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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A SENHORA DO TRILIO / Marion Zimmer Bradley
A SENHORA DO TRILIO / Marion Zimmer Bradley

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A SENHORA DO TRILIO

 

Haramis, a Senhora de Branco e guardiã do Trílio Negro, acorda, um dia, sentindo-se envelhecida e adoentada. Seu corpo sente o peso das várias vidas que atravessou desde que, junto com suas irmãs Anigel e Kadiya, unira os reinos de Ruwenda e Labornok. Havia quase dois séculos que vivia na Torre onde Orogastus, o feiticeiro maligno a quem derrotara, vivera. O fim do mago proporcionou uma vida tranqüila para a terra, livre da ambição do rival de Haramis.

Após todas essas aventuras que agora já faziam parte do passado, a arquimaga estava tendo sonhos perturbadores que pareciam alertá-la sobre seu fim. Haramis decide, então, procurar uma sucessora e prepará-la para assumir a tarefa que tinha sido sua por quase 200 anos. Mikayla - a princesa mais nova do reino de Ruwenda - desconhece a missão que teria pela frente e não parecia ser capaz de preservar o futuro do reino e salvar a terra da ruína pois era uma criatura racional e cética. Além disso, a jovem princesa não estava disposta a abdicar do sonho de se casar com lorde Fiolon de Var, com quem explorava as ruínas dos desaparecidos em busca das relíquias do passado.

A senhora do trílio é a história dos desafios que Mikayla e Haramis enfrentarão para resguardar o equilíbrio da terra. A velha arquimaga não poderia imaginar que escolher, preparar e empossar a sucessora do manto branco da arquimaga seria mais uma terrível batalha a travar. A jovem Mikayla, por sua vez, apesar de lutar contra o seu destino, inicia seu longo processo de transformação na nova arquimaga de Ruwenda e Labornok.

 

 

A Torre de Noth, feita de pedra, erguia-se desolada, no meio do mato murcho de sede. O restinho de água no fosso estava coberto de espuma e o cheiro da morte pairava no ar. A menina atravessou correndo a ponte levadiça, passou pelo pátio e pelo jardim, e entrou no quarto da arquimaga a tempo de ver a velha senhora morrer e seu corpo desfazer-se em pó. Enquanto estava ali parada, chocada com os acontecimentos tão repentinos, a Torre Inteira virou pó à sua volta e foi soprada pelo vento, e tudo que restou foi a capa branca da arquimaga...

Haramis, a Senhora de Branco, arquimaga de Ruwenda, despertou subitamente, sentindo-se muito velha, mais ainda se comparada à menina que tinha sido em seu sonho. Não era exatamente uma surpresa, estava velha mesmo, tendo passado por várias vidas comuns até então, ela pensou com tristeza. Como arquimaga, ligada espiritualmente à terra, seu tempo de existência tinha sido ampliado muito além da vida de suas duas irmãs. Apesar de nascidas juntas, seus destinos tinham se separado há um longo tempo e ela, a mais velha das princesas trigêmeas, era a única sobrevivente.

Kadiya, a do meio, foi a primeira a partir. Depois da grande batalha contra os invasores de Labornok e o feiticeiro maligno Orogastus, ela desapareceu em seus amados pântanos com o companheiro Oddling e seu talismã, o Olho Ardente Trilobado, que fazia parte do grande cetro mágico que as trigêmeas usaram para derrotar Orogastus. Durante um tempo, Haramis e ela se comunicavam ocasionalmente por meio da visão, mas Kadiya desaparecera havia décadas. A essa altura - pensou Haramis - ela já deve estar morta.

Anigel, a mais nova, tinha casado com o príncipe Antar de Labornok, unindo os dois reinos, e morreu em paz, de velhice, cercada pelos filhos e netos. O trono duplo passou para seus descendentes. Quem reinava agora, um neto ou bisneto Haramis não conseguia lembrar, os anos passavam depressa demais. Talvez fosse até um tataraneto.

Haramis, a mais velha, foi escolhida para substituir a arquimaga Binah como guardiã da terra. Ruwenda prosperou naqueles anos e Haramis amava a terra como se fosse uma filha. E de certa forma era mesmo.

Agora, contudo, estava tendo sonhos estranhos. Era a terceira noite seguida que revivia a morte de Binah em sonhos e acordava de manhã cansada demais para sair da cama. Será que era um aviso de que morreria em breve

Talvez estivesse chegando a hora de uma nova guardiã assumir a função. Se sua sucessora fosse escolhida logo, talvez até tivesse tempo de treiná-la. Haramis gostaria de ter tido algumas aulas quando foi escolhida, mas não teve. Queria fazer mais por sua sucessora. Mas quem poderia ser?

Binah tinha simplesmente dado a capa para Haramis antes de morrer, e a Torre em que viveu e trabalhou desfez-se em pó junto com seu corpo. Haramis, que até aquele momento era herdeira do trono, tinha sido treinada desde criança para ser rainha, não arquimaga. Achou a repentina mudança de função desconcertante, para dizer o mínimo. Aquele não era o legado que desejava deixar para sua sucessora.

A arquimaga arrastou-se para fora da cama, ignorando as articulações doloridas e uma sensação generalizada de mal-estar. Se ainda estivesse morando na Cidadela de Ruwenda, onde fora criada, sem dúvida estaria se sentindo muito pior - a Cidadela era um típico castelo de pedra, impossível de aquecer.

Mas a Torre onde Haramis vivia desde o momento em que se tornou arquimaga era quente por dentro, apesar de estar localizada perto da fronteira entre Labornok e Ruwenda, no cume do Monte Brom, e de ser inverno. Orogastus vivera na Torre antes dela, e equipou-a com todos os luxos que conseguiu descobrir, roubar ou comprar. Tinha se especializado nos aparelhos dos Desaparecidos. Muitos eram armas perigosas, outros, porém, eram bem práticos e tornavam o dia-a-dia muito mais confortável.

Infelizmente para ele, Orogastus jamais compreendeu muito bem a diferença que havia entre a tecnologia deixada para trás pelos Desaparecidos e a verdadeira mágica. Dependia tanto da tecnologia, que Haramis e suas irmãs foram capazes de destruí-lo com a magia.

Para Haramis a diferença entre a mágica e a tecnologia antiga era tão óbvia, embora difícil de explicar, que ainda não entendia como Orogastus podia ter sido tão tacanho, especialmente considerando que ele já possuía habilidades mágicas próprias.

Haramis ainda estremecia ao lembrar da breve atração provocada por ele. Durante algumas semanas chegou a achar que estava apaixonada. Mas aparentemente isso funcionou contra ele, lembrou. Ele perdeu várias oportunidades de me prejudicar, mesmo depois de eu ter deixado claro que não o amava. Era como se estivesse convencido de que me amava e não podia causar-me mal, e que eu o amaria também, necessariamente, e que iria ajudálo em seus planos.

Ela aproximou-se de um armário de madeira todo trabalhado e pegou uma bacia de prata de uma das gavetas. Pôs a bacia sobre uma mesa no centro do quarto, despejou água pura de um jarro que estava ao lado da cama até cobrir a metade do recipiente e inclinou-se sobre ele.

A visão na água era praticada por várias raças de oddlings que viviam nos pântanos em volta da Cidadela. Os oddlings não eram seres humanos. Eram aborígines, descendentes dos primeiros habitantes da terra. Algumas raças de oddlings eram bem parecidas com os humanos, enquanto outras eram como seres saídos de pesadelos, mas geralmente viviam em paz com os humanos.

Os nyssomus estavam entre os oddlings que mais se assemelhavam aos humanos, e muitos tinham servido à corte de Ruwenda quando Haramis era criança. Seu melhor amigo, Uzun, nyssomu e músico da corte, possuía bastante habilidade para mágica, além do talento musical, e foi ele que ensinou a visão da água para Haramis. Era um método sabidamente incerto de adivinhação, apenas um pouco melhor como método de comunicação, mas Haramis descobriu que quando combinado com seus poderes de arquimaga, ficava bem preciso. Era mais fácil e mais confiável, no entanto, se feito com o estômago vazio.

Ela clareou a mente o máximo que pôde, apesar da impossibilidade de banir por completo o sonho recente, e olhou através da água.

Quase no mesmo instante pareceu que voava pelo ar, como se montasse um dos grandes abutres que costumavam transportá-la, e aproximou-se de uma torre. Reconheceu a construção. Era a torre principal da Cidadela, uma adição relativamente recente construída por humanos (nos últimos quinhentos anos), enquanto o prédio principal era um sobrevivente do tempo dos Desaparecidos.

Aterrissou suavemente no telhado da torre e deixou seu corpo espiritual descer pela clarabóia até o cômodo mais alto. Naquele momento, em sua visão, o quarto estava vazio. A última vez que esteve ali em carne e osso o lugar estava cheio de soldados labornoki tentando capturar os dois, Uzun e ela, e só a chegada oportuna de dois abutres gigantes para levá-los embora do telhado da torre possibilitou a saída de lá com vida. Lembranças daquele dia tão distante voltaram, enquanto Haramis continuava a traçar sua rota de fuga.

O pavimento logo abaixo tinha sido dormitório para alguns soldados da Cidadela. Até onde conseguia lembrar, a idéia maluca de pôr os soldados dormindo 17 andares acima de tudo tinha sido do seu avô. Seu pai fora muito mais um estudioso do que um guerreiro e não se preocupou em modificar esse arranjo.

Obviamente alguém tinha sido sensato o bastante para acabar com esse costume, antes de ser sacramentado pela tradição. Embora o quarto ainda tivesse meia dúzia de catres e seus respectivos baús de roupas, havia apenas duas pessoas no antigo dormitório, duas crianças, um menino e uma menina, ambos aparentando ter doze anos de idade. Estavam sentados no chão, um de frente para o outro, no centro de um raio de sol que entrava por uma janela aberta.

- Acho que funciona com a luz - dizia o menino.

Ele era magro, tinha o cabelo cheio e negro, precisando de um corte. Caía por cima do rosto quando se debruçava sobre o objeto que estavam estudando, e ele o afastava com a mão, distraído. Assim que tirava a mão o cabelo caía de novo, mas ele ignorava.

- Não pode ser só isso - objetou a menina.

O cabelo dela era ruivo e brilhante, penteado em traçcas soltas que caíam até a cintura. Haramis não vira ninguém com cabelo assim a não ser sua irmã Kadiya e, pelo jeito, aquela menina cuidava tanto da aparência quanto Kadiya. As duas crianças usavam roupas que obviamente tinham sido herdadas de crianças maiores, e nenhum dos dois parecia se importar em mantê-las limpas. O chão de madeira não era varrido há meses, senão anos, mas a poeira mostrava marcas que sugeriam que as crianças, ou outras pessoas, costumavam se esparramar pelo chão, indiferentes à sujeira e às farpas. E a menina era ainda mais magra que o menino. Será que ninguém alimenta essas crianças? – pensou Haramis.

- Não funciona no escuro - o menino ainda defendia seu ponto de vista.

- Ah, eu concordo que precisa de luz para funcionar, mas se fosse só a luz a ativá-lo, todas as melodias, menos as de baixo, tocariam de uma só vez.

O ser da visão de Haramis atravessou o quarto para ver o que a menina segurava. Reconheceu de imediato. Era um de seus brinquedos favoritos quando criança. Era uma caixa de música, sobrevivente do tempo dos Desaparecidos, um cubo que tocava uma melodia diferente, dependendo do lado sobre o qual ficava apoiado.

- Olha, Fiolon - a menina apontou, segurando o cubo de forma que uma aresta tocasse o chão no meio dos dois. - Se fosse apenas a luz, deveria estar tocando pelo menos uma música agora, está recebendo luz direta do sol - ela virou a caixa, deixando-a apoiada sobre um lado, e começou a tocar uma melodia. – Viu? Tem de estar com um lado inteiro no chão ou... - ela levantou o cubo todo - ...paralelo ao chão.

- Horizontal, você quer dizer - disse o menino.

- É a mesma coisa, se o chão for plano. Agora olha aqui - ela virou a caixa para um lado, movendo-a lenta e cuidadosamente. - A música pára quando a gente inclina mais que dois dedos, e, quando um outro lado fica horizontal, há uma pausa antes de a música começar de novo. E durante essa pausa - ela concluiu triunfante - sinto alguma coisa mudando no cubo. A música não começa outra vez até que essa coisa, seja lá o que for, chegue ao fundo. - Ela pôs o cubo perto da orelha. - Há uma espécie de líquido aqui dentro. Gostaria de poder abrir isso e ver o que tem dentro, e como funciona.

Fiolon estendeu o braço e tirou o cubo da mão dela.

- Não se atreva, Mikayla! Esse é o único que nós temos, e eu gosto dele. Se quebrá-lo, não caso mais com você quando a gente crescer.

- Eu conserto depois - protestou Mikayla.

- Você não sabe se vai conseguir montá-lo de novo. - Fiolon observou com calma e objetividade. - Você não sabe o que é esse líquido, é pesado demais para ser água, e vai derramar se abrir isso. E não temos mais nada para saber como era a música dos Desaparecidos.

Mikayla riu.

- Você só não quer se arriscar a destruir qualquer fonte de música. Acho que seu pai deve ter sido um músico.

Fiolon deu de ombros.

- Jamais saberemos.

Mikayla pegou o cubo de volta e equilibrou-o numa das mãos.

- Acho que tem razão quanto ao líquido. Realmente parece pesado demais para ser água, e a coisa que tem aí dentro se mexe devagar demais para estar flutuando em água - ela deu um suspiro. - Queria encontrar mais desses.

- Eu também - concordou Fiolon. - Aí talvez pudéssemos ter mais melodias.

- E se encontrássemos uma igual, eu poderia desmontá-la para descobrir o que tem dentro.

- Por que você quer sempre saber como as coisas funcionam?

Mikayla mexeu os ombros.

- Por querer. Por que você quer sempre compor uma canção sobre tudo?

Fiolon mexeu os ombros do mesmo jeito.

- Por querer.

Eles se entreolharam e caíram na risada.

Haramis deu uma risadinha e se viu de volta na sua torre, olhando para a bacia. Sua respiração tinha perturbado a superfície da água, interrompendo a visão.

Bem, ela pensou, eles certamente parecem bem inteligentes, mas tenho dificuldade de vê-la como arquimaga. Terei de descobrir mais sobre ela - e sobre ele. Quanto à observação que fez sobre o casamento, parece que os dois estão comprometidos, mas é muito estranho ele não saber quem foi seu pai. E apesar das roupas terem sido herdadas de alguém, quando novas eram de boa qualidade, e as crianças não falam como servos.

Haramis vestiu-se apressada e foi tomar o café da manhã. Tinha de escrever cartas e enviar mensagens.

Informações sobre a terra eram acessíveis para Haramis como as batidas do seu coração. Era muito mais difícil obter informações sobre as pessoas. Passaram várias semanas antes de Ayah, serva nyssomu do palácio, receber a mensagem da arquimaga, conseguir uma licença para visitar a irmã, e afastar-se bastante da Cidadela de forma que um abutre gigante pudesse pegá-la sem ser visto. Ninguém da família real sabia que a irmã de Ayah trabalhava para a arquimaga, e Haramis queria manter as coisas desse jeito.

Um abutre finalmente chegou à torre com uma nyssomu bem embrulhada nas costas. Haramis saiu para receber o pássaro e carregou a pequena mulher no colo para dentro. O principal problema de morar onde morava era que seus servos nyssomus não podiam sair em segurança. Mesmo depois de quase duzentos anos, Haramis ainda lembrava vivamente do dia em que seu amigo e companheiro Uzun quase morreu congelado quando procuravam seu talismã. Ela perdeu um dia inteiro de viagem retornando para um ponto de menor altitude para reaquecer Uzun, antes de enviá-lo de volta para as terras baixas e continuar a jornada sozinha. Os vispis eram os únicos oddlings que podiam sobreviver nas montanhas, e até eles preferiam viver em pequenos vales isolados, aquecidos por fontes de água quente.

Então Haramis carregou o embrulho bem enrolado para dentro da torre e entregou a hóspede para Enya, irmã da visitante, para levá-la para seu quarto e dar-lhe de comer depois da viagem. O que Haramis queria saber tinha demorado esse tempo todo para chegar. Podia aguardar mais algumas horas.

Quando as três se reuniram no estúdio de Haramis, bebendo suco de ladu quente em canecas, Haramis perguntou a Ayah sobre as crianças da visão.

- A princesa Mikayla e lorde Fiolon - perguntou a oddling surpresa.

Ela obviamente ficou imaginando que interesse Haramis podia ter nas duas crianças, mas Haramis achou melhor não explicar, pelo menos não naquele momento. Simplesmente esperou até a mulher continuar.

- Mika, a princesa Mikayla, é a sexta dos sete filhos do rei. O rei se concentra na educação do seu herdeiro. A rainha se preocupa com o ”bebê”, que hoje tem dez anos, e os outros quatro têm idades muito próximas, e costumam andar juntos

- a mulher oddling balançou a cabeça. - Por isso ninguém liga para o que Mika faz, e os pais de Fiolon estão mortos, ou pelo menos a mãe dele está. Se não tivessem um ao outro, ela poderia ser uma criança muito solitária, e acho que ele também.

Haramis pensou no que ela dizia.

- Sempre tive Uzun como meu melhor amigo - ela disse, sorrindo e olhando com carinho para uma harpa de madeira polida com uma incrustação de osso no topo da coluna, que estava ao lado da sua cadeira. Passou a mão no instrumento como se acariciasse um animal de estimação. - Mesmo assim, não consigo imaginar como seria a minha infância sem as minhas irmãs. Elas estavam sempre lá, querendo ou não - ela trouxe o pensamento de volta para o presente. - Então como é que Fiolon se encaixa? Quem é ele, exatamente?

Ayah continuou seu relatório.

- Lorde Fiolon de Var. A mãe dele era a irmã mais nova do Rei de Var; nossa rainha é a do meio. A mãe de Fiolon morreu quando ele nasceu, mas passaram-se seis anos antes da nossa rainha persuadir o rei a permitir que ela criasse o filho da irmã falecida.

- E o pai de Fiolon? - Haramis estava curiosa para saber isso desde o momento que ouviu a conversa das crianças.

Ayah balançou os ombros.

- Ninguém sabe. A mãe dele não era casada. Haramis fez cara de espanto.

- A irmã do Rei de Var teve um filho, e ninguém tem a menor idéia de quem é o pai? Dada a falta de privacidade em qualquer palácio que conheço, isso parece incrível. Alguém deve ao menos suspeitar de quem era seu amante.

- Segundo os boatos ela morreu afirmando que um dos Senhores do Ar era o pai do seu filho.

Haramis ergueu as sobrancelhas, surpresa.

- Jamais soube que os Senhores do Ar assumissem forma física, menos ainda que gerassem filhos.

Ayah suspirou.

- Ela estava morrendo, Senhora, e provavelmente delirava. Mas eu concordo, é estranho que ninguém saiba quem é o pai dele. Muito estranho.

Haramis deu de ombros.

- Duvido que isso tenha importância. Toda família numerosa tem crianças extras. Mikayla e ele estão comprometidos.

Ayah balançou a cabeça.

- Existem boatos - Mikayla se encaixa na sua categoria de ”extra” também, até onde é permitido a qualquer princesa, mas não existe um contrato formal. Creio que pode até ser bom. Eles gostam muito um do outro.

- É uma pena - disse Haramis. - Já que Mikayla será a próxima arquimaga, ela terá de desistir dele.

O queixo de Ayah caiu.

- Mika A arquimaga - Ela hesitou um longo momento antes de continuar a falar. - Senhora de Branco, eu realmente acho que ela não vai gostar disso.

- Não importa se ela gosta ou não - disse Haramis calmamente. - Ninguém é voluntário para esta vida. É o destino dela, como foi o meu.

Haramis achava que não podia demorar mais. Não queria imaginar sua sucessora na mesma situação em que ela esteve - mergulhada de repente no papel da arquimaga de Ruwenda, sem a menor idéia do que aquilo representava. Por isso, por mais cruel e prematuro que pudesse parecer, para ela e obviamente para Ayah, precisava começar a educar Mikayla para a função que ia desempenhar no futuro.

Ayah ficou vários dias na torre, na companhia de Enya, enquanto Haramis fazia os preparativos para a viagem à procura da sucessora. É claro que podia, simplesmente, chamar alguns abutres gigantes para levá-la para a Cidadela e trazer Mikayla de volta para a torre. Mas queria que Mikayla visse os detalhes da terra com a qual ia se unir, e assim, no dia em que despachou Ayah num abutre, montou num fronial já equipado com mantimentos e material de acampamento, e partiu para a Cidadela ao sul, onde sua irmã Anigel vivera e morrera

Os primeiros dias da viagem foram nas montanhas. Fazia muito frio, embora o tempo estivesse ameno para o inverno, e nenhuma neve caiu. (Haramis achava que sofria bastante viajando pela neve que já estava no solo, para permitir que nevasse mais. Apesar do saco de dormir bem forrado, sentia dores em todas as juntas quando acordava de manhã. Mas no fim do quinto dia a neve tinha acabado e ela observou o sol se pondo, inchado e vermelho, sobre o pântano no oeste.

A partir daí a maior parte da viagem era feita por caminhos secretos que ninguém usava há muito, através dos pântanos de Ruwenda. Houve um tempo em que conhecia cada passo dessas trilhas, tão bem quanto as estantes da sua biblioteca. Só pela dor que sentia nos músculos era evidente que tinha de fato passado tempo demais em retiro atrás das paredes da sua confortável torre. Era verdade que quando tudo ia bem na terra, não havia necessidade de deixar a torre, mas mesmo assim sentia que devia sair mais. Quantos anos se passaram desde que vira a terra, fora dos transes de visão Mesmo com as dores no corpo, era bom estar fora de casa, passeando.

Quanto à aparência física, Haramis se disfarçou como uma mulher comum, não uma jovem, mas ainda em perfeitas condições de saúde, apesar do cabelo branco como a neve. Essa era a aparência que sempre usava quando viajava pela terra, mesmo quando era muito jovem. Isso garantia que seria tratada com um certo respeito, mas sem o medo supersticioso que a presença da arquimaga provocaria. Porém, no fim de cada dia ficava imaginando se aquela impressão de saúde não era uma mentira igual a qualquer coisa que indicasse seus poderes mais misteriosos, ou a sua verdadeira idade.

Lembrou mais uma vez que podia ter chamado um dos abutres que a serviam, e ficava tentada a fazer isso muitas vezes, especialmente nos fins de tarde, quando pensava na urgência de sua missão.

Haramis achava que provocar um rebuliço em toda Ruwenda aterrissando daquela forma no pátio da casa da sua sobrinha-neta, por mais distante que fosse o parentesco, daria à menina - e possivelmente até aos pais dela, embora cansados de saber - uma idéia inteiramente errada dos deveres e dificuldades da função de arquimaga, além da idéia equivocada da utilização do poder mágico. Não havia nada de mágico nos froniais. Orogastus mantinha um estábulo deles (já que não podia invocar os abutres gigantes, os froniais eram seu único meio de transporte para sair e voltar para a torre), e Haramis tinha simplesmente dado continuidade ao programa de criação.

Orogastus, sempre bombástico, certamente chegaria dessa viagem de abutre gigante, se pudesse. Mas não era esse o estilo de Haramis.

Assim ela foi em frente, sem mudar nada, muitas vezes puxando os froniais quando a vegetação tornava impossível montá-los, sem nenhum sinal externo da magia, a não ser sua capa e seu cajado. O talismã, o Círculo com Três Asas, que levava preso a uma corrente em volta do pescoço, estava escondido embaixo da roupa. Usava as botas mais resistentes que tinha: encantadas contra a chuva e o nevoeiro da estação, e para não se perder na confusão dos caminhos - não que a arquimaga precisasse desse último encantamento, mas lidava com isso desde menina e gostava de manter a forma.

Essa viagem era uma boa oportunidade para refrescar suas lembranças das estradas e caminhos de Ruwenda, pois não os trilhava a pé há muitos anos. Por isso, embora pudesse ter optado por qualquer tipo de comitiva que quisesse, ou qualquer veículo, real ou mágico, ela se absteve da magia na viagem, indo a pé ou levada pelos froniais. Esperava que mesmo assim, sua sobrinha-neta em segundo grau percebesse o sentido mágico daquela viagem.

Seria um bom começo para o aprendizado dela, se a menina tivesse alguma habilidade mágica natural. Pelo que Haramis tinha visto, Mikayla parecia mais dada a tentar analisar exatamente o que fazia um encantamento funcionar do que a se esforçar para aprender qual a sua sensação. Essa era a menina que aparecia na visão de Haramis como sua sucessora, portanto isso estava resolvido. Não achava possível que Fiolon, sendo macho e um de Var, pudesse ser o sucessor designado.

Sua viagem lenta através dos pântanos levou outros quatro dias e noites, e durante esse tempo Haramis renovou sua familiaridade com a terra de Ruwenda, principalmente com sua parte formada por lama. Aliás, mais do que desejava. Tinha vivido tanto tempo nas montanhas nevadas que já esquecera como era a lama. Podia livrar-se da neve passando a mão, e qualquer pontinho que restasse logo evaporaria assim que entrasse em casa. Mas a lama grudava nela, secava em su

pele e coçava. Foi um alívio quando o caminho que percorria cruzou com a Grande Estrada e ela pôde trocar as trilhas lamacentas pela estrada pavimentada.

A estrada facilitava tudo e ela não precisava mais tomar cuidado a cada passo que dava, de modo que podia olhar em volta. Embora o inverno fosse sempre chuvoso nas proximidades da Cidadela, aquele dia era um dos raros de sol e temperaturas amenas, valioso como uma pausa na tristeza da estação. Os pássaros chilreavam nas árvores que margeavam a estrada. Ao atingir a campina que cobria o Outeiro da Cidadela, ela viu que mesmo em pleno inverno as flores negras do trílio floresciam por toda parte. Ela riu alto. Quando criança, o Trílio Negro era uma coisa rara e mágica, algo tão raro que existia apenas uma planta, aos cuidados da arquimaga. Mas depois que Haramis e suas irmãs derrotaram Orogastus, as flores surgiram magicamente sobre todo o outeiro. Agora eram comuns como ervas daninhas e, provavelmente, pensou Haramis com um humor meio deturpado, vistas dessa forma.

Era quase meio-dia quando ela chegou à Cidadela, e foi recebida pelo rei com uma surpresa tão grande que beirava a estupefação.

- Senhora arquimaga, é uma honra enorme recebê-la - disse o rei, parecendo um pouco nervoso. - Como podemos servi-la?

A rainha, por outro lado, deu a impressão de considerar a chegada de Haramis sem aviso e sem comitiva nada além da excentricidade de uma mulher idosa, e levou isso em conta.

- Deve estar exausta, Senhora! - a criada chegou apressada, atendendo ao olhar da rainha. - Deixe os servos levarem suas coisas para o quarto de hóspedes e cuidarem de seus animais, enquanto descansa da viagem.

Dez dias enfrentando o frio do inverno e os caprichos de dois froniais meio excêntricos (não se importavam muito com a montanha, mas detestavam o pântano) deixaram Haramis sem fôlego e mal-humorada também.

- Vocês podem deixar de lado toda essa cerimônia – disse ela bruscamente. - O assunto que vim tratar não diz respeito a vocês dois, e sim a Mikayla.

- Mikayla - o rei perguntou, sem entender.

- Sua filha Mikayla - disse Haramis com os dentes cerrados.

Nunca teve muita paciência com gente idiota e tinha passado tantos anos sozinha que perdera a prática dos modos da corte. Além do mais, como arquimaga, não precisava se preocupar com o que os outros pensavam dela.

- A sexta de seus sete filhos. Lembra dela, não é?

O rei conseguiu dar uma risadinha nervosa.

- Sim, é claro que lembro. Mas ela é apenas uma menininha. O que você quer com ela?

Felizmente para o pouco que sobrava da paciência de Haramis, a rainha era uma pessoa mais prática. Num breve instante Haramis lembrou de seus pais, o rei Krain, culto e extremamente distraído, e a rainha- Kalanthe, capaz e gentil. A rainha ordenou que a criada fosse ver imediatamente se o quarto de hóspedes estava arrumado, com o fogo aceso, mandou os servos cuidarem da bagagem de Haramis e dos dois froniais. Despachou Ayah, que estava atrás da criada, o que não surpreendeu Haramis nem um pouco, com ordens de encontrar a princesa Mikayla e de levá-la imediatamente para a pequena sala de estar. Então conduziu Haramis para a sala, fez com que sentasse na cadeira mais confortável e pediu comida e bebida.

- O jantar será servido em breve - ela explicou - mas a senhora talvez queira um pouco de frutas secas e queijo...

Haramis sentou com as costas bem retas, cuidando para não demonstrar cansaço. Lá fora, sob o sol forte, sentia-se bem, mas o castelo por dentro era escuro e úmido, apesar do fogo. Ela olhou para o rei, que tinha ido atrás delas, e que estava parado perto da porta, sem saber o que fazer. Haramis percebeu que ele gostaria de ter tido tempo para preparar Mikayla para o encontro com a parenta idosa. Pelo pouco que tinha visto Mikayla, ela suspeitava que a rainha pensava a mesma coisa, mas disfarçava melhor que o marido. Ou talvez, Haramis pensou, o rei estivesse mesmo tentando lembrar de Mikayla. Se achava que era uma menininha, era óbvio que não prestava muita atenção nela ultimamente. Haramis teve a impressão de que aquele dia seria um grande choque para ele.

A comida chegou e Haramis comeu educadamente, contendo sua impaciência. Ayah ia encontrar Mikayla tão depressa quanto possível, e seria insensato demonstrar impaciência demais.

Mas quando Ayah voltou, estava sozinha.

- Onde está a minha filha? - perguntou a rainha. Ayah parecia triste.

- Não está na Cidadela, majestade. Temo que tenha partido com lorde Fiolon em mais uma de suas expedições.

A rainha afundou na cadeira e apoiou o polegar e o indicador juntos entre os olhos, como se acometida de uma súbita dor de cabeça. A notícia sem dúvida não foi bem-vinda para Haramis, mas ela teve a impressão clara de que não era uma surpresa completa. De fato, o único comentário audível que a rainha fez foi reclamar baixinho.

- Por que hoje?

Mas o rei não conseguia compreender a situação que até para Haramis não era difícil adivinhar. Claro, a irmã de Haramis, Kadiya, tinha o hábito de desaparecer nos pântanos durante semanas a fio, acompanhada apenas pelo caçador nyssomu Jagun, seu companheiro favorito, de modo que Haramis estava familiarizada com esse tipo de comportamento. A princesa Kadiya passou tempo suficiente no meio dos nyssomus para merecer o nome do pântano ”Visão ao Longe” e para ser nomeada membro honorário da tribo nyssomu.

- Expedições - ele vociferou. - Explique-se, mulher! Está dizendo que a minha filha está percorrendo os pântanos sozinha?

- Não, majestade - Ayah respondeu depressa. - Tenho certeza de que ela não está sozinha. Lorde Fiolon e ela têm muitos amigos na aldeia nyssomu a oeste do outeiro, por isso sei que foram, no mínimo, com um guia.

O rei parecia que ia explodir. Os homens, pensou Haramis, sempre perguntavam coisas sem importância. Haramis escolheu aquele momento para se manifestar.

- Para onde teriam ido - perguntou calmamente.

- Ouvi os dois conversando no mês passado sobre umas ruínas antigas subindo o Rio Golobar - disse Ayah - mas achavam que o nível do rio não estava suficientemente alto para o barco chegar até lá. É claro - ela acrescentou timidamente - tem chovido bastante desde então.

Haramis conhecia as ruínas, apesar de jamais ter estado lá pessoalmente. Ficavam onde o Pântano Negro encontrava o Pântano Verde, subindo o Rio Golobar até quase a metade do caminho entre a nascente e o ponto em que fluía para o Rio Mutar Meridional, cerca de um dia de viagem a oeste da Cidadela. Mais um dia para chegar ao Golobar, e provavelmente uma semana, no mínimo, sob condições ideais, para chegar às ruínas, supondo, é claro...

- Os skriteks! - Haramis exclamou de repente. - Ela sabe que há uma grande concentração de skriteks naquela área, não sabe?

- O quê - o rei rugiu, quase abafando a exclamação de horror da rainha.

- Você não conhece nada do seu reino - Haramis disse asperamente. - Está claro que não sabe quase nada também sobre sua família.

- Não se preocupe, mamãe. Os skriteks não vão machucar Mika - uma voz de criança soou com segurança da porta. - Ela conversa com eles e eles a deixam em paz.

Haramis duvidou da veracidade dessa afirmação. Ela certamente podia afastar skriteks vorazes com uma ordem, mas ela era a arquimaga.

Os skriteks, normalmente chamados de afogados, eram conhecidos pelo hábito de se esconder embaixo da água à espera das presas, que podiam ser todos os outros oddlings (como os nyssomus) e animais grandes, arrastando-os para baixo para morrerem afogados antes de serem devorados. Seus hábitos de caça fora da água eram ainda piores. Em terra, eles caçavam em bandos. Haramis tinha até visto ataques a seres humanos. Na verdade, um bando de skriteks destruíra parte do exército do rei Voltrik. Já que o rei Voltrik de Labornok tinha invadido Ruwenda, matado os pais dela e estava tentando matá-la e as irmãs, na época Haramis foi capaz de conter as lágrimas.

E esses eram os adultos. De certa forma, os mais novos eram ainda piores. Os skriteks punham ovos e os abandonavam. Eles eram os únicos oddlings que tinham um verdadeiro estágio de larva, e que se defendia da melhor forma possível, muito bem por sinal, até tecer um casulo, mudar e surgir como um pequeno e voraz adulto. Haramis teve a sensação desagradável de que um dos bosques de árvores mortas que os skriteks usavam para processar essa metamorfose ficava na rota escolhida pelas crianças. Ela resolveu verificar isso logo que tivesse uma chance.

Naquele momento a rainha orgulhosamente apresentava seu ”bebê” - o príncipe Egon, com dez anos de idade. Ele curvou-se corretamente segurando a mão de Haramis, e ela disfarçou o riso muito bem. Aquele pequeno era um conquistadorzinho mesmo. Tinha uma cabeleira dourada e cacheada e olhos azuis, enormes e inocentes - na verdade ele parecia muito com Anigel. Deve ser um temporão, pensou Haramis. Espero que tenha cérebro, mas com essa aparência talvez consiga sobreviver sem ele.

- Então sua irmã conversa com os skriteks, não é - perguntou Haramis. - O que ela diz para eles?

- Ela diz que eles estão proibidos de declarar guerra contra os humanos.

Haramis ficou surpresa. Isso era verdade, e fazer cumprir essa proibição era um dos deveres da arquimaga. Mas como Mikayla podia saber - e sob quais circunstâncias discutia isso com os skriteks? Achava que os skriteks não levavam a proibição muito a sério. Mas se Mikayla não pensava assim...

Era de suma importância para Haramis conhecer Mikayla o mais depressa possível.

O rio estava com a profundidade exata para os barcos com fundo chato que os nyssomus usavam para chegar até as ruínas. Mikayla, Fiolon e os guias nyssomus Quasi e Traneo passaram vários dias trocando de lugar nos barcos, assumindo seus turnos para impulsioná-los com as varas através dos baixios e remando rio acima quando as águas eram suficientemente profundas. Era um trabalho duro, mas eles não esmoreciam, desde o nascer até o pôr-do-sol de cada dia.

Quando ficava escuro demais para enxergar para onde estavam indo, puxavam os barcos na margem, comiam uma porção cuidadosamente racionada da carne seca que levavam para a viagem, e dormiam em um dos barcos, com os outros emborcados e bem amarrados em cima. Dessa forma não precisavam ficar vigiando à noite. Os skriteks, únicos predadores suficientemente grandes para rasgar os barcos, não incomodavam os seres humanos sem provocação, e desde que Quasi e Traneo dormissem entre Mikayla e Fiolon, seu cheiro não seria perceptível para um skritek de passagem por ali. Na verdade, quando atingiram o território dos skriteks, todos cheiravam mais a pântano do que a qualquer outra coisa.

Tinham passado quase dois dias viajando pelo território dos skriteks quando sinais das ruínas que procuravam apareceram na beira do rio.

Fiolon apontou entusiasmado.

- Olhem, havia uma aldeia aqui um dia. Talvez nessas ruínas a gente encontre mais caixas de música... ou outra coisa interessante.

- Não acredito que possa haver alguma coisa tão interessante assim - implicou Mikayla. - Pelo menos não para você.

- Princesa - aventurou-se um dos guias oddlings, o pequeno nyssomu chamado Quasi - vocês não devem se preocupar em entrar nessas ruínas. As que ficam mais acima são mais curiosas.

Mikayla olhou para ele desconfiada.

-Você quer que viajemos mais longe ainda rio acima, através do território dos skriteks, correndo um perigo ainda maior de encontrá-los? O que há de errado com estas ruínas?

- Elas parecem ótimas para mim - protestou Fiolon -e eu quero descobrir mais sobre os Desaparecidos.

- E eu realmente quero encontrar mais dessas caixas de música - acrescentou Mikayla - para ver como funcionam.

Traneo, parecendo assustado com alguma coisa, arriscou-se a falar.

- O rei ficaria muito zangado se alguma coisa acontecesse com você, meu senhor. Ele me encarregou diretamente de garantir que nenhum mal lhe aconteça, ou à princesa.

- Isso é bobagem - disse Fiolon. - O rei não se importa com o que eu faço. Acho que ele nem sabe que estamos aqui.

Mikayla ficou tão espantada com a certeza absoluta na voz de Fiolon e com a provável verdade do que dizia, que por um momento ficou sem saber o que dizer. Depois virou para Quasi e falou com ele.

- Mas você ainda não disse por que essas ruínas podem ser perigosas.

- Bom - disse Quasi nervoso, revirando os olhos - elas ainda estão vivas.

- Vivas? - disse Fiolon. - As ruínas? Você está dizendo que os prédios eram... e ainda são... vivos? Nunca ouvi dizer que os Desaparecidos pudessem construir prédios vivos.

- Se qualquer um entrar neles - Quasi disse, com a voz trêmula - vozes surgem do chão e falam uma língua desconhecida.

-E se ainda existirem alguns aparelhos dos Desaparecidos funcionando lá - disse Mikayla animada. - Precisamos entrar!

- Agora não! - disse Traneo aflito. - Já é quase noite. Por favor, princesa, não faça nada precipitado. Pense mais um pouco. Não entre até amanhecer, se é que vai entrar mesmo.

- Tudo bem, então. Vamos encontrar um lugar seguro para armar acampamento - disse Mikayla. - E... eu não sei quanto a vocês, mas estou ficando com fome. Vocês não?

- Eu andei com fome a maior parte desses três dias - disse Fiolon, direto e calmo. - Foi você quem insistiu para racionar nossos suprimentos.

- Continuo achando que é uma boa idéia - disse Mikayla -, porque se ficarmos sem comida, teremos de voltar para casa. E não quero fazer isso... ainda não.

- Então o que acha que devemos fazer? - quis saber Fiolon.

- Acho que devemos deixar Quasi e Traneo encontrar um bom lugar para montar acampamento.

Fiolon virou para Quasi, que foi logo dizendo.

- Não temos muito tempo antes de escurecer, meu senhor, mas farei o melhor possível.

Eles continuaram subindo o rio por um tempo, então Traneo fez um sinal para levarem os barcos para a margem num pequeno promontório, coberto de pedras roliças e lisas.

- Podemos experimentar aqui, lorde Fiolon. Neste lugar, pelo menos, os skriteks não podem se esconder no mato alto.

- Certamente não podem - concordou Mikayla. - Aqui não há capim suficientemente alto para ocultar nada maior que um funt do prado.

Ela pulou para fora do barco para procurar capim seco para acender o fogo. Mas no minuto em que pôs os pés no chão ficou paralisada.

- Mika - Fiolon, ainda no barco, olhou para ela querendo saber o que estava acontecendo. - Qual é o problema?

- Alguma coisa - disse Mikayla -, mas não sei exatamente o que é. Tenho a sensação de que alguma coisa está errada, algo no solo.

Traneo já tinha saído do barco e andava a esmo, resolvendo exatamente onde deviam montar o acampamento. Mikayla foi atrás dele, movendo-se devagar e tentando definir a causa da sua apreensão.

Chegou ao lugar cheio de pedras lisas e tropeçou em uma delas. Espantou-se ao perceber que não era dura, e sim macia, coriácea. Enquanto estava ali parada olhando, a pedra começou a balançar lentamente, de um lado para o outro. Não achava que tivesse chutado com tanta força, ou tinha? Continuou olhando, espantada, e a coisa rachou, com um ruído estranho de algo rasgando, e da rachadura que aumentava um focinho feio e verde apareceu, com dois círculos negros saltados em cima.

Mikayla jamais tinha visto um skritek no estágio de larva, mas não precisava de ninguém para explicar que estava vendo um naquele momento. A boca feia do bicho se abriu, revelando duas fileiras de dentes espantosamente longos e afiados, sem as presas de um adulto, e ele era apenas um sétimo do tamanho de um skritek desenvolvido.

Ela estava totalmente despreparada para a rapidez com que aquela coisa feia se mexeu. Embora não tivesse mais de trinta centímetros de altura, parecia crescer diante dos seus olhos. Ele correu com velocidade espantosa na direção dos dois, agarrou Traneo com as unhas e começou a arrastá-lo para a água. Para horror de Mikayla, o animal começou a devorar o nyssomu antes mesmo de matá-lo. Traneo deu um berro.

Mikayla não acreditava que a criatura já pudesse ver - uma película branca e coriácea cobria parte dos olhos saltados - mas enquanto estava ali olhando, meio paralisada de choque, ele acabou de arrancar a cabeça do oddling a mordidas. O berro de Traneo foi interrompido no meio de um uivo, e só deu para ver a água respingando no lugar em que o nyssomu afundou, levado pelo pavoroso filhote de skritek.

Mikayla deu um pulo para trás, tropeçou numa pedra e caiu estatelada na areia. O terror tomou conta dela. Tinha encarado a morte antes, quando caçava, mas nunca de forma tão horrenda. Apressou-se em levantar, mas um outro ovo estremeceu sob seu pé, derrubando-a no chão diante de outra larva de skritek que surgia. Tinha caído de costas e ficou sem ar, por isso continuou deitada e indefesa por um momento. O pequeno skritek já abria a boca quando uma pedra apareceu voando de trás dela e atingiu o longo focinho do skritek. Ele cambaleou de costas e caiu de lado.

Chorando de alívio, Mikayla conseguiu ficar de pé e chocou-se com Fiolon, que com mais brutalidade do que galanteria arrastou-a para um barco e afastou-se da margem. No meio do rio Mikayla recuperou um pouco o controle. Ainda chorava por Traneo - ninguém devia morrer daquele jeito, literalmente devorado vivo - mas pelo menos não estava mais histérica, e conseguiu soltar o braço de Fiolon, que assim teve mais facilidade de pilotar o barco.

- Suponho que aquele... aquela coisa era um skritek, e as coisas redondas como pedras eram ovos de skritek - disse Fiolon.

Quasi, no barco atrás deles, segurava o leme, e confirmou muito sério que era aquilo mesmo. Mikayla estremeceu e olhou para a margem.

- Posso lidar com os skriteks adultos, mas não com aquelas coisas! Gosto menos ainda deles agora que os vi de tão perto - ela observou. - E nunca mais quero chegar perto de um deles. Se foi você que atirou aquela pedra, Fiolon, obrigada. Acho que salvou a minha vida. O que vamos fazer agora?

- Acho que devemos voltar para as ruínas - disse Fiolon com a voz trêmula. - Prefiro enfrentar vozes estranhas a um filhote de skritek.

- Concordo - disse Mikayla. - Olhe aqueles ovos!

Na margem outros ovos balançavam e rachavam em vários pontos. Quando cada um dos filhotes que surgia avançava na direção do resto, um de seus companheiros recém-nascidos caía sobre ele, estalando aqueles dentes horríveis, e o fazia em pedaços. Logo toda a praia era uma massa de garras, presas e filhotes arrebentados, espalhados e lambuzados com seu horroroso sangue preto-esverdeado. O grupo desviou os olhos enojado enquanto os barcos deslizavam rapidamente rio abaixo.

Por alguns minutos os três ficaram em silêncio nos barcos. Fiolon estava de pé na proa, pilotando entre as margens escuras, enquanto Quasi continuava a segurar as embarcações juntas. Mikayla, ainda um pouco trêmula, foi ajudar Quasi. É claro que já tinha visto os famosos afogados antes, mas com os poucos que encontrou tinha conseguido se fazer entender. Criaturas com as quais não podia se comunicar ou argumentar eram outra história, e bem diferente!

Mikayla e Fiolon despertaram ao amanhecer, prontos para explorar as ruínas. Quasi não estava nem um pouco animado, mas já que suas opções eram ficar sozinho para trás ou acompanhar as crianças, ele foi com eles, resmungando o tempo todo.

Caminharam com todo cuidado, tateando pelo caminho cheio de mato que levava às ruínas, de olho em qualquer ovo parecido com pedra, mas não encontraram nenhum.

- Acho que o lugar de desova deles é rio acima, e não aqui - comentou Fiolon.

- Esperamos que sim - disse Quasi, carrancudo.

- Não sinto nenhum perigo aqui - observou Mikayla. Quasi, você disse que quem vinha aqui ouvia vozes... mas há alguma história de alguém ter sido atacado aqui?

- A maioria das pessoas, princesa, tem bastante juízo para correr quando ouve vozes estranhas - disse Quasi maldosamente.

- Em outras palavras, não - traduziu Mikayla. - Ninguém jamais saiu ferido daqui.

- Não que se saiba - Quasi não parecia satisfeito.

- Vamos ficar de olho nos esqueletos, então - disse Mikayla, sentindo-se muito mais animada, apesar dos avisos do oddling.

- Olhem! - exclamou Fiolon, tão de repente, que Mikayla achou que ele tinha de fato encontrado um esqueleto. Aquele prédio lá na frente... parece intacto!

As duas crianças saíram correndo, e Quasi foi atrás, muito infeliz.

O prédio estava mesmo inteiro, e quando cruzaram a porta, as vozes que Quasi mencionou começaram.

- Elas não parecem ameaçadoras - observou Mikayla, parando para ouvir.

Fiolon escutava atentamente.

- Acho que estão dizendo a mesma coisa em línguas diferentes, uma espécie de discurso de boas-vindas ou proclamação, talvez. Ouçam as cadências. Estão vendo como são similares

Mikayla ficou ouvindo até as vozes pararem, mas balançou a cabeça.

- Eu não tenho o seu ouvido, Fiolon, mas estou certa de que tem razão. Venha, músico mestre, vamos ver se encontramos outra caixa de música para você.

Ela segurou o braço dele e puxou-o para o interior do prédio.

A construção era de pedra, formada por salas enormes, com grandes janelas de treliça que deixavam entrar muita luz. Apesar das trepadeiras que se enroscavam na treliça, havia claridade suficiente para não precisarem de tochas.

- Queria saber se isso foi uma escola - disse Mikayla quando passaram por uma sala cheia de bancos e mesas.

- Talvez fosse um teatro - Fiolon chegou antes dela na sala seguinte. - Olhe como os bancos estão dispostos em tablados em volta do palco.

- É - disse Mikayla -, isso parece mesmo com um retrato de um teatro que vi num livro em casa. Mas uma escola também não poderia ter um teatro?

- Teria de ser uma escola muito rica - observou Fiolon.

- Quem sabe, se comparados conosco, os Desaparecidos não eram ricos - disse Mikayla. - Mesmo alguns artefatos que podem ter sido apenas quinquilharias para eles têm um preço incalculável para nós - ela pôs a cabeça numa porta e espiou uma sala menor atrás do palco. - Acho que isso é uma espécie de depósito, mas está escuro. Você tem uma tocha?

Quasi apresentou de má vontade uma tocha e uma caixa de pavios, resmungando que algumas coisas talvez não devessem ser iluminadas.

Mikayla ignorou o mau humor dele, mas agradeceu e tirou a tocha da mão do oddling. Juntos, Fiolon e ela entraram na sala e ficaram boquiabertos de espanto. A sala era cheia de estantes, prateleiras e armários. Fiolon voltou para a sala do teatro para pegar outra tocha com Quasi, enquanto Mikayla começava a examinar as prateleiras. A primeira estava repleta de máscaras estilizadas, mas definitivamente de rostos humanos, na forma e na cor. Tinham buracos no lugar dos olhos para o usuário poder enxergar através deles, e um buraco menor no lugar da boca, obviamente para respirar e falar. Ao lado da prateleira havia um cabide com fantasias, mas quando Mikayla tentou tirar uma, ela se desfez na sua mão. A menina ficou desolada.

- O que foi que eu fiz?

Fiolon acendeu sua tocha na dela e passou a mão nos fragmentos no chão. Desmancharam mais ainda quando tocou neles.

- Você não fez nada, Mika - ele procurou tranqüilizá-la. Isso é um tipo de seda, e seda apodrece com o tempo. Qualquer coisa que encostasse aí ia destruir tudo.

- Ainda bem - disse Mikayla. - Odiaria pensar que estava destruindo peças valiosas da história.

Fio deu de ombros.

- Não se pode encostar nisso sem destruir. Vou verificar os armários. Se houver alguma caixa de música nesta sala, ela deve estar num dos armários.

- Senão já estaríamos ouvindo suas músicas agora - concordou Mikayla. - Vou dar uma espiada rápida no resto das estantes, depois começo na outra ponta dos armários e nos encontramos no meio.

Fiolon concordou com um grunhido, já abrindo os armários de forma metódica. Mikayla passou pelo resto das roupas, cuidando para não esbarrar nelas, e chegou a uma estante cheia de esferas prateadas com o diâmetro da unha do polegar. Cada esfera tinha uma argola presa em cima e estavam todas penduradas com fitas de várias cores, feitas com algum tipo de tecido que Mikayla nunca tinha visto. A julgar pelo comprimento da fita, deviam servir como uma espécie de pingente, e estavam arrumadas em pares. Mikayla tocou numa de leve com a ponta do dedo e ouviu uma nota suave quando a esfera balançou para trás e para frente.

Embora muito suave, o som chamou a atenção de Fiolon.

- O que você encontrou aí - ele perguntou, juntando-se a ela.

- Eu não sei - disse Mikayla -, mas são bonitinhas, não?

Fiolon já estava testando o tom de cada uma, para cima e para baixo da estante.

- As cores diferentes são notas diferentes - ele disse, distraído.

- Eu gosto dessa - Mikayla pegou uma de um par com fitas verdes e pendurou no pescoço. - Pronto - disse ela, enfiando a outra pela cabeça de Fiolon -, pelo menos encontramos algo musical - ela passou a mão na fita em volta do pescoço. - Não sei do que é feita esta fita, mas é mais resistente do que seda - ela foi para a outra extremidade dos armários.

- Vou começar a examinar a minha parte dos armários agora.

Fiolon sacudiu a bola de som perto de cada orelha, depois enfiou-a na túnica, antes de voltar aos armários. Explorou mais alguns e então ouviu uma cacofonia de sons ao abrir outro.

- Olhe, Mika! - ele gritou. Mika riu.

- Não preciso olhar, posso ouvir. Elas parecem mesmo estranhas tocando todas juntas, não é? Quantas tem aí?

- Sete - respondeu Fiolon, guardando algumas na bolsa presa ao cinto.

Mikayla foi para perto e guardou o resto na sua bolsa. Tudo ficou silencioso quando privaram de luz aqueles artefatos.

- Podemos ir agora? - era a voz de Quasi de fora do prédio. - Por favor?

Mikayla e Fiolon trocaram olhares resignados.

- Bom - admitiu Fiolon -, creio que podemos. Não tenho certeza, Mika, mas acho que temos até uma duplicata aqui.

- E não sabemos quantas daquelas terríveis larvas de skritek sobreviveram, e se vão descer o rio - admitiu Mikayla. - E podemos voltar um dia, quando não for a época de desova dos skriteks.

- Ótimo - disse Quasi, animado. - Vamos sair daqui... gostaria de chegar inteiro em casa!

Mikayla enfiou a pequena esfera na túnica para não enganchar nas coisas no caminho de volta para os barcos, apagaram as tochas e retornaram ao rio.

Quasi examinou os barcos com tristeza.

- É melhor deixar um aqui - ele disse. - Cabemos todos em um só, e chegaremos em casa muito mais depressa se não tivermos nós três de manobrar os dois barcos.

As crianças concordaram, e rapidamente transferiram os suprimentos restantes para um único barco. Puxaram o outro bem para cima da margem e o deixaram emborcado.

- Podemos recuperá-lo da próxima vez que viermos para cá - disse Mikayla.

Quasi bufou e empurrou o barco para longe da margem.

O rio carregou-os rapidamente a favor da correnteza, e logo estavam se aproximando do ponto em que o Golobar desaguava no Rio Mutar Meridional. Mikayla apertou os olhos, tentando obter uma visão melhor da água à frente.

- A corrente parece muito mais rápida do que quando subimos o rio - ela observou atentamente.

Quasi olhou naquela direção e exclamou assustado.

- Abaixem-se e segurem firme no barco - ele ordenou, mas quando as crianças se apressaram em obedecer, o barco entrou no Rio Mutar Meridional e virou uma cambalhota, como um barquinho de brinquedo num vento forte.

Felizmente o barco estava muito perto da margem oposta do Mutar Meridional quando virou, e a corrente carregou os três ocupantes naquela direção. Fiolon conseguiu ficar de pé bem rápido, agarrou Quasi e empurrou-o para cima da margem.

Mikayla subiu em um cobertor que estava flutuando na superfície. Na primeira tentativa de respirar o cobertor encheu sua boca, por isso tratou de cuspi-lo, mergulhou de novo e subiu com as mãos fechadas para cima para ficar de pé. Então ficou dentro de uma bolsa de ar limitada pelas mãos e pela cabeça. Andando com todo cuidado para trás e mantendo as mãos para frente, manteve o espaço com ar intacto até sair de baixo do cobertor e ver Fiolon olhando fixo para ela.

- Isso foi muito estranho - ele disse. - Por um instante tive medo que você se afogasse.

- Não - Mikayla disse -, mas achei que ia respirar todo aquele cobertor.

Os dois arrastaram o cobertor para fora da água e o estenderam num galho para secar, sabendo que iam precisar dele quando a noite chegasse.

- Veja o lado positivo - disse Mikayla, espremendo as tranças para tirar a água -, pelo menos estamos fora do território dos skriteks.

- E não muito longe de casa - acrescentou Fiolon. - Quasi, você consegue se comunicar com a sua aldeia?

Alguns oddlings podiam comunicar-se mentalmente em distâncias curtas, e Quasi era muito talentoso nisso.

Quasi, porém, estava mudo e olhava fixo para o céu. As crianças seguiram o olhar dele e viram dois pássaros enormes descendo na direção dos três.

Eram pelo menos três vezes maiores que qualquer pássaro que Mikayla tinha visto na vida, mas quando chegaram mais perto percebeu que eram ainda maiores do que tinha pensado no início. Os corpos eram brancos, quase do tamanho de um fronial, e as asas malhadas em branco e preto, mas o pescoço e a cabeça não.tinham penas, e eram quase da mesma cor da pele de Mikayla. Os olhos eram negros e tinham um ar inteligente que Mikayla jamais vira num pássaro antes. Os bicos eram marrom-escuro e tinham um furo de cada lado, perto dos olhos.

Em segundos os pássaros desceram do céu e aterrissaram ao lado dos caminhantes enlameados. Uma mulher estranha estava sentada nas costas de um dos pássaros. As crianças ficaram olhando, espantadas.

- Eu não sabia que pássaros podiam transportar pessoas - disse Mikayla para Fiolon.

Fiolon não respondeu, simplesmente ficou ali sentado, olhando.

Mas a dama parecia impaciente.

- Mikayla - disse ela, estendendo a mão para segurar a menina pelo braço - senta aqui na minha frente - ela praticamente ergueu Mikayla no ar e a fez sentar. - Fiolon - acrescentou, apontando para o segundo pássaro - sobe nesse.

Fiolon moveu-se devagar para obedecer a ordem, olhando desconfiado para o grande pássaro e arrastando Quasi com ele. O oddling hesitou até a mulher fazer um sinal com a cabeça para ele, então sentou encostado ao pescoço da ave.

A mulher disse alguma coisa para os abutres gigantes e eles voaram. Mikayla podia ter achado que estava sonhando, mas a dor que sentia no braço, no lugar em que a senhora tinha puxado quando a pôs no pássaro, e a sensação extremamente desagradável das roupas molhadas congelando no corpo enquanto voavam acabaram servindo para convencê-la de que estava acordada e, pelo menos naquele minuto, viva.

Em uma hora chegaram à torre - a mesma distância que Haramis tinha atravessado com tanta dificuldade em seus froniais.

Mikayla notou que quando o pássaro que a carregava começou a perder altitude o ar ficou um pouco mais pesado e quente, se bem que ”quente” era um termo relativo naquele lugar. Ela ergueu um pouco a cabeça, pois tinha enfiado o rosto nas penas da ave para se proteger do vento cortante, e espiou por trás do pescoço do pássaro. Ele descia na direção de uma torre branca, construída numa plataforma na montanha. Com a neve em volta, podia ser invisível, se não estivesse toda decorada com galões negros em volta de todas as janelas e ameias negras também, no topo. Havia um terraço suficientemente grande para a aterrissagem dos abutres, e parecia que era esse o destino deles.

Os pássaros desceram, encolhendo as asas, e Mikayla, livre do abraço da mulher, deslizou para o chão. A essa altura sua roupa estava toda congelada; estalava quando andava. Ela virou-se para ver se Fiolon estava bem.

Fiolon também já estava no chão, carregando o corpo de Quasi, desmaiado, ignorando completamente os pássaros que alçavam vôo ao lado dele.

- Quasi! - chamou ele aflito, sacudindo o pequeno oddling. -Acorde!

A dama caminhou rapidamente para perto deles e estendeu a mão meio sem jeito para tocar na testa de Quasi de leve.

- Ele não pode ouvir você - disse ela secamente. - Traga-o para cá. Sigam-me.

Ela deu meia-volta e entrou na torre por uma porta, sem olhar para trás.

Mikayla ajudou Fiolon a erguer o corpo de Quasi. Ficou consternada ao notar que ele estava frio e não reagia, enquanto Fiolon e ela, ambos duros de frio e tolhidos pelas roupas congeladas, lutavam para manobrá-lo pela porta. Quasi nem se encolheu quando deram uma trombada com ele sem querer no batente da porta.

Quando entraram viram a mulher parada no fim do corredor, olhando para o pé da escada. Ouviram o som de passos leves correndo em sua direção, seguidos pela chegada de cinco servos: três nyssomus e dois vispis. Mikayla nunca tinha visto um vispi, mas reconheceu-os imediatamente pelas descrições nos livros que Fiolon e ela tinham lido.

Os vispis pareciam mais humanos que os nyssomus, eram mais altos, com os rostos mais estreitos, e o que Mikayla achou que eram narizes normais, e bocas com dentes pequenos e iguais. Como os nyssomus, tinham olhos maiores que os dos humanos, mas eram verdes em vez de dourados. Tinham cabelo branco prateado e orelhas pontudas, três dedos em cada mão e unhas que na realidade eram garras.

- Bem-vinda de volta, Senhora Haramis - disse respeitosamente a mulher nyssomu.

- Obrigada - Haramis respondeu laconicamente, indicando a forma inerte de Quasi e apontando para os dois homens nyssomu. - Você e você, levem-no e tratem de esquentá-lo. Você - ela disse para a mulher vispi, indicando Mikayla - leve a menina, dê-lhe um banho e roupas - para o homem vispi ela acrescentou. - Você leva o menino.

Livre do corpo de Quasi e sendo levada por outra escada, Mikayla ouviu Haramis dar mais uma ordem.

- Prepare um banho para mim, Enya, e certifique-se de que o fogo está aceso no meu estúdio. Vamos comer lá quando as crianças estiverem prontas.

Ao mergulhar o corpo gelado na banheira de água quente Haramis lembrou, na hora certa, do que os pais de Mikayla iam pensar sobre o súbito desaparecimento dos jovens. Lançou esses pensamentos para um dos abutres mais próximos, pedindo para que ele levasse um dos seus servos com uma mensagem para o rei e a rainha. Quando o abutre gigante respondeu ela disse para Enya escolher um servo para fazer a viagem e certificar-se de estar bem agasalhado para a jornada com o pássaro. Enya inclinou a cabeça e saiu do quarto.

 - Estou ficando muito velha para voar por aí desse jeito ela resmungou, de molho na banheira, deixando os membros gelados se aquecerem para reagirem melhor ao seu comando.

Ficou pensando por que tinha levado todos para lá, em vez de apenas voltar para a Cidadela. Nenhum estava vestido para voar nesse clima, e aquele oddling podia ficar congelado para sempre. Haramis sabia que não devia levar um oddling desprotegido para aquelas montanhas - mesmo mais de duzentos anos depois ainda lembrava do dia em que tinha deixado Uzun tentar subir a montanha com ela quando procurava seu talismã. Tocou no Círculo com Três Asas, que continuava pendurado na corrente de ouro sobre o peito. Naquela ocasião tinha perdido dois dias descendo a montanha com Uzun para descongelá-lo. Devia ter lembrado disso antes de deixar um nyssomu montar num abutre gigante. Ele estaria mais seguro no pântano. E ela não precisava dele, nem do menino, na torre. A única que precisava estar ali era Mikayla. Será que estou ficando senil? ela pensou.

Franziu a testa, considerando a pergunta. Tinha descoberto em sua longa carreira de arquimaga que às vezes fazia coisas que pareciam estranhas para ela na hora, mas acabava percebendo que havia uma boa razão para essas atitudes, embora a razão fosse desconhecida no momento. Sentia que estava passando por um momento desses, mas qual seria o motivo? A única coisa que conseguiu imaginar foi que os pais de Mikayla poderiam ter se recusado a deixá-la levar a filha deles, mas pelo que tinha visto dos monarcas, não pareciam inclinados a ter essa reação. E se tivessem tentado impedi-la, levaria a menina de qualquer jeito, e não poderiam fazer nada a respeito.

Mexeu os ombros num gesto de quem não se importa, saiu da banheira e vestiu a roupa mais quente que tinha, apesar do quarto não estar nada frio. Então foi encontrar seus hóspedes.

Os servos tinham encontrado várias peças de roupa, mas nada exatamente do tamanho das crianças. Logo estavam sentados, secos e aquecidos, embora estranhamente vestidos, com as várias peças de tamanhos errados, perto do fogo no estúdio A de Haramis, diante de uma boa refeição preparada por uma das empregadas. Enya estava muito satisfeita, pois muitas vezes reclamava com Haramis que a arquimaga não comia o suficiente para manter um passarinho vivo. E Enya, que gostava de cozinhar, considerou os apetites saudáveis das crianças um desafio muito bem-vindo para seus consideráveis talentos.

Quasi já estava bem descongelado para juntar-se a eles, mas continuava bastante lerdo e comeu pouco. As crianças pareciam muito preocupadas com ele e ficaram perguntando repetidamente como se sentia, até que Haramis finalmente perdeu a paciência, disse para ficarem quietos e tratarem de comer.

Mas quando por fim os pratos desapareceram por mágica e foram parar na cozinha, a arquimaga olhou intensamente para os jovens hóspedes e para Quasi, sentado respeitosa e silenciosamente com as mãos juntas ao lado deles.

- Bichinhos cansativos - ela observou zangada. - Gostaria de saber se algum dos três vai demonstrar que valeu o trabalho que deram para mim e para os meus abutres gigantes.

Quasi, que tinha revivido bastante durante a refeição, provavelmente devido ao fato de estar sentado mais perto do fogo, retrucou com certo atrevimento.

- Com seu perdão, senhora, foi muito bom ter ido nos procurar e certamente somos muito gratos, mas nenhum de nós pediu para ser trazido para cá. E não sei o que o rei e a rainha vão pensar quando ninguém encontrar nenhum sinal da princesa e do jovem amo.

- É isso mesmo - disse Mikayla. - Mamãe e papai ficarão terrivelmente preocupados se não receberem notícias nossas.

- Não ouse ser impertinente - rosnou a arquimaga. - Enviei uma mensagem para o rei e a rainha, e logo vão saber que estão a salvo comigo. E pelo que vi dos seus pais e ouvi do comportamento de vocês - ela acrescentou com rispidez - eles só vão começar a se preocupar com vocês daqui a vários dias.

Mikayla mordeu o lábio e baixou os olhos.

Secretamente Haramis achava que se os pais de Mikayla e guardiões de Fiolon ficassem alguns dias preocupados com as crianças seria bem feito, por cuidarem tão mal deles e por isso ter resultado na sua torre estar de cabeça para baixo com os hóspedes inesperados.

- Mas tem de compreender - disse Mikayla enfática - que afinal de contas nós não precisávamos ser salvos. Afinal, madame - ela não tinha certeza de quem a arquimaga era, mas só pela abundância de cabelos brancos sabia que a senhora idosa tinha direito ao respeito -, nós escapamos dos skriteks, e conseguimos chegar à margem em segurança, e não estávamos longe da aldeia de Quasi. Estávamos nos virando muito bem, e se nos salvou deve ter sido porque tinha alguma razão própria, ou alguma utilidade para nós, não é? Então não é nossa culpa de estarmos aqui, não é?

- Oh, Mika, você não deve ser tão ingrata - disse Fiolon, chocado. - Tenho certeza de que a dama, seja quem for, tem razões excelentes para ter feito o que fez.

Até aquele instante não tinha ocorrido à arquimaga que nenhum dos dois tinha a menor idéia de quem ela era. Levantou a cabeça e disse, irritada.

- Vocês não sabem quem eu sou?

- Não temos a menor idéia, senhora - disse Fiolon educadamente. - Imagino, por causa dos pássaros, que deve ser pelo menos uma feiticeira poderosa. Ouvi dizer que apenas uma mulher podia comandar os abutres gigantes, e achava que essa mulher tinha morrido há muitos anos. A senhora não pode ser a velha arquimaga de Ruwenda... - ele hesitou - ... ou pode?

Haramis percebeu que devia ter se preparado para isso. Se realmente tivesse pensado no caso, saberia que nenhum deles jamais tinha posto os olhos nela antes. E pelo que tinha observado da atitude do rei em relação aos dois, dava para concluir que negligenciaram a educação deles também.

- Eu não sou a velha arquimaga, não - ela declarou. - Seu nome era Binah, e ela morreu há muitos anos, antes de qualquer um de vocês jovens terem nascido. Eu sou a nova arquimaga... não seria correto dizer a jovem arquimaga agora... e meu nome é Haramis.

Fiolon engoliu em seco. Obviamente o nome significava alguma coisa para ele, mas Mikayla continuou sem entender. -

Haramis franziu o cenho olhando para ela.

- Sou também sua parenta. Nem pense que tenho orgulho desse parentesco - ela acrescentou asperamente - porque não tenho.

Mikayla ficou de pé e fez uma mesura. Tinha modos maravilhosos quando queria, Haramis observou, tendo sido provavelmente muito bem treinada na etiqueta da corte pela rainha. Mas parece que raramente usava.

- Posso perguntar por que fomos trazidos para cá, minha senhora arquimaga?

Haramis suspirou. Tinha perdido quase todo o entusiasmo de ter escolhido aquela menina como sucessora. Mas afinal de contas, não tinha outra opção. Na verdade não cabia a ela escolher, sua tarefa era apenas treinar a menina. Mikayla, pelo menos, era bisneta de Anigel... ou será que era tataraneta?.... e devia ter alguns talentos da sua ancestral. Simplesmente ia ter de fazer o melhor possível.

Reuniu todo o autocontrole que possuía e explicou.

- Como todas as criaturas, eu sou mortal. Devo treinar a minha sucessora antes de morrer. Você gostaria, Mikayla, de tornar-se arquimaga quando, como todas as coisas, eu passar para o próximo estágio da existência, seja ele qual for?

Mikayla ficou olhando fixo para ela, boquiaberta. Haramis esperava que aquela expressão fosse só de espanto, mas definitivamente assemelhava-se mais a terror. Passaram-se vários minutos antes da menina conseguir dizer alguma coisa.

- A idéia nunca passou pela minha cabeça, madame. O que faz uma arquimaga?

- Mika! - o sussurro de reprovação de Fiolon não saiu tão baixo e Haramis virou para ele.

- Você tem alguma coisa a dizer, meu jovem? - perguntou ela, com azedume.

A educação deu lugar à curiosidade rapidamente.

- Então é a arquimaga Haramis, uma das princesas trigêmeas? - ele perguntou. - A que travou a grande batalha com o feiticeiro maligno Orogastus e conseguiu derrotá-lo... - ele fez uma pausa e olhou em volta, animadíssimo. - Essa é a torre na qual ele vivia, não é? - perguntou entusiasmado.

Haramis ergueu as sobrancelhas, espantada.

- É sim - respondeu. - Como é que você conhece essas histórias antigas?

- Eu gosto de música - disse Fiolon encabulado, olhando para o chão e traçando um meio círculo com a ponta do pé no tapete - e decorei todas as baladas que ouvi, inclusive as do mestre Uzun.

As cordas da harpa que estava silenciosa num canto vibraram suavemente, como se tivessem ouvido algo agradável. Fiolon olhou depressa para o instrumento. Mikayla aparentemente não ouviu nada.

- É mais do que só ”gostar de música” - disse Mikayla com orgulho. - Ele toca qualquer instrumento que eu já vi e tem uma linda voz. O rei pede para ele tocar na corte sempre que temos visitas.

Haramis sorriu para o menino.

- Nesse caso, talvez possa tocar para mim antes de partir. Fiolon cumprimentou-a inclinando-se para frente da melhor forma que pôde, ainda sentado.

- Seria uma honra, Senhora de Branco.

- Quando é que vamos embora? - perguntou Mikayla. Haramis virou para ela, controlando um suspiro. Espero que Binah jamais tenha achado que eu fosse tão pouco promissora assim, pensou.

- Você não vai embora, Mikayla - ela disse. - Deve ficar aqui para eu poder treiná-la para ser minha sucessora.

- Mas vou me casar com Fiolon - protestou Mikayla, estendendo a mão para ele.

Fiolon segurou a mão de Mikayla, mas parecia sério. Obviamente ele compreendia melhor do que ela o que estava acontecendo.

- Essa é a única coisa boa de ser a princesa mais nova. Meus pais já têm filhas suficientes para fazer todas as alianças que precisam, por isso disseram que Fiolon e eu podíamos nos casar. Vamos morar numa pequena propriedade perto do Pântano Verde, e explorar as ruínas que existem lá, e ensinar aos nossos filhos a história dos Desaparecidos...

Ela parou de falar diante do olhar de Haramis.

- Nosso noivado será anunciado na primavera - protestou Mikayla. - Meus pais prometeram. Sou apenas uma princesa a mais... não sou útil para ninguém.

- Você é útil para mim - disse Haramis com firmeza. - Você é útil para a terra - ela lançou um olhar duro para Fiolon, até ele soltar a mão de Mikayla, não sem relutância.

- Fio?

Mikayla tentou agarrar-se a ele, mas ele deu um tapinha nas costas da menina e largou-a.

Ela olhou para ele, depois para Haramis.

- Eu não tenho escolha?

- Não - disse Haramis sem rodeios. - É importante demais para ficar à mercê dos caprichos de uma criança.

Mikayla fitou-a demoradamente e Haramis praticamente viu as engrenagens do pensamento rodando na cabeça da menina.

- Se não tenho escolha, então creio que não importa o que eu penso - ela disse, fazendo uma mesura para a arquimaga com mais polidez do que Haramis esperava, e continuando: Estou à sua disposição, senhora Haramis.

Mas Haramis sentiu que estava captando alguns fragmentos do pensamento de Mikayla, e a linguagem corporal da menina era muito expressiva. Mikayla podia satisfazer o desejo de Haramis, mas ia levar muito tempo até isso se transformar na vontade dela também. Muito tempo mesmo.

Quem sabe eu devia esperar até estar à beira da morte para jogar a tarefa em cima dela, pensou Haramis cansada. Treinar essa menina não vai ser fácil.

Estava tudo quieto no estúdio da arquimaga, não se ouvia nenhum som, exceto o estalar do fogo.

Fiolon levantou e foi até a linda harpa, toda trabalhada e do tamanho dele, com cordas de prata e moldura de madeira vermelha acetinada, com incrustações de osso branco no topo da coluna.

- Que linda harpa, senhora Haramis - ele disse. - Posso tocar um pouco? Estou certo de que seu som é mais bonito do que o de qualquer harpa que já vi.

- Você sabe tocar harpa, jovem Fiolon? - disse Haramis surpresa.

- Sei, mas não sou nenhum especialista. Tive aulas de vários instrumentos. Mas acho que de todos a harpa é meu favorito. É quase impossível produzir um som que não seja belo na harpa.

- Acho que você tem razão - disse Haramis, levantando da cadeira. - Mas essa não é uma harpa comum. E não se pode tocá-la como qualquer instrumento comum. Ela é Uzun, meu conselheiro oddling mais sábio.

- É o mestre Uzun? - perguntou Fiolon surpreso e animado. - Pensei que ele tinha morrido há muito tempo.

- Quando ele finalmente chegou ao fim de sua vida natural - explicou Haramis - foi o meu primeiro grande ato de magia que o transformou nessa harpa, para poder usufruir sempre do benefício de seus sábios conselhos. Vou apresentá-lo a ele, e, se ele estiver disposto, poderá falar com você ou até cantar.

- Nunca ouvi bobagem tão grande em toda a minha vida - resmungou Mikayla. - Como é que uma harpa pode ser um conselheiro, fosse quem fosse em vida?

- Eu não sei - disse Fiolon baixinho. - Mas pelo menos até agora, estou disposto a acreditar em qualquer coisa que a senhora diz. Tenha cuidado, Mika.

Haramis deu uma olhada severa para Mikayla mas não disse nada. Chegando mais perto, ela cumprimentou a harpa.

- Boa noite, Uzun.

- Boa noite, senhora Haramis - a voz era forte e plangente, com um tom suave e melodioso, e de fato parecia sair da madeira acústica da grande harpa que continuou imóvel no tapete. Haramis observou Mikayla com o canto do olho. A menina não estava pronta para acreditar na prova dada por seus ouvidos. Provavelmente pensava que devia ser algum tipo de truque engenhoso.

- E quem são esses jovens? - perguntou a voz. - Acho que nunca os vi antes.

- Mestre Uzun - disse Haramis - gostaria de apresentar dois jovens parentes meus: a princesa Mikayla de Ruwenda e lorde Fiolon de Var, filho da irmã falecida do rei.

- Fico contente de conhecer seus parentes, minha senhora - respondeu Uzun, sua voz percorrendo as cordas. - Acho muito bom ter alguém para ajudá-la a lidar com responsabilidades tão numerosas e tão pesadas. Foi ela quem escolheu para assumir seu trabalho quando não puder mais fazê-lo?

- Você me conhece muito bem, Uzun - disse Haramis carinhosamente.

Ela olhou para Mikayla e achou que podia ouvir os pensamentos correndo na mente imatura e indisciplinada da menina. A harpa não tinha olhos - pelo menos até onde sabia, portanto, como podia vê-los? Havia algo muito estranho acontecendo ali, e era óbvio que Mikayla ainda estava tentando entender o que era, e como funcionava.

Haramis perguntou, muito séria.

- Agora você acredita em mim, menina tola?

Mikayla olhou para ela desconfiada.

- Minha senhora, está realmente pedindo para eu acreditar que transformou uma pessoa, uma pessoa morta, numa harpa?

- Bom, pelo menos você foi honesta até agora - disse Haramis rispidamente. - Se duvidar de mim, diga isso sempre honestamente, e eu tentarei explicar. É melhor expressar uma dúvida sinceramente do que fingir que concorda. É sempre melhor dizer a verdade, mesmo se essa verdade me deixar zangada, e por falar em estar zangada... Você está zangada comigo agora, não é, Mikayla?

Mikayla olhou para ela furiosa.

- Estou - disse ela, virando e olhando feio para Fiolon também. - Não olhe para mim desse jeito, Fiolon. - Ela pediu. - E considerando que no fundo ela nos seqüestrou, anunciou sua intenção de manter-me aqui contra a minha vontade e depois me disse que pode transformar uma pessoa numa harpa sem nem pedir licença, acho que você não tem por quê esperar que eu não fique, no mínimo, aborrecida com ela.

Fiolon engoliu em seco.

- Mas Mika - disse ele -, você acha realmente que é uma boa idéia ficar com raiva de alguém que pode transformá-la em outra coisa? Quero dizer, mesmo se estiver zangada, não precisa mentir, é só manter a boca fechada.

A voz de Uzun cantou através da harpa.

- Princesa Mikayla, você está sendo injusta com a nossa senhora Haramis. Ela certamente não me transformou numa harpa sem o meu consentimento, e trabalhou muito duro para conseguir isso.

Mikayla chegou perto de Uzun, estendeu a mão e encostou a ponta do dedo de leve na incrustação de osso da harpa.

- Como foi que ela fez isso? - perguntou. - Esse osso fazia parte do seu corpo? Ela matou você para fazer o encantamento, ou você morreu naturalmente e ela simplesmente picou seu corpo? E é óbvio que pode ouvir, mas será que pode ver? Pode se mexer quando quer?

- Sua sede de detalhes mórbidos pode esperar até você ter treinamento suficiente para compreender o que está dizendo - respondeu a harpa. - E como referência para o futuro, prefiro que não toquem em mim sem o meu consentimento - a voz de Uzun parecia aborrecida enquanto vibrava e silenciava e Haramis sorriu.

- Para onde ele foi? - perguntou Fiolon. - Peça para ele voltar... quero dizer, peça, por favor.

Haramis ficou séria.

- Nem eu dou ordens para Uzun, meu menino. Temo que vocês dois juntos tenham conseguido ofendê-lo e pode levar um bom tempo para ele voltar a falar com um de vocês de novo. Comigo também, porque permiti que fossem grosseiros e fizessem perguntas para ele.

Mikayla rolou os olhos nas órbitas.

- Por que ele iria culpá-la pelo nosso comportamento? Conhecemo-nos hoje, você não tem nada a ver com a nossa criação ou educação. O que ele pode achar que você seria capaz de fazer quanto à nossa maneira de agir?

Fiolon explicou.

- Você devia ser educada com ele, Mikayla. Eu contei sobre ele, lembra? Era o músico da corte do rei Krain, e um mago amador também, e ele acompanhou a princesa Haramis na primeira parte de sua aventura em busca do talismã.

Mikayla olhou para ele e balançou a cabeça.

- Honestamente, Fio, você lembra mesmo de tudo, de todas as canções que ouviu na vida?

Fiolon pensou um instante.

- É, acho que lembro - respondeu.

Mikayla deu um suspiro.

- Bom, procure lembrar que eu não lembro. E muitas das suas canções favoritas têm quase duzentos anos de idade, e ainda parecem todas iguais para mim. E quem foi o rei Krain?

- Ele era meu pai - respondeu Haramis - e foi assassinado horrivelmente quando o exército labornok invadiu... vou poupá-la dos detalhes tenebrosos. É hora de vocês irem para a cama, e não precisam de pesadelos.

Ela puxou violentamente o cordão da campainha e depois sentou-se em silêncio e ninguém ousou quebrar esse silêncio até Enya chegar. Então ela mandou Enya levar as crianças e Quasi para a cama, saindo do estúdio com passos largos, sem nem esperar a reação de Enya às suas ordens.

Quando ela se afastava, Fiolon sussurrou para Mikayla.

- Acho que você não devia ter mencionado o pai dela. Na verdade, se eu fosse você, não mencionaria ninguém da família dela.

Um pouco mais tarde as crianças foram postas na cama no quarto de hóspedes da arquimaga, em duas camas estreitas, lado a lado. Haramis foi para o quarto dela e armou sua bacia de visão.

- Vamos ver o que esses dois fazem quando estão sozinhos - murmurou.

No início não havia nada interessante para ver. Mikayla, que afinal teve um dia longo e cansativo, adormeceu logo. Mas Fiolon parecia inquieto e incapaz de cair no sono. Ficava virando de um lado para outro na cama, sentando de vez em quando, deitando e tentando dormir de novo, sem sucesso.

Haramis suspeitava que ele estava lembrando a cena com Uzun ao lado da lareira, e que desejava ir lá para baixo outra vez para fazer as pazes com o mestre Uzun antes de dormir. Era óbvio que o menino tinha juízo suficiente para saber que não era bom para Mikayla ter o mestre Uzun como inimigo.

E ele está certo, pensou Haramis, Mikayla devia cuidar para ficar em bons termos com Uzun; mesmo na sua forma atual, ele é o único dos meus conselheiros que continua vivo. A não ser por alguns servos oddlings, a maioria vispi, não há mais ninguém vivo na torre além de Uzun e eu.

Quando Fiolon levantou da cama e começou a descer a escada, Haramis não fez nada para impedi-lo. Ficou sentada e quieta, observando, preparada para se divertir com o confronto que ia acontecer. Uzun tinha sido sempre extremamente teimoso. Seria interessante ver como Fiolon ia lidar com ele.

Não tinha ninguém no estúdio, só o cintilar das brasas na grande harpa, cuja madeira brilhava como bronze avermelhado à luz do fogo. Fiolon ajoelhou no tapete da lareira de frente para a harpa e murmurou.

- Mestre Uzun, imploro que perdoe minha prima Mika. Ela não quis ofendê-lo. Ela é assim mesmo. Jamais acredita em alguma coisa sem antes ver e avaliar. É o tipo de pessoa que gosta de desmontar as coisas para ver como funcionam. Não é dada a aceitar as coisas simplesmente pela fé e nem acredita em mágica cujas regras não entenda.

Mestre Uzun continuou em silêncio. Haramis esperou e ficou observando. Deu para notar, então, que Fiolon pensou uma coisa - a idéia foi dele mesmo, ou então a recebeu de alguma forma do mago silencioso diante dele - que para o mestre Uzun perdoar Mikayla a menina teria de ir até ele e pedir perdão pessoalmente por suas palavras impensadas. Ele ficou de pé e encaminhou-se para a escada. Haramis continuou a seguir o caminho dele na bacia de visão.

Fiolon não perdeu tempo. Subiu sem fazer barulho para o quarto de hóspedes onde Mikayla dormia. A única parte visível da prima era um cacho ruivo sobre o travesseiro. Fiolon deu um puxão no cabelo, Mikayla surgiu de baixo das cobertas e abriu os olhos.

- Fio? Por que não está dormindo? Ainda não amanheceu, não é? Está escuro ainda! O que houve?

- Mikayla, você precisa descer agora para o estúdio e implorar o perdão do mestre Uzun.

- Você ficou maluco, Fio? Estamos no meio da noite! Ele provavelmente está dormindo... supondo que ele dorme - ela franziu o cenho. - E sua voz está estranha. Você está doente? Nós todos pegamos uma friagem terrível na viagem para cá, e você mais do que eu. Pelo menos eu estava entre Haramis e o pássaro, de forma que fiquei protegida, mas você deve ter recebido todo o impacto dos ventos - ela pôs a mão na testa dele e se assustou. - Fiolon, você está ardendo em febre. Volte já para a cama!

Fiolon fez uma cara feia para ela.

- Só depois que você pedir desculpa para o mestre Uzun.

Mikayla deu um suspiro.

- Ah, tudo bem. Faço qualquer coisa para você parar de agir feito um idiota. Você está doente, Fiolon. Devia estar na cama.

Ela levantou da cama, parou apenas para calçar uns chinelos bem quentes e seguiu atrás dele escada abaixo.

As brasas vermelhas do fogo tinham queimado e brilhavam pouco. Fiolon reavivou o fogo e abanou para obter uma pequena chama, enquanto Mikayla se ajoelhava perto da harpa reluzente.

- Mestre Uzun - disse ela arrependida, depois ficou de pé e fez uma mesura digna da corte. - Eu peço que me perdoe, mestre Uzun - ela murmurou cerimoniosamente. - Se a senhora arquimaga de fato me escolher para ser sua sucessora, eu precisarei de amigos aqui. Com toda a humildade imploro o seu perdão, e garanto que não tive a intenção de ofendê-lo, nem quis duvidar da sua palavra - ela ficou em silêncio um tempo. - Por favor, perdoe-me, senhor - ela sussurrou de novo depois de alguns minutos.

Fez-se silêncio no estúdio. Então, com um som longo como um suspiro, as cordas de Uzun tocaram um trinado de música e ele respirou.

- De fato eu a perdôo de coração, pequena senhora; princesa Mikayla. Nós seremos amigos, eu espero, deste momento em diante. E você também, jovem amo Fiolon. Foi gentil da sua parte querer consertar esse mal-entendido.

O que ele não disse, mas que Haramis, observando do quarto, compreendeu, com a mesma clareza que teria se Uzun tivesse dito em voz alta, foi que gostaria de aprofundar seu relacionamento com Fiolon. Mas Uzun devia saber que Fiolon não ia ficar ali muito tempo.

- Você não deve se considerar uma prisioneira aqui, princesa - disse Uzun, como se captasse o pensamento de Mikayla - É uma grande honra ser escolhida como arquimaga, e tenho certeza de que você fará bem o trabalho quando chegar a hora. E terá a vantagem de receber um treinamento apropriado, um luxo que a senhora Haramis não teve.

- Por que ela me escolheu? - perguntou Mikayla. - Eu não sou nem um pouco do tipo mágica.

Ao lado dela Fiolon deu uma risada fraquinha. Obviamente concordava com a avaliação do caráter da menina.

- A arquimaga não escolhe sua sucessora - explicou Uzun. - Na verdade creio que é a própria terra que faz a escolha. Mas quando chega o momento a arquimaga fica sabendo, para poder passar o cargo.

- Como é que a senhora Haramis foi escolhida? - perguntou Fiolon curioso. - Suas baladas nunca explicaram muito bem.

- Ai de mim pela minha fraqueza - suspirou Uzun. - Eu não estava com ela na hora. Tive de deixá-la quando ela viajou para essas montanhas em busca do talismã.

- Você teria congelado até a morte se tentasse segui-la - observou Mikayla gentilmente.

Haramis ficou contente de ver que a menina parecia apreciar pelo menos um pouco os sentimentos dos outros.

- Quasi ficou congelado hoje e teve de ser revivido. Lembra como ele estava lerdo no jantar?

- Quase? - perguntou a harpa. - O nyssomu que estava com vocês? Ninguém o apresentou para mim.

Mikayla ficou olhando intensamente para a harpa alguns longos segundos.

- Você é cego - disse ela com convicção. - E não pode se mexer, pode? Você é uma pessoa presa numa harpa, que consegue ouvir e falar, mas é só. Como é que ela pôde fazer isso com você?

- Ela queria manter-me vivo - disse Uzun baixinho.

- Foi você quem ensinou magia para ela quando era criança - disse Fiolon, mudando de assunto rapidamente. - Isso está em uma das Crônicas. Por isso a escolheram, porque já conhecia mágica?

- Não pode ser - objetou Mikayla antes que Uzun pudesse responder.

Haramis engoliu um suspiro. No caso de Mikayla as boas maneiras eram intermitentes demais.

- Porque se fosse assim, eu não seria escolhida. Não conheço muita magia, Fio... é você quem sabe fazer mágica.

Fiolon corou tão violentamente que dava para ver, mesmo com a luz fraca do fogo.

- Só pequenos truques, nada como o mestre Uzun ou a senhora arquimaga. Mas as trigêmeas sabiam fazer mágica, Mika, por isso aposto que você pode aprender. Você jamais tentou executar um encantamento importante, portanto não pode saber se tem habilidade para a magia ou não - ele ficou pensativo um instante, depois acrescentou: - Tenho certeza de que você tem algum tipo de habilidade para a magia. Lembre que você disse que havia algo errado, logo antes dos skriteks começarem a sair dos ovos.

- Eu sei que não me interesso por mágica - resmungou Mikayla. - Pena que ela não escolheu você.

Uzun falou em voz baixa.

- Sei que isso representa um grande choque para você, filha, mas tudo vai dar certo. Você vai ver.

Mikayla suspirou.

- Eu só queria casar com Fiolon e explorar o Pântano Labirinto.

- Então tem mais em comum com a senhora Haramis do que pensa - disse Uzun. - Ela estava prometida ao príncipe Fiomaki de Var. Cinqüenta dias antes do casamento o exército do rei Voltrik atacou Ruwenda. E ela era a herdeira do trono. Acredite em mim, a princesa Haramis tinha muitos planos que não incluíam ser arquimaga - um som igual a uma risadinha vibrou nas cordas. - E eu nem precisava estar aqui para ter certeza de que ela deve ter discutido muito com a arquimaga Binah sobre isso.

Eu tentei mesmo, pensou Haramis, mas quando ela morreu, tão de repente, interrompeu a discussão no meio.

- Vocês devem voltar para suas camas agora, meninos - disse Uzun. - Desejo-lhes uma ótima noite e bons sonhos.

O tom de voz dele não deixou dúvida de que estavam dispensados, como da presença de um cortesão. As duas crianças inclinaram as cabeças para ele e subiram para suas camas.

Logo que adormeceram, Haramis esvaziou a bacia de visão e caminhou com certa dificuldade para a cama. Ficar tanto tempo sentada na mesma posição olhando a bacia não era bom para seu corpo. Quando adormeceu estava pensando que Uzun provavelmente seria muito útil no aprendizado de Mikayla. Os Senhores do Ar sabiam que ela ia precisar de toda a ajuda possível!

Haramis tinha resolvido que Fiolon ia voltar para casa no dia seguinte. Ela não queria demorar muito para separá-lo de Mikayla. A menina aprenderia o que Haramis tinha para ensinar muito mais depressa sem se distrair com a presença do seu companheiro de infância. Era hora de Mikayla crescer e assumir as responsabilidades de um adulto.

Infelizmente, Mikayla estava certa na noite anterior, quando disse que Fiolon estava doente. Quando as crianças acordaram, bem tarde, ele tinha problema para respirar e reclamava com voz fraca que seu peito doía. Quando Haramis foi examiná-lo, Mikayla olhou para ela furiosa.

- Ele está com uma pneumonia, senhora - ela disse zangada -, o que já era de se esperar, depois do tempo que passou ontem voando no ar gelado, com as roupas encharcadas. Você por acaso notou que as roupas dele estavam congeladas quando chegamos aqui?

Na verdade Haramis sentia tanto frio e desconforto na hora, que nem notou mesmo, mas não parecia uma boa idéia admitir isso.

- Não crie caso, menina - ela disse. - Sinto que ele esteja doente, mas minha governanta vai tomar conta dele muito bem e ele vai se recuperar logo - era melhor mesmo, ela pensou, pois quero que ele vá embora o mais depressa possível. - Quanto a você - ela franziu a testa muito séria para Mikayla -, a doença dele não é desculpa para ainda estar de pijama a essa hora do dia. Vista-se imediatamente e depois vá para o meu estúdio.

Ela saiu do quarto apressada, ignorando a batida do chinelo de Mikayla no chão quando virou as costas.

Só depois de meia hora Mikayla apareceu no estúdio. O café da manhã que Haramis tinha pedido para a menina já estava frio. Haramis tinha comido horas antes.

- Você tem duas opções, Mikayla - ela disse para a menina - Pode chegar na hora das refeições, ou pode comê-las frias. Hoje você escolheu café da manhã frio. Coma depressa. Temos muito que fazer.

Mikayla encheu a boca de mingau de aveia frio.

- O que vamos fazer?

- Não fale de boca cheia - disse Haramis automaticamente. - Você precisa aprender mágica, começando, sem dúvida, do princípio. Imagino que ao menos saiba ler.

Mikayla fez que sim com a cabeça e continuou a comer o mingau. Parecia que não estava notando o gosto ou a temperatura, que nem mesmo tinha plena consciência de estar comendo. Haramis franziu a testa. Certamente não se tratava de alguém que podia ser motivado através da comida. Ao que essa menina dava valor, além de Fiolon? Como é que Haramis podia atingi-la?

Mikayla acabou de comer o mingau e deixou a colher cair no prato ruidosamente. Haramis devolveu o prato para a cozinha fazendo um movimento com a mão e Mikayla nem pareceu impressionada. Claro, tinha visto Haramis teletransportar os pratos na noite anterior, por isso sabia que era possível, mas se pensava que mágica era normal... Bom, talvez isso até ajudasse no seu aprendizado, pelo menos não passaria horas maravilhada com cada coisinha. Mas certamente um pouco de deslumbramento era desejável.

Haramis levou Mikayla para a biblioteca, e começou a dar uma explicação simples do que era a magia básica e como funcionava.

- Está claro que você conhece muito pouco de magia, Mikayla. Que essa seja, então, a sua primeira lição sobre a arte.

Um mago não deve jamais fazer qualquer coisa sem necessidade por mais simples que seja. Eu mandei Quasi para casa num abutre esta manhã porque ele ia acabar congelando e morrendo. Chamei os abutres para vocês dois no início só porque quando os salvei no rio o perigo era grande. Vocês tinham perdido seu barco e ainda não sabiam muito sobre a comunicação com a raça dos skriteks. Por isso fui forçada a resgatá-los daquele perigo que enfrentavam. Você compreende agora?

- Não - disse Mikayla. - Eu não compreendo. Primeiro, nós não estávamos correndo nenhum perigo. O skritek mais próximo estava a meio dia de viagem... de barco, rio abaixo!

- Encontrar os skriteks não é um risco sensato ao qual uma pessoa deva expor sua vida, não é um perigo que uma pessoa responsável enfrenta, pondo em risco as vidas de seus companheiros.

Mikayla estremeceu sem querer, lembrando do destino de Traneo. Mas lembrou de outras coisas também.

- Não estávamos longe da aldeia de Quasi. Quando você nos arrancou de lá e nos trouxe para cá, Quasi por pouco não morreu congelado e Fiolon adoeceu. Mas fora isso, minha senhora arquimaga, é errado usar os abutres gigantes?

- Não é errado - disse a arquimaga, tendo o cuidado de ignorar o sarcasmo da menina. - Só é insensato e desnecessário. Quem sabe quando algum perigo sério para nós, ou para a terra, pode surgir, e os abutres gigantes estarão exaustos quando mais precisamos deles? Chegará o dia, eu acredito, em que você saberá o que é e o que não é necessário. E não vai encontrar isso escrito em livro nenhum, nem guardado nos artefatos dos Desaparecidos. Se não descobrir esse conhecimento no seu coração, Mikayla, então, quando mais precisar dele, não vai ter. Essa é a única coisa que posso ensinar, e se tivermos sorte, será o bastante. Tudo o mais, encantamentos e coisas assim, você poderia aprender com alguma herbalista oddling. Foi isso que Orogastus nunca soube, embora alguns não gostem de me ouvir dizer isso.

Mikayla estava pensando em outra coisa que a arquimaga tinha dito.

- Você disse que ainda não sabemos nos comunicar muito bem com os skriteks. Então vai me ensinar a língua dos skriteks que saem dos ovos?

A arquimaga fez que sim com a cabeça.

- O mais correto é dizer que você vai aprender a se comunicar com eles dentro do seu coração. Esse conhecimento pode não existir em palavras. Eu não sei se eles realmente têm algo que se pode chamar de língua, mas você será capaz de compreendê-los.

- Compreender um skritek que acaba de sair do ovo? Acho que prefiro aprender a matá-los!

Mikayla continuava lembrando de como Traneo tinha sido devorado pelo pequeno skritek.

- Esse é um ponto de vista muito cruel e imprevidente. No sentido da vida deve haver uma razão até para a existência dos skriteks. Mas confesso que ainda não conheço - ela achou graça no olhar surpreso de Mikayla. - Ah é, tem muitas coisas que nem eu sei.

Haramis notou que essa era uma idéia nova para Mikayla, existir alguma coisa que a velha feiticeira não soubesse.

- Você acha isso dos skriteks porque não pode usá-los para nada, não é? - perguntou Haramis, continuando a sua aula.

- Não consigo imaginar qual a utilidade que os skriteks podem ter para qualquer um.

- E isso é culpa dos skriteks, ou será uma falha da sua imaginação? - perguntou a arquimaga. - Se não prestarem para nada mais, pelo menos seus ovos servem de alimento para os oddlings.

Mikayla ficou pensando por que os oddlings não criavam algum tipo de ave doméstica, mas era verdade que no pântano não havia nenhum lugar para abrigar e soltar aves de espécie alguma. Achou que a vantagem de não ter de enfrentar os skriteks pelo menos daria a chance aos oddlings de procurar algum outro tipo de alimento. Mas não queria parecer briguenta, por isso ficou quieta.

Haramis deu aula para ela a manhã toda. Depois escolheu um livro sobre visão e entregou para Mikayla.

- Depois do almoço, comece a ler isso. E lembre que farei perguntas sobre o livro mais tarde, por isso preste atenção no que ler. E nunca esqueça que no mundo não existe nada mais importante do que aprender. Nunca se sabe quando é que uma coisa aparentemente insignificante pode ser vital. Normalmente não são as grandes coisas que matam ou salvam você, são os pequenos detalhes. Por isso aprenda com atenção e bem.

Mikayla concordou balançando a cabeça, mas parecia chateada e rebelde. Ora bolas, pensou Haramis, não me importo com o que ela sente por mim, desde que aprenda. Mas não a compreendo. Eu teria dado tudo que tenho pela educação que estou dando a ela... por que ela não dá valor a isso?

Mikayla desapareceu depois do almoço e Haramis ficou no estúdio conversando com Uzun. Haramis ficou achando que ela estava na biblioteca até ir procurá-la para jantar. Mas não havia ninguém na biblioteca, nem no quarto que tinha dito a Enya para dar para a menina. Será que alguém tinha avisado que aquele quarto era dela? Haramis rolou os olhos e foi pelo corredor até o quarto de Fiolon, apostando que encontraria a menina lá.

Dito e feito, ouviu a voz de Mikayla quando se aproximou do quarto. Parou perto da porta para ouvir o que dizia. Levou apenas alguns segundos para perceber que Mikayla não estava conversando; ela lia em voz alta o livro sobre visão. Haramis enfiou a cabeça para espiar. Fiolon dormia, mas Mikayla estava sentada num banquinho ao lado da cama. Ela segurava a mão dele e equilibrava o livro no colo, lendo alto para ele.

- Acho que ele não está aproveitando muito - observou Haramis - e é hora do jantar.

Mikayla enfiou o dedo no livro para marcar onde tinha parado e virou o corpo para trás para olhar para Haramis.

- Se você quer dizer que ele não está absorvendo cada palavra que eu leio - ela disse com frieza - tem razão. Ele estava delirando antes de adormecer. Mas o som da minha voz parece acalmá-lo. Além do mais - ela continuou antes que Haramis pudesse protestar quanto à sua escolha de lugar para ler - quando leio em voz alta para ele, memorizo melhor o que estou lendo do que se lesse calada.

Haramis achou que não valia a pena discutir sobre aquilo. Estava cansada e faminta e não tinha o hábito de lidar com crianças.

- Venha jantar - disse ela - e, depois do jantar, espero que vá para o seu quarto.

- Eu tenho um outro quarto? - perguntou Mikayla.

- Tem - disse Haramis com firmeza. - Vou pedir para Enya mostrar depois do jantar.

Mikayla examinou o quarto que Enya mostrou. Era no mesmo andar do quarto de Fiolon, e Mikayla gostou disso. Não pretendia ser afastada de Fiolon se pudesse evitar. Uma parede do quarto era de pedra, obviamente a parede externa da torre. Tinha duas pequenas janelas envidraçadas, pelas quais não se via nada no escuro, mas o resto da parede era coberto de tapeçarias.

O quarto era surpreendentemente quente para ser um quarto externo numa construção de pedra, embora as outras paredes fossem cobertas com lambris de madeira e houvesse uma lareira rodeada de ladrilhos coloridos. Mikayla investigou e encontrou uma pequena grade na parede ao lado da cama, mais ou menos da altura dos seus joelhos. Ar quente fluía por ali, e isso, combinado com o calor do fogo, explicava o inesperado calor no quarto. Mikayla lembrou dos outros quartos que tinha visto e sabia que havia grades como aquela neles. Isso explicava por que a torre era suficientemente quente para Haramis manter empregados nyssomus naquele clima, e era provavelmente também a razão dos vispis ali usarem apenas roupas finas em vez de roupas normais.

A cama era mais imponente que qualquer outra em que tinha dormido. O dossel era feito de madeira gonda trabalhada, com brocado por cima, e o colchão ficava na altura dos seus ombros. Tinha lençóis macios e um grande acolchoado de penas, além de três travesseiros também de penas. Mikayla resolveu que não havia perigo de pegar um resfriado ali, mas não tinha tanta certeza de que não ia morrer sufocada. Alguém tinha deixado uma camisola para ela em cima de um banco ao lado da cama, perto do guarda-roupa. Largando o livro sobre visão, que afinal não era tão chato como temia, numa mesa posta perto do fogo, com duas cadeiras de couro vermelho, ela vestiu a camisola, subiu os três degraus da miniatura de escada de madeira ao lado da cama e se enfiou embaixo das cobertas. Era mesmo um pouco sufocante, mas Mikayla adormeceu rápido demais para prestar atenção nisso.

Nos dias que se seguiram Mikayla aprendeu inúmeras coisas interessantes, apesar de sentir saudade de casa. Depois que terminou de ler o livro sobre visão, Haramis ensinou-a a visualizar o Pântano Verde, a seção meridional do Pântano Labirinto. Como o lugar ficava do outro lado do território da torre no Monte Brom, pelo menos significava que Mikayla poderia aprender a ver a terra toda.

Haramis fez com que ela tivesse a visão bem detalhada, até dos minúsculos insetos que picam, e Mikayla ficou contente de estar na torre observando os bichinhos, em vez de estar no pântano sendo picada por eles.

- Imagino que também não vê utilidade nenhuma para a existência deles, não é? - Haramis perguntou para Mikayla, com ar de desafio.

Mikayla, vendo aquelas coisinhas feias, disse, rabugenta, que não conseguia mesmo imaginar nenhuma razão especial Para a existência deles, mas que, sabendo um pouco como funcionava a mente de Haramis, tinha certeza de que devia haver uma, mesmo que ainda não soubesse qual era. De qualquer modo achava que os peixes no pântano deviam gostar de pegá-los, que eram bons para alguma coisa, pelo menos como comida de peixe.

- Bom - disse a arquimaga -, você está começando a entender algumas coisas sobre esta terra.

Mikayla não conseguia imaginar como esse conhecimento seria útil para ela, mas acreditava que algum dia a arquimaga ia explicar... se fosse uma coisa que devia saber. E se não fosse, achava que não havia motivo para ficar pensando nisso.

Ela passava todas as tardes no quarto de Fiolon, lendo em voz alta para ele o livro que devia ler, e contando sobre as aulas. Mas notou que Haramis parecia determinada a não deixar que Fiolon e ela ficassem juntos sozinhos. Depois daquele primeiro dia, mesmo enquanto ele ainda estava doente e delirando, havia sempre um servo no quarto com os dois. Conforme as semanas foram passando, a febre de Fiolon baixou e sua mente clareou. Mikayla sentiu um grande alívio de poder ter conversas inteligíveis com ele de novo. Mas um dos servos estava sempre com eles, por isso Mikayla concluiu que o que preocupava Haramis não era a saúde de Fiolon.

Na verdade Haramis tinha o maior interesse na saúde de Fiolon; estava ansiosa para ele ficar bom logo e partir. Mas estava muito doente e apesar da mente dele sarar depressa, o corpo não acompanhava. Ele continuava magro e pálido e exigia o esforço conjunto de Mikayla e de um empregado para movê-lo da cama para a cadeira.

No começo do verão, temendo que Fiolon pudesse contrair mais alguma doença além da pneumonia, Haramis chegou a enviar um abutre gigante para buscar uma curandeira vispi na aldeia de Movis no Monte Rotolo.

O Monte Rotolo era o pico no extremo ocidental das três montanhas, das quais o Monte Brom, no qual ficava a torre, era o limite oriental. O cume do meio, Monte Gidris, era sagrado, ninguém vivia lá. Mesmo Haramis tinha estado lá apenas uma vez, na sua busca do talismã. Ele estava numa caverna de gelo no flanco meridional, e a caverna desabou em volta dela quando tirou o talismã. Seu abutre gigante puxou-a para fora na hora exata e Haramis não voltou ao Monte Gidris desde então. E não pretendia voltar mesmo.

A curandeira examinou Fiolon cuidadosamente, conversou com ele um longo tempo, falou um pouco com Mikayla para tranqüilizá-la e disse a Haramis para ter paciência.

- Sinto que ele ainda vai ter de ficar aqui alguns meses - ela disse para Haramis -, mas com o tempo vai ficar completamente bom. Tenho certeza disso.

Assim, Haramis continuou a dar aulas para Mikayla todas as manhãs, contendo-se para não perguntar onde ela passava as tardes e certificando-se de haver sempre um servo no quarto de Fiolon quando a menina não estava com ela. Pelo menos Mikayla estava progredindo. Com o passar dos meses ela aprendeu a dominar a visão e também o simples teletransporte que Haramis usava para tirar a mesa de jantar ou pegar um livro na biblioteca, só que Mikayla tinha de ir pegar os livros pessoalmente para aprender onde ficava cada um e poder guardá-los no mesmo lugar.

- Lembre sempre que um livro guardado no lugar errado representa conhecimento perdido.

Mikayla suspirava, fazia que sim com a cabeça e decorava a localização correta de cada livro nas estantes da biblioteca.

Também aprendeu a se comunicar com os abutres gigantes, mas Haramis não permitia que voasse neles. Já tinha roupas apropriadas para usar dentro de casa, mas no seu armário não havia nada bastante pesado para usar lá fora. Mikayla pretendia fazer alguma coisa a respeito disso algum dia, mas também estava aprendendo quando e como resistir à Haramis e até onde podia ir. Desde que pudesse ver Fiolon todos os dias, procurava não aborrecê-la muito.

Não foi culpa dela na tarde em que Haramis encontrou-a brincando de ”pega-pega teleport” com Fiolon. ”Pega-pega teleport” era um jogo que eles tinham inventado. Jogavam com um objeto pequeno e totalmente inquebrável. Naquele dia usavam uma fruta ladu. O objetivo do jogo era teletransportar o objeto para um lugar ao alcance do braço da outra pessoa, que então tinha de pegá-lo com a mão, sem deixar cair no chão ou na cama e depois teletransportá-lo de volta. Como o objeto podia se materializar em qualquer lugar do semicírculo na sua frente e dos lados, era difícil vê-lo em tempo de agarrá-lo. A menos, é claro, que se trapaceasse um pouco, usando telepatia para determinar para onde a outra pessoa ia mandálo, mas isso não funcionava se a outra pessoa estivesse usando escudos contra telepatia...

Os dois tinham criado algumas variações das regras e o jogo tinha ficado bem competitivo. Naquele dia ambos protegiam suas mentes com escudos, o que exigia bastante concentração. Haramis ficou espiando da porta um bom tempo antes dos dois perceberem a sua presença. Teve tempo bastante para observar que Mikayla era muito competente, mas Fiolon era mais ainda.

No dia seguinte Haramis chamou a curandeira de volta e Fiolon começou a fazer fisioterapia intensiva. Já estava caminhando em uma semana, embora um pouco inseguro, e duas semanas mais tarde Haramis decretou que estava suficientemente bem para voltar para seu lar na Cidadela. Ela ignorou por completo os protestos de Mikayla, de que Fiolon estava doente demais - ou tinha estado doente demais - para ser mandado para casa no meio do inverno.

- Não que o clima aqui seja diferente no verão - ela acrescentou.

- Vamos começar a estudar o sentido do tempo e da terra a partir de agora - informou Haramis. - Garanto que logo vai aprender a notar as diferenças das estações... mesmo aqui.

A arquimaga mandou separar roupa de montaria e material de acampamento para Fiolon. Como a torre não tinha grande variedade de roupas humanas, era uma sorte ele ser pequeno e poder usar roupas vispi quando necessário. Assim que os servos empacotaram os suprimentos e vestiram-no com roupas quentes, ela desceu com Mikayla e ele os longos lances de escada que acabavam numa grande praça, na frente da torre. Mikayla não tinha notado aquela praça antes. Eles tinham aterrissado do outro lado, no topo do prédio, quando chegaram, e não saíra da torre desde então. Com Fiolon para fazer-lhe companhia, não andava agitada, mas temia que isso ia mudar logo. Tinha passado grande parte da vida ao ar livre e estava há alguns anos acostumada a ir e vir à vontade antes de ser trancada na torre. A partida iminente de Fiolon deixava Mikayla muito angustiada. Sentia-se mais prisioneira do que antes, quando os dois estavam juntos.

Haramis não tinha dado a ela roupas quentes para usar do lado de fora e Mikayla suspeitava que a omissão era deliberada. Estava embrulhada em uma das capas de Haramis, comprida demais para ela, mas que impedia que congelasse enquanto se despedia de Fiolon.

Mas os pés de Mikayla, com os chinelos que usava, estavam ficando muito frios e molhados. A praça tinha neve até a altura dos tornozelos.

Havia um grande abismo no lado oposto da praça, intransponível até onde dava para ver. Mikayla ficou esperando Haramis chamar os abutres gigantes. Mas, em vez disso, uma grande porta à esquerda se abriu, e apareceu um vispi puxando dois froniais por uma rampa ascendente além da porta. Mikayla ficou boquiaberta.

- Como é que eles atravessam - ela perguntou, apontando para o abismo. – Mágica?

A arquimaga parecia zangada.

- Nem um pouquinho - respondeu. - Quando Orogastus construiu essa torre ele a equipou com toda a tecnologia dos Desaparecidos que conseguiu, pedindo, comprando ou roubando. É claro - ela acrescentou com desdém - que ele achava que era feitiçaria. Creio que mesmo depois de tantos anos, não conseguia distinguir. Mas você, Mikayla, pelo menos, devia aprender a reconhecer a diferença. Não é correto invocar os abutres gigantes quando métodos que não são mágicos funcionam. Essa será uma das lições mais importantes para você; quando é certo usar feitiçaria, e quando não é.

- E vou aprender isso com alguém que usa feitiçaria para tirar a mesa do café da manhã - resmungou Mikayla rebelde.

Haramis ignorou-a. Com a prática, isso estava ficando cada vez mais fácil... e os Senhores do Ar sabiam que ela estava praticando bastante.

Os froniais formavam um par muito harmonioso e Fiolon observou maravilhado como ficavam quietos enquanto sua bagagem era posta sobre um deles pelo cavalariço vispi.

Ele deu uma espiada na borda do abismo e viu um rio que passava lá embaixo.

- Isso seria ótimo, senhora, se os froniais... ou eu... ou a minha bagagem... pudéssemos voar - ele disse educadamente.

- Vai ensinar-me a voar Ou eles já sabem?

- Não, é claro que não - disse Haramis. - Embora Orogastus provavelmente pensasse que isso era feitiçaria.

Ela tirou de dentro do manto um pequeno apito de prata e soprou. O apito emitiu um som agudo e alto, e as crianças viram espantadas uma ponta estreita de aço saindo da beira do abismo, transformando-se rapidamente numa ponte.

Mikayla engoliu em seco. Pensou que podia ser muito interessante aprender sobre essa nova tecnologia... pelo menos tão interessante quanto as caixas de música que Fiolon e ela tinham dividido escrupulosamente entre eles. Ela ficou com três, duas duplicatas das que tinham encontrado, e o resto ele empacotou cuidadosamente junto com a roupa e a comida que a arquimaga providenciou para ele. Já que estava presa ali com a arquimaga, podia muito bem aprender o máximo possível. E de preferência aprender coisas que achava interessantes, não só o que a senhora Haramis achava que uma boa jovem estagiária de arquimaga devia saber.

Infelizmente Haramis não parecia interessada em tecnologia, e pelo visto não tinha sensibilidade para isso. Ela pode reclamar o quanto quiser da minha falta de sensibilidade para mágica, pensou Mikayla, mas pelo menos tenho jeito para a técnica. Ela só consegue usá-la... quando consegue descobrir de algum modo como funciona... ou se Orogastus contou como fazer, antes de matá-lo.

Ignorando o olhar de desaprovação da arquimaga e a neve que encharcava seus chinelos de andar em casa, Mikayla chapinhou através da praça e foi até onde Fiolon estava, preparando-se para montar no fronial da frente.

- Você tome cuidado, está bem? - ela disse. - Eu não sei por que ela está mandando você embora de fronial no meio do inverno... - ela não terminou a frase.

Fiolon pôs o braço nos ombros dela e deu-lhe um abraço tranqüilizador.

- Eu terei cuidado, Mika. Já acampei no inverno antes... nós fizemos isso alguns anos atrás, lembra?

- Lembro, mas você não estava sozinho na época. Eu estava com você e levamos dois guardas conosco... foi o único jeito dos meus pais deixarem. Disseram que era perigoso demais de outra forma - Mikayla mordeu o lábio. - Não acho que Haramis ia sentir muito se você sofresse um acidente fatal - ela olhou direto nos olhos dele. - Mas estou avisando, Fio, se você inventar de morrer, jamais falarei com você de novo!

Os dois riram diante da bobagem daquela ameaça.

- Eu não vou morrer - disse Fiolon -, eu prometo - ele olhou para Haramis e deu um suspiro. - Ela está olhando para nós zangada de novo, e eu preciso mesmo partir antes que escureça.

- É - concordou Mikayla -, eu sei disso.

- Então talvez você possa largar meu casaco - disse Fiolon. Mikayla olhou para as mãos. Estava agarrada às mangas do casaco curto de Fiolon, com tanta força, que as articulações dos dedos estavam brancas. Forçou os dedos enrijecidos a soltar a roupa, depois, desafiadora, inclinou-se para frente e beijou o rosto de Fiolon.

- Cuide-se - ela disse com veemência - e boa viagem.

- Cuide-se também, Mika - disse Fiolon, dando um tapinha no ombro dela e virando para montar no fronial. - Procure ser boa.

- Você realmente acha que Haramis vai me dar alguma chance de não ser?

Mikayla tentou sorrir. Não queria que a última lembrança de Fiolon fosse de um rosto molhado de lágrimas.

Continuou sorrindo por pura força de vontade até Fiolon virar de costas para ela e chegar à metade da ponte. Nessa hora Haramis já tinha atravessado a praça para juntar-se a ela. Pôs a mão no ombro de Mikayla, mas Mikayla empurrou a mão dela, furiosa.

Enquanto viam Fiolon desaparecer cavalgando pela passagem e descendo a encosta, com o segundo fronial amarrado ao dele com uma corda, Mikayla perguntou outra vez para a arquimaga.

- Por que teve de mandá-lo nessa longa viagem sozinho, por estradas e passos ruins e cheios de neve, se podia chamar os abutres gigantes, de forma que à noite ele já podia estar a salvo na própria cama?

Haramis suspirou.

- Quantas vezes tenho de dizer, Mikayla, que não é sensato usar os abutres gigantes se não for absolutamente necessário?

Mikayla deu de ombros. Fiolon já estava fora de vista e a menina voltou para a torre e começou a subir a escada, de cabeça baixa, com os olhos pregados nos degraus à frente. Haramis seguiu atrás dela lentamente, parando de vez em quando para recuperar o fôlego, mas Mikayla manteve um passo constante e automático em toda a subida para os aposentos no meio da torre. E não falou com Haramis o resto do dia.

Aquela noite, depois do jantar, Haramis deu-lhe uma pequena caixa coberta de tecido. Quando Mikayla abriu o fecho descobriu que continha duas esferas de prata. Pegou uma e a bola produziu o mesmo tipo de som de carrilhão das pequenas esferas que Fiolon e ela tinham encontrado nas ruínas, só que mais alto e mais grave, provavelmente porque seu diâmetro era mais ou menos o dobro da que ainda usava pendurada no pescoço.

Não tinha mostrado a pequena para Haramis, pois estava sempre escondida na roupa e silenciosa, por isso achava que Haramis não sabia da sua existência. Mikayla tinha a intenção de ficar com ela, como lembrança de Fiolon e de como foram felizes naquele dia nas ruínas. Haramis muitas vezes falava de sua morte próxima, dando a Mikayla a esperança de estar livre em poucos anos. Haramis não podia separar Fiolon e ela se estivesse morta.

Se Haramis sabia do pequeno pingente em forma de esfera, não demonstrou e simplesmente disse para Mikayla pegar a segunda esfera. Ela soou num tom um pouco mais grave, embora as esferas fossem idênticas por fora.

- Por que elas têm tons diferentes, senhora? - perguntou Mikayla.

- Elas têm, é? - perguntou Haramis surpresa. - Jamais prestei muita atenção no som. O que eu quero que faça com elas é o seguinte... - ela pegou as duas esferas com uma das mãos e girou-as silenciosamente, uma contra a outra, primeiro para um lado, depois para o outro. - Agora tente você.

Deu as esferas de volta para Mikayla. Juntas elas tinham a largura da palma da mão de Mikayla e quando tentou girá-las, bateram uma na outra e fizeram barulho quando se moveram. Ela tentou rodá-las para o outro lado e logo deixou cair uma, que rolou do seu colo para o chão fazendo um barulhão.

Mikayla fez uma careta com o estardalhaço e rapidamente ficou de quatro embaixo da mesa para recuperar a esfera.

Quando levantou Haramis olhava para ela com uma expressão de grande sofrimento.

- Leve-as para o seu quarto e pratique toda noite antes de dormir e ao acordar de manhã. Pelo menos, se deixá-las cair na cama, não farão tanto barulho - ela levantou-se, obviamente pronta para se retirar. - Você precisa praticar com elas até conseguir girá-las nos dois sentidos, nas duas mãos, sem fazer barulho.

Essa tarefa parecia tão improvável para Mikayla que ela só lembrou de perguntar para quê tinha de aprender a fazer isso depois que Haramis já tinha saído da sala. Suspirando, guardou as esferas na caixa outra vez e subiu a escada para o quarto que Haramis dera a ela. Tirou a roupa e vestiu a camisola, pensando que podia mesmo ir para a cama, já que não havia mais nada para fazer.

Achava que tinha sido uma criança solitária antes de Fiolon ir morar na Cidadela, mas então tinha sua família, mesmo que a ignorassem grande parte do tempo. E os servos da Cidadela eram simpáticos. Ali apenas Enya, a governanta, conversava com ela. Quando cruzava com os outros empregados nos corredores eles fingiam que ela era invisível... ou que eles eram. Uzun já conversava com ela também e sentava perto dele às vezes, quando Haramis estava ocupada em outro lugar à noite. Mas Uzun, sendo uma harpa, não podia se mexer. E Mikayla, com perguntas cuidadosas no meio de conversas mais generalizadas, tinha descoberto que ele era de fato cego. Aparentemente tinha ficado doente de repente, e Haramis transformou-o numa harpa porque foi o primeiro encantamento que encontrou que podia garantir a permanência da consciência dele. Mikayla tinha ouvido falar de harpistas cegos, e é claro que harpas não tinham olhos, mas a maioria não tinha consciência. Uzun possuía uma audição excelente, até melhor do que a de Mikayla, que era bastante boa, e usava isso para compensar a falta da visão e da mobilidade. Mas mesmo assim só sabia o que acontecia dentro do alcance de seus ouvidos, no estúdio da arquimaga e no corredor em frente. Mikayla muitas vezes ficava imaginando até onde ele se importava com essa situação. Tinha certeza de que isso o incomodava um pouco; podia sentir uma espécie de tristeza que emanava dele mesmo quando a sua ”voz” soava muito animada, e quando tocava música para si mesmo, em geral era melancólica.

Sentada com as pernas cruzadas na cama, ela pegou as esferas. Encostou uma e depois a outra na orelha, ouvindo a diferença de tons e imaginando de que eram feitas. Queria que Fiolon estivesse ali para perguntar para ele... ou até para mostrar as esferas. Ele ia adorar essas, pensou ela com tristeza. Queria que ele estivesse aqui agora. Como será que vai a viagem dele para casa?

Ela segurou as esferas na palma da mão direita e tirou de dentro da camisola a que tinha uma fita verde. Divertiu-se batendo com a esfera pequena de leve nas duas maiores e ouvindo os sons que elas produziam. Observou que, por alguma razão, quando encostava na parte de cima das duas esferas maiores, ficava refletida três vezes em cada uma, e, quando punha ao lado delas e espiava de cima para baixo, havia um triângulo entre as três, marcado pelas esferas refletidas. No início via a palma da mão através do triângulo... afinal, era o que estava ali mesmo... mas depois de ficar olhando fixo por um minuto sua visão se embaçou, e quando clareou de novo viu Fiolon, encolhido dentro de um saco de dormir, perto de uma pequena fogueira. Ficou tão espantada que deixou cair as esferas na cama, e quando tentou de novo, não conseguiu recuperar a visão. Adormeceu sorrindo naquela noite, pensando que talvez as esferas pudessem ter utilidades que Haramis nem suspeitava.

Mikayla despertou logo depois do nascer do sol na manhã seguinte e pegou imediatamente as esferas. Estava curiosa para ver se conseguia invocar outra vez a visão de Fiolon que teve na noite anterior. Rolou as esferas na mão, e já estava achando o truque mais fácil, pelo menos na direção que estavá movendo. Sentiu um sinal fraquinho de estado de transe começando em sua mente. As esferas começaram a esquentar, quase a ponto de incomodar. Encostou a esfera pendurada no pescoço nas outras duas e olhou para a união das três.

E lá estava Fiolon adormecido no saco de dormir armado no chão, perto da dupla de froniais amarrados. Que dorminhoco, pensou Mikayla, achando graça. Será que consigo acordá-lo? Sacudiu bem devagar as esferas na mão, provocando um som suave.

Em sua visão, Fiolon abriu os olhos e sentou de repente, pondo a mão no peito. A esfera dele estava tinindo também Mikayla queria poder ouvir e não apenas ver o que acontecia com ele.

Ora, talvez pudesse. Pelo menos tentaria. Sentiu a mente se distendendo dentro da cabeça. E já podia ouvir os bufos dos froniais e o farfalhar dos galhos das árvores, até a respiração de Fiolon, um pouco ofegante, como se tivesse acordado de um sonho.

- Fiolon - ela disse baixinho, sem saber muito bem se falava em voz alta ou não. - Pode me ouvir?

Fiolon virou a cabeça de um lado para outro, procurando.

- Mika? Onde você está?

Isso é maravilhoso! pensou Mikayla. Talvez a arquimaga não possa nos separar, afinal.

- Continuo presa nessa torre horrível, Fio... onde você me deixou! - ela acrescentou, protestando. - Mas acho que descobri uma coisa interessante. Olhe para a esfera pendurada no seu pescoço.

Fiolon olhou em volta outra vez, depois sacudiu os ombros e puxou a esfera de dentro da túnica. Ela soou quando mexeu e a pequena esfera na mão de Mikayla soou também, embora estivesse completamente imóvel em sua mão. As esferas maiores que estavam encostadas nela tocaram em seqüência. Fiolon segurou a esfera na frente do rosto e ele apareceu na pequena esfera de Mikayla, escondendo o cenário em volta dele.

- Eu consigo ver seu rosto nisso, Mika! - ele disse surpreso. - O que é isso, algum tipo de mágica? A arquimaga ensinou isso para você?

- Não, não ensinou - disse Mikayla asperamente -, eu ainda tenho um cérebro, Fio. Não o deixei cair no rio quando ela nos arrastou para os abutres gigantes. Quanto a saber se essas esferas são mágicas - ela continuou, pensando no assunto - acho que ela ficaria muito zangada de ouvi-lo chamar isso de mágica. Lembra onde as encontramos... São provavelmente algum tipo de artefato que os Desaparecidos usavam para se comunicar entre eles. Talvez as usassem no teatro, para servir de ponto para o ator que esquecia suas falas.

- Pode ser que tenha razão - disse Fiolon. - Havia muitas, e diferentes, mas as duas que pegamos formavam um par. Talvez estejam ligadas uma à outra. Mas se foram feitas para o teatro, como é que estamos conversando a essa distância?

- Tenho uma teoria sobre isso - explicou Mikayla. Haramis me deu uma caixa com duas esferas do mesmo tipo, só que maiores. Queria que você estivesse aqui para vê-las. As duas são exatamente do mesmo tamanho, mas as escalas dos sons são diferentes, e quando perguntei a Haramis por que, ela não soube dizer ou simplesmente não se interessava... acho que nunca notou. Você acha que ela não consegue perceber as diferenças de tons?

- Ouvi dizer que existem pessoas assim - disse Fiolon. Acho que as chamam de pessoas sem ouvido musical. Mas ela não teria transformado o mestre Uzun numa harpa se não tivesse ouvido para música, ou se não gostasse muito de música. E todas as canções antigas dizem que ela era muito musical.

- Quem sabe a habilidade de ouvir as diversas notas vá se deteriorando à medida que a pessoa envelhece - disse Mikayla. - Ela é muito velha, não é?

- Um pouco mais de duzentos - disse Fiolon. - Ela ia se casar quando aconteceu a última Grande Conjunção Tripla, e a próxima deve ocorrer daqui a quatro anos. Então ela provavelmente tem entre duzentos e dez e duzentos e quinze anos.

- Mas as pessoas não vivem tanto assim! - protestou Mikayla. - Tem certeza?

- Ela não é exatamente uma pessoa comum - disse Fiolon.

- É a arquimaga. E tenho certeza de que se é a Haramis, uma das princesas trigêmeas, que derrotou o feiticeiro maligno Orogastus, então tem mais de duzentos anos.

- Acho que não quero viver tanto assim - disse Mikayla, estremecendo e fazendo as esferas tilintarem baixinho.

- Por que ela deu as esferas para você? - perguntou Fiolon curioso.

- Ela disse para eu praticar rolando as duas na mão, mas não imagino a razão.

- Aposto que é para tornar seus dedos mais ágeis, para você ter um controle maior - disse Fiolon. - Você viu os gestos mágicos que os oddlings fazem, como aquele contra o mauolhado. Ela provavelmente vai ensinar mágicas que exigem o uso das mãos e dos dedos com muita precisão.

Isso fazia sentido para Mikayla.

- Pode ser isso mesmo. Parece razoável. A Senhora Arquimaga não se digna a explicar nada para mim, nem dá razões para as coisas que me manda fazer - ela suspirou. - É uma pena que ela não tenha escolhido você no meu lugar. Você já usa suas mãos com uma habilidade que eu jamais terei. Nem consigo tocar uma harpa pequena.

- Mas ela escolheu você, Mikayla, e devia saber o que estava fazendo. Afinal de contas, ela é a arquimaga.

Mikayla deu de ombros.

- Certamente ela só faz o que quer. Olhe o que fez com o pobre Uzun. Mas estou contente de poder falar com você, já que não podemos estar juntos - ela mordeu o lábio. - Sinto muito a sua falta. Por que ela precisava nos separar? Aposto que aprenderia o que ela quer ensinar muito mais rápido se você estivesse aqui aprendendo comigo.

Fiolon fez uma cara séria.

- Ela sabe que você está fazendo isso? Conversando comigo através das esferas?

Mikayla deu de ombros de novo.

- Não faço a menor idéia. Depende de quão onisciente ela é, eu acho. Supondo que não saiba, creio que não vou contar por enquanto, por isso é melhor levantar e me vestir antes que alguém venha me procurar. Falo com você mais tarde, está bem?

Tenho de praticar com essas esferas logo quando acordo e antes de dormir, por isso será numa dessas horas.

- Se você tem certeza de que a arquimaga não vai se opor... - disse Fiolon meio inseguro.

- Sei que se ela se opuser, vai me dizer - disse Mikayla. Por favor, Fiolon, preciso de toda ajuda possível. Não tinha raciocinado sobre o porquê de ela querer que eu pratique com as esferas. Você pode me ajudar muito, se quiser.

- Claro que quero, Mika. Se puder.

Mikayla realmente fez um esforço para aprender o que Haramis queria ensinar, mas achou muito difícil. Quando se sentia caridosa, pensava que Haramis nunca deu aulas para ninguém antes, que nunca teve nenhum treino formal também, que era por isso que as ”aulas” dela eram ao acaso, nada organizadas. Mikayla enfrentava isso discutindo tudo com Fiolon, que tinha uma compreensão intuitiva de magia e de assuntos relacionados muito melhor que a dela, e se nenhum dos dois conseguia resolver alguma coisa, ela esperava até Haramis se retirar à noite e descia sorrateira para o estúdio, para perguntar ao mestre Uzun. Ele quase sempre tinha a resposta, ou dizia em que lugar da biblioteca devia procurar. Ela passou a gostar muito do oddling/harpa, e muitas vezes descia para vê-lo à noite e ficar apenas conversando, mesmo quando não tinha uma pergunta específica para fazer. Estava se sentindo muito sozinha, e suspeitava que Uzun era muito mais solitário que ela. O mestre oddling contou muitas coisas sobre Haramis quando criança, apesar dessa informação não ter muita utilidade naquele momento.

- Ela deve ter mudado muito depois que virou arquimaga - Mikayla disse uma noite, sentada ao lado da lareira do estúdio, perto de Uzun. - A menina que você descreve não se parece muito com a mulher com quem estou lidando.

- Durante um tempo - disse Uzun pensativo - ela mudou sim. Ficou mais suave, menos segura, sem saber se estava fazendo tudo direito. Mas o tempo passou e todos que ela conhecia foram morrendo, e ela começou a mudar de novo, para o que era antes.

- E mais um pouco - suspirou Mikayla. - Agora ela já se convenceu de que o único jeito de fazer as coisas é o dela. Suas regras são as únicas que contam, e não são nem consistentes... - ela apoiou o queixo nos joelhos com as pernas dobradas e olhou para o fogo. - Ela diz que não devemos usar a tecnologia, como os artefatos dos Desaparecidos, e que a mágica só deve ser usada para fins importantes e necessários, e depois usa a mágica para mandar os pratos usados de volta para a cozinha. Mas é só ela pegar Fiolon e eu usando exatamente essa mesma mágica para brincar e para desenvolver nossas habilidades, ela tem um chilique, manda ele embora, de fronial, na neve, no meio do inverno. Acho que ela nem se importaria se ele pegasse uma pneumonia de novo, desde que não estivesse aqui, para não causar problemas para ela.

A harpa tocou um glissando descendente nas cordas, que representava um suspiro de Uzun.

- Sei que é difícil para você, princesa - ele disse -, mas procure ter paciência com ela. Fiolon chegou bem à Cidadela, você sabe.

- É, graças aos Senhores do Ar - disse Mikayla. - Mas sinto tanta falta dele! Se Haramis não teve de se separar de você, por que Fiolon precisou partir?

- Acho que é melhor você ir para a cama agora - disse Uzun. - É muito tarde e você precisa dormir um pouco.

- Em outras palavras, não vai me dizer.

Mikayla ficou de pé. Não se preocupou em achar uma vela. A essa altura já conhecia cada centímetro do corredor entre seu quarto e o estúdio e podia cobrir a distância sem fazer barulho, na maior escuridão.

- Boa noite, Uzun.

- Boa noite, princesa.

Mas as tentativas de Mikayla de ser paciente com Haramis não funcionaram bem. Uma aula particularmentefrustrante alguns dias mais tarde foi mais do que ela podia agüentar. Não tinha dormido bastante na noite anterior e o pouco tempo que conseguiu dormir foi perturbado por pesadelos. Estava com dor de cabeça, não tinha gostado muito do almoço e suspeitava que estava pegando um resfriado. Sentia-se mal e a aula refletiu esse estado. Deixou cair as esferas pelo menos umas cinco vezes, Haramis deu um longo suspiro, disse para guardá-las, e então a menina conseguiu derrubar a bacia de visão. Na hora tinha apenas água, não a mistura de água e tinta que usavam às vezes, mas Haramis fez uma careta e criou um caso, exigindo que ela secasse a água.

Haramis tinha o dom de deixar claro, sem precisar dizer nada, que considerava Mikayla malcriada, burra, preguiçosa, desmotivada e totalmente incompetente para ser arquimaga. Essa atitude magoava, mas Mikayla teria tolerado se significasse que Haramis ia desistir e mandá-la para casa. Haramis, porém, não ia fazer isso. Ela começou, pela qüinquagésima vez, pelo menos, a dar sua aula-padrão de como Mikayla tinha sorte de estar tendo esse treino, em vez de ser jogada na função despreparada, como acontecera com a própria Haramis, e por que Mikayla não podia se esforçar um pouco nas lições, e por que estava sendo uma criança tão emburrada e ingrata...

Mikayla podia repetir o discurso inteiro de cor. Estava fazendo o melhor possível, apesar de não estar muito bem aquele dia, e estava tão zangada que queria jogar todos os objetos móveis da sala em Haramis. Visto que isso provavelmente resultaria num duelo mágico modificado, que era um pouco mais do que Mikayla queria tentar, ela preferiu usar as palavras.

- Antes de você chegar e me raptar - ela berrou para a arquimaga - eu tinha uma vida e uma família, não importa se eles não prestavam muita atenção em mim. Eu tinha um amigo, e você me trouxe para cá, e mandou meu amigo embora. Nunca perguntou se eu queria ser arquimaga. Você disse que eu ia ser, arrastou-me para esse fim de mundo horroroso, e começou a me ensinar todas essas coisas estúpidas, sem saber se eu queria aprendê-las ou não!

”Antes de você me seqüestrar eu era livre. Podia sair se quisesse, podia estudar o que quisesse. Não sei como espera que eu adquira o sentido da terra aqui dentro. Estou completamente isolada, não tenho nenhum contato com a terra. Você nem me deixa ir lá fora, menos ainda até o pântano, ou Dylex, ou qualquer região nessa terra onde cresce alguma coisa!

”Talvez em casa ninguém ligasse muito para mim, mas pelo menos não me incomodavam. Não ficavam em cima de mim todos os minutos do dia dizendo “Você tem de fazer isso”, e “uma arquimaga não faz aquilo”. Antes de vir para cá eu era Mikayla. Agora sou sóprotótipo de Haramis. Quero minha vida de volta! Quero a minha identidade de volta! Eu detesto isso aqui! Quero morrer!

”Toda vez que acho algum artefato dos Desaparecidos realmente interessante ou divertido para brincar, e que poderia me ensinar alguma coisa, você leva embora e diz que é apenas uma distração do estudo da mágica pura, que é o objetivo apropriado de uma arquimaga... o que é incrivelmente hipócrita, considerando que você viveu séculos numa torre que Orogastus construiu, com toda a tecnologia dos Desaparecidos que conseguiu juntar! Mas a arquimaga não deve usar nada prático. A arquimaga tem de ser uma com a terra. Ora, eu não quero ser uma com a terra! Eu quero ser uma comigo mesma! Quero minha identidade de volta! Não quero crescer e ser como você!”

No fim desse desabafo Haramis ficou olhando para ela, boquiaberta, como se não soubesse o que dizer. Mikayla fugiu para o quarto e se trancou lá antes que Haramis resolvesse o que fazer. Ficou trancada no quarto o resto do dia e ninguém foi chamá-la para jantar.

Quando desceu para tomar café na manhã seguinte, Haramis agiu como se nada tivesse acontecido. Simplesmente anunciou os planos de aula para aquele dia, como se jamais tivesse ouvido Mikayla dizer uma única palavra contra a idéia de tornar-se arquimaga. Mikayla teve uma visão repentina de anos e anos assim, sentada diante de Haramis na hora das refeições, ouvindo Haramis dando aulas sem parar... Mikayla achou que estava perdida. Desejava poder simplesmente se encolher num canto e morrer. Mas era jovem e saudável. E, além do mais, não queria morrer mesmo, só não queria viver daquele jeito.

A mesa do café da manhã Haramis ficou olhando para Mikayla, sentada à sua frente, desanimada, mexendo os grãos cozidos no prato, e conteve um suspiro. Estava fazendo quase um ano desde a partida de Fiolon, e Mikayla continuava demonstrando talento para magia, mas seus poderes não tinham aumentado como Haramis esperava, com Fiolon fora do caminho, sem desperdiçar seu tempo e sua energia com ele. Haramis estava apreensiva. Achava que Mikayla ia melhorar com a ida de Fiolon, mas a menina ficou terrivelmente amuada. E parecia que esse estado tinha criado raízes em sua personalidade. Será que aquela menina emburrada devia ser mesmo a próxima arquimaga?

Ela não era mais grosseira, refletiu Haramis. Seu comportamento nesse sentido tinha melhorado muito desde a partida de seu companheiro. Ficava quieta, só falava quando falavam com ela. Era obediente e fazia exatamente o que mandavam. Mas no segundo em que terminava qualquer tarefa determinada, afundava na cadeira ou no banco mais próximo e ficava fitando o próprio colo. Parecia não ter interesse em mágica, apesar da sua aptidão comprovada para isso, e, o que era pior, parecia ter perdido todo o interesse na vida. E claro que Haramis sabia que ela mesma não se interessava por outras coisas além da magia, mas não ficava tão deprimida com isso. Uzun tinha mais vida que Mikayla naquele momento. E comia quase tanto quanto ela.

- Mikayla - a menina levantou o rosto inexpressivo do prato e encarou Haramis. Haramis tentou pensar em algo para animá-la. Infelizmente não lembrou de nada. - Você praticou com as esferas essa manhã?

- Pratiquei, senhora - o tom de voz era neutro, sem mudança na expressão do rosto.

- Como está indo?

- Muito bem, senhora.

Essa conversa não está levando a parte alguma, Haramis refletiu com tristeza. Eu já fui jovem um dia, e devia ser capaz de me comunicar com ela.

- Mais tarde quero que me mostre o que já sabe fazer com elas - ela disse, tentando parecer agradável e estimulante.

- Como quiser, senhora. Haramis desistiu.

- Coma seu desjejum, menina - ela ordenou.

A arquimaga suspeitava de que sem uma ordem direta Mikayla ficaria lá sentada, mexendo a comida e olhando fixo para o prato o resto da manhã. Pensou em pedir para Enya descobrir quais os pratos que a menina mais gostava, para prepará-los para ela. Não queria que Mikayla perdesse mais peso do que já tinha perdido.

O que há aqui que ela pode achar interessante. Haramis pensou, lembrando da primeira visão que teve de Mikayla, brincando com Fiolon e as caixas de música, querendo desmontar uma para ver como funcionava. Se ela gosta das caixas de música, raciocinou Haramis, provavelmente se interessaria pelos outros artefatos dos Desaparecidos. E Orogastus deixou um monte deles espalhados por aqui. Enfiei tudo no depósito no andar mais baixo quando vim para cá, mas alguns talvez ainda funcionem. Para Haramis, que não era muito fã de tecnologia e detestava regras que tinham de ser compreendidas com o raciocínio, e não sentidas com a alma e o coração, aquilo era uma tarefa onerosa.

Ela provavelmente também vai adorar o ”espelho mágico de Orogastus, pensou Haramis aborrecida, mas quero esperar até ela dominar melhor a visão antes de mostrá-lo. Não quero que ela pense que os artefatos dos Desaparecidos são substitutos aceitáveis para as nossas habilidades.

Haramis deixou Mikayla terminar seu café da manhã e foi para o estúdio. Sentou em sua cadeira e encostou Uzun no ombro, como se ele fosse mesmo uma harpa. Encostou o rosto na madeira acetinada, uma liberdade que Uzun tolerou, percebendo que alguma coisa séria estava perturbando a amiga mais antiga.

- Sinceramente, Uzun, não sei o que vou fazer com aquela menina.

- Ela faz exatamente o que você manda - observou Uzun.

- É verdade - Haramis suspirou. - É o jeito com que ela faz. Se não fosse impossível, pensaria que peguei a criança errada, mas estou certa de que era ela na minha visão.

- Tem certeza de que tem mesmo de treiná-la - perguntou Uzun. - A arquimaga Binah não treinou você, e você fez um bom trabalho.

- Você me treinou, Uzun - Haramis observou. - Eu não assumi a função às cegas. Mikayla não tinha treinamento nenhum de magia antes de vir para cá.

- É óbvio que ela possui habilidades mágicas - disse Uzun tentando consolar Haramis. - E aprendeu muito nos últimos dois anos. Ela costumava vir aqui à noite e me contar o que estava aprendendo, e Fiolon e ela me visitavam toda noite, desde o dia em que ele voltou a andar até o dia em que partiu.

- Eles faziam isso? - Haramis perguntou surpresa.

- Acho que esperavam até você ir para a cama, para não serem vistos - explicou Uzun. - Mas eu ficava intrigado de vêlos acordados e andando por aí até tão tarde.

- Ela tem mesmo talento, mas parece não querer usá-lo - protestou Haramis. - Eu nunca fui assim. Ficava atrás de você pedindo que me ensinasse, antes mesmo de aprender a andar direito!

Ela afundou na cadeira, soltando Uzun de repente. Ele balançou um pouco quando foi posto de volta na base. A harpa emitiu um som que ficava a meio caminho de uma nota nas cordas e o que seria um grito sufocado de um ser humano.

- Haramis? - chamou Uzun, e depois mais alto - Haramis! O que houve?

Haramis não conseguiu responder. Sentia-se muito estranha. Todo o lado esquerdo do corpo formigava, como se tivesse dormido de mau jeito, e quando tentou se mexer, descobriu que não podia. Até a metade do rosto parecia congelado, imóvel. Ela ficou muito confusa, como se algo estivesse muito errado, mas não sabia o que era. Será que tinha acontecido algum desastre na terra e ela não percebeu? Será que estou morrendo? - ela pensou. Não posso estar morrendo ainda. Mikayla ainda não está pronta!

Ela ficou ali largada na cadeira por um tempo que parecia uma eternidade, enquanto Uzun vibrava muito agitado ao seu lado, mas na verdade não poderia ser mais de quinze minutos. Então aquela coisa... será que era algum tipo de encantamento?... acabou, e ela conseguiu se mexer de novo. Mas por que alguém ia jogar um feitiço nela? Não tinha inimigos.

Resolveu que não queria pensar nisso no momento. Então tentou acalmar Uzun e fazer pouco do incidente.

- Tenho certeza de que não foi nada, Uzun. Eu devo ter dormido meio torta na noite passada, é só isso. - Mas me fez lembrar do trabalho que ainda tenho de fazer. Ela levantou da cadeira, procurando esconder o esforço que fazia. -Vou procurar Mikayla. Acho que é hora de ensinar a magia do tempo. É uma parte importante do trabalho de arquimaga.

- Acho que é um pouco cedo para isso, senhora - o protesto de Uzun era formal, e Haramis ignorou-o.

-Eu é que vou julgar isso, velho amigo - ela sorriu para ele, esquecendo momentaneamente que ele não podia ver, em parte para amenizar a dureza das palavras e em parte para esconder o medo que sentia. Posso não ter tanto tempo quanto pensava.

- Você sempre foi teimosa - a voz de Uzun vibrou num suave glissando pelas cordas. - Faça como quiser; vai fazer mesmo...

Haramis encontrou Mikayla em seu quarto, sentada de pernas cruzadas na cama desarrumada, de costas para a porta, inclinada sobre alguma coisa que tinha nas mãos.

- O que você está fazendo? - perguntou.

Mikayla deu um pulo e as duas esferas de prata caíram na cama. Haramis chegou perto e pegou as esferas. Pensou ter visto Mikayla enfiando alguma coisa no decote da túnica, mas não tinha certeza, e de qualquer modo, tinha coisa mais importante com que se preocupar.

Entregou as esferas, que estavam muito quentes - certamente por causa do calor das mãos de Mikayla - para ela.

- Guarde-as e venha para a sala de trabalho. É hora de começar a próxima fase do seu treinamento.

Deu meia-volta e saiu do quarto, ignorando o gemido de protesto de Mikayla.

Mikayla entrou na oficina se arrastando, bem na hora em que Haramis já estava prestes a perder a paciência e mandar Enya buscá-la. Mas sabia que dar uma bronca na menina só ia afastá-la ainda mais, por isso fez um esforço e sorriu para ela.

- Venha para perto dessa mesa comigo, filha. Está reconhecendo?

Mikayla ficou toda encurvada ao lado da mesa e olhou para ela. Era uma variação da tradicional mesa de areia usada para planejamento de batalhas militares, mas em vez de uma grande extensão de areia branca e uma coleção de peças militares, tinha areia de várias cores, algumas pedras, um monte de cascalho de pedra branca e água. E, surpreendentemente, aquilo abalou a indiferença de Mikayla. Pela primeira vez em muito, muito tempo, Haramis viu um lampejo de interesse no rosto e um brilho de inteligência nos olhos da menina.

- É o reino - disse Mikayla imediatamente. - Aqui é o Pântano Verde - ela apontou para a areia verde - e aqui é a junção do rio Golobar com o rio Mutar Meridional, onde você - ela hesitou - encontrou Fiolon e eu.

Haramis ficou imaginando se a palavra que Mikayla tinha censurado era ”seqüestrou”, e notou que ela não tinha mencionado o companheiro oddling, embora ele estivesse com os dois naquele dia.

- Aqui é o Pântano Negro - continuou Mikayla – E o Pântano Dourado, e. a Cidadela fica nessa rocha aqui. E nós estamos aqui - ela apontou certinho para o monte de cascalho de pedra branca que representava o Monte Brom. - E Fiolon está aqui - acrescentou como um desafio, indicando a Rocha da Cidadela.

Haramis resolveu ignorar esse último comentário.

- Acertou, Mikayla. Esta mesa é um modelo da terra. Mas não é um brinquedo ou simplesmente um mapa. Tem uma utilidade. Será que consegue adivinhar qual é?

Mikayla ia começar a rolar os olhos nas órbitas, mas baixou-os rapidamente.

- Não, senhora - respondeu, afundando de novo na sua postura de burra e submissa.

Haramis teve vontade de sacudi-la.

- Então fique aqui e estude, até conseguir descobrir uma utilidade para isso - disse ela mal-humorada. - Vejo você na hora do almoço.

Ela deu meia-volta e saiu da sala.

Cinco minutos depois andava de um lado para outro do estúdio, desabafando sua exasperação para Uzun.

- Aquela menina vai me deixar louca! - ela reclamou, explicando o que tinha acontecido na sala de trabalho.

As cordas de Uzun vibraram aflitas.

- Talvez já tenha conseguido isso. Você está dizendo que deixou Mikayla sozinha e sem supervisão, e disse para ela brincar com a mesa de areia

- Claro que não - respondeu Haramis impaciente. - Eu disse para estudá-la, não para mexer nela.

- Você a proibiu de tocar na mesa? - perguntou Uzun ansioso.

- Não, não proibi. Ela provavelmente faria uma bagunça só para me desafiar, a infeliz. Por que está tão preocupado, Uzun?

- Porque aquela mesa é um dos objetos mágicos mais poderosos nessa torre - disse Uzun sem rodeios - e apesar dos nomes que dá a ela, a princesa Mikayla tem uma cabeça boa e uma considerável e natural habilidade mágica.

- Que ela se recusa a usar - observou Haramis.

- Isso pode mudar a qualquer momento - avisou Uzun. Acho que você está subestimando demais a menina. E não é preciso ser muito inteligente para concluir que a mesa pode ser usada para magia do tempo, especialmente se as bacias com água e a pedra pulverizada que você usa para fazer chuva estiverem por perto.

- Estão no suporte, na cabeceira da mesa, que é o lugar delas - Haramis informou. - Onde mais deviam estar? Sem o encantamento para ativá-los não passam de pedacinhos de pedra e gotas de água.

- Novos encantamentos podem ser criados para exercer a mesma função que os antigos - disse Uzun com severidade. Mágica é uma questão de concentração e propósito, e Mikayla tem os dois.

- Você se preocupa demais, velho amigo.

Haramis sorriu carinhosamente, chegando perto para acarinhar a madeira lisa da harpa.

- Você acha? - disse Uzun num tom suave, quase rindo. Você pretendia que chovesse aqui hoje?

Haramis rodopiou e correu para a janela do estúdio. Uzun estava certo. Uma chuva fina caía exatamente no centro do pátio, e a neve derretia no círculo formado pela chuva. Ela ouviu a harpa rindo às suas costas, rogou uma praga baixinho e correu para a sala de trabalho, chegando lá com uma pontada no lado e dificuldade para respirar.

- Pare com isso! - ela gritou meio sem ar.

Mikayla tirou os olhos da mesa onde pingava água com todo cuidado, com a ponta do dedo mindinho, na imagem do Monte Brom.

- Acho que descobri para que serve essa mesa, senhora. ela disse calmamente. - Funciona muito bem para feitiçaria do tempo.

Haramis sentiu uma pontada aguda na cabeça e se conteve para não pôr a mão. Já era ruim ficar arfando sem ar, e não precisava exibir mais nenhum sinal de fraqueza.

- Eu disse para você estudar a mesa, não para tocar nela ou brincar com ela! - ela vociferou. - Eu disse que não era um brinquedo.

Mikayla fez uma expressão de espanto.

- Mas se fosse perigoso, senhora, certamente não teria me deixado sozinha aqui. E como é que eu podia estudá-la sem tocar nela? Aprendemos as coisas experimentando, formulando uma teoria, testando a teoria e criando uma nova teoria se a primeira não funciona, até ter um modelo que representa corretamente a realidade, ou pelo menos a parte da realidade que precisamos testar. E você precisa de uma mesa de areia maior - ela acrescentou. - Essa não tem espaço para Labornok ou Var, e certamente pelo menos Labornok é sua responsabilidade; o reino já está unido há quase duzentos anos.

Parecia que a cabeça de Haramis ia explodir, e ela não estava disposta a discutir com Mikayla ou qualquer pessoa, sua suposta responsabilidade pelos habitantes de um país que atacou seu lar, assassinou violentamente seus pais e mais todos em quem conseguiu botar as mãos, e que tentou fazer o mesmo com ela. Mesmo tendo ocorrido há muito tempo, na memória de Haramis esses fatos eram claros como se tivessem acontecido na semana anterior. Eu devo estar ficando velha, pensou, já que consigo lembrar de coisas que aconteceram há muito tempo com mais clareza do que as mais recentes. Em voz alta ela disse simplesmente.

- Vá se lavar para o jantar, Mikayla. Encontro você lá. Quando saiu da sala para pegar um chá de casca de salgueiro para a dor de cabeça, ouviu a voz de Mikayla.

- Mas é hora do almoço.

Depois do almoço Haramis deu para Mikayla uma antiga crônica com a história de Ruwenda para ela ler, esperando que isso mantivesse a menina longe de confusão pelo resto do dia. Estava cansada demais para lidar com ela.

Haramis foi para o seu quarto, sentindo que precisava ser ela mesma um pouco, apesar de se esforçar muito para não pensar no estranho episódio daquela manhã. Deitou na cama, pretendendo descansar apenas uma ou duas horas, mas o cansaço a venceu e ela não se mexeu até Enya aparecer para saber por que não tinha descido para jantar.

- Jantar? - Haramis sentou e tirou o cabelo do rosto. - Já é hora do jantar? - ela espiou pela janela e surpreendeu-se de ver que já estava escuro. - Eu devo ter dormido.

- Dormiu mesmo, senhora - respondeu Enya. - Já dei o jantar para a princesa Mikayla e ela está conversando com o mestre Uzun, por isso não precisa se preocupar com ela. Por que não fica aqui no seu quarto e deixa eu trazer uma bandeja com o jantar? Parece estar mesmo precisando de um descanso.

- Obrigada, Enya - disse Haramis. - Estou um pouco cansada e jantar no quarto é uma boa idéia.

Logo que Enya saiu do quarto Haramis se arrastou para fora da cama e foi se olhar no espelho. Enya estava certa. Devia de fato ter exagerado, pois a pequena mágica que costumava manter sempre, o encanto que fazia as pessoas verem o que ela queria que vissem quando olhavam para ela, não estava mais lá. O rosto que via era seu verdadeiro rosto, pálido, emaciado e velho.

- É melhor ficar no meu quarto até recuperar minhas forças - ela resmungou para si mesma. - Uzun não pode me ver e Enya sabe o que eu sou. Mas é um pouco cedo para explicar isso para Mikayla.

Haramis esqueceu que Mikayla a tinha visto mais cedo aquele dia. Na verdade Mikayla ficou olhando espantada para ela durante todo o almoço, e Haramis nem notou. E naquele instante Mikayla estava conversando com Uzun.

- A senhora Haramis está doente, Uzun? - ela perguntou para ele. - Não parecia nada bem hoje no almoço, e não desceu para jantar. Enya diz que ela está apenas cansada, mas parecia coisa pior que cansaço.

- O que você quer dizer com ”pior que cansaço”? - perguntou Uzun.

Mikayla deu um suspiro. ”

- Queria que você pudesse ver - ela disse. - Normalmente ela não aparenta uma idade definida... quero dizer, o cabelo dela é branco, mas não parece velha.

Uzun suspirou, um som suave nas cordas da harpa.

- Tinha cabelo preto quando menina, mas ao se transformar em arquimaga mudou a cor para branco, e só tinha cerca de vinte anos na época, não uma idade em que cabelo branco é natural. Também se transformou para parecer mais velha, como se tivesse mais ou menos quarenta, e manteve essa aparência todo o tempo que pude vê-la. Não sei se mudou depois que virei uma harpa...

- Não mudou - disse Mikayla. - Ficou igual o tempo todo... até hoje. Hoje o cabelo dela estava cinza-amarelado e ela parecia muito velha. E o rosto era fino e encovado. Ela usou um encantamento para mudar sua aparência todos esses anos?

- Um bem pequeno - disse Uzun. - O nome certo é charme, não encantamento.

- Ah, eu conheço esse! - disse Mikayla. - Usei uma variação dele quando era bem pequena. É o encantamento que se usa para as pessoas não notarem você quando não quer que vejam o que está fazendo, como quando quer ir brincar lá fora e não deseja que ninguém a impeça de sair do castelo. Ou se está num quarto e chega alguém que você não quer ver... você fica bem quieta e pensa ”eu não estou aqui”, e ele não vê você.

- Parece o mesmo princípio básico - concordou Uzun.

- Quer dizer que eu poderia ter usado isso para fingir que estava bem vestida quando minha roupa estava suja de lama e minhas tranças despenteadas? - perguntou Mikayla. - Eu devia ter aprendido essa versão também. Teria evitado um monte de broncas.

Uzun deu uma risadinha.

- Um charme pode ser usado para isso sim. Mas acho que no seu caso, princesa, as broncas deviam ser um aborrecimento menor, não um problema sério, por isso jamais se preocupou em aprender a usar um charme dessa maneira.

Mikayla riu.

- Você está certo. Para mim a idéia de ter de ficar limpa e linda o tempo todo sempre pareceu burrice. Se saímos pelo pântano, ficamos enlameados, e é isso aí. E ninguém de fato se preocupava com a minha aparência, a menos que fosse alguma ocasião especial, e então eu deixava as empregadas me vestirem e ficava limpa e arrumada até o fim.

Ela franziu a testa, pensando em como isso se aplicaria a Haramis.

- Então, se a senhora Haramis esteve mantendo um charme para continuar com a mesma aparência há décadas e décadas, e agora, de repente, o charme acabou, ou ela parou de se importar... ou está doente e não tem mais energia para mantê-lo

- Temo que você tenha razão - disse Uzun. - Ela teve uma espécie de ataque hoje de manhã quando estava aqui sentada comigo. Não conseguiu falar nem se mexer por um tempo. Disse que não era nada, então eu observei que estava chovendo e ela saiu daqui correndo.

- Ela me disse para descobrir para que servia a mesa - disse Mikayla fingindo inocência - como se não fosse perfeitamente óbvio assim que pus os olhos nela. Mas é estranho - ela continuou - não é apenas uma coisa que se pode usar como ferramenta para modificar o tempo... embora seja muito fácil fazer isso. Quando toco nela, é como se sentisse a terra, e não passa de um pequeno modelo da terra verdadeira.

- Sente a terra? - Uzun perguntou animado. - O que quer dizer?

- Você não sabe? - perguntou Mikayla surpresa. - A terra é viva, Uzun, e tudo se encaixa, toda vez que uma coisa muda, todo o resto em volta muda também.

- E você consegue sentir isso? - disse Uzun. - Há quanto tempo é capaz de sentir a terra?

Mikayla sacudiu os ombros.

- Toda a minha vida, eu acho. Desde quando consigo lembrar... estava sempre lá, latente. Só que ficou muito mais forte quando toquei na mesa. Haramis usa a mesa para saber o que está acontecendo na terra? É por isso que fica aqui o tempo todo, em vez de viajar pelo país?

- Talvez - respondeu Uzun. - Ela nunca disse.

- Mas essa manhã ela nem notou que estava chovendo, até você avisar para ela, não foi? - perguntou Mikayla - Isso não parece um bom sinal.

- Ela estava distraída - disse Uzun, acrescentando presunçoso - e eu tenho um ouvido excelente. Não se preocupe, filha. Ela provavelmente estará bem pela manhã.

Já que Haramis não ia sair da cama aquela noite, Mikayla aproveitou a oportunidade. Foi para o seu quarto, pegou a caixa com as esferas, com as quais Haramis ainda queria que se exercitasse, e foi até a oficina.

Não tinha conseguido entrar em contato com Fiolon todas as noites ou todas as manhãs, mas no último ano tinha feito isso bastante, de forma que já era bem fácil. E estava ficando relativamente fácil rodar as esferas nas mãos como Haramis queria, pois Mikayla andava praticando isso também. Mas aquela noite ela fez as esferas rodarem só para criar poder suficiente para estabelecer o elo.

- Fio - ela murmurou animada ao ver o rosto dele. - Tenho uma coisa sensacional para te mostrar. Você está sozinho?

Fio fez que sim com a cabeça.

- Estou no nosso antigo quarto de brincar - ele disse. - Ninguém vai me incomodar aqui - ele franziu a testa. - Na verdade, sem você aqui, todos estão me ignorando. É muito solitário.

- Sinto muito - disse Mikayla sinceramente. - Sinto sua falta também. Queria que você estivesse aqui para poder partilhar isso com você diretamente, e não através das esferas.

- Partilhar o quê? - Fiolon esticou o pescoço com ar de curiosidade.

- Olhe - Mikayla segurou as esferas em cima da mesa, cobrindo tudo para ele ter uma boa visão.

- É Ruwenda! - Fiolon disse logo. - E é melhor do que qualquer mapa que eu já vi. Você pode segurar as esferas tempo suficiente para eu copiá-lo, se eu for pegar tinta e pergaminho?

- Isso não deve ser problema - respondeu Mikayla. Haramis e os empregados já foram para a cama e Uzun não é exatamente ambulante. Temos todo o resto da noite, se precisar. Pegue o que vai usar e entre em contato comigo com a sua esfera quando estiver pronto.

- Posso chamar você só com a minha? - perguntou Fiolon. - Nunca tentamos isso.

- Só vamos saber quando tentarmos - Mikayla observou.

- Se não receber nada de você em uma marca de vela, chamo você de novo. Mas tenho certeza que consegue. Você é um mago natural muito melhor que eu.

Fiolon sorriu e interrompeu o contato sem dizer mais nada.

Mikayla ficou sentada perto da janela, manipulando as esferas e olhando para o pátio Já embaixo. Franziu a testa quando viu o que a sua chuva tinha provocado. A neve tinha derretido numa grande parte do pátio, mas ainda estava molhada quando a noite chegou e a temperatura caiu. Assim o pátio era uma lâmina de gelo, cintilando ao luar.

- É melhor eu fazer alguma coisa - ela disse para ela mesma - senão as pessoas vão escorregar por aí e se quebrar todas de manhã - ela suspirou. - Eu não devia mesmo ter feito a chuva para começar. Foi muito mesquinho perturbar o tempo só para aborrecer Haramis.

Ela voltou para a mesa de areia e estudou as bacias numa ponta. Apertou o monte de pedra branca moída distraída, com a mão fechada. Ouviu um som ao mover o cascalho sob seus dedos, o som de passos na neve. É claro! ela concluiu. A água é chuva e isso é neve! Eu devia ter percebido isso esta manhã. Afinal, é disso que as montanhas são feitas.

Sentiu um calor na cabeça e ouviu a voz de Fiolon.

- Mikayla, pode me ouvir?

- Posso sim - ela respondeu, pondo a esfera perto do rosto para poder vê-lo. - Eu vou segurar a esfera para você poder ver a mesa e desenhá-la enquanto trabalho.

- Trabalha? - perguntou Fio.

- Feitiçaria do tempo - ela explicou laconicamente, ignorando o comentário ”Ah, claro”, de Fiolon. Ela deu um sorriso largo. - Haramis me deixou aqui sozinha esta manhã e deu ordem para eu descobrir para que servia a mesa. Ela deve ter achado que eu ia levar o dia inteiro... se chegasse a descobrir. Ela voltou correndo para cá quando eu comecei a fazer chover no pátio!

- Tem certeza de que não foi coincidência - perguntou Fiolon, entrando no padrão normal dos dois, de argumento e contra-argumento. - Não costuma chover aí na primavera?

- Haramis confirmou isso quando estava gritando comigo. Foi a primeira vez que a vi sem ar. Mas é bem feito para ela. Não devia me tratar feito uma idiota.

Fiolon abriu a boca para falar mas resolveu nada dizer. Mikayla achou que ele decidira não dar sua opinião sobre a inteligência dela.

- Além do mais - ela acrescentou - nunca chove aqui, nem mesmo no verão... sempre neva.

- Então, que trabalho é esse que você está fazendo agora?

- Um pequeno conserto. Quando fiz chover de manhã, derreti um monte de neve e agora o pátio está uma lâmina de gelo.

- E você vai derreter o gelo?

- Já é noite aqui, Fiolon, e a temperatura caiu. Derreter o gelo seria trabalhar contra a natureza.

- Tem razão - disse Fiolon, desenhando sem parar. - Eu devia ter pensado nisso. E se você criar calor suficiente para derreter o gelo no meio da noite, provavelmente vai causar uma enchente em algum outro lugar.

- Ou avalanches - concordou Mikayla. - Não, acho que o melhor a fazer agora é simplesmente jogar uma camada espessa de neve em cima do gelo. Assim as pessoas vão caminhar na neve e a neve impedirá que escorreguem. Depois, se ficar naturalmente mais quente daqui a um ou dois dias, posso pedir para Haramis me mostrar como se derrete o gelo para

secar o pátio - ela olhou para os vários potes dispostos em volta da mesa - além disso, não tenho certeza do que se usa para provocar calor em um lugar...

- Uma tocha? - sugeriu Fiolon.

- Pode ser. Mas tenho certeza de que esse mármore moído é para fazer neve... e se não for, vou descobrir logo.

- Experimente, então - disse Fiolon - mas tenha cuidado. Posso ficar olhando? Quero ver como funciona.

- Claro.

Mikayla pegou um pequeno punhado de grãos de pedra branca e deixou cair da mão com todo cuidado sobre a torre na mesa, concentrando-se em neve. Visualizou a neve caindo suave na torre e nas redondezas, cobrindo devagar o gelo no pátio, embranquecendo o telhado e as varandas. Parecia que estava flutuando no ar, perto da torre, vendo a neve cair à sua volta. Uma sensação muito estranha, que nunca teve antes. Enquanto se concentrava, sentiu que estava diminuindo, encolhendo até ficar do tamanho de um floco de neve, transformando-se em mais um cristal, caindo lentamente na noite, capturando umidade e convertendo essa umidade em desenhos rendados de flocos de neve...

Ela acordou com a luz pálida da manhã. Estava deitada no chão, perto da mesa, e todos os músculos do corpo estavam duros e doloridos. Por que estou dormindo no chão, se tenho uma ótima cama? ela pensou. Então voltaram as lembranças da noite anterior, e ela ficou de pé de um pulo, fazendo uma careta quando o corpo protestou. Correu para a janela e espiou lá fora.

- Eu consegui! - exclamou satisfeita.

O pátio estava coberto de neve, e vendo a amurada da varanda mais próxima percebeu que era quase exatamente a quantidade que tinha planejado. Gostaria de saber se já estava na altura adequada quando caiu no sono e o encantamento parou, ou se tinha continuado a nevar enquanto dormia, até atingir a quantidade desejada. Talvez Haramis pudesse explicar, se estivesse de bom humor aquela manhã. E Haramis próvavelmente ia ficar com um humor muito melhor se Mikayla fosse encontrada praticando com as esferas em seu quarto na hora do café da manhã.

Mikayla foi na pontinha dos pés para o quarto, vestiu a camisola, subiu na cama e remexeu tudo para dar a impressão de que tinha dormido ali, e estendeu a mão para pegar a caixa que continha as esferas. Só que quando esticou o braço percebeu de repente como estava cansada.

- Não vai fazer mal algum dormir mais um pouquinho - disse em voz alta. - Ainda é cedo. E está frio.

Deixou o braço cair ao lado do corpo, encolheu-se embaixo das cobertas e adormeceu de novo, quase imediatamente.

Ao acordar outra vez o sol entrava pela janela. Tinha esquecido de fechar as cortinas.

- Oh, não! - exclamou, levantando da cama apressada e vestindo a roupa que estava mais à mão - estou atrasada para o café!

Parou apenas para passar um pente no cabelo, disparou para a sala de jantar e diminuiu o passo ao se aproximar. Sua mãe tinha dito que uma princesa jamais corria, e disse isso tantas vezes que Mikayla desenvolveu o hábito de entrar numa sala com passo de dama, independentemente da velocidade da corrida no corredor.

O café da manhã estava arrumado no aparador, mas havia apenas um prato. Haramis deve ter tomado café mais cedo, pensou Mikayla. Só espero que não esteja muito zangada comigo por ter dormido demais. Mikayla comeu apressada uma torrada fria e cidra de fruta ladu que estava quente, mas tinha esfriado. Então foi procurar Haramis.

Tentou o estúdio primeiro, mas quando enfiou a cabeça na porta, viu Uzun lá sozinho, no seu lugar num canto da sala.

- Quem está aí? - as cordas da harpa soaram baixinho.

- É Mikayla - ela respondeu. - Bom dia, Uzun.

Ela passou a gostar muito do oddling/harpa, especialmente depois que Fiolon foi embora. Antes Uzun parecia mais amigo de Fiolon do que dela, como se simplesmente tolerasse Mikayla porque Fiolon gostava dela. Mas depois da partida de Fiolon, Mikayla continuou a visitar Uzun, que era muito mais simpático e tinha uma conversa melhor do que Haramis.

Mikayla achava muito cruel da parte de Haramis ter prendido Uzun na sua forma atual. Devia ser um sacrifício para ele ser cego. Mesmo se ele tivesse concordado com a transformação, Mikayla ainda achava que era egoísmo de Haramis mantê-lo preso daquele jeito.

- Bom-dia, princesa Mikayla - disse Uzun educadamente. - Dormiu bem?

Mikayla podia ouvir os avisos freqüentes da mãe explicando que aquilo ”É uma saudação, filha, não uma pergunta”. Até chegar àquele lugar não tinha se dado conta do quanto tinha absorvido da educação que a mãe lhe deu. Quando vivia na Cidadela, ela e todos que a conheciam podiam ter jurado que as palavras da mãe afetavam Mikayla tanto quanto a chuva afetava um pássaro aquático.

E respondeu automaticamente.

- Bem, obrigada Uzun. E você? - - ela caiu em si. - Desculpe, não sei se você dorme ou não. Mas se dorme, espero que tenha dormido bem.

- Eu também não sei bem se durmo ou não, princesa - respondeu a harpa. - Se algum dia você entrar aqui e tiver de me acordar, então saberemos. Mas tenho certeza de que não sonho.

- E sente falta? - perguntou Mikayla curiosa.

- Sinto - a resposta foi tão desolada quanto uma harpa pode ser.

Mikayla mordeu o lábio. Gostaria de não estar sempre magoando seus sentimentos, ela pensou. Queria ser mais como minhas irmãs. Queria estar em casa com a minha mãe. Em voz alta ela disse apenas ”Sinto muito”. Afinal, não tinha outra coisa para dizer, e Mikayla não duvidava da sua capacidade de tornar uma situação desagradável ainda pior quando ficava falando sem parar. Hora de mudar de assunto.

- Você sabe onde a senhora está esta manhã, Uzun?

- Não - suspirou a harpa. - Ela não veio dar bom dia hoje.

- Isso é estranho - disse Mikayla. - Parece que ela já tomou café.

- Toque a campainha, filha - disse Uzun aflito. - Pergunte à Enya o que aconteceu.

Enya chegou alguns minutos depois. Uzun já estava perguntando onde estava Haramis antes da governanta passar pela porta.

Ele pode ser cego, mas pelo menos tem uma audição excelente, pensou Mikayla. Acho que ele ouviu Enya chegando, no mínimo meio minuto antes de mim.

- Ela saiu - explicou Enya. - Num minuto estava sentada lá, tomando café com o olhar perdido... você sabe como ela faz, princesa... e no outro simplesmente largou a comida, pegou sua capa e saiu voando num dos seus grandes pássaros.

- Para onde ela foi? - perguntou Uzun. - Ela não disse?

- Bom, mestre Uzun - Enya respondeu meio sem jeito -, não cabe a mim questionar suas idas e vindas, e eu não devo dizer...

As cordas da harpa vibraram furiosas e Enya torceu o avental, nervosa.

- Ela voou para o sul, talvez para a Cidadela. Não tenho certeza.

Mikayla engoliu em seco horrorizada, tomada pela apreensão.

- Fiolon! - ela disse, saindo em disparada da sala.

Só parou quando chegou ao quarto e trancou a porta. Pegou a caixa e deixou as esferas caírem na mão. Elas pareciam rodopiar sozinhas, e o poder chegou quase que imediatamente quando encostou a esfera que usava no pescoço nas outras duas. Dessa vez foi a audição e não a visão o primeiro sentido que ela captou. Certamente a esfera de Fiolon estava guardada dentro da camisa dele, mas a discussão que acontecia perto dele era perfeitamente audível.

- Deve estar enganada, minha senhora arquimaga - a rainha estava dizendo com frieza e segurança. - Minha filha pode ser um pouco levada, mas não é imoral. E nem o filho da minha irmã.

- Ela está enganada sim - disse Fiolon zangado. - Jamais toquei em Mikayla desse jeito, íamos noivar no ano passado e depois casar. Eu não tinha razão nenhuma para desonrar minha futura esposa.

- Ela não é sua futura esposa! - retrucou Haramis furiosa.

- Nesse período ao qual se refere, minha senhora - respondeu Fiolon -, posso lhe assegurar que era assim que a considerávamos. Eu amo Mikayla, sempre amarei Mikayla, independentemente do que fizer com ela, e jamais faria nada para prejudicá-la.

- Isso é ridículo - o rei protestou sem muita convicção. Olhe para ele... são pouco mais que crianças. E a maior parte dos dois últimos anos - ele acrescentou com mais firmeza - Mikayla esteve morando com você. Não poderiam ter ido para a cama a menos que você se descuidasse e os deixasse sozinhos.

- O quê? - disse Mikayla em voz alta. Aparentemente Fiolon ouviu o que ela disse, mas felizmente seu ”psiu!” urgente foi abafado pelas vozes dos adultos.

Mas eu tenho idade bastante para deitar com qualquer um, pensou Mikayla. Lembro quando minhas irmãs mais velhas chegaram à idade de casar, e não estou tão amadurecida ainda, o que é estranho. Tinham mais ou menos a minha idade quando aconteceu com elas. Será que Haramis está fazendo alguma coisa para que eu continue sendo criança! Não, não poderia. Se estivesse, ia perceber que o que está dizendo sobre mim e Fiolon é bobagem. Talvez seja um efeito colateral de estar estudando mágica...

- E se eles não tinham intimidade física - disse Haramis então como é que explicam o fato de estarem ligados assim?

- O que você quer dizer com ”ligados”? - perguntou a rainha.

- Ligados, unidos, em contato permanente um com o outro - disse Haramis impaciente. - Por que pensa que tem neve em toda a volta do outeiro da Cidadela?

- Oh, não! - murmurou Mikayla.

- O que a neve tem a ver com isso? - o rei parecia completamente confuso.

- Pergunte ao menino - disse Haramis com frieza.

- Foi um acidente - disse Fiolon baixinho. - Eu não pretendia fazer nevar aqui. Estava observando Mikayla, que fazia nevar na torre da senhora, e nós dois adormecemos, e de alguma forma o encantamento do tempo foi duplicado aqui.

- Você disse que Mikayla fez nevar? - Haramis perguntou espantada. - Ela não sabe como fazer nevar!

- Senhora - disse Fiolon educadamente -, se olhar para a mesa, verá que é óbvio como fazer nevar. Ela fazia isso porque a chuva que provocara mais cedo tinha deixado o pátio molhado quando a noite chegou, e congelou tudo. Ela não queria que os empregados caíssem e se machucassem quando começassem a trabalhar de manhã.

- Derreter o gelo não seria mais simples? - perguntou o rei.

- E como é que uma camada de neve por cima pode ajudar?

- Precisaria de muita energia para derreter o gelo nas montanhas à noite - explicou Fiolon. - Faz frio, e está escuro, de modo que não se pode usar o sol para ajudar... e as luas não têm força suficiente. E se produzisse energia suficiente para derreter o gelo num pátio frio de pedra, perto do topo de uma montanha, você derreteria bastante neve em volta e produziria pelo menos uma avalanche, se não uma enchente morro abaixo. Quanto a pôr neve em cima do gelo, quando pisamos na neve, ela ajuda a segurar nossas pernas quando afundamos, e se caímos, caímos numa coisa mais macia que gelo.

- Humm - disse Haramis, pensativa. - E Mikayla resolveu tudo isso sozinha”? Ou você ajudou?

- Nós conversamos sobre isso, resolvendo o que seria melhor fazer - disse Fiolon. - Estamos acostumados a trabalhar em equipe. Mas quase tudo foi idéia de Mikayla. Em geral é ela quem tem as idéias originais. A minha parte normalmente é garantir que ela não mergulhe numa coisa sem pensar antes. E sabíamos como funcionava a neve em cima do gelo por causa dos muitos acampamentos que fizemos nas montanhas, há três anos.

- Não imaginava que você tivesse visto neve antes - Haramis observou distraída. Ela parecia muito mais calma.

Mas Fiolon começava a sentir tudo, menos calma.

- Está dizendo, senhora - ele falou com os dentes cerrados -, que quando me deu dois froniais e um saco com suprimentos, e me mandou de volta para cá, numa viagem que percorre montanhas cobertas de neve durante pelo menos quatro dias, pensava que eu não sabia nada de neve?

- Eu não pensei em nada, nem em uma coisa nem em outra - disse Haramis. - Por quê?

- Senhores do Céu! - exclamou Fiolon muito zangado. Você realmente não se importa com a vida ou com as pessoas... ou com nada além da sua conveniência! Se eu não soubesse como acampar na neve, eu teria morrido... jamais passou isso pela sua cabeça Ou será que era exatamente o que queria... para certificar-se de que Mikayla e eu íamos nos separar? Eu estou avisando, senhora, se me matar, eu voltarei para assombrá-la e ficarei bem ao lado de Mikayla toda a vida dela... e depois também!

A voz de Haramis parecia resignada quando ela se dirigiu ao rei e à rainha.

- Percebo que todos consideram essas duas crianças excedentes, mas teria sido conveniente se alguém tivesse passado algum tempo civilizando os dois. Jamais encontrei falta de educação tão grande em toda a minha vida.

- Não os culpe - resmungou Fiolon. - Eles nos ensinaram boas maneiras. Mas sermos tratados como coisas em vez de pessoas desperta o que há de pior em nós. E você, senhora arquimaga, definitivamente trata as pessoas como coisas. Olhe o que fez com Uzun!

- Uzun não está em discussão aqui. Os sujeitos da discussão são você e Mikayla.

Mikayla ouviu os passos de Haramis e adivinhou que a senhora estava indo para a janela. Abriu sua mente e acrescentou visão ao elo com Fiolon. Ele estava observando Haramis, que via a neve pela janela. Mikayla notou que o charme tinha voltado. Haramis parecia a mesma de sempre. Agora Mikayla sabia que era uma ilusão.

Depois de alguns minutos olhando pela janela, Haramis concentrou sua atenção em Fiolon novamente.

- Eu já cuidei da sua pequena tempestade de neve - ela informou. - Tudo vai derreter em poucas horas. Quanto à sua ligação com Mikayla - ela olhou em volta da sala, então foi até um conjunto de espadas na parede e pegou uma - eu vou cortá-la. Sugiro que coopere.

- E o que acontece se não cooperarmos? - perguntou Fiolon.

Mikayla sentiu uma grande determinação de manter o elo intacto. Não sabia quanto dessa determinação era dele ou dela, mas havia muita vontade na voz dele.

Os lábios de Haramis afinaram, demonstrando aborrecimento.

- Eu vou cortar o elo de qualquer maneira, e continuarei cortando se vocês tentarem restabelecê-lo, e mandarei você de volta para Var, aos cuidados da Marinha Real, para o ponto mais distante possível no mar. Ninguém consegue manter uma ligação de tão longe, especialmente através da água corrente.

Ela fez um arco no ar com a espada, com o corte apontado para baixo, a alguns centímetros de Fiolon. Fiolon e Mikayla gritaram juntos de dor, e o elo se partiu.

Depois, Mikayla só lembrava de estar deitada de lado na cama, encolhida feito uma bola e apertando o estômago. A sensação era de que alguém tinha posto fogo na frente da sua túnica. A cabeça queimava também, do centro da testa, até o topo. Ouviu um gemido e depois de alguns minutos percebeu que era ela mesma que estava gemendo. Mordeu o lábio e fez um esforço para ficar calada, mas a dor continuou. Tentou se esticar, mas doía ainda mais, por isso ficou toda encolhida de lado, esperando que aquilo passasse. Ainda sentia a mesma coisa quando perdeu a consciência de novo.

Mikayla acordou mais uma vez quando alguém começou a bater na porta do quarto. Vá embora, ela pensou. Eu não quero ficar acordada. Ela tentou ignorar o barulho, tentou adormecer.

- Princesa Mikayla - a voz de Enya, preocupada. - Você está bem?

- Estou ótima - gritou Mikayla, mas sua voz saiu rouca.

- É hora do almoço. Não quer comer?

A idéia de comer era repulsiva naquele momento. Na verdade, Mikayla achava que não ia querer comer o resto da vida.

- Obrigada, Enya, mas não estou com fome. Diga à senhora que estou ocupada estudando, e que não quero parar para almoçar.

- Ela ainda não voltou - respondeu Enya. - Você sabe onde ela está?

- Provavelmente continua lá na Cidadela - respondeu Mikayla, tentando calcular o tempo. Estava observando Haramis no meio da manhã, e agora Enya dizia que era hora do almoço...

Então só fiquei inconsciente duas horas, mais ou menos... dormindo e acordando. Em voz alta ela disse.

- Se ela não tiver voltado na hora do jantar, não precisa preparar nada. Eu ataco a cozinha quando fizer um intervalo aqui - esperava que sua voz indicasse que estava absorta nos estudos, e não sentindo dor.

Parece que Enya não notou nada, porque ela disse simplesmente.

- Como quiser, princesa. Ah, e o mestre Uzun gostaria de vê-la à hora que puder.

- Obrigada, Enya. Irei vê-lo logo - quando eu conseguir dominar as funções mais sofisticadas, como ficar de pé e andar.

Ela ouviu os passos da governanta se afastando e então adormeceu de novo.

Já estava escuro lá fora quando despertou mais uma vez, e a única luz no seu quarto vinha das brasas do fogo que estava quase apagado. Fazia frio apesar do ar quente que saía da grade perto da cama. Mikayla estava toda fria também. Não teve força para puxar o cobertor antes de dormir.

Endireitou o corpo com cuidado. Estava duro por ter passado muitas horas na mesma posição, toda tensa, mas o pior da dor tinha passado. Sentia apenas dor de estômago e uma impressão de vazio por dentro.

- Eu vou me levantar - ela disse em voz alta, como se assim pudesse fazer acontecer - e vou para a biblioteca encontrar a descrição daquele encantamento que Haramis usou em Fiolon e em mim. E vou descobrir como revertê-lo.

Ela chegou até a beira da cama bem devagar, escorregou pelo lado do colchão e ficou de pé, ainda segurando na cama. Depois de um segundo, quando teve quase certeza de que suas pernas iam agüentar, pegou a vela que estava na mesa, acendeu-a com uma palavra mágica e foi na direção da porta.

Ainda se sentia fraca e tonta, por isso precisou de alguns minutos para destrancar a porta, mas finalmente conseguiu. Então foi para a biblioteca.

Ao passar pelo estúdio ouviu uma vibração imperiosa das cordas da harpa.

- Mikayla!

Ah, é mesmo, Vzun queria me ver. Ela pôs a cabeça no canto da porta do estúdio que também estava às escuras, a não ser pelo fogo. A lareira do estúdio ficava sempre acesa para a temperatura permanecer a mesma para Uzun. As harpas, com ou sem sensibilidade, não reagiam bem às mudanças na temperatura. Uzun tinha explicado isso para Mikayla com detalhes altamente técnicos, durante uma de suas conversas tarde da noite.

- Entre e sente aqui, filha... ou despenque, o que for mais fácil - disse Uzun com simpatia. - E me conte, em nome dos Senhores do Ar, o que está acontecendo aqui! Haramis não voltou ainda. Você está um horror... o que aconteceu

Mikayla pôs a vela cuidadosamente em cima da mesa e deixou o corpo cair com menos cuidado na cadeira ao lado. Na verdade errou a cadeira e acabou estatelada no chão perto dela. Encostou no assento da cadeira e fechou os olhos. Dava muito trabalho se mexer.

- Eu mesma não tenho muita certeza do que aconteceu, Uzun - ela disse -, mas, Senhores, como dói!

- Eu soube da chuva ontem - Uzun tentou fazê-la falar. Você fez a neve de ontem à noite também?

- Fiz - Mikayla disse, sem ânimo. - Não queria que os empregados escorregassem no gelo e se machucassem. Ninguém se machucou, não é?

- Não que eu saiba - disse Uzun. - Continue.

- Quando eu estava fazendo nevar, estava ligada a Fiolon - Mikayla começou a chorar. - Ele estava desenhando a mesa de areia, porque é melhor do que qualquer mapa que temos. Mesmo eu estando presa aqui, deviam permitir que ele saísse em explorações por aí, você não acha?

- Não vejo por que não - respondeu Uzun -, desde que ele não entre no Pântano Labirinto sozinho, ou faça algo igualmente perigoso.

- Ele não faz coisas perigosas - disse Mikayla, fungando. A temerária sou eu, eu é que faço coisas idiotas... é ele que nos livra dos problemas quando eu os invento.

- Uma qualidade valiosa num amigo - disse Uzun muito sério.

- É - Mikayla começou a chorar de novo, dessa vez mais de raiva. - Mas Haramis não acha isso. Você acredita que ela foi ao encontro dos meus pais e acusou Fiolon e eu de comportamento imoral?

- Por que ela ia pensar uma coisa dessas?

- Só porque nevou na Cidadela quando eu fiz nevar aqui. Ela disse que Fiolon e eu estávamos ligados, e que ia romper o elo, então ela pegou uma espada na parede, e... - Mikayla fez uma pausa. - Não estou bem certa do que ela fez depois. Senti dor e desmaiei. E não sei o que ela fez com Fiolon, e estou preocupada com ele.

- O encantamento que você está descrevendo é bem simples - disse Uzun. - Você corta o ar entre duas pessoas com uma espada, e isso rompe o elo temporariamente, depois você visualiza uma chama queimando o fio ou fios que unem essas duas pessoas.

- Isso certamente explica o que estou sentindo - disse Mikayla. - Sinto dor desde o topo da cabeça até o estômago.

- Mas nada abaixo da cintura está doendo? - perguntou Uzun.

- Não. Por que deveria? - Mikayla perguntou, confusa. O que dói já é mais que suficiente.

- Os fios se ligam a diferentes pontos do seu corpo, dependendo do tipo de união que você tem - explicou Uzun. - Se Fiolon e você fossem casados, por exemplo, essa dor iria até suas pernas. Já que pára na cintura, é óbvio que Haramis está enganada.

- Fiolon disse isso para ela antes de ela começar a balançar aquela espada de um lado para outro - disse Mikayla. - Mas acha que ela ouviu? Não. Ela nunca ouve!

- Não é sua qualidade mais forte - concordou Uzun. Mas estou preocupado com ela.

- Por não ter voltado ainda?

- Em parte - admitiu Uzun -, mas ela nem sempre dá satisfação de suas idas e vindas. Não, eu sinto que há algo errado com ela. Ela teve um tipo de ataque ontem de manhã, antes da sua aula, e depois foi voando para a Cidadela quando provavelmente devia descansar pelo menos alguns dias.

- E nem precisava fazer nada quanto à neve na Cidadela observou Mikayla. - Até em pleno inverno estaria toda derretida no meio da tarde, e estamos no fim da primavera agora.

- Ela é mesmo um pouco temperamental - admitiu Uzun e está habituada a fazer as coisas do jeito dela - ele suspirou. Princesa, tem disposição para visualizá-la e ver se ela está bem?

- Eu não sei - disse Mikayla devagar. - Acho que posso tentar. Mas estou me sentindo mal... meio vazia, oca por dentro.

- Por favor, tente - Uzun implorou - por mim, se não for por ela. Se eu ainda pudesse ter a visão, faria eu mesmo.

- Por você, Uzun, eu vou tentar - Mikayla puxou a esfera pequena para fora da túnica. Não tenho energia para ir procurar a bacia apropriada para a visão, e se eu puder visualizar, serei capaz de fazê-lo com isso. - Ainda acho que foi maldade dela deixá-lo cego.

Pela primeira vez Uzun não contestou nem assumiu imediatamente a defesa de Haramis. Ficou lá sentado e quieto, enquanto Mikayla olhava fixo para a esfera, focalizando além do reflexo da luz do fogo.

Estava de pé no quarto de brincar da velha torre da Cidadela, olhando pela janela, para o lado do Monte Brom. Estava escuro, a não ser por uma vela acesa atrás dela no chão, e o som da chuva batendo na janela explicava por que não dava para ver muita coisa lá fora. E só devia haver uma pessoa no quarto de brincar.

- Fiolon? - - ela murmurou.

- Mikayla? - - a voz de Fiolon sussurrando. - Você está bem?

Subitamente ela ficou bem. A cabeça não doía mais, o estômago não doía, e a sensação de vazio por dentro tinha acabado, só que ela estava com fome e muito consciente do fato de não ter comido nada desde o café da manhã.

- É, estou bem agora - ela disse. - E você?

- Acabou de parar de doer - ele respondeu. - Isso quer dizer que restabelecemos nossa ligação?

- Acho que sim - ela disse, virando para a harpa. - Uzun, Fiolon e eu paramos de sentir dor de repente. Isso significa que nosso elo voltou?

- Significa sim - respondeu Uzun.

- Ei! Eu consigo ouvi-lo! - exclamou Fiolon.

- Ótimo - disse Uzun. - Então ouçam com atenção. Vocês criaram o elo passando muito tempo juntos, não foi?

- Todos os momentos em que estávamos acordados, durante sete anos - confirmou Fiolon.

- E mesmo quando Haramis tentou separá-los, os dois procuraram ficar juntos, pensavam muito um no outro, e tentaram falar à distância um com o outro... e funcionou, estou certo?

- É isso mesmo - admitiu Mikayla.

- Então seria necessário muito esforço para cortar tal elo. Mesmo se não fosse tão forte, mesmo se vocês dois não tivessem tanta mágica...

- Nós temos - Mikayla engasgou, espantada. - Quero dizer, eu sei que Fiolon tem talento para isso, mas eu

- Sim, vocês dois. Mas mesmo se não tivessem, seria difícil quebrar o elo porque ele existe há muitos anos. Se vocês dois quisessem parti-lo, e ambos fizessem força para isso, provavelmente iam conseguir se livrar da maior parte em um mês ou dois, mas poderia ser reativado em emergências. Se apenas um quisesse cortá-lo, levaria pelo menos uma estação ou duas de trabalho duro... e mais, se a outra pessoa combatesse seus esforços.

- Isso quer dizer que Haramis não pode cortá-lo? Mikayla perguntou esperançosa.

- Contra a vontade dos dois - disse Uzun secamente. Duvido muito.

- Neste momento ela não pode fazer nada. - disse Fiolon.

- Aposto que nem sabe que voltou.

- O que aconteceu com ela? - Uzun perguntou aflito. - Eu sabia que alguma coisa tinha dado errado!

- Sinto muito, Uzun - disse Fiolon. - Sei que você gosta dela... e as curandeiras acham que ela vai se recuperar com o tempo - ele acrescentou depressa. - Mas ela teve algum tipo de ataque esta manhã. Perdi uma parte, eu estava me contorcendo de dor no chão na hora, mas ela caiu e não consegue mexer o lado esquerdo do corpo, e não pode chamar os abutres gigantes... ela queria enviar uma mensagem para você, Uzun... e é difícil entender quando ela tenta falar, porque apenas a metade da boca se mexe - ele fez uma pausa, depois continuou. Eu posso chamar os abutres gigantes, mas temia que isso só a deixasse mais aborrecida ainda, e ela já está furiosa comigo.

- Quem está cuidando dela? - perguntou Uzun, aflito.

- Ayah, grande parte do tempo, e algumas curandeiras do Pântano Verde. Estão dando veneno de verme do pântano para ela, para afinar seu sangue e evitar que bloqueie outras partes do cérebro. Elas acham que grande parte dos danos podem ser revertidos, que ela será capaz de mover o lado esquerdo, e caminhar de novo, e tudo mais.

- E suas habilidades mágicas? - perguntou Mikayla. Fiolon sacudiu os ombros.

- No momento ela parece não ter nenhuma. E ninguém sabe se vão voltar. Uzun, isso significa que Mikayla é a arquimaga agora?

- Oh, não! - exclamou Mikayla. - Não estou pronta para ser arquimaga!

Uzun pensou na pergunta.

- Provavelmente não - ele disse finalmente. - Se o poder tivesse passado para Mikayla, ela saberia. Temos de esperar e ver o que acontece.

- O que você quer dizer, ”se o poder tivesse passado para Mikayla” - perguntou Fiolon. - Mikayla se transformaria automaticamente na arquimaga se Haramis morresse?

- Sim - respondeu Uzun -, supondo, é claro, que Haramis esteja certa em pensar que Mikayla é sua sucessora mesmo. Se estiver errada, o poder passa para a pessoa que tem de ser.

- Então outra pessoa poderia ser a arquimaga e nós nem saberíamos? - perguntou Mikayla.

- Teoricamente é possível, mas não é nada provável - disse Uzun com firmeza. - Tenho quase certeza de que é você mesma que vai sucedê-la, Mikayla.

- Uzun O que acontece com você se Haramis morrer? - perguntou Mikayla. - Quero dizer, se ela o transformou numa harpa através de um encantamento e estendeu sua vida além do tempo normal segundo a vontade dela e seus atos, você morre quando ela morrer? - Mikayla, sentindo-se muito insegura de repente, arrastou-se pelo chão para perto dele e passou o braço em volta dele. - Sabe alguma coisa sobre o encantamento que ela usou em você?

- Está num livro na biblioteca - disse Uzun. - Você pode procurar amanhã. Mas agora, jovem senhora, pode comer alguma coisa e ter uma boa noite de sono. Não fará bem para você nem para ninguém no estado em que está. E quanto a você, lorde Fiolon - ele acrescentou - já comeu alguma coisa hoje?

- Depois do café da manhã, não - disse Fiolon. - Primeiro estava sentindo dor demais, depois todo mundo ficou cuidando da senhora Haramis, e eu queria ficar sozinho, por isso vim parar aqui...

- Onde é ”aqui”? - interrompeu Uzun.

- Aqui - Fiolon repetiu. - Ah, é, está certo, você não vê. Desculpe. Aqui é o antigo quartel dos guardas no topo da torre. Você e a princesa Haramis passaram por aqui quando estavam fugindo dos invasores. Estou no cômodo que fica dois andares abaixo do lugar onde os abutres gigantes carregaram vocês para longe.

- É, eu lembro do lugar - disse Uzun. - Não é mais usado pelos guardas?

- Não. Está vazio, a não ser por algumas peças de mobília. Mikayla e eu usamos isso aqui como quarto de brincar durante anos.

- Entendo - disse Uzun. - Aposto que ninguém tem pressa de procurar você quando você some.

- Não, já que são dezessete lances de escada até aqui em cima, e não é um lugar popular entre os empregados. E normalmente ninguém sente a nossa falta, desde que estejamos lá na hora das refeições.

- Muito bem - disse Uzun. - O que eu quero que faça é o seguinte. Coma alguma coisa e durma. Você precisa da sua força, tanto quanto Mikayla. Então, de manhã, procure Haramis e diga-lhe que sonhou comigo, e que no sonho eu disse que sabia da doença dela, e que cuidaria e daria aulas para Mikayla até ela voltar para casa.

- Tudo bem - concordou Fiolon. - Isso deve dar certo. Ela provavelmente vai achar que foi uma mensagem sua, e se pensar que foi você, usando os seus poderes, nem vai perguntar se Mikayla e eu restabelecemos o elo.

- Mas se ela raciocinar mesmo - protestou Mikayla - vai descobrir que estamos ligados de novo. Uzun, você disse que ela não podia quebrá-lo sem a nossa cooperação.

Uzun deu um suspiro, uma vibração fraquinha nas cordas.

- Ela é bem capaz de supor que vocês vão cooperar só porque ela quer. E se está sofrendo de um distúrbio mental, pode nem achar nada. Na verdade, pode não estar pensando em absolutamente nada.

Haramis acordou. O sol entrava no quarto e passava por cima dela, o que era estranho, visto que não havia nenhuma janela. Agora havia. Não, está certo, o sol sempre entrava desse jeito, lembro de brincar com a poeira no ar quando era menina. Tinha uma sensação estranha no corpo, como se tivesse dormido em má posição. O braço e a perna esquerdos estavam adormecidos e não queriam acordar. Na verdade, não conseguia nem movê-los. Com alguma dificuldade, porque muitos músculos não queriam trabalhar, ela virou a cabeça, desviando o rosto do sol, e viu um menino sentado no lado direito da cama. Eu devia conhecê-lo, ela pensou, mas naquele momento não sabia bem de onde.

- Onde está minha mãe? - ela perguntou. - Onde está Immu? Onde estão minhas irmãs? - ela nem notou que as palavras soavam arrastadas.

O menino não teve problema para entender o que ela dizia, mas empalideceu e engoliu em seco.

- Sabe onde está, senhora?

- O nome adequado é princesa, não senhora... você não sabe com quem está falando?

- Ahn .. - o menino hesitou um pouco, depois falou abruptamente. - Quem você pensa que é?

- Eu sei que sou a princesa Haramis de Ruwenda, herdeira do trono - ela respondeu asperamente. - Quem é você, e o que está fazendo aqui, se não sabe nem isso? - ela deu uma olhada no quarto. Por que estava ali sozinha com aquele menino ignorante? - Quem mudou as tapeçarias no meu quarto? E onde estão todos? Onde está Uzun?

- Uzun está na torre - o menino disse depressa. - Ele apareceu em sonho para mim a noite passada e me disse que sabia da sua doença e que eu devia dizer-lhe que ele vai tomar conta e dar aulas para a princesa Mikayla até você ficar boa para fazer isso de novo.

- Quem é Mikayla, e quem é você?

- Mikayla é... bem, Mikayla é uma parenta distante sua. Você estava ensinando mágica para ela antes de ficar doente. Eu sou o Lorde Fiolon de Var.

- Você é da família do meu noivo, então? - perguntou Haramis. - Você veio para cá com ele?

- O príncipe Fiomakté? - o menino continuava apreensivo. Ele e eu somos parentes distantes, mas ele não está aqui agora.

- Quando é que ele vai chegar? Nosso noivado deve ser celebrado em breve.

- Eu não sei - disse Fiolon. - Mas não devo ficar aqui conversando e cansando você. Eu só tinha de dar a mensagem do mestre Uzun. Por que não procura descansar um pouco, senhora... quero dizer, princesa. Vou dizer para a governanta que já acordou.

Haramis fez uma careta, e achou a sensação esquisita.

- Immu provavelmente vai querer me dar uma de suas horríveis poções. Há quanto tempo estou doente E o que há de errado comigo?

O menino saiu sem responder. Na verdade, ele praticamente fugiu do quarto.

Haramis suspirou. Algo muito estranho estava acontecendo. Mas ela estava muito, muito cansada... cansada demais para se preocupar com isso. Voltou a dormir, o que seria motivo de surpresa, se fosse capaz de se surpreender.

Mikayla fazia cera com o café da manhã, que tomava no estúdio para fazer companhia a Uzun. Ainda se sentia bem apática, mas procurou lembrar que os acontecimentos da véspera e da noite anterior teriam deixado qualquer um cansado. Embora a dor terrível de ter seu elo com Fiolon cortado tivesse passado quando a ligação se refez, seu corpo ainda se lembrava dela.

Sentiu a esfera contra o peito ficar mais quente, e ao mesmo tempo Uzun perguntou assustado.

- Que barulho é esse?

Mikayla puxou a esfera para fora da túnica. Ela balançou violentamente, emitindo o som metálico mais alto que algo daquele tamanho era capaz de produzir.

- Fiolon deve estar tentando falar comigo - ela explicou. Nós encontramos essas pequenas esferas numas ruínas que estávamos explorando no Pântano Negro... são quase do tamanho da ponta do meu dedo - ela acrescentou, lembrando que Uzun não podia ver. - Haramis devia ter dado olhos para você, pelo menos - ela reclamou, zangada por Uzun.

A harpa ficou em silêncio.

Mikayla deu um suspiro e continuou sua descrição.

- As que Fiolon e eu pegamos formavam um par, e parecem ser um tipo de mecanismo que os Desaparecidos usavam para se comunicar a distância, mas acho que Fiolon e eu estamos usando numa distância maior do que a que devia ser o objetivo delas.

A esfera chacoalhou ainda mais, balançando para frente e para trás pendurada na fita, apesar de Mikayla não estar mexendo nela.

- É melhor eu ver o que Fiolon quer. Ele parece aflito. Ela olhou para a esfera e viu o rosto de Fiolon.

- Você está aí, Mika? - ele disse. - Levou um tempo enorme para responder!

- Eu estava tomando café - disse Mikayla calmamente. O que há?

- Uzun está aí com você?

- Estou aqui - respondeu Uzun. - É Haramis? Ela piorou?

- Bem, ela não se lembra de mim, nem de Mika, o que até pode ser considerado uma melhora - respondeu Fiolon -, mas quando eu contei que era de Var, ela perguntou se eu estava acompanhando o noivo dela, e onde ele estava, e onde estavam a mãe dela, suas irmãs, e Immu... Immu era a governanta quando Haramis era menina, não era? A mesma Immu que foi com a princesa Anigel em sua busca?

- Era - disse Uzun. - Você está dizendo que Haramis pensa que ainda é uma menina?

- Parece que ela pensa isso mesmo - disse Fiolon nervoso.

- Ela perguntou quem mudou as tapeçarias do quarto, então achei que quando a puseram na cama foi no mesmo quarto que usava quando menina. Imagino que isso ajudaria a fazê-la pensar assim. E quando a chamei de senhora, ela me disse que devia ser chamada de princesa, e que era a herdeira do trono de Ruwenda - ele suspirou. - Dei a sua mensagem, mestre Uzun, e então saí de lá antes de ter de explicar para ela que a maioria das pessoas por quem perguntava estavam mortas há quase duzentos anos.

- Minha nossa - disse Mikayla. - Que coisa extraordinária. Ela não sabe que é a arquimaga? - ela pensou um pouco. Talvez me deixe sair daqui. Quem sabe eu não preciso mais... - Se ela não lembra de mim, eu ainda preciso continuar estudando para ser arquimaga?

- Precisa, sim - Uzun e Fiolon disseram juntos.

- Bom, se ela me esqueceu, quem sabe não escolhe outra pessoa? - disse Mikayla esperançosa.

- Não conte com isso - disse Fiolon. - Neste minuto ela mal lembra do próprio nome.

- E hoje é o dia que você planejava encontrar o encantamento que ela usou para me transformar numa harpa - Uzun lembrou.

- É, está certo - disse Mikayla. Mesmo se Haramis esqueceu de mim, não vou deixar Uzun sozinho. Ele não merece isso. - Estou lembrando agora. Nós conversamos sobre isso ontem à noite

- ela teletransportou os pratos para a cozinha.

- Quer que eu faça alguma coisa, Fiolon?

- Quando estiver na biblioteca, veja se há alguma coisa sobre distúrbios do cérebro e perda de memória - disse Fiolon.

- Vou procurar - Mikayla prometeu - mas medicina não parece ser um dos interesses de Haramis. Mas desde que ela vai ficar fora algum tempo, vou xeretar a torre e ver o que posso encontrar. Tenho certeza de que há muita coisa aqui que ela nunca me mostrou.

- Vou verificar o que restou da biblioteca aqui - disse Fiolon. - Isso deve nos manter longe de encrenca, pelo menos hoje.

- Fio - disse Mikayla devagar -, ela está mesmo doente, certo?

- É, mas não se preocupe, Mika. As curandeiras disseram que vai se recuperar quase completamente com o tempo.

- Quanto tempo?

- Acho que pode contar com alguns meses - disse Fiolon. - As curandeiras não dizem claramente, mas é a sensação que eu tenho.

- Alguns meses - Mikayla repetiu, cuidando para manter a expressão séria. Por dentro sentia vontade de cantar. Meses! Tempo sem Haramis pairando sobre ela, espionando sua vida, olhando zangada para ela à mesa, durante as refeições, querendo que ela fosse algo que não era e nem queria ser... - Bom, se ela lembrar da minha existência em algum momento, dê lembranças minhas.

- E dê-lhe meu amor - disse Uzun rapidamente.

- Eu direi a ela - Fiolon prometeu. - E pelo menos ela lembra de você, mestre Uzun. É um bom sinal, não é? - ele suspirou. - Eu vou levantar a poeira da biblioteca. Se ouvir uma tosse na sua esfera, Mika, pode ignorar.

Mikayla deu uma risadinha.

- Ignoro. Boa sorte na sua procura. Falo com você se eu encontrar alguma coisa.

- Faça isso - respondeu Fiolon. - Boa sorte para você também.

O rosto dele sumiu quando tirou a esfera da frente e guardou na túnica, e a de Mikayla refletiu apenas o que havia em volta dela.

Mikayla se levantou.

- Eu vou para a biblioteca, Uzun, mas volto na hora do almoço. Pedirei para Enya servir todas as minhas refeições aqui, enquanto estivermos só nós dois na torre... a não ser que você queira ficar mais tempo sozinho...

- Definitivamente, não! - disse Uzun enfaticamente. - Já passei tempo mais que suficiente sozinho para toda uma vida.

- Tenho certeza de que passou - disse Mikayla. Ainda não entendo como Haramis f pôde fazer isso com alguém que diz que ama. E ainda fala de egoísmo... - Darei prioridade absoluta à busca do encantamento que ela usou em você.

Levou alguns dias, mas Mikayla finalmente encontrou um livro que podia ser o que estava procurando. Levou-o para a mesa, mas esperou até Enya sair da sala para abrir. O almoço foi extraordinariamente frugal, só pão, queijo, e fatias de fruta ladu de sobremesa. Os empregados da casa estavam de moral baixo por causa da notícia da doença de Haramis. Mikayla tinha deixado Uzun contar para eles, imaginando que o mestre provavelmente explicaria melhor que ela, mas Uzun teve um ataque do seu pessimismo ocasional...

Se a comida não melhorar dentro de alguns dias, pensou Mikayla, vou até a cozinha ter uma conversa com a cozinheira. Nesse meio tempo uma dieta de pão e queijo não vai fazer mal.

- Uzun - ela disse, andando em volta da harpa para observá-la melhor -, o osso no topo da coluna saiu do seu crânio?

- Acho que sim, princesa - respondeu a harpa -, mas eu não estava consciente nessa parte.

- Você se importa se eu incliná-lo um pouco para cá, para ver melhor? - perguntou Mikayla. - Você é mais ou menos da minha altura, por isso não consigo ver sem virá-lo um pouco, ou subir numa cadeira e inclinar-me sobre você... e as cadeiras aqui não são boas para pisar em cima, são macias demais.

- Pode virar - disse Uzun - mas com cuidado. Não me deixe cair!

- Vou tomar cuidado - prometeu Mikayla.

Ela segurou a harpa com firmeza, uma mão na coluna e outra na parte de trás da moldura, e encostou a parte de cima no peito. Pelo menos, desse jeito, se ele cair, será em cima de mim. Ela analisou o fragmento de osso, virando a cabeça para compará-lo com o desenho no livro que estava sobre a mesa ao lado. Então empurrou Uzun com todo cuidado para a posição normal e ficou segurando até certificar-se de que ele estava equilibrado.

- Parece o topo de um crânio mesmo. As linhas no osso combinam com as linhas do desenho no livro. E segundo o que diz aqui, também foi necessário o sangue de alguém... provavelmente de Haramis... para encher um canal bem estreito no centro da coluna.

- Isso está certo - disse Uzun. - Lembro dessa parte. Eu estava morrendo e Haramis estava de pé ao lado do artesão que fabricava a harpa, dizendo para ele se apressar. E quando ele terminou, havia um buraco no topo da coluna. Lembro de ter visto Haramis cortar o braço e deixar o sangue correr para dentro do buraco... na verdade, essa é a última coisa de que eu me lembro. Nessa hora a harpa nem tinha cordas ainda.

- Ela provavelmente encordoou enquanto esperava os insetos comerem a carne nos seus ossos - disse Mikayla, mordendo um pedaço de fruta ladu.

- Insetos - Uzun parecia escandalizado.

- É, parece que eles fazem um trabalho muito mais limpo e rápido do que um humano, ou oddling, tentando remover a carne sem danificar os ossos. A gente enterra o corpo numa banheira com terra e uma mistura certa de insetos, e em poucos dias temos um esqueleto bem limpinho.

- Haramis sempre foi eficiente - disse Uzun com a voz fraca. - E se você continua comendo enquanto explica isso, imagino que compartilha sua falta de frescura quanto a esses assuntos.

- Bom, você não estava consciente na hora - Mikayla observou. - Não estava nem vivo.

- Graças aos Senhores do Ar! - disse Uzun enfaticamente.

Mikayla olhou para o livro franzindo a testa.

Tudo bem, agora eu sei como foi que ela transformou você numa harpa. Por falar nisso, há quanto tempo foi? Se bem me lembro, ela disse que foi sua primeira grande mágica. Uzun ficou alguns minutos pensando.

- Ela era arquimaga há cerca de duas décadas na época, por isso não diria que foi seu primeiro grande encantamento. Mas creio que foi a primeira vez que usou seu poder em prol do próprio interesse - ele disse lentamente. - Princesa, se você não pode fazer um novo corpo para mim, será que pode me libertar deste quando Haramis morrer

- É fácil - disse Mikayla. - Para libertá-lo a fim de que siga para o próximo nível da existência, seja lá ele qual for, tudo que preciso fazer é tirar o fragmento de osso da harpa, moê-lo até virar pó e lançar esse pó ao vento. E eu não sou Haramis! - ela acrescentou com intensidade. - Posso libertá-lo à hora que quiser, não importa o quanto sentirei sua falta!

Ela surpreendeu-se com uma explosão de lágrimas, e não conseguia parar de chorar.

- Desculpe, Uzun - ela soluçou -, não sei o que há de errado comigo.

- Acho que você está mais preocupada com a senhora Haramis do que quer admitir - Uzun disse gentilmente.

- Mas eu nem gosto dela - soluçou Mikayla - e ela me detesta! Está sempre me criticando. Nada que eu faço é bom, e quando faço alguma coisa melhor do que ela espera de mim, fica furiosa. Tirou-me da minha casa e da minha família, está me mantendo aqui há dois anos, e nem posso sair um pouco porque não tenho roupa, a não ser túnicas leves para usar dentro de casa e dois robes! Ela mandou embora meu melhor amigo; tentou romper o elo entre nós e nos machucou... e você sabe o que é pior? Ela espera que eu agradeça! Não entendo isso, de jeito nenhum! Por que alguém agradeceria o que ela fez comigo?

Uzun deu um suspiro.

- Ela está dando para você o que acha que queria quando tinha a sua idade. É por isso que espera que você manifeste gratidão.

Mikayla ficou sentada e calada um tempo, pensando no que Uzun tinha dito.

- Sabe, Uzun, você está absolutamente certo. Ela até disse isso mesmo, estou lembrando. Disse que seria capaz de matar para ter as oportunidades que está me oferecendo, e provavelmente faria exatamente isso. Ela deve ser a pessoa com mais sangue-frio que já conheci - Mikayla pegou a última fatia de fruta ladu e enfiou na boca. - Ela também acha que você deve agradecer por tê-lo transformado em harpa

- Acho que agora ela sente uma certa culpa por isso, especialmente desde que Fiolon e você chegaram e deixaram bem clara a sua opinião a respeito. Acho que ela se arrepende de ter-me feito cego.

Mikayla bufou com desdém.

- Aposto que ela se arrepende muito mais de tê-lo feito incapaz de se mover e de viajar. É claro que ela lembra de você, mas pela descrição de Fiolon, parece que esqueceu que é uma harpa. Tem alguma idéia de quando ela vai exigir a sua presença à cabeceira da cama?

Uzun deu outro suspiro.

- Se ela não lembra que sou uma harpa, imagino que vai me chamar na próxima vez que acordar.

- E se ela lembrar que você é uma harpa - Mikayla completou - provavelmente vai começar a pensar num jeito de empacotá-lo para ser enviado à Cidadela.

Uzun deu uma impressão de estremecimento.

- Viajar no dorso de um abutre gigante já era um terror quando eu tinha mãos para me segurar. E acho que minha madeira não sobreviveria às mudanças de temperatura e umidade.

- Ninguém vai mandar você para lugar nenhum se eu puder evitar - prometeu Mikayla. Mas será que a minha opinião vale alguma coisa? Uzun, quem manda aqui quando Haramis está longe e doente?

- Eu não sei - disse Uzun. - Essa questão nunca surgiu antes.

- Pode ser bom para nós convencer os empregados de que eu estou no comando por enquanto - disse Mikayla. Obedecendo aos seus conselhos, é claro, já que você está dando continuidade às minhas aulas de mágica. -E talvez eu possa pedir roupas quentes para sair de vez em quando.

- Isso parece razoável - disse Uzun. - Afinal, Haramis designou você como sua sucessora.

- Ótimo - disse Mikayla, decidida. - Vou agir como se estivesse no comando, vocês me apoiam, e com um pouco de sorte ninguém vai questionar isso. Quando todos se habituarem a me obedecer, vai ser necessário uma ordem direta de Haramis em pessoa para fazer qualquer coisa com você contra a sua vontade.

- Quanto a transformá-lo... - ela continuou, como se lembrasse de algo de repente - você disse que Haramis era arquimaga há duas décadas quando o transformou em harpa.

- É - disse Uzun - isso é importante

- Haramis sempre teve o entusiasmo que tem agora pelos livros?

- Sempre. Desde o dia em que aprendeu a ler, estava sempre estudando. Tinha lido todos os livros da biblioteca da Cidadela pelo menos uma vez quando fez quatorze anos.

E eu só li cerca de um quarto deles, pensou Mikayla. Não admira que Haramis ache que sou preguiçosa e burra. Mas tenho outros interesses e parece que ela não tem.

- E ela morou aqui nessa torre desde que se tornou arquimaga?

- Ela mudou para cá logo depois que Anigel foi coroada rainha, e Haramis era arquimaga há mais ou menos um mês na época, eu acho. Mas tinha passado algum tempo aqui com Orogastus, enquanto procurava seu talismã.

- Então - Mikayla disse, chegando a uma conclusão -, quando ela transformou você numa harpa, já podia ter lido todos os livros desta biblioteca, não podia?

Depois de alguns segundos de espanto e silêncio, as cordas de Uzun vibraram, provocando o som mais desesperador que Mikayla tinha ouvido. Ela sentiu um arrepio na espinha.

- Podia - sussurrou a harpa. - Ela leu todos mesmo. Então não há outro encantamento.

- Não necessariamente - disse Mikayla com toda a segurança que podia projetar. - Mas não deve estar na biblioteca.

Vou começar a explorar o resto da torre esta tarde. Há um monte de coisas que não interessam a Haramis, e sem dúvida é nelas que está a resposta que procuramos.

Uzun deu um suspiro.

- É verdade que se não for um livro ou instrumento musical, Haramis deve ter ignorado. Mas, Mikayla, tenha muito cuidado quando começar a xeretar por aí. Orogastus colecionava muitas coisas, e algumas são mortais.

Mikayla resolveu explorar a torre de cima para baixo. Suspeitava que as coisas mais interessantes deviam estar no andar mais baixo, mas não era impossível haver algo lá em cima, e queria ter certeza de não deixar passar nada. Pelo que tinha visto em todo o tempo que estava lá, Haramis quase nunca saía do meio da torre, nem para cima, nem para baixo.

Os andares superiores da torre estavam abarrotados de todo tipo de coisas, caixas empoeiradas com roupas velhas (Mikayla passou uma tarde inteira experimentando as roupas que eram grandes demais para ela, pensando que estava perdendo tempo e velha demais para essa brincadeira), e barris cheios de louça velha. Havia um baú que continha vestimentas prateadas estranhas, com luvas e um par de máscaras de prata. Era óbvio que formavam um conjunto, um para homem e um para mulher, mas Mikayla teve uma sensação esquisita ao tocar nelas, uma espécie de arrepio na espinha. Guardou-as de volta na caixa com todo cuidado, sem nem pensar em experimentá-las. Será que pertenciam a Orogastus - ela imaginou. Aposto que sim, mas para quem era a roupa de mulher? Será que Haramis usou isso alguma vez?

Depois de algumas semanas explorando tudo na torre, exceto o quarto de Haramis, pois Mikayla sabia que a arquimaga ficaria muito aborrecida com ela se fosse bisbilhotar lá sem permissão, ela finalmente estava pronta para explorar o andar de baixo. Tinha muita esperança de encontrar algo útil lá embaixo. Até ali não tinha achado nenhum artefato dos Desaparecidos, e Uzun tinha dito que Orogastus os colecionava e levava todos para a torre. Já que não tinha visto a coleção ainda, devia estar em algum lugar no andar de baixo... ou até no subsolo. Não sabia o que havia por lá, mas queria descobrir.

Mikayla desceu a escada de pedra em forma de caracol a partir da área de moradia, passando pela cozinha, continuando a descer. Ficou surpresa ao descobrir que ia além do estábulo, que pensava ser o nível mais baixo da torre. Mas a escada se dividia naquele ponto, um lance descendo reto até a praça, e o outro fazendo uma curva por baixo da rampa que saía do estábulo e ia dar na praça.

Sob o estábulo havia um enorme depósito, do tamanho da circunferência da torre. Mikayla deu o comando que gerava luz no resto da torre e uma única lamparina, suspensa do teto, acendeu. A chama tremelicou, ameaçando apagar. O pavio precisava ser aparado.

Com a luz fraca da velha lamparina, Mikayla conseguiu ver o que havia no salão. Estava cheio de baús e barris, dispostos ao acaso, mas com espaço livre para caminhar em volta. Todos tinham etiquetas, com letras grandes e visíveis, mesmo com a luz fraca, só que numa língua que Mikayla não conhecia.

Isso não parece uma despensa de alimentos da casa, pensou Mikayla, olhando em volta e dando um suspiro. Provavelmente vou ter de abrir cada baú aqui para saber o que tem dentro.

O chão era de um material estranho, preto e prateado, que Mikayla tinha certeza de ter visto antes. Ficou olhando e percebeu que devia saber alguma coisa sobre aquele chão, algo importante, mas não conseguiu lembrar naquele momento. Mas vou lembrar, ela pensou.

Continuou andando para o fundo do depósito. É melhor começar lá no fundo e voltar... Senhores do Ar, o que é aquilo?

”Aquilo” era um túnel no fundo do depósito, indo para longe da torre. A julgar pela direção, e pelo fato de ser cavado em rocha sólida, o túnel entrava direto na montanha. Havia lamparinas penduradas em postes enfiados nas paredes a intervalos regulares, mas estavam apagadas.

Mikayla sussurrou a palavra que acendia as lâmpadas dos andares lá de cima. Ficou satisfeita de ver que funcionava ali também. As lâmpadas brilharam, começando pelas mais próximas e acendendo ao longo do túnel, como se a chama fosse passada de lamparina para lamparina. Todos os avisos de Uzun desapareceram da mente de Mikayla e ela correu pelo túnel, sem se importar com a pedra fria sob seus chinelos e com o fato da sua respiração estar formando uma nuvem de vapor no ar úmido e frio.

O túnel acabava numa grande porta, com quase o dobro da altura de Mikayla, coberta de gelo. Mikayla, animada demais para se preocupar com questões tão corriqueiras como queimaduras de frio, segurou a grande argola que servia de maçaneta e tentou abrir a porta. Ela mexeu devagar e as dobradiças rangeram como se estivessem sofrendo, mas Mikayla mal notou. Entrou pela porta assim que conseguiu uma fresta suficientemente grande para passar.

Viu uma grande câmara abobadada de pedra bruta, com áreas de gelo negro espalhadas de forma irregular pelas paredes. O chão era de placas lisas de pedra negra, e as prateleiras embutidas na rocha eram feitas com essa mesma pedra, assim como o que pareciam portas para outras salas. Experimentou uma das portas. Empurrar não funcionou, era como forçar um muro. Não havia nada para puxar, apenas uma pequena canaleta de um lado da almofada. De repente percebeu que a porta era de correr, não de puxar ou empurrar, e enfiou o dedo na canaleta. A porta abriu com surpreendente facilidade.

A sala atrás daquela porta era estreita, com cerca de apenas seis passos de profundidade, e muito fria. Eu definitivamente preciso de roupas mais quentes, Mikayla pensou, enfiando as mãos nas axilas e batendo os pés. Sabia que não ia ser capaz de ficar ali muito tempo sem se arriscar a sofrer sérios danos, mas aquilo era a coisa mais interessante que tinha visto. Será que Haramis sabe da existência disso? ela imaginou.

A maior parte da parede à sua frente estava coberta de gelo, mas no centro havia uma área cinza-escuro, relativamente desimpedida. Mikayla podia ver seu reflexo na superfície brilhante e escura.

- O que é isso? - ela engoliu em seco, espantada.

O espelho clareou um pouquinho e saiu uma voz dele, murmurando tão baixo que Mikayla pensou que estava imaginando coisas

- Faça seu pedido, por favor.

Estou sonhando, pensou Mikayla. Ou então passei tempo demais com uma harpa falante. Espelhos não falam.

É claro que a maioria das harpas também não. Talvez isso seja algum tipo estranho de artefato para ter visões. Queria que Uzun estivesse aali. Se estivesse, ele... ele ia querer ver Haramis.

- Quero ver Haramis - ela disse em voz alta.

- Ter a visão da princesa Haramis de Ruwenda? - sussurrou a voz.

Mikayla estremeceu. Definitivamente aquela voz não era humana.

- Sim - ela disse, com toda firmeza possível.

- Procurando.

Apareceu uma imagem no espelho, como se Haramis estivesse logo ali, do outro lado do espelho. As cores eram pálidas mas os detalhes estavam nítidos e Mikayla reconheceu o quarto de hóspedes na Cidadela, onde Haramis dormia. Ayah estava sentada ao lado da cama, tomando conta da velha mulher. Mikayla notou que o charme que Haramis sempre usava na presença das outras pessoas não estava presente, mas pelo menos a respiração dela parecia forte e regular.

A imagem desapareceu de repente e a voz, bem fraquinha, falou.

- Poder de gravação esgotado. É necessário recarregar as células solares para funcionamento futuro.

Não é a única coisa que precisa do sol, Mikayla percebeu de repente. Estou congelando aqui!

Fez um esforço para fechar a porta de correr da sala do espelho, voltou depressa para a caverna e apoiou o ombro na porta de fora para fechá-la também, sem querer encostar a pele no gelo, temendo que os artefatos ficassem danificados se deixasse as portas abertas.

As luzes do túnel estavam quase no fim. É um milagre estarem funcionando, pensou Mikayla, correndo pelo túnel o mais depressa possível. Aposto que os servos nunca vêm aqui embaixo. Terei de perguntar a Uzun sobre este lugar. Talvez ele saiba alguma coisa. Mas primeiro preciso de um banho quente e antes de voltar aqui preciso também de agasalhos, e botas, e luvas!

Depois que se aqueceu usando a banheira do banheiro de Haramis, já passava da hora do jantar. Vestiu duas túnicas de usar em casa e sentiu só um pouco de frio, e foi conversar com Uzun, fazendo uma pausa na cozinha para pegar uma bandeja com comida e uma jarra de suco quente de ladu para levar para o estúdio.

- Uzun, você já ouviu falar de uma caverna na montanha, embaixo desta torre? - ela perguntou, depois de comer e beber metade da jarra de suco de ladu, sentindo-se muito mais humana.

- Já - Uzun disse devagar. - Haramis me contou que Orogastus venerava os Poderes Ocultos nessas cavernas de gelo negro, e que ele tinha um espelho mágico com o qual podia ver qualquer pessoa no reino, simplesmente dizendo o nome. Ela costumava ver suas irmãs nele.

- Então o que o espelho mostra é a verdade? - perguntou Mikayla.

- Até onde eu sei, é - disse Uzun. - Então você o encontrou? Pensei que tivesse parado de funcionar há muito tempo. O que você viu?

- Haramis dormindo num quarto da Cidadela, com Ayah, uma das empregadas, sentada ao lado da sua cama.

- Eu conheço Ayah - disse Uzun. - Ela é irmã de Enya.

- É mesmo? - Mikayla ficou espantada, depois pensativa. Talvez a arquimaga não seja tão onisciente quanto quer parecer, e tenha simplesmente espiões plantados por todo o reino.

- Como estava Haramis? - Uzun perguntou aflito.

- Não estava usando aquele encantamento que a faz mais jovem - disse Mikayla - por isso parecia uma anciã cansada, mas a respiração era forte e regular e ela tinha um sono calmo. Eles devem estar cuidando bem dela na Cidadela - ela acrescentou, querendo tranqüilizá-lo. - Por falar nisso, ela disse que o espelho de Orogastus era mágico, ou ele disse que era?

- Ela disse que ele o chamava de espelho mágico.

- Isso explica tudo. Não é nada mágico, Uzun. É um dos antigos artefatos dos Desaparecidos. E não funciona muito bem. Ele mostrou só pouco tempo o que pedi para ver e depois disse que precisava de mais força - ela franziu a testa, tentando lembrar as palavras. - Disse algo como recarregar células solares.

- O que é uma célula solar? - perguntou Uzun.

- Solar tem a ver com o sol... - Mikayla interrompeu a frase quando descobriu por que o chão negro prateado parecia familiar, e pôs-se de pé. - Volto já - disse para Uzun, e saiu correndo para seu quarto, em busca das caixas de música que tinha escondido lá.

Voltou com uma delas alguns minutos depois. Pôs a caixa entre duas velas sobre a mesa, teletransportando os pratos do jantar de volta para a cozinha para fazer espaço. A caixa começou a tocar baixinho à luz das velas.

- Essa é a antiga caixa de música de Haramis - disse Uzun -, era seu brinquedo favorito quando criança. Não sabia que a tinha guardado. Mas eu devo estar ficando velho, pois a música costumava ser mais alta.

- Ela não guardou - disse Mikayla. - Eu acho que a que Fiolon e eu encontramos no quarto de brincar da Cidadela era dela. E continua lá. Essa é uma das que achamos nas ruínas perto do Rio Golobar... logo antes de Haramis nos encontrar.

- Uma delas - disse Uzun com a voz mais animada que Mikayla tinha ouvido. - Vocês encontraram outras E alguma tocava músicas diferentes?

Mikayla riu.

- Você é igual a Fiolon. Encontramos seis ou sete, eu acho. Ele levou a maior parte para casa quando Haramis mandou-o embora, mas eu tenho mais duas no meu quarto. Gostaria de ouvi-las? Que pergunta boba.

- Claro que gostaria - disse Uzun -, mais tarde. Isso é importante para você por alguma razão além da música... você estava falando de células solares quando de repente saiu correndo para buscá-la.

- É - disse Mikayla. - Você acabou de observar que a música está baixinha. Ouça bem - ela acendeu mais quatro velas em volta da caixa e a música ficou mais alta.

- Está mais alta - disse Uzun - mas ainda não tão alta quanto devia ser.

- Quando você ouviu isso antes, o sol estava brilhando em cima dela? - perguntou Mikayla.

- Estava - Uzun disse logo. - Haramis a deixava numa mesa perto da janela quando tocava. Se a guardasse no escuro, silenciava.

- Exatamente! - disse Mikayla satisfeita. - Ela tira seu poder da luz... de preferência luz solar, porque é a mais brilhante e, suponho, a que fornece mais força - ela apagou as velas extras e a música logo ficou mais baixa de novo. - Você lembra como era a caixa, Uzun? - ela perguntou.

- Só vagamente, eu acho - respondeu o mestre.

- Em cada lado - disse Mikayla - há uma pequena peça, embutida no desenho, de metal negro prateado. Ouça o que acontece quando eu cubro essas peças - ela pôs um dedo em cima de cada peça e a música acabou. - O resto da caixa continua recebendo luz - ela explicou para Uzun - eu só cobri essas coisas pretas e prateadas. Acho que devem ser as células solares, pequenas, pois uma caixa de música não requer muita energia. Mas o tal espelho mágico de Orogastus deve precisar de muita. Foi ele quem construiu essa torre, não foi?

- Foi, é o que a história diz - respondeu Uzun. - E certamente ela não estava aqui no tempo do meu pai.

- O chão da sala embaixo do estábulo é feito do mesmo material dessas ”células solares”. E fica no mesmo nível do pátio. Você sabe como é o chão do pátio quando não está coberto de neve?

- Não - disse Uzun. - Nunca o vi sem neve.

- Eu vi - disse Mikayla -, naquela noite em que fiz chover, antes de fazer nevar para cobrir o gelo. Com o gelo cobrindo tudo, não pude ter certeza, mas creio que o pátio pode ser uma célula solar. Na verdade, eu acho que toda a torre foi construída em cima do que devia ser a fonte de energia para os artefatos nas cavernas de gelo. Seria exatamente o tipo de coisa que Orogastus faria, pensando que os artefatos eram mágicos - a palavra soou sarcástica quando ela pensou no que Haramis tinha dito sobre Orogastus e a verdadeira mágica. - Ele nunca pensaria em procurar uma fonte física de energia, e aposto que não teria reconhecido uma se andasse em cima dela... literalmente.

- Acho que você provavelmente está certa - disse Uzun. Pode provar isso? E pode fazer esse espelho funcionar, para ficar de olho em Haramis?

Mikayla franziu a testa.

- Podíamos pôr tochas no depósito sob o estábulo, mas grande parte do chão está coberto, e as tochas podem não ter brilho suficiente... Acho que vou precisar usar a mágica do tempo. Uzun, você disse para Fiolon dizer para Haramis que você ia me dar aulas... suponho que isso quer dizer que você pode me ensinar?

- É claro que eu posso, princesa - respondeu Uzun, parecendo um pouco ofendido.

- Você pode me ensinar a magia do tempo Na sua forma atual? - perguntou Mikayla. - Não duvido nem por um segundo que você sabe fazer magia... ou que podia fazer... mas vai ter de me dizer tudo e contar com os meus olhos e com a minha habilidade para descrever os resultados. Não são condições ideais para ensinar nada.

- Vamos dar um jeito - disse Uzun um tanto irritado. Não temos escolha. O que você quer aprender primeiro?

- Bom - Mikayla disse, tentando pensar em todos os passos necessários -, primeiro é melhor eu me certificar, amanhã bem cedo, de que a minha teoria sobre a praça ser uma célula solar está correta. Vou varrer um pouco de neve, na ponta do abismo, para poder jogar a neve lá para baixo. Devo conseguir ajuda de alguns vispis, não acha? Eles agüentam o frio.

”O que me lembra - ela continuou - que vou ter de assaltar o guarda-roupa de Haramis para amanhã. Não tenho nada para usar lá fora. E terei de pedir aos empregados para fazer umas roupas quentes para mim. Vou pedir à Enya na hora do café da manhã, mas posso precisar do seu apoio. Suspeito que Haramis pode ter deixado ordens para não me darem agasalhos para eu não poder escapar daqui.”

- Claro que não! - disse Uzun espantado. - Haramis não faria isso.

- Então deve ser coincidência, pois só tenho túnicas leves de usar em casa e chinelos também para dentro de casa. O par, que estava usando no dia que Fiolon partiu, ficou destruído porque saí com eles, e só pude ir lá fora porque Haramis deixou que eu usasse uma de suas capas. E preciso de agasalhos, mesmo se não sair... você não imagina como as cavernas de gelo são frias!

- Então vamos providenciar roupas quentes para você - disse Uzun. - Eu tinha esquecido como faz frio aqui, fora desta sala e dos outros cômodos do meio da torre. Já faz tanto tempo que não saio deste lugar...

Ah, droga, pensou Mikayla chateada, agora eu o deixei perturbado de novo. Ela voltou rapidamente para o assunto original.

- Se a praça for uma célula solar, vou jogar o máximo de neve possível no abismo, depois usarei a chuva para limpar o resto. A praça fica um pouco inclinada na direção do precipício, então deve funcionar. Você conhece alguma coisa da geografia por aqui? Será que jogar neve e chuva no abismo vai prejudicar alguma coisa?

- Até onde posso me lembrar - disse Uzun - não. Mas não esqueça de que tudo que sei desta área deriva de visões e de observar Haramis usando a mesa de areia. Faz frio demais para um nyssomu ir lá para fora. Quando Haramis precisa enviar um de nós para a planície, levando uma mensagem, ela nos embrulha numa versão especial de saco de dormir e nos amarra no abutre gigante. O abutre voa para uma aldeia na planície, perto do fim da Grande Estrada, e lá os aldeões desembrulham o mensageiro e ele continua a pé ou de fronial, a partir daquele ponto.

- E como é que ele respira? - perguntou Mikayla curiosa.

- O saco deve ser bem apertado para manter um nyssomu perto da temperatura normal.

- Fica bem sufocante - admitiu Uzun - mas como o abutre gigante voa, a aldeia não fica longe, por isso não corremos perigo de ficar sem ar.

- Não seria mais simples mandar um dos vispis? - perguntou Mikayla.

Uzun riu.

- Os vispis se recusam a deixar as montanhas. São inflexíveis quanto a isso.

- Por quê? - quis saber Mikayla.

- Não tenho certeza - disse Uzun. - Talvez parte da razão seja para preservar seu status lendário de ”Olhos no Rodamoinho”, cuja verdadeira forma ninguém jamais vê.

- De manhã - disse Mikayla decidida - eles podem fazer rodopiar a neve da praça até o abismo. - Ela verificou todos os passos mentalmente: descobrir se há mesmo uma célula solar lá fora, deixá-la à mostra se for, deixar o sol carregá-la... - Já sei, Uzun. A próxima mágica de tempo que preciso aprender é como manter o céu limpo. Pode me ensinar isso?

- É fácil - garantiu Uzun.

- Obrigada - disse Mikayla. - Terei um dia atarefado amanhã, por isso vou para a cama agora. Boa noite, Uzun.

- Boa noite, Mikayla - a harpa respondeu, começando a tocar uma canção de ninar distraída.

Mikayla foi sorrindo pelo corredor, e a música flutuou atrás dela.

Mikayla foi para o estúdio bem cedo na manhã seguinte, assim que o sol nasceu, levando as esferas que Haramis tinha dado para ela.

- Pensei numa coisa depois que fui para a cama ontem à noite, Uzun - ela disse. - Pode ser que eu não precise pedir para os empregados daqui fazerem roupas quentes para mim. Fiolon pode trazer algumas de casa. Mesmo se as minhas não servirem mais, há sempre aquelas usadas dos meus irmãos mais velhos, a governanta mantém alguns baús cheios delas.

- A Senhora não vai gostar - avisou Uzun.

- Não vai gostar do quê?

- De Fiolon vir para cá.

- Então ela devia ter ficado aqui, com bastante saúde, para poder reclamar - disse Mikayla irritada. - Ela não pode me treinar para ser a próxima arquimaga se nem lembra da minha existência!

- Talvez agora ela já lembre - disse Uzun esperançoso.

- Foi por isso que trouxe as esferas - disse Mikayla. Podemos falar com Fiolon e ver como Haramis está.

- Muito bem - Uzun suspirou. - De qualquer modo, não posso impedi-la.

- Parece que para você estou propondo algum ato de magia negra! E, afinal, o que Haramis tem contra Fiolon?

Mikayla imaginava por que, há muito tempo, desde que percebeu que Haramis não gostava de Fiolon.

- Ele é homem.

- E daí? - isso não é motivo, e com certeza ela deve ter algum para não gostar dele, só que nem imagino qual é. Ele sempre se comportou melhor do que eu, foi educado e respeitoso com ela, muito mais do que eu jamais fui.

- Acho que é só isso mesmo - admitiu a harpa. - O único feiticeiro humano que ela conheceu ou ouviu falar foi Orogastus, que não é a melhor das recomendações.

- Só que foi há quase duzentos anos! - protestou Mikayla. - É um tempo enorme para ficar desconfiando de todos os homens, baseada nos atos de uma pessoa!

- Haramis é uma mulher de opiniões fortes - disse Uzun suavemente.

- Opiniões fortes e imutáveis - concordou Mikayla de mau humor. - Se você não estivesse sendo tão educado, diria que ela é excessivamente teimosa - ela deu um suspiro. Vamos ver se Fiolon pode nos dizer como Haramis está.

Entrar em contato com Fiolon foi um pouco mais difícil do que de costume, já que Mikayla teve de acordá-lo durante o processo. Mas finalmente seu rosto sonolento apareceu na esfera e ele resmungou.

- O que você quer?

- Bom dia para você também - respondeu Mikayla. Primeiro, Uzun gostaria de saber como vai Haramis.

- As curandeiras parecem animadas - disse Fiolon - mas eu estive lá ontem, por pouco tempo, e ela me chamou de espião labornok. Parece que ela está no ponto da sua vida em que a invasão estava acontecendo. Está sempre perguntando onde está Uzun, e por que ele não aparece para ajudá-la, por isso é óbvio que não lembra que o transformou numa harpa.

- Ah, eu queria poder ajudá-la! - disse Uzun emocionado. - Você acha que se me embrulhassem com todo cuidado...

- Não, não acho - disse Mikayla. - Você não caberia em nenhum saco de dormir que ela usa para transportar nyssomus, e com o seu formato não daria para amarrar nas costas de um abutre gigante. E Haramis ficaria muito aborrecida se você sofresse qualquer dano tentando ir para lá. Além do mais, a essa altura, poderia até ser um choque para ela descobrir que o transformou numa harpa.

- Creio que você tem razão - suspirou Uzun.

- Então, Fiolon - Mikayla continuou, esperançosa -, ela não lembra de você nem de mim, e não vai lembrar por um bom tempo, certo?

- É o que parece.

- Ótimo - disse Mikayla satisfeita. - E ninguém mais deve questionar sua ausência se você disser que vai sair numa exploração.

- E o que é que eu vou explorar? - perguntou Fiolon, receoso.

- Você vai adorar - Mikayla prometeu. - Orogastus construiu este lugar em cima de uma série de cavernas de gelo, cheias de artefatos dos Desaparecidos. Depois juntou tudo deles que conseguiu encontrar, e está tudo em barris e caixas no andar embaixo do estábulo. É um tesouro de conhecimento!

- E alguns podem ser extremamente perigosos - Uzun comentou, repreendendo os dois.

- Se você está planejando xeretar e mexer nos artefatos que Orogastus colecionou, é melhor eu ir para aí e ficar de olho em você - disse Fiolon com mais entusiasmo do que Mikayla tinha ouvido dele, desde o dia em que Haramis mandou-o embora.

- Acho que deve mesmo - ela concordou prontamente. Quem sabe em que tipo de encrenca eu posso me meter sem você aqui para conter meu entusiasmo por coisas estranhas e novas?

- Eu devo levar de volta os froniais que a arquimaga mandou quando vim para cá? - perguntou Fiolon.

- Não, deixe-os aí - disse Mikayla. - Ela pode precisar deles quando estiver boa e quiser voltar para casa. Andei conversando com os abutres gigantes, e nenhum deles consegue se comunicar com ela desde que adoeceu.

Uzun deu um suspiro de desalento e Mikayla continuou depressa.

- É claro que isso deve mudar quando ela melhorar. No momento ela provavelmente nem lembra que é capaz de falar com eles, e esse pode ser o único problema. ”De qualquer modo”, ela continuou a dar instruções para Fiolon, ”empacote todos os agasalhos que puder, para você e para mim. Procure nas arcas de roupas, se precisar. Acho que cresci um pouco desde que vim para cá. Mas o que servir para você provavelmente vai servir para mim. Não esqueça de trazer luvas bem quentes e botas. Faz muito frio nas cavernas de gelo, e acho que teremos de passar bastante tempo nelas. Depois diga algo plausível para os empregados para explicar a sua ausência. Não conte para eles que está vindo para cá. Não depois daquela cena estúpida que Haramis fez, logo antes de adoecer. Vá para o leste pela Grande Estrada, até cruzar o rio. Depois para o norte meia légua, pela margem ocidental do rio, e um abutre gigante vai encontrá-lo lá. Entendeu tudo”?

- Entendi - disse Fiolon prontamente, sem nenhum vestígio de sonolência. - Devo chegar lá por volta do meio-dia, ou pouco depois.

- Maravilha - disse Mikayla. - Vou pedir à Enya para arrumar um quarto para você, mas terei de ser um pouco vaga quanto ao tempo que você vai ficar.

- É, talvez seja uma boa idéia - concordou Fiolon.

Mikayla vestiu as roupas mais quentes que encontrou no quarto de Haramis. Quando Enya protestou por estar pegando as roupas de Haramis sem permissão, Mikayla aproveitou a oportunidade para dizer que estava aguardando a chegada de Fiolon mais tarde, que ele traria suas roupas, e que ela devia preparar o quarto para ele.

- Quanto à Senhora Haramis, estão cuidando dela na Cidadela e muito esperançosos quanto à sua recuperação, mas temo que no momento ela não está em condições de dar autorização para nada. Até ficar boa, vou continuar meus estudos sob a direção do mestre Uzun.

Enya não deve ter ficado feliz com isso, mas não podia fazer muita coisa. Atendendo ao pedido de Mikayla, designou um dos vispis para ajudá-la a tirar a neve da praça. Enya não gostou, mas Mikayla nem se importou.

Era ótimo estar ao ar livre. Mikayla sentia-se mais viva e mais real do que nunca, desde o dia em que chegara à torre. Andava se sentindo como uma sombra ou um fantasma, trancada dentro de casa com Haramis, mas lá fora, à luz do sol, a sensação era maravilhosa, talvez até um pouquinho maior que a vida, ligada ao resto do mundo, e não isolada de tudo. E Fiolon logo estaria ali com ela de novo. Mikayla estava mais feliz do que lembrava ter estado em toda a sua vida. Mesmo os resmungos do vispi que Enya designou para ajudá-la não conseguiam abater aquele ânimo todo.

Os dois levaram o resto da manhã para tirar toda a neve de uma pequena área da praça à beira do abismo, mas ao meio-dia Mikayla voltou para a torre, afundou na banheira de Haramis até seu corpo esquentar, e pediu que servissem um farto almoço no estúdio, onde deu as boas novas para Uzun.

- É mesmo uma célula solar - ela disse -, graças aos Senhores do Ar. Se a célula solar não ocupasse a praça toda, talvez tivéssemos de derrubar a torre para recarregá-la - ela deu um sorriso largo. - Haramis não ia gostar nada disso.

- Então o que você vai fazer agora? - perguntou Uzun.

- Pedi ao vispi para jogar toda a neve que pudesse no abismo. Isso significa que terei menos neve para derreter quando fizer chover, o que planejo para amanhã. Esta tarde você pode me explicar como manter a temperatura, de forma que a chuva não se transforme em neve, e como manter o céu limpo depois de tirar toda a neve da praça. Ainda bem que a praça fica do lado sul da torre, pelo menos vai pegar todo o sol que houver. Mas provavelmente ainda vai precisar de alguns dias para recarregar de energia. Quando o espelho estiver funcionando bem, posso usá-lo para saber de Haramis. E é possível que ele, ou alguma outra coisa guardada lá embaixo, me dê a pista de que preciso para saber como fazer um novo corpo para você.

- Um novo corpo? - disse uma voz vinda da porta. - Há algo de errado com a harpa?

- Fiolon!

Mikayla ficou de pé de um pulo e correu para abraçar o amigo. A sensação foi maravilhosa. Não tinha percebido como estava carente do contato humano, e do quanto sentia falta de Fiolon. Ele cresceu mais que ela enquanto estavam separados. Da última vez que o viu eram da mesma altura, mas já estava uma cabeça mais alto que ela. Só que era o mesmo Fiolon, sólido e tranqüilo, seu melhor amigo, sua metade. A ligação psíquica dos dois era boa, mas estar com ele pessoalmente era muito melhor.

- Estou tão feliz de ver você! - ela arrastou-o para uma cadeira perto da mesa, sentou na frente dele e examinou-o da cabeça aos pés. O cabelo estava mais comprido, despenteado com o vento da viagem, mas para Mikayla ele era lindo, especialmente quando olhou para ela e sorriu. Ela sentiu um calor pelo corpo todo.

- Está com fome? - perguntou. - Pedi almoço para nós dois.

- Ótimo - disse Fiolon, pegando um prato. - Estou morrendo de fome. Mas trouxe tudo que você pediu. E todas as caixas de música também. Imaginei que o mestre Uzun pode não ter ouvido todas as melodias daquelas que encontramos nas ruínas.

- Isso foi muito gentil da sua parte, lorde Fiolon - disse Uzun, com sons muito entusiasmados, que Mikayla nunca ouviu antes. - Quero muito ouvi-las.

Fiolon fez uma pausa para engolir uma grande garfada, depois virou para Uzun.

- Sua harpa está com algum problema? - perguntou preocupado.

- Não, problema nenhum - disse Uzun. - É só que com Mikayla aqui, e Haramis longe, estou começando a achar que ser uma harpa é muito limitado.

Fiolon balançou a cabeça, concordando.

- Há uma diferença entre amar música e ser música - ele disse - e estar informado de tudo que Mikayla anda aprontando é algo que não se pode fazer quando se está preso a um lugar só. Farei o que puder para ajudar.

- Você pode começar estudando mágica do tempo com a princesa - disse Uzun com malícia. - Não precisamos de mais nenhuma tempestade de neve acidental.

Os três passaram o resto da tarde discutindo as técnicas do tempo e como controlá-lo, e Uzun mandou os dois para a cama logo depois do jantar.

- Vocês terão muito o que fazer amanhã e vão precisar de toda a sua energia.

Nem Mikayla nem Fiolon estavam dispostos a discutir aquela afirmação. Foram para seus quartos imediatamente. Aquele dia já tinha sido bem movimentado.

Na manhã seguinte tomaram café bem cedo e repassaram o processo com Uzun mais uma vez antes de ir para a sala de trabalho. Como eram dois para energizar os encantamentos, fazer chover foi bem fácil. Depois de lançar o encantamento, foram para a janela para vê-lo funcionar.

No início foi só uma chuva fraquinha, quase uma névoa densa, mas quando a tempestade se formou ficou mais pesada. A sala de trabalho, que não tinha as grades com ar quente dos outros aposentos, ficou fria e úmida.

- Esse tempo é mesmo deprimente - observou Fiolon.

- Mas está limpando aquela praça - disse Mikayla.

- Como é que você sabe?

Mikayla sorriu com o tom pessimista de Fiolon. Ela era sempre a otimista dos dois. Mesmo assim, ele tinha razão. Com a chuva, o vento e a neve no alto da montanha, havia um nevoeiro escuro em volta da torre, e a visibilidade era limitada. Mikayla admitiu, mas só para ela mesma, que não tinha previsto a névoa. Parecia o fantasma de um vispi gigante.

- Ainda bem que Haramis não está aqui - ela disse. Lembra como fazia quando começou a me ensinar? Ela escolhia as coisas mais horríveis, aparentemente inúteis, e pedia para eu dizer para que serviam?

Fiolon fez que sim com a cabeça.

- Então, para que serve o nevoeiro?

- Se você observar o movimento dele, pode dizer para que lado o vento está soprando aqui. Chuva e neve são pesados e sólidos demais. O nevoeiro é bem leve e bem visível, e podemos observar isso.

- Hummm - Fiolon ficou estudando a névoa alguns minutos. - Parece que o vento vem do oeste, do Monte Gidris. Foi lá que Haramis encontrou o talismã, sabe?

- Ah, foi? - perguntou Mikayla. - Não, eu não sabia. O que há no Monte Gidris?

- Um monte de cavernas de gelo, que costumam ser bem instáveis. Não vá explorar por lá, Mikayla, está bem?

- Não planejo fazer isso... Oh, não, acho que temos um problema.

Mikayla apontou para a chuva que continuava a cair. Era fim de tarde e a chuva estava virando granizo.

- Faça parar - Fiolon disse, correndo de volta para a mesa.

- Rápido!

Mikayla estava logo atrás dele e juntos eles empurraram a tempestade encosta abaixo, para longe da torre. Quando as nuvens se foram, o sol brilhou fraquinho perto do horizonte, no oeste.

- O pátio ainda está molhado - Mikayla suspirou - e provavelmente vai congelar durante a noite. Espero que quando a célula recarregar, a gente consiga encontrar um meio de livrála da neve.

- Eu também espero - disse Fiolon. - Detestaria ter de fazer isso de novo a cada dois ou três dias.

- Bom, pelo menos terminamos por hoje - Mikayla observou. - Acabamos isso amanhã. Vamos até a cozinha. Quero pegar alguma coisa quente para beber e dizer aos empregados para ficarem longe da praça. Não quero que ninguém se machuque.

Enya arranjou dois banquinhos para eles e serviu imediatamente uma bebida quente. Ela mantinha uma grande panela com suco de ladu quente no fogo. Perto do fogo estavam alguns vispis com caras muito tristes.

- O que vocês fizeram com o tempo? - um deles perguntou com a voz de quem está sofrendo tanto, que nem se importa de ser grosseiro com seus superiores. - Não devia ser úmido aqui! A umidade faz mal aos meus pulmões.

Ele tossiu muito. O resto dos vispis apenas se amontoou perto do fogo, com ar de tristeza.

Ele estava certo, percebeu Mikayla. Quando nevava naquele lugar, o ar continuava seco. Na verdade, até a neve naquela região era mais seca do que a neve normal. E o ar era bem rarefeito naquela altitude.

Ela lembrou da risada de Uzun quando perguntou por que Haramis não usava os vispis para levar mensagens até a planície.

- É por isso que vocês não saem da montanha, não é? - ela perguntou. - Estão acostumados com ar rarefeito e seco. Não é o calor que os incomoda, é a umidade.

- Meu avô tentou descer a montanha uma vez - disse um dos vispis mais jovens. - Ele não foi muito longe, e quando voltou, disse que era como respirar uma sopa de adop!

- Ele estava certo - concordou Fiolon. - Depois de ficar aqui em cima algum tempo, nós nos adaptamos ao ar. Depois, quando descemos, o ar que respiramos fica muito grosso e quente - ele deu de ombros. - Eu me readaptei depois de alguns dias, é claro, mas não tenho certeza se um vispi pode fazer isso. Jamais ouvi falar de um que tivesse conseguido.

- Então não vou pedir para nenhum de vocês descer a montanha - disse Mikayla. - Quanto à chuva e ao nevoeiro, devem acabar em um ou dois dias, ou até amanhã mesmo, se tivermos sorte. E isso me lembra que todos devem ficar longe da praça. Temo que ela vai virar uma lâmina de gelo de novo esta noite.

Os vispis gemeram e até os nyssomus, que não saíam da torre, pareciam deprimidos. Enya suspirou.

- Princesa, você se importa se eu armar esteiras aqui no chão para os vispis, e deixá-los dormir perto do fogo?

- Não, se você não se incomoda - respondeu Mikayla. - A cozinha é sua. Eles certamente não vão me atrapalhar aqui. Por isso, desde que não atrapalhem você, não me oponho - ela se levantou. - Obrigada pela bebida quente, Enya. Fiolon e eu vamos sair do seu caminho agora. Está bom se servir o jantar daqui a uma hora. Não precisa cozinhar nada especial, qualquer coisa quente serve... até sopa de adop.

Enya deu uma risadinha.

- O jantar estará no estúdio em uma hora, princesa. E acho que posso fazer melhor do que sopa de adop.

Secar a praça foi um pouco mais difícil do que Mikayla havia previsto. Mesmo com o sol a pino no dia seguinte, continuava frio demais para derreter o gelo e secar a célula solar. E nuvens altas passavam o tempo todo, vindas do Monte Gidris, escondendo o sol boa parte do tempo. Num certo momento começou a nevar um pouco, o que fez os dois correrem para a sala de trabalho para fazer aquilo parar.

Finalmente Mikayla e Fiolon se enfiaram em roupas bem quentes, cada um pegou duas tochas, e começaram a derreter o gelo por meios não mágicos. Já que a praça era levemente inclinada na direção da porta da torre para o abismo, eles começaram perto da porta. Depois que o gelo ali derreteu, a água que se formou ficou bastante quente para ajudar a derreter o gelo mais adiante. Aos pouquinhos foram avançando pela praça. Ao pôr-do-sol cerca de um terço do pátio estava livre do gelo e seco.

- Acho que é tudo que podemos fazer por hoje - disse Mikayla, endireitando as costas e dando um suspiro. As costas doíam por ter passado muito tempo abaixada, segurando a tocha perto do chão. Ora, ela pensou, pelo menos meus pés estão aquecidos. - Acho que vamos conseguir terminar amanhã.

- Se tivermos sorte - gemeu Fiolon. - E se nossos músculos agüentarem.

- Talvez já tenhamos carregado uma parte - disse Mikayla animada. - As tochas não são apenas calor, são luz também - ela olhou para Fiolon. - Você quer ver as cavernas de gelo agora?

A primeira reação dele foi um gemido baixinho. Depois ele falou.

- Amanhã, está bem? Tudo que quero agora é um banho quente e um jantar quente.

- Eu também - disse Mikayla. - Podemos ver as cavernas ao meio-dia amanhã. Vamos querer dar uma parada nessa hora, de qualquer maneira.

- Não duvido nada - Fiolon suspirou. - Mika, você tem certeza de que isso vai funcionar?

- Não tenho certeza absoluta - admitiu Mikayla -, mas acho que as chances são muito boas. O espelho disse que a célula solar precisava ser recarregada, e essa praça parece igual às partes das caixas de música que precisam ficar expostas à luz para a música tocar, e estamos expondo tudo à luz. Então deve funcionar.

- Tudo indica que sim - Fiolon concordou -, e eu espero mesmo que funcione. Detestaria fazer tudo isso e não dar em nada.

Mikayla foi para a cama logo depois do jantar e dormiu o sono da completa exaustão. Ao acordar na manhã seguinte ficou horrorizada ao descobrir que o sol já estava alto no céu. Tinha dormido a metade da manhã. Saiu rastejando da cama e enfiou a roupa, ignorando os protestos agonizantes dos músculos doloridos.

Foi pelo corredor e deu uma espiada da porta no quarto que tinham dado para Fiolon. Ele não estava visível, mas o monte na cama revelou que tinha dormido demais também.

- Fiolon! - ela chamou.

Depois de um minuto as cobertas se mexeram um pouco e ele respondeu, se é que ”Mmmmf” podia ser chamado de resposta.

- Vou lá para fora trabalhar na praça - Mikayla informou. - Você pode se juntar a mim quando estiver pronto.

Ela passou pelo estúdio no caminho para dar bom-dia para Uzun e para dizer aonde ia. A harpa saudou-a também, mas não disse mais nada. Ela continuou para a cozinha, onde pegou um pedaço de pão e duas tochas. Acendeu uma no fogo, registrando sem parar para pensar que os vispis que estavam amontoados e desesperados na noite anterior tinham ido embora, e desceu correndo o resto dos degraus, saindo da torre.

Parou assim que passou pela porta e ficou olhando em volta, espantada e maravilhada. O céu estava azul brilhante, sem uma única nuvem à vista em qualquer direção. O sol brilhava forte sobre toda a praça e o ar estava quente! Na verdade, o ar que respirava e que tocava seu rosto continuava frio, mas a temperatura estava nitidamente acima de zero, pois quase todo o gelo da praça tinha derretido. A parte que Fiolon e ela tinham limpado na véspera continuava seca, e uma área um pouco além também. Aproximadamente a quinta parte da praça, do lado mais perto do abismo, tinha água correndo, pingando no precipício.

Mikayla comeu o pedaço de pão enquanto inspecionava a praça, então acendeu a segunda tocha na primeira e continuou o trabalho de secar a porção do pátio que ainda estava molhado. Ficou feliz de conseguir avançar bem rápido e tinha feito um progresso significativo quando Fiolon apareceu. Com a ajuda dele o trabalho terminou logo. Na hora do almoço eles pisavam na praça/célula solar seca e limpa, que absorvia muito bem a luz do sol. Quando Mikayla, por curiosidade, tirou as luvas e se abaixou para tocar no chão, quase queimou a mão. Mas estava tão animada que nem se importou.

- Isso deve dar certo, Fiolon - ela disse. - O espelho deve estar funcionando agora. Vamos lá ver!

- Você já tomou café - perguntou Fiolon. Mikayla ficou olhando espantada para ele.

- Como pode pensar em comida numa hora dessas?

Fiolon deu uma risadinha.

- Justamente por ser uma hora dessas, e porque eu a conheço, Mika. Quando chegar à caverna, vai querer passar o resto do dia lá. Então vamos almoçar primeiro, está bem?

- Almoçar? - Mikayla olhou para ele desapontada. - As maravilhas dos Desaparecidos nos esperam e você quer almoçar.

- As maravilhas dos Desaparecidos não vão a lugar nenhum - Fiolon disse. - Elas estão aqui há pelo menos duzentos anos, por isso podem esperar por nós mais um pouquinho. Além disso - ele acrescentou com um sorriso largo - seu estômago está roncando. -

Infelizmente ele tinha razão. O estômago de Mikayla certamente não partilhava seu entusiasmo pela pesquisa.

- Ah, está bem. - ela deu um suspiro com ar de mártir - se você insiste...

- Eu insisto - respondeu Fiolon, segurando o braço dela e empurrando-a para a cozinha.

Depois do almoço eles pegaram uma lanterna. Fiolon proibiu tochas, argumentando que alguns materiais guardados no nível mais baixo podiam ser inflamáveis, explosivos, sensíveis ao calor ou ter todas essas propriedades juntas. Desceram para o andar do depósito. Fiolon examinou o que tinha escrito nas caixas com interesse.

- Gostaria de poder ler essa língua - ele disse.

- Ou até decifrar esse alfabeto - Mikayla completou. Talvez a gente possa descobrir um jeito de aprender.

- Isso seria muito interessante - Fiolon admitiu, seguindo atrás dela pelo túnel.

Já que estavam com uma lanterna, Mikayla não se incomodou de acender as lamparinas do túnel, e simplesmente seguiu apressada até chegar à porta da caverna. Juntos, eles abriram a porta um pouco, só para poderem passar, e então Mikayla foi na frente até a sala com o ”espelho mágico”.

- Oh! - Fiolon exclamou, obviamente impressionado.

- Faça seu pedido, por favor - disse a voz.

A voz estava muito mais forte do que antes e Mikayla observou que havia menos gelo na parede em volta do espelho, criando uma superfície espelhada muito maior.

- Visão da princesa Haramis de Ruwenda - ela disse prontamente.

- Procurando.

A imagem apareceu no espelho, como antes. Mas as cores não estavam mais pálidas, e os detalhes eram tão nítidos, que parecia que dava para estender a mão e tocar em Haramis, que estava deitada, dormindo, com Ayah sentada ao lado da cama, cuidando dela. Haramis ainda parecia uma mulher velha e doente, mas a respiração estava forte e regular, e era claramente audível através do espelho. Mikayla conseguiu ouvir até o ranger baixinho da cadeira quando Ayah mudou de posição.

- Pela Flor - sussurrou Fiolon. - O que mais será que ele pode fazer?

- Gostaria de saber - Mikayla murmurou.

- Faça seu pedido, por favor - disse a voz outra vez, mas a visão de Haramis não mudou.

- Visão de Quasi - disse Mikayla, curiosa em saber como o velho amigo e guia estava passando.

- Não está no arquivo - respondeu o espelho.

Ele não sabe quem é Quasi, Mikayla percebeu, mas pode haver outro jeito de chegar ao mesmo resultado.

- Visão do Outeiro da Cidadela - ela disse.

O espelho obedeceu e exibiu uma imagem da Cidadela e do outeiro em volta. O ângulo de visão fez parecer que eles estavam pairando no ar em cima dela, olhando para baixo.

Mikayla mordeu o lábio, tentando adivinhar como explicar o próximo pedido.

- Visão da terra a oeste do Outeiro da Cidadela - ela disse, esperando que o espelho entendesse o significado de suas palavras.

- Visão estática ou abrangente? - ele perguntou. Mikayla não tinha certeza do que significavam as opções, por isso escolheu uma ao acaso.

- Abrangente.

A imagem no espelho começou a se mover, como se eles voassem para oeste a partir da Cidadela. Mikayla gravou bem isso como o significado que o espelho dava para ”abrangente” e ficou atenta para ver a aldeia de Quasi.

- Pare - ela disse, logo que a aldeia apareceu.

Ela franziu a testa ao ver a imagem no espelho. Não parecia certa. As cores estavam erradas para aquela época do ano.

- Gostaria de ver isso mais de perto - Fiolon murmurou ao lado de Mikayla.

- Visão de perto das estruturas? - perguntou o espelho. Mikayla e Fiolon olharam um para o outro e deram de ombros em perfeita harmonia.

- Sim - respondeu Mikayla.

A aldeia na imagem cresceu, como se eles estivessem caindo nela. E Mikayla pôde ver por que as cores estavam erradas. A vegetação em volta da aldeia estava morrendo. À medida que a imagem no espelho se aproximava do solo, ela foi vendo alguns nyssomus sentados num banco do lado de fora de suas cabanas. Quasi era um deles.

- Lá está Quasi! - disse Fiolon animado. - Não o vejo há séculos, desde que Haramis nos trouxe para cá - ele franziu a testa. - Ele parece muito mais velho, você não acha, Mika? Será que faz mesmo tanto tempo assim?

Mikayla contou nos dedos e o espelho falou.

- Identifique o sujeito Quasi.

- É o que está no meio - ela disse sem pensar e virou para Fiolon. - Não, foi só há dois anos... talvez três. Costumo perder a noção do tempo aqui, mas não faz muito tempo não.

Na imagem a figura de Quasi ficou delineada em vermelho de repente.

- Sujeito Quasi? - a voz perguntou.

- É - respondeu Mikayla. - Esse é o Quasi.

- Sujeito Quasi marcado para futura referência.

Seja lá o que for isso, pensou Mikayla. Então o espelho acrescentou som à imagem.

- As chuvas estão fora de época - dizia um dos oddlings.

- E o solo treme - um outro completou, aproximando-se do grupo no banco. - São maus presságios.

- Por que a arquimaga não conserta a terra? - alguém perguntou. - Quasi, você a conheceu. Ela não é uma feiticeira poderosa? Por que deixa isso acontecer?

Quasi parecia triste.

- Ela está doente - ele disse. - Uma das minhas irmãs é curandeira...

- Nós sabemos disso - interrompeu o primeiro oddling.

-... e ela foi chamada para a Cidadela há algumas semanas para tratar da arquimaga - Quasi continuou. - Com veneno de verme do pântano - ele concluiu agourento.

Aparentemente todos do grupo sabiam o que ele queria dizer, a julgar pelos olhares praticamente idênticos de consternação.

- Ela vai ficar boa - um perguntou.

- Minha irmã acha que sim - respondeu Quasi. Ele olhou em volta, para as plantas morrendo. - Vamos pedir aos Senhores do Ar para ela se recuperar logo. A terra sofre quando a arquimaga fica velha e doente.

Mikayla franziu a testa e notou que Fiolon também parecia consternado. Depois de Quasi mencionar o que estava acontecendo, ela conseguiu sentir o que ele dizia. Aos poucos foi percebendo que havia algo errado em Ruwenda, como se a terra estivesse doente. Sentiu que até ela mesma estava um pouco doente. A terra estava fora de controle, as coisas estavam erradas, e ela achou que devia ser capaz de consertar tudo, mas não sabia como. Sua necessidade de treinamento de magia acabava de tornar-se muito mais urgente do que era quando Haramis estava bem e controlava tudo. E isso significava que encontrar um corpo para Uzun, para ele poder dar as aulas para ela, era uma coisa que tinha de fazer imediatamente. Será que o espelho podia encontrar ajuda?

Mikayla pensou como ia formular a pergunta.

- Procure magos - ela disse, meio insegura.

- Especifique, todos, ou por raça.

Mikayla pensou um pouco nessa opção.

- Humanos - disse finalmente.

O espelho exibiu uma série de imagens de humanos fazendo mágica, mudando de um para outro a intervalos curtos. Mikayla reconheceu um deles. Era um mágico que ia à Cidadela de tempos em tempos. Ele havia produzido algumas ilusões verdadeiramente espetaculares numa das festas de aniversário do príncipe Egon. De repente ela engoliu em seco e exclamou.

- Pare!

- Parar nessa imagem e marcá-la para referência futura?

- Sim - disse Mikayla, olhando fascinada para o espelho.

Era um grupo pequeno de humanos, de pé em volta de uma mesa, sobre a qual havia uma estátua de madeira de uma mulher. Um deles estava untando o corpo de madeira com uma espécie de óleo, enquanto outro ficava perto da cabeça, balançando um turíbulo que soltava uma nuvem grossa de incenso, e outro segurava alguma coisa na boca. A estátua tinha os olhos pintados como se estivessem abertos e era espantoso como parecia viva.

Havia um homem um pouco afastado, lendo em voz alta.

- Abrir a boca - ele disse, obviamente iniciando uma série de instruções.

As frases seguintes não fizeram sentido para Mikayla, mas ela continuou a observar a cerimônia, quando vestiram a estátua com roupas novas e a puseram de pé. No chão, perto da mesa, havia uma pilha de roupas que provavelmente tinham tirado dela antes.

Mikayla examinou o lugar, tentando descobrir onde eles estavam. Uma pequena sala, com pé-direito baixo, onde quase não cabia toda aquela gente. Parecia cortada na pedra sólida, mas não havia gelo nas paredes. Mikayla suspeitava que devia ficar em algum lugar nas montanhas, mas onde?

- Onde eles estão? - ela perguntou em voz alta.

- Localizar o Templo de Meret? - perguntou a voz.

- Essa visão é do Templo de Meret? - perguntou Mikayla.

- Sim.

- Localize o Templo de Meret - repetiu Mikayla.

A visão mudou para um mapa da Península. Havia um ponto preto, que Mikayla percebeu ser onde Fiolon e ela estavam, e um ponto vermelho do lado norte do Monte Gidris, perto do topo da montanha, mas definitivamente do lado labornok do pico. Apareceram umas letras ao lado dos dois pontos, mas eram do mesmo alfabeto desconhecido das caixas lá fora.

- Eu gostaria mesmo de poder ler isso! - Fiolon disse, frustrado.

Mikayla não podia condená-lo. Ele estava calado e paciente enquanto ela observava a mágica, provavelmente percebendo, igual a ela, que o espelho considerava tudo que era dito como um pedido.

E foi assim que interpretou o desabafo de Fiolon.

- Iniciar aula de leitura? - ele perguntou.

Mikayla e Fiolon trocaram olhares arregalados de surpresa. O que é essa coisa?

Mikayla queria saber.

- Espero que ele nos diga algum dia. Enquanto isso... Ela acenou com um movimento de cabeça para Fiolon responder para o espelho.

- Sim - disse Fiolon, a voz tremida num misto de excitação e nervosismo.

- Nome do aluno? - Fiolon engoliu em seco.

- Fiolon de Var - ele respondeu.

- Nome do segundo aluno?

Mikayla olhou para Fiolon, deu de ombros e disse simplesmente.

- Mikayla.

O espelho ficou branco e então mostrou um caractere, perto da imagem de uma pequena casa.

- Alef - ele disse.

- Alef - Fiolon repetiu.

O espelho repetiu o processo com mais quatro caracteres e depois mostrou apenas uma linha de cinco caracteres sem as imagens. Um deles brilhou.

Fiolon não disse nada e Mikayla ficou imaginando o que o espelho queria que ele fizesse. Mas não ousava perguntar, nem dizer nada. Depois de cerca de um minuto, o espelho falou.

-Alef.

- Ah, entendi - disse Fiolon. - Ele está me testando para ver se eu reconheço as letras.

- Alef - repetiu o espelho.

- Alef - respondeu Fiolon.

A letra brilhou outra vez e Fiolon disse alef sem o espelho pedir. Ele deve ter ficado satisfeito, pois passou para a segunda letra. Fiolon disse todas sem mais hesitação. O espelho então repetiu o exercício de novo. Fiolon respondeu perfeitamente e o espelho voltou a exibir as letras uma a uma, só que novas dessa vez.

Fiolon e o espelho fizeram isso mais quatro vezes e o quadro final mostrou vinte e cinco caracteres em cinco linhas de cinco. Aquele devia ser o alfabeto inteiro, porque depois que Fiolon disse todas as letras corretamente, o espelho falou.

 - Lição Um completa para o aluno Fiolon de Var.

Ele mostrou o alfabeto de novo e disse:

- Aluna Mikayla.

Mikayla não conseguiu lembrar a seqüência perfeita de primeira, pois não estava prestando tanta atenção quanto Fiolon, mas acertou na segunda tentativa e o espelho disse.

- Lição Um completa para a aluna Mikayla - e continuou.

- Nível de energia baixo. Intervalo para recarregar.

O espelho ficou branco e Mikayla e Fiolon saíram da sala em silêncio, fechando a porta com cuidado.

Quando voltavam pelo túnel Mikayla surpreendeu-se com a dor que sentia nos pés.

- Quanto tempo ficamos lá de pé - ela perguntou.

- Eu não sei - respondeu Fiolon, olhando para a lanterna que carregava. - Mas foi suficiente para queimar muito óleo de lamparina.

Eles pararam na cozinha para guardar o lampião e Enya disse, obviamente aliviada.

- Aí estão vocês! Onde foi que se esconderam? Estão três horas atrasados para o jantar e o mestre Uzun está aflito querendo saber de vocês.

- Isso quer dizer que não vai nos dar comida? - Fiolon perguntou preocupado. - Não tivemos a intenção de chegar atrasados, estávamos explorando e perdemos a noção do tempo.

Enya balançou a cabeça.

- Meninos! - ela suspirou. - Não importa a raça, são todos iguais. Sim, é claro que vou dar comida para vocês. Vão os dois já para cima, para o estúdio, mostrar para Uzun que estão vivos, e eu levo o jantar para lá.

- Obrigada, Enya - disse Mikayla. - Vamos tentar não chegar atrasados para as refeições de novo.

Uzun estava com o espírito lamuriento porque os dois tinham ficado fora muito tempo.

- Desculpe, Uzun - disse Mikayla. - Mas tenho uma boa notícia. Acho que localizamos umas pessoas que podem criar um novo corpo para você.

- É mesmo? - Uzun disse, espantado. – Já? Onde E quem são?

- Há um lugar no Monte Gidris chamado Templo de Meret - disse Mikayla.

- Isso mesmo - disse Fiolon, franzindo a testa -, era no Monte Gidris. Não acho que você deva ir para lá, Mika.

- Eu sei que você disse que é instável deste lado - Mikayla disse.

- Muito instável - interrompeu Uzun.

- Mas o Templo fica do outro lado, e não pareceu nada instável. Não era uma caverna de gelo, era uma caverna comum, escavada em rocha sólida. E se fosse instável, eles não estariam trabalhando lá.

- Isso é verdade - disse Uzun lentamente. - Aquele talismã da princesa Haramis estava numa caverna de gelo deste lado do Monte Gidris. Mas a caverna ruiu quando ela tirou o talismã de lá e seu fiel abutre gigante Hiluru salvou-a de morrer soterrada, deixando sua obra inacabada.

- Já que o único jeito de alcançar o Templo de Meret é de abutre gigante - observou Mikayla - eu posso voar para lá ao primeiro sinal de que o lado norte do pico está estável.

- É, mas ainda estou com um mau pressentimento sobre isso - disse Fiolon.

Mikayla mexeu na fita verde pendurada no pescoço.

- Faço contato com você toda noite - ela disse - prometo. Assim você terá notícias minhas e poderá dizer para o mestre Uzun.

Fiolon olhou para ela com ar de surpresa.

- Você acha que vou ficar aqui sem você? - ele perguntou. - E se a senhora Haramis voltar?

- Se ela voltar, então você pode ir embora - disse Mikayla.

- Já que ela vai me enxotar daqui - Fiolon observou -, serei obrigado a isso.

- Mas não acho que ela vai voltar tão cedo - disse Mikayla, acrescentando - e você pode verificar todo dia no espelho de gelo. Assim saberá quando ela vai voltar e pode me contar, para eu voltar para cá antes dela.

- Mas a principal razão de querer que você fique aqui é para não deixar o mestre Uzun sozinho - ela continuou. - Ele não pode descer até o espelho de gelo para ver como vai indo a Senhora Haramis. Se você não estiver aqui, ele vai ficar parado no estúdio, pensativo e angustiado. E isso não seria justo com ele!

Fiolon assentiu balançando a cabeça.

- Tem razão, Mika. Eu devia ter pensado nisso.

Uzun comentou com formalidade.

- Você é bem-vindo para ficar aqui como meu convidado, lorde Fiolon. Vou aproveitar a oportunidade para partilhar minha música com você... e acho que você mencionou umas caixas de música das ruínas dos Desaparecidos.

A expressão de Fiolon se iluminou.

- Eu adoraria aprender o que você puder me ensinar sobre música, mestre Uzun. E ficarei muito satisfeito de ouvir as caixas de música com você.

- Ótimo - disse Mikayla. - Então isso está resolvido - ela virou para Fiolon. - E quando você for ver Haramis no espelho, pode continuar suas aulas de leitura.

- Aulas de leitura? - perguntou Uzun. - Você ainda não sabe ler?

- Não a língua dos Desaparecidos - disse Fiolon. - O espelho tem algum tipo de programa de aulas, além de sua capacidade de mostrar uma pessoa ou várias e indicar onde elas estão. Pensando bem, Mika, eu devo poder vê-la no espelho. Ele deve saber quem você é pela aula de leitura.

- E se não souber - Mikayla observou -, ele sabe onde fica o Templo de Meret - ela tentou imaginar como funcionava a habilidade do espelho de localizar as pessoas. Se só podia ver as pessoas que conhecia... - Como é que o espelho sabia de quem eu estava falando na primeira vez que pedi para ver Haramis? - ela perguntou em voz alta.

Uzun respondeu.

- Já tinham pedido para vê-la antes - ele explicou. Orogastus usou o espelho para saber onde Haramis e suas irmãs estavam. Ela me contou.

- Gostaria de saber como as identificou para ele da primeira vez - disse Mikayla pensativa. A harpa ficou em silêncio.

Na manhã seguinte Mikayla desceu com Fiolon para ver o espelho. Haramis estava acordada, mas ainda parecia presa no passado. Continuava perguntando onde estavam Immu e Uzun, e o que estava acontecendo, e se o exército de Labornok estava próximo, e por que ninguém contava nada para ela.

- Acho que ela está muito zangada - disse Mikayla. Ainda fala arrastado, mas dá para perceber - ela suspirou. - Eu sei que é egoísmo meu, mas estou contente de ela não estar aqui. Pelo menos na Cidadela há um monte de gente que pode se revezar cuidando dela.

- É verdade - disse Fiolon, pensando no assunto. - Aqui não há muitos servos, e todos parecem ter muito trabalho para fazer, só para manter esse lugar funcionando. Seria complicado tê-la doente desse jeito aqui.

- Muito complicado - concordou Mikayla. - Aposto que todos iam esperar que eu cuidasse dela... e não sou boa enfermeira. Além do mais, Haramis nem gosta de mim!

Fiolon olhou de novo para o espelho.

- No momento eu diria que ela ainda não lembra de você. Quem sabe, quando ficar boa, você não tenha uma chance de recomeçar do zero com ela

- Pode ser - Mikayla concordou sombria. - Mas acho que não vai resolver. Não creio que posso um dia ser o tipo de pessoa que ela gostaria.

Fiolon deu um tapinha no ombro dela sem dizer nada, e então fez o espelho começar a Lição Dois do programa de leitura.

Na hora do almoço Mikayla se despediu de Uzun, surpresa de não querer muito se afastar dele. Acho que é porque ele foi o único neste lugar disposto a me aceitar como eu sou, sem me pressionar fará me transformar numa cópia de Haramis.

- Você e Fiolon tratem de cuidar um do outro - ela disse, procurando não falar com a voz tremida. - Estarei de volta o mais rápido possível e com seu novo corpo.

- Boa viagem, princesa - disse Uzun. - E tenha cuidado.

- Terei - disse Mikayla - mas não acho que aquele lado do cume é instável.

- O cume pode não ser - resmungou Fiolon -, mas só os Senhores do Ar sabem como são aquelas pessoas.

 

Mikayla saltou do abutre gigante no caminho, fora da vista do templo, e seguiu até a entrada principal a pé. A terra era diferente daquele lado da montanha, quase selvagem, como se não tivesse a arquimaga e nunca tivesse havido nenhuma arquimaga. Mas certamente Haramis é a arquimaga de Labornok, além de Ruwenda, ela pensou.

Foi fácil encontrar o templo. Ele parecia radiar energia, mas era uma energia do tipo que Mikayla jamais sentira antes. Não sugava poder nem da terra nem do ar, e a energia que ela captava parecia não agir sobre a terra. Flutuava no ar, como o nevoeiro na torre quando fazia a mágica do tempo. Ela concluiu que era isso mesmo que lembrava, parecia alguma espécie de excesso, uma coisa negligenciada, que tinha se soltado da mágica inicial, fosse qual fosse.

Criando um encantamento para não chamar atenção, como Uzun tinha ensinado, ela entrou sem fazer barulho e seguiu o som das vozes. A parte mais externa do templo era um enorme salão. O teto era tão alto que mal dava para Mikayla ver, e, embora fosse cheio de colunas, de vários formatos diferentes, elas ficavam tão distantes umas das outras que um abutre gigante adulto poderia passar no meio, com as asas abertas.

Mikayla examinou as colunas enquanto ia andando pelo salão. As que ficavam mais perto da entrada eram brancas azuladas como gelo e tinham a forma de estalactites e estalagmites que se encontravam no centro. A única iluminação no salão era a luz do dia lá fora, de modo que foi ficando cada vez mais escuro à medida que ela se embrenhava na caverna. Mas ainda havia claridade suficiente para poder ver que o desenho das colunas mudava enquanto se afastava da entrada. As mais internas eram de muitas cores diferentes e tinham a forma de vários tipos de plantas, a maioria de árvores, apesar de Mikayla reconhecer algumas flores entre elas. E grande parte era de coisas que não conhecia. Queria estar vendo aquilo através do espelho para poder pedir para ele identificar tudo.

O salão seguinte tinha o chão mais alto e o teto mais baixo, e era iluminado por um par de lamparinas a óleo penduradas no teto, na parte da frente da sala. Embaixo dos lampiões havia um tablado, escondido de um lado por uma cortina. O resto do salão tinha bancos de madeira decorados com desenhos elaboradamente talhados, dispostos dos dois lados de uma passagem central. Os bancos estavam quase todos ocupados, mas Mikayla encontrou um lugar vago num canto, bem atrás. Aparentemente ninguém notou sua chegada. As pessoas conversavam umas com as outras e deviam estar esperando alguma coisa acontecer.

Duas pessoas com longos mantos negros e máscaras douradas cobrindo seus rostos entraram e ocuparam seus lugares no tablado. Uma delas disse algo rapidamente, que Mikayla não ouviu direito, e todos se sentaram, ficando imediatamente em silêncio.

Os dois começaram a cantar e todos acompanharam. Depois de alguns minutos Mikayla já estava cantando junto com a platéia, apesar de nunca ter ouvido aquela letra ou aquela melodia na vida. Nunca vira um estilo de culto como aquele. Era como se o cântico preenchesse a sala, e quem estivesse lá, mesmo enrolado numa capa escura, escondido num canto mal iluminado, longe da vista de todos, fizesse parte dele. Ou talvez a música fizesse parte de cada um.

- Meret, Senhora do Cume Meridional, tende piedade de nós.

- Meret, vós que fizestes Noku, o Rio da Vida, jorrar do Mundo Subterrâneo para dar vida à Terra, tende piedade de nós.

- Meret, vós que nos salvastes do veneno do Verme, tende piedade de nós.

- Meret, vós que...

O cântico era simples e repetitivo. Qualquer um, por mais simplório que fosse, sem dom musical ou ignorante da língua, podia aprender em poucos minutos. Mikayla ficou imaginando se aquele cântico tinha sido criado daquela forma de propósito.

De qualquer modo, estava fazendo Mikayla sentir-se muito estranha. Era como se adormecesse, mas não podia estar dormindo, porque continuava cantando. Mas seus olhos ficavam fechando toda hora, apesar do esforço que fazia para mantê-los abertos, e a cabeça caía para frente até o queixo encostar no peito. Isso é mágica, ela percebeu de repente. Não de um tipo que eu conheço, mas definitivamente é mágica. Concentrou-se um tempo para criar um escudo pessoal em torno dela mesma e de seus pensamentos, e então, sentindo que estava segura naquele momento, relaxou e voltou a cantar.

Depois de cerca de meia hora o cântico parou e uma das figuras de máscara dourada, que pela voz parecia ser um homem, começou a falar. Um pouco do que ele dizia soava familiar para Mikayla. Lembrou de ter lido partes em vários livros da biblioteca de Haramis. Mas o homem continuou falando e ela percebeu que seu discurso diferia do que havia lido. Num certo ponto surpreendeu-se abrindo a boca e dizendo em voz alta, ”Isso não é verdade!”. Felizmente não disse muito alto, e sua voz se perdeu no coro da platéia que concordava com o líder. Pelo menos naquele instante Mikayla estava acordada, livre do encantamento que o cântico provocava.

Ele era um orador convincente, tinha de admitir. Parecia totalmente sincero, e possivelmente era mesmo. Mas as doutrinas que defendia, tais como a necessidade de sacrifício, a eficácia do sangue (ele foi um pouco vago quanto ao sangue de quem) para eliminar os problemas que afetam o povo, estavam desatualizadas há séculos. Uma coisa da qual Mikayla tinha certeza absoluta era de que os livros que tinha lido sobre aquele tipo de religião eram antigos, muito, muito antigos. E Haramis disse que os sacrifícios de sangue tinham parado em Ruwenda muito antes da arquimaga Binah nascer. Então por que alguém defendia isso agora?

Bom, isso é Labornok, não Ruwenda, pensou Mikayla. Mas Labornok e Ruwenda se juntaram há quase duzentos anos, quando o príncipe Antar casou com a princesa Anigel. E o príncipe Antar era o único sobrevivente da família real labornokiana. Eu acho. Tenho de levar em conta que, como princesa caçula, jamais estudei de verdade história ou governo, mas sei que Labornok é governada pela Cidadela. Como foi que essa religião sobreviveu aqui?

De qualquer modo, se isso é necessário para conseguir um corpo para Uzun, creio que devo alegrar-me com o fato de ter sobrevivido, seja lá como for. E se Haramis usou o próprio sangue para pôr Uzun na harpa, a mágica do sangue não pode ser totalmente proibida ou errada.

Além disso, havia mágica naquela sala. Mikayla sentia nitidamente o poder sendo invocado, e ninguém estava derramando sangue naquele momento. O poder não era nada estranho para ela. Mesmo criança costumava usá-lo às vezes para coisas simples como comunicar-se mentalmente com Fiolon, mas jamais soube que o que fazia era mágica, até Haramis começar a treiná-la.

O poder que conhecia era um poder solitário, invocado por uma pessoa só, apesar dessa pessoa poder tirar esse poder de coisas fora dela mesma, como aumentar a energia ficando exposta à luz direta do sol, por exemplo, e usar o próprio calor do sol. E desde que Haramis iniciara seu curso intensivo de ”Como ser uma arquimaga em muitas lições difíceis”, Mikayla tinha aprendido muito mais sobre como usar outras pessoas como fonte para a magia.

Só que o que aprendeu com Haramis continuava sendo basicamente uma mágica solitária, ligada à terra, mas não às outras pessoas. Ali havia um grupo de pessoas sendo moldadas numa única fonte de poder. Até Mikayla, com todo seu treinamento e escudos de proteção, sentia que era sugada. Quem controlava esse poder, e o que era feito com ele?

O homem parou de falar e o cântico recomeçou. Dessa vez, embora a congregação cantasse as mesmas palavras de antes, assim como o homem que tinha feito o discurso, a outra pessoa no tablado, e algumas outras mulheres, a julgar pelas vozes, cantavam outra coisa num contraponto, numa língua diferente. Mikayla não conseguia ver as outras mulheres, mas havia a cortina de um lado do palco. Talvez as cantoras estivessem escondidas lá atrás. O efeito geral era exótico e misterioso, e talvez até assustador, pensou Mikayla.

Apesar da apreensão que sentia, o cântico tomou conta de Mikayla de novo. Em pouco tempo foi como se conhecesse aquilo a vida toda, que ia durar para sempre. Mal conseguia lembrar da vida vivida fora daquela sala, cantando junto com todos ali. Mikayla nem notou quando adormeceu.

- Ora, o que temos aqui? - Um presente da Deusa?

Mikayla sentou, piscando os olhos e focalizando um rapaz sentado acima dela. Precisou de um momento para se orientar, para lembrar que estava no Templo de Meret e para se dar conta de que tinha adormecido no banco em que estava sentada. O homem, que parecia ser três ou quatro anos mais velho que ela, segurava uma vassoura distraído. Ele devia estar varrendo a sala, pensou Mikayla. Acho que meu encantamento acabou enquanto eu dormia e ele me encontrou ao chegar a este canto.

- Está procurando um lugar quente para dormir? - perguntou o jovem, com um olhar maldoso e desagradável. Você pode dormir comigo, menina. Aposto que podemos nos tornar bons amigos.

Ele largou a vassoura encostada no banco, inclinou-se, encurralou Mikayla contra a parede e deu-lhe um beijo. No início ela ficou paralisada de choque, mas quando ele tentou forçar a língua entre seus lábios, ela se enfureceu. Fechou a mão e socou o estômago dele com toda força. Ele a soltou e dobrou o corpo para frente, tentando recuperar o fôlego.

- Como ousa! - ela exclamou, livrando-se dele e recuando para o centro do salão para ele não poder mais prendê-la contra a parede. - Você ficou maluco? Não pode me tratar desse jeito!

- Pelo Verme, o que há com você, menina? - ele rosnou, recuperando o fôlego e chegando perto dela outra vez, só que mais desconfiado que antes. - Está se comportando como se fosse a virgem real!

- E eu sou! - Mikayla rosnou de volta.

- Claro que é - ele retrucou em tom sarcástico -, e eu sou o Marido da Deusa Meret!

- É mesmo? - uma voz seca interrompeu, vinda do lado do palco. - Estranho... Pensei que esse posto era meu.

Pela voz dele, Mikayla teve certeza de que era o homem que tinha liderado o cântico. Estava usando um manto longo e negro, mas não tinha mais a máscara dourada no rosto.

Mikayla resolveu que gostava da cara dele. O cabelo era grisalho e as feições equilibradas, e as linhas do rosto indicavam senso de humor.

- Qual é o problema, Timon?

- Ela - Timon apontou desdenhosamente para Mikayla. - Diz que é uma virgem real.

O Marido da Deusa olhou para ela pensativo. Depois fez um gesto repentino com as mãos, formando um desenho com os dedos que Mikayla não conseguiu acompanhar. Uma luz azul apareceu em volta dela e ela engoliu em seco.

- Não precisa ter medo de nada, criança - disse o homem -, desde que diga a verdade. Você é virgem?

- Sou - respondeu Mikayla, e a luz azul continuou brilhando.

- Como pode ver, Timon - disse o homem -, ela é uma virgem. E virgens são tão raras aqui, que não vamos querer perder uma - ele olhou carrancudo para o rapaz. - Por isso esqueça o que estava pensando sobre ela. E deixe a menina em paz daqui para frente.

Timon fechou a cara, mas abaixou a cabeça em sinal de aquiescência.

O Marido da Deusa Meret virou para Mikayla.

- Venha comigo, minha filha. Mikayla considerou por um segundo se devia sair correndo e chamar um abutre gigante para levá-la embora dali, mas lembrou que queria conseguir um novo corpo para Uzun. E acho que o Marido da Deusa Meret não vai me fazer nenhum mal. Na verdade, ele parece boa pessoa. Talvez esteja disposto a me ajudar.

O sacerdote levou-a para a porta pela qual ele tinha entrado, foram por um corredor para a esquerda, e chegaram numa sala que devia ser a biblioteca do templo. Mikayla continuava envolta na luz azul, que andava junto com ela, mas ignorou-a enquanto examinava todos os pergaminhos ao redor. Eles têm uma biblioteca maior que a da Cidadela e a da arquimaga juntas, pensou ela maravilhada. Ali estarão as respostas das quais preciso para ajudar Uzun.

O Marido bateu palmas duas vezes e um menino, com uma túnica preta e curta e um cordão na cintura apareceu correndo na sala.

- Sim, meu Pai - ele disse, como se esperasse ordens.

- Meus respeitos à Filha Mais Velha da Deusa Meret, e gostaria muito que ela viesse ao meu encontro o mais depressa possível.

O menino não respondeu. Simplesmente fez uma mesura e saiu correndo da sala. Em poucos minutos ouviu-se o som de passos de sandália pelo corredor de pedra e uma mulher alta, de manto negro, apareceu.

- O que deseja, meu Pai? - ela perguntou respeitosamente e então viu Mikayla. - Quem é essa?

O sacerdote sentou numa cadeira toda trabalhada e apontou para um banco atrás de Mikayla. A mulher sentou numa cadeira mais simples perto de uma das mesas de leitura, e Mikayla achou que era a deixa para sentar também, no banco. O Marido deu um sorriso tranqüilizador para ela.

- Gostaria que respondesse algumas perguntas. Você disse que é virgem, não é verdade?

- É - disse Mikayla, tentando não parecer entediada.

Estava ficando cansada de repetir aquilo. Qual é a importância de ser uma virgem? - ficou imaginando. Todo mundo é ao nascer.

- E é de família real de nascença?

A mulher arregalou os olhos, mas continuou calada.

- Sou - respondeu Mikayla.

- Quem são seus pais?

Mikayla não sabia por que, mas hesitou um pouco antes de dar os nomes dos pais. Talvez fosse a lembrança de alguma coisa que Uzun tinha dito numa das aulas que deu. ”Saber o nome de uma pessoa é ter poder sobre essa pessoa.”

- Meu pai é o rei de Ruwenda e de Labornok - ela disse simplesmente - e minha mãe é a rainha.

- Ela é de família real? - perguntou o sacerdote.

- Princesa de Var - Mikayla respondeu laconicamente.

- Com licença, meu Pai - disse a mulher em voz baixa -, posso fazer uma pergunta?

Ele inclinou a cabeça e ela virou para Mikayla.

- Isso quer dizer que você é descendente direta do príncipe Antar de Labornok?

- O que se casou com a princesa Anigel?

Desde que foi viver com a arquimaga Mikayla tinha aprendido mais sobre as princesas trigêmeas e a busca dos talismãs do que podia querer, apesar da sua falta de atenção quando o assunto surgia. Mas Fiolon e Uzun passaram tanto tempo tocando baladas sobre isso que foi impossível para ela evitar as linhas gerais da história.

- É - respondeu a mulher.

- Então eu sou - disse Mikayla. - Anigel e ele eram meus não sei quantas vezes tataravós.

- Uma princesa da família real de Labornok - disse a mulher baixinho. - Mal posso acreditar. Meret nos protege de verdade.

- Protege mesmo - murmurou o homem. - Os seus pais sabem que você está aqui? - ele perguntou, voltando para questões mais práticas.

- Não - disse Mikayla. - Se é que pensam em mim, devem achar que estou trancada na torre da arquimaga.

Os dois arquearam as sobrancelhas e ficaram olhando para ela, pensativos.

- Trancada? - o homem perguntou. - Por quê?

- A arquimaga tem uma idéia maluca de que eu devo ser sua sucessora - explicou Mikayla. - Ela me pegou quando eu tinha doze anos, e não vejo minha família, e nem saí da torre desde então.

- Parece horrível - a mulher observou com simpatia. Onde a arquimaga pensa que você está agoraí- E por que ela deixou você sair?

Mikayla deu de ombros.

- Ela não me deixou sair, e não sabe onde estou. Da última vez que soube, ela nem lembrava da minha existência - diante dos olhares confusos, ela continuou. - Ela ficou doente durante uma visita à Cidadela, algum tipo de distúrbio mental violento. Não se lembra de muitas coisas, especialmente as mais recentes, e eu estava com ela há apenas dois anos.

O Marido da Deusa Merét e a Filha Mais Velha trocaram olhares.

- Dois anos - ele disse, como se falasse sozinho.

Era óbvio que aquilo significava alguma coisa para ele.

- Ela estava treinando você para substituí-la? - disse a Filha.

Não era uma pergunta, mas Mikayla fez que sim com a cabeça.

- Isso explica bastante coisa - observou a Filha.

Será que eles também notaram que a terra está estranha? Mikayla pensou. Haramis devia ser arquimaga de Labornok e de Ruwenda. Será que a sua doença perturbou o equilíbrio neste lugar também? Não me pareceu, mas não conheço Labornok como conheço Ruwenda.

- É, explica - o Marido concordou, virando para Mikayla outra vez. - Então por que você veio para cá?

Mikayla resolveu não tentar explicar o ”espelho mágico”. Tinha notado como Haramis ficava zangada quando mencionava os artefatos dos Desaparecidos, e não queria que aquelas pessoas ficassem zangadas com ela.

- Eu tenho um amigo - ela explicou - e ele precisa de um novo corpo. Eu vi este templo numa visão e pessoas trabalhando numa estátua - ela franziu a testa, procurando lembrar exatamente o que tinha visto e a melhor forma de descrever. Eles estavam executando algum tipo de ritual, algo relacionado a abrir a boca. E eu achei que talvez as pessoas aqui pudessem me ajudar a fazer um corpo novo para o meu amigo.

- Qual é o problema com o corpo que ele tem agora? - perguntou o Marido.

- É uma harpa.

- Uma harpa? - o Marido da Deusa parecia incrédulo. Você tem certeza?

- Claro que tenho certeza - disse Mikayla. - Estou morando na torre com ele há anos. Ele é uma harpa, e é cego, e não pode se mover. E fica muito infeliz com isso desde que a arquimaga caiu doente, porque não pode visualizá-la do jeito que eu faço. E ela vive perguntando por ele. Aparentemente esqueceu que o transformou numa harpa uns cento e oitenta anos atrás, e ele quer viajar para ficar com ela. Só que não pode.

- Ele é uma harpa há quase duzentos anos? - perguntou o sacerdote.

Mikayla fez que sim com a cabeça.

- Como fizeram isso?

- Alguém fez a harpa - Mikayla explicou - e a arquimaga pôs um pouco do seu sangue num orifício no meio da coluna, e tem uma parte do topo do crânio do meu amigo que sela esse orifício. Ele não lembra exatamente como foi feito, já que estava morto a maior parte do tempo.

- Então você tem acesso a um pedaço do primeiro corpo dele, esse fragmento do crânio - disse o sacerdote pensativo e seu espírito reside nessa harpa. Sim, creio que nessas circunstâncias nós podemos fazer um corpo novo para ele - ele olhou para ela. - Qual é seu nome?

A luz azul continuava brilhando em volta dela, e Mikayla tinha quase certeza de que se tratava de algum tipo de encantamento da verdade. E se queria a ajuda deles, deixar de responder provavelmente não seria uma boa idéia.

- Mikayla.

- Princesa Mikayla - o Marido da Deusa inclinou um pouco a cabeça para ela. - Acho que podemos dar o que você quer. Está preparada para nos dar algo em troca?

- Se eu puder - respondeu Mikayla receosa. O que será que eu tenho que eles podem querer?

- Queremos um mês do seu tempo por ano durante os próximos sete anos - disse o Marido. - Toda primavera, quando o rio sobe e ocorre a conjunção das três luas, você passará um mês conosco, como Filha da Deusa, vivendo com as outras Filhas e tomando parte dos rituais.

- Alguém terá de me ensinar os rituais - disse Mikayla. Não consigo imaginar por que mais uma Filha para os rituais valeria alguma coisa, mas se é tudo que querem, acho que posso fazer. E pelo menos será uma mudança, em vez de ficar ouvindo as broncas de Haramis e a tristeza de Uzun com a doença dela.

- Vamos ensinar tudo que você precisa saber - disse a Filha Mais Velha. - Mas você se deu conta de que terá de continuar virgem pelos próximos sete anos?

- Isso não é problema - disse Mikayla. - Haramis quer que eu continue virgem pelo resto da vida.

- Haramis é a arquimaga? - perguntou o Marido da Deusa.

Opa! pensou Mikayla. Não tive a intenção de revelar o nome dela. Por outro lado, está em tantas baladas que não chega a ser um segredo. Ela fez que sim com a cabeça.

- Você fez algum juramento para ela? - o Marido perguntou. - Ou para qualquer outra pessoa?

- Não - disse Mikayla, revelando na voz um pouquinho do ressentimento que sentia em relação a Haramis. - Ela está sempre ocupada demais me dizendo coisas para ter tempo de pedir qualquer promessa.

Os dois sorriram para ela.

- Estamos perguntando - disse o Marido - em troca de um corpo novo para o seu amigo, se você passará um mês conosco todos os anos nos próximos sete anos

- Sim - respondeu Mikayla -, passarei sim.

- Ótimo - disse o Marido. - Vou falar com Aquele que Faz Viver sobre o corpo para o seu amigo. Ele vai levar setenta dias para fabricar o novo corpo. Você pode ficar conosco esse tempo todo?

Mikayla pensou na imagem de Haramis como tinha visto da última vez. Não parece que ela vai se recuperar o suficiente para sentir minha falta nesses setenta dias, ela pensou. Setenta dias não é muito. E mesmo se ela voltar mais cedo, vale a pena. Não me importo se ela ficar zangada comigo por sair da torre. Uzun é um amigo. Ele tem sido bom para mim e quero ajudá-lo.

- Sim, posso ficar aqui esse tempo - ela disse em voz alta.

- Excelente - disse o Marido. Ele dirigiu-se à Filha. Deixo-a aos seus cuidados, Filha Mais Velha.

A mulher levantou da cadeira e Mikayla seguiu o exemplo depressa.

- Sim, meu Pai - disse a mulher, curvando o corpo para frente em sinal de respeito. - Venha comigo, Pequena Irmã - ela disse para Mikayla.

Mikayla fez uma pequena mesura para o sacerdote.

- Obrigada, meu Pai - ela disse.

Ele sorriu e retribuiu o cumprimento, indicando claramente que ela devia se retirar.

A Filha Mais Velha pegou a mão de Mikayla e começou a puxá-la rapidamente pelo corredor.

- Você ficará hospedada com as Filhas da Deusa - explicou. - Não usamos os nomes pessoais aqui. Suponho que saiba que os nomes verdadeiros têm poder. Notei que você não disse os nomes dos seus pais. Como uma das Filhas da Deusa, chamará o Marido da Deusa de Pai. Eu sou chamada de Filha Mais Velha e as outras de Irmã. Entendeu?

- Entendi, Filha Mais Velha - respondeu Mikayla, prestando muita atenção no que a outra dizia.

Mikayla teve a nítida impressão de que esperavam que aprendesse essas coisas muito rápido e corretamente. E pela primeira vez em mais de um ano, dava importância ao que estava aprendendo.

Estava ali porque queria estar e por razões próprias. Tinha dado sua palavra e aceitara a deles, uma situação bem diferente da torre de Haramis. Não tinha certeza do que queriam dela ou do que precisava aprender, mas pelo bem de Uzun e para atingir seu objetivo de conseguir para ele um corpo decente, ia se esforçar ao máximo para ser o que queriam que ela fosse. Além do mais, ela pensou, eles perguntaram se eu queria fazer isso. Não disseram simplesmente para eu fazer, nem esperavam que eu obedecesse como uma marionete.

Entraram numa antecâmara, depois passaram por uma porta com cortina no outro extremo. Do outro lado da cortina havia uma sala grande cortada na rocha da montanha e bem iluminada com tochas presas na parede a intervalos regulares. Esse cômodo dava para outros, com portas feitas de cortinas coloridas.

- As Filhas vivem nesses apartamentos - disse a Filha Mais Velha. - Você não pode passar da cortina que acabamos de atravessar sem pedir permissão, e não pode sair destes aposentos a menos que uma das Filhas esteja com você. Entendeu?

- Sim, Filha Mais Velha.

- Bom - a sacerdotisa bateu palmas. O som ecoou pelos cômodos. Quatro jovens saíram de vários aposentos laterais e se reuniram na câmara central. Deviam ser de quatro a seis anos mais velhas que Mikayla, e olhavam para ela com curiosidade, mas pareciam simpáticas. Vestiam mantos brancos de tecido pesado, mangas compridas e fechados até o pescoço, com uma corda amarrada na cintura. - Temos uma nova Irmã - anunciou a Filha Mais Velha, apontando para Mikayla.

- Bem-vinda, Irmã - murmuraram as outras em coro. Mikayla observou que elas falavam em uníssono e com o mesmo timbre de voz.

- Agradeço a recepção, Irmãs - ela respondeu. Esperava ficar à vontade ali. Pelo menos estavam todas sorrindo para ela. Diferente de Haramis, nenhuma parecia antipatizar com ela à primeira vista. Talvez até pudessem ficar amigas.

- Seu quarto será o que tem cortina verde - informou a Filha Mais Velha. - Há uma arca lá dentro com roupas que devem servir para você. Por favor, vá se vestir e junte-se a nós aqui. Você tem muito que aprender.

- Está bem, Filha Mais Velha - Mikayla correu para fazer o que tinham mandado.

Mikaylla examinou rapidamente o quarto que tinham dado para ela. Era pequeno e o teto era muito baixo. Podia encostar as palmas das mãos nele sem esticar os braços completamente. Ao longo de uma parede havia uma cama com um cobertor feito com uma pele que Mikayla não sabia do que era. Ao lado da cabeceira da cama tinha uma mesinha com um jarro de água, uma bacia e uma toalha grossa. A arca de roupas que a Filha Mais Velha mencionara ficava nos pés da cama.

Mikayla pôs um vestido branco igual ao que as outras Filhas usavam. Havia vários na arca de roupas, além de dois de outras cores. Ficou contente de ver que a gola alta escondia a fita da esfera que usava no pescoço e que o tecido era bem grosso e abafava qualquer ruído que fizesse.

Diferente da torre da arquimaga, aqueles cômodos não tinham muita calefação, daí as roupas tão pesadas. Mas o único tipo de sapato na arca era um par de sandálias. Mikayla calçou-as, lembrando que tanto o Marido da Deusa quanto a Filha Mais Velha estavam de sandálias. Talvez todos usassem sandálias naquele lugar, ainda mais se não precisavam sair do templo. Mikayla pensou no que viu quando estava se aproximando do templo. Pelo alto, era quase invisível. Mesmo se olhasse diretamente, o que não era possível de cima, parecia ser uma caverna natural. Talvez as pessoas que moravam ali não saíssem nunca, mas nesse caso onde conseguiam comida e outros suprimentos necessários?

Pare com isso, Mikayla pensou. Não é hora de tentar analisar cada detalhe da sociedade deles. Terei muito trabalho pela frente tentando manter-me em dia com as coisas que querem que eu aprenda.

Ela voltou para a sala central. Havia um único banco, bem longo, no outro lado dessa sala, diante de uma lareira. As outras Filhas estavam sentadas nele à espera dela. Uma menina, que estava sentada numa ponta, deu uma batida com a mão no lugar vago ao seu lado e Mikayla sentou depressa.

A Filha Mais Velha estava de pé na frente do banco.

- Como a nossa nova Irmã ainda não conhece nossos costumes, vamos começar com o cântico do amanhecer - ela fixou os olhos em Mikayla. - Vou cantar um verso e você repete.

Mikayla balançou a cabeça, concordando.

- Salve, ó Meret...

- Salve, ó Meret - repetiu Mikayla obedientemente. Sentiu alívio ao ver que todas as Filhas repetiam junto com ela, ajudando a encobrir qualquer erro que pudesse cometer. Tinha a sensação desagradável de que a Filha Mais Velha ouvia todos os seus erros de qualquer jeito, mas pelo menos não se sentia sozinha e exposta, como acontecia nas aulas de Haramis.

- Senhora da Eternidade, Rainha dos Deuses...

- Senhora da Eternidade, Rainha dos Deuses...

- Nomes Múltiplos, Forma Sagrada...

- Nomes Múltiplos, Forma Sagrada...

- Senhora dos Ritos Secretos em vosso Templo...

- Senhora dos Ritos Secretos em vosso Templo... Quando serviram o jantar, uma refeição frugal composta de pão, frutas e água, elas já tinham cantado os cânticos do Amanhecer, da Primeira Hora depois do Amanhecer, da Terceira Hora, da Hora do Sol no Zênite, da Nona Hora, da Hora em que o Sol Abraça o Cume Sagrado, e da Segunda Hora da Escuridão. Mikayla já não achava tão estranho o fato das Filhas falarem sempre em uníssono. Pensou que seria bem mais estranho se não falassem desse modo.

Enquanto as Filhas comiam, a Filha Mais Velha lia uma história longa e aborrecida sobre um fazendeiro simples, cujo volumnial foi injustamente tirado dele por um administrador desonesto. Quando o fazendeiro expôs seu caso diante do magistrado, o juiz ficou tão impressionado com a elegante argumentação do fazendeiro que fez o caso se arrastar durante mais de nove audiências na sua corte, para poder ouvir a eloqüência do fazendeiro.

Finalmente o magistrado deliberou a favor do fazendeiro, de forma que no fim foi feita justiça, mas Mikayla notou que o fim da história ficava a uma distância enorme do começo. Meu pai teria resolvido esse caso na primeira audiência, ela pensou. Qualquer pessoa sensata teria feito isso.

- Diga, Irmã Mais Nova, o que aprendemos com essa história?

Por um instante de horror Mikayla pensou que a Filha Mais Velha estava falando com ela. Então uma das Filhas respondeu e Mikayla percebeu que ”Filha Mais Nova” devia ser algum tipo de título honorário, pois quem respondia com certeza não era a Filha mais nova.

- Aprendemos o valor do silêncio e da simplicidade do discurso, quando é necessário falar - a menina respondeu. - Se o fazendeiro não fosse tão eloqüente, seu caso teria sido resolvido na primeira audiência. A grandiosidade de suas palavras custou muito para ele.

Cerca de um ano de sua vida, pelo menos, pensou Mikayla, talvez até mais, dependendo da freqüência do trabalho do magistrado.

Um gongo soou em algum lugar, para o lado da parte principal do templo. As Filhas levantaram juntas dos bancos em volta da mesa e Mikayla fez o mesmo, meio desajeitada e atrasada, mas conseguiu empurrar o banco para baixo da mesa ao mesmo tempo que o resto das meninas.

A Filha Mais Velha sorriu para ela com simpatia.

- É hora do ritual da Segunda Hora da Escuridão, Jovem Irmã - ela disse - mas você não precisa participar esta noite. Terá tempo para conhecer melhor os rituais antes de poder participar deles. Pode ir para a cama agora.

- Obrigada, Irmã Mais Velha - disse Mikayla sinceramente grata.

As Filhas formaram uma fila atrás da Filha Mais Velha e passaram pela cortina, começando a cantar baixinho enquanto atravessavam a antecâmara.

Mikayla foi para o seu quarto e vestiu uma camisola que encontrou na arca de roupas. A camisola era quase tão pesada quanto a roupa que usava de dia, mas com o frio que fazia, Mikayla achou bom. Subiu na cama e tirou a esfera da roupa. O rosto de Fiolon apareceu quase imediatamente.

- Mika, você está bem?

- Estou, estou bem - disse Mikayla. - Você ia adorar esse lugar. Estão me ensinando a cantar. Até agora aprendi sete cânticos e são apenas os cotidianos. Eles provavelmente têm muitos outros, especiais, para os feriados e festivais.

- Eu estava observando quando aquele Timon tentou te beijar - disse Fiolon de mau humor - mas quando o sacerdote levou você embora não deu mais para ver.

- Então você não viu a biblioteca deles? - perguntou Mikayla. - Que pena. Eles têm mais livros e pergaminhos do que a Cidadela e a arquimaga juntas. Não precisa se preocupar com o Timon. Ele não vai mais chegar perto de mim. Eles me puseram junto com as Filhas da Deusa, por isso estarei sempre tão bem acompanhada que nem Haramis pode reclamar. E como vai Haramis?

Fiolon deu de ombros e abriu as mãos com as palmas para cima, num gesto de impotência.

- A mesma coisa. Quando é que você vai voltar?

- Daqui a setenta dias. É quando o novo corpo vai ficar pronto.

Fiolon olhou para ela surpreso e satisfeito.

- Eles são capazes e estão dispostos a fazer?

- Sim - disse Mikayla sorrindo. - Finalmente estou fazendo alguma coisa direito. É uma sensação maravilhosa, especialmente depois de viver dois anos com Haramis!

Fiolon parecia preocupado.

- O que eles querem em troca do corpo?

- O que estou fazendo agora. - Mikayla procurou tranqüilizá-lo. - Só querem que eu seja uma das Filhas da Deusa por um tempo.

- Isso não parece muito perigoso - disse Fiolon. Mas se qualquer coisa der errado, chame o abutre gigante e saia daí, está bem?

- Está bem - disse Mikayla. - Mas acho que nada vai dar errado. Todos aqui parecem muito simpáticos, exceto Timon, e ele recebeu ordem de me deixar em paz.

- Você acha que ele vai obedecer essa ordem? - perguntou Fiolon aflito.

- Não se preocupe - disse Mikayla. - Tenho certeza de que ele vai obedecer. O Marido da Deusa é um homem bom, mas não é alguém a quem se desobedece.

- Tenha cuidado, Mikayla.

- Vou ter. Não se preocupe - Mikayla bocejou. - Vou dormir. Tive um dia longo. Dê meu amor para o Uzun. Boa noite, Fio.

- Boa noite, Mika. Durma bem.

Mikayla enfiou a esfera na gola da camisola.

- Acho que vou cantar até dormindo - ela resmungou quando deitou e puxou o cobertor.

O tilintar de um sino no quarto central fez Mikayla acordar logo depois da aurora. Levantou da cama depressa, lavou o rosto e vestiu um dos mantos brancos pesados, certificando-se de que a esfera e a fita estavam bem escondidas. Então foi para a sala central. As outras Filhas já estavam lá, e Mikayla gostou de ver que estavam todas com roupas iguais à dela.

Acho que escolhi o manto certo, ela pensou, satisfeita. Até aqui, tudo bem.

A Filha Mais Velha chegou perto e cochichou no ouvido de Mikayla.

- Não falamos nada até acabar o ritual da Primeira Hora.

Venha conosco até a capela e assuma seu lugar no grupo, mas só cante quando eu der permissão.

Mikayla balançou a cabeça em silêncio e entrou no fim da fila enquanto as Filhas passavam pela cortina. O lugar delas na capela era um banco de um lado do tablado onde tinha visto o Marido da Deusa pela primeira vez. Havia uma cortina entre o banco e o resto do salão, de modo que não eram vistas pela congregação. Lembrando do jeito que Timon tinha olhado para ela na véspera, Mikayla achou isso ótimo.

O Marido da Deusa entrou pelo outro lado da sala, vestido de preto e usando a máscara dourada. A Filha Mais Velha pegou sua máscara numa prateleira embaixo do banco, pôs no rosto e foi juntar-se a ele. Começaram a cantar e as Filhas e a congregação cantaram também. Mikayla cerrou os dentes para não cantar junto.

Salve, óMeret,

Senhora da Eternidade, Rainha dos Deuses

Nomes Múltiplos, Forma Sagrada,

Senhora dos Ritos Secretos em vosso Templo.

Nobre de Espírito vós presidistes em Derorguila,

Vós sois rica em grãos em Labornok.

Senhora da lembrança no Tribunal de Justiça,

Espírito oculto das cavernas

Sagrada nas cavernas de gelo,

O Cume Sagrado é o vosso corpo,

O Rio Noku vosso sangue...

O cântico continuou por cerca de meia hora e Mikayla logo percebeu que não lembrava nem da metade dos versos. E quando começaram a repetir o cântico e as Filhas mudaram da primeira melodia para o contraponto em outra língua, Mikayla ficou completamente perdida. Não tinham ensinado aquela parte.

Pela Flor, ela pensou, tenho muito que aprender antes de pensar em agir como uma das Filhas. Só espero que eu consiga. Mas um efeito colateral da sua insegurança era que não entrava em transe como no dia anterior. Não tinha certeza se isso era bom ou ruim. Era uma sensação desagradável, estar sentada ali, tentando ouvir e lembrar das palavras e das notas. Entrar em transe de novo faria todo o nervosismo ir embora, mas aí poderia esquecer e começar a cantar, e então eles ficariam zangados com ela. E não queria que isso acontecesse de jeito nenhum.

Finalmente chegaram a um ponto que Mikayla reconheceu, que era o fim do ritual do Amanhecer. Ficou tensa, no seu lugar na ponta do banco, preparada para se mexer quando as outras Filhas se mexessem. Mas a única pessoa que fez um movimento foi a Filha Mais Velha, voltando para trás da cortina e sentando na outra ponta do banco. Mikayla espiou a sacerdotisa atrás da fileira das Filhas e notou que ela não tinha tirado a máscara. Todas as meninas olhavam para as próprias mãos cruzadas no colo. Mikayla imitou a posição delas e ficou esperando alguma coisa acontecer.

Depois de um período de silêncio que pareceu uma eternidade para Mikayla, a Filha Mais Velha levantou de novo e juntou-se ao Marido da Deusa no tablado. Começaram outro cântico e depois de alguns instantes Mikayla descobriu que era o ritual da Primeira Hora depois do Amanhecer.

É tão pouco tempo entre os dois rituais que todos simplesmente ficam aqui mesmo, percebeu Mikayla. Ela procurou lembrar quanto tempo levava a Primeira Hora. Acho que é um pouco menos longa do que o ritual do Amanhecer, mas isso pode ser mais desejo que realidade. Tomara que nos dêem café da manhã quando isso acabar. Estou morrendo de fome.

E afinal o ritual terminou, a Filha Mais Velha voltou para o banco, guardou a máscara e então levou as Filhas de volta para seus aposentos. Mikayla sentiu um alívio ao ver que o café da manhã estava na mesa. Era pão, frutas e água para beber, mas pelo menos a quantidade era grande e suas novas Irmãs ficaram o tempo todo passando os pratos para ela, de modo que deu para comer bastante.

Depois do café todas continuaram à mesa para discutir os planos do dia.

- Aquele que Faz Viver deseja conversar com a nossa nova Irmã esta manhã - anunciou a Filha Mais Velha. - Vocês duas - ela indicou as duas meninas sentadas perto de Mikayla - vão acompanhá-la à oficina dele depois da Terceira Hora.

As duas meninas concordaram balançando a cabeça e Mikayla seguiu o exemplo delas.

Mikayla concluiu que ”depois da terceira hora” queria dizer depois do ritual relevante, e a essa altura ela já estava tentando descobrir qual era seu lugar naquele esquema todo. Só preciso manter minha boca fechada e seguir minhas Irmãs. Assim ficarei longe de encrencas, provavelmente pela primeira vez na minha vida. E acho que vou conseguir fazer isso. É uma sensação muito estranha não ter ninguém chamando a minha atenção ou desaprovando o que eu faço. Acho que estou gostando.

- Até a terceira hora vamos treinar o cântico do Amanhecer outra vez - avisou a Filha Mais Velha.

As meninas ocuparam seus lugares no banco perto da lareira e começaram a cantar. Dessa vez todas cantaram juntas, uma parte depois da outra, e Mikayla sentiu que a música entrava em sua mente.

Ainda vou aprender tudo isso, ela pensou satisfeita. Afinal eu não sou burra e inútil.

A oficina do Aquele que Faz Viver era um dos lugares mais fascinantes que Mikayla tinha visto. Uma parede inteira coberta com caixas contendo uma quantidade enorme de tipos diferentes de madeira, que ela nem sabia que existiam. Uma outra parede tinha um quadro com todo tipo de ferramentas pregadas nele. Mikayla sentiu um pouco por ter de ficar presa com as Filhas. Ser aprendiz daquele homem parecia uma atividade muito interessante.

Aquele que Faz Viver era relativamente jovem comparado com o Marido da Deusa. Estava apenas entrando na meia-idade. Mas Mikayla observou, quando ele puxou um banco para ela perto da bancada de carpinteiro, que ele tinha mãos de alguém que trabalhava com elas há muito tempo. As outras duas Filhas sentaram juntas num banco perto da porta da oficina, de onde podiam ficar de olho em Mikayla, mas sem ouvir a conversa, desde que Mikayla e Aquele que Faz Viver falassem em voz baixa.

- Então eu devo fazer um corpo novo para um espírito real - o homem disse. - O que esse corpo tem de ser capaz de fazer?

Mikayla se concentrou, querendo ter certeza de não deixar nada de fora, especialmente alguma coisa importante.

- Precisa ter visão, audição, falar, capacidade de se locomover, inclusive a habilidade para subir e descer escadas. Precisa ser capaz de suportar um frio muito intenso, como as temperaturas de uma caverna de gelo ou das costas de um abutre gigante voando por cima das montanhas. E tem de poder avisar quando alguma coisa ameaçar causar danos nele.

- Parece que ele tem de ser quase humano - observou o homem, anotando tudo num pedaço de pergaminho. - E a capacidade de comer e beber?

- Se isso é necessário para manter o corpo, ele vai precisar. Mas ele já não come ou bebe há quase duzentos anos. - Mikayla deu um breve sorriso. - E não tem reclamado da falta de comida.

- Disseram que ele é uma harpa, é mesmo? - perguntou o homem, sem querer acreditar.

- É isso mesmo - respondeu Mikayla com toda calma.

- Incrível - murmurou Aquele que Faz Viver. - E quanto ao sexo?

- Ele é macho.

- Não, quero dizer, ele precisa funcionar sexualmente?

Mikayla ficou olhando para ele chocada, e então visualizou a provável reação de Haramis quanto a essa questão.

- Acho que não seria uma boa idéia - ela disse, meio engasgada. - A Senhora não ia gostar e, além disso, todas as pessoas que ele conheceu já morreram há muito tempo.

- Muito bem - Aquele que Faz Viver tomou nota. - Agora, que aparência deve ter esse corpo?

- Ai, ai... - Mikayla mordeu o lábio. - Eu não sei como ele era. Foi transformado numa harpa muito antes de eu nascer. Ele era um nyssomu, se é que isso pode ajudar em alguma coisa.

- É um começo - disse o homem. - Posso começar a trabalhar com a informação que você deu - ele entregou para ela um pedaço de pergaminho e um graveto queimado. – Mas seria bom se nos próximos dias você fizesse um esboço dele, especialmente a cabeça e o rosto. Rostos são importantes.

- Farei o melhor possível - disse Mikayla. Quem sabe Fiolon consegue uma descrição com o Uzun.

- Preciso de mais uma coisa - disse Aquele que Faz Viver, abaixando ainda mais a voz. - Preciso saber o nome verdadeiro dele.

- Uzun - sussurrou Mikayla.

Aquele que Faz Viver ficou de pé e Mikayla também.

- Obrigado, Filha da Deusa - ele disse formalmente. - Vou começar a trabalhar agora mesmo.

- Obrigada - disse Mikayla, sorrindo encabulada para ele antes de dar meia-volta para seguir as duas Filhas em direção aos quartos.

O resto do dia Mikayla passou assistindo aos rituais e estudando os cânticos. O almoço foi servido depois do ritual da Hora do Sol no Zênite e o jantar depois da Hora em que o Sol Abraça o Cume. Mikayla achava que os empregados deviam ter tirado a mesa quando as Filhas estavam nos rituais, porque apesar de não ter visto nenhum, os pratos usados desapareceram, o chão foi varrido, o fogo no salão principal ficava ardendo o tempo todo, a bacia no seu quarto era esvaziada e o jarro estava sempre cheio de água fresca.

Fizeram um intervalo depois do ritual da Nona Hora, quando as Filhas foram para uma sala de banho, um cômodo com tapetes grossos cobrindo o chão e uma pequena fonte de água quente no centro, onde se banharam e lavaram os cabelos. Mikayla teve o cuidado de esconder sua esfera no manto limpo que levou e pendurou-a de novo no pescoço depois de se vestir.

Foi um longo dia e quando acabou de jantar Mikayla teve dificuldade para manter as costas retas. Invejava a postura perfeita e aparentemente natural das Filhas.

Quando a Filha Mais Velha dispensou-a do ritual da Segunda Hora da Escuridão, Mikayla quase chorou de alívio.

Mas agradeceu muito séria e recolheu-se ao seu quarto. Só queria se enfiar na cama e dormir, mas o pergaminho que Aquele que Faz Viver tinha dado para ela estava ao lado da bacia. Ela vestiu a camisola, pegou a esfera e falou com Fiolon.

- Você está com uma aparência horrível! - ele exclamou.

- Estou bem - disse Mikayla, cansada -, só muito cansada. Fio, eu preciso saber como era o corpo de Uzun. O homem que está fabricando o corpo novo quer um desenho, especialmente do rosto. Será que você consegue uma descrição com o Uzun?

- Posso fazer melhor que isso - disse Fiolon animado. Descobri uma coisa interessante no espelho hoje. Você sabia que ele guarda as imagens que exibe?

- Não, eu não sabia - disse Mikayla. - E em quê isso pode ajudar?

Fiolon estava todo agasalhado e de botas.

- Orogastus usava o espelho para espionar a princesa, lembra? E Uzun estava com Haramis numa parte da viagem.

- Ah! - exclamou Mikayla. - Você quer dizer que o espelho tem um retrato de Uzun?

- Vários - garantiu Fiolon.

- Isso deve ajudar - disse Mikayla, vendo as paredes passando rapidamente enquanto Fiolon corria escada abaixo. Mas queria que você estivesse aqui. Você desenha muito melhor que eu.

Fiolon atravessou o depósito, as cavernas de gelo, e entrou na câmara do espelho. Só levou alguns segundos para invocar a imagem que queria.

No espelho Uzun apareceu de pé, de frente para Haramis. Ele era baixo. O queixo dele batia na cintura dela. A cabeça era redonda e os olhos amarelo-escuros, quase âmbar. Tinha uma boca larga, com dentes pequenos e pontudos, e um nariz extremamente curto, mas as orelhas, em pé, com as pontas aparecendo através do cabelo claro e sedoso, eram muito longas, a ponto de compensar o tamanho do nariz. Enquanto observava, Mikayla viu as orelhas mexendo para trás e para frente, tentando localizar algum som que só Uzun era capaz de ouvir.

Mikayla deu uma risadinha.

- Ele era bonitinho - ela disse, pegando o pergaminho e o pedaço de carvão. - Agora, se eu conseguir desenhar isso no pergaminho...

- Una-se a mim - disse Fiolon - e eu desenho para você.

- Você pode fazer isso? - perguntou Mikayla.

- Acho que posso - disse Fiolon - e vale a pena tentar. Encoste na parede, segure o carvão e o pergaminho, feche os olhos e relaxe.

Mikayla fez o que ele disse. Estava tão cansada que era fácil relaxar, estava quase dormindo. Despertou em um pulo de repente, quando sua mão começou a se mexer.

- Pare de lutar contra mim - disse Fiolon. - Sua mão vai mexer, é o único jeito de desenhar. Apenas relaxe e deixe que eu oriento você.

- Desculpe - disse Mikayla. - Levei um susto, foi isso. Tente de novo.

Ela encostou na parede, fechou os olhos e ignorou o que seu corpo fazia. Já ia adormecer quando a voz de Fiolon a fez despertar.

- Mika, acorde!

Ela piscou os olhos e olhou para o pergaminho no colo. Viu um desenho muito parecido com o mestre Uzun que aparecia no espelho mágico.

- Como ficou?

- Perfeito - Mikayla engoliu um bocejo. - Obrigada, Fio. Eu nunca poderia fazer algo tão bom.

- Não tem de quê, Mika. Agora guarde isso em algum lugar seguro e vá para a cama. Boa noite.

- Boa noite - disse Mikayla sonolenta.

Ela pôs a esfera dentro da camisola, guardou o pergaminho na arca de roupas, subiu na cama e adormeceu assim que deitou.

Os setenta dias passaram muito mais depressa do que Mikayla esperava. Ficou tão ocupada estudando que nem notou a passagem do seu décimo quinto aniversário. Quando o corpo novo de Uzun ficou pronto, ela já sabia todos os cânticos diários nas duas línguas, e quase todos os outros, dos festivais. Nos últimos trinta dias tinham permitido que ela tomasse parte dos rituais, inclusive o da Segunda Hora da Escuridão. Isso significava que não podia falar com Fiolon, já que não ficava mais sozinha, mas pensando bem em tudo aquilo, concluiu que ele podia vê-la no espelho quando quisesse.

Finalmente o corpo estava pronto e o Marido da Deusa Meret pediu que fosse encontrá-lo na biblioteca.

- Você estudou muito e serviu fielmente à Deusa - ele disse. - Estamos satisfeitos com o seu progresso.

A Filha Mais Velha da Deusa Meret, que tinha ido junto com Mikayla, balançou a cabeça, concordando.

- Obrigada, meu Pai - Mikayla respondeu respeitosamente. Ele entregou um pergaminho para ela.

- Isso contém as instruções para dar vida ao corpo e pôr o espírito vivo dentro dele. O corpo já está empacotado - ele apontou para um embrulho no banco perto da porta. - Tem como transportá-lo?

Mikayla usou a mente e localizou rapidamente o abutre gigante mais próximo.

- Tenho sim, Pai.

- Está pronta para partir agora?

- Estou, meu Pai. Obrigada por tudo que fez por mim. E obrigada a você também, Filha Mais Velha.

- Não se esqueça de que deve voltar para cá na primavera - lembrou a sacerdotisa.

- Não vou esquecer - garantiu Mikayla. - E cumpro as minhas promessas.

- Ótimo - disse o sacerdote. - Esperamos isso das nossas Filhas.

Os três caminharam juntos pelo templo e pelo salão das colunas. Mikayla carregava o embrulho com o corpo de Uzun, que era mais volumoso e desajeitado do que pesado.

- Santa Meret! - a Filha engoliu em seco, vendo uma forma do lado de fora. - De onde veio isso?

- O abutre gigante? - perguntou Mikayla. - Eu o chamei, Filha Mais Velha. Ele veio para me levar para casa.

- Vá, com as nossas bênçãos - disse o sacerdote, passando a mão de leve na cabeça de Mikayla -, mas lembre que aqui também é sua casa.

- Vou lembrar - disse Mikayla. - De qualquer modo estarei de volta daqui a alguns meses - ela sorriu para ele. - Vocês nem terão tempo de sentir a minha falta.

Ela pôs o corpo de Uzun com todo cuidado nas costas do pássaro e montou atrás dele, escorando-o com o próprio corpo e segurando bem o pergaminho na mão.

- Fiquem bem - ela disse.

- Boa viagem - o Marido da Deusa e a Filha responderam em uníssono - e volte para nós na época marcada.

O abutre gigante deixou-a no terraço da torre menos de uma hora mais tarde. Mikayla agradeceu ao pássaro e arrastou o corpo de Uzun para dentro enquanto o abutre decolava de novo.

- Fiolon - ela chamou. - Onde você está?

Ninguém respondeu e Mikayla arrastou o corpo pela escada, na descida para o estúdio, esperando que Aquele que Faz Viver tivesse feito um embrulho bem seguro. É claro que devia ter feito, era sem dúvida um homem que se orgulhava do seu trabalho.

- Quem está aí? - perguntou a harpa rispidamente, enquanto ela arrastava o pacote para dentro do estúdio.

- É Mikayla, Uzun - ela respondeu -, e trouxe seu novo corpo. Ela deixou o corpo deitado no chão e pôs o pergaminho atrás de uma pilha de livros para não rolar e cair.

- Graças aos Senhores do Ar você está bem! - exclamou Uzun.

- E por que eu não estaria - perguntou Mikayla. - Passei os últimos setenta dias trancada com as virgens do templo, e o maior esforço que fiz foi cantar.

Ela se espreguiçou, notando que alguns músculos estavam doídos por causa da viagem de volta. Notou também que os pés estavam frios.

Olhou para baixo e viu que ainda usava as sandálias e o manto de Filha da Deusa Meret.

- Por favor, Uzun, me dê licença - ela disse. - Preciso tomar um banho quente e me agasalhar. Esqueci o frio que faz nas costas de um abutre gigante.

- Claro, princesa - disse Uzun. - Vá se aquecer. É bom têla de volta.

- É ótimo tê-la de volta - a voz de Fiolon vinha da porta -, mas é melhor ir se aquecer depressa e trocar essas roupas. Haramis está a caminho de casa.

Mikayla olhou para ele horrorizada.

- De abutre gigante?

- Não, de fronial, mas chegará aqui em menos de uma hora.

Mikayla saiu correndo do estúdio. Atrás dela ouviu Fiolon começando a explicar para Uzun por que tinha levado tanto tempo para notar a aproximação de Haramis, mas Mikayla sabia que era mais urgente estar vestida adequadamente, sem nada para revelar que esteve fora da torre, antes deHaramis chegar.

Mikayla tomou o banho mais rápido da sua vida, escondeu a roupa do templo embaixo do colchão e vestiu uma das túnicas leves que Haramis tinha mandado fazer para ela. Estava bem mais curta do que antes. Parecia que tinha crescido durante o tempo que passou no templo. Esperava que Haramis estivesse cansada demais para notar esse tipo de detalhe.

Quando voltou para o estúdio Uzun e Fiolon ainda discutiam a chegada iminente de Haramis.

- É - concordou Fiolon -, eu devia vigiá-la mais. Mas ela estava melhorando bem e eu descobri o sistema que os Desaparecidos usavam para escrever música há cerca de duas semanas. Você estava tão animado com isso quanto eu, Uzun - ele observou -, por isso pode compreender como deixei de notar que ela estava vindo para casa.

Mikayla tentou, mas não conseguiu conter uma risadinha.

- Eu compreendo perfeitamente - ela disse.

- Nós falhamos com ela - disse Uzun, com tristeza. Nunca devíamos ter nos distraído do bem-estar dela.

- Há algo de errado com ela? - perguntou Mikayla.

- Mika, ela teve um distúrbio mental violento! - disse Fiolon em tom de reprovação.

- Eu sei disso - Mikayla retrucou. - Ela teve isso antes da minha partida, lembra? Mas se meus pais permitiram a viagem, ela deve estar muito melhor, e duvido que a tenham mandado para cá sem escolta. Por isso, a menos que você a tenha visto soterrada por uma avalanche de pedras ou algum desastre semelhante, não entendo qual é o problema.

- Nós devíamos saber que ela estava vindo - Uzun repetia teimosamente.,

Mikayla ignorou-o.

- Quantas pessoas há no grupo dela, Fiolon?

- Três - respondeu Fiolon. - Ela está numa liteira apoiada em dois froniais, e há duas mulheres com ela, ambas humanas - ele acrescentou.

- Elas conseguem suportar melhor o frio - disse Mikayla distraída. - Vou dizer para Enya aprontar os quartos - ela puxou a corda do sino para chamar a governanta.

- Mas tem um problema - disse Fiolon. - Como é que elas vão atravessar o abismo?

- Ih, é - disse Mikayla. - Tem razão. Ela saiu daqui de abutre gigante, por isso o apito de prata que usa para fazer a ponte funcionar provavelmente está em algum lugar do quarto dela. E agora não é uma boa hora para bagunçar o quarto todo tentando encontrá-lo. Talvez exista alguma outra forma de ativar a ponte. Enya deve saber.

Enya, que chegou naquele instante, sabia mesmo.

- Há um artefato na casa da entrada. Peça a um dos vispis para mostrar - ela contou nos dedos. - A Senhora, você, lorde Fiolon e mais dois humanos... são cinco para jantar - ela olhou para o grande pacote no meio da sala e fez uma careta. - Não sei o que é isso, mas sugiro que tirem daqui antes da hora do jantar. E por falar em tempo, princesa... - ela encarou Mikayla com um olhar sério - por onde andou nesses últimos meses? Tenho certeza de que a Senhora vai querer saber.

- Eu estava no Templo de Meret, no lado mais distante do...

- Silêncio! - Enya interrompeu fazendo com os dedos o gesto que os nyssomus usavam para afastar um grande mal. Não pronuncie esse nome outra vez. É um lugar de Escuridão.

- A maioria das cavernas nas montanhas é escura - disse Mikayla calmamente. - E não quero que você minta para a Senhora. Diga qualquer coisa que achar que uma mulher mais velha, doente demais até para cavalgar num fronial, deve saber.

Enya franziu a testa e Mikayla teve certeza de que Haramis não ia saber da sua ausência por nenhum dos servos.

- Estou certa de que você manteve o quarto da Senhora pronto para a sua volta - continuou Mikayla -, mas vamos precisar de mais dois quartos para as mulheres que vêm com ela.

- Como sabe que são apenas duas? - perguntou Enya desconfiada.

- Pela visão - respondeu Mikayla.

- Humm - a mulher oddling saiu do estúdio para cuidar de seus afazeres.

Mikayla olhou para Fiolon e deu um suspiro.

- Eu não estava tentando assumir o crédito pelo seu trabalho, Fio...

Fiolon balançou a cabeça.

- Não tem importância. Quanto menos for dito sobre os acontecimentos recentes, melhor. Vamos esperar para ver em que condição Haramis está.

- Essa foi a coisa mais sensata que você disse a noite toda - disse Uzun aborrecido. - E se a coisa que Enya disse para vocês tirarem do caminho antes do jantar for o meu novo corpo, sugiro que façam exatamente isso. A Senhora já vai ficar bem chocada com a presença de Fiolon e não precisa de mais surpresas.

Mikayla deu um sorriso largo.

- Posso até imaginar a reação dela se chegasse e nos encontrasse no meio do ritual para pôr você num novo corpo. De qualquer modo, ainda não tive tempo de ler todas as instruções, que provavelmente são longas e complicadas.

- O que vamos fazer com ele - Fiolon olhou para o pacote preocupado. - É muito grande.

- Não é pesado - Mikayla explicou para tranqüilizá-lo. Grande parte é material de embrulho para proteger o corpo. Aquele que Faz Viver passou setenta dias fabricando isso, e você pode concluir que empacotou muito bem antes de entregar para mim, para ser trazido para cá nas costas de um abutre gigante. Talvez até pudéssemos jogá-lo da varanda sem causar nenhum dano.

- Acho que não quero experimentar isso - disse Fiolon.

- Muito menos eu - concordou Mikayla -, mas se você segurar numa ponta e eu na outra, podemos levá-lo lá para baixo quando formos ativar a ponte para Haramis e seu grupo.

Ela abaixou e pegou uma ponta do pacote. Depois de um segundo Fiolon segurou a outra ponta, os dois manobraram o corpo para o corredor e desceram a escada.

- Onde vamos colocá-lo? - perguntou Fiolon.

- Acho que é melhor guardá-lo junto com os artefatos dos Desaparecidos, e se pudermos escondê-lo atrás das outras caixas, melhor ainda - Mikayla franziu a testa. - Não sei bem como Haramis vai encarar a idéia de dar um novo corpo para Uzun, por isso será melhor se ela não puder encontrá-lo.

- Mas certamente não pode ser tão egoísta a ponto de querer que ele fique preso àquela harpa para sempre! - protestou Fiolon.

- Você viu alguma vez Haramis não sendo egoísta?

- Nas antigas baladas...

- Não, não quando era menina. Agora, depois que a conheceu.

Fiolon ficou em silêncio o resto da descida pela escada e quando chegaram à área do depósito ele foi na frente até o canto mais escuro e empilhou caixas e barris na frente do corpo para não ficar visível de ângulo nenhum.

- Muito bom - disse Mikayla, examinando satisfeita o trabalho dele. - Você até deixou a poeira intacta nas tampas dos barris.

- Vamos procurar o artefato que ativa a ponte - disse Fiolon. - A Senhora pode chegar a qualquer momento.

Mikayla seguiu Fiolon sem dizer nada até a casa da entrada. Claro que Fiolon não queria admitir que Haramis, princesa herdeira e arquimaga, heroína de tantas das suas baladas favoritas, era menos que perfeita.

E já que ele não insiste em comportar-se como se ela fosse perfeita mesmo, Mikayla pensou, não vou fazê-lo admitir que não é.

O controle da ponte foi fácil de achar. Ficava preso na parede, na altura do ombro. Mikayla apertou-o e foi com Fiolon para a praça esperar Haramis. O sol descia depressa rumo ao horizonte e a brisa da noite começava a ganhar força, mas ainda dava para sentir nos pés o calor da célula solar que formava a praça. Mikayla descobriu que não sentia frio, mesmo usando a roupa leve e o chinelo de andar dentro de casa. Fiolon, que tinha apanhado uma capa curta quando passava pelo depósito, olhou para ela surpreso.

- Você não está congelando? - ele perguntou.

- Não - Mikayla respondeu, balançando a cabeça. -Acabei de descobrir que devo ter me adaptado a temperaturas mais baixas durante o tempo que fiquei no templo. Lá faz muito frio, mas em poucos dias nem notava mais. Senti frio quando desci do abutre gigante, mas estávamos muito mais altos que isso. Estou bem aquecida aqui. Talvez o calor da célula solar baste para mim.

Fiolon pôs a mão na testa para proteger os olhos do sol e olhou para o outro lado da ponte.

- Lá estão elas - ele disse.

Mikayla viu os froniais chegando perto da ponte e pisando nela sem titubear.

- Aqueles são os froniais da arquimaga - ela observou. Não dá para fazer um fronial pisar naquela ponte sem cobrir seus olhos e atiçá-lo a cada passo - ela riu baixinho. - Aquela guarda no primeiro fronial parece mais nervosa que ele.

- Pronto - disse Fiolon satisfeito. - As três atravessaram em segurança. Vou recolher a ponte.

Mikayla sorriu, entendendo perfeitamente que Fiolon não devia querer saudar a arquimaga naquele instante.

- Eu vou recebê-la - disse ela, atravessando a praça e indo ao encontro do grupo.

A guarda no primeiro fronial tinha desmontado, e a mulher que cuidava da retaguarda também.

- Princesa Mikayla - saudou a guarda.

Mikayla vasculhou rapidamente a memória, procurando o nome.

- Guarda Nella - ela disse. - Seja bem-vinda à Torre da Senhora. Os servos virão para levar os froniais em um minuto. - Ela inclinou a cabeça saudando e reconhecendo a outra mulher. Era uma das damas da rainha, que tinha algum talento com ervas. - Dama Bevis, seja bem-vinda. Como está a Senhora? - Ela olhou ansiosamente para Haramis, que parecia dormir.

- Está bem - garantiu a Dama Bevis - mas foi uma longa viagem. Ela deve ir para a cama o mais depressa possível. Onde fica o quarto dela?

Mikayla indicou a torre que se avolumava diante delas.

- Quase no topo da torre.

Nella e a Dama Bevis ficaram espantadas.

Haramis acordou e olhou em volta, franzindo a testa enquanto tentava descobrir onde estava. A viagem tinha sido longa, cansativa e confusa, e ela só queria estar em casa, na própria cama. Olhou para cima, vendo a torre.

- Ótimo - disse ela -, estamos em casa - então olhou em volta e franziu as sobrancelhas. Alguma coisa estava diferente. - O que aconteceu com a praça? Devia ser branca.

- A neve derreteu, Senhora - disse Mikayla respeitosamente.

- Oh - Haramis parecia confusa. A neve nunca derreteu na praça todo o tempo que esteve lá. A menina devia ter feito alguma coisa. Ela olhou feio para Mikayla. - Você quer nos deixar aqui de pé a noite inteira? - disse aborrecida. Pelo que lembrava da pestinha, provavelmente era isso mesmo.

- Não, Senhora - disse a menina. - Estávamos pensando qual seria a melhor maneira de levá-la para o seu quarto. Tem muita escada para subir. - Ela acrescentou em tom de desculpa.

Parece que afinal aprendeu boas maneiras, pensou Haramis satisfeita. Preciso não esquecer de agradecer ao Uzun.

- Então chame alguns dos meus servos! - ela disse rispidamente.

Mikayla sorriu um pouco.

- Sim, Senhora - murmurou, abaixando a cabeça.

Três abutres gigantes sobrevoaram a praça. Um desceu, mas os outros dois ficaram planando enquanto Mikayla desatrelava a liteira do fronial de trás e passava as barrigueiras em volta do grande pássaro. Nella hesitou um pouco e seguiu seu exemplo, fazendo o mesmo com a parte da frente da liteira, olhando espantada para o pássaro. Era óbvio que nunca tinha estado tão perto assim de um deles antes.

Os froniais ficaram parados, como se aquilo acontecesse todos os dias. Haramis ficou meio intrigada. Era verdade que tinha dedicado tempo e esforços para treinar cada geração de froniais, mas não tinha se dado conta de que os treinara tão bem assim.

Os pássaros bateram suas enormes asas juntos, carregando Haramis suavemente até a varanda. Poucos segundos depois o terceiro pássaro passou voando por ela e deixou Mikayla na varanda também. Quando os abutres acabaram de abaixar a liteira bem devagar, um dos servos vispi de Haramis já estava lá para segurar uma ponta. Mikayla segurou a outra e os dois carregaram Haramis na liteira com todo cuidado até o quarto, onde Enya aguardava para pô-la na cama.

Haramis deu um suspiro de alívio quando finalmente se acomodou. Até que enfim estou em casa. Não tenho de me mexer mais. Não tenho de ficar balançando feios caminhos das montanhas entre dois froniais. Estou em casa.

- Onde está Uzun? - ela perguntou. - Por que ele não veio?

Mikayla, que estava ajudando Enya, ficou meio constrangida.

- Ele está no estúdio, Senhora - ela disse.

Haramis notou que a menina parecia preocupada com alguma coisa.

- Ele não sabe que eu voltei?

- Sabe, Senhora - respondeu Mikayla - e eu sei que ele quer muito vê-la, assim que puder ir lá para baixo.

- Por que ele não arrasta seu corpo preguiçoso até aqui? Haramis quis saber, impaciente. Será que ele não sabe que estive muito doente?

Enya resmungou alguma coisa sobre o jantar e saiu correndo do quarto, lançando um olhar angustiado para Haramis antes de sair.

O que houve com ela? - Haramis pensou, intrigada. Por que todo mundo está agindo de modo tão estranho?

- Senhora - disse Mikayla hesitando um pouco -, já esqueceu que transformou o mestre Uzun numa harpa? Ele não pode subir escada. Não pode nem se mexer sozinho.

Pela Flor, pensou Haramis, eu tinha esquecido disso. Mas não vou admitir, fará todo mundo ficar me tratando feito uma idiota.

- Bom, então peça aos empregados para trazê-lo para cá! ela ordenou.

- Agora mesmo, Senhora?

- É, agora!

- Como quiser, Senhora - Mikayla fez uma mesura e saiu do quarto.

Será que não consigo que façam as coisas por aqui sem discutir? pensou Haramis irritada.

Sua pergunta foi respondida algum tempo depois, quando ela ouviu vozes no corredor. Enya tinha levado um jantar leve para ela e a Dama Bevis fez companhia enquanto comia. A porta do quarto estava aberta, por isso os comentários vindos do corredor eram perfeitamente audíveis.

- Continuo achando que essa não é uma boa idéia - era a voz de um rapaz. Haramis não a reconheceu.

- É uma ordem específica da arquimaga - disse Mikayla, num tom que sugeria que ela concordava com o rapaz que falou primeiro.

- Nós subimos a escada sem deixar que ele batesse em nada - era a voz da guarda que o rei tinha mandado junto com Haramis... qual era mesmo o nome dela Ah, sim, Nella, ou algo parecido. - Qual é o problema?

- Harpas são instrumentos muito delicados - disse o rapaz.

- O mestre Uzun não sai do seu lugar no estúdio há muitos anos. Temo que sujeitá-lo a alterações de temperatura e umidade nessa mudança para o quarto da Senhora pode danificá-lo.

- Não me importo com isso - aquela voz devia ser de Uzun, Haramis concluiu. Era o som de cordas de harpa. E foi seguido por uma pancada repentina.

- Cuidado! - três vozes gritaram ao mesmo tempo, duas humanas e uma de harpa.

- Desculpem - disse a voz de Nella - ninguém me avisou que isso falava.

- E você já está desafinado, Uzun - observou o jovem. - Eu disse que fazia muito frio nos corredores.

- Você pode me afinar quando chegarmos ao quarto da Senhora - disse Uzun calmamente.

Àquela altura até Haramis já podia perceber que ele estava desafinado. Aquela guarda desajeitada deve tê-lo deixado cair.

- Meu lugar é com a Senhora - continuou Uzun -, não importa o que aconteça.

Haramis teve uma lembrança vaga... ou seria um sonho... de estar nas montanhas com Uzun quando ele ainda era um nyssomu, vendo-o congelar e quase morrer.

Três humanos com ar de cansaço carregaram a harpa para dentro do quarto.

- Aqui está ele, Senhora - disse Mikayla. - Onde quer que ele fique?

Haramis virou a cabeça para a direita.

- Perto da cabeceira da cama - ela respondeu.

- Mas ali é perto da grade da calefação - protestou o rapaz. - Calor demais pode fazer a moldura rachar.

- Ele ficou anos perto do fogo! - retrucou Mikayla.

- Perto, não diretamente na frente!

- Chega! - gritou Haramis. - Estou cansada de ouvir suas implicâncias. Ponha ele aí, afine-o e saia!

- Sim, Senhora - Mikayla suspirou. Puseram a harpa no lugar com todo cuidado.

O jovem tirou uma chave de afinar do cinto e começou a afinar as cordas. Haramis franziu a testa, tentando lembrar de onde ele era. Parecia familiar, mas não achava que era um dos empregados. Na verdade, achava que não tinha servos humanos. Mas Mikayla falava com ele como se fosse humano. Será que Mikayla tinha adquirido mais servos enquanto Haramis estava fora?

Quanto tempo eu fiquei longe? - Vou perguntar a Uzun quando estivermos sozinhos.

Pareceu uma eternidade, mas finalmente Uzun recuperou a afinação.

- Deixem-nos, todos vocês - ordenou Haramis.

Nella fez uma mesura e saiu do quarto apressada. Tinha ficado perto da porta o tempo todo, como se quisesse estar em outro lugar. A Dama Bevis pegou a bandeja do jantar de Haramis, fez uma mesura e saiu graciosamente. Mikayla parou para dar um tapinha na moldura da harpa e foi atrás da Dama Bevis, mas parou na porta, esperando o jovem. Ele passou a mão na coluna de Uzun, franziu a testa com ar de preocupação e sussurrou.

- Sinto muito, Uzun.

Então alcançou Mikayla na porta e os dois saíram juntos.

- Quem é ele? - Haramis perguntou irritada para Uzun. A menina andou contratando mais servos enquanto estive fora? Por falar nisso, quanto tempo eu estive fora E ela fez algum progresso nas aulas?

- Meu coração se alegra com sua volta em segurança, Senhora - respondeu o mestre Uzun. - Tive medo de jamais vê-la outra vez... não que possa vê-la nessa minha forma... mas tive medo de nunca mais ouvir sua voz.

- Estou feliz de vê-lo também, meu mais antigo amigo – disse Haramis, desarmada. - Mas diga, o que andou acontecendo durante a minha ausência?

- Pouca coisa - respondeu Uzun. - Eu dei aulas de mágica para a princesa Mikayla, e ela progrediu bastante. Já leu todos os livros da sua biblioteca, e tem muita habilidade para a visão. Eu a fiz praticar pedindo para ver como você estava a cada dois ou três dias.

- Então foi assim que ela soube que devia ativar a ponte para mim - raciocinou Haramis. - E ela também sabe chamar os abutres gigantes?

- Sim, estou certo de que sabe.

- Parece que ela superou a crise de mau humor que adquiriu depois que Fiolon foi embora... - a voz de Haramis foi ficando mais baixa como se tivesse descoberto de repente quem era o rapaz. - Aquele era o Fiolon, não era? - ela perguntou. - O que ele está fazendo aqui de novo?

- Deve lembrar - disse Uzun meio hesitante - que logo antes de você ficar doente, lorde Fiolon fez nevar sem querer na Cidadela.

- Sim, eu lembro - tudo estava voltando para Haramis. Eles estavam unidos e Mikayla brincava com a magia do tempo... e a essa altura imagino que eles estejam permanentemente ligados! Como é que você deixou isso acontecer? - ela perguntou furiosa.

- Mikayla ainda é virgem - disse Uzun com firmeza - e tenho quase certeza que Fiolon também é. A ligação deles é emocional, não é física, e já era bem forte cinco anos antes da sua irrefletida tentativa de cortá-la.

Haramis engoliu em seco. Ninguém ousava falar com ela assim há quase duzentos anos.

- A ligação foi restabelecida em dez horas - continuou -, mas pelas descrições que as duas crianças deram da dor que sentiram ficou bem claro que não envolvia os centros inferiores. Acho que na época você não teria mesmo conseguido separá-los permanentemente sem o consentimento deles, e agora tenho certeza de que não consegue. Você esteve longe mais de um ano e meio e eu estive treinando os dois.

- Você andou treinando aquele menino? - exclamou Haramis horrorizada. - Será que perdeu o juízo? Você quer outro Orogastus solto por aí?

- Lorde Fiolon não é nada parecido com Orogastus - disse Uzun com firmeza. - E uma criança, que ele era na época, com pouco conhecimento de magia do tempo, e sem saber controlá-la, é uma coisa muito perigosa. Ele precisava ser treinado, para a segurança de todos à sua volta, e pelo bem da terra.

- Então você se encarregou de treiná-lo, na minha casa, sem o meu consentimento.

- Essa não é minha casa também? - disse Uzun baixinho. - E você não tinha condição de dar seu consentimento. No início você nem lembrava que Fiolon ou Mikayla existiam. Fiz o que achei melhor, para eles e para a terra. E agora ele já está treinado, e nada pode modificar isso.

- Talvez você tenha razão - disse Haramis de má vontade. - Mas ele não pode ficar aqui. Não é decente. Ele não devia estar morando aqui sozinho com a princesa Mikayla esse tempo todo.

- Mas isso não é conhecido por aí - observou Uzun. Aposto que ninguém lá na Cidadela sentiu falta dele. E agora que você está aqui, eles não estão mais sozinhos.

- Ele é uma distração para os estudos dela - disse Haramis. - Ele vai partir amanhã, e dessa vez vou chamar um abutre gigante e mandá-lo de volta para Var!

- Você já consegue chamar os abutres de novo - disse Uzun. - Isso é uma boa notícia. Quando ficou doente, eles não conseguiam se comunicar com você de jeito nenhum, e nós ficamos muito preocupados com isso.

- Nós? - - quis saber Haramis. Ela não tinha certeza se seria capaz de chamar um abutre gigante naquele momento, mas não ia admitir isso.

- Fiolon, Mikayla e eu - respondeu Uzun. - Não vimos necessidade nenhuma de contar para os empregados que você estava seriamente doente.

Como Haramis não conseguia lembrar exatamente da seriedade da sua doença, ficou contente de saber que os empregados não tinham ficado fofocando sobre a sua saúde. Percebeu, naquele momento, que estava muito cansada.

- Vou dormir agora, Uzun. Boa noite.

- Boa noite, Senhora - ela ouviu Uzun responder quase adormecendo. - Bons sonhos.

Na manhã seguinte Haramis chamou Mikayla e Fiolon e anunciou sua intenção de mandar Fiolon embora naquele instante.

- Mas Senhora - protestou Mikayla. - Preciso dele para me ajudar a transferir o mestre Uzun para seu novo corpo. Os encantamentos são complexos demais para uma pessoa só e o processo é longo e complicado.

- Corpo novo? - perguntou Haramis. Mikayla olhou para Uzun.

- Você não contou para ela?

- O corpo em que estou não tem importância, desde que eu esteja com ela - disse Uzun em voz baixa.

Fiolon passou as mãos na moldura da harpa.

- Você não vai durar mais que meio ano nessa forma se ficar aqui nesse quarto - ele disse, num tom de avaliação profissional.

- Logo estarei de pé e curada - disse Haramis - e vamos poder mudá-lo para o estúdio de novo.

- Isso tudo só faz ganhar algum tempo - disse Fiolon com firmeza.

- E para ele é muito ruim ser cego e não poder se mexer disse Mikayla. - Ele achou isso particularmente enervante quando você estava doente na Cidadela e ele não podia nem ter a visão para ver o que nós víamos. Só sabia o que podíamos descrever para ele. Ele sofreu muito.

- Não foi tão ruim assim - disse Uzun.

- Pare de ficar tentando poupar os sentimentos dela - reclamou Mikayla. - Não era isso que você dizia no ano passado.

Uzun sempre procurava poupar meus sentimentos, lembrou Haramis. Ele sempre dizia que morrer me servindo era seu maior objetivo na vida.

- Onde foi que você conseguiu um novo corpo? - ela perguntou. - E como ele é?

- Tem a forma de um nyssomu, feito de madeira pintada, com juntas articuladas - respondeu Mikayla. - Aquele que Faz Viver, do Templo de Meret, foi quem fabricou. Tentamos fazêlo o mais parecido possível com o antigo corpo de Uzun.

Haramis sentiu a cabeça começando a doer.

- Jamais ouvi falar do Templo de Meret. O que é?

- Fica do lado norte do Monte Gidris, do lado oposto àquele em que você encontrou seu talismã - disse Fiolon, prestativo.

- Meret é um tipo de deusa da terra labornokiana - disse Mikayla. - O Monte Gidris é considerado parte do corpo dela e o Rio Noku é seu sangue, com o qual alimenta a terra.

- Eles usam magia de sangue? - Haramis perguntou.

- Só simbolicamente - Mikayla garantiu.

- Mesmo assim não estou gostando - disse Haramis. Não deve fazer nada até eu ter a chance de estudar isso. E você não precisa de Fiolon. Se eu resolver que essa idéia é boa, farei o ritual eu mesma.

Mikayla e Fiolon pareciam consternados.

- Mas você não conhece o ritual! - protestou Mikayla. Levei meses para aprender apenas os rituais diários da deusa Meret.

- Eu estou muito preocupado com a integridade estrutural da harpa - acrescentou Fiolon.

- Você não tem nada que se preocupar com isso - Haramis informou com frieza. - Vai para Var hoje mesmo. Trate de empacotar o que dá para levar num abutre gigante. - Fiolon não se mexeu, Mikayla e ele ficaram olhando espantadíssimos para Haramis. - Vá! - repetiu Haramis.

Fiolon olhou para Mikayla, deu de ombros e saiu do quarto.

- Você não pode mandá-lo para Var! - protestou Mikayla. - Ele não vai lá desde quando era pequeno. Seu lar é aqui em Ruwenda.

- Onde ele fica fungando à sua volta como se você estivesse no cio! - retrucou Haramis. - Quero mandá-lo para o mais longe possível. Ele não vai distraí-la ainda mais dos estudos.

- Eu aprendo melhor quando estudo junto com ele - Mikayla explicou. - E não estamos sendo indecentes, e suas acusações são ridículas! Uzun não explicou para você... ou será que você não entendeu?

Era óbvio que a menina estava furiosa, mas Haramis não conseguia imaginar por quê.

- É claro que ele é uma má influência para você - Haramis disse com frieza. - Seus modos ficam horrorosos assim que ele se transforma em assunto da conversa.

- Acontece que eu gosto dele - disse Mikayla. - Temos sido os melhores amigos desde que éramos pequenos. Planejávamos casar até você aparecer e estragar tudo, mas não pode querer que o que sinto por ele mude só porque você diz que não posso casar com ele.

- Espero que o que sente por ele mude quando ele estiver bem longe - Haramis informou. - É por isso que estou mandando Fiolon para Var... é óbvio que a Cidadela não é longe bastante.

- E como é que vai mandá-lo para Var? - perguntou Mikayla.

- Ela pode chamar um abutre gigante - disse Uzun. - Ela me disse isso ontem à noite.

- Estava enganada, Uzun - disse Mikayla suavemente. Eles ainda não conseguem atingi-la, eu perguntei para eles esta manhã.

- Então você vai chamar um para mim - disse Haramis. Se é que consegue se comunicar com eles.

- Eu me comunico com eles sim - disse Mikayla. - Quem você acha que pediu para eles carregarem você até aqui em cima ontem? Mas por que pensa que vou ajudá-la a mandar Fiolon embora?

- Parece que está esquecendo, menina, que esta é a minha casa - disse Haramis.

- Não é a casa de Uzun também? - perguntou Mikayla. Ele convidou Fiolon para ficar aqui.

- É, ele me disse que queria treinar Fiolon um tempo disse Haramis - mas creio que o treinamento acabou, não foi, Uzun?

- Ele não é mais um perigo involuntário para ele ou para os outros - admitiu Uzun, um pouco relutante.

Fiolon reapareceu, carregando uma pequena mochila e com roupa de frio.

- Estou pronto para ir para Var - ele anunciou.

- Ela não pode mandar você embora - Mikayla disse para ele, com arrogância. Haramis desejou ter força para dar um tapa na menina. - Ela ainda não consegue falar com os abutres gigantes.

- Mas você consegue - Fiolon observou.

- E por que eu faria isso?

- Porque eu estou pedindo - ele disse com delicadeza. Não fique tão preocupada, Mika. Eu estarei bem. Ainda sou o sobrinho do rei, não importa o que mais eu possa ser.

Ele puxou Mikayla para um canto, segurou-a carinhosamente com as mãos nos ombros dela, e conversou baixinho alguns minutos. Haramis tentou, sem sucesso, ouvir o que ele dizia, e não podia ver a reação de Mikayla, porque a menina estava de costas para ela. O rosto de Fiolon não revelou nada, em nenhum momento. Mikayla devia estar concordando em chamar um abutre gigante, pois ele sorriu para ela.

Haramis sentiu uma pontada de inveja. Não lembrava de ninguém que tivesse olhado para ela daquele jeito. Havia tanto amor e aceitação na expressão dele que Haramis ficou impressionada. Como é que ele podia gostar tanto daquela pestinha teimosa e mal-humorada?

Fiolon inclinou o corpo para frente e beijou Mikayla de leve na testa.

- Você não está me perdendo, sabe disso - ele disse. - Vai continuar me vendo no seu espelho.

O que ele quis dizer com isso? - Haramis ficou pensando.

Mikayla abraçou-o, tremendo, e escondeu o rosto no ombro dele. Fiolon passou o braço em volta dela e ficou segurando até Mikayla se recompor. Então soltou-a e fez uma mesura para Haramis.

- Agradeço a sua hospitalidade, Senhora - ele disse educadamente.

- Desejo que faça uma viagem segura - Haramis respondeu automaticamente.

Mikayla não se virou nem disse nada quando saiu do quarto com Fiolon, mas poucos minutos depois Haramis ouviu o bater das asas de um abutre gigante pousando no terraço e logo depois os sons do pássaro partindo.

Mikayla não retornou ao quarto de Haramis. Quando a arquimaga perguntou onde ela estava, Enya informou que Mikayla tinha se trancado no quarto e que não respondia quando alguém batia na porta.

Haramis deu um suspiro.

- Ela provavelmente está toda emburrada de novo. Deixem-na em paz, até resolver aparecer. Deve sair quando ficar com fome. Eu juro pela Flor, é mais fácil treinar um fronial.

Mikayla ficou vendo o enorme pássaro carregando Fiolon para o sul. Era capaz de entender por que ele não queria ficar na torre depois da chegada de Haramis. Com o humor que a arquimaga estava, nem ela queria ficar ali. Foi a única razão de concordar em chamar um abutre gigante para levar Fiolon para Var. Com toda a certeza não tinha feito isso como favor para Haramis.

Ela foi para o seu quarto e se trancou lá, sentou na cama e tirou a esfera de dentro da túnica. Chamou a imagem de Fiolon, mas não tentou falar com ele. Não queria distraí-lo durante o vôo.

Viu o pássaro voando sobre o Inferno Espinhento, o Pântano Negro e o Pântano Verde, cruzando o lado ocidental da Floresta Tessaleyo e finalmente seguindo a linha do Grande rio Mutar, que passava por Var e desembocava no Mar do Sul. Fiolon orientou o pássaro para pousar na margem oeste do rio, cerca de uma légua ao sul da fronteira entre Ruwenda e Var. Ele não precisava de mim para chamar o abutre gigante, percebeu Mikayla. Consegue comunicar-se com eles tão bem quanto eu.

Esse foi seu último pensamento coerente por um certo tempo. Quando Fiolon deslizou das costas do pássaro e seus pés tocaram o solo de Var, o mundo mudou em volta dele e, através da ligação dos dois, em volta de Mikayla também. Ela caiu deitada na cama como uma boneca de pano quando Fiolon tocou o chão. Os dois ficaram indefesos diante das sensações que se apoderaram de Fiolon e, através dele, de Mikayla.

Era como se todo o reino de Var estivesse ali, agarrando Fiolon, como se a terra quisesse tomar o corpo dele. Os rios, principalmente o Grande Mutar, assumiam o lugar do sangue dele, e os ventos que sopravam do Mar do Sul eram a respiração dele, enchendo seus pulmões e se espalhando pelo corpo todo. O dia em que o barco deles tinha virado na junção dos rios Golobar e Mutar Meridional não era nada, comparado com aquilo.

Apesar de estarem no início do inverno, havia vegetação por toda parte. Não era o mato selvagem dos grandes pântanos de Ruwenda, e sim plantações ordenadas de inverno, não apenas numa faixa ao longo do Grande Mutar, mas pelo campo todo. A área cultivada ocupava a maior parte da terra, desde a Floresta Tessaleyo, que cobria a fronteira de Var e Ruwenda, quase até o mar.

Nada podia ter preparado Fiolon para o mar. O maior volume de água que tinha visto batia na praia ao longo da costa de Var. Ele teve a sensação de que parte do seu corpo estava deitada na praia, alvo de todas as ondas, ao mesmo tempo que outra parte continha o Grande Rio Mutar e uma terceira era formada pelos campos cultivados.

Mas havia outra parte que continha as cidades, pequenas como as de Ruwenda, a capital e o porto principal de Mutavari. Ele lembrava, uma lembrança distante e fugidia da infância, de ter morado em Mutavari, mas não lembrava que era tão grande, nem que tinha tanta gente. Havia navios ao longo de todo o cais que se estendia dos dois lados do rio, e gente de todo o mundo conhecido corria de um lado para outro, carregando e descarregando, fazendo pequenos serviços, acertando negócios... Felizmente ele não estava ligado a todas aquelas pessoas. Estar ligado à terra já era bem complicado de enfrentar. Mas ele sentia as mentes em contato com a dele, só que não eram das pessoas que estava vendo...

A onda do pensamento dele estava fraca, mas Mikayla captou com facilidade. O que estava acontecendo com ele não tinha destruído o elo que os unia, apesar dos dois terem a sensação de que suas cabeças iam explodir e que seus corpos eram pequenos demais.

- Estou aqui, Fio.

- Você está ouvindo?

- As vozes? Estou - Mikayla ouvia ondas e mais ondas de alguma coisa que ficava entre vozes e pensamentos. - Não são humanas...

Os dois perceberam ao mesmo tempo.

- ... são das tribos!

O que normalmente seria um diálogo entre os dois era uma cadeia de idéias, e não sabiam exatamente quem pensava o quê. Não tinha importância; jamais se importaram de saber de quem eram as idéias.

- Não é nyssomu... nem vispi... com toda certeza não é skritek... mas um deles é bem agressivo... um deles? É, é isso mesmo, há dois grupos distintos... em Var, eles seriam glismaks... que são os selvagens... e os wyvilos.

- Mas por que conseguimos ouvi-los? - esse pensamento foi de Fiolon.

- Eu ouço porque você está ouvindo - Mikayla respondeu.

- Agora, por que você ouve... Fio, Var teve um arquimago algum dia?

- Não que eu saiba - a cabeça de Fiolon rodopiava e o rio e o mar ainda varriam seu corpo a intervalos regulares, mas sua mente estava ficando um pouco mais clara. - Mas não venho a Var desde que era pequeno, e não conheço sua história tão bem quanto a de Ruwenda, mas nunca ouvi falar de um arquimago em Var.

- Acho que agora tem um.

- O quê?

- Você. Fio, você é o arquimago. Pense, ou pelo menos tente pensar. Haramis e Uzun passaram os últimos três anos procurando me ensinar como ser uma arquimaga, e você aprendeu tudo, e mais alguma coisa. Então você sabe como ser um arquimago. E se Var estivesse lá, esperando que alguém com conhecimento e habilidade certos aparecesse...

- Esperando para agarrar o primeiro candidato capacitado... - Fiolon sentia a terra em cada parte do corpo. - Com certeza fui agarrado - ele pensou -, mas como faço para controlar isso? Estou aqui deitado há sabe lá quanto tempo, e posso sentir a terra, mas não consigo mover meu corpo, nem o sinto direito.

- Tente a música - o pensamento de Mikayla passou por ele, divertido. - Esse foi sempre seu jeito favorito de organizar o caos.

- Música.

Fiolon respirou profundamente e soltou o ar bem devagar, tentando obter controle. Os ventos se transformaram num coro de flautas de vários tamanhos e tons. Mas tocavam juntas e os sons que geravam eram harmoniosos. As ondas batendo na praia eram o ritmo de base, e o fluxo do rio a batida complementar, como o pulsar da terra num ritmo suave. Fiolon sentia o coração batendo no mesmo compasso e o sangue fluindo bem em suas veias, enquanto o rio corria para o mar. Os sons dos glismaks e wyvilos ficaram abafados como contraponto ao fundo, para serem examinados com mais atenção depois. Fiolon abriu os olhos e sentou, bem devagar e com todo cuidado. Seu corpo estava duro e dolorido, portanto devia ter ficado ali deitado bastante tempo, mas o abutre gigante continuava ao lado dele, de guarda.

- Lorde Branco - o pensamento do pássaro chegou até ele com a mesma clareza das conversas com Mikayla. - Deseja continuar a sua viagem?

Fiolon piscou os olhos confuso, olhando para o pássaro.

- Pode levar-me para Mutavari?

- Claro, Lorde Branco.

O pássaro estendeu uma asa e ajudou Fiolon a subir em suas costas, e saiu voando, para o sul, na direção do mar, para a corte de Var.

Mikayla abriu os olhos e tentou sentar na cama. Não conseguiu, rolou para o lado, caiu da cama, de quatro no chão.

Será que foi isso que Haramis quis dizer quando falou de ”sentido da terra”? Preciso perguntar pará ela.

Mikayla ficou de pé com dificuldade e cambaleou pelo quarto, apoiada na mobília, até suas pernas resolverem sustentá-la de novo. Quanto tempo será que fiquei aqui deitada? Acho que preciso comer alguma coisa. Estou morta de fome.

Mas a curiosidade de saber o que tinha acontecido com Fiolon foi mais forte que a fome. Verificou como estava sua aparência no espelho, pensando que não havia razão para aborrecer Haramis antes mesmo de abrir a boca. Não podia fazer nada para melhorar as olheiras e o ar abatido, mas escovou o cabelo e ajeitou a túnica antes de ir para o quarto de Haramis.

A porta do quarto de Haramis estava entreaberta, mas a arquimaga dormia, e a Dama Bevis cochilava numa cadeira ao lado da cama. Mikayla procurou Uzun, mas não estava no lugar onde o vira da última vez. Ah, não! ela pensou desanimada. Fiolon tinha avisado que aquele lugar não era bom para ele!

Mikayla deu meia-volta e correu para a sala de estar. Uzun estava de volta no seu canto ao lado da lareira, mas tinham deixado o fogo baixar demais.

- Uzun! - ela chamou aflita, caindo de joelhos em frente da lareira e tentando soprar para dar mais vida às chamas. Fale comigo! - ela implorou. - O que aconteceu com você?

- Fiolon tinha razão.

Mikayla sentiu as lágrimas enchendo seus olhos. As cordas da harpa estavam muito desafinadas e a voz dele estava rouca. Mikayla acendeu os lampiões na sala com uma ordem mental, e o esforço fez com que caísse deitada e sem forças na frente da lareira. Mas mesmo dali dava para ver o estrago na harpa e, o que era pior, várias rachaduras na madeira da moldura.

- Estava quente demais no quarto da Senhora - continuou Uzun - e os corredores eram frios demais, e agora a temperatura aqui dentro não está certa... - a voz dele foi sumindo.

Uma fúria terrível gerou força para Mikayla ficar de pé e puxar repetidamente a corda do sino para chamar Enya.

Pareceu uma eternidade até a governanta aparecer, de camisola e bocejando.

- Então o mau humor passou, não foi? - ela olhou aborrecida para Mikayla. - A Senhora disse que você podia comer à hora que resolvesse sair do seu quarto, mas tem idéia de que horas são?

- Não me importa que horas são! - Mikayla gritou furiosa, apontando para a harpa. - Olhe para aquele fogo! Você está tentando deliberadamente destruir o mestre Uzun? Certamente, depois de todos esses anos, você conhece o nível em que o fogo deve ficar.

- Pela Flor! - Enya olhou consternada para o fogo e para a harpa, depois fechou os olhos para entrar em contato com os outros empregados. - Teremos mais lenha aqui em poucos minutos, princesa - ela disse depressa. - Eu sinto muito. Nós deixamos o fogo apagar quando Haramis quis que o mestre Uzun fosse lá para cima, já que ninguém estava usando essa sala, e ela mandou-o para baixo esta noite, e nós... - ela parou de falar.

Você esqueceu, Mikayla terminou a frase em pensamento. Mas não adiantava mais brigar com a governanta. Enya já estava a par de tudo. Mas Mikayla resolveu verificar o estado de Uzun a intervalos freqüentes de qualquer modo.

- O mestre Uzun está aqui de novo, e eu vou continuar a usar esta sala - ela disse em voz baixa - por isso agradeceria se a temperatura fosse mantida no nível habitual.

- Sim, princesa - Enya disse prontamente. - Vou tratar disso. E vou buscar uma bandeja para você. Deve estar com fome, não come há dias.

- Obrigada, Enya - Mikayla esforçou-se para sorrir para a governanta, apesar da raiva que ainda sentia pelo jeito que Uzun foi maltratado. - É gentileza sua. Eu estava trabalhando e perdi a noção do tempo.

Logo que Enya se afastou e não podia mais ouvi-los, Uzun falou.

- Trabalhando Trancada no seu quarto por mais de dois dias? O que é que estava fazendo?

- Mais de dois dias? - perguntou Mikayla. - Não admira eu estar com tanta fome. Espero que dêem comida para Fiolon quando ele chegar em Mutavari.

- Você estava ligada a Fiolon de novo - não era uma pergunta, por isso não importava que Uzun não pudesse ver Mikayla balançar a cabeça. - O que aconteceu com ele?

- Foi muito estranho, Uzun - Mikayla começou a contar, então parou de falar quando um dos vispis entrou com uma braçada de lenha e foi montar a fogueira.

Ele ainda estava atiçando o fogo quando Enya chegou com uma bandeja que tinha um pote grande de sopa de adop e metade de uma bisnaga de pão. Ela pediu para Mikayla comer devagar, para não passar mal. Mikayla começou a roer a pontinha do pão, esperando que os servos saíssem para poder conversar à vontade com Uzun.

Quando ficaram sozinhos outra vez ela contou o que tinha acontecido.

- Você acha que Fiolon é mesmo o arquimago de Var? - ela perguntou no fim.

- Parece que é, sim - respondeu a harpa. - Mas eu não contaria isso para a Senhora Haramis.

- Eu não ia contar - Mikayla explicou - mas acho que ela não vai suspeitar de nada se eu perguntar o que aconteceu quando ela virou arquimaga. O que você acha?

- Não vai suspeitar de Fiolon, pelo menos - Uzun disse secamente. Ele suspirou satisfeito. - Sinto-me melhor agora que acenderam o fogo, princesa. Agradeço por isso.

- Deviam ter feito isso sem precisar de uma ordem minha - disse Mikayla, apertando os lábios aborrecida. - Se eles foram capazes de esquecer que você é um ser vivo que precisa de cuidados permanentes, vou me certificar de que isso não aconteça de novo! Vou passar por aqui para vê-lo sempre que puder, Uzun.

- Se não ficar desmaiada dias, de novo - a harpa observou.

- Não devo ter mais isso - disse Mikayla alegremente. Uma experiência tão intensa assim deve acontecer apenas uma vez na vida.

Ela foi conversar com Haramis na manhã seguinte.

Encorajá-la a lembrar da juventude não foi nada difícil, e as descrições fizeram Mikayla ter mais certeza ainda da sua teoria sobre o que tinha acontecido com Fiolon.

Mas quando arriscou uma pergunta muito genérica sobre a sensação do sentido da terra, Haramis olhou furiosa para ela.

- Você desenvolveu um sentido da terra por Ruwenda? - ela perguntou irritada.

- Não, Senhora! - Mikayla exclamou horrorizada, balançando a cabeça vigorosamente. Pela Flor, ela compreendeu de repente e ficou consternada, ela perdeu o sentido da terra! Mas com certeza eu não o tenho, e Fiolon também não... não por Ruwenda. Então quem tem? Será que alguém está com esse sentido? - Ela projetou sua mente, tentando sentir a terra. Imagens apagadas voltaram. A terra continuava doente e Mikayla ainda não podia fazer nada para consertar isso. - Eu só estava pensando, só isso. Você comentou alguma coisa uma vez.

Haramis olhou para ela com desprezo.

- Você não precisa se preocupar com isso ainda. Vá para a biblioteca e continue seus estudos lá.

- Sim, Senhora - Mikayla fez uma mesura e saiu do quarto. Tinha lido todos os livros da biblioteca de Haramis há muito tempo, mas sabia que os servos iam contar para ela se desobedecesse, por isso foi para a biblioteca e passou o resto da tarde segurando um livro aberto e pensando. Seus pensamentos não eram felizes.

- Pelos Senhores do Ar, Uzun, pare de dizer para eu não aborrecer a Senhora Haramis! - Mikayla olhou zangada para a harpa.

Queria a simpatia dele depois de mais uma discussão com Haramis, mas Uzun não estava cooperando. Haramis tinha supostamente retomado o treinamento de Mikayla, mas esse treinamento consistia em grande parte em fazer Mikayla ficar sentada à cabeceira da cama durante horas, enquanto a arquimaga dizia as mesmas coisas milhares de vezes. Mikayla passava muito tempo lutando para não gritar de frustração.

- Não compreendo por que você não está aborrecido com ela - ela rosnou para Uzun. - Olhe o que ela fez com você! Primeiro transforma você numa harpa, depois, quando conseguimos um novo corpo... e você nem sabe o que tive de prometer para conseguir isso!... ela proíbe a sua transferência. E ainda por cima, arrasta você para o quarto dela, onde o calor causa danos permanentes na harpa... depois de Fiolon avisar que isso ia acontecer! No seu lugar eu ficaria furiosa com ela!

Uzun suspirou.

- Não preciso ficar zangado com ela, Mikayla. Você está zangada por nós dois. Procure lembrar que ela esteve doente. Não teve a intenção de me prejudicar, e não pretende prejudicar você.

- Esse seu argumento seria muito mais convincente se ela tivesse demonstrado mais consideração por nós antes de cair doente do que agora - Mikayla observou.

- Mas, por favor, não grite com ela - Uzun suspirou de novo. - Magoa seus sentimentos e isso não é bom para a sua recuperação.

- E por que devo me importar com os sentimentos dela? – perguntou Mikayla furiosa. - Ela não se importa com os meus!

Haramis tinha se recuperado da doença apenas o suficiente para ser tremendamente desagradável e Mikayla estava achando a tensão insuportável.

- Ninguém se importa com o que eu sinto. Não passo de um peão. Não sou uma pessoa, sou apenas uma coisa: estagiária de arquimaga. Escolha uma criança mais ou menos adequada... não faz mal se ela for um pino cilíndrico, corte as partes roliças e enfie num buraco quadrado! Não ligue para o que ela quer, não importa o quanto a está magoando, os danos que está causando, não importa o que ela teria sido se você não interferisse. Haramis não se importa. Ninguém se importa! Todo mundo só se preocupa com Haramis e com o que ela quer! - Mikayla fez uma pausa para assoar o nariz e continuou. ”E se acontece alguma coisa com Haramis, todos botam a culpa em mim! Se ela tem uma dor de cabeça, é minha culpa. Se fica tonta, ou esquece de almoçar, é culpa minha. Se cair da escada e eu estiver do lado oposto da torre, alguém vai achar que a culpa é minha! Não sou uma feiticeira, sou um bode expiatório.

”Ela diz que está me treinando, diz que está tentando me ensinar a ser a melhor arquimaga que posso ser... mas pode acreditar, no dia em que ela descobrir que eu sou melhor do que ela em tudo, ela vai sair voando pelo telhado da torre! Ela não quer outra arquimaga, quer uma escrava para aprender só o que ela quer ensinar e só até o ponto que quer que eu saiba.

”A única coisa que nunca, jamais posso fazer, é superá-la. Acho que se eu fizesse isso, ela me mataria de verdade. Ainda bem que ela esqueceu que eu consigo falar com os abutres gigantes, logo depois que Fiolon partiu!”

- Você devia se envergonhar de falar desse jeito sobre a Senhora Haramis - disse Uzun com rispidez.

- Por que eu tenho de me envergonhar? Nunca pedi para vir para cá. Estou fazendo o melhor que posso, mas parece que nunca faço nada direito, e todos me detestam, e todo mundo me culpa por tudo que dá errado. Tenho vontade de morrer! ela começou a chorar, mas continuou a falar entre soluços. - E toda vez que fico feliz, todo mundo diz: Oh, não perturbe a Senhora Haramis. Bom, se a Senhora Haramis não queria se aborrecer, talvez devesse ter escolhido outra pessoa para ser sua sucessora!

”Eu sei que ela é da minha família, meio distante, e que devo amá-la. Eu sei que ela é a minha mestra, e que devo servila lealmente - Mikayla já estava soluçando tanto que as palavras saíam aos trancos, quase ininteligíveis - ... mas eu nem gosto dela... e não gosto de mim... e não gosto da minha vida. Eu odeio isso aqui. Preferia viver com um bando de skriteks.”

Ela se levantou e foi para a porta.

- Vou sair para andar um pouco.

- Não é perigoso? - protestou Uzun. - Para onde vai, e quando vai voltar? Não falta muito para escurecer.

- Vou onde eu quiser, e voltarei quando bem entender... provavelmente quando as três luas nascerem juntas no oeste!

E podia levar esse tempo todo mesmo, Mikayla pensou preocupada, horas depois. Estava com frio e completamente perdida no escuro. Eu podia morrer aqui. Sair correndo da torre daquele jeito, sem suprimentos, sem lampião, e com roupas que não são quentes o suficiente para usar ao ar livre, depois de escurecer, não foi a decisão mais inteligente que tomei na vida. Devia controlar melhor minha raiva, eu acho. Se sobreviver a isso, imagino que realmente terei de fazer um esforço maior...

Continuou em frente com muito custo, sem saber para onde estava indo, mas certa de que se parasse ia congelar rapidamente até a morte. E agora que a morte é uma possibilidade real, ela pensou, não tenho tanta certeza de querer morrer, afinal.

Mas ainda não sei se quero voltar fará a torre e ser a menina boazinha de Haramis. Queria ter para onde ir. Por falar nisso, queria poder enxergar para onde estou indo... eu tinha de inventar uma coisa estúpida dessas numa noite de mau tempo.

Foi então que a impossibilidade de ver onde punha o pé se manifestou. Pisou em alguma coisa... nunca teria certeza do que era, pois aconteceu muito rápido... que escorregou sob seu pé, ou talvez ela tenha escorregado, mas foi deslizando, caindo pela borda de algo, mergulhando numa velocidade aterradora. Então bateu no chão ou, mais precisamente, na água. Agua corrente.

Engraçado, achava que não tinha nenhuma água que não fosse gelo por aqui. Onde será que estou? Não faz muita diferença agora, pois vou desmaiar em poucos minutos e morrer logo depois. Mesmo assim ela se debatia, tentando manter a cabeça fora d’água para respirar. De repente alguma coisa ergueu seu corpo para fora da água pelas costas da túnica (tinha perdido a capa quando caiu) e saiu voando com ela.

Foi tremendamente doloroso. Mikayla estava ensopada até a alma, e o que a segurava voava bem depressa. O ar gelado machucava seu rosto e seu corpo, o vento fazia seu cabelo molhado bater no rosto feito chicote, e quando uma mecha grossa bateu na sua boca, descobriu que a água no cabelo tinha congelado. Garras furavam sua túnica e arranhavam suas costas. Não conseguia ver nada na noite escura e estava desesperada demais para se importar se aquela coisa que a carregava podia ver, ou para tentar imaginar se estava tentando salvá-la ou simplesmente a queria para o lanche.

Voaram para cima e ficou ainda mais frio. Parecia que iam voar para sempre, então passaram por cima de uma cordilheira e começaram a descer. O ar ficou bem mais quente de repente, e Mikayla lembrou que os vispis viviam em vales aquecidos por fontes de água quente e que eles eram amigos dos abutres gigantes. Mas os abutres gigantes eram animais diurnos. Um abutre nem devia estar acordado àquela hora, menos ainda ser capaz de ver qualquer coisa.

Fosse o que fosse, parece que conseguia ver. Mikayla sentiu a mudança na pressão do ar quando as asas acima dela bateram para trás e entraram em um tipo de túnel ou caverna estreita.

As garras soltaram Mikayla e ela caiu na água de novo. Mas essa água estava fervendo de tão quente. Ele não quer apenas um lanche, quer um lanche cozido! ela pensou, berrando de dor. Agarrou-se às pedras laterais da piscina, tentando se arrastar para fora, mas seus músculos não respondiam. Só conseguiu manter a cabeça para fora da água para engolir o ar aos poucos, cheia de dor. Lágrimas escorriam pelo seu rosto. Ela achava que nada em sua vida tinha doído tanto.

Depois do que pareceu uma eternidade notou que a água não estava fervendo de verdade. Era só suficientemente quente para aquecê-la, o que realmente era necessário, por mais que doesse. A dor começou a diminuir, ela foi relaxando e então ouviu uma voz dentro da sua cabeça.

- ... e chamam a mim de cabeça de passarinho! - dizia a voz. - O que você estava fazendo lá fora sozinha à noite?

- Fugindo - Mikayla disse zangada. - E agora imagino que vai me arrastar de volta - havia uma luz que entrava por um túnel à esquerda da piscina e deu para ela ver a forma do seu salvador. - Você é um abutre gigante, não é?

- Mais ou menos - ele respondeu, abaixando para vê-la melhor.

Ela viu então que o que achava que era cor, criada pela luz refletida na neve lá de fora, não era. O pássaro era branco. Completamente branco. E os olhos...

- Pode me chamar de Olho Vermelho - ele disse, dando um suspiro. - Todos me chamam assim.

- É mesmo um colorido estranho - disse Mikayla, tentando ser o mais gentil possível. - E pode me chamar de Mika. Jamais revele seu nome verdadeiro para estranhos... e esse é definitivamente estranho.

- Eu posso levá-la de volta ao lugar de onde estava fugindo, ou não - continuou o pássaro. - Já que fugi dos meus criadores, tenho uma certa simpatia por fugitivos.

- Criadores? - perguntou Mikayla. - Quer dizer que você não nasceu assim, simplesmente?

- Você já viu alguma criatura nascer sem sua cor normal?

- Eu li sobre isso - disse Mikayla. - Acontece naturalmente às vezes, tanto com animais como com gente. Chamam de albino.

- Bom, no meu caso, não foi natural - retrucou Olho Vermelho. - Fizeram-me desse jeito, e tentaram me controlar, para eu fazer o que queriam, para espionar para eles, pegar e carregar coisas à noite... é por isso que tenho essa aparência. Queriam um abutre gigante que funcionasse à noite.

- Quem são eles? - perguntou Mikayla, fascinada. Modificar a forma natural de uma criatura viva antes mesmo do nascimento era um nível de mágica que ela não tinha visto antes.

- Os sacerdotes do Tempo da Escuridão - respondeu Olho Vermelho. - Eles moram no cume de uma das outras montanhas.

- Qual delas E onde estamos? Eu me perdi quando saí correndo, depois que escureceu.

O pássaro estava com a cabeça inclinada para um lado, ouvindo atentamente o que ela dizia.

- Você é de Ruwenda, não é?

- Sou - respondeu Mikayla. - Como sabe?

- Pelo jeito que fala - ele explicou. - Encontrei você no pico que vocês chamam de Monte Brom, e estamos agora no que chamam de Monte Rotolo. Quanto ao lugar onde vivem os sacerdotes do Tempo da Escuridão, se tiver sorte, jamais saberá.

O tom do pássaro era tão sério que Mikayla não quis dizer que suspeitava que eles moravam no Monte Gidris. Afinal, era a única das três montanhas principais que o pássaro não tinha mencionado. Alguma coisa no Monte Gidris amedrontava Enya também.

Mikayla se arrastou meio relutante para fora da piscina. A essa altura a temperatura da água já estava agradável, mas a pele das mãos estava toda enrugada, um sinal definitivo de que tinha ficado tempo demais no banho.

- Tem uma pilha de peles lá atrás - disse Olho Vermelho, apontando a ponta da asa para a luz no túnel. - Pendure suas roupas para secar, enrole-se nas peles e durma. Vou sair para caçar. Volto ao nascer do sol, mas por favor lembre que eu durmo de dia. Amanhã à noite discutiremos o que fazer com você.

Mikayla não viu nada de errado naquele plano. Estava cansada como nunca estivera em toda a sua vida.

- Obrigada - ela disse - e boa caçada...

A vida com Olho Vermelho entrou logo numa rotina tranqüila. Mikayla sentia que o pássaro era solitário e parecia feliz de ter sua companhia. Nos primeiros dias ela se contentou em descansar na caverna e comer o que ele pegava em suas caçadas, embora suspeitasse que percorria grandes distâncias só para trazer delícias como togar, um pássaro que ela sabia muito bem que vivia nos pântanos. A dieta básica dele devia constituir de vários tipos de varts, e os pequenos roedores eram um alimento perfeitamente aceitável para Mikayla, que nunca foi de ficar escolhendo o que comia.

Olho Vermelho, depois de declarar que as roupas dela eram inúteis para proteger do frio, ensinou Mikayla como controlar a temperatura do corpo por mágica. Ele sabia muitas mágicas que Mikayla nunca tinha visto antes. Ela ficou imaginando onde tinha aprendido tudo aquilo, mas lembrou da amargura dele quando falava de seus criadores e não quis perguntar.

Depois de aprender a controlar a temperatura do corpo, Olho Vermelho começou a levá-la para passear lá fora à noite com ele. Ela aprendeu a sentir o vento rodopiando em volta da montanha e envolvendo os cumes, e a determinar a espessura de uma camada de nuvens, vendo de cima ou de baixo, sem precisar atravessá-la. Sua visão noturna, que já era boa para um humano, melhorou ainda mais. É claro, ela pensou, que o fato de não estar vendo a luz do dia ultimamente deve ajudar. Como Olho Vermelho, ela adquiriu hábitos noturnos. Dormia o dia inteiro.

Uma tarde acordou ouvindo o tilintar da esfera sobre o peito. Sentou bocejando, puxou-a para fora e pendurou-a na frente do rosto. Viu Fiolon com nitidez. Parecia que a esfera brilhava com luz própria, mas sabia que eram apenas os lampiões no quarto de Fiolon que geravam aquela luz.

- O que houve, Fio? - ela perguntou, sonolenta.

- O que houve? - Fiolon repetiu irritado. - Você sai correndo da torre ao entardecer e não volta, deixa a guarda Nella e dois grupos de busca formados por vispis procurando seu corpo uma semana inteira, nem entra em contato comigo, e quando a chamo, você boceja e ainda quer saber o que houve?

- Desculpe, Fio - Mikayla disse, com muito sono. - Acabei de acordar. E esqueci que você não podia mais pedir ao espelho para me encontrar.

- Oh, Uzun tentou isso primeiro - disse Fiolon rispidamente.

- Ele tentou? - perguntou Mikayla. – Como? A Haramis cedeu em relação ao corpo novo dele?

- Não. Haramis continua a mesma.

- Então ela não está preocupada comigo? - Mikayla disse dando um sorriso largo. - Achava mesmo que ela não ficaria.

Fiolon deu um suspiro.

- Não vamos discutir Haramis, está bem?

- Claro - Mikayla concordou. - Sinto muito por Uzun estar preocupado. Não era a minha intenção. Só que não suportava mais aquele lugar! Ele está bem? Estava todo danificado por ter sido levado de um lado para outro, exatamente como você disse.

- Compreendo seu desejo de sair de lá - disse Fiolon. Mas ele ficou preocupadíssimo com você. Temia que estivesse morta. Quanto ao estado dele, os danos não pioraram. E estou mandando um construtor de harpa de volta com a guarda Nella para ver o que pode ser consertado.

- Nella está com você? - perguntou Mikayla. - Onde você está?

- Estou em Let.

- Let? - Mikayla ficou surpresa. - A última notícia que tive era que você estava indo para Mutavari.

- Eu fui - respondeu Fiolon. - E quando meu tio, o rei, descobriu que eu me entendia com os wyvilos, mandou-me para Let para fazer negócios com eles. A madeira que estou conseguindo está ajudando muito na construção de navios, por isso ele está encantado comigo. Está falando em me dar um ducado.

- Parece muito melhor do que ficar trancado numa torre no meio de lugar nenhum - comentou Mikayla.

- Partes do trabalho são meio complicadas - Fiolon observou. - Não poderia fazer direito sem o sentido da terra. As árvores têm de ser cortadas de forma seletiva. Você não pode sair por aí derrubando tudo em uma área, senão vai provocar erosão, que prejudica tanto a terra quanto a água. Na verdade, eu estou gostando muito - ele admitiu. - Não escondo que tenho alguma habilidade para magia, mas não digo para ninguém tudo que posso fazer. Não quero anunciar que sou um arquimago e ser encarado com espanto supersticioso. Os sentidos e habilidades que tenho devem ser usados para o bem da terra e do seu povo, mas acho que não preciso me isolar de todo contato humano para usá-los.

Então por que Haramis se isola... e espera que eu siga seu exemplo? - Mikayla pensou. Se ser arquimaga só significa ter o sentido da terra e usá-lo pelo bem da terra e do povo, então não é tão ruim assim...

- De qualquer modo - Fiolon continuou falando. - Uzun fez Nella jurar segredo e explicou como se usa o espelho. Ela pediu para ele localizar você, mas só apareceu uma escuridão que, por acaso, é o que estou vendo nessa esfera. Consigo ouvi-la muito bem, mas não posso vê-la.

- Está escuro aqui dentro, Fiolon - Mikayla disse calmamente. - Não poderia me ver se estivesse sentado ao meu lado.

- Então vai ver que foi esse o problema - Fiolon disse distraído, - porque quando Uzun pediu para Nella me localizar o espelho funcionou direito. Então ele mandou Nella para cá para eu tentar encontrá-la.

- Pobre Uzun - Mikayla suspirou. - Se ele tivesse seu corpo novo, talvez pudesse ter a visão e certamente poderia usar o espelho.

- O corpo novo dele ia agüentar o frio aí? - perguntou Fiolon. - Um nyssomu não agüenta.

- Nós guardamos o corpo dele lá, Fio, lembra? - Mikayla observou. - E eu especifiquei tolerância ao frio extremo quando disse o que o corpo precisava ter.

- Eu não sabia disso - disse Fiolon pensativo. - Achei que podíamos guardá-lo lá por causa do modo que estava embrulhado.

- Não - Mikayla balançou a cabeça. - Ficaria bem, mesmo se não estivesse embrulhado. Mas nesse meio tempo espero que seu construtor de harpa seja bom em consertos... você não viu os estragos, viu?

- Nella me deu uma boa descrição.

- Ela contou que o verniz está fissurado em quase toda a superfície e que há três rachaduras na moldura?

- Ela disse duas rachaduras, e disse que o verniz está esquisito.

- Bom, suponho que é uma descrição razoável, especialmente para uma guarda. Para ela, fissurado provavelmente significa alguém que não é bom da cabeça, e não pequenas rachaduras em todo o acabamento da madeira. De qualquer maneira, por favor, diga a ela que sinto muito, e agradeça o que fez por mim... ou por Uzun.

- Você ainda não disse onde está, Mika.

- Numa caverna, em algum ponto do Monte Rotolo.

- Isso não explica grande coisa - protestou Fiolon.

- Apenas diga para Uzun que estou bem e a salvo - disse Mikayla. - Acredite em mim, Fiolon, Haramis não me quer lá. A mulher me odeia. Eu juro. Ela já não gostava de mim no começo, e agora está velha, doente, e não consegue usar sua mágica, e eu sou jovem e saudável e posso fazer mágica... só que ela vive esquecendo isso. Ela nem lembra que eu me comunico com os abutres gigantes. Sua idéia de me dar aulas é fazer com que me sente ao lado da cama e ouça as histórias que conta como se eu fosse uma menininha.

- Isso não parece tão ruim assim - disse Fiolon. - Inútil, talvez, mas não insuportável.

- Ela conta as mesmas histórias todo santo dia, Fio. Dia após dia após dia após dia após...

- Tudo bem, é insuportável.

- Sabia que você ia compreender - Mikayla disse, suspirando. - Eu estava me transformando num monstro lá. Simplesmente tinha de fugir. Não era só ela que eu detestava. Também estava odiando a mim mesma. Agora estou num lugar em que não me odeio e vou ficar aqui por um tempo... talvez até ter de voltar ao templo.

- Templo?

- Você lembra do templo, Fio. Tenho de continuar virgem, e tenho de passar todas as primaveras lá, nos próximos sete anos. Foi esse o preço pelo corpo de Uzun.

- Mas Uzun não está com o corpo novo - protestou Fiolon.

- Não é culpa deles - Mikayla observou. - Eles mantiveram a palavra deles e eu manterei a minha. O que Haramis faz - ela acrescentou com amargura - está fora do nosso controle.

- É verdade - concordou Fiolon. - Vou enviar Nella e o construtor de harpa de volta num abutre gigante amanhã, com uma mensagem para Uzun dizendo que você está bem. O que ele vai dizer para Haramis é problema dele.

- Obrigada, Fio. Mande meu amor para Uzun e diga que sinto muito se o meu comportamento causou preocupação.

- Eu digo. Cuide-se, Mika, e fale comigo de vez em quando.

- Farei isso. Não se preocupe comigo.

Fiolon resmungou alguma coisa que ela não ouviu bem quando a esfera escureceu.

- O que foi isso? - os pensamentos de Olho Vermelho sussurraram na cabeça dela.

- Meu primo - explicou Mikayla. - Ele estava preocupado comigo. E tem razão, eu devia ter me comunicado com ele.

- Você se comunica com essa bolinha? - o pássaro inclinou a cabeça para um lado, olhando para a esfera que Mikayla ainda segurava na frente do rosto.

- É... - respondeu Mikayla, guardando a esfera na túnica - encontramos as duas... ele tem uma igual à minha... numas ruínas no Rio Golobar há alguns anos. Acho que podemos falar um com o outro sem as esferas, mas são um ponto focal conveniente.

- Ele sabe falar com os abutres gigantes? - perguntou Olho Vermelho. - Ele disse isso, não disse? Como é que ele faz?

Mikayla deu de ombros.

- Simplesmente fazendo. Não é tão difícil assim. Eu consigo ouvir você, e aposto que quase todos os vispis também conseguem, se você falar com eles. Nesse caso, creio que o fato de ele ser arquimago de Var deve ter contribuído.

- Então Var tem um arquimago - disse Olho Vermelho. Isso é interessante. Pena que Labornok não tem.

- Não tem? - perguntou Mikayla. - Eu pensava que a arquimaga de Ruwenda fosse também arquimaga de Labornok. Afinal, os dois reinos se juntaram desde que ela se tornou arquimaga.

O pássaro apertou os olhos como se franzisse a testa e baixou a cabeça até ficar no mesmo nível que Mikayla. Ela já estava com ele há bastante tempo para saber que era um sinal de aborrecimento avícola.

- A arquimaga jamais levou em consideração sua responsabilidade por Labornok - ele disse - e ultimamente vem ignorando Ruwenda também. Isso é ruim, para as duas terras e para o povo.

- Ela esteve doente - disse Mikayla. - Não é culpa dela... Ruwenda, quero dizer. Quanto a Labornok, provavelmente nunca os perdoou por terem matado seus pais.

- O bem-estar da terra é mais importante do que os sentimentos pessoais da arquimaga - disse Olho Vermelho muito sério.

Mikayla resolveu que não era uma boa hora para contar para ele que ela devia ser a próxima arquimaga. Além do mais, ela pensou, Haramis pode estar errada quanto a mim. Se eu não captei o sentido da terra quando ela o perdeu, talvez outra pessoa o tenha captado. A terra já pode ter escolhido uma outra arquimaga.

Seu tempo com Olho Vermelho passou numa série de noites calmas, pontilhadas por conversas ocasionais com Fiolon. Logo depois do solstício do inverno, quando começou a chover demais e o corte de madeira teve de ser interrompido, Fiolon voltou para a corte do rei em Mutavari. Mikayla ficou acordada até mais tarde uma manhã para ver um pouco da cidade através dos olhos de Fiolon, enquanto ele dava um passeio, mostrando o lugar para ela.

Uma noite na primavera ela acordou antes de Olho Vermelho, que tinha voado mais longe que de costume na noite anterior. As noites já estavam ficando mais curtas, e ainda havia um pouco de luminosidade do lado de fora da caverna, mas quando Mikayla pegou a esfera e começou a visualizar Mutavari a esmo, viu que lá já tinha escurecido. É claro, ela lembrou, lá é mais a leste que aqui; escurece mais cedo.

Ela focalizou o palácio e se preparou para falar com Fiolon. Ele estava no quarto dele, e ela espiou em volta para certificarse de que estava sozinho. Como usava a esfera para ter a visão, em vez de ligá-la a ele diretamente, podia ver Fiolon e o que havia em volta dele. Ele não estava sozinho. Havia uma mulher na cama dele, uma mulher jovem, poucos anos mais velha que Mikayla, e muito mais bonita. Tinha um corpo muito bem-feito, que Mikayla ainda não tinha, cabelo preto e comprido e olhos azul-safira. Mikayla odiou-a à primeira vista.

O fato do vestido da jovem estar jogado descuidadamente na arca de roupas ao pé da cama não fez Mikayla sentir-se melhor quanto à situação.

Com todo cuidado, Mikayla uniu-se a Fiolon, com tanta suavidade que no princípio ele nem percebeu sua presença. É claro que prestava mais atenção na mulher deitada em sua cama. Mas parecia que tinha acabado de entrar no quarto e encontrado ela ali. Ele estava completamente vestido e Mikayla sentiu que ficou tão surpreso quanto ela.

- O que você está fazendo aqui - ele perguntou para a mulher.

- Vim parabenizá-lo, meu lorde duque - respondeu a mulher num tom de voz sedutor.

- Podia ter feito isso perfeitamente bem no Grande Salão quando o rei fez o pronunciamento - observou Fiolon, procurando manter a calma.

Mikayla sentia as emoções dele, mas não estava acostumada com elas: uma mistura de nervosismo e excitação. Fiolon costumava ser muito calmo.

- No Grande Salão - a mulher anônima riu. - A elevação do seu título merecia uma celebração, e certamente não podíamos celebrar direito no salão.

Ela deslizou da cama e atravessou o quarto - como um verme do pântano, pensou Mikayla com maldade -, enroscou os braços no pescoço de Fiolon e beijou-o na boca. Mikayla sentiu um raio percorrer seu corpo e percebeu que o elo com Fiolon fazia com que ficasse totalmente aberta para tudo que ele sentia. E a sensação dele era muito estranha. Não era nada parecido com o que ela sentira quando Timon tentou beijá-la; aquilo era meio quente, e estonteante, como algum tipo de mágica, a energia fluindo entre seus corpos. Lembrou Mikayla do jeito que o cântico tinha tomado conta dela naquele primeiro dia no Templo de Meret. Os pensamentos de Fiolon estavam se desligando, iguais aos dela; seus escudos de proteção não funcionavam e a mulher estava sugando energia dele como um skritek afogando sua presa.

- Fiolon! - Mikayla chamou-o aflita. - Acorde! Lute contra isso!

- Fiolon levantou a cabeça e olhou em volta do quarto, como se estivesse tonto.

- Pense, Fiolon! O que você está fazendo?

- Mika? - quis saber a mulher, se contorcendo e tentando puxar Fiolon mais para perto, o que Mikayla poderia jurar que era fisicamente impossível.

Fiolon sentiu um calor de febre através do elo e Mikayla também teve uma sensação estranha. Quando Fiolon empurrou a mulher para longe, uma parte de Mikayla sofreu junto com ele.

- Minha prometida - Fiolon disse irritado, pegando uma capa de um cabide perto da porta. - Vou sair, e sugiro que se vista e faça o mesmo. Se encontrá-la aqui outra vez, você vai se arrepender - o tom de voz de Fiolon era tão sério que a mulher ficou amedrontada.

- Não sabia que você era comprometido - ela disse, nervosa. - Por que nunca fala dela?

- Com certeza porque fofoca nunca foi um dos meus passatempos preferidos - disse Fiolon sem piedade, dando meiavolta e saindo com passos largos do quarto.

Ele saiu do palácio e encaminhou-se para um canto deserto da praia. Os pescadores cujos barcos estavam na areia deviam ter ido para casa almoçar, pensou Mikayla.

Fiolon pegou a esfera. Estava abatido e parecia preocupado.

- Mika - ele chamou. - Você está bem?

- Acho que sim - respondeu Mikayla trêmula. - O que foi aquilo? Quem era ela?

- Ninguém importante - respondeu Fiolon. - Apenas uma das damas da corte.

- Tive a sensação de que ela estava tentando usar mágica com você - disse Mikayla apreensiva.

Fiolon balançou a cabeça.

- Não. Aquilo não era mágica. Apenas sexo. Para a maioria das mulheres da corte, é o único bem que possuem.

- Foi por isso que disse que érarhos comprometidos? Para ela deixá-lo em paz?

Fiolon deu um suspiro.

- Pode ajudar... ela vai falar, é claro, todas elas falam. Não que o fato de eu ser comprometido seja problema para algumas. Existem muitas que não hesitariam nem se eu fosse casado.

- Mas e se descobrirem que você não é comprometido de verdade?

- Vou falar com o rei e garantir que ele não negue isso - disse Fiolon. - Não se viaja muito daqui para a Cidadela para alguém poder perguntar aos seus pais, e de qualquer maneira, eles nem sabem o que você anda fazendo ultimamente.

- Mas eles sabem que eu devo ser arquimaga... - Mikayla descobriu uma coisa de repente. - Você é um arquimago, e ninguém espera que seja celibatário. Isso quer dizer que também não preciso ser - ela teve uma breve esperança de que talvez Fiolon e ela pudessem se casar, afinal. - Ah, é mesmo, eles não sabem que você é arquimago, não e?

- É - disse Fiolon -, mas acho que não faz muita diferença. Eles acham que sou um poderoso mago. E fiquei observando outros magos na corte. Vários parecem não sentir a menor necessidade de serem celibatários - ele franziu a testa. - Terei de pesquisar esse assunto - ele disse.

- Enquanto pesquisa - disse Mikayla - vê se descobre por que eu ainda não amadureci fisicamente. Minhas irmãs já eram maduras na minha idade. Tinha esquecido disso, mas o que aconteceu me fez lembrar de novo.

- Vou ver o que posso descobrir - prometeu Fiolon. Parece que estou envelhecendo mais devagar que o normal também, então pode ser porque usamos mágica.

- Se você também não está completamente amadurecido - perguntou Mikayla - por que ela estava tentando seduzi-lo?

- Ah, isso é simples - explicou Fiolon. - Meu tio, o rei, tinha acabado de me fazer duque de Let. Anunciou isso na corte hoje.

- Compreendo.

Mikayla entendia perfeitamente. Podia não ter prestado muita atenção à política da corte quando criança, mas teria de ser cega e surda para não ter descoberto como funcionavam as coisas na corte quando tinha nove ou dez anos, que dirá aos doze. Fiolon era o melhor partido. Seria um alvo para toda moça ambiciosa do reino. Não admira que ele quisesse fingir ser comprometido!

Bom, para ela estava tudo bem. Se não fosse a sua promessa ao Templo de Meret, e o fato de Haramis com certeza ter um chilique e fazer algo horrível com eles, Mikayla estaria disposta a voar para Var e casar com Fiolon aquela noite mesmo.

Ouviu o farfalhar de penas ali perto. Olho Vermelho estava acordando.

- Tenho de ir agora, Fiolon - ela disse. - É hora de caçar. Você vai ficar bem?

Fiolon fez uma careta.

- Tenho de voltar para o palácio e mudar de roupa para o banquete formal que vai celebrar meu novo título. Só espero poder manter meu quarto livre de companhias indesejadas.

- E o que acha de uma ilusão - sugeriu Mikayla. - Lingits gigantes tecendo teias grudentas na cama toda... ou pássaros noturnos esvoaçando e embaralhando suas asas no cabelo de qualquer uma que perturbe você

- É uma idéia - disse Fiolon, sorrindo pensativo.

- Oh, meu lorde duque - continuou Mikayla num tom provocante - não leve isso a mal, mas... parabéns!

Fiolon jogou a cabeça para trás e deu uma gargalhada, assustando um monte de gaivotas.

- Obrigado, princesa - ele disse, fazendo uma mesura cortês. - Boa caçada.

- Boa sorte na fuga das caçadoras - respondeu Mikayla. Cuide-se, Fio.

- Cuide-se, Mika.

Mikayla continuou a voar com Olho Vermelho, e Fiolon voltou para Let assim que pôde. Mas o incidente tinha feito Mikayla lembrar da promessa de ir para o Templo de Meret na época combinada. Por isso observou as luas e esperou chegar a hora.

- Olho Vermelho - ela disse quando estavam se preparando para voar numa bela noite de primavera. - Eu gostei demais de ficar com você, mas amanhã tenho de estar em outro lugar. Pode levar-me ao Monte Gidris quando o sol nascer?

- Monte Gidris?

Engraçado, ela pensou, ele parece perturbado, quase assustado. Ah é, seus criadores moram lá, não é?

- Você não precisa ficar muito tempo lá - ela disse, tentando tranqüilizá-lo. - É só descer antes do alvorecer e me deixar perto do Templo de Meret. Fica no lado norte...

- Eu sei onde fica - disse o pássaro carrancudo. - O que você vai fazer lá?

- Cumprir uma promessa - ela respondeu.

- Diga - ele disse. - Que promessa é essa?

- Permanecer virgem e passar um mês lá toda primavera, por sete anos, como uma das Filhas da Deusa Meret.

Olho Vermelho abaixou a cabeça e olhou furioso para ela.

- E o que recebe em troca disso?

- Eles fizeram um corpo para um amigo meu, cujo espírito está preso numa harpa. Eles cumpriram a promessa deles, e tenho de cumprir a minha.

- O seu primo sabe disso? - perguntou Olho Vermelho. Ele fazia questão de ficar acordado e ouvir todas as conversas dela com Fiolon. A idéia de um arquimago macho parecia deixá-lo fascinado. - Ele aprova isso?

- Ele não é meu dono - Mikayla observou. - E, sim, ele sabe. O pássaro fez um som de desgosto.

- E ele conhece alguma coisa sobre esse templo?

- Não muito - disse Mikayla.. - Quando comecei a ter aulas, falava com ele todas as noites enquanto as outras Filhas estavam no ritual da Segunda Hora da Escuridão. Mas assim que aprendi o bastante para juntar-me a elas em todos os rituais, não tive muita chance de falar com ele.

- E também porque você fala com ele em voz alta - disse Olho Vermelho.

- É mais fácil assim. E não há muita privacidade no templo - admitiu Mikayla. - Tive de tomar cuidado para eles não descobrirem a esfera.

Olho Vermelho olhou bem para ela.

- Se você entrar lá vestida desse jeito, eles vão encontrá-la imediatamente.

Mikayla examinou a roupa desconsolada. Desde que aprendeu a controlar a temperatura do corpo não prestava quase atenção às roupas que usava. Fazia questão de lavar sua túnica de vez em quando, mas já estava muito desbotada e devia ter encolhido ou então era ela que tinha crescido de novo. E o decote não escondia mais a fita da esfera, que continuava, mesmo depois de passar por tudo que passou, com o mesmo verde brilhante que tinha quando a encontrou.

- Você tem razão - ela disse, olhando para os olhos vermelhos que a encaravam. - Pode guardá-la para mim, por favor? - ela pediu. - Só por um mês.

Olho Vermelho abaixou a cabeça outra vez.

Ele está realmente perturbado, pensou Mikayla. Por quê?

- Guardarei a esfera para você - ele disse - e vou levá-la até o templo antes do alvorecer e pegá-la dali a um mês. Mas quero que me prometa uma coisa.

- O quê? - perguntou Mikayla. - O que posso fazer por você que não é capaz de fazer você mesmo?

- Toda noite, quando for para a cama depois do ritual da Segunda Hora da Escuridão, você vai se comunicar comigo. Não importa o que acontecer. Não importa se estiver muito cansada. Toda noite. Você pode fazer isso em silêncio. Ninguém saberá o que está fazendo. Você promete?

- Prometo.

- Toda noite?

- Toda noite.

- Ótimo. E se o seu primo que pode se comunicar com os abutres gigantes usar a esfera para falar com você, eu direi onde você está e se está bem.

Mikayla chegou para frente impulsivamente e abraçou o pássaro como pôde.

- Obrigada, Olho Vermelho. Você é um príncipe entre os abutres gigantes.

- Então venha - Olho Vermelho estendeu uma asa. Vamos voar.

Logo antes do sol nascer Mikayla estava de novo no caminho perto do templo no Monte Gidris, vendo Olho Vermelho voar para longe, com a esfera bem amarrada numa pata.

- Bom vôo, Olho Vermelho - ela sussurrou.

Então ela desceu a trilha até o templo, fez um feitiço para ficar invisível até chegar ao seu quarto, refrescar-se e vestir a roupa adequada para o ritual da aurora.

A Filha Mais Velha olhou satisfeita para ela quando juntou-se às irmãs na procissão para a capela, mas, como sempre, ninguém falou até depois do desjejum. Aí Mikayla já estava no ritmo dos rituais de novo e começava a sentir que nunca tinha saído dali.

- Você lembrou da sua promessa, Irmã - disse a Filha Mais Velha. - A Deusa está satisfeita.

- Obrigada, Filha Mais Velha - disse Mikayla. É bom estar de volta, ela pensou. É bom ser aceita, e a companhia humana pode ser agradável às vezes... dependendo dos humanos, é claro.

Conforme havia prometido, Mikayla falava com Olho Vermelho todas as noites, embora não tivesse nada para contar. Todos os dias eram como todos os outros no templo, e depois de pouco tempo ela já achava que nunca saíra dali. A única mudança na rotina era o Festival de Primavera, que celebrava a maré alta anual do Rio Noku quando a neve começava a derreter.

A Filha Mais Nova representava a Deusa na procissão e passava a maior parte do dia sendo carregada pelos homens do templo num trono de madeira todo trabalhado, com espaldar alto, enquanto as outras Filhas, com mantos verdes, caminhavam dos dois lados do trono carregando leques que impediam que a maioria da congregação visse se havia realmente alguém sentado no trono. Todas tiveram de aprender mais cânticos para o festival, mas Mikayla já achava tudo mais fácil.

Contou isso obedientemente para Olho Vermelho, revelando sua opinião de que aquele ritual era muito aborrecido. O abutre parecia achar graça.

Então o Marido da Deusa Meret foi ao quarto das Filhas uma tarde. Mikayla ficou espantada ao vê-lo ali, mas as outras não demonstraram surpresa alguma. Nervosismo, e uma certa excitação contida, mas nenhuma surpresa.

- Por que ele está aqui? - Mikayla sussurrou para a menina perto dela.

A menina olhou para ela espantada.

- É a Escolha - ela sussurrou também. - Ele escolhe a Filha Mais Nova para o ano que vem.

- Ah.

Mikayla ficou quieta, em silêncio, seguindo o exemplo das outras. Lembrou da primeira noite naquele lugar, no último outono, quando percebeu que uma das Filhas era chamada de ”Mais Nova”, tendo ou não menos idade. Mas não tinha idéia de como aquela ”Mais Nova” era escolhida. Acho que vou descobrir logo.

O sacerdote usava um manto negro, como sempre, e a máscara dourada. A Filha Mais Velha pôs a máscara também. Parecia que tinha levado a máscara da capela exatamente para isso. Pegou uma pequena arca no seu quarto e a pôs no pequeno altar que ficava num lado do quarto. É claro que Mikayla tinha notado o altar, logo na primeira vez que chegou ao templo, mas nunca o tinha visto sendo usado.

A Filha Mais Velha tirou uma tiara dourada da caixa. Mikayla ficou olhando para ela maravilhada. Era a coisa mais incrível que tinha visto. Parecia feita de ouro puro, a julgar pelo esforço que a Filha Mais Velha teve de fazer para tirá-la da caixa. A tiara tinha a forma de um abutre gigante, o pescoço da ave ficava no alto da testa de quem usava, arqueado e com a cabeça bem para frente. A espinha do pássaro percorria o topo da cabeça e as penas da cauda ficavam levantadas atrás, e as asas, tão bem-feitas que cada pena era cortada no ouro e as das pontas pareciam móveis, eram viradas para baixo de modo que — cobriam os lados da cabeça da pessoa que usava a tiara. Deve ser pesada, pensou Mikayla, observando a Filha Mais Velha e o Marido da Deusa segurando a tiara diante do altar.

As Filhas sentaram em seus lugares no longo banco na frente da lareira e Mikayla apressou-se em juntar-se a elas. Se alguém tinha notado seu deslumbramento, estava ignorando, mas Mikayla se sentiu deslocada e insegura pela primeira vez desde que tinha aprendido todos os cânticos.

O sacerdote deu início a um novo cântico, que Mikayla ainda não tinha ouvido.

- Louvemos o Cume do Sul - ele cantou.

- Beijemos o chão diante da hemsut - respondeu a Filha Mais Velha.

- Louvemos Meret, a Poderosa.

- Louvemos Meret, a Invisível.

- Louvemos Meret, a Excelsa.

- Louvemos Meret, a Mãe da Terra.

- Louvemos Meret, a Fonte do Rio.

- Louvemos Meret, a Fonte do Mar.

- Louvemos Meret em sua Infinitude.

- Louvemos Meret em sua Invisibilidade.

- Louvemos Meret em sua Escuridão.

- Louvemos Meret em sua Escolha.

Juntos, o Marido da Deusa e a Filha Mais Velha passaram pela frente da fila de virgens sentadas em silêncio no banco. Seguravam a tiara em cima da cabeça de cada uma. Mikayla ficou espiando com o canto do olho, imaginando qual era o objetivo de tudo aquilo, já que nada acontecia. Então chegou a sua vez, e quando seguraram a tiara em cima da sua cabeça, foi como se escapasse das mãos deles.

Estava a alguns centímetros da sua cabeça, mas para Mikayla parecia que tinham deixado a tiara cair de uma grande altura. Retesou os músculos do pescoço para suportar o peso e apertou uma mão na outra. Por um momento teve a curiosa sensação de que a tiara estava mexendo, como o pássaro que representava, para ajustar-se melhor à sua cabeça... melhor para ela, pelo menos. Mikayla achava que nunca acharia aquilo confortável.

- Louvemos a Meret por sua Escolha.

As outras Filhas uniram-se à Filha Mais Velha e ao Marido da Deusa repetindo o cântico, enquanto ajudavam Mikayla a ficar de pé na frente do altar. Mikayla ficou lá quieta, querendo saber o que esperavam que fizesse. Mas parecia que não tinha de fazer nada, pois ninguém deu a entender que estava deixando de fazer alguma coisa.

As Filhas começaram a formar a fila de sempre para entrar na capela e Mikayla percebeu que era hora do ritual da Hora em que o Sol Abraça o Cume Sagrado. Mas antes de chegar ao seu lugar habitual no fim da fila, o Marido da Deusa e a Filha Mais Velha puxaram-na para ficar entre os dois.

Chegaram à capela e as Filhas sentaram no banco, deixando dois lugares na ponta em que a Filha Mais Velha costumava sentar. A Filha Mais Velha e o Marido da Deusa, que ainda seguravam Mikayla, levaram-na para o tablado bem à vista de toda a congregação. Mikayla, que não era o alvo da atenção de tanta gente assim desde o dia em que deixara cair uma faca num jantar de gala quando tinha dez anos, ficou paralisada e insegura. Não se preocupe, pensou, o Marido da Deusa e a Filha Mais Velha não querem que você cometa erros, e vão providenciar para que isso não aconteça.

Felizmente parecia que ninguém esperava que ela dissesse nada, o que era bom, porque não sabia se ia conseguir falar com todo aquele peso na cabeça. O Marido e a Filha Mais Velha da Deusa é que falaram... ou cantaram... apresentando Mikayla para a congregação como a Escolhida, a Amada Filha Mais Nova da Deusa. Então a Filha Mais Velha levou Mikayla para trás da cortina e indicou o lugar ao lado dela. A menina do outro lado, que tinha sido a Filha Mais Nova no ano anterior, segurava a caixa da tiara no colo. A Filha Mais Velha pegou a tiara e guardou na caixa, que a Filha pôs embaixo do banco. Mikayla conteve um suspiro de alívio quando tiraram

aquele peso da sua cabeça.

Depois do ritual, quando as Filhas voltaram para seus aposentos para jantar, as outras cumprimentaram Mikayla por ter sido favorecida pela Deusa. Quando sentaram para comer, Mikayla foi posta entre a Filha Mais Velha e a Filha Mais Nova do ano anterior, e ela percebeu que aquilo representava uma mudança permanente na graduação oficial... pelo menos até o ano que vem, quando escolherem outra, pensou.

O ritual da Segunda Hora da Escuridão voltou ao normal também, fora o novo lugar de Mikayla na fila. Mesmo assim ela estava mais cansada que nunca quando foi para a cama... tão cansada que quase adormeceu sem falar com Olho Vermelho.

Lutou contra o sono ao enviar seus pensamentos para o Monte Rotolo.

- Olho Vermelho.

- Mika - a resposta do pássaro foi imediata, como sempre. Mikayla suspeitava que ele conhecia seu programa tão bem quanto ela. - Outro dia tranqüilo, espero.

- Nem tanto - informou Mikayla. - Eu fui Escolhida.

- A Filha Mais Nova do ano? - havia um tom de ansiedade nos pensamentos da ave.

- É - pensou Mikayla. - E aquela tiara pesa quase tanto quanto você, e estou cansada demais...

- Mika! - um pensamento forte. - Alguém disse alguma coisa sobre um jubileu?

- Não - Mikayla pensou, sonolenta. - O que é jubileu?

- Tem certeza? - Olho Vermelho insistiu.

- Tenho certeza. Nunca ouvi essa palavra na vida - aquilo fez reviver uma idéia, mesmo sonolenta. - Houve uma palavra no ritual que eu nunca tinha ouvido.

- E qual foi? - perguntou o pássaro.

Ah! - - Estou pensando - Mikayla lembrou do dia de trás para frente. - Beijemos o chão diante da hemsut... a Filha Mais Velha disse isso. O que é hemsut?

- Ah, isso - Olho Vermelho parecia aliviado. - Não precisa se preocupar com isso, é só uma palavra especial para designar um espírito feminino. Ela estava falando da Deusa, não é?

- É - pensou Mikayla com sono. - Era parte de um longo cântico de louvor à Deusa.

- Tudo bem, então. Vá dormir, Mika.

Mikayla não teve problema em seguir aquela sugestão.

Na manhã seguinte, depois do ritual da Primeira Hora, a Filha Mais Velha pôs a tiara em Mikayla de novo e levou-a para os fundos do templo, por um caminho no qual o chão ia subindo e o teto ia ficando mais baixo em cada cômodo.

- Para onde estamos indo? - Mikayla murmurou baixinho, tão ansiosa que até ignorou o hábito de não falar até depois do café da manhã.

- Você vai ser apresentada à Deusa - sussurrou a Filha Mais Velha. - Fique quieta.

Mikayla teve de prender uma exclamação de surpresa quando chegaram ao destino. A parte dela que vivia no templo reconheceu que estava no lugar mais sagrado, no Santuário onde a Deusa vivia, onde só os sacerdotes mais graduados iam. A outra parte que tinha explorado a torre de Orogastus com Fiolon reconheceu a sala que tinha visto no espelho mágico.

O Marido da Deusa estava lá junto com outro homem, os dois vestidos de preto, com véus pretos também. Mikayla achava que nunca tinha visto aquele homem antes. Os dois abriram o sacrário, uma espécie de armário preso à parede de rocha maciça, e respeitosamente tiraram a estátua de madeira da Deusa.

Mikayla prestou atenção na Filha Mais Velha para tentar adivinhar o que devia fazer. Juntas, elas despiram a estátua e a puseram deitada na mesa. O homem com o véu preto untou a estátua com uma espécie de óleo que tinha um cheiro muito estranho para Mikayla... não lembrava nenhum cheiro que tivesse experimentado antes. Enquanto ele fazia isso, o Marido da Deusa ficou perto da cabeça da estátua, balançando um turíbulo que soltava uma nuvem densa de incenso.

Terminada aquela operação, as mulheres vestiram a estátua com roupas limpas tiradas de uma arca que ficava num canto do santuário, e os homens pegaram comida e vinho de outro baú e puseram numa mesa pequena ao lado do sacrário. Então eles levantaram a estátua diante do sacrário e a Filha Mais Velha empurrou Mikayla gentilmente, indicando que devia ajoelhar-se diante da estátua.

Mikayla ajoelhou e olhou para o rosto da estátua. Embora soubesse que era apenas madeira pintada, podia jurar que os olhos estavam vendo, avaliando e julgando, enquanto o Marido da Deusa e a Filha Mais Velha pediam à Deusa para abençoar sua Filha Mais Nova Escolhida. Mikayla ficou contente quando o ritual acabou e a Filha Mais Velha levou-a de volta para a capela para guardar a tiara na caixa antes de voltar para o salão das Filhas e tomar o café da manhã com as Irmãs.

O resto do mês no templo se dividiu entre os cânticos e os rituais diários, e as aulas sobre o papel da Filha Mais Nova para o Festival de Primavera do ano seguinte. Era uma vida agradável e tranqüila, e ficou quase triste quando o mês terminou e chegou a hora de voltar para o mundo lá fora, principalmente por achar que era seu dever retornar à torre e ver como estavam Haramis e Uzun.

Mas era hora de partir. Olho Vermelho foi buscá-la logo depois de escurecer, depois do ritual da Hora em que o Sol Abraça o Cume Sagrado, e levou-a diretamente para a torre de Haramis.

- Fiolon pediu para você me trazer para cá? - perguntou Mikayla.

- Pediu - respondeu o pássaro. - Ele diz que precisam de você aqui.

- Oh, céus - suspirou Mikayla, escorregando das costas da ave e pisando no terraço.

Olho Vermelho estendeu uma pata para ela poder desamarrar a esfera. Mikayla pôs a esfera no pescoço e abraçou o grande pássaro.

- Voe, Olho Vermelho, e boa caçada.

- Cuide-se, Mika - disse o pássaro voando noite adentro. Mikayla entrou sem fazer barulho e chegou ao seu quarto sem ser vista. Tinha perdido o jantar no templo, mas não estava com vontade de ficar perambulando à procura de comida. Preferia ficar com fome a ter de enfrentar qualquer um na torre aquela noite.

Mikayla acordou de repente. Percebeu logo que faltavam duas horas para o sol nascer e que, apesar do aquecimento da torre, seu quarto estava frio como o outono. Alguma coisa estava muito errada. Sentia isso. Tentou descobrir o que era, deixar de lado o pressentimento generalizado, beirando o terror, para determinar exatamente o que estava errado.

Então sua cama começou a balançar violentamente de um lado para outro, mas o quarto continuava às escuras. Ela gritou.

- Quem está aí?

Mas ninguém respondeu e ela achou que era uma idiotice. Se tivesse alguém no quarto, saberia.

Depois do que pareceu longos minutos, mas que deve ter sido menos que um, o tremor parou. Mikayla sentou na cama, acendeu uma luz e avaliou tudo em volta. O travesseiro, que tinha empurrado para longe enquanto dormia, estava caído no chão, mas fora isso, tudo parecia intacto. Foi um terremoto, Mikayla pensou. Foi isso que a fez acordar, a sensação de que um grande terremoto ia acontecer.

Mas não podia haver nenhum terremoto, especialmente ali. Devia haver alguma outra explicação. Seria alguma mágica que Haramis estava fazendo sem ela? Será que Haramis estava bem o bastante para fazer mágica?

Meio ano tinha passado desde que Mikayla saíra do Templo de Meret e voltara para a torre. A guarda Nella e a Dama Bevis tinham voltado para a Cidadela mais ou menos um mês depois da chegada de Mikayla, dizendo que a Senhora já estava bem e não precisava mais delas, mas Mikayla ainda não tinha notado nenhum sinal de que Haramis estivesse recuperando suas habilidades mágicas.

Haramis já conseguia vestir-se e alimentar-se sozinha, apesar de ainda meio desajeitada, e já andava também, e podia descer para o estúdio e passar horas conversando com Uzun. Uzun continuava uma harpa, mas Fiolon tinha cumprido sua promessa de consertá-la enquanto Haramis ainda estava presa ao leito.

Mikayla queria poder deitar de novo e voltar a dormir, mas achava que iam precisar dela logo. Por isso saiu da cama, vestiu o robe e calçou os chinelos, e foi saber o que estava acontecendo.

Haramis não estava na sala de trabalho, nem no estúdio, onde Mikayla encontrou Uzun encostado na parede. Correu para pô-lo de pé na posição normal de novo.

- O que aconteceu, Uzun?

- Foi um terremoto, princesa, e temo que um mau presságio também - a harpa, tocando em tom menor, parecia agourenta. - Fico feliz de você estar aqui.

- Um terremoto? - Mikayla não podia acreditar. - Estamos no topo de uma légua de rocha maciça! Como é que podemos ter um terremoto aqui?

- Não devia - respondeu Uzun. - Onde está a Senhora?

- Eu não sei - disse Mikayla. - Estava à procura dela quando cheguei aqui. Achei que devia estar trabalhando em algum encantamento, mas ela não está na oficina. E provavelmente não está dormindo com essa comoção toda... ninguém conseguiria!

Como se quisesse provar o que Mikayla dizia, Enya chegou apressada.

- Ah, você está aí, princesa - ela disse. - Você está bem? O mestre Uzun está bem?

Mikayla fez que sim com a cabeça.

- A não ser pelo fato de que não gosto muito de ser acordada duas horas antes do sol nascer, estou bem. Você viu a Senhora?

Enya franziu a testa.

- Não, não vi, e ela costuma ser a primeira a aparecer quando acontece qualquer coisa estranha.

- Acho que devemos ir procurá-la - disse Mikayla hesitante. - Não quero perturbá-la se ainda estiver dormindo, mas...

Enya balançou a cabeça energicamente.

- Ela jamais teria dormido com uma coisa dessas. É melhor ir ver se está bem.

Enya abriu a porta do quarto de Haramis devagarinho e parou consternada. Mikayla espiou por cima do ombro dela e viu Haramis caída no chão perto da cama, bem visível à luz do corredor. Elas correram para perto da arquimaga. Seus olhos estavam abertos e ela pareceu reconhecer as duas, mas quando tentou falar, as palavras saíram tão embaralhadas que não deu para entender.

Enya engoliu em seco e fez um sinal contra o mal.

Mikayla tentou abafar a sensação de terror e pânico que crescia dentro dela. É um outro distúrbio cerebral, concluiu. Tem de ser... senão por que a terra tremeria tanto? O que faço agora? Não sei como cuidar dela quando está assim! Mas ninguém mais aqui sabe também, aposto. E se ela morrer! Será que é minha culpa? Não faço nada para aborrecê-la há meses! E mesmo se às vezes quero que ela morra, não é isso que eu quero de verdade!

Mikayla olhou para Enya e para Haramis e resolveu pelo menos tentar ser prática. Enya ainda não estava pronta para ajudar. Parecia considerar o que estava vendo como um feitiço do mal.

- Vamos levá-la para a cama - sugeriu Mikayla. - Ela não pode estar confortável no chão desse jeito.

Felizmente Haramis não era uma mulher grande, pois estava quase completamente inerte quando a ergueram e arrastaram para a cama. Não conseguia controlar seu braço e sua perna esquerdos, aliás, nem podia movê-los. Isso deu mais certeza ainda a Mikayla de que devia ser a mesma coisa que tinha acontecido antes com Haramis, na Cidadela. E queria que ela estivesse lá agora, pensou. Lá, pelo menos, eles sabiam como cuidar dela.

Depois que Haramis já estava bem segura na cama, a cabeça de Enya começou a funcionar de novo.

- Há uma velha curandeira que cuida dos empregados - ela disse. - Acho que devemos chamá-la. As mãos e os pés da Senhora estão gelados. Vou fazer um chá bem quente e pôr tijolos aquecidos nos seus pés. Isso não pode fazer mal.

Quando o chá chegou Haramis não conseguia sentar para beber, então Enya segurou-a e deu um pouco da bebida quente com a colher na boca da Senhora. Mikayla, que não queria cuidar de alguém tão doente a ponto de não conseguir se mexer, aceitou aliviada a sugestão de Enya de ir depressa aos aposentos dos empregados enquanto ela alimentava a Senhora, para pedir para a mulher oddling que cuidava dos servos feridos ou doentes para ver Haramis imediatamente.

- O nome dela é Kimbri - Enya disse para Mikayla. - A arquimaga sempre foi tão forte e saudável que jamais precisou de uma curandeira antes... pelo menos o tempo que esteve aqui, e não há nenhum curandeiro humano por perto.

Mikayla correu para a cozinha, feliz de ter uma desculpa para sair do quarto. Uma das mulheres que estava fazendo pão disse que Kimbri tinha ido até a casa da mulher do jardineiro, que ia dar à luz em poucos dias. Todos os outros empregados estavam amontoados na cozinha, comparando relatos de como o terremoto tinha despertado cada um deles. Mikayla mandou o homem vispi que trabalhava no estábulo encontrar a curandeira, mas o jeito que ele olhou para ela fez Mikayla lembrar que não estava vestida. Correu para o seu quarto e vestiu a primeira roupa que encontrou, depois voltou lá para baixo para esperar a curandeira.

Em pouco tempo a mulher oddling apareceu. Era uma vispi com uma falsa aparência de fragilidade, com o cabelo grisalho enrolado no topo da cabeça. Mikayla contou o que tinha acontecido, tentando parecer menos preocupada do que estavá realmente.

A oddling falou com calma.

- Sim, ela não é jovem. Não me surpreende que esteja começando a sofrer dos males da idade. Minha avó mesmo teve um ataque desses quando estava com noventa anos. Não tenha medo, pequena Senhora. Não é provável que a Senhora morra por agora. Os que sofrem esses ataques normalmente morrem de uma vez, e se não morrem, podem viver muito tempo ainda. É possível que a Senhora continue viva por muitos anos.

- Eu espero que sim - disse Mikayla. - Se qualquer coisa acontecer com ela, eu serei a arquimaga. E não estou nem um pouco preparada para isso ainda.

Ela seguiu Kimbri escada acima para o quarto da arquimaga. Kimbri inclinou-se sobre o corpo inerte da mulher idosa e sentiu seu pulso.

- Não podemos fazer mais nada - ela disse para Mikayla. - Ela vai viver e ficar mais forte, ou não. Por hora, é só o que se pode fazer.

- Mas o que provoca isso?

- Ninguém sabe. Talvez os Antigos soubessem, mas temos tão pouco da sabedoria deles...

- Mas não há nada que possamos fazer? - perguntou Mikayla. - Isso já aconteceu com ela antes, na Cidadela, e o tratamento foi com veneno de verme do pântano.

- Você sabe quanto usaram, quais as doses que deram para ela, e onde encontrar isso? - Kimbri perguntou em voz baixa.

Mikayla balançou a cabeça.

- Então tudo que podemos fazer é ter paciência - disse Kimbri, acrescentando com simpatia -, embora às vezes essa seja a coisa mais difícil de todas. E procure mantê-la animada, o máximo possível.

Mikayla achou que aquilo era a coisa mais difícil. Sabia muito bem que Haramis não suportava de bom grado os tolos ou as fraquezas, se é que suportava. Tinha a sensação de que Haramis doente ia ser uma companhia muito desagradável, especialmente quando se recuperasse um pouco e pudesse reclamar do seu estado.

Mikayla tinha resolvido que a arquimaga ia ficar boa. Jamais lhe ocorreu pensar que se Haramis morresse, poderia se libertar. Já sabia que isso nunca aconteceria. Estava se resignando a tornar-se arquimaga. Mas, por favor, ainda não, ela pensou. Não tão cedo.

Ela deu um suspiro quando descia a escada para enfrentar a nova tarefa: dar a notícia para Uzun.

A harpa soluçava feito criança, mas com um sopro metálico.

- Eu a amo demais - disse Uzun finalmente. - Se não fosse por ela e por sua mágica, eu teria me juntado há muito tempo aos meus antepassados no outro mundo, seja qual for. Foi só por ela que eu quis ficar. Se a Senhora se for, minha longa vida será apenas uma enorme tristeza.

Mikayla, apesar de estar com medo também, tentou consolar o velho mago.

- Não se preocupe, Uzun, ela vai melhorar logo.

- Vai mesmo? Ela é bem mais velha que eu. E toda a minha família e meus amigos já morreram há anos. Se alguma coisa acontecer com ela, eu ficarei completamente sozinho no mundo.

Mikayla teve vontade de dizer, não vai não, Uzun, eu estou aqui, e se alguma coisa acontecer com ela, vou precisar dos seus conselhos muito mais do que ela precisou. Mas sabia que seu relacionamento com Uzun era muito diferente do que ele tinha com Haramis, por isso ficou calada.

E, como se não tivesse bastante coisa para se preocupar, Mikayla lembrou que Haramis uma vez tinha dito que quando a outra arquimaga morreu, sua torre ruiu imediatamente e virou pó... e por isso Haramis foi morar naquela, construída por Orogastus. Mikayla esperava que não acontecesse o mesmo com a torre de Haramis.

Sentia-se como uma menina bem pequena. Tinha vontade de chorar. Mas, diante da dor de Uzun, como podia esperar que ele se preocupasse com os seus problemas? Deu um tapinha na coluna da harpa, feliz de Fiolon ter cumprido a promessa de consertá-la, e falou meio sem jeito.

- Não chore, Uzun. Algumas pessoas melhoram, foi o que Kimbri disse. E Haramis melhorou da outra vez. Sei que ela detestaria vê-lo tão infeliz. Então você deve ser forte para quando ela precisar de você. ”Às vezes - ela continuou com esperteza, lembrando de outra coisa que a curandeira disse - uma companhia alegre pode representar uma enorme diferença entre quem vive e quem morre. Então você precisa ser forte, e não deve chorar quando ela precisar de você. A mente dela precisa ficar descansada, e isso só a deixaria mais triste.”

Uzun fungou com um som líquido das cordas. ”

- Você está certa. Vou tentar me alegrar por ela.

- Ótimo - disse Mikayla.

Ela ficou imaginando o que aconteceria com Uzun se Haramis morresse e ele ainda estivesse na harpa, encantado com o sangue dela. Será que se desfaria em pó, como a torre da velha arquimaga e todas as suas coisas? Só que essa não era uma pergunta que podia fazer a Uzun, e obviamente naquele momento não podia perguntar à Haramis.

Durante alguns dias parecia que Haramis não melhorava nem piorava. Os oddlings cuidavam dela e Mikayla não tinha muito que fazer, a não ser tentar animar Uzun, que tinha parado de chorar, mas que evidentemente não nutria grandes esperanças pela recuperação da arquimaga. Aliás, Mikayla também não, apesar da curandeira ter dito que a cada dia que uma pessoa que sofria um ataque desses passava viva, maiores eram as chances de recuperar todas as suas faculdades com o tempo.

Mikayla tentava evitar, mas sentia a terra a todo momento. Certamente não era um sentido da terra de uma arquimaga. Ela conhecia o que Fiolon tinha com Var, e o que sentia não era nem de longe tão forte. Era como se ouvisse vozes gritando no vento, mas não distinguia as palavras, ou como se houvessem sombras em todos os cantos, que desapareciam quando tentava vê-las. A terra não estava feliz, e nem Mikayla.

Mais ou menos dez dias depois, Mikayla ocupava o lugar de Kimbri ao lado de Haramis em seu quarto, porque aquela manhã Kimbri achou que devia visitar sua família, que andava negligenciando, e seus outros pacientes.

Mikayla estava nervosa e muito sozinha. Quase adormeceu na cadeira de enfado, quando de repente viu que Haramis estava com os olhos completamente abertos, e olhando para ela.

Mikayla levou um susto e disse baixinho.

- Minha Senhora Haramis, está acordada?

A voz da velha mulher era pastosa e baixa... e zangada.

- É claro que estou acordada. O que há com você E onde está Enya? O que você está fazendo aqui?

Mikayla desejou desesperadamente que Kimbri ou Enya... ou qualquer outra pessoa, menos ela, estivesse ali. Mas o tom de voz de Haramis era tão urgente que a única coisa que podia fazer era responder.

Já que não tinha certeza se Haramis lembrava dela, ou sabia quem ela era... afinal, da outra vez tinha esquecido... ela tentou evitar os detalhes.

- Esteve muito doente, Senhora. Quer que eu vá chamar Enya?

- Não. Ainda não - disse Haramis. - Quanto tempo faz? Por que Uzun não está aqui comigo?

Mikayla não tinha a menor idéia se devia contar para Haramis quanto tempo ficara desacordada. Mas Haramis olhava para ela à espera da resposta, por isso Mikayla disse.

- Mais ou menos dez dias, eu acho, Senhora. Ficamos todos muito assustados.

- E onde está Uzun? Por que não está aqui ao meu lado? Se ele se preocupa comigo, por que não arrasta sua velha e inútil carcaça pela escada para me ver Ou será que é longe demais para o velho vir andando?

Mikayla não sabia o que dizer. Mas depois de um primeiro momento de confusão, a mente da velha arquimaga clareou um pouco.

- Ah, é - ela disse - tinha esquecido. Agora Uzun não pode andar, é claro. Talvez mais tarde, se eu não puder descer a escada, alguém possa trazê-lo para me visitar, mas não pela escada em caracol. Mesmo quando ele podia andar tinha problema com essa escada. Não consigo imaginar por que Orogastus construiu essa coisa. Ele sempre preferiu estilo à funcionalidade e outras considerações práticas.

Ela fechou os olhos, como se dormisse um pouco. Então falou.

- E é claro que você não pode carregá-lo. Bom, suponho que a necessidade que tenho de pedir os conselhos dele deve superar a minha necessidade de descanso - ela tentou sentar e depois de bufar um pouco com o esforço, disse. - Ajude-me a sentar direito - ela parecia surpresa. - Descobri que não consigo sentar sozinha.

Mikayla pôs os braços em volta da velha mulher, puxando-a para a posição, e disse.

- Devo descer correndo e dizer para Uzun que quer vê-lo? Ele ficará muito contente em saber que você já acordou. Tem andado terrivelmente preocupado, é claro. Todos nós estamos.

- Agora, o que é que isso ia adiantar, se ele não pode subir a escada para me ver? - perguntou Haramis. - Para que aborrecer meu velho amigo sem motivo? Kimbri está aqui?

- Ela foi ver se a mulher do jardineiro está pronta para ter seu bebê. Assim que ela voltar peço para vir vê-la.

- Não precisa - disse Haramis. - Não foi à toa que me fizeram arquimaga - então, sem aumentar o tom de voz, ela disse, como se falasse com alguém ali no quarto. - Kimbri, venha aqui, eu preciso de você.

Dali a pouco Kimbri subiu correndo a escada. Mikayla foi ao seu encontro na porta e perguntou baixinho.

- Você ouviu a Senhora chamar?

- Não - murmurou Kimbri. - Eu fui ver a mulher do jardineiro e ela está bem, por isso resolvi dar uma olhada na Senhora. Ela me chamou?

Mikayla fez que sim com a cabeça.

- Suas faculdades naturais devem voltar antes de suas habilidades mágicas - disse Kimbri baixinho. - Procure não se preocupar.

Ela entrou no quarto de Haramis. Quando viu a arquimaga sentada, disse.

- É muito bom vê-la melhor assim, Senhora.

Quando a curandeira começou a examinar Haramis, Mikayla aproveitou para escapulir do quarto e contar as boas novas para Uzun.

Desceu correndo a escada, entrou no estúdio e encontrou a enorme harpa cochilando. Nunca chegaram a uma conclusão se a harpa dormia ou não, mas desde que Haramis ficou doente Uzun parecia estar dormindo em várias ocasiões, quando Mikayla tentava falar com ele.

- Acorde, Uzun - ela gritou. - A arquimaga está acordada, e a primeira coisa que fez foi perguntar por você.

Se era possível uma harpa parecer prosa, ela teria jurado que Uzun ficou todo brejeiro.

- Você disse que ela perguntou por mim? Eu devia ter adivinhado que seria a primeira coisa que ela faria ao despertar - ele disse. - Pode me carregar até lá?

- Não - Mikayla deu um suspiro. - Haramis acha que não vamos conseguir carregá-lo subindo aquela escada. E mesmo se ela não lembra o que aconteceu com você da última vez que o arrastamos para o quarto dela, eu lembro! Mas posso levar e trazer recados para os dois.

- Acho que terá de ser assim - Uzun suspirou.

- A menos que você queira se transformar numa pilha de lenha, vai ter de ser assim mesmo - disse Mikayla com firmeza.

Mikayla não ficou muito surpresa com o esquecimento repentino de Haramis de que tinha sido contra o novo corpo de Uzun. A primeira indicação dessa mudança de opinião aconteceu na semana seguinte, quando Kimbri chegou para examinar a arquimaga mais uma vez.

- Como está se sentindo hoje, Senhora? - ela perguntou respeitosamente.

- Não estou bem - disse Haramis, que parecia cansada e muito velha. - Não estou suficientemente bem para ensinar para Mikayla tudo que ela precisa aprender para ser arquimaga. Pelo menos não neste momento, mas acho que ela não deve esperar mais para aprender - ela recostou-se na cama e fechou os olhos, ou melhor, pensou Mikayla, deixou que eles se fechassem. Depois de alguns minutos ela disse, sem abrir os olhos. - Acho que a primeira coisa que você deve aprender, Mikayla, é manter contato com todo esse reino através da sua visão, com o que já ensinei sobre o uso da bacia de visão. Vá pegá-la.

Mikayla foi pegar a bacia de prata e encheu de água pura até a beirada, como tinha aprendido. Achava que aquela não seria uma boa hora para lembrar Haramis de que tinha ensinado Mikayla a ter a visão do reino inteiro anos atrás. Suspeitava que Haramis não lembrava há quanto tempo Mikayla vivia na torre. Suponho que é um bom sinal ela lembrar de mim, pensou Mikayla, e não quero aborrecê-la. Afinal, Kimbri disse que. ela devia ficar tranqüila... e isso já é difícil quando está tudo bem. Quando voltou para o quarto, Haramis perguntou.

- O que você gostaria mais de ver nesse reino? - Mikayla ficou pensando um pouco. Era a primeira vez que Haramis perguntava o que ela preferia. O que seria, então? Os skriteks? De jeito nenhum. As ruínas da cidade que Fiolon e ela andavam explorando naquele primeiro dia que encontraram a arquimaga?

- Gostaria de ver como vai meu primo Fiolon - ela disse devagar, depois de um tempo.

Haramis, ainda fraca, fez um movimento com a mão direita.

- Então olhe para a água.

Mikayla olhou para dentro da bacia, lembrando as instruções da arquimaga em outras ocasiões. Ela lembrava como usar a bacia, apesar de sempre usar a esfera pendurada no pescoço quando tinha a visão sozinha. Depois de um momento o reflexo das janelas do quarto de Haramis rodopiaram na superfície da água e formaram uma imagem minúscula de Fiolon, de capa, com botas de montaria, montado num fronial cinzento. Atrás dele trotava um fronial menor, carregado de bagagem.

Mikayla reconheceu o lugar: ele estava perto e se dirigia para a torre. Por que ele está vindo para ca? - ela pensou. Haramis manda ele embora toda vez que o vê.

- Então, menina, o que vê? - perguntou Haramis. Mikayla mordeu o lábio. Ela não pode estar bem mesmo, se olha para mim e vê uma menina, ela pensou, e contar para ela que Fiolon está vindo fará cá pode deixá-la furiosa. Mas vai descobrir quando ele chegar... os servos não vão mentir para ela, não sobre isso.

- Fiolon está vindo para cá, Senhora - ela disse - com dois froniais. Está a meia légua do abismo no extremo da praça.

- Devem ser os froniais e a bagagem que deixei com os pais dele no dia em que chamei os abutres gigantes para salválos dos skriteks - disse Haramis sem titubear. - Sem dúvida ele está vindo para cá, para devolvê-los para mim.

Mikayla ficou olhando para ela boquiaberta, depois lembrou de fechar a boca. Com certeza Haramis não estava vivendo o presente de novo, mas pelo menos naquele momento Mikayla tinha uma idéia da época em que ela achava que estava. Pelo menos não está zangada porque Fiolon vem para cá. E ela disse ”os pais dele”... talvez pense que ele é um dos meus irmãos.

- Abra a gaveta de cima da mesa ao lado da cama, Mikayla - instruiu Haramis. - Vai encontrar o pequeno apito de prata que uso para ativar a ponte. Quando chegar ao pé da torre, ele já vai estar lá, por isso apresse-se.

Mikayla não achava que ele ia chegar tão cedo assim, mas ficou contente de obedecer a arquimaga, e de sair do quarto. Pegou o pequeno apito e desceu correndo a longa escada até a porta que dava no lado da praça que ficava ao sul da torre. Alegrou-se em ver que a célula solar estava limpa. Suspeitava que o ”espelho mágico” de Orogastus seria necessário em breve. Fiolon não viria para cá sem uma razão muito boa.

Enquanto esperava Fiolon na praça teve bastante tempo para avaliar o estado mental de Haramis. A curandeira tinha dito que às vezes as pessoas mais velhas que sofriam dessa doença perdiam grande parte da memória, ou então não conseguiam mais usar seu poder, falar ou raciocinar. Isso deixaria Haramis furiosa, se pudesse compreender o que estava acontecendo.

Mikayla tinha medo de pensar na situação de Haramis. Por certo tinha perdido pelo menos parte de sua capacidade de raciocínio e nem se dava conta. Ainda achava que Mikayla era uma criança ignorante. Só o Senhor do Ar sabia o que ela pensava de Fiolon...

A terra inteira estava sem mãe e sem guia. Bom, até certo ponto...

Mikayla ficou ali na praça com aqueles pensamentos sombrios até Fiolon aparecer. Tocou uma nota no apito, como tinha visto Haramis fazer na primeira vez que mandou Fiolon embora, muitos anos atrás... anos que, aparentemente, Haramis tinha esquecido.

A ponte avançou suavemente por cima do grande abismo, quase no momento exato em que Fiolon e seus froniais chegavam à beirada. Mikayla achou difícil esperar Fiolon e seus froniais atravessarem a ponte, mas assim que chegaram ela correu para abraçá-lo, e quase o derrubou da montaria.

- Oh, Fiolon, estou tão contente de ver você. Parecia bom demais para ser verdade quando vi que estava vindo para cá!

- Você sabia? - perguntou Fiolon, abraçando Mikayla. Isso explica por que estava aqui para me receber. Já está pronta para ser a arquimaga? Sinto que há alguma coisa muito errada com Haramis, não é?

- É - disse Mikayla -, você está certo. Infelizmente vai encontrar muita coisa mudada, e não é para melhor. Ela esteve muito doente, e tivemos medo de que morresse.

Fiolon deu um suspiro.

- Outro distúrbio cerebral? - ele perguntou. Mikayla fez que sim com a cabeça. - E você ainda não está pronta para ocupar o lugar dela, suponho. Isso explicaria a confusão.

Mikayla andava pensando nisso há algum tempo, mas não ficou lisonjeada de ser a primeira preocupação de Fiolon.

- Eu sei muito bem que não estou preparada - ela disse irritada. - Haramis não diz outra coisa há dias e Uzun também. Qualquer pessoa pensaria que tenho uns seis anos de idade. Por que não sobe e vai vê-la, e então todos vocês concordarão que sou uma inútil!

Ela foi para o estábulo batendo os pés com força no chão, para apertar o botão que recolhia a ponte e para dizer ao cavalariço para cuidar dos froniais, mas quando voltou encontrou Fiolon lá parado.

- Sinto muito, Mika - ele disse, passando o braço no ombro dela. - Deve ser horrível para você estar com ela assim.

- Espere até vê-la - disse Mikayla, com certa satisfação amarga.

- E não quis dizer que você não pode assumir como arquimaga - continuou Fiolon. - Na verdade, acho que deve.

Mikayla arregalou os olhos para ele, horrorizada.

- Mas isso a mataria!

- Talvez ela prefira morrer a continuar fazendo isso com a terra - disse Fiolon com delicadeza. - Os danos estão se estendendo até Var. Eu sinto, e foi por isso que vim.

- Eu sabia que você devia ter uma razão muito boa para vir - disse Mikayla -, já que Haramis sempre manda você embora. Mas pode ser que ela não lembre quem você é... deve estar achando que você é um dos meus irmãos.

- Então não vou decepcioná-la - disse Fiolon - e prometo não contar que sou o arquimago de Var. Ela provavelmente teria um ataque. Imagino que não disse para ela.

- Claro que não - disse Mikayla. - Uzun sabe, mas não vai contar para ela.

- Tudo bem, então - disse Fiolon. - Vamos avaliar a gravidade da situação.

Ele deu um tapinha carinhoso nas costas dela, indicando para ela ir na frente.

Os dois subiram a escada e entraram no quarto da velha mulher.

- Aqui está Fiolon, que veio vê-la, Senhora Haramis - disse Mikayla formalmente.

- Entre, meu filho - disse Haramis, estendendo a mão direita sem forças para Fiolon.

É igual ao que aconteceu da outra vez, Mikayla descobriu de repente. Ela consegue usar o lado direito, mas não o esquerdo. Queria saber a razão.

Fiolon inclinou-se sobre a mão de Haramis e beijou-a cortesmente.

- Senhora - ele disse.

Ele andou desenvolvendo os modos da corte, pensou Mikayla ressentida. É claro, ele passa mesmo algum tempo na corte. Eu é que passo a vida toda presa nas montanhas.

Ela ficou parada na porta furiosa, vendo Fiolon conversar socialmente, como se faz com uma senhora idosa que não deve saber muito, ou nada, do que está acontecendo no mundo. Seria ridículo se não fosse tão patético, pensou Mikayla ouvindo Fiolon dizer para Haramis que seus pais estavam muito bem de saúde. Era óbvio que Haramis só tinha uma vaga idéia de quem ele era, senão teria lembrado que a mãe dele morrera durante o parto e que ninguém nunca soube quem era o pai. Bom, talvez o pai dele esteja muito bem de saúde; ninguém pode provar o contrário.

Haramis cansou depressa. Disse para Mikayla pedir à governanta para preparar um quarto para o irmão dela e mandou os dois embora.

Mikayla, que já tinha pedido à Enya para arrumar o quarto para Fiolon, arrastou-o para fora do quarto para ter uma conversa particular com ele. Os dois caíram sentados nas cadeiras da mesa perto da lareira e olharam um para o outro, consternados. Então Mikayla gemeu e deixou a cabeça cair sobre os braços cruzados em cima da mesa.

- Ela não é mais a mesma - ela disse, dando um suspiro.

- Infelizmente acho que tem razão - concordou Fiolon. Quando foi que me tornei seu irmão?

- Com certeza quando Haramis resolveu que era isso que queria que você fosse - Mikayla se endireitou e fez uma careta. - Tem dias em que realmente a odeio. Ela resolve como quer que a realidade seja, e então espera que todos concordem com ela. E todo mundo concorda! Se ela dissesse que o céu era verde, Uzun e todos os empregados diriam que nunca foi de outra cor. Ela vive repetindo histórias longas da sua infância. As primeiras três ou quatro vezes eram até interessantes, mas depois da vigésima, não!

- Ela esquece o que disse? - perguntou Fiolon. Mikayla fez que sim com a cabeça.

- É como aquela primeira caixa de música que tínhamos na Cidadela quando éramos crianças, lembra? Tocava a mesma música toda vez que ficava apoiada do mesmo lado. Com ela temos o mesmo discurso de vez em quando. Ainda não descobri o que corresponde aos lados da caixa de música, mas parece um fenômeno análogo. Quando ouço as primeiras palavras, posso repetir o resto da história, palavra por palavra, inflexão por inflexão... e estou tão enjoada disso que tenho vontade de gritar!

”Lembra da torre na Cidadela onde costumávamos brincar? Podíamos passar horas lá e ninguém nos incomodava.

Aqui, se saio da vista dela por meia hora, ela manda Enya me procurar. Não quer que eu tenha nenhum tempo sozinha, e não quer que eu esteja em lugar nenhum sem ela saber, nem quer que eu pense sozinha... realmente me incomoda.

”É como se tentasse apagar a minha personalidade, substituindo-a pela dela... é quase como se quisesse me possuir, espalhar sua alma em dois corpos, o dela e o meu, sem se importar com o que acontece com a minha” - ela estremeceu e olhou aflita para ele.

- Eu tenho uma alma só minha, não tenho, Fio?

- Claro que tem - garantiu Fiolon. - Você deve estar chateada porque ela está doente. Tem dormido bastante E está comendo direito, ou a casa está tão bagunçada que não tem feito as refeições normalmente?

- Eu pego uma fruta ou qualquer outra coisa quando tenho fome - disse Mikayla. - Quanto ao sono, queria poder não dormir... tenho pesadelos e depois acordo e vejo que estou presa aqui!

- Você não está exatamente presa aqui - observou Fiolon. - Você nunca prometeu que ia ficar.

Mikayla olhou para ele incrédula.

- É claro que estou presa aqui... há anos. Não escolhi ser arquimaga. Ela me seqüestrou da minha casa, trouxe-me para cá e está me ”treinando” há anos, sem nem ao menos perguntar o que eu queria.

- Sim - concordou Fiolon -, ela trouxe você para cá sem seu consentimento... mas há muitos anos. Você poderia ter voltado para casa na hora que quisesse, depois que aprendeu a conversar com os abutres gigantes... e até antes disso, se se dispusesse a pegar um fronial e partir pela neve. Agora, estar aqui é opção sua, mesmo que não a tenha feito conscientemente. Pense nisso, e faça a sua escolha. O que vai fazer?

- Ah, eu tenho escolha? - disse Mikayla sarcástica. - Pelo amor dos Senhores, Fio, não comece com isso. Você deve ser meu amigo... eu preciso muito de um amigo, e você é o mais próximo de amigo que eu tenho. Não fique do lado dela tambem, por favor. Não vou suportar. Eu simplesmente não consigo viver assim. Não era isso que eu queria.

- E o que você queria? - Fiolon perguntou em voz baixa.

- Não sei mais - Mikayla soluçou. - Fico tão confusa aqui... Mas não podia ser isso, senão eu não sofreria tanto - ela tentou pensar claramente. - Eu queria o que todo mundo quer, eu acho: um bom marido, de preferência você, alguns filhos, um lar confortável em algum lugar, um jardim, amigos...

- Você tem Uzun - Fiolon observou.

- Preferia amigos um pouco mais móveis - Mikayla suspirou. - Quero dizer, Uzun é muito bom, mas é preciso gostar muito de música mesmo para apreciá-lo corretamente... Você sempre foi meu melhor amigo e sabe tão bem quanto eu que a primeira coisa que Haramis queria quando nos trouxe para cá era mandar você embora. Ela quer que eu fique sozinha e dependa totalmente dela, e isso não é justo!

- Mas, Mika, você pode chamar um abutre gigante, não pode? Até à noite, Olho Vermelho atravessaria os cumes de duas montanhas para atender ao seu chamado.

- Isso é verdade.

- Então não é verdade que você não tem escolha - Fio argumentou. - Podia chamar um abutre gigante, voar para onde quisesse, e nunca mais voltar. Então se ainda está aqui depois de todo esse tempo, diria que já fez sua escolha. Sinto muito que esteja infeliz, mas deve ter alguma razão para estar aqui.

Mikayla franziu a testa.

- Isso vai parecer maluquice, mas acho que a terra me quer.

- Não parece maluquice nenhuma - Fiolon disse logo. Também acho isso.

Mikayla parecia angustiada.

- Dessa vez, desde que ela caiu doente, fico achando que ouço a terra chorar... a terra ou o vento, ou qualquer coisa. Eu me sinto muito mal, mas não posso fazer nada para consertar isso. Não tenho o sentido da terra... não do jeito que você tem. O problema é que acho que Haramis também não tem.

Fio sacudiu o ombro.

- Eu não sei. Não é uma coisa que você pode detectar em outra pessoa - ele pôs o dedo no lugar na túnica em que estava sua esfera. - Se você tivesse, eu saberia, é claro, mas quanto a ela, não sei dizer.

Os dedos de Mikayla encostaram na sua esfera, cuidadosamente escondida sob pelo menos duas camadas de roupas o tempo todo, a esfera que era idêntica à de Fiolon. Sempre usava encostada na pele. Era a única coisa que tinha guardado do tempo antes de ir morar com Haramis, as esferas cantantes que Fiolon e ela tinham encontrado na última viagem para o pântano.

- Estamos ligados assim, com toda essa força? - ela perguntou. - Fico achando que posso sentir a sua presença, e ouvir sua voz no tilintar que ela produz, mas creio que não passa da minha imaginação.

Fiolon sorriu para ela.

- Mika, a única coisa que você nunca teve muito foi imaginação - ele sacudiu sua esfera suavemente, fazendo-a tilintar. Mikayla sentiu a dela vibrando junto. - Dizem que a visão não é muito confiável, especialmente para os humanos, mas usando isso como elo, podemos nos ver com muita nitidez. Andei acompanhando suas aulas durante anos, mesmo alguns daqueles cânticos no Templo de Meret.

Mikayla gemeu, lembrando aquelas lições.

- E você faz tudo melhor que eu também. Quando aterrissou em Var e adquiriu o sentido da terra, soube lidar com isso. Eu passei dois dias nauseada, de cama, só porque estava ligada a você.

- Acho que seria muito melhor se você relaxasse e parasse de lutar contra a situação toda.

- É mesmo.

- Será que tem alguma coisa na biblioteca sobre os efeitos de se ter a arquimaga e uma sucessora treinada ao mesmo tempo?

- Treinada? - disse Mikayla. – Eu? Todo mundo acha que ainda não estou pronta.

- Mas você tinha mais conhecimento que eu quando virei arquimago de Var - disse Fiolon.
A Senhora do Irílío

- Tem razão - disse Mikayla. - Então isso quer dizer que eu não devia ser treinada? Será que é por isso que Haramis está tendo esses distúrbios cerebrais... porque somos duas?

- Procure na biblioteca - sugeriu Fiolon.

- Não há nada na biblioteca principal - observou Mikayla.

- Já li pelo menos uma vez todos os livros que existem lá. Mas se formos explorar mais um pouco as cavernas de gelo, podemos encontrar mais coisas de Orogastus, algo que deixamos passar.

- Boa idéia - disse Fiolon. - Segundo algumas histórias antigas, ele se interessava mais que Haramis pelas inúmeras utilidades do poder.

- Eu acredito nisso - disse Mikayla - e pode haver alguma coisa na biblioteca do Templo de Meret, mas não imagino que desculpa posso dar para querer essa informação!

Ela olhou pensativa para Fiolon.

- Mas como estão as coisas para você? Ainda tem problemas com as mulheres da corte?

Fiolon franziu a testa.

- Não presto muita atenção. Nenhuma moça de Var está realmente interessada em mim, apesar do título de duque, especialmente porque eu passo a maior parte do tempo lá. Existe todo tipo de histórias idiotas sobre meu pai ter sido um demônio ou coisa parecida, e sem dúvida sou um bastardo.

- Quer dizer que não há mulheres que achem isso charmoso e romântico? - provocou Mikayla.

Fiolon deu um gemido.

- Não nego que há moças na corte estúpidas a esse ponto, Mika, mas você sabe perfeitamente bem que nunca achei burrice atraente. Pelo menos você tem um cérebro... embora não esteja usando muito ultimamente.

Infelizmente isso fez Mikayla lembrar da sua reclamação.

- Ah, eu não tenho um cérebro, Fio - ela disse com uma doçura ácida. - Haramis tem dois: o dela e o meu. Para ela eu sou um cruzamento de propriedade dela e parte do seu corpo.

”Veja o modo que ela trata Uzun. Ele era uma pessoa um dia. Era amigo dela, professor... e o que é agora? A harpa dela.

Não pode se mexer sozinho, e ela pode pegá-lo e levá-lo para onde quiser, descontando, é claro a dificuldade de movimentar uma harpa daquele tamanho.

”Ele é uma coisa, eu sou uma coisa, os empregados dela são coisas, e você é um problema... para ela, claro, quando lembra quem você é. Eu realmente penso em você como uma pessoa. Como se fosse a única pessoa verdadeira aqui. Nem tenho certeza se eu sou uma pessoa ou se algum dia serei uma novamente. E você sabe que assim que ela lembrar quem você é, e por que está aqui, vai mandá-lo embora outra vez.”

- Você não sabe o que tem acontecido em Var - disse Fiolon. - Não vou embora dessa vez só porque ela quer. Não tenho mais doze anos de idade.

- É bem verdade que ela não está em condições de expulsá-lo daqui neste momento - concordou Mikayla. - Mas o que está acontecendo em Var?

- Alguma coisa está descendo o Grande Rio Mutar e matando todos os peixes - disse Fiolon. - E isso é apenas o problema mais aparente. Eu estava em Let quando começou, supervisionando o carregamento de madeira, e havia algo errado na água. Enviei uma mensagem para o meu tio, o rei, dizendo que eu ia investigar, e então fui para a Cidadela. Passei pelo Lago Wum no caminho e todos os peixes do lago estavam mortos, assim como algumas pessoas que estavam no lago ou perto dele quando aconteceu.

- Wyvilos? - perguntou Mikayla.

- A maioria, mas alguns humanos morreram também, e muitos mais ficaram seriamente doentes.

Mikayla engoliu em seco.

- Como é possível? - Fiolon parecia infeliz.

- Eu não sei. Ruwenda não é minha terra, por isso, apesar de poder sentir que alguma coisa está muito errada, não consigo saber ao certo o que é ou como consertar.

- Não sentiu nada quando estava em Var? - Fiolon balançou a cabeça.

- O problema não é em Var... isto é, Var não é parte do problema.

Tudo que senti em Var foi alguma coisa horrível que vinha de Ruwenda, descendo o rio. E vou dizer uma coisa - ele continuou -, seria muito pior se os ventos soprassem de Ruwenda para Var, e não ao contrário. Pelo menos fui poupado do problema no ar até atravessar a fronteira. Da Cidadela viajei de fronial para poder passar pelo Pântano Labirinto e ver como estavam as coisas por lá - ele olhou bem nos olhos de Mikayla. - Mikayla, sua terra está muito doente.

- Terra de Haramis - lembrou Mikayla. - Minha não.

- Pela Flor, Mika, é o seu lar! - Fiolon parecia chocado. Você não se importa?

- De que adiantaria eu me importar? - Mikayla deu de ombros tentando esconder a mágoa que sentia. - Você acha mesmo que Haramis ia deixar eu fazer qualquer coisa? Sabe por que eu estava aguardando a sua chegada?

Ela não esperou a resposta dele. De qualquer modo, Fiolon parecia bastante confuso.

- Eu estava na praça esperando você porque Haramis, agora que está doente, resolveu que precisa acelerar minhas aulas. Ela está me ensinando a ter a visão na água.

- O que você está dizendo? - perguntou Fiolon. - Ela ensinou você a ver na água logo que chegou aqui... há quatro anos e meio!

- Eu sei disso - disse Mikayla -, e você também sabe. Mas ela não.

- Ah, não - parecia que ele não conseguia dizer mais nada.

- Tenho certeza de que ela não tem mais o sentido da terra - acrescentou Mikayla, lembrando - e acho que já não o tem desde o primeiro distúrbio mental. Quando você adquiriu o sentido da terra de Var e eu fiz uma pergunta vaga para ela sobre como era a sensação de ter o sentido da terra, ela perguntou irritada se eu tinha esse sentido por Ruwenda.

- Mas se ela não tem - perguntou Fiolon -, então quem?

- Eu não sei - Mikayla deu um suspiro - e Uzun também não sabe... perguntei a ele na época. Achamos que se outra pessoa o tem, já saberíamos, por isso deve estar dormente. Eu sei que eu não tenho.

- Bom, mesmo se você não tem o sentido da terra, precisamos fazer alguma coisa para consertar essa bagunça!

- Podemos tentar - Mikayla suspirou. - Você pode fazer uma lista do que precisa ser consertado

Fiolon fez uma careta e balançou a cabeça.

- Minhas percepções de Ruwenda não são tão detalhadas.

- Detalhadas! - Mikayla estalou os dedos e ficou de pé de um pulo. - Venha - ela disse impaciente, saindo da sala.

- Para onde vamos? - perguntou Fiolon.

- O espelho. Se queremos detalhes, é lá que nós vamos encontrar.

- Precisa se agasalhar se vai lá para baixo - observou Fiolon.

- Não preciso não - disse Mikayla alegremente. - Olho Vermelho me ensinou a controlar a temperatura do corpo no ano passado. Você pode pegar um agasalho para você, enquanto pego pergaminho e tinta, e encontro você lá embaixo.

Quando Fiolon chegou à caverna de gelo onde ficava o espelho, Mikayla estava sentada, de pernas cruzadas no chão gelado, bem na frente do espelho, escrevendo furiosamente.

- Descobri o que está matando seus peixes, Fiolon - ela disse. - É uma espécie de plantinha minúscula que produz um poderoso veneno quando as condições ajudam... o que, felizmente, não acontece com freqüência. Quando Haramis teve esse último ataque, tivemos alguns terremotos sérios...

Ela parou de falar com Fiolon e dirigiu-se para o espelho.

- Espelho, mostre os terremotos nos últimos dois meses.

- Trabalhando - respondeu o espelho.

Apareceu um mapa de Ruwenda com traços azuis por cima. Ficou assim alguns segundos, depois grandes pontos azuis mais escuros começaram a surgir em vários lugares, com linhas em ziguezague saindo desses pontos em várias direções, mas sempre mais fortes ao longo dos traços em azul-claro.

- Esse aqui - disse Mikayla, tocando com a ponta do dedo ponto no limite noroeste do Inferno Espinhento - foi o primeiro. Aconteceu antes da aurora, na manhã que encontramos Haramis caída em seu quarto. Então se espalharam por quase toda parte norte do Pântano Dourado - ela virou-se para olhar para Fiolon. - Foi essa a rota que você fez para vir para cá?

Fiolon fez que sim com a cabeça, sem dizer nada, olhando para o espelho, preocupado.

- Ainda havia tremores na área quando passou por lá? - perguntou Mikayla.

Ele balançou a cabeça de novo, indicando que sim.

- Com que freqüência e com que intensidade?

Fiolon olhou para o espelho outra vez e Mikayla percebeu de repente qual era o problema dele.

- Tudo bem, Fiolon, você pode falar sem modificar as imagens. Ele responde apenas aos pedidos que começam com o nome dele.

- O nome dele? - perguntou Fiolon.

- O nome de uso. Se ele tem um nome de verdade, eu não sei qual é - explicou Mikayla. - Espelho, mostre níveis anormais da água no Pântano Labirinto.

- Trabalhando.

A imagem mudou, transformou-se num mapa em branco e preto do Pântano Labirinto com várias manchas marrons e azuis incomuns cobrindo a maior parte do branco.

- O azul é onde a água está mais alta do que devia estar - explicou Mikayla. - Quanto mais escuro é o azul, mais profunda é a água. O marrom é onde a terra está mais alta do que devia estar, e fica mais escuro à medida que sobe mais.

Fiolon estremeceu, parecia doente.

- Não admira que eu estava sentindo algo errado na terra.

- É verdade - concordou Mikayla. - Você teve sorte de chegar aqui sem se perder.

- Mas eu me perdi - admitiu Fiolon. - Várias vezes. Usei a minha esfera para rastrear a sua, sempre que não conseguia reconhecer onde eu estava. Dessa forma sabia que pelo menos acabaríamos no mesmo lugar, onde quer que você estivesse. É que você nem sempre estava aqui, você sabe - ele observou. – Teve aquela viagem improvisada de seis meses à caverna do Olho Vermelho no Monte Rotolo, para não falar do tempo que você passa no Templo de Meret.

- Que é um mês toda primavera, e é perfeitamente previsível - disse Mikayla. - Mas acho que vamos ter de sair daqui para consertar tudo que pudermos. Só o Lago Wum vai dar um trabalho danado.

Fiolon gemeu.

- Vamos jantar primeiro, está bem? - Mikayla deu uma risadinha.

- Claro. Você deve estar morrendo de fome - ela se levantou, recolheu o material que usava para escrever e disse para o espelho. - Espelho, obrigada. Recarregar.

- Intervalo para recarregar - respondeu o espelho, apagando.

Mikayla foi na frente na volta para a torre, controlando os lampiões do corredor com ordens sussurradas.

- Você fala com tudo que existe por aqui? - perguntou Fiolon.

- Falo com a maioria das coisas - disse Mikayla. - Com as pessoas não muito. Enya está sempre ocupada, os outros empregados me ignoram, e quanto a Haramis... - ela deu um suspiro e não terminou a frase.

Quando estavam passando pela cozinha Enya apareceu.

- Ah, você está aí, princesa - ela disse. - Deve ir para o quarto da Senhora imediatamente. Ela está perguntando por você há duas horas.

Mikayla fez uma cara de ”eu não disse” para Fiolon e tranqüilizou Enya dizendo que ia ver a Senhora naquele instante.

- Ela pediu para o jantar ser servido no quarto dela - Enya acrescentou.

Mikayla balançou a cabeça e continuou a subir a escada, esperando estar fora do alcance da audição de Enya para resmungar ”Que felicidade”, no tom mais sarcástico.

- Mika, mais respeito - Fiolon ralhou com ela. - Ela não pode ser tão ruim assim.

- Se não fôssemos ambos necessários para consertar os estragos na terra - disse Mikayla - eu deixaria você aqui no meu lugar para ver como é. Mas do jeito que as coisas estão, é melhor transferir Uzun para seu novo corpo e deixá-lo aqui fazendo companhia para ela, ouvindo suas histórias.

- E ela vai permitir isso? - perguntou Fiolon. - Da última vez não deixou.

- Dessa vez - respondeu Mikayla com firmeza - não pretendo pedir a permissão dela. Se Uzun concordar com a transferência, vou em frente, mesmo se tiver de fazer tudo sozinha

- ela olhou para Fiolon querendo saber o que ele achava.

- Se você fizer isso - ele disse - eu ajudo. Qualquer ritual do Templo de Meret deve precisar do maior número possível de pessoas.

- Obrigada - Mikayla sorriu para ele, depois assumiu um ar vago ao entrar no quarto de Haramis.

- Onde você esteve, menina? - quis saber Haramis.

- Lá embaixo - Mikayla respondeu baixinho.

- Não passou pela sua cabeça que eu podia querer vê-la?

- Sinto muito se precisou de mim e eu não estava - disse Mikayla educadamente, evitando a pergunta que Haramis tinha feito. Felizmente Enya chegou com o jantar e Mikayla foi poupada do resto daquela arenga, pelo menos por hora.

Haramis passou quase todo o jantar reclamando de como sentia falta de Uzun, e por que não podiam carregá-la lá para baixo, para o estúdio, para poder estar com ele, já que ele não podia subir para estar com ela. Mikayla sentiu um alívio ao observar que Haramis tinha alguma memória, que a impedia de exigir que Uzun fosse levado para o seu quarto de novo. Mesmo se não lembra o motivo, ela pensou, pelo menos Haramis não considera uma opção arrastar a harpa até aqui. Graças aos Senhores do Ar. Eu não agüentaria vê-lo danificado outra vez.

- Talvez dentro de alguns dias, Senhora - ela disse - possamos dar um jeito de poder vê-lo. Nesse meio tempo precisa descansar e recuperar suas forças, por isso desejamos à senhora uma boa noite.

Ela ficou de pé e mandou os pratos para a cozinha com um gesto discreto. Fiolon fez uma mesura para Haramis e seguiu Mikayla para fora do quarto.

- Está disposto a pegar o corpo agora? - Mikayla sussurrou para ele logo que ficaram sozinhos no corredor - ou está cansado demais?

- Posso ajudá-la a trazê-lo para cima - respondeu Fiolon -, mas devemos esperar até amanhã de manhã para começar o ritual.

- Certo - disse Mikayla - mas acho que precisamos ter o corpo com a mesma temperatura da harpa para fazer a transferência, por isso se o deixarmos perto de Uzun esta noite, ele deve estar pronto amanhã de manhã.

- Parece razoável - concordou Fiolon. - Vamos lá pegá-lo.

- Só tem uma coisa que precisamos fazer primeiro - disse Mikayla empurrando Fiolon para dentro do estúdio. – Uzun? - ela disse -, é Mikayla e Fiolon.

- Lorde Fiolon - disse a harpa. - Que surpresa agradável! O que o traz aqui

- Problemas com a terra, infelizmente - respondeu Fiolon.

- Tive medo que isso acontecesse quando a Senhora caiu doente - suspirou Uzun. - Gostaria de poder estar com ela. Tenho certeza de que ela sente a minha falta.

- Pelo menos dessa vez ela lembra do fato de você ser uma harpa - disse Mikayla -, de forma que não está tão doente como esteve daquela vez na Cidadela. E acho que ela compreende que levá-lo de novo para o quarto dela vai danificá-lo. Mas você tem razão. Ela passou mesmo o jantar reclamando que sente muito a sua falta.

- Se ao menos eu pudesse fazer alguma coisa - as cordas de Uzun vibraram frustradas.

- Talvez possa - disse Mikayla. - Lembra do corpo que consegui para você no Templo de Meret?

- Pensava que Haramis o tinha destruído - disse Uzun. Mikayla olhou para Fiolon.

-Ainda está onde o deixamos - ele disse. - Verifiquei quando fui para as cavernas de gelo, e o embrulho parecia intacto.

Mikayla foi até a estante e puxou vários livros para frente.

O pergaminho do templo continuava lá atrás, bem onde tinha posto quando o trouxe para casa.

- Vamos trazer o corpo para cá e desembrulhá-lo, Uzun - ela disse -, para ter certeza de que não sofreu danos. Se não tiver sofrido nada, você está disposto a correr o risco de ser transferido para ele?

- Como é feita a transferência? - perguntou Uzun. Mikayla desenrolou a ponta do pergaminho e passou os olhos rapidamente.

- Estou com as instruções para o ritual aqui - ela disse. O processo parece similar ao que Haramis usou para pôr você na harpa.

- Então quero tentar - disse Uzun. - Apenas não esqueça da promessa que me fez, caso algo dê errado.

- Se alguma coisa der errado, eu libertarei seu espírito - disse Mikayla -, eu prometo. - Ela pôs o pergaminho de volta no esconderijo. - Venha, Fiolon, vamos pegar o corpo.

Levaram quase uma hora para carregar o corpo lá para cima e desembrulhá-lo. Felizmente àquela altura todos os empregados já tinham ido dormir, por isso ninguém atrapalhou.

- Isso é uma verdadeira obra de arte - disse Fiolon, admirando o corpo de madeira pintada e flexionando todas as articulações para ter certeza de que funcionavam. - É muito parecido com você, mestre Uzun... pelo menos é igual às imagens que o espelho mostrou de você com Haramis - ele olhou para Mikayla -, acho que está em ótima forma - ele bocejou e pediu desculpa.

- Por que não vai para a cama agora, Fiolon? - sugeriu Mikayla. - Vou dormir aqui esta noite para evitar que desarrumem qualquer coisa. E, de qualquer forma, ainda quero ler todo o ritual antes de dormir.

- Por mim, tudo bem - disse Fiolon. - Boa noite.

- Durma bem - respondeu Mikayla. - Vou trancar a porta quando você sair, por isso avise-me com a sua esfera quando descer de manhã.

- Está bem.

Fiolon foi para o quarto dele, e Mikayla trancou a porta, pôs mais uma acha de lenha no fogo, pegou o pergaminho e sentou para ler. Leu os cânticos em silêncio, mas as instruções em voz alta, para Uzun saber o que devia esperar.

Quando terminou de ler, ela virou-se para ele.

- Ainda quer fazer isso? - perguntou formalmente. - Você pode recusar, sabe?

- Eu queria fazer isso há anos - Uzun observou. - Não vou dar para trás agora.

- Você compreende que não vai estar consciente a maior parte do ritual, não e? - Mikayla explicou. - Depois de darmos o primeiro passo, que é remover o osso da harpa, você não vai saber mais nada até tudo terminar e dar certo.

- Que horas são? - perguntou Uzun.

Mikayla podia sentir, mas de qualquer maneira chegou à janela e verificou a posição das estrelas no céu.

- Cerca de duas horas para a meia-noite - ela respondeu.

- Então, já que o primeiro passo é mergulhar o fragmento do crânio em um pote cheio de lágrimas da meia-noite até o nascer do sol, você pode começar agora - disse Uzun. - Senão terá de esperar até amanhã à noite e perderá um dia inteiro. E talvez não possa perder esse dia - ele acrescentou mordazmente. - Eu sei que Fiolon e você terão de viajar pela terra assim que eu estiver livre para cuidar de Haramis.

- Você é mesmo sábio, Uzun - disse Mikayla. - Então vou começar a arrumar as coisas agora. Você acha que a bacia de visão da Haramis que está na sala de trabalho serve para as lágrimas?

- Sim, acho que é muito apropriada - respondeu Uzun. Mikayla visualizou a bacia no lugar em que tinha deixado na sala de trabalho e depois visualizou-a em suas mãos. A bacia aterrissou nas suas mãos estendidas com um ruído suave de deslocamento de ar. Mikayla olhou para o pergaminho de novo para ter certeza absoluta da primeira instrução.

- Mergulhe o fragmento por completo da meia-noite até a aurora num pote de prata cheio de lágrimas de uma virgem que chora a morte da pessoa.

Mikayla inclinou o rosto sobre a bacia e pensou em Uzun, em toda a bondade dele com ela, na sua amizade e lealdade inabaláveis, na sua coragem diante dos danos que sofreu e da doença de Haramis. Pensou em como se sentiria se aquele ritual falhasse e ele desaparecesse para sempre da sua vida. As lágrimas rolaram livremente, enchendo a bacia.

Ela não saberia dizer quanto tempo ficou chorando. Parecia que todo o sofrimento da terra fluía através dela, além de toda a dor que sentira na vida e a compaixão por Uzun. Ela chorou até seu corpo ficar quase desidratado, como se não restasse mais nenhuma lágrima. O rosto e os olhos ficaram secos, tão secos que ela teve de piscar muitas vezes até conseguir enxergar direito de novo.

Olhou para a bacia que segurava. Estava cheia quase até a borda. Deixou-a numa superfície e verificou a hora. Era quase meia-noite.

- A bacia de lágrimas está pronta, Uzun - ela disse. - E você, está pronto?

- Estou.

As cordas da harpa estremeceram um pouco, mas Mikayla não achou nada de mais. Se tivesse cordas como Uzun, sabia que elas estariam tremendo muito mais que um pouco.

Ela subiu numa cadeira para poder alcançar o topo da coluna da harpa com mais facilidade. Com todo o cuidado, usando as pontas das unhas, levantou o fragmento de osso que era tudo que restava do corpo original de Uzun. Levou para a bacia e observou o céu. No instante da meia-noite mergulhou o fragmento de crânio nas lágrimas e a bacia encheu exatamente até a borda.

Mikayla cochilou irrequieta no sofá perto da lareira até logo antes do nascer do sol. Então usou sua esfera para falar com Fiolon.

- Mika, ainda nem amanheceu - ele reclamou - e passei semanas viajando. Será que não podemos começar mais tarde?

- Sinto muito, Fio - disse Mikayla compreensiva -, mas Uzun insistiu para começar na noite passada. Precisarei de você aqui em uma hora. E quando descer para cá - ela acrescentou - por favor diga a Enya que vamos ficar trabalhando no estúdio com Uzun o dia inteiro e que não queremos ser incomodados por nada... inclusive Haramis.

- E as refeições? - protestou Fiolon.

- Traga uma bandeja com comida que baste para nós dois o dia inteiro - disse Mikayla. - Não vamos querer ser interrompidos bem no meio do ritual para dizer se vamos almoçar.

- Está bem - disse Fiolon, suspirando. - Vou logo para aí.

Mikayla foi até a janela ver o sol nascer. Assim que apareceu o primeiro raio ela tirou o fragmento de osso de dentro da bacia e pôs num pedaço de pano ao lado do corpo. Depois ela pegou uma pequena caixa que estava no embrulho junto com o corpo e começou a tirar o que tinha dentro: um vidro de óleo, um manto branco com símbolos bordados - Mikayla reconhecia alguns do tempo que passou no templo - um cinzel negro feito de uma pedra muito dura, e uma faca longa e estreita, do mesmo material.

Quando tudo ficou pronto, Fiolon chegou. Mikayla abriu a porta para ele e pediu para ele deixar a bandeja com a comida em cima da mesa. Ela estava nervosa demais para comer. Estranhamente Fiolon, que normalmente conseguia comer toda hora que encontrava comida, sentia a mesma coisa que ela. Ignorando a comida ele perguntou.

- O que fazemos agora? - Mikayla deu o pergaminho para ele.

- Leia o primeiro encantamento enquanto eu passo óleo no corpo.

- Mergulhar o osso em lágrimas de virgem? - Fiolon disse surpreso, olhando para o pergaminho.

- Essa parte já acabou - disse Mikayla. - Comece onde diz ”Eu areio céu...”.

Ela pegou o ungüento e começou a passar cuidadosamente por todo o corpo enquanto Fiolon lia. Suas mãos formigavam, mas ela não sabia se era por causa do poder que passava por elas ou se havia alguma coisa no óleo. Era muito estranho.

Fiolon estava lendo o encantamento, mas sua voz parecia diferente, como se algum poder falasse através dele.

- Eu arei o céu, colhi o horizonte, viajei pela terra até seus confins, apossei-me do meu espírito, porque sou o recipiente da minha magia. Vejo com os meus olhos, ouço com meus ouvidos, falo com minha boca, estendo meus braços, agarro com as minhas mãos e corro com as minhas pernas.

Mikayla terminou de untar o corpo, vestiu nele o manto e o pôs sentado numa cadeira. Já estava sentindo que era real, e não mais uma simples estátua.

Ela pegou o fragmento de crânio e cobriu os dois lados com o óleo, acenando para Fiolon continuar a leitura.

- Eu mantive em meu corpo as coisas que tinha no passado. Agora eu as uso para surgir glorioso.

Mikayla pôs o fragmento de osso cuidadosamente no pedaço de pano de novo, pegou a faca afiada, subiu na cadeira e raspou um pouco do fundo do buraco na coluna da harpa. Misturou o material, uma combinação de madeira com o sangue seco de Haramis, na bacia de lágrimas. Então furou o dedo com a ponta da faca. Estendeu a mão em cima da bacia e apertou exatamente sete gotas do seu sangue na mistura, depois fez o dedo parar de sangrar e cicatrizar. Lembrou como Uzun tinha ensinado, para ela e para Fiolon, a fazer encantamentos simples de cura durante uma das reuniões, tarde da noite, no primeiro ano que passou na torre, e achou apropriado que esse conhecimento pudesse ser usado para ajudar o próprio Uzun. Ela deu a faca para Fiolon, que seguiu seu exemplo e depois pegou o pergaminho de novo.

Mikayla mexeu o líquido para que suas lágrimas e o sangue de todos se misturassem bem. Então ergueu a bacia e derramou o líquido no buraco que havia em cima da cabeça do corpo, que atravessava a cabeça e o pescoço e ia até onde o coração devia estar. O líquido parecia estranho, como o fogo seria, se pudesse ser líquido, pensou Mikayla. Irradiava calor, e Mikayla achou que logo ia começar a ferver, como água no fogo.

O líquido encheu completamente o canal enquanto Fiolon lia o próximo encantamento.

- Saudámos a vós que perseverais no poder, Senhora de todas as coisas ocultas. Veja, meu coração está livre de todo mal e nasce de novo, do sangue daqueles que me amaram. Que eu viva nele como vós viveis nele, sejais bondosa comigo e daime a vida.

Mikayla pegou o fragmento de osso, segurando com todo cuidado, pois estava um pouco escorregadio por causa do óleo, e suas mãos tremiam. Aquela era a parte mais importante do ritual, a união do corpo antigo com o novo. Nem havia palavras para isso, essa parte Mikayla tinha de sentir em seu coração.

O osso ficou tão quente em suas mãos que quase chegou a queimar, mas Mikayla forçou-se a ignorar a dor. O poder parecia percorrer todo o seu corpo, sentia calor e frio ao mesmo tempo.

Ela encaixou o pedaço de osso no lugar, rezando para aquela mágica funcionar e para Uzun viver de novo. O osso se dilatou um pouco, encostado nos dedos dela, ou talvez fosse a madeira se fechando em torno dele, fundindo as duas partes.

Prendendo a respiração, ela olhou para o rosto. Os olhos de Uzun olharam para ela e havia inteligência por trás daquele olhar. Mikayla soltou o ar suspirando de alívio, e virou para pegar o cinzel de pedra.

Passou o cinzel de leve entre os lábios do corpo enquanto Fiolon lia o encantamento para abrir a boca.

- Eu surgi do ovo que está oculto e recebi esta boca para poder falar com ela na presença da Deusa. Minha boca se abre por Meret e o que estava sobre ela foi retirado pela Escolhida. Minha boca se abriu, minha boca se escancarou com os dedos da terra. Sou um com os grandes ventos do céu e falo com a minha verdadeira voz.

Mikayla largou o cinzel com um tremor na mão e Fiolon enrolou o pergaminho concentrado nele, como se não ousasse olhar.

- É só isso? - perguntou o mestre Uzun. - Vocês terminaram mesmo?

Os dois olharam para ele e caíram sentados no chão, fracos de alívio e reagindo ao fim da tensão.

- Funcionou - sussurrou Fiolon, num tom de voz entre o deslumbramento e a exaustão.

Uzun levantou e começou a andar pela sala, testando seu novo corpo. No início se movimentava aos trancos, mas com um pouco de prática logo adquiriu suavidade, como se estivesse amaciando a rigidez do corpo ao despertar pela manhã.

Ele olhou para Mikayla e Fiolon, depois pegou a bandeja de comida e pôs no chão entre os dois.

- Comam! - ele ordenou. - Vocês parecem prestes a desmaiar, e ainda precisam cuidar da terra.

Uma hora mais tarde Mikayla e Fiolon já tinham comido e estavam se sentindo bem mais humanos.

- Agora - disse Uzun com firmeza -, vamos conversar com a Senhora Haramis. A terra não tem tempo a perder.

- Isso vai ser interessante - Mikayla murmurou baixinho, quando seguiam Uzun subindo a escada para o quarto de Haramis.

Fiolon continuava admirando o corpo novo, observando o jeito que se movia.

- É o trabalho mais incrível que eu já vi - ele disse, maravilhado -, e simplesmente deram para você?

- Em troca de eu continuar virgem e passar um mês toda primavera no templo deles, pelos próximos sete anos - Mikayla explicou para ele mais uma vez. - E na primavera que vem vou representar a Deusa no Festival da Primavera.

- Como é que você foi escolhida para isso?

- Há um ritual em que a Deusa escolhe qual das suas Filhas vai fazer isso. - Mikayla respondeu rapidamente quando chegou ao quarto de Haramis e teve de interromper a conversa.

Haramis parecia confusa ao vê-los. Não era de admirar, pensou Mikayla. Ela não lembra bem de Fiolon, e da última vez que viu Uzun, ele era uma harpa.

- Uzun- - disse Haramis espantada. - Eu devo ter sonhado... achava que tinha transformado você numa harpa...

Uzun segurou a mão dela. Mikayla quase sentiu pena de Haramis. Devia ser um choque descobrir que as mãos dele eram de madeira.

- E transformou mesmo, Senhora - ele disse -, mas foi há muito tempo. Agora eu tenho um novo corpo, posso ver e andar outra vez.

Ele puxou um banquinho e sentou à cabeceira da cama, continuando a segurar a mão dela.

- Infelizmente trago más notícias, Senhora - ele disse suavemente. - Há um grande mal sobre a terra.

Haramis franziu a testa e tentou, sem sucesso, sentar.

- Eu senti os terremotos - ela disse. - O que mais?

- A forma da terra e da água no Pântano Dourado mudou - disse Mikayla - e há algum tipo de veneno no Lago Wum que está matando os peixes e o povo... até os humanos.

- Ai de mim - disse Haramis - ter chegado a esse ponto.

Não tenho poder para proteger nem curar a minha terra.

- Então terá de permitir que eles façam isso - disse Uzun com firmeza.

Haramis olhou para ele como se ele estivesse louco.

- Uzun, eles são crianças!

- Eles têm quase a mesma idade que você tinha quando tornou-se arquimaga, nem dois anos menos - observou Uzun -, e você e eu os treinamos. Talvez não pudessem cumprir a tarefa sozinhos, mas juntos creio que podem consertar pelo menos a maior parte dos danos. Vou aconselhá-los, com o seu consentimento, Senhora.

Não parecia que Uzun estava pedindo permissão nenhuma para Haramis.

Haramis obviamente estava cansada e fraca demais para protestar.

- Muito bem, Uzun, faça como quiser. Você sempre faz mesmo - ela acrescentou, belicosa.

- Obrigado, Senhora - Uzun abaixou para beijar a mão dela, depois arrastou Mikayla e Fiolon para fora do quarto, voltando para o estúdio, onde ele puxou a campainha e pediu para Enya providenciar jantar para Mikayla e Fiolon.

Enya olhou para ele espantadíssima e virou para Mikayla.

- Quem é esse, princesa... outro dos seus amigos estranhos? - É claro que ela não pode reconhecê-lo, compreendeu Mikayla.

Todos os empregados só tinham visto Uzun como harpa!

- Este é o mestre Uzun, Enya - ela disse objetivamente -, e a Senhora deseja que você continue a obedecer suas ordens.

- Mestre Uzun? - Enya parecia desconfiada mas pronta para compactuar com aquilo. - E deseja comer também, mestre Uzun?

Uzun olhou para Mikayla, que balançou a cabeça.

- Não - ele respondeu. - Este corpo não precisa de comida. Enya saiu da sala balançando a cabeça, incrédula.

- Essa casa está ficando cada dia mais estranha... - ela resmungou.

- Agora - disse Uzun animado -, o que é preciso fazer pela terra?

- O Pântano Dourado está muito mudado - disse Mikayla - mas não é densamente povoado. Qualquer prejuízo que poderia acontecer lá já aconteceu. Não podemos ressuscitar os mortos e os vivos já estão se adaptando à forma atual do pântano.

- Concordo - disse Fiolon. - Passei por lá quando viajava para cá e não creio que precisamos fazer alguma coisa. O maior problema é o Lago Wum.

- O espelho diz que se todos os peixes estão mortos, então o mata-peixes estará morto também - disse Mikayla.

- Mata-peixes? - perguntou Uzun.

- É um tipo de plantinha minúscula que produz veneno - explicou Fiolon.

- Então precisamos pôr peixes no Lago Wum - disse Mikayla. - Mestre Uzun, onde sugere que podemos encontrar mais peixes?

- Foram muitos os danos perto do Rio Bonorar? - perguntou Uzun.

- Não - Mikayla balançou a cabeça -, a região Dylex fica tão distante de nós a leste que foi poupada da maior parte dos distúrbios causados pela doença da arquimaga.

- E o Bonorar flui para o Lago Wum de qualquer modo disse Fiolon. - Por isso, se os peixes estão rio acima e os fizermos descer para o lago, isso deve gerar os novos pesqueiros outra vez.

Enya chegou com o jantar nessa hora e todos calaram enquanto Mikayla e Fiolon comiam. Até Uzun parecia perdido em seus pensamentos.

- Podemos ir voando para lá - continuou Fiolon, mandando seus pratos de volta para a cozinha -, verificar se de fato a água do lago está limpa de novo, então subir o rio com algumas redes e levar os peixes para o lago.

- Isso deve ser melhor do que tentar teletransportar criaturas vivas - concordou Mikayla, mandando os pratos para a cozinha com um discreto movimento da mão.

- Mas tem um problema que vocês não consideraram - disse Uzun tristonho. - O que é que o povo vai pensar, especialmente os skriteks e os glismaks, se vocês forem vistos voando por aí em abutres gigantes e fazendo o trabalho da Senhora? O que eles vão imaginar em relação a ela?

- Provavelmente a verdade - disse Mikayla.

- Eu posso cuidar dos glismaks - disse Fiolon ao mesmo tempo.

- Nós realmente queremos que os povos da terra saibam que a arquimaga está seriamente doente? - perguntou Uzun baixinho.

- Talvez fosse melhor se eles não adivinhassem - Mikayla disse depois de pensar um pouco. - A fé pode ser uma força poderosa independentemente da realidade por trás dela.

- E especialmente se significar que não teremos de enfrentar uma revolta dos skriteks - acrescentou Fiolon.

Mikayla estremeceu.

- Você tem razão - ela disse. - Então é melhor fazer isso à noite e tomar cuidado para não sermos vistos.

- Mas os abutres gigantes não podem voar à noite - protestou Fiolon - e levaríamos meses viajando de fronial, principalmente se tivermos de nos esconder.

- Olho Vermelho voa à noite - Mikayla observou.

- É isso mesmo - disse Fiolon - e ele é bastante grande para carregar nós dois. Mas será que ele vai querer?

- Tenho de perguntar para ele - disse Mikayla. - Afinal de contas, nós não temos nem meio ano para fazer isso. Preciso voltar ao Templo de Meret em menos de dois meses.

Olho Vermelho concordou em ajudar a amiga Mikayla, com um certo orgulho pelo fato de haver uma coisa que podia fazer e que um abutre gigante comum não podia. Ele chegou logo depois de escurecer na noite seguinte e deixou-os perto da Cidade de Tass, no extremo sul do Lago Wum, logo antes do amanhecer.

Ele ia passar o dia numa árvore na parte mais escura do Pântano Verde, enquanto Mikayla e Fiolon, com botas à prova d’água, calças largas enfiadas nelas e jaquetas impermeáveis de couro com capuz, apropriados para chapinhar no pântano, caminhavam pela beira do lago, verificando o estado da água e da vegetação em volta do lago. Descobriram que o espelho estava certo. O lago estava livre de mata-peixes e tinha plantas o bastante crescendo outra vez para alimentar os peixes. Então aquela noite pegaram várias redes emprestadas de um cais na Cidade de Tass, voaram subindo o Bonorar até Dylex, e carregaram de volta as redes cheias de peixes de vários tamanhos. A perícia de vôo de Olho Vermelho era incrível, Mikayla observou. Ele conseguia arrastar as redes de peixe pelo rio sem tirá-las da água sequer uma vez, sem enroscar em pedras ou raízes de árvores nem fazer nada que prejudicasse os peixes. Mais ou menos meia hora antes do amanhecer chegaram ao Lago Wum e depositaram os peixes bem no centro, esperando dar-lhes uma chance de se multiplicar antes dos pescadores descobrirem. Olho Vermelho deixou Mikayla e Fiolon na Cidade de Tass para poderem devolver as redes e voltou para seu poleiro temporário no Pântano Verde.

Os três passaram as semanas seguintes voando por toda a terra, verificando os danos que precisavam de consertos. Mas logo descobriram que a terra estava se curando sozinha.

- Queria saber se a saúde da terra está mesmo ligada a Haramis - Mikayla disse para Fiolon uma noite enquanto esperavam Olho Vermelho.

Fiolon, que tinha usado sua esfera para falar com Uzun todas as manhãs, fez que sim com a cabeça, pensativo.

- Acho que deve estar - ele disse. - Mestre Uzun diz que Haramis está se recuperando bem.

- Estou contente - disse Mikayla. - Quando eu voltar do Templo de Meret, ela pode estar se sentindo mais caridosa em relação a mim.

- Você tem de voltar para lá? - Mikayla olhou para cima e viu que Olho Vermelho tinha pousado silenciosamente atrás dela.

- Você sabe que eu tenho, Olho Vermelho - ela disse. – Eu prometi. E este ano vou representar a Deusa no Festival da Primavera.

Olho Vermelho suspirou.

- Não esqueça a sua promessa de falar comigo todas as noites - ele disse. - Quando é que tem de ir?

- Esta noite - disse Mikayla. - Preciso estar lá antes da aurora.

- Eu fico na torre e informo ao mestre Uzun, se Olho Vermelho não se incomodar de levar-me até lá - disse Fiolon.

- Uzun pode resolver o que vai contar para a Senhora. Então terei de voltar para Mutavari e me apresentar ao rei. Depois disso, devo ficar em Let todo o verão e o outono.

- Então é melhor a gente voar - disse Olho Vermelho, estendendo a asa.

Depois de toda a animação e das crises dos últimos meses, Mikayla achou muito agradável estar de volta ao Templo de Meret. Conforme havia prometido, falava com Olho Vermelho todas as noites, apesar de não ter nada para contar. Nada foi muito diferente do ano anterior.

Ela fez o papel de Filha Mais Nova no Festival da Primavera, representando a Deusa na procissão, e passou a maior parte do dia sendo carregada pelos jovens do templo num trono todo trabalhado, de espaldar alto, enquanto as outras Filhas, com mantos verdes, caminhavam em fila dos dois lados do trono segurando leques que não deixavam a congregação ver que ela estava lá sentada. Nem precisou entoar os cânticos do festival que tinha aprendido um ano antes.

Obedientemente contou isso para Olho Vermelho, e também deu sua opinião, que o ritual era ainda mais aborrecido para a Filha Mais Nova.

- Podiam pôr um leque no meu lugar, e ninguém notaria a diferença.

- Fico feliz de ouvir isso - disse Olho Vermelho. - Talvez a desencoraje de se oferecer para fazer isso de novo.

- A gente não se oferece - lembrou Mikayla. - A Deusa escolhe quem ela quer. Mas estou contente de ter acabado.

Quando o Marido da Deusa Meret foi à sala das Filhas para fazer a Escolha e escolheu outra como Filha Mais Nova para o ano seguinte, Mikayla ficou satisfeita de descer um lugar na ordem.

Ela passou o resto do mês aproveitando a paz e o silêncio, e a vida organizada imposta pelos rituais. No fim do mês Olho Vermelho apareceu para pegá-la e levá-la para a torre mais uma vez.

A companhia de Uzun fez o humor de Haramis melhorar consideravelmente. A harpa que antes era o corpo dele ainda funcionava muito bem como harpa, e Haramis já estava bastante bem para descer a escada e ir para o estúdio todas as manhãs. Ela passava os dias no sofá, ouvindo Uzun tocar e cantar suas antigas baladas, depois subia para o seu quarto à noite para dormir. Parecia perfeitamente feliz de viver sua vida desse jeito e não se importava com mais nada.

Ela recebeu Mikayla, evitou perguntar onde tinha estado, e não disse nada sobre a retomada do seu treinamento. Agora que tinha seu velho amigo Uzun de volta, parecia indiferente ao que Mikayla fazia, e até quanto a saber para onde ela ia.

Mikayla aproveitou esse desinteresse para passar as tardes nas cavernas de gelo estudando o espelho e alguns outros artefatos guardados lá. O espelho e ela já estavam se entendendo - e ela já sabia ler o suficiente para decifrar os avisos nas etiquetas e velhos recipientes - por isso podia remexer as coisas do depósito sem ter de se preocupar se ia atear fogo em alguma coisa ou explodir a torre. Falava com Fiolon à noite, usando a esfera, que Olho Vermelho tinha devolvido ao trazê-la de volta do templo, mantendo Fiolon a par das coisas interessantes que descobria. Fiolon, por sua vez, contava sua vida na corte de Var, e as operações da madeireira que ainda administrava quando não estava na corte. Ele achava a corte de Mutavari muito aborrecida, pois ficava mais em Let, o seu ducado.

- É estranho - ele disse para ela, rindo - receber uma porção da terra e dizerem que sou responsável por ela. O rei não sabe que sou responsável pelo reino dele inteiro.

- Acho que é melhor assim - Mikayla observou. – Num reino sem a tradição de ter um arquimago, ele poderia considerá-lo uma ameaça à coroa.

- Ora, Mikayla - Fiolon riu -, fale sério. Nós temos apenas dezessete anos.

- Estou falando sério - disse Mikayla. - Andei lendo a história de Labornok, e eles já executaram crianças por alta traição. Não somos crianças, apesar de estarmos crescendo mais devagar que o normal.

- Pelo menos estamos crescendo - disse Fiolon. - Jamais tive a chance de contar para você, mas descobri o motivo pelo qual um feiticeiro demora tanto para crescer. É apenas porque vivemos muito mais do que as pessoas normais, é só isso. Não quer dizer que seremos crianças para sempre. Mesmo tendo começado jovens como começamos, devemos estar fisicamente maduros quando tivermos trinta anos, no máximo.

- Isso é um alívio - admitiu Mikayla. - A idéia de parecer uma criança de doze anos nos próximos duzentos anos não me parecia muito atraente.

Mikayla escapava muitas vezes à noite para voar com Olho Vermelho, até achar que conhecia a terra à noite melhor do que de dia. Mas gostava da companhia dele e ele parecia gostar dela.

A vida foi boa aquele ano, até uma manhã no início da primavera, quando Mikayla acordou subitamente antes da alvorada, segundos antes de um terremoto acontecer.

- Ah, não, de novo não! - ela gemeu, rolando para fora da cama e correndo para o quarto de Haramis. Uzun chegou logo depois dela e Enya apenas alguns minutos atrás dele. Mikayla deixou os dois acomodando Haramis na cama e mandou chamar Kimbri - não que achasse que a curandeira podia fazer muita coisa. Então foi para as cavernas de gelo e fez o espelho mostrar em que lugar da terra tinha ocorrido o desastre.

Mikayla sabia que Haramis usaria a mesa de areia para aquela tarefa, mas não tinha o mesmo preconceito de Haramis em relação à tecnologia. O espelho mostrava o que estava acontecendo na terra sem que ela precisasse gastar a energia necessária para sentir o seu estado através da mesa de areia. Só precisava para fazer o conserto, além de muita energia própria, uma visualização clara do que estava fazendo, e também era mais fácil fazer isso com o espelho. Significava que quase toda a energia de Mikayla podia ser dirigida para o trabalho que tinha de ser feito. Ela passou o resto do dia abafando terremotos e os tremores subseqüentes, desviando rios transbordantes para longe das áreas povoadas e esperando que dessa vez as condições não estivessem propícias para o reaparecimento do mata-peixes.

Algumas horas depois de anoitecer, quando Mikayla sentia frio e cansaço, tendo exaurido sua habilidade normal de controlar essas deficiências físicas, Fiolon apareceu, coberto de agasalhos e segurando uma caneca de suco quente de ladu.

- Olho Vermelho foi me buscar - ele explicou. - Beba isso, coma alguma coisa e vá para a cama. Eu assumo a próxima vigília.

- Obrigada - disse Mikayla, esfregando as mãos frias até recuperar um pouco do tato para segurar a caneca. - Observe o ponto em que o Rio Nothar se junta ao Muttar Setentrional... está ameaçando uma enchente há quatro horas. E ainda temos tremores em toda parte.

- Eu cuido disso - disse Fiolon. - Você trate de comer e dormir um pouco.

Mikayla só balançou a cabeça, cambaleando para o seu quarto.

Ela rendeu Fiolon quando o dia clareou e nos dias que se seguiram os dois se revezavam para ter sempre um observador pronto para consertar qualquer dano. Depois de algum tempo o pior passou e os tremores de terra diminuíram tanto, que só eram percebidos por quem tinha aquele sentimento especial. Uzun se ofereceu para ficar diante do espelho enquanto os dois aproveitavam o tão necessário descanso.

- Que bom que eles o fizeram bem forte para suportar essas temperaturas - Mikayla disse para Fiolon quando subiam o túnel de volta para a torre. - Na sua forma natural ele teria congelado e morrido aqui.

- Ajuda muito mesmo - concordou Fiolon. - Quantos anos você ainda precisa voltar ao templo para acabar de pagar isso?

Mikayla contou nos dedos.

- Fui dois, então faltam cinco. Terei vinte e um anos no último ano que passar no templo.

- E quanto tempo falta para você voltar para lá este ano? - Mikayla gemeu.

- Duas semanas. É melhor mesmo eu descansar um pouco.

- Ficarei aqui enquanto você estiver fora - Fiolon ofereceu.

- Uzun pode precisar de ajuda. Ele é um bom mago, mas a mágica da terra é um pouco diferente.

Mikayla voltou para o Templo de Meret pela terceira vez. Foi bem tranqüilo e significou um descanso merecido dos cuidados com Ruwenda e de ficar vendo Haramis se recuperar bem mais devagar do que das outras vezes. Mas quando chegou a hora da Escolha, Mikayla ficou decepcionada de ser escolhida de novo.

- São duas vezes em três anos - ela reclamou quando contou para Olho Vermelho. - Acho que a Deusa podia espaçar um pouco mais... afinal, nós somos cinco.

- Eles falaram alguma coisa a respeito de um jubileu? - o pássaro perguntou aflito.

- Falaram - admitiu Mikayla. - Houve uma rápida referência a isso durante a apresentação à congregação. Você não imagina como aquela tiara é pesada... fiquei com uma terrível dor de cabeça. O que é um jubileu?

- Explico quando for pegá-la no fim do mês - disse Olho Vermelho.

- Está bem - disse Mikayla - pelo menos depois da apresentação para a Deusa amanhã de manhã eu não terei mais de usar a tiara, e o ritual é só no ano que vem.

Olho Vermelho pegou-a no fim do mês. Em vez de levá-la de volta para a torre, ele foi para a sua caverna no Monte Rotolo. Mas quando ele tentou explicar o conceito do Jubileu da Deusa, ela não acreditou.

- Você está maluco, Olho Vermelho - ela disse. - Eles não vão me matar. Eu ainda devo mais três anos para eles depois do próximo.

- Mas o jubileu é isso - insistiu Olho Vermelho. - A cada duzentos anos a Deusa precisa de um coração novo para renovar sua vida e governar mais duzentos anos. E é a Filha Mais Nova da Deusa que eles sacrificam.

- Se eles não fazem isso há duzentos anos, você não pode saber de nada - observou Mikayla.

- Mas eu sei - ele insistiu. - Os Sacerdotes do Tempo da Escuridão, os que me criaram, são os que executam o sacrifício. Fazem parte da corporação de sacerdotes da Deusa Meret.

- Como foi que eu passei três anos no templo e nunca os vi? - perguntou Mikayla, cética.

- Você passou três meses lá - retrucou o pássaro - e não três anos, e ficou o tempo todo trancada com as virgens do templo, que não deixaram você ver a maior parte das coisas que normalmente acontecem no templo. Os Sacerdotes do Tempo da Escuridão são noctívagos. Os rituais das Filhas da Deusa acontecem desde o Amanhecer até a Segunda Hora da Escuridão. O resto da noite é deles. A única hora que saem de dia é para executar o sacrifício.

- Se está dizendo que é assim... - disse Mikayla educadamente, pensando no íntimo que o pássaro tinha uma cisma quanto aos seus criadores, embora não pertencessem ao templo. - Acho que é melhor levar-me de volta para a torre, Olho Vermelho. A última notícia que eu tive foi a de que Haramis não estava nada bem. Provavelmente estão precisando de mim lá.

Haramis estava mesmo muito mal, incapaz até de levantar da cama. Uzun passava o tempo todo com ela, e Fiolon partiu para Var logo depois da chegada de Mikayla, dizendo que tinha de ver umas coisas em Let

Mikayla passou a maior parte do ano chateada e se sentindo inútil, quando então chegou a hora de voltar para o templo, achou até bom. Mas espantou-se quando Olho Vermelho recusou-se a levá-la.

- Eu disse que eles vão matá-la se for para lá - ele lembrou, quase histérico. - Você não pode ir!

- Eu prometi que ia - disse Mikayla. - Se você não me levar, só terei de esperar até amanhã e pedir para um dos outros abutres gigantes.

- Vou contar para o seu primo - declarou Olho Vermelho. - Ele vai impedi-la.

- Ele está em Var - Mikayla observou - e ele sabe que manter promessas é importante para mim. Não vai tentar me impedir.

Haramis sentou na cama e olhou para Uzun horrorizada.

- Mikayla vai ser o quê?

- Ela vai ser sacrificada a Meret - disse Uzun desesperado. - Foi a barganha que ela fez em troca do meu novo corpo. Mas ela não sabia com o que estava concordando. Temos de impedi-la! - ele acrescentou com urgência.

- Quando e onde isso vai acontecer? - perguntou Haramis, sentindo-se mal. Eu sabia que a menina estava infeliz aqui, sabia que ela não gostava de mim, mas não imaginava que...

- Depois de amanhã, ao nascer do sol - respondeu Uzun carrancudo. - No Templo de Meret, no Monte Gidris.

- Por que Mikayla? - perguntou Haramis. Uzun suspirou e ela disse rapidamente. - Sei que você disse que era uma troca pelo seu corpo, mas por que eles iriam querer sacrificar Mikayla e não outra pessoa? O que a torna especial para eles?

- Ela é uma virgem real - disse Uzun com amargura. Aposto que ficaram animadíssimos quando ela caiu nas mãos deles. Eu nunca devia ter reclamado de ser uma harpa - ele completou desesperado.

- Ela não é a única virgem real que existe - observou Haramis. - Seu irmão caçula provavelmente ainda é... que idade ele tem agora, dezesseis? E Fiolon é nobre também, e supostamente ainda virgem.

- Eles são machos - disse Uzun. - Mikayla é a filha virgem de um rei.

- E date - retrucou Haramis sem pensar. - Eu também sou

- então ela percebeu o que tinha dito e repetiu, com uma inflexão diferente. - Eu também sou. Se o que eles querem é uma filha virgem de rei... - ela parou de falar, pensativa.

- Não, você não poderia assumir o lugar dela - Uzun disse com rispidez. - Você não se parece nada com Mikayla.

- Um encantamento simples - disse Haramis. - Ela e eu somos quase do mesmo tamanho, só precisamos trocar nossas roupas.

- Haramis - disse Uzun, cerrando os dentes de madeira. Você não pode criar um encantamento simples. Você nem consegue mais falar com os abutres gigantes. Não tem mais a visão! Você esteve doente e ainda não recuperou seus poderes.

Haramis ficou olhando para ele, sentindo os pedaços da sua vida se encaixando.

- Sinto muito, velho amigo - ela disse baixinho. - Eu posso tomar o lugar dela e preciso fazer isso. Devo isso a ela, e devo isso à terra. Tive pelo menos dois grandes distúrbios cerebrais nos últimos cinco anos - ela continuou friamente - e só a Flor sabe - ela encostou os dedos no pedaço de trílio mergulhado em âmbar do talismã que usava no pescoço - quantos outros menores. Não consigo falar com os abutres gigantes desde o primeiro, e com cada ataque vou perdendo mais habilidades. O que restou foi quase nenhuma magia e meu corpo físico está falhando. Já que tem mais de duzentos anos, isso não é nenhuma surpresa. E cada vez que adoeço, a terra também adoece. Olhe o que aconteceu na última vez. O estrago foi tão grande que Fiolon veio correndo para cá, lá de Var! Se os habitantes de Var estão notando nossos problemas, eu não estou cumprindo meu dever.

- Fiolon foi o único que notou - disse Uzun -, e ele e Mikayla conseguiram consertar os danos. Além do mais, isso foi da outra vez, não esta última. Não aconteceu nada terrível desta vez.

- Mikayla fugiu de novo? - Haramis lançou um olhar fulminante para Uzun. - O que você quis dizer, que Fiolon foi o único que notou... por que ele seria o único? - Uzun deu um suspiro.

- Fiolon é o arquimago de Var.

- O quê? - Haramis ficou boquiaberta olhando para ele. Ela esperava ouvir qualquer coisa, menos isso. - Você quer dizer que ele ainda está ligado à Mikayla, e que...

- Não - a resposta foi definitiva. - Ah, ele provavelmente continua ligado à Mikayla sim, e agradeça à Flor por isso, porque é assim que estamos obtendo a maior parte das informações, eles ainda se comunicam todas as noites.

- Como? - perguntou Haramis.

- Eles encontraram um par de esferas nas velhas ruínas de Golobar antes de você trazê-los para cá. Na primeira vez que você mandou Fiolon embora, descobriram que podiam usá-las para ter a visão um do outro. Na verdade, Mikayla usa a dela para ver tudo, quando você não está por perto. Quando ela está no templo e não tem como esconder a esfera dos sacerdotes, deixa com seu abutre gigante preferido, e então Fiolon e ela se comunicam através do pássaro.

- Então eles estiveram se comunicando o tempo todo nesses últimos cinco anos? - perguntou Haramis. - Mesmo quando mandei Fiolon de volta para Var?

- Exatamente - disse Uzun. - Você deve lembrar que Mikayla criou um caso por causa disso...

- Ela se trancou no quarto e ficou dois dias lá - disse Haramis, recordando. - E ficou terrivelmente quieta por um longo tempo depois que saiu de lá.

- Ela se trancou no quarto e entrou em contato com Fiolon - disse Uzun. - Mais tarde ela me contou tudo. Parece que andava partilhando todas as aulas com ele, e você tinha ensinado bastante coisa na época, provavelmente mais do que imagina. Você ainda tinha o poder e o sentido da terra de Ruwenda, mas ninguém tinha de Var, e no momento em que Fiolon pôs os pés no solo ele adquiriu o seu sentido da terra.

- E é claro que Mikayla captou o ricochete - Haramis não precisava dessa explicação. - Não admira que de repente se interessasse pelo significado de ter o sentido da terra e de ser arquimaga. Achei que ela finalmente começava a se resignar com seu destino. Mas estava apenas juntando informações para Fiolon, não era?

- Na cabeça dela, era - disse Uzun. - Mas ela não é burra, e não podia passar para ele o que não tinha aprendido.

- Um arquimago homem - Haramis balançou a cabeça, intrigada. - Você tem certeza absoluta, Uzun?

- Tenho - respondeu Uzun. - Mas se duvida da minha sensibilidade, pergunte a ele você mesma - ele deu um puxão violento na corda do sino.

- Então ele está aqui? - perguntou Haramis. - Eu não sabia que tínhamos hóspedes.

- Ele está aqui como meu convidado - disse Uzun. - Não sei o que você tem contra ele, Haramis, além do fato de ser um homem, mas eu gosto dele.

Enya chegou enquanto Haramis ainda tentava pensar numa resposta para isso. Uzun pediu para ela encontrar Fiolon e mandá-lo para o quarto de Haramis. Haramis não protestou, mas Enya sim.

- Mas, mestre Uzun, ele deve estar de novo naquela caverna. Ele estava indo para lá...

- Então mande um dos vispis chamá-lo - disse Uzun mal-humorado. - A Senhora quer vê-lo e certamente você não espera que ela desça e vá atrás dele!

- Não, mestre Uzun - disse Enya fazendo uma mesura e saindo apressada do quarto. - Vou mandar buscá-lo imediatamente, Senhora.

É claro que quando era necessário mandar alguém ao subsolo da torre, pelo túnel da caverna de gelo, para depois trazer a pessoa procurada de volta todo o caminho de novo, ”imediatamente” demorava muito tempo. Uzun ficou tentando convencer Haramis de que não podia assumir o lugar de Mikayla, mas não tinha conseguido nada quando Fiolon chegou.

- Senhora de Branco - Fiolon curvou-se formalmente diante de Haramis, depois sorriu para Uzun. - Mestre Uzun, como posso servi-lo?

Haramis analisou o rapaz. Não era nada parecido com os jovens que conheceu quando menina. Ele tinha a qualidade serena e eterna de um grande adepto... ou de um arquimago. Ela procurou lembrar que idade devia ter. Vejamos, ele tem a mesma idade de Mikayla, e isso quer dizer... dezoito anos? É, dezoito. Uzun deve estar pelo menos parcialmente certo, ela percebeu. Esse definitivamente não é um jovem normal de dezoito anos.

- Você pode me ajudar a convencer a Senhora a ter senso - disse Uzun ranzinza. - Ela está com essa idéia maluca de que pode assumir o lugar de Mikayla!

Fiolon ficou olhando para Haramis alguns minutos, depois olhou com tristeza para o oddling.

- Sinto muito, Uzun - ele disse muito sério -, mas ela está certa. É possível, e temo que seria melhor para a terra.

- A terra! - Uzun estava praticamente gritando. - Vocês arquimagos só pensam nisso

- Na terra e em seus habitantes - disse Fiolon suavemente. - Desculpe, Uzun. Eu sei que você não quer perdê-la. Nem eu. Mas também não quero perder Mikayla.

- É claro que eu não quero perder Mikayla! - protestou Uzun. - Mas ela se meteu nessa confusão por minha causa... eu é que devia ser sacrificado no lugar dela. Haramis mal consegue andar e não pode criar um encantamento para fazê-los pensar que é Mikayla. Além disso, Mikayla descende da real família de Labornok, e Haramis não.

- As duas terras se juntaram desde que a princesa Anigel casou com o príncipe Antar - Fiolon lembrou. - Você devia lembrar disso, pois escreveu metade das baladas sobre essa história.

- Você está dizendo que eu sou arquimaga de Labornok, além de Ruwenda? - Haramis perguntou curiosa.

Fiolon arregalou os olhos, espantado.

- E não é?

Haramis deu de ombros.

- Jamais pensei nisso.

Fiolon franziu a testa, concentrado, e começou a andar de um lado para outro.

- Isso pode explicar por que o culto de Meret ainda floresce em Labornok - ele disse. - Se você não tem o sentido da terra de Labornok, talvez outra pessoa tenha... ou então ninguém o tem - ele virou para olhar para ela. - Senhora, já esteve em Labornok alguma vez?

- Não - Haramis balançou a cabeça. - Essa torre é o mais perto que cheguei da fronteira, e estamos bem do lado ruwendiano aqui. Movis fica mais ou menos na metade da descida do Monte Rotolo, e mesmo a caverna de gelo onde encontrei meu talismã ficava deste lado do Monte Gidris. Por isso eu jamais pus os pés em Labornok, nem voei por cima da terra.

- Então esse pode ser o problema - disse Fiolon. - Mas não é o problema mais urgente que temos no momento. Uzun contou sobre o sacrifício?

- Só que vai acontecer depois de amanhã, ao nascer do sol. Fiolon fez que sim com a cabeça.

- Andei observando o espelho. É um artefato muito útil. Fui capaz de mapear o templo inteiro com ele - ele sorriu um pouco. - E provavelmente sou o único homem vivo, a não ser pelo sacerdote deles, o que chamam de Marido da Deusa Meret, que já viu os quartos onde moram as virgens. Já que o espelho mostra qualquer parte do templo quando eu peço, posso usá-lo para ver onde Mikayla está, sem ter de recorrer à visão pessoalmente, ou à comunicação via o abutre gigante,

Ele suspirou.

- Mas agora a notícia não é boa. Ela terá de jejuar o dia inteiro amanhã e fazer uma vigília sozinha na caverna de fora à noite. Suspeito que o objetivo disso é deixá-la fraca demais para reagir quando descobrir o que está acontecendo, mas enquanto estiver sozinha, Olho Vermelho e eu podemos entrar, pegá-la e sair sem sermos vistos.

- Olho Vermelho? - perguntou Haramis.

- É um abutre gigante - explicou Fiolon.

- Os abutres gigantes são animais diurnos – observou Haramis. - Eles dormem à noite e não enxergam muito bem no escuro.

- Olho Vermelho é uma exceção - disse Fiolon. - Ele é albino... completamente branco, sem pigmento nos olhos.

- Os albinos têm olhos cor-de-rosa - disse Haramis.

- O Olho Vermelho também tem - disse Fiolon -, ele simplesmente se recusa a admitir. Diz que ”Olho Cor-de-Rosa” é um nome ridículo. E tem sido muito amigo de Mikayla, por isso estou disposto a fazer sua vontade nisso. Ele tem uma excelente visão noturna e é quase invisível sobre a neve.

- Então você vai nesse Olho Vermelho - disse Haramis -, agarra Mikayla, que deve ser bem fácil para você...

- Não - disse Fiolon. - Não será fácil. Ela não virá de boa vontade. Ela diz que deu sua palavra de que faria esse ritual, e costuma manter suas promessas.

- E quanto à promessa de ser arquimaga? - perguntou Haramis zangada.

Fiolon deu um sorriso meio de lado.

- Quando foi que ela prometeu isso?

- Quando veio para cá, é claro - disse Haramis, e depois pensou um pouco. - Acho que ela nunca prometeu de fato ser arquimaga.

- Você não pediu para ela prometer - Fiolon observou. Eu estava aqui, lembra? Você disse que ela seria a arquimaga depois de você e quando ela perguntou se tinha escolha, você disse que não. Disse que o assunto era importante demais para ficar à mercê dos caprichos de uma criança.

Haramis suspirou.

- Tem razão, foi isso que eu disse. Devia ter passado menos tempo falando e mais escutando. Até arrisco dizer que Uzun a conhece melhor do que eu. Bem, isso não importa agora. Olho Vermelho pode levar-me junto com você?

- Pode - disse Fiolon. - Mas você não precisa tomar o lugar dela. Posso simplesmente tirá-la de lá.

- E deixar Labornok atacar Ruwenda pela segunda vez? disse Haramis - sem ninguém em Ruwenda devidamente treinado para enfrentar Labornok?

- Acho que esse argumento é válido - disse Fiolon, infeliz. Os sacerdotes de Meret são bastante cruéis, mais do que Mikayla imagina. Eu os vi mais vezes do que ela, e em circunstâncias diferentes. Eles mantêm as Filhas da Deusa muito protegidas, por isso ela não vê muita coisa quando está lá, e não creio que jamais tenha visto o templo no espelho, desde o dia em que os encontrou.

- Eles sabem que Mikayla mora na torre - ele continuou. - Sabem que ela deve tornar-se arquimaga, por isso viriam procurá-la primeiro aqui. E ela não ia ser de grande ajuda para combatê-los. Na verdade, eu teria de trancá-la para evitar que chamasse um abutre gigante e voltasse para eles.

- Mas ela não pode voltar para eles se eles não estiverem mais lá - disse Haramis.

- O que quer dizer? - perguntou Fiolon.

- Mikayla não sabe que vão matá-la, certo? - disse Haramis.

- Olho Vermelho tentou contar para ela, e eu também tentei - disse Fiolon muito triste -, mas ela não acreditou em nós. Diz que foi escolhida como Filha Mais Nova da Deusa dois anos atrás e que sobreviveu muito bem, obrigada, e que além do mais ainda deve a eles três anos de serviço depois desse, por isso por que iriam matá-la agora? Ela não compreende que no Festival do Jubileu é diferente. Eles vão arrancar o coração do seu corpo ainda vivo para dar à Deusa o novo coração e mais duzentos anos de vida.

- Então é isso que eles fazem? - perguntou Haramis -, põem a Filha mais nova no altar e cortam fora seu coração?

- Com a faca negra obsidiana ritualística. E então entregam seu corpo ao rio, que é o sangue da Deusa - disse Fiolon. - Observei uma sessão em que os sacerdotes estavam planejando o ritual, escolhendo quem ia oficiá-lo, e tudo o mais. Obtive muitos detalhes vendo isso, e depois fiz o espelho mostrar a sala onde aconteceria o sacrifício. O altar do sacrifício fica bem em cima do ponto em que o rio sai da rocha, do lado oeste do templo.

- Então você já viu o lugar - disse Haramis. - Do que é feito o altar?

- De pedra viva - disse Fiolon. - Toda a capela é escavada na... ah, entendo. Sim, definitivamente faz parte da terra. Nada artificial é posto ali. Se você puder usar a terra do lado labornok das montanhas, pode usar a capela, o altar e tudo.

- Usar? - perguntou Uzun.

- Um arquimago tira seu poder do contato com sua terra - explicou Fiolon.

Ele entende mesmo disso, Haramis percebeu. Uzun deve estar certo, mas ainda não me conformo de haver um arquimago homem.

- Na verdade - continuou Fiolon - um arquimago pode usar qualquer terra de certa forma. Eu descobri, quando estava trabalhando com Mikayla, que podia tirar um pouquinho de poder de Ruwenda - ele olhou de lado para Haramis. Devia ter pedido sua permissão, Senhora, mas estava muito doente naquela hora...

- O importante é que a terra esteja bem - disse Haramis.

- Quem promove a cura não merece maiores considerações. E eu devia ter percebido isso anos atrás, ela pensou. - Voltando ao seu plano atual - ela continuou -, amanhã à noite, Fiolon, você e eu voaremos para o lugar em que Mikayla está fazendo a vigília. Como não pretendemos passar a noite toda discutindo, eu sugiro levar alguma coisa para deixá-la rápida e silenciosamente inconsciente.

Fiolon fez que sim com a cabeça.

- Há um líquido numa garrafa na despensa que faz isso - ele disse. - É uma das coisas que Orogastus colecionava. Mas possuo uma grande vantagem sobre ele - ele disse, sorrindo maliciosamente e ficando de repente mais próximo da sua idade verdadeira. - Eu sei ler as instruções.

- Sabe? - Haramis ficou espantada. - Como foi que você aprendeu a língua dos Desaparecidos?

- O espelho - disse Fiolon. - O ”espelho mágico” de Orogastus é, entre outras coisas, um mecanismo de ensino.

- Eu sabia que era uma máquina - disse Haramis, lembrando. - Percebi isso da primeira vez que o vi. Lá estava Orogastus, invocando todo tipo de Poderes Ocultos inexistentes, diante daquela velha máquina, que mal funcionava. Fiolon riu.

- Problema dele, se não percebeu isso. Ele construiu essa torre exatamente em cima da fonte de energia da máquina - ele notou o olhar perdido de Haramis e explicou. - O espelho tira energia da luz do sol e havia uma célula solar construída em cima dele, para captar os raios e armazená-los em baterias.

Haramis ficou imaginando o que seriam ”célula solar” e ”baterias”, mas não interrompeu para perguntar. A julgar pelo contexto, deviam ser algum tipo de artefato de coleta e armazenagem. Fiolon continuou.

- Orogastus não sabia qual a serventia daquela superfície lisa e negra, mas ela estava lá, e desimpedida, de modo que pôs sua torre em cima. E deixou a neve cobrir o que a construção não tinha coberto, por isso a máquina não podia recarregar suas baterias perfeitamente. E isso fez com que não pudesse usar muito o espelho. Mikayla descobriu isso quando você estava na Cidadela, o que era, e onde estava a célula solar, o que foi muito inteligente da parte dela... embora sempre tenha sido boa com coisas mecânicas... e assim limpamos a praça, expondo a célula solar, e então o espelho começou a funcionar muito bem. Usamos para ver como você estava, e para aprender a língua dos Desaparecidos. Foi assim que Mikayla descobriu o Templo de Meret.

- O espelho mostrou onde era - lembrou Haramis. - Ele mostrou onde minhas irmãs estavam quando Orogastus me levou até lá.

- É - disse Fiolon. - Ela pediu para ele mostrar magos humanos até encontrar alguém que pudesse fazer um corpo para Uzun. Então deixou-me aqui para fazer companhia para Uzun e foi até lá aprender a técnica.

- Não devia ter deixado ela ir! - desabafou Uzun.

- Não ia conseguir impedi-la - Fiolon lembrou com carinho. - Acho que naquela época nem eu. Ela estava tão furiosa com a vida que precisava inventar uma batalha para enfrentar.

Encontrar um corpo para você foi essa batalha... o jeito que ela teve de revidar contra o destino que a prendia aqui.

- Então você pode deixá-la inconsciente - disse Haramis, fazendo a conversa voltar ao assunto principal. - Nessa hora posso trocar de roupa com ela e você a traz de volta para cá. Mantê-la aqui tempo suficiente para o sacrifício acontecer é problema seu. Quanto a mim, o fato de Mikayla supostamente estar em jejum e ter passado a noite sentada naquele frio deve dar conta de qualquer fraqueza ou dificuldade para andar que eu possa ter. Mas Fiolon, Uzun acabou de me lembrar que já não consigo mais fazer nem um encantamento simples. Será que você pode criar um para mim antes de sair de lá”?

Fiolon concordou, balançando a cabeça.

- Posso lançar um encantamento que a deixará parecida com ela enquanto estiver viva e seu corpo estiver intacto. Mas quando arrancarem seu coração, ele desaparece.

- Ótimo - Haramis deu um sorriso triste. - Espero ainda ser capaz de ver a cara deles nessa hora. Queriam se meter com a minha sucessora, não é? Não mesmo.

- Porei um encantamento de bloqueio de dor em você também - disse Fiolon. - Devo ser capaz de ligá-lo à terra, de modo que ele não se desfará, a menos que você fique flutuando no ar, ou qualquer coisa improvável assim.

- Isso deve resolver, então - disse Haramis. - Vou descansar até a hora de ir. Mais ou menos meia-noite, amanhã, eu acho. Vou pedir à Enya para trazer uma sopa e pão duas horas antes. Eu não preciso jejuar. Assim terei forças para fazer o que tenho de fazer.

- Mas, Haramis... - protestou Uzun.

- Desculpe, Uzun - disse Haramis com firmeza -, mas preciso fazer isso. Fiolon, você e Mikayla tomarão conta de Uzun enquanto eu estiver fora, está bem?

- Sim, Senhora, claro que tomaremos conta dele - Fiolon esforçou-se para sorrir -, quando ele não estiver tomando conta da gente.

- Ótimo - Haramis recostou nos travesseiros, sentindo um cansaço repentino. - Eu quero descansar agora.

- Claro, Senhora - Fiolon fez uma mesura e saiu do quarto, puxando Uzun junto com ele.

Haramis ouviu a voz do oddling enquanto era arrastado pelo corredor.

- Será que ela pensa que eu quero viver sem ela?

Meu pobre e velho amigo, pensou Haramis sonolenta, o que foi que eu fiz com você? O que foi que eu fiz com nós todos!

Haramis passou o dia descansando e se alimentando. Logo antes de partir com Fiolon, Enya entrou no quarto dela com um vestido branco longo, com gola alta e mangas compridas.

- Lorde Fiolon pediu para eu trazer isso, Senhora - ela disse. - Ele disse que Mikayla deixou isso no quarto dela na última vez que veio para casa.

Haramis não reconheceu aquela roupa. Imaginou que devia ser a que Mikayla usava quando voltou do Templo de Meret. Com um pouco de sorte seria idêntico ao que ela estava usando naquele momento, e a troca de roupa com ela talvez não significasse ficar nua no frio da montanha.

- Obrigada, Enya - ela disse. - Ajude-me a vestir, por favor. Enquanto Enya atendia seu pedido Haramis examinou a pequena mulher nyssomu. Não era justo, depois de todos aqueles anos de bons serviços, ir embora sem dizer nada.

- Enya - ela disse - vou sair esta noite. Enya fungou.

- Diga alguma coisa que eu não tenho certeza ainda. O mestre Uzun anda deprimido o dia inteiro, dizendo que você vai para a morte certa.

Haramis sorriu um pouco.

- Melodramático, como sempre, mas temo que desta vez ele está realmente correto. É muito provável que eu não volte viva.

- Oh, Senhora - Enya gemeu. - E eu que pensava que ele estava exagerando, como costuma fazer.

- Fiolon vai comigo e deve trazei Mikayla com ele quando voltar - disse Haramis. - Quando eu morrer, um deles, possivelmente os dois, devem tornar-se arquimagos de Ruwenda - ela fez uma pausa. - Eu acho. Sabe, Enya, de repente não tenho mais certeza das coisas que eu sabia antes.

- Não se preocupe com isso, Senhora - disse Enya rapidamente. - A terra cuidará das coisas. Ela sempre cuida, se deixar por conta dela.

- É - Haramis disse. - Finalmente resolvi parar de lutar contra ela. Fiz uma certa confusão, mas creio que não é tarde demais para consertar. Pelo menos espero que não seja - ela respirou fundo. - Quero agradecer a você, Enya, pelos serviços que tem prestado. Você tem sido uma empregada fiel e boa amiga - ela hesitou um pouco. - Não sei se vai querer ficar aqui com Mikayla ou não. Mas seja qual for a sua escolha, tem a minha bênção.

Ela pôs a mão na cabeça de Enya e sentiu um calor pulsar em seus dedos um instante. Acho que não perdi todos os meus foderes, pensou. Fico feliz com isso.

Calçou as botas, as luvas e pôs uma capa pesada por cima do vestido, saindo para encontrar Uzun. Ele estava se lamentando diante do fogo no estúdio, onde passara tantos anos como harpa.

- Velho amigo - ela começou, então engasgou e sua voz falhou. - Oh, Uzun - ela disse, com as lágrimas escorrendo sem controle pelo rosto. -Vou sentir sua falta. E humildemente peço seu perdão por tudo que fiz que possa tê-lo magoado.

- Você nunca me magoou, princesa - Uzun respondeu depressa.

Haramis sabia que ele estava mentindo, pois lembrava as inúmeras vezes em que sua falta de consideração ou o seu comportamento egoísta tinham prejudicado Uzun e os outros à sua volta. Mas Uzun talvez preferisse morrer a admitir que ela não era perfeita.

- E não se preocupe comigo.

O oddling de madeira fungou. Ele estava chorando mesmo, observou Haramis. Que incrível obra de arte era o corpo dele.

- Ficarei aqui o tempo suficiente para compor uma balada sobre a sua bravura e o sacrifício que vai cometer, e depois vou ter com você. Mikayla prometeu há muito tempo libertar-me quando você se for.

Haramis abraçou-o.

- Faça o que achar melhor - ela disse. - Adeus, mais antigo e mais querido dos meus amigos.

- Adeus, princesa.

Uzun virou para o fogo e escondeu o rosto nas mãos.

Haramis subiu a escada lentamente e foi para o terraço onde pousavam os abutres gigantes. Fiolon já estava lá, segurando um dos sacos de dormir especiais que Haramis usava para mandar mensageiros nyssomus para os vales.

- Achei que talvez fosse melhor pôr Mikayla dentro de um desses para a viagem de volta para casa - ele explicou.

- Boa idéia - concordou Haramis.

- Éééé... - soou uma voz na escuridão acima dos dois. Haramis olhou para o alto surpresa. E descobriu que Fiolon tinha razão. Contra o fundo branco da neve ou da torre, o grande pássaro ficava invisível, só apareciam os olhos.

- Você é Olho Vermelho? - ela disse. O pássaro abaixou um pouco a cabeça, indicando que sim. - Obrigada por sua ajuda nesse momento - disse Haramis.

Ela não conseguiu ouvir a resposta da ave, mas Fiolon repetiu para ela.

- Fico feliz em poder ajudar. Mikayla é uma amiga. Olho Vermelho pulou para o terraço e estendeu uma asa.

O gesto foi tão claro como seria a palavra ”Vamos”.

Fiolon ajudou Haramis a subir nas costas do pássaro, depois montou atrás dela. O abutre gigante bateu as asas e subiu suavemente para o céu noturno.

Para Haramis pareceu um instante, e já estavam descendo de novo. O grande pássaro inclinou o corpo para a esquerda e voou para dentro de uma enorme caverna. As colunas da entrada, que Haramis pensou que eram sincelos gigantescos, ficavam bem distantes, e dava para Olho Vermelho passar pelo meio. Logo depois das colunas, Haramis viu uma figura pequena sentada de pernas cruzadas num tapete de pele. Mikayla ergueu o rosto e olhou para eles.

- Olho Vermelho, o que você está fazendo aqui? Eu tenho de fazer essa vigília sozinha!

Haramis não ouviu o que Olho Vermelho disse para Mikayla, mas podia apostar que devia ser alguma versão deVocê não pode fazer isso”.

- Já discutimos isso antes - disse Mikayla com a paciência conformada de quem já passou por isso muitas vezes. - Eu dei a minha palavra.

- Mas você não sabia o que estava prometendo - Fiolon desceu das costas do pássaro e estendeu a mão para ajudar Haramis.

- Ninguém sabe ao certo o que está prometendo nos momentos importantes da vida - disse Mikayla impaciente. Meus pais casaram-se uma semana depois que se conheceram... você acha que sabiam o que estavam prometendo com os votos do casamento?

- Acho que sabiam melhor o que estavam prometendo do que você nesse momento - disse Haramis, pisando no tapete de pele. Seus joelhos cederam na mesma hora e ela acabou ajoelhada, cara a cara com a menina que tinha tentado treinar para ser sua sucessora. Fiolon afastou-se e sumiu nas sombras, esgueirando-se lentamente para dar a volta em Mikayla.

- Senhora Haramis - disse Mikayla surpresa. - Você devia estar em casa, na cama. Fiolon arrastou-a até aqui no meio da noite para ajudá-lo a me convencerá

- Não - disse Haramis baixinho. - Eu vim para tomar o seu lugar.

Mikayla olhou para ela incrédula.

- Não pode fazer isso - ela disse. - Esse assunto é meu.

Você não prometeu nada.

- Talvez não com palavras - disse Haramis. - Mas quando afastei Uzun dos seus amigos e isolei-o na minha torre, torneime responsável pelas conseqüências. Quando peguei Fiolon e você e tirei-os de sua família e do seu lar, assumi a responsabilidade pelos dois também. Não posso permitir que você disponha da sua vida... especialmente sendo tão jovem... para consertar coisas que eu não devia ter feito - Mikayla olhava espantada para ela, chocada demais com as palavras da arquimaga para dizer qualquer coisa. Haramis continuou. - Não sei se o sentido da terra de Ruwenda virá para você quando eu morrer. Achei que devia ser minha sucessora - ela deu um sorriso triste -, mas ultimamente descobri que cometi muitos erros. Se você deve ser mesmo a arquimaga, isso acontecerá com você naturalmente. Se não... - ela sacudiu os ombros - não sei o que vai acontecer. Só espero que, não importa o que aconteça, você viva e seja feliz.

Fiolon, que a essa altura já estava atrás de Mikayla, inclinou-se para frente e pôs um pano embebido no líquido sobre a boca e o nariz da menina. Mikayla lutou um pouco, depois ficou imóvel. Fiolon deitou-a suavemente e tirou depressa suas roupas, menos o vestido que usava por baixo. Como Haramis suspeitava, era idêntico ao que ela vestia.

- Senhora - Fiolon ajudou Haramis a trocar a capa, as botas e as luvas pelas que Mikayla estava usando.

Quando ele se abaixou para pegar o corpo inerte de Mikayla, Haramis disse.

- Espere!

Fiolon olhou intrigado para ela e Haramis tirou do pescoço o talismã que usava sempre, desde o dia em que o encontrara há duzentos anos. Enfiou-o pela cabeça de Mikayla e disse formalmente.

- Entrego meu talismã, o Círculo com Três Asas, para minha parenta Mikayla - então Haramis sentou. - Fiolon, pode levá-la para casa agora. Cuide bem dela por mim.

Fiolon ergueu Mikayla, pôs com todo cuidado dentro do saco de dormir e amarrou ao corpo de Olho Vermelho. Então virou para Haramis.

- Vou lançar os encantamentos agora - ele disse. Haramis não sentiu nada, mas o pássaro inclinou a cabeça apreciando o efeito do primeiro, que a deixava com a aparência mais jovem, e depois balançou para cima e para baixo, aprovando.

- Obrigado - disse Fiolon.

Haramis ficou imaginando se o pássaro tinha feito algum comentário para Fiolon, que ela não conseguia ouvir.

- Agora, o bloqueio de dor - continuou Fiolon.

Ele tirou as luvas, murmurou algumas palavras, baixo demais para Haramis entender, juntou as mãos rapidamente sobre a cabeça dela e passou-as pelos lados do seu corpo. Terminou de joelhos diante dela, com as mãos espalmadas no chão, uma de cada lado do tapete.

- Acho que está ancorado na terra - ele disse. - Como se sente?

- Bem - disse Haramis, e era verdade. Todas as dores e articulações enrijecidas tinham sumido de repente. Não se sentia bem desse jeito há mais de cem anos. - Obrigada, Fiolon. Vá agora, com a minha bênção - ela pôs a mão na cabeça abaixada do rapaz.

- Obrigado, Senhora - disse Fiolon. - Só espero que quando chegar a minha hora eu seja tão corajoso e tão sábio quanto está sendo agora.

Haramis não sabia o que dizer. Não achava que estava sendo especialmente corajosa, e não se sentia nem um pouco sábia.

- Boa viagem, Fiolon - ela disse finalmente. - Agora vão, antes que alguém os veja.

Fiolon subiu nas costas de Olho Vermelho, atrás do saco de dormir, e o pássaro inclinou a cabeça para Haramis em silêncio antes de decolar no meio das colunas e sair para o céu escuro. Ele desapareceu num instante.

Haramis ficou sentada no lugar de Mikayla, cumprindo a vigília. E ficou ali todo o tempo do domínio da escuridão da noite, lembrando da sua vida. Dos pais e das irmãs, professores e amigos... especialmente de Uzun. Do tempo em que tinha acabado de tornar-se arquimaga e ainda procurava descobrir o que tinha de fazer. A descoberta do talismã...

Encontrei meu talismã nesta mesma montanha, ela pensou, do outro lado. Lembrou como as cavernas de gelo eram instáveis. Fico pensando se a terra deste lado não será instável também. Projetou sua mente, tentando tocar a terra em volta. Achou que dava para sentir a terra um pouco, bem fraquinho, e pensou que talvez estivesse sentindo uma falha em algum ponto acima de onde estava. Acho que é acima do templo, concluiu. Ótimo. Poderei usar isso... desde que não seja apenas otimismo exagerado da minha parte.

Foram buscá-la logo antes da aurora, quatro moças com mantos leves, de um cinza-azulado, cantando um hino. Tiveram de ajudá-la a ficar de pé, pois seu corpo estava enferrujado de ficar sentada na mesma posição durante horas. Havia também alguns rapazes, carregando os pilares que sustentavam uma cadeira toda enfeitada... quase um trono, pensou Haramis. Um deles deu o sorriso mais perverso que ela tinha visto num rosto humano. Na verdade, pensou Haramis, já vi skriteks com expressões mais bondosas. O que será que Mikayla fez para ele? Com certeza nada que justificasse uma volúpia tão grande diante da sua morte.

Resolveu ignorá-lo. Ignorou a todos. Como não sabia quem eram, parecia a atitude mais segura. Não ia dar certo se descobrissem cedo demais que ela não era Mikayla. Felizmente parecia que ninguém esperava que ela dissesse alguma coisa. Continuando a cantar, eles a carregaram de volta para o templo.

Diante de uma porta em forma de arco, com uma cortina, os homens que carregavam a cadeira pararam, e as mulheres levaram Haramis por uma passagem atapetada até uma sala de banho. Banharam-na, enrolaram seu cabelo num complicado penteado cheio de trancas, e untaram a sua pele toda com um tipo de óleo. Haramis notou que as mulheres fizeram questão de lavar muito bem o óleo das mãos quando terminaram.

Deve haver algum tipo de droga nele, pensou. Algo que me deixe mais dócil, talvez? Ou então pode ser alguma coisa que aumente a dor... esse tipo de sacrifício tira bastante do seu poder da dor e do medo da vítima. Espero ser um grande desapontamento para eles.

As mulheres vestiram Haramis com um manto limpo e um conjunto de pulseiras douradas e levaram-na para fora de novo. Lá os homens estavam esperando com a cadeira, para carregá-la até o outro lado do templo, onde ficava a câmara sacrificial.

Haramis examinou o lugar com interesse, sem prestar atenção nos dois sacerdotes vestidos de negro, com os rostos cobertos por máscaras, que avançavam para ela. Conforme Fiolon dissera, a câmara era cavada na rocha viva. Uma estátua rústica da Deusa parecia sair da parede mais distante, com um altar de pedra na altura da cintura, manchado de sangue antigo. Um riacho, que Haramis sabia ser a nascente do Rio Noku, surgia por baixo do altar e fluía livremente pela câmara. Perto da entrada havia algumas tábuas de madeira escura atravessando o rio, mas bem na frente do altar era descoberto, e Haramis notou que havia bastante espaço para jogar um corpo lá dentro. A correnteza era forte, e a água, sem dúvida, era extremamente fria.

Os sacerdotes falaram com ela, mas Haramis não reconheceu a língua e nem se incomodou de tentar responder. Eles trocaram olhares furtivos e estenderam as mãos para ajudá-la a descer da cadeira, com o cuidado de encostar apenas nas pulseiras e não na pele dela. Haramis ficou pensando se estavam apenas evitando o óleo ou se era proibido tocar diretamente na vítima do sacrifício. Podia ser as duas coisas, ela pensou. Então encostou os pés descalços no chão. Haramis engoliu em seco e os joelhos dobraram. Quase não sentiu quando um dos sacerdotes a segurou pela cintura para mantê-la de pé. Pela Flor, Fiolon estava certo, ela percebeu quando o sentido da terra de Labornok fluiu para dentro dela com toda força. Eu devia ter vindo para cá há muito tempo. Será que estava esperando por mim esse tempo todo?

- Princesa - o sacerdote falou com voz baixa e imperiosa, abafada pela máscara que usava. - Controle-se! Deseja ser uma desgraça para a excelsa honra para a qual foi chamada?

Haramis olhou um momento para ele sem entender, antes das palavras dele fazerem sentido. Então respirou fundo e enrijeceu as pernas.

- Estou bem agora - ela disse baixinho. - Podem me soltar. O sacerdote largou a cintura dela, mas os dois homens continuaram segurando firme nas pulseiras, enquanto a levavam para o altar e a deixavam de frente para as pessoas. Todo o povo do templo devia estar lá, pensou Haramis, e apenas alguns pareciam tristes por Mikayla. A expressão predominante era a de um skritek à espreita. Acho que não vou lamentar muito a morte deles.

- Eis a Escolhida - entoou o sacerdote.

- Salve! - respondeu a multidão.

- Amada Filha Mais Nova da Deusa - cantou o segundo sacerdote.

- Salve!

- Que dá seu coração para a Mãe.

- Salve!

- Que dá sua vida para a Mãe.

- Salve!

- Que morre para que a Mãe possa viver.

- Salve!

Ajudaram Haramis a subir no altar e a deitar, de forma que seus pés ficaram virados para a parte de trás do altar, e ela olhava para o rosto da Deusa... ou o que se podia chamar de rosto, pensou Haramis. A estátua era bem rústica mesmo, e o rosto era mais uma sugestão do que uma imagem clara. A principal função da estátua da Deusa era segurar o teto da câmara. Haramis sentia que quase todo o peso da caverna passava por aquela parte da parede. As pessoas estavam às suas costas, e não podia mais vê-las, mas para ela era até bom.

Um sacerdote tinha saído do seu lado, e o outro continuava a prendê-la com a mão nas pulseiras, mas então o primeiro sacerdote foi para o lado direito do altar, segurando a adaga obsidiana da qual Fiolon tinha falado. Ele deve ter ido até a entrada e atravessado pela fonte, pensou Haramis. estranho como a mente se prende a trivialidades diante da morte próxima.

Era óbvio que alguma coisa estava incomodando os sacerdotes. O da esquerda continuava segurando firme o braço de Haramis como se esperasse que ela fosse lutar para se libertar. O da direita segurou a pulseira com uma mão e levantou a outra com a adaga em riste, mas ficou parado assim, trocando olhares que Haramis achava serem de preocupação com o outro. É bom para eles estarem usando máscaras, ela pensou, quase achando graça. Senão a congregação já estaria suspeitando que algo muito errado estava acontecendo.

- O que há com você - sibilou o sacerdote com a adaga. Não percebe que vai morrer?

Haramis piscou os olhos para ele.

- Claro que percebo.

- Então por que não está com medo - perguntou o outro sacerdote.

- E por que deveria estar? - retrucou Haramis. É a minha hora de morrer, e morro pela terra. É assim que deve ser... por que teria medo? - É claro, ela pensou, achando até divertido, que sou muito mais velha do que eles pensam. Acham que sou uma criança apavorada. Ela pensou em Mikayla no seu lugar e teve de se controlar para não estremecer. Ainda bem que não é ela.

- O que fazemos agora? - sussurrou o sacerdote da direita.

- Prossiga com o sacrifício - respondeu o sacerdote da esquerda. - O que mais podemos fazer? Onde é que está escrito que a sacrificada tem de estar apavorada?

- Mas a energia não está certa!

- Eu sei, mas não podemos explicar isso para as pessoas... que estão esperando o sacrifício - resmungou o homem por trás da máscara.

Ele estendeu a mão esquerda e puxou um pedaço de pedra pouco maior que sua mão do peito da estátua da Deusa. Pôs a lasca de pedra no altar ao lado de Haramis. A arquimaga viu que havia uma cavidade na estátua. Lá dentro tinha uma coisa pequena e murcha, provavelmente o coração do último sacrifício.

- Continue - sussurrou o sacerdote para o que segurava a adaga. - A dor deve compensar a ausência de medo - ele acrescentou mais animado, em voz baixa - tomara.

É o que você pensa, pensou Haramis. Abençoado seja, Fiolon, acho que conseguimos sabotar completamente este sacrifício.

O sacerdote golpeou-a com a adaga, cortando a frente do manto até a cintura. Quando ele ergueu a faca Haramis viu sangue na ponta, mas não sentia nada. Os dois sacerdotes olharam para seu rosto calmo e Haramis sentiu, como se pudesse ver, as expressões angustiadas através das máscaras. Sorriu serenamente para eles. A essa altura os dois já estavam sentindo todo o terror que qualquer Deusa vingativa poderia desejar.

O homem com a adaga engoliu em seco quando abriu o peito de Haramis, quebrou várias costelas (Haramis ouviu os estalos), e arrancou seu coração. Haramis não sentiu dor nenhuma, mas quando foi perdendo grandes quantidades de sangue sua cabeça começou a ficar vazia.

Mas como Fiolon tinha previsto, quando o corpo não estava mais intacto, o encantamento desapareceu. O bloqueio de dor, que tirava energia da pedra viva sob suas costas, continuou funcionando. O sacerdote à sua esquerda, que tinha virado de costas para tirar o coração velho da estátua, gritou horrorizado quando viu o rosto de Mikayla transformado no de uma velha. O sacerdote que segurava o coração dela no alto para o povo ver que o sacrifício estava consumado olhou para ela e quase deixou cair o coração.

- Sagrada Meret! - ele sussurrou. - Quem é você?

- Qual é seu nome? - perguntou aflito o outro sacerdote.

E ele realmente pensa que sou idiota a ponto de revelar meu nome? - pensou Haramis, achando graça. Sem o meu nome, eles não têm como salvar este ritual... e acham que não sei disso? - Sua deusa é falsa - disse Haramis calmamente, esforçando-se para permanecer consciente mais alguns segundos. – Eu sou a terra, e não morro nunca.

Ela projetou a mente e pressionou a falha que tinha percebido antes. Sentiu quando ela cedeu e soube que seu trabalho havia terminado.

Então escapou com facilidade do corpo e ficou observando, pairando no alto, enquanto seu coração virava pó e escorria por entre os dedos do sacerdote apavorado. Seu corpo também virou pó e acima dele a estátua da Deusa também começou a se desfazer. Haramis viu uma luz brilhante em cima e subiu para ela, passando através do teto de pedra que desabava como se não estivesse lá. Ela voava pelo céu na direção da luz e os Senhores do Ar, na forma de enormes abutres, a acompanhavam. Sua vida tinha acabado e a sua obra estava completa.

Mikayla começou a voltar a si quando a tiraram do saco de dormir no terraço. Olho Vermelho olhou para ela e depois para Fiolon.

- Deixo você dar as explicações - ele disse, voando para longe depressa.

- Covarde - disse Fiolon baixinho. - Ele deve ter alguma experiência com o gênio de Mika.

Fiolon abaixou-se, pegou o corpo inerte de Mikayla e carregou-a para o estúdio, pondo-a num sofá perto da lareira. Uzun debruçou-se sobre ela, aflito.

- Ela está bem?

- Ficará boa - disse Fiolon. - Em poucos minutos estará acordada e gritando conosco.

- E a Senhora?

- Estava tudo bem com ela quando saí de lá. Uzun abaixou a cabeça, calado.

Mikayla levou apenas alguns minutos para acordar completamente e descobrir onde estava.

- Fiolon, seu idiota! Leve-me de volta antes que dêem pela minha falta!

- Eles não vão sentir a sua falta - disse Fiolon. - Haramis ficou no seu lugar, lembra?

- Certo - Mikayla olhou para ele furiosa. - Haramis realmente pode enganá-los, fazê-los pensar que é a Filha Mais Nova da Deusa. Ela nem conhece os rituais. E nem conseguiu criar um encantamento nela mesma desde o último ataque... ou foi o penúltimo

- O antepenúltimo - disse Fiolon. - Fui eu que pus o encantamento nela - ele acrescentou, para tranqüilizar Uzun. - E um outro para bloquear a dor. Ela não vai sentir nada... uni esse encantamento à terra, e o altar é esculpido na pedra viva. O encantamento da aparência provavelmente vai se desfazer quando eles arrancarem seu coração...

- Quando eles o quê? - Mikayla exclamou, quase gritando.

- Oh, pela Flor, Fiolon, é apenas simbólico! Eu fiz esse ritual há dois anos e você pode observar que ainda estou viva e perfeitamente bem.

- Esse é o ano do jubileu - disse Fiolon. - Num jubileu, não é simbólico.

Mikayla sentou rapidamente.

- Vamos até o espelho observar tudo - ela disse irritada -, e aí você vai ver! - ela parecia assustada, pôs a mão no peito e começou a puxar a corrente pendurada no seu pescoço. - O que é isso? - ela puxou por cima da cabeça e segurou diante dos olhos, espantada, a varinha de prata com o círculo e as três asas. - Nunca vi isso antes.

- É o Círculo das Três Asas - disse Uzun com voz de choro. - O talismã de Haramis, a parte do Grande Cetro do Poder que era dela.

Mikayla franziu a testa.

- Por algum motivo, isso me lembra a coroa da rainha.

- O Monstro das Três Cabeças - disse Uzun. - Era a parte de Anigel.

- O que aconteceu com a parte de Kadiya? - perguntou Mikayla curiosa, girando o talismã de um lado para outro na ponta da corrente.

- Ela levou com ela para o pântano e ninguém mais a viu, nem o talismã.

- Então não podemos usar isso para formar o Cetro do Poder? - disse Mikayla, temporariamente distraída das outras preocupações. - Para que serve, e por que está comigo?

Fiolon gemeu.”

- Está com você porque Haramis deu para você. É verdadeiramente mágico... não é um dos brinquedos dos Desaparecidos... por isso tenha cuidado com ele. Uzun, pode ensinar para ela como usá-lo?

O oddling balançou a cabeça.

- Não. Eu não sei como. Só Haramis usava e eu não estava com ela naqueles momentos.

Mikayla ficou olhando para os dois, exasperada.

- Você quer dizer que depois de todos esses anos que Haramis passou ensinando coisas que qualquer um podia descobrir sozinho, ela pregou-me essa peça sem avisar nada e sem o treinamento apropriado - ela franziu a testa. - Isso é muito poderoso?

- Você pode matar pessoas com ele - disseram Fiolon e Uzun na mesma hora.

- Ug - Mikayla segurou o talismã com todo cuidado, com o braço bem esticado. - Nesse caso, vou guardá-lo. Não sou burra a ponto de fazer experiências ao acaso com coisas que matam gente - ela ficou de pé. - Volto logo - ela disse - e então podemos ir ver o ritual do templo.

Quando ela saiu da sala ouviu Fiolon comentando com Uzun.

- Você não precisa assistir a isso.

A resposta de Uzun flutuou no corredor atrás dela.

- Se eu não assistir, como poderei escrever uma balada sobre o heroísmo dela? Não. Eu perdi muito da busca do talismã. Isso eu quero assistir até o amargo fim.

Mikayla foi na frente pela caverna onde ficava o espelho.

- Espelho, mostre a princesa Haramis de Ruwenda - ela ordenou.

- Procurando - respondeu o espelho.

Então ele exibiu Haramis sendo tirada da liteira pelos dois sacerdotes, o momento em que seus joelhos dobraram e quando foi erguida pelos sacerdotes.

- O que há de errado com ela? - Uzun engoliu em seco. Fiolon estudou a imagem com atenção.

- Ela está descalça - observou Mikayla, - essa seria a primeira vez que você poria os pés no chão desde o momento em que a deixamos lá.

- Eles usaram a cadeira para me levar da montanha para a sala de banho, depois da sala de banho para o templo. Não sei por que ela não está na cadeira nessa câmara. Normalmente a Filha Mais Nova não desce da cadeira em nenhum momento... o dia inteiro.

- Do que é feito o chão da sala de banho? É de pedra natural?

- Claro que não - disse Mikayla indignada. - O fato do templo ficar escondido numa caverna não quer dizer que tudo é uma caverna. A sala de banho tem tapetes no chão.

- Então essa seria realmente a primeira vez que ela tem um contato com a terra de Labornok - insistiu Fiolon.

- Ela nunca esteve lá antes? - perguntou Mikayla. - Ela é arquimaga há quase duzentos anos!

- Mikayla, quer responder à pergunta?

- Você está falando de ser esta a primeira vez que ela põe os pés descalços no solo? É, provavelmente é mesmo. Por quê?

- Ela está bem, Uzun - disse Fiolon, tranqüilizando o oddling. - Ela acabou de receber o sentido da terra de Labornok, o que só pode ajudar.

- Acabou de receber - disse Mikayla. - Só agora? Que tipo de arquimaga ignora a metade da sua terra E por que está recebendo o sentido da terra de Labornok se não sente o de Ruwenda há anos?

- Mikayla, quer fazer o favor de ficar quieta! - zangou Fiolon.

Mikayla calou a boca. Fiolon não costumava falar assim com ela. O que há de errado? - ela pensou. Por que ele está tão zangado?

- Ela conseguiu ficar de pé sozinha de novo - comentou Uzun -, caminha bravamente para a morte.

Ele fala mesmo como se fosse uma balada, pensou Mikayla. Só que ”caminha bravamente para a morte” é ridículo. Mas ela não disse nada. Ainda não sabia por que estavam modificando o ritual. Normalmente não passavam muito tempo naquela câmara. Acho que é melhor ficar calada. Se eu estiver certa, eles verão logo, vão poder ir buscar Haramis e poderei devolver o talismã fará ela. Se estiver errada... Ela estremeceu. Espero não estar errada.

O ritual continuou e ficou claro que Mikayla estava errada e que todos que tinham tentado avisá-la estavam certos. Mikayla viu horrorizada e incrédula o sacerdote cortar fora o coração de Haramis. Como é que ela pode parecer tão calma enquanto fazem uma coisa dessas! Então o coração virou um punhado de pó, escapando entre os dedos do sacerdote, o corpo também virou pó e tudo em volta começou a se desfazer. O teto caiu com uma barulheira enorme e o eco reverberou por toda a montanha. A última coisa que viram antes do espelho apagar foi uma grande muralha de neve despencando em cima deles.

Mikayla caiu no chão, com as mãos no rosto. Ouviu o espelho falando baixinho.

- Essa pessoa não existe mais. Ninguém vive naquele lugar.

Então ela sentiu. A primeira sensação foi de estar afundando na rocha a seus pés, tornando-se parte do Monte Brom. Depois o Monte Gidris também passou a fazer parte do seu corpo. Ela sentiu a avalanche na face norte e fez com que se dividisse em pedaços menores para provocar o mínimo de danos. Então sentiu o Monte Rotolo, com suas fontes de água quente e seus vales escondidos. Percebeu por um momento a presença de Olho Vermelho, dormindo na sua caverna. Da cadeia de montanhas a percepção se alastrou nos dois sentidos, para o norte, ao longo do Rio Noku, e através de Labornok, até o Mar do Norte, e para o sul pelo Rio Nothar, através do Inferno Espinhento, o Dylex, o Pântano Dourado, passando pela Cidadela e pela Grande Estrada, o Pântano Negro e o Pântano Verde, o Lago Wum e as Quedas Tass, ao longo do Grande Rio Mutar até a fronteira de Var, onde uma imagem de Fiolon montava guarda.

Fio? - ela disse em voz alta.

- Estou bem aqui, Mika - braços fortes levantaram Mikayla do chão e a carregaram para fora da caverna.

Logo atrás ela ouviu o som da porta de correr deslizando seguido pelos passos de madeira de Uzun, mas também ouviu os rios correndo para os mares e os insetos ciciando nos pântanos.

Fiolon pôs Mikayla no chão um breve tempo, só para poder apoiar-se junto com Uzun na grande porta e fechá-la. Depois pegou-a no colo outra vez. Mikayla pensou em protestar, dizer que podia andar, mas a confusão de imagens em sua cabeça abafava todo o resto.

Se Haramis sentiu isso, não admira os sacerdotes terem de segurá-la, ela pensou. Isso é muito pior do que quando Fiolon recebeu o sentido da terra de Var. É claro que é quase o dobro do território e estou recebendo de primeira mão... eu acho que estou...

- Fio Você está sentindo a terra?

A resposta dele interrompeu a barulheira na cabeça dela durante um tempo.

- Só sinto Var. Você está recebendo Ruwenda?

- Estou, e Labornok também.

- Procure não falar - Fiolon aconselhou. - Apenas relaxe e deixe passar sozinho.

Passar sozinho? Oh!, espero que passe mesmo! Ela deixou que ele a carregasse para a cozinha, a pusesse sentada num banco diante do fogo, e pedisse para Uzun ampará-la. Mal percebeu que Uzun e Fiolon tinham trocado de lugar até ver o rosto de Fiolon na sua frente, segurando uma caneca.

- Beba isso.

Ele ajudou-a a segurar a caneca até beber tudo. Era sopa quente de adop e fez com que se sentisse mais Mikayla e menos cada centímetro da terra dos dois reinos.

- Está melhor? - ele perguntou.

Ela balançou a cabeça devagar, indicando que sim. Seu corpo ainda não parecia inteiramente seu.

- Ótimo. Agora coma isso. Ele deu um pedaço de carne seca para ela. Mikayla mastigou com um esforço considerável, mas quando terminou era ela mesma de novo. Todo o turbilhão em sua cabeça tinha acabado. Na verdade, quando procurou, não estava mais lá.

- Fio - ela disse apavorada. - Eu perdi o sentido da terra.

- Não perdeu não - ele procurou tranqüilizá-la. - Está só desligado por um tempo. Comida quente e carne fazem isso. Receber o sentido da terra de dois reinos de uma vez só seria demais para qualquer pessoa, especialmente para alguém que esteve jejuando mais de um dia e acabou de ver uma parenta morrer.

- Haramis - Mikayla balançou a cabeça, desejando poder negar o que tinha visto. - Uzun - ela virou a cabeça para ver o oddling. - Eu sinto muito.

- Não, Senhora - disse Uzun. - Foi culpa minha. Eu nunca devia ter pedido um corpo novo.

- Considerando que foi Haramis quem transformou você numa harpa, de forma a precisar de um corpo novo para cuidar dela quando ficou doente - observou Fiolon - me parece que a culpa pode se espalhar por todo mundo. Além do mais, não adianta nada. O que está feito, está feito, e não foi mesmo culpa de ninguém.

- E Haramis tinha perdido a sua mágica - disse Mikayla. Não ia voltar, ia?

Uzun suspirou.

- Acho que não. E, no fim, ela também achava que não voltaria. Creio que em parte foi por esse motivo que insistiu em fazer isso.

- E ela pretendia mesmo destruir o templo daquele jeito? - perguntou Mikayla.

- Acho que sim - disse Fiolon. - Quando estávamos planejando isso, ela disse alguma coisa sobre você não poder mais voltar para lá se o templo não existisse mais. Eu perguntei o que ela queria dizer, mas então a conversa tomou outro rumo e ela não respondeu - ele fez uma pausa. - Mas acho que ela queria mesmo destruir tudo. Você conhece a opinião dela sobre sacrifícios de sangue... especialmente sem o consentimento da vítima. Foi isso que arruinou o ritual deles, sabe”? ele disse, pensativo. - Eles queriam um sacrifício involuntário, uma pessoa jovem, apavorada, sofrendo. O que conseguiram foi uma adepta preparada e desejosa de morrer.

- Isso deve ter modificado bastante a energia - admitiu Mikayla.

- Lembre daqueles sacerdotes - disse Uzun. - Eles estavam com mais medo do que ela! Isso vai dar uma balada e tanto - os lábios dele tremeram e ele começou a chorar. - Desculpem - ele soluçou, saiu correndo da sala e subiu a escada.

Mikayla ficou de pé, meio desequilibrada, e espreguiçou.

- Agora acho que posso ir andando até o meu quarto, Fiolon. Neste momento, o que quero é dormir uma semana inteira. Estou tão atordoada e vazia que não conseguiria fazer mais nada, mesmo se quisesse.