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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A RAPARIGA DO GLACIAR / Garth Nix
A RAPARIGA DO GLACIAR / Garth Nix

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

Ele tinha os tornozelos e os pulsos reforçados com placas de metal vermelho esmaltado no pescoço e em cada articulação. Levava na mão esquerda uma espada sem bainha, a lâmina equilibrada sobre o ombro. A mão direita repousava numa bandoleira de couro colocada na diagonal sobre o peito. Pendiam sete bolsas da bandoleira, a menor do tamanho de uma caixa de comprimidos, a maior da dimensão do seu punho fechado. Saíam cabos de madeira das bolsas. Cabos negros de ébano, onde os seus dedos rastejavam como uma aranha ao longo de uma parede.

Quem tivesse estado lá para ver saberia que as cabos de ébano pertenciam aos sinos e, por sua vez, isso identificava o homem por uma espécie, se não por um nome. Sendo um necromante, transportava os sete sinos da sua negra arte.

O homem olhou durante algum tempo para o montículo, reparando que não era o primeiro a ir até lá naquele dia. Estavam pelo menos duas pessoas na colina despida e havia um reflexo de calor no ar que sugeria igualmente ali a presença de outros seres menos visíveis.

 

 

 

 

O homem ponderou esperar até ao crepúsculo, mas sabia que não tinha essa opção. Não era a sua primeira visita ao montículo. A força encontrava-se muito por lá embaixo, profundamente aprisionada dentro da terra. Chamara-o do outro lado do Reino, convocando-o à sua presença neste Dia do Solstício de Verão. Chamava-o agora e não podia ignorá-la. Mesmo assim, restavam-lhe orgulho e vontade suficientes para resistir à vontade de correr os últimos oitocentos metros até o montículo. Precisou de toda a sua força, mas, quando as suas botas tocaram a terra despida na borda da colina, o fez com deliberação e sem sinal de pressa.

Conhecia uma das pessoas ali presentes e estava à espera dela. O velho, o último da linha de descendência que servira a coisa que se encontrava debaixo do montículo, proporcionando um canal para a força que a mantinha oculta do olhar das bruxas que viam tudo na sua gruta de gelo. Era tranquilizante o fato de o velho ser o último, sem ter nenhum aprendiz hipócrita a seu lado. Estava chegando a época em que não precisaria mais se esconder debaixo da terra.

A outra pessoa era desconhecida. Uma mulher, ou algo que fora em tempos uma mulher. Usava uma máscara de bronze baço e as pesadas peles dos bárbaros do Norte. Desnecessárias e desconfortáveis, com este tempo... a menos que a pele dela sentisse algo mais do que o sol. Usava vários anéis de osso sobre os dedos cobertos por luvas de seda.

- Você é Hedge - declarou a desconhecida.

O homem ficou surpreso pelo crepitar de poder no discurso dela. Era uma feiticeira da Magia Livre, tal como suspeitara, mas mais poderosa do que poderia ter imaginado. Sabia o nome dele, ou um deles - o menos importante dos seus nomes, aquele que usara com mais frequência em tempos recentes. Ele também era um feiticeiro da Magia Livre, como tinham de ser todos os necromantes.

- Um Servo de Kerrigor - continuou a mulher. - Vejo o sinal na ua testa, apesar do seu disfarce conter alguma arte.

Hedge encolheu os ombros e tocou no que parecia ser uma marca da Carta na sua testa. Abriu-se ao meio e caiu como uma crosta, revelando uma cicatriz feia que rastejava e se contorcia na sua pele.

- Carrego o sinal de Kerrigor - respondeu ele sem entusiasmo. Mas Kerrigor se foi, dominado pela Abhorsen e aprisionado nestes últimos catorze anos.

- Você me servirá agora - disse a mulher, em um tom que não permitia qualquer discussão. - Diga-me como posso conversar com a força que se encontra debaixo deste montículo. Ela também se curvará à minha vontade.

Hedge fez uma vênia, ocultando o seu esgar. Não lhe fazia isto lembrar a forma como ele viera até ao montículo, nos dias subsequentes à queda de Kerrigor?

- Existe uma pedra no lado ocidental - disse ele, apontando com a espada. - Empurre-a para o lado e verá um túnel estreito, descendo a pique. Siga o túnel até o caminho ficar bloqueado por uma laje de pedra. Na base da pedra encontrará água infiltrando-se. Prove-a e perceberá a força de que fala.

Não mencionou que o túnel era seu, o produto de cinco anos de labor, nem que a água infiltrada era o primeiro sinal visível de uma luta pela liberdade que se arrastara por mais de dois mil anos.

A mulher concordou, a linha fina de pele pálida à volta da máscara não indiciando qualquer expressão, como se o rosto por trás dela estivesse tão imobilizado quanto o metal. Depois virou-se para o lado e proferiu uma fórmula, saindo fumaça branca do bocal da máscara a cada palavra. Quando terminou, elevaram-se duas criaturas do lugar onde tinham estado aos pés dela, quase invisíveis sobre a terra. Duas coisas vagamente humanas, de uma magreza impossível, com carne de bruma em movimento rápido e ossos de fogo branco-azulado. Elementais da Magia Livre, da espécie que os humanos chamam Hish.

Hedge observou-os com atenção e lambeu os lábios. Conseguiria lidar com um deles, mas dois poderiam obrigá-lo a revelar forças que era preferível permanecerem ocultas no momento. O velho não teria qualquer utilidade. Mesmo agora, ali sentado murmurando, uma conduta viva para alguma parte da força debaixo da colina.

- Se eu não regressar ao cair da noite - disse a mulher -, os meus servos te separarão, carne e espírito também, caso procure refúgio na Morte.

- Aguardarei aqui - replicou Hedge, instalando-se na terra áspera. Agora que conhecia as instruções dos Hish, elas não constituíam qualquer ameaça. Pousara a espada e virara um ouvido para o montículo, comprimindo-o contra o solo. Podia ouvir o murmúrio constante da força lá embaixo, através de todas as camadas de terra e pedra, muito embora os seus próprios pensamentos e palavras não conseguissem penetrar a prisão. Mais tarde, se fosse necessário, teria de entrar no túnel, beber a água e abrir a sua mente, enviando os seus pensamentos através do fino fio da largura de um dedo que irrompera através das sete defesas triplamente protegidas. Através da prata, do ouro e do chumbo; da sorveira-brava, do freixo e do carvalho; e da sétima defesa do osso.

Hedge não se deu ao incômodo de ver a mulher partir, nem se mexeu quando ouviu o som da pedra grande sendo afastada, conquanto fosse um feito muito além da força de qualquer homem normal, ou de um qualquer número de homens normais.

Quando a mulher regressou, Hedge encontrava-se precisamente no centro do montículo, olhando para sul. Os Hish estavam próximo dele, mas não fizeram qualquer movimento quando a sua ama voltou à superfície. O velho estava sentado onde sempre estivera, balbuciando ainda, muito embora Hedge não pudesse afirmar se proferia fórmulas ou dizia disparates. Não era magia conhecida, apesar de sentir a força da colina na voz do velho.

- Servirei - afirmou a mulher.

A arrogância, mas não o poder, tinha desaparecido da voz dela. Hedge viu os músculos do seu pescoço contraírem-se quando pronunciou as palavras. Sorriu e levantou a mão.

- São Pedras da Carta que foram erguidas muito próximo da colina. Você as destruírá.

- Assim farei - concordou a mulher, baixando a cabeça.

- Você era uma necromante - prosseguiu Hedge. Em anos passados, Kerrigor atraíra a si todos os necromantes do Reino, para servirem como subordinados inferiores. A maior parte perecera, quer com a queda de Kerrigor, quer, nos anos subsequentes, sob às mãos da Abhorsen. Alguns sobreviviam ainda, mas esta mulher nunca fora uma Serva de Kerrigor.

- Há muito tempo - disse a mulher.

Hedge sentiu a fraca centelha de Vida dentro dela, bem enterrada debaixo das peles e da máscara de bronze fortemente protegidas por fórmulas. Era velha, esta feiticeira, muito, muito velha - em nada uma vantagem para um necromante que tinha de caminhar na Morte. Aquele rio frio tinha um gosto particular pelos que haviam escapado às suas garras muito além do seu tempo de vida.

- Vai voltar a usar os sinos, pois necessitará de muitos Mortos para o trabalho que está pela frente. - Hedge desapertou a sua própria bandoleira e entregou-a cautelosamente, tendo o cuidado de não fazer soar os sinos. Tinha para si próprio um outro conjunto dos sete, tirados de um necromante menor no caos subsequente à derrota de Kerrigor. A sua recuperação envolveria algum risco, pois encontravam-se na parte principal do Reino há muito reclamada pelo Rei e a sua Abhorsen. Mas não precisava dos sinos para os seus planos imediatos e não podia levá-los para o lugar onde tencionava ir.

A mulher pegou os sinos mas não colocou a bandoleira. Esticou antes a mão direita, com a palma para cima. Uma minúscula centelha refulgiu ali, um fragmento de metal que brilhou com o seu próprio fogo branco intenso. Hedge estendeu a sua própria mão e o fragmento saltou para lá, enterrando-se precisamente debaixo da pele, sem sangrar. Hedge levou-a ao rosto, sentindo o poder no metal. Depois, fechou lentamente os dedos e sorriu.

Não era para ele, este pedaço de metal secreto. Era uma semente, uma semente que podia ser plantada em muitos solos. Hedge tinha uma finalidade específica para ela, um leito extremamente fértil onde cresceria até frutificar. Mas provavelmente passariam muitos anos antes de poder semeá-la onde provocaria maior mal.

- E você? - perguntou a mulher. - O que faz?

- Eu vou para o sul, Chlorr da Máscara - disse Hedge, revelando que sabia o nome dela e muitas coisas mais. - Para sul, para Ancelstierre, do outro lado da Muralha. A região onde nasci, muito embora em espírito não seja filho do seu solo débil. Tenho muito que fazer ali e mais longe ainda. Mas receberá notícias minhas quando eu precisar. Ou se eu souber de novas que não me agradem.

Virou-se então e afastou-se sem mais uma palavra. Pois um amo não precisa se despedir de qualquer dos seus servos.

 

Embrenhada num sonho, Lirael sentiu que lhe acariciavam a testa. Uma carícia gentil, suave, uma mão fresca sobre a sua pele febril. Sentiu-se sorrir, apreciando a sensação. Depois o sonho mudou e franziu a testa. A carícia já não era suave e terna, mas áspera e irritante. Já não era fresca, queimava-a...

Acordou. Levou um segundo ao perceber que arrancara o lençol e estava deitada de bruços sobre o forro de tecido grosseiro do colchão. Era de lã e muito áspera. A almofada estava no chão. A fronha fora retirada no decurso de algum pesadelo e pendia agora da cadeira.

Lirael percorreu com o olhar o pequeno aposento, mas não havia sinais de quaisquer outros danos noturnos. O seu simples guarda-vestidos de pinho tratado estava em pé, o trinco de aço ainda fechado. A mesa e a cadeira continuavam a ocupar o outro canto. A sua espada de praticar encontrava-se na bainha, pendurada atrás da porta.

Devia ter sido uma noite relativamente boa. Às vezes, no seu sonho adornado de pesadelos, Lirael caminhava, falava e semeava o caos. Mas sempre e apenas no seu quarto. O seu precioso quarto. Não suportava pensar como seria a sua vida se fosse obrigada a voltar para os aposentos familiares.

Fechou novamente os olhos e pôs-se à escuta. Tudo silencioso, o que significava que devia faltar ainda muito para se ouvir o Sino do Despertar. O sino soava todos os dias à mesma hora, tirando as Clayr das suas camas para se reunirem à nova manhã.

Lirael comprimiu os olhos com mais força e tentou voltar a adormecer. Queria recuperar a sensação daquela mão na sua testa. Aquela carícia era a única coisa que recordava da mãe. Não o seu rosto ou a sua voz - apenas o toque da sua mão fresca.

Hoje precisava desesperadamente daquela carícia. Mas há muito que a mãe de Lirael partira, levando consigo o segredo da paternidade de Lirael. Fora-se embora tinha ela cinco anos, sem uma palavra, sem uma explicação. Nunca houvera qualquer explicação. Apenas a notícia da sua morte, uma mensagem truncada do distante Norte que chegara três dias antes do décimo aniversário de Lirael.

Assim que pensava no assunto, lá se ia a esperança de adormecer. Como em todas as outras manhãs, Lirael desistiu de tentar manter os olhos fechados. Deixou que se abrissem e olhou para o teto durante alguns minutos. Mas a pedra estava igual ao que sempre fora. Continuava cinzenta e fria, com minúsculas manchas cor-de-rosa.

Brilhava também ali uma marca da Carta para luz, quente e dourada na pedra. Brilhara com maior intensidade quando Lirael despertara e ganhou ainda mais brilho quando pôs as pernas de fora e procurou com os dedos dos pés os chinelos. As salas das Clayr eram aquecidas pelo vapor das nascentes de água quente e pela magia, mas o chão de pedra estava sempre frio.

- Faço hoje catorze anos - murmurou Lirael. Calçou os chinelos, mas não fez menção de se levantar. Desde que a mensagem da morte da mãe chegara tão em cima do seu décimo aniversário, todos os seguintes tinham sido portadores de tristeza.

- Catorze! - repetiu Lirael, a palavra envolta em angústia. Tinha catorze anos e, pelos padrões do mundo exterior aogeleira das Clayr, era uma mulher. Mas, aqui, continuava a usar a túnica azul de uma criança, pois as Clayr assinalavam a passagem ao estado adulto não pela idade, mas pelo dom da Visão.

Mais uma vez, Lirael fechou os olhos, comprimindo-os com força como se quisesse ver o futuro. Todas as outras da sua idade tinham a Visão. Muitas crianças mais jovens usavam já a túnica branca e o pequeno círculo de selenites. Era inaudito não ter a Visão aos catorze anos.

Lirael abriu os olhos, mas não teve qualquer visão. Apenas o seu quarto simples, ligeiramente desfocado pelas lágrimas. Limpou-as e levantou-se.

- Não tenho mãe, nem pai, nem Visão - disse ela ao abrir o guarda-vestidos e tirar uma toalha. Era uma litania familiar. Dizia-a com frequência, muito embora a fizesse sentir sempre uma terrível pontada de tristeza no estômago. Era o mesmo que importunar uma dor de dentes com a língua. Doía, mas não a podia deixar em paz. A ferida fazia agora parte dela.

Mas talvez um dia, em breve, fosse chamada pela Voz da Vigia de Nove Dias. Nesse caso, acordaria e diria: ”Não tenho mãe, nem pai, mas tenho a Visão.”

- Hei-de ter a Visão - murmurou Lirael de si para si quando abriu gradualmente a porta e veio nas pontas dos pés pelo corredor até aos balneários. Acenderam-se marcas da Carta quando passou debaixo delas, transformando o crepúsculo em dia. Mas todas as outras portas na Ala da Juventude permaneceram fechadas. Uma vez, Lirael batera nelas, rindo e chamando as outras órfãs que viviam ali para um banho madrugador.

Mas isso fora há anos. Antes de todas terem adquirido a Visão.

Isso fora também na época em que Merell era Guardiã das Jovens, alguém que governara com mão leve aquelas que tinham sido confiadas à sua guarda. A própria tia de Lirael, Kirrith, era agora a Guardiã. Se houvesse qualquer barulho, sairia do seu quarto com o roupão de banho de riscas castanho-avermelhadas, para impor silêncio e respeito às mais velhas que dormiam. Também não faria concessões especiais a Lirael. Muito pelo contrário. Kirrith era o exato oposto da mãe de Lirael, Arielle. Defendia as regras e os regulamentos, a tradição e a conformidade.

Kirrith nunca abandonaria a geleira para viajar sabe-se lá para onde, regressando grávida passados sete meses. Lirael carregou o sobrolho à porta de Kirrith. Não que esta alguma vez lhe tivesse contado. Kirrith não falaria sobre a sua irmã mais nova. O pouco que Lirael ficara sabendo sobre a mãe fora através de conversas das suas primas mais chegadas. Aquelas em que tinham discutido o que fazer com uma menina que obviamente era uma inadaptada.

Lirael ficou novamente carrancuda ante aquele pensamento. O semblante carregado não desapareceu, mesmo quando esfregou o rosto com pedra-pomes no banho quente. Só o choque do mergulho frio na piscina comprida desfez as rugas.

Estas voltaram, porém, quando Lirael penteou o cabelo no espelho comunal no quarto de vestir ao lado da piscina de água fria. O espelho era um retângulo de aço prateado, com vinte centímetros de altura por trinta de largura, bastante baço nas extremidades. Mais tarde, durante a manhã, seria partilhado por oito das catorze órfãs presentemente a viver na Ala da Juventude.

Lirael detestava partilhar o espelho, porque tornava ainda mais óbvia uma outra diferença. A maior parte das Clayr tinha pele morena que adquiria rapidamente um tom acastanhado-escuro quando exposta ao sol nas vertentes da geleira, bem como cabelo louro-brilhante e olhos claros. Em contraste, Lirael destacava-se como uma erva daninha pálida entre flores saudáveis. A sua pele branca apanhava um escaldão em vez de bronzear e tinha olhos escuros e cabelo ainda mais escuro.

Sabia que provavelmente saía ao pai, quem quer que tivesse sido. Arielle nunca o identificara, uma outra vergonha que a sua filha sofredora teria de carregar. As Clayr tinham com frequência filhos concebidos por homens de visita, mas por norma não abandonavam a geleira à procura deles e não faziam segredo dos pais. E, por alguma razão, quase todas tinham meninas. Menias morenas com olhos azul-claros ou verdes.

Exceto Lirael.

Sozinha diante do espelho, Lirael conseguia esquecer tudo isso. Concentrava-se em escovar o cabelo, quarenta e nove escovadelas de cada lado. Sentiu-se mais esperançosa. Talvez fosse este o dia. Um décimo quarto aniversário assinalado pelo melhor presente possível. O dom da Visão.

Mesmo assim, Lirael não tinha vontade de tomar o café da manhã no Refeitório do Meio. A maior parte das Clayr comia lá e teria de se sentar numa mesa com meninas três ou quatro anos mais novas, destacando-se como um cardo num canteiro de flores bem cuidadas. Um cardo de roupa azul. Todas as demais da sua idade vestiam-se de branco, sentavam-se às mesas das Clayr coroadas e reconhecidas.

Ao invés, Lirael atravessou dois corredores e desceu duas escadas que seguiam em espiral em direções opostas, até ao Refeitório Inferior. Era aqui que os mercadores comiam e os suplicantes que vinham pedir às Clayr que lhes vissem os futuros. As únicas Clayr aqui seriam as que trabalhavam na cozinha ou nas escalas de serviço.

Ou quase a única Clayr.

Havia uma outra que Lirael esperava que viesse até lá. A Voz da Vigia de Nove Dias. Enquanto descia os últimos degraus, Lirael imaginou a cena. A Voz descendo as escadas principais, tocando o gongo, depois parando para anunciar que a Vigia de Nove Dias a Vira - Vira Lirael - ser coroada com o pequeno círculo de selenites, a Vira adquirir finalmente a Visão.

O Refeitório Inferior não estava muito cheio naquela manhã. Apenas três das seis mesas se encontravam ocupadas. Lirael dirigiu-se para uma quarta, o mais longe possível das outras, e puxou o banco. Preferia sentar-se sozinha, mesmo quando não estava rodeada das Clayr.

Duas das mesas encontravam-se ocupadas por mercadores, provavelmente de Belisaere, conversando em voz alta sobre as pimentas em grão, o gengibre, a noz-moscada e a canela que tinham importado lá do longínquo Norte e esperavam vender às Clayr. A conversa deles sobre a qualidade e intensidade das suas especiarias era por demais evidente que se destinava a ser ouvida pelas Clayr trabalhando nas cozinhas.

Lirael cheirou o ar. As afirmações deles até podiam ser verdadeiras. O cheiro de cravos-da-índia e noz-moscada que vinha dos sacos dos mercadores era muito forte, mas agradável. Lirael considerou-o como um outro bom presságio.

A terceira mesa estava ocupada pelos guardas dos mercadores. Mesmo aqui, dentro dogeleira das Clayr, usavam cotas de malha blindadas com escamas entrecruzadas e conservavam as espadas embainhadas por perto, debaixo dos bancos. Obviamente, pensavam que os bandidos ou pior podiam facilmente seguir o caminho estreito ao longo do desfiladeiro do rio e forçar o portão que conduzia ao vasto complexo das Clayr. Claro que não teriam conseguido ver a maior parte das defesas. O caminho do rio estava cheio de marcas da Carta de ocultar e cegar e debaixo das lajes planas havia enviados de animais e guerreiros que surgiriam à menor ameaça. O caminho atravessava também o rio nada menos de sete vezes, por pontes estreitas de construção antiga, aparentemente feitas de pedra. Pontes de defesa fácil - com o rio Ratterlin correndo lá embaixo, suficientemente fundo e suficientemente rápido para impedir quaisquer Mortos de as atravessarem.

Até aqui no Refeitório Inferior era possível encontrar Magia da Carta adormecida nas paredes e enviados que dormiam na pedra desbastada do chão e do teto. Lirael conseguia ver as marcas da Carta, por mais tênues que fossem, e decifrar as fórmulas que continham. Os enviados eram mais difíceis, pois apenas percebiam as marcas para os ativar. Claro que havia também marcas visíveis, aquelas que lançavam luz aqui e nos demais lugares do domínio subterrâneo das Clayr, introduzidas na rocha da montanha, ao lado da massa gelada da geleira.

Lirael analisou os rostos dos visitantes. Sem elmos, o seu cabelo cortado curto permitia ver que nenhum deles apresentava nas testas a marca da Carta. Por isso, quase com certeza não conseguiam ver a magia que os rodeava. Instintivamente, Lirael afastou o seu cabelo muito comprido e apalpou a sua marca. Pulsou ligeiramente sob o toque dela e captou a sensação de ligação, a sensação de pertencer à grande Carta que descrevia o mundo. Pelo menos, até certo ponto, sempre era uma Maga da Carta, mesmo que não possuísse a Visão.

Os guardas dos mercadores deviam confiar mais nas defesas das Clayr, pensou Lirael, olhando novamente para os homens e mulheres com armadura. Um deles reparou no olhar dela e por um instante os seus olhos cruzaram-se, até ela os desviar. Naquele momento fugaz, viu um jovem, a sua cabeça ainda mais rapada do que a dos outros, o couro cabeludo brilhou quando captou a luz das marcas da Carta no teto.

Apesar de tentar ignorá-lo, Lirael viu o guarda levantar-se e encaminhar-se, a sua cota de escamas muito grande para alguém que não iria ver o seu verdadeiro crescimento por vários anos. Lirael franziu o cenho quando ele se aproximou e virou ainda mais a cabeça. Precisamente porque as Clayr esporadicamente se amantizavam com os visitantes, algumas pessoas julgavam que qualquer Clayr que fosse ao Refeitório Inferior andava à caça de um homem. Esta noção parecia particularmente forte entre os homens jovens de dezesseis anos ou mais.

- Desculpe - disse o guarda. - Posso sentar-me aqui?

Lirael concordou com relutância e ele sentou-se, uma cascata de escamas chocalhando no seu peito numa lenta precipitação de metal.

- Sou Barra - anunciou, todo animado. - É a primeira vez que vem aqui?

- O quê? - perguntou Lirael, perplexa e tímida. - Ao Refeitório?

- Não - respondeu Barra, rindo e estendendo os braços para indicar uma perspectiva muito maior. - Aqui. Aogeleira das Clayr. Esta é a minha segunda visita, por isso se precisar de alguém para te mostrar o lugar... muito embora calcule que os seus pais venham aqui comerciar com frequência?

Lirael desviou novamente o olhar, sentindo um forte calor nos malares. Tentou pensar em algo que dizer, alguma resposta enérgica, mas tudo o que lhe ocorreu foi que até os forasteiros achavam que ela não era uma verdadeira Clayr. Até um saloio estúpido, subdesenvolvido e chocalheiro como este.

- Como se chama? - perguntou Barra, ignorando o rubor e o terrível vazio que crescera dentro dela.

Lirael engoliu em seco e umedeceu os lábios, mas não saiu qualquer resposta. Sentia-se como se não tivesse um nome para dar, ou mesmo uma identidade. Não conseguia sequer olhar para Barra porque os seus olhos estavam cheios de lágrimas, por isso olhou antes para a pêra meia comida no seu prato.

- Só queria cumprimentar - afirmou Barra, constrangido, quando o silêncio se estendeu entre eles.

Lirael concordou e caíram duas lágrimas sobre a pêra. Não ergueu o olhar nem tentou limpar os olhos. Sentia os braços sem energia e inúteis, tal como a voz.

- Desculpe - disse Barra ao pôr-se em pé. Lirael viu-o voltar para a sua mesa, os seus olhos parcialmente cobertos por uma cascata protetora de cabelo. Quando se encontrava a alguns passos, um dos homens disse algo, não alto o suficiente para se ouvir. Barra encolheu os ombros e os homens - e algumas das mulheres desataram às gargalhadas.

- É o meu aniversário - murmurou Lirael para o prato, a sua voz mais cheia de lágrimas do que os olhos. - Não devo chorar no meu aniversário. - Levantou-se e desceu desajeitadamente do banco, levando o prato e o garfo até à divisória da copa, tendo o cuidado de não olhar para a primeira, segunda ou terceira prima trabalhando ali.

Segurava ainda o prato quando uma das Clayr desceu as escadas principais e bateu com uma vara de ponta de metal no primeiro dos sete gongos que se encontravam nos últimos sete degraus. Lirael ficou estática e todos no Refeitório pararam de conversar enquanto a Clayr descia, batendo por sua vez em cada um dos gongos, as diferentes notas fundindo-se numa só antes de ecoarem pelo silêncio.

No último degrau, a Clayr parou e levantou a vara. O coração de Lirael pulou dentro de si, enquanto o estômago formou um nó devido à ansiedade. Tal e qual como imaginara. Tanto, que teve certeza de que não fora imaginação sua, mas o começo da Visão. Sohrae, como a sua vara declarara, era presentemente a Voz da Vigia de Nove Dias, a Voz que anunciava quando a Vigia via algo de importância pública para as Clayr ou o Reino. Mais importante, a Voz anunciava também quando a Vigia vira a criança que seria a próxima a adquirir a Visão.

- Conheço uma, conheço muitas - proclamou Sohrae, a sua voz cristalina levada a cada canto do Refeitório e às cozinhas e copas lá atrás. - A Vigia de Nove Dias anuncia com imenso prazer que o Dom da Visão Despertou na nossa irmã...

Sohrae respirou fundo para prosseguir e Lirael fechou os olhos, sabendo que Sohrae se preparava para dizer o seu nome. Deve, deve, deve ser o meu, pensou. Dois anos mais tarde do que todos e hoje é o meu aniversário. Tem de...

- Annisele - entoou Sohrae. Depois virou-se e voltou a subir as escadas, batendo de leve nos gongos, o seu som uma suave corrente subterrânea para a conversa que prosseguia entre os visitantes.

Lirael abriu os olhos. O mundo não mudara. Não tinha a Visão. Continuaria tudo na mesma. Infelizmente.

- Dê-me o seu prato, por favor? - pediu a prima invisível por trás da divisória da copa. - Oh, Lirael! Pensei que fosse uma visitante. É melhor apressar-se a ir lá para cima, querida. O Despertar de Annisele começará dentro de uma hora. Esta é a última parada da Voz, sabe. Por que motivo veio comer aqui?

Lirael não respondeu. Deixou que lhe tirassem o prato e atravessou o Refeitório como uma sonâmbula, os dedos roçando apaticamente os cantos da mesa ao passar. Só conseguia pensar na voz de Sohrae, martelando sucessivamente na sua cabeça.

- O dom da Visão Despertou na nossa irmã Annisele. Annisele. - Seria Annisele a usar a túnica branca, a ser coroada com a prata e as selenites, enquanto Lirael teria mais uma vez de pôr a sua melhor túnica azul, a farda de uma criança. A túnica que já não tinha bainha, tantas vezes fora deitada abaixo. A túnica que era ainda curta demais.

Annisele acabara de fazer onze anos há dez dias. Mas o seu aniversário não seria nada comparado com este dia, o dia do seu Despertar.

Os aniversários não eram nada, pensou Lirael, ao colocar mecanicamente um pé à frente do outro, nos seiscentos passos que iam do Refeitório ao Caminho do Ocidente, ao longo daquele caminho por duzentos passos e depois subindo os cento e dois degraus até à porta dos fundos da Ala da Juventude. Contou cada degrau e não olhou ninguém nos olhos. Tudo o que viu foi a extensão de túnicas brancas e a exposição de chinelos pretos nos pés, quando todas as Clayr acorreram ao Salão Grande para homenagear a última menina a entrar para as fileiras daquelas que Viam o futuro.

Quando chegou ao seu quarto, Lirael descobriu que qualquer pequena alegria que pudesse ter no seu aniversário se eclipsara. Extinguira-se, apagara-se como uma vela. O dia era agora de Annisele, pensou Lirael. Tinha de tentar ficar feliz por Annisele. Tinha de ignorar a terrível tristeza que se avolumava no seu próprio coração.

 

UM FUTURO PERDIDO

Lirael atirou-se para cima da cama e tentou vencer o seu desespero. Devia efetivamente estar vestindo-se para o Despertar de Annisele. Mas de cada vez que começava a levantar-se sentia-se incapaz de continuar e voltava a sentar-se. De momento, era impossível levantar-se. Tudo o que conseguia fazer era reviver o momento horrível no Refeitório Inferior em que não ouvira o seu nome. Mas conseguiu afastar a mente do assunto, pensar no futuro imediato, não no passado. Lirael tomou uma decisão. Não iria ao Despertar de Annisele.

Era pouco provável que dessem pela sua falta, mas havia a chance de alguém vir buscá-la. Este pensamento deu-lhe força suficiente para sair finalmente da cama e procurar esconderijos. Debaixo da cama era o tradicional, mas a parte inferior da armação simples da cama de Lirael era simultaneamente estreita e estava cheia de pó, dado que há semanas que não seguia à risca a rotina normal de limpeza.

Ponderou por instantes o guarda-vestidos. Mas o seu espaço livre em forma de caixa e a construção com tábuas de pinho faziam-lhe lembrar um caixão ao alto. A idéia não era nova para Lirael. Sempre tivera o que as primas consideravam uma imaginação mórbida. Quando era menor, gostava de representar cenas de morte dramática de histórias famosas. Há muitos anos que parara de representar, mas nunca deixara de pensar na morte. A sua própria, em particular.

- A morte - murmurou Lirael, estremecendo ao ouvir a palavra em voz alta. Proferiu-a de novo, um pouco mais alto. Uma palavra simples, uma forma simples de evitar todas as coisas que a atormentavam. Podia evitar o Despertar de Annisele, mas provavelmente não conseguiria evitar todos os outros que se seguiriam.

Se se suicidasse, raciocinou Lirael, não teria de ver garotas cada vez mais novas do que ela adquirirndo a Visão. Não teria de ficar junto de um grupo de crianças de túnicas azuis. Crianças que espreitavam todas por debaixo das pestanas durante a cerimônia do Despertar. Lirael conhecia essa expressão e reconhecia o medo que encerrava. Receavam poder vir a ser como ela, condenada a não ter a única coisa que realmente importava.

E não teria de suportar as Clayr que a olhavam com pena. Aquelas que paravam sempre e perguntavam como estava. Como se meras palavras pudessem descrever o que sentia. Ou como se, mesmo que tivesse as palavras, Lirael lhes pudesse dizer o que era fazer catorze anos e não ter a Visão.

- A morte - murmurou Lirael novamente, saboreando a palavra na língua. Que outra solução lhe restava? Houvera sempre a esperança de um dia adquirir a Visão. Mas agora tinha catorze anos. Já alguma vez se ouvira falar de uma Clayr sem Visão aos catorze anos? A situação nunca se parecera tão desesperada como naquele dia.

- É o melhor a fazer - proferiu Lirael, como se informasse uma amiga de uma decisão vital. A voz dela parecia confiante, mas por dentro não tinha tanto certeza. O suicídio não era algo que as Clayr fizessem. Matar-se seria a confirmação derradeira e terrível de que não pertencia ali. Provavelmente era o melhor. Mas como o faria? Os olhos de Lirael vaguearam até ao lugar onde a sua espada de praticar se encontrava pendurada na bainha, atrás da porta. Era de aço rombo e macio. Provavelmente cairia sobre a sua ponta, mas isso levaria a uma morte muito lenta e dolorosa. Além disso, alguém ouviria com certeza os seus gritos e iria pedir ajuda.

Existiria provavelmente uma fórmula que lhe faria cessar a respiração, secaria os pulmões e fecharia a garganta. Mas não a encontraria nos livros escolares, no seu guia de Magia da Carta nem no índice de Marcas da Carta, estando os dois últimos em cima da sua mesa a alguns passos de distância. Teria de ir procurar semelhante fórmula na Grande Biblioteca e esse tipo de magia estaria trancado por feitiço e chave.

Restavam-lhe dois meios razoavelmente acessíveis de acabar com tudo: o frio e a altura.

- A geleira - murmurou Lirael. Seria assim, estava decidido. Subiria a Escada de Starmount enquanto todas as demais estivessem no Despertar de Annisele e depois se atiraria para o gelo. Eventualmente, se alguém se desse ao incômodo de olhar, encontraria o seu corpo gelado e despedaçado - e então entenderia como era difícil ser uma Clayr sem a Visão.

Os olhos encheram-se de lágrimas ao imaginar uma grande multidão observando silenciosamente enquanto o corpo dela era levado para o Salão Grande, o azul da sua túnica transformado em branco pelo gelo e a neve incrustados nela.

Uma pancada na porta pôs termo ao seu devaneio mórbido e Lirael deu um pulo, aliviada. A Vigia de Nove Dias devia tê-la visto, pela primeira vez desde sempre. Tinham-na visto subir aogeleira e mergulhar, por isso haviam enviado alguém para impedir esse futuro, para lhe dizer que um dia alcançaria a Visão, que tudo correria bem.

Depois a porta abriu-se, antes que Lirael tivesse tempo de dizer ”Entre”. Era o suficiente para lhe indicar que não se tratava de uma Vigilante de Nove Dias preocupada com a sua segurança. Era a tia Kirrith, Guardiã das Jovens. Ou mais o inverso, dado que nunca tratava Lirael de modo diferente das outras e em particular não lhe demonstrava o afeto que seria de esperar de uma tia.

- Você está aí! - ressoou desnecessariamente Kirrith na sua voz enfastiante e falsamente alegre. - Procurei-a no café da manhã, mas havia tanta gente que não consegui encontrá-la. Feliz aniversário, Lirael!

Lirael olhou para Kirrith e o presente que lhe estendia. Um embrulho grande quadrado, envolto em papel vermelho e azul salpicado de ouro. Um papel muito bonito, também. A tia Kirrith nunca antes lhe oferecera um presente. Explicou-o dizendo que também nunca aceitara presentes, mas Lirael achou que isso nada tinha a ver com o assunto. Tratava-se de dar, não de receber.

- Vamos, abra-o - exclamou Kirrith. - Já não temos muito tempo para o Despertar. Imagine só ter sido a pequena Annisele!

Lirael pegou o embrulho. Era macio, mas bastante pesado. Por um momento, todos os seus pensamentos sobre o suicídio desapareceram, afastados pela curiosidade. O que poderia ser o presente? Depois, apalpando novamente o embrulho, acometeu-a um pressentimento terrível. Rapidamente, abriu um buraco no canto do papel e viu o azul revelador.

- É uma túnica - disse Lirael, as palavras parecendo vir de outro e de muito longe. - Uma túnica de criança.

- Sim - confirmou Kirrith, resplandecente na sua própria túnica branca, o pequeno círculo de prata e selenites preso na sua cabeça louro-branca. - Reparei que a sua antiga estava muito curta, nada decente, dada a forma como cresceu...

Continuou a falar, mas Lirael não ouviu uma palavra. Já nada se afigurava real. Nem a túnica nova nas suas mãos. Nem a conversa da tia Kirrith. Nada.

- Vamos lá, então, vista-se! - encorajou-a Kirrith, compondo as pregas da sua própria túnica. Era uma mulher grande e alta, uma das Clayr mais altas. Lirael sentia-se muito pequena diante dela e de certa forma suja em comparação com a enorme extensão de branco que era a túnica de Kirrith. Olhou para aquela brancura e começou pensando novamente no gelo e na neve.

Estava perdida em pensamentos quando Kirrith lhe bateu no ombro.

- O quê? - perguntou Lirael, percebendo que não ouvira a maior parte das palavras de Kirrith.

- Vista-se! - repetiu a tia Kirrith. Uma leve expressão carrancuda enrugava-lhe a pele da testa, fazendo o pequeno círculo descer e ensombrar-lhe os olhos. - Seria uma grave falta de educação chegar atrasada.

Mecanicamente, Lirael despiu a túnica velha e enfiou a nova. Era de linho pesado, tesa de ser nova, pelo que se viu um pouco a braços com ela, até a tia Kirrith a puxar rapidamente para baixo. Quando enfiou os braços e a túnica lhe assentou nos ombros, chegava-lhe acima dos tornozelos.

- Tem muito espaço para crescer - comentou a tia Kirrith com satisfação. - Agora, temos de ir andando.

Lirael olhou para o mar de tecido azul que envolvia todo o seu corpo e pensou que havia mais espaço do que alguma vez poderia vir a encher. A tia Kirrith devia estar contando que ela nunca fosse usar o branco do Despertar, pois esta túnica lhe serviria mesmo que continuasse a crescer até aos trinta e cinco anos.

- Vá você tia, eu a alcanço num instante - mentiu, pensando na Escada de Starmount, nos penhascos mais além e no gelo aguardando. - Tenho de ir banheiro.

- Muito bem - disse Kirrith, apressando-se a sair para o corredor. - Mas não demore, Lirael! Pense no que diria a sua mãe!

Lirael seguiu-a, virando à esquerda para os sanitários mais próximos. Kirrith virou à direita, batendo as palmas para apressar três meninas de oito anos que se vestiam pelo caminho, as suas túnicas meio enfiadas pela cabeça, abafando as risadas.

Lirael não fazia idéia do que diria a mãe fosse sobre o que fosse. Tinham-na arreliado com bastante frequência por causa de Arielle quando era mais nova, antes de se isolar demais para se deixar importunar. Era bastante normal as Clayr procurarem amantes esporádicos entre os visitantes dogeleira e não tão incomum assim encontrarem um no exterior. Mas era insólito não registrrarem a linhagem dos filhos.

A mãe contribuíra para o seu carácter incomum ao abandonar a geleira - e a pequena Lirael de cinco anos - chamada por alguma visão que não partilhara com as outras Clayr. Anos depois, a tia Kirrith contara a Lirael que Arielle morrera, mas nunca soubera em que circunstâncias. Lirael ouvira várias teorias, incluindo que Arielle fora envenenada por rivais invejosas na corte de algum pequeno senhor bárbaro nas extensões geladas do Norte ou morta por animais. Aparentemente, servira como vidente, algo que nenhuma Clayr consideraria uma ocupação adequada para pessoas do seu Sangue.

A dor de perder a mãe fora trancada no coração de Lirael, mas não tão fundo que não pudesse ser exposta. A tia Kirrith era perita em trazê-la de volta.

Assim que Kirrith e as três garotas subitamente repreendidas desapareceram, Lirael voltou para o seu quarto e foi buscar agasalhos para o exterior: um casaco de lã grossa, ensebado com lanolina, um boné de feltro duplo com proteção para as orelhas, galochas impermeáveis, luvas forradas de pele e óculos protetores com lentes de vidro verde escuro. Uma parte de si dizia que era uma estupidez ir buscar aquelas coisas, visto que ia ao encontro da morte, mas outra vozinha dentro dela dizia que podia ir devidamente vestida.

Dado que todas as partes habitadas do domínio das Clayr eram aquecidas por vapor canalizado das nascentes profundas, Lirael transportou o equipemento de exterior, as peças menores embrulhadas no casaco. A subida da Escada de Starmount provocaria calor suficiente, não precisava vestir toda aquela lã. Num último gesto de desafio, despiu a túnica nova e atirou-a para o chão. Resolveu vestir antes as roupas neutras usadas quando as Clayr estavam de serviço na cozinha ou na copa do Refeitório Inferior, uma camisa comprida de algodão cinzento que lhe descia até os joelhos, por cima de finas calças de lã azul. Havia um avental de lona que fazia parte deste conjunto, mas Lirael deixou-o ficar.

Era estranho escapulir pelo Caminho do Norte sem avistar ninguém. Normalmente, andariam dúzias de Clayr nas suas atividades por esta movimentada via de comunicação, tanto a caminho como no regresso da Vigia de Nove Dias ou envolvidas na infinidade de tarefas mais mundanas da comunidade. a geleira das Clayr era realmente uma cidade muito pequena, talvez muito estranha, dado a sua principal atividade ser ver o futuro. Ou, como as Clayr tinham de explicar constantemente aos visitantes, os inúmeros futuros possíveis.

No ponto em que o Caminho do Norte se encontrava com o Ziguezague, Lirael certificou-se de que passava despercebida. Depois deu mais alguns passos ao longo do primeiro zigue do Ziguezague, procurando um pequeno buraco escuro à altura da cintura. Quando o encontrou, tirou a chave que usava numa corrente no pescoço. Todas as Clayr tinham chaves dessas e elas abriam a maior parte das portas normais. A Porta de Starmount não era usada com frequência, mas Lirael não tinha idéia de que necessitasse de uma chave especial.

Não havia sinal de uma porta à volta da fechadura até Lirael enfiar a chave e a rodar duas vezes. Depois, um tênue fio prateado estendeu-se do chão e traçou uma ombreira na pedra amarelada.

Lirael empurrou a porta, abrindo-a. Entrou uma rajada de ar frio, ela a atravessou rapidamente. Se houvesse quaisquer outras pessoas por ali, perceberiam uma brisa fria mais depressa do que qualquer outra coisa. As Clayr podiam viver numa montanha que estava semiencoberta por um glaciar, mas não gostavam do frio.

A porta fechou-se atrás de Lirael e as linhas de prata que marcavam o seu contorno sumiram lentamente. À frente dela, os degraus subiam em linha reta, as marcas da Carta por cima delas proporcionando uma luz mais difusa do que nos corredores principais. Os degraus eram mais altos do que o costume, algo que Lirael esquecera de uma excursão da turma muitos anos antes, momento em que todos os degraus tinham parecido altos. Esboçou um esgar ao começar a subir, sabendo que os músculos das barrigas das pernas não tardariam a protestar os quinze centímetros a mais de altura.

Havia um corrimão de bronze durante os primeiros cem degraus ou mais, no ponto em que a escada subia numa linha reta sem-fim. Lirael agarrou-se a ele ao subir, o frio do metal suave sob a sua mão. Como era seu hábito, começou a contar os degraus, o ritmo regular afastando temporariamente as imagens mentais de si mesma caindo por uma vertente de gelo infinita.

Mal reparou quando o corrimão acabou e os degraus começaram a virar para dentro, na longa espiral que a levaria ao alto da montanha, Starmount. O outro pico irmão era Sunfall e as duas montanhas sustinham a geleira entre si. A geleira que um dia tivera o seu próprio nome, mas há muito fora esquecido. Assim, durante milhares de anos, recebera o nome das Clayr que viviam por cima, ao lado e às vezes por baixo dele. Com o tempo, aquele nome tornara-se também extensivo ao domínio das Clayr, por isso tanto a grande massa de gelo como os salões de pedra eram conhecidos como a geleira das Clayr, como se fossem um só.

Não que as Clayr escolhessem por norma as divisões próxima da geleira. Tinham vivido na montanha durante milênios, seguindo o sistema de túneis das larvas-escavadoras agora quase extintas ou empreendendo as suas próprias escavações mágicas ou físicas. Ao mesmo tempo, a geleira continuara a sua marcha inexorável vale abaixo e até às montanhas que a prendiam dos lados. O gelo esmagou-se e irrompeu pela pedra e a geleira permaneceu indiferente ao fato de isso também implicar a destruição dos túneis das Clayr.

Claro que as Clayr conseguiam Ver o lugar por onde a geleira ia seguir o seu caminho descuidado, mas isso não detivera várias construtoras ambiciosas de tempos idos. Obviamente que tinham achado que os seus alargamentos durariam o mesmo tempo que elas e provavelmente durante pelo menos três ou quatro gerações depois delas - tempo suficiente para valer a pena o trabalho.

Lirael pensou em todas aquelas construtoras e perguntou-se por que motivo a escada fora construída com degraus tão desconfortavelmente altos. Mas passado um pouco, nem sequer a contagem mecânica dos degraus conseguiu refrear a imaginação dela. Começou a imaginar o aspecto de Annisele naquele preciso instante. Talvez se encontrasse de pé, no extremo reservado às crianças no Salão Grande, uma figura isolada de branco no meio de um campo de azul. Estaria sem dúvida olhando para o outro extremo, mal reparando nas filas e filas de Clayr vestidas de branco, sentadas nos bancos que se alinhavam de ambos os lados do Salão por várias centenas de metros, vinte e uma filas ao todo. Bancos de mogno escuro antigo, com almofadas de seda que eram substituídas todos os cinquenta anos, com considerável cerimônia.

Mesmo ao fundo do Salão, estaria a Voz da Vigia de Nove Dias e talvez algumas das Vigilantes, também, se a sua atividade o permitisse. Estariam de pé à volta da Pedra da Carta que irrompia do chão do Salão, um único menir com todas as marcas da Carta que descreviam tudo no mundo, visível ou invisível. E, na Pedra da Carta, mais alta do que alguém conseguia alcançar, exceto a Voz com a sua vara de ponta de metal, estaria o pequeno círculo da nova Clayr, a prata e as selenites refletindo as marcas da Carta da Pedra.

Lirael obrigou as suas pernas cansadas a subir outro degrau. A caminhada de Annisele não seria nada cansativa. Apenas algumas centenas de passos, com rostos sorridentes de todos os lados. Depois, quando o pequeno círculo fosse finalmente colocado na sua cabeça, o tumulto no momento em que todas as Clayr se levantariam, seguido dos enormes vivas que ecoariam pelo Salão. O Despertar de Annisele, uma verdadeira Clayr, uma mestra da Visão. Aclamada por todas sem exceção.

Ao contrário de Lirael, que estava, como sempre, sozinha e marginalizada. Sentiu vontade de chorar mas reprimiu as lágrimas. Mais cem passos e chegaria ao Portão de Starmount. Uma vez transposto o portão e atravessado o enorme terraço em frente dele, Lirael se encontraria à beira da geleira, olhando para a morte gelada lá embaixo.

 

ASAS DE PAPEL

No alto das Escadas de Starmount, Lirael descansou um pouco, até o frio que vinha através da pedra se tornar dificil de suportar. Vestiu então o equipemento de exterior, tornando o mundo verde quando colocou os óculos protetores. Por fim, retirou do bolso do casaco um lenço de seda, atou-o sobre o nariz e a boca e puxou para baixo os protetores das orelhas do boné.

 

Vestida daquela maneira, podia ser uma das Clayr. Ninguém lhe conseguia ver o rosto, o cabelo ou os olhos. Estava igualzinha a qualquer outra Clayr. Quando descobrissem o corpo dela, não saberiam sequer de quem se tratava até retirarem o boné, o lenço e os óculos protetores.

Lirael pareceria uma das Clayr pela última vez.

Mesmo assim, hesitou diante da porta que ia das Escadas ao hangar das Asas de Papel e ao Portão de Starmount. Provavelmente não era tarde demais para voltar para trás, para dizer que comera algo que lhe fizera mal por isso tivera de ficar no quarto. Se fosse rápida, certamente regressaria antes de todos voltarem do Despertar.

Mas nada teria mudado. Não havia nada por que esperar lá embaixo, decidiu Lirael, por isso, agora podia ir espreitar as escarpas. Tomaria ali a sua decisão final.

Retirou novamente a chave, desajeitadamente com as luvas, e abriu a porta. Desta vez era visível, mas estava igualmente protegida por magia. Lirael sentiu a Magia da Carta dentro dela fluir através da chave, através da pele das luvas e até às suas mãos. Ficou tensa por um momento, depois relaxou quando voltou a desaparecer. O que quer que a protegesse, a fórmula não estava interessada nela.

Fazia mais frio lá fora, apesar de Lirael se encontrar ainda dentro da montanha. Esta grande câmara era o hangar das Asas de Papel, onde as Clayr guardavam os seus aparelhos voadores mágicos. Três deles estavam perto. Assemelhavam-se a canoas esguias, com asas e caudas de falcão. Lirael sentiu um impulso para tocar em uma delas, para ver se realmente davam a sensação de papel, mas teve o bom senso de não o fazer. Fisicamente, as Asas de Papel eram constituídas por milhares de folhas de papel laminado. Mas eram também compostas por considerável magia e, como consequência, particularmente sensíveis. Os olhos pintados na frente do aparelho verde e prata mais próximo podiam estar apagados, mas se acenderiam se lhes tocasse. Lirael desconhecia o que poderia acontecer então. Sabia que o aparelho era controlado por marcas da Carta assobiadas e era capaz de assobiar, mas não conhecia as marcas nem qualquer técnica especial que pudesse ser necessária.

Por isso, Lirael passou sorrateiramente pelas Asas de Papel, até o Portão de Starmount. Era imenso - suficientemente grande para trinta pessoas ou duas Asas de Papel passarem lado a lado - e facilmente quatro vezes a altura de Lirael. Felizmente, não precisou sequer de tentar abri-lo, porque existia uma abertura menor cortada no quadrante esquerdo do Portão grande. Um momento de trabalho com a sua chave, o toque na fórmula de defesa, depois a porta abriu-se e Lirael saiu para o exterior.

O frio e a luz do sol atingiram-na em simultâneo, o primeiro suficientemente forte para ser sentido mesmo através das roupas grossas e a segunda suficientemente intensa para obrigá-la a semicerrar os olhos, apesar dos óculos protetores.

Estava um belo dia de Verão. Lá ao fundo no vale, abaixo da geleira, estaria quente. Aqui fazia frio, provindo a sensação sobretudo da brisa que soprava ao longo da geleira e depois no alto, por cima e à volta da montanha.

À frente de Lirael, fora talhado na vertente da montanha um terraço amplo artificialmente plano. Tinha cerca de cem metros de comprimento e cinquenta de largura e havia neve e bocados de gelo à volta dele em aglomerados fundos. Mas o terraço propriamente dito apresentava apenas uma leve camada de neve. Lirael sabia que era mantido assim por enviados da Carta - servos criados por magia que o limpavam com pás, alisavam e reparavam o ano inteiro, independentemente do tempo. Não se via agora nenhum, mas a Magia da Carta que os punha em ação espreitava por debaixo das lajes de pedra do terraço.

No lado mais afastado do terraço, a montanha descia num precipício a pique. Lirael olhou para lá dela, mas não viu nada senão céu azul e alguns tufos de nuvens baixas. Teria de atravessar o terraço e espreitar para ver toda a magnitude dogeleira trezentos metros abaixo. Mas não atravessou. Pdisse imaginar o que aconteceria se saltasse. Se se atirasse com ímpeto suficiente, seguiria em queda livre até o gelo que aguardava e a um fim rápido. Se desse pouco balanço, bateria num contraforte de rocha talvez apenas noventa ou cento e vinte metros abaixo, depois deslizaria e rolaria o resto do caminho, partindo um osso novo a cada impacto momentâneo.

Lirael estremeceu e desviou o olhar. Agora que estava realmente ali, a apenas alguns minutos de marcha enérgica do precipício, não sabia bem se seria uma boa idéia provocar a sua própria morte. Mas de cada vez que tentava pensar num futuro contínuo para si, sentia-se fraca e bloqueada, como se todos os caminhos em frente estivessem vedados por muros muito altos para escalar.

De momento, obrigou-se a mover e dar alguns passos pelo terraço, pelo menos para ver a queda. Mas as suas pernas pareciam ter vida própria, transportando-a ao comprimento do terraço, sem se conseguir aproximar do lado do penhasco.

Meia hora depois, regressava ao Portão de Starmount, tendo percorrido quatro vezes o comprimento do terraço sem ousar uma só vez aproximar-se da escarpa no outro extremo. O máximo que se aproximara fora da descida súbita ao fundo do terraço, de onde as Asas de Papel efetivamente descolavam. Mas isso representava uma queda de apenas algumas dezenas de metros, por uma vertente muito menos íngreme da montanha e não na geleira. Mesmo assim, ficara a seis metros da borda.

Lirael perguntou-se como se lançavam as Asas de Papel daquele extremo. Nunca vira nenhuma descolar ou aterrar e passou algum tempo tentando imaginar como seria. Obviamente, deslizariam pelo gelo e depois saltariam para o céu em algum ponto, mas exatamente onde? Precisavam ganhar velocidade como os pelicanos azuis que vira no Ratterlin, ou conseguiam disparar para o alto como os falcões?

Todas estas perguntas deixaram Lirael curiosa em relação ao funcionamento das Asas de Papel. Estava pensando em arriscar-se a ir ver melhor uma no hangar quando percebeu que a mancha negra que detectara lá no alto não era fruto da sua imaginação, nem uma minúscula nuvem de tempestade. Era uma Asa de Papel verdadeira e obviamente vinha aterrar.

Ao mesmo tempo, ouviu o ruído prolongado do Portão de Starmount ao começar a abrir-se. Olhou para ele, depois novamente para a Asa de Papel, a sua cabeça deslocando-se em movimentos frenéticos. O que ia fazer?

Podia correr pelo terraço e atirar-se, mas não tinha vontade de fazê-lo. O momento de maior desespero passara, pelo menos por agora.

Podia ficar apenas de um dos lados do terraço e observar a aterragem da Asa de Papel, mas isso certamente levaria a uma séria repreensão da tia Kirrith, para não falar de vários meses de trabalho extra na cozinha. Ou algum castigo bem pior que não imaginava. Ou podia esconder-se e observar. Afinal, sempre quisera ver uma Asa de Papel aterrar.

Todas estas opções atravessaram-lhe rapidamente a mente e bastou apenas um instante para escolher a última. Lirael correu para um monte de neve, sentou-se nele e começou a cobrir-se de neve. Em breve estava quase completamente escondida, exceto a linha de pegadas que seguia pela neve até ao seu esconderijo.

Rapidamente, Lirael visualizou a Carta, depois alcançou o seu fluxo eterno para retirar as três marcas que necessitava. Uma por uma ganharam brilho dentro da sua mente, enchendo-a até não conseguir pensar em mais nada. Levou-as até à boca, a seguir soltou as marcas na direção das suas pegadas na neve.

A fórmula abandonou-a sob a forma de uma bola a rodopiar de exalação gelada que cresceu até ficar da largura dos braços abertos. Espalhou-se pelo caminho dela, apagando as pegadas. Depois, concluído o seu trabalho, a bola deixou-se transportar pelo vento, a exalação e as marcas da Carta dissolvendo-se no nada.

Lirael ergueu o olhar, esperando que quem quer que viesse na Asa de Papel não tivesse visto a estranha nuvenzinha. O aparelho estava agora mais perto, a sombra das suas asas passando ao longo do terraço ao descrever mais um círculo, perdendo altura a cada passagem.

Lirael semicerrou os olhos, a sua visão obscurecida pelos óculos protetores e a neve que cobria quase todo o seu rosto. Não conseguiu ver bem quem vinha na Asa de Papel. Tinha uma cor diferente das usadas pelas Clayr. Vermelho e dourado, as cores da Casa Real. Um mensageiro, talvez? Havia comunicação regular entre o Rei em Belisaere e as Clayr, e Lirael vira com frequência mensageiros no Refeitório Inferior. Mas normalmente não chegavam de Asa de Papel.

Algumas notas assobiadas, evocativas de poder, alcançaram Lirael e, por um momento indutor de náusea, sentiu-se como se ela própria estivesse voando e tivesse de se virar para o vento. Depois viu a Asa de Papel descer rapidamente mais uma vez, virar-se para o vento e efetuar uma parada deslizante no terraço - próximo demais do esconderijo de Lirael para seu conforto.

Saíram duas pessoas da carlinga com dificuldade e esticaram os braços e as pernas. Estavam ambas tão embrulhadas em peles que Lirael não conseguiu ver se eram homens ou mulheres. Porém, não eram Clayr, tinha certeza, não com aquelas roupas. Uma usava uma capa de pele de marta preta e prateada, a outra uma capa de uma pele castanho-avermelhada que Lirael não identificou. E os seus óculos protetores tinham lentes azuis, e não verdes.

A pessoa com a pele castanho-avermelhada debruçou-se dentro da carlinga e retirou duas espadas. Lirael pensou que ele - tinha quase certeza de que era um ele - fosse entregar uma, mas prendeu ambas no seu cinto de couro largo, uma de cada lado da cintura.

A outra pessoa - a de negro e prata - era uma mulher, decidiu Lirael. Houve algo na forma como descalçou a luva e apoiou a palma da mão no focinho da Asa de Papel, como uma mãe que vê a temperatura na testa de um filho.

Depois a mulher debruçou-se também na carlinga e retirou uma bandoleira de couro. Lirael esticou-se para ver melhor, ignorando a neve que lhe caía para dentro da gola. Depois quase arfou e se denunciou, ao reconhecer o que estava nas bolsas da bandoleira. Sete bolsas, a menor do tamanho de uma caixa de comprimidos, a maior do comprimento da mão de Lirael. De cada bolsa saía um cabo de mogno. As cabos dos sinos, sinos cujas vozes estavam silenciadas no couro. Quem quer que fosse esta mulher, trazia os sete sinos de um necromante!

A mulher colocou a bandoleira e pegou a sua própria espada. Mais comprida do que as que as Clayr usavam e mais antiga, também. Lirael pôde sentir alguma espécie de poder nela, mesmo do lugar onde se encontrava escondida. Magia da Carta, na espada e em ambas as pessoas. E nos sinos, percebeu-se Lirael, que finalmente lhe disseram quem devia ser esta pessoa. A necromância era Magia Livre e proibida no Reino, tal como os sinos que os necromantes usavam. Exceto os sinos de uma mulher. A mulher que estava encarregada de desfazer o mal que os necromantes semeavam. A mulher que punha os Mortos para repousar. A mulher que, por si só, combinava a Magia Livre com a Carta.

Lirael estremeceu, mas não de frio, ao perceber que estava apenas a cerca de vinte metros da Abhorsen. Anos atrás, a lendária Sabriel salvara o príncipe petrificado Touchstone e com ele derrotara a criatura Morta Maior chamada Kerrigor, que quase destruíra o Reino. E ela casara com o Príncipe quando ele se tornara Rei e juntos tinham...

Lirael olhou novamente para o homem, reparando nas duas espadas e na forma como ele ficava perto de Sabriel. Devia ser o Rei, percebeu, sentindo-se quase indisposta. O Rei Touchstone e a Abhorsen Sabriel aqui! Suficientemente perto para poder conversar com eles se fosse suficientemente corajosa.

Mas não era. Encolheu-se mais na neve, ignorando a humidade e o frio e esperou para ver o que acontecia. Lirael não sabia como era suposto curvar-se ou fazer uma vênia ou lá o que era, ou o que era suposto chamar-se ao Rei e à Abhorsen. Acima de tudo, não sabia como explicar a sua presença ali.

Tendo-se equipedo, Sabriel e Touchstone aproximaram-se e falaram baixinho, os seus rostos agasalhados quase se tocando. Lirael apurou o ouvido mas não conseguiu escutar nada. O vento levava as palavras deles no sentido contrário. No entanto, era evidente que aguardavam algo - ou alguém.

Não precisaram esperar muito. Lirael virou lentamente a cabeça na direção do Portão de Starmount, tendo o cuidado de não incomodar a neve amontoada à volta dela. Um pequeno ajuntamento de Clayr saía do Portão e atravessava apressadamente o terraço. Obviamente tinham vindo diretamente do Despertar, porque a maior parte delas colocara apenas os casacos ou as capas por cima das túnicas brancas e quase todas traziam ainda os pequenos círculos.

Lirael reconheceu as duas da frente - as gêmeas Sanar e Ryelle a personificação exata das Clayr perfeitas. A sua Visão era tão forte que estavam quase sempre na Vigia de Nove Dias, por isso Lirael quase nunca se cruzava no caminho delas. Eram ambas altas e extremamente belas, o seu cabelo louro comprido brilhando ainda mais intensamente ao sol do que os seus pequenos círculos.

Atrás delas vinham cinco outras Clayr. Lirael conhecia-as vagamente e, se pressionada, conseguiria recordar os nomes delas e a relação familiar que tinham consigo. Nenhuma era mais chegada do que uma terceira prima, mas reconheceu-as todas como sendo particularmente fortes na Visão. Se não fizessem parte da Vigia de Nove Dias naquele momento, fariam amanhã e provavelmente tinham feito na semana passada. Em suma, eram sete das Clayr mais importantes em toda a Geleira. Todas elas ocupavam cargos importantes normais além do seu trabalho de Visão. A pequena Jasell, por exemplo, que vinha na retaguarda, era Tesoureira-Mor, responsável pelas finanças internas e o banco comercial das Clayr.

Eram também as últimas pessoas que Lirael queria encontrar num lugar onde não devia estar.

 

UM BRILHO NA NEVE

Quando Sanar e Ryelle conduziram as outras até à frente, Lirael julgou que as iria ver fazer o que quer que se fazia quando se estava perante o Rei e a sua Rainha, que acumulava a distinção de ser a Abhorsen.

Mas Sabriel e Touchstone não esperaram fosse pelo que fosse. Vieram ao encontro de Sanar e Ryelle com abraços e, depois de levantarem os óculos e tirarem os abafos do pescoço, com beijos em ambas as faces. Mais uma vez, Lirael inclinou-se para a frente para ouvir o que diziam. O vento continuava a soprar no sentido errado, mas diminuíra, pelo que pôde captar a conversa.

- Que bela recepção, primas - disseram Sabriel e o Rei em conjunto, sorrindo ambos. Agora que lhes conseguia ver os rostos, Lirael pensou que pareciam ambos muito cansados.

- Vimo-os ontem à noite - disse Sanar - ou Ryelle - Lirael não soube ao certo. - Mas tivemos de calcular a hora pelo sol. Espero que não estivessem à espera muito tempo?

- Alguns minutos - disse Touchstone. - Apenas o suficiente para nos esticarmos.

- Ele ainda não gosta muito de voar - comentou Sabriel, sorrindo ao marido. - Não tem confiança no piloto.

Touchstone encolheu os ombros e soltou uma gargalhada.

- Melhora a olhos vistos - disse ele.

Lirael percebeu que ele não se referia apenas a pilotar as Asas de Papel. Parecia existir uma linha semi-secreta de energia e sentimento que corria entre Touchstone e Sabriel. Partilhavam algo invisível, algo que provocara gargalhadas e o sorriso nos olhos de Sabriel.

- Não os vimos ficar - continuou Sanar. - Presumo que acertamos?

- Acertaram - respondeu Sabriel e o sorriso desapareceu dos seus olhos. - Há problemas a Ocidente e não podemos demorar. Apenas o suficiente para nos aconselharmos. Se tiverem algo a dizer.

- De novo o Ocidente? - perguntou Sanar e trocou um olhar de preocupação com Ryelle, tal como o fizeram as outras Clayr atrás dela.

- Não vemos nada na maior parte do Ocidente. Existe ali alguma força que bloqueia tudo à exceção de uns breves vislumbres. No entanto, sabemos que é de Ocidente que irão chegar os problemas. Tantos futuros mostram pedaços, mas nunca o suficiente para serem úteis.

- Muitos problemas atualmente, também - comentou o Rei, suspirando. - Ergui seis Pedras da Carta à volta de Edge e do Lago Vermelho nos últimos dez anos. Apenas subsistem duas de um ano para o outro e já não consigo ter tempo para continuar a reparar as outras. Vamos para lá agora para dominar quaisquer que sejam os presentes problemas e para tentar descobrir a razão, mas não estou confiante de que consigamos. Em particular se é suficientemente forte para se ocultar da Visão das Clayr.

- Nem sempre é a força que nos tira a Visão - afirmou uma das Clayr, a mais velha ali presente. - Nem sequer o mal. Existem forças sutis que distraem a nossa visão por razões que apenas podemos adivinhar e existe simplesmente o fato de vermos excessivos futuros, muito fugazmente. Talvez aquilo que não nos deixa ver próximo do Lago Vermelho não seja mais do que isto.

- Se é, então também destrói Pedras da Carta com o sangue de Magos da Carta - disse Touchstone. - E atrai para lá os Mortos e a Magia Livre mais do que para qualquer outro local. De todo o Reino, é a região à volta do Lago Vermelho e das faldas do Monte Abed que mais resiste ao nosso domínio. Há catorze anos, Sabriel e eu prometemos que as Pedras da Carta destruídas seriam reconstruídas, as aldeias restabelecidas, as pessoas novamente livres para irem às suas vidas e atividades, sem medo dos Mortos e da Magia Livre. Fizemo-lo desde a Muralha ao Deserto do Norte. Mas não conseguimos derrotar o que quer que se opõe no Ocidente. Para além da própria Edge, aquela parte do Ocidente continua a ser a zona desabitada em que Kerrigor a transformou ao longo de duzentos anos.

- Começam a cansar-se dos seus trabalhos difíceis - disse subitamente a Clayr velha e tanto Touchstone como Sabriel anuíram.

Mas os seus ombros estavam retos e, enquanto admitiam o cansaço, não davam mostras de recusarem o fardo.

- Não temos descanso - queixou-se Touchstone. - Há sempre algum problema novo, algum perigo que só pode ser resolvido pelo Rei ou a Abhorsen. Sabriel fica com a pior parte, pois continua a haver Mortos em quantidade superior à que seria desejável lá fora e muitos idiotas que abrem novas portas para a Morte.

- Como aquele que está atualmente lançando a devastação próximo de Edge - comentou Sabriel. - Ou é o que diz a mensagem. Um necromante ou feiticeiro da Magia Livre, alguém que usa uma máscara de ferro. Ela - pois consta que é uma mulher - tem um grupo tanto de homens Mortos como de vivos e eles têm atacado casas e fazendas de Edge para leste, quase até Roble’s Town. No entanto não soubemos nada por vocês. com certeza devem ter visto alguma coisa?

- Raramente vemos seja o que for perto do Lago Vermelho - respondeu Ryelle com uma expressão carregada e preocupada. - Mas normalmente não temos problemas com uma distância maior. Neste caso, lamento não lhes termos dado qualquer aviso sobre o que aconteceu e não podemos orientá-los a respeito do que irá acontecer.

- Uma companhia da Guarda vem a cavalo de Qyrre - disse Touchstone. - Mas não chegará antes de, pelo menos, três dias. Tencionamos deslocar-nos pessoalmente a Roble’s Town pela manhã.

- Esperemos que seja uma manhã de sol - acrescentou Sabriel.

- Se as informações forem verdadeiras, esta necromante tem muitas Mãos Mortas sob o seu controle. Talvez mesmo as suficientes para atacar uma cidade de noite, ou com o céu muito nublado.

- Nesse caso, teríamos certamente visto um ataque a Roble’s Town - disse Ryelle. - E não vimos.

- Sempre é um alívio - disse Touchstone, mas Lirael viu que ele não acreditava inteiramente nelas. Estava chocada, porque nunca ouvira falar da Visão poder ficar bloqueada, ou de existir algum lugar onde as Clayr não conseguissem ver. Exceto do lado de lá da Muralha, em Ancelstierre, claro, mas isso era diferente. Nenhuma magia funcionava em Ancelstierre, pelo menos não assim que se avançava para sul da Muralha. Pelo menos era o que diziam as histórias. Lirael não conhecia ninguém que tivesse estado em Ancelstierre, apesar de constar que Sabriel crescera lá.

O vento tornou-se mais forte enquanto Lirael matutava sobre o que ouvira, pelo que não conseguiu apanhar o pedaço seguinte da conversa. Mas viu as Clayr curvarem-se e Sabriel e Touchstone fazerem-lhes sinal para que se erguessem.

- Não sejam formais comigo! - exclamou Touchstone. - Não podem ver tudo, tal como nós não podemos fazer tudo. De certa forma, conseguimos até aqui e iremos continuar a conseguir.

- Sendo ”continuar” a palavra de ordem deste ano e de todos os anos que se seguirem - observou Sabriel, suspirando. - Por falar disso, é melhor irmos para a Asa de Papel e regressarmos. Quero visitar a Casa no caminho para Roble’s Town.

- Para se aconselharem com?... - perguntou Ryelle, mas Lirael perdeu o resto das suas palavras, levadas por uma rajada de vento. Inclinou-se um pouco mais para frente, continuando a tentar não desalojar a neve do seu boné.

Sabriel disse algo em resposta, mas Lirael não conseguiu ouvir, exceto a última parte.

- ... dorme ainda a maior parte do ano, sob o efeito de Ranna...

Depois perdeu mais conversa, quando todas se reuniram à volta da Asa de Papel e a fizeram deslizar. Lirael esticou o pescoço o mais que ousou, a neve deslizando-lhe do rosto. Era enfurecedor vê-las e ouvir uma palavra ou outra mas não conseguir compreender. Por um momento, teve a idéia tola de pensar em lançar uma fórmula para melhorar a audição. Vira referências a essa fórmula, mas não conhecia todas as marcas. Além disso, Sabriel e as outras certamente detectariam a Magia da Carta ali perto.

De repente, o vento parou e Lirael conseguiu ouvir de novo nitidamente.

- Ainda estão no colégio em Ancelstierre - disse Sabriel, obviamente em resposta a uma pergunta feita por Sanar. - Virão aqui passar as férias dentro de três, não... quatro semanas. Se tudo correr com esta emergência, somos capazes de chegar à Muralha a tempo de nos encontrarmos com eles e tínhamos planejado umas semanas juntos em Belisaere. Mas conto que surjam novos problemas que afastarão pelo menos um de nós até eles terem de regressar.

Pareceu triste quando o afirmou, pensou Lirael. Touchstone também o devia ter pensado, pois deu-lhe a mão, conferindo-lhe coragem.

- Pelo menos estão seguros lá - disse ele e Sabriel concordou, revelando novamente o seu cansaço.

- Nós os vimos atravessando a Muralha, muito embora possa ser da próxima vez, ou da que se seguir - afirmou Ryelle. - Ellimere se parece... se parecerá... muito com você, Sabriel.

- Felizmente - disse Touchstone, soltando uma gargalhada. - Muito embora ela saia a mim em outros aspectos.

Lirael  percebeu que estavam falando dos filhos. Tinham dois, sabia. Uma Princesa que era mais ou menos da idade dela e um Príncipe que era mais novo, não sabia quanto. Obviamente Sabriel e Touchstone preocupavam-se muito com eles e sentiam saudades deles. O que a fez pensar na sua mãe e no seu pai, que não tinham querido saber dela para nada. Mais uma vez, recordou a carícia daquela mão macia e fresca. Mas a mãe abandonara-a e sabia-se lá se o pai tivera conhecimento do nascimento dela?

- Ela será Rainha - anunciou uma voz forte, trazendo a atenção de Lirael de volta ao presente. - Ela não será Rainha. Pode ser Rainha.

Era uma das outras Clayr, uma mulher mais velha, falando com a voz da profecia, os seus olhos vendo algo mais do que o bloco de gelo para onde olhava. Depois arfou e cambaleou, as mãos estendidas para amortecer a sua queda na neve.

Touchstone precipitou-se e apanhou-a antes de ter tempo de atingir o chão, pondo-a novamente em pé. Balançou-se ali, ainda instável, os olhos desorientados e sonhadores.

- Um futuro longínquo - disse ela, a sua voz já sem o estranho timbre da previsão. - Um em que a sua filha, Ellimere, era mais velha do que você é agora, reinando como Rainha. Mas vi também muitos outros futuros possíveis, lado a lado, onde não existe nada senão fumaça e cinzas, todo o mundo queimado e destruído.

Lirael sentiu um arrepio percorrer-lhe todo o corpo quando a velha Clayr falou. A sua voz era portadora de tanta convicção, que Lirael quase conseguiu ver pessoalmente as ruínas desoladas. Mas como podia todo o mundo ter sido queimado e destruído?

- Futuros possíveis - interpôs Sanar, tentando aparentar calma.

- Muitas vezes temos vislumbres de futuros que nunca existirão. Faz parte do fardo da Visão.

- Nesse caso, fico satisfeita por não a ter - respondeu Touchstone, entregando a Clayr ainda trêmula nas mãos solícitas de Sanar e Ryelle. Olhou novamente para o Sol e depois para Sabriel, que concordou.

- Lamento sugerir que tenhamos de partir.

Ele e Sabriel partilharam um sorriso ante esta rima não intencional, virando as cabeças de modo a que só eles e Lirael no seu esconderijo o vissem. Touchstone tirou as espadas e guardou-as na carlinga, depois pegou a espada de Sabriel e arrumou-a também. Sabriel retirou a bandoleira dos sinos e depositou-a delicadamente, tendo o cuidado de não agitar os sinos. Lirael perguntou-se por que se tinham dado ao incômodo de colocá-los por um período de tempo tão curto. Depois  percebeu que tinham vivido tanto no perigo que era como uma segunda natureza manter as armas à mão. Como os guardas dos mercadores no Refeitório naquela manhã. A consciencialização de que a Abhorsen e o Rei não confiavam na proteção das Clayr fez Lirael pensar subitamente no seu próprio estado desarmado. O que faria se fosse atacada ali depois de todos terem ido embora? Não sabia ao certo se a sua chave abriria a porta do exterior. Não pensara sequer nisso à vinda.

Lirael parou de observar a Asa de Papel para entrar em pânico, imaginando uma noite ali e uma garra monstruosa arrastando-la para fora da neve. Não lhe agradava nada a perspectiva de uma morte não escolhida. Depois um movimento súbito captou o seu olhar. Sabriel, agora na Asa de Papel, apontava. Apontava diretamente para o local do esconderijo de Lirael na neve!

- Talvez fosse bom investigarem aquele brilho verde - disse Sabriel, as suas palavras muito claras daquela vez. - Acho que o que quer que se encontra ali debaixo é inofensivo, mas nunca se sabe. Adeus, primas das Clayr. Espero que voltemos a nos ver em breve e possamos ficar mais tempo.

- Tal como nós esperamos ser de maior utilidade - respondeu Sanar, olhando para onde Sabriel apontara. - E ver com maior clareza, tanto no Ocidente como debaixo dos nossos próprios narizes.

- Adeus - acrescentou Touchstone, acenando da retaguarda da Asa de Papel. Sabriel assobiou, um som puro mergulhado em magia. O assobio ergueu-se até ao vento, virou-o e fê-lo descer para levantar a Asa de Papel, fazendo-a deslizar pelo terraço. Sabriel e Touchstone acenaram, depois o aparelho vermelho e dourado partiu como uma seta da extremidade e desapareceu de vista.

Lirael susteve a respiração, depois arfou de alívio ao avistar subitamente a Asa de Papel. Descreveu círculos lá no alto, a seguir virou para sul e disparou, cada vez mais depressa enquanto Sabriel invocava o vento atrás deles.

Lirael observou-a por um segundo, depois tentou enterrar-se mais na neve. Talvez pensassem que era uma lontra do gelo. Mas mesmo ao desaparecer no amontoado de neve, soube que era besteira. Todas as sete Clayr avançavam para o seu esconderijo e não pareciam nada satisfeitas.

 

UMA OPORTUNIDADE INESPERADA

Lirael não percebeu muito bem por que regressaram tão rapidamente ao hangar das Asas de Papel. Soube que fora agarrada por mais pares de mãos do que parecia possível para sete pessoas e empurrada através da neve muito mais desconfortavelmente de que teria conseguido sozinha. Durante alguns segundos, pensou que estivessem muito, muito zangadas com ela. Depois  percebeu que tinham apenas frio e queriam voltar lá para dentro.

Uma vez todas no interior, pôde constatar que se as Clayr não estavam propriamente furiosas, também não estavam lá muito satisfeitas. Mãos arrancaram-lhe o boné, os óculos protetores e o lenço sem qualquer respeito pelo cabelo preso neles e sete rostos gelados pelo vento olharam para ela.

- A filha de Arielle - disse Sanar, como se estivesse identificando uma flor ou uma planta, retirando-a de uma lista. - Lirael. Não consta da escala da Vigia. Por conseguinte, ainda não tem a visão. Está correto?

- S-sim - balbuciou Lirael. Nunca ninguém a olhara antes tão intensamente e por norma evitava conversar com as outras pessoas, em particular as Clayr plenamente desenvolvidas. As Clayr importantes deixavam-na nervosa mesmo quando se portava bem. Agora havia sete delas dando-lhe atenção exclusiva. Desejou poder de algum modo enfiar-se pelo chão e reaparecer no seu próprio quarto.

- Por que estava escondida ali? - perguntou a Clayr velha, que Lirael se recordou subitamente chamar-se Mirelle. - Por que não está no Despertar?

Não havia qualquer calor na sua voz, apenas a autoridade fria. Tardiamente, Lirael lembrou-se de que esta velha de cabelo grisalho e rosto engelhado era também a comandante do Corpo de Tropas das Clayr que percorria e patrulhava Starmount e Sunfall, a geleira e o vale do rio. Lidavam com tudo desde viajantes perdidos a bandidos insensatos ou animais predadores e não eram para brincadeiras.

Mirelle repetiu a pergunta, mas Lirael não conseguiu responder. Vieram-lhe as lágrimas aos olhos, apesar de conseguir reprimi-las. Depois, quando parecia que Mirelle ia arrancar-lhe tanto a resposta como as lágrimas, disse a primeira coisa que lhe veio à cabeça.

- É o meu aniversário. Faço catorze anos.

Por alguma razão, pareceu ser a resposta certa. Todas as Clayr se descontraíram e Mirelle largou-lhe os ombros. Lirael estremeceu. A mulher agarrara-a com força suficiente para lhe deixar equimoses.

- Então faz catorze anos - disse Sanar, muito mais gentilmente do que Mirelle. - E está preocupada porque a visão ainda não despertou em você?

Lirael concordou, não confiando em si para falar.

- Chega tarde a algumas de nós - continuou Sanar, os seus olhos calorosos e compreensivos. - Mas com frequência, quanto mais tarde, mais forte é o seu despertar. A Visão só veio a mim e a Ryelle quando tínhamos dezesseis anos. Não te contaram?

Lirael ergueu o olhar, enfrentando pela primeira vez a expressão fixa da Clayr, os seus olhos arregalados com o choque. Dezesseis! Era impossível!

- Não! - disse, a surpresa e o alívio nítidos na sua voz. - Aos dezesseis, não!

- Sim - confirmou Ryelle, continuando do ponto onde Sanar ficara. - Dezesseis e meio, na verdade. Pensávamos que nunca mais chegaria. Mas chegou. Calculo que não suportasses outro Despertar. Foi por isso que veio até aqui?

- Sim - respondeu Lirael, começando a estampar-se no rosto um pequeno sorriso. Dezesseis! Isso significava que ainda havia esperança para ela. Teve vontade de saltar e abraçar todas, mesmo Mirelle, e correr para as escadas de Starmount gritando de alegria. De repente, o plano para se suicidar pareceu incrivelmente estúpido e a sua congeminação remota e distante.

- Parte do nosso problema então era ter tempo demais para pensar na nossa falta de Visão - disse Sanar, a quem não tinham escapado os sinais de alívio no rosto e na postura de Lirael -, dado que não fazíamos parte da Vigia nem tínhamos a preparação para a Visão. Claro que também não queríamos fazer turnos extra nas escalas de tarefas.

- Não - apressou-se Lirael a concordar. Quem quereria limpar sanitários ou lavar pratos, tal como ela se via obrigada a fazer?

- Não era habitual sermos destacadas para um cargo antes de fazermos dezoito anos - continuou Ryelle. - Mas pedimos e a Vigia concordou que nos deveria ser atribuído um trabalho compatível. Por isso entramos para a Esquadrilha das Asas de Papel e aprendemos a voar. Isso foi antes do regresso do Rei, quando tudo era muito mais perigoso e instável, por isso fazíamos muito mais patrulhas e voávamos para mais longe, do que agora.

- Após um ano voando, a Visão despertou em nós. Podia ter sido um ano péssimo, como foi o que o antecedeu, aguardando esperançosas o dom, mas estávamos muito ocupadas para pensar sequer no assunto. Acha que um trabalho adequado também poderia te ajudar?

- Sim! - respondeu Lirael, fervorosamente. Um cargo a libertaria da túnica de criança, lhe permitiria usar as roupas de uma Clayr trabalhadora. Proporcionaria também um lugar onde ir, afastar-se das crianças mais novas e da tia Kirrith. Poderia até conseguir ficar longe dos Despertares, consoante o trabalho que tivesse.

- A questão é, que trabalho seria o mais adequado para você? - meditou Sanar. - Não creio que alguma vez te tenhamos Visto, o que não ajuda. Haverá alguma colocação que a agradasse particularmente? O Corpo de Tropas? A Esquadrilha das Asas de Papel? A Câmara dos Mercadores? O Banco? Construção e Obras? A Enfermaria? A Fábrica do Vapor?

- Não sei - respondeu Lirael, tentando pensar em todos os vários trabalhos que as Clayr tinham, para além da escala de tarefas comunitárias.

- O que sabe fazer? - perguntou Mirelle. Olhou Lirael de alto a baixo, tirando-lhe evidentemente as medidas como potencial recruta para o Corpo de Tropas. A ligeira elevação do seu nariz mostrou que não parecia ter em grande conta o potencial de Lirael. - Como está na esgrima com espada e no tiro com setas e arco?

- Não muito bem - respondeu Lirael, com ar culpado, pensando em todas as sessões de prática a que faltara ultimamente, tendo preferido entediar-se no seu quarto. - Sou melhor em Magia da Carta, creio. E música.

- Talvez as Asas de Papel, nesse caso - sugeriu Sanar. Depois carregou o cenho e olhou para as outras. - Muito embora com catorze anos sejas um pouquinho nova demais. Podem ser uma má influência.

Lirael olhou para as Asas de Papel e não conseguiu reprimir um pequeno estremecimento. Agradava-lhe a idéia de voar, mas as Asas de Papel assustavam-na um pouco. Havia algo de arrepiante no fato de estarem vivas e terem as suas próprias personalidades. O que aconteceria se tivesse de conversar com uma delas o tempo todo? Detestava conversar com as pessoas, quanto mais com as Asas de Papel.

- Por favor - disse Lirael, seguindo aquele pensamento até ao lugar lógico onde mais poderia evitar as pessoas. - Acho que gostaria de trabalhar na Biblioteca.

- A Biblioteca - repetiu Sanar, parecendo perturbada. - Isso pode ser perigoso para uma menina de catorze anos. Ou uma mulher de quarenta, agora.

- Apenas em algumas partes - disse Ryelle. - Os Níveis Antigos.

- Não é possível trabalhar na Biblioteca sem se ir aos Níveis Antigos - afirmou Mirelle com ar sombrio. - Pelo menos parte do tempo. Não me agradaria nada ter de ir a alguma partes da Biblioteca.

Lirael escutava, perguntando-se do que falavam. A Grande Biblioteca das Clayr era enorme, mas nunca ouvira falar dos Níveis Antigos.

Conhecia bem o traçado geral. A Biblioteca tinha a forma de uma concha de náutilo, um túnel contínuo que serpenteava montanha adentro numa espiral cada vez mais apertada. Esta espiral principal era uma rampa muito comprida e tortuosa que seguia dos limites altos da montanha descendo até ao nível do fundo do vale, várias centenas de metros abaixo.

Partindo da espiral principal, estendiam-se inúmeros corredores, salas, átrios e estranhas câmaras. Muitos estavam cheios de registros escritos pelas Clayr, documentando principalmente as profecias e visões de muitas gerações de videntes. Mas continham também livros e documentos de todo o Reino. Livros de magia e mistério, conhecimentos tanto antigos como modernos. Pergaminhos, mapas, fórmulas, receitas, inventários, lendas, histórias verdadeiras e sabia a Carta o que mais.

Além de todas estas obras escritas, a Grande Biblioteca abrigava outras coisas. Existiam lá dentro velhos depósitos, contendo armas e armaduras que não eram usadas há séculos, mas que se encontravam ainda brilhantes e novas. Havia salas cheias de estranha parafernália que ninguém sabia como usar. Havia câmaras com manequins de costureira completamente vestidos, exibindo as modas das Clayr de outros tempos ou os trajes estranhamente diferentes do Norte bárbaro. Havia estufas cuidadas por enviados, com marcas da Carta para luz tão intensa quanto o sol. Havia salas da mais completa escuridão, engolindo a luz e quem fosse suficientemente tolo para entrar sem estar preparado.

Lirael vira uma parte da Biblioteca, em excursões cuidadosamente acompanhadas com o resto da turma. Sempre ansiara entrar pelas portas por que passavam, passar para lá das barreiras de corda que assinalavam corredores ou túneis onde só as bibliotecárias autorizadas podiam ir.

- Por que quer trabalhar ali? - perguntou Sanar.

- É... é interessante - balbuciou Lirael, sem saber muito bem o que responder. Não queria admitir que a Biblioteca seria o melhor lugar para se esconder das outras Clayr. E, no fundo da sua mente, não esquecera que era na Biblioteca que podia encontrar uma fórmula para pôr termo à vida sem dor. Não agora, claro, agora que sabia que a Visão podia chegar. Mas mais tarde, se ficasse cada vez mais velha sem a Visão e o negro desespero brotasse de novo dentro dela, como sucedera mais cedo naquele dia.

- É interessante - respondeu Sanar. - Mas existem também na Biblioteca coisas perigosas e conhecimentos perigosos. Isso a incomoda?

- Não sei - respondeu Lirael, honestamente. - Dependeria do que fosse. Mas, na verdade, gostaria de trabalhar ali. - Fez uma pausa e depois disse numa voz muito baixa: - Quero realmente estar ocupada, como disse, e esquecer que não tenho a Visão.

As Clayr afastaram-se então de Lirael e reuniram-se num círculo fechado que a excluiu, falando em murmúrios. Lirael observou ansiosamente, consciente de que algo importante ia acontecer na sua vida. O dia fora horrível, mas agora tinha novamente esperança. As Clayr pararam de cochichar. Lirael olhou para elas através da cascata do seu cabelo, satisfeita por lhe encobrir o rosto. Não queria que vissem como estava desesperada para que a deixassem trabalhar.

- Dado ser o teu aniversário - disse Sanar -, e como acreditamos que será melhor, decidimos que pode trabalhar no lugar que pediu, a Grande Biblioteca. Apresente-se lá amanhã, a Vancelle, a Bibliotecária-Chefe. A menos que ela ache que não sirva por alguma razão, se tornará Terceira Assistente de Bibliotecária.

- Obrigada - exclamou Lirael. Saiu como um coaxo, pelo que teve de repetir. - Obrigada.

- Há mais uma coisa - disse Sanar e veio colocar-se tão próximo que Lirael teve de erguer o rosto para olhando nos olhos. – Você escutou hoje uma conversa que não devia ter escutado. Na verdade, viu uma visita que não teve lugar. A estabilidade do Reino é uma coisa frágil, Lirael, e facilmente alterável. Sabriel e Touchstone não falariam tão livremente em outro lugar, ou perante uma assistência diferente.

- Não direi nada a ninguém - afirmou Lirael. - Não abrirei a boca, a sério.

- Não se lembrará - disse Ryelle, que se colocara atrás dela. Libertou delicadamente a fórmula que preparara, enconchada na mão. Antes que Lirael pudesse pensar sequer em contrariá-la, uma cadeia de marcas da Carta brilhantes precipitou-se sobre a sua cabeça, agarrando-a nas têmporas.

- Pelo menos enquanto não precisar se lembrar - prosseguiu Ryelle. - Recordará tudo o que fez hoje, exceto a visita de Sabriel e Touchstone. Essa lembrança desaparecerá, substituída por um passeio no terraço e um encontro fortuito conosco. Parecia perturbada, por isso falamos de trabalho e da aquisição da Visão. Foi assim que conseguiu o seu novo cargo, Lirael. Você se lembrará disso e nada mais.

- Sim - respondeu Lirael, as palavras saindo-lhe dos lábios tão lentamente que parecia embriagada ou incrivelmente cansada. - A Biblioteca. Amanhã apresento-me a Vancelle.

 

TERCEIRA ASSISTENTE DE BIBLIOTECÁRIA

A Bibliotecária-Chefe tinha um gabinete grande revestido com painéis de carvalho, uma mesa muito comprida que estava coberta de livros, documentos e um tabuleiro grande de latão com o café da manhã ainda meio por comer. Havia também em cima da mesa uma espada comprida com lâmina prateada, desembainhada, com o punho ao alcance da mão da Bibliotecária.

Lirael encontrava-se diante da mesa, cabisbaixa, enquanto Vancelle lia o bilhete que a menina trouxera de Sanar e Ryelle.

- Muito bem - disse a Bibliotecária, a sua voz cava e dominante fazendo Lirael saltar. - Quer ser bibliotecária?

- S-sim - balbuciou Lirael.

- Mas servirá? - perguntou a Bibliotecária. Tocou no punho da espada e, por um momento, Lirael julgou que Vancelle fosse pegar nela e agitá-la, para ver se a assustava.

Lirael já estava assustada. A Bibliotecária metia-lhe medo, mesmo sem a espada. Não denunciou os seus sentimentos e deslocou-se com uma economia de força, como se pudesse em algum momento explodir em ação violenta.

- Servirá? - perguntou a Bibliotecária.

- Hum, não... não sei - murmurou Lirael.

A Bibliotecária saiu de trás da mesa, tão rapidamente que Lirael não soube ao certo se piscara os olhos e lhe escapara o movimento.

Vancelle era apenas ligeiramente mais alta do que Lirael, mas pareceu agigantar-se diante da menina. Os seus olhos eram de um azul intenso e o cabelo grisalho macio e brilhante, como a cinza mais fina deixada numa fogueira a esfriar. Usava muitos anéis nos dedos e tinha no pulso esquerdo uma pulseira de prata com sete esmeraldas e nove rubis reluzentes. Era impossível adivinhar a sua idade.

Lirael estremeceu quando a Bibliotecária estendeu a mão e tocou na marca da Carta na testa dela. Sentiu-a brilhar, quente na sua pele, e viu a luz refletida nos vários anéis e na pulseira da Bibliotecária. O que quer que a Bibliotecária tivesse sentido na marca da Carta de Lirael, o seu rosto não revelou qualquer indício. Retirou a mão e voltou para trás da mesa. Mais uma vez, tocou no punho da espada.

- Nunca aceitamos uma bibliotecária que não tenhamos já visto como sendo bibliotecária - disse ela, virando a cabeça, como alguém que não sabe como há-de pendurar um quadro. - Mas nunca ninguém te viu, não é?

Lirael sentiu a boca seca. Incapaz de falar, concordou. Sentiu que a súbita oportunidade que lhe fora concedida estava escapando. A suspensão do castigo, a oportunidade de trabalho, de ser alguém...

- Portanto é um mistério - prosseguiu a Bibliotecária. - Mas não existe melhor lugar para o mistério do que a Grande Biblioteca das Clayr e é preferível ser uma bibliotecária do que fazer parte da coleção.

Por um momento, Lirael não compreendeu. Depois a esperança floresceu de novo nela e encontrou a voz.

- Quer dizer... quer dizer que sirvo?

- Sim - respondeu Vancelle, Bibliotecária-Chefe da Grande Biblioteca das Clayr. - Serve e pode começar de imediato. A Bibliotecária-Adjunta Ness dirá o que fazer.

Lirael sentiu um turbilhão de felicidade. Sobrevivera ao ordálio. Fora aceita. Ia ser uma bibliotecária!

 

A Bibliotecária-Adjunta Ness limitou-se a mostrar desprezo por Lirael e a mandá-la ir falar com a Primeira Assistente de Bibliotecária Roslin, que lhe deu distraidamente um beijo na face e a remeteu para a Segunda-Assistente de Bibliotecária Imshi, que tinha apenas vinte anos e fora recentemente promovida do colete de seda amarela de Terceira Assistente ao vermelho de Segunda.

Imshi levou Lirael ao Vestiário, uma sala enorme apetrechada com todo o equipemento, armas e artigos diversos que as bibliotecárias necessitavam, desde cordas de trepar a croques. E dúzias e dúzias de coletes especiais da Biblioteca, todos de diferentes tamanhos e cores.

- O de Terceira Assistente é amarelo, o de Segunda Assistente é vermelho, o de Primeira Assistente é azul, o da Adjunta é branco e a Chefe usa o preto - explicou Imshi enquanto ajudava Lirael a vestir um colete amarelo novinho em folha por cima das suas roupas de trabalho. - Mais pesado do que parece, não é? Deve-se ao fato de ser de lona, coberta de seda. Assim fica muito mais resistente. Agora, este apito prenda aqui nas ilhós da lapela, para que possa curvar a cabeça e soprar nele, mesmo que segure algo nos braços. Mas só deverá apitar se realmente precisar. Se ouvir um apito, corra na direção do som e faça o que puder para ajudar.

Lirael pegou o apito, que era um tubo simples de latão, e colocou-o nos ilhós especiais da lapela conforme instruída. Como Imshi dissera, conseguia facilmente soprar nele curvando apenas a cabeça. Mas o que quisera Imshi dizer? O que poderia segurar nos braços?

- Claro que o apito só é bom quando alguém o consegue ouvir - prosseguiu Imshi, entregando a Lirael algo que à primeira vista se assemelhava a uma bola de prata. Indicou que deveria ser colocada no bolso esquerdo da frente do seu colete novo. - É por isso que tem o rato. Em parte é mecânico, tem de se lembrar de lhe dar corda uma vez por mês e a fórmula tem de ser renovada em cada Solstício de Verão.

Lirael olhou para o pequeno objeto prateado. Era um rato com patas mecânicas, duas lascas brilhantes de rubi por olhos e uma pequena chave no dorso. Conseguia sentir o calor da fórmula da Carta que se encontrava adormecida no seu interior. Calculou que esta fosse ativar o dispositivo mecânico na hora certa e enviá-lo onde quer que fosse suposto ir.

- O que é que ele faz? - perguntou Lirael, surpreendendo um pouco Imshi. A garota mais nova não falara desde que haviam sido apresentadas e ficara ali o tempo todo com o cabelo tapando-lhe o rosto. Imshi rotulara-a imediatamente como uma das excêntricas decisões de recrutamento da Chefe, mas talvez houvesse ainda esperança. Pelo menos mostrava-se interessada.

- Traz ajuda - respondeu Imshi. - Se estiver nos Níveis Antigos ou outro lugar onde não pareça que alguém conseguirá ouvir o apito, ponha o rato no chão e profira ou desenhe a marca ativadora, que mostrarei de seguida. Uma vez ativado, correrá para a Sala de Leitura e soará o alarme.

Lirael concordou e atirou o cabelo para trás para observar melhor o rato, passando o dedo pelo seu dorso prateado. Quando Imshi começou a folhear o índice de marcas da Carta, Lirael abanou a cabeça e guardou o rato no bolso especial.

- Eu conheço a marca, obrigada - afirmou tranquilamente. - Senti-a na fórmula.

- Mesmo? - perguntou Imshi. - Deve ser boa. Eu mal consigo acender uma vela, ou aquecer os dedos dos pés lá fora na geleira.

“Mas tem a Visão”, pensou Lirael. “É uma verdadeira Clayr”.

- Seja como for, aí estão o apito e o rato - disse Imshi, voltando para o seu trabalho. - Aqui está o cinto e a bainha da espada e vou ver qual é o punhal mais afiado. Ah! Este servirá, creio. Agora temos de apontar o número no livro e precisa assinar pelo material todo.

Lirael afivelou o cinto largo de couro e colocou a bainha junto à anca e à coxa. O punhal que a acompanhava era do comprimento do seu antebraço, com uma lâmina fina e cortante. Era de aço mas levara um banho de prata e havia marcas da Carta na lâmina. Lirael tocou-lhes de leve com o dedo, para ver o que era suposto fazerem. Aqueceram sob o toque dela e identificou-as como marcas de libertar e desenredar, particularmente úteis contra criaturas da Magia Livre. Tinham sido colocadas ali há cerca de vinte anos, substituindo marcas mais antigas que se tinham gasto. Também estas durariam dez anos ou mais, pois não tinham sido colocadas com grande poder ou arte. Lirael pensou que conseguiria fazer melhor, muito embora não fosse grande apologista de se aplicar magia a objetos inanimados.

Lirael ergueu o olhar do punhal e viu Imshi que aguardava expectante, a pena na mão, suspensa sobre o enorme livro de registro de capa de pele que estava acorrentado à mesa na parte da frente do Vestiário.

- O número - disse Imshi. - Na lâmina.

- Oh - exclamou Lirael. Inclinou a lâmina até as marcas da Carta sumirem e poder ver o metal descoberto e a letra e o número gravados ali por meios convencionais. - L2713 - leu Lirael, depois enfiou o punhal na bainha. Imshi anotou o número, molhou novamente a pena e estendeu-a a Lirael para assinar.

Ali no livro de registro, entre as linhas de tinta vermelha, estava o nome de Lirael, a data, o cargo de Terceira Assistente de Bibliotecária e uma lista de todos os objetos que lhe haviam sido entregues, escrita na caligrafia legível de Imshi. Lirael observou a lista, mas não assinou.

- Aqui diz uma chave - afirmou cautelosamente, levantando a pena para que uma gota de tinta não caísse no papel.

- Oh, uma chave! - exclamou Imshi. - Anotei-a e depois me esqueci!

Dirigiu-se a um dos armários na parede, abriu-o, remexeu lá dentro. Por fim, retirou uma pulseira larga cravada de esmeraldas, igual à que usava no seu próprio pulso. Abrindo-a, colocou-a à volta do pulso direito de Lirael.

- Terá de voltar à Chefe para a fórmula no seu interior ser ativada - explicou Imshi, mostrando a Lirael como duas das sete esmeraldas na sua própria pulseira se enchiam de marcas da Carta brilhantes. - Conforme o seu trabalho e a categoria, abrirá todas as portas adequadas.

- Obrigada - disse Lirael. Conseguia sentir a fórmula na prata, as marcas da Carta escondidas na profundidade do metal, aguardando a oportunidade de fluir até às esmeraldas. Eram efetivamente sete fórmulas, conseguiu detectá-las, uma para cada esmeralda. Mas não sabia como podiam ser trazidas à superfície e postas a funcionar. Esta magia em particular ultrapassava-a.

Também não ficou sabendo muito mais passados dez minutos, quando Vancelle lhe agarrou o pulso e lançou rapidamente uma fórmula que não foi nem proferida nem apresentava quaisquer outras marcas óbvias, assinadas ou desenhadas. Fosse o que fosse, a fórmula acendeu apenas uma esmeralda, deixando as outras seis apagadas. Aquela, disse Vancelle, era suficiente para abrir as portas comuns, o que era mais do que suficiente para uma Terceira Assistente de Bibliotecária.

Lirael levou três meses para descobrir como ativar as quatro fórmulas seguintes na sua pulseira, apesar do segredo da sexta e da sétima permanecerem fora do seu alcance. Mas não ativou de imediato as fórmulas extras, levando outro mês para criar uma ilusão da pulseira como devia estar, que assentaria sobre a sua própria e ocultaria as esmeraldas adicionais.

Foi sobretudo a curiosidade que a levou a descobrir as fórmulas da chave. Inicialmente, não planejara ativá-las e tencionara tratar a sua descoberta como um exercício puramente intelectual. Mas havia tantas portas, alçapões, portões, grades e fechaduras interessantes que não pôde deixar de se perguntar o que estaria por trás deles. Assim que as fórmulas na pulseira foram ativadas, teve imensa dificuldade em não pensar em usá-las.

O seu trabalho diário também a levou à tentação. Enquanto havia enviados da Carta para efetuar grande parte do trabalho manual, transportando materiais de e para a Sala de Leitura Principal e os gabinetes individuais das estudiosas, toda a verificação, registro e indexação eram feitos por pessoas. Geralmente, as bibliotecárias mais novas. Havia também artigos muito especiais ou perigosos que se tinha de ir buscar pessoalmente, ou em grandes grupos de bibliotecárias armadas. Não que Lirael fosse obrigada a participar em quaisquer destas expedições excitantes aos Níveis Antigos. Tão pouco o faria, até atingir o colete vermelho de Segunda Assistente, o que normalmente levava três anos.

Mas no decurso das suas obrigações regulares, passava com frequência por corredores de aspecto interessante vedados com cordão vermelho, ou portas que a chamavam, quase dizendo: ”Como pode passar por mim todos os dias e não entrar?”

Sem exceção, qualquer portal vagamente interessante estava trancado, fora do alcance da fórmula na chave original e da única esmeralda brilhante na pulseira de Lirael.

Excetuando a inacessibilidade das partes interessantes, a Grande Biblioteca correspondia às expectativas de Lirael. Tinham-lhe dado um pequeno gabinete só para si. Pouco maior do que a largura dos seus braços esticados, continha apenas uma mesa estreita, uma cadeira e várias prateleiras. Mas era um refúgio, um lugar onde podia ficar sozinha, a salvo das intromissões da tia Kirrith. Destinava-se, no caso de Lirael, ao estudo tranquilo do conjunto de textos da bibliotecária principiante: As Regras da Bibliotecária, Bibliografia Básica e O Grande Livro Amarelo: Fórmulas Simples para Terceiras Assistentes de Bibliotecárias. Levara apenas um mês para retirar daqueles volumes tudo o que precisava.

Assim, pedia discretamente ”emprestado” qualquer livro a que conseguia deitar as mãos, como O Livro Negro da Bibliomancia, descuidadamente omitido de uma lista de devolução de uma Bibliotecária-adjunta. E passou uma grande quantidade de tempo analisando as fórmulas na sua pulseira, decifrando lentamente as complexas cadeias de marcas da Carta até encontrar os símbolos ativadores.

De início, Lirael fora movida pela curiosidade e pela sensação de satisfação que tinha em decifrar a magia que devia estar fora do seu alcance. Mas, a dada altura do percurso, Lirael  percebeu que gostava de aprender a Magia da Carta em si mesma. E quando estava aprendendo as marcas e juntando-as em fórmulas, esquecia completamente os seus problemas e esquecia-se de que não tinha a Visão.

O fato de aprender a ser uma verdadeira Maga da Carta proporcionava-lhe também algo que fazer, quando todas as outras bibliotecárias ou as suas colegas da Ala da Juventude estavam envolvidas em atividades mais sociais.

As outras bibliotecárias, em particular a dúzia ou assim de Terceiras Assistentes, tinham tentado ser simpáticas de início. Mas eram todas mais velhas do que Lirael e tinham todas a Visão. Lirael sentia que não tinha assunto de conversa ou o que partilhar com elas, por isso ficava calada, escondendo-se atrás do cabelo. Após algum tempo, deixaram de convidá-la para se sentar perto delas ao almoço, ou para jogar tabore à tarde, ou fazer mexericos sobre as mais velhas enquanto bebiam vinho doce à noite.

Por conseguinte, Lirael estava novamente sozinha entre as demais. Disse a si mesma que preferia assim, mas não conseguia negar a dor no coração quando via os grupos de jovens Clayr às gargalhadas, conversando com tanta facilidade e apreciando a amizade umas das outras.

Era ainda pior quando grupos inteiros eram chamados a participar na Vigia de Nove Dias, como sucedeu com cada vez maior frequência durante os primeiros meses de trabalho de Lirael. Esta estava empilhando livros na Sala de Leitura, ou fazendo anotações num dos livros de registro, quando entrou uma mensageira da Vigia, trazendo os símbolos de marfim que chamavam a receptora ao Observatório. Às vezes, dúzias de Clayr na enorme Sala de Leitura abobadada recebiam um símbolo. Sorriam, praguejavam, faziam esgares, ou aceitavam-no estoicamente, depois seguia-se um fluxo de atividade quando todas paravam de trabalhar, arrastando as cadeiras, fechando os livros e os documentos à chave nas gavetas das mesas, ou devolvendo-os às prateleiras ou compondo as mesas antes de saírem em massa pelas portas.

De início, Lirael ficou surpresa de tantas serem chamadas e mais surpresa ainda quando algumas delas regressaram apenas horas ou dias depois, em vez dos habituais nove dias que davam o nome à Vigia. Inicialmente pensou que seria uma inerência do cargo de bibliotecária o fato de serem chamadas tantas de uma vez e não pelo período inteiro. Mas não teve vontade de fazer perguntas sobre o assunto, por isso passou algum tempo antes de obter uma espécie de resposta, quando escutou a conversa de duas Segundas Assistentes de Bibliotecárias na Sala de Encadernação.

- Está tudo muito certo ter uma de Noventa e Oito. Mas passar para uma de Cento e Noventa e Seis e depois seguir para uma de Setecentos e Oitenta e Quatro como a de ontem é perfeitamente ridículo - disse uma das Segundas-Assistentes. - Quer dizer, coubemos todas no Observatório. Mas agora fala-se de uma de Mil Quinhentas e Sessenta e Oito! Será quase todas nós, creio - e não me parece que aumentar a Vigia a faça funcionar melhor do que com as habituais Quarenta e Nove. Não vi nenhuma diferença.

- Para mim é indiferente - respondeu a outra Segunda Assistente ao aplicar cuidadosamente cola na capa de um livro com a lombada rasgada. - Sempre é uma variante daqui e pelo menos acaba mais depressa do que uma Vigia maior. Mas é entediante quando temos de tentar nos concentrar no lugar onde não conseguimos ver nada. Por que é que as lá de cima não admitem que ninguém consegue ver nada à volta daquele lago estúpido e deixam as coisas como estão?

- Porque não é assim tão simples - interrompeu a voz austera da Adjunta que caiu sobre elas como um enorme gato branco sobre dois ratos gordos. - Todos os futuros possíveis estão interligados. Não conseguir ver esses futuros é um problema grave. Deviam saber isso e deviam também saber que não se fala do que se passa na Vigia!

A última frase foi proferida com um olhar geral pela sala. Mas Lirael, mesmo meia escondida atrás de uma prensa grande, sentiu que lhe era dirigido em particular. Afinal, todas as demais na sala eram Clayr plenas e em condições de integrarem a Vigia de Nove Dias.

As suas faces escaldaram de embaraço e vergonha quando aplicou toda a sua força em fazer girar os grandes cabos de bronze do parafuso, apertando a prensa. As conversas foram retomadas lentamente à volta dela, mas ignorou-as, concentrando-se apenas na sua tarefa.

Mas foi naquele momento que decidiu despertar a magia adormecida na sua pulseira e usar a fórmula que criara para ocultar o brilho das esmeraldas adicionais. Podia não conseguir participar na Vigia no Observatório, mas iria explorar a Biblioteca.

 

DEPOIS DAS PORTAS DO SOL E DA LUA

Mesmo depois de ativar as fórmulas extras na sua pulseira, Lirael teve dificuldade em explorar as áreas que anteriormente lhe estavam vedadas. Havia sempre excessivo trabalho, ou muitas bibliotecárias por perto. Mesmo depois dos dois primeiros momentos de sobressalto de quase descoberta diante das portas proibidas, Lirael decidiu adiar a sua exploração até estarem presentes menos pessoas ou conseguir escapulir-se mais facilmente do trabalho.

A sua verdadeira oportunidade deu-se quase cinco meses depois de ter envergado o colete amarelo de Terceira Assistente. Estava na Sala de Leitura, separando os livros para serem devolvidos pelos enviados, que se reuniam compactamente à sua volta, as suas mãos espectrais gravadas pela Carta a única parte visível das suas formas ocultas. Eram enviados bastante simples, sem quaisquer funções superiores, mas adoravam o seu trabalho. Lirael também gostava deles, porque não a obrigavam a falar nem respondiam às suas perguntas. Limitava-se a dar os livros adequados ao enviado certo e ele levava-os para a sua área e a prateleira ou o depósito certo.

Lirael revelava uma aptidão particular para identificar qual enviado era qual, uma capacidade valiosa dado que os sinais bordados nas suas túnicas com capuz estavam muitas vezes cheios de pó ou tinham-se tornado indetectáveis e indecifráveis. Não possuíam nomes oficiais, apenas descrições das suas responsabilidades. Mas a maior parte tinha apelidos, como Tad, que estava encarregado das Histórias dos Viajantes, A-D, ou Stoney, que cuidava da coleção de Geologia.

Lirael estava apenas dando a Tad um volume particularmente grande e pesado encadernado em pele com um motivo de camelos de três bossas gravado, quando chegou a mensageira da Vigia. Lirael não lhe deu muita atenção de início, pois sabia que não receberia nenhum símbolo de marfim. Depois reparou que a mensageira se detinha em cada mesa e falava com cada pessoa um sussurro de conversa segredada elevando-se atrás dela. Discretamente, Lirael prendeu o cabelo atrás das orelhas e tentou escutar. A princípio, o murmúrio foi indistinto, mas quando a mensageira se aproximou mais, Lirael ouviu as palavras ”Mil Quinhentas e Sessenta e Oito” repetidas sucessivamente.

Por um momento ficou intrigada, depois percebeu que devia ser disto que as Segundas Assistentes tinham falado. A convocação de mil quinhentas e sessenta e oito Clayr para a Vigia - uma concentração de Visão sem precedentes.

Afastaria também todas as bibliotecárias da Biblioteca, calculou Lirael, proporcionando-lhe a oportunidade perfeita para uma excursão secreta. Pela primeira vez, Lirael assistiu com excitação à distribuição dos símbolos pela mensageira, em vez de sentir a habitual depressão e autocomiseração. Agora desejava que todas as outras fossem convocadas para a Vigia. Tentando não parecer óbvia demais, Lirael deslocou-se, inclusive, até o outro lado da mesa para ver se ficara alguma.

Não ficara. Lirael sentiu uma estranha dificuldade em respirar enquanto esperava para ver se alguém se lembrava de lhe dizer para fazer algo - ou o inverso. Mas nenhuma das bibliotecárias com quem costumava trabalhar estava aqui. Não se via Imshi. Lirael calculou que a mensageira a tivesse encontrado pelo caminho e entregara-lhe um símbolo. Desejou que fossem todas e começou a selecionar os livros com ferocidade concentrada, como se ignorasse o que se passava à sua volta. Os enviados mostraram-se satisfeitos, deslocando-se mais rapidamente enquanto cada um pegava a sua pilha de livros e outro avançava para o seu lugar.

Finalmente, o último colete brilhou à porta e desapareceu. Mais de cinquenta bibliotecárias, eliminadas em menos de cinco minutos. Lirael sorriu e pousou o último livro com uma pancada definida, decepcionando o enviado que aguardava um carregamento completo.

Dez minutos depois, dando tempo às retardatárias, dirigiu-se para a espiral principal. Havia uma porta cerca de oitocentos metros mais abaixo, bem dentro dos Níveis Antigos, uma certa porta favorita que queria investigar em primeiro lugar. Tinha o emblema de um sol brilhante na sua superfície de madeira de outro modo comum, um disco dourado com raios que se estendiam de cima abaixo. Claro que havia também um cordão vermelho à frente dela, preso em cada extremidade com selos de cera ostentando o livro e a espada, o símbolo da Bibliotecária-Chefe.

Há muito que Lirael descobrira como lidar com esta contrariedade em particular. Retirou do colete um pequeno pedaço de arame com dois cabos de madeira e segurou-o próximo da boca. Depois, proferiu três marcas da Carta, um feitiço simples para aquecer o metal, com o arame momentaneamente rubro, cortou rapidamente os selos e escondeu-os mais a corda num buraco próximo na parede do corredor, longe da luz.

Depois veio o verdadeiro teste. Abriria a porta com a pulseira dela, ou necessitava das duas últimas fórmulas que não conseguira decifrar?

Erguendo o pulso como lhe tinham mostrado, agitou a pulseira diante da porta. As esmeraldas brilharam, atravessando a fórmula de encobrimento que lhes aplicara - e a porta abriu-se silenciosamente.

Lirael a transpos e a porta fechou-se lentamente atrás dela. Encontrou-se num corredor curto e ficou momentaneamente desorientada com a luz intensa no outro extremo. Este corredor não podia certamente conduzir ao exterior? Estava no coração da montanha, milhares de metros debaixo do solo. Piscando os olhos por causa da luz, avançou, uma mão no cabo do punhal, a outra no rato mecânico de emergência.

O corredor não conduzia ao exterior, mas Lirael viu o que a iludira. Dava para uma ampla câmara, maior até do que o Salão Grande. Marcas da Carta tão intensas quanto o Sol brilhavam no teto distante, centenas de metros acima. Um carvalho enorme enchia o centro da sala, com a folhagem de pleno Verão, os seus ramos estendidos fazendo sombra sobre um lago serpentine. E, por todo o lado, em toda a extensão da caverna, havia flores. Flores vermelhas. Lirael debruçou-se e apanhou uma, sem saber se seria uma espécie de ilusão. Mas era bem real. Não sentiu qualquer magia, apenas o pé rijo sob os dedos. Um malmequer vermelho, todo florido.

Lirael cheirou-o e espirrou quando o pólen lhe subiu pelo nariz. Só então percebeu o silêncio. Esta caverna enorme devia imitar o mundo exterior, mas o ar estava muito parado. Não havia brisa, nem qualquer som. Nem aves, nem abelhas laborando felizes no meio do pólen. Nem animais pequenos bebendo no lago. Não havia nada vivo, exceto as flores e a árvore. E as luzes por cima não emanavam calor, ao contrário do Sol. Este lugar tinha a mesma temperatura que o resto do domínio habitado pelas Clayr e a mesma ligeira humidade, do calor úmido distribuído através da enorme rede de canos que traziam a água superaquecida dos géiseres e plumas de vapor muito, muito lá embaixo.

Apesar de belo, era um pouco decepcionante. Lirael perguntou-se se seria tudo o que havia para descobrir na sua primeira expedição. Depois reparou na existência de uma outra porta - um portão gradeado, melhor dizendo - no outro extremo da caverna.

Levou dez minutos para chegar até lá, mais tempo do que teria suposto. Mas procurou não pisar flores demais e evitou a árvore e o lago. Por via das dúvidas.

O portão barrava o acesso a um outro corredor, que mergulhava na escuridão em vez da luz. O portão, uma simples grade de metal, tinha sobre ele o emblema de uma lua de prata, no lugar de um sol. Uma lua em quarto crescente, com pontas muito mais afiadas e compridas do que se consideraria vulgar ou esteticamente agradável.

Lirael espreitou pelo portão para o corredor do outro lado. Por algum motivo, foi levada a pensar no apito do colete e em coisas agarrando-lhe os braços. De qualquer forma, o apito seria inútil ali - e o rato também,  percebeu subitamente Lirael, dado que não havia ninguém na Sala de Leitura para ouvir a sua chiadela de alarme.

Mas, à parte os perigos desconhecidos, não existia uma só razão óbvia para não experimentar o portão. Lirael agitou o braço e mais uma vez as esmeraldas brilharam, mas o portão não se abriu. Deixou que a mão pendesse, afastou o cabelo dos olhos e franziu o sobrolho. Manifestamente, tratava-se de um portão que só respondia às fórmulas superiores.

Depois ouviu um estalido e a metade direita do portão abriu-se lentamente - com um espaço que mal dava para Lirael passar cornprimindo-se. Para dificultar, a lua em quarto crescente sobressaía no espaço aberto, as pontas afiadas ao nível onde se encontrariam o pescoço e a virilha de Lirael.

Olhou para a passagem estreita e ponderou. E se existisse algo terrível do outro lado? Mas depois, mais uma vez, o que tinha a perder? O medo e a curiosidade travaram uma luta momentânea dentro dela. Venceu a curiosidade.

Agindo por impulso desta última, Lirael tirou o rato do bolso e colocou-o entre as flores. Se algo corresse mal do outro lado do portão, poderia gritar a fórmula de ativação da marca da Carta e ele partiria, seguindo os seus próprios tortuosos caminhos de rato até à Sala de Leitura. Mesmo que fosse tarde demais para salvar Lirael, podia constituir um aviso útil para as outras. De acordo com as suas superiores e colegas, não era incomum as bibliotecárias darem as suas vidas em benefício das Clayr como um todo, quer na investigação perigosa, um simples excesso de zelo, quer em atos contra perigos previamente desconhecidos descobertos na coleção da Biblioteca. Lirael acreditava que este princípio de auto-sacrifício lhe era particularmente adequado, dado que as outras Clayr tinham a Visão e por isso precisavam muito mais de estar vivas do que ela.

Depois de colocar o rato, Lirael sacou do punhal e esgueirou-se pelo portão parcialmente aberto. Passou à tangente e as pontas da lua eram afiadas como navalhas, mas conseguiu passar sem causar danos na sua pessoa nem nas roupas. Não lhe ocorreu que um homem ou mulher adultos não conseguiriam passar.

O corredor era muito escuro, por isso Lirael proferiu uma fórmula simples da Carta para luz, deixando-a afluir ao seu punhal. Depois ergueu a lâmina diante de si como uma lanterna, só que não tão intensa. Ou falhara algo na fórmula ou algo a abafava.

Além de escuro, o corredor, evidentemente não ligado aos canos geotérmicos das Clayr, estava também frio. Levantou-se pó quando Lirael caminhou, rodopiando em estranhos padrões que Lirael quase julgou poderem ser marcas da Carta, umas que não conhecia.

No fim do corredor, havia uma pequena câmara retangular. Erguendo o punhal alto, Lirael pôde ver os seus cantos sombrios, cheios de tênues marcas da Carta que eram tão antigas que quase tinham perdido a sua luminescência.

Toda a câmara estava imersa em magia - Magia da Carta estranha, antiga, que não compreendia e de que quase chegava a ter medo. As marcas eram restos de alguma fórmula incrivelmente velha, presentemente caduca e separada. O que quer que a fórmula tivesse sido em tempos, agora não passava de centenas de marcas desgarradas, sumindo na poeira. Restava o suficiente da fórmula para deixar Lirael cada vez mais incomodada. Havia ali a flutuar marcas de restringimento e aprisionamento, de proteção e aviso. Mesmo na sua forma separada, a fórmula tentava cumprir a sua finalidade.

Pior do que isso, Lirael  percebeu que, apesar das marcas serem muito antigas, a fórmula não desaparecera simplesmente, como pensara de início. Fora separada apenas recentemente, há semanas, ou talvez meses.

No meio da câmara, encontrava-se uma mesa baixa de pedra vítrea preta, uma laje única, reminiscência de um altar. Também ela estava coberta de restos de algum encantamento ou fórmula poderosos. As marcas da Carta circulavam na sua superfície lisa, procurando eternamente uma ligação com alguma marca da Carta principal que as uniria. Mas a marca já não existia.

Havia sete pequenos plintos sobre a mesa, alinhados numa fila. Tinham sido esculpidos a partir de alguma espécie de osso branco luminoso e estavam todos vazios exceto um. O terceiro da esquerda apresentava um pequeno modelo ou estatueta em cima.

Lirael hesitou. Não conseguia ver bem o que era, mas não queria se aproximar mais. Não sem estar melhor informada sobre as fórmulas que tinham sido separadas aqui. Permaneceu ali algum tempo, observando as marcas e escutando. Mas nada mudou e a câmara estava completamente silenciosa.

Mais um passo em frente, calculou Lirael, não faria diferença. Veria o que estava no terceiro plinto e depois se retiraria.

Acercou-se mais e ergueu a luz.

Assim que assentou o pé, soube que cometera um erro. O chão provocou uma sensação estranha, insegura debaixo dela. Depois ouviu-se um estalido terrível e subitamente ambos os pés atravessaram o painel de vidro escuro que tomara por mais chão. Lirael caiu para a frente, conseguindo apenas segurar o punhal. A sua mão esquerda assentou na mesa, agarrando instintivamente a estatueta. Os joelhos bateram no ponto de junção do vidro com a pedra, fazendo disparar uma dor desagradável até à cabeça. Sentiu picadas nos pés, cortados pelo vidro.

Olhou para baixo e viu algo pior que o vidro partido e os pés cortados, algo que a pôs de imediato e novamente em movimento, independentemente de quaisquer danos extra que os estilhaços pudessem causar.

Porque o vidro fora a cobertura de uma vala comprida tipo caixão e havia algo lá dentro. Algo que parecera à primeira vista uma mulher nua, adormecida. No instante horrorizado que se seguiu, Lirael reparou que os antebraços dela eram tão compridos quanto as pernas e estavam dobrados para trás, com garras enormes nas extremidades, como as de um louva-a-deus rezando. Abriu os olhos e eram fogos de prata, mais brilhantes e mais terríveis do que algo que Lirael alguma vez vira.

O pior de tudo era o cheiro. O odor metálico denunciador de Magia Livre que deixou um gosto amargo na boca e na garganta de Lirael e fez com que o seu estômago se irritasse e nauseasse.

Tanto a criatura como Lirael moveram-se ao mesmo tempo. Lirael precipitou-se para o corredor enquanto a coisa atacava com as suas garras medonhas alongadas. Erraram e o monstro soltou um grito de aborrecimento que foi absolutamente inumano, fazendo Lirael correr mais depressa do que alguma vez o fizera, com os pés cortados ou não. Antes que o grito diminuísse, Lirael comprimiu-se através do portão, respirando com tanto pânico que teve de se encolher vários centímetros. Uma vez transposto, virou-se e agitou a pulseira, gritando:

- Feche-se! Feche-se!

Mas o portão não se fechou e a criatura estava subitamente ali, uma perna e o hediondo braço do lado de fora. Por um momento, Lirael pensou que ela não conseguiria passar pelas pontas aguçadas da lua, mas de repente adelgaçou-se e tornou-se mais alta e abriu uma boca cheia de dentes de prata pontiagudos para lamber os beiços com uma língua cinzenta às riscas amarelas, como uma sanguessuga.

Lirael não se demorou olhando para aquilo. Esqueceu o rato de emergência. Esqueceu que se devia afastar do lago e da árvore. Correu apenas numa linha reta absoluta, esmagando as flores, as pétalas de malmequer explodindo numa nuvem à sua volta. Continuou correndo, pensando que a qualquer momento a garra enclavinhada a derrubaria. Não abrandou no corredor externo e escorregou, imobilizando-se a tempo de evitar ir de encontro à porta. Ali, agitou a pulseira e esgueirou-se antes de ela se abrir mais do que uma fenda, arrancando todos os botões do colete.

Do outro lado, agitou novamente a pulseira, observando a porta aberta com a antecipação esbugalhada e nauseada de um vitelo que vê um lobo em aproximação.

A porta parou de se abrir e começou lentamente a fechar-se de novo. Lirael suspirou e caiu de joelhos, sentindo-se como se fosse vomitar. Fechou os olhos por um momento - e ouviu um ruído seco que não foi o da porta a fechar-se.

Abriu os olhos e viu uma garra curva de inseto, do comprimento da sua mão, enfiar-se pelo intervalo da largura de um dedo. Depois seguiu-se outra - e a porta começou a abrir-se. Lirael levou a boca ao apito e o seu som estridente ecoou para cima e para baixo na espiral. Mas não havia ninguém para ouvi-lo e quando levou a mão ao bolso do rato, encontrou uma estranha estatueta de pedra macia, não o familiar corpo prateado do rato.

A porta estremeceu e o intervalo aumentou, a criatura nitidamente vencendo a fórmula que a tentava manter fechada. Lirael olhou para ela, incapaz de pensar no que fazer a seguir. Freneticamente, olhou para um lado e para o outro do corredor, como se pudesse chegar alguma ajuda inesperada.

Mas não chegou nenhuma e apenas conseguiu pensar que o que quer que fosse esta coisa, não deveria passar para a espiral principal. Voltaram-lhe as palavras das bibliotecárias falando de auto-sacrifício, bem como a sua subida deprimida das Escadas de Starmount apenas alguns meses antes. Agora que a morte parecia provável,  percebeu o quanto queria permanecer viva.

Mesmo assim, Lirael sabia o que havia a fazer. Levantou-se e levou a mão à Carta. Ali, no fluxo infinito, traçou todas as marcas que conhecia para domar e rebentar, para fogo e destruição, para bloquear, barrar e trancar. Vieram à sua mente numa torrente, mais intensas e mais ofuscantes do que qualquer luz, tão fortes que mal as conseguiu compor numa fórmula. Mas, de alguma forma, ordenou-as como desejava e ligou-as com uma única marca principal, uma de grande poder, que nunca antes ousara usar. Com a fórmula pronta, encerrada dentro de si apenas pela vontade, Lirael fez a coisa mais corajosa que jamais fizera. Tocou na porta com uma mão, na garra da criatura com a outra e proferiu a marca principal da Carta para lançar a fórmula.

 

A QUEDA PELA QUINTA ESCADA DOS FUNDOS

Ao falar, o calor correu pela garganta de Lirael. Explodiu fogo branco através da sua mão direita até à criatura e libertou-se da mão esquerda dela uma força titânica, fechando com força a porta. Foi arremessada, rebolando sucessivamente até a cabeça bater no chão de pedra com um ruído seco terrível que a mergulhou imediatamente na escuridão.

Quando voltou a si, Lirael não fazia idéia de onde estava. A sensação na sua cabeça era como se um arame quente lhe tivesse perfurado o crânio. Estava também um pouco úmida e doía-lhe a garganta como se estivesse a braços com uma forte gripe. Por um momento, pensou que estava de cama, doente e em breve veria a tia Kirrith ou uma das outras meninas debruçadas sobre ela com uma colherada de tônico herbal. Depois  percebeu que havia pedra fria sob ela, não um colchão, e se encontrava completamente vestida.

Vacilante, apalpou a cabeça e os dedos mostraram-lhe o que era a umidade. Olhou para o sangue vivo e acometeu-a uma onda de frio e vertigem, partindo dos dedos dos pés até à cabeça. Tentou gritar por socorro, mas doía-lhe excessivamente a garganta. Não saiu nada, apenas uma espécie de zumbido aspirado.

Lembrava-se agora do que tentara fazer e uma flecha de puro pânico pôs termo à vertigem. Tentou erguer a cabeça, mas doeu-lhe demasiado, de modo que se virou de lado, para ver a porta.

Estava fechada e não havia sinal da criatura. Lirael olhou para a porta até o veio da madeira se tornar difuso, sem saber se estava realmente fechada, a criatura sumida. Quando se certificou por completo de que estava fechada, desviou a cabeça e vomitou, a bílis amarga queimando a sua garganta já dolorida.

Ficou imóvel após aquilo, tentando regularizar a respiração e o coração descompassado. Um exame mais minucioso da cabeça revelou que o sangue já estava coagulando, por isso provavelmente não era muito grave. Parecia-lhe pior a garganta, danificada por ter proferido uma marca da Carta para o uso da qual não possuía a força ou a experiência corretas. Tentou dizer algumas palavras, mas apenas saiu um murmúrio rouco.

A seguir, investigou os pés, mas afinal estavam mais arranhados do que cortados, muito embora os sapatos apresentassem tantos buracos que se tinham tornado umas sandálias. Comparados com a cabeça, os pés estavam ótimos, por isso resolveu tentar levantar-se. Levou vários minutos, mesmo servindo-se da parede para apoio. Demorou outros cinco minutos para dobrar-se de novo, apanhar o punhal e enfiá-lo na bainha.

Após aquele exercício, ficou algum tempo de pé, até se sentir suficientemente firme para examinar a porta. Estava devidamente fechada, sem um intervalo e conseguiu sentir a sua própria fórmula, bem como a tranca mágica da porta, que a mantinha fechada. Ninguém conseguiria entrar ou sair agora sem desfazer a fórmula de Lirael. Até a Bibliotecária-Chefe teria de chamá-la para a levantar, ou separar.

O fato de pensar na Chefe fez Lirael apanhar o máximo de botões arrancados que encontrou e voltar a colocar o cordão vermelho e os selos sobre a porta - muito embora uma fórmula para aquecer a cera estivesse quase aquém de si. Quando terminou, deu alguns passos até à espiral principal, mas teve de se sentar, muito fraca para prosseguir.

Caindo bruscamente, mergulhou numa confusão semiconsciente, incapaz de pensar fosse no que fosse ou avaliar a sua situação. Ficou sentada por muito tempo, talvez mesmo uma hora. Depois deu-se nela uma certa recuperação natural e Lirael  percebeu onde se encontrava e qual o seu estado. Ensanguentada, contundida, o colete sem botões e destruído, o rato de emergência perdido. Tudo isso requeria uma explicação.

A perda do rato recordou-lhe a estatueta. As suas mãos estavam muito mais desajeitadas do que de costume, de uma forma frustrante, mas conseguiu tirar do bolso a pequena figura de pedra e colocou-a no colo.

Era um cão, viu, esculpido em greda azul-acinzentada que era agradável ao tato. Parecia um tipo de cão robusto, com orelhas pontiagudas e um focinho manhoso. Mas tinha também um sorriso simpático e a sugestão de uma língua ao canto da boca.

- Olá, cão - murmurou Lirael, a sua voz tão fraca e áspera, que mal se conseguiu ouvir. Gostava de cães, apesar de não haver nenhum nos domínios superiores da geleira. O Corpo de Tropas tinha um canil para os cães de treino próximo do Portão Grande e por vezes os visitantes traziam os seus cães para os aposentos dos hóspedes e o Refeitório Inferior. Lirael fazia sempre uma festa aos cães de visita, mesmo quando eram cães lobo malhados com coleiras com tachões. Os cães eram sempre simpáticos com ela, com frequência muito mais do que os seus donos, que ficavam incomodados quando Lirael falava apenas com os cães e não com eles.

Lirael segurou a estatueta do cão e perguntou-se o que ia fazer. Deveria contar a Imshi ou a alguém mais acima na hierarquia sobre a coisa que estava solta na câmara do campo de flores? E admitir que ativara as fórmulas das chaves extra na sua pulseira?

Ficou ali sentada uma eternidade, rejeitando idéias, coçando a cabeça do cão como se fosse um animal verdadeiro em miniatura. Contar a verdade seria provavelmente a atitude certa a tomar, concluiu, mas depois certamente perderia o emprego - e seria intolerável voltar para as aulas infantis e a detestada túnica azul. Mais uma vez, alimentou a idéia de que a morte poderia proporcionar uma saída, mas a realidade de quase ser morta pelas garras das criaturas tornou o suicídio ainda menos atraente do que se afigurara antes.

Não, decidiu Lirael. Metera-se em apuros e teria de sair deles. Descobriria o que era a criatura, aprenderia a derrotá-la e depois passaria à ação. Não podia sair de lá, ou pelo menos assim esperava. E ninguém mais conseguiria entrar, por isso não constituía perigo para as outras bibliotecárias. Ficavam por explicar o golpe na cabeça, os pés arranhados, as equimoses, o rato extraviado, a perda da voz e a desordem geral. Tudo isso poderia ser envolvido num único plano brilhante. Que Lirael não tinha.

- Agora, podia caminhar e pensar - segredou à estatueta do cão. Era estranhamente confortante falar com o cão e segurá-lo na mão. Reparou na forma como estava sentado, com a cauda enrolada à volta das patas traseiras e as dianteiras retas, como se aguardasse a dona.

- Quem me dera ter um cão verdadeiro - acrescentou Lirael, gemendo ao levantar-se e começar a caminhar lentamente pelo corredor em espiral. Depois parou e olhou para a estatueta, um súbito pensamento louco brotando na sua mente. Podia criar um enviado da Carta em forma de cão, um bem complexo que ladrasse e tudo. Só precisava de Sobre a Criação de Enviados e talvez Criar e Dominar Seres Mágicos. Ambos se encontravam trancados, claro, mas Lirael sabia onde estavam. Podia até fabricar um enviado que se parecesse com a bela estatueta do cão.

Lirael sorriu ante a idéia de ter um cão. Um verdadeiro amigo, alguém com quem pudesse conversar e que não lhe fizesse perguntas ou respondesse. Um companheiro terno e cativante. Voltou a guardar a estatueta no bolso do colete e seguiu coxeando.

Cem metros depois, parou bruscamente de pensar em como criar um enviado e começou a ficar preocupada com a maneira como iria descobrir o que era a criatura na câmara das flores. Existiam bestiários na Biblioteca, sabia-o, mas descobri-los e ter acesso a eles podia constituir um problema.

Continuou pensando no assunto por mais cem metros até perceber que tinha um problema muito mais premente. Precisava encontrar uma explicação para os seus ferimentos e a perda do rato, com uma dose mínima de mentiras. Lirael sentia que devia muito à Biblioteca e não queria contar uma mentira descarada. Além disso, não se achava capaz de mentir, se tivesse lugar o interrogatório cerrado da Bibliotecária-Chefe ou alguém do gênero.

O rato era a parte mais difícil. Parou de andar para tentar pensar com maior clareza e ficou surpres ao constatar até que ponto o seu corpo precisava de repouso. Normalmente, andava pela Biblioteca o dia todo, subindo e descendo a espiral, subindo e descendo escadas, entrando e saindo das salas. Agora, mal conseguia deslocar-se sem um tremendo esforço da vontade.

Uma queda explicaria o seu ferimento, pensou Lirael, apalpando mais uma vez o golpe. Parara de sangrar, mas tinha o cabelo empastado de sangue e sentia que estava se formando um alto. Uma longa queda, com um grito aterrado, explicaria também a garganta dorida. Os botões podiam ser arrancados nesse tipo de queda e um rato sair facilmente de um bolso.

Escadas, decidiu Lirael. Uma queda pelas escadas justificaria tudo muito melhor. Em particular, se alguém a encontrasse no fundo das escadas, não teria de dar grandes explicações.

Demorou algum tempo para descobrir que a Quinta Escada dos Fundos entre a espiral principal e a Ala da Juventude seria o local mais indicado para ter um acidente. Podia até ir buscar um copo de água na Fonte do Memorial de Zally no caminho. Não era permitido levar de lá copos, claro, mas isso era provavelmente um bônus. Daria a todas - em particular à tia Kirrith - um motivo para lhe ralharem e não procurariam delitos mais graves. E um copo partido explicaria os pés arranhados.

Agora, tudo o que tinha a fazer era chegar lá e não encontrar ninguém pelo caminho. Se anteriores reuniões de Vigia alargadas constituíam um indício, a de Mil Quinhentas e Sessenta e Oito não duraria muito mais. Existia uma nítida correlação entre o tamanho de uma determinada Vigia e o seu tempo de duração. A normal de Quarenta e Nove durava nove dias, vindo daí o nome da Vigia. Mas, quando havia mais pessoas envolvidas, as Clayr regressavam muito mais cedo. A Vigia mais recente mantivera as Clayr participantes afastadas durante menos de um dia.

Quanto mais se aproximava da Ala da Juventude, maior era o perigo de encontrar jovens ou outras que não tinham participado na Vigia. Lirael decidiu que, se encontrasse alguém, se limitaria a cair e a desmaiar, esperando que quem quer que fosse não fizesse muitas perguntas.

Mas não encontrou ninguém antes de abandonar a espiral, ir buscar o copo de água na Fonte de Zally, transpor as portas de pedra permanentemente abertas do Quinto Patamar da Biblioteca e alcançar a Quinta Escada dos Fundos. Era uma escada estreita e circular, não muito usada já que ligava apenas a Biblioteca ao lado ocidental da Ala da Juventude.

Cansada, Lirael subiu a primeira meia dúzia de degraus, até o ponto onde começava a virar para dentro. Atirou então o copo, estremecendo quando ele se partiu. Depois daquilo, teve de determinar o lugar onde se estender para parecer que caíra realmente pelas escadas. Sentiu-se tonta e teve de se sentar. E assim que se sentou, pareceu-lhe perfeitamente natural deitar a cabeça num degrau de cima, apoiada num braço estendido.

Sabia que se devia arrumar artisticamente no patamar debaixo, uma vítima óbvia de uma queda, mas afigurou-se tudo extremamente difícil. A força que a aguentara até ali fora-se. Não conseguiu se levantar. Era muito mais fácil adormecer. Um belo sono, onde os problemas não a atormentassem...

Lirael acordou com uma voz que dizia com urgência o nome dela e dois dedos que lhe verificavam as pulsações no pescoço. Desta vez, recuperou com relativa rapidez os sentidos, fazendo uma careta quando a dor voltou.

- Lirael! Consegue falar?

- Sim - murmurou Lirael, a sua voz ainda muito fraca e estranhamente rouca. Estava desorientada. A sua última recordação era de estar estendida nos degraus e agora encontrava-se deitada no chão. percebeu que estava no patamar, parecendo muito mais a vítima de uma queda do que algo que pudesse ter preparado pessoalmente. Devia ter escorregado pelos degraus depois de desmaiar.

Uma Primeira Assistente de Bibliotecária de colete azul estava debruçada sobre ela, observando com atenção o rosto dela. Lirael piscou os olhos e perguntou-se por que motivo esta desconhecida agitava a mão para trás e para a frente diante dos olhos de Lirael. Mas, afinal, não era uma desconhecida. Era Amerane, com quem trabalhara durante alguns dias no mês anterior.

- O que aconteceu? - perguntou Amerane, a preocupação na sua voz. - Sente alguma coisa quebrada?

- Bati com a cabeça - murmurou Lirael e sentiu que lhe vinham as lágrimas aos olhos. Não chorara antes, mas agora não conseguia parar e todo o seu corpo começou também a tremer, por mais que se esforçasse para permanecer imóvel.

- Sente alguma coisa quebrada? - repetiu Amerane. - Dói mais algum lugar além da cabeça?

- N-não - soluçou Lirael. - Nada quebrado.

Amerane não pareceu confiar na opinião de Lirael, porque apalpou de alto a baixo os braços e as pernas da menina e comprimiu-lhe ligeiramente os dedos das mãos e dos pés. Como Lirael não gritasse e parecesse não existir estalidos nos ossos nem altos ou inchaços anormais, Amerane ajudou-a a levantar-se.

- Ande - disse ela, com bondade. - vou leva-le à Enfermaria.

- Obrigada - murmurou Lirael, passando o braço pelos ombros de Amerane e deixando-a carregar a maior parte do peso. Levou a sua outra mão ao bolso, os dedos envolvendo o pequeno cão de pedra, a sua superfície lisa uma fonte de conforto, enquanto Amerane a levava dali.

 

CRIATURAS POR NAGY

De início, Lirael achou que fosse sair da Enfermaria ao fim de um dia. Mas mesmo passados três dias sobre a sua ”queda”, mal conseguia falar e perdera toda a energia, não querendo sequer levantar-se. Enquanto a dor na cabeça e na garganta dela diminuíam, o medo crescia por todo o lado, retirando-lhe a força. O medo do monstro de olhos de prata e mãos enclavinhadas que quase conseguia ver à espera dela no meio dos malmequeres vermelhos. O medo de que as suas transgressões fossem descobertas, obrigando-a a perder o emprego. O medo do próprio medo, um círculo vicioso que a esgotava e enchia de pesadelos o pouco que conseguia dormir.

Na manhã do quarto dia, a Curandeira-Chefe deu um estalido com os dentes e franziu o sobrolho ante a ausência de progresso da paciente. Chamou uma outra curandeira para vir ver Lirael, que suportou tudo com paciência. Decidiram ambas, segundo escutou Lirael, que teriam de ir buscar Filris à sua sala de sonhar.

Lirael deu um pulo de nervosismo ante este anúncio. Entre outras coisas, Filris era a Enfermeira e a Clayr mais velha ainda viva. Durante toda a sua vida, Filris passara a maior parte do tempo na sala dos sonhos e supostamente trabalhando também na Enfermaria, apesar de Lirael nunca a ter visto em qualquer das duas ocasiões em que fora hospitalizada com doenças infantis.

Nunca vira nenhuma das Clayr realmente velhas, aquelas com idade suficiente para se retirarem para salas de sonhar próprias. Precisavam dessas salas porque a Visão tendia a tornar-se progressivamente mais difícil com a idade, enviando visões cada vez mais frequentes, mas em fragmentos mais reduzidos, que não podiam ser controladas, mesmo com os poderes focalizadores do gelo e da Vigia de Nove Dias. Não era incomum ver as Clayr mais antigas captarem apenas estes futuros fragmentados e não conseguirem interagir sequer com o presente.

Contudo, quando Filris chegou uma hora depois, vinha sozinha e, manifestamente, não precisava de ajuda no mundo normal. Lirael olhou-a com desconfiança, vendo uma mulher baixa e franzina com cabelo tão branco como a neve no alto de Starmount e pele como o pergaminho antigo, as veias por baixo um rendilhado delicado no rosto dela, em contraponto com as rugas da sua extrema idade.

Inspecionou Lirael da cabeça aos pés, sem falar, as suas mãos secas como papel incitando-a a mover-se nas direções pretendidas. Por fim, observou a garganta de Lirael, demorando-se algum tempo, uma pequena porção de luz produzida por magia da Carta flutuando a centímetros do maxilar rígido de Lirael. Quando Filris terminou finalmente a observação, mandou a Curandeira sair da enfermaria e sentou-se ao lado da cama de Lirael. O silêncio instalou-se entre elas, pois a enfermaria encontrava-se agora vazia. As outras sete camas não estavam ocupadas.

Por fim, Lirael emitiu um ruído mais ou menos entre um pigarro e um soluço. Afastou o cabelo do rosto e olhou nervosamente para Filris - e foi apanhada pela expressão intensa dos seus olhos azul-claros.

- Portanto você é Lirael - disse Filris. - E a curandeira contou-me que caiu pelas escadas. Mas não me parece que a sua garganta fosse danificada por um grito. Para ser sincera, surpreende-me que ainda esteja viva. Não conheço nenhuma outra Clayr da sua idade - e poucas de qualquer idade - que proferissem semelhante marca sem serem consumidas por ela.

- Como? - gemeu Lirael. - Como é que sabe?

- A experiência - respondeu Filris secamente. - Trabalho nesta Enfermaria há mais de cem anos. Não é a primeira Clayr que vejo sofrer os efeitos de experimentar uma magia excessivamente ambiciosa. E estou também curiosa por saber como arranjou esses ferimentos, em particular dado que o vidro cravado nos teus pés é cristal puro e certamente não o mesmo que o dos copos da Fonte de Zally.

Lirael engoliu em seco, mas não falou. O silêncio voltou. Filris aguardou pacientemente.

- Vou perder o meu emprego - murmurou por fim Lirael. - Serei mandada de volta para a Ala.

- Não - disse Filris, pegando-lhe na mão. - O que se passa entre nós não sairá daqui.

- Fui estúpida - disse Lirael com voz rouca. - Libertei algo. Algo perigoso, perigoso para todas as pessoas. Todas as Clayr.

- Hum! - resfolegou Filris. - Não pode ser tão mau assim se não fez nada nos últimos quatro dias. Além disso, ”todas as Clayr” podem cuidar muito do seu eu coletivo. É com você que estou preocupada. Está deixando que o medo se interponha entre si e a sua melhora. Agora vai começar pelo princípio e me contará tudo.

- Não vai contar a Kirrith? Ou à Chefe? - perguntou Lirael, desesperada. Se Filris contasse a alguém, elas a tirariam da Biblioteca e depois não teria nada. Nada de nada.

- Se está se referindo a Vancelle, não o farei - respondeu Filris. Bateu na mão de Lirael e disse: - Não contarei a ninguém. Em particular porque estou chegando à conclusão de que há muito que devia ter vindo te fazer uma visita, Lirael. Achava que não passava de uma criança... mas conte-me. O que aconteceu?

Lentamente, a sua voz tão baixa que Filris teve de se debruçar, Lirael contou-lhe. Sobre o seu aniversário, sobre a ida ao terraço, o encontro com Sanar e Ryelle, o emprego conseguido e o quanto isso a ajudara. Falou a Filris da ativação das fórmulas na pulseira, das portas do sol radioso e da lua em crescente. A sua voz tornou-se mais baixa ainda quando falou do horror no caixão com cobertura de vidro. Da estatueta do cão. Do esforço para subir a espiral e dos planos que fizera enquanto a sua mente divagava. Da queda fingida.

Conversaram durante mais de uma hora, Filris fazendo perguntas, Lirael libertando todos os seus receios, esperanças e sonhos. Quando terminou, Lirael sentiu-se em paz e já sem medo, vazia de toda a dor e angústia enredadas que a haviam enchido.

Quando Lirael acabou de falar, Filris pediu para ver a estatueta do cão. Lirael tirou o pequeno cão de pedra de baixo da almofada e entregou-o com relutância. Afeiçoara-se muito a ele, pois era a primeira coisa que lhe proporcionava algum conforto e receava que esta Filris o levasse ou lhe dissesse que ele teria de voltar para a Biblioteca.

A velha agarrou a estatueta com ambas as mãos, cobrindo-a de modo a que apenas fosse visível o focinho, saindo-lhe de entre os dedos mirrados. Olhou-a por muito tempo, depois soltou um suspiro profundo e devolveu-a. Lirael pegou-a, surpresa com o calor que a pedra adquirira de estar nas mãos da velha. Mesmo assim, Filris não se mexeu nem falou, até Lirael se endireitar na cama, atraindo a sua atenção.

- Lamento, Lirael. Obrigada por me contar a verdade. E por me mostrar a estatueta do cão. Demorou muito tempo para acontecer, tanto que julguei que estaria perdida no futuro, muito louca para ver que era verdade.

- O que quer dizer? - perguntou Lirael, incomodada.

- Vi o seu cãozinho há muito tempo - explicou Filris. - Quando a Visão ainda me vinha com clareza. Foi a última visão que me veio inteira e seguida. Vi uma mulher muito, muito velha, olhando de perto para um pequeno cão que segurava nas mãos. Levei muitos anos para perceber que a velha era eu mesma.

- Também me viu? - perguntou Lirael.

- Só me vi a mim mesma - disse Filris calmamente. - O que significa, receio, que não vamos voltar a nos encontrar. Teria gostado de te ajudar a derrotar a criatura que libertou, com conselhos senão por atos, pois temo que tenha de ser enfrentada o mais depressa que puder. Coisas daquela família não despertam sem motivo, ou sem ajuda de alguma espécie. Gostaria também de ver o seu enviado-cão. Lamento não ser possível. Acima de tudo, lamento não ter vivido o suficiente no presente nestes últimos quinze anos. Devia ter te conhecido mais cedo, Lirael. É um defeito das Clayr, por vezes tendemos a esquecer os indivíduos e ignoramos os seus problemas, sabendo que todas essas coisas irão passar.

- O que quer dizer? - perguntou Lirael. Pela primeira vez na sua vida, sentira-se confortável conversando com alguém sobre si própria, sobre a sua vida. Agora, parecia não passar de uma amostra torturante da intimidade do que as outras pessoas desfrutavam, como se estivesse destinada a nunca ter o que as outras Clayr tomavam como certo.

- A toda a Clayr é conferido o dom de ver algum presságio da sua morte, conquanto não a própria morte, pois nenhum humano conseguiria suportar esse peso. Há cerca de vinte anos me vi e ao seu cãozinho e na hora percebi que era a visão que anunciava os meus últimos dias.

- Mas eu preciso de você - disse Lirael, chorando, lançando os braços à figura franzina. - Preciso de alguém! Não posso continuar sozinha!

- Pode e irá continuar - disse Filris enfaticamente. - Faça com que o cão seja o seu companheiro, o amigo de que precisa. Terá de se informar sobre a criatura que libertou e derrotá-la! Explore a Biblioteca. Lembre-se de que enquanto as Clayr conseguem ver o futuro, outros criam-no. Sinto que você irá ser uma criadora, não uma vidente. Tem de me prometer que será assim. Prometa-me que não cederá. Prometa-me que nunca abandonará a esperança. Crie o seu futuro, Lirael!

- Vou tentar - murmurou Lirael, sentindo a energia intensa de Filris a fluir nela. - vou tentar.

Filris agarrou-lhe a mão, com mais força do que Lirael teria julgado possível com aqueles dedos finos e velhos. Depois beijou Lirael na testa, enviando uma vibração de energia através da sua marca da Carta, diretamente através do seu corpo e saindo pelas solas dos pés.

- Nunca estive perto de Arielle, ou da mãe dela - disse Filris, baixinho. - Exageradamente uma Clayr, suponho, demasiadamente no futuro. Ainda bem que vim falar com vocÊ. Adeus, minha trineta. Lembre-se do que prometeu!

Com aquilo, saiu da enfermaria, de costas retas e orgulhosa, pelo que, quem não soubesse a idade dela nunca adivinharia que trabalhara naquelas enfermarias durante mais de cem anos e vivera já uma vez e meia aquele tempo.

Lirael nunca mais voltou a ver Filris. Chorou com muitas outras na Despedida no Salão, esquecendo a sua aversão à nova túnica azul, mal reparando que tinha mais uma cabeça de altura do que as outras crianças e do que muitas das Clayr vestidas de branco que haviam recentemente Despertado para o seu dom.

Não soube até que ponto chorou por Filris e até que ponto por si própria, que voltara a ficar sozinha. Parecia ser seu destino não ter amigas íntimas. Apenas inúmeras primas e uma tia.

Mas Lirael não esqueceu as palavras de Filris e voltou ao trabalho no dia seguinte, apesar da sua voz ainda estar fraca e coxear ligeiramente. Durante a semana, conseguira obter secretamente exemplares de Sobre a Criação de Enviados e Enviados Superiores em Setenta Dias, dado que Criar e Dominar Seres Mágicos se revelou muito difícil de fazer desaparecer da estante trancada. Os bestiários revelaram-se também perturbadores, pois todos os que conseguira encontrar estavam acorrentados às prateleiras. Mergulhou neles quando não havia ninguém por perto, mas sem êxito imediato. Manifestamente, levaria algum tempo para descobrir exatamente o que era a criatura.

Sempre que podia, passava pela porta do sol e verificava a fórmula, certificando-se de que a sua magia permanecia, prendendo porta, dobradiças e fechadura na pedra circundante. O medo aumentava então sempre nela e às vezes parecia-lhe sentir o cheiro penetrante e corrosivo de Magia Livre, como se o monstro estivesse do outro lado da porta, separado dela apenas pela fina barreira de madeira e fórmulas.

Então, recordava as palavras de Filris e apressava-se a voltar ao seu gabinete para trabalhar no enviado-cão, ou no último bestiário que encontrara, para ver se trazia a descrição de uma criatura tipo mulher com olhos de prata e as garras de um louva-a-deus rezando, uma criatura de Magia Livre, com maldade e fome horrível.

Por vezes acordava de noite, o pesadelo de uma porta a abrir-se desaparecendo quando saía do sono. Teria verificado a porta com mais frequência, mas no dia seguinte à Vigia das Mil Quinhentas e Sessenta e Oito, a Bibliotecária-Chefe ordenara que todas as bibliotecárias que tivessem de ir aos Níveis Antigos o fizessem apenas aos pares, pelo que foi mais difícil esgueirar-se até lá e voltar. A Vigia não vira nada de conclusivo, soube Lirael, mas as Clayr estavam obviamente preocupadas a respeito de algo próximo de casa. A Biblioteca não foi o único departamento a tomar medidas preventivas. Tropas extra patrulhavam a geleira e as pontes, as equipes dos tubos de vapor trabalhavam agora também aos pares e muitas portas e corredores internos foram fechados e trancados pela primeira vez desde a Restauração.

Lirael verificou quarenta e duas vezes a porta para a câmara do campo de flores nos setenta e três dias que antecederam a descoberta de um bestiário que lhe disse o que era a criatura. Naquelas dez semanas de preocupação, estudo e preparação, procurara em onze bestiários e efetuara a maior parte do trabalho preparatório necessário à criação do seu enviado-cão.

Na verdade, o enviado-cão ocupava quase em exclusivo a sua mente quando encontrou uma menção ao monstro. Estava pensando no momento em que lançaria o conjunto seguinte de fórmulas quando as suas mãos abriram o pequeno livro encadernado em vermelho que se intitulava simplesmente Criaturas por Nagy. Folheando as páginas sem expectativa, a sua atenção foi despertada por uma gravura que mostrava exatamente aquilo que procurava. O texto que acompanhava deixava claro que quem quer que tivesse sido Nagy, ele ou ela havia encontrado o mesmo tipo de monstro que Lirael libertara do caixão com tampa de vidro.

Ergue-se mais alto do que um homem alto, assumindo geralmente a forma de uma mulher agradável, conquanto a sua forma seja fluida. com frequência, o Stilken apresentará garras ou tenazes grandes no lugar dos antebraços, que usa com facilidade para agarrar a sua presa. A boca parece de um modo geral humana até se abrir, revelando filas duplas de dentes, tão estreitos e afiados como agulhas. Estes dentes podem ser de prata brilhante, ou negros como a noite. Os olhos do Stilken são também de prata e ardem com um fogo estranho.

Lirael estremeceu ao ler esta descrição, fazendo a corrente que prendia o livro à prateleira chocalhar e soar. Rapidamente, olhou à sua volta para ver se alguém escutara e viera espreitar por entre as prateleiras. Mas não houve nenhum som exceto o da sua própria respiração. Esta sala muito raramente era usada, abrigando uma coleção de memórias pessoais obscuras. Lirael viera ali apenas porque Criaturas por Nagy estava referenciado na Sala de Leitura como um bestiário misto.

Imobilizando as mãos, continuou a ler, as palavras enchendo-lhe apenas uma parte da mente. O resto lutava com o fato de que, agora que tinha o conhecimento que procurava, ia ter de enfrentar o Stilken e derrotá-lo.

O Stilken é um elemental da Magia Livre e por isso não consegue ser afetado por materiais terrenos, como o aço vulgar. Tão pouco lhe pode a carne humana tocar, pois a sua substância é inimiga da vida. Um Stilken não pode ser destruído, exceto por Magia Livre, às mãos de um feiticeiro mais poderoso do que ele próprio.

Lirael parou de ler, engoliu nervosamente em seco e leu de novo a última linha. ”Não pode ser destruído, exceto por Magia Livre”, leu, repetidamente. Mas ela não era capaz de fazer nenhuma Magia Livre. Não era permitido. A Magia Livre era muito perigosa.

Incapaz de pensar no que podia fazer, Lirael continuou a ler - e soltou um longo suspiro de alívio ao ver o que o livro dizia.

No entanto, se a destruição é exclusivamente do domínio da Magia Livre, um Stilken pode ser subjugado por Magia da Carta e aprisionado dentro de um vaso ou estrutura, como um frasco de metal ou de cristal talhado (sendo o vidro simples muito frágil para segurança) ou enfiado num poço seco, tapado por uma pedra.

Eu próprio experimentei esta tarefa, usando as fórmulas que passo a enumerar. Mas aviso que estes aprisionamentos são de força terrível, servindo-se como se servem de nada menos de três das principais marcas da Carta. Só um grande adepto - que não sou - ousaria usá-las sem o auxílio de uma espada enfeitiçada ou uma vara de sorveira-brava, contendo o primeiro círculo de sete marcas para prender os elementos e, no caso do fogo e do ar, o segundo círculo também e todos os que estão ligados à marca principal...

Lirael engoliu novamente em seco, doendo-lhe subitamente a garganta. O sistema usado por Nagy destinava-se à mesma marca principal que a queimara. Pior do que isso, não conhecia o segundo círculo de marcas para prender o fogo e o ar e não fazia idéia de como podiam ser colocadas numa espada ou numa vara de sorveira-brava. Não sabia sequer onde poderia encontrar uma sorveira-brava, agora.

Lentamente, fechou o livro e voltou a colocá-lo na prateleira, tendo o cuidado de não fazer barulho com a corrente. Uma parte de si sentia-se frustrada. Tendo finalmente descoberto o que era a criatura, precisava ainda descobrir mais. Outra parte de si estava aliviada por não ter de enfrentar o Stilken. Por enquanto.

Teria tempo de criar primeiro o enviado-cão. Pelo menos teria algo... alguém com quem conversar sobre tudo isto. Mesmo que não lhe pudesse responder, ou ajudá-la.

 

O DIA DO CÃO

Eram necessárias quatro horas para lançar a fórmula final, por isso Lirael teve de esperar por uma outra oportunidade em que a maior parte das bibliotecárias estivesse ausente. Se fosse interrompida durante o lançamento, todo o seu trabalho dos meses anteriores se perderia, a rede delicadamente articulada de fórmulas da Carta separada nas suas marcas componentes, em vez de unida pela fórmula final.

A oportunidade deu-se mais cedo do que Lirael esperara, pois era óbvio que o que quer que fosse que as Clayr estavam tentando ver continuava a escapar-lhes. Lirael ouvira as outras bibliotecárias falar dos pedidos do Observatório e era evidente que a Vigia de Nove Dias estava novamente crescendo de tamanho, começando com uma de noventa e oito. Desta vez, à medida que era convocada uma nova Vigia maior, Lirael observou cuidadosamente o tempo das convocatórias e esteve atenta à hora a que as Clayr voltavam. Quando foi chamada a de Mil Quinhentas e Sessenta e Oito - no meio de consideráveis resmungos na Sala de Leitura - calculou que dispusesse de, pelo menos, seis horas. Tempo de sobra para acabar o enviado.

No seu gabinete de trabalho, a estatueta do cão encontrava-se sentada numa atitude benigna, vigiando os preparativos de Lirael do alto da sua mesa. Lirael falou com ele enquanto barrava a porta com uma fórmula, visto que a sua idade não lhe conferia o direito a uma chave ou tranca.

- É agora, cãozinho - disse, toda animada, estendendo-se para acariciar o focinho do cão com um dedo. O som da sua própria voz surpreendeu-a, não por causa da rouquidão que subsistia ainda na sua garganta afetada, mas porque soava estranha e desconhecida. Percebeu que não falava há dois dias. Há muito que as outras bibliotecárias tinham aceitado o seu silêncio e recentemente não fora forçada a qualquer conversa que requeresse mais de um aceno, um abanar da cabeça ou simplesmente a realização imediata de uma tarefa ordenada.

O começo do enviado-cão estava debaixo da mesa dela, tapado com um pano. Lirael tateou, retirou o pano e fez sair cuidadosamente a estrutura que construíra para começar a fórmula. Percorreu-a com as mãos, sentindo o calor das marcas da Carta que se deslocavam indolentemente para cima e para baixo nos arames de prata que constituíam a forma de um cão. Era um cão pequeno, dos seus trinta centímetros de altura, o tamanho limitado pela quantidade de arame de prata que Lirael conseguira obter facilmente. Além disso, achou que um enviado-cão pequeno seria mais sensato do que um grande. Queria um amigo confortável, não um cão suficientemente grande para ser um enviado-guarda.

Além da estrutura de arame de prata, a forma do cão tinha dois olhos feitos de botões de âmbar e um focinho de feltro preto, todos eles já imbuídos de marcas da Carta. Tinha também uma cauda feita de pêlo de cão entrançado, arrancado discretamente dos vários cães de visita lá embaixo no Refeitório Inferior. Essa cauda já estava preparada com marcas da Carta, marcas que definiam algo do que era ser um cão.

A parte final da fórmula obrigou Lirael a ir à Carta e retirar vários milhares de marcas da Carta, deixando-as fluir através dela e para a armação de arame de prata. Marcas que descreviam plenamente um cão e marcas que dariam um aspecto de vida, conquanto não a realidade.

Quando a fórmula ficasse concluída, o arame de prata, os botões de âmbar e o pêlo de cão entrançado desapareceriam, substituídos por um cão de carne encantada. Pareceria com um cão até se aproximarem o suficiente e verem as marcas da Carta que o constituíam, mas não poderia mexer. Tocar na maior parte dos enviados era como tocar em água: a pele cedia e depois voltava a formar-se à volta do que quer que a tocasse. Tudo o que o tocador sentiria era o zumbido e o calor das marcas da Carta.

Lirael estava sentada de pernas cruzadas ao lado do modelo de arame de prata e começou a esvaziar a sua mente, inspirando lentamente, empurrando o ar até tão abaixo que o seu estômago se expandiu quando ele lhe chegou ao fundo dos pulmões.

Estava precisamente estendendo a mão para a Carta e ia começar, quando avistou o pequeno cão de pedra, em cima da messa. De certa forma, parecia muito solitário ali em cima, como se marginalizado. Impulsivamente, Lirael levantou-se e colocou-o no seu colo quando se sentou. A pequena escultura inclinou-se ligeiramente mas manteve-se empé, olhando para a própria cópia de arame de prata.

Lirael efetuou mais algumas inspirações e recomeçou. Anotara as marcas que necessitaria, na estenografia segura que todos os Magos usavam para registrar as marcas da Carta. Mas esses papéis ficaram a seu lado, ainda numa pilha arrumada. Descobriu que as primeiras marcas chegaram facilmente e aquelas que as seguiram pareciam quase escolher a si próprias. Marca após marca, foram saltando do fluxo da Carta para a mente dela, depois saíram com igual rapidez, indo até o cão de arame de prata num arco de raio dourado.

Quando cada vez mais marcas se precipitaram por ela, Lirael entrou num estado de transe mais profundo, mal percebendo algo exceto a Carta e as marcas que a enchiam. O raio dourado tornou-se uma sólida ponte de luz das suas mãos estendidas até aos arames de prata, ficando mais intensa a cada segundo. Lirael fechou os olhos por causa do brilho e sentiu-se deslizar em direção à orla do sonho, o seu consciente por pouco desperto. As imagens deslocaram-se irrequietas entre as marcas e a sua mente. Imagens de cães, muitos cães, de todas as formas, cores e tamanhos. Cães ladrando. Cães correndo atrás de paus arremessados. Cães recusando-se a correr. Cachorrinhos bamboleando-se em patas frágeis. Cães velhos endireitando-se tremendo. Cães satisfeitos. Cães tristes. Cães esfomeados. Cães gordos e sonolentos.

Passaram correndo muitas outras imagens, até Lirael sentir que vira lampejos de cada cão que alguma vez existira. Mas as marcas da Carta atroavam ainda através da sua mente. Há muito que perdera o rastro de até onde fora, ou que marcas se seguiam - e a luz dourada era muito intensa para conseguir ver que porção do enviado estava feita.

No entanto, as marcas continuavam a fluir. Lirael percebeu que não só não sabia em que marca ia, como não sabia sequer que marcas lhe passavam pela cabeça! Marcas estranhas, desconhecidas brotavam dela para o enviado. Marcas poderosas que lhe agitavam o corpo ao partirem, fazendo sair à força tudo o mais da sua mente com a urgência da sua passagem.

Desesperadamente, Lirael tentou abrir os olhos, para ver o que faziam as marcas , mas agora o brilho cegava e era quente. Tentou levantar-se, orientar o fluxo das marcas para a parede ou o teto. Mas o seu corpo parecia desligado do seu cérebro. Conseguia sentir tudo, mas as suas pernas e os seus braços não se moviam, precisamente como se tentasse despertar-se dos confins de um sonho.

As marcas continuavam a sair e depois as narinas de Lirael captaram o fedor terrível e inconfundível da Magia Livre e soube que algo correra terrível e horrivelmente mal. Tentou gritar, mas não saiu nenhum som, apenas marcas da Carta que saltavam da sua boca em direção à radiância dourada. As marcas da Carta continuavam a voar-lhe também dos dedos e inundavam-lhe os olhos, vertendo para dentro das lágrimas, que se transformavam em vapor ao caírem.

Cada vez mais marcas fluíam através de Lirael, através das suas lágrimas e dos seus gritos silenciosos. Afluíam como um bando infinito de borboletas obrigadas a atravessar um portão de jardim. Mas, mesmo quando os milhares e milhares de marcas se arremessaram contra a claridade, o cheiro de Magia Livre cresceu e uma luz crepitante formou-se no centro do clarão dourado, tão intensa que brilhou através das pálpebras fechadas de Lirael, penetrando nos seus olhos transbordando.

Mantida imóvel pela torrente de Magia da Carta, Lirael nada pôde fazer quando a luz branca se tornou mais forte, subjugando o brilho dourado intenso das marcas rodopiando. Era o fim, sabia. O que quer que tivesse feito agora, era muito, muito pior do que libertar um Stilken, tão pior que não conseguia realmente compreender. Tudo o que sabia era que as marcas que passavam através dela agora eram mais antigas e mais poderosas do que algo que alguma vez vira. Mesmo que a Magia Livre que crescia à sua frente lhe poupasse a vida, as marcas da Carta a queimariam toda.

Só que, percebeu, não machucavam. Ou ela estava em choque e morrendo, ou as marcas não a afetavam. Qualquer uma delas a teria morto se tentasse usá-las normalmente. Mas várias centenas tinham já passado violentamente e continuava a respirar. Não continuava?

Assustada pela idéia de que pudesse não estar respirando, Lirael concentrou toda a energia que lhe restava em inalar - no preciso momento em que o tremendo fluxo de cartas parou subitamente. Sentiu a sua ligação à Carta separar-se quando a última marca saltou para a massa ebuliente de luz branca e dourada que fora o seu cão de arame de prata. A sua respiração deu-se com força súbita e desequilibrou-se, caindo para trás. No último momento, vislumbrou a extremidade da estante, quase fazendo cair sobre si. Mas a estante não cedeu e retornou a posição normal, pronta a usar os seus pulmões acabados de encher para gritar.

O grito não chegou a nascer. No lugar onde a Magia Livre e as marcas da Carta se tinham degladiado no seu esplendor faiscante e rodopiante, estava agora um globo de profunda escuridão que ocupava o espaço onde tinham estado o cão de arame e a mesa. O cheiro horrível de Magia Livre desaparecera também, substituído por uma espécie de odor animal úmido que Lirael não foi muito bem capaz de identificar.

Apareceu uma estrela minúscula na superfície preta do globo e depois outra e outra, até já não estar escuro mas tão cheio de estrelas como uma noite de céu limpo. Lirael olhou para lá, hipnotizada pela imensidão de estrelas. Tornaram-se cada vez mais intensas, até ser obrigada a pestanejar.

No instante desse pestanejo, o globo desapareceu, deixando ficar um cão. Não um cachorro bonito, que dava gosto acariciar, enviado pela Carta, mas um cão mestiço amarelado e preto que lhe chegava à cintura e parecia inteiramente real, inclusive os seus dentes impressionantes. Não tinha nenhuma das características de um enviado. O único brilho da sua origem mágica era uma coleira grossa à volta do pescoço tão cheia de marcas da Carta como Lirael nunca antes vira.

O cão era uma versão em tamanho real e respirando da estatueta de pedra. Lirael olhou para a coisa verdadeira, depois para o seu colo.

A estatueta desaparecera.

Olhou então para cima. O cão ainda estava lá, coçando a orelha com uma pata traseira, os olhos semicerrados em concentração. Estava encharcado, como se tivesse ido nadar.

De repente, o cão parou de se coçar, levantou-se e sacudiu-se, enviando gotículas de água suja por cima de Lirael e de todo o gabinete. Depois avançou e lambeu a menina petrificada no rosto com uma língua que era definitivamente de um cão verdadeiro e não uma imitação feita pela Carta.

Como não obtivesse resposta, sorriu e anunciou:

- Sou o Cão Desavergonhado. Ou a Cadela Desavergonhada, se quiser entrar em detalhes. Vamos dar um passeio?

 

EM BUSCA DE UMA ESPADA APROPRIADA

O passeio que Lirael e a Cadela Desavergonhada deram naquele dia foi o primeiro de muitos, apesar de Lirael nunca conseguir lembrar exatamente de onde iam, ou do que dizia, ou do que a Cadela respondia. Tudo o que recordava era de estar no mesmo tipo de confusão que sentira quando batera com a cabeça - só que, desta vez, não se machucara.

Não que isso importasse, porque a Cadela Desavergonhada nunca respondia realmente às suas perguntas. Mais tarde, Lirael repetia as mesmas perguntas e obtinha respostas diferentes, ainda evasivas. As perguntas mais importantes: “O que você é?” “De onde veio?” obtinham toda uma série de respostas, começando por ”Sou a Cadela Desavergonhada” e ”De outro lugar” e esporadicamente tornando-se tão eloquente quanto ”Sou a sua Cadela” e ”Diga-me você - o feitiço foi seu”.

A Cadela recusava-se também a, ou não conseguia, responder às perguntas sobre a sua natureza. Assemelhava-se em muitos aspectos exatamente a um cão verdadeiro, apesar de falar. Pelo menos de início.

Durante as primeiras duas semanas que estiveram juntas, a Cadela dormiu no gabinete de trabalho de Lirael, debaixo da mesa de substituição que Lirael fora obrigada a furtar de um gabinete vizinho vazio. Não fazia idéia do que acontecera à sua, já que não subsistia nem um pedaço dela depois do aparecimento súbito da Cadela.

A Cadela comia a comida que Lirael roubava para ela do Refeitório ou das cozinhas. Ia passear com Lirael quatro vezes por dia nos corredores e divisões pouco frequentados que Lirael conseguia encontrar, um exercício de dar cabo dos nervos, muito embora, de alguma forma, a Cadela conseguisse se esconder no último instante das Clayr que se aproximavam. Era também muito discreta de outras formas, escolhendo sempre cantos escuros e abandonados para usar como sanitário - apesar de gostar de alertar Lirael para o fato de que o fizera, mesmo que a sua amiga humana se recusasse a mostrar desprezo pelo resultado.

Na verdade, além da coleira de marcas da Carta e o fato de conseguir falar, a Cadela Desavergonhada parecia realmente ser apenas um cão grande de ascendência incerta e origem curiosa. Mas claro que não era. Lirael esgueirava-se para o seu gabinete todas as noites após o jantar, encontrando a Cadela lendo no chão. A Cadela virava as páginas de um grande livro cinzento, com uma pata - uma pata que crescera e se ramificava em três dedos extremamente flexíveis.

A Cadela levantou os olhos quando a sua suposta dona ficou estática à porta. Tudo o que Lirael conseguia pensar era nas palavras no livro de Nagy, sobre a forma fluida dos Stilken - e a maneira como a criatura de mãos enclavinhadas se esticara e adelgaçara para passar pelo portão guardado pela lua em crescente.

- Você é uma coisa da Magia Livre - proferiu abruptamente, levando a mão ao bolso do colete para o rato mecânico, enquanto os seus lábios apalpavam o apito na lapela. Desta vez não cometeria erros. Pediria ajuda imediatamente.

- Não sou, não - protestou a Cadela, arrebitando as orelhas em ultraje enquanto a sua pata encolhia para proporções normais. - Não sou definitivamente uma coisa! Faço tanto parte da Carta como você, talvez com propriedades especiais. Repare na minha coleira! E não sou definitivamente um Stilken ou qualquer outra das centenas de variantes dele.

- O que sabe sobre os Stilken? - perguntou Lirael. Continuava sem entrar no gabinete de estudo e o rato mecânico estava a postos na sua mão. - Por que os mencionou em particular?

- Leio muito - respondeu a Cadela, bocejando. Depois farejou e os seus olhos animaram-se na expectativa. - Tem aí um osso de pernil?

Lirael não respondeu, mas mudou o objeto embrulhado em papel para a mão esquerda atrás das costas. - Como sabia que neste momento eu estava pensando num Stilken? E continuo sem saber se não será também um, ou algo ainda pior.

- Apalpe a minha coleira! - protestou a Cadela enquanto avançava, lambendo os beiços. Manifestamente, a presente conversa não era tão interessante quanto a perspectiva de comida.

- Como foi que soube que eu estava pensando num Stilken? - repetiu Lirael, dando a cada palavra uma ênfase lenta e intencional. Segurava o osso de pernil por cima da cabeça ao falar, vendo a Cadela virar a cabeça para acompanhar o movimento. Certamente uma criatura da Magia Livre não estaria interessada num osso de pernil.

- Calculei, porque tem estado pensando muito nos Stilken - respondeu a Cadela, indicando com a pata os livros em cima da mesa. - Está estudando tudo o que é preciso para aprisionar um Stilken. Além disso, ontem escreveu ”Stilken” catorze vezes naquele papel que queimou. Li-o às avessas no mata-borrão. E senti o cheiro da sua fórmula na porta lá embaixo e o Stilken que aguarda do outro lado.

- Saiu sozinha! - exclamou Lirael. Esquecendo que tivera medo do que quer que o cão pudesse ser, entrou disparada, batendo com a porta atrás de si. No processo, largou o rato mecânico, mas não o osso de pernil.

O rato deu dois saltos e aterrou aos pés da Cadela. Lirael susteve a respiração, por demais consciente de que a porta estava agora fechada atrás de si, o que retardaria muito o rato se necessitasse de ajuda. Mas a Cadela não parecia perigosa e era muito mais fácil conversar com ela do que com as pessoas... exceto com Filris, que se finara.

A Cadela Desavergonhada cheirou ansiosamente o rato por um instante, depois afastou-o com o focinho e transferiu a sua atenção de novo para o osso de pernil.

Lirael suspirou, apanhou o rato e voltou a guardá-lo no bolso. Desembrulhou o osso e deu-o à Cadela, que imediatamente o abocanhou e o depositou num canto afastado debaixo da mesa.

- É o seu jantar - disse Lirael, torcendo o nariz. - É melhor comer antes que comece a cheirar mal.

- Vou levá-lo lá para fora e enterrá-lo depois, no gelo - respondeu a Cadela. Hesitou e baixou um pouco a cabeça antes de acrescentar: - Além disso, não preciso propriamente de comer. Apenas me agrada.

- O quê! - exclamou Lirael, novamente zangada. - Quer dizer que andei roubando comida para nada! Se tivesse sido apanhada seria...

- Para nada, não! - interrompeu a Cadela, avançando timidamente para vir bater com a cabeça na anca de Lirael e olhar para ela com os seus enormes olhos suplicantes. - Para mim. E muito apreciada, também. Agora, devia realmente apalpar a minha coleira. Ela lhe mostrará que não sou um Stilken, Margrue, ou Hish. Ao mesmo tempo, pode coçar-me o pescoço.

Lirael hesitou, mas a Cadela assemelhava-se tanto aos cães simpáticos que coçara quando visitavam o Refeitório que a sua mão quase foi automaticamente ao dorso da Cadela. Sentiu a pele quente da cadela e o pêlo curto e sedoso e começou a coçar ao longo da espinha da Cadela, em direção ao pescoço. A Cadela estremeceu e murmurou:

- Um pouquinho mais acima. Para a esquerda. Não, para baixo. Aahhh!

Depois Lirael tocou na coleira, apenas com dois dedos - e por um momento foi completamente arremessada do mundo. Tudo o que conseguiu ver, ouvir e sentir foram marcas da Carta, a toda volta, como se tivesse de algum modo caído na Carta. Não havia coleira de pele debaixo da sua mão, nem Cadela, nem gabinete. Nada a não ser a Carta.

Depois estava novamente de volta a si mesma, balançando e tonta. Mas as suas mãos coçavam a Cadela debaixo da queixada, sem que soubesse como lá tinham ido parar.

- A sua coleira - disse Lirael, quando recuperou o equilíbrio. - A sua coleira é como uma Pedra da Carta - um caminho para a Carta. No entanto, vi Magia Livre na sua criação. Tem de estar aí em algum lugar... não tem?

Calou-se, mas a Cadela não respondeu, até Lirael parar de coçar. Depois virou a cabeça e pôs-se em pé, lambendo Lirael que tinha a boca aberta.

- Você precisa de uma amiga - disse a Cadela, quando Lirael cuspiu e limpou a boca com ambas as mangas, uma após a outra. - Eu vim. Isso não basta para prosseguir? Sabe que a minha coleira é da Carta, e o que quer mais que pudesse ser, constrangeria as minhas ações, mesmo que eu quisesse te fazer mal. E temos de tratar de um Stilken, não temos?

- Sim - concordou Lirael. Num impulso, curvou-se e abraçou o pescoço da Cadela, sentindo simultaneamente o calor do animal e o suave zumbido das marcas da Carta na coleira da Cadela através do material fino da sua camisa.

A Cadela Desavergonhada suportou o abraço pacientemente por um minuto, depois emitiu uma espécie de som asmático e arrastou as patas. Lirael compreendeu-o pela experiência com os cães de visita e largou-a.

- Agora - proferiu a Cadela. - Temos de tratar do Stilken o mais depressa possível, antes que se liberte e encontre coisas ainda piores para soltar, ou deixar entrar do exterior. Presumo que tenha conseguido os itens necessários para aprisioná-lo?

- Não - respondeu Lirael. - Não se está se referindo às coisas que Nagy menciona: uma vara de sorveira-brava ou uma espada, infundidas de marcas da Carta...

- Sim, sim - disse a Cadela apressadamente, antes que Lirael tivesse tempo de recitar toda a lista. - Eu sei. Por que não conseguiu uma?

- Elas não se encontram por aí - replicou Lirael na defensiva. - Achei que pudesse arranjar uma espada comum e pôr a...

- Leva muito tempo. Meses! - interrompeu a Cadela, que começara a andar de um lado para o outro com ar sério. - Aquele Stilken terá destruído a sua fórmula na porta dentro de alguns dias, a meu ver.

- O quê! - gritou Lirael. Depois em tom mais calmo: - O quê? Quer dizer que vai fugir?

- Em breve o fará - confirmou a Cadela. - Achei que soubesse. A Magia Livre consegue corroer as marcas da Carta bem como a carne. Suponho que pudesse renovar a fórmula.

Lirael abanou a cabeça. A sua garganta ainda não recuperara da marca principal que usara da última vez. Seria muito arriscado tentar proferi-la de novo antes de estar completamente curada. Não sem o auxílio de uma espada protegida pela Carta - o que a trouxe de volta ao problema original.

- Nesse caso, vai ter de pedir emprestada uma espada - declarou a Cadela, fixando Lirael com olhar sério. - Calculo que ninguém tenha o tipo certo de vara. Não é realmente uma coisa de Clayr, a sorveira-brava.

- Não creio que as espadas carregadas de fórmulas de aprisionamento o sejam também - protestou Lirael, deixando-se cair na cadeira. - Por que não posso ser uma Clayr normal? Se tivesse a Visão, não andaria pela Biblioteca metendo-me em problemas! Se alguma vez eu tiver a Visão, juro pela Carta que nunca mais voltarei a explorar, nunca mais!

- Hummm - disse a Cadela, com uma expressão que Lirael não conseguiu adivinhar, mesmo que parecesse carregada de um significado oculto. - Até pode ser. Sobre a questão das espadas, está errada. Existe uma série de espadas com poder dentro destas paredes. A Capitão do Corpo de Tropas tem uma, a Guarda do Observatório tem três - bem, uma é um machado, mas contém as mesmas fórmulas dentro do seu aço. Mais perto de nós, a Bibliotecária-Chefe tem também uma. Uma espada muito antiga e famosa, na verdade, muito convenientemente chamada Aprisionadora. Servirá perfeitamente. - Lirael olhou para a Cadela com uma expressão tão vazia que o animal parou de andar para cá e para lá, pigarreou e disse: - Preste atenção, Lirael. Eu disse que estava enganada a respeito de...

- Eu ouvi o que disse - respondeu Lirael. - Deve ser absolutamente louca! Não posso roubar a espada da Chefe! Ela anda sempre com ela! Provavelmente até dorme com ela!

- É verdade - respondeu a Cadela, com presunção. - Eu verifiquei.

- Cadela! - gemeu Lirael, tentando manter a respiração a menos de uma inspiração por segundo. - Por favor, por favor não vá meter o focinho nas salas da Bibliotecária-Chefe! Ou seja onde for! O que aconteceria se alguém a visse?

- Não viram - respondeu a Cadela, toda satisfeita. - De qualquer forma, a Chefe guarda a espada no quarto, mas não propriamente na cama com ela. Põe-na num suporte ao lado da cama. Por isso pode pegá-la emprestada enquanto ela dorme.

- Não - respondeu Lirael, abanando a cabeça. - Não vou entrar sorrateiramente no quarto da Chefe. Preferiria enfrentar o Stilken sem uma espada.

- Nesse caso morrerá - disse a Cadela Desavergonhada, subitamente muito séria. - O Stilken beberá o seu sangue e ficará mais forte com ele. Depois subirá aos domínios inferiores da Biblioteca, emergindo de vez em quando para capturar bibliotecárias, levando-as uma a uma, banqueteando-se com a sua carne em algum canto escuro onde os ossos nunca serão encontrados. Conseguirá aliados, criaturas presas ainda mais fundo na Biblioteca e abrirá portas para o mal que espreita lá fora. Te de aprisioná-lo, mas não o conseguirá sem a espada.

- E se você me ajudar? - perguntou Lirael. Tinha de haver alguma maneira de evitar a Chefe, alguma maneira que não envolvesse sequer espadas. Tentar tirar a espada de Mirelle, ou as do Observatório, não seria mais fácil do que a da Chefe. Não sabia sequer ao certo onde ficava o Observatório.

- Bem que gostaria - respondeu a Cadela. - Mas o Stilken é seu. Você é que o soltou. Você é que deve enfrentar as consequências.

- Portanto não vai ajudar - afirmou Lirael, com tristeza. Esperara, apenas por um momento, que a Cadela Desavergonhada fosse resolver tudo por ela. Afinal era uma criatura mágica, possivelmente com algum poder. Mas, ao que parecia, não o suficiente para enfrentar um Stilken.

- Aconselharei - disse a Cadela. - Como convém. Mas terá de ser você a pedir emprestada a espada e a efetuar o aprisionamento. Esta noite é provavelmente tão boa como qualquer outra.

- Esta noite? - perguntou Lirael, com uma voz muito fraca.

- Esta noite - confirmou a Cadela. - Ao soar da meia-noite, momento em que todas essas aventuras devem começar, entrará no quarto da Bibliotecária-Chefe. A espada está à esquerda, depois ao guarda-roupa, que, curiosamente, está cheio de coletes pretos. Se tudo correr bem, conseguirá regressar antes da alva.

- Se tudo correr bem - repetiu Lirael, sombriamente, recordando-se do fogo de prata nos olhos do Stilken e daquelas garras terríveis. - Acha... acha que deveria deixar um bilhete, para o caso... para o caso de nem tudo correr bem?

- Sim - respondeu a Cadela, retirando o último pedacinho da autoconfiança de Lirael. - Sim. Acho que seria uma excelente idéia.

 

NO ANTRO DA BIBLIOTECÁRIA-CHEFE

Quando o grande relógio movido a água no Refeitório do Meio indicou quinze minutos para a meia-noite, Lirael abandonou o seu esconderijo no refeitório e subiu por um poço de ar até o Caminho Estreito, que por sua vez a conduziria à Saída do Sul e aos aposentos da Bibliotecária-Chefe Vancelle.

Lirael vestira o seu uniforme de bibliotecária para o caso de encontrar alguém e levava um envelope dirigido à Chefe. Uma equipe reduzida de bibliotecárias trabalhava durante a noite, apesar de normalmente não usarem Terceiras Assistentes como Lirael. Se fosse interpelada, Lirael afirmaria que ia levar uma mensagem urgente. Na verdade, o envelope continha o seu bilhete ”de reserva”, alertando a Chefe para a presença do Stilken.

Mas não encontrou ninguém. Ninguém desceu o Caminho Estreito, que fazia jus ao seu nome sendo muito estreito para duas pessoas se cruzarem. Raramente era utilizado, porque se encontrasse alguém seguindo na direção contrária, a Clayr mais jovem teria de voltar para trás - às vezes a totalidade do comprimento, que era de mais de oitocentos metros.

A Saída do Sul era mais ampla e muito mais arriscada para Lirael porque muitas Clayr mais velhas tinham quartos em toda a sua enorme extensão. Felizmente, as marcas que a iluminavam tão intensamente durante o dia adquiriam um brilho mais tênue à noite, produzindo sombras carregadas onde ela poderia se ocultar.

A porta para os aposentos da Chefe, estava fortemente iluminada por um círculo de marcas da Carta à volta do emblema com o livro e a espada esculpidos na pedra ao lado da ombreira. Lirael olhou para as luzes com ar sinistro. Já não era a primeira vez que se perguntava o que fazia. Provavelmente teria sido preferível ter confessado meses atrás, quando se metera em apuros. Nesse caso, outra enfrentaria o Stilken...

Algo roçou sua perna e a fez dar um pulo e quase gritar. Abafou o grito ao reconhecer a Cadela Desavergonhada.

- Julguei que não fosse ajudar - segredou, quando a Cadela saltou e tentou lamber-lhe o rosto. - Para baixo, sua idiota!

- Não vim ajudar - respondeu a Cadela, toda satisfeita. - Vim observar.

- Que bom - respondeu Lirael, tentando evidenciar sarcasmo. Secretamente, estava satisfeita. De certa forma, o antro da Bibliotecária-Chefe parecia menos ameaçador com a companhia da Cadela.

- Quando é que vai acontecer algo? - perguntou a Cadela um minuto depois, enquanto Lirael se encontrava ainda nas sombras, observando a porta.

- Agora - disse Lirael, esperando que ao proferir a palavra ela lhe desse coragem para começar. - Agora!

Atravessou o corredor em dez passadas longas, agarrou o puxador de bronze e empurrou. Nenhuma Clayr precisava trancar a sua porta, por isso Lirael não estava à espera de qualquer resistência. A porta abriu-se e Lirael entrou, a Cadela passando entretanto por ela. Fechou a porta de mansinho atrás de si e virou-se para inspecionar o quarto. Era principalmente uma zona de estar, dominada por estantes com prateleiras nas três paredes, várias cadeiras confortáveis e uma escultura fina e alta representando uma espécie de cavalo comprimido, talhado em pedra translúcida.

Mas foi a quarta parede que despertou a atenção de Lirael. Era uma única janela ampla do chão ao teto, feita do vidro mais transparente e limpo que Lirael alguma vez vira. Através da janela, Lirael conseguiu ver todo o vale do Ratterlin estendendo-se para sul, o rio um veio largo de prata lá embaixo, brilhando ao luar. Nevava ligeiramente lá fora e os flocos de neve rodopiavam em danças loucas ao caírem pela vertente da montanha. Nenhum bateu na janela, nem deixou qualquer marca nela.

Lirael estremeceu e recuou quando uma forma negra passou em descida, atravessando a neve que caía. Depois  percebeu que era apenas uma coruja, dirigindo-se para o vale para uma refeição ligeira à meia-noite.

- Há imenso que fazer antes da alva - murmurou a Cadela em tom de conversa, como Lirael continuasse olhando pela janela, petrificada pela faixa de prata serpenteando até ao horizonte distante e pela estranha paisagem enluarada que se estendia até onde a vista conseguia alcançar. Além do horizonte ficava o Reino propriamente dito: a grande cidade de Belisaere, com todas as suas maravilhas, abrindo-se para o céu e rodeada pelo mar. Todo o mundo - o mundo que as outras Clayr viam no gelo do Observatório - se encontrava ali, mas ela apenas o conhecia dos livros e das histórias dos viajantes ouvidas no Refeitório Inferior.

Pela primeira vez, Lirael perguntou-se o que tentavam as Clayr Ver lá fora com as Vigias amplamente alargadas. Onde se situava o local que resistia à Visão? Qual era o futuro que começava ali, talvez no preciso momento em que olhava lá para fora?

Algo a alertou ao fundo da mente, uma sensação de já visto ou uma lembrança fugaz. Mas não chegou nada e continuou extasiada, olhando o mundo lá fora.

- Muito que fazer! - repetiu a Cadela, um pouco mais alto. Com relutância, Lirael afastou-se e concentrou-se na tarefa em mãos. O quarto da Chefe tinha de ficar depois desta sala. Mas onde estava a porta? Havia apenas a janela, a porta que dava para o corredor e as estantes...

Lirael sorriu ao ver que a extremidade de uma prateleira era ocupada por um puxador em vez de livros apertados. Só a Chefe para ter uma porta que era também uma estante.

- A espada encontra-se num suporte à esquerda - segredou a Cadela, que parecia subitamente um pouco ansiosa. - Não abra demais a porta.

- Obrigada - respondeu Lirael ao experimentar cautelosamente o puxador, para ver se era puxado, empurrado ou rodado. - Mas eu achei que não fosse ajudar.

A Cadela não respondeu, porque assim que Lirael lhe tocou, toda a estante se abriu. Lirael conseguiu apenas agarrar o puxador com força suficiente para impedi-lo de se abrir por completo e teve de arrastá-lo para deixar um intervalo com largura suficiente para ela se esgueirar.

O quarto estava às escuras, iluminado apenas pelo luar no aposento exterior. Lirael enfiou a cabeça muito devagar e deixou que os olhos se adaptassem, os ouvidos tentando captar qualquer som de movimento ou despertar súbito. Após um minuto conseguiu ver a tênue massa escura da cama e a respiração regular de alguém adormecido - muito embora não tivesse certeza de que a conseguia realmente ouvir ou se era apenas imaginação sua.

Como a Cadela dissera, havia um suporte próximo da porta. Uma espécie de gaiola cilíndrica de metal aberta apenas no alto. Mesmo com a luz difusa, Lirael conseguiu ver que a Aprisionadora estava lá, na sua bainha. O botão do punho encontrava-se apenas alguns centímetros abaixo do alto do suporte, fácil de alcançar. Mas teria de se encontrar do lado do suporte para erguer a espada bem alto para retirá-la da gaiola.

Saiu para fora e respirou fundo. De certa forma, o ar parecia mais concentrado no quarto. Mais escuro e enfastiante, como se conspirasse contra ladrões como Lirael.

A Cadela olhou para ela e piscou os olhos como forma de encorajamento. Mesmo assim, o coração de Lirael começou a bater cada vez mais depressa quando transpôs novamente a porta e subitamente sentiu-se estranhamente com frio.

Alguns passos cuidadosos levaram-na até perto do suporte. Tocou-lhe com ambas as mãos, depois cautelosamente elas agarraram a espada pelo punho e a bainha por debaixo dos copos.

Mal os dedos de Lirael haviam tocado no metal quando a espada emitiu subitamente um assobio baixo e marcas da Carta começaram a brilhar nos copos. Instantaneamente, Lirael largou-a e debruçou-se, tentando abafar tanto a luz como o som com o seu corpo. Não ousou virar-se para trás. Não queria ver a Chefe acordada e furiosa. Mas não se verificou nenhum acesso súbito de ultraje, nem uma voz austera querendo saber o que fazia. A mancha vermelha em frente dos seus olhos desapareceu quando a sua visão noturna regressou e apurou o ouvido tentando captar algo acima do constante rufar de tambor do seu próprio coração.

Tanto o assobio como a luz não tinham durado mais de um segundo,  percebeu. Mesmo assim, era evidente que a Aprisionadora escolhia quem podia - ou não podia - empunhá-la. Lirael pensou no assunto por um momento, depois curvou-se e segredou, tão baixo que mal se conseguia ouvir.

- Aprisionadora, vou levá-la de emprestada, pois preciso da sua ajuda para prender um Stilken, uma criatura da Magia Livre. Prometo que será devolvida antes da alva. Juro-o pela Carta, cuja marca ostento.

Tocou na marca da Carta na sua testa, estremecendo quando o seu brilho súbito iluminou o suporte. A seguir tocou no botão do punho com os mesmos dois dedos.

Ela não assobiou e as marcas no seu punho limitaram-se a brilhar. Lirael quase suspirou, mas engoliu o suspiro no último momento, antes que pudesse denunciá-la.

A espada saiu livremente do suporte sem um som, mesmo que Lirael tivesse de ergue-la acima da sua própria cabeça para que a ponta se libertasse, e era pesada. Não se dera conta do quanto seria pesada, ou comprida. Parecia pesar o dobro da sua espada de praticar e tinha também à vontade mais um terço do seu comprimento. Muito longa para prender a bainha no cinto, a menos que usasse o cinto debaixo dos sovacos, ou deixasse a ponta arrastar pelo chão.

Esta espada não fora feita para uma menina de catorze anos, concluiu Lirael, ao retirar-se fechando cuidadosamente a porta. Resistiu a pensar mais do que isso.

Não havia sinal da Cadela Desavergonhada. Lirael olhou à sua volta, mas não existia nada suficientemente grande onde a Cadela se esconder - a menos que se encolhesse de alguma forma e se metesse debaixo de uma das cadeiras.

- Cadela! Já a tenho! Vamos! - sibilou Lirael.

Não obteve resposta. Lirael esperou pelo menos um minuto, apesar de parecer muito mais tempo. Depois foi até à porta exterior e enfiou a cabeça por ela, pondo-se à escuta de passos lá fora no corredor. Voltar para a Biblioteca com a espada seria a parte mais arriscada da empresa. Seria impossível de explicar a qualquer Clayr que encontrasse. Como não conseguiu ouvir nada, se esgueirou lá para fora. Quando a porta se fechou atrás dela com um estalido, Lirael viu uma sombra subitamente estender-se da extremidade escura do outro lado e percorreu-a uma pontada de medo. Mas, mais uma vez, era apenas a Cadela Desavergonhada.

- Você me assustou! - murmurou Lirael, ao correr para as sombras e seguir ao longo da Segunda Escada dos Fundos que a levaria diretamente à Biblioteca. - Por que não esperou?

- Não gosto de esperar - disse a Cadela, trotando atrás dela. - Além disso, queria dar uma olhada nos quartos de Mirelle.

- Não! - exclamou Lirael, mais alto do que pretendia. Apoiou-se num joelho, pousou a espada na curva de um braço e agarrou a Cadela pelo maxilar inferior. - Eu disse que não entrasse nos quartos das pessoas! O que faremos se alguém decidir que você é uma ameaça?

- Eu sou uma ameaça - murmurou a Cadela. - Quando quero. Além disso, eu sabia que ela não estava lá. Senti pelo cheiro que ela não estava lá.

- Por favor, por favor, não vá espiar nos lugares onde as pessoas possam vê-la - suplicou Lirael. - Prometa-me que não o fará.

A Cadela tentou desviar o olhar, mas Lirael segurava-lhe o maxilar. Acabou por murmurar algo que podia conter a palavra ”prometo”. Lirael decidiu que, dadas as circunstâncias, teria de bastar.

Alguns minutos depois, escapulindo pela Segunda Escada, Lirael lembrou-se da sua própria promessa à Aprisionadora. Jurara devolvê-la ao quarto de Vancelle antes da alva. Mas, e se não conseguisse?

Abandonaram a Escada e dirigiram-se para a espiral principal até se encontrarem quase à porta da câmara do campo de flores. Quando a avistou, Lirael estacou subitamente. A Cadela, que seguia vários passos atrás, avançou aos saltos e olhou-a com ar inquiridor.

- Cadela - disse Lirael baixinho. - Sei que não me ajudará a derrotar o Stilken. Mas se eu não conseguir aprisioná-lo, quero que pegue a Aprisionadora e a leve ao quarto de Vancelle. Antes da alva.

- Você mesmo a levará, Dona - disse a Cadela com ar confiante, a sua voz quase um uivo. Depois hesitou e proferiu em tom mais baixo: - Mas farei o que me pede, se for necessário. Tem a minha palavra.

Lirael baixou-lhe a cabeça em agradecimento, incapaz de falar. Percorreu os últimos nove metros até à porta. Ali, verificou se o rato mecânico estava no bolso direito do seu colete e o pequeno frasco de prata no esquerdo. Depois desembainhou a Aprisionadora e, pela primeira vez, empunhou-a como uma arma, na posição de defesa. As marcas da Carta na lâmina irromperam num fogo brilhante assim que pressentiram o inimigo e Lirael sentiu a força latente da magia da espada. A Aprisionadora derrotara muitas criaturas estranhas, sabia disso, e isso a enchia de esperança - até se lembrar de que provavelmente seria a primeira vez que era empunhada por uma garota que não sabia muito bem o que fazia.

Antes que esse pensamento pudesse paralisá-la, Lirael estendeu a mão e desfez a fórmula que trancava a porta. Como dissera a Cadela, a forma fora corroída por Magia Livre, uma corrosão tão forte que a fórmula se separou meramente ao seu toque e a uma ordem murmurada. Depois agitou o pulso. As esmeraldas na pulseira dela brilharam e a porta abriu-se gemendo. Lirael preparou-se para um ataque súbito do Stilken - mas não havia nada lá.

Hesitante, transpôs a ombreira, agitando o nariz, procurando algum cheiro de Magia Livre, os olhos arregalados à procura do menor indício da presença da criatura.

Ao contrário da sua visita anterior, não havia luz brilhante depois do corredor - apenas o brilho misterioso, uma imitação de luar, fruto da Magia da Carta, que reduzia todas as cores a tonalidades cinzentas. Em algum lugar, naquela semiescuridão, o Stilken espreitava. Lirael ergueu mais a espada e entrou na câmara, as flores sussurrando sob os seus pés.

A Cadela Desavergonhada seguia dez passos atrás, cada pêlo no seu dorso eriçado formando uma espinha, uma rosnadela cava no seu tórax. Havia aqui vestígios do Stilken, mas nenhum cheiro ativo. Estava escondido, esperando numa emboscada. Por um momento, a Cadela quase falou. Depois lembrou-se: Lirael tinha de derrotar o Stilken sozinha. Assentou a barriga no chão, observando enquanto a dona avançava pisando as flores, em direção à árvore e ao lago onde certamente se encontraria a emboscada do Stilken.

 

SOBRE OS STILKEN E MAGIA ESTRANHA

Mais uma vez, Lirael ficou surpresa com o silêncio na ampla câmara de flores. Além do suave rocegar da sua passagem por cima dos malmequeres, não havia mais nenhum som.

Lentamente, deslocando-se em círculos de tantos em tantos passos para se certificar de que nada avançava para ela, Lirael atravessou a caverna, direto à porta com a lua em crescente. Estava parcialmente aberta, mas não se aventurou a entrar, pensando que o Stilken poderia conseguir trancá-la de algum modo, se ainda estivesse escondido no campo.

A árvore era o local mais provável onde a criatura podia estar, pensou Lirael, imaginando-a enrolada num ramo como uma cobra. Escondida na espessa folhagem verde, os seus olhos de prata seguindo cada movimento dela...

Na luz estranha, o carvalho era apenas uma mancha de sombra. O Stilken podia, inclusive, estar atrás do tronco, rodando lentamente para manter a árvore entre si e Lirael. Esta não tirou os olhos da árvore, arregalando-os o mais que podia, como se eles fossem captar luz extra. Continuava a não se mexer nada, por isso começou a encaminhar-se para a árvore, os seus passos cada vez mais curtos e o estômago mais apertado, agitando-se com o medo.

Estava tão atenta à árvore que os seus pés chapinharam na beira do lago antes de perceber que ele estava ali. Ondas brilhantes, refletindo uma imitação do luar, espalharam-se por um instante, depois mais uma vez a água ficou imóvel e escura.

Lirael recuou, sacudiu os pés e começou a contornar o lago. Conseguia ver agora alguma definição no carvalho, ver aglomerados separados de folhas e ramos individuais. Mas havia também coágulos de sombra que podiam ser tudo. De cada vez que os seus olhos se deslocavam, parecia-lhe ver movimento na escuridão.

Estava na hora de alguma luz, decidiu, mesmo que isso significasse denunciar a sua própria posição. Alcançou a Carta e as marcas necessárias começaram a afluir à sua mente - e perderam-se, quando o Stilken irrompeu do lago ao lado dela e atacou com as suas garras ferozes.

De alguma forma, a Aprisionadora enfrentou o jato de faíscas brancas e vapor, e um choque quase deslocou o ombro de Lirael. Recuou aos tropeções, gritando com súbita fúria de combate e pânico, adotando instintivamente a posição de defesa. Voltaram a saltar faíscas e a água sibilou quando o Stilken atacou de novo, Lirael e a Aprisionadora mal se esquivando a tempo das suas garras.

Sem um pensamento consciente, Lirael desviou-se e surpreendeu-se quando os seus músculos destreinados assumiram o controle. Respondeu diretamente ao torso da coisa. A ponta da Aprisionadora bateu e apanhou-lhe as entranhas, fazendo saltar uma série de faíscas que salpicou o colete de Lirael com buracos minúsculos.

Mas o Stilken não parecia ferido, apenas aborrecido. Atacou novamente, cada movimento das suas garras obrigando Lirael a recuar vários passos. Desesperadamente, moveu a Aprisionadora de um lado para o outro, sentindo nos ossos o choque de cada defesa. O peso da espada estava esgotando-a. Nunca fora grande esgrimista e nunca o lamentara - até àquele momento.

Recuou outra vez e o seu pé encontrou uma ligeira resistência e depois recuou bastante mais do que devia, tombando num buraco inesperado. Lirael perdeu o equilíbrio, caindo de costas quando uma garra afiada cortou o ar à frente da sua garganta.

O tempo pareceu parar quando caiu. Viu a sua defesa abrir-se quando os seus braços giraram numa tentativa de recuperar o equilíbrio. Viu as garras do Stilken avançarem na direção dela, ceifando, quase certas de se encontrarem à volta da cintura dela. Lirael saiu do chão com força, mas não ligou à dor. Rolava já para o lado, registrando vagamente que fora um buraco entre duas raízes que a fizera tropeçar e as raízes das árvores agrediram o seu corpo ao rolar por cima delas.

Terra - flores - o céu distante e as suas luzes da Carta como estrelas longínquas - terra - flores - o céu artificial - a cada rolar, Lirael esperou ver o olhar fixo e prateado do Stilken e sentir a dor cauterizante das suas garras. Mas não o viu, nem veio o golpe mortal. À sexta volta, parou e atirou-se para a frente, uma dor agonizante nos músculos do estômago ao pôr-se em pé de um salto.

Segurava ainda a Aprisionadora e o Stilken tentava retirar a garra esquerda do lugar onde estava presa, fundo numa das grandes raízes aprumadas do carvalho. Instantaneamente, Lirael  percebeu que não devia ter acertado em si devido à queda - e acertara antes a raiz.

O Stilken olhava-a, os seus olhos de prata ardentes, e emitiu um ruído gorgolejante horrível, no fundo da garganta. O seu corpo começou a agitar-se, o peso deslocando-se do braço esquerdo preso para o lado direito do seu corpo. Acocorou-se mais e os músculos moveram-se debaixo da pele aparentemente humana como lesmas debaixo de uma folha, reunindo-se no braço preso. Antes do processo ficar concluído, elevou-se, esticando-se para se libertar e vir atrás de Lirael.

Eis ali a sua oportunidade, Lirael soube-o - estes escassos segundos. As marcas da Carta brilharam na lâmina da Aprisionadora quando estendeu a mão para elas, reunindo-as às outras retiradas da Carta. Precisava de quatro marcas principais, mas para as usar tinha primeiro de se proteger com marcas menores.

A Aprisionadora ajudou-a e as marcas formaram lentamente uma cadeia na sua mente, muito lentamente, enquanto o Stilken gorgolejava e se esforçava, puxando pela garra centímetro a centímetro. O próprio carvalho parecia estar tentando manter a criatura presa, percebeu Lirael, com aquela pequena parte da sua mente não totalmente concentrada na fórmula da Carta. Conseguia ouvir a árvore agitando-se e chiando, como estivesse se esforçasse por manter fechado o golpe na sua raiz aprumada, a garra lá dentro. A última marca chegou, fluindo até Lirael com suave graciosidade. Libertou a fórmula, sentindo o seu poder percorrer-lhe o sangue e cada osso, fortalecendo-a contra as quatro marcas principais que necessitava invocar.

A primeira destas marcas principais floresceu na sua mente no momento em que o Stilken finalmente libertou a garra, com um grande gemido do carvalho e um jato de seiva verde-esbranquiçada. Mesmo com a fórmula protetora sobre ela, Lirael não deixou que a marca principal permanecesse na sua mente. Lançou-a, enviando-a pela lâmina da Aprisionadora abaixo, onde se espalhou como óleo brilhante, até irromper subitamente em fogo, rodeando a lâmina com chamas douradas.

O Stilken, preparando-se para atacar, tentou desviar-se. Mas foi tarde demais. Lirael avançou e a Aprisionadora saltou numa estocada imobilizadora perfeita, diretamente através do pescoço do Stilken. O fogo dourado intensificou-se, subindo faíscas brancas emplumadas como o rastro de um foguetão e a criatura estacou a meros dois passos de Lirael, as suas garras quase lhe tocando de cada lado.

Lirael invocou a segunda marca principal e também ela correu lâmina abaixo. Mas quando chegou ao pescoço do Stilken, desapareceu. Um momento depois, a pele da criatura começou a estalar e a encolher, a luz branca ardente passando quando a pele engelhada caiu para o chão. Passado um minuto, o Stilken perdera o seu aspecto semi-humano. Agora era apenas uma coluna incaracterística de luz branca intensa, trespassada por uma espada.

A terceira marca principal deixou a Aprisionadora e dirigiu-se para a coluna. Imediatamente, o que restava do Stilken começou a encolher, diminuindo até ser uma mancha de luz com dois centímetros e meio de diâmetro, com a ponta da Aprisionadora agora fixada nela.

Lirael tirou o frasco de metal do bolso do colete, colocou-o no chão e serviu-se da espada para introduzir os restos brilhantes do Stilken lá dentro. Só então retirou a lâmina, a largou e enfiou a rolha de cortiça. Um momento depois, selou-a com a quarta marca principal, que se envolveu tanto à volta da cortiça como do frasco num clarão de luz.

Por um instante, o frasco agitou-se e contorceu-se na mão dela, depois imobilizou-se. Lirael guardou-o novamente no bolso e sentou-se ao lado da Aprisionadora. Acabara realmente. Aprisionara o Stilken. Sem a ajuda de ninguém.

Encostou-se, estremecendo com as dores e pontadas que lhe subiam pelas costas e os braços. Um breve clarão de luz captou o seu olhar, de algum lugar próximo da árvore. Imediatamente, ficou de novo em alerta, levando a mão à Aprisionadora, todas as suas dores esquecidas. Pegando a espada, foi investigar. Certamente não podia haver outro Stilken? Ou teria conseguido sair no último instante? Verificou o frasco, que estava inequivocamente selado. Poderia ter ocorrido um brevíssimo instante em que pestanejara, no momento em que a quarta marca saía?

A luz brilhou de novo, suave e dourada quando Lirael se aproximou e suspirou de alívio. Tinha de haver Magia da Carta, por isso, afinal estava segura. O brilho provinha do buraco onde tropeçara.

Cansada. Lirael enfiou a Aprisionadora no buraco, afastando o solo. Viu que o brilho provinha de um livro encadernado, no que parecia pele de animal ou alguma espécie de couro peludo. Usando a espada como alavanca, retirou o livro. Vira a árvore tentar prender o Stilken não queria que a apanhasse.

Assim que ficou fora das raízes, pegou o livro. As marcas da Carta na sua capa eram-lhe familiares, uma fórmula para manter o livro limpo e livre de traças do papel. Lirael enfiou o volume grosso debaixo do braço, subitamente consciente de que estava encharcada em suor, coberta de terra e pétalas de flores e completamente exausta, para não falar das equimoses. Apenas o seu colete sofrera danos irreparáveis, perfurado por faíscas numa centena de lugares, como se tivesse sido atacado por traças incendiárias.

A Cadela saiu do meio das flores ao seu encontro quando se dirigia para a saída. Tinha na boca a bainha da Aprisionadora e não a largou quando Lirael enfiou lá a espada.

- Consegui - disse Lirael. - Aprisionei o Stilken.

- Huuum, huum, hum - disse a Cadela, empinando-se nas patas traseiras. Depois, cuidadosamente, pousou a espada e disse:

- Sim, Dona. Eu sabia que conseguiria. Quase com certeza.

- Ah sim? - Lirael olhou para as mãos, que começavam a tremer. Todo o seu corpo se agitava e teve de se sentar até parar. Mal reparou no volume quente da Cadela apoiado nas suas costas, ou nas lambidelas encorajadoras na orelha.

- Eu devolvo a espada - propôs a Cadela, quando Lirael parou finalmente de tremer. - Descanse aqui até eu voltar. Não me demorarei. Estará segura.

Lirael concordou, incapaz de falar. Fez uma festa na cabeça da Cadela e deitou-se em cima das flores, deixando o seu aroma deslizar sobre ela, as pétalas macias na sua face. A respiração abrandou e tornou-se mais regular, os olhos piscaram lentamente uma vez, duas - e depois fecharam-se.

A Cadela esperou até se certificar de que Lirael dormia. Depois soltou um latido curto. Foi acompanhado de uma marca da Carta, expelida pela boca da Cadela, ficando a pairar no ar sobre a menina adormecida. A Cadela inclinou a cabeça e deitou-lhe um olhar experiente. Satisfeita, agarrou a espada com as suas mandíbulas poderosas e afastou-se rapidamente até à espiral principal.

Quando Lirael acordou, era de manhã, ou pelo menos a luz brilhava novamente na caverna. Por um segundo, teve a impressão de que havia uma marca da Carta sobre a sua cabeça, mas tratara-se manifestamente de um sonho, pois não havia nada ali quando ficou bem acordada e se sentou.

Sentia-se muito rígida e dolorida, mas não pior do que costumava acontecer após um dos exames anuais de espada e arco. O colete não tinha conserto, mas possuía vários de reserva e não parecia existir outros sinais físicos do seu combate com o Stilken. Nada que requeresse uma visita à Enfermaria. A Enfermaria... Filris. Por um momento, Lirael ficou triste por não poder contar à trisavó que afinal derrotara o Stilken.

Filris também teria gostado da Cadela Desavergonhada, pensou Lirael, olhando para o lugar onde o animal dormia ali perto. Estava enrolada numa bola, a cauda envolvendo completamente as patas traseiras, quase chegando ao focinho. Ressonava ligeiramente e contraía-se de vez em quando, como se sonhasse que perseguia coelhos. Lirael preparava-se para acordar a Cadela quando sentiu o livro dar-lhe um toque. Com a luz, percebeu que não estava encadernado com pêlo ou pele, mas tinha uma espécie de capa de malha apertada sobre pesadas placas de madeira, o que era realmente peculiar. Pegou nele e abriu-o na página do título, mas antes mesmo de ler a primeira palavra, soube tratar-se de um livro de poder. Cada parte dele estava saturada de Magia da Carta. Existiam marcas no papel, marcas na tinta, marcas na costura da lombada.

O frontispício dizia apenas: Na Pele de um Leão. Lirael virou-o, esperando ver um índice, mas seguia diretamente para o primeiro capítulo. Começou a ler, mas subitamente o tipo desfocou-se e brilhou. Piscou e esfregou os olhos, mas quando olhou de novo a página apresentava o título Prefácio”, muito embora tivesse certeza de que era novamente o frontispício.

Lirael franziu o sobrolho e inclinou-se para a frente. Dizia ainda ”Prefácio”. Antes que mudasse, começou a ler.

- A criação de peles da Carta - leu, permite ao Mago assumir mais do que o mero aspecto ou aparência de um animal ou planta. Uma pele da Carta corretamente preparada, usada na forma prescrita, confere ao Mago a forma real desejada, com todas as peculiaridades, percepções, limitações e vantagens dessa forma. Este livro é um exame teórico da arte de criar peles da Carta, um prático livro de leitura para o principiante que usa a forma; é um compêndio de peles da Carta completas, incluindo as do leão, do cavalo, do sapo saltador, da pomba-cinzenta, do freixo-prateado e diversas outras formas úteis.

O programa de estudo aqui contido, se seguido com disciplina, dotará o Mago consciencioso dos conhecimentos necessários à criação de uma primeira pele da Carta dentro de três ou quatro anos.

- Um livro útil, esse - disse a Cadela acabada de acordar, interrompendo a leitura de Lirael ao enfiar o focinho em cima das páginas, exigindo claramente uma coçadela matinal entre as orelhas.

- Muito - concordou Lirael, tentando continuar a leitura por entre a Cadela, sem sucesso. - Aparentemente, se eu seguir o programa de estudo nele contido, serei capaz de assumir outra forma dentro de três ou quatro anos.

- Dezoito meses - bocejou a Cadela, ensonada. - Dois anos se for preguiçosa. Apesar de usar uma pele da Carta - não muda a sua própria forma, enquanto tal. Certifique-se de que começa por uma pele da Carta que seja útil para explorações. Você sabes, que sirva para entrar em buracos pequenos e assim.

- Por quê? - perguntou Lirael.

- Por quê? - repetiu a Cadela, incrédula, desviando a cabeça de baixo da mão de Lirael. - Há tanto que ver e cheirar aqui! Níveis inteiros da Biblioteca onde ninguém vai há cem, há mil anos! Salas fechadas cheias de segredos antigos. Tesouros! Conhecimentos! Diversão! Quer ser uma Terceira Assistente de Bibliotecária a vida inteira?

- Não propriamente - respondeu Lirael, constrangida. - Quero ser uma Clayr completa. Quero ter a Visão.

- Bem, talvez encontremos algo que possa despertá-la em você - declarou a Cadela. - Sabe que tem de trabalhar, mas há muito tempo que não devia ser mais desperdiçado. Haverá coisa melhor do que caminhar onde os outros não pisam há mil anos?

- Acho que também o podia fazer - concordou Lirael, a sua imaginação animando-se com as palavras da Cadela. Existiam imensas portas que queria abrir. Havia aquele estranho buraco na rocha, por exemplo, no lugar onde a espiral principal terminava abruptamente...

- Além disso - acrescentou a Cadela, interrompendo-lhe os pensamentos -, existem aqui forças ativas que querem que use o livro. Algo libertou o Stilken e a presença da criatura despertou por sua vez outras magias. Aquela árvore não teria abdicado do livro se não estivesse destinada a tê-lo.

- Acho que sim - disse Lirael. Não lhe agradava a idéia de que o Stilken tivesse tido ajuda para sair da sua prisão. Isso implicava que havia alguma força maléfica maior aqui embaixo nos Níveis Antigos, ou que alguma força poderia alcançar a geleira das Clayr vinda de longe, apesar de todas as suas proteções e defesas.

Se existisse algo como o Stilken - alguma entidade da Magia Livre de grande poder - na Biblioteca, Lirael sentia-se na obrigação de encontrá-lo. Sentia que, ao derrotar o Stilken, dera, inconscientemente, o primeiro passo no sentido de assumir a responsabilidade de destruir todo o resto igual à criatura que pudesse constituir uma ameaça para as Clayr.

As explorações preencheriam também o tempo e a distrairiam. Lirael  percebeu que não pensara muito nos Despertares, nem na Visão, ao longo dos últimos meses. Criar a Cadela e descobrir como derrotar o Stilken tinham preenchido quase todos os seus pensamentos acordada.

- Aprenderei uma pele da Carta útil - declarou. - E iremos explorar, Cadela!

- Ótimo! - disse a Cadela e soltou um latido comemorativo que ecoou pela caverna. - Agora é melhor correr, se lavar e mudar de roupa, antes que Imshi se pergunte onde anda.

- Que horas são? - perguntou Lirael, sobressaltada. Longe das apitadelas peremptórias de Kirrith na Ala da Juventude, ou do relógio de carrilhão na Sala de Leitura, não fazia idéia de que momento do dia era. Pensara que fosse mais ou menos a alva, pois não dormira muito.

- Passa meia da... sexta hora da manhã - respondeu a Cadela, depois de arrebitar as orelhas, como se ouvisse algum carrilhão distante. - Mais ou menos...

A sua voz perdeu-se, porque Lirael partira já, irrompendo numa corrida coxeando um pouco. A Cadela suspirou e lançou-se num trote que lhe esticava o corpo, alcançando facilmente Lirael antes de ela fechar a porta.

 

Trezentos e cinquenta quilômetros a sul da geleira das Clayr, vinte e dois rapazes jogavam críquete, no Reino Antigo, do outro lado da Muralha que ficava quarenta e oito quilômetros para norte, era o final do Outono. Aqui, em Ancelstierre, os últimos dias de Verão estavam revelando-se quentes e sem nuvens, perfeitos para a conclusão do jogo do muito disputado campeonato da Taça dos Alunos Finalistas, o principal foco da atenção dos alunos desportistas do sexto ano de dezoito colégios.

Era a última série da partida, faltando atirar apenas uma bola e sendo necessárias três corridas para vencer o jogo do batedor, a partida e o campeonato.

O batedor que enfrentava aquela última bola estava a um mês do seu décimo sétimo aniversário e tinha um metro e oitenta e um de altura. Tinha também cabelo castanho-escuro com caracóis apertados e sobrancelhas negras distintivas. Não era propriamente belo, mas agradável à vista, uma figura notável com a sua roupa de flanela branca do críquete. Não que estivessem impecáveis e engomadas como no princípio do dia, já que encontravam-se agora encharcadas de suor após setenta e quatro corridas de parceria, sessenta delas sozinho.

Uma grande multidão assistia nas bancadas do Campo de Críquete de Bain - uma multidão muito maior do que o normal para uma partida de alunos, mesmo que uma das equipes fosse do vizinho Colégio Dormalan. A maioria dos espectadores viera ver o jovem batedor alto, não por ser mais talentoso do que os outros elementos da equipe, mas por ser um Príncipe. Melhor dizendo, era um Príncipe do Reino Antigo. Bain era não só a cidade mais próxima da Muralha que separava Ancelstierre daquela terra de magia e mistério, sofrera também dezenove anos antes uma incursão de criaturas Mortas que tinham sido derrotadas com o auxílio dos pais do batedor, em particular, da sua mãe.

O Príncipe Sameth não era alheio à curiosidade que os habitantes da cidade de Bain sentiam por ele, mas não deixava que isso o distraísse. Toda a sua atenção estava concentrada no jogador no outro extremo do retângulo, um rapaz violento de cabelo ruivo cujo lançamento rápido e feroz derrubara já três wickets*. Mas parecia estar ficando cansado e a sua última série fora bastante errática, deixando Sam e o seu companheiro de batida, Ted Hopkiss, bater a bola com força fazendo-a atravessar o campo no esforço para conseguir aquelas últimas corridas vitais. Se o jogador não recuperasse a força e a precisão anteriores, pensou Sameth, sempre tinha chance. Atenção, o jogador estava demorando, flectindo lentamente o braço de lançar e olhando para as nuvens que avançavam.

O tempo causava alguma distração, muito embora apenas para Sameth. Levantara-se algum vento uns minutos antes. Soprando diretamente do Norte, trazia consigo magia, apanhada no Reino Antigo e na Muralha. Fez a marca da Carta na testa de Sameth brilhar e aumentar a sua consciência da Morte. Não que esta presença fria fosse muito forte no lugar onde estava. Tinham morrido poucas pessoas no retângulo central, pelo menos nos tempos mais recentes.

Finalmente, o jogador lançou e a bola vermelho-viva veio uivando pelo campo, ressaltando quando Sameth avançou ao seu encontro. A pá bateu no couro com uma pancada poderosa e a bola passou por cima do ombro esquerdo de Sameth. Cada vez mais alta, formou um arco por cima dos jogadores que corriam para as bancadas, onde foi apanhada por um homem de meia-idade, que saltou do seu lugar exibindo uma forma de críquete há muito caída em desuso.

Um seis! Sameth sentiu o sorriso estampar-se no rosto quando partiu um aplauso das bancadas. Ted correu para lhe apertar a mão, dizendo algo e depois estava apertando as mãos à equipe adversária e a seguir a todo o tipo de pessoas enquanto se dirigia para os vestiários no pavilhão. Entre os apertos de mão, olhou para o lugar onde o painel do telégrafo emitia estalidos. Fizera sessenta e seis pontos sem ser excluído, um recorde pessoal e um fim condigno para a sua carreira acadêmica no críquete. Provavelmente toda a sua carreira no críquete, pensou, lembrando-se do seu regresso ao Reino Antigo, dali a apenas dois meses. O críquete não era jogado a norte da Muralha.

O seu amigo Nicholas foi o primeiro a congratulá-lo nos vestiários. Nick era um jogador magnífico ao arremessar a bola, mas um mau batedor e um corredor ainda pior. Muitas vezes parecia ter saído de um sonho, observando um inseto ou algum padrão meteorológico estranho no céu.

- Muito bem, Sam! - declarou Nick, apertando-lhe vigorosamente a mão. - Mais um troféu para o bom velho Somersby.

- Em breve será o bom velho Somersby - respondeu Sam, sentando-se num banco e desapertando as caneleiras. - Estranho, não é? Dez anos queixando-se do lugar, mas quando chega o momento de partir...

- Eu sei, eu sei - disse Nick. - Por isso devias vir para Corvere comigo, Sam. É praticamente o mesmo que aqui, a universidade. Afasta aquele receio do futuro...

O que quer mais que fosse dizer perdeu-se quando o resto da equipe abriu caminho para apertar a mão de Sameth. Até mesmo Mr. Cochrane, o treinador, o famoso e irascível Professor de Jogos de Somersby, se dignou bater-lhe no ombro e declarar:

- Excelente exibição, Sameth.

Uma hora depois, seguiam todos no ônibus do colégio, completamente molhados devido ao aguaceiro trazido pelo vento do Norte. Os períodos de sol e os períodos de chuva alternavam, às vezes durante minutos. Infelizmente, o último dera-se quando tinham atravessado a estrada até ao ônibus.

Era uma viagem de três horas, quase para sul até Somersby, ao longo da Estrada Nacional de Bain. Por isso os passageiros no ônibus ficaram surpresos quando o condutor saiu da Estrada Nacional à entrada de Bain, para uma estrada secundária estreita e de faixa única.

- Espere lá, condutor! - exclamou Mr. Cochrane. - O que diabo está fazendo?

- Um desvio - disse o homem sucintamente, mal mexendo a boca. Era o substituto de Fred, o motorista habitual do colégio, que quebrara o braço na véspera numa luta por causa de um concurso de dados. - A Estrada Nacional está inundada em Beardsley. Disse-me um carteiro, lá no Cricketer’s Arms.

- Muito bem - disse Cochrane, a sua expressão carrancuda mostrando a relutância na sua aprovação. - É muito estranho. Não me pareceu que tivesse chovido tanto assim. Tem certeza de que conhece um desvio, condutor?

- Sim, patrão - afirmou o homem, algo que poderia ser um sorriso atravessando o seu rosto de fuinha. - A Ponte de Beckton.

- Nunca ouvi falar - respondeu Cochrane, pouco convencido. - Mesmo assim, acho que deve saber o que faz.

Os rapazes deram pouca atenção a esta discussão, ou à estrada. Estavam de pé desde as quatro da manhã para chegarem a Bain a tempo e tinham jogado críquete todo o dia. A maior parte deles, incluindo Nick, adormecera. Sameth mantinha-se acordado, ainda nas nuvens com a excitação das suas seis corridas da vitória. Olhou a chuva nas janelas e nos campos. Passaram por casas habitadas, o brilho quente da luz elétrica nas suas janelas. Os postes do telégrafo iluminaram-se à beira da estrada, bem como uma cabina telefônica vermelha ao atravessarem uma aldeia.

Em breve deixaria para trás tudo aquilo. A tecnologia moderna, como os telefones, não existia simplesmente do outro lado da Muralha.

Dez minutos depois, passaram por algo mais que Sameth não veria do lado de lá da Muralha. Um campo grande cheio de centenas de tendas, com roupa pendurada escorria em cada corda de firmar existente e um aspecto geral de desordem. O ônibus diminuiu ao passar por lá e Sameth viu que a maior parte das tendas tinha mulheres e crianças aglomeradas à entrada, olhando pesarosamente a chuva. Quase todas elas tinham lenços ou chapéus na cabeça, identificando-as como refugiados sulistas. Mais de dez mil haviam recebido refúgio temporário no que o Corvere Times descrevia como ”as remotas regiões setentrionais da nação”, o que queria manifestamente dizer próximo da Muralha.

Deve ser uma das colônias de refugiados que surgiu nos últimos três anos,  percebeu Sameth, reparando que o campo estava cercado por uma vedação tripla de arame em concertina e que havia vários policiais junto ao portão, a chuva escorrendo-lhes pelos capacetes e impermeáveis azul-escuros.

Os Sulistas fugiam de uma guerra entre quatro estados no extremo Sul, do outro lado do Mar de Sunder, em Ancelstierre. A guerra começara três anos antes, com uma rebelião aparentemente pequena na Autarquia de Iskeria com poucas chances de triunfar. Essa revolução transformara-se numa guerra civil que arrastara os países vizinhos de Kalarime, Iznenia e Korrovia, para lados diferentes. Existiam pelo menos seis facções contrárias, que iam desde as forças do Autarca iskeriano e dos rebeldes originais anarquistas aos tradicionalistas apoiados por Kalarime e aos imperialistas korrovianos.

Tradicionalmente, Ancelstierre não interferia nas guerras no Continente Meridional, encarregando a sua Marinha e a Força Aérea de manterem esses conflitos do lado de lá do Mar de Sunder. Mas, com a guerra grassando agora na maior parte do continente, o único local seguro para os não combatentes era Ancelstierre.

Por isso Ancelstierre era o destino escolhido pelos refugiados. Muitos tinham sido devolvidos ao mar ou aos principais portos, mas para cada navio grande recusado, uma embarcação menor tentava atracar em algum lugar na costa ancelstierrana e despejar duzentos ou trezentos refugiados que tinham vindo amontoados a bordo como sardinhas.

Muitos mais tinham se afogado ou morrido de fome, mas isso não desencorajava os outros. Acabavam por ser capturados e colocados temporariamente em acampamentos. Teoricamente, poderiam vir a tornar-se imigrantes da Comunidade de Ancelstierre, mas, na prática, só aqueles com dinheiro, conhecimentos ou especializações úteis conseguiam obter a cidadania. Os outros permaneciam nos campos de refugiados enquanto o governo ancelstierrano tentava arranjar maneira de devolvê-los para os seus países. Mas, com a guerra agravando-se e cada vez mais confusa a cada dia que passava, nenhum dos que escapara a ela voltaria de bom grado. De cada vez que se tentara a deportação em massa, tinha acabado em greves de fome, tumultos e todas as formas possíveis de protesto.

- O tio Edward diz que o tal Corolini quer mandar os Sulistas para a sua parte estreita arborizada - disse Nicholas ensonado, acordando com a diminuição da velocidade do ônibus. - Do outro lado da Muralha. Não há espaço para eles aqui, diz ele, e espaço é o que não falta no Reino Antigo.

- Corolini é um amotinador populista - respondeu Sameth, citando um editorial do Times. A sua mãe - que conduzia a maior parte da diplomacia do Reino Antigo com Ancelstierre - tinha uma opinião ainda mais dura a respeito deste político, que ganhara proeminência desde o começo da Guerra do Sul. Achava que ele era um egoísta perigoso que faria tudo para ganhar poder. - Ele não sabe o que diz. Morreriam todos nas Zonas Limítrofes. Não é seguro.

- Mas qual é o problema? - perguntou Nick. Sabia que o amigo não gostava de falar sobre o Reino Antigo. Sam dizia sempre que não era parecido com Ancelstierre e que Nick não entenderia. Mais ninguém sabia muito a seu respeito e havia pouca informação relevante em qualquer biblioteca a que Nick fora. O Exército mantinha a fronteira fechada e era tudo.

- Existem animais... animais perigosos e... hum... coisas - respondeu Sameth. - É como te disse antes. Armas e eletricidade assim não funcionam. Não é como...

- Ancelstierre - interrompeu Nicholas, sorrindo. - Sabe, estou quase decidido a ir visitá-lo durante as férias e ver com os meus próprios olhos.

- Quem me dera - disse Sameth. - Vai ser bom ver um rosto amigo depois de seis meses na companhia de Ellimere.

- Como sabe que não estou interessado em visitar a sua irmã? - perguntou Nick, com uma expressão irônica exagerada. Sam nunca falava bem da irmã mais velha. Ia dizer mais, mas as suas palavras foram interrompidas quando olhou pela janela. Sam olhou também.

Há muito que o campo de refugiados ficara para trás e dera lugar a uma floresta relativamente densa. A esfera distante do Sol distorcida pela chuva estava por cima das árvores. Só que eles olhavam simultaneamente pelo lado esquerdo do ônibus e o sol devia estar do direito. Seguiam para norte e já devia ser há algum tempo. Para norte, em direção à Muralha.

- É melhor avisar o Cockers - sugeriu Sameth, que ia no lugar da coxia. Levantara-se e começava a dirigir-se para a frente do ônibus, quando o motor começou subitamente a falhar e o ônibus deu um tranco, quase atirando Sameth ao chão. O condutor praguejou e reduziu várias mudanças, mas o motor continuava falhando. O condutor praguejou outra vez, acelerando o motor com tanta força que o seu ronco acordou quem dormia ainda. Depois foi-se abaixo subitamente. Tanto a luz no interior como os faróis se apagaram e o ônibus ficou imobilizado em silêncio.

- Senhor! - disse Sam a Mr. Cochrane, acima do súbito rebuliço dos rapazes que acordavam. - Temos estado a seguir para norte! Acho que estamos próximo da Muralha.

Cochrane, que espreitava pela sua janela, virou-se para trás quando Sam falou e ficou de pé na coxia, a sua figura suficientemente imponente para silenciar os rapazes mais próximos.

- Sentem-se! - disse ele. - Obrigado, Sameth. Agora fiquem todos nos seus lugares que eu já vou resolver...

O que quer que fosse dizer foi interrompido pelo som da porta do condutor quando a fechou com força atrás de si. Todos os rapazes correram para as janelas, apesar do bramido de Cochrane, e viram o condutor saltar para a beira da estrada e correr por entre as árvores como se perseguido por algum inimigo mortal.

- O que diabo? - exclamou Cochrane, ao virar-se para olhar pelo pára-brisas. O que quer que assustara o condutor não lhe parecia assim tão terrível, dado que se limitou a escancarar a porta do passageiro e saiu para a chuva, abrindo o guarda-chuva.

Assim que deixou o ônibus, todos se precipitaram para a frente. Sam, da sua posição na coxia, foi o primeiro a chegar. Olhando para o exterior, viu uma barreira atravessada na estrada e um cartaz vermelho grande ao lado. Não o conseguiu ler bem, por causa da chuva, mas, de qualquer maneira, sabia o que dizia. Vira cartazes idênticos todas as férias, quando regressava ao Reino Antigo. Os cartazes vermelhos assinalavam o início do Perímetro, a zona militar que o Exército ancelstierrano criara diante da Muralha. Depois daquele cartaz, as matas de cada lado da estrada desapareciam, substituídas por uma extensão de oitocentos metros de posições fortificadas, trincheiras e rolos e rolos de arame farpado que se estendiam da costa leste à oeste.

Sam lembrava-se exatamente do que dizia o cartaz. Fingindo uma capacidade extraordinária de ver através dos pára-brisas embaciados, recitou aos outros o aviso familiar. Era importante que soubessem.

 

COMANDO DO PERÍMETRO GRUPO DO EXÉRCITO DO NORTE

 

Estritamente proibida a saída da Zona do Perímetro sem autorização.

Quem tentar atravessar a Zona do Perímetro será abatido sem aviso.

Os viajantes autorizados deverão apresentar-se no Q.G. do Comando do Perímetro.

 

- ATENÇÃO NÃO SERÁ FEITO QUALQUER AVISO

 

Esta recitação foi seguida de um momento de silêncio, quando se compenetraram da gravidade da situação. Irrompeu depois um burburinho de perguntas, a que Sam não respondeu. Pensou que o condutor fugira com medo de estar tão perto da Muralha. Mas, e se ele os tivesse levado ali de propósito? E por que fugira dos dois polícias militares de boné vermelho que vinham saindo das guaritas das sentinelas?

A família de Sameth tinha muitos inimigos no Reino Antigo. Alguns eram humanos e podiam passar por inofensivos em Ancelstierre. Outros não o eram, mas podiam ter poder suficiente para atravessar a Muralha e alcançar esta pequena distância a sul. Especialmente num dia em que o vento soprasse do norte.

Sem se preocupar em ir buscar o impermeável, Sam saltou do ônibus e correu para os dois polícias militares que tinham acabado de ir ao encontro de Mr. Cochrane. Ou melhor, até ao lugar onde o sargento da P.M. começara a gritar a Cochrane.

- Tire toda a gente daquele ônibus e afaste-os o mais depressa que puder - gritou o sargento. - Corram o mais que puderem, depois caminhem. Entendeu?

- Por quê? - perguntou Mr. Cochrane, eriçando-se. Como a maior parte dos professores e pessoal de Somersby, não era do Norte e não imaginava o que eram a Muralha, o Perímetro, ou o Reino Antigo. Sempre tratara Sameth como o outro Príncipe do colégio, que era um albino do longínquo Karshmel - como um filho adotivo que não era propriamente um membro da família.

- Faça-o! - ordenou o sargento. Parecia nervoso, notou Sameth. O coldre do revólver estava aberto e olhava constantemente para as árvores. Tal como a maior parte dos soldados no Perímetro - mas nada como qualquer das outras unidades do Exército ancelstierrano - usava também um sabre-baioneta na anca esquerda e uma cota de malha sobre o uniforme de campanha de caqui, apesar de conservar o seu boné vermelho de PM, em vez de usar o capacete com barra de proteção no pescoço e no nariz da guarnição do Perímetro. Sam reparou que nenhum dos dois homens tinha uma marca da Carta na testa.

- Isso não basta - protestou Cochrane. - Insisto em falar com um oficial. Não posso ter os meus rapazes correndo na chuva!

- É melhor fazermos o que diz o sargento - disse Sam, surgindo atrás dele. - Há algo na mata, e aproxima-se.

- Quem é você? - quis saber o sargento, puxando da espada. O arvorado que o acompanhava seguiu-lhe o exemplo e começou a aproximar-se timidamente por trás. Olhavam ambos para a testa de Sameth e a marca da Carta que começava a divisar-se debaixo do seu boné de Críquete XI.

- O Príncipe Sameth do Reino Antigo - disse Sam. - Sugiro que contacte o Major Dwyer dos Batedores, ou o quartel-general do General Tindall e lhes diga que estou aqui - e que há pelo menos três Mãos Mortas na mata.

- Bonito serviço! - praguejou o sargento. - Sabíamos que estavam preparando algo com este vento. Como foi que eles conseguiram... Bem, não importa. Harris, vá correndo ao posto e alerte o Q.G. Diga-lhes que temos o Príncipe Sameth, um grupo de garotos e pelo menos três intrusos da categoria A. Use um pombo e o foguete. O telefone ficará fora de serviço com certeza. Mexa-se!

O arvorado desaparecera antes que a boca do sargento se fechasse e no preciso momento em que Cochrane começava a falar.

- Sameth! O que está fazendo?

- Não há tempo para explicações - respondeu Sam com urgência. Sentia as Mãos Mortas - corpos infundidos com espíritos chamados da Morte - avançando pela floresta, paralelas à estrada. Não pareciam ter percebido ainda os vivos, mas assim que o fizessem, os alcançariam em minutos. - Temos de tirar todos daqui, temos de nos afastar o mais que pudermos da Muralha.

- Mas... Mas... - protestou violentamente Cochrane, de rosto congestionado e surpreso com a impertinência de um dos seus próprios rapazes em dar-lhe ordens. Teria dito mais, se o sargento não tivesse puxado do revólver e afirmado calmamente: - Ponha-os a se mexer agora, senhor, senão alvejo-o imediatamente.

 

OS MORTOS SÃO MUITOS

Cinco minutos depois, toda a equipe estava à chuva, na estrada, correndo para sul. Por sugestão de Sameth, tinham-se munido de bastões, com pontas de metal e bolas de críquete. O sargento da PM corria com eles, o revólver continuando a silenciar os protestos de Cochrane.

De início, os rapazes levaram aquilo um pouco na brincadeira, com muita bravata e excitação. Mas quando escureceu e a chuva se intensificou, acalmaram-se. As piadas pararam por completo quando se ouviram quatro tiros rápidos atrás deles e depois um grito distante e angustiado.

Sameth e o sargento trocaram um olhar que combinava o medo e um conhecimento terrível. Os tiros e os gritos deviam ter partido do Arvorado Harris, que voltara para o posto.

- Existe um rio ou outra água corrente aqui perto? - arfou Sameth, recordando-se da cantilena de aviso que conhecia desde a infância a respeito dos Mortos. O sargento abanou a cabeça mas não respondeu. Olhava constantemente por cima do ombro, quase se desequilibrando ao correr. Passado pouco tempo de terem ouvido o grito, viram o que ele procurava e indicou-o a Sameth: três pára-quedas luminosos vermelhos descendo alguns quilômetros a norte.

- Harris deve ter soltado o pombo, pelo menos - arquejou.

- Ou talvez o telefone funcionasse, dado que a sua pistola o fizera. Terão lá fora a companhia de reserva e um pelotão de Batedores, não tarda, senhor.

- Espero que sim - respondeu Sameth. Conseguia sentir agora os Mortos na estrada atrás deles, aproximando-se rapidamente. Parecia não existir esperança de segurança em lugar nenhum lá à frente. Nem uma casa ou um celeiro sólidos, nem um rio, cuja água corrente os Mortos não conseguiam atravessar. Na verdade, a estrada descia, transformando-se num caminho afundado, mais escuro e mais reduzido, o local perfeito para uma emboscada.

Enquanto Sameth tinha estes pensamentos, notou que a sua sensação da Morte se alterara subitamente. De início desorientou-o, até perceber o que era. Um espírito Morto acabara de se erguer à frente deles, em algum lugar na escuridão, à volta da beira alta da estrada. Pior do que isso, era novo, trazido da Morte naquele preciso instante. Não eram espíritos Mortos dotados de vontade própria que se tinham infiltrado através do Perímetro. Eram Mãos Mortas, invocadas por um necromante do lado ancelstierrano da Muralha. Controlados pela mente do necromante, eram muito mais perigosos do que os espíritos brincalhões.

- Parem! - gritou Sam, a sua voz penetrando o compasso da chuva e as passadas no asfalto. - Eles estão à nossa frente. Temos de abandonar a estrada!

- Quem é que está à frente, rapaz? - gritou Cochrane, novamente furioso. - Isto já foi longe demais...

A sua voz vacilou quando uma figura saiu aos tropeções das sombras lá à frente, no meio da estrada. Era humano, ou fora-o em tempos, mas agora os seus braços eram fios de carne pendurada e a sua cabeça principalmente crânio descoberto, toda ela órbitas fundas e dentes brilhantes. Estava inquestionavelmente morta e o cheiro de decomposição elevava-se dela, acima do cheiro suave da chuva. Torrões de terra caíam dela ao deslocar-se, mostrando que acabara de se desenterrar.

- Esquerda! - gritou Sam, apontando. - Todos para a esquerda!

O seu grito levou o quadro silencioso à ação, os rapazes pulando o muro de pedra que cercava a estrada. Cochrane foi o primeiro a fazê-lo, atirando o chapéu de chuva para o lado.

A coisa Morta também se moveu, irrompendo numa corrida desajeitada ao pressentir a Vida por que ansiava. O sargento encostou-se ao muro e esperou até aquilo estar a três metros de distância. Depois esvaziou o seu pesado revólver 455 no torso da criatura, cinco tiros em sucessão rápida, acompanhado de um arfar de alívio por a arma realmente funcionar.

A criatura foi atingida e acabou por cair, mas o sargento não esperou. Estava no Perímetro há tempo suficiente para saber que voltaria a levantar-se. As balas conseguiam deter as Mãos Mortas, mas apenas se as criaturas fossem despedaçadas. As granadas fosforosas brancas resultavam melhor, reduzindo-as a cinzas - quando funcionavam. Armas e granadas e todos esses estranhos símbolos da tecnologia militar ancelstierrana tendiam a falhar quanto mais se aproximavam da Muralha e do Reino Antigo.

- Subam a colina! - gritou Sam, apontando para uma elevação no solo lá à frente, onde a floresta se dispersava. Se conseguissem lá chegar, podiam ver o que vinha e ter a ligeira vantagem do solo elevado.

Um grito inumano desagradável elevou-se atrás deles enquanto corriam, um som como um fole pisado sem querer, mais um guincho do que um berro. Sam sabia que partira dos pulmões desidratados de uma Mão Morta. Esta estava mais para a direita do que aquela que o sargento abatera. Ao mesmo tempo, sentiu outras, avançando da direita e da esquerda, começando a rodear a colina.

- Está além um necromante - informou ele enquanto corriam.

- E deve haver muitos corpos mortos, não muito longe.        

- Um caminhão de Sulistas... saiu da estrada aqui próximo, há seis semanas - disse o sargento, falando rapidamente entre a respiração.

- Morreram dezenove. É um bocado... misterioso o lugar para onde iam... de qualquer forma... o sacristão de Archell não os quis... aceitar... o crematório do Exército também não... por isso foram enterrados perto da estrada.

- Que estupidez! - exclamou Sameth. - É muito perto da Muralha! Deviam ter sido queimados!

- Malditos burocratas - bufou o sargento, baixando-se com agilidade para não bater num ramo. - Os regulamentos proíbem as sepulturas dentro do... Perímetro. Mas isto fica... fora, percebe?

Sameth não respondeu. Subiam agora a colina e necessitava de todo o seu fôlego. Sentiu que havia agora pelo menos uma dúzia de Mãos Mortas atrás deles e três ou quatro de cada lado, estendendo-se. E havia algo, uma presença que era provavelmente o necromante, lá onde os corpos estavam - ou tinham estado - enterrados.

Não havia árvores no alto da colina, exceto algumas árvores novas dispersas pelo vento. Antes de o alcançarem, o sargento deu ordem para pararem, a pouca distância do cume.

- Muito bem! Aproximem-se. Falta alguém? Quantos...

- Dezesseis, incluindo Mr. Cochrane - disse Nick, que era uma calculadora-relâmpago. Cochrane olhou-o mas ficou em silêncio, baixando a cabeça ao tentar recuperar o fôlego. - Estamos todos.

- Quanto tempo temos, senhor? - perguntou o sargento a Sam, quando olharam lá para baixo para as árvores. Era difícil ver algo. A visibilidade ficara reduzida tanto pela chuva forte como pelo começo da noite.

- Os primeiros dois ou três nos alcançarão dentro de minutos - afirmou Sameth, pesaroso. - A chuva os retardará um pouco. Teremos de derrubá-los e enfiar as estacas através deles, para tentar mantê-los empalados. Nick, organize todos em grupos de três. Dois batedores e alguém que tenha as estacas à mão. Não, Hood - vá com Asmer. Quando eles vierem, vou distraí-los com um... vou distraí-los. Depois o batedor deverá atingir com toda a força que conseguir, nas pernas e depois cravar uma estaca em cada braço e perna.

Sameth calou-se quando viu um dos rapazes olhar para a estaca de madeira com setenta e cinco centímetros de comprimento, com a sua ponta de metal na extremidade. Pela expressão no rosto do rapaz, via-se que não conseguia imaginar cravá-lo fosse no que fosse.

- Aquilo não são pessoas! - gritou Sam. - Já estão Mortas. Se não as combatermos, nos matarão. Imaginem que são animais selvagens e, lembrem-se, estamos lutando pelas nossas vidas!

Um dos rapazes começou a chorar, sem fazer barulho, as lágrimas escorrendo-lhe silenciosamente pelo rosto. De início, Sam pensou que fosse a chuva, até reparar na expressão de desespero que significava o mais completo e absoluto terror. Preparava-se para dizer algumas palavras mais encorajadoras quando Nick apontou para baixo e gritou:

- Eles vêm aí!

Três Mãos Mortas vinham saindo da linha das árvores, cambaleando como bêbados, os seus braços e pernas nitidamente não de todo sob controle. Os corpos tinham sido fraturados com a queda, pensou Sam, avaliando a força deles. Isso era bom. Os tornariam mais lentos e mais descoordenados.

- Nick, a sua equipe pode ficar com o da esquerda - ordenou, falando rapidamente. - Ted, a sua com o do meio e a de Jack com o da direita. Atinjam-nos nos joelhos e cravem as estacas assim que conseguirem derrubá-los. Não os deixem agarrá-los - são muito mais fortes do que parecem. Todos os demais - incluindo o senhor, por favor, Sargento e Mr. Cochrane - ficam de reserva para ajudar qualquer equipe que esteja em apuros.

- Sim, senhor! - replicou o sargento. Cochrane limitou-se a anuir com ar apatetado, fitando as Mãos Mortas em aproximação. Pela primeira vez na memória de Sam, o rosto do homem não estava afogueado. Estava lívido, quase tão branco como a carne doentiamente pálida dos Mortos que se aproximavam.

- Aguardem a minha ordem - gritou Sam. Ao mesmo tempo, levou a mão à Carta. Era impossível de alcançar na maior parte de Ancelstierre, mas aqui tão próximo da Muralha, era simplesmente difícil, seria praticamente o mesmo que tentar atingir o leito de um rio fundo.

Sameth encontrou a Carta e confortou-se momentaneamente com a sensação familiar dela, a sua permanência e a sua totalidade ligando-o a tudo o que existia. Chamou então as marcas que pretendia, conservando-as na mente enquanto formava os seus nomes na garganta. Quando ficou tudo pronto, estendeu a mão direita, três dedos abertos, cada dedo indicando uma das criaturas Mortas que se aproximavam.

- Anet! Calew! Ferhan! - proferiu violentamente e as marcas voaram dos seus dedos brilhando como lâminas de prata, silvando pelo ar mais rápidas do que qualquer olho conseguiria acompanhá-las. Cada uma atingiu uma Mão Morta, abrindo um buraco através da sua carne em decomposição. As três recuaram vacilando e uma tombou, agitando os braços e as pernas como um escaravelho de patas para o ar.

- Homessa! - exclamou um dos rapazes ao lado de Sam.

- Agora! - gritou Sam e os rapazes precipitaram-se com ruído, brandindo as suas armas de emergência. Sam e o sargento acompanharam-nos, mas Cochrane atacou sozinho, correndo colina abaixo em ângulo reto com todos os demais.

Depois gerou-se uma confusão de gritos, os bastões subindo e a descendo, a pancada seca das estacas penetrando a carne Morta e o solo encharcado.

Sam sentiu tudo num frenesi estranho, tamanho emaranhado de som, imagens e emoção que não teve muita certeza do que acontecia. Pareceu sair deste concentrado de fúria e deu consigo a ajudar o mais novo dos Druitt a cravar uma estaca através do antebraço de uma criatura a contorcer-se. Mesmo com uma estaca em cada membro, ainda se debateu, partindo uma e quase se libertando, antes que alguns dos rapazes de reserva fizessem rolar inteligentemente um pedregulho para cima do braço solto.

Todos soltaram vivas,  percebeu Sam, recuando e limpando a chuva do rosto. Todos exceto ele, porque sentia mais Mortos, subindo a estrada e do outro lado da colina. Uma observação rápida mostrou que restavam três estacas e dois dos cinco bastões tinham-se partido.

- Afastem-se - ordenou, reprimindo os vivas. - Vêm mais a caminho.

Quando recuaram, Nick e o sargento aproximaram-se de Sam. Nick falou primeiro, perguntando baixinho:

- O que fazemos agora, Sam? Aquelas coisas estão se mexendo! Vão se libertar dentro de meia hora.

- As tropas do Perímetro estarão aqui antes deles - murmurou Sam, olhando para o sargento, que acenou afirmativamente. - O que me preocupa são os novos que aí vêm. A única coisa que me ocorre fazer...

- O quê? - perguntou Nick, quando Sam parou a meio da frase.

- São todos Mãos Mortas, não Mortos com livre-arbítrio - respondeu Sam. - Criadas recentemente. Os espíritos nelas são o que o necromante chamaria feitas à pressa, por isso não são nem poderosas nem inteligentes. Se eu conseguisse chegar ao necromante que as controla, provavelmente poderiam atacar-se umas às outras, ou andar em círculos. Umas quantas podiam até voltar para a Morte.

- Bem, vamos lá apanhar este necromante! - declarou Nick, todo orgulhoso. A sua voz era firme, mas não conseguiu deixar de olhar nervoso para o fundo da colina.

- Não é tão fácil assim - afirmou Sam distraidamente. A maior parte da sua atenção convergia para as Mãos Mortas que sentia à volta deles. Havia dez lá embaixo na estrada e seis em algum lugar do outro lado da colina. Ambos os grupos estavam formando linhas quebradas. Obviamente o necromante planejara que atacassem imediatamente, de ambos os lados.

- Não é tão fácil - repetiu Sam. - O necromante encontra-se em algum lugar lá embaixo, pelo menos fisicamente. Mas ele está com certeza na Morte, deixando o seu corpo protegido por uma fórmula ou alguma espécie de guarda-costas. Para alcançá-lo, terei de ir pessoalmente à Morte - e não tenho uma espada, nem sinos, nem nada.

- Ir à Morte? - perguntou Nick, a sua voz subindo meia oitava. Preparava-se, sem dúvida, para dizer algo mais, mas olhou para as Mãos empaladas no solo e calou-se.

- Não há sequer tempo para lançar um losango de proteção - murmurou Sam de si para si. Nunca antes chegara realmente a ir sozinho à Morte. Estivera lá apenas com a mãe, a Abhorsen. Agora desejava desesperadamente que ela estivesse ali. Mas não estava e não lhe ocorria nada mais que fazer. Quase com certeza conseguiria desenvencilhar-se sozinho, mas não podia abandonar os outros.

- Nick - disse ele, tomando uma decisão. - vou ter de ir à Morte. Enquanto lá estiver, não conseguirei ver nem sentir nada aqui. O meu corpo parecerá gelado, por isso vou precisar de você - e do senhor, sargento - para me guardarem o melhor que puderem. Pretendo voltar antes dos Mortos chegarem, mas se isso não acontecer, procurem retardá-los. Atirem bolas de críquete, pedras e tudo que encontrarem. Se não conseguirem detê-los, agarrem o meu ombro, mas de outro modo não me toquem.

- Entendido - respondeu Nick. Estava nitidamente intrigado e receoso, mas estendeu a mão. Sam tomou-a e apertaram as mãos, enquanto os outros rapazes os olhavam com curiosidade, ou olhavam a chuva. Apenas o sargento se mexeu, estendendo a sua espada a Sam, com o punho voltado para ele.

- Vai fazer-lhe mais falta do que a mim, senhor - disse ele. Depois, fazendo eco dos pensamentos do próprio Sam, acrescentou: - Quem me dera que a sua mãe estivesse aqui. Boa sorte, senhor.

- Obrigado - respondeu Sam, mas devolveu-lhe a espada. - Receio que só uma espada enfeitiçada possa me ajudar. Fique com ela.

O sargento concordou e aceitou a espada. Sam assumiu a posição de defesa de um pugilista e fechou os olhos. Procurou a fronteira entre a Vida e a Morte e encontrou-a com facilidade, sentindo por um momento a estranha sensação da chuva caindo-lhe pela parte de trás do pescoço enquanto o seu rosto era atingido pelo frio terrível da Morte, onde nunca chovia.

Exercendo toda a sua força de vontade, Sam avançou para o frio, fazendo o seu espírito atravessar para a Morte. Depois, sem um aviso, estava lá e o frio envolvia-o totalmente e não apenas o rosto. Abriu os olhos e viu a luz cinzenta uniforme da Morte e sentiu o puxão da corrente do rio nas suas pernas. Ao longe, ouviu o bramido do Primeiro Portão e estremeceu.

Na Vida, Nick e o sargento viram todo o corpo de Sam ficar de repente rígido. Surgiu um nevoeiro vindo de lugar nenhum, envolvendo-lhe as pernas como uma gavinha. Enquanto continuavam a olhar, formou-se gelo no rosto e nas mãos - uma camada gélida que não saiu com a chuva.

- Não sei muito bem se acredito no que estou vendo - murmurou Nick, ao desviar o olhar de Sam e fitá-lo nos Mortos que se aproximavam.

-  É melhor acreditar - respondeu o sargento em tom sinistro. - Porque te matarão, quer acredite neles quer não.

 

NA MORTE

Além do ruído distante da cascata que assinalava o Primeiro Portão, reinava o silêncio absoluto na Morte. Sam ficou quieto, mantendo-se próximo da fronteira com a Vida, escutando e olhando. Mas não conseguia avistar muito na estranha luz cinzenta que parecia achatar tudo e deformar a perspectiva. Tudo o que conseguia ver era o rio à sua volta, a água completamente escura à exceção do lugar onde brotava em rápidos brancos à volta dos seus joelhos.

Cuidadosamente, Sam começou a caminhar ao longo da própria beira da Morte, lutando contra a corrente que tentava sugá-lo para baixo e levá-lo dali. Calculou que o necromante estivesse também próximo da fronteira com a Vida, muito embora não houvesse garantia de que Sam estivesse indo na direção certa para encontrá-lo. Não tinha perícia suficiente para saber onde se encontrava na Morte em relação à Vida, exceto o ponto onde regressaria ao seu próprio corpo.

Deslocou-se muito mais cautelosamente do que o fizera da última vez que estivera na Morte. Fora há um ano, com a mãe, a Abhorsen, a seu lado. A sensação agora era muito diferente, pois estava sozinho e desarmado. Era certo que podia obter algum controle sobre os Mortos assobiando ou batendo as palmas, mas sem os sinos não poderia comandá-los nem bani-los. E, se era um Mago da Carta mais do que competente, este necromante podia perfeitamente ser um adepto da Magia Livre, suplantando-o por completo.

A sua única chance concreta seria avançar silenciosamente sobre o necromante e apanhá-lo desprevenido e isso só seria possível se o necromante estivesse completamente concentrado em descobrir e aprisionar espíritos Mortos. Pior ainda,  percebeu Sam, estava fazendo muito barulho caminhando em ângulos retos com a corrente. Por mais lentamente que tentasse deslocar-se, não podia evitar esparrinhar. Era também muito difícil, física e mentalmente, já que o rio puxava por ele e o enchia de pensamentos de cansaço e derrota. Seria mais fácil deitar-se e deixar que o rio o levasse; nunca conseguiria vencer...

Sam carregou o cenho e fez um esforço para continuar a caminhar, reprimindo a pressão mórbida sobre a sua mente. Continuava a não avistar o necromante e Sam começou a preocupar-se não fosse o inimigo não se encontrar sequer na Morte. Talvez se encontrasse ali na Vida naquele preciso momento, orientando os Mortos para o ataque. Nick e o sargento tudo fariam para proteger o seu corpo, Sam sabia-o, mas estariam indefesos perante a Magia Livre do necromante.

Por um momento, Sam pensou em regressar - depois, um som ligeiro fez convergir toda a sua atenção para a Morte. Ouviu uma nota pura e distante que pareceu longe de início mas avançava rapidamente na direção dele. Depois viu as ondas que acompanhavam o som, ondas que formavam um ângulo reto com o curso do rio - diretas a ele! Sam levou as mãos aos ouvidos, comprimindo as palmas contra a cabeça. Conhecia aquele chamamento prolongado e distinto. Provinha de Kibeth, o terceiro dos sete sinos. Kibeth, o Caminhador.

A nota única deslizou por entre os dedos de Sam e penetrou-lhe os ouvidos, enchendo-lhe a mente com a sua força e pureza. Depois a nota mudou e tornou-se toda uma série de sons que eram quase iguais, mas não. Juntos, formavam um ritmo que atacou os membros de Sam, puxando um músculo aqui e um músculo ali, empurrando-o para a frente, quer lhe agradasse quer não.

Desesperadamente, Sam tentou franzir os lábios, para assobiar uma contrafórmula ou mesmo apenas um ruído arbitrário que pudesse desfazer o chamamento do sino. Mas as suas faces não conseguiram se mover e as pernas caminhavam já pesadamente através da água, transportando-o rapidamente na direção da proveniência do som, na direção do manejador do sino.

Muito rapidamente, pois o rio viu a sua oportunidade na súbita falta de jeito de Sam. A corrente agitou-se e embrulhou-se nos pés de Sam. Apanhado numa perna, vacilou por um momento, depois tombou como um pino de boliche, caindo com estrondo no rio. O frio atacou-o como mil facas finas, por todo o corpo.

O chamamento de Kibeth foi interrompido naquele momento, mas continuava a prendê-lo, como se fosse um peixe num anzol. Kibeth tentava fazê-lo retroceder, apesar da corrente tentar por sua vez mantê-lo preso. O próprio Sam debateu-se apenas o suficiente para libertar a cabeça, conseguir inspirar ar antes de ser obrigado a respirar água. Mas os efeitos do sino e da corrente eram excessivos, prendendo-o numa luta na qual não conseguia controlar o seu corpo. E apesar de já não poder ouvir Kibeth, todo o seu corpo tremia, afetado pela força tremenda do Primeiro Portão, da cascata que o puxava mais para o fundo e para mais perto a cada segundo.

Desesperadamente, Sam impulsionou o rosto em direção à superfície e por um momento libertou-se e conseguiu respirar. Mas, nesse instante, ouviu o ruído do Portão atingir um crescendo. Estava muito perto, sabia e a qualquer momento seria levado através do Portão. Sem sinos, seria presa fácil para qualquer habitante do Segundo Recinto. Mesmo que lhes escapasse, provavelmente estava fraco demais para resistir à força do rio. Ele o levaria, seguindo sempre até ao Nono Portão e à morte derradeira que se situava depois dele.

Então, algo o agarrou pelo pulso direito e ele imobilizou-se subitamente, o rio bramindo e espumando impotentemente à sua volta. Sam quase lutou com o seu salvador, com medo do que pudesse ser, mas o receio do rio foi maior e precisava tão desesperadamente respirar que não conseguiu pensar em mais nada. Lutou simplesmente para obter um bom equilíbrio e deitar fora parte da água que lograra entrar-lhe para a garganta e os pulmões.

Percebeu então de que lhe saía vapor da manga e o pulso ardia. Gritou. Voltou a despertar nele o medo do seu captor e chegou a recear olhar e ver quem - ou o que - poderia ser. Lentamente, Sam ergueu a cabeça. Segurava-o o necromante que esperara poder surpreender. Um homem magro, calvo, que usava uma armadura de couro com placas de esmalte vermelho para reforço - e uma bandoleira de sinos sobre o peito.

Aqui na Morte, a Magia Livre ampliava a sua estatura, cobrindo-o com uma grande sombra de fogo e escuridão que acompanhava o movimento dele, transformando a sua presença em algo verdadeiramente terrível e cruel. O toque da sua mão empolou o pulso de Sam e ardiam chamas no lugar onde deveriam estar as córneas dos seus olhos.

Empunhava uma espada na mão esquerda, ao nível do pescoço de Sam, a lâmina afiada a escassos centímetros da sua garganta. Chamas escuras desceram lentamente pela lâmina como mercúrio e caíram na superfície do rio, onde continuaram a arder enquanto a corrente as levava.

Sam tossiu novamente, não porque necessitasse, mas para encobrir uma tentativa de alcançar a Carta. Mal começara, quando a espada se aproximou ainda mais, a fumaça acre da lâmina enfeitiçada obrigando-o a tossir de verdade.

- Não - disse o necromante, a sua voz transbordando de Magia Livre, o seu hálito trazendo o cheiro de sangue seco. Desesperadamente, Sam tentou pensar no que poderia fazer. Não conseguia alcançar a Carta nem lutar de mãos vazias contra aquela espada, não conseguia sequer se mexer, pois seu braço da espada era mantido ainda e impossivelmente imóvel pela força ardente do necromante.

- Regressará à Vida e me procurará - ordenou o necromante, a sua voz baixa e dura, extremamente confiante. Também não eram apenas palavras, percebeu Sam. Sentiu uma compulsão para fazer exatamente o que o necromante dissera. Era uma fórmula da Magia Livre - mas Sam sabia que ela não estaria completa enquanto não fosse selada com o poder de Saraneth, o sexto sino. E estava aí a sua oportunidade, porque o necromante teria de largar Sam ou embainhar a espada para segurar o sino.

“Solte-me”, desejou Sam ardentemente, tentando não contrair demais os músculos e denunciar as suas intenções. “Solte-me”.

Mas o necromante pdisse embainhar a espada e retirar o segundo maior sino com a mão direita. Saraneth, o Aprisionador. Com ele, subjugaria Sam à sua vontade, apesar de ser estranho querer que Sam voltasse à Vida. Normalmente, os necromantes não estavam interessados em servos vivos.

A pressão no pulso de Sam não abrandou. A dor ali era intensa, tão horrível que se tornara impossível de suportar e a sua mente decidiu impedir-lhe a entrada. Se não conseguisse ver ainda os dedos, teria se convencido de que a sua mão ficara completamente cauterizada no pulso.

O necromante abriu cuidadosamente a bolsa que continha Saraneth. Mas antes que conseguisse transferir a mão para agarrar o sino pelo badalo e retirá-lo, Sam atirou-se para trás e cruzou as pernas à volta da cintura do necromante.

Mergulharam ambos na água gelada, o necromante fazendo sair uma enorme coluna de vapor ao chocar com a água. Sam submergiu, a água enchendo-lhe de imediato a boca e o nariz, vencendo o último ar nos seus pulmões. Sentiu a carne das coxas ardendo, mesmo apesar do frio, mas não o largou. Sentiu o necromante torcer-se e virar-se para se libertar e viu, através dos olhos semicerrados, que, debaixo do rio, o necromante era uma forma de fogo e trevas, mais monstruosa e muito menos humana do que parecera antes.

Com a mão livre, Sam agarrou desesperadamente a bandoleira do necromante, tentando tirar-lhe um dos sinos. Mas eles causaram uma sensação estranha, as cabos de ébano picando ao seu toque, nada iguais ao mogno macio e protegido pela Carta dos sinos da mãe. Os seus dedos não conseguiram agarrar qualquer dos cabos, as suas pernas estavam sendo descerradas lentamente pela força inumana do necromante, a pressão no seu pulso era impiedosa - e quase não respirava.

Depois a corrente tornou-se mais rápida, apanhando ambos e envolvendo-os num rodopio vertiginoso, até Sam ficar sem saber para que lado se esticar para respirar. Depois foram arremessados para baixo - transpondo a cascata do Primeiro Portão. A cascata os fez girar maldosamente e a seguir estavam no Segundo Recinto e Sam já não conseguiu segurar mais o necromante. O homem libertou-se das pernas cruzadas de Sam e acotovelou-o selvagemente no estômago, retirando o último resto patético de ar dos seus pulmões numa explosão sufocada de bolhas.

Sam tentou responder, mas sugava água em vez de ar e a sua força quase desaparecera. Sentiu o necromante soltar-se e escapar, deslizando através da água como uma cobra e perdeu todo o pensamento exceto a necessidade desesperada de sobreviver. Um segundo depois, veio à superfície, tossindo violentamente, engolindo tanto água como ar. Ao mesmo tempo, esforçou-se por manter o equilíbrio na corrente e localizar o inimigo. Brilhou nele a esperança ao não avistar o necromante. E parecia estar perto do Primeiro Portão. Era difícil de dizer no Segundo Recinto, onde a qualidade da luz impossibilitava ver além daquilo que se conseguia tocar.

Mas Sam distinguiu a espuma da cascata e quando avançou aos tropeções, tocou na água que jorrava do Primeiro Portão e bastou lembrar-se qual era a fórmula que o deixaria passar. Pertencia a O Livro dos Mortos, que começara a estudar no ano anterior. Ao pensar nele, as páginas apareceram na sua mente, as palavras da fórmula da Magia Livre brilhando, prontas para ele as proferir.

Abriu a boca - e duas mãos ardentes desceram sobre os seus ombros, levando-o para o rio de cabeça. Desta vez não teve oportunidade de prender a respiração e o seu grito não passou de bolhas e espuma, mal perturbando o curso do rio.

Foi a dor que o trouxe de volta à consciência. A dor nos tornozelos e uma estranha sensação na cabeça. Levou um momento para perceber que ainda estava na Morte - mas regressara à fronteira com a Vida. E o necromante segurava-o de pernas para o ar pelos tornozelos, a água ainda saindo dos ouvidos e do nariz.

O necromante falava novamente, proferindo palavras de poder que envolveram Sam como faixas de aço. Sentiu-as pressionando-o, tornando-o seu prisioneiro, e soube que devia tentar resistir. Mas não foi possível. Mal conseguia manter os olhos abertos, bastando aquela insignificância para lhe retirar a força de vontade e a energia que lhe restavam.

O necromante continuava ainda a falar, as palavras serpenteando à volta dele, até que Sam compreendeu finalmente o único aspecto mais importante: o necromante estava mandando-o de volta à Vida e este aprisionamento destinava-se a certificar-se de que ele fazia o que lhe diziam. Mas o aprisionamento não importava. Nada importava, exceto que ia voltar para a Vida. Não lhe interessava que na Vida tivesse de cumprir algum desígnio terrível do feiticeiro. Ia voltar para a Vida...

O necromante soltou um tornozelo e Sam balançou como um pêndulo, a cabeça roçando apenas a superfície do rio. O necromante parecia ter-se tornado muito maior, pois não segurava o braço muito alto. Ou talvez, Sam pensou obtusamente devido à dor e ao choque, fosse ele que encolhera.

- Você virá até mim na Vida, perto do lugar onde a estrada se afunda e as sepulturas estão abertas - ordenou finalmente o necromante, quando a fórmula se instalou tão firmemente em Sam que ele se sentiu como uma mosca apertada por uma aranha. Mas tinha de ser selada com Saraneth. Sam tentou debater-se ao ver o sino aparecer, mas o seu corpo não reagiu. Procurou alcançar a Carta, mas, em vez do conforto fresco do fluxo infinito de marcas, sentiu um redemoinho enorme de fogo vivo, um turbilhão que ameaçou mutilar a sua mente tal como o seu corpo fora já queimado.

Saraneth soou, profundo e cavo, e Sam gritou. Algum instinto ajudou-o a atingir a única nota que estaria mais em dissonância com o sino. O grito atravessou o tom de comando de Saraneth e o sino vibrou na mão do necromante, tornando-se estranhamente estridente e roufenho. Soltou imediatamente Sam, a sua mão livre silenciando o badalo, pois um sino que falhasse podia ter consequências desastrosas para o seu manejador.

Quando o sino finalmente se silenciou, o necromante convergiu de novo a sua atenção para o rapaz. Mas não havia sinal dele, nem nenhuma chance da corrente o ter feito sumir tão depressa.

 

NICHOLAS E O NECROMANTE

Sam regressou à Vida e ouviu o tap-tap-tap dos disparos de metralhadora e viu a paisagem ficar em preto e branco devido ao brilho intenso dos pára-quedas luminosos que desciam lentamente através da chuva.

O gelo estalou quando se moveu, a camada nas suas roupas fendendo-se em estranhos padrões. Deu meio passo em frente e caiu de joelhos, soluçando com a dor e o choque enquanto os seus dedos esgaravatavam a terra lamacenta, procurando conforto na sensação da Vida.

Lentamente, percebeu que havia braços à sua volta e pessoas falando. Mas não conseguia ouvir bem, porque as palavras do necromante não paravam de lhe martelar na cabeça, dizendo-lhe o que tinha de fazer. Tentou falar, entre dentes que batiam de frio, imitando inconscientemente o ritmo da metralhadora.

- Necromante... estrada afundada... perto sepulturas - proferiu hesitantemente, não sabendo o que dizia ou com quem falava. Alguém lhe tocou no pulso e gritou, a dor cegando-o mais do que os pára-quedas que continuavam a iluminar-se lá em cima no céu. Então, depois da claridade veio a escuridão súbita. Sam desmaiara.

- Ele está ferido - disse Nick, reparando nas marcas de dedos empoladas no pulso de Sam. - Apresenta queimaduras.

- O quê? - perguntou o sargento. Olhava para a vertente, observando os projéteis vermelhos disparados descrevendo arcos baixos vindos da colina vizinha até ao longo da estrada. De vez em quando, um era acompanhado do estrondo, zunido e clarão ofuscante súbitos do fósforo branco. Manifestamente, as tropas do Perímetro estavam abrindo caminho até o lugar onde o sargento e os rapazes se encontravam. O que preocupava o sargento era a forma como os metralhadores dirigiam o seu fogo para a esquerda e para a direita da estrada.

- Sam está queimado - respondeu Nick, incapaz de desviar os olhos das marcas lívidas no pulso do amigo. - Temos de fazer alguma coisa.

- Claro que temos - disse o sargento, subitamente de novo sem rosto quando o último pára-quedas desapareceu. - Os rapazes lá embaixo estão a empurrar os Mortos na nossa direção - e eles devem pensar que estamos arrumados, porque não estão sendo nada cuidadosos. Se não fugirmos agora, daqui a pouco seremos alvos das descargas.

Como se para acentuar a sua observação, outro pára-quedas luminoso subiu por cima deles e uma súbita saraivada de projéteis luminosos rebentou por cima das suas cabeças com um silvo e um estalido. Todos se encolheram e o sargento gritou:

- Para baixo! Deitem-se!

Com a luz do novo pára-quedas, Nick viu sombras escuras emergirem das árvores e começarem a subir a colina, o seu característico andar desajeitado mostrando o que eram. Ao mesmo tempo, um dos rapazes mais do outro lado da colina gritou:

- Eles estão vindo por trás! Montes de...

O que quer que fosse dizer foi abafado por mais fogo de metralhadora, longos disparos de projéteis luminosos que traçaram linhas de luz vermelha através dos Mortos, atingindo-os sem dúvida muitas vezes. Estremeceram e vacilaram sob os múltiplos impactos, mas continuaram a avançar.

- Nós os apanhamos de enfiada daquela colina - disse o sargento.

- Mas eles chegarão aqui antes que as metralhadoras consigam desfaze-los. E nós seremos também despedaçados.

Falou devagar, quase embotado, e Nick  percebeu que não conseguia pensar - que o seu cérebro ficara saturado com o perigo e não conseguia enfrentar a situação.

- Não há maneira de avisarmos os soldados? - gritou acima de mais outra série de disparos. Tanto as silhuetas escuras dos Mortos como a luz momentânea das linhas móveis de projéteis luminosos avançavam para eles a um ritmo inexorável, como algo lento mas imparável, um instrumento hipnótico do destino.

Uma linha de projéteis luminosos subiu mais em direção a eles e as balas fizeram ricochete na pedra e na terra, assobiando ao passarem pela cabeça de Nick. Comprimiu-se mais contra a lama e puxou também Sam mais para perto de si, protegendo o seu amigo desmaiado com o seu próprio corpo.

- Não podemos avisar? - repetiu Nick freneticamente, a sua voz abafada, a boca tocando a terra.

O sargento não respondeu. Nick olhou para o lado e viu que não se mexia. O seu boné com faixas vermelhas caíra e a cabeça era uma poça de sangue, negro com a luz do projétil. Nick não pôde dizer se ainda respirava. Com hesitação, estendeu a mão para o sargento, empurrando o braço pela lama, visões medonhas de balas esmigalhando o osso fazendo-o manter-se o mais baixo possível. Os seus dedos tocaram em metal, o punho da espada do homem. Teria estremecido e retirado a mão, mas naquele momento alguém gritou atrás dele, um grito de tamanho terror que os seus dedos agarraram convulsivamente a arma.

Virando-se, viu um dos rapazes em silhueta, lutando com uma figura maior. Agarrara-o pelo pescoço e sacudia-o como um batido de leite.

Sem pensar que podia ser alvejado, Nick pôs-se em pé para ajudar. No momento em que o fez, outros rapazes saltaram também, batendo na Mão Morta com bastões, estacas e pedras.

Passados segundos fora derrubada e trespassada, mas não com rapidez suficiente para salvar a sua vítima. O pescoço de Harry Benlet estava quebrado e nunca mais voltaria a derrubar três wickets numa só tarde, ou a saltar por cima das mesas na sala dos exames de Somersby só pelo gozo que isso dava.

A luta com a Mão levara-os para o alto da colina e ali Nick viu que havia Mortos de ambos os lados. Apenas os que se encontravam na vertente da frente estavam sendo retardados pelos disparos de metralhadora. Conseguia ver de onde os soldados disparavam e distinguir grupos deles. Havia diversas metralhadoras na colina vizinha e pelo menos uma centena de soldados avançava por entre as árvores de cada lado da estrada. Enquanto Nick observava, viu uma linha de projétil luminoso virar subitamente na direção deles e parar subitamente. Estava muito longe para ver claramente com a chuva, mas Nick percebeu que a arma apenas parara para recarregar ou mudar o tripé, enquanto os soldados a deslocavam rapidamente. Obviamente que tinham visto um alvo: figuras em silhueta no alto da colina.

- Venham! - gritou, descendo a vertente da colina semiacocorado. Os outros seguiram-no numa corrida louca que terminou apenas quando vários rapazes colidiram uns com os outros e se estatelaram. Um momento depois, o projétil disparado de cima e a colina explodiram numa pulverização de água, lama e balas em ricochete.

Instintivamente, Nick abaixou-se, apesar de estar bem no fundo da vertente. Naquele segundo,  percebeu três fatos terríveis: que deixara para trás Sam, no meio da colina, que era absolutamente imperioso avisar os soldados para não serem alvejados e mesmo que continuassem em movimento, os Mortos os apanhariam antes dos soldados darem cabo dos Mortos.

Mas com aquelas horríveis percepções veio a energia súbita e uma determinação que Nick nunca soubera possuir, uma clareza de espírito que nunca antes sentira.

- Ted, tire os teus fósforos - ordenou, sabendo que Ted fazia questão de fumar cachimbo, apesar de ser péssimo nisso. - Todos os outros, arranjem algo que esteja seco e que seja combustível. Papel, qualquer coisa!

Todos se reuniram enquanto ele falava, os seus rostos transidos de medo revelando a ansiedade de fazer algo. Apareceram cartas, cartas de jogar com os cantos dobrados e, após um momento de hesitação, páginas rasgadas de um caderno de apontamentos que até ali contivera o que o seu proprietário imaginava ser a sua prosa imortal. Depois surgiu o melhor de tudo, uma minigarrafa de conhaque pertencente, imagine-se, ao mais novo dos Minor, uma pessoa muito atilada.

Os três primeiros fósforos apagaram-se com a chuva, fazendo aumentar a ansiedade geral. Depois, Ted serviu-se do boné para proteger o fogo. Acendeu na perfeição, tal como o papel embebido em conhaque. Elevou-se um fogo brilhante, de chamas cor de laranja misturadas com o azul do conhaque, trazendo de novo cor à paisagem monocroma, iluminada pela sucessão aparentemente infinita de pára-quedas luminosos.

- Muito bem - disse bruscamente Nick. - Ted, você e Mike voltem a rastejar e tragam para Sam para cá! Afastem-se do cume. E tenham cuidado com os pulsos dele - ele está queimado.

- O que você vai fazer? - perguntou Ted, hesitando quando mais rajadas de projéteis luminosos voaram pela colina e granadas fosforosas brancas explodiram ao longe. Via-se que estava com medo de ir, mas não queriam admitir.

- Vou tentar descobrir o necromante, o homem que controla essas coisas - disse Nick, brandindo a espada. - Sugiro que todos os demais comecem a cantar, para que o Exército saiba que está aqui gente de verdade, perto do fogo. Terão também de afastar as criaturas, muito embora eu vá tentar fazer as mais próximas virem atrás de mim.

- Cantar? - perguntou o mais novo dos Minor. Parecia bastante calmo, possivelmente porque bebera metade do conteúdo da minigarrafa antes de entregá-la. - Cantar o quê?

- O hino do colégio - respondeu Nick por cima do ombro, começando a descer a colina. - Provavelmente será a única coisa que todos conhecem.

Para se desviar do caminho das metralhadoras, Nick contornou a colina correndo, antes de descer, em direção aos Mortos, que estavam agora por trás da sua posição inicial. Ao fazê-lo, agitou a espada por cima da cabeça e gritou, palavras sem sentido que se perderam parcialmente no constante trepidar das metralhadoras.

Ia a meio caminho das Mãos mais próximas quando o canto começou, suficientemente alto para ser ouvido acima dos disparos de metralhadora, os rapazes cantando com um volume superior ao que o maestro do coro de Somersby teria julgado possível. Partes da letra chegaram até Nick quando fingiu uma curva à esquerda defronte das Mãos e depois correu direto, virando para as árvores e a estrada.

- Segue o caminho tomado pela honra...

Diminuiu para se desviar de um tronco de árvore. Estava muito mais escuro entre as árvores, a luz dos pára-quedas atenuada pela folhagem por cima. Nick arriscou olhar para trás e ficou satisfeito e aterrorizado ao ver que, pelo menos, alguns dos Mortos tinham virado e seguiam-no. O terror era a emoção mais forte, fazendo-o correr mais depressa por entre as árvores do que o bom senso aconselhava.

- Joga o jogo por ele mesmo...

As palavras do hino do colégio foram subitamente interrompidas quando Nick abandonou as árvores, bateu num muro de pedra, tropeçou nele e caiu cerca de dois metros abaixo na estrada afundada. A espada saltou-lhe da mão e as palmas derraparam no asfalto, que arrancou a maior parte da pele.

Ficou estendido na estrada por um momento, se  recuperando, depois começou a levantar-se. Estava de gatas quando percebeu que alguém se encontrava de pé à sua frente. As botas de couro, com placas de metal nos joelhos, fizeram barulho quando quem quer que fosse se aproximou.

- Afinal, você veio como ordenei, mesmo sem Saraneth para selar a promessa - disse o homem, a sua voz de certa forma eliminando todos os outros sons que tinham enchido os ouvidos de Nick. Disparos de metralhadora, explosões de granadas, o canto - desaparecera tudo. Apenas conseguia ouvir aquela voz terrível, uma voz que o enchia de um medo indescritível.

Nick começara a erguer a cabeça quando o homem falou, mas agora tinha medo de olhar. Instintivamente, soube que este era o necromante que tão tolamente procurava. Agora só conseguia manter-se cabisbaixo, a pala do seu boné de críquete escondendo-lhe o rosto do que sabia ser um olhar terrível.

- Levante a sua mão - ordenou o necromante, as palavras tão penetrantes como arames em brasa enfiados no cérebro de Nick. Lentamente, o rapaz ajoelhou-se como se numa prece, a cabeça ainda descaída - e estendeu a mão direita, ensanguentada da queda.

 A mão do necromante veio lentamente ao encontro dela, a palma para fora. Por um momento, Nick pensou que fosse lhe apertar a mão e chegou a pensar no desenho das terríveis queimaduras nos pulsos de Sam. Um desenho de marcas de dedos! Mas não se conseguiu mexer. O seu corpo estava preso no lugar pelo poder das palavras do necromante.

A mão do necromante parou a vários centímetros e algo estremeceu debaixo da pele da sua palma, como um parasita tentando sair. Depois libertou-se, um pedaço de metal prateado que se dirigiu lentamente para a mão aberta de Nick. Ficou suspenso por outro segundo, depois, subitamente, venceu o intervalo.

Nick sentiu-o bater-lhe na mão, sentiu-o penetrar-lhe na pele e entrar na sua corrente sanguínea. Gritou, o seu corpo contorcendo-se em convulsões e, pela primeira vez, o necromante viu-lhe o rosto.

- Você não é o Príncipe! - gritou o necromante e a sua espada brilhou no ar, direta ao pulso de Nick. Mas parou bruscamente, a menos de um dedo de distância, quando as convulsões cessaram e o rapaz olhou para ele calmamente, levando a mão ao peito.

Dentro daquela mão, o pedaço de metal antigo deslocava-se, vencendo o complexo percurso das veias do rapaz. Era fraco ali, do lado errado da Muralha, mas suficientemente forte para alcançar o seu principal destino.

Atingiu o coração de Nicholas Sayre um minuto depois e alojou-se ali. Passado um outro minuto, começaram a sair-lhe da boca baforadas de espessa fumaça branca.

Hedge aguardou, vendo a fumaça. Mas a fumaça branco dissipou-se subitamente e Hedge sentiu o vento virar para leste e o seu próprio poder diminuir. Ouviu o som de muitas botas cardadas mais acima na estrada e o zunido de um projétil luminoso disparado por cima da sua cabeça.

Hedge hesitou por um momento, depois subiu o talude com destreza inumana, até às árvores. Espreitando dali, viu os soldados aproximarem-se cautelosamente do rapaz desmaiado. Alguns tinham carabinas com baionetas fixas e dois deles metralhadoras Lewin leves. Estes não constituíam uma ameaça para Hedge, mas havia outros ali, aqueles que empunhavam espadas características ostentando marcas da Carta brilhantes e escudos que apresentavam o símbolo dos Batedores do Perímetro. Estes homens tinham a marca da Carta nas suas testas e eram experientes Magos da Carta, mesmo que o Exército negasse a existência de semelhante coisa.

Eram em número suficiente para o afastarem, Hedge sabia. As suas Mãos Mortas tinham também desaparecido quase todas, quer imobilizadas de alguma forma que não compreendia ainda, quer repelidas para a Morte quando os seus corpos recém-ocupados tinham ficado muito danificados para as susterem.

Hedge pestanejou, mantendo os olhos fechados durante um segundo inteiro - o único reconhecimento de que o seu plano correra mal. Mas estivera quatro anos em Ancelstierre e os seus outros planos estavam em marcha. Voltaria por causa do rapaz.

Enquanto Hedge corria para a escuridão, os maqueiros apanharam Nick, um jovem oficial convenceu os alunos na colina de que podiam realmente parar de cantar e Ted e Mike tentaram contar a Sam, que acabara de se recobrar, o que acontecera enquanto um médico do Exército examinava as queimaduras nos seus pulsos e pernas e preparava uma injeção de morfina.

 

A MÃO CURADORA DE UM PAI

O hospital de Bain era relativamente novo, construído seis anos antes, quando viera de repente do Sul uma febre de reforma hospitalar. Mesmo em apenas seis anos, muitas pessoas tinham morrido ali e ficava suficientemente perto da Muralha para se manter ativa a sensação que Sam tinha da Morte. Enfraquecido pela dor e pela morfina que lhe estavam ministrando para o efeito, Sam não conseguia afastar a sua sensação da Morte. Estava sempre perto, enchendo-lhe os ossos com o seu frio gélido, fazendo com que tremesse constantemente e os médicos lhe aumentassem a medicação.

Sonhava com criaturas que viriam da Morte para acabar o que o necromante começara e não conseguia acordar dos sonhos. Quando despertava, via com frequência o mesmo necromante aproximando-se silenciosamente dele e não parava de gritar até a enfermeira, de quem realmente se tratava, lhe dar outra injeção e desencadear de novo o ciclo de pesadelos.

Sam padeceu deste mal quatro dias, ganhando e perdendo a consciência, sem nunca realmente acordar e nunca perder a sensação da Morte e o medo de que ela se fazia acompanhar. Por vezes, estava suficientemente lúcido para perceber que Nick se encontrava ali também, na cama do lado, as mãos envoltas em ligaduras. Por vezes trocavam algumas palavras, mas não era uma conversa, dado que Sam não estava em condições de responder a perguntas nem de prosseguir qualquer conversa que Nick tivesse entabulado.

No quinto dia, tudo mudou. Sam foi novamente acometido de um pesadelo, mais uma vez na Morte, enfrentando um necromante que era muitas coisas ao mesmo tempo, simultaneamente dentro, debaixo e acima da água. Sam corria, caía e afogava-se, como acontecera realmente, e depois veio a pressão no pulso... mas desta vez não era no pulso, era no ombro e era fresca e reconfortante. Uma pressão que de certa forma o tirou do pesadelo, fazendo-o subir a um céu que era todo ele marcas da Carta e sol.

Quando Sam abriu os olhos, conseguiu ver com clareza pela primeira vez, a sua visão liberta da névoa e das vertigens das drogas. Sentiu dedos pousados de leve no seu pescoço, nas pulsações ali e soube que era a mão do pai, antes mesmo de erguer sequer o olhar. Touchstone estava ao seu lado, de olhos fechados enquanto canalizava uma fórmula curadora para o corpo do filho, as marcas brilhando sob os seus dedos ao abandonarem-no e entrarem em Sam.

Sam olhou para Touchstone, grato por os olhos do pai estarem fechados e não poder ver o alívio patético no rosto do filho, ou as lágrimas que se apressou a limpar. A Magia da Carta conferia-lhe calor pela primeira vez em dias. Sam sentiu as marcas expulsando as drogas da sua corrente sanguínea, enquanto se encarregavam de acalmar a dor das suas queimaduras. Mas foi a mera presença do pai que afastou o medo da Morte. Conseguia sentir ainda a Morte, mas de forma difusa e distante e já não tinha medo.

O Rei Touchstone I terminou a fórmula e abriu os olhos. Eram cinzentos, como os do filho, mas os de Touchstone estavam agora mais perturbados e notava-se neles o cansaço. Lentamente, retirou a mão do pescoço de Sam.

Quase se abraçaram até Sam ver que se encontravam na enfermaria dois médicos, quatro dos guardas de Touchstone e dois oficiais do Exército ancelstierrano, bem como toda uma multidão de polícias, soldados e oficiais ancelstierranos reunidos no corredor, espreitando lá para dentro. Assim, Sam e Touchstone agarraram antes os antebraços um do outro, Sam sentando-se na cama. Apenas a firmeza do aperto de Sam e a sua relutância em se soltar indicavam até que ponto estava satisfeito por ver o pai.

Ambos os médicos ficaram surpresos por verem Sam consciente e um foi verificar à papeleta aos pés da cama para afirmar que o doente estivera realmente recebendo morfina por via intravenosa durante dias.

- Realmente, isto é impossível! - começou o médico, até um olhar frio dos guardas de Touchstone o convencer de que aquela conversa era desnecessária. Um movimento ainda mais ligeiro convenceu-o de que a sua presença também não era necessária e retirou-se para a porta. Tal como o Rei, os guardas vestiam todos roupas de três peças de um discreto cinzento-antracite, de modo a não alarmarem as delicadas sensibilidades ancelstierranas. Este efeito era apenas ligeiramente estragado pelo fato de trazerem também espadas, mal disfarçadas nos impermeáveis enrolados.

- A comitiva - disse Touchstone com secura, vendo Sam olhar para todas as pessoas no corredor. - Disse-lhes que viera aqui apenas com caráter particular para visitar o meu filho, mas ao que parece até isso requer uma escolta oficial. Espero que se sinta capaz de montar. Se permanecermos aqui mais tempo, serei certamente abordado por alguma comissão ou algum político.

- Montar? - perguntou Sam. Teve de dizer duas vezes, a sua garganta inicialmente muito fraca para proferir a palavra. - vou deixar o colégio antes do final do período?

- Sim - respondeu Touchstone, mantendo a voz baixa. - Quero-o em casa. Ancelstierre já não é um local seguro. A polícia daqui apanhou o condutor do seu ônibus. Foi subornado, e subornado com moedas de prata do Reino Antigo. Pelo visto, um dos nossos inimigos descobriu uma maneira de trabalhar de ambos os lados da Muralha. Ou pelo menos descobriu como gastar dinheiro em Ancelstierre.

- Acho que estou suficientemente bom para montar - disse Sam, enrugando a testa. - Quer dizer, não sei se estou realmente ferido. Dói-me o pulso...

Parou e olhou para a ligadura que tinha no pulso. Continuavam a mover-se marcas da Carta à volta da ligadura, saindo pelos seus poros como suor dourado. Curando-o,  percebeu Sam, pois o seu pulso estava realmente apenas dolorido no lugar onde anteriormente tivera dores insuportáveis e o incômodo das queimaduras menores nas coxas e tornozelos desaparecera por completo.

- A ligadura já pode sair agora - afirmou Touchstone e começou a retirá-la. Ao desenrolá-la, aproximou ainda mais a cabeça de Sam e murmurou: - Você não foi gravemente ferido no corpo, Sam. Mas sinto que sofreu ferimentos no espírito. Levarão tempo a sarar, pois está fora do meu alcance repará-los.

- O que quer dizer? - perguntou Sam, cheio de ansiedade. Sentia-se subitamente muito jovem, nada como o Príncipe quase adulto que devia ser. - A mãe não consegue repará-los?

- Não me parece - disse Touchstone, apoiando a mão no ombro de Sam, as pequenas cicatrizes brancas de anos de prática de esgrima e lutas de verdade brilhando sobre os nós dos dedos com a luz do hospital. - Mas desconheço também a sua natureza, apenas sei que aconteceram. Diria que, como consequência da tua ida à Morte sem estar preparado nem protegido, algum pequeno fragmento do seu espírito foi sugado. Não muito, mas o suficiente para te fazer sentir-se mais fraco, ou mais lento... basicamente menos do que a sua forma habitual. Mas voltará com o tempo.

- Não devia ter feito, não é? - murmurou Sam, olhando para o rosto do pai, procurando alguma austeridade ou sinal de reprovação. - A mãe está furiosa comigo?

- Claro que não - disse Touchstone, surpreso. - Fez o que julgou necessário para salvar os outros, o que foi simultaneamente um ato de coragem e segundo as melhores tradições de ambos os lados da família. Sua mãe está mais preocupada contigo do que outra coisa.

- Nesse caso, onde é que ela está? - perguntou Sam, antes que conseguisse se deter. Era uma pergunta petulante e mal a sua boca se fechou, desejou não a ter feito.

- Aparentemente, um Mordaut anda atormentando o barqueiro de Oldmond - explicou pacientemente Touchstone, tal como explicara tantas das ausências forçadas de Sabriel ao longo da infância de Sam.

- Fomos informados assim que chegamos à Muralha. Ela levou a Asa de Papel e foi resolver o assunto. Se encontrará conosco em Belisaere.

- Se não tiver de ir a outro lugar - respondeu Sam, sabendo que estava sendo amargo e infantil. Podia ter morrido e ao que parecia isso não fora suficiente para a mãe vir vê-lo.

- A menos que tenha de ir a outro lugar - concordou Touchstone, calmo como sempre. O pai esforçava-se por manter a calma, Sam sabia, pois corria nele o velho sangue guerreiro e Touchstone receava que ele fervesse.

A única vez que Sam vira aquela fúria fora quando um falso embaixador de um dos clãs do Norte tentara apunhalar Sabriel com um trinchante num jantar formal no Palácio. Touchstone, rugindo como uma espécie de animal feroz terrível, pegara o bárbaro de um metro e oitenta de altura e arremessara-o mesa fora, para cima de um cisne assado. Todos ficaram muito mais assustados com aquilo do que com a tentativa de assassinato, em particular quando Touchstone tentara pegar o trono duplo e atirá-lo para cima do homem. Felizmente, falhara e acabara por se acalmar quando Sabriel lhe acariciara, a testa no momento em que puxava às cegas a base de mármore do trono.

Sam recordou esta cena no momento em que as pálpebras do pai se cerraram ligeiramente e lhe surgiu uma ruga na testa.

- Desculpe - balbuciou Sam. - Sei que ela tem de fazer. Sendo a Abhorsen e tudo.

- Sim - disse Touchstone e Sam ficou com uma pequena idéia dos profundos sentimentos do pai a respeito das muitas e frequentes ausências que as lutas de Sabriel com os Mortos implicavam.

- Nesse caso, é melhor me vestir - sugeriu Sam e colocou as pernas para fora da cama. Só então reparou que a cama do lado estava vazia e feita.

- Onde está Nick? - perguntou. - Ele estava ali, não estava? Ou será que sonhei com isso?

- Não sei - disse Touchstone, que conhecera o amigo do filho em visitas anteriores a Ancelstierre. - Ele não estava aqui quando chegamos. Doutor! Nicholas Sayre esteve nesta cama?

O médico apressou-se a vir. Não sabia quem era esta visita estranha mas obviamente importante, ou sequer quem era o doente, dado que o Exército insistira no segredo e que apenas fossem usados os nomes próprios. Desejava agora não ter ouvido o sobrenome do doente, dado que o nome Sayre não lhe era de todo desconhecido. Mas o Primeiro-Ministro não tinha um filho daquela idade, por isso o sujeito só podia ter sido um primo ou algo assim, o que era um alívio.

- O doente Nicholas X - disse ele, acentuando o ”X” -, teve alta e foi levado ontem por um dos funcionários confidenciais dos pais. Sofrera apenas um ligeiro choque e algumas escoriações.

- Não me deixou uma mensagem? - perguntou Sam, surpreso por o amigo não ter tentado comunicar de alguma forma.

- Não creio - começou a dizer o médico, quando foi interrompido por uma enfermeira que abria caminho através das filas compactas de azul, caqui e cinzento no corredor. Era bastante jovem e bonita, com extraordinário cabelo ruivo não muito bem escondido debaixo da sua touca imaculada.

- Ele deixou uma carta, Altezas - disse ela, com a pronúncia característica do Norte. Obviamente natural de Bain, sabia exatamente quem eram Sam e Touchstone, para enorme contrariedade do médico. Este tirou-lhe com desdém a carta que ela lhe estendia e entregou-a a Sam, que a abriu imediatamente.

De início não reconheceu a caligrafia, depois percebeu que era de Nick, só que as letras individuais eram muito maiores e os floreados menos regulares. Num instante, percebeu que se devia ao fato de Nick estar escrevendo com as mãos envoltas em ligaduras.

 

Caro Sam,

Espero que melhore rapidamente para ler esta carta. Parece que já me recuperei, muito embora admita que os acontecimentos da nossa noite incomum estão um tanto confusos. Calculo que não saiba que decidi procurar o tal necromante com quem teve o primeiro encontro, lá onde foi que esteve. Infelizmente, com o escuro e a chuva e talvez um pouquinho de energia a mais nos meus pés, tudo o que consegui foi cair na estrada afundada e ficar desmaiado. Felizmente não quebrei nada, dizem os médicos, apesar de ter umas equimoses interessantes. No entanto, não conto que as debutantes lá em Corvere estejam tão preparadas para as verem como a Enfermeira Moulin!

Soube que o Exército contactou o seu pai e ele vem para te levar para casa, por isso não vai acabar o período. Devo dizer que também não me importo, pois já consegui vaga em Sunbere. Não será o mesmo sem você, ou o pobre Harry Benlet. Ou mesmo Cochrane. Encontraram-no na manhã seguinte a oito quilômetros dali, aparentemente fora de si e espumando e a esta hora deve estar internado no Hospital Especial de Smithwen. Claro que já devia estar lá há muitos anos.

Na verdade, estava pensando ir visitá-lo ao seu misterioso Reino Antigo antes de ir para a faculdade na próxima Primavera. Admito que o meu interesse científico foi aguçado por aqueles cadáveres aparentemente animados e a sua própria exibição do que quer que fosse. Tenho certeza de que o considera magia, mas conto poder vir a explicar tudo com a devida aplicação do método científico. Espero conseguir fazê-lo, claro. A Teoria da Surrealidade de Sayre. Ou a Lei da Explicação Mágica de Sayre.

O hospital é uma seca, em particular se o nosso companheiro de enfermaria não consegue levar a cabo uma conversa. Por isso, irá desculpar-me a partida. Onde é que eu ia? Oh, sim, as experiências no Reino Antigo. Calculo que a razão por que ninguém desenvolveu ainda o trabalho científico correto se deve ao Exército. Quem acreditaria que nada menos do que um coronel e dois capitães estiveram aqui ontem, querendo que eu assinasse a Lei dos Segredos de Estado e uma declaração em como nunca falaria ou escreveria sobre os recentes acontecimentos estranhos próximo do Perímetro? Esqueceram a linguagem gestual, por isso acho que vou informar um jornalista surdo quando regressar.

Claro que não o farei. Pelo menos não até ter algo melhor que contar ao mundo - alguma descoberta verdadeiramente grande.

Os oficiais queriam que você assinasse também, mas como não estava com disposição para fazê-lo, limitaram-se a esperar e a zangar-se uns com os outros. Depois, disse-lhes que você não era um cidadão de Ancelstierre e eles ficaram intrigados e tiveram uma grande discussão lá fora com o tenente encarregado dos guardas. Algo me diz que eles não estão a par da situação, uma vez que eram dos Assuntos Legais de Corvere e os guardas lá fora pertencem aos Batedores do Perímetro. Interessou-me registrar que os últimos pertencem à sua estranha religião, com a marca da casta ou lá o que é nas testas. Não que a sociologia seja realmente o meu campo de interesse, apresso-me a acrescentar.

Agora tenho de ir. Os velhos enviaram um tal subsecretário particular do alto-secretário do camareiro, o tipo de fulano pessoal e particular, para vir me buscar e conduzir ao Tribunal de Amberne. Ao que parece, meu pai está muito ocupado com o problema dos refugiados sulistas e o tio Edward precisa do apoio dele blá blá blá, para variar. Provavelmente, minha mãe teve um jantar beneficente ou algo igualmente cativante. Escreverei em breve para podermos combinar a minha visita. Espero ter tudo preparado daqui a dois meses, três no máximo.

Força!

Nick, o misterioso doente X

 

Sam dobrou a carta, sorrindo. Pelo menos Nick saíra daquela noite medonha sem qualquer mal verdadeiro e com o seu sentido de humor intacto. Era típico dele que os Mortos apenas tivessem despertado o seu interesse científico e não um medo muito mais compreensível.

- Tudo bem? - perguntou Touchstone, que aguardara pacientemente. Pelo menos metade dos mirones perdera o interesse, viu Sam, retirando-se mais para o fundo do corredor e longe da vista, onde podiam conversar à vontade.

- Pai - disse Sam -, trouxe as minhas roupas? O meu equipamento do colégio deve ter se estragado.

- Damed, o saco, por favor - pediu Touchstone. - Todos os outros, retirem-se, por favor, se não se importam.

Como dois rebanhos de carneiros que têm dificuldade em se misturar, as pessoas que restavam na enfermaria tentaram sair enquanto as pessoas no corredor procuravam ajudar e na verdade só dificultaram. Por fim, saíram todos, exceto Damed - o principal guarda-costas de Touchstone, um homem pequeno e magro que se movia com uma rapidez alarmante. Darned entregou uma mala de viagem rígida antes de sair e fechar a porta.

Havia na mala roupas ancelstierranas, obtidas - tal como as de Touchstone e as dos guardas - no consulado do Reino Antigo.

- Vista estas agora - disse Touchstone. - Mudaremos de roupas no Perímetro. Voltaremos às nossas roupas práticas.

- Cota de malha e elmo, botas e espada - disse Sameth, despindo pela cabeça a bata do hospital.

- Sim - respondeu Touchstone. Hesitou, depois disse: - Isso o incomoda? Acho que podia ir antes para sul. Tenho de regressar ao Reino. Mas podia ficar seguro em Corvere...

- Não! - protestou Sam. Queria ficar com o pai. Queria sentir o peso enorme da cota de malha e o botão do punho da espada sob a palma da sua mão. Mas, acima de tudo, queria estar com a mãe em Belisaere. Porque só então se sentiria realmente a salvo da Morte... e do necromante que, com certeza, estava naquele momento no rio frio, aguardando o regresso de Sam.

 

AS IDÉIAS DE ELLIMERE A RESPEITO DA EDUCAÇÃO DOS PRÍNCIPES

Após duas semanas de árduo cavalgar, mau tempo, comida medíocre e músculos doloridos que tardavam em se readaptar à montaria, Sam chegou à grande cidade de Belisaere e verificou que a mãe não se encontrava lá. Sabriel partira, chamada novamente para tratar de um alegado feiticeiro da Magia Livre e chefe de salteadores, que atacava os viajantes ao longo dos extremos setentrionais do Caminho Espinhoso.

Um dia depois, Touchstone partiu também, cavalgando para comparecer no Supremo Tribunal de Estwael, onde a luta antiga e latente entre duas famílias nobres redundara em crimes e raptos.

Na ausência de Touchstone, a irmã de Sam, catorze meses mais velha, Ellimere, fora designada co-regente, juntamente com Jall Oren, o Chanceler. Na realidade, não passava de uma formalidade, dado que Touchstone raramente se ausentava mais do que alguns dias quando chamado por um falcão-mensageiro, mas uma formalidade que iria afetar muito Sam. Ellimere levava a sério a sua responsabilidade. E achava que uma das suas obrigações como co-regente era preencher as lacunas do irmão mais novo.

Touchstone partira apenas há uma hora quando Ellimere veio à procura de Sam. Como Touchstone saíra de madrugada, Sam dormia ainda. Recuperara dos seus ferimentos físicos, mas ainda não se sentia bem. Cansava-se muito mais facilmente do que antes e queria passar mais tempo sozinho. Catorze dias levantando-se antes da alva e cavalgando até depois do crepúsculo, acompanhado pelo humor brejeiro dos guardas, em nada contribuíram para que se sentisse menos cansado ou mais sociável.

Consequentemente, não ficou nada satisfeito quando Ellimere decidiu acordá-lo na primeira manhã que passava na sua própria cama correndo os cortinados, escancarando a janela e arrancando-lhe os cobertores. O Inverno começara já há vários dias no Reino Antigo e fazia frio. A brisa marítima que entrou bruscamente podia até ser rigorosamente descrita como fria e tudo o que o sol fraco fez foi ferir os olhos de Sam.

- Acordar! Acordar! Acordar! - cantarolou Ellimere, que tinha uma voz de canto surpreendentemente cava para uma mulher.

- Vá embora! - resmungou Sam, tentando cobrir-se de novo com os cobertores. Seguiu-se uma breve luta de tração, de que Sam desistiu quando um dos cobertores se rasgou ao meio. - Veja só o que fez - insurgiu-se Sam.

Ellimere encolheu os ombros. Era suposto ser bonita - alguns até a consideravam bela mas Sam não era da mesma opinião. Para ele, Ellimere era uma praga perigosa. Nomeando-a co-regente, os pais tinham-na elevado ao estatuto de monstro.

- Vim falar do seu plano de trabalho - disse Ellimere. Sentou-se aos pés da cama, as costas muito retas e as mãos regiamente colocadas uma sobre a outra no colo. Sam reparou que trazia um fino manto vermelho com ouro fiado, de mangas à boca de sino, por cima do vestido de linho de todos os dias e uma espécie de pequeno círculo semi-régio mantinha no lugar o seu cabelo negro comprido e imaculadamente penteado. Como as suas vestes normais eram roupas velhas de caça em couro, com o cabelo apanhado atrás de qualquer maneira para não estorvar, o vestido não era muito pressagiador, de acordo com o desejo de informalidade do próprio Sam.

- O meu quê? - perguntou Sam.

- O seu plano de trabalho - continuou Ellimere. - Tenho certeza de que tencionava passar a maior parte do seu tempo mexericando naquela sua oficina fedorenta, mas receio que o dever para com o Reino venha em primeiro lugar.

- O quê? - perguntou Sam. Sentia-se muito cansado e nada interessado nesta conversa. Em particular dado ter planejado passar a maior parte do seu tempo na sala de trabalho na torre. Durante os últimos dias, à medida que se aproximava mais de Belisaere, ansiara pela solidão e a paz de se sentar à sua bancada, com todas as suas ferramentas cuidadosamente dispostas na parede, por cima do contador, cada gaveta minúscula cheia de material útil, como arame de prata ou selenites. Conseguira sobreviver à última parte da viagem sonhando com os novos brinquedos e engenhocas que iria construir no seu pequeno refúgio de calma e recuperação.

- O Reino vem primeiro - reiterou Ellimere. - O moral do povo é muito importante e cada membro da família deve contribuir para a sua manutenção. Como único Príncipe que temos, terá de...

- Não! - exclamou Sam, percebendo-se subitamente de onde ela queria chegar. Saltou da cama, a camisa de dormir dançando-lhe à volta das pernas, e deitou um olhar carrancudo à irmã, até ela se levantar e o olhar com ar de desprezo. Não só era ligeiramente mais alta do que ele, como tinha a vantagem de usar sapatos.

- Sim - afirmou Ellimere com severidade. - O Festival do Solstício de Verão. Terá de fazer o papel de Cotovia. Os ensaios começam amanhã.

- Mas é só daqui a cinco meses! - protestou Sam. - Além disso, não quero ser a maldita Cotovia. Aquela roupa deve pesar uma tonelada e terei de usá-lo durante uma semana! O pai não te disse que estou doente?

- Ele disse que precisava estar entretido - respondeu Ellimere. - E como nunca fez a Cotovia, vai precisar dos cinco meses para treinar. Além disso, há também a exibição no final do Festival do Solstício de Inverno - e esse é daqui a seis semanas.

- Não tenho pernas para isso - murmurou Sameth, pensando nas meias amarelas com ligas cruzadas usadas por debaixo da plumagem dourada da Cotovia. - Arranje alguém com pernas de tronco de árvore.

- Sameth! Vai fazer a Cotovia, quer goste quer não - declarou Ellimere. - Está na hora de fazer algo útil por aqui. Também o designei membro do Tribunal Ordinário, com Jall, todas as manhãs entre as dez e a uma e terá prática do manejo da espada com a Guarda, claro, e tem de vir jantar - nada de mandar levar as refeições à sua oficina imunda. E para Perspectiva, o nomeei para trabalhar como ajudante de cozinha todas as segundas quartas-feiras.

Sam gemeu e deixou-se cair na cama. A Perspectiva fora idéia de Sabriel. Durante um dia, de duas em duas semanas, Ellimere e Sam trabalhariam no palácio, supostamente com as pessoas normais. Claro que, mesmo quando estavam limpando pratos ou lavando o chão, os criados raramente esqueciam que Sam e Ellimere voltariam a ser o Príncipe e a Princesa no dia seguinte. A maior parte dos criados lidava com a situação fingindo que Sam e Ellimere não estavam ali, com poucas honrosas exceções, como Mistress Finney, a falcoeira, que lhes gritava como a todos os demais. Por isso, a Perspectiva era normalmente um dia de trabalho de escravo realizado em estranho silêncio e isolamento.

- O que é que você vai fazer em Perspectiva? - perguntou Sam, desconfiado de que Ellimere não compareceria, agora que era co-regente.

- Os estábulos.

Sam resfolegou. Os estábulos eram trabalho duro, em particular porque provavelmente seria um dia de limpeza. Mas Ellimere adorava cavalos e todo o trabalho inerente a eles, por isso provavelmente não se importava.

- A mãe disse também que tinha de estudar isto - Ellimere retirou um embrulho da sua manga volumosa. Não o reconheceu de imediato, estando embrulhado em oleado e atado com uma guita grossa e peluda.

Sam estendeu a mão para o embrulho, mas quando os seus dedos tocaram o invólucro, sentiu um frio terrível e a súbita presença da Morte, não obstante as fórmulas e os encantamentos que supostamente deviam impedir qualquer comunicação com aquele domínio frio, entrelaçados na própria pedra que os rodeava.

Sam recolheu a mão e retirou-se para o outro extremo da cama, o seu coração batendo subitamente feito um louco, o suor escorrendo pelo rosto e pelas mãos.

Sabia o que estava dentro daquele embrulho aparentemente inofensivo. Era O Livro dos Mortos. Um volume pequeno, encadernado em couro verde, com fivelas de prata baça. Couro e prata carregados de magia protetora. Marcas para prender e cegar, para fechar e aprisionar. Só alguém com um talento inato para a Magia Livre e a necromância poderia abrir o livro e só um Mago da Carta íntegro o conseguiria fechar. Continha todos os conhecimentos de necromância e contranecromância que cinquenta e três Abhorsens haviam reunido ao longo de mais de mil anos - e, além disso, o seu conteúdo nunca era o mesmo, alterando-se aparentemente a bel-prazer do livro. Sam lera um pouco dele, ao lado da mãe.

- O que se passa contigo? - perguntou Ellimere, com curiosidade, enquanto Sam empalidecia cada vez mais e os seus dentes começavam a bater. Colocou o embrulho aos pés da cama dele e aproximou-se, levando as costas da mão à testa de Sam.

- Está gelado - disse, surpresa. - Absolutamente gelado!

- Indisposto - balbuciou Sam. Mal conseguia falar. O medo apertava-lhe a garganta. O medo de ser atirado de alguma forma para a Morte pelo livro, de ser mergulhado mais uma vez na superfície do rio frio, de transpor violentamente o Primeiro Portão...

- Volte para a cama - ordenou Ellimere, subitamente solícita. - vou chamar o Doutor Shemblis.

- Não! - exclamou Sam, pensando no médico da corte e nos seus modos curiosos, inquiridores. - Já vai passar. Deixe-me sozinho um pouco.

- Está bem - respondeu Ellimere, fechando a janela e ajudando a compor o que restava dos cobertores. - Mas não pense que vai se livrar de fazer de Cotovia. Só se o Doutor Shemblis disser que está realmente, realmente doente.

- Não estou - disse Sam. - Daqui a algumas horas estarei bem.

- Afinal, o que te aconteceu? - perguntou Ellimere. - O pai foi um pouco vago e não tivemos tempo de conversar. Algo sobre ter ido à Morte e se meter em problemas.

- Algo do gênero - murmurou Sam.

- Antes você que eu. - Ellimere pegou o embrulho e sopesou-o com curiosidade, depois atirou-o para o pé de Sam. - Ainda bem que não tenho aptidão para isso. Imagine que ia ser Rei e eu a Abhorsen! Mesmo assim, ainda bem que já começou a entrar na Morte, porque a mãe precisa sem dúvida de ajuda no momento e será muito mais útil fazendo isso do que perdendo tempo construindo brinquedos. Olha, ia perguntar-lhe se podia me fazer duas raquetes de tênis, por isso acho que não devia me queixar. Não consigo que mais ninguém compreenda o que quero e não jogo desde que deixei Wyverley. Podia fazê-las, não podia?

- Sim - respondeu Sam. Mas não estava pensando no tênis. Estava pensando no livro ao seu lado e no fato de ser o Futuro Abhorsen. Todos esperavam que sucedesse Sabriel. Ia ter de estudar O Livro dos Mortos. Teria de voltar a caminhar na Morte e enfrentar o necromante - ou coisas ainda piores, se isso fosse possível.

- Tem certeza de que não quer que chame o Shemblis? - insistiu Ellimere. – Você está muito pálido. vou mandar trazer um chá de camomila e é melhor só começar as suas atividades amanhã. Estará melhor amanhã, não estará?

- Acho que sim - disse Sam. Ficara completamente imobilizado com a proximidade do livro.

Ellimere olhou de novo para ele, com uma expressão que continha preocupação, contrariedade e irritação em partes iguais. Depois virou-se e saiu, batendo a porta atrás de si.

Sam ficou deitado, tentando respirar regular e lentamente. Conseguia sentir o livro ao lado dele, quase como se fosse uma coisa viva. Uma cobra enrolada que esperava o momento de atacar quando ele se mexesse.

Permaneceu ali muito tempo, escutando os sons do Palácio que chegavam até ao seu quarto na torre, mesmo com a janela fechada. O grito regular das sentinelas na muralha, a conversa súbita das pessoas no pátio lá embaixo, ao cruzarem-se nas suas atividades, o choque das espadas no campo de treino que ficava para lá da muralha interna. Por trás de tudo aquilo estava o ruído constante do mar. Belisaere era quase uma ilha e o Palácio fora construído sobre uma das suas quatro colinas, no quadrante de noroeste. O quarto de dormir de Sam ficava na torre do Penhasco do Mar, mais ou menos a meio caminho. Durante as piores tempestades de Inverno, não era incomum a água do mar salpicar-lhe a janela, não obstante a distância da torre ao litoral.

Um criado trouxe chá de camomila e trocaram algumas palavras, apesar de Sam não fazer idéia do que ele dissera. O chá esfriou e o Sol subiu no céu, até ultrapassar a sua janela e o ar esfriar de novo.

Por fim, Sam mexeu-se. com mãos trêmulas, fez um esforço para pegar o embrulho. Cortou o cordel com a faca que estava embainhada sobre a cabeceira da sua cama e desembrulhou rapidamente o oleado, sabendo que se parasse não conseguiria continuar.

Era sem dúvida O Livro dos Mortos, o couro verde brilhando como se coberto de suor. As fivelas de prata que o mantinham fechado estavam baças, o seu brilho reduzido. Desanuviaram enquanto Sam olhava e depois gelaram de novo, muito embora não lhes tivesse respirado para cima.

Havia também um bilhete, uma única folha de papel grosseiro que ostentava apenas uma marca da Carta e o nome do próprio Sam, escrito pelo punho firme e característico de Sabriel.

 

Sam pegou o bilhete, depois serviu-se do invólucro de oleado como de uma luva para meter o Livro debaixo da cama. Não suportava olhar para ele. Por enquanto.

Depois tocou na marca da Carta no papel e a voz de Sabriel soou dentro da sua cabeça. Falou rapidamente e, pelos outros ruídos de fundo, Sam calculou que tivesse preparado esta mensagem imediatamente antes de voar na sua Asa de Papel. Voar para combater os Mortos.

 

Sam...

Espero que esteja bem e possa me perdoar por não me encontrar aí contigo agora. Soube pelo último falcão-mensageiro do seu pai que está em condições de ir para casa, mas que o seu encontro na Morte o deixou bastante magoado. Sei como isso é - e orgulho-me de ter se arriscado a entrar na Morte para salvar os seus amigos. Não sei se teria tido coragem suficiente para ir à Morte sem os meus sinos. Pode ter certeza de que qualquer mal feito ao teu espírito passará com o tempo. A Morte tira, mas a Vida dá.

O seu ato corajoso mostrou-me também que está apto a começar formalmente a preparar-se para ser o Futuro Abhorsen. O que me deixa simultaneamente orgulhosa e um pouco triste, porque significa que cresceu. São muitos os fardos de um Abhorsen e um dos piores é estarmos condenados a perder muito das vidas dos nossos filhos - da sua vida, Sam.

De certa forma, adiei a sua preparação porque queria que continuasse a ser o rapazinho amoroso de que me lembro tão bem. Mas, claro que há muitos anos que deixou de ser um rapazinho e agora é um homem e deve ser tratado como tal. Parte disso passa por reconhecer o seu legado e o papel essencial que tem no futuro do nosso Reino.

Uma grande parte desse legado encontra-se dentro do O Livro dos Mortos, que tem agora. Estudou-o um pouco comigo, mas chegou o momento de dominar o seu conteúdo, tanto quanto é possível alguém fazê-lo. Certamente, nos dias que correm, que vou precisar da sua ajuda, pois verifica-se um estranho reacender de problemas tanto da parte dos Mortos como daqueles que seguem a Magia Livre e não consigo encontrar a origem de nenhum deles.

Falaremos mais sobre o assunto quando regressar, mas por hora quero que saiba que estou muito orgulhosa de você, Sameth. E o seu pai também está. Bem-vindo a casa, meu filho.

com todo o meu amor,

Mãe

 

Sam deixou que o papel lhe caísse das mãos e apoiou-se na almofada. O futuro, tão brilhante quando aquela bola de críquete passara por cima das bancadas para um seis, parecia agora muito escuro mesmo.

 

UMA PORTA COM TRÊS SINAIS

Para comemorar o seu décimo nono aniversário, Lirael e a Cadela decidiram ir explorar um lugar especial, aventurar-se pelo buraco denteado na rocha verde-clara onde a espiral principal da Grande Biblioteca chegava subitamente ao fim.

O buraco era muito pequeno para Lirael passar, por isso preparara uma pele da Carta para a expedição. Nos anos subsequentes à descoberta de Na Pele de Um Leão, aprendera a preparar três peles da Carta diferentes. Cada uma fora cuidadosamente selecionada pelas suas vantagens naturais. A lontra do gelo era pequena e ágil e permitia a Lirael deslocar-se por caminhos estreitos e atravessar gelo e neve com facilidade. O urso pardo era maior e muito mais forte do que a sua forma natural e o seu pêlo espesso servia simultaneamente de proteção contra o frio e o perigo. A coruja latidora permitia-lhe voar e a escuridão não constituía um obstáculo, muito embora tivesse ainda de voar fora de algumas das câmaras grandes da Biblioteca, que nunca estavam verdadeiramente escuras.

Mas as peles da Carta tinham igualmente as suas desvantagens. A visão lontra do gelo era em tons de cinzento, a sua perspectiva rente ao solo e a sua predileção por peixe durava vários dias depois de Lirael ter largado a pele. A visão do urso pardo era fraca e usá-la deixava Lirael mal-humorada e glutona, também algum tempo depois de a ter tirado. A coruja latidora era de pouca utilidade em pleno dia e, depois de a usar, Lirael verificou que os seus olhos choravam com as luzes fortes da Sala de Leitura. Mas, de um modo geral, estava satisfeita com as peles da Carta e as escolhas que fizera e orgulhosa de ter aprendido três peles da Carta em menos tempo do que Na Pele de Um Leão sugeria ser possível.

O seu grande inconveniente era o tempo que levavam para preparar e colocar. Por norma, Lirael levava cinco horas ou mais preparando uma pele da Carta, outra hora para dobrá-la cuidadosamente para que durasse um dia ou dois numa bolsa ou saco e depois pelo menos meia hora para vesti-la. Às vezes demorava mais, em particular a pele da lontra do gelo, porque era muito menor do que a forma normal de Lirael. Era o mesmo que obrigar um pé a entrar numa luva onde só cabia o dedo grande, com a luva esticando enquanto o pé encolhia. Era bastante difícil equilibrar o processo e Lirael ficava sempre tonta e um pouco nauseada, de se sentir tanto a mudar como a encolher.

Mas, no seu aniversário, como o buraco na rocha tinha menos de sessenta centímetros, apenas a forma de lontra do gelo serviria. Lirael começara a vesti-la, enquanto a Cadela Desavergonhada escarafunchava no buraco. De certa forma, a Cadela tornara-se, entretanto, mais comprida e mais magra, até parecer um dos cães-salsicha que as rainhas-pastoras Rasseli traziam ao pescoço, conforme ilustrado no relato de viagens preferido de Lirael.

Ao cabo de alguns minutos de esforço furioso com as patas traseiras, a Cadela desapareceu. Lirael suspirou e continuou a enfiar-se à força na pele da Carta. A Cadela tinha um problema sobejamente conhecido com as esperas, mas Lirael ficou um pouco ofendida pelo animal não conseguir sequer esperar no dia do seu aniversário, ou deixá-la partir primeiro.

Não que estivesse realmente à espera disso. O dia do aniversário era a ocasião do ano que Lirael mais detestava, o dia em que era obrigada a lembrar-se de todas as coisas más na sua vida.

Este ano, como em todos os anteriores aniversários, acordara sem a Visão. Era agora uma velha ferida, cicatrizada e trancada dentro do seu coração. Lirael aprendera a não evidenciar a dor que isso lhe causava, nem sequer à Cadela Desavergonhada que, de outro modo, partilhava todos os seus pensamentos e sonhos.

Tão pouco pensava Lirael no suicídio, como fizera no seu décimo quarto aniversário e fugazmente no décimo sétimo. Conseguira forjar uma vida para si própria que, mesmo que não fosse ideal, era satisfatória de muitas maneiras. Vivia ainda na Ala da Juventude e assim continuaria até fazer vinte e um anos, momento em que lhe seriam atribuídos aposentos próprios, mas como passava cada hora acordada na Biblioteca, em grande parte estava livre da interferência de Kirrith. Há muito que Lirael deixara também de ir aos Despertares ou outras funções cerimoniais que implicassem vestir a túnica azul, aquele sinal odiado de que não era uma Clayr como deve ser.

Preferia andar com o uniforme de Bibliotecária, mesmo no café da manhã, e adquirira o hábito de atar um lenço branco à volta da cabeça como algumas das Clayr mais velhas. Ocultava-lhe o cabelo e, com o seu uniforme, ninguém duvidava de quem ela era, mesmo entre os visitantes no Refeitório Inferior.

Na semana que antecedeu o seu aniversário, estas roupas de trabalho tinham sido extraordinariamente realçadas pela transição de um colete amarelo para um vermelho, símbolo brioso da promoção de Lirael a Segunda Assistente de Bibliotecária. A promoção fora muito bem-vinda mas não de todo pacífica, quando a carta formal a anunciá-la chegara inesperadamente, num final de tarde. Na carta, Vancelle, a Bibliotecária-Chefe, congratulava Lirael e referia que haveria uma breve cerimônia na manhã seguinte - altura em que seria ativada mais uma fórmula-chave na sua pulseira e lhe seriam ensinadas determinadas fórmulas por serem ”concomitantes com as responsabilidades e as funções de uma Segunda Assistente de Bibliotecária na Grande Biblioteca das Clayr”.

Consequentemente, Lirael ficara de pé toda a noite no seu gabinete para voltar a adormecer as fórmulas-chaves extras que ativara na sua pulseira, de modo a não revelar as suas perambulações não autorizadas. Mas adormecê-las revelou-se mais difícil do que ativá-las. Horas e horas depois, mal sucedida, os seus gemidos de desespero às quatro da manhã acordaram a Cadela, que respirou para cima da pulseira, devolvendo as fórmulas extras ao seu estado adormecido e mergulhou Lirael num sono tão pesado que por pouco não perdia a cerimônia.

O colete vermelho fora um presente de aniversário antecipado, seguido de outros no próprio dia. Imshi e as outras jovens bibliotecárias que lidavam mais de perto com Lirael tinham-lhe oferecido uma caneta nova, uma haste esguia de prata com os rostos de corujas gravados e duas garras mais estreitas onde podia ser atarraxada uma variedade de aparos de aço. Vinha numa caixa de madeira de sândalo de aroma adocicado, forrada de veludo, com um tinteiro antigo de vidro verde fosco de bordo dourado com runas gravadas que ninguém conseguia ler.

Tanto a caneta como o tinteiro eram um comentário implícito ao hábito agora há muito adquirido por Lirael de falar o mínimo possível. Escrevia bilhetes sempre que tinha oportunidade. Nos últimos anos, raramente proferira mais de dez palavras de uma assentada e muitas vezes não falava com outros seres humanos dias a fio.

Claro que as outras Clayr não sabiam que o silêncio de Lirael era mais do que compensado com as suas conversas com a Cadela, com quem se entretinha falando durante horas. Às vezes, as suas superioras perguntavam-lhe por que não gostava de falar, mas Lirael não conseguia responder. Tudo o que sabia era que falar com as Clayr lhe recordava todas as coisas de que não podia falar. As conversas das Clayr voltavam sempre à Visão, o centro do interesse das suas vidas. Ao não falar, Lirael estava simplesmente protegendo-se da dor, mesmo que não estivesse consciente da razão.

No lanche do seu aniversário na Sala Comum das Bibliotecárias Juvenis, um aposento informal normalmente propenso a muita conversa e gargalhadas, Lirael apenas conseguiu dizer ”obrigada” e sorrir, apesar de ser um sorriso acompanhado de olhos lacrimejantes. Eram muito simpáticas, as suas colegas bibliotecárias. Mas continuavam a ser em primeiro lugar Clayr e em segundo bibliotecárias.

O último presente foi da Cadela Desavergonhada, que lhe deu um grande beijo. Como os beijos da cadela pareciam consistir em lambedelas enérgicas do rosto, Lirael ficou satisfeita por abreviar os votos de felicidades dando-lhe um resto de bolo do seu lanche de anos.

- É tudo o que recebo, um beijo de cão - murmurou Lirael. Já se metera mais de metade dentro da pele da lontra do gelo, mas demoraria ainda dez minutos antes de conseguir ir atrás da sua amiga.

Lirael não sabia, mas havia uma série de outras pessoas que teriam gostado de lhe dar um beijo de parabéns. Alguns dos jovens entre os guardas e mercadores que visitavam regularmente as Clayr tinham-na olhado com crescente interesse ao longo dos anos. Mas deixara bem claro que queria manter a distância. Repararam também que não falava, nem sequer com as Clayr de serviço na cozinha. Por isso, os jovens limitavam-se a olhá-la e os mais românticos sonhavam com o dia em que ela se aproximaria subitamente e os convidaria lá para cima. As outras Clayr faziam-no esporadicamente, mas não Lirael. Continuava a comer sozinha e os sonhadores continuavam a sonhar.

A própria Lirael raramente pensava no fato de aos dezenove anos nunca ter sido sequer beijada. Sabia tudo sobre o sexo em teoria, das aulas obrigatórias na Ala da Juventude e livros na Biblioteca. Mas era muito tímida para abordar qualquer dos visitantes, mesmo aqueles que via regularmente no Refeitório Inferior e os Clayr homens eram muito poucos.

Escutava com frequência as outras conversas das jovens bibliotecárias, falando livremente de homens, às vezes mesmo em detalhes. Mas estas ligações amorosas não eram tão importantes para as Clayr como a Visão e o seu trabalho no Observatório e Lirael avaliava pelos parâmetros delas. O mais importante era a Visão e vinha em primeiro lugar. Assim que tivesse a Visão, poderia pensar em fazer o que as outras Clayr faziam e levar um homem a jantar no Refeitório Superior e a passear no Jardim Perfumado e talvez então... para a sua cama.

Na verdade, Lirael não conseguia sequer imaginar que algum homem pudesse se interessar por ela, comparada com uma Clayr de verdade. Como em tudo o mais, Lirael achava que uma Clayr de verdade seria sempre mais interessante e atraente do que ela.

Mesmo fora do trabalho, Lirael seguia um caminho diferente das outras Clayr mais jovens. Quando saíam todas da Biblioteca às quatro da tarde, a maior parte ia para a Ala da Juventude ou as instalações onde viviam, ou um dos Refeitórios ou as zonas onde as Clayr se reuniam para se divertirem, como o Jardim Perfumado ou as Escadas do Sol.

Lirael seguia sempre no sentido contrário, indo da Sala de Leitura para o seu gabinete, para acordar a Cadela Desavergonhada. com a promoção, tinham-lhe dado um gabinete novo e agora dispunha de uma sala maior com um minúsculo banheiro anexo, com sanita, lavatório e água quente e fria.

Assim que a Cadela acordava e as várias peças derrubadas com as suas saudações exuberantes tinham sido arrumadas, Lirael e a Cadela aguardavam normalmente a reunião da vigília noturna, em que todas as bibliotecárias de serviço se reuniam por breves instantes na Sala de Leitura Principal para lhes serem destinadas as tarefas. A salvo das observações, Lirael e a Cadela desciam a espiral principal, passando aos Níveis Antigos, onde as outras bibliotecárias raramente vinham.

Ao longo dos anos, Lirael ficara conhecendo bem os Níveis Antigos e muitos dos seus segredos e perigos. Ajudara até secretamente outras bibliotecárias, sem o conhecimento delas. Pelo menos três teriam morrido se Lirael e a Cadela não se tivessem ocupado de várias criaturas desagradáveis que de alguma forma haviam entrado na Biblioteca.

- Anda! - disse a Cadela, voltando a enfiar a cabeça pelo buraco. Lirael já estava toda dentro da pele da lontra, mas passava-se algo de estranho com a sua barriga. Parecia diferente, mas não conseguia apurar o que era. Virou-se para olhar para ela e rolou pelo chão.

- Vejo que ficou orgulhosa com o seu colete novo - observou a Cadela, farejando.

- O quê? - perguntou Lirael. Sentou-se e dobrou a cabeça para olhar para a barriga peluda. Era de um tom cinzento diferente do normal, mas não se lembrava de ter feito alterações.

- As lontras do gelo não costumam ter a barriga vermelha, Menina Segunda Assistente de Bibliotecária - disse a Cadela. - Venha!

- Oh - respondeu Lirael. Nunca antes mudara a cor do seu pêlo. Mesmo assim, ele revelava no mínimo uma superioridade inconsciente na criação de uma pele da Carta. Sorriu e saltou atrás da Cadela. Sempre tinham querido saber o que havia neste túnel, mas algo sempre as interrompera antes. Agora iam descobrir o que havia depois da espiral principal.

- O túnel abateu - disse a Cadela Desavergonhada, abanando a cauda de uma maneira que dissipou a aparente seriedade da notícia.

- Estou vendo! - respondeu Lirael. Sentia irritabilidade, principalmente em virtude de estar há duas horas dentro da pele da Carta da lontra do gelo. Começara a ficar bastante desconfortável, dado que as roupas encharcadas em suor se colam aos lugares errados. Não havia também nada que a distraísse do desconforto, porque o buraco no fim da espiral principal estava se revelando bastante enfadonho. Alargara passado um pouco, mas de outro modo limitava-se a ziguezaguear para cá e para lá sem se encontrarem cruzamentos, câmaras ou portas interessantes. Agora terminava numa barreira de gelo amontoado que lhes bloqueava o caminho.

- Não é necessário ser desagradável, Dona - respondeu a Cadela. - Além disso, existe uma passagem. A geleira irrompeu, é certo, mas a dada altura uma larva-perfuradora abriu caminho por cima. Se subirmos, provavelmente conseguiremos usar o buraco para chegar ao outro lado.

- Desculpe - disse Lirael, suspirando, num encolher dos seus ombros de lontra que se estendeu pelo resto do corpo de pêlo branco comprido. - Nesse caso, o que está esperando?

- Está quase na hora do jantar - disse a Cadela com afetação. – Sentirão sua falta.

- Você quer dizer que sentirá a falta do que eu conseguir roubar para você - resmungou Lirael. - Ninguém dará pela minha falta. Além disso, não precisa de comer.

- Mas gosto - protestou a Cadela, andando para trás e para a frente, desviando-se com agilidade dos pedaços de gelo que tinham caído do contraforte da geleira e bloqueavam agora o seu progresso no túnel.

- Limite-se a achar com o caminho, por favor - disse Lirael. - Usa o seu famoso faro.

- Sim, sim, meu Comandante - respondeu a Cadela com resignação. Começou a subir pelo amontoado de gelo, as unhas deixando sulcos profundos que derretiam. - O buraco da larva-perfuradora fica no alto.

Lirael correu atrás dela, quase apreciando a sensação líquida de ser uma lontra do gelo em movimento. Claro que, quando deixasse de usar a pele da Carta, aquela lembrança de movimento líquido a faria tropeçar e dar sacões, até a sua mente  perceber  que estava lidando com músculos diferentes.

 A Cadela Desavergonhada esgaravatava já o buraco da larva-perfuradora - um túnel perfeitamente cilíndrico com cerca de noventa centímetros de diâmetro que abria caminho direto através da barreira de gelo. Aquele buraco era de uma larva de tamanho médio. Os grandes tinham mais de três metros de diâmetro. As larvas eram raras agora, em todos os tamanhos. Lirael seria provavelmente uma das poucas habitantes da geleira das Clayr que já vira uma.

Na verdade, vira duas, com muitos anos de intervalo. De ambas as vezes, a Cadela farejara-as primeiro, pelo que tinham tido tempo de se desviar. As larvas não eram perigosas, pelo menos intencionalmente, mas reagiam com lentidão e as suas maxilas rotativas múltiplas apanhavam tudo no caminho: gelo, rocha, ou algum humano movendo-se com lentidão.

A Cadela escorregou por um momento, mas não resvalou, como teria provavelmente feito um cão verdadeiro. Lirael reparou que as unhas da sua amiga canina tinham adquirido o dobro do comprimento normal para fazer face ao gelo. Decididamente não era algo que um cão verdadeiro fizesse, mas há muito que Lirael aceitara o fato de não saber realmente o que era a Cadela. Não havia dúvidas de que nascera da Magia da Carta e da Livre, mas Lirael não queria se aprofundar no assunto. Fosse lá o que fosse a Cadela, era a única verdadeira amiga de Lirael e demonstrara a sua lealdade mais de cem vezes nos últimos quatro anos e meio.

Apesar das suas origens mágicas, o cheiro da Cadela era muito semelhante ao de um cão verdadeiro, pensou Lirael, particularmente quando estava molhada. Como agora, quando o focinho franzido de lontra de Lirael se comprimiu contra as patas traseiras e a cauda da Cadela enquanto a seguia pelo buraco. Felizmente, o túnel não era comprido e Lirael esqueceu o odor da cadela quando viu que não havia só mais túnel escavado do outro lado. Conseguia ver o brilho de um teto com Magia da Carta e uma espécie de parede ladrilhada.

- É antiga, esta sala - anunciou a Cadela, quando saíram do túnel para os ladrilhos azul-claros e amarelos do chão da câmara. Sacudiu o pêlo com uma contorção, Lirael imitando o expressivo estremecimento da Cadela das espáduas à cauda.

- Sim - concordou Lirael, reprimindo o impulso de se coçar vigorosamente à volta do pescoço. A pele da Carta já estava ficando puída e necessitava dela para regressar pelo buraco e o túnel. Obrigando as patas dianteiras com garras a imobilizar-se, procurou concentrar-se na sala, dificultada pela sua visão de lontra, com o seu campo visual diferente e ausência de cor.

A sala era iluminada por marcas da Carta comuns para luz, brilhando no teto, apesar de Lirael ver logo que estavam apagadas e eram muito mais antigas do que a maioria dessas marcas costumava durar. Uma mesa de madeira vermelho-escura ocupava um canto, mas não havia uma cadeira. Estantes vazias forravam uma parede, as portas de vidro fechadas. Marcas da Carta para repelir a poeira agitavam-se sem-fim diante delas como o brilho de óleo na água.

Havia uma porta na parede do fundo, daquela mesma madeira avermelhada, cravejada de minúsculas estrelas douradas, torres douradas e chaves prateadas. As estrelas douradas eram da variedade de sete pontas que constituíam a divisa das Clayr e a torre dourada era o brasão do próprio Reino. Lirael não conhecia a chave prateada, apesar de não ser uma chancela incomum. Muitas vilas e cidades usavam as chaves prateadas nos seus brasões.

Sentia magia considerável na porta. Marcas da Carta para trancar e guardar acompanhavam o veio da madeira e havia também outras marcas, descrevendo algo que Lirael não conseguia entender. Avançou para ela para ver o que eram, todo o seu prurido esquecido, mas a Cadela atravessou-se no seu caminho, como se refreasse um cachorro exuberante.

- Não! - latiu. - Tem um enviado-guarda, que ao ver uma lontra do gelo a mataria. Tem de se aproximar na forma normal e deixá-lo sentir o seu sangue imaculado.

- Oh - disse Lirael, afundando-se, a cabeça elegante apoiada nas patas dianteiras, os olhos escuros brilhantes concentrados na porta. - Mas se eu mudar, levarei pelo menos metade da noite preparando uma nova pele da Carta. Faltaremos ao jantar - e às rondas da meia-noite.

- Algumas coisas - afirmou a Cadela em tom pressagiador - valem bem a perda de um jantar.

- E as rondas? - perguntou Lirael. - Será a segunda vez esta semana. Mesmo que seja o meu aniversário, implicará trabalhos extra na cozinha para mim...

- Gosto que tenha trabalho extra na cozinha - respondeu a Cadela, lambendo os beiços e depois profusamente o rosto de Lirael.

- Eeerrggh! - exclamou Lirael. Continuava a hesitar, pensando não só no trabalho extra na cozinha mas também no sermão da tia Kirrith que o acompanharia.

Mas mesmo ali à frente, a porta com as estrelas, as torres e as chaves chamava...

Lirael fechou os olhos e começou a pensar na sequência de marcas da Carta que retirariam a pele de lontra, a sua mente mergulhando no infindável fluxo da Carta, escolhendo uma marca aqui, um símbolo ali, enredando-os numa fórmula. Em escassos minutos voltaria a ser simplesmente Lirael, com o seu cabelo preto comprido e rebelde, tão diferente das suas primas de cabelo louro e castanho, o seu queixo pontiagudo muito mais afilado do que os rostos redondos delas, a sua tez pálida que nunca bronzeava, nem sequer com a luz intensa que refletia do gelo da geleira e os seus olhos castanhos, quando todas as Clayr os tinham azuis ou verdes...

A Cadela Desavergonhada observou a mudança dela, a pele da lontra do gelo brilhando com a invasão de marcas da Carta que rodopiava e serpenteava até se transformarem num tornado de luz, brilhando com cada vez mais intensidade e girando mais e mais depressa até desaparecerem. Encontrava-se ali uma mulher jovem e magra, de rosto franzido, os olhos firmemente fechados. Antes de abrir os olhos, percorreu o corpo com as mãos, verificando se tinha o colete vermelho, o punhal, o apito e o rato mecânico de emergência. Algumas das primeiras peles da Carta de Lirael tinham-se desfeito em pedaços quando mudara a pele, cada costura desmanchada num ápice.

- Muito bem - disse a Cadela Desavergonhada. - Agora podemos experimentar a porta.

 

ATRÁS DAS PORTAS DE MADEIRA E DE PEDRA

Lirael deu dois passos na direção da porta de madeira vermelha, depois parou, quando a Magia da Carta se acendeu e rodopiou diante dela e uma luz amarela intensa brilhou na estrutura da porta, obrigando-a a baixar a cabeça e a piscar os olhos.

Quando ergueu o olhar, havia um enviado-guarda diante da porta -- uma criatura de carne enfeitiçada e osso mágico, invocada com um propósito específico. Não um dos ajudantes passivos da Biblioteca, mas um guarda de forma humana, porém muito mais alto e largo do que qualquer homem vivo, vestido com cota de malha prateada, um elmo de aço fechado ocultando um rosto qualquer que a fórmula forjara. Tinha na mão a espada, estendida, firme como uma estátua, a ponta a escassos centímetros da garganta à mostra de Lirael. Ao contrário da sua carne enfeitiçada, as armas ou instrumentos dos enviados eram sempre absolutamente reais. Por vezes, como Lirael suspeitava ser o caso desta espada, eram ainda mais duros, afiados e perigosos do que se tivessem sido forjados em aço e não por magia.

O enviado manteve a espada estendida durante alguns segundos sem vacilar. Depois, tão rapidamente que não o viu mexer-se, a ponta encostou-se à garganta de Lirael - apenas o suficiente para perfurar a pele, apanhando uma única gota de sangue na ponta da própria espada.

Lirael reprimiu um grito de sobressalto mas permaneceu imóvel, receosa de que ele a voltasse a atingi-la se se mexesse. Sabia muito sobre a cultura dos enviados, tendo continuado os estudos mesmo depois de ”criar” a Cadela. Mas não podia avaliar o verdadeiro propósito deste. Pela primeira vez desde que fora enfrentar o Stilken, sentia medo e aumentava dentro dos seus ossos o receio gélido de que a Magia da Carta tivesse corrido mal.

O enviado ergueu novamente a espada e, desta vez, Lirael estremeceu, incapaz de controlar a contração do susto. Mas o guarda limitou-se a fazer a gota de sangue escorrer pelo gume da lâmina num movimento lento e solene, como uma gota de óleo, sem deixar rastro no aço criado pela Carta. Após o que pareceu uma eternidade, a gota chegou ao punho e saltou para o guarda-mão como manteiga para uma torrada.

Atrás de Lirael, a Cadela soltou um suspiro longo semilatido no momento em que o enviado fez a continência com a espada - e se desfez, os símbolos da Carta que o haviam tornado momentaneamente real rodopiando pelo ar antes de desaparecerem no nada. Alguns segundos depois, não restava qualquer vestígio do enviado.

Lirael percebeu que sustivera a respiração e soltou-a com um silvo aliviado. Levou a mão ao pescoço, esperando sentir a umidade desagradável do sangue. Mas não havia nada, nem golpe, nem sequer uma ligeira irregularidade na pele.

O focinho da Cadela empurrou-a por trás do joelho. Depois, o animal avançou e sorriu-lhe com afetação.

- Bem, você passou no teste - disse ela. - Agora pode abrir a porta.

- Não sei muito bem se quero - respondeu Lirael meditabunda, apalpando ainda o pescoço. - Talvez devêssemos regressar.

- O quê! - exclamou a Cadela, arrebitando as orelhas, incrédula. - Não vai ver? Desde quando se tornou uma medrosa?

- Ele podia ter cortado a minha garganta - disse Lirael, com a voz tremendo. - Quase o fez.

A Cadela Desavergonhada revirou os olhos e caiu sobre as patas dianteiras, exasperada. - Estava só pondo-a à prova, para se certificar de que tem o Sangue. Você é uma Filha das Clayr - e nenhuma criatura feita pela Carta a machucará. Apesar do mundo lá fora estar cheio de perigos, é melhor começar a habituar-se à idéia de que não pode desistir à primeira coisa que te assusta!

- Sou uma Filha das Clayr? - murmurou Lirael, vindo-lhe as lágrimas aos olhos. Conseguira refrear a sua dor todo o ano, mas era sempre pior no seu aniversário. Agora era impossível reprimi-la mais. Agachou-se e abraçou a Cadela, ignorando o cheiro a bafio do odor canino. - Fiz dezenove anos e ainda não alcancei a Visão. Não me pareço com mais ninguém. Quando aquele enviado estendeu a espada, percebi subitamente que ele sabia. Sabia que não sou uma Clayr e ia me matar.

- Mas não o fez, porque você é uma Clayr, idiota - disse a Cadela, muito delicadamente. - Já reparou nos cães de caça, como de vez em quando nasce um com as orelhas penduradas ou o pêlo castanho em vez de dourado. Não deixam de fazer parte da matilha. Você saíste apenas com as orelhas penduradas.

- Mas não consigo ver o futuro! - exclamou Lirael. - A matilha aceitaria um cão sem faro?

- Você tem faro - respondeu a Cadela, de uma forma bastante ilógica. Lambeu a face de Lirael. - Além disso, possui outros dons. Nenhuma das outras chega aos calcanhares da Maga da Carta que você é, ou chega?

- Não - murmurou Lirael. - Mas a Magia da Carta não conta. É a Visão que distingue as Clayr. Sem ela, não sou nada.

- Bem, talvez haja outras coisas que possa aprender - encorajou a Cadela. - Pode descobrir algo mais...

- O quê? Um interesse pelos bordados? - contrapôs Lirael em tom uniforme deprimido, enfiando a cabeça nos antebraços molhados pelas lágrimas. - Ou talvez devesse aprender a trabalhar o couro?

- Isso - afirmou a Cadela, a sua voz perdendo toda a compaixão - é autocomiseração, e só existe uma forma de lidar com ela.

- Qual? - perguntou Lirael, mal-humorada.

- Esta - disse a Cadela, avançando e mordendo-a com bastante força na perna.

- Au! - gritou Lirael, levantando-se de um salto e indo aos tropeções até à porta. - Para que fez isso?

- Estavas sendo patética - respondeu a Cadela, enquanto Lirael esfregava o lugar da barriga da perna onde nítidas marcas de dentes tinham aberto buracos nas calças macias de lã. - Agora está apenas zangada, o que sempre é melhor.

Lirael fuzilou a Cadela com o olhar mas não respondeu, porque não lhe ocorreu nada que dizer que - em abono da verdade - não fosse considerado como má-criação ou ira. Além disso, recordou uma certa dentada no seu décimo sétimo aniversário e não estava interessada em ficar também com uma cicatriz dos dezenove anos.

A Cadela retribuiu o olhar, a cabeça inclinada para um dos lados, as orelhas arrebitadas, esperando algum tipo de resposta. Lirael sabia por experiência que a Cadela era capaz de ficar sentada assim horas, se necessário, e desistiu de se esforçar por manter a sua autocomiseração. Era lógico que a Cadela não compreendia a importância de ter a Visão.

- Muito bem, como é que abro isto? - perguntou Lirael.

Sem se dar conta, estivera encostada à porta, equilibrando-se ali depois do salto originado pela dentada. Conseguia sentir nela a Magia da Carta, quente e rítmica sob a palma da sua mão, movendo-se em lento contraponto com as pulsações no pulso e no pescoço.

- Dê-lhe um empurrão - sugeriu a Cadela, aproximando-se, farejando a fenda onde a porta se unia ao chão. - Provavelmente o enviado abriu-a para você.

Lirael encolheu os ombros e apoiou as palmas das mãos na porta. Curiosamente, os pregos de metal pareciam ter-se movido quando não estivera olhando. Tinham estado todos misturados, mas agora tinham-se agrupado em três padrões distintos, apesar de não existir um significado óbvio para eles. Lirael não soube muito bem que símbolos específicos estavam sob as suas mãos, apesar de senti-los deixando uma marca na sua pele.

Até os pregos de metal estavam impregnados de símbolos da Carta, sentiu Lirael. Não sabia ao certo o que eram, mas via-se que a porta era uma grande obra de magia, o resultado de muitos meses de lançamento de fórmulas superiores e trabalho em metal e madeira poderosos.

Empurrou uma vez e a porta gemeu. Empurrou com mais força e de repente ela deslizou como uma concertina, separando-se em sete painéis distintos. Lirael não reparou que, quando isto aconteceu, um dos três símbolos desapareceu por completo, deixando visíveis apenas dois tipos de pregos. Foi invadida por um súbito afluxo de Magia da Carta que saiu da porta e entrou de alguma forma na própria Lirael. Sentiu-o percorrê-la, mergulhando-a na capitosa felicidade que não sentia desde que a Cadela Desavergonhada surgira pela primeira vez para acabar com a sua solidão. Deslocou-se no sangue dela, faiscou na sua respiração - depois desapareceu e encostou-se à ombreira da porta. Ao mesmo tempo, a impressão dos pregos nas suas mãos passou antes de conseguir ver o que significavam.

- Ufa! - disse ela, sacudindo a cabeça, uma mão apalpando inconscientemente o corpo reconfortante da Cadela a seu lado. O que foi aquilo?

- A porta apenas a cumprimentou - respondeu a Cadela. Furtando-se à mão de Lirael, andava já em busca lá à frente, as patas provocando um ruído seco enquanto experimentava os primeiros degraus de uma escada que descia em círculo para a montanha.

- O que quer dizer? - perguntou Lirael. - A cauda levantada e abanando da Cadela agitou-se ao descer e contornar a curva da espiral. - Como pode uma porta cumprimentar? Espere! Espere por mim!

A Cadela Desavergonhada tinha fama de fazer ouvidos de mercador às ordens, pedidos ou mesmo súplicas, mas aguardava cerca de vinte degraus mais abaixo. Havia ali cada vez menos marcas da Carta a proporcionar luz e os degraus estavam cobertos de musgo escuro. Via-se que há muito, muito tempo que ninguém passava por aquele caminho.

Levantou a cabeça quando Lirael a alcançou, depois recomeçou imediatamente a descer os degraus, recuperando facilmente o avanço de vinte degraus que levava, e mais uma vez desapareceu de vista, apesar de Lirael ouvir o ruído constante das suas patas nos degraus.

Lirael suspirou e seguiu mais devagar, não confiando na escada coberta de musgo. Havia algo lá mais adiante que não lhe agradou particularmente e sentiu-se oprimida por uma sensação de mal-estar, abaixo do nível da consciência. Uma espécie de pressão ligeiramente desagradável que aumentava a cada degrau descido.

A Cadela ficou à espera, pelo menos momentaneamente, mais oito vezes antes de chegarem ao fim das escadas íngremes. Lirael calculou que estivessem agora a mais de quatrocentos metros de profundidade do que alguma vez antes se encontrara. Também não havia aqui irrupções de gelo, contribuindo para a sua sensação de estranheza. Não era como qualquer outra parte do domínio das Clayr.

Ia escurecendo também cada vez mais, à medida que desciam, as marcas da Carta antigas para luz diminuindo até serem apenas um tremular aqui e ali. Quem quer que construíra esta escada começara do fundo,  percebeu Lirael, olhando para as marcas. As inferiores eram muito mais antigas e há séculos que não as substituíam.

Normalmente, não se importava com o escuro, mas aqui, no coração da montanha, era diferente. Lirael invocou pessoalmente uma luz, duas marcas da Carta brilhantes de iluminação que introduziu no cabelo, para produzir uma luz oscilante à sua frente enquanto descia.

Ao fundo das escadas, a Cadela coçava-se atrás da orelha diante de outra porta sujeita à Carta. Esta era de pedra e havia algumas letras gravadas nela, letras grandes e fundas usando o Alfabeto Médio, bem como símbolos da Carta que só um Mago da Carta conseguia ver.

Lirael aproximou-se mais para as ler, depois recuou, voltou para os degraus e tentou fugir. De alguma forma, a Cadela embrulhou-se-lhe nas pernas, fazendo-a tropeçar. Lirael caiu e perdeu o controle da sua fórmula de luz e as marcas brilhantes apagaram-se, regressando ao fluxo infinito da Carta.

Durante um momento de pânico puro, procurou às apalpadelas no escuro, dirigindo-se para o que pensava serem os degraus. Depois os seus dedos encontraram o focinho macio e úmido da Cadela e viu um tênue brilho espectral delineando a forma da sua companheira canina.

- Essa foi de mestre - disse a Cadela no escuro, acercando-se para soltar um latido úmido no ouvido de Lirael. - Não me diga que se lembrou de repente que tinha uma torta no forno?

- A porta - murmurou Lirael, não fazendo qualquer esforço para se levantar. – É uma porta de túmulo. Para uma cripta.

- É?

- Tem o meu nome nela - sussurrou Lirael.

Seguiu-se uma longa pausa. Depois a Cadela disse:

- Portanto, acha que alguém se deu a tanto trabalho para te construir uma cripta há mil anos, na hipótese remota de um dia poder aparecer, entrar e ter um ataque cardíaco tão oportuno?

- Não...

Seguiu-se outra longa pausa e depois a Cadela disse:

- Presumindo que se trata realmente da porta para uma cripta, posso perguntar se o nome Lirael é muito raro?

- Bem, creio que houve uma tia-avó com o meu nome e houve mais uma outra antes dela...

- Portanto, se for uma cripta, provavelmente será a de alguma antiga Lirael - sugeriu gentilmente a Cadela. - Mas, afinal, o que te leva a pensar que é a porta para uma cripta? Julgo recordar que existiam duas palavras na porta. E a primeira não me pareceu nada ser ”túmulo” ou ”cripta”.

- Nesse caso, o que dizia? - perguntou Lirael, levantando-se lentamente, alcançando já mentalmente as marcas da Carta que lhe dariam luz, as mãos preparadas para as esboçar no ar. Não conseguia se lembrar sequer de ter lido a primeira palavra, mas não queria admitir perante a Cadela que acabara de ter a sensação acabrunhante de que era uma cripta. Aquela sensação, aliada à visão do seu próprio nome, criara um momento de pânico total, em que o seu único pensamento era fugir, voltar para a segurança da Biblioteca.

- Algo completamente diferente - afirmou a Cadela com satisfação, quando a luz brotou das pontas dos dedos de Lirael, incidindo diretamente na porta.

Desta vez, Lirael olhou demoradamente as letras esculpidas, as suas mãos tocando a pedra gravada fundo. A sua testa enrugou-se ao ler sucessivamente as palavras, como se não conseguisse juntar as letras num vocábulo que fizesse sentido.

- Não compreendo - acabou por dizer. - A primeira palavra é ”caminho”. Diz ”Caminho de Lirael”!

- Parece-me que o deveria percorrer, nesse caso - sugeriu a Cadela, nada perturbada pelo sinal. - Mesmo que não seja a Lirael deste caminho, és uma Lirael, o que, para mim, é um pretexto bastante bom...

- Cadela! Cale-se! - disse Lirael, pensando. Se este portão era o começo de um caminho concebido para ela, fora construído há pelo menos mil anos. O que não era impossível, pois as Clayr às vezes tinham Visões de semelhantes futuros longínquos. Ou futuros possíveis, como lhes chamavam, pois, ao que parecia, o futuro era como um rio com ramificações múltiplas, dividindo-se, convergindo e voltando a dividir-se. Grande parte da preparação das Clayr, pelo menos tanto quanto Lirael sabia, constituía em decifrar qual dos futuros possíveis era o mais provável - ou o mais desejável.

Mas havia um senão no conceito de que a Clayr antiga vira Lirael, porque a Clayr do presente momento não conseguia sequer ver o futuro de Lirael e nunca fora capaz de fazê-lo. Sanar e Ryelle tinham-lhe dito que mesmo quando a Vigia de Nove Dias a tentava ver, não havia nada. O futuro de Lirael era impenetrável, tal como o seu presente. Nunca nenhuma Clayr a vira, nem sequer por um minuto achado fortuitamente, mostrando-a na Biblioteca, ou dormindo numa cama dali a um mês. Mais uma vez era diferente, incapaz de ver mas também Invisível.

Se nem sequer a Vigia de Nove Dias conseguia vê-la, pensou Lirael, como podia a Clayr de há mil anos saber que ela viria por aquele caminho? E por que tinham construído não só esta porta, mas também as escadas? Era muito mais provável que este caminho tivesse recebido o nome de uma das suas antepassadas, alguma outra Lirael de antigamente. O que lhe deu ânimo para abrir a porta. Inclinou-se, fazendo força com ambas as mãos na pedra fria. A Magia da Carta circulava também nesta porta, mas não saltou para ela, ficando antes a pulsar suavemente contra a sua pele. Era como um cão velho junto à lareira, satisfeito por lhe fazerem festas, sabendo que não necessitava de demonstrar prazer.

A porta avançou lentamente para dentro, resistindo à pressão dela, com um rangido prolongado de pedra sobre pedra. Veio do outro lado um ar mais frio, agitando o cabelo de Lirael, fazendo bailar as luzes da Carta. Notava-se também um cheiro de umidade e a estranha sensação opressiva que se deparara a Lirael nas escadas tornou-se mais forte, como a vibração inicial de uma dor de dentes que anuncia futura dor.

Do lado de lá da porta havia uma ampla câmara, o espaço estendendo-se para cima e para fora, parecendo infinito, ultrapassando o foco de luz à volta dela. Uma caverna, incomensurável no escuro, talvez continuando para todo o sempre.

Lirael entrou e olhou para cima, para a escuridão, até lhe doer o pescoço e os olhos irem se acostumando às trevas. Uma estranha luminescência, não de luzes da Magia da Carta, brilhava em manchas aqui e ali, elevando-se tão alto que o brilho mais longínquo parecia uma faixa de estrelas distantes na noite. Continuando a observar, Lirael percebeu que estava ao fundo de uma fratura profunda que se estendia quase até ao próprio pico de Starmount. Olhou para o outro lado e viu que se encontrava numa ampla saliência e que a fratura se estendia para lá dela, descendo até uma negrura mais profunda, talvez mesmo a raiz do próprio mundo. Com aquela visão deu-se o reconhecimento, pois só conhecia um abismo tão estreito e tão fundo. Mais lá no alto, estava unido por pontes fechadas. Lirael atravessara-a muitas vezes quase sem saber, mas nunca reparara na sua profundidade aterradora.

- Eu conheço este lugar - disse Lirael, a sua voz fraca ecoando.

- Estamos no fundo da Falha, não estamos? - Hesitou, depois acrescentou: - O cemitério das Clayr.

A Cadela Desavergonhada concordou mas nada disse.

- Você sabia, não é verdade? - disse Lirael, continuando a olhar para o alto. Não conseguia vê-los, mas sabia que os limites mais altos da Falha estavam carregados de pequenas grutas, cada uma contendo os restos mortais de uma Clayr antiga. Gerações de mortas, cuidadosamente guardadas neste cemitério vertical. De uma forma estranha, conseguia sentir a presença das sepulturas, ou das mortas lá dentro... ou de algo.

A mãe dela não estava ali, pois morrera sozinha numa terra desconhecida, longe das Clayr, muito longe para o corpo poder ser enviado. Mas Filris jazia ali, tal como outras que Lirael conhecera.

- É uma cripta - disse ela, olhando com severidade para a Cadela. - Eu sabia.

- Na verdade, é mais um ossuárío - começou a Cadela. - Sei que, quando uma Clayr Vê a sua morte, é descida por uma corda até uma saliência adequada, onde cava a sua própria...

- Não é possível! - interrompeu Lirael, chocada. - Elas só sabem quando, até certo ponto. E Pallimor e as jardineiras costumam preparar as sepulturas. A tia Kirrith diz que é muita falta de educação querer cavar a nossa própria sepultura... - Parou bruscamente e murmurou: - Cadela? Estou aqui porque elas viram a minha morte e querem que eu abra a minha própria gruta porque sou malcriada?

- Vou ter de te morder para valer se continuar com essas besteiras - rosnou a Cadela. - Por quê esta súbita preocupação com a morte, diga-me?

- Porque consigo senti-la, sinto-a à minha volta - murmurou Lirael. - Em particular aqui.

- Isso é porque as portas para a Morte estão abertas no lugar onde morreram muitas pessoas, ou estão sepultadas muitas - informou a Cadela distraidamente. - O Sangue mistura-se um pouco, por isso há sempre Clayr que são sensíveis à Morte. É o que você sente. Não deve ter medo.

- Na verdade, não tenho - respondeu Lirael, perplexa. - É como uma dor ou uma comichão. Leva-me a querer fazer algo. Coçá-la. Fazê-la desaparecer.

- Sabe um pouco de necromância, não sabe?

- Claro que não! Isso é Magia Livre. É proibida.

- Não necessariamente. As Clayr já lidaram antes com a Magia Livre e algumas ainda o fazem - disse a Cadela de uma forma distraída. Captara o cheiro de algo e farejava vigorosamente à volta dos pés de Lirael.

- Quem lida com a Magia Livre? - perguntou Lirael. A Cadela não respondeu e continuou a farejar à volta dos pés de Lirael. - O que está cheirando?

- Magia - disse a Cadela, procurando por um segundo antes de retomar as fungadelas, descrevendo um círculo cada vez maior. - Magia antiga. Escondida aqui, nas profundezas do mundo. Mas que, que...yow!

As últimas palavras perderam-se num latido quando um súbito lençol de chamas brotou da falha, o calor e a luz explodindo por todo o lado. Lirael, absolutamente desprevenida, recuou, caindo pela porta aberta. Um instante depois, a Cadela colidiu com ela, cheirando nitidamente a queimado.

Começaram a surgir formas dentro da parede ígnea, figuras humanóides que flectiam os braços e as pernas dentro da chama. Atroavam e vogavam marcas da Carta no inferno amarelo, azul e vermelho, passando com demasiada rapidez para que Lirael pudesse ver o que eram.

Depois as figuras saíram das chamas, guerreiros formados inteiramente por fogo, as suas espadas rubro-brancas e brilhantes.

- Faça alguma coisa - ladrou a Cadela.

Mas Lirael continuou olhando para os guerreiros em movimento, magnetizada pelas chamas que brilhavam através dos seus corpos. Viu que faziam todos parte de uma grande fórmula da Carta, um enviado imensamente poderoso constituído por muitas partes. Um enviado-guardião, como aquele na porta de madeira vermelha...

Lirael levantou-se, fez uma festa à Cadela na cabeça e avançou direto ao calor feroz e aos guardiães com as suas espadas de chamas.

- Sou Lirael - anunciou, aplicando ao seu discurso as marcas da Carta para verdade e clareza. - Uma Filha das Clayr.

As suas palavras pairaram no ar por um momento, atravessando o zumbido e a crepitação dos enviados ígneos. Depois, os guardiães ergueram as suas espadas como se em continência - e uma onda de calor ainda mais intenso avançou rolando, privando de ar os pulmões de Lirael. Engasgou-se, tossiu, recuou um passo... e desmaiou.

Quando voltou a si, a língua da Cadela Desavergonhada preparava-se para lhe lamber o rosto. Talvez pela décima vez, avaliando pela camada espessa de saliva de cão na sua face.

- O que aconteceu? - perguntou, olhando rapidamente à sua volta. Não havia agora fogos, nem guardiães ardendo, mas pequenas marcas da Carta para luz que piscavam à volta dela como estrelas minúsculas.

- Queimaram o ar à sua volta quando fizeram a continência. Acho que quem quer que criou aqueles enviados esperava que as pessoas se identificassem da porta - explicou a Cadela, esboçando outra lambidela, mas foi afastada. - Ou então eram uns enviados particularmente estúpidos. Mesmo assim, pelo menos um deles fez o favor de atirar um punhado destas luzinhas. A propósito, parte do seu cabelo ficou queimado.

- Maldição! - exclamou Lirael, examinando as pontas chamuscadas do seu cabelo, no lugar onde saíam debaixo do lenço. - Tia Kirrith vai reparar, com certeza! Terei de lhe dizer que me debrucei sobre uma vela, ou assim. Por falar em Kirrith, é melhor voltarmos.

- Ainda não! - protestou a Cadela. - Não depois de todo este esforço. Além disso, as luzes assinalam um caminho. Olha! Deve ser ele. O Caminho de Lirael!

Lirael sentou-se e olhou para onde a Cadela apontava - na pose clássica, uma pata dianteira levantada e o focinho ansiosamente para a frente. Com toda certeza, existia um caminho de minúsculas luzes da Carta a piscar, estendendo-se ao longo da saliência, onde a Falha se estreitava numa escuridão ainda mais sinistra.

- Devíamos realmente voltar - sugeriu, sem convicção. O caminho de luzes estava ali, chamando. Os enviados tinham-na deixado passar. Devia existir algo do outro lado que valia a pena alcançar. Talvez mesmo algo que fosse ajudá-la a adquirir o dom da Visão, pensou, impotente perante aquele anseio, a esperança ínfima que ainda vivia dentro do seu coração. Nem todos aqueles anos de pesquisa na Biblioteca a tinham conseguido ajudar. Talvez fosse antes aqui, na parte antiga do domínio das Clayr.

- Então vamos - disse ela, içando-se com um gemido. Cabelo queimado e equimoses - fora tudo o que encontrara até ali. - O que está esperando?

- Vá você primeiro - respondeu a Cadela. - Ainda me dói o focinho por causa dos estúpidos dos porteiros de fogo das suas parentes.

O caminho de luzes avançava ao longo da saliência e a Falha estreitava, as paredes de rocha aproximando-se, até Lirael conseguir estender a mão e passar os dedos pela pedra fria e molhada de cada lado dela. Parou de fazê-lo quando descobriu que a luminescência provinha de um fungo úmido que lhe deixou as pontas dos dedos brilhando e cheirando a couve podre.

À medida que o caminho estreitava, descia também mais para a montanha e a umidade fria eliminou os últimos restos de calor do rosto chamuscado de Lirael. Ouvia-se também um som, um estrondo profundo que vibrava através dos pés dela, aumentando enquanto caminhavam. De início, Lirael julgou que fosse fruto da sua imaginação, talvez fizesse parte daquilo que a Cadela chamava a sua sensação da Morte. Depois  percebeu o que era: o bramido plenamente ressoante de água a precipitar-se.

- Devemos estar perto de um rio subterrâneo ou algo assim - disse, elevando nervosamente a voz para contrariar o bramido crescente da água. Como a maior parte das Clayr, quase não sabia nadar e a sua experiência com rios limitava-se às pavorosas torrentes de gelo derretido que brotavam da geleira todas as Primaveras.

- Estamos quase sobre ele - respondeu a Cadela, que conseguia ver mais além no brilho do caminho revestido de estrelas. - Como disse o poeta:

 

Rio rápido na noite mais profunda,

Precipitando-se para alcançar a luz,

O gelo profundo e escura a sua faixa envolvente,

Os inimigos do Reino sentirão a sua ira.

Até o poderoso Ratterlin gastar a sua força,

A todo o comprimento do Delta.

- Hummm... posso ter saltado um verso ou outro. Vejamos, ”Rio rápido...”

- A nascente do Ratterlin é aqui? - interrompeu Lirael, apontando lá para frente. - Pensei que era apenas água do degelo. Não sabia que tinha uma nascente.

- Existe uma nascente - respondeu a Cadela, após uma pausa. - Uma nascente muito antiga. No coração da montanha, na escuridão mais profunda. Pára!

Lirael obedeceu, uma mão agarrando instintivamente a prega de pele solta no pescoço da Cadela, por baixo da coleira.

De início não compreendeu por que motivo a Cadela a fizera parar, até o animal a conduzir dando mais alguns passos cautelosos. com aqueles passos, o som do rio tornou-se subitamente um bramido atroador e o borrifo frio bateu-lhe no rosto.

Tinham chegado ao rio. O caminho à frente era uma ponte estreita de pedra escorregadia e molhada que se estendia por vinte passos ou mais, terminando numa outra porta. A ponte não tinha corrimão e não atingia os sessenta centímetros de largura. A sua estreiteza e a água precipitando-se lá embaixo constituíam um nítido indício de que fora concebida como uma barreira para os Mortos. Nada dessa natureza poderia atravessar aqui.

Lirael olhou para a ponte, para a porta, depois para a água escura e agitada lá embaixo, sentindo simultaneamente medo e um fascínio terrível. O movimento constante da água e o bramido incessante eram hipnotizantes, mas conseguiu finalmente desviar o olhar. Fitou a Cadela e, apesar das suas palavras se perderem parcialmente com o estrondo do rio, exclamou:

- Não vou atravessar aquilo!

A Cadela ignorou-a e Lirael começou a repetir-se. Mas as palavras ficaram-lhe na língua quando Lirael reparou que as patas da Cadela tinham o dobro do tamanho normal e estavam achatadas. Apresentava também um ar bastante presunçoso.

- Aposto que tem ventosas - gritou Lirael, estremecendo com repugnância só da idéia. - Como um polvo.

- Claro que tenho - gritou a Cadela em resposta, levantando uma pata com um estalo molhado que Lirael conseguiu ouvir por cima do ruído do rio. - Parece-me uma ponte extremamente traiçoeira.

- Sim, parece - berrou Lirael, olhando de novo para a ponte. Era evidente que a Cadela tencionava atravessar e com a ajuda das suas patas com ventosas, calculou Lirael, a travessia passava de impossível a meramente perigosa. Suspirando, curvou-se e descalçou os sapatos, piscando os olhos por causa do borriço constante. Depois de prender ao cinto os atacadores dos seus botins de pele macia, apoiou os dedos na pedra. Estava muito fria, mas Lirael ficou aliviada ao sentir uns leves sulcos paralelos que não vira com a luz difusa. Sempre lhe proporcionaria algum apoio.

- Pergunto-me o que esta ponte pretende afastar - disse, enfiando os dedos na coleira da Cadela, sentindo ali o zumbido confortante da Magia da Carta e o volume ainda mais confortante de um cão bem equilibrado.

Tinham dado apenas o primeiro passo quando Lirael expressou o seu segundo pensamento, as suas palavras inaudíveis com o bramido do rio à volta delas.

- Ou o que pretende conservar aqui dentro.

 

PODER TRIPLICADO

A porta no outro extremo da ponte abriu-se mal Lirael lhe tocou. Mais uma vez, sentiu a Magia da Carta fluir até ela, mas não foi o toque amistoso da porta superior, ou o tranquilo reconhecimento do portal de pedra à entrada da Falha. Foi mais um exame cauteloso, seguido do reconhecimento imediato, mas não necessariamente amigável.

Debaixo da mão dela, a Cadela estremeceu quando a porta se escancarou. Lirael sentiu o tremor e perguntou-se por quê, até captar o cheiro distintivo e corrosivo da Magia Livre. Vinha de algum lugar lá em cima, estranhamente revestida de Magia da Carta que a ligava e continha.

- Magia Livre - murmurou Lirael, hesitando. Mas a Cadela continuou a avançar, arrastando-a consigo. Relutantemente, Lirael seguiu-a através da porta.

Assim que Lirael transpôs o limiar, a porta fechou-se com força atrás dela. Num instante, o bramido do rio acabou. E também a luz do trilho marcado pela Carta. Estava escuro, mais escuro do que qualquer escuridão que Lirael alguma vez conhecera, um escuro verdadeiro onde era subitamente difícil imaginar sequer luz. A escuridão pressionava Lirael, levando-a a duvidar dos seus próprios sentidos. Só a pele quente da Cadela sob a sua mão lhe dizia que ainda estava de pé, que a câmara não mudara e o chão não se inclinara.

- Não se mexa - murmurou a Cadela e Lirael sentiu um focinho canino comprimido contra a sua perna, como se o aviso proferido não tivesse sido suficiente.

O cheiro de Magia Livre tornou-se mais forte. Lirael apertou o nariz com uma mão, tentando não inspirar nada, enquanto a outra mão foi ao rato mecânico de emergência no bolso do colete. Não que fosse provável este dispositivo inteligente encontrar o caminho dali até à Biblioteca.

Sentiu igualmente a Magia da Carta aumentando, marcas fortes flutuando no ar como pólen, a sua habitual luz interior umedecida. Sentiu a Magia da Carta e a Livre trabalhando em conjunto, circulando e contorcendo-se à volta dela, criando alguma fórmula que não conseguiu sequer começar a identificar.

O medo começou a apertar o estômago de Lirael, estendendo-se lentamente até lhe paralisar os pulmões. Queria respirar, fazer entrar e sair o ar, acalmar-se com a regularidade da sua respiração. Mas o ar estava carregado de estranha magia, magia que não podia - não queria - inalar.

Depois começaram a brilhar luzes no ar, minúsculas bolas frágeis de luz constituídas por centenas de espinhas da grossura de um cabelo, como relógios luminosos de dentes-de-leão, deslizando em alguma brisa que Lirael não conseguia sentir. com as luzes, o cheiro a Magia Livre diminuiu, a Magia da Carta começou a fortalecer-se e Lirael arriscou uma leve inspiração cautelosa.

Na claridade estranhamente salpicada e em mudança constante, Lirael viu que estava numa câmara octogonal. Uma sala grande, mas não de pedra fria talhada como esperara, aqui no coração da montanha. As paredes estavam revestidas de um padrão delicado de estrelas douradas, torres e chaves de prata. O teto fora estucado e pintado com um céu noturno, cheio de nuvens negras carregadas de chuva avançando sobre sete estrelas que brilhavam com intensidade. E havia um tapete debaixo dos seus pés,  percebeu Lirael. Um tapete azul-escuro, macio e quente sob os seus pés depois da pedra fria e molhada da ponte.

No meio da sala, havia uma mesa de pau-brasil em esplendor solitário, as suas pernas esguias terminando com pés de prata com três dedos. No seu tampo amplo e polido haviam três objetos alinhados: um pequeno estojo de metal com cerca do tamanho da palma da mão de Lirael, um conjunto do que pareciam flautas de Pan de metal e um livro, encadernado em pele azul com fivelas de prata. A mesa, ou os objetos nela, eram sem dúvida o ponto focal da magia, pois as luzes dos dentes-de-leão eram mais espessas aqui, criando um efeito de nevoeiro luminoso.

- Vá até lá, então - disse a Cadela, sentando-se nos quartos traseiros. - Parece ser aquilo a que viemos.

- O que quer dizer? - perguntou Lirael, desconfiada, efetuando uma série de respirações fundas e calmantes. Sentia-se relativamente segura agora, mas havia muita magia na sala que desconhecia e não conseguia sequer tentar adivinhar a que se destinava ou de onde viera. E sentia ainda o sabor da Magia Livre no fundo da boca e na língua, um travo de ferro frio que se recusava a passar.

- As portas abriram-se para você, o caminho iluminou-se para você, os guardiães daqui não te destruíram - disse a Cadela, esfregando a mão aberta de Lirael com o seu focinho frio e úmido. Olhou para Lirael com ar conhecedor e acrescentou: - O que quer que está naquela mesa deve ser destinado a você. O que também significa que não se destina a mim. Por isso, vou ficar aqui sentada. Ou deitada, na verdade. Acorde-me quando for hora de partirmos.

Com aquilo, a Cadela espreguiçou-se voluptuosamente, bocejou e estendeu-se no tapete. Confortavelmente deitada de lado, agitou algumas vezes a cauda e depois, ao que tudo indicava, adormeceu profundamente.

- Oh, Cadela! - exclamou Lirael. - Não pode adormecer agora! O que faço se acontecer algo mau?

A Cadela abriu um olho e disse, com o menor movimento possível da mandíbula:

- Acorde-me, claro.

Lirael olhou para a Cadela adormecida, depois para a mesa. O Stilken fora a pior coisa que encontrara na Biblioteca. Mas descobrira outras coisas perigosas ao longo dos últimos anos - criaturas más, fórmulas da Carta antigas que se tinham desmanchado ou tornado imprevisíveis, armadilhas mecânicas, até livros com encadernações envenenadas. Tudo aquilo eram os perigos habituais da vida de uma bibliotecária, mas nada como o que enfrentava agora. O que quer que fossem aqueles itens, estavam mais fortemente guardados e continham magia mais estranha e mais poderosa do que algo que Lirael alguma vez vira.

Qualquer que fosse a magia ali concentrada, era também antiga, percebeu Lirael. As paredes, o chão, o teto, o tapete, a mesa - até o ar na sala - estavam saturados com camadas e camadas de marcas da Carta, algumas delas pelo menos com mil anos. Lirael as sentia mover-se por todo o lado, misturando-se e mudando. Quando fechou os olhos por um momento, a sala pareceu quase uma Pedra da Carta, uma fonte de Magia da Carta, e não um local onde haviam sido lançadas muitas fórmulas.

Mas isso era impossível, pelo menos tanto quanto sabia...

Ficando subitamente confusa com o pensamento, Lirael abriu de novo os olhos. As marcas da Carta fluíram à volta da sua pele, entraram-lhe na respiração, inundaram-lhe o sangue. A Magia da Carta flutuava entre as marcas. As luzes dos dentes-de-leão estenderam-se na direção dela como gavinhas, envolvendo-a delicadamente pela cintura, e puxaram-na lentamente para o pé da mesa.

A magia e as luzes fizeram-na sentir delirante e aturdida, como se tivesse despertado dos momentos finais de um sonho. Lirael combateu a sensação por um momento, mas era uma sensação agradável e nem por sombras ameaçadora. Afastou-se da Cadela adormecida e avançou lentamente, envolta em luz.

Depois estava subitamente perto da mesa, sem se lembrar de atravessar o espaço de permeio. As suas mãos apoiaram-se na superfície fresca e polida da mesa. Como era de esperar de uma Segunda Assistente de Bibliotecária, estendeu primeiro a mão para o livro, os seus dedos tocando na fivela de prata que o mantinha fechado enquanto lia o título gravado em letras prateadas na lombada: O Livro da Lembrança e do Esquecimento.

Lirael desapertou a fivela, sentindo também ali a Magia da Carta, reparando nas marcas que se perseguiam pela superfície de prata e embrenhadas no próprio metal. Marcas de aprisionamento e encerramento, queimadura e destruição.

Mas a fivela estava aberta quando percebeu o que eram as marcas e viu que não lhe acontecera nada. Cuidadosamente, virou a capa e o frontispício, o papel seco e fino passando com facilidade. Havia marcas da Carta dentro das páginas, colocadas ali na época em que o papel fora fabricado. E Magia Livre, aprisionada e canalizada para lá. Havia magia de ambos os tipos nas placas e na pele da capa e mesmo na cola e na cosedura da lombada.

Acima de tudo, havia magia e poder no tipo. No passado, Lirael vira livros semelhantes, embora menos poderosos, como Na Pele de Um Leão. Nunca se conseguia verdadeiramente acabar de ler semelhante livro, pois o conteúdo mudava conforme a necessidade, o capricho do criador original, ou para se adequar às fases da Lua ou aos padrões do tempo. O conteúdo de determinados livros não conseguia sequer ser lembrado até ocorrerem determinados acontecimentos. Invariavelmente, tratava-se de um ato de bondade do criador do livro, pois esse conteúdo lidava invariavelmente com coisas que seriam um fardo recordar em cada dia acordado.

As luzes dançaram à volta da cabeça de Lirael quando começou a ler, criando padrões de sombra devido ao seu cabelo que tremulava por cima da página. Leu a primeira página, a segunda, depois a que vinha a seguir. Não tardou que Lirael acabasse o primeiro capítulo, a sua mão estendendo-se de tempos em tempos para virar a página. Atrás dela, a respiração pesada da Cadela adormecida parecia condizer com o ritmo lento do virar das páginas.

Horas depois, ou mesmo dias - pois Lirael perdera por completo a noção do tempo -, virou o que pareceu ser a última página e fechou o livro, a fivela de prata soltando um estalido.

Lirael recuou ao ouvir o ruído, mas não abandonou a mesa. Pegou antes as flautas de Pan, sete tubos pequenos de prata, que iam do tamanho do seu dedo mindinho até um pouco menos do que a palma da mão. Eram muito mais do que aparentavam. O livro indicara-lhe como tinham sido feitas as flautas e como podiam ser usadas e Lirael sabia agora que as marcas da Carta que se deslocavam na prata eram apenas um revestimento para a Magia Livre que espreitava lá dentro.

Tocou sucessivamente em cada uma das flautas, da menor à maior, e murmurou os seus nomes de si para si antes de voltar a colocar o instrumento em cima da mesa. Depois pegou a última peça, o pequeno estojo de metal. Também era de prata, com agradáveis motivos gravados, assim como marcas da Carta. Estas últimas eram semelhantes às do livro, ameaçando todas retaliação se a caixa fosse aberta por alguém que não pertencesse ao Sangue Verdadeiro. Não dizia que sangue em particular, mas Lirael achou que se o livro lhe abrira, aconteceria o mesmo com o estojo.

Tocou de leve no fecho, recuando um pouco quando sentiu o calor intenso da Magia Livre lá dentro. O estojo permanecia fechado. Chegou a pensar que o livro pudesse estar errado, ou que houvesse interpretado mal as marcas, ou não tivesse o sangue certo. Fechou os olhos e comprimiu firmemente o fecho.

Não aconteceu nada de terrível, mas o estojo estremeceu na sua mão. Lirael abriu os olhos. O estojo separara-se em duas metades, com uma dobradiça no meio. Como um espelho pequeno, para ser equilibrado numa prateleira ou mesa.

Lirael abriu-o completamente e colocou-o, em forma de ”V”, sobre a mesa. Um dos lados era de prata, mas o outro era de algo que não conseguiu descrever. Onde devia estar a superfície refletora de um espelho, havia um retângulo não refletor de... nada. Um pedaço de escuridão total, uma forma de algo feito de total ausência de luz.

O Livro da Lembrança e do Esquecimento chamava-lhe um Espelho Negro e Lirael lera, pelo menos em parte, como podia ser usado. Mas o Espelho Negro não funcionava nesta sala, ou em qualquer parte do mundo da Vida. Só podia ser usado na Morte e Lirael não pretendia ir lá, mesmo que o livro afirmasse mostrar-lhe como voltar. A Morte era o domínio do Abhorsen, não das Clayr, apesar do uso peculiar do Espelho Negro poder estar relacionado com o dom da Visão das Clayr.

Lirael fechou com força o Espelho Negro e colocou-o em cima da mesa. Mas os seus dedos continuavam nele. Ficou ali assim por um minuto inteiro, pensando. Depois pegou nele e guardou-o no bolso esquerdo do colete, indo fazer companhia a um aparo de caneta, uma porção de cordel encerado e um lápis afiado. Após outro momento de hesitação, pegou as flautas de Pan e guardou-as no bolso direito, perto do rato mecânico. Por fim, pegou o Livro da Lembrança e do Esquecimento e enfiou-o na parte da frente do colete.

Foi encontrar com a Cadela Desavergonhada. Estava na hora das duas terem uma conversa muito séria sobre o que acontecia. O Livro, o Espelho Negro e as flautas de Pan tinham sido colocados ali há mil anos ou mais, esperando no escuro por alguém que as Clayr de antigamente tinham sabido que viria.

Esperando no escuro por uma mulher chamada Lirael.

Esperando por ela.

 

UMA ESTAÇÃO DO ANO CONTURBADA

O Príncipe Sameth encontrava-se tremendo de frio no estreito caminho da sentinela da segunda torre mais alta do Palácio. Tinha vestido o seu manto de pele mais pesado, mas o vento conseguia penetrar ainda nele e não podia dar-se ao incômodo de lançar uma fórmula da Carta para calor. Em parte queria constipar-se, porque isso implicaria furtar-se ao programa de atividades que Ellimere lhe impusera.

Encontrava-se no caminho da sentinela por dois motivos. O primeiro era querer olhar lá para fora na esperança de ver o pai ou a mãe regressarem. O segundo era querer evitar Ellimere e todos os demais que pretendiam organizar a sua vida.

Sam sentia a falta dos pais e não apenas porque podiam libertá-lo da tirania de Ellimere. Mas Sabriel estava constantemente atendendo a pedidos longe de Belisaere, voando na sua Asa de Papel vermelha e dourada de um local problemático para o seguinte. Era um mau Inverno, ouvia as pessoas dizer constantemente, com tanta atividade dos Mortos e criaturas da Magia Livre. Sam estremecia sempre por dentro quando falavam no assunto, sabendo que não tiravam os olhos dele e que deveria estar estudando O Livro dos Mortos, preparando-se para ajudar a mãe.

Devia estar estudando naquele momento, pensou com ar carrancudo, mas continuou olhando por cima dos telhados gelados da cidade e através do fumaça que se erguia dos milhares de lareiras acolhedoras.

Não abrira sequer o livro desde que Ellimere o entregara. O volume verde e prata permanecia seguramente trancado num armário na sua sala de trabalho. Pensava nele todos os dias e olhava para ele, mas não conseguia decidir-se a lê-lo. Na verdade, passara as horas em que devia estar estudando-o tentando encontrar uma forma de dizer à mãe que não era capaz. Não conseguia ler o livro e não conseguia encarar uma nova ida até à Morte.

Ellimere permitia-lhe duas horas por dia para estudar o livro, ou ”preparar-se para Abhorsen” como lhe chamava, mas Sam não o fazia. Preferia escrever. Discurso após discurso em que tentava explicar os seus sentimentos e os seus receios. Cartas a Sabriel. Cartas a Touchstone. Cartas a ambos os pais. Acabando todas elas na lareira.

- Eu falo com ela - anunciou Sam ao vento. Não falou muito alto, não fosse a sentinela do outro lado da torre ouvi-lo. Os guardas já o achavam uma fraca figura como Príncipe. Não queria que pensassem que era também um Príncipe louco.

- Não, digo ao Pai e depois ele pode contar-lhe - acrescentou após um momento de reflexão. Mas Touchstone acabara de regressar de Estwael, onde fora obrigado a deslocar-se para sul até ao Forte da Guarda na Colina de Barhedrin, a norte da Muralha. Tinha sido informado que os Ancelstierranos estavam permitindo que grupos de refugiados sulistas atravessassem a Muralha e se instalassem no Reino Antigo - ou, na verdade, fossem mortos por criaturas ou os loucos que vagueavam pelas Zonas Limítrofes. Touchstone fora investigar estas informações, para ver o que faziam os Ancelstierranos e salvar os poucos Sulistas que pudessem ter sobrevivido.

- Ancelstierranos estúpidos - murmurou Sam, dando um pontapé na parede. Infelizmente, o seu outro pé escorregou na pedra gelada e resvalou para a parede, fazendo-o bater com o osso cubital.

- Au! - exclamou, agarrando o cotovelo. - Diabo!

- O senhor está bem? - perguntou o guarda, que veio correndo, as suas botas proporcionando muito mais aderência do que os chinelos de pele de coelho de Sam.

Sam carregou o cenho. Sabia que a perspectiva de fazer de Cotovia era motivo de infinito divertimento para os guardas. A sua sensação de auto-estima não era ajudada pelas suas risadas escarninhas mal disfarçadas nem pela facilidade com que Ellimere desempenhava o seu futuro papel, fazendo as vezes de co-regente com graça e autoridade - pelo menos para todos exceto Sam.

Os ensaios titubeantes de Sam no papel de Cotovia nos Festivais do Solstício de Verão e de Inverno eram apenas uma das muitas áreas onde ele se mostrava uma figura régia muito mais fraca do que a irmã. Não conseguia fingir entusiasmo pelas danças, adormecia com frequência no Tribunal Ordinário e se sabia ser bom espadachim, de certa forma não tinha vontade de tornar a sua mestria extensiva à prática com os guardas.

Tão-pouco se saía bem em Perspectiva. Ellimere entregava-se sempre à tarefa em mãos, trabalhando feita uma louca. Sam procedia da forma inversa, olhando para o ar e afligindo-se com o seu futuro anuviado, ficando com frequência tão absorto que interrompia aquilo que devia fazer.

- O senhor está bem? - repetiu o guarda.

Sam pestanejou. Pronto, lá estava ele outra vez. olhando para o ar enquanto pensava em olhar para o ar.

- Sim, obrigado - disse, movimentando os dedos enluvados. - Escorreguei. Bati com o cotovelo.

- Vê algo interessante lá fora? - perguntou o guarda. Chamava-se Brel, recordou-se Sam. Um guarda bem simpático, não era daqueles que reprimiam uma risada quando Sam passava com a sua roupa de Cotovia.

- Não - respondeu Sam, abanando a cabeça. Olhou de novo, para o interior da cidade. O Festival do Solstício de Inverno ia começar dentro de alguns dias. A construção da Feira do Gelo ia de vento em popa. Uma enorme cidade buliçosa coberta por uma tenda sobre a superfície gelada do Lago Loesare, a Feira do Gelo tinha carros alegóricos e atores, bobos e malabaristas, músicos e mágicos, exibições e exposições e todo o tipo de jogos, para não falar de comida de cada canto do Reino Antigo e para lá dele. O Lago Loesare cobria trinta e seis hectares do vale central de Belisaere, mas a Feira do Gelo ultrapassava-os, estendendo-se até aos jardins públicos que circundavam a margem do lago. Sam sempre gostara da Feira do Gelo, mas olhava-a agora sem o menor interesse. Tudo o que sentia era uma fria e negra depressão.

- Toda a diversão da feira - disse Brel, esfregando as mãos uma na outra. - Parece que este ano vai ser um bom festival.

- Sério? - perguntou Sam com tristeza. Teria de dançar no último dia do Festival, como Cotovia. A sua função era transportar o ramo verde da Primavera na cauda do cortejo do Inverno, atrás da Neve, do Granizo, da Saraiva, do Nevoeiro, da Tempestade e do Gelo. Eram todos dançarinos profissionais sobre andas, por isso pairavam ameaçadoramente sobre a Cotovia, evidenciando também a falta de habilidade de Sam.

A Dança do Inverno era longa e complicada, percorrendo três quilômetros e meio dos caminhos sinuosos da Feira. Mas era muito mais comprida do que isso, porque se impunham muitas fugas quando os Seis Espíritos do Inverno andavam de volta da Cotovia e tentavam prolongar a sua estação roubando o ramo da Primavera debaixo da asa dourada de Sam, ou pregando-lhe rasteiras com as andas.

Até o momento, tinha havido dois ensaios gerais. Estava combinado que os Espíritos do Inverno não fizessem tropeçar a Cotovia, mas até ali nem sequer a perícia dos outros dançarinos conseguira impedir que a Cotovia se estatelasse. No fim do primeiro ensaio, a Cotovia caíra três vezes e dobrara o bico duas, o que fora, sem dúvida, motivo de grande exaltação. O segundo ensaio fora ainda pior, quando a Cotovia colidira com a Saraiva e a derrubara das andas. A nova Saraiva recusava-se a falar com ele.

- Dizem que um ensaio difícil é sinal de uma dança fácil - observou Brel.

Sam concordou e desviou o olhar do guarda. Não se avistava uma Asa de Papel deslizando contra o vento, ou uma companhia de cavaleiros ostentando o estandarte real na estrada do sul. Era desnecessário estar vendo se detectava os pais.

Brel tossiu para a luva. Sam virou-se no momento em que o guarda baixou a cabeça e retomou a sua marcha lenta pelo caminho da sentinela, a sua trombeta agitando-se pendurada às costas.

Sam foi para baixo. Já estava atrasado para o próximo ensaio.

Brel estava enganado a respeito dos maus ensaios significarem uma dança bem sucedida. Sam andou desajeitadamente e tropeçou o tempo todo e só o profissionalismo e a energia dos Seis Espíritos evitou que a dança fosse um fracasso.

Tradicionalmente, todos os bailarinos do Festival comiam no Palácio com a família real, após o espectáculo, mas Sam pdisse isolar-se. Já lhe tinham feito o suficiente e ele também fizera o suficiente, com as equimoses evidenciando-no. Tinha certeza que a Saraiva lhe batera propositadamente com a anda quase no fim. Era irmã daquela que ele fizera cair das andas no ensaio.

Em vez de comparecer ao jantar, Sam retirou-se para a sua oficina, tentando esquecer os seus problemas com a construção de um brinquedo mecânico e mágico particularmente complexo e interessante. Ellimere mandou um pajem buscá-lo, mas não podia fazer mais sem embaraçar a todos, por isso deixou-o em paz - pelo menos por aquela noite.

Mas não no dia seguinte nem nos mais próximos.

Ellimere não conseguia - ou não queria - ver que a insociabilidade de Sam provinha de problemas genuínos. Por isso, limitava-se a inventar mais coisas para ele fazer. Pior ainda, começara a impingir-lhe as irmãs mais novas das suas amigas, pensando sem dúvida que uma boa mulher resolveria o problema dele. Naturalmente, Sam passava logo a detestar quem quer que Ellimere tão ostensivamente sentava ao seu lado no jantar, ou quem surgisse ”por acaso” na sua oficina com uma pulseira com o fecho partido para ele consertar. A sua preocupação constante com o livro e o regresso da mãe deixavam-lhe pouca energia para cultivar amizades, quanto mais ligações amorosas. Por isso, ganhou fama de emproado e distante, não só entre as jovens que lhe eram apresentadas por Ellimere, mas entre todos os da sua própria idade no Palácio. Mesmo as pessoas que tinham sido suas amigas em anos anteriores, quando vinha para casa nas férias, haviam deixado de apreciar a sua companhia. Sam, embrenhado nos seus próprios problemas e ocupado com as suas obrigações oficiais, mal reparava que as pessoas da sua idade o evitavam.

Conversava um pouco com Brel, pois tendiam ambos a estar na segunda torre mais alta na mesma hora. Felizmente, o guarda não era conversador por natureza e também não parecia importar-se com os longos silêncios de Sam ou a sua tendência para parar e ficar olhando para lá da cidade e do mar.

- Hoje é o seu aniversário - disse Brel, bem cedo numa manhã de céu limpo e muito fria. Ainda se via a Lua e havia um círculo à sua volta, como só acontecia nas noites de Inverno mais frias.

Sam concordou. Como tinha lugar duas semanas depois do Festival do Solstício de Inverno, o seu aniversário conseguia ser sempre eclipsado pelo acontecimento de maior importância. Naquele ano, foi ainda menos espectacular devido à ausência contínua de Sabriel e Touchstone, que apenas conseguiram enviar mensagens e presentes que, apesar de escolhidos com nítido cuidado, não animaram Sam. Em particular dado que um era uma capa com as chaves de prata do Abhorsen sobre um fundo azul-escuro esquartelado com o castelo dourado num campo vermelho da linhagem real e o outro um livro intitulado Merchane a Respeito do Aprisionamento dos Elementais da Magia Livre.

- Teve presentes bons? - perguntou Brel.

- Uma capa - respondeu Sam. - E um livro.

- Ah - disse Brel. Esfregou as mãos uma na outra, para restabelecer a circulação. - Nesse caso, não recebeu uma espada? Ou um cão?

Sam abanou a cabeça. Não queria uma espada nem um cão, mas qualquer deles teria sido mais bem-vindo do que aquilo que recebera.

- Calculo que a Princesa Ellimere vá dar algo bonito - sugeriu Brel após uma longa pausa de deferência.

- Duvido - disse Sam. - Provavelmente irá organizar uma lição qualquer.

Brel voltou a esfregar as mãos, ficou parado e perscrutou lentamente o horizonte de sul para norte.

- Feliz aniversário - disse, quando a sua cabeça terminou o movimento lento. - Quantos são? Dezoito?

- Dezessete - respondeu Sam.

- Ah! - disse Brel e caminhou até ao outro lado da torre para repetir a observação do horizonte.

Sam desceu as escadas.

 

Ellimere organizou mesmo uma festa de aniversário no Salão Nobre, mas revelou-se enfadonha, sobretudo em virtude da influência deprimente de Sam. Recusou-se a dançar, porque era o único dia em que o podia fazer e, como era o seu aniversário, isso significava que também mais ninguém poderia dançar. Recusou-se a abrir os presentes diante dos demais porque não tinha vontade e limitou-se a beliscar o peixe-espada grelhado com lima e trigo miúdo salteado, outrora o seu prato preferido. Na verdade, portou-se como um garoto mimado e birrento de sete anos e não como um jovem de dezessete. Sam sabia, mas era mais forte que ele. Pela primeira vez em semanas, conseguira recusar as ordens de Ellimere ou, como ela lhes chamava, ”sugestões fortes”.

A festa acabou cedo, com todos aborrecidos e irritados. Sam foi direto à sua sala de trabalho, ignorando os cochichos e olhares de soslaio enquanto abandonava o Salão. Era-lhe indiferente o que os outros pensavam, apesar de estar desconfortavelmente consciente de que os olhos encapuzados de Jall Oren observavam a sua saída. Jall iria sem dúvida informar os pais das faltas de Sam quando eles regressassem, se não resolvesse fazer antes uma das suas temidas, e com razão, apreciações sobre o que estava errado no comportamento de Sam.

Mas até um dos sermões de Jall perderia a importância quando a mãe descobrisse a verdade a respeito do filho. Sam não se atrevia a pensar no que aconteceria depois dessa revelação. Não conseguia imaginar o que aconteceria, ou qual seria o seu próprio futuro. O Reino precisava ter um Futuro Abhorsen e um herdeiro real. Ellimere era manifestamente a herdeira real perfeita, por isso Sam teria de ser o Futuro Abhorsen. Só que não era capaz. Não que não quisesse, como todos eram levados a pensar. Não era mesmo capaz.

Naquela noite, como fizera muitas vezes antes, Sam abriu o armário do lado esquerdo da sua bancada e encheu-se de coragem para olhar para O Livro dos Mortos. Estava numa prateleira, brilhando com a sua luz verde sinistra que obscurecia o brilho suave das marcas da Carta no teto.

Estendeu a mão para ele, como um caçador que tenta fazer uma festa a um lobo na vã esperança de que pudesse ser apenas um cão simpático. Os seus dedos tocaram na fivela de prata e as marcas da Carta colocadas sobre ela, mas não foi capaz de mais nada, sendo tomado de um tremor violento e ficando com a pele fria como o gelo. Sam tentou parar os tremores e ignorar o frio, mas não conseguiu. Retirou apressadamente a mão e recuou até à frente da lareira, onde se acocorou, extremamente infeliz, abraçado aos joelhos.

Uma semana após o seu aniversário, Sam recebeu uma carta de Nick. Ou melhor, os restos de uma carta, porque fora escrita em papel fabricado por uma máquina. Tal como a maior parte dos produtos da tecnologia ancelstierrana, o papel começara a desfazer-se com a travessia da Muralha e estava agora reduzido às suas fibras componentes. Sam dissera com frequência a Nick, no passado, para usar papel manufaturado, mas ele nunca o fazia.

Mesmo assim, ainda restava o suficiente para Sam deduzir que Nick lhe solicitava um visto para o Reino Antigo, para si e um criado. Pretendia atravessar a Muralha no Solstício de Inverno e agradecia que Sam viesse ao seu encontro no Ponto de Passagem.

Sam animou-se. Nick sempre podia distraí-lo. Consultou imediatamente o seu almanaque para ver ao que correspondia no Reino Antigo o Solstício de Inverno em Ancelstierre. Regra geral, o Reino Antigo tinha uma estação inteira de avanço sobre Ancelstierre, mas existiam umas estranhas flutuações que requeriam a confirmação num almanaque, em particular na época dos solstícios e das mudanças das estações.

Os almanaques para o Reino Antigo/Ancelstierre como o de Sam tinham sido quase impossíveis de obter em tempos, mas há dez anos Sabriel emprestara o seu ao tipógrafo real, que fizera uma nova composição de modo a incorporar todos os comentários manuscritos e notas marginais de Sabriel e dos Abhorsens anteriores. Fora um processo longo e laborioso. O resultado final era muito agradável esteticamente, com tipo legível, ligeiramente em relevo sobre papel rijo de linho, mas saíra muito dispendioso. Sabriel e Touchstone tinham definido com muito cuidado quem estava autorizado a possuir esses almanaques. Sameth ficara muito orgulhoso quando lhe fora confiado um no dia do seu décimo segundo aniversário.

Felizmente, o almanaque tinha uma correspondência exata para o Solstício de Inverno, em vez de uma equação para Sam resolver, que requeria estudos da lua e outras observações. Naquele dia, em Ancelstierre, seria o Dia dos Navios no Reino Antigo, na terceira semana da Primavera. Faltavam ainda muitas semanas, mas Sam tinha finalmente algo de positivo em que pensar.

Depois da carta de Nick, o humor de Sam melhorou um pouco e tornou-se mais sociável com todos no Palácio, exceto Ellimere. O resto do Inverno passou-se sem que os pais viessem para casa e sem quaisquer tempestades particularmente terríveis ou o frio intenso, de enregelar os ossos, que por vezes chegava de nordeste, acompanhado de pequenos grupos de baleias perdidas que de outro modo não entravam no Mar de Saere.

Para quem conhecesse o tempo, era um Inverno particularmente moderado, mas na corte e na cidade as pessoas achavam-no ainda rigoroso. Tinha havido muito mais problemas em todo o Reino naquela estação do ano do que em qualquer dos últimos dez Invernos, problemas como não se via desde os primeiros tempos do reinado de Touchstone. Os falcões-mensageiros voavam constantemente para e da Torre dos Estábulos e Mistress Finney ficava com os olhos congestionados e ainda mais irritável do que o normal, dado que os seus filhos, os falcões, não conseguiam dar vazão à procura de comunicação. Muitas das mensagens que os falcões levavam eram informações sobre os Mortos e criaturas da Magia Livre. Uma grande proporção acabava por se revelar falsa, mas muitas eram verdadeiras e requeriam todas a atenção de Sabriel.

Houvera outra notícia que deixara Sam perturbado. Uma carta do pai fê-lo recordar intensamente o dia terrível no Perímetro, quando os Sulistas Mortos tinham atacado a sua equipe de críquete e ele enfrentara o necromante na Morte.

Sam levou a carta para a segunda torre mais alta para a reler e refletir, enquanto Brel andava para cá e para lá à volta dele. Leu três vezes uma parte em especial:

 

O Exército ancelstierrano, presumivelmente sob instruções do governo, permitiu que um grupo de ”voluntários” sulistas entrasse no Reino Antigo por um dos Pontos de Passagem antigos na Muralha, em contravenção com todos os acordos anteriores e o senso comum. Obviamente que Corolini conseguiu mais apoio e isto é um teste do seu plano para enviar todos os Sulistas para o Reino,

Pus cobro o melhor que pude à continuação das travessias e reforcei os guardas em Barhedrin. Mas nada garante que os ancelstierranos não enviem mais Sulistas para cá, muito embora o General Tindall dissesse que irá retardar a execução dessas ordens e avisar-nos se puder.

De qualquer das formas, mais de mil Sulistas atravessaram já e levam pelo menos quatro dias de avanço em relação a nós. Aparentemente, foram recebidos por ”guias locais”, mas como nenhum dos Batedores do Perímetro foram autorizados a escoltar os refugiados, não sei se estes eram homens verdadeiros.

Iremos procurá-los, mas há algo aqui que não me agrada. Tenho certeza de que está envolvido pelo menos um feiticeiro da Magia Livre do nosso lado da Muralha e o Ponto de Passagem usado pelos Sulistas é o mais próximo do lugar onde sofreu a emboscada, Sameth.

O necromante, pensou Sam enquanto dobrava a carta. Ainda bem que fazia sol e ele se encontrava no Palácio, protegido por sentinelas, guardas e água corrente.

- Más notícias? - indagou Brel.

- Apenas notícias - respondeu Sam, mas não conseguiu reprimir um arrepio.

- Nada que o Rei e a Abhorsen não consigam resolver - respondeu Brel, com total confiança.

- Onde quer que estejam - murmurou Sam. Enfiou a carta dentro do casaco e voltou para baixo. Para a sua oficina, para se perder a fazer coisas, com ínfimos pormenores que requeriam toda a sua atenção e a total destreza das suas mãos.

A cada passo dado, sabia que devia ir abrir O Livro dos Mortos.

 

Tipicamente, os pais de Sam regressaram num belo fim de tarde de Primavera, muito depois de Sam ter descido da torre e de terminado a vigia de Brel. O vento soprava de leste, o Mar de Saere estava mudando de cor, do negro do Inverno para o turquesa estival, o sol ainda estava quente, mesmo ao descer para oeste e as andorinhas que habitavam os penhascos vinham roubar lã do cobertor rasgado de Sam para os seus ninhos.

Sabriel chegou primeiro, a sua Asa de Papel planando baixo por cima do pátio de exercício onde Sam executava arduamente os quarenta e oito padrões de ataque e defesa com Cymel, uma das melhores guardas. A sombra da Asa de Papel sobressaltou-os a ambos e permitiu que Cymel marcasse o último ponto, visto ter recuperado enquanto Sam ficara momentaneamente paralisado.

Chegara finalmente o seu Dia do Juízo Final e todos os discursos e cartas que preparara se lhe esvaíram do cérebro, como se a sua adversária lhe tivesse efetivamente perfurado a cabeça em vez de bater triunfantemente com a espada de madeira no seu capacete fortemente almofadado.

No momento em que se apressava a ir para dentro, para despir a sua armadura de treino, as trombetas soaram por cima do Portão do Sul. De início pensou que fossem para a mãe, até ouvir as outras trombetas mais distantes, no Pátio Ocidental, onde a sua Asa de Papel devia ter aterrado. Por isso, as trombetas no Portão do Sul tinham de estar anunciando o Rei. Mais ninguém era objeto de uma fanfarra.

Era na verdade Touchstone. Sam encontrou-se com ele passados vinte minutos no recanto particular da família - uma divisão grande, três andares acima do Salão Nobre, com uma única janela comprida que dava para a cidade e não o mar. Touchstone olhava a sua capital quando Sam entrou, vendo as luzes acenderem-se. Luzes brilhantes da Carta e lâmpadas de óleo suaves, velas tremulando e lareiras. Era um dos melhores momentos quando se estava em Belisaere, a hora de acender as luzes num quente final de tarde de Primavera.

Como de costume, Touchstone parecia cansado, muito embora se tivesse lavado e tirado a armadura e a roupa de montar. Vestia um roupão de banho de estilo ancelstierrano, o seu cabelo encaracolado ainda molhado de um banho apressado. Sorriu ao avistar Sam e apertaram as mãos.

- Está com melhor aspecto, Sam - disse Touchstone, notando o rubor no rosto do filho da prática com a espada. - Muito embora esperasse que tivesse feito progressos como correspondente neste Inverno.

- Hum - respondeu Sam. Enviara apenas duas cartas ao pai em todo o Inverno e algumas notas no fim de alguma da correspondência bem mais regular de Ellimere. Nem as cartas nem as notas diziam algo de particularmente interessante e nada de pessoal. Na verdade, Sam preparara algumas onde o fazia, mas, tal como as que eram dirigidas à mãe, tinham acabado na lareira.

- Pai, eu... - começou Sam, com hesitação e sentiu um tremendo alívio quando começou finalmente a abordar o assunto em que pensara todo o Inverno. - Pai, eu não posso...

Antes que tivesse tempo de prosseguir, a porta escancarou-se e Ellimere entrou de rompante. Sam fechou a boca e olhou para ela, mas ela ignorou-o e precipitou-se para Touchstone, abraçando-o com nítido alívio.

- Pai! Estou tão contente por ter voltado - disse ela. - E a mãe também!

- Uma grande família feliz - murmurou Sam entre dentes.

- O que disse? - perguntou Touchstone, com uma pontinha de severidade na voz.

- Nada - respondeu Sam. - Onde está a sua mãe?

- Lá embaixo no reservatório - respondeu Touchstone devagar. Segurava Ellimere com um braço e puxou Sam para si com o outro.

- Agora, não quero que fiquem preocupados, mas ela teve de ir às Pedras Grandes, porque foi ferida...

- Ferida! - exclamaram Ellimere e Sam ao mesmo tempo, virando-se para dentro de modo a que os três formassem um círculo estreito.

- Nada de grave - apressou-se Touchstone a dizer. - Uma dentada na perna de alguma coisa Morta, mas não pôde tratar dela e infectou.

- Ela vai... ela vai... - perguntou Ellimere, cheia de ansiedade, olhando com consternação para a sua própria perna. Pela expressão no rosto dela, via-se que tinha dificuldade em imaginar Sabriel ferida ou não completamente no controle de si mesma e de tudo o que a rodeava.

- Não, ela não vai perder a perna - tranquilizou-a Touchstone.

- Ela teve de ir às Pedras Grandes da Carta porque estávamos ambos simplesmente muito cansados para as fórmulas curadoras necessárias. Mas podemos ir até lá abaixo. É também o melhor local para termos todos uma discussão particular. Uma conferência familiar.

 

O reservatório onde se encontravam as Pedras Grandes da Carta era, de muitas formas, o coração do Reino Antigo. Era possível aceder à Carta, a própria nascente da magia, em qualquer ponto do Reino, mas a presença de Pedras da Carta comuns tornava-o muito mais fácil, como se fossem condutas para a Carta. No entanto, as Pedras Grandes da Carta pareciam ser efetivamente da Carta, não apenas ligadas a ela. Enquanto a Carta continha e descrevia todas as coisas vivas e todas as possibilidades e existia em todo o lado, estava particularmente concentrada nas Pedras Grandes, na Muralha e nas linhas de descendência da família, bem como nos Abhorsen e nas Clayr. Certamente, quando duas das Pedras Grandes foram destruídas por Kerrigor e a família real aparentemente se perdeu, a própria Carta pareceu enfraquecida, permitindo uma maior liberdade aos Mortos e à Magia Livre.

- Não seria melhor fazer a conferência aqui em cima, depois da mãe ter lançado a fórmula? - perguntou Sam.

Apesar da sua importância para o Reino, o reservatório nunca fora o seu lugar preferido, antes mesmo de ter ficado com tanto medo da Morte. As próprias Pedras eram confortantes, mantendo até quente a água à volta delas, mas o resto do reservatório era frio e horrível. A mãe e as irmãs de Touchstone tinham sido assassinadas ali por Kerrigor e, muito mais tarde, o pai de Sabriel morrera também ali. Sam não queria pensar como teria sido quando havia as duas Pedras destruídas e Kerrigor espreitava lá no escuro com os seus animais necromânticos e servos Mortos.

- Não - respondeu Touchstone, que tinha muito mais motivos do que o filho para temer o lugar. Há muito que perdera os seus medos, no seu longo esforço para reparar as Pedras destruídas com o seu sangue e fragmentos de magia recordada a custo. - É o único lugar onde não seremos definitivamente ouvidos e existem muitas mais coisas que têm ambos de saber e mais ninguém. Traga o vinho, Sameth. Iremos precisar dele.

- Vai assim? - perguntou Ellimere, quando Touchstone se encaminhou para o canto esquerdo da lareira. Virou-se quando ela falou, olhou para o roupão e as espadas gêmeas colocadas sobre ele, encolheu os ombros e prosseguiu. Ellimere suspirou e seguiu-o e desapareceram ambos na escuridão atrás da lareira.

Sam franziu o cenho e pegou no jarro de barro de vinho aromatizado que fora aquecido e colocado perto da lareira para se conservar quente. Depois seguiu-os, as marcas da Carta brilhando quando a fórmula protetora o deixou abrir a porta secreta. Depois dela, conseguia ouvir já o pai e a irmã descendo os cento e cinquenta e seis degraus que conduziam ao reservatório, às Pedras Grandes da Carta e a Sabriel.

 

ÁGUA FRIA, PEDRA ANTIGA

O reservatório ficava num espaço amplo de silêncio, pedra fria e água ainda mais fria. As Pedras Grandes encontravam-se no meio, envoltas em escuridão, invisíveis do patamar onde as escadas do Palácio se encontravam com a água. À volta da borda do reservatório, poços de luz desciam das aberturas com grades lá no alto, lançando ondas paralelas de luz sobre a superfície espelhada da água. Colunas altas de mármore branco erguiam-se como sentinelas mudas entre as manchas de luz, sustentando o teto dezoito metros acima.

A água era, como sempre, extremamente cristalina. Sam mergulhou a mão nela enquanto ajudava o pai a soltar a barca que estava amarrada ao fundo das escadas do Palácio. Quando a água lhe escorreu por entre os dedos, viu marcas da Carta cintilarem fugazmente. Toda a água no reservatório absorvia a magia das Pedras Grandes da Carta. Mais próximo do centro, a água era quase mais magia do que outra coisa e deixara de ser fria - ou sequer molhada.

A barca pouco mais era do que uma jangada com protuberâncias douradas em cada canto. Havia duas no reservatório, mas obviamente Sabriel levara a outra. Devia estar nela, ali no centro, onde a luz do Sol não incidia. As Pedras Grandes brilhavam com todos os milhões de marcas da Carta que se deslocavam dentro e sobre elas, mas a maior parte do tempo era apenas uma tênue luminescência, que não chegava sequer a competir com a luz solar filtrada. Só se via o brilho quando se estava próximo, longe da orla manchada pela luz, além da terceira fila de colunas.

Touchstone soltou a amarra do seu lado, depois colocou a mão sobre as escoras e murmurou uma única palavra. Deslocaram-se ondas na água parada quando ele falou e a barca grande começou a afastar-se da plataforma. Não havia corrente no reservatório, mas a barca deslocava-se como se houvesse, ou como se mãos invisíveis a empurrassem através da água. Touchstone, Sam e Ellimere seguiam de pé no meio, juntos, desequilibrando-se esporadicamente quando a barca oscilava e balançava.

Fora assim que as tias e a avó há muito mortas de Sam tinham ido ao encontro das suas mortes, pensou. De pé numa barca talvez aquela mesma, dragada, reparada e voltada a pintar de dourado - sem suspeitarem de nada, até sofrerem a emboscada de Kerrigor. Cortara-lhes as gargantas, apanhando o seu sangue no cálice dourado. Sangue real. Sangue para a destruição das Pedras Grandes da Carta.

Sangue para a destruição, sangue para a criação. As Pedras tinham sido destruídas por sangue real e repostas com sangue real - o sangue do seu pai. Sam olhou para Touchstone e perguntou-se como o fizera. As semanas de esforço aqui sozinho, levando todas as manhãs uma faca de prata protegida pela Carta e reabrindo deliberadamente os golpes feitos na véspera nas palmas das mãos. Golpes que haviam deixado linhas brancas de tecido cicatrizado do dedo mindinho à cabeça do polegar. Cortando as mãos e lançando fórmulas de que não tinha bem certeza, fórmulas que eram incrivelmente perigosas para quem as proferia, mesmo sem o risco acrescido e o fardo das Pedras destruídas.

Mas Sam interrogava-se principalmente a respeito do uso do sangue, o mesmo sangue que corria nas suas veias. Causava-lhe estranheza o fato do seu coração bater de forma idêntica à das Pedras Grandes lá à frente. Quão desconhecedor era, em particular dos grandes segredos da Carta. Por que era o sangue real, do Abhorsen e das Clayr diferente do das pessoas normais - inclusive o dos outros Magos da Carta, cujo sangue era suficiente para reparar ou arruinar apenas as Pedras menores? As três linhas de sangue eram conhecidas como as Cartas Grandes, como as Pedras Grandes lá à frente e a Muralha. Mas por quê? Por que continha o sangue deles Magia da Carta, magia que não era possível duplicar com marcas retiradas da Carta de acesso generalizado?

Sam sentira-se sempre fascinado pela Magia da Carta, em particular com a possibilidade de fazer coisas com ela, mas quanto mais a usava, mais percebia o pouco que conhecia. Tinham-se perdido muitos conhecimentos durante os duzentos anos do Interregno.

Touchstone transmitira ao filho tudo o que sabia, mas a sua especialidade era a magia do combate, não a criação, ou quaisquer mistérios mais profundos. Por ocasião da morte da Rainha era um Guarda Real, um Príncipe bastardo, não um mago. Depois disso, estivera aprisionado sob a forma de figura de proa de um navio durante duzentos anos, enquanto o Reino mergulhava lentamente na desordem.

Touchstone conseguira reparar as Pedras Grandes, dissera-lhes, porque as Pedras destruídas queriam ser reconstruídas. De início, cometera muitos erros e sobrevivera apenas graças ao apoio e à força das Pedras, nada mais. Mesmo assim, levara muitos meses e outros tantos anos da sua vida. Não existiam cabelos brancos na cabeça de Touchstone antes da reparação.

A barca passou por entre duas colunas e os olhos de Sam adaptaram-se lentamente à estranha penumbra. Conseguia ver agora as seis Pedras Grandes lá à frente, monólitos altos de um cinzento-escuro, as suas formas irregulares bem diferentes da alvenaria lisa das colunas e apenas com um terço da sua altura. E lá estava a outra barca, flutuando no centro do círculo de Pedras. Mas onde se encontrava Sabriel?

O medo atacou-lhe subitamente o peito com força. Não conseguia ver a mãe e só lhe ocorria a forma como o Morto Kerrigor assumira a sua anterior forma humana e atraíra a avó de Sam, a Rainha, até uma morte negra e sangrenta. Talvez Touchstone não fosse realmente Touchstone, mas outra coisa que assumira a sua forma...

Algo se moveu na barca lá adiante. Sam, que sustivera inconscientemente a respiração, arfou e engasgou-se, pensando que todos os seus receios se haviam concretizado. O que quer que fosse não tinha forma humana, elevando-se apenas à altura da sua cintura, sem braços nem cabeça ou forma discernível. Um monte de escuridão contorcendo-se, no lugar onde deveria estar a mãe...

Então, Touchstone bateu-lhe nas costas. Inspirou subitamente e a coisa na barca lançou uma pequena luz da Carta que brilhou no ar por cima como uma estrela minúscula - revelando que afinal era Sabriel. Estivera estendida, envolta na sua capa azul e acabara de se sentar. A luz incidia-lhe agora no rosto e brindou-os com o seu sorriso familiar. Mas não foi o sorriso pleno e despreocupado da felicidade completa e parecia mais cansada e esgotada do que Sam alguma vez a vira. Sempre pálida, a sua pele parecia quase translúcida com a luz da Carta e brilhava com o suor da dor e do sofrimento. Pela primeira vez, Sam viu fios brancos no seu cabelo e ficou surpreso com a consciencialização de que ela não seria sempre jovem mas envelheceria um dia. Não pusera os sinos, mas a bandoleira encontrava-se ao lado dela, as cabos de mogno ao alcance da mão, bem como a espada e a mochila.

A barca de Sam passou entre as duas pedras e entrou no círculo. Os três passageiros sobressaltaram-se nesse momento, sentindo um afluxo súbito de energia e poder das Pedras Grandes. Foram aliviados de uma parte do cansaço, mas não da sua totalidade. No caso de Sam, o medo e a culpa que carregara todo o Inverno tinham diminuído. Sentia-se mais confiante, mais igual ao que era. Não tinha aquela sensação desde que entrara no retângulo para aquele último jogo de críquete da Taça dos Seniores.

As duas barcas encontraram-se. Sabriel não se levantou, mas estendeu os braços. Um segundo depois abraçava Ellimere e Sam, as barcas balançando perigosamente devido à súbita precipitação e saudações entusiásticas.

- Ellimere! Sameth! Estou tão contente por vê-los e lamento muito ter estado ausente tanto tempo - disse Sabriel, depois do abraço inicial muito apertado dar lugar a um mais folgado.

- Tudo bem, mãe - respondeu Ellimere, mais parecendo ser ela a mãe e Sabriel sua filha. - Estávamos preocupados com você. Mostre-nos sua perna.

Começou a levantar a capa, mas Sabriel deteve-a no momento em que Sam vislumbrou o leve cheiro horrível de carne em decomposição.

- Não é agradável - apressou-se Sabriel a dizer. - Uma ferida dos Mortos apodrece rapidamente, receio. Mas lancei fórmulas cicatrizadoras sobre ela, com o auxílio das Pedras Grandes e apliquei também uma cataplasma de feliac. Em breve estará tudo bem.

- Por esta vez - disse Touchstone. Estava de pé fora do grupo cerrado de Sabriel, Ellimere e Sam, olhando para a esposa.

- O seu pai está zangado comigo porque pensa que eu quase morri - afirmou Sabriel, esboçando um sorriso. - Eu própria não compreendo, já que ele devia estar satisfeito por isso não ter sucedido.

Esta observação foi recebida com silêncio, até Sam perguntar com hesitação:

- Qual a gravidade do ferimento?

- Bastante grave - respondeu Sabriel, estremecendo ao mover a perna. Brilharam marcas da Carta debaixo da capa, avistando-se fugazmente mesmo através da lã firmemente tecida. Hesitou, depois acrescentou baixinho: - Se não tivesse encontrado seu pai no volta, talvez não conseguisse chegar aqui.

Sam e Ellimere trocaram olhares horrorizados. Toda a vida tinham ouvido histórias das batalhas de Sabriel e das vitórias alcançadas a custo. Já antes ficara ferida, mas nunca a tinham ouvido admitir que podia ter morrido e eles próprios nunca haviam encarado realmente a possibilidade. Ela era a Abhorsen, que entrava na Morte!

- Mas consegui e vou ficar completamente boa - disse com firmeza. - Por isso não precisam se preocupar excessivamente.

- Acho que se refere a mim - disse Touchstone. Sentou-se com um suspiro, depois levantou-se, irritado, para compor as espadas e o roupão de banho antes de voltar a sentar-se.

- O motivo da minha ansiedade - disse - deve-se a estar preocupado por este Inverno alguém, ou algo, ter estado, deliberada e inteligentemente, a criar situações que a colocam em grande risco. Veja só os lugares onde foi chamada e como há sempre mais Mortos do que os indicados e criaturas mais perigosas...

- Touchstone - interrompeu Sabriel, pegando-lhe na mão. - Acalme-se. Estou de acordo. Você sabe que estou de acordo.

- Mmph - resmungou Touchstone, mas não disse mais nada.

- É verdade - respondeu Sabriel, olhando diretamente para Sam e Ellimere. - Verifica-se um certo padrão e não apenas nos Mortos que foram invocados exclusivamente para me emboscarem. Creio que o número crescente de elementais da Magia Livre também está associado, assim como o problema que o seu pai tem tido com os refugiados sulistas.

- Está com certeza - afirmou Touchstone, suspirando. - O General Tindall acredita que Corolini e o Partido Nosso País estão sendo financiados com ouro do Reino Antigo, muito embora não possua provas concretas. Como Corolini e o seu partido detêm agora a maioria na Assembleia de Ancelstierre, conseguiram deslocar os Sulistas cada vez mais para norte. E deixaram também claro que o seu objetivo principal é transferir todos os refugiados sulistas para o outro lado da Muralha, para o nosso Reino.

- Por quê? - perguntou Sam. - Isto é, para quê? Não se pode dizer que o Norte de Ancelstierre esteja superpovoado.

- Não tenho certeza - replicou Touchstone. - As razões que tornaram públicas em Ancelstierre são propaganda populista, indo ao encontro dos receios da população. E tem de haver uma razão para alguém aqui estar fornecendo-lhes ouro - ouro suficiente para comprar os doze lugares que ocupam na Assembleia. Receio que essa razão esteja relacionada com o fato de não termos conseguido encontrar mais de uma vintena dos milhares de pessoas que foram enviadas para cá há um mês e nenhuma dessa vintena estava viva. O resto desapareceu simplesmente...

- Como foi possível desaparecerem assim tantas pessoas? Certamente teriam deixado vestígios - interrompeu Ellimere. - Talvez eu devesse ir...

- Não. - Touchstone sorriu, divertido com a nítida convicção da filha de que era capaz de se sair melhor do que ele quando se tratava de descobrir algo. O sorriso desapareceu quando prosseguiu. - Isto não é tão simples quanto parece, Ellimere. Está envolvida a feitiçaria. A sua mãe acha que os encontraremos quando menos esperarmos e que nessa hora eles já não estarão vivos.

- Eis o cerne da questão - disse Sabriel com ar grave. - Antes de continuarmos a discutir o assunto, acho que deveríamos tomar mais precauções contra ouvidos indiscretos. Touchstone?

Touchstone concordou e levantou-se. Puxando de uma das espadas, concentrou-se por um momento. As marcas da Carta na sua espada começaram a brilhar e a deslocar-se, até toda a lâmina estar envolta em luz dourada. Touchstone ergueu a espada e as marcas da Carta saltaram para a Pedra Grande mais próxima, chapinhando nela como fogo líquido.

Por um momento não aconteceu nada. Depois, outras marcas captaram a luz e as chamas douradas espalharam-se de modo a cobrirem toda a Pedra, atroando como se lhe tivessem lançado fogo de cima. Saltaram mais marcas para a Pedra seguinte até ela se incendiar também e depois para a seguinte, até todas as seis Pedras Grandes ficarem em chamas e correntes de marcas da Carta brilhantes se espalharem criando um rendilhado de luz como uma cúpula por cima das duas barcas.

Olhando para o lado, Sam viu que o fogo dourado se espalhara também por baixo de água, formando um estranho labirinto de marcas que cobriam o fundo do reservatório. Os quatro estavam agora envoltos por uma barreira mágica, que dependia do poder das Pedras Grandes. Quis perguntar como fora lançada e inquirir sobre a natureza da fórmula, mas a mãe começara já a falar.

- Podemos conversar agora sem o receio de sermos escutados, por ouvidos naturais ou outros meios - disse Sabriel. Pegou na mão de Sam e na de Ellimere, apertando-as com força e eles sentiram as calosidades nos dedos e nas palmas, o resultado de tantos anos agarrando a espada e os sinos.

- O seu pai e eu temos certeza de que os Sulistas foram trazidos para o lado de cá da Muralha para serem destruídos, mortos por um necromante que tem usado os seus corpos para abrigar espíritos Mortos que lhe devem obediência. Só a feitiçaria da Magia Livre consegue explicar como desapareceram os cadáveres e todos os outros vestígios, sem que as nossas patrulhas ou a Visão das Clayr os detectassem.

- Mas eu julgava que as Clayr conseguiam ver tudo - afirmou Ellimere. - Quer dizer, costumam confundir o tempo, mas continuam a ver. Não é?

- Ao longo dos últimos quatro ou cinco anos, as Clayr perceberam que a sua Visão estava turva, e possivelmente sempre estivera turva, na região à volta das margens orientais do Lago Vermelho e do Monte Abed - disse Touchstone. - Uma grande área e não é uma coincidência corresponder também ao lugar onde o nosso decreto real não é aplicado. Existe ali alguma força que se opõe tanto às Clayr como à nossa autoridade, bloqueando a sua Visão e destruindo as Pedras da Carta que coloquei ali.

- Bem, não devíamos chamar os Grupos Treinados e pegar neles e na Guarda e levá-los até lá e resolver tudo de uma vez por todas? - protestou Ellimere, no mesmo tom que Sam imaginou que usasse quando liderava a equipe de hóquei do Colégio Wyverley em Ancelstierre.

- Não sabemos onde - ou o que - é - disse Sabriel. - De cada vez que nos propomos bater a zona em busca do problema, acontece algo em outro lugar qualquer. Chegamos a pensar que tínhamos descoberto a origem dele há cinco anos, na Batalha de Roble’s Town...

- A necromante - interrompeu Sam, que se lembrava bem da história. Pensara muito nos necromantes ao longo dos últimos meses. - A da máscara de bronze.

- Sim. Chlorr da Máscara - respondeu Sabriel, olhando para a barreira dourada, obviamente evocando lembranças desagradáveis.

- Ela era muito velha e poderosa, por isso presumi que fosse a arquiteta das nossas dificuldades ali. Mas agora não tenho certeza. É evidente que mais alguém continua a trabalhar para confundir as Clayr e causar agitação no Reino. Está também alguém por trás de Corolini em Ancelstierre e talvez mesmo das guerras dos Sulistas. Uma hipótese é o homem que encontrou na Morte, Sam.

- O... o necromante? - perguntou Sam. A sua voz saiu sob a forma de um guincho patético e inconscientemente esfregou os pulsos, as mangas subindo ligeiramente para revelar a pele ainda marcada pelas queimaduras.

- Ele deve ter um grande poder para invocar tantas Mãos Mortas do outro lado da Muralha - respondeu Sabriel. - E com esse poder, eu deveria ter ouvido falar dele, mas não ouvi. Como conseguiu manter-se escondido todos estes anos? Como se escondeu Chlorr quando esquadrinhamos o Reino após a queda de Kerrigor e por que se mostrou no ataque a Roble’s Town? Pergunto-me neste momento se não terei subestimado Chlorr. Ela pode mesmo ter me escapado no último momento. Eu a fiz transpor o Sexto Portão, mas eu estava extremamente cansada e não a segui o caminho todo até o Nono. Devia tê-lo feito. Havia algo de estranho nela, algo mais do que o habitual vestígio da Magia Livre ou da necromância... - Fez uma pausa e os seus olhos fitaram o vazio, desfocados. Depois pestanejou e prosseguiu: - Chlorr era velha, suficientemente velha para outros Abhorsens a terem encontrado no passado e desconfio que este outro necromante também é antigo. Mas não encontrei qualquer registro deles na Casa. Todo esse conhecimento foi destruído quando o Palácio ardeu e mais se perdeu ainda, simplesmente com a marcha do tempo. E as Clayr, ao mesmo tempo que guardam tudo naquela sua Grande Biblioteca, raramente encontram algo de útil nela. As suas mentes estão muito focadas no futuro. Gostaria de ir lá ver com os meus próprios olhos, mas isso é uma tarefa que levaria meses, se não anos. Penso que Chlorr e este outro necromante estavam de conluio e ainda podem estar, se Chlorr sobreviveu. Mas não se sabe bem quem manda e quem obedece. Temo também que venhamos a descobrir que não estão sozinhos. Mas quem quer ou o que quer que se move contra nós, temos de nos certificar de que os seus planos caem por terra.

A luz pareceu escurecer quando Sabriel falou e a água agitou-se como se uma brisa indesejada tivesse de alguma forma atravessado a proteção da luz dourada à volta das Pedras.

- Que planos? - perguntou Ellimere. - O que eles vão... aquilo... lá o que é... fazer?

Sabriel olhou para Touchstone e um breve momento de incerteza passou entre ambos antes de continuar.

- Pensamos que pretendem trazer os duzentos mil refugiados sulistas para o Reino Antigo... e matá-los - murmurou Sabriel, como se afinal pudessem ser ouvidos. - Duzentas mil mortes num único minuto envenenado, para criar uma avenida de Morte para cada espírito que tem permanecido ali desde o Primeiro Recinto até ao princípio do Nono Portão. Para convocar uma horda de Mortos maior do que qualquer outra que alguma vez caminhou na Vida. Uma horda que não teríamos forma de derrotar, nem que todos os Abhorsens que já existiram conseguissem de alguma maneira fazer-lhes frente.

 

UMA CONFERÊNCIA FAMILIAR

As palavras de Sabriel foram recebidas com um silêncio que se prolongou, enquanto todos imaginavam um exército de Mortos em número de duzentos mil e Sam esforçou-se por afastar a idéia. Uma horda de Mortos, um grande mar de cadáveres desengonçados, famintos de Vida que se estendiam de um lado ao outro do horizonte, marchando inexoravelmente em direção a ele...

- Claro que isso não irá acontecer - disse Touchstone, interrompendo as terríveis fantasias de Sam. – Vamos nos certificar que isso não aconteça, de que os refugiados nem sequer atravessem a Muralha. Todavia, não podemos detê-los do nosso lado. A Muralha é muito comprida, com muitos portões destruídos e muito antigos Pontos de Passagem do outro lado. Por isso, temos de nos certificar que os Ancelstierranos não os mandam para cá antes de mais nada. Consequentemente, a sua mãe e eu decidimos ir pessoalmente a Ancelstierre - secretamente, para não causar alarme ou desconfiança. Iremos até Corvere e negociaremos com o governo deles, o que, sem dúvida, levará vários meses. Isso significa que iremos contar com vocês dois para olharem pelo Reino.

Mais silêncio acolheu esta revelação. Ellimere parecia perdida em pensamentos mas de outro modo calma. Sam engoliu em seco várias vezes, depois disse:

- O que há, o que quer dizer ao certo?

- Tanto quanto os nossos amigos e inimigos precisam saber, irei numa missão diplomática até junto dos chefes bárbaros no Ponto do Sul deles e Sabriel irá à sua vida tão misteriosamente quanto costuma fazer - respondeu Touchstone. - Na nossa ausência, Ellimere continuará como co-regente com Jall Oren - todos parecem ter-se acostumado a isso. Sameth, você irá assessorá-la. Mas, mais importante, irás continuar a estudar O Livro dos Mortos.

- Por falar dessas coisas, tenho algo para você - acrescentou Sabriel, antes que Sam levantasse objeções. Empurrou a mochila com nítido esforço. – Olhe na parte de cima.

Lentamente, Sam soltou as presilhas. Ficou subitamente muito indisposto, sabendo que teria de lhes contar agora ou então nunca mais seria capaz. Nunca.

Havia um pacote embrulhado em oleado na mochila. Sameth tirou-o para fora devagar, os seus dedos frios e desajeitados. Os seus olhos pareciam também estranhamente desfocados, dando a idéia de que Sabriel falava de outra sala.

- Encontrei-os na Casa - ou melhor, os enviados embrulharam-nos. Não sei onde os encontraram, ou porque só agora os apresentaram. São muito, muito antigos. Tão antigos que não possuo registro de quem os terá criado. Devia ter perguntado a Mogget, mas ele continua dormindo...

- Exceto quando apanhei aquele salmão o ano passado - interrompeu Touchstone, zangado. Mogget, o parente do Abhorsen em forma de gato, fora aprisionado por Ranna, o Portador do Sono, o primeiro dos sete sinos. Acordara apenas cinco ou seis vezes em cerca de vinte anos, em três dessas ocasiões para roubar e comer peixe apanhado por Touchstone.

- Mogget não quis acordar - continuou Sabriel. - Mas como tenho os meus, estes destinam-se manifestamente ao Futuro Abhorsen. Parabéns, Sam.

Sam concordou em silêncio, o embrulho por abrir no seu colo. Não precisou olhar para saber que dentro do oleado engelhado estavam os sete sinos protegidos pela Carta de um Abhorsen.

- Não vai abrir? - perguntou Ellimere.

- Mais tarde - respondeu Sam. Tentou sorrir, mas apenas logrou que a sua boca se contorcesse. Sabia que Sabriel o olhava, mas não conseguiu corresponder-lhe.

- Ainda bem que trouxe os sinos - disse Sabriel. - A maior parte dos Abhorsens antes de mim trabalhou com os seus sucessores, às vezes durante muitos anos, como espero que possamos vir a trabalhar juntos. De acordo com Mogget, o meu pai treinou com a tia dele durante quase uma década. Muitas vezes desejei ter tido a mesma oportunidade. - Voltou a hesitar e depois falou rapidamente: - Para ser sincera, vou precisar da sua ajuda, Sam.

Sam concordou, incapaz de falar, enquanto as palavras da sua confissão lhe secavam na boca. Tinha o direito pelo nascimento, tinha o livro, tinha os sinos. Obviamente, só precisava se esforçar por ler o livro, disse de si para si, tentando vencer o pânico que lhe provocava nós no estômago. Haveria de tornar-se o Futuro Abhorsen competente que todos esperavam. Era imperioso.

- Farei o meu melhor - disse ele, olhando finalmente Sabriel nos olhos. Ela sorriu, com um sorriso que fez com que todo o seu rosto se iluminasse e abraçou-o.

- Tenho de ir para Ancelstierre, pois sempre conheço os seus costumes muito melhor do que seu pai - afirmou. - E algumas das minhas antigas amigas do colégio tornaram-se influentes, ou casaram com alguém assim. Mas não queria partir sem saber que havia aqui um Abhorsen para proteger as pessoas dos Mortos. Obrigada, Sam.

- Mas eu não estou... - protestou Sam antes de se conseguir controlar. - Não estou preparado, quer dizer, ainda não acabei o livro e...

- Com certeza que sabe mais do que julga - contrapôs Sabriel.

- De qualquer forma, haverá poucos problemas, agora que estamos em plena Primavera. Cada riacho e rio tem recebido as águas do degelo e da chuva. Os dias estão ficando mais longos. Nunca surgem grandes ameaças dos Mortos tão tarde na Primavera, ou durante o Verão. O mais que terá de enfrentar é uma Mão travessa ou talvez um Mordaut. Estou plenamente convencida de que conseguirá desenvencilhar-se.

- E os Sulistas desaparecidos? - perguntou Ellimere, com uma expressão muito reveladora da sua confiança em Sam. - Novecentos Mortos é uma grande ameaça.

- Devem ter desaparecido na zona à volta do Lago Vermelho, senão as Clayr os teriam visto - disse Sabriel. - Por isso deviam estar retidos ali pelas inundações da Primavera. Iria tratar deles primeiro, mas o maior perigo está nos muitos Sulistas em Ancelstierre. Teremos de confiar no caudal dos rios e em você, Sam.

- Mas... - começou Sam.

- Atenção, o necromante, ou os necromantes que nos fazem frente não são para brincadeiras - prosseguiu Sabriel. - Se ousarem enfrentá-lo, terá de lutar com eles na Vida. Não volte a fazê-lo na Morte, Sam. Foi corajoso da outra vez, mas teve também muita sorte. Deve ser extremamente cuidadoso com os sinos. Como sabe, eles podem obrigá-lo a ir à Morte, ou levá-lo até lá com artimanhas. Use-os apenas se estiver confiante de que aprendeu todas as lições do livro. Promete?

- Prometo - disse Sam. Sem saber como conseguiu proferir apenas aquela palavra. Mas continha um certo alívio, pois fora-lhe concedida uma espécie de segunda oportunidade. Provavelmente conseguiria tratar dos Mortos Menores apenas com a Magia da Carta. A sua resolução de ser um Abhorsen competente não eliminara o receio que ainda pairava no seu coração e tinha os dedos frios no lugar onde estavam em contato com os sinos embrulhados.

- Agora - disse Touchstone -, pergunto-me se vocês fazem idéia de como lidar com os Ancelstierranos, dado o tempo que lá estudaram. Este Corolini, por exemplo, o líder do Partido Nosso País. Acham que poderia ser alguém do Reino Antigo?

- Só se foi depois de eu vir embora - disse Ellimere, que deixara o colégio já há um ano e parecia considerar os seus tempos em Ancelstierre como algo do passado.

- Não sei - respondeu Sam. - Ele aparecia muito nos jornais antes de eu vir embora, mas nunca diziam de onde viera. É natural que o meu amigo Nicholas saiba e creio que talvez ele pudesse ajudar. O tio dele é o Primeiro-Ministro, Edward Sayre, sabem. Nick vem visitar-me no próximo mês, mas talvez consigam apanhá-lo antes que ele venha.

- Ele vem para cá? - perguntou Touchstone. - Surpreende-me que o deixem. Não me parece que o Exército tenha emitido uma autorização em anos, para além daquele lote de refugiados - e isso foi um golpe político. O Exército não teve outra alternativa.

- Nick consegue ser muito persuasivo - respondeu Sam, pensando nas várias situações difíceis em que Nick o convencera a meter-se no colégio - e, com menor frequência, a não se sentir culpado depois. - Pedi a Ellimere que emitisse um visto para ele, do nosso lado.

- Enviei-o há séculos - disse Ellimere, deitando um olhar falso a Sam. - Alguns de nós são eficientes, sabem?

- Muito bem - rematou Touchstone. - Será um contato útil e é importante que uma das famílias que governam Ancelstierre veja que não inventamos as histórias que ouvem sobre o Reino. Vou me certificar também de que o Posto da Guarda de Barhedrin prepare uma escolta desde a Muralha. Não ajudará as negociações se perdermos o sobrinho do Primeiro-Ministro.

- O que estamos negociando? - perguntou Ellimere. - Quer dizer, lá em Corvere, eles gostam de fingir que nós nem sequer existimos. Eu tinha sempre de convencer as meninas presunçosas da cidade de que não estava inventando o Reino.

- Duas coisas - respondeu Sabriel. - Ouro e medo. Dispomos apenas de uma modesta quantia de ouro, mas poderia pender a nosso favor se fosse parar nos bolsos certos. E há muitos Nortistas que não esqueceram quando Kerrigor atravessou a Muralha. Iremos tentar convencê-los de que isso voltará a acontecer se enviarem os refugiados sulistas para norte.

- Não poderia ser Kerrigor, ou poderia? - perguntou Sam. - Quer dizer, quem quer que está por trás de todos os problemas.

- Não - disseram Sabriel e Touchstone em conjunto. Trocaram um olhar, recordando sem dúvida o passado terrível e o que Kerrigor tentara fazer, tanto aqui no Reino Antigo como em Ancelstierre.

- Não - repetiu Sabriel. - Fui ver como estava Kerrigor quando visitei a Casa. Ele dorme sossegado e para sempre sob o feitiço de Ranna, fechado na caverna mais profunda, aprisionado com todas as Marcas de proteção e defesa que o teu pai e eu conhecemos. Não é Kerrigor.

- Quem quer, ou o que quer que seja, será destruído - afirmou Touchstone, a sua voz poderosa e régia. - Nós quatro nos encarregaremos disso. Mas, por hora, sugiro que bebamos todos um pouco de vinho aquecido e falemos de coisas mais agradáveis. Como correu o Festival do Solstício de Inverno? Já te contei que fui a Cotovia quando tinha a sua idade, Sam? Como se saiu?

- Me esqueci-me das taças - disse Sam, entregando o jarro ainda morno.

- Podemos beber do jarro - sugeriu Sabriel, após um momento em que ninguém deu resposta à pergunta de Touchstone. Pegou o jarro e deitou habilmente um pouco de vinho para a boca. - Ah, que bom, Agora diga-me, como foi o seu aniversário, Sam? Um dia bom?

Sam respondeu mecanicamente, mal dando pelas interjeições mais mordazes de Ellimere. Era evidente que os pais ainda não tinham falado com Jall, senão as perguntas seriam diferentes. Ficou aliviado quando começaram a interrogar Ellimere, arreliando-a delicadamente sobre o tênis e todos os jovens que tentavam aprender este esporte novo. Era óbvio que os mexericos sobre a irmã tinham chegado mais depressa do que a notícia das lacunas de Sam. Voltou a ser assunto de conversa quando Ellimere o acusou de se recusar a fazer mais raquetes, o que era uma pena, pois mais ninguém conseguia fazê-las tão bem, mas uma promessa rápida de produzir uma dúzia voltou a libertá-lo.

Os outros continuaram a conversar durante um pouco de tempo, mas o futuro negro pesava bastante sobre todos eles. Por seu lado, Sameth não conseguia deixar de pensar no livro e nos sinos. O que faria se fosse chamado a repelir uma incursão dos Mortos? O que faria se viesse a descobrir quem era o necromante que o torturara na Morte? Ou, pior ainda, e se existisse algum inimigo ainda mais poderoso, como temia Sabriel? Subitamente, deixou escapar:

- E se ele... este inimigo... não estiver por trás de Corolini? E se ele decidir fazer qualquer outra coisa durante a sua ausência?

Os outros, que estavam no meio de uma conversa sobre Heria, que pisara o seu próprio vestido e fora catapultada para cima de Jall Oren numa tarde de festa em honra do Presidente do Município de Sindle, olharam, sobressaltados.

- Se assim for, estaremos apenas a uma semana de distância, dez dias no máximo - disse Sabriel. - Um falcão-mensageiro para Barhedrin, um cavaleiro até ao Perímetro, um telégrafo dali ou Bain para Corvere, regresso a Bain de trem - talvez nem chegue a uma semana. Mas pensamos que, o que quer que este inimigo como tão bem o chamou - planeje, deve envolver um grande número de Mortos. As Clayr viram muitos futuros possíveis nos quais todo o nosso Reino não é mais do que um deserto, habitado apenas pelos Mortos. O que mais poderia originar isto a não ser o tipo de aglomeração de Mortos de que desconfiamos? E isso só poderia ser provocado pela morte de todos aqueles pobres refugiados desprotegidos. Os nossos estão muito bem guardados. Em qualquer dos casos, além de Belisaere, não existem duzentas mil pessoas num lugar em todo o Reino. E muito menos duzentas mil sem uma única marca da Carta entre elas.

- Não sei o que mais poderia ser - concordou Sam, lentamente.

- Só gostaria que não tivessem de partir.

- Ser o Abhorsen é uma responsabilidade pesada - afirmou Sabriel com calma. - E presumo que esteja preparado para arcar com ela, mesmo quando é partilhada comigo. Mas é o seu destino, Sam. É o caminhante que escolhe o caminho, ou o caminho o caminhante? Estou certa de que se sairá bem e em breve estaremos todos juntos de novo, falando de coisas mais agradáveis.

- Quando partem? - perguntou Sam, sem ser capaz de ocultar a esperança de demora na sua voz. Talvez conseguisse falar com Sabriel amanhã, pedir-lhe que o ajudasse com O Livro dos Mortos, para vencer o seu medo paralisante.

- Amanhã, de madrugada - respondeu Sabriel com relutância. - Desde que a minha perna esteja suficientemente curada. Seu pai partirá com a embaixada real aos Bárbaros do Norte e eu voarei para oeste. Mas voltarei para buscá-lo amanhã à noite e depois iremos para sul até à Casa, para tentar conversar com Mogget, só então seguiremos para Barhedrin e a Muralha. Esperemos que isto confunda qualquer espião que possam estar observando.

- Deveríamos ficar mais tempo - afirmou Touchstone com tristeza, olhando para a sua pequena família, tão raramente toda junta num mesmo lugar. - Mas, como sempre, o dever chama - e temos de atender.

 

UMA CARTA DE NICHOLAS

Sam abandonou o reservatório naquela noite com um jarro de vinho vazio, uma bandoleira com sinos, uma grande tristeza no coração e muito em que pensar. Ellimere acompanhou-o, mas Sabriel ficou para trás, necessitando passar a noite dentro do círculo de Pedras Grandes para acelerar a cicatrização. Touchstone ficou com ela e foi óbvio para os dois filhos que os pais desejavam ficar sozinhos. Provavelmente para discutir as lacunas do filho, pensou Sam enquanto subia pesadamente as escadas com o embrulho dos sinos na mão.

Ellimere deu-lhe um boa-noite quase cordial à porta dos seus aposentos, mas Sam não foi se deitar. Preferiu subir outra escada de caracol até à sua sala de trabalho na torre e proferiu a palavra que deu vida às luzes da Carta. Depois, guardou os sinos num armário diferente do que estava o livro, fechando-os longe da vista embora não longe da mente. Depois, tentou retomar com indiferença a construção de um jogador de críquete, um batedor com quinze centímetros de altura, que funcionava através de meios mecânicos e de Magia da Carta. Pretendia construir duas equipes e pô-las a jogar, mas nem o mecanismo nem a magia funcionavam ainda a seu contento.

Bateram à porta. Sam ignorou. Se fosse um criado, chamaria ou iria embora. Se fosse Ellimere, se limitaria a entrar.

A pancada foi repetida, verificou-se uma espécie de chamamento abafado e Sam ouviu algo deslizar por baixo da porta, seguido de passos que voltavam a descer as escadas. Encontrava-se no chão uma salva de prata, com um envelope com muito mau aspecto nela. A avaliar pelo estado em que vinha, tinha de ser de Ancelstierre e isso queria dizer que era de Nicholas.

Sam suspirou, colocou as luvas brancas de algodão e pegou uma pinça. Receber uma das cartas de Nick era sempre mais um exercício forense do que uma questão de leitura. Pegou a salva e levou-a para a bancada, onde as marcas da Carta eram mais intensas, e começou a separar o papel e a juntar os pedaços estragados.

Passada meia hora, quando o relógio da Torre Cinzenta deu as doze badaladas da meia-noite, a carta estava em condições de ser lida. Sam debruçou-se sobre ela, a sua expressão carregando-se ainda mais ao lê-la.

 

Caro Sam,

Obrigado por me conseguir o visto para o Reino Antigo. Não sei por que razão o seu Cônsul em Bain foi tão relutante em me emitir um. Ainda bem que é um Príncipe, assim sempre me facilita a vida. Não tive qualquer problema. Meu pai ligou ao tio Edward, que mexeu os cordelinhos certos. Praticamente ninguém em Corvere sabia sequer que era possível obter uma autorização para atravessar o Perímetro. De qualquer forma, só vem demonstrar que Ancelstierre e o Reino Antigo não são assim tão diferentes. É tudo uma questão de conhecer as pessoas certas.

Seja como for, pretendo deixar Awengate amanhã e, se não houver problemas com as ligações dos trens, estarei em Bain no sábado e atravessarei a Muralha no dia 15. Sei que é mais cedo do que o combinado, por isso não vai poder ir me esperar, mas também não vou me aventurar sozinho. Contratei um guia - um antigo Batedor do Ponto de Passagem com quem choquei em Bain. Literalmente, na verdade. Ele vinha atravessando a rua para se desviar de uma manifestação de um desses fulanos do Nosso País, tropeçou e quase me derrubou. Mas foi um encontro feliz, pois ele conhece bem o Reino Antigo. Confirmou-me também algo que eu lera já sobre um fenômeno curioso chamado Armadilha dos Raios. Ele a viu e é algo que vale a pena estudar.

Por isso acho que iremos dar uma olhada nesta Armadilha dos Raios no caminho para a sua sem dúvida encantadora capital de Belisaere. A propósito, o meu guia não se mostrou nada surpreso por eu te conhecer. Talvez não fique tão impressionado com a realeza como alguns dos nossos antigos colegas!

De qualquer modo, a Armadilha dos Raios fica, ao que parece, próximo de uma cidade chamada Edge, que soube não distar muito do caminho do norte até aí. Se ao menos vocês acreditassem nos mapas normais e não na memorização quase mística com o auxílio de pedaços de papel em branco!

Estou ansioso por te ver no steu habitat natural - quase tanto como por ir investigar as curiosas anomalias do seu Reino Antigo. Surpreendentemente, existe muito pouca coisa escrita sobre ele. A Biblioteca da Universidade dispõe apenas de uns textos antigos e altamente supersticiosos e a de Radford de pouco mais. Também nunca é mencionado nos jornais, a não ser indiretamente quando Corolini fala na Assembléia em enviar ”os indesejáveis e os Sulistas” para o que chama ”o extremo Norte”. Espero vir a ser uma guarda avançada de um ”indesejável” segundo as palavras dele!

Tudo o que diz respeito ao Reino Antigo parece estar sob uma conspiração de silêncio, por isso tenho certeza de que haverá muitas coisas para um jovem cientista ambicioso descobrir e dar a conhecer ao mundo.

A propósito, espero que já esteja plenamente recuperado. Eu também estive doente, intermitentemente, com dores no peito que parecem ser uma espécie de bronquite. Curiosamente, porém, agravam-se quanto mais para sul estou e foram horríveis em Corvere, provavelmente porque o ar é irrespirável. Passei o último mês em Eain e mal tenho tido problemas. Espero ficar ainda melhor no teu Reino Antigo, onde o ar deve ser absolutamente puro.

De qualquer forma, estou ansioso por te ver em breve e continuo a ser o teu amigo fiel,

Nicholas Sayre

 

P.S. Não acredito que Ellimere tenha um metro e noventa e cinco de altura e pese cento e vinte e sete quilos. Decerto já teria mencionado.

 

Sameth pousou a carta, tendo o cuidado de não estragar o que restava dela.

Depois de terminar, leu-a novamente, na esperança de que as palavras tivessem de alguma forma mudado. Com certeza Nick não ia atravessar para o Reino Antigo apenas com um único guia - e provavelmente inspirador de pouca confiança? Ele não via como as Zonas Limítrofes eram perigosas perto da Muralha? Em particular para um Ancelstierrano, sem uma marca da Carta nem qualquer percepção de magia. Nick não conseguiria sequer ver se o guia era um homem de verdade, um portador de uma marca da Carta maculada, ou sequer uma construção da Magia Livre, suficientemente poderosa para atravessar o Perímetro sem ser detectada.

Sam mordeu o lábio ante o pensamento, os dentes cravando-se na pele numa apreensão inconsciente, e consultou o seu almanaque. De acordo com ele, o dia 15 fora há três dias, por isso Nick já devia ter atravessado a Muralha. Pelo visto, era tarde demais para chegar lá, mesmo numa Asa de Papel, ou conseguir um dos falcões-mensageiros do Palácio e enviá-lo com ordens aos guardas. Nick tinha um visto para si e um criado, por isso o Posto de Barhedrin não o deteria. Encontrava-se agora nas Zonas Limítrofes, dirigindo-se para Edge.

Edge! Sam mordeu o lábio com mais força. Estaria próximo demais do Lago Vermelho e da região onde a necromante Chlorr destruíra as Pedras e neste momento se escondia o inimigo, congeminando os seus planos contra o Reino. Era o pior lugar possível para onde Nick ir!

Uma pancada na porta interrompeu-lhe os pensamentos e o fez morder o lábio com ainda maior força, de modo que sentiu o gosto de sangue. Irritado, gritou:

- Sim! Quem é?

- Eu! - disse Ellimere, entrando logo. - Espero não interromper um momento de criação ou algo assim?

- Não - respondeu Sameth cautelosamente. Indicou a sua bancada com um semiaceno e um encolher de ombros, dando a entender que o seu trabalho não corria bem.

Ellimere olhou à sua volta com interesse, dado que Sam normalmente a repelia sempre que ela tentava entrar. Sam recebera a pequena divisão na torre quando completara dezesseis anos e dera-lhe muito uso desde então. Atualmente, as duas bancadas de trabalho estavam cobertas com a parafernália de um joalheiro e muitos instrumentos e dispositivos que desconhecia ou lhe faziam confusão. Havia também umas pequenas figurinhas de jogadores de críquete, barras finas de ouro e prata, rolos de arame de bronze, safiras dispersas e uma pequena forja ainda fumegante inserida na antiga lareira da sala.

E havia Magia da Carta por todo o lado. As imagens remanescentes sumidas das marcas da Carta brilhavam no ar, deslocavam-se indolentemente pelas paredes e o teto e vinham aglomerar-se junto à chaminé. Manifestamente, Sam não estava apenas criando jóias de época ou as prometidas raquetes extra de tênis.

- O que está fazendo? - perguntou Ellimere, com curiosidade. Alguns dos símbolos da Carta, ou melhor, os reflexos sumidos deles, eram extremamente poderosos. Eram marcas que ela própria teria relutância em usar.

- Coisas - respondeu Sameth. - Nada que possa te interessar.

- Como é que sabe? - perguntou Ellimere. Crescia entre eles a vaga familiar de ressentimento.

- Brinquedos - respondeu Sam, pegando o seu pequeno batedor, que rodou subitamente o seu minúsculo bastão antes de retomar a imobilidade. - Estou fazendo brinquedos. Sei que não é uma ocupação digna de um Príncipe e que deveria estar dormindo, preparando-me para um novo dia divertido de aulas de dança e Tribunal Ordinário, mas... não consigo dormir - concluiu, com ar cansado.

- Eu também não - disse Ellimere em tom conciliatório. Sentou-se na outra cadeira e acrescentou: - Estou preocupada com nossa mãe.

- Ela disse que ficaria boa. As Pedras Grandes vão curá-la.

- Desta vez ela precisa de ajuda no seu trabalho, Sam, e você é a única pessoa capaz de fazer isso.

- Eu sei - respondeu Sam. Desviou o olhar, para a carta de Nick. - Eu sei.

- Bem - prosseguiu Ellimere, constrangida -, só te queria dizer que estudar para ser o Abhorsen é a coisa mais importante, Sam. Se precisar de mais tempo, é só dizer e eu reorganizo o seu plano de atividades.

Sam olhou para ela, surpreso.

- Está dizendo que tira tempo da Cotovia, ou daquelas festas à tarde com as estúpidas das irmãs das suas amigas?

- Elas não são... - começou Ellimere a dizer, depois respirou fundo e prosseguiu: - Sim. Agora as coisas mudaram. Agora sabemos o que está acontecendo. Eu própria irei passar mais tempo com a Guarda. A preparando-me.

- Preparando-se? - perguntou Sam com nervosismo. - Já?

- Sim - respondeu Ellimere. - Mesmo que a mãe e o pai triunfem em Ancelstierre, vai haver complicações. O que quer que está por trás disto não vai ficar quieto enquanto estragamos os seus planos. Algo irá acontecer e precisamos estar preparados. Você precisa estar preparado, Sam. Só queria te dizer isto.

Levantou-se e saiu. Sam ficou olhando para o ar. Não sabia para onde se virar. Tinha de se tornar um Futuro Abhorsen competente. Tinha de ajudar a combater o inimigo desconhecido. As pessoas esperavam-no. Todos dependiam dele.

E, pelo visto, percebeu de repente, também Nicholas. Tinha de ir procurar Nicholas, salvar o seu amigo antes que se metesse em problemas, porque ninguém mais o faria. De repente, Sam ficou cheio de determinação, uma sensação de decisão que não analisara com minúcia. O seu amigo corria perigo e tinha de ir salvá-lo. Se afastaria do Livro dos Mortos e das suas obrigações como Príncipe apenas durante algumas semanas. Provavelmente conseguiria encontrar Nicholas rapidamente e trazê-lo para um lugar seguro, em particular se pudesse levar meia dúzia de Guardas Reais. Como dissera Sabriel, havia poucas probabilidades dos Mortos fazerem algo, com as cheias da Primavera.

Em algum lugar lá no fundo uma vozinha dizia-lhe que o que ele realmente estava fazendo era fugir à realidade. Mas abafou a voz com outros pensamentos mais importantes e nem sequer olhou para os armários que continham o livro e os sinos.

Uma vez tomada a decisão, Sam pensou na forma de colocá-la em prática. Ellimere nunca o deixaria partir, sabia. Por isso tinha de pedir ao pai e isso significava levantar-se antes da alva para apanhar Touchstone a vestir-se.

 

SAM TOMA UMA DECISÃO

Apesar das suas boas intenções, Sam dormiu e perdeu a partida de Touchstone do Palácio. Pensando que conseguiria alcançá-lo no Portão Sul, correu pela Colina do Palácio e depois pela ampla Avenida das Estrelas, ladeada por árvores, assim chamada devido aos sóis de metal cravados nos paralelepípedos. Seguiam-no dois guardas, mantendo facilmente o ritmo apesar do peso das cotas de malha, dos elmos e das botas.

Sam acabara de avistar as filas da retaguarda da escolta do pai quando ouviu os vivas da multidão e o súbito toque das trombetas. Pulou para uma carroça que estava parada no trânsito e olhou por cima das cabeças da multidão. Teve apenas tempo de ver o pai transpor a porta da cidade de Belisaere, o manto vermelho e dourado esvoaçando atrás dele por cima dos quartos traseiros do cavalo, o sol matutino incidindo no seu elmo rodeado por uma coroa antes de passar para a sombra do portão.

Os guardas reais seguiam à frente e atrás do Rei, quarenta homens e mulheres altos, as cotas de malha reluzindo por entre os cortes verticais das suas capas vermelhas e douradas. Os guardas continuariam para norte no dia seguinte, sabia Sam, com alguém vestido como Touchstone. Na verdade, o Rei voaria para sul até Ancelstierre com Sabriel, para tentar impedir a morte de duzentos mil inocentes.

Sam ficou observando mesmo depois do último guarda transpor o portão e a circulação normal ser retomada; pessoas, cavalos, carroças, burros, carros de puxar, carros de empurrar, mendigos... tudo passou por ele, mas nem percebeu.

Não conseguira apanhar Touchstone e agora iria ter de tomar a decisão sozinho.

Mesmo quando atravessou até ao meio da estrada e caminhou contra o sentido das pessoas que abandonavam a cidade, o seu olhar estava ausente. Apenas o vazio criado à volta dele por dois guardas corpulentos impediu vários acidentes com peões.

Assim que Sam começou a pensar no que fazer para encontrar Nicholas, verificou que não podia parar. Tinha certeza de que a carta era verdadeira. Sam era o único que conhecia Nick suficientemente bem para encontrá-lo, o único com um laço de amizade que a magia de procurar conseguiria penetrar.

O único capaz de salvá-lo de qualquer problema que estivesse preparando-se para quem se encontrasse perto do Lago Vermelho. Mas isso significava que Sam teria de abandonar Belisaere, abandonar as suas obrigações. Sabia que Ellimere nunca lhe daria permissão.

Estes pensamentos, e variantes múltiplas deles, rodopiavam pela sua mente enquanto ele e os guardas passavam debaixo de um dos enormes aquedutos que abasteciam a cidade com água pura do degelo. Os aquedutos tinham revelado também o seu valor de outras formas. As suas águas correntes rápidas eram uma defesa contra os Mortos, particularmente durante os dois séculos do Interregno.

Sam pensou também nisso, ao ouvir o bramido cavo do aqueduto por cima da sua cabeça. Por um momento, a sua consciência atormentou-o. Devia ele mesmo ser uma defesa contra os Mortos.

Abandonou a sombra fresca do aqueduto e começou a dirigir-se para a Avenida das Estrelas antes da subida fatigante em ziguezague da Estrada do Rei que conduzia à Colina do Palácio. Ellimere provavelmente estava à espera dele no Palácio, visto que ambos teriam de presidir ao Tribunal Ordinário naquela manhã. Ela estaria fresca e composta nas suas vestes judiciais brancas e pretas, segurando a vara de marfim e a vara de âmbar usadas na fórmula do teste da verdade. Ficaria zangada por ele estar suado, sujo, inadequadamente vestido e não vir equipado - as suas varas tinham desaparecido, muito embora tivesse a vaga noção de que podiam ter rolado para baixo da sua cama.

O Tribunal Ordinário. As obrigações do Festival de Belisaere. As raquetes de tênis. O Livro dos Mortos. Tudo se avolumava como uma enorme vaga negra que ameaçava tragá-lo.

- Não - murmurou, parando tão bruscamente que os dois guardas quase colidiram com ele. - Partirei. Partirei esta noite.

- O que foi, senhor? - perguntou Tonin, a mais velha dos dois guardas. Era da mesma idade de Ellimere e tinham ficado amigas desde os tempos em que brincaram juntas em crianças. Era quase sempre um dos seus guardas nas suas raras excursões à cidade e Sameth ficou convencido de que informaria a Princesa de cada passo seu.

- Hum, nada, Tonin - respondeu Sameth, abanando a cabeça. - Estava só pensando em voz alta. Acho que não estou acostumado a levantar-me antes da alva.

Tonin e o outro guarda trocaram olhares semitolerantes nas suas costas enquanto prosseguiam. Levantavam-se cedo todos os dias antes da alva.

Sameth não sabia no que os seus guardas pensavam quando terminaram a escalada da colina e entraram no pátio fresco com a fonte no meio, que conduzia à ala ocidental do Palácio. Mas vira os olhares que haviam trocado e ficou com a idéia geral de que não o achavam um Príncipe perfeitamente exemplar. Desconfiava que a maior parte dos habitantes da cidade partilhava da opinião deles. Era humilhante para alguém que fora uma das luminárias do seu colégio em Ancelstierre. Ali, fora brilhante em tudo o que era importante. Críquete no Verão e rugbi no Inverno. E fora o primeiro nas aulas de Química e um dos melhores em tudo o mais. Aqui, não parecia fazer nada certo.

Os guardas deixaram-no à porta do quarto, mas Sam não vestiu de imediato a sua toga de juiz nem fez qualquer menção de usar a bacia e o jarro de água que se encontravam no canto ladrilhado que lhe servia de banheiro. O Palácio, reconstruído com parcimônia na sequência da sua destruição por um incêndio, não possuía os canos de vapor e sistemas de água quente da Casa do Abhorsen nem da geleira das Clayr. Sam tinha planos para semelhante sistema e, na verdade, alguns dos mecanismos originais subsistiam bem por baixo da Colina do Palácio, mas não tivera ainda tempo de aprofundar a magia e a engenharia necessárias à sua implementação.

- Partirei - declarou novamente, ao quadro na parede que mostrava uma cena agradável de ceifa. Os ceifeiros não reagiram, tão pouco o grupo com as forquilhas, quando acrescentou: - A única questão é como?

Andou de um lado para o outro pelo quarto. Não era grande, por isso teve de efetuar vinte circuitos antes de tomar uma decisão, ao mesmo tempo que chegou diante do espelho de prata pendurado na parede da sua cama simples de ferro.

- Serei outra pessoa - disse. - O Príncipe Sameth pode ficar para trás. Serei Sam, o Viajante que se vai reunir ao seu bando depois de ter ido procurar tratamento para uma doença em Belisaere.

Sorriu ante a idéia, vendo-se no espelho. O Príncipe Sameth olhava-o do outro lado, resplandecente no seu justilho vermelho e dourado, a camisa branca de linho, as calças castanhas de pele de veado e as botas de tacão dourado que lhe chegavam ao joelho. E, a culminar os adornos, um rosto agradável, com o potencial para um dia ser atraente, muito embora Sam não se desse conta. Demasiado juvenil e simples, decidiu. Faltava ao seu rosto a definição da experiência. Precisava de uma cicatriz ou do nariz partido ou qualquer coisa do género.

Enquanto olhava, estava também acedendo à corrente infindável da Carta, escolhendo uma marca aqui, um símbolo ali, encadeando-os na sua mente. Mantendo-os ali, puxou a marca final da Carta para diante dos olhos com o indicador e todas as marcas se precipitaram, ficando a pairar no ar, uma constelação brilhante de símbolos mágicos.

Sameth olhou-as cuidadosamente, verificando a fórmula antes de avançar para o padrão brilhante. As marcas iluminaram-se quando tocaram na sua pele, faiscando junto à marca da Carta na sua testa, fluindo em fios de fogo dourado pelo seu rosto.

Fechou os olhos quando o fogo as alcançou, ignorando o formigueiro debaixo das pálpebras e uma necessidade súbita de espirrar. Permaneceu assim por vários minutos, até o formigueiro desaparecer. Espirrou violentamente, inalou com igual força - e abriu os olhos.

No espelho, as roupas ainda eram as mesmas, com a configuração idêntica do homem dentro delas. Mas o rosto mudara. Sam, o Viajante, olhava do outro lado, um homem com vagas reminiscências do Príncipe Sameth mas nitidamente vários anos mais velho, com um bigode e uma barbicha cuidadosamente aparados. O seu cabelo tinha também uma cor diferente, mais claro e liso e muito mais comprido atrás.

Melhor. Muito melhor. Sameth - não, Sam - piscou o olho ao reflexo e começou a despir-se. Ficariam melhor as suas roupas velhas de caça em couro e umas calças simples e ceroulas. Compraria uma capa na cidade. E um cavalo. E uma espada, já que não podia levar a que continha Magia da Carta, oferta da mãe no seu décimo sexto aniversário. Não aceitaria um disfarce e era facilmente reconhecível.

Mas poderia levar algumas das coisas que construíra, percebeu ao descalçar as botas e ir buscar outra bota, muito usada mas resistente, de pele de vitelo preta.

Ao pensar na sua oficina na torre, lembrou-se inevitavelmente d’O Livro dos Mortos. Bem, certamente não ia levar aquilo. Era só ir lá acima numa corrida, apanhar algumas coisas, incluindo a pequena reserva de moedas de ouro e prata, e depois partiria! Só que não podia ir à sua oficina com aquele aspecto. E tinha de fazer também alguma coisa que afastasse as suspeitas de Ellimere senão seria perseguido e trazido de volta. A força, imaginou, uma vez que os guardas não teriam problema em sobrepor as ordens de Ellimere às suas.

Suspirou e sentou-se na cama, de botas na mão. Era óbvio que esta fuga - ou melhor, esta expedição de salvamento - ia requerer mais preparativos do que imaginara. Teria de criar um enviado da Carta temporário que fosse uma cópia razoável de si próprio e preparar uma situação para que Ellimere não conseguisse se aproximar demais.

Provavelmente diria que tinha de fazer algo d’O Livro dos Mortos que implicava a sua permanência na sala de trabalho durante três dias ou assim, permitindo-lhe levar um avanço sobre qualquer busca. Não se tratava de uma questão de desistir por completo de estudar para ser o Abhorsen. Precisava de uma pausa, disse para si mesmo, e três semanas para salvar Nicholas sempre eram mais importantes do que três semanas de estudo que conseguiria compensar facilmente quando regressasse.

Mesmo que Ellimere pedisse às Clayr que descobrissem onde ele estava, uma vantagem de três dias seria suficiente. Presumindo que ela descobrisse o que acontecera depois do terceiro dia e enviasse um falcão-mensageiro às Clayr, levariam pelo menos dois dias para responder. Cinco dias ao todo.

Nessa altura teria já percorrido metade do caminho para Edge. Ou um quarto, pensou, tentando recordar ao certo a distância a que ficava a pequena cidade no Lago Vermelho. Teria de arranjar um mapa e consultar a última edição do Guia Muito Útil para ver onde parar no caminho. Na realidade, havia mais de uma dúzia de coisas a fazer antes de poder fugir, pensou Sam, largando as botas para se colocar novamente diante do espelho. Teria de desfazer o encantamento, para começar, se não queria ser preso pelos seus próprios guardas.

Quem iria pensar que era tão difícil iniciar uma aventura?

Carrancudo, empreendeu o processo de dissolução da fórmula da Carta que o disfarçava, deixando que as marcas componentes se soltassem e voltassem para a Carta. Assim que isso acontecesse, iria até à sala na torre e começaria a organizar-se. Desde que, claro, Ellimere não o interceptasse e arrastasse para o Tribunal Ordinário.

 

SAM, O VIAJANTE

Ellimere interceptou mesmo Sam, o resto do dia foi dedicado ao Tribunal Ordinário: a condenação de um ladrão que tentara mentir não obstante a fórmula da verdade lhe deixar o rosto amarelo-vivo a cada falsidade, a arbitragem de uma disputa de propriedade que desafiava todas as verdades firmes pois os herdeiros originais haviam morrido, o julgamento sumário de uma série de pequenos criminosos que confessaram prontamente, na esperança de que, não tendo de os submeter a fórmulas mágicas, pudesse melhorar a imagem do tribunal e um discurso longo e enfadonho de um advogado, que se revelou irrelevante, por assentar num aspecto legal revogado pelas reformas de Touchstone há mais de uma década.

A noite, porém, não foi ocupada pelas obrigações oficiais, apesar de Ellimere mais uma vez aparecer com a irmã mais nova de uma dos seus milhares de amigas, que se sentou ao lado de Sam ao jantar. Para surpresa sua, Sam esteve bastante conversador e simpático e nos dias subsequentes defendeu-o sempre que as outras garotas se queixavam da sua distância.

Após o jantar, Sam avisou Ellimere de que iria estudar durante os próximos três dias e que tinha de se embrenhar numa fórmula que requeria concentração total. Iria buscar alimentos e água nas cozinhas e depois ficaria no seu quarto de dormir e não deveria ser incomodado. Ellimere recebeu as notícias surpreendentemente bem, o que fez com que Sam se sentisse mal. Mas nem mesmo isso refreou a sua crescente excitação e as longas horas passadas para criar uma projeção muito básica de si próprio não diminuíram a sua sensação de expectativa. Quando a terminou um pouco depois da meia-noite, a projeção parecia-se bastante com ele da porta, apesar de não ter profundidade vista de outros ângulos. Se falassem com ela, era capaz de gritar ”Vá embora!” e ”Estou muito ocupado” numa imitação razoável da sua voz.

Criada a projeção, Sam foi à sua sala de trabalho e pegou o dinheiro que preparara e algumas das coisas que fizera, que poderiam revelar-se úteis durante a viagem. Não olhou para os armários, que se destacavam, quais guardiães reprovadores, nos cantos da sala.

Mas sonhou com eles quando finalmente se deitou. Sonhou que voltava a subir as escadas e abria os armários e colocava a bandoleira dos sinos e abria o livro e lia palavras que irrompiam em fogo e as palavras tinham pegado nele e levado para a Morte, mergulhando-o no rio frio e ele não conseguia respirar...

Acordou, debatendo-se na cama, os lençóis embrulhados à volta do pescoço. Lutou com eles em pânico, até perceber de onde estava e o seu coração começar a abrandar o seu bombear frenético. Ao longe, um relógio deu horas, seguido dos gritos da Sentinela, anunciando que estava tudo bem. Eram quatro horas! Só lhe restavam três horas de sono, mas sabia que não ia conseguir dormir mais. Estava na hora de lançar o encantamento sobre si mesmo. Estava na hora de Sam, o Viajante, partir.

Era ainda de noite quando Sam se esgueirou do Palácio, na madrugada fresca que antecede a alva. Envolto em fórmulas da Carta de silêncio e invisibilidade, desceu sorrateiramente as escadas, passou pelo posto da guarda no Pátio de Sudoeste e percorreu o corredor a pique até aos jardins. Evitou os guardas que passavam por entre as rosas no terraço inferior e saiu por uma porta falsa que estava trancada com aço e uma fórmula. Felizmente, roubara a chave da fechadura e a porta soube quem ele era pela sua marca da Carta.

No caminho que ia dar à Estrada do Rei, colocou os alforges surpreendentemente pesados no ombro e perguntou-se deveria ter passado em revista e retirado algumas coisas, porque estavam arrebentando pelas costuras. Mas não lhe ocorria nada que pudesse ficar para trás e levava apenas o mínimo dos mínimos: uma capa, mudas de camisas, calças e roupa interior, um estojo de costura, um saco com sabonetes e artigos de higiene com uma navalha de barba que mal precisava usar, um exemplar d’O Guia Muito Úti, alguns fósforos de fricção, chinelos, duas barras de ouro, um quadrado de oleado que podia servir para improvisar uma tenda, uma garrafa de conhaque, um pedaço de carne salgada, um naco de pão, três bolos de gengibre e alguns instrumentos criados por si. Além do que estava nos alforges, tinha apenas um chapéu de aba larga, uma bolsa de usar à cinta e um punhal normal. A sua primeira parada seria no mercado central, para comprar uma espada e depois iria à Feira do Cavalo no Campo de Anstyr, para uma montaria.

Quando abandonou o caminho e passou para a Estrada do Rei para integrar o corrupio de homens, mulheres, crianças, cães, cavalos, mulas, carroças, mendigos e sabia-se lá o quê mais que aumentava rapidamente na rua, Sam sentiu uma tremenda melhora no seu humor, uma sensação como não tinha há anos. Era a mesma sensação de alegria e expectativa que tinha em criança quando lhe davam férias inesperadas. Liberto das responsabilidades, subitamente autorizado a divertir-se, a correr, a gritar, a rir.

Sam soltou uma gargalhada, experimentando uma forma mais cava e abafada que correspondesse à sua nova personalidade. Saiu bastante forçada, quase um gorgolejo, mas não se importou. Torcendo as pontas do seu novo bigode produzido pela Magia da Carta, apertou o passo. Ia a caminho da aventura - e, é claro, do salvamento de Nicholas.

Três horas depois, a maior parte da sua exuberância pré-alva se fora. O seu disfarce como Viajante era muito bom para não ser reconhecido, mas não o ajudava a obter atenção dos mercadores e negociantes de cavalos. Os Viajantes tinham fama de serem clientes fracos, pois raramente possuíam dinheiro, preferindo trocar por serviços ou produtos. Estava também muito quente, mesmo para um final de Primavera, tornando a compra da espada no mercado apinhado uma tarefa fatigante e desagradável, cada segundo parecendo durar uma hora.

A aquisição do cavalo foi ainda pior, com grandes quantidades de moscas pousando tanto nos olhos como nas bocas dos homens e dos animais. Não admirava, pensou Sam, que o Rei Anstyr tivesse ordenado a realização da Feira do Cavalo a cinco quilômetros da cidade há todos aqueles séculos. A Feira cessara durante os anos do Interregno, mas começara a prosperar de novo no reinado de Touchstone. Agora, os estábulos, currais e recintos de licitação permanentes estendiam-se por cerca de dois quilômetros quadrados e havia sempre mais manadas de cavalos nos pastos em redor da Feira do Cavalo propriamente dita. Claro que encontrar o cavalo que se pretendia comprar no meio daquela multidão levou um tempo considerável e havia sempre disputa pelos melhores cavalos. Pessoas de todo o Reino, e até bárbaros do Norte, vinham comprar ali, em particular nesta época do ano.

Não obstante as multidões, as moscas e a disputa, Sameth saiu bastante satisfeito dos ordálios das duas aquisições. Pendia-lhe da anca uma espada comprida simples, mas em bom estado, o seu punho de pele de tubarão áspero sob o dedo que lhe batia de leve. Seguia-o uma égua baia um pouco nervosa, presa por uma rédea de condução que a impedia de ceder às suas neuroses. Mesmo assim, parecia suficientemente saudável e não dava muito nas vistas nem fora cara. Sam estava pensando chamá-la Tonin, o nome da guarda de que menos gostava, mas achou que estaria sendo simultaneamente infantil e vingativo. O dono anterior chamara-lhe - um tanto enigmaticamente - Sprout, e servia perfeitamente.

Uma vez longe da multidão da Feira do Cavalo, Sam montou, conduzindo Sprout através da corrente de movimento contínuo, abrindo caminho por entre carroças e vendedores ambulantes, burros com cestos vazios que saíam da cidade e os que entravam trazendo-os cheios, grupos de operários que vinham substituir os calceteiros da estrada e todos os viandantes indeterminados pelo meio. Não muito longe da cidade, foi ultrapassado por um Mensageiro do Rei num puro-sangue preto que teria posto os compradores a licitar furiosamente na Feira e depois, mais tarde, por um quarteto de guardas a um ritmo que só podia ser mantido por saberem que os aguardavam cavalos frescos em cada estação de muda na estrada. De ambas as vezes, Sam encolheu-se na sela e puxou o chapéu para fazer sombra no rosto, apesar do encantamento ainda se manter. com a ajuda d’O Guia Muito Útil, Sam decidira onde fazer a sua primeira parada. Tomaria o Caminho Estreito ao longo do istmo que ligava Belisaere ao continente porque não havia outro a seguir. Depois, tomaria a estrada nacional para sul, até Orchyre. Ponderara a hipótese de ir para oeste até Sindle e depois até ao Ratterlin, onde apanharia um barco até Qyrre. Mas O Guia Muito Útil mencionava uma estalagem particularmente boa em Orchyre que servia uma famosa enguia com geléia. Sam tinha um fraco por enguia com geléia e não via motivo para não seguir o caminho mais confortável até Edge.

Não que tivesse certeza de qual o caminho mais confortável depois de Qyrre. A Grande Estrada do Sul seguia a costa leste a maior parte do caminho, mas Edge ficava do outro lado, perto da costa oeste. Por isso, teria de virar para oeste mais cedo ou mais tarde. Talvez devesse mesmo abandonar os caminhos fáceis, como lhes chamavam, e seguir a corta-mato a partir de Orchyre, confiando que poderia encontrar estradas secundárias que o levariam na direção certa. O perigo de tal residia nas enchentes da Primavera. Os caminhos fáceis tinham quase todos pontes decentes, mas as estradas secundárias não e os vaus habituais poderiam ser agora intransponíveis. De qualquer forma, isso situava-se no futuro e só se preocuparia depois de chegar a Orchyre. A cidade ficava a dois dias de cavalgada constante e poderia pensar na fase seguinte pelo caminho, ou naquela noite depois de se instalar numa estalagem.

Mas planejar a fase seguinte da sua viagem era a última coisa na mente de Sameth quando alcançou finalmente uma aldeia e uma estalagem com estação de muda que poderia ser considerada suficientemente distante de Belisaere para parar. Percorrera apenas sete léguas, mas o Sol já estava se pondo e sentia-se exausto. Dormira muito pouco na noite anterior e o traseiro e as coxas recordaram-lhe que praticamente não montara durante todo o Inverno. Quando viu a tabuleta balançar anunciando que o nome da estalagem era O Cão Que Ri, pouco mais fez do que dar uma gorjeta ao estalajadeiro para cuidar de Sprout e deixar-se cair numa cama no melhor quarto do estabelecimento.

Acordou diversas vezes durante a noite, a primeira para descalçar as botas e a segunda para usar a arrastadeira (com a tampa quebrada) amavelmente cedida pela estalagem. A terceira vez que despertou, foi com pancadas insistentes na porta e os primeiros raios de sol entrando pelas janelas com persianas.

- Quem é? - resmungou Sameth, saindo da cama e calçando as botas. Tinha as articulações rígidas e sentia-se péssimo, em particular por ter dormido vestido, cheirando as roupas horrivelmente a cavalo. - É o café da manhã?

Teve por resposta mais pancadas. Resmungando, Sameth foi até à porta, esperando ver algum pateta ou louco da aldeia sorrir-lhe com uma bandeja com o café da manhã nas mãos. Mas foi saudado por dois homens espadaúdos com as insígnias vermelhas e douradas da Polícia Rural por cima das couraças de pele.

Um, nitidamente o mais graduado, aparentava alguma autoridade com o seu rosto austero e cabelo grisalho, cortado rente. Tinha também uma marca da Carta na testa, o que não acontecia com o seu ajudante.

- Sargento Kuke e Ajudante Tep - anunciou o homem de cabelo grisalho, passando rudemente por Sameth. O seu companheiro também entrou, fechando rapidamente a porta atrás de si e voltando a colocar a tranca no lugar.

- O que desejam? - perguntou Sam, bocejando. Não queria ser indelicado, mas ignorava que estivessem interessados nele e que lhe tinham batido à porta intencional e não fortuitamente. A sua única anterior experiência com a Polícia Rural fora vê-los desfilar na parada, ou ao inspecionar algum posto deles com o pai.

- Queremos dar uma palavrinha - disse o Sargento Kuke, que estava tão perto que Sam sentiu o cheiro de alho no seu hálito e viu as marcas no lugar onde não muito antes rapara a barba hirsuta do queixo. - Comecemos pelo seu nome e ocupação.

- Chamo-me Sam. Sou um Viajante - respondeu Sameth, seguindo com o olhar o polícia que, entretanto, fora até o canto do quarto e lhe examinava a espada, encostada nos alforges. Pela primeira vez, sentiu uma certa apreensão. Estes polícias não pareciam ser os broncos que julgara. Podiam descobrir quem ele era.

- Não é normal um Viajante ficar numa estalagem com estação de muda, muito menos no melhor quarto da casa - disse o agente, virando-se da espada e dos alforges de Sam. - Também não é normal dar uma moeda de prata ao estalajadeiro.

- Não é normal o cavalo de um Viajante não ter ferro, nem as indicações do clã na crina - respondeu o sargento, falando como se Sam não estivesse presente. - Seria muito estranho ver também um Viajante sem uma tatuagem do clã. Será que veremos uma neste moço, se procurarmos? Mas talvez devêssemos começar por revistar estes alforges, Tep. Pode ser que encontremos algo que nos diga quem temos aqui.

- Não podem fazer isso! - exclamou Sam, ultrajado. Avançou para o policial, mas estacou abruptamente quando sentiu aço afiado a picá-lo através da camisa de linho, por cima da barriga. Olhando para baixo, viu um punhal seguro com firmeza na mão do Sargento Kuke.

- Podia dizer-nos quem é realmente e o que pretende - disse o sargento.

- Não têm nada com isso! - exclamou Sam, atirando a cabeça para trás em desdém. Ao fazê-lo, o seu cabelo em desalinho descaiu, revelando a marca da Carta na sua testa.

Kuke emitiu de imediato um aviso e o punhal estava no pescoço de Sam e o seu braço direito preso atrás das costas. De todas as coisas que os polícias podiam recear, a pior era um portador de uma marca da Carta falsa ou corrompida, pois poderia muito bem ser um feiticeiro da Magia Livre, um necromante ou algo que assumira a forma humana.

Quase em simultâneo, Tep abriu um dos alforges e retirou uma bandoleira de couro escuro, uma bandoleira com sete bolsas tubulares que iam do tamanho de uma caixa de comprimidos a um frasco grande. Saíam das bolsas cabos de madeira de mogno escuro, deixando bem claro o que continha a bandoleira. Os sinos que Sabriel enviara a Sameth. Os sinos que ele fechara na sua sala de trabalho e com toda certeza não guardara.

- Sinos! - exclamou Tep, largando-os, assustado e dando um pulo para trás como se tivesse mexido num ninho de serpentes. Não reparou nas marcas da Carta que se aglomeravam tanto na bandoleira como nas cabos.

 

- Um necromante - murmurou Kuke e Sam ouviu o medo súbito na sua voz e sentiu a força sobre ele diminuir, o punhal afastar-se da garganta, a mão que o segurava tomada de estremecimentos súbitos.

Naquele instante, Sam representou mentalmente duas marcas da Carta, retirando-as do fluxo infinito como um pescador experiente que seleciona a sua presa entre um cardume brilhante. Deixou que as marcas entrassem na sua respiração - depois expeliu-as, ao mesmo tempo que se atirava para o chão.

Uma marca voou certeira, acometendo Tep de cegueira súbita. Mas Kuke também devia ser um pequeno Mago da Carta, pois contrariou a fórmula com uma defesa geral, o ar faiscando e brilhando quando as duas marcas da Carta se encontraram.

Então, antes que Sam conseguisse sequer se levantar, o punhal de Kuke cravou-se, enterrando-se fundo na perna, por cima do joelho. Sam gritou, o ruído juntando-se aos berros de Tep de desespero cego ao tatear pelo quarto e aos brados ainda mais altos de Kuke de ”Necromante!” e ”Um grupo de salvamento!”. Aquilo traria todos os polícias de vários quilômetros e quaisquer guardas que pudessem andar na estrada. Até poderiam surgir cidadãos preocupados, mas só os corajosos, pois fora proferida a palavra ”necromante”.

Após a primeira fração de segundo de choque de dor, em que toda a sua mente se pareceu abrir, Sam fez instintivamente o que lhe haviam ensinado para salvar a sua vida na eventualidade de uma tentativa de assassínio. Retirando da sua mente várias marcas da Carta, deixou-as acumular na garganta e gritou uma fórmula de Morte que atingiria todos os que não se encontrassem protegidos naquele quarto.

As marcas saíram dele como uma faísca incandescente, saltando para os dois polícias com força terrível. Num segundo, fez-se silêncio, quando Kuke e Tep caíram no chão como marionetes com as cordas quebradas.

Sam pôs-se em pé, a consciência do que fizera sobrepondo-se à dor. Matara dois dos homens do pai... dos seus próprios homens. Eles haviam se limitado a cumprir o seu dever. O dever que ele receava cumprir. Proteger as pessoas dos necromantes e da Magia Livre e de outras coisas mais...

Não parou sequer para pensar. A dor voltava e sabia que tinha de fugir. Em pânico, pegou os alforges, atirou os sinos amaldiçoados lá para dentro, prendeu a espada à cinta e saiu.

Não soube como conseguiu descer as escadas, mas um momento depois estava na sala comum, com as pessoas olhando para ele encostadas às paredes. Fitou-as, com os olhos arregalados e ar tresloucado, seguindo a coxear, deixando pegadas de sangue no chão.

Depois encontrou-se nos estábulos, selando Sprout, a égua respirando com as narinas todas abertas, os olhos brancos com o medo do cheiro de sangue humano. Mecanicamente, acalmou-a, as mãos movendo-se sem pensamento consciente.

Um ano depois, ou em tempo nenhum, ou em algum lugar pelo meio, Sam estava em cima da sela, picando Sprout para um trote e depois um galope brando, sentindo o tempo todo o sangue escorrer-lhe pela perna como água quente, enchendo-lhe a bota até transbordar pelo alto arregaçado. Uma parte da sua mente gritava-lhe que parasse para cuidar da perna, mas a maior parte a fez calar-se, desejando apenas fugir, fugir da cena do seu crime.

Instintivamente, dirigiu-se para oeste, pondo o Sol nascente para trás das costas. Ziguezagueou por um pouco, para deixar um rastro falso, depois seguiu em linha reta pelos campos, em direção a uma mancha escura de floresta, não muito à frente. Bastava alcançá-la e poderia esconder-se, esconder-se e cuidar do seu ferimento.

Por fim, Sam alcançou a sombra confortante das árvores. Penetrou o máximo possível e desceu do cavalo. A dor subiu-lhe pela perna, picando o tempo todo. O mundo verde da floresta girou e vacilou doentiamente, recusando-se a ficar parado. A luz da manhã passara de amarela a cinzenta, como um ovo cozido demais. Não conseguia se concentrar na fórmula curadora. As marcas da Carta escapavam-lhe, deslizando-lhe da mente. Não se alinhavam simplesmente como deviam.

Era tudo difícil demais. Mais valia desistir. Adormecer, vagar até à Morte.

Só que conhecia a Morte, conhecia o seu frio. Já caíra na corrente fria do rio. Se conseguisse ter certeza de que seria levado para baixo por uma corrente, atirado pela cascata do Primeiro Portão e continuado sempre, talvez tivesse cedido. Mas sabia que o necromante que o queimara estaria à sua espera na Morte, à espera de um Futuro Abhorsen incompetente demais para dominar a forma da sua própria partida. O necromante o apanharia, tiraria o espírito e o submeteria à sua vontade, para o usar contra a sua família, o seu Reino...

O medo cresceu em Sam, mais forte do que a dor. Procurou mais uma vez as marcas da Carta para sarar - e encontrou-as. O calor dourado aumentou nas suas mãos que esboçaram gestos fracos e fluiu-lhe para a perna, através das calças negras e ensopadas. Sentiu o seu calor penetrar, até ao osso, sentiu a pele e os vasos sanguíneos unirem-se, a magia fazendo voltar tudo ao seu devido estado.

Mas perdera muito sangue com muita rapidez para a fórmula deixá-lo completamente intacto. Tentou levantar-se mas não foi capaz. A cabeça tombou-lhe, as folhas caídas servindo-lhe de almofada. Procurou manter os olhos abertos mas não conseguiu. A floresta girava cada vez mais depressa e depois ficou tudo negro.

 

O OBSERVATÓRIO DAS CLAYR

A Cadela Desavergonhada acordou com enorme relutância, passando uma série de minutos esticando as patas rígidas, bocejando e revirando os olhos. Por fim, sacudiu-se e dirigiu-se para a porta. Lirael deixou-se ficar onde estava, os braços firmemente cruzados sobre o peito.

- Cadela! Preciso falar com você!

A Cadela mostrou-se surpresa, pondo as orelhas para trás com um movimento súbito.

- Não deveríamos nos apressar a regressar? Já passa da meia-noite, sabia? Três hora da manhã, na verdade.

- Não! - exclamou Lirael, todos os pensamentos de conversa esquecidos. - Não pode ser! É melhor nos apressarmos.

- Mesmo assim, se quiser conversar - disse a Cadela, sentando-se nos quartos traseiros e inclinando a cabeça numa atitude primitiva de se pôr à escuta -, não há momento como o presente, costumo dizer.

Lirael não respondeu. Correu para a porta, puxando a coleira da Cadela ao passar, dando-lhe um esticão para se levantar.

- Au! - latiu a Cadela. - Estava só brincando! Já vou!

- Anda, anda! - respondeu Lirael, apoiando as mãos na porta e tentando empurrá-la, o que era difícil pois não tinha puxador nem batente. - Oh, como é que isto se abre?

- Pergunte-lhe - respondeu a Cadela, calmamente. – Não precisa empurrar.

Lirael bufou de frustração, respirou fundo e depois fez um esforço para dizer:

- Por favor abra-se, porta.

A porta pareceu reflectir por um momento, depois deslizou lentamente para dentro, dando tempo suficiente a Lirael para recuar. O bramido do rio entrou pela abertura, fazendo-se acompanhar de uma brisa fresca, agitando o pobre cabelo chamuscado de Lirael. O vento trouxe também algo mais, algo que despertou a atenção da Cadela, muito embora Lirael não soubesse dizer o que era.

- Hummm - disse a Cadela, virando uma orelha para a porta e a ponte iluminada pela Carta depois dela. - Gente Clayr. Possivelmente uma tia.

- A tia Kirrith! - exclamou Lirael, estremecendo com o nervosismo. Olhou precipitadamente à sua volta, procurando outra saída. Mas não havia para onde ir a não ser atravessar a ponte escorregadia molhada pelo rio. E agora conseguia ver as luzes brilhantes da Carta lá fora na Falha, luzes tornadas difusas pela névoa e a bruma do rio.

- O que vamos fazer? - perguntou, mas a sua pergunta ecoou na sala, enchendo o espaço onde deveria ter estado uma resposta. Rapidamente, Lirael olhou para trás, mas não se via a Cadela Desavergonhada. Desaparecera simplesmente.

- Cadela? - murmurou Lirael, os olhos perscrutando a sala enquanto as lágrimas lhe toldavam a visão. - Cadela? Não me abandone agora.

A Cadela fora-se embora antes que as pessoas pudessem vê-la, e, cada vez que o fazia, Lirael tinha o receio secreto de que a sua única e exclusiva amiga pudesse nunca mais voltar. Sentiu aquele medo familiar estender-se pelo estômago, aumentando o medo que sentia pelo que ficara sabendo. O medo do conhecimento secreto que sentia agitar-se e aquecer no livro que segurava debaixo do braço. Era um conhecimento que não queria ter, pois não era das Clayr.

Uma única lágrima escorreu-lhe pela face, mas limpou-a rapidamente. A tia Kirrith não teria o prazer de a ver chorar, resolveu, inclinando a cabeça para trás para afastar as lágrimas. A tia Kirrith parecia esperar sempre o pior de Lirael, parecia achá-la capaz de cometer crimes terríveis e nunca fazer nada que se visse. Lirael sentia que tudo isso se devia ao fato de não ser uma Clayr de verdade, muito embora uma parte da sua mente tivesse de admitir que era assim que a tia Kirrith tratava qualquer pessoa que se afastasse dos seus estúpidos parâmetros.

Lirael manteve a cabeça orgulhosamente inclinada para trás até dar o primeiro passo na ponte, momento em que teve de olhar para baixo, para a névoa turva e a água correndo rapidamente. Sem o corpo sólido e as patas com ventosas da Cadela a seu lado, achou a ponte muito, muito mais assustadora. Lirael deu um passo, vacilou, depois começou a oscilar. Por um momento, pensou que podia cair e pôs-se de gatas, em pânico. O Livro da Lembrança e do Esquecimento deslocou-se quando se moveu e quase lhe caiu também da camisa. Mas Lirael meteu-o para dentro e começou a gatinhar pela ponte estreita. Mesmo para gatinhar precisou de toda a sua atenção, por isso não olhou para cima senão quando estava quase do outro lado. Tinha também naquele momento plena consciência do seu cabelo chamuscado e das roupas completamente encharcadas pelo chuvisco que não parava de cair sobre a ponte. E estava descalça.

Quando finalmente olhou, soltou um grito abafado e deu um pulo de reflexo como um coelho assustado. Apenas as mãos rápidas das duas Clayr mais próximas a impediram de uma potencial queda fatal nas águas rápidas e frias do Ratterlin.

Eram também as pessoas que lhe tinham provocado o choque, as duas últimas pessoas que Lirael esperaria ver à procura dela: Sanar e Ryelle. Como sempre, pareciam calmas, belas e sofisticadas. Vestiam os uniformes da Vigia de Nove Dias, o seu cabelo louro comprido elegantemente preso com redes cravadas de jóias e as suas longas túnicas brancas salpicadas de minúsculas estrelas douradas. Seguravam também varas de aço e marfim, anunciando que eram a Voz conjunta da Vigia. Nenhuma delas parecia um dia mais velha do que quando Lirael as conhecera bem, lá fora no terraço, no dia do seu décimo quarto aniversário. Continuavam a ser tudo o que Lirael achava que as Clayr deviam ser.

Tudo o que ela não era.

Havia também um grupo de Clayr atrás delas. Sobretudo as principais, incluindo Vancelle, a Bibliotecária-Chefe, e o que mais se afigurava a Vigia de Nove Dias. Contando rapidamente, Lirael  percebeu que provavelmente era a totalidade da presente Vigia de Nove Dias. Quarenta e sete ao todo, alinhadas atrás de Sanar e Ryelle, formas brancas na escuridão da Falha.

Mas a ausência total da tia Kirrith constituía o pior indício. Isso queria dizer que o que quer que ela tivesse feito era punível com algo bem pior do que trabalhos extra na cozinha. Lirael não conseguia sequer imaginar que tipo de castigo requeria a presença de toda a Vigia. Nunca lhe constara que tivessem abandonado o Observatório, não em conjunto.

- Levante-se, Lirael - disse uma das gêmeas. Lirael percebeu que estava acocorada, ainda apoiada pelas duas Clayr. Vacilando, ergueu-se, tentando evitar olhar para elas, para não mencionar todos os outros olhos azuis e verdes que tinha certeza de estarem agora reparando como os seus próprios eram castanhos e escuros.

As palavras surgiram-lhe na mente, mas a sua garganta fechou-se quando tentaram passar. Tossiu e gaguejou, depois conseguiu finalmente murmurar:

- Eu... eu não queria vir aqui. Aconteceu... apenas. E sei que faltei ao jantar... e às rondas da meia-noite. Compensarei de alguma forma...

Parou quando Sanar e Ryelle se entreolharam e riram. Mas foi uma gargalhada simpática, de surpresa, não o escárnio que temia.

- Parece que instituímos a tradição de encontrá-la em lugares estranhos no dia do seu aniversário - disse Ryelle - ou talvez fosse Sanar -, olhando para o livro que saía da camisa de Lirael e as flautas de Pan de prata que brilhavam dentro do bolso do seu colete.

- Não precisa se preocupar com as rondas ou a falta ao jantar. Parece que esta noite adquiriu um direito por nascimento, um direito que tem esperado muito tempo pela sua vinda. Tudo o mais é de menor importância.

- O que quer dizer com um direito por nascimento? - perguntou Lirael. A Visão era o direito por nascimento das Clayr, não três estranhos instrumentos mágicos.

- Sabe que é a única entre as Clayr que nunca apareceu nas visões - começou a outra gêmea. - Nunca um vislumbre, pelo menos até agora. Mas há uma hora, nós - quer dizer, a Vigia de Nove Dias - Vimos que estaria aqui e em outro lugar também. Nenhuma de nós alguma vez suspeitou da existência desta ponte, nem da sala do outro lado. Mas é evidente que, se as Clayr de hoje não a viram nas suas visões, as Clayr do antigamente viram o suficiente para preparar este lugar e as coisas que você traz. Para te preparar, na verdade.

- Preparar-me para o quê? - perguntou Lirael, em pânico com a atenção súbita. - Eu não quero nada! Tudo o que quero é ser... ser normal. Ter a Visão.

Sanar - pois fora Sanar quem falara por último - olhou para a jovem, vendo a dor nela. Desde o seu primeiro encontro há cinco anos, ela e a irmã tinham estado atentas a Lirael e sabiam mais da vida dela do que a sua jovem prima desconfiava.

Escolheu as palavras com cuidado.

- Lirael, a Visão pode ainda surgir com o tempo e ser mais forte devido à espera. Mas, por ora, recebeu outros dons, dons que tenho certeza de que serão extremamente necessários ao Reino. E como todas nós do Sangue recebemos dons, temos também a responsabilidade de usá-los sabiamente e bem. Você possui o potencial para um enorme poder, Lirael, mas receio que tenha também de enfrentar grandes testes.

Calou-se, olhando para a nuvem de bruma que se erguia por trás de Lirael e os seus olhos pareceram turvar-se, enquanto a sua voz se tornava mais cava e bem menos amistosa, mais impessoal e estranha.

- Irá enfrentar muitas provações num caminho que não é visível, mas nunca se esqueça que é uma Filha das Clayr. Pode não ver, mas lembrará. E na lembrança, verá o passado escondido que encerra os segredos do futuro.

Lirael estremeceu ante aquelas palavras, pois Sanar falara com a verdade da profecia e os seus olhos brilhavam com uma estranha luz gélida.

- O que quer dizer com grandes testes? - perguntou Lirael, quando o último eco fraco das palavras de Sanar se perdeu, afogado no bramido do rio.

Sanar abanou a cabeça e sorriu, o momento da Visão perdido. Incapaz de falar, olhou para a irmã, que prosseguiu.

- Quando a vimos aqui esta noite, Vimos também em outro lugar, um lugar que nos temos esforçado muitos anos por ver, sem êxito - afirmou Ryelle. - No Lago Vermelho, num barco de juncos entrelaçados. O Sol estava alto e brilhante, por isso sabemos que deveria ser no Verão. Não tinha mudado nada em relação ao presente momento, por isso sabemos que é no Verão que vem que irá estar lá.

- Haverá um jovem contigo - continuou Sanar. - Um homem doente ou ferido, que nos foi pedido que procurássemos para o Rei. Não sabemos ao certo onde ele está agora, ou como ou quando virá ao Lago Vermelho. Ele está rodeado por forças que ocultam a nossa visão. Mas sabemos que ele se encontra no centro de um perigo enorme e terrível. Um perigo não só para ele, mas para todas nós e para o Reino. E ele estará lá com você, no barco de junco, no pino do Verão.

- Não entendo - murmurou Lirael. - O que tem isso a ver comigo? Quer dizer, o Lago Vermelho, esse homem e tudo? Sou apenas uma Segunda Assistente de Bibliotecária! O que tenho a ver com isso?

- Não sabemos - respondeu Sanar. - As Visões são fragmentadas e uma nuvem escura estende-se como tinta derramada sobre páginas de futuros possíveis. Tudo o que sabemos é que esse homem é importante, tanto para o bem como para o mal, e a vimos com ele. Pensamos que deve abandonar a Geleira. Tem de ir para sul e procurar o barco de junco no Lago Vermelho e encontrá-lo.

Lirael olhou para os lábios de Sanar, ainda movendo-se, mas não conseguiu escutar qualquer som a não ser o clamor do rio. O som da água correndo para se libertar da montanha, fluindo sempre, sempre, até alcançar uma terra distante e desconhecida.

Estou sendo expulsa, pensou. Não tenho a Visão, estou muito crescida e estão me expulsando...

- Tivemos também outra Visão do homem - dizia Sanar quando Lirael voltou a ouvir. - Anda, vamos mostrar-lhe, para que o reconheça no momento próprio e identifique um pouco o perigo em que ele está. Mas não aqui - temos de ir até o Observatório.

- O Observatório! - exclamou Lirael. - Mas eu não sou... ainda não Despertei...

- Eu sei - disse Ryelle, pegando-lhe na mão para conduzi-la. - É difícil contemplar o desejo do seu coração quando pode não possui-lo. Se o perigo fosse menor, ou mais alguém pudesse arcar com a responsabilidade, não insistiríamos tanto com você. Se a Visão não fosse deste lugar que nos resiste, provavelmente poderíamos mostrar-lhe um outro destino. Mas agora precisamos do poder do Observatório e de toda a força da Vigia.

Voltaram pela Falha, com Sanar e Ryelle de cada lado de Lirael, que não protestava. Lirael sentiu o que a Cadela chamara de a sua sensação dos Mortos, uma espécie de pressão de todas as Clayr mortas sepultadas ao longo da Falha, mas ignorou-a. Era como se alguém distante gritasse o nome de outro. Tudo o que lhe ocorria era que elas a estavam mandando embora. Voltaria a ficar sozinha, porque a Cadela Desavergonhada podia não regressar. A Cadela podia nem sequer conseguir existir fora da geleira das Clayr, como um enviado que não podia abandonar os seus limites.

A meio do caminho da Falha até à porta por onde entrara, Lirael ficou surpresa por ver que uma longa ponte de gelo transpunha as profundezas. As Clayr regressavam por lá e depois entraram numa funda abertura da caverna do outro lado da Falha. Ryelle viu-a olhar e explicou:

- Existem muitas maneiras de entrar e sair do Observatório, quando temos necessidade. Esta ponte se derreterá quando tivermos atravessado.

Lirael concordou em silêncio. Sempre se interrogara onde ficava realmente o Observatório e tentara encontrá-lo em mais de uma ocasião. Tivera muitos devaneios em que dava com o caminho até lá e encontrava a Visão lá dentro. Mas todos aqueles devaneios estavam agora destruídos.

Do lado de lá da ponte, a abertura da caverna conduzia a um túnel toscamente escavado que subia bastante a pique. Foi um trajeto difícil e Lirael estava afogueada e sem fôlego quando o túnel finalmente se tornou plano. Ryelle e Sanar detiveram-na e Lirael limpou o suor dos olhos antes de dar uma espreitadela. A pedra ficara para trás. Agora não havia senão gelo a toda volta, gelo azul que refletia as luzes da Carta que as Clayr transportavam. Tinham chegado ao coração da geleira.

Havia um portão talhado no gelo, com duas guardas de cada lado vestindo armadura, segurando escudos que ostentavam a estrela dourada das Clayr. Os seus rostos eram austeros debaixo dos elmos abertos. Uma tinha um machado que refulgia com marcas da Carta, a outra uma espada que brilhava mais intensamente do que as luzes, lançando mil reflexos minúsculos no gelo. Lirael olhou para as guardas, pois via-se que eram Clayr, mas ninguém seu conhecido, o que achou impossível. Havia menos de três mil Clayr na geleira e vivera ali toda a sua vida.

- Vejo-a, Voz da Vigia de Nove Dias - disse a mulher com o machado, falando num estranho tom formal. - Pode passar. Mas a outra contigo ainda não Despertou. Pelas leis antigas, não deve ser autorizada a ver os caminhos secretos.

- Não sejas ridícula, Erimael - respondeu Sanar. - Que leis antigas? É Lirael, a filha de Ariell.

- Erimael? - murmurou Lirael, olhando para o rosto austero, nitidamente definido pelas extremidades do seu elmo. Erimael juntara-se ao Corpo de Tropas há seis anos e nunca mais ninguém a vira. Lirael pensara que Erimael devia ter morrido num acidente e que faltara à sua Despedida, tal como faltara a tantos outros acontecimentos que implicavam envergar a túnica azul.

- As leis são explícitas - frisou Erimael, ainda na mesma voz austera, apesar de Lirael a ver engolir nervosamente em seco. - Sou a Guarda do Machado. Ela deve ser vendada se deseja que passe.

Sanar resfolegou e virou-se para a outra mulher.

- E o que diz a Guarda da Espada? Também é da mesma opinião?

- Sim, infelizmente - respondeu a outra mulher, que Lirael percebeu que era muito mais velha. -- A letra da lei é precisa. Os convidados devem ser vendados. Quem não for uma Clayr Despertada é um convidado.

Sanar suspirou e virou-se para Lirael. Mas Lirael baixara já a cabeça, para esconder a sua humilhação. Lentamente, tirou o lenço da cabeça, dobrou-o numa faixa estreita e atou-o à volta da cabeça, cobrindo os olhos. Por trás da escuridão suave do tecido, chorava silenciosamente, a venda absorvendo-lhe as lágrimas.

Sanar e Ryelle deram-lhe novamente as mãos e Lirael sentiu a simpatia no toque delas. Mas não importava. Isto era ainda pior do que quando fizera catorze anos, de pé com a sua túnica azul, sofrendo a humilhação pública de não ser uma Clayr. Agora ficara irrevogavelmente marcada como uma intrusa. Nem sequer uma Clayr, de qualquer espécie. Apenas uma convidada.

Fez apenas duas perguntas enquanto Ryelle e Sanar a conduziam através do que parecia um corredor complexo, tipo labirinto.

- Quando terei de partir?

- Hoje - respondeu Ryelle, ao deter Lirael e prepará-la para mais uma virada brusca empurrando-lhe delicadamente o cotovelo até ela ficar virada na direção certa. - Quer dizer, o mais depressa possível. Estão preparando um barco. Terá uma fórmula para conduzi-la pelo Ratterlin abaixo até Qyrre. Dali necessitará que alguns policiais ou mesmo alguns Guardas te escoltem até Edge, no próprio Lago Vermelho. Deverá ser uma viagem rápida e tranquila, muito embora desejássemos ver algo antecipadamente.

- E vou sozinha?

Lirael não conseguia ver, mas sentiu que Sanar e Ryelle trocavam olhares, decidindo silenciosamente quem falaria. Por fim, Sanar disse:

- Foi assim que a viram, por isso receio que seja assim que tem de partir. Gostaria que fosse de outro modo. Nós a levaríamos numa Asa de Papel, mas elas foram todas vistas em outro lugar, por isso terá de ser pelo rio.

Sozinha. Sem a sua única amiga, a Cadela Desavergonhada. Na realidade, não importava o que lhe pudesse acontecer.

- Há aqui uns degraus - avisou Ryelle, parando novamente Lirael. - Cerca de trinta, creio. Depois estaremos no Observatório e poderá tirar a venda.

Mecanicamente, Lirael desceu as escadas com as gêmeas. Era perturbador, não poder ver onde punha os pés e alguns dos degraus pareciam mais baixos do que outros. Para complicar, havia um estranho ruído sussurrante a toda a volta e esporadicamente a sugestão de sussurros ou conversas abafadas.

Por fim, chegaram a solo plano e deram meia dúzia de passos em frente. Sanar ajudou a tirar a venda.

A primeira coisa em que Lirael reparou foi na luz, no espaço e depois nas filas compactas de Clayr, silenciosamente de pé com as suas túnicas brancas sussurrantes. Encontrava-se no meio de uma imensa câmara esculpida inteiramente no gelo, uma ampla caverna facilmente do tamanho do Salão Grande que conhecia e tanto detestava. As luzes da Magia da Carta brilhavam por todo o lado, reflectindo das muitas facetas do gelo, pelo que não se via escuridão em lado nenhum.

Instintivamente, Lirael baixou o olhar quando viu todas as outras Clayr, para não ter de fitar os olhos de ninguém. Mas quando espiou cautelosamente por trás da sua camada protetora de cabelo chamuscado, viu que não estavam olhando para ela. Olhavam todas para cima. Seguiu o olhar delas e viu que o teto oblíquo era perfeitamente liso e plano, um único lençol enorme de gelo transparente, quase como uma imensa janela opaca.

- Sim - disse Sanar, reparando no olhar de Lirael. - É ali que concentramos nossa Vista, para que todos os fragmentos da Visão se tornem um só e todas possamos Ver.

- Penso que podemos começar - anunciou Ryelle, olhando as filas compactas e silenciosas das Clayr. Quase todas as Clayr Despertadas estavam ali, para participar numa Vigia de Mil Quinhentas e Sessenta e Oito. Formavam uma série de círculos cada vez maiores à volta da pequena área central onde Lirael, Sanar e Ryelle se encontravam, como um estranho pomar de árvores brancas que davam frutos de prata e selenite.

- Comecemos! - exclamaram Sanar e Ryelle e ergueram as suas varas entrechocando-as como espadas. Lirael sobressaltou-se quando todas as Clayr reunidas gritaram, um berro enorme que lhe penetrou nos ossos.

- Comecemos!

Como uma só, as Clayr no círculo mais próximo deram as mãos, prendendo-as como num exercício militar. Depois, o círculo seguinte deu as mãos e o seguinte, uma onda de movimento estendendo-se do centro para o círculo mais distante no Observatório, até todas ficarem novamente imóveis.

- Vejamos! - exclamaram Sanar e Ryelle, voltando a bater com as varas. Desta vez, Lirael estava preparada para o grito que se repetiu, mas não a magia que se seguiu. Pareciam brotar do chão gelado marcas da Carta, até estarem tantas que transbordavam e passavam para o próximo círculo e depois para o que vinha a seguir àquele. Marcas da Carta que fluíam como nevoeiro espesso pelos corpos das Clayr e ao longo dos seus braços. Lirael observou a magia crescer à medida que percorria cada círculo, viu-a envolver os corpos das primas. Conseguia ver as marcas da Carta, sentir a magia no bater do seu coração, desejando-a. Mas manteve-se distante, de certa forma atrás dela, como nunca antes nenhuma outra magia estivera.

Depois, o círculo mais afastado das Clayr soltou as mãos e ergueu os braços para o teto distante e gelado. Fluíram delas marcas para o ar, subindo como poeira dourada apanhada em poços de luz solar. Quando atingiu o gelo, espalhou-se ali, como se fosse uma tinta gloriosa e o gelo uma tela em branco à espera de ganhar vida.

Chegou sucessivamente a vez de cada círculo, até a totalidade da magia que tinham concentrado subir para encher todo o enorme teto de gelo com marcas da Carta rodopiando. Olharam para lá, em transe, e Lirael viu os olhos delas moverem-se como se observassem todas algo. Mas não viu nada, nada a não ser o turbilhão de magia que não conseguia compreender.

- Olhe - disse Ryelle baixinho e a vara que segurava tornou-se subitamente uma garrafa de vidro verde-vivo.

- Conheça - disse Sanar e agitou a sua vara segundo um padrão mesmo por cima da cabeça de Lirael.

A seguir, Ryelle atirou o conteúdo da garrafa, ao que parecia a Lirael. Mas quando o líquido se espalhou na cabeça dela, a vara de Sanar transformou-o em gelo. Uma vidraça de gelo puro, translúcido, que pairava horizontalmente no ar mesmo por cima da cabeça de Lirael.

Sanar bateu nesta vidraça com a sua vara e ela adquiriu um brilho azul profundo, reconfortante. Voltou a bater-lhe e o azul fugiu para as extremidades. Lirael olhava para ela e através dela e enquanto o fazia,  percebeu que esta estranha vidraça suspensa a estava ajudando a ver o que as Clayr viam. Os padrões sem significado no teto de gelo por cima começaram a ficar claros. Centenas, talvez milhares de minúsculas imagens que se juntavam para formar uma imagem maior, como as imagens nos puzzles com que brincara em criança.

Era uma imagem de um homem com o pé apoiado numa rocha, via Lirael agora. Olhava para algo abaixo dele.

Curiosa, Lirael inclinou a cabeça para ver melhor. Por um momento sentiu-se tonta e depois pareceu que subia, atravessava a vidraça azul seguindo sempre até ao teto, precipitando-se na Visão. Deu-se um clarão azul e um toque de algo que a fez estremecer - e estava lá!

Encontrava-se de pé, ao lado do homem. Conseguia ouvir a sua respiração áspera, doentia, captar um odor de suor muito ligeiro, sentir o calor e a humidade de um dia de Verão. E tudo o que conseguia sentir na boca era o gosto horrível de Magia Livre, mais forte e mais vil do que alguma vez pudera sequer imaginar, mais forte ainda do que a sua lembrança do Stilken. Tão forte que a bílis lhe subiu pela garganta e teve de empurrar para baixo e viu pontos pequenos dançando diante dos olhos.

 

NICHOLAS E O POÇO

Era jovem, viu Lirael, mais ou menos da sua idade. Dezenove ou vinte. E estava obviamente doente. Era alto, mas curvava-se, como se uma dor incômoda lhe atacasse a cintura. O seu cabelo louro despenteado estava lavado, mas pendia como um cordel úmido. A sua pele era muito rosada nas faces e cinzenta à volta dos lábios e dos olhos. Aqueles olhos eram azuis, mas parados. Segurava frouxamente numa mão uns óculos escuros, as hastes reparadas com fio e uma lente verde estalada e estrelada.

Encontrava-se de pé numa espécie de colina artificial de terra solta aos altos e baixos, espreitando com ar míope para o fundo de um poço, um buraco aberto no solo. O poço - ou o que quer que havia lá dentro estava na origem da Magia Livre que deixara Lirael nauseada, mesmo através da Visão. Sentia as suas ondas pulsando na terra sulcada, fria e terrível, atacando-lhe os ossos, fazendo-lhe doer os dentes.

Era óbvio que o poço fora aberto recentemente. Tinha pelo menos a largura do Refeitório Inferior, onde cabiam quatrocentas pessoas. Um caminho em espiral serpenteava pelos seus bordos, desaparecendo nas profundezas escuras. Lirael não conseguiu ver se era muito fundo, mas havia pessoas içando cestos de terra e rocha e descendo cestos vazios. Pessoas lentas, cansadas, que se afiguraram bastante estranhas a Lirael. As suas roupas estavam sujas e rasgadas, mas mesmo assim Lirael conseguiu ver que o corte e a cor não se pareciam com nada do que alguma vez vira. E quase todas elas usavam chapéus azuis ou os restos de lenços amarrados.

Lirael perguntou-se como conseguiam trabalhar com o cheiro corrosivo de Magia Livre rodeando-as e olhou-as com maior atenção. Depois arfou e fez menção de recuar, mas a Visão a prendia.

Não eram pessoas. Eram Mortos. Sentia-os agora, sentia o frio da Morte próximo. Estes trabalhadores eram Mãos Mortas, presas à vontade de algum necromante. Os chapéus azuis encobriam as órbitas sem olhos, os lenços azuis seguravam as cabeças putrefatas.

Lirael reprimiu o desejo instintivo de vomitar e olhou rapidamente para o jovem ao lado dela, receando que pudesse ser o necromante e de alguma forma vê-la. Mas ele não tinha nenhuma marca da Carta na testa, nem intacta nem pervertida pela Magia Livre. A sua testa estava limpa, à exceção das gotas de suor que tinham apanhado o pó no ar e não havia sinal de quaisquer sinos.

Olhava agora para cima, para o céu e agitava algum objeto de metal no pulso. Talvez um ritual, pensou Lirael. Sentiu subitamente pena dele e uma estranha necessidade de tocar na curva do seu pescoço onde se unia à orelha, nem que fosse só com a ponta dos dedos. Começou inclusivamente a estender a mão e só se recordou de onde estava - e do que era - quando ele falou.

- Maldição! - murmurou. - Por que é que nada funciona?

Baixou o braço e continuou olhando para cima. Lirael olhou também, vendo as nuvens escuras de tempestade que avançavam para ali, baixas e próximas. Brilharam relâmpagos, mas não houve qualquer brisa fresca, nem o cheiro a chuva. Apenas o calor e os relâmpagos.

Depois, sem avisar, um raio ofuscante desceu pelo poço, iluminando as profundezas escuras com um clarão intenso de incandescência. Naquele momento, Lirael viu centenas de Mãos Mortas cavando, cavando com instrumentos se os tinham e com as mãos em decomposição se não. Ignoraram o raio que queimou e enegreceu uma quantidade deles e também o estrondo ensurdecedor que se deu quase simultâneamente. Passados alguns segundos, outro raio seguiu o primeiro, atingindo, ao que parecia, exatamente o mesmo local. Depois uma sucessão, os trovões continuando a rebentar, sacudindo o solo aos pés de Lirael.

- Quatro em aproximadamente cinquenta segundos - comentou o homem para si mesmo. - Estão ficando mais frequentes. Hedge!

Lirael não entendeu este último chamamento até um homem sair do poço e acenar. Um homem magro, para o calvo, vestindo uma armadura com placas de aço esmaltado gravadas em ouro na garganta, nos cotovelos e nos joelhos. Tinha uma espada à cinta - e uma bandoleira com sinos no peito, os cabos pretos de ébano saindo das bolsas de couro vermelho. Perversões das marcas da Carta moviam-se tanto sobre a madeira como sobre o couro, deixando imagens remanentes de fogo.

Mesmo tão longe, ele cheirava a sangue e metal quente. Devia ser o necromante a quem as Mãos Mortas serviam - ou um dos necromantes, pois havia muitos Mortos. Mas este não estava na origem da Magia Livre que queimava os lábios e a língua de Lirael. Algo bem pior do que ele estava escondido nas profundezas do poço.

- Sim, Amo Nicholas? - disse o homem. Lirael reparou que ele fez sinal a duas Mãos Mortas que o haviam seguido para que voltassem para as sombras, como se não quisesse que fossem vistas com nitidez.

- Os relâmpagos estão acontecendo com maior rapidez - afirmou o jovem, identificando-se a Lirael como Nicholas. Mas a que tipo de homem - um homem sem uma marca da Carta - um necromante chamaria de Amo?

- Devemos estar próximo - acrescentou, a sua voz saindo rouca.

- Pergunte aos homens se aceitam trabalhar um turno extra esta noite.

- Oh, aceitarão! - gritou o necromante, rindo de alguma piada particular. - Quer vir até lá embaixo?

Nicholas abanou a cabeça. Pigarreou várias vezes antes de conseguir responder no mesmo tom:

- Estou... estou outra vez maldisposto, Hedge. vou estender-me na minha tenda. Mas deve me chamar se descobrir algo. Será de metal, creio. Sim, metal reluzente - prosseguiu, os olhos fixos como se o visse diante de si. - Dois hemisférios de metal brilhante, cada um mais alto do que um homem. Temos de encontrá-los rapidamente. Rapidamente!

Hedge esboçou uma vênia, mas não respondeu. Saiu do poço, deixando-o para se dirigir para o monte de resíduos onde se encontrava Nicholas.

- Quem é que está aí com você? - gritou Hedge, apontando. Nicholas olhou para o lugar para onde ele apontava mas não viu nada senão o resplendor do raio e a imagem dos hemisférios brilhantes - a imagem que via em todos os seus momentos acordados, como se estivesse gravada no seu cérebro.

- Nada - murmurou, olhando diretamente para Lirael. - Ninguém. Estou tão cansado. Mas será uma grande descoberta...

- Espião! Arderá aos pés do meu Amo!

Saltaram chamas das mãos do necromante que caíram no solo, chamas vermelhas envoltas em fumaça negro sufocante.

Ao mesmo tempo, viu os olhos de Nicholas focarem-se subitamente nela. Estendeu uma mão para cumprimentar, dizendo:

- Olá! Mas espero que não sejs apenas outra alucinação.

Depois mãos agarraram-lhe os ombros e Lirael foi puxada para o Observatório quando o fogo vermelho atingiu o lugar onde ela estivera, transformando-se numa coluna estreita de destruição ígnea e fumaça negra.

O gelo desfez-se e Lirael piscou os olhos. Quando os abriu, estava outra vez de pé entre Ryelle e Sanar, numa poça de fragmentos, com pedaços de gelo azul espalhados sobre a cabeça e os ombros.

- Você viu - disse Ryelle. Não era uma pergunta.

- Sim - respondeu Lirael, profundamente perturbada, tanto pela experiência da Visão como pelo que Vira. - É assim, ter a Visão?

- Não propriamente - respondeu Sanar. - Nós Vemos sobretudo por momentos curtos, breves fragmentos das muitas partes diferentes do futuro, tudo misturado. Apenas juntas, na Vigia, aqui no Observatório, conseguimos unificar a Visão. Mesmo assim, apenas a pessoa que se encontra onde você esteve consegue ver tudo.

Lirael pensou no assunto e voltou a inclinar a cabeça para trás, o gelo escorrendo-lhe pelo pescoço por baixo da camisa. O teto distante era outra vez apenas um pedaço de gelo. Olhou para baixo e viu que todas as Clayr saíam sem dizer uma palavra ou olharem para trás. O círculo exterior desapareceu antes de perceber e agora o seguinte abria-se numa fila única, saindo por uma porta diferente. Pareciam existir muitas saídas do Observatório, pensou Lirael. Em breve seguiria por uma, para nunca mais voltar.

- O que - começou Lirael, obrigando-se pensando na visão -, o que devo fazer?

- Não sabemos - disse Ryelle. - Temos estado tentando ver à volta do Lago Vermelho há vários anos, sem êxito. Depois, de repente, nós a vimos na sala lá embaixo, a visão que te mostramos e depois um vislumbre de você e do homem num barco no lago. Está tudo obviamente ligado de alguma forma, mas não conseguimos ver mais.

- O homem chamado Nicholas é a chave - disse Sanar. - Pensamos que, assim que o encontrar, saberá o que fazer.

- Mas ele está com um necromante! - exclamou Lirael. - Eles estão escavando algo terrível! Não deveríamos avisar a Abhorsen?

- Enviamos mensagens, mas a Abhorsen e o Rei estão em Ancelstierre, onde esperam evitar um problema que provavelmente estará ligado ao que quer que se encontra no poço que você viu. Alertamos também Ellimere e o co-regente e é possível que eles tomem também medidas, talvez com o Príncipe Sameth, o Futuro Abhorsen. Mas, façam o que fizerem, sabemos que é você quem tem de encontrar Nicholas. Parece uma insignificância, eu sei, um encontro de duas pessoas num lago. Mas é o único futuro que conseguimos ver agora, com tudo o mais escondido de nós, e proporciona-nos a única esperança de evitar uma catástrofe.

Lirael concordou, muito pálida. Estavam acontecendo coisas demais e sentia-se muito cansada e emocionalmente esgotada para aguentá-las. Mas parecia que não estavam apenas expulsando-a. Afinal tinha algo importante a fazer, não só pelas Clayr, mas pelo Reino inteiro.

- Agora, temos de prepará-la para a viagem - acrescentou Sanar, obviamente reparando no cansaço de Lirael. - Há algo de pessoal que queira levar, ou algo especial que possamos arranjar?

Lirael abanou a cabeça. Queria a Cadela Desavergonhada, mas isso não parecia possível, uma vez que as Clayr não a tinham Visto. Talvez a sua amiga tivesse partido agora para sempre, a fórmula que a criara encontrando alguma condição que desencadeara o seu fim.

- As minhas roupas de exterior, suponho - murmurou por fim. - E alguns livros. Acho que devia levar também as coisas que encontrei.

- Sem dúvida - disse Sanar, obviamente curiosa quanto ao que eram concretamente. Mas não perguntou e Lirael não tinha vontade de falar delas. Só significavam mais complicações. Por que haviam sido deixadas para ela? Que utilidade poderiam ter lá fora no mundo imenso?

- Temos também de te equipar com um arco e uma espada - afirmou Ryelle. - Como compete a uma Filha das Clayr que parte de viagem.

- Não sou grande coisa com a espada - disse Lirael baixinho, um pouco atrapalhada por ser chamada de uma Filha das Clayr. Aquelas palavras, tão ansiadas, soavam-lhe agora a ocas. - Sou boa com o arco.

Não explicou que era hábil com o pequeno arco laminado usado pelas Clayr só porque matava ratos na Biblioteca, usando setas de ponta romba para não perfurar os livros. A Cadela gostava de ir buscar as setas, mas não estava interessada em comer os ratos, a menos que Lirael os cozinhasse com ervas e molho, o que, naturalmente, se recusava a fazer.

- Espero que não precise de nenhuma das armas - disse Sanar. As suas palavras pareceram sonoras, ecoando na enorme caverna. Lirael estremeceu. Aquela esperança tinha toda a probabilidade de ser falsa. Subitamente, ficou frio. Quase todas as Clayr tinham saído, todas as mil e quinhentas, numa questão de minutos, como se nunca  tivessem estado ali. Só as duas guardas com armadura permaneciam, assistindo do fundo do Observatório. Uma tinha a lança e a outra um arco. Lirael não precisou se aproximar para saber que aquelas eram armas de poder, imbuídas de Magia da Carta.

Tinham ficado, sabia, para se certificar de que ela era vendada. Desviou o olhar e tirou o lenço, dobrando-o com movimentos lentos e deliberados. Depois atou-o sobre os olhos e ficou hirta, à espera de que Sanar e Ryelle lhe dessem o braço.

- Lamentamos - disseram Sanar e Ryelle ao mesmo tempo, as suas vozes misturando-se numa só. Pareceu-lhe que estavam pedindo desculpas não só pela venda, mas por toda a vida de Lirael.

Quando chegaram ao seu pequeno quarto de dormir ao fundo da Ala da Juventude, Lirael não dormia nem comia há mais de dezoito horas. Trocava as pernas com a fadiga, pelo que Sanar e Ryelle a continuavam amparando-a. Estava tão cansada que nem sequer percebeu a presença da tia Kirrith a não ser quando sentiu um súbito abraço muito apertado e indesejado.

- Lirael! O que você fez desta vez?! - exclamou a tia Kirrith, a sua voz ressoando de algum lugar acima da cabeça de Lirael, que se mantinha comprimida com firmeza no pescoço da tia. - É muito jovem para ir ao mundo de fora!

- Tia! - protestou Lirael, tentando libertar-se, embaraçada por ser tratada como uma criança diante de Ryelle e Sanar. Era típico da tia Kirrith tentar abraçá-la quando ela não queria e não abraçá-la quando estava querendo um abraço.

- Vai repetir-se o que aconteceu com a sua mãe - dizia Kirrith, ao que parecia tanto às gêmeas como a Lirael. - Partir sabe-se lá para onde e meter-se sabe-se lá no quê e sabe-se lá com quem. Até pode nem voltar...

- Kirrith! Chega! - respondeu Sanar, surpreendendo Lirael. Nunca ouvira ninguém falar assim com tia Kirrith. Viu-se que foi também um choque para Kirrith, pois largou Lirael e respirou fundo, com ar importante.

- Não pode falar assim comigo, San... Ry... seja lá quem for - disse por fim Kirrith após várias inspirações profundas. - Sou a Guardiã das Jovens e tenho autoridade aqui!

- E nós, no momento, somos a Voz das Clayr - responderam Sanar e Ryelle em uníssono, erguendo as varas que conservavam ainda. - Fomos investidas dos poderes da Vigia de Nove Dias. Desafia o nosso direito, Kirrith?

Kirrith olhou-as, tentou respirar ainda mais fundo sem o conseguir, o ar saindo  dela, chiando como um sapo que foi pisado. Tratava-se, manifestamente, de um reconhecimento da autoridade delas, embora não muito digno.

- Vá buscar as coisas que pretende levar, Lirael - ordenou Sanar, batendo-lhe no ombro. - Em breve iremos até o barco. Kirrith, poderíamos talvez conversar ali fora?

Lirael concordou com ar cansado e dirigiu-se à cômoda onde guardava as roupas, enquanto as outras saíram e fecharam a porta. Sem olhar, meteu a mão lá dentto. A mão bateu em algo duro e os seus dedos agarraram-no antes de olhar e soltar uma pequena arfada de reconhecimento. Era a escultura antiga do cão robusto, aquela que encontrara na câmara do Stilken, aquela que desaparecera quando surgira a Cadela.

Lirael apertou-a junto ao peito por um momento, uma leve esperança penetrando o seu cansaço. Não era a Cadela, mas um indício de que a Cadela poderia ser invocada de novo. Sorrindo, guardou a estatueta no bolso de um colete lavado, certificando-se de que o seu focinho de greda não saía para fora. Meteu o Espelho Negro no mesmo bolso e as flautas de Pan no outro e transferiu O Livro da Lembrança e do Esquecimento para uma pequena mala à tiracolo que parecia feita à medida para ele. Arrumou o rato mecânico de emergência a um canto da cômoda, seguido do apito. Nenhum deles poderia ajudá-la no lugar para onde ia agora.

Ao despir-se e lavar-se rapidamente, grata pelo quarto maior e o banheiro simples para onde se transferira ao fazer dezoito anos, Lirael pensou mudar completamente de roupa e vestir algo que não a identificasse como uma Clayr. Mas quando chegou a hora de se vestir, voltou a pôr as roupas de trabalho de uma Segunda Assistente de Bibliotecária. Eis o que ela era, disse de si mesma. Conquistara o direito ao colete vermelho. Ninguém poderia tirá-lo, mesmo que não fosse uma Clayr de verdade.

Acabara de enrolar algumas roupas na capa e estava pensando no seu casaco de lã grossa e pesada e na sua utilidade no final da Primavera e no Verão, quando ouviu uma pancada na porta, seguida imediatamente de Kirrith.

- Não quis insultar sua mãe - disse Kirrith, parecendo submissa. - Arielle era a minha irmã mais nova e gostava muito dela. Mas ela era estranha, se me entende, e com tendência para se meter em problemas. Sempre em situações difíceis e... bem... não tem sido fácil, ser a Guardiã e ter colocar todos em ordem. Talvez não tenha demonstrado... bem, é difícil quando não se consegue ver o que os outros sentem ou sentirão por nós. O que quero dizer é que gostava muito da sua mãe - e também gosto muito de você.

- Eu sei, tia - respondeu Lirael, sem olhar para trás ao guardar de novo o casaco dentro da cômoda. Ainda há um ano, teria dado tudo para ouvir aquelas palavras, sentir que se integrava. Agora era tarde demais. Ia deixar a Geleira, deixá-lo tal como a sua mãe fizera anos antes, quando abandonara a filha aparentemente sem se preocupar.

Mas isso pertencia ao passado, pensou Lirael. Sou capaz de a deixar para trás, começar a minha história de novo. Não preciso saber por que a minha mãe foi embora, ou quem era o meu pai. Não preciso saber, repetiu para si mesma.

Não preciso saber.

Mas enquanto murmurava aquelas palavras baixinho, a sua mente voltava ao Livro da Lembrança e do Esquecimento na mala a seu lado e às flautas de Pan e ao Espelho Negro nos bolsos do colete.

Não precisava saber o que acontecera no passado. Mas, se por um lado sempre estivera sozinha entre as Clayr pela sua cegueira em relação ao futuro, agora estava também sozinha, de outra forma. Numa inversão perversa de todas as suas esperanças e sonhos, fora-lhe concedido precisamente o oposto do que o seu coração desejava.

Porque, com o Espelho Negro e os conhecimentos recentemente adquiridos, conseguia ver o passado.

 

UMA VOZ ENTRE AS ÁRVORES

Escondido a escassa centena de metros da orla da floresta, o Príncipe Sameth jazia feito um homem morto, estendido no lugar onde caíra do cavalo. Tinha uma perna coberta de sangue secando e havia manchas negro-avermelhadas nas folhas verdes dos arbustos que se agitavam à volta dele com a brisa. Só examinando de perto se veria que ainda respirava.

Sprout, revelando-se menos neurótica do que seria de esperar, pastava tranquilamente ali perto. De vez em quando agitava as orelhas e levantava a cabeça, mas durante aquele longo dia nada veio perturbar o prazer que sentia na sua mastigação.

Ao final da tarde, quando as sombras começaram a deslocar-se lentamente das árvores para se estenderem e reunirem, a brisa levantou-se e aliviou o calor daquele dia de final de Primavera. Soprou sobre Sam, cobrindo-o parcialmente de folhas, ramos, teias de aranha trazidas pelo vento, carcaças de escaravelhos e ervas finas.

Uma lâmina fina de erva colou-se ao seu nariz e ficou ali presa, fazendo-lhe cócegas nas narinas. Agitou-se para cá e para lá, mas não saiu. Sameth torceu o nariz em resposta, voltou a torcê-lo, depois deu finalmente sinal com um espirro.

Sam acordou. A princípio julgou que estava embriagado e sofria dos efeitos da ressaca. Tinha a boca seca e sentia o mau cheiro do seu próprio hálito. Sentia uma dor muito forte na cabeça e doíam-lhe ainda mais as pernas. Devia ter desmaiado no jardim de alguém, o que era extremamente embaraçoso. Só se embriagara daquela maneira uma vez e não desejava repetir a experiência.

Começou a chamar, mas no momento em que o som seco e patético saiu dos seus lábios lembrou-se do que acontecera.

Matara dois polícias. Homens que tentavam cumprir o seu dever. Homens que tinham mulheres, família. Pais, irmãos, irmãs, filhos. Tinham deixado as suas casas de manhã sem preverem uma morte súbita. Talvez as mulheres deles estivessem ainda à sua espera para o jantar.

Não, pensou Sameth, erguendo-se para olhar com tristeza a luz vermelha do Sol poente que penetrava através das árvores. As mulheres já saberiam que os maridos nunca mais regressariam para casa.

Lentamente, endireitou-se ainda mais, sacudindo das suas roupas os detritos da floresta. Tinha também de atirar a culpa para trás das costas, pelo menos no momento. A sobrevivência impunha-o.

Em primeiro lugar, era melhor rasgar a perna das calças e examinar a ferida. Recordava-se vagamente de ter lançado a fórmula que sem dúvida lhe salvara a vida, mas a ferida ainda estaria frágil, susceptível de reabrir. Teve de atá-la, pois estava muito fraco para lançar outra fórmula de cura.

Depois daquilo, iria tentar levantar-se. Levantar-se, ir buscar a fiel Sprout e embrenhar-se na floresta. Ficou algo surpreso por ainda não ter sido descoberto pela polícia local. A não ser que tivesse deixado um rastro mais confuso do que julgara, ou então aguardavam a chegada de reforços antes de começarem a procurar o que presumiam ser um necromante assassino.

Se os polícias - ou pior ainda, a Guarda - o encontrassem agora, teria de lhes dizer quem era, decidiu Sam. E isso implicaria um regresso vergonhoso a Belisaere, para ser julgado por Ellimere e Jall Oren. Se seguiriam com certeza a desgraça pública e a infâmia. A única outra alternativa seria um encobrimento desonroso do seu ato horrível.

Qualquer das situações seria intolerável. A decepção que imaginava já no rosto dos pais seria muito difícil de suportar. Sem dúvida a sua incapacidade de ser o Futuro Abhorsen se revelaria também e eles perderiam por completo a esperança depositada nele. Era preferível desaparecer. Ir para a floresta e esconder-se enquanto se recuperava, depois prosseguir para Edge com um rosto criado de novo, pois tinha certeza de que Nick precisava ainda de ajuda. Pelo menos seria capaz de fazê-lo. Nem sequer Nick conseguia meter-se em mais problemas do que os que Sam arranjara para si.

Revelou-se mais fácil tomar as decisões do que pô-las em prática. Sprout afastou-se dele, dilatando as narinas quando ele tentou agarrar-lhe as rédeas. Não gostava do cheiro de sangue, ou dos esporádicos gemidos de dor que Sam soltava ao apoiar-se sem querer na perna ferida.

Por fim, conseguiu empurrá-la para uma espécie de beco natural, onde três árvores lhe impediram qualquer novo recuo. Montar foi outro desafio. A dor acentuou-se quando passou a perna por cima, arfando com o sofrimento.

Agora Sam tinha outro problema. Escurecia rapidamente e não fazia idéia da direção a seguir. A civilização e tudo o que ela proporcionava ficava para leste, norte e sul, mas não ousava fazê-lo enquanto não estivesse suficientemente forte para lançar outra fórmula para mudar o seu aspecto e o de Sprout. Para oeste, havia muitos caminhos de floresta de uso e rumo duvidosos. Poderiam existir alguns povoados ou casas isoladas, em algum lugar dentro da floresta, mas também não podia visitá-las em segurança.

Pior, tinha apenas um cantil com água da véspera, um naco de pão muito duro e um pedaço de carne de vaca salgada, as suas provisões de emergência para o caso de necessitar de uma refeição ligeira entre as estalagens. Há muito que os bolos de gengibre tinham desaparecido, consumidos pelo caminho.

Começou a chover, tendo o vento trazido as nuvens do mar - apenas um ligeiro aguaceiro primaveril, mas o suficiente para levar Sam a praguejar e mexer nos alforges, tentando tirar de lá a capa. Se apanhasse uma constipação além dos ferimentos existentes, sabia-se lá como iria acabar. Numa campa na floresta, muito provavelmente, pensou com amargura, não sepultado por mãos humanas. Apenas um montículo de miudezas trazidas pelo vento, ligadas por erva crescendo à volta dos seus restos patéticos.

Estava precisamente pensando no seu triste futuro quando os dedos, ao puxarem a capa, sentiram couro e metal frio em vez de lã. Retirou de imediato a mão, as pontas dos dedos frias e já ficando roxas. O fato de saber no que tocara fê-lo dobrar-se sobre o arção e soltar um grande soluço de desespero e medo.

O Livro dos Mortos. Deixara-o ficar na sua sala de trabalho, mas ele recusara-se a permanecer lá. Tal como os sinos. Nunca conseguiria livrar-se deles, mesmo ferido e sozinho nesta floresta escura, o seguiriam para sempre, mesmo até à própria Morte.

Preparava-se para sucumbir quando ouviu uma voz vinda do escuro entre as árvores.

- Um principelho perdido, chorando na floresta? Achei que tivesse mais fibra nessa tua espinha, Príncipe Sameth. Mesmo assim, muitas vezes me engano.

A voz surtiu um efeito elétrico sobre Sameth e Sprout. O Príncipe endireitou-se de imediato, arfou com a dor e tentou puxar a espada. A égua, igualmente surpresa, partiu num galope instantâneo, passando pelo meio das árvores sem qualquer consideração pelo cavaleiro e os ramos baixos.

Cavalo e cavaleiro corriam numa cacofonia de ramos partindo-se, gritos e relinchos. Continuaram assim durante pelo menos cinquenta metros antes de Sameth conseguir controlar Sprout e fazê-la virar na direção de onde partira a voz.

Conseguiu também puxar a espada. Estava agora no lusco-fusco, os troncos das árvores pálidas faixas cor de cinza na escuridão que descia, sustentando ramos onde as folhas pendiam como coágulos pesados de escuridão. Quem quer... o que quer... que falara poderia facilmente atacá-lo agora, mas era preferível enfrentá-lo do que ser derrubado por um ramo numa fuga em pânico.

A voz fora artificial. Sentira nela o travo da Magia Livre e algo mais. Não era uma criatura Morta - não, isso não. Mas podia ser um Stilken ou Margrue, elementais da Magia Livre que de vez em quando desejavam ardentemente saborear a Vida. Arrependeu-se de não ter lido o livro que lhe fora oferecido no seu aniversário, o que falava do aprisionamento, da autoria de Merchane.

Algo se agitou nas folhas da árvore mais próxima e Sam sobressaltou-se de novo, erguendo a espada na posição de defesa. Sprout excitou-se, sendo mantida sob controle apenas com a pressão dos joelhos de Sam. O esforço enviou pontadas de dor pelo flanco de Sam, mas não abrandou.

Algo se mexia, sim, deslocando-se pelo tronco - ali - não, ali. Saltava de ramo em ramo, movendo-se atrás dele. Talvez mais do que um...

Desesperadamente, Sam tentou alcançar a Carta para retirar as marcas necessárias a um ataque mágico. Mas estava muito fraco. Não conseguia reter as marcas na sua mente. Não conseguia lembrar-se da fórmula que pretendia formar.

Talvez os sinos, pensou, desesperado, quando o que quer que fosse voltou a se mover. Mas não sabia como usar os sinos contra os Mortos, muito menos seres da Magia Livre. Tremeu-lhe a mão só com a idéia de usar os sinos e recordou-se da Morte. Ao mesmo tempo, cresceu nele uma forte determinação. Fosse qual fosse a má sorte que o perseguia, não iria simplesmente cruzar os braços. Podia ter medo, mas era um Príncipe real, o filho de Touchstone e Sabriel e venderia a sua vida pelo preço mais elevado que a sua força conseguisse obter.

- Quem chama pelo Príncipe Sameth? - gritou, as palavras ásperas na floresta escura. - Mostre-se, antes que lance sobre vocÊ uma fórmula de grande destruição!

- Guarde as representações para aqueles que reagem a elas - respondeu a voz, desta vez acompanhada pelo clarão de dois olhos verdes penetrantes, reflectindo o último sol num ramo por cima da cabeça de Sam. - E considere-se com sorte por ser apenas eu. Já deixou sangue suficiente para atrair um montão de hormagantes.

Com aquelas palavras, um pequeno gato branco pulou da árvore, catapultado de um ramo mais baixo e aterrou a uma distância cautelosa das patas dianteiras de Sprout.

- Mogget! - exclamou Sam, olhando para ele com desorientada incredulidade. - O que faz aqui?

- Vim à sua procura - respondeu o gato. - Como devia ser extraordinariamente óbvio mesmo para o Príncipe de raciocínio mais lento. Servo leal de Abhorsen, eis o que sou. Pronto para bancar a ama-seca em menos de nada. Seja onde for, com toda a facilidade. Agora, desça desse cavalo e acenda uma fogueira, para o caso de haver por aqui hormagantes. Não creio que tenha tido o bom senso de trazer algo para comer.

Sam abanou a cabeça, sentindo percorrê-lo algo não tão positivo quanto o alívio. Mogget era um servo de Abhorsen, mas era também um ser da Magia Livre de poder antigo. A coleira vermelha que usava, com marcas da Carta arraigadas e o sino em miniatura que pendia dela, eram os sinais visíveis da força que o prendia. Em tempos fora Saraneth, o Aprisionador, que tocara naquela coleira. Desde a derrota de Kerrigor, o sino que aprisionava Mogget era um minúsculo Ranna. Ranna, o Portador do Sono, o primeiro dos sete sinos.

Sameth quase nunca falara com Mogget, pois o estranho ser-gato só estivera acordado uma vez quando Sam se encontrava na Casa de Abhorsen e isso fora há dez anos. Tal como na ocasião mais recente, ele despertara apenas o tempo suficiente para roubar o salmão que Touchstone acabara de apanhar e dirigira algumas palavras ao rapaz que assistira, incrédulo, enquanto o gato ”sempre adormecido” retirava um peixe do tamanho dele de uma bandeja de prata.

- Sinceramente, não compreendo - murmurou Sameth descendo com cuidado do dorso de Sprout. - Foi minha mãe quem te mandou à minha procura? Como é que ela te acordou?

- A Abhorsen - respondeu Mogget, no intervalo de uma lambidela da pata de uma forma bastante pomposa - nada teve a ver diretamente com isto. Estando associado à família há tanto tempo, tenho simplesmente conhecimento de quando os meus serviços são necessários. Por exemplo, quando aparece um novo conjunto de sinos, sugerindo que o Futuro Abhorsen está pronto a receber a sua herança. Uma vez despertado, limito-me a seguir os sinos. Mas o regresso dos sinos de Cassiel não me despertou - prosseguiu Mogget, mudando para a outra pata. - Eu já estava acordado. Está acontecendo algo no Reino. Coisas há muito adormecidas andam a agitar-se, ou a ser acordadas e as ondas do seu despertar chegaram à Casa de Abhorsen, pois o que quer que as desperta ameaça a Abhorsen...

- E sabe exatamente o que é? - interrompeu Sam, cheio de ansiedade. - A mãe disse que temia que algum mal antigo estivesse a planejando coisas terríveis. Pensei que pudesse ser Kerrigor.

- O seu tio Rogir? - respondeu Mogget, como se respondesse a uma pergunta sobre algum parente relativamente excêntrico e não o temível Adepto dos Mortos Maiores em que Kerrigor acabara por se transformar. - Ranna prende-o com mais força do que a mim. Ele dorme na caverna mais profunda da Casa de Abhorsen. E ali dormirá até o fim dos tempos.

- Ah! - suspirou Sam, aliviado.

- A menos que o que quer que se mexe o acorde também - acrescentou Mogget, pensativo. - Agora, diga-me, por que é que a minha viagem de lazer a Belisaere e os seus justamente famosos mercados de peixe foi subitamente interrompida por um desvio até uma floresta? Onde pensa que vai e por que vai para lá?

- Vou procurar meu amigo Nicholas - explicou Sam, apesar de sentir os olhos verdes de Mogget cravados nele, procurando razões mais profundas para ele continuar a esconder-se de si mesmo. Desviando-se daquele olhar, reuniu uma pequena pirâmide de ramos e folhas secas e acendeu-a com um fósforo de fricção riscado na bota.

- E quem é Nicholas? - perguntou Mogget.

- É um ancelstierrano, um amigo meu do colégio. Estou preocupado porque ele não faz idéia do que é realmente aquilo ali. Ele não acredita sequer na Magia da Carta - ou em qualquer outra magia - disse Sam, acrescentando uns paus maiores à fogueira. - Ele acha que tudo pode ser explicado cientificamente, da mesma forma que as coisas funcionam em Ancelstierre. Mesmo depois dos Mortos nos atacarem próximo do Perímetro, ele continua a não a aceitar que não existe uma outra explicação além da magia. Ele é muito teimoso. Quando decide que uma coisa é assim, não muda de idéia a menos que se prove com Matemática ou algo que ele aceite. E ele é importante em Ancelstierre, porque é o sobrinho do Primeiro-Ministro. Quer dizer, provavelmente sabe que meus pais vão negociar...

- Onde está esse Nicholas? - interrompeu Mogget, protegendo os olhos. Sameth conseguiu ver as chamas refletidas neles por um momento antes das pálpebras se fecharem e ele estremecer. Nos olhos de algumas criaturas Mortas, aquelas chamas não seriam um reflexo.

- Devia esperar que eu fosse encontrá-lo na Muralha, mas ele já a atravessou. Pelo menos era o que dizia na carta. Contratou um guia para procurar uma lenda antiga chamada Armadilha dos Raios no caminho para Belisaere - prosseguiu Sameth, jogando um ramo maior para a fogueira. - Não sei o que é, ou como ele teve conhecimento, mas aparentemente fica em algum lugar próximo de Edge. E claro que é onde a mãe e o pai pensam que está o inimigo.

A sua voz diminuiu de intensidade ao perceber que Mogget não parecia escutar.

- A Armadilha dos Raios, próximo do Lago Vermelho - murmurou Mogget, os seus olhos reduzindo-se a estreitas fendas de escuridão. - O Rei e a Abhorsen em Ancelstierre, para tentar impedir que uma grande multidão vá ao encontro da sua morte. Um amigo do Futuro Abhorsen, ele próprio um Príncipe fraco do outro lado da Muralha. As Clayr sem Visão, exceto as visões de destruição total... Isto não é auspicioso e as ligações não podem ser pura coincidência. A Armadilha dos Raios. Não ouvi bem esse nome, mas algo mexe... o sono me prende e embota a memória...

A voz de Mogget tornara-se mais suave ao falar, passando a algo como um ronco. Sam esperou que o gato dissesse algo mais, depois  percebeu que o ronco se tornara uma ressonadela. Mogget adormecera.

Estremecendo - mas não de frio - Sam jogou outro ramo para a fogueira e sentiu-se confortado com o clarão da luz benéfica. Parara de chover, ou nunca começara propriamente. Apenas uma leve precipitação e uma ligeira descida de temperatura. Mas a notícia não era nada boa para Sam, que preferia ter suportado uma forte chuva. Os últimos dias tinham estado incomumente quentes para a época do ano, com o calor do Verão no final da Primavera e a chuva maçadora que nunca se transformava verdadeiramente numa tempestade. Isso significava que as cheias da Primavera iriam baixar mais cedo. E os Mortos vagueariam até mais longe, sem a água corrente a impedi-los. Olhou novamente para Mogget e sobressaltou-se ao ver um olho brilhante a observá-lo, faiscando à luz da fogueira, enquanto o outro olho estava firmemente fechado.

- Como se feriu? - ronronou o gato, a voz baixa, as palavras condizendo com o crepitar da fogueira. Parecia saber a resposta, mas queria confirmar algo.

Sam corou e baixou a cabeça, unindo inconscientemente as mãos numa atitude de prece.

- Envolvi-me numa luta com dois policiais. Eles pensaram que eu era um necromante. Os sinos... - A sua voz diminuiu e engoliu em seco. Mogget continuava a fitá-lo com aquele olho sardônico, obviamente à espera de ouvir o resto. - Matei-os - balbuciou Sam. - Uma fórmula de Morte.

Seguiu-se um longo silêncio. Mogget abriu o outro olho e bocejou, a boca rosada revelando dentes muitíssimo brancos e afiados.

- Idiota. Você é pior do que o seu pai. Culpa, culpa, culpa - disse ele, no meio de um bocejo. - Você não os matou.

- O quê! - exclamou Sam.

- Não podes te-los matado - respondeu Mogget, virando-se várias vezes para juntar as folhas de modo a tornar a cama mais confortável. - Eles são servos reais, prestaram juramento ao Rei. Estão protegidos, mesmo de um dos filhos caprichosos dele. Repare, qualquer outro inocente teria perecido. Uma grande burrice, ter usado aquela fórmula.

- Não pensei - respondeu Sam, atrapalhado. Sentia-se muito aliviado por não ser um assassino. Agora estava zangado por Mogget o fazer sentir-se um rapazinho tolo.

- Obviamente - concordou Mogget. - E também ainda não começou a pensar. Se eles tivessem morrido, você teria sentido. É o Futuro Abhorsen, que a Carta nos ajude.

Sam reprimiu uma resposta encolerizada ao perceber que o gato estava certo. Ele não sentira os polícias morrer. Mogget continuava a observá-lo, os seus olhos ainda semicerrados, aparentemente olhando Sam com profunda suspeita.

- Espirais dentro de espirais - murmurou o gato. - Pulgas sobre pulgas, idiotas produzindo idiotas...

- O quê?

- Humm, estava só pensando - sussurrou Mogget. - Às vezes devia experimentar. Acorde-me de manhã. Pode revelar-se difícil.

- Sim, Senhor - respondeu Sam, reunindo o máximo de sarcasmo possível. Não surtiu qualquer efeito em Mogget, que parecia agora realmente adormecido.

- Sempre me perguntei por que é que meu pai dizia que era muito presunçoso - acrescentou Sam, esticando a perna à sua frente e verificando a ligadura. Não acrescentou que quando tinha sete anos e acabara de chegar ao colégio em Ancelstierre, apontara para uma ilustração de O Gato das Botas e repetira em voz alta algo que o pai uma vez dissera a Sabriel: ”Aquele seu maldito gato é muito presunçoso.”

Fora também a primeira vez que lhe tinham posto as orelhas de burro e ficara virado para a parede de castigo. ”Maldito” não era um termo aceito aos jovens cavalheiros da Escola Preparatória de Thorne.

Mogget não respondeu. Sam deitou-lhe a língua de fora, depois arrastou um cepo meio apodrecido para a fogueira, saltitando na perna boa. O cepo arderia até à alva, mas, por via das dúvidas, partiu alguns ramos secos e colocou-os próximo.

Depois deitou-se, a espada sob a mão e a sela de Sprout debaixo da cabeça. A noite estava quente, por isso não precisou da capa ou do cobertor odorífero da sela de Sprout. A própria égua dormitava ali próximo, presa para impedir que partisse numa das suas aventuras nervosas. Mogget dormia ao lado de Sam, mais como um cão de caça do que um gato.

Durante alguns momentos, Sam pensou em ficar acordado, de vigia, mas não tinha forças para manter os olhos abertos. Além disso, estavam no coração do Reino, perto de Belisaere. Fora mais seguro aqui durante pelo menos a última década. O que poderia incomodá-los?

Muitas coisas, pensou Sam, enquanto o sono lutava com a consciência de todos os pequenos sons da floresta à noite. Ficara profundamente perturbado com as palavras enigmáticas de Mogget e catalogava ainda os potenciais horrores comparando-os com os sons quando a exaustão o venceu e adormeceu.

Acordou com o sol incidindo-lhe no rosto, que se infiltrava pela abóbada de árvores. A fogueira continuava em combustão lenta, a fumaça serpenteando até ele se sentar, momento em que mudou de direção e lhe veio para a cara.

Mogget continuava dormindo, agora enroscado numa bola branca compacta, quase enterrado nas folhas.

Sam bocejou e tentou levantar-se. Esquecera-se da perna, que ficara tão rígida que caiu imediatamente, soltando um grito de dor. Sprout sobressaltou-se, saltando até onde as suas peias lho permitiram, e revirou os olhos. Sam murmurou-lhe palavras tranquilas enquanto aproveitava uma árvore nova e forte para se manter em pé.

Mogget não acordou então nem mais tarde, continuando a dormir enquanto Sam acabava de tratar da ferida e lançava uma pequena fórmula da Carta para adormecer a dor e afastar a infecção. O gato manteve-se adormecido mesmo quando Sam tirou um pedaço de pão e carne de vaca para um café da manhã não muito satisfatório.

Depois de ter comido, Sam escovou Sprout e a seguir selou-a. Não lhe restando mais nada que fazer senão tapar os restos da fogueira, decidiu que estava na hora de suportar mais alguns dos insultos de Mogget.

- Mogget! Acorde!

O gato não se mexeu. Sam debruçou-se mais e gritou novamente ”Acorde!”, mas Mogget nem sequer contraiu uma orelha.

Por fim, estendeu a mão e sacudiu delicadamente o gato por trás da coleira. Para além de sentir o zumbido e a interação da Magia Livre e da Carta, não aconteceu nada. Mogget continuava dormindo.

- Mas o que é que eu faço com você? - perguntou Sam, olhando para ele. Toda esta questão da aventura-salvamento estava ficando fora de controle. Era apenas o seu terceiro dia fora de Belisaere e abandonara já a estrada nacional, estava ferido e na companhia de uma construção potencial e extremamente perigosa da Magia Livre. A sua pergunta trouxe outra que tentara evitar: O que ia fazer agora?

Também não esperou uma resposta a qualquer das perguntas, mas após um momento chegou-lhe uma resposta abafada do gato aparentemente adormecido.

- Meta-me no alforge. Acorde-me quando encontrar comida. De preferência peixe.

- Está bem - respondeu Sam, encolhendo os ombros. Era difícil pegar o gato sem mover a perna ferida, mas por fim conseguiu. Aninhando Mogget num antebraço, transferiu-o delicadamente para o alforge, depois de verificar que não era o que continha os sinos e O Livro dos Mortos. Não lhe agradava a idéia de tê-los todos juntos, muito embora não visse motivo para não estarem.

Por fim, Mogget ficou seguramente instalado, apenas com a cabeça de fora do alforge.

- Vou seguir para oeste através desta pequena floresta, depois atravesso o campo aberto até à Floresta de Sindle - explicou Sam ao virar o estribo e enfiar nele a bota, pronto para montar. - Atravessaremos a Floresta de Sindle até ao Ratterlin, depois seguiremos para sul até arranjarmos um barco que nos leve a Qyrre. Dali não deverá levar muito para chegar a Edge e pode ser que encontremos logo Nick. Parece-lhe um bom plano?

Mogget não respondeu.

- Portanto mais ou menos um dia nesta floresta - prosseguiu Sam ao reunir forças para se içar e passar a perna para o outro lado. Gostava de expor os seus planos em voz alta - fazia-os parecer mais reais e sensatos. Particularmente quando Mogget estava dormindo e não podia criticá-lo. - Quando saírmos, deveremos encontrar uma aldeia, ou o acampamento de um carvoeiro ou algo assim. Venderão aquilo que necessitarmos antes de atravessarmos a Floresta de Sindle. Provavelmente haverá também ali lenhadores ou outras pessoas.

Parou de falar quando montou, reprimindo um grito de dor. A perna ferida estava melhor do que na véspera, mas não muito. E sentia-se agora um pouco tonto, quase com a cabeça oca. Precisava ter cuidado.

- A propósito - disse ele, dando um toque em Sprout para arrancar -, ontem à noite fiquei com a impressão de que sabia alguma coisa a respeito desta Armadilha dos Raios de que Nick veio à procura. O assunto não te agradou, mas adormeceu antes de dizer algo mais. Estava me perguntando se não teria nada a ver com a necromante...

- Necromante? - chegou de imediato a resposta miada. Mogget pulou do alforge e acocorou-se diante de Sam, olhando em todas as direções, o seu pêlo todo eriçado.

- Bem, aqui não. Eu estava só dizendo que começou a falar da Armadilha dos Raios e pergunto-me se não teve nada a ver com Chlorr da Máscara, ou o outro necromante, aquele... aquele com quem lutei.

- Hum - resfolegou Mogget sombriamente, voltando para dentro do alforge.

- Bem, diga alguma coisa! - exigiu Sam. - Não pode simplesmente dormir o dia inteiro!

- Não posso? - perguntou Mogget. - Sou capaz de dormir o ano inteiro. Em particular, agora que não tenho peixe, o que verifico não ter conseguido encontrar.

- Afinal o que é a Armadilha dos Raios? - instigou Sam, puxando de leve as rédeas para orientar Sprout para um caminho mais para oeste e plano.

- Não sei - disse Mogget baixinho. - Mas não me agrada o som. Uma Armadilha dos Raios. Um acumulador de raios? Certamente não pode ser...

- O quê? - perguntou Sam.

- Provavelmente é apenas uma coincidência - respondeu Mogget carrancudo, fechando mais uma vez os olhos. - Talvez o seu amigo vá apenas ver um lugar onde os raios caem mais vulgarmente do que deviam. Mas agem ali forças, forças que detestam tudo o que seja Carta, Sangue e Pedra. Cheira-me a conspirações e planos há muito concebidos. E não me agrada nada.

- Então o que faremos? - perguntou Sam, cheio de ansiedade.

- Temos de encontrar seu amigo Nick - murmurou Mogget ao retomar o seu sono. - Antes que ele encontre... aquilo que anda à procura.

 

”QUANDO OS MORTOS CAMINHAM, PROCURE O CURSO DA ÁGUA”

Incitado pelo alarmante pressentimento de Mogget, Sam apressou Sprout - e abandonaram a pequena floresta sem nome mais cedo do que esperavam, ao fim da tarde do primeiro dia, e começaram a atravessar as colinas verdes das terras de cultivo mais além, que subiam e desciam suavemente. Fazia parte das Terras Médias do Reino Antigo, uma ampla faixa de pequenas aldeias, herdades e carneiros, estendendo-se de oeste através do país quase até Estwael e Olmond. Para além de Sindle, a norte, não havia cidades até Yanyl, vinte léguas para depois margem ocidental do Ratterlin. Quase despovoada durante o Interregno, a área se recuperara rapidamente durante o reinado de Touchstone, mas havia ainda menos pessoas do que no apogeu do Reino.

Uma vez que o seu disfarce anterior era agora desnecessário, Sam retirou a fórmula da Carta que o fazia passar por um Viajante e retomou o seu aspecto normal. Sprout ia disfarçada pela lama nas patas e o seu aspecto bastante normal. De qualquer forma, com as suas roupas suadas e sujas de terra, era difícil dizer o que parecia Sam. Preparara uma história, caso lhe perguntassem. Diria que era o filho mais novo de um capitão da guarda de Belisaere, que vinha do Norte encontrar com um primo que vivia próximo de Chasel e que lhe daria emprego como criado.

Colocara também uma ligadura nova na ferida e conseguira vestir as calças de reserva, para não se ver uma perna obviamente ferida e manchada de sangue. Não conseguiu ocultar o coxear, ao contrário do chapéu, que sofreu a indignidade de ficar com a sua aba cortada ao meio, tornando-o simultaneamente menos sombrio e mais discreto.

Pouco depois de abandonar a floresta, entraram numa aldeia, ou aldeola, na verdade, uma vez que exibia apenas sete casas. No entanto, existia uma Pedra da Carta ali próximo. Sam conseguia senti-la, em algum lugar  por trás das casas. Esteve tentado a procurá-la e usá-la para o ajudar a lançar outra fórmula curadora mais forte, mas os aldeãos certamente dariam pela sua presença ali.

O lugar não tinha uma estalagem. Apesar de não haver a esperança de uma cama confortável, conseguiu comprar pão quase fresco, um coelho acabado de cozinhar e várias maçãs pequenas e doces de uma mulher que levava para casa uma carroça cheia de compras feitas na feira.

Mogget dormiu durante esta transação, escondido debaixo da aba frouxa do alforge, o que foi igualmente bom. Sam não sabia como explicar que viajava na companhia de um gato branco. Era melhor não despertar a curiosidade.

Sam continuou a cavalgar até escurecer demais para ver e Sprout perambular pela lama de cada lado do que era suposto ser uma estrada. Invocou uma pequena luz da Carta e encontraram uma meda de feno aberta dos lados onde se abrigaram. Mogget continuava a dormir, sem dar pela retirada do alforge e a remoção de, pelo menos, parte da lama do homem e do cavalo.

Sam tentou despertá-lo, para saber mais sobre a Armadilha dos Raios. Mas o sino que aprisionava Mogget funcionava bem demais, ouvindo-se o seu toque sonolento sempre que o gato se movia como se fosse acordar. O Ranna em miniatura deixou Sam cansado quando se aproximou demais, de modo que adormeceu ao lado do gato numa posição extremamente desconfortável.

O dia seguinte foi praticamente igual ao primeiro. Considerando a sua cama fina de restos de palha, não surpreenderá que Sam tivesse facilidade em acordar antes da alva e mais uma vez obrigou a égua a um ritmo que lhe desagradava.

Encontrou poucas pessoas na estrada - que mais não era do que um trilho - e falou parcamente, a não ser trocar algumas amenidades com elas, com receio de ser descoberto. Apenas o suficiente para parecer normal, quando comprou alguma comida, ou perguntou qual o melhor caminho através da Floresta de Sindle até ao Ratterlin.

Apanhou um susto numa aldeia, quando parou para comprar cevada para Sprout e um saco de cebolas e nabos para si. Passaram por ele dois polícias, mas não abrandaram, limitando-se a baixar a cabeça quando passaram, seguindo para leste. Ao que parecia, não se espalhara nem a notícia de um necromante perigoso à solta nem de um Príncipe desaparecido, ou então ele não tinha o ar de ser nem um nem o outro. Fosse qual fosse o motivo, Sam ficou grato.

De um modo geral, foi uma viagem tranquila, apesar de cansativa. Sam passou grande parte do tempo pensando em Nick, nos pais e nas suas próprias lacunas. Estes pensamentos voltavam sempre ao inimigo. Quanto mais pensava no assunto, mais Sam se convencia de que o necromante que o queimara devia ser o arquiteto de todos os problemas atuais. Aquele necromante era poderoso e mostrara a sua força tentando capturar e dominar Sam.

Sam torturava-se sobretudo com o que deveria fazer e o que poderia acontecer. Imaginou vários cenários horripilantes e por via de regra não conseguiu apurar qual o melhor rumo a seguir se fossssem verdadeiros. Cada dia que passava levava-o a encarar mais possibilidades horríveis. Todos os dias Sam se dava mais conta de que Nicholas podia ter encontrado algo inimigo na Armadilha dos Raios. Talvez o seu destino.

Passados quatro dias sobre o seu encontro com os polícias, Sam deu consigo olhando para uma colina de pastagem nos limites sombrios do antigo bosque conhecido como Floresta de Sindle. Parecia muito maior, mais escuro e mais arborizado do que o pequeno bosque onde encontrara Mogget. As árvores eram também mais altas, pelo menos as que conseguia ver na orla, e não havia nenhum caminho visível.

Mesmo quando Sam olhava para a floresta, os seus pensamentos estavam distantes. A situação de Nick oprimia-o, tal como a presença d’O Livro dos Mortos e dos sinos. Todas estas coisas estavam estreitamente interligadas, pois parecia que a melhor esperança de Sam salvar Nick - se ele estivesse em apuros - residia no domínio das capacidades de um Abhorsen. Se Nick fosse apanhado pelo inimigo, provavelmente seria usado para chantagear o Primeiro-Ministro de Ancelstierre e acabar com o plano de Sabriel e Touchstone para impedirem o massacre dos Sulistas, o que, por sua vez, implicaria uma invasão dos Mortos e o fim do Reino Antigo e...

Sam suspirou e olhou para os alforges. A sua imaginação estava ficando fora de controle. Independente do que estivesse realmente acontecendo, teria de desenvolver um esforço supremo para ler o livro, para se tornar um salvador e não apenas um idiota que ia ao encontro da catástrofe, deixando-se matar ou escravizar por nada.

Claro que havia sempre a possibilidade de Mogget estar mentindo. Sam tinha certas desconfianças em relação a Mogget, recordando vagamente que o gato nunca abandonava a Casa do Abhorsen sem o Abhorsen. É certo que Sabriel não o teria levado para Ancelstierre numa missão diplomática e era possível que lhe tivesse concedido liberdade para deixar a Casa. Mas Sabriel tinha também o anel que conseguia controlar o ser da Magia Livre que apareceria se Mogget fosse liberto. Se a criatura dentro de Mogget devesse ser libertada, mataria qualquer Abhorsen que conseguisse. O que, neste caso, significava Sam. Certamente Sabriel não teria deixado sair o gato sem se certificar de que ele também levava o anel a Sam.

Talvez fosse a própria ausência dela em Ancelstierre, do outro lado da Muralha, que permitira a Mogget fazer o que tinha vontade.

Ou talvez Mogget tivesse sido subornado pelo inimigo e estivesse conduzindo Sameth ao seu destino...

Entretido com estes pensamentos desagradáveis e tentando conduzir Sprout pelo melhor caminho na descida da colina, Sam não estava nada preparado para o arrepio frio que sentiu subitamente percorrer-lhe a espinha. Naquele mesmo instante, percebeu que estava sendo observado. Observado por algo Morto.

Vieram-lhe à lembrança os versos antigos, repetidos desde a infância:

 

Quando os Mortos caminham, procura o curso da água,

Pois este os Mortos sempre evitarão.

Um rio rápido é melhor ou o lago mais largo

Para afastar os Mortos e criar um abrigo.

Se a água te falhar, o fogo é teu amigo;

Se nenhum existir, será o teu fim.

 

No momento em que lhe ocorriam as palavras, Sam olhou para o Sol. Restava pouco mais de uma hora de claridade. Simultaneamente, procurou água corrente - um riacho ou rio - e viu um reflexo prateado nas sombras, próximo da orla da floresta. Mais distante do que lhe agradaria.

Conduziu Sprout para lá, sentindo o medo crescer nele, percorrendo-lhe os músculos. Não conseguia ver a criatura Morta, mas estava perto. Sentia o seu espírito como um toque pegajoso na sua pele. Devia ser forte, também, senão não teria arriscado sequer o sol em declínio.

Os joelhos de Sam contraíram-se, o reflexo de uma necessidade opressiva de picar a égua para um galope. Mas continuavam a descer a colina, em terreno irregular. Se Sprout caísse por cima dele, ficaria imobilizado, uma presa fácil para os Mortos...

Não. Era melhor não pensar nisso. Olhou de novo à sua volta, semicerrando os olhos por causa do Sol vermelho-amarelado, baixo no céu. A criatura estava em algum lugar  atrás dele... e não... para a direita.

O seu medo aumentou quando Sam percebeu que eram duas criaturas, talvez mais. Deviam ser Mãos-Sombras, avançando furtivamente de um lugar abrigado, de rocha em rocha, quase impossíveis de ver até se elevarem para atacar.

Desajeitadamente, virou-se e abriu o alforge. Se não conseguisse alcançar água corrente a tempo, os sinos seriam a sua única defesa contra as Mãos-Sombras. Uma defesa bastante patética, uma vez que não sabia usá-los e podiam agir facilmente contra ele. Sentiu um dos Mortos deslocar-se novamente e o seu coração sobressaltou-se ante a incrível agilidade da coisa. Estava perto dele e ainda assim não conseguia vê-la, nem com o sol forte!

Depois olhou para cima. Uma mancha negra pairava por cima dele, fora do alcance das flechas. E outra, por trás da primeira e mais lá no alto.

Afinal não eram Mãos-Sombras. Corvos de Sangue Coagulado. E onde havia dois, haveria muitos mais. Os Corvos de Sangue Coagulado eram quase sempre criados aos bandos, preparados a partir de corvos vulgares mortos com ritual e cerimônia, metidos depois numa infusão com os fragmentos estilhaçados de apenas um espírito Morto. Guiados por esta inteligência única e despedaçada, estes pedaços decompostos de carne putrefata e penas voavam devido à Magia Livre - e matavam pela sua quantidade.

Mas quando Sam perscrutou o horizonte, não viu senão dois. Com certeza nenhum necromante desperdiçaria o seu poder apenas em dois Corvos de Sangue Coagulado. Eram muito fáceis de matar, não estando num bando. Um golpe de espada conseguia esmagar um único corvo, mas até um guerreiro poderoso podia ser derrotado por uma centena de Corvos de Sangue Coagulado atacando de uma vez, os bicos afiados picando os olhos e o pescoço.

Era também incomum andarem debaixo de sol. A fórmula que os movia desgastava-se rapidamente com o calor e a luz, mesmo quando as suas formas físicas eram despedaçadas pelo vento.

A menos que, pensou subitamente Sam, fossem realmente apenas dois Corvos de Sangue Coagulado, partilhando a vitalidade do Morto que normalmente seria gasta em centenas de corpos de corvos. Se fosse este o caso, durariam muito mais e seriam mais fortes debaixo do sol. Poderiam também ser usados de outras formas que não exclusivamente o ataque.

Como vigiar, pensou sinistramente, já que nenhuma das aves Mortas tentara aproximar-se. Mantinham-se por cima dele, voando lentamente em círculos, provavelmente assinalando-o para o ataque de outros Mortos quando a noite caísse.

Como se em confirmação dos seus pensamentos, um dos Corvos de Sangue Coagulado - o mais distante - soltou um grasnido escarninho e áspero e virou para sul, largando penas podres ao voar, impulsionado mais pela magia do que pelo esporádico bater das suas asas. Assemelhava-se demais a um mensageiro, com o seu companheiro como vigia, mantendo-se alto para seguir Sam para onde quer que ele pudesse ir.

Por um momento, pensou lançar uma fórmula de destruição, mas a ave estava muito longe e obviamente bem instruída na precaução. Além disso, Sam ainda se sentia fraco devido ao ferimento na perna. Sabia que devia guardar as suas forças para a noite.

Mantendo-se de olho na mancha negra por cima dele, Sam instigou Sprout. O rio não parecia grande coisa dali, mas proporcionaria alguma proteção. Após um momento de hesitação, tirou também a bandoleira dos sinos e colocou-a. O peso dos sinos e o seu poder faziam-lhe pressão no peito, tornavam-lhe a respiração mais curta e mais superficial. Mas, se acontecesse o pior, tentaria usar os sinos menores, recordando as lições que recebera da mãe. Deviam constituírem um mero prelúdio para o estudo que abandonara. Pelo menos, conseguiria manobrar provavelmente Ranna sem o receio de ser atirado involuntariamente para a Morte.

Uma voz enervante ao fundo da sua mente dizia que ainda não era muito tarde para pegar n’O Livro dos Mortos, para ficar mais informado sobre o direito por nascimento que o podia salvar. Mas nem o medo de um ataque dos Mortos foi suficiente para vencer o medo que Sam tinha do livro. Se o lesse, poderia ver-se arrastado para a Morte. Era preferível combater os Mortos na Vida, com os poucos conhecimentos que tinha, do que confrontá-los na própria Morte.

 

Sam julgou ouvir atrás de si um riso abafado, uma gargalhada reprimida que não parecia nada vir de Mogget. Virou-se, levando instintivamente a mão à espada, mas não havia nada nem ninguém ali. Apenas o gato adormecido num dos alforges e O Livro dos Mortos no outro. Sam largou o punho da espada, já suado dos seus dedos trêmulos e olhou de novo para o riacho lá embaixo. Se o leito fosse liso, poderia seguir ao longo dele enquanto pudesse. com sorte, talvez o levasse mesmo para oeste até Ratterlin, um rio poderoso que nem sequer um dos Mortos Maiores ousaria atravessar.

E dali, disse uma voz secreta e covarde na sua mente, apanharia um barco para a Casa de Abhorsen. Lá estaria a salvo. A salvo dos Mortos, a salvo de tudo. Mas, perguntou uma outra voz, o que aconteceria a Nick, aos seus pais, ao Reino? Então, ambas as vozes se perderam quando Sam se concentrou em conduzir Sprout colina abaixo, em direção à segurança prometida do riacho.

Sam perdeu de vista o Corvo de Sangue Coagulado quando a última luz do dia foi comida pelas sombras das árvores e a escuridão que se instalava. Mas conseguia sentir ainda o espírito Morto por cima dele. Estava agora mais baixo, mais corajoso com o manto da noite a envolvê-lo.

Mas não suficientemente corajoso para se aproximar demais da água corrente que se deslocava com pouca força de cada lado do acampamento provisório de Sam. O riacho revelara-se um pouco decepcionante e um nítido indício de que as cheias da Primavera já estavam diminuindo. Tinha apenas nove metros de largura e era suficientemente baixo para se passar a vau. Mas sempre ajudava e Sam encontrou um ilhéu, não mais do que uma faixa estreita de areia, onde a água corria rapidamente de cada lado.

Acendera uma fogueira, uma vez que era desnecessário tentar esconder-se com os Corvos de Sangue Coagulado voando em círculos lá em cima. Para tornar o seu acampamento o mais seguro possível bastaria lançar um losango de proteção suficientemente grande para si, a égua e a fogueira.

Se tivesse força para fazer isso, pensou Sam, ao obrigar Sprout a ficar quieta. Pensando melhor, tirou também a bandoleira dos sinos, que não era nada fácil de aguentar. Depois, sempre coxeando, veio colocar-se diante de Sprout, posicionando-se para lançar a fórmula, desembainhou a espada e estendeu-a. Mantendo esta pose, inspirou lentamente quatro vezes, fazendo entrar o máximo de oxigênio que o seu corpo cansado conseguiu.

Alcançou as quatro marcas cardeais da Carta que criariam os pontos do losango de proteção. Formaram-se símbolos na mente, retirados do fluxo infinito da Carta.

Reteve-os na sua mente, a respiração entrecortada com o esforço e traçou o contorno da primeira marca - a marca de Leste - na areia à sua frente. Quando terminou, a marca de Leste na sua cabeça desceu pela lâmina da espada como fogo dourado. Encheu de luz o contorno que traçara na areia.

Sam foi coxeando por trás de Sprout, passou pela fogueira e traçou a marca do Sul. Quando esta ganhou vida, uma linha de fogo amarelo deslocou-se até ela vinda da marca de Leste, formando uma barreira impenetrável tanto para os Mortos como para o perigo físico. Decidido a prosseguir, Sam não olhou. Se vacilasse naquele momento, o losango ficaria incompleto.

Já antes Sam lançara muitos losangos de proteção, mas nunca quando estava ferido e tão cansado. Quando a última marca, a marca do Norte, finalmente se inflamou, largou a espada e caiu, respirando ruidosamente na areia úmida.

Sprout, curiosa, virou a cabeça para olhar para ele, mas não se deslocou. Sam pensara que teria de lhe lançar uma fórmula de imobilidade para evitar que saísse acidentalmente do losango, mas ela não se mexeu. Talvez conseguisse cheirar o Corvo de Sangue Coagulado.

- Presumo que corramos perigo - disse uma voz bocejante próximo do ouvido de Sam. Sentou-se e viu Mogget saindo do alforge, que estava ao lado da fogueira e duma pilha de lenha bastante úmida e provavelmente insuficiente.

Sam concordou, temporariamente incapaz de falar. Apontou para o céu, que começava agora a mostrar estrelas isoladas e a grande faixa branca da Cauda da Égua. Havia também nuvens negras, lá no alto, para sul, crepitando com relâmpagos distantes, mas nenhum sinal de chuva.

Não se via o Corvo de Sangue Coagulado, mas Mogget parecia saber o que Sam lhe indicava. O gato ergueu-se nas patas traseiras e farejou, uma pata abatendo distraidamente um mosquito gigante que provavelmente acabara de se alimentar de Sam.

- Um Corvo de Sangue Coagulado - disse. - Apenas um. Estranho.

- Está nos seguindo - informou Sam, abatendo vários mosquitos que lhe tinham vindo pousar na testa. - Havia dois, mas o outro afastou-se. Para sul. Provavelmente para receber ordens. Malditos insetos!

- Há aqui a mão de um necromante - concordou Mogget, voltando a cheirar o ar. - Pergunto-me se ele... ou ela... andará especificamente à sua procura. Ou se é apenas o azar de um viajante indômito?

- Poderia ser aquele que me apanhou antes, não poderia? - perguntou Sam. - Quer dizer, ele sabia onde eu estava com a equipe de críquete...

- Talvez - respondeu Mogget, continuando a olhar para o céu noturno. - É pouco provável que haja aqui mais Corvos de Sangue Coagulado, ou que qualquer necromante menor se atrevesse a atacá-lo, a menos que exista uma força motriz por trás deles. com certeza estes Corvos são mais ousados do que lhes assiste por direito. Apanhou um peixe para mim?

- Não - respondeu Sam, surpreso com a súbita mudança de assunto.

- Quanta falta de consideração - disse Mogget, cheirando o ar. - Pelo visto vou ter de apanhar um.

- Não! - exclamou Sam, levantando-se. - Vai destruir o losango! Não tenho forças para o voltar a lançar. Au! Que a Carta amaldiçoe estes mosquitos!

- Não o destruirei - disse Mogget, dirigindo-se para a marca de Oeste e deitando cuidadosamente a língua de fora. A marca ficou com um brilho branco, ofuscando Sam. Quando a sua visão ficou nítida, Mogget estava de pé do outro lado, atento à água, uma pata erguida, como um urso pescador.

- Exibicionista - murmurou Sam. Perguntou-se como é que o gato conseguira. O losango estava intato, as linhas de fogo mágico circulando ininterruptamente entre o brilho das marcas cardeais.

Se ao menos o losango afastasse também os mosquitos, pensou, enviando para o ouvido ensanguentado mais uns quantos que lhe atacavam o pescoço. Era lógico que as suas mordeduras não entravam na definição de danos físicos da fórmula. Subitamente, sorriu, recordando algo que trouxera.

Ia buscar este objeto no alforge quando a marca de Oeste voltou a brilhar, reagindo ao regresso de Mogget. O gato trazia na boca duas trutas pequenas, as suas escamas refletindo arco-íris na mistura de luz da fogueira e brilho da Carta.

- Pode ficar com esta para cozinhar - disse Mogget, largando a menor junto à fogueira. - O que é isso?

- Era um presente para a minha mãe - respondeu Sam, orgulhoso, pousando uma rã mecânica coberta de jóias que possuía o interessante acréscimo anatómico de umas asas com penas de bronze. Uma rã voadora.

Mogget observou com interesse quando Sam tocou de leve no dorso da rã e ela começou a brilhar com Magia da Carta quando o enviado dentro do corpo mecânico acordou do seu sono. Abriu um olho turquesa, depois o outro, recolhendo as pálpebras de ouro muito fino. A seguir agitou as asas, as penas de bronze colidindo.

- Muito bonita - observou Mogget. - E isso faz alguma coisa?

A rã voadora respondeu à pergunta por si própria, saltando subitamente para o ar, uma comprida língua vermelha vibrante saindo para agarrar vários mosquitos sobressaltados. Batendo as asas furiosamente, andou em espiral atrás de mais alguns, comeu-os e depois veio pousar de novo, toda contente, aos pés de Sam.

- Apanha insetos - disse Sam com considerável satisfação. - Achei que poderia ser útil à mãe, uma vez que ela passa tanto tempo nos pântanos perseguindo os Mortos.

- Você a fez? - disse Mogget, vendo a rã voadora saltar para seguir rodopiando atrás da sua presa. - Uma invenção toda sua?

- Sim - respondeu Sam laconicamente, esperando alguma crítica ao seu trabalho. Mas Mogget ficou silencioso, observando apenas as acrobacias aéreas da rã, os seus olhos verdes acompanhando cada movimento dela. Depois, o gato transferiu o seu olhar para Sam, deixando-o nervoso. Tentou corresponder àquele olhar verde, mas foi obrigado a desviar-se - e percebeu subitamente de que havia Mortos nas imediações. muitos Mortos, aproximando-se a cada segundo.

Obviamente que Mogget também dera por eles, pois pôs-se em pé e sibilou, o pêlo do dorso eriçado formando uma crista. A égua cheirou-os também e estremeceu. A Rã Voadora deslocou-se até aos alforges e enfiou-se lá dentro.

Sam olhou para a escuridão, protegendo os olhos do clarão da fogueira. A Lua estava encoberta por nuvens, mas a luz das estrelas refletia-se na água. Sentia os Mortos, lá adiante na floresta, mas a escuridão era muito forte debaixo dos ramos emaranhados das velhas árvores. Não conseguia ver nada.

Mas ouvia ramos estalando e pernadas afastando-se e até o esporádico passo pesado, tudo no fundo do constante rumorejar do riacho. O que quer que viesse, pelo menos alguns tinham formas físicas. Podiam lá estar também Mãos-Sombras. Ou Ghlims ou Mordaut ou quaisquer das variedades dos Mortos Menores. Não sentia nada mais poderoso, pelo menos de momento.

O que quer que fossem, eram pelo menos uma dúzia, de ambos os lados do riacho. Esquecendo o seu cansaço e a coxeadura, Sam deslocou-se à volta do losango, verificando as marcas. A água corrente não era funda nem suficientemente rápida para fazer mais do que desencorajar os Mortos. O losango seria a sua verdadeira proteção.

- Pode ter de reforçar as marcas antes da manhã - disse Mogget, observando a inspeção de Sam. - Não ficou muito bem lançada. Devia procurar dormir antes de voltar a tentar.

- Como posso dormir? - murmurou Sam, baixando instintivamente a voz, como se importasse que os Mortos pudessem ouvi-lo. Já sabiam onde se encontrava. Agora até lhes sentia o cheiro - o odor repugnante de carne em decomposição e terra de sepultura.

- São apenas Mãos - afirmou Mogget, observando. - Provavelmente não atacarão enquanto o losango durar.

- Como é que sabe? - perguntou Sam, limpando o suor da testa, juntamente com vários mosquitos esmagados. Julgou conseguir ver agora os Mortos - formas altas entre os troncos mais escuros das árvores. Corpos horríveis e destruídos obrigados a voltar à Vida para obedecerem às ordens de um necromante. Fora-lhes arrancada a inteligência e a humanidade, deixando apenas força inumana e um desejo insaciável da vida que já não podiam ter. A vida dele.

- Podia ir até lá e enviá-los de volta para a Morte - sugeriu Mogget. Começara a comer o segundo peixe, começando pela cauda. Sam não o vira comer o primeiro. - A sua mãe faria isso - acrescentou astutamente Mogget, dado que Sam não respondia.

- Eu não sou a minha mãe - respondeu Sam, com a boca seca. Não fez menção de pegar os sinos, apesar de senti-los ali na areia, desafiando-o. Queriam ser usados contra os Mortos. Mas podiam ser perigosos para o manejador, a maior parte deles, ou pelo menos traiçoeiros. Teria de usar Kibeth para obrigar os Mortos a regressar à Morte e Kibeth podia muito bem fazê-lo ir antes para lá.

- É o caminhante que escolhe o caminho, ou o caminho o caminhante? - perguntou Mogget de repente, os seus olhos mais uma vez fixos no rosto suado de Sam.

- O quê? - perguntou o Príncipe, distraído. Já antes ouvira aquelas palavras à mãe, mas não tinham tido qualquer significado para ele na época nem agora. - O que significa isso?

- Significa que nunca chegou ao fim d’O Livro dos Mortos - disse Mogget, num tom estranho.

- Bem, não, ainda não - disse Sam pesarosamente. - Vou chegar, só que eu...

- Significa também que estamos realmente em apuros - interrompeu Mogget, mudando o olhar para a escuridão exterior. - Pensei que já soubesse, pelo menos, o suficiente para se proteger!

- O que está vendo? - perguntou Sam. Ouvia movimento a montante, o ruído súbito de árvores despedaçadas e o estrondo de pedras na água.

- As Mãos-Sombras chegaram - respondeu Mogget com frieza. - Duas, embrenhadas nas árvores. Estão ordenando às Mãos que represem o riacho. Calculo que ataquem quando a água deixar de correr.

- Quem me dera... quem me dera ser um bom Abhorsen - murmurou Sam.

- E bom deveria ser, com a sua idade! - respondeu Mogget. - Mas presumo que teremos de nos governar com o que sabe. A propósito, onde está a sua espada? Uma lâmina sem feitiço não cortará a matéria das Mãos-Sombras.

- Deixei-a em Belisaere - confessou Sam, após um momento. - Não pensei... não percebi o que fazia. Julguei que Nick estaria provavelmente em apuros, mas não a este ponto.

- Esse é o mal de se ser um Príncipe - rosnou Mogget. - Pensa-se sempre que tudo se resolverá para você. Ou fica como a sua irmã, que acha que se não for ela, nada se faz. Admira-me que vocês tenham algum préstimo.

- O que posso fazer agora? - perguntou Sam com humildade.

- Ainda temos algum tempo antes da água diminuir - replicou Mogget. - Devia tentar aplicar alguma magia na sua lâmina. Se conseguiu criar aquela Rã, tenho certeza de não estará fora do seu alcance.

- Sim - disse Sam lentamente. - Sei como se faz. Concentrando-se na lâmina, mergulhou mais uma vez na Carta, procurando as marcas de afiar e desenredar, magia que causaria a destruição da carne Morta ou da matéria-espírito, com um esforço, impeliu as marcas para a lâmina, vendo-as mover-se lentamente como óleo sobre o metal, mergulhando no aço.

- Você tem jeito - comentou o gato. - Não estava esperando. Quase me fez recordar...

O que quer que ele fosse dizer perdeu-se quando um grito terrível cortou a noite, acompanhado de um chapinhar desenfreado.

- O que foi aquilo? - exclamou Sam, indo até à marca do Norte, a sua espada acabada de enfeitiçar em guarda.

- Uma Mão - respondeu Mogget, com uma risada. - Caiu na água. Quem quer que controla estes Mortos está muito longe, meu Príncipe. Até as Mãos-Sombras são fracas e estúpidas.

- Portanto, temos uma chance - murmurou Sam. O riacho parecia pouco afetado pela construção da represa a montante e o losango ainda brilhava intensamente. Talvez não acontecesse nada antes do alvorecer.

- Temos fortes chances - disse Mogget. - Por esta noite. Mas haverá outra noite amanhã e talvez outra depois dessa, antes de conseguirmos alcançar o Ratterlin. E eles?

Sam continuava tentando pensar numa resposta quando a primeira das Mãos-Mortas veio gritando pela água - e correu direto ao losango, explodindo faíscas prateadas por todo o lado na noite.

 

FUGA PARA O RIO

A manhã chegou vagarosamente às orlas exteriores da Floresta de Sindle, a luz deslizando pelas copas das árvores antes de penetrar nas profundezas escuras. Quando chegou finalmente às regiões inferiores, já não era um calor intenso, mas uma luz esverdeada diluída que se limitava a repelir as sombras em vez de extingui-las.

A luz do sol atingiu o ilhéu cingido pela magia de Sameth muito mais tarde do que lhe agradaria. Há muito que a fogueira se apagara e, tal como Mogget previra, Sam tivera de renovar o losango de proteção muito antes do primeiro sinal da manhã, recorrendo a reservas de energia que desconhecia possuir. Com a luz veio a prova cabal do trabalho noturno. O leito do riacho estava quase seco, a represa construída pelos Mortos continuando a resistir. Seis cadáveres destruídos pela Carta jaziam empilhados à volta do ilhéu: peles deixadas vagas pelos Mortos quando a magia protetora do losango lhes queimara demais os nervos e tendões, tornando os corpos inúteis.

Sam olhou para eles cautelosamente, com olhos orlados de vermelho e inchados, vendo a luz do sol invadir os restos fedorentos. Sentira os espíritos Mortos deixando os corpos tal como as cobras largam a pele, mas na confusão dos seus ataques suicidas não soube ao certo se todos teriam morrido. Poderia estar ainda algum à espreita, economizando a sua força, suportando o sol, esperando que Sam ficasse excessivamente confiante e abandonasse o losango. Conseguia ainda sentir Mortos nas proximidades, mas provavelmente seriam as Mãos-Sombras, procurando refúgios diurnos em tocas de coelho ou de lontra, enfiando-se pela terra escura debaixo das pedras, onde pertenciam.

Finalmente, o sol incidiu em cheio no leito do rio e a sensação que Sam tinha dos mortos diminuiu, exceto o sempre presente Corvo de Sangue Coagulado, voando em círculos lá no alto. Suspirou de alívio e espreguiçou-se, tentando aliviar a cãibra no braço da espada e a dor na perna ferida. Estava exausto, mas vivo. Pelo menos por mais um dia.

- É melhor começarmos a andar - disse Mogget, que dormira a maior parte da noite, ignorando o estrondo e o crepitar das tentativas das Mãos-Mortas de penetrar no losango. Parecia preparado para voltar para aquele sono a qualquer momento.

- Se o Corvo de Sangue Coagulado se aproximar demais, mate-o - acrescentou, bocejando. – Isso nos permitirá fugir.

- E mato-o com o quê? - indagou Sam, em tom cansado. Mesmo que o Corvo de Sangue Coagulado se aproximasse, estava muito fatigado para lançar uma fórmula da Carta e não tinha um arco.

Mogget não lhe deu resposta. Voltara a adormecer, enroscado dentro do alforge, pronto para ser colocado em cima de Sprout. Sam suspirou e fez um esforço para continuar a selar a égua. Mas a sua mente, cansada como estava, debatia-se ainda com o problema do Corvo de Sangue Coagulado. Como dissera Mogget, enquanto os fosse seguindo, os outros Mortos conseguiriam encontrá-los com facilidade. Talvez a seguir viesse um dos Mortos Maiores, ou um Mordicante, ou apenas um grande número de Mortos Menores. Sam teria de passar pelo menos as duas noites seguintes na floresta e ficaria mais cansado e mais enfraquecido a cada hora que decorresse. Podia não ser sequer capaz de lançar um diamante de proteção...

Mas, pensou, olhando para o leito seco do rio e as centenas de seixos magnificamente redondos nele, tenho força para aplicar uma marca de precisão a uma pedra e fazer uma fisga com um bocado da minha camisa de reserva. Até sabia usá-la. Jall Oren fizera questão de ensinar os príncipes a manejar todo o tipo de armas.

Pela primeira vez em dias, estampou-se um sorriso no rosto de Sam, eliminando o cansaço. Ergueu o olhar. Não tinha dúvidas de que o Corvo de Sangue Coagulado voava mais baixo do que na véspera, excessivamente confiante de que Sam não tinha um arco e seria incapaz de fazer fosse o que fosse. Seria um longo arremesso, mas uma pedra enfeitiçada pela Carta percorreria a distância.

Continuando a sorrir, Sam ajoelhou-se, apanhou discretamente várias pedras possíveis e rasgou as mangas da camisa de reserva.

Deixaria o Corvo de Sangue Coagulado segui-los por um tempo, decidiu, para que ficasse ainda mais confiante. Depois, pagaria o preço por andar espiando um descendente do Reino Antigo. Sam conduziu Sprout ao longo do rio, até se juntar a outro curso de água maior e poder escolher a direção. Para nordeste a montante ou para sudoeste a jusante.

Hesitou na confluência, aproveitando o volume da égua para ficar encoberto enquanto lançava uma marca sobre a pedra e a colocava na fisga improvisada. O Corvo de Sangue Coagulado, vendo a hesitação dele, voou em círculos mais baixos para se certificar de que via qual o caminho que ele ia seguir. Foi obviamente repelido pela água corrente do rio maior e esperou talvez que voltasse para trás.

Sam aguardou até a espiral o aproximar de si. Depois, desviou-se de Sprout, a fisga zunindo por cima da sua cabeça. No momento certo, gritou ”Hah!” e deixou a pedra voar. O Corvo de Sangue Coagulado teve apenas um instante para reagir e, sendo estúpido, com o sol incidindo-lhe e Morto, voou simplesmente direito à pedra que subia em flecha, indo ao seu encontro numa explosão de penas, ossos secos e pedaços de carne pútrida.

Com enorme satisfação e alegria imediata, Sam viu a criatura repelente cair. A bola esmagada de penas aterrou com um chape no riacho e o fragmento do espírito Morto lá dentro foi imediatamente banido para o lugar de onde viera. Pelo que, quaisquer Corvos de Sangue Coagulado que o partilhassem cairiam inexplicavelmente, onde quer que estivessem.

Com a queda do Corvo de Sangue Coagulado, não sentia quaisquer Mortos nas proximidades. As Mãos-Sombras estariam agora escondidas, tal como quaisquer Mãos-Mortas que restassem. A inteligência que as comandava de longe podia tentar adivinhar que Sam seguira pelo rio de sudoeste em direção ao Ratterlin, mas quem quer que ou o que quer que fosse não saberia ao certo e podia dividir as suas forças, aumentando a sua oportunidade de evasão e fuga.

- Temos uma chance, fiel égua - anunciou Sam, animado, conduzindo Sprout na direção de um trilho animal que seguia paralelo ao rio. - Temos nitidamente uma chance.

Mas a esperança pareceu fugir por entre os dedos de Sam à medida que o dia avançava e o progresso se tornava mais lento e mais difícil, até não poder continuar a montar Sprout. O rio ficara consideravelmente mais fundo e rápido, mas também muito mais estreito, apenas três ou quatro passos de lado a lado, sendo impossível permanecer dentro dele ou instalar um acampamento que ficasse protegido de ambos os lados.

O trilho tornara-se também mais estreito e cheio de vegetação. Sam teve de abrir caminho por entre ramos baixos, arbustos altos e pernadas espinhosas de amoras silvestres. Ficou com as mãos todas arranhadas, atraindo hordas de moscas aos fios de sangue. O que atrairia também os Mortos. Conseguiam sentir o cheiro a sangue a uma grande distância, muito embora o fresco os fizesse vir mais depressa.

Ao final da tarde, Sam começou a se desesperar. Agora estava realmente exausto. Não se punha a questão de lançar um losango de proteção na noite que se avizinhava. Desmaiaria só de tentar visualizar as marcas - e os Mortos encontrariam o seu corpo indefeso estendido no solo.

O cansaço afetava-lhe os sentidos, reduzindo-lhe a vista a uma perspectiva de antolhos e o ouvido a pouco mais do que uma percepção abafada dos cascos de Sprout no solo macio e clemente da floresta.

Naquele estado, levou vários segundos para perceber que os cascos da égua tinham começado subitamente a emitir um som mais agudo e que a luz verde e fresca da floresta dera lugar a algo mais nítido e mais intenso. Olhou para cima, piscando os olhos e viu que tinham chegado a uma ampla clareira. Esta tinha à vontade cem passos de largura, atravessando a floresta de sueste a noroeste, continuando em ambos os sentidos tanto quanto conseguia alcançar. Tinham crescido árvores novas nas suas orlas, mas estava completamente despida no meio - e havia uma estrada pavimentada ao meio.

Sam olhou para a estrada e depois para o Sol, que mal conseguira ver debaixo do teto sombrio da floresta.

- Cerca de duas, talvez três horas até ao crepúsculo - murmurou a Sprout, enquanto endireitava o estribo e montava. - Hoje você comeu uma boa ração, não foi, Sprout? Para não falar da caminhada tranquila, sem me transportar. Agora podia recompensar-me, porque vamos ter de cavalgar.

Soltou uma risada, pensando numa expressão das imagens em movimento que vira com frequência no Orpheum de Somersby em Ancelstierre.

- Vamos cavalgar, Sprout! - repetiu. - Voe como o vento!

Hora e meia depois, Sprout já não se deslocava como o vento, mas voltara ao passo, as patas trêmulas, o suor escorrendo pelos flancos e a espuma saindo da boca. Sam também não estava em melhor forma, tendo voltado a caminhar, para dar a Sprout chance de recuperar. Agora não sabia o que lhe doía mais - se a perna ou o traseiro.

Mesmo assim, percorrera seis ou sete léguas, graças à estrada. Agora não era um caminho fácil, mas fora construída e devidamente drenada há muito tempo, pelo que estava mais do que em condições.

Naquele momento subiam uma ligeira serra, a estrada atacando-a diretamente em vez de serpentear. Sam ergueu a cabeça quando se aproximou do alto, esperando avistar o Ratterlin antes do dia chegar ao fim. Pelos seus cálculos, a cavalgada - e a estrada tinham poupado mais de um dia de percurso a pé através da floresta, pelo que deviam estar mais perto do rio. Tinham de estar mais perto do rio...

Pôs-se em pontas de pés por um momento, mas ainda não conseguia ver. Aquela serra era aborrecida, cheia de montes falsos e depressões incômodas ao longo do caminho. Mas certamente dali a nada veria o Ratterlin!

Clip! Clop! Os cascos de Sprout faziam barulho na estrada, tanto barulho quanto o do bater do coração do próprio Sam, mas muito, muito mais lento. O seu coração acelerara, batia com um misto de esperança e medo.

A verdadeira crista ficava lá à frente. Sam inclinou-se, tentando ver, mas o Sol punha-se diretamente à frente dele, um imenso disco vermelho descendo para ocidente, cegando-o. Comprimiu os olhos quase os fechando e, protegendo-os com a mão, olhou novamente - e ali, debaixo do sol, estava uma faixa azul grossa, refletindo veios vermelho-alaranjados para o céu.

- O Ratterlin! Au! - exclamou Sam, batendo com o dedo do pé ao tropeçar na elevação. Mas ignorou a dor momentânea. Lá estava o rio rápido cujas águas deteriam quaisquer Mortos. O rio que o salvaria!

Só que, pensou, subitamente assustado, faltava ainda meia légua e a noite estava quase chegando. E com ela, percebeu, também os Mortos. Havia criaturas Mortas não muito longe dali - talvez mesmo à sua frente. Esta estrada - e o ponto onde se juntava ao caminho ao longo do Ratterlin - seria um ponto de observação óbvio.

Pior do que isso, cogitou, olhando para o rio lá embaixo, não planejara sequer o que faria quando o alcançasse. E se não houvesse nenhum barco nem jangada?

- Depressa - disse Mogget atrás dele, de dentro do alforge, fazendo com que Sam desse um pulo de surpresa e começasse a conduzir novamente Sprout. - Temos de nos dirigir para o moinho e procurar abrigo lá.

- Não vejo nenhum moinho - afirmou Sam, cheio de dúvidas, protegendo mais uma vez os olhos. Não conseguia ver nenhum detalhe próximo do rio. Tinha os olhos desfocados da falta de sono e sentia-se tão estúpido quanto uma Mão Morta.

- Claro que existe um moinho - respondeu Mogget, pulando do alforge para o ombro de Sam, fazendo-o sobressaltar-se novamente. - A roda está parada - por isso esperemos que esteja abandonado.

- Por quê? - perguntou Sam, confuso. - Não seria melhor se houvesse gente? Podíamos arranjar que comer e que beber...

- Atrairia os Mortos para um lugar onde houvesse um moleiro e a sua família? - interrompeu Mogget. - Não faltará muito para nos encontrarem - se não o fizeram já.

Sam não respondeu, limitando-se a encorajar Sprout com uma palmada suave no pescoço. Talvez não a cansasse demais se seguisse de pé no estribo, pensou. Esperava que ela aguentasse a distância, porque não conseguiria percorrê-la sem auxílio.

Como sempre, Mogget tinha razão. Sam sentia agora os Mortos mais perto e, olhando para cima, viu duas manchas pretas voando em espiral na noite que avançava de leste. Sem dúvida o tal necromante que os orientava não tinha falta de Corvos de Sangue Coagulado. E onde voavam os Corvos, em breve haveria outros, trazidos da Morte, para procurarem a sua presa.

Mogget também viu os Corvos de Sangue Coagulado e segredou ao ouvido de Sam:

- Agora não restam dúvidas. Isto é obra de um necromante que te quer muito mal, Príncipe Sameth. Os servos dele o procurarão onde quer que vá e ele usará todas as criaturas da Morte para te conduzir ao teu destino.

Sam engoliu em seco. A afirmação sinistra ecoou nos seus ouvidos, imbuída do ligeiro indício do poder da Magia Livre contido na forma felina no seu ombro. Deu uma palmada na garupa de Sprout para a instigar a seguir, depois disse a primeira coisa que lhe veio à cabeça.

- Mogget. Cale-se.

Sprout tombou a cem metros do moinho, esgotada pelo galope anterior e o peso morto de Sam pendurado no estribo. Apeou-se a tempo de evitar ficar preso debaixo dela. Mogget saltou-lhe do ombro para se afastar ainda mais do caminho.

- Aguada - disse Mogget bruscamente, sem olhar para ela, os seus olhos verdes fitando a noite de forma penetrante. - Eles estão mais próximos.

- Eu sei! - exclamou Sam, tirando rapidamente os alforges e pondo-os ao ombro. Curvou-se para acariciar a cabeça de Sprout, mas ela não reagiu. Viam-se as órbitas e tinha os olhos quase completamente revirados. Pegou as rédeas e tentou fazê-la levantar-se, mas ela não mostrou vontade de colaborar e Sam estava muito fraco para obrigá-la.

- Depressa! - insistiu Mogget, andando de volta dele. - Sabe o que tem de fazer.

Sam concordou e olhou para os Mortos. Havia uma vintena deles ou mais, formas difusas e pesadas na escuridão que se acumulava. Os seus amos tinham-nos sem dúvida feito caminhar desde algum cemitério ou ossuário distantes, obrigando-os mesmo a andar debaixo de sol. Consequentemente, eram lentos, mas implacáveis. Se se detivesse nem que fosse por apenas mais um minuto, cairiam sobre ele como ratos sobre um cão esgotado.

Puxou o punhal e apalpou o pescoço de Sprout. Sentiu sob os dedos as pulsações fracas e irregulares na artéria principal. Encostou ali o punhal mas não o enterrou.

- Não sou capaz - murmurou. - Ela pode se recuperar.

- Os Mortos beberão o se sangue e se banquetearão com a sua carne! - exclamou Mogget. - Devemos-lhe mais do que isso. Crava!

- Não posso tirar uma vida. Nem mesmo a de um cavalo, por misericórdia - disse Sam, erguendo-se vacilante. - Entendii isso depois... depois dos policiais. Esperaremos juntos.

Mogget sibilou, depois saltou para o pescoço de Sprout, traçando com a pata uma linha de fogo branco sobre o pescoço da égua. Por um instante, não aconteceu nada. Depois o sangue jorrou com intensidade, salpicando as botas de Sam e atirando-lhe gotas quentes para o rosto. Sprout soltou um único estremecimento convulsivo e morreu.

Sam sentiu-a morrer e virou a cabeça, incapaz de olhar para a poça escura que manchava o chão por baixo dela.

Algo deu sinal nas suas canelas. Mogget, instando-o a mover-se. Sem ver, virou as costas e começou a arrastar-se na direção do moinho. Sprout morrera e sabia que Mogget fizera a única coisa possível. Mas não estava certo.

- Rapidamente! - instigou novamente o gato, dançando à volta dos pés dele, uma mancha branca na escuridão. Sam ouviu então os Mortos atrás dele, ouviu o estalido dos seus ossos, o chiar dos joelhos secos dobrados em ângulos impossíveis na Vida. O medo venceu o cansaço nele, obrigou-o a mover-se, mas o moinho parecia tão distante.

Tropeçou e quase caiu, mas conseguiu recuperar. A dor na perna atingiu-o de novo na cabeça, desanuviando-a um pouco. A égua podia estar morta, mas não havia motivo para se reunir a ela na Morte. Apenas o seu cansaço a tornara atraente - por um momento. Lá estava o moinho mais adiante, construído junto ao poderoso Ratterlin, com a calha, a comporta e a roda destacando-se na margem. Só precisava alcançar a calha e abrir a comporta e o moinho ficaria protegido por água rápida, desviada do rio.

Arriscou olhar por cima do ombro e voltou a tropeçar, surpreso pela escuridão, a proximidade e o número dos Mortos. Agora eram muito mais do que vinte, movendo-se em filas vindos de todas as direções, os mais próximos a cerca de quarenta metros. A sua palidez cadavérica dava a impressão de bandos de borboletas esvoaçando, nítidas na noite.

Muitos dos Mortos apresentavam os restos de lenços e chapéus azuis. Sam ficou olhando para eles. Eram Sulistas mortos! Provavelmente alguns daqueles que o pai tentara encontrar.

- Corra, meu idiota! - gritou Mogget, disparando à frente dele, no momento em que os Mortos lá atrás pareceram finalmente dar-se conta de que a sua presa lhes podia escapar. Os músculos Mortos chiaram, subitamente obrigados à velocidade e as gargantas Mortas soltaram estranhos gritos de batalha ressequidos.

Sam não tornou a olhar. Ouvia as suas passadas pesadas, o fedor de carne decomposta forçada além dos limites suportados pela magia. Esforçou-se, irrompendo numa corrida, a sua respiração queimando-lhe a garganta e os pulmões, os músculos enviando laivos de dor por todo o seu corpo.

Alcançou a calha do moinho - um canal fundo e estreito - pouco antes dos Mortos. Quatro passos e estava em cima das tábuas da ponte simples, fazendo-a cair na calha. Mas o canal estava seco, pelo que as primeiras Mãos-Mortas se atiraram ao chão e começaram a arranhar do outro lado. Atrás delas vinham mais Mãos, fila após fila delas, uma maré de Mortos que era impossível fazer retroceder.

Desesperadamente, Sam correu para a comporta e a roda que a faria levantar, enviando as águas atroadoras do Ratterlin para a calha e sobre os Mortos em escalada.

Mas a roda estava bastante enferrujada, a comporta presa. Sam aplicou o seu peso à roda de ferro, mas ela partiu-se simplesmente, deixando-o com um pedaço do rebordo enferrujado na mão.

Então, a primeira Mão-Morta saiu da calha do moinho e virou-se para ele. Estava escuro, verdadeiramente escuro agora, mas Sam conseguiu distingui-la. Já fora humana, mas a magia que a trouxera de volta à Vida distorcera-lhe o corpo como se seguisse o capricho de um artista louco. Os braços davam-lhe por baixo dos joelhos, a cabeça já não assentava no pescoço, afundando-se nos ombros e a boca dividia-se para cima, ocupando o lugar onde estivera o nariz. Havia mais atrás daquela, outras formas torcidas, fazendo das pás da roda hidráulica degraus por onde abandonarem a calha do moinho.

- Por aqui! - ordenou Mogget, agitando a cauda quando transpôs uma porta para o próprio moinho. Sam tentou segui-lo, mas a Mão-Morta barrava-lhe o caminho, a sua boca esquelética mostrando muitos dentes, as mãos compridas estendidas com dedos ávidos de ossos a descoberto.

Sam puxou a espada e desferiu-lhe golpes, tudo num movimento rápido. As marcas da Carta na lâmina resplandeceram, vomitando faíscas prateadas para a noite enquanto o metal enfeitiçado penetrava na carne Morta.

A Mão recuou, destruída, mas não vencida, um braço pendendo de uma única faixa de tendão. Sam empurrou-a com o punho da espada, atirando-a para cima de outras duas que procuravam aproximar-se. Depois virou-se e atingiu uma que saltava por trás dele e recuou até ao moinho.

- A porta! - bufou Mogget de em algum lugar aos seus pés e Sam estendeu a mão e apalpou madeira. Desesperadamente, agarrou a extremidade da porta e bateu com ela nos rostos sorridentes dos Mortos. Mogget sobressaltou-se, o pêlo roçando a mão de Sam e uma pancada forte indicou-lhe que o gato acabara de colocar a tranca. Pelo menos no momento, a porta estava fechada.

Não conseguia ver nada. Estava completamente escuro e sufocava-se lá dentro. Nem sequer avistava o pêlo branco brilhante de Mogget.

- Mogget! - gritou, o pânico na sua voz. Aquela única palavra perdeu-se no meio de um estrondo violento quando as Mãos Mortas se atiraram de encontro à porta. Eram estúpidas demais para procurarem um tronco e usá-lo como aríete.

- Aqui - disse o gato, calmo como sempre. - Abaixe-se.

Sam abaixou-se, mais depressa do que gostaria de admitir, os dedos agarrando Mogget pela coleira protegida pela Carta. Durante um momento horrível, julgou que arrancara inadvertidamente a coleira. Depois o gato deslocou-se, o Ranna em miniatura tinindo e soube que a coleira não saíra. O som de Ranna enviou-lhe uma onda de sonolência, mas nada que se comparasse com o alívio de sentir a coleira ainda firme naquele pescoço felino. com os Mortos tão próximos e a porta já a ceder ao seu ataque, seria preciso mais do que um Ranna em miniatura para colocá-lo para dormir.

- Por aqui - disse Mogget, uma voz sem corpo na escuridão. Sam sentiu-o mover-se novamente e seguiu-o rapidamente, cada sentido alerta à porta por trás.

Depois, Mogget virou subitamente, mas Sam deu mais um passo, a sua espada batendo em algo sólido que fez ricochete quase o atingindo no rosto. Sam embainhou a espada quase se cortando e estendeu a mão para apalpar o que quer que fosse.

A sua mão detetou outra porta - uma porta que devia dar no próprio rio. Ouvia a água correndo por perto, apenas audível sob o estrondo das Mãos-Mortas que se arremessavam de encontro à outra porta. O ruído ecoou até às partes superiores do moinho. Apesar do barulho, não tinham entrado e Sam agradeceu em silêncio ao moleiro que o construíra tão bem.

As suas mãos trêmulas encontraram a tranca e levantaram-na, depois a argola que fazia rodar a fechadura. Torceu-a, encontrou resistência, voltou a torcer, o medo irrompendo nele. com certeza esta porta não podia estar trancada do lado de fora?

Ouviu atrás de si dobradiças a chiar cedendo finalmente e a outra porta explodiu para dentro. Irromperam por ela Mãos-Mortas, soltando gritos estrangulados que eram ecos inumanos dos berros triunfantes dos Vivos.

Sam rodou a argola para o lado contrário e a porta escancarou-se de repente. Foi atrás dela, estatelando-se lá para fora em cima de alguns degraus que conduziam a uma plataforma de desembarque. Aterrou ali com um baque que lhe provocou uma dor horrível na perna ferida, mas não se importou. Chegara finalmente ao Ratterlin!

Conseguia ver de novo, pelo menos um pouco, devido às estrelas lá no alto e aos seus reflexos na água. Lá estava o rio, correndo, a pouco mais da distância de um braço. Havia também uma banheira de folha, das grandes, do tipo usado para dar banho em várias crianças ao mesmo tempo, suficientemente grande para caber lá dentro um adulto. Sam viu-a e, naquele mesmo instante, agarrou nela e empurrou-a para o rio, segurando-a contra a corrente com uma mão enquanto atirava lá para dentro a espada e os alforges.

- Retiro o que disse - afirmou Mogget, pulando para dentro. - Não é tão estúpido quanto parece.

Sam tentou responder, mas o seu rosto e a sua boca pareceram incapazes de se mover. Trepou para a banheira, agarrando-se ao último degrau da plataforma de desembarque. A banheira afundou-se de forma alarmante, mas mesmo depois de tudo metido lá dentro, tinha ainda alguns centímetros de obras mortas.

Deu um empurrão quando os Mortos saíram pela porta. O primeiro recuou ante a proximidade de tanta água corrente. Mas os outros fizeram pressão por trás dele e a Mão caiu - direto no barco improvisado por Sam.

A criatura Morta gritou quando bateu nos degraus, quase parecendo viva por um breve segundo. As suas mãos agitaram-se ao cair, tentando agarrar-se a algo, mas conseguindo apenas mudar o sentido da sua queda. Um segundo depois entrou no Ratterlin e o seu grito perdeu-se numa fonte de faíscas prateadas e fogo dourado.

Errara o barco por uma unha negra. A onda do seu impacto quase inundou a banheira. Sam assistiu aos últimos momentos da criatura, tal como os Mortos parados lá em cima à porta e sentiu um enorme alívio subir dentro dele.

- Espantoso - comentou Mogget. - Conseguimos escapar. O que está fazendo?

Sam parou de se contorcer e mostrou em silêncio um pedaço de sabão seco, mirrado pelo sol, sobre o qual se sentara. Depois encostou a cabeça e apoiou as mãos nas bordas para repousar no rio abençoado que os salvara.

- Na verdade - disse Mogget -, acho que posso mesmo dizer ”Muito bem”.

Sam não respondeu, porque acabara de desmaiar.

 

O barco estava amarrado num cais subterrâneo de que Lirael ouvira falar, mas que apenas visitara uma vez, há alguns anos. Fora construído ao longo da extremidade de uma ampla caverna, com a luz do sol a entrar pela outra ponta onde se abria para o mundo, o Ratterlin brotando com vigor e espuma por baixo do cais. Uma fila de pingentes de gelo de um lado ao outro da entrada da caverna atestava a presença da geleira lá em cima, assim como a esporádica queda de gelo e neve.

Havia vários barcos amarrados, mas Lirael soube instintivamente que a embarcação esguia e curva de mastro único era a sua. Tinha uma cauda em leque esculpida na popa e uma figura curva na proa, uma mulher com os olhos bem abertos. Aqueles olhos pareciam fitar diretamente Lirael, como se o barco soubesse quem ia ser o seu próximo passageiro. Por um momento, Lirael julgou que a figura de proa até lhe piscara o olho. Sanar apontou e disse:

- É Aventureiro. Ele a levará em segurança até Qyrre. É uma viagem que efetuou mil vezes ou mais, para lá e para cá, ao sabor ou contra a corrente. Conhece bem o rio.

- Não sei velejar - afirmou Lirael com nervosismo, reparando nas marcas da Carta que se deslocavam de mansinho sobre o casco, o mastro e o cordame da embarcação. Sentiu-se muito pequena e estúpida. A visão do mundo exterior fora da caverna combinava com o seu cansaço e levava-a a querer esconder-se em algum lugar e ir dormir. - O que terei de fazer?

- Será muito pouco o que necessitará de fazer - respondeu Sanar. – O Aventureiro fará quase tudo sozinho. Mas terá de içar e arriar a vela e manobrar um pouco. Eu mostro como se faz.

- Obrigada - disse Lirael. Seguiu Sanar até ao barco, agarrando-se à borda quando o Aventureiro balançou sob os pés dela. Ryelle passou a mochila, o arco e a espada a Lirael e Sanar mostrou-lhe onde podia guardar a mochila na caixa revestida de oleado no espigão da proa da embarcação. A espada e o arco entraram em estojos especiais à prova de água de cada lado do mastro, para ficarem acessíveis.

Depois Sanar mostrou a Lirael como içar e arriar a única vela grande triangular do Aventureiro e como se deslocava o estai. O próprio Aventureiro se encarregaria de ajustar a vela, explicou Sanar, e orientaria a mão de Lirael na cana do leme. Lirael podia até deixar o barco rumar sozinho numa emergência, mas a embarcação preferia sentir um toque humano.

- Esperemos que não haja perigo pelo caminho - disse Ryelle, quando terminaram de mostrar o barco a Lirael. - Normalmente, o curso do rio é bastante seguro até Qyrre. Mas, neste-momento, não podemos ter certeza de nada. Desconhecemos a natureza do que quer que se encontra no poço que você viu, ou os seus poderes. Como precaução, seria melhor ancorar no rio à noite, em vez de ir a terra - ou atracar numa ilha. Existem muitas a jusante. Em Qyrre e dali para frente, deveria procurar qualquer ajuda que consiga dos Policiaas Reais. Para esse efeito, leva uma carta nossa enquanto Voz da Vigia. Se tivermos sorte, haverá também guardas e a Abhorsen pode ter regressado de Ancelstierre. O que quer que faça, deve certificar-se de que viaja com um grupo grande e bem armado de Qyrre a Edge. A partir dali, receio que não possamos aconselhá-la. O futuro está nublado e só conseguimos ve-la no Lago Vermelho, sem nada antes ou depois disso. Resumindo, isto quer dizer ”Tenha muito cuidado” - afirmou Sanar sorrindo, mas havia uma ruga de preocupação na testa e aos cantos dos olhos. - Lembre-se que este é o único futuro possível que vemos.

- Terei cuidado - prometeu Lirael. Agora que já estava dentro do barco e prestes a partir, sentia-se muito nervosa. Pela primeira vez ia enfrentar um mundo que não estava delimitado por pedra ou gelo e teria de ver e falar com muitos desconhecidos. Mais do que isso, ia correr perigo, combater um inimigo sobre o qual nada sabia e estava mal preparada para enfrentar. Até a sua missão era vaga. Encontrar um jovem, em algum lugar em um lago, a dado momento deste Verão. E se encontrasse este tal Nicholas e de alguma forma sobrevivesse a todos os perigos que espreitavam? As Clayr a deixariam voltar à Geleirar? E se nunca mais lhe fosse permitido o regresso?

Mas, ao mesmo tempo, Lirael sentia também uma crescente sensação de excitação, mesmo de evasão, de uma vida que não conseguia admitir que a estava  sufocando. Ali estava o Aventureiro e o sol mais além e o Ratterlin banhando terras que só conhecia das páginas dos livros. Tinha a estatueta do cão e a esperança de que a sua companheira canina regressasse. E ia numa missão oficial, ia fazer algo importante. Quase como uma verdadeira Filha das Clayr.

- Também pode vir a precisar disto - disse Ryelle, entregando-lhe uma bolsa de pele, cheia de moedas. - A Tesoureira queria que apresentasse documentos de despesa, mas acho que já terá bastante com que se preocupar, dispense isso.

- Agora, queremos vê-la içar a vela e despedirmo-nos de você - prosseguiu Sanar. Os seus olhos azuis pareciam examinar Lirael, detectando os receios que ela não exprimira. - A Visão não me diz nada, mas tenho certeza de que voltaremos a nos encontrar. E não pode se esquecer que, com ou sem Visão, você é uma Filha das Clayr. Lembra-se! Que a sorte te favoreça, Lirael.

Lirael concordou, sem conseguir falar, e puxou a adriça para içar a vela. Pendeu flácida, estando o cais da caverna muito abrigado de quaisquer ventos.

Ryelle e Sanar fizeram-lhe uma vênia, depois soltaram as amarras que prendiam o Aventureiro. A corrente rápida do Ratterlin apanhou o barco e a cana do leme moveu-se sob a mão de Lirael, chamando-lhe a atenção para que virasse a embarcação ansiosa na direção do mundo do rio lá fora, iluminado pelo sol.

Lirael olhou para trás uma vez quando passaram da sombra da caverna para o sol, com os pingentes de gelo tinindo no alto por cima da cabeça dela. Sanar e Ryelle ainda estavam ali no cais. Acenaram quando o vento enfunou a vela do Aventureiro e agitou o cabelo de Lirael.

Parti, pensou Lirael. Agora não podia haver volta, não contra a corrente. O curso do rio levava o barco e o curso do seu destino levava-a. Ambos a conduziriam a lugares que desconhecia.

O rio era bastante largo no lugar onde a nascente subterrânea vinha se juntar, alimentado pelos lagos de neve derretida mais a montante e as centenas de pequenos riachos que abriam caminho como capilares através e à volta da geleira das Clayr. Mas aqui, apenas o canal central - talvez com cinquenta metros de largura - era suficientemente fundo para ser navegável. De cada lado do canal, o Ratterlin ficava menos fundo, contentando-se em cobrir escassamente os milhões de seixos constantemente lavados.

Lirael inspirou o ar quente cheirando a rio e sorriu ao sentir o sol incidindo-lhe na pele. Conforme prometido, o Aventureiro deslocou-se sozinho no curso mais rápido do rio, enquanto a escota grande afrouxou imperceptivelmente até seguirem a favor do vento de norte. O nervosismo de Lirael em relação à navegação diminuiu quando percebeu que o Aventureiro cuidava realmente de si próprio. Até era divertido, avançar velozmente com a brisa por trás, a proa levantando um chuvisco fino ao cortar as pequenas ondas provocadas pelo vento e a corrente. Tudo o que Lirael precisava para que o momento fosse perfeito era da presença da sua melhor amiga, a Cadela Desavergonhada.

Levou a mão ao bolso do colete para apalpar a estatueta de greda. Seria um conforto segurá-la apenas, muito embora não fosse viável experimentar a fórmula invocatória até chegar a Qyrre e arranjar o arame de prata e outros materiais.

Mas em vez da pedra fria e lisa, sentiu pêlo quente de cão - e o que retirou foi uma orelha pontiaguda perfeitamente identificável, seguida de um arco de crânio redondo e depois outra orelha. Que foi imediatamente seguida de toda a cabeça da Cadela Desavergonhada, que, por si só, era grande demais para caber no bolso - quanto mais o resto do corpo.

- Que sufoco! - rosnou a Cadela, esticando uma pata dianteira e contorcendo-se à doida. Por impossível que parecesse, seguiu-se a outra pata dianteira e depois toda a Cadela saltou para fora, sacudindo o pêlo por cima das calças de Lirael e virando-se para lhe dar uma lambidela entusiástica.

- Partimos finalmente! - latiu, toda contente, a boca aberta para apanhar a brisa, a língua de fora. - Já não era sem tempo. Para onde vamos?

A princípio, Lirael não respondeu. Limitou-se a abraçar a Cadela com muita força e soltou várias respirações rápidas e entrecortadas para não chorar. A Cadela aguardou impacientemente, sem sequer lamber a orelha de Lirael, que era um alvo a jeito. Quando a respiração de Lirael pareceu voltar ao normal, a Cadela repetiu a pergunta.

- É mais por que vamos - respondeu Lirael, verificando o bolso do colete, não fosse a saída da Cadela ter trazido atrás o Espelho Negro. Curiosamente, o bolso nem sequer estava deformado.

- Que importância tem? - indagou a Cadela. - Novos cheiros, novos sons, novos lugares onde fazer uma mijoca... mil perdões, Comandante.

- Cadela! Não fique tão excitada - ordenou Lirael. A Cadela obedeceu parcialmente, sentando-se seus aos pés, mas a cauda continuava a agitar-se e de tantos em tantos segundos tentava apanhar o ar.

- Nós não vamos em uma das nossas expedições normais, como na geleira - explicou Lirael. - Tenho de encontrar um homem...

- Que bom! - interrompeu a Cadela, pondo-se em pé para lambê-la exuberantemente. - Já estava na hora de você procriar.

- Cadela! - protestou Lirael, afastando-a com força. - Não é disso que se trata! Este homem é de Ancelstierre e está tentando... desenterrar, creio... uma coisa antiga. Perto do Lago Vermelho. Uma coisa da Magia Livre, tão poderosa que até fiquei nauseada quando Ryelle e Sanar apenas a mostraram através de uma Visão. E havia um necromante que me viu e os raios não paravam de cair no buraco no solo...

- Isso não me agrada nada - disse a Cadela, subitamente séria. Parou de abanar a cauda e olhou diretamente para Lirael, sem farejar.

- É melhor me contar mais. Comece pelo princípio, desde o momento em que as Clayr foram procurá-la lá embaixo.

Lirael concordou e contou tudo o que as gêmeas tinham dito e descreveu a Visão que haviam partilhado com ela.

Quando terminou, o Ratterlin tornara-se o rio poderoso que todo o Reino conhecia. Tinha mais de oitocentos metros de largura e era muito fundo. Aqui no meio, a água era escura, límpida, azul e podia se ver muitos peixes, prata nas profundezas.

A Cadela tinha a cabeça apoiada nas patas dianteiras e pensava profundamente. Lirael observava-a, olhando para os olhos castanhos que pareciam focados em coisas muito distantes.

- Não me agrada - disse por fim a Cadela. - Vai ser enviada para o perigo e ninguém sabe realmente o que está acontecendo. As Clayr não conseguiram ver com clareza, o Rei e a Abhorsen nem sequer estão no Reino. Este buraco no solo que engole os raios me faz lembrar de algo realmente muito mau... e depois há também esse necromante.

- Bem, acho que podíamos ir para qualquer outro lugar - afirmou Lirael em tom de dúvida, incomodada com a intensidade da reação da Cadela.

A Cadela olhou-a, surpresa.

- Não podemos, não! Você tem uma obrigação. Não me agrada, mas temos de ir. Nunca falei em desistir.

- Não - concordou Lirael. Ia dizer que também não o sugerira. Estava apenas se referindo a uma possibilidade. Mas seria preferível o assunto morrer ali.

A Cadela manteve-se em silêncio durante um pouco de tempo. Depois disse:

- Aquelas coisas que deixaram para você na sala. Sabe como usá-las?

- Até podiam não me ser destinadas - disse Lirael. - Só que por acaso fui eu quem as encontrou. Também não as quero.

- Quem muito escolhe acabará mendigo, se a mendicidade não foi a sua escolha - afirmou a Cadela.

- O que significa isso?

- Não faço idéia - respondeu a Cadela. - Agora, sabe usar as coisas que deixaram para você?

- Bem, li O Livro da Lembrança e do Esquecimento - disse Lirael com indiferença. - Por isso, acho que sei a teoria...

- Devia praticar - declarou a Cadela. - Pode precisar realmente de perícia mais tarde.

- Mas terei de ir à Morte - protestou Lirael. - Nunca fiz isso antes. Nem sequer tenho certeza se deveria. Sou uma Clayr. Devia estar a ver o futuro, não o passado.

- Devia usar os dons que recebeu - disse a Cadela. - Imagina como ficaria se me desse um osso e eu não o comesse.

- Surpresa - respondeu Lirael. - Mas às vezes você enterras os ossos. No gelo.

- No fim, acabo sempre por comê-los - disse a Cadela. – No momento certo.

- Como sabe que este é o momento certo para mim? - perguntou Lirael, com desconfiança. - Quer dizer, como é que sabe para o que servem os meus dons? Não te contei, não é?

- Li muito. É o que acontece quando se vive numa biblioteca - disse a Cadela, respondendo primeiro à segunda pergunta. - E há muitas ilhas à frente. Uma ilha seria um lugar perfeito para parar. Pode usar o Espelho Negro numa delas. Se algo te seguir da Morte, podemos meter-nos no barco e prosseguir viagem.

- Você quer dizer se algo Morto me atacar - disse Lirael. Era esse o verdadeiro perigo. Na realidade, queria olhar para o passado. Mas não desejava ir à Morte para fazê-lo. O Livro da Lembrança e do Esquecimento dizia-lhe como e garantia-lhe que regressaria. Mas, e se estivesse errado?

E as flautas de Pan estavam muito bem, à sua maneira, como arma de proteção contra os Mortos. Sete flautas, com o nome dos setes sinos usados por um necromante. Só que não eram tão poderosas como os sinos e uma parte do livro dizia que ”apesar de genericamente o instrumento ser um Lembrador, as flautas são com frequência usadas pelos Futuros Abhorsens, até passarem para os sinos”. Por isso as flautas não eram assim tão fantásticas.

Mas mesmo que as flautas não fossem tão fortes quanto os sinos, o livro parecia achar que eram suficientemente poderosas para lhe garantirem a segurança. Desde que as usasse como deve ser, claro, tendo apenas a informação do livro a que se agarrar. Mesmo assim, havia algo em particular que queria mesmo ver... - Precisamos chegar a Edge o mais depressa possível - disse com determinação. - Mas primeiro podíamos descansar umas horas. Só preciso dormir um pouco. Quando acordar, pararemos numa ilha, se não houver ninguém por perto. Depois... depois irei até à Morte e olharei para o passado.

- Ótimo - disse a Cadela. – Preciso dar um passeio.

 

LEMBRADORA

Lirael encontrava-se de pé com a Cadela no centro de uma pequena ilha, rodeada por árvores e arbustos atrofiados que não conseguiam crescer mais no solo rochoso. O mastro do Aventureiro erguia-se por trás delas, a não mais de trinta passos, mostrando onde estava a segurança se quisessem fugir de algo vindo da Morte.

Preparando-se para entrar naquele domínio frio, Lirael afivelou a espada que as Clayr lhe tinham dado. O peso provocou-lhe uma sensação estranha na anca. O cinto largo de couro apertava-lhe a barriga e a espada, embora mais comprida e mais pesada do que a sua espada de praticar, causava uma sensação algo familiar, muito embora nunca a houvesse visto antes. Teria se lembrado do punho e do botão característicos de arame de prata com uma única pedra verde engastada no bronze.

Lirael segurava as flautas de Pan na mão esquerda, enquanto observava as marcas da Carta que percorriam os tubos de prata, interligando-se com a Magia Livre que espreitava ali. Olhou cada flauta, recordando o que o livro dissera sobre elas. A sua vida podia perfeitamente depender de qual flauta a usar. Proferiu os seus nomes num murmúrio, para os reter na mente e adiar a sua ida concreta à Morte.

- A primeira e menor é Ranna - recitou Lirael, a página relevante d’O Livro da Lembrança e do Esquecimento nítida na sua mente. - Ranna, a Portadora do Sono, levará todos os que a ouvem à sonolência.

- A segunda é Mosrael, a Despertadora. Um dos sinos mais perigosos e continua a sê-lo sob qualquer forma. O seu som é um vaivém que atirará o flautista mais para a Morte, enquanto traz o ouvinte para a Vida.

- A terceira é Kibeth, a Caminhadora. Kibeth confere liberdade de movimento aos Mortos, ou obriga-os a caminhar segundo a vontade do flautista. Mas Kibeth é teimosa e capaz de obrigar o flautista a caminhar para onde ele não quer ir.

- A quarta é Dyrim, a Faladora, ou tom melodioso. Dyrim pode conceder a fala aos mudos que perderam a língua, ou atribuir significado às palavras esquecidas. Dyrim pode também imobilizar uma língua que se move com muita liberdade.

- A quinta é Belgaer, a Pensadora, capaz de restituir o pensamento independente e a memória e todos os padrões do que foi outrora na Vida. Ou, numa mão descuidada, apagá-los. Belgaer também é incômoda, procurando sempre tocar de moto-próprio.

- Em sexto lugar vem Saraneth, também conhecida como a Aprisionadora. Saraneth fala com a voz cava do poder, prendendo os Mortos à vontade do manejador.

Lirael fez uma pausa antes de recitar o nome da sétima e última flauta, a mais comprida, a sua superfície de prata fria e assustadora sob a sua mão.

- Astarael, a Pesarosa - murmurou Lirael. - Bem tocada, Astarael lançará quem a ouve profundamente na Morte. Incluindo o flautista. Não invocar Astarael a menos que tudo o mais esteja perdido.

- Adormentadora, Despertadora, Caminhadora, Faladora, Pensadora, Aprisionadora e Lamuriadora - disse a Cadela, fazendo um intervalo numa forte coçadela da orelha. - No entanto, seriam preferíveis os sinos. Aquelas flautas só servem para as crianças treinarem.

- Schiu - disse Lirael. - Estou me concentrando.

Teve o bom senso de não perguntar à Cadela como é que ela sabia o nome das flautas. O animal impossível lera provavelmente O Livro da Lembrança e do Esquecimento, enquanto Lirael dormia.

Tendo-se preparado mentalmente para usar as flautas de Pan - ou usar apenas algumas delas - Lirael puxou a espada, reparando no jogo das marcas da Carta ao longo da sua lâmina prateada. Havia também uma inscrição, reparou. Virou a lâmina para a luz e leu-a em voz alta.

- ”As Clayr Viram-me, os Construtores da Muralha fizeram-me, os meus inimigos Lembram-se de mim.”

- Uma espada irmã de Aprisionadora - observou a Cadela, farejando-a com interesse. - Não sabia que elas tinham uma. Como se chama?

Lirael virou a lâmina para ver se tinha algo escrito do outro lado, mas quando o fez, a primeira inscrição mudou, as letras brilhando numa nova combinação.

- Nehima - leu Lirael. - O que significa?

- É um nome - disse a Cadela com malícia. Vendo a expressão de Lirael, inclinou a cabeça para um lado e continuou: - Acho que se poderia dizer que significa ”não me esqueça”. Muito embora, por ironia, a própria Nehima há muito que foi esquecida. Sempre é preferível uma espada do que um bloco de pedra, creio. É, sem dúvida, um bem da casa, se alguma vez vi um - acrescentou a Cadela. - Surpreende-me que tenham te dado.

Lirael concordou, incapaz de falar, os seus pensamentos mais uma vez voltando à geleira e às Clayr. Ryelle e Sanar tinham-lhe entregue a espada com desprendimento. Criada pelos próprios Construtores da Muralha, devia ser um dos maiores tesouros que as Clayr possuíam.

Um toque na perna recordou-lhe o assunto em mãos, de modo que afastou uma lágrima incipiente e concentrou todo o seu pensamento, conforme O Livro da Lembrança e do Esquecimento lhe dissera para fazer. Aparentemente, deveria sentir a Morte e depois transportar-se para lá. Era mais fácil nos locais onde tinham morrido, ou estavam enterradas, muitas pessoas, mas teoricamente era possível em qualquer lugar.

Lirael fechou os olhos para se concentrar melhor, sulcos formando-se na sua testa. Conseguia sentir a Morte agora, como uma pressão fria no rosto. Encostou-se, sentindo o seu frio penetrar-lhe nos malares e nos lábios, entranhar-se nos braços estendidos. Era estranho, com o sol ainda quente no pescoço descoberto.

Esfriou ainda mais, cada vez mais, enquanto o frio lhe percorria os pés e as pernas. Sentiu um puxão nos joelhos, um puxão que não era uma das delicadas chamadas de atenção da Cadela. Era como se fosse agarrada por uma corrente, uma corrente forte que queria levá-la e obrigá-la a ir para baixo.

Abriu os olhos. Corria um rio por entre as suas pernas, mas não era o Ratterlin. Era negro e opaco e não havia sinal da ilha, do céu azul ou do sol. A luz era cinzenta, cinzenta e monótona tanto quanto podia ver, até um horizonte completamente plano.

Lirael estremeceu, não só de frio, pois conseguira entrar na Morte. Ouvia uma cascata em algum lugar  ao longe. O Primeiro Portão, calculou, pela descrição no livro.

O rio puxou-a de novo e, sem pensar, acompanhou-o por alguns passos. Voltou a puxar, ainda com mais força, o frio a espalhando-se pelos ossos. Seria fácil deixar que o frio se estendesse a todo o seu corpo, deitar-se e permitir que a corrente a levasse para onde queria...

- Não! - disse com brusquidão, obrigando-se a recuar um passo. O livro alertara-a para esta possibilidade. A força do rio não estava apenas na corrente. Tinha também de resistir à sua compulsão de avançar mais pela Morte, ou de se estender e deixar-se levar. Felizmente, o livro também estava certo em relação a algo mais favorável. Conseguia sentir o caminho de volta para a Vida e instintivamente soube exatamente para onde ir e como voltar ali, o que foi um alívio.

Além do bramido distante do Primeiro Portão, Lirael não conseguia ouvir mais nada movendo-se no rio. Lirael escutou com atenção, os nervos tensos, os músculos preparados para a fuga imediata. Mesmo assim não havia nada, nem sequer uma ondulação. Depois, a sua sensação da Morte agitou-se e perscrutou outra vez o rio rapidamente de cada lado. Por um momento, pareceu-lhe ver algo deslocando-se à superfície, uma linha fina de escuridão debaixo da água, deslocando-se mais no sentido da Morte. Mas depois desapareceu e não conseguiu nem ver nem sentir nada. Passado um minuto, não tinha sequer certeza de que chegara a estar algo ali.

Suspirando, embainhou cuidadosamente a espada, voltou a guardar as flautas de Pan no bolso do colete e retirou o Espelho Negro. Aqui, no Primeiro Recinto da Morte, poderia ver apenas um pedacinho do passado. Para continuar a recuar, teria de se embrenhar mais, para além do Primeiro Portão ou mesmo depois dele. Mas naquele dia planejara recuar apenas cerca de vinte anos.

O estalido que acompanhou a abertura do Espelho pareceu muito mais sonoro, ecoando pelas águas escuras. Lirael estremeceu com o som - depois gritou quando foi seguido por um ruidoso chape por trás dela!

Por reflexo, deu um pulo - avançando mais para a Morte -, mudou o Espelho para a mão esquerda e puxou a espada, tudo antes de saber sequer o que acontecia.

- Sou só eu - disse a Cadela, a cauda batendo na água ao abanar. - Cansei de esperar.

- Como chegou aqui? - murmurou Lirael, embainhando a espada com uma mão trêmula. - Pregou-me um susto de morte!

- Eu a segui - respondeu a Cadela. - É apenas um tipo de passeio diferente.

Já não era a primeira vez que Lirael se interrogava sobre o que a Cadela realmente era e qual a dimensão dos seus poderes. Mas o momento não era para especulações. O Livro da Lembrança e do Esquecimento avisara-a para não ficar muito tempo num qualquer lugar na Morte, porque viriam espreitar coisas. Coisas com as quais não queria se encontrar.

- Quem vai guardar o meu corpo se você está aqui? - perguntou em tom de censura. Se acontecesse algo ao seu corpo na Vida, não teria outra chance senão continuar a seguir o rio, ou tornar-se uma espécie de espírito Morto, tentando eternamente voltar para a Vida, roubando o corpo de outros. Ou tornar-se uma sombra, bebendo o sangue e a Vida para se manter fora da Morte.

- Saberei se alguém se aproximar - afirmou a Cadela, farejando o rio. - Podemos avançar mais?

- Não! - respondeu Lirael. - vou usar o Espelho Negro aqui. Mas você vai já embora! Isto é a Morte, Cadela, não a Geleira!

- É verdade - murmurou a Cadela. Lançou um olhar de súplica a Lirael e acrescentou: - Mas é apenas a beirinha da Morte...

- Vá embora! Já! - ordenou Lirael, apontando. A Cadela perdeu o ar de súplica, mostrou as órbitas em reprovação e retirou-se com a cauda descaída. Um segundo depois, desaparecera - de volta à Vida.

Lirael ignorou-a e abriu o Espelho, segurando próximo do olho direito. ”Concentre-se no Espelho com um olho”, dizia o livro, ”e olhe para a Morte com o outro, menos mal te acontecerá ali.”

Um bom conselho, mas nada prático, pensou Lirael, ao tentar concentrar-se em duas coisas diferentes ao mesmo tempo. Mas, passado um minuto, a superfície opaca do Espelho começou a ficar nítida, a sua escuridão passando. Em vez de olhar o seu reflexo, Lirael verificou que de certa forma estava olhando através do Espelho e não foi o rio frio da Morte que viu do outro lado. Viu luzes girando, luzes que não tardou a perceber que eram realmente a passagem do Sol pelo céu, tão depressa que era uma mancha. O sol andava para trás.

A excitação aumentou nela ao perceber que era o princípio da magia. Agora tinha de pensar no que queria ver. Começou a formar uma imagem da mãe na mente, socorrendo-se mais do desenho a carvão que a tia Kirrith lhe dera há anos do que da sua recordação, que era a memória confusa de uma criança, toda ela sentimentos e imagens de contornos suaves. Mantendo a imagem da mãe na cabeça, falou em voz alta, mergulhando a sua voz nas marcas da Carta que aprendera com o livro, símbolos de poder e autoridade que levariam o Espelho Negro a mostrar-lhe o que ela queria ver.

- A minha mãe eu conheci, um pouco - disse Lirael, as suas palavras soando alto entre o murmúrio do rio. - O meu pai não conheci e gostaria de ver através do véu do tempo. Assim seja.

A passagem rápida de sóis recuando começou a abrandar quando ela falou e Lirael sentiu-se mais atraída para a imagem no Espelho, até um único Sol enchendo toda a sua visão, cegando-a com a sua luz. Depois desapareceu e seguiu-se escuridão.

Lentamente, a escuridão diminuiu e Lirael viu uma sala, estranhamente sobreposta ao rio da Morte, que via através do seu outro olho. Ambas as imagens estavam desfocadas, como se os seus olhos estivessem cheios de lágrimas, mas não estavam. Lirael pestanejou várias vezes, mas a Visão não ficou mais nítida.

Viu uma sala grande - um salão, na verdade - dominado num extremo por uma janela grande, que era uma mancha de cores diferentes em vez de vidro transparente. Lirael sentiu que existia uma espécie de magia na janela, pois as cores e os padrões mudavam, apesar de não conseguir ver com clareza suficiente para distinguir.

Uma mesa comprida, envernizada, de uma madeira clara e lustrosa estendia-se em todo o comprimento do salão. Estava carregada de prata de muitos tipos: candelabros com velas de cera de abelha onde brilhavam chamas amarelas nítidas, saleiros e moinhos de pimenta, molheiras e terrinas e muitos ornamentos que Lirael nunca vira. Um ganso assado, meio trinchado, em uma bandeja, rodeado de travessas com acompanhamentos.

Estavam apenas duas pessoas à mesa, sentadas no outro extremo, pelo que Lirael teve de semicerrar os olhos para vê-las com maior nitidez. Uma, um homem, estava sentada à cabeceira da mesa numa cadeira de espaldar, quase um trono. Apesar da sua camisa branca simples e ausência de jóias, tinha o porte de um homem de posição e poder. Lirael carregou o cenho e mudou um pouco a posição do Espelho Negro, para ver se conseguia tornar a Visão mais nítida. Por breves instantes, estenderam-se arco-íris pela sala, mas nada mais pareceu mudar.

Existiam fórmulas que se usava para apurar a visão, mas Lirael não queria experimentá-las por enquanto, não fossem fazer com que a Visão desaparecesse por completo. Preferiu concentrar-se na outra pessoa. Conseguia vê-la com mais clareza do que ao homem.

Era a sua mãe, Arielle, irmã mais nova de Kirrith. Parecia bela à luz suave das velas, o seu cabelo louro comprido descendo numa cascata pela parte de trás do vestido, uma criação elegante de azul-gelo adornada com estrelas douradas. Era bastante decotado à frente e atrás e usava um colar de safiras e brilhantes.

Enquanto Lirael se concentrava, a visão do passado tornou-se mais nítida à volta das duas pessoas, mas ficou ainda mais turva nos outros lugares, como se toda a cor e luz se reunissem à volta do seu ponto de focagem. Ao mesmo tempo, a sua visão do rio da Morte toldou-se. Os sons começaram a chegar-lhe, como se escutasse duas pessoas conversando enquanto caminhavam na direção dela. Falavam à maneira palaciana, que raramente era usada na geleira. Era óbvio que não se conheciam muito bem.

- Ouvi muitas coisas estranhas debaixo deste teto, Senhora - dizia o homem ao colocar mais vinho, fazendo sinal a um criado-enviado que fizera menção de servi-lo, para que se retirasse. - Mas nenhuma tão estranha quanto esta.

- Não foi essa a minha intenção - respondeu a mulher, a sua voz estranhamente familiar aos ouvidos de Lirael. Com certeza que não se recordava? Tinha apenas cinco anos quando Arielle a abandonara. Depois  percebeu que era a voz de Kirrith que ela lhe fazia lembrar. Apesar de ser mais doce do que a de Kirrith alguma vez fora.

- E nenhuma das suas Irmãs de Visão viu o que deseja de mim? - perguntou o homem. - Nenhuma da Vigia de Nove Dias?

- Nenhuma - disse Arielle, baixando a cabeça, um rubor espalhando-se pelo pescoço. Lirael observou espantada. A sua própria mãe embaraçada! Mas depois, a Arielle que via aqui não era muito mais velha do que ela própria. Parecia muito jovem.

O homem dava a impressão de estar pensando em moldes idênticos, pois disse:

- A minha mulher morreu há dezoito anos, mas tenho uma filha crescida que seria quase da sua idade. Não estou familiarizado com as... as...

- Fantasias de mulheres jovens? Ou os excessos da juventude? - interrompeu Arielle, voltando a olhar para ele, o seu rosto agora zangado. - Tenho vinte e cinco anos, senhor, e não sou uma virgenzinha sonhando com o seu companheiro. Sou uma Filha das Clayr e nada a não ser a minha Visão me teria feito vir aqui para me deitar com um homem que nunca vi e que tem idade para ser meu pai!

O homem pousou o copo e sorriu com ar triste, mas os seus olhos estavam cansados e não se alteraram com o sorriso.

- Peço perdão, Senhora. Na verdade, ouvi o som da profecia quando falou comigo, mas afastei-a da minha mente. Tenho de partir daqui amanhã, para enfrentar muitos perigos. Não tenho tempo para pensar no amor e revelei-me um pai menos do que perfeito. Mesmo que não fosse partir amanhã e pudesse ficar aqui com você, qualquer filho nascido de vós provavelmente veria pouco o pai.

- Não é uma questão de amor - disse Arielle baixinho, olhando-o nos olhos. - E uma única noite pode gerar uma criança bem como um ano de lutas. E assim será, pois eu a vi. E quanto à falta de um pai, receio que ela não vá ter nenhum dos pais por muito tempo.

- Fala com muita certeza - afirmou o homem. - No entanto, as Clayr vêem com frequência muitos fios, que o futuro pode tecer desta ou daquela forma.

- Vejo aqui apenas um fio, senhor - disse Arielle, estendendo-se sobre a mesa para tomar a mão pálida do homem entre os seus dedos trigueiros. - Estou aqui, chamada pelas Visões concedidas pelo meu Sangue, tal como você governado pelas suas. Assim terá de ser, primo. Mas talvez possamos pelo menos desfrutar a nossa única noite, esquecendo razões mais altas. Vamos nos recolher.

O homem hesitou, os dedos abertos. Depois, soltou uma gargalhada e levou a mão de Arielle aos lábios para um beijo delicado.

- Teremos a nossa noite - disse ele, levantando-se da cadeira. - Não sei o que significa, ou que futuro asseguraremo