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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A SABEDORIA DA NOITE - P.2 / Adam Williams
A SABEDORIA DA NOITE - P.2 / Adam Williams

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O Palácio dos Prazeres Celestiais

A SABEDORIA DA NOITE

2º Volume / 2º Parte

 

QUANDO CHOVEU ALGUNS QUISERAM VOLTAR PARA AS SUAS QUINTAS - MAS O COMANDANTE EXECUTOU AQUELES QUE TENTARAM PARTIR

 

A primeira reacção de Helen foi de choque e de recusa quanto ao que vira. Depois, teve uma crise de histeria, debatendo-se furiosamente nos braços de Henry, enquanto ele tentava segurá-la. Queria correr, fugir daquele quarto claustrofóbico, escapar àquelas tapeçarias pesadas que a sufocavam e à memória do que testemunhara naquela tarde.

 

- Viste-a? - gritava. - A cabeça dele! A cabeça dele! O Tom está morto! Sou má, má! Quero morrer! Quero morrer!

 

Henry teve de lhe arrancar das mãos a sua navalha de barbear, puxá-la quando ela começou a bater violentamente com a cabeça contra o espelho dourado e agarrar-lhe nas mãos quando tentou arranhar o próprio rosto dele. Deitou-a sobre a cama, onde ela continuou a debater-se, com uma expressão apavorada nos olhos e as faces molhadas pelas lágrimas e a saliva. Beijou-lhe a testa húmida, sussurrando-lhe:

 

- Temos de continuar a viver. É o mínimo que podemos fazer por eles. Temos de viver. Não compreendes isso, minha querida? Não compreendes?

 

Mas Helen não reagiu nem às suas palavras nem às suas carícias. Quando o seu corpo cedeu ao cansaço e as violentas convulsões cessaram, o espírito de Helen continuava preso ao pesadelo. Deixou-se ficar muito hirta, nos braços de Henry, com os olhos fixos no horror das cabeças e troncos separados e nas poças de sangue na areia. Desesperado, Henry esbofeteou-a, para tentar despertá-la e trazê-la de volta à realidade, e foi mediante um enorme esforço de concentração que Helen lhe apertou o braço e murmurou:

 

- A Laetitia era uma boa mãe. Tirou os óculos das bebés para que elas não vissem... - Riu-se nervosamente, um riso tresloucado, arrepiante, como o grito de um chacal. – Mas eles cortaram mesmo assim a cabeça dos bebés. Como quem corta rosas! Uma, duas, três...

 

As suas palavras tornaram-se gemidos incoerentes, enquanto se balançava convulsivamente de um lado para o outro.

 

Henry dirigiu-se para um dos móveis e abriu as gavetas até encontrar o que procurava. Tirou um cachimbo comprido, uma vela e um pequeno pacote que continha uma pasta preta. Enrolou-a até formar uma bola, colocou-a no receptáculo do cachimbo e levou-a a Helen, que sentiu o odor pungente e se sentiu mais calma. Tragou avidamente o primeiro cachimbo. Henry enrolou outra bola, que ela também fumou.

 

- Obrigada, obrigada, meu querido - murmurou, antes de adormecer.

 

Henry ficou sentado durante muito tempo, com a cabeça enfiada entre as mãos.

 

Mais tarde, Helen acordou, estendeu os braços para ele e fizeram amor.

 

- Fica comigo, fica comigo - sussurrou-lhe ela, depois de ele ter atingido o orgasmo. - Não voltes a deixar-me...

 

Ele permaneceu dentro dela, abraçando-a, mexendo-se com ela, viajando com ela durante a sombria e interminável noite.

 

Na manhã seguinte, Helen despertou de um sono langoroso. Tentou retê-lo o mais que pôde até as imagens se tornarem turvas e desaparecerem da sua mente. Languidamente, estendeu a mão para Henry, mas sentiu apenas o lençol.

 

- Querido? - chamou, abrindo os olhos.

 

Henry, já vestido, estava sentado aos pés da cama, com os olhos postos no chão. Ergueu a cabeça.

 

- Como te sentes? - perguntou, com voz algo áspera.

 

As imagens do dia anterior acorreram ao espírito de Helen, enregelando a sensação doce e tépida que se espalhara pelos seus membros quando acordara. Reviu em particular, com grande nitidez, Tom de joelhos na areia, assobiando com uma expressão de desafio. As lágrimas afloraram-lhe aos olhos, mas, para sua surpresa, conseguiu recordar tudo aquilo sem a angústia torturante da véspera. Era como se se lembrasse de um cortejo que a afectara profundamente mas que passara, deixando para trás não dor nem confusão, mas apenas uma grande sensação de perda.

 

- Sinto-me triste - respondeu -, mas também me lembro do que me disseste: temos de continuar a viver.

 

- Exactamente. - Havia na voz de Henry uma nota de dor, quase amarga. - Com a ajuda de Deus, temos de viver como pudermos.

 

Helen sentou-se na cama, deixando cair os lençóis que a tapavam.

 

- Henry?

 

Viu os olhos dele avermelhados, injectados de sangue, no rosto com a barba por fazer; olhos que a avaliavam, examinando friamente as madeixas compridas e ruivas caídas sobre o peito rosado, os braços salpicados de sardas, o ventre ligeiramente protuberante. Começou a sentir-se nervosa e constrangida.

- O que se passa, Henry?

- Meu Deus, como és bela. Não sei se conseguirei ir até ao fim...

 

- Por amor de Deus, Henry, o que se passa? Ir até ao fim do quê?

 

Inconscientemente, puxara os lençóis para cima.

 

- É melhor dizer-to já - disse Henry. - Tive de negociar as vossas vidas. O mandarim exigiu um determinado préço. E provavelmente vai exigir o pagamento hoje.

 

Helen tentou controlar uma crescente ansiedade. - Tem alguma coisa a ver com o negócio secreto que discutiram aqui?

 

- Em parte. Estou vivo porque ele precisa de mim, mas penso que ele foi sincero ao querer salvar também a vida do doutor. Considera-o como um parceiro de debates filosóficos. Como um amigo. Não que isso fosse motivo suficiente para que o mandarim o deixasse viver. A sua mente tortuosa de oriental é incapaz de um acto de altruísmo. Para te salvar a ti e aos Airton tive de negociar. Na realidade, minha querida, o pagamento és tu - acrescentou, com vivo azedume.

 

Helen sentiu de súbito uma grande calma invadi-la, a parj de um calafrio. Era como se algo indefinido se tivesse tornado; de repente claro, ou como se algo que receava secretamente se tivesse concretizado. Sem saber porquê, lembrou-se de quando infringira uma das regras da escola onde andara. Ela e uma colega foram até à cozinha, certa noite, e roubaram um empadão. Durante dois dias, nada aconteceu. Então, na tarde do terceiro dia, foi chamada ao gabinete da directora e a infracção posta a descoberto. A primeira sensação foi de alívio pelo fim da expectativa. Os dois dias que passara com Henry tinham sido como que fora do tempo. Convencera-se mesmo de que ele a amava realmente. Até às execuções da véspera, fora feliz, inacreditavelmente feliz - embora sabendo desde o princípio que não merecia tamanha felicidade, depois de todo o mal que causara e de todos os erros que cometera, e que tudo aquilo nunca poderia durar. De certa forma, até era normal que agora Henry, o seu falso ídolo, se revelasse o instrumento do castigo que a vida lhe reservava.

 

- E que devo eu fazer, Henry?

 

- Foi a única coisa que ele aceitou. Tentei tudo. Supliquei-lhe, mas ele só aceitou uma única condição.

 

- E qual é essa condição? Acho que sei o que é, mas gostaria de ouvi-la da tua boca. Da boca do meu amante acrescentou em tom doce.

 

Henry suspirou.

 

- Ele viu-te uma vez do seu palanquim e sentiu-se atraído pelo teu cabelo ruivo.

 

Helen já esperava isto, mas apesar de tudo foi um choque. Sentiu um arrepio correr-lhe nas veias e as têmporas latejarem.

 

- Oh, meu Deus, Henry, que foi que fizeste? - murmurou.

 

- Salvei a tua vida e a dos Airton. Da única maneira que pude.

 

- Vendendo-me ao harém do mandarim? Foi isso que fizeste? Passar o resto da vida como uma concubina oriental?

 

- Não. Só tens de passar uma hora com ele. Mais nada. A mãe Liu disse que ele viria hoje.

 

- Só uma hora - repetiu Helen. - Mais nada...

 

- Pensei que, com o ópio...

 

- Talvez eu não reparasse no que me acontecia. Tanta delicadeza, Henry. Será... o quê? Nada mais do que um sonho desagradável?

 

- Sim, algo parecido.

 

- Suponho que não tenho escolha?

 

- Não, se pretendes que tu e os Airton vivam.

 

- Compreendo - replicou, uma risada seca. Sendo assim, cumprirei uma espécie de dever sagrado. Achas que as freiras da escola conventual onde andei ficariam orgulhosas do meu martírio? Não é que ainda tenha qualquer virtude a sacrificar. Tu já te encarregaste disso, não foi, Henry? No meu caso, que preço têm a virtude e a honra? Não deves ter sentido grandes escrúpulos em fechar o negócio, dadas as circunstâncias... Só tenho de te dar os parabéns.

 

- Não existe pior sorte do que a morte, Helen Francês. O que importa é a vida, e não essa maldita sensibilidade burguesa. Julgas que não teria tentado outra coisa, se me tivesse sido possível? Meu Deus, Helen! - exclamou Henry. - Que podia eu fazer? Era a única maneira de salvar a tua vida. Terias estado naquela praça, serias decapitada como os outros, se eu não aceitasse. Terias morrido, assim como o Airton, a Nellie, a Jenny e o George. Ao menos, com este pacto, estás viva.

 

- Oh, sim, temos de continuar a viver. É a tua grande filosofia, não é verdade?

 

- Escuta. Provavelmente, o mandarim nem sequer te tocará. É um homem velho, que quer provar o seu ponto de vista no debate filosófico que mantém com o doutor. Tudo gira em volta disso. Discutem acerca do pragmatismo. Ele pensa que o médico concordou em prostituir-te para salvar as nossas vidas, o que confirma o seu ponto de vista, segundo o qual todas as pessoas têm um preço. E nós continuamos vivos.

 

- Que estás a querer insinuar? Que o doutor Airton também está metido nisto?

 

- Claro que não. Ele não sabe de nada. Mas o mandarim pensa que sim. Que diferença faz? Estás viva, minha querida, e só isso importa. Estás viva, viva. - Meneou a cabeça e cerrou os punhos. - Eu não podia perder-te. És... és para mim a própria vida, agora. Para te salvar, faria o que fosse preciso, diria qualquer coisa, mentiria, enganaria, mataria, faria um pacto com o Diabo. Esta foi a única maneira que tive para te salvar. Oh, Deus...

 

E voltou a enfiar a cabeça entre as mãos.

 

- Sabes, Henry - disse Helen num tom de voz glacial -, isso é a coisa mais parecida com uma declaração de amor que já ouvi vindo de ti. O que é irónico, uma vez que estás prestes a prostituir-me com um selvagem... Tenho pena de ti.

 

Henry levantou-se, cabisbaixo. Começou a andar de um lado para o outro, mas depois de alguns passos voltou-se para a encarar. A agonia que se lhe espelhara no rosto enquanto falava fora substituída por uma calma fria e desdenhosa; recuperara o seu habitual sorriso sardónico, e quando falou foi com a voz arrastada de sempre.

 

- Tens todos os motivos para me odiar pelo que te vou fazer passar, mas desde que sejas suficientemente corajosa para o enfrentar, ficarei contente. Depois podes decidir que não queres voltar a ver-me, que eu ficarei contente nà mesma. A vida sem ti será difícil, mas hei-de conseguir. Ou talvez não. Seja como for, pouco me importa. Só valho pela próxima aposta que consiga fazer. Foi a vida que escolhi. Quer ganhe quer perca, é-me indiferente. Mas o que te acontecer, isso sim, já é importante. algo que nenhuma outra conseguiu. Preocupo-me verdadeiramente contigo, o que é espantoso. Achava-me acima disso.

 

”Se julgasse que o mandarim ia magoar-te, já o tinha morto. Mas ele não passa de um velho patético que te fará passar uma meia-hora desagradável. Talvez te acaricie. Talvez tente penetrar-te. Mas podem acontecer coisas piores a uma rapariga. E se ele o fizer? A tua virtude não se encontra entre as tuas pernas, mas na tua alma, Helen, nesse grande coração que tens. Na coragem com a qual fazes frente às dificuldades da vida. No teu brilho e no teu sentido de humor. No teu espírito livre, que ilumina a vida de todos aqueles que te rodeiam. Tudo o que me faz amar-te. O mandarim jamais poderá alcançar isso em ti. Não conseguirá sequer aproximar-se do teu verdadeiro eu.

 

”Fuma algum ópio se achas que é preciso. O cachimbo está ali em cima da mesa. Se és tão forte como julgo, algumas baforadas não voltarão a tornar-te viciada, mas não abuses. Já me sinto culpado por te ter iniciado na maldita droga. Prepara-te como entenderes para enfrentar esta experiência, mas enfrenta-a. Salvarás a única vida que é preciosa para mim. Agora, se me dás licença... Vou até ao corredor para fumar um charuto.

 

E saiu, batendo com a porta.

 

Helen vestiu-se lentamente e sentou-se no banco que havia ao lado da mesa. Lá estava o cachimbo, cujo contorno se reflectia na superfície da mesa de mogno polido. Pegou-lhe e levou-o aos lábios, saboreando a fragrância que ficara da noite anterior. Fechou os olhos; a sua mão aproximou-se do pacote de pasta de ópio, os seus dedos agarraram um bocado da substância negra que parecia melaço e começaram o movimento familiar de a manusear até formar uma bola. Chamou a si a força suficiente para se interromper. Voltou a abrir os olhos e assim ficou durante algum tempo, o cachimbo numa mão, a pasta negra na outra, absorta em pensamentos. Suspirou, enquanto uma lágrima lhe escorria pela face. Colocou o cachimbo sobre a mesa e voltou a guardar a bola no pacote. Levantou-se com lassidão, arrumou tudo na gaveta, saiu para o corredor ao encontro de Henry. Nenhum dos dois proferiu uma só palavra. Henry fumava. Ela colocou o braço em volta da cintura dele e apoiou a cabeça contra o seu peito. Ao fim de algum tempo, também ele passou o braço em volta do ombro dela.

 

Parecia não haver mais nada a fazer senão esperar.

 

Nesse mesmo instante, também o mandarim contemplava um cachimbo de ópio. Raramente fumava fora de casa, mas depois de meia-hora a falar com o Homem de Ferro Wang, sentia necessidade de se acalmar. Esperou pacientemente, enquanto Fan Yimei lhe preparava o cachimbo, observando com prazer a sua silhueta, ajoelhada no tapete, a amolecer a pasta.

 

Estava sentado, ou melhor, reclinado, numa espreguiçadeira, no confortável pavilhão do major Lin, no Palácio dos Prazeres Celestiais. De tempos a tempos, usava aquele pavilhão para os seus encontros não oficiais. Nunca autorizara o Homem de Ferro Wang a visitá-lo oficialmente no yamen; e ele, enquanto mandarim, não podia encontrar-se fosse com quem fosse numa loja de bolinhos de massa. Assim, aquele pavilhão constituía uma prática alternativa.

 

O Homem de Ferro Wang revelara-se ordinário, como de costume, arrogante, ameaçador. Os seus pequenos olhos de porco haviam sondado insolentemente o rosto do mandarim, tão perto que este pudera sentir o hálito a cheirar a alho.

 

- Enganou-me, Irmão Liu! - sibilara. - Não me deu todos os cristãos, pois não?

 

- Dei-lhe todos os que pudemos encontrar - replicara o mandarim num tom jovial, embora sentisse a pele das têmporas contrair-se de cólera. - Quinze cabeças não chegaram para saciar o seu apetite?

 

- Os meus homens dizem-me que havia mais. Um médico, a mulher e os filhos. Porque não foram executados na praça? Onde estão?

 

- Major Lin! - exclamou o mandarim, virando-se para o jovem oficial. - Porque é que o daifu e a família não estavam no local da execução com os outros?

 

- Porque não os encontrámos na missão. As minhas ordens eram para trazer apenas os cristãos que lá estavam.

 

- Não está a dizer que alguém permitiu que o médico e a família fugissem? - exclamara o mandarim, num tom de voz incrédulo. - Com tantos soldados e centenas de Boxers cercando a casa? Esses cristãos devem realmente possuir poderes mágicos, se são capazes de desaparecer assim, sem mais nem menos! Conseguirem escapar a tantos soldados, Homem de Ferro, e aos deuses que vos ajudam é verdadeiramente espantoso!

 

O Homem de Ferro limitara-se a rosnar, estendendo a sua taça a Fan Yimei, exigindo mais vinho.

 

- Que raio de jogo está você a jogar, Irmão Liu? Quer realmente jogar comigo?

 

- Isso não é uma ameaça, pois não?

 

O Homem de Ferro Wang lançara-lhe um olhar penetrante, por baixo das sobrancelhas pretas.

 

- E o outro demónio estrangeiro? Aquele que estava a interrogar?

 

- O Ma Na Si? Morreu.

 

- Foi o que ouvi dizer. Antes de morrer, revelou-lhe onde estão escondidas as espingardas?

 

- Infelizmente, não. Não abriu a boca, mesmo sob tortura. Devo estar a perder o jeito...

 

- Está de novo a gozar comigo, irmão? - perguntara o Homem de Ferro, sorrindo.

 

Levantou-se, com uma extraordinária agilidade para um homem com a sua corpulência. Como por magia, o seu grande machado apareceu-lhe nas mãos; desferiu-o com força sobre um dos bancos de laca, cortando a almofada e a madeira em dois, mandando ao chão o tabuleiro de chá.

 

- Pareceu-me sentir o cheiro de uma ratazana por baixo do banco - comentou, por cima do silêncio que se seguiu.

 

- Major Lin - disse então o mandarim. - Escolte o nosso hóspede até à saída, ao bordel ou onde ele desejar ir. Ordene depois ao seu sargento que vá com os homens dele revistar a cidade e o campo até encontrarem os cristãos que faltam. Aqui o nosso amigo quer as cabeças deles para a sua colecção e não pretendemos desiludi-lo. É tudo, Homem de Ferro? Está satisfeito?

 

- Por agora - respondera o bandido. - Mas não julgue que não o mantenho debaixo de olho, irmão.

 

- Tal como eu o mantenho debaixo de olho - replicara o mandarim. - Com o maior respeito, claro.

 

E, felizmente, fora o fim da entrevista. O Homem de Ferro Wang e o major Lin saíram. O mandarim tirava agora o cachimbo das mãos de Fan Yimei e, antes de ela o acender, tocou-lhe no queixo com a mão anafada, examinando o rosto da rapariga.

 

- És muito bonita - disse, por fim. - Ao contrário do teu pai, que era um homem feio. Mas tens os mesmos olhos inteligentes que ele.

 

Fan Yimei estacou, sentindo as faces em fogo. Uma recordação nítida do pai, sorrindo-lhe enquanto escrevia no seu estúdio, veio-lhe à mente.

 

- O senhor... O senhor conheceu o meu pai? - perguntou, com voz algo hesitante.

 

- Sim, conheci-o muito bem - respondeu o mandarim, sorrindo perante a confusão da rapariga. - A nossa amizade durou mesmo muitos anos. O caro Jinghua. Recordo-o tão nitidamente agora como no dia em que o vi pela primeira vez, no do Zheng Guofan, há quarenta anos.

 

Fan Yimei teve de agarrar um canto do tapete e apertá-lo com força para não tremer.

 

- Ele nunca te falou de mim? Não me admira. O meu amigo Jinghua sempre foi um pouco obstinado. Outros ter-se-iam gabado da sua amizade com um alto funcionário do Estado, mas não o teu pai. Ou talvez não quisesse que lhe recordassem os já longínquos anos de serviço militar. uma época terrível.

 

Falava com voz baixa, em tom meditativo, como se contasse uma história de uma outra era.

 

- Ele nunca te falou da grande rebelião? Nem da sua carreira de soldado profissional, pois não? Bom, não foi uma carreira especialmente brilhante... Ele sempre foi mais um poeta do que um guerreiro. Nunca se sentiu à vontade com todo o sangue que derramámos. Acreditava... Não interessa. Como disse, foi uma época terrível. Mas os exércitos precisam dos seus poetas, de homens que incutam coragem através de palavras bonitas, que nos façam sonhar com as nossas casas, quando estamos em campanha. Tens fama de ser uma excelente instrumentista. É um dos teus dons. Provavelmente, herdaste-o do Jinghua. Foram muitas as noites em que, acocorados em volta da fogueira, sob a chuva, depois de uma derrota, o alaúde do teu pai nos reconfortava os corações e nos fazia esquecer os nossos medos. Não voltei a vê-lo durante anos, e só muito depois de ter chegado a Shishan é que descobri que ele também vivia aqui. Encontrámo-nos umas duas vezes. O teu pai era um homem orgulhoso. Não tinha feitio para rastejar perante os poderosos mendigando favores... Mas uma noite... Deve ter sido um ano antes da peste... Uma noite, bebemos vinho juntos. Os anos apagaram-se e voltámos a ser os Bravos do Hunan. Foi um grande serão.

 

O mandarim sorriu ante a recordação.

 

- Sim, foi um excelente serão. Nessa noite, ele pediu-me um favor, rindo-se, pois não pensava que viesse a ser preciso. Tu estavas lá, mas se calhar não te lembras. Uma menina muito estudiosa, no quarto ao lado, executando escalas intermináveis no seu chin. Creio que sabes que o teu pai tinha muito orgulho em ti. Para ele, eras como o filho que ele nunca tivera. Ficámos durante algum tempo a ouvir-te tocar. Já com aquela idade tocavas muito bem. Mais tarde, ele perguntou-me, quando já estávamos ambos alegremente bêbedos...! Muito sentimentais... Corriam-nos as lágrimas pelo rosto, sei bem que nos ríssemos perante a grande improbabilidade de o teu pai me pedir um favor.... Ele perguntou-me: ”Se me acontecer alguma coisa, cuidarás dela?”

 

Fan Yimei ouvia aquelas palavras como se soassem ao longe. No seu espírito, via o rosto do pai, sorridente, embriagado afectuoso, cómico. O mandarim estava enganado. Ela lembrava-se daquela noite. Fora uma das raras ocasiões em que o pai bebera vinho. Depois, ficara doente durante dois dias. Ela deu-lhe uma descompostura, ao seu jeito infantil, pelas más companhias, mas nunca soube quem era o homem que estivera lá em casa.

 

- Como é evidente, eu disse que sim - continuou o mandarim. - Brindámos à minha promessa, à antiga maneira do Hunan. Depois disso, não voltei a vê-lo. A peste chegou à cidade. Eu estava muito ocupado. Sim, soube que o teu pai morrera, mas, nessa altura, tantas pessoas morreram... Perdoa-me. Vivíamos um dia de cada vez. Quando pude, fui procurar-te. Primeiro, ouvi dizer que também tinhas morrido. Mais uma vítima sem nome num túmulo sem nome. Fiz oferendas no templo por ti e pelo teu pai. E a vida continuou. Habituamo-nos à tristeza e à perda...

 

Fez uma pausa e as suas sobrancelhas franziram-se, como se recordasse algo doloroso. Fan Yimei fitou-o, com a boca entreaberta. Sentia a cabeça a andar à roda com os pensamentos que a invadiam. O mandarim suspirou, prosseguindo, com a mesma voz monocórdica, o monólogo:

 

- Anos mais tarde, tive um dos teus tios à minha frente, no tribunal do yamen. Na verdade, não foi no tribunal em si, mas ao lado, na câmara das confissões, onde se descobre sempre a verdade. Era um homem mau, um banqueiro corrupto. Roubara a própria família, incluindo o teu pai, bem como muitas pessoas que tinham confiado nele. Confessou-me que te tinha mandado para aqui, que vendera a filha do próprio irmão, a filha do meu amigo, a um bordel. Talvez não te sirva de grande consolo, mas teve um fim cruel. Ao menos, isso estava ao meu alcance. No entanto, uma morte merecida não podia, por si só, reparar o mal que te fora feito... Vou fumar o cachimbo, agora.

 

Fan Yimei acendeu a vela e o mandarim inalou o pesado fumo.

 

- Obrigado.

 

Fechou os olhos e manteve-se em silêncio; a seus pés, Fan Yimei continuou sentada, de cabeça baixa.

 

- Deveria eu ter-te comprado ao bordel? - continuou.

- Teria sido fácil, mesmo com os preços exorbitantes pedidos pela Mãe Liu. Mas que seria de ti, então? Era impossível casar-te. Poderia ter-te mantido nos meus aposentos, fazer de ti uma das minhas concubinas, de nome, pelo menos, mas as minhas mulheres teriam transformado a tua vida num inferno. Igual àquele que vives aqui ou talvez até pior. Pensei em enviar-te para um templo, mas poderia alguém como tu viver a meia vida de uma freira? Reflecti, reflecti, e não via outro futuro para ti que não fosse o de mera peça de decoração, um cuco indesejado no ninho de outro pássaro. Estabeleci-te então como amante particular do major Lin. Parecia-me uma boa ideia. Não é mau homem, se bem que tenha os seus problemas. De forma pragmática... É assim que tento ser, porque a vida é sempre um equilíbrio entre uma coisa e outra. Pensei que poderiam fazer bem um ao outro. Ao menos, o teu estatuto de amante exclusiva oferece-te uma certa protecção. E creio que o Lin gosta mesmo de ti, ao seu jeito. Perdoa-me. Não foi uma solução perfeita.

 

Fan Yimei nada disse. Não havia nada para dizer.

 

- No entanto, conseguiste surpreender-me. Possuis muitas das virtudes do meu amigo: coragem, compaixão, paciência...

 

Sim, tenho-te observado ao longo destes anos, e revejo o pai na filha. Também tens o talento do Jinghua para ser imprevisível. Foste tu que convenceste o Ma Na Si a salvar aquele infeliz rapaz americano, não é verdade? Colocaste-me numa situação embaraçosa, na altura. Poderia ter havido repercussões... Teria havido, se a situação deste país não tivesse mudado tão drasticamente. No entanto, fiquei encantado e orgulhoso por teres praticado um acto tão nobre. E contente, por o Ma Na Si te ter colocado sob a sua protecção. Gostaria que tivesses rugido com ele. Não há lugar para ti na nossa sociedade, mas poderia haver na dele. O problema é que ele gosta de outra; pelo menos, é o que ele pensa.

 

- Fala do Ma Na Si como se ele ainda estivesse vivo murmurou Fan Yimei.

 

- E está vivo. Vais encontrá-lo daqui a nada. É uma das razões por que te fiz hoje tantas revelações. Não há grande coisa pela qual me devas estar grata, mas rui amigo do teu pai, e é em seu nome que vou pedir-te um favor.

 

- Não compreendo, Da Ren.

 

O mandarim já não estava reclinado no sofá. Sentara-se, com o tronco debruçado para a frente, fitando atentamente os olhos perturbados de Fan Yimei.

 

- Então, ouve-me: uma pessoa inteligente como tu, que sobreviveu durante tantos anos num sítio como este, deve estar habituada à política. Acredita em mim, a política de Estado não é muito diferente da de um bordel. A tua Mãe Liu não é menos imperatriz, no seu pequeno mundo, do que a velha Buda, em Pequim. Toda e qualquer vida é uma luta pelo poder, porque com o poder se compra a sobrevivência. Moderamos essa luta através de compromissos e empenhamo-nos em equilibrar as forças que competem entre si. Tentamos impedir os conflitos abertos, que são sempre perigosos. Mas chega inevitavelmente uma altura em que as possibilidades de compromisso se esgotam. É nessa situação que me encontro actualmente.

 

”Durante as últimas semanas, fui forçado a fazer um acordo com esse repugnante bandido que viste sair daqui ainda há pouco. A razão é simples. Actualmente, ele tem mais poder do que eu, tanto em homens como em armas. Deves também ter percebido, pela conversa que tive com o Homem de Ferro Wang, que a nossa relação está a chegar a uma fase crítica. Vou ser obrigado a bater em retirada, para poder voltar, mais tarde, com força suficiente para recuperar o meu domínio na cidade. Pouco importa como penso alcançar tal objectivo. Tudo o que precisas de saber é que o Ma Na Si e o major Lin são essenciais para o meu plano. Não posso dar-me ao luxo de permitir mais atritos entre eles.

 

”Vamos deixar Shishan em breve. Tu irás connosco. Não permitirei que fiques à mercê da vingança dessa abominável mulher e do seu filho. Após alguma persuasão da minha parte, o major Lin aceitou levar-te com ele. A Mãe Liu não poderá impedi-lo, mas, para que tudo isto resulte, tens de ser leal ao major.

 

- Sou sua serva - murmurou Fan Yimei. - Sou sua escrava.

 

- Já o deixaste uma vez, para fugir com outro homem. E esse homem vai agora acompanhar-nos na viagem.

 

- Não farei nada que seja inconveniente.

 

- Não são as conveniências que me preocupam, mas saber se serás ou não suficientemente forte para controlar as tuas emoções. O Ma Na Si far-se-á acompanhar pela tua rival, a rapariga ruiva. Mostrar-se-á, sem dúvida, muito apaixonado por ela. que sejas forte para não revelares ciúmes. Aliás, quero exactamente o contrário: quero que sejas amiga dela.

 

- Falou em sobrevivência, Da Ren - replicou docemente Fan Yimei. - No nosso mundo, no meu mundo, usamos uma expressão para as mulheres que se encontram na minha situação. Chamam-nos ”irmãs de pesar”. Se sobrevivi durante tanto tempo foi porque aprendi a nunca ter esperança. Não deve temer que eu o envergonhe nem que deixe envergonhado o major Lin.

 

O mandarim tocou-lhe ao de leve na face e afagou-lhe com a ponta do dedo as delicadas sobrancelhas.

 

- Chegará o dia em que terás direito a nutrir esperança - disse, por fim. - Aprendi que existe uma área sobre a qual nenhum poder terrestre manda: o coração humano. Apenas te peço um interlúdio, nada mais. Mantém o teu papel, durante mais algum tempo. Depois, serás livre para roubar o Ma Na Si à sua mulher-raposa, se assim o quiseres.

 

- É muito bom para comigo, Da Ren. - Não... Posso ser muitas coisas, mas a bondade é algo a que nunca me atreverei a aspirar.

 

Nesse momento, o major Lin entrou no quarto. - Fiz o que me ordenou, Da Ren. As minhas tropas estão neste momento a vasculhar inutilmente o campo.

 

- Obrigado. Temos de fazer a vontade a esses bandidos durante mais algum tempo. a sua encantadora companheira entreteve-me. Tem muita sorte, major. Ela estava a dizer-me o quanto o admira. E rejeitou firmemente os avanços de um velho feio.

 

O major inclinou-se secamente, com uma expressão hostil no rosto.

 

- Lembra-me mais uma vez quanto lhe sou grato, Da Ren.

 

- Merece tudo o que lhe dei e muito mais. Já disse àquela megera que a Fan Yimei vai instalar-se nos apartamentos privados, juntamente com os estrangeiros? Ela deve compreender que precisamos de alguém de confiança para nos pôr a par das actividades deles.

 

- Sim, disse-lhe, Da Ren, mas ela pediu mais dinheiro.

 

- Ela quer sempre dinheiro, major. É por isso que podemos contar com ela. Não devia ter fumado ópio - acrescentou, - Deixa-me letárgico. Tenho de concluir agora o meu pacto com os estrangeiros. A mulher está pronta a levar-nos até eles?

 

- Ela e o filho.

 

- O capitão dos Boxers? Mas que honra. Não deixa de ser espantoso ver como é fácil comprar as pessoas mais inverossímeis. É divertido saber que os nossos demónios estrangeiros são neste momento protegidos pelos Punhos Harmoniosos. Obrigado pela tua hospitalidade, Fan Yimei. Deves com certeza querer embalar algumas coisas, antes de te mudares para os outros aposentos.

 

Henry e Helen ainda estavam no corredor quando o mandarim, o major Lin, Fan Yimei e Ren Ren chegaram ao topo da escada. O mandarim estava envolto numa grande capa escura com capuz, presumivelmente para não ser reconhecido, se deparasse com algum dos homens do Homem de Ferro Wang, nos andares inferiores; mas tanto Henry como Helen o reconheceram imediatamente pelo seu andar confiante. Parou ao vê-los, saudando-os com uma leve inclinação da cabeça encapuçada. Mãe Liu esperava-o à porta do seu quarto. Fez uma vénia, com ar obsequioso, convidando-o a entrar e a refrescar-se com uma chávena de chá. Ele baixou a cabeça, em sinal de anuência, e entrou, seguido pelos outros. A porta fechou-se atrás deles e o corredor voltou a mergulhar em silêncio.

 

Helen sentiu a mão de Henry fechar-se à volta da sua, como para lhe lembrar que tinha de ser forte. Agora que chegara o momento, não se sentia especialmente assustada, embora tivesse consciência de que respirava mais depressa, sentia um vazio no estômago e - o que a chocava - um formigueiro de expectativa no baixo-ventre. Deu-se conta de que não só aceitara o que lhe ia acontecer como, de uma maneira perversa, se sentia excitada com a ideia. Lembrou-se do mandarim no dia da caçada, resplandecente na sua armadura, esbaforido, ensanguentado, triunfante após a morte da ursa, um homem viril, forte, poderoso. Nunca antes pensara nele como homem. Até então não passara de uma presença estranha, de olhos cruéis, pálpebras descaídas e traços mongóis, o vilão de um romance popular, como o malvado tio de Aladino numa pantomima. Era velho, com um rabicho grisalho enrolado em volta do pescoço, e, como todos os chineses, exalava um cheiro a bafio e a carne de porco. Mas Helen dava agora consigo a pensar como seria estar nos braços daquele homem. Como mudara, desde o convento. Aquela curiosidade maliciosa, que sempre lhe trouxera problemas. Sentindo um complexo de culpa, aninhou-se nos braços de Henry, enterrando a cabeça no seu ombro.

 

- Vai correr tudo bem - disse-lhe ele inutilmente, um tom constrangedor na voz, que ela nunca ouvira antes.

 

- Amo-te, amo-te - murmurou Helen, como se, ao dizer aquelas palavras, pudesse apagar a traição que contemplava mentalmente.

 

Mãe Liu, seguida por Fan Yimei, avançava pelo corredor em direcção a eles.

 

Henry traduziu para Helen: as duas mulheres tinham-lhe preparado um banho quente. Helen devia segui-las. Iam dar-lhe banho e vesti-la. Dali a pouco, o mandarim iria ao seu quarto.

 

Helen sentiu o braço de Henry cingir-lhe mais a cintura. Mãe Liu ronronava, com uma expressão maliciosa nos olhos espertos.

 

- O que está ela a dizer? - sussurrou Helen.

 

- Felicita-te pela tua boa sorte. Aparentemente, o mandarim tem fama de ser um possante parceiro nos jogos do amor.

 

- Que sorte a minha...

 

- Foste tu que me pediste para traduzir - retorquiu ele. Mãe Liu fez um sinal e a silhueta esguia de Fan Yimei, que aguardava alguns passos atrás, postou-se ao lado de Helen. Havia qualquer coisa de familiar naquela jovem graciosa, com o seu vestido de seda azul e vermelha - a calma da sua postura, a serenidade dos seus traços. Lembrou-se da misteriosa criatura de olhos tristes que entrevira no pavilhão em frente do de Henry, nos dias felizes em que uma versão mais inocente de si própria ia até ali para se encontrar com ele.

 

- Esta é a Fan Yimei - explicou Henry. - Vai ajudar-te a tomar banho.

 

- Conhece-la, não é verdade? - perguntou Helen, pois pressentiu algum significado na forma como ele olhou para a rapariga e no modo como esta mantinha os olhos fixos no chão de madeira.

 

- Vá lá, Helen, quanto mais depressa melhor - replicou Henry, largando-a.

 

Ela beijou-o na face. Fan Yimei esperava em silêncio. Helen, com a cabeça e os ombros muito direitos, seguiu-a pelo corredor.

 

Henry ficou a vê-la afastar-se enquanto Mãe Liu o observava, com ar zombeteiro.

 

- Orgulhoso, altivo Ma Na Si - sibilou. - Nobre, virtuoso Ma Na Si, que conspirou contra mim e roubou o rapaz estrangeiro. Você e essa cabra da Fan Yimei pensaram que podiam mudar o destino. Viram o rapaz morrer na praça, ontem? Afinal, mudaram o destino? E agora vejo-o a fazer de chulo da sua amada, como se fosse a Mãe Liu em pessoa a vender uma das suas franganitas. Está a mudar mais uma vez o destino, Ma Na Si? Ou não será, tal como Mãe Liu, uma pobre velha que faz o que pode para sobreviver?

 

- Passo bem sem a sua filosofia - rosnou Henry. Mãe Liu riu-se.

 

- Não sou um filósofo, Ma Na Si. Tudo o que faço é vender nuvens e chuva. Como o senhor. Espero que tenha obtido um bom preço do Da Ren por uma hora com a sua franganita. Tem ao menos a certeza de que receberá devidamente a sua recompensa? Ficaria admirado se soubesse quantos dos meus clientes pensam que podem mergulhar a sua colher de jade na taça e sair sem pagar. Não leve a mal, Ma Na Si. É apenas um conselho amigável de alguém que está no mesmo ramo que o senhor. Este mundo é tão inseguro...

 

Lançou aquele último comentário por cima do ombro, coxeando de volta para o seu quarto, os ombros tremendo devido às risadas.

 

Helen dormitava enquanto Fan Yimei lhe passava óleo perfumado nas costas e nos membros. O corpo estava ainda entorpecido do banho. A princípio, sentira-se constrangida por se despir em frente de Fan Yimei, e mais ainda quando a jovem chinesa tirara o vestido e entrara na tina de água. O seu corpo branco, salpicado de sardas, parecia grosseiro comparado com a pele lisa cor de azeitona de Fan Yimei, e não sabia para onde olhar nem onde pôr as mãos. Fan Yimei apercebera-se do seu embaraço. Com olhos tristes e calmos, fitara a inglesa, convidando-a, por meio de gestos, a deitar-se e descontrair. Esperara pacientemente que o calor da água produzisse o esperado efeito calmante, apaziguando o nervosismo de Helen e espalhando um doce langor pelo seu corpo. Deixara-a ficar imersa na água e sonhar. Depois pegara-lhe gentilmente nas mãos, indicando-lhe que devia levantar-se. Como uma ama que dá banho a uma criança, deitara água quente sobre a sua pele e ensaboara-a delicadamente da cabeça aos dedos dos pés. Helen entregou-se àquela experiência sensual, enquanto Fan] Yimei voltava a deitar-lhe água quente sobre o corpo e a ensaboava de novo. A rapariga tirara então a espuma com uma espátula de madeira, e Helen sentiu uma espécie de formigueiro, não desagradável, no sítio por onde a madeira passava na pele. Fan Yimei pegou-lhe numa mão, ajudando-a a sair da tina. Sentiu um choque quando a outra lhe despejou um balde de água fria pela cabeça abaixo, mas percebeu de imediato que nunca se sentira tão fresca e limpa em toda a sua vida. A chinesa deu-lhe uma toalha e indicou-lhe um banco. Secou-lhe o cabelo com outra toalha, enrolando-a como um turbante. Pegando-lhe novamente pela mão, levou-a para um quarto contíguo, onde a deitou sobre uma esteira e a massajou com óleo. A dada altura, a jovem esguia andou sobre as suas costas, estendendo-lhe sabiamente as vértebras com os seus pequenos pés de lótus; Helen sentiu os pés mínimos, envoltos em ligaduras húmidas, pressionando-lhe suavemente os ossos, por baixo da pele, como se fossem mãozinhas fechadas de uma criança fazendo força através de uma esponja. No passado, a ideia de pés ligados repugnara-a. Agora, limitava-se a perguntar a si mesma como conseguia Fan Yimei manter o equilíbrio em cima de pontos de apoio tão pequenos. Aceitava o bizarro daquela situação, porque, algures no mais fundo do seu ser, rendera-se já àquelas sensações novas e agradáveis. Sabia que aquele ritual visava prepará-la para o prazer do mandarim. A Bela estava a ser preparada para o Monstro, mas isso já não lhe importava. Sentiu as mãos suaves de Fan Yimei espalhando-lhe óleo pelos ombros e deu por si a suspirar de prazer. Fan Yimei ajudou-a a vestir um roupão largo, da mais fina seda verde, e penteou-lhe o cabelo para que caísse ao longo das costas numa cascata ruiva flamejante. Helen observou, através do pequeno espelho, a chinesa a aplicar-lhe pó branco e rouge nas faces, cinábrio nos lábios e sombra azul nas pálpebras. Mal conseguiu conter a sua surpresa, quando as feições da estudante de um colégio de freiras se transformaram, aos seus olhos, nas de uma cortesã. Jamais imaginara que pudesse ficar tão bela. Com delicadeza, Fan Yimei abriu a parte da frente do roupão e Helen sentiu cócegas quando a jovem lhe aplicou rouge nos mamilos. A rapariga tirou depois de uma gaveta um colar de pérolas de âmbar e colocou-lho de maneira a. que caísse por entre os seios. Helen Francês passou os dedos pelo colar, sentindo a frescura das pérolas. A estranha imagem maquilhada no espelho, que era e, ao mesmo tempo, não era a sua, sorriu para depois estremecer. No reflexo sério de Fan Yimei, viu lágrimas aflorarem aos olhos doces da jovem. Helen voltou-se no banco, fitou-a e, hesitando, pegou-lhe numa mão.

 

- Vai correr tudo bem - disse-lhe em inglês, e depois, no seu chinês balbuciante: - Wo... hen hão.

 

- Shi, nin hen hão, hen mei. Nanguai Ma Na Si jemma ai nin.

 

Fan Yimei falara com doçura, mas Helen não conseguia compreendê-la. Mei não significava ”bela”? E Ma Na Si não era o Hemy? E ai não era ”amor”?

 

- Não compreendo... - murmurou.

 

- Shi, nin bu dong.

 

Fan Yimei debruçou-se para a frente; impulsivamente, beijou Helen na testa.

 

-feige xinku shijie... ni y e kelian. Lai!- acrescentou. Venha!

 

Helen compreendeu a última palavra. Tê-lo-ia compreendido, de qualquer maneira, porque Fan Yimei lhe indicava a cama. Chegara o momento.

 

- Que raio quer ele dizer com estar contente por eu ter mantido o nosso acordo? - explodiu o médico, depois de o mandarim sair. - Que alternativa me restava? Estará à espera que me mostre grato para com ele por não ter assassinado a minha família? Que acordo é esse, Manners? Há alguma coisa que você não nos tenha dito?

 

Manners estava sentado numa cadeira, pouco à vontade, os olhos fixos no tapete. Nellie achava-se sobre a cama, abraçada aos filhos, e mantinha-se em silêncio. Quanto ao médico, com a barba por fazer e o cabelo em desalinho, andava de um lado para o outro no quarto. Não dormia desde o massacre da véspera. Para grande preocupação da família, ficara deitado no chão, numa rígida postura de prece, recusando alimentos, água ou qualquer outro conforto que Nellie e as crianças tentavam dar-lhe. A sua prostração só cessara com a entrada do mandarim e de Henry no quarto; mas não correspondera à saudação calorosa dos dois homens, evitara o abraço e desviara a cabeça quando o mandarim lhe dirigira a palavra.

 

- Pode dizer a este homem, a este monstro, que não falo com assassinos! - declarara a Henry em inglês, num tom de voz esganiçado. Henry não traduzira, mas o mandarim parecera compreender.

 

- Ele está triste pelo destino dos compatriotas - assentiu o mandarim -, e, como não podia deixar de ser, por enquanto acusa-me do assassínio. Mas teremos tempo, de no futuro, conversar, quando ele tiver ponderado tudo isto. O facto de ter concordado com as minhas condições, o que, a propósito, me proporciona uma dupla satisfação: primeiro, o prazer efémero que me vai proporcionar; em segundo, a mais duradoura alegria que é a de um amigo ter sido poupado a uma morte terrível, pensar que, lá no fundo, ele é um homem prático, como você e eu, Ma Na Si. Ele acabará por concordar comigo, com o tempo, e então voltaremos a ser amigos.

 

”Por ora, apenas vim agradecer ao meu querido amigo por ter concordado tão graciosamente com o desafio filosófico que lhe apresentei. Aceitou a sua derrota, como o mestre de xadrez que aceita a superioridade do adversário. Sinto-me recompensado com a preservação da sua vida. Cheguei a temer que, a dada altura, ele a desperdiçasse, movido por princípios inúteis. E, claro está, estou satisfeito com a preservação da vida da mulher-raposa. Essa era uma jogada mais difícil, que eu julgava perder, mas o seu bom senso prevaleceu, Daifu. Obrigado. Para mim, isso é mais importante do que a recompensa física.

 

- Queira ter a bondade de comunicar a este homem que não faço ideia do que é que ele está para aí a dizer e que não é bem-vindo aqui, independentemente de ele pensar que nos salvou a vida! - ripostou o médico em inglês, furioso.

 

- Mas ele salvou-nos a vida, - interrompeu Nellie. - Por muito monstruoso que seja, continuamos à sua mercê. Não seria sensato mostrar-lhe um pouco mais de respeito?

 

- Não depois das atrocidades de ontem. Não voltarei a lidar com demónios. Manners, volto a dizê-lo: esse homem não é bem-vindo aqui.

 

O mandarim seguira atentamente aquela troca de palavras.

 

- Não precisa de traduzir, Ma Na Si. Parece-me que neste caso a mulher revela mais bom senso do que o homem. Mas isso não me espanta. Apesar da sua fragilidade, as mulheres compreendem melhor do que nós as necessidades da vida. Vejo que o doutor continua a. ser abençoado, ou amaldiçoado, pelos seus ideais complicados. Ainda bem. Isso poderá alimentar futuros debates. Por ora, agradeço-lhe por ter honrado o acordo mais sensato que jamais fez. Fique com ele, Ma Na Si. Você sabe onde eu estarei. os meus agradecimentos também se estendem a si, em grande parte. Foi um excelente intermediário.

 

Dito aquilo, saiu, e o quarto pareceu mais pequeno, na sua ausência, se bem que a tensão tivesse permanecido. Henry ergueu a cabeça e fitou o médico olhos nos olhos.

 

- Não sei a que acordo ele se refere - mentiu -, para além da escolha que o senhor fez, ao deixar a missão para salvar a sua família. E a Helen - acrescentou, com azedume.

 

O mandarim percorreu o corredor com passos largos. Sentia-se de excelente humor. Teria gostado de se espreguiçar e rir alto, mas viu Mãe Liu e Ren Ren que o esperavam, ao fundo do corredor. Lançou-lhes um olhar altivo, preservando uma dignidade que não sentia nesse momento.

 

- Ela está pronta e à sua espera, Da Ren - ronronou Mãe Liu. - Uma bela criatura. Dessa não há dúvida. Oh! Da Ren, é justo que o senhor seja o primeiro a desfrutar dos seus encantos exóticos. No entanto, não posso deixar de pensar como ele seria depois uma graça para o nosso estabelecimento... Despertaria grande interesse nos clientes assíduos, se pudéssemos treiná-la convenientemente. O camareiro Jin e eu falámos várias vezes...

 

- Estou a par das suas conversas com o camareiro Jin atalhou o mandarim.

 

- Então, talvez, quem sabe, possa ponderar o assunto? Afinal, o que é uma estrangeira a mais ou a menos? E quando tiver acabado com ela... Pagarei um bom preço - acrescentou, em tom insinuante.

 

- Do dinheiro que eu já lhe dei?

 

- Bem sabe o risco que corremos ao aceitar esses estrangeiros na nossa casa. Pode confiar em mim e no Ren Ren para guardar o segredo. Para mim e para o meu filho, a lealdade nem sequer é uma questão de dinheiro. Mas, se alguém mais vier a saber...

 

- Dar-lhe-ei uma resposta amanhã. Em princípio, estou de acordo, mas você pede um preço demasiado elevado pelo seu silêncio.

 

- Oh! Da Ren, a sua generosidade é lendária...

 

- Não, é a sua ganância que é lendária, Mãe Liu. Mas vamos ficar aqui a conversar neste corredor ventoso, ou posso entrar? A propósito, se ouvir o mais pequeno movimento do seu postigo, enquanto estiver no quarto, serei eu a informar o Homem de Ferro Wang de que você alberga estrangeiros no último andar do bordel. A chantagem pode funcionar para os dois lados, minha querida Mãe Liu.

 

- Oh, Da Ren! Como se eu tivesse pensado por um só instante em espiá-lo.

 

Rindo-se do súbito embaraço da mulher, o mandarim abriu a porta e entrou. As cortinas da cama de dossel estavam corridas. Fan Yimei achava-se de pé sobre o tapete, numa atitude submissa. O mandarim esboçou um sorriso de prazer ao vê-la, impressionado mais uma vez pela sua beleza. Fazia-lhe lembrar Jinghua, quando era novo. Via até, nos olhos baixados da jovem, o ar de desaprovação muda que tão bem conhecera no velho amigo.

 

- Como está a tua rival, minha querida? - perguntou.

 

- Está pronta, Da Ren - respondeu Fan Yimei, com um gesto delicado em direcção às cortinas.

 

- Estás contente por eu a tirar ao teu amante? Pensas que o Ma Na Si a quererá nà mesma, depois de eu me servir dela?

 

- Penso que o Ma Na Si a ama, Da Ren, como ela o ama a ele. Não tenho de exprimir os meus sentimentos, mas .- e olhou de frente para o mandarim - não creio que o meu pai aprovasse o que o senhor está a fazer.

 

- Ah, ah! - riu-se o mandarim. - És mesmo igual ao teu pai. Altiva, e sem medo de dizer o que pensas! Ora, ora... Parece que o meu amigo daifu tem aliados até neste quarto.

 

- Não compreendo o que quer dizer com isso, Da Ren. Não pretendia ser insolente. Por favor, queira desculpar-me.

 

O mandarim pegou-lhe no queixo e fitou-a afectuosamente.

 

- Se não fosses a filha do meu amigo - murmurou, em tom pesaroso -, e se eu fosse mais novo... Bom, mas agora sai. É com a mulher-raposa que tenho um encontro, e o que vai acontecer entre nós só diz respeito a ela e a mim. Yimei... A rapariga parou, em frente da porta. - Não esqueci o teu pai. Acredita, ele estaria muito orgulhoso de ti, hoje.

 

Fan Yimei saiu do quarto.

 

O mandarim suspirou e espreguiçou-se. Por entre as finas cortinas cor-de-rosa, podia ver os lençóis encarnados desenharem um corpo de mulher. Viu uma cabeça sobre a almofada, por entre uma massa de cabelo ruivo. Pôs-se à escuta e apercebeu-se da respiração da mulher. Perguntava a si próprio o que sentiria ela sabendo que ele estava ali, à espera de que as cortinas se abrissem. Teria medo? Estaria excitada? O mandarim foi invadido por sensações familiares no baixo-ventre.

 

Aguardou mais um pouco, relaxando. Tinha muito orgulho no seu autodomínio. O prazer do sexo estava na expectativa. Quanto maior o atraso, maior seria a recompensa final. Começou a cantarolar. Era uma canção dos Bravos do Hunan, que Jinghua costumava tocar em cenários muito diferentes daquele. Há muitos anos que não pensava naquela canção. Parou ao adivinhar um movimento por baixo dos lençóis. ”Deixemo-la esperar mais um pouco”, decidiu, e recomeçou a cantar.

 

Lentamente, descalçou as botas, tirou a túnica, que pendurou, com todo o cuidado, num canto da cabeceira da cama. Por baixo da longa túnica, usava um pijama branco de algodão. Pensou em tirá-lo, mas reconsiderou. Faria tudo muito devagar.

 

Afastou delicadamente as cortinas até ao fundo da cama. A mulher-raposa puxara os lençóis até ao queixo. A primeira coisa em que reparou foi no nariz pontiagudo, tão diferente dos narizes chineses, mais achatados. O rosto estava coberto de maquilhagem. Fora, sem dúvida, obra de Fan Yimei. A mulher-raposa não parecia a mesma que vira em ocasiões anteriores - do seu palanquim, na cerimónia da inauguração do caminho-de-ferro, ou durante a caçada nas colinas Negras. A maquilhagem conferia-lhe uma sofisticação que ele não associara a uma mulher assim. Parecia mais velha, mais experiente, não desagradável à vista, mas o mandarim esperava encontrar uma jovem assustada. Ela fitava-o com os seus estranhos olhos verdes. Sim, havia ansiedade, mas não propriamente medo. E era imaginação dele, ou havia qualquer coisa de implorante naquele olhar? Seria aquela jovem estrangeira igual a todas as outras quando estava com um homem, ansiosa por ser aprovada? Parecia ser corajosa. E como conseguira o Ma Na Si convencê-la?

 

O mandarim voltou a correr as cortinas, atrás de si, e sentou-se ao lado da mulher-raposa. Os olhos verdes seguiam todos os seus gestos. Quando enfiou a mão por baixo dos lençóis, ela estremeceu, mas acalmou-se ao perceber que ele se limitara a pegar-lhe na mão. O mandarim examinou os dedos compridos e as estranhas sardas que salpicavam o braço. Pareciam marcas de varíola. Feio, mas interessante. Sorriu-lhe, fitando-a, olhos nos olhos. Na realidade, não eram verdes, mas cor de avelã, salpicados de cinzento. Estava contente por não serem azuis, como os olhos de alguns estrangeiros - coisas pálidas e leitosas que pareciam olhos de cego. Havia um brilho e um fogo naqueles olhos, mesmo que, naquele instante, o fitassem nervosamente. Com cuidado, estendeu a mão até à nuca da mulher e passou os dedos pela espessa cabeleira ruiva

- a cabeleira de fada-raposa que o atraíra. Estava à espera de que fosse rijo e áspero, e ficou espantado pela suavidade das madeixas que lhe deslizaram pelos dedos como seda. Voltou a sorrir-lhe, e desta vez foi recompensado com um leve estremecimento dos lábios da mulher, que tentava corresponder-lhe. Que rapariga corajosa. Digna do Ma Na Si.

 

Pousou então o braço da mulher sobre o lençol. Os olhos dela esbugalharam-se de preocupação quando o mandarim se debruçou e puxou delicadamente os lençóis, destapando-a até aos pés; desapertou-lhe depois o cinto do vestido e fê-lo deslizar pelos ombros, de forma a ela ficar nua. Era muito magra. Podia ver a forma das costelas e veias azuis no peito. Ficou satisfeito por as sardas se limitarem aos braços, às pernas e a uma parte dos ombros; o resto da pele era muito branca, algo fantasmagórica, talvez, mas não desagradável à vista. Admirou as concavidades azuladas sobre o ventre, espantosamente roliço, a garganta e as coxas. Também tinha seios fartos, maiores do que a maioria das raparigas chinesas. Não era tão peluda como ele imaginara; o ventre e as coxas tinham apenas uma fina penugem. Quanto à moita espessa e cor de fogo do seu baixo-ventre, intrigava-o. Perguntara a si próprio se, em baixo, a cor seria igual aos tons avermelhados da cabeça; agora já sabia. Sentiu de novo a excitação subir-lhe até aos rins e deu-se conta da erecção por baixo do pijama. Teria ela reparado? Que estaria a pensar? Voltou a olhar para o rosto dela. Tinha os olhos fechados e a boca entreaberta. Podia ver-lhe a ponta dos dentes.

 

Sentou-se ao lado dela, passou mais uma vez os dedos pelo seu cabelo e colocou a mão por baixo da sua nuca. Com a outra mão, acariciou-lhe o corpo, fazendo deslizar a palma pelos ombros, ao longo do braço magro e pela curva do peito. Com o polegar e o indicador, pegou na ponta do mamilo, levantando-o da auréola pálida e plissada. Fechou a boca em volta do delicado botão, comprimindo-o entre a língua e os lábios até senti-lo entumecer. A mulher tinha um cheiro ácido e leitoso, diferente do que estava habituado. De novo, sentiu-se intrigado. Não era desagradável. Seria até excitante. A mulher abrira os olhos e fitava-o. Ele perguntou-se se a excitava. Tinha nos olhos algo de sonhador que podia ser desejo - mas não conseguia ler-lhe no olhar, como conseguiria fazer com uma mulher da sua raça. Estaria ela a gostar? Continuou a sua exploração, passando a mão ao longo das costelas, sobre o ventre protuberante, pelas coxas, para voltar depois a subir e pousar a palma da mão sobre os pêlos avermelhados e vigorosos, procurando, por baixo, o montículo familiar e a gruta de cinábrio. Com as pontas dos dedos, tocou na carne macia. Havia humidade ali. Ela estava a reagir. Deu consigo a pensar como seria beijá-la. Aquele nariz pontiagudo esmagar-se-ia contra a sua face? Como era estranha. Se, ao menos, não tivesse pés tão grandes e tão feios, poderia ser considerada bonita.

 

Com um gesto hesitante, Helen ergueu a mão para o rosto do homem debruçado sobre ela. O mandarim sentiu uma palma fria sobre a face e leu nos olhos uma interrogação insistente. As sobrancelhas ligeiramente franzidas, os dentes na boca entreaberta, o lábio superior trémulo lembravam-lhe um pequeno animal curioso como a cria de uma raposa ou um pequeno castor. Desconcertado, ficou sentado, muito hirto, na cama, enquanto os dedos compridos e frios passavam do seu rosto para se enfiar nas pregas do seu pijama, acariciando-lhe o peito, o ventre, descendo em direcção às suas regiões secretas. A mão alcançou o cinto do pijama, mas não podia descer mais. O rosto solene fitou-o, com expressão interrogadora, e contemplou fascinado quando uma erecção que ele não conseguia controlar se tornou visível, por debaixo da seda. Quase inconscientemente, desapertou o cordão. Queria que aqueles dedos frios descessem mais baixo, tocassem a sua excitação, apertassem a sua flauta de jade... Mas não. Com um grande esforço, recuperou o autodomínio. Aquilo não era próprio. Os olhos verdes abriram-se, surpreendidos, quando ele lhe afastou a mão. Manteve-a pressionada entre as suas, e suspirou. Passado algum tempo, sentiu a erecção ceder, e sorriu perante o espanto dela.

 

- Não, pequena fada-raposa - murmurou. Não posso permiti-lo. Apesar do que eu disse, prezo a amizade do Ma Na Si. A dívida está paga. Diga-lhe que não lhe fiz mal nenhum e que não ficarei com o seu tesouro, mesmo que ele mo tivesse oferecido de livre vontade. Sou eu que estou em dívida para com ele, e para consigo.

 

Ela não compreendeu uma só palavra. O mandarim puxou pela memória à procura das palavras em inglês.

 

- Obri... gado - lá conseguiu dizer, depois de muito reflectir. - Você... muito... bela. Não... para... homem... velho.

 

Lentamente, a compreensão estampou-se no rosto dela; estremeceu e os olhos verdes encheram-se de lágrimas. De seguida, todo o seu corpo começou a tremer e foi acometida por soluços silenciosos. O mandarim fitou-a com afecto e puxou cuidadosamente os lençóis, tapando-a. Debruçou-se e beijou-a na testa, sentindo novamente, pela última vez, o estranho odor leitoso. Por fim, correu as cortinas sem fazer barulho.

 

Enquanto vestia o traje oficial, começou a trautear a canção dos Bravos do Hunan.

 

Ainda trauteava quando saiu para o corredor, onde o esperavam Mãe Liu e o filho, a quem se juntara o major Lin. Manners também estava ali, algo afastado e com uma expressão de grande constrangimento. Ignorando os donos do bordel, o mandarim avançou directamente para ele, mas o Ma Na Si não o fitava.

 

- Sente-se um pouco atrapalhado, caro amigo? - exclamou o mandarim, rindo-se. - Nem parece seu. Afinal, talvez o meu pequeno jogo tenha valido a pena, se você puder mostrar-me finalmente uma faceta sua mais humilde. - Passou o braço por cima do ombro do inglês e baixou o tom, para que só Manners o pudesse ouvir. - Lembre-se do provérbio, Ma Na Si - murmurou. - ”Uma relação entre amigos é como um copo de água cristalina que é passado entre cavalheiros.” Nem você nem eu temos de nos recriminar seja do que for. Esteja descansado que a sua mulher-raposa está tal e qual como a deixou. Não me odiará depois de falar com ela. Mas ouça bem - acrescentou, aproximando a boca da orelha de Henry -, agora estamos os três envolvidos num determinado jogo. A minha história da aposta com o médico não tinha qualquer interesse, mas é bom que o major Lin o tenha visto humilhado, Ma Na Si. Talvez sacie em parte o ódio que ele sente por você lhe ter roubado a concubina. Tanto eu como você precisamos dele para os nossos planos. Continue a desempenhar o papel do amante ofendido, mesmo que isso não tenha nada a ver com o seu feitio. Talvez assim haja finalmente paz entre vocês os dois. Mas tenha cuidado com ele. Ele é seu inimigo. A situação já é, por si só, perigosa. Tanto que estou a pensar em apressar os meus planos, de forma a que possamos partir esta noite. Certifique-se de que todos estarão prontos, quando viermos buscar-vos. Agora, finja-se encolerizado em frente dos outros. Têm de pensar que acabo de me gabar pelo que acabei de fazer à sua amada. Não hesite em cuspir-me no rosto, se quiser. Acrescentaria um toque melodramático à situação.

 

- Seu pulha, enganou-me - sibilou Henry.

 

- Se não fosse assim, teria sido capaz de convencê-la? replicou o mandarim.

 

Henry rugiu e tentou esmurrar o mandarim, que, sem qualquer dificuldade, lhe agarrou o punho e lhe torceu o braço atrás das costas. O major Lin acorreu e quis agarrar Manners, mas o mandarim limitou-se a rir e deixou-o afastar-se. Os olhos de Manners brilhavam de uma cólera não fingida, mas controlou-se. Passou por um major Lin desdenhoso, correndo pelo corredor, em direcção ao quarto de onde o mandarim acabara de sair.

 

- Deixemo-lo fazer tranquilamente o inventário dos danos dos seus bens - disse o mandarim, com um sorriso. Venha, major, temos de trabalhar. Mãe Liu, obrigado pela sua hospitalidade.

 

- Posso ficar ainda um pouco, Da Ren? - perguntou o major Lin. - Tenho de tratar de uns certos pormenores com a Fan Yimei.

 

- Vá ter comigo ao yamen, assim que tiver terminado - aquiesceu o mandarim, cobrindo-se com a capa. - Pode haver mudanças nos planos de que lhe falei.

 

O major Lin, flanqueado por Ren Ren, seguiu com os olhos o mandarim até este, conduzido por Mãe Liu, desaparecer na escada secreta. Assim que deixou de os ver, Ren Ren bateu à porta de um dos quartos que davam para o corredor. A porta abriu-se e o sinistro ajudante de Ren Ren, o Macaco, saiu.

 

- Então, major - perguntou Ren Ren -, o que quer, ao certo, que façamos?

 

- Perdoa-me! Perdoa-me! - chorava Helen, enroscada nos braços de Henry. - Eu tentei, mas ele não... ele não quis... Limitou-se a olhar para mim, a examinar-me, como se eu fosse um animal que o repugnava... E foi-se embora, sem... sem fazer nada.. E agora eles vão todos morrer porque eu não... Oh, meu Deus, Henry, perdoa-me...

 

Sentia os beijos de Henry nas faces, nos olhos, nas orelhas e a leve pressão dos braços dele em volta dos seus ombros.

 

- Ninguém vai morrer - dizia-lhe ele. - Foi apenas um jogo. Um maldito jogo. Um dos malditos jogos do mandarim.

 

- Eu tê-lo-ia feito! - chorava Helen. - Eu tê-lo-ia feito! meu Deus... mas ele foi-se embora.

 

- Não digas disparates. Tiveste de te proteger. Fizeste o que tinhas de fazer e revelaste uma grande coragem.

 

- Abraça-me. Nunca mais me deixes.

 

E provavelmente, ao fim de algum tempo, a sua angústia ter-se-ia dissipado naquele abraço familiar, mas foi então que a porta se abriu bruscamente, com um estrondo. Por entre as cortinas, entreviu os vultos de três homens. Henry levantou-se de imediato, para enfrentar os intrusos, mas Helen viu horrorizada um dos vultos dar um salto, atirar uma perna para a frente e, com a ponta dos pés, atingir Henry, que foi arremessado para trás e caiu, batendo com a cabeça contra uma das colunas da cama. Helen ficara demasiado surpreendida para gritar por socorro e agora era tarde de mais, porque várias mãos a tiravam violentamente da cama. Sentiu um golpe na cabeça e caiu de joelhos. Um pontapé nas costas atirou-a contra o tapete, fazendo-a vomitar. Atordoada, deu-se conta de que a viravam para a deitar de costas no chão. Engasgou-se, quando lhe enfiaram um pano grosso na boca. Durante alguns segundos, não conseguiu respirar. Mãos fortes pressionavam-lhe os ombros e os braços contra o chão. Alguém a esbofeteou, e Helen abriu os olhos para ver um chinês de rosto bexigoso que sorria, acima dela. Também viu Henry, amordaçado, lutando contra as cordas que o mantinham preso à coluna da cama; os seus olhos deixavam transparecer uma expressão de fúria e de impotência. Um homem alto, de uniforme branco, apareceu no campo de visão de Helen, que, por breves instantes, se sentiu aliviada ao reconhecer o rosto elegante e familiar do major Lin. Só depois reparou na expressão cruel e nos olhos frios, semelhantes aos de um réptil, examinando a sua nudez. Viu-o desapertar a fivela do cinto, que caiu ao chão, e desabotoar os botões das calças.

 

Gritou e começou a espernear no ar, mas somente gemidos abafados passaram pela mordaça. Um outro homem pegou-lhe nos pés e afastou-lhe brutalmente as pernas. Lampejos de luz atravessaram-se nos olhos, enquanto os homens a esbofeteavam sem parar. Sentiu sobre o ventre e os seios um peso que a sufocava, o raspar áspero de sarja e de botões de cobre frios. Um cheiro acre a alho invadiu-lhe as narinas e sentiu o hálito de um homem no rosto. Quando conseguiu focar a visão, apercebeu-se dos olhos repletos de ódio do major Lin, que a fitavam a poucos centímetros do rosto. Sentiu os dedos dele explorarem-lhe o corpo e tentou, com todas as suas forças, afastar o homem, mas as mãos dos outros mantinham as suas pernas e braços pressionados contra o chão, e ela não conseguia mexer-se. Uma dor repentina e violenta entrecortou-lhe a respiração. Como um animal demente, o major Lin penetrava-a, rasgando-lhe a carne, pressionando com mais força as pregas que ofereciam resistência. Arfava, enquanto continuava a penetrá-la; a saliva pingava-lhe para o rosto. Uma explosão de dor detonou no seu interior no momento em que o homem rasgou o último obstáculo, e o sangue dela tornou-se o lubrificante das investidas ritmadas contra o seu ventre. A coisa dura dentro de si violentava-a, violava-a, escoando a energia de dentro do seu corpo, à medida que as investidas se intensificavam. Era como se o tempo tivesse parado e ela estivesse presa num lento pesadelo, feito de dor e de vergonha.

 

Por cima do ombro do homem avistou as vigas do tecto, o chinês bexigoso que a agarrava e, a um canto do seu campo de visão, Henry, com o rosto arroxeado pelos esforços que fazia para tentar libertar-se das suas amarras e os olhos inchados pelo ódio e pelo desespero, gritando-lhe mensagens mudas que ela não conseguia compreender. Mas todos eles podiam bem ser agora habitantes imaginários de outro planeta no que diz respeito ao que ela sentia nesse momento. Toda a sua tragédia tinha naquele momento lugar no interior de si mesma. Cada investida do homem diminuía-a aos seus próprios olhos, rasgando mais um fiapo da pouca auto-estima que lhe restava.

 

Formara nesse momento uma imagem muito nítida de si própria a ser chicoteada no átrio da escola; todas as pessoas que conhecia apontavam para o seu corpo nu, insultando-a pelo seu crime e rindo-se da sujidade que a cobria. O major Lin atingiu o clímax e ela sentiu as suas partes mais íntimas impregnadas pelo líquido poluente e profanador. As investidas cessaram e o peso tornou-se maior sobre o seu peito, quando ele relaxou. A vara dura que queimara e rasgara o interior do seu corpo transformara-se numa massa mole e repugnante, banhada por um ignóbil molho de esperma e sangue. Um fio viscoso escorreu-lhe pela coxa, e sentiu uma náusea de vergonha e de ódio. Como podia alguma vez voltar a ser limpa?

 

O major Lin pôs-se de pé e puxou as calças. Lançou um último olhar de desdém à rapariga que acabara de violar, que continuava no mesmo sítio. Ren Ren e o Macaco já nem se davam ao trabalho de a segurar. Ainda tinha as pernas afastadas e as coxas sujas de sangue. Um líquido rosa e viscoso corria para o chão. Lin cuspiu-lhe e o escarro atingiu-a no ventre, mas Helen não reagiu. Lin voltou-se para Manners, que também deixara de se debater.

 

- O Da Ren ordenou-me que não lhe fizesse mal - lançou ao homem amordaçado -, mas não disse nada acerca da sua prostituta. Sim, porque foi nisso que a tornou, ao dá-la ao mandarim, não é verdade? Assim, o que acabo de fazer não passou de mais um serviço para ela. Como você se serviu da minha prostituta, aqui há uns tempos. Penso que agora podemos considerar-nos quites, Ma Na Si.

 

Virou-se para sair do quarto, mas deteve-se, como se tivesse acabado de se lembrar de algo. Enfiou a mão no bolso e tirou algumas moedas de cobre.

 

- Estou a ser desleixado. Não lhe paguei pelos serviços da sua prostituta.

 

Atirou as moedas aos pés de Henry.

 

Saiu sem mais uma palavra, deixando Helen entregue a Ren Ren e ao Macaco que, muito cerimoniosamente, lançaram uma das moedas ao ar para tirar cara ou coroa. O Macaco ganhou e coube a Ren Ren segurar os ombros de Helen, enquanto o outro reclamava a sua recompensa.

 

O Macaco baixou as calças do pijama, ajoelhou-se entre as pernas de Helen e, tentando conferir uma nota humorística, cheirou-a. Depois, fingiu lambê-la, como um cão, até que, sentindo-se excitado, atirou-se para cima do corpo estendido. Os dois homens viraram ambos a cabeça ao ouvir ruídos que vinham da coluna da cama. Henry recomeçara a lutar violentamente, mas sempre em vão, contra as suas amarras, e saíam sons abafados da sua mordaça. Ren Ren e o Macaco riram-se e retomaram a sua brincadeira.

 

De novo Helen conheceu a dor, a invasão ao interior do seu corpo e a conspurcação. Desta vez, enfraquecida, dominada pela vergonha, não se debateu, mas Henry viu lágrimas escorrerem-lhe pelas faces. Abriam sulcos irregulares através das contusões e da maquilhagem esborratada. As ancas estreitas do Macaco agitaram-se uma última vez e tudo acabou.

 

Ren Ren comentou, em tom zombeteiro:

 

- Não vou entrar nesse buraco poluído, depois de vocês os dois por lá terem passado, seus animais. Vira-a.

 

Ren Ren e o Macaco viraram-na de barriga para baixo. O primeiro agachou-a, com as nádegas viradas para ele. Tirando as calças, colocou-se entre as pernas afastadas dela. Quando a tinham virado, a mordaça deslizara-lhe da boca. No seu estado, precisou de algum tempo para se aperceber disso, mas, logo depois, a intensa agonia da nova infâmia que lhe era infligida e, ainda mais, o horror ao aperceber-se do que era, fizeram-na gritar, um grito agudo que ecoou no quarto e invadiu o corredor. Continuou a gritar até que o Macaco lhe bateu e a reduziu ao silêncio, voltando a amordaçá-la. Mas, por essa altura, todos os que se achavam no andar tinham sido alertados, e ouviram-se passos.

 

O médico foi o primeiro a transpor a porta, seguido por Nellie e Fan Yimei. Ren Ren reagiu, afastando-se precipitadamente da sua vítima e pondo-se em pé de um salto, mas tanto o médico como as duas mulheres tinham visto o suficiente para compreender o que ele estivera a fazer. Helen continuava agachada na mesma posição. Viram a sua nudez, a maquilhagem que a desfigurava, o sangue, as contusões e as manchas no chão. Viram os dois homens sem calças, a sua virilidade que pendia, sangue e sujidade manchando-lhes as coxas. Aperceberam-se da truculência das suas expressões de culpa.

 

- Meu Deus, meu Deus - murmurou Airton, apoiando-se à parede, chocado. Nellie já se achava ao lado de Helen, apertando-a nos braços, enquanto lançava um olhar de desafio a Ren Ren. Fan Yimei mantivera-se junto da porta, sem saber o que fazer.

 

- Não posso acreditar numa tal depravação! - bradou Airton. Dirigia a sua raiva a Henry, ignorando o facto de este estar amarrado e amordaçado. - Que espécie de monstro é você, Manners? Então era este... era este o seu acordo? Deus meu! Disse ao mandarim que eu concordaria com isto?

 

Ren Ren e o Macaco trocaram olhares divertidos.

 

- E vocês, seus... suas criaturas imundas! O que lhe fizeram? É... monstruoso! Monstruoso!

 

O Macaco emitiu uma risada abafada, mas Ren Ren riu descaradamente. Foi de mais para o médico, que se atirou a Ren Ren e lhe deu um murro no peito. Não tinha grande força física, mas o tapete deslizou e os dois homens caíram juntos, por entre uma sucessão de socos. Ren Ren, muito embora fosse o mais forte dos dois, ficou com os braços presos pelos joelhos de Airton e viu-se forçado a mexer a cabeça em todos os sentidos para tentar escapar aos socos que o atingiam no rosto.

 

- Monstro! Monstro! Monstro! - vociferava Airton, sem parar de o esmurrar.

 

Nellie gritou enquanto Henry, ainda amordaçado e amarrado, começou a agitar-se freneticamente. Ambos tinham visto a faca que o Macaco tirara da manga.

 

- Edward! Atrás de ti! - gritou Nellie, mas foi demasiado tarde. O Macaco aproximara-se e ergueu a sua faca, pronto a cravá-la entre as omoplatas do médico.

 

Uma explosão ressoou no pequeno quarto, seguindo-se uma segunda. O Macaco recuou, cambaleante, e uma mancha encarnada espalhou-se rapidamente na sua camisa branca. Virou a. cabeça, com uma expressão de estupor, e tombou, morto, para a frente, largando a faca, que caiu ao chão.

 

Fan Yimei achava-se junto à porta do quarto. Uma nuvem de fumo elevava-se do revólver que Hiram lhe dera, e que encontrava agora a sua utilidade. A rapariga tremia e o cano da arma oscilava, para cima e para baixo, mas, mesmo assim, ela mantinha-a apontada.

 

Com um sobressalto, Ren Ren empurrou o médico e conseguiu pôr-se de pé. Os seus olhos chispavam de ódio e de cólera e tinha os punhos cerrados, mas estacou ao ver Fan Yimei.

 

Os estrangeiros olhavam, hipnotizados, para a jovem magra que empunhava o revólver, enquanto esta fitava o chinês parcialmente nu. Tinha os olhos fixos nele. Eram duas vontades que se enfrentavam. Somente Henry conhecia os tormentos que Ren Ren infligira às raparigas sob o seu domínio, o terror que fazia reinar no bordel, mas os outros podiam aperceber-se de que aquela silenciosa troca de olhares era fatal. Durante alguns segundos, pareceu que Ren voltaria a assumir o habitual poder sobre a sua escrava. Os seus lábios curvaram-se num sorriso cruel e ergueu lentamente o braço, com a palma da mão para cima, intimando Fan Yimei, através de uma ordem muda, a dar-lhe o revólver. Durante uma fracção de segundo, a arma vacilou nas mãos da rapariga - mas apenas por uma breve fracção de segundo. Nellie, que era de todos quem se achava mais perto de Ren Ren, viu a expressão do homem alterar-se subitamente, sacudindo a cabeça, incrédulo, a boca abrir-se-lhe como que para suplicar e as pupilas dilatarem-se pelo medo. No momento seguinte o revólver voltou a disparar e Nellie viu a garganta do jovem explodir numa massa de sangue e ossos. Ren Ren foi projectado para trás e o seu corpo enredou-se nas cortinas cor-de-rosa da cama; as pernas estrebucharam e sons violentos de um gorgolejar medonho quebraram o silêncio. Demorou algum tempo até cessarem os derradeiros movimentos convulsivos.

 

Fan Yimei só deixou cair a arma. Tombou, de joelhos, começando a chorar.

 

Uma imobilidade assustadora abateu-se sobre o quarto.

 

O médico, acocorado, numa posição de prece, no sítio onde caíra; Nellie, como uma Madona, apertando o corpo nu de Helen nos braços; Henry, prostrado e amarrado, como um São Sebastião ferido, olhando boquiaberto para os dois cadáveres. Imóveis nas suas posturas, com os olhos esbugalhados pelo terror, pareciam devotos em adoração numa hedionda paródia a um santuário barroco.

 

Uma nuvem de fumo flutuava por cima do quadro obsceno, enquanto nos ouvidos de todos ainda ecoavam os tiros. Contudo, a pouco e pouco, sons mais familiares elevaram-se da escada - o grito de uma rapariga, as ruidosas risadas dos homens, o canto embriagado dos esbirros do Homem de Ferro Wang, desfrutando as delícias do Palácio dos Prazeres Celestiais.

 

OS OFICIAIS INIMIGOS MONTAM A CAVALO. O SOL REFLECTE-SE NAS SUAS PESADAS ESPINGARDAS. GOSTAVA QUE O PEQUENO IRMÃO ESTIVESSE AQUI

 

Uma voz de criança quebrou o silêncio.

 

- Mamã?

 

Nellie voltou-se, apavorada. George e Jenny encontravam-se na soleira da porta, hesitantes.

 

O instinto maternal impelia-a a levantar-se para os proteger daqueles horrores, que eles, sem dúvida, já tinham entrevisto, mas com Helen nos braços nada podia fazer. Na sua angústia, gritou ao marido:

 

- Edward, tira-os daqui!

 

Airton virou lentamente a cabeça, ainda perdido no seu estupor, mas a visão das crianças galvanizou-o.

 

- Oh, meu Deus! - gritou, precipitando-se para os filhos. Passou-lhes um braço em volta dos ombros, tapou-lhes os olhos com as mãos e conduziu-os para o corredor. Com um pontapé, fechou a porta atrás de si, como que para impedir que a matança que se dera no interior do quarto saísse para o exterior. Ofegante, empurrou as crianças até ao quarto, só parando quando se deu conta de que apertava as mãos dos filhos com tanta força que estava a magoá-los. Os olhos de George estavam marejados de lágrimas. Airton ajoelhou-se, cobriu-lhes os rostos assustados de beijos e abraçou-os com força.

 

- Desculpem... - soluçou. - Desculpem. Oh, Deus, perdoa-me. O que foi que eu fiz?

 

- Oh, papá, não chores - disse Jenny, abraçando-o. A culpa não é tua. A sério.

 

Sentindo-se sufocar pelos soluços, o médico colocou os braços em torno dos filhos e apertou-os contra o peito.

 

Ouviu uma voz atrás de si. Ergueu os olhos para encontrar, consternado, o rosto cruel de Mãe Liu, que lhe sorria.

 

- Pobrezinhos - murmurou ela, coxeando na sua direcção. - O que lhes aconteceu? Marotos...

 

Airton mal conseguia respirar tal o medo que sentia. Fitava a velha, como que petrificado. Os olhos pequenos e maliciosos de Mãe Liu estreitaram-se.

 

- Aconteceu-lhe alguma coisa, Daifu? Está com má cara...

 

- Não... - A voz saiu-lhe como um coaxar de rã e teve de repetir: - Não, nada. Queira desculpar. Está tudo bem.

 

- Folgo muito em sabê-lo.

 

Airton continuava a fitá-la. Ao mesmo tempo, bloqueava-lhe a passagem no corredor. Mãe Liu lançou um olhar desconfiado por cima do ombro do médico, que, tomado de pânico, se apressou a virar-se e a olhar para o fundo do corredor, reacção que não passou despercebida à dona do bordel.

 

- Quer deixar-me passar, Daifu? - Falava calmamente, mas o seu tom de voz era ameaçador. - Por favor, deixe-me passar. Tenho de tratar de assuntos urgentes com o meu filho.

 

- Ele não está aqui - respondeu Airton. - Saiu... com o amigo. Sim, saiu com o amigo - repetiu.

 

- Com o amigo? Que amigo? Encontrei o major Lin lá em baixo e o Ren Ren não estava com ele. Por isso, só pode estar aqui.

 

- Referia-me ao outro amigo dele - corrigiu o médico, ciente de que começara a transpirar. - Saíram juntos. Não vai encontrá-los aqui. Talvez lá em baixo. Porque não procura por ele no piso térreo?

 

Mãe Liu tentou passar pelo médico. Airton desviou-se para lhe barrar a passagem.

 

- Não, peço-lhe, Mãe Liu. Não deve avançar mais.

 

A velha não respondeu e deu um passo para a esquerda. O médico fez o mesmo. Algo ofegante, Mãe Liu tentou afastá-lo do caminho, mas Airton agarrou-a por um braço, a fim de a impedir. A dona do bordel fitou-o, surpreendida e encolerizada, e tentou puxar o braço, mas Airton segurava-a firmemente.

 

- Tire as patas imundas de cima de mim, seu fantasma estrangeiro! - sibilou. - Deixe-me passar!

 

Airton não a largou. Os olhos da velha chinesa pareciam dois carvões em brasa. Respirava ruidosamente, enquanto lutava com o médico, tentando manter o equilíbrio sobre os pequenos pés.

 

- Não, Madame Liu, não avançará mais por este corredor - respondeu o médico, igualmente ofegante.

 

Ela cuspiu-lhe para o rosto, o que fez com que Airton lhe apertasse com mais força o braço.

 

- Ta made! - praguejou a velha. Com a outra mão, tirou o gancho que segurava o seu carrapito. Airton tentou desesperadamente agarrar-lhe aquela mão, mas, na sua precipitação, falhou. O comprido gancho brilhava agora nos dedos de Mãe Liu.

 

Airton sentiu um movimento; numa fracção de segundo, Jenny saltara para as costas da velha e agarrara a mão que empunhava o gancho, puxando-a para trás com toda a força; ao mesmo tempo, George agarrara-se às pernas da mulher. Praguejando, Mãe Liu tombou, arrastando o médico na queda. Com uma agilidade surpreendente, libertou-se dele e avançou de gatas para a escada.

 

O médico sentiu um calafrio descer-lhe pela coluna. Se ela alcançasse a escada e chamasse os esbirros do Homem de Ferro Wang, ele, a mulher, os filhos, Helen e Manners estariam mortos dali a nada.

 

Tinha de impedi-la, custasse o que custasse.

 

Pôs-se de pé. O gancho de cabelo jazia no chão. Apanhou-o e correu atrás de Mãe Liu, apavorado pela ideia do que ia fazer.

 

No seu desespero, Nellie gritou a Fan Yimei. A rapariga continuava prostrada no chão, olhando aturdida o revólver que se achava à sua frente.

 

- Levante-se! Levante-se! Oh, não há ninguém que nos possa ajudar? Vá soltar aquele homem! Levante-se, levante-se, e liberte Mister Manners!

 

Durante alguns instantes, Fan Yimei observou Nellie, sem compreender o significado dos seus gestos aflitos. Por fim, inclinou a cabeça, levantou-se com dificuldade e avançou para Henry. Estremeceu, quando tropeçou numa das pernas do Macaco. Virou a cabeça, enquanto desapertava os nós das cordas. Daquela forma, não via o corpo retorcido de Ren Ren na cama.

 

- Corte a corda com a faca! - gritou Nellie, quando viu que a rapariga não conseguia desfazer os nós. Fan Yimei seguiu o dedo que ela estendera e viu a faca pousada perto do braço estendido do Macaco. Apanhou-a com todo o cuidado. Depois, cortou a espessa corda, por entre soluços, libertando a tensão, de forma a que Henry pudesse soltar-se. Henry arrancou freneticamente a mordaça da boca e, durante alguns minutos, vacilou, contemplando o tapete manchado de sangue. Encheu o peito de ar, enquanto Fan Yimei se afastava dele, aterrorizada com a expressão feroz do seu olhar. Henry tinha os punhos cerrados e mantinha a cabeça baixa, como um touro enraivecido procurando alguém contra quem investir. Os seus olhos percorreram o quarto, lançando faíscas, mas no momento em que viu Helen uma transformação imediata operou-se no seu semblante. Um grito de desespero saiu-lhe dos lábios gretados. Era um misto de gemido e de grito. O rosto crispou-se e deixou-se cair de joelhos. Era como se, de súbito, o seu corpo se tivesse esvaziado de toda a energia. Avançou lentamente para Helen, com uma mão estendida, olhar suplicante e, no rosto, uma máscara de horror, preocupação e remorso.

 

A sua aproximação teve um efeito dramático em Helen, ainda deitada, quase em estado de coma. Ao vê-lo, abriu os olhos, petrificada. Henry estendeu o braço para lhe tocar, mas ela desviou-se, tremendo. Aninhou-se no peito de Nellie e começou a chorar baixinho. O seu corpo foi sacudido por arrepios, enquanto olhava, pelo canto do olho, os movimentos daquele que podia ser um novo agressor.

 

Henry deteve-se, sacudindo a cabeça, e recuou, profundamente perturbado.

 

Assim que ele se afastou, Helen pareceu acalmar-se. Encolhendo-se sobre si própria, gemeu, parecendo encontrar algum conforto naquela regressão à infância. Nellie sussurrava-lhe palavras ternas, como o teria feito a uma criança, enquanto lhe alisava os cabelos húmidos. Pouco a pouco, a rapariga pareceu relaxar.

 

Nellie olhou então encolerizada para Henry, que pareceu espantado com aquele olhar.

 

- Está realmente surpreendido, Mister Manners? - perguntou Nellie friamente. - Você é homem e ela foi violada por homens. Está a perguntar-se se ela tem medo de si? Muito provavelmente, culpa-o por tudo o que lhe aconteceu. Eu faria o mesmo, no lugar dela.

 

- Eu... Eu...

 

Mas Henry não encontrou palavras para responder.

 

- E agora? O que tenciona fazer? - continuou Nellie. A voz elevou-se-lhe ao mesmo tempo que a fúria. - Será que a sua mente se evaporou, tal como a sua virilidade? Não compreende que corremos perigo, aqui? Aquela horrível mulher vai voltar a qualquer momento. E não me admirava nada que se tenham ouvido os tiros por todo o edifício.

 

- O que... O que quer que eu faça, Mistress Airton? conseguiu perguntar.

 

- Esconda os cadáveres, homem! Não podemos deixá-los aqui para que todos os vejam. Vamos, Mister Manners, um pouco de sangue-frio! Não posso pensar por todos. Além do mais - e baixou os olhos para contemplar Helen -, quem precisa de mim neste momento é esta pobre rapariga. Há uma casa de banho, aqui ao lado? Se pudesse pedir a essa chinesa que me ajude a levar a Helen, ficava-lhe muito agradecida. Temos de limpá-la de toda a imundície que aqueles brutos deixaram nela. Depois, o Edward examinará os ferimentos. Sem dúvida, dar-lhe-á morfina, depois de tudo por que ela passou. Nem quero pensar nisso. Oh, Mister Manners, tem muito por que responder.

 

Fan Yimei percebeu imediatamente o que esperavam dela. Com todo o cuidado, ela e Nellie levantaram Helen e ajudaram-na a andar, um passo hesitante de cada vez, até à casa de banho, fechando a cortina que fazia as vezes de porta.

 

Henry olhou em seu redor por instantes, sem saber o que fazer, talvez esmagado pela tarefa aparentemente impossível de transformar aquela carnificina numa cena normal. Fechou os olhos, como que arranjando coragem, e, depois, puxou com força o tapete ensanguentado de debaixo do corpo do Macaco, estendendo-o no chão. Dominando a repulsa, fez rolar o corpo de novo para cima do tapete, atando as pontas o melhor que pôde, empurrando depois toda aquela mortalha improvisada para debaixo da cama, deixando um rasto de sangue nas tábuas do soalho.

 

Contemplou de seguida o corpo de Ren Ren, enredado nas cortinas da cama. Pegando na faca do Macaco, subiu para a cama a fim de alcançar as argolas e tirar a parte da cortina que Ren Ren não arrancara ao cair. Acabara de soltar a última argola, fazendo com que o corpo de Ren Ren tombasse pesadamente, quando ouviu uma leve pancada na porta. Saltando para o soalho e brandindo a faca como uma arma, correu para a entrada e encostou-se à parede, junto da porta. Nova pancada. A porta entreabriu-se. Henry respirou fundo ao ver o rosto assustado de Jenny passar pela abertura e olhar à sua volta. Quando viu a faca na mão dele, emitiu um gemido de medo. Henry acocorou-se à sua frente e pegou-lhe na mão.

 

- Está tudo bem - disse docilmente. - Não te farei mal.

 

A menina desfez-se em lágrimas.

 

- Mister Manners, por favor, venha depressa - implorou, por entre soluços. - O papá precisa do senhor. Por favor, venha...

 

Henry demorou-se apenas o tempo necessário para apanhar o revólver do chão e, munido da arma e faca, seguiu Jenny pelo corredor. O seu coração deu um salto no peito perante a cena que se desenrolava junto à escada. Dois corpos estavam deitados no chão, enredados um no outro. George mantinha-se de pé, ao lado deles, torcendo as mãos, angustiado.

 

- Oh! meu Deus - murmurou Henry. - Mas o que...?

 

O seu primeiro receio foi ter mais dois cadáveres nas mãos, mas sentiu algum alívio ao ver os dois corpos saltar violentamente, num mesmo movimento. Aproximando-se, reconheceu o médico e Mãe Liu. Airton imobilizara a chinesa. Um objecto parecido com um gancho de cabelo estava cravado no ombro direito de Mãe Liu. Uma grande mancha de sangue tingia de mais escuro o seu casaco de seda bordada, mas o ferimento não a incapacitara. Os seus olhos brilhavam de ódio e todo o corpo se arqueava num violento esforço para se libertar de Airton. Não podia dar azo à sua fúria, porque tinha a mão do médico firmemente enfiada na sua boca. No entanto, o sangue que escorria da mão de Airton indicava que ela o havia mordido até aos ossos.

 

- É você, Manners? - perguntou o médico. - Encontre uma mordaça para calar este demónio de saias!

 

A resposta de Manners foi pressionar o cano do revólver entre os olhos da mulher. Obteve o efeito desejado. Mãe Liu cessou imediatamente de se debater. Henry enfiou a outra mão no bolso e tirou um lenço.

 

- Deve servir, por enquanto - disse a Airton. - Consegue tirar a mão?

 

- Penso que sim. Jenny, podes ir ver se na minha maleta há um rolo de ligadura e trazê-la? Depressa, minha querida...

 

Com a ligadura e o lenço, fizeram uma mordaça.

 

- Senhor, perdoai-me... Apunhalei-a... - gemia Airton.

 

- Não se preocupe - disse Manners. - Ela ter-lhe-ia feito coisas muito piores. É melhor ligar a sua mão, se não quer deixar um rasto de sangue pelo corredor.

 

- Sim, tem razão - resmungou Airton. - Oh, meu Deus, Manners - queixou-se, enquanto ligava a mão. Que vamos fazer com ela? Também tenho de ligar-lhe o ferimento do ombro. Não podemos levá-la para aquele quarto. Teremos de nos haver com uma louca, se ela vir o que aconteceu ao filho...

 

- Se eu a amarrar à cama do meu quarto, conseguirá tratá-la? Deixar-lhe-ei o meu revólver. E fique com as crianças. Quanto a mim, primeiro, tenho de... arrumar o outro quarto. Depois faremos o ponto da situação.

 

Com a pistola encostada à cabeça, Mãe Liu não lutou nem ofereceu resistência, enquanto a empurravam pelo corredor. Chegados ao quarto, e enquanto Henry a amarrava à cama, o médico reparou numa mala aberta no chão, repleta de roupas femininas e viu uma das botas de Helen. Estivera tão absorto pela sua luta com Mãe Liu que se esquecera temporariamente do que acontecera à infeliz rapariga. Toda a sua ira e indignação regressaram quando se lembrou do papel de Henry na violação da jovem, resultante de um qualquer acordo com o mandarim. Servira-se do seu nome, e assim, também ele, embora indirectamente, estava implicado naquela atrocidade e, por conseguinte, arcava com uma parte da culpa. Dominado por uma súbita fúria, ergueu o revólver que Henry lhe dera, não sem se sentir estarrecido pela enorme vontade que sentia de matar aquele monstruoso homem. O revólver tremeu-lhe na mão.

 

Henry, entretanto, virou-se.

 

- Penso que já está, doutor. Ela não... - Viu o revólver a oscilar na mão trémula de Airton, que o fitava com olhar feroz. - Temos mesmo tempo para isso? - perguntou calmamente.

 

- Seu monstro! - sibilou o médico. - Como foi capaz de tratar a sua amada de uma forma tão abominável...

 

- Não podia prever o que se passou - respondeu Henry, sempre com a mesma calma.

 

- Seu mentiroso, seu cínico... - Airton interrompeu-se bruscamente, ao aperceber-se de que os filhos o fitavam, boquiabertos. - Santo Deus... - gemeu -, perdoa-me por tudo isto... Perdoa-me...

 

- Doutor, teremos tempo para recriminações mais tarde, assim que sairmos daqui. Se sairmos. Por ora, não seria melhor fazermos o que temos a fazer?

 

Airton suspirou, erguendo os olhos para o tecto.

 

- Tem razão - aquiesceu. - Agora, somos todos passageiros do mesmo barco. Mesmo que só o Senhor saiba para onde o fará navegar...

 

Henry saiu sem responder.

 

Uma hora mais tarde, tinham tratado de tudo. Felizmente, ninguém os incomodara naquele andar secreto.

 

Henry, ajudado por Fan Yimei, operara milagres para restituir à cena do crime o aspecto de um quarto de bordel. Escondera os dois cadáveres debaixo da cama. Fan Yimei fora buscar um balde e uma esponja à casa de banho e removera cuidadosamente todos os vestígios de sangue do chão, das paredes e do corredor. Taparam a mancha de sangue do soalho, no local onde o Macaco caíra, com um tapete de outro quarto. A cortina da parte da frente da cama estava demasiado suja e estragada para a voltarem a pendurar, além de que fora usada como mortalha para cobrir o corpo de Ren Ren. Henry distribuíra as outras cortinas pela parte da frente da cama, para que não se notasse que faltava uma. Depois de descobrirem lençóis e mantas no armário, os originais foram enfiados debaixo da cama, onde se achavam já os cadáveres. Os móveis tinham retomado a sua posição original, e os quadros eróticos endireitados nas paredes. Quando Henry e Fan Yimei terminaram, não havia qualquer indício visível do que acontecera.

 

Durante esse tempo, o médico tratara do ferimento de Mãe Liu, depois de se certificar de que a velha estava firmemente amarrada e amordaçada; depois deixara as crianças de guarda em frente da porta, enquanto ia ao seu quarto para tratar de Helen. Nellie e Fan Yimei tinham-na levado para lá, depois de a lavarem. Tinham-na vestido e levado, como uma sonâmbula, pelo corredor. Estava agora deitada na cama dos Airton. O médico pincelara tintura de iodo nas contusões do rosto e certificara-se de que a rapariga já não sangrava. Tanto quanto podia perceber, o bebé não sofrera com a agressão, mas já não podia fazer nada para acalmar o espírito atormentado da jovem nem fazer cessar o pesadelo que se repetia mentalmente no seu espírito. Airton sentira dó por ver a forma como ela o evitava. Era óbvio que Helen, no seu estado de confusão, identificava até o próprio médico como um pretenso agressor. Nem era de esperar outra coisa, concluíra ele tristemente. A rapariga teria aquela reacção com todos os homens. Era a pior consequência do horror por que passara e tudo por culpa de Manners. O seu corpo fora violentado. As cicatrizes físicas sarariam, mas o prognóstico já era muito mais reservado quanto às feridas psicológicas e espirituais. Grávida, recém-curada de uma dependência da droga, rodeada de atrocidades, assassínios e medos de todos os géneros, e depois traída e violada com selvajaria... Airton duvidava de que qualquer mulher pudesse sobreviver a tamanho suplício sem ficar profundamente perturbada.

 

Nellie tivera de tomá-la nos braços e embalá-la, enquanto lhe repetia:

 

- É o doutor Airton. Conhece o doutor Airton, não é verdade, minha querida? Ele está aqui para a ajudar.

 

Helen deixara por fim que o médico a examinasse, mas observara-o com olhar desconfiado, enquanto ele a tratava. O que mais preocupava Airton era o ódio por si própria que ela deixava transparecer, quando começava a bater nela mesma e dizia ”Suja, suja, imunda!” ou ”Má, má, má!”. Nellie contara ao marido que, durante o banho, Helen arrancara o sabão das mãos de Fan Yimei e esfregara, como uma louca, as partes íntimas e as coxas, enquanto repetia: ”Como posso tornar-me limpa? Nunca poderei ser limpa...” Temendo pela sanidade da rapariga, Airton acabara por concluir, relutante, que, dadas as circunstâncias, o esquecimento era o melhor remédio e, como Nellie já previra, dera-lhe uma dose de morfina. O que faria quando a morfina acabasse, não sabia, mas ao menos tinha por agora o efeito misericordioso de a pôr a dormir.

 

Helen estava calmamente deitada, e Nellie velava por ela, aproveitando aquele intervalo para se ocupar também dos filhos, que se revelavam também muito perturbados. Estavam os dois sentados a seus pés e ela lia-lhes A Rosa e o Anel, de Thackeray, que tirara da estante ao fazer rapidamente a mala, antes de deixar a missão. Tinha esperança de que o romance, um dos favoritos dos dois irmãos, os distraísse por breves instantes do que tinham visto e ouvido. Reparou que, infelizmente, a atenção das duas crianças dispersava-se; seria preciso muito mais do que as divertidas aventuras do príncipe Bulbo e da princesa Angélica para lhes apagar da mente as marcas daquela aventura demasiado realista - mas continuava a ler, por não ter nenhuma outra solução ao seu dispor.

 

Henry Manners, o Dr. Airton e Fan Yimei estavam no corredor, em frente da porta do quarto. O crepúsculo começara já a cair, e os morcegos iniciavam os seus volteios no céu violeta, do outro lado da janela. Henry chamara o médico e a rapariga para delinear um plano. Falava baixinho, para que as crianças não o ouvissem.

 

- Bom, é difícil imaginar - começou - uma situação mais desesperada. Não obstante, talvez haja ainda uma oportunidade para sair daqui. O mandarim disse-me, antes de se ir embora, que pensava adiantar a nossa partida para esta noite. Vem a calhar, se for verdade, porque duvido que possamos permanecer aqui mais um dia sem sermos descobertos. Infelizmente, o mandarim não me disse qual era o seu plano, mas penso que vai enviar o major Lin buscar-nos, depois da meia-noite. Doutor, tem o seu relógio de bolso?

 

- Passa pouco das oito horas - ripostou Airton, que ainda se mostrava brusco para com Henry.

 

- Então, ainda temos quatro a cinco horas antes que ele regresse.

 

- Se regressar.

 

- Sim, se regressar. Fan Yimei, quais são as probabilidades de alguém vir procurar a Mãe Liu ou o Ren Ren nas próximas horas? Quando darão pela falta deles?

 

- No que diz respeito ao Ren Ren, não sei. A Mãe Liu costuma visitar os clientes na sala de jantar por volta desta hora, e atribui-lhes as raparigas. Por vezes tem dores de cabeça e não desce.

- Óptimo. Sendo assim, ela terá uma enxaqueca esta noite. O que acontece, quando ela não desce até à sala de jantar?”

 

- É o Ren Ren quem distribui as raparigas, enquanto alguém leva o jantar à Mãe Liu.

 

- E se o Ren Ren não está?

 

- Não sei. Talvez ela dê instruções à rapariga que lhe leva o jantar ao quarto.

 

- Sendo assim, e uma vez que a Mãe Liu não descerá à sala de jantar esta noite, podemos supor que uma rapariga, munida de um tabuleiro com comida, subirá até aqui?

 

- Sim, é o que acontecerá, e dentro de muito pouco tempo, se não me engano. Já é quase noite.

 

- Sabes que rapariga será?

 

- Isso depende de quem estiver disponível, Ma Na Si. Ou seja, de quem não estiver com clientes. Em geral, costuma ser a Su Liping, a favorita da Mãe Liu, mas, por vezes, é uma das raparigas novas.

 

- Portanto, uma rapariga, talvez a Su Liping, virá até cá acima para trazer o jantar da Mãe Liu. E quanto ao nosso jantar?

 

É de presumir que alguém nos virá trazer de comer. Achas que pode haver várias raparigas encarregues disso?

 

- Duvido, Ma Na Si. Ninguém sabe que vocês estão aqui. A Mãe Liu e o Ren Ren devem ter combinado trazer eles próprios as vossas refeições. Nunca se atreveriam a envolver outra pessoa no segredo. Se uma das raparigas descobrisse que vocês estão aqui, a notícia espalhar-se-ia rapidamente por todo o estabelecimento, e o Homem de Ferro Wang acabaria por sabê-lo.

 

- Bom. Sempre é uma preocupação a menos. Sendo assim, esperamos uma única rapariga que trará o jantar à Mãe Liu. Ora, talvez possamos enganá-la, não é verdade, Airton?

 

- Acha que isso é possível? Não vejo como...

 

- Eu também não, Ma Na Si - replicou Fan Yimei. Quem quer que venha até aqui, ver a Mãe Liu...

 

- Não se tu esperares por ela no topo da escada e lhe disseres que a Mãe Liu não quer ser incomodada. Ela deixará o tabuleiro em frente da porta, tu transmites-lhe as instruções da Mãe Liu para esta noite e ela voltará a descer. Dessa forma, a rotina será mantida.

 

- Poderá resultar com uma das novas, nunca com a Su Liping. Tenho a certeza de que desconfiará, se eu lhe disser tal coisa.

 

- Então terá de ser a Mãe Liu a dizer-lho.

 

- Mas como, Ma Na Si?

 

- Com o meu revólver apontado à cabeça, ela dirá tudo o que eu lhe ordenar. Venha, doutor. É melhor levarmos a velha megera para o seu quarto. Temos muito pouco tempo.

 

- Enlouqueceu, Manners? - O médico mal conseguia conter a sua aversão pelo homem, já não confiando na sua forma de dirigir as operações. – Éé um plano desesperado. E se a mulher manifestar, de uma maneira ou de outra, que está a falar sob ameaça? E se a rapariga, seja ela quem for, não se deixar iludir? Mesmo se resultar, também temos de levar em conta o desaparecimento do filho. E se o Homem de Ferro Wang enviar um dos seus homens até aqui para o procurar?

 

- Nesse caso, provavelmente, seremos descobertos e teremos todos uma morte horrível. Tem um plano melhor? Uma coisa é certa: se não fizermos nada, então, sim, seremos descobertos.

 

- Nem sequer sabemos se o mandarim vai mesmo enviar alguém buscar-nos, esta noite...

 

- Doutor Airton, não lhe posso garantir nada, excepto que não vou desistir, enquanto houver a mais ínfima possibilidade de sairmos daqui com vida. Se o Lin não vier buscar-nos, teremos de arranjar uma maneira de fugir daqui, o que não será fácil, com os bandidos do Homem de Ferro Wang no piso térreo... Enfrentamos um problema de cada vez, e o primeiro é o maldito tabuleiro que vão trazer. Quer ou não ajudar-me a ir buscar a Mãe Liu?

 

Airton consentiu, a contragosto. Enquanto Fan Yimei ficava de vigia ao alto da escada, os dois homens dirigiram-se ao quarto de Henry, onde Mãe Liu estava amarrada à cama. Os seus olhos chispavam de ódio, por cima da mordaça, mas, de resto, mostrava-se calma. O médico desamarrou-a, enquanto Henry mantinha o revólver apontado à sua cabeça.

 

- De pé! - ordenou-lhe, e Mãe Liu obedeceu. - Doutor, ate-lhe as mãos atrás das costas.

 

Airton assim fez. Depois, agarrou no braço da velha e conduziu-a para a porta. Henry seguiu-os.

 

- Se der um passo em falso, enfio-lhe uma bala no crânio - ameaçou.

 

Saíram para o corredor. Já anoitecera quase por completo e o corredor achava-se mergulhado na penumbra. Fan Yimei lembrara-se de ir buscar uma lanterna ao quarto de Mãe Liu, e pendurava-a num gancho que havia na parede. Quando a luz amarela lhe iluminou o rosto, Mãe Liu reconheceu-a e estremeceu de cólera perante aquela traição, resmungando algo de incompreensível por baixo da mordaça.

 

A fúria de Mãe Liu tornou-a obstinada. Caiu de joelhos no chão, e recusou-se a andar.

 

- Levante-se! - gritou Henry.

 

Mãe Liu debateu-se, enquanto o médico tentava levantá-la. Ao ver o que se passava, Fan Yimei acorreu a ajudá-lo.

 

Ambos pararam, porém, ao ouvir ruídos na escada. Tarde de mais.

 

À ténue luz da lanterna, uma rapariga magra e bonita saiu da penumbra, tropeçando devido ao peso do tabuleiro, repleto com vários pratos e um bule de chá. Os seus olhos esbugalharam-se ao ver os dois estrangeiros flanqueando a temida figura de Mãe Liu, e estacou, abrindo a boca de medo e de espanto.

 

Henry precipitou-se para ela; a rapariga deixou cair o tabuleiro e virou-se para fugir, mas Manners agarrou-lhe num braço, fê-la rodar sobre si própria e pressionou o revólver contra a sua testa.

 

- Nem um piu... - sibilou.

 

- Jesus, Maria - gemeu a rapariga. - Por favor, não me faça mal...

 

Foi a vez de Henry revelar o seu espanto.

 

- O que foi que disseste? - sussurrou, baixando a arma.

 

- Por favor, não me faça mal - soluçou a rapariga.

 

- Disseste: ”Jesus, Maria”? És cristã? Fan Yimei, o que faz uma cristã aqui?

 

- Não a conheço, Ma Na Si. O Ren Ren e os seus homens trouxeram várias raparigas recentemente.

 

- Como te chamas? - perguntou gentilmente Henry. A rapariga percebeu que o estrangeiro não ia fazer-lhe mal.

 

- Fénix, Xiansheng - respondeu ela, reprimindo as lágrimas, - mas o meu nome verdadeiro é Wang Mali. Era assim que eu me chamava antes de... de ser trazida para aqui.

 

- Mali - repetiu Airton. - Podia ser a versão chinesa de Maria. De onde vens, minha querida? Qual é o nome da tua aldeia?

 

- Bashu, Xiansheng, mas disseram-me que tenho de esquecer o meu passado.

 

- Oh, Deus... Manners, é a aldeia para onde a irmã Elena se dirigia, antes de desaparecer. Havia lá uma rapariga chamada Mary. Eram duas irmãs, Mary e Martha. Elena e Caterina falavam-nos muito delas. Responde-me, minha querida, de quem és filha?

 

- Do pastor Wang - murmurou a jovem, mas a sua voz sumiu-se e começou a soluçar. - Mas ele morreu, morreu...

 

- E a irmã Elena? - insistiu Airton. A sua voz era veemente, com o desejo de conhecer o destino da freira - Responde!

 

A freira que costumava visitar-vos! O que lhe aconteceu?

 

- Também morreu, Xiansheng. Mataram-na, depois de matarem a Martha. Na igreja. Mataram... Mataram todas as pessoas e trouxeram-me para aqui à força, e tornaram-me... transformaram-me...

 

Os ombros de Airton curvaram-se e baixou a cabeça. Muito embora o seu lado racional lhe dissesse que isso era muito improvável, não recebera notícias da morte de Elena, pelo que uma pequena parte dele continuava a nutrir a esperança de que tivesse sobrevivido. Agora, os seus piores receios confirmavam-se. Era como se lhe tivessem dado mais uma martelada na cabeça, depois de todos os choques que sofrera nos últimos dias.

 

Mary chorava convulsivamente. Fan Yimei largou o braço de Mãe Liu para ir abraçar a rapariga.

 

- Deixe-me a sós com ela durante um momento - pediu, erguendo os olhos para Henry. - Creio que podemos confiar nela. Não se preocupe. Eu explicar-lhe-ei o que tem de fazer. Vou acalmá-la, antes que ela volte a descer...

 

- Está bem. Serve-te do quarto da Mãe Liu. Dá-lhe um pouco de chá, se não foi todo entornado. Airton, é melhor voltarmos a fechar esta mulher no meu quarto e amarrá-la.

 

- Não podemos fazer isso! - protestou o médico. Não ouviu a rapariga? A Mary é uma das nossas! Uma cristã, uma vítima inocente de homens cruéis que a venderam a um bordel. Eu conhecia o pai. E a rapariga era amiga da pobre Elena. Agora que a salvámos, não podemos enviá-la novamente para os homens que a maltrataram! É nosso dever protegê-la.

 

- Salvá-la? Protegê-la? Tem noção do que está a dizer? Mal conseguimos proteger-nos a nós próprios! - ripostou Henry, em tom áspero. - E muito menos podemos protegê-la, a ela ou seja quem for, se formos descobertos, o que irá acontecer, por certo, se a sua preciosa Mary não voltar a descer para dizer que está tudo bem. Ouça, doutor, temos apenas quatro horas. Quando chegar o momento, tentaremos levar a rapariga connosco. Por ora, é-nos mais útil se regressar ao bordel.

 

Voltou-se para Mãe Liu.

 

- De que se está a rir, sua cabra? - sibilou, fora de si. Mãe Liu observara com interesse a altercação entre os dois homens, as sobrancelhas erguidas, sarcásticas, por cima dos olhos frios e calculistas.

 

Duas horas mais tarde, o Dr. Airton encontrava-se no quarto com a família. Helen dormia, perdida nos sonhos proporcionados pela morfina. De tempos a tempos, virava-se na cama, sacudia a cabeça ou batia no peito. Numa das vezes sentara-se, com os olhos abertos, murmurando:

 

- Sabão, Tom. Por favor, dá-me mais sabão. Porque não me dás mais sabão?

 

Uma lágrima rolou-lhe pela face.

 

O médico preparara uma nova dose de morfina, mas Helen voltara a adormecer.

 

Henry estava sentado no quarto contíguo, a vigiar Mãe Liu, que também dormia. Os seus roncos eram levemente abafados pela mordaça, porque Henry a tornara mais lassa para que a chinesa não sufocasse. Fan Yimei estava com ele. Apesar de terem muito a dizer um ao outro, nenhum deles queria começar e mantiveram um silêncio embaraçado. A dada altura, porém, Henry abordou o assunto de que tinham falado, em vão, antes de serem apanhados no acampamento do caminho-de-ferro.

 

- Sabes que não me deves nada? - perguntou ele.

 

- Se você o diz, Ma Na Si - replicou docilmente Fan Yimei.

 

- Por eu ter ajudado o rapaz.

 

- Compreendo.

 

- Desde então, muita coisa aconteceu. Nunca teria resultado...

 

- Sim, eu compreendo - afirmou Fan Yimei. Henry remeteu-se novamente ao silêncio.

 

- Não deve sentir-se culpado pelo que aconteceu hoje disse ela. - É um acto nobre salvar uma vida, especialmente, quando envolve um sacrifício. A sua senhora também foi muito corajosa.

 

- Sabes, eu nunca quis... - começou por dizer Henry, mas não conseguiu concluir a dolorosa frase.

 

- Não podia prever o que ia acontecer - comentou a rapariga. - A culpa não é sua. E a senhora curar-se-á com o tempo. E poderá perdoar-lhe, se for sensata.

 

- O doutor nunca me perdoará.

 

- É porque nunca sofreu, antes. Era sábio, mas apenas detinha a sabedoria do dia, quando as certezas brilham à luz do sol. Era um curandeiro e acreditava que podia projectar a sua luz até aos recantos mais sombrios. Mas agora foi desafiado por uma outra sabedoria, a da noite, onde não há luz e nada é certo. E é muito difícil para ele.

 

- És tu que deténs a sabedoria - murmurou gentilmente Henry.

 

- Aprendi o que é o desgosto, mas continuo a viver. Isso é ter sabedoria?

 

- Isso é um disparate - ripostou ele. Fan Yimei nada disse. - Sabes, talvez o mandarim não envie ninguém para nos vir buscar, esta noite.

 

- É melhor acreditar que vai fazê-lo.

 

- Sim, mas o que me preocupa é o seu mensageiro. Depois do que esse Lin fez hoje, não posso permitir que viva.

 

- Se tirar a vida ao major Lin, não haverá ninguém para salvar as vossas.

 

- É difícil, não é? Não estou certo de ser capaz de me dominar, quando o vir.

 

- Vai ser capaz, porque o senhor, ao contrário do médico, detém a sabedoria da noite.

 

- A sério?

 

- Sempre foi assim. Ma Na Si, quando me vai pedir que eu desça?

 

- Não será perigoso? Com o Homem de Ferro Wang e os seus vagabundos por aí?

 

- Mas se eu não descer, quem conduzirá o major Lin até cá? O mandarim deve ter pedido à Mãe Liu que tratasse de tudo. Vi-os encaminhar-se para a porta juntos, e ele deve ter-lhe revelado os seus planos. Suponho que era intenção da Mãe Liu contar tudo ao Ren Ren. Por isso andava à procura dele, quando ela e o doutor se envolveram naquela luta. Se ninguém estiver à espera dele e lhe explicar a situação, receio que os nossos planos não dêem resultado.

 

- Aquela rapariga, Mary, pode trazê-lo até cá?

 

- Não, Ma Na Si. Ela estará a divertir os clientes. Pedi-lhe que se preparasse para sair discretamente, depois da meia-noite, quando o homem a quem ela for destinada estiver a dormir, mas não podemos contar com ela mais cedo. Além disso, o major Lin não a conhece e não confiará nela. Portanto, cabe-me a mim ir até à porta esperá-lo.

 

- Não tens medo de encontrar um dos bandidos do Homem de Ferro Wang, quando desceres?

 

- Sei como lidar com esse tipo de situação. Acredite em mim.

 

- És uma mulher notável. Salvaste-nos a vida, hoje, e vais começar tudo outra vez.

 

- Matei dois homens - disse Fan Yimei tristemente. Terei de viver com essa vergonha. Queira perdoar-me, Ma Na Si - acrescentou, levantando-se -, mas agora tenho de ir.

 

Henry assentiu com um aceno de cabeça. Não tinha nada a dizer.

 

Fan Yimei atravessou o corredor sombrio. Pela escada, ouviu os gritos e as vozes embriagadas de homens que cantavam. Tacteou o interior do seu vestido para verificar que não perdera o pequeno saco encontrado no quarto de Mãe Liu. Só depois ergueu a cortina que tapava a entrada para a escada secreta. Chegada ao corredor do segundo andar, ouviu exclamações e risos que vinham dos quartos, mas, para seu grande alívio, o corredor estava deserto. Apressou-se a atravessá-lo, mas quando alcançou a escada ouviu uma voz aguda e zombeteira atrás de si.

 

- Não acredito no que vejo! Que honra! A preciosa Fan Yimei...

 

Voltou-se, esboçando um sorriso forçado. Su Liping estava à entrada de um dos quartos, nua, à excepção de um estreito doudu que lhe cobria os seios e o abdómen. Um cântaro de vinho pendia-lhe da mão. Fan Yimei percebeu, pelo seu rosto avermelhado e voz arrastada, que a rapariga estava bêbeda. Em condições normais, isso seria uma infracção às regras do bordel, mas Fan Yimei desconfiava de que reinava um regime diferente, desde que o estabelecimento de Mãe Liu fora tomado pelo Homem de Ferro Wang e os seus homens.

 

- Sua Senhoria dignou-se visitar as suas humildes irmãs? - continuou Su Liping.

 

- Pediram-me que fosse ver a Mãe Liu - respondeu docemente Fan Yimei - e ia agora mesmo lá abaixo...

 

- Oh! Pediram-te, foi? - exclamou Su Liping, com voz afectada. - Mas que delicadeza. Então, pediram-te? E baixou-se, parodiando uma vénia.

 

- Com quem estás a falar? - rosnou uma voz rouca do interior do quarto.

 

Um homem surgiu atrás de Su Liping, que se afastou, algo cambaleante, para o deixar passar. Também estava nu. Era uma espécie de monstro baixo e barbudo, com um peito em forma de barril. Fan Yimei nunca vira, em toda a sua vida, tantos pêlos num corpo humano. Depois, com um choque, reconheceu-o: era o bandido que brandira um machado no pavilhão do major Lin.

 

- Eu conheço-te. És a cabra pretensiosa que estava com o mandarim, mas és bonita - acrescentou, examinando-a de alto a baixo.

 

- Oh! Não pode tocar-lhe! - riu-se Su Liping. - Ela está reservada. Pertence ao major Lin. É sua propriedade particular - rematou, no mesmo tom de voz afectado que empregara pouco antes.

 

- A sério? - bradou o Homem de Ferro. - Já vamos ver isso. Anda cá!

 

Fan Yimei hesitou, perguntando a si própria se podia ignorá-lo e precipitar-se para a escada.

 

- Com o meu mais profundo respeito, Xiansheng - replicou, num tom apaziguador -, o que a Su Liping afirma é exacto. Pertenço ao major Lin, mediante um contrato de exclusividade.

 

- Não me venhas com essa de Xiansheng - resmungou o Homem de Ferro. - Não sou um Xiansheng. E pouco me ralo com contratos. Já te disse para vires até aqui.

 

Fan Yimei percebeu que não tinha outra alternativa senão obedecer. Com tanta graciosidade quanto lhe foi possível, esboçando o sorriso mais doce, avançou para o homem. Sobressaltou-se quando duas manápulas peludas lhe agarraram os braços.

 

- Contratos... Pois sim... - rosnou o Homem de Ferro Wang, enquanto fazia deslizar o vestido de Fan Yimei. Quando pôs as mãos nos seus seios, Fan Yimei sentiu-se aliviada por o saco que trazia escondido continuar preso por baixo do cinto e não ter caído ao chão.

 

- Belos e maiores do que os teus - disse a uma amuada Su Liping. - Então, és a prostituta do major Lin. Pois ele não vai durar muito, nem o precioso mandarim, apesar de ainda não o saberem. Agora és minha, por esta noite ou pelo tempo que eu quiser até me fartar de ti. Vamos, entra no quarto.

 

- Oh, Homem de Ferro! - queixou-se Su Liping. E eu?

 

- Podes desaparecer da minha vista - ripostou o bandido - ou ficar a ver, tanto me faz.

 

Su Liping seguiu-os até ao interior do quarto, onde se deixou cair num banco, levando o cântaro com vinho aos lábios.

 

- Não bebas isso tudo, sua cabra voraz! - vociferou o Homem de Ferro. - Dá-mo cá!

 

Tirou o cântaro das mãos trémulas de Su Liping e sentou-se na cama.

 

- E tu, despe-te - disse a Fan Yimei, antes de beber um longo trago.

 

Fan Yimei fingia tremer, desviando timidamente os olhos e tapando os seios com as mãos. Já avaliara aquele indesejável cliente e decidira que o pudor seria a melhor atitude a adoptar com ele. Apesar da grosseria do Homem de Ferro, o que o atraía nela era, sem dúvida, a sua distinção. Era óbvio que não gostava do major Lin, e possuir brutalmente a sua concubina seria vingar-se dos privilegiados e dos seus prazeres, que lhe haviam sido negados até então. Se ela cedesse com demasiada facilidade, o Homem de Ferro não só ficaria desiludido, como podia até desconfiar de um ardil. A rapariga conhecia suficientemente bem a reputação daquele homem para não o subestimar.

 

- Tímida, hem? - disse ele, rindo-se. - Então, porque não bebes um pouco deste fortificante? Irás precisar para o que te vou fazer, minha linda. Toma.

 

Atirou-lhe o pesado cântaro. Fan Yimei apanhou-o sem dificuldade, mas fingiu vacilar com o seu peso.

 

- Saíste-me uma flor de estufa!

 

- Por favor, Xiansheng, eu não bebo - balbuciou ela, em tom suplicante.

 

- Farás o que eu te disser!

 

Fan Yimei fingiu fazer um grande esforço para erguer o cântaro.

 

- É tão pesado... - choramingou. - Será que posso... vertê-lo para uma taça?

 

O Homem de Ferro riu-se.

 

- Vá, serve lá uma taça. E, já agora, faz também a cerimónia do chá!

 

Fora mais fácil do que ela pensara. Murmurou uma prece silenciosa a Guanyin por aquele golpe de sorte. Com precaução, pousou o cântaro no tapete, por detrás da mesa, de maneira a ficar fora do campo de visão do Homem de Ferro Wang e de Su Liping. Depois, tirou uma taça do aparador e encheu-a com vinho; ao mesmo tempo, aproveitou para esvaziar o conteúdo do pequeno saco que trazia escondido para dentro do cântaro. Por fim, levantou-se, levou a taça à boca, bebeu um gole, esboçando uma careta para demonstrar que o álcool lhe ardera na língua. Deu um pontapé ao pequeno saco, agora vazio, escondendo-o debaixo da mesa. O Homem de Ferro ria-se do seu aparente embaraço.

 

- Anda, esvazia essa taça! - insistiu.

 

Fan Yimei assim fez, tendo o cuidado de tossir até as lágrimas lhe escorrerem pelas faces. Sentiu uma súbita gratidão para com Mãe Liu por todos os truques e artifícios que lhe ensinara ao longo dos anos.

 

- Mais não, por favor - murmurou, titubeando ao de leve. Esperava ter já as faces coradas.

 

- Está bem. Dá-me isso. Queres ver como se bebe? Assim - e tragou sofregamente metade do conteúdo de um só gole, limpando os lábios. - Assim está melhor. Agora despe-te.

 

Tivera clientes piores. Pacientemente, emitiu os sons que o homem queria ouvir, enquanto rugia por cima dela. Pelo canto do olho, teve a satisfação de ver Su Liping, mal-humorada, pegar no cântaro e retirar-se com ele para o banco. Bebeu sem prestar grande atenção, lançando, de tempos a tempos, olhares furiosos àquela que a suplantara na predilecção do chefe dos Boxers. Fan Yimei, deitada por baixo do Homem de Ferro Wang, simulava prazer e calculava friamente quanto tempo seria preciso para o soporífero actuar. Não estava muito preocupada. Ainda tinha pelo menos uma hora, antes de o major Lin aparecer.

 

O Homem de Ferro estremeceu e depois rolou para o lado.

 

- Já conheci melhor - comentou, bocejando. - Passa-me o vinho.

 

Su Liping já dormia, com a cabeça para trás e a boca aberta, ressonando baixinho. Fan Yimei levou o cântaro ao Homem de Ferro, sem se esquecer de se arrastar sob o seu peso, embora este estivesse quase vazio.

 

- Aquela cabra... - resmungou ele, levando o cântaro à boca. - Bebe mais do que alguns dos meus homens. Deixa-me descansar um pouco, e depois, possuir-vos-ei às duas. As Fénix Gémeas Que Dançam. Não é assim que lhe chamam?

 

E estendeu-se na cama, bocejando de novo. Sabendo que o faria adormecer mais depressa, Fan Yimei, dominando a repulsa, debruçou-se sobre o seu sexo. Quase sufocou com os pêlos espessos do homem, mas fez com a boca o que tinha aprendido. O Homem de Ferro suspirava de prazer. Quando o ouviu ressonar, parou; esperou mais um pouco e deu-lhe uma bofetada ao de leve. Nenhuma reacção.

 

Demorando apenas o tempo para enxaguar a boca com chá frio, vestiu-se rapidamente. Foi então que reparou no enorme machado encostado à parede e olhou para o homem que dormia a sono solto. Seria tão fácil, pensou. Já matara dois homens naquele dia, e aquele era inimigo do mandarim, além de ser a pior ameaça para todos os outros. Ela podia salvar Shishan. Mas não; haveria sempre outros para o substituir. O mundo estava cheio de monstros como o Homem de Ferro Wang, e a morte de um faria surgir outro. Além do mais, não lhe estava na massa do sangue. Ainda lhe custava a crer que disparara os tiros que mataram o Ren Ren e o Macaco. Uma parte dela dizia-lhe que, se alguém merecia morrer, eram aqueles animais e que o fizera apenas para salvar a vida de terceiros, mas, no fundo, sentia-se revoltada consigo própria, quase paralisada pelos remorsos, e tinha de se esforçar para continuar com o seu plano. Mas não podia desiludir as crianças, a pobre rapariga inglesa que fora violada, e o Ma Na Si, que ela amava mas que amava outra. Pensou no princípio budista que aprendera com o pai: estava sujeita à Roda do Renascimento. Que vidas terríveis devia ter vivido, nas suas encarnações passadas, para ter de sofrer tanto nesta. Toda a sua existência havia sido uma interminável expiação; no entanto, e mal-grado os seus esforços, tinha medo de estar a amontoar na alma ainda mais pecados, que deveria novamente expiar em vidas futuras. Apoiou a cabeça à porta. ”Misericordiosa Guanyin”, rezou, ”dá-me forças para continuar”. O Homem de Ferro e Su Liping ressonavam em oitavas diferentes, atrás dela. Fan Yimei levantou o trinco e saiu para o corredor.

 

Reinava a calma no bordel. Alcançou a escada sem qualquer problema, e desceu ao andar onde ficavam as várias salas de jantar. Os homens que tinham estado a festejar já tinham partido e as luzes estavam apagadas. Avançou, hesitante, pela escuridão, tacteando o seu percurso em direcção ao último lanço de degraus, que conduzia ao piso térreo; procurou o muro para se guiar com a mão e reprimiu um grito ao tocar num rosto humano.

 

-Jie jie, sou eu, a Mali...

 

A sua primeira reacção inconsciente foi de fúria pelo medo que a jovem lhe provocara, mas depressa se acalmou.

 

- És boa pessoa - disse-lhe, num tom encorajador. Sobe discretamente ao andar da Mãe Liu e espera-me lá. Eu não demoro.

 

Depois de alcançar o pátio, sentiu-se mais relaxada. Seguiu pelo carreiro até ao pátio seguinte. Os salgueiros farfalhavam sob a leve brisa. Parou em frente do pavilhão do major Lin, a sua casa nos dois últimos anos. As janelas estavam imersas na escuridão. O major não estava ali. Passou pelo último pátio, ao longo da ponte ornamental, ladeada de lanternas, que conduzia ao cubículo do porteiro, onde brilhava uma luz ténue. Enchendo-se de coragem, bateu à janela.

 

- Lao Chen - chamou, num tom de voz tão decidido quanto lhe foi possível. - Lao Chen...

 

- O que foi? - respondeu uma voz ensonada. Um rosto grosseiro, franzindo as sobrancelhas observou-a, num sorriso assim que a reconheceu. - Fan Jiejie... Que está a fazer aqui, a estas horas?

 

- Trago uma mensagem da Mãe Liu. Esperamos visitantes secretos, pouco depois da meia-noite.

 

- Mais visitas nocturnas - suspirou o homem. - Suponho que tenho de desaparecer, como da última vez.

 

Fan Yimei não esperara aquilo, mas apressou-se a aproveitar a deixa.

 

- Exactamente. Pode ir para casa mais cedo. Ficarei aqui junto à porta, para os deixar entrar.

 

- Com tanto encontro secreto - resmungou o porteiro - isto podia ser o esconderijo de uma irmandade. O que é que será desta vez? Ainda anteontem... não, há três noites, foi a mesma coisa. Mas dessa vez foi a Mãe Liu que desceu e me veio revezar. - As sobrancelhas franziram-se subitamente, de desconfiança. - Porque é que ela a enviou hoje e não veio pessoalmente avisar-me? Porque não enviou o filho?

 

- Não faço ideia, Lao Chen. Estão ambos fechados a falar com aquele bandido, o Homem de Ferro Wang. Não sei do que se trata... ela pediu-me para lhe mostrar isto.

 

Tirou da sua faixa um colar de contas de jade que trouxera do quarto de Mãe Liu, por pensar que talvez tivesse de mostrar alguma prova que corroborasse a sua história.

 

- Está bem, eu reconheço-o. Então, o Homem de Ferro Wang? Deve ser coisa séria. Não julgue que não sei o que se passa. Só lhe peço que me dê tempo para pegar nas minhas coisas. Nem quero pensar no que a minha mulher vai dizer, quando a acordar pela segunda vez esta semana...

 

O porteiro partiu, resmungando, e Fan Yimei sentou-se na sua cama de palha. As horas passaram.

 

Com o coração apertado, Fan Yimei começou a recear que o Ma Na Si se tivesse enganado e que o major Lin não viesse. Se fosse esse o caso, ela não tinha a menor ideia do que haveria a fazer.

 

Henry andava de um lado para o outro no corredor quando Airton saiu do seu quarto.

 

- São duas horas e meia - anunciou friamente.

 

- A sério? - replicou Henry, no mesmo tom.

 

- Duvido que o major Lin venha.

 

Henry continuou a andar de um lado para o outro, sem responder.

 

- Que vamos fazer? - insistiu Airton. - Qual é o seu plano?

 

- Esperamos até às três horas.

 

- E depois?

 

- Depois, partimos sozinhos.

 

- Estou a ver. Saímos daqui. Crianças, mulheres, uma delas gravemente doente... por sua causa, diga-se de passagem. Passamos pelo Homem de Ferro Wang e o seu bando, mas e depois? Supondo que chegamos às portas da cidade, o que fazemos? Dominamos os guardas?

 

- Vamos pelas pequenas ruelas até à antiga casa dos Millward. Deve estar abandonada. Escondemo-nos ali e, de uma maneira ou de outra, enviaremos uma mensagem ao yamen. Talvez pela Fan Yimei. Lamento, mas é o melhor plano que pude arquitectar.

 

- Brilhante...

 

- Prefere ficar aqui?

 

- Tenho plena consciência de que não é uma grande opção, mais uma vez, graças a si e ao seu acordo com o mandarim. Ou deverei dizer antes graças ao meu acordo com o mandarim? De uma maneira ou de outra, o que é certo é que correu muito mal, não é verdade?

 

- Até os melhores planos... - murmurou Henry.

 

- Sim, eu sei... Você enoja-me, Manners, com a sua cínica manipulação das nossas vidas.

 

- Devo relembrar-lhe que ainda estamos vivos. Não desista já, doutor - replicou gentilmente Henry.

 

Airton voltou-se com brusquidão e entrou quarto.

 

- Nellie, querida, é melhor fazeres as malas - ordenou à mulher em voz alta, para que Henry o ouvisse. - Mister Manners tem um plano.

 

Henry recomeçou a andar de um lado para o outro.

 

Fan Yimei preparava-se para partir, quando alguém bateu à porta. Nervosamente, levantou o postigo. À luz da lanterna, viu cavalos, e suspirou de alívio.

 

Como previsto, o major Lin viera com alguns dos seus soldados, mas também estava acompanhado por um homem velho, de cabelos brancos, que Fan Yimei reconheceu imediatamente. Todas as raparigas o temiam. Conheciam os seus gostos perversos e não se deixavam iludir pelos seus olhos sorridentes nem pelo seu falso ar de homem santo. Era o camareiro do mandarim, que ela já vira muitas vezes no bordel. Era também, lembrou-se com súbita angústia, amigo de longa data de Mãe Liu. Começou a rever mentalmente a história que ia contar-lhes. Não podia ocultar o facto de Mãe Liu estar presa no andar superior - mas talvez fosse possível explicá-lo, pensou, se lhes dissesse que os estrangeiros tinham desconfiado da dona do bordel e agido insensatamente, com uma prudência excessiva. Se aquele homem soubesse tudo o que acontecera, em particular a morte do Ren Ren, então tudo estaria perdido. O camareiro Jin poderia pura e simplesmente recusar-se a obedecer às instruções do mandarim.

 

A princípio, tanto o camareiro como o major se mostraram desconfiados, ao ver Fan Yimei e não Mãe Liu, recebê-los à porta. Interrogaram-na minuciosamente, mas aceitaram a história que ela lhes contou. O camareiro Jin pareceu divertido com a narrativa da humilhação da Mãe Liu.

 

- Amarrada e amordaçada? - disse, rindo com malícia.

- E atada a uma cama? Oh, estou impaciente por ver isso...

 

Fan Yimei conduziu o camareiro, o major e dois dos seus homens pelo carreiro, atravessando os pátios silenciosos. Todos eles calçavam sapatos de algodão, mas a madeira rangeu, quando começaram a subir a escada. O major Lin mantinha a mão apoiada na espada e os soldados empunhavam baionetas. Se algum dos bandidos do Homem de Ferro Wang tivesse a infelicidade de deparar com eles, era um homem morto. Passaram discretamente pelo corredor iluminado do terceiro andar, mas não se ouvia qualquer ruído nos quartos, à excepção de alguns roncos.

 

Fan Yimei levantou a cortina que escondia a escada que levava aos aposentos privados de Mãe Liu, e todos a seguiram.

 

Foram encontrar os estrangeiros prontos para partir. Estavam reunidos no corredor. Nellie e Mary seguravam numa abatida Helen, meio adormecida. O médico tinha a seus pés a maleta e uma pequena mala, e Henry acabara de tirar a lanterna do gancho da parede.

 

- Obrigado, meu Deus! - exclamou o médico, ao avistar Fan Yimei, seguida pelo camareiro Jin e um soldado. Os outros ainda estavam na escada. - Eles sempre vieram. Estamos salvos...

 

Foi então que o major Lin avançou para a luz projectada pela lanterna. Nesse instante, Helen ergueu a cabeça e viu-o. O homem esboçava um sorriso animalesco. Os olhos da jovem esbugalharam-se de terror, o seu corpo tremeu convulsivamente e emitiu pequenos gemidos. Tentou desesperadamente libertar-se dos braços de Nellie e de Mary, mas não se aguentava sobre as pernas. Acabou por cair de joelhos, estrebuchando.

 

- Faz alguma coisa, Edward! - exclamou Nellie. - Ela está a ter uma crise e não consigo controlá-la!

 

Precipitando-se, o médico procurou uma seringa na maleta. George e Jenny assistiam à cena, estupefactos. Henry, com o rosto desfigurado pela raiva, saltou para a frente do major e só se controlou no último momento. Com os punhos cerrados, os olhos a chisparem de ódio, estacou em frente do seu inimigo, que o contemplava calmamente, sempre com o mesmo sorriso cruel nos lábios.

 

- Que curioso efeito você causa nestes estrangeiros, major - comentou languidamente o camareiro. - Pensava que, dadas as circunstâncias, ficassem contentes por vê-lo. O que pode ter feito para que o detestem assim tanto?

 

O major Lin reparara em Mary, e apontou o dedo enluvado.

 

- Quem é esta? - bradou.

 

O Dr. Airton ergueu os olhos do chão, onde a jovem se ajoelhara ao lado de Helen, que soluçava, amparada por Nellie. Teriam de esperar algum tempo até a morfina actuar.

 

- Major, esta jovem é... é uma amiga - explicou prudentemente. - Foi sequestrada e agora está sob minha protecção. Tenciono levá-la connosco.

 

- Impossível - replicou secamente o major. - Não está incluída nas ordens que recebi.

 

O Dr. Airton pôs-se de pé.

 

- Insisto - disse, no tom mais firme que conseguiu, mas o efeito foi atenuado pelo apelo angustiado que transparecia no seu olhar.

 

O major Lin ignorou-o, virando-se e dando uma ordem a um dos seus soldados.

 

- Nenhum de nós partirá sem ela! - clamou Airton, em voz estridente. - Insisto que ela venha connosco, major Lin.

 

O major compôs de novo a sua expressão irónica.

 

- O senhor não se encontra em situação que lhe permita insistir seja no que for - ripostou com menosprezo.

 

- Major, para quê tanta discussão? - interveio o camareiro Jin. - Um a mais ou a menos... É perder tempo que nos é precioso. Mas, antes de partir, tenho de cumprimentar a Mãe Liu. Anseio por este momento desde que a sua jovem companheira me falou da situação embaraçosa em que ela se encontra.

 

O major espetou o queixo, dando uma ordem à sua concubina.

 

- Leva-o a vê-la, mas depressa.

 

Henry e o médico trocaram um olhar preocupado.

 

- Não. A Mãe Liu está a descansar e deixou instruções estritas para que não a incomodassem.

 

Ao passar por ele, o camareiro Jin sorriu.

 

- Oh, Ma Na Si Xiansheng, sei exactamente que tipo de descanso preparou para a Mãe Liu. Não se preocupe. Não a incomodarei por nada deste mundo. Só iria estragar uma excelente pilhéria.

 

Seguiu Fan Yimei até ao quarto. Henry e o médico sentiram-se aliviados quando viram o camareiro sair, poucos minutos depois, sem a sua prisioneira.

 

- Tenho de lhe agradecer, Ma Na Si. Não estava à espera de me divertir tanto. Que olhar furioso ela me deitou! ”A tigresa ferida olha encolerizada os caçadores que lhe tiraram as crias.” A propósito, está aí a cria dela? amarraram também o Ren Ren, pois não? Que pena. Teria sido perfeito. Pouco importa. Sinto-me mais aliviado por ele não estar aqui. Deve andar a incendiar aldeias e a matar camponeses com os seus amigos boxers. Um jovem tão colérico... Mas ela... Estava tão cómica, na sua raiva! Ficou furiosa, quando paguei os taéis que lhe devia pelo vosso alojamento e os deixei em cima da mesa. Nem sequer pôde regatear! Tanta fúria nos olhos de uma mulher!

 

- Camareiro - atalhou o major Lin secamente -, temos de partir se queremos chegar ao caminho-de-ferro antes do nascer do Sol.

 

- Claro, claro - concordou Jin Lao, sorrindo. - Mas, e os estrangeiros? Estão prontos? Essa jovem parece estar a dormir. Dá ideia de que eles não querem fugir...

 

O major Lin deu uma ordem e o mais alto dos dois soldados colocou Helen sobre o ombro. Nem Airton nem Nellie protestaram. No estado de inconsciência em que a rapariga se encontrava, não parecia ser um meio de transporte tão mau como isso. Nellie abraçou os filhos, e o grupo, assustado mas contente por sair finalmente daquele esconderijo e das terríveis recordações a que estava associado, seguiu os soldados.

 

Desceram a escada e atravessaram a casa adormecida. Por enquanto, a sorte estava do seu lado. Não depararam com quaisquer obstáculos no caminho.

 

Na ruela, por entre os cavalos dos soldados, a carroça de feno que já conheciam esperava-os.

 

Percorreram as ruas silenciosas. Às portas da cidade houve a usual altercação com os guardas, mas que desta vez pareceram intimidados pela espantosa presença do camareiro Jin, que viram desconfortavelmente montado num dos cavalos de Lin.

 

Os fugitivos, escondidos por debaixo do feno, pensaram na viagem nas mesmas condições, de há poucos dias. Desde então, tantas tragédias, e nenhum deles sabia o que o futuro lhes reservava. Tinham conseguido fugir da cidade, mas à sua frente só havia incertezas. Estavam livres da sua gaiola, no Palácio dos Prazeres Celestiais, mas à sua volta o campo estava cheio de numerosos perigos. E para onde fugir, se a revolta grassava por todo o país? Onde encontrar abrigo, quando todas as mãos se levantavam contra os detestados estrangeiros? Sabiam que se dirigiam para o acampamento do caminho-de-ferro. Fora o que o major Lin lhes dissera e era já o suficiente para lhes dar que pensar.

 

A caravana avançou pelas trevas.

 

Quando chegaram ao acampamento, um dia tristonho despontava nos campos cobertos de neblina.

 

Su Liping acordou sobressaltada e olhou estremunhada em seu redor. Doía-lhe a cabeça, sentia-se desorientada e estava aflita para urinar. Viu o Homem de Ferro deitado de costas, com os braços e as pernas estendidos, e perguntou a si mesma por que motivo Fan Yimei não estava com ele. ”Aquela cabra”, pensou. ”Aquela ladra.” Uma dor lancinante latejou na sua cabeça e fez uma careta.

 

O bacio do quarto estava cheio. Cambaleou pelo corredor até à casa de banho e agachou-se sobre o buraco. A sua cabeça parecia ir rebentar e sentia náuseas.

 

Por que raio Fan Yimei não estava ali? Nenhuma rapariga abandonava um cliente. Era a regra principal de Mãe Liu.

 

E o que estivera Fan Yimei a fazer com Mãe Liu, até altas horas da noite? Normalmente, nunca saía do pavilhão do major Lin. Tudo aquilo era muito estranho.

 

Lembrou-se então do que a nova rapariga, Fénix, lhe dissera: a Mãe Liu estava doente e não queria ser incomodada. Era impensável que tivesse chamado a Fan Yimei, se estava com uma das suas depressões. Se queria ver alguém, tê-la-ia chamado a ela.

 

E não era tudo. Fan Yimei pouco protestara, quando o Homem de Ferro lhe ordenara que entrasse no quarto. Apesar de ser um bom partido - fora por isso que ela própria insistira em ser-lhe atribuída - Fan Yimei tinha o major Lin e o Homem de Ferro nem sequer era o seu género. Mas havia mais: toda aquela encenação com o cântaro de vinho. Quisera mostrar-se sedutora - afinal, Su Liping também aprendera os mesmos truques - mas porquê? Uma súbita suspeita veio-lhe à mente: ignorando a dor de cabeça, regressou ao quarto e dirigiu-se à mesa onde Fan Yimei servira o vinho. Não precisou de muito tempo para descobrir o pequeno saco. Pegou-lhe e cheirou o seu interior. A cabra! Não admirava que se sentisse agoniada.

 

Sem se dar ao trabalho de vestir o roupão, correu até ao fundo do corredor e empurrou o painel que se escondia atrás da cortina. Subiu a escada e bateu com força à porta do quarto de Mãe Liu, mas não obteve resposta. Abriu a porta. O quarto estava vazio. Procurou em todos os quartos até encontrar a dona do bordel. Com um nó na garganta, viu as cordas e a mordaça e começou a desatá-las freneticamente.

 

- Ta made! - exclamou Mãe Liu, assim que pôde falar.

- Porque demoraste tanto tempo? Não sentias a minha falta, sua estúpida?

 

- A Fénix disse-me que a senhora não se sentia bem gemeu Su Liping, enquanto lhe desamarrava as pernas. Mãe Liu, tenho algo a dizer-lhe acerca da Fan Yimei...

 

- Já sei tudo acerca da Fan Yimei! - bradou a velha, saindo da cama. - Onde está o Ren Ren?

 

- Oh, o seu ombro está a sangrar...

 

- Quero lá saber do meu ombro! Onde está o Ren Ren?

 

- Ninguém o viu - murmurou a rapariga, agora muito assustada. Da última vez que o vimos, estava consigo.

 

Os olhos de Mãe Liu abriram-se de angústia.

 

- O daifu, o daifu... Porque tentou ele impedir-me que eu seguisse pelo corredor?

 

- Não sei... - tartamudeou Su Liping, assustada.

 

- Vem comigo! - ordenou-lhe Mãe Liu.

 

Já cambaleava em direcção à porta. Acelerou o passo, só parando em frente do quarto que fora preparado para o mandarim e a mulher estrangeira. Antes de entrar, pareceu ter um momento de fraqueza.

 

- Abre a porta - murmurou. - Abre-a por mim. Su Liping levantou o trinco. Mãe Liu inspeccionou o interior com o olhar.

 

- Vai buscar a lanterna ao corredor. Su Liping apressou-se a obedecer.

 

- O tapete - arfou Mãe Liu, quando a outra regressou.

- Não pertence a este quarto. Levanta-o.

 

Soltou um pequeno gemido ao ver as manchas de sangue. Deixou-se cair de joelhos e arrastou-se lentamente em direcção à cama.

 

- Mãe Liu - chorava Su Liping, com os dedos na boca -, o que aconteceu?

 

Mãe Liu virou-se para a fitar. Estava lívida. Su Liping nunca vira uma expressão tão terrível.

 

- Sai daqui. Acorda o Homem de Ferro Wang e diz-lhe que venha até aqui. Vai, anda!

 

Depois de um último olhar assustado, Su Liping saiu para o corredor. Quando chegou à escada, ouviu gritos lancinantes, estridentes, desumanos, que a perseguiram até ao fundo da escada, ecoaram pelos corredores e ressoaram em cada canto do edifício, até às profundezas dos andares inferiores.

 

O acampamento do caminho-de-ferro, outrora repleto de actividade, estava praticamente deserto. A maior parte dos operários tinha voltado para casa; os outros haviam-se juntado às fileiras dos Boxers. Os homens do major Lin posicionavam-se a toda a volta do recinto com as carabinas em posição, contemplando a aproximação do major.

 

A pequena caravana atravessou as fileiras de tendas vazias, passou pelos barracões, até ao local onde a locomotiva estava parada na via. O mandarim esperava-os, de pé, à porta de uma das carruagens da primeira classe. Apesar de todos os seus esforços, os Boxers não tinham conseguido destruir o comboio, embora a carapaça metálica da locomotiva estivesse desbotada e exibisse amolgadelas. Podia ver-se alguma ferrugem nas rodas, e não havia um só vidro intacto. Junto à locomotiva, um pequeno grupo de soldados carregava molhos de lenha e sacos de carvão, empilhando-os no tênder.

 

O mandarim, com expressão sardónica, observou os europeus sair, um a um, da meda de feno. Sorriu perante o seu aspecto desleixado, com bocados de feno presos ao cabelo e às roupas. Mas sorriu preocupado quando viu Henry e o médico tirar da carroça o corpo inconsciente de Helen, e franziu as sobrancelhas, perguntando:

 

- O que tem ela, Daifu? Não está bem? Os olhos de Airton brilharam de ódio.

 

- Sabe muito bem o que ela tem, seu canalha!

 

O mandarim fitou Henry com um olhar interrogador.

 

- Ela foi violada, Da Ren, e agredida... - respondeu Manners. Os seus olhos viraram-se na direcção do major Lin, que sorria friamente, montado no seu cavalo. Quando Henry continuou, o seu rosto era tão impassível quanto o do chinês:

 

- Por Ren Ren e um dos seus amigos. O rosto do mandarim ensombrou-se.

 

- É verdade, major?

 

- Não sei nada acerca de qualquer violação, Da Ren respondeu Lin, com ar indiferente.

 

- O major tem razão, Da Ren. Ele já nos tinha deixado, quando tudo aconteceu - acrescentou Henry, cuidadosamente as palavras. - Mas talvez lhe interesse saber que esses dois homens estão mortos. Sim, matámo-los, major, pouco depois de o senhor sair. É bom que o saiba, major, porque assim compreenderá que não sou o género de pessoa de deixar vivo um animal que tenha cometido uma agressão tão cobarde e desprezível contra uma mulher que se acha sob a minha protecção. E que me vingarei, demore o tempo que demorar.

 

A testa do mandarim enrugou-se ao ouvir o desafio implícito naquela declaração, e reparou no olhar de ódio que os dois homens trocavam.

 

- Vingança? Mas os autores do crime não foram já mortos, Ma Na Si? Gostaria de conhecer os pormenores desse caso e saber como conseguiram ocultar os vossos actos dos outros que se encontravam no bordel. Deve ter usado de grande habilidade e engenho. Confesso que fiquei algo perplexo, quando o ouvi dirigir-se ao major Lin com tanta violência. Está a acusá-lo de negligência por não ter sabido evitar esse crime?

 

- Nunca acusaria o major Lin de negligência - retorquiu Henry, com um sorriso glacial. - Nunca conheci um homem que fosse tão deliberado nos seus actos.

 

O mandarim meneou a cabeça.

 

- É terrível que uma tal coisa tenha acontecido. Diz que essa mulher está sob sua protecção, Ma Na Si, mas, na realidade, ela estava sob a minha. Se procura alguém culpado de negligência, receio que esse alguém seja eu. O doutor parece não ter dúvidas a esse respeito... Não sei como reparar o meu erro, neste momento, mas parece-me mais urgente instalá-la, instalá-los a todos, no comboio. Mandei transformar o interior das carruagens para que a vossa viagem fosse o mais confortável possível. Têm camas e salas. Mas entrem, por favor. Quando já estiverem devidamente instalados, gostava de falar consigo, Ma Na Si. Como sabe, ainda temos alguns pormenores a acertar. Espero que o doutor também venha visitar-me, na devida altura. Partindo do princípio de que possa esquecer a antipatia que sente neste momento por mim.

 

Preparou-se para entrar na sua carruagem, mas virou-se para acrescentar:

 

- O comboio estará pronto para partir daqui a pouco. É preciso aquecer a locomotiva. Ou dar-lhe água. Não percebo muito bem como funciona. Esperemos que possamos partir sem incidentes. O único que percebe de comboios aqui é você, Ma Na Si. Infelizmente, todos os outros estrangeiros que aqui trabalhavam morreram. Talvez possa dar algumas instruções aos soldados que destaquei para conduzir o comboio, quando estivermos preparados para partir.

 

O mandarim não mentira. Apesar dos vidros partidos, as carruagens tinham sido luxuosamente mobiladas. Na carruagem que lhes fora destinada, ao lado da do mandarim, os bancos encontravam-se substituídos por sofás e poltronas espaçosos, retirados dos aposentos privados de Herr Fischer; também havia duas camas chinesas de dossel, em cada extremidade da carruagem. O chão estava coberto por tapetes azuis de Tientsin e um bule de chá esperava-os em cima de uma mesa baixa de mogno, acompanhado por alguns doces.

 

As crianças começaram a correr através dos vastos aposentos, guinchando alegremente por tão súbita liberdade. Airton e Nellie deitaram Helen numa das camas, enquanto Fan Yimei e Mary se ocupavam do chá. Henry ficou sozinho a um canto.

 

- Bom, vou ver o mandarim - anunciou em tom constrangido, passado algum tempo.

 

- Isso, vá ter com o seu amigo - ripostou Airton. É mais bem-vindo lá do que aqui.

 

- Edward! - ouviu Nellie dizer, quando saiu. - Não podes ser mais afável com ele? Julgas que também não está a sofrer?

 

Com um sorriso acabrunhado nos lábios, Henry passou de uma carruagem para a outra e bateu à porta da ocupada pelo mandarim. Estava ainda mais sumptuosamente decorada do que a carruagem do lado; havia escrivaninhas de madeira, mesas e cadeiras e rolos pendurados nas paredes. Numa grande mesa, o mandarim estivera a praticar caligrafia, mas agora ele e o camareiro Jin encontravam-se sentados em cadeiras com espaldares altos, empunhando cada um uma chávena de porcelana cheia de chá. Ao fundo da carruagem, Henry avistou três mulheres, reclinadas numa elegante cama de dossel com cortinas, que jogavam às cartas. Eram, sem dúvida, as mulheres do mandarim.

 

Este levantou-se para o receber.

 

- Bem-vindo, caro amigo. Sinto-me aliviado por todos terem fugido sem problemas. Mais uma vez, quero que saiba quanto estou desolado por saber dos maus tratos que a sua amiga sofreu. Creia que nunca foi minha intenção que algum mal lhe acontecesse. Ainda quero ouvir como foi que castigou os responsáveis, mas aplaudo desde já o seu gesto, fazendo justiça com as suas próprias mãos. Ao matar o Ren Ren, libertou o mundo de um dos seus habitantes mais desprezíveis.

 

”Por ora, sente-se e beba chá. Temos outros assuntos importantes a tratar. Primeiro, gostaria de lhe mostrar que trouxe o necessário para honrar a minha parte do acordo.

 

Duas grandes caixas de laca estavam pousadas junto da parede. O mandarim desatou as borlas amarelas que mantinham as tampas fechadas.

 

- Examine-as. Encontrará no interior das duas caixas o pagamento que o coronel japonês exige.

 

Henry abriu a caixa mais próxima. O interior reluzia com lingotes de ouro empilhados. Acenou ao de leve enquanto passava a mão pelo metal macio. A outra caixa continha prata: lingotes e dólares mexicanos. Enfiou uma mão no amontoado de moedas, que tilintaram ao cair.

 

Ouviu atrás dele um sibilar felino. Jin Lao estava debruçado por cima do seu ombro, com os olhos quase vítreos de avidez no rosto de pergaminho.

 

- Como vê, até o meu camareiro nunca contemplou um tal tesouro - comentou o mandarim. - Pese-o, se quiser, mas asseguro-lhe de que contém o montante pedido. É uma grande parte da fortuna que me levou muitos anos a acumular. Cabe-lhe a si a decisão de a dar ao seu governo, ao coronel japonês ou guardá-la para si. Isso já não me diz respeito. Conquanto me revele onde estão escondidas as armas.

 

- Obrigado - retorquiu Henry, fechando as caixas. Não preciso de verificar. A sua palavra basta-me.

 

- Fico honrado pela sua confiança - agradeceu o mandarim. - E agora é a sua vez. Onde estão as armas?

 

- Antes disso, gostaria que me explicasse o que tenciona fazer connosco, assim que eu tiver cumprido a minha parte do acordo.

 

- Poderão partir, Ma Na Si. Mais alguma coisa?

 

- Resta saber como e, mais importante ainda, para onde. De acordo com as últimas notícias que tive, as legações de Pequim achavam-se cercadas, e um exército que tomara posição em frente de Tientsin para defender as legações, sob o comando do almirante Seymour, foi aniquilado, deixando a cidade também cercada. Tanto quanto sei, Pequim e Tientsin podem ter já caído nas mãos dos Boxers, o que não nos deixa muitas hipóteses.

 

- Tem razão, Ma Na Si, quando afirma que Tientsin está cercada, assim como as legações; mas, por enquanto, continuam a aguentar-se. E, se o exército de soldados e de voluntários comandado pelo almirante foi derrotado, não foi destruído. Da última vez que ouvi falar dele, estava acampado cerca de trinta quilómetros a norte de Tientsin. Não conseguiram entrar na cidade mas, por outro lado, as nossas tropas não foram suficientemente fortes para os derrotar. Entretanto, um novo exército estrangeiro, muito mais forte, desembarcou em Taku e tomou os nossos fortes de assalto.

 

- A sério? Henry assobiou.

 

- Sim, Ma Na Si. A tomada de assalto por mar deu-se há duas ou três semanas. Esperamos que esse exército suba o rio Peiho para libertar primeiro Tientsin e depois as tropas do almirante que estão lá encurraladas. Provavelmente, tudo isso já foi conseguido. As últimas notícias que me chegaram têm mais de uma semana. Sem dúvida, tentarão avançar até Pequim quando tiverem reunido um número suficiente de homens.

 

- É uma boa nova para mim, mas má para si.

 

- Pelo contrário, Ma Na Si. Considero-a uma excelente notícia. E digo-o como patriota, creia-me. As vossas tropas destruirão os Boxers e destronarão uma dinastia moribunda, de onde surgirá uma nova China, uma China melhor.

 

- E o senhor, com as suas armas, terá uma posição determinante no Nordeste da China?

 

- Fala com algum cinismo, Ma Na Si, mas não se enganou. Estarei em melhor posição para servir o meu país e os seus verdadeiros interesses.

 

- E nós? Que nos acontecerá? Quando eu lhe der as armas, para onde iremos?

 

- O camareiro, o major Lin e eu desembarcaremos com a maioria dos homens. Tencionamos manter uma força móvel. Neste preciso momento, os cavalos dos nossos soldados estão a embarcar nos vagões de carga deste comboio. Deixar-lhe-ei uma pequena companhia de homens e poderão continuar neste comboio, quanto vos for possível, em direcção a Tientsin. Os nossos soldados ajudar-vos-ão a passar pelas linhas dos Boxers até chegarem ao exército estrangeiro. Depois, voltarão para trás com o comboio. Não é um plano razoável?

 

- É um plano repleto de perigos.

 

- Sim, e cheio de incertezas, mas estes são tempos perigosos.

 

O doutor ensinou-me uma expressão vossa: ”Quem não arrisca...

 

- ...não petisca”. Muito bem, Da Ren. Esse plano convém-me.

 

- Então, vai dizer-nos onde estão as armas? Henry sorriu.

 

- Estão escondidas a cerca de dia e meio de viagem daqui, na planície, do outro lado das colinas Negras. Há uma bifurcação da via, a norte para Mukden e a sul para Tientsin. As armas estão numa caverna, ao fundo de uma ravina, a cerca de meio dia de viagem a cavalo a oeste dessa bifurcação. É um local que tanto o coronel Taro como eu conhecemos bem das nossas caçadas. Poderei conduzir-vos até lá com grande facilidade.

 

- Vai conduzir-nos até lá, Ma Na Si? Estava à espera de que tivesse suficiente confiança em mim para me revelar o local exacto.

 

- É difícil explicar-lhe onde fica, Da Ren - retorquiu Henry, sorrindo de novo. - Poderia perder-se.

 

O mandarim riu-se e ia dizer algo quando ouviram o estrondo de uma fuzilaria. Enquanto as mulheres gritavam assustadas e o camareiro Jin cravava as unhas nos braços da sua poltrona, o mandarim e Henry correram para a janela.

 

Ao alto, junto das fileiras das tendas, avistaram cinco ou seis soldados, que o major Lin deixara de sentinela, a descer a colina a galope, disparando as suas carabinas. Acima deles, em frente da linha composta pelas árvores, estandartes vermelhos e amarelos flutuavam, e centenas de Boxers saíam da floresta. Eram comandados por um cavaleiro atarracado e barbudo que brandia um enorme machado.

 

Henry debruçou-se da janela, percorrendo com o olhar toda a extensão do comboio. À direita, viu soldados que saltavam das carruagens, prontos a enfrentar a ameaça. À esquerda, os últimos cavalos estavam a ser embarcados. A locomotiva achava-se para lá do vagão de carga. Já tinham carregado a lenha e o carvão, mas ainda estavam a encher o reservatório, por trás do tênder, com a água da torre.

 

O mandarim reparou na sua expressão angustiada.

 

- O comboio não está pronto para partir? - perguntou calmamente. - Então, será um teste para o major Lin. Vai ser interessante ver se os esforços que fez no ano passado para treinar os seus homens nos modernos métodos de guerra deram frutos.

 

- É melhor eu ir até à locomotiva para ver se posso apressar a partida - decidiu Henry.

 

- Boa sorte - replicou o mandarim. - Não preciso de lhe lembrar que as nossas vidas dependem do seu êxito.

 

E o mandarim ficou calmamente à janela, observando o major Lin dispondo a sua pequena tropa de fuzileiros em formação de tiro, preparando-os para a investida dos Boxers.

 

MORTES. TANTAS MORTES. ESTOU SOZINHO. O MESTRE ZHANG PODERIA DIZER-ME PORQUE TUDO ISTO ACONTECEU, MAS ESTÁ MORTO

 

Henry saltou para a plataforma de madeira e começou a correr. Ao passar em frente da carruagem destinada ao médico, ouviu alguém chamá-lo. Era Nellie, que se debruçara à janela.

 

- Mister Manners!

 

- Mistress Airton - replicou Henry, impacientemente.

 

- Tenho de ir até à locomotiva. Vamos ser atacados. Devem baixar-se e proteger-se!

 

- É a Helen... Acordou e está a chamá-lo.

 

Emoções contraditórias - ansiedade, medo e esperança - espelharam-se temporariamente no seu rosto.

 

- Ela... ela está...?

 

- Bem? Não, Mister Manners, mas parece ter recuperado os sentidos, pelo menos em parte. Quer vê-lo e mostrou-se muito coerente quanto a isso.

 

Henry hesitou apenas por um segundo. Dois soldados, que carregavam uma caixa de munições, empurraram-no, ao passar por ele. Henry sacudiu a cabeça.

 

- Não posso, Mistress Airton. Agora não. Tenho de ir pôr a locomotiva funcionar. Diga-lhe que a amo... - murmurou, e recomeçou a correr. - E mantenham as cabeças baixas! - gritou, por cima do ombro.

 

- Que a ama? - repetiu Nellie, para si mesma, ao tirar a cabeça da janela. - Se ao menos o senhor tivesse amor para dar...

 

Quando passou pelos dois vagões de carga, ouviu o relinchar dos cavalos assustados e o martelar dos seus cascos no interior. Os soldados que os tinham feito embarcar corriam agora para se juntar às fileiras do major Lin. Um homem ficara para trás, a fim de verificar se as portas estavam devidamente fechadas. Henry reconheceu a pele de carneiro usada e o chapéu de pele, muito sujo, antes mesmo que o rosto familiar se virasse. Deparou então com os olhos rasgados e o sorriso irregular do seu velho mafu.

 

- Lao Zhao! - exclamou alegremente, abraçando-o. Pensava que te tinhas juntado aos Boxers.

 

Lao Zhao riu-se.

 

- Aqueles Xiansheng? Julga que receberia um salário decente daqueles miseráveis? Ainda por cima, roubaram-me as mulas.

 

- Segue-me. Vou ensinar-te a conduzir comboio. Correram juntos, subiu apressadamente a escada de ferro até ao lugar do maquinista, e avaliou a situação com uma breve vista de olhos. Não era famosa.

 

Dois soldados achavam-se no topo da pilha de carvão e manipulavam o tubo que saía da torre de água, para a parte de trás do tênder. Tinham dificuldade em manter no sítio o funil de tela e a água jorrava por toda a parte. Apesar dos uniformes, não passavam de dois rapazes, e, entre risos, entretinham-se a molhar-se um ao outro. E isto enquanto os Boxers desciam a colina! Felizmente, o mostrador de nível, na parte da frente da locomotiva, indicava que o reservatório estava meio cheio. Henry estava mais preocupado com a caldeira. Um cabo, visivelmente perplexo, olhava ansiosamente para a fornalha aberta, de onde saíam toros. Uma chama vaga ardia no interior, enquanto pálidas volutas de fumo saíam preguiçosamente da chaminé, mas não havia como fazer arrancar a locomotiva. Desanimado, Henry percebeu que, àquele ritmo, seriam precisas horas para a fornalha atingir o calor necessário.

 

Se tivesse tempo, talvez tivesse formulado um comentário cáustico sobre as prioridades dos Chineses. Era manifesto que se tinham empenhado em preparar luxuosamente a carruagem do mandarim; se o objectivo era saírem dali vivos, teriam empregue melhor os seus esforços tentando aumentar o vapor. Olhou desesperado para o indicador de pressão. A agulha mal se movera.

 

De nada lhe servia expressar a sua raiva. Os soldados no tênder e na plataforma fitavam-no esperançados, à espera de instruções.

 

Henry debruçou-se da cabina, a fim de formular uma ideia da situação. Um número incalculável de Boxers saía de trás das árvores e descia a colina; dali a poucos minutos, atravessariam a zona das tendas e aproximar-se-iam dos carris. Examinou depois, com olho de militar, a forma como Lin dispusera as suas tropas.

 

Ao menos, o lado sul do recinto do caminho-de-ferro, a sua retaguarda em termos militares, estava relativamente bem protegida. Um muro alto de tijolos cinzentos circundava o desvio da linha férrea, que rodeava um espaço de cerca de cem metros de diâmetro. Ali, havia três oficinas, uma grande pilha de carvão e a alta torre de água, que se erigia na extremidade oeste do cais. As paredes de tijolo formavam um forte perímetro e os portões de ferro, em cada extremidade, estavam fechados com correntes. Seria preciso abrir a porta oeste para deixar sair o comboio, mas Henry pensaria nesse problema na devida altura. Por enquanto, não havia o risco de os primeiros ataques chegarem por aquele lado. O major Lin fizera os mesmos cálculos porque só deixara alguns homens de sentinela.

 

O perigo vinha do lado norte. Não havia qualquer muro que separasse as tendas da colina; era ali que os Boxers estavam a concentrar-se. Os únicos obstáculos entre eles e a plataforma da estação eram os três edifícios de tijolos cinzentos onde Fischer instalara os armazéns e os gabinetes. Para chegar ao cais e ao comboio, os Boxers teriam de passar pelas aberturas, com cerca de cinco metros de largura, que separavam os edifícios. Fora em frente de uma dessas brechas que Lin dispusera as suas companhias de fuzileiros. Colocara-os em duas filas, uma de pé, outra ajoelhada. Todos os Boxers que tentassem passar por aquela abertura iriam deparar com um verdadeiro muro de fogo. Henry viu que o major mandara alguns dos seus homens subir por escadas, a fim de alcançarem os telhados dos edifícios, sem dúvida para desencadear um fogo contínuo, assim que o ataque começasse. O que o intrigou, por momentos, foram as actividades de uma pequena companhia que, sob o comando de um sargento, desenrolava fios de arame, que iam dos edifícios até ao cais, à retaguarda. Concluiu que os fios conduziam a carregamentos de dinamite, escondidos no interior dos edifícios. O major Lin estava já a preparar a sua retirada.

 

Henry sentiu-se satisfeito. Lin distribuíra os cerca de cem homens à sua disposição tão racionalmente como ele próprio o teria feito.

 

- Talvez aguentem - murmurou. - Vai tudo depender de conseguirem sobreviver ao primeiro ataque.

 

- O que disse, Xiansheng? Lao Zhao fitava-o.

 

- Nada. A coisa promete, mas temos muito que fazer. Começou a dar ordens, dirigindo-se ao cabo.

 

- Você aí! Quero que vá levar uma mensagem ao major Lin. Diga-lhe que ele tem de reter os Boxers durante duas horas. Compreendeu? Duas horas.

 

O cabo fez-lhe continência e saltou do comboio.

 

- Duas Xiansheng? inquiriu Zhao. É preciso todo esse tempo para pôr em marcha este animal? A minha mula precisa de muito menos para se aquecer, de manhã...

 

- Duas horas, se tivermos sorte - respondeu Henry, com ar sombrio. - Pode levar mais tempo. A locomotiva ficou aqui, fria e sem manutenção, durante pelo menos umas seis semanas. Vamos ter de despertar um cadáver, amigo. Só espero que não acabemos tão frios como esta locomotiva... Vamos, o melhor é fazermos alguma coisa com a fornalha.

 

Contra as ordens da mãe - que estava do outro lado da carruagem, a falar com Helen -, as crianças espreitavam pela janela, e foi assim que assistiram ao primeiro ataque.

 

O major Lin mantinha-se de pé, entre as suas companhias, com uma pistola numa das mãos e um sabre erguido na outra. As duas linhas de soldados apontavam as carabinas para o espaço vazio entre os edifícios e esperavam, imóveis.

 

O sol atingira o zénite, num céu sem nuvens, e pontos de luz reflectiam-se, quais diamantes, nas baionetas e nos distintivos dos chapéus. Uma leve brisa agitava a poeira, no campo aberto, enquanto pegas pousavam, por instantes, no telhado de um dos edifícios, ignorando os soldados que se achavam deitados sobre as telhas. Acima das suas cabeças, dois falcões voavam em círculos.

 

- Sha-aa-aa-aa!

 

Um grito longo, de mil vozes, ergueu-se até um crescendo cantante e, tão subitamente como começara, cessou. Não se via vivalma. De seguida, uma única voz entoou o mote já familiar:

 

- Exterminem os estrangeiros! Salvem os Ch’ing! De novo, o grito estridente:

 

- Sha-aa-aa!

 

E de novo o silêncio.

 

A abertura entre os edifícios esperava. O mundo esperava. O major Lin voltou-se para verificar se as suas tropas estavam preparadas. Jenny apercebeu-se de um zumbido e sobressaltou-se quando uma vespa entrou na carruagem. Viu o corpo de listras pretas e amarelas e as asas. Começou a abanar as mãos para a enxotar, e quando voltou a olhar pensou por instantes que estava a ver centenas de vespas, às listras amarelas e pretas, que saíam pelas aberturas entre os edifícios. Uma brigada de Boxers, com estampados azuis e alaranjados nas túnicas e turbantes amarelos tinha preenchido na totalidade os espaços vazios, como que surgidos do nada, e avançavam rapidamente, mas não eram vespas. Os seus ferrões eram espadas, lanças e machados. Eram jovens que atacavam o inimigo, com as bocas abertas, num grito mudo, os olhos nos rostos tisnados a brilhar de ódio e excitação. O sol reluzia nas suas armas e braços nus, erguidos e dispostos a atacar e matar. A poeira rodopiava-lhes em volta dos pés, calçados com sapatos de pano, enquanto avançavam.

 

O major Lin baixou a sua espada para dar o sinal; ouviu-se uma espécie de trovão e as duas linhas de soldados desapareceram numa nuvem de fogo e de fumo. Dispararam e tornaram a disparar até ficarem com as armas vazias. O fumo dissipou-se ao de leve, enquanto recarregavam as armas; por entre aquela nuvem, as crianças avistaram os edifícios. Cada uma das passagens estava pejada de mortos e de moribundos. Autênticos charcos de sangue espalhavam-se pela areia.

 

- George! Jenny! Afastem-se da janela! - ouviram a mãe gritar com voz estridente. Poucos segundos depois, os braços fortes de Nellie abraçavam-nos e forçavam-nos a deitar-se no chão, com as cabeças pressionadas contra o tapete.

 

Ouviram-se de novo gritos e tiros, enquanto continuava o ataque. Jenny chorava, mas George tentava espreitar por entre o braço dobrado da mãe. Helen balançava-se na cama, do outro lado da carruagem, com as mãos nos ouvidos. Fan Yimei e Mary, ajoelhadas no chão, estavam abraçadas uma à outra. Airton, de pé, achava-se junto da grande mesa que fora colocada no centro da carruagem; tirara as taças com fruta e doces, os bules, as chávenas e as jarras com flores e começara a pôr ali os seus escalpelos.

 

Mais gritos, seguidos de tiros, enquanto os ataques fanáticos continuavam. Deitados no chão, George deu consigo a contar os minutos entre cada saraivada. Cada nova detonação constituía um alívio, porque significava que as linhas do major Lin ainda se aguentavam e, quando os intervalos de silêncio se prolongaram, o medo de Airton e dos outros intensificou-se. O médico terminou a tarefa de dispor os seus instrumentos na mesa, assim como as ligaduras e as talas, e dirigiu-se cautelosamente à janela.

 

- Tem cuidado, Edward! - gritou Nellie. - Consegues dizer-nos o que se passa?

 

As suas palavras foram abafadas por um tiro de espingarda, disparado pelo major Lin.

 

- Ainda estão em formação - informou Airton, no silêncio que se seguiu -, mas há corpos estendidos a seus pés. É um massacre - comentou, sacudindo a cabeça. - Oh, Deus meu, eles voltaram.

 

Houve outro troar, provocado pelo tiroteio, mas desta vez não foi seguido pelo silêncio. Ouviram gritos e homens que davam ordens, assim como um novo som, o hediondo bater de aço contra aço. O Dr. Airton fechara as mãos em volta do peitoril da janela. As palavras que proferiu eram incoerentes, tal a sua ansiedade.

 

- Oh, Deus! Passaram por uma abertura!... Sim, sim, as baionetas... Vá! Vá! Oh, meu Deus! Oh! Meu Deus... Ali, um homem. Ali! Ah, apanharam-no... Oh, não! Oh...! Sim, isso! Eles estão a aguentar-se! Eles estão a aguentar-se! Graças a Deus! Deus seja louvado! Os demónios estão a fugir! Estão... As suas palavras foram abafadas por um novo estrondo, uma salva seguida por tiros isolados. As mulheres fitaram-no, com olhos angustiados, e o médico passou a mão pela testa.

 

- Foi por pouco - suspirou. - Foi mesmo por um triz. Que disciplina têm aqueles soldados... Fizeram-nos recuar, servindo-se de armas brancas, Nellie, armas brancas! Meu Deus, pensei que nós...

 

- Shaa-aa-aaa!

 

As espingardas dispararam.

 

Foi o último assalto frontal, durante algum tempo. Aguardaram, mal se atrevendo a respirar. Ao fim de cinco minutos, o major Lin gritou novas ordens. Pouco depois, alguém bateu à porta da carruagem onde eles estavam. Um sargento achava-se respeitosamente em frente da porta, com três homens feridos. Sangravam em consequência de golpes nos ombros e na cabeça. Um outro, deitado numa padiola, contorcia-se com dores, depois de ter sido ferido com um golpe de espada no abdómen. Transportaram-no para o interior da carruagem e estenderam-no na mesa. O médico iniciou o seu trabalho, ajudado por Nellie, que lhe passava os instrumentos e os unguentos. Airton só ergueu os olhos quando teve a surpresa de entrever Helen, de pé à sua frente. Estendia a mão para um rolo de ligadura e um frasco de desinfectante.

 

- O que está a fazer, minha querida? - perguntou-lhe.

- Devia descansar...

 

- Está a esquecer-se, doutor, de que me ensinou a ser enfermeira - respondeu ela, apenas com um leve tremor na voz. - Há outros feridos.

 

- Obrigado. querida - murmurou Airton, concentrando-se novamente no ferimento que tratava.

 

Todos estremeceram quando os tambores recomeçaram a rufar. Era o mesmo ruído monótono e ameaçador a que se haviam habituado, durante as semanas de encarceramento na missão. As crianças, sentadas no chão com Fan Yimei e Mary, tremeram ante o som daquele pesadelo tão familiar, mas os seus pais e Helen voltaram ao trabalho, depois de trocarem olhares preocupados.

 

O rufar dos tambores foi abafado pelo tiroteio que recomeçara. Os Boxers tinham cessado os seus ataques suicidas e enviado atiradores, que trepavam pelas paredes do recinto. Iniciou-se um duelo entre os atiradores, com vantagem dos que tinham mais prática em disparar, os homens de Lin. Não obstante, os feridos não paravam de chegar à carruagem do médico. Um soldado tinha uma seta cravada no braço. George e Jenny contemplaram fascinados as plumas e a farpa, enquanto o homem esperava calmamente a sua vez.

 

- O que está a fazer Mister Manners? - murmurou Nellie ao marido, depois de coserem um último ponto de sutura na têmpora de um soldado, conduzindo-o até à porta da carruagem. - Há mais de uma hora que está na locomotiva. Vamos sair daqui hoje ou não?

 

- Só Deus o sabe - respondeu o médico. - Já conheces a minha opinião... Penso que só sobrevivemos até agora devido àquele homem, apesar das suas maquinações.

 

- Fala mais baixo. A Helen pode ouvir-te - avisou Nellie. - Mas porque não põe ele o comboio em marcha?

 

Nesse mesmo instante, Henry estava deitado de costas por baixo das rodas da locomotiva, munido de um pano e uma chave-inglesa, apertando os pernos de uma das bielas. Já retirara um pé-de-cabra que, numa tentativa desajeitada de danificar o comboio, fora enfiado entre a roda e a biela por um dos operários do caminho-de-ferro. A biela fora dobrada e levara algum tempo até voltar a dar-lhe a forma original, com a ajuda dos dois soldados e de martelos. A reparação não era a melhor, mas devia ser suficiente. Lao Zhao, apoiado à roda, fumava cachimbo enquanto contemplava Henry com curiosidade. Henry reconheceu aquela expressão do amigo e soube que o muleteiro tinha algo para lhe dizer, mas não se sentia tentado em pressioná-lo. Já tinha muito que fazer.

 

Estivera ocupado desde o início da batalha. Depois de ver os soldados de Lin repelir eficazmente o primeiro assalto, concentrara toda a sua atenção na locomotiva. Apercebera-se rapidamente de que os homens designados para conduzir o comboio eram inúteis por completo. Felizmente, os indicadores disseram-lhe que os soldados tinham enchido a caldeira com água suficiente para fazer funcionar a fornalha. O pequeno lume que acendera não seria capaz de fazer arrancar a locomotiva mas, ao menos, também não faria rebentar as serpentinas que continham a água. Seria impossível reparar uma explosão. Pacientemente, Henry instruíra os dois homens para que tirassem todos os toros da fornalha e ordenara-lhes que cortassem lenha mais pequena. Ele próprio colocara mais carvão e, com um pano embebido em petróleo, voltara a acender o lume, alimentando-o com a lenha até ver elevar-se uma chama regular. Depois, com todo o cuidado, acrescentara a quantidade necessária de carvão para fazer o lume alcançar a temperatura certa. Precisaria, no mínimo, de meia hora até obter vapor suficiente, que lhe desse a pressão de 30 libras por cada polegada quadrada necessária para fazer funcionar o fole. A corrente de ar assim criada aceleraria o processo de queima, mas ainda precisaria de uma hora ou mais para gerar o vapor indispensável para que a locomotiva se pusesse em marcha.

 

Até lá, havia muito que fazer. Henry dissera aos soldados que enchiam o reservatório de água para largarem o tubo. Deitavam mais água para cima do carvão do que para o buraco. O manómetro indicava que o reservatório estava três quartos cheio, o que era suficiente. Com o comboio parado durante seis semanas, depois de ter sido atacado por uma multidão em fúria, armada de pedras, tábuas de madeira e só Deus sabia o que mais, seria melhor proceder a uma inspecção minuciosa, especialmente às rodas. Mandara voltar à plataforma os dois soldados e Lao Zhao mostrara-lhes que partes das rodas deviam inspeccionar e como encher os pontos de lubrificação em todas as varas e eixos das bielas. Também lhes dissera para verificarem se as atrelagens entre as carruagens estavam devidamente apertadas. Por fim, pusera-os a trabalhar, entregando-lhes galhetas de óleo. Ele próprio inspeccionara a frente da locomotiva, e fora ali que descobrira a tentativa de sabotagem. Precisara de uma hora de trabalho árduo para endireitar a biela, parando, de tempos a tempos, para subir ao lugar do maquinista e verificar a fornalha, assim como os indicadores de pressão. Pusera em marcha o fole e, quando já havia vapor suficiente, testara o injector. Agora, a caldeira aquecia alegremente, e Henry estava convencido - ou quase - de que a biela danificada funcionaria normalmente.

 

Apertou o último perno e endireitou-se, limpando com um pano o óleo das mãos.

 

- Muito bem. Desembucha, Lao Zhao. O que te vai nessa cabeça?

 

Lao Zhao cuspiu para o chão e inalou duas baforadas do seu cachimbo, antes de responder.

 

- Xiansheng, haverá, por acaso, ouro neste comboio? perguntou.

 

Henry estremeceu, surpreendido.

 

- É possível - respondeu à cautela. - E depois? Lao Zhao fingiu acender o cachimbo.

 

- Imagino que o ouro pertence ao mandarim... - prosseguiu, analisando o rosto de Henry com os seus olhos inteligentes.

 

- E depois?

 

- E depois, seria normal que outras pessoas se interessassem por esse ouro?

 

A expressão de Henry tornou-se severa.

 

- Lao Zhao, que estás a querer dizer-me?

 

- É má educação escutar as conversas dos outros, eu sei, mas ordenou-me que me enfiasse por baixo da barriga deste animal de ferro para lhe enfiar óleo pelas suas muitas goelas abaixo. E estava debaixo da carruagem do mandarim, perto dos degraus, quando vi o major Lin descer para a plataforma.

 

- Provavelmente, foi apresentar ao mandarim o seu relatório acerca dos progressos da batalha. E depois?

 

- Ele não estava sozinho, Xiansheng. Um homem velho seguiu-o até ao exterior da carruagem e falaram, na plataforma, um pouco acima do local onde eu estava, mas não me viram. Penso que esse outro homem também é um alto funcionário.

 

- O Jin Lao.

 

- Sim, Xiansheng, era o camareiro Jin. Os dois falavam em voz baixa, mas os meus velhos ouvidos ainda funcionam e pude escutar tudo o que diziam. O major disse: ”Então, ele tenciona realmente dar o ouro àquele bárbaro?” O velho respondeu: ”Sim, em troca das armas.” E o major disse: ”Mas precisamos das armas e do ouro.” Ao que o velho replicou: ”Você precisa das armas. Eu contento-me com o ouro.” O major comentou: ”O Da Ren é um idiota. Já não tem qualquer utilidade.” O velho retorquiu: ”Vivemos um período agitado, e é espantoso como um acidente pode dar-se rapidamente numa viagem tão perigosa.” O major perguntou-lhe: ”Está a querer dizer-me que deveríamos actuar enquanto estivermos no comboio?” O velho respondeu: ”Os soldados são-lhe leais a si e a mais ninguém.” Depois, houve um grande tiroteio, e não escutei as suas últimas palavras. De qualquer maneira, o major Lin apressou-se a ir ter com os seus homens, enquanto o velho se precipitava para o interior da carruagem. Pareceu-me assustado. Mas não foi uma conversa interessante?

 

- Extremamente interessante - replicou Henry, enquanto enxugava o suor da testa com o pano sujo, sem se dar conta disso.

 

Ao ver o que ele fazia, Lao Zhao lançou a cabeça para trás, rindo-se deleitado.

 

- Acabou de ficar com o rosto todo negro de óleo, Ma Na Si Xiansheng!

 

Henry sorriu, revelando os dentes brancos.

 

- Fico em dívida para contigo, Lao Zhao, e não serei ingrato. Agora, vamos. É melhor espevitar o lume.

 

- Mas que monstro tão faminto é este - resmungou o antigo muleteiro, seguindo-o.

 

Tiveram de se afastar para dar passagem a uma companhia de soldados, que corria para o perímetro oeste, onde os Boxers tentavam trepar o muro do recinto.

 

Henry olhou para o indicador de pressão, que indicava apenas 82 libras por polegada quadrada. Ainda demoraria três quartos de hora, pelo menos, para que a pressão alcançasse as 120 libras com que tentaria pôr o comboio em marcha. E agora os Boxers pareciam prestes a entrar no recinto do acampamento. Henry debruçou-se da locomotiva para verificar o muro oeste, onde a companhia de Lin espetava as baionetas nos Boxers que haviam sobrevivido. A táctica defensiva de Lin revelara-se eficaz, mas Henry sabia que o major não dispunha de homens suficientes para defender todos os pontos de acesso ao recinto do acampamento. Enfiou a mão no bolso, à procura do seu revólver que, depois de Fan Yimei matar Ren Ren e o Macaco, tinha apenas quatro balas.

 

- Lao Zhao - disse -, vou ensinar-te o que faz um bom maquinista quando não tem outra alternativa senão esperar.

 

Apontou para uma chaleira na parte de baixo da fornalha e duas canecas de esmalte.

 

- Faz chá.

 

O mandarim achava-se de pé, junto da escrivaninha, com o pincel na mão, contemplando os dois caracteres que desenhara, com traços vigorosos, quase brutais, na folha de papel. Wu wei. Literalmente, significava ”a negação da existência”, mas naquele axioma taoísta havia uma conotação mais profunda: só se pode alcançar a verdadeira sabedoria através da ausência do pensamento consciente; só se efectuam acções justas quando nos entregamos aos acontecimentos que englobam cada uma delas; os factos insignificantes da nossa vida estão ligados a um desígnio mais vasto, a uma harmonia na qual tudo tem o seu papel, e só se pode compreendê-la quando não se tenta explicá-la; simplesmente por não agir, alcança-se tudo. O mandarim sorriu, escutou os tiros e os gritos, os passos precipitados na plataforma, enquanto uma companhia mudava de posição de defesa, e a crise que representava aquela batalha seguia o seu rumo. Pela janela, viu o major Lin, que fazia sinais com a espada e gritava ordens. Imaginou o Ma Na Si a puxar alavancas e manipules e a atear o lume, na parte da frente do comboio - tanta actividade frenética à sua volta e, no entanto, ali estava ele, admirando a jarra de flores que havia sobre a escrivaninha e os dois caracteres que traçara com a sua própria mão e lhe pareciam falar. A inacção no centro da acção. Sim, os caracteres pareciam-lhe perfeitamente adaptados às circunstâncias.

 

Virou-se para lançar um olhar de desdém às esposas e ao camareiro Jin; fitavam-no, assustados, de um canto, entre a mesa e o sofá, que tinham puxado para formar uma barricada. Havia algum tempo que os atiradores boxers alvejavam o comboio, e, de quando em vez, algumas balas embatiam nas paredes de madeira da carruagem. De uma dessas vezes, uma seta entrara pela janela, atingindo a taça com fruta em cima da mesa, atirando-a ao chão.

 

- Camareiro - disse -, é muito nobre da sua parte proteger tão assiduamente as minhas mulheres, por debaixo da mesa.

 

- O Da Ren diverte-se a troçar de um homem velho e do seu medo - resmungou Jin Lao, com voz rouca.

 

- De forma alguma - replicou o mandarim. - Fui testemunha da sua coragem, ainda há pouco, quando deixou a segurança da minha carruagem para acompanhar o major Lin até lá fora. Devia ser um assunto muito urgente para ter corrido tal risco.

 

- Eu... eu queria apenas pôr-me a par da situação, Da Ren.

 

- Estava presente, quando ele ma descreveu.

 

- Sim, Da Ren. - Jin Lao estendeu a mão para uma chávena com chá frio, a fim de humedecer a garganta seca.

- Mas havia alguns pormenores que eu não tinha compreendido.

 

- A sério? Nunca me passou pela cabeça que se interessasse por assuntos militares.

 

A conversa pareceu aborrecer subitamente o mandarim. Encaminhou-se para a janela e observou a situação: os tiroteios tinham-se tornado mais intensos, lembrando as salvas dos ataques precedentes. Passado algum tempo, virou-se de novo para o camareiro.

 

- Agora que se interessa pelos assuntos militares, talvez deseje saber o que vai acontecer neste comboio se os nossos amigos boxers decidirem tirar os nossos homens dos telhados dos edifícios. Se o conseguirem, receio que o major Lin não aguente muito tempo em terreno descoberto. Isso dar-lhe-á, sem dúvida, a possibilidade de observar de perto alguns combates. Contudo, temo que, na eventualidade de um confronto desses, estejamos em desvantagem numérica e que o comboio seja invadido, o que quer dizer que a sua educação militar terá sido de curta duração. A menos que, até lá, o Ma Na Si tenha encontrado forma de fazer andar a locomotiva. Encontramo-nos numa situação deveras interessante, não concorda?

 

Naquele momento, as suas palavras foram abafadas pelos gritos das mulheres. O mandarim regressou para junto da janela. Perguntou a si mesmo se deveria vestir a sua velha armadura e desembainhar a sua pesada espada. Não tinha intenção de ser capturado e sujeito à indignidade de mais entrevistas com o Homem de Ferro Wang. Contemplou os vultos nos telhados - de um lado, homens de turbante, com espadas e lanças, do outro, soldados de uniforme, tentando repelir o inimigo com baionetas. Era o velho mundo a lutar contra o novo, o grito de batalha da China imperial contra as novas técnicas e métodos do Ocidente, a superstição contra o progresso

- e, pela sua parte, há muito que escolhera o progresso. Agora, observando a batalha, tinha a impressão de que, no fundo, nada mudara. Via chineses a lutar contra chineses, como na sua juventude; os uniformes e fatos eram irrelevantes, como o eram as armas - Boxers, rebeldes do movimento Taiping, era tudo o mesmo, apenas mais uma versão da eterna luta pelo poder que apodrecera todas as dinastias. Se a China queria mudar, então era necessário algo mais radical do que guerras e derramamento de sangue. Sem quase se aperceber disso, lembrou-se das suas conversas com o médico estrangeiro, que defendia uma monarquia constitucional baseada na virtude. Era uma boa ideia e talvez um dia se concretizasse, mas o mandarim duvidava de que viesse a assistir a tal mudança durante a sua vida, mesmo que sobrevivesse a esta batalha. Sabia que, independentemente de destronar esta ou aquela dinastia, os Chineses continuariam a lutar contra os seus compatriotas. Espingardas e baionetas revelar-se-iam mais eficazes do que lanças, e a artilharia pesada derrotaria quem tivesse apenas espingardas. Haveria novos Zheng Guofans com novos equivalentes dos Bravos do Hunan, jovens, como ele fora, que continuariam a brandir estandartes, enquanto os seus oficiais os instigariam à luta com os mesmos credos. Só mais tarde descobririam, se chegassem a velhos e alcançassem a sabedoria, que era sempre o mesmo credo, a luta pelo poder, disfarçada com motes, uniformes e estandartes diferentes.

 

Viu um dos sargentos de Lin, trespassado por uma lança, agarrar no cabo da espingarda para se aproximar do adversário e espetá-lo com a sua baioneta; os dois corpos caíram juntos do telhado, num horrível abraço mortal. Os soldados dispararam uma rajada de tiros e, durante breves instantes, o tecto ficou livre de qualquer boxer - mas pouco depois chegavam outros.

 

Assim agiriam sempre, pensou o mandarim, e nenhuma guerra jamais seria decisiva. Era e sempre assim fora e continuaria a sê-lo. Se sobrevivesse àquela, compraria espingardas japonesas, que serviriam para novas guerras, e para novos massacres de chineses por outros chineses. Suspirou. Que outra alternativa tinha?

 

Wu wei. wei.

 

Com as canecas de chá nas mãos, Henry e a sua equipa observavam da locomotiva a batalha que se desenrolava nos telhados. O combate afigurava-se desesperado, mas o major Lin parecia estar à altura do desafio. A contragosto, porque o odiava, Henry admitiu intimamente que o chinês era um grande soldado. Dois telhados estavam agora seguros, com os homens de Lin ali estendidos, por detrás das telhas das cumeeiras, disparando contra a massa compacta formada pelos Boxers. No terceiro telhado, continuava a luta de baionetas. O major Lin mantivera as suas companhias em frente das aberturas entre os edifícios, apenas enviando um entre cada quatro dos seus homens para ajudar os camaradas nos telhados, e o alcance das suas espingardas ainda era suficientemente forte para repelir os ataques ocasionais, que eram agora menos furiosos, em parte por ser difícil para os Boxers passar por cima dos corpos dos companheiros caídos em ataques prévios, e em parte porque agora revelavam respeito pelas espingardas de Lin. Henry perguntou a si mesmo durante quanto tempo mais durariam as munições. Até ali, vira vários homens entrar e sair do arsenal, no comboio, mas o abastecimento não era inesgotável.

 

A luta no terceiro telhado não corria de feição para o major Lin. Um contingente de Boxers, brandindo machados, fizera recuar até ao rebordo os homens de Lin. Este bradou uma ordem e os soldados que se achavam num dos outros edifícios dispararam. Aquele ataque possibilitou que um novo destacamento de homens de Lin subisse ao telhado. Pouco depois, o terceiro também estava seguro.

 

Portanto, estavam a aguentar-se. Mas durante quanto tempo?

 

Olhou para o manómetro da pressão, efectuou alguns cálculos e tomou uma decisão. Virando-se para um dos soldados, ordenou-lhe:

 

- Vai ver o major Lin e diz-lhe que partimos daqui a trinta minutos. Partimos daqui a meia hora. Compreendido? Diz-lhe isso e volta tão depressa quanto possas. E tem cuidado!

 

O soldado, um rapaz de dezoito anos com um rosto feminino enegrecido pelo carvão, sorriu e fez-lhe continência.

 

- Sim, senhor! - gritou em inglês.

 

Henry perguntou a si mesmo onde aprendera o rapaz aquilo. Seguiu-o ansiosamente com o olhar, enquanto ele corria em direcção a Lin e aos seus homens. Quase os alcançou

- Lin já se virara ao ouvi-lo chamá-lo - quando o rapaz tropeçou e caiu para a frente. Viam-se as nuvens de poeira que as balas levantavam, à sua volta. Lin deu ordens a um destacamento para se ocupar dos novos atiradores, emboscados por detrás dos muros do recinto. Henry voltou-se para o outro soldado que se achava com ele na locomotiva e viu o medo espelhar-se-lhe no rosto.

 

- Raios... - resmungou. - Vou eu mesmo.

 

- Não, Ma Na Si Xiansheng, irei eu - interveio Lao Zhao. - Tenho o estômago às voltas por causa do seu chá e preciso de fazer exercício.

 

- Está bem, mas tem cuidado! - ripostou Henry, furioso por ter de aceitar aquela oferta, mas sabia que era a decisão mais sensata: ele era o único capaz de conduzir o comboio.

 

Não descansou enquanto Lao Zhao, que viu correr prudentemente em campo aberto, não voltou, sem fôlego mas triunfante. Agora, urinava alegremente a seu lado.

 

- O major Lin começará a evacuar daqui a vinte minutos - anunciou, por cima do ombro.

 

- Está bem - replicou Henry. - Nesse caso, é melhor estarmos prontos.

 

Examinou os indicadores. Nível de água a três quartos, o que ia dar. Cento e vinte libras por polegada quadrada de pressão de vapor. Perfeito. Abriu a fornalha: as chamas dançavam sobre a cama vermelha do carvão. Enfornou rapidamente mais três pazadas, deixando a porta da fornalha entreaberta para aumentar a intensidade do lume. O que também daria, por ora. Em que mais tinha de pensar? Na porta. A porta, a uns quatrocentos metros dali, ainda estava fechada com correntes. Seria um suicídio ir abri-la agora. Os Boxers não o deixariam passar. Poderia passar pela porta com o comboio a todo o vapor? Não, era de ferro sólido e estava muito bem aferrolhada. Tinha de tirar as correntes, caso contrário arriscar-se-ia a descarrilar. Teria de mandar Lao Zhao novamente até Lin, para lhe dizer que colocasse os soldados perto da porta, de forma a abri-la quando o comboio estivesse pronto para partir. Muito provavelmente, enquanto abrissem a porta teriam de lutar ao mesmo tempo com os Boxers.

 

Virou-se para examinar de novo a zona dos combates. Lin ainda não começara a retirar e os soldados achavam-se em formação. Foi quando viu, espantado, uma baforada de fumo branco na colina, mesmo por baixo da linha formada pelas árvores; ouviu uma brusca detonação, seguida de uma espécie de silvo que passou por cima da sua cabeça. No meio de um grande estrépito, a pilha de carvão armazenada no pátio sul explodiu numa grande chama avermelhada. Baixou-se para se proteger dos bocados incandescentes de carvão que ricocheteavam no flanco da locomotiva. Grandes aclamações elevaram-se das fileiras dos Boxers. Canhões! Como podiam eles ter canhões? Só depois se lembrou daqueles canhões muito velhos que o major Lin colocara no topo da muralha da cidade. Lembrava-se de o doutor lhe dizer que os tinham puxado até à missão. O Homem de Ferro Wang devia ter dado ordens para que os levassem para ali. Viu uma nova nuvem de fumo, mas desta vez a explosão atingiu as fileiras de tendas. Felizmente, não tinham grande prática, e os Boxers corriam tanto perigo quanto eles de serem feridos. Contudo, os canhões alteravam completamente a situação. Um disparo de sorte contra o comboio fá-los-ia ficar ali para sempre. Tinham de partir, com ou sem o vapor adequado.

 

- Lao Zhao, tens de ir ter novamente com o major Lin para lhe dizer que vamos partir imediatamente e que ele deve ordenar aos seus homens que embarquem. Depressa, vai!

 

Lao Zhao nem se deteve para cuspir. Saltou da locomotiva e correu em direcção ao local onde se achavam os soldados de Lin.

 

- Raios! - praguejou Henry. - Não lhe falei da porta.

- Teria de arrombá-la e fazer figas.

 

- Tu! - gritou ao soldado - prepara-te para deitar carvão na fornalha, como se a tua vida dependesse disso! Espera pelo meu sinal - O manómetro indicava 125 libras por polegada quadrada. - Então, vamos, vamos! - murmurou Henry entre dentes.

 

Ouviu uma saraivada de tiros. Encorajados pela chegada das peças de artilharia, os Boxers tinham-se lançado num novo assalto por entre os edifícios. Henry perscrutou ansiosamente o fumo que se elevava daquela zona; sim, a retirada havia começado. Os soldados que até ali se achavam nos telhados tinham começado a descer, juntando-se aos camaradas e ajoelhando-se para disparar contra os Boxers.

 

Refez mentalmente uma lista das tarefas que devia efectuar. ”Meu Deus!, lembrou-se, horrorizado. Tinha-se esquecido do travão de mão, no furgão do guarda.

 

- Ouve - disse ao soldado. - Olha para este indicador. Quando a agulha chegar aos cento e vinte e oito, começa a meter o carvão na fornalha. Compreendeste? Cinco pazadas cheias. E não feches a porta. Deixa-a entreaberta. Lembra-te: só quando a agulha chegar aos cento e vinte e oito. Percebido?

 

Saltou para a plataforma e começou a correr. Uma explosão sacudiu o pátio e todo o comboio pareceu tremer. Viu volutas negras e alaranjadas de fumo erguer-se por detrás das carruagens. Estavam a aproximar-se. Olhando para a esquerda, viu que o major Lin batia em retirada, não sem lutar - os homens em formação de quadrado, disparando, recuando alguns passos de cada vez, e voltando a disparar. Passou pela carruagem do mandarim e reparou no rosto de expressão sardónica que o observava da janela. Não se deteve. Subiu de uma só vez os degraus que levavam ao furgão do guarda, e lançou-se sobre o pesado volante encarnado, que girou até sentir que a pressão nos travões estava totalmente afrouxada. Preparava-se para sair quando lhe pareceu que o coração parava de bater. Havia um boxer no furgão.

 

Era um homem de meia-idade, magro, com um bigode fino. Usava uma túnica encarnada e tinha um machado pequeno e um escudo. Os seus olhos eram desconfiados, quando se aproximou do demónio estrangeiro. Henry recuou. O homem precipitou-se para ele, desferindo golpes com o machado. Henry escapou-lhe, desviando-se, e desferiu um pontapé, mas falhou. O outro avançou mais, e Henry recuou lentamente, até sentir o volante do travão nas costas. Com as mãos, tacteou a parede de madeira do furgão e ali estava o espeque, no seu devido lugar. O machado voltou a descer e embateu no espeque, que Henry erguera com ambas as mãos, mesmo a tempo. Desferiu novo pontapé, e desta vez atingiu o baixo-ventre do homem, que recuou de dor e de surpresa. Henry aproveitou para fazer baixar o espeque, que se abateu sobre a cabeça do homem. Nesse mesmo instante, dois outros boxers transpuseram a porta do furgão e contemplaram Henry, meio surpreendidos, meio assustados; as espadas vacilavam-lhes nas mãos. Henry correu para eles, gritando como um louco e fazendo rodopiar o espeque. Só parou quando se deu conta de que estava a bater no ar. Passando por cima dos corpos dos dois homens, aproximou-se com todo o cuidado da porta que se abria para a plataforma. Ouviu homens que corriam e tiros. Alguns dos soldados de Lin haviam reparado na intrusão dos inimigos e estavam a tratar do assunto. Henry saltou para a plataforma e desatou a correr, ignorando o estrépito de aço contra aço atrás de si.

 

Enquanto corria, reparou que a retirada do major Lin chegara quase à plataforma. Corpos de Boxers mortos jaziam, amontoados uns sobre os outros, no recinto que os soldados tão bem tinham defendido. Contudo, mais batalhões vinham do lado dos edifícios, que estavam agora nas mãos do inimigo. Podia ver homens de turbante subir aos telhados vazios. Em breve, estariam a disparar contra os homens de Lin. Ouviu-o ordenar: ”Fogo!” e um estrépito de tiros deflagrou.

 

Passava pela carruagem do médico e já podia ver Lao Zhao, debruçado da cabina da locomotiva, fazendo-lhe sinal para que se despachasse, quando uma granada silvou por cima dele e a torre de água explodiu e a locomotiva desapareceu sob um muro branco composto de água e de vapor.

 

- Merda! - resmungou, estacando. Nellie Airton estava nos degraus da sua carruagem e olhava para ele, assustada. Peço desculpa pela linguagem... - resmungou ele.

 

- Não tem importância - replicou Nellie. - O que aconteceu ao seu braço?

 

Só então reparou que o seu antebraço esquerdo fora golpeado pela espada de um dos Boxers.

 

Ergueu os olhos, desconcertado, e viu, por cima do ombro de Nellie, o rosto pálido e ansioso de Helen, que também olhava para ele, com a boca aberta e os olhos brilhantes de inquietação.

 

- É melhor subir e tratar desse ferimento - comentou Nellie.

 

- Lamento - murmurou ele, sem desviar os olhos de Helen. - Lamento, mas não tenho tempo.

 

E continuou a correr.

 

A locomotiva e o lugar destinado ao maquinista haviam sido inundados, mas felizmente o fogo ainda ardia na fornalha e nuvens de fumo cinzento ainda saíam da chaminé. O indicador da pressão marcava 129 libras por polegada quadrada.

 

- Perfeito! - exclamou. - Está tudo pronto? Carregou no pedal para ejectar o excesso de água para os pistões. Com um silvo, o vapor subiu pelos canos, de cada lado da locomotiva. Debruçou-se da cabina. Os homens do major Lin lutavam agora na plataforma, disparando saraivada atrás de saraivada para manter os Boxers à distância. Estes concentravam-se numa linha densa em frente dos edifícios. Eram muito numerosos. Os estandartes esvoaçavam por cima das suas cabeças. Se atacassem todos ao mesmo tempo não haveria balas que os detivessem.

 

- Vamos, vamos - murmurou Henry, puxando a corda para fazer soar uma longa apitadela, como se aquele sinal pudesse, como que por milagre, apressar o embarque dos soldados de Lin. Henry lembrou-se dos fios que já vira ligados aos edifícios; porque não accionava Lin os explosivos?

 

No momento em que pensava naquilo, viu que o sargento tinha o detonador. O major Lin, a seu lado, observava calmamente os Boxers, como se fossem soldados formados em linha que ele ia submeter a inspecção. Com um ar quase desdenhoso, fez sinal com a mão enluvada: o sargento apoiou todo o seu peso no detonador e os três edifícios desintegraram-se em chamas. Henry sentiu o sopro da explosão na sua cabina. As linhas de Boxers foram arremessadas para todos os lados, como palha cortada por uma foice. O major soprou o apito que trazia pendurado ao pescoço; de maneira tão ordenada quanto possível naquelas circunstâncias, os seus homens correram para as carruagens que lhes haviam sido atribuídas e subiram a bordo. Pequenos destacamentos treparam pelas escadas para os telhados das carruagens, onde se deitaram, prontos a disparar uma salva de tiros de cobertura, assim que os Boxers recuperassem. Foram precisos três minutos para embarcar toda a gente. O major esperou que o último homem estivesse no comboio e depois subiu os degraus sem pressa. Por fim, fez sinal com a espada em direcção à locomotiva.

 

Henry, imediatamente, puxou o inversor e empurrou a alavanca da válvula que regulava a distribuição do vapor pelos pistões. Com uma agonizante lentidão, as rodas começaram a girar. A locomotiva sibilava penosamente, como um ferreiro cansado. Henry voltou a levantar o regulador, a fim de não deixar sair demasiado vapor, para evitar que as rodas motrizes derrapassem. Um, dois quilómetros por hora.

 

- Vamos, vamos...

 

Avançavam, sim, mas para uma porta fechada. Um pequeno grupo de Boxers postara-se lá e esperava-os.

 

Entretanto, os que estavam junto dos edifícios haviam recobrado da explosão. Com um grito, atacaram. Os soldados de Lin ripostaram dos telhados, bem como das janelas das carruagens, mas o tiroteio não teve qualquer efeito, tantos eram os outros. Quanto ao comboio, era como se estivesse parado, tão devagar avançava.

 

- Bem, Lao Zhao, tentámos... - resmungou Henry, tirando o revólver do bolso, enquanto o antigo muleteiro pegava num machado.

 

Não fora a muito aleatória habilidade para a artilharia dos companheiros do Homem de Ferro Wang e o comboio poderia ter sido tomado de assalto naquele momento; com efeito, os dois tiros disparados pelos velhos canhões favoreceram tanto os fugitivos que poderiam ter sido comandados pelo major Lin em pessoa. Um explodiu no meio das primeiras fileiras dos Boxers, interrompendo provisoriamente o seu ataque. O segundo caiu em frente da porta, arrancado um dos batentes dos respectivos gonzos, despedaçando a corrente e matando os Boxers postados em frente do muro. Lentamente, a cinco quilómetros por hora, a locomotiva entrou no buraco.

 

No entanto, o destino não estava totalmente a favor do major. Os artilheiros que se achavam na colina apressaram-se a carregar. Talvez se sentissem irritados pelo erro precedente, mas desta vez pareceram ajustar melhor a pontaria. Um primeiro projéctil caiu entre a pilha de carvão e a torre de água destruídas; mas o segundo explodiu por baixo da atrelagem que ligava as duas últimas carruagens e o furgão do guarda do resto do comboio partindo-a. A parte da frente do comboio, com a sua carga subitamente mais leve, ganhou velocidade e afastou-se pelo vale, em breve deixando para trás os Boxers que corriam de ambos os lados da via. As três carruagens da cauda, com sessenta soldados de Lin a bordo, abrandaram até parar suavemente, do lado de cá do portão.

 

O major Lin, de pé na pequena varanda do que era agora a última carruagem do comboio, observava com expressão sombria, pelos binóculos, enquanto os seus homens eram derrotados, a um ritmo espantosamente rápido, tendo em conta a sua tenacidade durante a primeira batalha. A horda de Boxers que rodeava as carruagens imóveis parecia uma cobra malhada estrangulando a sua presa. A princípio, Lin ouviu tiros isolados e viu nuvens de fumo enquanto os seus homens tentavam resistir à invasão do inimigo, mas não demorou muito até os Boxers envolverem por completo as carruagens. Nos telhados adejavam agora os estandartes dos Boxers. Viu também estacas e lanças, cada uma encimada pela cabeça de um dos seus bravos soldados.

 

O comboio atravessava agora a planície, a uns trinta quilómetros por hora. Terras aráveis estendiam-se de cada lado dos carris. Um pequeno fio de água cristalina corria no meio do leito de rio praticamente seco. Olhando ao longo do bojo do motor, que aparecia e desaparecia entre as volutas de fumo cinzento que se escapavam da chaminé e as nuvens brancas que saíam da abóbada de vapor, avistava-se a forma azulada das colinas Negras no horizonte. Alcançariam as proximidades dali a uma hora, e o túnel dali a hora e meia. Henry enviara uma mensagem ao major, por intermédio de Lao Zhao, para o informar de que pensava parar à entrada do túnel, a fim de se abastecer de água na torre do pequeno depósito que os operários da linha ali haviam construído. Agora, a locomotiva conduzia-se quase sozinha, embora Henry mantivesse uma mão prudente no regulador, para o caso de declives imprevistos.

 

O jovem soldado desempenhava orgulhosamente o seu papel de fogueiro, atirando pazadas de carvão para a fornalha, sempre que Henry lho pedia, com toda a solenidade. A princípio, ressentira-se com a perda do amigo - o soldado de rosto feminino que morrera ao tentar transmitir uma mensagem ao major Lin -, mas agora parecia mais animado. Sentado no tênder, com a espingarda pousada nos joelhos, cantava um trecho de ópera. Henry sentiu-se espantado - e não era a primeira vez - com a capacidade de recuperação daqueles camponeses do Norte da China.

 

Lao Zhao estava na cabina do maquinista.

 

- Já decidiu o que vai fazer, Xiansheng? - perguntou calmamente, depois do habitual silêncio prolongado antes de formular uma pergunta importante. Talhava distraidamente um bocado de madeira com a sua faca. Por baixo, as rodas martelavam os carris a um ritmo regular.

 

- Não, ainda não.

 

- Certas pessoas podiam ter feito andar este animal sem esperar que o major Lin e os seus homens embarcassem...

 

- Sim, certas pessoas poderiam, de facto, tê-lo feito, se conseguissem que o comboio atingisse uma velocidade decente que evitasse que o major Lin e os seus homens embarcassem assim que as rodas começassem a rodar, e se isso não envolvesse deixá-los à mercê dos Boxers.

 

- A maior parte dos homens do Lin ficou para trás. Restam-lhe apenas uns vinte homens válidos.

 

- Não é culpa minha, se ficaram para trás. Pobres diabos...

 

- Não, é o destino. Mas não foi um destino assim tão inconveniente... Agora, você tem de lidar com menos soldados.

 

- O que queres dizer com isso? - perguntou Henry, sem conseguir reprimir um sorriso.

 

- Ah! - sorriu também Lao Zhao. - Afinal, sempre tem um plano! Ficaria com pena se o senhor permitisse que o major Lin e o camareiro Jin o matassem como um cão. Também ficaria com pena se os deixasse matar o mandarim, porque ele sempre foi bom para pobres muleteiros como eu. E teria ficado triste se a senhora que parece uma raposa fosse morta, embora talvez o major Lin a tornasse sua concubina, tal como o velho camareiro faria do rapazinho seu amante, se lhe deitasse as mãos... Além do mais - e Lao Zhao cuspiu -, eu não gostaria de trabalhar para pessoas como eles, depois de tudo acontecer.

 

- Depois de tudo acontecer? Como sabes que eles também não te matariam?

 

- Nunca o fariam - respondeu calmamente Lao Zhao.

- Ninguém quer saber de um pobre muleteiro como eu. Além disso, alguém tem de se encarregar dos cavalos, independentemente de quem matar quem. Mas eu prefiro trabalhar para o senhor, porque é tolo, como todos os estrangeiros, e paga-me sempre o dobro do que eu mereço. E talvez também me dê um pouco daquele ouro que o mandarim lhe vai entregar em troca das armas.

 

- Prestaste muita atenção à conversa do major Lin e do Jin, não foi?

 

- Como já lhe disse, ouço muito bem, Xiansheng. Um caçador precisa de um excelente ouvido para capturar a sua presa.

 

- E se eu tiver um plano, ajudas-me?

 

- Claro, Ma Na Si Xiansheng - respondeu Lao Zhao, rindo-se. - Por acaso dar-me-ia ouro, se eu não o ajudasse? E que pode você fazer sozinho, com um braço ao peito? Mas, por favor, dê-me instruções simples. Lembre-se: não passo de um velho muleteiro e não faço ideia de como é que este seu comboio anda, para além de lhe atirar grandes pazadas de carvão para a goela.

 

Henry explicou-lhe o que tinha em mente. Lao Zhao fechou os olhos, concentrado, assentindo de quando em vez, com um sorriso rasgado no rosto.

 

- A primeira coisa que deves fazer - concluiu Henry -, é percorrer as carruagens, o que não é difícil, se te agarrares aos varões laterais. Se o major te perguntar o que estás a fazer, responde-lhe que foste à procura dele porque precisas das suas instruções quanto a dar de beber aos cavalos. Tenho de saber onde ele posicionou os seus homens. Estão todos na última carruagem, como penso, ou ele distribuiu-os por todo o comboio? Achas que consegues descobrir isso?

 

- Nada mais fácil - retorquiu Lao Zhao. Levantou-se, abriu a fornalha e atirou o pedaço de madeira que tinha estado a esculpir para o lume. Depois, trepou pelo tênder, dando uma palmada jovial no ombro do jovem soldado, ao passar por ele.

 

Sentada na cama, Helen chorava. O médico, sentado num banco à sua frente, segurava-lhe nas mãos e falava-lhe com voz grave.

 

A ordem regressara à carruagem dos Airton, depois de ter sido transformada em sala de operações durante a batalha. Os feridos ligeiros que podiam andar tinham sido transferidos para a última carruagem, para junto dos seus companheiros. Só tinham ficado dois feridos graves, estendidos em colchões improvisados com as almofadas do sofá e lençóis feitos com as toalhas de seda vermelha. Um era o homem que fora ferido por uma espada no ventre e estava às portas da morte. Ajoelhada a seu lado, Fan Yimei segurava-lhe na mão, enquanto lhe enxugava o suor da testa e lhe falava docemente da sua aldeia e da sua infância. O outro, que o médico trepanara para extrair uma bala do crânio, provavelmente também morreria, mas felizmente estava inconsciente desde que Airton lhe dera uma injecção de morfina. Nellie, exausta pelo esforço, dormitava numa poltrona, enquanto as crianças brincavam com Mary. Os seus risos, no outro lado da carruagem, distraíam de tempos a tempos o médico do seu devaneio. Apesar do cansaço - não se lembrava quando dormira pela última vez -, tinha de se concentrar para dizer o que tinha a dizer àquela infeliz rapariga.

 

A princípio, Helen mal parecera prestar-lhe atenção uma reacção inevitável após a sua notável recuperação, quando, de súbito, chamara a si, como uma verdadeira profissional, as pesadas tarefas de uma enfermeira de campanha. Agora que o seu auxílio já não era necessário, não admirava que toda a energia se houvesse dissipado. Começara a tremer, sucumbindo ao choque e ao horror da recente provação, para além de tudo o que já lhe acontecera e da sua luta contra o vício. Nada no hospital da missão a preparara para a crua realidade de corpos feridos em batalha - braços e pernas cortados, golpes de espada que revelavam, com todo o pormenor anatómico, as entranhas de um homem, o pesadelo surrealista de ter de extrair uma seta de um braço, de amputar uma perna, as mortes daqueles que não pudera salvar. E tudo aquilo enquanto o estrépito da batalha se fazia ouvir, enquanto ela sabia que a carruagem onde se encontrava podia ser invadida a qualquer momento, o que significaria uma morte certa ou coisa pior. Helen já sabia o que era esse ”pior”, pensou o médico. O seu gesto revelara a coragem e a força que tinha. Estava-lhe grato e achava ser seu dever protegê-la; por isso, tinha de avisá-la acerca do novo perigo que enfrentava.

 

Isto porque houvera outro choque, pouco após a partida do comboio. Ao ir apresentar o seu relatório ao mandarim, o major Lin passara pela carruagem dos Airton. O médico estava nesse momento ocupado com uma trepanação. Fan Yimei ajudava-o, dando-lhe o serrote e as sondas, enquanto olhava, com terror fascinado, o cérebro exposto; Nellie e Helen ligavam a perna de um outro ferido, a quem o médico havia extraído uma bala. O major Lin atravessara a carruagem com a sua habitual expressão calma e desdenhosa, indiferente perante o sofrimento dos seus homens. No entanto, parara em frente de Helen e esboçara um sorriso frio. A jovem imobilizara-se. Conseguira manter a calma, não sem dificuldade, mas a sua súbita palidez não passara despercebida a Airton. Sempre sorrindo, o major pegara-lhe no queixo com a mão enluvada; os ombros de Helen tremeram, mas fitou o homem olhos nos olhos, crispando a boca. Nellie afastou então a mão enluvada do major, exclamando:

 

- Como se atreve?

 

O major Lin emitira um riso frio e fizera uma curta vénia, continuando o seu caminho sem pressa. Helen fechou os olhos e Airton viu uma lágrima brilhar entre as suas pestanas. Logo depois, a jovem havia-se endireitado e recomeçara a ligar o ferimento da perna do soldado.

 

- Está tudo bem, Helen? - perguntara Nellie.

 

A rapariga acenara, em sinal afirmativo, mas as lágrimas corriam-lhe pelas faces.

 

De súbito, a terrível verdade surgira a Airton, que se amaldiçoara por não o ter compreendido mais cedo. Lembrara-se da reacção de Helen no bordel, na noite da fuga, quando o major Lin avançara para o halo de luz projectado pela lanterna do corredor. Lembrara-se do medo palpável que ela exprimira. Tivera de lhe dar um calmante. O major Lin fora um dos agressores. Não podia haver outra explicação. E Manners testemunhara tudo, mas nada dissera, o que só podia significar uma coisa. Airton nunca acreditaria se não soubesse já tanta coisa acerca daquele homem e da sua perfídia. Que monstro devasso... Não fora só o acordo com o mandarim que correra mal. Manners devia ter tratado de tudo para a violação que se seguira. Devia ter feito outro acordo com o major Lin, para salvar a sua pele ou por outro motivo terrivelmente cínico que Airton não conseguia compreender. O homem fora mesmo ao cúmulo de se amarrar à cama para escapar a qualquer acusação! Porque, apesar da aparente animosidade entre eles, Manners e Lin estavam de conluio desde o princípio. O escalpelo que Airton tinha na mão oscilara por momentos, enquanto a dura verdade o atingia. Fan Yimei fitara-o, preocupada. Mas o instinto profissional levara-o a recuperar o domínio sobre si mesmo e continuara a operação. Contudo, não conseguia afastar do espírito o que acabava de descobrir. Pobre rapariga. Ainda não sabia, por certo, que fora traída pelo homem que julgava amar. Airton tinha de salvá-la dela própria, custasse o que custasse.

 

Assim, com Nellie a dormir, pegou nas mãos de Helen e contou-lhe tudo o que sabia acerca de Manners.

 

- Henry... - gemeu Helen. - Quero ver o Henry... O médico disse-lhe que ela fazia mal em confiar num homem daqueles, mas a jovem meneou a cabeça.

 

- Não. Ele ama-me - murmurou. - Ele ama-me.

 

- Ele não ama ninguém. - E contou-lhe a traição na qual Manners estava envolvido, a conversa com o mandarim que surpreendera nas colinas Negras, as armas que Manners estava a vender, em nome de uma outra potência. Acrescentou que um homem que traía o seu país trairia tudo e todos. Manners era um criminoso e um traidor.

 

- Mas ele salvou-nos, ele salvou-nos...

 

- Serviu-se de nós, isso sim - insistiu o médico -, para seu próprio interesse. Ele prostituiu-a...

 

- Eu sei - soluçou Helen. - Eu sei, mas não se passou nada... Era um jogo. O mandarim respeitou-me...

 

- Um jogo? Ele combinou a sua violação pelo major Lin. A sua violação, Helen, a sua violação!

 

A jovem sacudiu energicamente a cabeça, gritando:

 

- Não! Não, não, não...!

 

Mas o médico mostrou-se implacável, apontando todas as provas circunstanciais, explicando os sórdidos motivos de Manners, salientando a extensão da sua falsidade. Helen tinha de o saber. Por entre o cansaço que sentia, ia dizendo a si próprio que ela tinha de saber. Helen, contudo, começara a chorar.

 

Airton tinha consciência de que os filhos tinham parado de brincar e que as pessoas que se achavam na carruagem deviam estar a fitá-lo, atónitas. Podia sentir o silêncio atrás de si, mas persistiu, repetindo os pormenores da perfídia daquele homem brutal, explicando uma, duas vezes, os seus crimes.

 

- Ele não a ama nem nunca a amou... Não compreende isso?

 

- Ele ama-me! - gemeu Helen, por entre soluços. Ele ama-me! Disse-mo!

 

Estava à beira de uma nova crise de nervos e Airton teve de torcer-lhe o pulso para a forçar a sentar-se novamente; mergulhou os olhos penetrantes nos dela como para fazer penetrar a força da verdade no espírito da rapariga.

 

- Mas ele estava a mentir, percebe? estava a mentir!

 

Helen começou a soluçar em silêncio. O médico abraçou-a e embalou-a suavemente.

 

- Agora, vou dar-lhe um calmante.

 

- Sim - murmurou ela.

 

- Não se preocupe. Eu estarei aqui para tomar conta de si. Nunca mais terá de voltar a ver esse homem.

 

A rapariga acenou afirmativamente, enquanto arregaçava a manga e deixava o médico dar-lhe a injecção.

 

- Agora durma - sussurrou Airton.

 

- Que agitação foi essa? - perguntou, com um bocejo, Nellie, que acabara de acordar.

 

- Não foi nada, minha querida. Descansa. Dei uma dose de morfina a Helen para a acalmar. Teve uma pequena crise.

 

- Será boa ideia? Ela parecia tão bem...

 

- Penso que é melhor assim - respondeu Airton, deixando-se cair numa poltrona. - É melhor assim.

 

A primeira intenção de Henry fora tentar a sua sorte quando parassem no depósito, perto do túnel, mas o major Lin mostrara-se particularmente vigilante, posicionando os seus homens em círculo à volta da locomotiva. A justificação apresentada fora que queriam estar preparados para a aparição de alguns bandidos do Homem de Ferro Wang que pudessem ainda encontrar-se nas colinas Negras. Contudo, Henry reparou que os soldados estavam voltados para a locomotiva, com as suas espingardas apontadas para ele. Mesmo assim, se fossem apenas os soldados que se tivessem apeado, ele talvez se arriscasse a fazer arrancar o comboio na esperança de que este desaparecesse no túnel antes que os soldados tentassem subir a bordo. Mas o mandarim também decidiu sair do comboio, bem como o Dr. Airton e os filhos, para esticarem as pernas e apanharem ar fresco, apesar de a atmosfera ser húmida e fria, entre aqueles precipícios sombrios. Assim, Henry limitara-se a encher as reservas de água no tênder, ajudado pelo jovem soldado, enquanto Lao Zhao aproveitava aquela paragem para dar de beber e de comer aos cavalos.

 

O mandarim fizera uma breve visita à parte da frente do comboio e felicitara Henry pela fuga do acampamento do caminho-de-ferro.

 

- Saiu-se bem, Ma Na Si. Estou em dívida para consigo. Vou sentir falta da sua companhia, quando tivermos concluído o nosso negócio.

 

Henry quisera avisá-lo dos planos que Lao Zhao ouvira, mas Jin Lao mantinha-se obstinadamente colado ao mandarim.

 

Manners escutou uma breve altercação entre o médico e o major Lin e ficou surpreendido quando, instantes mais tarde, o médico foi escoltado por dois soldados até à locomotiva, onde lhe pediram que subisse para a plataforma, apesar dos seus protestos.

 

- Não pense que é por minha vontade - resmungou Airton, irritado, em resposta ao olhar espantado de Henry. A ideia de estar a seu lado enoja-me. Mas o seu amigo Lin parece julgar que você precisa da minha ajuda. Só Deus sabe porquê... Não parece perceber que tenho sob minha responsabilidade homens dele que estão feridos.

 

Henry trocou um olhar com Lao Zhao, que cuspiu por cima do rebordo da cabina.

 

- Parece-me que estão a tirar do estábulo todas as mulas de que já não precisam - resmungou.

 

- Isso quer dizer o quê? - perguntou secamente o médico.

 

- Nada - interveio Henry. - Se quer realmente ajudar-me, vou mostrar-lhe o que tem a fazer.

 

Quando todos subiram novamente a bordo, Henry ejectou vapor pelas torneiras do cilindro, accionou o inversor e o regulador. As rodas moveram-se. Puxou a corda, quando se aproximaram do túnel, emitindo um longo assobio, que foi rapidamente abafado pelo ruído metálico do comboio logo que penetraram na escuridão.

 

Cinco minutos mais tarde, saíam para a luz. Era mais uma penumbra verde, comparada com o brilho do sol do vale de Shishan. Ali, no meio das florestas das colinas Negras, abetos sombrios formavam um arco por cima das suas cabeças, desde as margens altas de cada lado da via. O espaço em redor deles, de tempos a tempos, tornava-se ainda mais estreito, quando a linha férrea serpenteava entre duas falésias. Henry debruçou-se para fora, perscrutando a via naquele crepúsculo quase irreal.

 

- Não vai fazer nada? - gritou Zhao, para se fazer ouvir acima do fragor das rodas em movimento. - Se eu estivesse a planear um golpe, era o local que escolheria.

 

- Do que está esse homem a falar? - perguntou o médico. Henry observava a linha férrea, à sua frente, e pensava. Podia arranjar uma desculpa para parar o comboio, mas um desconfiado Lin tomaria, por certo, as mesmas precauções que tomara ao pararem no depósito. Henry dava-se conta de que o seu plano dependia de uma pequena esperança. Quase como um talismã, agarrou-se à recordação de uma conversa que tivera certo dia com Mr. Bowers, e este se queixara do risco de deparar com árvores tombadas na linha. Bowers pedira-lhe que convencesse Herr Fischer a enviar uma equipa de homens para cortar as árvores que ladeavam o caminho-de-ferro. Henry prometera-lhe dar o recado a Herr Fischer, mas não chegara a cumprir a promessa e nada fora feito. Entretanto, haviam-se passado seis semanas desde que alguém usara ou inspeccionara aquele trecho da via.

 

- Doutor - respondeu. - O senhor é um homem de preces. Se quer ajudar, reze para que uma árvore tenha caído à via.

 

- Você está maluco - ripostou Airton -, ou estão ambos a troçar de mim?

 

Lá à frente, uma pequena elevação de um dos lados da via parecia prometedora, mas nem um mísero ramo caíra até cá abaixo. Lao Zhao saltou do tênder para a cabina. Nem Henry nem o médico deram pela sua ausência. Quando voltou, estava ofegante.

 

- Fui até à carruagem do mandarim - explicou, recobrava o fôlego. - Estão os três lá. O Lin, o Jin e o mandarim, e parecem estar a discutir. Era como pensávamos. Creio que já não dispõe de muito tempo, Ma Na Si.

 

- Preciso de uma maldita árvore - resmungou Henry.

 

- Estão a conspirar algo? - perguntou Airton, furioso.

- É isso, não é? Estão a conspirar com o major Lin contra o mandarim. Eu sabia!

 

- Abençoado seja Deus! - suspirou Henry. - Segurem-se!

 

Puxou o manipulo para accionar os travões de ar comprimido e, ao mesmo tempo, fechou o regulador. As rodas bloquearam-se repentinamente, e houve uma terrível sacudidela, enquanto o comboio derrapava nos carris; pouco depois, parou. As rodas chiaram nos carris, fazendo saltar faíscas. Lao Zhao virou o volante do travão do tênder. Todo o comboio se imobilizou, com as carruagens quase a encaixar-se umas nas outras. O médico e o soldado tinham caído para trás, enquanto Henry e Lao Zhao haviam usado de toda a sua força para manter o equilíbrio. Henry imaginava o caos que reinava nas carruagens. Olhou pela cabina. A parte da frente da locomotiva parara a poucas dezenas de centímetros do tronco de um pequeno abeto.

 

- Sim, doutor, receio que estejamos a conspirar algo retorquiu Henry por fim, enquanto ajudava Airton a levantar-se. - E ficar-lhe-ia agradecido se nada dissesse. A propósito, o objecto que sente nas costas é o meu revólver, apontado à altura do seu fígado. Por favor, não tente armar-se em herói e fazer algo de que se possa arrepender mais tarde. Talvez não acredite, mas estou do lado dos bons.

 

Mal tinha acabado de falar, um major Lin furioso subiu a escada e apontou a sua pistola à cabeça de Henry.

 

- O que vem a ser isto? - gritou.

 

- Olhe à sua frente, major - respondeu calmamente Henry, procurando esconder na tala que segurava o seu braço ferido o revólver que mantinha pressionado contra as costas do médico. - Vê aquela árvore na via? Pode pedir a alguns dos seus homens que se apeiem do comboio e a tirem dali? Não é uma grande árvore... Quatro ou cinco homens chegarão.

 

Lin debruçou-se para fora da cabina para ver se era verdade.

 

- Ta made! - praguejou. Saltou para o chão, para dar as ordens necessárias.

 

- Enlouqueceu de vez? - sibilou Airton. - O que está a tentar fazer?

 

- Estou a tentar salvar as nossas vidas - replicou Henry, enquanto via um destacamento de cinco homens conduzidos pelo major Lin passar a correr ao lado da locomotiva. Ergueu os olhos para o jovem soldado no tênder, que se tinha inclinado de lado e aproveitava para ver a cena. Lao Zhao desaparecera.

 

- Major! - bradou Henry. - Vou recuar um pouco o comboio para vos dar espaço de manobra.

 

- Fique onde está! - vociferou Lin.

 

Mas Henry já tinha puxado o travão do tênder, o inversor e premido o acelerador, e o comboio recuou lentamente. Havia percorrido uns quarenta metros, quando um major Lin ofegante o apanhou e subiu a escada. O seu rosto era um esgar de cólera.

 

- Pare imediatamente! - gritou, apontando a pistola a Henry.

 

- Como queira, major.

 

O comboio parou suavemente.

 

O major Lin inclinou-se para trás, sempre apontando a pistola a Henry, e viu pelo canto do olho os seus homens que removiam a árvore.

 

- Como estão eles a sair-se, major? - perguntou educadamente Henry. - Precisam de ajuda?

 

O chinês lançou-lhe um olhar fulminante. Airton sentiu o coração bater mais depressa à medida que os minutos passavam.

 

- Voltem! Imediatamente! - gritou Lin aos soldados, assim que a via ficou desobstruída.

 

Enquanto falava, Henry calcou bruscamente o acelerador ao máximo, premindo a alavanca que derramava areia na via e que, dessa forma, assegurava às rodas uma tracção suplementar. Com um grande solavanco, a locomotiva moveu-se. O major Lin foi projectado para trás e perdeu o equilíbrio; os seus pés quase escorregaram do rebordo da plataforma e a pistola oscilou-lhe na mão. Henry empurrou para o lado o médico, tirou da tala a mão que empunhava o revólver e disparou. Os olhos do major Lin registaram a sua surpresa; um ruído de sufocação saiu-lhe da garganta, enquanto largava instintivamente a mão que se agarrava ao corrimão e a levava ao ombro ferido. Vacilou durante alguns segundos, à beira da locomotiva, olhando estupefacto o sangue que lhe sujava os dedos. Henry disparou novamente, mas falhou, porque Lin, com o ódio a brilhar-lhe nos olhos, tivera tempo de se atirar para o vazio aterrando de costas na margem. Ficou estendido ali, sem fôlego, enquanto as carruagens passavam ruidosamente à sua frente.

 

Henry virou-se para o jovem soldado, no tênder, que se levantara e mexia na espingarda.

 

- Nem penses nisso! - gritou-lhe Henry, mas o rapaz já levantara a espingarda, com um apelo nos olhos assustados. Henry disparou e o outro caiu para trás sobre o carvão. As suas pernas estrebucharam um pouco antes de se imobilizarem. A espingarda caiu ao chão.

 

- Como pôde fazer isto! - vociferou Airton, ajoelhando-se na cabina.

 

- Mantenha a cabeça baixa! - gritou-lhe Henry, também se ajoelhando. Balas ecoaram no telhado da cabina, enquanto o comboio passava lentamente pelos homens que haviam removido a árvore. Henry ouviu um baque; um deles agarrara-se aos degraus quando a locomotiva passava a seu lado. Henry conseguiu pegar na pá de fogueiro e desferiu-a sobre a cabeça que surgia por cima do chão da cabina. O soldado caiu para trás, soltando um grito.

 

Arfando, com a pá ensanguentada na mão, Henry baixou os olhos para Airton, que estava sentado, sem reacção, limitando-se a menear a cabeça.

 

- O que foi que você fez? - gemeu. - Que pensa alcançar com isto? Sabe que a última carruagem está repleta de soldados?

 

- Lao Zhao desengatou-a. O único inimigo que nos resta a bordo deste comboio é Jin Lao.

 

- Jin Lao? - exclamou o médico. - Mas é um velho!

 

- Um velho assassino. Ouça, doutor, explicar-lhe-ei tudo mais tarde. Agora, tenho de voltar à carruagem do mandarim. E não posso parar o comboio, porque temos de nos distanciar de Lin e dos seus homens. O que significa que o senhor vai ter de conduzi-lo.

 

- Você deve estar louco! Não sei como se conduz um comboio! De qualquer maneira, nunca o faria. Não confio em si. Vai matar o mandarim, assim como matou todos os outros.

 

Henry ignorou-o; estava a deitar pazadas de carvão na fornalha.

 

- Deve chegar. Ouça, é simples. Vê esta grande alavanca? É o regulador ou acelerador. Controla a velocidade do comboio. Quanto mais a empurrar mais depressa irá. Tem de usar de alguma força mas vai conseguir. Não vá muito depressa, por causa das curvas. outra alavanca é a do inversor. Controla a direcção das bielas, decide se a locomotiva vai para a frente ou para trás. Compreendeu? É fácil. Empurre para andar para a frente, puxe para andar para trás. Qualquer um consegue. Isto é a alavanca dos travões de ar comprimido, para o caso de ser necessário servir-se deles. Pare o comboio se vir mais árvores caídas na linha. É tudo. Ah, sim, isto aqui é a corda para o apito. Puxe-a, se precisar de mim. Agora sabe tanto acerca de conduzir um comboio como eu.

 

- Não ouvi uma só palavra - replicou o médico. - Recuso-me a colaborar.

 

- Como queira, mas vou ter de ir andando...

 

Pegou na espingarda caída no chão e saltou para o tênder. Quando se voltou, Airton continuava sentado na plataforma.

 

- Confie em mim, doutor. Por favor. Confie em mim. Estou a fazer isto por todos nós.

 

- Você é um assassino! - vociferou o médico, vermelho de raiva.

 

Henry suspirou e correu rapidamente até à parte de trás do tênder. Manteve-se alguns segundos por cima da junta que oscilava, à espera do melhor momento para saltar para a primeira carruagem, que transportava os cavalos. Subiu a escada, percorreu o telhado da carruagem com passos inseguros e, mais uma vez, escolheu o momento certo para saltar para o telhado da carruagem seguinte, também repleta de cavalos. Ouviu-os mexerem-se e resfolegar. Continuou, e quando atingiu a extremidade da carruagem, saltou mais uma vez. A que se seguia era a do mandarim. Henry avançou até à pequena varanda, ao fundo, encostou-se à parede enquanto verificava a cartucheira da espingarda e desprendia o fecho de segurança. Só depois, inspirando profundamente, é que fez girar a maçaneta da porta e se precipitou para o interior.

 

Assim que entrou, percebeu que era tarde de mais. O mandarim estava encostado à parede do fundo, com uma ferida no peito, de onde saía sangue. O camareiro estava debruçado sobre ele, com uma pistola na mão fina. Henry ouviu um barulho à sua esquerda, virou a cabeça, e viu os rostos aterrorizados das mulheres do mandarim, encolhidas no chão. Mas foi um erro desviar a atenção, mesmo que por uma fracção de segundo; quando se virou novamente, a pistola do camareiro estava apontada para ele. Os dois homens dispararam ao mesmo tempo.

 

O médico olhava para os comandos do monstro que os transportava a toda a velocidade. Espreitou nervosamente para perscrutar a via, aterrorizado com a ideia de encontrar outra árvore ou um ramo. Ao menos, a via era agora mais a direito, e os declives menos pronunciados e abruptos. Mas nunca daria resultado! Impossível! Imagens do que podia estar a acontecer na carruagem do mandarim lutavam no seu espírito com o receio do que sucederia se a locomotiva se descontrolasse. O Manners era um louco, um assassino impiedoso, e ele, Airton, não levantara um só dedo para impedi-lo. Na verdade, nem sequer lhe viera à cabeça tentar fazê-lo. E como poderia tê-lo impedido?

 

O ritmo furioso das rodas tornou-se de súbito um som metálico, enquanto a locomotiva passava por cima de uma pequena ponte. A locomotiva sacudia-se por todos os lados. O médico sobressaltou-se, aterrorizado, e só se sentiu mais calmo quando transpuseram a ponte e as rodas retomaram o som anterior.

 

Quando observara Manners a conduzir a máquina, este parecera estar sempre a ajustar vários manipules. Um era aquele ali, a que ele chamara inversor. Porquê inversor, quando um comboio devia andar sempre em frente? O que era um inversor? Devia puxá-lo ou premi-lo? Ou não lhe tocar? Sentia-se totalmente desorientado.

 

Não, nunca o conseguiria. Tinha de fazer parar aquela locomotiva. Era a única solução. Agora havia certamente suficiente distância entre o comboio e o major Lin para impedir este de os perseguir. Ou não? Pouco lhe importava. Apenas queria parar o comboio.

 

Mas conseguiria fazê-lo parar? Manners falara na alavanca de um travão. Mas qual era? A grande barra de ferro era o acelerador, que controlava a velocidade. Se a puxasse, a locomotiva abrandaria? E devia também manipular o inversor?

 

Aquela farsa não podia continuar! Como é que ele, um médico, poderia alguma vez pensar em conduzir uma locomotiva? Talvez devesse deixar tudo como estava. Voltar para a sua carruagem e deixar a locomotiva a rolar pela via, comandada por fantasmas. No que lhe dizia respeito, era como se fosse um fantasma, pelo que estava a fazer... Desde que Manners o deixara ali sozinho, não mexera em nada. Além do mais, tinha de regressar. Teria de efectuar o mesmo percurso que o outro, saltando de carruagem em carruagem. Talvez fosse já tarde de mais para impedir Manners de fazer o que quer que fosse que planeava fazer ao mandarim, por dever para com a sua família. Tinha de regressar para os salvar, a todos, daquele maníaco, daquele lunático, daquele assassino. Se o comboio descarrilasse, podiam morrer. Não restava outra alternativa. Tinha de fazer parar o comboio.

 

Olhou novamente para os controlos, tentando desesperadamente lembrar-se do que Manners fizera quando parara o comboio. Airton tinha a certeza de que ele puxara a alavanca do acelerador, bem como aquela outra alavanca. Sim, agora se lembrava, era a alavanca dos travões de ar comprimido. Mas porquê ar comprimido quando a locomotiva funcionava a vapor? Não interessava. Fechou os olhos e murmurou uma oração incoerente:

 

- Por favor, Deus, perdoa-me pelo que vou fazer, em toda a minha ignorância. Protege-nos com o Teu manto de amor e salva-nos. Salva-nos. Salva-me da responsabilidade de conduzir esta... esta coisa.

 

Esvaziando os pulmões com um grito, Airton puxou, com todas as forças, a alavanca do acelerador. Que barulho horrível era aquele? Não queria saber. Agora que começara tinha de continuar. De seguida, pressionou, com a mesma força, a alavanca do travão e um violento safanão projectou-o para a frente. Bateu com a cabeça nos mostradores e foi novamente projectado, desta vez para trás, contra o tênder. Ergueu o olhar, aturdido. À sua volta, tudo era vapor, faíscas e o chiar de metal. A porta da fornalha abrira-se com grande estrondo e Airton contemplou, quase hipnotizado, os carvões em brasa

- uma verdadeira visão do Inferno. Toda a cabina abanava à sua volta. Sentiu algo pesado cair-lhe em cima. Era o corpo do soldado, que fora projectado quando o tênder batera contra a parte de trás da locomotiva. Os olhos sem vida pareciam fitá-lo com ar acusador. A boca abriu-se como que para repreendê-lo. Airton estremeceu de medo e de repulsa. Mas, graças a Deus, a locomotiva abrandava. Estava realmente a abrandar. Acabou por parar, silvando e cuspindo vapor. E tudo ficou gloriosamente imóvel. Precisou de alguns momentos para se recompor. Resmungando de horror e de desgosto, virou-se de forma a sair de debaixo do cadáver. Depois levantou-se, titubeante. Estava coberto com sangue e com a poeira do carvão, mas não queria saber. Tinha de voltar e confrontar Manners. Procurou desesperadamente uma arma e viu a pá com que Manners matara o soldado que tentara subir para a cabina. Apanhou-a. A pá ressoou no corrimão, quando o médico se precipitou pelos degraus da locomotiva, e ficou presa entre os suportes que fixavam o corrimão à parede. Teve de parar por momentos para a libertar, depois do que começou a correr assim que os seus pés tocaram o solo, só parando à porta da carruagem do mandarim.

 

Ouviu o pranto antes de alcançar a porta. Sentindo um aperto no coração, reconheceu o som. Lembrou-se de uma viagem que fizera, quando ainda era estudante de Medicina, às ilhas Hébridas. Ele e um amigo haviam deparado com o funeral de um pescador que se afogara. Seguiram os habitantes da pequena aldeia, enquanto transportavam o ataúde pelas falésias até um cemitério batido pelo vento. As mulheres gritavam e choravam. Nunca esquecera os uivos estridentes e quase sobrenaturais. Agora, voltava a ouvi-los, no interior da carruagem do mandarim. Quando girou a maçaneta da porta, a sua mão tremia.

 

Uma vez no interior, precisou de outro momento para os seus olhos se adaptarem à escuridão. Desde que Manners o deixara sozinho na locomotiva, a luz do dia começara a dissipar-se e o céu, por cima dos penhascos, ficara raiado de nuvens avermelhadas, enquanto o sol descia lentamente para o horizonte.

 

Parado, sem saber o que fazer, um último raio de sol iluminou o interior da carruagem com um brilho rosado. Foi então que viu os corpos.

 

O mandarim estava encostado à parede, junto da porta que dava para a carruagem contígua. A cabeça grisalha, ornada por um rabicho, pendia-lhe sobre o peito e os braços caíam, flácidos, de cada lado do corpo. Tinha os dedos meio curvados, como se pretendesse exibir os pesados anéis de jade. As suas três mulheres estavam ajoelhadas a seu lado. Gritavam e rasgavam as próprias roupas, mas ergueram os olhos, subitamente emudecidas pelo medo, ante a aparição do médico - uma silhueta negra e coberta de sangue, como um demónio, que se recortava na luz lilás à soleira da porta, brandindo uma pá.

 

O velho camareiro jazia aos pés do amo. Os seus olhos pálidos e mortos no rosto de pergaminho estavam virados para o alto, como que procurando ver o buraco negro que tinha no meio da testa. Uma pistola de prata jazia no chão, a poucos milímetros dos seus dedos longos.

 

Quanto a Henry Manners, caíra em cima das caixas alinhadas contra a parede. Derrubara uma das caixas e o seu corpo estava parcialmente coberto por lingotes de ouro, que brilhavam aos raios do sol-poente.

 

- Ah, seu ladrão, seu maldito assassino! - urrou o médico, caindo de joelhos. A pá deslizou-lhe da mão. - Então era tudo por causa do ouro. Matou estes homens por causa de ouro!

 

Sobressaltou-se ao ouvir uma voz familiar - mas muito fraca e rouca:

 

- Vejo que sobreviveu, meu caro Daifu. Airton precipitou-se para o mandarim e abriu-lhe com todo o cuidado a camisa de seda. Bastou-lhe examinar a ferida e ver a espuma do pulmão perfurado para saber que não havia nada a fazer. A bala penetrara no peito do mandarim, poucos centímetros acima de um mamilo. Era evidente que uma das costelas estava fracturada e Airton calculou que a veia pulmonar direita, assim como o lobo superior do pulmão, haviam sido atingidos. Seria uma questão de tempo até o mandarim se esvair em sangue. Raramente, em toda a sua carreira como médico, experimentara uma tão grande sensação de impotência. Desesperado, olhou à sua volta, na esperança de encontrar qualquer coisa, um material membranoso para, ao menos, estancar a hemorragia. Na mesa, junto à janela, havia um pedaço de pergaminho. Airton dobrou-o meticulosamente e pressionou o espesso papel sobre o buraco que borbulhava de ar e de sangue. Mal reparou nos caracteres chineses desenhados no pergaminho: wu wei.

 

Durante esse tempo, os olhos de pálpebras descaídas não haviam deixado de fitá-lo, e um ligeiro sorriso esboçava-se no rosto pálido.

 

- Então, não há milagre para mim, Daifu, como o seu Jesus pode fazer?

 

- Não fale, velho amigo.

 

- Fico contente por ainda me chamar amigo. - O mandarim articulava as palavras com dificuldade, pontuando-as com inalações profundas. - Espero que tenha apreciado o seu pequeno passeio de comboio. Lembro-me de que, certo dia, me falou de bandidos que assaltavam comboios. Nunca deve ter pensado que o senhor, um dia...

 

Interrompeu-se, exausto pelo esforço de falar. Tossiu e uma espessa película de sangue escuro escorreu-lhe pelo queixo. Airton apertou-lhe a mão. Os olhos do mandarim, que se haviam fechado pela dor, abriram-se lentamente e a sua boca torceu-se num novo sorriso.

 

- Se pudesse dar-me um pouco de água... ficava-lhe reconhecido - conseguiu balbuciar.

 

- Oh, Da Ren, claro - murmurou o médico. - Porque não pensei...?

 

Como o médico bem sabia, a perda de sangue criava uma impressão de sede. Fazendo sinal a uma das mulheres para que pressionasse o pergaminho que estancava a ferida, correu pela carruagem à procura de líquido e, à falta de melhor, optou por um bule de chá frio, que deitou numa chávena e levou aos lábios do mandarim. Este apenas conseguiu beber algumas gotas, mas suspirou, reconhecido.

 

- Quero que saiba que sempre gostei das minhas conversas consigo. muitas coisas interessantes. A sério. Tem uma excelente visão do que este mundo devia ser.

 

- Da Ren... - sussurrou o médico, com lágrimas nos olhos.

 

- Mas nunca foi um homem prático - sorriu o mandarim -, como eu era obrigado a ser. Emitiu um som, que se parecia com tosse, mas que podia ser uma risada. - Meu pobre Daifu... Como tudo isto tem sido difícil para si... Mas talvez eu lhe tenha ensinado alguma coisa do que é ser prático. Antes do fim... Não?

 

Fechou os olhos e respirou ruidosamente. Airton enxugou-lhe as gotas de suor da testa e o sangue do rosto. Sentiu a mão do mandarim apertar a sua. Os olhos de pálpebras descaídas abriram-se, observando com expressão feroz o rosto do médico; ao fim de alguns momentos, acalmou-se.

 

- Não que tenha grande importância - acrescentou, a custo. - Somos todos peões impotentes de um destino inexorável. Morrer desta maneira é... ridículo.

 

O corpo foi sacudido por movimentos convulsivos, enquanto a espuma se formava nos pulmões. Por fim, houve um longo suspiro.

 

O Dr. Airton fechou os olhos agora fixos do mandarim. As mulheres recomeçaram a chorar.

 

Ignorando-as, pôs-se de pé. Levado pelo hábito profissional, examinou os dois outros corpos. O camareiro estava manifestamente morto; quanto a Manners, tendo em conta o ângulo retorcido do seu corpo, também fora morto - sem dúvida pelo camareiro, depois de ter disparado contra o mandarim à queima-roupa. Devia depois ter disparado contra o camareiro, enquanto tombava. Um disparo de sorte e preciso, mas Manners sempre tivera sorte, aquela que sorri sempre aos audazes. Mas agora a sorte abandonara-o, pensou Airton, ajoelhando-se a seu lado. Não haveria mais planos e tramóias, graças a Deus. Tirou os lingotes que cobriam o corpo. O homem ) morrera por aquilo... Virou o corpo e viu a ferida na virilha. Manners perdera muito sangue. Maquinalmente, tomou a } pulsação... e sobressaltou-se. Depois, pôs-se de pé e contemplou aquele corpo ferido... mas com vida.

 

- Deus meu!

 

Um arrepio percorreu-lhe a coluna. Que devia fazer? O assassino ainda estava vivo.

 

Antes de Henry parar o comboio, o major Lin e Jin Lao tinham ido à carruagem dos Airton. Ali, enquanto o camareiro lhes apontava um revólver, o major Lin amarrara Nellie, Helen, Fan Yimei, Mary e as crianças. Uma precaução para não serem interrompidos, quando voltassem à carruagem do lado, para apresentar o último e fatal ultimato ao mandarim. Nellie, mais perto da carruagem contígua, ouvira um tiro, assim que o comboio recomeçara a andar. Longos minutos depois, houvera outros tiros, seguidos por um interminável silêncio. Nellie tentava explicar tudo aquilo ao marido, enquanto este a desamarrava, mas sem ouvir nada. Airton sabia o que acontecera - a extensão da vilania de Manners e o violento castigo que a Providência lhe impusera. Não estava preparado para ouvir o que quer que fosse que contradissesse a sua versão dos acontecimentos.

 

Decidira o que fazer para salvar a sua família. Partiriam, levando os cavalos. Ordenara a Lao Zhao, que aparecera no mesmo instante em que Airton saía da carruagem do mandarim, para selar os animais. Deixariam aquele comboio da morte. Mais valia enfrentar a floresta. Tudo a ficar ali. E deviam apressar-se, porque Lin e os seus homens certamente os seguiriam pela via-férrea, e deviam estar a chegar...

 

Nellie perguntara-lhe por Manners e, pela primeira vez na sua vida, ele mentira-lhe e respondera-lhe que Henry estava morto. Agora, era ele o único responsável pela segurança de todos eles, explicara, e era de vital importância que saíssem dali imediatamente.

 

Qualquer coisa na sua expressão não provocou contestação. Em silêncio, desceram para a via, um a um, e esperaram que Lao Zhao trouxesse os cavalos. Helen estava atordoada e sem forças; Nellie e Mary tinham de segurá-la. Quando deu por si a cavalo, os seus velhos instintos pareceram regressar; sem perguntar para onde iam e porquê, endireitou-se e esperou pacientemente a. ordem de partida. Quando já estavam todos nas respectivas selas, o médico lembrou-se da sua maleta e voltou ao comboio; ali, avistou Fan Yimei, perto da porta da carruagem do mandarim.

 

- Venha. Temos de partir - disse-lhe bruscamente.

 

- O senhor não leva o Ma Na Si Xiansheng.

 

Falava docemente; era uma afirmação, não uma pergunta.

 

- Ele está morto.

 

- Sabe bem que isso não é verdade, Daifu.

 

- Pois bem, é como se estivesse - replicou secamente o médico. - Nunca poderia sobreviver a uma dura cavalgada. Lamento muito, mas nada posso fazer por ele.

 

Fan Yimei lançou-lhe um olhar frio.

 

- Não acredita que ele nos deixaria para trás - gritou o médico - se a situação fosse inversa?

 

Fan Yimei virou-se e entrou na carruagem do mandarim, fechando a porta atrás de si.

 

Airton não se mexeu durante alguns instantes, zangado e perplexo. Sentia-se tão cansado que mal conseguia pensar. Deu um passo para a seguir, mas mudou de ideia. Ela era a concubina do major Lin; e, segundo julgava, Manners, o major e ela estavam envolvidos na conspiração. O facto de Manners ter disparado um tiro contra Lin confundira-o momentaneamente, mas acabou por concluir que Henry devia ter tentado desfazer-se do cúmplice. Ladrões que se matavam entre si por causa de ouro. Nada disso era novidade.

 

Saltou para a via, tropeçou, levantou-se e correu em direcção ao seu cavalo.

 

- Não vem connosco? - perguntou a Lao Zhao, quando este lhe entregou as rédeas.

 

- Não, Daifu. Tenho de tomar conta dos cavalos que ficam - respondeu Lao Zhao, em tom inexpressivo.

 

- Nesse caso, que Deus o acompanhe - despediu-se o médico, puxando as rédeas.

 

- E Fan Yimei? - perguntou Nellie, algo consternada. O médico explicou que ela decidira esperar pelo major Lin. Não era uma mentira. Era no que Airton acreditava sinceramente.

 

- De qualquer maneira, não podemos esperar mais! ripostou.

 

Durante algum tempo, hesitou quanto à direcção a tomar. As árvores húmidas e frias pairavam por cima deles, como uma ameaça. Depois viu o que parecia ser um carreiro, que subia pela margem, com um declive não muito pronunciado. Esporeou o cavalo e os outros seguiram-no. Nellie segurava firmemente no braço de Helen. Um a um, desapareceram na escuridão da floresta.

 

VOU RASTEJAR PARA FORA DO CAMPO QUANDO ESCURECER. POUCO IMPORTA SE ME APANHAREM. QUERO VOLTAR PARA CASA

 

Não merecia o nome de ribeiro, nem mesmo de lago; não passava de um charco num pedaço de terra húmida, no sopé de uma ravina coberta de erva - e, no entanto, para Nellie, enquanto gatinhava até lá, era como as águas do Jordão reveladas aos Israelitas, depois de quarenta anos no deserto.

 

Por pouco não o encontrava.

 

Durante toda a tarde, subira e descera colinas ressequidas, aos tropeções, servindo-se da pouca força de vontade que lhe restava para pôr um pé fatigado à frente do outro. Não fazia ideia da direcção em que seguia. Cada passo era um esforço. As articulações das coxas, os músculos que ainda lhe faziam mover as pernas, os joelhos inchados - tudo lhe infligia uma dor abrasadora. Tinha os pés nus em sangue e cobertos de bolhas, mas uma voz no seu cérebro extenuado repetia-lhe: «Continua, continua...» Qualquer coisa de profundo e obstinado dentro dela - talvez vestígios do seu orgulho - lutava contra o irresistível desejo de se deitar no chão, recusando-se a aceitar que a Providência - que os guiara até ali - os atraiçoaria no final. E, no entanto, as colinas escalvadas sucediam-se até ao horizonte, em todas as direcções, e cada escalada acabava por revelar sempre o mesmo cenário; deserto rodeado de deserto, tanto mais terrível quanto aquelas colinas se achavam cobertas de erva. As encostas verdes e acetinadas, refulgindo e mudando de cor, à medida que as nuvens deslizavam pelo céu, zombavam dela, fazendo-lhe promessas. Exibiam as cores da vida e o solo fervilhava de gafanhotos e outros animais; nas colinas, havia marmotas e raposas - mas nem sinal da preciosa água indispensável à vida. Continuara a avançar, titubeante, agarrada aos últimos restos de esperança, mas após horas de procurar em vão, mesmo esses restos começaram a desvanecer-se. O odre vazio, que levava atrás de si, arrastava-se pelo solo como uma âncora, e os seus próprios membros, tão débeis, tornavam-se cada vez mais pesados e renitentes a novos movimentos. Começara a ouvir outra voz na sua mente, que, traiçoeiramente, lhe ordenava que descansasse, que descansasse quanto antes. Por fim, deixara-se cair de joelhos, afundando-se no ilusório conforto da erva. A não menos enganadora brisa refrescara os seus membros em fogo e, passivamente, rendera-se ao seu abraço. O Tentador cedo a cobriria com a manta do sono, e embora soubesse que isso significaria provavelmente o fim para todos eles, não conseguira resistir por mais tempo.

 

Foi então que se deu o milagre. Um raio de sol, um único raio de sol, passara através da grande massa de nuvens e fora projectar-se, como a luz duma lanterna, no vale lá em baixo. Só brilhara por um momento - as nuvens continuaram a correr no seu avanço determinado e logo o engoliram - mas, durante esse momento, pôde vê-los: os fracos reflexos brancos, a luzir como diamantes duma gargantilha. Desatou a rir. Fazendo apelo às últimas reservas de energia, gatinhou encosta abaixo, já não conseguindo pôr-se de pé. No seu estado de perturbação mental, parecera-lhe que a erva seca e os gafanhotos e os insectos se afastavam para a deixar passar. O sol queimava-lhe o pescoço descoberto e a cabeça latejava-lhe. Por fim, sentira as mãos húmidas; o solo tornara-se mais macio e lamacento. Forçou-se a continuar em frente, mal ousando acreditar no que os sentidos lhe revelavam. Foi quando viu um rosto a olhar para ela, o rosto de uma velha repelente, com olhos injectados e vermelhos, faces macilentas e dentes amarelos a sobressair de gengivas descarnadas. Com um impulso de horror, recuou, só depois percebendo que se tratava do seu próprio reflexo. Mergulhou a cabeça no charco acastanhado; os seus lábios ressequidos abriram-se, a sua língua encortiçada conseguiu mover-se, e bebeu.

 

Não sabia dizer quanto tempo ficara ali, a lamber o líquido que suporta a vida, sentindo-o a percorrer-lhe o corpo, restituindo força aos seus membros e fazendo reviver a sua determinação de continuar em frente. Quando, por fim, se voltara de costas, olhando para as nuvens encasteladas que, com majestática indiferença, deslizavam pelo céu azul por cima dela, teve a certeza de que o Deus do Céu, por alguma razão, os poupara de novo e que iriam viver pelo menos mais um dia.

 

Apelou às suas reservas de energia para encetar a longa caminhada de regresso ao pequeno vale onde os outros a esperavam. O coração apertou-se-lhe, ao pensar nas crianças, com os seus bracinhos esqueléticos, os ventres inchados, os grandes olhos a luzir nos rostos prematuramente envelhecidos. Ainda assim, tudo aquilo fazia agora renascer a confiança dentro dela e uma coragem que todas as desgraças já sucedidas não haviam conseguido destruir por completo. Pensou, com tristeza, em Edward e Helen. A rapariga, ultimamente, caminhava como um autómato; com bravura, executava os movimentos necessários, mas tinha o corpo exausto e o seu espírito parecia estar em outro local. O sorriso era o de uma marioneta, bem como os olhos, parados e vagos, que deixavam perceber algo de terrível por detrás deles, como se a sua alma se achasse já de partida. Nellie receava por ela; a vela da vida dentro da rapariga parecia ter chegado ao fim e estar prestes a extinguir-se. E Edward? Fisicamente, encontrava-se bem - havia superado todas as contrariedades melhor do que qualquer outro -, mas também ele mergulhara numa melancólica introspecção. Já não sabia como entrar em contacto com ele, ultrapassar as barreiras do ódio que o marido sentia por si próprio e do seu desespero.

 

Como gostaria que eles pudessem partilhar aquilo que a confortava mesmo nos piores momentos. Não eram simples fantasias ou pensamentos esperançosos; acreditava que havia uma mão divina que os guiava a todos. O facto de terem sobrevivido a tão terríveis provações não podia ser obra do acaso. A cada dia que passava, tinha a prova de que a Providência não os abandonara. Mostrara-lhes raízes, quando morriam de fome, revelara-lhes fontes, quando a sede lhes queimava as entranhas e, muitas outras vezes, surpreendera-os com pequenas gentilezas, quando todas as mãos se haviam erguido contra eles.

 

Na semana precedente - ou teria sido na anterior? Há muito que perdera a noção do tempo -, tinham sido expulsos à pedrada de uma das aldeias das cavernas em que tinham procurado refúgio. O chefe da aldeia chamara-lhes demónios, e fora o primeiro a pegar numa pedra para lhes atirar. No entanto, à saída dessa mesma aldeia, um rapazinho viera a correr atrás deles para lhes dar comida e um odre cheio de água, aquele mesmo odre que agora Nellie tinha ao seu lado. Fora um pequeno milagre, um dos muitos que os haviam beneficiado na sua odisseia. Permitira-lhes subsistir, enquanto trepavam a montanha escalvada até chegar a esta região de desértica pastagem. Encheram o odre várias vezes desde então, uma delas numa pequena cascata e outra junto de cabanas de caçadores abandonadas. Tinham racionado cautelosamente o mantou e as conservas em salmoura que o rapazito lhes oferecera. Só nos últimos três dias é que tinham ficado sem água nem comida.

 

E agora a Providência favorecia-os de novo, revelando-lhe aquele charco, que lhe devolvia a vida. Tentou recordar-se das palavras do salmo mas só conseguiu lembrar-se dum verso: «A Tua mão e a Tua vara indicar-me-ão o caminho.» Iriam precisar ainda daquela mão e daquela vara para sobreviver muitos mais dias numa região que lhes era tão hostil. Suspirou ao lembrar-se de quantas dificuldades já lhes haviam aparecido pela frente, durante as semanas em que tinham vagueado. Estavam em Agosto ou em Setembro? Já não sabia.

 

Pareciam ter decorrido meses desde a fuga do comboio, tão bem equipados e montados em tão belos cavalos. Depois, andaram perdidos na floresta dias a fio, entre árvores a perder de vista. Por diversas vezes, descobriram que se encontravam num local por onde já tinham passado. Certa noite, desabara uma grande trovoada. Não se lembraram de atar às árvores as rédeas dos cavalos e os animais espantaram-se e fugiram, perdendo-se na noite e. levando com eles as provisões nos alforges. Tinham gasto dois dias inteiros na busca infrutífera dos cavalos, até serem obrigados a aceitar a evidência. Nellie recordava-se dos dias seguintes - das semanas seguintes -, um caminhar através da escura floresta como um pesadelo que parecia não ter fim. Não tinham mantimentos e Edward proibira-os de comer as raras e tentadoras bagas que por vezes encontravam, não se deve o caso de serem venenosas. Por essa altura, revelara-se um chefe rígido e maníaco, obrigando-os a avançar, sem descanso e impiedosamente, caminhando à frente deles, com o queixo espetado. Nellie não se atrevera a perguntar-lhe se ele sabia para onde os dirigia, tão determinada era a sua expressão, quando se detinha, aqui e ali, para determinar a posição do Sol, por entre os ramos. Após um dia de deambulação errática, Edward informara-os de que tinham de viajar de noite, para que ele pudesse examinar as estrelas e determinar onde se encontravam. Isso foi ainda mais difícil, por causa dos ruídos da floresta, dos animais rastejantes e das aves nocturnas. Helen, a atravessar uma crise de carência, porque a morfina desaparecera com os cavalos, ficava por vezes histérica, embora Nellie tivesse de reconhecer que, dadas as circunstâncias, a rapariga se estava a sair muito bem, conseguindo caminhar com os outros. Podiam ter morrido na floresta se, ao terceiro dia, não tivessem encontrado a pequena casa de um lenhador. A princípio, o homem mostrara-se afável e dera-lhes comida e abrigo, mas, quando se preparavam para partir, exigira que lhe pagassem, brandindo ameaçadoramente o machado. Edward fora forçado a dar-lhe quase todo o dinheiro que tinha no bolso. Depois disso, o homem desfizera-se em sorrisos e indicara-lhes o caminho até à casa de outro lenhador, a um dia de marcha. Ali chegados, encontraram um pai e um filho que, sem cerimónia, lhes roubaram o pouco que lhes restava, chegando a apoderar-se do colar de Nellie, com a sua cruz de prata, e do anel de sinete do marido mas, ao menos, em troca, deram-lhes comida.

 

Quando chegaram à habitação seguinte, foram recebidos como mendigos, ou coisa pior. Nas duas cabanas da clareira vivia uma família de agricultores. Tinham alguns porcos e uma horta; no entanto, eram pobres e não estavam dispostos a repartir o que possuíam com misteriosos forasteiros. Com relutância, consentiram que dormissem num dos estábulos pertencentes aos dois irmãos que viviam na segunda cabana, mas, quando lhes pediram comida, os campónios abanaram as cabeças. Levaram horas a adormecer, desabituados como então ainda estavam às dores da fome, condição que era agora uma realidade permanente. No entanto, Mary acordara-os a meio da noite, apontando para um pano no chão, sobre o qual havia - por inacreditável que isso fosse - um prato com legumes, uma grande malga de arroz e metade dum peito de frango. Edward não contivera o entusiasmo.

 

- Como fizeste para os sensibilizar, Mary? - perguntou jovialmente, servindo-se de um pedaço de frango.

 

A rapariga, taciturna, baixara os olhos. Depois de uma longa pausa, encolhera os ombros.

 

- Limitei-me a pedir comida aos irmãos - murmurara.

 

- Deus seja louvado! Ainda há caridade cristã neste mundo - continuou Edward, com um sorriso. - Tu deves possuir encantos escondidos, jovem Mary, encantos capazes de amolecer os corações de pedra destes pagãos.

 

Nellie apercebera-se da espécie de pagamento que os homens haviam exigido a Mary por semelhante caridade, e viu que também Helen fitava os pés, com ar lastimoso, mas nada ; dissera, permitindo que Edward se regalasse com a refeição. Aliás, de que serviria dizer fosse o que fosse? O que Mary fizera estava feito - e a verdade é que a comida se encontrava ali.

 

Dias mais tarde, depois de muito vaguear e de muita fome, foram recebidos por um lenhador de forma ainda mais hostil. O homem ameaçara-os com uma caçadeira e eles tinham procurado refúgio numa clareira próxima para aí passar uma noite desconfortável, ao relento. Mary voltara a acordados para lhes apresentar comida - um prato de coelho com legumes cozidos -, mas dessa vez Edward não se mostrara tão obtuso. Repreendeu a rapariga, chamando-lhe ingrata, viciosa e prostituta, e desferiu uma pancada no prato, que lhe saltara das mãos e caíra, virado para baixo, entre as folhas húmidas do chão. Calcou-o com os pés, e obrigou a trémula rapariga a pôr-se de joelhos e a confessar-se arrependida da sua fraqueza, ameaçando-a com a ira divina se voltasse a pecar. Nellie e Helen aguardaram em silêncio, enquanto George e Jenny fitavam o pai, com olhos onde se lia medo e espanto. Só quando tudo acabou é que Nellie, calmamente, se aproximara da chorosa Mary, abraçando-a. Helen, evitando o olhar do médico, ajoelhou-se junto do prato quebrado e, com todo o cuidado, começou a recolher os restos de comida de entre as folhas.

 

- Não vão querer partilhar esse salário do pecado, pois não? - gritara Edward, mas as mulheres não lhe ligaram, continuando a tarefa iniciada por Helen.

 

- Acho que devias pedir desculpa à Mary - murmurara Nellie, passado algum tempo.

 

- Pelo amor de Deus, mulher! Ela comportou-se como uma prostituta! Não percebeste ainda o que ela acaba de fazer?

 

Nellie encarara-o, tranquilamente.

 

- A Mary é o que é, Edward - disse -, e está a arranjar-nos comida, embora não seja obrigada a fazê-lo.

 

Nellie reflectira já várias vezes acerca daquele episódio. Parecia-lhe que datava de então a mudança operada no comportamento do marido - o seu refúgio numa taciturna melancolia, a terrível passividade que se apoderara dele - marcando para ela o momento em que, sem alarde, assumira a chefia do pequeno grupo.

 

Nada mais havia sido dito sobre o assunto. Edward fora sentar-se num cepo de árvore, a alguma distância, enquanto os outros comiam o que tinham podido salvar da refeição. Nellie levara-lhe a sua parte, mas ele afastara-a, com modos bruscos. Na manhã seguinte, tinham retomado a marcha.

 

Desde então haviam acontecido tantas coisas, tantas coisas terríveis. Muitos foram os dias em que nem mesmo Mary conseguira arranjar comida, e, sempre que pôde fazê-lo, nunca mais ninguém a censurou. Comiam o que ela conseguira arranjar - até mesmo Edward, embora, a partir daquele dia, não mais lhe tivesse dirigido a palavra. Certo dia, a rapariga fora-se embora. Há muito que tinham saído das florestas das colinas Negras e que vagueavam por um planalto, ladeado por ravinas profundas, em muitas das quais viviam os camponeses pobres da região. Habitavam em cavernas escavadas nas paredes de terra macia das encostas, e sobreviviam graças às magras colheitas que conseguiam obter do que tinham cultivado em socalcos por eles próprios construídos.

 

O grupo tinha aprendido rapidamente a evitar estes locais, preferindo esconder-se onde conseguiam arranjar abrigo em campo livre. Não se esqueciam da sua condição de estrangeiros e de cristãos num país que decidira exterminá-los. Não se aperceberam de quaisquer sinais visíveis dos Boxers, mas, numa das aldeias, encontraram um cartaz colado a uma parede com palavras de ordem xenófobas que reproduzia o texto de um impiedoso decreto imperial. Os aldeãos olharam-nos com ar hostil, juntando-se em pequenos grupos e apontando na sua direcção. Fugiram apressadamente, quando lhes atiraram algumas pedras. Sem que o quisessem reconhecer, a verdade é que dependiam de Mary, que muitas vezes se escapulia quando eles se deitavam para dormir. Em regra, quando acordavam, descobriam alguma espécie de comida à sua espera. Só que, certa noite, ela não regressou.

 

Esperaram durante todo o dia e toda a noite seguinte, preocupados e com os estômagos a pedir comida. No segundo dia, decidiram ir à aldeia. As pessoas afastaram-se, quando eles passaram, e não responderam ao que lhes perguntaram. Por fim, encontraram uma velha que, antes de fugir deles, apontou para uma das cavernas na outra extremidade do vale. Ali, foram descobrir Mary, a cozinhar numa braseira que havia no interior. Um aldeão de cabelo grisalho e barba hirsuta, sentado, muito rígido, num banco, ignorou a sua presença. Mary desfez-se em lágrimas e contou-lhes que aquele homem aceitara ficar com ela. Estava farta. Não queria continuar a vaguear. Que lhe desculpassem, que lhe perdoassem. Antes de partir, obrigara-os a levar alguns cestos com comida.

 

A provisão durara cinco dias, depois do que não tiveram outro remédio que não fosse mendigar nas aldeias com que deparavam, fossem quais fossem os riscos que corressem. Por vezes, encontraram compreensão e hospitalidade, mas, as mais das vezes, eram escorraçados com imprecações. Chegaram mesmo, numa noite, a ser metidos numa cela por um chefe de uma aldeia; a mulher deste, contudo, apiedara-se de Jenny e de George, e foram soltos na manhã seguinte.

 

Os seus corpos macilentos estavam cobertos de chagas, os pés cheios de bolhas causadas pelos sapatos rotos e as pulgas e os insectos mordiam-lhes constantemente a pele. Era um milagre que ainda nenhum deles tivesse contraído alguma doença mais grave do que a diarreia, mas, naquela altitude, o calor não era obsessivo durante o dia e as noites eram apenas um pouco frias. Nellie incitava-os a seguir em frente, obrigava-os a levantarem-se de manhã, quando os seus corpos ainda pediam repouso, e conseguia encontrar sempre as palavras certas para os levar a envergonharem-se de si próprios, quando o desespero se apossava deles.

 

O que mais a espantava é que Helen tivesse sobrevivido. Houvera noites, horríveis, em que reclamara a sua droga, em altos berros, e aquelas em que dormira profundamente também não tinham sido melhores. Nos seus pesadelos, gritava os nomes de Henry e de Tom e as suas mãos moviam-se freneticamente no ar, como se estivesse a lutar contra algum atacante. Era agora bem visível que uma criança crescia dentro das suas entranhas. Com efeito, o ventre inchado parecia sugar a vida do resto do corpo, como um parasita esfomeado a exigir sustento, enquanto aquele em que se instalara morria de fome. Quando repartia os seus parcos alimentos, Nellie havia adquirido o hábito de aumentar a porção que cabia a Helen, à custa da que reservava para si. Por vezes, a pena que sentia pelos filhos, tão martirizados, levara-a a privar-se completamente de alimento, dividindo a sua parte entre a rapariga, Jenny e George. Era forte, dizia a si própria, enquanto sentia as dores da fome; tinha de sobreviver porque aqueles que amava dependiam dela.

 

Sentia por Helen um forte amor maternal. Ao ver a sua silhueta frágil a avançar, a custo, por um caminho cheio de pedras, e apercebendo-se de que, com o peso da barriga, cada passo exigia dela uma grande força de vontade, sentira, além de simpatia, um intenso orgulho na coragem demonstrada pela filha adoptiva. Respirando a custo, com o rosto carrancudo, Helen nunca se queixava, embora o esforço se tornasse demasiado para ela e todos tivessem de descansar, enquanto a jovem recuperava forças para poder continuar. Nessas ocasiões, Edward punha-se a caminhar lentamente de um lado para o outro ou deixava-se cair, à distância, numa berma do caminho. Já não era o médico. Alguma coisa morrera dentro dele. Respondia ao que lhe perguntavam e, uma ou duas vezes, Nellie viu-o olhar para as crianças, com lágrimas nos olhos, mas, na maior parte do tempo, enroscava-se em volta dos seus momentos amargos. Evitava a companhia dos outros e nunca participava das conversas nocturnas, ao redor da fogueira. Certo dia, Nellie apercebera-se de que o cabelo do marido estava quase todo branco e que o seu rosto, decrépito, parecia o de um homem muito mais velho. Não conseguia determinar o que havia de errado com ele, embora a afligisse vê-lo em tal estado. Gradualmente - porque tinha relutância em admiti-lo, se bem que, no íntimo, soubesse que assim era -, começara a desprezá-lo. Perguntava a si própria se não acabara por desprezar todos os homens, com a sua frivolidade, a sua arrogância, a sua violência - e a sua infinita fraqueza.

 

Ocasionalmente, pensava em Frank, o irresponsável pai de Helen. Duvidava que a rapariga tivesse herdado dele as suas profundas reservas de força de vontade e a sua capacidade de resistência. Gostaria de saber que espécie de mulher fora a mãe da rapariga. Sabia que Helen nunca a conhecera, mas Frank sempre se lhe referira como se fosse uma deusa. Teria Helen herdado da mãe aquela extraordinária tenacidade? Nellie sabia que tudo aquilo não passava de mera especulação. Viessem de onde viessem, as qualidades de Helen eram dela e só dela. Possuía, além disso, algo de muito mais fundamental, algo que é partilhado por todas as mulheres que já estiveram grávidas: a certeza de que outra vida crescia dentro dela. Nellie vira a gravidez da rapariga como a causa da sua fraqueza, do lento esgotar das suas forças, para além da desnutrição, que os ameaçava a todos. Talvez Nellie devesse agradecer o facto de Helen estar grávida. Apesar de tudo o que lhe acontecera, era uma mulher e uma futura mãe, com todos os instintos e a tenaz determinação de qualquer mãe em proteger a vida do seu filho. Em vez de a enfraquecer, isso dava-lhe vontade de viver.

 

Uma coisa espantava Nellie: nem uma só vez, desde que abandonaram o comboio, ouvira Helen mencionar o nome de Henry Manners, muito embora, ocasionalmente, falasse de Tom com carinho, e até com humor. Nellie estava certa de que Helen sabia que Henry morrera; na primeira noite passada à volta da fogueira, Edward contara-lhes a terrível cena que se lhe deparara na carruagem do mandarim. Ela própria ficara surpreendida pela magnitude da torpeza que Manners revelara, esperando que Helen reagisse, assumindo a sua defesa, que procurasse negar tal facto ou, que, pelo menos, manifestasse o seu pesar. A rapariga, todavia, limitara-se a escutar, de cabeça baixa, e não mais voltara a abordar o assunto. «Ora», pensou, «talvez seja melhor assim.» No que respeitava ao que o mundo precisava de saber, o filho de Helen podia até nem ser de Tom. Talvez fosse, até, mais convincente inventar um casamento. Com tristeza, deu-se conta de que não permanecia vivo fosse quem fosse para contestar essa mentira. Se Tom não tivesse morrido como um mártir, teria feito o que devia, Nellie estava certa disso. Dos dois homens na vida de Helen, a balança da Providência inclinara-se claramente para o menos digno, e Henry Manners, no fim da sua miserável existência, não teria outra coisa a mostrar que não fosse a besta que sempre fora. Era triste, porque chegara a gostar dele, até a admirá-lo, mas a sua traição final não tinha perdão. Apesar de tudo, parecia estranho que Helen se tivesse afastado tão pacificamente da sua memória...

 

Mas que estava ela a fazer? A perder tempo, ali no charco, quando a noite não tardaria a chegar e tinha de voltar com água para matar a sede dos outros! Se não regressasse depressa, as consequências sociais da gravidez de Helen não passariam de meras hipóteses teóricas. E, mesmo assim, era de recear que a rapariga não sobrevivesse por muitos mais dias. O milagre de ter encontrado água podia não ser bastante para a salvar.

 

O seu corpo cansado tinha relutância em deixar a fonte fresca, mas obrigou-se a ficar sentada e a encher o odre. «Pobres queridos», pensou. Jenny e George deviam estar a enlouquecer de sede. Bom, daí a pouco estaria de novo junto deles. Dentro do odre havia água bastante para durar todo aquele dia e, no seguinte, conduzi-los-ia até ali. Talvez George fosse capaz de encontrar maneira de caçar uma das marmotas - os pequenos animais felpudos e brancos que habitavam naquelas margens desérticas e que, de início, os haviam encantado, e depois desiludido, mostrando as suas cabeças, com longos bigodes, aqui e ali, sempre longe de mais para que pudessem apanhá-las. A visão de um pedaço de carne assada encheu-a de júbilo. Fechou os olhos. Era melhor deixar de pensar nisso antes que enlouquecesse. Inclinou-se, pegou no odre e, arrastando-o atrás de si, deu dois passos - e ficou petrificada. O sol daquele fim de tarde projectava sombras sobre a erva, mas aquela que então viu à sua frente, recortando-se, escura, com clara nitidez, não provinha de nenhum fenómeno natural nuvens ou do topo da colina. Julgando a sonhar, virou-se; por um momento, a luz do sol encandeou-a, mas não restavam dúvidas: entre ela e o disco refulgente interpunha-se a silhueta de um homem. Era baixo e de compleição robusta; estava montado num pequeno pónei e, numa das mãos, segurava as rédeas de um outro cavalo. Trazia um mosquete a tiracolo, tinha a cabeça coberta por um chapéu de peles, inclinado para um dos lados, e vestia uma túnica com amplas abas que lhe cobria todo o corpo até ao cano das botas. Quando os olhos de Nellie se ajustaram à luz, percebeu que o homem lhe sorria. Desde logo, qualquer coisa de afável na sua expressão teve o condão de a serenar.

 

Os meses que passaram com Orkhon Baatar, o pastor mongol, ficaram na memória das crianças como uma das épocas mais felizes das suas existências. Todas as manhãs, quando o pequeno buraco no alto do ger, a tenda de feltro em que dormiam todos, começava a empalidecer com a luz da alvorada, acordavam e viam a reconfortante figura de Sarantuya, a rechonchuda mulher de Orkhon Baatar a encher o fogão com bolas secas de esterco dos animais. Orkhon Baatar levantara-se muito antes, passando silenciosamente sobre os corpos adormecidos para ir abrir as portas dos currais das ovelhas e tratar dos cavalos. Quando a porta de madeira voltava a abrir-se e o seu rosto enrugado e sorridente saudava com uma gargalhada jovial a família que despertava, tirando de detrás das costas um coelho ou uma perdiz que acabara de caçar, o lume já crepitava e a água já começava a ferver. Tomavam o pequeno-almoço postados em círculo, à volta do fogão. Orkhon Baatar instalava-se, orgulhoso, no único tapete bordado que a família possuía e fazia circular as malgas com o soro de leite que despejava dum jarro de cobre. Sabia que George e Jenny tinham pressa de sair e divertia-se a espicaçá-los, inventando pretextos para os fazer esperar, fingindo que estava fatigado ou que tinha dores de estômago, ou falando com a mulher acerca do tempo com tamanha profusão de pormenores que levava as crianças a contorcerem-se, expectantes. No entanto, sabia quando a paciência dos ouvintes estava a esgotar-se. Então, os seus olhos começavam a brilhar, a boca abria-se-lhe num sorriso largo, revelando os seus dentes pontiagudos, e perguntava num chinês macarrónico se alguém desejava ajudá-lo a ir procurar as ovelhas. Para George e Jenny era o sinal; punham-se em pé de um salto, e, a correr, saíam do ger para a luz radiosa do sol (nas recordações das crianças nunca chovia e todos os dias haviam sido esplendorosos).

 

Em poucos minutos, punham as selas em dois póneis de patas curtas, montavam e seguiam o pastor, em louca cavalgada, em direcção ao vale, onde os animais pastavam no flanco duma colina. O mongol voltava-se, de tempos a tempos, para lhes sorrir, com a espingarda a saltar-lhe sobre as costas. As crianças procuravam sempre passar-lhe à frente, mas quando os via perto, ele soltava um uivo, como um lobo, e partia a galope até ao sopé da colina, inclinado sobre a cabeça da montada. Quando finalmente chegavam ao termo da correria, recebia as crianças com um gesto trocista.

 

Durante a hora seguinte, enquanto Orkhon Baatar se ocupava dos seus animais, George e Jenny estendiam-se na erva e inventavam nomes para as formas das grandes nuvens que passavam pelo céu, sobre as suas cabeças. Orkhon Baatar ensinara a George como apanhar um gafanhoto para lhe atar um fio à pata e obrigá-lo a saltar em círculo à volta do rapaz, mas Jenny não gostava desse jogo e preferia fazer colares de flores. Quando o mongol regressava, estendia-se na erva ao lado deles e perguntava-lhes o que queriam fazer nesse dia. Por vezes, iam até à margem do rio; ali chegados, Orkhon Baatar retirava um rato morto das dobras da túnica e atava-o a um cordel. Era o isco para o feroz taimen, o enorme salmão com dentes afiados e salientes, que podia chegar ao metro e meio de comprimento. Enquanto Jenny ficava a vê-los, na margem, Or khon Baatar e George avançavam rio adentro, à procura de um maciço de ervas onde um desses monstros pudesse estar escondido. Se conseguiam encontrar algum, o peixe dava luta que por vezes se prolongava durante meia hora. Uma vez capturado e trazido para a margem, Orkhon Baatar, invariavelmente, voltava a atirá-lo ao rio. Matar um peixe dava azar, explicara ele. Quando as pessoas morriam, as suas almas iam para os rios e assumiam a forma de peixes. Ao referir-lhes isto assumira um ar solene, mas logo a seguir desatara a rir, pelo que as crianças ficaram sem saber se falara a sério ou não. Em outros dias, limitavam-se a cavalgar, indo tão longe quanto lhes apetecesse. Um dos locais de destino favoritos era um afloramento rochoso que se erguia misteriosamente acima da relva, a cerca de dez quilómetros do acampamento de Orkhon Baatar. Num dos flancos via-se um montão de pedras que podia ser um monumento funerário ou um marco. Sempre que ali chegavam, Orkhor Baatar desmontava e fazia-os dar a volta, por três vezes, ao montão de pedras. Antes de se irem embora, cada um deles procurava uma pedra para acrescentar às que lá se encontravam. Da primeira vez que lá foram, Orkhon Baatar disse-lhes que aquela montanha era sagrada e contou-lhes a lenda do guerreiro que fugira com o remanescente do tesouro de certo rei, seu senhor, morto numa batalha em que fora vencido. O cavaleiro tinha enterrado o tesouro algures naquelas colinas mas, quando acabara, fora descoberto pelos perseguidores inimigos. Eram em grande número e, na impossibilidade de lutar contra eles, fizera galopar o seu cavalo até ao topo do afloramento rochoso. Depois, quando os adversários o cercaram, esporeou a montada, obrigando-a a saltar para o espaço. O vento levara-o para o céu, onde se escondera entre as nuvens; nunca mais ninguém o vira, pelo que o local secreto em que escondera o tesouro do seu rei ficara preservado para sempre. George tinha querido procurá-lo, mas Orkhon Baatar dissera-lhe que isso constituiria um grande pecado. Jamais um mongol escavaria a terra, porque a terra estava viva e sentiria o ferimento. Forçou-os a prometer solenemente que nunca procurariam o tesouro, pois isso atrairia o mal sobre eles. Depois de terem prometido, piscou-lhes um olho, e, rindo-se, levou-os até ao topo do rochedo, de onde o lendário guerreiro havia saltado. Ficaram ali, com o vento adejando-lhes as roupas, contemplando a ondulação da erva das pradarias, que se estendiam, em todas as direcções, até onde os seus olhos alcançavam.

 

Ao almoço, comiam carne seca que Orkhon Baatar levava na sua sacola entrançada, e depois retomavam lentamente o caminho de regresso. As tardes eram consagradas à aprendizagem. Orkhon Baatar ensinava-lhes como agarrar um pónei transviado, galopando a seu lado e passando-lhe à volta do pescoço um laço colocado na ponta dum pau comprido. Ensinou-lhes a trazer as ovelhas, à noite, de volta aos currais, e explicou-lhes porque deviam apanhar as caganitas que elas deixavam para trás. As ovelhas forneciam tudo o que satisfazia as necessidades da vida. Até eram usadas para confeccionar a roupa e para obter o feltro do ger, o leite alimentava-os e podia ser conservado sob a forma de iogurte ou de requeijão; a carne era consumida nos dias festivos - e as caganitas, depois de secas, eram combustível para o fogão. O que de mais terrível podia suceder a um pastor era um Inverno excessivamente frio, quando, por vezes, não conseguia impedir que os seus animais morressem na neve - e quando as ovelhas morriam, isso significava fome para toda a família. Se não houvesse estrume seco para alimentar o fogão, como poderiam aquecer-se? E não haveria nada que comer. Não, o pastor protegia os seus animais; era esse o seu dever, mas também o seu interesse, porque as ovelhas protegiam-no a ele. Certo dia, mostrou-lhes como retirar uma carraça do ventre dum carneiro.

 

A princípio, as crianças ficaram impressionadas, mas Orkhon Baatar disse-lhes que, ao fazer aquilo, estava a conferir maior conforto ao animal, evitando-lhe sofrimento. Toda a vida era sagrada, adiantou, e, se pretendiam que um animal os servisse, então, em contrapartida, tinham o sagrado dever de protegê-lo. Mesmo quando chegava a altura de matar um animal, o homem devia fazê-lo com todo o respeito. Para lhes servir de exemplo, foi buscar um cordeiro ao curral. Tinha partido uma perna e Sarantuya pedira-lhe que o preparasse para o jantar; havia muito tempo que não saboreavam a carne de um cordeiro recentemente abatido. As crianças ficaram a observar Orkhon Baatar, enquanto este, com todo o cuidado, colocava o cordeiro a seu lado. Pegou na faca, fez uma rápida incisão na barriga do animal, enfiou o braço no interior do corpo e apertou-lhe o coração. O cordeiro morreu, depois de emitir um grito balido. O monge retirou o braço, sorrindo.

 

- Viram? - disse ele. - Morreu sem sofrer e nem uma gota do seu precioso sangue caiu no chão. Da próxima vez, serão vocês a fazê-lo. Eu ensino-lhes.

 

George e Jenny, contudo, abanaram as cabeças e fugiram dali. Claro que, pouco depois, aprenderam a fazê-lo, como aprenderam muitas outras coisas que Orkhon Baatar lhes ensinou, antes que o Verão, com os seus dias dourados, desse lugar ao Outono, e eles começassem a sentir na pele os primeiros ventos gelados que varriam as estepes.

 

Para Nellie e Helen Francês aqueles foram tempos de tranquilidade e convalescença. Encontraram conforto nas muitas tarefas domésticas, como cozinhar, lavar e ordenhar as ovelhas. Em pouco tempo, tornaram-se amigas da sempre bem-disposta Sarantuya, que as acolheu como irmãs. Embora, a princípio, não partilhassem qualquer língua comum - Sarantuya, ao contrário do marido, não falava chinês -, depressa estabeleceram meios de comunicação entre elas, servindo-se de gestos e das expressões do rosto; por vezes, faziam desenhos na areia do solo, rindo-se em conjunto, enquanto tentavam interpretar o significado das imagens. Com o correr do tempo, as duas mulheres aprenderam algumas palavras do idioma mongol e puderam manter conversas rudimentares com Sarantuya. Perceberam então que ela era uma mulher sensata, que, tal como o marido, possuía simultaneamente uma grande sabedoria prática e um natural sentido de humor.

 

Também elas tinham a sua rotina diária. Apreciavam sobretudo o passeio matinal pelas margens do rio, depois do pequeno-almoço; enchiam de água os cântaros de cobre e, uma vez por semana, lavavam a roupa. Eram sempre ocasiões para conversar e contar anedotas. Sarantuya falava sem rodeios e não tinha qualquer pejo em formular perguntas sobre as questões mais íntimas, e elas respondiam-lhe da mesma forma.

 

A mongol vigiava com orgulho o avanço da gravidez de Helen. Muitas vezes, esfregava a mão no ventre da jovem, cada vez mais proeminente, e, não raro, colava ali a orelha na esperança de detectar qualquer movimento. Da primeira vez em que sentiu uma espécie de pontapé, soltou um grande grito de alegria, batendo as mãos e apertando a rapariga contra o seu peito avantajado. Ficou depois a balançar sobre os calcanhares durante largo tempo, com as mãos de Helen nas suas, emitindo cacarejes de júbilo, enquanto lágrimas de contentamento lhe rolavam pelas faces risonhas. Alguns dias mais tarde, convenceu-se de que Helen ia dar à luz uma menina. Passou-lhe a mão pelo ventre, fazendo salientar a sua forma arredondada; desenhou na areia a figura duma mulher com um ventre mais pontiagudo, e ao lado a de um bebé com um pénis e testículos. Logo a seguir, apagou os dois desenhos, substituindo-os por outro, de um bebé do sexo feminino, e apontou para Helen, com um largo sorriso. Nellie e a jovem compreenderam assim que uma barriga redonda prenunciava uma menina e uma barriga pontiaguda, um rapaz. Agora que tudo estava explicado, as três desataram a rir, muito contentes.

 

De outra vez, Nellie, servindo-se de uma mistura de palavras e de desenhos, perguntou a Sarantuya se ela e Orkhon Baatar tinham filhos e onde estavam eles. Sarantuya sorriu tristemente, apontou para o seu próprio ventre e, com um gesto da mão, deu a entender que era estéril. Nellie e Helen não puderam esconder o seu pesar e o seu embaraço, mas Sarantuya pegou-lhes nas mãos e procurou mostrar-lhes que não deviam ficar tristes, porque tanto ela como o marido já haviam aceitado tal situação. Apontou então para a colina distante, onde os filhos de Nellie e Orkhon Baatar se divertiam, a cavalo.

 

- Orkhon Baatar - disse ela, batendo no peito. - Jei-ni, Zorj. Como seus filhos. Como filhos de Orkhon Baatar. Ele contente de ter Jei-ni, Zorj - e sorriu, com apenas uma pequena lágrima no canto dos olhos castanhos.

 

Nellie compreendeu nesse momento a tragédia escondida por detrás da vida simples de Orkhon Baatar e de Sarantuya e deu-se conta da razão por que eles os haviam acolhido tão calorosamente.

 

Cedendo a um impulso, abraçou Sarantuya e, desde então, sentiu-se ainda mais chegada à mulher.

 

Um assunto sobre o qual Sarantuya nunca fez perguntas foi o do relacionamento de Nellie com o marido; aliás, raramente falavam de Airton. Às vezes, viam-no vaguear pelas colinas, todo curvado. Mantinha-se fechado sobre si próprio, só se juntando aos outros para a refeição do fim do dia; sentava-se, cabisbaixo e em silêncio, esperando que Orkhon Baatar lhe enchesse a caneca com nermel, uma amarga bebida alcoólica feita com leite de mula destilado, com que, todas as noites, procurava achar conforto para tudo quanto o atormentava. Por vezes, Orkhon Baatar também bebia e ambos emborcavam púcaro atrás de púcaro, em silêncio. Nessas ocasiões os olhos do monge como que expressavam compaixão, enquanto observava como o médico, progressivamente, sucumbia ao entorpecimento. A bebida nunca parecia afectar Orkhon Baatar. Em outras noites, quando não lhe apetecia beber, deixando todo o jarro para o médico, Airton sentava-se, encostado à estrutura em vime do ger, e bebia sem parar, enquanto Orkhon Baatar entretinha os outros com histórias, por vezes sem pés nem cabeça, ou dedilhava o seu er-hu, entoando a plenos pulmões canções nómadas, graves e melancólicas. :

 

Orkhon Baatar fascinava Helen.

 

O primeiro rosto que vira fora o do pastor, quando despertara do seu torpor inconsciente. Lembrava-se daqueles olhos, tão cordiais, tão compreensivos. Projectavam uma tal paz, inspiravam tanta confiança que, a princípio, julgou que tinha morrido e que o rosto que se inclinava sobre o seu devia ser o de um demónio ou de um anjo. Na verdade, havia algo de diabólico naquelas feições: a boca de cantos pendentes, os dentes pontiagudos, as farripas do bigode, a cara lunar de pele enrugada como a de um sapo. Iluminado pelo clarão da fogueira, dançavam sombras sobre a sua tez amarela. Nunca vira um rosto como aquele. Não parecia o de um ser humano mas os olhos... Os olhos eram sagazes, como ela imaginava que seriam os dos anjos; pelo menos, revelavam ser os de um homem bom e, instintivamente, tivera a certeza de que, junto dele, estaria a salvo. Sentira-lhe a mão, quando ele a pousara sobre a sua testa. Era quente, um pouco áspera, mas surpreendentemente delicada. Os olhos por cima dela fecharam-se e a face, iluminada pela fogueira, ficou imóvel, como de alguém em transe. Ouviu palavras numa língua que não conhecia, cântico profundo e retumbante que devia sair da garganta do homem, já que os seus lábios não pareciam mover-se. Pouco depois, a mão na sua testa tornara-se quente, abrasadora, mas não desconfortável. Sentira ondas de paz e de satisfação percorrerem-lhe o corpo todo. Mergulhara depois num sono sem sonhos. Quando acordara, encontrava-se já no ger, ainda sonolenta e faminta, mas com uma deliciosa languidez em todos os membros e uma forte sensação de vida, dentro de si dentro do ventre. Ouvira vozes familiares, a de George e, depois, a de Jenny, gritando, muito excitados:

 

- Venham, venham! Ela acordou! Ela acordou!

 

No momento seguinte, Nellie estava debruçada sobre ela a sorrir, e, por sobre o seu ombro, Helen voltara a ver o mesmo estranho, timidamente parado junto da porta.

 

Nellie contara-lhe como fora a cavalo com Orkhon Baatar, desde a fonte, enquanto o crepúsculo caía sobre as colinas. O pequeno grupo, que Nellie deixara naquela tarde, estava prestes a sucumbir de fome e de sede. O Dr. Airton achava-se ajoelhado, sem forças, junto das brasas da fogueira, abraçado às costas dos filhos, adormecidos; Nellie declarara que nunca vira tanto desespero espelhado no rosto de um homem. Mal a reconhecera e parecia não perceber que era um odre aquilo que ela lhe colocara nas mãos. Nellie levara alguns alarmantes momentos até conseguir acordar os filhos, mas estes depressa recuperaram, depois de beberem a água vivificante. No entanto, por mais que se esforçasse, não conseguira acordar Helen, muito embora fizesse escorrer água sobre os seus lábios e lhe abanasse os ombros frágeis. Percebeu com horror que a jovem já mergulhara no coma que precede a morte. O pulso estava tão fraco que quase não conseguia senti-lo. Durante todo esse tempo, Orkhon Baatar deixara-se ficar no seu cavalo, a observar a cena.

 

Nellie gritara com o marido, pedindo-lhe que fizesse alguma coisa, mas o médico erguera para ela o rosto inexpressivo, voltando a baixar a cabeça. Desesperada, Nellie virara-se para o mongol que a trouxera até ali. A sua súbita aparição fora um milagre. Seria ele capaz de produzir outro? O homem saltara do cavalo e, sem se apressar, caminhara na sua direcção. Ajoelhando-se ao lado de Helen, encostara a cabeça ao peito da jovem para ouvir as palpitações do coração. Colocou depois o nariz junto do da rapariga como se procurasse cheirar-lhe a respiração. Também colocara a mão no ventre da jovem e; olhara para Nellie, como para obter confirmação.

 

- Sim, sim, está grávida! - gritara Nellie. - Mas que interessa isso agora? Ela está a morrer! A morrer!

 

Orkhon Baatar acenara, afirmativamente, e murmurara algo que se parecia com a palavra chinesa para «regresso». Depois, saltara para a sela, e, batendo nos flancos do cavalo com as rédeas, partira a galope, desaparecendo no crepúsculo.

 

Nellie explicaria mais tarde que percebeu naquele momento o que era sentir-se abandonada.

 

No entanto, Orkhon Baatar regressara, pouco depois. Primeiro tirara da sacola da sela um naco de carne seca embrulhado num pano. Entregou a comida a Nellie, e gesticulara para lhe fazer entender que devia dá-la ao médico e às crianças. Depois, com grande eficácia, reacendeu a fogueira e pôs ; água a ferver dentro dum púcaro de cobre. Tirou das pregas da túnica o que pareciam ser folhas de erva misturadas com flores selvagens e lançou tudo para dentro do púcaro. Dando tempo a que a mistura se convertesse numa infusão, pegou no odre e ajoelhou-se junto de Helen, introduzindo a água, gota a gota, entre os lábios da rapariga.

 

Em seguida, para grande surpresa de Nellie, começara a massajar-lhe o corpo, que deitara de costas, enquanto lhe sussurrava ao ouvido o que parecia ser uma oração ou uma ladainha mágica. Colocara o púcaro junto da cabeça de Helen e, delicadamente, conseguira soerguer-lhe o tronco; depois, erguera o púcaro até este ficar junto das narinas da jovem e observara-lhe fixamente o rosto, à procura de sinais de reanimação. Depois, deitara-a de novo, retomando as massagens e a ladainha. Quando a mistura do púcaro arrefeceu derramou-a sobre um pano, até este ficar encharcado, e, com todo o cuidado, introduziu-o na boca de Helen. Findo isto, voltara a massajar-lhe o corpo.

 

Nellie ficara sentada junto à fogueira, observando o que fazia o mongol; sentia-se desesperada, mas achava-se demasiado fraca para protestar contra o que lhe parecia ser inútil, mera crendice ou coisa pior. Passado algum tempo, contra a sua vontade, caíra num sono profundo. Só acordara quando Orkhon Baatar lhe sacudira o ombro, com um céu já rosado com a claridade do alvorecer. O mongol sorria. Pegou-lhe na mão, levou-a até ao local onde Helen estava deitada e, por gestos, pediu-lhe que tomasse o pulso da rapariga. Estava ainda fraco, mas batia com muito mais vigor do que ao início da noite.

 

Cavalgaram durante a maior parte da manhã: o médico, com as crianças, num dos cavalos, e Orkhon Baatar no outro, com Helen deitada sobre os seus joelhos e Nellie agarrada às suas costas. Os cavalos caminharam a passo, por entre as colinas, e, cerca do meio-dia, chegaram ao ger de Orkhon Baatar. Só então se deram conta de como, durante todos aqueles dias de peregrinação, tinham estado tão perto do grande leito do rio, junto do qual o mongol instalara o seu acampamento.

 

Durante dois dias, Orkhon Baatar tratara ele próprio de Helen, ficando pacientemente sentado junto dela, massajando-a, dando-lhe a beber o seu chá de ervas e entoando as suas preces. É de admitir que tenha dormido, durante esse tempo, mas os outros nunca viram fazê-lo. Ao terceiro dia, a jovem acordou e, passada uma semana, já tinha forças para se pôr de pé e andar.

 

É claro que a sua recuperação não fora imediata. Levou algumas semanas para que a dieta de iogurtes e de espesso caldo de carneiro conseguisse devolver-lhe carne suficiente para que voltasse a parecer o que era antes. À medida que o seu corpo foi ficando mais forte, os pesadelos regressaram e, com eles, a sua ânsia da droga que, sabia-o, nunca encontraria naquela região desértica. Nellie tentara quanto pudera para a reconfortar, mas sentira-se impotente, enquanto via Helen mergulhar, dia após dia, na mais profunda apatia e desespero. Orkhon Baatar observara-a atentamente, mas nada fizera.

 

Certa noite, porém, depois de um pesadelo particularmente agonizante, foi acordá-la. Pegou-lhe na mão e, por gestos, convidou-a a segui-lo até ao exterior. A lua cheia refulgia num céu de estrelas brilhantes e iluminava o chão por onde caminhavam. Orkhon Baatar conduzira-a colina abaixo, até à margem do rio, onde a instou a sentar-se. Tirou uma bolsa do cinto e entregou-lhe o que parecia ser um cogumelo, fazendo um gesto para que o levasse à boca. Ela obedecera, vendo que ele fazia outro tanto. Tinha um sabor acre, mas a jovem forçara-se a engoli-lo. Ficaram sentados, durante largo tempo, ouvindo o som da corrente cristalina do rio. Com o tempo, parecera-lhe que o ruído aumentava e que as colinas à sua volta se tornavam cada vez mais nítidas, como se as visse à luz do dia. A sua mente estava mais lúcida do que nunca e o seu corpo pasmosamente leve. De súbito, experimentava uma sensação extraordinária: estava a flutuar, acima do solo. Curiosamente, Orkhon Baatar também parecia flutuar. Tinha uma expressão prazenteira nos olhos e sorria para ela, afectuosamente, através do pequeno intervalo que os separava. O pastor estendeu a mão, pegou na dela e ambos se elevaram no ar, juntos - mas não podia ser, porque no chão lá em baixo podiam ver claramente os seus dois corpos sentados, voltados um para o outro. Perguntou a si própria se seria parte da sua percepção que estava a flutuar por cima do corpo. No entanto, podia sentir todas as sensações experimentadas pelos membros do seu ser corpóreo e o flutuante Orkhon Baatar também parecia real. Podia sentir a mão rugosa do mongol a apertar a sua. Ele ria-se e apontava para as estrelas, que pareciam precipitar-se na sua direcção. Subiram cada vez mais alto e então, a um sinal de Orkhon Baatar, mergulharam nas águas do rio e ela sentira a corrente a empurrá-la, não sabia para onde... Nunca falou daquela estranha viagem aos companheiros. Na verdade, quando, na manhã seguinte, acordou na sua cama, perguntou a si própria se não teria sido apenas um sonho - mas não lhe parecera um sonho, e, ao contrário do que sucede com os sonhos, conseguia lembrar-se de tudo. Orkhon Baatar viajara com ela através dos continentes e, no tempo, através do seu próprio passado. Viu-se de novo em criança, numa grande algazarra, enquanto seguia alegremente pelas estradas rurais da Inglaterra num ãogcart, ao lado do pai; pairara sobre o paquete onde ela e Tom se tinham mascarado para um baile a bordo. Após breve resistência, permitira que Orkhon Baatar a afastasse daquela agradável recordação e a levasse de regresso à China, onde voltara a contemplar-se a si mesma com Tom num comboio, e depois com Henry - com Henry no Palácio dos Prazeres Celestiais. Era o dia em que ele pela primeira vez lhe dera ópio e ela o fumara, para o impressionar, muito embora ele a tivesse alertado que não fizesse tal coisa. Quis descer e retirar o cachimbo das suas próprias mãos, mas Orkhon Baatar abanara a cabeça. Mais tarde, vira-se no dispensário da missão, a injectar-se com morfina, e chorou, quando o mongol a forçara a observar a cena. Pedira-lhe que não a levasse a nenhuma outra época da sua vida, mas Orkhon Baatar abanara de novo, tristemente, a cabeça, dirigindo-a inexoravelmente até Shishan, ao local das execuções, e depois, apesar da sua relutância - porque sabia o que vinha a seguir - até ao quarto no bordel, em que assistira à cena da sua violação...

 

Misericordiosamente, terminara ali aquela parte da viagem. Deixaram o horrível lugar e deu consigo a passear com Orkhon Baatar pelas planícies mongóis, cobertas de erva. O dia estava tão radioso que era impossível sentir-se acabrunhada. Grandes massas de nuvens brancas rolavam por cima deles e os campos estendiam-se à sua volta, até ao horizonte. Orkhon Baatar começara a conversar com ela, enquanto caminhava a seu lado, de mãos atrás das costas. Falara-lhe das estações do ano e do local onde se encontravam as melhores pastagens. Ela lobrigou uma raposa e seguiram-na até à sua toca. Lá dentro, encontravam-se três raposinhas, com os grandes olhos a fitá-los, de forma cativante. Orkhon Baatar apontou para um veado, de enormes chifres, parado no cimo duma colina. No momento seguinte, encontravam-se junto dele, e corriam a seu lado, soltando gritos exultantes. Ela apontara para uma mancha negra a planar no céu, e voaram com as águias e os falcões. Sentaram-se à beira de um grande rio, que, explicou Orkhon Baatar, tinha um nome igual ao seu. Era um rio sagrado para todos os mongóis. Fora nas suas margens que Gengiscão edificara a sua cidade. Convidou-a a nadar nas suas águas; tirou-lhe a roupa e ela entrou no rio. A certa altura, apercebeu-se de que alguém nadava a seu lado. Julgou que Orkhon Baatar a imitara, mas o rosto sorridente que viu não longe do seu era o de Henry.

 

Os olhos azuis sorriam-lhe e os dentes refulgiam na face tisnada. Ele atirara-lhe com água, ela fizera o mesmo. Depois, tomou-a nos braços e beijou-a apaixonadamente, e Helen deu-se conta de que lhe respondia, sentindo só prazer quando ele a penetrara, consciente da vida que haviam criado juntos e que se formava agora no seu ventre.

 

Depois de fazer amor, tinham mergulhado, seguindo atrás dos peixes que deslizavam por entre os caniços. Gradualmente, a corrente arrastara-os para longe. Acabou por perceber que já não era a mão de Henry que segurava a sua; era a de Orkhon Baatar, que, não sabia como, tomara o lugar de Henry. A grande cabeleira do mongol arrastava-se atrás dele e os seus olhos ternos reflectiam uma enorme simpatia. Compreendeu que ele sabia a grande tristeza que a invadira por Henry ter morrido. Era como se ele tivesse o dom de lhe ler os pensamentos. Subiram até à superfície e ficaram a flutuar, sob as estrelas cintilantes...

 

Como é natural, compreendera que o cogumelo era uma droga e tudo aquilo não passara de visões - mas estava segura, apesar de tudo, de que Orkhon Baatar a acompanhara fisicamente nos seus sonhos, viajando a seu lado e protegendo-a contra os perigos. Não podia explicá-lo, mas sabia que fora assim; além disso, estava convencida de que aquela visão tinha um propósito, embora, de momento, não conseguisse determinar qual fosse. No dia seguinte, durante o pequeno-almoço, quando Orkhon Baatar lhe passara a gamela com requeijão, agradecera-lhe de forma a dar um especial significado às palavras de circunstância, mas ele limitara-se a piscar um olho e continuara a servir os outros. Nunca lhe falou do assunto, nem então, nem mais tarde. Continuou a tratá-la com o mesmo respeito e afecto - mas, estranhamente, a partir desse dia, ela voltara a sentir-se bem. Nellie apercebera-se disso e comentara o facto. Os sintomas de dependência desapareceram e o seu sono raramente voltou a ser perturbado por pesadelos.

 

Muito mais tarde, quando já adquirira uma melhor compreensão do idioma mongol, perguntara a Sarantuya se o marido era um xamã. Empregou a expressão «homem mágico», e Sarantuya soltara uma gargalhada:

 

- Para mim, o meu marido é sempre mágico - respondeu a outra, pudicamente.

 

- Mas não é? - insistiu Helen. - Não é um xamã? Não consegue servir-se da magia?

 

Sarantuya limitou-se a sorrir, lançando-lhe de viés um olhar matreiro.

 

- Ele é dotado de grande sabedoria - explicou -, e é também um grande curandeiro, como deve saber melhor do que eu. No entanto, não creio que um simples pastor possa ser um homem mágico.

 

E desatara a rir. Nessa noite e nos dias seguintes, Sarantuya deleitara-se a tratar o marido por «homem mágico», sempre que se lhe dirigia, embora tivesse o cuidado de evitar embaraços a Helen, guardando para si as razões daquele tratamento.

 

E, dessa forma, passou o Verão. O Outono não trouxe grandes mudanças à sua vida. Orkhon Baatar dispunha de peles mais espessas para os agasalhar a todos, e a vida ao ar livre tornara-os quase imunes ao frio. Sentiram saudades dos soalheiros dias de lazer, mas descobriram novas formas de diversão. Orkhon Baatar excitava a imaginação das crianças com a perspectiva de irem caçar lobos, quando viessem os nevões, para o que os treinou a disparar o seu mosquete, soltando gritos de alegria quando eles acertavam no alvo e abanando a cabeça e resmungando quando falhavam. Logo que percebeu que sabiam manejar a arma, levou-os a cavalgar pelas pastagens disparando todos à uma vez sobre as marmotas.

 

Na época em que caíram os primeiros nevões, polvilhando as colinas com uma fina camada branca, a gravidez de Helen atingia já fase adiantada. Sarantuya redobrou de cuidados para com a jovem e proibiu-a de a acompanhar até ao rio - onde, aliás, nem ela nem Nellie passavam muito tempo. O tempo tornara-se frio e agreste sobretudo quando o vento soprava mais forte. Helen sentia-se contente por poder ficar deitada dentro do ger.

 

Começou a sentir as primeiras dores no dia em que George matou a sua primeira raposa. O rapaz entrara de rompante no ger, bradando que já tinha uma pele de raposa sua e que Orkhon Baatar prometera fazer com ela um chapéu para ele usar. Ficou desapontado quando viu que ninguém lhe prestava atenção. A mãe e Sarantuya estavam ajoelhadas ao lado da enxerga de Helen, trocando olhares preocupados, enquanto a jovem gemia de dor. Ainda era cedo para que as águas rebentassem, o que só devia acontecer, normalmente, pelo menos um mês mais tarde. Esse facto, por certo, era razão para alarme, muito embora nem Nellie nem Sarantuya tivessem entrado em pânico. Havia uma panela ao lume e ambas estavam preparadas para encher gamelas de água a ferver, quando chegasse o momento apropriado. Tinham à mão panos limpos e, com um deles, Nellie estava a enxugar o suor na testa franzida de Helen.

 

De tempos a tempos, lançava um olhar ao marido, sentado, na posição habitual, encostado à parede do ger, com as mãos a apertar os joelhos e ar absorto. Pedira-lhe ajuda e ele recusara-se, argumentando que Nellie e a mulher mongol eram perfeitamente capazes de executar as tarefas de uma parteira, sem carecer da sua assistência; aliás, para que precisava Nellie dele, uma vez que fora ela que assumira claramente a chefia da família.

 

Orkhon Baatar e Jenny apareceram, depois de tratarem dos cavalos. O mongol apercebeu-se da situação e foi sentar-se ao pé da parede, junto do médico, mas pronto a ajudar, se tal fosse necessário. George e Jenny espreitaram por sobre o ombro da mãe até esta, irritada, os mandar embora. Assim, foram sentar-se também ao lado de Orkhon Baatar que lhes piscou os olhos e lhes pegou nas mãos. Apertou-lhas com mais força, quando os gritos começaram.

 

- Faça força, minha filha, faça força! - encorajou Nellie.

- Pobre querida, pobre querida - sussurrou, nas pausas entre os espasmos. - Tudo vai correr bem, verá!

 

Helen, contudo, abria muito os olhos e fazia-os rolar nas órbitas, freneticamente, na sua agonia; ofegava, e as toalhas húmidas colocadas na sua fronte não eram suficientes para acalmar as dores que sentia.

 

As horas passaram. Os gritos continuaram.

 

Nellie foi até ao lugar onde o marido estava sentado e disse-lhe, baixinho:

 

- Edward, o bebé não está a sair. És capaz de ajudar? Airton limitou-se a virar a cabeça, com uma lágrima a escorrer-lhe pela face.

 

- Sabes que estás a ser patético? - irritou-se Nellie. Precisamos de ti agora. Por favor, ajuda-nos. Peço-te.

 

Airton manteve o rosto virado para a parede. Orkhon Baatar fitou-a, com ar interrogativo.

 

- Oh, explica-lhe tu, Jenny - pediu à filha. - Eu não sei falar tão bem o chinês como tu. Diz-lhe que o bebé não vai sair sozinho. Penso que vai ser necessária uma cesariana. Sabes o que é? Bom. Será que ele pode ajudar-nos? Saberá praticar uma cesariana?

 

Orkhon Baatar ouviu atentamente a tradução feita por Jenny. Abriu muito os olhos, apontou para Airton e perguntou.

 

- Não é uma coisa que o médico sabe fazer?

 

- Olhe para ele - replicou Nellie com desalento, e voltou para o pé da cama, a fim de ajudar Sarantuya, que tentava segurar os ombros de Helen, enquanto esta procurava, em vão, fazer força mais uma vez.

 

Até então, nunca tinham visto Orkhon Baatar irritado. Depois de Nellie se afastar, ficou ainda sentado por uns momentos, com os olhos a dardejar. De súbito, pôs-se em pé e colocou-se em frente do médico, de punhos cerrados. Agarrou Airton pelo colarinho e fê-lo levantar-se; com a mão que tinha livre, esbofeteou o médico, primeiro com a palma e depois com as costas da mão. Airton fitou-o, piscando os olhos, mais surpreso do que por causa da dor.

 

Orkhon Baatar empurrou-lhe as costas contra a parede do ger. Num gesto rápido, tirou a faca do cinto. Airton esbugalhou os olhos. No entanto, Orkhon Baatar agarrou a mão direita do médico e obrigou-o a pegar na faca, apertando-lhe os dedos à volta do cabo. Depois, com os olhos a emitir chispas, apontou para Helen.

 

- Eu... eu não sou capaz... - murmurou Airton. - Perdi a confiança em mim próprio...

 

Orkhon Baatar esbofeteou-o de novo.

 

- Por favor, não me obrigue - gemeu o médico. Orkhon Baatar deu-lhe nova bofetada. Pegando-lhe pela parte de trás do colarinho empurrou-o para a frente, aos tropeções, na direcção das mulheres, que observavam a cena, ] com as bocas abertas pelo espanto. - Isto... isto é uma faca de caça - murmurou Airton, olhando para a arma que tinha na mão.

 

- Vai ter de servir - replicou Nellie. - Tenho a certeza de que está bem afiada, mas deves primeiro esterilizá-la no lume.

 

- Em que... em que me tornei? Era um lamento lancinante.

 

- Sinceramente, não sei bem no que te tornaste, Edward - disse Nellie, pegando-lhe no braço. - Para mim, ainda és o meu marido, e também um médico. Tenta comportar-te como tal. Há mais do que uma vida a salvar, e para isso, precisamos de ti.

 

Orkhon Baatar, ainda exaltado, teria ficado atrás de Airton, para se certificar de que o médico não hesitava, mas Sarantuya afastou-o suavemente. Em assuntos daquela natureza, a autoridade cabia-lhe a ela e podia ver, pela forma como o estrangeiro estava a examinar a paciente, que sabia o que devia fazer.

 

À falta de outros anestésicos, obrigaram Helen a beber um púcaro de nermel. Às duas da manhã era-lhe retirada do ventre, sem incidentes, um bebé do sexo feminino.

 

Quando Airton acabou de suturar a ferida e se assegurou de que Helen estava tão bem quanto possível - e não havia melhor bálsamo para as dores do que o bebé que ela segurava contra o peito -, Nellie pegou na mão do marido e conduziu-o para o exterior do ger. Juntos, deixaram-se cair contra a parede de feltro e Nellie enrolou à volta de ambos a espessa manta de pêlo de cabra que levara consigo. Encostou-se a ele e, por instantes, não disse nada, ficando a contemplar as estrelas brilhantes. Depois, beijou-o.

 

- Portaste-te muito bem, Edward. Estou orgulhosa de ti. Airton não respondeu, mas Nellie apercebeu-se dos movimentos que lhe sacudiam os ombros.

 

- Estás a chorar, meu idiota? - disse, abanando-o. Não há razão nenhuma para chorares agora.

 

- Sinto-me... tão... envergonhado - lamentou-se ele, entre soluços.

 

Nellie acenou com a cabeça e sorriu.

 

- Bom, digamos que te portaste de uma maneira muito estranha, durante algum tempo, meu querido - comentou. - Não posso negá-lo, mas a verdade é que atravessámos uma época terrível e o que fizeste esta noite compensa tudo isso.

 

- Não... não consigo perdoar a mim próprio - disse Airton.

 

- Ora, nós nos comportamos de vez em quando - avançou Nellie. - Eu própria sei que cometi disparates. Nem sempre sou tão forte como sabes.

 

Airton não respondeu. Ela abanou-lhe o joelho.

 

- Estamos juntos, Edward. Conseguimos sobreviver. Todos nós. Sobrevivemos. E aqui, estamos a salvo, junto destas pessoas bondosas. Não sabes que ali, entre aquelas belas estrelas, há uma Providência que continua a velar por nós? Mostra-te grato! Não fiques tão taciturno.

 

- É por causa do Manners - murmurou ele.

 

- Manners? - repetiu Nellie, admirada. - Que tem ele a ver com isto?

 

- Creio que fiz um mau juízo a seu respeito - explicou o médico, com voz rouca. - Convenci-me de que era um assassino... De que matou o mandarim porque queria ficar com o ouro dele...

 

- E então? Não foi isso mesmo que ele fez, aquele monstro?

 

- Agora já não estou tão certo disso - retorquiu o médico, com o rosto a espelhar a angústia que o dominava. Quando saiu da cabina da locomotiva, declarou que ia à carruagem do mandarim para o salvar, para nos salvar, mas era tal o meu ódio que não acreditei no que me disse.

 

- Ora, ele era um mentiroso. Sabemo-lo bem. – Nellie fez uma pausa, enquanto olhava para ele com uma expressão de perplexidade. - Edward, porquê esta conversa agora sobre o Manners?

 

- Mas não compreendes? Foste tu própria que mo fizeste notar. As detonações que ouviste na carruagem foram separadas por um longo intervalo. Disseste-me que ouviste um único disparo, seguido, muito mais tarde, por outros. Não acredito que o primeiro pudesse provir do Manners. estava comigo na cabina, a explicar-me que o camareiro Jin era um inimigo. Considero muito provável que tenha sido o camareiro Jin quem matou o mandarim. Por conseguinte, tudo quanto o Manners me contou deve ter sido verdade.

 

Nellie ficou silenciosa por instantes.

 

- Compreendo - disse, por fim. - Achas que caluniámos um homem corajoso.

 

- Isso mesmo - sussurrou o médico, olhando para o vale. - Deus me perdoe pelo que fiz.

 

- É... é lamentável que tenhamos pensado mal dele, Edward. - Nellie escolhia cuidadosamente as palavras. - Havemos... havemos de o dizer a Helen... na devida altura, claro. Sim, isso seria o mais justo e conveniente: que ela pudesse ter uma melhor recordação do pai da sua filha. No entanto, à fé de quem sou, não entendo porque te torturas tanto por causa disso. Não havia nada que pudesses fazer para impedir ou modificar o que aconteceu. O Manners está morto.

 

- Não... estava morto... balbuciou o médico, sempre a fitar o vale. - Ainda estava vivo, quando o encontrei. Gravemente ferido, mas vivo...

 

- O quê? - exclamou Nellie, abrindo muito os olhos.

- Mas tu... tu disseste-nos que ele estava morto!...

 

- Menti-vos - confessou Airton, num fio de voz. Oh, meu Deus! - soluçou -, que fui eu fazer? - Apertou a mão na cabeça e exclamou: - Foi a minha raiva contra ele! Queria que ele morresse, desejava que sofresse por todos os crimes que, segundo eu julgava, havia cometido.

 

- Edward - murmurou Nellie -, queres dizer que, no comboio, abandonaste deliberadamente um homem ferido? Deixaste-o lá para que os seus inimigos o descobrissem ainda vivo?

 

- Sim - respondeu ele, baixinho. - Traí o juramento de Hipócrates. Abandonei um homem à morte...

 

- Oh, Edward - murmurou ela. - Foi por isso que te fechaste sobre ti próprio, durante todos estes meses...

 

Encostou-se à parede do ger, olhando as estrelas, mas sem as ver.

 

- Compreendes agora? - prosseguiu o marido.

 

- Nunca poderei ser perdoado pelo que fiz, não é assim?

 

- Não sei - sussurrou Nellie, com os olhos parados. Não sei...

 

O corpo de Airton voltou a ser sacudido por soluços, enquanto da sua boca saíam exclamações desarticuladas.

 

Passados alguns instantes, Nellie abraçou o marido e acariciou-lhe a testa. Ele continuou a chorar, com a cabeça no regaço da mulher, enquanto esta mantinha o olhar fixo no céu. Uma estrela cadente rasgou a escuridão, como uma navalha.

 

- Edward - disse ela, voltando-se para Airton, e a sua voz era tão gélida como a noite. - Não devemos dizer uma palavra acerca disto a Helen...

 

Nos dias que se seguiram, houve grande agitação em redor de Helen e da recém-nascida. Nellie viu-se obrigada a tratar da vida doméstica, de tal maneira Sarantuya se mostrou obcecada pela bebé, não cessando de a embalar e de lhe dirigir palavras carinhosas, horas a fio. A jovem mãe, da sua enxerga, sorria, deleitada. Estava ainda muito fraca. Nellie ia buscar água, preparava a comida e cozinhava - mas agora o marido ajudava-a. Na verdade, durante esses primeiros dias, Airton raramente saiu de ao pé dela, salvo de tempos a tempos, para examinar Helen e a pequena Catherine, pois fora esse o nome que a mãe escolhera. Quando não estavam a trabalhar, ele e Nellie davam grandes passeios pela neve. Por vezes, George ejenny iam com eles.

 

Orkhon Baatar e Sarantuya acolheram a participação do médico na vida da casa com a cordialidade habitual. Era como se nunca tivessem existido todos aqueles meses de silêncio e de inactividade. A princípio, foi com certa perturbação que Airton reagia ao respeito, se não mesmo reverência, com que era tratado pelo casal. Ninguém teria reconhecido naquele homem humilde e tímido o patriarca confiante e altivo que dirigiu em tempos a missão de Shishan.

 

Como seria de esperar, levou algum tempo a adaptar-se às novas circunstâncias e a recuperar alguma da auto-estima entretanto perdida. Orkhon Baatar cedo decidira encarregar-se de o ajudar. Embora, como curandeiro, tivesse evitado colaborar no parto, possuía um dom infalível para detectar chagas espirituais. Para ele, era uma coisa tão concreta como extrair carraças das ovelhas, não exigindo mais paciência nem mais dotes de psicologia do que treinar um potro.

 

Na noite a seguir ao parto, Orkhon Baatar, como de costume, ofereceu ao médico um púcaro com nermel, mas Airton tentou recusá-lo. O mongol, no entanto, não aceitou a recusa e insistiu para que o médico bebesse com ele. Acabaram por emborcar ambos púcaro atrás de púcaro. Só que, dessa vez, foi Orkohn Baatar que ficou embriagado, feliz e delirantemente bêbedo. Pôs-se em pé de um salto, arregaçou as mangas da túnica e cantou uma canção mongol. A meio, esqueceu-se das palavras e desatou a rir. Obrigou o médico a pôr-se de pé, abraçou-o e começou a dançar com ele. Airton, a princípio, sentiu-se embaraçado, mas como, em seu redor, todos riam e batiam palmas, perdeu o pejo e tentou acompanhar o ritmo trepidante. Orkhon Baatar foi buscar o cântaro, encheu de novo os púcaros e pouco depois o médico estava tão embriagado e eufórico como o mongol. Antes de findo o serão, demonstrou como se dançava uma quadrilha escocesa e, com as lágrimas a rolar-lhe pela face, fez uma serenata a Nellie, entoando «O meu amor é como uma rosa vermelha». Ela deu-lhe uma afectuosa palmada no rosto e chamou-lhe «idiota», antes de o beijar, com ternura. Orkhon Baatar, muito corado, balançava-se, com os braços à volta dos ombros de Saratuya, suspirando de prazer.

 

Certa manhã, o mongol insistiu para que o médico o acompanhasse na sua cavalgada com as crianças. Não aceitou a resposta negativa. Obrigou o médico a enfiar os braços na espessa túnica de pêlo de carneiro, pôs-lhe na cabeça um barrete felpudo e, apesar dos seus protestos, arrastou-o para fora do ger. Pegou em Airton e colocou-o na sela de um pónei já aparelhado. Mal o viu montado, bateu nos flancos do animal com as suas próprias rédeas. Lado a lado, galoparam ao longo do vale. Orkhon Baatar vigiava o médico, enquanto este dava saltos sobre a sela, esticando por vezes o braço para o amparar, mas sem nunca abrandar a correria. As crianças seguiam atrás, tão confortavelmente montadas nos seus póneis mongóis como se tivessem sido criadas, elas próprias, nas estepes.

 

As pastagens estavam cobertas de neve e Orkhon Baatar pôs o cavalo a trote, quando chegaram ao topo da colina. Parecia procurar algo, pondo a mão em pala sobre os olhos, para se proteger da refulgente luz do sol. Os outros olharam na mesma direcção, mas tudo o que conseguiam ver era uma brancura uniforme que se estendia até ao horizonte, só interrompida por um que outro afloramento rochoso, ou por alguns maciços de árvores na vertente mais protegida do monte. Orkhon Baatar soltou um berro e inclinou-se para a frente. A sua montada disparou em correria e, sem saberem para onde iam, Airton e as crianças seguiram-no.

 

No sopé de uma pequena colina, Orkhon Baatar saltou do pónei, deixando-o a pastar nos tufos de erva que emergiam da neve, e fez sinal aos outros para que também desmontassem. Pôs um dedo na boca, para recomendar silêncio, e, cautelosamente, começou a trepar pela encosta. Airton seguiu-o, nervosamente, a resfolegar pelo esforço dispendido. Ao chegar ao cimo, Orkhon Baatar fez-lhes sinal para que baixassem as cabeças. Muito lentamente, espreitou pelo rebordo do monte. Depois voltou-se, de olhos a brilhar e com um sorriso de satisfação que deixava à mostra os dentes pontiagudos. Voltou a pôr o dedo nos lábios e, depois, encurvou-o para indicar que o médico devia ir ter com ele. Não sabendo o que o esperava, Airton espreitou também.

 

À sua frente, a não mais de sete metros, um grande rebanho de renas pastava por entre a neve. Era o mais belo espectáculo que jamais vira.

 

Duas semanas depois, chegaram os Russos.

 

Começara a escurecer, naquela tarde de Novembro, e Orkhon Baatar e as crianças tinham acabado de alimentar as ovelhas, no curral. O dia fora sombrio e monótono. Na noite anterior, caíra um grande nevão que os impedira de fazer a cavalgada matinal. As crianças tinham ficado a ver como Orkhon Baatar curtia a pele do lobo que George abatera, dois dias antes. Fora uma caçada gloriosa e, durante as noites precedentes, massacraram os ouvidos das mulheres com o relato das suas proezas.

 

Foi Jenny a primeira a vê-los, uma longa coluna de cerca de vinte soldados, a cavalo, que avançavam lentamente na margem do rio. Quando chegaram ao ger, todos eles, à excepção de Helen e da bebé, estavam à sua espera no exterior.

 

O jovem tenente que comandava o esquadrão não deixou transparecer a surpresa que certamente sentira por ir encontrar uma família de estrangeiros num ger mongol. Desmontou com elegância e saudou-os. Depois, apresentou-se: tenente Panin, comandante de um esquadrão dos Cossacos do Don. Falava um inglês fluente, com um quase imperceptível sotaque.

 

No entanto, até mesmo Nellie deu um passo atrás, quando ele se aproximou. Era como se aqueles soldados saudáveis e bem alimentados fossem seres vindos de outro planeta.

 

O tenente Panin esperou pacientemente, de sobrolho franzido e com um sorriso afável na cara redonda.

 

- A quem tenho a honra de falar? - acabou por perguntar, delicadamente.

 

- Desculpe-me, quase me esqueci das boas maneiras respondeu envergonhada. A vossa chegada apanhou-nos de surpresa.

 

O tenente acenou, e um clarão de humor brilhou-lhe nos olhos.

 

- Permite-me que lhe diga o mesmo, senhora? - murmurou, cortesmente. - Quero dizer: a vossa presença aqui...

 

- Somos a família Airton, de Shishan - declarou Nellie.

- Temos connosco Miss Helen Francês Delamere, quero dizer, Mistress Cabot. Está dentro do ger. Acaba de dar à luz uma filha. E este... este é o ger de Orkhon Baatar.

 

O tenente Panin inclinou a cabeça.

 

- Mistress Airton - comentou. - Devo dizer que se encontram bastante longe de Shishan.

 

- Nós... nós fugimos, quando os Boxers... - e não conseguiu completar a frase.

 

- Compreendo - replicou o tenente. - Como é evidente, é bem conhecido o que se passou em Shishan, mas eu ignorava que tivesse havido sobreviventes de tão atroz massacre.

 

Pareceu ponderar por instantes.

 

- Mistress Airton - continuou -, se Mister Orkhon Baatar o consentir, gostaria que os meus homens pudessem acampar aqui. Não iremos abusar da sua hospitalidade. Temos provisões mais do que suficientes. Seria uma honra para mim que a senhora e a sua família aceitassem jantar comigo, esta noite. Talvez eu possa pô-los ao corrente do que se tem passado no mundo, desde a vossa... desde a vossa... - Sorriu-se e concluiu: - Felicito-a pela vossa milagrosa fuga. Deve ter, por certo, uma história muito interessante para contar.

 

- Tenente Panin - chamou Nellie, quando ele se voltou para dar ordens aos seus homens. - E os Boxers? Foram?...

 

- Sim, senhora - retorquiu o tenente. - Foram derrotados. Pequim está agora ocupada pelo exército dos aliados.

 

Sarantuya chorava e estreitava a bebé nos braços, relutante em entregá-la à mãe. Os olhos de Helen estavam marejados de lágrimas. Aliás, havia lágrimas em todos os outros rostos.

 

- Não quero ir! - gritou George. - Quero ficar com o Orkhon Baatar!

 

Retirou a mão da do pai e correu para o local em que se encontrava o mongol. Orkhon Baatar pegou nele e apertou-o nos braços.

 

- Zorj! Zorj! - exclamou. - Tu és um caçador e os caçadores têm de ser corajosos. Se não fores com o teu pai e a tua mãe, ficarei preocupado por eles. Eles precisam de ti para que os protejas. Quando fores mais velho, hás-de regressar e voltaremos a caçar lobos juntos.

 

Içou o rapaz e colocou-o na sela do seu pónei.

 

- Agora, é teu - disse. - É a minha prenda. Quando o montares, talvez te lembres de mim.

 

Era verdade. Orkhon Baatar recusara o dinheiro que o tenente Panin quisera entregar-lhe em troca dos póneis das crianças, embora tivesse aceitado com relutância uma generosa quantia pelos outros cavalos e pela velha carroça em que Helen e a filha iam viajar.

 

Os Airton beijaram pela última vez aqueles que lhes tinham dado guarida durante meses. Helen soluçou, quando chegou a sua vez de se despedir de Orkhon Baatar. O corpo tremeu, enquanto o abraçava. Airton teve de separá-los, delicadamente. Nellie foi a última a despedir-se de Orkhon Baatar. Pegou-lhe nas mãos ásperas e disse:

 

- Os agradecimentos que lhe ficamos a dever... Nem sei por onde começar...

 

Orkhon Baatar apertou-a carinhosamente contra o peito.

 

- É a si que deviam chamar Baatar, Ne-li. A Corajosa afirmou. - Vou lembrar-me sempre de si. E o seu marido é um homem bom - continuou -, digno de ser respeitado. Lamento não ter conseguido curar inteiramente a chaga do seu coração. Com o tempo...

 

- Sim - concordou Nellie, enxugando uma lágrima. Adeus, meu querido Orkhon Baatar.

 

- Adeus, Ne-li Baatar. E o mongol sorriu.

 

O tenente Panin, que aguardara pacientemente, considerou que era chegada a altura da partida. Deu a ordem de marcha e a coluna começou a avançar, lentamente, em direcção ao Sul.

 

Enquanto serpenteavam ao longo dos vales, viram, durante muito tempo, um cavaleiro que os seguia pelos cumes das colinas que bordejavam o leito do rio. Por cima deles, grandes nuvens negras acastelavam-se no pálido céu invernal. No horizonte, podiam aperceber-se da aproximação de cortinas cinzentas que traziam consigo a neve. O cavaleiro fez a montada dar meia volta e pareceu acenar-lhes com o chapéu. Depois, o manto de nuvens interpôs-se e ele desapareceu. Alguns momentos mais tarde, os flocos de neve começaram a cair.

 

A MÃE MORREU. NÃO TENHO CASA. OS SOLDADOS ESTRANGEIROS PERSEGUEM-NOS E MATAM-NOS. O TIO DISSE QUE DEVO ESCONDER-ME NA FLORESTA COM LAO TIAN E OS SEUS BANDIDOS.

 

A Legação estava em ruínas. Ao fim de quase dois meses de cerco, as suas dependências periféricas não passavam de carcaças calcinadas. Somente a residência de Sir Claude e Lady MacDonald, no centro do recinto, mantinha um pouco do anterior aspecto. Pelo menos, conservava ainda as paredes e o telhado, embora alguém que a visse agora não imaginasse que fora, em tempos, um palácio da nobreza manchu.

 

A elegante varanda e as janelas em filigrama estavam escondidas por detrás de sacos de areia. O agora deserto local em que fora instalada a metralhadora, por cima do beiral ondeado, lembrava que, durante cinquenta e cinco dias, fora ali o posto de comando dos defensores das legações. A chancelaria, no outro lado do pátio, ainda apresentava as cicatrizes provocadas pelos tiros de obus, mostrando, através de um enorme buraco na parede, não uma sucessão bem ordenada de secretárias, mas as camas e os colchões que ali tinham sido colocados, quando servira de caserna, de dormitório e de hospital.

 

O pátio estava atulhado de recordações desses estranhos dias em que a comunidade diplomática e as suas esposas e serviçais ali tinham procurado refúgio, quando a batalha atingira o seu auge. As damas tinham sufocado de calor, tresandando como animais, agoniadas pela dieta de carne de mula e assustadas sempre que se intensificava a fuzilaria. E, no entanto excepto nos dias em que a troca de tiros fora mais intensa -, haviam-se comportado como se estivessem num piquenique, trocando ditos maliciosos por entre as intermináveis partidas de picquet, saboreando os aperitivos que restavam na despensa, organizando recitais e concertos e ciosamente mantendo os respectivos estatutos e a correspondente dignidade, prontas a censurar a mulher de algum segundo-secretário que ousasse exibir um chapéu ou uma sombrinha mais vistosos. Fora assim que decorrera o cerco. Os detritos, no pátio, contavam a sua história. A um lado, junto dos restos de uma árvore ginkgo, estavam empilhadas caixas de munições e uma carreta a que faltava uma roda; no outro, fora improvisada uma trincheira de livros empilhados, trazidos da biblioteca. Garrafas de champanhe vazias misturavam-se na areia com latas de rações de combate. O lenço de um chapéu de senhora, abandonado, adejava ao sabor da brisa, enredado num conjunto de espingardas Lee-Enfield. Num pequeno banco junto da sineta da embaixada - que todas as manhãs chamara os defensores a ocupar os seus postos - de onde Sir Claude MacDonald tornara públicas as últimas e lúgubres notícias, quando tudo parecera perdido, encontrava-se agora um velho gramofone, bem como uma pilha de discos, cujos rótulos evocavam o mundo da ópera e do music-hall.

 

Passara quase um mês sobre aquele glorioso dia, nos meados de Agosto, em que a guarda avançada dos siques transpusera o Portão da Água da cidade velha, assinalando desse modo o fim do cerco, mas a Legação permanecia na mesma. Era como se todos os que haviam escapado à chacina se recusassem a regressar à normalidade, exaltados pelo seu próprio heroísmo, comprazendo-se no entusiasmo e desprezo pelo perigo que pensavam ter demonstrado quando entrincheirados para fazer frente ao poderio e ao terror dos exércitos imperiais. Limpar o pátio seria o mesmo que varrer as suas agora gloriosas recordações, empobrecendo a sua nova imagem de guerreiros e sobreviventes. Os próprios diplomatas continuavam a envergar as velhas roupas de combate; exibiam-se arrogantemente ataviados, com as pistolas nos cintos e chapéus coloniais na cabeça, mordendo charutos acres. Muito tempo teria de decorrer ainda até que Lady MacDonald voltasse a oferecer aos representantes das demais potências um baile ao jeito do Mikado, nos seus jardins outrora elegantes.

 

Apesar de tudo, a Legação estava a funcionar. Primeiros e segundos-secretários deambulavam, atarefados, entre as tendas convertidas em simulacros de escritórios, levando telegramas ou memorandos para o ministro plenipotenciário assinar. De um pequeno relvado situado por trás da residência principal vinha o reconfortante entrechoque dos maços de críquete e o murmúrio das conversas das senhoras. Nem os vestígios de actividade militar eram suficientes para fazer estalar o verniz da fleuma inglesa.

 

Para lá dos muros, a cidade vivia ainda sob tensão. Qualquer visitante habituado à ruidosa turbulência das comunidades chinesas ficaria certamente espantado, pelo menos nos primeiros tempos, com o invulgar silêncio e a ausência de chineses nas ruas.

 

Os habitantes, amedrontados, não saíam da casa; os poucos que se aventuravam no exterior apressavam-se a executar as suas tarefas, de cabeça baixa e olhos fixos no chão, como se procurassem tornar-se invisíveis. Tinham razões para mostrar receio. Poucos tinham sido os lares que haviam escapado às pilhagens que se seguiram ao levantar do cerco, e o exército invasor, depois de saborear os frutos da vitória, não se mostrava ainda saciado. Os Alemães, com os seus capacetes pontiagudos, e os Russos, com os seus barretes de peles, eram particularmente temidos; sabiam-nos capazes de prender qualquer homem, despojando-o da sua túnica de seda e obrigando-o a voltar nu para casa, como um vulgar cule. Isto se não o forçassem a integrar uma equipa de trabalhadores para reconstruir um muro derrubado ou o obrigassem a carregar aos ombros o produto dos saques. Nem uma só mulher se arriscaria a percorrer as ruas. As filhas e as concubinas favoritas que tinham escapado a ultrajes nas primeiras buscas domiciliárias mantinham-se escondidas nas caves ou nos sótãos.

 

As ruas tinham sido abandonadas aos exércitos vitoriosos. Os ruídos metálicos das suas bandas, marchando em uniforme de gala, ecoavam no ar até serem engolidos pelo silêncio dominante. Cada potência fazia o possível para superar as demais, numa espécie de concurso marcial, como se, desse modo, pudesse reclamar para si o mais glorioso papel no levantamento do cerco. Como é costume, os Europeus, quando rivalizam uns com os outros, convertem-se em caricaturas de si próprios. Os orgulhosos Britânicos com as suas impecáveis fardas de caqui, marchavam ao ritmo imposto pelas desnecessárias ordens dos sargentos-mores; os matelots franceses e os bersaglieri italianos desfilavam em passo de corrida, embora essa exuberante forma de se exibirem nem sempre conseguisse esconder a indisciplina latente nem disfarçar o ar trocista dos seus rostos. Os Russos pareciam sempre maldispostos, os Americanos arrastavam os pés e os Austríacos pareciam desfilar numa parada. Os Alemães - que não tinham conseguido chegar antes do termo das hostilidades -, eram os mais marciais de todos; Os seus ulanos, com as típicas capas, marchavam pelas ruas; os granadeiros avançavam, de baionetas fixadas nas espingardas, com as pesadas botas a bater no solo, em uníssono, como ao ritmo de uma ária vingativa de Wagner. Só os Japoneses evitavam esta forma de exibicionismo; grupos de soldados nipónicos observavam todas aquelas marchas triunfais, uma enigmática passividade estampada nos rostos, continuando a executar, com eficiência, as tarefas de que tinham sido incumbidos.

 

No coração da Cidade Proibida, onde os generais haviam instalado os seus estados-maiores (a imperatriz viúva fugira com a sua corte, não sem, primeiro, ter afogado uma das concubinas do sobrinho num poço a jeito), os oficiais de todas as nações aliadas circulavam pelos palácios saqueados, fumando cachimbo e contemplando a vazia magnificência e a estéril simetria de um paraíso celeste de que a deusa principal desertara.

 

Era um alívio para os poucos diplomatas britânicos que ainda possuíam alguma sensibilidade ou acreditavam no efeito essencialmente benevolente da civilização que julgavam representar regressar à sua Legação e voltar a mergulhar no reconfortante tédio do trabalho rotineiro. Apesar de a sua chancelaria ser agora uma tenda, interpretavam no crepitar do telégrafo as distantes ordens de um imperium que, acreditavam, estava acima daquele triunfalismo exuberante que apenas escondia a realidade dos saques, das execuções sumárias e da ganância que destruíram uma cidade que tinham aprendido a amar, desonrando os vencedores e humilhando as vítimas. Nos relatórios objectivos com que respondiam às questões solenemente colocadas por Westminster ou Whitehall, sublimavam os seus próprios sentimentos de vergonha ou de frustração, aplicando as penas nas comedidas e triviais frases-feitas da diplomacia internacional.

 

Nem a sensibilidade nem os altos ideais podiam, contudo, proteger Douglas Pritchett da negra realidade. Como espião-chefe da Legação, a sua missão era explorar as fraquezas da humanidade. Embora com tristeza, teria podido procurar convencer-se a si próprio de que era obrigado a comprometer os seus ideais ao serviço de uma causa nobre, mas os seus escrúpulos nunca o levariam a deixar de cumprir as suas obrigações. Fosse como fosse, já não era o jovem tímido e inexperiente que em tempos se sentara ao lado de Helen Francês Delamere durante um piquenique. As semanas que passara de espingarda na mão por detrás das barricadas improvisadas tinham-no endurecido. Matara para não ser morto, e não só no ardor do combate. Entre o pessoal chinês aparentemente leal da Legação foram descobertos diversos traidores e ele organizara as coisas por forma a resolver a questão com eficiência, depois de proceder aos necessários interrogatórios, também com calma eficiência. Tudo isto perturbava-lhe por vezes o sono, porque nenhum homem decente - e Douglas Pritchett era um homem decente - consegue sempre justificar inteiramente, perante a própria consciência, os actos praticados por força das circunstâncias. As suas olheiras, ao acordar, indicavam a um observador atento que procurava afogar em álcool todas essas disputas interiores, mas o seu trabalho não fora afectado. Não restava qualquer traço de hesitação nos seus modos. Por hábito, continuava a exibir o sorriso afável, mas os olhos frios e calculistas já só mostravam dureza. Os funcionários da Alfândega, que em tempos se divertiam à sua custa, tinham aprendido a evitá-lo.

 

Naquele momento, estava sentado a uma mesa, na tenda que lhe servia de escritório, a um dos cantos do pátio. Observava pacientemente, enquanto um homem que outrora admirara por ser então mais duro e impiedoso do que ele, se achava recostado numa cadeira de lona, com a perna engessada apoiada num banco, fumando um charuto e examinando o documento que Douglas Pritchett lhe colocara sobre os joelhos. Podia observar o progresso da leitura pelo movimento daqueles olhos circundados de negro que piscavam sardonicamente. Pritchett conhecia de cor o teor do documento; fora ele que o escrevera.

 

Vossa Excelência deve ter recebido o relatório do cônsul em Newchwang acompanhado pelos comentários do ministro plenipotenciário. Consideramos encorajadores os passos que foram dados para restaurar o comércio na região. Os representantes das nossas principais empresas comerciais, que operam nas cidades da costa, regressaram já, na sua maioria, do seu exílio forçado no Japão, e esperamos que em breve os negócios possam também ser retomados no interior, com toda a segurança...

 

- Tenho mesmo de ler todas estas baboseiras acerca dos comerciantes? - resmungou o homem, levantando os olhos.

 

- Na verdade, não devia ler nem uma linha - murmurou Pritchett. - Como pode ver, o documento está marcado com o carimbo «Secreto». Vai ser enviado a Salisbury.

 

- Ao primeiro-ministro? Parece que sou mais importante do que pensava. - Sorriu, pondo à mostra os dentes brancos, em contraste com a cara tisnada. Continuou a ler.

 

Quanto à situação política em geral, infelizmente pouco há a acrescentar à nota que enviei a Vossa Excelência, no fim do mês de Agosto. As três províncias que compõem a região conhecida por Manchúria encontram-se agora firmemente nas mãos dos Russos. Foi constituída uma comissão militar que se instalou no antigo palácio de Mukden. O general Saboitisch está teoricamente encarregado dos contactos com as autoridades civis chinesas - mas o governador-geral Tseng Chi, embora oficialmente reinstalado no yamen da cidade, não dispõe de autoridade efectiva. Foi retomada a construção do caminho-de-ferro russo entre Harbin e Port Arthur; o caminho-de-ferro chinês, que liga Tientsin a Mukden, com todas as suas linhas secundárias, encontra-se actualmente também sob controlo russo. Esta anexação foi justificada em virtude de, segundo eles, subsistir uma «situação de emergência». As tropas russas ocuparam as principais cidades das províncias e patrulhas russas foram já assinaladas para lá das fronteiras da Mongólia.

 

Pelas informações que nos chegaram, a supressão dos Boxers

 

- na verdade, quaisquer das forças locais que se atravessem no seu caminho foi consumada com implacável brutalidade. São frequentes as execuções ditas exemplares, «rebeldes» de «bandidos» (parece haver pouca distinção). Ouvimos falar de decapitações e enforcamentos em massa, e houve casos em que os tais rebeldes foram atados às bocas dos canhões. Tudo isto foi acompanhado por pilhagens em larga escala, particularmente quando estiveram envolvidos regimentos cossacos. A população local está aterrorizada e vive na miséria. Todo o alívio inicialmente sentido pela erradicação da ameaça dos Boxers há muito deu lugar a um tenaz rancor contra os «libertadores», em virtude das depradações que continuam a sofrer às suas mãos. Ouvimos dizer que muitos dos habitantes consideram que a curta ocupação dos japoneses, no final da guerra de 1895, foi, em comparação, um período bem mais civilizado.

 

- Gostaria de saber o que para si significa «civilizado» comentou o homem. - Não é que eu ache que eles não se comportam bem neste último espectáculo. Já é tempo de os tratarmos como pessoas crescidas.

 

- Creio que digo isso precisamente no parágrafo seguinte - murmurou Pritchett.

 

Pelas conversas que mantive com os meus homólogos da Legação Japonesa, percebi que, neste momento, privilegiam uma «visão a longo prazo». É pouco provável que queiram fazer seja o que for para abertamente romper a aliança estabelecida entre as potências, no início da crise dos Boxers, ou que pensem formular um protesto diplomático, seja de que tipo for. A bravura demonstrada pelos fuzileiros japoneses durante o cerco da embaixada, e a forma eficiente como os seus contingentes actuaram entre as forças libertadoras tornaram-nos merecedores do respeito internacional. Desde que a sua moderação lhes traga vantagens na mesa das negociações...

 

- Ah, sim, as reparações! - exclamou o homem. - Todos nós vamos querer meter a mão na massa, não é assim? não é crível que façam algo que ponha em causa a reputação recentemente adquirida de potência responsável e que atingiu a necessária maturidade. Dado que subsiste a aliança, os Russos não puderam impedir que os Japoneses enviassem uma missão de ligação a Mukden. Os seus membros comunicarão certamente ao respectivo governo a situação na Manchúria e estabelecerão os seus próprios contactos com as autoridades chinesas locais.

 

As tropas japonesas mobilizadas na fronteira coreana durante a crise não foram retiradas depois da libertação das legações. É muito natural que, no futuro, procurem contrariar a supremacia russa nesta zona vital para os interesses do seu país. De momento, tal como nós fazemos, observam e aguardam.

 

Vossa Excelência fez alusão velada aos acontecimentos que podem ou não ter ocorrido em Shishan, antes ao levantamento dos Boxers, para salientar como seria embaraçoso para o governo de Sua Majestade se viesse a suspeitar-se de qualquer ligação comprometedora entre agentes britânicos e japoneses, fosse de que tipo fosse.

 

- Estamos a chegar ao ponto principal, não é verdade? - e os olhos azuis ergueram-se para fitar Pritchett.

 

- Sim, é essa passagem que gostaria de ver analisada por si, com particular atenção - respondeu Pritchett.

 

Foi-me dado a entender claramente que o governo japonês se sentiria tão ou mais embaraçado se essas hipotéticas ligações viessem a ser descobertas.

 

- Sim, também me parece que sim - resmungou o homem.

 

Posso referir que, recentemente, fui informado pelo meu homólogo da Legação Japonesa que ao seu Ministério da. Defesa chegara um relatório oficial, informando que um certo número de canhões, metralhadoras, obuses e outro armamento desaparecera do seu arsenal de Tientsin, durante as recentes hostilidades; é esta versão dos acontecimentos que decerto constará da história oficial desta guerra. Será provavelmente do vosso interesse saber que um dos antigos adidos militares nipónicos, o coronel Taro Hideyoshi, depois de receber uma medalha das mãos do imperador pelo seu heróico comportamento durante o cerco, foi nomeado para um cargo na corte imperial, em Tóquio. Se ele tinha em seu poder documentos ou promissórias, terão ficado destruídos quando os seus aposentos na Legação Japonesa foram consumidos pelo fogo, no decurso dos combates. Estou confiante em que o governo de Sua Majestade não corre qualquer risco de revelações embaraçosas por parte dos Japoneses.

 

Vossa Excelência já deve ter conhecimento dos comunicados russos, informando que o mandarim de Shishan foi assassinado, ao que parece abatido por um dos seus subalternos, quando tentava fugir da cidade, depois de uma querela com os seus cúmplices, os Boxers. Presume-se que o roubo foi o móbil do assassínio; aparentemente, o mandarim levava consigo uma grande quantidade de ouro, que acabou por desaparecer. A maior parte da sua milícia foi chacinada, numa refuga com os Boxers, aquando da fuga. O respectivo comandante, major Lin - talvez envolvido num caso de tráfico de armas, se é que houve algum -, foi dado como desaparecido, sendo de supor que tenha morrido com a sua tropa. Se alguns desses milicianos tivessem sobrevivido, certamente seriam julgados e condenados pelo seu envolvimento nas atrocidades perpetradas naquela cidade, uma vez que, como é já do vosso conhecimento, todos os membros da comunidade estrangeira foram decapitados por ordem do mandarim. Seria decerto embaraçoso se viesse a provar-se que um alegado agente nosso alguma vez tivesse estabelecido relações com semelhantes criminosos. Por esse motivo, foi talvez providencial que tenham recebido o merecido castigo, sem necessidade de promover um julgamento público.

 

Fica assim afastada a questão da existência de algum hipotético agente do nosso lado.

 

- E acaba aqui? - perguntou o homem, deixando cair as folhas sobre a mesa. - É pena. Teria gostado de ler os seus comentários acerca do «hipotético agente». Talvez ele possa aspirar a receber uma medalha do imperador, não?

 

- Creio bem que não - replicou Pritchett. - Dadas as circunstâncias.

 

- Então, vão atirar-me aos lobos, não é assim? Não seria a primeira vez - comentou Henry Manners.

 

- Espero que possamos arranjar as coisas por forma a que não haja lobos - replicou Pritchett. - No que toca ao governo de Sua Majestade, você estava ao serviço dos caminhos-de-ferro chineses. Não deve existir seja o que for que permita estabelecer a sua relação connosco.

 

- A não ser o pequeno pormenor do esconderijo das armas. - comentou Manners. não pode dizer-se que a minha chegada a Tientsin tenha passado despercebida.

 

Pritchet esboçou um sorriso glacial. O relato da fuga de Henry Manners do tão falado massacre de Shishan, conduzindo um comboio, enquanto as suas concubinas chinesas alimentavam a fornalha da locomotiva, não só se tornara uma espécie de lenda como fora enriquecido com novos pormenores, ao passar de boca em boca.

 

- Com efeito, Sir Claude não ficou nada satisfeito quando ouviu falar desse episódio - afirmou Pritchett. - Nem tão-pouco, acrescente-se, com o que veio a saber acerca do que, nas últimas semanas, você tem andado a fazer com o seu amigo B. L. Simpson, da Alfândega. Na reunião desta manhã foi debatido um relatório acerca da «pilhagem organizada numa escala apenas acessível àqueles que sabem falar chinês». Creio que foram estas as palavras que ele utilizou. Tinha intenção de emitir um mandado para a sua captura. Consegui persuadi-lo de que, no que a si diz respeito, isso não seria a solução ideal, mas, em qualquer caso, é melhor prevenir o Simpson.

 

- Fico-lhe agradecido - disse Manners. - Vejo que o velho não mudou nada, não é verdade? Continua a ser o mestre-escola de sempre.

 

Os seus olhos pousaram numa pequena mesa, sobre a qual se encontrava um grande jarrão azul e branco.

 

- Comprou-o no mercado, não? - perguntou. - Ou num dos recentes leilões? Parece-me magnífico. De uma qualidade indiscutivelmente imperial.

 

Pritchet pigarreou, incomodado com o rubor que sentia nas faces, e apressou-se a mudar de assunto.

 

- Como feriu a perna?

 

- O que se passou é que me caiu em cima um bocado dum prédio em chamas. Num bairro chinês. Não fique preocupado porque não foi no sector britânico. No entanto, creio que vou ficar coxo para o resto da vida.

 

- Lamento sabê-lo. Espero que aquilo que andava a fazer quando tal sucedeu valesse a pena. Está curado da outra ferida?

 

- Ainda me dói, de vez em quando.

 

- Tem sorte por ainda estar vivo.

 

- Se aquela bala tivesse acertado um centímetro mais ao lado, agora estaria morto. Mesmo assim, perdi muito sangue. Felizmente, o meu velho muleteiro encontrou-me, quando eu ainda estava inconsciente, e improvisou uma ligadura. Bom tipo, aquele Lao Zhao. Merece a pensão que vos obriguei a conceder-lhe. Se não fosse ele, nunca teria conseguido pôr o comboio em marcha.

 

- Então, não foram as mulheres que o ajudaram?

 

- As mulheres do mandarim? Deve estar a brincar comigo. Ficaram lá atrás, a choramingar. Não, só contei com o auxílio do Lao Zhao e da Fan Yimei. Foram eles que me salvaram. É espantoso, de facto. Conduziram o comboio, durante dois dias, enquanto eu estava mais ou menos inconsciente, no tênder.

 

- A Fan Yimei era a concubina do major? E agora, é a sua... governanta?

 

- Por enquanto, sim - ripostou Manners, fitando Pritchett.

 

- E é de confiança?

 

- Sem qualquer dúvida - afirmou Manners, cuja voz adquiriu um tom mais ríspido.

 

- Desculpe-me. Tinha de lho perguntar. Como disse, o caso envolve ouro e armas.

 

- Ela não sabe nada acerca das armas.

 

- Mas sabe onde está o ouro.

 

- Claro que sim. Foi ela que o enterrou. Ela e o Lao Zhao. Na verdade, foi ela que pensou no que havia a fazer, quando viu a primeira patrulha russa surgir no horizonte.

 

Obrigou o Lao Zhao a parar o comboio. Apearam-se e enterraram as caixas e voltaram a pôr o comboio em marcha antes que os Russos pudessem alcançar-nos. Eu estive inconsciente durante todo esse tempo. Parece que até estava a delirar.

 

- Então nem sequer sabe onde está enterrado o ouro.

 

- Não foi o que eu disse, Pritchet. Sei exactamente ond está enterrado o ouro, como também sei onde se encontram as armas. E posso assumir inteira responsabilidade no que diz respeito à Fan Yimei e ao Lao Zhao. Merecem ambos toda a minha confiança.

 

- Fico satisfeito por sabê-lo - adiantou Pritchett, depois duma longa pausa. - Afinal de contas, o problema é seu e não meu.

 

- Como diz? - exclamou Manners. - Não é você o responsável, em última instância, pela devolução das armas e do ouro?

 

- O governo de Sua Majestade não sabe seja o que for acerca de quaisquer armas ou ouro. Julguei que isso tinha ficado bem claro no tortuoso memorando que redigi e que você leu.

 

Calou-se, cofiando o pequeno bigode que agora usava, e acabou por acrescentar:

 

- Em boa verdade, irei ao ponto de dizer que o governo de Sua Majestade nem sequer deseja conhecê-lo, Manners, nem tão-pouco ouvir falar das actividades condenáveis, e talvez traiçoeiras, em que você possa ter estado envolvido, por conta própria, durante a sua permanência em Shishan. Sir Claude MacDonald pode em tempos ter demonstrado algum interesse pessoal por si, dada a consideração que lhe merece o seu nobre pai, mas receio que essas suas notórias - e talvez mesmo criminosas - actividades acabaram por esgotar-lhe a paciência. Por isso mesmo, é meu dever avisá-lo, formalmente, de que a sua presença nesta legação tem poucas hipóteses de ser bem acolhida no futuro.

 

- Sim, senhor, que belo discurso! - comentou Manners.

- E então, que querem que eu faça com as armas e o ouro?

 

- Que armas? Que ouro? - Havia um lampejo metálico no olhar de Pritchett.

 

- Compreendo - disse Manners. - Despedem-me com um aperto de mão dourado. Um belo aperto de mão, se eu arranjar maneira de recuperar o que está escondido.

 

Pritchett não replicou.

 

- Creio que é uma grande generosidade da vossa parte.

 

- Há uma condição - sussurrou Pritchett.

 

- O silêncio?

 

- Silêncio, Agora e para sempre. que possa causar qualquer tipo de embaraço ao lorde Salisbury ou ao governo de Sua Majestade. Proponho-me referir no meu relatório que não tínhamos qualquer agente em Shishan e nunca estabelecemos qualquer tipo de relações oficiais ou oficiosas, fossem de que tipo fossem, com as autoridades locais. Em consequência, todos os seus actos que venham a ser trazidos a lume foram inteiramente praticados por si, no exercício duma livre iniciativa de carácter privado.

 

- Pergunta-me se aceito ser corrompido com uma fortuna para ficar calado? Claro que estou de acordo. Estão a proporcionar-me os meios de me converter num homem muito rico.

 

- Julgava que já era um homem bastante rico depois de pilhar a Cidade Proibida.

 

Manners tamborilou os dedos sobre a mesa, com ar abstraído.

 

- Sabe que o doutor Airton suspeitava de que eu andava a negociar com o mandarim? - disse, depois de uns momentos de reflexão.

 

- O doutor Airton morreu, não é verdade? - ripostou Pritchett, em tom glacial. - Não me disse que ele e a família tinham refugiado-se nas Colinas Negras? Houveram diligências exaustivas junto dos Russos e não os conseguimos encontrar. Se, por algum milagre, tivessem conseguido sobreviver, estou certo de que já o saberíamos. No entanto, não me parece que se tenha dado qualquer milagre.

 

- Fizeram... fizeram diligências? - e havia uma súbita ansiedade no rosto de Manners.

 

- Diligências exaustivas - repetia Pritchett. - Porquê? Ficou desapontado por não poder vingar-se do velhote que fugiu deixando-o a esvair-se em sangue?

 

Manners ignorou o remoque.

 

- Não conseguiram saber de nada?

 

- Não creio que tenha razões para se preocupar no que toca a eles, Manners. Ninguém é capaz de sobreviver naquele deserto. O seu segredo está...

 

Calou-se, ao ver a expressão preocupada estampada no rosto de Henry.

 

- Desculpe-me - e a sua voz tornou-se subitamente afável. - Tinha-me esquecido. A filha do Delamere. Ouvi dizer que você e ela... Peço perdão. Percebi mal a sua preocupação... Desculpe-me... Sim, é lamentável...

 

Fez-se novo silêncio. Pritchett acrescentou:

 

- Claro, ainda restam esperanças. Talvez estejam em qualquer aldeia remota a que os Russos ainda não tenham chegado... Se bem que não haja grandes hipóteses de...

 

- Acabe lá o seu maldito relatório! - interrompeu Manners, pegando nas muletas.

 

- Ouça, se houver alguma coisa que eu possa fazer... adiantou Pritchett, pondo-se também em pé.

 

Henry afastou a mão que o outro lhe estendia. Quando chegou à porta, voltou-se e disse:

 

- Continue as buscas. Descubra o que lhes aconteceu. E saiu.

 

Pritchett ficou sentado durante bastante tempo, tamborilando a caneta sobre a mesa, com ar apreensivo. Seria uma lágrima o que vira nos olhos de Manners, quando este se voltara?, perguntou a si próprio. Não, devia estar enganado. Fora uma ilusão de óptica. Não era de esperar tal coisa de um homem assim. O Manners era um sujeito duro, como ele próprio estava a aprender a ser. Sem emoções, pragmático, corruptível - e, consequentemente, digno de confiança. Um homem que compreendia e se regia pelas regras da necessidade.

 

Abanou a cabeça e recolheu as folhas do memorando. Depois de pensar durante alguns instantes, começou a escrever com a sua letra nítida e cuidada.

 

O Verão cedeu lugar ao Outono. Os oficiais haviam descoberto as delícias das colinas Ocidentais e as patrulhas avançavam sob a cobertura vermelha de fogo dos áceres, a caminho dos templos de que se tinham apoderado.

 

Chegaram mais tropas alemãs, às ordens do imponente general Von Waldersee, que assumiu o alto comando, em substituição do muito estimado general Chaffee. Não tendo exercido qualquer papel no aniquilamento efectivo do Perigo Amarelo, que o kaiser denunciara com tamanho espalhafato, ao proclamar a sua cruzada serôdia, os generais alemães procuraram demonstrar grande zelo no pós-guerra, punindo todos os boxers que lhes caíam nas mãos - e como todos aqueles que lhes caíam nas mãos eram automaticamente considerados boxers, durante largo tempo os pelotões de execução não tiveram mãos a medir. Os habitantes de Pequim, que tinham acreditado que já podiam sair de casa sem problema, regressaram aos seus lares e esperaram que chegasse ao fim o furioso voo da águia dos Hohenzollern.

 

Que chegou ao seu termo, como todas as coisas neste mundo.

 

As folhas começaram a cair. Imperceptivelmente, o Outono converteu-se em Inverno. Enquanto os ventos frios sopravam através da ramaria dos salgueiros que pendiam sobre os fossos da Cidade Proibida, as brasas da vida reacenderam-se entre a populaça transida.

 

Quando caiu o primeiro nevão, nos finais de Novembro, as ruas de Pequim haviam retomado a sua animação habitual. Os altivos nobres que iam de um para outro dos seus palácios, em cadeirinhas transportadas por servos, consideravam impróprio da sua dignidade prestar atenção às sentinelas estrangeiras postadas nos cruzamentos da cidade tártara. Os funcionários, que tinham regressado às suas repartições no respectivo yamen, ao regressar a casa paravam nas bancas de comestíveis de Wangfujing ou Hatamen para comprar maçãs caramelizadas para os filhos ou para as concubinas, acotovelando-se com os rubicundos cabos e sargentos das forças de ocupação, que aproveitavam o dia de folga para conhecer melhor a cidade chinesa. Por detrás da Porta do Ianmen, ainda em ruínas, os mercadores discutiam o preço da seda nas suas lojas já desentaipadas; podiam ver-se estudiosos perscrutando antigos rolos de pergaminho em Liulichang, enquanto outros procuravam pechinchas nas muitas lojas de antiguidades que de um momento para o outro tinham aparecido por todo o lado. No caos que se seguira ao cerco, os soldados estrangeiros não tinham sido os únicos a praticar pilhagens; muitos chineses haviam-se aproveitado da situação para também fazer fortuna. Eram poucos os donos de restaurantes que se lembravam de melhor época para o negócio, e nas salas de jogo e casas de chá as raparigas procuravam adaptar-se a um mercado mais exigente, mais exótico. Na verdade, tinham surgido novas casas na cidade, especializadas no entretenimento das «lagostas», como eram chamados, de modo nada ofensivo, os soldados estrangeiros.

 

O bairro das legações ainda não fora restaurado, de modo,, a readquirir o fausto de outrora, mas equipas de cules trabalhavam dia e noite entre as ruínas para edificar novas e mais grandiosas mansões para os representantes das potências estrangeiras. Finalmente, os destroços e o lixo dos tempos do cerco tinham sido removidos da Legação Britânica, e, certa noite, as janelas da residência voltaram a refulgir e fizeram-se ouvir notas de música, quando Lady MacDonald organizou o primeiro baile. A única diferença entre este e o anterior cerco residia numa muito maior preponderância de uniformes militares. Como habitualmente, Monsieur e Madame Pichon, da Legação Francesa, foram os últimos a partir, e o recém-promovido conselheiro americano, Herbert Squiers, que anteriormente fora primeiro-secretário, em animada discussão com o jornalista George Morrison, no bar. Há coisas que nunca mudam.

 

É claro que, naquele momento, os diplomatas andavam muito atarefados. O velho ministro Li Hung-chang, aceite pelas potências, regressara ao Tsungli Yamen e chefiava um governo interino, até que fossem acordadas as condições para o regresso da imperatriz viúva do seu exílio em Shanxi. O preço a pagar por tal regresso, conforme ficou bem claro, seria extremamente elevado. Circulavam boatos de que a indemnização, que não deixaria de ser exigida, ultrapassava cem milhões de libras esterlinas, para já não falar de novas concessões territoriais. Os estróinas que se reuniam no bar do Hotel de Pekin, que pertencia ao agora muito rico B. L. Simpson, que, sabe Deus como, arranjou maneira de iludir todos os mandados emitidos para a sua captura, não se coibiam de criticar as meias medidas dos representantes diplomáticos, proclamando que, para ser feita justiça, os corruptos Ch’ing deviam ser obrigados a pagar uma quantia dez vezes superior. Quanto à imperatriz viúva - se porventura a deixassem regressar a Pequim -, deveria ser publicamente açoitada em frente do palácio. B. L. Simpson ofereceu-se alegremente para executar essa tarefa.

 

Henry Manners raramente estava presente nestes encontros. Na verdade, desde que se ferira, durante as pilhagens, quase ninguém o via. A princípio, os rapazes da Alfândega teceram comentários obscenos acerca da sua ausência. Era sabido que trouxera consigo uma rapariga muito bonita, uma profissional da mais velha profissão do mundo na cidade do Norte onde ele tinha estado. Durante uns tempos, fora o herói do dia, mas, à medida que o tempo passara, fora sendo esquecido - como acontece quase sempre nestas situações.

 

Julgava-se que vivia numa casa, algures no bairro chinês. Certa vez, B. L. Simpson e o seu bando, no final de uma noite bem bebida, alugaram riquexós para ir em busca dele. Atiraram pedras por cima do muro e berraram imprecações, acordando toda a vizinhança, receosa de uma nova acção de saque. Do átrio da casa que supostamente pertencia a Henry Manners só lhes chegou o mais pesado silêncio. O grande portão de madeira permaneceu fechado. Passado algum tempo, tomados pelo tédio, partiram em direcção aos novos bordéis.

 

Henry Manners fechou-se sobre si próprio. Se algum dos rapazes da Alfândega tivesse trepado pela parede, ficaria surpreendido por não descobrir o velho camarada deleitando-se lascivamente nos braços da sua beldade asiática. Dormia sozinho e, durante o dia, permanecia sentado numa poltrona de couro ou, nos dias soalhentos, numa cadeira de rodas no pátio, quase sempre com uma cigarrilha apagada na boca e uma expressão absorta. De vez em quando, Lao Zhao vinha examinar-lhe a perna, dizendo, de tempos a tempos, algum gracejo, para fazer rir Henry; quando tal sucedia, nos seus fatigados olhos azuis lampejava uma réstia do sardónico humor de outrora. As mais das vezes, os dois amigos ficavam sentados no pátio, em silêncio. Fan Yimei levava-lhes chá e, em algumas noites, preparava um cachimbo de ópio. Iam cedo para a cama e Henry, invariavelmente, levantava-se tarde.

 

Lao Zhao e Fan Yimei falavam com frequência acerca do estranho mal-estar de Ma Na Si Xiansheng e Lao Zhao adiantara diversas explicações: as feridas do Ma Na Si não se achavam ainda completamente saradas; estava à espera de que acontecesse qualquer coisa; repousava, aguardando que o pó assentasse para poder regressar à Mancharia e recuperar o ouro; escondia-se dos espiões da Legação Britânica, que certamente pretendiam segui-lo para encontrar o tesouro oculto; mantinha-se inactivo até que os soldados russos abandonassem toda aquela região... Fan Yimei escutava em silêncio, fixando nele os olhos tristes. Quando Lao Zhao lhe pedia uma opinião, a rapariga limitava-se a abanar a cabeça, sem dizer palavra. Ao fim de algum tempo, ele acabava por acender o cachimbo e declarava:

 

- Bom, uma coisa é certa. O Ma Na Si sabe o que está a fazer. Espera e verás.

 

Fan Yimei nunca lhe revelava as longas conversas que mantinha com o Ma Na Si nas noites em que este não conseguia conciliar o sono, e, atravessando o pátio, ia ao seu quarto e ficava sentado, na beira da cama, à espera que ela acordasse. Da primeira vez em que tal sucedera, Fan Yimei afastara os lençóis e convidara-o a deitar-se a seu lado, mas ele limitara-se a sorrir e a pegar-lhe na mão. O que lhe disse, guardava-o ela para si própria, jamais revelando o sofrimento que sentira e fingindo não ter visto as lágrimas nos olhos dele. Na manhã seguinte, saudara-o com o seu habitual sorriso triste.

 

O inglês Pritchett, da Legação, vinha visitá-lo, se bem que raramente. Ele e o Ma Na Si ficavam sentados a conversar um com o outro, em voz baixa. A visita não demorava muito. Fan Yimei odiava aquele homem, sem saber dizer porquê; sempre

 

Ele a tratara com requintes de delicadeza, mas os seus olhos frios nunca a fitavam francamente e invariavelmente parecia desejoso de se ir embora quanto antes. Em regra, a seguir a essas visitas, o Ma Na Si reclamava o seu cachimbo de ópio.

 

Certa noite, nos finais de Dezembro, Pritchett foi visitá-los muito mais tarde do que habitualmente. Não ficou muito tempo com o Ma Na Si e partiu, às pressas, no riquexó que aguardava lá fora. Quando, depois disso, foi espreitar o quarto do Ma Na Si, viu-o sentado na cadeira, muito hirto, olhando fixamente, mas sem ver, a parede fronteira. Na mão tinha uma folha de papel amarrotada, que parecia ser um telegrama.

 

Naquela noite, ele foi ao seu quarto e disse-lhe que o Dr. Airton, a mulher, os filhos e Helen tinham sido encontrados, na Mongólia, por soldados russos. Helen dera à luz um filho. Foram levados de comboio até Tientsin e esperava-se que chegassem a Pequim mais dia menos dia.

 

Por coincidência, naquela morna tarde, os Airton, com Helen e a bebé Catherine, foram recebidos no gabinete do vice-cônsul britânico em Tientsin. Era um homem insensível, que gostava de histórias picantes e que acabava de ingerir um abundante almoço. Com os seus modos descontraídos, disse-lhes que estava satisfeito por encontrar pessoas respeitáveis vindas de Shishan, o que representava um nítido progresso, segundo afirmou, em relação aos últimos fugitivos que acolhera vindos daquela região. Os Airton exprimiram o seu espanto perante tal comentário. Com grandes gargalhadas, o vice-cônsul contou-lhes então uma das melhores histórias do seu repertório: a história de Henry Manners e do comboio que o levara até ali. Ou melhor, começou a contá-la, porque a jovem, Mrs. Cabot, ficou de repente muito pálida, levantou-se, soltou uma exclamação, vacilou e, por fim, voltou a sentar-se, apertando o punho contra a boca. Por desgraça, por entre estes movimentos irreflectidos, tocou com o cotovelo num aparador e uma das melhores peças da colecção do vice-cônsul uma belíssima estatueta de Guanyin - caiu ao chão e partiu-se. Foi um incidente embaraçoso e extremamente desagradável, contou o diplomata aos seus companheiros do clube nessa noite, mas que poderia esperar-se da parte de missionários histéricos, sobretudo do sexo feminino? Julgava que ela se tinha sentido chocada, quando ele mencionara as concubinas de Manners.

 

NÃO QUERO SER UM BANDIDO. ESTAMOS NO INVERNO E OS VELHOS PRECISAM DE MIM. O NOVO ANO TRAGA CHUVA

 

Henry estava encostado à sua bengala, dissimulado pelas plantas que cresciam em vasos no salão de chá do Hotel de Pekin. No interior, decorria um chá dançante. Um violinista húngaro, de aspecto lúgubre, tocava uma valsa de Strauss. Ao piano acompanhava-o uma matrona cheia de jóias, com os olhos fechados, em êxtase, enquanto os seus dedos percorriam as teclas. Ninguém dançava. Os criados, muito solícitos, vestidos com longas túnicas castanhas, deslizavam suavemente por entre as mesas, com bandejas onde repousavam bules de prata ou se acastelavam pagodes de brioches, sanduíches e scones. De vez em quando, o ruído das conversas, pontuadas por gargalhadas afectadas, sobrepunha-se ao som da música. As damas usavam chapéus de peles e boas, segundo a moda de Sampetersburgo, que fazia furor naquele Inverno. Há já muito tempo que os maridos não envergavam roupas de caqui e chapéus coloniais. A elegância das sobrecasacas e dos fatos de tweed que agora exibiam não ficaria deslocada em qualquer salão de Paris ou de Viena.

 

Henry olhou para os seus brilhantes sapatos, que Lao Zhao polira com esmero durante toda a manhã. Os vincos das calças estavam impecáveis e o casaco do seu recém-confeccionado fato Harrís assentava perfeitamente nos seus ombros largos. A rosa que Fan Yimei lhe colocara na lapela ainda exalava um ligeiro perfume - ou talvez fosse a água-de-colónia que espalhara cuidadosamente sobre o peito e o pescoço. Nos espelhos com molduras douradas que ornavam as paredes daquele salão fin-de-siècle podia ver o seu reflexo ligeiramente alongado. Não estava menos elegante do que os outros convivas cosmopolitas à sua volta, mas observou com ar crítico os seus próprios cabelos grisalhos, as olheiras sombrias e as rugas que ainda mais profundamente lhe sulcavam a testa.

 

Uma dama belga do demi-monde, que saíra do salão de chá, lançou-lhe um olhar aprovador ao passar, pensando para consigo como era distinto aquele homem simpático que espreitava, como um tigre, por entre as aspidistras. Havia nele algo que lhe excitava a imaginação: a inconfundível experiência que o seu rosto espelhava; o mistério, se não o perigo, que se via nos olhos frios e cruéis; a inquestionável presença de uma energia contida mas pronta a deflagrar. A mulher notou que ele se apoiava numa bengala e perguntou a si própria em que aventura teria ferido a perna.

 

Henry, contudo, não se apercebeu da sua presença nem do olhar de admiração que ela lhe lançou. No estado de ansiedade em que se encontrava, apenas via, no espelho, o reflexo envelhecido e arruinado do que já fora. A dor na perna, que o obrigava a coxear como um velho, aos seus próprios olhos relegava-o à condição de inválido. Pela primeira vez na vida, tanto quanto podia lembrar-se, perdera a confiança em si próprio. Espreitando timidamente por entre os vasos das plantas ornamentais para o salão de chá, percebeu que não tinha a menor ideia do que devia fazer. Deslizou-lhe pela espinha, como um filete de água gelada, uma sensação inteiramente nova. Talvez fosse medo.

 

Vira-os logo que chegara e olhara para o salão. Estavam sentados a uma mesa, no canto mais afastado do piano, a tomar chá com um casal ao qual fora apresentado havia muito tempo. Ainda se recordava dos nomes: Mr. e Mrs. Dawson, Horace e Euphemia Dawson. Eram os representantes em Pequim da Babbitt e Brenner. Trabalhavam para a empresa que tivera ao seu serviço o pai de Helen Francês e Tom Cabot. Pareciam ser pessoas prósperas e bem instaladas na vida, como todos os outros magnatas de Pequim reunidos naquela sala. Horace Dawson exibia um queixo triplo e uma grossa corrente de relógio em ouro; o rosto de Euphemia estava coberto pelo véu de um chapéu decorado com uma pena de pavão.

 

O Dr. Airton, Nellie e Helen estavam sentados no sofá, hirtos e envergonhados como burgueses recém-chegados da província para uma reunião com o director de um banco. As roupas que envergavam eram tão sóbrias como a sua atitude. Naquele momento, escutavam Mr. Dawson, que parecia ser o único que falava, muito embora a esposa avançasse um comentário ocasional enquanto servia o chá; em seguida, lançava um olhar satisfeito ao marido e este, com um aceno de aprovação, continuava o seu discurso. Por vezes, levantava a mão rechonchuda para sublinhar algum pormenor. Era óbvio para Henry que estavam a falar de dinheiros.

 

Isso, contudo, não lhe interessava. Só tinha olhos para Helen. A jovem trazia um sóbrio vestido verde com uma imaculada gola branca, que contrastava com o seu cabelo ruivo. A pele estava mais escura do que Henry se recordava, e na expressão dela havia qualquer coisa de diferente: um ar contemplativo e ao mesmo tempo frio e perspicaz, uma maturidade - se não mesmo uma sofisticação - que não conseguia associar à rapariga tão espontânea com a qual não deixara de sonhar, semanas e meses a fio. Por momentos, teve a impressão de estar a contemplar uma estranha. Foi só quando ela sorriu, em resposta a um comentário de Mr. Dawson, que viu brilhar-lhe nos olhos verdes uma pontinha de humor - ou seria desdém? - que o coração de Henry teve um sobressalto de reconhecimento quase doloroso. Encostou a cabeça ao pilar e fechou os olhos, enquanto todo um caleidoscópio de recordações lhe vinha ao espírito, como um baralho de cartas espalhado sobre uma mesa. Encontrava-se demasiado longe dela para distinguir qualquer som, mas foi como se ouvisse as suas gargalhadas. Teve a clara visão dos momentos em que ela voltava a cabeça, o cabelo ruivo ao vento, e esporeava o cavalo, desafiando-o a segui-la. Por breves segundos, regressou a Shishan, e foi com uma sensação de estranheza que regressou à realidade do Hotel de Pekin, ao burburinho das conversas e ao som do violino.

 

Quando voltou a observá-la já não era uma estranha para ele. Ali estava Helen tal como se lembrava dela, embora com nova e maior envergadura. Adquirira a graça e a maturidade de uma mulher adulta, A imagem que tremia à sua frente para sua grande surpresa e inquietação, tinha os olhos marejados de lágrimas - era mais bela do que nunca.

 

Envergonhado da sua fraqueza, afastou os olhos, para os fixar no homem silencioso, de cabelos brancos, sentado ao lado de Helen - e experimentou um sentimento de compaixão. Airton envelhecera. Havia nele uma estranha rigidez, e parecia até ter diminuído de estatura. Os seus olhos, outrora sempre a piscar, mostravam-se agora ramelosos e tristes. Encontrava-se sentado numa posição patética, segurando uma chávena que lhe tremia nas mãos.

 

Nellie, pelo contrário, não tinha mudado. Mantinha-se erecta no sofá, com o ar digno, estudado e activo que sempre lhe conhecera. Tinha novas rugas no rosto, a sua pele adquirira um tom diferente e os cabelos estavam mais grisalhos, mas o seu pescoço de cisne erguia-se à mesma do vestido negro e os olhos serenos observavam os Dawson com a habitual paciência. Continuava a parecer magnífica, brilhando na sua integridade e calma no meio daquela sala cheia de gente tagarela.

 

Henry tentou imaginar as dificuldades e perigos que teriam enfrentado. Douglas Pritchett contara-lhe alguns episódios da sua odisseia. Teve uma visão de Helen, grávida e esfomeada, ziguezagueando através de montanhas e de desertos. Era uma imagem demasiado penosa, e voltou a fechar os olhos. Quando os abriu de novo viu a jovem que em tempos fora sua amante - quase nem podia acreditar em tal - levar aos lábios a chávena, num gesto elegante. Ficou maravilhado, encantado pela sua atitude, sentindo a força e a coragem que havia dentro dela.

 

Gradualmente, como acontece com o cair da noite, percebeu que, em comparação, ele de nada valia. No fundo do seu ser, sentiu que as labaredas de esperança que o tinham levado até ali começavam a apagar-se.

 

Uma terrível paralisia apoderou-se dele. Uma cobardia interior ordenava-lhe que partisse discretamente, para evitar um encontro, mas outro sentimento mantinha-o pregado ao chão. Tal como as traças são atraídas pela luz, assim os olhos ardentes de Henry eram atraídos pela beleza de Helen; no entanto, algo o impedia de expandir esse ardor, antes lhe corria nas veias um calafrio que o paralisava. Quanto mais olhava para ela, mais inacessível lhe parecia. Espreitou por entre as folhas das aspidistras, com uma espécie de terror pungente. Sentia-se como um homem prestes a afogar-se, afundando-se num abismo escuro, enquanto a luz de tudo aquilo por que tanto ansiara se esfumava nas trevas do desespero e do desprezo por si próprio. O chefe dos criados, um chinês imponente na sua túnica negra, aproximou-se dele para lhe perguntar se pretendia uma mesa; no entanto, algo na expressão de Henry fê-lo repensar e, murmurando um pedido de desculpas, recuou.

 

Quando voltou a olhar para o salão, reparou que o grupo se preparava para partir. Mr. Dawson assinou a conta e Mrs. Dawson estendeu o rosto para trocar os beijos de despedida. Num roçagar de seda e por entre frivolidades, despediram-se uns dos outros. Henry escondeu-se ainda mais por trás das aspidistras e os Dawson não o viram quando passaram por ele, majestosos. Continuou escondido quando os Airton também se levantaram, com Nellie e Helen segurando os braços do médico.

 

Ela passou a cerca de um metro dele. Ele pôde ver-lhe o sinal no pescoço e cheirar até o seu perfume. Sentiu um tremendo impulso de se atirar para a frente, abraçando-a e beijando-a, ou de se prostrar a seus pés e pedir-lhe perdão mas conteve-se, quase não se atrevendo a respirar, com os olhos esgazeados a segui-la, enquanto ela ajudava o médico a subir as escadas do hotel. Ouviu-a falar, com a voz rouca de que tão bem se recordava.

 

- Tenho a certeza de que amanhã de manhã se sentirá melhor, doutor. É só um resfriado.

 

Quis gritar-lhe, mas continuou paralisado como anteriormente. Com desespero, viu a orla do seu vestido verde a deslizar pelos degraus. No momento seguinte, ela ia desaparecer na curva das escadas.

 

Talvez tenha sido apenas a sua inata necessidade de acção - ou, mais provavelmente, uma última réstia de orgulho, a incapacidade do jogador de não fazer a derradeira aposta -, mas o certo é que algo o empurrou para a frente.

 

Apoiado à bengala, avançou até ao centro do salão, fitando-a como se quisesse atravessá-la com o olhar. Sem quase se dar conta, ouviu-se a pronunciar o seu nome:

 

- Miss Delamere! Helen Francês!

 

O tom da sua voz era estranhamente esganiçado.

 

O trio voltou-se. Os olhos do médico arregalaram-se, sob o efeito do choque, e deixou-se cair para trás, emitindo o que pareceu ser um gemido de terror. Nellie apressou-se a segurá-lo, enquanto uma expressão severa endurecia o olhar que lançou a Henry. Helen, por seu turno, largou o braço do médico. Imóvel no degrau, com os braços pendentes ao longo do corpo, examinou de sobrolho franzido o rosto implorante de Henry. Os seus lábios estremeceram, como se fosse dizer alguma coisa, e o seu peito pareceu arfar. Em seguida, ergueu a cauda do vestido e virou-se para o médico. Pegando-lhe de novo num braço, ajudou Nellie a levantá-lo. No momento seguinte, os três desapareciam na curva da escada.

 

Henry encostou-se a um pilar e ficou assim durante muito tempo, sem energia para esboçar qualquer movimento.

 

- Mister Manners?

 

A voz que fez a pergunta tinha um ligeiro sotaque escocês. Como se acabasse de emergir de um poço, Henry conseguiu concentrar-se e viu Nellie à sua frente, fitando-o com inquietação. Pegou-lhe no braço, obrigando-o a equilibrar-se.

 

- Oh, meu Deus! Parece-me que não está a sentir-se bem - disse ela. - Peço perdão se lhe parecemos grosseiros ainda há pouco, mas o meu marido não estava a contar com isto... Mister Manners, temos de conversar acerca de tantas coisas. Não quer tomar um chá comigo, em homenagem ao passado?

 

Como um doente submetido a calmantes, seguiu-a até ao salão de chá e sentou-se numa poltrona de couro, como ela lhe indicou. Nellie encomendou chá, antes de fitar Henry com os seus olhos claros.

 

- Mister Manners - começou -, não posso dizer-lhe como fiquei agradecida a Deus por saber que estava vivo e são. Um homem da Legação, um tal Mister Pritchett, foi visitar-nos esta manhã e contou-nos um pouco, bom, na verdade, bastante mais até do que talvez devesse, acerca da missão heróica e... patriótica que o senhor desempenhava em Shishan. Não se preocupe, nenhum de nós dirá a ninguém seja o que for a esse respeito... No entanto, quero agradecer-lhe, em nome de todos, pelos sacrifícios que fez por nós e... bom, por ter conseguido salvar as nossas vidas...

 

Foi interrompida pelo criado que trazia o chá. Quando, depois de encher as chávenas, ele se afastou, Nellie pareceu pouco à vontade, se bem que Henry não tivesse aberto a boca.

 

- Cá estou eu a precipitar-me... - comentou. - Com certeza vai julgar que preparei este discurso antecipadamente. Bom, não o fiz, mas fui sincera. Devemos-lhe as nossas vidas, Mister Manners.

 

Fez uma pausa e a sua expressão pareceu transtornar-se um pouco. Ao fundo do salão, o violinista atacava uma alegre polca. Elevando um pouco a voz, Nellie obrigou-se a prosseguir:

 

- Também lhe devemos outra coisa, Manners, embora me sinta envergonhada ao dizê-lo. Devemos-lhe um pedido de desculpas. Nós... enganámo-nos acerca dos seus motivos e, quando foi ferido, por nossa causa, o meu marido... digo, nós... deixámo-lo para trás, como se estivesse morto...

 

A voz tremeu-lhe quando pronunciou a última palavra, mas acabou por recuperar o domínio de si própria.

 

- Foi um crime, que vai pesar sobre nós, como uma assombração, até ao termo das nossas existências. Teremos de viver com essa culpa a pesar-nos na consciência, Mister Manners. Sim, foi uma atitude imperdoável... Compreendo porque, a princípio, nos evitou, desde que chegou aqui... Vi-o entre as aspidistras... Mas, mesmo que decida não voltar a falar connosco, gostaria de lhe participar como estamos todos tão arrependidos, tão sinceramente arrependidos... E se, um dia, o seu coração resolver perdoar-nos...

 

Parou, atónita, com a face ruborizada pela surpresa, ao ver Henry Manners inclinar-se para trás na poltrona e soltar uma gargalhada.

 

- Peço perdão... Desculpe-me, Mistress Airton - disse Henry, tentando retomar a compostura. - É que... desculpe-me... É que é tão cómico... Realmente, tão irónico... Compreende?... - Havia um certo azedume nos seus olhos. Não compreende? - prosseguiu. - O que me trouxe aqui esta noite foi o propósito de vos pedir perdão por ter conduzido tão mal as coisas...

 

A polca acabou e ouviram-se palavras de circunstância. O rosto de Nellie continuava corado.

 

- Eu... não tenho a certeza de ter entendido bem o que disse, Mister Manners... - adiantou.

 

- Oh, Mistress Airton. - Henry inspirou fundo. Agarrou no braço de um criado que passava e pediu-lhe que trouxesse brande, um brande duplo, e depressa.

 

- Peço que me desculpe - murmurou. - Preciso de algo mais forte do que um Darfeeling, se me permite... Não disponho da sua força interior - acrescentou, uma ponta do antigo sarcasmo a surgir-lhe na voz.

 

Nellie fitou-o, com certa perplexidade.

 

- Antes que me honre com novos pedidos de desculpas - continuou Henry -, será melhor dar-lhe a conhecer o final da minha modesta história.

 

- Mister Manners, eu...

 

- Conceda-me esse favor. Estou certo de que ouviu contar como conseguimos pôr de novo o comboio em marcha. A propósito, teriam feito melhor se tivessem ficado connosco. Isso ter-vos-ia poupado as terríveis provações que enfrentaram... - Levantou a mão para impedir que Nellie o interrompesse.

 

- Não, não volte a pedir-me desculpas. Fizeram o que, naquelas circunstâncias, julgaram preferível. Compreendo, creia-me, compreendo e aceito. Não a censuro, a si ou ao doutor Airton. Tinham de pensar nas crianças e na Helen, e eu parecia estar liquidado. Aliás, estava liquidado. Não há nada de que devam recriminar-se. Além disso, eu tive o que merecia...

 

«Não, por favor, não me interrompa. Deixe-me contar-lhe a história até ao fim. A senhora e o seu marido gostam de falar de milagres e bem podem dizer que foi um milagre que me salvou. Não um dos vossos milagres divinos, nada disso. Um milagre bem humano, resultante da coragem, generosidade, engenho e pura firmeza de carácter de dois dos mais improváveis chineses: o muleteiro Lao Zhao e a prostituta Fan Yimei. Foram eles que arranjaram maneira de me enfaixar, e que, sabe Deus como, conduziram o comboio até um lugar seguro.

 

- Um milagre não deixa de o ser mesmo se obtido através de agentes humanos - murmurou Nellie.

 

Os olhos duros de Henry fixaram-se no rosto da mulher.

 

- Talvez tenha razão - continuou. - Seja como for, o certo é que sobrevivi, embora não o merecesse, depois de tudo quanto fiz em Shishan. Até então, não tinha pensado nisso a sério. Nas últimas semanas que passei em Shishan, andei por de mais ocupado em ser eficiente. - E repetiu amargamente a palavra: - Eficiente.

 

- E foi eficiente, Mister Manners. Viu-se confrontado com decisões terríveis, mas fez tudo o que tinha de ser feito para salvar as nossas vidas.

 

- Ah, sim, fiz tudo quanto tinha de ser feito, na verdade. - E riu-se de novo, bebendo de um só gole o brande que lhe fora servido. - É isso que pensa, não é assim? Pois está a cometer uma avaliação excessivamente elogiosa do meu carácter, se julga que agi dessa forma nobre para salvar vidas. Não me disse que o Pritchett lhe revelou qual era a minha missão? O que fiz foi apenas para a maior glória do Império Britânico, Mistress Airton.

 

- Era esse o seu dever, Mistress Manners. O senhor cumpriu o seu dever.

 

- O meu dever! Tenho de brindar a isso. Rapaz, traz-me outro brande. Sim, o meu dever. Pensei muito nesse meu dever, enquanto balançava no tênder do carvão, e depois, engessado numa cama do hospital militar. E que conforto isso me trouxe! Todas aquelas pessoas mortas! não sabe, Mistress Airton, que não salvei toda a gente? Naquela altura, julgava que a senhora e os seus, incluindo a Helen, estavam mortos. Também aí eu falhara. Mas que importava isso? Como a senhora disse, tinha cumprido o meu dever. As armas estavam a salvo e o ouro também. Podia confortar-me com a ideia de que o governo de Sua Majestade se orgulharia de mim.

 

- O cinismo não lhe assenta bem, Mister Manners disse Nellie em voz alta, para se fazer ouvir acima dos acordes da polonaise que o pianista atacava naquele momento.

 

- Ah! - comentou Henry, sorvendo o brande. - Então o Pritchett não lhe falou dos trinta dinheiros que recebi pelo que fiz, não é verdade? Claro que ele não ia contar tal coisa! É assunto secreto, top secretl Está na cave juntamente com o resto da roupa suja da rainha.

 

- Mister Manners!

 

- Desculpe-me, Mistress Airton. Desabituei-me das boas maneiras. Peço-lhe que me perdoe. Por vezes, os meus sentimentos atraiçoam-me.

 

- Continuo sem perceber o que pode levá-lo a censurar-se. Aconteceram coisas terríveis, terríveis, mas a culpa não é sua.

 

- Bom, é muito generoso da sua parte dizê-lo. No entanto, pela minha parte, julgo que devia ter agido muito melhor. Todos aqueles inocentes executados, a freira, os Millward, o Tom, o que aconteceu à Helen... Oh, meu Deus, o que aconteceu à Helen... Eu nunca devia ter... Nunca devia...

 

- O senhor não é Deus, Mister Manners - atalhou Nellie.

 

Pôs a sua mão na dele, mas Henry retirou-a bruscamente.

 

- Pelo contrário, Mistress Airton - comentou ele, durante a pausa que se seguiu à polonaise. - Creio que vendi a minha alma ao Diabo.

 

- Pobre homem, pobre homem! - murmurou Nellie, um tanto aturdida, bebendo o chá, que entretanto arrefecera.

 

- Sabe uma coisa? Quando saí do hospital - continuou Henry, em tom mais calmo - quase enlouqueci. Creio mesmo que fiquei verdadeiramente louco. Tudo o que queria era vingar-me, conseguir a desforra. Podia ter-me concedido algum tempo para recuperar, mas não o fiz. Não queria saber das dores que sentia. Uma força qualquer impelia-me para a frente. Nessa altura, as tropas aliadas avançavam para Pequim. Só Deus sabe por que razão se demoraram tanto tempo em Tientsin, mas fiquei satisfeito por isso, uma vez que me dava oportunidade para executar a minha vingança. Juntei-me a uma companhia de batedores, bem..., salteadores por conta própria. Adiantámo-nos às tropas e matámos... Ouviu bem Mistress Airton? Matámos. Indiscriminadamente, talvez, embora na altura nos parecesse que isso se justificava.

- Mister Manners, o senhor não é obrigado a contar-me isso - murmurou Nellie.

 

- Não, com efeito não foi nada bonito, e não julgue que me orgulho do que fiz. Vou poupá-la a pormenores, à excepção de um. Todos os boxers, todos os chineses que me apareciam pela frente ou se encontravam no enfiamento da ponta do meu sabre, todos eles tinham o mesmo rosto. Sabe de quem? Do major Lin, Mistress Airton.

 

- É horrível! - murmurou Nellie, sentindo um calafrio percorrer-lhe a espinha.

 

- E sabe que mais? Mesmo depois de todas as legações terem sido libertadas, ainda o via, sempre que saía de casa. Ele era o mendigo na esquina, o comerciante na sua loja. Podia ser até aquele criado que ali vai...

 

Nellie fitou-o, alarmada.

 

- Já lhe disse que estava louco, ou, pelo menos, semilouco. E não deixei de estar assim, após o levantamento do cerco. Trepei pelas muralhas da cidade com os fuzileiros americanos. Ainda havia combates. Sim, muito sangue correu ainda, nos dias que se seguiram. Depois, comecei a pilhar. Os meus companheiros eram quase tão loucos como eu, e nada nos detinha. No entanto, não julgue, Mistress Airton, que era o saque que me interessava. O que eu queria era destruir. Sentia prazer ao ver o medo no rosto das pessoas, nas dezenas de rostos do major Lin.

 

- Pobre homem... Tanto sofrimento! Por favor, não continue... - suplicou Nellie.

 

Manners, como se não a tivesse ouvido, prosseguiu:

 

- Certo dia, num dos bairros chineses mais afastados, incendiámos a casa dum mercador. Por nenhuma razão, aliás. Os meus companheiros estavam irritados por não terem encontrado nem ouro nem jade. O mercador fora inteligente e tinha escondido tudo o que possuía em lugar seguro, ou então não possuía fosse o que fosse. O certo é que deitámos fogo à casa e eu ajudei a fazê-lo. Fomos para a rua e ficámos a ver as chamas, através do portão. Julgávamos que todos os residentes tinham fugido, porque, devo dizê-lo, na altura não andávamos a matar gente; embora fizéssemos outras coisas, muitas outras coisas... Com espanto, vi uma menina sair a correr dum dos edifícios, gritando de dor porque o seu vestido estava a arder. Confesso que não sei porque o fiz, mas corri para ela e, com o meu casaco, abafei as chamas que lhe queimavam as costas.

 

Quando a transportava para fora, em pânico mas não muito ferida, o pavilhão da entrada, que também estava a arder, desabou-me em cima. A menina não sofreu nada, mas eu... Bom, como se pode ver, fiquei com esta perna sem acção. Bem feito, poderá a senhora dizer. Poucos dias depois, o Pritchett chamou-me à Legação, pagou-me os meus trinta dinheiros e informou-me de que prescindiam dos meus serviços. Desde então tenho-me mantido afastado. Não creio que ainda esteja louco. O que agora se passa comigo é ainda pior. Acho que já não tenho qualquer gosto pela vida. Chame-lhe uma crise de remorsos, se quiser. Os missionários, como a senhora, devem ficar satisfeitos. Parece-me que, tarde de mais, descobri que tinha uma consciência. Bastante carregada, diga-se em abono da verdade...

 

- Oh, Mister Manners... Posso tratá-lo por Henry? Creio que o conheço o suficiente para tratá-lo assim... Henry, o meu coração está consigo!

 

- Agradeço-lhe, Mistress Airton... Nellie... Sinceramente. Sempre tive grande respeito por si. Não se arma em juiz dos outros, como alguns fazem. No entanto, não sinta pena de mim. Não sou daqueles que podem ser salvos. Para pessoas como eu, não existe nenhuma estrada de Damasco. Eu próprio cavei a minha sepultura, não concorda?

 

- Não vou fazer-lhe a afronta de lhe recitar palavras do Evangelho, mas não acredito no que disse, Henry. Pude observar o que de bom há em si e a sua coragem. Não desista da vida. A vingança não é, de certeza, a resposta adequada.

 

- Não, não é. Creio que já o aprendi. Eu... eu tinha uma esperança. Uma esperança... Não, não faça caso...

 

Pegou no copo de brande e reparou que estava vazio. O chá dançante terminara. Embora os convivas daquela tarde ainda não se tivessem retirado, as criadas começavam já a preparar as mesas vazias para o jantar.

 

- Uma esperança? Falou-me numa esperança. Por favor, diga-me qual é.

 

Henry soltou uma gargalhada amarga.

 

- Creio que lhe contei tudo o resto. Porque não mais isto? Se bem que seja meramente académico. Vi o olhar que ela me lançou, nas escadas. Pensei que a Helen... Melhor dizendo, alimentei a esperança de que a Helen ainda pudesse...

 

- Oh, Henry! - suspirou Nellie.

 

- Inch Allah! - exclamou Henry. - Eu não merecia outra coisa.

 

Meteu a mão no bolso do peito. De detrás do lenço dobrado retirou um charuto. Nellie ficou a ver como ele tentava disfarçar a sua agitação, enquanto o acendia.

 

- E o bebé? - perguntou, exalando uma baforada. Foi grosseiro da minha parte não ter perguntado por ele, em primeiro lugar. - O bebé está bem? Ouvi dizer que é uma menina. Já tem nome?

 

- Ela esta bem, Henry. uma menina muito bonita. Chama-se Catherine - Nellie fez uma pausa e acrescentou:

- Catherine Cabot.

 

- Cabot?

 

A mão que segurava o charuto ficou suspensa no ar. No rosto de Henry a cólera era visível. Tirou três longas baforadas antes de se recompor, embora os seus olhos brilhassem como gelo.

 

- Cabot - repetiu. - Pode fazer o favor de me explicar porquê?

 

- Receio ser eu a única culpada - afirmou tristemente Nellie. - Fui eu que apresentei a Helen ao oficial russo que nos recolheu como Mistress Cabot. Fi-lo com boas intenções. Preocupava-me a vergonha por que ela teria de passar, se viesse a saber-se que era mãe solteira. Por isso... por isso, inventei um casamento.

 

- Foi muito gentil - replicou Henry friamente. - Vejo que tem, como eu, a capacidade de ser eficiente. E a Helen ficou satisfeita, aceitando prolongar essa mentira?

 

- Persuadi-a a fazê-lo. O Edward e eu fizemos-lhe ver que era para o seu bem e para o bem da menina. Sim, acabou por concordar.

 

O rosto de Nellie revelava cansaço.

 

- A princípio, foi um subterfúgio temporário - prosseguiu. - Não fazíamos ideia de que os Russos iam telegrafar para a Legação e de que esta ia informar Mister Dawson, da Babbit e Brenner, nem tão-pouco que Mister Dawson, por seu turno, ia comunicar com os pais do Tom, na Inglaterra. É esse o problema das mentiras: adquirem vida própria. Quando chegámos a Pequim, já era...

 

- Um fait accompli - concluiu Henry.

 

Começou a rir-se; a princípio, o riso era agreste, mas Nellie ficou estupefacta quando se converteu no que parecia ser uma autêntica manifestação de alegria.

 

- Muito bem! Grande Tom... Consegue marcar pontos, mesmo depois de morto.

 

- Oh, Henry, creio que o magoei - murmurou Nellie.

 

- Compreendo-a, Nellie. Sinceramente. Tinha dois candidatos mortos entre os quais devia escolher. Um deles, sem dúvida morto e o outro, bom, era lógico presumir que eu sucumbira aos ferimentos ou que fora enforcado pelo major Lin, consoante o que acontecesse primeiro. Não, compreendo perfeitamente o que fez. Numa das mãos, tinha um herói morto, um cavalheiro cristão, um mártir; na outra, bom, na outra, um produto de qualidade duvidosa. Chame-me «ovelha ronhosa» e fiquemos por aí. A escolha não era difícil. Acredito até que a perspectiva de uma pensão concedida pela Babbit e Brenner ou da avultada herança do Tom, no Lincolnshire, nem sequer lhe tenha passado pela cabeça.

 

- Creio que mereço o que acaba de dizer - murmurou Nellie, inclinando a cabeça.

 

- Não se preocupe com isso - ripostou Henry. - Falando a sério, acho que agora devia pensar em tudo isso, mesmo que não o tenha feito no momento da escolha. É bom para a Catherine. Vai ser uma herdeirazinha feliz. E, por falar nisso, decorreu esta tarde o vosso encontro com os Dawson?

 

- Foram muito generosos - afirmou Nellie -, muito bondosos.

 

- Está a ver? - comentou Henry. - E é assim que deve ser. Cumpriu o seu dever, Nellie, contando-me o que se passava. Com grande tacto, aliás. Deve ter sido muito penoso para si, julgo eu. Não voltará a ver-me, mas dê um beijo por mim a Mistress Cabot.

 

Passou a mão pelos olhos, como que para limpar do rosto a emoção, porque Nellie reparou que retomara a compostura ao voltar a pousar a mão nos braços. Quando voltou a falar, parecia até que o sarcasmo lhe desaparecera da voz:

 

- Fique a saber uma coisa, Nellie Airton. Não alimento qualquer ressentimento contra si ou contra o seu marido. A senhora comportou-se sempre com nobreza e o Airton agiu movido pelos melhores motivos. Quanto a mim, limitei-me a colher o que semeei, nada mais. No entanto peço-lhe que diga por mim à Helen... que diga à Helen...

 

- Que me diga o quê, Henry?

 

Ouviu aquela voz rouca atrás de si e foi como se a paralisia que o imobilizara entre as aspidistras tivesse regressado com redobrada força. Não conseguia accionar nenhum dos músculos do corpo. O coração batia-lhe no peito e o sangue fervia-lhe nas veias. Percorrendo-lhe todo o corpo, sentiu, simultaneamente, emoções contraditórias de alegria, desespero, esperança e medo - sobretudo medo.

 

Com um farfalhar do tecido da saia, Helen sentou-se no sofá, ao lado de Nellie. A mulher do médico esboçou o movimento de se levantar, mas Helen pousou-lhe a mão no joelho.

 

- Não se sinta obrigada a partir - disse-lhe. Embora os olhos da jovem brilhassem e tivesse as faces um pouco coradas, a sua voz era calma, controlada.

 

- É melhor. É melhor, minha querida, ir ter com o Edward e as crianças - murmurou Nellie.

 

- Sim, o doutor está um tanto abalado - assentiu Helen. - É só uma constipação, mas está um tanto abalado em geral. As crianças estão bem, estão a jogar com a amah1.

 

- Mister Manners... Henry. Espero que voltemos a ver-nos - despediu-se Nellie, estendendo-lhe a mão. - Irá visitar-nos, um destes dias, antes da nossa partida?

 

Henry acenou com a cabeça, sem tirar os olhos do rosto de Helen. Levantou-se, apertou a mão que lhe era estendida e voltou a deixar-se cair na cadeira.

 

1 A palavra amah designa, em termos genéricos, uma criada, na Ásia Oriental. Mais especificamente, diz respeito a uma ama chinesa. (N. do E.)

 

- Diga à amah que não vou demorar muito - pediu Helen.

 

Ficou a ver Nellie ziguezaguear com elegância por entre as mesas. Um criado aproximou-se.

 

- Um cálice de moscatel fresco, por favor - pediu Helen. - E outro brande para Mister Manners. - Então, Henry - perguntou, quando o criado se afastou. - O que ias pedir à Nellie que me dissesse?

 

Henry sentiu a língua gelar-lhe na boca.

 

- Que me amas? - perguntou. Os seus olhos verdes observavam-no, muito sérios. - Houve tempos em que essas palavras me teriam feito saltar de alegria.

 

- E agora? - A voz dele mais parecia um grasnido.

 

- Bom, é claro que ainda gosto de ouvi-las... Obrigada - disse ela, quando o criado colocou os copos sobre a mesa.

 

- Ainda gostas? - conseguiu Henry perguntar.

 

- Sim, fico lisonjeada por saber que ainda te lembras de mim com ternura - replicou. - Não devia ficar? Sei que, quando um homem diz essas palavras a uma rapariga, espera que ela as repita a ele, mas não tenho a certeza de poder fazê-lo, neste momento...

 

- Compreendo - disse Henry.

 

- Não há dúvida de que te amei - continuou ela, sorvendo a bebida. - Ainda fico feliz, quando me recordo dos dias que passámos juntos e não me arrependo seja do que for. Não, de nada. E ficar-te-ei eternamente agradecida. Tu foste.. Em dado momento, foste tudo o que me importava na vida!

 

Teria sido ilusão dele ou as pálpebras da jovem tremeram! ligeiramente, ao dizer aquilo? Os olhos verdes, contudo, continuavam a perscrutar fixamente os seus.

 

- Mas, ao que parece, isso já não sucede, agora.

 

- Não - confirmou Helen, e ele voltou a aperceber-se do tremor nas suas pálpebras. - Creio... creio que ultrapassei essa fase. Aconteceram muitas coisas, Desculpa-me, Henry. É muito difícil para mim...

 

Henry suspirou. Helen parecia pouco à vontade.

 

- O Pritchett contou-me algumas das dificuldades por que passaram - disse, depois de uma pausa. - Deve ter sido uma terrível provação.

 

- Sim, houve momentos horríveis - confirmou ela -, mas... mas também outros gratificantes... Quando o pastor nos acolheu. Foi muito bondoso.

 

- O Pritchett contou-me que ele é uma espécie de xamã.

 

- Um curandeiro. Sim, é verdade - assentiu Helen. Ele... ele ajudou-nos muito.

 

- Ouvi dizer que alguns desses nativos têm conhecimento que nós nem conseguimos imaginar, coisas que os nossos cientistas jamais podem aspirar a compreender.

 

- Tens toda a razão - comentou Helen.

 

- Vamos continuar aqui sentados a trocar banalidades. - perguntou Henry, depois de um curto silêncio. - Se isso puder servir de ajuda garanto-te que compreendo a tua atitude. E agradeço-te que tenhas descido as escadas para vir ter comigo e dizer-mo cara a cara. Não te falta coragem, Helen Francês, nem generosidade. Teria percebido, na mesma, que me evitasses por completo, depois do que te fiz passar. Se tivesse encontrado outra maneira, teria procurado poupar-te a tanto sofrimento. Por favor, acredita que só fiz o que fiz por não ter conseguido descobrir outra forma de proceder. Que agora me desprezes, tenho de aceitá-lo...

 

Helen sobressaltou-se.

 

- Mas eu não te desprezo, Henry - garantiu. - Porque havia de fazê-lo?

 

- Tratei-te de forma abominável - disse ele.

 

- Foste sempre gentil para comigo. Honraste-me da única forma que um homem pode honrar uma mulher - retorquiu a jovem. - E salvaste-me a vida... A minha e a da minha filha... da nossa filha.

 

- Honrei-te, dizes tu? Diz antes que te... te prostituí murmurou Henry. - Nunca me perdoarei tal coisa.

 

- Sim, estavas preparado até para aceitar esse sacrifício - retorquiu ela. - Nunca deixaste de agir com nobreza. Acredita.

 

Colocou sobre a mesa o copo meio cheio e prosseguiu:

 

- Não penses sequer no... outro.

 

Uma expressão de dor contorceu-lhe a face e ela virou a cabeça para o lado.

 

- Nunca aconteceu... - sussurrou. - Não, aconteceu, claro que aconteceu. Deve ter sido horrível para ti presenciar aquela cena... Oh, Henry, como senti pena de ti... Mas para mim, para mim...

 

Pegou de novo no copo e voltou a pousá-lo sobre a mesa, sem o levar aos lábios. O seu rosto continuou a contorcer-se, enquanto procurava as palavras adequadas.

 

- Não passou dum sonho, um sonho mau, um terrível pesadelo. Como os sonhos provocados pelo ópio. Não foi real. Não me feriu. No fim daquele dia, já não me fazia mal. Não podiam molestar o meu verdadeiro eu. Agora sei-o. Oh, Henry - concluiu, pegando-lhe nas mãos. - Também deves apagar isso da memória. Não tem importância. Perdoa-lhes, porque só assim conseguirás viver em paz contigo próprio.

 

Lentamente, Henry retirou as mãos de entre as dela.

 

- Que estás a dizer? Que perdoe ao major Lin?

 

- Sim, sim, ao major Lin e aos outros - apressou-se ela a dizer, voltando a pegar-lhe nas mãos. - Eu já o fiz... Deus do Céu, que conversa tão imprópria para o salão de chá do Hotel de Pekin...

 

Sorriu, enquanto Henry a observava friamente.

 

- Estou a ver que o cristianismo dos Airtons se apoderou de ti - comentou.

 

Helen soltou uma gargalhada.

 

- Nem sabes como te enganas! Bom - prosseguiu -, talvez tenhas razão, de certa forma. Eu... eu não creio ser cristã, nem sequer que gostasse de sê-lo, mas talvez venha tudo a dar ao mesmo...

 

- Percebo - comentou Henry. - Então, também são sonhos. E eu? Também fui um sonho mau? Um pesadelo que agora conseguiste apagar da memória?

 

- Nunca houve nada de mau em ti - afirmou ela. Oh, Céus!

 

Perdendo momentaneamente o autodomínio, deixou-se cair para trás no sofá. Espantados, os criados fitaram-na.

 

- Não sei, Henry. Não sei! - A sua voz era estridente, o que fez com que muitas cabeças se voltassem, nas mesas vizinhas. - Que esperavas? Tens de dar-me algum tempo... Agora...

 

Agora, sou diferente. Já não sou a rapariga que tu conheceste.

 

- Creio que já o percebi - concordou Henry. Queria dizer-lhe que, naquela explosão emotiva, ela ficara mais bela do que jamais a vira, mas o curso daquela estranha conversa impedia-o de fazê-lo e a oportunidade passou. Helen recuperou a compostura, mas quando tornou a falar, fê-lo com voz alterada:

 

- Não podes voltar dos mortos desta maneira e esperar que eu... que possas retomar a tua vida no ponto em que a deixaste. Aliás, que fui eu para ti, a não ser uma colegial fácil de conquistar? Um divertimento apenas, enquanto tu executavas as tais tarefas importantes de que estavas incumbido...

 

- É nisso que acreditas?

 

- É, sim! - Fitou-o, em ar de desafio, mas logo a seguir deixou cair os ombros. - Não. Claro que não acredito nisso - murmurou. - Mas porquê, Henry? - Porque me amaste? Que podias tu ver em mim? Porque me deste tanto?

 

No rosto dele espelhou-se uma expressão de surpresa e sorriu. Ergueu um sobrolho, observando-a, interrogativamente, o que pareceu enfurecê-la ainda mais.

 

- Diz-me, Henry: achas que eu podia ter-me comportado de forma mais estúpida e irresponsável? - perguntou. Era como uma criança numa loja de guloseimas, tão obcecada estava por ti. Os encontros às escondidas, o sexo, o ópio. Sim, até mesmo o ópio! Que dias em cheio estava a ter! Helen Francês vai até à China e experimenta tudo! Mas foi só isso. Não passava duma turista, uma turista idiota! Não pertencia ao teu mundo, nunca pertenci. Tu embriagaste-me, foi o que sucedeu, mas agora estou desintoxicada. Graças a Deus, estou desintoxicada. a Deus, estou desintoxicada! Aprendi numa escola muito severa, depois de apanhar muita pancada. Agora, julgo saber quem sou e o que quero, o que sempre devia ter querido.

 

- E pode saber-se o que é? - perguntou Henry. Helen baixou a cabeça.

 

- Não ser ninguém - respondeu secamente. - Ser vulgar. Ser o que sou. Vulgar, provinciana. Acredita, Henry: não seria uma esposa que pudesse fazer-te feliz. Acabarias por te cansar de mim. Seria uma fenda por onde o teu espírito acabaria por esvaziar-se. Arrastar-te-ia para as profundezas... e não conseguiria suportar tal coisa...

 

- Estava a contar contigo para me retirares das profundezas - murmurou Henry. - Não sou o herói nem o paladino que vocês julgam, tu e a Nellie. Não sou grande coisa, para dizer a verdade. A ideia duma vida vulgar atrai-me.

 

- Não há nada de vulgar em ti, Henry Manners. Nada. Deixa-me contar-te uma coisa. Quando foste ferido e o doutor Airton me disse que tinhas morrido, a única sensação que experimentei foi a de alívio. Alívio, ouves bem? Porque sabia que não conseguiria continuar a amar-te. O doutor Airton julgou que tinha conseguido revoltar-me contra ti, envenenando-me com uma quantidade de mentiras acerca da forma como terias preparado a minha violação. Foi por isso, pensou ele, que não mostrei qualquer sinal de choque ou de horror quando ouvi dizer que estavas morto, mas a verdadeira razão não foi essa. Nunca acreditei no que o Airton me contava. Ele odiava-te porque tinha inveja de ti e não conseguia escondê-lo. Não, as mentiras do Airton não foram o motivo que me levou a não chorar por ti. A tua morte, Henry, foi um alívio para mim, um grande, um enorme alívio! Livre de ti, livre daquela presença brilhante que ofuscava os meus horizontes, senti que, se a sorte me sorrisse, talvez pudesse voltar a viver a vida à minha maneira. Tinha o teu filho dentro de mim, e isso bastava-me. Seria uma recordação tua, mas não serias tu. Sabia que conseguiria amar o bebé. Ele não iria exigir-me tudo aquilo que tu exigias...

 

- Sabes que estás a dizer disparates, Helen. Que exigi eu de ti?

 

- Nada - respondeu ela. - Nada, e esse é que era o problema, justamente. Não precisavas de mim. Salvavas-me a vida, de cinco em cinco minutos. Como pode uma rapariga casar-se com um homem que não faz outra coisa que não seja salvar-lhe a vida, da forma mais nobre e heróica? Querido Tom! Esse deixou-se apanhar e foi sacrificado. Tu, pelo contrário, eras tão perfeito que sacrificavas todos os outros à tua volta. Queres saber uma coisa? Quando estava no chão, a ser violada, e tu estavas atado ao balaústre da cama, sabes o que parecias? Jesus Cristo, Henry. Jesus Cristo crucificado. Podia ver o meu próprio sofrimento nos teus olhos. E então, odiei-te! Odiei-te, odiei-te...

 

Os seus ombros estremeceram e ela começou a chorar. Henry tirou um lenço do bolso e entregou-lho.

 

- Vamos, rapariga! - animou-a. - Toma este lenço. Estás... estás a dar espectáculo.

 

Por fim, ela conseguiu parar de chorar e assoou-se ruidosamente. Desta vez foi ele que lhe pegou nas mãos, e a jovem não o repeliu.

 

- Estava curada de ti - sussurrou Helen. - Estava curada de ti. Quando estava estendida na relva da pradaria, sonhei contigo. Foi um sonho muito belo. Fizemos amor, dissemos adeus um ao outro, e eu fiquei em paz...

 

- Outra vez os sonhos - protestou Henry.

 

- Sim, Henry, sonhos. O que se passou entre nós, de certa maneira, não foi sempre um sonho?

 

- Para mim não - replicou ele.

 

- Agora sou mãe - prosseguiu a jovem. - Tenho alguém de quem devo cuidar. Ah, devias ver a Catherine, Henry. Ela é tão bonita, tão pequenina, tão vulnerável...

 

- Gostava de a ver. - Algo de perverso levou-o a acrescentar: - A filha do Tom Cabot.

 

- Isso fere-te, não é assim? - retorquiu ela. - Mas era com o Tom que eu devia ter-me casado. Pertenço ao mesmo mundo: a província. É daí que provém o meu verdadeiro eu. Não sou decente nem honrada nem boa como ele era, mas podia vir a sê-lo. Bom, agora tenho essa oportunidade. Pelo menos, posso fingir que o sou, sem estar a representar. Lá no fundo, bem no fundo, é esse o meu ser autêntico. Vulgar, provinciano. Levarei uma vida honesta, mesmo que a viva graças a uma mentira. Porém, sei que o Tom gostaria desse tipo de vida. Não vai ser uma existência excitante, como a tua, mas não quero mais excitações. Gozei o meu dia de férias, o meu sonho.

 

- A Catherine não é um sonho, Helen. Sou o seu pai.

 

Pelo amor de Deus, nunca ouvi tamanho despautério em toda a minha vida. Tu amas-me, embora tivesses chegado a odiar-me... E agora queres ser a viúva do Tom, só porque achas que é esse o teu verdadeiro eu? Que se passa contigo, Helen Francês? Não consigo compreender-te! A jovem franzia as sobrancelhas.

 

- Não achas que devemos alguma coisa ao Tom, Henry? Fizemos-lhe tanto mal.

 

- Para ser franco, não acho. Não, não lhe devemos nada. E, sendo um pouco rude, minha querida, deixa-me acrescentar que fui para a cama contigo. Estou vivo e ele está morto. Amamo-nos. Deus do Céu, porque não havemos de aceitar isso? Que importa o passado? Está bem, chama-lhe um sonho, se quiseres, mas vivamos juntos o futuro! Podemos fazê-lo, tenho a certeza!

 

Helen soltou-lhe as mãos, que mantinha entre as suas havia algum tempo.

 

- Oh, Henry! - disse. - Como te fiz mal! Como te tornaste agreste!

 

- Não sei, não sei - disse ele, com voz arrastada. Creio que recebi menos mal a notícia, afinal de contas. Nem todos os homens aceitariam que a uma filha sua fosse dado o apelido de outro homem.

 

E enquanto dizia isto, uma voz dentro dele gritava contra a sua própria estupidez e obstinação.

 

Helen abanava a cabeça, com ar pesaroso.

 

- Agora é tarde, Henry - lembrou. - Os pais do Tom estão à espera de ver a neta. Amanhã tomamos o comboio para Xangai e de lá seguimos de barco para Inglaterra. Já aceitei acompanhar os Airton, que estão a pensar tirar umas longas férias na Escócia. Sabes que têm lá dois filhos. Disseram-me que querem regressar à China. Eu... eu não sei se o farei...

 

- Mas é tudo uma mentira, Helen, uma maldita mentira! Tu nunca te casaste com o Tom. A filha não é dele.

 

- Ele disse-me que, mesmo assim, se casaria comigo, que faria o que era justo fazer. Casar-se-ia comigo e assumir-se-ia como pai da Catherine. Serias capaz de fazer o mesmo, Henry? Casar-te-ias comigo?

 

- Olha para mim - retorquiu ele -, vestido com o meu fato. Vim para te pedir em E ainda o farei, se tu quiseres.

 

- Se o tivesses feito no momento oportuno... - sussurrou ela, com os olhos marejados de lágrimas. - Mas agora tudo é diferente...

 

- Porquê? - Os punhos de Henry abateram-se sobre a mesa, fazendo tilintar os copos.

 

Os criados olharam para ele, alarmados.

 

- Oh, Henry, estou de novo a chorar, eu que queria mostrar-me tão corajosa. Mas é diferente... E é tudo...

 

- Isso não basta. É diferente porquê?

 

- Porque não consigo ficar perto de qualquer coisa que me traga à memória aqueles horríveis tempos em Shishan exclamou ela. - E tu fazes parte deles. Tu és a encarnação desses tempos - continuou, a soluçar. - Oh, como te amei. E ainda te amo. Não sabes como, por vezes, me fazes falta. Mas, sou diferente. percebes? Já não sou aquela rapariguinha acabada de sair do colégio conventual que tu seduziste.

 

Pegou num guardanapo e começou a enxugar os olhos.

 

- Olha para mim - acrescentou. - Estou a dar espectáculo. Lá se vai a reputação que tanto me tenho esforçado por conferir a Mistress Cabot, viúva respeitável.

 

- É disso que se trata? - replicou Henry, em voz baixa.

- De reputação?

 

- Sim, é - admitiu ela. - Pelo menos em parte adiantou, rindo entre dois soluços. - Nunca ganharia respeitabilidade, se me casasse contigo.

 

- Não, talvez não - adiantou Henry.

 

- Ora então, Henry! Vives com uma prostituta, a Fan Yimei. Não que eu tenha alguma coisa contra ela. Pelo contrário, admiro-a. É boa rapariga e mostrou-se muito corajosa. No entanto, toda a cidade fala de vocês.

 

- Sim, suponho que sim - assentiu Henry, com tristeza.

 

- Não me interessa se vais para a cama com ela. Isso não tem nada a ver com a decisão que tomei.

 

- Então, está decidido? - perguntou ele, docemente. É uma decisão irrevogável?

 

- Não sei, não sei! Porque estás sempre a pressionar-me? Oh, Henry, não vês que preciso de tempo para reflectir? Longe de ti, longe da China, este terrível país! Agora, tenho a possibilidade de ser livre. Posso ser eu própria. Tenho uma filha adorável, sou uma respeitável viúva e não tenho falta de dinheiro. Tenho mais do preciso. Deus, Henry, preciso de respirar. Não compreendes, tu mais do que qualquer outra pessoa?

 

- Pega no teu copo - disse Henry. - Brindemos à tua liberdade. - E com o seu tocou no copo de Helen. - No entanto, quero brindar à sua respeitabilidade, Mistress Cabot.

 

- Quer dizer que aceitas? - balbuciou ela. - Que aceitas que eu parta?

 

- Não - ripostou ele. - Acho que é uma loucura.

 

- Tu podias... podias ir ter comigo e fazer-me a corte no Lincolnshire - aventou ela.

 

- Qualquer coisa que diz que não daria resultado contrapôs Henry. - Creio que não nos damos bem, a Inglaterra e eu.

 

- Oh, Henry, como te amo - suspirou Helen.

 

- E eu também te amo, minha querida - replicou ele.

- Mas isso já não chega, não é assim?

 

Por longo tempo, fitaram-se, olhos nos olhos, em silêncio.

 

- Henry, não quero que as coisas entre nós acabem desta maneira. Não podemos continuar amigos? Por favor, aceita o convite da Nellie e vem visitar-nos antes da nossa partida. Para ver a Catherine. Pelo menos para ver a Catherine.

 

Ele prometeu. Era a solução mais simples. Henry não era homem para continuar na mesa de jogo depois de ter perdido tudo o que tinha apostado.

 

Em silêncio, acabaram de beber. Henry fumou um charuto. De súbito, esmagou-o no cinzeiro. Fitou Helen com um olhar frio, embora esboçasse um sorriso.

 

- Creio que ainda não te disse como estás bonita, esta noite - adiantou. - O Lincolnshire vai ficar deslumbrado. Anda, minha querida, permite que te acompanhe. E levanta essa cabeça - acrescentou, pegando-lhe no braço. - Temos de defender a nossa reputação, não é verdade?

 

Saíram do salão de chá de braço dado. As cabeças dos poucos convivas que restavam voltaram-se à sua passagem.

 

- Parece-me que, durante muito tempo, não vão esquecer-se da viúva Cabot - murmurou, com um sorriso.

 

Helen também sorriu. Henry acompanhou-a até às escadas.

 

- Vens visitar-nos, antes da nossa partida? - perguntou ela, com ansiedade. - Vens ver a bebé?

 

- Nem penses em impedir-me de o fazer - garantiu Henry.

 

Estendeu o rosto para a beijar na face, mas Helen agarrou-lhe a cabeça e colou os seus lábios aos dele. À vista de todos os que se encontravam no átrio do Hotel de Pekin, trocaram um último e apaixonado beijo. Foi Helen quem tomou a iniciativa de lhe pôr termo, correndo depois escadas acima, tão depressa quanto o vestido lhe permitia. Mais tarde, os bisbilhoteiros não conseguiram chegar a um consenso quanto a determinar se ela ia a arfar ou a soluçar, quando desapareceu na curva das escadas.

 

Henry conseguira manter um sorriso no rosto até ela partir, mas, quando se virou, a sua face parecia a de um cadáver. Encaminhou-se lentamente para a saída, apoiado na bengala.

 

Não chamou logo um táxi. A coxear, desceu a Legation Street, em direcção ao canal. A noite caíra e o céu apresentava-se iluminado de estrelas cintilantes. Acendeu outro charuto e o fumo perdeu-se no ar frio. A dor na perna acentuou-se e acabou por chamar um riquexó.

 

Não reparou no mendigo que estivera sentado à esquina da Legação Japonesa, que se levantou depois de ele passar e, em passo de corrida, seguiu o riquexó.

 

Airton continuava acamado, a convalescer da ligeira febre que o atormentara. Algumas línguas mais afiadas pretenderam que havia algo de diplomático naquela constipação. Muitos dos seus colegas da comunidade missionária, por exemplo, teriam gostado de saber mais pormenores acerca do massacre de Shishan. Alguns dos jornalistas que desembarcaram em Pequim atrás das forças de libertação pressentiram ali uma história digna de ser contada. Havia ainda tantas perguntas sem resposta - e uma não menos importante tinha a ver com a forma espantosa como a família Airton escapara à chacina. A princípio, prevalecera alguma simpatia pelos sobreviventes de uma catástrofe de tamanha envergadura, especialmente em razão das privações por que os Airton haviam passado durante a fuga. O facto de o médico se manter silencioso, todavia, produziu o efeito inevitável, e, tempos depois, até mesmo velhos amigos, como os Gillespies, passaram a adoptar uma atitude reservada sempre que o caso de Shishan vinha à baila. Ninguém o dizia abertamente, mas o certo é que se instalou em muitos espíritos a convicção de que teria sido mais apropriado que o chefe de uma das missões de Deus se tivesse mantido no seu posto até ao fim, como o comandante de um navio que se afunda. Os missionários mais velhos abanavam as cabeças, bebendo o seu chá, e os jovens vigários, prestes a iniciar o trabalho nas missões, recebiam sermões acerca da força moral e do desinteresse que as suas tarefas exigiam, bem como da forma como deviam fugir às fraquezas humanas, sempre que confrontados com tentações ou contrariedades. Como era de esperar, os missionários americanos foram os que se aproveitaram das circunstâncias com maior ostentação. Uma das suas fundações protestantes produziu um edificante panfleto, tarjado a negro, profusamente ilustrado com imagens de mãos postas em oração, figuras ajoelhadas empunhando círios e não poucos anjos estendendo as suas mãos, por entre as nuvens, dando as boas-vindas aos eleitos. Tudo isto emoldurava a imagem central formada por daguerreótipos de Burton Fielding e de Septimus Millward. No texto os Airton não eram citados. Nem, tão-pouco, as freiras católicas.

 

Outra circunstância desfavorável residia no facto de os Airton terem na sua companhia uma viúva jovem, atraente e demasiado sossegada, Mrs. Cabot. Como esposa consternada de um dos mártires - Tom não fora missionário, mas era um cavalheiro, frequentara uma escola pública que incluía nas suas tradições uma boa dose de musculado cristianismo -, seria de esperar que Mrs. Cabot e a filha também merecessem alguma simpatia, se não mesmo algum reflexo do brilho do estatuto de mártires; no entanto, a igualmente imponderável questão de saber como conseguira sobreviver, aliada à amizade que aparentemente a ligava ao pouco recomendável Mr. Manners, constituía razão mais do que suficiente para não dar descanso às línguas mais respeitáveis.

 

Com efeito, havia algo de estranho naquele caso e, passado algum tempo, não obstante a inquestionável santidade ligada aos nomes de Millward e Fielding, tornou-se habitual, para quantos evocavam os mártires da loucura dos Boxers, centrar as suas atenções nos notoriamente mais nobres sofrimentos das vítimas em outros locais como Taiyuaafu e Baoding, onde não houvera sobreviventes embaraçosos - relegando Shishan, quando porventura mencionada, para uma posição subalterna.

 

Se Nellie e Helen se aperceberam destas mutações de opinião, não o demonstraram. Passaram os dez dias que lhes restavam em Pequim a fazer compras nos mercados da seda, empurrando um carrinho de bebé alugado através do parque do Templo do Sol, mostrando às crianças a Cidade Proibida, o Templo do Céu e todos os outros monumentos imperiais, que, sob a protecção de sentinelas postadas pelos exércitos aliados, haviam sido franqueados ao público - ou, pelo menos, a todos os civis europeus interessados em visitá-los.

 

As mais das vezes, Henry Manners fazia-lhes companhia, esforçando-se por caminhar a seu lado, apesar da sua perna estropiada. Um observador atento aperceber-se-ia de uma certa melancolia no seu semblante, salvo quando dirigia o olhar como muitas vezes fazia - para o carrinho de bebé, onde uma pequena Catherine, bem agasalhada, abria muito os olhos para contemplar o estranho mundo que desfilava sobre a sua cabeça. Nessas ocasiões, um lampejo afectuoso, quase terno, animava-lhe o rosto, para ser substituído, assim que desviava os olhos, por uma melancolia se possível ainda maior. George e Jenny corriam e brincavam, com a excitação de dois cachorrinhos libertados das trelas. Henry, por vezes, participava nos jogos das crianças, erguendo - não sem esforço - uma eufórica Jenny e colocando-a sobre os seus ombros largos, como certa vez fizera no agora desaparecido mundo de Shishan, ou vasculhando as algibeiras para entregar a George o presente do dia: um selo esculpido, uma pedra interessante e mesmo, uma vez, um azulejo com a forma duma cabeça de dragão. Parecia mais à vontade na companhia das crianças do que na das mulheres. Quando estas caminhavam a seu lado, enquanto as crianças corriam à frente, trocavam poucas palavras entre si. E os temas eram sempre banais: o tempo que fazia, a arquitectura dos monumentos que lhes suscitavam maior admiração, as visitas que tencionavam fazer nos dias seguintes. É certo que também não havia tensão nem animosidade naquelas conversas, mas o silêncio era mais reconfortante. Tudo o que havia a dizer já fora dito e eles sentiam-se aliviados por poderem caminhar, lado a lado, em moderada familiaridade, como velhos amigos.

 

Por vezes, regressados ao Hotel de Pekin, Henry tomava chá com elas, mas, em geral, pedia desculpa e partia para a sua casa no bairro chinês, onde Fan Yimei já lhe preparara um cachimbo de ópio. Quando ficava sozinho, no quarto, a sua expressão já não era de contida melancolia, mas sim de potente e agónico desespero.

 

Na véspera do dia em que elas iam partir - todas as compras estavam feitas, as malas arrumadas e os preparativos concluídos -, foram dar um passeio até aos lagos gelados do Hou-Hai. Enquanto as crianças patinavam, Nellie, Helen e Henry sentaram-se num banco e ficaram a contemplar as evoluções dos miúdos sobre o gelo. Discretamente, de modo a que Nellie não se apercebesse, Helen colocou a mão enluvada sobre a de Henry. Ele voltou-se surpreendido, e pôde ver as lágrimas que velavam os olhos verdes, embora a jovem tentasse sorrir. Como convinha, Henry endireitou a cabeça e olhou em frente. Mantiveram-se de mãos dadas até ao momento de se irem embora.

 

Quando regressaram ao Hotel de Pekin, Helen perguntou-lhe se podia acompanhá-lo até à sua casa.

 

- Só por uns minutos, o tempo suficiente para tomar um chá. Gostava de me despedir do Lao Zhao e da Fan Yimei. E de lhes agradecer - declarou.

 

Henry olhou interrogativamente para Nellie. Esta sorriu e beijou-o na face.

 

- Acho bem - aquiesceu. - Henry, as nossas despedidas ficam reservadas para amanhã, quando for ter connosco à estação.

 

- Não me demoro, Nellie - prometeu Helen.

 

- Demore o tempo que quiser - replicou a mulher do médico, encaminhando as crianças para dentro do hotel.

 

Henry mandou parar um riquexó. Sentaram-se, muito juntos, no assento estreito e cobriram-se com uma manta, para se protegerem do frio. Quando chegaram ao empedrado deficiente da Grande Rua Oriental, o riquexó balouçou e Helen foi atirada contra o peito de Henry. Ele passou-lhe a mão por trás das costas, para a manter firme, e assim se deixou ficar. A jovem encostou a cabeça no seu peito e este beijou-lhe a testa. Ela ergueu o rosto e fitou-o. Tinha a boca entreaberta e nos olhos uma expressão terna e expectante. Ele beijou-a, primeiro docemente, e depois com ardor, e ela respondeu de igual modo. Passaram sob as ruínas do Portão do Hatamen enlaçados com a energia do desespero.

 

Sob a manta, a mão de Henry deslizou pelo interior do casaco de peles de Helen. Passou-lhe os dedos pela cintura e fê-los subir, por dentro da blusa, até lhe apertar um seio. A mão dela achava-se dentro da camisa de Henry, acariciando-lhe o peito. Os lábios de ambos estavam ardentes e as línguas entrelaçadas. Não se davam conta dos olhares divertidos dos transeuntes nas ruas apinhadas, comprimindo-se para, com a costumeira curiosidade, observar o que se passava dentro do riquexó. O cule que puxava o carrinho começou a dirigir imprecações a uma carroça que lhe barrava o caminho. Langorosamente, Helen pousou a cabeça no peito de Henry.

 

- É uma loucura - sussurrou. - Não vai alterar seja o que for...

 

A sua mão, no entanto, continuou a acariciar o torso de Henry. Soltou um suspiro, quando sentiu os dedos dele apertarem-lhe o mamilo. Voltaram a beijar-se.

 

Chegaram ao portão da casa de Henry e este pagou ao cule, que se afastou, em passo de corrida. Helen abriu um largo sorriso.

 

- E agora, gentil senhor, que planos tem para esta pobre e jovem viúva que voltou a deixar-se seduzir por si? - murmurou, passando-lhe os braços à volta do pescoço.

 

Henry beijou-a na testa, no pescoço e nos lábios. Ficaram abraçados na rua deserta. Ele acabou por lhe pegar na mão e puxá-la para dentro. Fazendo-se arisca, ela resistiu, soltando uma gargalhada. De súbito, Henry estacou, quando se preparava para abrir a porta.

 

- É estranho - disse. - Deixaram o portão aberto. Ela soltou uma gargalhada, roçando-se contra ele.

 

- Talvez tenham adivinhado que estávamos a chegar murmurou.

 

O átrio estava deserto.

 

- Onde se meteram eles? - resmungou Henry, fechando a porta de madeira, que rangeu nos gonzos.

 

- Não os chames. Por enquanto, não - sussurrou Helen, correndo os dedos pelo braço dele. Pegou-lhe no queixo e forçou-o a aproximar a boca da sua. Voltaram a enlaçar-se ternamente, enquanto os seus corpos roçavam um pelo outro. Henry, contudo, embora delicadamente, afastou-se da jovem.

 

- Não, há qualquer coisa que não bate certo. O Lao Zhao devia estar aqui - e o seu rosto mostrava uma viva preocupação. - Devia estar ali na cozinha, a preparar o chá. É o que faz sempre, a estas horas.

 

Helen observou-o coxeando até à cozinha e espreitando lá para dentro. A princípio impaciente, alarmou-se quando ele regressou com uma expressão grave. Henry atravessou o pátio até chegar junto das janelas do quarto que ficava na perpendicular do vestíbulo principal.

 

- A Fan Yimei também não está aqui - anunciou. Vem. melhor é esperares na sala de estar, enquanto dou uma vista de olhos pelo resto da casa.

 

De braço dado, subiram os três degraus que conduziam ao vestíbulo principal, dividido por forma a acolher, de um lado, a sala de estar e, do outro, o quarto de Henry.

 

- Ao menos, deixaram as lâmpadas acesas - comentou ele, depois de abrir a porta para que Helen entrasse.

 

Foi então que reparou que Helen estava, muito hirta, no vão da porta, a olhar fixamente para o interior do aposento.

 

O corpo tremia-lhe e a expressão dos seus olhos arregalados denotava extremo assombro.

 

No mesmo momento, ouvia uma voz que lhe era familiar:

 

- Creio que seria melhor que entrasse também, Ma Na Si. Devagar, atrás da mulher-raposa.

 

Por sobre o ombro de Helen, Henry espreitou para dentro da sala. O major Lin - era ele, sem qualquer dúvida, embora estivesse vestido com andrajos - encontrava-se reclinado na sua cadeira de braços. Mostrava-se descontraído e tinha razão para tanto, uma vez que empunhava uma pistola Luger, cujo cano estava apontado às suas cabeças.

 

- Por favor, Ma Na Si, entre e sente-se no sofá, com as mãos bem à vista. E você também - acrescentou, virando o cano da arma para Helen.

 

- Não tenhas medo. Não deixarei que ele te faça mal sussurrou Henry, passando os lábios pelo cabelo de Helen.

 

A jovem acenou com a cabeça e, com nervosismo, entrou na sala; Henry fez o mesmo, sem lhe largar o braço. Sempre de olhos postos em Lin, dirigiram-se para o sofá que o outro indicava. Em outro sofá, em frente, encontravam-se Lao Zhao e Fan Yimei, a quem, até então, Lin apontara a pistola. Lao Zhao parecia furioso e truculento; com o dedo, apontou para a arma de Lin e encolheu os ombros, num gesto de impotência, como quem diz: «Que podia eu fazer?» Henry, contudo, olhava para Fan Yimei, que tinha o rosto inchado e a sangrar; com uma das mãos apertava um ombro, que lhe parecia estar a provocar grandes dores. Lin observava-o atentamente, com um sorriso irónico nos lábios.

 

Fan Yimei apercebeu-se do ódio que ardia nos olhos de Henry.

 

- Não, Ma Na Si - apressou-se a dizer. - Por favor, não faça nada. Não estou ferida. Por favor, Ma Na Si, mantenha a calma. Lembre-se da sabedoria da noite...

 

- A sabedoria da noite? - comentou Lin, franzindo as sobrancelhas. - Esta minha prostituta tem um grande dom para a poesia, não acha? Foi por isso que ma roubou, Ma Na Si? Ou foi para compensar a sua prostituta que eu violei? Vejo que a mulher-raposa ainda se lembra. Não tira os olhos de mim.

 

Henry apertou a mão de Helen.

 

- Não ligues ao que ele diz - murmurou. - Está a querer assustar-te, mas não vai fazer-te mal. Não foi o que me disseste? Ele não pode fazer-te mal porque não existe.

 

- Que está a dizer-lhe, Ma Na Si? Quer saber com quem ela gozou mais? Se consigo, se comigo, quando estivemos ambos entre as suas coxas estreitas? Oh, sim, se agitou, quando me pus em cima dela. Mas você estava lá e pôde ver. Gostaria que eu voltasse a dar-lhe outra vez?

 

- Julgava que você gostava mais de levar do que de dar, major - retorquiu Henry, em voz contida. - Pelo menos, foi o que me contou o coronel Taro.

 

O sorriso de Lin esfumou-se. Por instantes, os seus olhos cuspiram veneno; no entanto, quando voltou a falar, o sorriso frio regressara-lhe ao rosto.

 

- É muito corajoso, Ma Na Si. É o que mais admiro em si. Partilhamos algo em comum, você e eu, além das nossas mulheres. Mas não falemos mais das prostitutas. Fartei-me delas. Não são importantes. Dou-lhas. Ambas. Não é o momento oportuno para vinganças mesquinhas.

 

- Julgava que fora a vingança que o trouxera até aqui, major.

 

- Está muito enganado. Vim até cá porque tem em seu poder algo que me pertence.

 

- A Fan Yimei não pertence a nenhum de nós, major ripostou Henry.

 

- Já lhe disse que as prostitutas deixaram de me interessar. Mesmo essa. É certo que aproveitei o ensejo, há pouco, enquanto esperava por si, para a punir pela sua ingratidão. Também ela vai lembrar-se de mim.

 

- Sabe, major, apercebi-me de uma coisa em si - comentou Henry. - É muito pretensioso... Como o seu velho mestre, o mandarim, que você assassinou.

 

- Julga que basta provocar-me para que eu me distraia? Não vou cair numa armadilha tão pueril, Ma Na Si. Se me forçar a isso servir-me-ei da pistola, mas não contra si. Contra um dos outros. Seria melhor que tratássemos do nosso negócio, sem perder tempo com futilidades.

 

- Só tenho um negócio a tratar consigo e prefiro tratar dele lá fora, cara a cara.

 

- Por favor, Ma Na Si, poupe-me a essas tiradas. Vim cá por causa das armas. Se me revelar onde se encontram, partirei de imediato. Havia um contrato e recebeu o pagamento. Agora, resta-lhe dizer onde escondeu as armas. Se eu ficar satisfeito, vou-me embora. Está a ver? Nem sequer lhe peço que devolva o ouro do mandarim que roubou sem honrar a. sua parte do contrato.

 

- O contrato que fiz foi com o mandarim.

 

- Engana-se. Fez um contrato com a China. As armas pertencem à China. Agora que o mandarim já não é deste mundo, agirei como seu representante, tal como ele o fez para com a China.

 

- Não há dúvida de que é mesmo pretensioso. Então, ainda não deu conta de que a China acaba de sofrer uma pesada derrota?

 

- A corte e as forças da superstição é que foram derrotadas. Essas armas vão servir para erguer uma nova China, depois da partida das tropas estrangeiras. Uma China melhor.

 

Henry esteve prestes a responder com sarcasmo, mas notou que os olhos doces de Fan Yimei lhe pediam que não o fizesse. Contemplou depois Helen, muito hirta, a seu lado, olhando fixamente o major Lin, com a boca aberta, como um coelho hipnotizado por uma cobra.

 

- Disse que se iria embora, se eu cumprisse a minha parte do contrato?

 

- Se me contar a verdade e ela me satisfizer, como deve acontecer entre cavalheiros.

 

Os olhos frios de Lin não deixavam transparecer qualquer emoção.

 

- E se vier a descobrir que o enganei?

 

- Então, ficaria muito desapontado por verificar que você, Ma Na Si, não é um cavalheiro. Voltaria para me vingar de si, mas, primeiro, das suas prostitutas. Não será capaz de encontrar refúgio contra mim, nem para si, nem para elas, por muito que tente.

 

- Está bem. Concordo. - disse Henry.

 

- É outro dos seus truques?

 

- Não. Vou dar-lhe o mapa em que o esconderijo das armas está claramente assinalado. Encontra-se na escrivaninha, por trás de si, no fundo duma gaveta fechada à chave. A chave está ali. Porque não se levanta e a vai buscar?

 

Lin sorriu.

 

- Porque, logo que virasse as costas, você iria fazer qualquer coisa estúpida. Não, vá você buscar o mapa. - Virou o cano da pistola para Helen e continuou: - Se suspeitar de alguma velhacaria da sua parte, acerto entre os olhos da sua prostituta.

 

Mantendo o cano da Luger apontado para Helen, pôs-se em pé de um salto, com surpreendente agilidade. Recuou lentamente até se postar num local de onde podia observar tanto a escrivaninha como os seus reféns.

 

- Agora - disse a Henry -, vá buscar o mapa, se é que ele se encontra ali.

 

Henry apertou a mão de Helen uma última vez.

 

- Vai tudo correr bem - disse-lhe. - Mantém a calma. Ele não pode fazer-te mal. - Quando ela assentiu com a cabeça, ainda acrescentou: - Boa menina, assim é que é.

 

Pegou na bengala e pôs-se em pé. Devagar, coxeou até à escrivaninha e levantou o tampo de correr. Abriu uma gaveta, à esquerda, e dela tirou uma pequena chave, deixando a gaveta aberta. Inclinando-se para a frente, inseriu a chave numa fechadura à direita e deu-lhe duas voltas. A gaveta abriu-se; era muito comprida, prolongando-se até ao fundo da escrivaninha. Meteu o braço dentro dela, como se procurasse encontrar algo no interior. Lentamente, retirou um rolo de tela, atado com uma fita. Enquanto Lin o observava, desconfiado, desdobrou a tela. Era, com efeito, um mapa, que estendeu sobre a frente da secretária.

 

- Venha ver - disse. - O lugar está assinalado com um X.

 

Lin hesitou.

 

- Quer que o leve até aí? - perguntou Henry. - Era-me mais fácil mostrar-lho aqui.

 

- Nada de truques - avisou Lin, avançando na direcção de Henry, sem deixar de apontar a Luger a Helen.

 

- Aqui, onde tenho o dedo - explicou Henry. - Vê onde a linha férrea bifurca para Mukden? É um pouco à esquerda. Pode ver as curvas que assinalam as colinas. Há aqui um desfiladeiro com uma caverna...

 

Enquanto Henry falava, Lin baixou a cabeça para ver melhor. Quando o fez, Henry enfiou rapidamente a mão na primeira gaveta que abrira e tirou dela um revólver de ordenança. Com um gesto igualmente fulgurante, engatilhou a arma e encostou o cano à cabeça de Lin. Este ficou hirto, mas o cano da sua Luger continuou apontado à cabeça de Helen. Durante longos momentos, ninguém se mexeu. Por fim, um sorriso arreganhou os lábios crispados do major.

 

- Foi muito esperto, Ma Na Si. Enganou-me, mostrando-me o mapa autêntico. É o autêntico, não é? Claro que sim. E agora, que vai acontecer? Mato a mulher-raposa e você mata-me? Ou pomos termo a este impasse de outra forma?

 

- Dou-lhe três segundos para largar a pistola - sibilou Henry, com os olhos a lançar chispas de ódio.

 

- E se eu matar a sua dama, primeiro?

 

- Vou correr esse risco - replicou Henry. - Vou disparar, dentro de três segundos. Um... Dois...

 

Com uma estranha gargalhada, Lin atirou a Luger para o chão. Lao Zhao deu um salto e apanhou-a na queda. Com um urro de raiva longamente reprimida, Henry bateu com a coronha do seu revólver no rosto de Lin. O major cambaleou para trás e Henry voltou a golpeá-lo. Com o sangue a escorrer-lhe do nariz partido, Lin vacilou e caiu de joelhos. Levado pela cólera, Henry continuou a bater-lhe com a arma até o chinês tombar no chão. Henry ajoelhou-se a seu lado e, agarrando-o pelo cabelo, ergueu-lhe a cabeça e enfiou-lhe o cano do revólver na boca.

 

- Henry! - O grito de Helen chegou-lhe de longe, de muito longe. - Henry, pára. Basta!

 

Sentiu os braços dela a puxar-lhe os ombros. Esgazeado, virou a cabeça e viu os rostos suplicantes de Helen e de Fan Yimei. Com um rugido, atirou o revólver para longe. Aturdido, permitiu que as duas mulheres o ajudassem a pôr-se em pé. Avançou, a cambalear, e deixou-se cair na poltrona, ofegante, exausto. Helen ajoelhou-se à sua frente e encostou a cabeça dele ao seu peito, enquanto lhe rolavam lágrimas pela face.

 

- Acabou! Acabou, Henry, acabou! - repetiu.

 

Pouco depois, ele acenou afirmativamente e olhou para Lin, que gemia, estendido no solo. Lao Zhao mantinha-se ao lado dele, com a Luger apontada à cabeça do major.

 

- Fan Yimei, pega no mapa - murmurou Henry. Dá-lho. E diz-lhe que se vá embora e que não volte a pôr os pés aqui.

 

Encostou a cabeça no espaldar da poltrona e fechou os olhos. Helen beijou-o no rosto e nos lábios.

 

- Não pode consentir que ele fuja assim, Ma Na Si protestou Lao Zhao. - Deixe-me levá-lo até ao poço. Não, o afogamento não é bastante. Deixe-me bater-lhe mais, primeiro; depois, então sim, que morra afogado...

 

- Não, Lao Zhao - retorquiu Henry, esboçando um sorriso. - Dá-lhe o mapa. Agora acabou. Acabou de vez.

 

A resmungar, Lao Zhao levantou o homem prostrado aos seus pés. Lin cambaleou, com uma das mãos a agarrar o queixo fracturado. Na outra segurava o mapa. Lao Zhao, a pontapé, empurrou-o para a frente. O major avançou, cambaleante, com os andrajos a arrastar pelo chão.

 

Fan Yimei estava em pé, junto ao sofá, de olhos baixos. Quando passou por ela, Lin fez uma pausa. Não era sequer capaz de arreganhar os dentes, mas ainda conseguiu cuspir-lhe na cara, mais sangue do que saliva.

 

- Puta! - rosnou.

 

Lao Zhao ergueu a pistola.

 

- Não me tentes! - berrou. - Desaparece, saco de mijo de sapo!

 

Chegado à porta, Lin parou por um momento e percorreu a sala com os olhos. Quando fitou Manners, ergueu o mapa.

 

- A China agradece-lhe - disse, com alguma dificuldade, por entre os dentes partidos. - Dou-lhe aquela puta concluiu, apontando para Fan Yimei.

 

Viram a sua mão mergulhar nos farrapos da camisa; extraiu do interior algo que atirou logo de seguida. Desapareceu na noite.

 

Tudo aconteceu tão repentinamente que, a princípio, não se aperceberam da razão por que Fan Yimei cambaleava. Parecia estar a observar, com curiosidade, um objecto que lhe saía do peito. Com um gemido fraco, caiu de joelhos.

 

- Ta made! - gritou Lao Zhao. - Ele atirou-lhe uma faca!

 

E precipitou-se para a porta, em perseguição do major.

 

Henry e Helen correram para Fan Yimei e seguraram-lhe nos braços. A rapariga tossia, fracamente. O sangue escorria-lhe pelo queixo. Com ar perplexo, olhou para os dois rostos angustiados, junto do seu. Com todo o cuidado, deitaram-na no chão e Henry foi buscar uma almofada, que lhe colocou sob a cabeça.

 

- Helen, podes fazer alguma coisa? - murmurou ele. Quando estiveste com o médico, aprendeste a...

 

Em silêncio, Helen abanou a cabeça. Fan Yimei ergueu a mão para tocar na face de Henry, mas o esforço foi demasiado. Deixou cair o braço e começou a tossir, cada vez com maior dificuldade. Passados alguns momentos, os seus olhos tristes procuraram os de Henry.

 

- Ma Na Si... - balbuciou, e teve ainda forças para esboçar um sorriso, ao proferir aquele nome.

 

O rosto contraiu-se-lhe num esgar de dor. Estava a fazer um tremendo esforço.

 

- Ma Na Si, promete-me...

 

- Sim - disse Henry, com voz entrecortada. - Tudo o que quiseres...

 

- Ma Na Si... Promete... Promete... que vai perdoar ao Lin tudo? Não vai... não vai... procurar vingar-se?

 

As últimas palavras soaram como um suspiro.

 

- Que está ela a dizer? Que está ela a dizer? - perguntava Helen, angustiada,

 

- Pede-me que lhe prometa que não tentarei vingar-me do major Lin - explicou Henry, com voz grave.

 

Fan Yimei já não podia falar, mas os seus olhos continuavam a implorar uma resposta.

 

- Promete-lhe, Henry! - exclamou Helen em tom estridente e com os olhos muito abertos. - Pelo amor de Deus, se me amas, por tudo aquilo que eu significo para ti, promete-lhe, Henry!

 

Henry fitou-a com um olhar esgazeado. Desesperado, voltou-se para Fan Yimei, cuja boca ainda se mexia, se bem que já não pudesse articular palavra. Pegou-lhe nas mãos. Com as lágrimas correndo-lhe pelo rosto, disse-lhe:

 

- Prometo! Prometo! Fan Yimei sorriu. Os músculos da face, até então contraídos, relaxaram-se. Os seus olhos fixaram-se no rosto de Henry, percorrendo-o como para obter uma última visão que pudesse guardar consigo até à eternidade. As doces íris castanhas examinaram-lhe a testa, o nariz e os lábios, subindo depois até aos olhos. Então, deixaram de se mover e ficaram fixas, perdendo lentamente o brilho e tornando-se vítreas.

 

Lao Zhao entrou, silenciosamente. Apercebeu-se do que se passava, quando viu as duas figuras cabisbaixas ajoelhadas ao lado do corpo de Fan Yimei.

 

- Perdi-lhe o rasto! - resmungou. - Perdi-lhe o rasto nas ruelas...

 

E atirou a Luger para o chão.

 

- Henry - gemeu Helen. - Não posso mais. Não posso mais, acredita... Quero ir para casa!

 

As despedidas foram um tanto precipitadas. Os Airton chegaram tarde à estação. Depois houve grande azáfama para colocar toda a bagagem no comboio. A locomotiva resfolegava e o chefe da estação já fizera soar o apito.

 

O médico e Henry trocaram um aperto de mão. Airton ainda se sentia pouco à vontade, quando se fitavam olhos nos olhos, e engasgou-se, ao dizer-lhe:

 

- Mister Manners, não sei como... ainda não...

 

- Não precisa de dizer nada, doutor - atalhou Henry.

- despedimo-nos como amigos e não se preocupe porque voltará a ver-me. Um dia, virei beber um copo do seu uísque e o senhor contar-me-á tudo sobre a sua valente Escócia.

 

Nellie, incapaz de reter as lágrimas, abraçou-o.

 

- Então, irá visitar-nos em Shishan? - perguntou.

 

- Estão decididos a regressar? - foi a vez de Henry inquirir.

 

- Sim, havemos de voltar - afirmou ela. Tem de haver alguém para reparar os estragos. Lá estarei à sua espera - acrescentou, já subia para a carruagem.

 

Henry deu os últimos presentes às crianças.

 

- São papagaios chineses. Quero que pensem em mim, quando os lançarem ao ar, no alto do castelo de Edimburgo.

 

- Que bom, é um dragão! - exclamou George.

 

- E o meu é uma águia. Obrigada, Mister Manners. - AgradeceuJenny, já mais crescida, procurando mostrar-se bem educada.

 

Beijou Catherine e ficou a ver a amah levá-la para o interior da carruagem. Deu-se conta de que ficara a sós no cais com Helen.

 

- Sentes-te bem? - perguntou ele, docemente.

 

- Julguei que já nada poderia voltar a fazer-me mal respondeu a jovem. - Enganei-me. Porquê, Henry? Porquê ela? Era tão bondosa...

 

- O Pritchett disse-me que vai participar à polícia militar, mas não servirá de nada. Não o encontrarão.

 

- Lembra-te da tua promessa - pediu Helen.

 

- Não a esquecerei.

 

- Deves-lhe isso, sabes?

 

- Devo-lhe muito mais do que isso.

 

- É pasmoso... - acrescentou ela. - Aqui estamos nós, a despedir-nos, e só conseguimos é pensar noutra mulher.

 

- Vais escrever-me? - perguntou ele. - Manda as cartas ao cuidado do meu clube.

 

- Queres que te escreva?

 

- Quero, para ter notícias da Catherine. E, claro, para saber de ti, de como vives.

 

- Não vai haver muito a dizer. Tenciono não fazer nada, durante muito tempo.

 

- Não sei porquê, mas não acredito.

 

- E tu, Henry? Que vais fazer?

 

- Hei-de encontrar alguma coisa. Sempre consegui distrair-me, seja como for.

 

- Oh, Henry! - sussurrou ela.

 

O chefe da estação fez soar novamente o apito.

 

- Adeus, Helen Francês - despediu-se ele, beijando-lhe a face. - Vou-me embora. Não quero ficar até ao último momento.

 

E, num movimento brusco, virou-se e começou a afastar-se ao longo do cais, a coxear mas de costas bem direitas. O maquinista puxou a alavanca para libertar o vapor das válvulas do cilindro, e Henry tornou-se imaterial, acabando por desaparecer por completo, envolto numa nuvem de fumo.

 

REBENTOS VERDES IRROMPEM DO SOLO FÉRTIL E HÚMIDO. A MINHA MULHER RESMUNGA, MAS UM DIA CONTAREI AO MEU FILHO OS FEITOS CORAJOSOS DO PAI

 

10 de Abril de 1902

 

O comboio estava prestes a chegar à estação e Arthur Topps pôs a cabeça de fora da janela, para, febrilmente, colher as primeiras impressões do seu novo posto de trabalho. O grande dístico por cima da plataforma de madeira dizia «Shishan» em três línguas: russo, inglês e chinês. As tábuas da cerca, recentemente pintadas de branco, os canteiros floridos e os rostos sorridentes dos bagageiros fizeram-lhe lembrar uma estação rural do Lancashire onde nascera. Pôde ver um grande pássaro entre os narcisos. Seria um picanço? Teria gostado de consultar, ali e então, o belo livro ilustrado acerca de aves, que havia comprado em Liulichang, durante um passeio para compras na companhia dos Dawson, mas tinha-o arrumado no fundo da mala.

 

Arthur só trazia consigo aquela mala; o resto da bagagem fora expedido antecipadamente. O chefe da estação, um russo de barba negra, chamou os bagageiros e estes colocaram a mala num carrinho de mão. Enquanto, ao lado de Arthur, percorria o cais, perguntou-lhe, num inglês imperfeito, como decorrera a viagem.

 

- Comboio adiantado - comentou, mostrando a Arthur o seu relógio de algibeira. - Esperar em meu gabinete. Tenho samovar - ofereceu. - Beber boa chávena chá. Mister Brown chegar breve.

 

- Mister Brown? - perguntou Arthur, um tanto perplexo. - Estava à espera de um tal Mister Lu, o nosso sócio.

 

- Venha. Tenho samovar! - repetiu o chefe de estação. Alegremente, deu-lhe uma palmada nas costas.

 

Nesse instante, surgiram duas silhuetas que caminhavam apressadamente, ao longo do cais, na sua direcção. Um jovem inglês de cabelos louros e ondulados e bigode quase imperceptível perguntou:

 

- Mister Topps? Eu sou Brown. Peço desculpa por chegarmos atrasados.

 

Por trás dele, Arthur viu um chinês de ar muito sério, elegantemente vestido com uma túnica cinzenta de mercador e um colete de seda negra. Quando chegou junto dele, curvou-se.

 

- Tuopasi Xiansheng - disse, em tom formal. - Jiu yang. Jiu yang. Seja bem-vindo a Shishan. Sou Lu Jincai e tenho a honra de trabalhar, há muitos anos, para a vossa estimada companhia.

 

- Mister Lu? Claro! - exclamou Arthur, tentando recordar-se da resposta adequada. - Eu... eu é que devia dizer-lhe Jiu yang, Mister Lu. O que fez em prol da Babbit e Brenner, nestes dois últimos anos foi muito apreciado pelos directores, em Londres. O senhor é... bom, é famoso - acrescentou, um tanto perturbado.

 

O homem que dissera chamar-se Brown soltou uma gargalhada.

 

- Ora, ora, Mister Topps, vai ter muito tempo para isso, mais tarde. Para já, tratemos de colocar a sua mala na carroça. Infelizmente, aqui não há carros mais elegantes. Falaremos, durante a viagem até à cidade. E eu deveria apresentar-me. Trabalho com o doutor Airton na missão hospitalar.

 

Pouco depois, a carroça puxada por um pónei transportava-os colina acima. Arthur contemplou a paisagem deslumbrante: a pequena estação e a vasta planície, o rio e o comboio que atravessava agora uma ponte impressionante. A via-férrea brilhava ao sol até desaparecer no horizonte, a norte, sob o céu azul.

 

- Ah, vejo que está a admirar o grande orgulho dos Russos: a Ponte Nicolau - comentou Brown, acendendo o cachimbo. - Na verdade, limitaram-se a concluí-la. Foram os Ingleses que começaram a construí-la. Melhor dizendo, um alemão. Pobre homem, foi uma das vítimas dos Boxers. Antes de eu cá chegar.

 

- Ah, sim, ouvi falar disso - replicou Arthur. - Perdemos dois dos nossos homens no massacre. Para ser exacto, venho substituí-los, agora que Mister Lu conseguiu reactivar os nossos negócios.

 

E sorriu para o cavalheiro chinês que conduzia a carroça.

 

- Refere-se a Delamere e Cabot, não é assim? - perguntou Brown. - O Airton não gosta de falar desses tempos. Para ser franco, toda a gente daqui prefere esquecer o que se passou. Até mesmo a Nellie, quero dizer, Mistress Airton, que o senhor vai conhecer, em breve, até mesmo a Nellie prefere ficar calada, quando o assunto vem à baila. Não foi a mulher do Cabot que deu à luz um bebé na Mongólia ou lá onde foi?

 

- Foi, sim - respondeu Arthur. - Encontrei-me com ela, na Inglaterra, antes de partir. Ah, já me esquecia - exclamou, virando-se para Mr. Lu, que olhava em frente, enquanto os dois ingleses falavam na sua língua.

 

Arthur acrescentou, agora em chinês:

 

- Mistress Cabot pediu-me que lhe apresentasse os seus cumprimentos. E insistiu para que o fizesse o mais cordial e amistosamente possível.

 

Lu sorriu.

 

- A mulher-raposa - disse. - Lembro-me bem dela. O pai era um grande homem e um bom amigo. O De Falang tinha muito na formosa filha e muito feliz quando ela veio para Shishan. Muitas vezes penso nela e no que fará agora.

 

- Bom, continua muito formosa - assegurou Arthur. Na verdade, encantadora, e a filha é adorável. Quando me encontrei com ela, estava prestes a casar-se de novo.

 

- Ah, sim? - sorriu Lu. - Com o Ma Na Si Xiansheng, talvez.

 

Arthur olhou-o, intrigado.

 

- Não, Mister Lu, com um tal Mister Belvedere. Ele trabalha numa companhia de seguros, na City. No entanto, antes de eu embarcar, ouvi dizer que tudo acabara. Parece que isso causou até um certo escândalo. Seja como for, o certo é que ela estava a fazer as malas para partir de férias, creio que para o Japão.

 

Lu Jincai assentiu em silêncio. Voltou a sorrir e fez estalar as rédeas para ultrapassar um socalco.

 

- Ah, então, é bem possível que, afinal de contas, vá encontrar-se com o Ma Na Si - comentou, e a sua voz denotava a satisfação que sentia.

 

- Se o senhor o diz, Mister Lu - admitiu Topps, cada vez mais intrigado.

 

- Não faça caso - interveio Brown, em voz baixa. Ele está a falar dum sujeito chamado Manners, amigo dos Airton. Há cerca de três meses, veio até cá, numa viagem de caça. Ficou alguns dias. É um sujeito estranho, muito senhor de si. Para dizer a verdade, não gostei dele. Também viveu aqui, antes e durante a loucura dos Boxers. Corriam... Como hei-de dizer? Corriam boatos de que ele e Mistress Cabot... Claro que não passa de um disparate, mas os Chineses acreditam que algo aconteceu entre eles. Vai ver que esta gente, embora muito simpática, se deleita com coscuvilhices. Estão sempre a ver tudo pelo lado errado do óculo. Se fosse a si, não daria grande importância a esses boatos. E, pelo amor de Deus, não fale do assunto aos Airton. Ficariam muito chocados, garanto-lhe.

 

- Não, claro que não farei tal coisa - assegurou Arthur, parecendo um tanto alarmado.

 

Continuaram a viagem em silêncio, durante algum tempo. Os salgueiros, de cada lado da estrada, agitavam as folhas verdes dos seus longos ramos.

 

- Há quanto tempo está em Shishan, Mister Brown? perguntou Arthur, por fim.

 

- Doutor Brown, na realidade, missionário médico e pastor, mas pode tratar-me só por Brown. Tenho a certeza de que vamos ser amigos. Estou aqui há pouco menos de um ano. Cheguei em Junho de mil novecentos e um, dois meses antes de os Airton regressarem das férias em Inglaterra. A nossa organização entendeu que eles iam necessitar de alguém que os ajudasse a reconstruir a missão. Um par de braços mais novos, compreende. Não podemos esquecer a terrível odisseia por que passaram.

 

- E havia muito que reconstruir? - quis saber Arthur.

 

- Sim, muito. Estava tudo em ruínas. A missão e o hospital encontravam-se reduzidos a cinzas e a situação era tensa, com todos aqueles soldados russos na região. Houve execuções e os pobres chineses, que, na sua maioria, nada tinham a ver com os Boxers, temiam pelas próprias vidas. O que podia esperar-se de cossacos brutais, autorizados a fazer o que bem entendessem? A seus olhos, qualquer chinês pertencera aos Boxers, e os Russos só pensavam em pilhagens. Foi uma autêntica vergonha, uma daquelas ocasiões em que nós, os brancos, não demos o bom exemplo. - Passou a falar em chinês, acrescentando: - Mister Lu, estamos a recordar o período que se seguiu aos Boxers, quando eu cheguei a Shishan. Os Russos não lhe causaram problemas, a si também?

 

- Não foram dias felizes - retorquiu Lu. - É melhor não falar deles.

 

- Os cossacos entraram em casa do Lu - prosseguiu Brown, de novo em inglês. - Ele não gosta de recordar o que fizeram. Executaram, ou melhor, assassinaram, um dos seus melhores amigos, outro mercador, chamado Jin, embora fosse inocente. Oh, sim, vai ouvir muitas histórias semelhantes, nas redondezas.

 

- O que os Boxers fizeram é imperdoável - observou Arthur. - Depois do massacre, era imperativo que se fizesse justiça.

 

- Com certeza - ripostou Brown. - Mas, quem punir? Ao que parece, apanharam alguns dos chefes. Dias depois de eu chegar, executaram um notório malfeitor na praça pública, um bandido que dava pelo estranho nome de Homem de Ferro Wang, capturado após uma grande batalha nas montanhas. Meteram o corpo dentro duma gaiola dependurada numa das portas da cidade, e ali o deixaram a apodrecer, durante meses. Parece que, na verdade, esteve envolvido nas atrocidades; os próprios chineses o afirmavam. Mas os outros? Quem era boxerí Compreende, ninguém, naquela altura, confessaria ter feito parte da revolta. Na sua maioria, os Boxers eram jovens camponeses. Emergiram dos campos e, agora, voltaram a desaparecer nos campos. Claro que, actualmente, é de bom-tom ser-se cristão. - E soltou uma gargalhada.

 

- Ah, sim? - disse Arthur, surpreendido.

 

- Não, estou a exagerar - sorriu Brown. - No entanto, foi reconfortante ver o crescente número de conversões, nos últimos meses. Para dizer a verdade, dão-me muito que fazer, embora seja ajudado por alguns bons pastores laicos chineses, formados por mim. Tem de vir ao nosso próximo serviço religioso. Foi construída uma nova igreja, no local em que outrora residiram os Airton. Claro que os católicos se encontram aqui em força. Estão a tornar-se numa séria ameaça, com muitos seguidores. Ocuparam um orfanato, anteriormente dirigido pelos americanos que foram mortos no massacre. O doutor Airton vai lá muitas vezes, para prestar assistência médica.

 

- Ouvi falar do doutor Airton, quando estive em Pequim - adiantou Arthur, com prudência.

 

- O mais certo é ter ouvido uma série de disparates riu-se Brown. - Oh, sim, conheço essas histórias, mas não passam de mentiras mal intencionadas. Aprendi a conhecê-lo, durante o ano que passou, e posso garantir-lhe que não há homem mais corajoso e decente ao cimo da terra. É uma espécie de santo, à sua maneira. Não lhe interessa a religião de quem vem consultá-lo. Não se envolve muito no labor missionário propriamente dito. Na verdade, delegou essa tarefa em mim. Concentra-se apenas naquilo que sabe fazer melhor, ou seja, em curar gente. E digo-lhe outra coisa: vêm mais pessoas fazer-me perguntas acerca de Jesus, depois de serem curadas por ele, do que as que eu consigo converter por minha própria iniciativa. É tremendamente modesto, desinteressado, esbanja o seu tempo a favor dos outros, só vive para os seus doentes e algumas das curas que consegue... Bom, se eu não dispusesse das bases científicas necessárias para compreender como as obteve, pensaria que eram miraculosas.

 

- Parece-me um homem maravilhoso - comentou Arthur.

 

- Oh, sim, pode dizê-lo! - continuou Brown. - E um santo, um santo vivo, como já disse. Não há nele qualquer réstia do azedume que seria de esperar, considerando que estava aqui durante o massacre, e que viu matar muitos dos seus amigos. Dir-se-ia que nada disso aconteceu, ao ver como trata toda a gente, seja quem for, de igual maneira. No nosso hospital há um homem, Zhang Erhao, que presta serviço como ajudante, na administração. Não restam dúvidas de que foi boxer, e, segundo todos afirmam, traiu os Airton. Pois bem, esse homem, quando os Airton regressaram, apareceu-lhes, a rastejar, lacrimejante, e disse-lhes que agora era cristão. Airton fê-lo levantar-se, com lágrimas nos próprios olhos, e deu-lhe de novo o antigo posto. Ah, sim, o Airton é um santo. Os católicos não dispõem de ninguém como ele. É verdade acrescentou, com inquietação: - Você não é católico romano, pois não?

 

- Não, sou anglicano - respondeu Arthur.

 

- Que alívio! - riu-se Brown. - Por momentos, julguei que tinha metido o pé na argola. Não que tenha alguma coisa contra os católicos, claro, mas é bom poder contar com um colega da mesma equipa.

 

- Terei o maior prazer em ser-lhe útil - asseverou Arthur, pensando que era isso que o outro queria ouvi-lo dizer.

 

- Excelente, excelente! - exclamou Brown, tirando baforadas do cachimbo.

 

- Os soldados russos ainda cá estão? - quis saber Artur.

 

- Não em tão grande número como inicialmente - redarguiu Brown. - Ainda há tropas de cavalaria na caserna, mas, graças a Deus, não são cossacos. O coronel Tubaichev, que as comanda, às vezes vai jantar com o doutor Airton. Oficialmente, o poder foi retomado pelos Chineses. No final do ano passado chegou um novo mandarim, que se instalou no yamen, mas não sei o que faz. Quem manda é o Tubaichev; é ele que, na realidade, dirige a cidade e a região. Aliás, não é má pessoa, o que já não pode dizer-se dos oficiais subalternos.

 

- Porquê?

 

- São um bando de depravados ímpios. Passam o tempo a frequentar as prostitutas e a banquetear-se no Palácio dos Prazeres Celestiais entregues à luxúria e à gula.

 

- Que é isso? - perguntou Arthur.

 

- O Palácio dos Prazeres Celestiais? - riu-se Brown. Será melhor perguntar ao nosso amigo Lu. Posso garantir-lhe que nunca o visitei. É um lugar de pecado, dirigido por uma terrível megera, que parece saída dum romance gótico barato. No entanto, Lu, o velho lúbrico, adora aquele lugar. Com certeza tenciona levá-lo até lá. Mister Lu - prosseguiu, agora em chinês -, pretende corromper a moral de Mister Topps, levando-o ao Palácio dos Prazeres Celestiais?

 

Lu Jincai, sem perder a compostura, soltou uma gargalhada.

 

- Se o Tuopasi Xiansheng o desejar, porque não? - disse. - O caranguejo cozido é excelente e é um local onde nós, mercadores, nos reunimos de vez em quando.

 

- Será melhor ficar-se pelo caranguejo cozido - aconselhou Brown. - Deixe as distracções posteriores à refeição para os oficiais russos.

 

Arthur olhou alternadamente para os dois sorridentes. Não sabia o que dizer.

 

- Brown, parece-me que me esperam experiências interessantes - acabou por comentar, e Brown riu-se.

 

- Bem respondido, Topps. um pouco de tudo. É a única maneira. E, lembre-se, a nossa igreja está sempre aberta para si, se porventura se sentir tentado a seguir por caminhos errados. Falando a sério, é preciso ter ideias largas para viver nesta terra. Na China ainda fervilham todos os pecados que há no mundo. Estamos a fazer todos os esforços possíveis, com algum êxito, como já disse, para mostrar a estes pagãos o caminho da Verdade, mas o Airton, numa das raras vezes em que, tanto quanto me lembro, falou do incidente dos Boxers, disse-me algo que jamais esquecerei: «Atraímos aquela loucura sobre as nossas cabeças, porque nos esquecemos de ser humildes.» Levei muito tempo até compreender o que quis ele dizer com isto. Creio que o significado é este: não se modifica seja quem for, procurando fazer que essa pessoa seja como nós. Sabemos que o caminho cristão é o único certo, mas um chinês tem o seu modo próprio de ver o mundo. Devemos encontrar maneira de talhar o fato que queremos oferecer-lhe de forma a que lhe sirva. Não chegaremos a parte alguma se fizermos juízos demasiadamente severos ou se lhes enfiarmos a nossa sabedoria pela goela abaixo. Na verdade, o melhor processo para compreender uma pessoa é o de pura e simplesmente não a converter. Parece uma charada, não é assim? O Airton empregou uma expressão que, segundo ele, foi usada pelo antigo mandarim que aqui viveu: wu wei.

 

- Sim, é de Lao Tsé. No Tão Te Ching - murmurou Arthur.

 

- Ah, então conhece-a - admirou-se Brown, um tanto frustrado. - Bom, assim já pode compreender o que o Airton quis dizer. Confesso que, para mim, é talvez demasiado profundo, mas creio que significa qualquer coisa como: «Tudo o que é bom acontecerá no momento apropriado e, até então, não nos preocupemos.»

 

- Sim, é mais ou menos isso - retorquiu Arthur, corando ao pensar que Brown talvez tivesse julgado que ele tentara evidenciar-se.

 

A carroça continuou a avançar, em silêncio. Brown tirava baforadas do cachimbo e interrompera a sua dissertação, provavelmente desarmado ao verificar que Topps conhecia os clássicos chineses. No entanto, não era do seu género ficar calado durante muito tempo.

 

- E então, Topps! Que notícias nos traz do que se passa no mundo? - acabou por perguntar, sorridente. - Que se diz em Pequim?

 

- Acerca da política? - perguntou Arthur. - A imperatriz viúva regressou do exílio, em Janeiro, e a maior parte das tropas estrangeiras já foi para casa. O governo chinês estuda a forma de liquidar a enorme indemnização que foi acordada. Creio que vai ser uma tarefa muito difícil...

 

- Bem feito para eles! - resmungou Brown, mordendo o cachimbo. - Espero que algum desse dinheiro nos chegue aqui. Com os donativos, já fizemos bastante, como reconstruir o hospital e a igreja, mas há muito mais a fazer. O Airton tenciona criar uma escola de aprendizagem médica... E que mais se passa?

 

- Fala-se muito da deterioração das relações entre a Rússia e o Japão, sobretudo nesta parte do mundo, a Manchúria

- adiantou Arthur... - Há quem afirme que vai acabar por haver uma guerra entre os dois países.

 

- Que disparate! - retorquiu Brown.

 

- Espero que tenha razão. Conversei com um homem, algo estranho, da Legação Britânica, que me procurou, quando soube que eu vinha para cá. Um tal Mister Pritchett. Já ouviu falar dele?

 

- Creio que não.

 

- Insistiu para que lhe escrevesse, se porventura me apercebesse de que os Japoneses andavam por aqui a fazer algo de suspeito.

 

- É esse o problema com os diplomatas - comentou Brown. - Vivem no mundo da fantasia e vêem conspirações nas coisas mais inocentes. Se fosse a si, esqueceria esse pedido.

 

- Mas... há alguns sinais de japoneses, nas redondezas? - perguntou Arthur.

 

- Japoneses? Não, nunca ouvi falar de nada a respeito deles. Bom, há uma barbearia de um japonês, na rua principal. É um sujeito pequeno e divertido, que corta bem o cabelo. Os oficiais russos são seus clientes E também passou por cá um oficial japonês, a caminho das colinas Negras, onde ia caçar. Muito elegante, para um oriental, com um belo fato de tweed. Foi mais ou menos quando o tal Manners, de que lhe falei, também cá esteve. Para ser franco, não sei se já se conheciam... Sim, lembro-me agora: creio que já se conheciam. Foram ambos jantar com o coronel Tubaichev. Talvez tenham combinado caçar juntos. Está a ver? O seu Pritchard, ou lá como se chama, teria arquitectado uma história estapafúrdia a partir desta coincidência. E, no entanto, que pode ser mais inocente do que o facto de um oficial aproveitar a licença para ir caçar às colinas Negras? Há por lá ursos, e até tigres; na verdade, é uma das melhores zonas de caça da Ásia. E se o Tibaichev se apercebesse de algo de estranho nisso, tê-los-ia convidado para jantar?

 

- Suponho que tem razão - concordou Arthur.

 

- Não, não é dos Japoneses que devemos ter receio prosseguiu Brown. - É da chusma de bandidos locais. Há, em especial, um bando de oficiais desertores do exército chinês que deu bastante trabalho à guarnição, nas colinas Negras, no Natal passado. Assaltavam as caravanas de mercadores que se dirigiam a Tsitsihar. Estava bem armado, sob todos os aspectos, com espingardas modernas, obuses, canhões e sei lá mais o quê. O Tibaichev viu-se forçado a pedir reforços e comandou ele próprio uma expedição às colinas Negras. No entanto, não encontraram o tal bando. Esgueirou-se e provavelmente está agora na Mongólia. Desde então, tudo ficou mais tranquilo.

 

Enquanto falava, observava atentamente o horizonte. Virou-se paraArtur, com um sorriso de alegria no rosto, e disse:

 

- Ali, à nossa frente. Está a ver?

 

Por entre as árvores, Arthur pôde vislumbrar uma pequena colina, no cimo da qual brilhavam, ao sol, telhados verdes. Havia também um campanário quadrado que destoava tanto naquela paisagem chinesa como um pagode no centro duma aldeia inglesa.

 

- É a nossa missão - exclamou Brown, com orgulho.

- Vê a igreja? É gótica. - Desenhei-a eu próprio. É bonita, não acha? Se Mister Lu não vir inconveniente, podemos parar junto do hospital para eu o apresentar aos Airton. Não se preocupe. Depois, irei consigo até à cidade e tratarei de instalá-lo no hotel.

 

Os Airton não se encontravam no hospital. Zhang Erhao, o homem que Brown afirmara ter sido um boxer, recebeu-os no portão do belo complexo de edifícios de tijolo, com dois andares; as telhas podiam ser chinesas, mas as construções, maciças e funcionais, lembravam a Arthur as que conhecera em Bradford. Sentiu-se pouco à vontade perante aquele homem de rabicho grisalho que lhe sorria de forma afectada. Perguntou a si próprio que teria ele feito para trair os Airton. Zhang Erhao disse-lhes que Ai Dun Daifu fora a Shishan fazer uma visita ao orfanato católico e que Ai Dun Taitai estava na igreja, no cimo da colina.

 

- Venha, vamos até lá - decidiu Brown. - Ela deve estar a tratar do cemitério. Adora fazê-lo. Converteu-o numa espécie de monumento aos mártires.

 

- Monumento aos mártires?

 

- Sim, ainda não lhe disse? É ali que se encontram enterradas todas as vítimas do massacre de Shishan, pelo menos as que foi possível encontrar. Venha, vou mostrar-lhe. Também lá estão os vossos, isto é, o Delamere e o Cabot.

 

Com certo nervosismo, Arthur seguiu Brown, por uma escada empedrada que conduzia ao alto do monte.

 

- Ah, devo avisá-lo de uma coisa acerca de Mistress Airton, quero dizer, da Nellie - lançou-lhe Brown, por cima do ombro. - À primeira impressão, pode parecer um tanto austera. É a sua maneira de ser. Não faça caso. Tem um coração de ouro. Digo-lhe eu, um coração de ouro! Somos grandes amigos, eu e a Nellie. Grandes amigos!

 

Perto da igreja, por detrás de um gradeamento metálico, havia um pequeno jardim ladeado por teixos recentemente plantados. Dentro do jardim, Arthur pôde ver fileiras de pedras tumulares, alinhadas de cada lado de um estreito carreiro. Uma profusão de narcisos estendia-se sobre a relva, entre os túmulos. Os canteiros que ladeavam o carreiro ainda estavam vazios, à espera que germinassem as plantas lá semeadas. A Primavera, lembrou-se, chegava mais tarde naquela região setentrional. Tudo aquilo envolto numa atmosfera de repouso e tranquilidade, idêntica à dos adros da Inglaterra rural.

 

O local parecia deserto, mas acabou por lobrigar uma mulher alta, de cabelo grisalho, com um chapéu de palha na cabeça, que se levantava do sítio onde se ajoelhara, junto duma das lápides. Numa das mãos empunhava uma tesoura de jardinagem e na outra um molho de ervas daninhas recentemente cortadas.

 

- Então, doutor Brown - saudou ela, com um severo sotaque escocês. - Bons olhos o vejam. Onde esteve durante toda a manhã, se me permite a pergunta? Nas enfermarias do hospital não cessaram de perguntar por si.

 

- Ah - fez Brown, apanhado de surpresa. - Fui... fui à estação buscar Mister Topps.

 

- Compreendo - replicou Mrs. Airton. - E Mister Topps, que, segundo creio, é este jovem, não era capaz de vir da estação até aqui pelos seus próprios meios? Julguei que tinha combinado com Mister Lu Jincai que fosse ele a ir à estação.

 

- Sim, é certo, Mistress Airton... - gaguejou Brown -, mas... Julguei que seria mais... adequado se eu...

 

- Abandonasse temporariamente os seus doentes, doutor Brown?

 

- Não, que Mistress Airton - Brown. - Eu... eu...

 

- Vai retomar imediatamente as suas funções? Não era isso que ia a dizer?

 

- Sim, isso mesmo. Vou... vou já, Mistress Airton. Hum, Topps... Desculpe-me... Não posso ir consigo até à cidade. Tenho muito que fazer aqui... Eu... vou deixá-los. Irei visitá-lo ao hotel mais tarde...

 

Recuou e saiu do jardim, com o rosto corado de embaraço. No momento seguinte, ouviram o ruído das suas botas a descer os degraus, com alguma pressa.

 

A mulher de cabelos grisalhos lançou a cabeça para trás, deixando escapar uma gargalhada, que soou de maneira agradável aos ouvidos de Arthur. Dirigiu-se-lhe de mão estendida.

 

- Sou Nellie Airton - apresentou-se. - Bem-vindo a Shishan, Mister Topps. O nosso jovem doutor Brown deve tê-lo posto de sobreaviso em relação à mulher-dragão que ia encontrar aqui.

 

- Não por essas palavras, Airton - replicou Arthur, sorrindo também.

 

- É bom rapaz - adiantou ela. - Muito consciencioso, mas um tanto cabeça no ar. E, Deus do Céu, fala pelos cotovelos, como, sem dúvida, já deve ter verificado. De tempos a tempos, a mulher-dragão tem de chamá-lo à ordem...

 

- Tenho a certeza de que gosta muito de si - adiantou Arthur, posto à vontade por aquela personalidade exuberante. - Falou-me de si e do seu marido nos termos mais amistosos.

 

Nellie voltou a rir-se.

 

- Gosta de mim?! - exclamou. - Tem é medo, isso sim! Bom, mas adiante. Tenho muito prazer em conhecê-lo, Mister Topps. Mister Dawson escreveu-me, elogiando as suas qualidades. Mas, cada coisa a seu tempo... Diga-me: já comeu? Tem fome? Encontrou quarto onde ficar?

 

- Creio que Mister Lu me reservou um, num hotel da cidade... Mistress Airton, trago-lhe uma carta de Mistress Cabot.

 

- Ah, sim, deve ser em resposta à que lhe escrevi - disse ela, pegando no sobrescrito e colocando-o no bolso do avental. - Foi muito amável em trazê-la. Vou lê-la quando puser os óculos. Sabe, Mister Topps, teríamos o maior prazer em acolhê-lo aqui, até org