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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A RAINHA DO CASTELO DE AR / Stieg Larsson
A RAINHA DO CASTELO DE AR / Stieg Larsson

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "SEBO"

 

 

 

  

 

ENCONTRO NUM CORREDOR

8 A 12 DE ABRIL

Calcula-se em seiscentos o número de mulheres soldados que combateram na Guerra de Secessão. Alistaram-se travestidas de homem. Hollywood deixou passar batido todo um aspecto da história cultural — ou será que esse aspecto incomoda muito do ponto de vista ideológico? Os livros de história sempre tiveram dificuldade em falar de mulheres que não respeitam os padrões de gênero, e em nenhuma área essa limitação é tão evidente como na guerra e no que se refere ao manejo de armas.

No entanto, da Antigüidade aos tempos modernos a história é fértil em relatos protagonizados por guerreiras — as amazonas. Os exemplos mais conhecidos constam nos livros de história em que essas mulheres têm o estatuto de "rainhas", ou seja, de representantes da classe no poder. Com efeito, a sucessão política regularmente coloca uma mulher no trono, por mais desagradável que essa verdade soe. Sendo as guerras insensíveis ao gênero e ocorrendo até mesmo quando uma mulher dirige o país, o resultado é que os livros de história são obrigados a registrar certo número de rainhas guerreiras levadas, conseqüentemente, a se comportar como qualquer Churchill, Stálin ou Roosevelt. Semíramis de Nínive, fundadora do Império Assírio, e Boadiceia, que liderou uma das mais sangrentas revoltas contra os romanos, são dois exemplos. Esta última, aliás, tem uma estátua à margem do Tâmisa, em frente ao Big Ben. Não deixemos de cumprimentá-la caso estejamos passando por ali.

Em compensação, os livros de história são, em geral, bastante discretos sobre as guerreiras que atuaram como simples soldados, exercitando-se no manejo das armas, integrando os regimentos e participando das batalhas contra exércitos inimigos em condições idênticas às dos homens. Essas mulheres, contudo, sempre existiram. Praticamente nenhuma guerra foi travada sem alguma participação feminina.

SEXTA-FEIRA 8 DE ABRIL

Pouco antes da uma e meia da manhã, o Dr. Anders Jonasson foi acordado pela enfermeira Hanna Nicander.

— O que foi? — Perguntou, meio atordoado.

— Helicóptero chegando. Dois pacientes. Um homem de idade e uma mulher jovem. Ela levou um tiro.

— Estou indo, estou indo — disse Anders Jonasson, cansado.

Ainda não se sentia muito desperto, embora na verdade nem tivesse chegado a dormir; só dera um cochilo de meia hora. Estava de plantão no pronto-socorro do Hospital Sahlgrenska, em Göteborg. O início da noite tinha sido particularmente exaustivo. Às seis horas, quando o plantão começara, o hospital havia recebido quatro vítimas de uma colisão frontal nas proximidades de Lindome. Uma delas estava gravemente ferida e outra fora declarada morta pouco depois de chegar. Ele também tinha tratado da garçonete de um restaurante da Avenyn cujas pernas tinham sido escaldadas na cozinha, e salvara a vida de um menino de quatro anos que dera entrada no hospital com parada respiratória depois de engolir a rodinha de um carrinho de brinquedo. Além disso, tivera tempo de remendar uma adolescente que caíra de bicicleta num buraco. A Secretaria de Obras Públicas, muito esperta, escolhera a saída de uma ciclovia para abrir o buraco e, evidentemente, alguém ainda tinha jogado as barreiras de proteção dentro dele. A garota levara catorze pontos no rosto e ia precisar de dois dentes incisivos novos. Jonasson também costurara a ponta de um polegar que um entusiasmado marceneiro de fim de semana aplainara por inadvertência.

Por volta das onze horas, o número de pacientes da emergência diminuíra. Ele tinha feito sua ronda e conferido o estado dos internados, e então se recolhera a uma sala de descanso para tentar relaxar um pouco. Seu turno ia até as seis da manhã. Ele raramente dormia quando estava de plantão, mesmo que não houvesse novas entradas, mas justo nessa noite adormecera quase de imediato.

Hanna Nicander ofereceu-lhe uma caneca de chá. Ainda não tinha maiores detalhes sobre os novos pacientes.

Anders Jonasson deu uma olhada pela janela e viu relâmpagos enormes riscando o céu acima do mar. Ia ser difícil para o helicóptero. De repente, desabou uma chuva violenta. A tempestade se abateu sobre Göteborg.

Ele ainda estava diante da janela quando ouviu o barulho do motor e avistou o helicóptero que, sacudido pelas rajadas, se aproximava da área de pouso. Prendeu a respiração ao ver que o piloto parecia ter dificuldade para controlar a aproximação. Então o aparelho sumiu de seu campo de visão e ele ouviu a turbina reduzindo a marcha. Tomou um gole e largou a caneca.

Anders Jonasson recebeu os paramédicos na entrada do pronto-socorro. Sua colega de plantão, Katarina Holm, assumiu o primeiro paciente que chegava deitado numa maça, um homem de idade com um ferimento grande no rosto. Coube ao Dr. Jonasson cuidar da mulher que levara um tiro. Uma rápida avaliação mostrou que se tratava de uma adolescente, gravemente ferida e toda suja de terra e sangue. Ele ergueu o cobertor no qual os paramédicos a tinham envolvido e notou que alguém fechara as lesões do quadril e do ombro com uma larga fita adesiva prateada, o que lhe pareceu uma iniciativa particularmente perspicaz. A fita adesiva bloqueava a entrada das bactérias e a saída do sangue. Uma bala a atingira na parte externa do quadril e atravessara o tecido muscular de lado a lado. Ele ergueu o ombro dela e identificou, nas costas, o orifício de entrada da bala. Não havia orifício de saída, o que significava que a bala estava cravada em algum ponto do ombro. Só restava esperar que não tivesse perfurado o pulmão. Como ele não viu sangue na boca da jovem, concluiu que esse devia ser o caso.

— Radiografia — disse à enfermeira que o assistia. Bastava como instrução.

Por fim, cortou o curativo que os paramédicos tinham usado na cabeça da jovem. Estremeceu ao apalpar o orifício de entrada com a ponta dos dedos. Ela tinha sido alvejada na cabeça. Ali também não havia orifício de saída.

Anders Jonasson deteve-se por um segundo e contemplou a jovem. De repente, sentiu-se invadido pelo pessimismo. Por várias vezes já tinha comparado seu trabalho com o de um goleiro. Todos os dias chegavam a seu local de trabalho, pessoas nas mais diversas condições, e todas com uma única intenção — conseguir ajuda. Entre elas, aquela senhora de setenta e quatro anos que tivera uma parada cardíaca e desabara na galeria comercial de Nordstan, o menino de catorze anos com o pulmão perfurado por uma chave de fenda e a menina de dezesseis que consumira ecstasy e dançara dezoito horas seguidas para então desabar, com o rosto todo azul. Elas eram vítimas de acidentes de trabalho ou de maus-tratos. Eram crianças pequenas atacadas por pitbulls na Praça Vasa e homens de mãos habilidosas cuja intenção fora apenas cortar umas tábuas com uma serra tico-tico e que acabaram talhando o pulso até o osso.

Anders Jonasson era o goleiro posicionado entre os pacientes e a agência funerária. Seu trabalho consistia em decidir quais eram as providências adequadas. Se tomasse a decisão errada, o paciente morria ou, talvez, acordava com uma invalidez permanente. No mais das vezes, tomava a decisão certa, e isso porque a maioria dos feridos tinha um problema específico e compreensível. Uma facada no pulmão ou uma lesão decorrente de um acidente de carro eram ferimentos inteligíveis e claros. A sobrevida do paciente dependia da natureza do ferimento e da habilidade de Jonasson.

Havia dois tipos de ferimento que Anders Jonasson detestava. De um lado, certas queimaduras, que na maioria dos casos, quaisquer que fossem os recursos utilizados, resultavam numa vida de sofrimentos. De outro, os ferimentos na cabeça.

Aquela jovem diante dele poderia viver com uma bala no quadril e outra no ombro. Mas uma bala num ponto qualquer do cérebro já era um problema de outra dimensão. De repente, percebeu que a enfermeira dizia alguma coisa.

— Como?

— É ela.

— Ela quem?

— Lisbeth Salander. A garota que vem sendo procurada há várias semanas por triplo assassinato em Estocolmo.

Anders Jonasson fitou o rosto da paciente. Hanna estava certa. Era a foto daquela jovem que ele e quase todos os suecos estavam vendo estampada nas bancas de jornais desde a Páscoa. E ali estava a assassina, ferida, o que decerto acabava sendo uma forma impressionante de justiça.

Mas isso não lhe dizia respeito. Seu trabalho era salvar a vida de sua paciente, fosse ela uma tríplice assassina ou uma ganhadora do prêmio Nobel. Ou ambas as coisas.

Em seguida, houve aquela confusão controlada que caracteriza todo serviço de emergência. A equipe que trabalhava com Jonasson era tarimbada e sabia o que fazer. As roupas que Lisbeth Salander ainda vestia foram recortadas. Uma enfermeira informou sua pressão arterial — dez por sete — enquanto ele punha o estetoscópio no peito da paciente e escutava os batimentos cardíacos, que pareciam relativamente regulares; a respiração, nem tanto.

O Dr. Jonasson não hesitou, de saída, em classificar o estado de Lisbeth Salander como crítico. Os ferimentos do ombro e do quadril podiam esperar, aplicando-se compressas ou até deixando ali os pedaços de fita adesiva, já colocados por uma alma inspirada. O mais urgente era a cabeça. Jonasson ordenou que a passassem pelo tomógrafo no qual o hospital investira dinheiro do contribuinte.

Anders Jonasson era um homem loiro de olhos azuis, originário do norte da Suécia, mais precisamente de Umea. Fazia vinte anos que trabalhava nos hospitais Sahlgrenska e Ostra, revezando-se nas funções de pesquisador, patologista e médico do pronto-socorro. Havia nele uma particularidade que perturbava seus colegas e deixava os funcionários orgulhosos de trabalhar com ele: por princípio nenhum paciente deveria morrer nos seus plantões e, de algum modo milagroso, ele conseguira manter seu escore em zero. Alguns pacientes seus tinham falecido, é claro, mas durante cuidados posteriores ou por motivos não relacionados com a sua intervenção.

Algumas vezes Jonasson também tinha uma visão pouco ortodoxa da medicina. Segundo ele, os médicos tendiam a tirar conclusões que depois eram incapazes de justificar, e por isso desistiam com muita facilidade, ou então dedicavam tempo demais tentando definir exatamente o problema para só então prescrever o tratamento adequado. De fato, esse era o método preconizado pelo manual, mas o detalhe é que o paciente corria o risco de morrer enquanto o corpo médico se perdia em ponderações. Na pior das hipóteses, o médico concluía que o caso era desesperador e interrompia o tratamento.

Contudo, era a primeira vez que Anders Jonasson recebia um paciente com uma bala no crânio. Provavelmente um neurocirurgião seria indispensável. Essa não era sua especialidade, mas de repente lhe ocorreu que talvez estivesse com mais sorte do que merecia. Antes de lavar as mãos e vestir a roupa esterilizada, gritou para Hanna Nicander:

— Tem um professor americano, chamado Frank Ellis, que trabalha no Karolinska de Estocolmo, mas está em Göteborg no momento. É um neurologista famoso e, além do mais, um bom amigo meu. Está hospedado no Hotel Radisson, na Avenyn. Tente descobrir o telefone.

Enquanto Anders Jonasson esperava o resultado das tomografias, Hanna Nicander voltou com o número do Hotel Radisson. Anders Jonasson deu uma olhada no relógio — 1h42 — e tirou o fone do gancho. O recepcionista da noite do Radisson mostrou-se bastante avesso à idéia de transferir uma chamada àquela hora, e o médico precisou falar com bastante veemência para explicar a gravidade da situação e ter a ligação completada.

— Oi, Frank — disse Anders Jonasson quando ele finalmente atendeu. — É o Anders. Soube que você estava em Göteborg. Você não daria um pulo aqui no Sahlgrenska para me assistir numa cirurgia de cérebro?

— Are you bullshitting me? — inquiriu uma voz cética do outro lado da linha. Embora morasse na Suécia havia vários anos e falasse fluentemente sueco — com sotaque americano, claro —, ele preferia o inglês. Anders Jonasson falou em sueco e Ellis respondeu em inglês.

— Frank, lamento ter perdido sua conferência, mas achei que você pudesse me dar umas aulas particulares. Estou aqui com uma mulher com uma bala na cabeça. O orifício de entrada é bem acima da orelha esquerda. Eu não te ligaria se não precisasse de uma segunda opinião. E não conheço ninguém mais competente nesse tipo de assunto.

— Não é brincadeira? — perguntou Frank Ellis.

— A moça tem uns vinte e cinco anos.

— E qual o aspecto do ferimento?

— Orifício de entrada, nenhum orifício de saída.

— Mas ela está viva?

— Pulso fraco, porém regular, respiração nem tão regular, pressão dez por sete. Ela também está com uma bala no ombro e um ferimento de bala no quadril. Disso eu posso cuidar.

— Parece bem promissor — disse o professor Ellis.

— Promissor?

— Quando alguém está com uma bala na cabeça e continua vivo, a situação deve ser considerada muito auspiciosa.

— Você poderia me assistir?

— Confesso que passei a noite na companhia de uns amigos. Fui dormir à uma da manhã e muito provavelmente estou com um nível impressionante de álcool no sangue...

— Eu tomo as decisões e faço a cirurgia. Mas preciso de alguém que me acompanhe e me avise se eu estiver cometendo alguma aberração. E, verdade seja dita, mesmo um professor Ellis completamente bêbado sem dúvida tem mais condições que eu de avaliar danos cerebrais.

— Está bem. Estou indo. Mas você me deve um favor.

— Tem um táxi esperando você na frente do hotel.

O professor Frank Ellis ergueu os óculos sobre a testa e cocou a nuca. Concentrou o olhar na tela do monitor que mostrava todos os pontos e meandros do cérebro de Lisbeth Salander. Ellis tinha cinqüenta e três anos, cabelos negros com um fio branco aqui e ali, uma barba escura incipiente, e lembrava um ator secundário do seriado E. R. Seu corpo dava a entender que ele passava algumas horas por semana na academia.

Frank Ellis gostava de morar na Suécia. Chegara ao país como jovem pesquisador de um intercâmbio no final da década de 1970 e ficara por dois anos. Retornara depois várias vezes, até que lhe ofereceram um cargo de professor no Instituto Karolinska. Seu nome já era respeitado no mundo inteiro. Anders Jonasson conhecia Frank Ellis havia catorze anos. Tinham se visto pela primeira vez durante um seminário em Estocolmo, quando descobriram um entusiasmo em comum pela pesca com isca artificial. Anders o convidara para pescar na Noruega. Mantiveram contato ao longo dos anos e participaram de muitas outras pescarias. Em compensação, nunca haviam trabalhado juntos.

— O cérebro é um mistério — disse o professor Ellis. — Faz vinte anos que pesquiso sobre ele. Até mais.

— Eu sei. Desculpe ter te incomodado, mas...

— Deixa disso. — Frank Ellis fez um gesto com a mão para que o amigo não dramatizasse. — Vai lhe custar uma garrafa de Cragganmore na próxima vez que a gente for pescar.

— Combinado. Você não cobra caro.

— Esse caso me lembra de um outro, alguns anos atrás, quando eu trabalhava em Boston — e que descrevi no New England Journal of Medicine. Era uma garota da mesma idade da sua paciente. Estava indo para a universidade, quando atiraram nela com uma besta. A flecha entrou pela borda da sobrancelha esquerda, atravessou a cabeça e saiu quase no meio da nuca.

— E ela sobreviveu? — perguntou Jonasson, pasmo.

— Quando ela chegou ao pronto-socorro foi aquela confusão. Cortaram a flecha e passaram a cabeça dela pelo tomógrafo. A flecha atravessava o cérebro de lado a lado. Pela lógica e pelo bom senso, ela deveria estar morta, ou pelo menos em coma, dada a extensão do traumatismo.

— E em que condição ela estava?

— Ficou consciente o tempo todo. E não só: é claro que estava apavorada, mas se manteve absolutamente coerente. Seu único problema era aquela flecha atravessada no cérebro.

— O que você fez?

— Bem, peguei uma pinça e extraí a flecha, depois fiz um curativo. Mais ou menos isso.

— E ela se safou?

— Ficou em estado crítico por um bom tempo, até receber alta. Mas, para ser franco, poderia ter ido para casa no mesmo dia em que deu entrada no hospital. Nunca tinha visto um paciente com uma saúde tão boa.

Anders Jonasson se perguntou se o professor Ellis não estava zombando da cara dele.

— Por outro lado — Ellis prosseguiu —, alguns anos atrás tive um paciente de quarenta e dois anos, em Estocolmo, que tinha batido a cabeça na beirada de uma janela, uma pancadinha no cérebro. Ele estava com náuseas e seu estado piorou tão depressa que foi levado de ambulância para o pronto-socorro. Estava desacordado quando o recebi. Apresentava um inchaço pequeno e uma hemorragia mínima. Mas não voltou a acordar e morreu depois de nove dias de cuidados intensivos. Até hoje não sei do que ele morreu. No relatório da autópsia, colocamos "hemorragia cerebral em razão de acidente", mas nenhum de nós ficou satisfeito com essa conclusão. A hemorragia era minúscula, situada num lugar onde não poderia causar dano nenhum. Mesmo assim, o fígado, os rins, o coração e os pulmões foram parando de funcionar, um depois do outro. Quanto mais velho fico, mais chego à conclusão de que isso tudo parece uma loteria. Na minha opinião, nunca vamos descobrir como, exatamente, o cérebro funciona. O que você pretende fazer?

Ele tamborilou no monitor com uma caneta.

— Eu estava esperando que você me dissesse.

— Primeiro, me diga como você vê a situação.

— Bem, para começar, parece ser uma bala de calibre pequeno. Entrou pela têmpora e se alojou uns quatro centímetros dentro do cérebro. Ainda está junto ao ventrículo lateral, e há uma hemorragia.

— Providências necessárias?

— Para usar a sua terminologia: pegar uma pinça e extrair a bala por onde ela entrou.

— Excelente sugestão. Mas meu conselho é que você use a pinça mais fina que tiver.

— Simples assim?

— Num caso desses, o que mais se pode fazer? Podemos deixar a bala onde está, e a garota talvez viva até os cem anos, mas é só uma aposta. Ela pode vir a sofrer de epilepsia, de enxaquecas terríveis, todo tipo de complicação. E não dá muita vontade de deixar para abrir a cabeça dela só daqui a um ano, quando o ferimento em si já vai estar curado. A bala está um pouco afastada das grandes veias. Meu conselho é extraí-la, mas...

— Mas o quê?

— A bala não é o que mais me preocupa. Isso é o fascinante nos traumatismos cerebrais — se ela sobreviveu à entrada da bala no crânio, é sinal de que também vai sobreviver à saída. O maior problema se situa neste ponto. — Frank Ellis pôs o dedo na tela. — Em volta do orifício de entrada há um monte de estilhaços de osso. Estou vendo pelo menos uma dúzia de fragmentos de uns poucos milímetros de comprimento. Alguns se cravaram no tecido cerebral. É isso que pode matá-la, se você não tomar cuidado.

— Essa parte do cérebro é associada à fala e à aptidão com números. Ellis deu de ombros.

— Isso é besteira. Não faço a menor idéia de que função tem essas células cinzentas. Quanto a você, tudo o que precisa fazer é dar o melhor de si. Você é quem vai operar. Vou estar logo atrás de você. Posso vestir um jaleco? E onde é que eu lavo as mãos?

Mikael Blomkvist olhou para o relógio e constatou que eram três e pouco da manhã. Estava com algemas nos pulsos. Fechou os olhos por um instante. Sentia-se extenuado, mas a adrenalina ajudava a agüentar o tranco. Tornou a abrir os olhos e encarou agressivamente o delegado Thomas Paulsson, que retribuiu com um olhar constrangido. Estavam sentados ao redor de uma mesa de cozinha, numa granja de um lugarejo chamado Gosseberga, em algum lugar perto de Nossebro, do qual Mikael ouvira falar pela primeira vez não fazia nem doze horas.

A catástrofe acabava de ser confirmada.

— Idiota — disse Mikael.

— Escute...

— Idiota — repetiu Mikael. — Puta merda, eu falei que ele era um perigo mortal ambulante. Avisei que precisava ser tratado como uma granada sem pino. Ele matou pelo menos três pessoas, tem o físico de um tanque de guerra e mata com as próprias mãos. E o senhor manda dois guardinhas irem buscá-lo, como se ele fosse um bêbado de festa de aldeia.

Mikael voltou a fechar os olhos. Perguntou-se o que mais poderia dar errado naquela noite.

Tinha encontrado Lisbeth Salander pouco depois da meia-noite, gravemente ferida. Ligara para a polícia e conseguira convencer o sos-Brigada a mandar um helicóptero a fim de transportar Lisbeth ao Hospital Sahlgrenska. Descrevera em detalhes os ferimentos dela e o buraco que a bala deixara em sua cabeça, e recebera o apoio de uma pessoa inteligente e sensata, que havia se dado conta de que Lisbeth precisava de cuidados imediatos.

Ainda assim, o helicóptero demorara meia hora para chegar. Mikael tinha tirado os dois carros do galpão que fazia às vezes de garagem e acendera os faróis para indicar uma zona de pouso, iluminando o pasto em frente à casa.

O piloto do helicóptero e os dois paramédicos mostraram-se profissionais experientes. Um dos paramédicos efetuara os procedimentos de emergência em Lisbeth Salander, enquanto o outro cuidava de Karl Axel Bodin, cujo verdadeiro nome era Zalachenko, pai de Lisbeth Salander e seu pior inimigo. Ele havia tentado matá-la, mas fracassara. Mikael encontrara o sujeito, gravemente ferido, num galpão de lenha anexo àquela granja isolada, com o rosto dilacerado por uma machadada nada gentil e um ferimento na perna.

Enquanto esperava o helicóptero, Mikael fizera todo o possível por Lisbeth. Pegara um lençol limpo num armário, que retalhara e usara como uma bandagem improvisada. Observara que o sangue havia coagulado, formando um tampão no orifício de entrada da cabeça, e não sabia se devia se atrever a aplicar um curativo. Por fim, tinha amarrado frouxamente o lençol em volta da cabeça, mais para evitar que o ferimento ficasse exposto a bactérias e sujeira. Em compensação, detivera a hemorragia causada pelas balas no quadril e no ombro da maneira mais simples. Encontrara dentro de um armário um rolo grande de fita adesiva prateada e com ela simplesmente colara os ferimentos. Também enxugara o rosto de Lisbeth com uma toalha úmida, fazendo o possível para limpar a sujeira.

Não fora até o galpão de lenha para cuidar de Zalachenko. No íntimo, reconhecia que, para ser sincero, não estava nem aí para aquele homem.

Enquanto esperava o sos-Brigada, telefonara ainda para Erika Berger, a fim de lhe explicar a situação.

— Você está ferido? — perguntou Erika.

— Eu estou bem — respondeu Mikael. — Lisbeth é que está ferida.

— Pobre menina — disse Erika Berger. — Li o relatório do Björck para a Sapo no final da tarde. Como você vai administrar tudo isso?

— Estou sem energia para pensar nisso agora — disse Mikael. Enquanto conversava com Erika, sentado no chão ao lado da banqueta, mantinha um olhar atento em Lisbeth. Tinha tirado os sapatos e a calça dela para fazer o curativo no quadril e, em dado momento, sua mão encostou na roupa que jogara no chão, junto à banqueta. Sentiu um objeto num dos bolsos; era um Palm Tungsten T3.

Franziu a testa e contemplou, pensativo, o computador de mão. Ao ouvir o barulho do helicóptero, enfiou o Palm no bolso interno do seu casaco. Depois — enquanto ainda estava sozinho — inclinou-se e deu uma olhada em todos os bolsos de Lisbeth. Encontrou outro molho de chaves do apartamento de Mosebacke e um passaporte em nome de Irene Nesser. Sem perder tempo, guardou tudo no compartimento externo da mochila de seu computador.

Minutos depois de o helicóptero da Brigada aterrissar, chegou a primeira viatura, trazendo Fredrik Torstensson e Gunnar Andersson, da polícia de Trollhattan. Eles vinham acompanhados do delegado responsável, Thomas Paulsson, que imediatamente assumiu o comando das operações. Mikael se apresentou e se pôs a explicar o que tinha acontecido. O delegado passou-lhe a impressão de um sujeito obtuso e cheio de si. Assim que Paulsson chegou, as coisas começaram a dar errado.

Paulsson obviamente não entendia nada do que Mikael estava explicando. Parecia estranhamente assustado, e a única informação que conseguiu captar foi que a jovem em estado deplorável, deitada no chão diante da banqueta da cozinha, era Lisbeth Salander, a tríplice assassina procurada pela polícia, e que aquela era uma captura de peso. Em três ocasiões, Paulsson perguntou ao paramédico se a jovem estava em condições de ser presa de imediato. Por fim, o paramédico se levantou e berrou para Paulsson que se afastasse.

Depois disso, Paulsson concentrou sua atenção em Alexander Zalachenko, bastante machucado no galpão de lenha, e Mikael ouviu Paulsson anunciar pelo rádio que Salander, de acordo com todas as evidências, havia tentado matar mais uma pessoa.

A essa altura, Mikael estava tão irritado com Paulsson, o qual obviamente não escutava uma palavra sequer do que ele tentava dizer, que ergueu a voz e o aconselhou a ligar imediatamente para o inspetor Jan Bublanski em Estocolmo. Pegou o celular e se ofereceu para discar o número. Paulsson não estava interessado.

Então Mikael cometeu dois erros.

Declarou taxativamente que o tríplice assassino era, na verdade, um homem chamado Ronald Niedermann, que tinha o porte de um robô antitanque, sofria de analgesia congênita e naquele momento estava amarrado num barranco da estrada de Nossebro. Mikael indicou onde Niedermann se encontrava e recomendou à polícia que mobilizasse um batalhão de infantaria com armamento pesado para prendê-lo. Paulsson perguntou como Niedermann fora parar no barranco, e Mikael admitiu que ele próprio, sob a ameaça de uma arma, o deixara naquela situação.

— Ameaça com arma... — enfatizou o delegado Paulsson.

Naquele momento, Mikael deveria ter percebido que Paulsson era um cretino. Deveria ter pegado o celular e ligado ele mesmo para Jan Bublanski, pedindo-lhe que interviesse e dissipasse a névoa em que Paulsson parecia mergulhado. Em vez disso, Mikael cometera seu segundo erro, tentando lhe entregar a arma que tinha no bolso — uma Colt 1911 Government que ele encontrara mais cedo, naquele dia, no apartamento de Lisbeth Salander em Estocolmo e usara para dominar Ronald Niedermann.

Gesto infeliz, que levara Paulsson a dar voz de prisão a Mikael Blomkvist no ato, por porte ilegal de arma. Nisso, Paulsson ordenou que os agentes Torstensson e Andersson fossem até o local indicado por Mikael, na estrada de Nossebro, para verificar se havia um mínimo de veracidade na história daquele indivíduo, que afirmava ter deixado lá um homem amarrado a uma placa de estrada sinalizadora de travessia de alces. Se fosse o caso, os policiais deveriam algemar a pessoa em questão e trazê-la até a granja de Gosseberga.

Mikael protestara com veemência, explicando que Ronald Niedermann não era um homem que se pudesse apenas prender com algemas, e sim um assassino perigoso. Como Paulsson optasse por ignorar os protestos de Mikael, o cansaço levou a melhor. Mikael chamou Paulsson de babaca incompetente e berrou para Torstensson e Andersson que em hipótese alguma soltassem Ronald Niedermann antes de pedirem reforços.

O resultado de sua bronca foi que o algemaram e enfiaram no banco traseiro do carro do delegado Paulsson, de onde ele assistiu, furioso, à partida de Torstensson e Andersson no carro deles. A única luz naquela escuridão completa era que Lisbeth Salander fora levada para o helicóptero que já desaparecia acima das árvores em direção ao Sahlgrenska. Mikael sentiu-se absolutamente impotente e excluído do fluxo de informações. Só lhe restava esperar que Lisbeth fosse entregue em mãos competentes.

O Dr. Anders Jonasson efetuou duas incisões profundas, até o osso do crânio, e dobrou a pele em volta do orifício de entrada. Manteve a abertura com pinças. Uma enfermeira inseriu um aspirador para tirar o sangue. Em seguida veio um momento desagradável, quando o Dr. Jonasson usou uma furadeira para ampliar o buraco do osso. A manobra progredia com uma lentidão desesperadora.

Depois de obter, afinal, um buraco suficientemente amplo para conseguir ter acesso ao cérebro de Lisbeth Salander, introduziu uma sonda bem devagar, alargando em alguns milímetros a abertura do ferimento. Em seguida, introduziu uma sonda mais fina e localizou a bala. Graças à radiografia do crânio, viu que a bala tinha desviado e se alojado a um ângulo de quarenta e cinco graus em relação à lesão. Utilizou a sonda para tocar suavemente na borda da bala e, após uma série de tentativas frustradas, conseguiu erguê-la o suficiente para recolocá-la em seu lugar inicial.

Por fim, introduzindo uma pinça comprida e muito fina, conseguiu apanhar a base da bala e a apertou com firmeza. Puxou a pinça em sua direção. A bala veio junto sem praticamente nenhuma resistência. Ele a segurou diante da luz por um segundo, constatou que parecia intacta e então a jogou numa vasilha.

— Esponja — pediu, e foi imediatamente atendido.

Deu uma olhada no eletrocardiograma, o qual indicava que sua paciente ainda gozava de uma atividade cardíaca regular.

— Pinça.

Puxou para si a fortíssima lente suspensa e focalizou a região desnudada.

— Devagar — disse o professor Frank Ellis.

Nos quarenta e cinco minutos seguintes, Anders Jonasson extraiu nada menos que trinta e dois estilhaços de osso encravados em volta do orifício de entrada. O menor deles era invisível a olho nu.

Enquanto Mikael, frustrado, tentava puxar o celular do bolso interno do casaco — tarefa que se revelou impossível com as mãos algemadas —, várias viaturas chegaram a Gosseberga trazendo policiais e técnicos. Informados pelo delegado Paulsson, receberam ordens de colher provas técnicas irrefutáveis no galpão de lenha e proceder a um exame profundo da casa, na qual várias armas tinham sido apreendidas. Resignado, Mikael acompanhou os movimentos deles do seu ponto de observação, a traseira do carro de Paulsson.

Já se passara uma boa hora quando Paulsson pareceu se dar conta de que os agentes Torstensson e Andersson ainda não tinham voltado da missão de prender Ronald Niedermann. De súbito, mostrou um ar preocupado e mandou trazer Mikael Blomkvist à cozinha, pedindo mais uma vez que ele descrevesse a estrada.

Mikael fechou os olhos.

Ainda estava na cozinha com Paulsson quando voltaram os reforços enviados para socorrer os dois policiais. O policial Gunnar Andersson fora encontrado morto, com a nuca quebrada. Seu colega Fredrik Torstensson ainda estava vivo, mas gravemente ferido. Ambos haviam sido encontrados à beira da estrada, ao lado da placa sinalizadora de travessia de alces. Suas armas de serviço e a viatura policial tinham sido levadas.

Se de início o delegado Thomas Paulsson tivera de administrar uma situação relativamente clara, agora se deparava com o homicídio de um policial e com um bandido em fuga.

— Idiota — repetiu Mikael Blomkvist.

— Ofender a polícia não vai adiantar nada.

— Nisso nós concordamos. Mas ainda vou denunciá-lo por erro profissional, e a coisa vai feder. Antes de eu terminar, todas as manchetes do país já terão lhe apontado como o policial mais estúpido da Suécia.

Aparentemente, a ameaça de ser exposto na mídia era a única coisa capaz de impressionar Thomas Paulsson. Pareceu preocupado.

— O que você sugere?

— Exijo que você ligue para o inspetor Jan Bublanski em Estocolmo. Agora.

A inspetora Sonja Modig acordou sobressaltada com o toque de seu celular, que ela deixara carregando do outro lado do quarto. Deu uma olhada no despertador em cima do criado-mudo e constatou desesperada que passava um pouco das quatro da manhã. Olhou para o marido que continuava roncando tranqüilamente. Ele continuaria dormindo mesmo que sofressem um ataque da artilharia. Ela cambaleou para fora da cama e achou o botão do celular para atender.

Jan Bublanski — ela pensou —, quem mais poderia ser?

— Desastre absoluto nos lados de Trollháttan — declarou seu chefe, sem outro tipo de cumprimento. — O X2000 para Göteborg sai às 5hl0.

— O que aconteceu?

— O Blomkvist encontrou a Salander, o Niedermann e o Zalachenko. Está detido por desacato à autoridade, resistência e porte ilegal de arma. A Salander foi levada para o hospital Sahlgrenska com uma bala na cabeça. O Zalachenko está no Sahlgrenska com um machado na cara. O Niedermann está à solta por aí. Matou um policial esta noite.

Sonja Modig piscou duas vezes e sentiu o cansaço. Antes de mais nada, sua vontade era voltar para a cama e tirar um mês de férias.

— X2000 às 5h10. Está certo. O que eu devo fazer?

— Você pega um táxi até a estação. O Jerker Holmberg vai com você. Vocês vão entrar em contato com um tal de Thomas Paulsson, delegado de Trollháttan, que, aparentemente, é o responsável pela confusão desta noite e que, de acordo com o Blomkvist, é um, abre aspas, babaca de marca maior, fecha aspas.

— Você falou com o Blomkvist?

— Ele está algemado. Consegui convencer o Paulsson a me deixar falar rapidamente com ele. Estou a caminho de Kungsholmen, e do centro das operações vou tentar descobrir o que está acontecendo. Ficamos em contato pelo celular.

Sonja Modig conferiu mais uma vez a hora. Depois chamou um táxi e tomou uma chuveirada de um minuto. Escovou os dentes, passou um pente no cabelo, vestiu uma calça preta, uma camiseta preta e uma jaqueta cinza. Guardou a arma de serviço na sacola e escolheu um sobretudo três-quartos de couro vermelho escuro. Então sacudiu o marido, explicou aonde estava indo e pediu que ele tomasse conta das crianças de manhã. Atravessou a porta do prédio no exato instante em que o táxi estacionava junto ao meio-fio.

Não precisou procurar seu colega Jerker Holmberg. Sabia que ele provavelmente estaria no vagão-restaurante, e não se enganou. Ele já havia comprado um sanduíche e um café para ela. Permaneceram calados por uns cinco minutos, tomando o café da manhã. Por fim, Holmberg empurrou sua xícara.

— A gente talvez devesse mudar de profissão — disse ele.

Às quatro da manhã, o inspetor Marcus Ackerman, da Brigada Criminal de Göteborg, chegou finalmente a Gosseberga e assumiu a investigação do assoberbado Thomas Paulsson. Ackerman era um cinquentão grisalho e rechonchudo. Uma de suas primeiras medidas foi livrar Mikael Blomkvist das algemas e lhe oferecer pãezinhos e café de uma garrafa térmica. Acomodaram-se na sala para uma conversa em particular.

— Falei com o Bublanski, de Estocolmo — disse Ackerman. —A gente se conhece há muitos anos. Nós dois lamentamos muito o comportamento do Paulsson.

— Ele conseguiu que um policial fosse morto esta noite — disse Mikael. Ackerman assentiu com a cabeça.

— Eu conhecia pessoalmente o agente Gunnar Andersson. Ele serviu em Gõteborg antes de se mudar para Trollháttan. Tinha uma menina de três anos.

— Sinto muito. Eu tentei alertar...

— Eu sei. E falou alto demais para o gosto dele, por isso mandou algemado. Foi você quem pegou o Wennerström. O Bublanski disse que você é um jornalista bastante metido e um investigador particular totalmente maluco, mas que decerto sabe do que está falando. Poderia me fornecer um quadro compreensível?

— Estamos perto da solução dos assassinatos dos meus amigos Dag Svensson e Mia Bergman, cometidos em Enskede, e de uma pessoa que não era minha amiga... o advogado Nils Bjurman, tutor de Lisbeth Salander.

Ackerman fez que sim com a cabeça.

— Como você sabe, desde a Páscoa a polícia está atrás de Lisbeth Salander, por suspeita de triplo homicídio. Antes de mais nada, você precisa aceitar que Lisbeth Salander não é culpada desses assassinatos. Se ela tem algum papel neste caso, é o de vítima.

— Não me envolvi no caso Salander, mas depois de tudo o que saiu na mídia acho difícil engolir que ela é totalmente inocente.

— Mas essa é a verdade. Ela é inocente. Ponto-final. O verdadeiro assassino é Ronald Niedermann, esse que matou o seu colega Gunnar Andersson esta noite. Ele trabalha para Karl Axel Bodin.

— O tal Bodin que está no Sahlgrenska com um machado na cara.

— De um ponto de vista puramente técnico, o machado não está mais na cara dele. Suponho que foi a Lisbeth quem o agrediu. O verdadeiro nome dele é Alexander Zalachenko. Ele é pai da Lisbeth e ex-agente dos serviços secretos militares russos. Ele desertou nos anos 1970 e depois disso trabalhou para a Sapo até a queda da União Soviética. De lá para cá, atua como gângster freelancer.

Ackerman contemplou, pensativo, o homem sentado à sua frente na banqueta. Mikael Blomkvist estava brilhando de suor e parecia enregelado e exausto. Até o momento, argumentara de modo racional e coerente, mas o delegado Thomas Paulsson — no qual Ackerman não confiava muito — o alertara sobre os delírios de Blomkvist acerca de agentes russos e assassinos alemães, coisas que não faziam parte da rotina da polícia sueca. Blomkvist parecia estar chegando ao ponto da história que Paulsson tinha preferido rejeitar. Mas um policial fora morto e outro fora gravemente ferido no acostamento da estrada de Nossebro, e Ackerman estava pronto para ouvir. Não conseguiu disfarçar, contudo, uma pitada de incredulidade na voz.

— Certo. Um agente russo.

Blomkvist exibiu um sorriso pálido, consciente de que sua história parecia meio fantasiosa.

— Um ex-agente russo. Posso provar tudo o que estou afirmando.

— Continue.

— Nos anos 1970, Zalachenko estava no auge de sua carreira de espião. Abandonou o navio, e a Sapo lhe ofereceu asilo. Até onde entendi, não se trata de um caso único na esteira do desmantelamento da União Soviética.

— Certo.

— Não sei exatamente o que aconteceu aqui esta noite, mas ao que parece a Lisbeth veio atrás do pai, que fazia quinze anos ela não via. Ele maltratava a tal ponto a mãe dela que a infeliz acabou morrendo. Ele tentou matar a Lisbeth e é ele, por intermédio do Ronald Niedermann, quem está por trás dos assassinatos do Dag Svensson e da Mia Bergman. Além disso, é o responsável pelo seqüestro da Miriam Wu, a amiga da Lisbeth — a famosa luta decisiva que o Paolo Roberto encarou em Nykvarn.

— Se Lisbeth Salander cravou um machado na cabeça do pai, não dá para dizer que ela seja inocente.

— Só que a Lisbeth Salander está com três balas no corpo. Acho que podemos alegar certo grau de legítima defesa. Eu me pergunto...

— Sim?

— A Lisbeth estava tão coberta de terra e lama que seu cabelo era uma crosta de argila endurecida. Estava com a roupa cheia de areia. Parecia ter sido enterrada. E o Niedermann tem, visivelmente, certa tendência a enterrar as pessoas. A polícia de Södertálje descobriu dois túmulos num armazém próximo de Nykvarn, de propriedade do MC Svavelsjö.

— Três túmulos, na verdade. Descobriram mais um ontem, tarde da noite. Mas se eles atiraram em Lisbeth Salander e depois a enterraram, como se explica ela andando por aí de machado na mão?

— Já disse, não sei o que aconteceu, mas a Lisbeth é uma garota de muitos recursos. Tentei convencer o Paulsson a mandar para cá uma patrulha de cães...

— Eles estão chegando.

— Ótimo.

— O Paulsson o prendeu por desacato à autoridade.

— Contesto isso. Eu o chamei de idiota, babaca incompetente e cretino. Na atual circunstância, nenhum desses adjetivos é insultuoso a ele.

— Mas você também está preso por porte ilegal de arma.

— Cometi o erro de querer entregar uma arma para ele. De resto, não tenho nada a declarar antes de falar com o meu advogado.

— Certo. Vamos deixar isso pra lá por enquanto. Temos coisas mais sérias para tratar. O que você sabe sobre esse Niedermann?

— É um assassino. E há algo errado com ele: mede mais de dois metros de altura e tem o físico de um tanque de guerra. Pergunte ao Paolo Roberto, que andou se enfrentando com ele. Ele sofre de analgesia congênita. É uma doença, as chamadas fibras C não funcionam, e ele é incapaz de sentir dor. É alemão, nasceu em Hamburgo e foi skinhead quando jovem. É extremamente perigoso e está solto por aí.

— Tem alguma idéia de onde ele poderia se esconder?

— Não. Só sei que eu tinha amarrado ele direitinho. Só faltava prendê-lo, quando esse cretino de Trollháttan assumiu as rédeas da situação.

Pouco antes das cinco da manhã, Anders Jonasson tirou suas luvas de látex sujas e jogou-as na lixeira. Uma enfermeira aplicou compressas no ferimento do quadril. A operação tinha durado três horas. Ele olhou para a cabeça raspada e maltratada de Lisbeth Salander, já envolta nas bandagens.

Sentiu uma súbita ternura, a mesma que costumava sentir pelos pacientes que operava. De acordo com os jornais, Lisbeth Salander era uma assassina em série psicopata, mas à seus olhos ela lembrava, antes de mais nada, um passarinho machucado. Balançou a cabeça e então virou-se para Frank Ellis, que o fitou com um olhar divertido.

— Você é um cirurgião excelente — disse Ellis.

— Posso te convidar para um café da manhã?

— Aqui dá para pedir panqueca com geléia?

— Dá para pedir filhos — disse Anders Jonasson. — Na minha casa. Vou avisar minha mulher e a gente pega um táxi. — Ele parou e consultou o relógio. — Pensando bem, acho melhor não ligar.

A Dra. Annika Giannini, advogada, acordou sobressaltada. Virou a cabeça para a direita e constatou que eram 5h58. Tinha uma primeira reunião com um cliente às oito horas. Virou a cabeça para a esquerda e contemplou o marido, Enrico Giannini, que dormia serenamente e, na melhor das hipóteses, acordaria por volta das oito. Determinada, piscou várias vezes, saiu da cama e foi ligar a cafeteira antes de ir para o chuveiro. Tomou banho sem pressa e vestiu em seguida uma calça preta, uma blusa de gola rolê branca e um blazer vermelho. Torrou duas fatias de pão, juntou a elas geléia de laranja, queijo e uns pedaços de maçã e levou seu café da manhã para a sala bem a tempo de pegar o noticiário das seis e meia na tevê. Tomou um gole de café e estava abrindo a boca para morder uma torrada quando ouviu a manchete.

Um policial morto e outro gravemente ferido. Uma noite trágica, com a prisão da assassina Lisbeth Salander.

De início, custou a organizar as idéias, pois sua primeira impressão fora que Lisbeth Salander havia matado um policial. As informações eram esparsas, mas ela acabou entendendo que quem estava sendo procurado pelo assassinato do policial era um homem. Fora lançado um alerta nacional de busca para um homem de trinta e sete anos, de identidade ainda desconhecida. Lisbeth Salander, ao que parecia, estava gravemente ferida no Hospital Sahlgrenska de Göteborg.

Annika mudou de canal, mas não conseguiu descobrir mais nada. Pegou o celular e digitou o número de seu irmão, Mikael Blomkvist. Uma gravação respondeu que o número chamado estava indisponível. Sentiu uma pontada de medo. Mikael ligara na noite anterior, a caminho de Göteborg. Estava indo atrás de Lisbeth Salander. E de um assassino chamado Ronald Niedermann.

Ao raiar do dia, um policial observador notou vestígios de sangue no terreno atrás do galpão de lenha. Um cão farejador seguiu o rastro até um buraco aberto numa clareira, a cerca de quatrocentos metros a nordeste da granja de Gosseberga.

Mikael acompanhou o inspetor Ackerman. Examinaram o local, pensativos. Não foi difícil descobrir uma quantidade grande de sangue dentro e ao redor do buraco.

Também acharam uma cigarreira amassada, que claramente tinha sido usada como pá. Ackerman guardou a cigarreira num saco plástico para evidências e lhe pôs uma etiqueta. Juntou também amostras de torrões da terra manchada de sangue. Um policial fardado chamou sua atenção para uma guimba sem filtro da marca Pall Mall a poucos metros do buraco. A guimba também foi guardada num saco plástico etiquetado. Mikael lembrou de ter visto um maço de Pall Mall na bancada da cozinha de Zalachenko.

Ackerman deu uma olhada no céu e avistou nuvens pesadas de chuva. A tempestade que castigara Göteborg durante a noite parecia estar passando pelo sul da região de Nossebro e a chuva ia começar dali a pouco. Virou-se para um policial e pediu-lhe que achasse uma lona para cobrir o buraco.

— Acho que você tem razão —Ackerman disse afinal para Mikael. — O exame de sangue vai provavelmente dizer que Lisbeth Salander foi enterrada aqui, e aposto que vão achar impressões digitais na cigarreira. Ela foi baleada, enterrada, mas de alguma maneira sobreviveu, conseguiu sair do túmulo e...

— ... e voltou até a granja e jogou o machado na cara do Zalachenko — concluiu Mikael. — No quesito obstinação, ela é nota dez.

— Mas como foi que ela se virou com o Niedermann?

Mikael deu de ombros. Nesse ponto, estava tão perplexo quanto Ackerman.

 

SEXTA-FEIRA - 8 DE ABRIL

Sonja Modig e Jerker Holmberg chegaram à estação central de Göteborg pouco depois das oito da manhã. Bublanski tinha ligado e passado novas instruções; era para deixarem Gosseberga para lá e pegarem um táxi até a chefatura de polícia, em Nya Ullevi, sede da polícia criminal de Vástra Götaland. Aguardaram quase uma hora até o inspetor Ackerman chegar de Gosseberga, acompanhado de Mikael Blomkvist. Mikael cumprimentou Sonja Modig, que ele já conhecia, e apertou a mão de Jerker Holmberg. Em seguida, um colega de Ackerman juntou-se a eles trazendo um relatório atualizado da busca a Ronald Niedermann. O relatório era sucinto.

— Dispomos de um grupo de investigação dirigido pela Criminal. Foi lançado, claro, um aviso de busca em todo o país. Encontraram a viatura da polícia em Alingsâs, às seis da manhã. Por enquanto, a pista acaba aí. Desconfiamos que ele trocou de carro, mas não foi registrada nenhuma queixa de roubo de carro.

— E a imprensa? — inquiriu Modig, com um olhar de desculpas para Mikael Blomkvist.

— Trata-se do assassinato de um policial, e a mobilização é geral. Vai haver uma coletiva de imprensa às dez horas.

— Alguém por acaso sabe alguma coisa sobre o estado da Lisbeth Salander? — perguntou Mikael. Estranho, mas não sentia quase nenhum interesse por tudo o que dizia respeito à caçada a Niedermann.

— Ela foi operada durante a madrugada. Extraíram uma bala da cabeça dela. Ainda não acordou.

— Algum prognóstico?

— Pelo que entendi, não há como saber antes de ela acordar. Mas o médico que fez a cirurgia diz que ela tem boas chances de sobreviver se não houver nenhuma complicação.

— E o Zalachenko?

— Quem? — perguntou o colega de Ackerman, que ainda não estava inteirado de todos os meandros complicados da história.

— Karl Axel Bodin.

— Ah, sim, ele também foi operado de madrugada. Levou uma machadada feia no rosto e outra logo abaixo da patela. Está em péssimo estado, mas os ferimentos não apresentam risco de morte.

Mikael assentiu com a cabeça.

— Você parece cansado — disse Sonja Modig.

— Pode-se dizer que sim. Estou começando meu terceiro dia sem dormir praticamente nada.

— Ele dormiu no carro, voltando de Nossebro — disse Ackerman.

— Você teria condições de nos contar a história toda desde o início? — perguntou Holmberg. — Parece que os investigadores particulares estão dando de três a zero na polícia.

Mikael tentou sorrir.

— Essa é uma fala que eu gostaria de ouvir da boca do Bublanski — disse.

Acomodaram-se na cafeteria da chefatura de polícia para tomar o café da manhã. Mikael passou cerca de meia hora explicando, tintim por tintim, de que modo reconstituíra a complexa história de Zalachenko. Quando concluiu, os policiais mantiveram um silêncio pensativo.

— Existem umas lacunas na sua história — disse Jerker Holmberg afinal.

— E bem possível.

— Você não explicou como teve acesso ao relatório secreto da Sapo sobre o Zalachenko.

Mikael assentiu com a cabeça.

— Eu o encontrei ontem na casa da Lisbeth Salander, depois que finalmente descobri o esconderijo dela. Quanto a ela, decerto achou o relatório na casa de campo do doutor Nils Bjurman.

— Quer dizer que você descobriu o esconderijo da Lisbeth Salander — disse Sonja Modig.

Mikael assentiu com a cabeça.

— E?

— Vou deixar para vocês a tarefa de descobrir o endereço por seus próprios meios. A Lisbeth fez um esforço enorme para conseguir aquele endereço secreto, e agora não vou ser eu quem vai deixar vazar.

Modig e Holmberg ficaram meio acabrunhados.

— Mikael... trata-se de uma investigação de homicídio — disse Sonja Modig.

— E vocês ainda não sacaram que a Lisbeth Salander é inocente e que a polícia pisoteou a vida pessoal dela de um jeito que não dá para entender. De onde vocês tiraram aquela história de lésbicas satânicas? Tenho certeza de que a própria Lisbeth, se quiser, vai contar para vocês onde ela mora.

— Tem outra coisa que não consegui entender direito — insistiu Holmberg. — Onde é que o Bjurman entra nessa história? Você disse que foi ele quem desencadeou tudo isso quando contatou o Zalachenko e pediu que ele matasse a Salander..., mas por que ele faria uma coisa dessas?

Mikael teve um longo momento de hesitação.

— Tenho a impressão de que ele contratou o Zalachenko para se livrar da Lisbeth Salander. O objetivo era ela ir parar no armazém de Nykvarn.

— Ele era o seu tutor. Que motivo teria para se livrar dela?

— É complicado.

— Explique.

— Ele tinha um puta motivo. Foi uma coisa que ele fez, e a Lisbeth estava sabendo. Ela era uma ameaça para o futuro pessoal e financeiro dele.

— O que foi que ele fez?

— Acho melhor a própria Lisbeth explicar essa parte. Seu olhar cruzou com o de Holmberg.

— Deixe eu adivinhar — disse Sonja Modig. — O Bjurman se comportou mal com a sua protegida.

Mikael assentiu com a cabeça.

— Posso deduzir que ele a submeteu a algum tipo de violência sexual? Mikael deu de ombros e se absteve de qualquer comentário.

— Você está sabendo da tatuagem na barriga do Bjurman?

— Tatuagem?

— Uma tatuagem feita por um amador, um texto que ocupa a barriga toda... Sou um porco sádico, um canalha estuprador. A gente andou se perguntando sobre o significado disso tudo.

De repente, Mikael caiu na risada.

— O que foi?

— Fiquei pensando no que a Lisbeth teria feito para se vingar. Mas, já disse, não quero discutir isso com vocês, pelo mesmo motivo. Trata-se da vida pessoal dela. A Lisbeth é que foi objeto de um crime. Ela é que é a vítima. Ela é quem deve decidir o que vai querer ou não contar para vocês. Sinto muito.

Ele parecia estar quase se desculpando.

— O certo, em caso de estupro, é dar queixa — disse Sonja Modig.

— Concordo. Mas esse estupro aconteceu há dois anos e a Lisbeth ainda não contou nada à polícia. O que prova que ela não pretende contar. Posso até não concordar, mas ela é quem decide. Além disso...

— Sim?

— Ela não tem motivo algum para confiar na polícia. Da última vez que tentou explicar a que ponto Zalachenko era um canalha, foi trancafiada num hospital psiquiátrico.

Richard Ekström, o responsável pelo inquérito preliminar, estava um tanto ansioso naquela manhã de sexta-feira, quando, pouco antes das nove horas, convidou o chefe das investigações, Jan Bublanski, para se sentar à sua frente. Ekström ajeitou os óculos e esfregou a barba bem cuidada. Para ele, aquela situação era caótica e ameaçadora. Durante um mês, ele fora o responsável pela investigação preliminar, o homem que caçava Lisbeth Salander. Ele a tinha descrito abertamente como uma psicopata, uma doente mental perigosa para a população. Tinha deixado vazar informações que seriam vantajosas para ele num eventual processo. Tudo parecia às mil maravilhas.

Na sua cabeça, não havia dúvida de que Lisbeth Salander era de fato culpada do triplo homicídio e que o processo resultaria numa vitória tranqüila, uma mera encenação de marketing com ele próprio no papel principal. E eis que tudo tinha desandado e lá estava ele às voltas com um assassino bem diferente e um caos que parecia não ter fim. Droga de Salander.

— Estamos com uma autêntica baderna para resolver — disse ele. — O que você descobriu esta manhã?

— Emitimos um pedido nacional de busca para Ronald Niedermann, mas ele ainda está foragido. Por enquanto, está sendo procurado apenas pelo assassinato do policial Gunnar Andersson, mas imagino que a gente deva incluir os três homicídios aqui de Estocolmo. Talvez você devesse convocar uma coletiva de imprensa.

Bublanski só estava sugerindo a coletiva para sacanear Ekstrõm, a quem detestava.

— Acho melhor esperar um pouco — respondeu Ekström depressa. Bublanski fez um esforço para não sorrir.

— Os últimos acontecimentos dizem respeito principalmente à polícia de Göteborg — retomou Ekström, para ser mais claro.

— É, mas estamos com a Sonja Modig e o Jerker Holmberg no local, em Göteborg, e iniciamos uma colaboração...

— Vamos esperar mais informações antes de convocar uma coletiva — interrompeu Ekström com voz autoritária. — O que eu queria saber é até que ponto você tem certeza de que o Niedermann está envolvido nos assassinatos aqui de Estocolmo.

— Como policial, estou convencido disso. Mas, de fato, não temos muitas provas. Não existe testemunha dos assassinatos nem nenhuma prova técnica irrefutável. O Magge Lundin e o Benny Nieminen, do MC Svavelsjö, negam-se a prestar uma declaração e afirmam que nunca ouviram falar do Niedermann. Em compensação, é certo que ele vai ser condenado pelo homicídio do Gunnar Andersson.

— Está bem — disse Ekström. — O que nos interessa no momento é o assassinato do policial. Mas me conte... Há algo que indique que a Salander estaria, apesar de tudo, envolvida nos assassinatos? Daria para supor que ela e o Niedermann agiram juntos?

— Duvido. Eu é que não divulgaria uma teoria dessas.

— Mas então qual é o papel dela nisso tudo?

— É uma história super complicada. Como o Mikael Blomkvist vem afirmando desde o começo, é esse sujeito, o Zala... Alexander Zalachenko.

Ao ouvir o nome de Mikael Blomkvist, o procurador Ekstrõm estremeceu visivelmente.

— O Zala é um espião russo fora de atividade, obviamente desprovido de qualquer escrúpulo, que atuava na época da guerra fria — prosseguiu Bublanski. — Chegou aqui nos anos 1970, e é o pai de Lisbeth Salander. Foi apoiado por um grupo da Sapo, que o cobria quando ele infringia a lei. Um policial da Sapo também deu um jeito de a Lisbeth Salander ser internada, aos treze anos, numa clínica de psiquiatria infantil, quando ela ameaçou revelar a verdade sobre o Zalachenko.

— Admita que é meio difícil engolir tudo isso. Não dá para tornar pública uma história dessas. Se entendi bem, tudo o que diz respeito ao Zalachenko é considerado segredo de Estado.

— Mas é a pura verdade. Tenho documentos que comprovam isso.

— Posso ver esses documentos?

Bublanski empurrou na direção dele o arquivo contendo o relatório policial datado de 1991. Ekström, pensativo, contemplou o selo que classificava o documento como segredo de Estado, e o número do arquivo, que ele de imediato identificou como proveniente da Sapo. Folheou rapidamente as cerca de cem páginas e leu algumas ao acaso. Por fim, largou o relatório.

— Temos que tentar acalmar as coisas para que a situação não escape das nossas mãos. Com que então a Lisbeth Salander foi internada num hospital de loucos porque tentou matar o pai... o tal Zalachenko. E agora cravou um machado na cabeça dele. Não dá para não entender isso como uma tentativa de homicídio. E ela também tem que ser acusada por ter atirado no Magge Lundin em Stallarholmen.

— Acuse quem você quiser, mas eu, no seu lugar, avançaria pisando em ovos.

— Vai ser um escândalo daqueles se essa história envolvendo a Sapo for divulgada.

Bublanski deu de ombros. Sua missão era elucidar crimes, e não administrar escândalos.

— E esse canalha da Sapo, o Gunnar Björck, o que se sabe sobre o papel dele nisso tudo?

— Ele é um dos protagonistas. Atualmente está de licença médica por causa de uma hérnia de disco e está passando um tempo em Smâdalarö.

— Certo... por enquanto não se fala na Sapo. Trata-se de um policial morto, só isso. O nosso papel não é criar confusão.

— Acho que vai ser difícil de abafar.

— Como assim?

— Mandei o Curt Bolinder deter o Björck para um interrogatório. — Bublanski consultou o relógio. — À essa hora ele deve estar em plena ação.

— O quê?

— Na verdade, minha intenção era eu mesmo ter o prazer de ir até Smâladarö, mas não pude por causa do assassinato do policial.

— Não emiti nenhuma autorização para a prisão de Björck.

— Correto. Mas não se trata de prisão. Mandei que o trouxessem para interrogá-lo.

— Não estou gostando nada disso.

Bublanski se inclinou para a frente e assumiu um ar confidencial.

— Richard... a questão é a seguinte. A Lisbeth Salander foi vítima de uma série de abusos judiciários, que tiveram início quando ela não passava de uma criança. Não preterido deixar que isso continue. Você pode escolher me afastar das investigações, mas nesse caso vou ser obrigado a escrever um relatório incisivo a respeito.

Richard Ekström ficou com cara de quem chupou um limão.

Gunnar Björck, em licença médica do seu cargo de chefe-adjunto da Brigada dos Estrangeiros na Sapo, abriu a porta de sua casa de campo em Smâladarö e se viu frente a frente com um homem corpulento, de cabelos loiros e curtos e jaqueta de couro preta.

— Gostaria de falar com Gunnar Björck.

— Sou eu.

— Curt Bolinder, de Assuntos Criminais. O homem mostrou sua identificação.

— Pois não?

— Vou pedir que me acompanhe até a chefatura de polícia de Kungsholmen para auxiliar na investigação sobre Lisbeth Salander.

— Hã... deve haver algum engano.

— Não há nenhum engano — disse Curt Bolinder.

— O senhor não está entendendo. Eu também sou da polícia. Sugiro que verifique com seu chefe.

— É o meu chefe que quer falar com o senhor.

— Preciso dar um telefonema e...

— Vai poder telefonar de Kungsholmen.

De repente, Gunnar Björck entregou os pontos. Droga de Mikael Blomkvist. Droga de Salander.

— Estou sendo detido? — perguntou.

— Por enquanto não. Mas acho que se pode dar um jeito, se o senhor acha indispensável.

— Não... não, vou acompanhá-lo, claro. Faço questão de auxiliar meus colegas da polícia oficial.

— Melhor assim — disse Curt Bolinder, entrando na casa. Manteve um olhar atento em Gunnar Björck enquanto ele ia pegar o casaco e desligar a cafeteira.

Às onze da manhã, Mikael Blomkvist soube que o seu carro alugado continuava estacionado atrás de uma granja na entrada de Gosseberga, mas no estado de exaustão em que se encontrava não tinha energia para ir buscá-lo, e muito menos para dirigir uns tantos quilômetros sem se transformar em vim perigo para o trânsito. Pediu conselho ao inspetor Marcus Ackerman, que generosamente propôs que um técnico da Criminal de Göteborg fosse buscar o carro.

— Encare isso como uma compensação pela maneira como você foi tratado na noite passada.

Mikael assentiu com a cabeça e pegou um táxi para o City Hotel, na Lorensbergsgatan, perto da Avenyn. Pediu um quarto simples por uma diária de oitocentas coroas e subiu imediatamente. Despiu-se, sentou-se nu sobre a cama, tirou do bolso interno do casaco o Palm Tungsten T3 de Lisbeth Salander e avaliou seu peso com a mão. Ainda estava surpreso de o computador de mão não ter sido apreendido quando o delegado Thomas Paulsson o revistara, mas Paulsson partira do princípio de que aquele era o computador de Mikael, e ele não fora formalmente acusado de nada nem destituído de seus objetos pessoais. Refletiu um instante e então colocou o Palm no compartimento da mochila de seu computador, onde já estava guardado o DVD Bjurman, de Lisbeth, que Paulsson também deixara passar. Estava ciente de que, do ponto de vista legal, era uma retenção de provas, mas aqueles eram objetos que Lisbeth aparentemente não ia querer que fossem parar em mãos erradas.

Pegou seu celular, observou que a bateria estava quase no fim e colocou-o para carregar. Telefonou para sua irmã, a Dra. Annika Giannini.

— Oi, mana.

— Você tem alguma coisa a ver com o assassinato do policial da noite passada? — ela foi logo perguntando.

Ele explicou rapidamente o que tinha acontecido.

— Certo. Quer dizer que a Salander está na UTI.

— Isso. Só vão saber da gravidade dos ferimentos depois que ela acordar, mas ela vai precisar de um advogado.

Annika Giannini ponderou alguns instantes.

— Você acha que ela vai me aceitar?

— É provável que não aceite nenhum advogado. Pedir ajuda não é o estilo dela.

— Tudo indica que ela vai precisar de um advogado criminal. Preciso dar uma olhada nos documentos que você tem aí.

— Fale com a Erika Berger e peça uma cópia para ela.

Assim que terminou de falar com a irmã, Mikael ligou para Erika Berger. Como ela não atendesse o celular, discou o número da redação da Millennium. Henry Cortez atendeu.

— A Erika saiu — disse Henry.

Mikael deu um resumo da situação e pediu a Henry que repassasse a informação para a diretora da Millennium.

— Certo. E o que a gente faz? — perguntou Henry.

— Hoje, nada — disse Mikael. — Preciso dormir. Volto amanhã para Estocolmo, se não houver nenhum imprevisto. A Millennium vai dar sua versão do caso no próximo número, isto é, daqui a quase um mês.

Desligou, enfiou-se na cama e em menos de trinta segundos estava dormindo.

A adjunta do chefe de polícia do Departamento, Monica Spângberg, bateu com uma caneta na borda do seu copo de água mineral para pedir silêncio. Dez pessoas — três mulheres e sete homens — estavam em volta da mesa de reuniões de sua sala, na chefatura de polícia. Eram eles o diretor da Brigada Criminal, seu adjunto, três inspetores criminais, entre eles Marcus Ackerman, e o assessor de comunicação da polícia de Göteborg. Também tinham sido convocados para a reunião a responsável pelo inquérito preliminar, Agneta Jervas, do Ministério Público, e os inspetores criminais Sonja Modig e Jerker Holmberg, de Estocolmo. Estes últimos estavam presentes para demonstrar a boa vontade dos colegas de Estocolmo em colaborar e também, quem sabe, para mostrar como se conduz uma investigação de verdade.

Spângberg, em geral a única mulher naquele ambiente masculino, não tinha fama de desperdiçar tempo com formalidades nem amenidades. Explicou que o chefe de polícia do departamento estava em uma viagem de trabalho, uma conferência da Europol em Madri, que interrompera a viagem ao ser avisado do assassinato de um policial, mas que só deveria chegar tarde da noite. Depois, dirigindo-se diretamente ao diretor da Brigada Criminal, Arne Pehrzon, pediu-lhe um resumo da situação.

— Há pouco mais de dez horas nosso colega Gunnar Andersson foi morto na estrada de Nossebro. Sabemos o nome do assassino, Ronald Niedermann, mas não temos nenhuma foto do indivíduo.

— Em Estocolmo temos uma foto dele de vinte anos atrás. Foi o Paolo Roberto quem conseguiu, mas quase não dá para aproveitar — disse Jerker Holmberg.

— Certo. Encontraram a viatura roubada em Alingsâs hoje cedo. Estava estacionada numa rua lateral, a cerca de trezentos metros da estação. Não houve nesta manhã nenhuma queixa de carro roubado na área.

— E quanto às investigações?

— Estamos verificando os trens que chegam a Estocolmo e Malmö. Emitimos um pedido nacional de busca e informamos a polícia norueguesa e a dinamarquesa. No momento estamos com cerca de trinta policiais trabalhando diretamente no caso e, é claro, com todos os agentes de olhos bem abertos.

— Nenhuma pista?

— Nada ainda. Mas não deve ser impossível localizar um homem com o físico do Niedermann.

— Alguém tem notícias do Fredrik Torstensson? — perguntou um dos inspetores da Criminal.

— Está no hospital de Sahlgrenska. Ficou bem machucado, mais ou menos como se tivesse sofrido um acidente de carro. É difícil acreditar que um ser humano possa ter causado tantas lesões apenas com as mãos. Além das fraturas e das costelas quebradas, ele está com uma vértebra machucada e corre o risco de ficar parcialmente paralisado.

Todos refletiram sobre a situação do colega durante alguns segundos, até que Spângberg retomou a palavra. Voltou-se para Ackerman.

— O que de fato aconteceu em Gosseberga?

— Em Gosseberga? Aconteceu o Thomas Paulsson.

Um gemido unânime foi ouvido por parte de vários participantes da reunião.

— Por que ninguém aposenta esse cara? Ele é uma puta de uma catástrofe ambulante.

— Conheço bem o Paulsson — disse Monica Spângberg em tom áspero. — Mas ninguém se queixou dele nesses... digamos, últimos dois anos.

— O prefeito de lá é uni velho conhecido do Paulsson e deve ter achado melhor mantê-lo por perto. A intenção era boa, claro, não se trata de uma crítica. Mas, na noite passada, o Paulsson se comportou de um modo tão estranho que vários colegas relataram o fato.

— O que ele fez?

Marcus Ackerman olhou de soslaio para Sonja Modig e Jerker Holmberg. Parecia sem graça de revelar as imperfeições de sua organização diante dos colegas de Estocolmo.

— O mais estranho, sem dúvida, foi ele destacar um agente do departamento técnico para fazer um inventário do galpão de lenha onde o Zalachenko foi encontrado.

— Inventário do galpão de lenha? — espantou-se Spângberg.

— É... quer dizer... ele queria saber exatamente quantas toras de lenha tinha ali. Para fazer um relatório bem completo.

Fez-se um silêncio expressivo em volta da mesa de reuniões, até que Ackerman prosseguiu:

— Hoje de manhã, descobrimos que o Paulsson consome pelo menos dois psicotrópicos, o Xanor e o Efexor. Na verdade, era para ele estar de licença médica, mas escondeu seu estado dos colegas.

— Que estado? — perguntou Spângberg, ríspida.

— E claro que não sei exatamente do que se trata — sigilo profissional dos médicos, sabe como é —, mas esses psicotrópicos que ele toma são um ansiolítico fortíssimo e um estimulante. Na noite passada, ele estava simplesmente dopado.

— Meu Deus — disse Spângberg, enfática. Lembrava a tempestade que passara sobre Göteborg naquela manhã. — Quero o Paulsson aqui para uma conversa. Agora.

— Vai ser difícil. Ele desmoronou hoje de manhã e foi internado no hospital por estresse. Foi mesmo um azar para a gente ele estar de plantão.

— Uma pergunta — disse o diretor da Brigada Criminal. — Quer dizer que na noite passada o Paulsson pediu o indiciamento de Mikael Blomkvist?

— Ele deixou um relatório em que registra desacato à autoridade, resistência violenta a um funcionário e porte ilegal de arma.

— O Blomkvist admite alguma dessas coisas?

— Admite o desacato, mas afirma que foi em legítima defesa. Segundo ele, a resistência consistiu numa tentativa verbal um pouco extremada de impedir que Torstensson e Andersson fossem prender o Niedermann sozinhos e sem reforços.

— Alguma testemunha?

— Só os agentes Torstensson e Andersson. Permita-me dizer que não acredito em nada no relatório do Paulsson quando ele fala em resistência violenta. Claramente se trata de uma forma de se proteger de eventuais queixas do Blomkvist.

— Mas ele, o Blomkvist, tinha conseguido dominar o Niedermann sozinho? — perguntou a procuradora Agneta Jervas.

— Ele o ameaçou com uma arma.

— Então o Blomkvist tinha uma arma. Ou seja, o indiciamento de Blomkvist tem fundamento. Onde ele conseguiu a arma?

— O Blomkvist não quer falar sobre isso antes de consultar um advogado. Mas o Paulsson indiciou o Blomkvist quando ele tentava lhe entregar a arma.

— Posso fazer uma sugestão informal? — perguntou cautelosamente Sonja Mondig.

Todos olharam para ela.

— Estive com o Mikael Blomkvist várias vezes durante a investigação, e acho que ele é um sujeito legal, apesar de ser jornalista. Suponho que a decisão de indiciá-lo ou não seja sua... — Ela fitou Agneta Jarvas, que assentiu a cabeça. — Neste caso, essa história de desacato e resistência é pura bobagem, e imagino que vai arquivá-la imediatamente.

— E provável. Mas porte ilegal de arma já é coisa mais séria.

— Sugiro que espere um pouco antes de apertar o gatilho. O Blomkvist reconstituiu toda esta história, sozinho e está muito à frente da polícia. Seria melhor mantermos boas relações com ele e cooperarmos. E mais vantajoso do que dar margem para ele detonar a polícia toda na mídia.

Ela se calou. Passados alguns segundos, Marcus Ackerman pigarreou. Se Sonja Mondig podia empinar o nariz, ele não iria ficar para trás.

— Concordo. Também acho o Blomkvist um sujeito sensato. Apresentei nossas desculpas pelo modo como foi tratado na noite passada. Ele parece disposto a deixar por isso mesmo. Além do que, é um cara íntegro. Descobriu o endereço da Lisbeth Salander, mas se nega a nos fornecer. Não tem medo de enfrentar uma discussão aberta com a polícia... e está numa posição em que a voz dele vai ter tanto peso na mídia quanto qualquer denúncia do Paulsson.

— Mas e se ele se negar a dar informações sobre a Salander para a polícia?

— Diz ele que é só a gente perguntar para a Lisbeth.

— Que tipo de arma era essa? — perguntou Jervas.

— Uma Colt 1991 Government. Número de série desconhecido. Mandei para o laboratório, e ainda não sabemos se foi usada em algum contexto criminal na Suécia. Se for o caso, vamos ter que reconsiderar.

Monica Spângberg ergueu a caneta.

— Agneta, você decide se quer abrir um inquérito preliminar sobre o Blomkvist. Imagino que esteja esperando os resultados do Laboratório. Continuando... Esse sujeito, o Zalachenko... vocês, de Estocolmo, o que podem nos dizer sobre ele?

— Acontece que até ontem à tarde nós também nunca tínhamos ouvido falar nem em Zalachenko nem em Niedermann — respondeu Sonja Modig.

— Eu achava que em Estocolmo vocês andavam atrás de um grupo de lésbicas satânicas — disse um dos policiais de Göteborg. Alguns homens esboçaram um sorriso. Jerker Holmberg começou a examinar as próprias unhas. Sonja Modig que respondesse àquela pergunta.

— Cá entre nós, na Brigada a gente também tem um "Thomas Paulsson", e é a ele que a gente deve essa história de bando de lésbicas satânicas.

E então Sonja Modig e Jerker Holmberg passaram toda uma meia hora relatando suas investigações.

Quando concluíram, um longo silêncio se fez em volta da mesa.

— Se essa informação sobre o Gunnar Björck estiver certa, quem vai ficar com as orelhas ardendo é a Sapo — disse, por fim, o adjunto do diretor da Brigada Criminal.

Todos assentiram com a cabeça. Agneta Jervas levantou a mão.

— Se eu entendi bem, boa parte das suspeitas de vocês está fundada em suposições e presunções. Como procuradora, fico um pouco preocupada com a falta de provas concretas.

— Temos consciência disso — disse Jerker Holmberg. — Julgamos saber, de forma geral, o que aconteceu, mas ainda existem muitos pontos de interrogação para resolver.

— Pelo que entendi, vocês estão cuidando das escavações em Nykvarn, perto de Södertälje — disse Spângberg. — Este caso envolve quantos homicídios, afinal?

Jerker Holmberg pestanejou, cansado.

— Começamos com três assassinatos em Estocolmo — que são os assassinatos pelos quais a Lisbeth Salander estava sendo procurada, o do doutor Bjurman, o do jornalista Dag Svensson e o da doutoranda Mia Bergman. No armazém de Nykvarn, até agora encontramos três túmulos. Em um deles foi identificado um receptador, bandido notório, cortado em pedaços. No outro, uma mulher não identificada. Ainda não tiveram tempo de abrir completamente o terceiro túmulo. Parece mais antigo. Além disso, o Mikael Blomkvist descobriu uma ligação com o assassinato de uma prostituta em Södertälje uns meses atrás.

— Portanto, com o agente Gunnar Andersson, em Gosseberga, são pelo menos oito homicídios... esse número chega a causar arrepios. O tal Nieder-mann é suspeito de todos esses assassinatos? Isso significaria que se trata de um doido varrido, um assassino em série.

Sonja Modig e Jerker Holmberg trocaram um olhar. Precisavam definir até onde estavam preparados para avançar em suas declarações. Por fim, Sonja Modig assumiu a palavra.

— Mesmo que nos faltem provas concretas, o meu chefe, o inspetor Bublanski, e eu mesma tendemos a acreditar em Mikael Blomkvist quando ele diz que os três primeiros assassinatos são obra do Niedermann. Isso equivaleria à inocência da Salander. Quanto aos túmulos de Nykvarn, o Niedermann está ligado ao local pelo seqüestro da amiga da Salander, a Miriam Wu. Ela seria, evidentemente, a quarta vítima da lista, e um túmulo esperava por ela também. Mas o armazém em questão é propriedade do presidente do MC Svavelsjö, e vamos ter que esperar até a identificação dos despojos para tirar conclusões.

— E esse bandido que vocês identificaram...

— Kenneth Gustafsson, quarenta e quatro anos, conhecido receptador e delinqüente desde a adolescência. Assim, sem pensar muito, eu diria que se trata de um acerto de contas. O MC Svavelsjö está ligado a vários tipos de criminalidade, inclusive distribuição de metanfetaminas. Portanto, o local pode ser considerado um cemitério informal para pessoas que se indispunham com o MC Svavelsjö. Mas...

— Sim?

— A prostituta, essa foi morta em Södertálje... Seu nome era Irina Petrova e ela tinha vinte e dois anos.

— Certo.

— A autópsia diz que ela foi vítima de uma agressão particularmente brutal. O mesmo tipo de ferimento que pode ser encontrado numa pessoa morta a golpes de taco de beisebol ou algum instrumento parecido. Os traumatismos foram difíceis de interpretar e o médico-legista não teve condições de afirmar qual foi, exatamente, o instrumento utilizado. O Blomkvist observou bem: os ferimentos de Irina Petrova poderiam perfeitamente ter sido causados por mãos...

— Niedermann?

— É uma suposição plausível. Ainda faltam as provas.

— O que a gente faz agora? — perguntou Spângberg.

— Tenho que ver com o Bublanski, mas pela lógica o próximo passo seria interrogar o Zalachenko. De nossa parte, estamos interessados no que ele tem a dizer sobre os homicídios de Estocolmo, e vocês querem pegar o Niedermann.

Um inspetor de Gõteborg levantou o dedo.

— Tenho uma pergunta... o que encontraram na granja de Gosseberga?

— Pouca coisa. Quatro armas pequenas. Uma Sig Sauer desmontada, que estava sendo lubrificada, na mesa da cozinha. Uma Wanad P-83 polonesa no chão, do lado da banqueta. Uma Colt 1911 Government — essa é a pistola que o Blomkvist tentou entregar para o Paulsson. Por fim, uma Browning calibre 22, que no meio das outras mais parece um brinquedinho. A suspeita é que essa foi a arma usada contra a Salander, já que ela continua viva mesmo depois de uma bala no cérebro.

— E fora isso?

— Foi apreendida uma sacola contendo pouco mais de duzentas mil coroas. A sacola estava num quarto do andar de cima, ocupado pelo Niedermann.

— Como é que vocês sabem que era o quarto dele?

— Bem, ele usa roupa GG. O Zalachenko, a rigor, usa M.

— Existe alguma coisa vinculando o Zalachenko a uma atividade criminosa? — perguntou Jerker Holmberg.

Ackerman balançou a cabeça.

— Tudo depende de como vamos interpretar a apreensão das armas. Mas fora as armas e o fato de o Zalachenko dispor de uma vigilância eletrônica bastante sofisticada para a sua residência, não encontramos nada que diferencie a granja de Gosseberga de qualquer outra casa no campo. Tem pouquíssimos móveis.

Pouco antes do meio-dia, um policial fardado bateu à porta e entregou um papel para a adjunta do chefe de polícia, Monica Spângberg. Ela levantou a mão.

— Acabamos de receber um alerta sobre uma pessoa desaparecida em Alingsâs. Uma assistente de odontologia de vinte e sete anos, Anita Kaspersson, saiu de sua casa às sete e meia da manhã. Deixou o filho na creche e deveria ter chegado ao trabalho antes das oito. Não chegou. Ela trabalha para um dentista cujo consultório fica a uns cem metros de onde foi encontrada a viatura roubada.

Ackerman e Sonja Modig consultaram simultaneamente o relógio.

— Quer dizer que ele tem quatro horas de vantagem. Qual é o carro dela?

— Um Renault velho azul-escuro. O número da placa está aqui.

— Emitam imediatamente um aviso de busca para o veículo. A essa altura, ele pode estar em qualquer lugar entre Oslo, Malmõ e Estocolmo.

Trocaram mais algumas palavras e encerraram a reunião, depois de decidirem que Sonja Modig e Marcus Ackerman iriam, juntos, interrogar Zalachenko.

Henry Cortez franziu o cenho e seguiu Erika Berger com o olhar quando ela saiu de sua sala e foi para a copa. Ela voltou, segundos depois com uma caneca de café. Fechou a porta atrás de si.

Henry Cortez não conseguia de fato atinar o que havia de errado. A Millennium era um local de trabalho pequeno, onde os funcionários acabavam ficando muito próximos. Fazia quatro anos que ele trabalhava meio período na revista e já tinha vivenciado tempestades tremendas, principalmente na época em que Mikael Blomkvist cumprira três meses de prisão por difamação e a revista por pouco não afundara. Ele também passara pelo assassinato do colaborador Dag Svensson e da companheira de Dag, Mia Bergman.

Durante todas aquelas tempestades, Erika Berger se mostrara uma fortaleza que nada, aparentemente, seria capaz de abalar. Não o surpreendia que ela o tivesse chamado tão cedo de manhã, e também Lottie Karim, pedindo que começassem logo o trabalho. O caso Salander estava implodindo, e Mikael Blomkvist estava envolvido no assassinato de um policial em Góteborg. Até aí, tudo bem. Lottie Karim tinha ficado de plantão na chefatura de polícia tentando obter alguma informação plausível. Henry passara a manhã ao telefone procurando reconstituir os acontecimentos da noite anterior. O celular de Blomkvist não atendia, mas, através de várias outras fontes, Henry já tinha um panorama bastante claro do que havia acontecido.

Em compensação, Erika Berger estivera com a cabeça longe a manhã toda. Era raro ela fechar a porta de sua sala. Isso praticamente só acontecia quando recebia alguma visita ou estava trabalhando de forma intensa em algum problema. Naquela manhã, não houvera nenhuma visita e ela não estava trabalhando. Henry tinha batido na porta da sala duas ou três vezes para lhe passar informações e dera com ela na poltrona em frente à janela, imersa em pensamentos, fitando a multidão lá embaixo na Gõtgatan com um olhar ausente.

Algo não estava bem.

A campainha da porta interrompeu suas reflexões. Ao abri-la, deparou com Annika Giannini. Henri Cortez já cruzara com a irmã de Mikael Blomkvist várias vezes, mas não a conhecia muito bem.

— Bom dia, Annika — disse ele. — O Mikael hoje não está.

— Eu sei. Eu vim falar com a Erika.

Em sua poltrona diante da janela, Erika Berger ergueu os olhos e se recompôs rapidamente quando Henry introduziu Annika. As duas mulheres ficaram a sós.

— Bom dia — disse Erika. — O Mikael hoje não está. Annika sorriu. Mas já tinha percebido o mal-estar.

— Sim, eu sei. Estou aqui por causa do relatório do Bjõrck para a Sapo. O Micke pediu que eu desse uma olhada nele, já pensando na possibilidade de eu eventualmente vir a representar a Salander.

Erika assentiu com a cabeça. Levantou-se e apanhou uma pasta em cima da mesa.

Annika pegou a pasta e hesitou um instante, prestes a sair. Então mudou de idéia e sentou-se diante de Erika.

— Bem, fora isso, qual é o problema?

— Estou saindo da Millennium. E ainda não consegui contar para o Mikael. Ele andou tão envolvido neste caso da Salander que não achei o momento certo de tocar no assunto, e também não quero contar para os outros antes de contar para ele. Por isso é que estou me sentindo uma merda.

Annika Giannini mordeu o lábio inferior.

— E então, em vez disso, está contando para mim. Qual é o seu projeto?

— Vou assumir a chefia de redação do Svenska Morgon-Posten.

— Puxa! Nesse caso, congratulações são mais apropriadas do que choro e lamentações.

— Só que não era assim que eu tinha imaginado a minha saída da Millennium. No meio deste turbilhão incrível. A coisa desabou como um raio em cima de mim, não tive como recusar. Quer dizer, é uma oportunidade única. Mas a proposta aconteceu um pouco antes de o Dag e a Mia serem assassinados, depois foi uma confusão tão grande aqui dentro que acabei não falando nada. Agora estou me sentindo tremendamente culpada, você não imagina o quanto.

— Imagino, sim. E você está com medo de falar para o Micke.

— Eu não falei para ninguém. Eu só ia começar no SMP depois do verão, e achei que tinha bastante tempo para contar. Mas agora eles estão querendo que eu assuma o quanto antes.

Calou-se e olhou para Annika. Estava a ponto de chorar.

— Concretamente, significa que esta é minha última semana na Millennium. Semana que vem vou viajar e depois... Preciso de uma semana de férias para recarregar as baterias. Vou assumir no SMP em primeiro de maio.

— E como ia ser se você tivesse sido atropelada? Em menos de um minuto eles iam ficar sem redator-chefe.

Erika ergueu os olhos.

— Só que eu não fui atropelada. Ocultei conscientemente essa história semanas a fio.

— Entendo que seja uma situação difícil, mas tenho a impressão que o Mikael, o Christer e os outros vão saber enfrentá-la. Mesmo assim, acho que você deveria contar logo para eles.

— É, mas hoje o danado do seu irmão está em Gõteborg. Está dormindo e não atende o telefone.

— Eu sei. Pouca gente tem o talento do Mikael para não atender telefone. Porém o assunto não é só entre você e o Mikael. Eu sei que faz vinte anos que vocês trabalham juntos, que já andaram transando e tudo mais, mas você tem que pensar no Christer e no pessoal da redação.

— Mas o Mikael vai...

— O Mikael vai ter um treco. Claro. Mas se ele não puder aceitar que, depois de vinte anos, você sinta vontade de conduzir seu próprio barco, então isso significa que ele não merece esse tempo todo que você gastou com ele.

Erika suspirou.

— Vamos lá, coragem. Peça que o Christer e os demais venham até aqui. Agora.

Christer Malm permaneceu abalado por alguns segundos depois que Erika reuniu os colaboradores na salinha de reuniões da Millennium. Ela ligara para o ramal de cada um deles bem no momento em que, por ser sexta-feira, ele se preparava para sair mais cedo. Ele trocou olhares com Henry Cortez e Lottie Karim, tão surpresos quanto ele. Nem a assistente de redação, Malu Eriksson, parecia estar entendendo, tampouco a jornalista Monika Nilsson e o responsável pela publicidade, Sonny Magnusson. Só faltava Mikael Blomkvist, que estava em Gõteborg.

Meu Deus. O Mikael não está sabendo, pensou Christer Malm. Como será que ele vai reagir?

Então ele percebeu que Erika Berger tinha terminado de falar e que um silêncio pesado tomava conta da sala. Balançou a cabeça, levantou-se, deu um abraço em Erika e tascou-lhe um beijo no rosto.

— Parabéns, Ricky — disse ele. — Redatora-chefe do SMP. Uma bela ascensão, para quem vem do nosso barquinho.

Henry Cortez acordou e deu início a uma espontânea salva de palmas. Erika ergueu as mãos.

— Alto lá — disse ela. — Hoje eu não estou merecendo nenhum aplauso.

Calou-se por um instante e observou seus colaboradores daquela pequena redação.

— Olha... estou super chateada com o rumo que as coisas foram tomando. Minha intenção era contar para vocês várias semanas atrás, mas a coisa se perdeu no meio da catástrofe que se seguiu aos assassinatos. O Mikael e a Malu trabalharam feito doidos e simplesmente não surgiu uma oportunidade. Por isso é que estamos nesta situação.

Com uma lucidez fantástica, Malu Eriksson percebeu a que ponto a redação carecia de pessoal efetivo e a que ponto a saída de Erika iria deixar um vazio. Em qualquer circunstância, e qualquer que fosse o caos da vez, ela sempre fora o rochedo em que Malu podia se segurar, sempre inabalável em meio à tempestade. Pois é... não era de admirar que o ilustre jornal matutino a tivesse contratado. Mas e agora? Como é que eles iam se virar? Erika sempre fora a pessoa-chave da Millennium.

— Temos algumas coisinhas para acertar. Entendo perfeitamente que a minha saída possa desnortear um pouco a redação. Não era essa a minha intenção, mas, enfim, aconteceu. Em primeiro lugar: não estou abandonando de vez a Millennium. Vou continuar sendo sócia e participar das reuniões do conselho administrativo. Por outro lado, é claro que não vou mais ter nenhuma influência no trabalho de redação; isso me causaria um conflito de interesses.

Christer Malm assentiu com a cabeça, pensativo.

— Em segundo lugar: oficialmente, paro de trabalhar no dia 30 de abril. Mas, na verdade, hoje é o meu último dia. Como vocês sabem, vou viajar na semana que vem, já estava combinado havia tempo, e não faz sentido eu voltar ao comando só para cumprir uns poucos dias de transição.

Calou-se por alguns instantes.

— O próximo número está pronto no meu computador. Só falta acertar uns detalhezinhos. Vai ser meu último número. Depois, alguém vai ter que assumir o leme. No final da tarde vou limpar a minha mesa.

Houve um silêncio denso.

— O melhor seria o conselho administrativo decidir contratar um redator-chefe. Mas é um assunto que também deve ser discutido entre vocês da redação.

— O Mikael — disse Christer Malm.

— Não. O Mikael não. Ele seria, indiscutivelmente, o pior redator-chefe que vocês poderiam escolher. Ele é perfeito como editor responsável e é sensacional para revisar e dar um jeito em textos problemáticos que precisam ser publicados. Mas ele também trava o fluxo das coisas. Um redator-chefe deve ser alguém que jogue na ofensiva. Além disso, o Mikael tem tendência a mergulhar nas matérias dele e às vezes fica ausente semanas a fio. Ele é ótimo nos períodos de tensão, mas é um zero à esquerda no trabalho de rotina. Vocês sabem disso.

Christer Malm assentiu com a cabeça.

— Se a Millennium deu tão certo até agora, é porque você e o Mikael se completavam.

— Não é só isso. Lembrem de quando o Mikael ficou quase um ano enfurnado naquele povoado de Hedestad. A Millennium funcionou sem ele, e agora vai ter que funcionar sem mim.

— Certo. E qual é a sua idéia?

— Eu escolheria você para redator-chefe, Christer...

— Nunca, jamais. — Christer Malm fez um gesto com as mãos, como querendo frear aquela idéia.

— ... mas como eu já sabia que você ia recusar, pensei numa outra solução. Malu. Você assume a partir de hoje como redatora-chefe temporária.

— Eu?! — exclamou Malu.

— Isso mesmo, você. Você faz um supertrabalho como assistente de redação.

— Mas eu...

— Faça uma experiência. Vou esvaziar a minha sala à tarde. Você pode se mudar para lá já na segunda de manhã. A edição de maio está praticamente pronta — uma tarefa a menos. Em junho, sai uma edição dupla e depois disso temos um mês de férias. Se não der certo, a empresa vai ter que achar outra pessoa para agosto. Henry, você passa a trabalhar em tempo integral e substitui a Malu como assistente de redação. Mais tarde vocês vão ter que contratar mais um colaborador. Mas a decisão é de vocês e do conselho administrativo.

Ela se calou um instante e contemplou-os pensativamente.

— Mais uma coisa. Eu vou trabalhar numa outra publicação. O SMP e a Millennium não são propriamente concorrentes, mas de qualquer modo significa que não quero saber mais do que já sei sobre o conteúdo do próximo número. A partir de agora, vocês tratam desse assunto com a Malu.

— E o que a gente faz em relação ao caso Salander? — perguntou Henry Cortez.

— Você vê isso com o Mikael. Eu tenho informações sobre a Salander, mas vou pôr um lacre nessa história. Não vou repassar para o SMP.

De repente, Erika sentiu um alívio imenso.

— Bem, era isso — disse, encerrando a reunião. Então se levantou e retornou à sua sala sem mais comentários.

A redação da Millennium permaneceu aturdida. Uma hora mais tarde, Malu Eriksson foi bater na porta da sala de Erika.

— Olá.

— Sim? — disse Erika.

— O pessoal tem uma coisa para te dizer.

— O quê?

— Você tem que ir até lá.

Erika se levantou e acompanhou Malu. Na mesa, havia café e uma torta enorme.

— Pensei em dar um tempinho para a verdadeira festa de despedida — disse Christer Malm. — Por enquanto, vamos nos contentar com torta e café.

Pela primeira vez naquele dia, Erika Berger sorriu.

 

SEXTA-FEIRA 8 DE ABRIL - SÁBADO 9 DE ABRIL

Alexander Zalachenko estava acordado desde as oito da manhã quando Sonja Modig e Marcus Ackerman apareceram, por volta das sete da noite. Passara por uma cirurgia relativamente séria, envolvendo o ajuste e fixação do osso malar com parafusos de titânio. Tinha a cabeça tão enfaixada que apenas o olho esquerdo permanecia visível. Um médico explicou-lhes que a machadada tinha quebrado o osso malar e machucado o frontal, rebentado boa parte da carne do lado direito do rosto e deslocado a órbita ocular. Seus ferimentos eram extremamente dolorosos. Zalachenko estava tomando doses fortes de analgésico, mas ainda assim se mantinha mais ou menos coerente e capaz de falar. A polícia, porém, teria de ficar atenta para não cansá-lo.

— Boa noite, senhor Zalachenko — cumprimentou Sonja Modig. Ela se apresentou, e apresentou seu colega Ackerman.

— Meu nome é Karl Axel Bodin — disse Zalachenko com esforço, entre dentes cerrados. Sua voz estava calma.

— Sei muito bem quem é o senhor. Li o seu currículo na Sapo.

O que não era totalmente verdade, já que a Sapo ainda não havia fornecido nenhum documento sobre Zalachenko.

— Isso foi há muito tempo — disse Zalachenko. — Atualmente, eu sou Karl Axel Bodin.

— Como se sente? — prosseguiu Modig. — Está em condições de conversar?

— Eu gostaria de dar queixa contra a minha filha. Ela tentou me matar.

— Estamos sabendo. Vai haver uma investigação sobre isso, no devido tempo — disse Ackerman. — No momento, temos assuntos mais urgentes para discutir.

— O que é mais urgente que uma tentativa de homicídio?

— Queríamos interrogá-lo a respeito de três homicídios em Estocolmo, no mínimo três homicídios em Nykvarn, além de um seqüestro.

— Eu não sei de nada. Quem é que morreu?

— Senhor Bodin, temos bons motivos para acreditar que o seu sócio, Ronald Niedermann, trinta e sete anos, é o culpado desses crimes — disse Ackerman. — Além disso, na noite passada, o Niedermann matou um policial de Trollháttan,

Sonja Modig ficou um tanto surpresa que Ackerman se rendesse à vontade de Zalachenko e o chamasse de Bodin. Zalachenko virou um pouco a cabeça, de modo a enxergar Ackerman. Sua voz se suavizou.

— Eu... lamento. Não sei das atividades do Niedermann. Quanto a mim, não matei nenhum policial. Em compensação, tentaram me matar na noite passada.

— O Ronald Niedermann está sendo procurado. Tem uma idéia de onde ele pode estar escondido?

— Não sei que círculos ele freqüenta. Eu... — Zalachenko hesitou alguns segundos. Sua voz assumiu um tom confidencial. —Tenho que admitir... cá entre nós... que o Niedermann chegou a me preocupar algumas vezes.

Ackerman inclinou-se um pouco na sua direção.

— Como assim?

— Descobri que ele podia ser violento. E, tenho medo dele.

— Quer dizer que o senhor se sentia ameaçado pelo Niedermann? — perguntou Ackerman.

— Exato. Já sou um homem de idade. Não posso me defender.

— O senhor poderia nos explicar qual a sua relação com o Niedermann?

— Eu sou deficiente físico. — Zalachenko mostrou o pé. — Esta é a segunda vez que a minha filha tenta me matar. Anos atrás, contratei o Niedermann como ajudante. Achei que ele poderia me proteger..., mas, na verdade, ele se apossou da minha vida. Ele faz o que quer e a minha opinião não importa.

— E ele o ajuda no quê? — interrompeu Sonja Modig. — A fazer o que o senhor não consegue fazer sozinho?

Zalachenko fitou demoradamente Sonja Modig com seu único olho visível.

— Pelo que entendi, ela jogou uma bomba incendiaria dentro do seu carro há mais de dez anos — disse Sonja Modig. — Poderia me explicar o que a levou a cometer esse ato?

— Melhor perguntar para a minha filha. Ela é uma doente mental. Sua voz estava mais uma vez hostil.

— Quer dizer que o senhor não vê nenhum motivo para Lisbeth Salander tê-lo atacado em 1991?

— Minha filha é uma doente mental. Existem documentos comprovando isso.

Sonja Modig inclinou a cabeça. Observou que Zalachenko respondia de modo muito mais agressivo e negativo quando era ela quem fazia as perguntas. Percebeu que Ackerman também tinha notado. Certo... o bom tira, o mau tira. Sonja Modig levantou a voz.

— O senhor não acha que esse gesto dela podia estar relacionado com o fato de o senhor maltratar a mãe dela a ponto de ela ter ficado com lesões cerebrais irreversíveis?

Zalachenko fitou calmamente Sonja Modig.

— Isso é besteira. A mãe dela era uma puta. Vai ver, algum cliente deu uma surra nela. Eu só estava passando por ali.

Sonja Modig ergueu as sobrancelhas.

— Quer dizer que o senhor é totalmente inocente?

— Mas é claro.

— Zalachenko... vamos ver se eu entendi direito. O senhor nega, então, ter maltratado sua namorada daquela época, Agneta Sofia Salander, mãe de Lisbeth Salander, embora o assunto merecesse um extenso relatório secreto do seu mentor na Sapo, Gunnar Bjòrck.

— Eu nunca fui condenado pelo que quer que seja. Não fui sequer indiciado. Não tenho culpa dos delírios de um palhaço da polícia secreta. Se tivessem suspeitado de mim, teriam no mínimo me interrogado.

Sonja Modig estava atônita. Zalachenko parecia sorrir por trás das ataduras.

— Portanto eu queria dar um depoimento sobre a minha filha. Ela tentou me matar.

Sonja Modig suspirou.

— Estou começando a entender por que a Lisbeth Salander achou necessário enfiar um machado na sua cara.

Ackerman pigarreou.

— Desculpe, senhor Bodin... A gente talvez pudesse voltar ao que o senhor sabe sobre as atividades do Ronald Niedermann.

Sonja Modig ligou para o inspetor Jan Bublanski do corredor do hospital, em frente ao quarto de Zalachenko.

— Nada — disse ela.

— Nada? — repetiu Bublanski.

— Ele registrou uma queixa contra a Lisbeth Salander, por golpes e ferimentos agravados e tentativa de assassinato. Declara que não tem nada a ver com os homicídios de Estocolmo.

— E como é que ele explica a Lisbeth Salander ter sido enterrada no terreno dele em Gosseberga?

— Diz ele que estava resfriado e dormiu praticamente o dia inteiro. Que se alguém atirou na Salander em Gosseberga, deve ter sido o Ronald Niedermann.

— Certo. O que é que nós temos?

— Ela foi baleada por uma Browning calibre 22. Por isso ainda está viva. Encontramos a arma. O Zalachenko admite que é dele.

— Ahã. Então ele sabe que vamos descobrir as digitais dele na arma.

— Sabe. Mas ele diz que a última vez que a viu ela estava guardada na gaveta da escrivaninha.

— Portanto, o maravilhoso Ronald Niedermann é quem deve ter apanhado a arma enquanto o Zalachenko dormia e atirado na Salander. Temos como provar o contrário?

Sonja Modig refletiu alguns segundos antes de responder.

— Ele deve conhecer a legislação sueca e os métodos da polícia. Não admite nadica de nada e tem o Niedermann como bode expiatório. Não sei o que a gente vai poder provar. Pedi que o Ackerman mandasse a roupa dele para o laboratório, para descobrir se existem vestígios de pólvora, mas ele com toda a certeza vai alegar que andou treinando tiro justamente com essa arma dois dias antes.

Lisbeth Salander sentiu um cheiro de amêndoas e etanol. Era como se estivesse com álcool na boca. Tentou engolir, mas era como se a língua estivesse entorpecida e paralisada. Tentou abrir os olhos, em vão. Ouviu uma voz ao longe que parecia estar falando com ela, porém não foi capaz de captar as palavras. De repente, a voz se tornou clara e precisa.

— Acho que ela está acordando.

Sentiu alguém tocando em sua testa e tentou afastar a mão importuna. Nisso, uma dor fulgurante transpassou-lhe o ombro esquerdo. Ela relaxou.

— Está me ouvindo? Cai fora.

— Consegue abrir os olhos? Quem é esse babaca me perturbando?

Por fim, abriu os olhos. De início só enxergava estranhos pontos luminosos, mas logo uma silhueta desenhou-se em seu campo de visão. Tentou focalizar o olhar, porém a silhueta sumia o tempo todo. Sua impressão era de estar com uma ressaca monumental e de que a cama não parava de jogar para trás.

— Grmlml — fez ela.

— O que você disse?

— Abaca — disse ela.

— Está bem. Dá para abrir os olhos mais uma vez?

Ela exibiu duas frestas estreitas. Avistou um rosto desconhecido e memorizou cada detalhe. Um homem loiro de olhos azuis intensos e um rosto anguloso e oblíquo, a poucas dezenas de centímetros do seu.

— Olá. Meu nome é Anders Jonasson. Eu sou médico. Você está num hospital. Foi gravemente ferida e está acordando depois de uma cirurgia. Você sabe como se chama?

— Pschalandr — disse Lisbeth Salander.

— Certo. Eu queria que você fizesse um favor para mim. Conte até dez.

— Um, dois, quatro... não... três, quatro, cinco, seis... E então caiu no sono.

O Dr. Anders Jonasson, no entanto, estava satisfeito com a reação que observara. Ela dissera o próprio nome e tinha começado a contar. Isso mostrava que seu intelecto estava mais ou menos intacto e que seu estado ao acordar não fora o de um vegetal. Anotou a hora em que ela acordou, 21h06, pouco mais de dezesseis horas depois de ele terminar a cirurgia. Quanto a ele, dormira boa parte do dia e voltara ao Sahlgrenska lá pelas sete da noite. Na verdade, era seu dia de folga, mas estava com uma montanha de papéis para pôr em dia.

E não tinha resistido a dar uma passada na UTI para ver a paciente em cujo cérebro ele remexera de madrugada.

— Ela pode continuar dormindo, mas fiquem de olho no eletroencefalograma. Pode ocorrer algum edema ou hemorragia cerebral. Tive a impressão de que ela estava com muita dor no ombro quando tentou mexer o braço. Se ela acordar, pode dar dois miligramas de morfina de hora em hora.

Sentiu-se estranhamente otimista enquanto saía pela entrada principal do Sahlgrenska.

Pouco antes das duas da manhã, Lisbeth Salander acordou de novo. Abriu os olhos lentamente e avistou um cone luminoso no teto. Passados vários minutos, virou a cabeça e se deu conta de que estava com um colete ortopédico. A cabeça doía e sentiu uma ferroada aguda no ombro quando tentou deslocar o peso do corpo. Fechou os olhos.

Hospital. Como é que eu vim parar aqui?

Sentia-se absolutamente esgotada.

De início, sentiu dificuldade para focalizar os pensamentos. Então, algumas lembranças esparsas foram voltando aos poucos.

Por alguns segundos entrou em pânico quando brotaram uns fragmentos de memória — viu a si mesma cavando para sair de dentro de um túmulo. Então cerrou os dentes com força e se concentrou na respiração.

Constatou que estava viva. Não sabia se isso, na verdade, era uma boa ou uma má notícia.

Lisbeth Salander não se lembrava direito do que havia acontecido, mas tinha na cabeça um mosaico desfocado de imagens do galpão de lenha. Via a si mesma erguendo um machado e acertando no rosto de seu pai. Zalachenko. Não sabia se ele estava vivo ou morto.

Não conseguia se lembrar do que acontecera com Niedermann. Tinha a vaga impressão de haver se espantado ao vê-lo dar no pé a toda velocidade e de não ter entendido por quê.

De repente, se lembrou de ter visto o danado do Super-Blomkvist. Talvez fosse só um sonho, mas se lembrava de uma cozinha — provavelmente a cozinha de Gosseberga — e tinha a impressão de que ele viera em sua direção. Deve ter sido alucinação.

Os acontecimentos de Gosseberga pareciam muito distantes ou então não passavam de um sonho demente. Concentrou-se no atual momento.

Estava ferida. Isso ninguém precisava lhe dizer. Ergueu a mão direita e apalpou a cabeça, inteiramente coberta de ataduras. Então se lembrou. Niedermann. Zalachenko. O velho cretino também estava com uma pistola. Uma Browning calibre 22, que, se comparada com outras armas, era tida como relativamente inofensiva. Só por isso ela ainda estava viva.

Fui atingida na cabeça. Eu até consegui enfiar o dedo no orifício que a bala fez ao entrar e toquei no meu cérebro.

Surpreendeu-se de ainda estar viva. Percebeu que se sentia estranhamente alheia, que na verdade para ela tanto fazia. Se a morte era aquele vazio escuro do qual acabava de emergir, então a morte não era nada preocupante. Nunca iria perceber a diferença.

Com essa reflexão esotérica, fechou os olhos e voltou a adormecer.

Cochilara apenas uns minutos quando escutou um movimento e entreabriu as pálpebras. Viu uma enfermeira vestida de branco debruçando-se sobre ela. Fechou os olhos e fingiu que estava dormindo.

— Acho que você está acordada — disse a enfermeira.

— Hmm — fez Lisbeth Salander.

— Olá, meu nome é Marianne. Você entende o que eu falo? Lisbeth tentou assentir com a cabeça, mas se deu conta de que sua nuca estava imobilizada pelo colete ortopédico.

— Não, não tente se mexer. Não precisa ter medo. Você foi ferida e passou por uma cirurgia.

— Quero água.

Marianne lhe deu água para beber com um canudinho. Enquanto bebia, notou outra pessoa aparecendo à sua esquerda.

— Olá, Lisbeth. Está me ouvindo?

— Mmm — respondeu Lisbeth.

— Sou a doutora Helena Endrin. Você sabe onde está?

— Hospital.

— Você está no Hospital Sahlgrenska, em Gõteborg. Acaba de ser operada e se encontra na UTI.

— Hum.

— Não se assuste.

— Fui baleada na cabeça.

A Dra. Endrin hesitou por um instante.

— Isso mesmo. Você se lembra do que aconteceu?

— O velho cretino estava com uma pistola.

— Hã... sim, foi isso.

— Calibre 22.

— Ah, é? Eu não sabia.

— Estou muito machucada?

— O prognóstico é bom. Você esteve muito mal, mas achamos que tem boas chances de se recuperar completamente.

Lisbeth ponderou a informação. Então fixou o olhar na Dra. Endrin. Notou que via tudo fora de foco.

— O que aconteceu com o Zalachenko?

— Quem?

— O velho cretino. Está vivo?

— Você quer dizer Karl Axel Bodin.

— Não. Quero dizer Alexander Zalachenko. E o verdadeiro nome dele.

— Não estou sabendo. Mas o idoso que deu entrada junto com você está em estado grave, porém fora de perigo.

O coração de Lisbeth bateu com menos força. Ficou pensando nas palavras da médica.

— Onde ele está?

— No quarto ao lado. Mas não se preocupe com ele agora. O que você precisa fazer é se concentrar na sua recuperação.

Lisbeth fechou os olhos. Por um momento, perguntou-se se teria forças para sair da cama, encontrar alguma coisa que pudesse servir de arma e acabar o que tinha começado. Então afastou esses pensamentos. Mal conseguia manter os olhos abertos. Ou seja, havia fracassado em seu propósito de matar Zalachenko. Ele vai me escapar mais uma vez.

— Eu queria examiná-la um pouco. Depois você pode dormir de novo — disse a Dra. Endrin.

Mikael Blomkvist acordou de repente, sem saber por quê. Levou alguns segundos para se dar conta de onde estava, então se lembrou que tinha se hospedado num quarto do City Hotel. O quarto estava totalmente às escuras. Ele acendeu a luz de cabeceira e olhou as horas. Duas e meia da manhã. Tinha dormido quinze horas direto.

Levantou-se e foi ao banheiro urinar. Depois, refletiu um momento. Sabia que não conseguiria dormir de novo e foi para o chuveiro. Em seguida, enfiou uma calça jeans e um moletom cor de vinho que precisava urgentemente passar por uma máquina de lavar. Estava com uma fome de leão e ligou para a recepção perguntando se era possível conseguir café e sanduíches àquela hora. Era.

Pôs os mocassins e o casaco, desceu até a recepção para comprar café e um sanduíche pronto, e voltou em seguida para o quarto. Enquanto comia o pão com patê de fígado e salada, ligou o iBook e se conectou à rede. Abriu a edição on-line do Aftonbladet. Como era de se prever, a principal manchete falava da prisão de Lisbeth Salander. Embora extremamente confusa, a matéria da primeira página agora estava na direção certa. Ronald Niedermann, trinta e sete anos, era procurado pelo assassinato do policial, e a polícia também queria ouvi-lo sobre os homicídios de Estocolmo. A polícia ainda não se pronunciara sobre o estado de Lisbeth Salander nem citava o nome Zalachenko. Este último era descrito como um proprietário rural de sessenta e seis anos, residente em Gosseberga; aparentemente, a mídia ainda o tratava como uma possível vítima.

Quando, ao terminar a leitura, Mikael pegou seu celular, viu que tinha vinte mensagens. Três pedindo que ele ligasse para Erika Berger. Duas eram de Annika Giannini. Catorze tinham sido deixadas por jornalistas de diversos veículos. Uma das mensagens de texto, bastante incisiva, era de Christer Malm: Seria bom você voltar no primeiro trem.

Mikael franziu o cenho. Vinda de Christer Malm, era uma mensagem estranha. Fora enviada às sete da noite do dia anterior. Resistiu ao impulso de ligar e acordar alguém às três da manhã. Em vez disso, verificou o horário de trens na internet e viu que o primeiro para Estocolmo saía às 5h20.

Abriu um novo arquivo Word. Então acendeu um cigarro e ficou uns três minutos parado, fitando a tela branca. Por fim, levantou os dedos e se pôs a escrever.

[Seu nome é Lisbeth Salander e a Suécia aprendeu a conhecê-la através das entrevistas coletivas da polícia e das manchetes dos jornais vespertinos. Tem vinte e sete anos e um metro e cinqüenta de altura. Foi descrita como uma psicopata, uma assassina e uma lésbica satânica. Não houve limites para as elucubrações tecidas às suas custas. Neste número, a Millennium relata a história de Lisbeth Salander, vítima das maquinações de funcionários do Estado com o intuito de acobertar um assassino patológico.]

Escreveu devagar e pouco corrigiu daquele primeiro jorro. Trabalhou concentrado por cinqüenta minutos e nesse espaço de tempo preencheu duas páginas A4 basicamente dedicadas à recapitulação da noite em que encontrara os corpos de Dag Svensson e Mia Bergman e à explicação para o fato de a polícia ter apontado Lisbeth Salander como a possível assassina. Citava as manchetes dos jornais vespertinos que evocaram lésbicas satânicas e esperavam assassinatos tingidos de um saboroso sadomasoquismo.

Por fim, consultou o relógio e fechou rapidamente o iBook. Arrumou sua sacola e desceu até a recepção. Pagou com o cartão de crédito e tomou um táxi para a estação central de Gõteborg.

Mikael Blomkvist dirigiu-se imediatamente ao vagão-restaurante e pediu um café da manhã. Em seguida, tornou a ligar o iBook e releu o texto que tivera tempo de escrever naquelas primeiras horas do dia. Estava a tal ponto imerso na concepção da história de Zalachenko que só percebeu a presença da inspetora Sonja Modig quando ela pigarreou e perguntou se podia juntar-se a ele. Mikael ergueu os olhos e fechou o computador.

— Está voltando para casa? — perguntou Modig. Ele fez que sim com a cabeça.

— Você também, imagino. Ela fez que sim com a cabeça.

— O meu colega vai ficar mais um dia.

— Alguma notícia sobre o estado da Lisbeth Salander? Eu só fiz dormir desde que nos separamos.

— Ela só acordou ontem à noite. Mas os médicos calculam que ela vai sair dessa e se recuperar. Teve uma sorte incrível.

Mikael assentiu com a cabeça. De repente se deu conta de que não tinha se preocupado com ela. Partira do princípio de que ela iria sobreviver. Qualquer outra hipótese era inimaginável.

— Alguma novidade? — perguntou.

Sonja Modig hesitou enquanto olhava para ele. Perguntava-se até que ponto podia confiar no jornalista, que na verdade sabia mais do que ela sobre aquela história. Por outro lado, ela é que se convidara para sentar à mesa dele, e uma centena de jornalistas decerto já tinha entendido o que estava acontecendo na chefatura de polícia.

— Prefiro que não mencione o meu nome — disse ela.

— Perguntei por interesse puramente pessoal.

Ela assentiu com a cabeça e explicou que a polícia estava procurando Ronald Niedermann em todo o território nacional, mas principalmente na região de Malmò.

— E o Zalachenko? Vocês o interrogaram?

— Interrogamos.

— E?

— Isso eu não posso dizer.

— Deixa disso, Sonja. Eu vou descobrir tudo o que vocês conversaram uma hora depois de chegar à redação em Estocolmo. E não vou escrever nenhuma palavra do que você me disser.

Ela hesitou um bocado antes de cruzar o olhar com o dele.

— Ele registrou uma queixa contra a Lisbeth Salander de que ela teria tentado matá-lo. Ela talvez seja indiciada por golpes e ferimentos agravados mais tentativa de homicídio.

— E ela, muito provavelmente, vai alegar legítima defesa.

— É o que eu espero — disse Sonja Modig. Mikael lançou-lhe um olhar brusco.

— Essa não é uma observação que se espere de um policial — ele disse, em tom neutro.

— O Bodin... o Zalachenko, ele é escorregadio e tem resposta para todas as perguntas. Estou absolutamente convencida de que tudo que você nos contou ontem, de modo geral, é verdade. Isso significa que a Salander foi vítima de abusos judiciais seguidos desde os doze anos.

Mikael assentiu com a cabeça.

— Essa é a história que eu vou publicar — disse.

— E que não vai ser bem recebida em alguns círculos. Ela hesitou mais um instante. Mikael esperou.

— Falei com o Bublanski há meia hora. Ele não disse muito, mas o inquérito preliminar sobre a Salander em relação aos seus amigos parece ter sido abandonado. Eles agora estão se concentrando no Niedermann.

— Isso quer dizer...

Ele deixou a pergunta suspensa entre eles. Sonja Modig deu de ombros.

— Quem vai ficar encarregado da investigação sobre a Salander?

— Não sei. O pessoal de Gõteborg provavelmente tenha prioridade no caso Gosseberga. Mas eu diria que é para alguém de Estocolmo que vai ficar a tarefa de reunir todo o material para um indiciamento.

— Entendo. Você quer apostar como a investigação vai ser transferida para a Sapo?

Ela balançou a cabeça.

Pouco antes de chegar a Alingsâs, Mikael inclinou-se para ela.

— Sonja... imagino que você esteja percebendo o que nos espera. Caso a história do Zalachenko se torne pública, vai ser um enorme escândalo. Membros da Sapo armaram com um psiquiatra para internar a Salander num asilo de doidos. A única saída para eles é fincar pé na versão de que Lisbeth Salander é de fato uma doente mental e que a internação compulsória de 1991 se justificava.

Sonja Modig aquiesceu.

— Vou fazer de tudo para pôr areia num plano desse tipo. Quer dizer, a Lisbeth Salander é tão equilibrada como eu ou você. Tudo bem, ela é esquisita, mas não se pode pôr em dúvida a capacidade intelectual dela.

Sonja Modig assentiu com a cabeça. Mikael fez uma pausa, dando tempo para que suas palavras fossem assimiladas.

— Eu precisaria de alguém de confiança lá dentro — disse ele. Ela o encarou.

— Não tenho competência para determinar se a Lisbeth Salander é psiquicamente perturbada — ela respondeu.

— Não, mas tem competência para avaliar se ela está sendo, ou não, vítima de abuso judicial.

— O que você sugere?

— Não vou pedir que você denuncie seus colegas, mas que me avise se perceber que estão tramando para expor a Salander a mais um abuso judicial.

Sonja Modig permaneceu calada.

— Não quero que você me revele nenhum detalhe técnico da investigação. Isso você é quem decide. Mas preciso saber em que pé está a ação judicial contra a Salander.

— Parece um ótimo jeito de ser mandada embora.

— Você é uma fonte. Não vou te citar nem te botar numa encrenca. Pegou um caderninho e anotou um endereço de e-mail.

— Este é um endereço anônimo no hotmail. Você pode usar, caso queira me dizer alguma coisa. De preferência, não use seu endereço habitual, o que todo mundo conhece. Crie um endereço temporário no hotmail.

Ela apanhou o pedaço de papel e o enfiou no bolso interno do casaco. Não prometeu nada.

Às sete da manhã de sábado, o inspetor Marcus Ackerman foi acordado pelo toque do telefone. Ouviu vozes na televisão e sentiu cheiro de café na cozinha, onde sua mulher já estava em atividade. Chegara à sua casa em Mõlndal à uma da manhã e dormira cinco horas. Antes disso, atuara a todo vapor por exatamente vinte e duas horas. Estava longe, portanto, de ter preenchido sua cota de sono quando se esticou para atender o telefone.

— Oi, é o Lundqvist, do serviço de investigações, plantão noturno. Está acordado?

— Não — respondeu Ackerman. — Mal tive tempo de pegar no sono. O que foi?

— Novidades. Encontraram Anita Kaspersson.

— Onde?

— Perto de Seglora, ao sul de Borâs. Ackerman visualizou o mapa mentalmente.

— Direção sul — disse. — Ele está passando por estradas secundárias. Deve ter pegado a nacional 180 via Borâs, e depois virou para o sul. Malmõ já foi avisada?

— Sim, e também Helsingborg, Landskrona e Trelleborg. E Karlskrona. Estou pensando nas balsas do mar Báltico.

Ackerman se levantou e esfregou a nuca.

— Ele está com quase vinte e quatro horas de dianteira. De repente, até já deixou o país. Como é que encontraram a Kaspersson?

— Ela bateu à porta de uma casa na entrada de Seglora.

— O quê?

— Ela bateu...

— Eu escutei. Quer dizer que ela está viva?

— Desculpe. Estou cansado e devo estar me expressando meio mal. Anita Kaspersson conseguiu chegar a Seglora às 3hl0. Ela acordou e assustou uma família com crianças pequenas ao bater na porta da casa. Estava descalça, com uma hipotermia avançada e as mãos atadas nas costas. Nesse momento está no hospital de Borâs, e o marido já está lá com ela.

— Veja só. Acho que ninguém aqui acreditava que ela ainda estivesse viva.

— Às vezes acontece uma surpresa.

— E das boas, ainda por cima.

— Então já posso te dar as más notícias. A adjunta do chefe de polícia, a senhora Spângberg, está aqui desde as cinco da manhã. Ela pediu que você acordasse imediatamente e fosse até Borâs pegar o depoimento da Kaspersson.

Como era sábado de manhã, Mikael imaginou que a redação da Millennium estivesse deserta. Ligou para Christer Malm enquanto o X2000 atravessava a ponte de Arsta e perguntou o que havia por trás da sua mensagem de texto.

— Você já tomou café da manhã? — perguntou Christer Malm.

— Tomei, no trem.

— Certo. Venha até a minha casa, vou te oferecer algo mais consistente.

— O que está havendo?

— Eu conto quando você chegar.

Mikael pegou o metrô até a Medborgarplatsen, e de lá foi a pé até a Allhelgonagatan. O companheiro de Christer, Arnold Magnusson, foi quem abriu a porta. Por mais que tentasse evitar, sempre que o via Mikael tinha a sensação de estar diante de uma publicidade. Arnold Magnusson passara pelo Teatro Dramaten e era um dos atores mais requisitados da Suécia. Estar diante dele era sempre perturbador. Em geral, Mikael não se impressionava com celebridades, mas Arnold Magnusson tinha uma aparência de fato singular e estava tão associado a alguns papéis do cinema e da tevê, principalmente o de Gunnar Frisk, delegado mal-humorado de uma série de televisão muito popular, que Mikael sempre esperava que ele se comportasse exatamente como Gunnar Frisk.

— Oi, Micke — disse Arnold.

— Oi — respondeu Mikael.

— Ele está na cozinha — disse Arnold, dando-lhe passagem. Christer Malm serviu filhos quentes com geléia de amora amarela e café.

Mikael já estava com água na boca antes mesmo de se sentar, por isso atacou o prato. Christer Malm quis saber o que tinha acontecido em Gosseberga, e Mikael recapitulou tudo com detalhes. Estava no terceiro filho quando perguntou o que estava rolando.

— Tivemos um probleminha na Millennium quando você estava em Gõteborg — disse ele.

Mikael ergueu as sobrancelhas.

— O que foi?

— Nada sério. Só que a Erika Berger virou redatora-chefe do Svenska Moron-Posten. Ontem foi o último dia dela na Millennium.

Mikael ficou paralisado, com um filho na mão a vinte centímetros da boca. Levou vários segundos para assimilar o real significado da informação.

— Por que ela não disse nada antes? — perguntou, afinal.

— Porque ela queria primeiro falar com você, e você tem corrido de lá para cá há várias semanas e ninguém conseguia te contatar. Ela deve ter achado que você já tinha problemas suficientes com essa história da Salander. E como queria que você fosse o primeiro à saber, também não contou nada pra gente, e os dias foram se passando... E isso. De repente, ela se viu com um puta sentimento de culpa e estava super deprimida. E a gente simplesmente nem percebeu.

Mikael fechou os olhos.

— Merda — disse ele.

— Eu sei. No fim, você foi o último da redação a ficar sabendo. Fiz questão de te contar para poder explicar como as coisas aconteceram e para você não pensar que agimos pelas suas costas.

— Nem me ocorreu uma coisa dessas. Mas puxa vida! E muito legal para ela ter conseguido esse emprego, isso se ela estiver mesmo a fim de trabalhar no SMP... E nós? Como é que a gente vai descascar esse abacaxi na redação?

— A Malu foi nomeada redatora-chefe temporária, e ela começa na próxima edição.

— A Malu?

— Se você não quiser ser o redator-chefe...

— Nem pensar!

— Foi o que eu imaginei. Logo, a Malu assume o cargo.

— E quem vai ser o assistente de redação?

— O Henry Cortez. Faz quatro anos que ele trabalha conosco e já não é exatamente um estagiário balbuciante.

Mikael avaliou todas as sugestões.

— Posso dar uma opinião? — perguntou.

— Não — disse Christer Malm.

— Certo. Vai ser como vocês decidiram. A Malu não é de se assustar, mas é meio insegura. O Henry atira a esmo em tudo que se movimenta um pouco além da conta. Vamos ter que ficar de olho neles.

— Isso.

Mikael se calou. Pensou no vazio que Erika iria deixar; ele não fazia idéia de como seria a revista dali para a frente.

— Preciso ligar para a Erika e...

— Não é uma boa idéia.

— Por quê?

— Ela está dormindo na redação. O melhor seria ir até lá acordá-la.

Mikael encontrou Erika Berger na redação, profundamente adormecida no sofá-cama de sua sala. Tinha passado a noite tirando objetos pessoais das prateleiras e gavetas e separando os papéis que queria levar. Enchera cinco caixas de mudança. Mikael ficou um bom tempo contemplando-a da porta antes de entrar e sentar-se na beira do sofá para acordá-la.

— Você pode me explicar por que, quando quer passar a noite trabalhando, não vai dormir na minha casa, que é aqui pertinho? — perguntou ele.

— Oi, Mikael — disse ela.

— O Christer já me contou.

Ela começou a falar alguma coisa, mas ele se inclinou e deu-lhe um beijo no rosto.

— Você está chateado?

— Super chateado — ele disse, seco.

— Sinto muito. Eu simplesmente não podia recusar essa proposta. Mas não me parece certo, tenho a sensação de estar deixando vocês numa encrenca daquelas aqui na Millennium.

— Não acho que eu seja a pessoa certa para criticar você por abandonar o navio. Há dois anos, fui embora e te deixei numa encrenca bem pior do que esta de agora.

— São situações muito diferentes. Você estava dando um tempo. Já eu estou me demitindo pra valer e não contei a vocês. Sinto muito, de verdade.

Mikael ficou um instante em silêncio. Então exibiu um sorriso pálido.

— Quando chega a hora, é porque é a hora. Quando uma mulher recebe uma missão, ela tem que cumpri-la. Às suas ordens, meu coronel!

Erika sorriu. Era mais ou menos o que ela tinha dito a ele quando Mikael fora morar em Hedeby. Ele estendeu a mão e despenteou-lhe carinhosamente o cabelo.

— Entendo que você não queira mais trabalhar nesta empresa de malucos, mas você querer virar chefe no jornal dos velhos babacas mais medíocres da Suécia, isso eu ainda vou levar um tempo para digerir.

— Tem um bocado de mulheres trabalhando lá.

— Que nada! Dê uma olhada no editorial. Velharia, só velharia. Você por acaso é masoquista? Vamos tomar um café?

Erika se sentou.

— Você precisa me contar o que aconteceu em Gõteborg na outra noite.

— Estou escrevendo a matéria — disse Mikael. — E vai ser uma guerra depois que a gente publicar.

— A gente, não. Quando vocês publicarem.

— Eu sei. Vamos publicar na mesma época do julgamento. Mas imagino que você não vá levar o assunto para o SMP. A verdade é que eu queria que você escrevesse alguma coisa sobre o caso Zalachenko antes de sair da Millennium.

— Micke, eu...

— O seu último editorial. Você pode escrever quando quiser. Não deve ser publicado antes do julgamento, e só Deus sabe quando isso vai ser.

— Talvez não seja uma boa idéia. Sobre o que seria esse editorial?

— Sobre a moral — disse Mikael Blomkvist. — E sobre o fato de um dos nossos colaboradores ter sido assassinado porque o Estado não cumpriu seu papel há quinze anos.   •

Nem era preciso explicar mais nada. Erika Berger sabia muito bem que tipo de editorial ele queria. Refletiu rápido. Afinal, ela estava no comando no dia em que Dag Svensson tinha sido assassinado. De repente, sentiu-se muito melhor.

— Está bem — disse. — Meu último editorial.

 

SÁBADO 9 DE ABRIL - DOMINGO 10 DE ABRIL

À uma da tarde de sábado, a procuradora Martina Fransson, de Sõdertalje, concluíra suas reflexões. O cemitério natural na floresta de Nykvarn era uma encrenca bem feia e a área criminal já somara uma quantidade incrível de horas extras desde a quarta-feira, quando Paolo Roberto travara sua luta de boxe contra Ronald Niedermann no armazém. Estavam diante do homicídio de pelo menos três pessoas, cujos corpos haviam sido enterrados no terreno, um seqüestro com uso de violência seguido de golpes e ferimentos agravados contra Miriam Wu, amiga de Lisbeth Salander, e por fim um incêndio criminoso. Também tinham que associar Nykvarn ao incidente de Stallarholmen, que não se situava no mesmo distrito policial, mas do qual Carl-Magnus Lundin, do MC Svavelsjõ, era figura-chave. No momento, Lundin estava no hospital de Sõdertãlje com um pé engessado e uma placa de metal no maxilar. De qualquer forma, todos esses crimes estavam sob a autoridade da polícia local, o que significava que Estocolmo é que daria a palavra final.

Na sexta-feira, haviam deliberado acerca da expedição das ordens de prisão. Lundin estava ligado a Nykvarn, isso era certo. Com algum atraso, conseguiram estabelecer que o armazém era propriedade de uma certa Anneli Karlsson, de cinqüenta e dois anos, residente em Puerto Banus, na Espanha.

Era prima de Magge Lundin, não tinha ficha na polícia e, nesse contexto, parecia cumprir, sobretudo, o papel de testa de ferro.

Martina Fransson fechou a pasta do inquérito preliminar. A instrução estava em seu estágio inicial e ainda seria alimentada com várias centenas de páginas antes de resultar num processo. Mas Martina Fransson precisava desde já tomar uma decisão sobre alguns pontos. Olhou para seus colegas policiais.

— Temos material suficiente para abrir uma ação judicial contra Lundin por cumplicidade no seqüestro de Miriam Wu. Paolo Roberto o identificou como o motorista do furgão. Também vou detê-lo por provável cumplicidade no incêndio criminoso. Sobre as acusações de cumplicidade no homicídio das três pessoas desenterradas no terreno, vamos esperar pelo menos até todas serem identificadas.

Os policiais assentiram com a cabeça. Não esperavam outra coisa.

— E quanto ao Benny Nieminen, a gente faz o quê?

Martina Fransson folheou os documentos sobre sua mesa até encontrar o do Nieminen.

— Esse senhor tem um currículo impressionante. Roubo a mão armada, posse ilegal de arma, agressões de todo tipo, homicídio e infrações ligadas a drogas. E desse modo ele foi preso em Stallarholmen, junto com Lundin. Estou convencida de que ele está envolvido nisso tudo — o contrário seria surpreendente. O problema é que não temos nada contra ele.

— Ele afirma que nunca esteve no armazém de Nykvarn, que só estava dando uma volta de moto com o Lundin — disse o inspetor criminal de Sõdertãlje encarregado de Stallarholmen. — Diz que desconhecia totalmente o que o Lundin ia fazer em Stallarholmen.

Martina Fransson se perguntou se não haveria um jeito de repassar o caso para o procurador Richard Ekstrõm, de Estocolmo.

— Nieminen se recusa a contar o que aconteceu, mas nega veementemente ser cúmplice de um crime — prosseguiu o inspetor criminal.

— É, daqui a pouco nós vamos achar que ele e o Lundin é que são as vítimas de Stallarholmen — disse Martina Fransson tamborilando com os dedos, irritada. — Lisbeth Salander — acrescentou, deixando transparecer uma dúvida na voz. — Estamos falando de uma jovem que aparenta ter mal e mal passado da puberdade, mede um metro e cinqüenta e certamente não possui força física para dominar Nieminen e Lundin.

— A menos que estivesse armada. Com uma pistola, ela pode compensar as desvantagens do físico de passarinho que tem.

— Mas isso não bate totalmente com a reconstituição.

— Não. Ela usou gás lacrimogêneo e deu uns pontapés no meio das pernas e no rosto do Lundin com tamanha fúria que rebentou um testículo dele e quebrou seu maxilar. A bala no pé deve ter sido disparada depois. Mas custo a acreditar que ela é que estivesse armada.

— O laboratório identificou a arma que acertou o Lundin. Trata-se de uma Wanad P-83 polonesa, com munição Makarov. Foi encontrada em Gosseberga, próximo a Gõteborg, e traz as impressões digitais da Salander. É bem possível que ela tenha levado a pistola para Gosseberga.

— Sim. Mas o número de série mostra que ela foi roubada há quatro anos durante o assalto ao depósito de armas de Orebro. O ladrão acabou sendo preso, mas já tinha se livrado das armas. Era um talento ali da região, com problemas de drogas e que atuava em círculos próximos ao MC Svavelsjó. Estou tendendo a achar que a pistola era do Lundin ou do Nieminen.

— Pode ser simplesmente que o Lundin estivesse com a pistola, a Salander tentou pegar a arma e ela disparou sozinha, atingindo o pé dele. Seja como for, não houve intenção de matar, já que ele continua vivo.

— Ou então ela atirou no pé por puro sadismo. Sei lá! Mas como é que ela conseguiu dar conta do Nieminen? Ele não tem nenhum machucado aparente.

— Tem, sim, uma coisinha. Duas queimaduras pequenas no peito.

— E?

— Parece marca de cassetete elétrico.

— Quer dizer que a Salander estaria armada com um cassetete elétrico, gás lacrimogêneo e uma pistola. Quanto pesa tudo isso? Não, acho que foi o Lundin ou o Nieminen que trouxe a arma e ela conseguiu desarmá-los. Só vamos saber exatamente como o Lundin levou o tiro quando um dos protagonistas resolver falar.

— Certo.

— A situação é a seguinte: Lundin está cumprindo prisão temporária pelas acusações que já mencionei. Em compensação, não temos absolutamente nada contra o Nieminen. Vou ser obrigada a soltá-lo hoje à tarde.

Benny Nieminen estava com um humor detestável quando saiu da cela da carceragem da chefatura de polícia de Estocolmo. Estava também com sede, a ponto de parar imediatamente numa tabacaria para comprar uma Pepsi, que ele entornou num gole só. Comprou também um maço de Lucky Strike e um pacote de rape. Pegou o celular, conferiu o estado da bateria e em seguida digitou o número de Hans-Ake Waltari, trinta e três anos e número três na hierarquia do MC Svavelsjó. Ouviu o telefone tocar quatro vezes antes de Waltari atender.

— Nieminen. Estou fora.

— Parabéns.

— Onde você está?

— Em Nykõping.

— Fazendo o que em Nykõping?

— Quando você e o Magge foram presos, a gente achou melhor se encolher um pouco até ter uma idéia melhor da situação.

— Agora você já sabe qual é. Onde está todo mundo?

Hans-Ake Waltari explicou onde estavam os outros cinco membros do MC Svavelsjõ. A explicação não bastou para acalmar ou contentar Benny Nieminen.

— E quem está tocando o barco enquanto vocês ficam escondidos que nem mulherzinha?

— Não é justo. Você e o Magge somem para fazer um serviço, a gente nem desconfia do que se trata, e de repente vocês estão envolvidos num tiroteio com essa piranha que está com a polícia sueca toda atrás dela, o Magge leva um tiro e você vai para o xadrez. E, para completar, os tiras estão desenterrando uns presuntos no armazém de Nykvarn.

— Sim, e daí?

— Daí que a gente começou a se perguntar se você e o Magge não estavam escondendo alguma coisa.

— Escondendo o quê? Não é a gente que consegue os negócios para o grupo?

— Mas eu nunca ouvi dizer que o armazém também era um cemitério escondido no meio do mato. Quem são esses presuntos?

Benny Nieminen estava com uma resposta cortante na ponta da língua, mas se conteve. Hans-Ake Waltari era um perfeito idiota, porém a situação não era das mais propícias para começar uma briga. Tinham que agir depressa para consolidar as forças. Depois de passar por cinco interrogatórios em que negara absolutamente tudo, seria pouco esperto de sua parte sair clamando num celular, a duzentos metros da delegacia, que ele estava, afinal, por dentro do caso.

— Sei lá — disse. — Não dá bola para esses presuntos. Mas o Magge está encrencado. Vai ficar um bom tempo preso, e na ausência dele quem manda sou eu.

— Tudo bem. E quais são os próximos passos? — perguntou Waltari.

— Se vocês todos estão escondidos, quem está vigiando o local?

— O Danny Karlsson ficou por lá para controlar as posições. A polícia fez uma blitz no dia que vocês foram presos. Não acharam nada.

— O Danny K.! — exclamou Nieminen. — Mas o Danny K. é um novatozinho de merda, um fedelho ranhento!

— Fica frio. Ele está com o loirinho, sabe, o cara que você e o Magge às vezes levam com vocês.

Benny Nieminen gelou de repente. Deu uma rápida olhada ao redor e se afastou alguns metros da porta da tabacaria.

— O que foi que você disse? — perguntou em voz baixa.

— Sabe aquele loiro idiota que você e o Magge encontram de vez em quando? Ele apareceu pedindo ajuda para achar um esconderijo.

— Puta que pariu, Waltari, ele está sendo procurado no país inteiro pelo assassinato de um tira.

— E... por isso ele precisava de um esconderijo. O que a gente podia fazer? E um brother seu e do Magge.

Benny Nieminen fechou os olhos por uns dez segundos. Ronald Niedermann tinha passado muitos serviços e dado lucros enormes ao MC Svavelsjõ por vários anos. Mas não era um amigo, de jeito nenhum. Era um canalha perigoso e um psicopata, e ainda por cima um psicopata procurado a ferro e fogo pela polícia. Benny Nieminen não confiaria um segundo sequer em Ronald Niedermann. O melhor seria que ele fosse encontrado com uma bala na cabeça. No mínimo, daria uma acalmada no ânimo dos tiras.

— E o que vocês fizeram com ele?

— O Danny K. está cuidando disso. Levou ele até o Viktor.

Viktor Gõransson era o tesoureiro e contador do clube, morava para os lados de Jãrna. Gõransson tinha um diploma profissionalizante em economia e começara a carreira como consultor financeiro de um iugoslavo que reinava em alguns cabarés, até o bando todo ser preso por sonegação fiscal. Conheceu Magge Lundin na prisão de Kumla, no início dos anos 1990. Era o único do MC Svavelsjõ que sempre andava de terno e gravata.

— Waltari, você pega o caixa e vem se encontrar comigo em Sõdertãlje. Me procure em frente à estação ferroviária do subúrbio daqui a quarenta e cinco minutos.

— Tá bom, tá bom. Por que tanta pressa?

— Porque eu tenho que assumir o controle da situação o quanto antes.

Hans-Ake Waltari observava disfarçadamente Benny Nieminen, que mantinha um silêncio emburrado enquanto rodavam para Svavelsjõ. Ao contrário de Magge Lundin, Nieminen não era uma pessoa simpática. Era bonito e parecia doce, mas na verdade tinha pavio curto e sabia ser um bocado perigoso, principalmente depois de tomar umas e outras. No momento estava sóbrio, mas Waltari estava um pouco preocupado com a idéia de que Nieminen ia assumir o comando. Magge sempre soubera, de um jeito ou de outro, acalmar o jogo de Nieminen. Perguntava-se o que viria pela frente com Nieminen como presidente temporário do clube.

Danny K. não se encontrava no local. Nieminen tentou ligar duas vezes para o celular dele, mas não obteve resposta.

Foram para a casa de Nieminen, a um bom quilômetro do clube. Também lá a polícia realizara uma busca, mas não achara nada que servisse para a investigação sobre Nykvam. Sem nada do que ser acusado, Nieminen estava livre.

Tomou um banho e trocou de roupa enquanto Waltari esperava pacientemente na cozinha. Depois, caminharam cento e cinqüenta metros pelo mato atrás da casa de Nieminen e destaparam um baú superficialmente enterrado ali que continha seis armas, incluindo um AK-5, uma boa quantidade de munição e dois quilos de explosivos. Era o estoquezinho particular de Nieminen. Duas armas do baú eram Wanad P-83 polonesas. Pertenciam ao mesmo lote da pistola que Lisbeth Salander surrupiara de Nieminen em Stallarholmen.

Nieminen afastou Lisbeth Salander da mente. Aquele era um assunto delicado. Na cela da carceragem, em Estocolmo, repassara com freqüência a cena em que ele e Magge Lundin chegavam à casa de campo de Nils Bjurman e deparavam com Salander no pátio.

A seqüência dos acontecimentos fora absolutamente inesperada. Ele e Magge Lundin tinham ido lá pôr fogo na casa por ordem daquele maldito gigante loiro. E toparam com a piranha da Lisbeth Salander — sozinha, um metro e meio e um palito de magra. Nieminen se perguntava quanto ela pesava. De repente, as coisas tinham desandado numa orgia de violência para a qual nenhum dos dois estava preparado.

De um ponto de vista meramente técnico, ele conseguia entender a seqüência. Salander tinha esvaziado um cartucho de gás lacrimogêneo na cara de Magge Lundin. Magge deveria ter esperado por isso, mas não foi o caso. Ela então lhe desfechara dois pontapés, e para quebrar um maxilar não é preciso ter muita força muscular. Ela o pegara de surpresa. Dava para entender.

Mas aí ela atacara a ele, Benny Nieminen, o homem que os caras sarados pensavam duas vezes antes de provocar. Ela se movia com uma rapidez incrível. Ele tivera dificuldades para pegar a arma. Ela o esmagara com a humilhante facilidade de quem está simplesmente enxotando um mosquito com a mão. Tinha um cassetete elétrico. Tinha...

Quando acordou, não se lembrava de quase nada, Magge Lundin levara uma bala no pé e a polícia estava a caminho. Depois de alguma discussão entre a polícia de Stãngnás e a de Sõdertãlje, fora parar na cadeia de Sõdertãlje. E a pilantra ainda havia roubado a Harley Davidson do Magge Lundin. Tinha recortado, na jaqueta dele, o logo do MC Svavelsjõ — o mesmo símbolo que, nos botecos, fazia as pessoas se afastarem e conferia um prestígio que o sueco comum não podia entender. Ela o humilhara.

De repente, Benny Nieminen começou a ferver por dentro. Permanecera calado durante os interrogatórios. Jamais poderia contar o que tinha acontecido em Stallarholmen. Até então, Lisbeth Salander não significava absolutamente nada para ele. Era só um projetinho secundário de que Magge Lundin estava tratando — a pedido, mais uma vez, do maldito Niedermann.

Mas agora nutria por ela um ódio apaixonado que o surpreendia. Ele em geral era frio e lúcido, ao passo que agora só pensava em ter, qualquer dia, a oportunidade de se vingar e apagar a vergonha. Mas primeiro precisava pôr ordem no caos em que a Salander e o Niedermann, juntos, tinham lançado o MC Svavelsjõ.

Nieminen pegou duas pistolas polonesas que ainda estavam no baú, carregou-as e entregou uma para Waltari.

— Você tem algum plano?

— Vamos ter uma conversinha com o tal Niedermann. Ele não é dos nossos e nunca foi preso. Não sei como vai reagir se for pego, mas se ele abrir a boca pode acabar com a gente. Íamos todos em cana rapidinho.

— Quer dizer que a gente vai...

Nieminen já tinha decidido eliminar Niedermann, mas percebeu que não era hora de assustar Waltari.

— Não sei. Vamos ver qual é a dele. Se ele tiver um plano e puder se mandar logo para fora do país, a gente pode dar uma mãozinha. Mas enquanto ele estiver correndo o risco de ser preso, vai representar uma ameaça para a gente.

O sítio de Viktor Gõransson, próximo de Jãrna, estava às escuras quando, ao entardecer, Nieminen e Waltari entraram no pátio. Isso em si já parecia um mau sinal. Ficaram esperando algum tempo no carro.

— Talvez eles tenham saído — sugeriu Waltari.

— Tudo a ver. Eles podem ter ido até o boteco tomar um trago com o Niedermann — disse Nieminen, abrindo a porta do carro.

A porta da casa não estava trancada. Nieminen acendeu a luz. Passaram por todos os cômodos. Estava tudo limpo e arrumado, provavelmente graças à mulher com quem o Gõransson vivia.

Deram com Gõransson e sua companheira no porão, jogados na lavanderia.

Nieminen se inclinou e observou os cadáveres. Estendeu o dedo e encostou na mulher, cujo nome não lembrava. Estava gelada e rígida. Isso significava que podiam estar mortos havia umas vinte e quatro horas.

Nieminen não precisava do parecer de um médico-legista para saber como eles tinham morrido. O pescoço da mulher havia se partido quando a cabeça dela foi girada cento e oitenta graus. Vestia jeans e camiseta e não aparentava nenhum outro ferimento.

Já Viktor Gõransson estava apenas de cueca. Fora seriamente espancado e seu corpo estava coberto de ferimentos e hematomas. Os dois braços tinham sido quebrados e apontavam em várias direções, feito galhos tortos de pinheiro. Sofrerá maus-tratos prolongados que só podiam ser qualificados como tortura. Até onde Nieminen podia avaliar, fora enfim morto com um forte golpe na garganta. A laringe estava afundada no pescoço.

Benny Nieminen se levantou, subiu a escada do porão e saiu da casa. Waltari foi atrás dele. Nieminen atravessou o pátio e seguiu até a granja a cinqüenta metros dali. Soltou a tranca e abriu a porta.

Deparou com um Renault azul-escuro.

— Qual é o carro do Gõransson? — perguntou.

— Ele anda com um Saab.

Nieminen assentiu com a cabeça. Tirou as chaves do bolso e abriu uma porta no fundo da granja. Uma olhada rápida lhe informou que chegara tarde demais. Um armário pesado onde se guardavam as armas estava aberto de par em par.

Nieminen fez uma careta.

— Pouco mais de oitocentas mil coroas — disse.

— O quê?

— Pouco mais de oitocentas mil coroas é o que o MC Svavelsjõ tinha neste armário. A nossa grana.

Três pessoas sabiam onde o MC Svavelsjõ guardava o dinheiro a ser investido ou lavado. Viktor Gõransson, Magge Lundin e Benny Nieminen. Niedermann estava fugindo. Precisava de dinheiro vivo. Sabia que Gõransson era quem cuidava do financeiro.

Nieminen fechou a porta e saiu sem pressa da granja. Raciocinava febrilmente, tentando formar um panorama do desastre. Uma parte dos recursos do MC Svavelsjõ estava investida em títulos a que ele poderia ter acesso e outra parte poderia ser reconstituída com o auxílio de Magge Lundin. Mas uma boa parte dos investimentos só estava registrada na cabeça de Gõransson, a menos que ele tivesse passado instruções claras para Magge Lundin. Nieminen duvidava muitíssimo disso — Magge nunca fora um gênio da economia. Por cima, Nieminen avaliou que com a morte de Gõransson o MC Svavelsjõ podia ter perdido até sessenta por cento de seu capital. Um golpe tremendo. Era sobretudo dinheiro vivo de que precisavam para as despesas diárias.

— O que a gente faz agora? — perguntou Waltari.

— Agora a gente informa a polícia sobre o que aconteceu.

— Informar a polícia?

— Claro, porra. As minhas digitais estão por toda a casa. Só quero que eles encontrem o Gõransson e a mulher o quanto antes e o legista possa determinar que eles foram mortos quando eu ainda estava detido.

— Entendo.

— Melhor assim. Descubra onde está o Danny K. Quero falar com ele. Quer dizer, se ele ainda estiver vivo. Depois disso, vamos atrás do Ronald Niedermann. A ordem, para os nossos contatos em todos os clubes da Escandinávia, é abrir o olho. Quero a cabeça desse calhorda. Ele provavelmente está usando o Saab do Gõransson. Descubra o número da placa.

Quando Lisbeth Salander acordou, às duas da tarde de sábado, estava sendo examinada por um médico.

— Boa tarde — disse ele. — Meu nome é Sven Svantesson, sou médico. Está sentindo alguma dor?

— Sim — disse Lisbeth Salander.

— Daqui a pouco vamos te dar um analgésico. Mas primeiro eu queria olhar você.

Ele apertou e apalpou seu corpo machucado. Antes de ele terminar, Lisbeth já estava claramente irritada, mas sentia-se exausta demais para começar sua temporada no Sahlgrenska com uma discussão, por isso optou por ficar quieta.

— Como é que eu estou? — perguntou.

— Acho que você vai ficar bem — disse o médico, que fez algumas anotações antes de se levantar.

Não era uma resposta das mais brilhantes.

Depois que ele saiu, apareceu uma enfermeira que ajudou Lisbeth com a comadre. Em seguida, ela pôde voltar a dormir.

Alexander Zalachenko, aliás, Karl Axel Bodin, ingeria um almoço constituído de alimentos líquidos. Qualquer movimento, mesmo mínimo, dos músculos faciais lhe causava dores fortíssimas no maxilar e no osso malar, e mastigar não era sequer cogitável.

Porém, mesmo a dor sendo tremenda, ele sabia administrá-la. Zalachenko estava acostumado com a dor. Nada se comparava àquela que experimentara semanas e meses a fio quinze anos antes, depois de arder feito uma tocha dentro do carro junto a uma calçada da Lundagatan. O tratamento não passara de uma interminável maratona de dor.

Os médicos o julgavam fora de perigo, mas dada a gravidade de seus ferimentos e por causa de sua idade, permaneceria na uri por mais alguns dias.

Naquele sábado, ele recebeu quatro visitas.

Por volta das dez da manhã, o inspetor Ackerman tornou a aparecer. Dessa vez, tinha deixado aquela babaquinha da Sonja Modig em casa e vinha acompanhado do inspetor Jerker Holmberg, claramente mais simpático. Fizeram mais ou menos as mesmas perguntas que tinham feito na noite anterior sobre Ronald Niedermann. Ele estava com a sua versão bem ensaiada e não cometeu nenhum erro. Quando começaram a bombardeá-lo com perguntas sobre sua eventual participação no tráfico de mulheres e em outras atividades criminosas, ele mais uma vez negou saber qualquer coisa sobre o assunto. Vivia da sua pensão de invalidez e não sabia do que estavam falando. Jogou tudo nas costas de Ronald Niedermann e se ofereceu para colaborar no que fosse possível para localizar o assassino do policial.

Infelizmente, na prática ele não tinha muito como ajudar. Desconhecia os círculos que Niedermann freqüentava e não fazia idéia de a quem ele poderia pedir refúgio.

Por volta das onze horas, recebeu a breve visita de um representante do Ministério Público, que lhe comunicou formalmente que ele era suspeito de cumplicidade em golpes e ferimentos agravados, e mesmo tentativa de homicídio, contra Lisbeth Salander. Zalachenko respondeu pacientemente, explicando que a vítima era ele e que, na verdade, Lisbeth Salander é quem tentara matá-lo. O sujeito do Ministério Público lhe ofereceu ajuda jurídica na forma de um advogado de ofício. Zalachenko disse que ia pensar.

Isso ele não tinha a menor intenção de fazer. Já possuía um advogado e sua primeira medida, naquela manhã, fora ligar para ele pedindo que viesse o quanto antes. De modo que Martin Thomasson foi seu terceiro visitante. Entrou, com um ar descontraído, passou a mão na cabeleira loira, ajeitou os óculos e apertou a mão de seu cliente. Era um falso magro e um verdadeiro sedutor. E certo que pairava sobre ele a suspeita de ter pertencido à máfia iugoslava, caso que ainda estava sendo investigado, mas também tinha a reputação de ganhar seus processos.

Um contato de negócios encaminhara Zalachenko para Thomasson cinco anos antes, quando precisara redistribuir um capital relacionado com uma pequena empresa de investimentos que ele possuía no Liechtenstein. Não eram quantias fabulosas, mas Thomasson atuara com mãos de mestre e Zalachenko deixara de pagar as taxas obrigatórias. Depois disso, recorrera a ele em outras ocasiões. Thomasson compreendia que o dinheiro provinha de uma atividade criminosa, o que não parecia perturbá-lo. Por fim, Zalachenko decidira fundir todas as suas atividades numa nova empresa, pertencente a ele próprio e a Niedermann. Tinha procurado Thomasson e o convidara a participar como terceiro sócio oculto, encarregado de tudo que se relacionasse ao financeiro. Thomasson aceitara sem pensar duas vezes.

— E então, senhor Bodin, isso tudo não está me parecendo lá muito agradável.

— Fui vítima de golpes e ferimentos agravados e tentativa de assassinato — disse Zalachenko.

— E o que estou vendo. Uma tal Lisbeth Salander, se entendi direito. Zalachenko baixou a voz.

— O nosso parceiro Niedermann se meteu numa encrenca daquelas, como você deve ter percebido.

— Foi o que entendi.

— A polícia suspeita que eu esteja envolvido nessa história...

— O que obviamente não é o caso. Você é uma vítima, e é importante plantar depressa essa idéia nos meios de comunicação. A senhorita Salander já teve um bocado de publicidade negativa... Vou cuidar disso.

— Obrigado.

— Mas vou avisando que não sou advogado criminal. Você vai precisar de um especialista. Vou procurar alguém em quem você possa confiar.

A quarta visita chegou às onze da noite e conseguiu passar pela barragem das enfermeiras exibindo sua identidade e especificando que vinha por causa de um assunto urgente. Indicaram-lhe o quarto de Zalachenko. O paciente ainda não estava dormindo, achava-se em plena reflexão.

— Meu nome é Jonas Sandberg — cumprimentou o visitante, estendendo uma mão que Zalachenko optou por ignorar.

O homem tinha cerca de trinta e cinco anos. Tinha cabelo cor de areia e vestia um jeans descontraído, camisa xadrez e jaqueta de couro. Zalachenko contemplou-o em silêncio por uns quinze segundos.

— Eu estava justamente me perguntando quando é que um de vocês ia aparecer.

— Eu trabalho na Sapo — disse Jonas Sandberg, mostrando as credenciais.

— É claro que não — disse Zalachenko.

— Como?

— Você talvez seja funcionário da Sapo, mas não trabalha para eles. Jonas Sandberg ficou um momento calado, olhando ao redor. Pegou a cadeira destinada aos visitantes.

— Se eu vim assim tão tarde, foi para não chamar atenção. Andamos discutindo sobre uma maneira de ajudá-lo e precisamos combinar mais ou menos o que vai acontecer. Estou aqui simplesmente para escutar a sua versão e ver quais são as suas intenções, para que a gente possa montar uma estratégia conjunta.

— E qual seria essa estratégia, a seu ver?

Jonas Sandberg contemplou pensativamente o homem deitado na cama. Por fim, afastou as mãos.

— Senhor Zalachenko... Receio que já esteja em curso um processo envolvendo danos difíceis de avaliar. Discutimos a situação. O túmulo encontrado em Gosseberga e os três tiros que a Salander levou são fatos difíceis de minimizar. Mas nem tudo está perdido. O conflito entre o senhor e sua filha pode explicar por que tem tanto medo dela e por que tomou medidas tão drásticas. Receio, porém, que isso signifique alguns meses de prisão.

Zalachenko se sentiu alegre de repente e teria dado uma boa gargalhada se isso não fosse impossível nas suas condições. O resultado foi apenas um leve tremor nos lábios. Qualquer coisa, além disso, seria dolorida demais.

— Então essa é nossa estratégia conjunta?

— Senhor Zalachenko. O senhor conhece o conceito de controle dos danos. É indispensável que encontremos uma via comum. Vamos fazer o possível para ajudá-lo, fornecendo um advogado e a assistência necessária, mas vamos precisar da sua colaboração e de algumas garantias.

— Vou lhe dar uma garantia. Vocês vão dar um jeito de sumir com tudo isso. — Ele fez um gesto com a mão. — O Niedermann vai servir de bode expiatório, e garanto que ele nunca será encontrado.

— Existem provas formais que...

—- Deixe as provas formais para lá. O importante é como a investigação vai ser conduzida e como os fatos vão ser apresentados. A minha garantia é a seguinte... se vocês não usarem sua varinha mágica para dar um sumiço em tudo isto, eu vou convocar a imprensa para uma entrevista coletiva. Eu conheço nomes, datas, fatos. Não me diga que eu preciso lembrar você de quem eu sou...

— O senhor não está entendendo...

— Estou entendendo muito bem. Você não passa de um boy. Transmita para o seu chefe o que acabei de dizer. Ele vai entender. Diga que eu tenho cópias de... tudo. Vou detonar vocês.

— Temos que tentar entrar num acordo.

— A conversa está encerrada. E agora dê o fora. E fale para eles me mandarem um homem da próxima vez, um adulto com quem eu possa conversar.

Zalachenko virou a cabeça de maneira a interromper o contato visual com o visitante. Jonas Sandberg contemplou-o um breve instante. Então deu de ombros e se levantou. Já estava chegando à porta quando ouviu novamente a voz de Zalachenko.

— Outra coisa. Sandberg se virou.

— Salander.

— O que tem ela?

— Ela precisa sumir.

— O que o senhor quer dizer?

Por um momento, Sandberg pareceu tão preocupado que Zalachenko foi obrigado a sorrir, apesar da dor que lhe transpassou o maxilar.

— Vocês são todos uns bundas-moles e eu sei que têm escrúpulos demais para matá-la. Sei também que vocês não têm condições para isso. Quem iria cuidar disso... você? Mas ela precisa sumir. O testemunho dela tem que ser declarado inaceitável. Ela tem que voltar para uma instituição e ali ficar o resto da vida.

Lisbeth Salander escutou os passos no corredor em frente a seu quarto. Não conseguira distinguir o nome Jonas Sandberg, e era a primeira vez que escutava aqueles passos.

A porta de seu quarto tinha ficado aberta desde o final da tarde, já que as enfermeiras vinham vê-la mais ou menos de dez em dez minutos. Tinha escutado o homem chegar e explicar a uma enfermeira, bem perto de sua porta, que precisava de qualquer forma ver o Sr. Karl Axel Bodin para tratar de um assunto urgente. Imaginou que ele estivesse apresentando suas credenciais, mas não foi dita nenhuma palavra que pudesse fornecer uma pista sobre seu nome ou a natureza dessas credenciais.

A enfermeira pediu que ele esperasse enquanto ia verificar se o Sr. Karl Axel Bodin estava acordado. Lisbeth Salander concluiu então que as credenciais deviam ser bem convincentes.

Percebeu que a enfermeira seguiu no corredor pela esquerda e deu dezessete passos até chegar a seu destino, e que o visitante percorreu a mesma distância com apenas catorze passos. O que dava uma média de 15,5 passos. Ela calculou o comprimento dos passos em sessenta centímetros, o que, multiplicado por 15,5, indicava que Zalachenko estava num quarto situado a novecentos e trinta centímetros do lado esquerdo do corredor. Bem, digamos dez metros. Calculou que seu quarto tinha cerca de cinco metros de largura, o que queria dizer que Zalachenko se encontrava a duas portas dali.

De acordo com os números verdes do relógio digital no criado-mundo, a visita durou exatos nove minutos.

Zalachenko permaneceu um bom tempo acordado depois que Jonas Sandberg o deixou. Imaginou que aquele não era seu verdadeiro nome, a experiência lhe ensinara que os espiões amadores suecos tinham fixação em nomes de fachada mesmo que não fossem absolutamente necessários. De todo modo, aquele Jonas (ou qualquer que fosse seu nome) era um primeiro sinal de que a Seção estava ciente de sua situação. Com aquele estardalhaço da imprensa, seria difícil não estar. Mas sua visita também confirmava que sua situação inspirava cuidados. Como não poderia deixar de ser.

Ele pesou as vantagens e as desvantagens, alinhou possibilidades e rejeitou alternativas. Já tinha entendido e aceitado que as coisas haviam desandado pra valer. Num mundo ideal, àquela altura ele estaria em casa, em Gosseberga, Ronald Niedermann estaria a salvo no exterior e Lisbeth Salander enterrada a seis palmos debaixo da terra. Mesmo que, de um ponto de vista racional, compreendesse o que tinha acontecido, tinha a maior dificuldade em entender como ela conseguira sair de dentro da cova, voltar para a granja e destruir a existência dele com duas machadadas. Ela realmente dispunha de recursos incríveis.

Em compensação, percebia muito bem o que acontecera com Ronald Niedermann e por que ele fugira para se salvar em vez de acabar de uma vez por todas com Salander. Sabia que Niedermann tinha algum problema na cabeça, que ele tinha visões, que via fantasmas. Mais de uma vez tivera de intervir ao ver Niedermann se comportando de maneira irracional e se encolhendo de pavor.

Aquilo o preocupava. Considerando que Ronald Niedermann ainda não havia sido detido, Zalachenko tinha certeza de que ele funcionara normalmente nos dias seguintes à fuga de Gosseberga. Talvez tentasse ir até Tallinn, onde obteria ajuda com algum contato do império criminoso de Zalachenko. Sua preocupação é que não dava para prever em que momento Niedermann ficaria paralisado. Se acontecesse durante a fuga, ele cometeria algum erro, e se cometesse algum erro acabaria sendo preso. E como não iria se entregar tão fácil, policiais iriam morrer, e muito provavelmente ele também.

Essa idéia afligia Zalachenko. Não queria que Niedermann morresse. Niedermann era seu filho. Por outro lado, por mais lamentável que fosse, a verdade é que Niedermann não podia ser apanhado vivo. Niedermann nunca fora detido pela polícia e Zalachenko não conseguia imaginar qual seria sua reação num interrogatório. Desconfiava, infelizmente, que Niedermann não saberia ficar calado. Seria melhor, portanto, que fosse morto ao ser capturado. Zalachenko prantearia o filho, mas a outra alternativa seria pior. Significaria ele próprio passar o resto da vida na prisão.

Entretanto, quarenta e oito horas já haviam transcorrido desde a fuga de Niedermann e ele ainda não tinha sido pego. Era um bom sinal. Mostrava que Niedermann ainda estava em movimento, e um Niedermann em movimento era imbatível.

A longo prazo, esboçava-se outra preocupação. Ele se perguntava como Niedermann iria se virar sozinho, sem o pai a seu lado para conduzi-lo na vida. Tinha observado, naqueles anos todos, que quando deixava de dar instruções ou soltava as rédeas para que Niedermann tomasse suas próprias iniciativas, este tendia a cair num estado de passividade e apatia.

Mais uma vez Zalachenko constatou como essas particularidades de seu filho representavam uma verdadeira calamidade. Ronald Niedermann era sem dúvida uma pessoa muito inteligente, dotada de qualidades físicas que o transformavam num homem temível e temido. Além disso, era um executor excelente, que sabia manter o sangue-frio. Seu único problema era não ter instinto de liderança. Precisava sempre de alguém que lhe dissesse o que devia ser feito.

Mas tudo isso estava, no momento, fora de seu controle. Ele, Zalachenko, é que era a questão. Sua situação era delicada, talvez mais delicada do que nunca.

A visita do Dr. Thomasson, mais cedo naquele dia, não lhe soara muito tranqüilizadora. Thomasson era, e continuava sendo, um especialista em direito empresarial, e sua eficiência nessa área não lhe seria de grande ajuda no atual contexto.

Depois, houvera a visita de Jonas Sandberg. Sandberg representava uma tábua de salvação muito mais sólida. Mas uma tábua que também podia se revelar uma armadilha. Ele teria de jogar suas cartas com habilidade e retomar o controle da situação. O controle era fundamental.

E, afinal de contas, ele podia confiar em seus próprios recursos. Por enquanto, precisava de cuidados médicos. Mas dali a alguns dias, uma semana quem sabe, teria recobrado suas forças. Se a situação chegasse a um extremo, só poderia contar consigo mesmo. O que significava sumir, sumir nas barbas de todos aqueles policiais que o cercavam. Iria precisar de um esconderijo, de um passaporte e de dinheiro vivo. Thomasson podia conseguir tudo isso. Mas, primeiro, precisava se recuperar o suficiente para ter condições de fugir.

A uma hora da manhã, a enfermeira veio ver como ele estava. Fingiu que estava dormindo. Quando ela tornou a fechar a porta, endireitou-se com esforço na cama e jogou as pernas para fora. Ficou um bom tempo sentado sem se mexer, testando seu equilíbrio. Então, devagar, pôs o pé esquerdo no chão. Por sorte, o machado atingira a perna direita, que já era defeituosa. Esticou o braço para apanhar a prótese, no armário junto à cama, e prendeu-a no coto. Em seguida, levantou-se. Jogou o peso para a perna esquerda intacta e tentou apoiar a direita no chão. Uma dor fulgurante o transpassou.

Cerrou os dentes e deu um passo. Precisava de suas bengalas, mas tinha certeza de que o hospital não tardaria a lhe fornecer uma. Apoiou-se na parede e foi manquejando até a porta. Levou vários minutos, sendo obrigado a parar depois de cada passo para dominar a dor.

Apoiou-se sobre a perna sã, abriu a porta bem de leve e verificou o corredor. Não viu ninguém, e pôs a cabeça um pouquinho mais para fora. Escutou vozes abafadas à esquerda e virou a cabeça. A sala de plantão das enfermeiras da noite ficava a uns vinte metros dali, do outro lado do corredor.

Ele virou a cabeça para a direita e avistou a saída, no fim do corredor.

Tinha se informado naquele dia sobre o estado de Lisbeth Salander. Era, apesar de tudo, pai dela. As enfermeiras tinham sido visivelmente instruídas a não falar sobre os pacientes. Uma delas só dissera, em tom neutro, que seu estado era estável. Mas, como que por reflexo, lançara uma olhada rápida para o lado esquerdo do corredor.

Em algum dos quartos entre o seu próprio e a sala das enfermeiras estava Lisbeth Salander.

Fechou a porta devagar, voltou manquejando para a cama e retirou a prótese. Estava encharcado de suor quando finalmente conseguiu se enfiar debaixo da coberta.

O inspetor Jerker Holmberg regressou a Estocolmo no domingo por volta do meio-dia. Estava cansado, com fome e sentia-se esgotado. Pegou o metrô, desceu na estação da prefeitura e seguiu a pé até a chefatura de polícia na Bergsgatan, onde subiu até a sala do inspetor Jan Bublanski. Sonja Modig e Curt Bolinder já estavam lá. Bublanski os convocara para aquela reunião em pleno domingo porque sabia que o chefe do inquérito preliminar, Richard Ekstrõm, estava em um compromisso fora.

— Obrigado por terem vindo — disse Bublanski. — Acho que está mais do que na hora de conversarmos calmamente entre nós para tentarmos lançar uma luz nessa confusão toda. Jerker, alguma novidade?

— Nada que eu já não tenha lhe falado por telefone. O Zalachenko não está cedendo um só milímetro. Ele se diz totalmente inocente e não pode nos ajudar em nada. Vejam só...

— Sim?

— Sonja, você estava certa. É um dos indivíduos mais sinistros que já conheci. Parece meio idiota dizer isso. Sei que a gente não devia raciocinar desse jeito na polícia, mas ele tem uma coisa assustadora por baixo daquele verniz calculista.

— Certo — disse Bublanski, pigarreando. — O que a gente tem? Sonja? Ela exibiu um sorrisinho.

— Os investigadores particulares venceram este round. Não encontro o Zalachenko em nenhum cadastro oficial, ao passo que um tal de Karl Axel Bodin nasceu em 1939 em Uddevalla. Os pais dele eram Marianne e Georg Bodin. Eles existiram, mas morreram num acidente em 1946. Karl Axel Bodin foi criado por um tio na Noruega. Portanto não temos nada sobre ele até os anos 1970, quando voltou para a Suécia. A versão de Mikael Blomkvist, segundo a qual ele seria um ex-agente russo do GRO, parece impossível de checar, mas tendo a acreditar que ele está certo.

— E isso implicaria o quê?

— Obviamente, ele ganhou uma identidade falsa. E deve ter sido com o consentimento das autoridades.

— A Sapo, portanto?

— É o que o Blomkvist afirma. Mas não sei ao certo como foi. Supõe--se que sua certidão de nascimento e mais um monte de documentos foram falsificados e lançados nos cadastros suecos oficiais. Não me atrevo a opinar sobre o aspecto legal dessa história. Provavelmente vai depender de quem tomou a decisão. Mas só seria legal se a decisão tivesse sido quase em nível de primeiro escalão.

Instalou-se um silêncio na sala de Bublanski, enquanto os quatro inspetores criminais refletiam sobre todas as implicações daquilo.

— Humm — fez Curt Bolinder. — Isso poderia provocar nada menos que uma crise constitucional. Nos Estados Unidos, membros do governo podem ser convocados para um interrogatório diante de um tribunal comum. Na Suécia, têm que passar pela Comissão Constitucional.

— Agora, o que a gente pode fazer é perguntar para o chefe — disse Jerker Holmberg.

— Perguntar para o chefe? — estranhou Bublanski.

— Thorbjõm Fãlldin. Era o primeiro-ministro na época.

— É isso aí. A gente aparece na casa dele, não se sabe onde, e pergunta ao ex-primeiro-ministro se ele falsificou documentos de identidade para um espião russo dissidente. Não me parece uma boa idéia.

— O Fãlldin mora em As, na comuna de Hárnõsand. Eu nasci naqueles lados, a poucos quilômetros da casa dele. Meu pai é centrista e conhece o Fãlldin muito bem. Cruzei com ele várias vezes quando criança, e quando adulto também. E um sujeito bem descontraído.

Três inspetores criminais lançaram a Jerker Holmberg um olhar atônito.

— Você conhece o. Fãlldin — disse Bublanski, hesitante. Holmberg assentiu com a cabeça. Bublanski fez um muxoxo.

— Realmente... — disse Holmberg. — Daria para resolver um monte de problemas se a gente conseguisse do ex-primeiro-ministro um relatório que ajudasse a nos situar nesta encrenca toda. Eu poderia ir até lá conversar com ele. O pior que pode acontecer é ele não falar. Mas, se falar, talvez nos poupe um bocado de tempo.

Bublanski refletiu sobre a sugestão. Então balançou a cabeça. Com o rabo dos olhos, viu tanto Sonja Modig como Curt Bolinder meneando a deles, pensativos.

— Holmberg... o que você sugere é legal, mas acho que vamos deixar para mais tarde. Vamos voltar ao caso. Sonja?

— Segundo o Blomkvist, o Zalachenko chegou aqui em 1976. Até onde eu sei, só existe uma pessoa que pode ter passado essa informação para ele.

— Gunnar Bjõrck — disse Curt Bolinder.

— O que foi que o Bjõrck disse para a gente? — perguntou Jerker Holmberg.

— Nada de mais. Ele alegou sigilo profissional e disse que não pode comentar o assunto sem autorização dos seus superiores.

— E quem são os superiores dele?

— Ele se recusa a dizer.

— O que vai acontecer com ele então?

— Eu o indiciei por remuneração de serviços sexuais. Graças ao Dag Svensson, dispomos de uma excelente documentação. Isso tirou o Ekstrõm do sério, mas como eu tinha feito um relatório ele pode se complicar se abandonar a investigação — disse Curt Bolinder.

— Ahã. Infração à lei sobre remuneração de serviços sexuais. Isso dá o quê, imagino que uma multa?

— Provavelmente. Mas com essa ele fica no nosso sistema e pode ser chamado outra vez para um interrogatório.

— Mas aí já estamos invadindo a praia da Sapo. Isso pode causar turbulências.

— O problema é que nada do que está acontecendo hoje teria acontecido se a Sapo não estivesse envolvida, de um jeito ou de outro. E possível que o Zalachenko seja de fato um espião russo que pendurou as chuteiras e pediu asilo político. Também é possível que ele tenha trabalhado para a Sapo como agente, ou fonte, não sei bem como dizer, e que haja um bom motivo para terem fornecido a ele uma identidade falsa e o anonimato. Mas existem três poréns. Primeiro, a investigação realizada em 1991 que levou à internação da Lisbeth Salander é ilegal. Segundo, a atividade do Zalachenko a partir dessa data não tem absolutamente nada a ver com segurança nacional. O Zalachenko é um gângster muito do ordinário e provavelmente cúmplice de uma série de homicídios e outros crimes. Terceiro, não resta a menor dúvida de que atiraram na Lisbeth Salander e a enterraram nas terras do Zalachenko em Gosseberga.

— Falando nisso, eu gostaria muito de ler esse famoso relatório — disse Jerker Holmberg.

A expressão de Bublanski se turvou.

— O Ekstrõm pôs as mãos nele na sexta-feira. Quando pedi de volta, ele disse que ia fazer uma cópia, mas nada. Em vez disso, me ligou dizendo que tinha falado com o Ministério Público e que havia um problema. Segundo o procurador-geral da nação, como é um dossiê considerado segredo de segurança nacional, o relatório não pode circular ou ser copiado. O procurador exigiu que lhe fossem entregues todas as cópias até que o caso seja esclarecido. E, portanto, a Sonja foi obrigada a devolver a cópia que ela tinha.

— Quer dizer que não temos mais esse relatório?

— Não.

— Droga — disse Holmberg. — Isso não é um bom sinal.

— Não é mesmo — disse Bublanski. — Mas significa, principalmente, que alguém está agindo contra nós, e o que é pior: agindo rápido e com eficiência. Foi essa investigação que tinha nos posto na pista certa.

— Então vamos precisar descobrir quem está agindo contra nós — disse Holmberg.

— Outra coisa — disse Sonja Modig. — Também tem o Peter Teleborian. Ele colaborou com a nossa investigação apresentando um perfil da Lisbeth Salander.

— Exato — disse. Bublanski com uma voz ainda mais sombria. — E o que ele diz?

— Que estava muito preocupado com a segurança dela, que só queria o bem dela. Mas depois desse blá-blá-blá, acrescentou que ela era muito perigosa e capaz de resistir. E nós baseamos boa parte do nosso raciocínio no que ele falou.

— E ele também deixou o Hans Faste um tanto assustado — disse Holmberg. — Por sinal, alguém tem notícias dele?

— Está de férias — respondeu Bublanski secamente. — A questão é o que a gente vai fazer agora.

Passaram as duas horas seguintes discutindo diferentes possibilidades. A única decisão prática que resultou disso foi que Sonja Modig retornaria a Góteborg no dia seguinte para ouvir Lisbeth Salander, ver se ela tinha algo a dizer. Quando finalmente encerraram a reunião, Sonja Modig e Curt Bolinder desceram juntos até a garagem.

— Estava pensando numa coisa... — Curt Bolinder se interrompeu.

— Sim? — perguntou Sonja Modig.

— É que, quando a gente consultou o Teleborian, você foi a única da equipe que fez algumas perguntas e até discordou dele.

— Foi.

— Foi... pois é. Boa intuição — disse ele.

Curt Bolinder não tinha fama de jogar confete, e de fato era a primeira vez que ele dizia algo positivo ou estimulante para Sonja Modig. Então saiu, deixando-a surpresa ao lado do carro...

DOMINGO 10 DE ABRIL

Mikael Blomkvist passara a noite de sábado para domingo na cama com Erika Berger. Não fizeram amor, ficaram apenas conversando. Grande parte da conversa girou em torno dos detalhes do caso Zalachenko. A confiança entre eles era tal que Mikael não se importava nem um pouco com o fato de Erika ir trabalhar num jornal concorrente. E Erika não tinha nenhuma intenção de roubar a matéria dele. Aquele furo era da Millennium, e ela só sentia certa frustração por não participar daquele número. Teria gostado de encerrar com ele seus anos na Millennium.

Conversaram também sobre o futuro e o que a nova situação iria acarretar. Erika estava decidida a manter suas ações na Millennium e permanecer no conselho administrativo. Em compensação, ambos entendiam que ela obviamente não poderia estar à par do trabalho da redação.

— Me dê alguns anos no SMP e... quem sabe? Talvez eu ainda volte para a Millennium quando a minha aposentadoria estiver chegando.

E conversaram sobre sua própria relação complicada. Não tinham a menor vontade de modificar seus hábitos, mas parecia claro que não iam poder se ver com a mesma freqüência. Ia ser como era nos anos 1980, antes de surgir a Millennium, quando ainda trabalhavam em lugares diferentes.

 

— A solução vai ser a gente marcar um ponto de encontro — concluiu Erika com um sorrisinho.

No domingo de manhã, despediram-se às pressas antes de Erika voltar para junto do marido, Lars Beckman.

— Não sei o que dizer — disse Erika. — Mas estou vendo todos os sinais de que você está totalmente absorvido por uma matéria, e o resto fica em segundo plano. Sabia que você se comporta como um psicopata quando está trabalhando?

Mikael sorriu e lhe deu um beijo.

Depois que Erika saiu, ele passou a manhã ligando para o Hospital Sahlgrenska para tentar obter alguma informação sobre o estado de Lisbeth Salander. Como todos se negavam a fornecê-la, acabou ligando para o inspetor Marcus Ackerman, que ficou com pena dele e contou que, considerando as circunstâncias, o estado de Lisbeth era satisfatório e que os médicos estavam relativamente otimistas. Mikael perguntou se podia visitá-la. Ackerman respondeu que Lisbeth Salander estava detida por decisão do procurador-geral da nação e que não estava autorizada a receber visitas, mas que, por enquanto, a questão ainda era teórica. Devido a seu estado, não pudera sequer ser interrogada. Mikael conseguiu que Ackerman prometesse avisá-lo caso o estado de Lisbeth piorasse.

Mikael verificou as chamadas recebidas em seu celular e encontrou quarenta e duas ligações e mensagens de texto de vários jornalistas tentando contatá-lo com urgência. A notícia de que, além de estar intimamente envolvido nos acontecimentos, fora ele quem encontrara Lisbeth Salander e acionara o sos-Brigada vinha sendo objeto de intensas especulações na mídia nas últimas vinte e quatro horas.

Mikael apagou todas as mensagens dos jornalistas. Depois ligou para a sua irmã, Annika Giannini, e combinou almoçarem juntos naquele dia.

Em seguida ligou para Dragan Armanskij, presidente da empresa de segurança Milton Security. Conseguiu encontrá-lo, no celular, na sua residência em Lidingõ.

— Cara, você tem o dom de produzir belas manchetes — disse Armanskij secamente.

— Desculpe não ter ligado durante a semana. Recebi o recado de que você estava tentando falar comigo, mas não tive tempo...

— Fizemos nossa própria investigação aqui na Milton. E o Holger Palmgren me disse que você tinha umas informações. Mas parece que você está centenas de quilômetros à nossa frente.

Mikael hesitou um instante, não sabendo direito como colocar a situação.

— Posso confiar em você? — perguntou.

A pergunta pareceu surpreender Armanskij.

— Em que sentido?

— Você está do lado da Salander, ou não? Posso ter certeza de que você quer o bem dela?

— Ela é minha amiga. Como você sabe, isso não significa, necessariamente, que sou amigo dela.

— Eu sei. Mas o que estou perguntando é se você está disposto a ficar do lado dela no ringue e enfrentar os brutamontes que estão contra ela. E essa luta vai ter muitos assaltos.

Armanskij refletiu.

— Eu estou do seu lado — disse ele.

— Posso te dar umas informações e discutir uns pontos com você sem medo de que isso vaze para a polícia ou para qualquer outra pessoa?

— Só está fora de questão eu me envolver em alguma atividade criminosa — disse Armanskij.

— Minha pergunta não foi essa.

— Você pode confiar totalmente em mim desde que não me conte que está envolvido em alguma atividade criminosa ou algo do gênero.

— Para mim está bem assim. Precisamos nos encontrar.

— Estou indo para a cidade hoje. Podemos jantar juntos.

— Não, para mim não vai dar. Mas a gente podia se encontrar amanhã à noite. Precisamos conversar com calma, eu, você e talvez mais umas pessoas.

— Pode ser lá na Milton. Às seis da tarde está bem?

— Perfeito. Outra coisa... daqui a duas horas vou encontrar minha irmã, Annika Giannini. Ela está considerando a possibilidade de representar a Lisbeth, mas evidentemente não pode trabalhar de graça. Posso pagar parte dos honorários do meu bolso. A Milton Security poderia contribuir?

— A Lisbeth vai precisar de um advogado super competente. Com todo o respeito, não acho sua irmã a melhor escolha. Já conversei com o jurista responsável da Milton e ele vai procurar o advogado certo para isso. Pensei, por exemplo, em Peter Althin ou alguém assim.

— Errado. A Lisbeth precisa de um advogado bem diferente. Você vai entender depois que a gente conversar. Mas você poderia injetar algum dinheiro na defesa dela, se necessário?

— Eu já estava prevendo que a Milton contrataria um advogado para ela...

— Isso significa sim ou não? Eu sei o que aconteceu com a Lisbeth. Sei mais ou menos o que existe por trás disso tudo. Eu sei o porquê. E tenho um plano de ataque.

Armanskij riu.

— Está bem. Vou ouvir sua proposta. Se eu não gostar, caio fora.

— Você por acaso pensou na minha proposta de representar a Lisbeth Salander? — perguntou Mikael depois de dar um beijo na irmã e de o café e os sanduíches terem sido servidos.

— Pensei. E me vejo obrigada a recusar. Você sabe que não atuo na área criminal. Mesmo que ela seja inocentada dos assassinatos pelos quais foi procurada, vai haver uma lista imensa de acusações. Ela vai precisar de alguém de mais gabarito, com uma experiência que eu não tenho.

— Está enganada. Você é advogada e sua competência é mais que reconhecida nas questões dos direitos da mulher. Sei que é exatamente a advogada de que ela precisa.

— Mikael... acho que você não está sacando muito bem o que isso significa. Trata-se de um caso criminal complexo, não de um simples caso de maus-tratos ou assédio sexual. Se eu aceitar defendê-la, a gente corre o risco de provocar uma catástrofe.

Mikael sorriu.

— Acho que você não entendeu aonde eu quero chegar. Se a Lisbeth fosse ser julgada pelos assassinatos do Dag e da Mia, eu contrataria um advogado do estilo do Silbersky ou outro peso-pesado qualquer da criminalística.

Mas esse processo vai tratar de coisas muito diferentes. E você é a melhor advogada que posso imaginar para esse caso. Annika Giannini suspirou.

— Bem, então seria melhor você me explicar.

Conversaram durante quase duas horas. Quando Mikael terminou, Annika Giannini estava convencida. Então Mikael pegou o celular e ligou para Marcus Ackerman em Gõteborg.

— Olá. É o Blomkvist de novo.

— Ainda não tenho nenhuma notícia da Salander — disse Ackerman, irritado.

— Bem, na atual situação notícia nenhuma já é uma boa notícia. Em compensação, eu tenho uma novidade.

— Ah, é?

— E. Ela tem uma advogada, o nome dela é Annika Giannini. Está aqui na minha frente, vou passar para ela.

Mikael passou o celular para a irmã.

— Bom dia. Aqui fala Annika Giannini, e me pediram que representasse a Lisbeth Salander. Portanto preciso entrar em contato com a minha cliente para que ela me aceite como defensora. E preciso do número de telefone do procurador.

— Entendo — disse Ackerman. — Achei que já tinha sido indicado um advogado para ela.

— Hã, hã. E alguém perguntou para a Lisbeth Salander o que ela acha? Ackerman hesitou.

— Na verdade, ainda não tivemos condições de nos comunicar com ela. Esperamos falar com ela amanhã, se seu estado permitir.

— Melhor assim. Então, estou declarando aqui e agora que, a menos que a senhorita Salander seja contra, podem me considerar a advogada dela. Não podem interrogá-la sem que eu esteja presente. Só podem ir falar com ela e perguntar se ela me aceita como advogada ou não. Entendido?

— Sim — disse Ackerman, soltando um suspiro. Ele não sabia direito como estava a situação em termos jurídicos. Pensou um pouco e continuou: — Antes de mais nada, a gente queria perguntar para a Salander se ela tem idéia de onde possa estar o Ronald Niedermann, o assassino do policial. Tudo bem se eu perguntar isso mesmo sem a sua presença?

Annika Giannini hesitou.

— Está bem... Podem perguntar, se for para ajudar a polícia a localizar o Niedermann. Mas não mencionem nada relacionado com eventuais processos ou acusações contra ela. Estamos combinados?

— Acho que sim.

Marcus Ackerman deixou imediatamente a sua sala, subiu a escada e foi bater à porta de Agneta Jervas, que dirigia o inquérito preliminar. Relatou a conversa que acabava de ter com Annika Giannini.

— Eu não sabia que a Salander tinha um advogado.

— Nem eu. Mas a Giannini foi contratada pelo Mikael Blomkvist. Não é certo que a Salander esteja sabendo.

— Mas a Giannini não trabalha na área criminal. Ela lida com direitos da mulher. Assisti a uma palestra dela uma vez, ela é muito competente, mas nem um pouco adequada para este caso.

— Isso quem tem que decidir é a Salander.

— Sendo assim, posso ter de contestar essa escolha diante do tribunal. É importante para a Salander contar com um defensor de fato, e não com uma estrela das primeiras páginas dos jornais. Humm. Além disso, a Salander é tida como uma maior incapacitada. Não sei direito o que se aplica nesse caso.

— O que a gente faz?

Agneta Jervas refletiu um instante.

— Que confusão! Não sei bem, afinal de contas, quem vai cuidar desse caso. Talvez seja repassado para o Ekstrõm em Estocolmo. Mas ela precisa de um advogado. Está bem... pergunte a ela se aceita a Giannini.

Quando chegou em casa, por volta das cinco da tarde, Mikael abriu o iBook e retomou o texto que tinha começado a redigir no hotel. Trabalhou sete horas seguidas, até conseguir identificar os principais furos da história. Ainda tinha um bocado de pesquisa pela frente. Um dos aspectos que os documentos existentes não ajudavam a esclarecer era que elementos da Sapo, afora Gunnar Bjõrck, tinham se juntado para internar Lisbeth Salander no hospício. Ele tampouco conseguia definir a natureza da relação entre Bjõrck e o psiquiatra Peter Teleborian.

Um pouco depois da meia-noite, desligou o computador e foi se deitar. Pela primeira vez em várias semanas, sentiu que poderia relaxar e dormir tranqüilamente. Já tinha uma matéria. Por mais pontos de interrogação que ainda existissem, já contava com material suficiente para desencadear uma avalanche de manchetes.

Sentiu um desejo súbito de ligar para Erika Berger e colocá-la a par da situação. Então lembrou que ela não trabalhava mais na Millennium. Com isso, dormir já se tornou mais difícil.

Na estação central de Estocolmo, o homem de pasta marrom desceu devagar do trem das sete e meia da noite proveniente de Gõteborg e permaneceu um momento parado na multidão até se situar. Iniciara sua viagem em Laholm, pouco depois das oito da noite, rumo a Gõteborg, onde fizera uma parada para almoçar com um velho conhecido antes de seguir para Estocolmo. Fazia dois anos que não vinha a Estocolmo, e na verdade não planejara voltar algum dia. Embora tivesse morado ali durante a maior parte da sua vida profissional, sempre se sentira um estranho no ninho na capital, sentimento que só fora aumentando a cada visita feita desde que se aposentara.

Atravessou devagar o saguão central da estação, comprou os jornais vespertinos e duas bananas na banca de jornal, e contemplou pensativamente duas muçulmanas de lenço que passavam por ele a toda pressa. Não tinha nada contra mulheres de lenço. Se as pessoas queriam se fantasiar, problema delas. Mas o incomodava elas fazerem questão de se fantasiar em plena Estocolmo.

Percorreu a pé os trezentos metros até o Hotel Frey, ao lado do antigo Correio Central na Vasagatan. Sempre se hospedava ali em suas raras visitas a Estocolmo. Era um hotel central e limpo. E além do mais barato, o que era uma necessidade, pois ele próprio estava pagando a viagem. Reservara um quarto na véspera e apresentou-se com o nome de Evert Gullberg.

Assim que chegou a seu quarto, foi ao banheiro. Estava numa idade em que precisava se aliviar o tempo todo. Fazia vários anos que não passava uma noite inteira sem acordar para urinar.

Depois tirou o chapéu, um chapéu de feltro inglês verde-escuro com abas finas, e desfez o nó da gravata. Media um metro e oitenta e quatro e pesava sessenta e oito quilos, sendo, portanto, de constituição magra, raquítica até. Usava um paletó de pied-de-poule e uma calça cinza-escura. Abriu a pasta marrom e tirou duas camisas, uma gravata extra e a roupa íntima, que guardou na cômoda. Depois pendurou o casaco e o paletó nos cabides do armário atrás da porta.

Era muito cedo para deitar-se. Era muito tarde para se animar a fazer um passeio noturno, que de qualquer modo ele não iria apreciar. Sentou-se na indefectível cadeira de hotel e olhou em volta. Ligou a tevê, mas baixou o volume para ficar livre de todo barulho. Pensou em ligar para a recepção e pedir um café, porém lembrou que já era muito tarde. Em vez disso, abriu o minibar e serviu-se de uma garrafinha de Johnny Walker com algumas gotas de água. Abriu os jornais vespertinos e leu atentamente tudo o que se escrevera naquele dia sobre a caçada a Ronald Niedermann e o caso Lisbeth Salander. Depois de algum tempo, pegou um bloco encadernado em couro e fez algumas anotações.

O ex-chefe de gabinete da Sapo, Evert Gullberg, tinha setenta e oito anos e estava oficialmente aposentado havia catorze. Acontece que velhos espiões nunca morrem, apenas deslizam em meio às sombras.

Pouco depois do fim da guerra, Gullberg tinha dezenove anos e queria seguir carreira na Marinha. Prestou o serviço militar como aspirante a oficial da Marinha, sendo em seguida aceito para fazer a formação de oficial. Mas em vez de um posto tradicional, no mar, como esperava, foi designado para o serviço de informações da Marinha. Podia entender a necessidade de se vigiarem as transmissões inimigas na esperança de descobrir o que se tramava do lado de lá do Báltico, mas achava o trabalho tedioso e desinteressante. No entanto, na escola de intérpretes do Exército teve oportunidade de aprender russo e polonês. Seus conhecimentos lingüísticos foram um dos motivos que o levaram a ser recrutado em 1950 pela Polícia de Segurança. Era a época em que Georg Thulin, homem de uma honestidade inquestionável, dirigia a 3ª. Brigada Policial do Estado. Quando assumiu o cargo, o orçamento global da polícia secreta somava dois milhões e setecentas mil coroas e o efetivo era de exatamente noventa e seis pessoas.

Quando Evert Gullberg se aposentou oficialmente, o orçamento da Sapo ultrapassava os trezentos e cinqüenta milhões de coroas e ele não saberia dizer ao certo quantos funcionários havia na Casa.

Gullberg tinha passado a vida no serviço secreto nacional, ou pelo menos a serviço do bom povo social-democrata. Uma ironia do destino, já que em todas as eleições ele optara fielmente pelos moderados, com exceção de 1991, quando votara contra eles de forma consciente, por considerar Carl Bildt uma catástrofe da real politik. Naquele ano, conformara-se em dar seu voto a Ingvar Carlsson. Aqueles anos do melhor governo que a Suécia já tivera, quatro anos sob a direção dos moderados, confirmaram igualmente todos os seus temores. O governo moderado constituíra-se na época do desmoronamento da União Soviética, e, na sua opinião, não havia regime mais mal preparado para enfrentar e tirar proveito das novas possibilidades políticas na arte da espionagem que haviam surgido no Leste. O governo de Bildt, pelo contrário, evocara razões econômicas para reduzir o escritório soviético e, no lugar, investir na Bósnia e na Sérvia — como se a Sérvia pudesse algum dia se tornar uma ameaça para a Suécia! O resultado fora a impossibilidade de plantar, em Moscou, informantes a longo prazo, e no dia em que o clima voltasse a ficar tenso — o que, na opinião de Gullberg, era inevitável — surgiriam mais uma vez exigências políticas extravagantes em relação à Sapo e ao serviço militar de informações, como se fosse possível formar agentes num passe de mágica.

Gullberg iniciara sua carreira no escritório russo da 3ª. Brigada da polícia do Estado e depois de dois anos numa repartição pudera dar seus primeiros e hesitantes passos no terreno como adido militar com patente de capitão, na embaixada sueca em Moscou, entre 1952 e 1953. Curiosamente ele seguia os mesmos passos de outro espião famoso. Alguns anos antes, seu cargo havia sido ocupado por um oficial até bem conhecido, o coronel Stig Wennerstróm.

De volta à Suécia, Gullberg trabalhara na contra-espionagem e, dez anos depois, era um dos agentes mais jovens da Sapo que, em 1963, na equipe dirigida pelo diretor de intervenções Otto Danielsson, prendera Wennerstróm e o conduzira à prisão perpétua no presídio de Lângholmen.

Quando a polícia secreta foi reestruturada sob o comando de Per Gunnar Vinge, em 1964, tornando-se um departamento de segurança da Direção Geral da Polícia Nacional — DGPN/Sapo, o número de funcionários começou a aumentar. Nessa época, fazia catorze anos que Gullberg trabalhava na Sapo, onde se tornara um dos veteranos de confiança.

Gullberg evitava usar o termo abreviado Sapo, preferindo dizer Polícia de Segurança. Com alguns colegas, ele falava Empresa ou Casa, ou simplesmente Departamento — mas nunca Sapo. Por um motivo simples. A missão mais importante da Casa fora, durantes anos, o controle de pessoas, ou seja, investigar e fichar cidadãos suecos suspeitos de ter opiniões comunistas e de traição à pátria. Na Casa, as expressões "comunista" e "traidor da pátria" eram usadas como sinônimos. A palavra "Sapo", que acabou afinal sendo adotada por todos, fora inicialmente criada pelo Clarté, um jornal comunista traidor da pátria, como um termo pejorativo para designar os caçadores de comunistas da polícia. E Gullberg tinha muita dificuldade em entender por que seu antigo chefe, P. G. Vinge, escolhera Fui chefe da Sapo de 1962 a 1970 como título de suas memórias.

A reestruturação de 1964 viria a ser decisiva para a carreira futura de Gullberg.

A transformação da polícia secreta em DGPN/Sapo significou que esta se transformou no que as notas do Ministério da Justiça qualificavam de organização policial moderna. Isso implicava novos recrutamentos, seguidos de intermináveis problemas de adaptação, o que, numa organização em expansão, levou o Inimigo a ter possibilidades muitíssimo mais fáceis de infiltração de agentes no Departamento. O que, por sua vez, acarretou a necessidade de reforçar o controle de segurança interna — a polícia secreta não podia mais ser um clube distinto constituído por antigos oficiais, onde todos se conheciam e o mérito mais comum de um novo recruta era ter um pai oficial.

Em 1963, Gullberg fora transferido da contraespionagem para o controle de pessoas, fortalecido pelo desmascaramento de Stig Wennerstrõm. Por essa época é que foram assentadas as bases do cadastro de opiniões, que, no final dos anos 1960, reunia fichas de mais de trezentos mil cidadãos suecos com opiniões políticas pouco convenientes. Mas o controle dos cidadãos suecos era uma coisa; aqui, tratava-se de descobrir um meio de exercer o controle de segurança no seio da própria DGPN/Sapo.

Wennerstrõm desencadeara uma avalanche de complicações para a polícia secreta do Estado. Se um coronel do Estado-Maior da Defesa havia conseguido trabalhar para os russos — sendo, ainda por cima, conselheiro do governo para assuntos relacionados a armas nucleares e política de segurança —, haveria como garantir que os russos não tinham também um agente infiltrado no seio da polícia secreta? A quem caberia assegurar que os diretores e outros responsáveis da Casa na verdade não trabalhavam para os russos? Em suma, quem deveria espionar os espiões?

Em agosto de 1964, Gullberg foi convocado, certa tarde, para uma reunião com o diretor-adjunto da Sapo, o chefe de gabinete Hans Wilhelm Francke. Além dele, participavam da reunião mais duas pessoas da alta esfera da Casa, o secretário-geral e o responsável pelo orçamento. No final daquele dia, a vida de Gullberg tinha adquirido um novo sentido. Ele fora escolhido. Atribuíram-lhe a responsabilidade de uma brigada recentemente criada com o nome provisório de Seção Especial, cuja sigla era SE. A primeira providência de Gullberg foi renomeá-la Seção de Análise. Funcionou durante alguns minutos, até o responsável pelo orçamento observar que SA não era muito melhor que SE. O nome definitivo da organização acabou sendo Seção de Análise Especial, SAE, chamada no dia a dia de Seção, diferentemente de Departamento ou Casa, que se aplicavam ao conjunto da Sapo.

Essa seção fora idéia de Francke. Ele a denominava a última linha de defesa — um grupo ultrassecreto que ocupava posições estratégicas dentro da Casa, embora fosse invisível, não aparecesse nos avisos internos nem nas previsões orçamentárias e não pudesse, desse modo, sofrer infiltrações. Sua missão: cuidar da segurança da nação. Francke tinha poder para tornar isso possível. Precisava contar com o responsável pelo orçamento e com o secretário-geral para criar essa estrutura oculta, mas todos eles eram soldados da velha escola e amigos, após dezenas de escaramuças com o Inimigo.

No primeiro ano, a organização era constituída apenas por Gullberg e três colaboradores escolhidos a dedo. No§.dez anos seguintes, a Seção foi crescendo até contar com onze pessoas; duas eram secretários administrativos da velha escola e as outras, caçadores de espiões profissionais. Numa hierarquia simplificada ao máximo, Gullberg era o chefe e os demais, colaboradores que se reuniam quase diariamente com o chefe. A eficiência era mais valorizada que o prestígio e a burocracia.

Formalmente, Gullberg era subordinado a uma extensa lista de pessoas na hierarquia abaixo do secretário-geral da Sapo, ao qual ele tinha de apresentar relatórios mensais, mas na prática ocupava uma posição única e detinha um poder extraordinário. Ele, e apenas ele, podia resolver investigar de perto as mais altas esferas da Sapo. Podia, se assim lhe aprouvesse, virar do avesso a vida do próprio Per Gunnar Vinge (o que ele de fato fez). Podia iniciar suas próprias investigações ou instalar escutas telefônicas sem ser obrigado a dar explicações ou recorrer às altas instâncias. Seu modelo era o lendário espião americano James Jesus Angleton, que ocupava uma posição similar na CIA e a que ele, por sinal, conhecera pessoalmente.

Na prática, a Seção foi se tornando uma micro-organização dentro do Departamento, acima e à margem do restante da Polícia de Segurança. Isso também trouxe conseqüências geográficas. A Seção contava com algumas salas em Kungsholmen, mas, por razões de segurança, foi inteiramente transferida para um apartamento particular de onze cômodos em Ostermalm. O apartamento foi discretamente transformado em salas fortes, que nunca ficavam sem tripulação, já que a fiel secretária, Eleanor Badenbrink, passou a habitar de modo permanente dois cômodos situados junto à porta de entrada. Badenbrink era um recurso inestimável em quem Gullberg tinha toda confiança.

Ao montar essa unidade, Gullberg e seus colaboradores evitaram qualquer tipo de visibilidade — eram financiados por um "fundo especial", porém não constavam em lugar nenhum da burocracia formal da Polícia de Segurança, ligada à direção-geral da Polícia Nacional ou ao Ministério da Justiça. O próprio diretor da DGPN/Sapo desconhecia a existência desses homens, os mais secretos entre os secretos, que tinham por missão gerir os casos mais secretos entre os mais secretos.

Por volta dos quarenta anos, portanto, Gullberg estava numa posição de não ter de prestar contas a ninguém e poder iniciar investigações sobre o que bem entendesse.

Desde o início, compreendeu que a Seção de Análise Especial corria o risco de se tornar um grupo politicamente nevrálgico. Sua missão era, no mínimo, um bocado vaga, e as instruções escritas, extremamente escassas. Em setembro de 1964, o primeiro-ministro Tage Erlander assinou uma diretriz estipulando a atribuição de uma verba para a Seção de Análise Especial, cuja missão era gerir investigações particularmente espinhosas e importantes para a segurança da nação. Foi um desses doze casos particularmente espinhosos que o diretor-adjunto da DGPN/Sapo, Hans Wilhelm Fracke, expôs numa reunião. O caso foi de imediato considerado secreto e arquivado no cadastro especial e igualmente secreto da DGPN/Sapo.

A medida do primeiro-ministro, porém, exigia que a Seção fosse uma instituição juridicamente reconhecida. Seu primeiro orçamento anual somava cinqüenta e duas mil coroas. Um orçamento minúsculo, o que o próprio Gullberg considerava um golpe de mestre. Dava a entender que a criação da Seção não passava de um fato em meio a tantos outros.

Num sentido mais amplo, a diretriz assinada pelo primeiro-ministro significava que ele reconhecia a necessidade de haver um grupo encarregado do "controle interno dos funcionários". Alguns poderiam igualmente interpretar essa assinatura como um aval do primeiro-ministro para a criação de um grupo que poderia também se encarregar do controle de "pessoas especialmente espinhosas" fora da Sapo, por exemplo o próprio primeiro-ministro. Esta última possibilidade é que criava dificuldades políticas potencialmente graves.

Evert Gullberg constatou que seu copo de Johnny Walker estava vazio. Não era particularmente afeito ao álcool, mas tinha sido um longo dia, uma longa viagem, e ele julgava ter chegado a um ponto da vida em que pouco importava se ele tomasse um ou dois uísques. Não precisava hesitar em encher o copo se lhe desse vontade. Serviu-se uma garrafinha de Glenfiddich.

O caso mais delicado fora, evidentemente, o de Olof Palme.

Gullberg recordava nos mínimos detalhes o dia das eleições de 1976. Pela primeira vez na história moderna, a Suécia tinha um governo de direita. Infelizmente, quem se tornou primeiro-ministro foi Thorbjõm Fálldin, e não Gosta Bohman, um homem da velha escola muitíssimo mais adequado. Mas o importante é que Palme fora derrotado e Evert Gullberg podia respirar aliviado.

A pertinência de Palme como primeiro-ministro fora objeto de mais de uma conversa nos corredores mais secretos da DGPN/Sãpo. Em 1969, Per Gunnar Vinge fora demitido depois de expressar sua opinião, partilhada por várias pessoas do Departamento, de que Palme talvez fosse um agente de informações a serviço da KGB russa. A convicção de Vinge não suscitou controvérsias no ambiente que reinava na Casa. Infelizmente, ele discutira o assunto de forma aberta com o governador Ragnar Lassinantti em uma visita à província de Norrbotten. Lassinantti levantara duas vezes as sobrancelhas e depois informara o gabinete ministerial, o que resultou na convocação de Vinge para uma entrevista particular.

Para a imensa indignação de Evert Gullberg, a questão dos eventuais contatos russos de Palme nunca obteve confirmação. Apesar das constantes tentativas no sentido de estabelecer a verdade e reunir provas definitivas — o revólver ainda fumegante —, a Seção jamais encontrou a menor evidência. Aos olhos de Gullberg, isso de modo algum demonstrava a inocência de Palme, e sim, pelo contrário, que ele talvez fosse um espião particularmente esperto e inteligente, pouco dado a repetir os erros cometidos por outros espiões russos. Palme continuava zombando deles ano após ano. Em 1982, o caso Palme voltara à tona quando ele se tomou primeiro-ministro. Depois, repercutiram os tiros de Sveavãgen, e a questão se tornou para sempre mera teoria.

O ano de 1976 fora problemático para a Seção. Dentro da DGPN/Sapo — entre as raras pessoas que sabiam da existência da Seção — começaram a surgir algumas críticas. Nos dez anos anteriores, um total de sessenta e cinco funcionários da Sapo tinham sido afastados da organização em virtude de uma suposta falta de confiabilidade política. Na maioria dos casos, contudo, os documentos eram de tal natureza que nada podia ser provado e, conseqüentemente, alguns chefes dos altos escalões começaram a achar que os funcionários da Seção eram uns paranóicos que enxergavam conspirações em tudo.

Gullberg ainda fervia por dentro quando se lembrava de um dos casos enfrentados pela Seção. Tratava-se de um homem recrutado pela DGPN/Sapo em 1968 e que Gullberg achava especialmente inadequado. Chamava-se Stig Bergling, um inspetor criminal e tenente do Exército sueco que mais tarde viria a se revelar coronel do GRO, o serviço russo de informações militares. Em quatro oportunidades, durante os anos seguintes, Gullberg tentou fazer com que Bergling fosse demitido, mas todas as suas tentativas foram ignoradas. Os ventos só mudaram em 1977, quando Bergling ficou sob suspeita mesmo fora da Seção. Tarde demais. Bergling foi o maior escândalo da história da Polícia de Segurança sueca.

A crítica em relação à Seção crescera durante a primeira metade dos anos 1970 e, em meados da década, Gullberg ouvira diversos comentários sobre uma redução de verbas e inclusive a insinuação de que aquela atividade toda não tinha a menor utilidade.

De forma geral, a crítica significava que o futuro da Seção estava comprometido. Naquele ano, a prioridade da DGPN/Sapo eram as ameaças terroristas, uma triste história do ponto de vista da espionagem que envolvia principalmente jovens perdidos que atuavam para elementos árabes ou pró--palestinos. A grande questão dentro da Sapo era se a atividade de controle das pessoas deveria receber verbas específicas para investigar cidadãos estrangeiros residentes na Suécia, ou se esse era um assunto exclusivo da Brigada dos Estrangeiros.

A partir dessa discussão burocrática um tanto obscura, surgira na Seção a necessidade de poder contar com um colaborador de confiança, encarregado de reforçar o controle dos colaboradores na Brigada dos Estrangeiros — e, sim, de espioná-los.

A escolha recaiu sobre um jovem funcionário que trabalhava na DGPN/ Sapo desde 1970 e cujo passado e credibilidade política permitiam supor que ele poderia ter um lugar entre os colaboradores da Seção. Na vida privada, era membro de uma organização chamada Aliança Democrática, mas que a mídia social-democrata qualificava de extrema-direita. Na Seção, isso não representava um defeito grave. Três outros colaboradores eram membros dessa organização, e a Seção tinha muito a ver com sua criação, além de contribuir um pouco com ela financeiramente. Pelo viés da Aliança Democrática é que o novo colaborador da Seção fora notado e recrutado. Seu nome era Gunnar Bjõrck.

 

No dia das eleições de 1976, quando Alexander Zalachenko se refugiara na Suécia e entrara na delegacia de Norrmalm pedindo asilo político, para Evert Gullberg foi de fato uma sorte ele ter sido recebido justamente pelo jovem Gunnar Bjõrck — encarregado de instruir os processos na Brigada dos Estrangeiros, um agente já envolvido com os segredos mais secretos.

Bjõrck tinha uma mente ágil. Percebeu de imediato a importância de Zalachenko e interrompeu o interrogatório. Colocou o desertor num quarto do Hotel Continental. Em seguida, Gunnar Bjõrck chamou Evert Gullberg para dar o alerta, e não seu chefe formal na Brigada dos Estrangeiros. O telefonema chegou numa hora em que as zonas eleitorais já estavam fechadas e todos os prognósticos indicavam a derrota de Palme. Gullberg acabava de chegar em casa e assistia à cobertura das eleições na tevê. Num primeiro momento, desconfiou da informação que aquele rapaz excitadíssimo lhe transmitia. Mas pouco depois dirigiu-se ao Hotel Continental para assumir o caso Zalachenko.

Naquele dia, a vida de Evert Gullberg mudara radicalmente. A palavra "secreto" adquiriu um novo significado e um novo peso. Ele percebeu a necessidade de montar uma estrutura em volta do dissidente.

Optou de saída por incluir Gunnar Bjõrck no grupo Zalachenko. Sábia e justa decisão, uma vez que Bjõrck já sabia da existência do dissidente. Era melhor tê-lo no grupo do que permitir que ele representasse lá fora um risco para a segurança. Assim, Bjõrck foi transferido do seu cargo oficial na Brigada dos Estrangeiros para uma sala no apartamento de Ostermalm.

Na agitação que se seguiu, Gullberg resolveu informar uma única pessoa dentro da DGPN/Sapo, o secretário-geral que já tinha acesso às atividades da Seção. O secretário-geral segurou a informação durante vários dias e depois acabou explicando a Gullberg que quem estava mudando de lado era um peixe tão grande que precisavam informar não só o diretor da DGPN/Sapo como também o governo.

O diretor da DGPN/Sapo, que acabara de assumir o cargo, tinha na época conhecimento da existência da SAE, mas só uma vaga idéia de suas reais atividades. Fora colocado no cargo apenas para dar uma limpa após o caso IB, e já estava a caminho de um cargo importante na hierarquia policial. Durante algumas entrevistas confidenciais, o diretor da DGPN/Sapo descobrira que a Seção era um grupo secreto criado pelo governo, que operava ao largo das reais atividades da Sapo e sobre o qual não se devia fazer nenhum tipo de pergunta. Como, na época, o diretor era um homem que tomava o maior cuidado em não fazer perguntas capazes de provocar respostas desagradáveis, contentara-se em menear a cabeça e aceitar que existia algo chamado SAE que nada tinha a ver com ele.

Gullberg não estava lá muito entusiasmado com a idéia de ter de falar sobre Zalachenko com o diretor, mas curvou-se à realidade. Enfatizou a necessidade premente de segredo absoluto, no que foi apoiado por seu interlocutor, e decretou medidas segundo as quais nem o próprio diretor da DGPN/Sapo poderia discutir o assunto em sua sala sem adotar procedimentos especiais de segurança. Ficou decidido que Zalachenko seria administrado pela Seção de Análise Especial.

Estava fora de cogitação informar o primeiro-ministro que deixava o cargo. Tendo em vista a agitação em torno da mudança de governo, o novo primeiro-ministro estava ocupado demais com a nomeação de seu ministério e negociando com os outros partidos de direita. Só um mês depois da formação do novo governo é que o diretor da DGPN/Sapo, acompanhado de Gullberg, foi até Rosenbad, na sede do governo, para informar Fálldin, o novo primeiro--ministro. Gullberg opusera-se até o fim a que o governo fosse informado, mas o diretor da DGPN/Sapo insistira — era constitucionalmente indefensável não informar o primeiro-ministro. Durante a reunião, Gullberg usara toda a sua eloqüência para convencer o primeiro-ministro da importância de não divulgar a existência de Zalachenko para além de sua sala — nem o ministro das Relações Exteriores, nem o ministro da Defesa, nem qualquer outro membro do governo poderia ficar sabendo.

Saber que um agente russo de peso buscara asilo político na Suécia mexera com Fálldin. O primeiro-ministro começou a evocar seu dever constitucional de discutir o assunto com, pelo menos, os presidentes dos dois outros partidos do governo de coalizão. Gullberg estava preparado para essa reação e jogara sua cartada mais consistente. Explicara em voz baixa que, se isso acontecesse, ele se veria obrigado a apresentar de imediato sua demissão. A ameaça surtiu efeito, pois isso significaria o primeiro-ministro ter de arcar pessoalmente com as conseqüências caso o fato viesse à tona e os russos enviassem um comando assassino para eliminar Zalachenko. E se a pessoa que respondia pela segurança de Zalachenko se sentira forçada a se demitir, uma revelação desse porte seria uma catástrofe tanto em termos políticos como de repercussão na imprensa para o primeiro-ministro.

Fálldin, ainda novato e hesitante em seu papel de chefe do governo, capitulou. Deu seu aval para uma diretriz, imediatamente inscrita no registro secreto, estipulando que a Seção responderia pela segurança e pelos interrogatórios de Zalachenko, e que a informação sobre sua existência não deveria sair do gabinete do primeiro-ministro. Ao assinar essa diretriz, Fãlldin demonstrava claramente que havia sido informado, mas também que não estava autorizado a falar sobre o assunto. Em suma, o que ele tinha a fazer era esquecer Zalachenko.

Fãlldin, contudo, insistira para que outra pessoa de seu gabinete fosse informada, um secretário de Estado cuidadosamente escolhido que atuasse como contato nos assuntos relacionados com o dissidente. Gullberg concordou. Não lhe seria difícil manipular um secretário de Estado.

O diretor da DGPN/Sapo estava satisfeito. O caso Zalachenko ficava, assim, coberto do ponto de vista constitucional, o que significava que ele também estava garantido. Gullberg também estava satisfeito. Conseguira criar uma quarentena que lhe permitia controlar o fluxo de informações. Ele era o único que controlava Zalachenko.

Voltando ao seu escritório em Ostermalm, Gullberg sentou-se à sua mesa e estabeleceu uma lista manuscrita das pessoas que sabiam da existência de Zalachenko. Afora ele próprio, nela constavam Gunnar Bjôrck; Hans von Rottinger, chefe de operações da Seção; Fredrik Clinton, diretor-adjunto; Eleanor Badenbrink, secretária da Seção; e outros dois colaboradores encarregados de reunir e analisar o conteúdo das informações que Zalachenko pudesse fornecer. Ao todo sete pessoas, que, nos anos seguintes, iriam constituir uma seção à parte dentro da Seção. Ele a batizou mentalmente de Grupo Interno.

Fora da Seção, sabiam do segredo o diretor da DGPN/Sapo, o diretor--adjunto e o secretário-geral. Doze pessoas ao todo. Nunca antes um segredo daquela importância fora conhecido por um círculo tão exclusivo.

Mas Gullberg logo se preocupou. Mais uma pessoa sabia do segredo. Bjõrck viera acompanhado de um jurista, Nils Bjurman. Estava fora de questão transformar Bjurman em colaborador da Seção. Além de Bjurman não ser um legítimo policial da Sapo — não passava de um estagiário —, não tinha os conhecimentos e a competência necessários. Gullberg pesou diferentes possibilidades e então optou por ir discretamente afastando Bjurman do caso. Ameaçou-o com prisão perpétua por alta traição caso deixasse escapar uma sílaba sequer a respeito de Zalachenko, corrompeu-o com promessas de missões futuras e com adulações que aumentaram o sentimento de importância de Bjurman. Cuidou para que obtivesse um cargo num renomado escritório de advocacia, assim como um volume de encargos que o mantivesse ocupado. O único problema era Bjurman ser tão medíocre e não saber explorar suas aptidões. Ao fim de dez anos, deixara o escritório de advocacia e abrira seu próprio escritório, com um funcionário, em Odenplan.

Ao longo dos anos, Gullberg manteve Bjurman sob uma discreta, mas constante vigilância. Só relaxou nesses cuidados no final dos anos 1980, quando, com o desmoronamento da União Soviética, Zalachenko deixou de ser um assunto prioritário.

Para a SAE, Zalachenko de início representou a promessa de uma pista para o enigma Palme, um caso que estava constantemente entre as preocupações de Gullberg. De modo que Palme fora um dos primeiros temas ventilados por Gullberg durante o extenso interrogatório.

Essa expectativa, porém, foi rapidamente pulverizada, já que Zalachenko nunca atuara na Suécia e não conhecia de fato o país. Em compensação, tinha ouvido falar num tal de "Corredor Vermelho", um político do alto escalão sueco, ou quem sabe escandinavo, que trabalhava para a KGB.

Gullberg montou uma lista de nomes que ele relacionava com Palme. Nela constavam Carl Lidbom, Pierre Schori, Sten Andersson, Marita Ulvskog e mais algumas pessoas. Ao longo de sua vida, Gullberg jamais deixou de voltar a essa lista, e jamais encontrou uma resposta.

Gullberg, de repente, estava brincando no pátio dos meninos mais velhos. Passaram a cumprimentá-lo com respeito no exclusivo clube dos guerreiros, em que todos se conhecem e os contatos se dão por intermédio de amigos pessoais e de confiança — e não pelos canais oficiais e intervenções burocráticas. Conheceu James Jesus Angleton e teve a oportunidade de tomar uísque num discreto clube londrino com o chefe do MI-6. Tinha se tornado um dos mais velhos.

A desvantagem de seu ofício é que nunca poderia revelar seus êxitos, nem mesmo em suas memórias póstumas. E vivia sempre com o receio de que o Inimigo reparasse em suas viagens e o pusesse sob vigilância — de que sem querer conduzisse os russos até Zalachenko.

Sob esse ponto de vista, Zalachenko era seu pior inimigo.

No primeiro ano, Zalachenko vivera num apartamento neutro de propriedade da Seção. Ele não constava em nenhum registro ou documento oficial, e o grupo Zalachenko acreditava ter muito tempo pela frente antes de ser obrigado a planejar seu futuro. Só na primavera de 1978 ele recebeu um passaporte com o nome de Karl Axel Bodin, junto com uma história minuciosamente montada — um verdadeiro passado falso passível de ser conferido nos cadastros suecos.

Mas era tarde demais. Zalachenko já tinha se metido com a desgraçada daquela puta da Agneta Sofia Salander, nascida Sjõlander, e se apresentara com seu nome verdadeiro. Para Gullberg, faltava algum parafuso na cabeça do seu protegido. Desconfiava que o dissidente russo queria ser desmascarado. Dava a impressão de querer se mostrar à luz dos refletores. Se não, como se explicava ele às vezes ser tão obtuso?

Eram as putas, eram os períodos de consumo exagerado de álcool, eram as brigas e altercações com os seguranças nos bares. Zalachenko foi detido três vezes pela polícia sueca por embriaguez, e duas por confusão em bares. E todas as vezes a Seção tinha de intervir discretamente para tirá-lo da encrenca, dar sumiço nos documentos e tratar de alterar os registros. Gullberg designou Gunnar Bjõrck para o papel de ama-seca. Seu trabalho consistia em servir de babá para o dissidente quase vinte e quatro horas por dia. Meio complicado, mas também era difícil não agir daquele modo.

Tudo poderia ter sido tranqüilo. No início dos anos 1980, Zalachenko tinha se acalmado e começava a se adaptar. A não ser pelo fato de não querer largar aquela puta da Salander — e, para piorar, ele agora era pai de duas meninas, Camilla e Lisbeth Salander.

Lisbeth Salander.

Gullberg pronunciou o nome com uma sensação de mal-estar.

Quando as meninas tinham nove, dez anos, Gullberg já sentia como que uma câimbra no estômago quando o assunto era Lisbeth Salander. Não precisava ser psiquiatra para perceber que ela não era normal. Gunnar Bjõrck relatara que ela era rebelde, violenta e agressiva com Zalachenko, e ainda por cima parecia não ter nenhum medo dele. Falava muito pouco, mas expressava de mil maneiras seu desagrado com aquele estado de coisas. Ela era um problema em potencial, porém nem em seus maiores delírios da imaginação

Gullberg conseguiria prever as proporções monumentais que aquilo tudo iria assumir. O que ele mais temia era que a situação da família Salander provocasse uma investigação social que acabasse pondo Zalachenko em foco. Gullberg pedia-lhe constantemente que rompesse com a família e sumisse da vida delas. Zalachenko prometia, mas nunca cumpria a promessa. Ele tinha outras putas. Muitas putas. No entanto, ao fim de alguns meses, sempre voltava para junto de Agneta Sofia Salander.

O idiota do Zalachenko. Um espião que permitia que seu pinto conduzisse sua vida sentimental não podia, evidentemente, ser um bom espião. Era como se Zalachenko estivesse, ou julgasse estar, acima das regras. Se pelo menos ele pudesse trepar com a mulher sem espancá-la sempre que a via, até daria para agüentar, mas o fato é que ele a maltratava sistematicamente. Parecia até que se comportava assim para desafiar os vigilantes do grupo Zalachenko, que ele demolia a mulher só para se divertir e atormentar o grupo.

Gullberg não tinha a menor dúvida de que Zalachenko era um escroto perverso, mas não tinha escolha. Os dissidentes do GRO realmente não nasciam em árvores. Ele só dispunha de um, o qual tinha consciência da própria importância.

Gullberg suspirou. O grupo Zalachenko assumira a função de comando de limpeza. Não dava para negar. Zalachenko sabia que podia tomar suas liberdades que depois os homens ajeitariam gentilmente os problemas. E quando se tratava de Agneta Sofia Salander, ele aproveitava a situação para ultrapassar todos os limites.

Entretanto, sinais de alerta não tinham faltado. Lisbeth Salander acabava de completar doze anos quando apunhalara Zalachenko. Claro, foram ferimentos superficiais, mas mesmo assim exigiram uma passagem no Hospital Sankt Gõran e a necessidade, para o grupo Zalachenko, de realizar uma limpeza considerável. Naquela vez, Gullberg tivera uma Conversa Muito Séria com Zalachenko. Explicou-lhe que ele não podia, em hipótese alguma, retomar o contato com a família Salander, e Zalachenko prometeu. Cumpriu a promessa por mais de seis meses, até que voltou a procurar Agneta Sofia Salander e lhe deu tamanha surra que ela acabou seus dias numa clínica. Mas o que Gullberg nunca teria imaginado é que Lisbeth Salander era uma psicopata ávida de sangue que sabia fabricar um coquetel Molotov. Aquele dia fora um caos absoluto. Seria de se esperar uma série de investigações, e toda a operação Zalachenko — quem sabe até toda a Seção — estava por um tênue fio. Se Lisbeth Salander falasse, Zalachenko poderia ser desmascarado. Se Zalachenko fosse desmascarado, não só uma série de operações em andamento na Europa nos últimos quinze anos corria o risco de naufragar, como a própria Seção arriscava-se a se tornar objeto de um inquérito oficial. O que precisava ser evitado a todo custo.

Gullberg estava preocupado. Um inquérito oficial faria o caso IB parecer uma inofensiva série de televisão. Se abrissem os arquivos da Seção, descobririam um bom número de situações não totalmente constitucionais, para não falar na vigilância sobre Palme e sobre outros sociais-democratas conhecidos, que se estendera por muitos anos. Isso acarretaria investigações sobre Gullberg e vários outros funcionários da Seção. Pior: jornalistas exaltados, sem pensar duas vezes, lançariam a teoria de que a Seção estava por trás do assassinato de Palme, o que por sua vez conduziria a mais um labirinto de revelações e acusações. O pior era que a direção da Sapo tinha mudado tanto que hoje nem seu chefe principal sabia da existência da Seção. Todos os contatos com a DGPN/Sapo naquele ano iam parar na mesa do novo secretário-geral que, fazia já dez anos, era membro da Seção.

Os colaboradores do grupo Zalachenko viviam um clima de pânico e aflição. Foi Gunnar Bjõrck quem encontrou a solução na forma de um psiquiatra chamado Peter Teleborian.

Teleborian estivera ligado ao departamento de contra-espionagem da DGPN/Sapo em outro caso bem distinto, fazendo as vezes de consultor quando a contra-espionagem tivera de avaliar a personalidade de um espião industrial em potencial. Em certo ponto delicado da investigação, foi preciso determinar de que maneira o homem reagiria se exposto a uma situação de estresse. Teleborian era um jovem psiquiatra promissor que não empregava um jargão obscuro, oferecendo conselhos concretos e sólidos. Tais conselhos tinham permitido que a Sapo evitasse um suicídio, e o espião em questão fora convertido em agente duplo, fornecedor de desinformação à seus partidários.

Após a agressão de Salander contra Zalachenko, Bjõrck vinculara discretamente Teleborian à Seção, como consultor. E naquele momento, mais do que nunca, estavam precisando dele.

A solução do problema fora bastante simples. Karl Axel Bodin podia desaparecer em algum momento durante seu processo de reeducação. Agneta Sofia Salander desapareceria em meio aos tratamentos de longo prazo, com lesões cerebrais irreversíveis. Todas as investigações policiais ficaram concentradas na DGPN/Sapo e foram repassadas para a Seção através do secretário-geral.

Peter Teleborian acabava de assumir o cargo de médico-chefe adjunto na clínica Sankt Stefan de psiquiatria infantil, em Uppsala. Só precisavam de uma perícia médico-legal redigida em conjunto por Bjõrck e Teleborian, seguida de uma decisão sumária e não muito contestável de um tribunal de instâncias. Só dependia da forma como a questão seria apresentada. A Constituição nada tinha a ver com isso. Afinal, tratava-se da segurança nacional. As pessoas iriam entender.

E Lisbeth Salander era claramente uma doente mental. Alguns anos internada numa instituição psiquiátrica só iriam lhe fazer bem. Gullberg meneara a cabeça e dera seu aval para a operação.

Todas as peças do* quebra-cabeça tinham se encaixado, numa época em que, de qualquer modo, o grupo Zalachenko estava para ser dissolvido. A União Soviética deixara de existir e o período de glória de Zalachenko estava definitivamente relegado ao passado. Sua data de validade estava mais do que vencida.

O grupo conseguira para Zalachenko uma generosa indenização, fornecida por um dos fundos da Sapo. Ofereceram-lhe os melhores tratamentos imagináveis e, seis meses depois, com um suspiro de alívio, acompanharam Karl Axel Bodin ao aeroporto de Arlanda, munido de um bilhete de ida para a Espanha. Explicaram-lhe que, a partir daquele momento, Zalachenko e a Seção seguiriam caminhos diferentes. Aquele foi um dos últimos casos de Gullberg. Uma semana depois, aposentava-se em função da idade e deixava o lugar a seu herdeiro Fredrik Clinton. Gullberg passou a atuar apenas como consultor e conselheiro em assuntos mais delicados. Permaneceu mais três anos em Estocolmo, trabalhando quase diariamente na Seção, mas as missões foram ficando cada vez mais escassas e ele próprio foi esmorecendo. Voltou para Laholm, sua cidade natal, e realizou alguns trabalhos à distância. Nos primeiros anos, ainda vinha regularmente a Estocolmo, mas mesmo essas viagens foram se tornando mais e mais episódicas.

Nunca mais tinha pensado em Zalachenko. Até o dia em que, ao acordar de manhã, deu com a filha de Zalachenko na primeira página de todos os jornais como suspeita de um triplo homicídio.

Gullberg acompanhou o noticiário com uma sensação de confusão. Percebia claramente que Bjurman não se tornara tutor de Salander por acaso, mas o ressurgimento do velho caso Zalachenko não se afigurava para ele como um perigo iminente. Salander era uma doente mental. Que ela tivesse planejado uma orgia assassina não chegava a surpreendê-lo. Em compensação, nunca lhe ocorrera que Zalachenko pudesse estar ligado ao caso até ver, no noticiário da manhã, o relato dos acontecimentos de Gosseberga. Foi quando começou a dar uns telefonemas e acabou comprando uma passagem de trem para Estocolmo.

A Seção enfrentava sua pior crise desde que a organização fora criada. Tudo ameaçava explodir.

Zalachenko arrastou-se até o banheiro e urinou. Desde que o Hospital Sahlgrenska fornecera-lhe muletas, conseguia se locomover. Dedicara o domingo a breves sessões de exercícios. Uma dor infernal ainda lhe varava o maxilar e ele só ingeria alimentos líquidos, mas já conseguia se levantar e percorrer uns poucos metros.

Como já usasse uma prótese fazia quase quinze anos e estava acostumado com bengalas, treinou locomover-se com as muletas sem fazer barulho, dando voltas dentro do quarto. A cada vez que seu pé encostava no chão, uma dor fulgurante lhe transpassava a perna.

Cerrou os dentes. Pensou em Lisbeth Salander que — se tinha entendido direito — achava-se num quarto próximo, à esquerda, duas portas adiante.

Por volta das duas da manhã, dez minutos depois da última visita da enfermeira da noite, estava tudo calmo e silencioso. Zalachenko levantou-se a muito custo e tateou em busca das muletas. Aproximou-se da porta, mas não escutou nada. Abriu a porta e foi para o corredor. Caminhou até a saída no fundo do corredor, abriu a porta e deu uma espiada na escada. Havia elevadores. Voltou para o corredor. Ao passar em frente à porta de Lisbeth Salander, deteve-se e se apoiou uns trinta segundos nas muletas.

Naquela noite, as enfermeiras tinham fechado a porta. Lisbeth Salander abriu os olhos ao escutar um ligeiro som de atrito no corredor. Não conseguia identificar esse som. Parecia alguém arrastando devagarinho alguma coisa no chão. Por um momento, tudo ficou quieto e ela se perguntou se não seria uma alucinação. Um minuto depois, tornou a ouvir o mesmo ruído se afastando. Relaxou e deitou a cabeça no travesseiro.

Pouco depois, apalpou a comadre e descobriu os botões que a mantinham fechada. Abriu-os e derrubou a comadre no chão. De repente, respirar ficou mais fácil.

Gostaria de ter uma arma ao alcance da mão ou força suficiente para se levantar e se livrar dele de uma vez por todas.

Por fim, apoiou-se nos cotovelos e se ergueu. Acendeu a luz lateral e observou o quarto à sua volta. Não viu nada que pudesse servir de arma. Então seu olhar se deteve na mesa das enfermeiras, a três metros da cama. Constatou que alguém deixara um lápis sobre ela.

Esperou a visita da enfermeira, que naquela noite parecia vir ocorrendo a cada meia hora. Imaginou que verificações menos freqüentes significavam que os médicos viam uma melhora em seu estado, já que antes vinham vê--la de quinze em quinze minutos, ou até menos. Quanto a ela, não percebia nenhuma diferença.

Uma vez sozinha, juntou suas forças e se sentou, balançando as pernas sobre a beirada da cama. Os eletrodos presos à seu corpo registravam seu pulso e sua respiração, mas os fios seguiam todos na mesma direção do lápis. Levantou-se bem devagar e titubeou de repente, totalmente sem equilíbrio. Por um segundo, achou que ia desmaiar, mas apoiou-se na cama e focou o olhar na mesa em frente. Deu três passos vacilantes, estendeu a mão e apanhou o lápis.

Recuou até a cama. Estava completamente esgotada.

Depois de alguns instantes, achou forças para puxar o cobertor sobre si. Ergueu o lápis e verificou a ponta. Era um lápis de madeira comum. Fora recentemente apontado, estava afiado feito uma agulha. Daria uma arma adequada para enfiar num rosto ou nos olhos.

Deixou o lápis facilmente acessível junto ao quadril e voltou a dormir.

 

SEGUNDA-FEIRA - 11 DE ABRIL

Na segunda-feira de manhã, Mikael Blomkvist se levantou pouco depois das nove e ligou para Malu Eriksson, que acabava de chegar à redação da Millennium.

— Bom dia, senhora redatora-chefe — disse ele.

— Ainda estou em estado de choque com a saída da Erika e por saber que vocês me aceitaram como redatora-chefe.

— Ah, é?

— Ela foi embora. A sala dela está vazia.

— Então parece ser uma boa idéia você dedicar o dia para se instalar na sala.

— Não sei o que fazer. Não estou me sentindo muito à vontade.

— Pois não deveria. Todo mundo concorda que você é a melhor escolha na atual situação. E você pode pedir ajuda para o Christer ou para mim.

— Obrigada pela confiança.

— Deixe disso — disse Mikael. — Continue trabalhando como sempre. Por um tempo, a gente vai lidar com os problemas à medida que eles aparecerem.

— Certo. O que você tem em mente?

Ele explicou que pretendia ficar o dia inteiro em casa escrevendo. Malu se deu conta, de repente, de que ele estava prestando conta, como — provavelmente — prestaria a Erika Berger, de seu trabalho. Ele esperava um comentário dela. Ou estaria enganada?

— Você tem alguma instrução para me passar?

— Niet. Pelo contrário, se você tiver alguma, é só me ligar. Estou por aqui. Eu continuo com as rédeas da encrenca Salander e decido tudo sobre o caso, mas no que se refere a tudo o mais na revista a bola está com você. Tome as decisões. Eu te dou uma força.

— E se eu tomar a decisão errada?

— Se eu sentir ou perceber alguma coisa, te falo. Mas só se for alguma coisa absurda. Em geral, não existem decisões cem por cento boas nem cem por cento más. Você vai tomar as suas decisões, que talvez não sejam as que a Erika tomaria. E se fosse eu a decidir, teríamos uma terceira variante. Mas agora as suas é que vão prevalecer.

— Entendido.

— Se você for uma boa chefe, vai debater as questões que surgirem com as outras pessoas. Primeiro com o Henry e o Christer, depois comigo e, por fim, discutimos os problemas realmente espinhosos nas reuniões de redação.

— Vou fazer o melhor possível.

— Ótimo.

Ele se sentou no sofá da sala com o iBook no colo e trabalhou sem nenhuma pausa a metade da segunda-feira. Quando terminou, dispunha de uma primeira versão bruta de dois textos de vinte e uma páginas no total. Essa parte da matéria se centrava no assassinato de seu colaborador Dag Svensson e da companheira dele, Mia Bergman — no que eles vinham trabalhando, por que tinham sido mortos e quem era o assassino. Calculava, por alto, que teria de produzir mais umas quarenta páginas para a edição temática do próximo verão. E precisava resolver de que modo poderia introduzir Lisbeth Salander no texto sem ferir a integridade dela. Sabia coisas a seu respeito que ela decerto gostaria de não ver divulgadas.

Naquela segunda-feira, Evert Gullberg tomou um café da manhã composto por uma única fatia de pão e uma xícara de café preto, na Cafeteria Frey.

Em seguida, pegou um táxi que o levou até a Artillerigatan, em Õstermalm. Às 9hl5, tocou o interfone, apresentou-se e imediatamente lhe abriram a porta. Subiu até o quinto andar, onde foi recebido por Birger Wadensjõõ, de cinqüenta e quatro anos. Era o novo diretor da Seção.

Wadensjõõ era um dos mais jovens recrutas da Seção na época em que Gullberg se aposentara. Não sabia bem o que pensar a respeito dele.

Gostaria que o enérgico Fredrick Clinton ainda estivesse lá. Clinton sucedera Gullberg e fora diretor da Seção até 2002, quando um diabetes e problemas cardiovasculares de certa forma o obrigaram a se aposentar. Gullberg não conseguia identificar qual era realmente o perfil de Wadensjõõ.

— Olá, Evert — disse Wadensjõõ, apertando a mão de seu antigo chefe. — Obrigado por reservar um tempinho para nos fazer uma visita.

— Tempo é quase tudo o que me resta — disse Gullberg.

— Sabe como é. A gente não é muito bom em manter contato com nossos ex-fiéis servidores.

Evert Gullberg ignorou a observação. Entrou à esquerda em sua antiga sala, instalando-se a uma mesa redonda de reuniões próxima à janela. Wadensjõõ (Gullberg supôs que fosse mesmo ele) pusera nas paredes reproduções de Chagall e Mondrian. No seu tempo, Gullberg tinha posto plantas de navios históricos como o Kronan e o Wasa. Sempre sonhara com o mar e era, de origem, oficial da Marinha, embora só tenha passado alguns poucos meses no mar durante o serviço militar. Havia também computadores na sala. No mais, ela estava praticamente igual à que ele deixara ao se aposentar. Wadensjõõ serviu um café.

— O pessoal não deve demorar — disse ele. — Pensei que a gente poderia conversar um pouco primeiro.

— Quantas pessoas da minha época ainda estão na Seção?

— Além de mim, só o Otto Hallberg e o Georg Nystrõm. O Hallberg se aposenta este ano e o Nystrõm está para fazer sessenta anos. Fora eles, praticamente só temos gente nova. Você já deve ter cruzado com alguns deles.

— Quantas pessoas trabalham na Seção atualmente?

— Andamos reorganizando as coisas por aqui.

— Ah, é?

— No momento, estamos com sete pessoas em período integral. Ou seja, houve uma redução. Além disso, a Seção tem trinta e um colaboradores na DGPN/Sapo. A maioria nunca aparece, faz o trabalho de rotina, e os serviços que eles realizam para nós são mais um extra discreto.

— Trinta e um colaboradores.

— Mais sete. Acontece que foi você quem criou este sistema. Nós só aperfeiçoamos, e ainda hoje se fala em uma organização interna e outra externa. Quando recrutamos uma pessoa, ela fica lotada aqui por um tempo para adquirir experiência com a gente. O Hallberg é quem cuida do treinamento. O estágio básico dura seis semanas. É realizado na Escola da Marinha. Depois o novato reassume seu posto efetivo na DGPN/Sapo, mas alocado aqui com a gente.

— Ah,é?

— O sistema é meio fantástico. Os colaboradores, na sua maioria, ignoram tudo uns sobre os outros. E aqui na Seção a gente funciona antes de mais nada como receptores de relatórios. As regras são as mesmas da sua época. Para todos os efeitos, somos uma organização banal.

— Unidade de intervenção?

Wadensjõõ franziu o cenho. Nos tempos de Gullberg, a Seção tivera uma pequena unidade de intervenção de quatro pessoas comandadas por Hans von Rottinger, um sujeito experiente.

— Bem, não exatamente. O Rottinger morreu há cinco anos. Temos aqui um jovem talentoso que faz algum trabalho de campo, mas em geral recorremos a alguém da organização externa quando é preciso. Sem contar que tecnicamente ficou mais complicado, por exemplo, montar uma escuta telefônica ou entrar num apartamento. Hoje em dia existem alarmes e lixos desse tipo em todo lugar.

Gullberg concordou com a cabeça.

— Orçamento? — perguntou.

— Contamos com pouco mais de onze milhões por ano. Um terço vai para os salários, um terço para a manutenção e o outro terço para as atividades.

— Quer dizer que o orçamento foi reduzido?

— Um pouco. Mas temos menos pessoal, o que significa que a verba para as atividades aumentou.

— Entendi. Me fale um pouco sobre a nossa relação com a Sapo — disse Gullberg, sem se preocupar se podia ou não usar esse termo.

Wadensjõõ balançou a cabeça.

— O secretário-geral e o encarregado do orçamento são nossos. Formalmente, o secretário-geral é talvez o único que tem acesso às nossas atividades. Como sempre, somos secretos a ponto de não existirmos. Mas, ha verdade, alguns chefes-adjuntos sabem da nossa existência. Fazem o possível para nem ouvir falar na gente.

— Sei. Isso significa que caso haja algum problema a atual direção da Sapo vai ter uma surpresa desagradável. E a direção da Defesa? E o governo?

— A direção da Defesa foi afastada já faz uns dez anos. E os governos, você sabe, vão e vêm.

— Quer dizer que, se o tempo fechar, estamos completamente sozinhos?

Wadensjõõ assentiu com a cabeça.

— E o inconveniente desse arranjo. Em compensação, há vantagens óbvias. Mas as nossas tarefas também mudaram. A real politik na Europa já não é a mesma desde a queda da União Soviética. Nosso trabalho está menos centrado na detecção de agentes de informação. Agora tudo gira mais em torno do terrorismo e, principalmente, da adequação política de tal ou tal pessoa para os cargos nevrálgicos.

— Tudo sempre girou em torno disso.

Bateram à porta. Gullberg viu um homem bem-apessoado de uns sessenta anos e outro mais jovem, de jeans e paletó.

— Olá, pessoal. — E virando-se para Gullberg: — Esse é o Jonas Sandberg. Ele trabalha aqui há quatro anos e participa da frente de intervenções. Já lhe falei sobre ele. E esse é o Georg Nystrõm, vocês já se conhecem.

— Olá, Georg — disse Gullberg.

Apertaram-se as mãos. Gullberg então se virou para Jonas Sandberg.

— E você, vem de onde? — perguntou, enquanto o examinava.

— Nesse momento, de Gõteborg — brincou Sandberg. — Fui fazer uma visita.

— Zalachenko... — disse Gullberg.

Sandberg fez que sim com a cabeça.

— Senhores, queiram sentar-se — disse Wadensjõõ.

— Bjõrck? — disse Gullberg, e franziu o cenho quando Wadensjõõ acendeu uma cigarrilha. Tinha tirado o paletó e estava recostado na poltrona diante da mesa de reuniões. Wadensjõõ lançou um olhar para Gullberg e se impressionou com a extrema magreza do velho.

— Ele foi acusado de infringir a lei de remuneração de serviços sexuais na sexta-feira passada — disse Georg Nystrõm. — A ação judicial ainda não teve início, mas ele a princípio confessou e voltou para casa com o rabo entre as pernas. Está morando em Smâdalarõ durante sua licença médica. A mídia ainda não divulgou nada.

— Houve um tempo em que Bjõrck era um dos melhores aqui na Seção — disse Gullberg. — Tinha um papel-chave no caso Zalachenko. O que aconteceu depois que eu me aposentei?

— Ele deve ser um dos raríssimos colaboradores internos que deixaram a Seção para voltar à atividade externa. Mas já no seu tempo ele andava um bocado entre lá e cá.

— É, ele precisava de um descanso e queria ampliar seus horizontes. Na década de 1980 ficou dois anos licenciado da Seção, sem vencimentos, atuando como adido no serviço de informações. Ele tinha trabalhado feito louco com o Zalachenko, praticamente vinte e quatro horas por dia desde 1976, e achei que ele estava precisando mesmo de um tempo. Ficou fora de 1985 a 1987 e depois voltou para cá.

— Pode-se dizer que ele deixou de trabalhar na Seção em 1994, quando passou para a organização externa. Em 1996, virou chefe-adjunto da Brigada dos Estrangeiros e se viu num cargo difícil, de muito trabalho. E claro que manteve contato constante com a Seção, e posso sem dúvida lhe dizer também que conversamos regularmente por telefone mais ou menos uma vez por mês até bem pouco tempo atrás.

— E agora ele está doente.

— Nada sério, mas muito doloroso. Está com uma hérnia de disco. Ela o incomodou várias vezes nos últimos tempos. Há dois anos tirou uma licença médica de quatro meses. E em agosto passado ficou mal de novo. Era para ele voltar ao trabalho em 1- de janeiro, mas a licença foi prorrogada e agora é mais uma questão de esperar a cirurgia.

— E ele passou a licença médica correndo atrás das putas — disse Gullberg.

— Pois é, ele é solteiro e, se entendi direito, já freqüenta as putas há vários anos — disse Jonas Sandberg, que em quase meia hora não pronunciara uma palavra sequer. — Eu li o relatório do Dag Svensson.

— Ahã. Mas alguém poderia me explicar o que realmente aconteceu?

— Até onde pudemos entender, deve ter sido o Bjõrck quem desencadeou esta confusão toda. E a única explicação para o relatório de 1991 ter ido parar nas mãos do doutor Bjurman.

— Que também vive correndo atrás das putas? — perguntou Gullberg.

— Não que a gente saiba. Pelo menos ele não aparece no material do Dag Svensson. Em compensação, era o tutor da Lisbeth Salander.

Wadensjõõ suspirou.

— Tenho de admitir que a culpa é minha. Você e o Bjõrck pegaram a Lisbeth Salander em 1991, quando ela foi internada na psiquiatria. A gente achou que ela ia ficar lá por muito tempo, mas ela tinha um guardião legal, o advogado Holger Palmgren, que conseguiu tirá-la de lá. Ela foi encaminhada para uma família adotiva. Nessa época, você já tinha se aposentado.

— E depois disso, o que aconteceu?

— Ela foi mantida sob vigilância. Enquanto isso, a irmã dela, a Camilla Salander, foi encaminhada para outra família adotiva em Uppsala. Quando elas tinham dezessete anos, a Lisbeth Salander de repente começou a vasculhar seu passado. Procurava por Zalachenko e esquadrinhou todos os registros oficiais que conseguiu achar. De um modo ou de outro, não sabemos bem como, ela obteve a informação de que a irmã sabia onde estava o Zalachenko.

— E isso procede?

Wadensjõõ deu de ombros.

— Na verdade, não faço idéia. Fazia muitos anos que as gêmeas não se viam, até que a Lisbeth foi atrás da Camilla tentando obrigar a irmã a dizer o que sabia. A história acabou numa discussão feia e numa briga daquelas entre as duas.

— Ah, é?

— A Lisbeth foi mantida sob estreita vigilância durante meses. Também já tinham avisado a Camilla Salander que a irmã era violenta e mentalmente perturbada. Foi ela quem nos contatou depois da visita repentina da Lisbeth, o que fez com que reforçássemos a segurança.

— Quer dizer que a irmã é que era sua informante?

— A Camilla Salander tinha pânico da irmã. De qualquer modo, a Lisbeth também chamou a atenção por outras vias. Teve várias discussões com o pessoal das instâncias sociais e avaliamos que ela continuava sendo uma ameaça para o anonimato do Zalachenko. Depois disso houve o incidente no metrô.

— Ela atacou um pedófilo...

— Exato. Ela tendia claramente para a violência e era psicologicamente perturbada. Achamos que seria melhor para todos os interessados se ela sumisse de novo numa clínica, e aproveitamos a oportunidade. O Fredrik Clinton e o Rottinger é que intervieram. Apelaram mais uma vez para o Peter Teleborian e travaram, por tabela, um combate no Tribunal de Instâncias para que ela fosse internada novamente. Holger Palmgren representou Lisbeth Salander e, contrariando as expectativas, o Tribunal escolheu a alternativa dele — com a condição de que ela fosse posta sob tutela.

— Mas como é que o Bjurman acabou se envolvendo nessa história?

— O Palmgren teve um derrame cerebral no outono de 2002. Sempre somos informados quando a Salander aparece em algum banco de dados, e dei um jeito para que o Bjurman se tornasse seu novo tutor. Veja bem, ele não sabia que ela era filha do Zalachenko. A idéia era simplesmente que, se ela começasse a delirar a respeito do Zalachenko, ele reagisse e nos alertasse.

— O Bjurman era um idiota. Ele nunca deveria ter tido nada a ver com o Zalachenko, muito menos com a filha dele. — Gullberg encarou Wadensjõõ. — Foi um erro grave.

— Eu sei — disse Wadensjòõ. — Mas na época parecia a coisa certa. Eu nunca ia imaginar que...

— E agora, onde está a irmã, a Camilla Salander?

— Ninguém sabe. Quando ela completou dezenove anos, fez as malas e deixou a casa da família adotiva. Desde então não tivemos mais notícias dela. Desapareceu.

— Certo, continue.

— Tenho um informante entre os tiras oficiais, e ele falou com o procurador Richard Ekstrõm — disse Sandberg. — O inspetor Bublanski, que conduz as investigações, acha que o Bjurman estuprou a Salander.

Gullberg encarou Sandberg com genuína surpresa. Depois cocou o queixo, pensativo.

— Estuprou? — disse.

— O Bjurman tinha uma tatuagem na barriga, que dizia: "Sou um porco sádico, um canalha estuprador".

Sandberg pôs uma foto colorida da autópsia em cima da mesa. Gullberg, com os olhos arregalados, examinou a barriga de Bjurman.

— E a filha do Zalachenko é quem teria feito isso?

— E difícil explicar a situação de outro jeito. Mas ela, aparentemente, não é inofensiva. Deu uma surra que quase matou os dois hooligans do MC Svavelsjõ.

— A filha do Zalachenko — repetiu Gullberg. — Voltou-se para Wadensjõõ. — Sabe, eu acho que você deveria contratá-la.

Wadensjõõ pareceu tão surpreso que Gullberg precisou explicar que era brincadeira.

— Certo. Vamos admitir, como hipótese de trabalho, que o Bjurman estuprou a garota e ela se vingou. O que mais?

— O único capaz de dizer exatamente o que aconteceu seria, claro, o próprio Bjurman, o que agora é meio difícil, já que ele está morto. Porém o fato é que no começo ele não sabia que ela era filha do Zalachenko, isso não consta em nenhum registro oficial. Mas no meio do caminho, em algum momento, o Bjurman fez a relação.

— Puta merda, Wadensjõõ, só que ela sabia perfeitamente quem era o pai dela e pode ter contado ao Bjurman em algum momento.

— Eu sei. Nós... eu não pensei direito nesta história.

— Isso é de uma incompetência imperdoável — disse Gullberg.

— Eu sei. E já me xinguei por isso dúzias de vezes. Mas o Bjurman era uma das raras pessoas que sabiam da existência do Zalachenko, e o meu raciocínio foi que era melhor ser ele a descobrir que ela era filha do Zalachenko do que um tutor desconhecido. Na verdade, ela poderia ter contado para qualquer pessoa.

Gullberg beliscou a ponta da orelha.

— Bem... continue.

— Não passa de uma hipótese — disse Georg Nystrõm suavemente. — Mas estamos supondo que o Bjurman violentou a Salander e que ela se vingou com isso... — Ele apontou a tatuagem na fotografia da autópsia.

— E bem filha do pai dela — disse Gullberg. Havia em sua voz uma pontinha de admiração.

— O resultado foi que o Bjurman entrou em contato com o Zalachenko pedindo que ele desse um jeito na filha. O Zalachenko tem bons motivos para odiar a Lisbeth Salander, o senhor sabe disso tanto quanto eu. E o Zalachenko, por sua vez, terceirizou o caso para o MC Svavelsjõ e para esse tal Niedermann que anda com ele.

— Mas como é que o Bjurman entrou em contato... — Gullberg calou--se. A resposta era óbvia.

— O Bjórck — disse Wadensjõõ. — A única maneira de explicar como o Bjurman conseguiu achar o Zalachenko é o Bjõrck ter lhe passado a informação.

— Puta que pariu — disse Gullberg.

Lisbeth Salander sentia um mal-estar crescente, além de uma forte irritação. Pela manhã, duas enfermeiras tinham vindo arrumar sua cama. Toparam imediatamente com o lápis.

— Olha só! Como é que isso veio parar aqui? — disse uma das enfermeiras, enfiando o lápis no bolso enquanto Lisbeth a fitava com um olhar assassino.

Lisbeth estava novamente desarmada e, além disso, tão fraca que nem conseguiu protestar.

Sentira-se mal todo o fim de semana. Estava com uma enxaqueca insuportável e haviam lhe ministrado analgésicos potentes. Sentia uma dor constante no ombro, que volta e meia se transformava numa facada quando ela se mexia descuidadamente ou deslocava o peso do corpo. Estava deitada de costas e usando a comadre. Ainda ficaria vários dias com ela, até que o corte da cabeça começasse a cicatrizar. Domingo tinha tido febre, com um pico de 38,7 graus. A Dra. Helena Endrin concluiu que ela estava com alguma infecção. Ou seja, sua saúde não ia muito bem. Lisbeth não precisava de um termômetro para perceber isso.

Constatou que estava novamente entrevada num leito do Estado, embora dessa vez não houvesse correias para prendê-la no lugar. O que teria sido supérfluo. Não tinha forças nem para se erguer, muito menos para sair andando por aí.

Lá pelo meio-dia da segunda-feira, o Dr. Anders Jonasson veio vê-la. Ele lhe parecia familiar.

— Olá. Lembra de mim? Ela tentou balançar a cabeça.

— Você estava meio atordoada, mas fui eu que te acordei depois da cirurgia. E fui eu que te operei. Só vim ver como você está se sentindo e se está tudo bem.

Lisbeth Salander arregalou os olhos. Parecia óbvio que não estava tudo bem.

— Ouvi dizer que você tirou a comadre na noite passada. Ela tentou dizer que sim com a cabeça.

— Esse colete ortopédico não está aí só de bobeira; é para você ficar com a cabeça imóvel nessa etapa da sua recuperação.

Ele contemplou a garota calada.

— Está bem — disse afinal. — Eu só dei uma passada para ver como você estava.

Ele já estava na porta quando escutou a voz dela.

— Jonasson, não é?

Ele se virou e dirigiu-lhe um sorriso surpreso.

— É isso mesmo. Se você lembra do meu nome é porque deve estar num estado melhor do que eu imaginava.

— Foi você quem tirou a bala?

— Foi.

— Você pode me dizer como eu estou? Ninguém ainda me deu uma resposta coerente.

Ele voltou para junto da cama e olhou-a nos olhos.

— Você teve sorte. Levou uma bala na cabeça, mas aparentemente nenhuma zona vital foi afetada. Neste momento, o risco é você ter alguma hemorragia no cérebro. Por isso a gente quer que você fique quietinha. Você está com uma infecção em alguma parte do corpo. Ao que tudo indica, é Por causa do ferimento no ombro. Talvez seja preciso operar mais uma vez se a gente não conseguir combater a infecção com antibióticos. Você deve estar preparada para um período dolorido durante o processo de recuperação. Mas, pelo que estou vendo até agora, minha expectativa é que você saia dessa totalmente curada.

— Eu posso ficar com alguma seqüela no cérebro? Ele hesitou antes de menear a cabeça.

— Sim, esse risco existe. Mas tudo indica que você se saiu muito bem. Há também a possibilidade de se formarem cicatrizes no seu cérebro que poderiam gerar algum problema, por exemplo, você desenvolver uma epilepsia ou algo do gênero. Mas, com toda a franqueza, isso não passa de especulação. Por enquanto, tudo parece perfeito. Você está se recuperando. Se aparecerem alguns problemas no meio do caminho, a gente vai administrando. A resposta foi bastante clara?

Ela esboçou um movimento de cabeça.

— Quanto tempo ainda vou ter que ficar assim?

— Quer dizer, no hospital? Vai levar algumas semanas até a gente te deixar sair.

— Não, quero saber quanto tempo até eu conseguir me levantar, começar a andar e me mexer.

— Não sei. Depende da cicatrização. Mas conte com pelo menos duas semanas, até você poder começar algum tipo de fisioterapia.

Ela o contemplou, séria, durante um longo momento.

— Você não teria um cigarro? — ela perguntou.

Anders Jonasson soltou um riso espontâneo e balançou a cabeça.

— Sinto muito. É proibido fumar aqui. Mas posso pedir uns adesivos ou chicletes de nicotina para você.

Ela refletiu um pouco antes de dizer que aceitava do jeito que podia. Depois encarou-o novamente.

— Como vai o velho babaca?

— Quem? Você quer dizer...

— O homem que deu entrada junto comigo.

— Imagino que ele não seja um amigo seu. Olha, ele até que não está mal. Vai sobreviver e até já andou, se levantando e caminhando de muletas. Em termos físicos, está mais machucado que você e tem um ferimento extremamente doloroso no rosto. Pelo que entendi, você enfiou um machado na cara dele.

— Ele tentou me matar — disse Lisbeth em voz baixa.

- Isso não é legal. Agora eu preciso ir. Quer que eu volte outra hora para te ver?

Lisbeth Salander pensou um pouco. Então esboçou um sim. Depois que ele fechou a porta atrás de si, ela fitou pensativamente o teto. Zalachenko está de muletas. Foi esse o barulho que escutei na noite passada.

Pediram a Jonas Sandberg, o mais jovem do grupo, que fosse buscar o almoço. Ele voltou com sushis e cerveja, que foram servidos na mesa de reuniões. Evert Gullberg foi invadido por um sentimento nostálgico. Era exatamente assim que ele vivia antes, quando uma operação atingia um estágio crítico e eles trabalhavam dia e noite.

A diferença, constatou, é que talvez naquela época não tivesse ocorrido a ninguém essa esquisitice de pedir peixe cru para o almoço. Ele teria preferido que Sandberg trouxesse almôndegas com purê de batatas e mirtilos. Mas como não estava com fome pôde rejeitar os sushis sem muita aflição. Comeu um pedaço de pão e bebeu água mineral.

Continuaram a discutir enquanto comiam. Tinham chegado ao ponto em que precisavam fazer um balanço da situação e resolver que medidas se faziam necessárias. Havia decisões a ser tomadas.

— Não cheguei a conhecer o Zalachenko — disse Wadensjõõ. — Como é que ele era?

— Exatamente como é hoje, imagino — respondeu Gullberg. — Tem uma inteligência notável e uma memória quase fotográfica para detalhes. Mas, na minha opinião, é um idiota de primeira. E meio maluco, me parece.

— Jonas, você esteve com ele ontem. Qual é a sua conclusão? Jonas Sandberg soltou os talheres.

— Ele ainda está no controle. Já falei no ultimato que ele deu. Ou damos sumiço em tudo num passe de mágica, ou ele revela a existência da Seção.

— O que faz esse idiota achar que a gente pode dar sumiço em algo que a mídia já repetiu milhões de vezes? — perguntou Georg Nystrõm.

— Não se trata do que a gente pode fazer ou deixar de fazer. Trata-se da necessidade que ele tem de nos controlar — disse Gullberg.

— E então, qual a sua impressão? Ele vai cumprir a ameaça? Vai falar Cotn a mídia? — perguntou Wadensjõõ.

Gullberg respondeu devagar.

— E praticamente impossível responder. Zalachenko não é do tipo que ameaça à toa e vai fazer o que for conveniente para ele. Nesse sentido, ele é previsível. Se for vantajoso para ele contatar a mídia... se isso lhe garantir uma anistia ou uma redução de pena, ele faz. Ou se se sentir traído e quiser nos sacanear.

— Sejam quais forem as conseqüências?

— Especialmente por causa das conseqüências. Para ele o que importa é se mostrar mais forte que todos nós juntos.

— Mas mesmo que o Zalachenko abra o bico, não é certeza que o levem a sério. Para conseguir provar alguma coisa, vão precisar dos nossos arquivos. Ele não sabe da existência desse endereço.

— Você está disposto a arriscar? Vamos supor que o Zalachenko abra o bico. Quem mais vai fazer o mesmo em seguida? O que a gente faz se o Bjõrck confirmar a história dele? E o Clinton com a diálise dele... o que vai acontecer se ele virar um crente amargurado e começar a detestar o mundo inteiro? E se ele resolver confessar? Acreditem, se alguém começar a falar, vai ser o fim da Seção.

— Então... o que a gente faz?

Instalou-se um silêncio em volta da mesa. Foi Gullberg quem retomou o assunto.

— É um problema complexo. Primeiro, parece que concordamos sobre as conseqüências caso Zalachenko abra a boca. Toda a maldita Suécia constitucional iria cair em cima da gente. Seríamos aniquilados. Imagino que vários funcionários da Seção acabariam presos.

— A atividade é juridicamente legal, não se esqueça de que a gente trabalha sob as ordens do governo.

— Deixe de besteira — disse Gullberg. — Você sabe tão bem quanto eu que um documento redigido de forma nebulosa em meados dos anos 1960 não vale um tostão furado hoje em dia. Aposto que nenhum de nós tem vontade de saber o que aconteceria exatamente se o Zalachenko resolvesse falar — acrescentou.

Mais silêncio.

— Então, nosso ponto de partida é necessariamente fazer com que o Zalachenko fique quieto — acabou dizendo Geog Nystrõm.

Gullberg assentiu com a cabeça.

— E para fazê-lo ficar quieto temos que lhe oferecer algo substancial. O problema é que ele é imprevisível. Seria até capaz de nos fritar por pura maldade. Precisamos pensar num jeito de manter o homem sob controle.

— E sobre essas exigências dele? — perguntou Jonas Sandberg. — Que a gente dê um sumiço na história toda e que a Salander volte para uma clínica psiquiátrica?

— Na Salander, a gente dá um jeito. O problema é o Zalachenko. Mas isso nos leva ao outro aspecto do problema — a redução de prejuízos. O relatório de Teleborian de 1991 vazou e potencialmente representa uma ameaça tão séria quanto o próprio Zalachenko.

Georg Nystrõm deu uma tossidinha.

— Assim que percebemos que o relatório tinha vindo à tona e estava nas mãos da polícia, tomei algumas providências. Fui até o jurista Forelius, na DGPN/Sãpo, e ele contatou o Ministério Público. O Ministério Público ordenou que o relatório fosse tirado da polícia; está proibido de ser divulgado ou reproduzido.

— O que o Ministério Público sabia?

— Nada. O procurador-geral da nação atendeu a um pedido oficial da DGPN/Sapo, o caso tem relação com um material arquivado como segredo de Estado e o procurador não tinha escolha. Ele não poderia ter feito outra coisa.

— Certo. Quem, na polícia, leu o relatório?

— Havia duas cópias, e elas foram lidas pelo Bublanski, pela colega dele Sonja Modig e, por fim, pelo responsável pelo inquérito preliminar, Richard Ekstrõm. É de se supor que mais dois policiais, no mínimo... — Nystrõm folheou suas anotações — um tal de Curt Bolinder e um tal de Jerker Holmberg, sabiam do seu conteúdo.

— Ou seja, quatro policiais e um procurador. O que sabemos sobre eles?

— O procurador Ekstrõm tem quarenta e dois anos. E visto como uma estrela em ascensão. Foi investigador do Ministério da Justiça e conduziu alguns casos que chamaram a atenção. Meticuloso. Ávido por publicidade. Carreirista.

— Social-democrata? — perguntou Gullberg.

— Provavelmente. Mas não militante.

— Bem, e o Bublanski é quem está coordenando as investigações. Eu o vi numa coletiva de imprensa na tevê. Não parecia muito à vontade diante das câmeras.

— Ele tem cinqüenta e dois anos e um currículo impressionante, mas também tem fama de ser resmungão. É judeu e bastante ortodoxo.

— E a mulher... quem é?

— E a Sonja Modig. Casada, trinta e nove anos, mãe de dois filhos. Fez uma carreira bastante rápida. Falei com o Peter Teleborian, que a descreve como alguém emocional. Ela não parava de questioná-lo.

— Certo.

— O Curt Bolinder é um osso duro de roer. Trinta e oito anos. Veio da Brigada Antigangue de Sõderort e foi alvo de comentários, anos atrás, quando atirou num delinqüente. Foi totalmente inocentado no inquérito. Aliás, foi ele que o Bublanski mandou para prender o Gunnar Bjõrck.

— Entendi. Guarde isso de ele ter matado um homem. Se for preciso lançar alguma suspeita na equipe de Bublanski, daria para focar os refletores num tira ruim. Imagino que ainda mantemos contatos interessantes na mídia... E o outro sujeito?

— Jerker Holmberg. Cinqüenta e cinco anos. Originário do Norrland e especialista na análise de cenas de crime. Há alguns anos lhe ofereceram um treinamento para ele se tornar delegado, mas ele recusou. Parece gostar do que faz.

— Algum desses dois tem atuação política?

— Não. O pai de Holmberg foi conselheiro municipal centrista nos anos 1970.

— Humm. Tem todo o jeito de ser uma equipe bacana. Dá para imaginar que sejam bastante unidos. Há algum jeito de isolá-los?

— Existe um quinto policial no grupo — disse Nystrõm. — Hans Faste, de quarenta e sete anos. Pelo que entendi, há uma rixa meio séria entre o Faste e o Bublanski. Séria o suficiente para o Faste ter pedido uma licença médica.

— O que se sabe sobre ele?

— Senti vários tipos de reação quando fiz essa pergunta. Ele tem um extenso currículo, e nos relatórios não consta de fato nenhuma crítica contra ele. É um profissional. Mas difícil de conviver. Aparentemente a desavença com o Bublanski tem a ver com a Lisbeth Salander.

— Como assim?

— O Faste teria ficado obcecado com aquela história sobre um grupo de lésbicas satânicas que os jornais andaram alardeando. Ele não gosta nem um pouco da Salander e parece considerar a existência dela uma afronta pessoal. Provavelmente ele é quem está por trás de metade dos boatos que andaram surgindo. Um ex-colega me confidenciou que ele tem dificuldades em colaborar com as mulheres em geral.

— Interessante — disse Gullberg. Ele refletiu um instante. — Já que os jornais mencionaram um grupo de lésbicas, talvez valha a pena continuar fantasiando com esse assunto. Isso realmente não contribui para aumentar a credibilidade da Salander.

— Os policiais que leram o relatório do Bjõrck constituem, portanto, um problema. Será que a gente consegue isolá-los? — perguntou Sandberg.

Wadensjõõ acendeu outra cigarrilha.

— Quem está conduzindo o inquérito preliminar é o Ekstrõm...

— Mas é o Bublanski quem comanda o barco — disse Nystrõm.

— Sim, só que ele não pode ir contra decisões administrativas. — Wadensjõõ ficou pensativo. Olhou para Gullberg. — Você tem mais experiência que eu, mas essa história já está com tantos fios e ramificações... Minha impressão é que seria bom afastar o Bublanski e a Modig da Salander.

— É isso, Wadensjõõ — disse Gullberg. — E exatamente o que nós vamos fazer. O Bublanski é o chefe da investigação do assassinato de Bjurman e do casal de Enskede. A Salander já não é notícia nesse contexto. O foco agora é esse alemão, o Niedermann. Portanto o Bublanski e a sua equipe vão se concentrar na caça ao Niedermann.

— Certo.

— O caso deles não é mais a Salander. Temos também a investigação sobre Nykvarn... trata-se de três assassinatos antigos. Eles têm a ver com o Niedermann. No momento, a investigação está a cargo de Sõdertalje, mas vão juntá-la com a outra. Ou seja, o Bublanski vai ficar ocupado por um bom tempo. Quem sabe... ele talvez prenda o Niedermann.

— Humm.

— O tal Faste... haveria como fazer com que ele voltasse ao trabalho? Ele parece ser a pessoa ideal para investigar as suspeitas contra a Salander.

— Entendo aonde você quer chegar — disse Wadensjõõ. — A idéia é levar o Ekstrõm a separar um caso do outro. Mas para isso teríamos que controlar o Ekstrõm.

— Isso não deverá ser um grande problema — disse Gullberg. Ele olhou para Nystrõm, que concordou com a cabeça.

— Posso cuidar do Ekstrõm — disse Nystrõm. — Algo me diz que ele preferiria nunca ter ouvido falar em Zalachenko. Ele devolveu o relatório do Bjõrck assim que a Sapo pediu, e já afirmou que está disposto a se submeter a tudo que diga respeito à segurança nacional.

— O que você pretende fazer? — perguntou Wadensjõõ, desconfiado.

— Me deixe pensar num plano — disse Nystrõm. — Imagino que vamos apenas, de maneira muito elegante, explicar-lhe o que se espera que ele faça se quiser evitar que sua carreira seja brutalmente interrompida.

— O terceiro ponto é o que representa o maior problema — disse Gullberg. — A polícia não descobriu o relatório do Bjõrck sozinha... foi um jornalista que repassou para eles. Todos vocês já entenderam que a mídia é, evidentemente, um problema para nós. Millenníum.

Nystrõm abriu seu caderno de anotações.

— Mikael Blomkvíst — disse.

Todos naquela mesa já tinham ouvido falar no caso Wennerstrõm e conheciam o nome de Mikael Blomkvist.

— Dag Svensson, o jornalista assassinado, era colaborador da Millenníum. Estava trabalhando numa matéria ligada ao tráfico de mulheres. Foi assim que ele chegou ao Zalachenko. E foi o Mikael Blomkvist quem encontrou o corpo. Além disso, ele conhece a Lisbeth Salander e nunca deixou de acreditar na inocência dela.

— Como é que ele conhece a filha do Zalachenko... É coincidência demais, não pode ser um simples acaso.

— A gente não acha que seja por acaso — disse Wadensjõõ. — Achamos que a Salander, de alguma maneira, é o elo entre todos eles. Não sabemos explicar direito como, mas é a única hipótese plausível.

Gullberg permanecia calado, desenhando círculos concêntricos no seu caderninho. Por fim, ergueu os olhos.

— Preciso pensar um pouco sobre isso. Vou dar uma caminhada. Nos encontramos aqui dentro de uma hora.

A escapadinha de Gullberg durou quase quatro horas, e não uma como ele dissera. Ele caminhou por apenas uns dez minutos, até encontrar um café que oferecia um monte de variedades bizarras dessa bebida. Pediu uma xícara de café preto comum e sentou-se a uma mesa num canto perto da entrada. Refletiu intensamente, tentando esclarecer os diferentes aspectos do problema. De tempo em tempo, registrava um breve lembrete numa agenda.

Depois de uma hora e meia, um plano começava a ganhar forma.

Não era um bom plano, mas, depois de virar e revirar todas as possibilidades, percebeu que o problema exigia medidas drásticas.

Felizmente, havia recursos humanos disponíveis. Era um plano viável.

Levantou-se, procurou uma cabine telefônica e ligou para Wadensjõõ.

— Vamos ter que adiar a reunião para mais tarde — disse. — Preciso fazer uma coisa. Podemos nos encontrar às duas horas?

Em seguida, Gullberg desceu até a Stureplan e fez sinal para um táxi. Na verdade, sua parca aposentadoria de funcionário público não lhe permitia aquele luxo, mas, por outro lado, chegara a uma idade em que não havia mais motivo para economizar nas extravagâncias. Indicou ao taxista vim endereço em Bromma.

Chegando lá, foi a pé até um bairro mais ao sul e bateu à porta de uma casinha. Uma mulher de uns quarenta anos atendeu.

— Bom dia. Estou procurando Fredrick Clinton.

— É da parte de quem?

— Sou um antigo colega dele.

A mulher meneou a cabeça e o fez entrar na sala, onde Fredrick Clinton, devagar, levantou-se do sofá. Tinha apenas sessenta e oito anos, mas parecia muito mais. O diabetes e alguns problemas coronários haviam deixado suas marcas.

— Gullberg? — exclamou Clinton, estupefato. Contemplaram-se por um longo momento. Então os dois velhos espiões se abraçaram.

— Não imaginava que voltaria a ver você um dia — disse Clinton. — Suponho que aquilo ali é que tenha te tirado da toca.

Apontou para a capa de um jornal vespertino que ostentava uma foto de Ronald Niedermann e a manchete "Assassino de policial caçado na Dinamarca".

— Como é que você está? — perguntou Gullberg.

— Doente — disse Clinton.

— Estou vendo.

— Se não me derem um rim novo, vou morrer em breve. E a probabilidade de ganhar um rim novo não é muito grande.

Gullberg assentiu com a cabeça.

A mulher reapareceu na porta da sala e perguntou a Gullberg se ele aceitava tomar alguma coisa.

— Aceito um café — disse.

Depois que ela saiu, ele se virou para Clinton.

— Quem é essa mulher?

— E minha filha.

Gullberg assentiu com a cabeça. Era fascinante que, apesar de tantos anos de intimidade dentro da Seção, pouquíssimos colaboradores mantivessem contato fora do trabalho. Gullberg conhecia os mínimos traços da personalidade de cada um, suas forças e fraquezas, mas só tinha uma vaga idéia da vida familiar deles. Glinton talvez tivesse sido seu colaborador mais próximo durante vinte anos. Ele sabia que Clinton fora casado e que tinha filhos. Mas não sabia o nome de sua filha, o nome de sua ex-mulher nem onde Clinton costumava passar férias. Era como se tudo fora da Seção fosse sagrado e não devesse ser comentado.

— O que você quer? — perguntou Clinton.

— Posso lhe perguntar sua opinião sobre o Wadensjõõ? Clinton balançou a cabeça.

— Não quero me envolver nessa história.

— Eu não estou pedindo isso. Você o conhece. Ele trabalhou dez anos com você.

Clinton tornou a balançar a cabeça.

— Atualmente é ele quem dirige a Seção. O que eu penso sobre ele não tem nenhuma importância.

— Ele está dando conta?

— Ele não é nada bobo.

— Mas...?

— É um analista. Genial para quebra-cabeças. Tem instinto. É um administrador brilhante que deu uma equilibrada no orçamento de um jeito que ninguém achava possível.

Gullberg fez um gesto de assentimento com a cabeça. O que importava era a qualidade que Clinton não estava mencionando.

— Você por acaso estaria disposto a voltar ao trabalho?

Clinton ergueu os olhos para Gullberg. Hesitou por um longo momento.

— Evert... a cada dois dias, eu passo nove horas no hospital fazendo diálise. Não posso subir nenhuma escada sem ficar praticamente sufocado. Não tenho mais energia. Nenhuma energia.

— Preciso de você. Uma última operação.

— Não posso.

— Pode. E você vai poder fazer as suas nove horas de diálise a cada dois dias. Vai andar de elevador em vez de subir escadas. Posso dar um jeito para te carregarem numa maça, se for o caso. Preciso do seu cérebro.

Clinton suspirou.

— Fale — disse ele.

— No momento, estamos diante de uma situação extremamente espinhosa, que exige operações em campo. O Wadensjõõ tem lá um jovem novato muito seguro de si, o Jonas Sandberg, que constitui sozinho o departamento de intervenção, e não creio que o Wadensjõõ tenha audácia para fazer o que deve ser feito. Ele até pode ser um puta especialista em fazer malabarismos com o orçamento, mas tem medo de tomar decisões de intervenção e tem medo de envolver a Seção no trabalho de campo, que no entanto é necessário.

Clinton fez que sim com a cabeça. Exibiu um sorriso pálido.

— Esta operação vai se dar em duas frentes distintas. A primeira se refere ao Zalachenko. Preciso fazer com que ele se torne razoável, e acho que sei como conseguir isso. A outra deve se realizar aqui em Estocolmo. O problema é que não tem ninguém na Seção para cuidar disso. Preciso de você para assumir o comando. Uma última contribuição. Tenho um plano. O jonas Sandberg e o Georg Nystrõm vão fazer o serviço de campo. E você vai dirigir a operação.

— Você não sabe o que está me pedindo.

— Sei, sim... sei perfeitamente o que estou lhe pedindo. E você é quem decide se quer participar ou não. Mas se nós, os veteranos, não nos mobilizarmos e cumprirmos com a nossa parte, a Seção deixa de existir em poucas semanas.

Clinton dobrou o braço no encosto do sofá e descansou a cabeça sobre a palma da mão. Refletiu por uns dois minutos.

— Me conte qual é o seu plano — acabou dizendo.

Evert Gullberg e Fredrik Clinton conversaram por cerca de duas horas.

Wadensjõõ arregalou os olhos quando Gullberg voltou às 13h57, acompanhado de Fredrick Clinton. Clinton tinha o aspecto de um esqueleto. Parecia andar e respirar a muito custo, e vinha com uma mão apoiada no ombro de Gullberg.

— O que significa...? — perguntou Wadensjõõ.

— Vamos prosseguir a reunião — disse Gullberg secamente. Voltaram a se sentar ao redor da mesa da sala de Wadensjõõ. Clinton deixou-se cair em silêncio na cadeira que lhe ofereceram.

— Todos aqui já conhecem o Fredrick Clinton — disse Gullberg.

— Sim — disse Wadensjõõ. — A pergunta é: o que ele está fazendo aqui?

— O Clinton resolveu voltar à ativa. Vai coordenar o setor de intervenções até o final desta crise.

Gullberg ergueu a mão, interrompendo o protesto de Wadensjõõ antes que ele tivesse tempo até mesmo de formulá-lo.

— O Clinton está cansado. Vai precisar de assistência. Precisa ir regularmente ao hospital para fazer diálise. Wadensjõõ, você vai recrutar dois assistentes particulares para ajudá-lo em todas as tarefas práticas. Mas que fique muito claro: no que se refere a esse caso, o Clinton é quem vai tomar todas as decisões de intervenção.

Calou-se e esperou. Nenhum protesto se fez ouvir.

— Eu tenho um plano. Acho que com ele estaremos seguros, mas precisamos agir rápido para não perdermos as oportunidades — disse ele. — Depois, tudo depende da atual determinação de vocês aqui na Seção.

Wadensjõõ percebeu um desafio nas palavras de Gullberg.

— Diga qual é o seu plano.

— Primeiro: já passamos a polícia em revista. Vamos fazer exatamente o que a gente combinou: tentar isolá-los na investigação deles, levando-os para uma pista secundária na caça ao Niedermann. Essa vai ser a tarefa de Georg Nystrõm. O que quer que aconteça, o Niedermann não tem a menor importância. Vamos dar um jeito de o Faste ficar encarregado de investigar a Salander.

— Não deve ser difícil — disse Nystrõm. — Basta eu ter uma conversinha discreta com o procurador Ekstróm.

— E se ele torcer o nariz...

— Não acredito nisso. Ele é um carreirista, sabe cuidar dos seus interesses. Mas posso apelar para um argumento qualquer, se necessário. Ele detestaria se envolver em algum escândalo.

— Muito bem. O segundo ponto é a Millennium e o Mikael Blomkvist. Por isso o Clinton voltou à ativa. Esse ponto requer medidas fora do padrão.

— Desconfio que não vou gostar nada disso — disse Wadensjõõ.

— É provável, mas a Millennium não pode ser manipulada do mesmo jeito simples. Em compensação, a ameaça que eles representam se fundamenta numa única coisa, ou seja, no relatório policial de Bjõrck de 1991. Na atual situação, imagino que esse relatório se encontre em dois lugares, talvez três. Quem o descobriu foi a Lisbeth Salander, mas de alguma maneira o Mikael Blomkvist também pôs as mãos nele. O que significa que havia algum tipo de contato entre o Blomkvist e a Salander enquanto ela estava foragida.

Clinton levantou um dedo e proferiu suas primeiras palavras desde que chegara.

— Isso também nos revela algo do caráter do nosso adversário. O Blomkvist não tem medo de se arriscar. Lembrem do caso Wennerstrõm.

Gullberg meneou a cabeça.

— O Blomkvist passou o relatório para a chefe dele, Erika Berger, que por sua vez o encaminhou ao Bublanski. Quer dizer, ela também leu. Ê de se supor que tenham feito uma cópia de segurança. Eu arriscaria dizer que o Blomkvist está com uma cópia e que existe mais uma na redação.

— Parece plausível — disse Wadensjõõ.

— A Millennium é uma revista mensal, o que significa que eles não vão publicar nada de hoje para amanhã. Temos tempo. Mas precisamos pôr as mãos nesses dois exemplares do relatório. E para isso não podemos passar pelo procurador-geral da nação.

— Entendo.

— Portanto vamos dar início a uma fase de intervenção, entrando ilegalmente na casa do Blomkvist e na redação da Millennium. Você saberia organizar essa parte, Jonas?

Jonas Sandberg deu uma olhada de soslaio para Wadensjõõ.

— Evert, você tem que entender... a gente não faz mais esse tipo de coisa — disse Wadensjõõ. — Os tempos mudaram, a gente agora lida com pirataria informática e vigilância eletrônica, se é que você me entende. Não temos mais recursos para manter um setor de intervenção.

Gullberg se debruçou para a frente.

— Wadensjõõ. Então cabe a você arranjar recursos para isso, e depressa. Pegue gente de fora. Alugue um bando de fortões da máfia iugoslava para dar uma surra no Blomkvist, se for o caso. Mas temos que pegar essas duas cópias custe o que custar. Sem elas, eles ficam sem nenhum documento e jamais poderão provar nada. Se você não for capaz de dar um jeito numa coisa assim, te deixo aqui chupando o dedo e esperando a Comissão Constitucional vir bater na porta.

Gullberg e Wadensjõõ fitaram-se por um longo momento.

— Posso cuidar disso — disse Jonas Sandberg de repente. Gullberg lançou um olhar de esguelha para o jovem novato.

— Tem certeza de que sabe organizar esse tipo de ação? Sandberg assentiu com a cabeça.

— Ótimo. A partir de agora, seu chefe é o Clinton. É dele que você recebe as ordens.

Sandberg aquiesceu.

— Vai ser, em boa parte, uma questão de vigilância. Esse setor de intervenção precisa ser reforçado — disse Nystrõm. — Tenho alguns nomes para sugerir. Temos um cara na organização externa, ele trabalha na segurança dos figurões da Sapo, o nome dele é Mârtensson. Não tem medo de nada e é um sujeito que promete. Faz tempo que eu venho pensando em transferi-lo aqui para a organização interna. Chego a pensar que ele poderia ser meu sucessor.

— Parece muito bom — disse Gullberg. — A última palavra vai ser do Clinton.

— Tem mais uma coisa — disse Georg Nystrõm. — Tenho a impressão de que ainda existe outra cópia.

— Onde?

— Eu soube hoje à tarde que a Lisbeth Salander está com uma advogada. O nome dela é Annika Giannini. É irmã do Mikael Blomkvist.

Gullberg fez um gesto de concordância com a cabeça.

— Bem pensado. O Blomkvist deve ter dado uma cópia para a irmã. Seria absurdo ele não dar. Ou seja, durante algum tempo vamos ter que vigiar os três de perto: Berger, Blomkvist e Giannini.

— Acho que não precisamos nos preocupar com a Berger. A imprensa divulgou hoje que ela é a nova redatora-chefe do Svenska Morgon-Posten. Não tem mais nada a ver com a Millennium.

— Certo. Mesmo assim vamos ficar de olho nela. Quanto à Millennium, temos que instalar um sistema de escuta, evidentemente, na casa deles e na redação. E um controle da correspondência eletrônica. Precisamos descobrir com quem eles se encontram e com quem conversam. E estamos muito, muito dispostos a acompanhar a edição das revelações que eles têm a fazer. Mas, antes de tudo, temos que pegar esse relatório. Ou seja, há um bocado de trabalho pela frente.

Wadensjõõ parecia hesitar.

— Evert, você está nos pedindo para realizar uma operação de intervenção na redação de um jornal. Estamos nos aventurando num terreno muito perigoso.

— Você não tem escolha. Ou arregaça as mangas, ou deixa a chefia para outra pessoa.

O desafio pairou como uma nuvem acima da mesa.

— Acho que consigo administrar a Millennium — disse, por fim, Jonas Sandberg. — Mas nada disso resolve o problema de fundo. O que fazer com o Zalachenko? Se ele abrir o bico, nossos esforços não terão servido de nada.

Gullberg balançou a cabeça devagar.

— Eu sei. Essa vai ser a minha parte. Acho que tenho um argumento capaz de convencer o Zalachenko a calar a boca. Mas vai exigir um bocado de preparação. Vou para Gõteborg ainda hoje à tarde.

Calou-se e percorreu o olhar pela sala. Então cravou os olhos em Wadensjõõ.

— O Clinton toma as decisões quanto à intervenção enquanto eu estiver fora — decretou.

Passados alguns instantes, Wadensjõõ fez que sim com a cabeça.

Foi preciso esperar até a noite de segunda-feira para que a Dra. Helena Endrin, de comum acordo com seu colega Anders Jonasson, decidisse que o estado de Lisbeth Salander estava suficientemente estável para que ela pudesse receber visitas. Os primeiros visitantes foram os dois inspetores criminais, a quem foram concedidos quinze minutos para perguntas. Quando entraram em seu quarto e se sentaram, ela contemplou os policiais em silêncio.

— Bom dia. Sou o inspetor criminal Marcus Ackerman. Trabalho na Brigada Criminal aqui de Gõteborg. Essa é a minha colega Sonja Modig, da polícia de Estocolmo.

Lisbeth Salander não deu bom-dia. Permaneceu totalmente impassível. Reconheceu Sonja Modig como uma das policiais da equipe de Bublanski. Ackerman dirigiu-lhe um sorriso aberto.

— Soube que não é do seu feitio falar de boa vontade com as autoridades. E, se me permite, você não precisa falar nada. Em compensação, eu agradeceria muito se nos ouvisse. Temos vários assuntos para tratar, e hoje não nos deram muito tempo. Haverá outras oportunidades.

Lisbeth Salander não disse nada.

— Então, para começar, eu queria informar que o seu amigo Mikael Blomkvist nos avisou que uma advogada chamada Annika Giannini está disposta a representar você e já está inteirada do caso. Diz ele que já falou com você sobre ela. Preciso que você me confirme isso, e queria saber se você aceita que a doutora Giannini venha para Gõteborg assisti-la.

Lisbeth Salander continuou calada.

Annika Giannini. A irmã de Mikael Blomkvist. Ele mencionara o nome dela num e-mail. Na verdade, não ocorrera a Lisbeth que ela iria precisar de um advogado.

— Desculpe, mas tenho de pedir que responda a essa pergunta. Basta dizer sim ou não. Se for sim, o procurador aqui de Gõteborg entrará em contato com a doutora Giannini. Se for não, um tribunal vai indicar um defensor público. O que você prefere?

Lisbeth refletiu sobre a proposta. Ponderou que, realmente, precisava de um advogado, mas ter a irmã do Maldito Sacana do Super-Blomkvist para defendê-la era meio difícil de engolir. Ele ia adorar. Por outro lado, um defensor público, desconhecido, não era melhor. Por fim, abriu a boca e grasnou uma só palavra rouca.

— Giannini.

— Ótimo. Obrigado. E agora eu queria lhe fazer uma pergunta. Você não precisa dizer nada antes da chegada de sua advogada, mas até onde posso ver não é uma pergunta que se refira diretamente a você nem ao seu bem--esrar. A polícia está procurando um cidadão alemão chamado Ronald Niedermann, de trinta e sete anos, suspeito de ter assassinado um policial.

Lisbeth franziu o cenho. Isso, para ela, era novidade. Ignorava tudo o que se passara depois de ter enfiado o machado na cabeça de Zalachenko.

— A gente aqui em Gõteborg queria pegar esse Niedermann o quanto antes. A minha colega aqui, de Estocolmo, também queria ouvir você sobre os três assassinatos dos quais você era suspeita inicialmente. Estamos pedindo a sua ajuda. Queríamos saber se você tem alguma idéia... se você pode nos dar alguma pista do paradeiro dele.

O olhar de Lisbeth passou, desconfiado, de Ackerman para Modig.

Eles não sabem que ele é meu irmão.

Em seguida, perguntou-se se tinha vontade de ver Niedermann preso ou não. O que ela queria mesmo era levá-lo em frente a um buraco cavado na terra de Gosseberga e enterrá-lo lá dentro. Finalmente, ela deu de ombros. O que não deveria ter feito, já que uma dor lancinante transpassou, no ato, seu ombro esquerdo.

— Que dia é hoje? — ela perguntou.

— Segunda-feira. Ela refletiu.

— A primeira vez que escutei o nome de Ronald Niedermann foi na quinta-feira da semana passada. Segui a pista dele até Gosseberga. Não faço idéia de onde ele se encontra nem de para onde poderia ter ido. Mas posso apostar que ele vai tentar, bem depressa, se colocar a salvo no exterior.

— Por que você acha que ele tentaria fugir do país? Lisbeth refletiu.

-— Porque quando o Niedermann saiu para cavar um túmulo para mim, o Zalachenko comentou comigo que este caso vinha recebendo muita publicidade e que já estava tudo planejado para o Niedermann passar algum tempo no exterior.

Lisbeth Salander nunca trocara tantas palavras com um policial desde seus doze anos.

— Quer dizer que o Zalachenko... é seu pai.

Pelo menos isso eles conseguiram descobrir. Coisa do Maldito Super-Blomkvist, decerto.

— Preciso também informar que o seu pai registrou uma queixa contra você por tentativa de homicídio. No momento, o dossiê está com o procurador, que deverá se decidir a favor ou contra uma ação judicial. De qualquer forma, já está claro que você será indiciada por golpes e ferimentos agravados. Você cravou um machado na cabeça do Zalachenko.

Lisbeth não disse nada. Fez-se um longuíssimo silêncio. Então Sonja Modig se inclinou para a frente e falou baixinho.

— Eu só queria lhe dizer que na polícia não estamos dando muito crédito à versão do Zalachenko. Chame a sua advogada para uma conversa aprofundada, e a gente, enquanto isso, vai aguardar um pouco.

Ackerman concordou com a cabeça. Os policiais se levantaram.

— Obrigada por nos ajudar com o Niedermann.

Lisbeth espantou-se ao constatar que os policiais tinham sido muito corretos e quase gentis. Ficou um pouco surpresa com a fala de Sonja Modig. Ela deve ter segundas intenções, pensou.

SEGUNDA-FEIRA - 11 DE ABRIL - TERÇA-FEIRA 12 DE ABRIL

Às 17h45 da segunda-feira, Mikael Blomkvist fechou o seu iBook e levantou do seu lugar, à mesa da cozinha do seu apartamento da Bellmansgatan. Vestiu um paletó e foi a pé até a sede da Milton Security, perto de Slussen. Pegou o elevador para subir à recepção, no segundo andar, e foi imediatamente introduzido numa sala de reuniões.

— Olá, Dragan — disse ele estendendo a mão. — Obrigado por aceitar fazer esta reunião informal aqui.

Olhou em volta. Além de Dragan Armanskij e ele, estavam ali Annika Giannini, Holger Palmgren e Malou Eriksson. O ex-inspetor criminal Steve Bohman, da Milton, que desde o primeiro dia, por ordem de Armanskij, acompanhara a investigação sobre Salander, também estava presente.

Holger Palmgren estava saindo pela primeira vez depois de dois anos. Seu médico, o Dr. A. Sivarnandan, não ficara muito entusiasmado com a idéia de deixá-lo sair do centro de reabilitação de Ersta, mas Palmgren tinha insistido. Efetuara o trajeto num carro particular, acompanhado de sua enfermeira pessoal, Johanna Karolina Oskarsson, de trinta e nove anos, cujo salário era pago por um fundo criado por um benfeitor misterioso e que tinha por objetivo oferecer a Palmgren o melhor tratamento possível. Karolina Oskarsson aguardava numa área de descanso em frente à sala de reuniões. Tinha trazido um livro. Mikael fechou a porta.

— Para quem não conhece: essa é a Malu Eriksson, a nova redatora-chefe da Millennium. Pedi-lhe que viesse à reunião porque o que vamos conversar aqui vai afetar o trabalho dela.

— Certo — disse Armanskij. — Está todo mundo aqui. Estamos ouvindo.

Mikael se aproximou do quadro branco de Armanskij e pegou uma caneta. Seu olhar percorreu a sala.

— Acho que nunca vivi nada tão delirante — disse. — Quando tudo isso acabar, vou fundar uma associação beneficente. Vou chamá-la de Os Cavaleiros da Távola Biruta, e sua missão será organizar um jantar anual para falar mal da Lisbeth Salander. Vocês todos serão membros.

Fez uma pausa.

— A realidade se parece com o seguinte — disse ele, traçando umas colunas no quadro de Armanskij. Falou durante uma boa meia hora. A discussão que se seguiu durou quase três horas.

Uma vez formalmente encerrada a reunião, Evert Gullberg sentou-se frente a frente com Fredrick Clinton. Conversaram em voz baixa durante alguns minutos, até que Gullberg se levantou. Os dois velhos irmãos de armas apertaram-se as mãos.

Gullberg voltou de táxi para o Hotel Frey, juntou suas coisas, pagou a conta e pegou um trem que saía à tarde para Gõteborg. Escolheu a primeira classe e ficou com um vagão inteiro só para ele. Depois que o trem passou a ponte de Ársta, ele pegou uma esferográfica e um bloco de papel de cartas. Refletiu alguns instantes e em seguida se pôs a escrever. Preencheu cerca de metade da página, então se deteve e destacou-a do bloco.

Documentos falsificados não eram sua especialidade, ele não se considerava um entendido no assunto, mas naquele caso sua tarefa estava sendo facilitada pelo fato de que as cartas que estava escrevendo levavam a sua assinatura. A dificuldade é que nenhuma palavra poderia ser verdadeira.

Ao passar por Nykõping, ainda se desfez de uma boa quantidade de rascunhos, mas já começava a ter uma idéia de como deveria formular as cartas.

Ao chegar a Gõteborg, estava satisfeito com as doze cartas de que dispunha. Cuidou para que suas impressões digitais ficassem nítidas e claras no papel.

Na estação central de Gõteborg, conseguiu achar uma copiadora e fez urnas fotocópias. Depois comprou selos e envelopes e jogou a correspondência na caixa postal que seria esvaziada às nove da noite.

Gullberg pegou um táxi para ir ao City Hotel, na Lorensbergsgatan, onde Clinton lhe reservara um quarto. De modo que se hospedou no mesmo hotel em que Mikael Blomkvist pernoitara dias antes. Em seguida foi para o quarto e desabou sobre a cama. Estava extremamente cansado e se deu conta de que comera apenas duas fatias de pão o dia inteiro. Continuava sem fome. Despiu-se, deitou-se e adormeceu quase em seguida.

Lisbeth Salander acordou sobressaltada ao escutar a porta se abrindo. Soube de imediato que não se tratava da enfermeira da noite. Abriu os olhos em duas fendas estreitas e avistou, à porta, a silhueta com muletas. Zalachenko não se movia e contemplava-a da fresta de luz do corredor que passava pela abertura da porta.

Sem se mover, ela virou os olhos para o relógio e viu que eram 3h10.

Desviou o olhar alguns milímetros e avistou o copo d'água na beirada do criado-mudo. Mal podia alcançá-lo sem ter que movimentar o corpo.

Levaria uma fração de segundo para estender o braço e, num gesto decidido, quebrá-lo contra a beirada do criado-mudo. Levaria meio segundo para enfiar a borda cortante na garganta de Zalachenko se ele se debruçasse sobre ela. Avaliou outras possibilidades, mas percebeu que aquela era a única arma possível.

Relaxou e esperou.

Zalachenko permaneceu uns dois minutos à porta, sem se mexer.

Depois, fechou-a devagar. Ela escutou o fraco arrastar das muletas enquanto ele se afastava tranqüilamente do quarto.

Passados cinco minutos, ela se ergueu apoiando-se nos cotovelos, pegou o copo e tomou um gole grande. Balançou as pernas por cima da beira da cama e tirou os eletrodos dos braços e do peito. Levantou-se e ficou em pé, cambaleando. Levou um bom minuto para reassumir o controle do corpo.

Foi mancando até a porta, apoiou-se na parede e recobrou o fôlego. Suava frio. Então, teve um acesso de fúria contida.

Fuck you, Zalachenko. Vamos acabar logo com isso!

Precisava de uma arma.

Nisso, ouviu passadas rápidas no corredor.

Droga. Os eletrodos.

— Caramba, o que você está fazendo aí em pé? — exclamou a enfermeira.

— Preciso... ir... ao banheiro — disse Lisbeth Salander, sem fôlego.

— Volte imediatamente para a cama.

Pegou na mão de Lisbeth e a ajudou a voltar para a cama. Em seguida foi buscar uma comadre.

— Se você precisar ir ao banheiro, chame a gente. Este botão aqui serve para isso — explicou a enfermeira.

Lisbeth não disse nada. Concentrou-se para conseguir produzir umas poucas gotas.

Na terça-feira, Mikael Blomkvist acordou às dez meia, tomou banho, ligou a cafeteira e em seguida se instalou diante do seu iBook. Depois da reunião na Milton Security na noite anterior, tinha vindo para casa e trabalhado até as cinco da manhã. Sentia que, finalmente, sua matéria começava a tomar forma. A biografia de Zalachenko continuava cheia de buracos — ele só dispunha, para se orientar, das informações que arrancara de Bjõrck e dos detalhes acrescentados por Holger Palmgren. A história de Lisbeth Salander estava praticamente concluída. Ele explicava com detalhes de que maneira ela se vira confrontada com um bando de frios combatentes da DGPN/Sapo e internada numa clínica de psiquiatria infantil para que não viesse à tona o segredo envolvendo Zalachenko.

Estava satisfeito com seu texto. Era uma matéria espetacular que iria estremecer as bancas de jornais e, além disso, criar problemas nas altíssimas esferas da burocracia do Estado.

Acendeu um cigarro enquanto refletia.

Restavam-lhe duas grandes lacunas para preencher. Uma era administrável. Precisava enfrentar Peter Teleborian, tarefa que ele encarava com prazer. Depois que acabasse com ele, o famoso psiquiatra infantil seria um dos homens mais odiados da Suécia.

O outro problema era um tanto mais complicado.

A maquinação contra Lisbeth Salander — ele apelidara esses conspira-dores de Clube Zalachenko — ocorrera dentro da Sapo. Ele conhecia um nome, Gunnar Bjõrck, mas Gunnar Bjòrck não podia, de modo algum, ser o único responsável. Havia necessariamente um grupo, uma espécie de equipe. Havia necessariamente chefes, responsáveis, e alguma verba. Só que ele não tinha a menor idéia de como identificar essas pessoas. Não sabia por onde começar. As informações que possuía sobre a organização da Sapo eram apenas rudimentares.

Na segunda-feira, começara sua pesquisa mandando Henry Cortez percorrer vários sebos de Sõdermalm com a instrução de comprar todos os livros que, de algum modo, mencionassem a Sapo. Cortez chegara à casa de Mikael Blomkvist por volta das quatro da tarde, levando seis livros. Mikael contemplou a pilha em cima da mesa.

Espionagem na Suécia [Spionage y Sverige] (Tempus, 1988); Eu fui chefe da Sapo de 1962 a 1970 [Sâpochef 1962-70]; Poderes secretos, de Jan Ottosson e Lars Magnusson [Hemliga makter: svensk hemlig militar under-ráttelsetjãnst frân unionstiden till det kalla kriget] (Tiden, 1991); Luta pelo controle da Sapo, de Erik Magnusson (Corona, 1989) [Maktkamp om SAPO]; Missão, de Carl Lidbom (w&w, 1990) [Ett Uppdrag], além do — um tanto surpreendente — An agent in place (Ballantine, 1966), sobre o caso Wen-nerstrõm. O caso dos anos 1960, portanto, e não o de Mikael Blomkvist, do início do século xxi.

Mikael passara boa parte da noite de terça-feira lendo, ou pelo menos folheando, os livros encontrados por Henry Cortez. Concluída a leitura, chegou a algumas conclusões. Em primeiro lugar, a maioria dos livros já escritos sobre a Sapo tinha aparentemente sido publicada no final dos anos 1980. Uma pesquisa na internet mostrou que não existia nenhuma literatura recente sobre o tema.

Em segundo lugar, tudo indicava que não existia um resumo compreensível das atividades da polícia secreta sueca ao longo dos anos. Isso se explicava pela quantidade de casos considerados segredo de segurança nacional, dificilmente abordáveis, portanto, mas tudo indicava não haver uma única instituição, um único pesquisador ou órgão de imprensa disposto a lançar um olhar crítico sobre a Sapo.

Também chamou sua atenção o fato de não existir, em nenhum dos livros reunidos por Henry Cortez, referência a outras obras. As notas de rodapé remetiam invariavelmente a artigos em jornais vespertinos ou a entrevistas pessoais feitas com algum aposentado da Sapo.

Poderes secretos era fascinante, mas tratava, sobretudo, da época anterior e contemporânea à Segunda Guerra Mundial. Mikael via nas memórias de P. G. Vinge, antes de mais nada, um livro de propaganda escrito em defesa própria por um diretor da Sapo duramente criticado e demitido do cargo. An agent in place continha, desde o primeiro capítulo, tantas esquisitices sobre a Suécia que ele simplesmente jogou o livro no lixo. Os únicos volumes com a clara intenção de descrever o trabalho da Sapo eram Luta pelo controle da Sapo e Espionagem na Suécia. Apresentavam datas, nomes e organogramas. Achou o livro de Erik Magnusson particularmente interessante. Embora não trouxesse resposta às suas perguntas imediatas, oferecia um bom panorama do que tinham sido a Sapo e de suas atividades nas décadas passadas.

Sua maior surpresa, contudo, foi Missão, de Carl Lidbom, que descrevia os problemas enfrentados pelo antigo embaixador em Paris quando, por ordem do governo, investigou sobre a Sapo na esteira do assassinato de Palme e do caso Ebbe Carlsson. Mikael nunca tinha lido Carl Lidbom e se surpreendeu com sua linguagem irônica permeada de observações mordazes. Mas o livro de Carl Lidbom também não ajudou Mikael a encontrar resposta às suas perguntas, embora ele começasse a ter uma vaga idéia da confusão que tinha pela frente.

Depois de refletir por algum tempo, pegou o celular e ligou para Henry Cortez.

— Oi, Henry. Obrigado pelo trabalho de ontem.

— Humm. O que você quer?

— Tenho mais uns servicinhos para você.

— Micke, eu tenho trabalho a fazer. Eu agora sou assistente de redação.

— Um belo avanço na carreira.

— Desembucha!

— Nesses anos todos, foram feitas algumas investigações públicas sobre a Sapo - Uma delas pelo Carl Lindbom. Deve haver um bocado de investigações desse tipo.

— Ahã.

— Me traga tudo o que tenha a ver com o Parlamento: orçamentos, inquéritos oficiais do Estado, discussões decorrentes de interpelações da Câmara, esse tipo de coisa; E compre os anais da Sapo, até o mais antigo que conseguir.

— Às suas ordens, capitão.

— Ótimo. E... Henry...

— Sim?

— ... eu só vou precisar disso amanhã.

Lisbeth Salander passou o dia pensando em Zalachenko. Sabia que ele estava dois quartos adiante do seu, que rondava pelos corredores à noite e viera até o seu quarto às 3hl0.

Ela o seguira até Gosseberga com o propósito de matá-lo. Fracassara, Zalachenko ainda estava vivo e se achava a menos de dez metros de distância. Ela estava encrencada. Era difícil definir até que ponto, mas imaginava que teria de fugir e desaparecer discretamente no exterior se não quisesse se arriscar a ser trancafiada outra vez com os loucos, tendo Peter Teleborian como guardião.

O problema, claro, é que ela não tinha forças sequer para se sentar na cama. Percebia alguns sinais de melhora. A dor de cabeça persistia, mas vinha por ondas em vez de ser constante. A dor no ombro estava superficial, só explodindo quando ela tentava se mexer.

Escutou passos no corredor e viu uma enfermeira abrir a porta e introduzir uma mulher de calças pretas, camisa branca e casaco escuro. Uma mulher bonita, magra, de cabelos castanhos bem curtos e que emanava uma calma autoconfiança. Carregava uma pasta preta. Lisbeth imediatamente reconheceu os olhos de Mikael Blomkvist.

— Bom dia, Lisbeth. Meu nome é Annika Giannini — disse ela. — Posso entrar?

Lisbeth contemplou-a sem nenhuma expressão. De repente, não estava com a mínima vontade de conhecer a irmã de Mikael Blomkvist e se arrependeu de ter aceitado a proposta de tê-la como advogada.

Annika Giannini entrou, fechou a porta atrás de si e puxou uma cadeira. Ficou sentada em silêncio alguns instantes, observando sua cliente.

Lisbeth Salander não parecia nada bem. Sua cabeça não passava de um pacote de bandagens. Enormes hematomas vermelhos circundavam seus olhos injetados de sangue.

— Antes de a gente começar a conversa, preciso saber se você realmente me quer como advogada. Em geral, eu só atuo em casos civis, representando vítimas de estupro e maus-tratos. Não sou advogada criminal. Em compensação, estou à par dos mínimos detalhes do seu caso e com muita vontade de representar você, se concordar. Devo dizer também que o Mikael Blomkvist é meu irmão — isso eu acho que você já sabe — e que ele e o Dragan Armanskij estão pagando meus honorários.

Ela esperou um instante, mas como não obteve nenhuma reação por parte de sua cliente, prosseguiu.

— Se me aceitar como advogada, vou trabalhar para você. Quero dizer, não estou trabalhando para o meu irmão nem para o Armanskij. Além disso, para tudo que estiver relacionado com o direito penal, vou contar com o auxílio do seu antigo tutor, Holger Palmgren. Está aí um homem de fibra, que deixou seu leito no hospital para te ajudar.

— O Palmgren? — disse Lisbeth Salander.

— É.

— Você esteve com ele?

— Estive. Ele vai ser meu conselheiro.

— Como é que ele está?

— Está furioso, mas não me pareceu particularmente preocupado com você.

Lisbeth Salander esboçou um sorrisinho de esguelha. O primeiro desde que ela chegara ao Hospital Sahlgrenska.

— Como você está se sentindo? — perguntou Annika Giannini.

— Um lixo — disse Lisbeth Salander.

— Ahã. Você quer que eu cuide da sua defesa? O Armanskij e o Mikael estão pagando os meus honorários e...

— Não.

— Como assim?

- Eu mesma vou pagar. Não vou aceitar um ore do Armanskij ou do Suer-Blomkvist. Mas só vou poder lhe pagar quando eu tiver acesso à internet.

— Entendo. Na hora certa a gente dá um jeito nisso e, seja como for, 0 Ministério Público é quem vai pagar a maior parte do meu salário. Então você aceita que eu faça a sua defesa?

Lisbeth Salander assentiu brevemente com a cabeça.

— Ótimo. Para começar, vou lhe passar um recado do Mikael. Ele falou em código, mas disse que você entenderia.

— Ah, é?

— Ele mandou dizer que me contou quase tudo, tirando umas coisinhas. A primeira se refere aos seus talentos, que ele descobriu em Hedestad.

Mikael sabe que eu tenho memória fotográfica... e que sou uma hacker. Ele guardou segredo.

— Certo.

— A segunda é sobre o DVD. Não sei do que se trata, mas ele disse que você é quem deve decidir se quer falar sobre isso comigo ou não. Você entende o que isso quer dizer?

— Entendo.

— Bem...

Annika Giannini hesitou de repente.

— Estou meio irritada com o meu irmão. Mesmo tendo me contratado, ele só me conta o que convém a ele. Você também pretende me esconder alguma coisa?

Lisbeth refletiu.

— Não sei.

— A gente vai ter que conversar bastante. Estou sem tempo agora, tenho um encontro com a procuradora Agneta Jervas daqui a quarenta e cinco minutos. Eu só precisava confirmar que você me aceitava como advogada. Também preciso lhe passar uma instrução...

— Ah, é?

— É o seguinte: se eu não estiver presente, você não deve dizer uma palavra sequer à polícia. Mesmo que eles a provoquem e a acusem de tudo que é coisa. Pode me prometer isso?

— Não vai ser difícil — disse Lisbeth Salander.

Exausto pela tensão da segunda-feira, Evert Gullberg acordou às nove horas da terça, quase quatro horas depois de seu horário habitual. Foi até o banheiro, lavou-se e escovou os dentes. Contemplou demoradamente seu rosto no espelho antes de apagar a luz e ir se vestir. Escolheu a única camisa limpa que lhe sobrava na pasta e pôs uma gravata estampada marrom.

Desceu até a sala de café da manhã do hotel, tomou uma xícara de café preto e comeu uma fatia de pão de forma torrada com queijo e um pouco de geléia de laranja. Bebeu um copo grande de água mineral.

Em seguida, foi até o hall do hotel e ligou de uma cabine telefônica para o celular de Fredrik Clinton.

— Sou eu. Como está a situação?

— Bastante agitada.

— Fredrik, você vai conseguir dar conta disso tudo?

— Sim, como antigamente. Só é pena que o Hans von Rottinger não esteja vivo. Ele era melhor que eu para planejar as operações.

— Você e ele tinham o mesmo gabarito. Podiam ocupar o lugar um do outro a qualquer momento. Aliás, vocês fizeram isso mais de uma vez.

— Havia uma diferença pequena, mínima, entre nós. Ele sempre foi um tantinho melhor que eu.

— Em que pé vocês estão?

— O Sandberg é mais esperto do que parecia. Chamamos o Mártensson como reforço. É um garoto de recados, mas nos será útil. O Blomkvist já está sob escuta, celular e telefone fixo de casa. Hoje, durante o dia, vamos cuidar dos telefones da Giannini e da Millennium. Estamos estudando a planta dos escritórios e dos apartamentos. Vamos entrar assim que possível.

— Primeiro você tem que localizar todas as cópias...

— Isso já foi feito. Tivemos uma sorte incrível. A Annika Giannini ligou para o Blomkvist agora às dez da manhã para perguntar, justamente, quantas cópias estão circulando, e descobrimos, pela conversa, que o Mikael Blomkvist é quem está com o único exemplar. A Berger fez uma cópia do relatório, mas mandou para o Bublanski.

— Ótimo. Não temos um segundo a perder.

- Eu sei. Mas precisamos pegar tudo de uma vez. Se não juntarmos todas as cópias do relatório do Bjõrck ao mesmo tempo, não vamos conseguir.

— Eu sei.

— Complicou um pouco porque a Giannini foi até Gõteborg hoje de manhã. Despachei uma equipe de colaboradores externos atrás dela. A essa hora eles estão no avião.

— Ótimo.

Gullberg não lembrava de mais nada para dizer. Ficou um bom tempo calado.

— Obrigado, Fredrik — disse por fim.

— Eu é que agradeço. Essa história é mais divertida do que ficar esperando por um rim que nunca chega.

Despediram-se. Gullberg pagou a conta do hotel e saiu. A sorte estava lançada. Agora era só esperar que a coreografia desse certo.

Primeiro, foi a pé até o Park Avenue Hotel e perguntou se poderia usar o fax. Não queria fazer isso no mesmo hotel onde tinha se hospedado. Enviou as cartas que escrevera no trem no dia anterior. Em seguida, saiu na Avenyn e procurou um táxi. Parou em frente a uma lixeira e rasgou as cópias que fizera das cartas.

Annika Giannini conversou por quinze minutos com a procuradora Agneta Jervas. Queria saber que acusações, a procuradora pretendia fazer contra Lisbeth Salander, mas percebeu rapidamente que Jervas ainda não sabia bem o que ia acontecer.

— Por enquanto, vou me limitar a indiciá-la por golpes e ferimentos agravados, acompanhados de tentativa de homicídio. Refiro-me à machadada que Lisbeth Salander desfechou no pai. Suponho que a senhora vá alegar legítima defesa.

— Pode ser.

— Mas, para ser sincera, minha prioridade no momento é o Niedermann, o assassino do policial.

— Compreendo.

— Conversei com o procurador-geral da nação. No momento, estão tentando decidir se todas as acusações contra a sua cliente não deveriam ser centralizadas por um procurador de Estocolmo e vinculadas ao que aconteceu lá.

— Estou partindo do princípio de que o caso vai ser transferido para Estocolmo.

— Ótimo. Seja como for, preciso ter a oportunidade de ouvir a Lisbeth Salander. Quando pode ser?

— Tenho aqui uma declaração do médico dela, o doutor Anders Jonasson. Ele diz que durante alguns dias Lisbeth Salander ainda não terá condições de enfrentar um interrogatório. Além dos ferimentos no corpo, ela está sob o efeito de sedativos fortíssimos.

— Foi mais ou menos o que me disseram. Mas você há de compreender que é frustrante para mim. Repito, minha prioridade no momento é o Ronald Niedermann. Sua cliente diz que não sabe onde ele está.

— E é verdade. Ela não conhece o Niedermann. Só o que ela fez foi descobrir quem ele era e ir atrás dele.

— Muito bem — disse Agneta Jervas.

Evert Gullberg segurava um buquê de flores quando entrou no elevador do Hospital Sahlgrenska junto com uma mulher de cabelos curtos e casaco escuro. Segurou educadamente a porta e deixou que ela passasse à sua frente para se dirigir à recepção.

— Meu nome é Annika Giannini. Sou advogada e preciso falar de novo com a minha cliente, Lisbeth Salander.

Evert Gullberg virou a cabeça e olhou, surpreso, para a mulher que viera com ele no elevador. Desviou o olhar para a sua pasta, enquanto a enfermeira verificava a identidade de Giannini e consultava uma lista.

— Quarto número 12 — disse a enfermeira.

— Obrigada. Já estive aqui, sei onde é.

Pegou a pasta e desapareceu do campo visual de Gullberg.

— Posso ajudar? — perguntou a enfermeira.

— Sim, obrigado, eu queria deixar essas flores para Karl Axel Bodin.

— Ele não está autorizado a receber visitas.

— Eu sei, só queria deixar as flores.

— Posso cuidar disso.

Gullberg só trouxera o buquê como pretexto. Queria ter uma idéia da burocracia de entrada. Agradeceu e se dirigiu para a saída. No caminho, cassou em frente ao quarto de Zalachenko, o número 14 segundo Jonas Sandberg.

Esperou no patamar. Pela porta de vidro, viu a enfermeira pegar o buquê que ele acabara de trazer e entrar no quarto de Zalachenko. Assim que ela voltou para a sua mesa, Gullberg empurrou a porta, dirigiu-se rapidamente para o quarto número 14 e entrou.

— Olá, Zalachenko — disse.

Zalachenko fitou, espantado, aquele visitante inesperado.

— Achei que você já estivesse morto a esta altura — disse ele.

— Ainda não — disse Gullberg.

— O que você quer? — perguntou Zalachenko.

— O que você acha?

Gullberg puxou a cadeira dos visitantes e se sentou.

— Me ver morto, provavelmente.

— Sim, até que eu ia gostar. Como você conseguiu ser tão idiota? Nós lhe demos uma vida nova, e aqui está você de novo.

Se Zalachenko pudesse sorrir, sem dúvida o teria feito. Para ele, a Segurança sueca era composta de amadores, entre os quais Evert Gullberg e Sven Jansson, ou melhor, Gunnar Bjõrck. Para não falar naquele inepto do dr. Nils Bjurman.

— E mais uma vez a gente é que tem que apagar o seu incêndio.

A metáfora não foi muito do agrado de Zalachenko, que já tinha sido vítima de graves queimaduras,

— Pare de me dar sermão. Vocês têm que me tirar daqui.

— E sobre isso que quero falar com você.

Pôs a pasta no colo, pegou um novo bloco de anotações e abriu uma página em branco. Depois, observou Zalachenko.

— Uma coisa me intriga: você seria capaz de nos fritar depois de tudo que fizemos por você?

— O que você acha?

— Depende do tamanho da sua loucura.

— Não me chame de louco. Sou um sobrevivente. Faço o que tenho que fazer para sobreviver.

Gullberg balançou a cabeça.

— Não, Alexander, você faz o que faz porque é ruim e depravado. Você queria saber qual a posição da Seção. Pois estou aqui para te informar. Desta vez não vamos levantar um dedo para te ajudar.

Pela primeira vez, Zalachenko pareceu hesitar.

— Você não tem escolha — disse.

— Sempre se tem escolha — disse Gullberg.

— Eu vou...

— Você não vai fazer coisa nenhuma.

Gullberg respirou fundo, enfiou a mão no bolso externo da pasta marrom e pegou uma Smith & Wesson 9 milímetros com coronha banhada a ouro. A arma era um presente de vinte e cinco anos atrás do serviço de informações inglês — fruto de uma informação inestimável que ele extorquira de Zalachenko e transformara numa sólida moeda de troca: o nome de um estenógrafo do MI-5 inglês que, no bom e velho espírito de Philby, trabalhava para os russos.

Zalachenko pareceu surpreso. Deu uma risada.

— E o que você vai fazer com isso? Me matar? Vai passar o resto da sua miserável vida na cadeia.

— Acho que não — disse Gullberg.

De repente, Zalachenko já não sabia se Gullberg estava blefando ou não.

— Vai ser um escândalo e tanto.

— Também acho que não. Vai dar só algumas manchetes. Daqui a uma semana ninguém mais vai se lembrar do nome Zalachenko.

Os olhos de Zalachenko se estreitaram.

— Seu canalha — disse Gullberg, com uma voz tão fria que Zalachenko ficou gelado.

Ele apertou o gatilho e enfiou a bala no meio da testa de Zalachenko no exato momento em que este começava a puxar a prótese sobre a beira da cama. Zalachenko foi projetado para trás, sobre o travesseiro. Seu corpo se agitou em alguns movimentos espasmódicos, depois se aquietou. Gullberg viu os respingos formarem uma flor vermelha na parede atrás da cabeceira da cama. O tiro ecoava em seus ouvidos e ele esfregou maquinalmente o canal auditivo com o dedo indicador livre.

Em seguida levantou-se, acercou-se de Zalachenko, pressionou o cano da arma em sua têmpora e atirou mais duas vezes. Queria ter certeza de que o velho canalha estava realmente morto.

Lisbeth Salander ergueu-se de um salto quando o primeiro tiro foi disparado. Sentiu uma dor intensa no ombro. Quando os dois tiros seguintes ecoaram, tentou jogar as pernas sobre a beira da cama.

Annika Giannini estava conversando com Lisbeth havia poucos minutos quando ouviram os tiros. De início, ficou paralisada, tentando entender de onde vinha o disparo. A reação de Lisbeth Salander lhe mostrou que algo estava acontecendo.

— Não se mexa! — gritou. Pôs automaticamente a mão no peito de Lisbeth Salander, prendendo sua cliente na cama com tanta força que Lisbeth se sentiu sufocar.

Então Annika atravessou depressa o quarto e abriu a porta. Avistou duas enfermeiras correndo em direção a um quarto duas portas adiante. A primeira estacou de chofre ao entrar. Annika ouviu-a gritar: "Não faça isso" e dar um passo atrás, esbarrando na outra.

— Ele está armado. Corra.

Annika viu as duas enfermeiras abrirem a porta do quarto vizinho ao de Lisbeth e se refugiarem lá dentro.

No instante seguinte, viu o homem magro de cabelos grisalhos e paletó pied-de-poule aparecer no corredor. Segurava uma pistola na mão. Annika reconheceu o homem que subira com ela no elevador poucos minutos antes.

Então seus olhares se cruzaram. Ele pareceu embaraçado. Em seguida, viu que ele virava a arma em sua direção e dava um passo à frente. Ela levou a cabeça para trás, bateu a porta e olhou em volta, desesperada. Bem à seu lado havia uma mesa alta de enfermagem. Puxou-a num gesto brusco para junto da porta e prendeu-a debaixo da maçaneta.

Escutou um movimento, virou a cabeça e viu que Lisbeth Salander tentava sair da cama novamente. Alcançou sua cliente em poucas passadas e pegou-a no colo. Arrancou os eletrodos e o gotejador para levá-la até o banheiro, onde a acomodou sobre a tampa do vaso sanitário. Virou-se e fechou a porta a chave. Em seguida, pegou o celular no bolso do casaco e ligou para o 112.

Evert Gullberg se aproximou do quarto de Lisbeth Salander e tentou mover a maçaneta da porta. Estava bloqueada com alguma coisa. Não se mexeu um milímetro sequer.

Por um instante, ficou indeciso diante da porta. Sabia que Annika Giannini estava no quarto e se perguntou se uma cópia do relatório de Bjõrck não estaria em sua bolsa. Não podia entrar no quarto e não tinha forças suficientes para arrombar a porta.

Mas isso não fazia parte do plano. O encarregado de Giannini e da ameaça que ela podia representar era o Clinton. A parte dele limitava-se a Zalachenko.

Gullberg olhou em volta no corredor e percebeu que estava sendo observado por cerca de vinte enfermeiras, pacientes e visitantes que esticavam a cabeça pela abertura das portas. Ergueu a pistola e deu um tiro num painel afixado no fundo do corredor. Sua platéia desapareceu como num passe de mágica.

Lançou um último olhar para a porta fechada, voltou resolutamente para o quarto de Zalachenko e fechou a porta. Sentou-se na poltrona dos visitantes e contemplou o dissidente russo que durante tantos anos fora parte integrante de sua vida.

Permaneceu imóvel durante quase dez minutos, até que ouviu a agitação no corredor e percebeu que a polícia estava chegando. Não pensou em nada de especial.

Então ergueu a pistola uma última vez, apontou-a para a própria têmpora e apertou o gatilho.

Os acontecimentos que se seguiram demonstraram a imprudência de tentar se suicidar no Hospital Sahlgrenska. Evert Gullberg foi levado com urgência ao serviço de traumatologia do hospital, sendo recebido pelo Dr. Anders Jonasson, que imediatamente deu início a uma série de medidas destinadas a manter suas funções vitais.

Pela segunda vez em menos de uma semana, Jonasson realizou uma cirurgia de emergência para extrair uma bala dos tecidos cerebrais humanos.

Após cinco horas de cirurgia, o estado de Gullberg permanecia crítico. Mas ele estava vivo.

Os ferimentos de Evert Gullberg, porém, eram bem mais graves que os de Lisbeth Salander. Durante vários dias ele oscilou entre a vida e a morte.

Mikael Blomkvist estava no Kaffebar, na Hornsgatan, quando escutou no rádio a notícia de que um homem de cerca de sessenta anos, ainda não identificado e que estava sendo acusado de tentar matar Lisbeth Salander, havia sido morto com um tiro no Hospital Sahlgrenska em Gõteborg. Ele largou a xícara, apanhou a sacola do computador e correu para a redação na Gõtgatan. Atravessou a Mariatorget e estava entrando na Sankt Paulsgatan quando seu celular tocou. Atendeu sem parar de caminhar.

— Blomkvist.

— Oi, é a Malu.

— Acabo de ouvir o noticiário. Já se sabe quem atirou?

— Ainda não. O Henry Cortez está indo atrás.

— Eu estou indo para aí. Chego em cinco minutos.

Na porta da Millennium, Mikael cruzou com Henry Cortez, que ia saindo.

— O Ekstròm vai dar uma entrevista coletiva às três da tarde — disse Henry. — Estou indo para Kungsholmen.

— E o que já se sabe? — gritou Mikael às suas costas.

— Malu — disse Henry, e desapareceu.

Mikael dirigiu-se à sala de Erika Berger... opa, de Malu Eriksson. Ela estava ao telefone, tomando notas febrilmente num post-it amarelo. Fez com a mão um sinal para que ele saísse. Mikael foi até a copa e encheu de café com leite duas canecas, uma com o logotipo da Juventude Cristã-Democrata e outra com o do Círculo da Juventude Social-Democrata. Quando voltou à sala de Malu, ela estava encerrando a ligação. Ele lhe ofereceu a caneca do cjs.

— Bem — disse Malu. — O Zalachenko foi morto hoje às 13h15. Ela olhou para Mikael.

— Acabo de falar com uma enfermeira do Sahlgrenska. Diz ela que o assassino é um homem de certa idade, em torno dos setenta anos, que foi levar flores para o Zalachenko minutos antes do assassinato. Deu vários tiros à queima-roupa na cabeça do Zalachenko e depois apontou a arma para si mesmo. O Zalachenko está morto. O assassino sobreviveu, está sendo operado.

Mikael respirou aliviado. Desde que ouvira a notícia no Kaffebar, estava com um aperto no coração e a sensação, bem próxima do pânico, de que Lisbeth Salander é que tivesse disparado a arma. O que iria realmente complicar seu plano.

— Já sabem o nome do assassino? — ele perguntou.

Malu balançava a cabeça quando o telefone voltou a tocar. Ela atendeu e, pela conversa, Mikael percebeu que era um freelancer enviado por Malu até o Sahlgrenska. Ele fez um gesto com a mão e foi para a sua sala.

Tinha a impressão de que era a primeira vez, em semanas, que ia para a redação da Millennium. Decididamente, empurrou de lado uma pilha de correspondência ainda fechada. Ligou para a irmã.

— Giannini.

— Oi. E o Mikael. Você soube do que aconteceu no Sahlgrenska?

— É, pode-se dizer que sim.

— Aonde você está?

— No Sahlgrenska. O canalha apontou a arma para mim.

Mikael permaneceu calado por vários segundos até entender o que sua irmã estava dizendo.

— Puta merda... você estava aí?

— Estava. Foi a pior experiência que já tive na vida.

— Você está ferida?

— Não. Mas ele tentou entrar no quarto da Lisbeth. Eu bloqueei a porta e me tranquei com ela no banheiro.

Mikael, de repente, sentiu seu mundo balançar. Sua irmã por pouco não...

— Como está a Lisbeth? — ele perguntou.

— Está tudo bem. Quero dizer, tudo bem quanto a essa tragédia de hoje.

Ele respirou um pouco melhor.

— Annika, você sabe alguma coisa sobre o assassino?

— Nadica de nada. É um homem de idade, bem-vestido. Achei seu ar um pouco perturbado. Nunca o tinha visto, mas ele estava comigo no elevador minutos antes do assassinato.

— E o Zalachenko está mesmo morto?

— Está. Eu escutei três tiros e, pelo que ouvi por aqui, atiraram nele três vezes. Foi um caos absoluto, os policiais correndo para lá e para cá, e um setor inteiro de pessoas gravemente feridas, que não podem ser removidas, teve de ser evacuado. Quando a polícia chegou, alguém até tentou interrogar a Salander sem entender até que ponto ela está mal. Fui obrigada a falar grosso.

O inspetor Marcus Ackerman avistou Annika Giannini no quarto de Lisbeth Salander pela abertura da porta. A advogada estava com o celular junto ao ouvido e ele esperou que ela terminasse a ligação.

Duas horas depois do assassinato, um caos mais ou menos organizado ainda reinava no corredor. O quarto de Zalachenko estava interditado. Alguns médicos haviam tentado intervir logo após os tiros, mas desistiram em seguida. Zalachenko não precisava mais de ajuda. Seu corpo fora levado ao necrotério e o exame da cena do crime estava em andamento.

O celular de Ackerman tocou. Era Frank Malmberg, da equipe de investigação.

— Temos uma identificação segura do assassino — disse Malmberg. — Seu nome é Evert Gullberg, tem setenta e oito anos. Meio velho para um assassino!

— E quem é o puto desse Evert Gullberg?

— Aposentado. Mora em Laholm. Parece que é advogado empresarial. Recebi uma ligação da DGPN/Sapo dizendo que recentemente eles abriram um inquérito preliminar sobre ele.

— Quando e por quê?

— Quando eu não sei. Por quê... bem, porque ele tinha o péssimo hábito de mandar cartas ameaçadoras e sem pé nem cabeça para figuras públicas.

— Para quem, por exemplo?

— Para o ministro da Justiça.

Marcus Ackermann suspirou. Quer dizer, um louco. Um justiceiro.

— Hoje de manhã a Sapo recebeu ligações de vários jornais para os quais o Gullberg tinha escrito cartas. O Ministério da Justiça também telefonou, depois que o tal Gullberg ameaçou expressamente o Karl Axel Bodin de morte.

— Quero uma cópia dessas cartas.

— Da Sapo?

— Claro, porra. Vá até Estocolmo buscá-las pessoalmente, se preciso. Quero as cartas na minha mesa quando eu voltar para a chefatura de polícia. Ou seja, daqui a uma hora mais ou menos.

Ele refletiu um instante e fez mais uma pergunta.

— Foi a Sapo que ligou para você?

— Foi o que eu disse.

— Quero dizer, foram eles que ligaram para você, e não o contrário?

— Isso mesmo.

— Certo — disse Marcus Ackerman, e desligou o celular.

Perguntou-se o que dera na telha da Sapo para, de repente, ter a iniciativa de contatar a polícia comum. Em geral, era praticamente impossível conseguir que ela desse o menor sinal de vida.

Com um gesto brusco, Wadensjõõ abriu a porta do quarto que Fredrik Clinton usava para repousar na Seção. Clinton se ergueu com cautela na cama.

— Eu gostaria de saber que baderna é essa — berrou Wadensjõõ. — O Gullberg matou o Zalachenko e depois deu um tiro na cabeça.

— Eu sei — disse Clinton.

— Você sabe? — exclamou Wadensjõõ.

Ele estava escarlate e parecia prestes a ter um derrame cerebral.

— Já pensou, o idiota deu um tiro em si próprio. Tentou se suicidar. Ele por acaso pirou?

— Quer dizer que ele ainda está vivo?

— Por enquanto, sim, mas está com lesões enormes no cérebro. Clinton suspirou.

— Que pena — disse, a voz repleta de tristeza.

— Pena?! — gritou Wadensjõõ. — Ora essa, o Gullberg está é completamente maluco. Você não percebe que...

Clinton interrompeu-o.

— O Gullberg está com câncer. No estômago, no cólon e na bexiga. Faz meses que ele está morrendo e, na melhor das hipóteses, só teria mais dois meses de vida.

- Câncer?

- Faz seis meses que ele carregava essa arma com ele, firmemente disposto a usá-la quando a dor se tornasse insuportável e antes que ele próprio se transformasse num pacote humilhado em alguma UTI. Com isso, ele pôde prestar um último serviço à Seção. Foi uma saída triunfal.

Wadensjõò parecia atônito.

__Você sabia que ele pretendia matar o Zalachenko.

— É evidente. A missão dele era dar um jeito para o Zalachenko nunca mais ter a oportunidade de falar. E você sabe muito bem que ele não se deixava ameaçar, muito menos convencer.

— Mas você não percebe o escândalo que isso vai provocar? Você está tão maluco quanto o Gullberg?

Clinton levantou-se com dificuldade. Fitou Wadensjõò olho no olho e lhe passou uma pilha de faxes.

— A decisão depende do setor de intervenções. Eu lamento pelo meu amigo, mas é bem provável que eu o siga muito em breve. Quanto a esta história de escândalo... Um ex-perito em assuntos fiscais escreveu cartas claramente paranóicas, fruto de uma mente perturbada, e mandou para os jornais, a polícia e o Ministério da Justiça. Aqui tem uma. O Gullberg acusa o Zalachenko de tudo que é coisa, desde o assassinato do Palme até uma tentativa de envenenar a população sueca com cloro. As cartas foram manifestamente escritas por um doente mental, em certos trechos a letra está ilegível, com maiúsculas, sublinhados e pontos de exclamação. Gosto do jeito como ele escreve na margem.

Wadensjõò leu as cartas, enquanto seu espanto crescia. Passou a mão pela testa. Clinton olhou para ele.

— O que quer que aconteça, a morte de Zalachenko não vai ter nada a ver com a Seção. Quem atirou foi um aposentado desnorteado e demente.

Ele fez uma pausa.

— O mais importante, a partir de agora, é você se manter na linha. Não fique se agitando dentro da canoa, que ela pode virar!

Cravou o olhar em Wadensjõò. De súbito, o olhar daquele homem exibiu uma dureza de aço.

— Você precisa entender que a Seção é figura de proa no conjunto da Defesa sueca. Somos a última linha de defesa. Nossa missão é zelar pela segurança do país. O resto não tem a menor importância.

Wadensjõõ mirou Clinton fixamente, com um olhar de dúvida.

— Nós somos aqueles que não existem. Somos aqueles a quem ninguém agradece. Somos aqueles que precisam tomar as decisões que ninguém mais consegue tomar... muito menos os políticos.

Havia desprezo em sua voz quando pronunciou a última palavra.

— Faça o que eu estou dizendo, e a Seção talvez sobreviva. Mas para que isso aconteça vamos precisar ter muita determinação e não usar meias-medidas.

Wadensjõõ sentiu-se invadido pelo pânico.

Henry Cortez anotou febrilmente tudo o que era dito no tablado durante a entrevista coletiva da chefatura de polícia em Kungsholmen. O procurador Ekstrõm foi quem abriu a coletiva. Explicou que, naquela manhã, eles haviam decidido entregar a um procurador da jurisdição de Gõteborg a instrução do assassinato de um policial em Gosseberga, pelo qual Ronald Niedermann era procurado, mas que qualquer outra investigação referente a Niedermann seria dirigida por ele próprio. Niedermann era, portanto, suspeito dos assassinatos de Dag Svensson e Mia Bergman. O dr. Bjurman não foi mencionado. Ekstrõm também iria investigar Lisbeth Salander e entrar com uma ação na Justiça cobrindo uma extensa lista de infrações.

Ele explicou que decidira tornar pública essa informação após os acontecimentos de Gõteborg naquele dia, já que o pai de Lisbeth Salander, Karl Axel Bodin, havia sido morto a tiros. O primeiro motivo daquela entrevista coletiva é que ele queria desmentir algumas informações já divulgadas pela imprensa, sobre as quais já recebera várias ligações.

— Com base nas informações de que dispomos no momento, posso dizer que a filha de Karl Axel Bodin, que se encontra detida por tentativa de homicídio contra o seu pai, não tem nada a ver com os acontecimentos desta manhã.

— E quem é o assassino? — gritou um jornalista do Dagens Eko.

— Foi identificado o homem que, às 13hl5 de hoje, fez os disparos que mataram Karl Axel Bodin e depois tentou se suicidar. E um aposentado de setenta e oito anos, que fazia algum tempo vinha se tratando de uma doença fatal e dos problemas psíquicos decorrentes dessa doença.

- Existe alguma ligação com Lisbeth Salander?

- Não. Podemos refutar essa hipótese com toda a segurança. Essas duas pessoas nunca se viram e não se conhecem. O homem de setenta e oito anos é uma figura trágica. Ele agiu sozinho, levado por suas próprias fantasias, claramente paranóicas. Não faz muito tempo, a Sapo iniciou uma investigação sobre ele por causa de uma quantidade de cartas confusas que ele escreveu para políticos de destaque e para a imprensa. Ainda hoje de manhã, cartas desse homem chegaram aos jornais e a autoridades, contendo ameaças de morte contra Karl Axel Bodin.

— Por que a polícia não colocou Bodin sob proteção?

— As cartas foram enviadas ontem à noite e, pelo que se sabe, chegaram justamente no instante em que ele cometia o assassinato. Não houve nenhuma margem de ação para nós.

— Qual o nome desse homem?

— Não podemos divulgar o nome dele antes que a família tenha sido informada.

— Sabe-se alguma coisa do passado dele?

— Pelo que entendi até agora, ele era auditor e especialista em assuntos fiscais. Estava aposentado havia quinze anos. As investigações continuam, mas, como mostram as cartas, essa tragédia talvez pudesse ter sido evitada se a sociedade fosse mais vigilante.

— Ele ameaçou outras pessoas?

— Segundo me informaram, ameaçou, mas não tenho mais detalhes.

— O que isso significa para o processo de Lisbeth Salander?

— Por enquanto, nada. Dispomos do depoimento que o próprio Karl Axel Bodin prestou aos policiais que o interrogaram e temos provas técnicas consideráveis contra ela.

— E quanto à informação de que Bodin teria tentado matar a filha?

— Isso está sendo investigado, mas há fortes indícios de que é verdade. Tudo parece indicar que estamos diante de sérios antagonismos de uma família desfeita de modo trágico.

Henry Cortez parecia pensativo. Cocou a orelha. Observou que seus alegas tomavam notas tão febrilmente quanto ele.

Gunnar Bjõrck sentiu o pânico invadi-lo ao escutar a notícia dos tiros no Sahlgrenska. Estava com dores terríveis nas costas.

Primeiro, permaneceu indeciso por mais de uma hora. Depois, pegou o telefone e tentou ligar para seu antigo protetor, Evert Gullberg, em Laholm. Ninguém atendeu.

Assistiu ao noticiário e ouviu o resumo do que havia sido dito na entrevista coletiva da polícia. Zalachenko morto por um justiceiro.

Caramba. Setenta e oito anos.

Tentou ligar mais uma vez para Evert Gullberg, sem sucesso.

Por fim, o pânico e a angústia prevaleceram. Ele não podia ficar na casa que tinham lhe emprestado em Smâdalarõ, pois ali se sentia cercado e exposto. Precisava de tempo para pensar. Enfiou roupa, analgésicos e objetos de higiene pessoal numa sacola. Preferiu não usar o telefone e foi mancando até uma cabine, em frente à mercearia, a fim de ligar para Landsort e fazer uma reserva no velho farol transformado em pousada. Landsort ficava no fim do mundo, e pouca gente iria procurá-lo lá. Fez uma reserva para duas semanas.

Consultou o relógio. Precisava correr se quisesse pegar a última balsa e voltar para casa tão depressa quanto suas costas doloridas permitiam. Passou pela cozinha para conferir se a cafeteira elétrica estava desligada, e foi até o hall de entrada apanhar a sacola. Deu uma última olhada na sala e se deteve, atônito.

De início, não entendeu o que via.

O lustre fora misteriosamente retirado e colocado sobre a mesa de centro. Em seu lugar, havia uma corda presa no gancho, acima de um banquinho que costumava ficar na cozinha.

Bjõrck olhou para a corda sem entender.

Então escutou um movimento atrás de si e sentiu as pernas fraquejarem.

Virou-se lentamente.

Eram dois homens de cerca de trinta anos. Observou que tinham um tipo mediterrâneo. Não teve tempo de reagir quando o agarraram delicadamente, cada um por um braço, ergueram-no e o puxaram para trás em direção ao banquinho. Quando ele tentou resistir, a dor transpassou-o como uma facada nas costas. Estava quase paralisado quando sentiu que o colocavam sobre o banco.

Tonas Sandberg estava acompanhado de um homem de cerca de cinqüenta anos, apelidado de Falun, que quando jovem fora assaltante profissional e mais tarde se tornara chaveiro. Hans von Rottinger, da Seção, recrutara Falun em 1986 para uma operação que consistia em arrombar a casa do líder de uma organização anarquista. Depois disso, Falun tinha sido regularmente recrutado até meados dos anos 1990, quando esse tipo de ação perdera o fôlego. Cedo, pela manhã, Fredrik Clinton reativara o relacionamento contatando Falun para uma missão. Falun ia ganhar dez mil coroas livres de impostos para trabalhar cerca de dez minutos. Em troca, comprometera-se a não roubar nada no apartamento visado; a Seção, afinal, não tinha uma atuação criminosa.

Falun não sabia ao certo o que Clinton representava, mas supunha que tinha alguma relação com o Exército. Ele lera Jan Guillou. Não fazia perguntas. Em compensação, estava feliz por voltar à ativa após tantos anos de silêncio por parte do sócio.

Sua função era abrir portas. Era especialista em arrombamentos e utilizava uma picareta elétrica. Contudo, precisou de cinco minutos para forçar as fechaduras do apartamento de Mikael Blomkvist. Depois, Falun esperou no patamar enquanto Jonas Sandberg passava pela porta.

— Entrei — disse Sandberg ao microfone do seu headset.

— Ótimo — disse Fredrik Clinton no seu receptor. — Fique calmo e aja com prudência. Descreva-me o que está vendo.

— Estou no hall de entrada, há um armário e uma prateleira para chapéus à direita e um banheiro à esquerda. O resto do apartamento é uma sala grande, de uns cinqüenta metros quadrados. Tem uma pequena cozinha americana à direita.

— Por acaso tem uma mesa de trabalho ou...

— Tenho a impressão de que ele trabalha na mesa da cozinha, ou então no sofá... espere.

Clinton esperou.

— É. Tem uma pasta na mesa da cozinha com o relatório do Bjõrck. Parece ser o original.

— Ótimo. Há mais alguma coisa interessante em cima da mesa?

— Livros. As memórias de I. G. Vinge. Luta pelo controle da Sapo, de Krik Magnusson. Uns seis livros desse tipo.

— Computador?

— Não.

— Armário com chave?

— Não... não estou vendo.

- Certo. Não tenha pressa. Examine cada metro quadrado do apartamento. O Mártensson está me informando que o Blomkvist continua na vedação. Você está usando luvas?

— É claro.

Marcus Ackerman esperou que Annika Giannini terminasse a ligação para entrar no quarto de Bishelh Salander. Estendeu a mão para Annika e se apresentou. Depois cumprimentou Bishelh e perguntou-lhe como estava se sentindo. Bishelh Salander não disse nada. Ele se virou para Annika (íiannini.

— Eu queria fazer umas perguntas.

— Tudo bem.

— Poderia me contai o que aconteceu?

Annika Giannini contou o que ela linha vivenciado c sua atuação ale o momento em que se trancou com Lisbeth no banheiro. Ackerman pareceu pensativo. Olhou para Bishelh Salander e depois para a advogada.

— Então a senhora acha que ele vinha para este quarto.

— Eu ouvi, ele tentou abrir a porta.

- Tem certeza? A gente imagina um monte de coisa quando está com medo ou enlouquecido.

— Eu ouvi. Ele me viu. Apontou a arma paia num.

— Acha que ele também estava tentando matar a senhora?

— Não sei. Pus a cabeça para dentro e bloqueei a porta.

— Fez muito bem. E fez melhor ainda quando escondeu sua cliente no banheiro. Essas portas são tão finas que as balas provavelmente teriam atravessado a madeira caso ele atirasse. O que estou tentando entender é se ele quis de fato apontar a arma para a senhora ou se apenas reagiu porque a senhora estava olhando. Estava muito perto dele, no corredor.

— É verdade.

- Tive a impressão de que ele a conhecia, ou reconhecia, quem sabe?

- Na verdade, não.

— Você poderia conhecê-la dos jornais? A senhora foi mencionada em vários casos importantes.

— Pode ser. Não sei.

— E a senhora nunca o tinha visto antes?

— Vi no elevador, quando cheguei aqui.

— Ali, isso eu não sabia. Vocês conversaram?

— Não. Olhei para ele durante talvez meio segundo. Ele estava com um buquê de flores numa mão e uma pasta na outra.

— Vocês fizeram contato visual?

— Não. Ele estava olhando para a frente.

— Ele foi o primeiro a entrar no elevador, ou foi a senhora? Annika refletiu.

— Acho que entramos mais ou menos na mesma hora.

— Ele parecia perturbado ou...

— Não. Distava ali parado segurando as flores.

— O que aconteceu em seguida?

— Saí do elevador. Ele também saiu, e eu fui me encontrar com a minha cliente.

— Veio direto para o quarto?

— Sim... não. Ouça! Primeiro fui até a recepção me identificar. O procurador decretou proibição de visitas para a minha cliente.

— Onde estava o homem nessa hora?

Annika Giaimini hesitou.

— Não tenho certeza. Imagino que tenha vindo atrás de mim. Espere... Ele saiu do elevador primeiro, mas parou e segurou a porta para mim. Eu não posso jurar, mas acho que ele também foi até a recepção. Eu só fui mais rápida que ele.

Um assassino aposentado muito galante, pensou Ackerman.

— É verdade, ele foi ate a recepção — ele confirmou. — Falou com a enfermeira e entregou o buquê de flores para ela. Mas a senhora não viu isso?

— Não, acho que não.

Marcus Ackerman pensou uni pouco, mas não se lembrou de mais nada para perguntar. Uma sensação de frustração o incomodava. Já tivera essa sensação e aprendera a interpretá-la como um alerta de seu instinto.

O assassino fora identificado como Evert Gullberg, setenta e oito anos, ex-auditor, eventual consultor de empresas e especialista em assuntos fiscais. Um homem de idade avançada. Um homem que estava sofrendo um inquérito preliminar aberto recentemente pela Sapo, porque ele era um doido que mandava cartas com ameaças para celebridades.

Sabia, por sua experiência como policial, que existia um bocado de gente doida, gente obcecada que ficava assediando celebridades e ia em busca do amor fixando residência num bosque atrás das mansões delas. E, ao não ser correspondido, esse amor podia rapidamente se transformar num ódio cego. Existiam assediadores que saíam da Alemanha ou da Itália para declarar sua paixão à jovem cantora de um famoso grupo pop, e ficavam injuriados quando ela não permitia uma relação de intimidade. Existiam os justiceiros que ficavam ruminando ofensas reais ou imaginárias e podiam apresentar um comportamento bastante ameaçador. Existiam os psicopatas puros e os doidos obcecados por conspirações, capazes de detectar mensagens ocultas que escapavam ao resto do mundo.

Também não faltavam exemplos de malucos que faziam seus fantasmas entrar em ação. O assassinato de Anna Lindh não seria justamente o impulso de um doente desses? Talvez sim. Talvez não.

Mas o inspetor Marcus Ackerman não gostou nem um pouco que um ex-especialista em assuntos fiscais, ou outra profissão qualquer, psiquicamente perturbado, tivesse conseguido entrar no Hospital Sahlgrenska com um buquê de flores na mão e uma pistola na outra e executado uma pessoa que, naquele momento, era objeto de investigação policial — a sua investigação. Um homem que nos registros oficiais tinha o nome de Karl Axel Bodin, mas que, segundo Mikael Blomkvist, chamava-se Zalachenko e era um maldito agente russo dissidente, além de assassino.

Zalachenko, no melhor dos casos, era uma testemunha, e no pior, estava envolvido numa série de homicídios. Ackerman tivera a oportunidade de interrogar Zalachenko duas vezes e em momento algum acreditara em seus protestos de inocência.

Além disso, o assassino mostrara interesse por Lisbeth Salander ou, pelo menos, por sua advogada. Tinha tentado entrar em seu quarto.

Depois tentara se suicidar com um tiro na cabeça. Segundo os médicos, parecia estar tão mal que a tentativa provavelmente seria bem-sucedida, embora seu corpo ainda não tivesse entendido que chegara a hora de abandonar o jogo. Tudo levava a crer que Evert Gullberg nunca compareceria diante de um juiz.

Marcus Ackerman não estava gostando da situação. Nem um pouco. Mas nada provava que os disparos de Gullberg eram algo além do que pareciam. De qualquer modo, resolveu não descartar nada. Olhou para Annika Giannini.

— Decidi transferir Lisbeth Salander para outro quarto. Ainda tem um vago no pedacinho de corredor à direita da recepção que, do ponto de vista da segurança, é muito melhor que este. Fica visível da recepção e da sala das enfermeiras do dia e da noite. Toda visita está proibida, com exceção da senhora. Ninguém vai entrar no quarto dela sem autorização, a não ser um médico ou enfermeira conhecidos no Sahlgrenska. Vou mandar instalar uma vigilância vinte e quatro horas na frente do quarto.

— Acha que ela está ameaçada?

— Nada indica isso. Mas não quero correr nenhum risco.

Lisbeth Salander escutou atentamente a conversa entre sua advogada e seu adversário policial. Estava impressionada de ouvir Annika Giannini responder com tanta precisão e clareza, e com tantos detalhes. Estava ainda mais impressionada pela atuação lúcida da advogada num momento de estresse.

Afora isso, estava com uma tremenda dor de cabeça desde que Annika a puxara da cama e carregara para o banheiro. Por instinto, queria ter o mínimo possível a ver com a equipe do hospital. Não gostava de pedir ajuda e dar sinais de fragilidade. Mas a dor de cabeça era tão arrasadora que ela não conseguia concatenar as idéias. Estendeu a mão e apertou a campainha.

Annika Giannini planejara a viagem a Gòteborg como o prólogo de um trabalho de fôlego. Pensara em conhecer Lisbeth Salander, informar-se sobre seu real estado de saúde e traçar um primeiro esboço da estratégia que ela e Mikael Blomkvist tinham combinado com vistas ao processo. De início, imaginara voltar para Estocolmo naquela noite, mas os extraordinários acontecimentos do Sahlgrenska impediram que conversasse com Lisbeth Salander. O estado de sua cliente era bem pior do que ela tinha entendido quando os médicos o classificaram como estável. Lisbeth continuava atormentada por uma dor de cabeça terrível e estava com muita febre, motivo pelo qual uma médica chamada Helena Endrin prescrevia-lhe analgésicos fortes, antibióticos e repouso. Tão logo sua cliente foi transferida para o novo quarto e um policial foi designado para a sua vigilância, Annika foi expulsa de lá.

Ela resmungou e consultou o relógio, que indicava quatro e meia da tarde. Hesitou. Se fosse para Estocolmo, provavelmente teria de voltar a Gõteborg no dia seguinte. Podia passar a noite ali, mas também se arriscar a que no dia seguinte sua cliente não estivesse em condições de suportar uma visita. Não tinha reservado um quarto num hotel; afinal, ela era apenas uma advogada com orçamento reduzido que representava mulheres expostas à violência e sem recursos, portanto procurava não inchar suas despesas com faturas caras de hotel. Ligou primeiro para casa, depois para sua colega Lillian Josefsson, membro da Rede de Mulheres e uma velha amiga da universidade. Fazia dois anos que não se viam e conversaram um pouco antes de Annika contar por que estava ligando.

— Estou em Gótehorg — disse. — Eu tinha planejado voltar no final da tarde, mas aconteceram umas coisas e vou ser obrigada a passar a noite aqui. Achei que talvez você pudesse me convidar para ficar um pouco na sua casa.

— Ótimo. Adoro parasitas. Faz uma eternidade que a gente não se vê.

— Não vou incomodar?

— Não, claro que não. Eu me mudei. Estou morando perto da Linnegatan. Tenho um quarto de hóspedes. A gente podia dar uma volta pelos bares à noite.

— Se eu tiver energia. A que horas posso ir para aí? Combinaram que Annika apareceria por volta das seis da tarde. Annika pegou o ônibus para a Linnegatan e passou a hora seguinte num restaurante grego. Estava faminta, pediu um espetinho com salada. Refletiu demoradamente sobre os acontecimentos do dia. Estava meio trêmula, agora que o pico de adrenalina tinha baixado, mas contente consigo mesma. Agira sem hesitação diante do perigo, com calma e eficiência. Era bom ter essa segurança sobre suas próprias capacidades.

Por fim, pegou sua agenda Filofax dentro da pasta e deu uma folheada na parte das anotações. Leu concentradamente. O que seu irmão lhe explicara a deixava perplexa. Na hora, tinha parecido lógico, mas na verdade havia belas lacunas naquele plano. Contudo, ela não tinha intenção de recuar.

Às seis horas, pagou, foi a pé para o prédio de Lillian Josefsson, na Olivedalsgatan, e teclou o código de acesso que sua amiga lhe fornecera. Quando entrou no hall e começou a procurar o elevador com os olhos, o ataque caiu sobre ela feito um raio. Sem nenhum tipo de aviso, foi brutal e violentamente jogada contra a parede de tijolos do hall. Bateu a testa e sentiu uma dor lancinante.

No instante seguinte, ouviu passos que se afastavam rapidamente, e a porta se abrindo e fechando. Levantou-se, apalpou a testa e viu sangue em sua mão. Caramba! Confusa, olhou em volta e foi para a rua. Avistou as costas de um homem dobrando a esquina da Sveaplan. Ficou atordoada, sem se mover, durante um longo minuto.

Então percebeu que sua pasta não estava mais ali, que acabava de ser roubada. Demorou alguns segundos para que as conseqüências disso chegassem até seu cérebro. Não! O dossiê Zalachenko. Sentiu o choque se espalhando a partir do estômago e deu alguns passos hesitantes atrás do homem que fugia. Não ia adiantar. Ele já havia sumido.

Sentou-se devagar na beira da calçada.

Então, de um salto, se pôs de pé e vasculhou o bolso do casaco. A agenda. Graças a Deus. Ao sair do restaurante ela a tinha guardado no bolso em vez de na pasta. Continha, item por item, a primeira versão da sua estratégia no caso Lisbeth Salander.

Correu para a porta, teclou novamente o código, entrou e subiu a escada até o terceiro andar, onde se pôs a martelar na porta de Lillian Josefsson.

Já eram mais de seis e meia quando Annika, recuperada de suas emoções, conseguiu ligar para Mikael Blomkvist. Estava com um olho roxo e um corte aberto no supercílio, que Lillian Josefsson tinha limpado com álcool antes de aplicar um curativo. Não, Annika não queria ir para o hospital. Sim, aceitava uma xícara de chá. Só então começou a pensar racionalmente. Sua Primeira medida foi chamar seu irmão.

Mikael Blomkvist ainda estava na redação da Millennium, buscando informações sobre o assassino de Zalachenko junto com Henry Cortez e Malu Eriksson. Escutou o relato de Annika com um espanto crescente.

— Você está bem? — perguntou.

— Olho roxo. Vou estar em condições de agir depois que eu me acalmar.

— Puta merda, roubo seguido de violência?

— Levaram a minha pasta com o dossiê Zalachenko que você tinha me dado. Sumiu.

— Não faz mal, posso fazer uma cópia.

Ele se interrompeu, sentindo os cabelos se arrepiarem de repente na cabeça. Primeiro Zalachenko. Agora Annika.

— Annika... eu já te ligo.

Fechou o iBook, enfiou-o na sacola e saiu depressa da redação, sem uma palavra. Correu até em casa, na Bellmansgatan, e subiu os degraus da escada de quatro em quatro.

A porta estava trancada.

Assim que entrou no apartamento, percebeu que a pasta azul que tinha deixado na mesa da cozinha havia desaparecido. Nem se deu ao trabalho de procurá-la. Sabia exatamente onde havia deixado a pasta quando saíra do apartamento. Deixou-se cair devagar numa cadeira diante da mesa enquanto os pensamentos borbulhavam em sua cabeça.

Alguém tinha entrado no apartamento. Alguém estava tentando apagar o rastro de Zalachenko.

A sua cópia e a de Annika haviam sumido.

Bublanski ainda tinha o relatório.

Ou?

Mikael se levantou e foi até o telefone, mas parou, com o fone na mão. Alguém tinha entrado no apartamento. De repente, olhou desconfiado para o telefone e apalpou o bolso do casaco em busca do celular.

Serd que é possível pôr um celular sob escuta?

Devagar, deixou o celular ao lado do aparelho fixo e olhou em volta.

Estou lidando com profissionais. Será possível colocar um apartamento inteiro sob escuta?

Voltou a se sentar à mesa da cozinha.

Fitou a sacola do computador.

Será que é fácil interceptar e-mails? A Lisbeth sabe bem disso, ela consegue em cinco minutos.

Ficou um bom tempo refletindo antes de voltar ao telefone e ligar para a sua irmã em Gõteborg. Escolheu as palavras com cuidado.

— Oi... tudo bem?

— Estou bem, Mike.

— Me conte o que aconteceu desde que você saiu do Sahlgrenska até ser agredida.

Ela levou dez minutos para fazer um balanço do seu dia. Mikael não comentou nada sobre o impacto do que ela estava relatando, mas foi encaixando algumas perguntas até se sentir satisfeito. Passava a impressão de um irmão preocupado, mas ao mesmo tempo seu cérebro atuava em outro nível, estabelecendo pontos de referência.

Às quatro e meia da tarde, ela tinha resolvido ficar em Gõteborg e ligara do celular para a sua amiga, que lhe fornecera o endereço e o código da entrada do prédio dela. O ladrão estava esperando por ela no hall às seis em ponto.

O celular de sua irmã estava grampeado. Era a única explicação.

O que significava que o seu também estava.

Senão, não teria sentido.

— Mas eles pegaram o dossiê Zalachenko — repetiu Annika.

Mikael hesitou um instante. Quem tinha roubado o dossiê já sabia que Mikael tinha sido roubado. Era natural que contasse a Annika por telefone.

— O meu também — disse ele.

— O quê?

Ele explicou que viera correndo para casa e que a pasta azul sobre a mesa da cozinha havia desaparecido.

— Certo — disse Mikael com voz surda. — E um desastre. O dossiê Zalachenko evaporou. Era o ponto forte da nossa argumentação.

— Mike... eu sinto muito.

— Eu também — disse Mikael. — Droga! Mas não é culpa sua. Eu deveria ter divulgado o relatório no dia em que o encontrei.

— E agora, o que a gente faz?

— Não sei. É a pior coisa que podia acontecer. Nosso plano todo foi para o espaço. Não temos nem sombra de prova contra o Bjõrck e o Teleborian.

Conversaram mais uns dois minutos, então Mikael encerrou a conversa.

— Queria que você voltasse para Estocolmo amanhã — disse ele.

— Lamento. Preciso ver a Salander.

— Faça isso de manhã. Volte à tarde. Temos que nos encontrar para pensar no que fazer.

Encerrada a conversa, Mikael permaneceu imóvel no sofá, fitando um ponto à sua frente. Então um sorriso se espalhou por seu rosto. Quem tinha escutado a conversa agora sabia que a Millennium tinha perdido o relatório Bjõrck de 1991, assim como a correspondência entre Bjõrck e Teleborian, o médico de doidos. Sabia que Mikael e Annika estavam desesperados.

A desinformação é a base de toda espionagem, pelo menos isso Mikael aprendera ao estudar a história da Sapo na noite anterior. E ele acabava de plantar uma desinformação que, a longo prazo, podia se revelar inestimável.

Abriu a sacola do computador e tirou a cópia que fizera para Dragan Armanskij, mas que ainda não tivera tido tempo de lhe passar. Era o único exemplar remanescente. Não pretendia perdê-lo. Pelo contrário, pretendia fazer de imediato cinco cópias, no mínimo, e distribuí-las em locais apropriados.

Então deu uma olhada no relógio e ligou para a redação da Millennium. Malu Eriksson ainda estava lá, mas já de saída.

— Por que você saiu correndo daquele jeito?

— Você poderia esperar um pouco para ir embora? Vou voltar para a redação e preciso ver uma coisa com você antes de você sair.

Havia semanas que não punha a roupa para lavar. Não tinha tido tempo. Todas as suas camisas estavam no cesto de roupa suja. Pegou o barbeador e Luta pelo controle da Sapo, junto com o único exemplar remanescente do relatório de Bjõrck. Foi caminhando até a Dressman, comprou quatro camisas, duas calças e dez cuecas, e levou as compras para a redação. Malu Eriksson esperou enquanto ele tomava um banho rápido. Perguntou o que ele estava tramando.

— Alguém arrombou o meu apartamento e roubou o relatório Zalachenko. Alguém agrediu a Annika em Gõteborg e roubou a cópia dela. Tive a confirmação de que o telefone dela está grampeado, o que significa que o meu, e talvez o seu, e talvez todos os telefones da Millennium estejam sob escuta. E imagino que se alguém se deu ao trabalho de entrar na minha casa, seria burrice não ter aproveitado para pôr o apartamento inteiro sob escuta.

— Ah — disse Malu Eriksson com voz apagada. Ela olhou para o seu celular que estava em cima da mesa, à sua frente.

— Continue trabalhando normalmente. Use o celular, mas não passe nenhuma informação. Amanhã a gente avisa o Henry Cortez.

— Está bem. Ele saiu faz uma hora. Deixou uma pilha de investigações do Estado em cima da sua mesa. Mas o que você está fazendo aqui...?

— Pretendo dormir na Millennium esta noite. Se eles hoje mataram o Zalachenko, roubaram os relatórios e colocaram o meu apartamento sob vigilância, tudo leva a crer que estão só começando, e ainda não tiveram tempo de cuidar da Millennium. Teve gente aqui o dia inteiro. Não quero que a redação fique deserta durante a noite.

— Você acha que o assassinato do Zalachenko... Mas o assassino era um velho perturbado de setenta e oito anos.

— Não acredito nesse tipo de acaso nem por um segundo. Alguém está apagando o rastro do Zalachenko. Não estou nem aí para quem é esse velho e para quantas cartas piradas ele mandou para os ministros. Ele era uma espécie de matador de aluguel. Foi até lá com a intenção de matar o Zalachenko... e talvez a Lisbeth Salander.

— Mas ele se matou depois, ou pelo menos tentou. Um matador de aluguel faria isso?

Mikael refletiu um instante. Seu olhar cruzou com o da redatora-chefe.

— Sim, se tiver setenta e oito anos e, talvez, nada a perder. Ele está envolvido nisso tudo e, depois de cavarmos bastante, nós vamos conseguir provar.

Malu Eriksson observou com atenção o semblante de Mikael. Nunca o tinha visto tão friamente seguro e decidido. De repente, sentiu um arrepio. Mikael notou a reação dela.

— Outra coisa. Nós agora não estamos jogando contra um bando de criminosos, mas contra uma autoridade de Estado. A coisa vai esquentar.

Malu concordou com a cabeça.

— Nunca pensei que isso fosse tão longe. Malu, se você quiser tirar o time de campo, é só dizer.

Ela hesitou um instante. Perguntou-se o que Erika Berger teria respondido. Então, desafiadoramente, disse não com a cabeça.

 

HACKER REPUBLIC

1º. A 22 DE MAIO

Uma lei irlandesa do ano 697 proíbe as mulheres de serem soldados — o que significa que, antes disso, as mulheres de fato foram soldados. Como exemplo de povos que, em diferentes momentos da história, tiveram mulheres soldados, podemos mencionar, entre outros, os árabes, os berberes, os curdos, os rajput, os chineses, os filipinos, os maoris, os papuas, os aborígenes australianos, os micronésios e os índios americanos.

São abundantes as lendas de temíveis guerreiras na Grécia antiga. Essas histórias falam de mulheres treinadas desde a infância na arte da guerra, no manejo das armas e nas privações físicas. Viviam separadas dos homens e iam para a guerra com seus próprios regimentos. São abundantes nessas histórias trechos indicando que elas venciam os homens nos campos de batalha. Na literatura grega, as amazonas são mencionadas, por exemplo, na llíada de Homero, narrativa que data de cerca de sete séculos antes de Cristo.

E também aos gregos que devemos o termo "amazonas". A palavra significa, literalmente, "sem peito". A explicação que costuma ser difundida é que elas praticavam a ablação do seio direito para melhor estenderem o arco. Embora dois dos mais importantes médicos gregos da história, Hipócrates e Galiano, concordem que tal operação de fato aumentava a capacidade de manejo das armas, não se sabe ao certo se ela era mesmo praticada. Oculta-se aí um ponto de interrogação lingüístico — não é certo que o prefixo "a" de "amazona" signifique de fato "sem", e foi sugerido que significaria justamente o contrário — de que a amazona era uma mulher com seios particularmente volumosos. Não existe nenhum exemplo, em museu algum, de uma imagem, um amuleto ou uma estátua representando uma mulher desprovida do seio direito, e, fosse a lenda verídica, esse deveria ter sido um tema freqüente.

DOMINGO 15 DE MAIO - SEGUNDA-FEIRA 2 DE MAIO

Erika Berger inspirou fundo antes de abrir a porta do elevador e entrar na redação do Svenska Morgon-Posten. Eram 10h 15. Estava discretamente vestida com uma calça preta, um pulôver vermelho e um casaco escuro. O tempo, naquele primeiro dia de maio, estava magnífico, e ao atravessar a cidade ela observara que o movimento operário estava reunindo suas tropas. Constatara que, no que lhe dizia respeito, não participava de um desfile de 1º. de Maio havia mais de vinte anos.

Por um rápido instante, deixou-se ficar sozinha e invisível em frente ao elevador. Era o primeiro dia em seu novo local de trabalho. De onde estava, enxergava boa parte da redação central, com a editoria de Atualidades no meio. Ergueu um pouco o olhar e viu as portas envidraçadas da sala do redator--chefe que, pelo próximo ano, seria sua.

Não estava totalmente convencida de que era a pessoa certa para dirigir a monstruosa organização que o Svenska Morgon-Posten constituía. Era um passo gigantesco entre a pequena Millennium, com seus cinco funcionários, e um jornal diário que empregava oitenta jornalistas e outros noventa profissionais, incluindo administração, pessoal técnico, designers gráficos, fotógrafos, área comercial, distribuição e tudo mais relacionado à produção de um jornal. Somava-se a isso uma editora, uma empresa de produção e uma empresa de gerenciamento. Ao todo, mais de duzentas e trinta pessoas.

Por um breve instante, perguntou-se se não tinha cometido um erro monumental.

Então a recepcionista mais velha percebeu quem acabava de chegar à redação e saiu de trás de seu balcão, aproximando-se com a mão estendida.

— Senhora Berger. Seja bem-vinda ao SMP.

— Obrigada. Bom dia.

— Meu nome é Beatrice Sahlberg. Seja bem-vinda entre nós. Vou levá-la ao redator-chefe, o senhor Morander... enfim, quero dizer, ao redator-chefe que vai deixar o cargo.

— Obrigada, mas vejo que ele está ali no aquário — disse Erika, sorrindo. — Acho que posso achar o caminho. De qualquer modo, obrigada.

Atravessou a redação num passo rápido e observou que o burburinho diminuía um pouco. Sentiu de repente todos os olharem se voltarem para ela. Deteve-se diante da editoria de Atualidades semi-vazia e meneou cordialmente a cabeça.

— Vamos ter tempo de nos apresentarmos daqui a pouco — disse e, prosseguindo, foi bater na porta envidraçada.

Com cinqüenta e nove anos, Hâkan Morander, redator-chefe demissionário, passara doze anos no aquário em frente à redação do SMP. Como Erika, ele viera de outro veículo e fora cuidadosamente escolhido — também fizera, portanto, o trajeto que ela acabava de percorrer para ir ter com ele. Olhou-a perturbado, deu uma olhada no relógio e se levantou.

— Bom dia, Erika — cumprimentou. — Achei que você só começaria na segunda-feira.

— Não agüentei ficar mais um dia em casa, portanto aqui estou. Morander estendeu a mão.

— Bem-vinda. Estou feliz por você assumir o meu lugar.

— E a sua saúde, como vai? — perguntou Erika.

Ele deu de ombros. Beatrice, a recepcionista, entrou trazendo café e leite.

— Tenho a impressão de já estar funcionando em meia fase. Na verdade, prefiro não falar sobre isso. A gente passa a vida se sentindo um adolescente imortal e, de repente, só tem pouquíssimo tempo pela frente. E uma coisa é certa: não pretendo desperdiçar esse pouco tempo aqui dentro deste aquário.

Inconscientemente, ele esfregou o peito. Seus problemas cardiovasculares eram o motivo de sua súbita demissão e de Erika ter de começar vários meses antes da data combinada a princípio.

Erika se virou e contemplou a paisagem das mesas da redação. Estavam semi-ocupadas naquele feriado. Um jornalista e um fotógrafo dirigiam-se ao elevador, decerto para irem cobrir o desfile de 1º. de Maio, ela pensou.

— Se eu estiver atrapalhando, ou se você estiver ocupado, é só dizer que eu vou embora.

— Hoje o meu trabalho é escrever um editorial de quatro mil e quinhentos caracteres sobre os desfiles do 1- de Maio. Já escrevi tantos que posso fazer isso até dormindo. Se os sociais-democratas querem declarar guerra à Dinamarca, tenho de explicar no que eles estão errados. Se os sociais-democratas querem evitar a guerra com a Dinamarca, tenho de explicar no que eles estão errados.

— Dinamarca? — perguntou Erika.

— Pois é, parte da mensagem do 1- de Maio fala do conflito da questão da integração. E, seja lá o que digam, os sociais-democratas estão sempre errados.

Ele caiu na risada.

— Você me parece bem cínico — disse Erika.

— Bem-vinda ao Svenska Morgon-Postenl

Erika nunca tivera nenhuma opinião especial sobre Hâkan Morander. Ele detinha um poder anônimo em meio à elite dos diretores de redação. Quando lia seus editoriais, ela o achava tedioso, conservador e um especialista em lamentações contra os impostos, um típico liberal militando pela liberdade de expressão, mas nunca tivera a oportunidade de encontrá-lo pessoalmente ou de ter contato com ele.

— Me fale sobre o trabalho — disse ela.

— Eu saio no final de junho. Vamos trabalhar dois meses juntos, por isso me permiti tratá-la logo com informalidade, é uma regra da casa. Você vai descobrir coisas positivas e negativas a meu respeito. Sou um cínico, você tem razão, de modo que meu olhar se volta, principalmente, acho, para as coisas negativas.

Ele se levantou e ficou ao lado dela, diante do vidro.

— Você vai perceber que fora deste aquário você tem um certo número de adversários — redatores-chefes diurnos e alguns veteranos, entre os redatores, que criaram seus próprios imperiozinhos ou clubes particulares dos quais você não vai poder participar. Vão tentar forçar os limites, impor suas manchetes e visões pessoais; cabe a você ser rigorosa para conseguir resistir.

Erika meneou a cabeça.

— Os redatores-chefes da noite, Billinger e Karlsson... são um capítulo à parte. Eles se odeiam e, por sorte, não formam uma equipe, mas se comportam como se fossem responsáveis pela publicação e redatores-chefes. Na editoria de Atualidades, você tem o Lukas Holm, com quem, necessariamente, vai ter muito contato. Tenho certeza de que vocês vão se atritar mais de uma vez. Na verdade, ele é quem produz diariamente o SMP. Temos aqui jornalistas que são legítimas prima-donas e outros que na verdade deveriam estar aposentados.

— Há algum colaborador decente no meio disso tudo? Morander caiu na risada.

— Sim. Mas cabe a você descobrir com quem vai se entender. Temos alguns jornalistas que são mesmo muito bons.

— E quanto à direção?

— O Magnus Borgsjõ é o presidente do conselho administrativo. Foi ele quem a contratou. É cheio de charme, metade velha escola, metade renovador, mas, antes de mais nada, é quem decide. Junte a isso alguns membros do conselho, vários deles oriundos da família proprietária do jornal que mais parecem figurantes, e outros que agitam como profissionais de conselhos administrativos.

— Você não parece muito satisfeito com o conselho administrativo.

— Cada um na sua. Você produz o jornal. Eles cuidam das finanças. Para todos os efeitos, eles não se metem no conteúdo do jornal, mas sempre surgem umas situações problemáticas. Para ser bem sincero, Erika, você vai passar alguns apuros.

— Por quê?

— A tiragem baixou praticamente cento e cinqüenta mil exemplares desde a belle époque dos anos 1960, e o SMP está a ponto de começar a operar no vermelho. Já racionalizamos e eliminamos mais de cento e oitenta cargos de 1980 para cá. Passamos para o formato tablóide — o que já devíamos ter feito há vinte anos. O SMP ainda está entre os grandes jornais, mas falta pouco para cairmos para a segunda divisão. Se é que já não caímos. __Mas, então, por que me escolheram? — perguntou Erika.

— Porque a idade média dos leitores do SMP é de cinqüenta anos ou mais, e os leitores na faixa dos vinte anos são praticamente zero. O SMP precisa se renovar. E o raciocínio da direção foi chamar o redator-chefe mais improvável que se pudesse imaginar.

— Uma mulher?

— Não qualquer mulher. A mulher que derrubou o império Wennerstrõm e é aclamada como a rainha do jornalismo investigativo, com fama de ser dura na queda. Ponha-se no lugar deles. É irresistível. Se você não conseguir renovar o jornal, ninguém mais conseguirá. O SMP não está, portanto, contratando apenas Erika Berger, mas, principalmente, a reputação de Erika Berger.

Mikael Blomkvist saiu do Café Copacabana, ao lado do cinema Kvartersbion em Hornstull, pouco depois das duas da tarde. Pôs os óculos escuros e estava chegando ao Passeio de Bergsund, a caminho da estação de metrô, quando avistou o Volvo cinza estacionado na esquina. Continuou andando sem alterar o passo e constatou que a placa era a mesma e que não havia ninguém no carro.

Era a sétima vez em quatro dias que ele reparava naquele carro! Não sabia dizer desde quando ele vinha gravitando à sua volta, a verdade é que o notara por mero acaso. Na primeira vez que viu o carro, ele estava a caminho da redação da Millennium. Era quarta-feira de manhã e o veículo estava estacionado perto do seu prédio, na Bellmansgatan. Seu olhar havia batido na placa, que começava com as letras KAB, O que lhe chamara a atenção já que aquele era o nome da empresa inativa de Alexander Zalachenko, a Karl Axel Bodin S.A. Provavelmente ele não teria mais pensado no assunto se não tivesse visto o mesmo carro, com a mesma placa, horas depois, enquanto almoçava com Henry Cortez e Malou Eriksson na Medborgarplats. Dessa vez, o Volvo estava estacionado numa rua transversal à da redação da Millennium.

Perguntou-se vagamente se estava ficando paranóico, mas passado algum tempo, naquela mesma tarde, quando foi visitar Holger Palmgren no centro de reabilitação de Ersta, lá estava o Volvo cinza no estacionamento dos visitantes. Não podia ser apenas coincidência. Mikael Blomkvist começou a vigiar os arredores. Não se surpreendeu quando, na manhã seguinte, tornou a ver o carro.

Em nenhum momento chegara a ver o motorista. Mas uma ligação para o departamento de trânsito revelou que o veículo pertencia a um certo Gõran Mârtensson, de quarenta anos, residente na Vittangigatan, em Vállingby. Uma rápida pesquisa revelou que Gõran Mârtensson era consultor de empresas, tinha seu próprio negócio, com uma caixa postal por endereço, na Fleminggatan sobre Kungsholmen. Por volta dos dezoito anos, em 1983, prestara o serviço militar numa unidade especial da defesa costeira, ingressando em seguida na Defesa. Fora promovido a tenente antes de se demitir, em 1989, com o intuito de mudar de rumo, e entrara para a Escola de Polícia em Solna. De 1991 a 1996, trabalhara na polícia de Estocolmo. Em 1997, desaparecera e, em 1999, abrira sua empresa.

Conclusão: Sapo.

Mikael mordeu o lábio inferior. Um jornalista investigativo sério podia ficar paranóico por muito menos. Mikael concluiu que estava sob discreta vigilância, e realizada com tal inabilidade que ele tinha percebido.

Mas será que era mesmo inábil? Só tinha notado o carro por causa da placa, que por acaso tinha um significado para ele. Se não fosse pelo KAB, não teria sequer reparado.

Na sexta-feira, KAB se fez notar por sua ausência. Mikael não tinha certeza absoluta, mas achava que talvez nesse dia tivesse tido a companhia de um Audi vermelho, cuja placa não conseguiu identificar. No sábado, o Volvo estava de volta.

Exatamente vinte segundos depois que Mikael Blomkvist saiu do Café Copacabana, Christer Malm ergueu sua Nikon digital e tirou, do seu lugar à sombra da varanda do Café Rossos, uma seqüência de doze fotos do outro lado da rua. Fotografou dois homens que saíam do café logo atrás de Mikael e o seguiam em frente à Kvartersbion.

Um deles era de uma meia-idade difícil de definir, mais para jovem do que para velho, cabelos loiros. O outro parecia ser mais velho, tinha cabelos finos de um loiro ardente e usava óculos escuros. Ambos vestiam jeans e jaquetas de couro escuras.

Separaram-se ao chegar ao Volvo cinza. O mais velho abriu a porta, enquanto o mais jovem seguiu Mikael Blomkvist a pé na direção do metrô.

Christer Malm largou a máquina fotográfica e deu um suspiro. Não sabia por que Mikael o chamara a um canto e insistira que ele desse uma volta pelo bairro do Copacabana no domingo à tarde e procurasse um Volvo cinza com determinada placa. Ele teria que se posicionar de modo a conseguir fotografar a pessoa que, segundo Mikael, muito provavelmente iria abrir a porta do carro pouco depois das três horas. Ao mesmo tempo, tinha que ficar de olhos bem abertos para tentar descobrir se alguém seguia Mikael Blomkvist.

Aquilo estava com todo o jeito de um novo episódio das aventuras do Super-Blomkvist. Christer Malm sempre ficava na dúvida se Mikael Blomkvist era um paranóico por natureza ou se tinha talentos extrassensoriais. Desde os acontecimentos de Gosseberga, Mikael andava extremamente fechado e avesso à comunicação. Isso não tinha nada de estranho, claro, já que ele estava trabalhando numa matéria complexa — Christer já observara a mesma obsessão e os mesmos segredinhos durante o caso Wennerstrôm, mas dessa vez era ainda mais evidente.

Em compensação, não foi difícil para Christer constatar que Mikael Blomkvist estava de fato sendo seguido. Perguntou-se que encrenca estaria vindo pela frente e que provavelmente exigiria tempo, energia e os recursos da Millennium. Christer Malm achava que Mikael tinha escolhido uma péssima hora para dar uma de Super-Blomkvist, com a diretora da revista desertando para o Grande Dragão e com a estabilidade duramente conquistada da Millennium ameaçada.

Por outro lado, não pretendia ir ao desfile — fazia pelo menos dez anos que não participava de uma manifestação pública, com exceção da Gay Pride — e não tinha nada melhor para fazer, naquele domingo 1- de maio, do que quebrar um galho para o Mikael. Levantou-se e acompanhou com passos indolentes o homem que seguia Mikael Blomkvist. Isso não fazia parte das instruções que recebera. Porém, perdeu o homem de vista assim que entraram na Lângholmsgatan.

Ao perceber que seu telefone, muito provavelmente, estava sob escuta, uma das primeiras medidas de Mikael Blomkvist foi mandar Henry Cortez comprar alguns celulares em promoção. Cortez conseguira numa ponta de estoque um Ericsson TIO a preço de banana. Mikael comprou cartões Conviq, ficou com um telefone para si mesmo e distribuiu os outros para Malu Eriksson, Henry Cortez, Annika Giannini, Christer Malm e Dragan Armanskij. Seriam usados exclusivamente para conversas confidenciais. As ligações comuns seriam feitas dos números habituais. O resultado é que todos eles tinham que carregar dois celulares.

Mikael foi do Copacabana para a Millennium, onde Henry Cortez estava assumindo o plantão do fim de semana. Depois do assassinato de Zalachenko, Mikael estabelecera um rodízio, para que sempre houvesse alguém na redação da Millennium, inclusive para dormir. O rodízio incluía ele próprio, Henry Cortez, Malu Eriksson e Christer Malm. Ficaram de fora Lottie Karim, Monika Nilsson e Sonny Magnusson, o responsável pela publicidade. Nem sequer tinham sido convocados. Lottie Karim não escondia que tinha medo do escuro e jamais teria aceitado dormir na redação. Monika Nilsson não tinha esse tipo de problema, mas trabalhava feito louca em seus artigos e era dessas pessoas que voltam para casa no fim da jornada de trabalho. E Sonny Magnusson tinha sessenta e um anos, não estava envolvido no trabalho da redação e em breve iria tirar férias.

— Alguma novidade? — perguntou Mikael.

— Nada de especial — disse Henry Cortez. — As notícias de hoje estão obviamente ligadas ao 1- de Maio.

Mikael assentiu com a cabeça.

— Vou ficar aqui por uma ou duas horas. Tire o dia de folga e volte só à noite, lá pelas nove.

Assim que Henry Cortez saiu, Mikael pegou o celular novo em sua mesa. Ligou para Daniel Olofsson, um jornalista freelancer de Gõteborg. A Millennium publicara vários textos de Olofsson ao longo dos anos e Mikael tinha a maior confiança na sua capacidade jornalística de colher material de base.

— Olá, Daniel. É o Mikael Blomkvist. Você está disponível?

— Estou.

— Tenho um trabalho de pesquisa para você. Você vai poder faturar cinco dias e não vai precisar escrever nenhum texto. Sendo mais claro: se você quiser escrever alguma coisa, a gente topa publicar, mas o que nos interessa, acima de tudo, é a pesquisa.

— Sou todo ouvidos.

— E um pouco delicado. Você só vai poder falar sobre o assunto comigo e utilizar apenas o hotmail para se comunicar comigo. Não quero que comente com ninguém que está fazendo uma pesquisa para a Millennium.

— Trabalhinho simpático. O que você está procurando?

— Queria que você fosse ao Hospital Sahlgrenska fazer uma reportagem sobre determinado setor de trabalho. A reportagem vai se chamar "Plantão Médico", e para todos os efeitos vai mostrar as diferenças entre a realidade e o seriado da tevê. Queria que você acompanhasse por alguns dias o trabalho do pronto-socorro e da UTI. Que conversasse com os médicos, as enfermeiras, o pessoal da limpeza, todos que trabalham lá. Quais as condições de trabalho, as tarefas, esse tipo de coisa. Com fotos, evidentemente.

— UTI? — disse Olofsson.

— Isso mesmo. Queria que você se concentrasse nos cuidados dispensados aos pacientes do setor 11C, que apresentam ferimentos graves. Quero um mapa do setor, que pessoas trabalham ali, de que tipo elas são e qual o passado delas.

— Humm — disse Daniel Olofsson. — Ou muito me engano, ou uma tal de Lisbeth Salander está internada no 11C.

Ele não tinha nascido ontem.

— Ah é? — disse Mikael Blomkvist. — Interessante. Descubra em que quarto ela está, o que há nos quartos vizinhos e qual a rotina de atendimento.

— Imagino que essa reportagem vá tratar de algo bem diferente — disse Daniel Olofsson.

— Como eu dizia... Só estou interessado na pesquisa que você vai fazer. Trocaram seus endereços hotmail.

Lisbeth Salander estava deitada de costas no chão de seu quarto no Sahlgrenska, quando a enfermeira Marianne abriu a porta.

— Humm — disse Marianne, expressando suas reservas sobre a pertinência de se ficar deitada no chão numa unidade de terapia intensiva. Mas reconheceu que era o único lugar possível para fazer um pouco de exercício.

Lisbeth Salander estava molhada de suor depois de passar trinta minutos tentando fazer flexões de braços, alongamentos e abdominais, de acordo com as recomendações de seu fisioterapeuta. Havia uma seqüência de movimentos que ela precisava executar todos os dias para reforçar a musculatura das escapulas e do quadril após a cirurgia de três semanas antes. Respirou pesadamente e sentiu que tinha perdido muito de sua forma. Cansava-se rápido e seu ombro repuxava e latejava ao menor esforço. Mas sem dúvida nenhuma estava se recuperando. A dor de cabeça que a atormentara nos primeiros dias após a cirurgia se abrandara e só se manifestava de vez em quando.

Ela se sentia restabelecida o suficiente para deixar o hospital sem hesitação ou, pelo menos, para dar uma rápida saída, se fosse possível, o que ainda não era o caso. De um lado, os médicos não a tinham declarado restabelecida e, por outro, a porta de seu quarto continuava fechada a chave e vigiada por um maldito tira da Securitas que ficava plantado numa cadeira, no corredor.

Em compensação, estava em condição de ser transportada para um setor de reabilitação comum. Porém, depois de discutirem por longo tempo o assunto, a polícia e a direção do hospital haviam concluído que era melhor ela ficar no quarto 18 até segunda ordem. O motivo alegado era que o quarto podia ser facilmente vigiado, pois sempre havia alguém da equipe por perto, e que o quarto ficava num corredor em L. Era mais simples, portanto, mantê-la no setor 11C, onde a equipe de lá, após o assassinato de Zalachenko, já havia assimilado as regras de segurança e já estava à par dos problemas que a cercavam, do que transferi-la para um novo setor com tudo o que isso implicaria em termos de mudança na rotina.

De qualquer modo, sua permanência no Sahlgrenska era, quando muito, questão de semanas. Assim que os médicos assinassem a alta, seria transferida para a casa de detenção de Kronoberg, em Estocolmo, onde aguardaria o julgamento. E a decisão caberia ao dr. Anders Jonasson.

Tinham se passado dez dias do tiroteio em Gosseberga, quando o Dr. Jonasson autorizou a polícia a realizar o primeiro interrogatório de fato, o que aos olhos de Annika Giannini era magnífico.

Depois do caos decorrente do assassinato de Zalachenko, ele fizera uma avaliação do estado de Lisbeth Salander. A conclusão foi que ela havia, obviamente, sido exposta a um elevado nível de estresse, considerando-se que ficara sob a suspeita de haver cometido um triplo assassinato. Anders Jonasson nada sabia sobre sua eventual culpa ou inocência e, como médico, a resposta não o interessava nem um pouco. Limitou-se a afirmar que Lisbeth Salander tinha sido exposta a um estresse. Levara três tiros, um dos quais atingira seu cérebro e por pouco não a matara. Estava com uma febre persistente e uma forte dor de cabeça.

Ele optara pela cautela. Suspeita de assassinato ou não, ela era sua paciente e o trabalho dele era cuidar para que se recuperasse o quanto antes. Em virtude disso, decretou uma proibição de visitas que nada tinha a ver com a proibição da procuradora, cujo embasamento era jurídico. Prescreveu um tratamento médico e repouso absoluto.

Visto que Anders Jonasson acreditava que o isolamento era uma forma desumana de punir pessoas, francamente equiparável à tortura, e que ninguém poderia ficar bem estando afastado dos amigos, decidiu que a advogada de Lisbeth Salander, Annika Giannini, faria as vezes de amiga. Conversou com ela a sós e explicou que Annika poderia visitar Lisbeth Salander todos os dias, por uma hora. Durante a visita poderia conversar com ela ou simplesmente lhe fazer companhia, sem dizer nada. Na medida do possível, o assunto não deveria abordar os problemas de Lisbeth Salander nem as batalhas jurídicas que tinha pela frente.

— Lisbeth Salander levou um tiro na cabeça e se machucou gravemente — ele explicou. — Acho que ela está fora de perigo, mas sempre existe o risco de uma hemorragia ou de alguma outra complicação. Ela precisa de repouso e de tempo para se recuperar. Só depois vai poder começar a pensar nos seus problemas jurídicos.

Annika Giannini percebeu a lógica do raciocínio do dr. Jonasson. Teve com Lisbeth Salander algumas conversas de ordem geral, mencionando qual era a sua estratégia e a de Mikael, mas nos primeiros dias não teve a menor condição de desenvolver nenhum raciocínio muito detalhado. Lisbeth Salander estava simplesmente entorpecida pela medicação, e tão exausta que quase todas as vezes caía no sono no meio da conversa.

Dragan Armanskij examinou a série de fotos que Christer Malm tirara dos dois homens que haviam seguido Mikael Blomkvist. Estavam bem nítidas.

— Não — disse ele. — Nunca vi esses homens antes.

Mikael Blomkvist balançou a cabeça. Estavam na sala de Armanskij, da Milton Security, na segunda-feira de manhã. Mikael entrara no prédio pela garagem.

— O mais velho é Gõran Mârtensson, o proprietário do Volvo, portanto. Ele me seguiu feito consciência pesada durante no mínimo uma semana, mas quem sabe faz até mais tempo.

— E você acha que ele é da Sapo.

Mikael contou sobre a carreira pregressa de Mârtensson, que ele havia reconstituído. Era muito eloqüente. Armanskij hesitou. A revelação de Blomkvist o deixava dividido.

Tudo bem, os agentes secretos do Estado pisavam muitas vezes na bola. Era a ordem natural das coisas, não só na Sapo como provavelmente em todos os serviços de informação do mundo. Pois se a polícia secreta francesa tinha até mandado uma equipe de mergulhadores à Nova Zelândia para torpedear o Rainbow Warrior, do Greenpeace! Tratava-se, sem dúvida, da operação de informações mais idiota da história mundial, com exceção, talvez, do arrombamento do Watergate do presidente Nixon. Com um comando tão tolo, não era de surpreender que escândalos acontecessem. Em compensação, seus êxitos nunca eram revelados. Pelo contrário, a mídia literalmente caía em cima da polícia secreta quando acontecia alguma coisa ilícita, estúpida ou algum fracasso, assumindo a atitude de bem-que-eu-falei, tão fácil de adotar depois.

Armanskij nunca entendera a relação da mídia sueca com a Sapo.

De um lado, a mídia tinha na Sapo uma ótima fonte, e praticamente toda falha política impensada acabava nas manchetes. A Sapo suspeita... Uma declaração da Sapo era tinha peso para a primeira página.

De outro, a mídia e os políticos de todas as tendências não hesitavam em execrar como se deve, quando desmascarados, os agentes da Sapo envolvidos na espionagem de cidadãos suecos. Era tão paradoxal que Armanskij mais de uma vez concluíra que tanto os políticos como a mídia se perdiam completamente nessa questão.

Armanskij nada tinha contra a existência da Sapo. Afinal, alguém precisava cuidar para que algum iluminado nacional-bolchevique que tivesse lido Bakunin ou outro guru qualquer até enjoar não resolvesse fabricar uma bomba com adubo químico e petróleo e colocá-la num furgão em frente ao Palácio Rosenbad, só para explodir com todo o governo sueco. Armanskij achava que a Sapo era indispensável e que um pouco de espionagem anódina não fazia mal enquanto seu objetivo fosse zelar pela segurança dos cidadãos.

O problema é que, evidentemente, uma organização cuja tarefa era espionar os cidadãos precisava, de forma obrigatória, estar sujeita a um rígido controle, e cabia à Constituição garantir acesso às informações. Ora, era praticamente impossível que políticos ou deputados conseguissem manter um olhar sobre a Sapo, mesmo quando o primeiro-ministro designava um investigador especial que, no papel, teria acesso a tudo. Armanskij tomara emprestado Uma missão, de Carl Lidbom, que lera com um espanto crescente. Nos Estados Unidos, pelo menos uns dez cabeças da Sapo já teriam sido detidos por obstrução da justiça e intimados a comparecerem perante uma comissão do Congresso. Na Suécia, eles eram aparentemente inatacáveis.

O caso Lisbeth Salander mostrava que havia algo de podre no seio da organização, mas quando Mikael Blomkvist aparecera para lhe dar um telefone celular seguro, a primeira reação de Dragan Armanskij fora achar que Blomkvist estava paranóico. Contudo, depois de estudar os detalhes e examinar as fotos de Christer Malm, foi forçado a reconhecer, a contragosto, que as suspeitas de Blomkvist tinham fundamento. E isso não prenunciava nada de bom; pelo contrário, indicava que a maquinação que derrubara Lisbeth Salander quinze anos antes não era algo à toa.

Havia simplesmente coincidências demais para ser algo fortuito. Em último caso, até se poderia aceitar que Zalachenko tivesse sido morto por um justiceiro solitário. Mas já não dava para acreditar nessa hipótese quando se sabia que, no mesmo instante, era roubado, tanto de Mikael Blomkvist como de Annika Giannini, o documento que constituía o fundamento da argumentação deles. Aquilo era uma verdadeira calamidade. E, ainda por cima, a principal testemunha resolvera se enforcar.

— Bem — disse Armanskij, juntando a documentação de Mikael. — Estamos de acordo que eu transmita isto aqui para o meu contato?

— Já que se trata de uma pessoa em quem você diz ter inteira confiança...

— Sei que é uma pessoa de muita ética e com um comportamento absolutamente democrático.

— Dentro da Sapo — disse Mikael Blomkvist, com evidente desconfiança na voz.

— Nós precisamos estar de acordo. Tanto eu como o Holger Palmgren aceitamos o seu plano e estamos colaborando. Mas posso garantir que não vamos conseguir apenas com nossos recursos. Se a gente não quiser que isto acabe mal, temos de encontrar aliados na administração governamental.

— Está bem — disse Mikael a contragosto. — E que estou acostumado a esperar que a Millennium esteja impressa para me sentir desobrigado. Nunca entreguei uma informação relativa a uma matéria antes de ela estar publicada.

— Mas foi o que você fez neste caso. Já contou para mim, para a sua irmã e para o Palmgren.

Mikael fez um gesto de concordância com a cabeça.

— E se fez isso, é porque você mesmo percebe que este caso é muito maior do que uma matéria .de capa da sua revista. Aqui você não é um jornalista neutro, e sim um personagem da trama.

Mikael concordou de novo com a cabeça.

— E, enquanto personagem, precisa de ajuda para atingir seus objetivos. Mikael meneou a cabeça mais uma vez. Sabia perfeitamente que não tinha contado toda a verdade nem para Armanskij nem para Annika Giannini. Ainda partilhava alguns segredos com Lisbeth Salander. Apertou a mão de Armanskij.

 

QUARTA-FEIRA - 4 DE MAIO

Por volta do meio-dia da quarta-feira, três dias depois de Erika Berger ter assumido o cargo de redatora-chefe no SMP, ainda sob a orientação do redator-chefe Hâkan Morander, ele morreu. Ele passara a manhã no aquário enquanto Erika, acompanhada do assistente de redação Peter Fredriksson, participava de uma reunião com a equipe de Esportes para conhecer os colaboradores e avaliar como a editoria funcionava. Fredriksson tinha quarenta e cinco anos e, como Erika Berger, era relativamente novo no SMP. Fazia apenas quatro anos que trabalhava no jornal. Era taciturno, de modo geral competente e agradável, e Erika já resolvera contar com os conhecimentos de Fredriksson quando assumisse o comando do barco. Ela gastava boa parte de seu tempo tentando definir em quem confiar e quem integrar de imediato no seu novo esquema. Fredriksson, definitivamente, era um dos candidatos. Estavam retornando à área central da redação quando viram, no aquário, Hâkan Morander se levantar e se aproximar da porta.

Parecia estupefato.

Então ele se curvou e agarrou o encosto de uma cadeira por alguns segundos, desabando em seguida no chão.

Já estava morto quando a ambulância chegou.

O clima da redação durante a tarde foi confuso. O presidente do conselho administrativo, Magnus Borgsjõ, chegou por volta das duas horas e reuniu todos os colaboradores para uma rápida homenagem. Falou sobre Morander, que dedicara os últimos quinze anos de sua vida ao jornal, e sobre o preço que o jornalismo às vezes cobrava. Propôs um minuto de silêncio. Depois olhou inseguro à sua volta, como se não soubesse direito como continuar.

Morrer no local de trabalho não é comum — é mesmo bastante raro. É de bom-tom se retirar para morrer. Desaparecer na aposentadoria ou no sistema de saúde e um dia, de repente, virar assunto de conversa na cafeteria da empresa. "Por falar nisso, você viu que o velho Karlsson morreu na sexta-feira? E, do coração. O sindicato decidiu mandar uma coroa de flores para o enterro." Morrer no local de trabalho, na frente dos colegas, incomoda muito mais. Erika percebeu o choque que pairava sobre a redação. O SMP estava sem leme. De repente, se deu conta de que diversos funcionários olhavam para ela. A carta desconhecida.

Sem ter sido convidada e sem saber de fato o que dizer, deu uma tossidinha, um passo à frente e falou com voz forte e segura.

— Conheci o Hâkan Morander há apenas três dias. E pouco tempo, mas, pelo pouco que pude observar, posso dizer com toda a sinceridade que gostaria de ter tido a oportunidade de conhecê-lo melhor.

Fez uma pausa quando viu, pelo canto do olho, que Borgsjõ a observava. Parecia surpreso por ela ter tomado a palavra. Ela deu mais um passo à frente. Não sorria. Você não pode sorrir. Iria parecer insegura. Ela ergueu um pouco a voz.

— O falecimento repentino de Morander vai criar problemas aqui na redação. Estava previsto que eu o sucedesse daqui a dois meses, e eu gostava da idéia de ter mais tempo para absorver a experiência dele.

Percebeu que Borgsjõ abria a boca para falar.

— Mas não é assim que vai ser, e durante algum tempo nós vamos passar por algumas mudanças. Acontece que o Morander era redator-chefe de um jornal diário, e esse jornal terá de sair amanhã. Neste momento, temos nove horas até a última impressão, e quatro horas até a última prova da página dos editoriais. Posso perguntar... quem de vocês era o melhor amigo e confidente de Morander?

Houve um breve silêncio enquanto os funcionários se entreolhavam. Por fim, Erika escutou uma voz à sua esquerda.

— Acho que era eu. Gunder Storman, tenho sessenta e um anos, sou assistente de redação da página dos editoriais e estou há trinta e cinco anos no SMP.

— Alguém precisa escrever o obituário do Morander. Não posso fazer isso... seria muita presunção da minha parte. Você se sente capaz de escrever esse texto?

Gunder Storman hesitou um instante, depois assentiu com a cabeça.

— Eu me encarrego disso.

— Vamos usar a página dos editoriais inteira e tirar todo o resto. Gunder concordou com a cabeça.

— Precisamos de fotos...

Ela olhou à direita para o editor de fotografia, Lennart Torkelsson. Ele fez um sinal de assentimento com a cabeça.

— Precisamos pôr mãos à obra. Pode haver alguma turbulência nos próximos dias. Quando eu precisar de ajuda para tomar decisões, vou consultá-los e confiar na competência e experiência de vocês. Vocês sabem como fazer este jornal, ao passo que eu ainda vou ter que passar algum tempo no banco da escola.

Voltou-se para Peter Fredriksson, o assistente de redação.

— Peter, o Morander comentou que tinha absoluta confiança em você. Você será o meu mentor nos próximos dias, e vai ficar um pouco mais atarefado que de costume. Vou te pedir para ser meu conselheiro. Tudo bem para você?

Ele fez que sim com a cabeça. O que mais poderia fazer? Voltou-se novamente para o Editorial.

— Outra coisa... hoje de manhã o Morander estava redigindo o editorial. Gunder, você poderia ver no computador dele se ele tinha acabado? Mesmo que não esteja totalmente pronto, vamos publicá-lo. É o último editorial de Hâkan Morander e seria vergonhoso não publicá-lo. O jornal em que estamos trabalhando hoje ainda é o jornal de Hâkan Morander.

Silêncio.

— Se vocês sentirem necessidade de fazer uma pausa para pensar nele, façam, sem culpa nenhuma. Vocês sabem quais são os deadlines.

Silêncio. Ela reparou que algumas pessoas meneavam de leve a cabeça em sinal de aprovação.

— Bem, ao trabalho todo mundo — disse ela em voz baixa.

Jerker Holmberg afastou as mãos num gesto de impotência. Jan Bublanski e Sonja Modig estavam com uma expressão cética e Curt Bolinder com uma expressão neutra. Os três contemplavam o resultado do inquérito preliminar que Holmberg concluíra naquela manhã.

— Nada? — disse Sonja Modig. Ela parecia surpresa.

— Nada — disse Holmberg, balançando a cabeça. — O relatório do legista chegou hoje de manhã. Nada indica que não tenha sido mesmo suicídio por enforcamento.

Seus olhares percorreram as fotografias tiradas na sala da casa de campo de Smâladarõ. Tudo indicava que Gunnar Bjõrck, chefe-adjunto da Brigada dos Estrangeiros da Sapo, prendera uma corda no gancho do lustre, passara-a em volta do pescoço e, resolutamente, chutara o banquinho a uma distância de vários metros. O médico-legista tinha hesitado quanto à hora exata da morte, mas acabara definindo que fora na tarde de 12 de abril. Bjõrck fora encontrado no dia 17 por Curt Bolinder. Bublanski tentara entrar em contato com Bjõrck várias vezes, acabara se irritando e mandara Bolinder ir buscá-lo.

Em algum momento entre essas datas, o gancho se soltara do teto com o peso, e o corpo caíra no chão. Bolinder vira Bjõrck através de uma janela e dera o alerta. Bublanski e os outros que foram até o local tinham, de saída, considerado a casa como o cenário de um crime; tiveram a impressão que Bjõrck tinha sido garroteado por alguém. Em seguida, a equipe técnica descobriu o gancho no teto. Coubera a Jerker Holmberg a tarefa de estabelecer de que modo Bjõrck tinha morrido.

— Nada indica que tenha havido um crime nem que Bjõrck estivesse com alguém naquele momento — disse Holmberg.

— O lustre...

— O lustre tem as digitais do proprietário da casa — que o instalou há dois anos — e as do próprio Bjõrck. O que mostra que ele tirou a lâmpada.

— De onde saiu a corda?

— Do mastro do pavilhão atrás da casa. Alguém cortou mais de dois metros da corda. Havia uma faca no peitoril da janela, em frente à porta do terraço. O proprietário diz que a faca era dele. Ele geralmente a guardava numa caixa de ferramentas debaixo da pia. As digitais de Bjõrck estão tanto no cabo e na lâmina como na caixa de ferramentas. .— Humm — fez Sonja Modig.

— Qual era o tipo de nó? — perguntou Curt Bolinder.

— Eram nós comuns. O nó corrediço propriamente dito não passa de um simples laço. Essa talvez seja a única coisa meio estranha. O Bjõrck velejava e sabia dar nós de verdade. Mas vai saber se um homem prestes a se suicidar se dá ao trabalho de pensar em nós.

— Alguma droga?

— Segundo o laudo toxicológico, no sangue de Bjõrck há vestígios de analgésicos potentes. São remédios vendidos com receita e que tinham sido prescritos para ele. Também há vestígios de álcool, mas uma quantidade mínima. Ou seja, ele estava praticamente sóbrio.

— O médico-legista escreveu que ele estava com algumas escoriações.

— Uma, de três centímetros de comprimento, na face externa do joelho esquerdo. Um arranhão. Pensei nisso, mas pode ter acontecido de mil maneiras... ele pode, por exemplo, ter esbarrado numa cadeira ou algo do gênero.

Sonja Modig ergueu uma foto que mostrava o rosto deformado de Bjõrck. O nó corrediço penetrara a pele com tal profundidade que já não se enxergava a corda propriamente dita. Seu rosto apresentava um inchaço grotesco.

— Dá para afirmar que ele ficou pendurado ali várias horas, quase vinte e quatro, antes de o gancho ceder. O sangue se concentrou, de um lado, na cabeça, onde o nó corrediço não permitiu que ele fluísse para o resto do corpo, e de outro, nas extremidades inferiores. Quando o gancho cedeu, ele bateu com a caixa torácica na quina da mesa de jantar. Mas essa lesão ocorreu muito tempo depois da morte.

— Que jeito escroto de morrer — disse Curt Bolinder.

— Não tenho tanto certeza. A corda era tão fina que penetrou profundamente a pele e deteve o fluxo sangüíneo. Ele deve ter perdido a consciência em poucos segundos e morreu em um ou dois minutos.

Bublanski fechou o inquérito preliminar com cara de nojo. Não estava gostando nem um pouco. Não gostava nada de Zalachenko e Bjõrck terem morrido no mesmo dia. Um, eliminado por um justiceiro demente, e o outro por suas próprias mãos. Mas, qualquer que fosse a especulação, não se podia negar o fato de que o exame da cena do crime em nada corroborava a tese de que alguém teria ajudado Bjórck a morrer.

— Ele vinha sofrendo uma pressão enorme — disse Bublanski. — Sabia que o caso Zalachenko estava sendo desmantelado, que ele próprio corria o risco de ser pego por infringir a lei de remuneração de serviços sexuais e também de ficar exposto na mídia. Estava doente e convivia com uma dor crônica fazia já algum tempo... Não sei. Eu gostaria que ele tivesse deixado uma carta ou algo assim.

— Muitos candidatos ao suicídio não escrevem cartas de despedida.

— Eu sei. Tudo bem. Não temos escolha. Vamos arquivar o Bjórck.

 

Erika Berger foi incapaz de se instalar de imediato na cadeira de Morander dentro do aquário e separar os objetos pessoais dele. Combinou com Gunder Storman que ele falaria com a viúva e pediria que ela viesse pegar o que pertencera ao marido quando fosse conveniente para ela.

Por enquanto, contentou-se em abrir um pequeno espaço de trabalho no meio do oceano da redação, onde colocou seu laptop e assumiu o comando. Foi um caos. Mas três horas depois de ela prontamente assumir o leme do SMP, a página do editorial estava no prelo. Gunder Storman redigira quatro colunas sobre a vida e a obra de Hâkan Morander. A página estava montada em torno de uma foto de Morander, no centro, com seu editorial inacabado à esquerda e uma série de fotos na parte inferior. A diagramação estava precária, mas tinha um toque de emoção que tornava as imperfeições aceitáveis.

Pouco antes das seis da tarde, Erika percorria os títulos da primeira página e discutia alguns textos com o chefe de redação, quando Borgsjõ apareceu e tocou seu ombro. Ela ergueu os olhos.

— Eu queria falar com você.

Foram juntos até a máquina de café na sala dos funcionários.

— Eu só queria dizer que gostei muito da maneira como você assumiu o comando hoje. Acho que surpreendeu a todos nós.

— É que eu não tinha muito por onde escapar. Mas as coisas vão ficar meio instáveis até eu pegar o jeito.

— A gente sabe.

— A gente?

— Quero dizer, tanto os funcionários como a direção. Especialmente a direção. Mas depois de tudo que aconteceu hoje estou mais do que convencido de que você é a pessoa de que precisamos. Caiu como sopa no mel e teve de assumir as rédeas numa situação muito difícil.

Erika por pouco não enrubesceu, coisa que não acontecia desde seus catorze anos.

— Posso lhe dar um conselho?

— Naturalmente.

— Ouvi dizer que haveria divergências entre você e o chefe de Atualidades, o Lukas Holm.

— Nós discordamos quanto à orientação do texto .sobre a proposta fiscal do governo. Ele tinha opinado demais na página de Atualidades. A gente deve manter a neutralidade quando se trata de informação bruta. As opiniões ficam para as páginas dos editoriais. E, por falar nisso: pretendo escrever um editorial de vez em quando, mas como não milito em nenhum partido político vamos ter de decidir quem vai assumir a frente dos editoriais.

— O Storman pode cuidar disso até segunda ordem — disse Borgsjõ. Erika deu de ombros.

— Quem você escolher para mim está bom. Mas, a princípio, precisa ser alguém que responda pelas posições do jornal.

— Entendo. O que eu queria dizer é que seria bom você deixar certa margem de manobra para o Holm. Ele já está há tempos no SMP e faz quinze anos que é chefe de Atualidades. Ele sabe o que faz. Às vezes se mostra meio obtuso, mas é praticamente indispensável.

— Sei disso. O Morander me falou. Mas no que diz respeito à nossa política de atualidades, tenho a impressão que eu vou precisar colocá-lo na linha. Afinal, vocês me contrataram para renovar o jornal.

Borgsjõ balançou a cabeça, pensativo.

— Está bem. O jeito é ir resolvendo os problemas à medida que eles aparecerem.

Annika Giannini estava não só cansada como irritada na quarta-feira à noite, quando pegou o X2000 na estação central de Gõteborg para voltar a Estocolmo. Tinha a impressão de estar morando no trem naquele último mês. A família fora relegada a segundo plano. Foi buscar um café no vagão--restaurante e, ao retornar ao seu lugar, abriu a pasta que continha as anotações de sua última entrevista com Lisbeth Salander. Ela também era uma das razões de seu cansaço e irritação.

Ela está escondendo coisas, pensou Annika Giannini. Essa idiota não está me dizendo a verdade. E o Mike também está me ocultando alguma coisa. Só Deus sabe o que eles estão aprontando.

Considerando-se que não houvera nenhuma comunicação entre seu irmão e sua cliente, as manobras deles — se é que havia manobra — deviam ser fruto de algum acordo tácito e natural. Ela não sabia do que se tratava, mas supunha ser algo que Mikael Blomkvist julgava importante esconder.

Temia que fosse alguma questão moral, o ponto fraco de seu irmão. Ele era amigo de Lisbeth Salander. Annika o conhecia muito bem e sabia que ele era leal até as raias da estupidez com aqueles que classificava definitivamente como amigos, mesmo que o amigo em questão fosse insuportável e estivesse errado de A a Z. Ela também sabia que Mikael era capaz de tolerar muitas bobagens, mas que havia uma fronteira que não podia ser ultrapassada. Em que ponto exatamente se situava essa fronteira, isso variava de acordo com a pessoa, mas ela sabia que duas ou três vezes Mikael rompera com amigos próximos porque eles tinham se comportado de um jeito que ele considerava imoral ou inaceitável. Nesses casos, ficava intransigente. A ruptura era total, definitiva e irrevogável. Mikael nem atendia mais o telefone, mesmo que a pessoa em questão estivesse ligando para se ajoelhar aos seus pés e pedir perdão.

Annika Giannini sabia muito bem o que Mikael Blomkvist tinha em mente. Em compensação, não fazia idéia do que se passava pela cabeça de Lisbeth Salander. Em alguns momentos, tinha a impressão de que nela reinava o vazio absoluto.

Mikael insinuara que Lisbeth Salander podia se mostrar explosiva e extremamente reservada com as pessoas à sua volta. Antes de conhecê-la, Annika pensava que seria uma situação passageira e que tudo era uma questão de confiança. Mas constatara, depois de um mês de convívio — embora as duas primeiras semanas não contassem, já que Lisbeth estava muito fraca para conversar —, que a comunicação quase sempre se dava num sentido só.

Annika também reparara que Lisbeth Salander às vezes parecia mergulhada em uma profunda depressão e não manifestava nenhum interesse aparente em resolver sua situação e seu futuro. Parecia simplesmente não entender — ou não estava nem aí — que para Annika a única possibilidade de oferecer uma defesa adequada era se inteirar dos fatos. Ela não podia trabalhar no escuro.

Lisbeth Salander era teimosa e fechada. Fazia longas pausas para pensar e em seguida expressava com precisão o pouco que dizia. Com freqüência não respondia a coisa alguma, ou às vezes respondia de repente a uma pergunta que Annika fizera vários dias antes. Durante os interrogatórios da polícia, Lisbeth Salander ficara sentada em sua cama sem dizer uma palavra, o olhar fixo à frente. Salvo uma exceção, não trocara nenhuma palavra com os policiais. A exceção foi quando o inspetor Marcus Ackerman lhe perguntou o que ela sabia sobre Ronald Niedermann; ela então olhara para ele e respondera às perguntas com precisão. Assim que ele mudou de assunto, ela se desinteressara totalmente e voltara a olhar fixo para a frente.

Annika estava preparada para que Lisbeth não dissesse nada à polícia. Por princípio, ela não falava com autoridades. O que, no atual caso, era compreensível. Embora Annika tivesse repetidamente encorajado sua cliente a responder as perguntas da polícia, no fundo estava muito satisfeita com o silêncio compacto de Salander. O motivo era simples. Era um silêncio coerente. Assim não poderiam acusá-la de nenhuma mentira ou raciocínios contraditórios capazes de causar má impressão no processo.

Mesmo preparada, porém, para o silêncio, Annika se perturbou ao ver o quanto ele era inabalável. Quando ficaram a sós, perguntou a Lisbeth por que ela se negava tão ostensivamente a falar com a polícia.

— Eles vão desvirtuar tudo o que eu disser e usar contra mim.

— Mas se você não se explicar, vai ser condenada.

— Azar, que seja. Não tenho nada a ver com esta confusão. Se eles quiserem me condenar, não é problema meu.

Para Annika, Lisbeth Salander fora contando aos poucos, mesmo que tivesse sido preciso arrancar dela, quase tudo que se passara em Stallarholmen. Tudo, menos uma coisa. Ela não explicou como Magge Lundin levara uma bala no pé. Por mais que Annika perguntasse e implorasse, Lisbeth Salander apenas a encarou com um ar cínico e esboçou seu sorriso enviesado.

Ela também contou o que acontecera em Gosseberga. Mas sem mencionar por que tinha ido atrás do pai. Teria ido lá para matá-lo — como sugeria a procuradora — ou para tentar fazê-lo cair em si? Do ponto de vista jurídico a diferença era considerável.

Quando Annika tocou no assunto do antigo tutor, o advogado Nils Bjurman, Lisbeth mostrou-se ainda mais lacônica. Sua resposta-padrão era que ela não o matara e que isso tampouco constava nas acusações que lhe faziam.

E quando Annika chegou ao ponto central de toda a trama, o papel desempenhado pelo Dr. Peter Teleborian em 1991, Lisbeth se transformou numa compacta parede de silêncio.

Esta história não vai dar certo, constatou Annika. Se a Lisbeth não confiar em mim, vamos perder a causa. Preciso falar com o Mikael.

Lisbeth Salander estava sentada na beira da cama, olhando pela janela. Dali ela via a fachada que ficava do outro lado do estacionamento. Permanecera imóvel, sem ser incomodada, durante mais de uma hora depois que Annika Giannini se levantara e fora embora batendo a porta, furiosa. A dor de cabeça tinha voltado, mas inofensiva e distante. Em compensação, sentia-se pouco à vontade.

Estava irritada com Annika Giannini. De um ponto de vista pragmático, podia entender por que sua advogada a pressionava para obter detalhes sobre seu passado. Racionalmente, entendia por que Annika precisava dispor de todos os fatos. Mas não tinha a menor vontade de falar sobre seus sentimentos ou suas ações. Achava que sua vida só dizia respeito a si mesma. Não tinha culpa se seu pai era um sádico patológico e um assassino. Não tinha culpa se seu irmão era um legítimo açougueiro. E, graças a Deus, ninguém sabia que era seu irmão, pois do contrário seria mais um ponto contra ela na avaliação psiquiátrica que tinha pela frente. Ela não matara Dag Svensson e Mia Bergman. Não era ela que tinha designado um tutor que se revelara um porco e que a violentara.

No entanto, era a vida dela que eles queriam revirar, e era dela que vinham exigir explicações e desculpas por ter se defendido.

Queria ser deixada em paz. Afinal, ela é que era obrigada a conviver consigo mesma. Não esperava que ninguém se tornasse seu amigo. Essa Maldita Annika Giannini provavelmente estava do seu lado, mas era uma amizade profissional, já que ela era uma advogada. O Maldito Super-Blomkvist estava lá fora, em algum lugar — Annika não falava muito sobre o irmão e Lisbeth nunca perguntava. Não esperava que ele se desdobrasse particularmente por ela agora que o assassinato de Dag Svensson estava solucionado e que ele fechara a sua matéria.

Perguntava-se o que Dragan Armanskij pensava a seu respeito depois de tudo o que acontecera.

Perguntava-se como Holger Palmgren via a situação.

Segundo Annika Giannini, ambos estavam do seu lado, mas isso eram apenas palavras. Eles nada podiam fazer para resolver seus problemas pessoais.

Perguntava-se o que Miriam Wu sentia por ela.

Perguntava-se o que ela sentia por si mesma, e acabou se dando conta de que a vida lhe inspirava, antes de mais nada, indiferença.

De súbito, foi interrompida pelo vigia da Securitas, que enfiou a chave na fechadura e fez entrar o Dr. Anders Jonasson.

— Boa noite, senhorita Salander. Como está se sentindo?

— Tudo bem — disse ela.

Ele conferiu sua ficha e constatou que Lisbeth não tinha mais febre. Ela se acostumara com as visitas dele, que aconteciam duas ou três vezes por semana. Em meio a todas as pessoas que a manipulavam e tocavam, ele era o único em quem ela sentia um pouco de confiança. Em nenhum momento tivera a impressão de que ele a olhava atravessado. Entrava no quarto, conversava um pouco e observava como estava seu corpo. Não fazia perguntas sobre Ronald Niedermann ou Alexander Zalachenko, nem sobre sua eventual loucura, e não perguntava por que a polícia a mantinha a sete chaves. Parecia se interessar exclusivamente pela condição de seus músculos, pela recuperação de seu cérebro e por seu estado geral. Desde o começo ele a tratara por você", e ela também o tratava por "você"; parecia natural.

Além disso, ele tinha literalmente fuçado seu cérebro. Uma pessoa que fazia isso merecia ser tratada com respeito. Ela se deu conta, para sua imensa surpresa, que achava as visitas de Anders agradáveis, ainda que ele a tocasse e analisasse os gráficos da temperatura.

— Posso dar uma olhada em você?

Ele realizou o exame rotineiro, examinou suas pupilas, escutou sua respiração, tomou seu pulso e conferiu a pressão.

— Como é que eu estou? — ela perguntou.

— Está a caminho da recuperação total, isso é certo. Mas deve se esforçar mais nos exercícios físicos. E está cocando a casquinha na cabeça. Tem que parar com isso.

Ele fez uma pausa.

— Posso fazer uma pergunta pessoal?

Ela o olhou com o rabo do olho. Ele esperou até que ela dissesse sim com a cabeça.

— Essa tatuagem, o dragão... eu não vi inteira, mas dá para perceber que é imensa e cobre boa parte de suas costas. Por que você fez isso?

— Você não viu o dragão? Ele sorriu de repente.

— Quero dizer, eu vi de longe, mas quando você esteve totalmente nua na minha frente eu estava mais preocupado em deter as hemorragias e extrair as balas do seu corpo, com coisas assim.

— Por que você quer saber?

— Pura curiosidade.

Lisbeth Salander refletiu por um bom tempo. Por fim, olhou para ele.

— Eu fiz por um motivo pessoal sobre o qual não estou a fim de falar. Anders Jonassoji meditou sobre a resposta, depois meneou a cabeça, pensativo.

— Certo. Desculpe ter perguntado.

— Quer dar uma olhada nela? Ele pareceu surpreso.

— Quero, por que não?

Ela virou de costas e tirou a camisola pela cabeça. Posicionou-se de modo a que a claridade vinda da janela batesse em suas costas. Ele observou que o dragão cobria boa parte do lado direito das costas. Começava na escapula, na altura do ombro, e acabava numa cauda na parte inferior do quadril. Era lindo, executado pela mão de um profissional. Uma verdadeira obra de arte.

Passados alguns instantes, ela virou a cabeça.

— Satisfeito?

— E muito bonito. Mas deve ter doído à beca.

— E — ela admitiu. — Doeu.

Anders Jonasson deixou o quarto de Lisbeth Salander levemente desconcertado. Estava satisfeito com a recuperação dela. Mas não conseguia entender aquela garota estranha. Não precisava de um mestrado em psicologia para concluir que ela não estava mentalmente muito bem. O modo como ela falava com ele era educado, mas repleto de uma áspera desconfiança. Sabia que ela também era educada com o restante da equipe, porém se fechava como ostra quando a polícia aparecia. Metia-se dentro da carapaça e sempre estabelecia uma distância entre ela e os outros.

A polícia a pusera em prisão cautelar e um procurador pretendia indiciá-la por tentativa de homicídio e golpes e ferimentos agravados. Ele duvidava seriamente que uma garota tão miúda e com uma constituição tão frágil tivesse tido a força física necessária para esse tipo de ato violento, mesmo porque as agressões tinham sido contra homens adultos.

Ele perguntara sobre o dragão principalmente para poder conversar algo mais pessoal com ela. Não estava de fato interessado em saber por que ela se enfeitara daquele jeito exagerado, mas imaginava que se ela optara por marcar seu corpo com uma tatuagem daquele tamanho é porque aquilo tinha para ela bastante importância. Conclusão, era um bom assunto para iniciar uma conversa.

Ele adquirira o hábito de ir vê-la várias vezes por semana. As visitas, na verdade, ficavam fora do seu expediente, e a Dra. Helena Endrin é que era a médica dela. Mas Anders Jonasson era o chefe do serviço de traumatologia e estava extremamente satisfeito com sua própria contribuição na noite em que Lisbeth Salander chegara ao pronto-socorro. Tomara a decisão certa ao optar por extrair a bala e, até onde podia avaliar, ela não tivera seqüelas do ferimento a bala, como lapsos de memória, funções corporais diminuídas ou qualquer outra deficiência. Se a recuperação continuasse assim, ela deixaria o hospital sem mais complicações que uma cicatriz no couro cabeludo. Já quanto à cicatriz formada em sua alma, ele não saberia dizer.

Ao voltar para a sua sala, deparou com um homem de casaco escuro esperando por ele, encostado na parede ao lado da porta. Tinha cabelos emaranhados e uma barba bem-cuidada.

— Doutor Jonasson?

— Sim.

— Bom dia. Meu nome é Peter Teleborian. Sou médico-chefe da clínica psiquiátrica de Sankt Stefan, em Uppsala.

— Sim, estou reconhecendo o senhor.

— Bem, eu gostaria de ter uma conversa particular com o senhor, se tiver um instante livre.

Anders Jonasson destrancou a porta de sua sala.

— O que posso fazer pelo senhor? — perguntou.

— É sobre uma de suas pacientes. Lisbeth Salander. Preciso vê-la.

— Humm. Nesse caso, terá de pedir autorização à procuradora. Ela está sob prisão cautelar, proibida de receber visitas. Todas as visitas também devem ser comunicadas de antemão para a advogada da Salander...

— Sim, sim, eu sei disso. Achei que nós dois pudéssemos dispensar toda essa burocracia. Sou médico, portanto o senhor pode, sem nenhum problema, me dar acesso a ela por motivos médicos.

— Sim, talvez se justifique. Mas não estou vendo a relação.

— Durante vários anos fui o psiquiatra de Lisbeth Salander, quando ela esteve internada na Sankt Stefan, em Uppsala. Eu a acompanhei até ela completar dezoito anos, quando o Tribunal de Instâncias a reconduziu à sociedade, embora sob tutela. Talvez seja bom eu enfatizar que naturalmente me opus a essa decisão. Depois a deixaram sair por aí sem rumo, e aí está o resultado.

— Entendo — disse Anders Jonasson.

— Ainda me sinto bastante responsável por ela e queria ter a oportunidade de avaliar o agravamento de sua condição nesses dez últimos anos.

— Agravamento?

— Comparado a quando ela recebia tratamento especializado na adolescência. Pensei que poderíamos pensar numa solução adequada, cá entre nós, como médicos.

— A propósito, antes que eu me esqueça... O senhor talvez possa me esclarecer um aspecto que não entendi direito, quero dizer, cá entre nós, como médicos. Quando ela deu entrada aqui no Sahlgrenska, pedi um exame clínico extenso. Um colega pediu que eu desse uma olhada na investigação médico-legal relativa a Lisbeth Salander. Que era assinada pelo doutor Jesper H. Lõderman.

— Exato. Eu fui o orientador de Jesper em seu doutorado.

- Entendo. Mas observei que essa investigação médico-legal está extremamente vaga.

— Ah,é?

— Não apresenta nenhum diagnóstico, lembra mais a análise convencional de um paciente que se recusa a falar. Peter Teleborian deu uma risada.

— É, ela não é fácil. Como a investigação demonstrou, ela se negava categoricamente a participar das entrevistas com o Lõderman. Por isso ele viu-se obrigado a se expressar em termos tão vagos. Ele foi muito correto.

— Entendo. Mesmo assim, recomendou que ela fosse internada.

— Com base no passado dela. Temos total experiência sobre a doença dela, que se estende por vários anos.

— Pois então, é isso que não consigo entender direito. Quando ela deu entrada aqui, tentamos conseguir a ficha dela na Sankt Stefan. Mas ainda não foi enviada.

— Sinto muito. E um arquivo considerado sigiloso por decisão do Tribunal de Instâncias.

— Sei. E como é que a gente, aqui no Sahlgrenska, pode dar a ela o tratamento adequado sem termos acesso a esse arquivo? Acontece que, hoje, nós é que somos os médicos responsáveis por ela.

— Tratei da Lisbeth Salander desde que ela tinha doze anos e acho que nenhum médico na Suécia sabe tanto sobre a doença dela quanto eu.

— Que é...?

— Ela sofre de um grave desequilíbrio psíquico. Como o senhor sabe, a psiquiatria não é uma ciência exata. Não gosto de me sentir limitado por um diagnóstico preciso. Mas ela tem alucinações manifestas com traços esquizofrênicos paranóicos muito claros. Acrescente-se a isso períodos maníaco-depressivos, e que ela carece de empatia.

Anders Jonasson perscrutou o Dr. Peter Teleborian durante uns dez segundos antes de fazer um gesto incisivo de mãos.

— Não vou contestar o seu diagnóstico, doutor Teleborian, mas o senhor nunca considerou a possibilidade de um diagnóstico mais simples?

— Como assim?

— A síndrome de Asperger, por exemplo. Claro, eu não a submeti a nenhum exame psiquiátrico, mas, se me perguntassem, minha primeira opinião seria alguma forma de autismo. O que explicaria sua incapacidade em se subjugar às convenções sociais.

— Lamento, mas os pacientes de Asperger não costumam atear fogo nos pais. Acredite, nunca deparei com uma sociopata tão claramente definida.

— O que eu vejo é uma pessoa fechada em si mesma, mas não uma sociopata paranóica.

— Ela é manipuladora ao extremo — disse Peter Teleborian. — Ela se comporta como acha que o senhor gostaria que se comportasse.

Anders Jonasson franziu imperceptivelmente o cenho. Peter Teleborian estava, de repente, contrariando sua própria avaliação de Lisbeth Salander. E se havia uma coisa que ele não percebia nela era a manipulação. Pelo contrário; era uma pessoa que mantinha uma imperturbável distância dos outros e não demonstrava nenhuma emoção. Tentou conciliar o quadro traçado por Teleborian com a idéia que ele próprio formara de Lisbeth Salander.

— O senhor esteve muito pouco com ela, e quando seus ferimentos a condenaram à prostração. Eu assisti às suas crises de violência e ao seu ódio desmedido. Passei anos tentando ajudar Lisbeth Salander. Por isso estou aqui. Proponho uma colaboração entre o Sahlgrenska e a Sankt Stefan.

— Em que tipo de colaboração o senhor está pensando?

— Vocês estão cuidando dos problemas físicos, e estou certo de que ela terá o melhor tratamento possível. Mas estou muito preocupado com o estado psíquico dela, e gostaria de intervir rapidamente. Estou pronto para oferecer todo o auxílio que estiver ao meu alcance.

— Entendo.

— Para começar, preciso ver a Lisbeth para avaliar seu estado.

— Entendo, mas, infelizmente, não posso fazer nada pelo senhor.

— Como assim?

— É como eu disse, ela está detida. Se quiser começar um tratamento psiquiátrico, precisa entrar em contato com a procuradora Jervas, que é quem toma as decisões nesses casos, e isso deve ser feito com a concordância da advogada Annika Giannini. Como se trata de uma avaliação psiquiátrica legal, o senhor precisa ser designado pelo Tribunal de Instâncias.

— Eram justamente esses trâmites burocráticos todos que eu queria evitar.

— É, mas como eu sou o responsável por ela e ela vai comparecer diante de um tribunal num futuro próximo, teremos que justificar todas as medidas que tomarmos. De modo que é necessário seguir os trâmites burocráticos.

— Entendo. Sendo assim, devo informá-lo que o procurador Richard Ekstrõm, de Estocolmo, já solicitou que eu faça uma avaliação psiquiátrica legal na época do julgamento.

— Melhor assim. Quer dizer que o senhor vai obter uma autorização para visita sem que a gente precise contornar o regulamento.

— Mas enquanto tratamos da burocracia, existe o perigo de o estado dela se agravar. Só o que me interessa é a saúde dela.

— A mim também — disse Anders Jonasson. — E, cá entre nós, posso adiantar que não vejo nela o menor sinal de qualquer tipo de doença psíquica. Ela está bastante machucada e passando por um grande estresse. Mas não acredito, de maneira alguma, que seja esquizofrênica ou sofra de fobias paranóicas.

O Dr. Peter Teleborian ainda passou um bom tempo tentando fazer Anders Jonasson mudar de idéia. Quando afinal entendeu que estava perdendo tempo, levantou-se bruscamente e se despediu.

Anders Jonasson demorou-se algum tempo contemplando a cadeira na qual Teleborian estivera sentado. Claro, era comum que outros médicos o procurassem para dar conselhos ou opiniões sobre um tratamento. Mas eram quase sempre pacientes que já tinham um médico responsável por algum tipo de tratamento em curso. Nunca vira nenhum psiquiatra aparecer daquele jeito, feito um óvni, e insistir para ter acesso a uma paciente passando por cima do regulamento, paciente essa que ele, aparentemente, já não tratava havia muitos anos. Depois de alguns instantes, Anders Jonasson consultou o relógio e viu que eram quase sete da noite. Pegou o telefone e ligou para Martina Karlgren, a psicóloga de plantão que o Sahlgrenska oferecia aos pacientes da traumatologia.

— Olá. Imagino que já tenha encerrado seu dia de trabalho. Estou atrapalhando?

— Não se preocupe. Estou em casa, mas não estou fazendo nada de especial.

— São umas dúvidas aqui que eu tenho. Você conversou com a nossa paciente Lisbeth Salander. Poderia me dizer que impressão teve dela?

— Olhe, estive três vezes com ela, propondo uma conversa. Ela recusou, gentil, mas firmemente.

— Que impressão ela lhe passa?

— Em que sentido?

— Martina, eu sei que você não é psiquiatra, mas é uma pessoa experiente e sensata. Que impressão ela lhe passa?

Martina Karlgren hesitou um instante.

— Não sei bem o que dizer. Estive com ela duas vezes pouco depois que foi internada. Estava tão mal que não tivemos de fato nenhum contato. Depois disso, fiz uma visita há mais ou menos uma semana, a pedido da Helena Endrin.

— Por que a Helena pediu que você falasse com ela?

— A Lisbeth Salander está em recuperação. Passa a maior parte do tempo deitada, olhando para o teto. A Endrin queria que eu desse uma olhada nela.

— E como foi?

— Eu me apresentei. Conversamos alguns minutos. Perguntei como ela estava e se sentia necessidade de ter alguém para conversar. Ela disse que não. Perguntei se eu podia ajudar em alguma coisa. Ela pediu que eu lhe conseguisse um maço de cigarros.

— Ela estava irritada ou hostil? Martina Karlgren refletiu um instante.

— Não, não dá para dizer isso. Estava calma, mas mantinha uma distância enorme. Levei seu pedido para eu conseguir cigarros mais como uma brincadeira do que como algo sério. Perguntei se ela queria ler alguma coisa, se eu podia levar uns livros. De início, ela não quis, mas depois perguntou se eu tinha alguma revista científica sobre genética e pesquisas sobre o cérebro.

— Sobre o quê?

— Genética.

— Genética?

— É. Eu disse que havia uns livros mais genéricos sobre o assunto na nossa biblioteca. Ela não se interessou. Disse que já tinha lido alguns livros a respeito e citou algumas obras mais básicas das quais eu nunca tinha ouvido falar. Ou seja, ela estava mais interessada na pesquisa científica nessa área.

— Ah, é? — disse Anders Jonasson, estupefato.

— Eu disse que decerto não haveria livros tão especializados na biblioteca do hospital, que havia mais Philip Marlowe do que literatura científica, mas que eu ia tentar conseguir alguma coisa para ela.

— E conseguiu?

— Peguei emprestados uns exemplares da Nature e do New England Journal of Medicine. Ela ficou satisfeita e me agradeceu pelo esforço.

— Mas essas revistas são um bocado áridas, trazem principalmente artigos científicos e pesquisa pura.

— Ela está lendo com muito interesse. Anders Jonasson ficou um instante sem voz.

— Como você avalia o estado psíquico dela?

— Ela é fechada. Não conversou nada pessoal comigo.

— Você tem a impressão de que ela é psiquicamente perturbada, maníaco-depressiva ou paranóica?

— Não, de jeito nenhum. Nesse caso, eu teria dado o alerta. Ela é especial, sem dúvida, tem problemas sérios e está passando por um estresse enorme. Mas é calma e objetiva, e parece capaz de administrar a situação.

— Ótimo.

— Por que está perguntando? Aconteceu alguma coisa?

— Não, nada. É só que eu não consigo formar uma imagem precisa sobre ela.

SÁBADO - 7 DE MAIO - QUINTA-FEIRA - 12 DE MAIO

Mikael Blomkvist largou a pasta com os resultados da pesquisa enviada pelo freelancer Daniel Olofsson, de Gõteborg. Olhou, pensativo, pela janela e contemplou o fluxo de transeuntes na Gõtgatan. Gostava demais da localização da Míllennium. A Gõtgatan era cheia de vida a qualquer hora do dia ou da noite, e quando se sentava diante da janela nunca se sentia realmente sozinho ou isolado.

Estava estressado, embora não estivesse às voltas com nenhuma urgência. Continuara trabalhando obstinadamente nos textos com que pretendia montar a edição de verão da Millennium, mas acabara percebendo que seu material era tão vasto que nem um número temático seria suficiente. Diante outra vez da mesma situação em que se vira no caso Wennerstrõm, decidira publicar um livro com aquelas informações. Já tinha material suficiente para mais de cento e cinqüenta páginas e calculava que o livro todo teria entre trezentas e trezentas e cinqüenta páginas.

A parte mais simples estava pronta. Descrevera os assassinatos de Dag Svensson e Mia Bergman, contando como acabara sendo ele quem descobrira os corpos. Explicara por que tinham suspeitado de Lisbeth Salander. Reservou um capítulo inteiro de trinta e sete páginas para detonar violentamente de um lado, tudo o que a mídia havia escrito sobre Lisbeth Salander e, de outro, o procurador Richard Ekstrõm — e indiretamente toda a investigação conduzida pela polícia. Depois de algumas ponderações, suavizara a crítica a Bublanski e seus colegas. Isso depois de assistir a um vídeo de uma entrevista coletiva de Ekstrõm que revelava de maneira evidente como Bublanski estava pouquíssimo à vontade e obviamente descontente com as conclusões precipitadas de Ekstrõm.

Depois desses dramáticos acontecimentos iniciais, Mikael voltava no tempo para contar a chegada de Zalachenko à Suécia, a infância de Lisbeth Salander e os fatos que a tinham conduzido para trás das grades da Sankt Stefan, em Uppsala. Tomava especial cuidado em acabar com o dr. Peter Teleborian e com o falecido Gunnar Bjõrck. Apresentava a avaliação psiquiátrica legal de 1991 e explicava por que Lisbeth Salander se tornara uma ameaça para funcionários anônimos do Estado que haviam tomado para si a missão de proteger o dissidente russo. Reproduzia extensos trechos da correspondência entre Teleborian e Bjõrck.

Ele revelava a nova identidade de Zalachenko e seu campo de atividade como gângster em tempo integral. Descrevia seu assistente Ronald Nieder-mann, o rapto de Miriam Wu e a intervenção de Paolo Roberto. Por fim, fazia um resumo do desenlace em Gosseberga, onde Lisbeth Salander fora enterrada viva depois de levar uma bala na cabeça, e explicava por que um policial fora morto desnecessariamente, quando Niedermann já havia sido capturado.

Depois disso, sua história já não era tão fácil de ser contada. O problema de Mikael era que ela ainda continha muitas lacunas. Gunnar Bjõrck não agira sozinho. Por trás dos elementos havia necessariamente um grupo importante e influente que dispunha de recursos. Senão teria sido impossível. Acima de tudo, ele concluíra que o modo como Lisbeth Salander havia sido tratada, desrespeitando-se seus direitos mais elementares, não podia ter sido autorizado pelo governo ou pela direção da Sapo. Chegava a essa conclusão não por uma confiança absoluta no poder do Estado, mas por sua fé na natureza humana. Uma operação daquele calibre jamais teria permanecido secreta se tivesse alguma raiz política. Alguém teria tido contas para acertar com °utro alguém e já teria aberto a boca, e há muitos anos a mídia teria enfiado o nariz no caso Zalachenko.

Ele imaginava o clube Zalachenko como um grupelho de ativistas anônimos. O problema é que ele era incapaz de identificar qualquer um deles, a não ser, talvez, Gõran Mârtensson, quarenta anos, policial em missão secreta que passava o tempo seguindo Mikael Blomkvist.

A idéia era o livro estar impresso e pronto para ser distribuído no dia em que teria início o julgamento de Lisbeth Salander. Com Christer Malm, ele planejava uma edição de bolso envolta em celofane e vendida como suplemento do número de verão da Millennium, cujo preço seria um pouco maior. Ele dividira as tarefas entre Henry Cortez e Malu Eriksson, que iam preparar textos sobre a história da Sapo, sobre o caso do IB, o serviço secreto de informações militares cuja existência fora revelada em 1973 por dois colegas da revista Folket i Bild/Kulturfront, e outros casos semelhantes.

Pois ele agora tinha a certeza de que seria aberto um processo contra Lisbeth Salander.

O procurador Richard Ekstrõm a indiciara por golpes e ferimentos agravados no caso Magge Lundin, e golpes e ferimentos agravados acompanhados de tentativa de homicídio no caso Karl Axel Bodin, aliás Alexander Zalachenko.

A data do julgamento ainda não estava marcada, mas Mikael pegara no ar o comentário de alguns colegas. Aparentemente Ekstrõm previa o julgamento para julho, dependendo do estado de saúde de Lisbeth Salander. Mikael adivinhava a sua intenção. Um julgamento no meio do verão sempre chamava menos atenção que em outras épocas do ano.

Ele franziu a testa e olhou pela janela de sua sala na redação da Millennium.

Essa história ainda não acabou. A conspiração contra Lisbeth continua. E a única explicação para os telefones sob escuta, a agressão a Annika e o roubo do relatório Salander de 1991. E, quem sabe, para o assassinato de Zalachenko.

Só que ele não tinha provas.

Com a concordância de Malu Eriksson e Christer Malm, Mikael decidira que as edições Millennium também iriam publicar o livro de Dag Svensson sobre o tráfico de mulheres, de olho no julgamento. Era melhor apresentar o pacote inteiro de uma vez; não havia por que esperar para publicá-lo. Pelo contrário — em nenhum outro momento o livro despertaria mais interesse. Malu assumira a redação final do livro de Dag Svensson, ao passo que Henry Cortez assessorava Mikael na redação do livro sobre o caso Salander. Lottie Karim e Christer Malm (contra a sua vontade) também tinham virado assistentes de redação temporários da Millennium, uma vez que Monika Nilsson era a única jornalista disponível. O resultado dessa carga extra de trabalho sobrecarregou a redação da Millennium, e Malu Eriksson contratara vários free-lancers para redigir os textos. Ia custar caro, mas eles não tinham escolha.

Mikael anotou num post-it que precisava acertar a questão dos direitos autorais do livro com a família de Dag Svensson. Ele se informara que os pais de Dag moravam em Orebro e eram seus únicos herdeiros. Em princípio, não precisava de autorização para publicar o livro com o nome de Dag Svensson, mas mesmo assim pretendia ir até Orebro conversar com eles para obter seu aval. Vinha adiando o tempo todo essa visita por andar muito ocupado, mas já era mais do que na hora de acertar esse detalhe.

Depois disso, restavam apenas dezenas de outros detalhes! Alguns estavam ligados ao modo de se referir a Lisbeth Salander nos textos. Para definir isso de uma vez por todas, seria obrigado a ter uma conversa particular com ela e obter sua autorização para contar a verdade, ou pelo menos a verdade parcial. E essa conversa particular era impossível de conseguir, já que Lisbeth estava sob prisão cautelar e proibida de receber visitas.

Nesse aspecto, Annika Giannini não lhe era de nenhuma ajuda. Ela seguia escrupulosamente o regulamento em vigor e não tinha a intenção de transmitir recados sigilosos de Mikael Blomkvist. Annika também não lhe contava sobre o que ela e sua cliente conversavam, com exceção de episódios relativos à maquinação contra ela, para os quais Annika precisava de ajuda. Era frustrante, mas correto. Mikael, portanto, ignorava totalmente se Lisbeth revelara a Annika que seu ex-tutor a violentara e que ela se vingara tatuando-lhe uma mensagem gritante na barriga. Enquanto Annika não abordasse o assunto, Mikael tampouco poderia fazê-lo.

O isolamento de Lisbeth Salander constituía, antes de mais nada, uma autêntica complicação. Ela era perita em informática, uma hacker, o que Mikael sabia, mas Annika não. Mikael prometera a Lisbeth nunca revelar seu segredo e mantivera a promessa. O problema era que, no momento, ele próprio estava necessitadíssimo de suas competências técnicas.

Logo, precisava estabelecer de alguma maneira um contato com Lisbeth Salander.

Suspirou, voltou a abrir a pasta de Daniel Olofsson e separou duas folhas. Uma era uma ficha do cadastro de passaportes em nome de Idris Ghidi, nascido em 1950. Era um homem de bigode, pele morena e cabelo preto grisalho nas têmporas.

O outro documento era o resumo que Daniel Olofsson fizera do passado de Idris Ghidi.

Ghidi era um refugiado curdo que viera do Iraque. Daniel Olofsson ob-tivera mais dados decisivos sobre Idris Ghidi do que sobre qualquer outro funcionário. A explicação desse desequilíbrio era que, durante algum tempo, Idris Ghidi gozara de certa notoriedade na mídia e constava nos arquivos da imprensa.

Nascido na cidade de Mossul, no norte do Iraque, Idris Ghidi se formara em engenharia e participara do grande boom econômico dos anos 1970. Em 1984, começara a lecionar na escola técnica de Mossul. Não estava ligado a nenhuma atividade política conhecida. Infelizmente, era curdo e, por definição, um criminoso potencial no Iraque de Saddam Hussein. Em outubro de 1987, o pai de Idris Ghidi foi preso, sob suspeita de ativismo curdo. Não foi dada nenhuma pista sobre a natureza de seu crime. Foi executado como traidor da pátria, provavelmente em janeiro de 1988. Dois meses depois, a polícia secreta iraquiana foi buscar Idris Ghidi, que estava começando a dar uma aula sobre a resistência dos materiais aplicada à construção de pontes. Foi levado para uma prisão fora de Mossul, onde durante onze meses foi submetido a torturas ferozes que pretendiam fazê-lo confessar. Idris Ghidi não entendia direito o que esperavam que ele confessasse, de modo que a tortura se prolongou.

Em março de 1989, um tio de Idris Ghidi pagou uma quantia equivalente a cinqüenta mil coroas suecas para o chefe local do Partido Baas, decerto uma espécie de compensação suficiente pelos estragos que Idris Ghidi causara ao Estado iraquiano. Dois dias depois, ele foi solto e entregue ao tio. Pesava trinta e nove quilos e não conseguia caminhar. Antes de soltá-lo, haviam quebrado seu quadril esquerdo com uma grande quantidade de golpes, para impedi-lo de andar por aí e cometer futuras besteiras.

Idris Ghidi ficou entre a vida e a morte durante várias semanas. Quando finalmente sentiu-se um pouco melhor, seu tio o levou para um sítio a seiscentos quilômetros de Mossul. Ele refez as energias durante o verão até ficar forte o bastante para reaprender a andar de muletas de modo mais ou menos aceitável. Sabia perfeitamente que nunca se restabeleceria por completo. A questão agora era o que ele faria dali em diante. Em agosto, seus dois irmãos foram presos pela polícia secreta. Jamais tornaria a vê-los. Deviam estar enterrados em algum lugar nos subúrbios de Mossul. Em setembro, seu tio descobriu que a polícia secreta de Saddam Hussein estava novamente procurando Idris Ghidi. Ele então resolveu procurar um atravessador anônimo, que, por uma quantia equivalente a trinta mil coroas, fez Idris Ghidi cruzar a fronteira turca e, com um passaporte falso, levou-o para a Europa.

Idris Ghidi aterrissou no aeroporto de Arlanda, em Estocolmo, em 19 de outubro de 1989. Não falava uma palavra de sueco, mas tinham lhe explicado que ele deveria se apresentar na polícia de fronteiras e imediatamente pedir asilo político, o que ele fez usando um inglês precário. Foi transferido para um centro de refugiados em Upplands-Vãsby, e ali passou os dois anos seguintes, até que o Ministério da Imigração concluiu que não havia motivos suficientes para Idris Ghidi obter um visto de residência na Suécia.

A essa altura, Ghidi já havia aprendido a falar sueco e recebido tratamento médico para o seu quadril esmagado. Passara por duas cirurgias e conseguia se locomover sem muletas. Nesse meio-tempo, houvera o "não" dos moradores de Sjõbo aos imigrantes, alguns centros de refugiados tinham sido alvo de atentados e Bert Karlsson fundara o Partido Nova Democracia.

O motivo exato pelo qual Idris Ghidi constava nos arquivos da imprensa era que, no último instante, um novo advogado reunira a imprensa para explicar a situação. Outros curdos que viviam na Suécia se mobilizaram a favor de Idris Ghidi, entre os quais alguns membros da combativa família Baksi. Houve reuniões de protesto, e abaixo-assinados foram enviados ao ministro da Imigração, Birgit Friggebo. A repercussão na mídia foi tanta que o Ministério da Imigração acabou modificando sua decisão. Ghidi obteve um visto de residência e um emprego no reino da Suécia. Em janeiro de 1992, deixou o centro de refugiados de Upplands-Vãsby na condição de homem livre.

Ao deixar o centro de refugiados, um novo desafio aguardava Idris Ghidi. Ele precisava encontrar trabalho enquanto ainda fazia fisioterapia no seu quadril destruído. Idris Ghidi logo iria descobrir que o fato de ele ter uma sólida formação como engenheiro civil, com anos de experiência e diplomas legalmente reconhecidos não queria dizer nada. Nos anos que se seguiram trabalhou como entregador de jornais, lavador de pratos, gari e motorista de táxi. Viu-se obrigado a pedir demissão do emprego de entregador de jornais Simplesmente não conseguia subir escadas no ritmo necessário. Gostava do trabalho de taxista, mas havia dois problemas. Não conhecia minimamente a rede viária de Estocolmo e não conseguia ficar imóvel mais de uma hora seguida sem que a dor no quadril se tornasse insuportável.

Em maio de 1998, Idris Ghidi se mudou para Gõteborg. Um parente distante se compadecera de sua situação e lhe oferecera um emprego fixo numa firma de limpeza. Como Idris Ghidi não podia trabalhar em tempo integral, deram-lhe um serviço de meio período como chefe de uma das equipes de faxineiros do Hospital Sahlgrenska, que terceirizava os serviços. Seu trabalho, fácil e metódico, consistia em lavar o piso de alguns setores, entre eles o 11C, seis dias por semana.

Mikael Blomkvist leu o resumo de Daniel Olofsson e examinou a foto de Idris Ghidi no cadastro de passaportes. Em seguida, abriu o site dos arquivos de imprensa e selecionou vários que haviam servido de base para o resumo de Olofsson. Leu atentamente e depois passou um bocado de tempo refletindo. Acendeu um cigarro. A proibição de fumar na redação fora rapidamente abolida depois da saída" de Erika Berger. Henry Cortez chegava a deixar um cinzeiro sobre sua mesa, à vista de todos.

Por fim, Mikael pegou a folha A4 que Daniel Olofsson produzira sobre Anders Jonasson. Leu o texto, e sulcos profundos foram marcando sua testa.

Mikael Blomkvist não estava vendo o carro com a placa KAB nem tinha a sensação de estar sendo seguido, mas preferiu não dar chance ao azar na segunda-feira, quando foi da livraria universitária à entrada secundária da loja de departamentos NK, saindo em seguida pela porta principal. Para conseguir vigiar alguém dentro de uma loja de departamentos, só sendo um super-homem. Desligou os dois celulares e foi a pé até a Praça Gustaf Adolf. Entrou na galeria, passou em frente ao Hotel do Parlamento e penetrou na cidade velha. Até onde podia avaliar, não estava sendo seguido. Deu várias voltas pelas pequenas vielas até chegar ao endereço que queria e bateu à porta da editora Svartvitt.

Eram duas e meia da tarde. Mikael não avisara que ia aparecer, mas o redator Kurdo Baksi estava lá e seu rosto se iluminou ao ver Mikael Blomkvist.

- Ora, como vai — disse Baksi cordialmente. — Por que não vem mais nos visitar?

- Aqui estou — disse Mikael.

- Sim, mas deve fazer uns três anos, no mínimo, desde a última vez.

Apertaram-se as mãos.

Mikael Blomkvist conhecia Kurdo Baksi desde os anos 1980. Mikael fora um dos que tinham ajudado Baksi quando ele lançara a Svartvitt, que eles ainda imprimiam à noite e às escondidas na Federação dos Sindicatos. Kurdo fora flagrado por Per-Erik-Astrõm, o futuro caçador de pedófilos do Radda Bamen. Certa noite, Astrõm entrou na gráfica da Federação e deu com pilhas de páginas do primeiro número da Svartvitt e com um Kurdo Baksi totalmente sem graça. Astrõm contemplou a diagramação horrorosa da primeira página e declarou que não era daquele jeito que se fazia a droga de uma revista. Em seguida, desenhou o logotipo que apareceria no cabeçalho da Svartvitt por quinze anos, até a revista ser enterrada e sucedida pela editora Svarvitt. Na época, Mikael encerrava um período odioso como responsável pelo setor de atualidades na Federação — sua única e exclusiva passagem por essa área. Per-Erik Astrõm o convencera a corrigir as provas da Svartvitt e a dar uma mãozinha na redação dos textos. A partir daí, Kurdo Baksi e Mikael Blomkvist se tornaram amigos.

Mikael Blomkvist sentou-se num sofá enquanto Kurdo Baksi ia buscar café na máquina do corredor. Conversaram durante algum tempo, como é natural quando as pessoas não se vêem há muito, mas a todo momento eram mterrompidos pelo celular de Kurdo. Ele tinha breves diálogos em curdo, ou quem sabe em turco, ou árabe, ou sabe Deus em que outra língua que Mikael não entendia. Toda vez que Mikael fora à editora Svartvitt tinha sido a mesma coisa. Gente ligando do mundo inteiro para falar com Kurdo.

— Meu caro Mikael, você parece preocupado. O que o traz aqui? — Perguntou Kurdo Baksi por fim.

— Você poderia desligar o celular por uns cinco minutos para a gente Poder falar em paz?

Kurdo desligou o celular.

—- É o seguinte... preciso de um favor. Um favor importante, e ainda por cima tem que ser rápido e não pode ser comentado fora desta sala.

— Diga.

— Em 1989, um refugiado curdo chamado Idris Ghidi chegou à Suécia vindo do Iraque. Quando ameaçaram expulsá-lo, a sua família, Kurdo, o ajudou, e é graças a ela que ele acabou conseguindo um visto de permanência. Não sei se quem o ajudou foi seu pai ou alguma outra pessoa da família.

— Foi meu tio, Mahmut Baksi, quem ajudou o Idris Ghidi. Eu conheço o Idris. O que houve com ele?

— Ele agora trabalha em Gõteborg. Preciso da sua ajuda para um serviço simples. Eu pago.

— Que tipo de serviço?

— Você confia em mim, Kurdo?

— Mas é claro. Sempre fomos amigos.

— Trata-se de um serviço especial. Muito especial. Não quero dizer em que ele consiste, mas garanto a você que não é nada ilegal e que não vai criar nenhum problema para você nem para o Idris Ghidi.

Kurdo Baksi fitou Mikael Blomkvist atentamente.

— Entendo. Mas você não quer me dizer do que se trata.

— Quanto menos você souber, melhor. Mas preciso que você me ponha em contato com o Idris, para que ele ouça o que eu tenho a dizer.

Kurdo refletiu um instante. Então foi até sua mesa e abriu uma caderneta. Procurou um pouco até encontrar o número do telefone de Idris Ghidi. Pegou o fone. A conversa se deu em curdo. Pela expressão de Kurdo, Mikael percebeu que ela começou com as frases e os preâmbulos rituais de gentileza. Depois, ficou sério e explicou o que queria. Passado um momento, virou-se para Mikael.

— Quando você quer se encontrar com ele?

— Na sexta à tarde, se possível. Pergunte se posso ir à casa dele. Kurdo falou mais um pouco e encerrou a ligação.

— O Idris Ghidi mora em Angered — disse Kurdo Baksi. — Você tem o endereço?

Mikael fez que sim com a cabeça.

— Ele vai te esperar em casa, na sexta-feira, às cinco da tarde.

— Obrigado, Kurdo — disse Mikael.

— Ele trabalha no Hospital Sahlgrenska, na limpeza — disse Kurdo Baksi.

- Eu sei — disse Mikael.

- Soube pelos jornais que você está envolvido nesse caso Salander.

___ É verdade.

— Andaram atirando nela. .— Isso mesmo.

— É interessante que ela esteja justamente no Sahlgrenska.

— Isso também é verdade.

Kurdo Baksi também não tinha nascido ontem.

Percebeu que Blomkvist tramava algo suspeito, era a especialidade dele. Conhecia Mikael desde os anos 1980. Nunca tinham sido muito próximos, mas Mikael sempre atendera quando Kurdo lhe pedira algum favor. Nos últimos anos, tinha acontecido de eles tomarem uma ou outra cerveja juntos, quando se cruzavam numa festa ou num bar.

— Será que eu não estou me envolvendo em alguma coisa que eu deveria saber? — perguntou Kurdo.

— Você não está se envolvendo em nada. Seu papel é apenas fazer o favor de me apresentar um conhecido seu. E repito... o que eu vou pedir para o Idris Ghidi fazer não é ilegal.

Kurdo assentiu com a cabeça. Esta garantia lhe bastava. Mikael se levantou.

— Fico te devendo essa.

— Uma vez eu, outra você... a gente está sempre se devendo algum favor — disse Kurdo Baksi.

Henry Cortez pôs o fone no gancho e tamborilou tão ruidosamente os dedos na beira da mesa que Monika Nilsson, irritada, ergueu uma sobrancelha e lançou-lhe um olhar mortífero. Notou que ele estava profundamente imerso em seus pensamentos. Estava com os nervos à flor da pele e resolveu não descontar em Henry.

Monika Nilsson sabia que Blomkvist andava de segredos com Cortez, Malu Eriksson e Christer Malm em razão do caso Salander, enquanto esperavam que ela e Lottie Karim fizessem o grosso do trabalho para o próximo numero de uma revista que, na verdade, estava sem direção desde a saída de

Erika Berger. Não havia o que criticar em Malu, mas ela não tinha nem a experiência nem o peso de Erika Berger. E Cortez não passava de um garoto.

A irritação de Monika Nilsson não vinha de ela se sentir excluída ou querer estar no lugar deles — era, aliás, a última coisa que ela iria querer. Seu trabalho consistia em observar o governo, o Parlamento e o funcionalismo pela Millennium. Gostava desse trabalho e conhecia todos os seus meandros. Também estava envolvida em muitas outras tarefas, entre outras coisas escrever uma coluna semanal para um jornal sindical e um trabalho voluntário para a Anistia Internacional. Isso era inconciliável com o cargo de redatora--chefe da Millennium, que a levaria a trabalhar no mínimo doze horas por dia, além de sacrificar fins de semana e feriados.

Tinha, porém, a impressão de que algo mudara na Millennium. Não estava reconhecendo a revista. E não conseguia detectar o que soava errado.

Como sempre, Mikael Blomkvist vinha tendo um comportamento irresponsável, sumindo em suas viagens misteriosas e entrando e saindo quando bem entendesse. Claro, ele era co-proprietário da Millennium e tinha o direito de decidir o que queria fazer, mas era legítimo exigir dele um mínimo de responsabilidade.

Christer Malm era o outro coproprietário, mas não ajudava mais do que quando estava de férias. Era, sem dúvida alguma, muito talentoso e já assumira o posto de redator-chefe quando Erika estava de licença ou ocupada, porém de modo geral só organizava o que já havia sido decidido pelos outros. Era brilhante em tudo que se relacionava com criação gráfica e diagramação, mas completamente inútil para planejar uma revista.

Monika Nilsson franziu o cenho.

Não, estava sendo injusta. O que a irritava era alguma coisa ter acontecido na redação. Mikael trabalhava com Malu e Henry, e os demais ficavam, de certa forma, excluídos. Eles tinham formado uma panelinha e se trancavam na sala de Erika... de Malu, e saíam de lá sem dizer uma palavra. Sob a direção de Erika, tudo era coletivo. Monika não entendia o que acontecera, mas entendia que estava sendo deixada de lado.

Mikael estava trabalhando no caso Salander e não deixava escapar uma palavra sobre o assunto. Isso, porém, não era novidade. Ele tampouco dissera alguma coisa na época do caso Wennerstrõm — a própria Erika não soubera de nada —, mas desta vez tinha Henry e Malu como confidentes.

Em suma, Monika estava irritada. Estava precjsando de férias. Precisando de distância. Viu Henry Cortez vestir seu casaco de veludo cotelê.

— Vou dar uma volta — disse ele. — Você pode dizer para a Malu que eu vou ficar fora por umas duas horas?

— O que houve?

— Acho que talvez eu tenha descoberto alguma coisa. Um superfuro. Sobre vasos sanitários. Preciso conferir uns detalhes, mas, se estiver tudo certo, vamos ter um texto legal para o número de junho.

— Vasos sanitários? — espantou-se Monika Nilsson, enquanto ele saía.

Erika Berger cerrou os dentes e largou devagar o texto sobre o futuro julgamento de Lisbeth Salander. Não era longo, duas colunas, destinado à página 5 com as atualidades nacionais. Eram três e meia da tarde de uma quinta-feira. Fazia doze dias que ela estava trabalhando no SMP. Pegou o telefone e ligou para o chefe de Atualidades, Lukas Holm.

— Olá, é a Berger. Você poderia procurar o jornalista Johannes Frisk e vir com ele agora mesmo até a minha sala, por favor?

Ela desligou e esperou pacientemente até Holm chegar ao aquário, seguido por Johannes Frisk. Erika olhou o relógio.

— Vinte e dois — disse ela.

— O quê? — disse Holm.

— Vinte e dois minutos. Você precisou de vinte e dois minutos para se levantar de sua mesa, percorrer os quinze metros que te separam da mesa de Johannes Frisk e se dignar a vir até aqui.

— Você não falou que era urgente. Estou razoavelmente ocupado.

— Eu não falei que era urgente. Falei que era para você buscar o Johannes Frisk e vir até a minha sala. Eu disse "agora mesmo", o que queria dizer imediatamente, e não hoje à noite ou na semana que vem, ou quando fosse conveniente para você tirar a bunda da cadeira.

— Ei, eu estou achando...

— Feche a porta.

Ela esperou Lukas Holm fechar a porta atrás de si. Erika o observou em silêncio. Ele era, sem dúvida, um chefe de Atualidades particularmente competente, cujo papel era cuidar para que as páginas do SMP sempre trouxessem bons textos, compreensíveis e organizados no espaço definido durante a reunião da manhã. Lukas Holm, de fato, fazia diariamente malabarismo com uma quantidade gigantesca de tarefas. E fazia isso sem deixar cair nenhuma bola.

O problema é que ele ignorava sistematicamente as decisões de Erika Berger. Por quase duas semanas, ela tentara achar um jeito de conseguir trabalhar com ele. Argumentara com cordialidade, experimentara ordens diretas, o estimulara a pensar de forma diferente e, no geral, fizera de tudo para ele entender qual a concepção que ela tinha do jornal.

Nada disso funcionara.

Um texto recusado por ela à tarde aparecia no jornal à noitinha, quando ela voltava para casa. E que excluímos um texto e ficamos com uma lacuna que tínhamos que preencher de qualquer maneira, ele dizia.

O título escolhido por Erika de repente era rejeitado e substituído por outro bem diferente. Nem sempre era ruim, mas isso acontecia sem que ela fosse consultada. Acontecia, inclusive, de maneira provocativa e ostensiva.

Sempre se tratava de ninharias. A reunião da redação prevista para as catorze horas era adiantada para as 13h50 de uma hora para outra, sem que ela fosse informada, a maioria das decisões já estava tomada quando ela por fim chegava. Oh, me desculpe... esqueci completamente de te avisar.

Era muito difícil para Erika Berger entender por que Lukas Holm assumia essa atitude em relação a ela, mas o fato é que as conversas cordiais e as reprimendas discretas não funcionavam. Até então, achara melhor não discutir o problema na presença de outros colaboradores da redação, procurando limitar sua irritação às conversas pessoais e confidenciais. Nada surtira efeito, de modo que chegara a hora de se expressar mais claramente, dessa vez na presença do colaborador Johannes Frisk, garantia de que o teor da conversa se espalharia por toda a redação.

— A primeira coisa que eu disse quando comecei a trabalhar aqui foi que tenho um particular interesse por tudo o que diz respeito a Lisbeth Salander. Expliquei que queria ser informada de todos os artigos que estivessem previstos e que queria olhar e aprovar tudo o que fosse ser publicado. Já lembrei você disso pelo menos uma dúzia de vezes, sendo que a última vez foi na reunião da redação de sexta-feira passada. Que parte dessa instrução você não entendeu?

— Todos os textos previstos ou já na fase de redação estão nas pautas diárias na intranet. Eles são sistematicamente enviados para o seu computador. Você é informada o tempo todo.

— Balela. Quando recebi o SMP na minha caixa de correspondência hoje de manhã, encontrei três colunas sobre a Salander e o acompanhamento do caso de Stallarholmen no espaço nobre de Atualidades.

— Era o texto da Margareta Orring. Ela é frila e só mandou o texto ontem lá pelas sete da noite.

— A Margareta Orring ligou para oferecer o artigo ontem às onze da manhã. Você aceitou e encomendou o trabalho por volta das onze e meia. E não disse uma palavra sobre assunto na reunião das duas da tarde.

— Mas ele consta na pauta do dia.

— Ah, é? Na pauta do dia consta o seguinte: "Margareta Orring, entrevista com a procuradora Martina Fransson. Cf. apreensão de entorpecentes em Sõdertãlje".

— O assunto de base era uma entrevista com a Martina Fransson a respeito de uma apreensão de esteroides anabolizantes, que resultou na prisão de um membro do MC Svavelsjõ.

— Tá bom! E na pauta do dia não aparece uma palavra sobre o MC Svavelsjõ nem sobre o fato de que o artigo iria se articular em torno de Magge Lundin e Stallarholmen e, portanto, em torno de Lisbeth Salander.

— Imagino que a coisa tenha se definido no decorrer da entrevista...

— Lukas, não sei qual o motivo, mas você está mentindo para mim enquanto olha nos meus olhos. Eu falei com a Margareta Orring, que escreveu o texto. Ela lhe explicou muito claramente qual era o assunto central da entrevista.

— Sinto muito, mas acho que não entendi que ela ia focar na Salander. Acontece que recebi o texto muito tarde, já de noite. O que eu devia fazer? Jogar tudo fora? E um bom texto, esse da Orring.

— Nesse ponto nós concordamos. E um texto excelente. E chegamos à sua terceira mentira em mais ou menos três minutos. Porque a Orring entregou o texto às três e vinte da tarde, ou seja, muito antes das seis horas, quando eu saí.

— Berger, eu não estou gostando do seu tom.

— Ótimo. Então posso dizer que eu também não gosto do seu tom, nem dos seus pretextos, nem das suas mentiras.

— Quem ouve até pode achar que eu estou armando algum tipo de conspiração contra você.

— Você ainda não respondeu a minha pergunta. E agora mais esta: hoje chega à minha mesa este texto do Johannes Frisk. Não lembro de termos falado sobre ele na reunião das duas horas. Como pode um dos nossos jornalistas ter passado o dia trabalhando sobre a Salander sem que eu estivesse á par?

johannes Frisk se remexeu na cadeira. Teve o bom senso de permanecer calado.

— Mas afinal... a gente está produzindo um jornal. Deve haver centenas de textos que você não conhece. Aqui no SMP a gente tem uma rotina, e cabe a cada um se adaptar a ela. Não tenho nem tempo nem condições de me deter em certos textos específicos.

— Eu não lhe pedi que se detivesse em certos textos específicos. Eu exigi, primeiro, ser informada de tudo o que diz respeito ao caso Salander e, segundo, poder endossar tudo o que fosse publicado sobre o assunto. Então vou repetir a pergunta: que parte dessa instrução você não entendeu?

Lukas Holm suspirou e exibiu uma expressão atormentada.

— Está bem — disse Erika Berger. — Então vou ser mais clara ainda. Não tenho a intenção de ficar discutindo. Vamos ver se você entende a seguinte mensagem. Se essa situação se repetir, tiro você da editoria de Atualidades. Vai ser o maior bafafá, e depois disso você vai ficar redigindo a página Família, ou Lazer, ou algo assim. Não posso ficar com um editor de Atualidades em quem não confio, ou com quem não posso trabalhar, e que passa o tempo todo boicotando as minhas decisões. Está entendido?

Lukas Holm fez um gesto de mãos para expressar como achava um delírio as acusações de Erika Berger.

— Entendeu? Ou não?

— Estou escutando.

— Eu perguntei se você entendeu ou não.

— Você acha mesmo que vai se safar desse jeito? Esse jornal só sai porque eu e outras peças desta engrenagem nos matamos de trabalhar. O conselho administrativo vai...

— O conselho vai fazer o que eu mandar. Estou aqui para renovar o jornal. Tenho uma missão expressa, que a gente negociou juntos com o maior cuidado e que me dá o direito de fazer mudanças de peso na redação no nível das chefias. Posso me desfazer do supérfluo e contratar sangue novo quando eu quiser. E, Holm, para mim você está começando a parecer cada vez mais supérfluo.

Ela se calou. Holm cruzou o olhar com o seu. Parecia furioso.

— É só isso — disse Erika Berger. — Sugiro que você reflita seriamente no que acabamos de falar.

— Não tenho a intenção...

— Só depende de você. É só. Pode se retirar.

Ele deu meia-volta e saiu do aquário. Ela o viu atravessar o formigueiro da redação e desaparecer na sala dos funcionários. Johannes Frisk se levantou para ir atrás dele.

— Você fica, Johannes. Sente-se.

Ela pegou o texto dele e o percorreu com os olhos mais uma vez.

— Pelo que entendi, você está aqui como substituto.

— Sim. Faz cinco meses, esta é a minha última semana.

— Quantos anos você tem?

— Vinte e sete.

— Lamento ter te colocado nesta briga entre mim e o Holm. Me fale sobre o seu artigo.

— Me passaram uma informação hoje de manhã e eu comuniquei ao Holm. Ele falou para eu tocar em frente.

— Certo. Quer dizer que, no momento, a polícia está trabalhando com a hipótese de que a Lisbeth Salander estaria envolvida numa venda de esteróides anabolizantes. O seu artigo tem alguma relação com o texto de ontem, sobre Sõdertãlje, que também falava em anabolizantes?

— Não sei, pode ser. Essa história de anabolizantes surgiu da relação dela com o boxeador. O Paolo Roberto e os amigos dele.

— Porque o Paolo Roberto usa anabolizantes?

— O quê? Não, claro que não. Tem mais a ver com o ambiente do boxe. A Salander treina boxe com uns caras meio suspeitos num clube do Sõder. Mas essa é a visão da polícia, não a minha. Foi em algum ponto por aí que surgiu a idéia de que ela estaria metida com a venda de anabolizantes.

— Portanto o artigo não se fundamenta em nada, a não ser num boato à toa?

— Não é um boato, é uma hipótese que a polícia está considerando. Se eles estão certos ou errados, aí já não faço idéia.

— Perfeito, Johannes. Quero que você saiba que o que eu estou conversando com você agora não tem nada a ver com a minha relação com o Lukas Holm. Acho você um excelente jornalista. Escreve bem e é atento aos detalhes. Em suma, esse artigo que você escreveu está muito bom. Meu único problema é que não acredito numa só palavra do conteúdo dele.

— Posso garantir que ele está absolutamente correto.

— Vou te explicar por que esse artigo traz um erro fundamental. Quem lhe passou a informação?

— Uma fonte policial.

— Quem?

Johannes Frisk hesitou. Sua reticência era instintiva. Como qualquer jornalista no mundo inteiro, ele não gostava de revelar suas fontes. Por outro lado, Erika Berger era a redatora-chefe e, portanto, uma das poucas pessoas que podiam exigir que ele desse essa informação.

— Um policial da Brigada Criminal chamado Hans Faste.

— Foi ele que ligou ou você?

— Ele.

Erika Berger suspirou.

— E por que você acha que ele te ligou?

— Eu o entrevistei várias vezes durante a caçada à Salander. Ele sabe quem eu sou.

— E ele sabe que você tem vinte e sete anos, que é um jornalista substituto e que pode ser útil quando ele quiser plantar informações que o procurador gostaria de divulgar.

— Sim, entendo. Mas, veja bem, eu recebo uma informação de um investigador, vou tomar um café com o Faste e o que ele me conta é isso. Reproduzo fielmente a história dele. Então, o que devo fazer?

— Tenho certeza de que você transcreveu tudo corretamente. O certo teria sido você levar a informação para o Lukas Holm, que me procuraria para explicar a situação, e assim a gente decidiria juntos como encaminhar o caso.

- Entendo. Mas eu...

- Você entregou o material ao Holm, que é o chefe de Atualidades.

- Você fez o certo. O Holm é que pisou na bola. Mas vamos dar uma analisada no seu texto. Primeiro, por que o Faste quer que essa informação se torne pública?

Johannes Frisk deu de ombros.

— Isso quer dizer que você não sabe ou que não está nem aí?

— Que eu não sei.

— Tudo bem. Se eu disser que o seu artigo é mentiroso e que a Salander não tem nada a ver com esteróides anabolizantes, você vai responder o quê?

— Que eu não posso provar o contrário.

— Exato. Isso quer dizer que, segundo você, a gente pode publicar um artigo que talvez seja mentiroso só porque não temos nada em contrário.

— Não, a gente tem uma responsabilidade jornalística. Mas sempre se deve achar um equilíbrio. Não dá para deixar de publicar alguma coisa que uma fonte afirma expressamente.

— Essa é uma filosofia. A gente também pode se perguntar por que a fonte quer divulgar essa informação. Deixe eu explicar por que dei ordem para que tudo o que diz respeito à Salander passe pela minha mesa. Tenho informações particulares sobre esse assunto que mais ninguém aqui no SMP tem. O jurídico foi informado de que eu detenho essas informações e que não posso discuti-las com eles. A Millennium vai publicar uma matéria e, por contrato, não posso revelar nada ao SMP, embora eu esteja trabalhando aqui. Obtive essa informação na qualidade de diretora da Millennium e, no momento, estou numa situação delicada. Você entende o que quero dizer?

— Sim.

— E o que eu sei através Millennium me autoriza, sem hesitação, a declarar que esse artigo é mentiroso e visa prejudicar a Lisbeth Salander antes do julgamento.

— E difícil prejudicar mais a Lisbeth Salander. Com todas as revelações que já foram feitas sobre ela...

— Revelações que são, na maioria, mentirosas e deturpadas. O Hans Faste é uma das principais fontes de todas essas revelações de que Lisbeth Salander seria uma lésbica paranóica e violenta que mexe com satanismo e sadomasoquismo. E a mídia engoliu a versão do Faste apenas porque ele é uma fonte aparentemente séria e porque sempre é divertido escrever sobre sexo Agora ele está enveredando por outra linha de tiro, que pretende condenar a Lisbeth Salander perante a opinião pública, e ele quer que o SMP contribua nessa divulgação. Lamento, mas não sob o meu comando.

— Entendo.

— Tem certeza? Ótimo. Então posso resumir o meu discurso numa só frase. A sua missão como jornalista é questionar e manter um olhar crítico, e não repetir tolamente qualquer declaração, mesmo que ela venha de um figurão das altas esferas administrativas. Você é um redator de primeira, mas seu talento não vai ter valor nenhum se você se esquecer da sua missão.

— Certo.

— Pretendo invalidar este artigo.

— Tudo bem.

— Ele não se sustenta. Não acredito no que ele diz.

— Entendo.

— Isso não significa que eu não confie em você.

— Obrigado.

— Por isso vou te mandar de volta para a sua mesa com a proposta de um outro artigo.

— Ah, é?

— Tem a ver com o meu contrato com a Millennium. Eu não posso revelar o que sei sobre o caso da Lisbeth Salander. Ao mesmo tempo, sou redatora-chefe de um jornal que está sujeito a dar uma tremenda pisada na bola, já que a redação não dispõe das mesmas informações que eu.

— Humm.

— Isso não é bom. Estamos numa situação única, que só diz respeito à Salander. Por isso resolvi escolher um jornalista e guiá-lo na direção certa para a gente não ficar com cara de bobo quando a Millennium sair.

— E você acha que a Millennium vai publicar algo excepcional sobre a Salander?

— Eu não acho. Eu sei. A Millennium está preparando um furo que vai dar uma reviravolta completa no caso Salander, e eu fico doida por não poder publicar a matéria. Porém isso é impossível.

— Mas você disse que vai rejeitar o meu texto porque sabe que ele esta errado. - Então significa que você já está sabendo que existe alguma coisa no caso que os outros jornalistas deixaram passar.

- Exato.

- Me desculpe, mas é difícil acreditar que a mídia sueca inteirinha

tenha caído numa armadilha dessas...

- A Lisbeth Salander foi vítima de uma perseguição da mídia. Em casos assim, as regras deixam de ter valor e qualquer bobagem pode ir parar na primeira página.

— Você está dizendo que a Salander não é o que aparenta ser.

— Tente imaginar que ela é inocente das acusações que estão lhe fazendo, que a imagem dela, construída pelas manchetes sensacionalistas, é falsa e que estão envolvidas forças bem diferentes das que se viram até agora.

— Você está dizendo que esse é o caso? Erika Berger fez que sim com a cabeça.

— E isso significa que o que eu acabo de escrever faz parte da campanha que tem sido feita contra ela.

— Exato.

— Mas você não pode dizer o porquê disso tudo?

— Não.

Johannes Frisk cocou a cabeça. Erika Berger esperou que ele terminasse de pensar.

— Está bem... o que você quer que eu faça?

— Volte para a sua mesa e comece a pensar num outro artigo. Não precisa se estressar, mas pouco antes de começar o julgamento eu queria publicar um texto longo, talvez de duas páginas, que analisasse a veracidade de todas as afirmações que já foram feitas sobre a Lisbeth Salander. Para começar, leia todos os artigos que saíram na imprensa, faça uma lista de tudo o que foi dito sobre ela e questione todas as afirmações, uma por uma.

— Ahã...

— Pense como repórter. Descubra quem está espalhando essa história, por que ela se espalhou e quem pode se beneficiar com ela.

— O detalhe é que não sei se ainda vou estar no SMP quando o julgamento começar. Como eu disse, esta é a minha última semana como substituto.

Erika pegou uma pasta de plástico da gaveta da escrivaninha, tirou de lá de dentro um papel e o colocou diante de Johannes Frisk.

— Já prorroguei a sua substituição por mais três meses. Esta semana você continua normalmente, e volta a se apresentar na segunda-feira que vem.

— Hum...

— Quer dizer, isso se você estiver interessado em continuar aqui.

— Claro que sim.

— Você foi contratado para um serviço de investigação fora do trabalho normal da redação. Vai trabalhar diretamente sob as minhas ordens. Será o nosso enviado especial no julgamento Salander.

— O chefe de Atualidades vai estrilar...

— Não se preocupe com o Holm. Já falei com o chefe do jurídico, e ele vai cuidar para que não haja problema com eles. Mas você vai meter o nariz nos bastidores, em vez de ficar levantando informações comuns. Está bem assim?

— Está ótimo.

— Bem... então era isso. Até segunda.

Ela fez um sinal para que ele se retirasse. Quando tornou a levantar os olhos, percebeu que Lukas Holm olhava para ela do outro lado do polo central. Ele baixou os olhos e fingiu não vê-la.

SEXTA-FEIRA 13 DE MAIO - SÁBADO 14 DE MAIO

Mikael Blomkvist tomou o maior cuidado para não ser seguido quando, na sexta-feira bem cedo, foi a pé da redação da Millennium até o antigo endereço de Lisbeth Salander na Lundagatan. Precisava ir a Gõteborg se encontrar com Idris Ghidi. A questão era achar um meio de transporte seguro, sem riscos de ser identificado e que não deixasse pistas. Depois de muito ponderar, rejeitara o trem, por não querer usar seu cartão de banco. Em geral, pegava emprestado o carro de Erika Berger, mas isso já não era possível. Chegara a pensar em pedir que Henry Cortez, ou outra pessoa, alugasse um carro para ele, mas isso também acabaria deixando pistas em alguma papelada.

Por fim, descobriu a solução óbvia. Sacou uma quantia significativa num caixa automático da Gõtgatan. Usou as chaves de Lisbeth Salander para abrir a porta do Honda cor de vinho dela, que estava abandonado na frente de sua residência desde o mês de março. Ajustou o assento e constatou que o tanque estava pela metade. Deu a partida e dirigiu-se para a E4 pela ponte de Liljeholmen.

Em Gõteborg, estacionou às 14h50 numa rua transversal à Avenyn. Pediu um almoço tardio no primeiro bar que encontrou. As 16hl0, pegou o bonde para Angered e desceu no centro. Levou vinte minutos para achar o endereço de Idris Ghidi. Estava dez minutos atrasado para o encontro.

Idris Ghidi mancava. Abriu a porta, apertou a mão de Mikael Blomkvist e o convidou a entrar numa sala de mobília espartana. Sobre uma cômoda ao lado da mesa em que convidou Mikael a se sentar, havia uma dúzia de fotografias emolduradas, que Mikael contemplou.

— Minha família — disse Idris Ghidi.

Falava com um sotaque carregado. Mikael calculou que ele não sobreviveria ao teste de proficiência no idioma proposto pelos moderados.

— São seus irmãos?

— Meus dois irmãos, à esquerda, foram assassinados por Saddam nos anos 1980, assim como meu pai, que está ali no meio. A minha mãe morreu em 2000. Minhas três irmãs estão vivas. Moram no exterior. Duas na Síria e a caçula em Madri.

Mikael meneou a cabeça. Idris Ghidi serviu um café turco.

— O Kurdo Baksi mandou lembranças.

Idris Ghidi fez um gesto de assentimento com a cabeça.

— Ele lhe explicou o que eu queria?

— O Kurdo me disse que você queria me contratar para um serviço, mas não disse o que era. Já vou dizendo que não aceito fazer nada ilegal. Não posso me dar ao luxo de me envolver nesse tipo de coisa.

Mikael balançou a cabeça.

— Não há nada de ilegal no que eu vou lhe pedir, mas é uma coisa meio incomum. O serviço vai durar várias semanas, e seu trabalho propriamente dito deverá ser feito todos os dias. Por outro lado, vai levar apenas poucos minutos por dia. Estou disposto a lhe pagar mil coroas por semana. O dinheiro vai para você direto, nem precisa passar pelo fisco.

— Entendo. O que eu teria que fazer?

— Você trabalha no setor de limpeza do Hospital Sahlgrenska. Idris Ghidi fez que sim com a cabeça.

— Uma das suas tarefas diárias — ou pelo menos seis dias por semana, pelo que entendi — consiste em fazer a faxina do setor 11C, ou seja, a unidade de tratamento intensivo.

Idris Ghidi meneou a cabeça.

— O que eu queria de você é o seguinte.

Mikael Blomkvist se inclinou para a frente e explicou sua proposta.

O procurador Richard Ekstrõm contemplou, pensativo, seu visitante. Era a terceira vez que se encontrava com o delegado Georg Nystrõm. Viu um rosto enrugado, emoldurado por cabelos grisalhos. Georg Nystrõm o visitara pela primeira vez nos dias que se seguiram ao assassinato de Zalachenko. Exibira uma carteira profissional provando que trabalhava para a DGPN/Sãpo. Tiveram uma longa conversa em voz baixa.

— É importante que o senhor entenda que de maneira alguma estou tentando interferir na sua atuação ou fazer o seu trabalho — disse Nystrõm.

Ekstrõm fez um gesto de assentimento com a cabeça.

— Queria também enfatizar que em hipótese alguma o senhor poderá tornar pública a informação que vou lhe passar.

— Entendo — disse Ekstrõm.

Para ser sincero, Ekstrõm não entendia muito bem, mas não queria parecer tolo fazendo perguntas demais. Percebera que o caso Zalachenko era algo a ser tratado com a máxima cautela. Percebera também que as visitas de Nystrõm eram totalmente informais, mesmo havendo uma conexão com o chefe da Segurança.

— Estamos falando de vidas humanas — explicara Nystrõm já no primeiro encontro. — Para nós, da Sapo, tudo o que se refere à verdade sobre o caso Zalachenko é considerado segredo de Estado. Posso confirmar que se trata de um ex-agente secreto que desertou da espionagem militar soviética e uma das figuras-chave na ofensiva dos russos contra a Europa Ocidental nos anos 1970.

— Pois é... aparentemente, é o que afirma o Mikael Blomkvist.

— Nesse caso, o Mikael Blomkvist está coberto de razão. Ele é jornalista e deparou com um dos casos mais secretos da Defesa sueca em todos os tempos.

— Ele vai publicar essa história.

— Evidentemente. Ele representa a imprensa, com todas as suas vantagens e desvantagens. Vivemos numa democracia e não temos nenhuma influência sobre o que circula na mídia. A desvantagem, nesse caso, é que o Blomkvist obviamente só conhece uma parte ínfima da verdade sobre o Zalachenko, e muito do que ele sabe está errado.

— Entendo.

— O que o Blomkvist não percebe é que, se a verdade sobre o Zalachenko vier à tona, os russos vão conseguir identificar os nossos informantes e as nossas fontes entre eles. Isso significa que pessoas que arriscaram a vida pela democracia poderiam ser mortas.

— Mas a Rússia também se tornou uma democracia, não é? Quero dizer, se tudo isso aconteceu no tempo dos comunistas, então...

— Que ilusão! Estamos falando de gente que fez espionagem contra a Rússia — nenhum regime do mundo aceitaria uma coisa dessas, mesmo que tenha acontecido há vários anos. E muitas dessas fontes ainda estão em atividade...

Esses agentes não existiam, mas isso o procurador Ekstrôm não tinha como saber. Era obrigado a aceitar o que Nystrõm dizia. E, contra a sua vontade, sentia-se lisonjeado por partilhar, daquele modo informal, informações consideradas segredo de segurança nacional. Estava vagamente surpreso que a Segurança sueca tivesse conseguido penetrar na defesa russa até onde Nystrõm dava a entender e entendia perfeitamente que aquele tipo de informação sem dúvida não podia ser divulgado.

— Quando me encarregaram de entrar em contato com o senhor, realizamos uma avaliação minuciosa a seu respeito — disse Nystrõm.

Para seduzir uma pessoa, sempre é preciso identificar seus pontos fracos. O ponto fraco do procurador Ekstrõm era a convicção que ele tinha de sua própria importância, e, como todo mundo, ele apreciava a lisonja. O objetivo era ele pensar que havia sido escolhido.

— E constatamos que o senhor goza da maior confiança dentro da polícia... e também, é claro, nas esferas governamentais — acrescentou Nystrõm.

Ekstrõm se sentia no céu. Que pessoas não mencionadas das esferas governamentais confiassem nele era uma informação que indicava, sem ser claramente dito, que ele poderia contar com alguma gratidão se soubesse jogar suas cartas com habilidade. Era uma boa perspectiva para a sua carreira.

— Entendo... e o que vocês desejam?

— Falando de maneira simples, minha missão é lhe fornecer elementos da forma mais discreta possível. O senhor entende, claro, a que ponto essa história é incrivelmente complicada. Por um lado, há um inquérito preliminar dentro das normas, pelo qual o senhor é o responsável. Ninguém... nem 0 governo, nem a Segurança, nem quem quer que seja pode interferir na maneira como o senhor conduz esse inquérito. O seu trabalho consiste em descobrir a verdade e indiciar os culpados. E uma das funções mais importantes que existem num Estado de direito. Ekstrõm assentiu com a cabeça.

— Por outro lado, seria uma catástrofe nacional de proporções quase inconcebíveis se toda a verdade sobre o Zalachenko fosse revelada.

— Qual é, então, o objetivo de sua visita?

— Primeiro, cabe a mim chamar sua atenção para essa situação delicada. Não creio que a Suécia tenha estado numa situação mais vulnerável desde a Segunda Guerra Mundial. Pode-se dizer que o destino do país está, em certa medida, nas suas mãos.

— Quem é o seu chefe?

— Lamento, mas não posso revelar o nome das pessoas que estão trabalhando nesse caso. Mas posso lhe garantir que as minhas instruções vêm do escalão mais alto que se possa imaginar.

Meu Deus. Ele está agindo por ordem do governo. Mas isso não pode ser dito, pois isso desencadearia um desastre político.

Nystrõm viu que Ekstrõm estava mordendo a isca.

— Em compensação, o que posso fazer é ajudá-lo fornecendo informações. Estou autorizado a lhe repassar, na medida em que me parecer pertinente, um material considerado dos mais secretos que temos no país.

— Entendo.

— Isso quer dizer que, quando o senhor tiver perguntas a fazer, quaisquer que sejam, deverá dirigir-se a mim. Não deverá falar com mais ninguém da Segurança, só comigo. Minha missão é guiá-lo nesse labirinto, e se houver qualquer risco de um choque de interesses, vamos ter de encontrar juntos uma solução.

— Entendo. Nesse caso, permita-me dizer que fico muito grato por o senhor e seus colegas estarem dispostos a facilitar as coisas para mim, como estão fazendo.

— Fazemos questão que as vias jurídicas sigam seu curso normal, embora a situação seja delicada.

— Melhor assim. Posso garantir que serei de uma discrição absoluta. Não é a primeira vez que trabalho com dados sigilosos.

— Sim, estamos informados.

Ekstrõm fizera uma dúzia de perguntas, que Nystrüm anotara meticulosamente para tentar lhe trazer mais tarde respostas tão completas quanto possível. Durante uma terceira visita, Ekstrõm teria a resposta para várias dessas perguntas. A mais importante era o que havia de verídico no relatório de Bjõrckdel991.

— Isso é um problema para nós — disse Nystrõm. Ele parecia preocupado.

— Talvez eu deva explicar, antes de mais nada, que desde que esse relatório veio à tona temos um grupo de análise trabalhando quase vinte e quatro horas por dia para esclarecer exatamente o que aconteceu. E já estamos, afinal, chegando a algumas conclusões. São conclusões bastante desagradáveis.

— Posso entender, já que o relatório prova que a Sapo e o psiquiatra Peter Teleborian conspiraram para mandar internar Lisbeth Salander num hospital psiquiátrico.

— Antes tivesse sido assim — disse Nystrõm com um sorrisinho.

— O que o senhor quer dizer?

— Bem, se tivesse sido assim, tudo seria muito simples. Teria havido uma infração à lei que poderia resultar em indiciamento. O problema é que o relatório não corresponde ao que está nos nossos arquivos.

— Como assim?

Nystrõm pegou uma pasta azul e a abriu.

— O que eu tenho aqui é o verdadeiro relatório que Gunnar Bjõrck redigiu em 1991. Temos também nos nossos arquivos os originais da correspondência entre ele e o Teleborian. O problema é que as duas versões não batem.

— Me explique melhor.

— É um tremendo azar o Bjõrck ter se enforcado. Supõe-se que ele tenha feito isso por causa das revelações sobre seus desvios sexuais, que iam ser publicadas em breve. A Millennium pretendia denunciá-lo. Eles o levaram a tal desespero que ele preferiu acabar com a própria vida.

— Sei...

— O relatório original é uma investigação sobre a tentativa de Lisbeth Salander de matar o pai, Alexander Zalachenko, com um coquetel Molotov.

As trinta primeiras páginas que o Blomkvist descobriu batem com o original. Essas páginas não trazem nenhuma informação sensacional. É só a partir da página 33, quando o Bjórck tira suas conclusões e emite um parecer, que aparece a divergência.

— De que jeito?

— Na versão original, o Bjõrck faz cinco recomendações muito claras. Não vou esconder que ele propõe que o caso Zalachenko desapareça dos noticiários. O Bjõrck sugere que a recuperação de Zalachenko — que ficou gravemente queimado — fosse feita no exterior. Coisas desse tipo. Sugere também que seja oferecido a Lisbeth Salander o melhor tratamento psiquiátrico.

— Ah, é?

— O problema é que um bocado de frases foram alteradas, de maneira bem sutil. Na página 34, há um trecho em que o Bjõrck parece sugerir que a Salander seja declarada psicótica, de modo a desacreditá-la caso alguém começasse a fazer perguntas sobre o Zalachenko.

— E essa sugestão não consta no relatório original?

— Exatamente. O Gunnar Bjõrck jamais sugeriu nada do gênero. Sem contar que teria sido contra a lei. Ele sugeriu que ela recebesse o tratamento de que de fato precisava. Na cópia do Blomkvist, isso tudo vira uma maquinação.

— Posso ler o original?

— Pois não. Mas preciso levá-lo comigo quando sair. E, antes que o leia, permita-me chamar sua atenção para o anexo, a correspondência que posteriormente se estabeleceu entre o Bjõrck e o Teleborian. Foi quase que toda falsificada. E nesse caso não se trata de alterações sutis, e sim de falsificações grosseiras.

— Falsificações?

— Acho que a palavra é essa. O original mostra que Peter Teleborian foi indicado pelo Tribunal de Instâncias para fazer uma avaliação psiquiátrica legal de Lisbeth Salander. O que não é nada estranho. Lisbeth Salander tinha doze anos e havia tentado matar o pai com um coquetel Molotov. Estranho seria se não tivesse havido nenhuma avaliação psiquiátrica.

— Sim, claro.

— Se o senhor fosse procurador naquela época, imagino que também teria pedido não só uma investigação social como uma avaliação psiquiátrica.

— Sem dúvida.

— Já naquela época o Teleborian era um psiquiatra infantil conhecido e respeitado, além de já ter trabalhado com medicina legal. Foi indicado e realizou um exame absolutamente normal, concluindo que Lisbeth Salander apresentava perturbações psíquicas... desculpe se estou deixando de lado os termos técnicos.

— Sim, sim...

— O Teleborian registrou todas as suas conclusões num relatório, que ele enviou ao Bjõrck e que posteriormente foi apresentado ao Tribunal de Instâncias, o qual decidiu que a Salander deveria ser tratada na clínica Sankt Stefan.

— Entendo.

— Na versão do Blomkvist, não consta a avaliação feita pelo Teleborian. Em seu lugar, há uma correspondência entre o Bjõrck e o Teleborian insinuando que o Bjõrck orienta o Teleborian a apresentar um exame psiquiátrico forjado.

— E, segundo o senhor, essa correspondência é falsa.

— Sem dúvida.

— E quem teria interesse em fazer essas falsificações? Nytstrõm largou o relatório e franziu o cenho.

— Agora o senhor pôs o dedo no nó da questão.

— E a resposta é...

— Não sabemos. O nosso grupo de análise está dando um duro justamente para descobrir a resposta a essa pergunta.

— Seria possível imaginar que o Blomkvist forjou tudo isso? Nystrõm riu.

— No começo também pensamos assim. Mas parece inverossímil. Achamos que essas falsificações foram feitas muito tempo atrás, provavelmente na época em que o relatório original foi escrito.

— Ah, é?

— O que nos leva a conclusões desagradáveis. Quem fez essa falsificação estava bem por dentro do caso. Além disso, o falsário tinha acesso à mesma máquina de escrever do Bjõrck.

— Está querendo dizer que...

— Não sabemos onde o Bjõrck redigiu o relatório. Pode ter usado uma máquina de escrever em casa, ou no seu trabalho, ou em qualquer outro lugar- Estamos considerando duas alternativas. O falsário era uma pessoa do meio psiquiátrico ou médico-legal que, por algum motivo, queria desacreditar o Teleborian. Ou então a falsificação foi feita por outro motivo bem diferente por alguém da Sapo.

— Por quê?

— Isso aconteceu em 1991. Poderia ser que um agente russo infiltrado na DGPN/Sãpo tivesse farejado o Zalachenko. Essa possibilidade nos levou a verificar, atualmente, uma boa quantidade de arquivos pessoais.

— Mas se a KGB tivesse ouvido rumores do... isso teria sido revelado há alguns anos.

— Bem pensado. Mas não esqueça que foi justamente nessa época que a União Soviética caiu e a KGB foi dissolvida. Não sabemos o que deu errado. Quem sabe uma operação planejada acabou sendo abortada. A KGB era realmente mestra em falsificar documentos e em desinformação.

— Mas por que a KGB faria uma coisa dessas?

— Também não sabemos. Mas um motivo plausível, claro, seria humilhar o governo sueco.

Ekstrõm beliscou o lábio inferior.

— Está querendo dizer que a avaliação médica da Salander está correta?

— Se está! Sem sombra de dúvida. A Salander é completamente insana, com o perdão da expressão. Não tenha o menor receio quanto a isso. A decisão de interná-la numa instituição foi totalmente justificada.

— Vasos sanitários! — disse, incrédula, a redatora-chefe interina Malu Eriksson. Pelo visto, ela achava que Henry Cortez estava de gozação com ela.

— Vasos sanitários — repetiu Henry Cortez meneando a cabeça.

— Você pretende fazer um artigo sobre vasos sanitários para a Millennium?

Monika Nilsson deu uma súbita e inoportuna gargalhada de escárnio. Ela notara o mal disfarçado entusiasmo dele ao chegar à reunião de sexta-feira e identificara todos os sintomas do jornalista às voltas com um bom assunto para um artigo.

— Certo, explique-se.

— É muito simples — disse Henry Cortez. — A maior indústria sueca em todas as categorias, é a da construção civil. É uma indústria que, na prática, não pode ser transferida para outro lugar, mesmo que a Skanska finja ter escritórios em Londres e coisas do gênero. Seja como for, os prédios têm de ser construídos na Suécia.

— Sim, isso não é novidade.

— Não. O que é mais ou menos uma novidade é que a construção civil está anos-luz atrás de todas as demais indústrias suecas quando se trata de concorrência e eficiência. Se a Volvo fabricasse automóveis do mesmo jeito, um carro último modelo estaria custando um ou dois milhões. Qualquer indústria normal só pensa em baixar os preços. Na construção civil, é o oposto. Eles não estão nem aí para os preços, o custo do metro quadrado aumenta o tempo todo e o Estado tem de oferecer subsídio com o dinheiro do contribuinte para que o negócio simplesmente não se inviabilize.

— E isso dá matéria?

— Espere. E complicado. Se o preço do hambúrguer tivesse subido do mesmo jeito de 1970 para cá, um Big Mac estaria custando umas cento e cinqüenta coroas ou mais. Prefiro não imaginar o quanto estaria custando com as batatas fritas e uma Coca. Meu salário aqui da Millennium não seria suficiente. Quantos de vocês aqui em volta desta mesa topariam comprar um hambúrguer por cem coroas?

Ninguém respondeu.

— Têm razão. Mas quando a NCC ergue rapidinho em Gâshaga uns contêineres de latão que eles chamam de moradia, ela tem a ousadia de pedir dez ou doze mil coroas de aluguel mensal por dois dormitórios. Quantos de vocês podem pagar isso?

— Eu, pelo menos, não posso — disse Monika Nilsson.

— Não pode. E olhe que você já mora num quarto-e-sala em Danvikstull, que seu pai comprou para você há vinte anos e que você poderia vender por, digamos, um milhão e meio. Mas o que faz um jovem de vinte anos que quer sair do ninho? Não tem condições. Ele então faz uma sublocação, ou até uma subsublocação, ou fica morando com a velha mãezinha dele até se aposentar.

— E onde é que entram os vasos sanitários? — perguntou Christer Malm.

— Estou chegando lá. O fato é que a gente deve se perguntar por que os apartamentos são tão caros. Ora, porque o pessoal que encomenda os prédios não sabe como se faz. Para simplificar, o caso é o seguinte: um promotor municipal chama uma empresa de construção civil como a Skanska, diz que deseja encomendar cem apartamentos e pergunta quanto vai custar. A Skanska faz uns cálculos e liga de volta dizendo que vai custar, digamos, quinhentos milhões de coroas. O que significa que o preço por metro quadrado é xis coroas, e vai lhe custar uns dez mil paus por mês se você quiser morar ali. Porque, diferentemente do que acontece no caso do MacDonald's, você não pode não morar em algum lugar. É obrigado, portanto, a pagar o quanto custa.

— Por favor, Henry... vamos aos fatos.

— Mas o fato é justamente esse. Por que me custa dez mil paus morar num desses malditos caixotes em Hammarbyhamnen? Vou explicar. É porque as construtoras não se preocupam em segurar os preços. O cliente paga seja lá o que for. Um dos maiores custos é o material de construção. O comércio de material de construção passa pelos atacadistas, que estabelecem seus próprios preços. Como não há concorrência de fato, uma banheira, na Suécia, custa cinco mil coroas. Na Alemanha, a mesma banheira, do mesmo fabricante, custa duas mil coroas. Não sei como se explica essa diferença de preço.

— Certo.

— Boa parte disso tudo pode ser lida num relatório da Comissão do Governo para Custos de Construção, que se movimentou bastante no final dos anos 1990. De lá para cá, as coisas não avançaram muito. Ninguém negocia com os construtores para denunciar essa aberração de preços. Os clientes pagam documente o preço que custar e, no fim de tudo, os locatários ou os contribuintes é que pagam a conta.

— E os vasos sanitários, Henry?

— Depois que a Comissão para Custos de Construção foi criada, os poucos avanços ocorreram em nível local, principalmente na periferia de Estocolmo. Alguns clientes se cansaram dos preços altos. Um exemplo é a Karlskronahem, que constrói mais barato que qualquer outra, simplesmente comprando ela própria os seus materiais. Além disso, a Federação de Comércio sueca andou se envolvendo. Eles acham os preços do material de construção completamente delirantes e têm tentado facilitar as coisas para os clientes importando produtos equivalentes mais baratos. O que resultou num pequeno conflito na Feira da Construção de Àlvjõ um ano atrás. O comércio sueco tinha trazido um sujeito da Tailândia que estava liquidando vasos sanitários por pouco mais de quinhentas coroas a unidade.

— Ahã. E daí?

— O concorrente imediato era um atacadista sueco, a Vitavara S.A., que vende autênticos vasos sanitários suecos por mil e setecentas coroas cada um. E alguns consumidores mais espertos, em quase todos os municípios, estão começando a cocar a cabeça e se perguntar por que eles devem morrer com mil e setecentas coroas quando poderiam conseguir um vaso sanitário equivalente, made in Tailândia, por quinhentos paus.

— Talvez seja de melhor qualidade? — perguntou Lottie Karim.

— Não. É um produto equivalente.

— Tailândia — disse Christer Malm. — Isso cheira a trabalho infantil clandestino, coisas assim. O que talvez explique o preço inferior.

— Não — disse Henry Cortez. — Na Tailândia, o trabalho infantil é praticado principalmente na indústria têxtil e de suvenires. Além de no comércio de pedofilia, claro. Estou falando em indústria de verdade. A ONU tem estado de olho no trabalho infantil, e eu verifiquei a empresa. Nada a opor. Trata-se de uma grande emprega, moderna e respeitável, de produtos sanitários.

— Bem... estamos falando de um país em que os salários são baixos, e podemos acabar escrevendo uma matéria clamando para que a indústria sueca seja eliminada pela concorrência tailandesa. Despeçam os operários suecos, fechem as empresas e importem da Tailândia. Com essa você não vai crescer na estima dos operários suecos.

Um sorriso iluminou o rosto de Henry Cortez. Ele se inclinou para trás e adotou um ar escandalosamente fanfarrão.

— Nã nã nã — disse. — Adivinhem onde é que a Vitavara S.A. fabrica seus vasos sanitários de mil e setecentos paus?

Fez-se um silêncio na redação.

— No Vietnã — disse Henry Cortez.

— Não acredito! — exclamou Malu Eriksson.

— Mas é, minha cara — disse Henry. — Faz pelo menos dez anos que eles terceirizam lá a fabricação de vasos sanitários. Os operários suecos já foram despedidos nos anos 1990.

— Puta merda!

— Mas a cereja do bolo é a seguinte: se a gente importasse diretamente da fábrica vietnamita, o preço seria pouco mais de trezentas e noventa coroas. Adivinhem como se explica a diferença de preço entre a Tailândia e o Vietnã?

__Não vai me dizer que...

Henry Cortez fez que sim com a cabeça. O sorriso transbordava em seu rosto.

— A Vitavara S.A. entrega a fabricação a uma coisa chamada Fong Soo Industries. Ela consta na lista da ONU das empresas que, pelo menos numa investigação de 2001, empregava crianças. Mas a maior parte dos operários é de prisioneiros.

Malu Eriksson sorriu de repente.

— Isso é bom — disse ela. — Realmente muito bom. Assim você vai acabar virando jornalista quando crescer. Quando é que você acha que pode terminar esse texto?

— Daqui a duas semanas. Ainda tenho que checar várias coisas sobre o comércio internacional. Além disso, vamos precisar de um bad guy para o artigo, e preciso me informar sobre os donos da Vitavara S.A.

— Podemos publicar no número de junho? — perguntou Malu, esperançosa.

— No problem.

O inspetor Jan Bublanski contemplou o procurador Richard Ekstrõm com um olhar sem expressão. A reunião tinha durado quarenta minutos, e Bublanski sentia uma imensa vontade de estender a mão para pegar o exemplar de A Lei do reino que estava na ponta da mesa de Ekstrõm e debochar do procurador. O que sem dúvida resultaria em grandes manchetes nos tablóides e, provavelmente, num indiciamento por golpes e ferimentos. Descartou a idéia. A vantagem de ser um homem civilizado é não ceder a esse tipo de impulso, qualquer que seja a provocação do adversário. E, em geral, era justamente quando alguém cedia a um impulso desse tipo que se recorria ao inspetor Bublanski.

— Ótimo — disse Ekstrõm. — Parece que estamos de acordo.

— Não, não estamos — respondeu Bublanski, levantando-se. — Mas o senhor é quem está à frente do inquérito preliminar.

Ele resmungou baixinho ao virar no corredor de sua sala e em seguida reuniu os inspetores Curt Bolinder e Sonja Modig, que compunham toda a sua equipe naquela tarde. Jerker Holmberg tivera a péssima idéia de tirar duas semanas de férias.

— Na minha sala — disse Bublanski. — Tragam café.

Depois que se acomodaram, Bublanski abriu sua caderneta com as anotações da reunião com Ekstrõm.

— A atual situação é que o nosso chefe do inquérito preliminar descartou todas as acusações contra Lisbeth Salander relativas aos assassinatos pelos quais ela foi procurada. De modo que, no que nos diz respeito, ela não está mais incluída no inquérito preliminar.

— Bem, temos que ver isso como um avanço — disse Sonja Modig. Curt Bolinder, como sempre, não disse nada.

— Não tenho tanta certeza — disse Bublanski. — A Salander ainda está sendo acusada de infrações graves em Stallarholmen e Gosseberga. Mas isso não faz mais parte da nossa investigação. O que sobrou para a gente é encontrar o Niedermann e explicar o cemitério selvagem de Nykvarn.

— Entendi.

— O certo é que, agora, quem vai indiciar a Lisbeth Salander é o Ekstrõm. O caso foi transferido para Estocolmo e foram pedidas investigações bem diferentes.

— Ah, é?

— E adivinhe quem vai investigar a Salander.

— Já estou temendo o pior.

— O Hans Faste voltou. Vai assessorar o Ekstrõm.

— Que absurdo! O Faste não é, de jeito nenhum, a pessoa certa para investigar a Salander.

— Eu sei. Mas o Ekstrõm tem bons argumentos. O Faste estava de licença médica desde que teve um... humm... esgotamento em abril, e estão dando a ele uma investigaçãozinha simples.

Silêncio.

— Portanto, vamos repassar para ele hoje à tarde todo o nosso material sobre a Salander.

— E a história do Gunnar Bjórck, e da Sapo, e do relatório de 1991...

— O Ekstrõm e o Faste vão cuidar dessa parte.

- Não estou gostando nada disso — disse Sonja Modig.

- Nem eu. Mas o chefe é o Ekstrõm, e ele tem contatos lá em cima. Ou a nossa tarefa ainda é encontrar o assassino. Curt, em que pé estamos?

Curt Bolinder balançou a cabeça.

- O Niedermann continua sumido. Devo confessar que nesses anos todos de casa nunca passei por nada igual. Não temos um único informante que conheça o sujeito ou aparente saber onde ele se encontra.

— Muito suspeito — disse Sonja Modig. — Em todo caso, ele está sendo procurado pelo homicídio do policial de Gosseberga, por golpes e ferimentos agravados contra um policial, tentativa de assassinato de Lisbeth Salander e rapto agravado mais golpes e ferimentos sobre Anita Kaspersson, a assistente de odontologia. E também pelos assassinatos de Dag Svensson e Mia Berg-son. Em todos esses casos, as provas técnicas são satisfatórias.

— Deve ser suficiente. E como vai a investigação sobre o consultor financeiro do MC Svavelsjõ?

— Viktor Gõransson e sua companheira Lena Nygren. Temos provas técnicas que ligam o Niedermann ao local. Impressões digitais e DNA no corpo do Gõransson. O Niedermann ralou o dorso das mãos quando deu uma surra nele.

— Certo. Novidades sobre o MC Svavelsjõ?

— O Benny Nieminen assumiu a chefia enquanto o Magge Lundin está em prisão preventiva, aguardando o julgamento pelo rapto da Miriam Wu. Corre o boato de que o Nieminen prometeu uma bela recompensa para quem der uma pista do paradeiro do Niedermann.

— O que torna ainda mais estranho o fato de o cara ainda não ter sido encontrado. E o carro de Gõransson?

— Como o carro da Anita Kaspersson foi encontrado no sítio de Gõransson, estão achando que o Niedermann mudou de carro. Não temos nenhuma pista sobre esse outro.

— E de se perguntar, então, se o Niedermann ainda está entocado em algum lugar da Suécia — e, nesse caso, onde e com quem — ou se já teve tempo de se pôr em segurança no exterior. O que o pessoal está achando?

— Nada indica que ele foi para o exterior, mas não deixa de ser a única Possibilidade lógica.

— Nesse caso, onde é que ele abandonou o carro?

Num mesmo gesto, Sonja Modig e Curt Bolinder balançaram a cabeça O trabalho da polícia, nove em cada dez vezes, era razoavelmente simples quando se tratava de procurar um indivíduo cujo nome se sabia. Bastava criar uma cadeia lógica e começar a puxar os fios. Quem eram seus amigos? Com quem dividira uma cela no xadrez? Em que área seu celular fora usado recentemente? Onde estava o carro dele? No final da cadeia, em geral se encontrava a pessoa procurada.

O problema com Ronald Niedermann é que ele não tinha amigos, não tinha namorada, nunca tinha sido preso e não tinha celular conhecido.

Grande parte da investigação havia se concentrado, portanto, em procurar o carro de Viktor Gõransson, que Niedermann supostamente estava usando. Se encontrassem o carro, já seria uma indicação de por onde prosseguir as buscas. De início, imaginaram que o carro iria aparecer em alguns dias, provavelmente num estacionamento de Estocolmo. Mas, apesar dos avisos de busca, o veículo continuava se destacando pela ausência.

— Se ele estiver no exterior... onde estará?

— Ele é cidadão alemão, o mais natural seria ele tentar ir para a Alemanha.

— Ele está sendo procurado na Alemanha. E não parece ter mantido contato com seus antigos amigos de Hamburgo.

Curt Bolinder agitou as mãos.

— Se o plano dele era se mandar para a Alemanha... por que, neste caso, ele iria para Estocolmo? O certo seria ele pegar a direção de Malmõ e a ponte de 0resund, ou de uma das balsas.

— Eu sei. Nos primeiros dias o Marcus Ackerman, de Gõteborg, direcionou o grosso das buscas nessa direção. A polícia da Dinamarca está informada sobre o carro do Gõransson, e podemos afirmar com segurança que ele não pegou nenhuma balsa.

— Mas ele foi a Estocolmo, até o MC Svavelsjõ, trucidou o tesoureiro e — supõe-se — roubou uma quantia ignorada de dinheiro. Qual seria o passo seguinte?

— Ele precisa deixar a Suécia — disse Bublanski. — O mais natural seria ele pegar uma balsa para os Países Bálticos. O Gõransson e a companheira foram mortos bem tarde da noite de 9 de abril. Isso quer dizer que o Niedermann pode ter pego uma balsa de manhã. Só fomos avisados dezesseis horas i p0js da morte deles, e desde então estamos procurando o carro.

- Se ele pegou a balsa de manhã, o carro do Gõransson deveria estar estacionado perto de um dos portos — constatou Sonja Modig.

Curt Bolinder meneou a cabeça.

— De repente, é muito mais simples. Talvez não tenhamos encontrado o carro do Gõransson porque o Niedermann saiu do país pelo norte, via Haparanda. É um tremendo desvio contornar o Golfo de Bótnia, mas em dezesseis horas ele certamente teve tempo de atravessar a fronteira finlandesa.

— É, mas depois ele teria que abandonar o carro em algum lugar da Finlândia e, a essa altura, nossos colegas finlandeses já deveriam tê-lo encontrado.

Ficaram um bom momento calados. Por fim, Bublanski se levantou e foi para a frente da janela.

— É contra toda a lógica e probabilidade, mas o fato é que o carro do Gõransson continua desaparecido. Será que ele conseguiu achar um esconderijo e está entocado esperando a hora certa, uma casa de campo ou...

— Dificilmente pode ser uma casa de campo. Nessa época do ano, todos os proprietários estão ajeitando e enfeitando as casas para o verão.

— E não deve ser nada ligado ao MC Svavelsjõ. Imagino que sejam as últimas pessoas que ele quer ver pela frente.

— Portanto, daria para excluir o círculo dele... Será que existe uma namorada e a gente não sabe?

As especulações eram muitas, mas eles não dispunham de nenhum dado concreto.

Assim que Curt Bolinder foi embora, Sonja Modig retornou à sala de Jan Bublanski e bateu no batente da porta. Ele fez sinal para ela entrar.

— Você teria dois minutinhos?

— O que foi?

— A Salander.

— Pode falar.

— Não gosto nem um pouco desse novo planejamento, com o Ekstrõm e o Faste e um novo processo. Você leu o relatório do Bjõrck. Eu li o relatório do Bjõrck. A Salander foi sabotada em 1991, e o Ekstrõm sabe disso. Que diabos está acontecendo?

Bublanski tirou seus óculos fundo de garrafa e guardou-os no bolso da camisa.

— Eu não sei.

— Você não tem nenhuma idéia?

— O Ekstrõm diz que o relatório do Bjõrck e a correspondência dele com o Teleborian foram falsificados.

— Mentira. Se tivessem sido falsificados, o Bjõrck teria dito isso quando foi interrogado.

— Diz o Ekstrõm que o Bjõrck se negava a falar disso por ser um assunto sigiloso de segurança nacional. Ele me censurou por eu ter me adiantado e detido o Bjõrck.

— Cada dia que passa detesto mais o Ekstrõm.

— Ele está sendo pressionado.

— Isso não é desculpa.

— Nós não temos o monopólio da verdade. O Ekstrõm afirma que lhe apresentaram provas de que o relatório é falso; não existe nenhuma investigação de fato cadastrada com esse número. Ele diz também que a falsificação foi muito benfeita e que é uma mescla de verdade e de invenção.

— Que parte é verdadeira e que parte foi inventada?

— O conjunto está mais ou menos certo. O Zalachenko é pai da Lisbeth Salander, um cretino que espancava a mãe dela. A história de sempre — a mãe nunca queria dar queixa, de modo que a situação se manteve daquele jeito por anos a fio. A tarefa do Bjõrck era descobrir o que aconteceu quando a Lisbeth tentou matar o pai com um coquetel Molotov. Ele mantinha uma correspondência com o Teleborian, mas, no conjunto, a correspondência que nós vimos era falsificada. O Teleborian fez uma avaliação psiquiátrica de rotina na Salander e constatou que ela era louca, e um procurador resolveu desistir das acusações que pesavam contra ela. Ela precisava de tratamento e foi internada na Sankt Stefan.

— Mas foi tudo uma encenação... Quem teria feito isso, e com que objetivo?

Bublanski fez um gesto separando as mãos.

— Você está de gozação?

- Pelo que entendi, o Ekstrõm vai exigir outro exaustivo exame psiquiátrico da Salander.

- Não consigo aceitar isso.

- Não é mais assunto nosso. Fomos desligados do caso Salander.

- E o Hans Faste foi ligado... Jan, pretendo alertar a imprensa se esses nojentos atacarem de novo a Salander...

— Não, Sonja. Você não vai fazer isso. Primeiro, porque não temos mais acesso à investigação; logo, você não tem mais como provar o que vai dizer. Vão te achar uma paranóica de primeira e a sua carreira acaba num piscar de olhos.

— Eu ainda estou com o relatório — disse Sonja Modig com voz débil. — Eu tinha feito uma cópia para o Curt Bolinder, mas não tive tempo de entregar antes de o Ministério Público recolher tudo.

— Se você deixar vazar esse relatório, não só vai ser despedida como vai incorrer em falha profissional grave por colocar um relatório sigiloso nas mãos da imprensa.

Sonja Modig ficou um instante calada e encarou seu chefe.

— Sonja, me prometa que não vai fazer nada. Ela hesitou.

— Não, Jan, não posso prometer isso. Tem algo de podre nessa história. Bublanski concordou com a cabeça.

— Tem, sim. Mas no momento não sabemos quem são nossos inimigos. Sonja Modig inclinou a cabeça.

— E você, tem a intenção de fazer alguma coisa?

— Isso eu não vou lhe contar. Confie em mim. Estamos no final da tarde de sexta-feira. Curta o seu fim de semana. Vá para casa. Essa conversa nunca aconteceu.

Era uma e meia da tarde de sábado quando o agente da Securitas Niklas Adamsson ergueu os olhos do livro de economia política que estava estudando para um exame que ocorreria dali a três semanas. Acabava de ouvir o discreto zumbido das escovas rotativas do carrinho de faxina e viu que se datava do imigrante manco. O sujeito sempre o cumprimentava educada-rtlente, mas não falava muito e nunca ria nas vezes em que Adamsson tentava brincar com ele. Observou-o enquanto ele pegava um frasco e vaporizava o balcão da recepção, enxugando em seguida com um pano. Depois, ele pegou a vassoura com franjas e passou-a pelos cantos da recepção que as escovas do carrinho não alcançavam. Niklas Adamsson tornou a enfiar o nariz no livro e continuou sua leitura.

O funcionário da limpeza levou dez minutos para chegar à cadeira de Adamsson, no fim do corredor. Cumprimentaram-se com um gesto de cabeça. Adamsson se levantou e deixou o faxineiro cuidar do piso em volta de sua cadeira, em frente ao quarto de Lisbeth Salander. Ele via aquele homem praticamente todos os dias desde que começara seu plantão em frente ao quarto, mas seria incapaz de lembrar o nome dele. De qualquer modo, era um nome de turco. Adamsson não via realmente necessidade de controlar a identidade dele. De um lado, o imigrante não ia fazer faxina dentro do quarto da prisioneira — duas mulheres cuidavam disso de manhã — e, de outro, aquele manco não parecia representar nenhuma ameaça.

Quando o homem terminou a limpeza no fim do corredor, abriu com a chave a porta vizinha ao quarto de Lisbeth Salander. Adamsson o observou com o rabo dos olhos, mas isso tampouco significava um desvio da rotina. Ali, no fim do corredor, ficava o armário das vassouras. Ele passou os cinco minutos seguintes esvaziando o balde, limpando as escovas e enchendo o carrinho com sacos plásticos para o lixo. Em seguida, empurrou o carrinho para dentro do armário.

Idris Ghidi estava ciente da presença do vigilante da Securitas no corredor. Era um rapaz loiro de uns vinte e cinco anos mais ou menos, que em geral ficava de plantão dois ou três dias por semana e lia livros de economia política. Ghidi concluíra que ele trabalhava meio período na Securitas e ao mesmo tempo estudava, e prestava tão pouca atenção ao que se passava em volta quanto um tijolo da parede.

Idris Ghidi perguntou-se o que Adamsson faria se alguém tentasse de fato entrar no quarto de Lisbeth Salander.

Idris Ghidi também se perguntou o que Mikael Blomkvist teria em mente. Estava perplexo. Ele, claro, tinha lido os jornais e fizera a associação com a Lisbeth Salander do 11C, e sua expectativa era que Mikael Blomkvist quisesse que ele introduzisse alguma coisa clandestinamente no quarto. Nesse caso ele teria sido obrigado a recusar, pois não tinha acesso ao quarto nem nunca o tinha visto. A proposta que ele lhe fizera, porém, não tinha nada a ver com isso.

Ele não via nada de ilegal em sua tarefa. Deu uma olhada pela fresta da porta e viu que Adamsson voltara a se sentar na cadeira em frente à porta e estava lendo seu livro. Estava satisfeito por não haver mais ninguém por perto o que geralmente era o caso, já que o armário das vassouras ficava no fim do corredor. Enfiou a mão no avental e pegou um celular novo, um Sony Eriksson Z600. Idris Ghidi vira aquele modelo num folheto publicitário e sabia que custava mais de três mil e quinhentas coroas no mercado e dispunha de todos os macetes imagináveis.

Olhou para o mostrador e notou que o celular estava ligado, mas com o som de chamada no silencioso e o vibrador desativado. Então ficou na ponta dos pés e desencaixou o tampo branco e redondo de um sistema de ventilação que ia até o quarto de Lisbeth Salander. Colocou o celular dentro do conduto, fora do alcance da vista, exatamente como Mikael Blomkvist lhe pedira.

A manobra durou cerca de trinta segundos. No dia seguinte, levaria cerca de dez. Sua tarefa então seria pegar o celular, trocar a bateria e colocar o aparelho de volta no conduto de ventilação. Levaria a bateria usada para casa e a recarregaria durante a noite.

Era só o que Idris Ghidi precisava fazer.

Contudo, isso não ajudaria Lisbeth Salander. Do lado de lá, havia uma grade parafusada na parede. Ela jamais conseguiria pegar o celular se não tivesse acesso a uma chave de fenda cruciforme e a uma escada.

— Eu sei — dissera Mikael. — Mas ela não vai precisar tocar no celular.

Idris Ghidi teria de realizar essa tarefa todos os dias, até Mikael Blomkvist avisar que ela não era mais necessária.

E para isso Idris Ghidi receberia mil coroas líquidas por semana. Além disso, poderia ficar com o celular depois de concluído o serviço.

Ele balançou a cabeça. Sabia, é claro, que Mikael tramava alguma coisa, mas não conseguia imaginar o quê. Colocar um celular ligado, mas não conectado, num sistema de ventilação fechado a chave era uma idéia tão esquisita que Ghidi não entendia para que servia. Se Blomkvist queria se comunicar com Lisbeth Salander, seria mais inteligente subornar uma enfermeira para lhe passar o telefone. Não havia nenhuma lógica naquela operação.

Ghidi balançou a cabeça. Por outro lado, não se negaria a fazer esse favor para Mikael Blomkvist enquanto ele lhe pagasse mil coroas por semana. E não pretendia fazer perguntas.

O Dr. Anders Jonasson diminuiu o passo ao avistar um homem de uns quarenta anos apoiado na grade da entrada de seu prédio, na Hagagatan. O homem, que lhe parecia vagamente familiar, dirigiu-lhe um sinal de reconhecimento com a cabeça.

— Doutor Jonasson?

— Sou eu.

— Lamento incomodá-lo assim, na rua, na frente da sua casa. Mas não queria procurá-lo no seu trabalho e preciso falar com o senhor.

— Do que se trata, e quem é o senhor?

— Meu nome é Mikael Blomkvist. Sou jornalista da revista Millennium. Trata-se de Lisbeth Salander.

— Ah, sim, estou lembrado. Foi o senhor que ligou para o sos-Brigada quando ela foi encontrada... Também foi o senhor que colocou fita adesiva nos ferimentos?

— Fui.

— Foi um gesto inteligente. Mas lamento. Não estou autorizado a falar sobre os meus pacientes com os jornalistas. Vai ter de fazer como todo mundo e ver com a área de comunicação do Sahlgrenska.

— O senhor não me entendeu. Não estou atrás de informações, estou aqui em caráter privado. Não precisa me dizer nada nem me passar informações. Na verdade, é o contrário. Eu é que gostaria de lhe passar alguns dados.

Anders Jonasson franziu o cenho.

— Por favor — suplicou Mikael Blomkvist. — Não costumo assediar cirurgiões no meio da rua, mas é extremamente importante que eu fale com o senhor. Há um café mais adiante, ali na esquina. Posso convidá-lo para tomar alguma coisa?

— Nós vamos falar sobre o quê?

— Sobre o futuro e o bem-estar de Lisbeth Salander. Eu sou amigo dela.

Anders Jonasson hesitou bastante. Sabia que se fosse outra pessoa que não Mikael Blomkvist que o abordasse assim no meio da rua, se fosse um desconhecido qualquer, teria recusado. Mas Blomkvist era uma figura conhecida e, de repente, Anders Jonasson convenceu-se de que não se tratava de uma brincadeira de mau gosto.

— Não quero, de jeito nenhum, ser entrevistado e não vou falar sobre a minha paciente.

— Para mim está bem — disse Mikael.

Por fim, Anders Jonasson assentiu rapidamente com a cabeça e acompanhou Blomkvist até o café.

— Do que se trata? — ele perguntou num tom neutro, depois que foram servidos. — Estou ouvindo, mas não pretendo fazer nenhum comentário.

— O senhor tem medo que eu o cite ou o exponha na imprensa. Quero que fique absolutamente claro desde já que não se trata de nada disso. No que me diz respeito, esta conversa nunca aconteceu.

— Certo.

— Gostaria de lhe pedir um favor. Mas antes preciso explicar exatamente o porquê, para que o senhor possa julgar se é moralmente aceitável para o senhor me fazer esse favor.

— Não estou gostando do rumo desta conversa.

— Só o que estou lhe pedindo é que me escute. Como médico da Lisbeth Salander, cabe ao senhor zelar pelo bem-estar físico e mental dela. Como amigo da Lisbeth, cabe a mim fazer o mesmo. Não sou médico, portanto não posso remexer na cabeça dela para extrair balas de lá, por exemplo. Mas tenho outro tipo de competência, tão importante quanto, para o bem-estar dela.

— Ahã.

— Sou jornalista e, cavando aqui e ali, descobri a verdade sobre tudo o que aconteceu.

— Certo.

— Posso lhe contar, em linhas gerais, para que o senhor possa avaliar Por si mesmo.

— Ahã.

— Eu talvez deva dizer, para começar, que Annika Giannini é a advogada da Lisbeth Salander. O senhor já cruzou com ela.

Anders Jonasson fez que sim com a cabeça.

— Annika é minha irmã e sou eu que a estou pagando para defender a Lisbeth,

— Ah, é?

— Pode verificar no cartório de registro civil que ela é mesmo minha irmã. Não posso pedir esse favor para a Annika. Ela não fala comigo sobre a Lisbeth. Está presa ao sigilo profissional e sujeita a regras bem diferentes.

— Humm.

— Imagino que o senhor leu o que os jornais falam sobre a Lisbeth. Jonasson concordou com a cabeça.

— Ela foi pintada como uma assassina em série lésbica, psicótica e doente mental. Isso tudo é bobagem. A Lisbeth Salander não é psicótica; é talvez tão psiquicamente saudável quanto eu e o senhor. E as preferências sexuais dela não interessam a ninguém.

— Se entendi direito, houve uma reviravolta. Atualmente, o tal alemão é que está sendo acusado dos assassinatos.

— É a mais pura verdade. O Ronald Niedermann é culpado, é um assassino sem nenhum escrúpulo. Mas a Lisbeth tem inimigos. Inimigos de verdade, fortes e cruéis. Alguns deles estão dentro da Sapo.

Anders Jonasson.ergueu as sobrancelhas com ar cético.

— Quando a Lisbeth tinha doze anos, ela foi internada na psiquiatria infantil de um hospital em Uppsala porque tinha topado com um segredo que a Sapo tentava ocultar a todo custo. O pai dela, Alexander Zalachenko, que foi assassinado no hospital, era um ex-espião russo dissidente, uma relíquia da guerra fria. Era também um homem extremamente violento com as mulheres e durante anos espancou a mãe da Lisbeth. Quando a Lisbeth estava com doze anos, ela revidou e tentou matar o Zalachenko com um coquetel Molotov. Por isso é que ela foi internada na psiquiatria infantil.

— Não estou entendendo. Se ela tentou matar o pai, talvez houvesse motivo para interná-la para um tratamento psiquiátrico.

— A minha teoria, que pretendo publicar, é que a Sapo sabia o que tinha acontecido, mas optou por proteger o Zalachenko porque ele era uma fonte importante de informações. Eles bolaram um diagnóstico fajuto e deram um jeito de a Lisbeth ser internada.

Anders Jonasson exibiu tamanho ar de dúvida que Mikael teve de sorrir.

— Tenho provas de tudo o que estou dizendo. E vou publicar um texto detalhado antes do julgamento da Lisbeth. Acredite, vai fazer um barulho e tanto.

— Entendo.

- Vou denunciar e bater feio em dois médicos que serviram de paus-mandados da Sapo e contribuíram para que a Lisbeth fosse enviada para o hospício. Vou acabar com eles sem dó nem piedade. Um deles é uma autoridade pública respeitada. E, insisto, disponho de todas as provas.

— Entendo. Se houve um médico envolvido nessa tramóia, é uma vergonha para a classe médica.

— Não, não acredito em culpa coletiva. É uma vergonha para todos os envolvidos. Isso também vale para a Sapo. Há certamente gente honesta trabalhando lá. Mas nesse caso temos um grupo paralelo. Quando a Lisbeth completou dezoito anos, eles mais uma vez fizeram o possível para ela ser internada. Não deu certo, mas ela foi posta sob tutela. No julgamento, vão acusá-la ao máximo. Eu e minha irmã vamos lutar pela inocência da Lisbeth e para que seja posto um fim à tutela.

— Certo.

— Mas ela precisa de munição. São as condições deste jogo. É bom que o senhor saiba que alguns policiais estão apoiando a Lisbeth nesta batalha. Ao contrário da pessoa que dirige o inquérito preliminar e que a indiciou.

— Ahã.

— A Lisbeth vai precisar de ajuda para o julgamento.

— Ahã. Mas eu não sou advogado.

— Não. Mas é médico, e tem acesso à Lisbeth. Os olhos de Anders Jonasson se estreitaram.

— O que eu vou lhe pedir não é ético, e talvez até possa ser considerado infração à lei.

— Ai.

— Mas, moralmente, é a coisa certa a fazer. Os direitos dela estão sendo ultrajados por pessoas que deveriam protegê-la.

— Ah, é?

— Vou dar um exemplo. Como o senhor sabe, a Lisbeth está proibida de receber visitas e não tem o direito de ler jornais ou de se comunicar com ninguém. Além disso, o procurador impôs silêncio à sua advogada. Annika tem cumprido estoicamente as normas. Em compensação, o procurador é a principal fonte de informações dos jornalistas, que continuam escrevendo bobagens sobre a Lisbeth Salander.

— É mesmo?

— Veja este artigo, por exemplo. — Mikael brandiu um tabloide da semana anterior. — Uma fonte interna da investigação afirma que a Lisbeth é irresponsável. Resultado: o jornal faz um monte de especulações sobre o estado mental dela.

— Eu li o artigo. É pura bobagem.

— Então o senhor não considera a Salander uma louca?

— Não posso me pronunciar a respeito. Agora, o que sei é que não foi feita nenhuma avaliação psiquiátrica.

— Certo. Mas tenho provas de que essas informações foram divulgadas por um policial chamado Hans Faste e que ele trabalha para o procurador Ekstrõm.

— Puta merda!

— O Ekstrõm vai exigir que o julgamento se dê a portas fechadas, o que significa que nenhum estranho ao caso vai poder conferir e avaliar as provas contra ela. Mas, o que é pior... a partir do momento em que o procurador mandou isolar a Lisbeth, ela não tem como fazer as pesquisas necessárias para preparar sua defesa.

— Eu achava que a advogada era quem estava tratando disso.

— Como o senhor a esta altura já deve ter percebido, a Lisbeth é uma pessoa muito especial. Ela tem alguns segredos que eu conheço mas não posso revelar para a minha irmã. Em compensação, cabe à Lisbeth avaliar se vai querer usá-los para se defender no julgamento.

— Ahã.

— E, para isso, ela precisa disto aqui.

Mikael colocou entre eles, sobre a mesa, um Palm Tungsten T3, o computador de mão de Lisbeth Salander, além de um carregador.

— Essa é a arma mais importante do arsenal da Lisbeth. Ela precisa dela.

Anders Jonasson olhou para ele, desconfiado.

— Por que não o entrega à advogada dela?

— Porque só a Lisbeth sabe o que fazer para ter acesso às provas de sua defesa.

Anders Jonasson permaneceu um longo tempo em silêncio, sem tocar no computador de bolso.

_— Deixe eu lhe falar sobre o doutor Peter Teleborian — disse Mikael, pando a pasta em que reunira todo o material essencial, passaram duas horas conversando em voz baixa.

Eram oito e pouco da noite de sábado quando Dragan Armanskij deixou sua sala na Milton Security e foi a pé até a sinagoga do Sbder, na Sankt Paulsgatan. Bateu à porta, apresentou-se e foi recebido pelo rabino.

— Marquei um encontro aqui com uma pessoa — disse Armanskij.

— Primeiro andar. Vou lhe mostrar o caminho.

O rabino ofereceu um quipá, que Armanskij vestiu após alguma hesitação. Tinha sido criado numa família muçulmana, em que o uso do quipá e visitas à sinagoga não faziam exatamente parte da rotina. Sentia-se pouco à vontade com o barrete judeu na cabeça.

Jan Bublanski também estava usando um quipá.

— Olá, Dragan. Obrigado por ter vindo. Pedi uma sala emprestada ao rabino para podermos conversar sem sermos interrompidos.

Armanskij sentou-se na frente de Bublanski.

— Imagino que você tenha bons motivos para esses segredinhos.

— Não vou ficar dando voltas. Sei que você é amigo da Lisbeth Salander. Armanskij fez que sim com a cabeça.

— Quero saber o que você e o Blomkvist combinaram para ajudar a Salander.

— O que o faz pensar que combinamos alguma coisa?

— O procurador Richard Ekstrõm já me perguntou no mínimo uma dúzia de vezes qual o verdadeiro acesso da Milton Security à investigação Salander. Ele não me perguntou à toa, e sim porque tem medo que você tente fazer alguma coisa que venha a repercutir na imprensa.

— Humm.

— E se o Ekstrõm está preocupado é porque ele sabe que você está com alguma coisa articulada, ou tem receio disso. Ou, como eu estou achando, ele pelo menos conversou com alguém que tem esse receio.

— Alguém?

— Dragan, não se trata de um jogo de esconde-esconde. Você sabe que a Salander foi vítima de abuso de poder em 1991, e temo que ela seja vítima de mais um quando o julgamento começar.

— Você é policial de uma democracia. Se tem alguma informação, cabe a você agir.

Bublanski meneou a cabeça.

— Eu pretendo agir. O problema é saber como.

— Vá direto aos fatos.

— Quero saber o que você e o Blomkvist combinaram. Imagino que vocês não estejam aí parados, de braços cruzados.

— E complicado. Como é que eu vou saber se posso confiar em você?

— Tem aquele relatório de 1991, que o Mikael Blomkvist tinha encontrado...

— Estou sabendo.

— Eu não tenho mais acesso a esse relatório.

— Nem eu. Os dois exemplares, o do Blomkvist e o da irmã dele, se perderam.

— Se perderam? — Bublanski surpreendeu-se.

— O exemplar do Blomkvist foi roubado depois de invadirem a casa dele, e a cópia de Annika Giannini sumiu quando ela sofreu uma agressão em Gõteborg. Os dois roubos ocorreram no mesmo dia em que o Zalachenko foi assassinado.

Bublanski ficou um longo tempo em silêncio.

— Por que a gente não ouviu falar disso?

— Como diz o Mikael Blomkvist: só existe um momento certo para publicar, e um número incalculável de momentos inadequados.

— Quer dizer que vocês... que ele pretende publicar? Armanskij assentiu rapidamente com a cabeça.

— Uma agressão em Gõteborg e uma invasão de domicílio aqui em Estocolmo. No mesmo dia. Bublanski, isso significa que os nossos adversários são bem organizados. Posso também te dizer que temos provas de que o telefone da Giannini estava grampeado.

— Alguém anda cometendo um bocado de infrações por aqui.

— A questão, então, é descobrir quem são nossos adversários — disse Dragan Armanskij.

- É verdade, eu também acho. À primeira vista, a Sapo é quem teria interesse em abafar o relatório do Bjõrck. Mas, Dragan... estamos falando na polícia de Segurança sueca. Trata-se de uma autoridade de Estado. Custo a acreditar que este caso conte com o aval da Sapo. Nem sequer acredito que e]a tenha competência para orquestrar uma coisa assim.

— Eu sei. Também custei a acreditar. Sem falar no fato de um homem entrar no Sahlgrenska e enfiar uma bala na cabeça do Zalachenko.

Bublanskí calou-se. Armanskij deu a última cartada.

— E no meio disso tudo o Bjõrck resolve se enforcar.

— Quer dizer que você acha que foram assassinatos organizados. Eu conheço o Marcus Ackerman, que era responsável pela investigação em Gõteborg. Ele não descobriu nada indicando que aquele assassinato pudesse ser mais que o gesto impulsivo de um indivíduo insano. E a gente investigou minuciosamente a morte de Bjõrck. Tudo leva a crer que foi suicídio.

Armanskij balançou a cabeça.

— Evert Gullberg, setenta e oito anos, com câncer e condenado à morte, tratado de uma depressão poucos meses antes do assassinato. Pedi que o Fráklund revirasse os documentos oficiais atrás de tudo o que se relaciona com o Gullberg.

— E?

— Ele fez o serviço militar em Karlskrona nos anos 1940, depois cursou direito e virou consultor fiscal no mercado privado. Teve um escritório aqui em Estocolmo por mais de trinta anos, discreto, clientes particulares... não se sabe quem eram. Aposentou-se em 1991. Voltou para a sua cidade natal, Laholm, em 1994... Nada que chame muita atenção.

— Mas?

— A não ser por uns detalhes intrigantes. O Frãklund não consegue encontrar uma única referência a Gullberg em nenhum tipo de contexto. Ele nunca foi mencionado na imprensa e ninguém sabe quem eram seus clientes. É como se ele nunca tivesse existido na vida profissional.

— O que você está tentando dizer?

— A Sapo é a ligação óbvia. O Zalachenko era um dissidente russo, e quem teria lidado com ele se não a Sapo? Há também essa capacidade para Orquestrar o internamento psiquiátrico da Lisbeth Salander em 1991. Sem talar em roubo a domicílio, agressão e escutas telefônicas quinze anos depois... Mas também não acho que a Sapo é que esteja por trás disso tudo. O Mikael Blomkvist o chama de Clube Zalachenko... um grupinho de sectários formado por combatentes da guerra fria saídos da hibernação e escondidos em algum lugar num corredor escuro da Sapo.

Bublanski meneou a cabeça.

— Então, o que a gente pode fazer?

DOMINGO 15 DE MAIO - SEGUNDA-FEIRA 16 DE MAIO

O delegado Torsten Edklinth, chefe do serviço de Proteção à Constituição na DGPN/Sapo, beliscou o lóbulo da orelha e contemplou, pensativo, o presidente da respeitada empresa de segurança privada Milton Security, que havia ligado e, sem preâmbulos, insistido que ele fosse jantar em sua casa, em Lindingõ, no domingo. Ritva, a mulher de Armanskij, servira uma deliciosa carne salteada. Eles tinham comido e conversado educadamente. Edklinth se perguntava o que Armanskij teria em mente. Após o jantar, Ritva se retirara para a frente da tevê e os deixara a sós à mesa de jantar. Armanskij começara a contar a história de Lisbeth Salander.

Edklinth girava lentamente sua taça de vinho tinto.

Dragan Armanskij não era nenhum maluco. Isso ele sabia.

Conheciam-se havia doze anos, desde que uma deputada de esquerda recebera uma série de ameaças de morte anônimas. Ela relatara os fatos ao presidente do grupo do seu partido, o qual informara o setor de segurança do Parlamento. Tratava-se de ameaças escritas, vulgares, contendo informações que indicavam que o autor anônimo conhecia certos aspectos pessoais da vida da deputada. A Sapo então se debruçara sobre a história e, durante as averiguações, a deputada fora mantida sob proteção.

Naquela época, Proteção à Pessoa era o setor da Sapo com orçamento mais magro. Seus recursos eram limitados. A área era encarregada da proteção da família real e do primeiro-ministro, além de, individualmente, ministros e presidentes de partidos políticos, quando houvesse necessidade. Como essas necessidades costumam extrapolar as verbas, na prática a maioria dos políticos suecos carece de uma proteção pessoal rigorosa. A deputada ficava sob vigilância durante algumas aparições oficiais, mas era abandonada no fim de sua jornada de trabalho, ou seja, na hora em que era mais provável que um biruta partisse para a agressão. A desconfiança da deputada em relação à capacidade da Sapo de protegê-la só fora crescendo.

Ela morava numa mansão em Nacka. Certa noite, ao voltar tarde para casa depois de uma contenda na Comissão de Finanças, descobriu que alguém tinha arrombado as portas do terraço, penetrado na sala, pixado as paredes com expressões de cunho sexual degradantes e em seguida ido ao seu quarto se masturbar. Ela pegara imediatamente o telefone e pedira que a Milton Security cuidasse de sua segurança pessoal. Não informou a Sapo sobre a decisão e, no dia seguinte, enquanto ela dava uma palestra numa escola de Táby, houve um confronto entre os agentes do Estado e os agentes privados.

Na época, Torsten Edklinth era chefe-adjunto interino da Proteção à Pessoa. Detestava, instintivamente, situações em que hooligans privados eram encarregados de executar tarefas que os hooligans pagos pelo Estado supostamente deveriam executar. Admitia, porém, que a deputada tinha todos os motivos para estar descontente — sua cama manchada era uma prova suficiente da ineficiência do Estado. Em vez de se começar a comparar seus talentos recíprocos, Edklinth se acalmara e marcara um almoço com o dono da Milton Security, Dragan Armanskij. Concluíram que a situação era sem dúvida mais séria do que a Sapo de início imaginara e que seria o caso de reforçar a proteção à deputada. Edklinth era sensato o bastante para perceber que não só os homens de Armanskij tinham a competência exigida para a tarefa, como possuíam uma formação no mínimo equivalente e um equipamento técnico superior. Tinham resolvido o problema entregando à equipe de Armanskij a responsabilidade pela proteção pessoal, ao passo que a Polícia de Segurança se encarregaria da investigação propriamente dita e pagaria a conta.

Os dois homens tinham descoberto também que se apreciavam mutuamente e trabalhavam bem em conjunto. Com o passar dos anos, haviam tornado a se encontrar em outras colaborações. Edklinth, portanto, nutria imenso respeito pela competência profissional de Dragan Armanskij, e quando este o convidou para jantar, pedindo que tivessem uma conversa confidencial estava absolutamente disposto a ouvi-lo.

Em compensação, não estava preparado para que Armanskij lhe jogasse no colo uma bomba com o pavio aceso.

— Se entendi direito, você está afirmando que a Polícia de Segurança anda envolvida numa atividade claramente criminosa.

— Não — disse Armanskij. — Você não entendeu nada. Estou afirmando que algumas pessoas, funcionários da Polícia de Segurança, andam envolvidos nessa atividade. Não acredito nem por um segundo que eles tenham o aval da direção da Sapo ou qualquer outra forma de autorização do Estado.

Edklinth olhou para as fotografias de Christer Malm que mostravam o homem subindo num carro cujas placas começavam com as letras KAB.

— Dragan... você não está de brincadeira comigo?

— Bem que eu gostaria que fosse brincadeira. Edklinth refletiu um instante.

— E como você supõe que eu vou me sair dessa?

No dia seguinte, Torsten Edklinth limpava cuidadosamente seus óculos, enquanto refletia. Tinha cabelos grisalhos, orelhas grandes e uma fisionomia enérgica. No momento, porém, sua fisionomia estava mais perplexa do que enérgica. Encontrava-se em sua sala no Palácio da Polícia, na ilhota de Kungsholmen, e passara boa parte da noite ruminando as conclusões a serem tiradas da informação fornecida por Dragan Armanskij.

Eram reflexões pouco agradáveis. A Sapo era uma instituição sueca que, com raras exceções, todos os partidos consideravam de um valor inestimável para o país. Mas também era uma instituição de que todos pareciam desconfiar, responsabilizando-a pelos mais variados e descabidos planos conspiratórios. Era inegável que os escândalos tinham sido muitos, sobretudo nos anos 1970, com os radicais de esquerda, quando certos... disparates constitucionais haviam de fato ocorrido. Mas depois de cinco comissões públicas de inquérito sobre a Sapo, duramente criticada, surgira uma nova geração de funcionários. Elementos trabalhadores, recrutados nas brigadas financeiras, de armas e fraudes da polícia comum — policiais acostumados a investigar crimes de verdade e não fantasias políticas.

A Sapo se modernizara, e a ênfase fora direcionada para a Proteção à Constituição. Sua missão, tal como estabelecida nas diretrizes governamentais, era prevenir e contornar ameaças à segurança interna do país. Em outras palavras, impedir toda atividade ilegal que se utilize de violência, ameaças ou constrangimento com o objetivo de alterar nossa Constituição, levando órgãos políticos ou autoridades decisórias a tomar decisões orientadas ou impedir o cidadão de desfrutar das liberdades e dos direitos que a Constituição lhe garante.

A missão de Proteção à Constituição era, portanto, defender a democracia sueca de complôs antidemocráticos reais ou imaginados. Estes últimos eram esperados, principalmente, de anarquistas e nazistas. Anarquistas, porque eles insistiam em praticar a desobediência civil provocando incêndios criminosos nas lojas de peles. Nazistas, porque eram nazistas e, portanto, por definição, adversários da democracia.

Formado inicialmente em direito, Torsten Edklinth começara sua carreira como procurador, trabalhando em seguida na Sapo por vinte e um anos. Primeiro em campo, como administrador da Proteção à Pessoa, depois na Proteção à Constituição, onde ascendera da análise e direção administrativa até a poltrona de chefe de gabinete. Em outras palavras, era o chefe supremo da área policial da defesa da democracia sueca. O delegado Torsten Edklinth considerava-se um democrata. Nesse sentido, a definição era simples. A Constituição era votada pelo Parlamento, e sua missão era zelar para que ela se mantivesse intacta.

A democracia sueca se fundamenta numa única lei, que pode ser resumida em três letras: YGL, abreviação de yttrandefrihetsgrundlagen, a lei fundamental sobre liberdade de expressão. A YGL estabelece o direito imprescritível de dizer, ter como opinião, pensar e acreditar em qualquer coisa. Esse direito é concedido a todos os cidadãos suecos, do nazista mais retardado ao anarquista apedrejador, passando por todos os intermediários.

Todas as outras leis fundamentais, como por exemplo a Constituição, não passam de floreios de ordem prática em torno da liberdade de expressão. A YGL, por conseguinte, é a lei que garante a sobrevivência da democracia. Edklinth julgava que sua principal tarefa era defender a liberdade que os suecos tinham de pensar e dizer exatamente o que queriam, mesmo ele não partilhasse um segundo sequer com o teor desses pensamentos e declarações.

Tal liberdade, no entanto, não significa que tudo seja permitido, o que alguns xiitas da liberdade de expressão, notadamente pedófilos e grupos racistas procuram fazer valer no debate da política cultural. Toda democracia tem seus limites, e os limites da YGL são regulados pela lei da liberdade de imprensa, a tryckfrihetsfõrordningen, ou TF, que em princípio define quatro restrições dentro da democracia. E proibido publicar pornografia envolvendo crianças e determinadas cenas de violência sexual, qualquer que seja o nível artístico reivindicado pelo autor. E proibido estimular a revolta e incitar o crime. E proibido difamar e caluniar um concidadão. E é proibido incitar o ódio racial.

A liberdade de imprensa também foi ratificada pelo Parlamento e constitui uma restrição à democracia social e democraticamente aceitável, ou seja, o contrato social que estabelece os padrões de uma sociedade civilizada. Em essência, a legislação assegura que ninguém tem o direito de perseguir ou humilhar outro ser humano.

Posto que a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa são garantidas por leis, há que haver uma autoridade que assegure a obediência a essas leis. Na Suécia, essa função é partilhada por duas instituições, cabendo a uma delas, o justitiekanslern, ou JK, o chanceler da justiça, autuar judicialmente os contraventores da liberdade de imprensa.

Nesse aspecto, Torsten Edklinth estava longe de se sentir satisfeito. Achava o JK muitíssimo condescendente no tocante às autuações judiciais referentes a infrações diretas cometidas contra a Constituição sueca. O JK costumava retrucar que o princípio da democracia tinha tamanha importância que só em casos extremos ele podia intervir e mover um processo. Tal atitude, porém, vinha sendo mais e mais contestada nos últimos anos, principalmente depois que o secretário-geral do comitê de Helsinque na Suécia, Robert Hârdh, desenterrara um relatório analisando a falta de iniciativa do JK ao longo de vários anos. O relatório constatava que era praticamente impossível mover um processo e condenar alguém por incitação ao ódio racial.

A segunda instituição era o departamento da Sapo para a Proteção à Constituição, e o delegado Torsten Edklinth levava muito a sério a sua missão. Julgava que era o mais belo cargo, e o mais importante, que um policia sueco poderia ocupar, e não o teria trocado por nenhum outro em toda a Suécia judicial ou policial. Ele era simplesmente o único policial do país que tinha por missão cumprir o papel de policial político. Era uma função delicada que exigia grande sabedoria e um senso de justiça extremamente acurado já que a experiência de vim número excessivo de países mostrava que uma polícia política podia com facilidade se transformar na maior ameaça contra a democracia.

A mídia e a população pensavam que o principal objetivo da Proteção à Constituição era administrar nazistas e militantes vegetarianos. Esse tipo de manifestante decerto interessava muitíssimo à Proteção à Constituição, mas existia, além disso, toda uma série de instituições e acontecimentos que também faziam parte das atribuições do departamento. Se, por exemplo, o rei ou do comandante em chefe do Exército pusesse na cabeça que o sistema parlamentar estava superado e que o Parlamento deveria ser substituído por uma ditadura militar, a Proteção à Constituição ficaria imediatamente de olho no rei ou no comandante em chefe. E se um grupo de policiais resolvesse interpretar livremente a lei a tal ponto que os direitos constitucionais de um indivíduo ficassem prejudicados, cabia também à Proteção à Constituição reagir. Além disso, em casos graves, a investigação ficava sob as ordens do procurador-geral da nação.

O problema, evidentemente, era que a Proteção à Constituição tinha a tarefa quase que apenas de análise e averiguação, e nenhuma ação de intervenção. Por isso, em geral, era a polícia comum ou outras divisões da Sapo que intervinham quando da prisão de nazistas.

Torsten Edklinth julgava essa realidade profundamente insatisfatória. Quase todos os países normais mantêm, de uma forma ou de outra, um tribunal constitucional independente com o objetivo específico de zelar para que as autoridades não lesem a democracia. Na Suécia, essa função era confiada ao procurador-geral da Coroa, ou o justitieombudsman, um indivíduo designado pelo Parlamento para cuidar que os funcionários do Estado respeitassem a lei no exercício de suas funções, tendo, porém, de se conformar às decisões de outros indivíduos. Se a Suécia tivesse um tribunal constitucional, a advogada de Lisbeth Salander poderia ter movido imediatamente um processo contra o Estado sueco por violação de direitos constitucionais. O tribunal poderia, assim, ter exigido a apresentação de todos os documentos ter intimado qualquer pessoa, inclusive o primeiro-ministro, até que o caso fosse solucionado. Na atual situação, a advogada poderia, a rigor, alertar o institieombudsman, o qual, contudo, não tinha autoridade para ir até a Sapo e exigir examinar os documentos.

Torsten Edklinth fora durante vários anos um caloroso defensor da implantação de um tribunal constitucional. Se fosse assim, ele poderia lidar de uma forma muito simples com a informação repassada por Dragan Armanskij, dando um depoimento à polícia e comunicando os fatos ao tribunal. Desse modo, um processo inexorável seria posto em andamento.

No atual estado de coisas, Torsten Edklinth não possuía competência jurídica para abrir um inquérito preliminar.

Ele suspirou e serviu-se de uma pitada de rape.

Caso as informações de Dragan Armanskij procedessem, isso significava que alguns ocupantes de cargos superiores da Sapo haviam fechado os olhos para uma série de delitos graves contra uma mulher sueca, e mais tarde tinham mandado internar sua filha, com bases falsas, num hospital psiquiátrico e, por fim, tinham deixado livre um ex-espião da elite russa, para que ele se dedicasse ao tráfico de armas, de drogas e de mulheres. Torsten Edklinth fez uma careta. Nem queria começar a contar quantas infrações à lei não teriam ocorrido ao longo do caminho. Para não falar no roubo ao domicílio de Mikael Blomkvist, na agressão à advogada de Lisbeth Salander e talvez até — o que Edklinth se negava a acreditar — em cumplicidade no assassinato de Alexander Zalachenko.

Torsten Edklinth não tinha a menor vontade de se envolver numa confusão daquelas. Infelizmente, porém, já fora envolvido desde o instante em que Dragan Armanskij o convidara para jantar.

A questão agora era descobrir uma maneira de administrar a situação. Formalmente, a resposta era simples. Se o relato de Armanskij fosse verídico, as liberdades e os direitos constitucionais de Lisbeth Salander tinham sido completamente desrespeitados. O mais provável era topar com um autêntico ninho de cobras, considerando-se que órgãos políticos ou autoridades com poder de decisão podiam ter sido influenciados em suas sentenças, o que punha o dedo no cerne das funções da Proteção à Constituição. Torsten Edklinth era um policial com conhecimento de um crime, e seu dever, portanto, seria alertar um procurador. De modo mais informal, a resposta não era tão simples. Era, por sinal, bastante complicada.

A inspetora Rosa Figuerola, apesar de seu nome incomum, nascera na Dalecarlia, numa família estabelecida na Suécia desde os tempos de Gustavo Vasa. Era uma dessas mulheres em que as pessoas reparam, e por diversos motivos. Tinha trinta e seis anos, olhos azuis, e não media menos de um metro e oitenta e quatro. Era bonita, e seu jeito de se vestir a tornava ainda mais atraente.

E tinha o corpo excepcionalmente bem definido.

Na adolescência, praticara atletismo de alto nível e, aos dezessete anos, por pouco não se classificara pela equipe sueca para os Jogos Olímpicos. De lá para cá, abandonara o atletismo, mas malhava cinco vezes por semana feito uma condenada numa academia. Malhava com tanta freqüência que as endorfinas funcionavam como droga, o que a deixava em abstinência quando interrompia as atividades físicas. Praticava corrida e musculação, jogava tênis, lutava caratê e, além disso, já se dedicara ao bodybuilding por dez anos. Contudo, reduzira consideravelmente essa variante extrema do culto ao corpo dois anos antes, numa época em que ficava duas horas por dia puxando ferro. Atualmente, cumpria apenas uma meia horinha diária, mas sua forma física era tal, e seu corpo tão musculoso, que alguns colegas pouco simpáticos a chamavam de Sr. Figuerola. Quando vestia regatas ou vestidos de verão, ninguém conseguia não reparar em seus bíceps e deltóides.

Sua constituição física, portanto, incomodava vários de seus colegas homens, e também o fato de seu papel não ser meramente decorativo. Concluíra o secundário com as melhores notas e aos vinte anos ingressara na Escola de Polícia, trabalhando depois por nove anos na polícia de Uppsala, enquanto em seu tempo livre estudava direito. Só por brincadeira, prestara exame para Ciências Políticas, e também passara. Não tinha o menor problema em memorizar e analisar dados. Raramente lia romances policiais ou qualquer literatura de lazer. Em compensação, mergulhava com o maior interesse nos assuntos mais variados, do direito internacional à história da Antigüidade.

Na polícia, deixara de ser agente — o que representara uma perda imensa para a segurança das ruas de Uppsala — para assumir o cargo de inspetora criminal, primeiro na Brigada Criminal, depois na brigada especializada em crimes financeiros. Em 2000, solicitara um posto na Polícia de Segurança de Uppsala e, em 2001, fora transferida para Estocolmo. Começara trabalhando na contra-espionagem, mas fora quase imediatamente chamada para a Proteção à Constituição por Torsten Edklinth, que conhecia o pai de Rosa Figuerola e acompanhara a carreira dela ao longo dos anos.

Quando Edklinth finalmente concluiu que precisava agir com rapidez a respeito da informação fornecida por Dragan Armanskij, refletiu um momento, e então pegou o telefone e convocou Rosa Figuerola para sua sala. Como ainda não fazia três anos que ela trabalhava na Proteção à Constituição, Figuerola ainda estava mais próxima de uma autêntica policial que de uma burocrata escaldada.

Naquele dia, usava uma calça jeans justa, sandálias de saltinho turquesa e uma jaqueta azul-marinho.

— No momento, você está trabalhando em quê? — perguntou Edklinth cumprimentando-a, para então convidá-la a sentar-se.

— Estamos investigando o assalto àquela mercearia de Sunne, sabe, que aconteceu há duas semanas.

Certamente não era papel da Sapo se encarregar de assaltos a mercearias. Esse tipo de trabalho de base cabia exclusivamente à polícia comum. Rosa Figuerola coordenava, na Proteção à Constituição, uma área com cinco colaboradores que lidava com análise de criminalidade política. Sua ferramenta mais importante era um certo número de computadores em rede com o arquivo dos incidentes relatados pela polícia comum. Praticamente todos os depoimentos dados à polícia, em qualquer ponto da Suécia, passavam pelos computadores chefiados por Rosa Figuerola. Esses computadores continham um software que rastreava automaticamente todos os relatórios policiais e era programado para reagir a trezentas e dez palavras específicas, tais como turco, skinhead, suástica, imigrante, anarquista, saudação hitleriana, nazista, nacional-democrata, traidor da pátria, puta judia ou muçulmano. Assim que uma palavra desse tipo aparecia num relatório policial, o computador dava o alerta e o relatório em questão era baixado e examinado de perto. Caso o contexto justificasse, era possível pedir acesso ao inquérito preliminar e aprofundar as investigações.

Uma das tarefas da Proteção à Constituição era publicar anualmente um relatório intitulado Ameaças à segurança de Estado, que constituía no único levantamento estatístico confiável sobre criminalidade política. Essa estatística baseava-se exclusivamente nos depoimentos colhidos nas delegacias locais. No caso do assalto à mercearia de Sunne, o software reagira a três palavras-chave — imigrante, dragona e turco. Dois jovens, usando máscaras e armados com uma pistola, tinham limpado a mercearia, de propriedade de um imigrante. Levaram a quantia de 2780 coroas e um pacote de cigarros. Um dos delinqüentes usava uma jaqueta de couro com dragonas representando a bandeira sueca. O outro bandido tinha gritado várias vezes "seu turco de merda" para o proprietário da loja e o obrigara a se deitar no chão.

Era o que bastava para a equipe de Figuerola acessar o inquérito preliminar com o objetivo de descobrir se os ladrões estavam mancomunados com as gangues nazistas do Vármland, e nesse caso, se o assalto poderia ser considerado crime racial, já que um dos ladrões se expressara nesse sentido. Conforme o caso, o assalto poderia constar em estatísticas futuras, que mais tarde seriam analisadas e lançadas na estatística européia que os escritórios da União Européia de Viena preparavam todos os anos. Poderia também acontecer de os ladrões serem escoteiros que tinham comprado uma jaqueta com a bandeira sueca e que não passasse de mero acaso o proprietário da loja ser um imigrante e a palavra "turco" ter sido pronunciada. Se assim fosse, a área de Figuerola apagaria aquele assalto das estatísticas.

— Tenho uma missão arriscada para você — disse Torsten Edklinth.

— Ah, é? — fez Rosa Figuerola.

— Um serviço que pode te jogar no mais profundo descrédito ou até afundar sua carreira.

— Entendo.

— Mas se você for bem-sucedida e as coisas acontecerem do jeito certo, pode significar um passo enorme na sua carreira. Pretendo transferir você para a unidade de intervenção da Proteção à Constituição.

— Lamento informar, mas a Proteção à Constituição não tem unidade de intervenção.

— Tem, sim — disse Torsten Edklinth. — Agora tem. Eu criei essa unidade hoje de manhã. Por enquanto, conta com uma só pessoa. Você.

Rosa Figuerola pareceu hesitar.

—A tarefa da Proteção à Constituição é proteger a Constituição de ameaças internas, o que, grosso modo, quer dizer nazistas e anarquistas. Mas o que a gente faz se a ameaça à Constituição vier da nossa própria organização?

Torsten Edklinth passou a meia hora seguinte contando em detalhe a história que Dragan Armanskij lhe relatara na noite anterior.

— Quem é a fonte dessas informações? — perguntou Rosa Figuerola.

— Por enquanto não tem a menor importância. Concentre-se na informação que temos.

— O que eu quero saber é se você confia nessa fonte.

— Conheço essa fonte há muitos anos e considero-a extremamente confiável.

— Isso tudo é simplesmente... bem, não sei. Se eu chamar de "inverossímil", vai ser pouco.

Edklinth meneou a cabeça.

— Como um romance de espionagem — disse ele.

— Bem, e o que você quer de mim?

— A partir de agora, está desligada de todas as suas demais missões. Agora você só tem uma: descobrir até que ponto essa história é verdadeira. Ou você confirma, ou rejeita essas afirmações. Preste contas diretamente para mim, e para mais ninguém.

— Meu Deus — disse Rosa Figuerola. —Agora entendo o que você quis dizer quando avisou que eu poderia me queimar.

— E. Mas se for verdade... se uma parte mínima dessas informações for verdade, estaremos diante de uma crise constitucional que vamos ter de administrar.

— Por onde eu começo? E como?

— Comece pelo mais simples. Leia o tal relatório que o Gunnar Bjõrck escreveu em 1991. Em seguida, identifique o pessoal que estaria vigiando o Mikael Blomkvist. De acordo com a minha fonte, o proprietário do carro é um tal de Gõran Mârtensson, um policial de quarenta anos que mora na Vittangi-gatan, em Vàllingby. Depois disso, identifique o outro cara que aparece nas fotos tiradas pelo fotógrafo do Mikael Blomkvist. O mais jovem, este loiro aqui.

— Certo.

— Depois, levante o passado do Evert Gullberg. Nunca ouvi falar nesse sujeito, mas, pelo que diz minha fonte, ele necessariamente tem uma ligação com a Polícia de Segurança.

— O que significaria que alguém daqui teria encomendado o assassinato de um espião a um velho de setenta e oito anos. Não acredito.

— Mesmo assim, verifique. E sua investigação deve ser sigilosa. Antes de tomar qualquer atitude, quero ser informado. Não quero nenhum furo.

— Você está me pedindo uma investigação gigantesca. Como é que vou fazer tudo isso sozinha?

— Você não vai fazer sozinha. Só vai cuidar dessa primeira investigação. Se me disser que não descobriu nada, fica por isso mesmo. Se descobrir qualquer coisa suspeita, aí a gente vê.

Rosa Figuerola passou o intervalo do almoço puxando ferro na academia do Palácio da Polícia. Seu almoço propriamente dito consistia num café preto e num sanduíche de almôndegas com salada de beterraba, que ela foi comer em sua sala. Fechou a porta, abriu espaço na mesa e começou a ler o relatório de Gunnar Bjôrck enquanto comia o sanduíche.

Leu também o anexo com a correspondência entre Bjõrck e o Dr. Peter Teleborian. Anotou todos os nomes e fatos do relatório que seriam objeto de investigação. Ao fim de duas horas, levantou-se e foi até a máquina buscar mais um café. Ao sair da sala, trancou a porta, seguindo um dos procedimentos rotineiros da Sapo.

Primeiro, conferiu o número do cadastro. Ligou para o arquivista, que confirmou não existir nenhum relatório com aquele número. Segundo, consultou os arquivos da imprensa, o que foi mais proveitoso. Os dois jornais vespertinos e um matutino mencionavam uma pessoa gravemente ferida no incêndio de um carro na Lundagatan naquele dia de 1991. A vítima era um homem de meia-idade cujo nome não era citado. Um dos vespertinos publicava o relato de uma testemunha dizendo que o incêndio fora provocado por uma garota. Seria, portanto, o famoso coquetel Molotov que Lisbeth Salan-der teria jogado num agente russo chamado Zalachenko. Em todo caso, o incidente parecia ter ocorrido de fato.

Gunnar Bjòrck, autor do relatório, era um indivíduo de carne e osso conhecido, com poder de decisão e um alto cargo na Brigada dos Estrangeiros. Ele estava de licença médica, quando, infelizmente, se suicidara.

O departamento pessoal, contudo, não podia dizer nada sobre as atividades de Gunnar Bjòrck em 1991. Eram informações sigilosas até para os colaboradores da Sapo. Tudo muito normal.

Foi fácil verificar que Lisbeth Salander morava na Lundagatan em 1991 e que passara os dois anos seguintes na ala de psiquiatria infantil da clínica Sankt Stefan. Pelo menos até aí, a realidade não parecia contradizer o relatório.

Peter Teleborian era um psiquiatra conhecido, com freqüentes aparições na tevê. Trabalhara na Sankt Stefan em 1991, sendo hoje em dia seu médico-chefe.

Rosa Figuerola refletiu demoradamente no significado daquele relatório. Depois, ligou para o chefe-adjunto do departamento pessoal.

— Tenho uma pergunta cabeluda para lhe fazer — ela disse.

— Qual?

— Estamos com um caso de análise aqui na Proteção à Constituição. Trata-se de avaliar a credibilidade de uma pessoa e sua saúde psíquica. Eu precisaria consultar um psiquiatra, ou algum outro especialista habilitado em lidar com informações consideradas sigilosas. Me falaram no doutor Peter Teleborian e eu queria saber se posso recorrer a ele.

A resposta custou um pouco a chegar.

— O doutor Peter Teleborian atuou como consultor externo da Sapo em algumas ocasiões. Ele está autorizado e, em termos gerais, você pode conversar com ele sobre informações sigilosas. Mas antes de entrar em contato com ele, você vai precisar seguir alguns procedimentos administrativos. O seu chefe tem que dar o aval e entrar com um pedido formal para você poder consultar o Teleborian.

O coração de Rosa Figuerola pôs-se a bater mais depressa. Ela acabava de obter a confirmação de algo que pouquíssima gente devia saber. Peter Teleborian já fora ligado à Sapo. O que reforçava a credibilidade do relatório.

Ela abandonou um pouco aquele ponto e passou para outros aspectos do dossiê que Torsten Edklinth lhe passara. Examinou as duas pessoas das fotos tiradas por Christer Malm, que teriam seguido Mikael Blomkvist depois de ele sair do Café Copacabana em 1º. de maio.

Consultou o cadastro de emplacamentos e constatou que Gõran Mârtensson existia de fato e era proprietário de um Volvo cinza com a placa mencionada. Em seguida, o departamento pessoal da Sapo confirmou que ele era um de seus funcionários. Aquele era o controle mais elementar que ela poderia fazer, e essa informação também parecia correta. Seu coração bateu um pouco mais rápido.

Gõran Mártensson trabalhava no serviço de Proteção à Pessoa. Era guarda-costas. Fazia parte do grupo de colaboradores que em diversas ocasiões respondera pela segurança do primeiro-ministro. Havia algumas semanas, porém, estava temporariamente locado na contra-espionagem. Sua licença tivera início em 10 de abril, poucos dias depois de Alexander Zalachenko e Lisbeth Salander terem dado entrada no Hospital Sahlgrenska, mas transferências desse tipo eram bastante comuns, caso faltasse pessoal para um caso urgente.

Rosa Figuerola ligou em seguida para o chefe-adjunto da contra-espionagem, um homem que ela conhecia pessoalmente e para quem trabalhara durante sua breve passagem pelo departamento. Perguntou se Gõran Mártensson estava trabalhando num caso importante ou se poderia ficar à disposição da Proteção à Constituição para uma investigação.

O chefe-adjunto da contra-espionagem ficou perplexo. Ela devia ter sido mal informada. Gõran Mártensson, da Proteção à Pessoa, nunca trabalhara na contraespionagem. Sinto muito.

Rosa Figuerola colocou o fone no gancho e ficou dois minutos contemplando o aparelho. Na Proteção à Pessoa, achavam que Mártensson estava locado na contra-espionagem. Na contra-espionagem, ninguém solicitara seus serviços. Transferências desse tipo eram concedidas e administradas pelo secretário-geral. Estendeu a mão para telefonar para o secretário-geral, mas mudou de idéia. Se a Proteção à Pessoa cedera Mártensson, o secretário-geral necessariamente dera o aval. Mártensson, porém, não se encontrava na contra-espionagem. O que devia ser do conhecimento do secretário-geral. E se Mártensson estava à disposição de um departamento que vinha seguindo Mikael Blomkvist, o secretário-geral também devia saber disso.

Torsten Edklinth lhe pedira para não deixar furos. Fazer essa pergunta ao secretário-geral seria como jogar um enorme paralelepípedo numa poça d'água.

Erika Berger sentou-se à sua mesa no aquário, pouco depois das dez e meia da manhã de segunda-feira, e suspirou profundamente. Estava bem precisada da xícara de café que acabava de trazer da sala dos funcionários. Passara as primeiras horas do seu dia de trabalho em duas reuniões. A primeira, uma reunião de quinze minutos em que o assistente de redação Peter Fredriksson apresentara as principais linhas de trabalho do dia. Considerando-se sua falta de confiança em Lukas Holm, vinha sendo cada vez mais obrigada a se fiar no julgamento de Fredriksson.

A segunda reunião, que se estendera por mais de uma hora, fora com o presidente do conselho administrativo, Magnus Borgsjõ, o diretor financeiro do SMP, Christer Sellberg, e o responsável pelo orçamento, Ulf Flodin. Tinham passado em revista a baixa do mercado de anúncios e a queda das vendas por exemplar. O chefe de orçamento e o diretor financeiro se uniam para pedir medidas que reduzissem o déficit do jornal.

— Este ano, só fechamos o primeiro trimestre graças a uma pequena alta do mercado de anúncios e à aposentadoria de dois funcionários no Ano--Novo. Os dois cargos tinham ficado vagos, dissera Ulf Flodin. Vamos, sem dúvida, conseguir fechar o atual trimestre com um déficit insignificante. Mas, ao que tudo indica, os jornais gratuitos Metro e Stockholm City continuam beliscando o mercado de anúncios de Estocolmo. Nosso prognóstico é que o terceiro trimestre do ano vai registrar um déficit acentuado.

— E qual será nossa resposta? — perguntara Borgsjõ.

— A única solução lógica seria realizar cortes radicais. Não tivemos nenhuma demissão desde 2002. Calculo que, antes do final do ano, pelo menos dez cargos precisem ser eliminados.

— Quais? — perguntara Erika Berger.

— Vamos ter que cortar a gordura e escolher um cargo aqui, outro ali. Esportes dispõe no momento de seis cargos e meio. A idéia é conseguir reduzir para cinco cargos de período integral.

— Se entendi direito, o pessoal de Esportes já está sobrecarregado. Isso significaria então uma redução na cobertura dos eventos esportivos.

Flodin dera de ombros.

— Se tiver alguma idéia melhor, sou todo ouvidos.

— Não tenho nenhuma idéia melhor, mas o princípio é que, se reduzirmos o pessoa, vamos ter que fazer um jornal mais fino, e se fizermos um jornal mais fino o número de leitores vai diminuir e, conseqüentemente, o número de anunciantes também.

— O eterno círculo vicioso — dissera o diretor financeiro, Sellberg.

— Fui contratada para inverter essa tendência, e isso significa apostar todas as minhas fichas na ofensiva com o objetivo de introduzir mudanças no jornal e torná-lo mais atraente para os leitores. Mas não posso fazer isso cortando pessoal.

Ela se voltara para Borgsjõ.

— O jornal pode sangrar durante quanto tempo? Que déficit podemos agüentar antes de chegarmos a um ponto sem volta?

Borgsjõ fizera um muxoxo.

— Desde o início dos anos 1990, o SMP vem mordendo boa parte dos seus fundos. Nossa carteira de ações perdeu quase trinta por cento do valor nos últimos dez anos. Muitos desses fundos foram usados para investimentos na área de informática. Ou seja, realmente despesas vultosas.

— Reparei que o SMP desenvolveu seu próprio programa de textos, essa coisa chamada AXT. Quanto custou?

— Em torno de cinco milhões de coroas.

— Para mim, é uma lógica difícil de entender. Existem programas baratos no mercado. Por que o SMP fez questão de desenvolver seu próprio software?

— Erika... eu bem que gostaria que alguém me explicasse. Mas foi o ex--diretor de tecnologia que nos convenceu a fazer isso. Ele dizia que, a longo prazo, acabaríamos ganhando e que, além disso, o SMP poderia vender a licença do software para outros jornais.

— E houve quem comprasse?

— Sim, de fato, um jornal da Noruega.

— Uau, que maravilha! — dissera Erika secamente. — Próxima pergunta: estamos hoje com computadores de cinco, seis anos...

— Está fora de cogitação investir em computadores novos este ano — dissera Flodin.

A discussão prosseguira. Erika percebera muito bem que Flodin e Sellberg ignoravam suas observações. Para eles, o único argumento válido eram os cortes, o que era compreensível para um chefe de orçamento e um diretor financeiro, mas inaceitável para uma nova redatora-chefe. O que a irritara era eles rejeitarem sistematicamente seus argumentos com sorrisos amáveis que faziam com que ela se sentisse uma colegial sendo sabatinada na frente da turma. Sem que uma só palavra inconveniente fosse pronunciada, a atitude deles em relação a ela era tão clássica que chegava a ser cômica. Não canse sua cabecinha com esses assuntos complicados, minha criança.

Borgsjõ não fora de grande auxílio. Mantivera-se na expectativa e deixara os demais participantes dizerem tudo o que tinham para dizer, embora ela não sentisse a mesma atitude aviltante da parte dele.

Suspirou, abriu o celular e verificou seu correio eletrônico. Recebera dezenove e-mails. Quatro eram spams de alguém que queria: 1) que ela comprasse Viagra, 2) propor-lhe um cibersexo com The sexiest Lolitas on the net por apenas quatro dólares por minuto, 3) fazer uma oferta um pouco mais explícita de Animal sex, the juiciest horse fuck in the universe, além de 4) propor uma assinatura da newsletter Mode.nu, editada por uma empresa pirata que inundava o mercado com ofertas promocionais e não parava de lhe mandar aquele lixo, ignorando seus reiterados pedidos. Sete e-mails eram pretensas cartas da Nigéria, enviadas pela viúva do antigo diretor do Banco Nacional de Abu Dhabi, que prometia lhe remeter somas fantásticas desde que ela pudesse investir um pequeno capital no intuito de estabelecer uma confiança recíproca, e outras excentricidades do gênero.

Os demais e-mails eram a pauta da manhã, a pauta do meio-dia, três e-mails de Peter Fredriksson, o assistente de redação, indicando as correções do editorial, um e-mail do seu contador pessoal marcando uma reunião para fazerem os acertos decorrentes da alteração do seu salário com a mudança da Millennium para o SMP, e um e-mail de seu dentista confirmando sua consulta trimestral. Anotou a consulta na agenda eletrônica e percebeu imediatamente que teria de transferi-la, pois já tinha na mesma data uma importante reunião de redação.

Por fim, abriu o último e-mail, enviado por centralred@smpost.se, com o assunto [aos cuidados da redatora-chefe]. Largou, devagar, a xícara de café.

 

[PUTA NOJENTA! QUEM VOCÊ ACHA QUE É, SUA CRETINA, NÃO PENSE QUE PODE IR CHEGANDO ASSIM COM SEU NARIZ EMPINADO. VAI TOMAR UMA CHAVE DE FENDA NA BUNDA, SUA PUTA NOJENTA! MELHOR VOCÊ SE MANDAR BEM RAPIDINHO.]

Erika Berger ergueu os olhos e procurou o chefe de Atualidades, Lukas Holm. Ele não estava à sua mesa e ela não conseguia avistá-lo em nenhum lugar da redação. Conferiu o remetente, pegou o telefone e ligou para Peter Fleming, o diretor de tecnologia do SMP.

— Oi. Quem é o usuário do endereço centralred@smpost.se?

— Ninguém. Não temos esse endereço aqui.

— Pois acabo de receber um e-mail desse endereço.

— Foi forjado. Veio com algum vírus?

— Não. Pelo menos o antivírus não detectou nada.

— Certo. Esse endereço não existe. Mas é muito fácil criar um endereço com jeito de autêntico. Existem sites na rede que transmitem esse tipo de e-mail.

— Há como descobrir a origem dele?

— É quase impossível, mesmo que a pessoa seja idiota o bastante para ter mandado do seu computador pessoal. Pode-se eventualmente seguir a pista do número do IP até um servidor, mas se ele usou uma conta aberta no hotmail, por exemplo, a pista acaba aí.

Erika agradeceu a informação e em seguida refletiu por alguns instantes. Não era a primeira vez que recebia uma mensagem com ameaças ou com o recado de algum maluco. Esse e-mail se referia claramente a seu novo cargo de redatora-chefe no SMP. Ficou imaginando se seria um doido que a identificara no funeral de Morander ou se o remetente trabalhava na empresa.

Rosa Figuerola refletia exaustivamente sobre a forma de agir a respeito de Evert Gullberg. Uma das vantagens de trabalhar na Proteção à Constituição era ela ter legitimidade para consultar praticamente toda investigação policial sueca ligada a um crime racial ou político. Constatou que Alexander Zalachenko era um imigrante, sendo a missão dela, entre outras coisas, examinar a violência exercida contra pessoas nascidas no exterior e determinar possíveis motivações racistas. Estava, portanto, autorizada a ler a investigação sobre o assassinato de Zalachenko para definir se Evert Gullberg estava ligado a alguma organização racista ou expressara opiniões racistas no momento do assassinato. Solicitou a investigação e leu-a atentamente. Deparou com cartas enviadas ao ministro da Justiça e constatou que, além de alguns ataques pessoais degradantes e de caráter revanchista, havia nelas também as expressões "capacho dos turcos" e "traidor da pátria".

A essa altura, já eram cinco da tarde. Rosa Figuerola trancou todo o material no cofre-forte de sua sala, pegou a caneca de café, desligou o computador e bateu o ponto para sair. Andou a passos rápidos até uma academia na Praça de Sankt Erik e dedicou a hora seguinte a um treino soft.

Em seguida, voltou a pé para o seu quarto e sala na Pontonjârgatan, tomou um banho e ingeriu um jantar tardio mas dieteticamente correto. Considerou a possibilidade de ligar para Daniel Mogren, que morava a três prédios dali, na mesma rua. Daniel era marceneiro e bodybuilder e, de três anos para cá, seu colega de treino regular. Nos últimos meses tinham também se encontrado para alguns momentos eróticos entre amigos.

Fazer amor era quase tão satisfatório quanto uma sessão intensa na academia, mas agora que já tinha passado bastante dos trinta e se aproximava dos quarenta, Rosa Figuerola começava a pensar que deveria se interessar por um homem de forma mais permanente e por uma situação mais estável. Quem sabe até ter filhos. Mas não com Daniel Mogren.

Depois de hesitar um pouco, concluiu que, na verdade, não estava querendo ver ninguém. Foi se deitar com um livro sobre história da Antigüidade. Adormeceu pouco antes da meia-noite.

 

TERÇA-FEIRA 17 DE MAIO

Na terça-feira, Rosa Figuerola acordou às seis e dez, fez um jogging puxado ao longo da Norr Mãlarstrand, tomou um banho e às oito e dez bateu o ponto no Palácio da Polícia. Passou a primeira hora da manhã redigindo um relatório com as conclusões a que chegara no dia anterior.

Às nove horas, Torsten Edklinth chegou. Ela esperou vinte minutos, para que ele tivesse tempo de abrir sua correspondência da manhã, e em seguida foi bater à sua porta. Esperou dez minutos enquanto seu chefe lia seu relatório. Ele leu duas vezes as quatro folhas A4 de ponta a ponta. Por fim, ele a fitou.

— O secretário-geral — disse, pensativo. Ela assentiu com a cabeça.

— Ele necessariamente deve ter aprovado a recolocação do Mârtensson. Por conseguinte, deve saber que o Mârtensson não está na contraespionagein, onde, de acordo com a Proteção à Pessoa, deveria estar.

Torsten Edklinth tirou os óculos, pegou um lenço de papel e limpou-os meticulosamente. Pôs-se a refletir. Estivera em reuniões com o secretário-geral Albert Shenke um número incalculável de vezes, mas não podia dizer que o conhecia bem. Era um sujeito relativamente baixo, de cabelos finos e loiro-arruivados, cuja cintura fora crescendo com o passar dos anos. Sabia que Shenke tinha pelo menos cinqüenta e cinco anos e que trabalhara na Sapo por pelo menos vinte e cinco, talvez mais. Era secretário-geral havia dez anos, antes disso fora secretário-geral adjunto ou ocupara outros cargos dentro da administração. Via Shenke como uma pessoa taciturna que não hesitava em recorrer à força. Edklinth não fazia idéia de como Shenke ocupava seu tempo livre, mas lembrava de tê-lo visto certo dia na garagem do Palácio da Polícia, vestido informalmente e carregando tacos de golfe no ombro. Também cruzara com Shenke na ópera uma vez, por acaso, muitos anos antes.

— Uma coisa me chamou a atenção — disse Rosa.

— Estou te escutando.

— Evert Gullberg. Ele fez o serviço militar nos anos 1940, depois virou um advogado especializado em assuntos fiscais e desapareceu nos anos 1950.

— Sim?

— Quando falamos nisso, falamos como se ele tivesse sido um matador de aluguel.

— Sei que pode parecer forçação de barra, mas...

— O que me chamou a atenção é que o passado dele, nos documentos, é tão tênue que parece quase fabricado. Nos anos 1950 e 1960, a Sapo, assim como o serviço secreto do Exército, estabeleceu unidades fora da matriz.

Torsten Edklinth meneou a cabeça.

— Eu estava me perguntando quando ia lhe ocorrer essa possibilidade.

— Preciso de uma autorização para entrar nos arquivos dos funcionários dos anos 1950 — disse Rosa Figuerola.

— Não — disse Torsten Edklinth, balançando a cabeça. — Não dá para entrar nos arquivos sem autorização do secretário-geral, e não queremos chamar a atenção antes de termos algo mais nas mãos.

— Então como a gente faz, na sua opinião?

— Mârtensson — disse Edklinth. — Descubra no que ele está trabalhando.

No seu quarto fechado a chave, Lisbeth Salander examinava cuidadosamente o sistema de ventilação quando ouviu a porta se abrir e o Dr. Anders Jonasson entrou. Passava das dez da noite de terça-feira. Ele interrompeu seus Projetos de fuga do Sahlgrenska.

Depois de medir a parte de ventilação da janela, constatara que conseguiria passar a cabeça e que não deveria encontrar muita dificuldade corri o resto do corpo também. Havia três andares entre ela e o térreo, mas uma combinação de lençóis rasgados com a extensão de três metros de uma lâmpada de apoio deveria resolver o problema.

Em pensamento, já planejara sua fuga nos mínimos detalhes. O problema eram as roupas. Estava usando calcinha e camisola do Conselho Geral e sandálias de plástico emprestadas. Tinha as duzentas coroas em dinheiro que Annika Giannini lhe dera para que pudesse pedir doces no quiosque do hospital. Era o suficiente para comprar uma calça jeans e uma camiseta no Fourmis, desde que conseguisse localizar o brechó em Gõteborg. O restante do dinheiro deveria ser suficiente para ela ligar para Praga. Depois, as coisas entrariam nos eixos. Ela cogitava aterrissar em Gibraltar poucos dias depois da fuga e a partir daí construir uma nova identidade em algum lugar do mundo.

Anders Jonasson fez um gesto de cumprimento com a cabeça e se sentou na poltrona dos visitantes. Ela fez o mesmo em sua cama.

— Olá, Lisbeth. Desculpe não ter tido tempo de vir visitá-la nesses últimos dias, mas me aprontaram horrores no pronto-socorro e, ainda por cima, fui indicado para servir como mentor de dois jovens médicos.

Ela assentiu com a cabeça. Não esperava que o tal Anders Jonasson lhe fizesse visitas pessoais.

Ele pegou a ficha dela e examinou com atenção o gráfico da temperatura e sua medicação. Observou que a temperatura tinha se estabilizado entre 37 e 37,5 graus e que, naquela semana, ela não precisara de analgésicos para a dor de cabeça.

— A sua médica é a doutora Endrin. Você se dá bem com ela?

— Ela é legal — respondeu Lisbeth sem muito entusiasmo.

— Tudo bem se eu examinar você?

Ela fez que sim com a cabeça. Ele tirou do bolso uma lanterna-caneta, inclinou-se sobre ela e iluminou seus olhos para verificar a contração das pupilas. Pediu que ela abrisse a boca e examinou a garganta. Em seguida, pos suavemente as mãos em seu pescoço e virou sua cabeça para a frente e para trás, e depois para os lados, várias vezes.

— Nenhum problema na nuca? — ele perguntou. Ela negou com a cabeça.

- E a dor de cabeça?

- Aparece de vez em quando, mas depois passa.

- O processo de cicatrização ainda não está completo. A dor de cabeça vai sumir aos poucos.

O cabelo dela ainda estava tão curto que ele só precisou afastar um pequeno tufo para apalpar a cicatriz acima da orelha. Não apresentava nenhum problema, mas ainda havia uma casquinha.

— Você andou cocando a ferida de novo. Pare com isso, está ouvindo? Ela concordou com a cabeça. Ele pegou seu cotovelo esquerdo e levantou-lhe o braço.

— Você consegue erguer o braço, sozinha? Ela ergueu o braço.

— Sente alguma dor ou incômodo no ombro? Ela fez que não com a cabeça.

— Ele não repuxa?

— Um pouco.

— Acho que você deveria trabalhar mais os músculos do ombro.

— Difícil, num quarto trancado. Ele sorriu.

— Isso não vai durar para sempre. Você está fazendo os exercícios que a fisioterapeuta indicou?

Ela assentiu com a cabeça.

Ele pegou o estetoscópio e encostou-o no próprio pulso para aquecê-lo. Depois, sentou-se na beirada da cama, desabotoou a camisola de Lisbeth, auscultou-lhe o coração e tomou seu pulso. Pediu que ela se inclinasse para a frente e colocou o estetoscópio em suas costas para auscultar os pulmões.

— Tussa. Ela tossiu.

— Certo. Pode abotoar a camisola. Clinicamente falando, você está mais ou menos recuperada.

Ela meneou a cabeça. Esperou que ele se levantasse, prometendo voltar a vê-la em alguns dias, mas ele permaneceu sentado na beirada da cama. Não ralou nada por um bom tempo, parecia refletir. Lisbeth aguardou pacientemente.

— Sabe por que eu me tornei médico? — ele perguntou de repente.

Ela fez que não com a cabeça.

— Venho de uma família de operários. Eu sempre quis ser médico. Na verdade, quando eu era adolescente queria ser psiquiatra. Eu era todo intelectual.

Lisbeth observou-o com uma súbita atenção assim que ele pronunciou a palavra "psiquiatra".

— Mas eu não tinha certeza se conseguiria terminar o curso. Por isso, depois do colégio, me formei como soldador e exerci essa profissão durante alguns anos.

Balançou a cabeça, como se para confirmar que o que dizia era verdade.

— Eu achava uma boa idéia ter um diploma no bolso para o caso de dar zebra no curso de medicina. E a diferença entre um médico e um soldador não é muito grande. Nos dois casos, trata-se de uma espécie de bricolagem. E atualmente trabalho aqui no Sahlgrenska consertando pessoas como você.

Ela franziu o cenho perguntando-se, desconfiada, se ele estava zoando com ela. Mas ele parecia absolutamente sério.

— Lisbeth... eu estava pensando...

Ele ficou calado tanto tempo que Lisbeth quase teve vontade de perguntar o que ele queria. Mas controlou-se e esperou.

— Eu estava pensando se você ficaria aborrecida se eu fizesse uma pergunta pessoal, íntima. Quero dizer, não como médico. Não vou anotar sua resposta e não vou comentar com quem quer que seja. Você não precisa responder se não quiser.

— O que é?

— É uma pergunta pessoal e indiscreta. O olhar dela cruzou com o dele.

— Na época em que internaram você na Sankt Stefan, em Uppsala, quando você tinha doze anos, você se negou a responder todas as vezes que um psiquiatra tentou falar com você. Como pode ser isso?

Os olhos de Lisbeth Salander escureceram um pouco. Ela fitou Anders Jonasson com um olhar sem emoção. Permaneceu calada por uns dois minutos.

— Por que está perguntando isso? — ela quis saber, por fim.

— Para ser sincero, não sei muito bem. Acho que estou tentando entender alguma coisa.

A boca de Lisbeth se contraiu ligeiramente.

- Não falo com os médicos de doidos porque eles nunca escutam o que eu digo.

Anders Jonasson assentiu com a cabeça e então, de repente, começou a rir.

— Está certo. Me diga... o que você acha do Peter Teleborian? Anders Jonasson soltara aquele nome de um jeito tão inesperado que Lisbeth quase se sobressaltou. Seus olhos se estreitaram um bocado.

— Que porra é essa? Uma pegadinha? O que você está querendo?

De repente, a voz dela soava como lixa. Anders Jonasson inclinou-se tanto em sua direção que estava quase invadindo seu espaço pessoal.

— E que um... como você disse mesmo?... um médico de doidos chamado Peter Teleborian, que não é exatamente desconhecido na minha área, tentou me convencer duas vezes, nesses últimos dias, a lhe dar uma oportunidade para te examinar.

Lisbeth sentiu de repente uma corrente gelada percorrer suas costas.

— O Tribunal de Instâncias vai designá-lo para fazer sua avaliação psíquica legal.

— E?

— Eu não gosto do Peter Teleborian. Não permiti que ele tivesse acesso a você. Na segunda vez, ele apareceu sem avisar e tentou entrar escondido, passando a conversa numa enfermeira.

Lisbeth cerrou a boca.

— O comportamento dele me pareceu meio estranho e insistente demais para ser normal. Por isso minha vontade de saber o que você acha dele.

Então foi a vez de Anders Jonasson esperar pacientemente que Lisbeth Salander se dispusesse a falar.

— O Teleborian é um canalha — ela respondeu afinal.

— Existe uma questão pessoal entre vocês?

— Pode-se dizer que sim.

— Também tive uma conversa com um sujeito lá de cima que, por assim dizer, gostaria que eu permitisse que o Teleborian tivesse acesso a você.

— E?

— Perguntei se ele tinha competência técnica para avaliar o seu estado e aí mandei ele se catar. Só que com termos um pouco mais diplomáticos.

— Certo.

— Só mais uma pergunta. Por que você está me dizendo tudo isso?

— Você é que perguntou.

— Sei. Mas eu sou médico e fiz psiquiatria. Então por que você está falando comigo? Devo deduzir que você confia um pouco em mim?

Ela não respondeu.

— Bem, prefiro interpretar assim. Saiba que você é minha paciente. Isso significa que trabalho para você e para mais ninguém.

Ela o fitou, desconfiada. Ele a observou em silêncio durante algum tempo. Então se pôs a falar em tom casual.

— Do ponto de vista médico, você está mais ou menos restabelecida. Só precisa de mais algumas semanas de convalescência. Infelizmente, você está ótima.

— Infelizmente?

— Sim. — Ele lhe endereçou um sorrisinho. — Definitivamente, você está bem até demais.

— O que está querendo dizer?

— Quero dizer que não tenho mais nenhum motivo para mantê-la aqui isolada e que a procuradora logo vai poder pedir sua transferência para uma casa de detenção em Estocolmo, até o julgamento, que deve ocorrer daqui a seis semanas. Na minha opinião, esse pedido deve ocorrer já na próxima semana. E isso significa que o Peter Teleborian vai ter a oportunidade de examinar você.

Ela ficou completamente imóvel na cama. Anders Jonasson pareceu aborrecido e se inclinou para ajeitar o travesseiro dela. Falou claro, como se estivesse pensando em voz alta.

— Você não tem mais dor de cabeça e está sem febre, é provável que a doutora Endrin lhe dê alta.

Ele se levantou de repente.

— Obrigado por ter falado comigo. Ainda venho te ver antes de você ser transferida.

Já estava na porta quando ela falou.

— Doutor Jonasson.

Ele se virou em sua direção.

— Obrigada.

Ele meneou brevemente a cabeça antes de sair e fechar a porta à chave.

Lisbeth Salander permaneceu um bom tempo com os olhos fixos na norta trancada. Por fim, deitou-se e olhou para o teto.

Foi então que descobriu que havia algo duro debaixo de sua nuca. Ergueu o travesseiro e teve a surpresa de ver um saquinho de pano que certamente não se encontrava ali antes. Abriu-o e descobriu, sem entender nada, um computador de mão Palm Tungsten T3 e um carregador de bateria. Então olhou melhor para o computador e percebeu uma ranhura na borda superior. Seu coração deu um salto. E o meu Palm! Mas como... Atônita, desviou o olhar para a porta trancada. Anders Jonasson era um homem cheio de surpresas. Ligou o computador, mas logo viu que ele estava protegido por uma senha.

Olhou, frustrada, para a tela que piscava impaciente. E como é que esses idiotas acham que eu vou... Então olhou para o saquinho de pano e descobriu, lá dentro, um pedaço de papel dobrado. Pegou-o, abriu e leu a linha escrita numa caligrafia caprichada.

Você não é a rainha dos hackers? Pois então descubra! Super B.

Lisbeth riu pela primeira vez desde várias semanas. Obrigada por pagá-la na mesma moeda! Refletiu alguns segundos. Então pegou a canetinha do Palm e escreveu a combinação 9277, que correspondia às letras WASP no teclado. Era o código que o Maldito Super-Blomkvist tinha sido obrigado a descobrir quando entrara no apartamento dela na Fiskargatan, em Mosebacke, para desativar o alarme.

Não funcionou.

Tentou o 78737, que correspondia às letras SUPER.

Também não funcionou. Era óbvio que o Maldito Super-Blomkvist queria que ela usasse o computador, portanto devia ter escolhido uma senha relativamente simples. Tinha assinado Super-Blomkvist, apelido que ele detestava. Ela fez algumas associações, refletiu um instante. Com toda certeza, envolveria alguma alfinetada. Teclou 3434, equivalente a FIFI.

O computador ligou suavemente.

Ainda teve direito a um emoticon sorridente munido de um balão.

[Está vendo? Não foi tão difícil. Proponho que você clique em Meus Documentos.]

Ela imediatamente encontrou o documento [Olá Sally] bem no alto da lista. Abriu e leu.

[Antes de mais nada: isto fica só entre nós. A sua advogada, ou seja, a minha irmã Annika, ignora por completo que você está com esse computador. Deve continuar sendo assim.

Não faço idéia de até que ponto você está a par do que se passa fora desse seu quarto trancado, mas saiba que estranhamente, apesar desse seu temperamento, alguns babacas cheios de lealdade estão trabalhando por você. Quando tudo isso acabar, vou fundar uma associação beneficente que vou chamar de Os Cavaleiros da Távola Biruta, cujo único objetivo será organizar um jantar anual em que a gente vai morrer de rir falando mal de você. (Não, você não será convidada.)

Bem. Vamos aos fatos. A Annika está se preparando para o julgamento. Um problema, nesse contexto, é que ela obviamente trabalha para você e é adepta dessa bobajada toda de integridade. Isso significa que nem comigo ela comenta o que vocês duas conversam, o que é meio limitador. Por sorte, ela aceita receber informações.

Eu e você precisamos estar de acordo.

Não use meu endereço de e-mail.

Eu talvez seja meio paranóico, mas tenho bons motivos para achar que não sou o único a consultar minha caixa postal. Se tiver alguma coisa para me enviar, entre no grupo Yahoo [Tavola-Biruta]. Login: Fifi e senha: I9i2f7i7.]

Lisbeth leu duas vezes a carta de Mikael e olhou, perplexa, para o computador de mão. Depois de um período de celibato informático absoluto, estava num estado de incalculável cibercarência. Achou que o Super-Blomkvist tinha mesmo raciocinado com os pés quando dera um jeito de lhe passar clandestinamente um computador, esquecendo por completo que ela precisava de um celular para acessar a rede.

Estava nesse ponto de suas reflexões quando escutou passos no corredor.

Jogou imediatamente o computador e enfiou-o debaixo do travesseiro. A chave estava girando na fechadura quando ela percebeu que o saquinho de e o carregador ainda estavam sobre o criado-mudo. Estendeu a mão, enfiou depressa o saquinho debaixo do cobertor, e prendeu o cabo e o carregador no meio das pernas. Estava comportadamente deitada, olhando para o teto quando a enfermeira da noite entrou, cumprimentou-a com gentileza e perguntou-lhe como estava e se precisava de alguma coisa.

Lisbeth falou que estava tudo bem e que só precisava de um maço de cigarros. O pedido foi gentil, mas firmemente recusado. Porém teve direito a um pacote de chiclete de nicotina. Quando a enfermeira tornou a fechar a porta, Lisbeth avistou o vigia da Securitas a postos em sua cadeira no corredor. Lisbeth esperou até escutar os passos se distanciando para pegar o computador de mão.

Ligou-o e tentou se conectar.

A sensação foi próxima de um choque quando o computador, de repente, indicou que tinha encontrado uma conexão. Uma conexão. Não é possível.

Ela pulou da cama tão depressa que sentiu uma explosão de dor no quadril machucado. Lançou um olhar abobalhado pelo quarto. Como? Deu uma volta devagar, examinando os mínimos recantos... Não, não há nenhum celular neste quarto. No entanto, estava conseguindo se conectar à rede. Então, um sorriso enviesado se espalhou em seu rosto. A conexão era necessariamente sem fio e estava sendo feita através de um celular com Bluetooth, que operava facilmente num raio de dez a doze metros. Seu olhar se dirigiu para a grade de ventilação no alto da parede.

O Super-Blomkvist havia plantado um telefone bem do lado do seu quarto. Era a única explicação possível.

Mas por que não trazer simplesmente o telefone para dentro do quarto... A bateria. Claro!

O seu Palm precisava ser recarregado mais ou menos a cada três dias. Um celular, que ela forçaria até o limite ao navegar, iria consumir rapidamente a bateria. Blomkvist, ou melhor, a pessoa que ele recrutara e que estava ali fora, devia carregar regularmente a bateria.

Em compensação, ele lhe fornecera, é claro, o carregador do Palm. Ela Precisava tê-lo à mão. Era mais fácil esconder e utilizar um objeto em vez de dois. O Super-Blomkvist, afinal, não era tão burro assim.

Lisbeth primeiro se perguntou onde poderia esconder o computador Precisava de um esconderijo. Além da tomada elétrica ao lado da porta, havia outra no painel atrás da cama, onde ficavam ligados a luz de cabeceira e o relógio digital. Como o rádio tinha sido tirado da cabeceira, havia ali uma cavidade. Ela sorriu. Tanto o carregador como o computador de bolso cabiam dentro dela. Podia usar a tomada do criado-mudo para deixar o computador carregando durante o dia.

Lisbeth Salander estava feliz. Seu coração batia disparado quando, pela primeira vez depois de dois meses, ligou o computador de mão e entrou na internet.

Navegar com um computador de mão Palm, uma tela minúscula e uma canetinha não era tão simples como surfar com um PowerBoolc e um monitor de dezessete polegadas. Mas ela estava conectada. Da sua cama no Sahlgrenska, podia alcançar o mundo inteiro.

Para começar, entrou num site que anunciava fotos relativamente desinteressantes de um fotógrafo amador chamado Bill Bates, em Jobsville, Pensilvânia. Um dia, Lisbeth tinha verificado e chegado à conclusão que Jobsville não existia. Ainda assim, Bates tinha tirado mais de duzentas fotos daquela localidade e as pusera em seu site em forma de pequenas abas. Foi passando pelas fotos até chegar ao número 167 e clicou na lente de aumento. A foto mostrava a igreja de Jobsville. Posicionou o cursor no topo do campanário e clicou. Imediatamente surgiu uma janela pedindo seu login e sua senha. Pegou a canetinha e escreveu Remarkable no campo do login e A(89) Cx#magnolia no da senha.

Abriu-se uma janela: [ERROR — You have the wrong password] e um botão [O.K. — Tryagain]. Lisbeth sabia que se clicasse em [O.K. — Try again] e tentasse outra senha, iria dar na mesma janela — podia tentar ano após ano ao infinito. Em vez disso, clicou na letra O da palavra [ERROR].

A tela ficou preta. Em seguida, abriu-se uma porta de animação e apareceu uma figura parecida com Lara Croft. Materializou-se um balão com os dizeres [WHO GOES THERE?].

Ela clicou no balão e escreveu a palavra Wasp. A resposta foi imediata: [PROVE IT — OR ELSE...] enquanto a Lara Croft animada soltava a trava de segurança de uma pistola. Lisbeth sabia que a ameaça não era de todo fictícia. Se escrevesse a senha errada três vezes seguidas, a página se apagaria nome Wasp seria riscado da lista dos membros. Escreveu com bastante cuidado a senha MonkeyBusiness.

A tela mudou novamente de forma e exibiu um fundo azul com o texto:

[Welcome to Hacker Republic, citizen Wasp. It is 56 days since your last visit. There are 10 citizens online. Do you want to (a) Browse the Fórum (b) Send a Message (c) Search the Archive (d) Talk (e) Get laid?]

Ela clicou em [(d) Talk], passou para o menu [Who's online?} e obteve uma lista com os nomes Andy, Bambi, Dakota, Jabba, BuckRogers, Mandrake, Pred, Slip, Sisterjen, Six Of One e Trinity.

[Hi, gang], escreveu Wasp.

[Wasp. That really U?], escreveu SixOfOne imediatamente.

[Look who's home.]

[Onde você andava?], perguntou Trinity.

[Praga falou que você estava com problemas], escreveu Dakota.

Lisbeth não tinha certeza, mas achava que Dakota era uma mulher. Os outros membros on-line, inclusive Sisterjen, eram homens. A Hacker Republic tinha ao todo (da última vez que ela se conectara) sessenta e dois membros, dos quais quatro eram mulheres.

[Olá, Trinity], escreveu Lisbeth. [Olá, todo mundo.]

[Por que você só dá olá para Trin? A gente não está atacado pela peste], escreveu Dakota.

[A gente já saiu junto], escreveu Trinity. [Wasp só freqüenta pessoas inteligentes.]

Ele imediatamente recebeu cinco vá se...

Dos sessenta e dois membros, Wasp se encontrara com dois na vida real. Um deles era Praga, que excepcionalmente não estava on-line. Trinity era o outro. Era inglês, residente em Londres. Dois anos antes, ela estivera com ele por algumas horas, quando ele a ajudara, e ao Mikael, na caçada a Harriet Vanger, instalando uma escuta telefônica clandestina no pacato subúrbio de St. Albans. Lisbeth estava se atrapalhando com a pouco prática canetinha eletrônica e lamentava não dispor de um teclado.

[Você ainda está aí?], perguntou Mandrake.

Ela marcou as letras, uma por uma.

[Sorry. Estou com um Palm. E meio lerdo.]

[O que houve com o seu computador?], perguntou Pred.

[O meu computador vai bem. Eu é que estou com problemas.]

[Conte aqui para o seu irmão mais velho], escreveu Slip.

[O Estado me mantém prisioneira.]

[O quê? Por quê?] A resposta veio, de imediato, de três membros.

Lisbeth resumiu sua situação em cinco linhas, que foram recebidas pelo que parecia ser um murmúrio de preocupação.

[Como você está?], perguntou Trinity.

[Estou com um buraco na cabeça.]

[Não estou vendo nenhuma diferença], constatou Bambi.

[Wasp sempre teve vento na cabeça], disse Sisterjen, antes de engatar uma série de fantasias pejorativas sobre as capacidades intelectuais de Wasp.

Lisbeth sorriu. A conversa foi retomada com uma réplica de Dakota.

[Esperem. Estamos diante de um ataque a um cidadão da Hacker Republic. Qual será nossa resposta?]

[Ataque nuclear sobre Estocolmo?], sugeriu SixOfOne.

[Não, seria um exagero], disse Wasp.

[Uma bomba em miniatura?]

[Vá se catar, SixOO.]

[Agente poderia apagar Estocolmo], sugeriu Mandrake.

[Um vírus que apaga o governo?]

Os cidadãos da Hacker Republic não costumavam espalhar vírus. Pelo contrário — eram hackers e, conseqüentemente, ferozes adversários dos idiotas que lançam vírus com o único objetivo de sabotar a rede e fazer naufragar computadores. Eram viciados em informação e queriam manter a rede funcionando para poder pirateá-la.

Em compensação, a proposta de apagar o governo sueco não era uma ameaça à toa. A Hacker Republic era um clube super exclusivo que contava com os melhores entre os melhores, uma força de elite a que qualquer Defesa Nacional teria pago somas colossais em troca de ajuda para objetivos ciber-militares, se é que the citizen podiam ser levados a nutrir uma lealdade desse tipo com um Estado. Não parecia provável.

Por outro lado, eles também eram computer wizards perfeitamente sintonizados com a arte da fabricação de vírus. Tampouco era difícil convencê-los a realizar campanhas especiais caso a situação exigisse. Anos antes, a patente de um citizen da Hacker Rep, um freelancer criador de softwares da Califórnia, tinha sido roubada por uma start-up, que ainda por cima tivera o atrevimento de levar o cidadão aos tribunais. Isso fizera com que todos os ativistas da Hacker Rep dedicassem, durante seis meses, uma energia considerável a piratear e destruir todos os computadores da empresa. Cada segredo comercial e cada e-mail — e também alguns documentos forjados, sugerindo que a empresa praticava fraude fiscal — eram alegremente exibidos na internet, assim como informações sobre a amante secreta do presidente da empresa e fotos de uma festa em Hollywood em que esse presidente aparecia cheirando cocaína. A empresa fora à falência em seis meses e, embora já tivessem transcorrido vários anos, alguns membros rancorosos da milícia popular da Hacker Republic continuavam assombrando o antigo presidente.

Caso cerca dos cinqüenta hackers mais eminentes do mundo decidissem se unir numa ofensiva conjunta contra um Estado, esse Estado provavelmente sobreviveria, mas não sem antes enfrentar problemas consideráveis. Os custos, sem dúvida, chegariam a bilhões se Lisbeth apontasse o polegar para cima. Ela refletiu um pouco.

[Por enquanto, não. Mas se as coisas não andarem do jeito que eu quero, talvez eu peça ajuda.]

[É só falar], disse Dakota.

[Faz tempo que a gente não perturba nenhum governo], disse Mandrake.

[Tenho uma proposta, a idéia geral é inverter o sistema de pagamento de impostos. Um programa feito sob medida para um país pequeno como a Noruega], escreveu Bambi.

[Muito bom, só que Estocolmo fica na Suécia], escreveu Trinity.

[E daí? Só o que a gente tem que fazer é...]

Lisbeth Salander se recostou no travesseiro e acompanhou a conversa com um sorrisinho. Perguntou-se por que ela, que tinha tanta dificuldade em falar de si mesma quando se via frente a frente com alguém, não tinha problemas em revelar seus segredos mais íntimos pela internet para um bando de malucos totalmente desconhecidos. O fato é que se Lisbeth Salander tinha alguma família e pertencia a algum grupo, era justamente a esse bando de loucos. Nenhum deles tinha de fato condições de ajudá-la em seus dissabores com o Estado sueco. Mas ela sabia que, se fosse preciso, gastariam um tempo e uma energia consideráveis em demonstrações de força bem pertinentes. Graças à rede da internet, ela também poderia achar esconderijos no exterior. Praga fora quem a ajudara a obter o passaporte norueguês em nome de Irene Nesser.

Lisbeth não tinha a menor idéia da aparência física dos cidadãos da Hacker Rep nem do que faziam fora da internet — os cidadãos eram particularmente vagos sobre suas identidades. SixOfOne, por exemplo, declarava-se um cidadão negro, do sexo masculino e de origem católica residente em Toronto, Canadá. Poderia também ser uma mulher, branca, luterana e residente em Skõvde, na Suécia.

Quem ela conhecia melhor era Praga — fora ele quem um dia a apresentara à família, e ninguém se tornava membro daquela sociedade exclusiva sem recomendações muito bem fundamentadas. Além disso, o novo membro tinha de conhecer pessoalmente outro cidadão — no caso de Lisbeth, era o Praga.

Na internet, Praga era um cidadão inteligente e socialmente talentoso.

Na verdade, era um trintão obeso e antissocial que recebia uma pensão por invalidez e vivia em Sundbyberg. Era óbvio que tomava banho de vez em quando e seu apartamento fedia. Lisbeth limitava ao máximo as visitas à casa dele. Freqüentá-lo na rede era mais que suficiente.

Enquanto o bate-papo prosseguia, Wasp ia baixando os e-mails de sua caixa postal da Hacker Rep. Um e-mail de Poison continha uma versão melhorada do seu programa Asphyxia 1.3, disponível nos arquivos a todos os cidadãos da república. O software Asphyxia permitia controlar o computador de outras pessoas via internet. Poison explicou que usara o programa com êxito e que sua versão melhorada cobria as últimas versões do Unix, do Apple e do Windows. Ela enviou uma resposta breve e agradeceu a atualização.

Na hora seguinte, enquanto a noite caía sobre os Estados Unidos, mais meia dúzia de citizens foi se conectando, dando as boas-vindas a Wasp e se envolvendo na discussão. Quando Lisbeth finalmente se retirou, o debate tratava da possibilidade de fazer com que o computador do primeiro-ministro sueco enviasse mensagens educadas, mas totalmente delirantes, para outros chefes de governo mundo afora. Criara-se um grupo de trabalho para aprofundar a questão. Lisbeth acabou oferecendo uma rápida contribuição com a ponta de sua canetinha.

[Continuem conversando, mas não façam nada sem a minha aprovação. Volto assim que eu puder me conectar.]

Todos mandaram "bjs, bjs" e recomendaram que cuidasse bem do buraco da sua cabeça.

Uma vez desconectada da Hacker Republic, Lisbeth entrou em [www. yahoo.com] e conectou-se ao newsgroup [Tavola-Biruta]. Descobriu que a usta de discussão comportava dois membros, ela própria e Mikael Blomkvist. Na caixa de entrada havia um único e-mail, enviado dois dias antes. O assunto era [Leia isto primeiro].

[Olá, Sally. A situação atual é a seguinte:

A polícia ainda não descobriu seu endereço e não teve acesso ao DVD do estupro do Bjurman. Esse DVD constitui uma prova de peso, mas não quer entregá-lo para a Annika sem sua autorização. Também estou com as chaves d seu apartamento e com o passaporte em nome de Irene Nesser.

Em compensação, a polícia está com a mochila que você levou para Gos seberga. Não sei se contém algo comprometedor.]

Lisbeth refletiu por um momento. Que nada. Uma garrafa térmica de café semi-vazia, umas maçãs e uma muda de roupa. Não havia com que se preocupar.

[Você vai ser processada por golpes e ferimentos agravados, seguidos de tentativa de homicídio contra Zalachenko, assim como golpes e ferimentos agravados contra Carl-Magnus Lundin, do MC Svavelsjõ em Stallarholmen — eles partem do princípio que você atirou no pé dele e deu um pontapé que quebrou seu maxilar. Uma fonte confiável da polícia, no entanto, informa que em ambos os casos as provas são um tanto vagas. É importante:

(1) Antes de o Zalachenko ser morto, ele negou tudo e afirmou que o Niedermann é que tinha atirado em você e te enterrado no mato. Ele deu queixa contra você por tentativa de homicídio. O procurador vai insistir no fato de que foi a segunda vez que você tentou matar o Zalachenko.

(2) Nem o Magge Lundin nem o Benny Nieminen disseram uma palavra sequer sobre o que aconteceu em Stallarholmen. O Lundin está detido pelo seqüestro da Míriam Wu. O Nieminen foi solto.]

Lisbeth refletiu sobre as palavras de Mikael e deu de ombros. Já havia conversado sobre tudo aquilo com Annika Giannini. Era uma situação ruim, mas até aí nada de novo. Com o coração na mão, ela relatara o que tinha acontecido em Gosseberga, porém sem entrar em detalhes sobre Bjurman.

[Durante quinze anos, o Zala foi protegido, independentemente do que ele aprontasse. Algumas carreiras se construíram em torno da importância que se dava ao Zalachenko. Algumas vezes, ajudavam a fazer uma limpeza depois que o Zala aprontava. Isso é crime. Ou seja, autoridades suecas ajudaram a ocultar crimes contra pessoas.

Se isso vier à tona, haverá um escândalo político que provavelmente irá atingir tanto governos de direita como social-democratas. Isso significa, antes de mais nada, que alguns altos funcionários da Sapo seriam jogados aos leões e apontados como responsáveis por atividades criminosas e imorais. Mesmo que os crimes individuais estejam prescritos, haverá escândalo. Trata-se de pesos-pesados que hoje estão aposentados, ou quase.

Eles vão fazer de tudo para reduzir os danos, e aí é que você de repente volta a ser um peão no jogo. Dessa feita, porém, não se trata de sacrificar um peão do tabuleiro — trata-se de eles reduzirem esses danos de maneira decisiva e por conta própria. Portanto, você vai acabar ficando sem saída.

Pensativa, Lisbeth mordeu o lábio inferior.

[A coisa funciona assim: eles sabem que não vão conseguir manter o Zalachenko em segredo por muito mais tempo. Eu sei da história e eu sou um jornalista. Eles sabem que mais cedo ou mais tarde eu vou publicar. Agora eles estão lutando é pela sobrevida deles. Por isso os seguintes pontos estão no topo da lista de prioridades deles:

(1) Eles precisam convencer o tribunal de grande instância (ou seja, a opinião pública) de que a decisão de internar você na Sankt Stefan em 1991 foi legítima — que você estava de fato psiquicamente perturbada.

(2) Precisam separar o "caso Lisbeth Salander" do "caso Zalachenko". Eles estão tentando se colocar em condições de afirmar que "Claro, o Zalachenko era um calhorda, mas isso nada teve a ver com a decisão de internar a filha dele. Ela foi internada porque era uma doente mental — qualquer afirmação diferente disso não passa de invencionices doentias de jornalistas amargurados. Não, não apoiamos o Zalachenko em nenhum crime; isso não passa de divagação ridícula de uma adolescente doente mental".

(3) O problema, portanto, é que se você for inocentada no próximo julgamento, o tribunal terá declarado que você não é louca, o que provará que sua internação em 1991 tinha algo de suspeito. Isso quer dizer que eles precisam condená-la a todo custo a um tratamento psiquiátrico numa instituição. Se o tribunal estabelecer que você é psiquicamente perturbada, a imprensa já não vai estar tão interessada em revolver o caso Salander. A imprensa funciona assim.

Você está acompanhando?

Lisbeth meneou a cabeça para si mesma. Já havia chegado a essas conclusões havia muito tempo. O problema é que ela não sabia muito bem como solver a situação.

Lisbeth — isso é sério —, esse jogo vai se dar na imprensa e não na sala de audiências. Infelizmente, por "razões de integridade", o julgamento vai ser a portas fechadas.

No dia em que o Zalachenko foi morto, meu apartamento foi assaltado. Não houve arrombamento nem mexeram em nada — com exceção de uma coisa. O dossiê que estava na casa de campo de Bjurman e que continha o relatório de 1991 do Gunnar Bjõrck desapareceu. No mesmo dia, minha irmã foi atacada e a cópia que ela tinha foi roubada. Esse dossiê é a sua prova mais importante.

Fingi que tínhamos perdido os documentos Zalachenko. Na verdade, tenho um terceiro exemplar, que eu ia passar para o Armanskij. Fiz várias cópias, que espalhei por aí.

Nosso adversário, que reúne algumas autoridades e alguns psiquiatras, também está tratando de montar o processo, é claro, com a ajuda do procurador Richard Ekstrõm. Tenho uma fonte que fornece algumas informações sobre o que está se tramando, mas imagino que você tenha mais condições de obter informações adequadas... Se for esse o caso, não temos muito tempo.

O procurador vai tentar fazer com que você seja condenada a uma internação psiquiátrica. Para isso, conta com o auxílio do seu velho amigo Peter Teleborian.

A Annika não vai poder se lançar numa campanha de imprensa no mesmo nível que o Ministério Público, que pode deixar vazar informações como bem lhe convém. Ou seja, ela está de mãos atadas.

Já eu, não estou preso por restrições desse tipo. Posso escrever rigorosamente o que quiser — e tenho, além disso, uma revista à minha disposição.

Faltam dois detalhes importantes:

(1) Primeiro, você precisaria de alguma coisa demonstrando que o procurador Ekstrõm está colaborando com o Teleborian de maneira indevida, e sempre com o objetivo de interná-la com os loucos. Eu queria poder aparecer no horário nobre da televisão e apresentar documentos acabando com os argumentos do procurador.

(2) Para poder sustentar uma guerra na imprensa contra a Sapo, preciso discutir em público coisas que você provavelmente considera de sua esfera privada. Desejar o anonimato a esta altura é meio que pedir demais, levando-se em conta tudo que foi dito na imprensa a seu respeito desde a Páscoa. Preciso ter condições de construir na mídia uma imagem sua inteiramente nova — mesmo que a seu ver isso represente uma agressão à sua intimidade —, e de preferência com o seu aval. Você entende o que eu quero dizer?]

Ela abriu a pasta [Tavola-Biruta]. Continha vinte e seis arquivos de tamanhos variados.

QUARTA-FEIRA 18 DE MAIO

Rosa Figuerola se levantou às cinco da manhã na quarta-feira e fez um rápido jogging antes de tomar um banho e vestir uma calça jeans preta, uma regata branca e uma jaqueta leve de linho cinza. Preparou sanduíches e encheu uma garrafa térmica de café. Também vestiu o cinturão e tirou sua Sig Sauer do armário de armas. Pouco depois das seis horas, saiu no seu Saab 9-5 branco e foi até a Vittangigatan em Vâllingby.

Gõran Mârtensson morava no segundo e último andar de um prediozinho do subúrbio. Na terça-feira, ela levantara tudo o que conseguira sobre ele nos arquivos públicos. Era solteiro, o que não queria dizer que não morasse com alguém. Não havia nada sobre ele na Receita, ele não possuía nenhuma fortuna e seu nível de vida não parecia extravagante. Raramente faltava por motivo de saúde.

O único aspecto que poderia parecer digno de atenção era ele ter licença para dezesseis armas de fogo, sendo três espingardas de caça e pistolas de diferentes tipos. Ele ter porte de armas obviamente não constituía um crime, mas Rosa Figuerola nutria uma bem fundada desconfiança por pessoas que possuíam grande quantidade de armas.

O Volvo com a placa com as iniciais KAB estava num estacionamento a cerca de quarenta metros da praça em que Rosa Figuerola parou o carro. Ela serviu de meio copo de café preto e comeu um sanduíche de queijo e salada Depois descascou uma laranja e chupou demoradamente seus gomos.

Durante a visita matinal, Lisbeth Salander não estava em boa forma, sentia uma dor de cabeça terrível. Pediu um Al