeciso no modo como trata os doentes. Esquece‑se muito, por vezes repetindo as mesmas ordens mais de uma vez, e outras vezes esquecendo‑se de ordenar determinados exames que seriam considerados rotineiros e básicos.

Além disso, em mais de uma ocasião o seu discurso foi indistinto e os seus modos suficientemente inconsistentes para levantarem a suspeita de drogas, álcool, ataques cardíacos ligeiros ou alguma combinação dos três. Felizmente, ele tem‑se ocupado de poucos casos e, por isso, ninguém saiu lesado ‑ pelo menos, ninguém que tivéssemos conhecimento. Contudo, achamos aconselhável haver qualquer tipo de investigação e reacção.

Estou disposta a reunir‑me consigo e discutir este assunto. Entretanto, penso que deveria ter uma conversa com o Dr. Beaulieu.

Atenciosamente

Maureen Banas, Enfermeira‑Chefe

 

Abismado, Zack leu e releu a carta em silêncio, tentando associar as acusações ao eloquente e dedicado homem a quem ouvira falar na reunião do grupo clínico e, mais tarde, ao almoço. Não havia nada nos modos, no discurso ou no conteúdo das palavras de Beaulieu que confirmasse as reclamações da enfermeira. Contudo, de modo algum se podiam ignorar essas acusações.

Do outro lado da secretária, Frank manteve‑se em silêncio, obviamente a saborear o momento.


- Isto é terrível - murmurou Zack, enquanto lia pela terceira vez e tentava lembrar‑se da enfermeira, Maureen Banas... monótona, mas eficiente... distante... inteligente... Pura e simplesmente, ainda não tinha passado o tempo suficiente com ela para fazer uma verdadeira avaliação.

- Terrível, mas verdadeiro - disse Frank. ‑ Esperei poupar ao velho idiota mais humilhações, mas depois de ouvir o discurso dele no outro dia e ver a forma como te conquistou, parece que não tenho...

- Frank, não há nada nesta carta que te pareça estranho?

Frank colocou a cigarrilha de lado e inclinou‑se para a frente.

- A que é que te referes?

Zack voltou a empurrar o papel através da secretária.

- Há uma coisa: esta mulher não apoia as acusações com um exemplo especifico.

‑ Bem, não há dúvida de que os tem. Zack, não achas que estás a agarrar‑te a palha?

- E outra coisa: tudo o que aí está é muito... muito estéril.

‑O quê?

- Olha bem para ela, Frank. Nem um pouco de sensibilidade ou comoção. Não há a menor indicação de que ela compreenda que as acusações que faz podem possivelmente mandar a vida de um homem por água abaixo... um homem que há trinta anos exerce cirurgia na sua cidade. Meu Deus! Com toda a sensibilidade que demonstra ter, ela pode muito bem escrever para se queixar que o cão de um vizinho está a cagar no seu canteiro. Quanto mais penso nisso, mais mal me cheira esta carta. Penso que se devia falar com essa mulher.

- Achas que não o fiz?

- Bem, então, quero eu fazê‑lo. É a única maneira de começar a acreditar nisto tudo.

- Falas com ela ou seja com quem for sobre este assunto - disse Frank, apontando‑lhe um dedo ‑, e serás corrido daqui para fora mais depressa do que consegues dizer "bisturi". Este assunto é meu... meu e da Ultramed. Estás mesmo decidido a complicar‑me a vida aqui dentro, não estás?

- Frank, que disparate!

- É?

Durante uns longos momentos, Zack só conseguiu ficar

sentado a olhar para o irmão. Para além do bronzeado, Frank parecia pálido, a sua expressão uma desconcertante amálgama de fúria e... o quê? Medo? Era verdade que sempre haviam tido as suas diferenças e, de tempos em tempos, algumas discussões mais acesas. Mas Zack sentiu que havia aqui algo muito mais poderoso.

‑ Frank, por favor ‑ conseguiu dizer. ‑ Pára de falar como se eu fosse o teu inimigo número um. Não sou. Apenas me preocupo com o Beaulieu e gostaria de saber que o tratam com justiça, está bem?

Uma ligeira tonalidade regressou às faces de Frank.

‑ Está bem? ‑ perguntou de novo Zack.

Frank sorriu.

‑ Claro, rapaz ‑ respondeu num tom demasiado amistoso. ‑ Eu compreendo. Vou fazer‑te uma sugestão. Porque é

que não combinamos que seja eu a informar‑te de tudo e tu a

vigiares as coisas... à distância? Desse modo, eu faço aquilo

para que me pagam e tu evitas uma queda. Prometo‑te que o


Beaulieu terá todas as oportunidades que surgirem. Está bem? Zack analisou o olhar do irmão e depois concordou com a

cabeça. A sessão já tinha ido demasiado longe.

‑ Assim, está tudo sob controlo ‑ concluiu Frank, acomodando‑se na cadeira e cruzando as mãos sobre o colo. O tom de voz e a expressão não deixavam transparecer qualquer sinal do desacordo entre ambos. ‑ Ouve, que tal jantarmos juntos este fim‑de‑semana? Vou pedir à Lisette para te ligar.

‑ Claro, Frank. Seria óptimo.

‑ Excelente. Oh, e a propósito ‑ acrescentou, levantando‑se da cadeira quando Zack se preparava para sair ‑, diz a essa tua nova conquista que todos nós rezamos para que amanhã tudo corra bem com ela.

Zack sentiu as cores fúgirem‑lhe do rosto.

‑Como é que tu...

O irmão deu‑lhe umas palmadas no ombro.

‑ Rapaz, se alguém que trabalha para mim se peida neste hospital, mais cedo ou mais tarde eu sinto o cheiro. Nunca te esqueças disso. Confia em mim e farás um favor a ambos. Ela é uma mulher fantástica. Ainda bem que começa a sair da concha. Espero que as coisas resultem entre vocês.

Com isso, apertou a mão de Zack e acompanhou‑o até à porta.


 

Perturbada pelo barulho de um carrinho que passou junto à porta do seu quarto no hospital, Suzanne Cole deitou‑se de costas, a flutuar no mundo crepuscular entre o sono e o despertar.

Durante algum tempo lutou por completar o sonho que estava a ter ‑ um sonho romântico, no qual Jason Mainwaring, vestido da cabeça aos pés com uma armadura de ébano e montado num cavalo preto, combatia com um cavaleiro também espectacularmente vestido de dourado. Os homens cruzaram‑se vezes sem conta, as lanças batendo no escudo do adversário. Em cada encontro, um ou outro quase caíam da montada, mas o cavaleiro atacado recuperava sempre e preparava‑se para mais uma investida.

A própria Suzanne encontrava‑se na tribuna de honra, envergando um gracioso vestido de seda cor‑de‑rosa e segurando uma única rosa branca.

Quem és tu?, perguntou inúmeras vezes ao cavaleiro dourado. Quem és tu? O que queres de mim?

Quando o sonho começou a desaparecer, o cavaleiro virou‑se para ela e levantou a viseira do seu capacete dourado. Como néon a piscar, o rosto do homem mudava constantemente. Num momento era Zachary Iverson e no outro Paul Cole, o professor de fisiologia, patologicamente senhor de si, que a escolhera entre a multidão de uma palestra durante o segundo ano do curso de Medicina e a arrastara para um remoinho de flores, festas e fins‑de‑semana românticos no campo.

Menos de um ano depois, estavam casados. Se existiram sinais da doença do homem durante esses meses, ela não os tinha reconhecido de todo. Mais tarde, quando as drogas, o comportamento excêntrico e as mentiras ‑ "desentendimentos", como Paul lhes chamava ‑ começaram a transparecer, ela preferiu ignorá‑los e pensar que não eram reais.

Quando percebeu que as tentativas para salvar o casamento eram um erro, apareceu Jennifer. Os anos que passou a tentar aceitar Paul por causa da filha quase custaram a carreira de Suzanne e, talvez, ainda mais do que isso.

Porquê?, voltou a perguntar. O que queres de mim?

‑           Doutora Cole, já é de manhã.

Porquê?

‑           Doutora Cole?

A voz suave da enfermeira e o toque da sua mão começaram a dispersar o que sobrava do sonho. As cores começaram a transformar‑se num mar de branco.

Há quanto tempo é que Paul não aparecia num dos seus sonhos? As discussões, as viagens, as vezes que ela tivera de desligar o telefone, os blocos de receitas que desapareciam, as visitas dos condescendentes agentes do departamento de narcóticos... Porque é que ela lhe tinha dado tantos beneficios da dúvida?

‑Doutora Cole...

Suzanne abriu ligeiramente os olhos.

‑           Olá ‑ murmurou. Instintivamente, levantou um braço e tocou no seio, apavorada com as ligaduras que esperava encontrar.


‑           São sete e um quarto ‑ disse a enfermeira. ‑ Está na hora de tomar os medicamentos pré‑operatórios.

Pré‑operatórios. Maldição, pensou. Não estava tudo terminado. Ainda estava a começar. Porque é que aquilo estava a acontecer? A vida em Sterling era tudo o que ela esperava que fosse: muito calma, sem complicações, tão boa para Jen. Agora, subitamente, tudo parecia desmoronar‑se. Porquê?

Abriu completamente os olhos.

‑           Sete e um quarto?

‑           Uh‑huh. Está marcada para daqui a vinte minutos. Isto é atropina e Demerol.

Atropina...Demerol. Uma servia para secar as secreções e o outro para ajudar a não pensar na ideia de se ficar desfigurado, ou pior. Que poções maravilhosas temos nós, médicos, na nossa mão, pensou mordazmente. Sem dúvida, que poções maravilhosas. Virou‑se de lado e gemeu quando a agulha foi espetada na nádega. Depois, voltou a deitar‑se de costas e fez um meio sorriso à enfermeira.

‑ Muito bem dada ‑ murmurou.

A enfermeira, uma mulher idosa e carinhosa, chamada Carrie Adarus, afagou‑lhe uma mão.

‑ Vai ficar boa ‑ disse. ‑ Já tirei dois quistos e a minha filha também. A parte mais difícil é a espera até que tudo termine.

‑ Tentarei lembrar‑me disso.

Mais uma vez, apesar de não estar sozinha, Suzanne ergueu um braço e tocou no seio. Tudo aquilo era uma loucura. Esse tipo de coisas só acontecia aos outros... aos doentes. Fora treinada para os ajudar a superar as crises clínicas, e não a passar ela própria por uma. Até aqui, nunca se dera por vencida, conseguindo sempre juntar muitas peças do seu mundo disperso. E agora isto.

Impotência... pânico... fúria... as suas emoções, refreadas ao longo das semanas após o terrível momento da descoberta, rodopiavam como flocos de neve soprados pelo vento.

Onde raio estava a aceitação de que os livros tanto falavam?

‑           O Demerol deve começar a fazer efeito dentro de alguns minutos ‑ disse‑lhe a mulher, como se tivesse lido os seus pensamentos.

‑ óptimo.

‑ E aqui estão os nossos auscultadores.

‑ Oh, sim ‑ disse Suzanne, pegando neles e colocando‑os sobre a cama, ao seu lado. ‑ O que é que estão a tocar hoje?

‑ Não sei ‑ respondeu a mulher ‑, mas o doutor Mamwaring está no canal... ‑ Tirou um cartão do bolso do uniforme. ‑ No Canal Três.

O sistema ‑ cassetes escolhidas pelos cirurgiões para serem reproduzidas nas salas de operações e difundidas para os auscultadores ‑ destinava‑se a reduzir os níveis de ansiedade do doente. Ao longo dos poucos anos que fora adoptada, a inovação recebera notas altas tanto de cirurgiões como de doentes. Suzanne rodou o botão para o 3 e encostou um auscultador ao ouvido.

‑ Greensleeves ‑ disse.

‑Como?


‑           Greensleeves. É a música. Uma versão muito bonita. Tome, oiça.

Passou‑lhe os auscultadores. Educadamente, a enfermeira ouviu durante alguns segundos e depois devolveu‑os.

- Muito bonita - disse. ‑ Voltarei em breve. Entretanto, descontraia‑se. Oh, a propósito, há um sobrescrito para si na mesa‑de‑cabeceira. Talvez seja melhor ler o que está lá dentro, antes de o medicamento que lhe dei começar a fazer efeito.

Suzanne agradeceu à mulher e esperou que ela saisse do quarto.

No sobrescrito, com o cabeçalho e logótipo do

Ultramed-Davis, lia‑se: Dra. Suzanne Cole. Abriu‑o, pressentindo que era de Zack. Ele passara grande parte da noite com ela, lendo‑lhe em voz alta notícias de revistas e jornais, rindo, contando histórias da sua vida e, quando não havia nada para dizer, segurando‑lhe apenas na mão. Tinha sido franco, carinhoso e compreensivo como nenhum homem que ela conhecera.

Perguntou a si própria se ele teria percebido o que ela sentia desde que entrara na sua vida. Silenciosamente, amaldiçoou‑se por tê‑lo usado como usara. Não pretendia deixar que um homem se aproximasse de mais para voltar a arruinar‑lhe a vida ‑ pelo menos, não agora. Possivelmente, nunca. Zack dissera‑lhe que podiam fazer amor sem quaisquer compromissos, mas ela sabia muito bem que os haveria sempre. Quando a operação terminasse, independentemente do resultado final, faria o que fosse necessário para criar uma distância entre eles.

Por momentos, o receio do que pudesse estar a desenvolver‑se no interior do seio pareceu‑lhe muito mais insignificante do que o receio de não poder voltar a confiar em ninguém.

 

Querida doutora.

São duas da manhã. O soporífero que te deram parece ter actuado, pois dormes profúndamente há cerca de uma hora. Por agora vou deixar‑te e espero que só acordes um ou dois minutos antes de te levarem para a sala de operações. Quero agradecer‑te a noite de quarta‑feira e, mais ainda, por me teres permitido partilhar esta noite aqui contigo. Não sei se a minha presença te ajudou, mas sem dúvida que me ajudou muito. Não é segredo que te considero alguém muito especial.

Sei como deve ser frustrante e assustador tudo isto para ti ‑ em parte, por ser frustrante e assustador também para mim. Quero que saibas que, aconteça o que acontecer, estarei contigo e ao teu lado sempre que o desejares.

Se existe alguma definição perfeita e real para "amigo", talvez seja alguém que nos ajuda a encontrar uma forma de ultrapassar este tipo de coisas, quando parecemos não conseguir encontrá‑las sozinhos. Aconteça o que acontecer, tens em mim um amigo.

Há‑de ser benigno. É tudo o que posso dizer. Há‑de ser benigno e tudo correrá bem.

Sê forte. Tens um encontro marcado na minha montanha, logo que tudo isto termine.

Zack

 


‑ Desculpa, Zack ‑ murmurou Suzanne, enquanto voltava a guardar o bilhete no sobrescrito, colocando‑o entre as páginas do romance que andava a ler há duas semanas. ‑ Lamento não ter sido mais forte...

Acomodou‑se na almofada e colocou os auscultadores. A boca tornou‑se desconfortavelmente seca devido à atropina, mas o Demerol também começava a fazer efeito e por isso não lhe deu muita importância.

Carrie Adams e uma auxiliar de enfermagem empurraram uma maca até ao quarto e ajudaram‑na a passar para cima dela.

Por favor, Deus, murmurou Suzanne para consigo, enquanto as lâmpadas fluorescentes deslizavam por cima dela. Faz com que não seja nada. Faz com que seja benigno.

Jason Mainwaring recebeu‑a na sala de operações, os olhos azul‑acinzentados atentos entre a máscara e a touca. Suzanne tirou os auscultadores. A mesma peça musical maravilhosa que estava a ouvir enchia a sala de operações.

‑ Bem‑vinda ao meu mundo, Suzanne ‑ disse ele.

Suzanne fez um ligeiro sorriso.

‑ Gostava de poder dizer que estou satisfeita por estar aqui.

‑ Eu compreendo. ‑ Afagou‑lhe um braço para a tranquilizar. ‑ Cuidaremos bem de ti. Não te preocupes.

‑ Obrigada.

‑ Gostas da minha música?

- É maravilhosa.

‑ Penso que é a mais maravilhosa música alguma vez composta. Chama‑se Fantasia on Greensíceves e é da autoria de um compositor inglês chamado Ralph Vaughan Williams. Começo todos os meus casos com ela e depois prossigo com

algumas das outras composições dele. Se quiseres, faço uma cópia para ti.

‑ Gostaria muito ‑ conseguiu dizer.

Jack Peari, o anestesista, apareceu ao lado de Mainwaring. Juntamente com uma enfermeira, ajudaram‑na a passar da maca para a fria mesa de operações. Depois, numa manobra tão rápida e indolor que ela mal se apercebeu, Pearl introduziu um tubo intravenoso na veia do pulso esquerdo.

A seguir, passaram um cinto largo sobre o abdómen e apertaram‑no.

Um ou dois gracejos finais de Mainwaring e estavam prontos para começar.

Jack Pearl apareceu no campo de visão de Suzanne, levantou o tampão de borracha do tubo intravenoso e introduziu a agulha de uma seringa cheia de líquido anestésico.

Por favor, Deus, voltou a rezar, faz com que o Zack tenha razão. Faz com que seja benigno.

‑ Muito bem, Suzanne ‑ disse Jack Pearl. ‑ Isto é só um pouco de Pentotal. ‑ Empurrou o êmbolo, esvaziando o conteúdo da seringa para dentro do tubo intravenoso. ‑ Tudo o que tens a fazer agora é contar para trás, desde cem.

Por cima, nos altifalantes, a fantasia de Ralph Vaughan Williams encheu a sala.

‑ Cem ‑ balbuciou. ‑ ... noventa e nove... noventa e oito...

Sobre si, acendeu‑se a enorme lâmpada de operações em forma de disco.

‑ Pronta ‑ ouviu alguém dizer.

 


Takashi Yoshimura era um dos sete orientais que viviam em Sterling, em New Hampshire. Os outros seis eram a mulher e cinco filhos. Embora de origem japonesa e, na verdade, apenas de nascimento, fora criado e educado na zona inferior de Manhattan e falava tanto o inglês como o japonês com o sotaque de Nova Iorque.

Tal como alguns dos novos médicos do Ultramed que Zack conhecera desde o seu regresso a Sterling, Yoshimura, um patologista que teimava em ser chamado Kash, era jovem, bem treinado e muito eficiente.

Passava pouco das oito horas da manhã. Yoshimura, de estatura baixa, cabelo cortado à escovinha e óculos à Ben Franklin, sentou‑se à secretária, com Zack a espreitar por cima do ombro. Diante deles, dentro de um prato de aço inoxidável, encontra‑se a massa de carne do tamanho de uma moeda, que acabara de ser removida do seio direito de Suzanne Cole.

No mais tenso silêncio, Zack viu o homem examinar o tecido sob uma luz intensa e uma lupa. No andar por cima deles encontrava‑se Suzanne, à deriva no mundo inferior e sem sonhos da anestesia geral. Dentro de minutos, o pequeno patologista enviaria para a SO a sua interpretação das células das secções congeladas do espécime; a incisão de Suzanne seria então fechada, ou uma grande porção do seio e nódulos linfáticos circundantes seriam removidos.

Se Kash Yoshimura estava pelo menos um pouco nervoso devido às implicações apavorantes desta faceta do seu trabalho, certamente não se notava no rosto. Cantarolava muito baixinho, enquanto examinava a superficie da massa, à procura de qualquer indicio de depressão ou descoloração. Então, com um arpejo final de satisfação, utilizou um bisturi para retirar uma fina camada do interior e entregou ao histologista o prato com o espécime exposto.

‑ Pronto, George ‑ disse ao especialista de tecidos ‑, faz a tua parte.

‑ Então? ‑ perguntou Zack, depois de o técnico ter saído.

‑ O que é que eu penso?

‑Hum, hum...

‑ Já conhece a imutável lei médica de oitenta e cinco por quinze?

Zack abanou a cabeça.

‑ Estou admirado ‑ disse Yoshimura ‑, sendo você alguém formado em Harvard e tudo o mais. Bem, posto de uma forma simples, a lei diz que todas as probabilidades na medicina são oitenta e cinco por cento prováveis, ou quinze por cento prováveis. A aplicação correcta da lei significa que não nos podemos enganar, desde que saibamos se o caso em questão parece remotamente provável ou não é tão remoto.

Zack sorriu.

‑ Calculo que tenha conseguido obter boas pontuações.

Kash Yoshimura concordou.

‑ Tenho‑me saído bem ‑ respondeu.

‑ E a biopsia é oitenta e cinco por cento provável...

‑ Benigno. Um adenoma, julgo.

‑ Maravilha. ‑ Zack fez um gesto com o punho fechado.

‑ Nesta altura, pode estar oitenta e cinco por cento entusiasmado ‑ alertou o patologista. ‑ Não mais.

‑ Compreendo.


Yoshimura estendeu um braço e deu umas palmadas de compreensão no ombro de Zack.

‑ Teremos a certeza dentro de alguns minutos ‑ disse. - Entretanto, tudo o que posso dizer é que a nossa amiga está em muitíssimo boas mãos.

‑ O Mainwaring? ‑ Zack recordou‑se do primeiro e desagradável encontro que tivera com o homem.

Kash anuiu.

‑ Vi‑o a trabalhar algumas vezes quando eu era estudante e estagiário. É um técnico fabuloso.

‑ Foi o que me disseram. Contudo, falta‑lhe diplomacia. Nos primeiros cinco minutos depois de nos conhecermos, conseguiu dizer algo ordinário sobre virtualmente todos os aspectos da minha vida.

‑ Talvez veja um novo neurocirurgião na cidade como uma ameaça para o seu ego.

‑ Talvez. Onde é que você se especializou?

‑ No Hopkins.

‑ O Mainwaring estava no Hopkins?

‑ Estava. E não era arrai a‑miúda. Era professor a tempo inteiro, se não me engano.

Zack ficou surpreendido.

‑ Que raio estará ele a fazer aqui no meio do mato? ‑ perguntou, intrigado. ‑ Em especial no mato da região norte de Nova Inglaterra. O sotaque dele coloca‑o muito abaixo da linha Mason‑Dixon.

O patologista encolheu os ombros.

‑ Quem sabe. Aparentemente, não considera os patologistas suficientemente ameaçadores para os insultar. Para além dos meus relatórios de biopsias, não tivemos conversas com mais de uma ou duas palavras desde que aqui chegou, há cerca de um ano.

‑ Na verdade ‑ disse Zack, subitamente ansioso por saber mais acerca do homem que Guy Beaulieu afirmava estar a tentar passá‑lo para trás ‑, foi há quase dois anos. Alguma vez lhe disse que o viu operar no Hopkins?

‑ Por acaso, disse‑lhe. Uma vez, pouco depois de ele aqui chegar.

‑ E o que foi que ele respondeu?

‑ Nada de especial. Olhou para mim por um momento, com aquele olhar de aço que penso que os cirurgiões praticam diante de um espelho para utilizarem com as enfermeiras, os anestesistas e pessoal do gÉnero. ‑ Sorriu. ‑ Quero dizer, alguns cirurgiões ‑ corrigiu. ‑ Depois, disse apenas "Que bom" ou algo parecido... e desapareceu.

‑ E nunca mais tocaram no assunto?

Yoshimura abanou a cabeça.

‑ Que estranho. O Mainwaring parece ser do género de quem gosta de ser elogiado. Esperava que ele se envaidecesse perante alguém da sua universidade ou do seu hospital, em especial tratando‑se de um lugar tão prestigiado como o Hopkins.

‑ Acredite ou não ‑ disse Yoshimura sem rancor ‑, ainda existem aqueles que, mesmo na nossa grandiosa profissão, não... se sentem bem com determinados aspectos de certas anatomias. ‑ Apontou para os seus próprios olhos. ‑ Seja por que motivo for, o circulo social a que pertence o Jason Mamwaring não inclui os Yoshimuras.


‑ Bem, eu teria todo o prazer se o meu incluísse ‑ disse Zack.

Kash Yoshimura olhou para ele durante um segundo e depois sorriu.

‑ Acho que nós também iríamos gostar ‑ afirmou.

O técnico de histologia anunciou o seu regresso batendo suavemente à porta.

‑ Ah ‑ exclamou Kash. ‑ Chegou o momento de transformarmos os nossos oitenta e cinco por quinze em algo bastante mais concreto. Secções boas?

O técnico concordou com satisfação, pousando um recipiente de cartão que continha cerca de uma dúzia de lâminas para microscópio.

Zack estava impressionado com as probabilidades da trama que se desenrolava em redor da mulher cuja qualidade de vida, e talvez mesmo a própria existência, era o centro do drama um marcado contraste relativamente ao imediatismo e à intimidade subjacentes à medicina cirúrgica.

Contudo percebeu que, nos momentos que se seguiram, Kash Yoshimura seria tão poderoso e responsável como o homem que estava na sala de operações com o bisturi nas mãos.

O patologista colocou a primeira lâmina das secções na platina do microscópio óptico e indicou a Zack o segundo par de oculares.

Silenciosamente e quase sem respirar, Zack viu as células multicolores a serem introduzidas no campo bem iluminado.

Uma a uma, Yoshimura examinou todas as láminas. Na quinta ou sexta, começou de novo a cantarolar. Por fim, parou e olhou para Zack.

‑ Tem alguma opinião formada? ‑ perguntou.

Zack concordou com a cabeça.

‑ Células do tipo uniforme, padrão uniforme, nenhum foco de necrose ‑ disse. ‑ Não sei de que tipo é, mas aposto que é benigno.

Yoshimura concordou.

‑ Se algum dia se cansar da neurocirurgia, doutor Iverson, diria que tem um grande futuro como patologista.

levantou o auscultador do telefone e marcou o número da sala de operações.

‑ Sou o doutor Yoshimura da Patologia ‑ identificou‑se. - Pode informar o doutor Mainwaring que ele extraiu um adenoma totalmente benigno e fibroso. Obrigado.

Zack apertou a mão do homem, como se fosse ele a causa do tumor não ser canceroso e não um mero intérprete do facto.

Antes mesmo de ter começado, o pesadelo de Suzanne chegara ao fim. Ansioso por estar a seu lado quando acordasse, Zack correu para a sala de recuperação.

Um piso acima, na sala de operações número 3, Jason Mainwaring recebeu impavidamente a noticia da biopsia e depois olhou para o anestesista.

‑ Bem, Jack ‑ disse ‑, se achar bem, estamos prontos para fechar.

Sob a máscara, Jack Pearl, um quarentão parecido com uma doninha, sorriu para o cirurgião. Em seguida, olhou para o rosto sereno da doente.

‑ Tudo está melhor do que bem, doutor Mainwaring - respondeu. ‑ Na verdade, está perfeito. Como sempre. Absolutamente perfeito.


Subtilmente e sem mais ninguém na sala reparar, Jason Mainwaring devolveu o sorriso e concordou com a cabeça.

Nesse momento, os dois homens concentraram‑se precisamente no mesmo pensamento: Já lá vão quatrocentos e noventa e um. Só faltam nove.


 

Ao longo dos mais de treze anos que Zack passara como estudante de Medicina e cirurgião, sem dúvida que Suzanne fora a pessoa a apresentar a mais rápida recuperação de uma anestesia geral que ele jamais encontrara.

Já se encontrava na sala de recuperação, à espera junto ao posto de enfermagem, quando a trouxeram da área de cirurgia. Estava acordada, a sorrir e totalmente desperta. O triunfante sinal que lhe fez com os polegares para cima tornou claro que também sabia muito bem o resultado da operação.

‑ Foi o despertar mais espantoso que já vi ‑ comentou

Zack com uma das enfermeiras da sala de recuperação, quando

Suzanne, quase sem ajuda, se transferiu da maca para a cama. - É difícil acreditar que ela tenha estado mesmo a dormir.

A enfermeira, uma animada jovem ruiva que Zack apenas conhecia por Kara, sorriu com orgulho.

‑ Oh, ela dormiu, sim ‑ disse. ‑ Não é maravilhoso? Quase todos os casos do doutor Pearl saem assim da sala de operações.

‑ O meu não saiu ‑ disse Zack, lembrando‑se da prolongada mas muito típica recuperação do seu caso de disco cervical.

‑ Como?

‑ Nada. Estou muito admirado, é só.

‑ Estamos todos ‑ disse a mulher. ‑ Em parte também pode ser por causa do doutor Mainwaring. Ele exige que os seus doentes sejam anestesiados assim, e o doutor Pearl é o único a quem ele permite que trabalhe consigo. Eu costumava fazer a limpeza antes de ser colocada aqui e, deixe‑me dizer, são uma grande equipa. As coisas mudaram para melhor desde que eles passaram a trabalhar juntos.

Do outro lado da sala de recuperação, Zack viu Jack Pearl examinar através de um oftalmoscópio os nervos e vasos sanguíneos das retinas de Suzanne, enquanto uma das enfermeiras verificava os sinais vitais. Era um homem franzino e pálido, de bigode muito fino e uma testa muito alta que dominava os olhos indefinidos.

‑ O que pretende dizer com "mudaram para melhor"? - perguntou Zack, uma vez que estava à procura de opiniões sobre Guy Beaulieu. ‑ Cresci em Sterling e fúi aqui estagiário. Sempre julguei que éramos bastante afortunados por termos os cirurgiões que tínhamos.

A enfermeira olhou para ele, desconfiada, julgando subitamente que talvez tivesse falado de mais para aquilo que é comum falar‑se com um estranho. Zack fez o que pôde para parecer apenas marginalmente interessado na resposta dela.

Depois de uma pequena hesitação, ela encolheu os ombros e afastou uma madeixa de cabelo da testa.

‑ O Ormesby é razoável ‑ disse ‑, pelo menos para coisas de rotina. Mas penso que chegou a hora de o doutor Beauheu se reformar, em especial com todos os problemas que está a enfrentar e com alguém tão bom como o doutor Mainwaring por aqui.

‑ É essa a impressão geral das enfermeiras? ‑ aventurou Zack.

Ela voltou a sorrir.


‑ Não sei ‑ disse por fim, embora os olhos lhe dissessem o contrário. ‑ Mas gostam de si, isso posso dizer. E todas gostamos de ter um neurocirurgião no grupo clínico. Isso faz com que o Ultramed‑Davis pareça mais... como direi... especial.

‑ Obrigado, Kara. Obrigado por me ter dito isso.

A jovem enfermeira corou.

‑ Bom, tenho de voltar ao trabalho ‑ disse. ‑ Até logo.

‑Até logo.

Zack ficou a ver a mulher regressar para junto da doente. A opinião que ela tinha de Guy Beaulieu era, suspeitou, partilhada pela maioria das enfermeiras dali. Merecida ou não, a reputação do homem no Ultramed‑Davis era má. E Zack sabia que, dada a natureza da medicina, dos mexericos e do intenso microcosmo dos hospitais, provavelmente não haveria nada que Beaulieu pudesse fazer para inverter a situação.

Contudo, apesar de todos os boatos e insinuações, apesar da veemência de Frank e da condenadora carta de Maureen Banas, Zack não deixava de acreditar que Guy estava a ser vitima de uma bem coordenada tentativa de correrem com ele. A ideia era tão triste e patética que quase desafiava a compreensão. Até certo ponto, Zack percebeu que parte de si esperava que as acusações contra Beaulieu viessem a provar‑se verdadeiras. Assim, conseguiria pelo menos ver algum sentido naquilo tudo.

Jack Pearl acabara de examinar Suzanne e já ia a caminho da sala de operações quando reparou em Zack.

‑ Bom dia, Iverson ‑ cumprimentou.

- Jack. ‑ Zack acenou com a cabeça. ‑ Como está?

‑ Teve algum caso esta manhã?

‑ Não. Passei por aqui para ver como está a Suzanne. Parece óptima.

Pearl olhou para ela.

‑ Um caso muito rotineiro ‑ afirmou.

‑ O que foi que utilizou?

Por uma fracção de segundo, a expressão do anestesista pareceu ficar tensa. Depois, à mesma velocidade, descontraiu‑se.

‑ O normal ‑ respondeu. ‑ Um pouco de Pen total, um pouco de gás. O Mainwaring não gosta que os seus doentes fiquem muito anestesiados.

‑ É o que vejo. Ela nem parece ter estado a dormir.

O rosto de Pearl voltou a ficar tenso.

‑ Bem, mas esteve ‑ disse simplesmente. Olhou para o relógio por cima do posto de enfermagem. ‑ Tenho de ir, Iverson. Um bom dia para si.

‑ Para si também, Jack.

Quando o pequeno homem taciturno desapareceu, Zack percebeu que, durante este e outros encontros anteriores, Pearl nunca o olhara de frente. Reconheceu que o facto não era assim tão surpreendente, dada a natureza da espécie. Embora as excepções fossem muito numerosas para qualquer generalização, muitos dos anestesistas que conhecera eram solitários introspectivos, mais versados na bioquímica e na psicologia do que nas artes mais subjectivas da medicina clínica, e dedicados a uma das especialidades onde a conversa e a interacção com os doentes ‑ pelo menos, acordados ‑ era mínima.


Contudo, havia algo de invulgar em Jack Pearl, algo furtivo e misterioso, que Zack achou não só curioso, como desconcertante. Perguntou a si próprio se o homem não teria tido problemas no passado e anotou mentalmente este pensamento para não se esquecer de perguntar um dia a Frank. Depois, virou‑se e aproximou‑se da cabeceira de Suzanne.

Embora um pouco pálida, mostrava‑se sorridente, radiante e totalmente desperta.

‑ Olá, minha senhora ‑ cumprimentou‑a. ‑ Alguma notícia?

‑ Oh, nada. ‑ Disfarçou um bocejo. ‑ Um pouco disto, um pouco daquilo. Tu sabes. Foi apenas mais um dia de rotina, enfadonho.

‑ Sim, o meu também.

‑ É óbvio, a avaliar por esses círculos escuros à volta dos olhos ‑ disse. ‑ Ei, antes que me esqueça, obrigada pelo bilhete. Gostei muito.

‑ Pareces estar bem. Sentes alguma dor?

‑ Nem por isso. Pelo menos, em comparação com o que sentiria se a biopsia tivesse sido positiva.

‑ Agora parece realmente mais fácil falar do caso ‑ disse Zack. ‑ Julguei que seria eu a dar‑te a boa noticia, ou pelo menos a recordar‑ta, mas saíste da SO como se nunca tivesses estado a dormir. É absolutamente incrível como, depois de uma anestesia geral, despertaste em tão pouco tempo.

‑ Eu sei. O Jason avisou‑me disso. É maravilhoso. Tirei o apêndice quando tinha dezassete anos e lembro‑me de ter ficado a dormir durante um dia inteiro. O Jack Pearl disse que, se o Jason concordasse, eu podia ir para casa esta tarde.

‑ Isso é óptimo.

‑ Zack, que Deus abençoe todas as mulheres que tenham de passar por esta loucura. Sei que é suposto acreditarmos que existe uma espécie de grande esquema cósmico a comandar a vida, mas cancro... em especial da mama... não permite facilmente a aplicação de nenhuma filosofia. Sinto‑me tão aliviada que só me apetece chorar.

‑ Então, chora à vontade. Na verdade, eu também me sinto muito aliviado. Por isso, se estiveres livre amanhã à noite, poderei aparecer com uma garrafa de vinho e uma caixa de Kleenex.

Os olhos dela escureceram.

‑ Zack, eu...

‑ Continua ‑ pediu‑lhe.

‑ Sinto‑me em dívida por teres ficado comigo da forma como o fizeste ontem à noite...

‑ Vem aí um "mas". Sinto‑o.

‑ Zack, a noite de quarta‑feira foi maravilhosa ‑ murmurou. ‑ Estou a ser muito sincera. Mas não é próprio de mim começar as coisas pelo meio. Compreendes?

‑Acho que sim.

‑ Durante semanas andei tão concentrada no meu maldito caroço, de repente apareces na minha vida e... Zack, preciso de tempo e de um pouco de espaço para arrumar as ideias. Na outra noite disseste que não esperavas nada. Espero que o tenhas dito sinceramente.

Zack engoliu em seco.

‑ Eu também espero ‑ afirmou.

Ela sorriu ligeiramente e apertou‑lhe uma mão.

‑ Obrigada por, pelo menos, tentares. Ouve, estou de folga na próxima semana. Devo à Jen um pouco de felicidade ao lado da própria mãe, e à minha sócia alguns dias de ajuda na galeria. Telefono‑te lá para o meio da semana, está bem?


‑ Meio significa terça‑feira?

‑ Zack, por favor.

‑ Está bem, desculpa. A meio da semana está óptimo. Posso pelo menos levar‑te a casa depois?

‑ Eu ficarei bem. Além disso, nem sequer sei se irei para casa mais tarde. Zack, haverá tempo. Se tiver de acontecer, haverá muito tempo.

A tristeza que viu nos olhos dela ajudou‑o a não pressionar mais.

‑ Claro que sim ‑ afirmou. ‑ Ei, só para saberes, dei de caras com o teu substituto no quarto da Annie.

Suzanne fez um grande sorriso, obviamente satisfeita com a mudança de assunto.

‑ O Don Norman? Já está assoberbado de trabalho?

‑ Nem um pouco. O Norman não parece ser o género de pessoa que se deixa intimidar pelo trabalho... Pelo menos, enquanto houver linhas de orientação e regras a seguir. E parece que o Ultramed lhe forneceu todas as linhas de orientação e regras de que ele possa precisar. Por isso não te preocupes.

‑ Não me preocupo ‑ garantiu ela. ‑ E estou plenamente de acordo. O homem é consciencioso como o raio, mas parece um robô médico. Uma Julia Childs de estetoscópio... estritamente um livro de receitas. A Annie está bem?

Zack anuiu.

‑ Quando fui vê‑la, estava a discutir com o Norman por causa da restrição do sal e por isso penso que esse é um sinal tão bom como qualquer outro. Oh, escuta esta: a meio da discussão, ele enche o peito de ar como tanto gosta de fazer... sabes como é, assim... e diz: "Mistress Douceife, acalme‑se. Quer saiba ou não, sou o director do corpo clínico deste hospital. Sei com certeza o que é melhor para os meus doentes."

‑ Que bela imitação. Excelente. O que foi que a Annie respondeu?

‑ Nada de mais. Apenas lhe deitou um daqueles grandes olhares à maneira da Annie, chamou‑lhe "Tubby" e sugeriu‑lhe que devia perder peso para que fosse um melhor exemplo para os doentes.

‑ Não me digas.

‑ Foi fantástico. O Norman ficou vermelho que nem um tomate e, por momentos, pareceu que ia saltar e apertar o nariz dela. Tendo sido criado por aquela mulher, garanto que foi uma sorte ele não o ter feito. Mesmo depois de um enfarte cardíaco, eu teria apostado na Annie. Bem, ouve, tenho de ir brincar aos médicos. Se mudares de ideias quanto à boleia para casa, manda‑me um bip.

‑ Está bem.

‑ Sabes, ainda não consigo acreditar.

‑ Em quê? ‑ perguntou ela.

‑ Que estejas tão desperta. A enfermeira com quem conversei disse‑me que todos os doentes do Mainwaring saem assim da sala de operações. Tenho de lhe pedir o segredo.

‑ Não há segredos, doutor. Apenas técnica.

Jason Mainwaring, sem máscara nem protecção de cabelo, cumprimentou‑os junto aos pés da cama.


‑ Bem - disse casualmente Zack, tentando não parecer muito admirado com aquela intrusão ‑, seja o que for, é impressionante. Gostaria de acompanhá‑lo numa operação, para aprender em primeira mão como é que se faz.

‑ Credo ‑ brincou Mainwaring ‑, um neurocirurgião que não sabe tudo. O que é que os deuses irão enviar‑nos a seguir?

‑ Espere aí ‑ contra‑atacou Zack, sentindo de novo os pelos a eriçarem‑se devido à arrogância do homem. - Não sei se é assim com todos, ou se só comigo, mas...

‑ Ei, rapaziada ‑ interrompeu Suzanne ‑, lembram‑se de mim? A doente?

Mainwaring sorriu‑lhe, como se Zack já ali não estivesse.

‑ Ainda está tudo a correr bem, minha amiga? ‑ perguntou.

‑ Perfeitamente, Jason. Não imaginas como estou satisfeita.

‑ Ainda bem. Muito bem ‑ disse, arrastando as palavras. Zack, de braços cruzados e tensos, recuou um passo da cama, sem saber se deveria despedir‑se ou simplesmente sair. Era óbvio que Jason Mainwaring, com toda a sua fama, e capacidade cirúrgica, se sentia demasiado ameaçado por ele para baixar as defesas nem que fosse por breves instantes.

A não ser que encontrasse um modo de fazer lembrar ao homem que jogavam na mesma equipa ‑ e a sua experiência com aquele tipo de ego avisou‑o que essa possibilidade era muito pouco provável ‑, os dois pareciam destinados a serem inimigos.

Bem, assim seja, pensou Zack. Tudo se tornaria bem mais fácil se, na verdade, houvesse alguma maneira de se provar que Mainwaring era responsável pelas dificuldades de Guy.

‑ Posso ir para casa esta tarde? ‑ perguntou Suzanne. Mainwaring sorriu, caminhou até à cabeceira do lado oposto ao de Zack e pegou na mão dela.

‑ Se não surgirem grandes hemorragias na incisão ‑ disse ‑, e ainda te sentires como te sentes agora, não vejo nenhum inconveniente. Ouve, tenho uma investigação urgente dentro de alguns minutos e uma vesícula biliar às duas. E se eu passar por aqui depois disso... digamos, às quatro e meia'? Nessa altura, não só te dou alta, como até te dou boleia para casa. Não preciso de desviar muito do meu caminho para lá chegar.

Os olhos de Suzanne desviaram‑se para Zack.

‑ Oh, Jason, não quero...

‑ Não. Está combinado.

- Não acha que dar boleia para casa a doentes pós‑operados é levar o tratamento um pouco longe de mais, doutor?

Zack não conseguia impedir‑se de o censurar. Já não bastava estar irritado com o homem e os seus modos; percebera também agora que tinha ciúmes dele.

Suzanne nunca escondera que ela e o cirurgião tinham uma amizade que por vezes ultrapassava o hospital. Mas também tivera o cuidado de acrescentar que Mainwaring tinha mulher e filhos a viverem algures no Sul, os quais, por qualquer razão, ainda não tinham podido juntar‑se a ele em Nova Inglaterra.

Furioso, Zack fez lembrar a si mesmo que nunca havia uma desculpa válida para o ciúme. Contudo, ciúme era o que sentia. A sua reacção também lhe fez lembrar que era muito mais agradável ameaçar do que sentir‑se ameaçado.


‑ Bem ‑ disse, aclarando a garganta, mas ainda incapaz de afastar totalmente a mágoa da voz ‑, vocês os dois parecem ter tudo sob controlo e por isso eu vou‑me embora. Vejo‑te mais tarde, Suze. Bom trabalho, Mainwaring.

Antes de ambos poderem responder, uma enfermeira, a quem Zack reconheceu como sendo da equipa das urgências, dirigiu‑se apressada a Mainwaring.

‑ Doutor ‑ disse, ofegante ‑, há problemas na sala das urgências. É o doutor Beaulieu. Ele... ‑ Olhou para Zack e para Suzaune e parou a meio da frase, sem saber o que poderia dizer mais. ‑ ... Hum... Mister Iverson pede para descer imediatamente, se puder.

‑ Claro, Sandy ‑ respondeu Mainwaring, com uma calma cortês. ‑ Diga a Mister Iverson que desço já.

‑ Obrigada, doutor. Olá, doutor Iverson. Olá, Suzanne. Como está?

‑ Estou bem, Sandy, obrigada ‑ respondeu Suzanne. - Está tudo bem.

‑ É maravilhoso. Vou levar a boa notícia a todos lá de baixo.

Ela desapareceu.

‑ Então ‑ disse Mainwaring ‑, vejo‑te às quatro e meia, está bem?

Apertou pela última vez a mão de Suzanne e saiu da sala de recuperação.

‑ Também vais lá abaixo? ‑ perguntou ela a Zack.

‑Hum, hum.

‑ Conta‑me o que se passa, está bem?

‑ Claro.

Não tentou tocar nela.

‑ Zack? ‑ chamou suavemente.

‑ Sim?

‑ Lamento não ter controlado melhor a situação. Por vezes, o Jason é um tanto dominador. Apanhou‑me desprevenida. Mas é um tipo muito decente. Não deixes que ele te incomode, está bem?

‑ Claro.

‑ Falaremos mais para o fim da semana?

‑ Certo.

Virou‑se para se retirar.

‑ Espero que o problema com o Guy não seja nada de importante ‑ declarou ela.

‑ Eu também ‑ murmurou ele.

Porém, ao dirigir‑se à ala das urgências, sem se sentir minimamente aliviado, Zack não conseguia afastar um terrível pressentimento.

 

Nada do que Zack imaginara sobre aquilo que se passava na ala das urgêncías o preparou para a realidade.

Havia um rebuliço à beira do caos. Estavam presentes os três homens da segurança do hospital, o director da enfermaria, Mainwaring, Donald Norman, o director do corpo clínico, e meia dúzia de doentes envergonhados e respectivos familiares. O epicentro da confúsão estava por trás da porta fechada do quarto de repouso dos familiares, onde breves períodos de silêncio profundo eram quebrados por explosões de fúria facilmente audíveis no inglês e francês de Guy Beaulieu.

‑ Maldito sejas, Frank, sai da minha frente antes que te bata ‑ foram as primeiras palavras que Zack ouviu. ‑ Essa mulher é minha doente e tenho todo o direito de tratar dela. Agora, sai do meu caminho!


‑ Guy, sente‑se e acalme‑se, ou juro que mando os guardas amarrarem‑no à cadeira. Não permito que faça cenas como esta no meu hospital.

‑ Teu hospital! Se o hospital é teu, senhor todo‑poderoso, então porque não vês que tudo isto é uma conspiração para correrem comigo? Também fazes parte, não fazes? É por isso. És um deles!

‑ Raios, Guy, cale‑se. Há doentes lá fora.

‑ Sei que há. Meus doentes! Agora, deixa‑me passar!

Zack dirigiu‑se ao local onde Jason Mainwaring se encontrava, encostado a uma parede próxima do quarto de repouso.

‑ O que se passa? ‑ perguntou Zack.

Mainwaring olhou para ele e depois voltou a olhar em direcção à fonte da confúsão.

‑ O velho charlatão está louco de raiva, é o que se passa ‑ respondeu friamente. ‑ Há já uns tempos que anda desequilibrado, mas pelo menos tem tido o bom senso e a inteligência de limitar as explosões e a paranóia às reuniões do grupo clínico. Isto é vergonhoso.

‑ Sabe o que aconteceu?

A resposta de Mainwaring foi cortada por outra explosão de Beaulieu, logo seguida de outra, mais comedida, da parte de Frank.

Momentos mais tarde, a porta do quarto de repouso abriu‑se e Frank saiu. Parecia estar um pouco mais perturbado do que o normal, mas continuava impecavelmente vestido e sem um único cabelo fora do lugar.

‑ Fique com ele, Henry ‑ disse a um dos guardas da segurança, um homem grande e sem pescoço, de pele cheia de cicatrizes e corte de cabelo à escovinha, que olhou para Zack como um mamute. ‑ Se voltar a gritar, prenda‑o à cadeira e coloque‑lhe um pano na boca.

‑ Mister Iverson, não magoo ninguém a não ser que me magoem. Disse‑lhes isso quando comecei a trabalhar aqui.

‑ Ouça, Henry, se quiser continuar a trabalhar aqui, terá de fazer o que digo e manter esse louco em silêncio até o chefe Cliiford e os seus homens aqui chegarem. Agora, entre e faça o seu trabalho.

Abanando a cabeça maciça, o guarda entrou no quarto de repouso e fechou a porta atrás de si. Não houve gritos de protesto de Beaulieu.

Frank olhou para os cubiculos cheios de doentes.

‑ Meu Deus ‑ murmurou. Ao reparar em Zack e em Mainwaring, aproximou‑se deles, abanando a cabeça. ‑ Isto é de loucos ‑ disse em voz baixa. ‑ E sabem que mais? A culpa é minha. Já devia ter agido de alguma maneira há muito tempo, quando a loucura dele começou. Bem, Zack, se se pode tirar algo de bom disto, é o facto de pelo menos teres conseguido vê‑lo em acção com os teus próprios olhos.

‑ O que se passa exactamente? ‑ perguntou Zack. ‑

O que foi que o enfureceu?

Frank deu uma gargalhada sardónica.

‑ Estou sempre a dizer‑te, irmão, que o Guy Beaulieu já está enfurecido há muito tempo. Isto é só um exemplo do ponto que atingiu. Vês aquela mulher ali na cama cinco? Bem, ela tem um problema intestinal qualquer.


‑ Provavelmente um divertículo rebentado ‑ interrompeu Mainwaring.

‑ Bem ‑ continuou Frank ‑, em tempos, o Beaulieu operou‑a. E penso que também operou o marido. Contudo, desta vez parece que a mulher e o seu médico conversaram e decidiram que talvez fosse melhor ser o Jason a fazer a operação.

‑ Examinei‑a pouco antes de operar a Suzanne ‑ explicou Mainwaring ‑, e está marcada a seguir para a sala de operações.

‑ Entretanto, o Beaulieu, lunático como é, percorre a ala das urgências, vê a mulher e, sem dizer uma palavra a ninguém, começa a examiná‑la e a dar ordens às enfermeiras. Desnecessário será dizer que a pobre mulher, que para começar não é de compreensão muito rápida, ficou totalmente confúsa e absolutamente aterrorizada. ‑ Frank olhou impaciente para a área das ambulâncias. ‑ Onde raio estão os malditos policias? Quando não são precisos, estão por todo o lado.

‑ Frank, não é preciso a Polícia ‑ disse Zack. ‑ Deixa‑me conversar com ele. Não vês que isso pode ser aborrecido e humilhante para ele? Eu levo‑o para fora do hospital e ele vai acalmar‑se.

‑ Seja como for, já está fora do hospital ‑ disse Frank, asperamente. ‑ Para sempre.

‑O quê?

‑ Este foi o último ataque do raio do homem. Já lhe falei da última série de queixas e mencionei também a carta da Maureen Banas. Suspendi‑lhe os privilégios.

Zack sentiu‑se entristecer.

‑ Frank, foi nessa altura que ele ficou enfurecido?

‑ Que diferença faz? ‑ perguntou Frank. ‑ Loucura é loucura. Escuta‑o só.

No interior do quarto de repouso, Beaulieu recomeçou a gritar.

‑ Seu gorila, solta‑me! Tira as patas de cima de mim, maldito! Tira as patas... ‑ Subitamente, as palavras do cirurgião foram interrompidas.

Sem esperar pela autorização de Frank, Zack avançou para o quarto de repouso e abriu a porta. O guarda, Henry, tinha uma fita vermelha na mão, preparando‑se para utilizá‑la como mordaça. Beaulieu estava sentado, com as mãos presas aos braços da cadeira. Olhava aterrorizado, não para o seu torturador, mas para um ponto abstracto da parede.

O lado direito do rosto começava a descair.

‑ Oh, meu Deus ‑ disse Zack, enquanto se ajoelhava junto ao homem. ‑ Guy, consegue falar?

Beaulieu virou‑se lentamente para ele, os olhos vidrados e rasos de lágrimas.

‑ Dói‑me... a cabeça ‑ gemeu.

As palavras sairam com dificuldade e quase imperceptíveis. A língua parecia enrolada num canto da boca.

‑ Você bateu‑lhe? ‑ perguntou Zack ao guarda.

‑ Nem sequer lhe toquei. Juro que não.

‑ Abra isto ‑ ordenou Zack, sacudindo as algemas. O homem hesitou. ‑ Raios, faça o que lhe digo!

‑ Faça, Henry ‑ disse Frank, da porta. ‑ O que se passa, Zack?

Zack virou‑se lentamente e olhou para o irmão.

‑ Está a ter um ataque, Frank ‑ disse em voz rouca. - É o que se passa. Uma hemorragia cerebral, julgo. Preciso de


uma maca, de uma enfermeira e de um sistema intravenoso.

E quero que preparem a TAC. ‑ Voltou‑se para o guarda. - Responda‑me outra vez: tocou na cabeça deste homem? - A voz soou gelada, os olhos a lançarem chamas.

‑ Não toquei em mais nada senão nos pulsos ‑ defendeu‑se o homem. ‑ Juro. Eu não magoo ninguém, a não ser que me magoem.

‑ Abra isto. Rápido!

O guarda cumpriu a ordem e, instantaneamente, como se fosse feito de trapo, o braço direito de Guy Beaulieu escorregou da cadeira e ficou pendurado, a balançar. Zack deitou‑o no chão e colocou‑lhe a cabeça no seu colo.

‑ Preciso da maca, por favor ‑ disse, mal conseguindo conter a angústia. Debruçou‑se sobre Beaulieu: ‑ Vá com calma, velho amigo ‑, sussurrou. ‑ Vá com calma.

Beaulieu abriu os olhos e, com horror e desespero, Zack notou que a pupila do olho direito já tinha começado a dilatar.

‑ Pronto, Guy ‑ sussurrou, afagando a testa e a face do homem mais velho ‑, a maca estará aqui num segundo. Aguente um pouco. Vai ficar bom.

Subitamente, durante alguns segundos gelados, os olhos de Beaulieu deixaram de se mover de um lado para o outro e focaram o rosto de Zack.

- Não. eu.. não ‑ disse, formando cada palavra com um esforço doloroso. ‑ Deus... me... ajude... Eu... não...

lentamente, fechou os olhos.

‑ Malditos sejam ‑ sibilou Zack, olhando primeiro para o guarda e depois para Frank, Mainwaring e Don Norman, que se juntaram à porta. ‑ Malditos sejam todos vocês.


 

Ao longo dos meses, desde que os ataques do filho haviam tido inicio, a forma de Barbara Nelrus cuidar da casa mudara radicalmente. Enquanto anteriormente era meticulosa até quase ao ponto da obsessão, agora mostrava‑se quase desmazelada. Nunca se sentia bem fora do alcance do rapaz por mais de cinco ou dez minutos de cada vez.

Com amas que não gostavam de ficar sozinhas com Toby e o marido a entregar‑se cada vez mais ao trabalho, o aparelho de televisão tornou‑se o seu aliado mais próximo. Só quando Toby se entretinha com os desenhos animados de sábado, ou com algum programa do canal infantil da televisão por cabo, é que se atrevia a passar mais tempo a cuidar da roupa ou a preparar as refeições.

Já passava do meio da tarde, e Barbara nem sequer tinha começado a pensar no jantar. Durante todo o dia, Toby tinha estado ainda mais inquieto e distante do que era habitual. Chegou a ler‑lhe uma história e até o levou consigo ao supermercado. Acompanhou‑o num passeio no carrinho a pedais e empurrou‑o no balouço de pneu que havia no quintal.

Agora, enquanto olhava para a pilha de louça suja que havia no lava‑louça e pensava no monte de roupa para passar a ferro que andava a evitar, fazia os possíveis para não sucumbir. Através da porta da sala de estar via o filho, deitado de costas sobre o tapete, a olhar para o tecto.

‑ Toby ‑ chamou ‑, mais cinco minutos e começa o Robin. Falhámos esta manhã, enquanto estávamos no parque. Porque não vais buscar o teu ursinho, enquanto procuro o canal?

O facto de o rapaz não reagir era preocupante. Quando Toby se encontrava numa fase pior e mais distante, a ideia de ver Robin, o Bom, normalmente causava uma reacção qualquer.

O actor que fazia de Robin era gordo de mais para o papel e

tão benevolente com as crianças, oco e monótono, como nunca

vira ninguém, mas o seu espectáculo de meia hora, que ia para o ar três vezes ao dia, era vivo e animado.

- Pronto, querido - disse ‑, então fica aí. Vou lavar a louça e depois ponho o Robin.

Olhando quase continuamente por cima do ombro, introduziu a mão no lava‑louça e partiu uma unha tão rente que sangrou.

- Raios - disse, chupando a ferida. - Raios, raios me partam.

Deixou correr água fria sobre o dedo. Então, mais por frustração do que por dor, desatou a chorar.

Pegou no telefone, marcou o número da fábrica e mandou chamar o marido, que estava numa reunião.

‑ Bob, olá, sou eu - disse.

‑ Eu sei. Ele voltou a ter uma crise?

‑ Não. Até agora não aconteceu nada. Mas não está a reagir normalmente.

- Ele nunca reage normalmente. Querida, desculpa não poder falar agora, mas estou no meio de uma reunião importante. Aconteceu alguma coisa especial?

Barbara enrolou o dedo a sangrar numa toalha.

- esperava que pudesses vir para casa mais cedo. Apetecia‑me fazer um bom jantar e estou preocupada com o Toby.


‑ Impossível - respondeu rapidamente Bob Nelrus. - Querida, acabaste de dizer que ele está bem. Os tipos de Chicago estão aqui. Tenho muitos assuntos a tratar com eles. Na verdade, ia pedir à Sharon para te ligar a avisar que chego tarde.

‑ Não podes adiar por um dia? Só desta vez?

‑ Amorzinho, sabes que, se pudesse, eu ia. Mas eles só ficam cá um dia.

‑ Por favor? ‑ murmurou, procurando um penso no armário.

‑O quê?

‑ Nada. Nada. A que horas pensas chegar?

‑ Provavelmente, muito tarde. Porque é que não levas o Toby a comer uma piza? Eu como aqui.

‑ Bob, não há maneira de poderes...

‑ Barbie, por favor. Não me dificultes ainda mais as coisas. Irei para casa assim que puder, está bem?... Está bem?... Merda, Barb, não faças isso...

lentamente, Barbara Nelrus desligou o telefone. Depois, esperou que o marido voltasse a ligar. Passou um minuto e depois outro. Por fim, colocou um penso em volta do dedo e dirigiu‑se à sala de estar.

‑ Vamos lá, meu menino ‑ disse em voz rouca ‑, está na hora do Robin.

 

Toby Nelrus deixou a mãe conduzi‑lo para a sala da televisão e depois sentou‑se no chão, junto ao sofá. Queria que ela fosse buscar o seu ursinho, mas as palavras do pedido não saíam.

‑ Pronto, Tobe ‑ disse, ligando a televisão. ‑ Estarei na cozinha. Chama‑me, se precisares.

Fica, pensou. Por favor, fica comigo.

O desenho animado que apresentava o programa de Robin, o Bom apareceu no ecrã, juntamente com a voz tão familiar que anunciou.

‑ Ei, meninos e meninas, peguem nos vossos arcos e nas vossas flechas. Está na hora de voltar a viajar para aqueles tempos muito, muito longinquos... para Sherwood Forest, junto àquele amigo dos pobres, Robin, o Bom.

Toby ficou a ver, calado, enquanto a mãe ajustava a cor e saía da sala. Pouco depois, regressou e pousou ao seu lado o ursinho esfarrapado.

‑ Diverte‑te ‑ disse, afagando‑lhe a cabeça. ‑ Estarei na cozinha.

‑ Obrigado ‑ murmurou Toby, mas ela já tinha desaparecido.

Olhou para a cozinha durante algum tempo e depois prendeu o ursinho entre as pernas e concentrou‑se na televisão. Robin, o Bom, vestindo um fato verde e um chapéu com uma pena, dançava e cantava, enquanto Alan‑a‑Dale tocava viola.

- Rapazes e raparigas, sejam bem‑vindos. Mas não tragam diamantes nem pérolas, pois tiro dos ricos para dar aos pobres. Depois, volto a sair para procurar mais... Que maravilha, meninos e meninas. Bem‑vindos a Sher'vood, onde aprender é sempre divertido, muito divertido. Hoje vamos fazer uns desenhos com o João Pequeno e andar de camelo com Lady Mariana. Mas primeiro, aqui está o frei Tuck. Diz‑nos, por favor, bom frade, que letra vamos aprender hoje?


Um homem gordo de batina castanha e careca no topo da cabeça, saltou para o ecrã.

- Olá, rapazes e raparigas - disse. ‑ Olá, Robin. Hoje, vamos aprender tudo sobre uma das minhas letras favoritas. É a letra que inicia muitas das nossas palavras favoritas, tais como caramelo e conto de fadas. É a terceira letra do alfabeto e chama‑se C. Então, aqui estão Robin e Alan para vos falarem dela.

Robin, o Bom atravessou o ecrã a balançar numa corda com folhas a crescerem dela. Depois, deixou‑se cair no chão quando Alan‑a‑Dale começou a tocar.

‑ Alan, meu amor, fazes mal ‑ cantou Robin em abandonar‑me tão descortesmente. Porque hoje canto esta canção sobre a nossa amiga, a letra C...

Toby Nelrus esfregou os olhos quando a cor da televisão começou a tornar‑se cada vez mais intensa.

- C, C, é toda a nossa alegria. C de cenoura, de carro e de cão. C, C inicia clube e céu. O que pensam disso?...

Robin, o Bom dançou em volta de uma árvore.

Sentado no chão da sala, o corpo de Toby Nelrus começou a ficar rigido. Os ombros começaram a tremer. O som da voz de Robin tornou‑se mais suave e a música mais alta. Por cima, as luzes começaram a passar. Surgiu um rosto à vista.

- Há o C de cometa e o C de caranguejo; e o C à frente do casaco que vestimos...

- Agora, Toby - disse o rosto - não há qualquer problema. Vais dormir. Descansa. Descansa e conta para trás desde cem...

Robin, o Bom cantava e saltitava no ecrã de televisão, enquanto Toby, numa voz suave e trémula, começava a contar.

Ele estava apoiado num joelho a cantarolar as últimas linhas da balada, quando Toby começou a gritar.


 

Foi um funeral magnífico, como todos concordaram mais tarde. Só havia lugares de pé. A multidão, desfalecendo sob o calor da brutalmente húmida tarde de Verão, encheu os bancos da Igreja de Sta. Ana e transbordou até ao vestíbulo. Os padres que conduziram a missa não só eram da Igreja de Sta. Ana, predominantemente franco‑canadiana, como também da paróquia de S. Sebastião, no outro lado da cidade.

- O Guy Beaulieu não era filho de Sterling - declarou monsenhor Tresche no seu louvor. - Era um dos seus pais... um cavalheiro, cujas mãos habilidosas e dedicadas tocaram em todos nós ao longo dos anos...

Nos três dias que se seguiram à morte de Beaulieu, Zack visitou várias vezes a viúva, Clothilde, e a filha, Marie Fontaine. Apesar de tudo, ficou surpreendido quando Marie lhe pediu para carregar o caixão. Embora tivesse preferido manter‑se menos intimamente envolvido no funeral de Guy do que se envolvera na sua morte, aceitar o pedido delas era o mínimo que podia fazer.

Foi devido à sua insistência desesperada que Marie e a mãe puseram de lado os preconceitos e concordaram com a autópsia.

- um homem de visão e convicção. Um homem humilde, que enfrentou inúmeras dificuldades pessoais com coragem e dignidade...

O padre continuou, mas Zack, sentado na primeira fila juntamente com os outros sete carregadores do caixão, ouviu apenas algumas referências. Como na maior parte das vezes, o pensamento estava sempre longe, na cena de agonia na sala das urgências e na igualmente desagradável experiência de assistir à autópsia.

Tal como Zack suspeitara, o homem morrera de uma grande hemorragia cerebral. Contudo, havia uma surpresa maior. As artérias do cérebro de Beaulieu, assim como as de todo o seu corpo, pareciam as de um homem dezenas de anos mais novo. O ataque mortal fora o resultado não de uma fenda num vaso endurecido, mas do rompimento de um pequeno aneurisma

um defeito do tamanho de uma ervilha numa artéria que, quase de certeza, já existia há muitos anos sem produzir qualquer sintoma.

Zack sabia que a causa do rompimento fatal só podia ter sido uma subida repentina e acentuada da tensão arterial. Esse pensamento fez com que sentisse o gosto amargo na boca, tal como acontecera várias vezes desde a autópsia. Os dois anos de dificuldades que Guy Beaulieu passara no Ultramed‑Davis, reais ou inventadas, tinham carregado a arma da sua destruição.

O humilhante conflito da ala das urgências com Mainwaring, Frank e sobretudo o guarda da segurança, premira o gatilho.

Claro que Frank viu as coisas de um modo diferente.

Emitiu declarações de comoção e consternação por parte do hospital e da Ultramed e enviou um cesto de fruta à viúva de Guy. Mas, nos poucos minutos que ficou sozinho com Zack, tornou claro que considerava a morte de Beaulieu nada mais do que um acto da Providência.


Discretamente, Zack olhou em redor da capela. Suzanne, embora trajando um vestido de seda azul e sem maquilhagem, destacava‑se no meio das duas filas de médicos do Ultramed‑Davis, que não incluía Donald Norrnan, Jack Pearl ou Jason Mainwaring. Vários bancos atrás dela, entre o juiz e Cinnie, encontrava‑se Frank, resplandecente no fato de Verão bege e, como sempre, parecendo calmo e seguro de si. Encontravam‑se presentes o presidente da Câmara Municipal, assim como várias outras personalidades, incluindo o congressista da região.

Guy Beaulieu tinha um dia descrito a Zack a sua própria pessoa como "um simples e velho canadiano de uma pequena cidade, suficientemente afortunado por ter nascido de pais que não o deixaram abandonar os estudos para trabalhar nas fábricas".

Pelo menos, foi agradável ver que tanta gente sabia como ele realmente era.

Mais tarde, Zack e os outros carregadores atravessaram a

nave da igreja com o caixão de Guy; o seu olhar e o de Frank cruzaram‑se por breves instantes. Sentia‑se tão distante dele... tão completamente afastado.

Teriam realmente crescido na mesma casa e brincado no mesmo quintal ano após ano? Teriam realmente vestido as mesmas roupas, partilhado tantos sonhos de infância? Algum dia teriam sido realmente amigos leais?

A esperança de restabelecer a amizade com o irmão pareceu subitamente ingénua. Talvez conseguissem fazer as coisas, tolerar‑se um ao outro ou até mesmo trabalhar juntos. Passariam juntos o tempo estéril gasto no desempenho das funções familiares. Mas nunca seriam íntimos.

O carro fúnebre estava coberto de flores. Zack, sentindo‑se arrasado pela tristeza e futilidade de tudo aquilo, ajudou a colocar o pesado caixão no meio delas.

‑ Com licença, doutor - disse uma voz atrás de si, quando se afastou do caixão.             - Posso falar consigo?

Zack virou‑se e ficou surpreendido ao ver diante de si Henry Flowers, o enorme guarda da segurança, que parecia pouco à vontade no fato escuro e gravata preta. Alguns passos atrás dele, encontrava‑se uma jovem simples e baixa, de vestido de renda branca, quase de certeza a sua mulher.

‑ Sim? - perguntou Zack.

O guarda parecia atrapalhado.

‑E.... Bom... quero que saiba que lamento muito o que aconteceu ao doutor Beaulieu - disse. - Uma vez, ele tratou da mãe da minha mulher, tratou‑a muito bem, e nunca me fez nada de mal... Doutor Iverson, nunca lhe toquei, a não ser para lhe prender os pulsos. Juro. Eu...

A voz esmoreceu. Só passado algum tempo é que Zack percebeu que o homem não sabia o resultado da autópsia e, se soubesse, não o compreendia.

Zack estendeu o braço e apoiou a mão no ombro do guarda. - Você não fez nada que tivesse causado a morte do Beaulieu, Henry - disse em voz suficientemente alta para que a mulher ouvisse. - Ele tinha um aneurisma na cabeça... uma espécie de bomba‑relógio... e o que aconteceu foi que explodiu quando você estava perto dele.

O alívio espalhou‑se pelo rosto do guarda.


- Doutor, doutor ‑ disse, apertando a mão de Zack como se fosse o cabo do macaco de um reboque de tractor. - Oh, meu Deus, muito obrigado. Se precisar de alguma coisa, é só pedir. Seja o que for.

Ele afastou‑se, pegou no braço da sua pequena mulher e começaram a caminhar.

Zack ficou a olhar até o casal desproporcionado desaparecer na esquina. Depois, deu meia volta e dirigiu‑se à carrinha, sentindo‑se substancialmente menos soturno. Pelo menos, entre os que haviam partilhado aqueles terríveis momentos no quarto de repouso, havia mais alguém que se sentia afectado por eles.

 

Segundo o juiz, o cortejo até ao Cemitério de Todos os Santos tivera uma dimensão como Sterling jamais vira.

Depois da missa, Zack acompanhou Frank e os pais até ao local à sombra, onde Marie Fontaine e a mãe recebiam as últimas condolências.

Marie, que parecia ter envelhecido um ano apenas nos três dias do seu regresso a casa, aceitou um abraço de Cinnie e, do juiz, um beijo na face. Contudo, antes de se afastar, mal tocou na mão estendida de Frank.

‑ Obrigada por teres vindo ‑ disse, friamente.

‑ O teu pai significou muito para nós ‑ afirmou Frank, calmamente.

Ela examinou‑o por momentos e depois pronunciou com simplicidade:

‑ É bom saber isso.

Zack olhou para os pais, mas não viu nada que sugerisse que tivessem reparado na tensão da breve troca de palavras. Marie voltou‑se para ele, pegou‑lhe nas mãos e deu‑lhe um beijo junto ao ouvido.

‑ Por favor, vai até à nossa limusina ‑ segredou.

Imperceptivelmente, Zack anuiu.

Meia hora mais tarde, Zack sentou‑se à frente de Marie Fontaine e Clothilde Beaulieu, no banco de trás do Cadillac mortuário, preto e comprido. As janelas de vidro furrado, incluindo a divisória que os separava do condutor, estavam fechadas, mas o sistema de ar condicionado da limusina mantinha afastado o calor da tarde.

O marido de Marie, um desolado homem de barba, cujo aspecto calmo fazia recordar a Zack um pouco o seu pai, ficou de fora.

‑ Queremos que saibas que estamos muito gratas por tudo o que fizeste ‑ começou Marie.

‑ O teu pai foi sempre muito bom para mim.

‑ Ele era bom para todos ‑ acrescentou. ‑ É por isso que é difícil compreender por que razão ninguém o defendeu quando estava a ser assassinado.

O impulso de Zack foi corrigi‑la, mas a intensidade dos olhos dela aconselharam‑no a não o fazer.

‑ Incomoda‑me bastante pensar que alguém possa ter decidido deliberadamente acabar com ele ‑ comentou Zack.

‑ Alguém não, meu amigo. O Ultramed.

‑O quê?

‑ Zack, sabemos que o meu pai te fez confidências. Sabemos que, apesar de o teu irmão dirigir o hospital, ele achou que lhe darias o beneficio da dúvida. Ele estava correcto?

‑ Disse‑lhe que ouviria e respeitaria as suas confidências, se é a isso que te referes.


Marie olhou para a mãe que, com a cabeça, aprovou a resposta de Zack.

‑ É exactamente a isso que nos referimos ‑ continuou. - Há muitos anos, o meu pai opôs‑se à venda do hospital à Ultramed. Ele não aceitava que se desse a uma corporação de fora uma posição tão segura nesta comunidade... pelo menos, com um envolvimento ou controlo da comunidade tão limitados. Se não fosse pela influência do teu pai, pensamos que ele teria conseguido bloqueá‑la. Mas, isso agora já não tem importância. Sabias que, pouco depois de tomar posse no hospital, a Ultramed tentou processar o meu pai para o despedir?

‑ Não ‑ respondeu Zack. ‑ Não sabia.

‑ Ele preparava‑se para os processar por sua vez, quando

eles desistiram. Segundo o meu pai, assustaram‑se com uma

decisão do tribunal na Florida, que acabou por custar milhões

a uma das outras corporações, por terem tentado fazer o mesmo

a um patologista que trabalhava no hospital comprado por eles.

"Zack, a Ultramed exige uma lealdade cega a todos os que trabalham para eles... a aceitação total das suas politicas. O meu pai combatia‑os em tudo. Pouco menos de um ano após desistirem da queixa contra ele, começaram os boatos. E alguns meses depois disso, aparece em cena um novo e petulante cirurgião, apontando defeitos ao trabalho do meu pai.

‑ Referes‑te ao Jason Mainwaring ‑ disse Zack.

‑ Exactamente.

‑ Tens alguma prova de que a Ultramed engendrou tudo isto? ‑ perguntou.

‑ Só isto. - Vasculhou por baixo do banco, retirou um grosso sobrescrito de papel‑manilha e entregou‑o a Zack. - Ontem à noite, a minha mãe e eu conversámos sobre isto. O meu pai gostava de ti e confiava em ti. E, francamente, não podemos contar com a ajuda de mais ninguém. Está aí toda a informação que ele conseguiu reunir na sua batalha contra a Ultramed. Não prova que foram os responsáveis pelo assassínio, mas mostra qualquer coisa sobre a forma como actuam... algumas das coisas que são capazes de fazer para obter lucros.

‑ O que devo fazer com isto?

Pela primeira vez, a viúva de Beaulieu falou.

‑ Doutor Iverson ‑ disse, num sotaque suave, virtualmente idêntico ao de Guy ‑, a esperança do meu marido era que a informação contida nesse sobrescrito convencesse o corpo de directores, incluindo o teu pai, a exercer a sua opção e a ordenar a reaquisição do hospital à Ultramed.

Zack olhou para ela, incrédulo.

- Místress Beaulieu, não estará a esquecer‑se que trabalho para a Ultramed? São eles que pagam o meu salário, as despesas do meu consultório, o seguro, tudo. Para não dizer que o administrador do hospital é o meu irmão. O que estão a pedir‑me para fazer não é muito justo.

‑ O meu marido está morto. Isso é justo?

Zack viu a resposta surgir nos olhos da mulher e depois desaparecer.

‑ Só te pedimos ‑ disse, pacientemente, Clothilde Beaulieu ‑ para leres o conteúdo desse sobrescrito e utilizá‑lo, ou não, como achares melhor. Garanto que não haverá ressentimentos se nos devolveres o material depois de o teres lido... ou até mesmo agora.


‑ A sério, Zachary ‑ disse Marie. ‑ É assim que pensamos.

Durante algum tempo, apenas houve silêncio. Zack olhou primeiro para uma mulher, depois para a outra e, por último, para o sobrescrito sobre o colo.

Um empecilho para a causa de qualquer um.

Teria sido a reacção de Frank contra ele tão forte e raivosa por estar muito próximo da verdade? Suzanne... as montanhas... o Juiz... a sua carreira. Qualquer conflito com a Ultramed ou com Frank estava quase de certeza destinado a ser uma causa perdida para si. E estavam coisas em jogo, muitas coisas mesmo.

O sobrescrito era uma caixa de Pandora. Uma bomba que podia ser nada mais que uma granada falhada, ou nada menos que uma explosão mortal.

Um empecilho para a causa de qualquer um.

lenta e deliberadamente, Zack colocou debaixo do braço a herança do cirurgião defunto. Em seguida, estendeu o braço e apertou a mão de ambas as mulheres.

‑ Mais tarde direi alguma coisa - disse.

 

Frank, Frank, ele é o nosso homem. Se ele não conseguir, mais ninguém consegue...

Ao longo das duas décadas, desde que concluíra o curso do liceu em Sterling, não passara um dia em que Frank Iverson não tivesse ouvido na mente o eco melodioso. Os gritos de aplauso das raparigas que dançavam nas linhas laterais, cada uma na expectativa de que Frank passasse pelo menos alguns minutos com elas na celebração da vitória, depois do jogo. Tribunas de honra repletas de pais, professores, alunos e jornalistas, todos a gritarem o seu nome, todos a implorarem‑lhe mais uma passagem, mais uma pontuação. O juiz e a mãe, aceitando com orgulho as felicitações daqueles que os rodeavam.

Ao conduzir pelas ruas de Sterling em direcção ao hospital, Frank ouviu os vivas tão claramente como se estivesse na pista a olhar para a fila dos que aplaudiam do outro lado, sabendo que dentro de alguns minutos a sua actuação iria transformá‑los em ruídos ensurdecedores.

Frank, Frank, ele é o nosso homem...

Tinham sido dias de glória para ele; dias de força e independência. Sabia bem perceber que, depois de todos os anos dificeis e humilhantes que se haviam seguido, depois de todas as oportunidades desagradáveis e os malditos discursos protectores e degradantes do pai, um regresso à estatura e influência dessa época, estava a um passo. Só faltavam duas semanas. No máximo três.

Tinha desempenhado as suas funções, e bem. Agora, tudo o que precisava era de paciência... paciência e vigilância constante. Três anos antes, cometera o erro da complacência, de confiar, e pagara muito caro. Desta vez, não repetiria o fracasso. Nada seria tomado como garantido. Nada. Além do mais, disse para consigo enquanto fazia o percurso até ao Ultramed‑Davis, havia bastantes razões para manter os olhos abertos e alerta. Um milhão de razões, para ser exacto.

Se ele não conseguir, ninguém mais consegue.


 

‑ Helene, não sei como dizer‑te isto, mas penso que chegou a hora de mudarmos a fabulosa paisagem florestal de Mister Gerard Morris da janela para um local mais atrás... como, por exemplo, o armazém.

Suzanne colocou a enorme pintura a óleo de Morris sobre um cavalete e recuou alguns passos, esperando que a alteração da luz e da perspectiva pudessem desfazer parte do que sentia pelo homem e sua obra.

‑ O homem é uma lenda ‑ gritou dos fundos Helene Meyer

‑ Na sua própria mente, é.

‑ Suzanne, quando é que abres os olhos para a realidade e percebes que os turistas não vêm até à zona norte de New Hampshire para comprar arte abstracta? Eles querem patos selvagens

‑ A pintura segundo os números ‑ murmurou Suzanne, lembrando‑se da reprimenda que recebera do pomposo artista por ter reduzido o preço de uma das suas "obras‑primas" em cinquenta dólares.

‑ O que foi que disseste?

‑ Nada. Nada.

Eram quase três horas da tarde. Suzanne e a sócia andavam ininterruptamente a fazer o inventário desde que ela regressara do flineral de Guy. Lá fora, o abafado sol da tarde filtrado através da fila de densos e centenários bordos, transformava a estrada principal numa suave obra de arte que superava de longe tudo o que Gerard Morris tinha produzido.

Compenetrar‑se no inventário e passar algum tempo com Helene tinha ajudado a afastar parte da melancolia que Suzanne andava a sentir, mas a recordação de Guy Beaulieu manteve o seu estado de espírito sombrio. Embora não o tivesse conhecido fora do hospital, partilhara com ele os cuidados de muitos doentes, até lhe terem reduzido as funções, e respeitara‑o bastante, quer como pessoa, quer como médico.

Contudo, as histórias que circulavam sobre os últimos tempos dele eram desconcertantes e, gradualmente, Suzanne acabou por concordar com os que acreditavam que seria melhor para todos se Guy se reformasse. Agora, ao reflectir sobre a opinião de Zack de que o idoso cirurgião parecia bastante capaz e mentalmente lúcido e ao perceber que o homem falecera ao defender‑se a si próprio, começava a pensar de maneira diferente.

Primeiro Guy Beaulieu e depois o velho lenhador Chris Gow: em ambos os casos ela recuara, ao tomar o partido da Ultramed com o seu silêncio. É verdade que a corporação a tinha tirado de uma situação que parecia não ter solução e dado uma oportunidade. Só por isso devia a sua lealdade à Ultramed. Contudo, sabia que tinha havido uma época em que se considerara liberal, uma campeã das vítimas da injustiça social. Houvera uma época em que teria feito tudo pelos dois homens, tal como Zack fizera. Era difícil acreditar que tivesse mudado tanto em tão poucos anos.

Enquanto erguia do chão a pintura de Morris e voltava a colocá‑la na janela, Suzanne amaldiçoou Paul Cole em silêncio pelo caos que causara na sua vida.

‑ Então?


Helene Meyer, de calças de ganga e bata com motivos azuis, saiu do armazém com um par de jarras de cerâmica, aceites à consignação, de um oleiro índio dos Miquemaques. Era uma mulher baixa, morena e enérgica, de cabelo curto e peso a mais, o suficiente para encher as faces e os braços.

‑ Então, o quê? ‑ perguntou Suzanne.

‑ Onde estão os patos do Morris?

Com a cabeça, Suzanne indicou a janela.

‑ Muito bem. Estás a aprender, garota. Estás a aprender.

A loja e galeria denominada White Mountam Olde Curiosity ocupava o rés‑do‑chão de um prédio de tijolo vermelho, com meio século e a dois quarteirões do centro da cidade. Três anos antes, quando soubera que um tio falecera e lhe deixara o local, Helene trabalhava numa empresa publicitária sem futuro de Manhattan e competia com o que pareciam ser milhões de divorciadas quarentonas, por causa de todo e qualquer homem disponível.

Considerou a herança como um presságio de mudança.

Apesar de ter "seguido a vida" juntamente com os seus dois filhos, Helene nunca desistira da ideia de que o Sr. Perfeito apareceria, a qualquer momento a um passo de si. Suzanne achava que talvez fosse por isso que a mulher tinha sempre um sorriso e uma palavra animadora, mesmo para a situação mais triste.

‑ Estás bem? ‑ perguntou Helene, pousando as jarras num par de pedestais de acrílico.

‑ Hen? Oh, sim. Estou bem.

‑ Pareces cansada.

‑ Pareço sempre cansada.

‑ Pareces sempre linda ‑ corrigiu Helene. ‑ Hoje, pareces linda e cansada.

‑ Estou bem. Só não ando a dormir muito bem.

A explicação fora incompleta. Desde que tivera alta do hospital, andava quase sempre agitada e confúsa, dormindo não mais de uma a duas horas de cada vez e acordando muitas vezes com uma profunda e intermitente ansiedade. Não era nem por sombras o estado de espírito que esperava ter, dado o resultado da operação.

‑ Precisas de sexo ‑ disse Helene.

‑ Não preciso de sexo. Essa é a tua cura para tudo.

‑ Bem, alguma vez me viste maldisposta desde que me conheces? Desde que haja cabanas de esqui e contradanças e noites de quinta‑feira de solteirões no Holiday Inn, pretendo continuar tão saudável quanto uma égua. Não achas que já é tempo de...

‑ Não. Não acho. Vamos mudar de assunto. Além de que...

Foi apanhada depois daquelas palavras, mas era tarde de mais. Helene não deixou escapar.

‑ Além de quê?

‑Nada.

‑ Oh, sim... ‑ Olhou maliciosamente para Suzanne. - Foste com ele, não foste? Na outra noite, com aquele médico novo. Como é que ele se chama?

‑ Zachary. Mas...

‑ Bom, raios me partam. Não é de admirar que estejas cansada.

‑ Julguei que isso deveria animar‑me.


‑ Não, quando é a primeira vez em muitos anos ‑ respondeu Helene. ‑ É preciso manter a forma para esse tipo de coisas. Valha‑me Deus. Ele deve ser extraordinário, é só o que posso dizer. Fala‑me dele.

‑ Não há nada para contar. É um tipo simpático. Eu estava assustada com a operação e ele foi compreensivo, e as coisas... acabaram... por se descontrolar. Foi um erro: apenas um daqueles actos impensados. Nem sequer voltaremos a ver‑nos fora do hospital.

‑ Valha‑me Deus ‑ repetiu Helene.

‑ Pára com isso.

Helene pegou Suzanne pelos ombros.

‑ Não, pára tu com isso ‑ disse. ‑ Suze, és como minha irmã. Convidar‑te para sôcia deste lugar foi a melhor coisa que fiz, à excepção talvez daquele peleiro de White Plains.

Suspirou, tristonha, e Suzanne deu uma gargalhada.

‑ Se continuo a meter‑me na tua vida ‑ continuou ‑, é porque gosto de ti. Sei que passaste um mau bocado com o malvado com quem te casaste e tudo o mais, mas isso são águas passadas. Ele desapareceu. Não podes permitir que ele continue a governar a tua vida.

‑ Não permito que ele governe a minha vida. Estou bem assim, obrigada.

‑ E tens um emprego óptimo, uma filha óptima e muitos interesses, e não precisas que alguém volte a estragar tudo. Eu sei. Eu sei. Já tinhas dito tudo isso.

‑E então...

‑ E então há mais. Está por aí alguém à espera que deixes de fugir assustada e lhe dês uma oportunidade.

‑ Helene, sou muito feliz, e a minha vida está perfeitamente sob controlo.

‑ Está bem. Mas, se quiseres saber o que penso, passavas bem com um pouco menos de controlo e um pouco mais de...

‑ Meyer, basta.

Helene ergueu os braços na defensiva.

‑ Só estou a tentar ajudar ‑ disse.

‑ Eu sei.

‑ Então, fala‑me desse Zachary que não voltarás a ver fora do hospital.

‑ Helene, julguei que nós...

‑ Alto? Um rosto tipo Clint Eastwood? Olhos bonitos? Cabelo escuro?

‑Como é que...

Nesse instante, a porta atrás de Suzanne abriu‑se. Ela virou‑se e ficou visivelmente tensa.

‑ Olá ‑ disse Zack.

‑ Foi o que pensei ‑ murmurou Helene. ‑ Valha‑me...

‑ Desculpa ter aparecido assim ‑ afirmou Zack, bebendo um gole do capuccino que Suzanne lhe preparara. ‑ Sei que disseste quarta‑feira.


‑ Não tem importância. Estava a precisar de um intervalo. Sentaram‑se nos bancos altos de cerejeira de ambos os lados de uma estante de vidro, que duplicava como um balcão de vendas ou uma vitrina de joalharia. Depois das apresentações, de conversa vulgar e de uma cotovelada que Suzanne tentou sem sucesso achar aborrecida, Helene foi fazer "recados". Do outro lado da galeria, uma turista idosa e porte nobre e o seu diminuto marido olhavam para um quadro de Gerard Morris, tipicamente intitulado: A Floresta é uma Sinfonia. A vida em Si Própria.

‑ Como vai a incisão? ‑ perguntou Zack.

‑Está bem...

A atmosfera entre eles era cerimoniosa, mas não tensa. E apesar dos esforços para se afastar, Suzanne sentiu que a ligação entre eles, acelerada na montanha atrás da sua casa e depois no quarto do hospital, não tinha diminuído. Silenciosamente, ficou de sobreaviso para não dar qualquer sinal de motivação. O acto de Helene fora bem intencionado, mas ela simplesmente não o compreendera.

‑ Lamento o que aconteceu ao Guy ‑ declarou. ‑ Era um homem simpático.

‑Sim.

Zack sentiu vontade de lhe falar do sobrescrito, mas decidiu não o fazer... em especial, porque ainda estava por abrir sobre o banco da carrinha.

‑ Tens a tarde de folga? ‑ perguntou ela.

‑ Não. Tenho de estar no meu consultório dentro de poucos minutos. Eu... hum... na verdade, vim fazer‑te uma consulta.

Olhou para ele, desconfiada.

‑ A sério ‑ insistiu ele.

Ela começou a protestar, mas calou‑se. Helene tinha razão. Ele realmente tinha olhos bonitos. Maldito sejas, Paul, pensou.

‑ A Annie? ‑ perguntou.

‑ Não, graças a Deus. O Norman parece aguentar‑se bem com ela. No entanto, ela não lhe dá muita importância. Diz que não confia nele. Não, não preciso dos conselhos da Suzanne Cole, cardiologista. Preciso da Suzanne Cole, mãe.

‑ Interessante ‑ afirmou ela. ‑ Nesse caso, deixa‑me mudar a expressão de conhecedora e segura de mim própria para intrigada, perplexa e exausta. Pronto, podes continuar.

No outro lado da galeria, a senhora idosa e o marido tinham mudado a atenção para Três Veados, Um Riacho e o Cosmos de Morris, uma vistosa combinação de estrelas luminescentes e minúsculos reflexos na água.

‑ É uma consulta que tenho de fazer para o Phil Brookings - disse Zack. ‑ Um rapaz de oito anos.

‑Nome?

Pensativamente, Suzanne pegou numa caneta e escreveu 8 anos no canto de um bloco.

‑ Nelrus. Toby Nelrus. Em cinco meses, o rapaz não disse mais de uma ou duas palavras a ninguém. O Brooking está pronto a iniciar a terapia, mas quis analisá‑lo primeiro. Penso que está aterrorizado com a ideia de passar hora após hora, fechado no consultório, com uma criança que não fala.

‑ Isso parece terrível... em especial para um psiquiatra. Mas a criança não parece estar ligada exactamente à neurocirurgia.

‑ Provavelmente, não. Mas pode estar. Segundo parece, tem tido uma espécie de crises psicomotoras.

‑ Psicomotoras?

‑ Isto é uma espécie de diagnóstico ao acaso. Não faço a menor ideia do que se passa. Com base no que o Brookings me disse, o diagnóstico mais aproximado que consigo fazer é uma variante da epilepsia lóbulo‑temporal. Durante o primeiro ataque, pouco antes de ter deixado de falar, destruiu‑lhe a sala. Desde então, tem tido vários outros.


‑ Então, porque não é epilepsia lóbulo‑temporal?

‑ Bem, por uma razão. Embora haja o componente de fúria que vemos nos doentes com epilepsia lóbulo‑temporal, existe também um enorme componente de medo. O miúdo age como se estivesse absolutamente aterrorizado com alguma coisa. Por outro lado, e isto é o mais perturbante, o tempo de recuperação está a tornar‑se cada vez mais longo em cada ataque. Parece que estes ataques, ou o que quer que sejam, estão associados a alguma pressão existente no cérebro do rapaz.

‑ Edema cerebral?

‑ Muito possivelmente.

‑ Isso é assustador.

‑ Até agora o inchaço tem sido reversível mas, como sabes, a dado momento estabelece‑se um ciclo vicioso: um edema que causa febres altas, o que o faz aumentar ainda mais, e por aí fora.

‑ Existe algum disparador?

‑ Disparador?

‑ Tu sabes, algo que dispara o ataque.

‑ Oh, não. Nada que alguém tivesse notado. O Brookings quer dar‑lhe Dilantina ou um dos medicamentos para epilepsia lóbulo‑temporal, mas primeiro quer que eu examine o rapaz. Achei que talvez pudesses dar‑me alguns conselhos sobre como lidar com crianças desta idade.

‑ Ele já fez algum electrencefalograma?

‑ Quero fazer‑lhe isso e uma TAC mas, segundo o Brookings, o garoto fica tão agitado quando se aproxima do hospital que se tornou quase impossível fazer qualquer tipo de análise técnica satisfatória.

‑ Do hospital?

‑ O Brookings jura que o miúdo olhou para o hospital através da janela do consultório e fugiu. Teve de correr atrás dele pelo parque de estacionamento e prendê‑lo nos braços.

Sem pensar, Suzanne anotou no bloco as palavras Nelrus, psicomotor e hospital.

‑ Presumo que o Brookings terá investigado o óbvio, uma má experiência no hospital ou algo parecido? ‑ perguntou.

‑ Hum, hum. Tudo o que se passou foi a correcção de uma hérnia há cerca de um ano. O trabalho foi feito pelo teu amigo Mainwaring. Revi o registo. O rapaz ficou lá uma noite, mas não surgiu nenhum problema.

Suzanne acrescentou hérnia e nenhum problema à sua lista.

‑ Foi feita com anestesia local?

‑ Julgo que foi qualquer coisa como Pen total e gás. Porquê?

‑ Nada de especial. Estou só a lançar ideias. Deram‑me a mesma anestesia e ainda falo sem parar; assim, penso que não é isso.

Do outro lado da sala, os turistas envolveram‑se numa discussão calorosa, a mulher idosa a gesticular em direcção ao Cosmos e o marido em direcção à Sinfonia.

‑ Alguma sugestão? ‑ perguntou Zack.

Suzanne sublinhou várias palavras no bloco.

‑ Principalmente uma ‑ disse ela. ‑ Não o examines no teu consultório.

‑O quê?


‑ E tenta também o mais possível não parecer um médico, ou dizer que és um "doutor"? Provavelmente ele saberá que és, mas não faz sentido realçá‑lo. Ao contrário da maioria dos adultos, as crianças não se impressionam com o nosso título. Apenas ficam com medo.

‑ Queres dizer, examiná‑lo em minha casa?

‑ Ou mesmo em casa dele. Ou ainda melhor, num lugar neutro. Que tal aquele avião de que falaste à Jen? Ela está muito interessada nisso. Há alguma maneira de montares um espectáculo para esta criança?

‑ Ideia excelente ‑ afirmou Zack. ‑ Claro que sim. Que perfeito. Sei onde o fazer. O Meadows, no topo da Gaston Street. Sabes onde fica?

‑ Sei. Já lá estivemos. Parece‑me bem. Quando pensas examiná‑lo?

‑ Quarta‑feira. Quarta à uma e meia. Escuta, já que é quarta‑feira, porque é que não nos encontramos lá, digamos, às onze e meia? Podemos almoçar... um piquenique. Podes trazer a Jen e...

‑ Não posso ‑ respondeu depressa de mais. ‑ Quero dizer, já temos planos.

‑Oh.

‑ Zack, desculpa. ‑ Porque mentia? ‑ Fica para outro dia.

Ele fez um meio sorriso.

‑ Sim, claro. Outro dia... Bem, obrigado pelo café. - Aclarou a garganta e afastou o banco. ...... hum... - Acho que é melhor regressar ao hospital.

‑Zack... ‑ chamou‑o quando já ia a sair.

Ele virou‑se.

‑ Zack, eu... lamento sinceramente o que aconteceu ao Guy.

‑ Sim ‑ respondeu, sem disfarçar a mágoa nos olhos. - Eu também.

Deu meia volta e desapareceu.

Abismada, Suzanne arrancou a folha do bloco e amarrotou‑a na mão. Talvez tivesse chegado o momento de marcar ela prôpria uma consulta com Phil Brookings. Em todos os aspectos, Sterling tinha sido o refúgio e ela esperava que continuasse a ser. Paz e beleza, um bom emprego e tempo para passar com Jen. Era tudo o que ela queria e tudo aquilo de que precisava. Porque é que aquilo estava a acontecer agora?

‑ Desculpe, miss?

A senhora idosa, com o marido a acenar atrás, aproximou‑se do banco que Zack deixara vago.

‑ Desculpe ‑ pediu Suzanne. ‑ Vejo que estão interessados no trabalho do Gerard Morris, não é assim?

‑ Sim. Ele é daqui?

‑ Da cidade ao lado. Está a tornar‑se cada vez mais popular, de ano para ano.

Por que razão lhe mentira sobre quarta‑feira? Jen tinha realmente planos com amigas, mas ela estava livre. Porque mentira?

‑ Bem ‑ disse a mulher ‑, o meu marido e eu estamos muito interessados no quadro da esquerda. O que tem aqueles veados encantadores. Pode dizer‑me o preço?

‑ Oitocentos dólares.

‑ Oh! exclamou a mulher. - Compreendo ‑ consultou as notas biográficas de Morris. ‑ Ele já fez alguma exposição fora desta área? Bóston? Nova Iorque?


‑ Não ‑ respondeu Suzanne, percebendo que apesar do seu gosto artístico, a mulher não era nenhuma principiante. - Penso que não.

Talvez a Helene tivesse razão. Talvez já fósse tempo de parar de fugir assustada.

‑ Bom ‑ disse a mulher ‑, se é esse o caso, não acha que o preço da sua obra está um pouco alto?

Durante alguns instantes, Suzanne olhou para ela e depois deitou a lista amarrotada no cesto dos papéis.

‑ Por acaso ‑ disse ‑, acho.

 

Há anos que as pessoas lhe chamavam "a bruxa da Rua 87 da zona oeste". Mas Hattie Day sabia que não era. Chamavam‑lhe Batty Hattie e fizeram‑se petições declarando que o seu apartamento desarrumado era uma ameaça para a saúde e a sua familia de gatos, ilegal. Mas Hattie não ligara importância. Nas suas frequentes idas ao supermercado, as crianças insultavam‑na e, por vezes, até lhe atiravam coisas. Mas Hattie compreendia e, apesar de tudo, amava‑as tanto quanto amava os seus gatos.

Há anos que as pessoas diziam que era maluca. Mas por saber que não era assim, Hattie sorria‑lhes apenas.

Agora, porém, desde os terríveis acontecimentos que se seguiram à sua viagem a Quebeque, Hattie já não sorria para ninguém porque sabia que agora eles tinham razão.

Eram quase duas da manhã. Exausta, mas sem sono, Hattie dirigiu‑se ao fogão, acendeu um cigarro na chama e depois colocou sobre ela uma chaleira. Tinha somente sessenta e dois anos mas, devido à palidez, ao cabelo comprido e despenteado e à magreza cadavérica, parecia ter oitenta.

Sentou‑se num cadeirão esfarrapado e analisou as mãos. Nada havia naqueles dedos ósseos manchados de nicotina e unhas compridas e curvas que sugerisse a música maravilhosa que um dia haviam produzido. Na verdade, a morte dos pais num acidente arrancara‑lhe o violino das mãos... Afastara‑se da Juilliard, a escola de música, e tinha passado por uma série de hospitais de doenças mentais. Mas ao longo dos anos conseguira ultrapassar tudo. Possuía o seu apartamento, os seus gatos e a sua amolgada aparelhagem de som estéreo, e mais do que discos suficientes para encher os dias de música.

Mas isso fora antes de Quebeque.

A tremer, Hattie apagou o cigarro, hesitou um instante e depois foi até ao fogão para acender outro. A água ainda não tinha começado a ferver.

Se ao menos tivesse recusado o convite para o casamento de Martin, pensou; se ao menos tivesse ficado em casa onde pertencia, nada daquilo teria acontecido. Mas Martin, o filho da prima. era na verdade o único membro de família que possuía. E enquanto ele estava na Juilliard, visitara‑a muitas vezes trazendo‑lhe comida e, em geral, um ou dois discos, e ficara com ela o tempo suficiente para lhe falar dos estudos. Um dia, chegara mesmo a trazer a viola e tocara para ela ‑ Bach e muitas peças maravilhosas de VilIa‑Lobos.

Hattie sorriu tristemente com a recordação.


A viagem de autocarro até ao Canadá fora suficientemente tranquila e o casamento maravilhoso ‑ em especial os grupos de câmara formados pelos amigos de Martin. Fora durante o regresso a casa que começara a dor horrível na perna. O condutor do autocarro entregou‑a ao pessoal da ambulância em Sterling, New Hampshire e, em menos de uma hora estava na sala de operações a fazer um bt'pass para desfazer um coágulo arterial na virilha.

A sua recuperação fora considerada um milagre. Após uma semana apenas no hospital e duas num sanatório, voltara para casa. Martin levara‑a de volta a Manhattan e até conseguira trazer um dos seus gatos da protectora dos animais. Um milagre.

Só tinha passado um dia desde que Martin a deixara, quando começaram os episódios assustadores. Sem avisar, a mente começava a enfraquecer. Durante mais de uma hora de cada vez, ela sentava‑se a olhar para o vazio, incapaz de se mover ou concentrar nas ideias, sabendo o que se passava mas impotente para o controlar. As cores da sala tornavam‑se desconfortavelmente vivas e todos os sons invulgarmente mudos. Por vezes, conseguia sair da cadeira. Outras, sentava‑se apenas e esperava que os terríveis episódios passassem. Por duas vezes, urinou‑se.

Sabia que estava a enlouquecer.

Então, como se os receios se confirmassem, alguns dos bizarros episódios começaram a transformar‑se em horríveis reconstituições, vividas e distorcidas, da sua operação.

A chaleira começou a apitar. Hattie levantou‑se, colocou uma saqueta de chá numa caneca de louça lascada e deitou a água a ferver. No percurso de regresso ao cadeirão, parou e colocou um dos álbuns que Martin lhe deixara ‑ música isabelina e peças de folclore inglés com Martin à viola.

Pensou que talvez valesse a pena telefonar a Martin e dizer‑lhe que estava a enlouquecer. Olhou em redor à procura de Orange, o gato que ele fora buscar. Durante o último dos seus pesadelos, tinha‑o magoado sem saber como, arrancando um dente e cortando um lábio. Desde então, o animal passava a maior parte do tempo debaixo da cama, ou atrás da estante dos livros.

Hattie afundou‑se no cadeirão. Por breves instantes, a música de Martin causou‑lhe alguma serenidade e trouxe‑lhe mesmo algumas doces recordações do seu passado longínquo. Ouviu um par de danças que tinha a certeza de ter tocado um dia num recital, e uma maravilhosa interpretação de uma canção de Thomas Stewart. A seguir veio a sua favorita, um dueto suave e persistente de flauta e viola de Greensleeves.

Pouco a pouco, os seus receios começaram a descontrolar‑se. Depois, tal como acontecera duas vezes antes desse dia, as cores da sala começaram a intensificar‑se.

Não!, gritou a mente de Hattie. Porfavor meu Deus, outra vez, não.

O som da música diminuiu e, gradualmente, fundiu‑se nos ruídos do tráfego que passava na Colombus Avenue, ali perto.

Não...

Hartie sentiu a desagradável inércia começar a instalar‑se. O brilho do candeeiro, no outro lado da sala, feria‑lhe os olhos.

Por favor meu Deus...

Desesperada e com todas as forças que possuia, conseguiu levantar‑se, pegou nos cigarros e dirigiu‑se ao fogão.

‑ Desta vez, não ‑ disse em voz alta. ‑ Maldita, desta vez, não.


Colocou um cigarro entre os lábios e, a tremer, acendeu a boca do fogão. A chama do gás começou a brilhar.

‑Hattie... Hattie, acalma‑te.

A voz, profunda e suave, parecia vir ao mesmo tempo de todos os lados. Então, por cima de si, Hattie viu os olhos azul‑acinzentados a sorrirem para ela sob a máscara.

‑ Agora, descanse. Não tem nada com que se preocupar. Nada mesmo. Quero que comece a contar para trás desde cem.

‑ Por favor...

‑ Hattie, conte!

‑ Cem... noventa e nove...

‑ óptimo, Hattie. Continue a contar. Continue a contar.

‑           Noventa e oito...

‑ Está a dormir.

‑ Noventa e sete...

‑ Pronto, gente. Vamos a isto.

‑ Noventa e seis... Não, esperem, por favor. Estão enganados. Eu não estou a dormir. Ainda não estou a dormir.

‑           Sucção preparada.

- Esperem!

‑ Bisturi, por favor.

‑ Não! Ainda não! Ainda não!

Hattie Day gritou quando o bisturi cortou a parede do abdómen inferior. Os gritos intensificaram‑se quando as chamas saltaram do fogão, fazendo arder primeiro o cabelo e depois o roupão.

‑ Pressão, por favor. Agora, outra...

Hattie atravessou o apartamento, espalhando pedaços de tecido em chamas. O tapete começou a arder. Caiu para o chão quando o bisturi cortou o abdómen e a parte superior da virilha. As chamas envolveram‑lhe o rosto e os cabelos. Começou a vomitar devido ao fumo e ao cheiro da sua própria carne queimada.

‑ Retractores prontos, por favor...

A voz ultrapassou a dor. O bisturi cortou mais fundo.

‑ Esponja. Não, aqui. Aqui mesmo!

Agora, com a roupa numa bola de fogo, Hattie Day levantou‑se e dirigiu‑se à janela.

‑ Muito bem. Agora coloquem aqui.

Dando um grito agudo e envolvida em chamas, a mulher a quem todos chamavam a bruxa da Rua 87 Oeste atirou‑se contra o vidro e projectou‑se na noite de Verão, dez andares acima da rua.


 

A manhã de terça‑feira caiu sobre Zack sob a forma de um dos seus sapatos de ténis, colocado perfeita e cuidadosamente ao lado da cara por Cheapdog.

‑ Bruto egoísta ‑ murmurou, tentando abrir um olho de cada vez. ‑ O mundo tem de se virar ao contrário só porque tens de fazer chichi.

Cheapdog respondeu à reprimenda lambendo‑lhe a boca.

‑ Está bem, está bem, cara de esfregona. Conseguiste o que querias. ‑ Zack coçou atrás de uma orelha do animal e fez mais uma das muitas promessas de o levar para ser tosquiado. - Lamento não ter‑te prestado muita atenção nos últimos tempos. meu velho. Obrigado por seres tão compreensivo.

Sentindo‑se preguiçoso e menos entusiasmado com o dia de trabalho, o que não sentia há algum tempo, tirou um par de calças de protecção cirúrgicas onde se lia PROPRiEDADE no HOsPital MUNICIPAL DE BÓSTON ‑ NÃO PODE SER LeVADA POR qualquer um, - deixou Cheapdog sair para o quintal, fez quinze minutos de atabalhoada ginástica rítmica e, por fim, pôs água ao lume para o café.

Sabia que a acentuada mudança de atitude de Suzanne parc com ele era uma das causas do seu mau humor. E por muito maravilhoso que tivesse sido fazer amor com ela, desejava agora que as coisas houvessem sido diferentes.

No entanto, talvez com maior peso nesse momento encontrava‑se o legado de Guy.

Durante a maior parte da noite anterior. o sobrescrito de Guy continuara na carrinha, por abrir. Na verdade. várias vezes ao longo do dia, Zack pensou devolvê-lo tal como estava. Contudo, acabou por perceber que a sua decisão de fazer o que podesse pelo homem já tinha sido tomada antes de se encontrar com a viúva e a filha, e até mesmo antes dos terríveis acontecimentos no quarto de repouso.

Enquanto deitava água quente no filtro Chemex e batia dois ovos com pimenta, cebola picada e pedaços de bacon, Zack meditou na impressão inicial que tivera do estranho e amargo testamento do cirurgião.

Já passava da meia‑noite quando finalmente regressou de um longo passeio a pé com Cheapdog e trouxe o sobrescrito para dentro de casa. Demasiado cansado para ler e compreender, passou duas horas a escolher o material e a separá‑lo em pilhas sobre a mesa de jantar. Pelo que pôde depreender, a corporação de Hospitais Ultramed, responsável ou não pelas dificuldades de Guy, tinha mantido um tigre preso pela cauda.

Havia dúzias de recortes de jornais e documentos oficiais, mais algumas impressões computadorizadas, várias listas dactilografadas e emendadas de funcionários da corporação e corpos de direcção, e vários sobrescritos mais pequenos cheios de anotações manuscritas e garatujadas à pressa.

Beaulieu e os seus investigadores preparavam‑se minuciosamente para a batalha. Contudo, apesar dos esforços, Zack achou que as provas que eles tinham conseguido juntar das práticas avarentas da Ultramed eram circunstanciais e vagas.


Zack tinha a certeza de que, embora os diversos documentos talvez fizessem levantar algumas sobrancelhas de directores do hospital, faltava o único e essencial ingrediente que podia transformar essa questão em votos: um exemplo em carne viva - bastava um ‑ dos perigos de tais práticas: o que Rock Hudson fora para a sida, ou a explosão do Chaílenger para os perigos da exploração espacial.

Zack sabia que, sem uma prova desse tipo, sem uma chaveta emocional, os esforços de Beaulieu estavam basicamente tão condenados quanto o próprio homem.

Para além das provas contra a Ultramed, o sobrescrito continha um diário.

Durante as primeiras horas da madrugada, Zack nada mais fez senão ler o pequeno livro de anotações de encadernação em espiral. Depois de arranjar um espaço na mesa para o

pequeno-almoço, abriu‑o ao acaso. Não foi surpreendente que a escrita, quase toda feita com caneta de tinta permanente, fosse meticulosa e precisa.

 

11 de Dezembro: Hoje vários doentes cancelaram a consulta, incluindo Clarisse LaFrenniere. Falei com ela ao telefone. Não quis contar nada. Tive de implorar. Acabou por admitir que o filho Ricky ouvira na escola que eu tinha examinado uma das raparigas da sua turma, por causa de um quisto no pescoço, e que eu a tinha despido e deitado na minha mesa de exames, dando voltas e mais voltas à mesa enquanto tocava nela. Não existe nenhuma doente nessas condições nos meus registos ou na minha memória. Fiz vários telefonemas aos pais de todas as jovens que tratei. Admitiram ter ouvido boatos, mas negaram que algum deles estivesse relacionado com as respectivas filhas. Estavam todos bastante distantes e atrapalhados. Ao contactá‑los, sinto que me prejudiquei mais do que ajudei. Liguei para o Ricky e pedi‑lhe que me dissesse o nome da rapariga. Não foi capaz, ou não quis dizer. Por fim, a Clarisse tirou‑lhe o telefone das mãos, pediu‑me para não voltar a telefonar e desligou. Não deixarei de tentar.

 

Zack leu muitas outras folhas, algumas das quais destacavam mais esforços de Guy para mergulhar no mar sombrio dos boatos. Outras descreviam conflitos com membros do corpo clínico, com o jornal local e até mesmo com certos doentes.

Em termos gerais, era uma crónica da desintegração angustiante da vida de um homem.

Alegações de negligência, nenhuma delas apoiada ou reforçada com uma acçãojudicial... cartas de reclamação dirigidas aos jornais e ao hospital, quase todas anónimas... boatos de má conduta sexual... boatos de comportamento inadequado... deserção de doentes...

Golpe após golpe, humilhação após humilhação, e apesar de tudo Guy Beaulieu recusara dar‑se por vencido. No texto de uma das páginas pareceu heróico e patologicamente obstinado. A medida que Zack lia as anotações, a linha fina que separava as duas atitudes tornava‑se cada vez menos distinta.

As hipóteses de um homem estar certo aumentam, geometricamente, com o vigor com que outros tentam provar que ele está errado.

Esse era um dos princípios favoritos de Zack e ele citara‑o

inúmeras vezes ao longo dos anos. Mas nunca o sentira no intimo, como se sentia neste momento.


Contudo, havia mais do que o instinto íntimo a ser considerado. Havia a carta acusadora de Maureen Banas, para além de outras provas condenadoras que Frank afirmara possuir. Havia também o comportamento explosivo e irracional de Guy na ala das urgências, na manhã do seu falecimento. Por último e acima de tudo, havia a falta de uma explicação realmente boa para a razão por que o homem fora, segundo parecia, o único a ser apontado para a destruição.

E claro que era possível a convicção da viúva de que a Ultramed tentava livrar‑se de um potencial desordeiro; mas a reacção parecia absurdamente exagerada para a ameaça que Guy representava: como dar um tiro numa mosca com uma arma para elefantes.

Zack foi buscar Cheapdog ao local onde se encontrava escondido, debaixo da janela da colhe não castrada de um vizinho, e prendeu‑o a uma corrente comprida no quintal. Depois, tomou um duche, vestiu‑se e dirigiu‑se ao hospital, pensando no que faria se tivesse de confrontar Marie Fontaine e a mãe com provas contundentes de que, na verdade, Guy fora irracional, instável e paranóico. Mesmo com uma autópsia negativa, o homem podia ter estado numa fase inicial da doença de Alzheimer, ou a sofrer uma doença mental não detectada.

Quando estacionou no parque só PARA MéDICOS do hospital, Zack lembrou‑se de outro ditado: pertencia a um cartaz que tinha pendurado na parede do seu apartamento de estudante de

Medicina:

Só porque és paranóico, não significa que não andem por aí atrás de ti.

 

O murmúrio matinal da ala das urgências era mais elevado do que o normal, com vários médicos particulares a fazerem exames menores e o médico das urgêncías desse dia, Wilton Marshfield, a passar, zangado, de uma para outra das quatro salas "activas", claramente aborrecido por as coisas não correrem a um passo mais calmo.

Zack parou junto à sala de espera para tomar um último café e tentava desvendar sem sucesso o truque de polegar e palma de duas raparigas vestidas às riscas, quando recebeu um bip de uma chamada exterior.

‑ Zack, fala o Brookings, Phil Brookings.

‑ Sim, Phil. Estás a ligar por causa do pequeno Nelrus, não é? Tive de adiar a consulta devido ao funeral do Guy Beaulieu. Vou vê‑lo amanhã à tarde.

Zack olhou para as raparigas, uma das quais, na sua primeira tentativa, completava um número de fácil execução com um centavo.

‑ Eu sei ‑ disse o psiquiatra. ‑ A mãe do rapaz telefonou‑me. Ela ficou, como direi, um pouco preocupada por lhe teres pedido para ir ter contigo à encosta de uma montanha qualquer. Prometi‑lhe que falaria contigo para saber se... bem... se poderei ajudar nalguma coisa.

‑ Na verdade ‑ disse Zack, sorrindo com o embaraço de Brookings ‑, fica perto da base da montanha. Não na encosta.

‑ Oh... percebo... Bem, vou ligar a Mistress Nelrus para lhe assegurar que não és, como direi, o excêntrico que ela possa pensar.

Desta vez, Zack deu uma sonora gargalhada.


‑ Phil, peço desculpas pelo meu atrevimento. A verdade é que, provavelmente, sou o excêntrico que ela pensa. Mas, pelo menos desta vez, faço apenas o que posso para evitar a dificuldade que tiveste. É um tanto complicado fazer um exame neurológico pormenorizado num alvo em movimento.

‑ Compreendo ‑ disse Brookings, embora o tom de voz sugerisse algumas dúvidas que persistiam. ‑ Falarei com a mãe do rapaz e certificar‑me‑ei de que aparecerão. E, para o caso de ser necessário, talvez fosse melhor calçares os teus sapatos de ténis. O rapaz é veloz.

‑ Obrigado, Phil. Falarei contigo mais tarde.

Zack desligou quando as raparigas de vestido às riscas, ainda a treinar, se preparavam para sair da sala.

‑ Vamos lá, garotas ‑ disse. ‑ Mais um. Este chama‑se rolo de dedos. Nele, estes vinte e cinco cêntimos americanos perfeitamente normais serão transportados por magia para o topo dos dedos e de volta à mão, sem a ajuda de um guindaste, de um bulídozer ou da minha outra mão.

Entre o segundo e o terceiro enrolamento, a moeda escorregou entre os dedos e foi cair no café.

‑ Bem, sugiro que as duas se mantenham afastadas deste truque até terem idade suficiente para trabalhar com café quente ‑ avisou.

Permaneceu junto à chávena e esperou que o par perplexo deixasse a sala, para recuperar a moeda.

‑ Eu, excêntrico ‑ murmurou, enquanto atravessava a ala das urgências. ‑ Que ridículo. Absolutamente ridículo.

Um conjunto de radiografias, cinco imagens da coluna na região cervical de uma adolescente, estava introduzido na caixa de luz, dividida em quatro painéis, que havia no corredor. Horas mais tarde, quando a tensão e a excitação tivessem desaparecido e houvesse tempo para reflectir, Zack não seria capaz de explicar a que se referiam aquelas radiografias que lhe tinham chamado a atenção.

Porém, naquele microssegundo em que ele passou por ali, algo o deteve.

Podia ter sido a largura de uma sombra, ou talvez a curva invulgar da imagem lateral. Ou talvez não fosse mais do que o exame instintivo das radiografias, contra os treze anos de estudos e só Deus sabe quantas mais espinhas em C em tantos outros estabelecimentos.

Fosse o que fosse, algo o fez parar, virar‑se e estudar mais pormenorizadamente as radiografias.

As fracturas das vértebras C‑ 1 e C‑2 estavam longe das mais evidentes que tinha visto, mas eram bem notórias ‑ e, indubitavelmente, instáveis. Se a medula espinal ainda não tinha sido afectada, um movimento brusco, uma torcedura, ou um embate contra qualquer coisa podiam ser desastrosos.

Para todos os efeitos, deviam tê‑lo chamado para tratar do caso.

Verificou o nome e a data de nascimento: Stacy Milís, 14 anos.

A seguir, atravessou a enfermaria, à procura de Wilton Marshfield. O corpulento médico estava debruçado sobre um balcão, a escrever apressadamente algumas instruções de alta. Ao lado da folha de instruções encontrava‑se um colar cervical macio.


‑ Olá ‑ cumprimentou Zack, aproximando‑se o suficiente para verificar que as instruções eram de facto para Stacy Milís. Desviou o olhar do homem para a cama número 3, onde uma bonita rapariga morena, em calções de montar e T‑shirt lilás, esperava com os pais. Estava sentada na borda da maca com as pernas pendentes e esfregava suavemente a base do crânio.

‑ Oh, olá, Iverson ‑ disse Marshfield. Olhou para ele apenas o tempo suficiente para cumprimentar e voltou à escrita. - Esta é uma manhã muito agitada. Garanto‑lhe... Vi‑o ontem, no funeral do Beaulieu... Que coisa terrível.

‑ Wilton, posso falar consigo por um instante? ‑ perguntou Zack em voz baixa.

Marshfield abanou a cabeça.

‑ Não posso parar agora ‑ disse, tirando um bloco de receitas da bata clínica. ‑ Tenho de me livrar desta rapariga e ainda tenho mais dois doentes para examinar. Estou a ficar velho para este movimento, Iverson. Demasiado velho. Diga ao seu irmão para se despachar a organizar este lugar, para que eu possa regressar às minhas trutas e aos meus netos.

‑ E sobre essa rapariga que está prestes a mandar para casa ‑ disse Zack. ‑ A Stacy Milís.

Marshfield olhou para a rapariga, em seguida pegou no colar cervical e na folha de instruções e começou a escrever uma receita para um relaxante muscular.

‑ Caiu do cavalo e magoou os músculos do pescoço - disse, enquanto escrevia. ‑ Olhe, Iverson - acrescentou de rompante ‑, desculpe ter falado asperamente consigo na outra noite. Mas, por favor, não me cause problemas hoje. Estou muito aquém de...

‑ Escute, Marshfield ‑ murmurou Zack. ‑ Acabei de ver as radiografias dela que ali estão. Tem uma fractura. Penso que duas. C‑um e C‑dois.

O homem mais velho pareceu gelado. Em movimentos lentos, a caneta escorregou‑lhe da mão e caiu sobre o balcão.

‑ Tem a certeza? ‑ perguntou, nervoso.

Zack anuiu.

‑Jesus...

‑ Venha que eu mostro‑lhe.

Pouco depois, Zack conduziu o mudo e abalado Wilton Marshfield até junto de Stacy Milís e dos pais.

‑ Olá, Stacy, Mister e Mistress Milís ‑ saudou. ‑ Chamo‑me Iverson. Zachary Iverson. Sou neurocirurgião.

Olhou de novo para Marshfield, que parecia estar a ouvir, de vendas nos olhos, a contagem final de um pelotão de fuzilamento.

Zack sorriu para dentro. Se o homem estava à espera de tiros, ele estava ali para uma surpresa agradável.

Ei, Wilton, descontraia‑se, pensou. Tudo quanto sei é que esta nossa profissão nunca foi um concurso ou um jogo. É a vida. É a banana verdadeira. Ejá é suficientemente difícil tomar a decisão certa, mesmo sem os disparates e a prepotência. Fez o melhor que pôde, e isso é o que todos fazemos... ‑ todos nós. De forma alguma eu tentaria afastá‑lo.

‑ Aqui o doutor Marshfield acabou de fazer um excelente exame das radiografias da Stacy ‑ disse. ‑ Ele reparou numa sombra de que não gostou e pediu‑me para verificar, antes de pensar em mandá‑la para casa. Lamento informar que as suas suspeitas estavam correctas. Stacy, há uma pequena fractura, um osso partido exactamente aqui.

‑ Eu sabia ‑ disse Stacy. ‑ Vês, mãe, bem te disse que tinha dores insuportáveis.


‑ É perigoso? ‑ perguntou a mãe da rapariga.

‑ Teria sido - disse Zack, colocando o colar macio no lugar ‑, se não tivesse sido detectado. Poderia acontecer um grande desastre. Mas agora está tudo sob controlo. Vais ficar boa.

Mrs. Milís estendeu o braço e apertou a mão do estupefacto Wilton Marshfield. O marido deu‑lhe uma palmada no ombro.

‑ Bem, Stacy - continuou Zack ‑, em primeiro lugar, não quero que movas a cabeça, está bem?

‑ Está bem.

‑ óptimo. Depois, há algumas coisas que tenho de explicar, a ti e aos teus pais, sobre o que fazemos nas fracturas cervicais.

‑ Doutor Iverson, por favor - pediu a mãe da rapariga. - Antes de começar, gostaria de chamar aqui a tia da Stacy, a minha irmã. Não se importa?

‑ Com certeza, mas não vejo...

‑ Ela ajuda‑me a compreender os assuntos médicos. É a chefe das enfermeiras daqui. Maureen. Maureen Banas.


 

Embora a sala de operações número 2 do Ultramed‑Davis fosse mais nova do que algumas das dezenas que Zack utilizara, o ambiente não era diferente. Os sons, a iluminação, os azulejos, o ar filtrado ‑ tingido pela mistura peculiar de anti‑séptico e talco e batas recém‑lavadas ‑ causavam‑lhe sensações tão familiares e tranquilizadoras quanto as montanhas.

A estabilização do pescoço de Stacy Milís mantinha‑se perfeita. Zack fez uma pausa junto à cabeceira da mesa para saborear as sensações: as maravilhas que conseguia fazer e a ligação que sentia com a restante equipa operatória. O sistema de som ‑ fruto da imaginação de Frank, actualmente instalado em quase todos os hospitais da Ultramed transmitia o tratamento mágico de The Holly and the Jyg, de George Winston.

‑ Tudo preparado? ‑ perguntou à enfermeira.

A mulher anuiu.

‑ Muito bem, então ‑ disse tranquilamente. ‑ Stacy, esta é a parte de que te falei. Vamos colocar aqueles quatro parafusos no lugar, na tua cabeça. Pus bastante anestésico em cada ponto para que eles não magoem, mas terás uma sensação estranha e poderás ouvi‑los ranger. Está tudo a correr bem. Sei que isto te assusta, mas não precisas de ter receio de nada.

- Não estou assustada ‑ disse a rapariga. ‑ Pelo menos, não muito.

‑ óptimo. E lembras‑te do que tens de fazer?

‑ Não me mexer ‑ respondeu.

‑Exactamente...

Zack verificou pela última vez a posição do halo cervical e colocou no lugar os quatro parafusos através das pequenas incisões que fez no couro cabeludo da rapariga.

‑ A não ser que eu peça, não te mexas.

De um local alguns metros atrás da equipa operatória, Wilton Marshfield via tudo, com um suspiro de alívio. Apesar de Zack Iverson ter publicamente ultrapassado tudo para lhe dar o crédito pela descoberta conjunta, e em privado lhe ter garantido que este era o tipo de fractura cervical mais difícil de se diagnosticar, sentiu que nunca mais voltaria a sentir‑se à vontade na ala das urgências.

Por andar entediado, ele tinha interrompido a reforma e regressado ás urgências, a pedido de Frank Iverson. Sabia que tinha chegado o momento de parar. E, graças ao irmão de Iverson, após quarenta anos de esforço, de dar o seu melhor para sobreviver, primeiro à explosão dos conhecimentos e depois á reforma e às papeladas aborrecidas, seguidas da crise de negligência e agora das malditas politicas cooperativas, pelo menos podia retirar‑se como uma espécie de vencedor.

‑ Que Deus te abençoe, rapaz ‑ disse baixinho, enquanto Zack prendia o aparelho no lugar. - Que Deus te abençoe.

‑ Bem. Stacy ‑ dizia Zack ‑, um,já está. Agora, mexe os dedos dos pés como eu te mostrei. óptimo. Agora os das mãos. Muito bem. Já falta pouco.


Recuou alguns passos e desviou a atenção da armação metálica para os traços finos e o rosto calmo da rapariga quase mulher. Biologia; química orgânica; anatomia e psicologia; quadros e mais quadros; noites e fins‑de‑semana intermináveis por estar de serviço ou ter sido chamado; inúmeras refeições de comida de refeitório ou sobras indetermináveis em recipientes de cartão; inúmeras horas na sala de operações e nas outras alas; vários dias, semanas ou mesmo meses a duvidar de si próprio: em momentos como este, as opções que tomara na vida e o preço que tivera de pagar faziam muito sentido.

E quando tudo terminasse, quando a rapariga que gostava de andar a cavalo se afastasse do hospital e da fracção de segundo que a podia paralisar para sempre ele pegaria nesse momento e guardá-lo-ia na mente como justificação para todos os anos e toda a angústia.

‑ Pronto, Stacy - disse ternamente enquanto apertava o último dos parafusos. ‑ Já está. Estás a agir perfeitamente. Todos agimos perfeitamente.

Com a operação seguinte marcada, agora com uma hora de atraso, a SO 2 ficou vaga assim que foi colocado no lugar o último parafuso e verificada a posição correcta do halo. Zack acompanhou Stacy Milís ao quarto da ala oeste onde durante dias ficaria sob observação para o caso de surgir alguma inflamação ou compressão da medula espinal.

‑ Bem, só tens de ter calma, Stacy ‑ disse. ‑ Vou falar com os teus pais e a seguir eles virão ver‑te. Voltarei a ver‑te no final do dia. Usar este aparelho não será o teu maior divertimento mas, como já disse, não será para sempre.

‑ Doutor Zack ‑ chamou a rapariga, quando ele ia a sair. - Na sala de operações eu disse que não estava com medo. Bem, agora que já tudo terminou, posso dizer‑lhe que estava e bastante. Só não queria parecer um bebé.

Zack regressou para junto da cabeceira e sorriu.

‑ Nesse caso ‑ disse ‑, tenho uma coisa para te dizer... uma coisa que nunca disse a nenhum doente. ‑ Inclinou‑se sobre a cama e segredou: ‑ Estou sempre um pouco nervoso quando opero.

‑ Está? A sério?

‑ É verdade. Acho que ajuda a minha concentração a não esquecer que é sempre possível que alguma coisa corra mal. Lá, eu disse‑o e... ei, doutora Milís, já me sinto melhor!

‑ Você é mesmo tolo, sabia?

‑ Espero que sim ‑ respondeu.

Enquanto saía do quarto da rapariga, Zack viu Maureen Banas aproximar‑se pelo corredor. Calculou que ela tinha quarenta e muitos anos ou cinquenta e poucos, com cabelos grisalhos curtos, que pareciam cortados por um amador. Embora tivesse um aspecto autoritário, a tensão desenhava‑se‑lhe no rosto, e a falta de cuidado com os cinco a sete quilos de peso a mais faziam prever uma vida que, provavelmente, não seria muito fácil.

‑ Parabéns, doutor Iverson, e obrigada ‑ declarou ela, com uma falta de emoção quase clínica. ‑ A Stacy é uma criança muito especial para muita gente. Temos todos uma grande dívida para consigo, pelo que fez.

Nesse caso, apeteceu‑lhe dizer, fále‑me do prego que ajudou a pregar no caixão do Guy Beaulieu.

‑Ouça... ‑ A resposta nada tinha a ver com o pensamento anterior. ‑ Vê‑la mover os braços, as pernas e os dedos é o


suficiente para me ajudar a ultrapassar seis meses dos habituais pesadelos neurocirúrgicos. Além disso, devia agradecer antes ao Wilton Marshfield. Apenas fui o técnico.

‑ Que disparate. Sei que ele não detectou as fracturas. Correr em defesa dele é algo muito simpático da sua parte, em especial depois da discussão que tiveram a semana passada. O Wilton é um velho amoroso, na maior parte das vezes, mas deixa escapar muita coisa.

Deixa escapar muita coisa. A abertura, embora ligeira, estava ali.

Zack olhou para a enfermeira. O corredor estava silencioso. Talvez houvesse um momento e um lugar mais apropriado; porém, um dia depois do funeral de Guy e apenas algumas horas após ter lido o seu diário, o sentimento pelo homem era demasiado vivo para Zack deixar fugir a oportunidade.

‑ Muito parecido com o caso do Guy Beaulieu, nesse aspecto ‑ disse. ‑ Não acha?

Maureen Banas olhou para ele, intrigada.

‑ Desculpe?

‑ Pedia a sua opinião sobre o Guy Beaulíeu. Como sabe, eu estava com ele quando faleceu.

‑ Claro que sei. ‑ A expressão de estranheza não desapareceu. ‑ Pensei muito no doutor Beaulieu. Morrer como ele morreu foi... muito trágico. - Desviou o olhar e, pelo canto do olho, olhou para o quarto de Stacy e prosseguiu. - Acho que é melhor ir ver a minha sobrinha e regressar à sala das urgências. Mais uma vez, obrigada, doutor.

‑ Mistress Banas, espere, por favor ‑ pediu Zack.

A mulher parou, de costas para ele e postura rígida.

‑ Por favor? ‑ voltou a pedir.

lentamente, ficou de frente para ele, com os braços cruzados e tensos junto ao peito.

‑ Sim?

‑ Mistress Banas, eu... li a carta que escreveu sobre o Guy.

As poucas cores que restavam desapareceram do rosto da enfermeira.

‑ O seu irmão não tinha o direito de andar a mostrá‑la por aí ‑ afirmou.

‑ Porquê?

A mulher olhou em redor, inquieta.

‑ Doutor Iverson, acho melhor ir‑me embora.

‑ Mistress Banas, há um minuto atrás disse que tinha uma grande dívida para comigo pelo que fiz pela Stacy. Bem, não costumo chamar a atenção para coisas deste tipo, mas preciso de saber informações sobre o Guy; que tipo de pessoa foi nestes dois últimos anos; o que foi que ele fez para a levar a escrever aquelas acusações. Por favor. É muito importante para mim... e para a família dele.

A reacção de Maureen Banas foi muito diferente da fúria ou da defesa que Zack tinha previsto. Começou a tremer e quase desatou a chorar.

‑Eu... por favor, não quero falar disso. O seu irmão disse que falaria comigo antes de mostrar aquela carta a alguém. Não tinha o direito de mostrá‑la a si.

‑ Olhe ‑ disse Zack. ‑ Não quis preocupá‑la. Estou apenas a tentar ir ao fundo da questão, a tentar saber a verdade.

Foi preciso respirar muitas vezes até a enfermeira voltar a compor‑se.


‑ Doutor Iverson, tenho três filhos, um deles com um certo atraso... e um marido que há dez anos não envia um centavo de ajuda. Lamento ter escrito aquela carta, mas... tive de o fazer. Tive mesmo. Agora, deve deixar as coisas como estão. Por mim e pela minha família, peço‑lhe que deixe as coisas como estão.

- Não posso, Mistress Banas... Maureen, não quero causar problemas nem a si nem a ninguém, mas tenho de saber se o que está naquela carta sobre o Guy é verdade... Por favor.

A mulher não respondeu.

‑ O que aconteceu? - perguntou. ‑ Alguém a obrigou a escrevê‑la? Alguém ameaçou despedi‑la?

A enfermeira mordeu o lábio inferior. Os olhos encheram‑Se de lágrimas. Nervosa, olhou em redor. Ao fundo do corredor, aproximavam‑se duas enfermeiras.

‑ Venha comigo - pediu em voz baixa.

Havia uma pequena zona de cadeiras no extremo do corredor ‑ um sofá de estilo colonial e duas cadeiras a condizer dispostas por baixo de uma ampla janela virada para sudoeste, em direcção às montanhas. Maureen Banas ocupou uma das cadeiras e indicou a Zack o extremo do sofá mais próximo dela.

‑ Doutor iverson, o que disse da minha família é verdade ‑ começou num sussurro rouco. ‑ Se contar a alguém esta nossa

conversa e eu perder o emprego, terá magoado algumas pessoas que não merecem ser magoadas.

‑ Dou‑lhe a minha palavra.

‑ Tenho... medo de fazer isto.

‑ Por favor...

‑ No início do Verão, tive uma discussão com o doutor Beaulieu na sala das urgências. Para começar, nunca nos demos muito bem, mas penso que nos respeitávamos minimamente. O motivo da discussão não tem qualquer relevância. Na verdade, o incidente não foi nada de importante. Mas houve algumas testemunhas.

"Cerca de uma semana mais tarde, colocaram um sobrescrito debaixo da porta da minha casa. Dentro dele estavam dez notas de cem dólares, uma cópia da carta que viu e instruções de que, depois de a copiar com a minha própria caligrafia e a enviar a Mister Iverson, eu receberia um segundo pagamento igual.

‑ Não tem nenhuma pista sobre quem a escreveu?

Mais uma vez, a enfermeira pareceu prestes a desatar a chorar.

‑ Nenhuma.

‑ A carta dizia o que aconteceria se recusasse?

‑ Dizia que surgiriam problemas na minha vida e que podia contar com o despedimento, doutor iverson. Sei que o que fiz foi terrível, mas... passei por tantas dificuldades com os meus filhos, e as malditas contas não paravam de aparecer, que...

‑ Por favor, Maureen. Não tem de explicar nada ‑ disse ZaCk. ‑ Compreendo que fez o que tinha de fazer. Ainda tem essa carta?

A enfermeira abanou a cabeça.

‑Tive... medo de a guardar.

‑ Não tem a menor ideia de quem a mandou? Acha que foi o meu irmão? - Zack sentiu-se mal com a ideia

‑Eu... não penso que tenha sido ele - respondeu


‑ Porque diz isso?

‑ Bem, quem quer que me tenha escrito acrescentou no fim que, se o Frank Iverson viesse a saber que a carta não tinha partido de mim, seria despedido tão depressa quanto eu

Começou a chorar

‑ Percebe agora a razão por que não pode contar isto a ninguém?

‑ Sim, Maureen, percebo. Contar‑me o que acabou de contar foi um acto muito corajoso. Prometo‑lhe que guardarei o seu segredo.

‑ Muito obrigada.

Limpou os olhos à manga do uniforme e percorreu apressada o corredor.

Sentindo mais tristeza do que fúria para com a mulher, Zack poisou um pé sobre uma das cadeiras e olhou para o Presidential Range.

Montanhismo... alpinismo... campismo... desafios únicos no consultório e na sala de operações... A planeada vida que o trouxera de volta a Sterling parecia subitamente muito distante e ingénua.

Tudo indicava que Guy tinha razão desde o principio. Alguém da Ultramed estava decidido a obrigá‑lo a reformar‑se... e da forma mais feia. Zack agradeceu o facto de esse alguém não ser Frank mas, afinal, que importância é que isso tinha? Pelo menos em Sterling, Frank era a Ultramed. E quando chegasse a hora da verdade, era difícil imaginá‑lo a lutar contra a companhia.

A situação era incrível e muito diferente da do doente que precisa de ajuda e do médico treinado e apto a dá‑la.

Contudo, fosse bom ou mau, Zack reconheceu que tinha vindo para ficar. Tinha escolhido aquela cidade e aquele hospital. E se agora tinha de lutar contra a Ultramed para justificar essa decisão, então haveria luta.

Tudo o que precisava para completar o círculo, para se colocar de uma vez por todas no lugar de Guy Beaulieu, era de provas ‑ se não fossem de Maureen Banas, então talvez do próprio sistema da Ultramed.

Se Guy tinha razão, se a política e o clima criado pela corporação eram tão implacáveis e se preocupavam apenas com o proveito próprio, se se criavam compromissos e se encurtavam caminhos em nome dos lucros, então existia algures a tragédia clínica que uma filosofia desse tipo inevitavelmente causa. Existia algures o foco emocional que transformava as possibilidades e preocupações abstractas em algo real.

E se tal tragédia existia, jurou Zack, mais cedo ou mais tarde ele acabaria por descobrir.

 

Da sua posição no posto de enfermagem da Ala Oeste 2, Donald Norman estendeu o gráfico clínico de Annie Doucefle sobre o colo e olhou por cima dele para uma jovem enfermeira chamada Doreen Lavalley. Estava nas pontas dos pés sobre um pequeno banco, toda esticada, a procurar um saco de solução intravenosa. A saia do uniforme ia a meio da coxa e subia cada vez mais.


Doreen era a mulher mais sensual e desejável do hospital, pelo menos para o director do corpo clínico do Utramed‑Davis. Há meses que conversava com ela sobre assuntos triviais, dava‑lhe palmadas amigáveis no ombro, colocava‑lhe um braço à volta da cintura e improvisava‑lhe sessões de ensino.

Desde a sua chegada ao hospital quatro anos antes, Norman tinha feito tudo para conservar imaculada a sua reputação e por mostrar‑se como o perfeito e responsável homem de família e servidor comunitário. As autoridades da Ultramed premiavam esse tipo de comportamento com o mesmo vigor com que puniam acções que originassem uma publicidade negativa ao seu estabelecimento.

Todavia, após quatro anos consecutivos de prémios por mérito, ele acreditava que a companhia toleraria algumas escorregadelas. E com a mulher a engordar e cada vez mais envolvida nos problemas escolares e menos interessada na relação fisica deles, Doreen Lavalley transformara‑se num risco que valia a pena correr.

Além do mais, pensou Norman, dizia‑se que Frank Iverson tinha feito o mesmo com metade das mulheres de aspecto decente do hospital, sendo eleito membro do Círculo Dourado e recebido por duas vezes o mais elevado prémio de administração que a Ultramed oferecia.

Quando a saia estava prestes a atingir a base das cuecas, Doreen localizou a solução intravenosa correcta e desceu do banco.

Donald Norman amaldiçoou esse momento.

‑ Bom dia, Doreen ‑ cumprimentou, escondendo o pequeno volume que se materializara por baixo do gráfico de Annie Douceife. ‑ Como estás?

‑ Olá, doutor Norman.

‑ Eh! Já te disse ‑ segredou, com uma piscadela de cumplicidade ‑, quando não houver ninguém perto de nós, podes tratar‑me por Don. Escuta, se concordares, gostava que me acompanhasses na ronda. Mister Rolfe tem algumas coisas interessantes no peito e aquela... refilona de Mistress Doucette ainda deve ter um sopro.

A enfermeira olhou para ele.

‑ Bem, estou um pouco atrasada no meu trabalho, e...

‑ Oh, vamos lá ‑ interrompeu ele. Só tenho esses dois neste andar. Não deve demorar muito.

‑ Eu... bom, está bem. Desde que sejam só esses dois. Doutor Norman, a Annie é uma senhora simpática. Realmente e. Dê‑lhe uma oportunidade.

‑ É Don e não doutor Norman, lembras‑te? ‑ perguntou. ‑      E, quanto á Annie Doucette, pode ser uma velha simpática para ti, mas para mim tem sido uma refilona. ‑ Verificou o cartão da doente. ‑ Além disso ‑ acrescentou ‑. para todos os efeitos, nada disso interessa, pois vai sair daqui.

‑ Vai mandá‑la para casa? ‑ perguntou Doreen, incrédula.

Norman abanou a cabeça.

‑ Para casa, não ‑ respondeu. ‑ Para a Casa de Saúde de Sterling, desde que eles consigam arranjar uma cama. Não te esqueças que, segundo o sistema do Grupo de Diagnóstico Relacionado... sabes, o GDR... a Segurança Social paga pelo diagnóstico e não pela duração da estada no hospital. A nossa função é fazer com que os doentes saiam o mais rapidamente possível.


O que Norman não mencionou, apesar de nesse momento lhe estarem certamente presentes no pensamento, foram os incentivos da Ultramed para se dar alta aos doentes antes de terminado o período de GDR, e uma oferta ainda maior pela transferência para um estabelecimento que pertencesse à leeward.

‑ Não acredito que a Annie goste da ideia ‑ afirmou a enfermeira. ‑ Ela é muito independente.

‑ Assim sendo ‑ disse Norman, prendendo o gráfico dela debaixo do braço e compondo a gravata ‑, teremos de discutir o assunto com ela, não é? Traz o teu livro de instruções para o caso de ser preciso. A propósito ‑ acrescentou, enquanto caminhavam ‑, vou falar da hepatite na próxima quinta‑feira à noite. Espero que apareças.

‑ Na verdade, eu...

‑ Julgo que a Flo Bergman, a directora de enfermagem. virá de Bôston. Gostaria que ela te conhecesse. Com a directora de enfermagem da Ultramed e o director do corpo clínico do Davis ao teu lado, sabe‑se lá que oportunidades poderão surgir parati...

 

Annie Doucette desinteressou‑se do programa de adivinhas que tentava ver, ajeitou‑se na almofada e olhou para o tecto.

As dores no peito, pouco mais do que pontadas durante todo o dia anterior, começaram a intensificar‑se e, pela primeira vez desde a horrível noite em que dera entrada no hospital, sentiu‑se assustada. lembrava‑se vagamente daquela noite, mas não o suficiente para apagar a agonia e a humilhação que sentira, para não falar na preocupação que causara a Cinnie Iverson, ao juiz e à família.

Nunca devia ter aceite o convite para jantar, disse para consigo. Nunca. Após vinte e muitos anos a fazer orgulhosamente e bem o seu trabalho, a ser a estaca que mantinha erguida a casa dos Iverson, tinha‑se transformado num fardo ‑ numa imposição e numa fonte de preocupações para todos.

Se pudesse, teria falecido como fizera o marido, de uma forma rápida e indolor, enquanto dormia.

Mastigou dois Rolaids de um pacote que o filho lhe trouxera e tentou concentrar‑se nas camisolas para os netos e na colcha oriental para o bazar da igreja ‑ projectos inacabados, que estavam em casa à sua espera.

Só precisava de mais alguns dias ‑ talvez uma semana no hospital e tudo ficaria bem. Ainda não se tinha deixado vencer pelas dores nem pelos anos e ainda não seria desta vez. Fosse como fosse, os ruidos no peito talvez não passassem de má digestão.

Annie fechou os olhos, enquanto a pouco e pouco o desconforto a fazia adormecer suavemente... Uma semana... Era tudo o que precisava... Uma semana para recuperar as forças... Depois, tudo ficaria bem... tudo voltaria ao normal... Era tão bom dormir uma soneca... Tão bom adormecer.. tão bom...

‑ Então, Mistress Doucette, como estamos esta manhã? perguntou de rompante Donald Norman.

Abismada, Annie sentiu outra pontada no peito, ligeiramente mais intensa.

‑ Estamos melhor, doutor Norman ‑ respondeu Annie, abrindo os olhos só depois de se terem dissipado os últimos vapores de sono. ‑ Oh, olá, Doreen, querida.

‑Olá, Annie.

‑ E qual é o problema? ‑ perguntou Norman.


Annie pensou se devia ou não repetir o que já tinha relatado às enfermeiras sobre as dores. De qualquer modo, Donald Norman nunca prestava muita atenção às queixas dela.

‑ Sinto algumas dores ‑ acabou por dizer.

Norman folheou o gráfico dela.

‑ Olha, Doreen. Aqui está a descrição que fiz desse sopro. Ei‑la. Uma sístole de segundo grau. Vamos auscultar e ver se se alterou.

Introduziu o estetoscópio na camisa de noite de Annie, auscultou‑a durante uns instantes e depois, com um braço em redor da cintura da enfermeira, conduziu‑a até à cabeceira da cama e deu‑lhe a vez.

‑ Estás a ouvir?

A jovem olhou incomodada para Annie e concordou com a cabeça.

‑ Doutor Norman ‑ disse ‑, a Annie queixa‑se de dores intermitentes desde ontem de manhã.

‑ Claro que se queixa ‑ afirmou Norman, como se os dois estivessem sozinhos no quarto. ‑ Aposto uma fortuna em donuts como começaram assim que falei em dar‑lhe alta do hospital. É o que acontece sempre. As pessoas ficam ansiosas. Mandou fazer um electrocardiograma?

‑ Está ali à frente do gráfico.

‑ óptimo ‑ disse. ‑ Bom trabalho. ‑ Examinou o traçado. ‑ Bem, não apresenta nada de alarmante. Apenas que a mesma onda T muda nas linhas anteriores. Aqui. Vês? Exactamente aqui. Explicarei como diferem de outras mudanças de ondas T, quando terminarmos estes dois doentes. ‑ Voltou‑se de novo para Annie. ‑ Assim, se tudo o resto está bem, penso que devemos começar a planear a sua alta.

‑ Ainda não me sinto suficientemente bem para sair, doutor Norman.

‑ Eu sei, querida. Eu sei. ‑ Norman pegou na mão dela e afagou‑a, mas Annie retirou‑a. ‑ É natural que esteja nervosa com a ideia. É por isso que tratei de...

‑ Desejo ficar no hospital pelo menos mais uma semana - declarou. ‑ Então, estarei em condições de ir para casa.

‑ Mistress Doucette, não me deixou acabar. Estava a dizer‑lhe que estou a tentar arranjar uma cama para si na Casa

de... bom, no estabelecimento de convalescença de Sterling. Duas semanas lá e estará em condições de ir para casa.

‑ Não irei ‑ disse, categórica, sentando‑se na cama para enfrentar o homem. ‑ Não vai mandar‑me para nenhuma casa de saúde. Ficarei aqui mais uma semana e depois irei para a minha própria casa.

‑           Temo que isso não seja possível, Mistress Doucette.

‑           Bem ‑ disse ela ‑, falarei com Mister Frank Iverson e logo veremos o que é ou não possível.

‑ Faça o que quiser, Mistress Doucette. Mas não é o Frank Iverson quem cuida de si. Sou eu. E digo‑lhe que a sua hospitalização está prestes a terminar e não poderá ficar aqui mais uma semana. É essa a regra. Na verdade, é para manter essas outras regras que o Frank Iverson é pago. Agora, por favor, acalme‑se e tente compreender que o que estou a fazer é o melhor para si.

Antes de poder responder, Annie sentiu outra pontada sob o esterno. Por baixo dos lençóis, cerrou os punhos.


‑           Sabe, você não é muito bom médico ‑ acabou por conseguir dizer. ‑ Não só não sabe cuidar de si, como também não sabe cuidar dos seus doentes.

Donald Norman olhou para Doreen Lavalley, com o rosto corado de fúria e de vergonha. A velha era uma maldita refilona, sem qualquer sombra de dúvida. Não só estava a desperdiçar os poucos pontos extras a seu favor, como também estava a fazê‑lo passar por estúpido diante de Doreen.

‑           Mistress Doucette ‑ disse duramente ‑, falaremos disto mais tarde. Entretanto, deite‑se e procure descansar. Doreen, vem comigo, por favor.

Deu meia volta e saiu do quarto. A enfermeira olhou para Annie e, impotentemente, encolheu os ombros.

‑ Voltarei um pouco mais tarde ‑ sossegou‑a.

‑           Quero que ela tome Valium ‑ ordenou Norman, quando já estavam fora do alcance. ‑ Não, pensando melhor, não. Dê‑lhe antes Haldol, um miligrama e meio, por via oral, de oito em oito horas. Dê‑lhe a primeira dose imediatamente.

Doreen Lavally hesitou.

Norman sorriu e deu‑lhe uma palmadinha no ombro.

‑ Ei, Doreen, não te preocupes ‑ disse. ‑ Isto é mera rotina. Ninguém quer ir para uma casa de saúde, mas algumas pessoas têm de ir. E, ouve bem, não cheguei a chefe deste sistema por não cuidar dos meus doentes. Acima de tudo, preocupo‑me de mais com eles. Acredita que é o melhor. O Haldol irá acalmá‑la e, logo à noite, será mil vezes mais fácil conversar com ela. Espera e verás. Está bem?... Agora, quanto à minha palestra na próxima quinta‑feira. O que dizes de nos...


 

Fleet, o monoplano de 1938 cortou o ar quente do meio-dia como se de uma flecha se tratasse, sobrevoando a densa copa florestal e atravessando depois o vasto campo de erva. Ia e voltava como um ioiô, uma e outra vez rodando em torno do eixo longitudinal, com o sol a reflectir na tinta carmesim das asas, polidas à mão. Na extremidade oposta do prado, subiu, atravessando uma nuvem solitária do céu perfeitamente limpo.

Do ponto onde se encontrava, sobre uma enorme pedra, Zachary olhava atentamente enquanto os dedos, através de movimentos rápidos da alavanca no topo do telecomando, coreografavam o voo.

Uma perda de altura, um parafuso, uma subida, uma nova passagem sobre o campo; Zack construíra o avião quando ainda era estudante de liceu e, embora por vezes tivesse passado mais de um ano sem ter a oportunidade de o fazer voar, manteve o motor e o polimento em perfeito estado.

Com uma última e larga inclinação lateral, colocou o modelo contra o vento e fê‑lo aterrar suavemente na erva. Como sempre, o avião era fascinante de se ver e, nesse dia, com um pouco de sorte, seria mais do que um passatempo. Nesse dia, seria uma ferramenta que o ajudaria a romper o silêncio tortuoso de um garoto.

‑ Ei, As, foi um voo magnífico.

Suzanne, de calções brancos e T‑shirt. Darmouth, encontrava‑se numa pequena elevação e parecia ter acabado de tomar banhos de sol. Trazia um cobertor dobrado num dos braços e Um cesto de vime pendurado no outro.

‑ Sabes ‑ disse, olhando para ela ‑, há cerca de vinte minutos atrás, comecei a pressentir que talvez aparecesses.

‑ Temos tempo para almoçar? ‑ perguntou, descendo a encosta.

Zack olhou para o relógio.

‑ Cerca de quarenta e cinco minutos. Estou feliz por aqui estares.

Suzanne pôs‑se nas pontas dos pés e beijou‑o levemente na boca.

‑ Eu também ‑ disse. ‑ Posso tirar a comida, ou o Cheapdog está escondido por aí?

‑ Não. O cara de esfregona e ali o Fleet são inimigos confessos. Uma espécie de parentes rivais. Ele está em casa a cavar o quintal.

Ela estendeu o cobertor e espalhou pratos de galinha frita, peixe fumado e salada. Em seguida, tirou um pequeno rádio portátil, pousou‑o sobre a erva e rodou o botão até sintonizar a estação WEVO. O anunciante agradecia aos convidados por terem participado no Midday Roundtable e convidava os ouvintes a continuarem sintonizados, pois ia haver uma edição especial do Music of the Masters.

‑ Pelo modo como me tenho comportado contigo, deves pensar que sou um pouco louca ‑ disse ela, enquanto servia limonada. ‑ Quis pedir‑te desculpa.

Zack encolheu os ombros.

‑ Não é preciso ‑ disse. ‑ Tens tido algumas coisas para tratar muito mais importantes do que eu.


‑ Talvez. Seja como for, tenho agido como uma idiota e peço‑te desculpa.

Ele estendeu o braço e afagou‑lhe a face com as costas da mão.

‑ É justo ‑ afirmou. ‑ Se é disso que precisas, então aceito o pedido de desculpas. Pronto, sentes‑te melhor?

‑ Zack, eu... quero explicar‑te.

‑ Ei, não preciso de nenhuma...

‑ Não, eu quero. ‑ Olhou para as mãos. ‑ Pelo menos. acho que quero.

Ela passara grande parte da noite a conversar com Helene e a tentar libertar‑se do passado.

‑ Nada mais importa do que a verdade ‑ dissera‑lhe a amiga. ‑ Nada mais, senão o que realmente sentes. Exactamente aqui, no teu intimo. Eu saio como saio e encontro‑me com homens como faço, porque sei honestamente que bem no

fundo do coração detesto estar sozinha. Caso contrário, ficaria em casa ou juntar‑me‑ia a um qualquer grupo de bordadeiras. Acredita que o faria. Nesse aspecto, não tens de ser igual a mim ou a qualquer outra pessoa, mas apenas tu, Suze. Mas, e é um grande mas, não podes continuar a lutar contra os teus sentimentos. Não podes lutar contra quem és. Se julgas que gostas dele, diz‑lhe quem és e onde estiveste. Se ele conseguir aceitar, óptimo. Se não conseguir, o problema é dele.

Durante a conversa, tudo aquilo fazia muito sentido. Agora, Suzanne já não tinha tanta certeza. Para se ter uma vida segura, havia muito mais para dizer.

O prado, adjacente aos montes baixos do Sudoeste da cidade, resplandecia verdejante e dourado sob o seco sol da tarde. Comeram em silêncio durante algum tempo, ouvindo‑se apenas a profunda e cultivada voz do anunciante da wEvo, que exaltava as virtudes de um compositor inglês cujo nome Zack não conseguiu perceber.

‑ Zack ‑ disse Suzanne, subitamente ‑, a primeira vez que fiz amor em mais de três anos foi naquela noite.

‑ Bom, não estás nada enferrujada ‑ respondeu. ‑ Também penso que, sejam quais forem os motivos desses anos de celibato, não foi por falta de ofertas.

Ela sorriu entristecida.

‑ Tu és um doce. Na verdade, não houve assim tantas. Não consegui confiar o suficiente em nenhum homem, nem mesmo para o incentivar.

‑ Se estás a tentar fazer com que me sinta especial, estás a consegui‑lo na perfeição.

‑ Tu és especial.. Zack, o meu marido, o meu ex‑marido, conseguiu afectar profundamente a minha vida e depois abandonou‑me. As cicatrizes que se formaram parecem não querer sarar. Não o culpo só a ele pelo sucedido. Podia ter batido o pé quando percebi o que se estava a passar. Podia tê‑lo deixado, mas fiquei. Disse sempre para comigo que foi por causa da Jen mas, ao olhar para trás, percebo que simplesmente não consegui admitir a mim própria que estava cega e que tinha feito um juizo errado do homem com quem casei. E não consegui aceitar que ele não se preocupasse comigo o suficiente para mudar.

‑ Tu eras jovem.


‑ Vinte e três anos, se se pode chamar jovem. E, nesse aspecto, uns vinte e três anos não muito experientes. O Paul era médico. Brilhante, bonito e também encantador. Já era professor assistente aos trinta e cinco anos. Todas as mulheres da universidade tinham uma paixão por ele. Infelizmente, o que elas não sabiam, nem eu sabia, era como ele era doente por dentro. Era um sociopata, Zachary. Um mulherengo, um viciado em drogas e um fanfarrão, um tremendo fanfarrão mentiroso. Ele usou‑me. Usou‑me de todas as maneiras possíveis e imaginárias.

Procurou nos olhos de Zack sinais de julgamento ou reacção súbita, mas apenas viu tristeza.

- Se não quiseres, não tens de me contar mais nada disso - declarou, pegando‑lhe na mão.

- Não, estou bem. Muito melhor do que julgava estar. É realmente muito fácil conversar contigo.

"Durante muitos anos ‑ continuou ‑, o Paul roubou receitas do hospital, passou‑as ás mulheres dele, aos amigos íntimos ou a pessoas que nem sequer existiam, e assinou o meu nome. Fazia a minha assinatura ainda melhor do que eu. Foi a mais de uma dúzia de casas de venda por atacado e visitou praticamente todas as farmácias do estado.

‑ Jesus...

Suzanne desviou o olhar para as montanhas a sul e começou a esfregar os olhos.

‑ Estás bem? ‑ perguntou Zack.

- O quê?... Sim, estou bem.

Abriu a carteira e procurou os óculos de sol.

‑Onde é que eu ia?

‑ Estavas a falar das receitas. Escuta, se quiseres mudar de assunto, é perfeitamente...

‑ Não. não. É bom poder falar disso. - Meteu uma mão por baixo dos óculos e voltou a esfregar os olhos. ‑ Além disso não há muito mais para contar. De algum modo, o Paul descobriu que os tipos da OrA andavam atrás de mim porque, uma semana antes de aparecerem á nossa porta, ele esvaziou a nossa conta bancária, vendeu tudo o que tínhamos de valor e desapareceu. Não deixou um bilhete, não telefonou, nada. Nessa altura, a Jen tinha apenas dois anos. Cerca de um ano mais tarde, soube que estava a leccionar numa escola de Medicina, no México. Foi tambem visto numa conferência internacional em Milão. Mas, nessa altura, tudo o que queria era nunca mais voltar a ouvir falar dele.

- O que foi que te aconteceu?

‑ Como?

‑ Perguntei o que foi que te aconteceu. Suze, tens a certeza de que estás bem?

‑ O reflexo do sol incomoda‑te?

‑ Não. Porquê?

‑ Nada... nada. O que é que perguntaste?

‑ Suzanne, vamos deixar isso para outro dia...

‑Não! Onde é que eu ia?

Continuou a olhar para as montanhas. Os músculos do rosto tornaram‑se flácidos e inexpressivos. As mãos começaram a tremer.

Zack analisou‑a, incomodado. Olhou para o relógio. Barbara Nelrus e o filho deveriam chegar dentro de dez minutos.

‑ Suzanne?


Ela não respondeu.

‑ Escuta ‑ disse ele, desligando o rádio e voltando a guardá‑lo dentro do cesto de vime ‑, acho que já contaste o suficiente por um dia. ‑ Começou a guardar o resto da comida. ‑ Estou feliz por teres conseguido falar disso com...

‑ Sabes, por mais ridículo que pareça ‑ continuou Suzanne, fluidamente ‑, não tenho a certeza do que aconteceu exactamente a seguir...

Zack olhou para ela, intrigado. A tristeza tinha‑lhe desaparecido do rosto e da voz e estava mais animada que nunca. Lutou contra a vontade de voltar a perguntar‑lhe se estava bem.

- Num minuto, fui suspensa do hospital, visitei consultórios de advogados, lutei contra a Assistência a Menores e tentei defender‑me dos animais dos DEA, e no outro estava aqui em Sterling, a introduzir pacemakers.

Zack procurou nela algum sinal de distracção remanescente, mas não encontrou. Foi como se uma nuvem tivesse tapado o sol por breves instantes e depois, subitamente, o tivesse descoberto. Tentou esquecer a preocupação. Tal como dissera, ela parecia absolutamente bem.

- O Frank teve alguma responsabilidade nisso? ‑ conseguio perguntar.

‑ Acho que sim. Um dia telefonou‑me, no dia seguinte veio entrevistar‑me e julgo que, no outro a seguir, a pressão que caía de todos os lados sobre mim começou a desaparecer.

‑ Ainda bem para o Frank. ‑ Zack sentiu a tensão ceder. ‑ Ultimamente, não nos damos muito bem um com o outro. Acho que tenho de me esforçar um pouco mais.

‑           Não tenho a certeza absoluta se foi ele ou a Ultramed - disse ela ‑, mas alguém afastou os lobos das minhas costas.

‑           Que história horrível.

‑É, á excepção do fim.

‑           Considera essa parte como o início ‑ disse Zack.

‑           Espero que o facto de ter contado tudo isso te ajude a compreender porque tenho tido problemas em deixar que um homem volte a entrar na minha vida. E, por outro lado, porque me sinto obrigada a apoiar a Ultramed sempre que puder. Graças ao Paul, a lealdade passou para a frente de quase tudo da minha lista de qualidades importantes numa pessoa.

‑           Compreendo.

Ela beijou‑o... uma vez e depois outra. A última gota de preocupação desaparecera.

‑           Assim ‑ disse ela, ainda com o rosto dele nas mãos - tem paciência comigo, está bem?

‑           Só uma vez em mais de três anos, é?

‑Sim.

Ele guardou as últimas sobras do almoço e puxou‑a para si.

‑           Logo que tivermos um pouco de tempo, gostaria de ajudar‑te a melhorar essa média.

Ela roçou os lábios no pescoço dele.

‑           Nesse caso, não deixes de tentar. O meu horóscopo disse‑me para estar atenta a um estranho, alto e moreno, que fazia truques com moedas.

Zack passou lentamente os dedos pela parte de trás da coxa e pela barriga da perna dela.


‑           Obrigado pelo piquenique ‑ agradeceu ele.

‑           Obrigada pela sobremesa. E escuta, boa sorte com o rapaz, o Nelrus. Espero que isto resulte. Se hoje conseguires chegar a algum lado, acho que deves pensar em publicar a nossa técnica num jornal. Podemos intitular o artigo "Neurologia Pediátrica ao Ar Livre".

Levantou‑se.

Zack acompanhou‑a até ao carro e ficou a vê‑la, até desaparecer pela montanha abaixo. Depois regressou ao campo, a cantarolar distraído uma passagem da Fantasia on Greensleeves, de Ralph Vaughan Williams.

Toby Nelrus parecia um doente crónico. A pele estava pálida, com várias manchas pequenas de impetigo ao longo do nariz e nos cantos da boca. Estava magro como um órfão de guerra e caminhava com uma postura deprimida, com os olhos praticamente fixos no solo. Mas foi o olhar apático dos seus inexpressivos olhos cinzentos que mais preocupou Zack. Era um olhar de derrota total, que tantas vezes encontrara em doentes terminais: o olhar da morte.

A pedido de Zack, Barbara Nelrus abraçou o filho, prometeu regressar assim que terminasse de fazer as compras e conduziu montanha abaixo até à cidade. Se Toby ficou assustado com a partida dela, a sua expressão de indiferença escondeu‑o bem. Reparou quase imediatamente no Fleet e já tinha olhado para ele duas vezes, antes mesmo de ter começado a voar.

Zack reflectiu no que Brookings lhe dissera sobre a aterrorizada corrida da criança através do parque de estacionamento da clínica e percebeu que, pelo menos de momento, estava a progredir.

Um tumor, um problema de convulsões, uma anomalia vascular congénita e de desenvolvimento lento, uma reacção tóxica a algo que o rapaz estava a tomar sem ninguém saber ‑ Zack considerou todas as possibilidades contra o diagnóstico do psiquiatra e achou‑as todas prováveis. Chegou mesmo a dar uma pequena volta no bairro do rapaz, à procura de uma zona ou outro aspecto triste que pudesse estar a causar uma reacção química em Toby. Nada.

‑ Olá, garoto ‑ disse Zack, ajoelhando‑se na erva, a dois metros dele. ‑ Chamo‑me Zack. ‑ Havia curiosidade nos olhos do rapaz, mas nenhuma outra reacção. ‑ Sou médico, mas não vou examinar‑te nem fazer‑te análises e nem mesmo tocar‑te. Por favor, acredita nisso. Gostaria que aprendesses a saber que eu nunca te mentiria e que aquilo que digo é mesmo verdade, está bem? Vou repetir mais uma vez. Eu nunca te mentiria. Pedi á tua mãe para te trazer aqui, porque achei que seria mais fácil conhecermo‑nos fora do hospital.

Ao mencionar a palavra hospital, surgiu uma sombra de medo na expressão do rapaz.

‑ A tua mãe regressará assim que terminar de fazer as compras ‑ acrescentou Zack, apressadamente. ‑ Entretanto, podemos deitar‑nos por aí, explorar á volta ou até trepar àquele pequeno rochedo além. Este lugar chama‑se Meadows. Eu costumava brincar aqui quando era rapaz. ‑ Recordou‑se momentaneamente de Suzanne. ‑ Na verdade, ainda brinco ‑ acrescentou.

Os olhos de Toby concentraram‑se de novo no Fleet.


‑ Construí aquele avião há muito tempo ‑ explicou Zack. - É telecomandado. ‑ Levantou o comando para que o rapaz pudesse vê‑lo. - Ele faz loops, dá voltas e sobe em direcção às nuvens. Anda. Vai vê‑lo de perto.

Toby Nelrus continuou onde estava, mas indubitavelmente interessado.

‑ Vai. Não há problema. Vou ao carro buscar gasolina para o avião.

Só quando já estava junto à carrinha é que Zack olhou para trás. O rapaz estava ajoelhado ao lado do Fleet e, muito suavemente, passava os dedos sobre o verniz luzidio das asas.

 

Demasiado ansiosa para se manter afastada durante os quinze minutos previamente acordados, Barbara Nelrus desceu montanha abaixo, parou a uma determinada distância do prado e regressou silenciosamente a pé até à carrinha de Zack, um tanto na expectativa de encontrar o filho á sua espera, quase histérico. Pelo contrário, o que encontrou foi um bilhete preso no vidro de trás.

 

Mistress Nelrus,

Veja se quiser mas, por favor, tente não ser vista. O Toby ainda não disse uma palavra, mas está quase. Preciso de mais uma hora. Por favor, ligue para o meu consultório e peça á recepcionista para cuidar o melhor possível das minhas consultas. Falaremos mais tarde.

Z.        Iverson

 

Por trás de uma pequena elevação, ela conseguiu ouvir o ruído sonoro do motor do aeromodelo. Agachando‑se, conseguiu aproximar‑se. Perto do topo da pequena colina, deitou‑se sobre a erva alta e espreitou. Zachary Iverson estava sentado sozinho, de costas para ela. O filho não estava á vista.

Subitamente aterrorizada pelo facto de ter confiado num homem que pouco mais era do que uma voz ao telefone, começou a levantar‑se.

Então, com a mesma rapidez, voltou a deitar‑se.

Ali estava o rapaz, aninhado entre as pernas do médico, a partilhar a alavanca do telecomando.

‑           Isso mesmo, garoto ‑ ouviu Zack gritar, devido ao barulho. ‑ Mais um pouco, um pouquinho e... agora!

O avião, que tinha começado a rolar lentamente sobre a erva, avançou e levantou voo, subindo quase a pique em direcção á copa das árvores, no extremo oposto do prado.

‑ Isso mesmo. Já aprendeste. Agora, alivia a pressão. Alivia a pressão. Fantástico! Mantém‑no aí mesmo.

Agora bem acima das árvores, o modelo voou suavemente para sul e, devagar, começou a contornar o campo.

- Consegui! Consegui!

Foram precisos muitos segundos para Barbara Nelrus perceber que a voz excitada que acabara de ouvir era a do filho. Com um tremendo nó de emoção na garganta e lágrimas nos olhos, fez o percurso inverso e desceu a montanha.

 

Zack e Toby Nelrus deitaram‑se frente a frente sobre a erva aquecida, a alguns metros do Fleet, mastigando paus de cevada silvestre e vendo um falcão com cauda vermelha a fazer loops lá no alto, sem esforço, sob o sol quente do meio‑dia.


‑ Agora, quem é que achas que está a controlar o telecomando daquele modelo? ‑ perguntou Zack. ‑ Quem quer que seja, conseguiu construir um motor silencioso.

‑ Que parvoice ‑ disse Toby Nelrus.

‑ Claro que é. Qualquer pessoa com dois dedos de testa consegue dizer que aquilo é só um papagaio. Agora, se eu conseguisse ver o fio...

Uma vez quebrado o silêncio ‑ o medo e a falta de confiança ‑ as palavras do rapaz saíam com uma facilidade surpreendente e até mesmo com uma espontaneidade ocasional. Zack sentira‑se relutante em testar o progresso conseguido com perguntas específicas, mas agora que faltavam apenas alguns minutos para as duas horas passadas juntos, sentiu‑se suficientemente seguro para tentar.

‑           Sabes, garoto ‑ começou ‑, muita gente tem estado preocupada contigo nestes últimos meses.

‑Eu sei.

‑           E mesmo assim não falas com ninguém?

Tobby abanou a cabeça.

‑           Nem mesmo com os teus pais?

O rapaz olhou vagamente para a forma em crucifixo que planava lá no alto.

‑ Eles nunca me ajudam ‑ respondeu subitamente. - Grito por eles e peço‑lhes para impedirem o... homem de me magoar. Mas eles só aparecem quando já é tarde de mais. Nunca conseguem impedi‑lo.

‑ Que homem? ‑ perguntou Zack, sentindo de imediato repulsa e temendo a ideia de o rapaz estar a ser molestado. - Quem é que está a magoar‑te?

Toby virou a cara.

‑ Ei, garoto, desculpa. Não queria dizer nada que te aborrecesse ou assustasse.

Durante alguns momentos de ânsia, Zack temeu ter ido longe de mais e fechado a porta que, de uma forma tão cautelosa, tinha aberto.

- O homem da máscara ‑ disse Toby, sem se virar.

‑ Máscara?

O rapaz começou a ficar inquieto e encostou fortemente os joelhos aos ombros.

Zack decidiu que, por um dia, já tinha avançado o suficiente. Procurou uma moeda no bolso. Um bom truque de polegar e palma e tudo acabaria bem.

- corta‑a ‑ disse Toby, quase num murmurio. - E... e depois ela torna a crescer... depois, ele volta a cortar.

‑ Corta o quê, Toby?... Olha, sei que é difícil falar disso, mas tens de tentar.

Pensou aproximar‑se e pousar uma mão no ombro do rapaz, mas depois pensou melhor. Sentiu o coração bater apressado. Não pares agora, garoto. Não desistas de mim.

‑ A minha... pilinha. E os testículos, também.

‑ Queres dizer que ele te toca?

‑ Não, corta‑a. Ele promete que não vai magoar‑me. Promete que vai tratar do meu alto e depois corta‑a. E dói muito. Dói e eu grito, mas ele não pára. E eu grito pela minha mãe e pelo meu pai, mas eles nunca vem.

O rapaz começou a chorar, os ombros a tremerem convulsivamente a cada soluço.

De novo, Zack aproximou‑se para tocar nele mas, antes de o poder fazer, o miúdo saltou e abraçou‑se a ele.


‑ Por favor, Zack ‑ pediu, a chorar baixinho. ‑ Não o deixes magoar‑me mais.

Ele promete que vai tratar do meu alto... Subitamente, as palavras do rapaz ficaram gravadas.

- Toby - sussurrou Zack, ainda a abraçar fortemente o rapaz ‑, o alto a que te referes é a tua hérnia? Este ponto aqui onde foste operado?

O rapaz concordou com a cabeça, o corpo ainda desfeito em soluços.

- E o homem da máscara... É o médico? - Nova concordância com a cabeça.

Zack afastou‑o ligeiramente, mas continuou a abraçá‑lo pelos ombros.

‑ Toby, olha para mim. Acho que só tens tido pesadelos. Sonhos maus e horríveis, mas sonhos que normalmente desaparecem assim que vemos como realmente são. A operação foi perfeita. Tudo o que sobrou foi uma pequena cicatriz. O alto desapareceu para sempre.

‑ Não ‑ disse o rapaz, zangado. ‑ Não desapareceu. Volta a crescer. Tal como a minha pilinha e os meus testículos. Mas ele volta a cortá‑los outra vez e dói... cada vez mais.

Intimamente, Zack suspirou de alívio. O profundo distúrbio do rapaz resumia‑se a um pesadelo ‑ a expressão de medos enclausurados em redor de um procedimento efectuado há cerca de um ano. Fascinante, mas certamente não era difícil de compreender, nem era uma situação tão má quanto pensava. Pelo menos, Brookings teria algo para trabalhar.

- Não acreditas em mim, não é? ‑ perguntou Toby. - Não é um sonho. Ele corta‑os, eles voltam a crescer e então ele pega na Metzenhaums e volta a cortá‑los.

Zack sentiu um súbito arrepio violento.

- Ele pega em quê? ‑ Não conseguiu disfarçar a incredulidade na sua voz.

- A Metzenliaums. Ele pede‑a à enfermeira e espeta‑a em mim exactamente aqui e isso magoa‑me muito. Depois corta e corta.

‑ Toby, pensa bem ‑ pediu Zack, ansioso. ‑ Já ouviste mais alguém dizer essa palavra?

‑ Que palavra?

‑ Metzenhaums, Toby. No teu pesadelo, ouviste mais alguém além do médico a dizer essa palavra?

Toby Nelrus abanou a cabeça.

Zack soltou o rapaz e apoiou‑se nos braços. Algo estava errado. Algo estava muito errado. A tesoura Metzenhaums era vulgarmente utilizada em cirurgia, mas muito raramente, para não dizer nunca, antes de ser feita a incisão inicial na pele. Toby Nelrus teria de estar a dormir quando foi pedida. Anestesiado. De modo algum ele podia ter ouvido essa palavra e percebido sozinho o seu significado preciso. De modo algum.

Mas, de alguma maneira, ele ouvira.


 

Quando Zack terminou a ronda e se dirigiu ao consultório, a noite tinha caído sobre o vale. Para sudoeste, a silhueta das montanhas pareciam recortes em ébano contra o azul‑escuro do céu. Era uma noite calma e espantosa, perfeita para um passeio a pé junto ao lago Schroon, ou a cavalo até aos contrafortes para ver o nascer da Lua. Era uma noite para se celebrar a alegria de viver.

Todavia, para Zack a magia da noite perdera‑se na reflexão das lutas angustiantes de um cirurgião idoso e do apelo desesperado da enfermeira que o condenara; e preocupado com o que devia dizer aos pais de uma criança que estava a mergulhar cada vez mais fundo no inferno dos sonhos que não eram sonhos ‑ sonhos que cortavam, magoavam e mutilavam.

Quando atravessou o parque de estacionamento, Zack reparou no Porsche de Frank, estacionado no lugar que lhe era reservado. Manhãs antecipadas, noites prolongadas, fins‑de‑semana ‑ apesar de todos os defeitos e fracassos do passado, ele tornara‑se um demónio do trabalho.

Zack entendeu que, em breve, os dois teriam de conversar.

Havia coisas que Frank precisava de saber e compreender melhor: a Ultramed, Guy Beaulieu... e, especialmente agora, Toby Nelrus.

O estado do rapaz encontrava‑se claramente em espiral decrescente, e cada dia que passava era um aliado perdido na luta pela descoberta da verdade. Com a ajuda de Frank, o caminho para encontrar as respostas a tempo e horas seria consideravelmente mais curto.

Mas será que ele lhe daria ouvidos?

Ao longo dos anos, e em muitos aspectos, os dois tinham‑se afastado um do outro. O desacordo sobre Guy Beaulieu só servira para sublinhar as diferenças. No entanto, Zack não esquecera que eram irmãos, e que cada um deles tinha um papel significativo no Ultramed‑Davis e em Sterling.

Voltou a olhar para o Porsche. às sete horas dessa manhã, quando entrou de serviço, ele já ali estava. Agora, após mais de treze horas, Frank ainda estava a trabalhar. De que mais testemunhos precisava ele? O homem tinha‑se atracado à estrela do Ultramed‑Davis. Se houvesse alguma ameaça à integridade do hospital, ele daria ouvidos.

Pelo menos, Zack tinha a certeza disso. Mas também sabia que tudo o que possuía eram teorias ‑ impressões pessoais e algumas perguntas. O irmão era um homem da companhia. Se houvesse problemas no seu paraíso, seriam precisas mais do que suspeitas para se conseguir a sua ajuda... muito mais.

 

Barbara Nelrus e o marido esperavam num dos bancos de pedra que flanqueavam a entrada da Clínica dos Médicos e Cirurgiões. Bob Nelrus, bem parecido, impecavelmente vestido e de aspecto firme, tinha nitidamente vivido menos os problemas diários da doença de Toby do que a mulher. Cumprimentou Zack com um firme aperto de mão.

‑           Muito prazer em conhecê‑lo ‑ disse. ‑ A Barbara disse‑me que fez um verdadeiro progresso com o nosso filho. Isso é óptimo. É excelente. Utilizar o seu avião foi uma ideia brilhante.

‑           Obrigado, mas...


‑           Sabe, eu não sou profissional, mas desde o inicio que tento dizer à Barbara que tudo não passa de uma fase aborrecida e que, quando chegasse a hora do nosso filho ficar bom, ele ultrapassaria tudo. Tudo indica que os dois deram hoje um grande passo nesse sentido.

‑ Considere‑o como um passo de bebé ‑ disse Zack.

Apesar do ar pretensioso das palavras e dos modos de Bob Nelrus, bastou olhar para ele para Zack perceber que o homem estava a atirar às cegas. Como supervisor da fábrica, estava habituado a aceitar o fardo dos problemas dificeis e a resolvê‑los. A sua frágil negação requeria um tratamento delicado e uma percepção constante de que o estado de Toby não era menos desconcertante e assustador para Bob Nelrus do que a sua impotência para o encarar.

Enquanto entrava no elevador atrás do casal, Zack voltou a pensar no que deveria ou não dizer‑lhes. Nunca fora próprio de si esconder informações dos seus doentes ou, quando o doente estava em coma ou era jovem, dos respectivos familiares. Mas não se tratava de uma informação. Era uma mera conjectura.

E, mesmo quando testou a explicação em si próprio, pareceu‑lhe no mínimo fantasmagórico.

Mister e Mistress Nelrus, não sei como vos dizer isto, mas penso que o vosso filho não estava a dormir durante a operação à hérnia, no ano passado. Para o cirurgião e o anestesista, ele pareceu estar totalmente anestesiado. Contudo, de algum modo e até determinado ponto, ele "viu" a operação a partir do interior do seu corpo mas, segundo parece, também sentiu completamente a dor causada pela mesma.

Agora, de um modo perverso e distorcido, ele revive a operação em retrospectivas aterradoras, muito semelhantes às descritas pelos consumidores de LSD... Não, não faço a menor ideia como isso pôde acontecer.. Não, tudo quanto sei é que nunca foi comunicado um fenómeno desses com a anestesia que ele recebeu... Não, não tenho nenhuma prova real que confirme o que digo... Não, não sei o que pode possivelmente originar os ataques... Não, não faço a menor ideia... Não sei... Não sei... Não sei...

As suas suspeitas eram vagas, fantásticas e virtualmente sem provas. Revelá‑las aos pais do rapaz, quase de certeza iria precipitar uma acção prematura deles contra a Ultramed, o hospital e os médicos envolvidos na operação de Toby ‑ uma acção que Zack ainda não se encontrava em posição de poder apoiar e a qual podia muito bem conduzir ao disfarce da verdade... fosse esta qual fosse.

‑ Mister e Mistress Nelrus ‑ começou, assim que o casal se sentou diante da sua secretária ‑,lamento não ter muito para dizer nesta altura. O Toby não me contou muita coisa. Contudo, disse‑me o suficiente para suspeitar de que está a sofrer de reacções de medo muito profundo e que, enquanto ocorrem, ele torna‑se completamente incapaz de as distinguir da realidade. Por outras palavras, em poucos segundos apenas e aparentemente com um aviso insignificante, é transportado de onde se encontra para outra realidade... uma realidade muito distorcida e bastante aterradora.

‑ Está a dizer que ele enlouquece? ‑ perguntou Barbara Nelrus.


‑ Já o observaram ‑ respondeu Zack, ainda a apalpar o terreno. O que pensam?

- a insanidade é uma doença, não é? Um estado do ser. Como pode acender e apagar como uma lâmpada?

‑ E o que tem o hospital a ver com isso? ‑ acrescentou Bob Nelrus.

‑ Não sei ‑ disse Zack, imaginando quantas vezes mais teria de repetir aquela frase.

‑ Bem, qual é a sua opinião?

Zack entrelaçou os dedos, procurando ganhar mais alguns segundos para arrumar as ideias. Por mais que detestasse a decepção, este não era simplesmente o momento para manifestar a sua teoria.

‑ Presumo que ambos conhecem a epilepsia? ‑ começou. - Bom, a maior parte das pessoas considera a epilepsia como um distúrbio eléctrico do cérebro que causa ataques periódicos. Estes ataques, com os quais estamos muito familiarizados, são ataques motores, isto é, envolvem os músculos e as extremidades. Mas, supondo que a explosão eléctrica ocorre numa ou mais áreas cognitivas do cérebro, as áreas do pensamento, o que resultaria era ainda um ataque, mas seria um ataque sensório e não motor.

‑ Está a tentar dizer‑nos que o Toby sofre do petit mal ou epilepsia do lóbulo temporal? ‑ perguntou Barbara.‑ Li tudo o que consegui encontrar sobre ambas as doenças e, muito francamente, doutor Iverson, não penso que o problema do Toby se encaixe nalguma delas. Ele é agressivo como na epilepsia do lóbulo temporal, mas apenas por ficar completamente aterrorizado. E muito pouco do seu comportamento se assemelha às reacções de fuga isoladas de que li sobre o petit mal. E embora o electroicefalograma do sono não seja assim tão preciso em ambos os diagnósticos, o do Toby foi normal na única vez que o fez.

Zack sentiu corarem‑lhe as faces e ficou alerta contra quaisquer mentiras elaboradas. Barbara Nelrus estava demasiado informada e era demasiado inteligente. Estava cansada de receber evasivas de médicos e profissionais de saúde mental, e tinha estudado bem a lição.

- Não sei o que dizer, Mistress Nelrus ‑ afirmou ‑ excepto salientar que, se o caso do Toby fosse fácil de compreender e típico, alguém já o teria diagnosticado antes.

‑ E quanto ao hospital? ‑ voltou a perguntar Bob Nelrus. ‑ O rapaz não lhe disse nada que explicasse porque é que parece tão assustado?

‑ Nada específico ‑ mentiu Zack. ‑ Mas, uma vez que essa é a pista principal que possuímos, penso que é nessa direcção que a nossa investigação deve seguir.

Barbara Nelrus curvou‑se visivelmente.

‑ Doutor Iverson, tudo bem quanto às investigações, mas o senhor viu o Toby. Parece um pau. A pele começa a ficar infectada. Faz nódoas negras quase sem motivo. Fica com febre sem indícios de infecção. Ele está a morrer, doutor Iverson. Garanto‑lhe que o tempo está a esgotar‑se. O nosso filho está a morrer.

‑ Barbara, não digas isso! ‑ disse abruptamente Bob Nelrus.

O seu ímpeto tocou um ponto sensível.

- Não me digas o que devo ou não dizer ‑ gritou. ‑ Tu ficas na maldita fábrica até às sete da noite. Não o vês.


- Raios, Barbara, faço tudo o que posso. Tu é que não prestas atenção a mais nada senão ao Toby nestes últimos...

- Por favor - interrompeu Zack. ‑ Por favor. Sei que isto tem sido dífícil para ambos. Mas acusarem‑se um ao outro não ajuda ninguém, e muito menos o Toby.

O casal parou bruscamente, entreolhando‑se, envergonhados.

- Desculpe‑nos - pediu Barbara. ‑ Antigamente nunca discutíamos, nem mesmo em casa quando estávamos sozinhos. Mas isto afectou‑nos a todos... ‑ Desviou o olhar.

‑           Eu entendo, Mistress Nelrus. Só peço que ambos tentem fazer o máximo possível e que me dêem algum tempo para descansar um pouco e conversar com certas pessoas. Trabalhareio mais rápido que possa. Prometo‑vos. E conto voltar a ver-vos na próxima semana, à mesma hora e no mesmo sítio.

- E entretanto?

Zack encolheu os ombros.

 ‑ Entretanto, penso que não seja indicado qualquer tratamento específico. Em especial, por ainda não saber exactament o que se passa. Garanto‑vos que sou bastante responsável pelos meus doentes e sei perfeitamente que não temos todo o

tempo à nossa frente. Farei o meu melhor para chegar rapidamente ao fundo da questão.

Levantou‑se, esperando que a mudança atingisse um fim piedoso antes que Barbara Nelrus pudesse intrometer‑se nas incorrecções da sua explicação.

‑ Obrigado - agradeceu Bob, levantando‑se tal como Zack e apertando‑lhe a mão.

Zack acompanhou‑os até à porta exterior do consultório e voltou a prometer trabalhar o mais rapidamente possível.

‑ Doutor Iverson, posso fazer‑lhe só uma pergunta? - indagou Barbara Nelrus.

‑ Com certeza.

‑ Está a esconder‑nos alguma coisa?

Zack teve de se esforçar para continuar a olhar para a mulher. Era uma técnica na qual, ao contrário de Frank, nunca fora muito bom.

‑ Não, Mistress Nelrus - respondeu, categórico. - Não estou.

A mulher hesitou e, por instantes, pareceu decidida a desafiar a negação. Em seguida, estendeu a mão.

‑ Então, se é esse o caso, obrigada, doutor. Manter‑nos‑á informados, não é assim?

Tomou o braço do marido e afastou‑se com ele pelo escuro corredor fora.

Zack esperou até as portas do elevador se fecharem atrás deles. Doeu‑lhe ter mentido, ao lembrar‑se do poder da doença sobre a vida de famílias inteiras. Pelo olhar de despedida, também percebeu que Barbara Nelrus nunca mais lhe permitiria esconder‑se atrás de evasivas e meias verdades.

Voltaria a rever o registo de Toby Nelrus e depois contactaria a biblioteca dos Institutos Nacionais de Saúde em Bathesda, para uma pesquisa completa das reacções adversas à anestesia que ele recebera. Por último, teria uma reunião com Jack Pearl e Jason Mainwaring.


Para além desses passos, nada mais havia a fazer excepto outra sessão com o próprio Toby e depois a comunicação das suas suspeitas a Frank. Algo acontecera ao rapaz durante a sua hospitalização no Ultramed‑Davis ‑ algo devastador. Se nada mais desse resultado, Frank teria de perceber que era do interesse de todos que ele prosseguisse a investigação do assunto. Ele cooperaria, ou teria de enfrentar Barbara Nelrus e o respectivo advogado.

 

‑ Frank, não te mexas, querido, por favor. É tão bom. Quero continuar a sentir‑te, enquanto ainda estás dentro de mim. Só mais um pouco. Está bem?

A secretária de Frank, a loira, chamava‑se Annette Dolan. Tinha‑se mudado para Sterling com o filho e a mãe, e trabalhava como recepcionista do Restaurante Mountam Laurel quando Frank a vira pela primeira vez e lhe oferecera emprego. As habilitações dela para o lugar eram, pura e simplesmente, o facto de ficar melhor de camisola do que nenhuma outra mulher que ele jamais vira.

Era uma recepcionista medíocre e, como secretária, pior ainda, mas era simpática e educada com todos e provara ser um passatempo maravilhoso e nada exigente, em especial nas ocasiões em que ele conseguia satisfazer‑lhe a paixão pela cocaína.

‑ Está bem, querida ‑ respondeu, passando‑lhe os polegares sobre os mamilos. ‑ Mas despacha‑te. Já não tenho muito mais tempo.

Durante mais de uma hora, primeiro sobre o tapete oriental do gabinete e depois no sofá, Annette fez amor com ele como só ela sabia ‑ pura e apaixonadamente, sem nenhum dos principais jogos que ele tolerava, mas que detestava em mulheres mais inteligentes.

Frank aninhou os seios dela nas suas mãos, enquanto ela introduzia o extremo de uma palhinha no nariz, baixando‑a sobre o espelho que descansava em cima do peito dele.

‑ Isso ‑ murmurou ele, enquanto ela inalava o pó. ‑ Toma‑o todo, querida. Toma‑o todo.

Olhou para o relógio em acrílico Lucite sobre a estante. Oito e vinte. Faltava menos de uma hora para Mainwaring terminar. Menos de uma hora até ao começo do fim. Annette tinha sido o aperitivo perfeito para aquela sessão. Contudo, tinha chegado o momento de a despachar e mandá‑la para casa.

Frank esperou até ela ter retirado do espelho os últimos grãos de pó, passando‑os para as gengivas. Em seguida, olhou superficialmente para o espelho do outro lado da sala e puxou para si o magnífico e luzidio corpo dela. Lentamente, deixou‑se cair do sofá e ficou por cima dela no tapete.

Era linda à vista e ao toque mas, depois de uma hora e pelo preço de cem dólares de cocaína, pouco mais tinha que o excitasse. Tudo o que restava era a necessidade mecânica de atingir o climax. Agarrou‑a pelos sedosos cabelos cor de milho, apertou o peito contra os seios dela e enterrou‑se nela uma e outra vez até que, em menos de um minuto, tudo terminou.

Se pelo menos Lisette soubesse o quanto ele necessitava daquele tipo de sexo sem complicações e inquestionável, tudo seria muito melhor para eles, pensou. Muito melhor.


Levou um minuto a tocar no clitoris da mulher, em seguida, no estômago liso e macio e, por último, no seu perfeito rabo. Em seguida, sentou‑se na cadeira atrás da secretária e ficou a vê‑la vestir‑se. Uma vez por semana, ou em cada duas semanas, era perfeito o suficiente para manter a aventura viva e evitar que a mulher se cansasse.

Distraidamente, folheou os papéis que havia na secretária: papéis que incluiam a candidatura do cirurgião que viria substituir Mainwaring. Tudo decorrera como o mecanismo de um relógio, meditou Frank, tal como prometera que seria. Ele e Mainwaring tinham calculado dois anos, e haviam sido precisamente dois anos.

Agora, faltava menos de uma hora para darem início á fase final do projecto. Menos de uma hora até ao inicio do fim, até ao início de tudo o que era bom para ele.

Frank embrulhou o resto da cocaína e entregou o saco de plástico à mulher.

- Toma, querida - disse. - Aproveita.

- Prometeste experimentar um dia comigo, Frank. lembras‑te?

- Talvez um dia. Por agora, vai para casa e aproveita - respondeu. Não tenho grande utilidade para essa merda. Há coisas suficientes com as quais posso divertir‑me. Como tu, por exemplo.

É como um milhão de dólares, pensou.

 

Frank tomou um duche na casa de banho do seu gabinete, vestiu‑se e limpou todos os vestígios da sua sessão com Annette Dolan. Depois, sentou‑se diante do terminal de computador sobre a secretária. Ainda faltavam vinte minutos para Mainwaring terminar, o tempo suficiente para consultar a Mãe.

E Frank achou que era especialmente adequado que o fizesse.

Na altura em que se sentiu entre a espada e a parede, quando a falta dos duzentos e cinquenta mil dólares que tinha tirado momentaneamente da conta do hospital e perdido no absurdo negócio de terras olhavam para ele como um profundo buraco negro de condenação, a Mãe apresentou‑lhe a solução.

A Mãe era UltraMa, o computador principal da Ultramed que se encontrava na sede, em Bóston. Era a fibra que mantinha unido o império da Ultramed em expansão e fornecia a consistência, a rápida troca de informação e uma combinação de médicos aparentemente infindável.

E no momento mais escuro e de maior desespero de Frank,, oferecera‑lhe tanto Jack Pearl como Jason Mainwaring.

Frank activou o terminal, discou o número de rede e virou o interruptor do telefone. Em segundos,

 

Boa noite, bem‑vindo ao UltraMed.

Por favor, introduza o código de acesso

 

apareceu no ecrã.

Frank introduziu o código e depois, quando lhe foi pedido, a sua própria password. Dentro de cerca de uma semana, o direcctor regional receberia uma impressão dos utilizadores do UltraMed e verificaria na respectiva folha de avaliação que, às vinte e uma horas desse dia, Frank ainda estava no gabinete a trabalhar.

 

Boa noite, Mr. Iverson. Esperamos que tudo esteja bem em Sterling, New Hampshire. Deseja ver o seu menu?

 


Frank carregou na tecla 5.

Surgiu de imediato O MENu DO ADMINISTRADOR, seguido disto:

 

1.     Alterações no manual de procedimentos e políticas

2.     Médicos do corpo clínico actual da Ultramed e salários apenas do seu hospital)

3.         Médicos do corpo clínico actual da Ultramed e salários apenas da sua região)

4.         Médicos disponíveis (por especialidade)

5.         Promoções, transferências, termo de contratos (dos últimos 30dias)

6.         Notícias em destaque sobre a saúde nacional

7.         Noticias em destaque sobre a saúde regional

8.     Fornecedores e serviços preferidos (apenas na sua região)

9.     Índices de desempenho (regional)

10.      índices de desempenho (nacional)

11.    Círculo Dourado dos Administradores

 

Tal como fazia invariavelmente quando comunicava com a Mãe, Frank começou por confirmar o seu estatuto de membro do Círculo Dourado e a posição de administrador principal da região nordeste.

Administrador principal. Círculo Dourado. Tinha agora vontade de rir pelo facto de ter estado tão perto de nem sequer poder candidatar‑se ao lugar do Ultramed‑Davis. Mas, com a sua empresa de electrónica a ir por água abaixo, o juiz a recusar ajuda e Leigh Baron a insistir que seria seriamente considerado no processo de procura, apesar da falta de experiência hospitalar, não tivera realmente nada a perder.

Fora um choque ligeiro quando finalmente lhe ofereceram o lugar. E, embora não se pudesse pôr em causa o seu notável sucesso com a corporação, para ele continuou a ser um mistério a razão por que Leigh o escolhera entre muitos outros candidatos mais experientes.

Frank consultou as categorias regionais e nacionais, depois regressou ao Menu do Administrador e chamou o quarto item.

Os médicos de possível interesse para o sistema da Ultramed estavam listados por especialidade e subespecialidade, juntamente com o sumário pormenorizado, mas directo, dos estudos e experiência de trabalho.

Contudo, o quarto item pouco se assemelhava a um típico quadro de avisos de emprego. Junto a muitos dos nomes, havia um parágrafo que resumia as dificuldades profissionais e/ou pessoais que tornavam esse médico disponível.


Drogas, álcool, complicações sexuais, irregularidades financeiras, má conduta profissional de um tipo ou de outro compilar o rol era o trabalho a tempo inteiro de uma investigadora da sede, obsessivamente aplicada. Acima de todas as suas responsabilidades, estava a eliminação dos médicos para quem havia pouca ou nenhuma esperança de recuperação. Os que constavam da lista, muitos deles excelentes profissionais, tinham um interesse especial para a corporação. Com grande frequência, provavam ser empregados devotos, gratos por uma segunda oportunidade, totalmente leais à companhia e respectivas políticas, e dispostos a trabalhar por qualquer salário que fosse razoável.

Steve Baumgarten, da ala das urgências, fora recrutado através do singular quadro de avisos do UltraMed. Tal como Suzanne Cole, um verdadeiro troféu, que quase desde o início gerou um lucro várias vezes superior ao seu salário.

Mas, para Frank, foi a aposta dupla de Jack Pearl e Jason Mainwaring que fez a Mãe valer os seus megabytes em ouro.

Durante o tempo em que Frank se sentiu entre a espada e a parede, quando estava a ficar tão desesperado por causa dos duzentos e cinquenta mil dólares que já pensava pedir ajuda ao juiz, surgiu no quarto item o nome de Jack Pearl.

A descrição do problema de Pearl, que Frank conseguiu memorizar, dizia:

 

Possui a patente do que afirma ser uma nova e revolucionária anestesia geral. Licença do Texas suspensa devido a investigação de alegado teste clínico da substância e falsificação de informação sobre a utilização experimental do medicamento. Médico com nome igual pediu demissão em 1984 do Hospital Comunitário Wilkes, Akron, Hio, devido a um alegado envolvimento sexual com um rapaz de dez anos. Mais informações a serem actualmente procuradas.

 

Um tanto intrigado, Frank pensara investigar um pouco sobre o homem mas não se dedicara muito ao projecto até que, cerca de um mês depois, o UltraMed lhe oferecera um breve resumo sobre um professor de cirurgia de Baltimore. Tinha‑se descoberto que Jason Mainwaring era director e sócio de uma empresa farmacêutica e, consequentemente, tivera de se demitir devido a acusações de conflito de interesses e de utilização ilegal de um medicamento não aprovado.

Fizera várias viagens a Maryland, à Jórgia, ao Texas e ao Ohio; despendera vinte mil dólares adicionais dos fundos do Ultramed‑Davis para recolher informações e garantir a cooperação de um determinado político de Akron; e, por último, fizera uma série de negociações muito delicadas com ambos os médicos. Mas, no final, Frank conseguira forjar a chave do seu futuro. E agora, dentro das próximas duas semanas, tudo o resto estava prestes a fazer parte do passado.

Durante vários minutos, Frank examinou o rol de médicos electrónico. Como sempre, ficou admirado como muitos dos que possuíam o bilhete de acesso definitivo ao sucesso e prestigio podiam ter feito asneiras tão patéticas nas suas vidas.

Um pediatra de Hartford prestes a completar quatro meses num centro de reabilitação de alcoólicos; um ginecologista de Washington, que cancelou as consultas hospitalares a meio de uma nuvem de acusações de que os seus exames eram demasiado prolongados e incluíam visitas domésticas; um cirurgião oral que enfrentava uma revogação da licença por receitar narcóticos a mais a si próprio; Frank anotou vários nomes, juntamente com memorandos para fazer algumas chamadas preliminares.

A Ultramed e a sua corporação materna tinham o poder de fazer desaparecer as dificuldades do passado de qualquer médico, à excepção da investigação mais intensiva. Contudo, os administradores foram bastante alertados contra a utilização indiscriminada desse serviço.


Frank tinha acabado de comunicar com a Mãe quando, batendo discretamente, Jason Mainwaring entrou no gabinete. Vestia um fato de algodão claro, camisa com monograma e sapatos de lona brancos, e assemelhava‑se bastante ao proprietário de plantação que planeava ser, assim que a companhia farmacêutica tivesse produzido e comercializado com êxito o Serenil de Jack Pearl.

‑ Uma bebida? ‑ perguntou Mainwaring, pousando a mala e dirigindo‑se directamente ao pequeno bar da estante de Frank.

‑ Sim - disse Frank, silenciosamente ofendido com os modos como o homem entrara na sala e se encarregara de tudo, como sempre. ‑ Bourbon é óptimo.

O cirurgião apontou para a enorme fotografia aérea do complexo do Ultramed‑Davis.

‑ Que bela operação têm aqui, Frank ‑ afirmou. ‑ Acho que vou sentir um pouco de saudades, mas é em casa que está o coração, não é verdade?

‑ Claro ‑ respondeu Frank. ‑ Apesar de saber que já aqui estavas há demasiado tempo, apenas percebi um ligeiro sotaque ianque naquela troca de palavras do outro dia.

Mainwaring riu alto enquanto vasculhava a colecção de cassetes de Frank.

‑ Mantovani, Mantovani, Mantovani ‑ disse com desdém, pondo‑as de lado, uma a uma. ‑ Sabes, a coisa que aqui tens mais próxima do Beethoven é o Mantovani.

‑ Eu gosto do Mantovani ‑ afirmou Frank.

‑Eu sei.

Mainwaring pensou por instantes e depois abriu a mala, tirou duas cassetes e pousou‑as sobre a secretária.

‑ Sei que, provavelmente, estou a desperdiçar o meu latim ‑ disse ‑, mas eis aqui alguns exemplos de verdadeira música para ti. É o que ouço na sala de operações. Considera‑as como um presente de despedida. Esta é a Terceira Sinfonia de Beethoven. Chama‑se Eroica. E esta é de um compositor inglês, chamado Vaughan Williams. Trata‑se de uma fantasia sobre o Greensleeves. Ouve estas duas peças e suspeito que até tu irás apreciar a diferença entre a verdadeira música e a categoria de Burger King que tens estado a ouvir.

‑ Está bem, Jase ‑ anuiu Frank, guardando as cassetes na gaveta da secretária. ‑ Começarei a minha reeducação amanhã de manhã.

‑ Fazes bem.

Mainwaring sentou‑se no sofá que Frank e Annette Dolan tinham deixado vago tão recentemente e indicou a Frank o cadeirão à sua frente.

‑ Detesto fazer negócios com alguém sentado do outro lado de uma secretária ‑ explicou.

A não ser que seja a tua?, pensou Frank. Hesitou, mas acabou por fazer o que o homem lhe pediu. Nesta fase do jogo, não havia razão para complicar as coisas.

‑ Então, Jason ‑ disse. ‑ Presumo que ainda estejas satisfeito.

Mainwaring tirou uma pasta da mala e abriu‑a.


‑ Com este tipo de dinheiro envolvido ‑ disse ‑, só ficarei satisfeito depois do nosso pequeno anestésico estar em todas as salas de operações de todos os hospitais do mundo. Mas estou muito satisfeito com os... ‑ Consultou a pasta. ‑ Com os quatrocentos e noventa e seis casos que o Jack e eu completámos. Devo dizer, Frank, que cumpriste a tua palavra. Prometeste‑me quinhentos casos em dois anos, e deste‑mos.

‑ Como te disse quando nos conhecemos, Jason, conheço esta cidade.

A chave de todo o projecto fora a pronta substituição de Guy Beaulieu por Jason Mainwaring. Somente Frank e, até certo ponto, Mainwaring sabiam com que pericia Frank engendrara o feito. Pormenores: foi ao que tudo se resumiu. Atenção a retoques como a carta para Maureen Banas, ameaçando o seu próprio lugar caso ela contasse a alguém, incluindo ele mesmo, o que estavam a fazer‑lhe. O tipo de pormenores a que ele não dera importância três anos antes.

‑ É pena o que aconteceu ao velho Beaulieu ‑ disse Mainwaring em voz branda.

Frank não conseguiu dizer se o homem estava a ser cínico ou não. Mais uma vez, optou por evitar uma discussão. De manhã, Mainwaring já lá não estaria. E dentro de cerca de uma semana, voltaria para apresentar oficialmente o seu pedido de demissão e depositar um milhão de dólares na conta de Frank nas ilhas Caimãs e meio milhão de dólares na de Pearl, em troca da patente que Frank partilhava agora com Pearl e de todos os futuros direitos do Serenil.

Frank sabia que era a isso que tudo se resumia.

Finalmente, poderia eliminar os duzentos e cinquenta mil dólares que faltavam nos livros do Ultramed‑Davis, e sobraria uma soma excelente para começar a construir.

‑ Bem ‑ disse imparcialmente ‑, pelo menos, o velho não sofreu. Quando chegar a minha hora, quero morrer da mesma maneira... Assim, presumo que tens tudo o que precisas para concluir este negócio com a tua empresa em Atlanta?

Mainwaring passou os olhos pelos papéis.

‑ Parece que sim, Frank. Ah, aqui está aquele pequeno acordo que tu tanto insististe em fazer.

Entregou o documento.

Frank examinou a página, para se certificar de que incluia a confirmação de Mainwaring ter utilizado ilegalmente Serenil em quinhentos doentes. Era o seguro de Frank contra qualquer tipo de negócio feito nas suas costas. De manhã, os dois iriam depositar a confissão, juntamente com uma semelhante de Frank e Jack Pearl, num cofre de segurança do Sterling National Bank e, quando Mainwaring regressasse à cidade, os três levantariam e destruiriam juntos os documentos.

‑ Lembra‑te, Frank ‑ avisou Mainwaring ‑, que não detenho a decisão final para tudo isto. Os meus sócios ainda estão a calcular quanto nos vai custar voltar atrás e repetir todas as experiências nos animais e clínicas em que a FDA tanto insiste, e...

Frank soltou uma sonora gargalhada.

‑ Jason, por favor ‑ disse. ‑ São precisas dezenas de

milhões de experiências para desenvolver e testar medicamentos novos que nem sequer sabes se irão resultar; deixa as coisas resolverem‑se por si. Tens aqui uma mina de ouro e tu sabes disso, eu sei disso, os teus sócios sabem disso e até o Pearl, o nosso amiguinho duende, sabe disso.


"Após quinhentos casos perfeitos sem um único problema, o único dinheiro que irás gastar é o que for necessário para untar uma mão ou duas da FDA e reunir algumas pastas de experiências fictícias em animais e clínicas. Por isso, não me venhas com merdas, está bem? É impróprio para um homem da tua classe.

Mainwaring abanou a cabeça, pesaroso.

‑ Há por aqui algumas coisas das quais vou sentir saudades, Frank ‑ afirmou, dando uma intensidade propositada às palavras ‑, mas confesso que não farás parte delas. Certifica‑te de que o Jack tem a papelada e as fórmulas prontas para me entregar amanhã de manhã, ouviste? Partindo do princípio de que os meus sócios e os nossos farmacêuticos dão o seu okay, regressarei dentro de oito a dez dias. Entretanto, presumo que tu e o Jack me informarão, caso surjam quaisquer problemas.

‑ Claro, Jason, meu velho ‑ afirmou Frank. ‑ Mas, depois de dois anos e quinhentos casos, julgo que não tens de ficar junto ao telefone à espera de ouvir notícias nossas. A seguir ao nascimento, à morte e aos impostos, o Serenil é a coisa mais certa na vida... E tu sabes disso, não sabes?

Mainwaring fechou ligeiramente os olhos.

‑ O que sei ‑ respondeu calmamente ‑ é que este nosso pequeno tête‑a‑téte já se prolongou o suficiente.

Sem lhe apertar a mão, o cirurgião pegou na mala e saiu.

Só depois de a porta se fechar é que o sorriso de Frank se tornou natural. No interesse do negócio, permitira que aquele homem estúpido e pomposo passasse inúmeras vezes por cima dele, durante os últimos dois anos. O filho da mãe até tentara dizer‑lhe que música ouvir. Agora, com o trabalho terminado e com tanto êxito, já não havia motivos para ter de se submeter à opinião dele; esse facto causava‑lhe uma alegria quase hilariante.

Após anos a trabalhar á sombra de homens como Mainwaring e o juiz, chegara a hora de projectar a sua própria sombra. A sua vida tinha finalmente dado uma volta. Era uma estrela em ascensão numa corporação poderosa e, em breve, teria a independência e o prestigio que só o dinheiro pode trazer.

- Deus te abençoe, Serenil ‑ murmurou.

Suavemente no princípio e depois cada vez mais alto, o canto familiar começou a encher‑lhe o pensamento.

Frank, Frank, ele é o nosso homem. Se ele não conseguir, ninguém mais consegue...

 

A seis quilómetros para norte, Suzanne Cole gritou e deu um salto do sofá onde tinha adormecido. Uma dor intensa percorrera‑lhe o peito, a partir da parte lateral do seio direito. Banhada em suores frios, abriu a blusa e soltou os colchetes do soutien.

A cicatriz da operação estava vermelha, mas não de forma perturbadora, e o tecido por baixo dela não estava minimamente mole.

Contudo, a dor fora muito intensa, como nunca antes tinha sofrido.

Desesperada, tentou procurar na mente nublada uma explicação clínica lógica. Talvez uma neurite, pensou a única e violenta descarga eléctrica de um nervo a regenerar‑se.

Sim, claro, uma neurite. Tinha de ser isso. Nenhum outro diagnóstico fazia sentido.


Abalada mas aliviada, voltou a deitar‑se na almofada. Em seguida, olhou para o relógio. Quarenta e cinco minutos. Foi tudo o que dormira. Precisava de mais do que isso ‑ muito mais - se queria pôr em dia o sono que perdia todas as noites. Fora uma sorte ter conseguido uns dias de folga após a operação. A tensão de tudo aquilo parecia tê‑la afectado mais do que previra.

Lentamente, os olhos fecharam‑se.

Talvez devesse levantar‑se e tomar qualquer coisa, antes de voltar a adormecer. Uma aspirina, ou talvez mesmo codeina. Assim, se o nervo irritado disparasse de novo, pelo menos a dor seria muito menor.

Não, decidiu. Desde que soubesse o que era, não precisava de temer nada. Fosse como fosse, só tinha durado dez ou doze segundos. Se voltasse a acontecer, ela suportaria. Por um tempo tão curto, suportaria quase tudo. O que mais precisava era de dormir.

Descontrai‑te... Respira fundo... Respira fundo... óptimo... Isso mesmo... Isso mesmo...

Afinal, pensou enquanto adormecia, com que estava ela a sonhar?...


 

O campo do Clube de Golfe White Pines, desenhado por Robert Trent Jones, era o símbolo de orgulho, alegria e posição social dos seus selectos accionistas. Esculpido ao longo de um vale estreito entre duas escarpas de granito maciço, o traçado era curto mas bastante difícil, e os sócios ainda se deliciavam a recordar o dia, em 1962, em que Sam Snead, ao fazer uma volta de apresentação dos tees do campeonato, atirou um oitenta‑seis e perdeu duas bolas.

Era o início da tarde de sábado e, pela primeira vez em anos, Zack preparava‑se para jogar uma volta de golfe: o seu adversário, o juiz Clayton Iverson.

Inicialmente, Zack planeara passar a manhã numa reunião com Jason Mainwaring e Jack Pearl e o resto do dia não entre os íngremes rochedos de granito mas sobre eles, a escalar com um pequeno grupo do clube de alpinismo local. Contudo, Mainwaring pedira uma licença por uma semana, tendo sido substituído por Greg Ormesby, o único cirurgião‑geral que restava em Sterling, e também Pearl estava ausente até segunda‑feira de manhã.

Na verdade, por mais ansioso que Zack se sentisse por escalar, estava satisfeito com a possibilidade de passar algumas horas sozinho com o pai, pela primeira vez desde o seu regresso a Sterling.

Como era hábito, o convite do juiz para jogar fora feito com palavras que tornavam a recusa difícil. Também insinuou que talvez tivesse mais qualquer coisa na ideia do que apenas o golfe. Ele tornou claro que estariam só os dois, embora não tenha dito se Frank não podia ir ou não fora convidado.

Algum tempo antes, depois de ter feito a ronda, de voltar a examinar o gráfico de Toby Nelrus e de tentar localizar Mamwaring e Pearl, Zack tinha passado uma hora na zona de treino. Fora uma surpresa agradável descobrir que ainda conservava alguns vestígios da forma de manejar o taco, desenvolvida ao longo de várias lições durante a infância.

Como acontecia com a maioria dos desportos que implicavam fazer qualquer coisa com uma bola, para ele o golfe nunca tinha sido um grande fascínio. Mas os ondulados fairvays, os greens perfeitamente aparados e até a localização da sede do clube estilo Tudor com a sua varanda ensombrada e tapetes orientais, causaram sempre nele uma certa serenidade, em especial nas tardes quentes e sem nuvens de Verão.

‑ Então, Zachary ‑ disse Clayton Iverson, quando se aproximavam do primeiro tee ‑, até que ponto vamos tornar isto interessante?

Vestia calças brancas, uma camisa Lacoste amarela e a sua marca registada: sapatos de golfe castanhos e brancos. Embora mal se pudesse dizer que estava em forma, deslocava o seu robusto corpo com a graciosidade de um atleta nato. Adornado por uma mata retorcida de cabelos prateados, o seu rosto bronzeado e enrugado transpirava confiança e autoridade.

‑ Isso depende da urgência com que necessita do dinheiro, juiz ‑ respondeu Zack, sabendo que era infrutífero e de mau gosto discutir com o pai o valor de uma aposta.

‑ Então vamos apostar, digamos, um dólar por buraco com transporte? Dou‑te uma tacada de avanço nos buracos de par cinco e nos dois longos de par quatro.


‑Vejamos... ‑ Zack fingiu contar pelos dedos. ‑ Dezoito dólares. Acho que consigo suportar a despesa. Muito bem, sir, fica então um dólar por buraco. Presumo que, como sempre, não vai exigir muito de mim.

O juiz colocou a bola no tee e olhou para o filho com um sorriso predatório.

‑ Claro ‑ afirmou. ‑ Como sempre.

Era a verdade mais básica da relação que o homem tinha com os filhos e quase uma anedota permanente entre os dois o facto de ele nunca lhes ter dado uma só moeda de vinte e cinco cêntimos em competição alguma, quer fosse gin rummy, no qual era um jogador inveterado, golfe ou mesmo negócios. As vitórias eram para ser ganhas e não obtidas; os empréstimos, até mesmo de pequenas quantias, eram invariavelmente acompanhados de promissórias e tinham de ser pagos na totalidade e sempre com alguns juros.

Zack sabia que nesse dia, como sempre, nada seria facilitado.

A forte tacada do juiz, ao som do aplauso cortês de cerca de uma dúzia de espectadores, cortou o fairvay e rolou até parar mais adiante da discreta marcação de cento e oitenta metros.

Sabendo que se sentia menos tenso a operar um tumor cerebral do que naquele momento, a forte tacada de Zack fez a bola cair no lago de peixinhos dourados.

‑ Espero que não tenha nenhum compromisso urgente, juiz ‑ disse, colocando outra bola no tee. ‑ Talvez demoremos um pouco aqui.

‑ Dá uma tacada menos forte e deixa descair ligeiramente o ombro esquerdo ‑ aconselhou o pai.

Zack seguiu o conselho e o tiro foi tal que quase acertou na bola do juiz, ultrapassando‑a em vários metros.

‑ Obrigado pela ajuda ‑ murmurou, erguendo uma taça imaginária como resposta ao aplauso da pequena tribuna.

‑ Goza‑a ‑ disse o juiz, enquanto se afastavam do tee. - A um dólar por buraco, é tudo o que recebes.

No fim dos primeiros nove buracos, Zachary perdia sete dólares e começava a ter bolhas nas partes laterais de ambos os calcanhares, devido aos sapatos de golfe com dez anos. Contudo, a tarde era quente e calma e ele apreciava a sensação da rara experiência de ligação com o pai, segundo parecia nascida principalmente de pedaços de conversa casual e breves recordações de tardes como aquela, há muito vividas.

Clayton Iverson fez‑lhe perguntas sobre o seu novo emprego e contou anedotas do tribunal mas, tirando isso, não deu qualquer indicação de haver questões agendadas para essa tarde, para além do golfe.

Depois de uma breve paragem no clube para beberem uma cerveja, o juiz largou o carro de golfe motorizado junto ao buraco nove e apareceu no décimo tee a puxar os tacos sobre uma carreta de alumínio.

‑ Preciso de exercício ‑ explicou. ‑ Além disso, comigo a andar de carro e tu a caminhares e a procurares as bolas por todo o lado, não me pareceu que teriamos muitas oportunidades para conversar.

‑ Muito espirituoso, juiz ‑ disse Zachary. ‑ Bem, mas tenha cuidado. Para citar as palavras do general Cluster em Little Big Hom: "Ainda nem sequer começámos a lutar."


Saiu do décimo buraco com uma tacada decente, mas a do pai, mal dada, voou para a direita e desapareceu num rough alto. Enquanto procuravam a bola no meio da erva cerrada, o juiz acenou ao quarteto atrás deles para jogarem.

‑ Se não a encontramos até aqueles quatro terem dado a tacada de saída, eu perco uma.

‑ É justo.

Zack matutou na concessão amigável, a qual não era nada própria do homem.

‑ Zachary, diz‑me uma coisa ‑ continuou o juiz, ainda a procurar no meio do rough. ‑ Tiveste problemas com a Ultramed, desde que começaste a trabalhar no hospital?

‑ Problemas?

‑ Ei, sabes o que vou apostar? Aposto que a minha bola foi um pouco mais para a direita do que pensámos. Vamos procurá‑la ali.

‑ Juiz?

‑Sim?

‑ A que tipo de problemas se refere?

Clayton Iverson hesitou por instantes, aparentemente sem saber se devia ou não continuar a conversa.

‑ O Guy Beaulieu veio ver‑me alguns dias antes de falecer ‑ acabou por dizer.

‑ Sim?

‑ Foi a segunda vez que apareceu em apenas duas ou três semanas.

‑ Ele estava muito zangado e preocupado.

‑ Claro que estava ‑ disse o juiz, apoiando‑se no taco e sem fazer qualquer tentativa para procurar a bola. ‑ Ele também estava bastante decidido a provar que a Ultramed e o Frank o tinham posto de lado para poderem substitui‑lo por um homem deles, o tal Mainwaring. Ele afirmava ter provas de que essas ardilosas manobras eram típicas da companhia.

‑ Sei o que ele afirmava. O que não sei é por que raio foi ter consigo, quando o pai deixou claro o seu forte apoio ao Frank e ao excelente trabalho que ele tem feito no hospital.

Calaram‑se, enquanto cada um dos elementos do quarteto próximo executava a sua jogada. Três das bolas aterraram perfeitamente sobre o green, e a quarta, jogada por um velho grisalho que Zack calculou ser octogenário, aterrou num banco de areia. Tal como acontecia invariavelmente quando estava perto de pessoas muito idosas, Zack deu consigo a rezar para que a circulação coronária e cerebral estivessem, pelo menos naquele momento, a funcionar como a natureza impunha.

‑ A resposta à tua pergunta, Zachary ‑ disse o juiz, depois de o velho ter dado a tacada ‑, é que o Guy estava convencido que, com o Frank ou sem ele, eu não havia de querer vê‑lo condenado por actos que nunca cometera. Não te esqueças que já nos conhecíamos há bastante tempo. Não faço ideia do número de comissões e projectos que fizemos juntos durante os últimos trinta anos, lutando para erguer Sterling da pequena e moribunda cidade fabril que outrora tinha sido. Muitas vezes, ficávamos em lados opostos da barricada em relação a um assunto, mas isso nunca nos incomodou. Ambos lutámos ao máximo, mas lutámos segundo as regras.

‑ Compreendo.


‑ Assim, julgo que ele acreditava que, com base na forma como aceitávamos as nossas diferenças e no seu registo como juiz, eu ganharia qualquer causa que julgasse ser justa.

‑ E ele tinha razão?

O juiz tirou uma nova bola do saco e lançou‑a de costas, por cima do ombro.

‑ Claro que tinha ‑ respondeu. ‑ Devias saber disso tão bem quanto qualquer outra pessoa.

‑ Desculpe.

‑ O Beaulieu morreu, mas as questões contra as quais lutava, se é que realmente existiam, ainda continuam por resolver, pelo menos até passar a data limite de reaquisição do hospital. Depois disso, todos nós ficamos literalmente à mercê da Ultramed.

A reaquisição. Subitamente, Zack percebeu por que razão Frank tinha sido excluído da tarde. Em silêncio, ficou alerta para não expressar qualquer opinião até a posição do juiz se tornar um pouco mais clara. No que se referia a Clayton Iverson e ao seu herdeiro, as interacções e reacções raramente, ou nunca, haviam sido simples e directas.

Enquanto os anos de escolaridade de Zack, em especial depois do acidente, passaram calmamente e em comparação quase despercebidos, a relação entre o juiz e Frank fora algo turbulenta e volátil. O homem tinha mergulhado nas realizações pessoais do filho mais velho como uma esponja insaturável e, inevitavelmente, quando o heroismo de Frank tardava em surgir ou, pior ainda, quando fazia alguma coisa diferente da personalidade que o juiz criara para ele, havia fricção.

Ao recordar o passado, Zack imaginou se os dois algum dia haviam apreciado verdadeiramente a dinâmica daqueles choques.

Se ser o segundo filho do juiz Clayton Iverson lhe causara certos problemas, ser o primeiro provou ser uma maldição para Frank.

Lembrou‑se do dia em que Frank, na altura caloiro ou segundanista do liceu, recebeu um 5 no teste de História. A professora, nos comentários, anotou que o estilo de escrita e o conteúdo do relatório eram diferentes de tudo o que ele fizera antes.

Desconfiado da súbita melhoria, o juiz enfrentou Frank numa confrontação "olhos nos olhos", como gostava de lhe chamar. Era uma técnica que raramente fracassava na revelação de uma mentira de qualquer dos filhos, e nessa ocasião Frank foi definitivamente desmascarado. Após uma hora de confrontação, subiu ao quarto e trouxe o teste dos seniores por onde copiara.

Zack nunca esqueceu o olhar dele naquele momento, um assustador olhar de medo, ódio, humilhação e fúria.

O resultado dessa demonstração foi um zero no relatório da professora e uma suspensão por quatro jogos de basquetebol dada pelo juiz, embora este tivesse retirado o castigo depois de o treinador se queixar que a equipa sofreria mais do que Frank.

Essa confrontação e a respectiva consequência disseram muita coisa, quer sobre o pai, quer sobre o filho. O juiz, sentindo que tinha conseguido deixar claro o que pensava de qualquer tipo de desonestidade, nunca mais se referira ao incidente.


Por outro lado, Frank sentiu‑se de facto desencorajado a fazer mais atalhos académicos, mas apenas temporariamente. Em vez de reagir à tolerância do pai com uma mudança, fê‑lo com um desafio. E um dia, não muito tempo depois, revelou ao irmão mais novo que se tinha dedicado a aprender a vencer numa confrontação olhos nos olhos. No início, treinava somente diante de um espelho. A seguir surgiu uma série do que chamava "petas de teste". Com o tempo, mesmo nas situações mais criticas, conseguia enfrentar e suportar impavidamente o olhar penetrante do homem.

Nos anos imediatamente a seguir, os conflitos com o juiz reduziram‑se consideravelmente, devido em parte ao domínio da nova arte de Frank e mais ainda ás suas realizações atléticas. Depois, com os repetidos fracassos anteriores ao Ultramed‑Davis, a relação entre eles voltou a piorar.

Actualmente, após quatro anos de harmonia relativa, um choque entre os dois homens ‑ possivelmente monumental - parecia estar prestes a acontecer. E, como acontecera sempre no passado, bem no centro da questão estavam as expectativas do juiz. O desempenho de Frank tinha de ser o melhor e a sua conduta acima de qualquer censura.

O quarteto à frente deles terminou a jogada e abandonou o green. O juiz olhou para a bola mas, após vários segundos, olhou para o fairvay a fim de se assegurar que ninguém se aproximava e afastou‑se.

‑ Zachary, pareces preocupado ‑ disse. ‑ O que se passa?

‑ Não estou preocupado. É só que...

‑O quê?

Zack abanou a cabeça.

‑ Não é nada, juiz. Continue a jogada.

‑ Estás preocupado por eu estar contra o Frank. É isso?

‑ Ele é seu filho.

‑ E achas que, por essa razão, devo virar as costas à possibilidade de ele estar envolvido em algo contrário a ética, ou até mesmo desonesto.

‑Não disse isso.

‑ O quê, então?

No último momento, Zack preferiu nada dizer do legado de Cuy Beaulieu, do seu encontro com Maureen Banas e da sua crescente falta de confiança na Ultramed. Simplesmente havia ainda muitas incertezas para poder abrir as latas de minhocas, sem ter tido primeiro a oportunidade de discutir o assunto com Frank.

‑ Juiz ‑ disse, escolhendo cuidadosamente as palavras. - O Guy Beaulieu tentou de todas as formas deitar abaixo a Ultramed. Se o Frank caísse com ela, não era problema dele. Dou valor ao empenho que pôs para fazer o que era certo, mas...

‑ Mas o quê?

De novo, Zack hesitou. Um deslize, uma ideia mal expressa, e o juiz iniciaria de imediato uma das suas cruzadas.

Aos olhos de Frank, os dois alinhariam contra ele e a Ultramed, e qualquer hipótese de se conseguir a sua ajuda, quer para expor a corporação, quer para resolver o mistério de Toby Nelrus, perder‑se‑ia provavelmente para sempre.


‑ Juiz, o Frank tem os seus defeitos e as suas virtudes - acabou por dizer ‑, tal como todos nós. Mas, considerando as expectativas e as pressões que tem sido obrigado a suportar desde os tempos do liceu de Sterling, acho que tem feito coisas de que ambos devíamos sentir‑nos orgulhosos. No mínimo, devíamos fazer tudo para lhe dar o benefício da dúvida quanto a este assunto.

‑ Então, achas que estou a ser desleal ao querer saber se o meu filho e a corporação para quem ele trabalha estão a lucrar às custas da minha comunidade?

‑ Não foi isso que eu disse.

‑ E achas que é deslealdade questionar se o Frank terá tido influência na destruição da reputação de um homem?

‑ Juiz, por favor.

‑ Desculpa, Zachary, mas passei mais de trinta anos como advogado e metade desse tempo como juiz. Tudo quanto sei é que fazer o que está certo é muito mais importante do que toda a espécie dessa tal lealdade.

‑ Não discuto isso. É só que, com base no que vejo, todo este assunto não é nada simples. Sabia que, se não fosse pelo facto de o Frank ter utilizado a sua influência no hospital, o Beaulieu teria sido suspenso há já algum tempo?

O juiz pareceu abalado.

‑ Não ‑ respondeu. ‑ Não sabia.

‑ Bem, é verdade.

É claro que a história da intervenção de Frank fora contada pelo próprio, mas Zack não viu vantagens em partilhar essa informação, ou, neste caso, o seu desagrado pelo comportamento de Frank no dia da morte de Beaulieu. Estava a gostar da oportunidade de desempenhar o papel de advogado de Frank. Também sentiu que, ao defender Frank, em certos aspectos estava a criar a possibilidade de o pai reconhecer as suas próprias realizações pessoais.

O juiz pareceu surpreendido e preocupado com a sua posição.

Olhou de novo para a bola, embora, pela postura e os nós dos dedos pálidos, Zack tivesse percebido que não estava concentrado. Subitamente, Zack compreendeu: o pai tinha feito algo que não seria muito bem aceite por Frank: e agora, de um momento para o outro, tinha dúvidas.

A tacada foi apressada e mal executada. A bola, que não chegou a afastar‑se do solo, atravessou o fairvay e foi cair no banco de areia recentemente vago. Clayton Iverson mal reagiu à horrível tacada.

‑ Sabes ‑ disse, enquanto se dirigiam ao bunker ‑, desde o dia em que a tua mãe e eu soubemos que ela estava grávida do Frank, começámos a ter visões de grandeza para os nossos filhos. Penso que isso não aconteceu só connosco, mas garanto‑te, filho, que passámos muitas horas desse Inverno à lareira, a partilhar os nossos sonhos. Até lhe demos, e depois a ti, um nome de presidente; presidentes pouco conhecidos, mas que deixaram as suas marcas na história.

Intimamente, Zack suspirou. Tratava‑se de uma conversa que já tinham tido muitas vezes na vida. Franklin Pierce, o único presidente que nascera em New Hampshire, e Zachary Taylor, o malévolo guerreiro que apesar dos quatro anos de mandato não distinguidos criara o Ministério do Interior, eram os principais favoritos do juiz.

‑ Pode crer, juiz ‑ disse Zack, de uma forma que acabou por se tornar o seu padrão de resposta para a discussão ‑, que tanto o Frank como eu apreciamos os valores e a conduta que nos incutiu.


Fez uma pausa para dar uma curta tacada e colocar a bola na borda do green; depois ficou a ver o pai, agora completamente desconcentrado no jogo, a dar duas tacadas para sair do banco de areia.

No fim do buraco, Zack conseguiu reduzir o défice para seis dólares e, após dois empates e um desastroso sete por parte do juiz no décimo terceiro buraco, conseguiu reduzir mais três dólares.

‑ Juiz ‑ disse, indicando o pequeno quiosque de descanso junto ao décimo quarto tee ‑, vamos fazer um intervalo. Seja o que for que o preocupa ao ponto de jogar desta maneira, tem de ser discutido.

‑ Não estou preocupado ‑ respondeu Clayton Iverson.

‑ Está bem, não está preocupado. Tudo o que fez foi dar quatro tacadas acima do par durante todo o buraco nove, contra as oito tacadas nos primeiros quatro buracos, altura em que começou a falar deste assunto do hospital. Sente‑se àquela mesinha ali e deixe que lhe ofereça uma cerveja.

O juiz começou a protestar, mas depois cedeu.

‑ Talvez esteja um pouco preocupado ‑ murmurou.

Zack deixou‑o junto à mesa de ferro forjado e regressou com duas canecas geladas e duas garrafas de Lowenbrau.

‑ Então, o que se passa? ‑ perguntou Zack, enquanto dava um gole na cerveja.

‑ O que queres dizer com isso?

‑ Refiro‑me ao Frank, juiz. Sei que influenciou a Ultramed a escolhê‑lo para o lugar. É por isso que está a ser duro com ele? Por se sentir responsável?

‑ Zachary, a contusão que o teu irmão criou no raio da empresa de electrónica não foi o seu primeiro fiasco. Ele não tinha paciência para esse tipo de negócio. Tentava saltar constantemente do primeiro para o vigésimo passo. Teve sorte por a oportunidade da Ultramed surgir quando surgiu. Disse‑lhe que, quando ele... ‑ Clayton Iverson parou a meio da frase.

‑ Quando ele o quê, juiz?

‑ Nada. Não tem importância.

‑ Ele pediu‑lhe um empréstimo, não foi? ‑ perguntou Zack.

Subitamente, certas conversas que tivera com o irmão ao longo dos anos começaram a encaixar‑se. Embora Frank nunca lhe tivesse contado os pormenores do fracasso da empresa, deixara claro que sentia que o pai, pelo menos em parte, era responsável.

‑ Foi um pedido descabido. Ele já estava enterrado até aqui. Teria sido deitar dinheiro fora.

‑ O Frank não viu as coisas dessa maneira, juiz.

‑ Bem, mas eu vi. Concordei em ajudá‑lo a sair do buraco em que se metera, mas apenas na condição de se desfazer da empresa. O lugar do hospital deu‑lhe a oportunidade de sair daquele disparate e de mostrar a toda a cidade o que ele era capaz de fazer.

Para não dizer que o trouxe de volta para o ter debaixo de olho, pensou Zack, furioso.

‑ Assim, ele conseguiu o lugar e tem desempenhado bem as suas funções. Que mais pode querer dele?

‑ Posso querer que ele aplique na sua posição os mesmos valores que eu aplico na minha. É isso que posso querer. Posso querer que ele defenda o que está certo.

Apesar do calor da tarde, Zachary sentiu um frio súbito.


‑ E o que é que está certo? ‑ Sou eu quem tem as provas dO Beaulieu, apeteceu‑lhe gritar. - Fui eu que enfrentei a Maureen Banas. Como pode ter tanta certeza do que está certo? Pai ‑ disse ‑, o que foi que fez exactamente?

‑ Sabes, Zachary, não gosto muito desse teu tom de voz. Talvez sejas um cirurgião importante, mas ainda és meu filho.

Zack sentiu‑se fugir ao olhar do pai. Não se lembrava da última vez que tinha sido tão duro com o homem.

‑ Desculpe ‑ murmurou.

‑ Desculpa aceite. Acho que trinta anos de tribunal dão‑me mais do que a capacidade para saber quando alguém está a tentar encurralar‑me. Havia fumo a mais em redor das queixas do Beaulieu, para não haver fogo. Eu... Só soube por ti que o Frank interveio a favor dele.

Hesitou, mas meteu a mão na bolsa do saco dourado, retirou um envelope e entregou‑o ao filho.

‑ Toma ‑ disse. ‑ Lê.

 

Mrs. Leigh Baron

Directora, Operações

Ultramed‑Corporação de Hospitais

Boston Place

Bóston, Massachusetts 02108

 

Cara Mistress Baron,

O contrato que efectiva a venda do Hospital Regional Davis à Ultramed, Corporação de Hospitais Ultramed, está agora no seu quarto e último ano. Como sem dúvida sabe, o acordo contém condições para a reaquisição do estabelecimento pelo corpo de directores comunitário, do qual sou presidente, desde que este se pronuncie até cinco meses antes da data de expiração do contrato e seja deliberada por votos, nunca inferiores a 51 por cento dos membros, a devolução à Ultramed do preço de compra original ‑ valor actualmente depositado no Sterling National Bank ‑ em troca da recuperação do controlo do hospital.

Até recentemente, não tinha qualquer intenção de convocar os directores para se considerar tal votação. Contudo, desenvolveu‑se uma situação que me preocupa bastante ‑ um conflito entre o Dr. Guy Beauheu, um dos primeiros médicos a estabelecer‑se em Sterling, e a vossa corporação. Era alegação do falecido Dr. Beaulieu que a administração do hospital e, em última análise, a própria Ultramed, eram responsáveis por maquinações calculadas para o obrigarem a reformar‑se. Ele afirmou ainda ter conhecimento de acções da vossa corporação, através do Ultramed‑Davis, que eram contrárias aos melhores interesses da nossa comunidade. Sei que ele vos expressou várias vezes o que sentia e que chegou mesmo a processar tanto o hospital, como a Ultramed.

Fui contactado pela viúva do Dr. Beaulieu que me pediu para que os directores pensassem seriamente nas alegações do Dr. Beaulieu antes de terminar o nosso período provisório, ao meio‑dia do dia 19 de Julho. Pedi a Mrs. Beaulieu para que, antes dessa data, fizesse todos os esforços para me fornecer os pormenores das queixas do marido e as provas que as confirmavam.


Entretanto, agradeço que considerem esta carta como um aviso de que pretendo reunir o corpo de directores às 11 horas da manhã de sexta‑feira, dia 19 de Julho, com o propósito de discutir as nossas opções. Por outro lado, tal como consta no contrato, mandei efectuar uma auditoria completa e independente ao hospital, que julgo ter início nos próximos dias. Como sabe, de acordo com a secção 4B do nosso contrato, 15 por cento dos lucros do hospital ao longo dos últimos quatro anos deveriam ter sido canalizados para a comunidade através de tratamentos de doentes indigentes, e outros 3 por cento através de apoio a vários projectos cívicos, enumerados na secção 4C. A violação dessa secção, mesmo que descoberta depois da data limite de 19 de Julho, anulará o nosso contrato convosco.

Entretanto, se possuir quaisquer informações ou ideias sobre o assunto, estarei à sua inteira disposição.

Esperando uma resolução amigável para este assunto, subscrevo‑me,

Sinceramente Clayton C. Iverson

 

Zack ficou incrédulo. A viúva de Beaulieu e a filha não lhe haviam dado qualquer indicação de que planeavam contactar directamente o corpo de directores.

‑ Juiz, quando é que Mistress Beaulieu o contactou?

‑Bem... na verdade, ela não me contactou... eu é que a contactei.

‑ E ela já falou com outros membros do corpo?

‑É.... bem, sugeri‑lhe que o fizesse.

‑ Oh, juiz, porquê?

‑ Porque talvez o pobre Beaulieu tivesse razão, eis o porquê.

‑ Mas o Frank disse que não tinha. Porque não conseguiu dar‑lhe o beneficio da dúvida?

‑E.... achei que, se ele não tivesse cometido erros, não tinha de se preocupar com nada.

‑ Claro que tem. Ele tem de se preocupar em saber como explicar aos tipos da Ultramed porque é que o próprio pai estaria a tentar sabotar o hospital. Nem sequer sabe que espécie de ditas provas tinha o Guy, sabe?... Então, sabe?

Clayton Iverson abanou a cabeça.

‑ Foi o que pensei. Bem, eu sei, juiz. Sei exactamente o que ele tinha. No funeral, a Clothilde Beaulieu entregou‑me tudo. E garanto‑lhe que não existem provas suficientes de más acções, nem mesmo para abalar a Ultramed. Apenas coisas circunstanciais. Foi tudo o que ele conseguiu acumular. Apenas uma pilha de listas inferidas, historietas e recortes de jornal.

"Confesso que tenho algumas reservas fortes quanto a essa empresa, mas até agora não há provas sólidas de que alguém tenha sido directamente prejudicado pela política da corporação. Pelo menos não tenho conhecimento de ninguém. Porque não foi ter com o Frank? Não conversou com ele? Foi o que planeei fazer. Ele viu ao menos esta carta antes de a ter enviado?

O juiz bebeu um grande gole de cerveja e limpou a espuma dos lábios às costas da mão. Depois, sorriu.

‑ Não a enviei ‑ respondeu simplesmente.

‑Como?


‑ A carta está em poder do meu advogado em Bóston, até decidir o que devo fazer. Estava a pensar mandá‑lo à Ultramed na segunda‑feira. Mas preferi primeiro conversar contigo. Agora, ainda bem que o fiz.

Zack sentiu‑se completamente exausto: um ioiô na ponta do fio de um mestre.

‑ Em primeiro lugar, podia ter‑me dito apenas o que queria ‑ protestou. ‑ Não pode brincar com todos dessa maneira, juiz.

‑ Que disparate. Não brinquei com ninguém. Precisava da tua opinião pura e tu deste‑ma. Não estou decidido a opor‑me à entrega para sempre do hospital à Ultramed, na próxima semana. Apenas estou relutante em desistir totalmente da nossa força. Nunca se sabe quando iremos desejar que a tivéssemos. A verdade é que seria preciso muito mais do que eu soube até agora, para me virar contra o Frank e enviar a carta. Pronto, sentes‑te melhor?

‑ O que sinto ‑ disse Zack ‑ não vem ao caso.

‑ óptimo. Então, vamos ver se conseguimos jogar golfe.

O juiz pousou a cerveja, tirou um taco do saco e limpou a cabeça com um pano.

‑ Estou satisfeito com as coisas que me contaste sobre o teu irmão, Zachary ‑ declarou. ‑ Ao longo destes anos, nunca escondi o quanto ele me decepcionou. Mas desde que continue a agir em beneficio da cidade, então ele e a Ultramed não têm de se preocupar comigo. Contudo, se souberes de alguma coisa que eu deva ficar a saber, seja ela qual for, então o teu dever para com todos nós é contar‑me, raios. Percebeste?

‑ Percebi ‑ respondeu Zack, entorpecido.

‑ Incluindo qualquer coisa que conste do material do Guy.

‑Certo.

O juiz colocou a bola no tee. Novamente controlado, pareceu descontraido e confiante.

‑ Não te importas que eu seja o primeiro? ‑ perguntou.

A tacada foi larga, compacta e suave como veludo. A bola saiu como uma flecha e foi de longe a tacada mais longa do dia.

Uma hora mais tarde, Zack permanecia no green dezoito e via o pai fazer um putt de quatro metros para um birdie.

‑ Cinco buracos directos para mim ‑ disse o juiz. ‑ Isso equivale a oito dólares. Adoro este jogo! E tu?


 

Dose a dose, micrograma a micrograma, o nível de Haldol no sangue de Annie Doucette foi aumentando. A reacção dos sentidos, pouco adequada para mantê‑la até o tranquilizante começar a fazer efeito, tornou‑se fraca e distorcida. Os períodos de lucidez, mesmo nas horas do dia de mais sol e barulho, tornaram‑se cada vez mais curtos.

Agora, à medida que a tranquilidade da noite de domingo se espalhava por todo o hospital, a pouca noção de realidade que ela conseguia manter começou a escapar.

Num momento, encontrava‑se em casa no seu próprio quarto e na sua própria cama; no outro, encontrava‑se algures num local desconhecido e ao mesmo tempo familiar. Era noite e manhã. Desesperada, começou a lutar contra a loucura. Desesperada, tentou concentrar‑se. Contudo, nada estava certo... nada excepto a percepção de qu~ sem saber como, se tinha molhado e borrado.

Telefona ao Zack... Telefona á Suzanne, pediu‑lhe a mente. Pede‑lhes que te limpem. Pede‑lhes que te tirem daqui.

Virou‑se para procurar um telefone, mas uma onda de tontura e náusea obrigou‑a a deitar‑se na almofada.

Levantou o lençol e olhou para as pernas. Havia um cheiro horrível e fezes espalhadas entre as coxas. Tão nojento. Tão humilhante.

Tenho de me lavar.. Tenho de tomar um duche, antes que alguém apareça.

Com a visão toldada, Annie olhou para a porta da casa de banho. Tomar um duche... Limpar.. Depois, telefonar.. a quem? Como é que se chamava?

Esforçando-se o mais que podia, tentou virar‑se de lado. Havia barras de protecção metálicas em ambos os lados da cama. Servindo‑se de uma delas e combatendo as tonturas constantes, conseguiu levantar‑se.

Que nojento... Que humilhante...

Não havia nenhuma barra de protecção aos pés da cama. Com uma lentidão angustiante, conseguiu arrastar‑se sobre o lençol sujo de fezes. Em seguida, passou uma perna sobre o pé da cama e pisou o frio soalho de linóleo. As tonturas começaram a tornar‑se insuportáveis.

Contudo, ela sabia que tinha de se limpar.

Centímetro a centímetro, pousou a outra perna no chão. Com todas as forças que possuía, tentou levantar‑se. As pernas aguentaram momentaneamente. Mas cederam de súbito, e, por breves instantes, ela ficou a pairar no ar.

Aterrou pesada e desastradamente, deixando escapar o ar dos pulmões com um ronco sonoro. Houve também outro som... um som agudo e intenso que saiu do interior do seu corpo.

Um instante mais tarde, uma dor inimaginável atravessou‑a, vinda da anca esquerda.

Segundo a segundo, a dor intensificou‑se. Em seguida,

sentiu um peso tremendo no peito. Lentamente, a ténue luz do quarto começou a desaparecer e Annie sentiu envolvê‑la uma escuridão misericordiosa e tranquila.

 

A noite estava carregada, nublada e húmida, sem uma única brisa para aliviar. Eram quase onze horas quando Zack parou


o Chrvsler do juiz no espaçoso parque livre, junto à ala das urgências do Ultramed‑Davis. O juiz, de mãos firmemente cruzadas sobre as pernas, estava sentado a seu lado. A mãe, soturna e calada, estava no banco de trás a servir‑se do lenço que trazia numa mão, enrolado em bola.

Annie Doucette estava em perigo.

Zack teria preferido avaliar o estado da mulher antes de envolver os pais, mas uma enfermeira bem‑intencionada, por

conseguir contactar o filho de Annie em Connecticut e por ter lido no registo dela que eles eram os "patrões", telefonou‑lhes.

Uma fractura na anca e outra trombose coronária foram as únicas informações que a abalada Cinnie Iverson conseguiu recordar‑se da conversa tida para poder repetir a Zack.

‑ Zachary, querido ‑ disse‑lhe, enquanto ele a ajudava a sair do carro ‑, achas que irão operá‑la esta noite?

‑ Não sei, mãe. No entanto, duvido. Em especial, se a enfermeira com quem falei estiver certa quanto a outro ataque cardíaco.

‑ O médico dela, como é que se chama?

‑ Norman, mãe. Don Norman.

‑ Doutor Norman. Falaste com ele?

‑ Estava a tratar da Annie. Achei que não valia a pena incomodá‑lo.

‑ E o Frank disse se vinha para cá?

‑ Sim, mãe. Ele ficou à espera que a Lisette regresse de casa da irmã e depois vem para cá.

Cinnie serviu‑se do lenço pela última vez e depois guardou‑o na carteira.

‑ Bem ‑ disse ‑, só espero que a Annie esteja bem.

‑ Bem? ‑ Clayton Iverson soltou uma gargalhada desdenhosa. ‑ Credo, Cynthia, em que mundo é que tu vives? A mulher tem quase oitenta anos e acabou de cair da cama, partiu a anca e teve um ataque cardíaco. Como raio podes pensar que ela esteja bem?

‑ Desculpa ‑ pediu Cinnie. ‑ Não é preciso falar assim - acrescentou, num murmúrio dirigido mais a si do que ao marido.

Entraram no hospital pela ala das urgências e subiram no elevador até ao segundo andar. Annie fora levada de volta para a unidade de cuidados intensivos.

‑ Porque não esperam ali dentro? ‑ perguntou Zack, conduzindo‑os a uma pequena sala de espera, junto à unidade. - Voltarei assim que souber o que se passa.

A fúria e a tensão tinham‑lhe apanhado os músculos da base do pescoço e faziam‑lhe doer o estômago. Sem dúvida que, durante os anos de estágio, tivera doentes que haviam caído da cama, apesar de se terem tomado precauções rígidas. O risco era permanente, em especial porque muitos dos doentes hospitalizados eram idosos e inválidos.

Contudo, aquela situação era diferente. Dado ter sido chamado para dar a sua opinião sobre o caso, Annie Doucette era tecnicamente sua doente; mas mais do que isso, ela era sua amiga. Em certa medida, ela cuidara tanto dele quanto Cinnie e o juiz. Além disso, havia também aquele sentimento especial que todos os médicos sentem para com um doente a quem salvaram a vida.

 

Estava nervoso e a sua imparcialidade e objectividade médicas estavam suspensas por um fio.


Desde o momento em que Cinnie lhe telefonara para dar a notícia que tentara não esquecer que, apesar de ser normal que ficasse preocupado, raramente ou nunca havia justificação para a perda de objectividade de um médico ‑ mesmo quando tivesse de enfrentar um descuido ou negligência. No microcosmo do hospital, as explosões dos médicos não ajudavam ninguém.

Quando se dirigia à unidade, Sam Christian, um dos três cirurgiões ortopédicos do corpo clínico, saiu ao seu encontro. Era um homem alto e de aspecto lúgubre com cerca de cinquenta anos, que coxeava ligeiramente. Vinte e dois anos antes, o joelho esquerdo mutilado de Zack fora um dos seus primeiros casos.

‑ Boa noite, Zack ‑ cumprimentou. Olhou para a pequena sala de espera. ‑ Juiz, Cinnie.

‑ Olá, Sam. ‑ O juiz saiu para cumprimentá‑lo. ‑ Como é que estamos?

Christian encolheu os ombros.

‑ Ela precisa de uma anca nova ‑ respondeu com um ar preocupado. ‑ Mas até a situação cardíaca ter passado, isso está fora de questão. Amanhã, se ela ainda... quero dizer, se ela tiver melhorado, colocarei alguns parafusos em volta da articulação para estabilizá‑la até podermos fazer qualquer coisa definitiva.

‑ Sabe o que aconteceu? ‑ perguntou Zack. ‑ As barras de protecção estavam puxadas para cima?

A expressão de Christian mudou.

‑ É melhor falares com o Don Norman sobre toda essa questão. Mas sim, segundo parece, as barras estavam para cima. Ela saiu pelos pés da cama.

‑ Oh, meu Deus ‑ murmurou Cinnie.

‑ Obrigado, Sam ‑ agradeceu Zack. Virou‑se para os pais. ‑ Volto já.

Quando estava a entrar na unidade, ouviu o juiz dizer:

‑ Então, Sam, agora conta‑me tudo. Quem foi que fez asneira?

Zack viu Annie por breves instantes durante a ronda da manhã. Nessa altura, ela estava acordada e a reagir, mas um pouco deprimida e mais letárgica do que antes. Ele sugeriu‑lhe que tentasse passar mais tempo fora da cama e chegou mesmo a oferecer‑se para acompanhá‑la num passeio pelo corredor. Ela recusou, queixando‑se de dor de cabeça e falta de sono.

A mudança que ela sofrera em pouco mais de catorze horas, mesmo que por acidente, era assustadora. Estava desorientada mas irritadiça; mal se conseguia perceber o que dizia. O cabelo grisalho estava colado à cabeça, devido à transpiração e a bocados de fezes.

à porta, Zack viu como Don Norman lutava para examinar o peito de Annie. O corpulento médico tirara o casaco e arregaçara as mangas, mas ainda continuava de gravata, colete e relógio de corrente. Viam‑se pequenas gotas de suor salpicar‑lhe a testa e o lábio superior.

A seu lado estava uma enfermeira jovem, de rosto tenso e pálido.

‑ Precisam de mais um par de mãos? ‑ perguntou Zack, quando Norman se afastou da cama.

O homem olhou para Annie e abanou a cabeça.

‑ Não, obrigado, doutor ‑ respondeu. ‑ Estou quase a terminar.


‑ Ela está bem?

‑ Se quer saber se ela vai morrer, a resposta é não... pelo menos, esta noite. Desde que introduzimos um tubo intravenoso e lhe demos um pouco de medicamento, a pressão subiu. Mas ela piorou do seu velho problema coronário. Não há muitas dúvidas quanto a isso. E julgo que já sabe que ela fracturou a anca.

Ela piorou do seu velho problema coronário. Ela fracturou a anca. A declaração insensível de Norman ‑ a dedução implícita de que Annie era responsável pelo seu próprio azar ‑ reacendeu instantaneamente a antipatia que Zack sentira pelo homem durante a primeira entrevista que tivera com ele muitos meses antes.

Contudo, não se podia discutir a verdade da análise cruel da situação e o prognóstico. Pneumonia, trombose, embolia, falha cardíaca; enquanto que os ortopedistas quase podiam fazer milagres com as ancas na sala de operações, os médicos e as enfermeiras sabiam demasiado bem que qualquer tipo de imobilização era o inimigo mais mortífero da idade avançada.

Zack aproximou‑se até cerca de meio metro da cama.

‑ O que ela diz faz sentido?

‑ Não. Somente uma misturada de palavras.

‑           Ataque cardíaco?

‑Penso que não.

‑           Há sinais de ter batido com a cabeça?

Norman ficou atrapalhado.

‑Eu... não cheguei a verificar ‑ respondeu. ‑ Como vê, neste momento não é fácil examiná‑la.

‑           Posso tentar?

‑           Tente o que quiser ‑ respondeu Norman em tom de desafio. Em seguida, olhou para a enfermeira.

Zack reparou no olhar e procurou ter cuidado para não fazer nada que pudesse envergonhar o homem. Pegou na mão de Annie. Instantaneamente, ela cravou‑lhe as unhas na palma.

‑ Ei, Annie, sua valente! Sou eu. Sou o Zack. Preciso dessa mão para os meus truques com moedas.

Ela olhou para ele, pestanejando como se estivesse a tentar ver através de uma névoa. Então, lentamente, abriu os dedos.

‑ Reconhece‑me? ‑ perguntou Zack, apressando‑se a fazer um exame neurológico.

Annie não respondeu.

‑ Bem, penso que sim. ‑ Examinou‑a tentando ver se havia algum alto na cabeça e inchaços no pescoço. ‑ Costumava limpar‑me o nariz e arrastar‑me para a casa de banho para lavar atrás das minhas orelhas. Lembra‑se disso?

Embora não tivesse a certeza de Annie o ter reconhecido, sem dúvida que as suas palavras a acalmaram. Ela manteve‑se quase imóvel enquanto ele lhe examinava os ouvidos e os olhos.

‑           Então? ‑ perguntou Norman, com os braços fortemente cruzados sobre o peito.

Zack afastou o cabelo grisalho da testa de Annie.

‑ Não tem quaisquer sinais neurológicos focais. Vamos até ao posto de enfermagem para conversarmos, está bem?

‑ Não... se importa que eu oiça? ‑ perguntou a enfermeira, fazendo uma pausa entre as palavras para aclarar a voz.


‑           Por mim não há problema, se o doutor Norman não se importar.

Norman hesitou e depois abanou a cabeça.

‑           Ainda não nos conhecemos ‑ continuou Zack. ‑ Chamo‑me Iverson, Zack Iverson. Sou o novo neurocirurgião deste estabelecimento.

‑           Sou a Doreen Lavalley ‑ afirmou ela. ‑ A Annie era

minha doente no quarto andar. Estou triste com o que aconteceu. Nós tínhamo‑la tapado com o lençol e puxado as barras de protecção para cima. Ela... borrou‑se. Julgo que estava a tentar ir à casa de banho quando caiu. Estávamos todas a tratar de um doente recém‑operado que tinha começado a sangrar; e a nossa visita de rotina atrasou‑se quase uma hora e... nós estávamos... mordeu o lábio inferior e desviou o olhar.

‑ Continue ‑ pediu Zack, enquanto saíam do cubículo em direcção ao posto de enfermagem.

Por um momento, pareceu que a jovem enfermeira estava prestes a chorar. Então, surgiu‑lhe no olhar uma faísca de fúria misturada com angústia.

‑ Raios ‑ disse. ‑ Eu sabia que ia acontecer uma coisa destas.

‑           O que quer dizer com isso?

Ela olhou para Donald Norman e em seguida voltou‑se para Zack.

‑           Somos poucas ‑ respondeu. ‑ É isso que quero dizer. Somos poucas enfermeiras em cada turno e em cada andar, excepto aqui na unidade. Já é assim há mais de um ano. Primeiro, eles livraram‑se do sindicato, fazendo‑nos promessas de aumento de salário, beneficios e coisas do género. Depois, lentamente, para que nenhuma de nós pudesse organizar‑se para se queixar, eles começaram a reduzir o número de enfermeiras. Eu sabia que ia acontecer uma coisa destas. Eu sabia... ‑ Fechou os punhos em sinal de frustração.

‑           Quem são "eles"? ‑ perguntou Zack.

‑ O hospital, quem mais... a administração... Mister Iverson... - Parou a meio e olhou atrapalhada para Zack. ‑ Oh, muito bem... Continua Doreen... E... é seu irmão?

Zack anuiu.

‑           Peço‑lhe desculpa ‑ pediu ela.

‑ Não peça. Don, você é o director do corpo clínico. Os médicos sabem disto que está a passar‑se?

O rosto de Norman estava vermelho de fúria. Contudo, a sua indignação era dirigida não à situação, mas à enfermeira.

‑ Se Miss Lavalley tem queixas contra o hospital ou a forma como é dirigido ‑ disse, quase de costas voltadas para ela ‑, há canais estabelecidos que ela pode utilizar para dar voz a essas preocupações. Já trabalha aqui há anos suficientes para saber disso... e saber também que atirar para o ar os seus distorcidos pontos de vista no meio desta unidade de cuidados intensivos, não é um desses canais. Bem, doutor, se não se importar, diga‑me qual é a sua opinião sobre Mistress Doucette para que eu possa continuar a tentar salvar‑lhe a vida.

A mulher percebeu a repreensão de Norman, mas nada disse.

Zack lutou contra a vontade de a defender e conseguiu uma ligeira vitória. O assunto em mãos era fazer o diagnóstico de Annie Doucette, tratá‑la e mantê‑la estável. As acusações da enfermeira, apesar de perturbadoras, podiam esperar.


Pensou telefonar para Suzanne, mas depressa afastou a ideia. Pelo menos de momento, o padrão do monitor de Annie estava regular, e Donald Norman, tão melindroso quanto estúpido, não parecia ser homem para agradecer qualquer intromissão na sua autoridade.

‑ Então? ‑ perguntou Norman, impaciente.

‑ Bem, não há sinais de ataque cardíaco ou de trauma cerebral ‑ disse Zack ‑, mas ela está nitidamente desorientada. Acho que se eu tivesse de colocar uma etiqueta no que está acontecer, diria que ela perdeu a noção das coisas. - Pelo canto do olho, Zack viu Doreen Lavalley concordar vigorosamente com a cabeça.

Perder a noção das coisas não era um diagnóstico

no verdadeiro sentido da palavra. Contudo, para qualquer pessoa que lidasse com doentes idosos e hospitalizados, a desorientação e o comportamento psicótico provenientes de ambien tes desconhecidos e da redução da sensibilidade nocturna eram um fenómeno tão real e previsível quanto um estreptococc.

‑ Excelente ‑ disse Norman, com uma expressão e tom de voz que deixavam claro que Zack nada tinha acrescentado ao seu diagnóstico. ‑ Bom trabalho. Olhe, doutor, dite uma recomendação que eu anoto no gráfico dela um pedido formal para consulta. ‑ Desenrolou as mangas e pegou no casaco. - Se não houver mais nada, vou ver outro doente. Passarei aqui quando estiver de saída.

Zack, que examinava o gráfico de Annie, não respondeu.

‑ Está à procura de quê? ‑ perguntou Norman.

- De uma explicação.

‑ Para quê?

Zack levantou os olhos.

‑ Don, esta mulher está aqui há quase duas semanas, durante as quais esteve sempre no seu juízo perfeito. Não acha um pouco estranho que ela esperasse tanto tempo para perder a noção da realidade?

‑ Pensando bem ‑ respondeu Norman ‑, é melhor esquecer a consulta. Conversaremos sobre tudo isto amanhã de manhã.

- Está aí, doutor Iverson ‑ disse a enfermeira. Norman atirou‑lhe um olhar fulminante.

O que é que está aqui? ‑ perguntou Zack.

- A explicação. Veja a folha dos medicamentos.

- Dê‑me o gráfico ‑ exigiu Norman. ‑ Miss Lavalley, não sabe reconhecer uma coisa boa quando a tem nas mãos, não é assim? Saia imediatamente daqui. Amanhã falarei consigo.

‑ Pode falar comigo hoje, doutor Norman, porque já o aturei o suficiente. Eu demito‑me.

- Haldol! ‑ exclamou Zack, dando um murro na folha. - Por que raio lhe deram Haldol?

A enfermeira já não podia conter a fúria.

- O doutor Norman, perdão, Don ‑ corrigiu em tom doce ‑, mandou dar‑lho na terça‑feira, quando ela foi contra a ideia de transferi‑la para uma casa de saúde. Ele chamou‑lhe rabugenta.

‑           Maldita ‑ gritou Norman, o rosto agora inchado e roxo.

-Uma casa de saúde? Norman, você está louco?

- Quem é que está louco? ‑ Frank Iverson, de mãos nas ancas, acabara de entrar na unidade.


Zack esfregou os olhos para afastar as marcas de fadiga e tensão que começavam a notar‑se.

‑ Todo este estabelecimento, aí está! ‑ respondeu a ninguém e a todos ao mesmo tempo. ‑ Tudo isto é de loucos.

- Calma, Zack ‑ avisou Frank. ‑ Mantém a calma. Como está a Annie?

Zack baixou a mão e olhou para o irmão.

‑ Está louca. É como ela está. Está louca porque, nos últimos cinco dias, recebeu um tranquilizante muito forte. Os niveis sanguíneos subiram e ela afastou‑se cada vez mais da realidade até que, provavelmente, ficou sem saber onde estava quando tudo isto aconteceu. Perdeu o controlo dos intestinos e tentou rastejar até aos pés da cama para ir à casa de banho, altura em que caiu. Aqui a enfermeira disse‑me que não foram vê‑la quando deviam, porque tem havido uma tal redução de pessoal que elas são poucas para tudo. Que raio de lugar é este, Frank?

- acho melhor regressar ao meu andar ‑ disse Doreen em voz baixa. ‑ Mister Iverson, o meu pedido de demissão estará no gabinete da enfermaria amanhã de manhã. - Sem esperar pela resposta, deu meia volta e saiu.

‑ Don, que raio se passa aqui? ‑ perguntou Frank.

‑ O que se passa é o seu irmão ‑ respondeu Norman. - Entra por aqui dentro, começa a examinar a minha doente sem sequer lhe ser pedido, obriga a enfermeira a fazer declarações precipitadas sobre o hospital e depois acusa‑me de ter feito a mulher cair. ‑ Virou‑se para Zack. ‑ Você tem arranjado sarilhos desde o dia em que aqui entrou e não julgue que todos nós não sabemos. Este hospital precisa de trabalhos de equipa, Iverson. Você é um empecilho. Tudo corria sobre rodas no Ultramed‑Davis até você aparecer e tudo voltará a correr depois de se ir embora.

‑ Não vou para lado algum ‑ afirmou Zack.

‑ Não o tenha como certo ‑ replicou Norman.

‑ Calma, vocês os dois ‑ disse Frank. ‑ Em primeiro lugar, digam‑me se a mulher que ali está vai morrer esta noite?

‑ Esteve quase ‑ respondeu Norman. ‑ Mas consegui pôr tudo sob controlo. Está um pouco desorientada, mas não corre um risco imediato. Vamos esperar uns dias para permitir que a sua situação cardíaca se acalme. Depois, o Sam Christian cuidará da anca.

‑ Zack?

‑O que foi?

‑ Achas que é assim?

‑ Acho ‑ respondeu Zack, aborrecido, ainda com a cabeça apoiada numa mão ‑,, acho que se devia chamar a Suzanne para tratar da Annie. É o que eu acho.

‑ Só por cima do meu cadáver, seu filho da puta arrogante ‑ atirou Norman.

‑ Cuidado, Don ‑ avisou Zack. ‑ Está a referir‑se à mãe do Frank.

‑ Vocês os dois querem fazer o favor de parar? Há enfermeiras e doentes por todo o lado. Agora, Don, mandou dar algum tranquilizante á Annie ou não? E, pelo amor de Deus, fale em voz baixa.

Donald Norman começava a perder o pouco controlo que ainda lhe restava.


‑ Em primeiro lugar, Frank ‑ disse ‑, agradeço que não me diga como devo ou não falar. Em segundo lugar, agradeço‑lhe a si e ao seu irmão que não questionem a terapia que escolho para os meus doentes. Você pode ser o administrador, mas eu sou o director do corpo clínico.

Frank avançou até o seu rosto ficar a um palmo do de Norman. Os olhos pareciam de aço.

‑ Donald, basta um telefonema meu, um só ‑ disse, apontando‑lhe um dedo para dar ênfase ‑, e terá sorte se lhe derem um lugar para esfregar as arrastadeiras. Devia saber isso. E, se julga que não tenho esse poder na Ultramed, desafie‑me. Agora, pegue nesse disparate de ser director do corpo clínico e enfie‑o pelo cu acima. Depois, diga‑me em que raio estava a pensar quando pôs a Annie Doucette sob tranquilizantes?

‑ Sim, Don ‑ intrometeu‑se Zack, em tom brusco. ‑ Diga‑lhe.

‑ Zack, queres fazer o favor de fechar a merda da tua boca por um minuto e deixar‑me ir ao fundo da questão?

Norman estava visivelmente intimidado.

- Frank ‑ defendeu‑se. ‑ Só estava a seguir a política da casa. As verbas para diagnóstico da mulher estão prestes a terminar. Tenho uma cama reservada para ela na casa de saúde. É suposto eu fazer isso. Quando lhe disse o que estava planeado, ela ficou louca de raiva. Exigiu mais tempo no hospital. Isso estava fora de questão. Você conhece as regras tão bem quanto eu.

‑ Que regras? ‑ perguntou Zack.

Frank ignorou‑o.

‑ Por isso, deu‑lhe sedativos ‑ afirmou. ‑ Meu Deus, Don Raios, ela trabalhou para a minha família. Não podia ter-me chamado?

- não achei necessário.

‑ Que regras? ‑ perguntou Zack de novo.

‑           Sim, que regras?

Os três homens voltaram‑se para a voz que se ouvira. Clayten Iverson encontrava‑se a alguns passos, calmamente avaliando‑os a todos. A expressão não era ameaçadora, mas Zack percebeu a fúria escondida sob o olhar.

‑ Juiz ‑ disse Frank. ‑ O senhor disse que esperaria lá fora com a mãe.

‑ Fiquei impaciente.

- bem, é uma boa resposta. Julgo que não é novidade para ninguém que no hospital nem sempre podemos estar de acordo em tudo. Certo?

‑ Certo.

Frank sorriu tentando mostrar uma certa animação, mas Zack sabia o quanto ele estava perturbado.

‑ Aqui o Don disse‑nos que a Annie ainda está desorientada, mas que a situação já está estabilizada. Não é assim, Zack? Oiça, juiz, porque não vai buscar a mãe? Está a fazer‑se tarde e tenho a certeza que os dois querem ir para casa.

O juiz encarou‑o numa breve confrontação de olhos nos olhos, a qual Frank suportou com facilidade.

‑ Está bem, Frank ‑ respondeu Clayton, calmamente. - Desde que tudo esteja sob controlo.

‑ O Don é um excelente médico, juiz, e a Annie está a ser muito bem tratada. Não é assim, Zack?


- É! ‑ Zack quase se engasgou com a palavra.

‑ Don, venha ‑ disse Frank. ‑ Você e eu vamos rever uns assuntos, antes de dar o dia por terminado.

Sem esperar pela resposta, Frank pegou num braço de Norman e levou‑o para fora da unidade.

- O que é que conseguiu ouvir, juiz? ‑ murmurou Zack.

Clayton Iverson olhou para Annie, que tentava desajeitadamente soltar a correia que a prendia à cama.

‑ Basta, Zachary ‑ ordenou. ‑ Ouvi o suficiente. Amanhã vou mandar enviar a carta para a Leigh Baron. Vais convencer‑me do contrário?

De novo, Zack esfregou os olhos devido ao ardor que sentia. Mesmo diante daquela nova realidade, era doloroso aceitar que a promessa do Ultramed‑Davis ‑ o brilhante estabelecimento bem equipado e o avançado tratamento médico passava de verniz. Por baixo do brilho, do novo equipamento, dos novos especialistas e do esforço intensivo das relações públicas, o hospital não tinha alma.

‑ Não, juiz ‑ disse, por fim. - Amanhã, vou deixá‑lo dar uma vista de olhos ao material que o Guy juntou contra a Ultramed. Vá em frente e faça o que achar melhor. Não vou tentar demovê‑lo de nada.

Zack esperou que o juiz saísse e depois telefonou para Suzanne.

‑ Zachary, sabes que horas são? ‑ perguntou, sonolenta.

‑Ah... não ‑ disse ‑, mas dá‑me um minuto e verei se encontro alguém que saiba.

‑ Não tem graça.

‑ Desculpa. Não pareces muito animada.

- Não estou. Tenho uma terrível dor de cabeça e os sessenta miligramas de Dalmane mal me tinham feito adormecer quando ligaste.

- Mais uma vez, desculpa.

- Eu preciso mesmo de descansar. Querias alguma coisa de especial?

- Não ‑ mentiu. ‑ Nada de especial. Apeteceu‑me saber como estavas.

- Oh... bem, podes telefonar‑me de manhã?

- Claro.

‑ Obrigada. Tenho de me deitar antes que este Dalmane se esgote.

‑óptimo...

O som da linha cortou‑lhe as palavras.

 

A atmosfera do pequeno chalé que Zack alugara à Pinehough Realty manteve‑se acolhedor e confortável devido ao aroma produzido por décadas de lenha a arder.

Era uma da manhã. Sentado numa poltrona já velha junto á lareira apagada, Zack deu um gole no chá Constant Comment, coçou distraidamente o ponto atrás da orelha de Cheapdog e esperou.

Frank pedira‑lhe que ficasse acordado para conversarem e prometera‑lhe ir ter a sua casa de imediato. Mas Zack sabia que o irmão nunca fora a lado algum senão no horário do próprio Frank Iverson.


Na verdade, pouca diferença fazia a hora a que ele chegasse. Zack estava demasiado alterado com os acontecimentos da noite para conseguir dormir. Os seus sentimentos ‑ desapontamento, fúria, frustração ‑ eram estranhamente semelhantes aos da horrível noite em que Connie por fim lhe comunicara a decisão de quebrar o noivado e não querer acompanhá‑lo para New llampshire.

‑ Não era suposto as coisas acontecerem assim, Cheap - afirmou. ‑ Não era suposto serem nada assim.

Uma grande parte do seu ser queria pegar em tudo e desaparecer dali, meter tudo na carrinha e regressar ao Municipal de Bóston. Apesar de lhe pagarem mal e trabalhar sem parar, pelo menos o lugar tinha coração. Em resumo, não havia mais nada senão pessoas doentes ou magoadas e uma equipa de enfermeiras, especialistas e médicos determinada em ajudá‑las a curar.

Porém, mesmo ao ouvir o ruído do Porsche do irmão sobre o cascalho da rua, Zack percebeu que iria continuar ali. Por Suzanne e pelas montanhas; por Guy, Toby Nelrus e todas as Stacy Milís que ainda lhe aparecessem na vida, teria de resolver tudo.

A visita de Frank não foi muito demorada.

Já tinha começado a falar mesmo antes de fechar a porta do condutor.

- Meteste‑me num grande sarilho esta noite, Zack ‑ disse ofegante. - Meteste‑me num verdadeiro sarilho.

- Senta‑te, Frank. Queres beber alguma coisa? Um chá? Uma cerveja?

Nesse momento, Zack apercebeu‑se do odor a uisque e notou os raios finos e avermelhados no canto dos olhos de Frank.

- Não quero nada a não ser o raio de um pouco de lealdade e ajuda do meu irmão - disse Frank, sem fazer um movimento para se sentar. - Uma boa enfermeira pediu a demissão; o meu pai, que por acaso também é o presidente do conselho de directores do hospital, está furioso; e o meu director do corpo clínico quer dar‑me um tiro, para já não dizer o que te

fazer a ti. Que maravilha, Zachary. Foi um belo trabalho nocturno.

- Calma, Frank! Está bem?

- Não, raios! Não está nada bem. O Norman tem razão. Desde o primeiro minuto do teu regresso, só tem havido problemas. Fazes‑te de Sir Lancelote por todo o maldito hospital, estás a minar a minha autoridade e as políticas da Ultramed e até andas a namoriscar a minha mulher. Pelo amor de Deus!

- Que ridículo! Frank, estiveste a beber. Porque não vamos dormir os dois e falamos disto amanhã?

- Eu falo hoje - respondeu Frank.

Talvez por ter visto ou ouvido o suficiente, Cheapdog rosnou ligeiramente e, algures por baixo das franjas, arreganhou os dentes.

Zack olhou para o animal. mas não tentou calá‑lo. Com

Frank já totalmente descontrolado, Cheapdog era um seguro contra uma explosão. Que o cão era basicamente um cobarde, continuaria a ser o seu segredo.

- Está bem - disse, aborrecido. - Então, fala.

Frank andava de um lado para o outro, abrindo e fechando os punhos, para depois esfregar as mãos nos lados das calças.


- Há já quatro anos, desde que caíste naquela encosta de esqui e que eu fui para o Cobrado, que estás à espera da oportunidade para te vingares de mim, para me arruinares. Sentado na bancada todos aqueles anos a gritar e a aplaudir juntamente com os outros e, ao mesmo tempo, a odiar‑me por não conseguires ficar de pé nos esquis...

- Frank, que disparate.

Tentando imaginar o quanto Frank poderia ter bebido, Zack só pôde ajeitar‑se na cadeira e ficar a ver.

- Eu disse‑lhes que as coisas estavam a correr bem por aqui - continuou Frank. - Eu disse‑lhes que não precisávamos do raio de nenhum neurocirurgião e muito menos de ti. Pois, deixa‑me dizer‑te uma coisa, Zack. Doidos mais duros do que tu tentaram foder‑me. Onde é que eles estão agora?

Deu uma volta e apontou um dedo à cara de Zack. Pelo canto do olho, Zack viu Cheapdog rosnar de novo.

- Agora ouve‑me, mas ouve‑me bem - incitou Frank. - Ou as coisas mudam por aqui, ou tu vais‑te embora. Trabalhei demasiado para conseguir pôr este lugar como eu quis. Não vou agora deixar que alguém estrague tudo, em especial alguém com uma raiva de vinte anos ao ombro. Por isso, recua. Deixa em paz o pessoal, o juiz e a Lisette, ou juro, Zack, que cairei em cima de ti como uma tonelada de tijolos.

Sem esperar pela resposta, rodou os calcanhares e abandonou a casa. Momentos mais tarde, ouviu‑se o Porsche a afastar‑se.

Zack deixou‑se ficar sentado, completamente incrédulo. Um acidente de esqui ocorrido há vinte anos; um romance inocente e insatisfeito dos tempos de liceu. Frank estava meramente bêbedo e cansado, ou verdadeiramente louco?

Deixa em paz o pessoal. Noutras circunstâncias, o aviso teria passado despercebido. Mas agora nem sequer havia espaço para diálogo ou táctica. Um rapaz de oito anos estava a caminho da insanidade ou possivelmente da morte e, consciente ou não alguém do Ultramed‑Davis sabia por que motivo.

 

Zack olhou para o relógio. Já passava das duas. Pegou num livro de palavras cruzadas que seriam suficientes para lhe fazer vir o sono e foi para o quarto.

O que ele precisava agora, mais do que qualquer outra coisa, era de dormir um pouco; porque com ou sem avisos, com ou sem Frank, ele tinha de obter algumas respostas... a começar por Jack Pearl... dentro de menos de sete horas.


 

Os cirurgiões estagiários do Municipal de Bóston referiam‑se tradicionalmente à exaustão como o "Muro" o momento em que um médico deixa de actuar, sem qualquer eficácia criativa. Ao longo de todo o estágio estava‑se perto do Muro, encostado a ele ou, quando se operava somente à base de cafeína e energia nervosa, atrás dele.

às seis horas e quarenta e cinco minutos, quando o rádio‑despertador começou a tocar os dois últimos versos de uma versão de Âu Clair de la Fontaine, Zack lembrava‑se perfeitamente de ter visto o piscar das três, quatro e cinco horas no mostrador digital. O candeeiro da mesinha‑de‑cabeceira ainda estava aceso. O livro de palavras cruzadas, preenchido em cerca de uma dúzia dos cento e trinta artigos, estava aberto sobre o peito. O lápis ainda estava entre os dedos.

Do outro lado do quarto, pronto para começar o dia, Cheapdog erguia‑se sobre as patas de trás, com as da frente apoiadas no beiral da janela e a cauda a abanar com a perspectiva de poder juntar‑se à agitação do quintal.

Não era suposto ser assim.

O primeiro pensamento da manhã era igual ao último que Zack se lembrava de ter tido na noite anterior.

Conselhos de directores... reaquisições do hospital... regras sobre o tempo de permanência... políticas sobre quem pode ser admitido e quem não pode... inimigos... aliados... bens imóveis... Circulos Dourados... directorias com as mesmas pesSoas... como se as tensões, as pressões e as crises da medicina quotidiana não bastassem.

Talvez o verdadeiro vilão da história não fosse Frank, o juiz, Norman ou até mesmo a Ultramed, pensou. Talvez fosse a sua própria ingenuidade, as suas noções idealistas da doença e da lesão e da arte de curar. Talvez fosse isso que precisava de ser rectificado.

Emocional e fisicamente esgotado, entrou na casa de banho para se barbear e tomar um duche, fazendo uma pausa para tirar uma moeda de vinte e cinco cêntimos da parte de trás da orelha de Cheapdog, antes de o deixar sair.

Sabia que o Muro estava apenas a algumas horas de distância.

 

Salvo a única bibliotecária, a sala de arquivo do Ultramed‑Davis estava deserta. Faltando ainda trinta minutos para o encontro com Jack Pearl, Zack decidiu dar uma última vista de olhos ao gráfico de Toby Nelrus.

Embora ainda se sentisse entorpecido e esgotado devido á loucura da noite anterior, pelo menos a manhã tinha começado bem.

Depois de prender Cheapdog à corrente, escolhera um percurso até ao hospital que passava por um vasto campo de lírios, alfazema e margaridas amarelas. Durante anos, Annie Doucette mal deixara passar um dia sem colocar flores frescas sobre a mesa de jantar e a lareira da casa dos Iverson. Durante a sua hospitalização, a família tentara ao máximo retribuir a atenção.

Apanhando um ramo grande, Zack divertiu‑se a fazer cartões que gostaria de juntar à jarra do cubículo da UCI.


Para Annie, com as minhas mais sinceras desculpas. Ultramed... Para Annie, a minha doente temporária: de Don, o seu médico temporário. Como retribui ção pela sua humilhação, ataque cardíaco e fractura da anca.

Em profundo contraste com o caos surrealista das primeiras horas da manhã, a unidade estava iluminada e tranquila.

Annie, com o Haldol já quase todo fora do organismo, estava totalmente consciente e até mesmo com uma certa boa disposição. Embora estivesse ensonada por causa dos analgésicos para a anca, falou pormenorizadamente do filho e dos netos, assim como da família de Zack. Das trinta e seis horas precedentes á queda não se lembrava de nada, a não ser a sua determinação em não ser mandada para nenhuma "casa de saúde da morte".

Pelo menos de momento, o livro de receitas de cardiologia de Donald Norman provara ser adequado, e o estado de Annie, embora continuasse a exigir cuidados, não era crítico.

Em termos gerais, Zack saiu da unidade com a sensação de que, se alguém com a idade dela conseguisse ultrapassar as experiências penosas que estava a passar, esse alguém era Annie Doucette.

A bibliotecária da sala de arquivo, uma jovem morena de olhos expressivos quase no fim da gravidez, pareceu feliz por ter companhia.

Zack pediu o registo de Toby e levou‑o até um dos muitos recantos de estudo, forrados a fórmica.

A pasta de papel‑manilha que pousou de lado continha as anotações e o monte de artigos que ele começara a reunir sobre as complicações mais obscuras das duas anestesias que o rapaz recebera. Nenhuma das fontes ofereceu uma única pista sobre a sua condição bizarra.

Palavra a palavra, ainda mais meticuloso do que em tentativas anteriores, examinou o gráfico. O passado da família ‑ nada de notável; o passado clínico ‑ imunizações e doenças normais da infância, nada mais de importância; exame físico normal, excepto uma hérnia inguinal; anotações da operação e anestesia rotina. Anotações das enfermeiras: "O doente saiu da SO para a sala de recuperação acordado, alerta e a sorrir; sinais vitais normais, nenhum indício de depressão respiratória; popilas iguais e reactivas; pulmões limpos."

Notável. Absolutamente notável. Zack leu e releu as anotações. A estada total de Toby na sala de recuperação durara menos de trinta minutos.

Pediu o gráfico de Suzanne. A anestesia e as doses dela, ajustadas ao peso, eram virtualmente idênticas às de Toby; tal como eram as anotações das enfermeiras da sala de recuperaÇão. Tempo total na sala de recuperação: quarenta e cinco minutos.

O embrião de uma ideia começou a enraizar‑se. Zack verificou as horas. Quinze minutos até à reunião com Jack Pearl.

- Desculpe - pediu à bibliotecária - estes registos estão

totalmente computadorizados?

- Os dos últimos cinco anos, sim - respondeu ela, pousando de lado o romance que estava a ler. - Julgo que estão a trabalhar nos cinco anos anteriores.

- Bem, suponha que eu queria uma listagem, digamos, de todos os doentes que foram operados á vesícula nos últimos três anos?


- Não há problema. Colecistectomia é um dos nossos códigos, três nove oito dois, julgo eu.

- E aqueles em que o doutor Pearl foi o anestesista? - A mulher consultou o manual.

- Doutor Jack Pearl. Médico nove um quatro. Posso obter‑lhe a impressão num minuto, mas levará mais tempo para tirar os gráficos. - Ela tocou na barriga. - Como vê, caminho por dois.

- Está no último mês?

‑ Nas últimas duas semanas, espero.

‑ Bem, se for muito trabalho...

‑ Não, não. Ambos precisamos de exercício.

‑ Detesto complicar‑lhe as coisas, mas pode tirar‑me já as primeiras? Eu voltarei mais tarde, digamos, daqui a uma hora, para ver o resto, está bem?

‑ Com certeza. A esta hora do dia, este lugar não é propriamente barulhento.

Ela estava já a carregar nas teclas do computador para dar instruções.

às oito e meia, Zack já tinha examinado nove dos trinta e um gráficos. Colocou na sua própria pasta os documentos que tirou e prometeu regressar para ver o resto. Apesar da falta de sono, sentia‑se enérgico, estimulado e muito atento.

A sua ideia não lhe fornecera respostas definitivas. Mas agora sabia que tinha finalmente algumas e boas perguntas.

 

Se Jack Pearl tinha feito alguma tentativa para arrumar o gabinete antes da chegada de Zack, fracassara completamente. O reduzido espaço sem janela, entre as salas de operações e a sala de recuperação, estava repleto de jornais e pedaços de papel e cheirava bastante a café e tabaco. Os cinzeiros meio cheios, um deles com uma beata ainda a arder, enfeitavam dois cantos da secretária, e havia caixas de lenços Kleenex envolvidas em celofane espalhadas por todo o lado.

O próprio Pearl, que vestia uma camisola toda amarrotada, estava quase escondido atrás das pilhas de revistas, livros e blocos de apontamentos que se encontravam sobre a secretária. A mão que estendeu era cadavérica.

Por melhor anestesista que Pearl fosse, era difícil a Zack imaginar como é que o seu exigente irmão tinha contratado um homem daqueles.

‑ Bom ‑ disse Pearl, a voz soando a uma mistura entre Peter Lorre e, talvez, Carol Channing ‑, vejo que também é um madrugador.

‑ Na verdade, sou mais uma pessoa do meio da tarde - replicou Zack. ‑ Obrigado por ter arranjado tempo para me atender.

‑ Não tem de quê. Quer um café? Há uma máquina mesmo ao fundo do corredor.

‑ Não. Seja como for, obrigado.

Zack reparou numa cafeteira suja, colocada na extremidade de uma prateleira da estante, mas não viu vestígios de filtros ou de café.

‑ Então, Iverson, o que deseja?


Pearl, que fungava com intervalos de vinte ou trinta segundos, apagou o que sobrava do cigarro aceso enquanto acendia outro. Era um homem que estava sempre a mexer‑se, ora a limpar o nariz, ora a fumar e a revolver os papéis da secretária. Zack achou que também era um pouco efeminado.

Apesar de terem tratado juntos de um caso e conversado brevemente depois da operação de Suzanne, esta era a primeira vez que tinham uma conversa mais substancial.

O gabinete, apesar da desordem, era de certo modo despido e estéril. Não havia diplomas nem certificados nas paredes e nenhuma fotografia ou recordação nas prateleiras. Zack sentiu de imediato uma imensa curiosidade pelo pequeno homem, mas tinha abandonado a ideia de qualquer conversa trivial... incluindo perguntas inofensivas sobre o seu passado. Nada nos modos de Pearl incitava a uma conversa desse género.

‑ Preciso de falar consigo sobre um caso - começou Zack.

‑ Está bem, vamos lá.

‑ Trata‑se de um rapaz de oito anos, chamado Toby Nelrus. O Jason Mainwaring operou‑o há cerca de um ano a uma hérnia. Você deu‑lhe a anestesia.

‑ Não me diz nada ‑ afirmou Pearl.

‑ Está aqui uma fotocópia de quase todo o gráfico dele.

Zack entregou a cópia e esperou que Pearl acabasse de ler tudo.

‑ Parece‑me muito um caso de corte e seca. ‑ Pearl hesitou e depois levantou a cabeça, intrigado. ‑ Corte e seca. Até parece uma anedota, não acha? ‑ Pensou um pouco mais. ‑ E uma anedota bem engraçada, se me permite a expressão. Muito engraçada mesmo.

A gargalhada parecia mais um cacarejo. Zack sorriu, mas nem sequer tentou imitá‑lo.

‑ Pentotal e isoflurano. É a rotina para casos como o do Toby?

‑ Rotina rotineira... ‑ respondeu Pearl. ‑ Porquê?

‑Bem... ‑ Zack esfregou o queixo e, em silêncio, contou até cinco. ‑ Tenho motivos para crer que o miúdo não estava a dormir durante a operação.

Os desatentos olhos de Pearl começaram a pestanejar.

‑ Que ridículo! ‑ afirmou bruscamente.

‑ Talvez, mas penso que é verdade. Ele lembra‑se de pormenores da operação e não há motivos para que assim seja. E, para tornar as coisas ainda mais interessantes, desde há cerca de seis meses que ele revive toda a operação.

Pearl ficou estupefacto.

‑O quê?

‑ Ele vive factos em retrospectiva, nos quais volta a ser operado, só que de um modo aterrador e distorcido. É como se os seus receios se fundissem na verdadeira operação. Em vez de ser operado à hérnia, cortam‑lhe e voltam a cortar‑lhe os testículos e o pénis. E de cada vez, Jack, ele sente a dor. Por completo.

‑Isso... é uma loucura.

‑ É?

‑ Claro que é. ‑ Nervoso, Peari fumou o cigarro e depois assoou o nariz. ‑ Ele está a mentir, ou... vê televisão a mais.

‑ Não acredito nisso, Jack. Nem tão‑pouco os pais do rapaz. Estão muito perto de meter uma acção contra o hospital e, presumo, contra você e também o Mainwaring.

‑ Está a incentivá‑los para isso?

‑ Raios, não. Pelo contrário.

‑ Bem, graças a Deus ‑ murmurou Pearl.


‑ Mas estou decidido a ir ao fundo da questão. É por isso que aqui estou. O miúdo está muito doente devido ao que tem passado. Muito doente. Na verdade, pode estar a morrer.

Pearl assobiou baixinho através dos dentes.

‑ Bom ‑ disse ‑, não posso ajudar muito, excepto dizer‑lhe que seja o que for que esteja a acontecer, nada tem a ver com a anestesia. Tratei de milhares de casos exactamente com o mesmo produto que este rapaz e... nunca aconteceu nada do género. Nada.

- Tanto quanto sabe ‑ corrigiu Zack. A expressão de Pearl era estranha.

Zack tentou comparar a reacção com as que tinha previsto. Fúria? Arrogância? Confusão? Preocupação? Defesa? Nada daquilo pareceu coincidir. Contudo, algo estava errado. Disso tinha ele a certeza.

- O homem estava... estava o quê?

‑ Veja, Iverson... ‑ Pearl apagou o cigarro e pousou as mãos na secretária. O nervosismo parou. O olhar tornou‑se mais directo ‑ Quero ajudá‑lo, quero mesmo. Quero ajudar essa criança. Mas não há nada que eu possa dizer. Ele recebeu uma anestesia de rotina e sofreu uma operação de rotina. Tão simples quanto isso. Se quer ir ao fundo do que está a suceder, então tem de seguir outra direcção, está bem?

Nesse momento, Zack percebeu.

Os músculos tornaram‑se tensos. A sensação era muito familiar. Era como se estivesse numa encosta íngreme, á procura dos suportes e fendas que o ajudariam a atravessar o rochedo, e subitamente surgísse a linha perfeita.

A tentativa de Jack Pearl em parecer preocupado e prestável, fracassara redondamente. Ele estava assustado... absolutamente branco de medo.

Quanto mais se calava e acalmava, mais Zack percebia que ele estava a contorcer‑se. Algo estava a passar‑se. A sua lâmina tinha tocado num nervo. Agora, tinha chegado o momento de a torcer.

‑ Jack, estou interessado numa coisa ‑ afirmou. ‑ A Suzanne Cole estava completamente desperta quando chegou á sala de recuperação. As anotações das enfermeiras que estão no gráfico do Toby Nelrus dizem que ele também estava. Como é que consegue isso?

Pearl encolheu os ombros.

‑ Apenas presto atenção, é só. Controlo os sinais vitais com maior frequência do que a maioria dos anestesistas, para poder manter o nível exacto de anestesia. Uma subida da pulsação ou da pressão arterial e eu aumento ligeiramente o gás. É uma questão de experiência e técnica.

‑ Mas porque é que tudo indica que só emprega essa técnica e experiência nos casos do Mainwaring?

A mão do anestesista pegou, apressada, no maço de cigarros e voltou á posição inicial. Agora estava rígido, quando minutos antes não parava de se mexer.

- Isso é um disparate ‑ respondeu.

- As enfermeiras da sala de recuperação não pensam assim. Disseram‑me que os casos dele saem todos da sala de operação mais despertos que os dos outros.

- Iverson, onde é que você quer chegar?

Tem cuidado agora, alertou‑se Zack. Um passo de cada vez. Nada de escorregadelas.


‑Veja, Jack ‑ disse. ‑ Não quero criar problemas a ninguém. Só quero ajudar esta criança.

- Bem, atirar‑me dardos não vai ajudar ninguém. Você está a descascar a árvore errada. E, francamente, as suas incinuações começam a aborrecer‑me.

Zack suspirou.

- Escute, dê‑me só mais dois minutos e deixo‑o em paz. Só quero que veja isto e me dê a sua opinião.

Com o que esperava ter sido apenas um gesto teatral, Zack tirou os apontamentos que introduzira na pasta e entregou‑os ao anestesista.

Pearl olhou por instantes para o papel e pegou nos cigarros. As mãos tremiam‑lhe, e a respiração difícil apagou o fôsforo antes que este fizesse arder todo o cigarro.

- Mas que raio vem a ser isto? ‑ perguntou.

- Você sabe o que é, Jack. É um resumo de nove casos

de vesícula que você tratou nos últimos dois anos. Tenho cerca de mais vinte gráficos a serem tirados neste momento e suspeito que confirmam o que esta lista já sugere.

Pearl parecia doente.

‑E o que é?

‑ É que, Jack, para além de seguirem o mesmo processo de receberem, pelo menos segundo as suas anotações, precisamente a mesma quantidade de anestesia, os casos do Jason Mainwaring saíram da sala de operações como se não tivessem estado a dormir, enquanto que os do Greg Ormesby foram normais. Veja os tempos da sala de recuperação. Os casos do Mainwaring foram transferidos seis horas mais depressa do que os do Ormesby... Não receberam a mesma anestesia, Jack, ou receberam?

Era uma afirmação e não uma pergunta.

‑ Você é doido ‑ gritou Pearl, devolvendo o gráfico. - Esses doentes receberam exactamente o que eu disse. Bem, porque é que não pega neste... neste lixo todo e sai daqui?

‑ Está bem, Jack. Mas você sabe que não posso passar por cima disto.

As mãos de Pearl estavam de novo fortemente apertadas sobre a secretária.

‑ Faça o que quiser, Iverson. Não tenho de me preocupar com nada, porque não fiz nada de errado.

Pela primeira vez desde o inicio da sessão, Zack começou a ter algumas dúvidas. Um rapaz estava a morrer. Ele tinha colocado tudo sobre a mesa. E no entanto Jack Pearl, mesmo que soubesse de alguma coisa, recusava‑se a arredar pé. Estaria ele assim tão errado quanto à anestesia? Quanto a toda a situação? Ou seria o pequeno e pálido anestesista um monstro qualquer?

Apenas alguns minutos antes, as respostas pareciam estar tão perto. Agora...

‑ Seja como quiser, Jack ‑ disse, erguendo‑se. ‑ Sabe como me contactar, caso se lembre de alguma coisa.

‑ Isso não vai acontecer ‑ declarou Pearl. ‑ Por isso, leve toda esse tipo de caça às bruxas para outro lado.

‑ Ele tem oito anos, Jack. Oito anos.

‑ Saia daqui.


 

Frank Iverson gostava do Porsche 911 com uma paixão e intensidade tal que era superior ao que alguma vez sentira por um ser humano, incluindo as filhas. Ele acreditava que a ligação era espiritual ‑ o homem no seu melhor e a melhor máquina do homem, ligados no estilo, flexibilidade e velocidade. Na verdade, havia alturas, como aquela tarde de segunda‑feira de céu limpo e sem vento, em que ele tinha a certeza de que a máquina sentia o seu estado de espírito e reagia segundo este.

Com um Minuet, detector de radar para estrada, e um mapa

mental dos esconderijos favoritos da Polícia Estatal, desceu a

Estrada 16 em direcção à fronteira do estado de Massachusetts e a leigh Baron, conduzindo o Porsche através de curvas a cento e quarenta quilómetros por hora, só com a ponta dos dedos.

o telefonema da directora‑geral da Ultramed a marcar um encontro no Yarilcee Seaside Inn, logo a seguir à fronteira, tinha sido feito nessa manhã, apenas minutos depois de ter sabido através da Mãe do salto de dois lugares nas categorias nacionais. Era quase certo que estava iminente uma promoção qualquer... provavelmente para director regional.

o lugar do encontro, a uma hora para norte de Bóston, fora escolhido por sugestão de Leigh, que iria participar ali num seminário de directores... pelo menos, fora o que ela lhe dissera. Havia outras possibilidades, calculou Frank, excitado.

De vez em quando, ao longo dos quatro anos da associação, a espectacular ruiva tinha dado sinais de atracção por ele. Talvez agora, com o seu estatuto a subir como um foguete na companhia, ela estivesse pronta. E que recompensa incrível ela seria. Contar com Annette Dolan, dinheiro, poder e um cérebro para o secundar: a animação máxima para o novo director regional da Ultramed.

Director regional, pensou Frank. A hora não podia ser melhor. Com o dinheiro de Mainwaring depositado no banco e o pesadelo de manobrar as contas do hospital para esconder o défice de quarto de milhão de dólares quase para trás das costas, ele necessitaria da flexibilidade dos escritórios de New Hampshire e de Bóston para fazer alguns dos negócios que tinha em mente.

Embora a região nordeste não fosse a mais lucrativa da Ultramed, era a que crescia mais depressa. Ele trabalharia no centro de publicidade da corporação. A empresa tinha estabelecido o conceito de prestígio que o envolvimento com faculdades de Medicina existentes traria, e só em New Hampshire havia dez das mais respeitadas instituições. Na realidade, há apenas um ano, a Ultramed quase perdera por um triz a compra do estabelecimento psiquiátrico de uma universidade importante.

Se conseguisse que a empresa colocasse um pé nessa porta, ele podia muito bem emitir para si próprio um bilhete para o sucesso.


E, garantiu Frank a si próprio enquanto fazia o itinerário de Portsmouth e seguia para sul em direcção a Newburyport, o primeiro negócio que faria com a sua posição recém adquirida seria despedir do Ultramed um tal Zachary Iverson. Desde que fracassara redondamente no negócio de terras que não cometera muitos erros na vida. Mas permitir que o juiz e leigh Baron o convencessem a trazer Zack de volta a Sterling fora de longe o pior erro.

Frank fez uma curva de noventa graus para entrar na estrada paralela ao oceano. Pensou que talvez valesse a pena considerar a demissão de Zack como uma condição para aceitar o seu novo lugar. Ou leigh concordaria, ou correria o risco de o perder. Com certeza valia a pena considerar uma exigência dessas ‑ se não fosse agora, seria em breve. De qualquer modo, numa questão de meses, quando o seu envolvimento com a Ultramed fosse um pouco mais do que a cobertura de açúcar do seu bolo, ele teria esse tipo de influência.

E, tal como o juiz gostava de dizer e repetia vezes sem conta, a influência era o nome do jogo.

 

O Yankee Seaside, um hotel de três pisos construído num amplo V sobre a costa irregular, era luxuoso mas não extravagante. Frank foi à casa de banho dos homens para se ajeitar ao espelho ‑ como medida de prevenção ‑ e, em seguida, subiu a escada larga e circular até ao segundo andar.

A ideia da chamada de teigh Baron poder ser social, começou a dissolver‑se no momento em que ela abriu a porta.

A suite número 200 era uma sala de reuniões ‑ ricamente decorada, com uma lareira e uma área de conversação num extremo e uma mesa de conferências oval com cadeiras para dez pessoas, colocada no V. As enormes janelas de vidro laminado revelavam uma vista do Atlântico Norte de cortar a respiração.

A própria Leigh trazia um traje de trabalho, composto por um fato leve cor de vinho e uma blusa lisa. Os seus maravilhosos cabelos ruivos estavam apanhados em rabo‑de‑cavalo e trazia uns óculos com aros de tartaruga, que ás vezes eram substituidos por lentes de contacto.

Contudo, não havia penteado nem modo de vestir que pudessem esconder a sua fisionomia espectacular. E Frank prometeu a si mesmo que, fosse como fosse, eles seriam amantes. Se não acontecesse nesse dia, então seria noutro não muito distante.

‑ Frank, bem‑vindo ‑ disse, apertando‑lhe firmemente a mão e alertando‑o com os olhos contra qualquer outro tipo de contacto. ‑ Estou satisfeita que tenha conseguido vir com um aviso tão curto.

Talvez com cerca de um metro e sessenta, ela era mais baixa do que ele em mais de quinze centímetros, mas o porte e os modos neutralizavam a diferença.

Perante a frieza do cumprimento dela, Frank perdeu a firmeza e sentiu uma certa irritação crescer dentro dele.

‑ Você ligou, eu vim ‑ afirmou, ocupando um lugar na área de conversação, do outro lado de uma mesa de café em mármore colocada à frente dela. Apontou para a sala. - Bonita.

‑ Obrigada. Pertence‑nos.

‑ A Ultramed?

‑ A uma subsidiária, a Whiteside Travel Services.

‑ Whiteside Travel? Não sabia que pertencia á Ultramed.

‑ São poucos os que sabem.


Havia uma porta à frente daquela por onde Frank entrara e, apesar de tudo, não conseguia deixar de pensar na possibilidade de esta conduzir a um quarto. Estaria de acordo com o estilo dela, pensava ele; um cumprimento muito cordial, seguido da informação sobre a sua recente subida nos quadros da Ultramed e em seguida as palavras sobre a sua promoção. Subitamente, assim que a conversa parecesse ter chegado ao fim, ela levantaria um braço e soltaria o cabelo.

- Então, Frank ‑ começou, cruzando as pernas fenomenais e ajeitando intencionalmente a saia ‑, está com bom aspecto. Como têm corrido as coisas?

- Estão a correr bem ‑ respondeu, cauteloso. ‑ Tenho tido alguns problemas com o meu irmão, mas não é nada que não possa revolver desde que a senhora e a Ultramed me apoiem.

- Damos sempre apoio aos nossos administradores, em especial àqueles que têm um tipo de passado como o seu. Presumo que viu o novo salário que acabámos de introduzir na Mãe?

Frank sorriu. O passo dois da cena que imaginara estava a desenrolar‑se.

- Eu disse‑lhes que conseguia ‑ respondeu, sentindo uma onda de confiança.

- Não, Frank ‑ corrigiu ela. ‑ Eu é que lhe disse. lembra‑se? Quero que saiba que estamos todos muito satisfeitos com o trabalho que tem feito. Especialmente eu, visto ter sido eu quem primeiro viu o seu potencial e fez com que lhe dessem o lugar. Fico bem vista com o seu sucesso.

E com a minha promoção será vista ainda melhor, pensou ele.

O perfume que emanava dela, mesmo à distância, começou a encher‑lhe a cabeça, dificultando‑lhe a concentração. Ele seria o melhor... o melhor de todos que ela alguma vez tivera.

‑           Agora ‑ disse ela ‑, o que se passa com o seu irmão?

- Oh, nada. ‑ Desejou que ela não tivesse tocado no caso

de Zack, antes de o assunto deles ter terminado. ‑ Acho que ele não tem, como poderei dizer, o espírito de equipa para continuar no Ultramed. Só tem causado problemas desde que regressou a Sterling.

‑           Que tipo de problemas?

Oh, por Cristo, não te incomodes com ele. Continua a conversa. A cento e cinquenta quilómetros de Sterling e o irmão estava a meter‑se no maldito caminho.

‑ Ei, não é nada de especial, Leigh. Tal como disse, consigo resolver o assunto.

‑ Conte‑me, por favor.

Frank suspirou.

‑ Está bem ‑ disse. ‑ O tempo é seu. O Zack está sempre a entrar em choque com outros médicos. Faz tudo o que pode para me retirar a autoridade e não dá ouvidos a ninguém. Tentei dizer‑lhe que ele seria um sarilho.

‑ Sim, lembro‑me disso.

‑ Ele foi sempre. No entanto, eu tratarei disso. Assim que terminarmos a nossa conversa, eu tratarei disso. - Apontou de novo para a sala. ‑ Sabe, este lugar faz‑me recordar uma pequena e fabulosa estalagem de Provincetown. Acho que você havia de gostar dela.

O olhar dela endureceu.


‑ Frank ‑ disse ‑, quero que me escute, e escute com muita atenção. Neste preciso momento, no que lhe diz respeito, eu sou a Ultramed. Você trabalha para mim. Se quiser continuar a trabalhar para mim, vai parar de me despir mentalmente e prestar atenção ao assunto desta reunião.

‑Mas...

‑ Isso não vai acontecer, Frank. Meta isso na sua cabeça. Tenho um marido com quem sou muito feliz. Percebeu?

Atrapalhado, Frank anuiu.

‑ óptimo. ‑ Estendeu o braço e apertou‑lhe uma mão. - Agora, ajeite‑se na cadeira e vamos ao que interessa, pois temo que tenha um problema para resolver.

A voz dela soou severa.

Frank sentiu que lhe tinham dado um murro no estômago.

‑ Que espécie de problema? - perguntou.

‑ Esta carta chegou esta manhã cedo, trazida por um mensageiro ‑ disse ela. ‑ Uma vez que ainda não a mencionou, presumo que seja uma surpresa.

Assim que Frank reconheceu o cabeçalho do endereço

do juiz, começou a formar‑se‑lhe na cabeça um gemido aborrecido. Quando acabou de a ler, o ruído transformou‑se em berro.

Examinou o documento e voltou a lê‑lo mais devagar. Tal como Leigh previra, era uma surpresa total.

Uma auditoria.. Quando?... Que loucura.

Frank esfregou as têmporas na tentativa de afastar o ruído, a fim de poder concentrar‑se e compreender o que se passava e o porquê.

Tudo aquilo era uma loucura... uma loucura de merda.

Ele conseguiria tratar da reaquisição. O juiz era um animal, mas não deixava de ser apenas um voto. Podia convencer o conselho de directores. Um membro de cada vez, ele podia convencer todos. Mas até Mainwaring se despachar, a auditoria estava fora de questão. Completamente fora!

‑ Frank?

Foi outra vez o Zack. Foi aquela maldita cena com o Norman que convenceu o juiz a...

Os dentes de Frank estavam tão cerrados que lhe faziam doer os maxilares.

Com quem julgam eles que estão a lidar?

‑ Frank, está a sentir‑se bem?

‑ Hen? Oh, sim. Estou apenas furioso, é só.

‑ Eu também não estou muito feliz. Faz ideia por que razão o seu pai não conversou consigo sobre isto?

Frank deu uma gargalhada.

‑ Dúzias delas ‑ respondeu.

Director regionaL.. Leigh... a flexibilidade... a influência... o poder...

Tinha feito a viagem com tantas esperanças. Voltaria com nada... nada a não ser dores de cabeça.

Que se danem todos eles, pensou, furioso. O juiz e o seu irmão. Que se danem os dois!

‑ Tem aqui alguma coisa que se beba? ‑ perguntou.

‑ Só café, Frank. É isso que quer?

‑           Sim, está bem. Não, esqueça.

Levantou‑se e aproximou‑se da janela, com os braços pendentes e os punhos a abrir e a fechar.


‑ Frank ‑ disse Leigh em tom autoritário ‑, tem de se acalmar. Nós precisamos de saber se podemos contar consigo para cuidar deste assunto. Neste momento, a Ultramed tem coisas a mais em jogo para recuar um passo que seja. A concorrência só está à espera de uma asneira para a poder utilizar e virar quaisquer perspectivas de aquisição contra nós. Por isso, acalme‑se. Se pensar bem, isto não é uma surpresa tão grande. Quando o seu pai insistiu na cláusula de reaquisição, esperámos que ele desse algum passo deste género. Ele sabe controlar as coisas. É a sua maneira de ser.

‑ A quem o diz ‑ disse Frank em tom amargo, ainda a olhar para o Atlântico.

‑ A questão é saber se ele está só a fazer o seu jogo, ou se pretende mesmo lutar. Tem alguma ideia sobre isso?

Frank virou‑se para ela.

‑ É um bluff ‑ respondeu.

‑ E aquele assunto da viúva do Beaulieu?

‑ Outro bluff. Se o Beaulieu tivesse alguma coisa substancial, eu já teria tido conhecimento há muito tempo. É o tipo de porcarias que o meu pai faz desde que me conheço.

‑ Consegue resolver o caso com ele?

‑ Pode ter a certeza que sim. Não vai haver porra de auditoria nenhuma.

‑ O quê?

- Disse que tratarei do assunto.

Amaldiçoou a sua língua e, em silêncio, prometeu ser mais cuidadoso.

‑ Este é mais um dos seus testes ‑ afirmou. ‑ Já passei por muitos.

Eles estavam a menosprezá‑lo. Zack, o juiz e até mesmo Leigh. Estavam a menosprezá‑lo bastante e iriam ter a resposta. Todos eles. Era mais novo e mais forte do que o pai e este ensinara‑lhe bem as lições.

‑ Contamos consigo ‑ disse Leigh. ‑ Queremos que todo este assunto fique resolvido antes da reunião dos directores.

‑ Estará.

‑ óptimo. Eu ficarei atenta. É muito importante para mim que faça tudo correctamente. E nem sequer é preciso dizer que também é importante para si, não é?

‑ Quando tudo isto tiver terminado ‑ disse Frank, friamente‑, quero o maldito do meu irmão fora do Ultramed. Eu despedi‑lo‑ia de imediato, mas até este assunto do meu pai ficar resolvido, não quero fazer nada que possa irritar ainda mais o juiz.

‑ Concordo. Acima de tudo, tem de levar tudo com calma... ‑ A voz dela tornou‑se mais suave. ‑ Ouça, Frank, trate deste assunto como deve ser e terá a nossa bênção para se livrar do seu irmão, se é isso que deseja. Na verdade, prove que consegue cuidar do seu pai e poderá considerar ilimitado o seu potencial nesta empresa. ‑ Sorriu para ele. ‑ Ilimitado, Frank...

‑ Compreendo.

‑ óptimo. ‑ Levantou‑se. ‑ Quero estar a par de tudo o que se passar. ‑ Indicou com a cabeça a carta do juiz. ‑ Não gosto de surpresas.

‑           Compreendo ‑ repetiu ele. ‑ Não haverá nenhuma.

- Nesse caso, Frank, tem um belo futuro na nossa empresa.

 

Passara um minuto desde que a porta da suite número 200 se fechara atrás de Frank. Leigh Baron preparou um uísque com água fraco, que tirou do pequeno aparador bem apetrechado. Em seguida, virou‑se para o intercomunicador, escondido num extremo da mesa.


- Tudo bem, Ed ‑ disse. ‑ Ele já saiu.

Edison Blair, o presidente da RIATA Internacional, saiu do pequeno gabinete de onde escutara tudo e dirigiu‑se directamente ao bar. Estava perto dos cinquenta anos, mas parecia ser dez anos mais novo, de cabelo louro cortado curto, uma figura magra e quase franzina e um enganador rosto agarotado.

Os seus bens pessoais, estimados por várias fontes entre cerca de vinte a trinta milhões, eram na verdade quase o dobro e cresciam tão rapidamente quanto a sua jovem corporação.

Potencial ilimitado.

- Gostei desse pequeno retoque final - afirmou. ‑ Ele achou que estavas a referir‑te a ti própria, sabes?

- Claro que sei. Escolhi as armas de que precisava para lidar com o Frank Iverson, em Homens 101. Tira‑lhe a vaidade e ele fica sem nada. Com homens como ele, é sempre preciso deixar uma cenoura.

‑ Lembro‑me disso. Então ‑ continuou ‑, o que achas?

‑ Não sei. Tenho as minhas dúvidas.

‑ Só vi uma vez este juiz Iverson, mas, daquilo que penso do homem, aposto nele.

Blair serviu‑se de uma dose de tequilha José Cuervo Gold, cheirou‑a e bebeu‑a de um só trago.

‑ Concordo - disse Leigh ‑, mas acho que vale a pena esperar um pouco, antes de fazermos a nossa jogada. Quem sabe? Talvez o Frank consiga resolver tudo. Até aqui, tem sido uma enorme surpresa... isto é, para todos menos para mim.

‑ É uma sorte não termos tantas surpresas como ele a trabalhar para nós, Leigh. Não é exactamente o melhor negócio manter um administrador que nos desvia um quarto de milhão de dólares.

‑ Vamos lá, Ed. Ele já produziu dez vezes esse valor e tu sabes disso. Os nossos contabilistas nunca mais encontraram um único centavo desde essa vez. Com base na salada que tem feito, eles julgam que ele está a ganhar tempo para repor o dinheiro, e eu também. Seja como for, é o nosso seguro no local.

‑ Então, esperamos?

‑ Esperamos.

‑ Leigh, não quero perder aquele hospital.

‑ Não vamos perder nada. Podes ter a certeza disso.

Edison Blair olhou para ela durante alguns instantes.

‑ Eu tenho ‑ afirmou.


 

Durante quase toda a vida, Jack Pearl sofrera desapontamentos e vivera tempos dificeis. Tanto quanto se lembrava, fora sempre diferente ‑ um estranho.

Por um lado ele era insone, mas um insone patológico.

Quando jovem, os pais ralharam com ele por estar na cave às quatro da manhã, a brincar com o estojo de química. Horas depois nesse mesmo dia, recebera uma repreensão e fora mandado para casa por ter adormecido nas aulas. O seu estado originara ameaças de expulsão em várias ocasiões e bem podia ter sido expulso se, graças a um QI de cerca de 160, não fosse o melhor aluno da escola.

Para tornar as coisas ainda mais dificeis para Pearl durante esses anos escolares, a sua homossexualidade começara a emergir gradualmente. E mesmo nesse aspecto ele era um jogador cauteloso, preferindo rapazes mais jovens e as fotografias destes, a envolvimentos mais arriscados.

Na universidade, o companheiro de quarto não suportava por mais de algumas semanas os seus bizarros ritmos biológicos e profunda melancolia. As paredes do seu dormitório estavam cobertas de cartazes e fotografias de heróis especiais: Napoleão, Dickens, Edison, Churchill, Kafka e Proust e, segundo o primeiro dos seus terapeutas, nenhum deles passara uma noite normal a dormir.

Que um insone acabasse por escolher a anestesia como trabalho de sobrevivência era uma das poucas e agradáveis ironias da vida de Pearl; que tivesse desenvolvido o Serenil, a quinta‑essência dos agentes sonoríferos, era entre todas a ironia máxima.

A odisseia do Serenil começara anos antes, em Iquitos, numa aldeia do mato junto ao afluente do Amazonas peruano, para onde Pearl aceitara uma missão médica de seis meses como meio de fugir a mais uma situação desastrosa num outro hospital. Poucas semanas depois da sua chegada, sentira‑se muito fascinado pelos medicamentos que os curandeiros utilizavam, em particular por uma planta alcalóide utilizada pela maioria dos "médicos" misticos da região para induzir um estado purgativo de profunda hipnose nos seus seguidores.

Logo que Pearl testemunhou a acção da substância, a falta de orientação e propósito na sua vida chegaram ao fim.

Os dois anos de dissecação meticulosa do componente activo no alcalóide e modificação da sua composição conduziram‑no á síntese do Serenil ‑ uma anestesia estruturalmente única, tão notável quanto o seu antepassado químico.

Agora, pela primeira vez desde que concebera a sua aplicação, desde que a sintetizara, patenteara e ajustara o efeito e a dosagem em situações reais nas salas de operação, o Serenil de Pearl era atacado.


Eram cinco da manhã. Uma hora antes, Pearl desistira de tentar adormecer e preparara um jarro de café. Das quase vinte e quatro horas de trabalho que haviam passado desde que tivera de confrontar Zack Iverson, dormira talvez duas. As sensações familiares de solidão e isolamento ‑ sensações que conseguira melhorar razoavelmente desde que se mudara para Sterling tinham emergido e ameaçavam asfixiá‑lo.

Os primeiros raios da manhã começavam a espalhar‑se por todo o vale enquanto ele se envolvia num cobertor, atravessava o jardim húmido e se sentava numa cadeira de tábuas. Pensou se não seria melhor tomar um soporífero qualquer. Com Mainwaring em Atlanta, a carga cirúrgica era suficientemente leve para o sócio e a enfermeira anestesista suportarem.

Podia telefonar a dizer que estava doente e tomar duas centenas de miligramas de Seconal. Tinham‑se passado anos desde que tomara qualquer medicamento ‑ detestava sentir a perda de controlo ‑ mas esta talvez fosse a altura de o fazer.

Pensara de mais, a mente a matutar sem parar na prova que o irmão de Frank lhe atirara, freneticamente a tentar calcular a extensão da ameaça e descobrir falhas na lógica do homem.

Não fora fácil sequer apontar erros potenciais no raciocínio de Zack Iverson.

Pearl acendeu o quinto cigarro daquela hora, procurou uma

caixa de Kleenex e acabou por limpar o nariz a uma ponta do cobertor. Porque seria que sempre que a vida parecia começar a sorrir‑lhe ligeiramente, sempre sem excepção, aparecia algo ou alguém para estragar tudo? Porquê?, pensou.

Para ele o mais grave era que desta vez ele tinha previsto es potenciais problemas e discutido as suas preocupações com os sócios desde o início.

Ele avisara‑os que o maravilhoso e reduzido tempo de recuperação do Serenil ‑ o mais distinto dos seus atributos também era o seu calcanhar de Aquiles. As restantes propriedades que o distinguiam das outras anestesias, injectadas ou inaladas, eram efeitos secundários que não possuía. Chegara mesmo a sugerir a utilização da anestesia nos doentes de outros cirurgiões pois, caso surgissem quaisquer problemas, o foco de qualquer suspeita seria a técnica destes e não o medicamento.

No entanto, Frank e Mainwaring tinham sido obstinados na exigência de segredo absoluto. Na verdade, os dois homens haviam zombado das suas preocupações e rido da ideia de alguém no Ultramed‑Davis poder ser suficientemente inteligente, ou interessado, para juntar as coisas.

Não tinham contado com Zachary Iverson.

Pearl sabia que tinha razão para estar preocupado. Ao longo de uma vida cheia de confusões, desenvolvera um certo sexto sentido sobre esse tipo de coisas.

Devia ter ligado a Frank assim que Zack Iverson saíra do seu gabinete. Mas precisara de tempo para pensar ‑ não tanto nos casos de vesícula que Iverson estava a rever, ou mesmo nas implicações da possível descoberta do Serenil, mas nas alterações que aquele miúdo, o tal Toby Nelrus, estava a sofrer devido a uma complicação com a sua anestesia.

O Serenil era a realização eterna de Pearl ‑ a validação de toda a sua existência caótica e apoquentada. Tinha de ser simplesmente perfeita.

Fora a promessa escrita de Mainwaring de que o mérito de Pearl acabaria por ser reconhecido que o fizera vir para Sterling. O facto de Frank Iverson lhe pagar bem pela sua descoberta quando outros ameaçaram processá‑lo por utilizá‑la, era apenas a cobertura de açúcar de um bolo.


Claro que Pearl aceitara com relutância que Frank Iverson também lhe tivesse apagado as dificuldades do passado principalmente um caso bicudo que envolvera o filho de um político de Alcron. Mas se não fosse a promessa de Mainwaring, nem mesmo a possibilidade de fugir daquela confusão seria suficiente para fazê‑lo mudar‑se para um lugar como Sterlíng, quanto mais partilhar a patente do Serenil.

E agora, gostasse ou não, Pearl sabia que tinha de conversar com Frank sobre o irmão e Toby Nelrus. Eles tinham tido em consideração todas as possíveis e imediatas complicações do Serenil ‑ efeitos renais, função hepática, função pulmonar e nada haviam encontrado. Fora um descuido não terem efectuado também uma análise retrospectiva a longo prazo.

Mas, raios, pensou Pearl, o medicamento tinha actuado sempre tão bem...

Bom, agora teria de fazer com que os sócios compreendessem que tinham cometido um erro; graças a Deus, não era um erro fatal. Só tinham de voltar atrás e fazer os estudos que deveriam ter feito logo de início.

Pearl sabia que com uma pequena investigação, apenas cerca de cem telefonemas para doentes que haviam recebido a anestesia, podia determinar se Toby Nelrus era uma coincidência ou um problema. Ninguém precisava de saber por que razão ele estava a fazer a investigação.

Porém, se houvesse um problema com o Serenil,      se se

identificasse um segundo caso como o de Toby Nelrus, quase de certeza que ele conseguiria tratar. Conhecia todas as moléculas do medicamento.

Tudo o que precisava era de uma oportunidade.

Pearl levantou‑se e começou a caminhar, nervoso, pelo jardim, sem se importar com a humidade, a qual já tinha encharcado os chinelos de pano.

Tinha um bom relacionamento com Jason Mainwaring. Em certa medida, eram aliados. O cirurgião era um patife arrogante e privilegiado, mas ladrava mais do que mordia. Na verdade, com o dinheiro da sua empresa em jogo, provavelmente exigiria que esta ponta solta fosse atada antes do negócio consumado.

Pearl apagou o cigarro na relva e, a tremer, acendeu outro.

Era de Frank Iverson que tinha medo.

Tanto quanto se lembrava, onde quer que tivesse vivido, ou o que quer que tivesse feito, tinham existido sempre Frank Iversons. Tinham‑no empurrado nos pátios da escola e chamado nomes; tinham mandado lacaios para lhe passarem rasteiras

e ficado a rir com as namoradas, enquanto ele limpava os arranhões ensanguentados dos joelhos e dos ombros; mais tarde, surgiam por trás das respectivas secretárias acenando‑lhe com os dedos bem cuidados e dizendo‑lhe que nas suas instituições não havia espaço para pessoas do "seu tipo".

E, por mais que a preocupação e intervenção deste Frank Iversom o tivesse ajudado, Pearl sabia que não podia confiar nele. Fora o Serenil e só o Serenil que mantivera o civismo e o apoio do homem.

Durante quase dois anos, o trabalho deles correra ás mil maravilhas. Seria preciso cuidado e paciência para convencer Iverson da necessidade de suspender a venda.


Mas que importância tinham algumas semanas, ou mesmo meses, comparadas com a importância da anestesia na medicina?, reflectia Pearl, desesperado. Afinal, até Frank teria de compreender isso.

Compreender. Pearl encolheu os ombros. Uma das mais desagradáveis constantes da vida, no que se referia a ele e ás coisas que lhe eram importantes, foi que os tipos como Frank Iverson nunca tinham compreendido.

Ainda faltavam muitas horas até que Frank Iverson se encontrasse no seu gabinete. Até essa altura, ele nada podia fazer.

Precisava urgentemente de descansar.

Olhando para o relógio, atravessou o jardim e entrou na cave da sua casa alugada através do alçapão metálico. A cave, cheia de poeira e ainda por acabar, era iluminada por uma única lâmpada, suspensa no tecto.

Pearl tirou uma chave de fendas da caixa de ferramentas, ajoelhou‑se atrás do atomizador de óleo e arrastou um segmento solto da parede de concreto de cinza. Uma das suas prioridades, assim que se mudara para lá, fora criar um esconderijo.

Afastou para o lado várias dúzias de frascos de Serenil e o bloco onde constava a respectiva síntese, e retirou uma das duas caixas de charutos, cheias de fotografias. A seguir, voltou a colocar a parede no lugar e dirigiu‑se ao quarto.

Sentando‑se na cama, despiu o roupão e depois, uma a uma, retirou determinadas fotografias da caixa.

Quando já ia na terceira, Pearl introduziu uma mão na parte da frente da calça do pijama e começou a acariciar‑se suavemente. Iverson tinha‑lhe exigido, não com muito bons modos, que ele se mantivesse absolutamente afastado de qualquer envolvimento com rapazes ou, neste caso, qualquer homem daquela zona. Sem as fotografias, teria enlouquecido.

As que ele escolhera nessa manhã, eram as melhores, as que ele próprio tirara.

Em minutos, a sua excitação começou a afastar um pouco os receios e a solidão. Tudo havia de acabar bem, disse para consigo. Fossem quais fossem as palavras que tivesse de encontrar para convencer Iverson, ele encontrá‑las‑ia.

Retirou uma fotografia de doze por dezoito, na qual três belos rapazes surgiam, estáticos, numa montagem que ele fizera cuidadosamente. Essa tarde na zona leste de Saint Louis fora incrível. Foi uma das melhores.

Lentamente, os olhos de Pearl fecharam‑se, os movimentos intensificaram‑se enquanto as fantasias atingiam o auge.

Não era fácil ser diferente. Nunca fora. Mas, como sempre, esforçava‑se por sê‑lo.

E por uma vez na vida, por uma vez na sua maldita e problemática vida, algo iria correr bem.

 

- És tu, Frank, entra.

O gabinete do juiz Clayton Iverson, uma enorme sala de tecto alto, painéis em madeira de carvalho e três paredes de lumes meticulosamente alinhados, era tão sombrio e intimidante quanto o próprio homem. Na parede atrás da secretária, rodeando um retrato do presidente do Supremo Tribunal, havia dúzias de fotografias emolduradas do juiz em poses idênticas de três presidentes, de meia dúzia de governadores e de praticamente todos os políticos importantes de New IIampshire nos últimos cinquenta anos.


Próximo do centro da exposição estava também uma fotografia colorida de Frank, vestindo o uniforme púrpura e dourado do Liceu de Sterling, o braço esquerdo estendido, o direito dobrado atrás da orelha, pronto para atirar.

Os cortinados estavam corridos, tapando o sol do meio‑dia. Sentado atrás da secretária de carvalho maciço, o cabelo espesso e prateado a brilhar razoavelmente na penumbra, o juiz parecia maior do que a vida.

Frank temia que tivesse sido um erro não marcar um encontro num local mais neutro. E agora, ao sentir o respeito que o acompanhava sempre nas suas visitas àquela sala, amaldiçoou‑se por não ter sido mais teimoso.

Decidiu que não teria importância. Tinha chegado a hora de um novo Iverson assumir o comando. Já tinha conseguido ultrapassar os recordes nos campos de uma dúzia de adversários diferentes; a sua actuação tinha conseguido calar os gritos do público inimigo. Encontrar‑se‑ia com o homem na sua toca, ou noutro lugar qualquer, e sairia vencedor.

- Então, juiz - começou, apertando‑lhe a mão com a mesma firmeza e depois com mais força. - Como vão as coisas? A mãe está bem?

- Ainda anda preocupada com a Annie mas, tirando isso, ela está bem. Está envolvida até à ponta dos cabelos a tratar do seu jardim.

- Realmente ela gosta daquele velho jardim. A Lisette também anda a tentar fazer um, sabe? O juiz e a mãe têm de o ver. Por falar na Annie, por acaso já a viu hoje?

- Não, só logo à noite. Prometi à tua mãe que a levaria lá.

- Bem, irão ter uma bela surpresa. Ela está a melhorar a olhos vistos. O Don Norman disse‑me que provavelmente irão operá‑la à anca antes de a semana terminar. A Suzanne Cole já regressou ao trabalho e assim a Annie recebe os cuidados de ambos os médicos.

- Ainda bem que assim é, Frank. Contudo, é lamentável, muito lamentável que tivesse caído como caiu.

Frank ficou tenso. Como sempre, o homem dera um murro certeiro. Sem bazófia, sem artimanhas. A chave para o controlar seria manter‑se calmo e não permitir que ele se irritasse.

- Ninguém se sente pior com o que aconteceu do que eu, juiz - disse. ‑ Mas o que está feito, está feito. Agora, a nossa obrigação é ajudá‑la a ficar boa, certo? E graças à Ultramed, temos um dos melhores departamentos de fisioterapia do estado.

- Não mantiveste a rédea curta àquele teu médico, Frank. Tu és o responsável. É o teu hospital, tal como esta é a minha sala de tribunal.

Oh, deixe‑se de merdas, pensou Frank.

- Tem razão, juiz - afirmou. - O seu ponto de vista está correcto. Falei com o Don e ele sabe que, daqui por diante, tem o rabo a arder. Por outro lado, está a tratar de pagar todas as despesas que a Annie tiver para ser tratada em casa, depois de ser operada.

‑ Excelente, filho. Essa é uma atitude excelente.

‑ O nosso hospital avançou bastante desde que a Ultramed tomou conta dele, juiz. Farei tudo o que for preciso para o manter na ordem.


Clayton Iverson alargou a gravata e colocou os polegares por baixo dos suspensórios pretos que sempre haviam feito parte da sua indumentária de tribunal.

‑ Presumo ‑ disse ‑ que a tua declaração de propósitos é a forma de me pedires para retirar o aviso que enviei á tua amiga, Miss Baron.

Raios... que o homem é mesmo duro.

‑ Bem, já que tocou no assunto...

O juiz levantou‑se da cadeira, tirou da parede a fotografia de Frank e olhou para ela, pensativo.

‑ Lembras‑te quando foi tirada? ‑ perguntou. ‑ Foi pouco antes do jogo para o campeonato estatal contra Bloomfield. Acho que foi a melhor partida que jamais jogaste. Os seis lances ao solo contra a equipa adversária foram considerados os melhores de sempre no estado.

‑ Cinco ‑ corrigiu Frank.

O juiz sorriu.

‑ Estás a esquecer-te da linha de área trinta do terceiro quarto de jogo, que foi considerada penalty. No jogo imediatamente a seguir, da linha de área quarenta e cinco, atiraste aquela bomba para o Brian Cullen. Cercado por três homens e tu atiraste a bola pelo campo, como... como se estivesses a jogar no quintal.

‑ Isso já foi há muito tempo, juiz. ‑ Frank ficou genuinamente surpreendido e comovido com os pormenores da memória do homem. ‑ Tem uma memória muito boa.

‑ Filho ‑ disse Clayton Iverson ‑, ficarias espantado com as coisas que recordo daqueles tempos. ‑ Contra o que era habitual, o seu tom de voz foi melancólico. ‑ Nessa altura, havia em ti uma decisão tal, Frank, uma determinação em ser o melhor. Tinhas o mundo inteiro na palma da mão. Contudo, algures pelo caminho, começaste a perder‑te, a tomar decisões erradas. Não, erradas não ‑ corrigiu ‑ terríveis. Algures pelo caminho, perdeste aquela tua vontade de ferro.

‑Mas...

‑ Ainda não terminei. O pior de tudo é que, quanto mais lutavas, menos ouvidos davas a conselhos. Corrias contra os problemas e, em vez de atravessá‑los como costumavas fazer, procuravas contorná‑los.

"Quero que sejas o meu sucessor aqui, Frank. Quero‑o muito. Mas não te vou facilitar em nada. Vou executar o que está na carta e tentar descobrir o que se passou com o Guy.

‑ Eu já lhe disse, juiz. Não se passou nada com o Guy.

‑ Espero que não, Frank. Não percebes? Quero que apareças na reunião com um caso de tal modo forte e limpo para

a Ultramed, que nenhum membro do conselho se atreva sequer

a pensar em votar contra ti. Este é um problema que terás de

enfrentar daqui para a frente, filho. E rezo a Deus para que

consigas derrotar‑me.

Frank ergueu as mãos em sinal de frustração.

‑ Juiz, só está a criar confusão por todo o lado. A investigar a minha pessoa e o hospital, a fazer auditorias aos nossos livros. Os tipos da Ultramed estão alerta. Se perceberem que nem sequer consigo dialogar com o meu pai, tudo o que ganhei nestes últimos quatro anos irá por água abaixo. Só o facto de ter sido o último a saber da sua carta, já me fez parecer um idiota.

‑ Bem, quando Miss Baron e os sócios virem o caso que arranjaste para a corporação deles, serás um herói.


‑Mas...

‑ É assim que as coisas são, Frank.

Deu meia volta e colocou a fotografia no lugar.

Frank sentiu uma fúria e frustração demasiado familiares começarem a acumular‑se. Ficou alerta contra qualquer explosão e recordou que as forças devem ser medidas com forças.

‑ Está bem, juiz ‑ disse. ‑ É óbvio que está decidido a ir em frente com isto.

‑ Estou.

‑ Bem, então gostaria pelo menos que me garantisse uma coisa: a auditoria. Só estamos preparados para a nossa auditoria geral em Fevereiro próximo. Serão precisos dias para pôr tudo em ordem e o meu pessoal vai ficar num caos. Cancele‑a ou... ou, pelo menos, adie‑a para o próximo mês.

O juiz abanou a cabeça.

‑ O Farley Berger diz que tem de ser feita dentro de um ou dois dias, para que a equipa dele possa confirmar todos os números até á reunião de sexta‑feira.

‑ Mas não existe uma cláusula no contrato que diga que a auditoria tem de ser feita pelo conselho de directores. Adie duas semanas.

Clayton Iverson pensou por um instante.

‑           Está bem, Frank ‑ condescendeu. ‑ Queres duas semanas, terás duas semanas.

Isso, juiz, pensou Frank, radiante. Isso mesmo: é tudo o que preciso.

‑           Sabe que vou derrotá‑lo, não sabe? ‑ perguntou.

‑           Assim espero, filho ‑ respondeu o juiz. ‑ Assim espero sinceramente.


 

Para Zack, o dia fora parecido com alguns do seu estágio. Teve duas consultas no hospital; teve de ajudar um dos ortopedistas num caso lombar; teve de dar baixa a uma garota de três anos que caíra do baloiço, batera com a cabeça e, em seguida, tivera uma convulsão; e por último, teve de examinar meia dúzia de doentes no consultório. Era o tipo de ritmo a que normalmente estava habituado.

Nesse dia, era tudo o que podia fazer para manter a concentração.

Tinham‑se passado seis dias desde o seu contrato inicial com Toby Nelrus e ainda não conseguira juntar as peças do diagnóstico da criança. Após a sua fracassada entrevista com Jack Pearl, tentou por uns tempos e como exercício dar o beneficio da dúvida ao anestesista ‑ inventar outra explicação que coincidisse com os factos.

Cancelara o resto das consultas do dia e fora a Bóston para falar com vários anestesistas do Hospital Municipal. Também passara quatro horas na Biblioteca Médica Countway de Harvard, a rever todos os artigos que encontrara sobre Pentotal, isoflurano e respectivas complicações.

Ao terminar a pesquisa, considerava‑se um perito na matéria. Contudo, todos os seus esforços fizeram‑no regressar à hiPótese original e a uma única palavra: Metzenbaums.

Dentro de alguns dias, iria encontrar‑se de novo com o rapaz e a mãe. Zack sabia que desta vez Barbara Nelrus não se ficaria por evasivas, nem meias verdades. A mulher estava desesperada. Tinha todo o direito de estar.

Pouco passava das quatro da tarde. Do Oeste, as escuras sombras das montanhas espalhavam‑se pelo vale em direcção a Sterling. Zack tinha acabado de ter uma conversa pormenorizada sobre a doença de Meniére com o último dos seus doentes do consultório.

‑ Sei exactamente o que tem ‑ disse ao idoso, que o foi consultar devido a tonturas intermitentes e ao zumbido persistente e quase incómodo nos ouvidos. ‑ Infelizmente, também sei que pouco podemos fazer, para além de lhe ensinar a viver com isso.

Ordenou alguns exames na esperança de que o resultado

fosse uma das raras e tratáveis causas da doença, escreveu e

entregou‑lhe a morada da associação nacional que lidava com a

doença de Meniére e expressou o quanto lamentava não poder

ajudá‑lo mais. O desapontamento do homem foi previsível e

compreensível, mas não deixou de ser doloroso para Zack. Não ficarás assim, Toby, jurou Zack enquanto via o doente

cabisbaixo sair do gabinete. Por não se poder obter uma resposta, a prática da medicina causava frustração e dor muitas vezes. No caso de Toby Nelrus, as respostas estavam ali. E de alguma forma, alguém iria fornecê‑las. Aguenta‑te, garoto. Seja o que for que se passa, seja o que for que te fizeram, não ficarás assim.


Zack mandou para casa mais cedo a enfermeira do consultório, alertou os serviços de atendimento de que estaria no pager e espalhou o processo do rapaz sobre a secretária. A maior parte do que voltava a ler já sabia de cor. Após alguns minutos, pegou no telefone e ligou para o gabinete de Frank. Não havia alternativa senão partilhar as suas suspeitas com o irmão e tentar obter a sua ajuda noutro confronto com Jack Pearl.

Frank já não se encontrava no gabinete, e a secretária não fazia ideia de onde se encontrava, ou quando regressaria.

O telefonema para o gabinete de Mainwaring foi atendido

pelos serviços de atendimento e a informação que lá tinha ‑

que o cirurgião se encontrava fora do estado até à

seguinte, foi dada por Ureg Ormesby

‑ Respostas ‑ disse em voz alta, tamborilando com o lápis na borda da secretária. ‑ Tem de haver respostas... (

estás, Jason?... Quem és?... O que sabes?

Num impulso, consultou o directório do hospital e ligou para o departamento de patologia. Takashi Yoshimura atendeu ao primeiro toque.

‑ Kash ‑ disse ‑, se puder e não causar transtornos, eu preciso de um nome...

Dez minutos mais tarde, Zack estava a falar ao telefone com um tal Dr. Darryl Tarberry, do JoIm Hopkins.

‑ Doutor Tarberrr' ‑ disse, depois de ter explicado como conseguira o nome dele e de ouvir pacientemente os elogios efusivos ao trabalho de Kash Yoshimura ‑, estou a ligar para lhe pedir uma informação, mas não sobre o doutor Yoshimura. Felizmente, já faz parte do nosso corpo clínico. O nome em que estou interessado é o do doutor Jason Mainwaring. O Kash disse‑me que talvez tivesse trabalhado com ele quando esteve no Hopkins.

Durante alguns segundos, apenas houve silêncio.

‑ Quem disse que era? ‑ perguntou por fim Darryl Tarberry.

Com base no que se lembrava do homem, Yoshimura calculara que seria agora sexagenário. Mas pelo som da voz, Zack pensou se não seria mais velho.

‑ Chamo‑me Iverson. Zachary Iverson ‑ repetiu. ‑ Sou neurocirurgião e faço parte da comissão de credenciais daqui.

Houve nova pausa.

‑ O Mainwaring está a candidatar‑se para um lugar de cirurgia no vosso hospital?

‑ Exacto.

‑ Bem, vou ser... ‑ disse Tarberry. ‑ Onde disse que ficava esse seu hospital?

‑ Em New Hampshire, sir. Não quero causar‑lhe transtornos, doutor Tarberry, mas ficamos muito gratos por qualquer informação que nos possa fornecer.

‑ Esta chamada está a ser gravada?

Zack sorriu.

‑ Não, garanto‑lhe que não.

‑ Mas não porei nada no papel.

‑ Tudo bem.

‑ O Mainwaring e os seus advogados tiveram este hospital atado durante não sei quanto tempo. Malditos advogados. Acabou por custar uma pequena fortuna ao hospital resolver o caso e, tanto quanto sei, apesar de termos cem por cento de razão. Por causa disso, um dos meus colegas desenvolveu úlceras. Pode crer. Não quero que isso me aconteça. Sou demasiado velho para esse tipo de disparates.

‑ Dou‑lhe a minha palavra.

‑ A sua palavra... Iverson, é? O nome é sueco?


- É inglês ‑ respondeu Zack, olhando para cima, como para receber algum tipo de ajuda celestial.

‑ Bem, Iversom. Não sei todos os pormenores.

‑ Não faz mal.

‑ E no que me diz respeito, nunca tivemos esta conversa.

‑ Prometido.

‑ Bem ‑ disse o homem, sublinhando cada letra da palavra ‑, deixe‑me dizer-lhe primeiro que o Mainwaring pode ser o maior filho da puta ambicioso que Deus alguma vez colocou sob uma máscara e bata, mas é um óptimo cirurgião. Talvez o melhor que jamais vi, e já vi muitos.

‑ Continue ‑ pediu Zack.

Após quinze minutos de estocadas e adulações, Zack sentiu que tinha extraído tudo do homem, pelo menos ao telefone. Sabia que havia mais coisas. Provavelmente, muito mais. Mas, fosse como fosse, uma enorme peça encaixara‑se no puzzle de Toby Nelrus.

Zack estava a terminar de escrever a síntese do interrogatório quando a porta da sala de espera se abriu e fechou.

‑ Estou aqui ‑ disse em voz alta.

‑ Que coincidência. Eu também.

Suzanne surgiu à porta do gabinete, vestindo uma bata de laboratório sobre a blusa cor de marfim e saia de madrasto até aos tornozelos.

‑ Tens um minuto? ‑ perguntou.

‑ Para ti? Anos. ‑ Colocou as anotações de Tarberry na pasta de Toby Nelrus e empurrou‑a para um lado da secretária. - Algum problema com a Annie?

‑ Não, não. Nada disso. Ela está a melhorar espantosamente. Julgo que o Sam Christían vai operá‑la amanhã.

‑ Excelente. Estou muito aborrecido com o que lhe aconteceu. Sempre que penso no que o Don Norman lhe fez, apetece‑me correr atrás dele e dar‑lhe um murro naquele seu narizinho gorducho.

‑ Zack, estou tão aborrecida com o caso da Annie como tu, mas não vejo como podes pôr todas as culpas sobre o Dom. Não fez nada com uma intenção maldosa.

‑ Isso depende da tua definição de maldosa. Ele estava a dar‑lhe um sedativo para que ela não se opusesse a ir para uma casa de saúde e a Ultramed continuasse a obter lucros com o tratamento. Se isso não é maldade, então não sei o que é.

‑ Ei, acalma‑te, está bem?

‑ O que queres dizer com isso?

‑ Essa é a tua opinião. Mas não é a de todos. Não podes deixar este lugar um pouco em paz?

‑O quê?

‑ Zack, o Frank acabou de sair do meu gabinete.

‑ Então, era lá que ele estava. Andei à procura dele.

‑ Ele está muito aborrecido contigo.

‑ Eu sei. Foi por isso que ele foi falar contigo?

‑ Por acaso, foi. Ele... pediu‑me para falar contigo... a fim de te pedir para não criticares o hospital.

‑ Podia ter vindo falar comigo e pedi‑lo pessoalmente.

‑Ele diz que tentou.

‑ Ele estava bêbedo. Ameaçou‑me. Não considero a melhor abordagem... Assim, ele preferiu envolver‑te. Isto aqui é incrível.


‑ Não vim cá acima para discutir. Só quis fazer o que podia para melhorar as coisas entre vocês os dois. Devo muito ao Frank. Julguei que o tivesses percebido, com base no que te contei sobre o que se passou comigo.

‑ Desculpa ‑ murmurou Zack. ‑ Se estou aborrecido, julgo que é por desejar que as coisas fossem diferentes entre mim e o Frank.

‑E então?

‑ Suzanne, nada posso fazer se o Frank acha que é por minha causa que o juiz está a convencer o conselho de directores a readquirir o hospital á Ultramed.

Foi claramente a primeira vez que ela ouviu falar do assunto.

‑ Meu Deus, Zack, não podes permitir que isso aconteça.

‑ Em primeiro lugar ‑ disse ‑, não tenho mais controlo sobre esse homem do que o Frank ou outra pessoa qualquer. E em segundo, porque não?

‑Bem... porque ‑ gaguejou ela ‑, se o conselho de directores mandasse a Ultramed embora, o Frank ficaria arruinado.

‑ Que disparate. Ele conhece o trabalho. Podia desempenhá‑lo da mesma maneira para uma corporação comunitária, tal como o faz para uma organização como a Ultramed. Provavelmente, ainda melhor. Suzanne, escuta‑me. Está a passar‑se algo de errado aqui. Algo terrivelmente errado.

‑ Raios, Zachary, o que é que sucede contigo? Nunca pensas em ninguém senão em ti próprio? Vim aqui pedir‑te para deixares em paz um homem que em parte é responsável pelo salvamento da minha carreira, para não falar no facto de ele ser teu irmão, e tudo o que fazes é... destruir‑lhe o hospital.

‑ O hospital não é dele. Olha, não quero começar a discutir. Tenho coisas a mais em que pensar.

‑ Como, por exemplo?

O instinto dizia‑lhe que devia mudar de assunto e guardar para si as teorias ‑ pelo menos, enquanto não passasse disso. Olhou para as mãos. As revelações de Darryl Tarberry sobre Jason Mainwaring estavam demasiado frescas na memória.

‑ Suzanne ‑ disse, lentamente. ‑ Eu tenho motivos, bons motivos, para acreditar que se fazem experiências humanas neste hospital.

‑ Isso é a coisa mais incrível...

‑ E ‑ interrompeu ele ‑ também tenho bons motivos para acreditar que talvez tenhas sido uma das cobaias.

Suzanne ouviu, incrédula, tudo o que ele contou sobre as suas experiências com Toby Nelrus e Jack Pearl, a breve análise das operações à vesícula efectuadas por Mainwaring e Greg Ormesby e, por último, a conversa que tivera com Tarberry.


‑ Segundo parece, uma mulher morreu devido a anafilaxia causada por uma anestesia local que recebeu no consultório do Mainwaring. Este afirmou que era xilocaína, mas havia documentação suficiente para provar que a mulher recebera esse medicamento em várias ocasiões, sem qualquer problema. Uma das suas enfermeiras, que ficou muito preocupada com o que aconteceu, afirmou que o Mainwaring andava a testar qualquer coisa que não era xilocaína. Embora os investigadores não tivessem conseguido provar que assim era, aparentemente descobriram que o nosso amigo Jason era um dos proprietários duma empresa farmacêutica algures no Sul.

‑ Isso é uma loucura! ‑ disse Suzanne. ‑ Por acaso esse homem do Hopkins com quem falaste sabia o nome da empresa?

‑ Ele já não se lembrava.

-já não... se lembrava... Zack, isto é exactamente o tipo de coisas contra as quais o Frank protestou. Estás a fazer acusações terríveis e destruidoras com base em provas pouco consistentes.

‑           Não estou a fazer qualquer acusação ‑ declarou, sentindo que começava a perder a compostura. ‑ Estou a partilhar com uma amiga uma teoria perturbadora, uma amiga, cujo juízo clínico eu aprecio e em que confio. Julguei que ficarias desvairada só de pensar que alguém pudesse ter andado a brincar com o teu corpo enquanto estavas a dormir.

‑           Bem, não estou desvairada, mas estou preocupada... contigo. Zack, só cá estás há algumas semanas. Durante esse tempo, já te pegaste com o Wil Marshfield, tiveste uma troca desagradável de palavras com o Jason, discutiste com o Don Norman, aborreceste o teu irmão, incentivaste a iniciativa de reaquisição do hospital e, agora, com base em nada mais do que provas circunstanciais muito frágeis, acusas o nosso melhor cirurgião e anestesista de um crime terrível.

Zack encostou‑se à cadeira.

‑           Suzanne, ouve‑me...

‑           Não, tu é que ouves. Como é que explicas o facto de não ter havido mais nenhum caso como o do Toby Nelrus?

- não sei. Talvez seja uma complicação rara do produto que eles estão a utilizar. Talvez haja pessoas que tenham sofrido crises como esta, mas que estejam noutro lugar, ou que não comunicaram ao médico. Talvez esteja envolvido algum disparador sensitivo que não existe em todas as pessoas. Tu própria disseste‑me que não te tens sentido bem, desde que foste operada.

‑           Tenho‑me sentido cansada. É muito diferente de ter um ataque psicótico.

‑           E aquele episódio no campo?

‑           A que é que te referes?

‑ Ficaste pálida.

‑ Não fiquei nada.

‑ Ficaste, sim. Foi como se alguém tivesse carregado no botão e, de repente, já não estavas ali.

‑ Zack, isto é uma loucura. Tens de parar. Tocaste neste estabelecimento como um tremor de terra.

‑ Suzanne, aquela criança está a morrer.

‑ Talvez. Mas não é devido a algo que o Jason ou o Jack Pearl lhe tenham feito. Outra coisa, Zachary. Descobre outro caso como o do Toby Nelrus e eu dar‑te‑ei ouvidos. Mesmo nessa altura, talvez não acredite em ti, mas dar‑te‑ei ouvidos. Entretanto, acho que deves dar ao teu irmão e, neste aspecto, a todos nós um pouco de espaço para respirar. ‑ Levantou‑se. - Pára, Zack. Por favor. Faz o que puderes para impedir que o teu pai destrua o que o teu irmão tanto tem trabalhado para construir, e dá‑nos a todos um pouco de paz.

Pegou na carteira e, sem esperar pela resposta, saiu do gabinete.


Por momentos, Zack deixou‑se ficar sentado, a olhar pela janela, vendo a tarde a aproximar‑se do fim. Um disparador ou uma sequência de disparadores. Talvez fosse essa a chave. Suzanne não se lembrava do episódio no Meadows durante o piquenique, mas algo de estranho lhe acontecera. Um botão fora carregado. Mas qual? Uma palavra? Um som? Um aroma?

Zack começou a tamborilar com os dedos longos na secretária. Sentia que os pensamentos não paravam de procurar

resposta, como se de uma língua de cobra se tratasse. Mas, de cada vez, não muito longe... não muito longe...

Por fim, colocou a pasta de Toby Nelrus à sua frente e. mais uma vez, abriu‑a na primeira página.

‑ Não ficarás assim, garoto ‑ murmurou. ‑ Juro que não irás ficar assim.

 

Mesmo entre as melhores estalagens da antiga Nova Inglaterra, a Granite House era especial. Os enviesados soalhos de madeira rija, os tectos com vigas e os compartimentos de feitio irregular, cada um com lareira de pedra, eram considerados pelos guias como ligeiramente menos maravilhosos do que a cozinha e o serviço.

Frank Iverson escolhera cuidadosamente o local para o primeiro encontro com os directores do Regional Davis:

um banqueiro bem sucedido de nome

Crook, e Whitey Bourque, o gerente gorducho e normalmente bem‑falante do A & P local.

A noite correra bem; melhor do que ele esperara.

Tinha orquestrado maravilhosamente a conversa, salientando os sucessos e planos da Ultramed, recordando partidas de golfe que jogara com Crook e focando algumas sugestões interessantes sobre Renée, a filha de Bourque, uma das melhores jovens amazonas da área.

Agora, enquanto se sentavam no habitualmente deserto Salão Colonial a beber conhaque e a fumar charutos digestivos, Frank sentiu‑se pronto para atacar os dois homens.

Havia vinte e um membros na direcção. Frank considerava que seis deles já estavam no papo ‑ devido ao relacionamento que tinham com ele, ou porque os seus negócios seriam prejudicados caso a Ultramed tivesse de sair de Sterling. Aceitando duas ausências na reunião ‑ e dado o historial da direcção, a qual era em média conservadora ‑ bastavam‑lhe mais três ou quatro votos para bloquear a reaquisição, independentemente da posição do juiz.

Pelo menos metade desses votos estavam ali á mesa, ao que parecia sentados na palma da sua mão. Tudo o que tinha de fazer, e sempre com muito cuidado, era fechar os dedos.

Potencial ilimitado...

Frank fez um ligeiro sorriso.

Não se afaste muito, Miss Baron, pensou, tendo os dois homens debaixo de olho. Aí vou eu.

‑ Eles sabem bem como fazer as coisas aqui, não sabem? - começou.

Bili Crook, lento devido à refeição e às bebidas, concordou em voz baixa. Era um antigo estudante de uma das faculdades com reputação de apoiar entusiasticamente as ideias dos outros, embora nunca tivesse uma própria, mesmo que insignificante.

Whitey Bourque arrotou e limpou a boca ao canto do guardanapo. Frank reparou no emaranhado de veias finas a rosarem‑lhe as faces.


‑ Bom bife ‑ disse, com a boca cheia. ‑ Nada que não tenhamos no supermercado, mas bom.

‑ A Lisette diz sempre que o seu supermercado é o único lugar da cidade onde se pode comprar a carne, Whítey ‑ disse Frank. ‑ Por falar nisso, penso mandá‑la lá amanhã para encher a nossa arca frigorífica... Bom, antes de nos separarmos e regressarmos ás nossas famílias, quero ter a certeza de que respondi a todas as perguntas que qualquer um de vós possa ter sobre o que a Ultramed tem planeado para o nosso hospital. BilI?

O banqueiro pensou por instantes e depois abanou a cabeça.

‑ Parece‑me um conjunto de objectivos bastante ambiciosos e animadores.

‑ E não se esqueçam nem por um segundo que a Ultramed Planeia financiar todos estes projectos com dinheiro local. O dinheiro do Sterling National Bank, se bem me recordo. - Whitey?

Bourque misturou três cubos de açúcar no café e bebeu‑o de um só trago.

‑ Nada a perguntar ‑ declarou.

‑ Mandarei os pormenores da nossa proposta de licitações competitivas sobre o nosso serviço dietético até ao final do mês.

‑ Isso será óptimo, Frank. óptimo.

‑ Excelente. ‑ Frank olhou para a despesa e depois entregou‑a à empregada de mesa, juntamente com o Cartão Dourado. ‑ Traga mais alguns daqueles pequenos rebuçados de mentol, querida ‑ pediu. Aclarou a garganta e voltou‑se de novo para a mesa. ‑ Assim, meus senhores, gostei de partilhar esta refeição com os dois e presumo que a Ultramed e eu podemos contar com o vosso apoio na reunião de directores, na sexta‑feira.

Os dois homens olharam um para o outro, elegendo em silêncio o porta‑voz. O escolhido foi Whitey Bourque.

‑ Bem, Frank ‑ disse ‑, tudo o que podemos dizer nesta altura é: depende.

Frank sentiu um frio súbito.

‑Depende de quê?

‑ Do que o teu pai decidir nos próximos dias. Frank, telefonou‑nos ontem e pediu que nos mantivéssemos abertos ao negócio até confirmar algumas coisas. Senti que, tendo em concideração a ajuda que deu no ano passado na angariação de fundos para a nova paróquia, era o mínimo que eu podia fazer.

‑ E eu estou em dívida para com ele devido à forma como interveio quando o meu filho Ted tomou aquele vinho tinto de fraca qualidade e teve o acidente ‑ acrescentou Crook. - sem dúvida salvou o pêlo ao rapaz.

‑ Meus senhores, por favor ‑ disse Frank, lutando para disfarçar qualquer tom de desespero na sua voz. ‑ Não discuto as boas acções do juiz nesta cidade. Por amor de Deus, isso é uma dádiva. E sinto‑me orgulhoso por ser seu filho. Mas não passam de maçãs e laranjas. O que estamos aqui a falar é do apoio para o nosso hospital e nas boas acções que nós estamos a fazer. O pulso partido da Renée, Whitey. Lembra‑se disso? Ou... e o caso do enfarte coronário que a sua mãe teve no passado, Bill? As pessoas dizem que, se não fosse a nossa nova unidade e a nossa nova cardiologista, ela teria morrido.


‑Eu... compreendo ‑ disse Crook, olhando para o copo vazio.

‑E então?

Whitey Bourque suspirou.

‑ Frank, pedimos‑te desculpa ‑ disse. ‑ Gostaríamos de te ajudar, mas demos a nossa palavra ao juiz de que esperaríamos e seguiríamos as recomendações dele. Ele é o presidente da direcção e tem tratado de tudo o que diz respeito a este assunto. Só queremos o que é melhor para Sterling. Dado que estamos todos muito ocupados para fazer qualquer pesquisa mais profunda, nós sabemos que ele nos indicará a direcção certa. Espero que tudo resulte bem. E aconteça o que acontecer, tenciono ajudar‑te a ti e ao hospital em tudo o que puder.

‑ Eu digo o mesmo, Frank ‑ acrescentou Crook.

‑ Bem, então... acho que não tenho mais nada para dizer, não é assim?

‑ Fizeste uma bela apresentação, Frank ‑ disse Bourque, levantando‑se. ‑ Uma apresentação mesmo boa. O teu pai ficaria orgulhoso.

‑ Ei, não interessa. Havemos de conseguir, Whitey. Tenho a certeza.

Frank forçou as palavras através de uma onda de fúria e frustração que lhe apertava a garganta.

Acompanhou os dois homens até ao sujo parque de estacionamento, despediu‑se amavelmente com um aperto de mãos e ficou a vê‑los até os faróis traseiros terem desaparecido na noite. Então, virou‑se e deu um valente pontapé na porta do Porsche, deixando uma amolgadela e um ligeiro raspão.

Indiferente aos danos, sentou‑se atrás do volante e saiu do parque, atirando areia e pedras a um vendedor reformado que estava com a esposa.

 

Assim que ouviu o Porsche entrar no estacionamento e a porta do condutor a bater, Lisette percebeu que iria ser mais uma daquelas noites.

Com um cumprimento entorpecido e sem sequer lhe dar um beijo na face, Frank passou por ela e foi para a biblioteca. Ela permaneceu na penumbra do corredor, á espera de ouvir o gelo a cair no copo. Frank não a desapontou.

Agora, enquanto preparava um bule de chá de ervas, que um dia Frank lhe apresentara como "a única bebida que tomo depois das dez", tentou combater a vontade de se meter na cama.

Colocou num tabuleiro o bule, duas chávenas, algumas rodelas de limão e alguns biscoitos, e levou tudo para a biblioteca. Frank estava em pé a um canto, de costas para ela, a ler.

‑ Olá, o que é que estás a ler? ‑ perguntou‑lhe.

‑Nada.

Voltou a colocar o volume na estante e virou‑se para ela, mas Lisette viu o suficiente para perceber. Era o almanaque do liceu.

‑ Frank, estás bem?

‑ Sim, claro, estou óptimo. Faz‑me um favor e deixa‑me ficar sozinho, não te importas? ‑ As palavras começavam já a soar enroladas.

‑ Trouxe‑te chá.

‑ Não quero a merda de chá nenhum.

‑ Frank, por favor.


‑ Já disse que não quero nenhum chá, porra!

Enfiou um braço no dela e fez o tabuleiro voar até ao outro lado da sala. O chá salpicou a parede. A fina louça de porcelana, um presente de casamento da mãe, partiu‑se em pedaços.

Estupefacta, ela olhou para a desordem.

- Frank, alguma coisa não está bem contigo ‑ disse, o mais calmamente possível. ‑ Precisas de ajuda. Por favor, querido. Eu amo‑te. As miúdas amam‑te. Por nós, tens de procurar a ajuda de alguém. ‑ Avançou para ele de braços estendidos.

‑ Não preciso de ajuda de ninguém! ‑ gritou ele. ‑

O que preciso é que me deixem ficar sozinho!

‑ Por favor.

Tentou avançar mais um passo, mas ele bateu‑lhe, com

as costas da mão deu‑lhe uma bofetada forte na face, fazendo‑a desequilibrar‑se e chocar contra uma cadeira.

‑ Não preciso de ti. Não preciso da merda do meu pai. Não preciso da maldita Ultramed. Não preciso de ninguém!

hei‑de conseguir e nenhum de vocês irá...

Parou a meio da frase e olhou para ela, como se a tivesse visto pela primeira vez. Instantaneamente, a fúria desapareceu‑lhe do rosto.

‑ Amor. Oh, meu Deus, estás bem? ‑ perguntou, aproximando‑se dela.

Lisette recuou, tentando não tocar no ardor que sentia na face.

Em seguida, deu meia volta e saiu da biblioteca.


 

Leigh Baron olhou pensativa para o telefone que tinha na mão e depois pousou‑o suavemente no descanso.

‑ O Frank acabou de me mentir, Ed ‑ disse. ‑ Não gosto disso. Não gosto mesmo nada disso.

Enquanto bebia um café, olhou pela janela do escritório no trigésimo andar, desde o cais de Bóston até ao aeroporto. Pouco passava das Oito da manhã e, como sempre, o tráfego era intenso na entrada do Túnel Summer. Ela passara a noite na cidade, a trabalhar até de madrugada em várias aquisições iminentes da Ultramed e dormindo algumas horas no sofá‑cama do escritório.

O presidente da RIATA, ainda a transpirar devido ao percurso diário de onze quilómetros, examinou a lista do conselho de directores do Hospital Regional Davis.

‑ Quais são os dois com quem ele se reuniu? ‑ perguntou ele.

- Os dois no topo da lista: Bourque e Crook. Acabou de me dizer que a reunião correu bem e que os dois homens estão no papo.

‑ Foram essas as palavras dele?

- Precisamente. O único problema é que o Stan Ogilvie, o nosso homem do conselho de directores, disse‑me ontem à noite que o juiz Iverson contactara todos eles e que tanto Bourque como Crook juraram cumprir tudo o que ele lhes recomendasse.

‑ Será que o Frank os convenceu a mudarem de ideia?

‑ É possível, mas duvido. Ed, ele está a atirar‑nos poeira para os olhos. Eu sinto‑o. Recusa‑se a admitir que está enterrado até à raiz dos cabelos. Por maior que seja a questão, continua a achar que vai conseguir vencer.

 

Ela encheu dois copos de pé alto com sumo de laranja natural e passou um deles.

‑ Este é o teu bebé, Leigh ‑ disse Blair.

Leigh anuiu, soturna. Mais três hospitais de Nova Inglaterra estavam prestes a fechar o negócio, mas todos eles tinham optado por esperar até terminar a venda do Regional Davis. Blair controlava de perto o desempenho dela, tal como ela controlava o de Frank. Mas o génio da RIATA Internacional não era pessoa que tolerasse em alguém um fracasso desta grandeza.

‑ Bem ‑ disse ela ‑, acho que chegou a hora de eu fazer uma pequena viagem até ao Norte.

‑ Minha amiga, penso que essa é uma decisão sábia. Fizeste um trabalho excelente com o Frank Iverson; um trabalho espantoso, tendo em conta tudo o que se passa. Mas está a tornar‑se cada vez mais claro que o homem é limitado. Tudo indica que ele não consegue ir mais longe.

‑ Mas é pena ‑ observou ela, suspirando.

‑ O que se passa? ‑ perguntou Blair. ‑ Não me digas que estás preocupada por puxar o tapete a um homem que, de uma forma tão espalhafatosa, colocou as suas próprias preocupações acima das tuas ou da empresa?

‑ Não ‑ respondeu ela. ‑ Mas não consigo deixar de pensar que sentirei a falta dele em todas as reuniões regionais.

‑ Falta dele?


‑ Sim. ‑ Sorriu, tristonha. ‑ O Frank Iverson talvez tenha poucos princípios e seja um tanto egocêntrico, mas tem sido uma presença muito boa.

 

A dor, persistente e vã, centrada sob a ponta do esterno, começara logo após a discussão com Lisette e intensificara‑se durante toda a noite. Vomitara várias vezes e suspeitara ‑ apesar de não ter acendido a luz da casa de banho ‑ que, na última vez, fora sangue.

Uma garrafa e meia de Maalox ajudara‑o a acalmar um pouco o ardor e permitira que se barbeasse, vestisse e chegasse ao escritório com um aspecto razoàvel, mas ele achava que era uma questão de tempo até as dores voltarem a fazer‑se sentir.

Fora exclusivamente por culpa de Lisette que ele lhe batera. Se ela tivesse sido um pouco mais paciente e compreendido melhor a pressão que ele estava a viver, teria sido uma esposa e nunca apenas mais uma tensão na vida.

Zack, o juiz, Mainwaring, Leigh Baron ‑ como se já não tivesse problemas suficientes, para Lisette começar a dar‑lhe sugestões; que raio de descaramento dizer‑lhe que precisava de pedir ajuda a alguém, quando era ela que o devia fazer. Era um milagre que o estômago não se tivesse manifestado há mais tempo.

Pegou no telefone e marcou o número da farmácia do hospital.

‑ Sammy, fala o Frank Iverson. Qual é o nome do medicamento que é bom para problemas estomacais?... Não, não, isso não, os comprimidos... Cimetidine. Sim, é isso. Ouça, pode trazer‑me a dose para uma semana de tratamento?... Sei que é preciso uma receita médica, raios. Não preciso de ouvir discursos. O que preciso é desses comprimidos... óptimo. E não conte isto a ninguém, está bem? ‑ Só faltava que se soubesse que Frank Iverson tinha uma úlcera a sangrar.

Desligou o telefone e tomou outro gole grande de Maalox. Talvez tivesse sido um erro não contar a Leigh Baron o que se passara com Bourque e Crook, mas esta batalha era entre ele e o juiz, e o encontro com aqueles dois lacaios de fraco carácter não passara de uma escaramuça. Até à reunião, teria mais do que votos suficientes para bloquear a reaquisição.

Pensou telefonar a Mainwaring para saber do relatório. Se alguma coisa podia ajudar a acalmar o estômago, eram as suas palavras animadoras. Duzentos e cinquenta mil dólares para repor na conta do Ultramed‑Davis e os restantes setecentos e cinquenta mil para investir onde quisesse. Só a ideia dessa importância já era suficiente para diminuir a sensação de enjoo.

Ele só tinha de se acalmar, ignorar o comportamento de Lisette e concentrar‑se no juiz e nos membros da direcção. O sucesso final, tanto dentro como fora da empresa, estava tão próximo que já o conseguia saborear.

Procurou na sua agenda de telefones o número de Mainwaring em Atlanta, e já tinha começado a discar o número quando a secretária o interrompeu no intercomunicador.

‑ Mister Iverson, fala a Annette.


A voz dela fez‑lhe pensar de imediato nas noites sensuais, simples e desinteressadas que haviam passado juntos ‑ noites completamente opostas ás que passava com Lisette. Annette era a mulher perfeita para aliviar a pior das tensões e Frank anotou mentalmente que devia pedir‑lhe, o mais breve possível, para ficar a trabalhar até mais tarde.

‑ Sim, Annette ‑ disse ‑, pode dizer.

‑ Mister Iverson, o doutor Jack Pearl está aqui para falar consigo. Ele sabe que não tem marcação, mas diz que é muito importante.

Pearl. Frank não conseguiu lembrar‑se de nada que o desagradável homenzinho homossexual pudesse ter para dizer que possivelmente lhe interessasse ouvir.

‑ Annette, pergunte ao doutor Pearl se o que ele tem para me dizer não pode esperar até mais tarde... Oh, esqueça. Mande‑o entrar.

Pearl, que como sempre parecia não fazer a barba há dois dias, com um molho de papéis numa mão e uma chávena de café na outra, entrou no gabinete de Frank e, de imediato, fechou a porta com o pé, entornando grande parte do café sobre o tapete persa.

‑Merda... foda‑se ‑ murmurou, ajoelhando‑se e absorvendo o líquido com um lenço que estava longe de estar limpo.

Frank estava prestes a insistir para que se levantasse e deixasse a porcaria para a mulher da limpeza. Pelo contrário, foi à casa de banho buscar uma toalha, atirou‑a a Pearl e ficou a olhar divertido para o médico de cócoras no chão, ora a praguejar para si próprio, ora a cacarejar como uma obscena e gigantesca galinha.

‑ Pare, Jack, já chega ‑ disse Frank por fim. ‑ Sente‑se. Vou pedir à Annette para lhe trazer outro café, a não ser que queira torcer aquela toalha para dentro da chávena. ‑ Deu uma valente gargalhada. ‑ Desculpe, Jack, estava a brincar. A sério, quer mais?

- não, Frank. Não, obrigado.

‑ Assim sendo, está bem. Então, que assunto tão importante é esse?

Pearl pareceu atrapalhado.

‑ Diga ‑ ordenou Frank. ‑ Não vou morder‑lhe.

‑Há... hum...

Pearl tossiu e aclarou a garganta.

‑ Surgiram algumas coisas... problemas... com o Serenil.

Os olhos de Frank tornaram‑se mais pequenos e duros.

‑ Que raio está você a dizer, Jack?

O anestesista começou a tremer.

‑ Bem ‑ conseguiu pronunciar ‑, o que quis dizer foi que, não são exactamente problemas... hum, mas... mas potenciais problemas. Eu precisava de falar consigo, Frank. Você não tem estado aqui.

‑ Negócios, Jack, tive de tratar de negócios. Pelo amor de Deus, vá directo ao assunto.

‑ Na segunda‑feira de manhã, tive uma visita no meu gabinete, Frank... ‑ As palavras começaram a sair mais facilmente. ‑ Um médico que está à beira de descobrir que o Mainwaring e eu não utilizámos a anestesia que mencionei nas minhas anotações operatórias.

‑ Isso é impossível ‑ disse Frank, com o pensamento a saltar de imediato para as implicações da descoberta naquela fase final do jogo.


Sem dúvida estranho, pensou ele; talvez dispendioso, se fosse necessário pagar para calar a boca a alguém. Mas não era catastrófico. O teste estava concluído. Todo o projecto fora calculado para deixar Mainwaring suficientemente confiante no Serenil a ponto de o comprar e, nesse aspecto, o mesmo já era um sucesso absoluto.

‑ Eu avisei que isto podia acontecer ‑ dizia Pearl. - Avisei ambos.

- De que é que você está a falar, Jack?

- Do tempo de recuperação. Eu bem o avisei a si e ao Mainwaring que alguém podia notar, mas nenhum de vocês me deu ouvidos. E agora alguém notou. ‑ As palavras, inicialmente gaguejadas e incertas, começaram a sair como uma slot machine a pagar. ‑ E ainda não é tudo. Há uma criança, a quem operámos a uma hérnia em Janeiro último, que... que está a sofrer de pesadelos e...

‑ Pronto ‑ disse Frank, erguendo os braços ‑, chega de disparates. Quero que abrande, se acalme e comece tudo desde o princípio. Percebeu?... óptimo. Agora, em primeiro lugar, Jack. a quem se refere exactamente?

‑ Bem, Frank, é... o seu irmão. O seu irmão Zachary.

Outra vez Zack! Para Frank, os minutos que se seguiram foram uma verdadeira tortura. Ouviu, impassível, lutando por conservar a concentração e a compostura aos olhos do grotesco homenzinho e a chama de ódio que lhe dilacerava as entranhas.

Analisou as anotações que Pearl lhe entregou: a revisão de Zack aos casos de vesícula e o registo hospitalar de Toby Nelrus. Em seguida, pediu a Pearl para repetir toda a história, passo a passo.

A meio desta, desculpou‑se por alguns minutos dizendo que precisava de assinar uns papéis e enviá‑los para Bóston. Depois, saiu calmamente pela porta exterior do gabinete e percorreu o corredor até uma casa de banho livre para homens, onde vomitou.

Vinte minutos mais tarde, foi buscar o Cimetidine e mais Maalox, à farmácia, e olhou‑se ao espelho noutra casa de banho para homens.

Como guarda‑redes, aprendera que raramente os jogos corriam como os treinadores previam. Um atacante tropeça e todos os outros se atrapalham; um médio pensa na discussão que teve com a namorada e falha uma defesa crucial.

Acima de tudo, o guarda‑redes tem de estar sempre atento; tem de esperar o inesperado. E era nesta área, lembrou‑se Frank - a capacidade de reflexo instintivo para reagir e ajustar ‑ que Frankie Iverson fora sempre o melhor dos melhores.

Desta vez, tal como em inúmeras situações dificeis em inúmeros campos de jogo, a sua forma de estar seria manter‑se calmo e atento. Um pouco de cada vez, percebera a história de Pearl e compreendera que as coisas ainda não estavam tão perdídas como inicialmente pensara.

Quando regressou ao gabinete, estava lavado, penteado e exteriormente calmo.

Annette Dolan, que trazia uma camisola de mangas curtas com uma fina tira de bordado com pérolas sobre os seios, estava ainda mais sedutora que o habitual.

- Há muito trabalho para fazer. Se puder fique esta noite.

Frank escreveu as palavras num pedaço de papel, assinou o bilhete com um sorriso no rosto e, quando passou, pousou‑o junto ao cotovelo dela.


Ela leu o bilhete e, quase imperceptivelmente, sorriu e concordou com a cabeça.

Aqui está, pensou Frank, enquanto abria a porta do gabinete, uma mulher compreensiva.

O gabinete estava vazio.

‑ Annette, o doutor Pearl foi‑se embora? ‑ perguntou, virando‑se para trás.

‑ Não. Só o senhor ‑ respondeu ela.

Nesse momento, ouviu‑se o autoclismo da sua casa de banho privada. Só de imaginar que Jack Pearl tinha estado sentado na sua sanita foi o suficiente para fazer a azia voltar ao estômago de Frank. Teria de mandar chamar a mulher da limpeza para limpar tudo antes de voltar a colocar um pé lá dentro.

Pearl saiu da casa de banho a limpar o nariz com uma mão e a fechar a braguilha ainda aberta, com a outra.

‑ Espero que não se importe que eu tenha utilizado a sua casa de banho, Frank ‑ disse. ‑ Tudo isto tem afectado os meus intestinos e a merda não está muito bem.

Frank fez um sorriso amargo e decidiu que, depois de terminada a venda do Serenil, mandar Jack Pearl para o mais longe possível de Sterling seria uma prioridade ligeiramente inferior à de Zachary.

‑ Não faz mal, Jack ‑ disse. ‑ Diga‑me exactamente o que pretende de mim.

Pearl aclarou a garganta.

‑ Bem, quanto mais penso nas propriedades do medicamento a partir do qual criei o Serenil, mais concluo que é possível que o seu irmão tenha razão quanto ao miúdo.

‑ Que ridículo.

‑ Porquê?

‑ Jack, você e o Mainwaring trataram de quinhentos casos. Quinhentos! Depararam com algum problema?

‑Não, mas...

‑ Mas o quê, Jack?

‑ Se o problema do miúdo se deve ao medicamento, então é uma espécie de reacção retardada. Uma reacção em retrospectiva, foi assim que o seu irmão lhe chamou. Se ele tiver razão, talvez haja outras pessoas a sofrerem do mesmo mas que não ligaram as crises à anestesia. Se tivesse a certeza que era isso, eu havia de conseguir consertar tudo, Frank. Conheço todas as moléculas do medicamento. Eu havia de conseguir.

‑ Jack, por favor ‑ pediu Frank. ‑ Tudo isso é um perfeito disparate. O miúdo está a ter pesadelos devido a qualquer coisa que viu na TV, provavelmente naquele maldito programa. Estão sempre a mostrar bebés a nascerem, pessoas a serem operadas e merdas do género, pelo amor de Deus. E É de admirar que não haja mais crianças afectadas.

‑ Frank, podemos confirmar. Com cerca de cem telefonemas, poderemos saber se alguém está a ter...

‑Não!

‑Mas...

‑ Jack, tentei ter paciência consigo, mas você acabou por esgotá-la...

Como prova do que sentia, Frank partiu um lápis em dois pedaços.


- O Mainwaring vai acabar de apresentar o Serenil aos sócios, regressar aqui e dar a cada um de nós... meio milhão de dólares, e nós vamos entregar‑lhe o medicamento. Foi assim que planeámos e é isso que vamos fazer.

‑Mas...

- Nada de mas, Jack. Se não quiser acreditar em mim quando digo que o miúdo não passa de uma mera coincidência, o problema é seu. Mas raios me partam se será meu. Agora escute, mas com muita atenção: se disser uma palavra sobre isto ao Mainwaring ou a outra pessoa, a merda de uma só palavra, as autoridades de Akron virão aqui apanhar o que sobrar de si mais depressa do que você pisca os olhos. Eu consegui afastá‑los das suas costas, mas consigo trazê‑los de volta. Percebeu?

Pearl assoou‑se ao lenço que utilizara para ensopar o café

entornado e acendeu um cigarro. Frank Iverson tinha‑o colocado entre a espada e a parede. Era uma posição que conhecia bem.

- P... percebi - respondeu.

- Espero bem que sim. - Frank apontou‑lhe um dedo enquanto falava. - Porque lhe garanto, Jack, que quero ver esse medicamento vendido e quero esse dinheiro no banco. Não estrague tudo.

- Não o farei - declarou Pearl. - Mas...

- Mas o quê?

- Frank, que mal faria fazer alguns telefonemas? Se houver algum problema com o Serenil eu posso resolvê‑lo. Eu sei que posso...

Frank contornou a secretária, pegou no anestesista pelos colarinhos e levantou‑o até ficar nas pontas dos pés.

- Merda, Jack, já disse que não!

Abanou o pequeno homem como um cão a desfazer um rato e atirou‑o para a cadeira, obrigando‑o a sentar‑se de novo.

Pearl acobardou‑se perante o ataque de fúria.

- Está bem, está bem - afirmou, protegendo o rosto com os braços.

Porque é que a sua vida terminava sempre em cenas como aquela? Porquê?

- Assim está melhor - disse Frank, dando uma palmadinha no ombro de Pearl. - Muito melhor... - Voltou a sentar‑se á secretária. - Ei, amigo, não fique tão taciturno. Tal como já disse, o miúdo não passa de uma mera coincidência. Esse seu Serenil é tão perfeito quanto me disse.

‑ E o seu irmão?

‑ Deixe o meu irmão comigo. Mantenha‑se apenas longe dele. Se ele tentar enfrentá‑lo de novo, mande‑o vir falar comigo ou... ou com o seu advogado. Tome... aqui está um nome para lhe dar. Mas, a não ser que queira umas férias prolongadas em Akron depois de uma estada prolongada numa UCI, é tudo o que vai dar‑lhe, estamos entendidos?... Então, estamos ou não?... Perfeito, Jack. Tal como essa sua anestesia, absolutamente perfeito.

‑ Está bem, Frank ‑ disse Pearl, apagando o cigarro e avançando para a porta. ‑ Você venceu.

A porta abriu e fechou, e Pearl desapareceu.

Você venceu... Exactamente, pensou Frank excitado. Venci. Ele tinha tratado brilhantemente daquele pervertido pequeno e repugnante. Depois de passar por situações dificeis com Leigh, o juiz e os dois membros da direcção, sabia‑lhe bem ser ele mais uma vez a controlar a situação.


Tudo o que tinha a fazer era manter Zack afastado e desamparado durante uma semana. E ele faria tudo o que fosse necessário para o conseguir.

Entretanto, bastava‑lhe um pouco de pressão bem aplicada em dois directores mais fracos e o futuro da Ultramed ‑ e de Frank Iverson ‑ no hospital ficaria assegurado. Depois disso, encontrar‑se‑ia em posição de poder tratar de uma forma definitiva tanto do maldito irmão vingativo, como de Pearl.

Frank, Frank, ele é o nosso homem. Se ele não conseguir..

Ouviu‑se de novo o intercomunicador.

‑ Mister Iverson, é a Annette outra vez. Está um tal Mister Curt Largent na linha três. Ele diz que é seu vizinho.

Major Curtis Largent, Exército americano, aposentado. Era o que o idoso herói tinha pintado na caixa do correio. Reduzido a uma cadeira de rodas por causa de uma granada durante uma batalha numa aldeia ou igreja italiana, Largent era o guarda de segurança não oficial da vizinhança de Frank, vigiando a área durante horas a partir da varanda do andar superior e anotando num bloco todos os movimentos suspeitos e, virtualmente, todas as matrículas dos carros que não conhecia.

Por duas vezes, a sua vigilância chegou mesmo a impedir crimes ‑ numa, o roubo de uma bicicleta, e na outra, o despejo ilegal de lixo logo a seguir á curva.

‑ Olá, major, fala o Frank Iverson. ‑ As últimas palavras dos vivas ainda lhe ecoavam na mente. ‑ Em que posso ser‑lhe útil?

Apesar dos estudos ‑ um engenheiro de qualquer coisa, pensou Frank ‑, Largent ainda falava com o sotaque do Sudeste.

‑ Bom, Frank ‑ disse ‑,telefonei essencialmente porque ninguém me disse que iam mudar de casa.

‑ Ninguém lhe disse, porque não vamos mudar.

‑ Isso é estranho, mesmo muito estranho.

‑ O quê, major? De que é que está a falar?

‑ Bem, estou aqui na minha varanda. Você sabe, onde gosto de me sentar?... Bem, ao fundo da rua, exactamente á frente da sua casa, está um camião. Estão também dois jovens a carregar coisas para dentro dele, há mais de uma hora.

‑ Tem a certeza de que é a nossa casa, major?

‑ Tão certo como estar aqui.

‑ A Lisette está lá?

‑Não... Espere aí, parece que sim... Deixe‑me ir buscar os binóculos só para ter a certeza... Oh, é ela mesmo. Está com as suas filhas junto ao camião, a vê‑los carregar.

‑ Obrigado, major ‑ disse Frank. ‑ Obrigado por me ter telefonado.

Desligou e marcou o número de casa. Deixou tocar vinte ou mais vezes, mas ninguém atendeu.

Cerca de quinze minutos mais tarde, fez a curva e subiu a montanha, em direcção á sua casa.

‑ Maldita Lisette ‑ disse várias vezes durante o percurso. ‑ Merda, maldita Lisette...

Lisette, as crianças e o camião já ali não estavam. A maior parte da casa ainda estava intacta, mas ela levara as jóias, o microndas, o aparelho de televisão maior, a cómoda dela e das gémeas, os brinquedos, as bicicletas e as camas, e deixara todas as garrafas de bebidas alcoólicas partidas em pedaços no lava‑louça, incluindo a garrafa de duzentos dólares Chateau Lafite Rothschild que ele lhe oferecera no aniversário e que estava a poupar para festejar a venda do Serenil.


O bilhete, cuidadosamente escrito no papel de carta alfazema de Lisette, estava preso a uma almofada da cama.

Nunca mais voltarás a bater‑me. Por favor, não tentes encontrar‑nos. Contactar‑te‑ei quando me sentir melhor e apta... Valeu a pena?

 

Frank atirou para o chão o candeeiro da mesinha‑de‑cabeceira, amarrotou o bilhete na mão e atirou‑o para o outro lado do quarto.

‑ Verás ‑ resmungou, furioso. ‑ A partir de agora, verás se valeu ou não a pena a merda de um milhão de dólares, sua cabra desleal.

Começou a dirigir‑se ao armário das bebidas, mas lembrou‑se subitamente da confusão no lava‑louça e, em vez disso, saiu de casa e partiu.

Enquanto conduzia pela estrada abaixo, pelo canto do olho Frank viu o major Curtis Largent, Exército americano, aposentado, sentado na varanda do andar superior, a balouçar e a vigiar.

 

A tarde parecia quase tão normal ‑ quase como as tardes eram outrora ‑ como todas as que Barbara Nelrus podia recordar. Os raios de sol entravam pelas salientes janelas da sala de estar e da cozinha, banhando a casa impecavelmente limpa. Amontoados sobre a mesa de jantar estavam os pratos que iria utilizar para servir a refeição ás primeiras v