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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A Rainha Estrangulada / Maurice Druon
A Rainha Estrangulada / Maurice Druon

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A Rainha Estrangulada

 

No dia 29 de novembro de 1314, duas horas após as vésperas, vinte e quatro cavaleiros trajados de preto, com as armas da França, passaram a galope pela porta do Castelo de Fontainebleau e mergulharam na floresta. As estradas estavam juncadas de neve, o céu, mais escuro que a terra; já era noite; melhor dizendo, por causa de um eclipse solar, a noite anterior continuava.

Os vinte e quatro cavaleiros não repousariam antes do amanhecer, e galopariam ainda durante todo o dia seguinte e por outros mais, para Flandres, para Angoumois e a Guyenne, para Dôle en Comté, para Rennes e Nantes, para Toulouse, para Lyon, Aigues-Mortes, acordando bailios, prebostes e senescais, para anunciar, em cada cidade ou povoação do reino, que o rei Filipe IV, o Belo, acabava de morrer.

À sua passagem, os sinos punham-se a dobrar nas trevas; uma grande onda sonora, sinistra, alargava-se sem cessar, estendendo-se até atingir todas as fronteiras.

Após vinte e nove anos de um governo sem fraqueza, o Rei de Ferro morria, com quarenta e seis anos, de uma congestão cerebral, enquanto um eclipse solar lançava uma sombra espessa sobre a França.

Verificava-se, assim, pela terceira vez, a maldição lançada no meio das chamas, oito meses antes1, pelo grão-mestre dos templários.

1 Ver O Rei de Ferro, primeiro volume da série Os reis malditos. (N. do E.)

 

Soberano tenaz, altivo, inteligente e discreto, o rei Filipe preenchera tão bem seu reinado e dominara de tal forma seu tempo que se tinha a impressão, aquela noite, de que o coração do reino parará de bater.

As nações, porém, jamais desaparecem com a morte dos homens, por maiores que estes sejam; seu aparecimento e seu fim obedecem a outras causas.

O nome de Filipe, o Belo, só seria iluminado, na noite dos séculos, pelo clarão das fogueiras que ele havia acendido sob seus inimigos e pela cintilação das moedas de ouro que mandara cunhar. Esqueceriam logo que ele amordaçara os poderosos, mantivera a paz o quanto possível, reformara a legislação, construíra fortalezas para que se pudesse semear ao abrigo do perigo, unificara as províncias, exortara os burgueses a se reunirem para lhe dar conselhos e velara, em todas as coisas, pela independência da França.

Assim que suas mãos gelaram, assim que aquela grande vontade se extinguiu, os interesses privados, as ambições frustradas e as sedes de honrarias e de dinheiro se desencadearam.

Dois partidos iriam defrontar-se e destroçar-se sem piedade pela posse do poder: de um lado, o clã da reação baronial, conduzido pelo conde de Valois, imperador titular de Constantinopla e irmão de Filipe, o Belo; de outro, o clã da alta administração, dirigido por Enguerrand de Marigny, primeiro-ministro assistente do falecido monarca.

Para evitar esse conflito, que fermentava há meses, ou para arbitrá-lo, seria preciso um rei de pulso. Ora, o príncipe de vinte e cinco anos que subia ao trono, monseigneur Luís, já rei de Navarra, parecia mal dotado para reinar; chegava ao poder precedido pela reputação de marido enganado e pelo triste cognome de Turbulento.

Sua esposa, Margarida de Borgonha, a mais velha das princesas da Torre de Nesle, encontrava-se aprisionada por adultério, e sua existência iria, curiosamente, servir de prêmio para as duas facções rivais.

As conseqüências da luta, entretanto, como sempre, recairiam sobre a miséria dos que, nada possuindo, não podiam nem mesmo sonhar... O inverno de 1314-1315 foi, além disso, um inverno de fome.

 

A AURORA DE UM REINO

 

AS PRISIONEIRAS DO CASTELO GAILLARD

Plantado a seiscentos pés de altura sobre um monte gredoso, acima da povoação do Petit-Andelys, o Castelo Gaillard dominava, mandava em toda a Alta Normandia.

O Sena, naquele lugar, descreve uma grande curva nos terrenos férteis; o Castelo Gaillard vigiava o rio em dez léguas, tanto a jusante como a montante.

Ainda hoje as ruínas dessa formidável cidadela fascinam o olhar e desafiam a imaginação. Com o Krak des Chevaliers, no Líbano, e as torres de Rumeli-Hissar, no Bósforo, este é um dos grandes vestígios da arquitetura militar da Idade Média.

Diante desses monumentos, construídos para firmar conquistas ou ameaçar impérios, o espírito começa a sonhar com os homens de quem apenas quinze ou vinte gerações nos separam: foram eles que edificaram tais fortalezas, delas se serviram, aí viveram e as destruíram.

Na época de que tratamos, o Castelo Gaillard não tinha mais que cento e vinte anos. Ricardo Coração de Leão mandou construí-lo, desprezando os tratados, para desafiar o rei da França; vendo-o terminado, erguido sobre a escarpa, inteiramente branco na pedra talhada de fresco, com suas duas séries de muralhas, suas fortificações, suas grades, suas ameias, suas treze torres, seu grande torreão de dois andares, teria exclamado: "Ah! Aí está um castelo bem galhardo!"

E o edifício recebeu assim seu nome.

Tudo estava previsto nas defesas desse gigantesco modelo de arquitetura militar: os assaltos, os ataques frontais ou circulares, as investidas, as escaladas, os cercos, tudo, menos a traição.

Sete anos mais tarde, o castelo caía nas mãos de Filipe Augusto, ao mesmo tempo que este usurpava ao soberano inglês o ducado da Normandia.

Desde então o Castelo Gaillard deixou de ser praça de guerra; servia apenas de prisão real.

Lá eram aprisionados alguns criminosos de Estado, que o rei tinha interesse em conservar vivos, sem nunca lhes restituir a liberdade. Quem ultrapassasse a ponte levadiça do Castelo Gaillard não teria mais oportunidade de rever o mundo.

Os corvos, durante o dia todo, crocitavam sob os telhados e, à noite, os lobos vinham uivar junto às muralhas. E o único passeio dos prisioneiros consistia em ir à capela, onde ouviam missa, para voltar à torre, onde esperavam a morte.

Naquela derradeira manhã de novembro de 1314, o Castelo Gaillard, suas muralhas e sua guarnição de arqueiros eram utilizados apenas para guardar duas mulheres, uma de vinte e um anos, outra de dezoito, Margarida e Branca de Borgonha, duas primas, ambas casadas com filhos de Filipe, o Belo, julgadas por adultério cometido com jovens escudeiros, e condenadas à prisão perpétua, após o mais retumbante escândalo que explodiu na corte francesa 1*.

* Os números do texto remetem o leitor para as notas complementares localizadas no final do volume.

 

A capela localizava-se no interior da segunda muralha. Por se erguer sobre a própria rocha, era fria e sombria; as paredes tinham poucas aberturas e nenhum ornamento.

Apenas três cadeiras havia no coro, duas à esquerda, para as princesas, e outra à direita, para o comandante da fortaleza.

Ao fundo, os homens de armas conservavam-se de pé, alinhados, com o mesmo ar de tédio que tinham quando iam trabalhar na corvéia da forragem.

— Meus irmãos — disse o capelão —, precisamos hoje elevar nossas preces com grande fervor e maior solenidade.

Clareou a voz, hesitou um instante, como se a importância do que ia anunciar também o perturbasse.

— O Senhor Deus acaba de chamar a si a alma de nosso bem-amado rei Filipe. E isto é causa de profunda piedade por todo o reino.

As duas princesas voltaram-se uma para a outra, com seus rostos fechados em coifas de grossa e áspera tela.

— Que aqueles que o injuriaram ou maldisseram façam penitência em seus corações — continuou o sacerdote —, e que todos os que lhe tiveram rancor na vida implorem para ele a misericórdia da qual todo homem que morre, grande ou pequeno, tem igual necessidade diante do tribunal de Nosso Senhor.

As duas princesas, de joelhos, baixavam a cabeça para ocultar sua alegria. Não sentiam mais frio, nem sua angústia ou miséria: uma imensa onda de esperança crescia nelas, e se tivessem a idéia de se dirigirem a Deus seria para agradecer-lhe por havê-las livrado de seu terrível sogro. Após sete meses de prisão naquele castelo, era essa a primeira boa nova que o mundo lhes enviava.

Os homens de armas,- no fundo da capela, cochichavam, fazendo perguntas uns aos outros, a meia voz, arrastando os pés e começando a fazer grande barulho.

— Será que vão nos dar algum dinheiro?

— Porque o rei morreu?

— É o que se faz, segundo me disseram.

— Sim, mas não na morte; talvez na sagração do próximo.

— E como vai se chamar o rei agora?

— O senhor São Luís era o nono; este, forçosamente, vai se chamar Luís X.

— Será que ele vai fazer guerra para a gente mudar um pouco de ambiente?

O comandante da fortaleza virou-se e gritou-lhes com voz áspera:

— Rezem!

Ele também tinha seus problemas. Porque a mais velha das prisioneiras era a esposa de monseigneur Luís de Navarra, que se tornaria rei hoje. "Eis-me, agora, transformado em guarda da rainha da França", pensava o comandante da fortaleza.

Ser carcereiro de personalidades reais não é nada fácil; e Roberto de Bersumée devia àquelas duas condenadas, que chegaram pelo fim de abril, com as cabeças raspadas, em carroças revestidas de preto, e escoltadas por cem arqueiros, sob as ordens de messire Alain de Pareilles, os piores momentos de sua vida. Por algumas satisfações da vaidade, quanta inquietude, quanto cuidado! Duas jovens, tão jovens que despertavam piedade, a despeito de seu crime... belas, tão belas, mesmo sob as roupas informes de burel, que as pessoas não podiam deixar de comover-se ao vê-las, dia após dia, durante sete meses. Se seduzirem algum sargento da guarnição, se fugirem, ou se uma delas se enforcar ou contrair uma doença mortal, ou, ainda, se se verificar — sabe-se lá, com esses negócios da corte? — alguma reviravolta da fortuna, será sempre ele quem estará errado, culpado de demasiada rispidez ou de muita amabilidade, e isto de nada lhe adiantaria para a sua promoção. Ora, tal como o capelão, suas prisioneiras e seus homens de armas, ele nunca sentira vontade de acabar seus dias e sua carreira numa cidadela batida pelos ventos, molhada pelas brumas, construída para abrigar dois mil soldados e que não contava com mais de cento e cinqüenta, acima do vale do Sena, por onde a guerra não passava há muito tempo.

"Guarda da rainha da França", repetia a si mesmo o comandante da fortaleza; "não me faltava mais nada."

Ninguém rezava, e cada qual fingia seguir o ofício, pensando em si próprio.

— Requiem aeternam dona ei, Domine... — cantava o capelão, enquanto pensava, com ciúme feroz, nos padres de belas casulas, cantando as mesmas notas sob as abóbadas de Notre-Dame. Dominicano em desgraça que, ao abraçar o sacerdócio, sonhara ser, um dia, grande inquisidor, acabara capelão de prisão. Perguntava agora a si próprio se a mudança de reinado não lhe traria alguma boa nova.

— Et lux perpetua luceat ei — respondia o comandante da fortaleza, invejando a sorte de Alain de Pareilles, capitão-geral dos arqueiros reais, que marchava à frente de todos os cortejos.

— Requiem aeternam... — retomava o capelão.

— Será que agora vão ao menos nos dar um sesteiro de vinho a mais? — murmurava o soldado Gros-Guillaume ao sargento Lalaine.

Quanto às duas prisioneiras, não ousavam pronunciar palavra: se o fizessem, seria para cantar em voz bem alta e alegre.

Por certo, naquele dia, em muitas igrejas da França, havia gente que chorava sinceramente a morte do rei Filipe, sem poder, aliás, dar um nome exato à sua emoção, simplesmente porque ele era o rei sob cujo reinado haviam vivido, e com ele era o seu tempo que desaparecia. No fundo de uma prisão, entretanto, não se devem procurar tais sentimentos.

Quando a missa terminou, Margarida de Borgonha foi a primeira a passar diante do comandante da fortaleza.

— Messire Bersumée — disse-lhe, olhando-o nos olhos —, desejo pô-lo a par de coisas importantes, que lhe dizem respeito.

O comandante sentia-se sempre perturbado quando o olhar de Margarida de Borgonha se fixava, assim, no seu, e dessa vez sentiu-se ainda mais sem jeito que de hábito.

Baixou os olhos.

— Eu vos ouvirei, senhora — respondeu —, logo que tiver feito a ronda e substituído a guarda.

Depois, ordenou ao sargento Lalaine que acompanhasse as princesas, recomendando-lhe, em voz baixa, agir com prudência redobrada.

A torre em que Margarida e Branca estavam presas continha apenas três altas salas redondas, superpostas e idênticas, cada qual com uma lareira, e, como teto, uma abóbada de oito arcos; essas peças eram ligadas por uma escada em caracol, construída na espessura do muro. A sala do andar térreo era ocupada permanentemente por um destacamento de guardas — essa guarda que causava tantos cuidados ao capitão Bersumée, que ele substituía de seis em seis horas, e que receava se deixasse subornar, seduzir ou mantear. Margarida vivia na sala do primeiro andar e Branca no segundo. Durante a noite as duas princesas ficavam isoladas por uma porta espessa que se fechava no meio da escada; durante o dia, porém, tinham o direito de se comunicar.

Quando o sargento as deixou, elas esperaram que todos os gonzos e ferrolhos rangessem lá embaixo.

Depois, entreolharam-se e, com o mesmo movimento, caíram nos braços uma da outra, exclamando:

— Ele morreu, ele morreu!

Abraçavam-se, dançavam, riam e choravam ao mesmo tempo, repetindo incansavelmente:

— Ele morreu!

Arrancaram suas coifas de tela e libertaram os cabelos curtos, cabelos de sete meses.

Margarida tinha pequenos cachos negros em torno da cabeça. Os cabelos de Branca haviam crescido irregularmente, em mechas espessas que pareciam punhados de palha. Branca passava a mão da testa à nuca, e dizia, olhando a prima:

— Um espelho! A primeira coisa que desejo é um espelho! Margarida, será que continuo bonita?

Dir-se-ia que ia ser libertada naquele instante e só precisava pensar na sua aparência.

— Como devo ter envelhecido para que perguntes isso — respondeu Margarida.

— Oh, não! — gritou Branca. — Continuas muito bela!

Branca era sincera; quando se sofre junto, não se notam mudanças. Margarida, no entanto, sacudiu a cabeça; sabia bem que aquilo não era verdade.

O que as princesas haviam sofrido desde a primavera: a tragédia de Maubuisson caindo sobre elas em plena felicidade, seu julgamento, o monstruoso suplício de assistir à execução dos amantes, na praça principal de Pontoise, os gritos obscenos da multidão comprimida à sua passagem e, depois, aquele meio ano de fortaleza, o vento gemendo no vigamento, a sufocação do verão, que superaquecia as pedras, o frio glacial, quando o outono chegava, a papa negra de trigo mourisco, que lhes davam como refeição, as camisas duras como crina, mudadas de dois em dois meses, a abertura estreita como seteira e que, de qualquer maneira que se pusesse nela a cabeça, nada desvendava, a não ser o capacete de um invisível arqueiro, indo e vindo no trajeto da ronda... tudo isso havia alterado bastante o caráter de Margarida, ela bem o percebia, e modificado também a sua fisionomia.

Branca, talvez, com seus dezoito anos, e sua estranha leviandade, sua quase inconsciência, que a fazia passar, num instante, da desolação à esperança insensata, Branca, que podia parar de soluçar só porque um pássaro cantava do outro lado da muralha, dizendo com ar maravilhado: "Margarida! Estás ouvindo? Um passarinho!...", Branca, que acreditava em sinais, em todos eles, e que fazia castelos sem parar, como outras mulheres fazem bainha, Branca, talvez, se a soltassem daquela gaiola, pudesse reencontrar suas cores, seu olhar e seu coração de outrora; Margarida, nunca. O que nela estava quebrado, jamais se consertaria.

Desde o início de seu cativeiro, não derramara uma lágrima sequer; nunca, também, tivera um pensamento de remorso, um sentimento de culpa ou de arrependimento.

O capelão, que a confessava todas as semanas, sentia-se amedrontado com a dureza dessa alma.

Em nenhum instante Margarida se reconhecera responsável pela própria desgraça; jamais admitira, como neta de São Luís, filha do duque da Borgonha, rainha de Navarra e prometida ao cristianíssimo trono da França, que amasiar-se com um escudeiro, recebê-lo no lar do marido, cumulá-lo de vistosos presentes, constituísse um jogo perigoso, que podia custar a honra e a liberdade. Sentia-se justificada pelo fato de haverem-na casado com um príncipe a quem não amava, e cujos contatos noturnos lhe causavam horror.

Não se arrependia de haver jogado; odiava os que a haviam feito perder; e era unicamente contra os outros que ela assestava sua cólera inútil, contra sua cunhada, a rainha da Inglaterra, que a denunciara, contra a sua família da França, que a condenara, contra sua família da Borgonha, que não a defendera, contra o reino inteiro, contra o destino e contra Deus. Era nos outros que pensava, com imensa sede de vingança, ao imaginar que devia, àquela hora, estar ao lado do novo rei, partilhando o poder e a majestade, em lugar de estar presa, rainha ridícula, atrás dos muros de doze pés de espessura.

Branca passou-lhe o braço ao redor do pescoço.

— Acabou-se — disse ela. —Estou certa, minha amiga, de que nossas desgraças terminaram.

— Terminarão — respondeu Margarida. — Se formos hábeis e andarmos depressa.

Em sua cabeça havia um projeto, que lhe surgira durante a missa, e que ignorava ainda aonde poderia levá-la. Mas seu desejo era aproveitar a situação.

— Deixa-me falar a sós com esse idiota do Bersumée, cuja cabeça gostaria de ver na ponta de uma lança e não sobre seus ombros — acrescentou.

Logo depois os ferrolhos e as fechaduras rangeram embaixo.

As duas mulheres recolocaram suas coifas. Branca foi postar-se na abertura da estreita janela; Margarida, esforçando-se para assumir uma atitude real, sentou-se no escabelo, que era o único assento do aposento. O comandante da fortaleza entrou.

— Aqui estou, senhora, como me pedistes — disse ele. Margarida deixou passar um instante, olhando-o bem de frente.

— Messire Bersumée — perguntou ela —, sabeis a quem estais guardando agora?

Bersumée desviou o olhar, como se procurasse um objeto em torno.

— Perfeitamente, senhora, perfeitamente — respondeu —, e penso nisso desde a manhã, quando a cavalgada que ia para Criqueboeuf me acordou.

— Durante os sete meses em que aqui estive encerrada, não possuí lençóis, nem móveis, nem tapetes; tomo a mesma sopa que os vossos arqueiros e só tenho uma hora de fogo por dia.

— Obedecia às ordens de messire de Nogaret, senhora — respondeu Bersumée.

— Messire de Nogaret morreu 2.

— Ele enviou-me as instruções do rei.

— O rei Filipe morreu.

Adivinhando aonde Margarida desejava chegar, Bersumée replicou:

— Mas monseigneur de Marigny continua vivo, senhora, e é ele quem manda na justiça e nas prisões, como em todas as coisas do reino. É dele que dependo em tudo.

— A cavalgada desta manhã não trouxe novas ordens a meu respeito?

— Nenhuma, senhora.

— Não tardareis a recebê-las.

— Espero-as, senhora.

Observaram-se um instante em silêncio. Roberto de Bersumée, comandante da fortaleza, tinha trinta e cinco anos, o que, àquela época, já era uma idade madura. Possuía esse ar preocupado, resmungador, que assumem geralmente os soldados de carreira e que, à força de ser afetado, torna-se natural. Para o serviço comum da fortaleza, usava uma boina de pêlo de lobo e uma surrada cota de malha, um pouco larga, enegrecida de gordura, e que ficava ensacada em torno do cinturão. Suas sobrancelhas uniam-se acima do nariz.

No princípio do cativeiro, Margarida tentara seduzi-lo, pronta a oferecer-se-lhe, só para torná-lo seu aliado. Ele, porém, esquivara-se, com medo de aborrecimentos. Bersumée continuava sentindo-se sem jeito diante de Margarida e lhe votava uma espécie de raiva por causa do papel ridículo que ela o fizera representar. Hoje, ele pensava: "Ora, vejam! Podia ter sido o amante da rainha da França!" E perguntava aos seus botões se o fato de se portar como soldado escrupuloso teria sido bom ou mau para a sua promoção.

— Não senti prazer algum, senhora, em infligir semelhante tratamento a damas... de tão alta linhagem como vós.

— Imagino-o, messire, imagino-o — respondeu Margarida —, porque se adivinha que sois um cavalheiro, e as coisas que vos ordenaram devem ter-vos repugnado.

Por ter como pai um ferrador de cavalos e, como mãe, uma filha de sacristão, o comandante da fortaleza ouviu aquele "cavalheiro" com certo prazer.

— Apenas, messire Bersumée — prosseguiu a prisioneira —, estou exausta de mastigar madeira para conservar brancos os meus dentes, e de untar as mãos com o toucinho da sopa, para que minha pele não se rache com o frio.

— Eu compreendo, senhora, eu compreendo.

— Ficaria muito grata se me colocásseis, agora, ao abrigo do gelo, dos vermes e da fome.

Bersumée abaixou a cabeça:

— Não tenho ordens, senhora.

— Estou aqui simplesmente por causa do ódio que me votava o rei Filipe, e sua morte vai mudar tudo — voltou Margarida, com tal segurança na mentira que ela mesma estava quase se convencendo. — Esperais que ordenem que abrais as portas para testemunhardes algum respeito pela rainha da França? Não achais que isto seria ir, totalmente, contra a vossa sorte?

Os militares são, geralmente, de natureza indecisa, o que os predispõe à obediência e os faz perder muitas batalhas. Bersumée era, também, tão lento a mandar quanto pronto a obedecer. Tinha voz forte e mão pesada com seus subordinados, mas não possuía grande disposição para tomar partido quando uma situação inesperada se apresentava.

Entre os ressentimentos de uma mulher que, de acordo com o que afirmava, seria todo-poderosa amanhã, e a cólera de monseigneur de Marigny, todo-poderoso hoje, que deveria escolher?

— Desejava, também, que a senhora Branca e eu — volveu Margarida — pudéssemos sair uma hora ou duas desta prisão, sob vigilância, se assim o quiserdes, para ver coisas diferentes desses muros e das lanças dos arqueiros.

Isso era ir muito depressa e muito longe. Bersumée farejou a armadilha. Suas prisioneiras procuravam fugir-lhe entre os dedos. Portanto, não tinham certeza de voltarem para a corte.

— Uma vez que sois a rainha, deveis compreender que sou fiel ao serviço do reino — respondeu ele — e que não posso desobedecer aos regulamentos que me foram dados.

Disse isto e saiu, para evitar ter que discutir mais.

— Cachorro! — gritou Margarida, assim que ele desapareceu. — É um cão de guarda que só serve para ladrar e morder.

Dera um golpe em falso e torturava o espírito para descobrir como poderia comunicar-se com o exterior, saber novidades, mandar cartas que não fossem lidas por Marigny. Ignorava que um mensageiro, escolhido entre os principais do reino, já estava a caminho para lhe colocar nas mãos um curioso ajuste.


MONSEIGNEUR ROBERTO D'ARTOIS

"Deve-se esperar tudo quando se é carcereiro de uma rainha", pensava Bersumée, enquanto descia da torre. Tinha o espírito cheio de ansiedade e descontentamento. Um acontecimento tão grave como a morte de um rei não poderia passar sem que o castelo recebesse visitas de Paris. E Bersumée apressou-se, a poder de berros, a colocar sua guarnição em condições de inspeção. Desejava, pelo menos desse lado, mostrar-se irreprochável.

Durante o dia todo, a fortaleza viveu em grande azáfama, como somente se vira ao tempo de Ricardo Coração de Leão. Por todos os lugares varria-se e polia-se. Tal arqueiro perdera seu carcaz? Onde estava esse carcaz? E essas cotas de malhas enferrujadas nas cavas? Vamos, peguem bastante areia e esfreguem até ficar brilhando!

— Se messire de Pareilles aparecer aqui de repente, não posso apresentar-lhe um bando de mendigos! — berrava Bersumée. — Vamos, mexam-se!

Limpava-se o corpo da guarda. Engraxavam-se as correntes da ponte levadiça. Tiravam-se os fornos para o pez, como se a cidadela fosse ser atacada naquele momento. E desgraçado do que não andasse depressa! O soldado Gros-Guillaume, aquele que aspirava a uma ração suplementar de vinho, levou um pontapé na canela. O sargento Lalaine estava extenuado.

As portas batiam; o Castelo Gaillard parecia uma casa em mudança. Se as princesas quisessem fugir, seria esse o dia mais conveniente. Havia um tal corre-corre que ninguém as veria sair.

À noite, Bersumée não tinha mais voz e os arqueiros dormitavam nas ameias das muralhas. Mas quando, no dia seguinte, às primeiras horas da manhã, os vigias anunciaram uma tropa de cavaleiros que avançava, com o pendão à frente, ao longo do Sena, vinda do lado de Paris, o comandante felicitou-se pelas medidas que tomara.

Vestiu rapidamente a cota de malha de parada, calçou as melhores botas, que não tinham mais que cinco anos, afivelou longas esporas de três polegadas, colocou o chapéu de ferro e saiu para o pátio. Teve alguns instantes para observar, com inquieta satisfação, seus homens ainda cansados, mas cujas armas, bem brunidas, chegavam a luzir na luz leitosa do inverno.

"Ninguém poderá me repreender no que se refere ao fardamento", murmurava. "E isto me tornará mais forte para me queixar da magreza do meu soldo e dos atrasos com que me mandam o dinheiro para nutrir minha gente."

Já as trombetas dos cavaleiros soavam ao pé da escarpa e ouviam-se os cascos dos cavalos bater no chão gredoso.

— As grades! A ponte!

As correntes da ponte levadiça tremeram em suas roldanas e, um minuto mais tarde, quinze escudeiros com as armas reais, rodeando um cavaleiro vermelho, ereto em sua montada como para imitar sua própria estátua eqüestre, entraram de roldão sob o arco do corpo da guarda e desembocaram no pátio do castelo.

"Será o novo rei?", pensava Bersumée, precipitando-se. "Senhor! Será já o rei que vem buscar sua mulher?"

Sua respiração estava cortada pela emoção e precisou de um momento para distinguir claramente o homem de capa vermelha que havia deslizado de seu cavalo e, colosso de panos, peles, couros e pratas, abria caminho em sua direção, por entre os escudeiros.

— Serviço do rei — disse o imenso cavaleiro, agitando diante do nariz de Bersumée, sem dar-lhe tempo de ler, um pergaminho do qual pendia um selo. — Sou o conde Roberto d'Artois.

As saudações foram rápidas. Monseigneur Roberto d'Artois obrigou Bersumée a curvar-se ao bater-lhe no ombro, a fim de mostrar que não era orgulhoso; depois pediu vinho quente para ele e toda a escolta, com uma voz que fez os vigias se voltarem, nas torres. Seus passos pareciam provocar a tempestade.

Desde a véspera, Bersumée tinha decidido brilhar, qualquer que fosse o visitante; ninguém o pegaria desprevenido; seria o comandante perfeito de uma fortaleza sem defeitos e agiria de forma a que se recordassem dele. Tinha uma arenga pronta, mas o discurso permaneceu-lhe na garganta para sempre.

Em alguns instantes, Bersumée surpreendeu-se convidado a beber o vinho que haviam pedido, escutou-se gaguejando lisonjas, viu os quatro cômodos de seu alojamento, ligado ao torreão, restringirem-se a proporções ridículas diante do tamanho do recém-chegado, engoliu o conteúdo de seu copázio e encontrou-se na torre das prisioneiras, atrás do conde d'Artois, que subira, a toda pressa, a escada negra. Até aquele dia, Bersumée considerava-se um homem de boa altura; sentiu-se, bruscamente, anão.

A respeito das princesas, Roberto d'Artois perguntou-lhe apenas:

— Como vão elas?

E Bersumée, amaldiçoando-se logo por sua tolice, respondeu:

— Vão muito bem, obrigado, monseigneur.

A um sinal, o sargento Lalaine, com os dedos trêmulos, virou a fechadura.

Margarida e Branca esperavam, de pé, ao centro do quarto redondo. Estavam pálidas, e, quando a porta se abriu, tiveram o mesmo movimento instintivo de se aproximar uma da outra, tomando-se as mãos.

D'Artois envolveu-as com o olhar. Piscou os olhos. Tinha parado na porta, a qual tomava inteiramente.

— Tu, meu primo! — disse Margarida.

E como ele nada respondesse, ocupado como estava em contemplar as duas mulheres, para cuja situação tão baixa ele havia contribuído, ela continuou, com uma voz que pretendia ser firme:

— Olha para nós, sim, olha-nos bem! E vê a miséria a que nos reduziram. É um espetáculo diferente daquele a que estás habituado na corte e da lembrança que tinhas de nós. Nada de roupas brancas. Nada de vestidos. Nada de alimentos. E nenhuma cadeira para oferecer a um tão grande senhor como tu.

"Será que elas sabem?", perguntava-se d'Artois, avançando lentamente. Estariam a par do papel que ele havia

desempenhado para sua perda, por vingança, por ódio pela mãe de Branca, e de que ajudara a rainha da Inglaterra a armar o laço em que haviam caído 3?

— Roberto, é a nossa liberdade que nos trazes? Era Branca quem havia feito a pergunta, dirigindo-se ao gigante, com as mãos estendidas e os olhos brilhantes de esperança.

"Não, elas nada sabem", pensou ele, "e isto vai tornar minha missão mais fácil." Não respondeu e voltou-se inteiramente:

— Bersumée, não há fogo aqui?

— Não, monseigneur; as ordens que eu tinha...

— Pois façam! E nada de móveis?

— Não, monseigneur, mas eu...

— Móveis. Tira este catre! Traze uma cama, cadeiras para sentar, tapetes, castiçais. Não me digas que não os tens! Vi o de que precisamos em teu alojamento. Traze tudo!

Segurou o comandante da fortaleza pelo braço e empurrou-o para fora, como a um criado.

— E comida — disse Margarida. — Dize também ao nosso bom guardião, que nos faz, diariamente, uma comida que os porcos deixariam no fundo de sua gamela, que nos dê, enfim, uma refeição.

— E comida, certamente! — disse d'Artois. — Tortas e assados. Legumes frescos. Boas pêras de inverno e doces. E vinho, Bersumée, muito vinho!

— Mas, monseigneur... — gemeu o comandante.

— Não me fales no nariz — vociferou d'Artois. — Tua boca tem mau cheiro.

Jogou-o para fora e fechou a porta com um pontapé.

— Minhas queridas primas — volveu d'Artois —, na verdade, esperava coisa pior; mas vejo com satisfação que essa triste temporada não ofendeu as duas mais belas fisionomias da França.

— Lavamo-nos ainda — disse Margarida. — Temos água suficiente, desde que quebremos o gelo das bacias que nos mandam.

D'Artois sentara-se no banco e continuava a olhá-las. "Ah! minhas pombas", cantava a si mesmo, "eis no que dá querer talhar destinos de rainhas na sucessão de Roberto d'Artois!" E tentava adivinhar se, sob as roupas, os corpos das duas mulheres haviam perdido suas curvas suaves de outrora. Parecia um grande gato aprestando-se para brincar com ratos engaiolados.

— Margarida — perguntou ele —, como estão teus cabelos? Estão novamente bastos?

Margarida de Borgonha sobressaltou-se, como se a tivessem picado. Empalideceu.

— De pé, d'Artois! — disse ela com voz colérica. — Embora reduzida à miséria que vês, não tolero que um homem fique sentado, em minha presença, quando eu não o estou!

Ele levantou-se de um salto e, durante um instante, seus olhares se afrontaram. Ela não vacilou.

À luz fraca que vinha da janela, ele viu melhor o novo rosto de Margarida, seu rosto de prisioneira. Os traços haviam conservado a sua beleza. Mas toda a doçura desaparecera. O nariz estava mais afilado, os olhos mais encovados. As covinhas que, na primavera passada, se formavam nas faces ambarinas, tinham se transformado em pequenas rugas. "Ora", pensou d'Artois, "ela ainda se defende. Tanto melhor, será mais divertido." Ele adorava a batalha e ter que lutar para triunfar.

— Minha prima — disse a Margarida, com fingida bonomia —, não tenho o intuito de insultar-te. Tu te enganaste. Queria simplesmente saber se teus cabelos estavam bastante crescidos para que possas apresentar-te em público.

Margarida não pôde ocultar um sobressalto de alegria, malgrado sua grande desconfiança.

"... apresentar-me em público... Isto quer dizer, então, que eu vou sair. Estarei perdoada? É o trono que me oferece? Não, não é nada disso, porque senão anunciaria isso logo de entrada..."

Ela pensava muito rapidamente e sentia-se vacilar; as lágrimas, contra a vontade, vieram-lhe aos olhos.

— Roberto — disse —, não me faças padecer. É do teu feitio, conheço-te bem. Mas não sejas cruel. Que vieste dizer-me?

— Minha prima, vim trazer-te...

Branca deu um grito e Roberto pensou que ela ia cair desmaiada. Deixou sua frase em suspenso; sustinha as duas mulheres como dois peixes na ponta de um anzol.

—...uma mensagem — acabou.

Sentiu prazer em vê-las abaixar os ombros e em ouvir seus suspiros de desapontamento.

— Mensagem de quem? — perguntou Margarida.

— De Luís, teu esposo, e atualmente nosso rei. E do nosso bom primo monseigneur de Valois. Mas somente posso transmiti-la a ti. Branca, queres deixar-nos um pouco?

— Sim — respondeu Branca com submissão —, vou sair. Mas antes, meu primo, deixa-me saber... Carlos, meu marido?

— A morte do pai abateu-o bastante.

— E de mim... que pensa ele? Fala de mim?

— Creio que tem saudades, a despeito do que lhe fizeste sofrer. De Pontoise para cá, ninguém o viu alegre como era antes.

Branca desmanchou-se em lágrimas.

— Achas — perguntou ela — que ele me perdoa?

— Isso depende muito de tua prima — respondeu d'Artois com ar misterioso, apontando para Margarida.

Conduziu Branca até a porta e fechou-a. Depois, voltando-se para Margarida:

— É preciso primeiramente, minha querida, que te informes de várias coisas. Quando, nos últimos dias, o rei Filipe começou a agonizar, Luís, teu esposo, ficou muito perturbado. Deitar-se príncipe e acordar rei é realmente surpreendente. Seu trono de Navarra, ele ocupava-o apenas de nome, e tudo ia bem sem ele. Dir-me-ás que tem vinte e cinco anos e que, nesta idade, já pode reinar; mas sabes, como eu, que o discernimento, sem lhe fazer injúria, não é a qualidade que o faz brilhar. Logo, nos primeiros tempos, monseigneur de Valois, seu tio, o auxilia em tudo e dirige os negócios com monsenhor de Marigny. O aborrecido é que esses dois espíritos poderosos, porque são muito semelhantes, pouco se gostam, e entendem mal o que um diz ao outro. Pensa-se mesmo que, em breve, eles não se entenderão mais, o que seria uma lástima, pois um reino não pode ser conduzido por dois surdos.

D'Artois havia mudado completamente de tom! Falava pausadamente, claramente, o que fazia pensar que, no barulho de sua chegada, ele punha muito de comédia.

— Por mim, sabes, não gosto, absolutamente, de monsenhor de Marigny, que me aborreceu bastante, e almejo de todo coração que o meu primo Valois, de quem sou amigo e aliado em tudo, o vença.

Margarida esforçava-se por compreender aquelas intrigas que, para d'Artois, eram o pão cotidiano, e nas quais ela mergulhava bruscamente. Não estava mais a par de nada: parecia sair de um longo sono do espírito.

Do pátio chegavam, atenuados pelas paredes, os gritos de Bersumée, que fazia os soldados esvaziarem seu alojamento.

— Luís continua me odiando, não é? — perguntou ela.

— Ah! isso sim, não o escondo, ele te odeia bastante! Confessa que tem motivos — prosseguiu d'Artois —, e o par de chifres com que enfeitaste sua cabeça incomoda-o bastante para colocar, por cima, a coroa da França! Nota, minha prima, que se isto acontecesse comigo, por exemplo, eu não iria anunciá-lo por to*do o reino. Ter-te-ia dado uma tal surra que perderias a vontade de recomeçar, ou então...

Ele teve um olhar que meteu medo a Margarida.

—...ou então agiria de forma a poder fingir que minha honra tivesse sido salva. Mas, enfim, o falecido rei, teu sogro, pensava de maneira diversa, e as coisas estão neste pé.

D'Artois tinha tal linha, ao deplorar o escândalo, que nem parecia haver sido ele quem o fizera explodir por todos os meios. Prosseguiu:

— O primeiro pensamento de Luís, após haver assistido à morte do pai, e a única idéia que tem na cabeça, no momento, pois acredito que ele só pode ter uma de cada vez, é sair da situação em que se encontra, por tua causa, e apagar a vergonha com que o cobriste.

— Que quer Luís? — perguntou Margarida. D'Artois balançou, um instante, sua perna monumental de frente para trás, como se fosse chutar uma pedra.

— Quer pedir a anulação do casamento — respondeu —, e nota que ele o deseja rapidamente, pois não hesitou em me despachar para cá.

"Assim, não serei jamais a rainha da França", pensou Margarida. Os sonhos insensatos que forjara, na véspera, já estavam por terra. Um dia de sonho por sete meses de prisão... e pelo resto da vida!

Nesse momento, dois homens entraram carregados de lenha e acenderam o fogo. Margarida esperou que saíssem.

— Pois bem — disse com lassidão —, ele que peça a anulação; que posso fazer?

E foi estender as mãos às chamas que começavam a crepitar.

— Oh! minha prima, podes agir muito justamente, e estamos prontos a agradecer-te um gesto que não te custará nada. Acontece que o adultério não constitui motivo para anulação; é absurdo, mas é assim. Poderias ter tido cem amantes em lugar de um, e satisfazer a todos os machos do reino, e continuarias indissoluvelmente casada com o homem a quem foste unida perante Deus. Pergunta ao capelão ou a quem quiseres: é assim. Procurei que me explicassem bem isso, pois não sou forte em coisas da Igreja: um casamento não se rompe, e, se se deseja quebrá-lo, é preciso provar a existência de um impedimento ou, então, que ele não foi consumado, que não existiu. Estás ouvindo?

— Sim, sim, estou compreendendo — afirmou Margarida.

Não se tratava de coisas do reino, mas de um assunto que interessava à sua sorte; ela registrava cada palavra para nada esquecer.

— Então, eis o que monseigneur de Valois — recomeçou o gigante — imaginou para tirar seu sobrinho da dificuldade.

Deixou passar um instante, e limpou a garganta.

— Confessarás que tua filha, a princesa Joana, não é de Luís; confessarás também que sempre te recusaste ao marido e que, assim, não houve realmente casamento. Declararás tudo isso sinceramente diante de mim e do teu capelão, que contra-assinará. Acharemos sem dificuldade, entre teus antigos criados, alguns para testemunhar e certificar as coisas. Deste modo o vínculo não poderá ser defendido e a anulação virá por si.

— E que me oferecerão em troca dessa... mentira? — perguntou Margarida.

— Em troca dessa... condescendência — replicou d'Artois — serás levada para o ducado da Borgonha, num convento, até que a anulação seja proclamada e, em seguida, viverás como quiseres ou como tua família quiser.

No primeiro instante, Margarida quis responder: "Pois bem, aceito; declararei tudo o que quiserem, assinarei não importa o quê, sob a condição de sair daqui". Mas percebeu que d'Artois a observava, com as pálpebras semicerradas, esforçando-se por assumir um ar bonachão, que não concordava com sua aparência, e teve a intuição de que ele a estava enganando. "Assino e continuo presa aqui", pensou.

Os seres que têm a duplicidade na alma julgam os outros da mesma maneira. Ora, d'Artois desta vez estava falando a verdade; o acordo que trazia era leal; tinha, mesmo, ordem de levar Margarida, se esta assinasse a declaração que lhe pediam.

— Isso seria fazer-me cometer um pecado grave — disse ela.

D'Artois explodiu numa risada.

— Que é isso, Margarida! — gritou ele. — Come-teste outros, parece-me, com menos escrúpulos!

— Pode ser que tenha mudado e esteja arrependida. Preciso refletir antes de me decidir.

O gigante fez uma careta curiosa, entortando os lábios da direita à esquerda.

— Pois bem, minha prima, mas reflete depressa, pois penso estar de volta a Paris amanhã, para a missa cantada dos funerais, em Notre-Dame. Vinte léguas calejando o meu traseiro, mesmo tomando o caminho mais curto. Com essas estradas, nas quais se afunda duas polegadas na lama, o dia que acaba cedo e começa tarde, e o tempo de trocar de cavalos em Mantes, não posso ficar parado e gostaria de não ter feito toda esta caminhada à toa. Até logo; vou dormir durante uma hora e voltarei para comer contigo. Não posso deixar-te sozinha, cara prima, no primeiro dia em que vais ter um bom jantar. Até lá terás decidido, como é preciso, estou convencido.

E retirou-se de repelão, como havia chegado, pois cuidava de suas saídas como de suas entradas, e quase re-virou da escada o arqueiro Gros-Guillaume, que subia, suando e arcado sob um grande móvel.

Depois, desapareceu no alojamento vazio do comandante da fortaleza e se jogou na única cama que aí restava.

— Bersumée, meu amigo, providencia para que o jantar esteja pronto dentro de uma hora — disse ele. — E chama meu criado Lormet, que deve estar com os escudeiros, para que venha velar meu sono.

Pois esse Hércules temia oferecer-se, indefeso, aos seus inimigos, que eram numerosos, enquanto dormia. E de todos os dispenseiros de armas ou escudeiros preferia, para guardá-lo, esse servidor rechonchudo, quadrado, que começara a encanecer, e o seguia por toda parte, sob a desculpa de carregar sua capa ou seu manto.

De um vigor incomum, malgrado seus cinqüenta anos já passados, tanto mais perigoso por não se mostrar inteligente, capaz de qualquer coisa para servir "monseigneur Roberto", especialmente matar um amolante sem ruído e em poucos segundos, Lormet, fornecedor de raparigas e grande recrutador de vadios, era um patife menos por natureza que por devotamento; esse matador tinha, por seu patrão, desvelos de ama.

Além disso, malicioso e fingindo-se muito bem de imbecil, era um espião de primeira ordem, e sua mais leve empresa não foi a de haver despistado os irmãos d'Aunay para fazê-los prender por Roberto d'Artois, quase em flagrante, ao pé da Torre de Nesle.

Quando se perguntava a Lormet o motivo de seu apego ao conde d'Artois, sacudia os ombros, respondendo: "É porque de cada uma de suas capas velhas posso fazer duas para mim".

Assim que Lormet entrou no alojamento do comandante da fortaleza, Roberto fechou os olhos e adormeceu, com os braços abertos, pés afastados, a barriga erguida por um pequeno resfolegar de ogro.

Uma hora mais tarde acordou por si mesmo, estirou-se como um grande tigre e levantou-se, com os músculos repousados e o espírito arejado.

Lormet estava sentado num escabelo, com a adaga pousada de viés sobre os joelhos, enquanto, com a cabeça redonda e as pálpebras abaixadas, contemplava, com ternura, o sono do patrão.

— Cabe a ti dormir agora, meu bom Lormet — disse-lhe d'Artois —, mas, antes, vai me buscar o capelão.


A ULTIMA OPORTUNIDADE DE SER RAINHA

O dominicano em desgraça apareceu logo, agitado por ter sido chamado em particular por tão alta personalidade.

— Meu irmão — disse-lhe d'Artois —, conheceis bem a senhora Margarida, pois sois seu confessor. Qual é o lado fraco de sua natureza?

— A carne, monseigneur — respondeu o capelão, baixando modestamente os olhos.

— Isto nós já sabemos! Mas além disso... há algum sentimento nela sobre o qual se possa insistir, para fazê-la compreender certas coisas, tanto do seu interesse como do do reino?

— Não sei, monseigneur. Não sei em que ela possa se dobrar... a não ser no que já vos disse. Essa princesa tem a alma dura como uma espada e até mesmo a prisão não conseguiu cegar seu gume. Ah! Não é uma penitência fácil!

Com as mãos enfiadas nas mangas, e a grande cabeça inclinada, o sacerdote procurava mostrar-se ao mesmo tempo hábil e piedoso. Não cortava o cabelo há algum tempo e a pele do crânio apresentava-se azulada sob sua rala coroa de cabelos pretos.

D'Artois ficou pensativo um momento, cocando o rosto, porque a cabeça do capelão fazia-o pensar na barba que começava a crescer.

— E sobre esse ponto a que vos referistes — tornou ele —, que encontrou ela aqui para satisfazer... sua fraqueza, pois é assim que denominais essa espécie de vigor?

— Que eu saiba, nada, monseigneur.

— E Bersumée? Nunca lhe fez uma visita um pouco mais longa?

— Nunca, monseigneur, posso garantir.

— E... convosco?

— Oh! monseigneur! — exclamou o sacerdote, persignando-se.

— Ora, ora! — tornou d'Artois. — Não seria a primeira vez que isso aconteceria, e conheceis alguns de vossos colegas que, quando tiraram o hábito, sentiram-se tão homens como os outros. De minha parte não vejo nenhuma ofensa, e mesmo, para ser franco, veria nisso motivo para elogio... E com a prima? As duas não se consolariam mutuamente?

— Oh! monseigneur! — exclamou o capelão, fingindo-se cada vez mais escandalizado —, isso é um segredo de confessionário que me pedis.

D'Artois deu-lhe, no ombro, um tapa amigável, que quase jogou o outro contra a parede.

— Vamos, vamos, messire capelão, não brinquemos — exclamou ele. — Se vos fizeram cura ecônomo de prisão não foi para guardar segredos, mas para confiá-los a quem deve ouvi-los.

— Nem a senhora Margarida, nem a senhora Branca

— respondeu a meia voz o capelão — jamais se acusaram perante mim de serem culpadas de algo semelhante, a não ser em sonho.

— O que não prova que elas sejam inocentes, mas sim que são prudentes. Sabeis escrever?

— É claro, monseigneur.

— Puxa! — exclamou d'Artois, com ar espantado.

— Nem todos os monges são tão chapados ignorantes como se diz!... Então, messire capelão, preciso de pergaminho, penas e todos os apetrechos necessários para escrever cartas. Colocai-vos embaixo da torre das princesas, pronto para subirdes logo que vos chame. Tratai de fazer tudo depressa.

O capelão inclinou-se; parecia ter algo a acrescentar, mas d'Artois, colocando sua grande capa escarlate, havia saído. Correndo ao seu encalço, disse, com voz cheia de obsequiosidade:

— Monseigneur! Monseigneur! tende a grande bondade, se não vos ofende fazer semelhante pedido, tende a imensa bondade de dizer ao frei Reinaldo, o grande inquisidor, se acaso vos encontrardes com ele, que eu continuo seu filho obediente, e que não me esqueça por muito tempo neste castelo-forte, onde sirvo da melhor maneira possível, pois Deus aqui me pôs; mas tenho alguns méritos, monseigneur, como pudestes verificar, e almejaria que eles fossem aproveitados de outra forma.

— Pensarei nisso, meu caro, pensarei nisso — respondeu d'Artois, que já sabia que nada faria a respeito.

Quando Roberto tornou a entrar no quarto de Margarida, as duas princesas ainda não haviam terminado a toalete; acabavam de lavar-se longamente diante do fogo, com a água quente e o sabão que lhes trouxeram, prolongando o prazer reencontrado; haviam lavado seus curtos cabelos, que ainda estavam perolados de gotinhas, e acabavam de vestir as longas camisolas brancas, fechadas na gola por um cordão, que lhes haviam fornecido. Tiveram um movimento de pudor amedrontado.

— Minhas primas — disse Roberto —, não vos preocupeis. Ficai assim. Eu sou da família; além disso, essas camisas ocultam mais que as roupas com que estáveis há pouco. Pareceis freirinhas. Mas já estais com aspecto melhor, e as cores começam a voltar. Confessai que a vossa sorte não tardou a mudar depois que cheguei.

— Oh! sim, obrigada, meu primo! — exclamou Branca.

O aposento estava transformado. Haviam trazido uma cama com cortinado, duas grandes arcas que serviam de banco, uma cadeira e uma mesa de cavalete, sobre a qual já estavam dispostas as tigelas, os copos e o vinho de Bersumée. Uma tapeçaria, cujo desenho já não existia, foi pendurada na parede abaulada, na parte onde o salitre fizera mais estragos. Uma grande vela, retirada da sacristia, ardia sobre a mesa, pois, embora a tarde apenas começasse, o dia já estava agonizando; e na lareira consumiam-se grandes troncos, cuja umidade escapava pelas pontas, em pequenas bolhas, com um barulho cantante.

Atrás de Roberto entraram o sargento Lalaine, o ar-queiro Gros-Guillaume e outro soldado; traziam uma sopa espessa e fumegante, um grande pão, arredondado como uma torta, um pastelão de cinco libras com uma crosta dourada, uma lebre assada, um pato e algumas pêras bem macias, um pouco passadas, que Bersumée, ameaçando arrasar a povoação, conseguira descobrir num fruteiro de Andelys.

— Mas, como! — gritou d'Artois —, é isto que trazeis, quando eu ordenei um bom jantar?

— Isto ainda é um milagre, monseigneur; encontrar tudo isso nessa época de fome... — respondeu Lalaine.

— Época de fome para os mendigos, talvez, que são tão madraços que desejam que a terra produza sem ser cultivada, mas não para as pessoas de bem — respondeu d'Artois. — Desde que deixei de mamar, nunca vi uma mesa tão fraca!

As prisioneiras olhavam com olhos de feras esfaimadas aquelas vitualhas expostas, que d'Artois fingia desprezar, para melhor fazer-lhes sentir a tristeza de sua condição. Branca sentia as lágrimas prestes a irromper. Os três soldados contemplavam também a mesa com olhar de cupidez maravilhada.

Gros-Guillaume, cuja gordura era apenas proveniente do centeio fervido, e que, ordinariamente, servia as refeições do comandante, aproximou-se cauteloso para cortar o pão.

— Não, não lhe toques com essas patas sujas — urrou d'Artois. — Nós mesmos nos serviremos. Vai embora, antes que eu me zangue!

Lembrou-se de chamar Lormet; mas o sono do seu guarda-costas era uma das raras coisas que Roberto respeitava. Poderia, também, chamar um escudeiro, mas preferia agir sem testemunhas.

Assim que os arqueiros desapareceram, disse:

— Vou me habituar um pouco à vida da prisão — disse ele com esse tom de facécia que, ainda atualmente, assumem as pessoas ricas quando é preciso, por acaso, carregar um prato ou lavar um talher. — Quem sabe? — ajuntou — talvez um dia sereis vós a me mandar para cá...

Ofereceu a Margarida a cadeira de espaldar.

— Branca e eu sentaremos neste banco.

Serviu o vinho e, levantando seu copo para Margarida, lançou:

— Viva a rainha!

— Não caçoes de mim, meu primo — disse Margarida. — É falta de caridade.

— Não estou caçoando; entende minhas palavras pelo que elas querem dizer. És rainha ainda hoje, que eu saiba, e desejo que vivas... simplesmente.

Dito isto, o silêncio caiu entre eles, pois começaram a comer. Outro que não Roberto teria ficado comovido ao ver aquelas duas mulheres se atirarem à comida como duas mendigas.

No primeiro minuto elas haviam tentado fingir o alheamento que a dignidade recomenda; mas a fome logo as venceu e quase não tinham tempo para respirar entre duas garfadas.

D'Artois fisgara a lebre com a ponta de sua adaga e sustentava-a junto às brasas da lareira para esquentá-la. Assim fazendo, continuava a observar as primas e uma grande risada subia em sua garganta. "Se eu pusesse as gamelas no chão elas ficariam de quatro para lamber até as ranhuras da madeira."

Elas bebiam também. Bebiam o vinho de Bersumée como se fosse preciso compensar, de uma só vez, sete meses de água de cisterna, e o sangue afluía-lhes ao rosto. "Vão ficar doentes", pensava d'Artois, "e acabar esta bela noite vomitando as tripas."

Ele mesmo comia por toda uma esquadra. Seu prodigioso apetite não era lenda, e seria preciso dividir em quatro cada um dos bocados que comia para que uma garganta normal pudesse engoli-los. Devorava o pato como se comem, geralmente, os tordos, mastigando os ossos. Escusou-se, modesto, de não fazer o mesmo com a carcaça da lebre.

— Os ossos da lebre — explicava — partem-se em chanfradura e cortam as entranhas.

Quando, enfim, todos ficaram satisfeitos, olhou Branca, indicando-lhe a porta. Ela levantou-se logo, apesar de sentir as pernas um pouco moles. A cabeça girava e a necessidade de achar uma cama era imperiosa. Roberto teve, então, o único pensamento de humanidade que lhe passou pela cabeça após sua chegada. "Se ela sai desse jeito no frio, vai morrer de congestão."

— Tens fogo no quarto? — interrogou ele.

— Sim, obrigada, meu primo — respondeu Branca. — Nossa vida...

Um soluço cortou-lhe a palavra.

—... nossa vida está verdadeiramente mudada, graças a ti. Ah! amo-te, meu primo... realmente eu te amo... Dirás a Carlos, não é?... dirás que o amo... que ele me perdoe, porque o amo.

Naquele momento ela amava a todo o mundo. Saiu, completamente bêbada, escorregando nos degraus da escada. "Se eu estivesse aqui para me divertir", pensou d'Artois, "essa não faria a menor resistência. Dêem vinho bastante a uma princesa e não tardarão a vê-la semelhante a uma devassa. Mas a outra também me parece em ponto de bala."

Lançou ao fogo um grande pedaço de lenha, virou para a lareira a cadeira de Margarida, tornou a encher os copos.

— Então, prima, refletiste bastante?

— Refleti, Roberto, refleti e penso que vou recusar.

Ela disse aquilo suavemente. Parecia toda amolecida, tanto pelo calor como pelo vinho, e sentia a cabeça um pouco zonza.

— Vamos, prima, não estás falando sensatamente! — exclamou Roberto.

— Mas sim, mas sim, creio que vou recusar — repetiu ela, com voz irônica, um pouco cantante.

O gigante teve um movimento de impaciência.

— Margarida, ouve-me bem. Só tens vantagens em aceitar agora. Luís é um homem impaciente por natureza, prestes a ceder a não importa quê para ter o que deseja na hora. Nunca mais poderás tirar partido da situação como agora. Consente em declarar o que te pedem. O teu caso não tem necessidade de ir à Santa Sé, pode ser julgado por um tribunal episcopal de Paris, que depende do monsenhor João de Marigny, o arcebispo de Sens, a quem farão sentir a urgência do assunto. Antes de três meses poderás recuperar tua liberdade.

— Senão?...

Ela se conservava um pouco pendida para o fogo, as mãos estendidas para a frente. O cordão que fechava a gola de sua longa camisola se havia desatado, e ela, sem o perceber, oferecia seu busto, profundamente, ao olhar do primo que aí deslizava. "A cadelinha conservou belos seios", pensou d'Artois.

— Senão?... — repetiu ela.

— Senão teu casamento será anulado de qualquer maneira, minha amiga, pois sempre se encontra um motivo para anular um casamento de rei — respondeu negligentemente d'Artois, inteiramente ocupado pelo que contemplava. — Assim que houver um papa...

— Ah! então não existe ainda um papa? — gritou Margarida.

D'Artois mordeu os lábios; havia cometido uma rata. Devia ter se lembrado de que ela, reclusa naquela prisão, ignorava o que todos sabiam, isto é, que, após a morte de Clemente V, o conclave não havia ainda conseguido eleger um novo pontífice. Uma bela arma que acabava de mostrar ao adversário. E ele percebeu, diante da viva-cidade da reação de Margarida, que esta não estava tão tonta quanto fingia.

Cometida aquela tolice, tratou de virá-la a seu favor, lançando-se ao jogo da falsa franqueza, no qual era mestre.

— Mas é justamente nisto que está tua oportunidade! É com isso que eu desejava fazer-te compreender. Desde que esses velhacos dos cardeais, que têm um mercado de promessas, como se vivessem numa feira, tenham vendido seus votos para consentir em se porem de acordo, Luís não precisará de ti. Só ganharás um pouco mais do seu ódio e ele te conservará aqui fechada para sempre.

— Sim, mas enquanto não houver papa nada se pode sem mim.

— É besteira obstinares-te.

Foi se colocar ao seu lado, envolveu-lhe o pescoço com sua pesada pata tão suavemente quanto pôde, e começou a acariciar-lhe o ombro.

O contato daquela mão imensa e musculosa pareceu perturbar Margarida. Há quanto tempo não sentia a mão de um homem em seu corpo!

— Qual é o grande interesse — perguntou suavemente — que tens para que eu aceite?

D'Artois debruçou-se até roçar-lhe a cabeleira com seus lábios.

— Amo-te bastante, Margarida, sempre te amei, bem sabes. E agora nossos interesses estão unidos. É preciso que recobres tua liberdade. E eu quero satisfazer Luís para que ele me favoreça. Bem vês que devemos ser aliados.

Ao mesmo tempo mergulhou a mão no corpete da rainha da França, acariciando-a à vontade, sem que ela oferecesse resistência. Ao contrário, ela apoiava sua cabeça contra o pesado punho de seu primo e parecia abandonar-se.

— Não é pena — recomeçou Roberto — que tão belo corpo, tão suave e tão bem-feito, seja privado das alegrias da natureza?... Aceita, Margarida, e eu te levarei comigo neste mesmo dia, para longe desta prisão; levar-te-ei primeiro para qualquer convento nada austero, onde eu possa ver-te freqüentemente e velar por ti... Que te importa, na verdade, declarar que tua filha não é de Luís, uma vez que nunca amaste essa criança?

Ela ergueu para ele os olhos desfalecidos e disse esta frase terrível:

— Se eu não a amo, não está aí a prova exata de que ela é do meu marido?

Permaneceu um momento sonhadora, a olhar o vácuo. A lenha rolou pelo chão, iluminando o aposento com um grande faiscamento de lampejos. E Margarida de súbito se pôs a rir, descobrindo seus pequenos dentes brancos; sua boca era inteiramente rosada por dentro, como a dos gatos.

— Por que estás rindo? — perguntou Roberto.

— Por causa do forro — respondeu ela. — Acabo de perceber que ele se parece com o da Torre de Nesle.

D'Artois ergueu-se estupefato. Não podia deixar de admirar tanto cinismo misturado a tanta velhacaria. "Pelo menos é uma mulher!", pensava.

Olhava-a, gigantesco diante da lareira, plantado sobre suas coxas sólidas como troncos de árvore. As chamas iluminavam suas botas vermelhas e faziam cintilar o ouro de suas esporas e a prata do seu cinturão. Se seus desejos estivessem de acordo com seu tamanho, aí havia com o que acalmar os desgostos de uma reclusão de sete meses!

Ergueu-a, estreitou-a contra ele.

— Ah! prima, se fosse comigo que tivesses casado... ou se tivesses me escolhido para amante, em lugar desse jovem basbaque de escudeiro, as coisas seriam diferentes para ti... e teríamos sido bem felizes.

— Sem dúvida — murmurou ela.

Ele a segurava pelas costas e tinha a impressão de que dali a pouco ela não seria mais capaz de pensar.

— Ainda não é tarde, Margarida.

— Talvez não... — respondeu ela com voz sufocada, consentidora.

— Livremo-nos, primeiramente, dessa carta, para nos ocuparmos, em seguida, apenas de nós mesmos. Façamos subir o capelão que espera lá embaixo...

Margarida desvencilhou-se de um salto.

— Quem espera lá embaixo? — gritou ela, com os olhos faiscantes de cólera..— Ah, meu primo, julgaste-me assim tão tola? Acabas de fazer como as mulheres da vida fazem geralmente com os homens: excitam-lhes os sentidos para submetê-los à sua vontade. Mas tu te esqueces de que, neste assunto, as mulheres são mais fortes, e que não passas de um aprendiz.

Desafiava-o, nervosa, ereta, amarrando a gola da camisa.

D'Artois tentou convencê-la de que estava enganada, que ele apenas desejava seu bem, que a entrevista tinha tomado rumo diferente do que esperava, e que se havia lembrado subitamente do pobre monge que devia tiritar ao pé da escada...

Ela observou-o com ar de desprezo e astúcia. Roberto agarrou-a, embora ela se defendesse, e a atirou bruscamente sobre a cama.

— Não, jamais assinarei — gritava ela, debatendo-se. — Podes me violar, se quiseres, pois és muito pesado para que eu possa resistir, mas direi ao capelão, direi a Bersumée, farei com que Marigny fique sabendo de que espécie é o embaixador que me mandou, e como abusaste de mim.

Ele a deixou, furioso, retendo o tapa que desejava lhe dar.

— Nunca, ouve bem, me farás confessar que minha filha não é de Luís, porque se este morrer, o que desejo de todo meu coração, minha filha tornar-se-á rainha da França e, então, será preciso contar comigo, como rainha-mãe.

D'Artois ficou interdito um instante. "Ela está certa, essa rameira consumada", pensou ele, "e se a sorte vier a lhe dar razão..." Sentiu-se vencido. Replicou, no entanto:

— Essa oportunidade é muito vaga.

— Não tenho outra; guardo-a.

— Como desejares, prima — respondeu o outro, ganhando a porta.

Seu fracasso duplo punha-lhe no coração uma raiva imensa. Despencou pela escada, encontrou o capelão, transido de frio, que esperava com um maço de penas na mão.

— Monseigneur, não vos esqueçais de dizer a frei Reinaldo...

— Pois não — gritou d'Artois — , eu lhe direi que és um belo asno, fradeco; não sei como consegues achar fraquezas em tuas penitentes!

Depois chamou:

— Escudeiros! Aos cavalos!

Bersumée apareceu, sempre coberto com seu chapéu de ferro, que não havia abandonado desde a manhã.

— As ordens, monseigneur? — perguntou ele.

— Que ordens? Obedece às que recebeste.

— E meus móveis?

— Estou ligando para os teus móveis!

Já traziam para d'Artois seu grande cavalo normando, e Lormet apresentou-lhe o estribo.

— E o dinheiro do jantar, monseigneur? — perguntou, ainda, Bersumée.

— Pede-o a messire de Marigny! Vamos, abaixem a ponte!

De um grande salto, d'Artois ergueu-se para a sela e partiu ao galope, seguido por toda a escolta.

Logo mais só se enxergavam, na noite que caía sobre as encostas do Castelo Gaillard, fagulhas que saíam das ferraduras dos cavalos.


VIVA O REI!

As chamas de centenas de velas, dispostas ao longo das pilastras, projetavam suas luzes movediças sobre os reis da França ali jacentes; as compridas fisionomias de pedra pareciam agitadas, por instantes, pelos frêmitos do sonho, e dir-se-ia um exército de cavaleiros adormecidos, pela magia, no meio de uma floresta em fogo.

Na Basílica de Saint-Denis, necrópole real, a corte assistia ao sepultamento de Filipe, o Belo.

Colocada de perfil, na nave central, para ficar defronte à nova sepultura, toda a tribo capetina ali se encontrava, em trajes sombrios e suntuosos: os príncipes de sangue, os pares leigos, os pares eclesiásticos, os membros do Conselho Privado, os grandes capelães, o condestável, os principais dignitários da coroa.

O supremo mordomo da casa real, seguido por cinco oficiais 4, avançou, com passos solenes, para a cova aberta, para onde já haviam descido o cadáver, e jogou nela o bastão esculpido, insígnia do seu cargo; pronunciou depois a fórmula que marcava, oficialmente, a passagem de um reinado a outro:

— O rei morreu! Viva o rei! Depois dele, toda a assistência repetiu:

— O rei morreu! Viva o rei!

E esse grito de cem peitos, repercutido de ogiva em ogiva, de arco em arco, de viga em viga, foi ecoar profundamente no alto da abóbada.

O príncipe de olhos amortecidos, de ombros estreitos e de peito encovado que, naquele instante, se tornava o rei Luís X sentiu uma estranha sensação na nuca, como se as estrelas aí houvessem estalado. O frio da angústia tomou-lhe o corpo, a ponto de temer cair desfalecido!

Pôs-se a rezar por si mesmo, como jamais fizera por qualquer criatura humana.

À sua direita, seus dois irmãos, Filipe, conde de Poitiers, e o príncipe Carlos, que não possuía, ainda, apanágio próprio, olhavam fixamente o túmulo, com o coração apertado pelo sentimento que todo homem, filho de pobre ou filho de rei, conhece no momento em que o corpo do pai vai desaparecer debaixo da terra.

À esquerda do novo soberano encontravam-se seus dois tios, monseigneur Carlos de Valois e monseigneur Luís d'Evreux, dois homens de grande estatura, e que haviam ultrapassado os quarenta anos.

O conde d'Evreux sentia-se assaltado por imagens do passado. "Há vinte e nove anos", pensava ele, "éramos três filhos, nós também, sobre estes mesmos ladrilhos, diante do túmulo de nosso pai... parece tão próximo; e, agora, Filipe se vai. A vida já passou."

Seu olhar dirigiu-se para o jacente vizinho, Filipe III. "Pai", rezou intensamente Luís d'Evreux, "recebei no outro reino meu irmão Filipe, porque ele vos sucedeu condignamente."

Mais longe, do lado do altar, encontrava-se a tumba de São Luís e, além, as efígies de pedra dos grandes antepassados. Depois, do outro lado da nave, os espaços vazios, os ladrilhos nus, que se abririam um dia para esse jovem que subia ao trono, e, após ele, para todos os reis futuros. "Ainda há muito lugar para vários séculos", pensou Luís d'Evreux.

Monseigneur de Valois, com os braços cruzados, o queixo alto e o olhar móvel, observava tudo e velava para que a cerimônia se desenrolasse como devia.

— O rei morreu! Viva o rei!

Cinco vezes ainda, o grito ecoou pela basílica, à medida que desfilavam os mordomos. Depois, o último bastão reboou sobre o caixão e o silêncio reinou.

Luís X foi presa, nesse momento, de violento acesso de tosse que não conseguiu, malgrado seus esforços, dominar. Um fluxo de sangue subiu-lhe às faces e ele permaneceu um bom minuto sacudido pela tosse, como se fosse cuspir a alma diante do túmulo do pai.

Os assistentes se entreolharam, as mitras penderam para as mitras, as coroas para as coroas; houve alguns murmúrios de inquietude e de piedade. Cada qual pensava: "E se esse morresse também em algumas semanas, que aconteceria?"

Entre os pares, a temível condessa Mafalda d'Artois, com as faces vermelhas de frio, observava seu sobrinho Roberto, o gigante, e se perguntava por que, na véspera, ele havia chegado a Notre-Dame, no meio do ofício fúnebre, com a barba por fazer e enlameado até os rins. De onde vinha, que teria ido fazer? Onde Roberto aparecia, havia intrigas no ar. O favor de que ele parecia gozar alguns dias após Filipe, o Belo, haver rendido sua alma não estava lhe cheirando bem. E pensava que, se o novo rei, acompanhando seu pai, fosse atacado por um frio traiçoeiro, isso arranjaria mais rapidamente seus negócios.

Rodeado por legistas do Conselho, monseigneur Enguerrand de Marigny, assistente do soberano que se enterrava, e dirigente-geral do reino, estava em luto de príncipe. Ele trocava, vez ou outra, um olhar com seu irmão mais moço, João de Marigny, arcebispo de Sens 5, que oficiara na véspera, em Notre-Dame, e que, de mitra na cabeça, báculo nas mãos, estava cercado do alto clero da capital.

Simples burgueses normandos que, vinte anos antes, chamavam-se os irmãos Le Portier, estes dois Marigny haviam feito uma carreira prodigiosa e, o mais velho puxando o mais moço, realizado uma bela divisão de poderes, um exercendo todo o poder civil e o outro, o poder religioso. Juntos, haviam destruído a Ordem dos Templários.

Enguerrand de Marigny era desses homens que podem ter certeza de entrarem vivos para a história, porque são eles que a fazem. E era preciso lembrar-se de onde viera e aonde conseguira chegar, para suportar, naquele momento, a terrível tristeza que o abatia. "Dom Filipe, meu rei", pensava ele, olhando para o túmulo, "servi-vos tanto quanto pude e me cumulastes com as mais altas tarefas como, também, com as maiores honrarias e favores inumeráveis. Quantos dias trabalhamos lado a lado... pensávamos do mesmo modo em tudo; cometemos erros, corrigimo-los. Juro defender a obra que realizamos juntos e prossegui-la, malgrado os que se vão apressar em atacá-la. Mas como vou me sentir só agora!" Porque havia fervor nesse grande político, e ele pensava no reino como um segundo rei.

Egídio de Chambly, abade de Saint-Denis, de joelhos à beira do túmulo, traçou um último sinal-da-cruz. Depois ergueu-se, fez um gesto para os coveiros, e a pesada pedra chata rolou sobre a tumba.

Nunca mais Luís X ouviria a terrível voz do pai lhe dizer:

— Cala-te, Luís!

E, longe de sentir-se libertado, foi tomado pelo pânico. Ouviu pronunciarem ao seu lado:

— Vamos, Luís.

Sobressaltou-se: era Carlos de Valois que lhe falara, indicando que ele devia caminhar. Luís X voltou-se para o tio e murmurou:

— Viste-o tornar-se rei. Que fez ele? Que disse?

— Ele tomou seu cargo imediatamente — respondeu Carlos de Valois.

"E ele tinha dezoito anos... sete anos menos que eu", pensou Luís X. Sentindo todos os olhares dirigidos para ele, fez um esforço para se endireitar, pôs-se em marcha e o cortejo se formou em seguida, constituído pelos frades, de cabeça baixa e as mãos na manga, cantando um salmo. E como fazia vinte e quatro horas que cantavam sem cessar, começavam a desafinar.

Passou-se, assim, da basílica para a sala capitular da abadia, em que foi servida a refeição tradicional que fechava os funerais.

— Sire — disse o abade Egídio, antes de conduzir Luís ao seu lugar —, faremos agora duas orações, uma pelo rei que Deus nos levou, a outra para o que nos dá.

— Muito obrigado, padre — disse Luís X com voz pouco firme.

Depois, sentou-se com um suspiro de lassidão e pediu logo um copo d'água, que sorveu de um trago. Durante toda a refeição, ficou silencioso, comendo pouco, bebendo bastante água. Sentia-se febril e estafado de corpo e alma.

"É preciso ser robusto para ser rei." Era uma das máximas que Filipe, o Belo, lançava a seus filhos quando estes ainda não eram cavaleiros e ficavam de mau humor, por vezes, nos exercícios das armas ou nos passos da quintaine 6. "É preciso ser robusto para ser rei", repetia Luís X no primeiro instante do seu reinado. Ele era desses homens nos quais a fadiga produz irritação, e pensava que, quando nos deixam um trono, deviam dar-nos a força necessária para nele nos conservarmos direitos. Mas quem, a menos que possua uma resistência de atleta, pode suportar, sem se sentir esgotado, a semana que ele acabara de viver?

O que o ritual exigia do novel soberano, para entrar em função, era propriamente inumano. Luís precisou assistir à agonia do pai, receber a transmissão do milagre real 7, assinar o último testamento e tomar suas refeições, durante dois dias, diante do cadáver embalsamado. Além disso, houve o transporte do corpo, por via fluvial, de Fontainebleau a Paris, e uma série de cavalgadas e vigílias, ofícios religiosos e intermináveis cortejos, tudo isso por um horrível inverno, em que se patinava na lama gelada, em que um vento traiçoeiro cortava o peito e uma nevezinha manhosa arranhava o rosto.

E Luís X admirava seu tio Valois, que, durante aqueles dias, tinha estado constantemente ao seu lado, decidindo tudo, resolvendo problemas de precedência, infatigável, voluntário, terrivelmente presente. "Sem ele, que teria feito?", pensava Luís.

Valois parecia ter nervos de rei. Falando ao abade de Saint-Denis, já começava a inquietar-se com a sagração de Luís, que deveria realizar-se no verão seguinte. Pois a abadia de Saint-Denis era, além da guarda dos túmulos reais, a depositária do pendão da França, que vinham buscar quando o rei partia em guerra, e a guardiã dos atributos e vestimentas da sagração. O conde de Valois queria saber se tudo estava em ordem. A grande capa não tinha necessidade de reparos? Os escrínios para transportar a Reims o cetro, as esporas e a mão de justiça estavam em bom estado? E a coroa de ouro? Era preciso que os joalheiros logo tomassem a medida da cabeça de Luís X, para pôr o barrete no tamanho certo. Ah! como monseigneur de Valois gostaria de usar essa coroa! E ele agitava-se em torno dela, como essas solteironas que se azafamam a pôr alfinetes nos vestidos das noivas.

O abade Egídio, enquanto ouvia, observava o jovem rei que a tosse sacudia novamente, e pensava: "Certamente, vai se preparar tudo, mas agüentará até lá?"

Quando a refeição terminou, Hugo de Bouville, primeiro camareiro de Filipe, o Belo, levantou-se para ir quebrar, diante de Luís X, seu bastão esculpido, significando isso que havia cumprido seu último trabalho. O gordo Bouville tinha os olhos cheios de lágrimas; as mãos tremiam e precisou esforçar-se por três vezes para quebrar seu cetro de madeira, símbolo e delegação do grande cetro de ouro. Depois voltou para seu lugar, perto do jovem Mateus de Trye, primeiro camareiro de Luís, que ia suceder-lhe, e murmurou:

— É vossa vez agora, messire.

Os assistentes saíram, montaram a cavalo, e o cortejo pôs-se em marcha para a última etapa. Fora, a multidão era pouca para gritar: "Viva o rei!" As pessoas tinham se enregelado na véspera, ao ver passar o grande desfile, cujo começo já estava em Saint-Denis, quando o fim ainda não havia ultrapassado a porta de Paris; o de hoje não oferecia mais nada à admiração. Começara a cair uma espécie de granizo, que furava as roupas até à pele; e somente restavam os basbaques habituais ou os que podiam gritar de sua porta, sem se molhar.

Desde o momento em que ficou sabendo que um dia seria rei, Luís sonhara com a entrada que faria na sua capital, num dia de sol glorioso. E quando o Rei de Ferro o maltratava, dizendo-lhe asperamente: "Luís, não sejas tão turbulento!", quantas vezes não havia desejado o desaparecimento do pai, pensando: "Quando eu puder mandar, tudo mudará e verão quem sou eu".

Ora, agora que ele acabava de ser proclamado, nada mostrava que se tivesse transformado de repente em soberano. Se alguma coisa tinha mudado, era no sentido de que ele se sentia mais fraco que na véspera, mal seguro na sua nova majestade, e pensava, a todo propósito, naquele pai que tão pouco amara.

Com a cabeça baixa, os ombros trêmulos, conduzia seu cavalo por entre os campos desertos, onde os restos de colmo furavam as placas de neve; parecia preceder os sobreviventes de um exército derrotado.

Chegaram aos subúrbios e transpuseram as portas.

O povo da capital não se mostrou mais entusiasmado que o de Saint-Denis. Que motivos, aliás, teria para alegrar-se? O inverno prematuro entravava os transportes e multiplicava as mortes. As últimas colheitas tinham sido péssimas: os gêneros rareavam e seus preços não paravam de subir. A fome andava no ar. E o pouco que se conhecia do novo soberano não era para fazer renascer a esperança.

Diziam-no briguento e trapalhão, donde o cognome de Turbulento, que da corte espalhou-se pela cidade. Não se podia citar nenhum ato importante ou generoso de sua parte. Sua única e triste nomeada lhe vinha da circunstância de ser um príncipe enganado pela esposa e que, ao descobrir o escândalo, mandara torturar, antes de mergulhá-los no Sena, os empregados de sua casa, que ele suspeitava serem cúmplices de sua infelicidade.

"É por causa disso que me desprezam", murmurava Luís X, "por causa dessa meretriz que me achincalhou e me transformou em escárnio diante de todos... Mas gostarão de mim à força, e, se não gostarem, procederei de tal forma que todos tremerão e darão graças ao ver-me, como se gostassem de mim. E, antes de mais nada, vou casar-me, ter uma rainha ao meu lado... para que minha desonra seja apagada."

Mas, ai! o relatório que lhe fizera, na véspera, seu primo d’Artois, de volta do Castelo Gaillard, deixava entrever a dificuldade da empresa. "A prostituta cederá; mandarei submetê-la a tais regimes e tormentos, que acabará cedendo."

A noite chegara e os arqueiros da escolta acenderam tochas. Como houvessem espalhado, entre o povinho, que iam lhe jogar moedas de ouro, grupos de pobres, com a pele aparecendo pelos buracos de seus andrajos, permaneciam pelas esquinas. Mas nenhuma moeda caiu.

A triste marcha à luz das tochas atingiu, assim, o Hotel de Ville, através do Châtelet e da Pont-au-Change.

Apoiando-se sobre o ombro de um escudeiro, Luís X saltou para o chão, e imediatamente o cortejo se desfez. A condessa Mafalda deu o sinal de dispersão, declarando que todos tinham, agora, necessidade de calor e de repouso, e que ela iria para casa.

Prelados e barões aproveitaram para tomar o caminho de seus lares. Até mesmo os irmãos do novo rei se retiraram. Entrando em seu palácio, Luís X viu-se acompanhado, além de sua escolta de escudeiros e de servidores, somente pelos seus dois tios Valois e Evreux, por Roberto d'Artois e por Enguerrand de Marigny.

Passaram pela Galerie Mercière, imensa e àquela hora quase deserta. Alguns mercadores 8 que fechavam seus negócios com cadeados, após um mau dia de venda, tiraram seus bonés e se reuniram para gritar: "Viva o rei!" Suas vozes foram se perder, derrisórias, nas abóbadas das duas enormes naves.

O Turbulento caminhava lentamente, as pernas duras numas botas muito pesadas, com o corpo ardendo em febre. Olhava à direita e à esquerda, para as estátuas de quarenta reis, de pé contra a parede, os quais, depois de Meroveu, tinham governado a França, e que Filipe, o Belo, havia mandado erguer ali, à entrada da morada real, a fim de que o soberano vivo aparecesse, a cada visitante, como o continuador de uma raça sagrada, destinada por Deus para exercer o poder.

Essa colossal herança de pedra, de olhos brancos à luz das tochas, só servia para oprimir ainda mais o pobre príncipe de carne que recebia a sucessão.

Um vendeiro disse à mulher:

— O nosso novo rei não está com boa cara.

E a vendeira, parando de soprar os dedos, respondeu com essa risota que as mulheres sempre têm para os infortúnios que só elas podem causar:

— Ele está com uma bela cara de corno.

A mulher não havia falado alto, mas sua voz aguda ressoou no silêncio. O Turbulento voltou-se imediatamente, com o rosto bruscamente encolerizado, procurando, em vão, distinguir quem ousara pronunciar aquela palavra à sua passagem. Ao seu redor todos desviaram o olhar e fingiram não haver compreendido.

Chegou-se ao pé da grande escadaria. Dominando, enquadrando a monumental entrada, elevavam-se as estátuas de Filipe, o Belo, e de Enguerrand de Marigny, pois o dirigente-geral do reino havia recebido a honra suprema de ver sua efígie colocada, ainda em vida, ao lado da de seu mestre, na Galeria da História.

Se alguém detestava ver essa estátua era monseigneur de Valois, que, cada vez que era obrigado a passar diante dela, indignava-se de que houvessem elevado tão alto aquele burguês. "A astúcia e a intriga conduziram-no a tanta impudência que ele assume ares de ser do nosso sangue", pensava Valois. "Mas espere, messire, nós o desceremos desse pedestal, juro-o, e lhe mostraremos bem depressa que o tempo de suas grandezas malignas passou."

— Messire Enguerrand — disse ele, voltando-se com altivez para seu inimigo —, creio que o rei deseja, agora, ficar em família.

Pela palavra "família" designava apenas monseigneur d'Evreux, Roberto d'Artois e ele próprio.

Marigny fez que não entendeu e, dirigindo-se ao soberano, disse-lhe, para evitar escândalo, mas mostrando que recebia ordens apenas do rei:

— Sire, muitos negócios por resolver estão à minha espera. Posso retirar-me?

Luís estava com o pensamento longe: a palavra que a vendeira soltara continuava ainda a verrumar-lhe a cabeça. Seria incapaz de repetir o que Marigny acabara de dizer.

— Pois não, messire, pois não — respondeu impaciente.

E subiu os degraus que levavam aos seus aposentos.

 

UMA PRINCESA QUE VIVE EM NÁPOLES

Filipe, o Belo, nos últimos anos de seu reinado, mandara reconstruir inteiramente o Hotel de Ville. Esse homem comedido, quase avaro no que se referia à sua despesa pessoal, não conhecia limites quando se tratava de glorificar a idéia real. O palácio era enorme, arrasador, e fazia parelha com Notre-Dame: lá, a casa de Deus, aqui, a casa do rei. O interior ainda tinha o aspecto de novo; tudo era suntuoso e triste.

"Meu palácio", dizia Luís X, olhando em redor. Nunca ali morara após a transformação, residindo no Palácio de Nesle, que recebera, assim como a coroa de Navarra, por herança materna. Pôs-se a percorrer os quartos, que via, agora, com outros olhos, pois eram propriedade sua.

Abria as portas, atravessava salas imensas onde os passos ressoavam: Sala do Trono, Sala da Justiça, Sala do Conselho. Atrás dele, em silêncio, caminhavam Carlos de Valois, Luís d'Evreux, Roberto d'Artois e o camareiro Mateus de Trye.

Os empregados deslizavam ao longo dos corredores e os funcionários esgueiravam-se pelas escadas; não se ouviam suas vozes; todos tinham, ainda, atitude de vigília mortuária.

Pelas janelas viam-se luzir, fracamente, na noite, os vitrais da Sainte-Chapelle.

Luís X parou, finalmente, numa sala de proporções modestas, em que seu pai costumava trabalhar. Aí ardia um fogo suficiente para assar um boi, e nele era possível se aquecer protegendo-se, contra o calor das chamas, por anteparos de vime, previamente molhados e dispostos ao redor da lareira. Luís pediu a Mateus de Trye que mandasse buscar roupas secas e despojou-se das suas, que foram colocadas sobre um dos anteparos. O mesmo fizeram seus tios e seu primo; logo depois, as pesadas fazendas encharcadas de água, os veludos, as peles, os bordados começaram a fumegar, enquanto os homens, em camisa e calções, parecendo quatro camponeses que voltassem dos campos, conversavam de pé, virando-se e revirando-se no calor do fogo.

A sala estava iluminada por velas enfiadas num suporte de ferro forjado. O sino da Sainte-Chapelle badalou o ângelus.

De súbito, ouviu-se um suspiro, quase um gemido, que vinha do canto mais sombrio do cômodo. Todos se sobressaltaram e Luís X, não se contendo, gritou com voz aguda:

— Que é isso?

Mateus de Trye tornava a entrar, acompanhado de um criado que trazia roupas secas para Luís. O empregado, pondo-se de quatro, retirou de baixo de um móvel um grande galgo de espinhaço alto e curvado e olho vermelho.

— Vem, Lombardo, vem.

Era o animal favorito de Filipe, o Belo, presente do banqueiro Tolomei, o cão que haviam encontrado perto do rei quando este caiu, inanimado, durante sua última caçada.

— Este cachorro estava, há quatro dias, em Fontainebleau. Como veio parar aqui? — perguntou o Turbulento, furioso.

Chamou-se um escudeiro.

— Ele voltou com a matilha, sire — explicou o escudeiro —, e não obedece; foge quando ouve vozes e desde ontem que eu não sabia onde havia se escondido.

Luís exigiu que levassem Lombardo e o trancafiassem na estrebaria; e como o grande cachorro resistisse, arranhando o assoalho com as unhas, tocou-o a pontapés.

Detestava cães desde o dia em que, criança, havia sido mordido por um deles, ao qual furara a orelha com um prego, por diversão.

Ouviram-se vozes numa peça vizinha. Uma porta abriu-se e uma criança de três anos surgiu, apertada num vestido de luto, e empurrada pela ama, que lhe dizia:

— Ide, senhora Joana; ide saudar o senhor rei, vosso pai.

Todos se voltaram para aquele pequeno ser de faces pálidas, de olhos muito grandes, que não tinha ainda discernimento e que, no momento, era a herdeira do trono da França.

Joana tinha a testa redonda e curva de Margarida de Borgonha, mas sua cútis e seus cabelos eram claros. Caminhava olhando, ao seu redor, as coisas e as pessoas, com essa expressão inquieta que têm as crianças pouco amadas.

Luís X, com um gesto, impediu-a de que chegasse até ele.

— Por que a trouxeram até aqui? Não quero vê-la!

— gritou. — Levem-na imediatamente para Nesle; é lá que deve morar, pois foi lá...

Ia dizer: "...que sua mãe a concebeu em suas farras". Parou a tempo, esperando que a ama levasse a criança.

— Nunca mais quero ver essa bastarda!

— Estás assim tão certo, Luís, de que ela o seja?

— perguntou monseigneur d'Evreux, afastando do fogo suas roupas, para que não fossem chamuscadas.

— Para mim, basta a dúvida — respondeu o Turbulento —, e nada quero reconhecer de uma mulher que me traiu.

— Essa criança é contudo loura, como todos nós.

— Filipe d'Aunay também era louro — replicou amargamente o Turbulento.

— Luís deve ter boas razões, meu irmão, para falar assim — interveio Carlos de Valois.

— E depois — volveu Luís aos berros —, não quero mais ouvir essa palavra que me atiraram há pouco, quando chegávamos; não quero adivinhá-la sempre na cabeça dessa gente; não quero dar oportunidade para se lembrarem.

Monseigneur d'Evreux calou-se. Pensava na criança, que ia viver no meio de alguns criados, no imenso Palácio de Nesle, deserto. Ouviu Luís falar:

— Ah! vou ficar bem só aqui.

Luís d'Evreux olhou-o, sempre surpreendido com esse sobrinho que cedia a todo impulso de mau humor, que conservava seus ressentimentos como um avarento guarda seu ouro, espantava os cães porque um deles o mordera, tocava a filha porque havia sido enganado, e lamentava a solidão.

"Se ele tivesse um gênio melhor e mais bondade no coração", pensava d'Evreux, "sua esposa talvez o tivesse amado."

— Toda criatura é só, Luís — disse-lhe gravemente.

— Cada um de nós sofre, na solidão, o instante de sua morte; e é vaidade pensar que não existem, na vida, outros instantes assim. Mesmo o corpo da esposa, com quem dormimos, continua um corpo estranho; mesmo as crianças que engendramos nos são estranhas. Sem dúvida o Criador o quis assim para que todos nós somente tenhamos comunhão com Ele... Só há consolo na compaixão e em saber que os outros também sofrem do mesmo mal que nós.

O Turbulento sacudiu os ombros. O tio Evreux não tinha mais nada, a não ser Deus, para oferecer como consolação, e a caridade como remédio?

— Sim, sim, sem dúvida, meu tio — respondeu ele.

— Mas isso tudo não responde às inquietações que me oprimem.

Depois, virando-se para d'Artois, que, com as nádegas voltadas para o fogo, fumegava como uma sopeira, disse:

— Então, Roberto, estás certo de que ela não cederá? D'Artois sacudiu a cabeça.

— Sire, meu primo, conforme já vos disse ontem à noite, fiz pressão sobre Margarida de todas as maneiras: lancei sobre ela meus mais sólidos argumentos — respondeu d'Artois, usando de uma ironia cujo sentido somente ele conhecia. — Esbarrei-me em uma recusa tão firme, que posso bem assegurar-vos de que nada se obterá dela. Sabeis com que ela conta? — ajuntou ele, perfidamente.

— Que morrais antes dela.

Luís X, instintivamente, levou a mão, através da camisa, ao relicariozinho que carregava ao pescoço e ficou um momento, com o olhar instável, os cabelos em desordem, a girar em torno de si próprio. Depois, dirigindo-se ao conde de Valois:

— Aí está, meu tio, estás vendo que a coisa não é tão fácil como me prometeste, e a anulação não me parece que fique logo pronta!

— Estou pensando nisso, meu sobrinho, só penso nisso — respondeu Valois, com a testa enrugada pela reflexão.

D'Artois, de pé em frente ao Turbulento, cuja cabeça chegava à altura de seus ombros, murmurou com uma voz que podia ser ouvida a vinte passos:

— Meu primo, se estiverdes com receio de jejuar, poderei fornecer a vossa cama suaves carnes femininas, que a promessa de um pouco de ouro e a vaidade de servir aos prazeres de um rei tornarão bem acolhedoras...

Ele falava daquilo com gula, como de um assado ao ponto ou de um bom prato no molho.

Monseigneur de Valois agitou seus dedos carregados de anéis.

— De que te serve, Luís, que anulem teu casamento — disse ele — enquanto não escolheres a nova mulher que desejas desposar? Não te preocupes tanto com esse assunto; um soberano sempre acaba conseguindo uma anulação. E o que é preciso é encontrar, desde logo, a esposa que desempenhará, junto a ti, o papel de rainha e te dará uma bela descendência.

Monseigneur de Valois tinha o hábito de, quando um obstáculo aparecia, evitá-lo saltando para a próxima etapa; na guerra, ele subestimava os pontos de resistência, contornava-os e ia atacar a cidade seguinte.

— Mano — disse o prudente conde d'Evreux —, a coisa não é assim tão fácil, na situação em que se encontra o nosso sobrinho, se ele não consentir em que a mulher que tomar seja inferior à sua classe.

— Mas como! Conheço dez princesas na Europa que fechariam os olhos a muitas coisas, só para cingir a coroa da França. Vê, sem ir muito longe, minha sobrinha Clemência da Hungria... — respondeu Valois, como se a idéia lhe surgisse naquele instante, quando, na verdade, ele a nutria há quase uma semana.

Esperou o efeito produzido pela sua proposta. Ninguém disse palavra. Mas o Turbulento ergueu a cabeça, interessado.

— É do nosso sangue, pois que ela é Anjou — prosseguiu Valois. — Seu pai, Carlos Martello, que renunciou ao trono de Nápoles-Sicília para reivindicar o da Hungria, já morreu há muito tempo; é sem dúvida por isso que ela não se casou ainda. Mas seu irmão Caroberto reina atualmente na Hungria e seu tio é rei de Nápoles. Certamente, ela passou um pouco da idade do casamento...

— Que idade tem ela? — perguntou Luís X, inquieto.

— Vinte e dois anos. Mas isto não é melhor do que essas moças que são arrastadas para o casamento quando ainda brincam com bonecas e que, logo que crescem, se revelam cheias de vilezas, mentirosas e debochadas? E além disso, meu sobrinho, estas não serão tuas primeiras núpcias!

"Tudo isto soa muito bem, deve haver aí algum defeito que me escondem", pensava o Turbulento. "Essa Clemência deve ser zarolha ou corcunda."

— E como é ela... quanto ao físico? — perguntou ele.

— Meu sobrinho, é a mais bela mulher de Nápoles, e os pintores, asseguram-me, esforçam-se por imitar seus traços quando pintam, nas igrejas, o rosto da Virgem Maria. Já criança, lembro-me bem, prometia ter uma beleza notável, e tudo me diz que a promessa foi cumprida.

— Parece, com efeito, que ela é bastante bonita — disse monseigneur d'Evreux.

— E virtuosa — acrescentou Carlos de Valois. — Espero que se tenham reproduzido nela todas as qualidades que possuía tua querida tia, minha primeira esposa, que Deus a guarde. E não te esqueças de que Luís d'Anjou, seu outro tio, meu cunhado, portanto, renunciou a reinar para abraçar a religião, e esse santo bispo de Toulouse, de sua tumba, produz milagres.

— Assim, isso nos traz um segundo São Luís para a família — notou Roberto d'Artois 9.

— Meu tio, tua idéia é feliz, parece-me — disse Luís X. — Filha de rei, irmã de rei, sobrinha de rei e de santo, bela, virtuosa...

Parecia sonhar um momento, e de repente exclamou:

— Ah! Ela não é morena, como Margarida? Nesse caso, não poderei!

— Não, não — apressou-se a responder Valois. — Fica tranqüilo, meu sobrinho; é loura, de boa raça franca.

— E pensas, tio Carlos, que o projeto possa agradar-lhe, a ela e aos seus?

Monseigneur de Valois quase arrebentou-se de inchado:

— Servi bastante aos meus parentes de Anjou para que eles nada possam recusar-me. A rainha Maria, que outrora me deu a honra de confiar-me uma de suas filhas, dar-me-á de bom grado sua neta para o mais querido de meus sobrinhos, e para que ela seja a rainha do mais belo reino.

— Então, não esperes, meu tio — disse Luís. — Envia logo uma embaixada a Nápoles. Que pensas disso, Roberto? E o tio Luís?

Roberto avançou um passo, de mãos abertas, como se se propusesse a partir naquele instante para a Itália. Luís d'Evreux, que estava sentado, respondeu que aprovava o projeto, mas que a decisão era tanto negócio de Estado como de família, e tão importante que demandava reflexão.

— Parece-me prudente — concluiu ele — que o nosso Conselho seja ouvido.

— De acordo — respondeu Luís vivamente. — Reúne o Conselho amanhã. Mandarei recado a messire de Marigny para convocá-lo.

— Por que messire de Marigny? — atalhou Valois, fingindo espantar-se. — Eu mesmo posso encarregar-me disso. Marigny tem muitas tarefas e prepara apressadamente os Conselhos, cujo papel é o de aprovar tudo sem olhar de perto suas traficâncias. Mas vamos mudar isso, e vou reunir um Conselho melhor, digno de servir-te. Era, aliás, a vontade de teu pai. Ele me confiou isso, em seus últimos dias.

As roupas tinham secado e todos se vestiram novamente.

Luís X olhava fixamente o fogo. "Bela e virtuosa", repetia para si mesmo, "bela e virtuosa..." Depois foi tomado por um ataque de tosse e quase não ouviu as despedidas dos que partiam.

— Sei de alguém cujos lençóis, esta noite, vão queimar — falou d'Artois já no corredor.

— Roberto — disse Valois, reprovando-o —, não te esqueças de que é do rei que estás falando agora.

— Não, não, não me esqueço, e não vou dizer isso diante dos outros. O que não me impede de reconhecer que puseste na cabeça dele uma idéia que lhe caminha pelo corpo. Peste! Como vendeste bem tua sobrinha Clemência!

Monseigneur d'Evreux pensava naquela bela princesa que vivia num castelo à beira da baía de Nápoles, e cuja sorte acabava de ser lançada hoje à sua revelia. Monseigneur d'Evreux continuava sempre maravilhado com a maneira imprevista e misteriosa com a qual se forjavam os destinos humanos.

Porque um grande soberano havia morrido antes da hora, porque um jovem rei não suportava o celibato, porque seu tio estava impaciente para agradar-lhe, porque um nome lançado no ar havia sido guardado, uma jovem de cabelos louros, que, talvez naquele dia, a quinhentas léguas de distância, se consumisse de melancolia diante de um mar eternamente azul, pensando que nada lhe acontecia, via-se designada para tornar-se o centro de preocupações da corte francesa...

Monseigneur d'Evreux teve, ainda, um momento de escrúpulo.

— Mano — perguntou a Valois —, essa pequena Joana... achas que seja, realmente, bastarda?

— Ainda hoje não tenho certeza, meu irmão — respondeu Valois, pousando-lhe a mão, cheia de anéis, no ombro —, mas estou certo de que daqui a muito pouco todo o mundo a tomará como tal!

Com esta resposta, monseigneur de Valois pensava servir apenas aos seus interesses do momento; ignorava as conseqüências da posição que assumia e que seu próprio filho deveria, por causa dela, tornar-se, um dia, rei da França.

Monseigneur d'Evreux teria outras razões para meditar se pudesse antecipar os acontecimentos dos próximos quinze anos.

 

 O LEITO REAL

Monumental, esculpido de pesados símbolos alados, o leito real ocupava um terço do quarto. O dossel, feito de um samit 10 azul-escuro, semeado de flores-de-lis de ouro, parecia um pedaço do firmamento noturno; e as cortinas drapeadas em torno desse cortinado faziam pensar em velas enroladas em suas vergas.

O quarto, dominado pelo silêncio, pela sombra e pelo respeito, era iluminado apenas por uma lamparina a óleo, colocada numa lâmpada de prata suspensa ao forro por três correntes n; sob essa luz, a colcha de brocado de ouro, que caía em pregas retas ao chão, faiscava em fosforescências estranhas.

Havia duas horas, Luís X procurava, em vão, o sono nesse leito imenso, que havia sido de seu pai. Sufocava sob as cobertas forradas de pele e tiritava quando queria sair. A extrema fraqueza engendra a insônia e a insônia, a angústia. Embora Filipe, o Belo, houvesse morrido em Fontainebleau, Luís sentia mal-estar em se achar nessa cama, como se nela se percebesse a presença do cadáver.

Todas as imagens dos últimos dias, todas as angústias do futuro entrechocavam-se em seu cérebro. Alguém lhe gritava "Corno!" na multidão; Clemência da Hungria o recusava ou, então, já estava noiva; o austero rosto do abade Egídio pendia sobre o túmulo. "Faremos, agora, duas orações..." "Sabeis com o que ela conta? Espera que morrais antes dela!"

Levantou-se bruscamente, com o coração saltando no peito, como um relógio cuja corda está prestes a arrebentar. O médico do palácio, que o examinara antes de se deitar,, havia, entretanto, garantido que ele não tinha os humores muito quentes e que passaria uma noite boa. Mas Luís não lhe confessara os dois momentos de desmaio que sofrerá em Saint-Denis, aquele frio que tomara seus membros, e essa grande vacilação do mundo ao seu redor. E, agora, aquele mesmo mal, cujo nome ele desconhecia, tomava-o novamente. Torturado por tanta preocupação, o Turbulento, metido numa longa camisola branca, que parecia flutuar num corpo ausente, caminhava sem repouso ao redor do quarto, como se fosse empurrado para a frente e, à menor parada, parasse de viver.

Não iria sucumbir como seu pai, ferido na cabeça pela mão de Deus? "Eu também", pensou com terror, "estava presente quando queimaram os templários bem em frente ao palácio..." Sabe-se, porventura, a noite em que se vai morrer? Sabe-se, porventura, a noite em que se vai enlouquecer? E, mesmo que conseguisse atravessar aquela abominável noite, e visse surgir a aurora tardia do inverno, em que estado de esgotamento se encontraria, no dia seguinte, para presidir o seu primeiro Conselho? Ele lhes diria: "Messires"... Que palavras encontraria, de fato, para lhes dirigir?... "Cada um de nós, meu sobrinho, sofre, na solidão, o instante de sua morte, e é vaidade pensar que não existem, na vida, outros instantes assim."

— Ah! meu tio — pronunciou alto o Turbulento —, por que dizer-me isso?

Sua própria voz pareceu-lhe estranha. Continuou a caminhar, ofegando como um peixe fora d'água, em torno do grande leito de carvalho e ouro.

Era esse móvel que o amedrontava. Era essa cama que era maldita; jamais conseguiria dormir nela. Aí havia sido concebido; era absolutamente lógico que aí morresse. "Passarei, então, assim todas as minhas noites de reinado, a caminhar em círculos para não morrer?", perguntava-se ele. Poderia ir dormir alhures, chamar alguém para que lhe preparasse outro quarto. Mas onde estava a coragem de confessar: "Não posso dormir aqui porque tenho medo", e de aparecer aos escudeiros, aos camareiros e aos mordomos assim abatido, trêmulo e desamparado?

Era rei mas não sabia reinar; era um homem e não sabia viver; era casado e não tinha mulher... Ainda que Clemência da Hungria aceitasse, quantas semanas, quantos meses teria que esperar para que uma presença humana viesse acalmar suas noites e auxiliá-lo a dormir! "E será que ela me amará? Não fará como a outra?"

De súbito, abriu a porta, acordou o primeiro camareiro, que dormia, inteiramente vestido, na antecâmara e lhe perguntou:

— É ainda a dama Eudeline que trata das roupas de cama do palácio?

— Sim, sire. Assim o creio, sire — respondeu Mateus de Trye.

— Pois bem, vai indagar. E se for ela, manda alguém procurá-la imediatamente.

Surpreso, sonolento... "Este dorme!", pensou o Turbulento, com raiva. O camareiro perguntou se o rei desejava que se mudassem os lençóis.

O Turbulento teve um gesto de impaciência:

— Sim, é isso. Vai procurá-la, já te disse!

Voltou, depois, para seu quarto e recomeçou sua ronda aflita, perguntando-se: "Será que ela ainda mora no palácio? Encontra-la-ão?"

Alguns minutos mais tarde a dama Eudeline entrou, carregando uma pilha de lençóis, e Luís X imediatamente sentiu que não tinha mais frio.

— Monseigneur Luís... quero dizer, sire! — exclamou ela. — Eu bem sabia que não se deviam pôr roupas de cama novas. Dorme-se mal. Foi o senhor de Trye quem quis. Dizia que era o usual. Por mim teria estendido lençóis já bem lavados e finos.

Era uma mulherona loura, avantajada, de amplos seios, um belo busto nutridor, que fazia pensar na paz, na quentura e no repouso. Tinha trinta e dois anos, mas seu rosto conservava não se sabe o que de espantosamente tranqüilo e adolescente que alegrava os corações. Sob a touca branca que usava para dormir escapavam compridas trancas que tinham a cor do ouro e se desmanchavam sobre as espáduas. Havia vestido, às pressas, uma roupa por cima da camisola.

Luís olhou-a um momento sem nada dizer.

— Não foi pela roupa de cama que te chamei — disse por fim.

Uma suave vermelhidão subiu às faces da roupeira, confusa.

— Oh! monseigneur... sire, quero dizer! Porque voltastes ao palácio, lembrastes de mim...

Ela havia sido a sua primeira amante, o que remontava a dez anos antes. No dia em que ficou sabendo — e estava, então, nos seus quinze.anos — que iam brevemente casá-lo com uma princesa da Borgonha, o Turbulento sentiu-se tomado de grande desassossego por descobrir o amor e, ao mesmo tempo, de pânico ao pensar que não pudesse comportar-se como era preciso com a esposa. Enquanto negociavam o noivado, e Marigny avaliava, com Filipe, o Belo, as vantagens territoriais ou militares dessa aliança, o jovem príncipe só pensava nesse assunto. À noite, imaginava todas as damas da corte sucumbindo ao seu ardor, e de dia ficava diante delas de mãos caídas e boca aberta.

Depois, numa tarde, num corredor do palácio, ele se atirou bruscamente sobre aquela bela moça que caminhava à sua frente, com passo tranqüilo, com os braços cheios de lençóis. Lançou-se contra ela com violência, com cólera, como se lhe quisesse mal, com o medo que sentia. Seria aquela ou nenhuma outra, agora ou nunca... Não a violou, porém; sua agitação, sua ansiedade, sua falta de jeito tornaram-no incapaz. Exigira de Eudeline que lhe ensinasse a amar. Na falta de uma segurança de homem, resolveu usar das prerrogativas de príncipe. Teve sorte; Eudeline não caçoou dele, e sentiu-se honrada em ceder aos desejos desse filho de rei, deixando-o acreditar mesmo que sempre sentia prazer com ele. Tão bem o fez que, com o tempo, ele se sentiu sempre um homem diante dela.

Era sobretudo quando estava prestes a vestir-se para a caça ou para exercitar-se com as armas que Luís a mandava chamar e Eudeline logo compreendeu que a necessidade de amar, nele, só vinha quando tinha medo. Durante alguns meses, antes que Margarida chegasse à corte, e até mesmo um pouco depois, Eudeline havia ajudado o príncipe a vencer seus terrores, através da abundância de um corpo grande-e tranqüilo. E se o Turbulento era capaz de alguma ternura desconhecida, era a essa bela mulher que o devia.

— Onde está tua filha? — perguntou ele.

— Em casa de minha mãe, que a educa. Não quis que ela ficasse comigo, porque se parece muito com o pai —respondeu Eudeline com meio sorriso.

— Ao menos essa — disse Luís — creio que é realmente minha.

— Oh! é claro, monseigneur! Ela é realmente vossa... sire! Sua fisionomia fica cada vez mais parecida com a vossa. E poderia causar-vos aborrecimento se o pessoal do palácio a visse.

Pois uma criança, que fora batizada com o nome de Eudeline, como a mãe, nascera daqueles amores apressados. Qualquer mulher um pouco dotada para a intriga teria assegurado sua sorte valendo-se do ventre, transformando-o numa fonte de barões. Mas o Turbulento receava tanto revelar a coisa ao pai, que Eudeline ficou com dó, mais uma vez, e calou-se. Seu marido, que era escrivão de messire de Nogaret, não pôde compreender que aquela gravidez fosse o resultado de um milagre acontecido justamente quando ele trotava, atrás do legista, pelas estradas da Provença. Tanto berrou que Eudeline acabou por confessar. Mas são as mesmas espécies de homens que procuram as mesmas mulheres. O escrivão possuía um coração pouco cheio de coragem, e, quando ficou sabendo de onde provinha o presente, o medo que o assaltou extinguiu a cólera, como a chuva acaba com o vento. Resolveu tomar o partido do silêncio, também, e providenciou para ficar longe de Paris tanto quanto pôde. Morreu, aliás, pouco tempo depois, menos de tristeza que de disenteria.

E Eudeline continuou a tomar conta da roupa suja do palácio, por cinco soldos o cento de toalhas lavadas. Tornara-se primeira roupeira, o que, na casa real, era uma posição burguesa.

Durante esse tempo, a pequena Eudeline crescia com esse impudor que têm os bastardos para exibir, no rosto, os traços de sua ilegitimidade. Poucas pessoas, porém, estavam a par do segredo.

A dama Eudeline pensava que um dia o Turbulento se recordaria. Prometera com bastante firmeza e jurara solenemente que, no dia em que fosse rei, cobriria a filha de ouro e de títulos, e que ela só tinha a ganhar em esperar!

Agora ela pensava que tivera razão em acreditar e sentia-se maravilhada com a presteza com que ele cumpria sua promessa. "Ele não tem coração ruim", pensava. "É esquisitão, mas não é ruim."

Comovida com a lembrança, com o sentimento do tempo que passara, com as estranhezas do destino, contemplava o soberano que encontrara, em seus braços, o primeiro caminho de sua virilidade inquieta e que ali estava, à sua frente, de camisola, sentado numa cadeira, com os cabelos caídos até o queixo e os braços em torno dos joelhos. "Por que a mim", pensava ela, "por que foi a mim que isto aconteceu?"

— Que idade tem minha filha, hoje? — perguntou ele. — Nove anos, não é?

— Nove anos, justamente, sire.

— Dar-lhe-ei uma posição de princesa assim que ela tiver a idade de casar. Quero isso. E tu, que desejas?

Ele tinha necessidade dela. Seria aquele o momento de pedir, agora ou nunca mais. A discrição com os poderosos da terra nada vale, e é preciso apressar-se e exigir qualquer coisa quando eles se propõem satisfazê-la. Pois, logo depois, sentem-se desobrigados do reconhecimento só porque fizeram a oferta, e esquecem-se de dar. O Turbulento bem que teria passado a noite a contar grandezas para que Eudeline lhe fizesse companhia até a madrugada. Mas, surpreendida pela pergunta, ela se contentou em responder:

— O que quiserdes, sire.

Então, como ele, ordinariamente, não era inclinado a se inquietar com os outros, pôs-se a pensar apenas em si mesmo.

— Ah! Eudeline, Eudeline — exclamou —, devia ter mandado chamar-te antes para Nesle, onde penei bastante nesses meses.

— Eu sei, monseigneur Luís, que fostes bastante maltratado pela vossa esposa... Jamais, porém, ousaria procurar-vos, pois não sabia se sentiríeis alegria ou vergonha em me rever.

Luís não a ouvia. Também nele acordavam nítidas lembranças. Seus grandes olhos azuis virados para ela luziam sob a luz da lamparina. Eudeline sabia muito bem o que significava aquele olhar; era o mesmo de quando

ele tinha quinze anos, e não teria outro diante das mulheres.

— Deita-te — ordenou ele subitamente.

— Ali, monseigneur, quero dizer, sire? — murmurou ela, com um pouco de medo, apontando para a cama de Filipe, o Belo.

— Sim, ali, justamente — respondeu o Turbulento, com voz surda.

Entre o que lhe parecia um sacrilégio e a recusa em obedecer, que podia ela fazer? Além do mais, ele, agora, era o rei, e aquela cama tornara-se sua. Retirou a touca, deixou cair a roupa e a camisola, e suas trancas douradas se desmancharam sobre as costas. Estava mais gorda que outrora, mas ainda tinha uma bela curva nos rins, as costas amplas e tranqüilas, o quadril sedoso, onde a luz esbatia... Seus gestos eram suaves, e era dessa docilidade precisamente que o Turbulento tinha necessidade. Viu-a subir a escadinha de carvalho, e pensou que, assim como se esquentava a cama para afugentar o frio, aquele belo corpo ia espantar os demônios.

Um pouco inquieta, um pouco assombrada e, principalmente, abandonando-se à fatalidade, Eudeline escorregou sob a coberta de ouro.

— Eu tinha razão — disse ela logo depois —, estes lençóis novos arranham. Eu bem sabia.

Luís despojou-se febrilmente de sua camisola; peito encovado, ombros ossudos, pesado por falta de jeito, atirou-se contra ela com pressa desesperada, como se não pudesse adiar um instante a oportunidade que se apresentava.

Pressa vã. Os reis, em certas coisas, são como os outros homens, e não mandam em tudo. Os desejos do Turbulento eram principalmente cerebrais. Agarrado aos ombros de Eudeline como um náufrago a uma bóia, esforçava-se, por simulação, a sobrepujar uma debilidade que parecia não acabar. "Está claro, se ele não honrou melhor a senhora Margarida", pensava Eudeline, "compreende-se por que o traiu."

Todos os silenciosos encorajamentos que ela lhe prodigalizou, todos os esforços que ele fez, e que não eram os de um príncipe correndo atrás da vitória, redundaram infrutíferos. Por fim, ele levantou-se, trêmulo, abatido, envergonhado, hesitando entre a raiva e as lágrimas. A mulher procurou acalmá-lo:

— Andastes tanto hoje! Sentistes tanto frio — disse ela —, e deveis estar com o coração tão opresso... é natural... na noite em que vosso pai foi enterrado, e isto pode acontecer a qualquer um, bem o sabeis...

Com os olhos fixos, ele contemplava aquela bela loura, oferecida e inacessível, estendida ali como que para encarnar algum castigo mitológico, a olhá-lo com compaixão.

— É aquela prostituta! — exclamou ele. — É por causa daquela prostituta!

Eudeline fez um gesto de recuo, pois pensava que a injúria fosse dirigida a ela.

— Refiro-me a Margarida. Não posso deixar de pensar nela, de revê-la... E, depois, é este leito também! — gritou. — Ele é maldito. Aqui se dorme na desgraça!

— Mas, não, monseigneur Luís — respondeu ela, muito suavemente, atraindo-o para ela. — Claro, é uma boa cama, mas é cama de rei. Compreendi muito bem: para acabar com o que vos embaraça, precisais pôr aqui dentro uma rainha.

Ela estava comovida, modesta, sem sentir despeito, pois era uma criatura de bons sentimentos.

— Achas, Eudeline? — perguntou ele, virando os olhos para ela.

— É claro, monseigneur Luís, asseguro-vos de que numa cama de rei é preciso uma rainha — repetiu.

— Talvez arranje uma logo. Parece que ela é loura como tu.

— É um grande elogio que me fazeis — respondeu Eudeline.

E virou o rosto para dissimular a ferida que ele abria em seu coração.

— Parece que é muito bonita — continuou o Turbulento — e muito virtuosa; vive em Nápoles...

— Pois não, monseigneur Luís, pois não, estou certa de que ela vos tornará feliz. Agora, precisais dormir.

Colocou-lhe a cabeça sobre seu ombro quente, que cheirava a lavanda. Maternalmente, ouvia-o sonhar alto com essa mulher desconhecida, com essa princesa longínqua, cujo lugar, naquela noite, ela ocupava em vão. Ele se consolava, com as miragens do futuro, de seus infortúnios passados e de suas derrotas presentes.

— Mas é claro, monseigneur Luís, é justamente de uma esposa como ela que necessitais. Vereis como vos sentireis forte ao seu lado.

O rei calou-se finalmente. E Eudeline continuou sem ousar se mexer, sonhadora, os olhos bem abertos para a luz vacilante da lamparina, esperando que a madrugada surgisse para retirar-se.

O rei da França dormia.

 

OS LOBOS SE ENTREDEVORAM

 

O TURBULENTO REÚNE O SEU PRIMEIRO CONSELHO

Todos os dias, nos últimos dezesseis anos, Enguerrand de Marigny, quando entrava na Câmara do Conselho, sabia que ia encontrar seus amigos. Ora, naquela manhã, apenas transposta a porta, teve a certeza de que tudo mudara e ficou um instante imóvel, com a mão esquerda na gola da roupa e a direita segurando a bolsa de documentos.

De cada lado da comprida mesa, havia quase o mesmo número costumeiro de pessoas; a lareira roncava e difundia pela sala o mesmo odor familiar de lenha queimada. Os rostos é que eram outros.

Os membros da família real que, por direito e por tradição, assistiam ao Conselho Privado, ali se encontravam: os condes de Valois e d'Evreux, o conde de Poitiers e o jovem príncipe Carlos, o condestável Gaucher de Châtillon; não estavam, porém, em seus lugares de costume, e monseigneur de Valois havia se instalado à direita da cadeira real, em que, ordinariamente, sentava-se Marigny.

E nem Raul de Presles, nem Nicolau le Loquetier, nem Guilherme Dubois, legistas eminentes, servidores fiéis de Filipe, o Belo, estavam presentes. Novos homens haviam tomado seus lugares: Mateus de Trye, camareiro de Luís X, Estêvão de Mornay, chanceler do conde de Valois, e outros ainda, que Marigny conhecia, mas com quem jamais havia trabalhado.

Não era exatamente uma mudança de ministério, mas, como se diz na linguagem de hoje, uma recomposição de gabinete.

Dos antigos conselheiros do Rei de Ferro apenas Hugo de Bouville e Béraud de Mercceur tinham sido conservados, sem dúvida porque pertenciam, ambos, à alta nobreza. Mas, mesmo assim, haviam sido jogados para a ponta da mesa. Todos os conselheiros oriundos da burguesia tinham sido eliminados. "Poderiam ao menos avisar-me!", pensou Marigny, num gesto de cólera.

Dirigindo-se a Hugo de Bouville, perguntou bem alto para que todos ouvissem:

— Messire de Presles está doente? Messires de Bourdenai, de Briançon, e Dubois estarão impedidos de vir, pois não vejo nenhum deles? Eles se escusaram por não poderem comparecer?

O gordo Bouville hesitou um pouco e respondeu baixando os olhos, como se fosse culpado:

— Não fui eu quem reuniu o Conselho. Messire de Mornay encarregou-se disso.

O olhar de Marigny endureceu e todos esperaram um desabafo.

Mas já monseigneur de Valois intervinha, falando com indulgente lentidão:

— Esquecestes, meu bom Marigny, que o rei chama para o Conselho quem ele quer e quando quer. É um direito de soberano.

Havia nesse "meu bom Marigny" uma condescendência desdenhosa que não escapou ao dirigente do reino. Jamais, quando Filipe, o Belo, era vivo, Valois se lhe dirigiria daquele jeito. Marigny podia ter respondido que se, com efeito, era direito do rei chamar para o seu Conselho quem lhe aprouvesse, era também seu dever escolher homens que entendessem dos negócios, uma vez que competência não se forma da noite para o dia.

Preferiu, porém, reservar suas forças para melhor ocasião, e instalou-se, aparentemente calmo, à frente de monseigneur de Valois, na cadeira deixada vazia, à esquerda do rei.

Enguerrand de Marigny tinha quarenta e nove anos, cabelos ruivos que, com a idade, tornavam-se amarelados, e grande compleição. O queixo era pesado e voluntarioso, a pele grumosa, o nariz pequeno, com narinas bem abertas. Trazia o pescoço sempre para a frente e parecia pronto a bater com a testa, como os touros. Seu olhar, sob as grossas pálpebras, era irrequieto, rápido, autoritário, e as mãos contrastavam, por causa da finura nervosa, com a sua aparência pesada.

Abriu a bolsa de documentos, tirou seus papéis, pergaminhos e pranchetas, que colocou à sua frente. Não encontrando, porém, sob o tampo da mesa, o gancho onde ordinariamente pendurava a bolsa, soltou um pequeno suspiro de irritação e sacudiu os ombros.

Monseigneur de Valois entabulava conversa com o sobrinho Carlos, prevenindo-o de que, logo mais, iria receber uma surpresa agradável, se prometesse apoiá-lo em tudo. Monseigneur de Valois trajava-se, apesar do luto na corte, magnificamente. O veludo negro de suas roupas ornava-se com peles, bordados de prata e arminho, como um cavalo de coche fúnebre. À sua frente não havia papéis nem mesmo para tomar notas. Seu conselheiro Estêvão de Mornay encarregava-se do trabalho subalterno de ler e escrever; ele se limitava a falar, apenas.

Ouviram-se passos no corredor.

— Aí vem monseigneur Luís — disse Hugo de Bouville.

Valois foi o primeiro a levantar-se, com uma espécie de majestade e uma deferência tão marcada para o recém-chegado que até se tornava protetora.

Luís X lançou um olhar à assembléia em pé.

— Desculpai meu atraso, messires... Interrompeu-se, contrariado com o que acabava de dizer. Esquecera-se de que o rei jamais está atrasado, pois é sempre o último a chegar ao Conselho.

Sentia-se tomado pela angústia, como na véspera, em Saint-Denis, e como na noite passada.

Era agora que precisava mostrar-se rei. Mas tal estado não acontece por milagre, e Luís sentia, com os braços um pouco separados do corpo e os olhos vermelhos de insônia, que um sono curtíssimo fora insuficiente para reparar seu cansaço. Esquecia-se de sentar-se e mandar que o Conselho o fizesse.

Os segundos passavam; o silêncio tornava-se penoso e todos percebiam que o rei vacilava.

Marigny fez o gesto necessário: afastou, ligeiramente, a cadeira real, como para permitir que Luís se instalasse.

Depois de sentado o rei falou:

— Sentai-vos, messires.

Reviu, em pensamento, o pai naquele mesmo lugar e tomou, maquinalmente, a sua posição: as mãos espalmadas sobre a mesa, o olhar fixo, como que ausente. Isto lhe devolveu um pouco a segurança para se voltar para os seus dois irmãos e lhes dizer com naturalidade:

— Sabei, meus amados irmãos, que meu primeiro ato, na manhã de hoje, foi para ambos: Filipe, o teu condado de Poitiers foi elevado ao pariato, e estás, agora, no número de nossos pares, a fim de que te conserves junto a mim, como nosso tio Valois esteve ao lado do nosso pai, que Deus guarde, para ajudar-me a sustentar a coroa. Carlos, tu receberás como feudo e apanágio o condado da Marca, que nosso pai resgatou dos Lusignan, e tinha a intenção, bem sei, de doá-lo a ti.

Filipe e Carlos levantaram-se e foram beijar o irmão, no rosto, em sinal de agradecimento. Monseigneur de Valois olhou para o sobrinho Carlos de maneira significativa, querendo dizer: "Vê bem, trabalhei bastante por ti".

Os outros assistentes balançaram a cabeça com satisfação; para começo não ia mal.

Luís X, todavia, não estava satisfeito, pois esquecera-se de começar rendendo homenagem à memória do pai e de falar da continuidade do poder.

Tinha, no entanto, preparado duas belas frases, pela manhã, mas, com a emoção da entrada, elas haviam escapado e agora nada mais encontrava para dizer.

O silêncio voltou a pesar. Alguém evidentemente faltava àquela assembléia: o morto.

Enguerrand de Marigny olhava para o jovem rei esperando, visivelmente, que ele pronunciasse: "Senhores, confirmo-vos em vossos cargos de assistente e dirigente-geral do reino, camareiro, intendente das finanças e construções, capitão do Louvre..."

Como nada acontecesse, Marigny fez de conta que aquilo havia sido dito e perguntou:

— De que negócios o rei deseja ser informado? Da receita dos auxílios e dos impostos sobre os plebeus, da situação do Tesouro, das decisões do Parlamento, da penúria que faz estragos nas províncias, da posição das guarnições, da situação em Flandres, das reivindicações e pedidos das ligas baroniais da Borgonha e da Champanha?

O que significava exatamente: "Sire, eis as questões de que me ocupo, além de outras, das quais poderia desfiar o rosário por muitas horas. Julgai-vos capaz de passar sem mim?"

O Turbulento, inquieto, e como que vendido, voltou-se para seu tio Valois com ar de quem mendigava apoio.

— Messire de Marigny, o rei não nos convocou para esses negócios — disse o conde de Valois; — ele os ouvirá mais tarde.

— Se não me comunicam o objeto do Conselho, monseigneur, não posso adivinhá-lo — respondeu Marigny.

— O rei, messires — tornou Valois sem parecer ter percebido a interrupção —, deseja ouvir-nos sobre o primeiro problema que, como bom soberano, deve ter: o da sua descendência e da sucessão do trono.

— É isso mesmo — disse o Turbulento, procurando encontrar um tom de grandeza para exprimir um desejo que lhe faltava. — Meu primeiro dever é o de providenciar a sucessão do trono e para isso preciso de uma esposa...

E depois calou-se.

— O rei considera, pois, seu dever casar-se novamente — continuou Valois —, e sua- atenção fixou-se, após longas meditações, em Clemência da Hungria, sobrinha do rei de Nápoles. Desejamos ouvir a vossa opinião antes de enviar a embaixada.

Aquele "desejamos" chocou, desagradavelmente, vários membros da assistência. Era, então, monseigneur de Valois que reinava?

Filipe de Poitiers pendeu para o lado seu rosto comprido. "Aí está por que", pensou ele, "começaram por passar mel em meus lábios com o pariato! Enquanto Luís não se casasse de novo eu seria o segundo na lista da sucessão, depois dessa pequena Joana, suspeita de bastardia. Se ele se casa outra vez e ela lhe dá filhos, fico reduzido a nada. E isto foi decidido à minha revelia e à de Carlos, ambos na mesma situação de Luís, com mulheres aprisionadas 12."

— A respeito de tal projeto, qual é a opinião de monseigneur de Marigny? — perguntou ele para ser desagradável a Valois.

Ao mesmo tempo cometia, acintosamente, uma grave incorreção para com o irmão mais velho, pois, em princípio, era o soberano, e somente ele, quem convidava seus conselheiros a dar opinião. Tal falta nunca teria se produzido num Conselho do rei Filipe!

Hoje, no entanto, todo mundo parecia dar ordens, e, uma vez que o tio do novel rei se dava ares de deter as rédeas do Conselho, o irmão bem podia tomar a liberdade de fazer o mesmo.

Marigny espichou um pouco sua cabeça de touro e todos adivinharam que ele ia investir.

— Clemência da Hungria possui, certamente, grandes qualidades para ser rainha — disse ele —, pois o pensamento do rei fixou-se nela. Mas, deixando de lado a circunstância de ser sobrinha de monseigneur de Valois, o que só por si já basta para que a apreciemos, não vejo o que sua aliança possa trazer ao reino. Seu pai, Carlos Martello, morreu há tempo, e só era rei da Hungria de nome; seu irmão, Caroberto (ao contrário de monseigneur de Valois, que, afetadamente, pronunciava esses nomes à italiana, Marigny falava à francesa), conseguiu, enfim, outro dia, após quinze anos de lutas e de expedições, colocar na cabeça a coroa magiar, que não lhe assenta muito bem. Todos os feudos e principados da casa de Anjou já estão distribuídos entre esta família tão numerosa que se espraia pelo mundo como o óleo sobre a toalha, a ponto de se acreditar que a família da França não passa de um ramo da linhagem de Anjou. Não se pode esperar de semelhante matrimônio nenhum aumento de domínio, como sempre o desejou o rei Filipe, nem auxílio para a guerra, se fosse preciso, porque todos esses principados longínquos têm bastante que fazer só para manter suas possessões. Noutras palavras, sire, estou convencido de que vosso pai se teria oposto a uma união cujo dote seria constituído mais de nuvens que de terras.

Monseigneur de Valois tornou-se rubro de raiva e seu joelho agitava-se sob a mesa. Tudo o que acabava de ser dito era dirigido contra ele e cada frase continha uma perfídia a seu respeito.

— Sois bem finório, monseigneur de Marigny — gritou —, em fazer falar os mortos quando estão no túmulo. Eu vos responderei que a virtude de uma rainha vale mais que uma província! As belas alianças da Borgonha que

urdistes, e das quais tão cautelosamente convencestes meu irmão, não trouxeram assim tantas vantagens que nos convençam de que continuais sendo bom juiz na matéria e de que é preciso pedir os vossos conselhos. Vergonha e tristeza para todos, eis no que resultaram.

— Foi isso mesmo! — gritou de repente o Turbulento.

— Sire — respondeu Marigny com imperceptível desprezo —, éreis ainda bem moço quando vosso casamento foi decidido por vosso pai, e monseigneur de Valois, nessa ocasião, não se opôs a isso, pois apressou-se, sem medir as conseqüências, em casar seu filho com a irmã da senhora Margarida, para aproximar-se mais dela e de vós.

Valois recebeu o golpe sem nada poder responder. Mas o arroxeado de seu rosto tornou-se mais visível. Ele pensava realmente que fora muito hábil casando Filipe, seu filho mais velho, com a irmã mais moça de Margarida, cognominada Joana, a Pequena, ou Joana, a Coxa, por ter uma perna mais curta que a outra. Ora, Margarida, agora, estava na prisão e a Coxa continuava na família 13.

— A virtude das mulheres é coisa passageira, sire, tanto quanto sua beleza — volveu Marigny —, mas as províncias ficam. E monseigneur de Poitiers, que guarda o Franco-Condado, não pode contradizer-me.

— Este Conselho — perguntou brutalmente Valois — vai ficar ouvindo messire de Marigny elogiar-se a si próprio ou vai acelerar os desejos do rei?

O tom azedava-se e a discussão assumia um aspecto de acerto de contas.

— Para fazê-lo, monseigneur — replicou Marigny —, pelo menos conviria não colocar o carro adiante dos bois. Pode-se pensar em todas as princesas da Terra para o rei e compreendo perfeitamente que a impaciência o atormente; mas é preciso, antes de mais nada, livrá-lo da esposa que tem. Parece que o conde d'Artois não vos trouxe, do Castelo Gaillard, a resposta que esperáveis — acrescentou, para mostrar estar bem informado. — A anulação requer a existência de um papa...

—...esse papa que prometestes há seis meses, Marigny, mas que ainda não saiu do vosso conclave fantasma. Os vossos emissários souberam tão bem maltratar os cardeais, em Carpentras, atirando-os pela janela, que eles fugiram, de sotainas arregaçadas, através dos campos, de tal modo que nunca mais foi possível encontrá-los. A este respeito não podeis blasonar vossa glória. Se tivésseis mais moderação e mais respeito pelos ministros de Deus, o que vos é bastante estranho, estaríamos em melhor situação.

— Evitei, até hoje, que se elegesse um papa que fosse apenas o reflexo do rei de Nápoles, porque o rei Filipe desejava justamente um papa que fosse útil à França.

Os homens poderosos não são apenas dominados, como se pensa geralmente, pela sede das riquezas e das honrarias. Antes de mais nada, são levados pelo gosto abstrato de construir os acontecimentos, de impedir que estes se produzam sem eles, de agir sobre o universo e de ter sempre razão. A fortuna, as distinções são apenas sinais ou instrumentos de sua importância.

Marigny e Valois eram dois temperamentos desta espécie, e quase sempre, nos Conselhos, o grande burguês havia levado a melhor sobre o príncipe de sangue. Somente Filipe, o Belo, conseguiu manter a seu serviço esses dois adversários, servindo-se ao máximo das qualidades militares de um e da inteligência política do outro.

Luís X não conseguia acompanhar a tempestade; o debate prosseguia muito rápido para ele, que não chegava a esquecer certas lembranças penosas da noite precedente.

Monseigneur d'Evreux interveio, procurando reconduzir a calma aos espíritos, e alvitrou uma fórmula que pudesse conciliar as duas posições:

— Se em troca do casamento com a princesa Clemência obtivéssemos do rei de Nápoles que o papa fosse francês — propôs ele — e rapidamente eleito...

— Então, com certeza, monseigneur — tornou Marigny mais pausadamente —, tal acordo teria um sentido; mas duvido muito que se chegue a ele.

— Enviemos, de qualquer forma, uma embaixada a Nápoles, se tal é o desejo do rei.

— Certamente, monseigneur.

— Bouville, vossa opinião? — perguntou, de repente, o Turbulento, para dar a impressão de que retomava a direção dos debates.

O gordo Bouville sobressaltou-se. Tinha sido um excelente camareiro, atento às despesas, e mordomo consciencioso, mas seu espírito tinha o vôo curto, e Filipe, o Belo, no Conselho, só se lhe dirigia para mandá-lo abrir as janelas.

— Sire — disse ele —, é uma família nobre, essa onde ides buscar esposa, e na qual as tradições de cavalaria são fielmente mantidas. Teríamos muita honra em servir a uma rainha...

Parou, interrompido pelo olhar de Marigny, que parecia lhe dizer: "Estás me traindo, Bouville!"

Hugo de Bouville, normando como Marigny, era cinco anos mais velho que ele. Foi em sua casa que Marigny começou a carreira, como escudeiro. Este não tardou a suplantar o senhor, mas, reconhecido, havia-o constantemente levado consigo através de sua extraordinária ascensão.

O gordo Bouville abaixou a cabeça. Era devotado servidor da coroa e, deslumbrado pela grandeza real, quando o rei lhe falou, só soube aprovar. O Turbulento não era mais um papalvo: era o rei, e Bouville aprestava-se a repetir, por ele, todo o zelo que havia tido por Filipe, o Belo.

Aquele servilismo recebeu, imediatamente, sua recompensa, e o Turbulento decidiu, para surpresa de todos, que Bouville seria enviado a Nápoles.

Não houve, no entanto, nenhuma oposição. O conde de Valois, pensando já em regular tudo por cartas, pensava que um homem medíocre, mas dócil, era justamente o embaixador de que necessitava. Enquanto Marigny pensava: "Enviem-no, então. Ele tem tanta malícia quanto uma criança de três anos. Verão os resultados que ele trará".

O bom servidor, enrubescendo, viu-se, assim, encarregado de uma alta missão que não esperava.

— Não vos esqueçais, Bouville, de que preciso de um papa — disse o jovem rei.

— Sire, não tenho outro pensamento na cabeça. Luís X inquietou-se a respeito da época da partida.

Desejaria que o seu mensageiro já estivesse a caminho e assumia, subitamente, ar autoritário.

— Na volta passareis por Avignon, fazendo com que apressem esse conclave. E uma vez que os cardeais, segundo parece, são pessoas venais, devereis providenciar ouro suficiente com messire de Marigny.

— Onde encontrarei esse ouro, sire? — perguntou Marigny.

— Ora essa, no Tesouro!

— O Tesouro está vazio, sire, isto é, só existe precisamente o necessário para assegurar o pagamento daqui até o Natal, mais nada além disso.

— Como, o Tesouro está vazio? — gritou Valois. — Por que não dissestes isso há mais tempo?

— Desejava começar por isso, monseigneur, mas vós me impedistes.

— E por que, na vossa opinião, ele está vazio?

— Porque, monseigneur, a arrecadação de impostos é má quando o povo está com fome. Porque os barões, como sois o primeiro a saber — continuou Marigny alteando a voz, com insolência —, se recusam a pagar o que prometeram. Porque o empréstimo feito às companhias lombardas foi gasto inteiramente na guerra de Flandres, esta guerra que tanto recomendastes...

—... e que terminastes à revelia de vosso chefe — gritou Valois —, antes que nossos cavaleiros pudessem aí encontrar glória e nossas finanças, proveito. Se o reino não tirou vantagens dos singulares tratados que concluístes, penso que o mesmo não aconteceu convosco, Marigny, pois não costumais esquecer vossos interesses nos acordos que fazeis. Sei isso por experiência própria.

Ele fazia alusão, nessa última frase, a uma permuta de terras que realizaram em 1330, na qual Valois pediu a Marigny para ceder-lhe os domínios de Champrond em troca dos de Gaillefontaine, e, em seguida, sentiu que fora enganado.

— Isso não impede — interveio Luís X — que Bouville deva estar a caminho o mais breve possível.

Marigny, sem parecer dar a menor atenção às últimas palavras do rei, gritou:

— Alteza, gostaria que monseigneur de Valois esclarecesse o que acaba de dizer a respeito dos tratados de Lille ou, então, que retirasse o que disse.

Um silêncio terrível desabou sobre o Conselho. O conde de Valois ousaria repetir, às claras, a medonha acusação que acabava de lançar contra o assistente de seu irmão?

Monseigneur de Valois ousou:

— Disse na vossa frente, messire, o que todo mundo diz nas vossas costas, que os flamengos vos subornaram para que fizésseis retirar os nossos soldados, e que desviastes, em vosso proveito, somas que deveriam reverter ao Tesouro.

Marigny ergueu-se. A indignação tornara branca sua pele grumosa, e ele começou a ficar semelhante à estátua da Galerie Mercière.

— Alteza — disse ele —, ouvi hoje mais do que um homem honrado poderia ter ouvido em toda a sua vida. Os bens que possuo, devo-os à bondade do rei, vosso pai, pelo trabalho de o haver secundado em tudo durante dezesseis anos. Acabo de ser acusado, diante de vós, de roubo e de conluio com os inimigos do reino; ora, nenhuma voz se ouviu para me defender, nem mesmo, e sobretudo, a vossa, sire. Exijo que uma comissão seja nomeada para examinar as contas pelas quais sou responsável perante vós e unicamente perante vós.

A cólera é contagiosa. Luís X se irritara com a atitude de Marigny desde a abertura dos trabalhos, não só pela maneira de contrariar seus projetos, como pelo jeito de tratá-lo como rapazinho, e de fazê-lo sentir, muito às claras, sua inferioridade em relação ao pai.

— Pois bem, essa comissão será nomeada, messire, uma vez que sois vós mesmo que a pedis.

Com esta frase ele rompia com o único ministro capacitado para mandar em seu lugar e para dirigir o reino. Os medíocres somente toleram ser rodeados por bajuladores que lhes ocultam sua própria mediocridade. A França iria pagar caro, durante longos anos, esse gesto de despeito.

Marigny pegou sua pasta de documentos, tornou a enchê-la e dirigiu-se para a porta; o seu gesto aumentou a irritação do Turbulento.

— Daqui por diante evitai qualquer negócio com o nosso Tesouro.

— Abster-me-ei de fazê-lo, sire — respondeu Marigny, passando pelo umbral da porta.

E ouviram-se seus passos desaparecer no corredor.

Valois triunfava, quase surpreso com a rapidez dessa execução.

— Cometeste um erro, mano — disse-lhe o conde d'Evreux —, não se leva um homem a esse extremo.

— Tinha muitas razões — replicou Valois — e, em breve, me agradecerás. Esse Marigny era um tumor no reino, que precisava, há mais tempo, ter sido rasgado.

— Então, meu tio — perguntou o Turbulento, voltando ao seu único pensamento —, quando partirá a embaixada para a senhora Clemência?

Assim que Valois lhe prometeu que Bouville partiria naquela semana, ele suspendeu a sessão. Tinha pressa em distender as pernas.

 

MESSIRE DE MARIGNY CONTINUA A DIRIGIR O REINO

Voltando para casa, precedido, como de costume, de três porta-maças e seguido por dois secretários e um escudeiro, monseigneur de Marigny ainda não compreendia o que acabava de se passar e como o destino havia se transformado tão bruscamente. A cólera obscurecia suas idéias. "Esse patife, esse canalha, acusando-me de vender tratados; tal censura, em sua boca, é no mínimo um gracejo!... E o reizinho, de cérebro de mosca e de gênio de vespa, que não abre a boca para me defender e que, ao contrário, me leva o Tesouro!"

Cavalgava sem nada ver das ruas e das pessoas, sem notar as fisionomias hostis dos que deviam afastar-se à sua passagem. Ele não era querido. Governava os homens de tão alto e há tanto tempo, que perdera o hábito de olhar para eles.

Chegando a sua casa da Rue des Fossés-Saint-Germain, desmontou sem esperar a mão do escudeiro, atravessou o pátio apressadamente, jogou sua capa no primeiro braço que se estendeu e, sempre segurando sua pasta de documentos, subiu a escadaria que levava ao primeiro andar.

A casa parecia menos uma moradia particular do que um ministério: tinha grandes móveis, grandes candeeiros, tapetes espessos, pesadas armações, somente coisas sólidas, feitas para durar. Um exército de criados cuidava do serviço.

Enguerrand de Marigny empurrou a porta do aposento em que sabia estar a esposa. Esta, próxima à lareira, brincava com um cachorro anão da Itália, de pêlo cinza e liso, semelhante a um cavalo em miniatura. Sua irmã, dama de Chanteloup, viúva linguaruda, estava junto dela.

Ao ver a fisionomia do marido, madame de Marigny compreendeu imediatamente que acontecera um drama.

— Enguerrand, meu caro, que aconteceu? — perguntou ela.

Joana de Saint-Martin, afilhada da falecida rainha Joana, esposa de Filipe, o Belo, vivia na admiração do homem que havia escolhido para marido, e se consumia de devoção por ele.

— Aconteceu — respondeu Marigny — que, agora que o dono não os mantém sob o chicote, os cães se atiraram contra mim.

— Posso ajudar-te de algum modo?

Ele respondeu, asperamente, que já era bastante crescido para defender-se sozinho; então, as lágrimas vieram aos olhos de madame de Marigny. Enguerrand sentiu remorsos e, tomando-a pelos ombros, beijou-a na testa, perto dos cabelos louros já grisalhos, dizendo-lhe:

— Sei bem, Joana, que não tenho senão a ti para me amar!

Depois dirigiu-se para o seu gabinete de trabalho e jogou a pasta de documentos sobre um móvel. Suas mãos tremiam e deixou cair um castiçal que desejava mudar de lugar. Soltou uma praga e caminhou, um momento, da janela à lareira, para dar à razão tempo para vencer a cólera.

"Roubaram-me o Tesouro, mas esqueceram-se do resto. Esperem; não me dobrarão assim tão facilmente."

Fez soar uma sineta.

— Quatro sargentos, depressa — disse ao servidor que se apresentou.

Os homens chamados acorreram da sala da guarda, tendo nas mãos o bastão com a flor-de-lis. Marigny distribuiu-lhes as ordens:

— Vai me buscar messire Alain de Pareilles, que deve estar no Louvre. Tu, meu irmão arcebispo, no palácio episcopal. Vós, messires Guilherme Dubois e Raul de Presles, e tu, messire Le Loquetier. Encontrai-os onde estiverem. Espera-los-ei aqui.

Os mensageiros partiram e Enguerrand empurrou a porta da sala em que trabalhavam os secretários:

— Alguém para um ditado — gritou.

Um funcionário atendeu, com penas e tinteiro.

"Sire", começou Marigny, plantado de costas para o fogo, "no estado em que me encontra a volta a Deus do maior rei que a França conheceu..."

Escrevia a Eduardo II, rei da Inglaterra e genro de Filipe, o Belo, pelo seu casamento com Isabel de França. Depois de 1308, ano dessa união que ele ajudara a preparar, Marigny tivera muitas ocasiões de prestar a Eduardo serviços políticos ou privados. O casal andava mal e Isabel se queixava dos costumes anormais do marido. A situação continuava, na Guyenne, sempre tensa... Marigny tinha sido designado, em companhia de seu inimigo Carlos de Valois, para representar o rei da França nas cerimônias da coroação de Westminster. Em 1313, o soberano inglês, quando de sua estada na França, havia agradecido ao coadjutor com uma pensão em vida de mil libras.

Hoje cabia a Marigny recorrer ao rei Eduardo e pedir sua intervenção a seu favor. Soube mostrar, em sua carta, o interesse que tinha em que os negócios da França não mudassem de direção. Os que haviam trabalhado juntos pela paz dos impérios deveriam continuar unidos.

— Por cavaleiro, monseigneur?

— Não. Isso será levado pelo meu próprio filho. Manda um amanuense procurá-lo, caso não esteja por aqui.

Assim que o secretário saiu, Marigny desabotoou a gola da roupa, pois a agitação começava a inchar-lhe o pescoço.

"Pobre reino", murmurou. "Em que estado vão colocá-lo, se não me opuser? Não trabalhei tanto para ver todos os meus esforços arruinados!"

Como todos os homens que exerceram o poder por muito tempo, ele chegara a identificar-se com o país, considerando qualquer ofensa à sua pessoa como uma ofensa direta aos interesses do Estado.

Nessa ocasião não estava errado, mas sim pronto, mesmo sem o perceber, a agir contra o reino no mesmo instante em que lhe limitassem a faculdade de dirigi-lo.

Foi nesse estado de espírito que recebeu o irmão, João de Marigny. O arcebispo, com o corpo magro encerrado numa sotaina violeta, tinha uma atitude constantemente estudada, que desgostava o irmão. Este sentia vontade de dizer ao mano mais jovem: "Reserva tua pose para os teus cônegos, se quiseres, mas não para mim, que te vi babar na sopa e assoar-te com os dedos!"

Em dez frases resumiu o que se passara no Conselho que deixara e, sem perder um segundo, comunicou seus projetos com aquele mesmo tom, que não admitia réplica, com que falava aos seus funcionários:

— Não quero papa por enquanto, porque enquanto não houver papa terei o rei nas mãos. Nada de conclave bem organizado e pronto para obedecer às ordens de Bouville. Nada de paz em Avignon entre os cardeais. Quero que eles briguem; faz com que assim continuem até novo aviso.

João de Marigny, que a princípio participara da cólera do irmão, retraiu-se logo que se tocou no conclave. Refletiu um instante, contemplando seu belo anel de prelado.

— Pois bem, em que estás pensando? — perguntou Enguerrand.

— Meu irmão — disse o arcebispo —, teus projetos inquietam-me. Semeando no conclave mais desordem do que já existe, arrisco-me a perder a amizade de tal candidato, que, bem colocado hoje para tornar-se papa, dar-me-ia, logo após sua eleição, o chapéu de cardeal...

Enguerrand explodiu.

— O teu chapéu! Não é hora de falar nisso! Se algum dia -o tiveres, meu pobre João, serei eu quem o dará, como já te dei a tua mitra. Mas se te colocares no partido de meus adversários, bem cedo ficarás não somente sem chapéu, mas sem sapatos, como um miserável monge, esquecido em qualquer convento. Esqueces muito rapidamente o que me deves e a enrascada de que te salvei, há dois meses, na trapaça com os bens dos templários. A propósito, esse documento desastroso que deixaste nas mãos do banqueiro Tolomei, e graças ao qual os lombardos me fizeram recuar, justamente quando desejava taxá-los mais, já conseguiste reavê-lo?

— Já, claro, mano — respondeu o arcebispo, que mentia.

Logo, porém, deu-se por vencido.

— Que devo fazer? — perguntou.

— Manda-me para lá alguns emissários de segurança absoluta, quero dizer, gente que poderás manejar de qualquer lado e que receie minha cólera. Manda-os espalhar os boatos mais desencontrados, fazendo crer, aos franceses, que o novo rei vai permitir a volta da Santa Sé para Roma e, aos italianos, pelo contrário, que ele quer aprisionar o próximo papa perto de Paris. Faze-os semear toda a discórdia que os padres podem engendrar entre si. Nosso Bouville se perderá em plena quietude. Bertrand de Got maltratou um pouco demais esses cardeais; vamos dar-lhes outra coisa: o medo do que não existe. Eles não se querem bem, desejo que eles se odeiem e se atirem uns contra os outros. E que me ponham a par de tudo, semana a semana, se não puder ser diariamente... Nosso jovem Luís X quer um papa? Ele o terá quando chegar o dia, mas não qualquer papa que nos fará perder, num minuto, o que o rei Filipe e eu levamos tempo para arrancar de dois pontífices... Trata, se possível, de arranjar emissários que não se conheçam.

Dito isto, despediu o irmão e mandou entrar o filho, que esperava na porta. Luís de Marigny, como acontece amiúde nas famílias, parecia-se mais com o tio arcebispo do que com o pai. Era magro, muito cuidadoso com a aparência, e vestia-se com um pouco de rebuscamento.

Filho de uma personagem diante da qual todo o reino se abaixava, afilhado, outrossim, de Luís, o Turbulento, não sabia o que era lutar para conseguir o que desejava. Era leviano, gostava de aparecer e afetava um ar de nobreza que se exibe de bom grado mais na segunda geração do que na décima; e se sentia grande admiração pelo pai, ao qual devia tudo, e que o dominava de tão alto, não podia deixar de reprovar, no íntimo, suas maneiras rudes. Este jovem possuía uma única qualidade, ou melhor dizendo, uma só vocação: gostava de cavalos, conhecia-os e sabia servir-se deles como se tivesse, há dois séculos, a cavalaria no sangue.

— Luís, manda equipar teus cavalos — disse Enguerrand —, pois partirás imediatamente para Londres, levando esta carta.

A fisionomia do moço tomou um ar de enfado.

— Isso não pode ser enviado amanhã, meu pai, ou então um cavaleiro não poderia me substituir? Preciso caçar amanhã no bosque de Bolonha... caçada simples, porque estamos de luto, mas...

— Caçar! Só pensas em caçar; escolheste bem a época! — exclamou Marigny. — Não posso nunca pedir alguma coisa aos meus, pelos quais faço tudo, sem que eles comecem por torcer o nariz? Fica sabendo que, no momento, o que caçam sou eu! e que, se não me ajudares, arrancarão a minha pele e a tua... Se fosse suficiente um cavaleiro, já teria pensado nele sozinho! É ao rei da Inglaterra que te mando, e tenho coisas a lhe dizer que não posso confiar numa carta. Será que isso não lisonjeia tua honra a ponto de renunciares à tua caçada?

— Perdoa-me, meu pai — respondeu Luís de Marigny —, não tinha compreendido.

Marigny tomou o estojo que continha a carta.

— Conheces o rei Eduardo por tê-lo visto em Paris no outro ano. Dir-lhe-ás justamente isto: monseigneur de Valois quer apoderar-se de tudo. Receio que, se isso acontecer, ele queira rever os acordos feitos entre os dois reinos a respeito da Guyenne. Por outro lado, Valois quer casar novamente o novo rei com uma princesa d'Anjou-Hungria, o que voltará nossas alianças para o sul e não para o norte. Só isso. Que o rei da Inglaterra tome nota dessas duas coisas! Pô-lo-ei a par dos acontecimentos que houver.

Marigny contemplou um instante o filho. "Sua Majestade, o rei Eduardo", pensou ele, "aprecia bastante a beleza dos homens. Não ficará talvez insensível à aparência do mensageiro."

— Leva apenas dois escudeiros e os criados necessários. Não banques o príncipe enquanto estiveres na França. E pede duzentas... não, cem libras, isto será suficiente, ao meu tesoureiro.

Ouviram-se batidas à porta.

— Messire Alain de Pareilles acaba de chegar — anunciou um sargento.

— Que entre... Adeus, Luís, e felicidades. Enguerrand de Marigny abraçou o filho, o que fazia apenas raramente. Depois, virou-se para Alain de Pareilles, que entrava, segurou-o pelo braço e, mostrando-lhe uma cadeira diante da lareira, disse-lhe: — Aquece-te, Pareilles.

O capitão-geral dos arqueiros tinha os cabelos cor de aço, uma fisionomia duramente marcada pelo tempo e pela guerra, e seus olhos tinham visto tantos combates, golpes de força, torturas e execuções, que não podiam espantar-se com mais nada. Os enforcamentos de Montfaucon eram para ele um espetáculo habitual. Somente no ano passado tinha levado o grão-mestre dos templários à fogueira, os irmãos d'Aunay à roda e as princesas reais à prisão. Mas era ainda responsável pelo corpo dos arqueiros e dos sargentos-de-armas de todas as fortalezas e, por meio deles, pela ordem, em todo o reino. Marigny, que não tuteava nenhum membro de sua família, assim o fazia com esse velho companheiro, instrumento sem fraquezas nem defeitos de seu poder.

— Alain, tenho para ti duas missões que precisam ser executadas sem demora — disse Marigny. — Irás pessoalmente ao Castelo Gaillard sacudir o asno que comanda aquilo... como se chama ele?

— Bersumée, Roberto Bersumée — respondeu Pareilles.

— Bem, dirás a esse Bersumée que continue a agir segundo as instruções que dei há tempo, de acordo com o rei Filipe. Sei que o conde d'Artois esteve por lá, o que é contrário às ordens. Se quiserem enviá-lo, ou a outro qualquer, é preciso que passem por mim. Somente o rei poderá entrar; mas disto pouco risco existe. Nenhuma visita à senhora Margarida, nenhuma carta, nada! Que o animal fique ciente de que suas orelhas serão cortadas caso desobedeça.

— Que vais fazer da senhora Margarida? — interrogou Pareilles.

— No momento ela me serve de refém. Logo, que ela não se comunique com ninguém, mas que velem pela sua segurança. Tenho necessidade de que ela viva e muito. Que suavizem o seu regime, se ele prejudicar sua saúde... Segunda ordem: logo que regressares da Normandia, partirás para o sul. Antes envia trezentos de teus homens recrutados na reserva de Paris para que fiquem à tua espera em Orange. Aí, assumirás o comando e os instalarás no Forte de Villeneuve, que se encontra defronte de Avignon. Quero que lá me prepares uma entrada bem barulhenta. Faz-me desfilar teus arqueiros seis vezes seguidas sobre as muralhas, para que se imagine, vistos por cima do rio, que eles são dois mil. Quero que os cardeais tremam dentro de suas batinas, pois é a eles que destino esta mascarada. Feito isto, deixa teus homens lá e volta aqui.

— Está muito bem, messire Enguerrand — respondeu Alain de Pareilles. — Ir arrancar a orelha daquele animal e dar um susto nos pássaros vermelhos será mais divertido do que inspecionar a guarda do palácio, onde agora...

Parou, hesitando em prosseguir, e depois soltou o que trazia no íntimo:

—... onde agora, para dizer tudo, Enguerrand, o ar que se respira não me faz bem.

Balançou tristemente a cabeleira cor de aço.

— Entretanto, é preciso que aí continues — respondeu Marigny. — Presumo que os servidores do rei Filipe vão sofrer bastante nestes tempos... Tenho necessidade de que continues a comandar os arqueiros. Para o deslocamento de tropas de que te falei não será preciso prevenir o condestável, pois eu mesmo o prevenirei. Adeus, Alain.

Passou, depois, para a sala de trabalho, onde se encontravam os legistas que chamara, além de outras pessoas, como Briançon e Bourdenai, atraídos pelas novidades. Suas vozes familiares calaram-se à sua entrada.

Junto às paredes da sala havia cadeiras esculpidas, equipadas com recipientes para tinta, fixados nos braços, além de pranchetas para escrever, de onde pendiam pesos para manter estendidos os pergaminhos. Os registros e os documentos estavam colocados em pequenas estantes giratórias. Esta disposição de objetos fazia lembrar uma sala de capela ou uma biblioteca de mosteiro.

— Messires — disse Enguerrand de Marigny, depois de haver olhado seus colaboradores com emoção —, não vos deram a honra de convidar-vos para o Conselho, onde estive esta manhã. Por isso vamos ter, entre nós, um conselho mais que privado.

— Só faltará o rei Filipe — sentenciou Raul de Pres-les com um sorriso triste.

— Oremos para que sua alma nos assista. Ele não duvidava de nós — respondeu Marigny.

Depois, com um gesto de violência, exclamou:

— Pediram-me que fornecesse minhas contas para exame, messires, e me proibiram de gerir o Tesouro. Vou, então, apresentar-lhes contas bem exatas. Dêem ordem a todos os bailios e senescais para que paguem tudo quanto se deve, começando pelos menores credores. Que sejam pagos os fornecedores, as obras em andamento e tudo quanto foi encomendado pela coroa. Que paguem tudo até o esgotamento do ouro, até mesmo o que poderia ser adiado.

Os outros já haviam compreendido o jogo. Enguerrand estalou as juntas dos dedos como se estrangulasse alguém.

— Monseigneur de Constantinopla quer se apoderar do Tesouro? Faça-lhe bom proveito! Mas ele precisará procurar alhures a moeda de suas intrigas.

 

CARLOS DE VALOIS

Se a atmosfera na margem esquerda, em casa de monseigneur de Marigny, era tempestuosa, em compensação era de alegria na margem direita, em casa do conde de Valois.

Uma grande sensação de orgulho inundava as fisionomias. O menor escudeiro sentia-se com autoridade de ministro para maltratar os criados; as mulheres mandavam com mais tirania e as crianças esganiçavam-se ainda mais alto.

Cada qual estava informado ou queria mostrar-se informado e todos participavam, à sua maneira, dos acontecimentos que se anunciavam, o que criava um rumor de presunções, de conciliábulos entre portas, de elogios pedinchões e negocistas; o clã baronial triunfava.

Ao ver o número de pessoas que, desde o dia seguinte ao dramático Conselho, se acotovelava nas salas, para mostrar sua solidariedade ao partido triunfante, podia-se dizer que a verdadeira corte não se encontrava no Hotel de Ville, mas na mansão de Valois.

Residência de rei, aliás! Não havia viga do forro que não fosse esculpida, nem lareira cuja chaminé monumental não fosse ornada com os escudos da França e de Constantinopla. Em todos os lugares os ladrilhos desapareciam debaixo de lãs do Oriente, e as paredes, sob as tapeçarias de Chipre ornadas de ouro. Nos aparadores, a prata, branca e dourada, juntava-se aos esmaltes e às pedras raras.

Camareiros, afetando importância, davam, gravemente, instruções, e não havia, até o último amanuense, quem não se desse um ar de dignidade.

As damas e senhoritas que serviam à condessa de Valois tagarelavam em torno do cônego Estêvão de Mornay, que, depois de monseigneur de Valois, transformara-se no homem do dia. Toda uma "clientela" efervescente, agitada, cautelosa, entrava, saía, permanecia nos desvãos das janelas e dava sua opinião sobre os negócios públicos. As pessoas permaneciam por ali, fingindo terem sido chamadas; monseigneur de Valois, em seu gabinete, entregava-se a verdadeiras consultas.

Viu-se mesmo chegar, fantasma de outro século, sustentado por um escudeiro de barbas brancas, o famoso sire de Joinville, esquelético e inteiramente arruinado pela idade. O antigo senescal da Champanha, o homem que acompanhara São Luís na cruzada de 1248, que fora a principal testemunha no processo de canonização e que, recentemente, ditara suas Memórias, quando as suas lembranças começavam a se embaralhar um pouco, tinha noventa e um anos. Meio cego, as pálpebras úmidas, trêmulo, com o raciocínio bastante diminuído, mas ainda orgulhoso de que se lembrassem dele, trazia ao conde de Valois, somente com a sua presença, o apoio moral da antiga cavalaria e do velho mundo feudal.

O odor do poder espalhou-se por toda Paris e parecia não haver quem não quisesse aspirá-lo.

Atrás dessa fachada de poderio, no entanto, ocultava-se uma lepra: o dinheiro, o mal do dinheiro, a caça ao dinheiro, a que Carlos de Valois, há anos, não cessava de se dedicar. Como o seu temperamento o levava a querer ser, sempre, o primeiro, vivia além de seus recursos, acumulando dívidas, das quais chegava a pagar apenas os juros.

O luxo de que se rodeava custava-lhe demasiado. E, além disso, havia a sua inumerável, sua terrível família. Mafalda de Châtillon, sua terceira esposa, gostava dos tecidos mais caros e não suportava que outra dama se enfeitasse mais que ela. Filipe, seu filho querido, após se tornar cavaleiro, não parava de comprar armaduras, cotas da Inglaterra, leves e finas, botas de Córdova, lanças em madeira do norte e espadas alemãs.

Genitor prolífico, monseigneur de Valois tinha treze filhas, que lhe nasceram dos seus três casamentos! As que já estavam casadas obrigaram-no a endividar-se para que os esponsais estivessem à altura das coroas a que se uniram. Para as outras, era preciso pensar nos dotes, a fim de conseguirem partidos convenientes.

Quanto aos camareiros, aos escudeiros, aos mordomos e aos criados, eram numerosíssimos e bastante vorazes. Não se conseguia impedi-los de desperdiçar bastante e roubar ainda mais. Para dar de comer a todo esse povo, a carne entrava na mansão em bois inteiros e os legumes e os gêneros, em carroças.

Há tempos Valois, fingindo-se liberal, alforriara os escravos de seu apanágio a troco de dinheiro — porque o irmão a isso o obrigara — e, assim, pôde pagar parte da dívida. Mas só se libertam escravos uma vez; e se, por ocasião da mudança de reinado, o tio do rei queria muito ter em mãos os negócios do governo, era tanto para satisfazer seu apetite de poderio, como para restaurar seu crédito.

Certos combates deixam o vencedor tão embaraçado quanto o vencido. Monseigneur de Valois tinha, atualmente, poder sobre o Tesouro Real, mas era um Tesouro vazio.

Enquanto no andar térreo toda uma multidão se aquecia e se saciava à sua custa, Valois, em seu gabinete, recebendo visita após visita, procurava os meios de alimentar não somente suas caixas, mas ainda as do Estado.

Ao acompanhar, até o alto da escada, o temível conde de Dreux, com o qual acabava de conversar a respeito da situação dos tribunais a oeste de Paris, ouviu um rumor que vinha de baixo, misturado com gritos de surpresa.

Era Roberto d'Artois, que, no centro de um círculo de admiradores, torcia uma ferradura entre os dedos. Tinham acabado de lhe dizer que o rei Filipe era capaz de fazer aquilo na sua mocidade, e o gigante procurava mostrar que essa espécie de talento estava espalhada pela família. Com o esforço, as veias saltavam-lhe na testa, mas o ferro se dobrava e os homens balançavam a cabeça com respeito, enquanto as mulheres soltavam pequenas exclamações histéricas.

Monseigneur de Valois surgiu numa espécie de balcão interior que pendia sobre o salão. Imediatamente, todas as pessoas levantaram a cabeça para ele, como uma ninhada de passarinhos famintos à espera da comida.

— D'Artois! — chamou Valois — quero conversar contigo.

 — Às tuas ordens, meu primo — respondeu o grande Roberto.

Jogou a ferradura torcida para um escudeiro, a qual quase lhe atingiu a cabeça, e apressou-se em ir ao encontro do tio do rei em seu gabinete.

A peça tinha proporções de catedral. Uma imensa tapeçaria, ornada de prata e ouro, reproduzia, em torno das paredes, uma partida para as cruzadas. Estátuas de marfim, quadros cujas folhas esculpidas estavam abertas, taças adornadas de jóias, o luxo era ainda mais esplendoroso ali que no resto da mansão. Monseigneur de Valois não resistia aos objetos raros. Numa pequena mesa via-se um jogo de xadrez de jaspe e jade engastado de prata e pedras preciosas, sendo algumas de suas peças feitas de jaspe e outras de cristal de rocha.

— Então — perguntou Valois —, achas que o teu homem virá? Ele está tardando a chegar.

Pesado, maciço, muito avermelhado, suntuoso até o mau gosto, ele andava, com a fronte preocupada, entre os seus tesouros, dos quais boa parte ainda teria que ser paga.

— Meu primo, espero que ele venha! — respondeu d'Artois. — Também estou tão impaciente quanto tu em vê-lo surgir, garanto-te, pois, segundo o que ele nos responder, apressar-me-ei a fazer-te um pedido.

— Qual?

— O Tesouro Real, agora que o tens em mãos, não poderia me dar um pouco do que me deve?

Valois ergueu os braços ao céu.

— Meu primo — replicou d'Artois —, sabes que há sete anos não me pagam as cinco mil libras de rendas do meu condado de Beaumont, que fizeram o favor de me dar, prometendo uma indenização por me haverem tirado o condado de Artois, quando ele já era meu! Conta tu mesmo! Trinta e cinco mil libras que me são devidas! De que queres que eu viva?

Valois pousou-lhe a mão sobre o braço, com esse gesto protetor que lhe era habitual.

— Meu primo — disse ele —, o que urge, por enquanto, é encontrar com o que expedir Bouville, pois o rei enche-me os ouvidos a todo momento. Depois, prometo-te, o primeiro caso de que me ocuparei será o teu.

A inquietação, porém, entristecia-lhe a fisionomia. A quantas pessoas, desde a véspera, não havia feito a mesma promessa?

— Mas a astúcia de Marigny, fazendo esvaziar as caixas por seus pagadores, será a última, garanto-te — gritou ele. — Mandarei enforcá-lo, estás ouvindo, Roberto? Mandarei enforcá-lo!... Para onde pensas que foram as tuas rendas do condado? Para o bolso dele, meu caro primo; para o bolso dele, é o que te digo!

Depois que havia conseguido acertar o primeiro golpe no dirigente-geral do reino, a raiva de Valois não conhecia limites, descobrindo, sem cessar, novos rancores.

Marigny, a seus olhos, tornara-se responsável por tudo. Um roubo havia sido cometido em Paris? Culpa de Marigny, que não mantinha alerta sua polícia e talvez mesmo partilhasse com o malfeitor. O Parlamento tinha votado um ato que prejudicava um grande senhor? Era Marigny quem o havia instigado. Um marido acabava de descobrir os deslizes da esposa? Marigny, ainda, por causa do inacreditável relaxamento de costumes que apareceu depois que ele começara a governar. Não seria de admirar se Marigny fosse o instigador do adultério das princesas reais e se Filipe, o Belo, houvesse morrido por sua artimanha.

— Achas, pelo menos, que o teu sienense aceita? — perguntou Valois bruscamente.

— Como não? Ele pedirá garantias, mas acabará aceitando, verás.

— Eis a que estou reduzido, meu primo — exclamou nesse momento, com desespero teatral. — Dependendo do bom humor de um banqueiro sienense para começar a pôr um pouco de ordem neste reino.

D'Artois ouvia, olhava o primo sem jamais se cansar, ao mesmo tempo divertido e fascinado. Valois era o seu "grande homem", a única criatura com a qual concordaria em trocar de pele. O gigante, que era devotado somente a si próprio, sentiu-se quase capaz de devoção por Valois.

Para qualquer um, cuja natureza fosse um pouco do mesmo naipe, monseigneur de Valois, na verdade, tinha algo de fascinante, e só o fato de vê-lo viver já constituía um espetáculo. Espantosa personagem, esse grão-senhor, ao mesmo tempo impaciente e tenaz, veemente e astuto, de corpo corajoso, mas fraco diante da bajulação e, ainda por cima, animado por uma ambição que nada, honrarias ou privilégios, podia saciar!

Outros ficariam bastante satisfeitos em ser proprietário do Valois, par da França, conde do Alençon, de Chartes, da Perche, do Anjou e do Maine e, além disso tudo, primeiro barão do reino. Ele não; torturava-o o desejo de ser rei. Aos treze anos recebeu a coroa de Aragão, à qual podia pretender por ser descendente de Jaime, o Conquistador, mas que não soube conservar. Aos vinte e sete anos, colocado, pelo irmão, à frente dos exércitos franceses, devastou a Guyenne. Aos trinta e um, chamado pelo sogro, o rei de Nápoles, para pacificar a Toscana, onde guelfos e gibelinos se digladiavam 14, conseguiu do papa as indulgências de cruzado, com o título de vigário-geral da cristandade e de conde da Romanha, ao mesmo tempo que obtinha dos florentinos, que arruinara até os ossos, duzentos mil florins-ouro, para lhes dar a honra de ir embora, cessando as pilhagens.

Viúvo de Margarida d'Anjou-Sicília, casou-se novamente, sem esperar mais nada, com uma Courtenay, pela qual sentiu-se louco de amor no instante em que soube que ela traria, como herança, o título fabuloso de imperador de Constantinopla. Não chegara porém a reinar, pois os dois Paleologo que, calçados de púrpura, ocupavam o trono de Bizâncio, embora possuíssem bastantes dificuldades no seu império, pouco se interessavam por esse homem agitado que, do outro extremo da cristandade, se pusera a falar como soberano do universo.

Ainda em 1308, apresentou — depois de quantas brigas! — sua candidatura à coroa do Sacro Império Romano-Germânico, sem obter um único voto na eleição. Não houve cetro disponível para o qual não estendesse as mãos, através do mundo.

Passados quarenta e quatro anos, não estava, ainda, curado de seus sonhos bizantinos, nem dos sonhos alemães. Somava, em seus sonhos, todas as coroas que devia ter usado, sem esquecer de lhes juntar a da França. Para isto bastaria pouca coisa: que Filipe, o Belo, não tivesse filhos ou que estes morressem no berço...

E quando Valois exclamava, às vezes: "Perdi minha vida! O azar sempre me traiu!", era porque imaginava ter podido reconstituir, sob seu domínio, da Espanha ao Bósforo, o mundo romano tal qual existia há mil anos, no tempo do imperador Constantino.

Esse grão-senhor megalômano tinha temperamento de aventureiro, comportamento de novo-rico e veleidades de fundador de dinastia. Os treze reis Valois que iriam descender dele e reinar sobre a França, durante duzentos e cinqüenta anos, teriam em seu sangue, com exceção de Carlos V, alguns traços de seu gênio maluco. Mas estava escrito que perderia todas as oportunidades: assim, morreria quatro anos antes que o trono ficasse vago e que seu filho o ocupasse...

 

QUEM, POIS, GOVERNA A FRANÇA?

O homem que Carlos de Valois esperava foi, enfim, anunciado, e d'Artois assumiu sua melhor pose para acolher messer Spinello Tolomei.

— Amigo banqueiro — exclamou ele, indo ao seu encontro, de mãos estendidas —, tenho para convosco grandes dívidas e sempre prometi pagá-las na primeira virada de minha sorte.

— Boa nova, monseigneur — respondeu o banqueiro.

— Vede! Começo por pagar minha dívida de gratidão arranjando-vos um cliente real.

Tolomei saudou Valois com profunda inclinação de cabeça, dizendo-lhe:

— Quem não conhece monseigneur, pelo menos de vista e de nome!... Ele deixou grandes lembranças em Siena.

As mesmas que em Florença, com a diferença de que aqui, por ser a cidade muito pequena, arrancara apenas dezessete mil florins para "pacificá-la".

A tez bistrada, as bochechas caídas, o olho esquerdo fechado — dizia-se que ele o abria somente quando falava a verdade, embora a sua cor fosse raramente vista —, os cabelos grisalhos e cuidados, caindo sobre a gola da roupa verde-escura, messire Tolomei esperava que o convidassem a sentar-se, o que fez monseigneur de Valois, depois de o haver medido, um momento, com o olhar.

Após a morte do velho Boccanegra, Tolomei fora eleito, pelos seus confrades, como aliás se esperava, capitão-geral das companhias lombardas de Paris, belo título que não tinha significação militar alguma, mas que dava, ao seu detentor, um poder mais infalível que o de condestável. Tinha, por causa de sua função, o controle oculto de um terço das operações bancárias feitas através do reino, e é sabido que, nessa espécie de negócio, quem tem um terço tem o todo.

— Grandes coisas vão mudar nesta época, na França, amigo banqueiro — disse Roberto d'Artois. — Messire de Marigny, que não é mais vosso amigo, segundo penso, pois que não é nosso, encontra-se em situação difícil...

— Eu sei... — murmurou Tolomei.

— Por isso eu disse a monseigneur — volveu d'Artois

— que, se tivesse necessidade de apelar para um homem de finanças, não podia fazer coisa melhor do que dirigir-se a vós, de quem conheço tanto a habilidade como o devotamento.

Tolomei respondeu com um sorrisinho de cortesia; mas pensou, desconfiado: "Se fosse para oferecer-me a direção do Tesouro não me fariam tal adulação".

— Que posso fazer para servir-vos, monseigneur? — perguntou, voltando-se para Valois.

— Ora, o que pode um banqueiro, messer Tolomei — respondeu Valois, com a bela arrogância que assumia quando ia pedir dinheiro.

— Isso pode significar muita coisa — replicou o sienense. — Tendes alguns fundos para colocar em bons mercados, os quais dobrarão de preço nestes seis próximos meses? Ou desejais interessar-vos pelo comércio de navegação, que tem tido grande desenvolvimento neste momento em que é preciso buscar, por mar, tantas coisas que faltam?

— Não, não se trata de nada disso, no que pensarei mais tarde — respondeu Valois, vivamente. — No momento queria que me arranjásseis um pouco de dinheiro sonante... para o Tesouro.

Tolomei fez uma cara desolada.

— Ah! Monseigneur, malgrado toda a vontade que tenho de servir-vos, eis aí uma coisa que não posso fazer. Meus amigos e eu fomos, nestes últimos tempos, bastante sangrados. O que o Tesouro nos pediu emprestado para a guerra de Flandres, ainda não vimos de volta. Dos empréstimos privados (Tolomei lançou um olhar em direção a d'Artois) também não fomos reembolsados; numa palavra, monseigneur, meus cofres estão com as fechaduras enferrujadas. De quanto precisais?

— Pouco. Dez mil libras.

O banqueiro ergueu as mãos num amplo gesto de medo.

— Santo Dio! Mas onde as acharei? — exclamou. Tudo isto eram preliminares e d'Artois tinha previsto que Tolomei, como acontecia geralmente, choraria miséria, diria que estava tosquiado até os ossos, e se poria a gemer mais forte que Jó em seu monturo. Valois, porém, que estava apressado, quis fazer demonstração de autoridade e assumiu um tom que geralmente impunha a seus interlocutores.

— Vamos, vamos, messer Tolomei! — gritou ele. — Deixemos destas coisas. Mandei-vos chamar para negócios e para que exerçais vosso trabalho como sempre exercestes, com lucro, penso eu.

— Minha profissão, monseigneur — respondeu Tolomei, com o olho fechado, as mãos tranqüilamente cruzadas na barriga —, minha profissão é a de emprestar e não a de dar. Ora, há muito tempo que não faço outra coisa a não ser dar, sem reembolso algum. Não fabrico moeda e não descobri a pedra filosofal.

— Não quereis, então, ajudar-me a desembaraçar-vos de Marigny? É de vosso interesse, parece-me!

— Monseigneur, pagar tributo ao inimigo quando ele é poderoso e depois pagar ainda para que ele não o seja mais é uma operação dupla que, precisais convir, de nada adianta. É preciso saber, ainda, o que vai acontecer e se se pode recuperá-lo.

Carlos de Valois lançou-se, então, na grande homília que dirigia a todo recém-chegado, desde a véspera. Ia, desde que os meios lhe permitissem, mandar suprimir todas as "novidadezinhas" introduzidas por Marigny e seus legistas burgueses, restaurar a autoridade dos grandes barões e restabelecer a ordem e a prosperidade no reino, retornando ao direito feudal que fizera a grandeza da França. A ordem! Como todos os políticos embrulhões, só tinha essa palavra na boca, e nada o faria admitir que o mundo, em um século, havia mudado um pouco.

— Em pouco tempo — exclamou ele —, asseguro-vos de que voltaremos aos bons costumes de meu avô São Luís.

Assim dizendo, ele mostrava, pousado numa espécie de altar, um relicário que tinha a forma de um pé de homem e que continha um osso do calcanhar do avô; este pé era de prata, com as unhas figuradas em ouro.

Os restos do santo rei haviam sido espalhados em pedaços, pois cada membro da família, cada capela real queria ter uma parcela. A parte superior da cabeça estava conservada num belo busto de ourivesaria na Sainte-Chapelle; a condessa Mafalda d'Artois, em seu castelo de Hesdin, possuía alguns cabelos e um fragmento do queixo; e tantas falanges, estilhas e pedaços haviam sido repartidos, que se podia perguntar o que restava na tumba de Saint-Denis. Se se desejasse reajustar todo o conjunto, ter-se-ia a surpresa de verificar que o santo rei, depois de morto, havia dobrado de tamanho 15.

O capitão-geral dos lombardos pediu permissão, foi devotamente beijar o hálux do pé de prata; depois voltou e perguntou:

— Por que precisais exatamente de dez mil libras, monseigneur?

Valois viu-se obrigado a explicar-lhe que, por ordem de Marigny, o Tesouro fora esvaziado e que o dinheiro se destinava à missão de Bouville.

— Nápoles... Sim — dizia Tolomei —, sim, temos bastante comércio com Nápoles, com os nossos primos, os Bardi... casar o rei... Sim, sim, estou compreendendo, monseigneur... Reunir, enfim, o conclave... Ah! monseigneur, um conclave é mais caro que um palácio, e quão menos sólido!... Sim, monseigneur, sim, estou ouvindo.

Depois, quando Valois revelou tudo o que tinha em mente, aquele homenzinho redondo, que fingia sempre ignorar as coisas para que lhe explicassem melhor, disse:

— Tudo isto é, certamente, bem pensado, monseigneur, e desejo-vos, do fundo do coração, pleno êxito; mas nada me garante que casareis o rei, nem que venhais a ter um papa, nem mesmo, se fosse o caso, que eu receba o meu ouro, supondo-se que esteja em condições de fornecê-lo.

Valois lançou um olhar irritado a d'Artois. "Que estranho sujeito me arranjaste", parecia dizer-lhe, "e não terei falado demais para nada obter?"

— Vamos, banqueiro — exclamou d'Artois, erguendo-se —, talvez não tenhais essa soma, mas, se quiserdes, podeis arranjá-la, estou certo. Que juro pedis? Que vantagem?

— Mas nenhuma, monseigneur, nenhuma vantagem — protestou Tolomei —, não de vós, sabeis muito bem, nem de monseigneur de Valois, cuja proteção me é muito cara. Procuro simplesmente... procuro achar um jeito de ajudar-vos.

Depois, voltando-se novamente para o pé de prata, acrescentou suavemente:

— Monseigneur de Valois, acabais de dizer que desejais voltar aos bons costumes de monseigneur São Luís. Mas que entendeis por isso? Ides pôr novamente em uso todos os seus costumes?

— Certamente — respondeu Valois sem compreender aonde o outro desejava chegar.

— Ides restabelecer, por exemplo, o direito, para os grandes barões, de cunhar moeda em suas terras?

Os dois barões entreolharam-se, como se a luz caísse do alto. Como não haviam pensado naquilo mais cedo?

Com efeito, a unificação da moeda em circulação por todo o reino, assim como o monopólio real de emissão dessa moeda, eram instituições de Filipe, o Belo. Antes disso os grandes senhores fabricavam ou mandavam fabricar, ao lado da moeda real, suas próprias moedas de ouro e de prata, que tinham curso em seus feudos, e retiravam desse privilégio grande fonte de proveito. Disso também se aproveitavam os que, como os banqueiros lombardos, forneciam o metal bruto e o distribuíam, na variação de seu curso, de uma província para outra.

Carlos de Valois viu-se, subitamente, restabelecendo sua fortuna.

— Quisestes dizer, também, monseigneur — prosseguiu Tolomei, sempre considerando o relicário como se o avaliasse —, que ides restabelecer o direito de guerra privada entre os barões?

Tratava-se de outro costume feudal que Filipe, o Belo, abolira, a fim de impedir os grandes vassalos de ensangüentar, sob qualquer pretexto, o reino, para acabar com suas divergências, proclamar sua gloríola ou afastar aborrecimentos.

— Ah! se isso fosse assim novamente — gritou Roberto d'Artois —, não tardaria em retomar meu condado à cadela da minha tia Mafalda.

— Se tiverdes necessidade de armas para vossas tropas — disse Tolomei —, posso consegui-las pelo melhor preço dos armadores toscanos.

— Messer Tolomei, acabais de exprimir perfeitamente as coisas que desejo realizar — exclamou Valois —, e é por isso que vos peço para ter confiança em mim.

Ele já havia endossado as sugestões do banqueiro, e, antes de uma hora, transmiti-las-ia como idéias pessoais.

Tolomei sonhava, também, à sua moda, porque os grandes financistas não são menos imaginativos que os grandes conquistadores, e é conhecê-los mal pensar que, atrás de seus cálculos, não existam sonhos abstratos de poder.

O capitão-geral dos lombardos via-se já fornecendo ouro bruto para os grandes barões do reino, e fomentando suas brigas para vender-lhes armas.

— Então — perguntou Carlos de Valois —, estais decidido agora a fornecer-me a soma que solicitei?

— Talvez, monseigneur, talvez, quero dizer, pessoalmente não vos posso dar, mas posso arranjá-la na Itália, o que dá bem certo, pois é justamente para lá que vai vossa embaixada. Ficarei como fiador, o que é um grande risco, mas que tomo pelo desejo de servir-vos. Naturalmente, monseigneur, é preciso que um homem de minha confiança, portador de cartas de crédito, acompanhe o vosso enviado, a fim de receber o dinheiro e fazer a sua contabilidade.

Monseigneur de Valois franziu o sobrolho; essas condições não lhe agradavam; teria preferido receber o dinheiro diretamente e guardar um pouco para enfrentar as suas necessidades mais prementes.

— É que não estarei sozinho neste negócio, monseigneur — explicou Tolomei. — As companhias italianas são ainda mais desconfiadas do que nós, e tenho necessidade de lhes dar toda a certeza de que não vão ser enganadas.

Na realidade ele desejava ter um emissário na expedição, para saber tudo quanto aí se passava.

— E quem, então, ides indicar que não faça má figura ao lado de messire de Bouville? — perguntou Valois.

— Vou ver, monseigneur, vou ver. Não tenho muita gente...

— Por que não mandais — disse d'Artois — esse rapaz que foi por mim à Inglaterra?

— Meu sobrinho Guccio? — perguntou Tolomei.

— Esse mesmo, vosso sobrinho. Ele é fino, de espírito desenvolto e tem boa aparência. Auxiliará nosso amigo Bouville, que não deve falar o italiano, a se desembaraçar nas estradas. Garanto-te, primo — continuou d'Artois dirigindo-se a Valois —, que esse rapaz é uma boa escolha.

— Vai me fazer falta nos negócios — disse o banqueiro —, mas paciência, monseigneur, eu vo-lo dou. Está escrito que obtereis sempre de mim tudo quanto desejardes.

Quando messer Spinello Tolomei saiu do gabinete, Roberto d'Artois deu um grito de alegria e disse:

— Pois bem, meu primo, viste que eu não estava enganado!

— E sabes o que o decidiu? Aquilo! — respondeu Valois apontando, com belo gesto, o pé de seu avô. — Vamos, o respeito por tudo quanto é nobre ainda não está perdido na França, e este reino pode ser reerguido!

Um jovem, naquela noite, teve um grande movimento de satisfação e de esperança impaciente: era Luís, o Turbulento, quando seu tio lhe anunciou que a embaixada de Bouville partiria antes de dois dias.

Mas um outro, cujo tio igualmente informava dessa mesma novidade, não parecia nada alegre; e este era Guccio Baglioni.

— Como, meu sobrinho! — gritava Tolomei. — Oferecem-te uma viagem maravilhosa; vais conhecer Nápoles, a corte de Nápoles, viver no meio de príncipes, fazer amigos entre eles, não passas de um idiota! Vais ver um conclave, é uma coisa formidável um conclave. Vais distrair-te e aprender bastante! E me fazes essa faccia lunga, como se eu te anunciasse uma desgraça! Tens uma bela vida, meu rapaz, e não aprecias a tua sorte. Ah! a juventude de hoje! Eu, na tua idade... teria dado pulos e já estaria fazendo as malas!... Aí deve haver uma jovem que sentes deixar, senão não ficarias com essa cara; não é verdade?

A tez azeitonada do jovem Guccio escureceu um pouco, o que era a sua maneira de ficar ruborizado.

— Ma! Ela te esperará, se te ama — volveu o banqueiro. — As mulheres são feitas para esperar. Sempre as reencontramos. E se tens medo de que não te ame o suficiente, aproveita, então, as que encontrares no caminho. A única coisa que não se acha mais é a mocidade, e também o tempo de correr o mundo.

Ao mesmo tempo, Spinello Tolomei, observando o sobrinho, pensava com seus botões: "Como a vida é estranha! Eis um rapaz que, apenas chegado de Siena, foi a Londres, para as velhacarias de monseigneur d'Artois, que fizeram explodir o escândalo das princesas de Borgonha, forçando o Turbulento a separar-se da esposa; agora, ei-lo que parte, novamente, para Nápoles, a fim de lhe encontrar uma outra mulher. Deve haver uma relação nos astros entre o novo rei e meu sobrinho; seus destinos parecem estar ligados. Quem sabe se Guccio não vai se tornar uma alta personagem? É preciso pedir ao astrólogo Martin que estude isso logo".

 

UM CASTELO SOBRE O MAR

Há cidades mais fortes que os séculos; o tempo não as transforma. As dominações se sucedem; as civilizações aí se depositam como sedimentos geológicos; mas elas conservam, através das idades, seu caráter, seu perfume próprio, seu ritmo e seu rumor, que as distinguem de todas as outras cidades da Terra. Nápoles é uma dessas cidades, e, tal como aparece hoje ao viajante, assim era na Idade Média e, sem dúvida, também há milênios, meio africana, meio latina, com suas vielas estreitas, seu burburinho ála-cre, seu odor de óleo, de brasa, de açafrão e de peixe frito, sua poeira da cor do sol, seu barulho de chocalhos sacudindo no pescoço dos cavalos e das mulas.

Os gregos a organizaram, os romanos a conquistaram, os bárbaros a saquearam, os bizantinos e os normandos, cada um por sua vez, aí se instalaram como senhores. Mas modificaram apenas um pouco a forma das casas e acrescentaram algumas superstições e lendas à imaginação popular.

O povo não ficou nem grego, nem romano, nem bizantino: era o povo napolitano de sempre, esse povo sem paralelo com nenhum outro no mundo, cuja alegria é apenas um pára-vento diante da tragédia da miséria, cuja ênfase é uma maneira de valorizar a monotonia dos dias, cuja preguiça é uma sabedoria que consiste em não fingir atividade quando nada se tem que fazer; um povo que ama a vida, que zomba dos reveses do destino, que gosta de falar e que despreza a agitação militar porque a paz não o aborrece nunca.

Nessa ocasião, os príncipes de Anjou reinavam em Nápoles há cinqüenta anos. As duas marcas mais evidentes de sua presença eram as indústrias de lã, que haviam fundado nos arredores, e o bairro residencial, que erigiram perto do mar, dominado pelo enorme Château-Neuf, obra do arquiteto francês Pierre de Chaulnes, gigantesca construção erguida para o céu e que os napolitanos, ligados há milênios às superstições fálicas, haviam, imediatamente, batizado, devido à sua forma, de Maschio Angiovino, o "Macho Angevino"...

Em uma manhã, no início de janeiro de 1315, numa sala no alto desse castelo, pavimentada com grandes pedras brancas, Roberto Oderisi, jovem pintor napolitano da Escola de Giotto, contemplava o retrato que acabava de pintar. Imóvel diante do cavalete, o pincel atravessado na boca, não conseguia afastar-se do exame do quadro, onde o óleo, ainda fresco, tinha reflexos molhados. Perguntava-se se um toque de amarelo mais pálido ou, ao contrário, de um amarelo ligeiramente mais alaranjado não traduziria melhor o brilho dourado dos cabelos, se a fronte estava suficientemente clara, se os olhos, esses belos olhos azuis, um pouco redondos, guardavam bem a expressão da vida. A forma aí estava, oh! sim, seguramente, a forma!... mas o olhar? A que se resume o olhar? A um ponto branco sobre a pupila? A uma sombra um pouco mais extensa no canto da pálpebra? Como conseguir, com cores misturadas e dispostas umas perto das outras, restituir a realidade de um rosto e as estranhas variações da luz sobre o contorno das formas? Talvez não fossem os olhos, no fim de contas, talvez fosse uma questão de proporção entre os olhos e o nariz... nem mesmo de proporção... uma transparência que faltava à narina ou, quem sabe, uma relação que o pintor não tinha podido estabelecer entre o contorno calmo dos lábios e a inclinação das pálpebras...

— Então, signor Oderisi, terminastes? — perguntou a bela princesa que lhe servia de modelo.

Há uma semana ela passava três horas por dia sentada, imóvel, nesta sala, enquanto se fazia seu retrato para enviar à corte da França.

Através da grande ogiva com as vidraças abertas, viam-se os mastros dos barcos do Oriente ancorados no porto, balançando-se fracamente, e, mais adiante, a majestosa baía de Nápoles, o mar imenso, admiravelmente azul sob os raios do sol, e o perfil eterno do Vesúvio. A atmosfera estava suave e o dia ótimo para se viver.

Oderisi retirou o pincel da boca.

— Ai de mim! Sim — respondeu ele —, está terminado.

— Por que "ai de mim"?

— Porque vou me privar da felicidade de ver, todas as manhãs, a dona Clemência, e isso vai me dar a impressão de que o sol se acabou.

Isso era um pequeno cumprimento, pois, para um napolitano, o fato de declarar a uma mulher, seja princesa ou criada de hospedaria, que ficará gravemente doente se não a revir é, apenas, um mínimo obrigatório de cortesia.

— Depois, senhora... Depois — recomeçou ele —, disse "ai de mim" porque este retrato não está bom. Ele não dá de vós uma imagem tão bela quanto a realidade.

Tivessem-no aprovado e ele, seguramente, teria se irritado; mas criticando-se a si mesmo, era sincero. Experimentava o desespero do artista diante da sua obra terminada e que pensa: "Eis aí, devo deixar meu quadro tal como está, porque não posso fazer melhor, e, entretanto, ele é inferior ao que eu desejaria, ao que havia sonhado realizar!" Este jovem de dezessete anos já demonstrava as características de um grande pintor.

— Posso vê-lo? — perguntou Clemência da Hungria.

— Sim, mas não me atormenteis. Ah! meu mestre Giotto é quem deveria ter vindo pintar-vos.

Tinham chamado, efetivamente, Giotto, mandando procurá-lo por um cavaleiro através da Itália. Mas o mestre toscano, que estava justamente ocupado, esse ano, em pintar um afresco da vida de São Francisco de Assis nas paredes do coro da Santa Croce, em Florença, respondera, do alto de seus andaimes, que procurassem seu jovem discípulo de Nápoles 16.

Clemência da Hungria levantou-se e aproximou-se do cavalete, fazendo ranger as pregas duras do seu vestido de seda. Grande, esbelta, elegante, tinha menos graça do que grandeza e, possivelmente, menos feminilidade do que nobreza. Mas a impressão um pouco severa que causava seu porte era contrabalançada pela pureza do rosto, a luz terna, maravilhada do olhar, e por uma espécie de irradiação que dela emanava e que a envolvia.

— Mas, signor Oderisi — exclamou ela —, pintastes-me mais bonita do que sou!

— Nada mais fiz do que acompanhar vossos traços, dona Clemência, e também procurei pintar vossa alma.

— Então gostaria muito de me ver assim como me vedes, e que meu espelho tivesse tanto talento quanto vós.

Sorriram, agradecendo-se mutuamente os cumprimentos.

— Esperemos que este meu retrato agrade ao rei da França... quero dizer, a meu tio, o conde de Valois — acrescentou, um pouco confusa.

Enrubescera. Com vinte e dois anos, ainda enrubescia seguidamente e, tendo consciência disso, repreendia-se como de uma fraqueza. Quantas vezes sua avó, a rainha Maria da Hungria, não lhe havia repetido: "Clemência, não se deve enrubescer quando se é princesa e quando se pode vir a ser rainha!"

Meu Deus! seria possível que ela se tornasse rainha? Com os olhos voltados para o mar, pensava nesse primo distante, nesse* rei desconhecido que acabava de pedi-la em casamento e do qual tanto lhe falavam há catorze dias, desde que um embaixador oficioso chegara de Paris, quando menos se esperava. O gordo Bouville soubera apresentar o jovem Luís X como um príncipe infeliz que fora traído e que sofria, mas cujo rosto era cheio de graça e dotado de todas as qualidades de espírito e de coração. Quanto à corte da França, era tão agradável quanto a de Nápoles, combinando as alegrias de família e as grandezas da majestade... Nada melhor para seduzir uma jovem da natureza de Clemência da Hungria do que o pensamento de ter que apagar as feridas da alma de um homem traído por uma mulher indigna e, além disso, tão fortemente chocado pela morte prematura de um pai que adorava. Para Clemência o amor não podia se separar do devotamento. E depois, havia o orgulho de ter sido escolhida... Há duas semanas ela vivia no meio de milagres e transbordava de reconhecimento pelo Criador e pelo universo.

Uma tapeçaria bordada de imperadores, de leões e de águias elevou-se e um jovem de pequena estatura, nariz fino, olhos ardentes e alegres, de cabelos negros, fez sua entrada, inclinando-se.

— Oh! Signor Baglioni, vós aqui... — exclamou Clemência da Hungria com um tom alegre.

Ela apreciava bastante o jovem sienense que parecia ser secretário de Bouville e que para ela fazia parte, ele também, dos mensageiros da felicidade.

— Senhora — disse Guccio Baglioni —, messire de Bouville manda-me perguntar-vos se pode vir fazer-vos sua visita diária.

— Certamente — respondeu Clemência. — Sabeis que sempre tenho prazer em ver messire de Bouville. Mas, aproximai-vos e dizei-me o que pensais deste quadro que agora está terminado.

— Acho, senhora — respondeu Guccio, depois de permanecer, por um instante, silencioso diante do quadro —, que este retrato está maravilhosamente fiel e que mostra, ao olhar, a mais bela senhora que meus olhos jamais admiraram.

Oderisi, com os antebraços manchados de ocre e ver-melhão, sorvia o elogio.

— Então, não amais uma jovem na França, como me haviam feito acreditar? — perguntou Clemência, sorrindo.

— É verdade, amo... — disse Guccio um pouco surpreso.

— Então não sois sincero comigo ou com ela, signor Guccio, pois sempre ouvi dizer que, para quem ama, não há mais belo rosto no mundo do que aquele pelo qual se está apaixonado.

— A jovem que tem meu coração e que me guarda o seu — replicou Guccio com entusiasmo — é seguramente a mais bela de todas... depois de vós, dona Clemência, e não é amar pouco dizer a verdade.

Clemência divertia-se em apoquentá-lo um pouco. Pois desde que chegara a Nápoles e vivia numa corte, envolvido nos preparativos de um casamento real, o sobrinho do banqueiro Tolomei gostava de tomar ares de herói de cavalaria ferido de amor por uma bela longínqua, e suspirava, de vez em quando, de forma a inspirar dó. Na verdade, sua paixão acomodava-se muito bem com a viagem; seu desapontamento havia desaparecido no fim de dois dias e ele não tinha perdido um só dos divertimentos que sua missão podia lhe proporcionar.

A princesa Clemência, quase noiva, sentia-se subitamente cheia de curiosidade e de simpatia pelos amores alheios; teria desejado que todos os rapazes e todas as moças da Terra fossem felizes.

— Se Deus quiser que eu vá à França (ela usava, como todas as pessoas de sua intimidade, de grandes circunlóquios para falar do projeto), terei prazer em conhecer aquela em quem tanto pensais e que ides desposar, creio...

— Ah! senhora, praza aos céus que isso aconteça! A senhora não terá melhor servidor do que eu, e, estou certo, mais devotada servidora do que ela.

E ajoelhou-se, com as melhores maneiras, como se se encontrasse em um torneio, diante do camarote das damas. Ela agradeceu com um gesto de mão; tinha belos dedos fuselados, um pouco compridos, semelhantes aos dedos que se vêem nas santas dos afrescos.

"Ah! que bom povo esse, que será o meu, que gente simpática existe lá", pensava ela, maravilhada perante esse italianinho que, a seus olhos, passou a representar toda a França. Quase se sentia culpada a seu respeito; por causa dela, ele tivera de se separar de seus amores; por causa dela, uma jovem na França estava sofrendo de saudades...

— Podeis dizer-me seu nome — perguntou —, ou será um segredo?

— Não é segredo para vós, se vos apraz sabê-lo, dona Clemência. Ela se chama Maria... Maria de Cressay. É de linhagem nobre; seu pai era cavaleiro; espera-me no seu castelo que dista dez léguas de Paris... Tem dezesseis anos.

— Pois bem, sede feliz, eu vos desejo, signor Guccio; sede feliz com vossa bela Maria de Cressay.

Guccio, depois de sair, atravessou os corredores dançando. Ele já via a rainha da França assistindo às suas bodas. Seria preciso, antes, que dona Clemência se tornasse rainha, e seria preciso, também, que a família Cressay lhe quisesse conceder, a ele, jovem lombardo — isto é, aos olhos da opinião pública, um pouco mais do que um judeu, porém um pouco menos que um verdadeiro cristão —, a mão de Maria! Percebeu, ao mesmo tempo, que pela primeira vez encarava seu casamento com a bela castelã de Neauphle, que tinha visto apenas duas vezes na vida. Assim, os movimentos de nossa imaginação acabam por determinar o destino; e é suficiente que tenhamos dado a nossos atos eventuais a existência da palavra para nos sentirmos obrigados a cumpri-los.

Guccio encontrou Hugo de Bouville no apartamento onde o tinham alojado, entre grandes móveis decorados com couros pintados. O embaixador oficioso do rei da França, com um espelho na mão, procurava uma boa luz e voltava-se sobre si mesmo para se certificar de sua aparência e arranjar os cabelos grisalhos. Pensava se não seria melhor tingi-los. As viagens enriquecem a juventude; mas acontece, também, que perturbam os qüinquagenários. O ar italiano tinha embriagado Bouville. Este homem austero enganara a mulher em Florença, e chorara. Mas, quando a enganara de novo em Siena, onde Guccio tinha encontrado duas de suas amigas de infância, instaladas na vida alegre, o gordo Bouville já perdera toda a noção de remorso. Em Roma sentira-se rejuvenescido vinte anos. Nápoles, pródiga em voluptuosidades fáceis, desde que se tivesse um pouco de ouro pendurado na cinta, fora um encantamento. O que em todo lugar passaria por vício tomava, aqui, um aspecto desarmante de naturalidade e quase de ingenuidade. Pequenos alcoviteiros de doze anos, maltrapilhos e bronzeados, gabavam as curvas das irmãs mais velhas com uma eloqüência clássica, depois ficavam, ajuizadamente, sentados na antecâmara, cocando os pés. Além disso, tinha-se o sentimento de fazer uma boa ação dando de comer a toda uma família durante uma semana inteira. E depois, o prazer de passear no mês de janeiro sem agasalho! Bouville pusera-se na última moda e vestia, agora, um gibão com mangas de duas cores e listras atravessadas. Certamente fora roubado em todas as esquinas! Mas, por tanto divertimento, até que pagava pouco!

— Meu amigo — disse ele quando Guccio entrou —, sabes que emagreci a tal ponto que não me é impossível voltar a ter cintura fina?

Esta afirmação era, pelo menos, audaciosa, porque, para qualquer outro olhar que não o seu, Bouville conservava o porte de uma barrica.

— Messire — disse o jovem —, dona Clemência está pronta para receber-vos.

— Espero que o retrato ainda não esteja acabado! — disse Bouville.

— Já está pronto, messire. Bouville deu um grande suspiro.

— Então, é o sinal para retornar à França. Sinto, porque criei amizade a esta terra, confesso, e teria dado alguns florins a esse pintor para que ele atrasasse um pouco o trabalho. Bem, as melhores coisas têm sempre um fim.

Tiveram um sorriso de conivência e, para ir aos aposentos da princesa, o gordo Bouville pegou afetuosamente Guccio pelo braço.

Entre esses dois homens, tão diferentes pela idade e pela origem, nascera e aumentara, durante a viagem, uma verdadeira amizade. Para Bouville, o jovem toscano era a própria encarnação dessa viagem, com suas liberdades, suas descobertas e a juventude reencontrada. E Guccio, por intermédio de Bouville, levava a vida de um grande senhor e participava da familiaridade dos príncipes. Abriam-se mutuamente mundos desconhecidos, e completavam-se maravilhosamente, formando uma curiosa dupla, na qual, na maioria das vezes, era o adolescente quem guiava o velhote.

Entraram, assim, nos aposentos de dona Clemência; mas a expressão descuidada e sonhadora que tinham apagou-se logo que viram a velha rainha-mãe Maria da Hungria. Ladeada por sua neta e por Oderisi, olhava o quadro com desaprovação.

Os visitantes avançaram prudentemente, pois não havia ninguém que não se intimidasse na presença de Maria da Hungria.

Tinha setenta anos. Viúva do rei de Nápoles, Carlos II, o Coxo, tivera treze filhos, dos quais já tinha visto morrer quase a metade. Os partos sucessivos lhe tinham alargado os quadris, e os lutos, marcado a boca desdentada. Era alta, cinzenta de tez, seus cabelos eram brancos e tinha uma expressão de força, decisão e autoridade na fisionomia que os anos não haviam atenuado. Trazia uma coroa na cabeça. Esta velha rainha era aparentada com toda a Europa, e reivindicava, para seus descendentes, o trono vacante da Hungria. Durante vinte anos tudo fez para que eles o conseguissem.

Agora que o filho de seu primogênito era rei de Buda, que seu segundo filho, o bispo defunto, estava em vias de ser canonizado, que o terceiro, Roberto, reinava em Nápoles e Apúlia, que o quarto era príncipe de Tarento, o quinto, duque de Duraço, e que suas filhas sobreviventes estavam casadas, uma com o rei de Maiorca, outra com o rei de Aragão, a rainha Maria parecia ainda não ter terminado sua tarefa; ocupava-se de sua neta Clemência, a órfã que educara.

Voltando-se bruscamente para Bouville, que ela percebera como um falcão divisa uma presa, fez-lhe sinal para se aproximar.

— Então, messire, qual a vossa opinião sobre este quadro?

Bouville pôs-se a meditar diante do cavalete. Olhava menos o rosto da princesa do que as duas meias-portas feitas para proteger o quadro durante o transporte e nas quais Oderisi pintara, de um lado, o Castel Nuovo e do outro, a grande ogiva da sala, com a vista da baía de Nápoles. Contemplando essa paisagem, que ia deixar, com tantas saudades, Bouville já se sentia nostálgico.

— A arte parece-me incriticável — disse ele, enfim. — Apenas a moldura é, possivelmente, um pouco simples para enquadrar um rosto tão belo. Talvez um festão dourado...

Procurava ganhar um ou dois dias.

— Não importa, messire — interrompeu a velha rainha. — Achais parecido? Sim. Então, isso é que importa. A arte é objeto frívolo e eu me espantaria se o rei Luís se importasse muito com enfeites. É o rosto que interessa, não é verdade?

Ao contrário de toda a corte, que não falava do casamento senão veladamente, e fingia que o quadro era destinado a monseigneur de Valois, pelo amor que ele tinha por sua sobrinha, Maria da Hungria não disfarçava suas palavras. Despediu Oderisi dizendo-lhe:

— Vosso trabalho está bem feito, giovanotto; apresentai a conta ao nosso tesoureiro. E agora, voltai a pintar vossa igreja, e fazei o possível para que o Diabo fique bem negro e os anjos bem resplendentes.

E para se desembaraçar também de Guccio, ordenou-lhe que fosse ajudar o pintor a levar seus utensílios.

Depois, quando eles haviam saído, curvando-se em reverências às quais ela mal respondeu, falou novamente:

— Então, messire de Bouville, ides para a França?

— Com um pesar infinito, senhora, pois todas as bondades de que fui alvo...

— Mas, enfim — disse ela, interrompendo-o —, vossa missão está cumprida. Pelo menos, quase.

Seus olhos negros estavam plantados nos de Bouville.

— Quase, senhora?

— Quero dizer que o negócio foi acertado em princípio, e que o rei, meu filho, deu o seu acordo. Mas este acordo, messire... — e ela fez saltar as veias do pescoço, num cacoete que lhe vinha seguidamente —...este acordo, não esqueçais disso, é condicional. Pois se nós nos sentimos altamente honrados com o pedido do rei da França, nosso primo, se estamos prontos a amá-lo com uma fidelidade toda cristã e a dar-lhe numerosa descendência, pois as mulheres, em nossa família, são fecundas, também é verdade que nossa resposta definitiva depende de ele livrar-se da senhora de Borgonha, e que o seja rapidamente.

— Mas teremos a anulação dentro em pouco, senhora, como já tive a honra de vos afirmar.

— Messire — tornou ela —, estamos entre nós. Não me assegureis uma coisa que ainda não está feita. Quando terão essa anulação? Que motivos têm para obtê-la?.

Bouville tossiu para esconder seu embaraço. Começava a enrubescer.

— Isto é atribuição de monseigneur de Valois — respondeu ele, tratando de conservar um ar de firmeza —, e ele a levará a bom termo; presentemente, já tem a coisa como feita.

— Sim, sim — resmungou a velha rainha —, conheço meu genro! Em poucas palavras, ninguém lhe resiste e seus cavalos não quebram as pernas enquanto ele não os atira por uma ribanceira.

Se bem que sua filha Margarida tivesse morrido quinze anos antes e que Carlos de Valois, desde então, tivesse se casado duas vezes, ela continuava chamando-o de "meu genro", como se não desse importância aos outros matrimônios.

Mantendo-se afastada, perto da ogiva, e olhando o mar, Clemência sentia-se encabulada por assistir àquele debate. Deveria o amor se acompanhar dessas preliminares que muito se pareciam com a discussão de um tratado? Era de sua felicidade, afinal de contas, que se tratava, e de sua vida. Tornar-se rainha da França parecia-lhe uma sorte inesperada que estava disposta a aguardar com paciência. Já havia esperado até os vinte e dois anos, perguntando-se se não lhe seria necessário entrar para um convento! Haviam recusado por ela, sem perguntar-lhe a opinião, tantos partidos julgados insuficientes! Ela achava que sua avó adotava um tom um pouco enérgico demais... Muito longe, na baía, um navio de alto-mar velejava para as costas da Barbaria.

— No meu caminho de volta, senhora, passo por Avignon, levando as instruções do rei — dizia Bouville. — E teremos logo, eu vos asseguro, este papa que ainda nos falta.

— Terei o maior gosto em acreditar nisso — respondeu Maria da Hungria. — Mas desejamos que tudo seja acertado para o verão. Temos outras ofertas para Clemência; outros príncipes a desejam por esposa. Não podemos fazê-la perder o futuro, nem concordar com maiores delongas.

As veias do pescoço saltaram novamente.

— Sabeis que em Avignon — recomeçou ela — o cardeal Duèze é o nosso candidato. Desejo muito que ele seja também o do rei da França. Obterão a anulação ainda mais depressa se ele se tornar papa, pois ele nos é muito devotado e nos deve muitos favores. Além do mais, Avignon é terra angevina, de que somos soberanos, evidentemente sob o rei da França. Não vos esqueçais disto. Apresentai vossas despedidas ao rei meu filho e que tudo se faça segundo seus desejos... Antes do verão, relembro, antes do verão.

Bouville, tendo se inclinado, retirou-se.

— Senhora minha avó — disse Clemência com uma voz inquieta —, acreditais que...

A velha rainha bateu-lhe delicadamente nos braços.

— Tudo isso está nas mãos de Deus, meu bem — disse ela —, e nada nos acontece sem a sua vontade.

E ela sorriu por sua vez.

"O rei Luís tem, possivelmente, outras princesas no pensamento", imaginou Clemência, quando ficou só. "Será hábito forçá-lo assim, e não irá ele dirigir sua escolha para outro lado?"

Mantinha-se diante do cavalete, de mãos cruzadas sobre o colo, tendo tomado, maquinalmente, a pose do retrato.

"Um rei terá prazer", perguntava-se ela ainda, "de pousar seus lábios sobre estas mãos?"

 

A CAÇA AOS CARDEAIS

Hugo de Bouville, Guccio e sua escolta embarcaram no dia seguinte pela madrugada. Absorvidos com os preparativos, tinham dormido pouco, e foi com essa melancolia inquieta que se segue às noites muito curtas que, debruçados lado a lado, na amurada da popa, viram se afastar Nápoles, o Vesúvio e as ilhas. Percebiam-se grupos de velas brancas que deixavam as praias para a pesca do dia. Depois, foi o alto-mar. O Mediterrâneo estava perfeitamente calmo, soprava apenas ligeira brisa, necessária para impelir o navio. Guccio, que havia embarcado apreensivo, pois lembrava-se de sua detestável travessia da Mancha no ano precedente, alegrava-se por não sentir o menor enjôo; e não foram necessárias mais de vinte e quatro horas para que se orgulhasse de sua própria valentia e se comparasse um pouco a messer Marco Pólo, o navegador veneziano, cujas viagens ao país do Grande Cã começavam a circular e a serem lidas por todo o mundo. Guccio ia e vinha de um marinheiro a outro, aprendia os termos de marinha e representava o papel do homem de aventuras, enquanto seu chefe de missão estava sempre a lastimar a falta da cidade maravilhosa que tivera de abandonar.

Messire de Bouville somente recobrou certo alento cinco dias mais tarde, ao desembarcar em Aigues-Mortes.

Este porto, de onde, em tempos passados, São Luís partira para a cruzada, e cuja construção só fora terminada no reinado de Filipe, o Belo, era novamente a França.

— Vamos — disse o gordo homem, esforçando-se por afastar sua nostalgia —, precisamos, agora, tratar dos casos urgentes.

O tempo estava feio, nublado, e Nápoles já parecia, apenas, a lembrança de um sonho.

Chegaram em Avignon quarenta e oito horas mais tarde. A viagem a cavalo, com os doze escudeiros e criados da escolta, não fora absolutamente um passeio, sobretudo para Guccio, que não queria perder de vista, nem por um instante, os cofres forrados de ferro que encerravam o ouro fornecido pelos Bardi de Nápoles.

Messire de Bouville apanhara um resfriado. Maldizia, sem parar, um país que parecia não ser mais o seu e onde ele julgava que o menor aguaceiro c visava pessoalmente.

A chegada, no segundo dia, sob as rajadas do mistral, foi uma amarga decepção, pois não havia um só cardeal em toda Avignon. E isto era estranho para uma cidade onde, em princípio, se realizava um conclave! Ninguém informou os enviados do rei da França, ninguém sabia, ninguém queria saber. Foi apresentando-se à guarnição de Villeneuve, na extremidade da ponte, do outro lado do Ródano, que Bouville soube, lá pelas dez horas, de um oficial muito aborrecido por ter sido acordado, que o conclave tinha voltado para Carpentras.

— Esse capitão de arqueiros — disse Bouville a Guccio — não é absolutamente atencioso para quem vem da parte do rei. Darei parte disso quando chegarmos a Paris.

Doze léguas separavam Avignon de Carpentras, e não se podia pensar em fazer essa viagem durante a noite. O castelo pontificai 17 estava fechado e ali ninguém atendia. Os dois homens voltaram para o albergue onde haviam jantado, e onde precisaram instalar-se, com a escolta, na sala comum. Toda a tropa dormia amontoada, diante de um fogo extinto, no meio de um forte cheiro de botas. Ah! Como estavam longe as belas moças da Itália!

— Fostes pouco enérgico com esse capitão — disse Guccio, mostrando-se pela primeira vez irritado contra Bouville. — Deveríeis ordenar-lhe que nos alojasse.

— É verdade, mas não pensei nisso — respondeu o gordo Bouville. — Não sou bastante enérgico.

Todo mundo, no dia seguinte, estava de mau humor, o que ainda piorou quando chegaram a Carpentras; lá tampouco havia sombra de cardeal. Além do mais, geava. Enfim, a tudo isto acrescia um vago sentimento de insegurança ou de maquinação, pois Bouville e os seus mal deixaram Avignon, de madrugada, quando dois cavaleiros os

ultrapassaram, sem responder-lhes à saudação, galopando a toda velocidade em direção a Carpentras.

— É estranho — notou Guccio. — Dir-se-ia que essa gente só tem uma preocupação: chegar antes de nós ao nosso destino.

A pequena cidade de Carpentras estava deserta; os habitantes pareciam ter morrido ou fugido.

— Foi aqui que o papa Clemente morreu — disse Bouville. — De fato, o local não parece nada aprazível. Ou será que é a nossa aproximação que produz, assim, o vácuo diante de nós?

Ao ouvir o nome de Clemente V, Guccio fez uma figa e tocou, através do casaco, as relíquias que trazia no pescoço... Lembrava-se da maldição dos templários...

Terminaram por descobrir, na catedral, um velho cônego que de início, fingindo tomá-los por viajantes que desejassem confessar-se, levou-os à sacristia. Era surdo ou simulava sê-lo. Guccio temia uma cilada; inquietava-se com seus cofres e preocupava-se com sua pele; adiantou a mão sobre a adaga, pronto a apunhalar o velho cônego ao menor alarma. O bom homem, depois de mandar repetir seis vezes as perguntas, de refletir, balançar a cabeça e sacudir sua batina rala, consentiu, enfim, em confiar-lhes que os cardeais se achavam em Orange. Haviam-no deixado ali, completamente só...

— Em Orange! — exclamou messire de Bouville. — Mas, com os diabos! Eles não são prelados, mas pombos-correios! Tendes certeza ao menos de que se encontram lá?

— Certeza... — respondeu o velho cônego, chocado com a praga que acabava de ser proferida em sua sacristia. — Certeza! De que se pode estar certo neste mundo, a não ser de que Deus existe? Penso que em Orange, em todo o caso, encontrareis os italianos.

Depois calou-se, como se temesse ter falado demais. Certamente tinha rancores a desabafar, mas não ousava confessá-los.

Guccio só desejava afastar-se de Carpentras; essa cidade causava-lhe mal-estar e apressou a partida.

Mas Bouville e Guccio mal venceram uma légua e novamente dois cavaleiros os ultrapassaram; desta vez não duvidaram mais de que era por sua causa que se realizavam essas cavalgadas.

Bouville, tomado de súbito humor guerreiro, quis correr atrás dos dois cavaleiros, mas Guccio opôs-se:

— Nossa bagagem é muito pesada, messire Hugo, para que possamos alcançá-los; e não quero deixar de modo algum meus cofres para trás.

Em Orange souberam, sem grande espanto, que os senhores do conclave não estavam lá; melhor seria procurá-los em Avignon.

— Mas nós passamos por Avignon! — gritou Bouville, enfurecendo-se contra o clérigo que desejava informá-los. — E tudo estava vazio como a palma de minha mão. E monsenhor Duèze? Onde está monsenhor Duèze?

O sacerdote respondeu que monsenhor Duèze, sendo bispo de Avignon, com certeza estaria lá mesmo. O preboste de Orange, por uma infeliz coincidência, justamente nesse dia estava em viagem, e o encarregado que o substituía não tinha instruções para se ocupar do conforto dos viajantes. Estes tiveram que passar ainda uma noite toda num albergue muito sujo, perto de um acampamento em ruínas, invadido pelas ervas, e que lhes pareceu horroroso. Sentado à frente de um Bouville derrotado pela fadiga, Guccio começava a pensar que teria de assumir as rédeas da expedição se desejassem voltar a Paris, com ou sem resultado.

Em cada novo aborrecimento que se abatia sobre eles, viam o sinal de uma sorte madrasta. Um homem da escolta acabara de quebrar uma perna e seria necessário deixá-lo lá; os cavalos de carga, que não podiam descansar, começavam a apresentar feridas nas ancas; tornava-se urgente trocar as ferraduras de todos os animais; o nariz de messire de Bouville escorria de fazer dó e ele falava, um pouco insistentemente, de certa dama de Nápoles a respeito da qual, agora, perguntava se o amara com sinceridade. Mostrou tão pouca energia durante todo o transcorrer do dia seguinte, parecia tão desesperado, revendo os muros de Avignon, que não opôs resistência alguma a que Guccio o substituísse.

— Jamais ousarei me apresentar diante do rei — gemia ele. — Mas como arranjar um papa, se todos os que vestem uma sotaina fogem à nossa aproximação! Nunca mais poderei tomar parte no Conselho, meu caro Guccio, nunca mais. Nesta única missão desmereço toda a minha vida.

Preocupava-se com minúcias. O retrato da senhora Clemência estaria bem arrumado? E a chuva não o teria estragado?

— Deixai por minha conta, messire Hugo — respondia-lhe Guccio com autoridade. — Em primeiro lugar preciso arranjar-vos um alojamento: parece-me que tendes grande necessidade disso.

Guccio foi procurar o capitão da cidade e usou tão bem o tom que Bouville deveria ter usado desde o início, fez soar tão alto, com seu forte sotaque italiano, os títulos de seu chefe e aqueles que outorgava a si próprio, expressou de um modo tão natural suas exigências que, em menos de uma hora, desocuparam um palácio para que ele o ocupasse. Guccio instalou sua gente e deitou Bouville em um leito bem aquecido; depois, quando a gorda criatura, que se aproveitava hipocritamente de seu resfriado para nada mais decidir, enfiou-se debaixo das cobertas, disse-lhe :

— Este cheiro de cilada que flutua à nossa volta não me agrada, absolutamente, e por isso gostaria muito de abrigar nosso ouro. Há, aqui, um agente dos Bardi; vou confiar-lhe o depósito; depois, sentir-me-ei mais à vontade para encontrar vossos malditos cardeais.

— Meus cardeais, meus cardeais! — resmungou Bouville. — Não são meus cardeais, e estou tão aflito quanto vós com as peças que eles me pregaram. Conversaremos a este respeito depois de eu ter dormido um pouco, se quiserdes, pois sinto-me muito friorento. Tendes ao menos bastante confiança em vosso lombardo? Podemos confiar nele? Este dinheiro, afinal de contas, é do rei da França...

Guccio falou-lhe, então, com superioridade.

— Lembrai-vos, messire Hugo, de que estou preocupado por esse dinheiro como se pertencesse a alguém de minha família!

Dirigiu-se imediatamente ao banco que se encontrava no bairro de Sainte-Agricole. O agente dos Bardi — que era, aliás, um primo do chefe dessa poderosa companhia

— recebeu Guccio com a cordialidade que se deve ao sobrinho de um grande confrade e foi, ele mesmo, guardar o ouro no cofre-forte. Trocaram recibos; depois, o lombardo conduziu seu visitante ao salão, a fim de que este lhe contasse as suas dificuldades. Um homem magro, ligeiramente curvado, que se achava diante da lareira, voltou-se quando eles entraram.

— Guccio! che piacere! — exclamou ele. — Come stai?

— Ma... caro Boccaccio! per Bacco! che fortuna! Caíram nos braços um do outro.

São sempre as mesmas pessoas que se encontram pelos caminhos, porque são sempre as mesmas, com efeito, que viajam.

Não era de estranhar que o signor Bocácio se encontrasse aí, pois ele era viajante da companhia dos Bardi. A boa sorte consistia, simplesmente, em cruzar com ele precisamente naquele dia. Guccio e Bocácio haviam realizado juntos, no ano precedente, a viagem de Londres; tinham trocado confidencias; Guccio sabia que Bocácio tinha um filho de uma amante francesa.

Enquanto o lombardo de Avignon mandava servir-lhes vinhos e iguarias, Guccio e Bocácio conversavam com grande alegria, como velhos amigos.

— O que fazes nesta cidade? — perguntou Bocácio.

— Estou à caça dos cardeais — respondeu Guccio —,.e posso assegurar-te que não é uma presa fácil.

E então contou-lhe toda a sua expedição, as desventuras que sofrerá nestes últimos dias, e à custa do gordo Bouville conseguiu fazer sucesso e provocou risos. Ele mesmo sentia-se orgulhoso; estava em casa e como que em família.

Se são sempre as mesmas pessoas que se encontram, são também os mesmos seres que sempre nos são benfazejos e nos tiram dos apuros.

— Não te espantes — disse o signor Bocácio — de não encontrares teus monsignori. Ensinaram-lhes a prudência e tudo o que vem da corte da França ou se anuncia como tal fá-los fugir. No verão passado, Bertrand de Got e Guilherme de Budos, os sobrinhos do falecido papa, estiveram por aqui, enviados pelos seus bons amigos Nogaret e Marigny, com o pretexto de levar, para Cahors, o corpo de seu tio. Traziam com eles quinhentos homens de tropa, o que me parece muitos carregadores para um só cadáver! Esses bravos soldados tinham por missão obter a eleição de um papa que não fosse o cardeal Duèze, e não foi a doçura que lhes serviu de argumento. Uma bela manhã, as casas de nossas eminências foram todas saqueadas enquanto se sitiava o Convento de Carpentras, onde se realizava o conclave; e os cardeais, por uma brecha do muro, tiveram de fugir pelo campo para salvar a pele. A lembrança disso ainda não passou.

— Acrescenta a isso — disse o primo dos Bardi — que acabam de reforçar a guarnição de Villeneuve e que os cardeais esperam, a qualquer instante, ver os arqueiros atravessarem a ponte. Julgavam que tivesses vindo para tal fim... E sabes quem são esses cavaleiros que sempre os ultrapassaram? Gente de Marigny, o arcebispo, sem dúvida. Eles andam por estas paragens, neste momento. Não percebo ao certo o trabalho que executam, mas sem dúvida não é o teu.

— Tu e Bouville não conseguireis nada — tornou a falar Bocácio — vindo da parte do rei da França, e vos arriscareis, no mínimo, em qualquer noite, a engolir um pouco de veneno no jantar e nunca mais acordar. Por ora, junto dos cardeais... junto de certos cardeais... só são válidas as recomendações do rei de Nápoles. Viestes de lá, não é?

— Exatamente — respondeu Guccio —, e temos, mesmo, recomendações da velha rainha Maria para ver o mais cedo possível o cardeal Duèze.

— Ora! Por que não me disseste antes? Posso arranjar uma entrevista com esse Duèze, que é um homem mais curioso do que possas imaginar. Amanhã, se quiseres.

— Então, sabes onde ele se encontra?

— Ele nunca saiu daqui — disse Bocácio, rindo. — Volta para os teus aposentos e te darei notícias antes da noite. A propósito... Dispões de um pouco de dinheiro para ele?... Bom. Porque ele sempre tem necessidade e nos deve um bocado.

Três horas mais tarde, o senhor Bocácio batia na porta do palácio onde estava instalado Bouville. Trazia muito boas informações. O cardeal Duèze faria, no dia seguinte, mais ou menos às nove horas, um passeio, a uma légua ao norte de Avignon, em um local denominado Pontet, devido a uma pequena ponte lá existente. O cardeal consentiria em encontrar, naturalmente por acaso, messire de Bouville, se este passasse nas imediações, sob a condição de que não estivesse acompanhado de mais de seis homens. As escoltas deveriam permanecer de um lado e de outro de um grande campo, enquanto Duèze e Bouville se entrevistassem, longe de qualquer olhar ou ouvido. O cardeal gostava de fazer mistério.

— Guccio, meu amigo, tu me salvaste, e ser-te-ei eternamente grato — disse Bouville, cujo nariz melhorava um pouco com a esperança renovada.

No dia seguinte pela manhã, portanto, Bouville, acompanhado de Guccio, do senhor Bocácio e de quatro escudeiros, dirigiu-se ao Pontet. O ar brumoso esbatia os contornos e os sons e o local estava deserto, como se desejava. Messire de Bouville vestira três casacos, o que o tornava mais gordo do que era na realidade. Esperou-se um longo momento.

Enfim, um pequeno grupo de cavaleiros surgiu no nevoeiro, rodeando um jovem que montava uma mula branca e que saltou, lentamente, de seu animal. Trazia uma capa negra, sob a qual se adivinhavam as vestes rubras, e tinha a cabeça coberta por um gorro com barrete forrado de peliças brancas. Avançou com passo vivo, quase saltitante, na grama úmida, e viu-se, então, que esse jovem era o cardeal Duèze, e que Sua Adolescência tinha setenta anos. Apenas seu rosto, cheio de rugas, com sobrancelhas brancas sobre uma pele seca, traía sua idade; os olhos possuíam a vivacidade atenta da juventude.

Bouville também se adiantou e encontrou o cardeal perto de uma mureta. Os dois homens permaneceram um instante observando-se, mutuamente decepcionados por suas aparências que não correspondiam de forma alguma ao que ambos haviam imaginado. Bouville, com seu respeito inato pela Igreja, esperava ver um prelado cheio de majestade, um pouco untuoso, e não esse duende saltando da neblina. O cardeal, que acreditava que lhe haviam despachado um capitão de guerra como Nogaret ou Bertrand de Got, observava esse gorducho enroupado como uma cebola, que assoava o nariz com estrondo.

Foi o cardeal quem atacou. Sua voz sempre surpreendia a quem não a ouvira. Velada, como um tambor fúnebre, debilitando-se quando deveria altear-se, rápida e abafada, não parecia provir dele, mas de alguém que se achasse nas imediações, ao qual se procurava, instintivamente.

— Então, messire de Bouville, vindes da parte do rei Roberto, de Nápoles, que me dá a honra de sua confiança cristã. O rei de Nápoles... o rei de Nápoles — repetiu ele. — Está muito bem. Mas também sois enviado pelo rei da França. Éreis o camareiro-mor do rei Filipe, que absolutamente não gostava de mim... aliás, não sei bem por quê, pois no Concilio de Viena agi de acordo com suas conveniências, a fim de que os templários fossem suprimidos.

— Parece-me, monsenhor — respondeu Bouville, surpreso com esse início —, que vos opusestes a que se considerasse o papa Bonifácio herege, ou, pelo menos, sua memória; e o rei Filipe não esqueceu esse fato.

— Messire, na verdade, era querer muito de mim. Os reis não desconfiam do que exigem. Quando corremos o risco de nos tornarmos algum dia papa, não podemos criar tais precedentes. Um rei, quando sobe ao trono, não proclama que seu pai era traidor, adúltero e ladrão. Bonifácio morreu louco, é verdade, recusando os sacramentos e proferindo horríveis blasfêmias. Mas a Igreja ganha alguma coisa em proclamar esta vergonha?... E o papa Clemente V, meu venerando benfeitor... sabeis que lhe devo o pouco que sou, ambos nascemos em Cahors... o papa Clemente também pensava como eu... monseigneur de Marigny também não gosta de mim; fez o que pôde contra mim, sobretudo nestas últimas semanas. Por isso, não compreendo nada! Por que desejais encontrar-me? Marigny continua sendo poderoso na França, ou apenas finge sê-lo? Afirmam que ele não manda mais; todos, porém, continuam a obedecer-lhe.

Estranho homem esse cardeal, que tomava precauções de larápio para encontrar um embaixador e, desde o primeiro instante, entrava no âmago da questão como se o conhecesse há muito tempo. Além do mais, sua voz abafada era rápida, falava aos arrancos e sua conversação era desconexa. Como muitos velhos autoritários, seguia os encadeamentos de seu pensamento sem se preocupar se era acompanhado.

— A verdade, Eminência — respondeu Bouville, que não desejava iniciar uma discussão sobre Marigny —, é que eu venho exprimir-vos o desejo do rei Luís e de monseigneur de Valois de haver um papa o mais cedo possível.

As brancas sobrancelhas do cardeal se levantaram.

— Que grande desejo — disse Duèze —, quando me impedem por manhas, dinheiro ou pela força que eu seja eleito há já nove meses! Tomai nota, tomai nota... absolutamente não tenho pressa. Há vinte anos que trabalho no meu Thesaurum pauperum, e ainda faltam-me seis bons anos para concluí-lo, sem contar a minha Arte transmuta-tória, que trata da alquimia, e meu Elixir dos filósofos, que é mais hermético, e que gostaria muito de terminar antes de morrer. Tudo isto me ocupa muito e não estou tão desejoso de uma tiara que me esmague de deveres... Não, realmente não, não tenho pressa alguma. Mas em Paris mudaram o modo de pensar? Há nove meses tinha quase todos os votos a meu favor, e foi o rei da França quem me fez perdê-los. Agora sou eu a quem desejam para papa?

Bouville não sabia bem se era Tiago Duèze ou algum outro que monseigneur de Valois desejava. Haviam-lhe dito: "Um papa".

— Certamente, Eminência — respondeu molemente. — Por que não vós?

— Então é porque pretendem pedir-me algo... ou melhor, pedir a quem seja eleito — disse o cardeal. — Que serviço é esse?

— Acontece, Eminência, que o rei precisa anular seu casamento... — disse Bouville.

—...para casar-se com Clemência da Hungria?

— Como o sabeis?

— O Conselho Privado, onde isso foi decidido, reuniu-se há mais ou menos cinco semanas, não é verdade?

— Estais bem informado, eminência. Não sei como obtendes as novidades...

O cardeal não respondeu e pôs-se a olhar o céu, como se estivesse vendo os anjos.

— Anular... — sussurrou ele. — Certamente, sempre é possível anular. As portas da igreja estavam bem abertas no dia do casamento? Vós assististes... mas não vos lembrais, não é? Sim, pode ser que outros se lembrem que elas, por descuido, estavam fechadas... Vosso rei é primo muito próximo de sua esposa! Provavelmente o pedido de dispensa foi esquecido. Poder-se-iam anular quase todos os casamentos dos príncipes da Europa sob esta desculpa; eles são primos de todos os lados e basta ver os produtos de tais uniões para se convencer disso: este manca, aquele é surdo, outro ainda se esforça, sem êxito, na obra da carne. Se não houvesse, de vez em quando, entre eles um pecado ou um casamento morganático, em pouco tempo morreriam, todos, de escrofulose e langor. Explanarei, aliás, tudo isso em meu Thesaurum, para incitar os pobres a não seguirem o exemplo dos grandes.

— A família da França — respondeu Bouville, vexado — vai muito bem, e nossos príncipes de sangue são robustos como ferreiros.

— Sim, sim... mas quando a doença não os apanha no corpo, apanha-os na cabeça. E, depois, as crianças morrem com pouca idade... Não, na verdade não tenho a menor pressa em ser papa.

— Mas se vos tornásseis papa, Eminência — disse Bouville, procurando retomar o fio da conversa —, a anulação parecer-vos-ia possível... antes do verão?

— Anular é menos difícil — disse amargamente Tiago Duèze — do que reencontrar os votos que me fizeram perder.

A conversa não resultava em nada. Bouville percebia seus homens ao longe e lamentava não poder chamar Guccio ou mesmo esse senhor Bocácio, que parecia tão hábil. A neblina começava a levantar-se. Bouville estava cansado de ficar de pé e seus três casacos começaram a pesar. Sentou-se maquinalmente sobre a mureta feita de pedras chatas postas umas sobre as outras e perguntou com lassidão:

— Enfim, Eminência, qual é a situação atual?

— A situação? — perguntou o cardeal.

— Sim, quero dizer, o conclave?

— O conclave? Mas não há conclave. O cardeal de Albano...

— Falais de monsenhor Arnaldo d'Auch, o antigo bispo de Poitiers?

— Esse mesmo.

— Eu o conheço; veio no ano passado a Paris, como legado do papa, para condenar o grão-mestre do templo.

— É esse mesmo. Sendo cardeal camerlengo, compete-lhe reunir-nos; ele procura evitá-lo, desde que o monsenhor de Marigny o proibiu.

— Mas, se afinal...

Neste momento, Bouville notou que estava sentado, enquanto o prelado permanecia de pé, e levantou-se bruscamente, desculpando-se.

— Não, não, continuai sentado — disse Duèze, forçando-o a sentar-se.

E ele também, com gesto rápido, pôs-se ao seu lado sobre a mureta.

— Se o conclave afinal se reunisse — falou Bouville —, a que resultado chegaria?

— A nada. Isto é muito simples de se compreender. Muito simples, seguramente, para Duèze, que, como todo candidato a uma eleição, fazia, para si mesmo, dez vezes por dia, o cálculo de seus votos; mas menos simples para Bouville, que teve dificuldade em seguir o raciocínio, sempre emitido com a mesma voz de confessionário.

— O papa deve ser eleito por dois terços dos votos. Somos vinte e três presentes; quinze franceses e oito italianos. Desses oito, cinco são pelo cardeal Caetani, o sobrinho de Bonifácio... irredutíveis. Jamais o conseguiríamos. Eles querem vingar Bonifácio, odeiam a coroa da França e todos os que, diretamente ou através do papa Clemente, meu venerado benfeitor, lhe foram úteis.

— E os três outros?

— Odeiam Caetani; trata-se dos dois Colonna e de Orsini. Negócios de família. Como nenhum desses três tem força bastante para pretender algo para si próprios, favorecem-me' na medida em que faço frente a Caetani, a menos que... não se lhes prometa a volta da Santa Sé para Roma, o que poderia pô-los de acordo, embora depois pudessem se assassinar entre si.

— E os quinze franceses?

— Ah! se os franceses votassem juntos, teríeis um papa há muito tempo! Mas apenas seis são-me favoráveis, pois o rei de Nápoles, por minha interferência, foi muito generoso.

— Seis franceses — contou Bouville — e três italianos, isso nos dá nove.

— Sim, messire... Isso dá nove, mas precisamos de dezesseis para termos a conta necessária. Notai que os outros nove franceses também não são suficientemente numerosos para terem o papa desejado por Marigny.

— Seria preciso, então, obter, para vós, sete votos. Julgais que alguns possam ser comprados por dinheiro? Tenho meios para vos fornecer alguns fundos. Quanto calculais por cardeal?

Bouville pensou ter levado a coisa muito habilmente; para sua surpresa, Duèze não pareceu muito entusiasmado com sua proposição.

— Não acredito — respondeu ele — que os cardeais franceses, que nos faltam, sejam sensíveis ao argumento. Isso não significa que a honestidade seja sua maior virtude, nem que eles vivam na austeridade; mas o medo que têm de messire de Marigny os coloca, no momento, muito acima dos bens deste mundo. Os italianos são mais ásperos, mas o ódio substitui, neles, a consciência.

— Então — disse Bouville — tudo depende de Marigny e do poder que possui junto dos nove cardeais franceses?

— Tudo depende disso, messire, atualmente... Amanhã poderá depender de outra coisa. Quanto ouro podereis me deixar?

Bouville arregalou os olhos.

— Mas acabais de me dizer, Eminência, que esse dinheiro de nada vos serviria!

— Compreendestes mal. Esse ouro não serve para conquistar novos partidários, mas necessito-o para conservar os que tenho e aos quais, enquanto eu não for eleito, não poderei recompensar. Que belo negócio se, quando me conseguirdes os votos que me faltam, eu tiver perdido, nesse meio tempo, os que me sustentam!...

— De que importância necessitais para isso?

— Se o rei da França é bastante rico para me fornecer cinco mil libras, encarrego-me de empregá-las bem.

Neste momento, Bouville sentiu necessidade de assoar o nariz. O outro interpretou isso como uma sutileza e temeu haver pedido uma importância muito elevada. Foi a única vitória de Bouville em toda a entrevista.

— Mesmo com quatro mil — sussurrou Duèze — eu poderia arranjar-me... por um tempo.

Ele já sabia que esse dinheiro não deixaria seu bolso, salvo para amortizar suas dívidas.

— Esse dinheiro — disse Bouville — vos será entregue pelos Bardi.

— Eles que o guardem em depósito — respondeu o cardeal. — Tenho uma conta com eles. Retirarei à medida das necessidades.

Em seguida, mostrou-se subitamente apressado em montar de novo sua mula, assegurou a Bouville que não deixaria de rezar por ele e que teria prazer em revê-lo.

Estendeu seu anel ao gorducho, para que o beijasse, e depois retornou, saltitando na grama, como tinha chegado.

"Que curioso papa teremos, que se ocupa tanto de alquimia quanto da Igreja", pensava Bouville olhando-o afastar-se. "Estaria bem talhado para a função que escolheu?"

Pessoalmente, Bouville estava satisfeito consigo próprio. Tinham-no encarregado de ver os cardeais? Conseguira aproximar-se de um... De achar um papa? Esse Duèze parecia não desejar outra coisa... De distribuir dinheiro? Era coisa feita.

Quando se encontrou com Guccio e lhe contou, com ar satisfeito, os resultados de sua entrevista, o sobrinho de Tolomei exclamou:

— Assim, messire Hugo, conseguistes comprar bastante caro o único cardeal que já estava a nosso favor.

E uma parte do ouro que os Bardi, de Nápoles, haviam emprestado, por intermédio de Tolomei, ao rei da França, voltou aos Bardi, de Avignon, para reembolsá-los do que haviam emprestado ao candidato do rei de Anjou.


UMA QUITAÇÃO POR UM PAPA?

Com as pernas longas, o porte alto e magro e o queixo caído, Filipe de Poitiers achava-se diante do Turbulento.

— Meu irmão — dizia ele, com voz calma e fria, que fazia lembrar a voz de Filipe, o Belo —, não poderás mostrar outra coisa, exceto o que se evidenciou em nosso exame, e negar a verdade quando ela transparece.

A comissão de contas, nomeada para verificar a gestão financeira de Enguerrand de Marigny, terminara, na véspera, os seus trabalhos.

Durante muitos dias, sob a presidência escrupulosa de Filipe de Poitiers, os condes de Valois e d'Evreux, o conde de Saint-Pol, Luís de Bourbon, o cônego Estêvão de Mornay, agindo sem que lhe dessem ainda o título de chanceler da coroa, o primeiro camareiro Mateus de Trye e, enfim, o arcebispo João de Marigny tinham lido os documentos, examinado os arquivos, estudado, linha por linha, o diário do Tesouro, durante um período de dezesseis anos, exigido explicações complementares e justificações sobre as peças. Não haviam poupado esforços e nenhum capítulo fora esquecido. Numa devassa em que os ódios se afrontavam, todas as pistas foram seguidas.

Ora, nada encontraram que pudesse prejudicar Marigny. A administração dos bens da coroa e dos dinheiros públicos revelava-se exata e escrupulosa. Se Marigny era rico, tal se devia às liberalidades recebidas do defunto rei, que ele soubera aumentar. Mas nada testemunhava que tivesse, alguma vez, confundido seus interesses particulares com os do Estado; menos ainda que tivesse roubado o Tesouro, como o acusavam seus adversários. Seria esta descoberta uma verdadeira surpresa para monseigneur de Valois? Quando muito uma furiosa decepção de jogador derrotado. Com Mornay, que respondia a suas palavras como um eco, fora o único dos sindicantes que, até o fim, obstinara-se em negar a evidência.

Luís X tinha, agora, as conclusões da comissão: seis votos contra dois, e, entretanto, hesitava em dar sua aprovação; essa hesitação feria vivamente o irmão.

— Por que me incumbiste de dirigir a comissão, meu irmão — disse Filipe —, se não é para aceitar o resultado que te apresento?

— Marigny tem muitos defensores que se sentem ligados à sua sorte — respondeu, evasivamente, o Turbulento.

— Posso te garantir, em todo caso, que na comissão havia apenas o seu irmão...

—...e nosso tio d'Evreux e tu mesmo, talvez? Filipe de Poitiers deu de ombros e não perdeu a calma.

— Não vejo em que — respondeu — minha sorte possa estar ligada à de Marigny, e é insultar-me...

— Não foi isto que eu quis dizer, Filipe, certamente não foi isso.

— Eu não sou, aqui, o defensor de ninguém, senão da justiça, Luís, como tu mesmo deverias sentir-te obrigado a sê-lo, pois és rei.

Existem, na história, situações que se assemelham e são estranhamente superpostas. A mesma oposição de naturezas que existira entre Filipe, o Belo e seu irmão caçula Carlos de Valois existia, agora, entre Luís X e Filipe de Poitiers. Mas os temperamentos estavam invertidos. Ao lado de um irmão que reinava de fato, o invejoso Valois desempenhava sobretudo um papel de perturbador; agora, era o mais velho que parecia incapaz de exercer convenientemente o poder e era o mais moço um cérebro de soberano. Assim como Valois, em sua vaidade, murmurara durante vinte e nove anos: "Ah! se eu fosse o rei...", hoje Filipe de Poitiers se dizia, e com razão: "Em seu lugar eu faria certamente melhor".

— E depois — disse Luís X —, há coisas que não me agradam. Essa carta que recebi do rei da Inglaterra, recomendando-me depositar em Marigny a confiança que nosso pai depositava nele, e elogiando os serviços que ele prestou aos dois reinos... Não gosto que ditem os meus atos.

— Só porque nosso cunhado te dá um conselho prudente, logo te recusas a segui-lo?

Os grandes olhos sem brilho de Luís X esquivavam-se diante do olhar do irmão.

— Esperemos a volta de Bouville, que um dos meus escudeiros, enviado à frente, nos anuncia para hoje.

— Que tem Bouville a ver com essa decisão?

— Quero ter notícias de Nápoles e do conclave — disse o Turbulento, começando a enervar-se. — Não desejo de modo algum ir contra nosso tio Carlos na hora em que ele me dá sua sobrinha para esposa e me faz um papa.

— Assim, estás pronto a sacrificar aos humores de nosso tio um ministro íntegro e a afastar do poder o único homem que sabe, hoje em dia, conduzir os negócios do reino. Toma cuidado, Luís; não poderás tomar meias medidas. Bem viste que, enquanto esmiuçávamos as contas de Marigny, como se ele fosse um mau servidor, todos continuam a obedecer-lhe como no passado. É preciso que o restauremos com todo o seu poder ou que o liquidemos completamente, considerando-o culpado de crimes inventados e castigando-o por ter sido fiel; isto seria agir contra ti mesmo. Marigny pode levar ainda um ano para fazer-te um papa; mas ele te dará um de acordo com os interesses do reino, como o antigo bispo de Poitiers, que eu conheço bem, porque é do meu condado! O tio Carlos te prometerá um santo padre para o dia seguinte; ele não irá, sem dúvida, mais depressa, e conseguirá qualquer Caetani, que desejará voltar para Roma, nomear de lá os seus bispos e dar ordens aqui.

Luís olhava, à sua frente, a quitação de Marigny preparada por Filipe de Poitiers.

 

... assim aprova, louva e recebe as contas do senhor Enguerrand de Marigny (Valois exigira e obtivera que não figurassem os títulos do dirigente-geral) e os tem por quites, ele e seus herdeiros, de todas as arrecadações feitas pela administração do Tesouro do Templo, do Louvre e da Câmara do rei.

Só faltavam ao pergaminho a assinatura real e a aposição do selo.

— Meu irmão — disse o conde de Poitiers —, nomeaste-me par de tua coroa, para assistir-te e aconselhar-te. Como par, eu aconselho a aprovação. É cumprir um ato ditado pela justiça.

— A justiça só pertence ao rei — exclamou o Turbulento com essa repentina violência que o dominava quando se sentia em má situação.

— Não — replicou calmamente aquele que deveria tornar-se Filipe, o Longo. — É o rei que pertence à justiça, para ser a sua expressão e fazê-la triunfar.

 

Bouville e Guccio chegaram a Paris à tardinha. A capital começava a encolher-se no frio e na sombra das noites de inverno.

Encontraram o primeiro camareiro Mateus de Trye, que os esperava na porta Saint-Jacques. Este saudou seu antecessor em nome do rei e informou-o de que o esperavam no palácio.

— O quê? Sem o mínimo repouso? — exclamou Bouville, aborrecido. — Estou tão cansado quanto sujo, meu bom amigo, e só por milagre estou de pé. Não tenho mais idade para tais façanhas.

Estava descontente com a pressa que exigiam dele. Imaginara jantar com Guccio, uma última vez, num reservado de algum bom albergue, onde coordenariam as idéias sobre os resultados da missão e conversariam sobre todas as coisas que não haviam encontrado jeito de falar em quarenta dias de viagem, e que se precisa dizer na última noite, como se a oportunidade disto não mais se repetisse.

Tiveram de despedir-se no meio da rua, sem grandes efusões, pois a presença de Mateus de Trye os embaraçava. Bouville tinha o coração pesado; sentia a melancolia das coisas que se acabam; vendo Guccio partir, via se afastarem os belos dias de Nápoles e esse miraculoso momento de juventude que acabava de viver em seu outono. Agora a erva estava cortada e não brotaria novamente.

"Não lhe agradeci, como devia, todo o serviço que me prestou e a satisfação que tive com sua companhia", pensava Bouville.

Nem sequer notara que Guccio levava os cofres onde se encontrava — deduzidas todas as despesas da expedição e o óbolo do cardeal — o restante do ouro dos Bardi; assim, o Banco Tolomei, de qualquer maneira, poderia receber sua comissão.

Isso não impedia que Guccio também estivesse emocionado em deixar o gordo Bouville, pois, entre as pessoas bem-dotadas para os negócios, o interesse não prejudica, absolutamente, o uso dos sentimentos.

Penetrando no palácio, Bouville observou coisas que não lhe agradaram. Os servidores com que cruzava pareciam ter perdido aquele jeito correto que ele soubera impor no tempo do rei Filipe e aquele ar de deferência e cerimônia, em seus mínimos gestos, que mostrava que eles se sentiam honrados em pertencer à casa real. Havia relaxamento.

Mas quando o antigo grande camareiro se achou em presença de Luís X, perdeu qualquer idéia de crítica; estava diante do rei e não pensava em mais nada, salvo em inclinar-se.

— Então, Bouville — disse o Turbulento, dando-lhe um ligeiro abraço, o que acabou por perturbar o gorducho —, como é a senhora da Hungria?

— Temível, sire, fez-me tremer o tempo t. Mas para sua idade, brilhante de espírito.

— Sua aparência? Seu jeito?

— Muito majestosa ainda, sire, embora lhe faltem todos os dentes.

O rosto do Turbulento demonstrou horror. Carlos de Valois, que estava ao lado do sobrinho, deu uma gargalhada.

— Mas não, Bouville — exclamou ele —, o rei não pergunta pela rainha Maria, mas pela senhora Clemência.

— Oh! perdão, sire — disse Bouville, enrubescendo. — A senhora Clemência? Mas eu vou mostrá-la.

— Como? Trouxeste-a?

— Não, sire, mas trouxe seu retrato.

E mandou buscar a tela de Oderisi, que foi colocada sobre uma mesa. Abriram as tábuas que protegiam o quadro e aproximaram algumas velas.

Luís acercou-se lentamente, prudentemente, como de um objeto perigoso, que poderia explodir sobre a cabeça. Depois, teve um sorriso e olhou para o tio com ar feliz.

— Que bela terra é aquela, sire, se soubésseis... — disse Bouville, revendo Nápoles pintada sobre as molduras.

— Então, meu sobrinho, enganei-te? — perguntou Valois. — Vê essa tez, esses cabelos cor de mel, essa bela pose de nobreza! E o colo, meu sobrinho, que belo colo de mulher!

Elogiava a sobrinha como um vendedor de feira expondo seu gado.

— E devo dizer, sire — acrescentou Bouville —, que a senhora Clemência é ainda mais agradável de ser contemplada ao natural do que pintada.

Luís mantinha-se calado; parecia ter esquecido a presença dos dois outros; com a cabeça para a frente, a espinha um pouco curvada, absorvia-se em um estranho colóquio com o retrato. Nos olhos de Clemência encontrava algo do olhar de Eudeline, uma espécie de paciência sonhadora e de bondade repousante; o sorriso, as próprias cores apresentavam certa semelhança... Uma Eudeline, mas nascida de reis e para ser rainha. Por um instante Luís procurou superpor ao retrato, em imaginação, o rosto de Margarida, sua testa redonda e bombeada, seus cabelos negros caídos ao redor, sua pele morena, seus olhos facilmente hostis... Depois, o rosto se apagou e o de Clemência reapareceu triunfante em sua beleza calma, e Luís teve a convicção de que, junto a essa loura princesa, seu corpo não deveria temer um fracasso.

— Ah! Ela é bela, ela é verdadeiramente bela! — disse ele, enfim. — Meu tio, sou-te imensamente grato. Bouville, dou-vos duzentas libras de rendas, que vos serão pagas pelo Tesouro, como meu agradecimento pela vossa embaixada.

— Oh! sire — murmurou Bouville, com reconhecimento —, sinto-me muito bem pago pela honra de bem servir-vos.

— Assim, estamos noivos — continuou o Turbulento.

— Não me resta senão desmanchar meu casamento. Estamos noivos...

Andava, todo agitado.

— Sim, sire — disse Bouville —, com a condição de estardes livre de vossa esposa antes do verão.

— Tenho certeza de que estarei! Mas quem impôs essa condição?

— A rainha Maria, sire. Ela tem outros partidos para a senhora Clemência e, embora o que lhe ofereceis seja o mais honroso e o mais desejado, não pretende comprometer-se por mais tempo.

O rosto do Turbulento toldou-se, e Bouville pensou que sua pensão de duzentas libras iria escapar-lhe. Mas o rei voltara-se, com ar interrogador, para Valois, que também fingia espantar-se.

Valois, durante a viagem de Bouville, e à sua revelia, mantivera-se em contato epistolar com Nápoles, por mensageiros, e garantira ao sobrinho que o compromisso logo se concluiria em definitivo e sem prazo marcado.

— É uma condição que a senhora da Hungria vos exprimiu na última hora? — perguntou ele a Bouville.

— Sim, monseigneur.

— Então trata-se apenas de uma frase para apressar-nos um pouco e para valorizar-se. Se porventura, o que aliás não creio, a anulação demorasse mais, a senhora da Hungria teria paciência.

— Não sei, monseigneur, isto foi dito de maneira bem séria e bem firme.

Valois não se sentia muito à vontade, e tamborilava, com a ponta dos dedos, no braço da poltrona.

— Antes do verão — murmurava Luís. — Antes do verão... E em que pé está o conclave?

Bouville fez, então, o relatório de suas negociações em Avignon, procurando não se colocar em posição muito ridícula. Não mencionou como conseguira encontrar o cardeal Duèze. Evitou, igualmente, denunciar as manobras de Marigny; repugnava-lhe acusar seu mais velho amigo, e, o que era pior, acusá-lo erradamente. Pois Bouville admirava Marigny, temia-o também, sabendo-o capaz de sutilezas políticas que ele mesmo era incapaz de compreender. "Se age dessa maneira é porque tem bons motivos para tanto", pensava. "Não nos aventuremos a julgá-lo sem conhecimento." Contentou-se em insistir sobre o fato de que a eleição do papa dependia, antes de tudo, da vontade do dirigente do reino.

Luís X escutava, com grande atenção, sempre com os olhos fixados no retrato de Clemência.

— Duèze... sim — dizia ele. — Por que não Duèze?... Ele está pronto a anular meu casamento... Faltam-lhe sete votos franceses... Então vós me garantis, Bouville, que somente Marigny pode resolver este caso e dar-nos um papa?

— Penso firmemente que sim, sire.

O Turbulento dirigiu-se, lentamente, para a mesa, onde estava o pergaminho que o irmão lhe entregara, com as conclusões da comissão. Pegou uma pena de ganso e molhou-a na tinta.

O rosto de Carlos de Valois empalideceu.

— Meu sobrinho — exclamou, avançando —, tu não vais dar quitação a este patife!

— Outros que não tu, meu tio, afirmam que suas contas estão corretas. Seis dos barões designados para fazer o exame pensam assim; só o teu chanceler concorda com a tua opinião.

— Meu sobrinho, suplico-te que esperes... Este homem nos engana como enganou teu pai! — gritou Valois.

Bouville gostaria de estar fora da sala.

Luís X olhou o tio com um ar determinado, mau.

— Eu te disse que precisava de um papa — declarou. — E posto que meus barões me asseguram que Marigny é honesto...

Como o outro ainda fosse objetar, Luís endireitou-se e, com grande autoridade na voz, mas alguma fraqueza de memória, acrescentou:

— O rei pertence à justiça, para... para... para fazê-la triunfar.

E assinou o documento. Assim, era à sua deslealdade — para com o rei, se não para com a França — no caso do conclave que Marigny devera o reconhecimento da lealdade de sua gestão financeira.

Valois saiu da sala tomado de um furor que não pôde dominar mais tempo. "Teria feito melhor", pensava ele,

"se lhe arranjassem uma mulher corcunda e de rosto horrendo. Sentir-se-ia menos apressado. Fui enganado."

Luís X voltou-se para Bouville:

— Messire Hugo — disse —, que me tragam messire de Marigny imediatamente.


UMA CARTA CAPAZ DE MODIFICAR TUDO

Uma rajada de vento bateu na estreita vidraça e Margarida de Borgonha atirou-se para trás, como se alguém, do fundo do céu, tivesse desejado desferir-lhe um golpe.

O dia começava a levantar-se, incerto, sobre a floresta de Andelys. Era a hora em que a primeira guarda subia para as seteiras do Castelo Gaillard. Nada é mais triste do que certas manhãs ventosas da Normandia, quando enormes nuvens escuras não cessam de chegar do oeste, trazendo, em seus flancos, montanhas de água. O cimo das árvores curvava-se como as espinhas de cavalos amedrontados e fugitivos.

O sargento Lalaine desaferrolhou a porta que isolava, no meio da escada, os cárceres das duas princesas, enquanto o arqueiro Gros-Guillaume depunha sobre o banco duas escudelas cheias de mingau fumegante. Depois saíram, sem nada dizer, arrastando os pés.

— Branca! — chamou Margarida, aproximando-se da escada em caracol.

Não houve resposta.

E o silêncio que se seguiu encheu-a de angústia. Depois, enfim, houve um arrastar de tecido na escada e o bater de saltos de madeira nos degraus. Branca entrou, vacilante, desfeita; seus olhos claros, no clarão cinzento que enchia a peça, tinham a expressão ao mesmo tempo ausente e obstinada dos dementes.

— Dormiste um pouco? — perguntou-lhe Margarida.

Ela permaneceu calada, foi até à bilha de água colocada perto das escudelas, ajoelhou-se e, virando a bilha na boca, bebeu longos tragos. Há algum tempo tinha essas atitudes bizarras para executar os gestos comuns da vida.

Não havia mais, no quarto, nenhum dos móveis de Bersumée. O comandante da fortaleza retomara-os desde o dia em que recebera, dois meses antes, com a visita brutal de Alain de Pareilles, a ordem de Marigny para cumprir as antigas instruções. Retirara a tapeçaria usada que fora pendurada em honra de monseigneur d'Artois, para agradá-lo; retirara, também, a mesa onde a rainha prisioneira comera defronte a seu primo. Uma enxerga, com o colchão de vagens de ervilha seca, retomou o lugar do leito.

Como, porém, Marigny mandara informar que fazia questão da vida da senhora Margarida, Bersumée apenas cuidava para que a lareira estivesse sempre acesa, as cobertas fossem bem espessas e a alimentação suficiente, ao menos em quantidade.

As duas mulheres sentaram-se lado a lado na enxerga, com as escudelas sobre os joelhos.

Branca não se servia da colher e lambia o mingau de trigo na própria vasilha, como fazem os cães. Margarida não comia. Aquecia os dedos em redor da tigela de madeira; era esse um dos únicos bons minutos de cada dia e a última satisfação sensual que lhe restava em sua prisão. Fechava os olhos, inteiramente concentrada sobre o miserável prazer de recolher um pouco de calor na palma das mãos.

Subitamente, Branca levantou-se e atirou a escudela através da peça. O mingau espalhou-se pelo chão, onde permaneceria por uma semana.

— Afinal de contas, o que tens? — perguntou Margarida.

— Vou me atirar pela escada para me matar, e ficarás sozinha... sozinha! — gritou Branca. — Por que recusaste? Não posso mais, estás ouvindo? Não posso mais! Jamais sairemos daqui, jamais, porque não quiseste. A culpa é tua, tudo é culpa tua, desde o começo. Mas vais ficar só, inteiramente só!

Ela tornava-se louca, ou procurava sê-lo, o que já é uma forma de demência.

A esperança perdida, entre os prisioneiros, é pior que a espera. Branca acreditara, com a visita de Roberto d'Artois, que seria libertada. E, depois, nada acontecera, a não ser a retirada das facilidades que a passagem do primo proporcionara às reclusas. Desde então, a mudança operada em Branca era assustadora. Não se lavava mais; emagrecia; passava de súbitos furores a crises de lágrimas que deixavam longos sulcos em suas faces manchadas. E não cessava de atormentar Margarida com reprimendas, chegando a acusá-la de tê-la impelido, pelo vício, aos braços de Gauthier d'Aunay, depois exigia, batendo os pés, que ela escrevesse a Paris para aceitar a proposta que lhe fizeram. O ódio instalara-se entre as duas prisioneiras.

— Pois bem, então morre, uma vez que não tens coragem de lutar! — respondeu Margarida.

— Lutar por quem? Lutar por quê? Lutar contra muros... Para que sejas rainha? Porque ainda acreditas que serás rainha...

— Mas se eu aceitar, idiota, eu é que serei libertada e não tu!

— Sozinha, sozinha, vais ficar sozinha! — repetia Branca, sem nada ouvir.

— Tanto melhor! É só o que desejo, ficar só! — gritou Margarida.

Nela, também, aqueles dois últimos meses causaram mais estragos que o semestre precedente. Como os dias passassem sem trazer qualquer coisa, começava a pensar, seguidamente, que sua recusa fora um erro e que essa arma, que acreditara eficaz, não lhe servia de nada.

Branca correu em direção à escada. "Pois bem, que ela se esborrache! Que eu não a ouça mais gemer e urrar! Ela não se matará, mas, ao menos, eles a levarão", pensou Margarida.

Depois, no último instante, quando a outra ia transpor a porta, gritou:

— Branca!

E precipitou-se para pegar a cunhada pelo braço. Por um instante defrontaram-se com o olhar, os olhos negros e brilhantes de Margarida interrogando os olhos esbugalhados de Branca. Depois, aquela disse, com um tom de cansaço:

— Vem, vou escrever essa carta. Eu também estou farta disto.

E, debruçando-se na escada, gritou:

— Guardas! Mandem chamar o capitão Bersumée.

Ninguém lhe respondeu, exceto o vento hibernai que arrancava as telhas do telhado.

— Vês? — disse Margarida, levantando os ombros. — Mandarei chamar Bersumée ou o capelão quando trouxerem nosso jantar.

Mas Branca desceu os degraus e pôs-se a bater na porta de baixo, gritando que desejava ver o capitão. Os arqueiros de guarda interromperam o jogo de dados e um deles respondeu que iriam procurá-lo.

Bersumée chegou logo depois, seu gorro de pele de lobo enterrado até as sobrancelhas. Ouviu o pedido de Margarida.

Penas, um pergaminho? Para fazer o quê? Os prisioneiros não tinham direito de se comunicar com ninguém, nem de viva voz nem por escrito; eram ordens de monseigneur de Marigny.

— Preciso escrever ao rei — disse Margarida.

Ao rei? Ah! certamente isso criava um problema para Bersumée. O termo "ninguém" abrangia também o rei?

Margarida falou de tão alto e portou-se tão bem, que ele acabou concordando.

— Pois bem, ide, não demoreis! — exclamou ela. Esta carta, que ela recusava, há tanto tempo, escrever,

parecia-lhe subitamente de urgência tremenda.

Como o capelão houvesse se ausentado nessa manhã, foi o próprio Bersumée quem trouxe da sacristia o material para escrever.

No momento de começar a carta, Margarida quis voltar atrás, uma última vez, com um movimento de pânico. Nunca mais poderia, se, por algum acaso, seu processo fosse reaberto, pleitear sua inocência e pretender que os irmãos d'Aunay houvessem feito falsas confissões sob tortura. Retiraria de sua filha todo direito à coroa...

— Vamos, escreve — segredava-lhe Branca.

— De qualquer maneira, não poderá ser pior — murmurou Margarida.

E começou a escrever sua renúncia.

 

Reconheço e declaro que minha filha Joana não é filha do rei, meu esposo. Reconheço e declaro ter-me sempre recusado de corpo ao dito rei, meu esposo, de sorte que jamais entre nós foi cumprida a obra da carne... Espero, como me prometeram, ser recolhida a um convento da Borgonha...

 

Bersumée permanecia ao seu lado, desconfiado, durante todo o tempo em que ela escrevia; depois, quando terminou, pegou a carta e estudou-a por um momento, o que era apenas fingimento, pois não sabia ler.

— Isso deve chegar, o mais cedo possível, às mãos de monseigneur d'Artois — disse Margarida.

— Ah! senhora, isso muda tudo. Vós me dissestes que era para o rei...

— A monseigneur d'Artois, para que ele a entregue ao rei! — gritou Margarida. — Na verdade, sois muito idiota. Vede aqui: está escrito no cabeçalho!

— Ah! bem... E quem levará essa carta?

— Vós mesmo, que diabo!

— É que eu não tenho ordens.

Suas relações tinham se azedado seriamente naqueles últimos tempos. Margarida não mais se constrangia de dizer a Bersumée o que pensava dele, enquanto Bersumée a tratava com desprezo, visto que ela continuava ali.

Levou o dia todo para decidir o que deveria fazer. Pediu conselho ao capelão, que, de qualquer maneira, perceberia que lhe havia tomado as penas da sacristia. O capelão foi de opinião que Bersumée levasse a carta. Diversas razões militavam para tanto: falava-se muito que Marigny caíra em desgraça e até mesmo que o rei lhe movia um processo. Uma coisa era certa: se Marigny continuava a enviar instruções, não enviava mais dinheiro, e Bersumée não conseguia receber seu soldo e o de seus homens. Era uma boa ocasião para verificar, in loco, o que se passava.

No dia seguinte, então, depois de pôr seu chapéu de ferro e dar ao sargento Lalaine, sob pena de forca, a ordem de não deixar vivalma entrar no castelo ou dele sair durante sua ausência, Bersumée, montado num meio percherão ruço, tomou o caminho de Paris.

Aí chegou no dia seguinte, no meio da tarde, quando chovia torrencialmente. Cheio de lama até os olhos, Bersumée entrou numa taberna vizinha do Louvre, para se recompor e refletir. Pois durante toda a viagem a inquietude não cessara de atormentar-lhe a cabeça. Como saber se procedia bem ou mal, se agia pró ou contra sua promoção? E o dilema resumia-se nesses dois nomes: Artois, Marigny. Artois, Marigny. Infringindo as ordens do segundo o que ganharia do primeiro?

A providência vela pelos imbecis como vela pelos bêbados. Enquanto Bersumée se secava diante do fogo, um grande tapa dado em seu hoqueton 18 tirou-o de suas meditações.

Era o sargento Quatro-Barbas, um antigo companheiro de guarnição, que acabava de entrar e o reconhecera. Há seis anos não se viam. Abraçaram-se, recuaram para examinar-se, abraçaram-se de novo e armaram grande barulho para reclamar vinho e celebrar o encontro.

Quatro-Barbas, um rapaz magro, com dentes pretos e as pupilas alojadas no canto dos olhos, era sargento de arqueiros na companhia do Louvre, ali ao lado, e costumava freqüentar aquela taberna. Bersumée o invejava por residir em Paris. Quatro-Barbas invejava Bersumée por ter subido de posto mais depressa que ele e por comandar uma fortaleza. Tudo, então, ia bem, pois cada um admirava a sorte do outro!

— Como? És tu quem guarda a senhora Margarida? Velho malandro, não deves te aborrecer! — exclamou Quatro-Barbas.

— Oh! não! Nem penses nisso!

Das perguntas passaram às confidencias, depois aos problemas que agitavam Bersumée. Que havia de verdadeiro na pretendida desgraça de Marigny? Quatro-Barbas devia saber, ele que vivia na capital, e justamente no Louvre, que dependia do dirigente-geral! Bersumée soube, assim, com grande terror, que monseigneur de Marigny triunfara dos dissabores que lhe haviam preparado, que o rei, três dias antes, o chamara e o abraçara perante muitos barões, entregando-lhe sua quitação, e que estava novamente tão poderoso como antes.

— Se eu fosse Marigny, sei bem o que faria... — dizia Quatro-Barbas.

"Eis-me metido em maus lençóis com esta carta", pensava Bersumée.

O vinho solta a língua. Bersumée, tomando cuidado para que ninguém em redor pudesse ouvir, confessou a seu amigo por que se encontrava ali e pediu-lhe conselho.

O sargento balançou por um momento o longo nariz em cima de seu copo de vinho, e depois respondeu:

— Em teu lugar, iria ao palácio ver Alain de Pareilles, que é o teu chefe, para que ele o aconselhe. Ao menos estarás garantido.

A tarde passara enquanto eles conversavam e bebiam. Bersumée estava um pouco bêbado e sentia-se aliviado, pois alguém tomara uma decisão por ele. Mas era tarde demais para que se apresentasse ao capitão dos arqueiros. Quatro-Barbas não estava de guarda essa noite. Os dois companheiros jantaram ali mesmo; depois o sargento, como se isso fosse obrigatório quando se recebia um velho amigo da província, levou Bersumée para as pensões alegres, que, após um decreto de São Luís, se agrupavam nas ruas atrás de Notre-Dame, e cujas pensionistas usavam os cabelos tingidos, o que permitia distingui-las, sem erro, das mulheres honestas.

Assim, a carta de Margarida de Borgonha, que devia, em princípio, mudar a sucessão ao trono da França, permaneceu, toda uma noite, costurada no hoqueton de Bersumée, num baú de bordel.

De manhãzinha, Quatro-Barbas convidou Bersumée para ir ao seu alojamento do Louvre e fazer a toalete; às nove horas, escovado, limpo e barbeado, Bersumée chegou ao corpo da guarda do palácio e fez-se anunciar a Alain de Pareilles.

O capitão dos arqueiros não mostrou qualquer hesitação quando Bersumée lhe explicou o caso. Passou os dedos entre os cabelos cinzentos e perguntou:

— De quem recebes tuas ordens?

— De monseigneur de Marigny, senhor.

— Quem, acima de mim, comanda todas as fortalezas reais?

— Monseigneur de Marigny, senhor.

— A quem deves informar todas as coisas que sabes?

— Ao senhor.

— E acima de mim?

— A monseigneur de Marigny.

Bersumée experimentava esse doce sentimento de proteção e de volta à infância que o bom militar conhece diante de um homem que ocupa um posto superior ao seu.

— Então — concluiu Alain de Pareilles —, é a monseigneur de Marigny que deves entregar essa carta. Mas toma cuidado para entregá-la em mãos certas.

Meia hora mais tarde, na Rue des Fossés-Saint-Germain, anunciaram a Enguerrand de Marigny, que trabalhava em seu gabinete, entre seus secretários, que um certo capitão Bersumée, vindo da parte de messire de Pareilles, insistia em vê-lo.

— Bersumée... Bersumée... — disse Enguerrand. — Ah! sim! é o asno que comanda o Castelo Gaillard. Vou recebê-lo.

E fez sinal para que o deixassem sozinho.

Tremendo, por estar em presença do dirigente do reino, Bersumée retirou de sua túnica a carta destinada a monseigneur d'Artois. Como ela não estava lacrada, Marigny leu-a logo, atentamente, com o rosto impassível.

— Quando foi escrita? — perguntou ele.

— Há três dias, monseigneur.

— Agiste muito bem trazendo-a para mim. Parabéns. Assegura à senhora Margarida que sua carta será levada ao seu destino. E se ela tiver vontade de escrever outras, faze-as tomar o mesmo caminho... Como vai ela?

— Como se pode ir em uma prisão. Mas ela resiste melhor, seguramente, que a senhora Branca, cuja razão parece um pouco atrapalhada.

Marigny fez um gesto vago, indicando que isso pouco lhe importava.

— Cuida da saúde delas; que elas sejam alimentadas e não sintam frio.

— A propósito, monseigneur...

— O que há?

— Falta-me um pouco de dinheiro no Castelo Gaillard. Nada tenho recebido para pagar o soldo dos meus homens e também os meus.

Marigny levantou os ombros; isso não o espantava. Há dois meses tudo ia à matroca.

— Mandarei dar ordens ao teu bailiado — disse ele.

— O pagador regulará tua conta dentro de uma semana. De quanto és credor?

— Quinze libras e seis soldos, monseigneur.

— Vais, imediatamente, receber trinta.

E Marigny chamou seu secretário para que acompanhasse Bersumée e lhe pagasse o preço de sua obediência.

Vendo-se só, Marigny releu, muito cuidadosamente, a carta de Margarida, refletiu um momento e atirou-a ao fogo.

Olhou, com sorriso satisfeito, o pergaminho torcer-se nas chamas; sentia-se verdadeiramente, nesse instante, a mais poderosa personagem do reino. Nada podia escapar-lhe e tinha, nas mãos, todos os destinos, mesmo o do rei.

 

O CAMINHO DE MONTFAUCON

 

A FOME

Havia cem anos que a miséria dos franceses não era tão grande como naquele ano, e um flagelo que devastara os séculos anteriores reapareceu: a fome. Em Paris, o preço do alqueire de sal atingiu dez soldos, e o sesteiro de frumento era vendido a sessenta soldos, preço jamais alcançado. Essa carestia tinha, como primeira causa, a desastrosa colheita do verão precedente, mas, também, em boa parte era devida à desorganização da administração, à agitação que as ligas baroniais instalavam em diversas províncias, ao pânico dos que tinham armazenado, com medo da falta, e à avidez dos especuladores.

Fevereiro é, sem dúvida, o mês mais terrível de suportar em época de penúria. As últimas provisões do outono esgotam-se juntamente com a resistência dos corpos e das almas. O frio alia-se à fome. É o mês em que mais se morre. Os homens perdem a esperança de rever a primavera, e, enquanto nuns o desespero se transforma em abatimento, noutros torna-se ódio. E, à força de percorrer, constantemente, o caminho do cemitério, todos se perguntam quando chegará a própria vez.

Nos campos já haviam devorado os cães que não se podiam mais alimentar e caçado os gatos que se haviam tornado selvagens. À míngua de forragem, o gado morria e brigava-se pela sua carcaça. Mulheres arrancavam a erva gelada para comer. Descobriu-se que a casca da faia produz farinha melhor que a do carvalho. Adolescentes afogavam-se, diariamente, sob o gelo dos tanques, no desejo de capturar os peixes. Quase não havia mais velhos. Os carpinteiros, macilentos e exaustos, fabricavam continuamente caixões. Os moinhos estavam mudos. Mães enlouquecidas embalavam cadáveres dos filhos, que ainda conservavam, entre os dedos, um punhado de palha apodrecida. Por vezes, sitiava-se um mosteiro, mas a própria esmola não tinha valor, pois não havia o que comprar, a não ser o sudário para os mortos. E hordas titubeantes acampavam pelos subúrbios, na vã esperança de arranjar pão, mas encontravam-se com outros bandos de esqueletos que refluíam das cidades, parecendo caminhar para o julgamento final.

E o mesmo acontecia tanto nas regiões consideradas ricas como nas pobres, seja em Valois como na Champanha, seja em Marca, como em Poitou, em Angoumois, como na Bretanha, e até mesmo em Beauce, em Brie, na íle-de-France. O mesmo acontecia em Neauphle e em Cressay.

Guccio, voltando de Avignon para Paris, com Bouville, cruzara com essa aflição, espalhada por todos os lugares. Mas, como ele se alojara apenas nos prebostados ou nos castelos reais, e como carregava provisões, bom ouro no bolso para pagar os preços exorbitantes das hospedarias e, ainda, por estar com pressa de voltar, olhou a penúria do alto.

Era, pois, despreocupado que, três dias após sua chegada, trotava na estrada de Paris a Neauphle. Seu agasalho de viagem, forrado de peles, estava quente, seu cavalo andava bem e ele corria ao encontro da amada. Mentalmente arquitetava certas frases para dizer à bela Maria, como falara dela à senhora da Hungria, futura rainha da França, e como ela não saíra do seu pensamento, o que, na realidade, não era mentira. Pois as infidelidades fortuitas não impedem que se pense — muito ao contrário — na pessoa a quem se é infiel; e é essa a maneira mais freqüente de os homens serem constantes. Além disso, iria descrever a Maria os esplendores de Nápoles. Sentia-se prestigiado pela viagem e pelas altas missões; ia fazer-se amado.

Foi nas proximidades de Cressay, pois conhecia muito bem essa região e guardava-lhe afeto por haver sido o cenário de seus amores primaveris, que Guccio começou a abrir os olhos a respeito de outra coisa que não fosse ele próprio.

O deserto dos campos, o silêncio dos casebres, as raras fumaças que se erguiam dos pardieiros, a ausência de animais, a magreza e a sujeira de alguns homens que encontrou e, sobretudo, seus olhares deram ao jovem toscano um sentimento de mal-estar e insegurança, que aumentava à medida que caminhava. Quando penetrou no pátio da velha mansão, acima do rio Mauldre, teve a intuição da desgraça. Nenhum galo na esterqueira, nenhum balido vindo dos estábulos, nenhum latido de cachorro. O moço caminhou sem que ninguém, patrão ou empregado, aparecesse à sua aproximação. A casa parecia morta. "Terão partido?", pensou Guccio. "Tê-la-ão vendido na minha ausência? Que aconteceu? A peste terá feito estragos por aqui?"

Amarrou as rédeas do cavalo num anel de ferro do muro — ele não trouxera consigo, porque a caminhada era curta, nenhum empregado para ajudá-lo — e entrou na casa. Defrontou-se com madame de Cressay.

— Oh! Messire Guccio! — exclamou ela. — Parecia-me... parecia-me... Estais, então, de volta...

Lágrimas apareceram nos olhos da senhora Eliabel, e ela precisou apoiar-se num móvel, como se a surpresa a fizesse vacilar. Emagrecera umas vinte libras e envelhecera dez anos. Flutuava em suas roupas que, outrora, ajustavam-se bem aos quadris e ao busto; seu rosto estava cinzento, as bochechas caídas e balouçantes sob o véu de viúva que enquadrava suas faces.

Guccio, para não mostrar espanto por vê-la tão mudada, desviou o olhar pelo salão ao seu redor. Antes aí se notava a dignidade de vida, mantida malgrado os parcos recursos; hoje, tudo falava da miséria sem defesa, da privação desorganizada e poeirenta.

— Não estamos preparados para receber um hóspede — falou tristemente a senhora Eliabel.

— Onde estão vossos filhos, Pedro e João?

— Caçando, como todos os dias.

— E Maria?

— Ai de mim! — sussurrou a senhora Eliabel, abaixando os olhos.

Guccio sentiu frias garras apertarem-lhe o crânio, a nuca e o coração.

— Que aconteceu?

A matrona sacudiu os ombros, num gesto de desolação.

— Ela está tão doente — disse ela —, tão fraca, que não tenho esperança de que se levante mais, nem mesmo que chegue até a Páscoa.

— Doente de quê? — perguntou Guccio, que sentiu as garras afrouxarem, pois antes compreendera o pior.

— Mas da doença de que nós todos sofremos e da qual se morre aos montes por aqui! A fome, senhor Guccio. E imaginai, se os corpos fortes, como o meu, estão assim tão esgotados, a ponto de cair, o que a fome não poderá fazer nos corpos como o de minha filha, que ainda estão se desenvolvendo!

— Mas, por Deus, senhora Eliabel — exclamou Guccio —, pensei que a penúria só atacasse os pobres!

— E que pensais que somos — respondeu a velha — senão pobres criaturas? Não é porque somos da Cavalaria e possuímos esta mansão, que cai aos pedaços, que somos mais bem aquinhoados. Toda a fortuna dos pequenos proprietários como nós está nos servos e no seu trabalho. Como poderemos esperar que nos alimentem quando eles mesmos não têm o que comer e vêm morrer diante da nossa porta, estendendo-nos as mãos? Precisamos abater o gado para repartir com eles. Acrescentai a isso que o preboste, a mandado de Paris, segundo dizia, andou pilhando por aqui e alhures, sem dúvida para dar de comer aos seus sargentos que, estes sim, estão sempre bem gordos... Quando todos os nossos colonos estiverem mortos, que nos restará senão fazer o mesmo?... a terra não vale nada; ela só vale quando é trabalhada, e não serão os cadáveres que nela foram enterrados que a farão produzir... Não temos nem empregados nem criadagem. Nosso pobre coxo...

— Aquele que chamavam "escudeiro trinchador"?

— Esse mesmo, nosso escudeiro trinchador... — disse ela, com um sorriso tristonho. — Pois bem, ele partiu para o cemitério na outra semana.

— Onde está ela? — perguntou Guccio.

— Maria? Lá em cima, no seu quarto.

— Posso vê-la?

A viúva hesitou um pouco; embora na desgraça, ainda cuidava das conveniências.

Subiu ao primeiro andar, com passo pesado, e, após um momento, chamou Guccio. Em algumas passadas, este chegou ao alto da escada.

Maria de Cressay repousava numa cama estreita, à moda antiga, na qual as cobertas não eram bordadas, com o colchão e almofadas muito altos sob o tronco, de modo que o corpo ficava inclinado, com os pés dirigidos para o chão.

— Senhor Guccio... senhor Guccio... — murmurou.

Seus olhos tinham aumentado por causa das olheiras que os envolviam; os longos cabelos castanho-ouro estavam desatados sobre o travesseiro de veludo. Em suas faces emagrecidas e em seu pescoço frágil a pele tinha uma transparência inquietante. E essa impressão de haver bebido todo o sol, que ela dava antes, desaparecera, como se uma grande nuvem branca tivesse passado sobre ela.

A velha deixou-os, para evitar que vissem suas lágrimas; e Guccio perguntava se ela sabia, se Maria, em sua doença, lhe confessara o amor que trazia no coração.

— Maria mia, minha linda Maria — disse Guccio, aproximando-se dela.

— Enfim, eis-te aqui; afinal voltaste da viagem. Tive tanto medo, oh! tanto medo de morrer sem rever-te!

Olhava intensamente Guccio e em seus olhos havia uma profunda e inquieta indagação.

— De que estás sofrendo, Maria? — perguntou-lhe o namorado, porque não achara outra coisa a dizer.

— De fraqueza, meu bem-amado, de fraqueza. E também do grande receio de que houvesses me abandonado.

— Tive de ir à Itália, a serviço do rei, e parti tão apressadamente que não pude avisar-te.

— A serviço do rei... — murmurou ela.

A grande pergunta muda continuava sempre no fundo de seu olhar. E Guccio sentiu-se, de repente, bastante envergonhado de sua saúde, de suas roupas forradas, das semanas descuidadas que passara viajando; com vergonha até mesmo do sol de Nápoles e da vaidade que sentia, até há pouco, por ter vivido no meio dos poderosos deste mundo.

Ela estendeu-lhe a bela mão emagrecida, e Guccio tomou-a; seus dedos reconheceram-se, interrogaram-se e acabaram se unindo, entrecruzando-se nesse gesto em que o amor se promete, certamente, mais que através de um beijo, como se aquelas duas mãos, tão diferentes, se unissem para a mesma prece.

A pergunta muda desapareceu, então, dos olhos de Maria, que abaixou as pálpebras.

Eles ficaram assim um instante sem falar; a jovem, pelos dedos de Guccio, sentia nascer dentro de si uma força reencontrada.

— Maria — disse ele, de súbito. — Vê o que te trouxe.

E tirou da carteira duas placas de ouro trabalhado, incrustadas de pérolas e de pedras em cabuchão, para serem prendidas na gola dos casacos, como então era moda entre os ricos. Maria pegou as jóias e levou-as aos lábios. E Guccio sentiu o coração fechado porque aquele ouro, embora cinzelado pelo mais hábil dos ourives venezianos, não aplacava a fome. "Um pote de mel ou de frutos em calda seria, hoje, um presente melhor", pensava ele. Assaltou-o uma grande pressa de agir.

— Vou procurar algo para curar-te — exclamou.

— Que estejas aqui, que penses em mim, não quero mais nada... Já vais embora?

— Estarei de volta em poucas horas. Ia atravessar a porta.

— Tua mãe... sabe? — perguntou a meia voz. Maria fez, com as pálpebras, um sinal negativo.

— Não estava bastante certa para dispor de nosso segredo — murmurou. — Só o farei quando o quiseres.

Descendo para o salão, encontrou a senhora Eliabel em companhia dos dois filhos, que acabavam de chegar da caçada. Com o rosto barbudo, os olhos brilhantes de fadiga, as roupas rasgadas e mal remendadas, Pedro e João de Cressay também exibiam a marca da fraqueza. Mostraram-se alegres por ter reencontrado um amigo, mas não podiam evitar um pouco de inveja e amargor ao notar o aspecto de prosperidade do jovem lombardo que, além disso, era mais moço que eles. "Decididamente o banco sabe defender-se melhor que a nobreza", pensava João de Cressay.

— Mamãe já te contou e, além disso, viste Maria... — disse Pedro. — Um corvo e um arganaz, eis toda a nossa caçada desta manhã. Que sopa magra vai ser feita com isto para uma família inteira! Que queres? Tudo foi pilhado. Não adianta ameaçar os camponeses com o bastão se eles caçam para si próprios, pois preferem receber pancadas e comer a caça. É natural: em seu lugar, faríamos o mesmo.

— Pelo menos os falcões milaneses, que eu trouxe no outono, foram de alguma utilidade? — perguntou Guccio.

Os dois irmãos desviaram o olhar, encabulados. Depois, João, o mais velho e o mais teimoso, decidiu-se a falar:

— Tivemos de cedê-los ao preboste Portefruit, para que nos deixasse o último porco que possuíamos. Aliás, não tínhamos mais com que alimentá-los.

Era vergonhoso e bastante aborrecido confessar o uso que tinham feito do presente de Guccio.

— Fizestes muito bem — respondeu ele. — Oportunamente, tratarei de arranjar outros.

— Esse cachorro do preboste — gritou Pedro de Cressay, irritando-se — não melhorou, juro-te, desde aquela vez em que nos arrancaste de suas unhas. Ele sozinho é pior que a penúria, e duplica-lhe o mal.

— Tenho muita vergonha, senhor Guccio, da comidinha que tenho para oferecer — disse a viúva.

Guccio pôs, na sua recusa, bastante delicadeza, alegando que era esperado para jantar 19 no seu escritório de Neauphle.

— O que é preciso é alimentar convenientemente Maria, senhora Eliabel — ajuntou ele —, e não deixá-la enfraquecer. Vou tratar disso.

— Ficamos bastante gratos por vossa lembrança, mas não encontrareis nada, a não ser capim pelas estradas — respondeu João de Cressay.

— Vamos ver! — exclamou Guccio batendo na bolsa que pendia da cinta. — Não serei lombardo se não for bem sucedido.

— O próprio ouro não tem mais utilidade — falou João.

— Isso é o que vamos ver.

Estava escrito que, todas as vezes que Guccio chegasse àquela casa, seria como salvador, e não como o credor (que continuava a ser) de uma dívida de trezentas libras que, após a morte do velho senhor de Cressay, nunca fora paga.

Guccio partiu para Neauphle, persuadido de que os empregados de Tolomei tirá-lo-iam do aperto. "Eles devem, prudentemente, ter armazenado ou, então, sabem onde é preciso procurar, desde que haja meios para pagar."

Foi encontrar, porém, os três recebedores esquentando-se ao fogo de turfa; tinham faces de cera e o nariz tristemente apontado para o chão.

— Há duas semanas todo o tráfico parou, messire Guccio — declararam. — Não se faz um negócio por dia. O dinheiro dos empréstimos não entra e de nada adiantaria ordenar a penhora: não se pega o vazio... Provisões de boca?

Deram de ombros.

— Vamos fazer um banquete agora mesmo com um quilo de castanhas — disse o chefe do escritório — e lamber os lábios por três dias. Encontra-se ainda sal em Paris? É especialmente a falta de sal que faz enfraquecer. Se pudésseis nos mandar um alqueire... O preboste de Montfort tem, mas não quer distribuí-lo. Esse não se privou de nada, posso jurar; extorquiu tudo ao redor como se estivéssemos em guerra.

— Outra vez ele! Mas é uma verdadeira calamidade este Portefruit! — exclamou Guccio. — Vou encontrá-lo. Já apanhei em flagrante esse ladrão uma vez.

— Messire Guccio... — disse o chefe do escritório, querendo recomendar prudência ao jovem.

Mas Guccio já estava fora e montava novamente. Um sentimento de ódio, como nunca conhecera, acabava de explodir-lhe no peito.

Porque Maria estava a ponto de morrer de fome, ele passava, repentinamente, para o lado dos pobres e dos sofredores; e por isso pôde notar que seu amor era verdadeiro.

Ele, o lombardo, o "moço rico", alinhava-se ao lado da miséria. Observava, agora, que os muros das casas pareciam transpirar a morte. Sentia-se solidário com aquelas famílias cambaleantes que acompanhavam os defuntos, com os homens de pele colada aos ossos do rosto, cujo olhar se transformara em olhar de animais.

Ia mergulhar sua adaga no ventre do preboste Portefruit; estava decidido. Ia vingar Maria, vingar toda a província e executar um gesto de justiceiro. E ele seria preso, está claro; desejava sê-lo, e o caso iria longe. Tio Tolomei moveria céus e terra; iria procurar monseigneur de Bouville e monseigneur de Valois. O processo iria parar no Parlamento de Paris, e até mesmo diante do rei. E, então, Guccio exclamaria: "Sire, eis por que matei o seu preboste..."

Légua e meia de galope acalmou-lhe um pouco a imaginação. "Lembra-te, meu rapaz, que um cadáver não paga juros", costumava dizer-lhe o tio Tolomei. E depois, no fim de contas, cada qual só combate bem com as armas que lhe são próprias, e embora Guccio, como todo toscano, soubesse manejar convenientemente as armas de lâminas curtas, essa não era a sua especialidade.

Diminuiu o ímpeto à entrada de Montfort-l’Amaury, acalmou o cavalo e o espírito e apresentou-se ao preboste. Como o sargento de guarda não mostrasse a pressa que ele queria, Guccio exibiu-lhe o salvo-conduto, lacrado com o selo privado de Luís X e que Tolomei pedira a Valois para a missão do sobrinho na Itália.

Seus termos eram bastante elásticos — Peço a todos os meus bailios, senescais e prebostes dar ajuda e assistência... — para que Guccio deles se servisse naquele momento. Disse:

— A serviço do rei!

À vista do selo real, o sargento do prebostado tornou-se, de repente, cortês e zeloso, e correu a abrir as portas.

— Dá de comer ao cavalo — ordenou Guccio.

As pessoas sobre as quais tivemos, alguma vez, ascendência se consideram previamente derrotadas, desde que voltem a encontrar-se conosco. Querem resistir, mas de nada adianta, pois as águas correm sempre na mesma direção. Assim acontecia entre Portefruit e Guccio.

Com as carnes bamboleantes como geléia de mocotó e a alma vagamente inquieta, o preboste foi ao encontro de seu visitante.

A leitura do salvo-conduto aumentou-lhe a perturbação. Quais seriam as funções secretas daquele jovem lombardo? Viria perguntar, inspecionar? Filipe, o Belo, outrora possuía desses agentes misteriosos que, sob a capa de outro trabalho, percorriam o reino, escreviam relatórios; e depois, subitamente, uma cabeça caía, as grades da prisão abriam-se...

— Ah! mestre Portefruit, antes de mais nada quero que saibais — disse Guccio — que nada deixei transpirar daquele negócio da sucessão dos Cressay, que provocou nosso encontro no ano passado. Admiti que se tratava de um erro. Isto para tranqüilizar-vos.

Bela maneira, com efeito, de acalmar o preboste! Era o mesmo que lhe dizer claramente, de saída: "Quero lembrá-lo de que o apanhei em flagrante delito de prevaricação, e que posso denunciá-lo quando bem entender".

O grande rosto lunar do outro empalideceu um pouco, exceto aquela espécie de morango de carne, borbulhoso e violeta, que crescia no canto da fronte. Seus olhos eram pequenos e amarelos. Aquele homem devia ter no fígado algo que não funcionava bem.

— Sou-vos grato, messire Baglioni, por vosso julgamento — respondeu. — Com efeito, houve um erro. Aliás, já mandei retificar as contas.

— Havia, então, necessidade de serem retificadas? O outro compreendeu que acabava de pronunciar uma perigosa tolice. Decididamente, esse jovem lombardo possuía o dom de esquentar-lhe a cabeça.

— Ia justamente começar a jantar — disse ele, a fim de mudar, rapidamente, de assunto. — Quereis dar-me a honra de partilhar...

Começava a mostrar-se obsequioso. A dignidade ordenava a Guccio recusar; mas a habilidade desejava que aceitasse; é à mesa que as pessoas se abandonam. Além disso, Guccio, desde a manhã, não comera nada e galopara bastante. Embora houvesse partido de Neauphle para matar o preboste, achou-se confortavelmente instalado a seu lado e serviu-se da adaga apenas para cortar um leitão, assado ao ponto, e que mergulhava num belo molho gordo e dourado.

O banquete que o preboste mandou servir, no meio de um país faminto, chegava a ser escandaloso. "Quando penso", dizia-se Guccio, "que vim aqui para encontrar com que alimentar Maria e que sou eu quem está se empanturrando!" Cada garfada aumentava seu ódio contra Portefruit; e como o outro, no desejo de reconciliar-se com o visitante, mandava servir suas melhores comidas e seus vinhos mais raros, Guccio, a cada copázio que o forçavam a aceitar, repetia-se: "Esse porco me pagará tudo isso! Farei tantas que o mandarei balançar-se na ponta de uma corda!" Nunca um banquete foi devorado com tanto apetite e tão pouco benefício para quem o oferecia. Guccio não perdia a oportunidade para pôr o outro em má situação.

— É verdade que conseguistes uns falcões, mestre Portefruit? — perguntou-lhe subitamente. — Tendes direito de caçar como os proprietários?

O outro quase se afogou com a bebida.

— Caço com os proprietários dos arredores quando eles têm a amabilidade de convidar-me — respondeu vivamente.

Procurou, mais uma vez, mudar o rumo da conversa, e ajuntou, para dizer qualquer coisa:

— Viajais muito, segundo me parece, não, messire Baglioni?

— Muito, com efeito — respondeu Guccio, com desinteresse. — Estou chegando da Itália, aonde fui a negócios, em nome do rei, junto à rainha de Nápoles.

Portefruit lembrou-se de que, na primeira vez em que se encontrou com Guccio, este voltava da Inglaterra, onde estivera em missão junto à rainha. Decididamente aquele jovem parecia sobretudo talhado para missões junto às rainhas; devia ser bastante poderoso. Além disso, tinha meios de sempre saber as coisas que se prefere ocultar...

— Mestre Portefruit, os empregados do escritório que meu tio possui em Neauphle estão reduzidos à mais negra miséria. Encontrei-os bem doentes de fome, e eles me garantiram que nada podem comprar — declarou de repente Guccio. (E o preboste compreendeu logo que se chegava ao objetivo da visita.) — Como explicais que, numa terra tão devastada pela penúria, impondes o pagamento de dízimos em espécie e passais a arrebanhar tudo quanto resta para mastigar?

— Eh! messire Baglioni, juro-vos que isto é uma grave questão e uma grande aflição para mim. Mas preciso obedecer às ordens de Paris. Preciso mandar todas as semanas três carroças de víveres, e o mesmo acontece com os outros prebostes daqui, pois monseigneur de Marigny teme a revolta e quer ter a capital nas mãos. Como sempre, é o interior que sofre.

— E quando vossos sargentos juntam o suficiente para encher três carroças, arranjam também com que abarrotar mais uma para vós.

A angústia tomou o coração do preboste. Ah! que penosa refeição!

— Isso nunca, messire Baglioni, isso nunca! Que estais pensando?

— Ora, ora, preboste! De onde vem tudo isto? Que-reis me enganar que os presuntos nasceram na janela? E que vossos sargentos estão bem tratados à força de lamber a flor-de-lis de seus bastões?

"Se eu soubesse", pensou Portefruit, "não o teria tratado tão bem."

— É que, vede bem — respondeu ele —, se se deseja ordem no reino, é preciso alimentar convenientemente os que são empregados para zelar por ela.

— é evidente — replicou Guccio —, é evidente. Tendes razão. Um homem alçado a tão alto cargo como o vosso não deve raciocinar como as pessoas comuns, nem agir da mesma forma.

Guccio tornava-se cordato, amistoso, e parecia adotar inteiramente os pontos de vista do interlocutor. Inconscientemente, imitava monseigneur d'Artois, que vira várias vezes, e cujas maneiras haviam-no impressionado bastante. Por pouco teria dado um tapinha nas costas do preboste. Este, que bebera o suficiente para ter coragem, caíra na armadilha.

— é o que se dá com os lançamentos de impostos... — volveu Guccio.

— Lançamentos? — repetiu o preboste.

— Sim. Vós os possuis em arrendamento. É preciso viver, pagar os empregados. Ora, forçosamente não podeis viver apenas com o que vos paga o Tesouro. Como fazeis? Duplicais o imposto, não é? É o que, segundo sei, fazem todos os prebostes.

— Pouco mais ou menos — respondeu Portefruit deixando-se levar, porque pensava estar falando, se não com um cúmplice, ao menos com alguém bem informado. — Somos obrigados a fazer isso. Sabeis que para ter meu cargo preciso "untar as mãos" a um secretário de Marigny?

— Um secretário de Marigny, realmente?

— Como não? E quando chegam as festas, devo ainda dar-lhe mais alguma coisa. Preciso também dividir com o recebedor, sem falar no que me pede o bailio, meu superior. Assim, no fim de contas...

— Pouco resta para vós, já compreendi... Então, preboste, quero que me ajudeis, como é vosso dever, num negócio que vou propor e no qual não perdereis nada. Preciso alimentar meus empregados. Todas as semanas fornecereis a eles sal, farinha, favas, mel, carne fresca ou seca, o que for necessário para mantê-los vivos, o que eles pagarão pelo melhor preço de Paris, e com acréscimo de três soldos por libra. Posso mesmo deixar-vos cinqüenta libras adiantadas — disse, fazendo retinir sua bolsa.

O ruído do ouro acabou por adormecer a desconfiança do preboste. Discutiu um pouco, por formalidade, e fixou o peso e a quantidade com Guccio, que tudo calculava pelo dobro, a fim de poder abastecer a família Cressay.

E como Guccio manifestasse o desejo de levar consigo algumas provisões, o preboste o conduziu à sua reserva, que parecia o entreposto de um comerciante.

Agora que entrara em negociações, para que dissimular? Sentia-se mesmo vaidoso de ter, enfim, a quem mostrar, impunemente, seus tesouros alimentares, dos quais se orgulhava mais que de seus títulos administrativos. Se a ambição fizera-o preboste, ele era, quanto à aptidão, mais inclinado ao comércio de gêneros alimentícios. Com a cara redonda, o nariz arrebitado, os braços curtos, agitava-se por entre as tinas de lentilhas verdes, aspirava os queijos, acariciava, com o olhar, os rosários de salsichas. Após duas horas passadas à mesa, parecia que o apetite já lhe voltara.

"O patusco merecia bem que viessem pilhá-lo a golpes de forcado e porrete", pensava Guccio. Um criado preparou um bom pacote de vitualhas, que foi envolvido numa tela, para dissimular, e que Guccio amarrou em sua sela.

— E se, porventura — disse o preboste, acompanhando-o —, faltar alguma coisa em vossa casa de Paris, poderei, talvez, mandar-vos uma carroça.

— Pensarei nisso. Aliás, logo voltarei. E daqui até lá tenha a certeza de que falarei de vós como é preciso.

Dito isto, Guccio tornou a partir para Neauphle, passou pelo escritório, onde os empregados, quando souberam da novidade, cumularam-no de bênçãos.

— Assim, todas as semanas — continuou Guccio — alguém virá da parte dos Cressay buscar aqui, ou manda-reis para lá, à noitinha, a metade do que o preboste fornecer. Meu tio interessa-se muito por essa família, que, embora não dê esta impressão, é uma das melhores da corte; cuidai para que nada lhe falte.

— Eles devem pagar em espécie ou debitaremos na sua conta? — perguntou o chefe do escritório.

— Abre uma conta à parte, que ficará a meu cargo. Dez minutos mais tarde, Guccio aportava à mansão, exibindo triunfante o fardo de provisões. As lágrimas vieram aos olhos de Maria quando, no quarto, ela o viu desembrulhar o pacote.

— Guccio, parece que és mágico! — exclamou.

— Farei ainda mais para ver-te recuperar as forças e pela alegria de ser amado por ti. Todas as semanas receberão outro tanto... Acredita — acrescentou sorrindo — que isto é mais fácil do que encontrar um cardeal em Avignon.

Isto lembrou-lhe que não fora a Cressay apenas para fazer madrigais. E, como estivessem sozinhos, aproveitou para perguntar a Maria se o depósito que lhe confiara, no outono passado, continuava no mesmo lugar na capela.

— Encontra-lo-ás onde o pusemos — respondeu ela.

— Era esta também minha grande inquietude: morrer sem saber o que fazer com ele.

— Não tenhas mais preocupações, vou buscá-lo. E se me amas, não penses mais em morrer.

— Agora, não — respondeu ela, sorrindo. Havendo assegurado que voltaria mais amiúde, Guccio deixou-a mordendo, deliciada, ameixas secas.

Chegando ao salão disse à senhora Eliabel que trouxera da Itália poderosas relíquias, muito eficazes, e que desejava rezar, sozinho, na capela, para obter a cura de Maria. A viúva maravilhou-se ao ver que aquele jovem tão devotado, tão amável, tão hábil era, ao mesmo tempo, tão piedoso. Decididamente, possuía todas as qualidades.

De posse da chave, Guccio foi fechar-se na capela; aí, passou por trás do altar, encontrou sem dificuldade a pedra, que girou sobre si mesma, e, esquadrinhando por entre uns ossos santos, que não se sabia mais de quem eram, encontrou o estojo de chumbo que continha o recibo assinado por Marigny, o arcebispo. "Eis uma boa relíquia para curar o reino", pensou.

Recolocou a pedra em seu lugar e saiu, assumindo um ar de beatitude.

Recebeu os abraços e os agradecimentos da castelã e de seus dois filhos e tomou novamente o caminho de Paris.

A fadiga que o tomou forçou-o a dormir algumas horas na pequena vila de Versalhes. No dia seguinte apareceu diante do tio, a quem contou tudo, ou quase tudo; naturalmente não insistiu muito a respeito das disposições tomadas em favor dos Cressay, mas pintou a família e o procedimento do preboste com uma indignação, uma violência que surpreenderam o banqueiro.

— Trouxeste-me o recibo do arcebispo? — perguntou Tolomei.

— Perfeitamente, meu tio — respondeu Guccio, apresentando-lhe o estojo de chumbo.

— E me garantes, então — tornou Tolomei —, que esse preboste declarou-te, pessoalmente, receber o dobro dos impostos, dos quais entrega parte a um secretário de Marigny? Sabes qual?

— Poderei saber. Esse Portefruit pensa, agora, que sou bastante seu amigo.

— E ele afirma que os outros prebostes fazem a mesma coisa?

— Sem hesitação. Não é uma vergonha? Eles fazem um infame comércio da fome e comem vorazmente como porcos, enquanto ao seu redor o povo morre. O rei não devia ser avisado?

O olho esquerdo de Tolomei, aquele olho que nunca se via, ficou bruscamente aberto, e toda a sua fisionomia assumiu uma expressão diferente, ao mesmo tempo irônica e inquietante. Assim mesmo o banqueiro esfregava, lentamente, suas mãos gordas e pontudas.

— Pois bem! Trouxeste-me grandes novidades, meu pequeno Guccio; grandes novidades — disse, sorrindo.


VINCENNES

O homem de hoje, quando procura representar a Idade Média, julga, em geral, que deve realizar enorme esforço de imaginação. A Idade Média parece-lhe uma época sombria, recuada nas trevas do tempo, um momento do mundo em que jamais fez sol e no qual vivia uma humanidade com sociedades radicalmente diferentes das que conhecemos. Ora, é-nos suficiente abrir os olhos sobre o nosso universo, é-nos suficiente ler, cada manhã, nossos jornais: a Idade Média está à nossa porta; ela persiste ao nosso lado e não só por alguns vestígios monumentais; está do outro lado do mar que banha nossas margens, a algumas horas de vôo; faz parte do que se chama, ainda, o império francês, e impõe problemas aos nossos estadistas do século XX que eles não conseguem resolver.

Muitos países muçulmanos da África do Norte e do Oriente Médio que estão, exatamente, no século XIV de sua era podem fornecer-nos, sob muitos aspectos, a imagem do que foi o mundo medieval europeu. As mesmas cidades de casas arruinadas e apertadas, de ruas estreitas e pululantes, cercando alguns palácios suntuosos; a mesma oposição entre a espantosa miséria das classes pobres e a opulência dos grandes senhores; os mesmos contadores de histórias nos cantos das ruas, propagando, ao mesmo tempo, os sonhos e as novidades; a mesma plebe, com seus nove décimos de analfabetos, sofrendo durante longos anos a opressão, subitamente interrompida por revoltas violentas e pânicos mortíferos; a mesma intrusão da consciência religiosa nos negócios públicos; os mesmos fanatismos, as mesmas intrigas do poder, os mesmos ódios entre as facções, os mesmos conluios tão estranhamente urdidos que somente o sangue consegue desfazer!... Os conclaves da Idade Média deviam assemelhar-se muito aos atuais colégios de ulemás. Os dramas dinásticos que marcaram o fim dos Capeto de descendência direta têm sua correspondência nos dramas dinásticos que agitam, em nossos dias, os países árabes; e compreender-se-á, sem dúvida, melhor a trama desta narração quando dissermos que se poderia defini-la como uma luta sem trégua entre o paxá de Valois e o grão-vizir de Marigny. A única diferença é que os países europeus da Idade Média não serviam de campo de expansão aos interesses das nações mais bem equipadas em meios técnicos e em armamento. Após a queda do Império Romano, o colonialismo estava morto, ao menos nas regiões francesas.

 

"Não pudemos abatê-lo de frente, bah! abatê-lo-emos de lado", disse o banqueiro Tolomei, falando de Marigny, depois que este tornou a cair nas graças do rei.

Quando Guccio lhe revelou os atos do preboste de Montfort-l’Amaury, Tolomei refletiu durante dois dias; no terceiro, depois de vestir seu casaco forrado, seu capuz e sua capa, pois naquela tarde chovia a cântaros, dirigiu-se à residência de Valois. Aí encontrou o tio do rei e seu sobrinho d'Artois muito aborrecidos, azedos em suas palavras, engolindo mal a derrota e arquitetando sonhos de vingança.

— Messeigneurs — disse-lhes Tolomei —, vós vos conduzistes nestas últimas semanas de forma tal que, se fósseis banqueiros ou comerciantes, teríeis ido à falência.

Ele podia permitir-se esse tom: deviam-lhe dez mil libras, e os dois outros o aceitaram, sem responder à admoestação.

— Não me pedistes conselhos — continuou Tolomei —, portanto, não vo-los dei. Mas poderia ter-vos advertido de que um homem tão arguto como Enguerrand não poria as mãos nos cofres do rei. Se ele roubou, foi de outra maneira.

Depois, dirigindo-se diretamente ao conde de Valois:

— Forneci-vos bastante dinheiro, monseigneur Carlos, para alçar-vos à confiança do rei; ele deveria ser devolvido logo.

— Mas ele o será, messire Tolomei! — exclamou Valois.

— Quando? Não teria a audácia, monseigneur, de duvidar de vossa palavra. Não tenho dúvida quanto ao meu dinheiro; mas preciso saber de que jeito ele me será devolvido; não é mais o senhor que tem o Tesouro à disposição, mas Marigny.

— E o que tendes a propor-nos para derrotar esse javali fedorento? — perguntou d'Artois. — Estamos tão interessados nisso quanto vós, acreditai, e, se tendes uma idéia melhor do que a nossa, ela será bem-vinda.

Tolomei alisou as pregas de sua roupa, cruzou as mãos sobre o ventre.

— Messeigneurs — respondeu ele —, parai de acusar Marigny. Parai de murmurar, por toda parte, que ele é ladrão, pois o rei admitiu que ele não o é. Fingi aceitar que ele governa e, depois, nas suas costas, fazei inquéritos nas províncias. Não encarregueis disso os oficiais reais, pois são justamente os que devemos visar; dizei aos nobres, grandes e pequenos, sobre os quais tendes poder, que se informem, em todos os lugares, sobre os atos dos homens que Marigny colocou como prebostes. Em muitos lugares, são cobradas talhas, das quais apenas a metade chega ao Tesouro. O que não tomam em dinheiro tomam em víveres e negociam. Procedei a investigações e, depois, fazei obter do rei e do próprio Marigny que todos os prebostes, recebedores e encarregados das finanças, sejam convocados para que se faça o exame de suas contas diante dos barões do reino. Garanto-vos que aparecerão tantas e tão monstruosas malversações que não tereis trabalho em culpar Marigny, sem que tenhamos necessidade de preocupar-nos em saber se ele é culpado ou inocente. E vós tereis, fazendo isso, monseigneur de Valois, todos os nobres a vosso favor, pois estão aborrecidos de ver os sargentos de Marigny intrometer-se em seus feudos; e tereis também a vosso lado a plebe, que morre de fome e quer um responsável por sua miséria. Eis, monseigneur, o conselho que me autorizo a vos dar e o que eu transmitiria ao rei, se estivesse em vossa posição... Sabei, aliás, que as companhias lombardas, que têm escritório em toda parte, podem, se o desejardes, ajudar nas investigações.

— O difícil será convencer o rei — disse Valois —, pois no momento ele está todo entusiasmado com Marigny e com seu irmão arcebispo, do qual espera um papa.

— Com relação ao arcebispo não vos inquieteis — replicou Tolomei. — Tenho meios de apanhá-lo, que usarei no momento oportuno.

Quando Tolomei saiu, d'Artois disse a Valois:

— Esse homem é, decididamente, mais forte do que nós.

— Mais forte... mais forte... — murmurou Valois. — Isto é, ele nos diz, em sua linguagem de mercador, as coisas que já pensávamos.

E, pela segunda vez, conformou-se com as instruções que lhe eram ditadas pelo poder do dinheiro. Spinello Tolomei, com as dez mil libras das quais se tornara fiador junto de seus colegas italianos, dava-se ao luxo de dirigir a França.

Foram necessários, todavia, dois meses para convencer o Turbulento. Em vão Valois repetia ao sobrinho:

— Lembra-te, Luís, das últimas palavras de teu pai. Lembra-te de que ele te disse: "Conhece, o mais cedo possível, a situação do teu reino". Pois bem, é convocando todos os prebostes e recebedores que conhecerás a situação. E nosso santo antepassado, de quem trazes o nome, dá ainda o exemplo, pois mandou fazer uma grande investigação, dessa espécie, no ano de 1247.

Marigny aprovava, em princípio, tal reunião, mas julgava que, no momento, não era oportuna. Tinha sempre uma boa razão para adiá-la, afirmando, a justo título, que não era no momento em que havia agitação no país que se deveria, de um só golpe, afastar os agentes do rei e jogar suspeitas sobre sua administração.

Entretanto, a autoridade central desagregava-se, e era forçoso reconhecer que havia dois poderes na França, os quais se opunham, se comprometiam e se anulavam mutuamente. Importunado pelos dois partidos, mal informado, não sabendo mais o que era calúnia e o que era informação verdadeira, incapaz, por natureza, de decidir francamente, confiando tanto, na esquerda como na direita, Luís X tomava apenas as decisões que lhe impunham e acreditava governar quando apenas obedecia.

Não se vislumbrava uma tiara nos céus de Avignon, onde Marigny sustentava, contra o cardeal Duèze, candidaturas que não progrediam.

Enfim, no dia 19 de março de 1315, cedendo à violência das ligas baroniais, Luís X, seguindo a opinião da maioria de seu Conselho, assinou a carta aos senhores normandos, à qual deveriam seguir-se, logo depois, as cartas aos languedocianos, aos borguinhões, aos picardos e aos champanhenses. Elas restabeleciam os torneios, guerras privadas e desafios. Era novamente permitido aos gentis-homens "guerrear uns com os outros, cavalgar, ir, vir e carregar armas..." Os senhores tornavam-se livres para distribuir terras e possuir novamente vassalos sem obrigação de comunicar ao rei. Os nobres não deveriam mais ser citados senão diante das jurisdições nobres. Os sargentos ou prebostes do rei não podiam mais deter os delinqüentes ou citá-los diretamente na justiça, sem comunicar, previamente, ao senhor do lugar. Os burgueses e camponeses livres não podiam mais, salvo em alguns casos excepcionais, sair das terras dos seus senhores para invocar a justiça real.

Enfim, para os subsídios militares e o recrutamento de tropas, os barões retomavam uma espécie de independência que lhes permitia decidir se queriam ou não fazer a guerra nacional e quanto desejavam receber.

Marigny e Valois, por uma rara vez de acordo, tinham mandado escrever, no fim das cartas, uma fórmula vaga, concernente à suprema autoridade real e a tudo o que "por antigo costume pertencia ao soberano príncipe e a nenhum outro". Esta fórmula, por direito, teria permitido a um poder forte anular peça por peça tudo o que havia cedido. Em espírito e de fato eram todas as instituições do Rei de Ferro que se desmoronavam. Mas o Turbulento, inspirado por Valois, cada vez que lhe diziam "Filipe, o Belo" respondia "São Luís".

Marigny, que lutara até o fim para defender a obra de dezesseis anos de sua vida, anunciou naquele dia, deixando o Conselho, que se preparavam grandes desordens.

Ao mesmo tempo, decidiu-se que todos os prebostes, tesoureiros e recebedores seriam convocados para os meados de abril; expediram-se investigadores oficiais, que foram chamados "reformadores"; e como se procurava um lugar para a reunião, Carlos de Valois propôs Vincennes, em homenagem ao santo rei.

 

No dia marcado, Luís X, seus pares, seus barões, seu Conselho, os grandes oficiais da coroa e os membros da Câmara das Contas dirigiram-se, com grande equipagem, à mansão de Vincennes. Isso redundou numa bela cavalgada, que atraiu as pessoas para as portas, fazendo com que os garotos gritassem: "Viva o rei!" na esperança de receber um punhado de moedas. Espalhara-se o boato de que o rei julgaria os recebedores de impostos, e nada podia causar maior prazer ao povo. Aquele abril era suave, com nuvens ligeiras que corriam no céu acima das árvores da floresta. Um verdadeiro tempo de primavera inspirava novamente esperanças; se a miséria continuava a grassar, pelo menos o frio terminara, e dizia-se que a próxima colheita seria boa, se o gelo não queimasse os novos trigais.

A assembléia realizar-se-ia ao ar livre, nas proximidades da mansão real. Houve dificuldade em encontrar com exatidão o carvalho de São Luís, pois havia carvalhos espalhados por todos os lados. Uns duzentos recebedores, tesoureiros e prebostes estavam alinhados, a maior parte em bancos de madeira, e os outros no chão, sentados com as pernas cruzadas.

Sob um dossel bordado com as armas da França, o jovem rei, com a coroa na cabeça, cetro na mão, instalara-se sobre um faldistório, espécie de assento dobradiço sucessor do trono curul e que, desde as origens da monarquia francesa, servia de trono ao soberano quando ele estava em viagem. Os braços do faldistório de Luís X eram esculpidos com cabeças de galgos e o fundo guarnecido de um coxim de seda vermelha. Os pares e os barões instalaram-se de um lado e de outro do rei e, atrás das mesas com cavaletes, ficaram os membros da Câmara de Contas. Um após outro, os funcionários reais, apresentando seu registro, eram chamados, juntamente com os "reformadores", que haviam estado em suas circunscrições. Esse trabalho de verificação ameaçava ser muito enfadonho, e

Luís X, esforçando-se para ficar paciente, distraía-se contando os pombos torcazes que voavam das árvores.

Não foi necessário muito tempo para que se percebesse que as contas apresentavam, quase sempre, enormes desperdícios e vestígios de abusos e malversações, sobretudo nos últimos meses, sobretudo após a morte de Filipe, o Belo, e sobretudo depois que haviam solapado a autoridade de Marigny.

A agitação começava a nascer no meio dos barões e o medo, no meio dos funcionários. Quando chegou a vez dos prebostes e dos recebedores da região de Montfort-l’Amaury, Neauphle, Dourdan e Dreux, a cujo respeito Tolomei fornecera aos "reformadores" elementos mais precisos de acusação, houve, em volta do rei, um grande movimento de cólera. Porém, o mais indignado de todos os senhores, aquele que se mostrava mais furioso, era Marigny. Sua voz, de repente, cobriu todas as vozes, dirigindo-se a seus subordinados com uma violência que os fez baixar a cabeça. Exigia restituições, prometia castigos. De súbito, monseigneur de Valois, levantando-se, cortou-lhe a palavra:

— É muito bonito o papel que estais representando diante de nós, monseigneur Enguerrand — exclamou ele —, mas não adianta nada falar com veemência no nariz desses marotos, pois eles são apenas homens colocados por vós, devotados a vós, e tudo mostra que pactuastes com eles.

A esta declaração seguiu-se um silêncio tão profundo que se pôde ouvir um cachorro que ladrava no campo. O Turbulento olhou à esquerda e à direita; não esperava aquela investida.

Todos retinham a respiração, pois Marigny caminhava contra Carlos de Valois.

— Eu, monseigneur... — disse ele surdamente. — Eu, ousaste dizer tal coisa?... Se algum desses canalhas (ele designava, com a mão aberta, os recebedores), se algum desses maus servidores do reino pode vir afirmar em sã consciência e jurar sobre a fé que me subornou de alguma maneira, ou me entregou a mínima parcela de suas arrecadações, que se aproxime.

Então, empurrado pela grande pata de Roberto d'Artois, viu-se avançar, todo trêmulo, um homem de braços curtos, de rosto redondo, e que tinha um feio morango de carne no canto das sobrancelhas.

— Quem sois? O que tendes a dizer? Vindes procurar vossa corda? — perguntou Marigny.

Mestre Portefruit permaneceu calado. Entretanto, fora bem instruído, primeiramente por Guccio, depois pelo conde de Dreux, soberano de Montfort, e, enfim, por Roberto d'Artois, a cuja presença fora levado na antevéspera. Sal-var-lhe-iam a vida e mesmo os bens que juntara, desde que prestasse falso testemunho contra Marigny.

— Então, o que tendes a dizer? — perguntou Valois por sua vez. — Não temais confessar a verdade, pois nosso bem-amado rei está aqui para ouvir-vos e fazer justiça.

Portefruit pôs um joelho no chão diante de Luís X e, abrindo os braços, pronunciou, com voz fraca, difícil de ouvir:

— Sire, sou um grande culpado, mas fui a isto obrigado pelo secretário de monseigneur de Marigny, que me reclamava, todos os anos, um quarto da arrecadação, para a conta do seu senhor.

Marigny afastou, com o pé, o preboste de Montfort, que, cumprido seu infame papel, se apressou a desaparecer na multidão.

— Sire — disse Enguerrand —, não há uma palavra de verdade no que gaguejou esse homem; são apenas palavras ensinadas, ensinadas por quem? Sei muito bem. Que me acusem de haver depositado uma confiança imerecida em todos esses canalhas, cuja desonestidade acaba de vir à luz, que me acusem de não tê-los vigiado o suficiente e de não ter supliciado, na roda, uma boa dúzia deles, aceitarei a reprimenda, embora eu esteja impedido há quatro meses de agir contra eles. Mas que não me acusem de roubo. É a segunda vez, monseigneur de Valois, e desta vez não mais o tolerarei.

Voltando-se para o rei, em uma grande atitude dramática, o conde de Valois exclamou:

— Meu sobrinho, somos enganados por um homem iníquo que já permaneceu demais em nosso meio, e cujos crimes atraíram a maldição sobre nossa casa. É ele a causa das extorsões de que se queixam; foi ele que, subornado, conseguiu, com vergonha para o reino, obter muitas tréguas para os flamengos. Foi por isso que teu pai caiu em tal tristeza que morreu antes do tempo. Enguerrand foi a causa de sua morte. Por mim, estou pronto a provar que ele é um ladrão e que traiu o reino, e se não o mandares prender imediatamente, juro por Deus que não aparecerei mais em tua corte, nem em teu Conselho 20.

— Mentis descaradamente! — exclamou Marigny.

— Por Deus, vós é que mentis, Enguerrand — respondeu Valois.

Dito isso, saltou na garganta de Marigny, agarrou-o pela gola, e aqueles dois homens, aqueles dois búfalos, dos quais um era imperador de Constantinopla e outro possuía sua estátua entre os reis, vomitando injúrias, levantando em redor a poeira, começaram a brigar como dois malandros, diante de toda a corte e de toda a administração do país.

Os barões ergueram-se, os prebostes e recebedores recuaram, deixando cair os bancos num grande movimento de pavor. De repente, ouviu-se uma gargalhada. Era o Turbulento, que não conseguia desempenhar o papel de São Luís até o fim.

Indignado com essa risada, mais do que com o vergonhoso espetáculo que ofereciam os dois lutadores, Filipe de Poitiers avançou e, com uma força que não se esperava dele, separou os dois adversários e os manteve seguros pelos seus longos braços. Marigny e Valois ofegavam, o rosto vermelho, as vestes rasgadas.

— Meu tio — disse ele —, como ousas fazer isso? Marigny, controlai-vos, ordeno-vos! Ide para vossas casas e esperai que a calma vos volte!

A força e o poder que emanavam desse rapaz de vinte e um anos impuseram-se aos homens que tinham mais do dobro de sua idade.

— Ide-vos, Marigny — insistiu Filipe de Poitiers. — Bouville! Levai-o.

Marigny deixou-se levar por Bouville e abandonou a mansão de Vincennes. Todos se afastaram dele como se estivessem diante de um touro que se procura levar à arena.

Valois não saíra do lugar; tremia de fúria e repetia:

— Mandarei enforcá-lo; tão certo como eu estar vivo, mandarei enforcá-lo.

Luís X parará de rir. A intervenção do irmão acabava de infligir-lhe uma lição de autoridade. E depois percebeu, de repente, que se haviam aproveitado dele. Levantou-se, atirou o manto sobre os ombros e disse brutalmente a Valois:

— Meu tio, quero falar-te sem demora; acompanha-me.


O MERCADO DE POMBOS

— Meu tio, tu me asseguraste — gritava Luís, o Turbulento, andando nervosamente em uma das salas da mansão de Vincennes — que desta vez não se tratava de acusar Marigny, e o acusaste. É abusar muito de minha boa vontade!

Chegando ao fim da sala, voltou-se subitamente sobre si mesmo, e seu manto voou em volta, na altura da perna.

— Como, meu sobrinho, não deixar me levar pela cólera diante de tal vilania? — respondeu Carlos de Valois, ainda arquejante da luta, segurando os pedaços de sua gola rasgada.

Estava quase de boa fé, e persuadia-se, agora, de haver cedido a um impulso momentâneo, embora sua comédia estivesse decidida há dois meses.

— Sabes muito bem que eu preciso de um papa e não ignoras, também, que Marigny é o único que pode consegui-lo; Bouville no-lo disse, bem claramente — continuou o Turbulento.

— Bouville! Bouville! Acreditas apenas no que te relatou Bouville, que nada viu e nada compreende. O jovem lombardo que enviaram com ele, para vigiar o ouro, informou-me mais que o teu Bouville sobre os negócios de Avignon. Jamais Marigny arranjará o papa que desejas. Ao contrário, ele conhece teu desejo e levanta todos os obstáculos possíveis para que o conserves em seu lugar. Onde estarás esta noite?

— Decidi não sair daqui — respondeu Luís.

— Então, antes da noite, trarei algumas testemunhas que vão arrasar teu Marigny e penso que, então, acabarás por entregá-lo a mim.

Em seguida, Valois partiu para Paris, acompanhado por Roberto d'Artois e pelos escudeiros que lhe serviam de escolta habitual. Em caminho, cruzaram com as carruagens que levavam a Vincennes leitos, baús, mesas e baixelas para a instalação do rei durante a noite, pois, naquele tempo, os castelos reais não eram mobiliados permanentemente, ou eram-no pobremente, e tornava-se preciso levar o necessário, que um bando de tapeceiros arrumava em duas horas.

Uma hora mais tarde, enquanto Valois mudava de roupa, Roberto d'Artois irrompia na casa de Tolomei.

— Amigo banqueiro — disse o gigante —, chegou o momento de me entregardes o documento de que me falastes, que prova o roubo dos bens dos templários, feito pelo arcebispo Marigny. Monseigneur de Valois tem necessidade dele neste momento.

— Muito bem, muito bem, monseigneur Roberto. Pedis para me desfazer de uma arma que, uma vez, já salvou a minha vida e a de meus amigos. Se ela vos fornece meios para abater Marigny, estou satisfeito, mas se, por infelicidade, Marigny vencer a parada, sou um homem morto. E depois, refleti melhor, monseigneur...

Roberto impacientava-se durante esse tempo, pois Valois lhe pedira pressa e ele sabia o preço de cada minuto perdido; mas sabia, também, que nada conseguiria se tratasse Tolomei com rispidez.

— Sim, refleti melhor — continuou este último. — Os bons costumes de São Luís, que estão sendo revigorados,, são excelentes para o reino; mas eu gostaria que fossem esquecidos os decretos que expulsaram de Paris todos os lombardos. Meus amigos fizeram-me notar isso e eu desejava estar seguro de que continuaremos em paz.

— Mas, vejamos, monseigneur de Valois deu-vos a sua palavra; ele vos mantém e vos protege!

— Sim, sim, em boas palavras, mas gostaríamos que tudo isso fosse escrito. As companhias lombardas, das quais sou o capitão-geral, como sabeis, preparam respeitosamente uma petição ao rei, para confirmar nossos privilégios costumeiros; e quando o rei assinar todas as licenças que lhe apresentarem, gostaríamos bastante que ele assinasse a nossa também. Depois do que, com muito prazer, monseigneur, eu vos entregarei aquele que podereis enforcar, queimar ou supliciar na roda, como os senhores quiserem, Marigny, o jovem, ou Marigny, o velho, ou os dois, ao mesmo tempo.

D'Artois deu um murro na mesa e tudo tremeu na sala:

— Desta vez estais abusando, Tolomei — gritou. — Disse-vos que não podemos esperar. Dai-me essa petição e prometo que ela será despachada; mas dai-me, também, o outro pergaminho. Estamos na mesma canoa e é preciso que, ao menos uma vez, tenhais confiança em mim.

Tolomei, com as mãos cruzadas sobre o ventre, suspirou:

— Às vezes — disse — há riscos que temos necessidade de correr; mas, realmente, monseigneur, eu não gosto disso.

E entregou ao conde d'Artois, com a petição dos lombardos, o estojo de chumbo que Guccio trouxera de Cressay. Depois, tomou-se de medo; ficaria doente por vários dias.

Uma hora depois, no Palácio Episcopal, que se achava bem ao lado de Notre-Dame, os condes de Valois e d'Artois faziam uma entrada estrondosa na residência do arcebispo João de Marigny.

Numa das salas de audiência, de teto em abóbada, perfumada de incenso, o jovem prelado estendeu-lhes o anel para que o beijassem. Valois fingiu não notar o gesto e d'Artois levantou até os lábios os dedos do arcebispo, com tal impudência, que parecia querer atirar aquela mão por cima de seus ombros.

— Monsenhor João — disse Carlos de Valois —, precisais dizer-nos, enfim, por que meio vós e vosso irmão vos opondes, tão fortemente, à eleição do cardeal Duèze, em Avignon, de tal maneira que esse conclave se assemelhe a uma reunião de fantasmas.

— Mas eu nada tenho a ver com isso, monseigneur, nada — respondeu João de Marigny empalidecendo um pouco, mas guardando um tom cheio de unção. — Meu irmão agiu da melhor maneira, estou certo, para ajudar o rei, e eu mesmo o sirvo tanto quanto posso, embora o conclave dependa dos cardeais e não da nossa vontade.

— Pois bem! — exclamou d'Artois — se é assim, já que a cristandade pode viver sem papa, a arquidiocese de Sens e de Paris também poderia quiçá viver sem arcebispo.

— Não compreendo essas palavras, monseigneur Roberto — disse João de Marigny —, a não ser que elas representam uma ameaça contra um ministro de Deus.

— Foi Deus, por acaso, senhor arcebispo, que vos mandou desviar certos bens dos templários que deviam ir para o Tesouro? E julgais que o rei, que também é o representante de Deus na terra, possa tolerar na cadeira arquiepiscopal de sua cidade principal um prelado desonesto? Reconheceis isto? — terminou d'Artois, pondo-lhe sob o nariz o documento confiado por Tolomei.

— É falso — replicou o arcebispo.

— Se é falso — replicou Roberto d'Artois —, apressemo-nos, então, em fazer brilhar a justiça. Movei um processo perante o rei, para que se descubra o falsário!

— A majestade da Igreja nada teria a ganhar...

—... e vós, tudo a perder, acredito, monsenhor.

O arcebispo sentara-se em uma grande cátedra e olhava as paredes como se procurasse uma saída. Fora apanhado e sentia a força abandoná-lo. "Eles não recuarão diante de nada", pensava. "Por duas mil libras, das quais tive necessidade, é verdadeiramente uma pena." Estava banhado em suor sob a sotaina violeta e via toda sua vida desmoronar-se por um ato antigo, de mais de um ano, e cujas vantagens já haviam desaparecido.

— Monsenhor João — disse então Carlos de Valois —, sois ainda muito jovem e tendes um grande futuro pela frente, tanto nos negócios da Igreja, como nos do reino. O que fizestes (ele tomou o pergaminho das mãos de Roberto d'Artois) é um erro bem desculpável numa época em que toda a moral se desfaz, e só agistes, acredito, devido aos maus exemplos. Seria bastante penoso que esta falta, que é apenas monetária, apagasse o brilho de vossa dignidade ou abreviasse vossos dias. Pois se, por infelicidade, este documento fosse parar nas mãos do rei, embora todos ficássemos condoídos, isso vos conduziria ao convento... ou à fogueira. Penso, monsenhor, que agis muito mais contra o reino apoiando as manobras de vosso irmão contra o rei. Se consentirdes em denunciar esse segundo erro, esqueceremos o primeiro.

— O que devo fazer? — perguntou o arcebispo.

— Abandonai o partido de vosso irmão, que não vale mais nada — disse Valois —, e ide denunciar ao rei tudo o que sabeis a respeito das ordens que vos foram dadas com relação ao conclave.

O prelado era de caráter fraco. Tudo o que era, devia-o ao irmão; tinham-lhe dado uma mitra e a mais importante sé episcopal da França para que ele condenasse os templários, quando a maioria dos bispos se recusava a julgá-los. Mas tinha perdido a cabeça no átrio de Notre-Dame no dia da execução de Tiago de Molay. Era forte apenas nos dias comuns e covarde nas horas difíceis. O medo nem lhe deu tempo de pensar no irmão, a quem devia tudo; só pensou em si mesmo e, sem dificuldade, assumiu o papel de Caim que lhe fora reservado desde seu nascimento. Sua traição assegurar-lhe-ia uma longa vida de honrarias sob quatro reis sucessivos.

— Esclarecestes minha consciência — disse ele — e estou pronto, monseigneur de Valois, a resgatar meu erro no sentido que me indicardes. Gostaria, apenas, que esse pergaminho me fosse devolvido.

— Com muito prazer — disse o conde de Valois, entregando-lhe o documento. — Basta que o conde d'Artois e eu o tenhamos visto; nosso testemunho vale em todo o reino. Acompanhai-nos, agora, a Vincennes; um cavalo espera-vos.

O arcebispo pediu a capa, as luvas bordadas e seu capuz e desceu, lentamente, majestosamente, precedendo aos dois barões.

— Nunca vi — murmurou d'Artois a Valois — homem algum humilhar-se com tanta arrogância.

Cada rei, cada homem tem seus prazeres, que, mais que qualquer outro ato, revelam as tendências profundas de sua natureza. O rei Luís X não era nada inclinado à caça, nem aos jogos de armas e nem aos torneios. Gostava, desde a infância, do jogo da pela, que se jogava com bolas de couro; mas, sobretudo, sentia prazer, quando estava no campo, em instalar-se numa granja, com um arco nas mãos, e atirar ao acaso em algumas pombas que um escudeiro deixava escapar, de uma cesta, uma depois da outra.

Estava ocupado com esse prazer cruel, quando o tio e o primo trouxeram-lhe o arcebispo. O chão estava sujo de penas e gotas de sangue. Uma pomba, presa a uma viga, pela asa, debatia-se e arrulhava, aflita; outras, mais atingidas, jaziam por terra, com suas patas finas recurvadas e contraídas sobre o ventre. O Turbulento soltava uma exclamação de alegria sempre que uma das flechas atingia sua vítima.

— Mais uma! — dizia ao escudeiro, que levantava, então, a tampa do cesto.

O pássaro, volteando sobre si mesmo, ganhava altura; Luís puxava o arco e, se a flecha não atingia o alvo, indo quebrar-se num muro, indignava-se contra a falta de habilidade do escudeiro, que soltara a pomba em momento inoportuno.

— Meu sobrinho — disse Carlos de Valois —, tu me pareces hoje mais destro do que nunca, mas se quiseres, por um instante, deixar tuas proezas, poderei entreter-te com as coisas bem graves de que já te falei.

— O que há ainda? — perguntou o Turbulento com impaciência.

Estava suado e agitado, por causa do jogo. Ao ver o arcebispo fez sinal ao escudeiro para afastar-se.

— Então, Eminência, é verdade que estais me impedindo de ter um papa?

— Ai de mim! Sire — disse João de Marigny —, venho revelar-vos certas coisas que pensava serem mandadas por vós, mas que soube, com tristeza, serem contrárias ao vosso desejo.

Dito isso, com o ar da melhor boa fé do mundo e uma ênfase untuosa na voz, relatou ao rei todas as manobras de Enguerrand de Marigny para impedir a reunião do conclave e arranjar obstáculos à eleição de Tiago Duèze.

— Por mais duro que seja, sire — terminou ele —, ser obrigado a denunciar-vos os maus atos de meu irmão, é-me mais duro, ainda, vê-lo agir contra o bem do reino. Não o considero de minha família, pois um homem nas minhas condições não tem verdadeira família senão em Deus e em seu rei.

"O malandro daqui a pouco vai nos arrancar lágrimas", pensava d'Artois. "Realmente, esse patife sabe manejar a língua!"

Uma pomba esquecida tinha pousado sobre o rebordo de uma ogiva. O Turbulento disparou uma flecha que, atravessando a ave, foi quebrar a vidraça.

— E então, em que pé estamos agora? — berrou, voltando-se bruscamente.

Roberto d'Artois afastou-se depressa com o arcebispo e Valois permaneceu só com o rei.

— Sim, onde estamos? — repetiu este. — Sou traído por todos os lados; o que me prometem, não cumprem. Estamos em meados de abril, o verão daqui a seis semanas está aí e tu te lembras, tio, de que a senhora da Hungria disse: "Antes do verão". Daqui a seis semanas, tu me arranjarás um papa?

— Honestamente, não creio mais, meu sobrinho.

— Então, então, vê bem! O que será de mim?

— Desde o inverno passado venho te aconselhando a te desembaraçares de Marigny.

— Mas, visto que não se procedeu assim, não seria melhor chamar Marigny, repreendê-lo, ameaçá-lo e dar-lhe ordem para mudar de idéia? Não é ele o único de que podemos servir-nos?

Tão afobado quanto cabeçudo, o Turbulento voltava sempre a Marigny, como a única solução possível. Pusera-se a andar a grandes passos desordenados através da granja; penas brancas grudavam-se aos seus sapatos.

— Meu sobrinho — disse de súbito Carlos de Valois —, por duas vezes na vida fiquei viúvo de mulheres admiráveis. É realmente uma grande injustiça que não o sejas de uma mulher desavergonhada.

— Ah! sim! — exclamou o Turbulento. — Ah! sim! Se Margarida pudesse simplesmente morrer...

De repente parou de andar, olhou o tio, e os dois homens permaneceram imóveis por um instante, olhando-se nos olhos.

— O inverno foi frio, as prisões são péssimas para a saúde das mulheres — recomeçou Carlos de Valois —, e há muito tempo que Marigny não nos informa do estado de Margarida. Espanto-me de que ela tenha podido suportar o regime que lhe impuseram... É possível que Marigny oculte a que ponto ela está doente e como está perto de seu fim?

Fez-se novamente silêncio entre eles. As palavras de Valois correspondiam aos desejos mais secretos do Turbulento; mas jamais seria o primeiro a exprimi-los. Um cúmplice oferecia-se para desobrigá-lo de tudo, mesmo de falar, mesmo de querer.

— Tu me garantiste, meu sobrinho, que me entrega-rias Marigny no dia em que tivesses um papa — disse Valois.

— Posso dá-lo também, meu tio, no dia em que ficar viúvo — respondeu o Turbulento.

Valois passou as mãos cheias de anéis nas largas faces e disse a meia voz:

— Seria necessário dar-me Marigny primeiro, pois ele comanda todas as fortalezas e impede a entrada no Castelo Gaillard.

— Está bem — respondeu Luís X. — Tiro minhas mãos de cima dele. Poderás dizer ao chanceler de Mornay para me apresentar todas as ordens que julgares boas.

 

Nessa mesma noite, depois do jantar, enquanto Enguerrand de Marigny preparava, sozinho, o memorial que esperava remeter ao rei, solicitando o direito de desafio, isto é, o direito de provocar para combate singular toda pessoa que ousasse sustentar ser ele traidor, ou perjuro, Hugo de Bouville apareceu em sua casa. O antigo primeiro camareiro de Filipe, o Belo, parecia debater-se entre sentimentos contrários, e sua missão pesava-lhe.

— Enguerrand — disse ele —, não durmas em casa esta noite, pois querem prender-te; sei disso, tenho a certeza.

Voltara a tratar Marigny por tu, como no tempo em que seu velho companheiro iniciara sua carreira como escudeiro.

— Eles não ousarão — respondeu Marigny. — E quem viria prender-me? Alain de Pareilles? Jamais Alain aceitaria tal ordem. Pelo contrário: preferiria sustentar um sítio em minha casa, com seus arqueiros, a deixar que toquem em um só de meu cabelos.

— Fazes mal em não acreditar em mim, Enguerrand, fizeste mal, também, garanto-te, em agir como agiste nestes últimos meses. Quando ocupamos os lugares em que estamos, trabalhar contra o rei, seja ele quem for, é trabalhar contra nós mesmos. E eu também estou, neste momento, trabalhando contra o rei, pela amizade que tenho por ti e porque desejo salvar-te.

O gorducho estava sinceramente comovido. Era tocante a sua boa vontade. Servidor leal do soberano, amigo fiel, dignitário íntegro, respeitoso das leis de Deus e das leis do reino, como explicar que, animado por sentimentos tão honestos, sua voz tivesse tão pouca força?

— O que acabo de te dizer, Enguerrand — prosseguiu —, soube-o por monseigneur Filipe de Poitiers, que é, no momento, teu único sustentáculo. Monseigneur de Poitiers gostaria de afastar de ti a cólera que ergueste entre os barões. Aconselhou o irmão a mandar-te governar alguma terra longínqua, Chipre, por exemplo.

— Chipre?!... — exclamou Marigny. — Deixar-me encerrar naquela ilha nos confins do mar, eu que mandei no reino da França? É lá que querem exilar-me? Continuarei a andar como senhor nas terras de Paris, ou então morrerei.

Bouville sacudiu tristemente os cabelos grisalhos.

— Crê em mim — repetiu. — Não durmas esta noite em casa. Aconteça o que acontecer, não terei de censurar-me por não te haver prevenido.

Assim que Bouville se retirou, Enguerrand foi contar a novidade à esposa e à cunhada, a senhora de Chanteloup. As duas mulheres também pensavam ser prudente, no momento, que ele se retirasse para uma de suas propriedades normandas e depois, de lá, se o perigo aumentasse, se dirigisse a um porto e se refugiasse junto ao rei da Inglaterra, que estava inteiramente a seu lado.

— Estou, então, rodeado apenas por fêmeas e por castrados! — exclamou.

Depois, foi deitar-se como nas outras noites. Acariciou seu cachorro favorito, fez-se despir por seu camareiro e observou-o tirar o pêndulo do relógio, objeto ainda pouco usado e que ele havia adquirido por um preço bem alto. Por um momento imaginou as últimas frases de seu memorial, que esperava terminar no dia seguinte, pela manhã; aproximou-se da janela, afastou as cortinas e contemplou os telhados da cidade às escuras. Os sargentos da guarda passavam na Rue des Fossés-Saint-Germain, repetindo, a cada vinte passos, a sua frase maquinai:

— É a guarda!... Meia-noite... Durmam em paz!... Como sempre, estavam com um atraso de um quarto de hora em relação ao relógio...

Pela madrugada, Enguerrand foi acordado por um grande barulho de botas no pátio e por batidas na porta. Um escudeiro afobado apareceu para avisá-lo de que os arqueiros estavam embaixo. Ele pediu suas roupas, vestiu-se às pressas e, no patamar, encontrou-se com a mulher e o filho, que tinham acorrido.

— Tinhas razão, Joana — disse ele à esposa, beijando-a na fronte. — Nunca te escutei em minha vida. Vai embora hoje mesmo com Luís.

— Eu só iria contigo, Enguerrand. Mas, agora, não poderei me afastar do lugar em que te farão sofrer.

— O rei Luís é meu padrinho — disse Luís de Marigny; — vou imediatamente para Vincennes...

— Teu padrinho é uma pobre cabeça e sua coroa balança um pouco sobre ela — respondeu Marigny, encolerizado.

Depois, como fazia sombra na escada, exclamou:

— Onde estão os criados? Luz! Iluminem-me!

E quando os servidores apareceram, ele fez, entre os archotes, uma descida de rei.

O pátio estava cheio de soldados. No enquadramento da porta, uma alta silhueta em cota de malhas se recortava na manhã cinzenta.

— Como aceitaste, Pareilles?... Como ousaste? — perguntou Marigny afastando as mãos.

— Eu não sou Alain de Pareilles — respondeu o oficial. — Messire de Pareilles não comanda mais os arqueiros.

Afastou-se para deixar passar um homem esbelto, com um capuz escuro, que era o chanceler Estêvão de Mornay. Como Nogaret, oito anos antes, fora, em pessoa, prender o grão-mestre dos templários, Mornay viera pessoalmente, hoje, aprisionar o dirigente do reino.

— Messire Enguerrand — disse —, peço-vos que me acompanheis ao Louvre, onde tenho ordens de vos deter.

Na mesma hora, a maioria dos grandes legistas burgueses do reinado precedente, Raul de Presles, Miguel de Bourdenai, Guilherme Dubois, Godofredo de Briançon, Nicolau Le Loquetier, Pedro d'Orgemont, eram presos em suas casas e conduzidos a diversas prisões, alguns para serem submetidos a tortura, enquanto um destacamento era expedido para Châlons a fim de encarcerar o bispo Pedro de Latille, o amigo de infância de Filipe, o Belo, a quem este, em seus últimos instantes, tanto chamara.

Com eles era todo o reinado do Rei de Ferro que entrava para a prisão.


A NOITE SEM AURORA

Quando, em plena noite, Margarida da Borgonha ouviu abaixarem a ponte levadiça do Castelo Gaillard e passos de cavalos ressoarem nos pátios, não acreditou, a princípio, que esses sons fossem reais. Tanto havia esperado, tanto havia sonhado com esse instante, desde o momento em que, pela carta endereçada ao conde d'Artois, aceitara o seu afastamento e consentira na extinção de todos os seus direitos, dela própria assim como de sua filha, em troca de uma liberdade prometida e que não chegava nunca!

Dez semanas tinham-se passado, dez semanas de um silêncio mais destruidor que a fome, mais acabrunhante que o frio, mais degradante que a verminose, mais triste que a solidão. O desespero entrara na alma de Margarida, insinuara-se em seus nervos, agarrara-se ao seu corpo. Nos últimos dias ela não saía do leito, tomada de uma febre que a mantinha com a consciência perturbada. Seus únicos gestos eram para tomar a vasilha de água pousada no solo, ao seu lado, e elevá-la até os lábios. Com os olhos esbugalhados nas trevas da torre, passava horas a ouvir o coração pulsar com batidas muito rápidas; e depois, se a febre acalmava um pouco, se algum súbito frescor lhe vinha à fronte, se seu coração retomava ritmo mais suave, erguia-se bruscamente, aos gritos, com a impressão terrível de estar prestes a morrer. O silêncio povoava-se de rumores inexistentes; a sombra era invadida de ameaças trágicas que vinham, não mais da terra, mas do outro mundo. O delírio das insônias desorganizava-lhe a razão... Filipe d'Aunay, o belo Filipe, não morrera realmente; ele caminhava, com as pernas quebradas, ventre sangrando, ao lado dela; ela estendia-lhe os braços, mas não podia agarrá-lo. No entanto, ele a arrastava, sem que ela se movesse, pelo trajeto que vai da terra ao céu, sem sentir mais a terra, e sem jamais ver Deus. E esta marcha atroz duraria até a eternidade, até o julgamento final; era lá talvez, afinal de contas, o purgatório.

— Branca! — gritou ela. — Branca! Eles estão chegando!

As correntes, as fechaduras, as portas rangiam de verdade embaixo, na torre; passos numerosos subiam os degraus de pedra.

— Branca! Estás ouvindo?

Porém a voz enfraquecida de Margarida não chegava até a prima, através da espessa divisão que, à noite, separava os dois cômodos da prisão.

A luz de uma única vela cegou a rainha prisioneira. Alguns homens se comprimiam no batente da porta, de tal modo que Margarida não pôde reconhecê-los; ela via apenas o gigante de manto vermelho, de olhos claros e punhal de prata, que avançava para ela.

— Roberto! — murmurou. — Roberto, afinal chegaste!

Atrás do conde d'Artois, um soldado levava, sobre a cabeça, um banco, que colocou ao lado do leito de Margarida.

— Então, minha prima, então — disse Roberto, sentando-se. — Tua saúde não me parece muito boa, pelo que me dizem e pelo que vejo. Estás sofrendo...

—... sofro muito — disse Margarida —, nem sei se vivo.

— Era tempo de eu chegar. Tudo acabará logo, verás. Tenho uma boa notícia para ti: nossos inimigos estão derrotados. Estás em condição de escrever?

— Não sei — respondeu Margarida.

D'Artois, fazendo aproximar a vela, observou atentamente o rosto desfeito, ressequido, os lábios afinados, os olhos negros desusadamente brilhantes e encovados, os cabelos colados pela febre à testa arqueada.

— Podes, pelo menos, ditar a carta que o rei espera. Capelão! — chamou ele, estalando os dedos.

Uma batina branca e uma cabeça grande, rapada e azulada, saíram da sombra.

— O casamento foi anulado? — perguntou Margarida.

— Como o seria, minha prima, se recusaste o que te pediam?

— Eu não recusei — disse ela. — Eu aceitei... Eu aceitei tudo. Eu não sei de nada. Eu não compreendo mais.

— Tragam uma jarra de vinho para reanimá-la — disse d'Artois, virando a cabeça.

Ouviram passos distanciarem-se do quarto, na escada.

— Faze um esforço, minha prima — retornou d'Artois. — É agora o momento de aceitar o que vou ditar-te.

— Mas eu te escrevi, Roberto, escrevi para que dissesses a Luís... tudo aquilo que me ordenou... que minha filha não era dele...

O mundo exterior vacilava ao seu redor.

— Quando? — perguntou Roberto.

— Mas há dez semanas... há dez semanas que espero que me libertes.

— A quem deste essa carta?

— Vejamos... a Bersumée.

E repentinamente Margarida, aflita, pensou: "Teria eu realmente escrito? É horrível, não sei mais... não sei mais nada".

— Pergunta a Branca — murmurou ela.

Nesse momento, porém, houve um grande barulho perto dela; Roberto d'Artois tinha-se erguido, agarrou alguém ao seu alcance, o qual, sacudido pela gola, estava soltando um enorme grito. Como tais gritos feriam os ouvidos de Margarida, e lhe ressoavam no crânio!

— Mas eu, monseigneur... eu mesmo levei-a — respondia a voz perturbada de Bersumée.

— Onde a entregaste? A quem?

— Soltai-me, monseigneur, soltai-me, estais me enforcando. Dei a carta a messire de Marigny. Eram ordens.

Ouviu-se o ruído surdo de um corpo batendo contra a parede.

— E eu me chamo Marigny? Quando te encarregam de dar um recado para mim é a outro que deves levá-lo?

— Ele garantiu, monseigneur, que a daria a vós...

— Contigo, meu velho, saldarei a conta mais tarde — disse d'Artois.

Em seguida, voltando-se para Margarida:

— Nunca recebi tua carta, minha prima; Marigny guardou-a.

— Ah! bem — disse ela.

Sentia-se agora quase segura. Pelo menos sabia que tinha escrito.

Nesse momento, o sargento Lalaine entrou, trazendo a jarra de vinho pedido. Roberto d'Artois observava Margarida beber.

"Afinal, se eu tivesse trazido veneno", pensou ele, "teria sido, provavelmente, mais fácil; foi tolice não ter pensado nisto... Então, ela aceitou... É pena... pena que eu não tivesse sabido. Agora é tarde demais; e depois, de qualquer maneira, no estado em que se encontra, não lhe restam muitos dias de vida."

Sentia-se preocupado e quase triste. Não tinha mais lutas a enfrentar. Estava ali, pesado, sentado com as mãos pousadas nas coxas, cercado de soldados armados até os dentes, diante do catre em que jazia uma jovem mulher esgotada. Como a havia detestado enquanto ela fora rainha de Navarra e pretendente ao trono da França! O que não fizera para desgraçá-la, multiplicando viagens, intrigas e despesas, unindo contra ela as cortes da Inglaterra e da França! Odiara-a quando ela fora forte; desejara-a, enquanto fora bela. Ainda no último inverno, o possante barão que ele era tinha sido dominado pela miserável prisioneira em que ela se transformara. Atualmente, o conde d'Artois sentia-se levado, pelo triunfo, mais longe do que realmente queria ir. A missão de que Valois o havia encarregado, pois não poderia confiá-la a mais ninguém, desagradava-lhe bastante. Não sentia piedade, somente uma espécie de indiferença desgostosa, de amargo abandono. Tantos meios mobilizados contra um corpo que não tinha mais defesa, emagrecido e doente! O ódio, em Roberto, estava morto, pois já não tinha objetivo à altura de suas forças.

Sim, ele realmente sentia, sinceramente, que a carta subtraída por Marigny não lhe tivesse sido entregue. Ter-se-ia enclausurado Margarida num convento... Paciência; era muito tarde; os destinos estavam lançados e deviam continuar até o fim.

— Vês, minha prima — disse ele —, como Marigny era teu inimigo e como ele manobrou contra ti desde o começo? Sem ele não terias, jamais, sido acusada, nem Luís, teu esposo, ter-te-ia tratado dessa forma. Marigny tudo fez, desde que Luís é rei, para manter-te aqui, como tudo fez para a perda do reino. Hoje, porém, fica sabendo, esse canalha está preso e eu acabo de recolher tuas queixas contra ele, a fim de apressar de uma vez a justiça do rei e seu perdão.

— O que devo declarar? — perguntou Margarida. Levou a mão à garganta, pois o vinho, que acabara

de beber, fazia o coração bater mais depressa ainda e parecia-lhe que o peito iria estourar.

— Eu vou ditar por ti ao capelão — disse Roberto. — Conheço as palavras que devem ser empregadas.

O capelão sentou-se no chão, com a prancheta de escrever apoiada nos joelhos; a vela pousada ao seu lado iluminava de baixo os três rostos.

— "Sire, meu esposo" — começou Roberto, lentamente, porque se esforçava para nada esquecer do texto estabelecido por Carlos de Valois —, "morro de doença e de tristeza. Suplico-vos dar-me perdão, pois se não o fizerdes depressa sinto que tenho bem pouco tempo de vida e que minha alma vai deixar-me. Tudo é culpa de monseigneur de Marigny, que me quis perder em vossa estima e na do falecido rei, por denúncias cuja falsidade eu asseguro, e que fez, por odioso tratamento..."

— Um momento, monseigneur — pediu o capelão, que tomara a raspadeira para raspar uma aspereza do pergaminho.

— "... reduzir-me" — continuou Roberto — "à miséria em que me encontro. Tudo proveio desse homem perverso. Suplico-vos ainda salvar-me do estado em que me encontro e vos asseguro que jamais deixei de ser vossa esposa obediente na vontade de Deus."

Margarida soergueu-se um pouco no catre. Não compreendia por que enorme contradição queriam, agora, depois de um ano de prisão, fazê-la passar por inocente.

— Mas então, meu primo, mas então — perguntou ela — as confissões que me pediram...

— Não são mais necessárias, minha prima — respondeu Roberto —, e isto que vais assinar agora substituirá tudo.

O que era necessário a Carlos de Valois, no momento, era recolher, contra Enguerrand, todos os falsos testemunhos possíveis. Este era de porte, pois tinha a vantagem de limpar, pelo menos na aparência, a desonra do rei, e sobretudo de fazer anunciar, pela rainha, sua própria morte. Em verdade, messire de Valois era um homem de imaginação!

— E Branca? — perguntou ela. — Que lhe sucederá em tudo isso? Pensaram em Branca?

— Não te inquietes — disse Roberto. — Tudo será feito por ela.

E Margarida assinou o pergaminho.

Roberto d'Artois, então, levantou-se e inclinou-se sobre ela. Os outros, a um gesto seu, recuaram para o fundo do aposento. O gigante pousou as mãos sobre as espáduas de Margarida, bem perto da garganta.

Ao contato daquelas largas palmas, Margarida sentiu um calor calmante descer-lhe pelo corpo. Colocou as mãos descarnadas sobre os dedos de Roberto, como se temesse que ele os retirasse depressa demais.

— Adeus, minha prima — disse ele. — Adeus. Um bom repouso para ti.

— Roberto — perguntou ela em voz baixa, procurando o seu olhar —, na outra vez que vieste e quiseste possuir-me, desejavas-me realmente?

Nenhum homem é completamente mau; o conde d'Artois teve, nesse momento, uma das raras palavras de piedade que jamais saíram de seus lábios:

— Sim, minha bela prima, eu te amei.

E ele sentiu que ela se relaxava sob suas mãos, calma, quase feliz. Ser amada, ser desejada tinha sido a verdadeira razão de viver dessa rainha, bem mais que as coroas e as dignidades.

Ela olhou, com uma espécie de reconhecimento, o primo distanciar-se, ao mesmo tempo que a luz; ele lhe parecia irreal, tão grande era, e fazia pensar, nessa penumbra onde se recolhia, nos heróis invencíveis das distantes lendas da Távola Redonda.

A batina branca do dominicano, o chapéu de ferro de

Bersumée desapareciam diante de Roberto, que empurrava todos à sua frente. Permaneceu um instante na soleira, como se experimentasse uma ligeira hesitação, como se tivesse ainda alguma coisa para dizer. Depois a porta fechou-se, a obscuridade voltou totalmente e Margarida, maravilhada, não ouviu o habitual ruído dos ferrolhos. Portanto, não a aferrolhavam mais, e este gesto de omissão, pela primeira vez após trezentos e cinqüenta dias, era como a promessa da liberdade.

No dia seguinte, deixa-la-iam descer, e passear à vontade pelo Castelo Gaillard; e, logo depois, uma liteira viria buscá-la e levá-la por entre as árvores, as cidades e os homens. "Poderei pôr-me de pé?", perguntava a si mesma. "Terei forças? Oh! sim, a força voltará!"

Seus braços ardiam, mas ela sararia, sabia que sararia. Sabia, também, que não poderia dormir o resto da noite. Mas tinha tanta esperança para fazer-lhe companhia até a aurora!

De repente, percebeu um ruído ínfimo. Não era bem um ruído, mas essa espécie de ofegar no silêncio produzido pelo hálito de um ser vivo. Havia alguém no quarto.

— Branca! — gritou ela. — És tu?

Talvez tivessem desaferrolhado também a fechadura entre os dois andares. E, no entanto, não ouvira nenhum gonzo ranger. E por que a prima teria tomado tanta precaução para aproximar-se? A menos que... Mas não, Branca não teria enlouquecido a tal ponto, subitamente. Ela parecia mesmo melhor nos últimos dias, desde que a primavera chegara.

— Branca! — repetiu Margarida, com voz angustiada.

O silêncio voltou e Margarida, por um momento, acreditou que era sua febre que criava, no escuro, aquelas presenças. Um instante depois, porém, ouviu novamente o mesmo sopro retido, mais perto, e um ligeiro roçar pelo solo, como o que produzem as unhas de um cão. Alguém respirava ao seu lado. Seria de fato um cão, talvez o cão de Bersumée, que houvesse entrado com ele, e que teriam esquecido lá; ou talvez ratos... os ratos com seus passinhos de homem, seu roçamento, seus grupos atarefados, sua maneira estranha de, à noite, realizarem tarefas misteriosas. Haviam aparecido ratos várias vezes na torre, e justamente o cão de Bersumée os havia matado. Não se ouve, porém, a respiração dos ratos.

Ergueu-se bruscamente sobre o leito, o coração precipitado; percebeu um raspar de ferro contra a pedra da parede. Com os olhos abertos em desespero, interrogava as trevas ao redor. Era à esquerda. Vinha da esquerda.

— Quem está aí? — gritou.

Novamente o silêncio. Ela, agora, porém, tinha certeza de não estar só. Retinha também a respiração. Uma angústia, como não havia jamais sentido, dominava-a. Iria morrer dali a minutos, tinha certeza absoluta, e, ainda pior talvez que a angústia de morrer, era a angústia de não saber como iria morrer, nem em que lugar seu corpo seria atingido, nem qual era a presença invisível que se aproximava dela, esgueirando-se pela parede.

Uma massa redonda caiu subitamente contra o leito. Margarida soltou um uivo que Branca da Borgonha, no andar superior, ouviu através da noite, e do qual jamais se esqueceria. O grito foi cortado rapidamente pelo pano que acabava de ser aplicado à boca de Margarida. Duas mãos tinham dominado a rainha da França e torciam o pano ao redor de sua garganta.

Com a cabeça apoiada a um largo peito de homem, os braços batendo no ar e todo o corpo torcendo-se para tentar livrar-se, Margarida resfolegava com um som abafado. O pano que lhe prendia o pescoço apertava-se como um colar de chumbo fervente. Ela perdia a respiração. Seus olhos encheram-se de fogo; enormes sinos de bronze puseram-se a bater em suas têmporas. O matador, porém, tinha uma prática especial; a corda dos sinos quebrou bruscamente com um grande ruído de vértebras e Margarida caiu no abismo escuro, sem paredes e sem fim.

Alguns minutos após, no pátio do Castelo Gaillard, Roberto d'Artois, que, enquanto esperava, bebia um copo de vinho e fingia dar ordens, viu seu criado Lormet aproximar-se de seu cavalo, como se apertasse a cilha.

— Está feito, monseigneur — murmurou Lormet.

— Nenhum vestígio? — perguntou Roberto em voz baixa.

— Nada, monseigneur. Coloquei tudo no lugar.

— Não deve ter sido fácil, sem luz.

— Sabeis que eu enxergo de noite, monseigneur. D'Artois, depois de montar, fez sinal a Bersumée para que se aproximasse.

— Encontrei a senhora Margarida bem mal — disse ele. — Receio, em vista de seu estado, que ela não passe desta semana, talvez nem mesmo de amanhã. Se ela morrer, corre a Paris, a galope, e apresenta-te diretamente a messire de Valois, para lhe comunicar a notícia... a messire de Valois, ouve bem. Procura, desta vez, não trocar o endereço. Nada de palavras inúteis; não tentes pensar; ninguém te pede isso. E lembra-te de que o teu monseigneur de Marigny está preso, e que poderia haver um lugar para ti no mesmo patíbulo.

A aurora começava a nascer ao longo da floresta dos Andelys, sublinhando, com tênue claridade, entre o cinza e o rosa, o horizonte das árvores. Embaixo, no Castelo Gaillard, o rio brilhava fracamente.

Roberto d'Artois, descendo pela escarpa, sentia sob si os movimentos regulares do dorso do cavalo, e seus flancos quentes que fremiam contra suas botas. Encheu os pulmões com grande golfada de ar matinal.

— É sempre bom estar vivo — murmurou ele.

— Sim, monseigneur, é bom — respondeu Lormet. — Certamente vai fazer um belo dia de sol.


MANHÃ DE MORTE

Apesar da estreiteza do respiradouro, Marigny podia ver, por entre as grossas barras presas em cruz na pedra, o tecido suntuoso do céu, em que brilhavam as estrelas de abril.

Não desejava dormir. Escutava os rumores de Paris, como se isto lhe desse a certeza de que ainda vivia. Ruídos raros: o grito dos soldados de sentinela, o sino de um convento vizinho, o rolar das carroças do campo levando seus carregamentos à feira dos legumes... Essa cidade, cujas ruas ele havia alargado, embelezando os edifícios, apaziguando as revoltas, essa cidade nervosa onde se sentia, a todo instante, bater o pulso do reino e que, por isso, tinha sido, durante dezesseis anos, o centro de seus pensamentos e de seus cuidados, passara, há duas semanas, a ser odiada por ele, como se odeia uma pessoa.

Esse ressentimento tinha começado na manhã em que Carlos de Valois, temendo que Marigny encontrasse no Louvre, onde fora capitão, algum cúmplice, decidira transferi-lo para a torre do Templo. A cavalo, cercado de soldados e arqueiros, Marigny tinha, então, atravessado uma grande parte da capital, e descobria, de repente, que esse povo, que durante tantos anos se inclinara à sua passagem, o detestava. Os insultos que lhe lançaram, a explosão de alegria nas ruas ao longo de seu percurso, os punhos estendidos, as zombarias, os risos, as ameaças de morte, tudo isso tinha sido para o velho ministro do reino um acabrunhamento pior talvez que a própria prisão.

Quando alguém governou os homens por muito tempo, quando acredita ter trabalhado pelo bem comum, quando conhece as penas que custa essa tarefa, e percebe, de repente, que nunca foi nem amado nem compreendido, mas somente suportado, então nasce-lhe uma grande amargura, e pergunta a si mesmo se não haveria melhor emprego a fazer da própria vida.

Os dias seguintes não foram menos horríveis. Levado para Vincennes, desta vez não mais para tomar assento entre os dignitários do reino, mas para comparecer perante o tribunal de barões e de prelados, entre os quais se encontrava seu próprio irmão, o arcebispo, Enguerrand de Marigny teve que ouvir um funcionário, de nome João de Asnières, fazer, por ordem de Carlos de Valois, a interminável leitura dos motivos de acusação: concussão, traição, prevaricação, relações secretas com os inimigos do reino.

Enguerrand pedira a palavra; recusaram-lha. Tinha reclamado o direito de desafio; foi igualmente recusado. Percebeu que, daquele momento em diante, consideravam-no culpado sem sequer deixá-lo defender-se, como se julgassem um morto.

E quando Enguerrand volvera os olhos para o seu irmão João, esperando que pelo menos ele levantasse a voz em seu favor, só encontrara um rosto indiferente, um olhar que fugia ao seu e belos dedos que alisavam, com gesto elegante, os cordões bordados da mitra que caía sobre os ombros. Se até mesmo o irmão o abandonava, se até mesmo o irmão se igualava, com um tal cinismo, aos seus inimigos, como esperar de alguém, mesmo daqueles que lhe deviam seu lugar e sua fortuna, um gesto de justiça ou de gratidão?

Filipe de Poitiers, magoado, sem dúvida, ao ver que Enguerrand não tinha levado em consideração o aviso que lhe mandara por Bouville, não estava presente àquela audiência.

Marigny fora conduzido de Vincennes sob as vaias da multidão, que o apontava, aos berros, como o responsável pela miséria e pela fome. Depois, fecharam-no novamente no Templo, desta vez, porém, pondo-o a ferros, e na mesma cela que servira de prisão a Tiago de Molay.

A argola presa ao muro era aquela em que, durante sete anos, estivera presa a cadeia do grão-mestre da Ordem do Templo. A umidade não tinha coberto os traços gravados na pedra pelo velho cavalheiro, para marcar o escoar dos dias.

"Sete anos! Nós o condenamos a passar aqui sete anos, para depois enviá-lo à fogueira. E eu, que estou aqui apenas há sete dias", pensou Marigny, "compreendo já o quanto ele sofreu."

O homem de Estado, das alturas em que exerce o poder, protegido por todo o arsenal da polícia e dos exércitos, sentindo-se inacessível na sua carne, não condena, quando pronuncia ordens de prisão ou de morte, mais que abstrações. Não são homens os que ele tortura ou destrói: são oposições que reduz, símbolos que apaga. Marigny, no entanto, lembrava-se do mal-estar que sentiu quando os templários eram queimados na ilha dos Judeus, e como, nesse momento, compreendera que se tratava de seres humanos, isto é, de seres semelhantes a ele, e não mais unicamente de princípios e erros. Nesse dia, sem ousar mostrá-lo, reprovando-se mesmo por essa fraqueza, sentira-se solidário com os supliciados, e temera por si mesmo. "Realmente, fomos todos amaldiçoados pelo que fizemos."

E depois, uma terceira vez ainda, Marigny fora levado a Vincennes, para assistir à mais assustadora ostentação de baixeza. Como se todas as acusações que fizeram pesar sobre ele não fossem suficientes, como se permanecessem ainda, nas consciências do reino, dúvidas que seria preciso destruir, a todo custo, puseram-se a culpá-lo de crimes extravagantes, para os quais produziam um incrível desfile de falsas testemunhas.

Carlos de Valois vangloriava-se de ter descoberto, há algum tempo, uma monstruosa conspiração de magia. A senhora de Marigny e sua irmã, a senhora de Chanteloup, tinham, por instigação, é claro, de Enguerrand, ferido com agulhas bonecas de cera representando o rei, o próprio conde de Valois e o conde de Saint-Pol. Pelo menos, foi o que afirmaram indivíduos saídos da Rue des Bourdonnais, onde tinham loja de magia, com a tolerância da polícia, à qual serviam de indicadores. Citaram-se cúmplices: uma aleijada, criatura infernal, e um certo Paviot, que acabava de ser preso em prática semelhante, foram enviados por isso à fogueira, à qual seriam, de qualquer forma, condenados.

Depois disso, anunciaram, para grande emoção da corte, a morte de Margarida de Borgonha, e apresentaram, como última prova contra Marigny, a carta que, da prisão, ela tinha enviado ao rei.

— Mataram-na! — gritou Marigny.

Mas os homens que o escoltavam rapidamente o silenciaram, enquanto João de Asnières completava, com esse novo elemento, sua acusação.

Em vão o rei Eduardo II, da Inglaterra, interveio ainda, com uma mensagem, tentando fazer pressão sobre o cunhado da França, para que poupasse o antigo assistente de Filipe, o Belo; em vão Luís de Marigny jogara-se aos pés do Turbulento, seu padrinho, pedindo-lhe perdão e justiça. Luís X, repetindo perante a corte as palavras que tinha pronunciado diante de seu tio, disse, apontando Marigny: "Tiro minhas mãos de cima dele".

E Enguerrand teve sua condenação à forca, sua mulher aprisionada e todos os seus bens confiscados. Enquanto Joana de Marigny e a senhora de Chanteloup eram presas e enclausuradas no Templo, Marigny era transportado para uma terceira prisão, a do Châtelet, pois Valois lembrou-se de que seu inimigo tinha sido, também, administrador do Templo. Valois via cúmplices por todos os lados, e temia, até o último minuto, que sua vingança lhe escapasse.

Era, pois, de uma cela do Châtelet que Marigny, na noite de 30 de abril de 1315, contemplava o céu, através do respiradouro.

• Não temia a morte; pelo menos, esforçava-se para aceitar o inevitável. Mas a idéia da maldição obcecava seu pensamento; era-lhe necessário, antes de apresentar-se perante Deus, ter resolvido, por si mesmo, se era culpado ou inocente.

"Por quê? Por que fomos todos nós amaldiçoados, aqueles que foram designados e mesmo aqueles que não o foram, simplesmente por estar presentes? E no entanto agimos apenas pelo bem do reino, para a grandeza da Igreja e para a pureza da fé. Então, por que este encarniçamento do céu contra cada um de nós?"

Agora que estava a algumas horas da execução, revia as etapas do processo dos templários, como se fosse ali — mais que em qualquer outra das ações públicas ou privadas, executadas ao longo de sua vida — que se ocultasse, em algum lugar, a última explicação, a última justificação que ele queria encontrar antes de morrer. E subindo, lentamente, os degraus de sua memória, encontrou-se, de repente, como chegado a um umbral, onde surgiu uma luz e ele compreendeu tudo.

A maldição não vinha de Deus. A maldição provinha dele mesmo e não tinha outra fonte senão seus próprios atos; e ela era igual para todos os homens e para todos os castigos.

"Os templários tinham-se afastado de sua regra; tinham-se esquecido do serviço da cristandade, para se ocuparem, exclusivamente, do comércio da prata; os vícios tinham-se insinuado em suas fileiras; nisso estava a sua maldição, e era justo que fossem suprimidos. Mas, para acabar com os templários, nomeei arcebispo meu irmão, ambicioso e covarde, a fim de que ele os condenasse por falsos crimes; não é, pois, surpreendente que meu irmão se tenha voltado contra mim e me traído, quando poderia, talvez, salvar-me. Não devo desejar-lhe mal, sou eu o culpado... Está claro que seria bom para a França ter um papa francês; mas porque este papa, para se eleger, cercou-se de cardeais alquimistas, ávidos não de virtude, mas de fabricar ouro, morreu com as esmeraldas moídas que seus alquimistas lhe deram para comer. Porque Nogaret mandou torturar muitos inocentes para extrair-lhes os testemunhos que queria e julgava necessários ao bem público, seus inimigos acabaram por envenená-lo... Porque Margarida da Borgonha se casou, por razões políticas, com um príncipe que não amava, traiu o casamento; porque traiu, foi descoberta e aprisionada. Porque eu queimei sua carta que poderia libertar o rei Luís, desgracei Margarida e me perdi a mim mesmo, ao mesmo tempo... Porque Luís mandou assassiná-la, culpando-me do crime, que lhe acontecerá? O que acontecerá a Carlos de Valois, que esta manhã vai me mandar enforcar por crimes que atribui a mim? O que acontecerá a Clemência da Hungria se ela consentir, para ser rainha da França, em desposar um assassino? Mesmo quando somos punidos por motivos falsos, há sempre uma causa verdadeira para o nosso castigo. Todo ato injusto, mesmo cometido por causa justa, leva em si a maldição."

E depois de ter descoberto isso, Enguerrand de Marigny não mais odiou quem quer que fosse e não julgou mais ninguém responsável por sua sorte. Era o seu ato de contrição que acabava de fazer, tão eficaz quanto o feito por meio de orações aprendidas. Sentia-se em perfeita paz e como que de acordo com Deus, para aceitar que o destino se cumprisse daquela forma.

Conservou-se bem calmo até a madrugada, e não teve a impressão de descer novamente do umbral luminoso em que sua meditação acabava de colocá-lo.

Às sete horas, ouviu subir um grande tumulto do outro lado das muralhas. Viu entrar o preboste de Paris, o promotor e o procurador, lentamente pôs-se de pé e esperou que lhe tirassem os ferros. Tomou a capa escarlate que usava no dia da detenção e cobriu com ela os ombros. Sentiu uma estranha impressão de força, e repetia para si mesmo, constantemente, esta verdade que lhe tinha aparecido: "Todo ato injusto, mesmo cometido por causa justa..."

Fizeram-no subir para uma carroça puxada por quatro cavalos, e ele partiu, escoltado pelos arqueiros e soldados da guarda, por esses homens que ele tinha comandado e que, agora, o levavam para o suplício.

Aos uivos da multidão comprimida ao longo da Rue Saint-Denis, Marigny, de pé, respondia com o mesmo ar com que ele acolhera as aclamações: "Boa gente, roguem a Deus por mim".

No fim da Rue Saint-Denis, o cortejo parou diante do Convento das Filhas de Deus. Fizeram Marigny descer e levaram-no, pelo pátio do convento, ao pé de um crucifixo de madeira colocado sob um palio. "É verdade, é assim que fazem sempre", pensou ele, "mas nunca tinha assistido a isto. No entanto, quantos homens condenei... Tive dezesseis anos de felicidade e de fortuna para gozar do bem que pude fazer, dezesseis dias de desgraça e uma manhã de morte para me punir do mal... Deus é, ainda, misericordioso."

Ao pé do crucifixo, o capelão do convento recitou, sobre Marigny ajoelhado, a oração dos mortos. Depois, as religiosas trouxeram para o condenado um copo de vinho e três pedaços de pão, que ele mastigou lentamente, apreciando, pela última vez, o sabor dos alimentos da terra.

Atrás dos muros, a multidão continuava pedindo a morte. "O pão que eles comerão daqui a pouco", pensou Marigny, "lhes parecerá menos bom que este que acabam de me dar."

Em seguida, o cortejo pôs-se em movimento, em direção ao bairro de Saint-Martin, e, enfim, erguido sobre uma elevação, destacou-se o patíbulo de Montfaucon.

Apresentava-se como uma enorme construção quadrada, assentada sobre doze enormes pedaços de pedra bruta, que serviam de base a uma plataforma, esta com dezesseis pilares e coberta com um teto. No interior alinhavam-se as forcas. Os pilares eram unidos por vigas duplas e cadeias de ferro, onde se prendiam os corpos dos supliciados, após a execução. Deixavam-nos ali, apodrecendo ao vento e aos corvos, para servir de exemplo e dar ao povo pensamentos salutares. Nesse dia, uma dezena de corpos achava-se suspensa, alguns já quase reduzidos a esqueletos, outros começando a se decompor em suas vestes, com os rostos verdes ou negros, horripilantes líquidos brotando das orelhas e da boca, e pedaços de carne, arrancados pelos bicos dos pássaros, surgindo sob as roupas. Um cheiro horrível espalhava-se em torno.

Fora o próprio Marigny quem, alguns anos antes, mandara construir este belo patíbulo, bem sólido, para sanear a cidade. E era para ali que o enviavam para dar cabo dele. Jamais o destino, em certo sentido, houvera sido mais exemplar que aquele que enviava o justiceiro para o mesmo gancho dos malfeitores públicos.

Quando Marigny desceu da carroça, o padre que o acompanhava convidou-o a fazer o reconhecimento das faltas pelas quais fora condenado.

— Não, padre — recusou-se Marigny, dignamente. Negou ter conspirado contra o rei, negou ter roubado o Tesouro, negou todas as acusações que tinham levantado contra ele e afirmou que os atos que lhe recriminavam tinham sido todos ordenados ou aprovados pelo finado rei, seu senhor.

— Mas eu cometi, por justas causas, atos injustos — disse ele.

E, ao mesmo tempo, olhava para cima, para os cadáveres pendurados.

A multidão ululava tão forte que ele pôs as mãos nos ouvidos, como se aquilo o impedisse de pensar. Precedido pelo carrasco, subiu a rampa de pedra pela qual se atingia a plataforma e, com a autoridade que sempre tivera, perguntou, apontando as forcas:

— Qual?

E do alto de um estrado, dirigiu um último olhar para o povo inumerável, onde as mulheres soltavam gritos histéricos, as crianças escondiam a cabeça nas vestes dos pais e os homens gritavam: "É bem-feito! Ele nos roubou! Ele paga!" Marigny exigiu que lhe desamarrassem as mãos.

— Largue-me!

Afastou os cabelos e apresentou sua cabeça de touro para o nó corredio que lhe estendiam. Respirou profundamente, como para guardar o mais tempo possível a vida em seus pulmões, fechou os punhos, e a corda o suspendeu, lentamente, no ar.

A multidão, que não esperava outra coisa, teve, no entanto, um grande grito de espanto. Durante alguns minutos viram-no torcer-se, com os olhos fora das órbitas, a face tornando-se azul, depois violeta, a língua sair e os braços e as pernas agitarem-se, como se procurasse subir ao longo de um mastro invisível. Por fim os braços caíram, as convulsões diminuíram de intensidade, pararam, e os olhos não enxergaram mais nada.

A multidão, então, calou-se, sempre surpreendida consigo mesma, como se experimentasse o medo de sua cumplicidade. Os carrascos desceram o corpo, arrastaram-no pelos pés através da plataforma e o suspenderam, com suas belas vestes de fidalgo, ao lugar de honra que lhe era devido, à frente do cadafalso, para aí deixar apodrecer um dos maiores ministros que a França jamais possuiu.

 

A ESTÁTUA DERRUBADA

Na obscuridade de Montfaucon, onde as correntes rangiam ao vento, alguns ladrões, aquela noite, desprenderam o cadáver ilustre e despojaram-no de suas roupas; quando a aurora chegou, encontraram o corpo nu de Marigny estendido nas pedras.

Monseigneur de Valois, a quem foram avisar, quando ainda estava sob os lençóis, deu ordem para vestirem e suspenderem novamente o enforcado. Depois ele mesmo vestiu-se e desceu, bem vivo, mais vivo que nunca, e foi, no auge de sua força intata, misturar-se ao movimento da cidade, ao tráfego dos homens, ao poderio dos reis.

Alcançou o palácio e aí, em companhia do cônego Estêvão de Mornay, seu antigo conselheiro, que ele transformara em guarda-selos da França, foi postar-se na balaustrada de uma janela interna que se abria sobre a Galerie Mercière, a fim de assistir a um espetáculo que há nove anos esperava. Embaixo, a multidão dos mercadores e basbaques apreciava o trabalho de quatro pedreiros que, trepados num andaime, desmontavam a estátua de Enguerrand de Marigny. Estava bem chumbada à muralha, não apenas pelo pedestal como pelas costas. De tamanho maior que o natural, parecia não querer deixar o seu nicho nem descolar-se do palácio. As picaretas e as talhadeiras batiam na pedra, arrancando estilhaços brancos que voavam em torno dos pedreiros.

— Terminei, monseigneur, o inventário de Marigny — disse Estêvão de Mornay; — o montante é bastante grande.

— O rei pode, assim, recompensar os que bem o serviram no caso — respondeu Valois. — Quero, primeiramente, que me devolvam minhas terras de Gaillefontaine, que o canalha me tomou numa péssima permuta. E

depois, meu filho Filipe está em idade de estabelecer-se fora de casa e de possuir suas coisas. Eis uma boa oportunidade; dize-o ao rei. A casa da Rue d'Autriche, ou a da Rue des Fossés-Saint-Germain, poderia convir bastante. Talvez mais a da Rue d'Autriche. Sei também que meu sobrinho vai fazer algumas liberalidades a Henrique de Meudon, que lhe abre os cestos de pombas e que ele chama de seu caçador. Ah! não te esqueças de que se devem trinta e cinco mil libras de rendimentos do conde de Beaumont a monseigneur d'Artois. Penso que está na hora de lhe entregarem uma parte, quando não a totalidade.

— O rei vai ter que fazer custosos presentes à sua nova esposa — replicou o chanceler —, e parece decidido, pelo amor que lhe tem, a fazer grandes despesas, as quais o Tesouro não está em condições de suportar. Não poderíamos, por enquanto, reservar os bens de Marigny para as provas de amor que serão dadas à nossa nova rainha?

— Muito bem lembrado, Mornay. Apresenta ao rei uma partilha nesse sentido, colocando minha sobrinha da Hungria como primeira da lista dos beneficiários — respondeu Carlos de Valois, sem tirar os olhos dos pedreiros.

— Naturalmente, monseigneur — disse o chanceler —, não peço nada para mim...

— E nisto tens razão, porque as más línguas poderiam dizer que quiseste a desgraça de Marigny só para te aproveitares dos seus bens. Faze, pois, aumentar um pouco minha parte, e eu mesmo te darei, de acordo com os teus méritos.

As costas da estátua estavam, agora, completamente separadas do muro; o busto de mármore foi amarrado por cordas e começaram a puxar as roldanas. De súbito, Valois pousou a mão cheia de anéis no braço do chanceler:

— Sabes, Mornay, que sinto uma sensação estranha? Tenho a impressão de que Marigny vai me fazer falta.

Mornay olhou surpreso para o tio do rei. Não compreendia o que Valois queria dizer, e o próprio Valois não saberia explicar o que sentia exatamente. O ódio cria liames tão fortes quanto os da amizade, e o inimigo contra o qual lutamos durante muito tempo, quando desaparece, deixa-nos um vazio no coração, como deixa um vazio o final de todas as grandes paixões.

No mesmo momento, no interior do palácio, Luís X, em seu quarto de dormir, acabava de fazer a barba. A alguns passos dele, de pé, encontrava-se a senhora Eudeline, bela, rósea e fresca, levando pela mão uma criança de dez anos, um pouco magra e intimidada, e que não sabia que aquele rei, à sua frente, era seu pai.

O Turbulento mandara chamar as duas Eudelines, mãe e filha. A primeira roupeira do palácio esperava, comovida, cheia de esperança, que o seu real amante falasse.

Quando o barbeiro, após enxugar, com uma toalha quente, o queixo do Turbulento, saiu levando seu prato, seus ungüentos e suas navalhas, o rei da França levantou-se, sacudiu os longos cabelos em torno da gola e disse:

— Meu povo está contente, não é verdade, Eudeline, por eu ter enforcado o senhor de Marigny?

— Certamente, monseigneur Luís... sire, quero dizer — respondeu ela. — Há grande alegria por toda a cidade esta manhã, e o povo canta com o sol da primavera. Dir-se-ia que as desgraças de todos terminaram...

— Quero que seja assim — interrompeu-a Luís. — Havia-te prometido assegurar o futuro desta criança...

Eudeline colocou um joelho no chão e forçou a filha a imitá-la, para ouvir da boca todo-poderosa a notícia dos benefícios que iria receber.

— Sire — murmurou ela, com lágrimas nos olhos —, esta criança vos abençoará até o fim de vossos dias, em suas orações.

— Pois bem, é justamente o que decidi — respondeu o Turbulento. — Que ela reze! Desejo que ela seja religiosa, que entre para o Convento de Saint-Marcel, reservado às jovens nobres, e onde ela estará melhor do que em qualquer lugar.

O estupor e a decepção estamparam-se no rosto de Eudeline. Quanto à menina, não parecia ter compreendido bem as palavras do rei, nem que era do seu destino que se tratava.

— É isso, então, sire, que desejais para ela? Encerrá-la num convento?

Levantara-se.

— É preciso, Eudeline — respondeu-lhe Luís ao ouvido —, ela tem uma fisionomia que se denuncia demais.

E depois, será benéfico, tanto para a nossa salvação como para a sua, que ela resgate, através de uma vida piedosa, o pecado que cometemos com o seu nascimento. Quanto a ti...

— Monseigneur Luís, ides me fechar também numa clausura? — perguntou Eudeline, horrorizada.

Como o Turbulento havia mudado em pouco tempo! Ela não encontrava mais nada, nesse homem que dava ordens num tom que não admitia réplica, do adolescente desconfiado e inquieto que havia feito com ela seus primeiros exercícios de homem, nem nada mesmo do pobre príncipe, trêmulo de impotência e de frio, que ela havia aquecido, numa noite do inverno passado. Somente os olhos tinham a mesma expressão fugidia.

Luís hesitou. Não estava decidido a tomar todos os riscos. Pensava que o futuro era incerto e que poderia, ainda, ter necessidade daquele belo corpo planturoso e dócil.

— Para ti vou dar o encargo de zelar, em Vincennes, pelos móveis e pela rouparia, para que tudo esteja pronto todas as vezes que para lá for.

Eudeline abanou a cabeça. Recebeu como ofensa esse afastamento do palácio, essa ida para uma residência secundária. Não estavam satisfeitos com a maneira pela qual trazia a rouparia? Em certo sentido, teria preferido o convento. Seu orgulho seria menos ferido.

— Sou, ainda, vossa serva e obedecerei — respondeu, friamente.

No momento de transpor a porta, notou o retrato de Clemência da Hungria pousado sobre um aparador e perguntou :

— É ela?

— É a próxima rainha da França — respondeu Luís.

— Sede, então, feliz, sire — disse Eudeline, saindo. Havia deixado de amá-lo.

"Certamente, certamente vou ser feliz", pensou Luís, andando pelo quarto, onde o sol entrava em grandes raios.

Pela primeira vez, depois que era rei, sentia-se plenamente satisfeito e seguro de si. Havia mandado matar a esposa e enforcar o ministro de seu pai; afastara do palácio sua primeira amante e enviara a filha natural para o convento 21. Todos os caminhos à sua frente estavam livres. Podia, agora, receber a bela princesa napolitana, ao lado de quem já imaginava viver um longo reinado de glória. Chamou o camareiro.

— Ide me procurar messire de Bouville!

Nesse instante, ouviu-se o estrondo de um grande desabamento em algum lugar do palácio, do lado da Galerie Mercière.

Era a estátua de Enguerrand de Marigny, que, arrancada do seu pedestal, acabava de ser derrubada, por entre os gritos de alegria da assistência. As roldanas correram muito depressa, e os vinte quintais de mármore caíram brutalmente no chão.

Na primeira fila da multidão, dois homens debruçavam-se sobre o colosso derrubado: Spinello Tolomei e seu sobrinho Guccio. Tolomei não era como Valois; sua vitória não se empanava de melancolia. Sua grande barriga tremera de medo durante duas semanas e só tinha podido dormir naquela última noite, quando soube que Marigny fora enforcado. Sentia-se num dia de generosidade.

— Guccio mio! — exclamou —, ajudaste-me bastante. Considero-te como do meu sangue, como se fosses meu filho. Quero recompensar-te, associar-te mais aos meus negócios. Que parte queres que te dê? Tens algum desejo? Dize, meu rapaz, dize o que te agrada.

Ele esperava que Guccio, como sobrinho respeitador, lhe respondesse: "Decidi vós mesmo, meu tio".

Guccio abaixou seu nariz afilado e seus compridos e negros cílios e respondeu, agarrando a oportunidade:

— Tio Spinello, queria a agência de Neauphle.

— O quê! — exclamou Tolomei, surpreso. — É essa a tua ambição? Uma agência de campo? Que funciona muito bem apenas com três empregados? Tens ideais medíocres!

— Gosto muito dessa agência — respondeu Guccio —, e estou certo de que poderíamos fazê-la prosperar.

— E eu estou certo de que há uma moça nessas paragens, porque me parece que vais freqüentemente a Neauphle, mais do que o comércio do ouro o exige. Ela é bonita?

Antes de responder, Guccio observou o tio e notou que ele sorria.

— Ela é linda como nenhuma, meu tio, e de grande nobreza!

— Ah! Ah! — exclamou Tolomei, levantando as mãos. — Uma jovem de sangue azul! Vais ter grandes aborrecimentos. Bem sabes que a nobreza está sempre pronta a nos pedir dinheiro, mas nunca a deixar seu sangue misturar-se ao nosso. A família está de acordo?

— Ela estará, meu tio, sei que estará. Os irmãos tratam-me como um dos seus.

— São ricos?

— Têm uma grande mansão, rodeada de bastante terra e muitas aldeias de servos que ainda não libertaram. Tudo isto representa muitos haveres. E são bastante chegados ao conde Dreux, seu suserano.

Arrastada por dois cavalos de tiro, a estátua de Marigny acabava de deixar a Galerie Mercière. Os pedreiros enrolavam suas cordas e a multidão se dispersava.

— E como se chamam — perguntou Tolomei — esses poderosos senhores, tão embeiçados por ti, a ponto de te darem a filha?

Guccio disse o nome tão baixo que Tolomei não pôde apanhá-lo.

— Repete, não ouvi — pediu ele.

— Os senhores de Cressay, meu tio.

— Cressay... Cressay... os senhores de Cressay. Ah! mas sim! os que me devem eternamente trezentas libras! É essa a tua rica família! Começo a compreender-te.

Guccio ergueu a cabeça, pronto para se rebelar, e o banqueiro adivinhou que se tratava, realmente, de um caso sério.

— La voglio bene, la voglio tanto bene! — disse Guccio, misturando as duas línguas para melhor convencer. — E ela também me ama; querer fazer-nos viver um longe do outro é querer fazer-nos morrer! Com os novos lucros que vou ter em Neauphle poderei consertar a mansão, que é bela, garanto, mas que merece um pouco de trabalho, e terás um castelo, meu tio, un castello, come un vero signore.

— Sim, sim — respondeu Tolomei. — Não gosto do campo! Tinha pensado num outro casamento para ti, com uma filha dos nossos primos Bardi, por exemplo, o que aumentaria nossos negócios... Refletiu um instante.

— Mas é querer mal a quem se gosta pretender dar-lhe a felicidade contra o seu desejo. Vai, meu filho! Dou-te a agência de Neauphle, sob a condição de ficares a metade do tempo em Paris, perto de mim. E casa-te como quiseres. Os sienenses são homens livres e escolhem a esposa ouvindo o coração.

— Grazie, zio Spinello, grazie tante! — disse Guccio lançando-se ao pescoço do banqueiro. — E verás... verás...

Naquele instante, o gordo Bouville, saindo da ala do rei, descia a escada, atravessando a Galerie Mercière. Estava com o ar inquieto dos grandes dias e caminhava com o passo firme que tinha quando o soberano honrava-o com uma ordem.

— Ah! amigo Guccio! — exclamou ele, ao perceber os dois lombardos. — É uma sorte encontrá-los aqui. Acabo de mandar um escudeiro à tua procura.

— Em que posso servir-vos, messire Hugo? — perguntou o jovem. — Eu e meu tio estamos às vossas ordens.

Bouville olhou para Guccio com verdadeira amizade. Eles tinham boas recordações em comum e, diante daquele rapaz, o antigo camareiro-mor sentia-se novamente jovem.

— Uma boa novidade, sim, uma ótima novidade! Contei ao rei as tuas qualidades e o quanto me foste útil.

O rapaz inclinou-se, em sinal de agradecimento.

— Agora, amigo Guccio — ajuntou Bouville —, partiremos novamente para Nápoles!


NOTAS HISTÓRICAS

1 Existiam, nessa época, duas famílias da Borgonha que reinavam em jurisdições territoriais diferentes: de um lado, a família ducal, cuja capital se achava em Dijon; de outro, a família dos condes palatinos da Borgonha, que, até Filipe, o Belo, dependiam do Sacro Império Romano-Germânico, e cuja residência principal situava-se em Dôle.

Margarida da Borgonha era filha do duque e de Agnes de França, filha de São Luís. Casou em 1305 com Luís, primeiro filho de Filipe, o Belo, e de Joana, rainha de Navarra.

Joana e Branca da Borgonha eram filhas do conde palatino e de Mafalda d'Artois. Casaram-se, respectivamente, com Filipe e Carlos, segundo e terceiro filhos de Filipe, o Belo.

Enquanto Margarida e Branca foram (como se viu em O Rei de Ferro, primeiro volume da série Os reis malditos) proclamadas adúlteras, Joana da Borgonha foi apenas acusada de cumplicidade e, por isso, presa, separadamente, no castelo de Dourdan, sob regime penitenciário muito menos severo e por tempo indeterminado.

 

2 Guilherme de Nogaret, cavalheiro languedociano, jurisconsulto de Filipe, o Belo, e secretário-geral do reino, célebre pela sua expedição militar contra o papa Bonifácio VIII e por haver dirigido a ação judicial e repressiva contra a Ordem dos Templários.

Foi amaldiçoado, juntamente com o papa Clemente V e o rei da França, pelo grão-mestre. Morreu pouco tempo depois, seguindo o papa de algumas semanas e precedendo o rei de alguns meses.

 

3 Desde 1309, Roberto d'Artois reivindicava a posse do condado de Artois, que fora atribuído, por julgamento real, à sua tia, a condessa Mafalda. Esse processo de herança, movido com raro encarniçamento, devia durar vinte anos.

 

4 No século XIV, os principais oficiais da coroa eram: o condestável da França, chefe supremo das forças armadas; o chanceler da França, ao qual estavam afetos os assuntos da justiça, dos selos eclesiásticos e aquilo que hoje chamaríamos de negócios estrangeiros; o supremo mordomo da casa real, que reinava sobre todo o pessoal nobre e plebeu em torno do soberano.

O condestável tinha, por direito, assento no Conselho Privado do rei. Possuía aposentos na corte e devia acompanhar o rei nas suas viagens. Recebia contribuições em espécie, vinte e cinco soldos parisis por dia e dez libras em cada festa em tempo de paz. Nos períodos de hostilidades ou nas viagens do rei, seus estipêndios eram dobrados. Por dia de combate, em que o rei cavalgava com seus exércitos, o condestável recebia cem libras a mais; tudo quanto se encontrasse nos castelos e fortalezas tomados ao inimigo lhe pertencia, com exceção do ouro e dos prisioneiros, que eram do rei. Escolhia os cavalos, tomados ao adversário, logo após o rei. Tinha direito de justiça sobre as pessoas da casa real. Se o rei não estava presente na tomada de uma fortaleza, era o seu estandarte que se içava. Assistia à sagração do rei, cuja espada de ouro levava. No campo de batalha o próprio soberano não podia decidir uma carga nem atacar sem ter se aconselhado com o condestável, de quem recebia ordens.

Sob o reinado de Filipe, o Belo, de seus três filhos, e durante o primeiro ano do reinado de Filipe VI de Valois, o condestável da França foi Gaucher de Châtillon, conde de Porcien, que morreria octogenário em 1329.

O chanceler da França, assistido por um vice-chanceler e por notários, que eram funcionários da capela real, tinha a incumbência de preparar a redação dos atos e de neles apor o selo real, de que era o depositário. Tinha assento no Conselho Privado e na Assembléia dos Pares. Era o chefe da magistratura, presidia a todas as comissões judiciárias e dirigia a palavra, em nome do rei, no trono real do Parlamento. O titular do cargo era sempre um eclesiástico, o que explica que, durante os últimos anos do reinado de Filipe, o Belo, ninguém usasse, oficialmente, esse título. Com efeito, quando o arcebispo que era chanceler, em 1307, se recusou a selar a ordem de prisão dos templários, Filipe, o Belo, tirou-lhe os selos das mãos e passou-os a Nogaret, que não era homem da Igreja. Nogaret não recebeu, no entanto, o título de sua função, e criou-se para ele o cargo de secretário-geral do reino, enquanto as atribuições tradicionais do chanceler eram repartidas entre Nogaret e Enguerrand de Marigny, que foi feito coadjutor do rei e dirigente-geral do reino. No dia 1.° de janeiro de 1315, um mês após a morte de Filipe, o Belo, o cargo de chanceler recebeu de novo um titular, na pessoa de Estêvão de Mornay, cônego de Auxerre e de Soissons, que fora, até então, chanceler do conde de Valois. Deveria ficar nessa função até a Trindade de 1316.

O soberano mordomo, chamado mais tarde mordomo-mor da França, tinha sob suas ordens o tesoureiro, a cujo cargo estavam as contas da casa real, as compras, o inventário do mobiliário, dos tecidos e do guarda-roupa. Tinha assento no Conselho.

Vinham, em seguida, entre os grandes oficiais da coroa, o primeiro oficial do Exército, que dependia do condestável, o esmoler-mor e o camareiro-mor. As funções principais deste último eram cuidar das armas e das vestimentas do rei, e manter-se junto dele, tanto de dia como de noite, quando a rainha não estava presente. Guardava o selo secreto, podia receber homenagens em nome do rei e fazer prestar juramento de fidelidade em sua presença. Preparava as cerimônias em que o rei sagrava novos cavaleiros. Administrava o tesouro privado e comparecia à Câmara dos Pares. Como encarregado do guarda-roupa real, tinha jurisdição sobre os vendedores de armarinho e tudo quanto se referia ao vestuário. Estava sob suas ordens um funcionário denominado rei dos vendedores de armarinho, que verificava as balanças, os pesos e as medidas. Havia, finalmente, outros cargos, cujos títulos eram herdados de funções antigas, mas que eram apenas honoríficos, se bem que dessem ao seu portador acesso ao Conselho do rei. Tais os cargos de camarista-mor, copeiro-mor e padeiro-mor, exercidos, na época de que nos ocupamos, por Luís I, duque da Borgonha, pelo conde de Saint-Pol e por Bouchard de Montmorency.

 

5 Nesta época, Paris não era ainda sede do arcebispado. A diocese de Paris dependia de Sens, que, por isto, era, do ponto de vista político, a mais importante circunscrição religiosa da França.

Foi, pois, ao arcebispo de Sens que coube presidir ao tribunal eclesiástico, que condenara os templários de Paris, e foi a fim de garantir essa condenação que Enguerrand de Marigny nomeara seu irmão João para essa prelazia.

 

6 A quintaine era um exercício a cavalo e com lança, que consistia em bater no peito de um manequim montado sobre um eixo, o qual imitava um cavaleiro armado, cujo braço estava adaptado a um bastão. Quando o combatente golpeava mal, o manequim, girando sobre si mesmo, ia atingir o cavaleiro desajeitado.

 

7 Chamava-se milagre real ao poder misterioso reconhecido aos reis da França de curar as escrófulas, por meio de orações e imposições de mão. Este poder era transmitido de soberano a soberano e na última hora do rei agonizante, em presença apenas de seu confessor. (Ver O Rei de Ferro.)

 

8 Os negociantes de miudezas, bijuterias, armarinho e objetos para enfeite do vestuário tinham o privilégio de vender na residência do rei, sob a grande galeria chamada Galerie Mercière ou Galerie Marchande.

 

9 São Luís d'Anjou, bispo de Toulouse, segundo filho do rei Carlos II de Anjou, o Coxo, e da rainha Maria da Hungria, morto em 1299, renunciou aos seus direitos à coroa de Nápoles para abraçar a religião.

Este ramo de Anjou, originário, como o ramo de Artois, de um irmão de Luís VIII da França, devia reunir, ao longo de sua existência, duzentos e noventa e nove coroas e doze beatificações.

Carlos de Valois desposou, em primeiras núpcias, Margarida d'Anjou-Sicília, décima primeira dos treze filhos de Carlos, o Coxo, e de Maria da Hungria. Achava-se, pois, na situação privilegiada de ser, ao mesmo tempo, neto de um santo e cunhado de outro.

As pretensões dos Anjou sobre o reino da Hungria, pretensões que viram triunfar, provinham do casamento de Carlos, o Coxo, com Maria da Hungria, filha de Estêvão V e sobrinha de Bela IV, da dinastia arpadiana — casamento paralelo àquele de Isabel d'Anjou, irmã do Coxo, com Ladislau IV, irmão de Maria. Em 1290, havendo Ladislau IV morrido sem filhos, a rainha Maria reivindicou o trono da Hungria para seu filho mais velho, Carlos Martello, que usou o título mas não reinou, e morreu em 1295, se bem que os magnatas húngaros o preferissem ao rei da Boêmia, Venceslau, outro neto do rei Bela IV.

Foram precisos ainda quinze anos de lutas e de intrigas entre Nápoles, Buda e a Santa Sé para fazer os magnatas húngaros aceitarem o filho de Carlos Martello, Caroberto, cuja irmã, Clemência, devia ser proposta a Luís X da França como segunda esposa.

Deve-se notar que a segunda esposa de Carlos de Valois, Catarina de Courtenay, imperatriz titular de Constantinopla, pertencia, igualmente, à família d'Anjou.

 

10 O samit era um tecido de seda semelhante ao nosso cetim. Era utilizado tanto para vestido como para tapeçarias, fazendo concorrência ao cendal, que era feito em todas as cores e parecia-se com o tafetá, o camocas e os panos de ouro ou de prata, pesados brocados em trama de seda. Entre os tecidos de lã, empregavam-se muito os marbrés entrelaçados de diversas cores, os rayes, o camelin, isto é, o tecido de pele de camelo ou suas imitações, e sobretudo os écarlates... ,

Estes últimos eram os tecidos mais ricos e os mais apreciados, usados nas ocasiões solenes. Os melhores eram fabricados em Flandres e na Inglaterra. A matéria corante era fornecida pelo kermès, pequeno inseto que se encontrava no Languedoc e que se vendia seco. Havia várias tonalidades de écarlate: encarnado, rosa, violeta, sangüíneo.

 

11 O hábito de conservar uma lâmpada acesa durante a noite, sobre o leito, perdurou por toda a Idade Média. Era uma pratica destinada a afastar os maus espíritos.

 

12 De seu casamento com Joana da Borgonha, Filipe de Poitiers só teve filhas; quanto a Carlos, que se tornou conde de Marca, foi casado com Branca da Borgonha, que só lhe deu dois filhos natimortos. É muito importante notar que, nesta época, nunca se cogitara da impossibilidade de as mulheres ascenderem ao trono da França, pela única razão de que o problema jamais se apresentara. Durante os três séculos da primeira dinastia capetina, os reis da França sempre tinham um filho a quem deixar a herança e nenhum acidente sobreviera na transmissão normal da coroa, fato quase sem precedente na história das dinastias. Mas nada, por direito, excluía as mulheres da sucessão, nem da capacidade de reinar. A famosa lei sálica só foi descoberta e promulgada nos anos que nos ocupam e em circunstâncias que se verão nos próximos volumes desta obra.

 

13 É preciso não confundir esta Joana da Borgonha, a Coxa, irmã de Margarida da Borgonha (portanto do ramo ducal) e mulher de Filipe de Valois, com a outra Joana da Borgonha, mulher de Filipe de Poitiers. Estas duas Joanas deviam, aliás, tornar-se, com dez anos de distância, rainhas da França, uma como mulher de Filipe V, a outra como mulher de Filipe VI.

Verifica-se que, durante este período, quase todas as mulheres na corte da França se chamavam Joana ou Margarida, e os homens Filipe, Carlos ou Luís, o que não facilita nada a tarefa da história, originando freqüentes confusões.

 

14 As lutas entre os guelfos, partidários do papa, e os gibelinos, partidários do imperador, ensangüentaram toda uma parte da Itália medieval, e particularmente da Toscana.

O grande poeta Dante e o pai de Petrarca, ambos gibelinos, foram exilados de Florença por Carlos de Valois.

 

15 A importância dada às relíquias foi uma das mais marcantes formas exteriores da religião da Idade Média. A crença na virtude dos objetos sagrados degenerou em superstição universalmente espalhada, todos querendo possuir grandes relíquias para guardá-las consigo e pequenas para levá-las em viagem, as quais eram penduradas ao pescoço. Possuíam-se relíquias na medida da fortuna. Foi, na ocasião, um dos comércios mais prósperos, através dos séculos XI, XII e XIII, e mesmo ainda durante o XIV. Todo mundo comerciava com objetos santificados: os padres, para aumentar as rendas de seus conventos ou conseguir as boas graças das grandes personagens, cediam os fragmentos de corpos de santos, de cuja guarda estavam incumbidos. Os cruzados, voltando da Palestina, podiam fazer fortuna com os piedosos pedaços recolhidos em suas expedições. Os judeus tinham uma grande organização internacional de venda de relíquias. Os ourives encorajavam bastante este negócio, pois recebiam encomendas de arcas e de relicários, que eram os mais belos objetos do tempo, e onde se patenteava, tanto quanto a devoção, a vaidade de seus possuidores.

As relíquias mais célebres e mais cobiçadas dessa época eram, naturalmente, os pedaços da Santa Cruz, fragmentos de madeira do presépio, as flechas de São Sebastião e também muitas pedras: pedras do Calvário, do Santo Sepulcro, do monte das Oliveiras. Na França, evidentemente, as relíquias do rei São Luís tinham a preferência do mercado, mas quase não saíam da família real.

 

16 Roberto Oderisi, o mais célebre dos pintores giottescos napolitanos, foi o grande pintor local de seu tempo. Suas obras mais célebres são a Crucificação, na igreja de São Francisco de Assis, em Eboli, e sobretudo os afrescos da Incoronata, em Nápoles, atribuídas, até recentemente, ao próprio Giotto.

Após ter sofrido a influência de Giotto, de quem foi auxiliar, recebeu igualmente a de Simone de Martino e tornou-se, finalmente, o chefe da Escola Napolitana do século XIV. Em 1315, Giotto estava, efetivamente, ocupado em pintar os afrescos da vida de São Francisco nas paredes da Santa Croce de Florença.

 

17 Esse não era, ainda, o palácio dos papas que nós conhecemos, e que só foi construído no século seguinte.

 

18 Hoqueton: traje quase sempre militar, com capuz e mangas curtas e amplas, cuja saia, que não ia além do joelho, era aberta na frente. O hoqueton podia ser usado por cima da cota de malhas ou armadura. Os hoquetons dos sargentos eram bordados com os escudos do príncipe a quem estes serviam.

 

19 A palavra "jantar" designava a refeição que se toma ao meio-dia e que corresponde ao nosso almoço. Diz-se ainda, com freqüência, atualmente, em certas províncias francesas, jantar por almoçar. A refeição da tarde chamava-se ceia.

 

20 Estas palavras são, textualmente, as pronunciadas por Carlos de Valois nessa ocasião e tais como as encontramos nos relatos fornecidos pelas crônicas do tempo.

 

21 Essa Eudeline, filha natural de Luís X e religiosa do Convento das Clarissas do Faubourg Saint-Marcel de Paris, foi autorizada, por uma bula do papa João XXII, em 10 de agosto de 1330, a tornar-se abadessa de Saint-Marcel ou de qualquer outro mosteiro de clarissas, malgrado seu nascimento ilegítimo.

 

                                                                                            Maurice Druon

 

 

                      

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