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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A SÍNDROME DE COPÉRNICO / Henri Loevenbruck
A SÍNDROME DE COPÉRNICO / Henri Loevenbruck

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "SEBO"

 

 

 

  

A forte explosão foi ouvida até nos municípios vizinhos e em todo o oeste da capital.

Parecia ser uma manhã como as outras. Uma manhã de verão. A vida começou a fervilhar repentinamente sob a esplana­da de cimento do oeste parisiense.

Eram exatamente 7h58 quando uma composição da RER entrou, naquele oitavo dia de agosto, na luz pálida da grande estação, sob a praça da Défense.

As rodas pararam lentamente ao longo dos trilhos, num ran­ger agudo. Um instante de silêncio, um segundo imóvel, depois as portas de metal se abriram ruidosamente. Centenas de homens e mulheres revestidos da habitual melancolia dos empregados de escritórios empurravam-se na plataforma, cada um se dirigin­do à sua saída e subindo em direção a uma das 3.600 empresas instaladas nos altos prédios de vidro do extenso bairro empresa­rial. As longas filas humanas, que se aglutinavam nas escadas rolantes, lembravam organizadas colunas de formigas operárias partindo, dóceis, para o trabalho cotidiano.

Era, mais uma vez, um ano bastante quente e os muitos sis­temas de refrigeração tinham dificuldade em expulsar o calor sufocante da cidade. Para a maioria desses assalariados conscienciosos, o terno ou o tailleur era o traje conveniente e, aqui e ali, eles eram vistos enxugando a testa com lenços brancos ou refres­cando o rosto com pequenos ventiladores portáteis, a última moda.

Ao chegarem à imensa esplanada, aos vapores vacilantes e à luz do sol, as fileiras de pequenos soldados de chumbo se disper­savam em direção às torres-espelhos, como os incontáveis braços de um grande rio.

Às 8 horas em ponto, os sinos da igreja de Nossa Senhora de Pentecostes, situada entre os altos prédios de vidro, ecoaram pela praça. Oito longos toques ouvidos, como todas as manhãs, de ambos os lados da esplanada.

Naquele momento, o fluxo das pessoas que chegavam ao imenso hall do prédio SEAM, na praça da Coupole, estava no auge. Exibindo seus 188 metros de fachada no céu imaculado de verão, o prédio era uma das quatro construções mais altas da Défense, um símbolo altivo do sucesso econômico. A fachada de granito e as janelas pretas davam-lhe a aparência ameaçadora de um monólito atemporal. Os homens que ali entravam pareciam extensões disciplinadas do conjunto, pequenos grãos da rocha que aderiam a esse grande ímã negro. A torre SEAM desafiava o céu parisiense com a arrogância de um jovem primeiro-ministro.

O andar térreo encheu-se aos poucos do rumor matinal. As seis portas abertas na fachada filtravam com dificuldade a afluên­cia contínua dos trabalhadores que chegavam sucessivamente às portas de segurança, introduzindo cuidadosamente os cartões magnéticos para passar pelas catracas de metal. O burburinho da multidão misturava-se ao ronronar do ar-condicionado e ao ruído dos elevadores, elevando-se até o teto da recepção numa cacofonia ensurdecedora.

O balé cotidiano começava. Sem surpresas, por enquanto.

Os rostos eram os habituais. Como o de Laurent Huard, de 32 anos, executivo, cabelo cortado rente, andar firme. Às 8h03, ele passou por uma das grandes portas de vidro que davam aces­so a essa cidadela dos tempos modernos. Pela primeira vez estava adiantado, mas o patrão só notava os atrasados. Naquele dia, tinha uma reunião da maior importância com os clientes da firma. Aliás, não havia pregado o olho a noite toda e, de manhã, passara no rosto um creme antifadiga, de cuja eficácia não tinha certeza. No entanto, seria melhor se cercar de todos os lados. Ele havia beijado a nova namorada ainda adormecida, vestido o terno mais bonito feito sob medida numa pequena alfaiataria do subúrbio, e, enquanto esperava, com a mão no bolso, que, final­mente, se abrissem as grandes portas de um dos elevadores que serviam os quarenta e quatro andares do edifício, já ensaiava o sorriso forçado que deveria apresentar na reunião.

Atrás dele, duas jovens de tailleur conversavam em voz baixa, viradas uma para a outra. Stéphanie Dollon, parisiense tímida e solteira, e Anouchka Marek, filha de um imigrante tcheco. Nos seus costumes escuros, pareciam duas escolares inglesas. Elas se encontravam na saída da RER, em seguida andavam lado a lado para os respectivos escritórios conversando sobre como estavam de humor naquele dia e as aventuras da véspera, separando-se até o almoço.

Às 8h04, muitos já aguardavam em frente às portas cinza dos elevadores, espremidos uns contra os outros. Na maioria, as pes­soas de sempre, como Patrick Ober, na faixa dos 50, um execu­tivo solitário e calado, de QI elevado mas de qualidades sociais limitadas, fumante inveterado, maníaco por televisão, leitor com­pulsivo; Marie Duhamel, uma secretária com um coque capricha­do, obcecada pela opinião dos outros, aterrorizada com a idéia de desagradar — sobretudo ao patrão; ou Stéphane Bailly, engenhei­ro comercial que mudara para Paris alguns meses antes e cuja jovem esposa ficava em casa para cuidar dos dois filhos, pois não haviam encontrado vaga em nenhuma creche da capital... Mulheres e homens comuns, tão diferentes e tão semelhantes.

Às 8h05, atrás do grande balcão escuro da recepção, aquele que todo mundo chamava de Jean — mas cujo verdadeiro nome era Pabumbaki Ndinga — se preparava, finalmente, para ir embora. Apertado no terno azul-marinho, o vigia congolês jogou no lixo um copinho de papel no qual havia bebido o último café, em seguida se despediu das quatro recepcionistas, já muito ocu­padas. Ele trabalhava ali desde a inauguração oficial da torre, em 1974, e as diferentes firmas que sucessivamente haviam adminis­trado o local o mantiveram no posto, pois era um homem tão consciencioso quanto encantador e conhecia o gigantesco prédio como a palma da mão. Ele chamava o edifício de a sua torre, por­que conhecia a história dele melhor do que ninguém, os seus segredos, os menores recantos, e franzia ironicamente as sobran­celhas quando um dos freqüentadores chegava mais tarde do que de hábito e com olheiras.

Às 8h06, um entregador, que nem se dera ao trabalho de reti­rar o capacete de motoqueiro, deixou uns pacotes cuidadosa­mente embalados no balcão. Mais afastados, alguns americanos em ternos descontraídos conversavam em voz alta e fanhosa.

Aqui, um homem usando um jaleco branco; lá, três jovens em mangas de camisa e gravatas coloridas, óculos pequenos, cane­tas nos bolsos, celulares na cintura. Técnicos em informática, certamente...

Todos esses homens e mulheres faziam gestos mil vezes repe­tidos todas as manhãs, sem realmente se darem conta, seguindo uma rotina que nem mesmo a preguiça estivai poderia fazer desa­parecer. Um ritual de começo de semana, o ramerrão cotidiano de um dos dois maiores bairros empresariais europeus, com os seus atrasos, esquecimentos, surpresas, encontros, atropelos, sor­risos, rostos cansados... Em suma, a sua vida.

Parecia ser uma manhã como as outras. Uma manhã de verão.

No entanto, exatamente às 8h08, quando as portas de metal de um dos elevadores se fecharam para o hall barulhento da torre SEAM, levando para cima os Laurent Huard, as Anouchka Marek e os Patrick Ober, aquela manhã comum virou, repenti­namente, um inferno indescritível.

Três bombas artesanais explodiram simultaneamente em três diferentes andares do edifício.

Uma detonação ensurdecedora, profunda, que fez a terra tre­mer como um violento sismo. O deslocamento de ar causado pelas explosões fez voar em pedaços a maioria das janelas dos prédios da ala norte da Défense e os cacos flutuaram no ar por minutos intermináveis. Sob o olhar incrédulo de milhares de pessoas, o céu se inflamou subitamente.

As bombas haviam sido escondidas no andar térreo, no déci­mo sexto e no trigésimo segundo andar do arranha-céu. As três foram colocadas perto do núcleo e eram suficientemente poten­tes para danificar a estrutura em toda a sua largura. Três bura­cos foram escancarados nas fachadas sul e leste do prédio, deixando escapar gigantescas bolas de fogo e uma espessa fumaça preta.

O incêndio que começou imediatamente fez a temperatura subir no interior da torre acima dos 900 graus. A estrutura não resistiu por muito tempo. Um tempo bem menor do que o necessário para salvar as vidas que estavam lá dentro. Em geral, nas normas de segurança de um edifício dessa altura, a resistên­cia dos elementos essenciais da construção ao fogo deve ser, no mínimo, de duas horas. Mas, na prática, é impossível prever os estragos reais causados por três bombas distintas. Além do mais, nesse caso específico, os sprinklers, acionados automaticamente, não funcionaram nas áreas atingidas pelas bombas, o que, nitida­mente, agravou a situação.

Alguns anos antes, a primeira torre do World Trade Center havia levado trinta minutos para desabar depois do atentado de 11 de setembro de 2001. Mas, naquele dia, em muito menos tempo, a torre SEAM teve o mesmo destino. Igualmente trágico e igualmente mortal.

As 8h16, apenas oito minutos depois da explosão, o prédio começou a ruir no meio da praça da Coupole, num barulho ater­rador.

Oito minutos. Apenas um terço do tempo necessário para a evacuação total da torre. Apesar dos inúmeros treinamentos pra­ticados regularmente, apesar dos algoritmos calculados previa­mente para simular a evacuação simultânea pelas escadas dos vários subconjuntos dos andares, o prédio ficou muito danifica­do para que o grande dispositivo de segurança pudesse ser real­mente eficaz. E, acima de tudo, como uma das bombas explodiu no térreo, foi impossível sair da torre pelas saídas normais ou fugir pelo subsolo. Em oito minutos ninguém podia encontrar uma solução.

Os diversos apoios haviam sido destruídos pelas bombas, e o peso suportado pelas vigas restantes aumentou de maneira considerável. O metal perdeu rapidamente a rigidez. Os pilares, nos três andares atingidos, foram cedendo sucessivamente. A parte de cima do edifício não demorou a perder a sustentação e caiu sob o seu próprio peso, provocando, progressivamente, o desabamento de toda a torre. Os andares foram cedendo um a um, desde o topo em chamas, numa imensa nuvem de poeira cinza.

Ao longe, os espectadores petrificados compreenderam que a catástrofe teria uma amplidão devastadora. Um barulho ameaça­dor começou um ou dois segundos após o início do desabamen­to, lento, progressivo, como o ronco de um tornado, que nada mais poderia deter. Uma gigantesca e ruidosa onda de choque, uma ressonância grave e forte desencadeou-se em torno do de­sastre. Tão violenta quanto repentina. E a aparência da Défense mudou para sempre.

No perímetro do ataque, o edifício Nigel, a torre DC4, a igreja e a delegacia de polícia foram parcialmente destruídos pelo desabamento do prédio mais alto do que eles. A avenida da Division-Leclerc, mais abaixo, onde trafegavam filas de carros, foi completamente soterrada. Em alguns segundos de pesadelo, toda a praça da Défense ficou mergulhada numa escuridão apo­calíptica. Por um tempo bem longo, o Grande Arco pareceu flu­tuar por cima de um oceano de poeira negra.

Apenas alguns minutos depois da explosão, o prefeito acio­nou o Plano Vermelho. Rapidamente, foi indicado um responsá­vel pelas operações de socorro para dirigir as duas equipes de comando: a equipe de salvamento de incêndio e a equipe médica.

Grandes recursos foram postos à disposição: bombeiros, SAMU, polícia, proteção civil e diversos órgãos médicos particulares para gerir as emergências do posto médico avançado e assumir os cui­dados psicológicos das vítimas.

Apesar da rapidez da intervenção do socorro, o balanço do atentado foi terrível. O mais terrível que a França conheceu em seu território. No instante do desabamento, pessoas do lado de fora da torre morreram sufocadas ou esmagadas pelos escombros num raio de várias centenas de metros. Quanto aos que estavam no edifício, os que haviam sobrevivido às três explosões perece­ram no desabamento.

Das 2.635 pessoas que haviam entrado naquela manhã na torre SEAM, só houve um único sobrevivente, um só. Eu.

 

 

 

 

                                         O MURMÚRIO DAS SOMBRAS

 

Meu nome é Vigo Ravel, tenho 36 anos e sou esquizofrênico. Ao menos é no que sempre acreditei.

Aos 20 anos de idade — se é que me lembro bem, pois minhas lembranças não vão tão longe e tenho de acreditar no que meus pais me disseram — diagnosticaram em mim distúrbios psíquicos sintomáticos de uma esquizofrenia paranoide aguda. Perturbação da memória a curto e a longo prazo, transtorno do pensamento lógico e, sobretudo, sobretudo, o meu principal sin­toma dito "positivo'': sofro de alucinações auditivas verbais.

Sim. Ouço vozes dentro da minha cabeça.

Centenas de vozes, diferentes, novas, de perto ou de longe. Todos os dias, em todos os lugares, aqui e agora. Como murmú­rios que não vêm de parte alguma, ameaças, insultos, gritos e soluços, vozes que surgem nas grades do metrô, vozes que flu­tuam na boca dos esgotos, que ressoam atrás das paredes... Ela aparecem no meio das crises, quando a minha visão fica turva e o meu cérebro grita de dor.

Desde aquela época, sigo um tratamento à base de neurolépticos anti-produtivos, que reduzem, mais ou menos, os meus delírios e as alucinações. Os medicamentos evoluíram. A minha doença, não. Aprendi a conviver tanto com ela quanto com os efeitos secundários dos antipsicóticos: aumento de peso, apatia, olhar furtivo, perda de libido... No fim das contas, a apatia ajuda enormemente a aceitar todo o resto. E a não lutar mais.

Enfim, acabei simplesmente por aceitar que eu estava doen­te, que as vozes não passavam de uma produção do meu cérebro deficiente. Apesar do incrível realismo das minhas alucinações, eu as aceitava como tal e conformei-me com o óbvio, como pedia o meu psiquiatra. Depois de alguns anos, decidi-me por isso. No fundo, acho que era menos cansativo aceitar a loucura do que continuar negando-a. O meu psiquiatra conseguiu até me arranjar um emprego, faz quase dez anos. Fui contratado pela Feuerberg, uma sociedade de patentes, para inserir dados no computador. Não era nada complicado, bastava digitar quilôme­tros de números e de palavras, sem me preocupar com o que sig­nificavam. O meu patrão, François de Telême, sabia que eu era esquizofrênico, e isso não era problema. O principal era que eu também o soubesse.

No entanto, depois da explosão da torre SEAM, não tive mais certeza de nada. Nem mesmo disso. Naquele dia, tudo mudou. Para sempre.

Ali ocorreu um mistério que só eu sei, e que envolve muitas coisas. Sei que, provavelmente, ninguém vai acreditar em mim. Não faz mal. Já me acostumei. Por muito tempo, nem eu mesmo acreditava em mim.

É difícil falar de si mesmo quando não nos lembramos de nada. É difícil gostar de si mesmo quando não se tem história.

Mas, desde aquela famosa manhã de 8 de agosto, a vida me apa­receu subitamente. Consequentemente, as palavras me tentam.

Então, vou falar.

Caderneta Moleskine, anotação n°. 89: a busca de sentido.

Não é porque sou esquizofrênico que não tenho direito de refletir. Mesmo desordenadamente. Não há perigo na busca de sentido. E uma busca de vida, de existência, no sentido cartesiano. Penso, logo existo. A esquizofrenia me faz duvidar tanto do real que só tenho certeza de existir no meu pensamento.

Tudo tem uma explicação. Tudo merece ser examinado. Porque nada é inteiramente conhecido.

É por isso que anoto, que rabisco, que busco, que escrevo nessas cadernetas Moleskine; tenho muitas delas, espalhadas por todo lado. Aonde quer que eu vá, sempre tenho uma a mais. Quando leio — e eu leio muito —, quando penso, quando choro, minha mão sempre acaba brincando na polpa desses pequenos cadernos pretos. Bom-dia, caderninho preto. Você não é o primeiro, nem será o último.

Freqüentemente, refugio-me nas bibliotecas. Os livros têm a qua­lidade de nunca mudarem de opinião. Pode experimentar. Nós os relemos, eles sempre dizem a mesma coisa. O que varia é a nossa interpretação. Mas eles, ao menos, têm essa constância que me tran­qüiliza. Os mais estáveis são os dicionários. Isso eu posso dizer, os dicionários são os meus melhores amigos.

Com a cara enfiada nas páginas de papel-bíblia, sou uma está­tua que pensa. Não posso cair.

Logo depois da explosão, mesmo com o sangue me escorren­do pelas têmporas e pelas mãos, ensurdecido, em pânico, saí cor­rendo. Por muito tempo. Corri sempre em frente, sem pensar, em profundo estado de choque. O instinto ditava-me apenas para ir para longe da fumaça preta que se erguia no céu. Longe dos cacos que continuavam a cair. Apesar do zumbido que me enchia os ouvidos, ouvia atrás de mim o barulho ensurdecedor da catás­trofe. A ruptura dos metais, o estrondo dos vidros, as sirenes de alarme... A torre ainda não havia desabado. Isso aconteceria alguns minutos depois.

Saí da esplanada da Défense em chamas, corri para Courbevoie e, na verdade, sem saber o que fazia, subi num ônibus. A polícia ainda não havia fechado o perímetro e nem todas as pessoas esta­vam a par do que acontecera. Elas trocavam as poucas informa­ções que tinham, soltavam exclamações incrédulas, aterrorizadas. A cacofonia começava a invadir o ônibus. Sob o olhar perplexo dos outros passageiros, fui sentar-me no fundo, no último banco, e fechei-me num mutismo durante todo o trajeto.

Eles me olhavam, sem ousar falar. A maioria estava pendura­da no celular e descobria, aos poucos e ao vivo, a amplidão do atentado. Certamente, alguns deles haviam adivinhado que eu saíra daquele inferno. Mas não diziam nada. Eles nunca dizem nada. Deixavam-me em paz, desviando o olhar.

Ao chegar a Paris, desci do ônibus e fui andando — ou melhor, cambaleando — até o VIIIe arrondissement. Ali também as pessoas me olhavam de esguelha. Mas, para elas, eu não pas­sava de um excêntrico a mais na selva parisiense. Na rua, o ar quente de verão já estava repleto de pânico e de incompreensão. Podia-se perceber na atitude das pessoas, nos engarrafamentos...

Guiado pelo hábito, desci o bulevar Malesherbes e cheguei à rua Miromesnil, onde morava com meus pais.

Sim. Com meus pais. Aos 36 anos, ainda morava com eles. Não que isso fosse um prazer, mas era uma das liberdades sacri­ficadas pela esquizofrenia: a independência.

Foi nesse momento que me recuperei. Mais ou menos... No meio da rua, cruzei com um casal jovem que eu conhecia. Tentei, desajeitadamente, esconder as mãos ensangüentadas. Eles me lançaram um olhar preocupado, mas não pararam, mergulha­dos nessa indiferença que as capitais ocidentais cultivam tão bem. Imediatamente, como se esses rostos familiares me houves­sem tirado do estupor, me dei conta da minha loucura. Mas o que eu fazia ali? Eu poderia ter ido à polícia, ou permanecer no local, ao lado das equipes de socorro, contar o que vi! Poderia, pelo menos, ter ido ao hospital mais próximo para que cuidassem de mim... Mas não! Eu estava ali, sozinho, desorientado, descen­do a rua Miromesnil como um zumbi desmiolado.

Eu me perguntei se devia voltar para lá, para o local do aten­tado, para me juntar às outras vítimas e acompanhar o protocolo oficial. Mas estava com muito medo e precisava me tranqüilizar. Encontrar-me, voltar à Terra. Acontece que não havia muitas formas para conseguir isso: eu precisava ir para a segurança reconfortante do nosso velho apartamento, perto do silêncio dis­creto do parque Monceau. Ali, ao menos, eu sabia quem era, eu sabia onde estava. E nenhuma voz invadia minha cabeça.

Portanto, andei até o nosso prédio, subi lentamente a peque­na escada, depois entrei, exausto, na grande sala branca.

Na nossa casa, tudo era branco. As paredes, os móveis, o chão... Conselho do psiquiatra. Para não agredir meus sentidos.

Joguei as chaves na mesa de centro. Suspirei, depois fiquei ali um momento, petrificado, em silêncio. Acendi um cigarro. Não havia ninguém no apartamento. Meus pais passavam o mês de agosto na Côte, como todos os anos.

Sozinho. Portanto eu estava sozinho no fundo do meu pesa­delo, sozinho comigo mesmo, frente a frente com o meu enten­dimento e, no entanto, consciente de não poder confiar inteira­mente nele. Em mim, a solidão e a razão não se harmonizam muito bem.

Depois de vários minutos — não sei muito bem quantos — dei alguns passos hesitantes e me joguei no sofá, o corpo pesado como um saco de boxe. Com um gesto automático e desenvolto, peguei o controle remoto e liguei a televisão, como se quisesse comprovar que tudo aquilo havia realmente ocorrido. Como se ver o atentado na telinha fosse uma garantia de Verdade mais importante do que tê-la experimentado pessoalmente, ao vivo. Afinal, eu era esquizofrênico; podia-se acreditar mais na televi­são do que em mim.

Vi repetidas vezes as imagens da torre SEAM desabando no meio da Défense. Em todos os canais e de todos os ângulos. Durante horas. Por horas inteiras. E, então, eu soube que não sonhara.

Havia uma dezena de versões do mesmo pesadelo. As toma­das variavam, os quadros mudavam, mas era sempre a mesma cena. O desabamento, lento, irreal, depois a fumaça opaca, como uma nuvem atômica que se elevasse acima do oeste parisiense. Os gritos dos espectadores impotentes. As vozes alteradas dos jornalistas... Eu trocava de um canal para outro. O contraste mudava ligeiramente, mas as imagens continuavam idênticas. Sempre as mesmas seqüências. As seqüências das câmeras de vigilância ou as tomadas ao vivo por turistas perplexos. As ima­gens que eu tinha visto mais de perto do que qualquer pessoa, sem dúvida. Ali, a alguns metros de mim.

Eu ouvia, estupefato, os comentários dos apresentadores, com suas vozes sinistras. Sinceramente sinistras, dessa vez. Eu ouvia as hipóteses que já eram levantadas. Citava-se, obviamente, o objeti­vo da sociedade SEAM, proprietária da torre: uma empresa européia de armamentos, alvo ideal para um atentado terrorista. A se­guir, faziam comparações com outros atentados. O do Drugstore Saint-Germain em 1974, da sinagoga da rua Copernic em 1980, em seguida o da rua des Rosiers dois anos depois. O da RER Saint-Michel, em 1995. E, é claro, o do World Trade Center de Nova York, seguido de Madri e de Londres. Todos esses ataques atribuídos a extremistas islâmicos. Abu Nidal, o GIA, Al-Qaeda... Portanto, inevitavelmente, privilegiavam a mesma pista para o atentado da Défense. A pista islâmica. No fundo, não sei muito bem o que isso queria dizer. Nunca entendi nada de religiões.

Por várias vezes, apresentaram uma intervenção do ministro do Interior, Jean-Jacques Farkas, um homem velho, de olhar duro, rosto fechado, que fazia as promessas habituais: os terro­ristas seriam encontrados e julgados, o caso seria esclarecido...

Depois, falavam das vítimas. Começavam mostrando foto­grafias, os rostos dos desaparecidos, em fotos antigas nas quais eram vistos sorrindo. Era preciso humanizar o drama. Mos­travam as famílias, preocupadas, que aguardavam uma resposta. O jornalista exibia a opinião de um psicólogo especialista em traumas pós-atentados. Mencionavam-se as angústias, as depres­sões, as demissões...

Em seguida, vinham as análises das conseqüências políticas e econômicas. Previam-se transtornos nas relações internacionais, nas Bolsas... Mais uma coisa que eu nunca entendi: a Bolsa. Mas tudo isso é muito normal; o louco sou eu, não?

Seguiu-se uma curta reportagem sobre a SEAM, a Sociedade Européia de Armamentos de fundos mistos, cujo acionista majo­ritário era o Estado francês. A SEAM, com um volume de negó­cios que ultrapassava 400 milhões de euros, era a segunda maior exportadora de armas da Europa e o seu lucro principal era obti­do com a venda de armas para países em desenvolvimento. Era fácil imaginar que a torre pudesse representar um símbolo — político e econômico — para os terroristas, mas ainda não era certeza... Através da torre SEAM, talvez, simplesmente fosse visado o imperialismo ocidental.

O que quer que fosse, os jornalistas anunciaram rapidamen­te, de acordo com as declarações do ministro do Interior, que o cerco aos terroristas havia começado. Certamente isso tranqüili­zaria algumas pessoas.

Não vi o tempo passar, hipnotizado pelas imagens.

Naquele instante, eu estava mergulhado no limbo mais pro­fundo da minha esquizofrenia. Repetia para mim mesmo as mes­mas frases, flutuava nos mesmos pensamentos. Sempre a mesma idéia, como uma voz externa, intratável, uma obsessão. O fim de todas as coisas. Minha angústia escatológica.

Foi assim que passei a chamá-la: minha angústia escatológica. De tanto procurar nos dicionários, um dia encontrei a palavra que convinha ao meu maior medo. Do grego éskhatos, último, e logos, discurso; a escatologia é o conjunto das doutrinas e das crenças que tratam do destino final do homem. Em suma, do seu fim.

Caderneta Moleskine, anotação n°. 97: angústia escatológica.

Freqüentemente, tenho a sensação de que o Homo sapiens está desaparecendo. Vejo a lógica da coisa, a sua evidência. E digo a mim mesmo que, lentamente, a nossa espécie caminha para o seu próprio fim. Eu não quero sucumbir ao catastrofismo, é claro, mas tenho o direito de sentir angústia.

A Terra tem 4,5 bilhões de anos. Concordo que, com a vertigem, seja difícil constatar esse tipo de coisa depois de certo número. Mas garanto que está certo, os números são do dicionário. A Terra existe há 4,5 bilhões de anos, quer queira, quer não.

Quanto à humanidade, ela só existe há dois milhões de anos — isso pode parecer considerável, mas, no fundo, é ridículo se compararmos com os dinossauros que existiram por 140 milhões de anos... Pessoal­mente, isso aumenta o meu respeito.

Entre as diferentes espécies do gênero humano, só uma sobreviveu, a nossa, o Homo sapiens. A sua história, estranha história, teria começado na África há 120 mil anos. Alguns acham que ele teria nas­cido em outro lugar, talvez na Asia, e há mais tempo. Mesmo assim, já é muita idade! Idade para desaparecer... Não consigo ver as coisas de outro modo. Algum dia será a nossa vez. E, às vezes, tenho a sensação de que a extinção é iminente. Que a nossa espécie está com os pés na cova.

Não devo ser o único a achar isso.

Com certeza, sou um pouco mais angustiado do que os outros; estou de posse de informações que ninguém mais pode saber e que não me deixam tranqüilo. Mas tenho certeza de que outras pessoas além de mim sentem isso, adivinham isso. Essa estranha impressão de que estamos no término, no fim da História. Que não podemos ir mais longe. Que até mesmo já ultrapassamos o limite.

Existe um grande paradoxo na característica da humanidade que é, ao mesmo tempo, a espécie mais capaz de adaptar-se às modifica­ções externas e a mais inclinada à autodestruição. O homem é capaz de inventar a vacina e, ao mesmo tempo, de organizar Auschwitz. O DHEA e a bomba de nêutrons. Algum dia, isso é certo, inventa­rão uma pílula que irá além dos limites razoáveis.

Queria estar errado e queria poder acreditar nisso, mas não tenho como, existem sinais.

Primeiro, essa impressão de que já tentamos de tudo. Comunismo, capitalismo, liberalismo, socialismo, cristianismo, judaísmo, islamismo, ateísmo... Tudo. Já tentamos de tudo. E sabemos como tudo sem­pre acaba. Num grande banho de sangue. Um eterno massacre de nós mesmos. Porque é assim que somos. Assim é o Homo sapiens. Um destruidor, superpredador do mundo e de si mesmo. Então, não é assim que ele será extinto?

Não posso ser o único a achar isso.

E, depois, há o resto. Há o vírus que ganha terreno na luta con­tra o homem, que se torna cada vez mais forte, mais difícil de neu­tralizar. E depois, o clima, a camada de ozônio, o aquecimento do planeta, a superpopulação, a erosão dos solos, as catástrofes naturais, cada vez mais numerosas, cada vez mais devastadoras. A política, no impasse, impotente para deter a nossa queda, nossos desvios. O Norte e o Sul que se enfrentarão mais cedo ou mais tarde... De nada adian­ta sermos campeões de adaptação. Sejamos realistas, de tanto ir atrás da merda, um dia acabaremos no reciclador.

E realmente — como disseram aqueles sujeitos, há dois anos, no caso da Pedra de Iorden — se estivermos sozinhos no Universo, a minha angústia escatológica será ainda mais terrível. Mas isso não a torna menos provável. Depois de dois milhões de anos de evolução, o Homo sapiens ficará sozinho. O único ser pensante no imenso Universo. Milagre absoluto da vida ou acidente de percurso insensa­to? Vai saber! E, depois, algum dia, ele vai desaparecer. Sempre sozinho. É como fazer um gesto de desprezo para a riqueza do infi­nito. Um imenso desperdício.

É isso. Essa é a minha angústia escatológica. Com freqüência tenho a sensação de que o Homo sapiens está desaparecendo.

No fundo, talvez seja a hora de a natureza passar para outra coisa.

Deviam ser 3 ou 4 horas da manhã quando a fome ficou mais forte do que o poder de atração da televisão. Levantei-me, pin­gando de suor, fui para a cozinha e abri a geladeira. Fiquei para­do por um instante, desfrutando o ar frio que saía de dentro dela, peguei os restos da véspera e voltei a sentar-me no sofá, sem me dar o trabalho de esquentar a comida.

Enquanto eu comia, as fotos de mais vítimas começaram a desfilar na telinha, com os nomes escritos embaixo. O jornal tele­visivo transformava-se numa gigantesca crônica necrológica e eu não conseguia me desligar desse espetáculo mórbido.

No entanto, de repente, tive uma revelação.

Enquanto punha o prato vazio ao meu lado, a verdade que me havia escapado me gelou o sangue. Foi como se o acúmulo sinistro dessas imagens tivesse acabado por me fazer retomar o contato com a realidade. Com uma certa realidade. Tive a impres­são de que, finalmente, acordava, de que abria os olhos: eu lem­brei, de uma só vez, como havia sobrevivido ao atentado. Por quê. E então me dei conta do quanto a minha presença ali, sozinho no sofá, com as mãos ainda sujas de sangue, era absurda. Irreal.

Simplesmente tomei consciência de que alguma coisa não batia. Alguma coisa inacreditável.

Depois de um atentado, a coisa principal que parece interes­sar aos telespectadores é o balanço humano. O número exato de mortos. Nos dias que se seguem à tragédia, o número oficial aumenta, como um grande e macabro leilão, e pode-se dizer que as pessoas só esperam por isso. Que ficam decepcionadas quan­do acaba.

Digo "as pessoas", mas é preciso ser honesto: não me consi­dero à margem dessa obsessão doentia. Talvez eu seja louco, é verdade, mas sou como todo mundo.

Não consigo explicar, mas também tenho essa fascinação mórbida pelo número de mortos depois dos atentados e das catástrofes naturais. Por essa razão, não consigo me descolar da tela da televisão. Talvez seja uma necessidade, por ter sido teste­munha de uma coisa que não é comum. Não é que fiquemos ale­gres com a morte dos outros, porém, quanto maior é a contagem, mais nos sentimos excepcionais. Quanto mais séria é a tragédia da qual escapamos, mais nos sentimos vivos, suponho. Isso por­que não é possível se sentir mais vivo do que nos momentos em que vemos a morte de perto. Nós a vivemos por procuração.

Deve ser um efeito da minha angústia escatológica. Tenho tanto medo da morte que não posso me impedir de sondá-la.

Caderneta Moleskine, anotação n°. 101: a morte.

Não é só a linguagem articulada que distingue o homem do ani­mal; também, a faculdade de refletir sobre si mesmo e, portanto, de tomar consciência da sua finitude. Com certeza somos apenas uma coisa: seres que morrem. Você, eu. Morremos lentamente.

No fundo de mim há um imenso paradoxo. Na realidade, há muito mais, porém isso ê, sem dúvida, o mais espantoso.

Sou esquizofrênico. Em suma, sou um deficiente da alma, minha vida é uma grande zombaria, uma coisinha sem interesse. E, no entanto, nada me dá mais medo do que a morte. Eis o paradoxo.

Como podemos temer que seja interrompida uma vida que apresenta tão pouco interesse? Não sei. Mas é assim. Eu me limito a ter um medo que me enche o estômago, e pelo lado de dentro.

Parece que o risco de suicídio é alto entre os esquizofrênicos. A natureza nunca faz as coisas pela metade. Mais de 50% dos pacientes cometem ao menos uma tentativa de suicídio na vida e mais de 10% conseguem, efetivamente, pôr um fim a seus dias. Pôr um fim a seus dias. Alguma vez a idéia passou pela minha cabeça?

Minhas angústias de morte vêm à noite. Terríveis, elas me fazem chorar como um garoto. Eu me ergo na cama, meu coração dispara, minhas mãos suam de tudo o que ê lado e, finalmente, todas as vozes que moram em mim entram num acordo para gritar uma única frase. A mesma frase, sempre. Eu não quero morrer. Fecho os olhos, todos os meus olhos. Os olhos do meu corpo e os olhos da alma. E luto para não pensar nisso. Eu não aceito, todo o meu ser rejeita a idéia da morte. Em bloco. Isso faz muito barulho na minha cabeça, mas acabo dormindo, é o melhor meio para não vê-la chegar.

Eu vivo, eu estou vivo e não é possível que isso acabe.

Dizem que, na nossa sociedade — Ocidente, século XXI, impé­rio da hipocrisia —a morte tornou-se um assunto tabu e que à força de não a vermos é que ela termina por nos dar tanto medo. Mas em que ver a morte de outro poderia me ajudar a aceitar a minha?

Não se vive a morte dos outros, nós a constatamos. A morte é um objeto que desaparece. Mas eu não sou um objeto, sou uma pessoa, merda! Deve-se comparar o que é comparável. O eu é sujeito. Não é? Não sei por que pergunto. Como você poderia saber? Eu sou um sujeito só para mim mesmo.

Então, o estado da minha vida não é afetado pela morte do outro, a experiência da morte não é transmissível e, portanto, nenhu­ma morte fará com que eu aceite a minha. Ao contrário, o desapare­cimento dos outros lembra-me a fatalidade do que me aguarda, sem permitir que eu pense — e, menos ainda, aceite — na minha própria morte. Como se preparar para o que não se pode viver? Só posso pen­sar sobre a minha morte por analogia, por intermédio da dos outros. Isso porque a minha morte é única, incomunicável e eu serei o único a conhecê-la.

A minha morte ê inobservável, porque quando ela chegar eu não serei mais. Não mais ser. Não ser mais. Nada. Nem mesmo esse grande nada que éramos antes de nascer, pois ainda éramos uma potencialidade. Mas e depois?

A morte é um grau de solidão ainda maior do que a vida. Como se isso não fosse suficiente.

Vinte e quatro horas depois do atentado da torre SEAM, os jornalistas ainda não podiam dar os números exatos. Provavel­mente mais de mil vítimas, diziam. Mas os números oficiais podem aumentar sensivelmente nas próximas horas, continuem sintonizados no nosso canal. A única coisa que eles repetiam com certeza era que — como o andar térreo havia explodido e impedido qualquer evacuação antes do desabamento — nenhum dos ocupantes da torre havia sobrevivido.

O que não era totalmente certo. Eu havia sobrevivido.

No entanto, eu era o único a saber. Assim como eu era o único a saber o porquê. Por que razão eu havia escapado das explosões.

E era essa razão que não encaixava. Que mudava tudo. E que, agora, ali, sentado no sofá branco dos meus pais, me aterroriza­va. Porque eu sabia que ninguém iria acreditar em mim e que era preciso que eu fosse muito forte para acreditar em mim mesmo. Sozinho.

Eu havia chegado à torre SEAM pouco depois das 8 horas da manhã, no dia do atentado. Eu tinha a consulta semanal no quadragésimo quarto andar, na clínica Mater, o centro médico onde ficava o psiquiatra que sempre me acompanhou, o doutor Guillaume. O melhor especialista de Paris, segundo meus pais. Toda semana, ele injetava em mim neurolépticos de ação prolon­gada — o que evitava que eu tomasse pílulas todos os dias — e acompanhava a evolução da minha doença.

Uns quinze segundos antes de as bombas explodirem, vinte, no máximo, quando eu esperava o elevador no hall da torre, algu­ma coisa aconteceu que me fez sair correndo do local. Alguma coisa extraordinária em que, sem dúvida, ninguém vai querer acreditar.

Na verdade, naquele exato momento, tive uma crise epilépti­ca. É assim que o meu médico as chamava. "Crises de epilepsia temporal", que ocasionavam "acessos delirantes". Dor de cabeça, perda do equilíbrio, distúrbio da visão. Sinais que, todas as vezes, anunciavam a chegada de alucinações auditivas. Mas dessa vez ocorreu alguma coisa diferente. Ouvi na cabeça uma voz diferen­te. E agora eu sei, com certeza, que não era uma voz qualquer.

Era a voz de um dos homens que colocavam as bombas.

Não tenho ilusão: isso será atribuído à minha loucura, ao meu delírio de perseguição. Entretanto, tenho certeza, era mesmo a voz de um dos terroristas. Bem ali. No fundo da minha cabeça.

Uma voz cheia de medo e de entusiasmo ao mesmo tempo, uma voz cheia de urgência e de ameaça. Enfim, uma voz que me fez mergulhar num pavor glacial.

Começou com palavras que, na verdade, não consegui enten­der. Palavras estranhas, de sentido oculto, mas que agora não consigo esquecer. Lembro-me de cada palavra, com exatidão, sem, no entanto, tê-las compreendido naquele momento. Reben­tos transcranianos, 88, está na hora do segundo mensageiro. Hoje, os aprendizes de feiticeiro na torre, amanhã, nossos pais assassinos no ventre, sob 6,3.

Durante a minha vida, com freqüência eu ouvia frases que pareciam não ter nenhum sentido. O psiquiatra explicou-me várias vezes que esse tipo de discurso incoerente, essas alterações do pensamento lógico eram uma conseqüência "normal" dos dis­túrbios psicóticos... Mas, dessa vez, foi diferente. Havia alguma coisa mais obscura, mais perturbadora. Talvez na entonação da voz. E, depois, não é que a frase não tivesse realmente sentido; ela parecia ter um sentido profundo que me escapava completa­mente. Uma realidade que eu não podia captar, mas que oculta­va uma misteriosa coerência.

Depois, houve outras palavras. E foi então que fui inteira­mente assaltado pelo pânico.

A voz se havia calado por alguns segundos, depois voltou, mais grave ainda, para pronunciar estas últimas palavras: Pronto. Vai explodir. Todo mundo vai morrer nesta merda de torre de vidro. Pela causa. Nossa causa. E eles saberão. Todo mundo vai morrer. Isso vai explodir.

Há anos eu tentava ignorar as vozes que falavam dentro da minha cabeça, tentava não lhes dar mais importância. Mas, nesse dia, de repente, sem poder explicar por quê, fiquei com medo e acreditei nas palavras que ouvi. Fiquei convencido, no fundo de mim mesmo, que elas eram reais. Bem reais. Compreendi que não mentiam, que, literalmente, a torre ia explodir...

Então, eu fugi. Sem esperar, sem raciocinar. Corri para fora da torre, a toda a velocidade, como se perseguido por um exérci­to de grandes demônios. As pessoas me olharam com ar estranho. Algumas, como o vigia do prédio, talvez já soubessem que eu era um dos loucos que iam ao consultório do doutor Guillaume e não ligaram...

Quando as bombas explodiram eu estava a uns 30 metros da torre, não mais. No entanto, foi o suficiente para salvar a minha vida. Fui arremessado ao chão, jogado pela deflagração. Per­plexo, ferido, em choque, mas vivo. Vivo.

No dia seguinte, sentado em frente à televisão, depois de pas­sar a noite atônito na grande sala dos meus pais, com os olhos pregados na tela, lembrei-me subitamente dessas poucas frases. Dessas vozes que me haviam salvado a vida. Rebentos transcrania- nos, 88, está na hora do segundo mensageiro. Hoje, os aprendizes de feiticeiro na torre, amanhã, nossos pais assassinos no ventre, sob 6,3.

E compreendi que tudo ia mudar.

Isso porque, afinal, eu ouvira essas palavras estranhas! Por mais incrível que possa parecer. Por mais impossível que seja! Se eu estava vivo, ali, no sofá, era porque as ouvira, não? E se foram as vozes na minha cabeça que me salvaram do atentado, se foram elas que me permitiram fugir apenas alguns segundos antes do momento fatídico... Como explicar?

Prostrado, esgotado, eu não conseguia me convencer do que havia acabado de compreender. Não ousava formulá-lo. Admiti-lo. Há tanto tempo eu me havia inserido na certeza da minha doença que, de repente, não podia negá-la de novo. Não. Mais uma vez, deviam ser mentiras da minha cabeça doente. Simples mentiras. Alucinações. E, no entanto... Eu não havia sonhado com o aten­tado! Ele estava nas telas do mundo inteiro. Eu não estava inven­tando os ferimentos na minha testa e nas minhas mãos! Eu estivera embaixo da torre e as vozes me mandaram fugir. Haviam salvado a minha vida. Essa era a verdade. Objetiva. Nem mais nem menos. Então, eu devia ter coragem de dizer o que era evi­dente, devia ter força para aceitar. Questionar aquilo em que, até agora, eu acreditava havia tanto tempo. Questionar o que eu tive­ra tanta dificuldade para assimilar.

Isso porque não havia outra explicação, nenhum outro argu­mento possível. Se eu sobrevivera era porque as vozes dentro da minha cabeça não eram alucinações.

Sim, se eu sobrevivera, isso só podia significar uma coisa, uma única coisa. Eu não era esquizofrênico. Eu era... eu era outra coisa.

Caderneta Moleskine, anotação n". 103: o outro.

Eu existo. Você existe. Eles existem.

Eu existo, eu que escrevo, e existe você que lê, talvez. Mas essas palavras não são o meu eu. Não ê a mim que você lê. Não se iluda: o meu eu é inacessível. E não digo isso para me vangloriar. É assim, é humano.

Você me entende? Não. Você vê o meu interior? Menos ainda. Como também eu não vejo o seu, aqui, agora. Não tente. Continua­remos estranhos para sempre.

O outro. Eu precisava me certificar. Procurei nos dicionários. E vi que, para eles, também é uma palavra problemática. Em geral, podemos confiar nos dicionários. Mas, no caso, com o outro, esbarra­mos numa dificuldade. O Petit Robert zomba de nós.

Outro: pron. (Altrui, 1080; caso regime de outro). Um outro, os outros homens. V. próximo.

Eles são engraçados! "V. próximo"! Não podiam ser menos pre­cisos. Realmente não é nada tranquilizador. É preciso procurar em filosofia para se ter menos medo. No dicionário de Armand Colin, temos um arremedo de consolo.

Outro: 1. Sentido geral: o outro como eu que não é o eu, como correlativo do eu. 2. Fil.: em Rousseau: o outro designa o meu semelhante, isto é, qualquer ser que vive e que sofre, com o qual me identifico na experiência privilegiada da piedade. Em Hegel: o outro, dado irrecusável como existência social e históri­ca, é, numa relação intersubjetiva, constitutivo de toda consciên­cia no seu próprio surgimento...

Dado irrecusável... Hegel diz isso para se divertir.

Não há solidão maior do que perante os outros.

Essa solidão é cansativa. Só, só, só, eu estou só. Eu estou só. Às vezes preciso dos outros. Para quê?

O outro é um mistério e um paradoxo. Ele é, desde sempre, o genitor de todos os meus tormentos. Não se esconda. Na verdade, não é culpa sua. É assim. E, de qualquer modo, eu só existo através de você.

Eis por que: o Homo sapiens não pode existir sozinho. É preci­so um pai e uma mãe para nascer. Nós somos o produto de um outro. E essa dependência não nos abandona nunca. Ela está em toda parte. A linguagem, a cultura... Tudo vem dos outros. Somos herdeiros constantes.

E, no entanto, o outro continua a ser inacessível. Eu vejo o corpo do outro, mas nunca vejo o seu espírito. Nunca vejo sua alma, sua inferioridade. E a interpretação que eu faço do outro é necessaria­mente inexata, assim como a que você faz de mim.

Enquanto o outro continuar a ser outro, seremos vítimas de uma eterna incomunicabilidade. Por mais que se tente.

A invenção da linguagem é a mais bela confissão da nossa inca­pacidade em nos entendermos.

Sentado na sala dos meus pais, passei o dia inteiro a revirar mil vezes essa frase na minha cabeça. Não sou esquizofrênico, sou outra coisa. Como se quisesse me convencer. E isso me angustiou terrivelmente. Por mais que a angústia fosse uma velha compa­nheira, naquele dia tinha um sabor que eu não conhecia e que me deixava transtornado.

Vinte e quatro horas haviam passado desde o atentado. Eu tentava enxergar claramente e me acalmar. Tentava localizar os desvarios habituais do meu pensamento lógico. As falhas.

Esquizofrenia paranoide. O sujeito pode ser convencido de que forças sobrenaturais influenciam seus pensamentos e suas ações.

Enquanto fumava os meus Camel, escrevi freneticamente tudo o que pude no papel, para não perder o fio do pensamen­to. As cinzas caíam em cima das folhas: eu nem as limpava. Logo, enchi centenas de páginas, que eu jogava no chão em volta do sofá e que se amontoavam como as folhas embaixo de uma árvore no outono. Fiz esquemas, desenhos. Circundei as frases importantes. Aquelas que ligavam as diferentes afirmações do meu raciocínio. As conjunções. As vozes na minha cabeça me dis­seram que o prédio ia explodir. PORTANTO, saí do prédio corren­do. O prédio explodiu. PORTANTO, as vozes não eram alucinações. PORTANTO, não sou esquizofrênico.

De vez em quando, eu gritava de raiva ou de medo. Eu me levantava tremendo, dava voltas no apartamento dos meus pais, roendo as unhas. Se não sou esquizofrênico, então o que sou, doutor?

Depois eu voltava a me sentar e permanecia por longas horas numa apatia familiar. Portanto, portanto, portanto. Merda de q.e.d.! Q. merda de E.D.

Mais tarde, recuperando a calma, tentei pôr os acontecimen­tos em ordem. Anotei várias vezes a data e a hora do atentado, depois comparei na minha agenda com a da consulta do doutor Guillaume. Dia 8 de agosto às 8 horas. Tinha relação. Olhei a passagem do metrô que ainda estava no meu bolso. A data e a hora da obliteração comprovavam que eu havia saído para a con­sulta. PORTANTO eu estava mesmo lá no momento da explosão. Portanto, portanto, portanto.

Examinei minhas mãos. Os ferimentos eram mesmo reais? Eu me levantei, corri para o banheiro, enfiei-as um pouco na água. O fundo da pia tingiu-se de vermelho. Eu estava mesmo ferido. Era sangue de verdade. Pegajoso.

Eu não era esquizofrênico, eu não era esquizofrênico, não, não, não. Tudo correspondia.

No fundo, eu preferia que não fosse assim. Eu preferia ter certeza de que era vítima de mais uma alucinação. De ser o velho e bom "Vigo Ravel, 36 anos, esquizofrênico". Apenas isso. Mas tudo correspondia.

O problema era que a realidade era bem mais angustiante do que uma alucinação. Eu não conseguia tranqüilizar meu coração. Coração tranqüilo. O que fazer para tranqüilizar meu coração? Meu coração não estava tranqüilo? Estava perturbado? Coração per­turbado? E minha cabeça? Engodo. São de mente. Mente sã. Mente sã? As idéias no lugar. Fora do lugar. Deslocadas. Idéias fora do lugar. Idéias meio para a esquerda. Idéias, não saiam mais do lugar. Sentado. Deitado. As alucinações auditivas, senhor Ravel, correspon­dem a um aumento funcional das regiões da linguagem, nas partes frontais e temporais esquerdas do cérebro. Um cérebro lento. Uma pipa que voa. Que voa. Muito alto. Muito acima da média. Cuidado com a queda. É a minha angústia escatológica. O Homo sapiens está em vias de extinguir-se. Extinguir-se. Estender-se. Suave. Não é suave.

No fim da manhã, eu acho, ainda não havia dormido e acabei adormecendo, num sono agitado. Sacudido de tempos em tem­pos por sobressaltos de angústia, acordei suando no meio da tarde. Eu não havia desligado a televisão. Mas a minha visão estava turva e não consegui desanuviá-la para ver as imagens direito. Esfreguei os olhos. De nada adiantou.

Pulei do sofá, fui ao banheiro jogar um pouco d'água no rosto. Olhei-me no espelho. A minha visão voltara ao normal. Vigo! Pense, reflita! Anime-se. Tudo isso não passa de uma gigan­tesca alucinação! Uma crise aguda e nada mais. Você perdeu a inje­ção de neurolépticos na segunda-feira de manhã, é isso. Você está delirando, seu esquizofrênico! Seu putinho esquizofrênico de merda!

Dei socos na pia, depois abri o armário de remédios e engoli dois comprimidos de Leponex para as alucinações e dois Valpakine para o humor. Um coquetel já comprovado para as minhas crises mais sérias. Mais alguns minutos e faria efeito.

Quando voltei para a sala, um jornalista, sentado no meu sofá, estava entrevistando um dos responsáveis pela segurança da Défense. Um sujeito austero. Peguei um cigarro e sentei-me ao lado deles.

— ...autoridades já falavam em mais de 1.300 mortos na última coletiva à imprensa. Sabemos exatamente quantas pessoas estavam na torre no momento da explosão?

Ainda é muito cedo para dizer. No mês de agosto, a freqüên­cia dos escritórios diminui sensivelmente. Mas, em geral, no verão, ao menos duas mil pessoas vêm trabalhar aqui de manhã...

Portanto, segundo o senhor, poderia haver duas mil vítimas?

Não posso me pronunciar por enquanto... Esperamos que haja o menos possível e compartilhamos a dor das famílias...

Quem estava na torre no momento das explosões?

Havia os funcionários do prédio, evidentemente, e, principal­mente, os empregados dos escritórios...

Quantas empresas a torre SEAM abrigava?

Umas quarenta.

Em que setores de atividade?

Havia, é claro, a sede social da SEAM, proprietária da torre, que é uma sociedade européia de armamento. Mas a empresa aluga­va uma boa parte das salas para outras companhias. Empresas pri­vadas, principalmente. Sobretudo empresas de serviços, seguradoras, sociedades de engenharia informática, esse tipo de coisa...

Franzi as sobrancelhas. Principalmente empresas privadas? E onde estava a gigantesca clínica médica que ocupava todo o último andar, onde ficava o doutor Guillaume, o meu psiquiatra? A clínica Mater? Por que ele não a mencionava?

O doutor Guillaume... O rosto dele me veio à memória e os dois outros desapareceram do meu sofá.

Ah, se pelo menos meu psiquiatra estivesse aqui! Poderia me tranqüilizar! Ele me ajudaria a encontrar-me, a identificar minha alucinação, a não enlouquecer. E, então, eu voltaria a ser um esquizofrênico como os outros. Um esquizofrênico bonzinho. Mas era preciso aceitar a evidência. O doutor Guillaume devia estar morto naquela hora. Esmagado nos escombros, carboniza­do. E, portanto, eu era o único juiz da minha realidade. Sozinho, sozinho, sozinho.

Fechei os olhos imaginando o corpo calcinado do meu psi­quiatra. Não conseguia achar isso triste e sim dramático. Egoisticamente, eu me perguntava como poderiam recuperar a minha ficha médica. Como poderiam rever o meu diagnóstico se não dispunham de tudo o que o psiquiatra havia anotado durante quase quinze anos?

Expulsei essa idéia da cabeça. Era indecente pensar na minha ficha médica quando, sem dúvida, o doutor Guillaume estava morto. Um montinho de cinzas. Percebi então que os meus pais ficariam arrasados ao saber da morte do psiquiatra.

Meus pais... Naquele momento, pensei neles. Como era pos­sível que ainda não houvessem telefonado? Eles sabiam muito bem que eu ia todas as segundas-feiras de manhã àquela torre. Talvez não estivessem a par do atentado. Nas férias, na casinha que alugavam na Côte, podiam não ver televisão nem ler jornais por vários dias. Naquela hora, deviam estar bebericando tranqüi­lamente um coquetel à beira da piscina, sem desconfiar, nem por um instante, que o filho havia sobrevivido ao mais terrível aten­tado já cometido em solo francês.

É melhor dizer logo: eu não tenho com meus pais, Marc e Yvonne Ravel, um relacionamento muito caloroso. Mesmo assim, à maneira deles, parece que se interessam por mim. O suficiente para me alojar e me incitar a ver o doutor Guillaume uma vez por semana, por exemplo. Digamos que mantemos relações respei­tosas e cordiais, que eles cuidam de mim sem se queixarem da minha deficiência psicológica, mas sem, no entanto, me demons­trarem uma afeição transbordante. Nada de passional. O fato de eu não ter nenhuma recordação da minha infância, nem mesmo da minha adolescência, certamente não facilita as coisas. Nem para eles nem para mim. Nenhuma boa recordação para compartilhar, férias, comemorações, festas de família... Eu não me lembro de nada e me sinto diferente deles. Quase um estranho.

Gostaria de poder falar longamente do meu pai, da minha mãe, mas, sinceramente, tenho a impressão de não conhecê-los. É terrível: não sou nem capaz de dizer a idade deles. Não sei nada do seu passado, da sua infância. Não sei como se encontra­ram, nem onde e quando se casaram, todas essas coisas que os filhos sabem e que algum dia compreendem.

No dia a dia, nosso relacionamento era muito pequeno. De qualquer modo, eu quase não me relacionava com ninguém. Com exceção do meu patrão e do meu psiquiatra que, aliás, eram ape­nas relações... profissionais.

No fim de semana, meus pais se retiravam para o Eure. Eu ficava sozinho em Paris, feliz em usufruir do apartamento, encer­rado na costumeira solidão. Durante a semana, quando eu volta­va à noite do trabalho, eles já haviam jantado e minha mãe dei­xava alguma coisa para eu comer na cozinha. Eu ceava sozinho na pequena mesa de compensado, distinguindo ao longe o ruído da televisão no quarto deles. As vezes, eu os ouvia discutir. Não podia deixar de pensar que eu estava na origem da maioria das brigas. Meu nome aparecia regularmente. Depois de alguns minutos, meu pai gritava mais alto e a briga parava. Parecia que ele tinha um argumento final que, todas as vezes, encerrava a discussão. E minha mãe se resignava. Freqüentemente, eu cruza­va com ela na sala depois dessas brigas. Conversávamos banali­dades, quase constrangidos. Ela parecia triste, mas eu não conse­guia ter pena dela. Eu lhe dirigia um sorriso vazio, depois ia para o meu quarto, onde me fechava até o dia seguinte. Ali, eu lia livros, montes de livros, nos quais fazia anotações, montes de anotações, depois dormia tentando não pensar. Esse isolamento era, para mim, o melhor meio de esquecer as vozes na minha cabeça. Era meio sinistro, eu tinha consciência disso, mas, ao menos, não era opressivo. E, embora no fundo de mim houves­se um ser que sonhasse com outra coisa, com outra vida, acabei por me acostumar. Por me contentar com essa paz frágil. E, de qualquer modo, os efeitos secundários dos neurolépticos não me incitavam a fazer outra coisa muito diferente. Aliás, meus pais também não.

Algumas vezes, eu dizia a mim mesmo que eles eram tão letárgicos quanto eu. Eles me faziam pensar nas caricaturas dos aposentados que vemos nos anúncios de seguro-funeral. No mínimo, o sorriso artificial.

Passados há muito dos sessenta, os dois haviam trabalhado durante toda a vida num ministério — ao menos isso eu sabia. Mas, na verdade, não sabia em que ministério. Eles sempre diziam ministério". Além do mais, minhas lembranças não remontavam a tanto tempo. Nas minhas lembranças mais antigas, eles sempre foram aposentados.

Em certo sentido, tudo isso me convinha. Muitas vezes me perguntei o que eu teria feito se tivesse pais mais presentes, até mais afetuosos. Eu me pergunto se não me teriam sufocado. Se não teria sido pior.

Apesar de tudo, naquele momento eu decidi que precisava avisá-los. Dizer-lhes que estava vivo. Eu lhes devia ao menos isso.

Peguei o telefone e disquei o número da casa do Sul. Nin­guém atendeu. Deixei tocar mais tempo, caso estivessem longe do aparelho... Mas, não. Nada. Deviam ter saído. Soltei um sus­piro e desliguei.

Por um momento eu me perguntei se estava mesmo na reali­dade. Passei lentamente a mão no rosto. Senti os pelos duros da barba crescida. Era mesmo o meu rosto? Acariciei a barriga aumentada pelos neurolépticos. Era minha mesmo? Eu era esse sujeito alto, de cabelos pretos, meio gordo, ombros largos, gestos desajeitados? Era eu realmente, ali, num apartamento da rua Miromesnil? E meus pais estariam realmente na Côte? Estáva­mos mesmo no mês de agosto? O atentado realmente ocorrera? Eu havia sobrevivido? E isso graças às vozes na minha cabeça?

As vozes na minha cabeça. Cabeça, cabeça, cabeça.

E então a única verdadeira pergunta me voltava. Redundante. Obsedante. Impiedosa. Cansativa.

Será que eu sou esquizofrênico, sim ou merda nenhuma?

Comecei a chorar baixinho. Um choro perdido, desorientado, infantil. Não conseguia mais julgar a legitimidade das minhas referências, não conseguia me ancorar com convicção na realida­de. Qualquer realidade. E isso me deixava triste, desamparado. Eu queria me refugiar dentro de mim mesmo, por detrás do véu das minhas lágrimas, mas nem aí tinha certeza de estar sozinho, em segurança. Havia essas vozes que podiam me perseguir a qual­quer momento. As palavras do doutor Guillaume voltavam-me como uma antiga cantilena registrada num gravador obsoleto: Você sofre, ao mesmo tempo, de distorções do pensamento e da per­cepção, Vigo. Mas cuidado para não se fechar em si mesmo. Isso acontece muito com as pessoas que sofrem dos mesmos distúrbios que você. A alteração do contato com a realidade não deve incitá-lo a se excluir dela...

Não se excluir da realidade. Como se faz isso?

Enxuguei as poucas lágrimas que haviam escorrido pelo meu rosto. Olhei de novo a televisão. Aquilo era a realidade? Aquilo que passava no pequeno aparelho, as vozes e as imagens que dele saíam?

Mas, então, por que os diabos dos jornalistas não falavam da clínica médica do último andar? Era mesmo estranho! Uma clí­nica tão grande e que, segundo os meus pais, tinha uma reputação tão boa! Havia muitos médicos naquele local, eu havia cruza­do com dezenas. E um monte de aparelhos de exames... Afinal, isso deveria interessar aos jornalistas! Era incrível não ouvir falar do doutor Guillaume... O melhor psiquiatra de Paris.

Em vez disso, eles filmavam os pobres coitados que chega­vam à desfigurada praça central da Défense, alguns com fotos de um desaparecido, que mostravam aos bombeiros, aos policiais, com ar desesperado, outros que consultavam as primeiras listas oficiais das vítimas afixadas perto do posto médico avançado.

Subitamente, a idéia de voltar ao local invadiu-me. Talvez o nome do doutor Guillaume constasse dessas listas, ou talvez ele houvesse sobrevivido... Afinal, por que não? Se ele houvesse che­gado atrasado nessa manhã, também podia muito bem ter esca­pado das bombas!

Eu precisava saber. Não era razoável, é verdade, as chances eram pequenas, mas eu precisava saber. O doutor Guillaume era a única pessoa que podia me ajudar. Ele era o único vínculo que poderia me ligar com a realidade. O único que poderia me dizer sim ou não, eu era esquizofrênico. Eu precisava vê-lo. Se estives­se vivo, eu poderia contar como as vozes me haviam salvado do atentado. Ele acreditaria em mim. Ou então me daria uma expli­cação. Ele saberia.

Sem pensar mais, levantei-me e saí imediatamente do apartamento.

Dessa vez peguei um táxi.

— O que aconteceu com o senhor?

De repente, percebi que devia estar com uma aparência lamentável.

Eu estava no atentado.

O motorista arregalou os olhos. Olhou para as minhas roupas cobertas de sangue e sujeira.

Meu Deus! —- soltou ele. — Mas o senhor está ferido...

Nada sério...

E não foi ao hospital?

Não. Tenho de voltar para lá.

Para a Défense?

É.

Mas todo o setor está fechado, senhor...

Preciso ir lá. Tenho... tenho gente da família que desapa­receu — menti. — Quero voltar lá. Leve-me o mais perto possí­vel, por favor.

O taxista hesitou um instante antes de concordar. Devia estar com pena de mim. Devia pensar que eu estava em estado de cho­que. Não estava totalmente errado.

Tratava-se de um magrebino de uns 50 anos. Tinha um olhar sorridente que brilhava de uma generosidade muda, muitas rugas em volta dos olhos.

Ele deu a partida sem esperar mais e se dirigiu para a porta Maillot, olhando constantemente pelo retrovisor. Percebi os olhos preocupados, no pequeno espelho retangular. Fiz de tudo para não puxar conversa com ele. Medo de falar. Com a mão na boca, a cabeça apoiada no vidro da janela, eu examinava as pessoas lá fora nos carros, as pessoas nas calçadas, as suas realida­des. Havia mães com os filhos, casais, velhos... Cada um com a sua vida. Todas essas trajetórias invisíveis que mal se perce­biam... Os futuros que talvez se adivinhassem. Os outros.

Lentamente, eu a senti chegar. A crise. Foi como se a minha testa fosse invadida por uma onda de dor, insistente, pesada, em seguida o mundo se duplicou diante dos meus olhos. As silhue­tas se multiplicaram, o horizonte se dividiu.

Coitado desse cara, coitado, coitado desse cara! Ele está comple­tamente perdido.

Eu me assustei. Era realmente a voz do motorista? Na minha cabeça? Ou era uma alucinação? Eu juraria que era a voz dele. Ele continuava a me olhar pelo retrovisor, com um ar desolado. Desviei os olhos. Talvez tivesse imaginado a frase... Sim. Com certeza o meu cérebro a havia produzido, inteiramente.

No entanto... Ah! Eu não sabia mais onde estava! Eu só sabia acreditar. Havia mais de dez anos o meu psiquiatra afirmava que não eram os pensamentos das pessoas que eu ouvia na cabeça, e sim alucinações produzidas pelo meu próprio cérebro. Alucinações auditivas, nada mais do que isso. Mas aí estava... Eu começava a duvidar. Coitado desse cara. Não podia ser uma alucinação, era tão real! Só podia ser o pensamento do taxista e nada mais.

No mesmo instante, as palavras do atentado vieram-me à mente: Rebentos transcranianos, 88, está na hora do segundo mensa­geiro. Hoje, os aprendizes de feiticeiro na torre, amanhã, nossos pais assassinos no ventre, sob 6,3.

Estremeci.

Pode ligar o rádio, por favor? — pedi sem levantar os olhos.

Quer ouvir as notícias?

Não, não, música. Bem alto, se não se incomoda.

Ele ligou o rádio. A melodia cantada de uma música oriental encheu imediatamente o carro. Eu arfava. Era um meio que eu descobrira havia muito tempo para não ser incomodado pelas minhas vozes. Ouvir música, alto. Relaxei um pouco ao olhar o céu azul de verão. Eu gostava de Paris no mês de agosto. Havia menos gente nas ruas, menos vozes na minha cabeça. A lumino­sidade dava aos prédios uma nova aparência. As janelas se abriam em todos os andares. Eu achava isso agradável. Acolhedor.

Sinto muito, senhor, não podemos nos aproximar mais do que isso — anunciou, finalmente, o motorista, estacionando o carro perto de uma calçada, no limite entre Neuilly e a Défense. — Os bulevares circulares estão fechados. Vai ter de andar.

Na nossa frente, barreiras bloqueavam o caminho e provoca­vam um enorme engarrafamento.

Certo. Obrigado. Quando lhe devo?

Ele se virou com aquele sorriso amável no rosto.

Nada — respondeu o motorista, dando tapinhas na minha mão. — É por minha conta, senhor. Boa sorte com a sua família.

Meneei a cabeça, tentando parecer grato. Não sou muito dotado para mímicas afáveis. Queria lhe agradecer dignamente. Mas não sabia como fazer. Saber dar e receber um pouco de amor é uma profissão. Eu não havia recebido a formação certa.

Saí do táxi e fui em direção à fumaça que ainda se elevava acima do bairro de negócios. Atravessei várias ruas, depois pas­sei pelo complicado labirinto de subterrâneos. Eu já me havia perdido várias vezes antes nesse complexo de vidro e concreto. O arquiteto que concebeu as vias de circulação da Défense devia possuir um estranho senso de humor. Logo cheguei diante de uma nova barreira instalada pela polícia; fitas de plástico verme­lho e branco cercavam o perímetro. Hesitei, depois contornei essa barragem simbólica. Um policial precipitou-se imediatamen­te na minha direção, walkie-talkie na mão.

Não pode passar, senhor — proferiu ele, irritado.

Mas preciso voltar lá — insisti. — O meu médico está lá. E eu também estava lá...

O olhar do tira metamorfoseou-se. Ele percebeu minhas rou­pas, meus ferimentos, os traços de sangue. Os olhos dele fizeram um clique, como se repentinamente compreendesse que eu não era um simples curioso e sim uma vítima do atentado. Eu devia estar com o rosto pálido e os olhos pisados. Uma cara inacredi­tável.

Mas por que o socorro não se encarregou do senhor? O que faz aqui?

Eu... Eu não sei muito bem o que aconteceu comigo. Fiquei com medo, fui embora. Mas quero ver as listas, quero ver se o meu médico está nelas...

O policial hesitou, depois prendeu o rádio no cinto.

Tudo bem, venha, senhor. Está em estado de choque, nunca deveria ter saído assim... Vou acompanhá-lo à unidade de emergência médico-psicológica, siga-me.

Ele estendeu a mão e pegou-me pelo ombro como se eu esti­vesse muito ferido, depois me levou pelo labirinto da Défense. Fiquei mudo. Quanto mais avançávamos, mais o chão e as pare­des se cobriam de uma poeira cinza e mais os rostos dos bombei­ros, dos policiais e dos civis com que cruzávamos estavam sérios. Atravessamos vários subsolos, subimos à superfície na selva de escombros e ele me levou à extremidade leste da praça principal, perto do Grande Arco. Ali, um espaço havia sido desobstruído e haviam instalado, com urgência, postos de socorro. Havia homens de coletes amarelos que pareciam organizar toda a operação, socorristas com braçadeiras vermelhas e, finalmente, o corpo médico, que usava braçadeira branca. Todo esse pequeno mundo corria em todos os sentidos e eu me perguntava como podia haver a menor coerência nessa gigantesca barafunda.

A direita, percebi quatro tendas brancas instaladas sob o Grande Arco. A mais afastada tinha uma inscrição: "Atendi­mento do PMA". Era, parecia, o lugar que eu vira numa das reportagens da televisão, onde as famílias iam saber notícias dos parentes ou dar os nomes dos desaparecidos.

— Fique aqui, vou buscar alguém na unidade de emergência para cuidar do senhor.

Concordei, mas quando ele se afastou, fui imediatamente para o outro lado, para o atendimento médico. Na lateral da ten­da vi as listas de nomes presas em grandes painéis de madeira.

A praça do Grande Arco oferecia um espetáculo sinistro e preocupante. Viam-se homens de uniforme que corriam por todo lado, enfermeiros, médicos, socorristas que continuavam a rece­ber novos feridos, outros que se encarregavam da evacuação. E ainda havia pessoas sendo retiradas dos escombros, que haviam permanecido vinte e quatro horas sob os entulhos. É verdade que nenhum dos ocupantes da torre havia sobrevivido, mas havia inúmeros sobreviventes para salvar nos prédios vizinhos. Um pouco mais longe, viam-se os jornalistas, equipes de televisão, superexcitados. Aqui, um bombeiro horrorizado, sentado no chão, o rosto coberto de fuligem, que respirava com dificuldade, cuspindo na sua frente um muco preto, os olhos vermelho-sangue. Acolá, um casal que chorava nos braços um do outro. Além, homens vestidos de amarelo que discutiam, que faziam anotações em grandes cadernos, que davam ordens por telefone... Embaixo, a esplanada da Défense não passava de um vasto campo em ruínas. A direita, mal se reconhecia a fachada do cen­tro comercial, coberta de poeira opaca. Os prédios mais baixos, os cafés, os quiosques haviam desaparecido sob os amontoados de restos da torre. Em alguns lugares, colunas de fumaça cinza dançavam em direção ao céu de agosto. Ao longe, perto do que outrora havia sido a torre SEAM, ouvia-se o ruído surdo das máquinas que tentavam retirar os escombros.

Tremendo, eu me aproximei lentamente do painel de madei­ra. Primeiro, olhei ao acaso para ver se conseguia descobrir casualmente o nome do doutor Guillaume. Rapidamente com­preendi que as listas das vítimas estavam classificadas pelo nome da firma. Procurei em seguida o nome da clínica médica. Mater, na letra M. Recomecei várias vezes. Mas não consegui encontrar.

Dei um passo atrás. Talvez houvesse outro painel, mais à frente. Dei a volta nos cartazes, mas não encontrei nada. Senti que os batimentos do meu coração aceleravam-se. E vozes confu­sas que brigavam na minha cabeça. Eu tinha de continuar con­centrado. Doutor Guillaume. Onde estava o doutor Guillaume?

Esperei um pouco, recuperando o fôlego, depois andei na direção do bombeiro que vi um pouco mais ao longe e que ainda estava sentado no chão, com a máscara de gás pendurada no pescoço.

Bom-dia... não... Não há mesmo sobreviventes na torre?

O rapaz ergueu os olhos escarlates na minha direção. Fez que não com a cabeça, com um ar desanimado.

Mas... Eu... Eu não encontro o nome do meu médico... Lá, nas listas. E ele estava na torre, no consultório médico... E...

O bombeiro soltou um suspiro. Ele limpou a garganta.

É melhor perguntar no atendimento do posto médico — disse ele indicando a última tenda.

Agradeci e me pus a caminho. Em frente à entrada havia dezenas de pessoas, espremidas umas contra as outras. Todo mundo falava ao mesmo tempo. A maioria chorava. Alguns iam embora, abatidos, apoiados pelos socorristas.

Enxuguei a testa. Fazia muito calor! O ar estava muito pesa­do! Gotas de suor escorriam até as minhas pálpebras e faziam os meus olhos arderem. As minhas mãos tremiam cada vez mais. Sentia-me mal. Eu me peguei andando em círculos várias vezes. Totalmente em pânico.

Vá em frente. Avance, Vigo. Tenha calma.

Tossi. Depois sacudi a cabeça. Tenha calma. Avancei. A mul­tidão à minha frente começou a me dar medo. Mas eu precisava saber, precisava encontrar o meu psiquiatra. Ele era a minha única chance.

Eu ofegava. Enchi-me de coragem e fui em frente. Tentei abrir caminho nessa estranha assembleia, mas fui imediatamente assalta­do pelos sinais precursores de uma crise violenta. A dor no meio da cabeça, o mundo que começava a girar e a visão que se dupli­cava. Comecei a ouvir dezenas de vozes na cabeça. É a minha vez. Vozes confusas. Choros. Pedidos de socorro. Ela não pode estar morta! Fechei os olhos, tentei expulsá-las, não mais ouvi-las. Entrei na tenda, esmagado no meio de toda aquela gente. O meu filho, onde está o meu filho? Mas as vozes estavam em toda parte, introduziam-se em todos os recantos do meu cérebro. Cada vez mais embaralhadas. Ainda nos escombros. Cada vez menos compreensíveis. Isso aqui não ê nada! Um responsável! Quero falar com um responsável! Senti-me invadido por uma onda de calor. Uma onda de pânico. E as vozes ressoavam cada vez mais fortes na minha cabeça. Eu já não conseguia distinguir umas das outras. Traumatismo descartado voltou e vai me fazer procurar mais, pois disse isso ao meu irmão. Era um imenso burburinho nos meus tímpanos. O pânico, a tentativa, só amanhã. Senti a cabeça rodar. Está na hora do segundo mensageiro. O suor escorria pelas minhas costas, pelos braços, pelas pernas. Eu me enxuguei de novo, freneticamente. Senhor? Pus as mãos nos ouvidos. Gritei. Minha visão ficou embaçada. A multidão começou a girar à minha volta. Senhor, posso ajudá-lo? Tinha a impressão de ser o eixo de um imenso carrossel heteróclito. Subi na mesa à minha frente. Minhas pernas ainda tremiam. Os murmúrios na minha cabeça se mistu­ravam com a pulsação do sangue nas têmporas. Senhor?

Senti uma mão que me sacudiu pelo ombro. Tive um sobres­salto. O rosto de uma mulher que falava comigo desenhou-se lentamente diante de mim.

Posso ajudá-lo, senhor?

Eu... Eu estou procurando o doutor Guillaume — balbuciei, tentando me recuperar.

Um médico? Deve ir ao PMA para isso...

Não. Na torre. Ele estava na torre. Na clínica médica, sabe, no último andar. Será que ele está vivo? O doutor Guillaume, psiquiatra na clínica Mater...

Clínica Mater? O que é isso, senhor?

É a clínica médica que ficava no quadragésimo quarto andar da torre SEAM! O consultório do doutor Guillaume!

Eu não conseguia disfarçar a irritação. As vozes continuavam na minha cabeça. Calem-se! Lancei um olhar de raiva em volta. A jovem verificou nas listagens.

Senhor, nenhuma clínica médica consta da lista. Nenhuma sociedade com o nome Mater. Não havia nenhuma empresa no quadragésimo quarto andar... No quadragésimo quarto andar era a casa de máquinas, senhor. Tem certeza de que era mesmo nessa torre?

Querem calar a boca, bando de idiotas?

Eu bati na mesa.

Tenho! — exaltei-me. — A clínica Mater! Eu ia lá todas as segundas-feiras de manhã, há dez anos! É só perguntar ao vigia, o senhor Ndinga. Ele me conhece!

A jovem baixou novamente os olhos para as folhas. Parecia exausta, mas manteve a calma.

Deixe-me em paz.

Ela ergueu a cabeça com um ar aflito.

É Ndinga que procura? Pabumbaki Ndinga? Lamento sin­ceramente, senhor. Ele está entre as vítimas... Espere um instan­te, alguém cuidará do senhor e...

Não! O doutor Guillaume! Não o Ndinga! Encontre o doutor Guillaume!

A multidão se movimentou e duas pessoas passaram na minha frente. Recuei lentamente, tapando os ouvidos. Ir embora. O barulho tornara-se insuportável. Dei meia-volta e saí rapida­mente empurrando várias pessoas.

Saí da tenda e parei mais afastado, a respiração entrecortada. Joguei-me em cima de uma caixa grande de plástico. Não havia nenhuma firma no quadragésimo quarto andar... Minha cabeça rodava. Senti vontade de vomitar.

De repente, uma voz me tirou do torpor:

Está procurando a clínica Mater?

Olhei para cima. Vi, então, o rosto do homem que havia fala­do comigo. Na faixa dos trinta, pequenos olhos pretos, cabelos castanhos, curtos. Franzi as sobrancelhas. Alguma coisa na sua aparência...

Como? — balbuciei.

Está procurando a clínica Mater, é isso? — repetiu.

Ele usava casaco de moletom cinza, com um capuz que lhe caía nas costas. Do tipo usado pelos estudantes nas universidades americanas. Eu me lembrei que o vira antes, ao lado do serviço médico, e que ele se mantivera afastado, como se esperasse alguém. E todos os meus sentidos começaram a vibrar. Senti-me invadido por uma sensação de alerta inexplicável. Uma emergên­cia. Como se o meu inconsciente houvesse reconhecido aquele homem como um inimigo. Um perigo.

As palavras da mulher ainda ressoavam na minha cabeça. No quadragésimo quarto andar era a casa de máquinas.

Eu me levantei.

Não, não — menti, afastando-me.

Sim! — insistiu o homem agarrando-me pelo braço. — Eu ouvi...

Não hesitei nem mais um segundo. Com um gesto brusco, soltei o braço e comecei a correr com todas as forças. Ouvi que ele vinha atrás de mim. O meu instinto não me havia enganado. O cara tinha alguma coisa contra mim. Eu não sabia por que obs­cura razão.

Corri mais ainda, em direção à esquerda do Grande Arco, subindo rapidamente os degraus que iam dar numa comprida ponte de pedestres, sem me preocupar com o olhar das pessoas. Quando estava no alto da escada, dei uma olhada para trás. Não acreditei no que via. Agora eram dois. Dois sujeitos que me seguiam. Com os seus moletons cinza.

Uma alucinação. Só pode ser uma alucinação.

Mas eu não tinha a menor vontade de verificar. Recomecei a corrida. Passando por um grupo de socorristas perplexos, atraves­sei a passarela a toda a velocidade, deslizando a mão na amurada para não perder o equilíbrio. Ao chegar ao fim da ponte, despen­quei degraus abaixo, o mais rapidamente possível, para alcançar a rua. Sem parar de correr, virei novamente a cabeça. Os dois caras estavam logo acima de mim. Muito próximos! E havia as vozes na minha cabeça, as vozes ameaçadoras que me perseguiam.

Já estava começando a ficar sem fôlego. Malditos cigarros! Sem esperar, dei meia-volta e segui por baixo da ponte, nos sub­terrâneos da Défense. Ignorando totalmente aonde iria aterrissar, segui pela rua mergulhada na penumbra. Em seguida, ouvi o eco dos meus perseguidores. Os passos deles estalavam na calçada e ressoavam sob a laje de cimento. Acelerei, o mais que podia. Eu mesmo estava surpreso com a velocidade com que conseguia correr. Fazia tanto tempo! Mas, sem dúvida, o medo me dava asas.

Ao chegar a um cruzamento, peguei outra rua à esquerda, ainda mais escura. Por pouco não perdi o equilíbrio ao evitar uma lata de lixo. Equilibrei-me apoiando-me numa mureta e continuei em frente. O piso estava escorregadio, coberto de poei­ra, mas eu não podia desistir. Não sabia quem eram os homens, mas uma coisa era certa, eles não queriam nada de bom.

Minhas pernas começaram a doer, meu peito também, como se eu estivesse sendo esmagado por um punho invisível. Eu me perguntei por quanto tempo ainda poderia correr assim, tão rápi­do. Então, cheguei ao fim da rua, atravessei e peguei outra via à direita. Ao longe, vi novamente a luz do dia. Recuperei a coragem. Sem me voltar, avancei para o exterior. Quando, enfim, cheguei em plena luz do dia, vi uma nova barreira instalada por policiais. Saíamos do perímetro de segurança. A rua dava direta­mente no bulevar circular da Défense. Pulei desajeitadamente a grade e, ao erguer a cabeça, vi a frente de um ônibus que vinha na minha direção, a uns 100 metros. Número 73. Ele se dirigia para um ponto onde aguardavam umas dez pessoas. Enxuguei a testa dando uma rápida olhada para trás. Ainda estava um pouco à frente. Decidi tentar a sorte e corri para o ônibus. A rua subia ligeiramente, mas acho até que corri ainda mais depressa, num último impulso, esperando que aquilo em breve terminasse.

Quando o ônibus parou, eu ainda estava a uns 50 metros. Xinguei. Se eu o perdesse, nunca teria forças para continuar a fugir. Mas ainda tinha uma chance. Uma pequena chance.

Cerrei os punhos e busquei novas forças no fundo de mim mesmo. Afinal, eu havia sobrevivido a um atentado! Não ia me deixar derrotar por uma simples corrida! Gritando de dor, forcei mais as pernas. Os carros passavam à minha esquerda, na dire­ção da ponte de Neuilly. Eu pingava de suor. Mais um esforço. Não estava muito longe. Mas quando me aproximei do ponto, vi as portas do ônibus se fecharem.

Espere! — gritei, como se o motorista pudesse me ouvir.

Vencendo os últimos metros e levantando os braços, atirei-me contra a porta de vidro. O ônibus já havia dado a partida. Bati no vidro. Os sujeitos não estavam muito longe. O motorista lançou-me um olhar sombrio.

Por favor! — implorei, vendo os dois se aproximarem.

Então, ouvi o ruído agudo das portas que se abriam diante de mim. Pulei para dentro.

Obrigado, senhor — soltei, sem fôlego.

O motorista anuiu, fechou as portas e deu a partida. Avancei pelo corredor. O ônibus acelerou no bulevar circular. No mesmo instante, olhei pela janela. Os dois perseguidores haviam acaba­do de chegar ao ponto que tinha uma cobertura de vidro. Vi o primeiro soltar um grito de raiva e dar um murro no cartaz publicitário. Havia sido por pouco. Depois, a silhueta deles se afastou. Eu havia conseguido me distanciar deles. Eu, Vigo Ravel, esquizofrênico, havia deixado os dois homens para trás. Mal podia acreditar.

Sem fôlego, joguei-me num banco na parte dianteira do ôni­bus. As pessoas em volta lançaram-me olhares suspeitos. Mas eu já começava a me acostumar. Nem olhava mais para elas. Lentamente, fui me recuperando e, na verdade, tomando cons­ciência do que havia acontecido.

Eu havia sonhado?

O que aqueles homens queriam comigo? Por que o primeiro perguntou se eu procurava a clínica Mater? E por que a mulher do posto médico me disse que ela não existia? Tudo isso era tão inacreditável! Essa corrida-perseguição, em pleno coração da Défense, no meio dos socorros! Eu devia estar completamente louco. Em plena crise de paranóia.

Quando recuperei a respiração regular, levantei-me e fui para o fundo do ônibus, como para ter certeza de que os homens de moletom cinza não estavam mais lá. Abri caminho entre os outros passageiros e colei a testa no vidro traseiro. O horizonte enfumaçado do bairro de negócios diminuía progressivamente ao longe, como um sonho mau. Atrás de nós havia alguns carros, mas nenhum que seguisse o ônibus. Nenhum homem de mole­tom cinza. Encolhi os ombros. Como uma alucinação podia ser tão real? Tão concreta? A minha própria loucura me assustava ainda mais.

Foi nesse instante que os notei. Os dois sujeitos. Os mesmos. Ali. Num carro azul, bem ao lado do ônibus. Um Golf. E olhavam-me com um ar satisfeito. Eles me haviam encontrado.

O meu estômago revirou. Dei um passo atrás. O pesadelo não havia terminado. Invadido pelo pânico, precipitei-me novamente para a frente do ônibus. Não via como sair daquela situação. De carro, eles não teriam nenhuma dificuldade para me seguir. Dessa vez eu estava frito. Ao chegar perto do motorista, pergun­tei com voz preocupada:

Por favor, qual é a próxima parada?

— Ponte de Neuilly, Margem Esquerda... Está tudo bem, senhor?

Sim, sim — respondi, voltando para o meio do ônibus.

As pessoas se afastavam para me dar passagem, como nos afastamos para um mendigo com cheiro de sujeira e bebida. Agarrei-me a uma barra de metal, bem em frente às portas cen­trais, e erguendo-me na ponta dos pés tentei ver o carro azul. Com o canto dos olhos, eu o percebi imediatamente, na faixa da direita do bulevar circular, andando na mesma velocidade do ônibus. Eles mantinham uma distância segura. Dei um passo atrás, para evitar que me vissem, mas sabia o quanto esse gesto era ridículo.

Rapidamente, o ônibus chegou perto da ponte de Neuilly. Ele começou a diminuir a velocidade. Hesitei. Sair imediatamen­te? Eles me alcançariam. A parada era bem em frente à ponte. Não havia muitos caminhos para fugir. Pular no Sena? Não era o tipo de risco que eu estava disposto a correr. Louco, sim, mas não a esse ponto. No entanto, precisava encontrar uma saída.

Quando o ônibus parou, senti que era invadido por um puro terror. Como se um torno me esmagasse o estômago. Meu cora­ção estava disparado. Deixei as pessoas à minha frente saírem. Pus timidamente o pé no primeiro degrau, mas, no mesmo ins­tante, vi um dos sujeitos sair do carro, escondido, pronto a pular em cima de mim. Voltei para dentro. As portas se fecharam. Nenhuma saída. Eu era prisioneiro. O ônibus voltou a andar e o carro saiu atrás de nós.

Ao longo de toda a avenida Charles de Gaulle, o Golf perma­neceu colado no nosso rasto. Em todas as paradas, via os dois sujeitos hesitarem. Abriam a porta e punham o nariz para fora.

Eles iam acabar saindo e me pegariam no ônibus. Alguma coisa me dizia que não hesitariam em fazê-lo na frente de todo mundo.

Grossas gotas de suor escorriam pela minha testa. O motoris­ta, que devia ter notado a minha estranha manobra desde o começo, lançava-me olhares cada vez mais desconfiados. Eu pre­cisava fazer alguma coisa.

Quando chegamos à grande praça da porta Maillot, do lado oposto do Palácio do Congresso, o ônibus seguiu por uma faixa exclusiva, proibida para os carros. Havia muitos policiais na imensa rotatória, sem dúvida por causa do atentado, e meus per­seguidores não correram o risco de seguir-nos nessa faixa lateral. Obrigados a continuar na praça, vi que me vigiavam de longe. Quando o ônibus parou, não hesitei um segundo. Era a melhor ocasião. Saí.

Mal havia descido, comecei a correr novamente. Não sei onde encontrava forças. Pulei por cima de uma barreira de concreto e voei para Paris. Ao me virar, vi o Golf arrancar a toda a veloci­dade, avançar um sinal e vir na minha direção. Um policial api­tou. O carro parou. Um dos sujeitos desceu e começou a me perseguir. Não olhei mais. Tinha de fugir.

Segui pela avenida Malakoff. Havia muita gente nas calçadas. Empurrei um grupo de passantes e fugi por entre insultos. A rua subia cada vez mais, porém não diminuí a velocidade. Com os punhos cerrados, buscando ar para respirar a cada passada, dis­parei na direção da avenida Foch. Eu parecia um louco furioso solto nos bairros chiques. As velhas senhoras com seus longos casacos e pequenos cachorros afastavam-se à minha passagem com ar indignado.

Quando cheguei à grande artéria que leva ao Arco do Triun­fo, passei ao lado de uma terraplenagem, pulei uma pequena grade, atravessei uma elevação de terreno verde onde turistas pas­seavam em trajes de verão. Na larga rua, não fiz nem mesmo uma parada para atravessar. Um carro freou repentinamente, eu o evi­tei e continuei a corrida. Não ousava me virar, mas sentia o cão de caça atrás de mim, adivinhava o rosto dele, sua determinação. Ele nunca pararia, eu estava mais do que certo. Continuei em frente.

Uma vez do outro lado, me lancei na primeira rua. Foi então que ouvi. Um ranger de pneus, uma aceleração súbita. Olhei por cima do ombro. Era o Golf, de novo. O segundo sujeito conse­guira me alcançar, de carro. Ele embarcou o colega e saiu na minha direção.

Corri para a outra calçada, mais estreita. Vi o carro vir para cima de mim, antes mesmo de eu chegar à calçada. Aterrorizado, pulei de lado, aterrissei no capô de um Mercedes e me vi no chão, caído de costas. Soltei um grito de dor. Então, ouvi a porta do Golf abrir-se. Levantei-me imediatamente e recomecei a fuga. As pessoas começaram a gritar nas calçadas. Os dois perseguido­res, juntos novamente, também gritavam:

— Parem-no!

Atravessei uma avenida, depois, mais à frente, à esquerda, entrei numa ruela. Corri com todas as forças que ainda me sobra­vam, mais do que eu poderia imaginar. Era como se eu tivesse ultrapassado os meus limites, encontrado recursos ocultos. Uma afluência de adrenalina, talvez. Por duas vezes, virei precipitada­mente em ruazinhas, à direita, à esquerda. Era o único meio de despistá-los. Todas as vezes eu esperava que não me vissem virar. Mas não podia continuar assim eternamente. Atravessar Paris inteira nesse ritmo desenfreado.

Naquele instante, percebi no meio da calçada, numa pequena passagem, uma construção esquisita de pedras, arredondada, encimada por uma cúpula e uma espécie de lanternim.

Dei uma olhada para trás. Os dois sujeitos ainda não estavam ali. Eu estava fora do campo de visão deles. Talvez fosse o momento de eu entrar num abrigo para me refugiar. Podia ser a minha chance de escapar. Ou, ao contrário, o risco de me encur­ralar num beco sem saída... Decidi tentar a jogada e avancei para a porta da estranha casinha.

Estava fechada, claro. A porta era velha e enferrujada, meio esburacada, de uma cor amarelada, na qual se podia decifrar um aviso destruído pelo tempo: Pedreiras Não abra, perigo. Não havia nenhuma maçaneta, apenas um pequeno buraco de fecha­dura. Empurrei a porta com força. Evidentemente, ela não abriu. O tempo urgia. Se não me apressasse, os dois sujeitos iam che­gar ao fim da rua e me ver entrar no inútil esconderijo. Dei um chute forte na porta. Ela resistiu. Não desanimei: o batente esta­va tão enferrujado que devia ser possível forçar a entrada. Inspirei profundamente e dei um segundo chute, mais forte. Em seguida, um terceiro. A velha porta cedeu. Sem perda de tempo, precipitei-me no interior e fechei-a atrás de mim.

Estava na total escuridão. Esperei um instante para recuperar o fôlego. Logo depois ouvi os passos dos dois sujeitos que cor­riam na minha direção. Cerrei os dentes e fiquei imóvel. O eco da corrida ressoava na rua, cada vez mais próximo. Engoli em seco. Eles estavam apenas a alguns metros. Não fazer barulho. E esperar. Que risco estúpido eu estava correndo! Fechar-me! No entanto, quando não acreditava mais nisso, constatei que eles não me tinham visto entrar. Os passos se afastaram para a outra extremidade da rua. Soltei um suspiro de alívio. Estava tranqüilo. Pelo menos, por enquanto.

Lentamente, peguei o meu isqueiro Zippo no bolso. Acendi-o. O espaço iluminou-se progressivamente à minha volta e desco­bri, surpreso, o que ocultava aquela guarita insólita: uma escada em caracol embrenhava-se no coração da cidade.

Caderneta Moleskine, anotação n°. 107: solipsismo.

O sonho é a prova, se fosse preciso de alguma, de que o nosso cérebro é capaz de fabricar sensações que se parecem com uma certa realidade. Existem pesadelos que fantasticamente fedem como o real. Em suma, o nosso cérebro é, às vezes, um simulador da vida especial­mente hipócrita.

Então, constantemente, vejo nascer em mim essa estranha certeza segundo a qual o meu eu, a minha consciência, constituem a única realidade existente. Não ê um egocentrismo, mas sim o medo de que os outros e todo o mundo exterior sejam apenas representações falsas, produtos da minha consciência.

No fundo, só posso conhecer verdadeiramente a minha própria mente e o que ela contém; isso eu sei que existe.

Isso tem um nome. Também, nesse caso, para ter certeza, verifi­quei nos dicionários. Para ver se eu era o único a acreditar que esta­va sozinho. Na realidade, somos muitos.

Primeiro no Petit Robert...

Solipsismo: subst. masc. (1878; do ant. adj. solipso [do lat. solus "só", e ipse "mesmo"], suf. -ismo). Filos. Teoria segundo a qual não haveria para o sujeito pensante outra realidade que não ele mesmo.

Depois, sempre no dicionário de filosofia de Armand Colin:

Solipsismo: Doutrina que nunca foi realmente endossada, segundo a qual o sujeito pensante existiria sozinho. Esse termo, sempre pejorativo, às vezes é usado para qualificar uma forma extrema de idealismo. Wittgenstein, no seu Tractatus Logico-Philosophicus, destacou o paradoxo do solipsismo que, rigorosa­mente praticado, coincide com o puro realismo.

Preciso ler Wittgenstein. Não sei se vou compreender. Já acho o título difícil.

O ar estava quente. Quente e úmido. Desci com precaução os velhos degraus de metal, iluminando apenas com o Zippo. As paredes de pedra branca ficaram claras quando passei. Estavam cobertas de pichações, atravessadas de fissuras e transpassadas por velhos pedaços de ferro enferrujado. A escada ia se enterrar direto nas profundezas escuras de Paris. Ao longe, perdia-se no escuro. Lembrei-me do aviso na porta. Sem sombra de dúvida, eu havia entrado nas antigas pedreiras de Chaillot! Nas catacumbas.

Hesitei um instante. Seria uma boa idéia enfiar-me lá dentro? Eu não tinha lanterna e já ouvira dizer muitas vezes que as pes­soas se perdiam facilmente nos subterrâneos da capital. Mas eu tinha escolha? Estava quase certo de que os meus dois persegui­dores ainda perambulavam pelo quarteirão; acabariam voltando e procurando o lugar onde eu me escondera. Não podia nem cogi­tar em sair dali. Não podia fazer outra coisa. Teria de descer no buraco negro. Sem dúvida, o melhor esconderijo possível. Não o mais animador, porém o mais seguro.

Fiz uma careta e decidi aventurar-me mais à frente. Ao menos, poderia ver o que havia no fim dos degraus. Talvez hou­vesse outra saída em algum lugar...

Recomecei a andar, tomando cuidado para não escorregar no metal enferrujado. O eco regular dos meus passos se elevava pela escada. As paredes de pedra talhada logo se transformaram em paredes de calcário bruto e os degraus de metal desapareceram para dar lugar à rocha. Eu respirava ruidosamente, ainda cansa­do e cheio de preocupação. A todo instante esperava ouvir, em cima, os dois sujeitos que me teriam descoberto. Mas não. Por enquanto, tudo em silêncio. Precisava recobrar a calma.

Fiquei um pouco mais seguro e aumentei a cadência da minha marcha. Então, notei que não havia mais nenhuma voz na minha cabeça. As ameaças, os murmúrios, tudo havia desapa­recido. Quanto mais eu afundava no subsolo parisiense, mais o silêncio se impunha no fundo da minha mente. Não era suficien­te para acabar com a minha angústia, mas já era alguma coisa.

Eu não podia manter o isqueiro aceso todo o tempo, com medo de queimar os dedos e, também, para economizar o fluido. Apagava-o regularmente e fazia longos avanços no escuro abso­luto, às cegas.

De repente, um arrepio me percorreu a espinha. O ar estava mais fresco. E a escuridão não havia melhorado nada. Era um ambiente desagradável, irreal. Andei por intermináveis minutos, tateando, e, por fim, a escada acabou.

Acendi novamente o Zippo e vi que estava numa estreita galeria. Eu devia estar a dezenas de metros sob a terra. As pare­des eram frias e estavam ligeiramente molhadas. Respirei um ins­tante, imóvel, e continuei a andar, curvado, para não bater a cabeça no teto baixo. Progredi lentamente no escuro, passo a passo, a mão esquerda apoiada na parede de pedra. Depois de uma longa caminhada, uma abertura se desenhou ao lado. Iluminei o local e descobri, à direita, um pequeno espaço, gros­seiramente talhado na rocha, com apenas alguns metros de profundidade.

No chão, havia velhas latas de cerveja e sacos plásticos. Nada de interessante.

Continuei a andar. Quando, depois de um tempo que me pareceu muito longo, achei que a galeria nunca ia terminar, deci­di voltar atrás e me refugiar na pequena alcova. Não queria me perder no labirinto das catacumbas e, como não podia sair naquele momento, seria melhor aguardar no pequeno espaço, esperando que os dois homens que me seguiam acabassem saindo do bairro.

Portanto voltei para o exíguo abrigo, resolvido a passar ali algumas horas. Passeei o Zippo pelas paredes tentando decifrar as inscrições gravadas de qualquer jeito na pedra. Aqui, Anna, eu te amo; ali, Fuck o IGC Clément, enrabado, e mais além Se a curiosidade o trouxe aqui, se mande!.

Sentei-me no chão com cuidado, evitando os detritos deixados por alguns baderneiros noturnos, e apoiei a cabeça nos joelhos.

Aquele pequeno quarto escuro convidava à reflexão. Decidi entregar-me a ela. Além do mais, não tinha nada melhor para fazer. Queria recuperar a calma interior. Resgatar a ligação com a realidade. Com a Terra, talvez.

A rocha fria pareceu envolver minhas costas. Pus as mãos no chão, toquei de leve a suave poeira. Tinha a impressão de estar sentado de encontro a um rochedo, numa praia. Quase podia sentir a carícia de uma brisa marinha.

Não sou esquizofrênico.

Remontei na cabeça o curso dos acontecimentos. O metrô, a torre, as vozes, as bombas, a fuga, o apartamento dos meus pais, a volta à Défense, os dois sujeitos de moletom. E, agora, o subsolo de Paris...

Queria me convencer de que tudo era bem real. Incrível, mas bem real. Eu devia confiar no meu entendimento. Nos meus sen­timentos.

Imaginei o rosto do doutor Guillaume, desenhei os traços dele, um a um, na minha cabeça. Sabia muito bem que ele exis­tira. Que fazia parte da realidade. Meus pais conheceram-no. Haviam falado com ele. Ele era. Mas, então, por que aquela mulher havia afirmado que ele não existia? Que não havia nenhu­ma clínica médica na torre SEAM? Não havia nenhuma empresa no quadragésimo quarto andar... Era a casa de máquinas, no qua­dragésimo quarto andar, senhor.

Havia algo de anormal. Alguma coisa que não fazia sentido.

E não era eu. Não sou esquizofrênico.

As ondas de angústia invadiram-me de novo.

O que você faz nas catacumbas, meu pobre coitado?

Ergui a cabeça. Eu havia apagado o isqueiro, estava tudo escuro e, apesar disso, arregalei os olhos. Eu queria sair. Ir embora dali. Daquele lugar surrealista. Mas não podia. Arriscaria a minha pele.

Os dois caras perversos existiam realmente? Sim, é claro. Ou não. Talvez não.

Em alguns momentos a angústia dava lugar à raiva. Raiva contra mim mesmo. Contra a minha incapacidade de raciocinar corretamente. No entanto, seria tão complicado observar os fatos? Interpretar o real? Eu não havia aprendido nada depois de todos esse anos?

Achei que já era fim de tarde. Sem dúvida, a noite estava caindo lá fora.

Foi nesse momento que aquilo me pegou de novo. Primeiro, a ardência familiar da dor de cabeça, como uma pinça apertando a metade esquerda do meu cérebro. Em seguida, o mundo que rodava, que girava como um carrossel. Depois, as vozes.

Os murmúrios. Ao longe, mas bem reais. Bem reais para mim. Eu conhecia esses estranhos encantamentos. Eram as vozes que às vezes saíam de algumas bocas de esgoto. De algumas gra­des do metrô. Eu aprendera a reconhecê-las depois de todos esses anos de andanças por Paris. Era o murmúrio da cidade, indistinto, secreto, obscuro, que me enchia a alma. Dezenas de cochichos incompreensíveis, como o coro de um exército de mortos.

Tapei os ouvidos. Todo o meu corpo se enrijeceu, como para expulsar as vozes confusas. Mas eu sabia que não adiantaria nada. Que nada poderia calar o murmúrio das sombras.

Não sei quanto tempo fiquei assim, emparedado na minha angústia, nem depois de quantas horas acabei adormecendo.

Quando acordei, sobressaltado, as vozes haviam desaparecido. Levantei-me desajeitadamente, com as pernas entorpecidas. Acendi o isqueiro, hesitei um instante. Não havia sonhado. Estava mesmo encolhido ali, sob a cidade, como um ordinário rato de esgoto.

Resolvi sair.

Com passo rápido, refiz o caminho em sentido inverso, subi rapidamente os degraus para o exterior. Tinha a impressão de sair de um longo pesadelo, de ter de me retirar correndo na dire­ção daquela luzinha, lá em cima. O mundo real. Real?

Quando finalmente cheguei à porta de ferro, pus o isqueiro de volta no bolso, apertei os punhos e soltei um longo suspiro. Um pouco de coragem. Sair.

Abri a porta lentamente. Raios de luz invadiram o corredor. Já estava amanhecendo. Paris tingia-se de milhares de brilhos dourados. Os telhados de zinco cintilavam sob as antenas. Dei uma olhada na rua e não vi ninguém. Pelo menos, nenhum ves­tígio dos dois sujeitos. Saí.

Comecei a andar até a minha casa. Não tinha a menor vontade de pegar o metrô, de ver-me de novo nas profundezas da terra, nem de subir num ônibus onde me olhariam de través por causa das minhas roupas rasgadas.

Segui caminho até a praça Victor Hugo. A manhã acordava ao ritmo dos caminhões de lixo. Os primeiros carros davam a partida sob os halos de sol. Cheguei à praça da Étoile. O Arco do Triunfo resplandecia sob o céu imaculado. Adivinhei ao longe a chama do soldado desconhecido. Eu mesmo não era um deles? Pequeno esquizofrênico anônimo, perdido, escravo da nossa ridí­cula condição, sacrificado como mil outros à loucura de mil Napoleões. Acendi um cigarro e atravessei as grandes avenidas, depois percorri a avenida Hoche. Mais abaixo, entrei no parque Monceau. Ainda estava vazio àquela hora. As árvores pareciam inchar, como se fossem os pulmões da cidade na sua primeira respiração.

Atravessei o parque. Depois, finalmente, desci até a rua Miromesnil. Quando, finalmente, cheguei embaixo do prédio, senti os músculos relaxarem lentamente. Estava chegando em casa. Naquele lugar eu tinha meus pontos de referência. Estava quase tranqüilo.

Abri a grande porta da entrada, subi ao primeiro andar e peguei a chave no fundo do bolso. Enfiei-a na fechadura. Desco­bri, espantado, que ela não estava trancada.

Franzi as sobrancelhas. Havia esquecido de fechá-la ao sair? Sim. Com certeza. Eu havia saído precipitadamente, preocupado, não era de estranhar...

Mas, ao entrar na sala, compreendi imediatamente que a coisa era bem diferente.

Alguém havia revistado o apartamento.

Caderneta Moleskine, anotação n°. 109: a Maia.

Na filosofia hindu encontramos uma noção sensivelmente próxi­ma do mal-estar que sinto. Não é que eu me sinta sozinho, mas é bom sermos muitos quando se está à beira de um precipício.

A Maia designa a ilusão do mundo físico. Ela é o que podemos perceber do mundo, mas que não é a realidade. Segundo essa filoso­fia, o Universo, tal como o vemos, não passa de uma representação relativa da realidade. Esta é velada, subjacente e superior. Trans­cendental.

Eu sou como uma criança que tenta levantar o véu. Minhas unhas estão nojentas de tanto arranhar o real.

A grande sala branca dos meus pais estava de cabeça para baixo. Parecia que um terremoto havia sacudido todo o aposen­to. As gavetas da cômoda e da pequena escrivaninha estavam abertas e haviam esvaziado o conteúdo no chão. As latas de lixo estavam viradas, as almofadas do sofá espalhadas pelos quatro cantos da sala. O tapete, enrolado torto, havia sido empurrado para o lado. O chão estava coberto de livros, papéis, bibelôs, canetas e tecidos emaranhados. A mesa de centro estava quebra­da; havia milhares de fragmentos minúsculos de vidro espalhados em volta. Os cinco ou seis cinzeiros que eu deixava jogados por todo lado também estavam misturados nessa confusão.

Fiquei um longo tempo embasbacado. Esfreguei os olhos, mal conseguindo acreditar naquilo. Um roubo? Não, é claro. A coincidência seria muito grande! Inevitavelmente, tinha algu­ma relação com a minha história. Com aqueles caras que me haviam seguido por toda a cidade. Em que eu estaria envolvido?

Dei alguns passos à frente, chocado, feições abaladas. Incli­nei-me devagar para olhar no quarto dos meus pais — no fim das contas, os sujeitos ainda podiam estar lá dentro. O aposento esta­va no mesmo estado. Irreconhecível. Avancei para o meu quarto. Também não havia sido poupado. Foi, provavelmente, o que so­freu o maior ataque. A minha cama estava virada de lado, como um vulgar dominó. Todos os meus livros, dicionários, amontoa­dos no chão embaixo das prateleiras, formavam uma espécie de montanha branca, à beira de uma avalanche. As minhas roupas estavam espalhadas no chão ou jogadas na poltrona.

Soltei um palavrão. Meus livros. Meus pobres livros!

Voltei para o meio da sala. Levantei alguns objetos aqui e ali, como para me certificar de que não estava sonhando. Abaixei-me para erguer uma luminária de pé que me barrava o caminho e, naquele instante, percebi com o canto dos olhos, do outro lado da sala, um objeto que me gelou o sangue.

Levantei-me, perplexo. Não estava enganado. Ali, no meio da parede, bem em cima de um quadro, vi cintilar um vidro redon­do. O olho discreto de uma câmera de vigilância, sem dúvida, instalada às pressas, malcamuflada. Com os olhos arregalados, continuei na mira da objetiva, incapaz de me mexer. Depois, num acesso repentino de raiva e de medo, caminhei direto para o espião indiscreto e arranquei-o com um gesto brusco. O fio soltou-se ao longo do quadro e a minúscula câmera caiu no chão.

Eu não conseguia acreditar. Uma câmera! Na minha casa! Haviam instalado uma câmera de vigilância na minha casa! Na minha sala! Eu devia estar em plena alucinação. Em pleno delí­rio paranoico. Tinha de recuperar-me, raciocinar. Era totalmen­te ridículo. Grotesco.

Fechei os olhos e os abri de novo. Mas a câmera continuava lá. Uma pequena caixa escura a meus pés.

Esmaguei-a várias vezes, com raiva, com o salto do sapato. O aparelho quebrou-se em pedaços num estalido seco. Puxei o cordão preto que saía dele e segui o seu percurso. Descobri que estava ligado à tomada de telefone. Arranquei-o, incrédulo. Depois dei meia-volta e corri para o meu quarto.

Fugir. Tinha de fugir. Fosse ou não uma alucinação, não podia continuar naquele apartamento nem um segundo a mais. Ia ficar completamente louco!

Se não fosse uma nova produção da minha cabeça doente, então aqueles que haviam plantado a câmera no meu apartamen­to iam aparecer a qualquer instante. Eu não tinha a menor idéia do que esses sujeitos podiam querer de mim, nem de quem eles eram, mas não tinha a menor vontade de conhecê-los.

Precisava sair o mais rápido possível e levar comigo um míni­mo de coisas essenciais. Ao chegar ao meu quarto, catei embaixo da mesa uma velha mochila, enfiei precipitadamente algumas roupas e a pequena caixa de madeira onde, na minha paranóia, guardava sempre um pouco de dinheiro — para agüentar alguns dias, talvez até uma ou duas semanas. Uma arma? Eu não tinha. Mesmo assim, peguei um grande canivete suíço que estava joga­do na minha mesa. Pensei: o que pegar mais? O que eu tinha de mais precioso: minhas cadernetas Moleskine.

Subitamente, a idéia de que os ladrões tinham vindo para roubá-las passou pela minha cabeça. Em pânico, precipitei-me para o pé da minha cama virada. Com as mãos trêmulas, levan­tei os dois pequenos tacos do assoalho, sob os quais costumava guardar minhas cadernetas. Soltei um suspiro de alívio. Ainda estavam lá. Todas elas. Catei-as e coloquei-as na mochila.

No banheiro, peguei rapidamente o estojo de toalete e os medicamentos, que enfiei de qualquer maneira na mochila. Lan­cei um último olhar ao apartamento e saí para o corredor sem de­mora. Bati a porta atrás de mim e desci pela escada de serviço.

Uma vez na rua, dei rápidas olhadas em volta, certo de que algum inimigo invisível estava prestes a cair em cima de mim. Depois, com a mochila nas costas, subi correndo a avenida Miromesnil, rente aos muros de pedras brancas e tijolos vermelhos.

Virando à esquerda, entrei no bulevar barulhento, percorrido por longas filas de carros. Deixei para trás a sombra imponente da igreja de Saint-Augustin. Na calçada, correndo na selva pari­siense, desviei-me das Colunas Morris e das cabines telefônicas... Ao chegar à praça do General Catroux, levantei a cabeça para ver a estátua de Alexandre Dumas. O escritor tronava numa cadeira alta, em cima das suas obras. Ele também parecia vigiar-me. Esperava ver os olhos dele piscarem a qualquer momento, como havia cintilado a objetiva da pequena câmera de vigilância. Eu tinha a estúpida certeza de que toda a cidade me vigiava. Desli­zei, sem demora, para a sombra segura dos plátanos. Parecia que o mundo girava à minha volta, cheio de vozes confusas e dissi­muladas. Fazia muito calor e o céu estava repleto de um vapor vibrátil que me atordoava. Várias vezes achei que ia desmaiar. Mas precisava correr de novo, correr sempre, como a vítima enlouquecida de mil predadores.

Atravessei a praça Wagram para continuar em linha reta para a porta de Asnières. Queria sair de Paris, da loucura da cidade ou da minha. Afastar-me do apartamento. Da câmera. Do meu pesadelo.

Quando não consegui mais correr, joguei-me num banco. Fechei os olhos por um instante, como se isso pudesse me trans­portar para outro mundo, para outra realidade. Mil vozes ressoa­vam na minha cabeça. Eu transpirava. Abri os olhos e levantei a cabeça. A fachada de um hotel se desenhou à minha frente, como uma resposta maternal a todas as minhas angústias.

Era o melhor refúgio com o qual eu poderia sonhar. Um hotel Novalis, duas estrelas, anônimo, quase inexistente, branco e frio, discreto. Justamente o lugar despercebido de que eu pre­cisava. Para desaparecer.

Desde o atentado, eu não tivera tempo de mudar de roupa. O sangue e a sujeira confundiam-se na minha camiseta branca.

A minha calça estava rasgada, as mãos feridas, eu parecia um mendigo que havia apanhado de um bando de desordeiros. Não sei como o cara da recepção do hotel me deixou entrar com uma aparência dessas. Talvez a cadeia hoteleira não lhe desse o direi­to de recusar.

Ainda tem um quarto?

Enquanto falava com ele, pingando de suor, eu olhava em volta, como se estivesse sendo seguido.

Por quanto tempo?

Não sei. Algumas noites.

Nenhuma bagagem? — perguntou ele, desanimado.

Nenhuma bagagem.

Tem de pagar antecipado, senhor.

Dei em dinheiro o pagamento da primeira noite. Ele soltou um suspiro e entregou-me uma chave.

Quarto 44, segundo andar.

E me deixou passar sem acrescentar mais nada.

Algumas horas depois, em troca de uma nota de 50, o recep­cionista levou para cima uma garrafa de uísque e os Camel.

Fiquei deitado, fumando um cigarro atrás do outro, chocado, mudo e empanturrado de ansiolíticos. As pessoas como eu sem­pre têm um arsenal de medicamentos ao alcance da mão. Depois de alguns anos, os médicos acabam esquecendo o que lhe pres­creveram. Temos receitas espalhadas. E guardamos um pouco de tudo: soníferos, neurolépticos, antidepressivos... Depois de experimentarmos de tudo, por mais ou menos quinze anos, sempre temos a pílula certa para o momento certo. Mesmo que não seja­mos ligeiramente aventureiros, sabemos até as misturas e as vir­tudes que o álcool acrescenta.

Então, adicionei bastante.

Dois dias se passaram sem que eu saísse do quarto. Talvez mais. Eu havia perdido a conta. Fumei quatro maços de cigarros, as pontas dos meus dedos já estavam amarelas. As crises de angús­tia se sucediam, as alucinações, as perdas repentinas de memória. Tudo havia piorado e eu estava com medo. Medo, simplesmente. Porque eu sabia.

O meu corpo inteiro tremia. Eu estava enfiado na toca como um rato, no calor e na escuridão do pequeno quarto. Tão padro­nizado, tão anônimo, tão inexistente! Tudo era quadrado! A cama, a pequena televisão, os móveis... Não era um quarto, era uma cela, uma jaula, um leito de hospital. Eu tinha vontade de gritar, mas a minha própria voz me aterrorizava. Como todas as outras. As da minha cabeça ou as de fora dela, que eu ouvia na noite escaldante, ecos indistintos que subiam da rua. Vozes tris­tes. Frases pálidas de desespero.

Tudo me sufocava. O cheiro dos produtos de limpeza, o ar-condicionado, as bolhas do reboco das paredes, que pareciam se mexer lentamente... Esse hotel parisiense, cuja brancura mal camuflava uma insalubridade mais profunda, parecia querer me destruir completamente. E se eu continuasse ali, sem dúvida, ele ia acabar conseguindo.

Eu me lembro vagamente de um instante de lucidez na pri­meira noite, quando a angústia me deu uma trégua. Soltei um longo suspiro. Deitado no colchão duro, com as costas doloridas, a mente embotada, virei a cabeça na direção da mesinha de cabe­ceira à esquerda. Meu relógio estava lá, perto da garrafa de uís­que. Meu velho relógio de quartzo, que sempre usei. Nem me lembrava mais do dia em que o havia comprado. Ele sempre esti- vera ali, no meu punho, fiel, e talvez fosse, entre as poucas coi­sas que eu possuía, o objeto com o qual eu tinha maior ligação. Sempre me afirmaram que ele tinha algum valor comercial — era um relógio Hamilton, modelo Pulsar, um dos primeiros relógios eletrônicos com mostrador digital, que datava do início dos anos 1970 —, mas, para mim, ele tinha sobretudo um valor sentimen­tal, que eu não sabia explicar muito bem. Uma ligação com o meu passado. E, agora, ele estava quebrado. Ainda piscava, como buscando um último suspiro. O vidro havia quebrado quando caí no chão, projetado pelo deslocamento de ar da explosão. Desde o atentado, o mostrador exibia, em intermitências escarlates, quatros números obsedantes.

88:88

Uma hora que todos os relógios e todos os despertadores ana­lógicos do mundo podem indicar, mas é uma hora que não exis­te. 88:88. O no man's land temporal no qual eu vegetava, estupidificado, incrédulo. A minha vida havia parado ali, nessa elipse invisível que nenhum ponteiro nunca mostrara. Eu estava prega­do, desorientado, no colchão duro de um quarto de hotel, por cima dos bulevares circulares, sufocado pelo medo e pelos medi­camentos, encurralado nos segundos infinitos de uma hora que não existia.

Sorri. Então, eu estava fora do tempo. A idéia era divertida. Divertida para um esquizofrênico. Virei de novo a cabeça e dei­xei o relógio onde ele estava. Acendi mais um cigarro, pensando nos dias estranhos transcorridos, na loucura que eu acabara de viver. Senti gotas de suor escorrerem pela testa. Tentei até me enxugar. De qualquer modo, o calor do mês de agosto e a angús­tia se haviam unido contra mim. Era uma batalha perdida por antecipação.

A minha paranóia nunca havia chegado a um nível tão críti­co. Eu estava ensurdecido pelas vozes que me invadiam a cabe­ça, pelas frases que não podia esquecer e que eu sabia terem um sentido profundo, importante. Rebentos transcranianos, 88, está na hora do segundo mensageiro. Hoje, os aprendizes de feiticeiro na torre, amanhã, nossos pais assassinos no ventre, sob 6,3. Eu não tinha noção das horas, achava o tempo terrivelmente longo e, ao mesmo tempo, impalpável, como se estivesse encerrado para sempre no meio dos círculos infinitos do meu 88:88. A cada pequeno ruído que invadia meu quarto, eu tocava com o dedo a superfície gelada do puro terror, a própria raiz do pavor, que se enfiava como um imenso picador de gelo nas profundezas da minha coluna vertebral.

Afinal, provavelmente na manhã do terceiro dia, quando eu estava mergulhado, amorfo, num substituto de sono, fui acorda­do, em sobressalto, por três batidas na porta. Três batidas ensur­decedoras, cujo eco encheu inteiramente o quarto. Fiquei com tanto medo que achei que meu coração havia parado. No entanto, ouvi baterem de novo. Mais forte do que nunca.

Voltei a cobrir-me com o grande lençol branco e fechei os olhos, encolhido no meio do colchão, esperando a morte, resig­nado.

Senhor? Ei! Senhor!

Abri um olho. Era a voz do sujeito do hotel.

Tem alguém aí?

Ele bateu de novo na porta, ainda mais forte.

Ainda está vivo? Ei! Senhor! Está aí?

Eu me sentei na cama, com a testa pingando de suor.

Senhor, se não abrir, serei obrigado a arrombar...

Espere! — exclamei em pânico, pondo a cabeça para fora da cama. — Espere! Eu... eu estava dormindo. Vou me vestir e já vou!

Ah! O senhor está aí! Tudo bem... Faça o favor de ir até a recepção, o senhor não pagou as duas últimas noites...

Acho que esse chamado brutal à realidade foi um elemento desencadeador para mim. Como um eletrochoque psicológico, uma ducha fria. Sem querer, o recepcionista do hotel me tirara da espiral paranóica em que eu havia entrado havia vários dias. Pela primeira vez, desde que eu me jogara naquela cama, entrei novamente em contato com o mundo real e, de certo modo, isso me salvou — ao menos por algum tempo — do labirinto de angústia.

Pulei da cama, movido por um violento sentimento de culpa, dirigi-me para a pequena pia branca do minúsculo banheiro, tirei toda a roupa e molhei o corpo e o rosto com uma água turva e morna. Merda, mas o que você quer, o que você quer? Esfreguei vi­gorosamente os restos de sangue do braço e da testa. Precisei lavar várias vezes para retirar a cor vermelha que estava impregnada nos meus pelos. Esfreguei o rosto coberto por uma barba espessa e espetada. Peguei o estojo de toalete na mochila e fiz a barba. Minhas mãos tremiam, de medo ou de cansaço, não sei. Cortei-me duas vezes. Quando terminei, pus o aparelho de barbear na bei­rada da pia e me estiquei para me examinar no espelho.

Mal me reconheci. Era como se eu não visse esse rosto há uma eternidade. Eu tinha os traços repuxados, uma cara de morto-vivo. É bem verdade que depois de tirar a barba eu esta­va com a minha cara normal, mas o aspecto ainda era horrível. De qualquer jeito, detestava me olhar em espelhos. Talvez não gostas­se da minha cara, que sempre me incomodou — nariz muito largo, dentes estragados, olheiras eternas, tez amarelada de fumante. Eu tinha a impressão de que ela não me pertencia. No fundo, só os olhos me eram suportáveis. O grande olhar azul que, ali, eu con­seguia sustentar. Era a única coisa no meu rosto que me parecia real. Que parecia me pertencer. Para sempre.

Observei a antiga tatuagem no meu braço, cuja origem eu ignorava. Representava uma cabeça de lobo. Não me lembrava do dia e do motivo pelo qual eu havia feito essa tatuagem. Certa­mente, datava de uma época antiga que me fugia totalmente da memória.

Abaixei a cabeça e contemplei minha barriga. Eu havia ema­grecido um pouco. Muito pouco. Os medicamentos me haviam condenado a uma gordura eterna, deselegante. Inspecionei uma a uma as dobras na pele gorda do meu estômago. Quanto desse corpo era meu? Realmente meu? Depois, mais abaixo, olhei o meu sexo. Esse sexo idiota, quase morto que, eu achava, nunca havia conhecido uma mulher. Talvez nunca houvesse sentido desejo por nenhuma. Eu era incapaz de lembrar. Será que ainda se é um homem quando não se tem nenhum desejo?

Levantei os olhos e sustentei o meu próprio olhar. Foi como uma prova. Havia alguma coisa com aquele espelho. Com todos os espelhos.

Merda de neurolépticos!

Num gesto de raiva, peguei a lata de lixo aos meus pés, virei-me bruscamente, fui até a mesa de cabeceira e joguei, uma a uma, todas as caixas de medicamentos na cesta.

Chega! Vou parar! Vou parar com, esses medicamentos desgraça­dos que acabam com a minha vida! Eu morro se for preciso, mas chega. Vou parar.

Por um instante, olhei as cartelas de comprimidos e as caixas amontoadas no fundo da lata de lixo, depois fui até a janela, escancarei-a e joguei todo o conteúdo na rua. As cartelas pratea­das de comprimido e as bulas voaram como folhas mortas, espa­lhando-se na calçada e no meio da rua. Soltei um gritinho de vitória, com um sorriso zombeteiro nos lábios.

Voltei para perto da pia, peguei roupas limpas na mochila e me vesti depressa.

Não sou esquizofrênico.

Calcei os sapatos, peguei todo o dinheiro que havia na caixi­nha, pus na carteira e, finalmente, saí do maldito quarto com passo decidido.

Desci rapidamente a escada do hotel e encontrei o recepcio­nista no hall.

Sinto muito incomodá-lo, senhor, mas achei que lhe havia acontecido alguma coisa! — disse ele com uma espécie de sorri­so constrangido.

Quanto lhe devo? — perguntei secamente.

São 20 euros por noite, um total de 40.

Entreguei-lhe o dinheiro.

Sem dúvida, vou ficar mais alguns dias — anunciei.

Tudo bem. Agora que o conheço e sei que o senhor paga, isso não é problema. Pode acertar o pagamento quando for embora... Precisa compreender, senhor. Desconfiamos...

Naturalmente. Obrigado.

Não acrescentei nenhuma palavra e saí rapidamente do hotel.

O sol de agosto inundava o bulevar. As árvores e os homens transbordavam de vida. Observei o mundo. Parecia normal. Tão normal quanto eu o havia conhecido antes. Calmo, real, um pouco coberto — pelo fato de eu sair do meu antro — de um efêmero esplendor dourado.

Comecei a andar na calçada, num passo que eu imaginava firme. Um ventinho irregular temperava o calor úmido do verão, fazendo cócegas no meu rosto tenso. De vez em quando, carros passavam ao meu lado, indiferentes. Homens, mulheres e crian­ças em sentidos opostos. Algumas lojas estavam abertas. Nem toda a cidade estava de férias. Aqui um quiosque de jornais com cartazes multicores que lembravam os atentados; ali, um poste da EDF coberto de pequenos anúncios, de adesivos coloridos con­vidando para festividades urbanas, anunciando concertos ou noi­tadas da moda, mais ao longe uma padaria que exalava ao redor o aroma sedutor de suas iguarias. Presas aos canos de uma pequena barreira verde, as bicicletas, as scooters e as motos aguar­davam o retorno dos donos. O real parecia-me perfeito, indiscu­tível. Nada era em excesso. Em paz, eu me enfiava nesse mundo tangível, evitando com cautela as grades dos metrôs e as bocas de esgoto.

Com uma idéia enfiada na cabeça, avancei sem tirar os olhos das fachadas dos imóveis alinhados. Atravessando algumas ruas, praticamente aliviado, de punhos cerrados no fundo dos bolsos, depois de um quarto de hora, talvez mais, vi enfim o que eu pro­curava numa ruazinha atrás da praça Paul-Léautaud. Na parede, ao lado da alta porta de duas folhas da entrada do prédio, uma placa de latão, gravada, anunciava: Sophie Zenati, psicóloga, 1o. andar, à esquerda.

Sem hesitar, entrei no hall do velho prédio parisiense e subi os degraus de uma pequena escada vermelha. Quando cheguei ao primeiro andar, fiquei por alguns instantes diante da porta, mor­dendo os lábios, indeciso, depois toquei a campainha. Nada. Nin­guém? Toquei de novo, preocupado. Se não houvesse ninguém no consultório, será que eu teria coragem de procurar outro? Mas, então, ouvi passos que se aproximavam fazendo estalar as ripas de um velho assoalho de madeira. A porta se abriu.

— Bom-dia, senhor. Tem consulta marcada?

Era uma mulher morena, de uns 40 anos, baixa, meio gorda, de rosto frio.

Não — respondi, encolhendo os ombros.

Veio marcar hora?

Não, eu queria ver a psicóloga agora — disse sem me des­concertar.

Ah, sinto muito, mas só recebo com consulta marcada.

Então era ela. Eu me perguntei se parecia uma psicóloga. Ou melhor, eu me perguntei se uma psicóloga devia parecer com o meu psiquiatra. Haveria nos olhos dela alguma coisa que me fez pensar no doutor Guillaume? Resignei-me a acreditar que isso não devia ter muita importância. Teria sido tranquilizador, sem dúvida, mas precisava me acostumar. Meu psiquiatra estava morto, eu teria de criar vínculos de confiança com uma nova pes­soa. Totalmente nova.

Compreendo, mas é uma emergência — insisti.

Uma emergência?

Sim. Quero saber se sou esquizofrênico.

Minha interlocutora ergueu as sobrancelhas.

Ah, sei.

Ela hesitou. Não me movi nem um centímetro. Eu a encara­va, simplesmente. Não queria dizer mais nada. Era uma espécie de teste. Se ela decidisse que o caso merecia ser aprofundado, talvez fosse um sinal de que eu podia confiar nessa psicóloga.

Bom — disse ela, suspirando —, posso recebê-lo daqui a um quarto de hora, mas não para uma sessão completa. Depois, será preciso marcar hora... Não é assim que funcionamos, o senhor sabe...

Obrigado.

Ela me fez entrar, atravessamos um longo corredor forrado de lambris, e ela me pediu que me instalasse na sala de espera.

Sentei-me numa cadeira, pouco à vontade, enfiando as mãos sob as nádegas como uma criança intimidada. A mulher desapareceu atrás de uma porta dupla.

Fiquei um longo tempo paralisado, imóvel, depois comecei a relaxar e a inspecionar a sala, como um aluno diante da mesa do diretor. Num canto, à minha esquerda, havia brinquedos de madeira e de plástico amontoados nesses grandes barris usados para lavar roupas. A direita, uma pequena biblioteca inconsisten­te, com filas de livros em desordem. Não pude deixar de notar um título grande em vermelho que se destacava dos outros. Kramer versus Kramer. Nas paredes bege, haviam pregado — há muito tempo, a julgar pelo seu estado — pôsteres com números de emergência, como a Delegacia das Mulheres e outros órgãos de assistência. Na minha frente, numa mesinha, pilhas de revistas destruídas. No alto de um monte, uma Paris Match prometia reve­lar tudo sobre a vida particular do primeiro-ministro. Ao lado, um número de Elle elogiava os méritos de um regime especial para o verão.

Tirei as mãos debaixo das pernas e comecei a esfregá-las com um gesto nervoso. Fizera bem em ir ali? Sim, com certeza. Era um ato razoável. Até mesmo bastante razoável, do qual eu podia me orgulhar. Um ato sensato.

De qualquer maneira, eu precisava da opinião de alguém de fora. Da opinião de um profissional. Certamente eu não ia con­seguir sair sozinho das minhas angústias nem dessa dúvida repentina e justificada quanto à doença. Acontece que o doutor Guillaume estava morto. Ou nunca havia existido. Eu não sabia mais... Em resumo, sim, eu precisava realmente de ajuda, disso não podia mais duvidar.

Alguns minutos depois, quando eu tentava ver os títulos dos outros livros alinhados na biblioteca, a porta abriu-se de novo.

Ouvi a psicóloga se despedir e vi sair uma jovem que devia ter entre 25 e 30 anos e que atravessou a sala de espera sem me diri­gir um olhar. Tinha cabelos muito curtos, como os de um meni­no, a tez mate de uma mediterrânea, talvez até de um sol do norte da África na sua pele dourada. Traços finos, rosto delica­do, tinha o ar triste e selvagem. Os olhos tinham um brilho verde primaveril. Eu a vi sair sem ousar dizer adeus. No doutor Guillaume, nunca havia cruzado com outro paciente.

Pode entrar, senhor, por favor.

Levantei-me lentamente e passei pela porta esfregando o nariz com a mão esquerda, cada vez mais agitado. A psicóloga estava sentada atrás de uma mesa em desordem; ela me observou com ar sério.

Sente-se — disse-me ela, indicando-me a cadeira na sua frente.

Obedeci, olhando a bar afunda existente no consultório. Havia montes de livros, um computador deixado no chão, um grande climatizador branco... Eu esperava uma sala mais sóbria e, sobre­tudo, mais bem arrumada. Uma psicóloga negligente poderia ser uma boa psicóloga?

Bem. Antes de tudo, como se chama?

Eu me chamo Vigo Ravel, como o compositor, e tenho 36 anos.

Eu a vi anotar o meu nome num grande caderno preto.

Então, diga-me tudo.

Doutora, acho que...

Já vou interrompê-lo — disse ela levantando a caneta. — Não sou doutora. Sou psicóloga.

Não é a mesma coisa?

Não, de jeito nenhum. Não estudei medicina...

Ah, não tem problema — disse eu sorrindo —, estou louco, não doente.

Ela se manteve surpreendentemente serena. Isso não a fez rir.

Por que diz que é louco?

Na verdade, não sou eu que digo. São os meus pais e o meu psiquiatra, o doutor Guillaume. Eles dizem que sou esqui­zofrênico... Sou tratado há anos.

E não acredita nisso?

Ela falava com voz monótona e meneava constantemente a cabeça, como para significar que compreendia bem tudo o que eu dizia ou, certamente, para tranquilizar-me. E o mais surpreen­dente é que funcionava. Sem entender por quê, eu já confiava naquela mulher. No seu olhar havia uma contradição que me agradava: ela era maternal e neutra ao mesmo tempo. Protetora e imparcial. Eu tinha a impressão de que poderia dizer-lhe qual­quer coisa que ela não me julgaria. Ao contrário do doutor Guillaume, que sempre parecia me avaliar.

Bom, é um pouco mais complicado do que isso. No come­ço, eu não acreditava, depois, acabei acreditando e, agora, tenho dúvidas de novo... É meio embrulhado, admito. Eu gostaria de falar com o meu psiquiatra, não a teria incomodado, mas o pro­blema, sabe, é que ele morreu. No atentado.

Vi que ela ergueu lentamente a cabeça, uma sobrancelha ligeiramente mais levantada do que a outra. Tentava não parecer surpresa, mas não me convenceu. Eu sorri.

O seu psiquiatra morreu no atentado da Défense? — per­guntou ela, limpando a garganta.

Morreu. Ao menos, acredito que sim. Não tenho muita certeza de nada, agora. Sabe, não estou certo de que ele existia. Desculpe-me, mas preciso saber: o atentado aconteceu mesmo, não é?

Dessa vez ela não tentou ocultar a surpresa.

Sim — disse ela, franzindo as sobrancelhas. — Houve um atentado na Défense. Por que duvida que o seu psiquiatra tenha existido?

Fiz uma careta. A medida que lhe explicava as coisas, fui tomando consciência da excentricidade da minha história.

Quando voltei lá, na Défense, as pessoas que cuidavam das vítimas do atentado me disseram que não havia nenhuma clínica médica na torre. No entanto, era lá mesmo que eu ia ver o dou­tor Guillaume todas as semanas, há anos. E era para lá que eu estava indo no dia do atentado... Conhece o doutor Guillaume? Meus pais dizem que ele é famoso.

Não, sinto muito, o nome não me diz nada. Foi encami­nhado a um atendimento de emergência depois do atentado?

Não.

Não lhe fizeram um interrogatório psicológico?

Não, porque eu logo fugi da torre...

Mas estava na torre SEAM exatamente no momento do atentado?

Estava. Mas sobrevivi. Porque consegui sair antes de as bombas explodirem. E é por isso que vim vê-la. Porque, se sobrevivi, quer dizer que não sou realmente esquizofrênico. E eu preciso saber...

Ela me fitou sem dizer nada.

Acha que sou esquizofrênico? — insisti.

Em primeiro lugar, não gosto de dizer que uma pessoa é esquizofrênica. Em psicologia não classificamos as pessoas, mas sim os distúrbios. Prefiro dizer que uma pessoa apresenta uma esquizofrenia...

Meneei a cabeça, mas no fundo estava pouco me lixando para o psicologicamente correto. O que me interessava era saber se eu era completamente maluco, sim ou não.

Está certo, concordo, mas, na sua opinião, eu apresento uma esquizofrenia?

Caberia ao seu psiquiatra lhe dizer, pois ele o acompanhou por muito tempo... O diagnóstico dele seria mais seguro do que o meu.

Sim, mas o meu psiquiatra morreu. Preciso saber. É ur­gente. Não pode me deixar na dúvida. A senhora é psicóloga. De qualquer modo é capaz de reconhecer um esquizofrênico, não? É básico. Se não, é falta de atendimento à pessoa em perigo. Como saber se somos esquizofrênicos?

Acho que ela soltou um leve suspiro.

É bem complicado, mas começamos a conhecer melhor esse distúrbio. Conhece um pouco a história da descoberta dessa doença, senhor Ravel?

Conheço, vagamente.

Os primeiros estudos de Kraeplin, isso lhe diz alguma coisa?

Sim... O doutor Guillaume me falou sobre ele. É o psi­quiatra que, nos anos 1900, diferenciou a esquizofrenia da para­nóia, é isso?

Isso. Primeiro ele chamou de Dementia praecox, demência precoce, porque ela atinge essencialmente os homens jovens, de 18 a 25 anos. Essa diferenciação foi essencial. Depois, a abordagem clínica da esquizofrenia progrediu muito e, para diagnosticá-la, existem muitos métodos. Suponho que seu psiquiatra deve ter lhe falado sobre isso também. Em geral nos referimos aos cri­térios diagnósticos do DSM IV.

Sim, sim. Eu me lembro. Mas não prestei muita atenção na época. É o quê, exatamente?

Uma classificação americana das doenças psiquiátricas... Nela encontramos, sobretudo, uma lista dos sintomas caracterís­ticos da esquizofrenia, ou melhor, das esquizofrenias. Quando um paciente apresenta ao menos dois desses sintomas, podemos declarar que ele apresenta uma esquizofrenia.

Bom, aí está! — exclamei. — É exatamente isso que eu queria saber! Saber, objetivamente, clinicamente, se sou esquizo­frênico. Isso porque, durante anos, me disseram que eu era, mas, agora, não tenho mais certeza...

A psicóloga ficou em silêncio um instante. Ela me olhou muito séria, o que achei tranquilizador. Introduzi uma das mãos no bolso da jaqueta, em busca dos meus Camel.

Posso fumar?

Não.

Pus o maço de volta no lugar.

Quais são os sintomas que fizeram o seu psiquiatra dizer que o senhor apresentava uma esquizofrenia? — finalmente me perguntou.

Ouço vozes dentro da cabeça.

Ela anotou alguma coisa no caderno.

São vozes de fora ou é a sua própria voz?

Bom, vozes de fora que ouço quando tenho as crises. Na verdade, eu acho... enfim, começo a acreditar que o que eu ouço são os pensamentos das pessoas.

Não ousei dar exemplos. No entanto, havia um que eu não podia esquecer. Rebentos transcranianos, 88, está na hora do segun­do mensageiro...

Sei. Pois bem, se é isso que quer saber, então sim, isso parece de fato um dos sintomas expostos no DSM IV. Mas não é suficiente para afirmar que sofre de uma esquizofrenia...

O que precisaria mais?

Existe um monte de sintomas, senhor Ravel, porém, mais uma vez, eu lhe digo, não se diagnostica assim esse tipo de doen­ça, numa simples conversa. É preciso tempo. Depois, agora exis­tem meios mais desenvolvidos. Podem-se pedir, em alguns casos, exames de imagens cerebrais...

Sim, sim, eu sei: já fiz muitos. Montes, durante anos. Havia tantas imagens do meu cérebro no consultório do doutor Guillaume que poderiam fazer uma história em quadrinhos!

Bom, ao menos tem senso de humor...

Sorri. Decididamente, alguma coisa me agradava naquela psi­cóloga. Sobretudo o modo de falar comigo, como a um adulto. O doutor Guillaume, meus pais, até mesmo meu patrão, nunca haviam falado comigo desse jeito. Para eles, eu sempre fora um esquizofrênico, um doente e, portanto, uma pessoa totalmente irresponsável. E agora, pela primeira vez, é o que me parecia, aquela mulher me olhava como um adulto comum, sensato, que talvez apresentasse um simples distúrbio psicológico... Era uma impressão nova. Na nossa conversa havia estima, respeito mútuo e eu achava isso calmante. Quase libertador.

Seja gentil — disse eu avançando na cadeira. — Sei bem que é delicado, mesmo assim me diga o que acha. Dê-me a sua opinião, a sua opinião pessoal. Estou realmente perdido.

Não posso formar uma opinião tão rapidamente, senhor Ravel...

Então me diga ao menos os outros sintomas, para que eu veja se me dizem respeito...

Há muitos...

Dê-me exemplos, veremos!

Ela suspirou de novo, hesitou, depois, dando de ombros, decidiu responder.

Pode haver a sensação de que o seu corpo é controlado por outra pessoa, o que, às vezes, provoca movimentos involuntários...

Não. Não tenho esse sintoma. Controlo perfeitamente os meus gestos.

Pode haver uma desorganização do discurso, de que o senhor também não parece sofrer... Mesmo que tenha tendência a se entusiasmar quando fala — acrescentou ela, sorrindo.

É porque estou muito atrapalhado, compreende, um pouco estressado. Vamos, o que mais?

Freqüentemente os doentes são impressionantes consumi­dores de tabaco, notamos por seus dedos amarelos ou pelos bura­cos de cigarro nas roupas...

Examinei as minhas mãos com um trejeito embaraçado. As falanges estavam completamente marrons.

É, mas, afinal, nem só os esquizofrênicos fumam como uma chaminé... Isso não prova grande coisa. O que mais?

Sabe, não sei todos os sintomas de cor. Eu precisava dar uma olhada no manual. O que posso dizer, por exemplo, é que observamos muitas vezes nos pacientes tentativas mais ou menos conscientes de auto-medicação. Acontece de o senhor escolher seus próprios remédios?

Talvez. E o que mais?

Pode haver um comportamento catatônico, distúrbios de humor...

É, isso acontece comigo. Distúrbios de humor. Mas acon­tece com todo mundo, não?

Obsessão por detalhes, calendários, datas, que chamamos de aritmomania...

E o que mais?

Ouça, realmente não adianta nada listar todos eles. O senhor mesmo diz que sofre de alucinações auditivas. Talvez devêssemos começar cuidando disso. Seria mais razoável consul­tar um psiquiatra, que poderia lhe prescrever medicamentos...

Não, não. Chega de medicamentos! Tentei todos eles, neurolépticos, todos! Em pílula, em injeção... Não adiantou nada, as vozes na minha cabeça nunca desapareceram.

Senhor Ravel, no quadro de uma esquizofrenia, o que chamamos de aliança terapêutica é realmente importante. Uma continuidade do tratamento deve ser assegurada, se possível com o mesmo psiquiatra e a mesma equipe médica. Os distúrbios dos quais o senhor sofre são muito importantes para que os considere levianamente. O senhor deve não só seguir um tratamento à base de neurolépticos, mas também de uma psicoterapia. Deixe-me indicá-lo para um especialista...

Não! Não quero consultar outro doutor Guillaume. Quero simplesmente a sua opinião. A opinião de alguém como a senho­ra. Não pode me forçar — disse eu, empertigando-me.

Não, de fato. A menos que represente uma ameaça para a ordem pública. Acha que representa uma ameaça para os seus concidadãos?

Não, não. Nunca fiz mal a uma mosca! Tem de me ajudar. Não lhe peço muita coisa. Quero apenas que me ajude a saber se as vozes que ouço na minha cabeça são mesmo alucinações.

Mas o que você quer que seja, se não for isso?

Dei de ombros. Esse era um dos principais argumentos do doutor Guillaume. O que você quer que seja, se não for isso? Efetivamente essa era a pergunta. A única pergunta válida.

Pois bem, eu lhe disse... Acho que são os pensamentos das pessoas. Eu ouço os pensamentos das pessoas.

Há quanto tempo ouve essas vozes?

Não sei. Não me lembro muito do meu passado. Mas creio que faz, no mínimo, quinze anos.

E as ouve todo o tempo?

Não. Não todo o tempo. Aparecem alguns sinais antes que eu as ouça. Uma dor de cabeça, a tontura e, depois, a minha visão se duplica. Uma espécie de crise epiléptica. Agora, por exemplo, não as ouço.

Não ouve os meus pensamentos?

Não.

Fiz uma careta.

Não acredita, é isso? Com o pretexto de que não ouço os seus pensamentos, não acredita em mim?

Não estou aqui para acreditar, senhor Ravel. Tudo o que posso fazer é ajudá-lo a ver mais claro... E, antes de tudo, gosta­ria de ajudá-lo a não se angustiar. O senhor me parece terrivel­mente angustiado.

Não ficaria angustiada se tivesse ouvido a voz dos terroris­tas na sua cabeça alguns segundos antes de a Défense explodir?

E o que lhe diziam essas vozes? Elas lhe diziam para colo­car as bombas?

Neguei com a cabeça.

Não! De jeito nenhum! Sei muito bem aonde quer chegar! Está subentendendo que talvez tenha sido eu quem colocou as bombas, e nesse caso eu me torno realmente um perigo para a ordem pública e, pronto, pode se livrar de mim e me hospitali­zar compulsoriamente!

Não é a minha intenção. Mas vejo que conhece o termo hospitalização compulsória. Já aconteceu com o senhor?

Ela estava começando a me irritar. Ao contrário do que eu esperava, ela já lançava para mim um olhar acusador. Talvez não valesse mais do que o doutor Guillaume.

Não, nunca! — respondi secamente. — Mas também não sou totalmente imbecil. Já li livros. Sei o que é hospitalização com­pulsória.

Ficamos um longo tempo sem falar. Ela não tirava os olhos de mim. Acreditei distinguir novamente no olhar dela o lampejo de respeito do início da nossa conversa. Recuperei um pouco de confiança.

Para dizer a verdade, acho até que sou bem inteligente — murmurei. — Sempre tento compreender o mundo. Faço um monte de anotações. Leio um monte de livros. Os esquizofrêni­cos são inteligentes?

Em geral, os pacientes com esquizofrenia têm um QI infe­rior à média... Mas são apenas estatísticas. No entanto, é verda­de que eles apresentam vários distúrbios intelectuais, como défi­cit de atenção ou problemas de linguagem... Mas há pessoas muito inteligentes afetadas pela esquizofrenia, como o famoso prêmio Nobel de Economia, John Nash.

E se me fizesse passar por testes de atenção e de QI? Tenho certeza de que estou acima da média! Isso provaria que não sou esquizofrênico?

Ela sacudiu a cabeça.

Por enquanto, provaria principalmente que é pretensioso. Senhor Ravel — anunciou-me com voz franca —, eis o que lhe proponho. Num primeiro momento, vamos deixar de lado a questão de saber se o senhor apresenta ou não esquizofrenia e vamos nos concentrar nas vozes que ouve na sua cabeça. Agora, é o que lhe causa mais problemas e penso que seria mais sábio trabalhar em cima disso. O que me diz?

Não sei...

Não posso forçá-lo. Mas as vozes parecem realmente incapacitá-lo no cotidiano. Se, de fato, não quiser consultar um psiquiatra, o que eu desaprovo intensamente, talvez possamos ao menos tentar trabalhar juntos em cima disso. Não sei se posso ajudá-lo, mas acho que precisa esclarecer esse problema.

Quer que eu volte a vê-la, é isso?

Cabe ao senhor decidir.

Demorei um pouco para resolver.

Não consigo sair disso sozinho — confessei finalmente.

É totalmente compreensível. O senhor me disse há pouco que tinha pais... Eles podem ajudá-lo?

Não. Não no momento. Não estão aqui.

O distúrbio de que o senhor sofre é muito difícil de admi­nistrar sozinho, senhor Ravel. Mas não deve jamais esquecer que é um distúrbio, e não uma fatalidade. Há remissões possíveis. O fato de ter consciência do distúrbio já é um ponto positivo.

Certo, concordo, mas no fim das contas, depois de anali­sarmos a questão das minhas alucinações, vai me dizer que sou esquizofrênico, e voltaremos ao ponto de partida...

Já lhe disse que não digo esse tipo de coisa. E vou repe­tir: vamos deixar de lado essa problemática para nos concentrar­mos primeiro nas vozes que ouve.

Está certo — respondi sem convicção. — Quero tentar...

Perfeito. Então vamos marcar uma hora.

Tudo bem.

Ela pegou um segundo caderno preto, menor, e eu a vi lamber o indicador todas as vezes que virava a página. Tive a impressão de que era uma mímica que a minha mãe fazia, mas não con­segui imaginá-la ali. Não consegui ver exatamente o rosto da minha mãe fazendo exatamente esse gesto e, no entanto, tinha certeza de que havia alguma relação com ela... Era bem estranho. Como esses sonhos em que as pessoas têm um nome, mas não um rosto.

Pode voltar depois de amanhã?

Posso. Não... Não tenho nada planejado.

Não trabalha, senhor Ravel?

Trabalho. Mas não no momento...

Então, depois de amanhã, às 15 horas.

Perguntei quanto lhe devia e paguei na hora.

Ela sorriu, levantou-se e estendeu a mão.

Adeus, senhor Ravel. Tente descansar. Parece não ter dor­mido muito nos últimos dias, e o cansaço com certeza não melhora as coisas.

Levantei-me e apertei a mão dela, tomando consciência, subi­tamente, do sentido profundo desse gesto. Um gesto que eu não fazia muito. Apertar a mão de alguém. Compartilhar por um ins­tante nossas ferramentas... Algo assim. Minhas mãos não são esquizofrênicas.

Obrigado, senhora.

Saí do consultório.

Caderneta Moleskine, anotação n°. 113: a memória.

Dizem que poder dar um nome aos nossos distúrbios já é meio caminho para a cura. Então aí vai: sofro de amnésia retrógrada. Para ser exato, quase não me lembro de nenhum acontecimento ante­rior aos meus 20 anos. As raras coisas de que me lembro, possivelmen­te, são falsas lembranças, coisas que meus pais me teriam contado e das quais eu me teria apropriado ou, então, o que é chamado de "lparamnésia reduplicativa", ilusões da memória. Está nos dicioná­rios. Isso se traduz por impressões de déjà-vu ou revivescências con­fusas de cenas da infância. As vezes, elas se apoderam de mim, como flashes, diante de um objeto, um cheiro, um som.

É particularmente penoso não se lembrar da infância, nem mesmo da adolescência. Na compreensão, no conhecimento de si mesmo, uma lacuna tão grande é necessariamente uma deficiência. Portanto, eu me conheço mal. Portanto, não tenho certeza de nada que se relacio­na a mim. Não tenho certeza das minhas escolhas políticas, dos meus gostos, dos meus desejos. Dizem que um homem é a soma de todas as escolhas que fez na vida. Mas, então, é possível ser um homem quan­do não nos lembramos de nenhuma dessas escolhas?

As vezes, no entanto, tenho a impressão de me lembrar de fatos antigos. Lembranças vagas, confusas; mesmo assim, lembranças. Não sei se são reais ou se são paramnésias causadas por meus distúrbios mentais; mesmo assim, tomei a decisão de anotar aqui essas lembran­ças. Talvez eu possa reconstruir pouco a pouco a pessoa que sou ou que era. E o que os psiquiatras chamam de a "técnica do passo a passo". Reviver lentamente a viagem da minha vida passada, mas na segunda classe, por favor.

No dia seguinte da visita à psicóloga, depois de passar minha primeira noite relativamente calma desde o atentado, resolvi não ficar fechado no hotel. Durante horas, eu havia revirado todas as perguntas na cabeça e ainda não sabia em que ponto estava. Eu me sentia sozinho demais, perdido demais e logo percebi que devia ver alguém. Alguém que me conhecesse, perto de quem talvez eu pudesse reencontrar o sentido da realidade. Ainda não tinha nenhuma notícia dos meus pais e não estava certo de que­rer revê-los por enquanto. Portanto, decidi visitar o senhor De Telême, meu patrão.

Fiz a toalete rapidamente e me vesti, não sem sentir um real prazer. Vestir aquelas roupas era um primeiro passo para a acei­tação de uma certa realidade. Uma realidade na qual eu devia estar barbeado, limpo, apresentável.

Tomei um café e comi um croissant embaixo do hotel, num barzinho. Tentei não prestar atenção às vozes dos outros clien­tes. Precisava me concentrar em outra coisa. Dei uma olhada nos jornais da manhã. Só falavam do atentado e da pista islamita. Viam-se também as fotos da Défense, dos socorristas no meio das ruínas. Minha realidade. Paguei ao garçom e me pus a caminho.

A sociedade Feuerberg ficava na praça Denfert-Rochereau. Ainda apreensivo com a idéia de voltar para debaixo da terra, tomei o ônibus e atravessei Paris na superfície. Mas quando esta­va a alguns passos do escritório, ao ver pelas janelas passarem várias silhuetas, tive repentinamente um estranho sentimento. Não era realmente de medo, mais de ansiedade. Estaria preparado para rever todos os meus colegas de uma vez? Eu havia desapare­cido por vários dias, eles iam me crivar de perguntas, lançar-me olhares suspeitos... Não. Ainda era muito cedo para enfrentar isso. Melhor seria ver o senhor De Telême a sós.

Peguei o telefone celular e liguei para o escritório. A secretá­ria atendeu. Era uma mulher de quem eu nunca havia gostado. Falava pouco, nunca dava a sua opinião. Limitava-se a seguir o senhor De Telême por todo lado, com uma caderneta na mão, e dava estranhos sorrisos que, com certeza, não eram sorrisos.

Posso falar com o senhor De Telême, por favor?

Ele não está aqui hoje. Quer deixar um recado?

Não — respondi. — Ligarei novamente amanhã.

A secretária pareceu hesitar um instante.

Senhor Ravel, é o senhor?

Ela me havia reconhecido. Havia reconhecido Vigo Ravel. Eu. Portanto, era mesmo a realidade. Feuerberg, François de Telême, a secretária... Ao menos isso eu não inventara.

Não, não — menti. — Obrigado, senhora, voltarei a ligar.

Desliguei imediatamente. Dei alguns passos em volta da praça, suspirando. Que imbecil! Eu havia atravessado Paris intei­ra por nada! Bastaria ter ligado para evitar que eu me deslocas­se! Mas, no fim das contas, andar me ajudava a ver um pouco mais claramente. Por enquanto, não ouvia mais as vozes na minha cabeça. Não me sentia tão tranqüilo desde os atentados. Agora que eu estava ali, e com boa disposição, só tinha de apro­veitar o bom tempo e passear um pouco...

Passei a tarde andando pelo XIVe arrondissement. Como ainda não estava totalmente tranqüilo e continuava esperando ver surgir os dois sujeitos que me haviam perseguido, passeei por lugares mais calmos e os mais discretos do bairro: os jardins do Observatório, as ruelas da vila d'Alésia, o parque Montsouris...

No caminho de volta, mais calmo, me surpreendi recuperan­do sensações antigas: o estado de espírito no qual eu estivera por muito tempo. Recuperei, sem realmente conseguir explicar, a resignação que o doutor Guillaume sempre havia encorajado. Pouco a pouco, a certeza de que eu era mesmo um esquizofrênico se instalou novamente e fiquei quase convencido de que tudo o que me havia acontecido de estranho nos últimos dias não passa­va de produto dos meus delírios. Os dois sujeitos que me haviam perseguido, sem dúvida, nunca existiram, assim como a câmera no apartamento dos meus pais, e a frase que pensara ouvir na torre SEAM não tinha nenhum sentido. Não era uma mensagem secreta indecifrável, era, simplesmente, uma frase sem pé nem cabeça, que eu havia inventado de ponta a ponta.

No fundo, era relaxante saber que se era simplesmente louco. Era reconfortante e era uma resposta fácil para todos os meus questionamentos. Já que eu era esquizofrênico, então não havia nenhum mistério, apenas algumas alucinações às quais eu não devia dar crédito.

Foi então que, no bulevar Raspail, cruzei com um olhar que me pareceu familiar. Parei, em dúvida, e observei mais atentamen­te a jovem que atravessava um pouco mais à frente. Aquele corte de cabelo, o nariz fino, as pernas curtas... Sim, era ela mesmo. A contadora da Feuerberg. Sem pensar, gritei o nome dela:

Joëlle!

A jovem virou-se e pareceu surpresa ao ver o meu rosto. Des­viou os olhos e continuou a andar com um passo mais rápido.

Hesitei um segundo, desconcertado pela sua reação, depois comecei a segui-la.

Joëlle! Sou eu, Vigo!

Ela andou mais rápido ainda. Corri para alcançá-la e, quando cheguei perto, passei na frente dela e a segurei pelo ombro.

O que está havendo? — perguntei, perplexo. — Não me reconhece?

Ela se soltou, com os olhos cheios de pânico.

Deixe-me, por favor.

Depois recomeçou a andar. Perplexo, eu a agarrei de novo pelo braço, mais firme dessa vez.

Que baboseira é essa? Joëlle! Trabalhamos juntos na Feuerberg! Eu sou Vigo Ravel!

Senhor, não sei do que está falando, não o conheço, deixe-me em paz!

Ela me empurrou violentamente e saiu correndo para o outro lado da rua.

Eu me perguntei se era possível estar enganado, ter confun­dido o rosto dela, mas estava totalmente convencido de que a reconhecera, até mesmo a voz, o olhar. Era ela, não havia dúvi­das. Então, por que mentir? Alguns passantes haviam começado a me fitar com desconfiança; no entanto, eu me recusava a desis­tir. Precisava de uma explicação. Foi a minha vez de começar a correr.

A contadora tinha uma boa vantagem de distância, mas eu ia muito mais rápido e logo a pegaria. Vi que ela virou numa rua à direita.

— Oh! Senhor! Deixe-me em paz!

Um louro alto atrás de mim parecia querer bancar o justicei­ro, mas eu não tinha a intenção de me deixar impressionar. Corri mais ainda.

Quando cheguei à esquina, percebi dois policiais a postos. Xinguei. A jovem avançava direto para eles. Ia me denunciar. Denunciar o quê? De tê-la reconhecido? Dei meia-volta imedia­tamente, invadido por um enorme sentimento de injustiça. Agora era a mim que iriam perseguir, sendo que eu era, pura e simples­mente, a vítima dessa história!

Corri para o cruzamento e, sem hesitar, subi num ônibus. Saí daquele bairro, desapontado, olhando os dois policiais afastarem-se.

No dia seguinte, na hora marcada, sentei-me em frente à mesa de Sophie Zenati, psicóloga, 1o. andar, à esquerda.

Como se sente hoje, senhor Ravel? Estranhamente, eu estava feliz em reencontrar a senhora

Zenati, que já gostava de chamar de a minha psicóloga. Ficava tranqüilo em me apropriar dela. Tinha a impressão de estar sendo cuidado.

Não sei — respondi pigarreando... — E estranho. Por um lado, me sinto melhor, sem dúvida por ter falado com a senhora, mas, por outro, tenho uma impressão estranha. Como se eu saís­se de um grande pesadelo... preciso confessar que, desde ontem, eu me pergunto se tudo o que lhe contei é mesmo real. Sinto um pouco de vergonha, mas é isso...

Como assim?

Toda a história do atentado... E ainda não lhe contei tudo. Há também o apartamento dos meus pais, que encontrei de cabeça para baixo, e, depois, esses dois sujeitos que me teriam perseguido até as catacumbas... Agora, quando penso nisso, parece-me completamente impossível. Completamente estapafúr­dio. Acho que delirei um pouco... Reconheço sinais da minha es­quizofrenia. O delírio de perseguição, tudo isso...

Sua esquizofrenia? Então, acredita de novo que sofre desse distúrbio?

Suspirei.

Não sei de mais nada, comecei a duvidar de tudo. Eu me pergunto se realmente sobrevivi a esse atentado ou se não inven­tei tudo... mesmo assim, parece incrível que eu tenha sobrevivi­do, não?

Recomeçou o tratamento com neurolépticos?

Não.

Acho que deveria recomeçar.

Não suporto mais os efeitos colaterais.

São mais insuportáveis do que o seu distúrbio?

Dei de ombros.

Como posso dizer? Esses medicamentos me transformam numa pessoa que não posso mais ver no espelho. Eles me fazem engordar, me deixam completamente letárgico, mal consigo erguer os olhos, olhar as pessoas de frente. E, depois.... Sou inca­paz de ter a menor ereção...

Ela aquiesceu e escreveu no seu caderno. Imaginei sorrindo a frase que ela devia anotar. Incapaz de ter ereção. Minha vida era fabulosa.

Talvez pudesse fazer com que lhe prescrevessem remédios que não tivessem os mesmos efeitos colaterais...

É, talvez...

Houve um momento de silêncio. Observei à minha volta. O consultório continuava desarrumado.

Senhor Ravel, eu lhe trouxe um livro que gostaria de que lesse.

Acha que não tenho mais nada para fazer?

É sobre a esquizofrenia. Um livro excelente, claro e con­ciso. O autor, Nicolas Georgieff, é um psiquiatra muito bom. Devia lê-lo, permitiria que identificasse melhor seus distúrbios. Verá que são claramente reconhecidos pela medicina moderna. Quer que eu leia uma passagem?

Vá em frente...

A psicóloga pôs os óculos e começou a leitura como uma pro­fessora escolar:

O delírio e as alucinações são dois sintomas psicóticos típicos da esquizofrenia. O delírio se define por uma crença absoluta, ina­balável, do sujeito na realidade dos conteúdos imaginários do pensa­mento, crença que ele não compartilha com outra pessoa. As idéias delirantes mais freqüentes são de perseguição, em que o sujeito está convencido de que personagens, reais ou não, o perseguem com inten­ções criminosas, conspiram contra ele.

É. Parece comigo. Formidável! — disse eu ironicamente.

Espere. O que se segue vai lhe interessar: O que caracteriza o delírio é uma crença especial chamada de "convicção delirante". Trata-se de uma convicção íntima que resiste a qualquer contestação pelos fatos. Em geral, ela nasce pela atribuição de um significado pessoal e estranho a um acontecimento real qualquer, que adquire sen­tido bruscamente e de maneira evidente: o sujeito tem a intuição de que o acontecimento se refere a ele. O delírio põe o sujeito no centro do mundo, diante de acontecimentos que adquirem sentido para ele, dizem respeito a ele e não parecem mais aleatórios e sim expressam necessariamente uma lógica oculta. As alucinações psicóticas, segunda cate­goria de distúrbios psicóticos típicos, consistem, na maioria das vezes, na percepção de vozes que se dirigem ao sujeito.

Fantástico. Vou ler o seu livro.

Ela me entregou, suspirando.

Ainda não posso fumar? — perguntei erguendo as sobran­celhas.

Não, senhor Ravel. Não se fuma no meu consultório.

Que coisa chata.

Ela não respondeu.

Diga-me, ainda ouve as vozes na cabeça?

Só quando tenho crises.

E, quando sente as crises chegarem, não há nada que possa fazer?

Quando uma crise chega, o único meio de não ouvir as vozes é me isolar completamente.

Talvez seja um ponto positivo: já sabe que é a proximi­dade de outra pessoa que provoca o seu distúrbio.

É. A proximidade do outro.

Mas o problema, senhor Ravel, é que não pode passar o resto da vida isolado. Portanto, será preciso encontrar outra solu­ção. Está consciente disso?

Estou. Ainda mais que... Ainda mais que...

Sim?

Ainda mais que isso me faz falta.

O que lhe faz falta? O contato com as pessoas?

É. Os outros. Sempre me senti um estranho. Sem ligação com as pessoas.

Mesmo com as pessoas com quem trabalha?

Sim. Nunca conversamos. Na Feuerberg, ficamos separa­dos, cada um num pequeno escritório separado por divisórias, digitando o dia inteiro no computador... Conhece o gênero? Todo o esplendor do século XXI. Ontem... Ontem cruzei com uma colega na rua, ela nem me reconheceu. Ou não quis me reconhecer, sei lá.

Não fazem intervalo para um café?

Não há máquina de café no escritório. O senhor De Telême é contra.

E no almoço?

A maioria leva o próprio sanduíche e come na sua mesa. Tenho a impressão de que todos os empregados dessa empresa são tão esquizofrênicos quanto eu! — acrescentei sorrindo.

O senhor não é "esquizofrênico", senhor Ravel. Mais uma vez, acho que deveria banir essa palavra do seu vocabulário.

Concordei com a cabeça, desanimado.

Não há realmente ninguém no seu trabalho com quem converse de vez em quando?

Bom, tem, o senhor De Telême, o patrão. Ele sabe que sou louco, então é atencioso. Na verdade, é até simpático. Ele é a única pessoa com quem eu saio. É. Poderia até dizer que é um amigo. Uma espécie de amigo... Mesmo assim, continua a ser meu patrão.

E, quando saem, vocês vão aonde?

Eu sorri.

Há uma boate de blues, em Neuilly, aonde vamos muito.

Gosta de blues?

Gosto. Depois, tem tanto barulho nessa boate que, se por acaso tenho uma crise, não ouço as vozes na minha cabeça...

Quando há um barulho assim, não ouve nada das vozes?

Quase nada. Elas são abafadas.

Ela concordou lentamente com a cabeça e fez novamente algumas anotações no grande caderno preto.

Anteontem, o senhor me disse que acreditava cada vez menos nos seus distúrbios esquizofrênicos. Hoje, o senhor me diz que, finalmente, começa a acreditar neles. O que o fez mudar de opinião?

Não sei. Ao passear na rua, ontem, acho que minhas idéias ficaram mais claras. Eu me dei conta de que toda a minha histó­ria não tinha sentido.

Diga-me exatamente o que não tem sentido.

Nada tem sentido! Não tenho mais certeza de nada. Eu lhe disse: não tenho nem certeza de que o doutor Guillaume real­mente existiu!

Não devia verificar pessoalmente? Talvez isso ajudasse. Não sozinho, é claro, mas com a ajuda de alguém...

Com a sua?

Não. Justamente, não poderia fazê-lo com o seu patrão ou, melhor ainda, com seus pais? Não tem nenhuma notícia deles desde o atentado?

Não. Nem sei se voltaram para casa, para a rua Miromesnil. Tenho medo de voltar lá. Quando fui lá, havia... Bom, achei que havia uma câmera. Mas devo ter imaginado. É claro. Na minha paranóia.

Uma câmera?

Sim, sim.

Ela anotou.

Com certeza seus pais devem estar muito preocupados a esta altura. Deveria tentar entrar em contato com eles e pedir que o ajudassem a ver tudo mais claro. A discernir o falso do verdadeiro...

E se eu tiver inventado tudo, como a câmera? E se nem mesmo os meus pais existirem?

Vai saber ao tentar vê-los, senhor Ravel. Isso me parece importante. A solidão na qual se fechou me parece perigosa. Precisa voltar a ter contato com a realidade. Acontece que, ao fazer isso, corre o risco de passar por fases difíceis. Seria bom se estivesse acompanhado.

Enquanto a escutava, não podia deixar de pensar nos meus pais. A idéia de que eles também pudessem ser fruto da minha imaginação me pareceu tangível. E aterradora. Talvez o aparta­mento da rua Miromesnil nem mesmo fosse real. Talvez eu sem­pre houvesse vivido naquele hotel...

Qual é a probabilidade de que eu tenha inventado a exis­tência do doutor Guillaume? — perguntei apoiando o queixo nos punhos.

Se as pessoas na Défense lhe disseram que a clínica médi­ca não existia, há grandes chances de que tenha, de fato, inven­tado.

Assim como invento as vozes na minha cabeça? Essas vozes não são reais, não é?

Elas são reais para o senhor, Vigo. O senhor as ouve mesmo. Mas é preciso compreender que não podem ser os pen­samentos das pessoas. São os seus próprios pensamentos. O seu cérebro faz uma confusão entre o seu ego e o mundo exterior, assim como entre a sua vida psíquica, o seu imaginário, e os acontecimentos reais que o cercam...

Soltei um longo suspiro. Sim. É claro. Evidente. Como pode­ria ser diferente? No entanto, tudo isso parecia tão real!

E esses cortes que tenho nos dedos? — disse eu, levantan­do as mãos à frente. — Não são do atentado?

Segundo as informações, senhor Ravel, nenhuma das pes­soas que estavam na torre SEAM sobreviveu... Nenhuma. E, quando vemos as imagens, é difícil imaginar o contrário...

Então, eu não estava na torre?

Provavelmente, não.

E por que me lembro disso?

Talvez estivesse nas proximidades, o que poderia explicar os ferimentos. Ou, então, viu as imagens na televisão, elas o impressionaram e alimentaram no senhor uma crise de paranóia, no fim das contas uma coisa bastante clássica...

Clássica? — disse eu meio ofendido.

No quadro dos distúrbios dos quais sofre, sim. O senhor atribuiu um significado pessoal e estranho a um acontecimento real do qual, no entanto, não participou. As crises de esquizofre­nia paranoide constantemente dão a impressão ao sujeito de que ele está no centro do mundo, diante de acontecimentos que não parecem aleatórios e que exprimem para ele uma lógica bem pre­cisa... Como eu li há pouco...

Em resumo, as coisas que imaginei não são surpreenden­tes numa pessoa afetada pela esquizofrenia?

É um distúrbio bem comum. O senhor se colocou no cen­tro desse excepcional acontecimento, como se fosse o sujeito principal. Como se fosse o centro da atenção do mundo inteiro. E, quando esse tipo de distúrbio é duplicado pelo sentimento de que ninguém acredita no senhor, como citou outro dia, podemos chamar de síndrome de Copérnico.

Síndrome de Copérnico?

Sim, é uma síndrome recorrente em muitos pacientes afe­tados de paranóia ou de esquizofrenia paranoide: a certeza de possuir uma verdade essencial, capital, que o coloca acima do comum dos mortais, mas na qual o mundo inteiro se recusa a acreditar.

E acha que sofro dessa síndrome?

Parece-me muito provável. O senhor está convencido de haver descoberto uma coisa extraordinária, a capacidade de ouvir o pensamento dos outros, e que, ainda por cima, esse poder lhe permitiu escapar do mais terrível atentado da nossa história. Além do mais, está convencido de que ninguém vai acreditar no senhor, de que o mundo inteiro refuta a sua verdade, até mesmo que existe um complô para impedir que revele a sua história... Existem aí todos os elementos da síndrome de Copérnico.

Mas isso é horrível!

Não. É um sintoma bem comum.

Está dizendo isso para me tranqüilizar? — salientei ironi­camente.

De jeito nenhum. Estou dizendo porque é a realidade e que é isso que deve recomeçar a fazer agora: reconhecer a reali­dade. Mas não será fácil, senhor Ravel. Compreender que, às vezes, o seu cérebro mente, não deve arrastá-lo no sentido inver­so; não deve fazer com que perca o sentido da realidade nem da sua própria pessoa. Nem tudo é ilusão, nem tudo é alucinação. Há realidade no que vê, no que sente, no que ouve. Deve rea­prender a captar o real. A saber a diferença.

Concordei.

Senhor Ravel, agora que nos conhecemos, tem certeza de que não quer consultar um psiquiatra? O seu distúrbio é sério e...

Não! — interrompi. — Não, de verdade. Não, por enquanto, em todo caso. Por favor. Eu... Eu prefiro continuar a vê-la. Preciso de tempo. E de pontos de referência. A senhora, meus pais... São referências para mim.

Entendo. Bom. Vai entrar em contato com a sua família?

Vou.

Perfeito. Quer que façamos isso juntos?

Não, não. Vou buscar minhas coisas no hotel, depois liga­rei para eles, sozinho.

Muito bem. Parece-me que fez a escolha certa.

Ela me dirigiu um sorriso satisfeito. Devia achar que fazía­mos progresso. Sem dúvida, tinha razão. Aos poucos, eu voltava a me conscientizar da minha doença. As crises desapareceriam em breve, eu queria acreditar. E eu poderia novamente recuperar uma vida quase normal, trabalhar, continuar o meu tratamento...

Bom — disse ela pondo as mãos em cima da mesa. — Já fizemos muito por hoje. Quer que nos vejamos dentro de dois dias?

Uma rotina, uma referência? Sim, eu queria, precisava.

Quero sim — disse eu, contorcendo as mãos.

Perfeito. Então vou me despedir, senhor Ravel. Entre em contato com a sua família e tente reconstituir um pouco as coi­sas com eles, ver, entre as lembranças, quais delas são reais, quais são fruto da sua imaginação. Mas vá devagar. Não há pressa. É inútil querer fazer demais, por enquanto... Talvez pudesse come­çar verificando quem era o seu psiquiatra...

Combinado.

E me contará isso daqui a dois dias.

Fiz que sim com a cabeça e paguei o preço da consulta. Enquanto preenchia o cheque, olhei o meu nome escrito em letras de imprensa. Vigo Ravel. Ao menos, por mais estranho que fosse, não havia imaginado o meu patronímico. Obviamente, o Crédit Agricole me reconhecia como tal... Vigo Ravel.

Apertei a mão da psicóloga e saí do consultório. Ao atraves­sar a pequena sala contígua, vi a mulher com quem eu havia cru­zado dois dias antes, naquele mesmo lugar. Eu a reconheci ime­diatamente. Aquela mulher de 30, de cabelos castanhos curtos, rosto fino, frágil, olhos verdes protetores, sobrancelhas finas, pele bronzeada pelo sol do Magreb, provavelmente. Ela estava ali, sentada, imóvel, o coração prestes a se abrir para a psicóloga, a alma da sala de espera, as lágrimas à beira das palavras. Dessa vez a consulta dela seria depois da minha. Esquecendo quem eu era, dirigi-lhe um sinal amigável de cabeça. Ela me devolveu o que parecia ser um sorriso.

No corredor, fechei a porta atrás de mim e parei de repente, com o punho cerrado na palma da mão. Não me mexi, como se fosse prisioneiro do olhar da Medusa. Mas havia sido um anjo que me deixara pregado no chão.

A jovem, sua tristeza, seu silêncio... Eu não conseguia tirar o rosto dela da cabeça. Havia alguma coisa no seu olhar verde-escuro... Força e fraqueza, ao mesmo tempo, como um entusias­mo aniquilado, e essa luzinha enternecedora, uma luz de vigília numa noite de pesadelo. Ela possuía o ar frágil e duro das pessoas que haviam sofrido. Conheço bem esses rostos.

E, então, no fim dessa estranha semana, à guisa de conclusão talvez, para coroar tudo, desci a escada do prédio e fui sentar num banco no meio da calçada, decidido a esperar por ela. Para revê-la.

Caderneta Moleskine, anotação n". 127: Nicolau Copérnico.

Desde que a psicóloga mencionou a sindrome de Copérnico, a vida desse astrônomo polonês me deixou obcecado... Tinha a impressão de que devia conhecê-lo. Para tentar compreender, procurei a pista dele nos livros de história. Anotei sua biografia para encontrar ressonân­cias, explicações e um pouco de segurança.

Nikolaj Kopernik nasceu no dia 12 de fevereiro de 1473 em Torun. Eu procurei. Era a capital da Prússia polonesa. O pai, que era padeiro, morreu quando Copérnico tinha 10 anos. Pergunta: seria a perda prematura do pai que o levou a sondar os mistérios do Universo? A questionar toda a cosmogonia do seu tempo? Talvez. Que solidão maior poderia incitar um homem a interrogar assim o céu e a sua imensidão? Não deixa de passar pela minha cabeça que Copérnico também deveria ter angústias. Isso, ao menos, faz com que tenhamos algo em comum.

Em seguida, ele foi adotado pelo tio, que não era ninguém mais do que o bispo de Cracóvia... Que ironia, quando sabemos que justa­mente a Igreja será por muito tempo o seu maior e mais violento adversário! Na realidade, o trabalho de Copérnico marcou, na histó­ria, o inicio das divergências entre ciência e religião... vejo alguma coisa aí. Vejo um homem que, ao tocar com o dedo numa pontinha de verdade, embaraçou enormemente seus contemporâneos, porque ques­tionou o sistema de crença — e, portanto, o poder — da classe gover­nante... Mas não vamos nos precipitar. Não fui eu que descobri que a Terra girava em torno do Sol. Estou me desviando do assunto.

Em todo caso, essa adoção permitiu a Copérnico seguir estudos brilhantes. Assim, ele se iniciou nas artes liberais na Universidade de Cracóvia. Depois, o tio o nomeou cônego de Frombork. Na realida­de, ele assumiu mais responsabilidades financeiras do que religiosas nesse posto.

Em seguida, ele foi a Bolonha, na Itália, estudar direito canônico, medicina e astronomia. Lá, ele conheceu Domenico Maria Novara, um dos primeiros cientistas a questionar o sistema geocêntrico, a tese então admitida por toda a cristandade e segundo a qual a Terra estaria no centro do Universo. Copérnico ficou hospedado na casa do professor, que lhe transmitiu sua paixão pela astronomia.

Juntos, eles observaram o eclipse de Aldebarã pela lua, que ocorreu em 9 de março de 1497.

Em 1500, Nicolau Copérnico se tornou professor de matemática em Roma, onde também deu algumas conferências notáveis sobre astronomia. Em seguida, decidiu ir para Pádua estudar medicina. Observo, de passagem, que foi nessa mesma universidade que, um século depois, um certo Galileu também ensinou... Paralelamente, Copérnico obteve o doutorado em direito canônico. Depois, voltou para a Polônia para cumprir seu dever de cônego.

Mesmo trabalhando como administrador e como médico, nunca abandonou as pesquisas em astronomia e consagrou sete anos da sua vida na redação do De Hypothesibus Motuum Coelestium a se Constitutis Commentariolus, um tratado de astronomia que já enunciava os princípios do heliocentrismo, mas que não foi publicado antes do século XIX!

No entanto, em 1512, ele se dedicou ao que seria a obra da sua vida: De Revolutionibus Orbium Coelestium. Levou dezoito anos para terminá-la. Esse ensaio, tão magistral quanto controvertido, só foi publicado algum tempo antes da morte do autor. Nicolau Copérnico morreu em Frombork, no dia 23 de maio de 1543, alguns dias depois de receber o primeiro exemplar impresso.

Agrada-me pensar que ele morreu com o livro entre as mãos. Bem apertado.

Enquanto esperava embaixo do prédio da psicóloga, eu des­frutava a luminosidade de um dia magnífico, com os braços apoiados no encosto verde do banco parisiense. Eu me sentia bem, embalado pelo ronronar dos carros e pelos caprichos do vento, com todos os sentidos satisfeitos pela riqueza do verão urbano. Não vi o tempo passar, mas logo senti a ardência do sol no rosto inteiro.

Fumando um cigarro atrás do outro, não podia deixar de pensar na jovem da sala de espera. O que acontecia comigo? Estava em vias de sentir atração? Era assim que os homens sen­tiam o famoso mistério de amor à primeira vista? Não. Certamente, não. Sem dúvida o amor era mais complicado do que isso. Tantos livros já foram escritos, tantos refrãos já foram can­tados! Mas então era o quê? O que eu queria dela, dessa outra de quem eu nada sabia?

Talvez precisasse me sentir menos sozinho. Pois ela e eu compartilhávamos ao menos uma coisa: o pequeno consultório em desordem do primeiro andar, suas confidências e seus segre­dos. Sim, certamente eu queria falar com alguém que comparti­lhasse essa estranha realidade, a das nossas psicoses ou nossas neuroses e das nossas confissões. Isso porque, apesar do que eu havia dito à psicóloga, a idéia de falar com meus pais não me dava nenhum prazer em especial. Em compensação, encontrar o sentido da realidade falando com aquela jovem em vez de falar com eles me parecia uma excelente iniciativa.

Meus pais... Apesar de tudo, algum dia teria de entrar em contato com eles. E se tivessem voltado? Talvez naquele momen­to estivessem na rua Miromesnil. Teriam encontrado o aparta­mento tal como eu o havia deixado? Devastado pelo arrombamento?

Eu precisava saber. Peguei o celular e preparei-me para digi­tar o número do nosso apartamento. Mas, quando aproximei os dedos do pequeno teclado, me dei conta de que não conseguia lembrar o número. Procurei em vão, tentei combinações de alga­rismos, nada me vinha à mente. Decidi consultar a lista dos meus contatos no telefone. Estava vazia. Eu nunca a preenchera? Não sabia dizer e, meio desorientado, decidi ligar para o auxílio à lista telefônica.

Um telefonista atendeu com a cortesia ritual e afetada dos operadores particulares.

Boa-tarde — respondi. — Eu queria o número de telefo­ne do senhor Ravel, que fica na rua Miromesnil, 132, por favor.

Em que cidade?

Bom, em Paris.

Qual arrondissement?

No VIIIe, senhor.

Obrigado por esperar, o auxílio à lista vai fazer a busca.

Eu esperei, com os olhos voltados para o sol. Acendi outro cigarro.

Senhor — retomou finalmente o desconhecido do outro lado —, não existe nenhum assinante com esse nome na rua Miromesnil.

Como assim? — exclamei.

Não há nenhum senhor Ravel na lista telefônica, na rua Miromesnil, em Paris, VIIIe arrondissement. Quer que eu tente uma ortografia parecida?

Não, é Ravel, como o compositor.

Sinto muito, não existe ninguém com esse nome, senhor.

Ah, está bem — balbuciei. — Obrigado.

O auxílio à lista agradece, senhor, um bom dia.

Ele desligou.

Fiquei boquiaberto. Precisei de longos segundos antes de decidir tirar o telefone da orelha.

Não existe ninguém com esse nome, senhor. Não há nenhum senhor Ravel.

Não tive tempo de medir as conseqüências dessa frase assas­sina. A jovem da sala de espera apareceu de repente na grande porta de duas folhas do prédio.

Eu me ergui de um pulo, sem pensar. Dividido entre o dese­jo de vê-la, o desejo de fugir e o de ceder à angústia que brota­va no meu íntimo, fiquei por um momento de pé, como um imbecil.

Olhei para ela, pasmo, seu corpo estava mergulhado na som­bra e o rosto mate iluminado por um raio de sol estouvado. Antes de fechar a porta atrás de si, ela me viu e me dirigiu um olhar surpreso.

Era tarde demais para fingir que não esperava por ela. Dei alguns passos à frente, sem dúvida com o rosto descomposto.

Ainda está aí? — disse ela com um ar cínico.

É, estou — respondi abestalhado.

Ah. E o que está esperando?

Hesitei. Poderia fazê-la pensar que eu queria subir de novo para ver a psicóloga. Aliás, com o choque que eu havia acabado de sofrer — Não existe ninguém com esse nome, senhor —, a idéia não me desagradava. Mas não sei o que me deu que me ouvi responder:

Eu queria lhe oferecer uma bebida.

Ela caiu na gargalhada. Um riso tão espontâneo que me assustei.

Ouça, honestamente, eu não preciso, de verdade, franca­mente, de verdade, que tentem me paquerar, aqui, neste momento!

Ergui as sobrancelhas. Paquerar? Era uma coisa da qual nunca me sentiria capaz.

Mas não estou paquerando — expliquei. — Quero apenas tomar alguma coisa...

Ah, é? E para comemorar o quê?

Bom, ora, não sei... Consultamos a mesma psicóloga.

Ela desatou a rir novamente, um riso generoso, quase infan­til. A porta se fechou atrás dela.

Qual é a ligação?

Realmente, sem dúvida, eu era o único a poder encontrar para isso uma explicação lógica. Mesmo assim, tentei expor para ela:

Quer dizer que, sabe, eu disse a mim mesmo que, se você vai consultar Sophie Zenati, psicóloga, 1o. andar, à esquerda, é que você está mal. Acontece que eu também vou vê-la e, portanto, é porque estou mal. E é por isso que disse a mim mesmo que, tal­vez, pudéssemos tomar alguma coisa, sem nenhuma razão em especial. Ficarmos mal juntos. Porque, quando estamos mal, faz bem compartilhar, não?

Ah, é? Quando estamos mal, tomar alguma coisa com alguém que também está mal? Que idéia maravilhosa!

É, sim. Porque as pessoas felizes não compartilham a feli­cidade.

Ah. Você é infeliz?

Não é bem isso. Tenho uma dementia precox.

O que é isso?

Sou esquizofrênico.

Ela ergueu as sobrancelhas.

— Esquizofrênico? E quer que eu vá beber com você? Pois bem! Você sabe falar com as mulheres!

Não muito bem. Faz parte. Distúrbio de relacionamento com o outro...

Dessa vez o sorriso não foi zombeteiro. Ela era capaz de ilu­minar o rosto tão duro. Foi a minha vez de sorrir.

E você, é infeliz?

Ela deu de ombros. Pareceu avaliar-me com o olhar.

Não — disse, finalmente. — Depressão passageira...

Ah, sinto muito. Mas eu estou pior — disse, enfiando as mãos nos bolsos. — Esquizofrênico é mais grave.

Isso é uma maldade!

Vi que ela começava a rir. Afinal, eu não era tão desajeitado assim.

Então, você vai? Não pode imaginar o esforço que repre­senta para um esquizofrênico convidar alguém para tomar algu­ma coisa!

Ela sacudiu a cabeça e ergueu a mão esquerda. Mexeu o anu­lar para me mostrar a aliança.

Alguém espera por mim.

Compreendo — disse eu baixando os olhos. — Desculpe-me. E que não tenho muitas oportunidades de conversar com alguém, então, lá, na minha psicóloga, disse a mim mesmo que... Ora... Deixe pra lá. Em todo caso, um bom dia! Sem dúvida, nos cruzaremos lá em cima num desses quatro...

Espere — interrompeu ela. — Como se chama?

Engoli em seco. Lutei para não deixar meu olhar despencar na direção da calçada, para manter a cabeça erguida.

Acho que me chamo Vigo. E você?

Como assim, você acha?

Cocei a cabeça, com ar aborrecido.

Ultimamente, peguei o hábito de duvidar de tudo, até do meu nome. A única certeza é que é o nome que está impresso no meu talão de cheques... Vigo Ravel.

Ravel? Igual ao compositor?

É. E você, como se chama?

Agnès.

Disfarcei minha surpresa. Eu esperava um nome árabe ou, em todo caso, mais exótico...

Muito prazer.

Estendi a mão. Ela a apertou com uma delicadeza que eu não podia imaginar.

Bom — disse ela suspirando —, quero ir tomar alguma coisa ali em frente, já que insiste, mas vou avisando, não tenho muito tempo... Alguém me espera, de verdade.

Mal consegui acreditar. Em todas as minhas lembranças, era a primeira vez que eu convidava uma estranha para tomar algu­ma coisa comigo e, além do mais, havia funcionado! Ato contí­nuo, eu me perguntei, de repente, o que poderia dizer a ela. Convidá-la para tomar alguma coisa já resultava numa façanha, mas, agora, seria preciso manter uma conversa. Imediatamente, fiquei angustiado. Ela deve ter notado e bateu no meu ombro com amabilidade.

Tem um café ali, aonde vou de vez em quando, quando estou adiantada — disse ela estendendo a mão.

Está bem, vamos — murmurei.

Atravessamos a rua juntos e nos instalamos no terraço enso­larado. Ela sentou primeiro e, desajeitadamente, ocupei o lugar em frente. Eu estava nervoso e isso parecia diverti-la.

Você é realmente esquizofrênico? — perguntou ela, como se fosse uma pergunta banal.

Ao menos, ela me tirava a angústia: encarregava-se de puxar conversa.

E, sou, eu acho — respondi. — Está um pouco complica­do no momento. Como lhe disse há pouco, comecei a duvidar de tudo. Mas, totalmente, sou; em linhas gerais, acho que se pode dizer que sou esquizofrênico.

Ah. E isso quer dizer o quê? Quer dizer que, em certos momentos, você acha que é Napoleão, esse tipo de coisa?

Eu sorri. Ela era de uma franqueza cheia de ingenuidade, que só as crianças preservam. Ou, talvez, a similitude dos nossos su­postos sofrimentos a convidasse a confraternizar com mais facili­dade. Isso era agradável.

Não, fique tranqüila. Não acho que sou Napoleão nem Ramsés II. Mesmo assim, tenho distúrbios bem fortes — admi­ti, quase com orgulho.

Ah, é? Quais?

Hesitei. Estava virando um interrogatório, mas, no fim das contas, eu havia procurado.

Ouço vozes.

Como Joana d'Arc?

É. Como Joana d'Arc.

Certo — disse ela simplesmente, como se essa explicação fosse suficiente.

Mas eu quis lhe contar mais.

Em alguns momentos, tenho a impressão de que, o que eu ouço, são os pensamentos das pessoas, mas, na realidade, parece que são alucinações produzidas pelo meu cérebro.

Ela fez uma cara compadecida.

Deve ser muito... muito incapacitante.

É — confessei. — Estou atravessando uma época especial­mente difícil.

Imagino — disse ela, meneando a cabeça. — Mas não de­veria consultar um psiquiatra para esse tipo de distúrbio?

Ora... E uma longa história. Eu me consultava com um, mas não o vejo desde o atentado de 8 de agosto... Não sei se é verdade, mas acho que ele estava lá no momento das explosões. Depois disso, a minha vida ficou de pernas para o ar...

No mesmo instante, o garçom do café se aproximou da nossa mesa, no seu uniforme preto e branco.

Bom-dia, senhora, senhor.

Agnès fez um sinal de cabeça amigável. Estava em território conhecido.

O que desejam?

Um café — pediu a jovem.

Dois — confirmei.

E dois expressos, dois — exclamou o garçom antes de desaparecer no interior do café.

Eu o olhei, sorrindo. Havia alguma coisa de tranquilizador para mim nessas caricaturas humanas. Esses clichês eram como provas da realidade.

E você? — disse aproximando a cadeira da mesa. — Quais são as razões da sua... depressão passageira?

Eu a vi franzir as sobrancelhas. Era novamente o rosto frágil que eu vira na sala de espera...

Ora... Nada de terrível. Sou um pouco ciclotímica, como mulher. O cansaço, pequenos problemas na vida conjugai, tudo isso... E, depois... Exerço uma profissão... difícil. Uma atividade cansativa. É freqüente esse tipo de pequena depressão na minha atividade.

Professora. Tive a certeza de que era professora. Reconheci nos olhos dela aquele desgaste, a desilusão que, no entanto, se recusava a ceder. Ela devia ter um emprego num bairro difícil, numa Zona de Educação Prioritária, como eles dizem. Um des­ses guetos modernos que o mundo fabrica. Para os esquizofrênicos, inventaram a hospitalização compulsória; para os bairros carentes, a educação prioritária. Ao menos, não me sentia tão só.

E o que foi mal primeiro? — perguntei. — O seu traba­lho ou a sua vida conjugal?

Ela ficou em silêncio, desconcertada. Insisti:

O seu casamento começou a desabar por causa dos seus problemas no trabalho, ou você não suporta mais o trabalho por­que as coisas vão mal em casa?

Ela suspirou.

Ora! Você vai direto ao ponto! Sinto muito, Vigo, mas não é o tipo de conversa que imaginei ao vir tomar alguma coisa com você...

Espere aí, eu lhe disse que ouvia vozes na cabeça... E você tem medo de se abrir? Não é muito equitativo!

Não é que eu tenha medo de me abrir, é só porque não tenho muita vontade de falar sobre isso...

Ah. Prefere falar da chuva e do bom tempo? Sinto muito, não sei se tenho essa habilidade.

Ela sorriu.

Não, não, fique tranqüilo, também gosto de sinceridade...

Foi isso que entendi — disse eu com segurança. — Aliás, acho isso muito bom. Essa maneira que você tem de fazer as per­guntas com franqueza... E um ganho de tempo dos diabos.

Ela concordou:

Sim, a franqueza é uma coisa boa. Mas nem sempre se pode falar de tudo tão diretamente...

Tem razão. Estou angustiado, por isso tenho tendência a ir meio rápido ao ponto principal... Deve ser uma coisa de esqui­zofrênico. Quando se tem medo de morrer, também se tem medo de perder tempo...

Você tem medo de morrer? — perguntou ela, surpresa.

Você não tem?

Ela mostrou uma expressão hesitante.

Zenati diria que eu tenho medo de viver.

Como vê, voltamos à sua depressão...

Sim, mas tem de me compreender, acabei de agüentar uma hora com a nossa adorada psicóloga, já é o bastante por hoje.

Meneei a cabeça. O garçom do café trouxe o nosso pedido.

Você notou a zona no consultório dela? — perguntei em tom de confidência. — É estranho, não? Uma psicóloga que não arruma as próprias coisas!

Ela sorriu.

É — disse ela. — Ou talvez seja uma artimanha de psicó­loga. Com certeza, para os pacientes, a desordem deve ser menos opressora do que a ordem... Deve incitar mais à confidência.

Acha? Eu simplesmente acho que ela é bagunceira.

A jovem pegou a xícara de café rindo, em seguida, deu um gole. Foi nesse instante — sem compreender por quê, como uma evidência repentina — que a achei bonita. Verdadeiramente bonita.

Até aquele momento, ela me deixara intrigado, surpreso. Mas, então, na futilidade daquele simples gesto, na eternidade gratuita daquele segundo, eu a achei magnífica. O rosto frágil se encheu de uma triste ternura e os olhos verdes se tornaram doces! Ela era a mais bela de todas as belezas, aquela que, pru­dente, se entrega lentamente.

Quando ela pôs a pequena xícara branca de volta na mesa, eu devia parecer estupefato.

O que foi? — disse ela, franzindo as sobrancelhas.

Você... Você é muito bonita, Agnès.

Ela arregalou os olhos, estupefata.

Alguma coisa está errada, não?

Eu me dei conta do que havia acabado de dizer. Esfreguei o rosto, embaraçado.

Desculpe. Não disse isso para lhe fazer a corte, eu juro! Foi simplesmente porque a achei realmente bonita, sendo que, antes, você parecia meio séria...

Ela caiu na gargalhada.

Seja o que for! Bom, Vigo, podemos dizer que, de fato, você precisa melhorar nas suas relações com os outros.

— Sinto... Sinto muito. Não sei o que me passou pela cabeça.

Não faz mal. É amável. É sincero. Vamos admitir que deve ser por causa do seu "medo de morrer" que você diz tudo o que lhe passa pela cabeça...

Ela tomou mais um gole de café. Eu a imitei.

Quando pus a xícara de volta, senti uma dor de cabeça carac­terística. Minha dor de cabeça, aquela dor de cabeça. Não! Agora, não! Mas eu sabia muito bem que não podia fazer nada. Minhas mãos começaram a tremer. Eu as pus em cima da mesa para tentar controlá-las. Agnès me olhava. Fiz de tudo para dis­farçar a crise que tomava conta de mim. Mas logo a minha visão se turvou, e as imagens à minha frente começaram lentamente a multiplicar-se. As cores e as formas repetiam-se em ecos vacilan­tes. O rosto de Agnès tornou-se duplo, assim como o mundo atrás dela. Pisquei os olhos.

Este sujeito é realmente estranho. Em certos momentos parece totalmente desequilibrado. Mas ele é engraçado. Na verdade, ele não é bonito, mas tem belos olhos. Como os do meu tio...

Levei um susto. Era a voz dela. A voz de Agnès, ali, na minha cabeça. Eu poderia jurar! Mas, não. Não, eu tinha de raciocinar! Não passava de alucinação. Uma alucinação auditiva, totalmente banal para um esquizofrênico da minha laia. Era isso. Não prestar atenção. Não deixar a loucura se apoderar de mim.

Com a mão trêmula, peguei a xícara de café e tomei num só gole. A crise desaparecia lentamente e com ela os murmúrios na minha cabeça.

Você está tremendo. O café deles não é muito bom, não é? — disse Agnès, se inclinando para mim.

Examinei o fundo da xícara. A borra estava cheia de peque­nos grãos pretos. Eu havia engolido alguns, de um amargor desa­gradável. Mas não era por isso que eu tremia. Hesitei em dizer a verdade. Achei que ouvi seus pensamentos, Agnès. Mas, finalmente, decidi que nem todas as verdades deviam ser ditas.

— É, nada excepcional — concordei.

No entanto, continuo a vir aqui todas as vezes que vou à consulta de Zenati. É estranho, não?

Hum! Nós nos acostumamos a tudo.

Pode ser. Ou então sou eu que tenho a aborrecida tendên­cia a me acostumar a tudo o que não é bom. Veja, por exemplo: você fuma?

Como uma chaminé — disse eu tirando o maço de Camel.

Ela mergulhou a mão na bolsa e, por sua vez, tirou um maço.

Eu sorri. Não conseguia parar de encará-la. Os cabelos curtos de menino, os olhos profundos, a pele cheia de sol. Havia alguma coisa na sua atitude que me enternecia. A voz e os gestos demons­travam uma força segura que a fazia parecer intocável, até mesmo infalível; no entanto, a sua presença na psicóloga e alguma coisa no seu olhar traíam a sua fragilidade, mais profunda.

Esta merda acabará nos derrotando — disse ela, acenden­do um cigarro.

Temos de morrer de alguma coisa...

Sim... É o que dizemos para tapar o sol com a peneira, hein? Bom, com essas palavras, Vigo, preciso ir agora...

Ela pôs algumas moedas em cima da mesa e empurrou a sua cadeira.

Não a assustei demais com as minhas histórias de alucinações auditivas? — perguntei, chateado.

Estava aterrorizado com a idéia de não ter agradado. De haver revelado rápido demais a verdade crua da minha esquizo­frenia.

De jeito nenhum, Vigo. Se eu lhe dissesse tudo o que tenho na cabeça, talvez você é que ficasse com medo! Mas pre­ciso mesmo ir embora. Já lhe disse, sou esperada. Voltaremos a nos ver.

Sem pensar, peguei-a pela mão.

— Vamos trocar os números de telefone? — perguntei, embaraçado.

Para quê?

Não sei. Por nada, se algum dia você estiver mal, pode me ligar, a qualquer hora.

Ah, é? Pois bem, você não! — replicou ela, sorrindo. — De noite, eu durmo, e meu marido, sem dúvida, não acharia isso muito engraçado.

Entretanto, ela tirou o celular da bolsa.

— Vamos, fale.

Ela anotou o meu número, depois me deu o dela. Eu o ano­tei na minha lista de contatos, desesperadoramente vazia.

Ela se ergueu, depois, sem que eu esperasse — e ainda menos tivesse esperanças —, me beijou no rosto. Dirigiu-me um último sorriso e se afastou num passo rápido. Eu a olhei partir, ereta e ágil, atravessar a rua e desaparecer como se apaga a grande dis­tância num horizonte chuvoso.

Passei a palma da mão no rosto, como para me certificar de que o beijo era bem real. Depois, observei minhas mãos. Elas tre­miam. Cerrei os punhos para expulsar os espasmos ridículos, mas os batimentos do coração não eram controláveis. Eles esta­vam cada vez mais rápidos. Fechei os olhos, incrédulo. Seria possível? Estaria sentindo essa coisa que nunca havia sentido? Ali, de repente, sob o sol de verão, no meio de uma semana que ia além do entendimento? Amor? Sem avisar? Como uma chuva inopinada no meio do verão, inesperada e refrescante?

A recordação da sua boca se perpetuou por longo tempo, como uma carícia no meu rosto. Levantei-me de um pulo e saí para beijar a cidade.

Devo ter rido alto duas ou três vezes no trajeto de volta. As pessoas com as quais eu cruzava deviam me considerar louco: estava pouco ligando, eu era mesmo.

Tinha a impressão de ter 15 anos, e eu nunca tive 15 anos. Tinha a impressão de que nada mais importava, a não ser Agnès, cujo nome aparecia em tudo o que é lugar à minha volta, pisca­va, transformava-se em anjos e enchia todo o céu com as asas de penas. A-pai-xo-na-do. Como essas cinco sílabas eram leves! Como tinham o sabor sensual do proibido!

Bravo, Vigo, você se apaixonou por uma mulher casada e depres­siva! Bravo, de verdade! Acho que Zenati, psicóloga, 1o andar, à esquerda, vai felicitá-lo!

Mas eu estava pouco ligando para Zenati. Estava pouco ligan­do para o atentado de 8 de agosto, estava pouco ligando para a rua Miromesnil, para Kraeplin e a dementia praecox, para o dou­tor Guillaume e para a minha saúde mental. Só uma coisa con­tava. Eu era capaz de me apaixonar! A-pai-xo-na-do. Na terra, cabeça aérea, a-pai-xo-na-do. E eu achava isso delicioso. Quase engraçado! As palavras dessa música me voltavam à memória, evidentes, pertinentes, como se houvessem sido escritas para mim. Na Terra, cabeça aérea, apaixonado, há centelhas no fundo dos seus olhos...

Eu tinha certeza de que tudo isso nunca teria acontecido se não tivesse parado o tratamento com os neurolépticos. Pela pri­meira vez, eu tinha a impressão de estar no controle da minha vida, impressão de que meus atos não eram mais ditados por um psiquiatra ou por medicamentos. Paris nunca me pareceu tão bela. Meu olhar nunca voara tão alto.

Quando cheguei ao hotel com o rosto iluminado, o gerente me olhou estarrecido.

Ora! O que aconteceu? — lançou ele, perplexo. — Hoje, o senhor parece bem feliz!

Estou de bom humor — confessei.

Tem sorte. Tome, alguém deixou isto aqui para o senhor.

Ele me entregou um envelope branco. Estava escrito o meu nome, Vigo Ravel. Franzi as sobrancelhas. E, de repente, voltei para a Terra. Aterrissagem forçada.

Quem poderia ter deixado um bilhete para mim? Com exce­ção da minha psicóloga, ninguém sabia que eu estava ali, naque­le hotel.

Com mão trêmula, peguei o envelope.

Obrigado.

Abri a carta imediatamente. Só havia uma folha. Uma só. Com algumas palavras escritas a mão. Uma simples mensagem. E tive de lê-la várias vezes para ter certeza de que não estava sonhando. Pois não era uma mensagem comum. Era uma mensa­gem surpreendente, até mesmo aterradora. Que me gelou o sangue.

O seu nome não é Vigo Ravel e você não é esquizofrênico. Encontre o Protocolo 88. E estava assinado apenas: EsFiNgE.

Pensei que fosse desmaiar. Perder os sentidos no pequeno saguão branco daquele hotel Novalis.

Num único dia o meu cérebro havia passado por um excesso de realidades diferentes. Informações em excesso, sentimentos em excesso. Naquele momento, tive certeza de que estava com­pletamente louco. Louco de pedra.

O gerente do hotel olhou-me com ar desconfiado. Baixei novamente os olhos para a carta, li outra vez as poucas palavras: Você não é esquizofrênico. Encontre o Protocolo 88.

Quem poderia ter escrito isso? Quem? Por quê? Aquilo não fazia nenhum sentido! Protocolo 88? Que bobagem era aquela? Eu tinha vontade de gritar para acordar do horrível pesadelo. Mas não era um pesadelo. Era a minha vida. Real. Queria dar a men­sagem para o gerente do hotel ler, para me certificar de que era mesmo autêntica, mas, evidentemente, não podia. Senti que não devia. E, de qualquer modo, não podia ser uma alucinação. Eu não podia ter inventado isso. Um nome desses! Protocolo 88!

Está tudo bem, senhor Ravel?

Eu me assustei.

Hum... Sim, sim, tudo bem — menti.

Exceto que eu talvez não me chame senhor Ravel, idiota.

Má notícia? — insistiu ele.

Mais ou menos — admiti.

Tentei recuperar-me. Enfiei a carta no bolso, despedi-me do gerente e subi num passo rápido para o quarto.

Quando cheguei ao pequeno aposento, quadrado demais, joguei-me pesadamente na cama. Virei-me de costas com as mãos no rosto. Em seguida, olhei para o teto por longos segundos. O teto branco que eu havia fitado por horas inteiras nos dias de angústia. Tão em branco quanto a minha cabeça vazia, naquele momento.

Soltei um longo suspiro. A mensagem não existia. Eu a havia inventado. Sim. Com certeza. Devia ser isso. In-ven-ta-do. No entanto, sentia o pedaço de papel no bolso. A carta dobrada ao meio. Sabia que ela estava ali, encostada na minha coxa. Realmente ali. Eu sabia que bastava estender a mão e relê-la. Mas qual o preço a pagar?

Afinal, eu lera direito? Talvez houvesse lido mal, na pressa. Com o pânico...

Hesitei ainda um momento, depois enfiei a mão no bolso. Tirei o pedaço de papel. Deitado de costas, li mais uma vez:

0 seu nome não é Vigo Ravel e você não é esquizofrênico. En­contre o Protocolo 88. EsFiNgE.

Que crédito eu poderia dar a essa mensagem surrealista? Você não é esquizofrênico! Fácil de dizer! Mas como saber? Por que acreditar nessa mensagem? Havia muito tempo que eu me per­guntava sobre isso, havia muito tempo que os psiquiatras me davam as provas... Como acreditar num simples pedacinho de papel, deixado por uma misteriosa EsFiNgE na recepção do hotel? Tudo isso era totalmente ridículo.

No entanto, talvez houvesse um meio de saber. De pôr tudo em pratos limpos. Sim. Talvez. Um único meio.

Com a mão trêmula, peguei o celular e digitei o número de Agnès.

A jovem atendeu depois do primeiro toque.

Vigo! Não está certo você me ligar! Achei que era só em caso de emergência! Faz apenas uma hora que nos separamos!

Sim, mas é justamente uma emergência.

Está me gozando? Você me incomoda, Vigo! Não deveria ter lhe dado o número do meu telefone!

Ela estava tão furiosa que mal reconheci a sua voz. Pigarreei. Não me sentia à vontade. Mas, realmente, era uma emergência.

Agnès. Há pouco, no café, quando você me olhou, no que pensava?

Que idiotice é essa?

Suspirei. Não ousava dizer o que precisava. Entretanto, eu precisava saber.

Agnès. O seu tio, seu tio... Ele tem... Ele tem olhos azuis como os meus?

O quê? — exclamou ela, com uma voz estupefata.

Eu me dei conta do absurdo da minha pergunta. Se estives­se errado, se tudo não passasse de alucinação, ela ia mesmo me considerar muito doente. E, sem dúvida, nunca mais ia querer me ver. Mas eu tinha certeza. Tinha certeza de que não estava errado.

Há pouco, no café, quando você me olhava, eu disse que a achava bonita e você... você, Agnès, disse a si mesma que eu não era muito bonito, mas que tinha belos olhos, como...

... como os do meu tio — continuou Agnès, com uma voz vacilante, incrédula. — Co... como sabe, Vigo?

Finalmente, tive uma resposta para a minha pergunta mais antiga. Pela primeira vez na vida eu estava certo. Absolutamente certo. Achei que ia desmaiar. Mas, não. Tinha de enfrentar a realidade. Controlá-la. Comecei a balbuciar:

Agnès... Não... não sou esquizofrênico. Eu ouço o pensa­mento das pessoas.

Há minutos que, às vezes, parecem ser bem mais longos do que os sessenta miseráveis segundos. E, nesse caso, a relativida­de não tem nada de teórico. Nós nos afogamos, sufocamos, esca­pamos de tudo.

Nesse instante a minha vertigem foi tão grande que tive a impressão de cair, durante um eterno presente, numa fenda gela­da e sem fundo. O eco daquelas palavras ressoou na minha cabe­ça como um pedido de socorro no meio de um estacionamento deserto: O seu nome não é Vigo Ravel e você não é esquizofrênico.

Não sou esquizofrênico, esquizofrênico, esquizofrênico. Foi como se eu perdesse tudo o que possuía, não em bens materiais, e sim a certeza e a consciência do eu — uma consciência que já não passava de ruínas e isso havia muito tempo. Tudo o que constituía minha identidade, minha memória, por mais minguada que fosse, meus pensamentos, minhas representações do mundo, tudo o que restava da minha frágil intimidade ruiu como um castelo de car­tas que jamais poderia ser reconstruído. De repente, eu não era mais eu mesmo e sim outro totalmente diferente. Um desconhe­cido que nunca havia sido esquizofrênico, que nunca havia sido Vigo Ravel, porém que, há mais de dez anos, ouvia realmente — sem ter plena consciência disso — os pensamentos das pessoas. Nada de alucinações. Pensamentos. Verdadeiros e secretos. Lon­gínquos, mas concretos. Hoje, os aprendizes de feiticeiro na torre, amanhã, nossos pais assassinos no ventre, sob 6,3.

Depois de desligar o telefone, não pude me impedir de cho­rar. E tudo mentira. Agnès certamente não havia compreendido. Não podia compreender. Ninguém poderia. Nem compreender nem acreditar em mim. Isso porque a minha vida inteira ia além do entendimento. Eu estava sozinho, totalmente, terrivelmente sozinho diante do incrível. A psicóloga podia dar a isso o nome que quisesse, síndrome de Copérnico ou não: agora, eu tinha a comprovação íntima, eu ouvia o pensamento das pessoas e nin­guém acreditaria em mim.

Repeti mil vezes essa frase impossível. Ouço os pensamentos das pessoas. E nada a tornava mais fácil de ouvir. Nem mesmo o hábito. Não nos habituamos ao inconcebível.

Imóvel no meio do quarto do hotel, fui invadido por uma angústia tão grande que desejei ver os meus pais, custasse o que custasse. Encontrar-me com Marc e Yvonne Ravel, esperando que existissem, que fossem bem reais. Já que eu não era mais eu mesmo, ao menos que eu fosse um filho! Que eu visse nos olhos deles o lampejo, mesmo ínfimo, de um reconhecimento. Minha identidade.

O seu nome não é Vigo Ravel. Mas, então, quem eu era? Qual o meu nome? Qual a minha história? Eles, que me viram crescer, saberiam me dizer?

Quaisquer que fossem as minhas relações com meus pais, eu estava convencido de que me poderiam dar um pouco de conforto. O suficiente, em todo caso, para que eu me agüentasse de pé, para que eu me segurasse. De qualquer maneira, eu não tinha uma idéia melhor. Tinha de vê-los, imediatamente. E, já que eles pareciam não constar do catálogo telefônico, eu não tinha outra opção além de voltar, o mais rápido possível, ao apartamento da rua Miromesnil. Ao maldito apartamento. Ir até lá fisicamente e confiar no que eu pudesse ver.

Infelizmente, a simples idéia de sair para a rua me aterrori­zava. Isso porque, lá fora, havia os outros. Havia as vozes, os murmúrios. E, agora, eu sabia que esses murmúrios não eram alucinações auditivas. Que não eram produto de uma esquizofre­nia paranoide aguda. Eram pensamentos. Eram reais. E não que­ria mais ouvi-los. Mas eu tinha escolha?

Peguei a coragem que me restava e me levantei lentamente. Como um ritual, olhei-me no espelho; e, sem poder acreditar, tive a impressão de me reconhecer, apesar de tudo. Ao menos, eu não havia mudado de rosto. Era o meu último baluarte, a minha derradeira realidade. Os olhos azuis. A boca séria. A testa grande, tão preocupada. Mas eu continuava a ter essa impressão estranha, esse mal-estar que parecia causado pelo reflexo no espelho... Como se ele encerrasse um símbolo que eu não compreendia. E que me incomodava, sem razão.

Saí do hotel rapidamente e me recusei a pegar o metrô. Gente demais, sombras demais, vozes demais. Fiz o trajeto a pé até a casa dos meus pais. Por todo o caminho, repeti a mim mesmo a incrível verdade. Não sou esquizofrênico. Esse pensa­mento ocupou toda a minha mente e, sem dúvida, me poupou de ouvir os pensamentos das pessoas com as quais eu cruzava. Assim que um vulto se aproximava, eu me afastava e permanecia mergulhado na minha introspecção obsessiva, os olhos novamen­te voltados para a calçada.

Ao chegar embaixo do imóvel — não podia tê-lo inventado, eu o reconhecia — não fiquei totalmente surpreso quando o código que digitei não abriu a grande porta de entrada. Mantive a calma, creio até que esbocei um sorriso. Podiam tê-lo mudado. Ou então, podia ter me enganado. Afinal, havia esquecido nosso número de telefone... No entanto, não podia deixar de pensar que a rua Miromesnil pudesse ser uma falsa lembrança. Uma invenção. Não. O apartamento da rua Miromesnil não podia ser uma alucinação. Eu não tinha alucinações. Eu não era esqui­zofrênico.

Tentando não me estressar, esperei que uma pessoa passasse e me esgueirei atrás dela. A pessoa não prestou atenção em mim. Talvez me reconhecesse. Eu não soube dizer. Não ouvia os seus pensamentos. Já não era tão mal. Ela pegou o elevador, e eu a escada.

Quanto mais eu subia os degraus do prédio, mais o medo me invadia. Estaria pronto para uma nova surpresa, uma nova desi­lusão? Da última vez que estivera lá, o apartamento havia sido "visitado". E haviam instalado uma câmera. Isso também eu não podia ter inventado... Mas, então, o que eu esperava? Que, finalmente, os meus pais estivessem de volta? As chances eram bem pequenas.

Ao chegar diante da porta, da grande porta de madeira que eu reconhecia perfeitamente, peguei as chaves no bolso e inspi­rei profundamente. Não havia nenhum ruído no interior do imó­vel. O que encontraria no apartamento? A aparência anterior? O olhar perplexo dos meus pais? Ou a desordem que eu havia deixado alguns dias antes, com a tal câmera que eu esmagara no chão?

Não podia hesitar por mais tempo. A verdade não estava na minha cabeça, estava no interior daqueles cômodos. Engoli em seco e aproximei lentamente a chave da fechadura. Com a mão hesitante, tentei introduzi-la várias vezes. Insisti. Mas, para a mi­nha grande surpresa, não conseguia fazer a chave entrar na fecha­dura. Com certeza, eu devia estar tremendo demais. Tentei de novo. Não. Nada a fazer. Não era a chave certa! Deviam ter tro­cado a fechadura ou, então, realmente, eu não havia morado lá...

Vá embora.

Imediatamente, como alguns dias antes na praça da Défense, o instinto me mandou fugir. Soube, no íntimo, que não podia permanecer ali. Uma voz, no fundo de mim, gritava que eu cor­ria perigo. Todo o meu corpo sentia o perfume de ameaça evi­dente. Qualquer que fosse a razão de a chave não funcionar mais, eu não podia continuar diante daquela porta. Sem me fazer mais perguntas, dei meia-volta e desci os degraus a toda a velocidade. Meus passos ressoavam pelas paredes brancas da escada. Eles se confundiam tanto uns com os outros que eu não tinha mais cer­teza de estar sozinho. Saí correndo para a rua.

Meu coração batia disparado. Sentia-me aniquilado pela soli­dão, pela urgência e pelo medo. Onde poderiam estar meus pais? Teria acontecido alguma coisa com eles? Seriam mesmo meus pais?

Não conseguia encontrar uma resposta lógica para todos esses enigmas. Senti-me mais perdido do que nunca.

Cambaleando como um bêbado pela rua Miromesnil, prestes a desmaiar, passei em frente aos comerciantes que eu conhecia bem, mas que de repente se haviam tornado estranhos. O sapa­teiro, velho racista, cáustico, com quem eu me desentendera alguns anos antes, a confeitaria oriental com o forte odor açucarado, o pub irlandês, a tabacaria Europa onde comprava meus cigarros... Eu os reconhecia. Não podiam ser lembranças falsas! No entanto, não conseguia me sentir em casa nessa terra, entre esses homens.

Com a mente confusa, saí do quarteirão dos meus pais e entrei numa ruela deserta. Minha cabeça girava cada vez mais. Joguei-me num degrau, embaixo de um prédio velho, e cobri o rosto com as mãos. Não sabia mais o que fazer. Aonde ir? Para quem me voltar? Perto de quem encontrar um pouco de paz, de socorro? Um simples olhar que me pudesse dizer que eu não era louco, que eu existia. Que sempre existira.

Agnès? Não. Não podia me permitir incomodá-la de novo e ela não me conhecia bem. Minha psicóloga? Também não. Não seria suficiente. Precisava de uma prova mais antiga da minha existência. Então, por falta de opção, voltei-me novamente para ele. Senhor De Telême. Eu me dei conta de que talvez ele fosse a minha última chance. Meu último vínculo com o passado. Meu último vínculo com quem eu acreditava ser. Vigo Ravel, 36 anos, esquizofrênico.

Peguei o celular e digitei o seu número particular. Ouvi os toques tranquilizadores. O telefone foi tirado do gancho e, para meu grande alívio, foi a voz do senhor De Telême que atendeu:

Vigo? Mas onde você está, droga? Faz uma semana que todo mundo procura por você!

Vigo. Ele me chamou de Vigo. Reconhecera a minha voz. Para ele, eu existia.

Senhor De Telême, preciso encontrá-lo. Estou... Estou com problemas.

Bom, está bem, meu caro! Não temos notícias suas desde 8 de agosto! Espero que me dê explicações. Espero-o amanhã, de manhã, no escritório!

— Não. No escritório, não. E amanhã, não.

Como assim, no escritório não?

Prefiro que nos encontremos em outro lugar, senhor De Telême.

Ele hesitou. Eu não saberia dizer se estava preocupado ou furioso.

Está bem. Onde você está?

No hotel Novalis, no XVIIe arrondissement, mas não é o melhor lugar para nos vermos...

Então, onde?

Refleti. Um lugar neutro. Um lugar onde eu me sentisse em segurança.

No Quai du Blues.

Está brincando? Não é a ocasião ideal para ouvirmos blues, meu caro Vigo!

Preciso vê-lo, senhor De Telême, longe dos olhares indis­cretos, a sós. Pode ir lá hoje à noite?

Ele ficou um tempo novamente em silêncio. Em seguida, depois de um suspiro irritado, concordou:

Está bem, estarei lá por volta das 22h30.

Desliguei. Quando anoiteceu, peguei um táxi que me levou a Neuilly, no coração silencioso da ilha de Jatte.

Caderneta Moleskine, anotação n°. 131: coincidências.

Eu sei, os distúrbios esquizofrênicos se traduzem principalmente por distorções do pensamento e da percepção. Já não acredito que eu seja esquizofrênico. No entanto, entre os fenômenos psicopatológicos recenseados pelos eminentes especialistas existe um contra o qual tenho de lutar diariamente: uma tendência a associar idéias que não têm correlação real entre elas e certa obsessão por detalhes. Números, datas, acontecimentos...

Vejo todo o tempo, em todos os lugares, coincidências sibilinas que me saltam aos olhos como evidências. Vejo laços ocultos, fios invisí­veis, adivinho relações, conexões misteriosas. Em toda parte, à minha volta, o mundo transpira mensagens e não posso deixar de fazer liga­ções entre elas, como se houvesse uma intenção secreta em todas as coisas, um sentido hermético no Universo.

Desde o atentado, essa impressão intensificou-se. De nada adian­ta dizer a mim mesmo que não passam de correlações ilusórias; vejo sentido oculto nos menores acontecimentos.

Copérnico, por exemplo. Desde que a minha psicóloga falou do astrônomo polonês, vejo o nome dele em toda parte. Primeiro, dizem-me que sofro de uma síndrome com o seu nome, depois, eu me lembro de que o prédio pelo qual entrei nas catacumbas dava para a rua Copêrnico, e, finalmente, na televisão, os jornalistas não cessam de fazer referência ao atentado ocorrido na sinagoga dessa mesma rua... É como se eu fosse atormentado por correspondências.

Entretanto, não devo ceder a essa obsessão. A vida é cheia de coincidências, pela mera e simples razão de que os acontecimentos obedecem às leis da probabilidade. Tendemos a notar unicamente as coincidências, sem levar em conta o fato de que elas sobrevêm no meio de um número considerável de outros acontecimentos nos quais não se passa nada de extraordinário. Sei disso: a ocorrência do que nos parece ser coincidência sobrenatural é explicada, na realidade, pelo que chamamos de "lei dos grandes números". Segundo essa lei, com uma amostra suficientemente grande de acontecimentos, mesmo o mais improvável passa a ser provável.

E, no entanto... Como ver a diferença entre uma simples proba­bilidade e um acontecimento inesperado realmente significativo?

Não consigo deixar de esquadrinhar o invisível.

— Vigo! Você está com uma cara horrível!

A apresentação já começara havia muito tempo. A grande sala estava mergulhada na luz acolhedora dos spots vermelhos e azuis. As pessoas haviam terminado de jantar e estavam como que aspi­radas pela atuação cênica de um velho bluesman da Nova Orleans pós-inundação. O sujeito, a sua voz e a sua guitarra formavam uma entidade no meio dos halos coloridos. Uma espécie de bola de notas, de ritmos e de dilacerações que iam direto na alma. Seus lamentos de homem abandonado saíam de todas as suas cordas, vocais e metálicas, e tudo chorava suavemente em volta dele: as vibrações do órgão Hammond na caixa Leslie, o desli­zar dos dedos num baixo sem trastes... Era belo como uma carta de adeus encontrada um século depois. Os pelos dos meus braços buscavam o céu. Todo o meu corpo ouvia a música. Eu tinha a impressão de ser também um dos instrumentos, ali, de pé, a alguns passos do pequeno palco.

Vigo?

Saí do torpor e tentei sorrir para o senhor De Telême. 22h48. Ele acabara de sentar na minha frente e parecia inquieto, pouco à vontade no terno cinza. No mesmo instante vi que não me olhava mais com os mesmos olhos de antes. Durante mais de dez anos, ele havia sido uma das raras pessoas à minha volta que jamais me viram como um esquizofrênico. Ao menos, era essa a impressão que eu tinha. Mas agora, de repente, eu reconhecia aquele véu distante no olhar dele, a condescendência afetada que as pessoas boas destinavam a criaturas da minha espécie. Um constrangimento de estranho.

Boa-noite, senhor De Telême. Desculpe-me... Eu... Eu es­tou completamente hipnotizado. Sabe, esta música... A música...

Sim?

Acho que é bem mais eficiente do que a linguagem.

Do que está falando?

Dei de ombros. Existem sensações que não se pode traduzir em palavras.

O blues, é como uma comunhão, não acha?

Ora, Vigo, foi para me dizer esse tipo de besteira que me fez vir até aqui?

Eu sorri. Já era tempo de descer à Terra. François de Telême não estava a fim de filosofar. Não havia nem mesmo dado uma olhada nos músicos. Com as duas mãos em cima da mesa, pare­cia estressado, com pressa de liquidar o assunto.

Não, não, sinto muito —- disse eu, endireitando-me na cadeira. — Não. Tem razão. Eu... Estou com problemas, senhor De Telême.

Nesse instante, o proprietário da casa noturna, um tal de Gérard, chegou para nos cumprimentar. Estava acostumado a nos ver por lá, De Telême e eu, e havíamos conversado em várias ocasiões. Era um sujeito meio extravagante, que tinha o ar empolgado e impaciente dessas pessoas que não terminam as fra­ses e que desaparecem assim que você lhes dá as costas. Jamais mudava o visual: óculos em meia-lua, um velho jeans já gasto, um casaco azul e pequenos tênis brancos. Entusiasmado, admi­nistrava a boate com paixão e lutava para prestar homenagem ao blues puro e autêntico, afro-americano, remando contra a maré. Fazia da programação musical o que se faz na política, com panfletos, entusiasmo e palavras pesadas. Eu gostava dele, por instinto.

Vocês vão ver, hoje à noite a música é dos diabos, ele está completamente pirado — disse, antes de voltar para trás do con­sole de mixagem.

De Telême olhou-o afastar-se, depois se virou novamente para mim.

Bom, Vigo, diga-me, o que aconteceu com você?

Hesitei. Não queria contar toda a minha história. Só precisa­va de reconhecimento.

Há quanto tempo trabalho na sua empresa, senhor De Telême?

Ele franziu o cenho.

Já se encheu, é isso?

Não, de jeito nenhum! Quero simplesmente saber há quan­to tempo trabalho na Feuerberg...

Ora... Sabe tão bem quanto eu, há quase dez anos.

Dez anos? Verdade? E fui lá todos os dias da semana, esse tempo todo?

O meu patrão sacudiu a cabeça.

Mas o que são essas perguntas estapafúrdias, Vigo?

Eu... Eu já não estou muito seguro das minhas lembran­ças, senhor. Eu fui mesmo durante dez anos ao seu escritório?

Foi, é claro!

Meneei a cabeça. Ele parecia sincero. Bom. Já era uma coisa concreta. Feuerberg. O meu trabalho. Uma coisa tangível. A rea­lidade. Certo.

E já viu os meus pais? — perguntei, timidamente.

Ele pigarreou. Parecia cada vez mais embaraçado.

Não. Não, nunca os vi. Mas você me falou muito deles...

Diga-me, sinceramente: tem certeza de que os meus pais existem?

O homem ficou perplexo por alguns instantes. Ele me olha­va fixo. Havia alguma coisa na sua atitude, alguma coisa que eu não gostei. Um plano, um estratagema.

Ouça, Vigo, você passou por um choque bastante sério, acho que precisa de ajuda...

Eu me afundei na cadeira. Precisa de ajuda. Não era o tipo de frase que eu queria ouvir dele.

Por que me diz isso? — perguntei num tom seco.

Pois bem, você estava no atentado, não estava?

Quem lhe disse?

Ninguém! Simplesmente, sei que você ia à Défense às segundas-feiras de manhã e, desde aquele dia, não tivemos mais notícias suas... Deduzi que você estava lá... Não esteve?

Soltei um suspiro. Havia sido eu quem pedira para ele ir até lá. Era eu quem devia fazer as perguntas!

Senhor De Telême, por isso mesmo, diga-me, o que eu ia fazer na Défense, todas as segundas-feiras?

Ia ver o seu psiquiatra!

Por quê?

Como assim, por quê?

Por que vou ver um psiquiatra?

Porque... Enfim, sabe perfeitamente por quê, Vigo!

Diga. Preciso ouvi-lo dizer.

Ele fez uma pausa. A sua expressão tornou-se menos dura. Ele estava aborrecido.

Porque sofre de esquizofrenia.

Verdade? Acha que sou realmente esquizofrênico?

Ele mordeu os lábios. Senti que estava arrependido de ter ido ali e que queria ir embora. Olhava constantemente em volta, como se quisesse escapar. Como se eu lhe metesse medo.

Vigo, você precisa de ajuda. Tem de voltar ao seu psiquia­tra e, depois, voltar ao trabalho. Precisa... precisa recuperar a vida normal.

Nunca tive uma vida normall

Antes, você estava bem melhor. Está passando por uma crise, Vigo, não é a primeira e, sem dúvida, não será a última, mas deve tratar-se e...

Eu o interrompi:

Diga-me, François... Acredita mesmo que o meu sobreno­me seja realmente Ravel? Quero dizer, Ravel, é grotesco, não? É o sobrenome de um compositor! E Vigo? Isso é realmente um nome?

O senhor De Telême segurou as minhas mãos por cima da mesa com um ar paternalista. Atrás de nós, o bluesman iniciou um clássico de Willie Dixon.

Vamos, acalme-se, Vigo, acalme-se. Precisa raciocinar um pouco e dar a volta por cima. Voltaremos a falar sobre isso com calma, quando tiver consultado o psiquiatra, está bem? Enquanto isso, precisa relaxar. Você está exausto, meu caro. Quer que eu vá buscar uma bebida?

No mesmo instante, quando estava a ponto de aceitar, eu os vi entrar. Os dois caras de agasalho cinza. Do outro lado da sala, à luz avermelhada da entrada. Impossível enganar-me, eram eles, realmente. E procuravam-me com o olhar.

Soltei imediatamente as mãos do meu patrão e inclinei-me sobre a mesa, enfiando a cabeça nos ombros. Havia muita fuma­ça na boate e estava escuro. Eles ainda não tinham me visto.

Dê-me as chaves do seu carro! — disse eu, olhando para o meu patrão direto nos olhos.

Como? Isso, não!

Preciso sair imediatamente! Dê-me as chaves do seu carro!

Você está delirando totalmente, Vigo! Não tem nem habi­litação!

Eu me aproximei dele e apertei-lhe os braços. Gotas de suor escorriam pela minha testa. As minhas mãos tremiam. Senti na língua o gosto familiar do pânico.

Ouça, François, tem dois caras que me perseguem — disse eu, apontando-os. — Eles... Eles me perseguem desde o atentado. Por favor... Tenho de sair daqui, dê-me as chaves do seu carro!

O senhor De Telême lançou um olhar para a entrada. Depois, fitou-me parecendo perturbado.

Vigo... Eu...

Ele fez uma careta. Alguma coisa não se encaixava. O seu olhar fugidio...

Vigo, essas pessoas não lhe querem mal. Querem ajudá-lo, como eu.

A resposta do meu patrão me gelou o sangue. Levei algum tempo para me conscientizar do que significava, e, quando real­mente compreendi, fiquei imensamente chocado. Não havia dúvida. Ele também estava envolvido. François de Telême esta­va envolvido! Desde o começo. E, com certeza, havia sido ele quem levara os caras até ali! O canalha me havia traído!

Não perdi um segundo a mais. Fora de mim, pulei da cadei­ra e agarrei De Telême pelo colarinho. Vi o terror nos olhos dele. Puro terror. Eu não estava errado. Ele estava mesmo com medo de mim. Apalpei os bolsos do casaco dele, depois os da calça e acabei encontrando o chaveiro. Ele ficou tão surpreso, ou apavo­rado, que nem se debateu. Empurrei-o para trás, para a cadeira, e precipitei-me para a direita do palco. Sabia que ali havia uma porta que levava ao escritório do andar térreo. O dono da boate levara-me lá um dia, para que eu ouvisse velhos discos de blues. Era a minha única chance.

Encurvando as costas, passei em frente ao palco num passo rápido, deixando o meu patrão atônito para trás. Vi, então, que os dois sujeitos me haviam localizado. Eles avançaram na minha direção.

Algum problema, meu caro?

Levei um susto. Era Gérard, o proprietário. Ele me agarrou pelo ombro e me encarava, desconfiado. Decidi contar-lhe. Na verdade, não tinha escolha e ele sempre me parecera um bom sujeito.

Aqueles dois caras estão atrás de mim — disse eu aponta­do os dois molossos.

Gérard deu uma olhada na direção deles e anuiu:

  1. Siga-me! — disse, puxando-me pelo braço.

Comecei a correr atrás dele. Nós nos esgueiramos entre as

cadeiras. Alguns freqüentadores gritaram. Virei uma mesa e por pouco não caí. A música continuava, ensurdecedora. Contor­namos o palco e o proprietário me fez passar pela porta do escri­tório. Trancou-a depois que passamos.

-— Desça por ali, rápido! Vou pedir que o segurança os detenha.

Balancei a cabeça.

— Obrigado!

Sem esperar, despenquei pela escada a toda a velocidade, atravessei correndo a desordem indescritível do escritório e che­guei rapidamente em frente à grande porta coberta de cartazes e pôsteres. Entreabri-a e, com todo o cuidado, examinei a rua com o olhar. Ninguém. Saí, e depois de alguns metros localizei o Porsche do senhor De Telême, estacionado na calçada em fren­te. Não podia me enganar: por diversas vezes, o meu patrão me fizera subir no seu bólido de que tanto se orgulhava. Um 911 dos anos 1980. Atravessei, desativei o alarme e entrei no carro.

Você não sabe dirigir, Vigo.

Enfiei a chave de contato no dispositivo de segurança, à esquerda do painel, e pus as mãos no volante. Meus dedos crisparam-se no couro preto. Virei a cabeça duas vezes para des­contrair a nuca. Então, ouvi os gritos dos dois sujeitos na rua. Olhei para a entrada do Quai du Blues. Eles estavam do lado de fora e já corriam na minha direção.

Você não sabe dirigir, Vigo.

Virei a chave. O seis cilindros roncou alto. Apertei a embreagem e engatei a primeira.

Você não sabe dirigir. Sobretudo um carro desses!

Fechei os olhos e deixei-me levar pelo instinto. Acelerar.

Os pneus cantaram, a propulsão fez o carro arrancar a toda, derrapar ligeiramente; corrigi o carro e o pus no prumo. Em se­guida, afastei-me da boate de blues. No retrovisor, vi os dois per­seguidores desistirem da corrida, sem fôlego. Virei na primeira rua à direita, depois em outra e não demorei a sair da ilha de Jatte, muito acima da velocidade permitida.

Sei dirigir muito bem.

Não me chamo Vigo Ravel, não sou esquizofrênico e sei dirigir muito bem.

Caderneta Moleskine, anotação n°. 137: recordação.

Estou num carro, na parte de trás. Não sei aonde ele vai, onde está, quem eu sou. Duas pessoas estão sentadas na frente. Não as conheço. São apenas silhuetas vagas, sem rosto.

O cenário desfila do lado de fora, incerto. Um campo, acho eu: há vegetação. O céu está cinza. Até mesmo branco. Talvez o mar estenda-se ao longe, sombrio e encapelado.

Uma mosca não para de pousar no meu braço. Todas as vezes que a espanto, ela volta. Irrita-me. Voa devagar, como em câmara lenta, bate no vidro e sempiternamente volta a pousar em mim. Enoja-me. Não consigo matá-la. Eu a espanto várias vezes, em vão.

As pessoas discutem na frente do carro. A que dirige está com raiva. Não sei por quê. Apenas ouço a voz dela e vejo os gestos bruscos.

O carro para, de repente. Ouço o chiar dos pneus nos cascalhos ou, talvez, na areia.

A recordação para por aí.

Depois de passar por vários cruzamentos, recuperei um pouco a calma. Na realidade, estava tão surpreso de ser capaz de dirigir que, praticamente, havia esquecido o resto.

O subúrbio estava especialmente calmo àquela hora. Alguns raros pedestres noturnos passeavam ao longo das grandes aveni­das arborizadas. Via-se, a perder de vista, o alinhamento dos sinais vermelhos que pareciam corresponder a um ritmo hermético. A cidade tinha inteligência própria. Melhor para ela.

Perdi-me nos meus pensamentos e não vi mais o tempo pas­sar. Onde e quando havia aprendido a dirigir? E a dirigir rápido ainda por cima! Um Porsche! Não tinha a menor lembrança de ter segurado, algum dia, um volante nas mãos; provavelmente, isso datava de antes da minha amnésia retrógrada. Tentei, em vão, encontrar a origem dessas sensações. A extremidade da ala­vanca de câmbio na mão, o apoio de cabeça na nuca... Eu tinha a impressão de sempre ter conhecido isso, sem, no entanto, lem­brar-me de uma única ocasião.

O meu hotel não estava muito longe. Pus um fim na minha introspecção e, com um gesto automático, liguei o rádio. Fiz as freqüências desfilarem para encontrar informações. Dei com a voz monótona de um especialista que falava sobre a eventual implicação do movimento Al-Qaeda nos atentados de 8 de agos­to. ... inúmeros indícios apontam para a organização islâmica arma­da de Osama bin Laden. O ministro do Interior, Jean-Jacques Farkas, afirmou hoje de manhã que várias células da Al-Qaeda estão há muito infiltradas na capital e que ê muito provável que tenham organizado esses atos terroristas. Vários supostos membros da organi­zação islâmica foram interpelados esta semana em Paris e na região parisiense; a polícia informou que documentos suspeitos foram apreendidos e estão sendo analisados...

Desliguei o rádio e soltei um suspiro. Eu ouvira os colocado- res das bombas. Ao menos, havia escutado os pensamentos de um deles. Mas isso não me ajudava em nada. Eu não poderia dizer, de acordo com o que ouvira, se se tratava ou não de um terrorista islâmico e, de qualquer jeito, não tinha a certeza de poder fazer alguma coisa!

Estava começando a estacionar o carro em frente ao hotel quando notei um homem que parecia esperar na entrada. Levado pela minha paranóia, decidi continuar mais à frente. Era quase meia-noite e nunca vira esse sujeito no bairro. Usava um blusão grosso de aviador e não parecia simpático, com as mãos nos bol­sos e a cabeça enfiada entre os ombros.

Dei meia-volta na rotatória e passei mais uma vez em frente ao hotel. O sujeito estava com o telefone celular no ouvido e esti­cou a cabeça para tentar me ver quando passei. Eu o vi dar alguns passos na rua, depois acelerar desligando o telefone. Corria na direção do meu carro.

Pisei imediatamente no acelerador e fugi. O desgraçado do De Telême havia informado o meu esconderijo. Não lhe devia ter dito em que hotel estava hospedado.

Voltei a subir rapidamente o bulevar e virei na praça do Marechal Juin, depois virei em várias ruazinhas. Quando tive certeza de que não estava sendo seguido, recuperei a calma e peguei o telefone. Só tinha um último recurso.

Agnès atendeu a ligação com voz sonolenta.

Você viu que horas são, Vigo?

Sinto muito. Não sei mais a quem pedir ajuda. Estou com um grande problema, Agnès.

Mas o que está acontecendo, droga?

Estou sendo seguido por uns caras. E, depois, aconteceu uma coisa estranha no hotel. Tenho de lhe mostrar. Para que você me diga o que acha. Tenho a impressão de que estou fican­do totalmente louco, Agnès. Você tem de me ajudar.

Tenho de ajudá-lo?

Você podia me ajudar...

Ouvi-a suspirar.

Como se eu já não tivesse problemas suficientes! — res­mungou ela.

Eu não soube o que responder. Afinal, ela tinha razão. Com que direito eu pedia ajuda a essa mulher que eu mal conhecia?

Contudo, "mal", para mim, já era muito. Porque eu tinha a impressão de não conhecer mais ninguém. Apenas eu.

Os meus problemas farão você esquecer os seus — arris­quei, sem acreditar muito no resultado.

Bom, Vigo, você conhece o Wepler?

Na praça Clichy? Conheço...

Em quanto tempo pode chegar lá?

Num quarto de hora.

Então, até já — soltou, com voz cansada. E ela desligou.

Caderneta Moleskine, anotação n°. 139: a revolução copérnica.

Do lado de fora, pela janela, ouço um sujeito que passa canta­rolando uma música que conheço. As palavras ressoam por entre as paredes da ruela estreita e me dão uma dessas piscadelas que a vida nos reserva quando gostamos de escutá-la. "No povoado sem pre­tensão, tenho má reputação, quer eu me agite, quer eu fique quieto, eu sou um joão-ninguém..." Às vezes tenho a impressão de ter esse chapéu cheio de furos e uma barba de Robinson. Espero calmamente que me atirem pedras, isso deixa a pele dura. Os asilos estão cheios de joões-ninguém. E, no entanto...

A síndrome de Copêrnico deve o seu nome à certeza que ele tinha de estar de posse de uma verdade capaz de mudar a ordem do mundo — admitindo que houvesse uma — e, ao mesmo tempo, da recusa dos seus contemporâneos em levá-lo a sério. É fácil ver desenharem-se todos os sutis ingredientes para o desenvolvimento de uma perfeita paranóia. Acredite, estou começando a aprender a receita.

Mas eis o que se passou: em que Copérnico acreditava tanto? Eu pesquisei. Sim. Nos dicionários.

Antes dele, a Igreja e as ciências aceitavam uma visão do Uni­verso estabelecida no século II por um certo Ptolomeu. Esse geógrafo havia escrito Almagesto no ano 141, um tratado sobre o "geocentrismo", que permaneceu como palavras do Evangelho — peso as minhas palavras — até a Renascença. Segundo ele, a Terra era o centro de tudo, era fixa, e os planetas giravam tranqüilamente em volta dela — além do mais, numa ordem diferente da que conhecemos atualmente: a Lua era a mais próxima, depois Mercúrio, Vênus, o Sol, .Marte, Júpiter e Saturno. Como não se podia deixar de notar um monte de objetos celestes brilhantes e extremamente pequenos, ficou estabelecido que existia uma esfera bem mais afastada que carregava sozinha todas as estrelas do céu, supostamente fixas. E isso aí. As coi­sas eram assim, todo mundo estava tranqüilo, e atenção quem expres­sasse a menor dúvida: essa visão, por sorte, estava em total acordo com a última versão da Bíblia.

Infelizmente, no século XVI, Copérnico estabeleceu uma teoria radicalmente diferente... Esse astrônomo aventureiro afirmou, de cabeça erguida, que a Terra não era o centro do Universo, mas sim que ela girava, como os outros planetas, em volta da sua estrela: o Sol. Esse foi o nascimento do que mais tarde foi batizado de visão "heliocêntrica" do Universo. Como se isso não bastasse, o louco do Copérnico sustentou, além do mais, que a Terra também girava em torno de si mesma.

A teoria de Copérnico era sustentada por simples constatações para quem quisesse erguer um pouco a cabeça. A rotação da Terra sobre si mesma justificava sem dúvida que se constate o movimento diário do Sol, da Lua e das estrelas; e a revolução da Terra em torno do Sol permitia compreender o movimento anual dela, as estações... Acredita-se, porém, que isso não tenha sido suficiente para convencer. Os contemporâneos de Copérnico não acreditaram numa só palavra, e a Igreja ficou chocada com uma teoria tão blasfematória.

Até o século XVII, o heliocentrismo só conseguiu a adesão de uma dezena de cientistas, entre eles o italiano Galileu Galilei — que recebeu uma severa condenação —, o alemão fohannes Kepler e o filósofo Giordano Bruno.

Foi preciso esperar o fim do século XVII e a elaboração da mecânica celeste por Isaac Newton para que aceitassem a evidência: o idiota do Copérnico tinha razão!

Sentado numa mesa da grande cervejaria vermelha, olhar perdido no vazio, eu tentava imaginar o rosto de todos aqueles que haviam apoiado os cotovelos sob o mesmo teto, Picasso, Apollinaire, Modigliani... Sempre gostei do ambiente Anos Loucos dessas grandes salas parisienses onde o barulho me protege dos pensamentos invasores do mundo do lado de fora. Há o tango dos garçons do café, o burburinho dos consumido­res, o eco dos tetos altos; rapidamente nos tornamos invisíveis e logo nos sentimos em casa. Na realidade, os bares deveriam ser reembolsados pela Seguridade Social. As suas banquetas de couro, às vezes, são mais eficientes do que os divãs dos psi­cólogos e um uísque puro sempre custa mais barato do que uma consulta.

Eu já começava a me dizer que Agnès havia desistido de vir me encontrar, quando a vi aparecer na outra ponta do Wepler. Usava um jeans preto e um casaco vermelho colado nos magros quadris. O cabelo castanho estava ligeiramente despenteado. Eu lhe fiz um gesto com a mão. Ela veio sentar-se na minha frente.

Então? O que aconteceu com você, Vigo? O que vale a felicidade de sair da cama a esta hora da noite?

Eu lhe dirigi um olhar confuso. Não sabia por que a havia escolhido, que força inexplicável me levava a entrar de cabeça num encontro sem precedentes. Isso não fazia o meu gênero. Entregar-me assim a uma desconhecida. Mas saberia realmente qual era o meu gênero? Talvez houvesse simplesmente pressenti­do que ela era a minha última chance, o meu último recurso para manter uma ligação com o real. Tudo havia desabado à minha volta, tudo, exceto essa luz de esperança: encontrar nesta mulher uma alma irmã — uma irmã apenas — cuja ajuda e o olhar bas­tariam para me convencer de que eu não estava completamente louco. Era ousado, mas eu não tinha nada além disso.

Agnès, preciso me abrir. Mas não sei se vai acreditar em mim.

Ela deu uma olhada em volta, como se tivesse medo de que nos ouvissem ou nos vissem juntos.

Acreditar em você a respeito de quê?

Acreditar em mim, simplesmente.

Ela deu de ombros.

Quero tentar.

Acreditou quando eu disse que havia escutado os seus pensamentos?

Ela me encarou, muda, depois remexeu na bolsa e acendeu nervosamente um cigarro. Pela primeira vez seu olhar se tornou fugidio. Insisti:

Acreditou em mim?

Eu... Eu não sei. Confesso que me deixou perturbada.

Com o cotovelo apoiado na mesa, ela soltou uma baforada de fumaça, depois se virou para mim, com um olhar falsamente malicioso.

Ouça, não sei, talvez você apenas tenha adivinhado o que eu pensava... Um golpe de sorte.

Ela resistia. Eu não podia guardar rancor. É difícil admitir o inadmissível. Aproximei-me dela e falei de novo, com voz mais baixa, porém mais premente:

Eu teria adivinhado, sem mais nem menos, que me com­parava com o seu tio? Seria uma maldita coincidência, não acha?

Ela fez uma careta e certificou-se novamente de que ninguém nos ouvia. O barman e os garçons estavam muito ocupados, ape­sar da hora tardia, para prestarem atenção.

Sim, uma maldita coincidência... Mas sejamos realistas, como poderia...

Ela baixou sensivelmente o tom de voz:

... como poderia ouvir os pensamentos das pessoas, Vigo? Essas coisas não existem! Deve haver uma explicação racional. Sinto muito, mas não acredito no sobrenatural, nos médiuns, em todas essas idiotices!

Nem eu, Agnès! No entanto, tenho de aceitar a evidência: de uma forma ou de outra, em alguns momentos, ouço o pensa­mento das pessoas que estão à minha volta.

Ela sacudiu a cabeça.

Você se dá conta do que está dizendo? É... É simplesmen­te... Surrealista!

Mas é o que acontece comigo. Na verdade, deve haver uma explicação racional. E, acredite, eu queria muito conhecê-la.

Ela franziu as sobrancelhas, depois deu outra tragada no cigarro. Foi a minha vez de acender um, como se a barreira de fumaça que soltávamos na nossa frente pudesse erguer um véu pudico entre nossas duas perplexidades.

No mesmo instante, um garçom aproximou-se.

Posso servir-lhe alguma coisa, senhora?

Ela deu uma olhada no meu copo de uísque.

A mesma coisa — disse ela.

O garçom concordou com a cabeça e trouxe rapidamente a rebida. Ficamos calados alguns minutos, constrangidos. Agnès dava um gole de tempos em tempos, depois fazia o uísque girar "o fundo do copo, com ar sonhador.

Ainda a olhava, quando a dor de cabeça tomou conta de mim. Fiz uma careta, depois esfreguei nervosamente a testa. Estava molhada de suor.

Agnès virou-se para mim, endireitando-se na banqueta. Minha visão começou a turvar-se.

Diga-me, Vigo, você...

Ela interrompeu a frase:

Eu o quê? — insisti, com voz trêmula.

Ela fez uma cara embaraçada. Achava difícil formular o que estava a fim de perguntar. Adivinhei por quê.

Bom... Está tudo bem?

Enxuguei outra vez o rosto. Eu via o mundo em dobro dian­te de mim. Era como dois filmes totalmente idênticos, um ao lado do outro.

Está ouvindo os pensamentos, agora?

Eu já previa essa pergunta, mas não estava certo de querer dizer a verdade. Tinha medo de que ela me tomasse por louco ou, pior, por um monstro, um animal de exposição. Mas preci­sava que confiasse em mim.

Estou — murmurei.

Ela franziu o cenho.

Ah, é? E o que ouve?

A minha dor de cabeça ficou mais intensa.

Ouço a confusão dos seus pensamentos, Agnès.

Ela deu um sorriso nervoso.

Não tem nada de especial adivinhar que estou um pouco confusa!

Ouço bem mais do que isso. E... E, aliás, acabei de com­preender uma coisa a seu respeito.

É? O quê?

Pigarreei. Agarrei-me à mesa em frente. A sala inteira balan­çava à minha volta. Tinha de me manter concentrado. E dizer a ela.

Eu nunca havia pronunciado esse tipo de coisa. Nunca acei­tara levar em consideração essas impressões secretas, esses mur­múrios nebulosos que me chegavam como ondas repentinas. Nunca aceitara traduzi-los e, menos ainda, repeti-los a alguém. No fundo, ao revelar o que ouvia na cabeça, eu tinha a impres­são de violentar Agnès, de roubar a sua intimidade e de ter de admiti-lo. Estava especialmente constrangido. Mas o único meio de convencê-la era não mentir. A minha crise atingira o seu paroxismo. Eu estava enjoado, mas precisava resistir. Precisava falar. Precisava que ela soubesse.

Quando você me disse que exercia uma profissão difícil, no café, achei que era professora. Mas, agora, eu sei. Acho que entendo melhor quem você é, porque ouço nas suas angústias e nos seus questionamentos os ecos cheios de sinais.

Verdade? E, então, quem eu sou? — perguntou ela num tom que me pareceu próximo do desafio.

Você... Você é da polícia, não é?

Vi a imagem desfocada do rosto dela crispar-se. Fechei os olhos e continuei. Os seus pensamentos me chegavam como ondas sucessivas. Era só deixá-los me ditar as poucas frases...

Você é da polícia e está se perguntando se deve acreditar em mim ou mandar me prender... E agora, você se pergunta se eu pude ver a sua identificação de policial na sua carteira ou se faço investigações a seu respeito. 541 329. Está pensando nesse número. E agora questiona se estou lhe pregando uma peça para impressioná-la. Você está começando a ficar com medo... E agora se pergunta se trouxe a carteira, se não a esqueceu no seu apar­tamento... E, depois... Medo, confusão... Muitas, muitas coisas. O seu marido...

De repente, as vozes pararam. A dor de cabeça desapareceu tão depressa quanto havia chegado.

Abri os olhos e olhei para Agnès, confuso. Ela estava lívida, petrificada. Mordi os lábios. Estava arrependido. De repente, ela se levantou, deu meia-volta e foi em direção à saída do Wepler em passos rápidos, sem nem me olhar.

Voltando a mim, paguei a conta rapidamente e fui atrás dela.

O XVIIIe arrondissement ainda resplandecia de luz àquela hora da noite. Dei alguns passos na calçada e logo a vi, sentada ao pé da estátua do marechal Moncey, com a cabeça entre as mãos.

Atravessei a rua e me reuni a ela num passo hesitante.

Sinto muito se lhe causei medo, Agnès.

Ela ergueu a cabeça na minha direção. Olhou-me com um brilho de pavor nos olhos. Exatamente o que eu temia: ela me via como um monstro.

Posso me sentar ao seu lado? — perguntei, timidamente.

Ela não respondeu. Considerei como um sim. Mas, quando ia me sentar, ela se ergueu de um pulo e deu um passo para trás. Queria, claramente, manter certa distância entre nós. Era com­preensível.

Vigo, eu... Você tem de consultar especialistas. É preciso avisar alguém... É preciso... Não sei... Mas não é a mim que se deve confiar...

Não posso, Agnès. Alguns homens me seguem e...

Justamente por isso, deve procurar ajuda!

Enfiei as mãos nos bolsos, embaraçado.

E aí... acredita em mim? — perguntei com voz trêmula.

Eu... Eu não sei. Isso é... espantoso!

Não podia dizer o contrário. Além de tudo, não sabia mais o que dizer. Abatido, decidi finalmente me sentar aos pés da está­tua. Agnès olhou-me, suspirou, depois se sentou ao meu lado. Ficamos por muito tempo sentados bem no meio da praça Clichy, ridiculamente mudos, as nossas angústias embaladas pelo rom-rom dos motoristas noturnos. Quando o silêncio se tornou muito constrangedor, peguei o envelope que havia guardado no bolso e lhe entreguei.

Veja o que encontrei no hotel.

Ela hesitou, depois abriu o envelope e leu o pequeno bilhete que estava dentro. Devolveu-o, bestificada.

Mas o que é isso? Do que ele está falando?

Não tenho a menor idéia.

É uma história louca — murmurou. — Uma história louca! Não pode manter isso em segredo...

Por isso eu queria falar com você...

Mas não é comigo que tem de falar! Não pode deixar de contatar as autoridades competentes. Você ainda não percebeu!

Agnès, não quero falar com quem quer que seja por enquanto. Não confio em ninguém.

E em mim, você confia?

Confio.

Ela arregalou os olhos.

Mas não vejo por quê, Vigo! Mal nos conhecemos! Não passo de uma simples funcionária da polícia e, além do mais, meio depressiva! Não posso fazer nada para ajudá-lo. A sua histó­ria é demais para mim. E, para dizer a verdade, ela me dá medo. Tem de falar com pessoas mais capacitadas para ajudá-lo...

Não. Confio em você, Agnès, só em você. Por favor, tem de respeitar isso. Primeiro, tenho de compreender o que aconte­ce comigo, e acho que pode me ajudar, porque acredita em mim e porque... Porque também acredito em você. Acredito que seja real. Você é a única realidade que me resta.

Isso é asneira! Você não me conhece! Nós nos cruzamos duas vezes na psicóloga e tomamos um café juntos! Não vejo, na verdade, o que justifique essa confiança que tem em mim.

Essas coisas não se explicam, Agnès.

É totalmente ridículo! Não é porque tem a impressão de ter não sei o quê, de estarmos conectados ou alguma idiotice do gênero, que deve contar comigo para sair dessa. Não vejo o que posso fazer por você.

Acreditar em mim.

Mas, com as provas que tem, as autoridades também podem acreditar em você, não precisa de mim.

Pode ser, mas eu não vou acreditar nelas. Pode atribuir isso à paranóia, se quiser, mas vejo inimigos por todo lado.

Isso é estúpido! O mundo inteiro não está unido contra você, Vigo! Não pode sair dessa história sozinho e, visivelmente, outras pessoas estão envolvidas. Esta carta anônima... É preciso investigar. E o seu estado... Cientistas precisam descobrir a ver­dade sobre o seu estado...

Não, Agnès. Consultei psiquiatras durante anos. Isso nunca serviu para nada. Quanto às autoridades, não conseguirei acreditar nelas. Com esses caras que estavam prestes a me atacar na Défense, agora desconfio de todo mundo. Não posso confiar em ninguém. Só em você.

Mas você tem família, amigos...

Não. Os meus pais desapareceram, o psiquiatra parece que nunca, existiu, se eu acreditar nas pessoas que estavam na Défense depois do atentado. Quanto ao meu patrão, nitidamen­te, ele está no mesmo time dos sujeitos que me perseguem há vários dias.

Ela sacudiu a cabeça.

Ouviu o que disse? No mesmo time!

Ela soltou um longo suspiro, depois me olhou direto nos olhos.

Como quer que o ajude? — perguntou com uma voz mais calma.

Não sei. Queria, ao menos, tentar compreender como tudo isso aconteceu comigo. Onde estão os meus pais. Para onde foi o psiquiatra que me acompanhava. Por que a clínica dele não apa­rece na lista das empresas da torre SEAM. Quem são os sujeitos que me perseguem, por que o meu patrão os pôs no meu encal­ço. Quem escreveu esta carta anônima e o que ela quer dizer. Como posso ser perfeitamente capaz de dirigir um carro, quan­do não me lembro de já ter feito isso um dia? Tenho de encon­trar resposta para todas essas perguntas! Você é da polícia, deve poder me ajudar, não?

Ela ergueu os olhos para o céu.

Não, você está delirando! Não acha que vou responder a todas essas perguntas! Pensa que está num filme? Seria muito mais simples confiar nas autoridades.

Pela última vez, Agnès, não quero! Não por enquanto. Vamos, me ajude! Apenas alguns dias. O tempo suficiente para ver se sou louco ou se existe alguma trama por trás dessa histó­ria! Por favor... Preciso de alguém que acredite em mim e me apoie.

Ela respirou fundo, nervosa, exasperada. Mas eu podia sentir a sua emoção. O que ela mais temia não era me ajudar, e sim, ao fazê-lo, ter de admitir que a minha história era verdadeira. Que eu realmente ouvia o pensamento das pessoas. Isso demandava um esforço de submissão ao impensável, que a aterrorizava. No entanto, ao mesmo tempo, ela tinha pena de mim.

Acho isso completamente idiota, Vigo.

Pode ser, mas não posso continuar a ser a vítima ingênua de tudo o que me acontece.

Ela concordou.

Então, me ajude.

Agnès fechou os olhos, como se já se arrependesse do que ia dizer.

Bom. Vou tentar — cedeu finalmente. — Porém, um ou dois dias, não mais. O tempo para separar o verdadeiro do falso na sua história e montar um dossiê para, em seguida, ir ver as autoridades. Combinado?

Concordei lentamente com a cabeça, sem ousar expressar a minha emoção. Na realidade, ouvir essas palavras era, para mim, um grande alívio! Como se um peso enorme fosse tirado dos meus ombros. Eu havia encontrado a mão estendida com a qual tanto sonhara. Não estava mais totalmente sozinho... Não mais totalmente sozinho.

Bom, já é tarde — disse ela, levantando-se. — Quero vol­tar para a cama.

Claro.

E você, o que vai fazer? — perguntou, limpando a poeira do casaco.

Não sei. Não posso voltar para o meu quarto do hotel. Quando quis voltar há pouco, um sujeito estava de vigia, na entrada.

Tem certeza de que não está se deixando levar pela para­nóia?

Tenho — respondi, sorrindo. — Tenho certeza. Ele cor­reu na minha direção quando me aproximei.

Entendo. Bom, venha dormir na minha casa, se quiser, há um sofá na sala. Mas só por essa noite, está bem?

E o seu marido, não vai achar estranho?

Ele foi embora. Não leu isso nos meus pensamentos? — perguntou ela, com um sorriso zombeteiro.

Não. Tentei não escutar. E, depois, sabe... Eu... Eu não ouço todo o tempo. Felizmente. Mas o seu marido foi embora... embora?

Foi embora, embora.

Olhei a mão dela. Havia tirado a aliança. Eu não era o único cuja vida entrara num turbilhão. Há momentos assim... E não somente nos filmes. Na vida, na verdadeira. Eu me levantei tam­bém e nos afastamos, lado a lado, da praça Clichy.

O apartamento de Agnès ficava oculto sob os telhados de um velho imóvel da rua Batignolles. Era um pequeno três-peças e ela precisaria ao menos de mais duas para todos os móveis e objetos amontoados lá, numa desordem espantosa. Eu me perguntei quantos anos eram necessários para acumular tamanha confusão. Eu nunca poderia viver num ambiente desses, mas não me sur­preendi de encontrar uma certa estética do caos. O acúmulo de bibelôs, de livros e de revistas, de velas, de velhas luminárias, de quadros, de vasos e de uma miríade de utensílios insólitos for­mava, no final, um verdadeiro cenário que, misteriosamente, dava a aparência de uma secreta coerência.

Desculpe, está meio zoneado... Ficará mais apresentável quando Luc vier buscar as coisas dele.

Eu podia sentir o seu embaraço. Eu mesmo não me sentia à vontade. Perguntei-me se não era a primeira vez na vida que entrava assim, sozinho, na casa de uma mulher...

Aí está, pode se instalar ali — disse ela, apontando-me o sofá laranja que estava do outro lado da sala. — Amanhã vou tra­balhar muito cedo. Tentarei fazer pesquisas sobre os seus pais na delegacia, certo?

É realmente gentil da sua parte...

Vou fazer o que puder. Diga-me apenas tudo o que puder a respeito deles.

Eu me esforcei ao máximo para falar sobre Marc e Yvonne Ravel, sobre o que sabia da vida deles e do que sempre me haviam contado. Mencionei a casa que alugavam nas férias, o fato de os dois terem trabalhado num ministério e todos os detalhes de que podia lembrar... Ela anotou tudo numa caderneta.

Bom, vou ver o que posso encontrar com isso. Agora, já é hora de dormir. Tem um edredom embaixo do sofá-cama, sinta-se em casa. O banheiro é ali, vou pegar uma toalha para você.

Concordei, tentando sorrir, mas, no fundo, estava completa­mente desorientado. Não estava acostumado a dormir na casa de ninguém, a ser recebido assim, menos ainda por uma mulher. Não sabia como reagir e até me perguntei se conseguiria dormir, a tal ponto a idéia de não estar em casa me angustiava.

Obrigado por tudo, Agnès.

De nada. Amanhã vou sair por volta das 8 horas. Pode sair mais tarde, se quiser. Mas não muito mais tarde, gostaria que não cruzasse com Luc, caso resolva vir buscar as coisas dele durante o dia. Bata a porta ao sair. Ligarei para você à noite para contar o que encontrei.

Combinado.

Achava difícil imaginar que tudo aquilo era real. Que aquela mulher ia realmente me ajudar, que ambos havíamos aceitado o absurdo da situação... No que se referia a mim, eu não tinha escolha.

E você, quem sabe não poderia ir a uma biblioteca ou a um cibercafé fazer algumas pesquisas, hein?

Dei de ombros.

Por que não...

Ela pareceu surpresa por eu não demonstrar mais entusiasmo.

Bom, sim! Você me disse que queria respostas para todas as suas perguntas, então deve ter interesse em se mexer, Vigo!

Quero dizer... Não saberia por onde começar...

Por exemplo, poderia tentar encontrar alguma coisa a res­peito do Protocolo 88, mencionado na carta anônima.

Está bem. Boa idéia.

Na verdade, eu estava apavorado com a idéia de fazer minha própria pesquisa, sozinho, no dia seguinte. Eu me sentia total­mente incapaz. Mas ela tinha razão. Eu precisava avançar. Já que não podia confiar em ninguém, era obrigado a buscar por mim mesmo.

Então, até amanhã, Vigo. Boa-noite.

— Boa-noite, Agnès. Mais uma vez, obrigado. Ela me deu um sorriso e desapareceu no quarto.

Caderneta Moleskine, anotação n°. 149: recordação, exa­tidão.

Estou sentado atrás de um carro. Sou eu. Sou jovem. Apenas adolescente. Ainda não reconheço as duas pessoas sentadas na frente, mas, agora, lembro-me de que se trata de um homem e de uma mulher. E tenho a certeza de reconhecer suas vozes.

É o homem quem dirige. Ele dirige depressa.

Agora, vejo distintamente o cenário que desfila do lado de fora. E mesmo o mar, ao longe, além das falésias. Um mar verde, ensombrecido pelas nuvens de um céu cinzento.

Ainda há aquela mosca que não para de pousar no meu braço. Gostaria que essa mosca teimosa, que monopoliza minha atenção e impede que eu ouça o que dizem as pessoas na frente, desaparecesse. Mas não posso fazer nada. Ela está me provocando.

Só consigo perceber a entonação das vozes. Frases voam, sobrepõem-se. Eles não conversam. Eles brigam. Ambos. Isso me irri­ta. Como a mosca. Tudo me irrita. Quero gritar. Mas é como nos sonhos em que os sons não querem sair, nesses pesadelos em que as per­nas se recusam a correr. Não posso. Não posso mudar uma recorda­ção. Não posso reescrever o passado. Sou apenas um passageiro da minha memória fraca.

De repente, o carro para. Um pouco bruscamente. Preciso segurar no banco da frente. Ouço o ruído da areia contra os pneus, depois o barulho do mar. O motorista estaciona num dique.

Descemos do carro.

Por enquanto, a recordação para por aí: no ruído surdo das por­tas que batem sucessivamente. E eu saio.

Quando acordei, levei alguns segundos para me lembrar do lugar onde estava. Senti certa tontura, uma impressão de flutua­ção, de falta de gravidade. Depois, reconheci o apartamento de Agnès. Os bibelôs, a desordem, a mesa de centro, Scorsese e Woody Allen jogados no carpete... De tanto correr, não tinha mais pontos de referência. Eu me dei conta de que sentia falta do meu quarto. Estranhamente, sentia falta da rua Miromesnil. Ali eu tinha marcas, rotinas, uma espécie de segurança... Mas eu não era mais aquele homem. Tinha de me acostumar; nada mais seria como antes. As mudanças na minha vida haviam atingido um ponto sem volta. O futuro nunca me pareceu tão incerto. O pró­prio presente me parecia vago, inacessível ou enganador.

Soltei um longo suspiro. Tinha de tentar reencarnar, voltar a ser quem eu era. Eu me ergui no sofá-cama e rememorei lenta­mente o dia anterior. Não sou esquizofrênico. Eu havia esperado, ao adormecer, que as coisas ficassem mais claras, mais aceitáveis no dia seguinte, mas não aconteceu nada disso. Ao contrário. Achei difícil recuperar a aparência de calma que eu conseguira adotar depois da conversa com Agnès. A realidade parecia-me ainda mais difícil de admitir.

Como pude contar-lhe tudo aquilo? Como ela pôde acreditar em mim? E se eu estiver enganado? E ela, será que hoje ainda acredita em mim, depois de uma noite de sono? E se me denunciar à polícia? Como pude ser tão idiota para me abrir com uma tira?

Fechei os olhos por um instante, depois os abri de novo. Ainda estava lá, no sofá-cama laranja. Por mais que fosse incom­preensível, a realidade era imutável. Não sou esquizofrênico. Preciso acreditar no que eu sei. Ou seja, não muita coisa. Não sei quem eu sou, não sei por que sou assim, não sei o que está acontecendo comigo, mas sei uma coisa: não sou esquizofrênico. Então, eu posso, eu devo confiar na minha razão. Já é um ponto de partida. É o momento de bancar o Descartes, meu caro. Fazer tábula rasa do passado. E confiar na razão.

Depois de alguns minutos de silêncio, consegui me acalmar um pouco. Escutei o ritmo regular da minha respiração e me deixei embalar pela sua exatidão. Bom. Agora, preciso levantar-me. Vestir-me. Passar pelas etapas, uma a uma. Enfrentar o dia e avan­çar na descoberta da minha nova realidade. Não posso me encerrar nessa angústia insensata.

Levantei-me lentamente, afastando os braços, como se esti­vesse com medo de perder o equilíbrio. Como se, durante a noite, a gravidade pudesse ter desaparecido. Dei alguns passos à frente e o mundo me pareceu suficientemente estável. Atraves­sei a sala e dei uma olhada no corredor. Ninguém, evidentemente. O quarto de Agnès estava escancarado. Ela saíra havia muito tempo.

O apartamento estava mergulhado num silêncio inquietante. Grandes lâminas de luz cortavam o ar às minhas costas, através da cortina da sala. Lá fora se ouvia o ronronar distante dos car­ros que começavam a invadir o bulevar des Batignolles. Eu me perguntei que horas seriam. Ergui o pulso. O meu relógio ainda piscava no 88:88. Xinguei.

Dei meia-volta e fui abrir as cortinas. Os raios de sol invadi­ram toda a sala. O apartamento não tinha a mesma aparência à luz do dia. Havia perdido o charme e ganhado a verdade crua. Não era mais uma misteriosa confusão, era simplesmente o hábitat em desordem de um homem e de uma mulher. Por todo lado eu via surgir o marido de Agnès, a realidade dele. Suas coisas, roupas, revistas masculinas... Fiquei com medo de vê-lo aparecer de repen­te no meio do dia. Como Agnès pudera me deixar sozinho ali?

Fui, imediatamente, assaltado por um sentimento de urgên­cia. Com mãos trêmulas, fechei num único gesto as cortinas da sala. O aposento mergulhou novamente numa penumbra mais tranquilizadora. Cerrei os punhos. Não podia ficar ali. Tinha de sair daquele apartamento.

Finalmente encontrei forças para agir. Apressei-me para tomar um banho e me vestir. Ao enfiar as roupas, evitava o refle­xo do meu próprio rosto no espelho do banheiro.

Voltei rapidamente para a sala, dobrei o sofá e, involuntaria­mente, já que deveria me dirigir imediatamente para a saída, me joguei nas enormes almofadas laranja, como atraído por elas. Fiquei um longo tempo olhando o teto, pensativo, dividido entre a vontade de ir embora e o medo de enfrentar o mundo lá fora. A minha razão gritava levante-se, mas as pernas recusavam-se a me obedecer.

Depois de longos minutos imóvel, senti que as forças me haviam abandonado totalmente. Baixei os olhos lentamente, desesperado. Meu olhar bateu no videocassete, enfiado de través em cima da televisão. Então, vi os quatro números verdes que piscavam no pequeno mostrador preto. Esfreguei os olhos, incré­dulo. O videocassete indicava a mesma hora do relógio! 88:88. A hora que não existe! Os quatro caracóis verdes acendiam e apa­gavam num ritmo regular e a imagem deles impregnou meus olhos arregalados. Logo tive a impressão de que os números se haviam descolado do videocassete e que flutuavam, luminosos, no meio da sala. Fechei os olhos. Mas ainda os via, imensos, avançando na minha direção, ameaçadores, como quatro gigan­tescos hologramas.

Foi nesse instante, tenho de reconhecer, que a minha crise de angústia se transformou em alucinação; o meu cérebro, sem dúvida fragilizado pelos traumas dos últimos dias, começou a sair dos trilhos.

De repente, era como se tudo adquirisse sentido, como se tudo se tornasse límpido: eu me convenci de que o tempo havia parado.

O tempo. Não o tempo dos outros ou o do planeta, só o meu. As minhas horas, os meus minutos, os meus segundos haviam parado. Simplesmente. E isso explicava tudo. Eu tinha certeza de que, de um modo ou de outro, havia entrado num círculo atemporal do qual não podia mais sair. Pensando bem, era a própria evidência. É bem verdade que eu ouvia o mundo do lado de fora, que continuava a viver, a avançar, mas eu não estava mais nele. Eu me havia extraído do tempo.

Por mais inconcebível que possa parecer, de nada serve negar a evidência. Provavelmente, não estou em condições de compreender como e por que, mas tenho de decidir. Estou fora do tempo. Seja ele absoluto ou relativo, estou fora do tempo.

É muito excitante. Talvez esteja à beira de uma nova etapa na compreensão do tempo. Além da física clássica, além da relatividade, além até da física quântica, talvez eu esteja à beira de uma nova etapa de interpretação do espaço-tempo, que será possível analisar graças ao meu estado pouco comum. Estou pronto para me submeter à analise dos físicos. Não sou rancoroso.

Em todo caso, uma coisa é inegável: aqui, onde estou, de nada adianta ter espaço e matéria, não há mais tempo matemático, men­surável. É verdade que isso põe em dúvida todas as teorias atuais e, sobretudo, a da relatividade restrita, segundo a qual o tempo e o espaço estão ligados. No entanto, hoje em dia admitimos que o tempo teria começado há treze bilhões de anos, o que subentende que ele teve um começo. Ora, se o tempo teve um começo, por que não teria um fim? Até mesmo uma pausa? Talvez eu esteja numa pausa temporal, quem sabe?

Do que eu não duvido ê que eu tenha saído da linha geométrica em que o tempo parecia ordenado. Pronto, é isso. Não estou mais na linha. Se é verdade que, numa reta, um ponto situa-se necessaria­mente antes ou depois de outro ponto, em compensação, o que dizer quando nos afastamos dessa reta?

Por outro lado, a minha experiência poderia confirmar as teorias segundo as quais o tempo é absoluto. Pois, se o tempo é absoluto, isso implica que ele não pertence ao mundo material nem ao espiritual e, portanto, que ele existiria mesmo que o mundo ou o nosso espírito não existissem. Não há interdependência. Logo, o meu espírito pode muito bem se extrair do tempo, não é isso que vai pará-lo.

Os relógios ficarão arruinados.

É absolutamente necessário que eu entre em contato com os senho­res e senhoras cientistas. Eles poderão estudar isso de perto. Quanto a mim, não posso explicá-lo de verdade. Simplesmente tomei consciên­cia, num nível superior — que não domino completamente, tenho de confessar — da evidência. O presente não existe. No entanto, é sim­ples: o instante só pode existir se ele cessar de existir. A própria fun­ção do instante ê passar; enquanto não o fizer, ele não existe, portanto, o instante não existe. O presente não existe. Tudo é passado.

Isso é deslumbrante.

Então, estou fora do tempo. É claro, isso é bem extraordinário, até mesmo inacreditável. Mas acho que aceito bem a coisa. No fundo, é quase tranquilizador.

Eu me pergunto.

Merda de videocassete.

Bom-dia, como você me vê, estou preso fora do tempo. Deve ser um fenômeno físico totalmente inexplicável. Uma espécie de transbordamento, de deslizamento. Muito raro, sem dúvida. Mas não se pode dizer que isso me surpreenda, com tudo o que aconteceu de estranho. Tem de haver uma explicação racional. Uma boa razão. E agora, ao menos, sei o que ocorre comigo. Simplesmente eu saí do tempo. Nada de esquizofrênico. Fora do tempo.

Veja. Além do mais, posso verificar.

Um, dois, três.

Aí está. Não passou nenhum segundo. O meu relógio e o video­cassete continuam a marcar a mesma hora. 88:88. Um Hamilton! Ele não pode mentir! Eu devia ter mais respeito pelos relógios. No fim das contas, eles sabem muito mais do que nós sobre essa questão de tempo. Eles sabem medir o tempo que um raio luminoso, provoca­do pela excitação de um átomo de césio 133, necessita para efetuar mais de nove milhões de oscilações. Ou seja, um segundo. Os relógios são fortes.

Não sei por que sou tão cabeça-dura. Preciso avisar Agnès. Ela não deve se preocupar comigo. Não corro nenhum risco, basta que eu me acostume.

Tenho de parar de querer voltar ao tempo dos outros. Tenho de parar de me prender. Com certeza, é perigoso. Talvez, eu devesse parar de interagir com ele. Com eles. Com aqueles que permanecem dentro do tempo. Certamente, não podem me compreender. E corro o risco de fazer o tempo deles descarrilar. Não posso assumir esse risco. E extremamente egoísta da minha parte.

Eu me pergunto se sou mortal.

E se os dois sujeitos de agasalho cinza estivessem tentando me pre­venir? Por que não? Parece plausível, agora que estou pensando nisso. Bem mais plausível do que todo o pequeno roteiro paranoico que inventei... Não vejo o que matadores viriam fazer na minha história.

Nunca fiz mal a uma mosca. Não, eles certamente são uma espécie de agentes do tempo. Sujeitos que estão a par do que acontece comi­go. Isso explicaria tudo.

Os sujeitos de cinza são agentes do tempo.

Além do mais, eles não me desejam nenhum mal. Deveria ter dei­xado que me explicassem. Eu teria compreendido mais facilmente. Bolas, não tem importância! Agora não preciso mais deles. Porque agora eu sei. Compreendi tudo sozinho. Estou num círculo atemporal e não sou esquizofrênico.

No fundo, é bem mais simples do que isso, eu sou atemporal.

E isso certamente explica por que tenho a impressão de ouvir os pensamentos das pessoas. Deve ser um fenômeno físico. Como não estamos no mesmo tempo, eu já sei o que elas vão dizer antes que o digam e, consequentemente, tenho a impressão de ouvir os pensamen­tos. Alguma coisa do gênero.

Eu me pergunto se sou mortal.

A questão é se Agnès vai acreditar em mim. E se ela acreditar, será que vamos poder continuar a nos ver?

Veja. Outra hipótese. Talvez eu não tenha realmente saído do tempo no sentido literal. Talvez simplesmente eu tenha chegado ao fim. Seria um sinal precursor do fim do Homo sapiens. Eu seria um dos primeiros a chegar ao fim dos tempos. Provavelmente porque eu compreendi. Compreendi que vamos nos extinguir. Eu tinha razão desde o começo, então eu estou sozinho no fim do círculo temporal. Aliás, talvez eu não seja o único. Provavelmente deve haver outros. Outros atemporais como eu, ou como os agentes de agasalho cinza que percorrem o mundo para salvar as ovelhas perdidas do tempo.

Eu me pergunto se sou mortal.

Em todo caso, isso è certo, estou no fim dos tempos.

Eu sinto isso.

Eu me pergunto se eu sou. É estranho. Tenho a impressão de que, agora, o tempo se sobrepõe. Que se amalgama. E o meu nome será esperança. Eu me pergunto.

Eu me pergunto se. Tenho a impressão — eu me pergunto — de sue agora — se sou — o tempo — mortal — se sobrepõe. Tenho — eu — a impressão — me — de — perguntar — que — se — agora — sou — o tempo — mortal — se sobrepõe. Tenho mortal agora. O meu nome será Amal. Amal gama. Amal gama. O que ainda está fazendo aí? Ele se amalgama.

Da próxima vez que eu vir os agentes do tempo, terei de me mos­trar mais educado. Vigo? O que ainda está fazendo aí? Tenho a impressão de que o tempo se sobrepõe. Vai me responder, porra? Ele se amalgama. Vigo!

Não sei quanto tempo essa crise delirante durou nem quanto tempo teria continuado se, de repente, eu não tivesse saído do meu torpor por causa dos gritos furiosos de Agnès.

O que ainda está fazendo na minha casa, Vigo? Devia ter saído hoje de manhã! Você é mesmo folgado!

Fiquei bestificado por um longo tempo, mudo, completa­mente perdido. Como se houvesse acordado de um eletrochoque, conscientizei-me de que o meu cérebro pirara — havia um bom tempo — e que Agnès havia voltado do trabalho. Sentado no sofá, desorientado, eu a ouvia gritar sem compreender o que dizia.

Você é muito gentil, Vigo, mas já tenho problemas sufi­cientes sem, além do mais, hospedar um sujeito como você! Realmente, você é um cara de pau! Eu me ofereci gentilmente para hospedá-lo por uma noite, mas não disse que podia se ins­talar aqui! Ei! Está me ouvindo? Podia, ao menos, responder!

Voltei a mim com dificuldade. A raiva de Agnès tinha, ao menos, o mérito de forçar a minha aterrissagem. Uma coisa era certa, eu não estava fora do tempo. Longe disso. Estava plena­mente dentro dele.

Estou confuso... Achei que... Achei que tinha saído do tempo — murmurei.

Quê? Do que está falando?

Eu a vi passar ao meu lado feito um raio, o olhar furioso, depois abrir as cortinas com um gesto amplo e brusco. Eu me assustei. A luz de agosto me cegou.

Eu não devia ter oferecido para você ficar aqui! Sou mesmo muito ingênua!

Eu... Eu sinto muito, Agnès, eu... Tive um pequeno pro­blema. Achei que estava fora do tempo... Fique sossegada, já vou embora...

Ela me observou boquiaberta. Não saberia dizer que senti­mento prevalecia no seu olhar, se era raiva ou incompreensão. Uma coisa era certa, não estava orgulhoso de mim e tinha pres­sa em sair de lá.

Assim que consegui, me levantei do sofá, lutei contra a tontura que fazia a sala girar e fui buscar as minhas coisas. Vi Agnès se apoiar numa cadeira e me fitar franzindo os lábios, com ar perturbado. Começava a recuperar a calma.

Sinto muito ter gritado com você assim — disse ela com voz mais serena —, mas, francamente, Luc poderia muito bem ter voltado hoje e dado de cara com você! Você me teria posto numa situação muito desagradável, Vigo!

Sinto muito, Agnès.

E, realmente, sentia. Ela estava certa. Não havia sido muito inteligente da minha parte. Nem eu gostaria de me encontrar cara a cara com o marido dela. E, de qualquer maneira, havia abusado da sua hospitalidade... Eu me odiava! Mas não conseguia encontrar as palavras para ser perdoado, para tentar fazê-la compreender a crise que eu havia atravessado. Ainda estava comple­tamente desnorteado. A minha cabeça ainda girava e tinha a im­pressão de não ter saído totalmente do meu estranho pesadelo.

Com as pernas vacilantes, precipitei-me para a porta e saí do apartamento.

— Sinto muito — repeti, fechando-a atrás de mim.

Desci as escadas cambaleando e acho que algumas lágrimas escorreram dos meus olhos.

Ao chegar embaixo do prédio, fiquei parado por alguns segundos, de pé, no hall, sem fôlego, obrigado a me apoiar na porta de vidro para não perder o equilíbrio. Esfreguei os olhos com a manga para eliminar a umidade embaraçante.

Lá fora os moradores da rua viviam a cem por hora. Era o mundo, o verdadeiro, o nosso espaço-tempo. O mundo para o qual eu absolutamente precisava voltar, reapoderar-me das minhas referências. Ao menos apoderar-me. No fundo, eu não tinha certeza de algum dia ter tido pontos de referência.

Como eu parecera imbecil! Como pudera ficar num estado desses? Por dentro, estava com vergonha de mim mesmo. Ver­gonha da fraqueza do meu humor, da minha razão. E, acima de tudo, estava envergonhado de haver contrariado Agnès. E com medo de tê-la perdido.

Com um nó na garganta, olhei os carros que passavam dian­te do prédio, os moradores do bairro que passeavam. Na verda­de, não sabia o que fazer, aonde ir. No entanto, precisava sair dali, ir em frente.

Inspirei profundamente e saí. Não foi tão difícil quanto eu temia. Deixei-me acariciar pelo ar citadino do fim da tarde, fui andando em frente, os olhos fixos no chão, fugindo do olhar do mundo ao redor.

Depois de alguns passos, olhei para trás, para o último andar do prédio de Agnès. Pensei ter localizado a janela da sala. A luz estava acesa. Eu me perguntei o que ela estaria fazendo naquele momento. Se já havia virado a página e decidido me esquecer. Baixei novamente os olhos e continuei o meu caminho. Será que Agnès me perdoaria? E bem verdade que, na véspera, me havia prometido ajudar. Mas, e agora?

Se Agnès me abandonasse, eu seria capaz de responder a todas as perguntas? Certamente, não. No entanto, entregar-me às auto­ridades, conforme ela havia sugerido, dava-me ainda mais medo.

A minha barriga começou a roncar. Eu estava com fome. Não havia comido nada o dia inteiro. Teria de começar por aí. Ali­mentar-me. Coisas simples. Uma a uma. Fui andando pela cal­çada em direção à praça Clichy e, sem pensar, voltei ao Wepler.

A cervejaria estava cheia e enfumaçada, barulhenta. Instalei-me numa mesinha no fundo da sala grande, a salvo dos olhares.

Acendi um cigarro. O garçom anotou o meu pedido. Como estava com fome e queria comer logo, pedi um croque-madame uma porção de fritas e uma cerveja. Afinal, era uma cervejaria parisiense.

Enquanto esperava meu pedido, para tentar não pensar mais em Agnès, decidi reler o bilhete que havia encontrado no hotel. Tirei o envelope e alisei a folha na minha frente.

O seu nome não é Vigo Ravel e você não é esquizofrênico. Encontre o Protocolo 88.

Protocolo 88. Tinha de me centrar nele. Não havia avançado nem um centímetro desde que recebera a mensagem. Talvez até houvesse recuado. A passos largos.

Tentei concentrar-me, fazer-me as perguntas certas, em vão. Todas as vezes que tentava encontrar uma resposta, uma pista, o rosto de Agnès vinha assombrar-me o espírito. O olhar furioso, as palavras duras. Gostaria muito que as coisas tivessem aconte­cido de forma diferente. Ela nem pudera me dizer se havia encontrado alguma coisa, se havia tido tempo de pesquisar sobre os meus pais, como mencionara... Será que me telefonaria? Teria revelações a me fazer? Aceitaria as minhas desculpas? Aceitaria me rever? Eu tinha de parar de pensar nisso!

O garçom trouxe-me o prato. Agradeci e atirei-me sobre a comida com apetite. Engoli o croque-madarne e as fritas sem erguer a cabeça, exceto para tomar alguns goles de cerveja.

Quando o garçom veio buscar o prato vazio, pedi uma segun­da cerveja.

Fiquei assim por várias horas, fumando um cigarro atrás do outro, emendando os copos de cerveja, incapaz de pensar em outra coisa que não naquela mulher, ao lado de quem eu gostaria muito de passar esta noite estranha. Uma noite a mais. Eu imaginava os olhos verdes, o sorriso tenso, o corpo magro, a bonita pele escura e via tudo isso se afastar, lentamente, como a plataforma da estação de uma cidade querida numa viagem só de ida. Eu tinha o sentimento de um grande desperdício e essa necessidade não satisfeita de mantê-la nos braços por uma hora silenciosa, como esperamos manter todas as promessas da vida. O Wepler lembrava-me o olhar dela. Para mim já era a quarta parte de uma lembrança. Eu nos via novamente, os dois, sentados no chão, no meio da praça Clichy. Não conseguia me convencer. Não era possível. A felicidade havia sido muito curta. Era característico da felicidade durar apenas um instante, o tempo suficiente para que nos lembrássemos dela e sentíssemos saudades?

No fim do sexto copo, o garçom dirigiu-me um sorriso com­padecido.

Dia ruim?

Não foi pior do que ontem.

Olhe, este é por minha conta.

Agradeci com um sinal de cabeça, as pálpebras pesadas, em câmera lenta. O álcool começava a fazer efeito.

Por volta das 22 horas, talvez um pouco mais tarde, quando eu começava a ficar seriamente embriagado, o telefone celular começou a tocar. Não ouvi imediatamente, no meio da barulheira ensurdecedora da grande cervejaria. Quando, finalmente, reconheci a campainha, mergulhei a mão no bolso e vi o núme­ro de Agnès exibido na pequena tela. O meu coração disparou.

Agnès?

Nada. Nenhuma resposta. Ouvi apenas uma respiração. Um pouco forte.

Agnès, é você?

Ouvi-a suspirar. Sim, era ela.

Sinto muito, Agnès. Sinto sinceramente... Espero que não me odeie demais.

Onde você está?

A voz dela estava trêmula, molhada. Não havia dúvida. Ela havia chorado.

Ah, bem... estou no Wepler.

Um longo silêncio. Talvez, um soluço.

Posso ir me encontrar com você? — murmurou, final­mente.

Eu sorri.

Pode, é claro!

Ela desligou imediatamente. Fechei os olhos, cerrei os punhos e dirigi ao teto da cervejaria o meu maior sorriso depois de muito tempo e não só porque as sucessivas cervejas faziam a minha cabeça rodar.

Vi Agnès chegar quinze minutos depois, com um longo manto branco. Ela havia refeito a maquiagem. Mas ainda tinha os olhos vermelhos e o rosto crispado. Levantei-me para puxar uma cadeira. Ela sentou-se à pequena mesa. A roupa opalina des­tacava magnificamente a pele acobreada.

Tudo bem? — perguntei, voltando ao meu lugar.

Não.

É por minha causa?

Ela ergueu os olhos para o céu.

Não diga besteiras! É claro que não!

Sinto muito pelo que houve há pouco... Eu meio que adormeci na sua casa... Bom, mais exatamente, tive uma crise de angústia e...

Não foi nada, Vigo. Eu é que sinto muito por ter gritado com você. Estou muito estressada.

Fiz um sinal de cabeça, que eu esperava ter sido caloroso.

Vamos, o que está acontecendo com você, Agnès?

Ela deu de ombros.

A rotina.

Rotina? Está brincando? Estou vendo que você chorou...

Luc foi buscar as coisas dele. Nós brigamos.

Fiz uma careta. Levantar o moral de uma mulher certamen­te não era uma das minhas capacidades. No estado em que eu estava, não podia correr o risco.

Ah, sei... Sinto muito...

Não tinha nada melhor para dizer.

Já estou de saco cheio... Sempre algo acaba dando errado algum dia! Nunca soube escolher um cara bom... Deve ser algu­ma coisa de tira.

Eu não disse nada e me limitei a assumir um ar condoído. Sentia-me incapaz de lhe dar o menor conselho. Não sabia nada sobre o amor e o único exemplo de vida conjugai de que eu podia falar se resumia à lamentável relação de Marc e Yvonne Ravel, os meus pais invisíveis.

Há dois anos eu sei que essa história está ferrada e, como uma idiota, agarrei-me a ela. Cometo o mesmo erro todas as vezes. Não entendo por quê... Como se ele pudesse mudar no último minuto! Sendo que sei muito bem que ele não foi feito para mim.

Ela puxou um cigarro. Entreguei-lhe o meu isqueiro.

Somos todas iguais! Temos medo de não encontrar nada melhor depois. Nós nos dizemos que todos os caras bons já foram pegos. É preciso dizer que não existe uma grande quanti­dade de caras bons. E mesmo esses caras acabam aprontando. Então, nos achamos felizes, nos contentamos, fazemos conces­sões, suportamos e perdoamos. E depois, um dia, nos damos conta de que há muito tempo estamos num impasse, então deci­dimos deixá-lo e, aí, percebemos que desperdiçamos cinco anos de vida com um canalha.

Ela deu um longo suspiro. Vi que as lágrimas haviam nova­mente invadido o seu olhar.

Eu o aborreço com as minhas histórias?

De jeito algum. Você fica bem chorando, os seus olhos brilham.

Ela enfiou o rosto nas mãos.

Não diga besteiras, estou com uma cara assustadora!

Eu gosto.

Ela sacudiu a cabeça e mostrou uma expressão desiludida.

Não se preocupe demais comigo. Sabe, mesmo com uma pequena depressão, choramos por um nada...

Concordei com a cabeça. Não ousava confessar que também havia chorado ao descer da casa dela.

Nós dois parecemos muito espertos, não? — disse ela, esboçando um sorriso. — A depressiva e o esquizofrênico na cer­vejaria da esquina.

Quer uma cerveja?

Por que não...

Fiz o pedido. O garçom trouxe dois copos de cerveja. Disse a mim mesmo que, sem dúvida, aquilo não era razoável depois de tudo o que o meu cérebro havia aprontado naquele dia; cer­tamente não era o momento de abusar tanto da bebida... Mas eu era obrigado a reconhecer que ajudava a me sentir bem com Agnès. Então, nem liguei.

Vigo — retomou ela, depois de dar o primeiro gole —, eu pensei... Mudei de opinião.

A respeito de quê?

Ela hesitou, encarando-me. Fiquei escutando com a maior atenção, a cerveja em uma das mãos, a beirada da mesa na outra. Ela ficou em silêncio ainda por um bom momento, como se tivesse medo de dizer uma besteira, depois arriscou:

Você pode ficar alguns dias no meu apartamento.

Arregalei os olhos. Não esperava por isso.

Como?

Quero hospedá-lo por alguns dias.

Não, não, não quero incomodá-la! E, depois, com todas essas histórias, não me sentiria muito à vontade... Não. Vou pro­curar um hotel, é mais razoável.

Não, é uma idiotice! Eu prometi ajudá-lo! Garanto que não me incomoda! Ao contrário! Além do mais, tenho um com­putador com Internet, você pode fazer as suas pesquisas durante o dia. E, à noite, me fará companhia. Isso evitará que eu entre em depressão...

Tem certeza?

Absoluta.

E o seu marido? Não quero piorar as coisas...

Ele se foi para sempre.

Hesitei. Não estava convicto de que fosse uma boa idéia. Depois... não conseguia esquecer a crise que eu tivera no aparta­mento dela. Como ter certeza de que não ia se repetir? Ao mesmo tempo, a perspectiva de passar vários dias perto de Agnès me agradava. Não sei se teria aceitado sem as incontáveis cerve­jas que havia emborcado, mas decidi aceitar:

Pois bem, combinado — disse eu, sorrindo.

Ela ergueu a cerveja e convidou-me a brindar. Os nossos copos se chocaram e, em seguida, bebemos em silêncio. Depois de alguns minutos sem falar, como eu me sentia meio constran­gido, puxei novamente a conversa sobre outro assunto:

Encontrou alguma coisa sobre os meus pais?

Não. Não, por enquanto. Mas vou procurar novamente amanhã.

Ela esmagou energicamente o cigarro no cinzeiro.

Vigo — perguntou, erguendo os olhos na minha direção —, será que... Eu queria saber... Você teve mais uma dessas crises em que... ouve os meus pensamentos?

Fiz que não com a cabeça.

Você... Você promete me avisar quando sentir uma delas chegar? Eu... Da última vez me deu muito medo... Prefiro não issistir.

Sorri.

Claro, Agnès. Prometo.

Ela pareceu aliviada.

Bom — disse ela, com a voz mais leve —, termine a bebi­da, preciso dormir... Estou abarrotada de remédios.

Caderneta Moleskine, anotação n°. 151: onde está o eu?

Procurei o lugar exato do meu eu. A sua residência principal. As vezes, não se tem nada melhor para fazer. Não fiquei surpreso: tudo se passa na minha cabeça, no meu cérebro. O resto do meu corpo não cassa de um prolongamento grotesco, contingente. Relativamente obe­diente, aliás.

As frases que você lê nascem no meu cérebro. As que você não lê também. Sim. E uma evidência: tudo o que faz com que eu seja eu está alojado no meu cérebro.

Eu tentei, para ver. Tentei imaginar as coisas de maneira dife­rente. Fiquei nu diante do espelho e tentei ver onde estava o meu eu. Procurei, revistei o meu corpo. E não consegui me convencer do con­trário. Localizo perfeitamente o lugar do meu pensamento, anatomi- camente. Ali. Atrás dessa grande testa preocupada. Tentei imaginar, como desafio, que a palavra pudesse nascer em outro lugar. Olhei os meus pés, fixamente, por muito tempo. Olhei as minhas pernas. E tentei ver nelas o lugar do meu pensamento. Tentei localizar ali o que faz com que eu seja eu. E não foi possível. As minhas pernas não pensam. Elas não têm a menor faculdade para isso. Tudo está ali. Na minha cabeça. Eu sinto, fisicamente, as idéias e as lembranças que vivem na minha cabeça. Então digo a mim mesmo que é ali que está o meu verdadeiro eu. Neste lugar misterioso onde estão situados o meu pensamento, a minha memória, a minha representação do mundo, a minha autonomia, a minha liberdade.

Se me cortarem os pés, eu ainda serei eu. Se me cortarem a mão, se me tirarem o fígado, se substituírem o meu coração, eu ainda serei eu.

O eu é o meu cérebro. E como o meu cérebro está doente, todo o meu eu está doente.

Vamos tomar uma última dose?

O apartamento ainda acusava as marcas da briga que Agnès tivera com o marido. Havia coisas derrubadas pelo chão e até um vaso quebrado. A cena devia ter sido bem mais animada do que Agnès me dera a entender.

A sala me deu uma impressão diferente da véspera, mas, sem dúvida, era por causa do meu estado. A minha cabeça girava, o mundo inteiro rodopiava.

Você não queria dormir? — disse eu, afundando no mal­dito sofá laranja.

Agnès levantou os ombros e deu um sorriso malicioso.

— Ora! Eu dormiria ainda melhor com um último copo.

Pois bem, vamos! Uma dose a mais não faz muita diferen­ça! — exclamei, erguendo a mão de maneira meio ridícula.

Ela desapareceu na cozinha.

Eu estava tão bêbado que duvidava conseguir me levantar do sofá. Completamente largado, deixei o meu olhar deslizar pelas prateleiras da biblioteca bem ao meu lado. Sentia dificuldade em me concentrar, em fixar o olhar. Os livros estavam amontoados uns sobre os outros, transbordavam por todos os lados e eu não consegui detectar a menor classificação lógica. Romances ao lado de ensaios filosóficos, documentos, biografias, dicionários... Havia várias obras jurídicas, sem dúvida ligadas à profissão de Agnès, algumas histórias em quadrinhos e uma bela coleção de videocassetes. A maioria das capas estavam destruídas, dobras no canto. Era totalmente o contrário da minha própria bibliote­ca, cuidadosamente ordenada, romances de um lado — classifi­cados por ordem alfabética dos autores — e ensaios de outro, por temas. Ao menos, antes de as pessoas arrombarem o apartamen­to dos meus pais e jogarem tudo no chão... Mas eu não devia pensar mais nisso. Não agora.

Agnès reapareceu com dois copos de uísque, que ela pôs na mesa de centro, depois foi acender um bastão de incenso do outro lado da sala.

Estava olhando a minha biblioteca?

Estava...

Gosta de ler, Vigo?

Eu sorri.

Muito.

Eu também — disse ela, sentando-se ao meu lado.

Ouvi-a suspirar e pensei discernir naquele suspiro um extre­mo cansaço, quase uma resignação no fim da sua dura jornada.

É um meio de fuga, não é?

Como?

A leitura, é um bom meio de fuga...

Hesitei. Nunca me havia feito essa pergunta. Por mais que eu devorasse uma quantidade gargantuesca de livros todas as sema­nas, nunca me havia perguntado o que me levava a fazê-lo. Eu me limitava a tomar notas nas minhas cadernetas Moleskine, por medo de esquecer. Obsessão de amnésia. Mas fuga? Verdade? De quê?

Não sei — balbuciei, finalmente. — Não estou certo de que a fuga seja realmente o que busco nos livros.

Ah, é? Então, não gosta de romances?

Gosto! Muito! Mas, na verdade, não creio que seja como meio de fuga...

Por que, então?

Dei de ombros. Não tinha certeza de ser capaz de responder a esse tipo de pergunta.

Humm... como dizer? Na verdade, deve ser um pouco o contrário.

O contrário de fuga?

É. Eu leio...

Procurei o verbo adequado.

Leio para me encarnar.

O que quer dizer?

Para me sentir humano, ter a impressão de compartilhar alguma coisa...

Compartilhar o quê?

É difícil de dizer. Hã... A condição humana? Gosto dos livros quando tenho a impressão de encontrar, mesmo sucinta­mente, o que faz a especificidade da nossa condição... Não sei se estou sendo claro... Não se esqueça de que estou embriagado, Agnès.

Pigarreei, movendo-me desajeitadamente no sofá. Não esta­va muito acostumado a esse tipo de situação e tinha certeza de que dominava muito mal o jogo da conversação. Depois do que havia acontecido naquele mesmo dia, eu estava ainda mais preocupado com a idéia de desagradar Agnès, e tinha a impressão de ter de controlar cada uma das minhas frases, cada uma das minhas palavras, como se o menor erro me pudesse ser fatal. Era cansativo.

Não acha que a leitura também possa ser um simples divertimento? — perguntou ela, levando o copo de uísque aos Lábios.

Humm... Um divertimento? Sim, claro. Mas do que eu gosto também é quando o autor consegue evocar sentimentos profundos, terrivelmente humanos, universais, sentimentos que eu descubro que não são só meus, mas próprios de toda a huma­nidade. Isso me tranqüiliza. Entende o que quero dizer?

Acho que sim.

Pois bem, é isso. Nesses momentos, o livro passa a ser uma ponte entre mim e o mundo, uma ligação entre o íntimo e o universal. Compreende?

Sim, sim.

Não sei como consegue me escutar e, menos ainda, me compreender. Estou completamente bêbado e falando demais, isso não tem nenhum sentido...

Mas, não! — replicou ela, rindo. — Você não fala demais! Ao contrário, é muito interessante! Agora, diga-me, quais são os romances que o fazem se sentir assim?

Eu me perguntei se ela zombava de mim ou se era sincera. Preferi dizer a mim mesmo que ela queria me ouvir falar, sem dúvida, porque isso a distraía, impedia de pensar no que a dei­xava triste...

Que romances? Humm... Não sei... Os romances de Émile Ajar... Gosta de Ajar?

É o pseudônimo de Romain Gary, não é?

Sim... Foi com esse nome que ele escreveu La Vie devant soi.

Ah, é! Adorei esse livro! — revelou ela. — Acho que foi o único que li de Gary sob o nome de Ajar, mas é muito tocan­te, de fato. Sei exatamente o que quer dizer!

Eu sorri. De repente, era tranquilizador. Como se o fato de os dois terem lido o mesmo livro no passado pudesse servir de substituto a recordações compartilhadas. E boas recordações ainda por cima.

Não leu Pseudo?

Não.

Bom, em Pseudo — continuei — há tudo isso e até mais, tudo o que sinto, o medo de ficar sozinho no meio dos outros, de nunca se encontrar nem se compreender realmente, o medo de não ser você, de não passar de um envoltório... porque o si próprio é indizível para o outro, é inatingível. Entende o que quero dizer?

Mais ou menos...

Tudo se resume nas primeiras frases do primeiro capítu­lo e na última. Olhe, vou dizer de memória: Não há começo. Eu fui engendrado, cada um na sua vez, e, depois, é o pertencer. Tentei de tudo para me subtrair, mas ninguém consegue isso, todos somos adicionados. Depois: Continuo a procurar alguém que não me com­preenda e que eu não compreenda, porque preciso terrivelmente de fraternidade.

Ela fez uma cara de admiração.

É muito bonito. Não estou muito certa de ter captado, mas é bonito. E, depois, puxa, que memória!

É, mas não pense que sou um grande erudito e que sei muitas citações como essa de cor, hein? Não estou tentando impressioná-la. Simplesmente é meu livro preferido.

-— Não é surpreendente — disse ela, sorrindo. — Desculpe, mas com essa história de Emile Ajar, de pseudônimo e de testa de ferro, podemos perguntar se Romain Gary não era meio esquizofrênico...

Concordei, sorrindo.

É, com certeza foi o que imediatamente me agradou! E você lê livros policiais, é isso?

Ela revirou os olhos.

Engraçado! Os tiras só lêem livros policiais!

Ora, mas já é bom que saibam ler — insinuei ironica­mente.

É ruim! Não, imagine que leio um pouco de tudo, como pode ver. Prefiro a leitura para divertir, os policiais, sim, mas também os thrillers, ficção científica, romances de aventura... Há pessoas que consideram isso subliteratura, mas estou pouco ligando, isso me convém, me toca: é uma fuga. Então, leio tone­ladas. Aliás, era um dos motivos recorrentes das minhas brigas com Luc. Eu o criticava por passar muito tempo na casa dos amigos, e ele queria que eu lesse menos livros... E meio ridícu­lo, não é? Que clichê!

Não sei. Não estou particularmente em condições de jul­gar as relações conjugais. Sempre fui sozinho...

Nunca teve uma namorada?

Fiz uma careta. Uma parte de mim havia esperado que pudéssemos evitar esse assunto. Mas outra parte provavelmente só esperava por isso...

Acho que não. Talvez tenha tido antes da minha amnésia, mas, depois, não.

Agnès mal conseguiu disfarçar a surpresa, o que me fez ficar ainda menos à vontade. Ela deve ter percebido e desviou o olhar. Apoiou o copo na mesa e levantou-se suspirando.

Bom, vamos... Chega de aborrecê-lo. Já passou da hora de dormir. Obrigada por me fazer companhia esta noite, Vigo. Ainda estou consternada de haver gritado com você hoje. Amanhã, poderá ficar aqui. Prometido, não vou gritar com você. Sinta-se em casa. Também pode usar o computador no escritó­rio para fazer suas pesquisas.

Obrigado, Agnès. Muito obrigado.

Ela me deu um último sorriso e foi dormir. Levantei-me com dificuldade, quase quebrei a cara, abri o sofá, puxei as cortinas e caí de costas, os braços em cruz. Atordoado com a tontura pro­vocada pelo álcool, demorei um pouco a pegar no sono, mas quando ele veio, foi de uma profundidade abissal.

Acordei no dia seguinte com uma terrível dor de cabeça. Resmunguei e me refugiei embaixo do edredom. Dessa vez levei alguns segundos para me lembrar de onde estava, mas não me deixei dominar pelo pânico ou pela tontura do primeiro dia. Tudo estava claro. Eu estava no pequeno apartamento de três- peças de Agnès, que me hospedava alguns dias na sua casa, tudo estava normal. Eu tinha apenas uma considerável ressaca.

Eu me levantei, fazendo uma careta, mas sereno, e fiz, um a um, os gestos de uma manhã quase comum. Tomei um banho de chuveiro, vesti-me e encontrei comida na cozinha para fazer um café da manhã digno desse nome.

De volta à sala, liguei a televisão. Olhei por um instante as notícias que ainda falavam do atentado, da pista islâmica, do balanço... Suspirei e desliguei. Tinha de me concentrar na minha própria investigação, tinha de começar pelo início. E, como Agnès havia sugerido, o mais simples era procurar eu mesmo o que podia ser o tal Protocolo 88, de que falava a carta misteriosa.

Portanto, às 9 horas, apesar da dor de cabeça que não me lar­gava, decidi ligar o computador no escritório de Agnès. O apo­sento era a imagem do resto do apartamento: em desordem, sub­merso em móveis e objetos insólitos. Sobre uma mesa montada em cima de cavaletes, espremida entre colunas de livros e papéis, o PC parecia haver sobrevivido milagrosamente a múltiplas tem­pestades. O teclado estava sujo de cinzas e de manchas amarronzadas. Depois de algumas vacilações, consegui me conectar à Internet e comecei a minha busca. Eu tinha de chamá-la assim. A minha busca. No fundo, eu não era nada mais do que o deteti­ve da minha própria existência.

Digitei "Protocolo 88" num site de busca. De súbito, o sim­ples fato de eu mesmo escrever essa expressão lhe dava uma exis­tência, uma realidade. Eu ainda não sabia a que correspondia, mas o mistério dessa palavra e desse número se tornava concre­to. E eu achava isso quase tranquilizador. Isso me dava um obje­tivo. Talvez eu não fosse Vigo Ravel, talvez eu não fosse o esqui­zofrênico que acreditava ser, mas, ao menos, eu era o "o homem que devia encontrar o que era o Protocolo 88". No ponto em que me encontrava, em questão de identidade, estava pronto para me satisfazer com isso.

O site de pesquisa mostrou nove resultados. Nos milhões de sites referenciados na Web, só havia nove ocorrências da expres­são "Protocolo 88"! Era pouco, muito pouco, mas já era alguma coisa. Estremeci de excitação. Ia, finalmente, encontrar uma pista. Um início de pista! Uma abertura.

Percorri, um por um, os textos que mencionavam o objeto da minha pesquisa. A maioria era de textos técnicos, muito oficiais. E, rapidamente, percebi que nenhum deles citava o que quer que fosse que tivesse relação mais ou menos direta comigo ou com a minha história. Nada sobre esquizofrenia, nada sobre o atentado e nada muito misterioso. Nada, em todo caso, que me chamasse a atenção, que despertasse a minha curiosidade. Tudo o que eu encontrava dizia respeito a protocolos sobre a segurança de navios, sobre encaminhamento de dados informáticos ou sobre a legislação para os controladores do espaço aéreo. Todos traziam o número 88 simplesmente porque haviam sido assinados em 1988, só por isso. Por instinto, vi imediatamente que não tinham nenhuma relação com o que eu procurava. Por precaução, resol­vi ler todos os textos do começo ao fim, mas, de fato, não encon­trei nada concludente.

Soltei um longo suspiro de decepção. O mistério não estava próximo de ser resolvido. Mas eu não podia desistir tão rápido. Decidi, ao acaso, inverter os dois termos da expressão e digitei "88 protocolo". Não encontrei nada melhor. Quanto a um ou outro sozinho, os resultados eram muitos para que eu encontras­se alguma pista.

Praguejei. Tinha de haver alguma coisa sobre o número 88: ele ecoava tantos detalhes depois do dia do atentado! A começar pela frase misteriosa do terrorista: ...88, está na hora do segundo mensageiro. Eu não ousava pensar, além do mais, na hora que o meu relógio exibia. Só podia ser coincidência. Mas, fora isso, com certeza, havia alguma coisa com o número 88. No entanto, digitar esse número como única palavra-chave num site de busca resultava em vários milhões de respostas. Não adiantava começar só com ele.

Continuei ainda com as minhas investigações por quase uma hora, em vão; depois, desanimado, joguei-me no encosto da cadeira. Vi, então, um dicionário na mesa do escritório de Agnès. Pelo sim, pelo não, tomei o cuidado de copiar na minha cader­neta as definições da palavra protocolo.

Protocolo: s.m. (lat. protocollum, do gr. Kollao, "colar"). Registro das fórmulas em uso para os atos públicos, para a correspon­dência oficial. Conjunto de resoluções tomadas numa reunião. Resumo, enunciado de uma operação, do desenvolvimento de uma experiência científica. Conjunto de convenções necessárias para a coo­peração de entidades geralmente distantes, em particular para estabe­lecer trocas de informação entre essas entidades.

Realmente, isso não me orientava nas minhas buscas, mas, ao menos, eu tinha uma idéia mais exata de tudo o que podia ser um protocolo; determinei para mim um contexto, um campo de busca.

Um pouco antes do meio-dia, a minha dor de cabeça aumen­tou e, certo de que não iria encontrar nada mais interessante sobre o assunto, desliguei o computador e fui me esticar no sofá da sala. Fechei os olhos e tentei relaxar, mas a dor se recusava a desaparecer. Lentamente, ela se estendeu até as têmporas, os olhos e até mesmo a nuca. Massageei a cabeça por muito tempo, mas de nada adiantou, a dor continuava a aumentar e se tornou insuportável. Em seguida, tive a impressão de ouvir um assobio superagudo, cada vez mais forte, cada vez mais desagradável. Depois fui tomado por náuseas e tontura. Por várias vezes tive a impressão de que ia vomitar ou desmaiar.

Isso não vai recomeçar!

Eu não sabia se o sofá laranja me dava azar, mas não tinha a menor vontade de reviver o delírio de pesadelo da véspera. Eu tinha de me controlar. Ergui-me e tentei dominar a tontura. Mas não podia fazer nada: a sala girava, e a minha cabeça parecia estar a ponto de estourar, esmagada por um torno invisível.

Como a dor aumentava ao mesmo tempo que o enjôo, logo tive certeza de que eu estava passando, não por um surto deli­rante, nem mesmo por uma das minhas crises alucinatórias, mas sim por uma crise de abstinência. Os neurolépticos? Não, eles não criavam nenhuma dependência. Devia ser outra coisa. Os ansiolíticos, talvez. Fazia muito tempo que eu não os tomava, e o meu cérebro, certamente, começava a se rebelar.

Levado por uma raiva súbita, levantei-me e revistei idiotamente a minha mochila. Mas eu sabia muito bem que não havia nenhum medicamento. Eu jogara tudo pela janela do hotel. Deixei a mochila cair no chão, irritado, e precipitei-me para o banheiro. Abri o armário de remédios de Agnès. O meu olhar treinado caiu logo sobre os anti-depressivos, depois, ao lado, sobre uma pequena caixa branca. Lexotan. Ergui a mão trêmula para a cartela de comprimidos. Depois fechei os olhos. Não. Não, eu não podia fazer isso. Eu não devia fazer isso. Havia jurado a mim mesmo!

Olhei novamente o conteúdo do armário e os meus dedos deslizaram mais para a direita, para uma caixa de aspirinas. Uma simples caixa de aspirinas. Peguei um comprimido e fui para a cozinha servir um copo d'água. Tomei o medicamento de um gole e voltei a me deitar no sofá.

A dor era tão intensa que comecei a gritar, como se isso pudesse me libertar. Tinha a impressão de que o meu cérebro estava se liqüefazendo, fervendo. Depois, recusando-me a me dar por vencido, tentei novamente me controlar, lutar. É só uma pequena crise. Uma crisezinha comum. Não posso me entregar como ontem. Tenho de resistir. Concentrei-me em todas as partes do meu corpo para tentar esquecer a testa. Em seguida, tentei visualizar a dor na minha cabeça como uma bola pequena de um vermelho denso e imaginei que ela explodia, que se dispersava e se retirava lentamente como uma onda numa longa praia de areia fina. Expul­sei-a o mais longe que pude. O apito estridente entre os meus tímpanos começou a diminuir. Concentrei-me de novo, repeti o mesmo processo. Libertar-me da dor. Reconhecê-la apenas pelo que ela era: uma simples informação no meu cérebro. Sem saber por quê, comecei a repetir a frase que ouvira na torre SEAM. Rebentos transcranianos, 88, está na hora do segundo mensageiro...

Como uma litania, comecei a dizer e a repetir essa frase, len­tamente, insistindo em cada palavra: Rebentos transcranianos... E, estranhamente, funcionou. Como uma fórmula mágica, as palavras que eu não compreendia me acalmaram, ajudaram-me a esquecer progressivamente a minha horrível dor de cabeça. ...está na hora do segundo mensageiro. E, de tanto buscar a paz no meu espírito, acalentado por essa enigmática invocação, acabei adormecendo.

Acordei sobressaltado com o toque do telefone celular. Dei uma olhada no relógio. Não. É claro. Impossível ver as horas. Ele ainda piscava no 88:88. Eu ainda não resolvera pôr na hora certa; mantinha-o assim, no pulso, talvez supersticiosamente, testemunha íntima e secreta do atentado, da realidade que eu havia vivido.

Sacudi a cabeça e peguei o telefone. Vi na pequena tela que já eram 15 horas. Eu havia dormido quase três horas. Minha dor de cabeça havia desaparecido completamente. Atendi.

Vigo?

A voz do outro lado me gelou o sangue. Era François de Telême.

O que... o que quer? — balbuciei, perplexo.

Vigo, tem de parar com essas besteiras. Queremos ajudá-lo, sabe disso...

Naquele instante percebi que o detestava. Aquele homem, o único de quem eu havia gostado quase como um amigo, agora eu odiava.

Quem são esses nós? — exclamei fora de mim.

Eu... Eu estou com o doutor Guillaume...

Não acreditei no que ouvia. O doutor Guillaume? Ele estava vivo? E com De Telême? Não! Inacreditável. Era uma cilada! Uma nova cilada armada por esse traidor!

Estamos muito preocupados com você, Vigo.

Não acredito em você. Não acredito em você nem por um minuto. O doutor Guillaume morreu!

Não, Vigo, está enganado. Ele está aqui, bem ao meu lado. Está tão preocupado com você quanto eu. Olhe, vou pô-lo na linha.

Os meus dedos crisparam-se no telefone.

Vigo? Está me ouvindo?

Não havia dúvida. Era mesmo a voz do meu psiquiatra. Achei que ia desmaiar.

Doutor? Mas... Mas... Não entendo...

Vigo, você está passando por uma crise aguda de esquizo­frenia paranoide. Precisa ser acompanhado. O seu patrão tem razão: estou realmente muito preocupado com você...

Mas... O atentado... Achei que estava morto...

Não. Por milagre, sobrevivi. Como você, Vigo. Eu estava atrasado naquela manhã e isso me salvou a vida. Mas você, Vigo, está em estado de choque. E é totalmente compreensível. No entanto, não pode se enganar assim. Está fazendo besteiras, Vigo. Tem de vir me ver. Precisa retomar o tratamento. Precisa de ajuda...

Mas... Mas o que faz aí com o senhor De Telême?

Bem, eu vim vê-lo porque não conseguia encontrá-lo. Eu o conheço há muito tempo... fui eu quem o apresentei a você, lembra-se?... achei que ele teria notícias suas. Onde você está, Vigo? Todo mundo procura por você. E a sua fuga naquela noite foi ridícula! O senhor De Telême queria apenas ajudá-lo...

E meus pais?

Houve um silêncio. Um silêncio longo demais.

Os seus pais? Eles estão a par, Vigo. Também estão lou­cos de preocupação. Você está lhes causando muitos problemas!

Mas onde eles estão?

Em casa...

Mentira! — exclamei, furioso. — Tudo isso não passa de uma teia de mentiras! Sempre me mentiu! Os meus pais não estão em casa. Eu fui ver. Não só eles não estão lá, como alguém trocou a fechadura!

Houve um novo silêncio. Achei ter ouvido cochichos.

Vamos, Vigo — retomou o psiquiatra com uma voz pater­nalista. — Você está em estado de choque e, sem a medicação, suas alucinações serão cada vez mais fortes. Viu o que acabou de dizer? Trocar a fechadura! Sabe bem que é uma crise de para­nóia, Vigo. Eu lhe digo, é totalmente normal, depois do que vivenciou! Mas não pode continuar nesse estado. E vai piorar. Venha me ver o mais rápido possível, tenho de tratá-lo! Diga-me onde está e vou buscá-lo imediatamente.

De jeito nenhum! Acha que sou idiota? O seu consultório nem mesmo existe! Os meus pais não constam da lista telefôni­ca! Eu não sou louco. Não tenho nenhuma alucinação, está me ouvindo? Nenhuma! O senhor é que é louco! E não vou cair nessa conversa!

Vigo, diga-me onde está, vou buscá-lo agora. O seu esta­do vai piorar e, legalmente, sou o responsável pelo seu acompa­nhamento psiquiátrico. Seja razoável. Diga-me onde está, droga!

Vá se danar!

Vigo, não me obrigue a pedir uma hospitalização compul­sória. Diga-me onde está e tudo ficará bem.

O senhor é surdo ou o quê? Eu disse para ir se danar!

Desliguei imediatamente.

Caderneta Moleskine, anotação n°. 157: o ano de 1988.

Não sei se isso vai realmente servir para alguma coisa, mas deci­di anotar, pelo sim, pelo não, alguns dos acontecimentos que marca­ram o ano de 1988 na França... Nunca se sabe. Alguma coisa pode­ria me dar uma pista.

Se não, posso atribuir isso à minha obsessão por datas, à minha aritmomania, como dizia Zenati, psicóloga, 1o. andar, à esquerda.

4 de março: inauguração da pirâmide do Louvre, por François Mitterrand.

30 de março: morte de Edgar Faure.

18 de abril: morte de Pierre Desproges.

24 de abril: primeiro turno da eleição presidencial, derrota do PCF, avanço da FN.

Maio: publicação do balanço exaustivo do genocídio judeu, pelo historiador Raul Hilberg.

de maio: libertação de três reféns franceses, seqüestrados no Líbano, Marcel Carton, Marcel Fontaine e Jean-Paul Kaujfmann.

de maio: drama de Ouvéa Alguns dias antes, em Fayaoué, 24 guardas haviam sido feitos reféns por independentistas canacas; quatro haviam sido mortos. Foi o início da crise da Nova Caledônia. No dia 5 de maio, esse seqüestro terminou num banho de sangue. Jacques Chirac deu ordem às forças francesas de atacarem. Os 19 seqüestradores foram mortos, alguns deles depois de se entregarem. Dois militares morreram durante o ataque.

8 de maio: segundo turno da eleição presidencial, François Mitterrand é reeleito com 54% dos votos, contra 46% de Jacques Chirac.

26 de junho: acordos de Matignon sobre o futuro da Nova Caledônia.

30 de junho: monsenhor Lefebvre, arcebispo, é excomungado pela Igreja Católica.

6 de julho: catástrofe da plataforma de petróleo Piper Alpha, no mar do Norte, com 167 mortos.

3 de outubro: inundação em Nímes, dez mortos.

30 de novembro: adoção do RMI que instituiu uma ajuda de custo para 570 mil famílias sem recursos na França.

Refleti bem. Creio que o único acontecimento com o qual talvez eu tenha alguma ligação é a morte de Pierre Desproges.

Ainda estava dando voltas diante do sofá, furioso com a idéia de haver sido enganado e tomado por imbecil por mais de dez anos pelo doutor Guillaume, quando a porta de entrada se abriu ruidosamente. Levei um susto. E se fosse o marido de Agnès? Como poderia explicar minha presença ali? Mas não. Agnès me havia asseverado que ele partira para sempre.

Inclinei-me para olhar a entrada e, finalmente, eu a vi; os braços finos, os traços deliciosamente sérios, o corte de cabelo joãozinho. Agnès. Ela era ainda mais bonita do que eu me lem­brava. E sua beleza tinha algo de tranquilizador para mim.

Boa-tarde, Vigo.

Boa... boa-tarde — balbuciei.

Ela pendurou o casaco ao entrar e se juntou a mim na sala. Usava uma blusa azul de tecido brilhante, sendo que os dois primeiros botões não estavam fechados e deixavam aparecer a cor castanha do pescoço. As linhas delicadas das clavículas desenhavam uma bela fragilidade. Ela era cheia de vida, de movimento. Como um sopro de vento que se introduzira no apartamento.

E então? O que houve com você? — perguntou ela ao ver o meu olhar inquieto. — Fique tranqüilo, está tendo mais uma crise?

Mostrei-lhe o meu telefone celular em cima da mesa de cen­tro, e que eu havia deixado lá como se não quisesse mais tocá-lo.

Acabei de falar com o doutor Guillaume ao telefone.

Doutor Guillaume?

O meu psiquiatra. O canalha do meu psiquiatra! Que eu achava ter morrido no atentado.

E daí?

E daí? Daí que não é possível, Agnès! Ele falou comigo como se tudo estivesse normal! Como se nada houvesse aconte­cido! Acontece que a clínica Mater, aonde eu ia me consultar, não existe! Ela não existe! E para ele, esse canalha, tudo isso é perfeitamente normal, como se eu é que estivesse louco! Além disso... Além disso, ele me ligou do escritório do meu patrão! Diga-me o que esse pseudopsiquiatra poderia estar fazendo com o meu patrão, hein? O tal patrão já me traiu ao chamar os sujei­tos de agasalho cinza para a boate de blues! Eu não sou louco, Agnès! Não sou louco! Esse caras estão querendo me manipular. Eles me esconderam alguma coisa durante anos! Não sei o que, mas eles me esconderam alguma coisa. Tenho certeza! E, agora, têm medo de que eu descubra o que é. Então, eles tentam me pegar. A única coisa que interessava ao doutor Guillaume era saber onde eu estava!

Espero que não tenha dito!

Claro que não! Esse miserável!

Bom, ouça, acalme-se, Vigo, acalme-se. Você fez exata­mente o que devia. Vamos cuidar disso. Se esses caras têm alguma coisa para esconder, se estão mancomunados, acabaram de cometer um erro grosseiro. Pois nós sabemos onde eles estão. Isso nos dá uma vantagem sobre eles e vamos poder investigar.

Mas eles vão acabar me encontrando!

Por enquanto, eles não sabem onde você está escondido. Está em segurança aqui, então acalme-se, Vigo. Cada coisa a seu tempo. Cuidaremos desses caras assim que tivermos avançado no resto, combinado?

Concordei, mas, na realidade, não tinha nenhuma condição de me acalmar. De nada adiantava eu ter certeza de que o dou­tor Guillaume mentia, o telefonema dele me havia mergulhado novamente na dúvida a respeito da esquizofrenia. Todas as minhas lembranças confundiam-se. As falsas, as verdadeiras, as paramnésias, as alucinações... Tudo se embaralhava de novo. Cheguei até a me perguntar se podia confiar em Agnès. E se ela também estivesse no time deles? Afinal, ela era tira. Eles podiam tê-la convencido a ajudá-los a me manipular. Isso poderia expli­car o fato de, subitamente, ela ter resolvido me hospedar na sua casa... Não. Não era possível. Não Agnès. No entanto, eu devia ficar de sobreaviso.

Encontrou os meus pais? — perguntei, tentando recupe­rar uma voz mais serena.

Vi desenhar-se no rosto dela uma expressão aflita, cheia de compaixão. Compreendi imediatamente que as notícias não eram boas.

Não. Sinto muito, Vigo, mas o que descobri pode desagradá-lo...

Pode falar.

Ela se sentou na minha frente.

Os seus pais... Os seus pais não existem. Nunca existiram. Em todo caso, não com esse sobrenome.

Como assim?

Não encontrei em nenhum lugar a menor pista legal de um casal com o nome de Marc e Yvonne Ravel. Nem no arquivo da Polícia Judiciária, nem nos registros das prefeituras, nem nos arquivos das carteiras de habilitação, nem mesmo nos da Seguridade Social, e posso lhe dizer que ninguém supõe que eu tenha olhado ali... Foi preciso molhar algumas mãos. E acontece que não encontrei nenhuma pista. Em parte alguma. Marc e Yvonne Ravel não existem.

Sentei no encosto do sofá.

Mas... Mas não vejo como isso é possível! Todos esses anos, dos quais me lembro... Morei com eles. Eu não os imaginei!

Não, é claro, Vigo. Mas, sem dúvida, não é o nome ver­dadeiro deles que você conhece. Não sei como é possível, Vigo, nem por que, mas é a realidade. E, infelizmente, não é tudo...

O que mais?

Bem, levei as minhas pesquisas até o seu próprio nome: Vigo Ravel. Esse nome também não existe legalmente... A carta anônima que você recebeu não mentia sobre esse ponto. Você não se chama Vigo Ravel.

Mas... Eu tenho uma carteira de identidade, tenho uma conta bancária! Olhe, tenho até um talão de cheques! O meu nome está escrito embaixo. Como poderia ter aberto uma conta num banco?

Provavelmente, os seus documentos de identidade são fal­sos. Quanto à conta bancária, ela deve ter sido aberta graças aos documentos falsos. Mostre-me a sua carteira de identidade.

Eu a entreguei. Ela examinou minuciosamente.

Parece autêntica, mas não sou especialista. Vou mandar analisá-la amanhã. A sua conta pode ser uma boa pista para a pesquisa. Sabe que agência seus pais usavam?

A mesma que eu.

Perfeito. Amanhã vou procurar por esse lado.

Ela me entregou a carteira de identidade. Não pude deixar de examiná-la. Olhei o texto ao lado da minha foto. "Sobrenome: Ravel. Nome (s): Vigo. Nacionalidade: Francesa." Estava escrito, preto no branco. E, no entanto, não era eu. Esse não era o meu nome. Soltei um suspiro desanimado.

Vamos, Vigo, estamos apenas no começo das nossas inves­tigações... Não desanime tão rápido. De qualquer forma, você esperava um pouco por isso, não é?

Não deixa de ser difícil de ouvir. Não sei a minha verda­deira identidade, Agnès. Não tenho sobrenome. Não tenho pais...

Ela se levantou, veio sentar-se ao meu lado e pôs a mão no meu ombro.

Sinto muito, sinceramente. Compreendo que seja duro admitir. Muito desconcertante. Mas você mesmo decidiu fazer a investigação, então tem de estar preparado para enfrentar esse tipo de verdade...

Concordei com a cabeça e tentei dar um sorriso. Ela tinha toda a razão. E, certamente, eu não havia chegado ao fim das más surpresas. Se eu não quisesse afundar, ao contrário, deveria usar esses desapontamentos para, com raiva, poder continuar.

E você? — perguntou ela. — Encontrou alguma coisa a respeito do Protocolo 88?

Não, nada.

Contei a ela os resultados decepcionantes das minhas pesquisas.

Entendo — disse ela. — Temos de procurar em outro lugar. A carta anônima não mentiu sobre a sua identidade. Não sabemos quem a escreveu; em todo caso, podemos supor que Protocolo 88 é uma verdadeira pista...

Aprovei com um sinal de cabeça.

Acho que já fizemos muito por hoje, Vigo. Estou exausta, não tenho ânimo de preparar nada para o jantar. E você também não parece estar em grande forma, meu caro. Eu o convido para irmos a um restaurante.

Ergui as sobrancelhas, meio surpreso.

Eu... eu não sei. Não me sinto muito bem. E... e confesso que estou com um pouco de medo de sair...

Não! Ao contrário! Vai lhe fazer muito bem! Você ficou enfurnado o dia inteiro! Tem um bom e pequeno restaurante aqui pertinho, ambos precisamos disso.

Apesar da ansiedade e da "depressão passageira" que ela me havia relatado, Agnès tinha recursos de energia inesperados. Talvez fosse exatamente um meio de resistir, de lutar. Da pri­meira vez em que a vi na psicóloga, a priori imaginei tolamente — sem dúvida por causa da seriedade da sua aparência — que se tratava de uma mulher triste, retraída e abatida. Mas, na realida­de, ela era cheia de coragem, de vigor e até, agora eu descobria, de alguma malícia.

E se os caras tiverem me seguido? — disse eu. — Deixei o Porsche do meu patrão aqui embaixo da sua casa. Provavel­mente encontraram, não é um carro muito discreto, e, se isso aconteceu, devem estar me procurando por todo o bairro.

Não diga bobagens! Ninguém o seguiu. Não vai viver con­tinuamente aterrorizado, Vigo! Vamos, eu garanto que não há nada melhor do que um bom restaurante nesse tipo de situação.

Agnès dirigiu-me um sorriso cúmplice. Eu tinha a impressão de compartilhar com ela muito mais do que já havia partilhado com alguém. Os olhos dela estavam cheios de insinuações que valiam mil lembranças. Ao me estimular, acho que ela queria se estimular também. Afinal, talvez precisássemos um do outro.

Combinado, vou com você.

Saímos do apartamento de braços dados.

Como prato principal, recomendo coração de alcatra com cinco especiarias, fatiado.

O Parfait Silence era um pequeno restaurante de bairro com aparência de bistrô antigo, todo em nuanças amadeiradas, onde se misturavam gastrônomos barrigudos e burgueses do século XVIII. A decoração, sem nenhum estilo específico, era original, com toques de art déco e, aqui e ali, algumas cores provençais.

Está bem. Confio em você.

Vai tomar vinho, Vigo?

Com prazer.

Escolha você.

Eu não tinha certeza de querer assumir esse tipo de respon­sabilidade, mas queria ser simpático, parecer seguro, indepen­dente, capaz de escolher uma boa garrafa. Em resumo, não que­ria bancar o esquizofrênico complexado. Dei uma olhada na carta de vinhos e optei, com segurança, por um Pessac-Léognan, de idade razoável.

Agnès fez o pedido. O garçom retirou-se discretamente levando os cardápios debaixo do braço.

O Ministério do Interior não me paga o suficiente para vir jantar aqui todas as noites, porém venho de vez em quando. É delicioso.

Não duvido... Parece simpático.

Sim. O dono é um filantropo.

Eu não sabia por que ela me dizia isso. Um filantropo? Não estava nem certo de saber o que isso queria dizer. Talvez quises­se simplesmente me pôr à vontade...

Agnès ofereceu-me um cigarro, sorrindo. Aceitei. Não fumá­vamos a mesma marca, mas eu tinha impulsos de versatilidade.

E então, Vigo, você se virou bem no apartamento, apesar de toda a minha zona?

Sim, sim, não se preocupe. Obrigado. A sua hospitalidade me comove muito, sabe...

Por favor, é um prazer. Um pouco de companhia não faz mal...

Diga-me, Agnès, tem certeza de que o seu marido não pode aparecer a qualquer momento?

Ela sorriu.

Ficou com medo o dia todo?

Digamos que me fiz essa pergunta e que se ele entrasse eu teria muita dificuldade em explicar o que fazia lá...

Ela fez uma cara divertida.

Fique tranqüilo. Depois da nossa briga de ontem, ele foi para a casa dos pais, na Suíça. E não vai voltar logo...

Acha que o seu caso com ele está... Quero dizer... está definitivamente acabado?

Ah! Já vi tudo — disse ela, apoiando o cigarro na beirada do cinzeiro. — Vou passar por um interrogatório?

Bom... Não sei muita coisa sobre você. Mas não é obriga­da a responder. Não sei nem o seu sobrenome.

Não faz mal! — replicou, sorrindo. — De qualquer modo, corro o risco de voltar a usar o meu sobrenome de solteira!

Qual é?

O meu sobrenome de solteira? Fedjer. Eu me chamo Agnès Fedjer.

Bem que eu achava que você parecia ser do Sul...

Ela olhou para o alto.

De que país?

É argelino — respondeu ela.

Agnès não é lá muito argelino.

Meu pai não tinha meios para trocar o nosso sobrenome. E ele achou que um nome francês me faria sofrer menos.

É horrível ter de esconder a origem, ter vergonha do sobrenome...

Não tenho vergonha do meu sobrenome! — protestou ela. — O meu pai nunca se iludiu sobre o racismo patológico deste país, Vigo, e só. Mas não tenho vergonha do meu sobrenome. Eu me chamo Agnès Fedjer.

Concordei. No fundo, Agnès tinha sorte. Eu não tinha nem a certeza de ter um sobrenome...

Tudo bem, mas você não respondeu à minha primeira pergunta — retomei. — Acha que está definitivamente acabado, com o seu marido?

Você é insistente, Vigo... Eu lhe disse ontem. Faz, no mínimo, dois anos que procuramos resolver um problema que não parece ter outra solução que não seja a separação. Além disso, acho que Luc não suporta mais que eu seja tira, e eu não estou nem perto de parar. Sim, acho que é definitivo. Mas vamos falar de outra coisa?

Ainda está apaixonada por ele?

Ela arregalou os olhos.

Isso é que é pergunta! Para começar, quem lhe disse que eu já fui apaixonada?

Dei de ombros.

Vocês se casaram...

É possível se casar sem amor, não?

É o seu caso? — insisti.

De qualquer forma, nunca disse a ele que o amava.

Pela maneira como se expressava, tive quase certeza de que nunca havia dito essas palavras para ninguém.

O garçom trouxe o vinho. Eu o provei, fiz sinal de que esta­va bom e ele encheu os dois copos. Agnès brincou comigo, um terno sorriso no canto dos lábios.

Depois ela pegou mais um cigarro. Eu a imitei e lhe estendi o meu isqueiro.

Já foi um maço hoje! — afirmou ela com um ar desiludi­do. — Mas, como você diz, temos de morrer de alguma coisa...

Ergui os ombros.

De qualquer maneira, com a minha angústia escatológica, não é o cigarro que me dá medo...

A sua o quê?

Eu sorri. Percebi que havia falado dessa coisa íntima como se se tratasse de uma evidência... Eu me perguntei se era uma boa idéia contar tão cedo para Agnès as minhas obsessões. Mas, afi­nal, ela já me havia feito muitas confidências.

A minha angústia escatológica.

O que é exatamente isso?

Ora, nada, uma espécie de idéia estranha que me obceca todo o tempo.

Explique!

Vai achar que sou louco.

Ela caiu na gargalhada.

Meu pobre Vigo, faz muito tempo que já o coloquei na categoria dos pesos pesados, nível loucura...

Assenti com a cabeça. De fato, não faria muita diferença.

Está certo... Aí vai: às vezes tenho o sentimento de que a nossa espécie está em vias de extinção...

A nossa espécie? Quer dizer os fumantes?

Não! O Homo sapiens! Tenho o sentimento de que o Homo sapiens está em vias de ser extinto.

Ela assumiu um ar surpreso.

O que está dizendo?

Ora, não é nada! Nunca aconteceu com você de ter essa im­pressão?

Ela desatou a rir.

Na verdade, não, não mesmo!

No entanto, para todo lado que olho, vejo sinais da nossa futura extinção. Isso nunca lhe chamou a atenção?

Não, de jeito nenhum. Olhe, você é mesmo um otimista!

Dei uma tragada no cigarro e pus rapidamente o isqueiro no bolso.

Sabia que, diariamente, cerca de trezentas espécies vege­tais e animais desaparecem da Terra? Temos de aceitar a evidên­cia, algum dia será a nossa vez.

Algum dia, talvez, sim, talvez... Mas não necessariamente agora! Um pouco de otimismo, diabos!

Estranho conselho, para uma depressiva! — ironizei.

Em primeiro lugar, não sou depressiva — defendeu-se ela. — Sou ansiosa e estou atravessando uma depressão passageira... E, de qualquer modo, meus problemas não têm relação com a espécie humana em geral, mas apenas com o meu caso em parti­cular. As minhas angústias são muito... pessoais. Ainda tenho esperança na humanidade, apesar de tudo. Ao contrário de você...

Espere, a minha angústia não é tão pessimista quanto parece!

Ah, é?

Pense: acha triste que o homem de Neandertal tenha sido extinto em favor do Homo sapiens? Não, claro. Pois bem, nesse caso, é a mesma coisa. Eu me pergunto se a nossa espécie não chegou ao fim da sua evolução, a um estágio em que faz mais mal ao meio ambiente do que bem... A natureza será obrigada a se defender, e portanto a espécie humana terá de evoluir. Em resu­mo, eu me pergunto se o Homo sapiens não chegou ao fim.

E não acha isso pessimista?

Não necessariamente. Quem sabe? Outra espécie poderá sair triunfante, como em cada nova fase da evolução do gênero humano.

Você me dá medo, Vigo. Não vá me sacar um Nietzsche e todas as derivações sobre o super-homem, vai? Sabemos aonde esse tipo de filosofia leva...

Não, não — tranquilizei-a. — Isso não é do meu feitio!

Pois bem, preste atenção, porque o seu discurso catastro- fista e essa idéia de uma nova espécie humana é meio extrema...

Eu avisei.

Sim... Acho que você pensa demais, caro Vigo — disse ela, não sem certa ternura.

Sem dúvida. Leio muitos livros, deve ser isso; faço anota­ções demais. Mas fique sossegada, tudo isso é por causa da angústia. Em alguns momentos, tenho simplesmente a impressão de que a nossa espécie está em vias de ser extinta e que a natu­reza vai mudar. Tenho o sentimento de que os homens se torna­ram muito perigosos para o planeta e também uns para os outros... Que são incapazes de se compreenderem e, portanto, de salvarem a si próprios.

Eu — disse ela com um ar contestatório — acho que o instinto de sobrevivência é mais forte do que tudo, e que o homem será capaz de mudar antes que seja tarde demais e se adaptar, como sempre.

No fundo, você é uma depressiva otimista.

É isso. Como sabe, para ir consultar espontaneamente um psicólogo, é preciso, apesar de tudo, alguma fé na possibilidade de melhora. É um ato otimista.

Então eu também devo ser um pouquinho!

Sim. No fim das contas, não estamos tão longe assim um do outro! — disse ela apertando a minha mão um instante, por cima da mesa.

O contato foi delicioso. Um calor diferente que, de bom grado, eu teria desfrutado por mais tempo.

Em todo caso, faço questão de, novamente, agradecer pelo que tem feito por mim, Agnès.

Oh! Não me agradeça assim o tempo todo! Eu juro, é um ato muito egoísta. Isso me ajuda a não pensar mais em mim. Sou muito mais eficiente para cuidar dos problemas dos outros do que para resolver os meus.

Foi por isso que entrou para a polícia?

Não — respondeu ela, sorrindo. — Não. Isso é uma coisa de família. O meu pai era tira na Argélia. Ele queria que o filho fosse como ele e que eu fosse dona de casa. Nós dois o decepcio­namos. Não se pode dizer que ele tenha ficado feliz da primeira vez que me viu de uniforme. Apesar de tudo, acabei achando que ele tinha razão. Sem dúvida, não foi muito inteligente da minha parte. Não é fácil se chamar Fedjer nessa profissão, na França. Sou a filha de imigrante africano de plantão, Se, por um lado, os colegas são muito condescendentes comigo por causa disso, por outro lado, quando tenho a infelicidade de prender um árabe, ele me olha como traidora. E, depois... Eu, que queria a qualquer preço fugir da depressão, não escolhi a profissão ideal.

Você já era meio depressiva antes?

-— Não, ao contrário! Não cresci numa casa muito alegre, então eu compensava me forçando a ser feliz. Desde bem pequena, sempre disse a mim mesma que não era do tipo de ficar depri­mida. E aí, um dia, você dá de cara com isso. Eu havia jurado a mim mesma nunca pôr os pés num psicólogo... E, veja só, no fim das contas sou cliente de Zenati.

Ao menos lhe faz bem?

Nem sei! O mais louco de tudo é que tenho horror disso! E muito paradoxal, concordo com você. Sempre considerei a depressão um luxo dos ocidentais, uma doença de pequeno-burgueses. Além do mais, uma parte de mim não acredita na psi­canálise. E, apesar de tudo, não consigo deixar de ligar para Zenati pedindo socorro quando me sinto mal. Sou uma perfeita imbecil, não sou?

Não. Seria idiota não enfrentar a sua dor por motivos de pudor, por velhos princípios, não acha?

Pode ser. Mas o que me censuro não é querer me tratar, são as razões pelas quais eu sofro. Elas são... ridículas.

Realmente?

No fundo, são. A nossa sociedade nos leva a dar muita importância às pequenas dores da alma. Acabamos por nos foca­lizar nelas e a lhes dar mais valor do que deveriam ter. E uma forma de complacência... Eu gostaria de encontrar forças e virar a página. Não me sentir encurralada por essa introspecção sempiterna...

Meneei a cabeça. Introspecção sempiterna. Não seria eu que iria contestar essa expressão.

Eu me pergunto se tudo isso não vem simplesmente da nossa solidão — confiei-lhe. — Essa necessidade de falar de si mesmo com um psicólogo, no fundo, deve ser a expressão de uma frustração. A de não ter nenhum ouvido que realmente nos escute, de não ter ninguém que nos compreenda totalmente... Não acha? Então nos confiamos a um psicólogo, acreditando que ele, pelo profissionalismo e objetividade, é capaz de nos com­preender... Isso nos tranqüiliza.

Ela sorriu.

Voltamos à sua angústia sobre o Homo sapiens — insinuou ela, dirigindo-me um olhar divertido — e ao que você procura nos romances de Romain Gary. A incomunicabilidade, tudo isso...

Exatamente. Os homens correm o risco de ser extintos por não saberem se compreender...

No entanto, nós nos compreendemos, não?

Sim, é verdade — admiti, sorrindo.

Então! Talvez eu o obrigue a revisar os detalhes da sua angústia... como você a chama?

A minha angústia escatológica.

Um segundo garçom chegou com as entradas. Ele as colocou cuidadosamente na nossa frente e desejou-nos bom apetite. Eu havia escolhido um prato de foie gras ao ponto. Agnès havia opta­do por um pequeno prato de legumes recheados com queijo de cabra fresco e sálvia. Depois de alguns minutos de silêncio, sem dúvida gastronômico, recomecei a conversa:

Agnès, você não me disse em qual arrondissement trabalha.

Sou tenente de polícia na delegacia central do XVIIIe... Cuido, sobretudo, de inquéritos judiciais locais. Nada de apaixo- nante, roubos, vandalismo...

Sei. Um verdadeiro tira, ora.

É. Não como nos filmes.

Sorri e comi algumas garfadas de foie gras.

-— Não sei o que vou fazer amanhã — retomei, para mudar de assunto. — As minhas pesquisas sobre o Protocolo 88 não deram em nada.

Talvez pudesse procurar do lado do seu estranho psiquia­tra. Ver se encontra alguma coisa a respeito da clínica fantasma, ou mesmo sobre ele...

Por que não? Gostaria muito de ferrar esse filho da mãe!

Do meu lado, se quiser, mandarei analisar a sua carteira de identidade e fazer investigações sobre as contas no banco; a sua e as dos seus pais.

Perfeito. Não vou atrapalhar se continuar na sua casa?

Não, de jeito nenhum, Vigo! Em compensação, já é hora de nos tratarmos com menos cerimônia, não acha?

Franzi o cenho. Pensei nas minhas idéias sobre a linguagem, ponte entre os homens e, ao mesmo tempo, discreta barreira que se ergue entre as nossas subjetividades. Máscara cheia de menti­ras, tanto quanto a mão estendida, que afasta e aproxima. Então, tratar com menos cerimônia... Sim. Por que não? Era uma maneira de vencer o primeiro obstáculo virtual. Tudo ia tão depressa no nosso relacionamento que isso não mudaria muita coisa!

  1. Se quiser — respondi timidamente.

Ela abriu um largo sorriso.

Ah! Assim é bem melhor.

A espontaneidade dela me encantou. Por trás do rosto sério e dos modos masculinizados, meio rudes, ela mantinha um lado da infância. Isso me comovia. Talvez porque eu houvesse esquecido a minha.

Terminamos as entradas e o prato principal nos foi trazido rapidamente. Ela não havia mentido: o coração de alcatra fatiado era delicioso.

Aos poucos, íamos nos descontraindo e o riso se fazia mais freqüente, mais franco. A atmosfera do restaurante era tranquilizadora, entre o jazz discreto difundido por caixas acústicas invisíveis e a luz vacilante das velas. O vinho também começava a cumprir sua função.

Podíamos assistir a um filme ao voltar para casa, se quiser — propôs ela. — Isso nos fará espairecer.

Eu não estava convencido de que um filme fosse capaz de me fazer esquecer que eu havia acabado de perder o sobrenome e meus pais, mas estava pronto para compartilhar qualquer peque­no prazer com aquela mulher. Mesmo que eu assumisse mal o papel de amigo descontraído, desenvolto, esse era um exercício que eu queria treinar. No fim das contas, depois que eu havia encontrado Agnès, acumulava novas experiências sociais. A idéia de assinalar a opção "noite de vídeo" não me desagradava.

No mesmo instante, um sujeito, que havia saído da cozinha, aproximou-se da nossa mesa. Com o cabelo meio longo, olhar cintilante, devia ter uns 50 anos e, a julgar por suas formas arre­dondadas, era um bon-vivant. Adivinhei logo que era o proprie­tário do restaurante, o famoso filantropo.

Boa-noite, Agnès — disse ele, beijando-a três vezes no rosto.

Boa-noite, Jean-Michel, quero lhe apresentar Vigo, um amigo.

Apertei a mão que ele me estendeu.

Ah! Ora! Um amigo! Vou deixá-los sossegados. Até segunda, minha linda...

Ele deu uma piscada para Agnès e nos deixou a sós nova­mente.

Era assustador entrar assim na vida daquela mulher, desco­brir, um a um, os elementos que faziam parte do seu cotidiano. O seu bairro, os seus amigos, o seu passado, os seus problemas... Eu queria saber tudo e, a priori, já gostava de tudo. Não demo­rei a perceber que, em toda a minha vida de adulto, nunca me abrira tanto como fizera com aquela mulher. Então, sentir-se bem com alguém era isso! Provavelmente, em tempos passados, adoles­cente, devo ter tido amigos bem mais chegados do que Agnès naquele momento, mas não me lembrava de nenhum e, de repen­te, ali, eu me sentia renascer, viver, enfim. Eu era como uma criança que descobre um novo sabor ao provar pela primeira vez. Esqueci-me de todo o resto, estávamos sozinhos no mundo, um espetáculo que comentávamos juntos, divertidos, surpresos. O restaurante estava vazio quando percebemos que já era tempo de ir embora, nossas velas já se haviam apagado há muito tempo, e eu não vira as horas passarem.

Quando voltamos para casa, eu me peguei dando a mão a Agnès. Ela não reagiu. Não sei se era porque havia bebido demais, mas achei aquilo delicioso.

Caderneta Moleskine, anotação n°. 163: os filantropos.

Quando Agnès me falou do dono do restaurante, prometi a mim mesmo procurar o que poderia ser um filantropo. Eu me perguntei que cara poderia ter um filantropo verdadeiro. Como reconhecê-lo. Para que ele servia.

Filantropo (1370, do gr. philanthropos, de philos, "amigo", e anthropos, "homem"). 1. Pessoa que é levada a amar todos os homens. 2. Pessoa que se dedica a melhorar a sorte material e moral dos homens. V. humanista.

Que merda! Não sei você, mas isso me dá tontura. Epreciso dizer que é tentador como função, mas mesmo assim! Gostar de todos os homens ê um trabalho dos diabos! E para encontrar desafios não é preciso buscar muito longe, um Hitler ou um Mussolini, isso porque eu, por exemplo, já acho difícil gostar do doutor Guillaume. No máximo, é possível aceitar que alguém se esforce para melhorar a sorte material e moral dos homens, mas gostar de todos...

Eu me pergunto se isso existe realmente; se esse proprietário do restaurante é um filantropo autêntico, juramentado. E que sacrifício exige ser filantropo?

Talvez seja preciso ir aos poucos. Proceder por etapas. Antes de gostar, procurar compreendê-los. E isso, como sempre digo, já ê muito difícil conseguir. Além do mais, eu me pergunto se não ê o inverso. Se não é mais fácil gostar do outro, assim, simplesmente, do que compreendê-lo de verdade. O verdadeiro desafio seria a antropologia absoluta.

No fundo, provavelmente os filantropos são indolentes.

Durante toda a primeira metade do filme, não consegui me concentrar no que se passava na pequena tela da televisão. Eu estava com a mente totalmente focada na minha mão. A mão que Agnès ainda segurava na dela. Para mim era mais uma estreia. Outra deliciosa estreia. Tanto quanto eu conseguia me lembrar, nenhuma mulher havia segurado, assim, a minha mão. Nem mesmo a que eu considerava como mãe. E eu não podia me impedir de, angustiado, fazer a mim mesmo um milhão de per­guntas, no ritmo de cada instante desse contato tão suave. Por quanto tempo ainda ela seguraria a minha mão? Seria só essa a única vez? E como interpretar esse gesto? Será que ela me amava, sendo que havia acabado de romper um relacionamento? Eu a amava? Ela ia querer mais? Esperava alguma coisa de mim? Éramos amigos, seríamos amantes? Eu saberia sê-lo? Era assim que se dava a mão? Haveria algum sentido, alguma intenção por trás desse gesto ou era um simples impulso irrefletido? Uma atenção sem futuro, como um sorriso, uma piscadela, furtiva, intangível...

Eu poderia me contentar para sempre com isso. Só com esse contato, os dedos entrecruzados nos meus. Eu poderia me transformar em estátua de mármore e ser apenas, por toda a eter­nidade, essa alegoria simples da felicidade. Duas pessoas silencio­sas, cujas mãos ligadas eram uma ponte na qual se cruzavam as suas almas. Não era nada e era tudo. Era um compartilhamento intraduzível, eram dois que, sem nada dizer, pareciam ser apenas um.

Eu não tinha certeza de captar o sentido dos batimentos do meu coração. Estaria com medo? Estaria apaixonado? Cons­trangido? Impaciente? Não saberia dizer o que exprimia esse frá­gil pequeno músculo, mas uma coisa era certa: ele batia.

Depois, lentamente, porque a felicidade pode ser reconheci­da pela sua finitude, a mão dela se retirou.

Agnès se levantou, fez uma pausa no filme e me dirigiu um sorriso. O seu olhar era brilhante, os gestos incertos. Devia estar um pouco embriagada.

Quer beber alguma coisa?

Meu punho se fechou no sofá.

Humm... Quero. Por que não?

Vou preparar um pequeno martíni para mim. Quer?

Com prazer.

Ela deu meia-volta e foi para a cozinha.

Olhei para a tela da televisão. A imagem imóvel cintilàva ligeiramente. Mia Farrow, petrificada em plena marcha, parecia aguardar febrilmente que a vida voltasse. Não a dela. A minha. Diverti-me pensando que a minha mão, abandonada por Agnès, sofria a mesma angústia, crispada no tecido laranja do sofá.

Ouvi o barulho dos copos e do gelo na peça ao lado. Acho difícil explicar o que senti durante essa espera. Uma estranha impressão de que passávamos para uma nova etapa na nossa inti­midade: Agnès está preparando uma bebida para mim, na cozinha, enquanto eu espero em frente à televisão, como um marido indolente. Talvez fosse um gesto simples e banal, mas tão novo para mim, tão... social! Eu me tornava muitas coisas ao mesmo tempo: um amigo com quem se janta, com quem se fala, um homem a quem se dá a mão, para quem se prepara um martíni... Eu não estava certo de estar preparado. Preparado para dar e receber coisas tão simples.

Agnès reapareceu na sala com dois copos. Ela os pôs na mesa e, com um gesto, dispersou todos os meus questionamentos. Eu a vi pôr um joelho na beira do sofá, bem perto das minhas per­nas fechadas, pôr uma das mãos no meu ombro, inclinar-se para mim e, com uma ternura que a vida nunca me havia oferecido, dar-me o mais suave dos beijos.

Não reagi, perplexo, quase sufocado, depois os meus lábios se entreabriram para acolher os dela. Docemente, ela se apoiou nos meus ombros para me empurrar contra o encosto do sofá, depois se sentou nos meus joelhos. Nessa posição, ela ficava mais alta do que eu e tive a impressão de não poder lutar. Enquanto me cobria de beijos, ela desabotoou a minha camisa e começou a aca­riciar o meu peito, os meus quadris. Em alguns momentos, eu sentia o cabelo dela raspar no meu rosto, a sua respiração no meu pescoço. As minhas mãos tremiam, de medo, de excitação, não sei. A minha cabeça foi assaltada por mil apreensões, mil sentimentos contraditórios que a urgência do instante se recusava a me deixar compreender. Logo eu estava deitado de costas, meio nu, e vi Agnès, como um anjo suspenso acima do meu corpo, retirar as suas últimas roupas.

Sem que eu tivesse escolha, meu corpo inteiro crispou-se. Não conseguia me entregar, perder o nível de consciência do qual eu bem sentia que devia me livrar para simplesmente ceder ao desejo. As mãos de Agnès procuraram, em vão, a prova do meu desejo por ela. A minha alma pertencia-lhe por inteiro, mas o meu corpo a rejeitava. Tanto a ela quanto a mim.

Com as nossas cabeças encostadas uma na outra, ouvi o ínfi­mo suspiro de Agnès na têmpora.

Sinto muito — murmurei. — Não posso.

Ela se ergueu e pegou a minha cabeça nas mãos.

Não diga besteira. Eu é que sinto muito. Não... não sei o que deu em mim.

Você não tem nada com isso, Agnès. Deve ser por causa da minha doença... E essas merdas de neurolépticos...

Ela pôs um dedo nos meus lábios e me impediu de continuar.

Não vamos mais falar sobre isso — disse ela. — Eu bebi demais, estou fazendo bobagens.

Ela ficou um instante encostada em mim, a cabeça apoiada no meu ombro. Era agradável e muito reconfortante; aliás, acho que poderia ter pegado no sono nos braços dela, mas Agnès acabou levantando-se. Vestiu rapidamente a blusa e sentou-se ao meu lado. Em seguida, acariciou lentamente o meu ombro.

Esta tatuagem é estranha — disse ela inclinando a cabeça. — O que é? Um lobo?

Foi a minha vez de olhar o pequeno desenho azul no alto do meu braço.

É. Acho.

Você acha?

Não lembro. Deve ser de antes da minha amnésia... É, parece mesmo um lobo.

Ela pegou um dos copos de martíni na mesa, ergueu-o pare­cendo embaraçada.

— Acho que já bebi muito por esta noite... Sinto muito, Vigo. Vou dormir.

Levantando-se, ela foi para o quarto sem nem me dirigir um olhar. Ouvi um discreto clique e Mia Farrow desapareceu da tela da televisão. Apaguei a luz, deitei-me e esperei o sono chegar. Mas ele resolveu representar o papel dos intocáveis.

No dia seguinte, por volta das 8 horas, ouvi Agnès sair do banheiro e ir para a cozinha. Ela passou rapidamente pela sala, bela como um elfo que vai para o Além, mas não me dirigiu nem um olhar. Sem dúvida, achou que eu dormia. Ou então, temia ter de falar comigo.

Eu a ouvi preparar um café. Nesse instante, talvez eu deves­se ter levantado e me reunido a ela na cozinha. Mas não tive coragem. Não saberia dizer as palavras certas. Alguns minutos depois, Agnès saiu sem fazer barulho e vi a sua sombra frágil desaparecer na porta da entrada.

Fiquei por muito tempo deitado no sofá-cama. Não conse­guia esquecer a cena da véspera. O seu abandono, o meu fracas­so. Eu me perguntei como administraríamos a situação. Não estava certo dos meus sentimentos e menos ainda dos dela. Agnès havia agido sob o efeito do álcool ou sentia alguma coisa por mim? E eu? Seria capaz de viver uma aventura com uma mulher? Tudo isso era complicado demais para Vigo Ravel, um possível esquizofrênico. Complicado demais e assustador. Eu duvidava tanto de mim, e o outro me dava tanto medo! Não tinha certeza de ser capaz de viver um relacionamento. Apesar de tudo! Apesar de tudo, eu sentia por essa mulher o que nunca havia sentido por ninguém. A simples idéia de ter ofendido Agnès, na véspera, ao me recusar a ela — involuntariamente —, atormentava-me. E se tivesse sido minha única chance?

Soltei um suspiro e me levantei de uma vez. Não podia pas­sar a manhã inteira remoendo esse tipo de pergunta. Eu tinha de ir em frente. Tinha de tentar não pensar mais nisso. Afinal, havia coisa melhor para fazer. Nós tínhamos coisa melhor para fazer.

Sem titubear, entreguei-me, então, ao que parecia se tornar uma rotina: banho, café da manhã, depois pesquisa na Internet, no escritório de Agnès. Conforme ela havia sugerido, tentei bus­car alguma coisa a respeito do doutor Guillaume. No entanto, novamente, a minha prospecção não levou a lugar algum. Não encontrei nada sobre a clínica Mater, nem sobre o homem que afirmava ser o meu psiquiatra há dezenas de anos. Se acreditas­se na Web, nenhum dos dois existia. Não fiquei totalmente sur­preso. Há vários dias havia aceitado a idéia de que aquela clínica médica não existia legal nem oficialmente. Durante anos eu havia freqüentado um consultório fantasma. O doutor Guillaume, se é que esse nome era verdadeiro, era um impostor. Faltava com­preender com que finalidade ele me havia acompanhado por tanto tempo... E por que meus "pais" me haviam mandado lá.

Por mais que não estivesse surpreso, eu não deixava de estar com raiva, furioso mesmo. E depois de ficar andando de um lado para o outro no escritório de Agnès, só dando atenção à minha raiva, peguei a cópia das chaves do apartamento e saí para a rua.

Fui até o 911 do senhor De Telême e descobri, não sem sor­rir, duas multas enfiadas no limpador de para-brisa. Rasguei-as e joguei-as na sarjeta. O meu patrão teria a surpresa de receber as contravenções majoradas. Nada de pequenos prazeres.

Entrei no carro e dei a partida, ainda surpreso com a desen­voltura com a qual eu dirigia. Como se tivesse feito isso toda a minha vida...

Fui para a praça Denfert-Rochereau, com a firme intenção de obter explicações do senhor De Telême. Eu tinha certeza de que ele sabia muito mais do que quis dizer e estava disposto a lhe dar um murro na cara se não me explicasse quem eram os sujeitos que me seguiam e o que o doutor Guillaume fazia com ele. Eu queria poder responder à eterna pergunta de todo bom e velho romance policial: quem saía ganhando com o crime?

Atravessei Paris cerrando os dentes todas as vezes que via policiais. De Telême podia ter dado queixa do roubo do carro e, além do mais, eu não tinha carteira de motorista, nem mesmo carteira de identidade, que Agnès havia levado com ela.

Apesar de tudo, cheguei sem problemas à grande praça do leão. Estacionei numa rua adjacente, depois andei na direção do prédio onde ficava o escritório da Feuerberg. Quando estava a apenas alguns passos da entrada, vi que alguma coisa não esta­va normal.

Inicialmente, de longe, notei que haviam retirado a placa da empresa da parede do prédio. Depois, como em frente ao meu hotel, dois sujeitos pareciam vigiar a entrada. Olhei para cima, para o andar do escritório, e vi várias pessoas carregando móveis: estavam esvaziando o local! Por mais inacreditável que pudesse parecer, como no apartamento dos meus pais, alguém tinha inte­resse em apagar todos os vestígios da minha vida anterior.

Praguejei. Mas não era o momento de notarem a minha pre­sença. Com as mãos enfiadas nos bolsos, desviei o meu caminho de cabeça baixa e fui em direção ao outro lado da praça. Quando achei que estava longe o suficiente, virei-me mais uma vez. Os dois sujeitos ainda estavam postados em frente à porta e, visivelmente, eu não fora seguido.

Joguei as chaves do Porsche na sarjeta. Não devia assumir mais riscos com o carro. Depois, apesar de apreensivo, decidi voltar para a praça Clichy de metrô.

Com o coração disparado, desci os degraus que levavam para dentro da terra e segui por um longo corredor para chegar à pla­taforma. A passagem estava quase deserta. Cruzei apenas com uma ou duas pessoas. Porém, alguns metros antes da plataforma de embarque, fui atacado por mais uma crise. A dor, o equilíbrio, a visão... O esquema habitual. Em seguida, cochichos que ecoa­vam na minha cabeça.

Estremeci. Nenhuma dúvida. Eu teria reconhecido aquelas vozes no meio de outras mil. Eram as que eu ouvira mil vezes e que pareciam vir do subsolo de Paris. O murmúrio das sombras, como freqüentemente eu as chamava. Contudo, naquele momen­to, e pela primeira vez, eu sabia com certeza que não eram fruto da minha imaginação, que não eram simples alucinações auditi­vas e sim vozes bem reais.

Parei. Olhei em volta. Nenhuma porta, nenhuma saída além da plataforma, a alguns metros dali. Avancei e dei uma olhada. Ninguém esperando ao longo dos trilhos. Eu estava sozinho. Totalmente sozinho. E no entanto, no entanto, eu ouvia as vozes, os murmúrios! Eram pensamentos longínquos, é verdade, mesmo assim eram pensamentos! Tomando um pouco de coragem, ten­tei me concentrar para melhor ouvi-los. Mas só me chegavam palavras confusas, indistintas. Fechei os olhos e não pensei em mais nada. Só queria ouvir as vozes. Queria descobrir o mistério de vez.

Lentamente, o murmúrio das sombras se tornou cada vez mais distinto, o eco passou a ser menos confuso. As palavras se destacaram, uma a uma. E, finalmente, pude compreender algu­mas sílabas, depois até algumas expressões. Não, nenhuma frase completa, mas, ao menos, algumas palavras. Algumas curtas palavras. E que tinham significado.

Caderneta Moleskine, anotação no 167: ilusão.

O olho humano não é a ferramenta que interpreta as imagens que recebemos. Ele não passa de um conjunto de receptores fotossensíveis. A ferramenta que interpreta as imagens é o cérebro. Sim. Ele, de novo.

Existe um fenômeno que se conhece há muito tempo e que, no entanto, não cessa de me perturbar. Os pesquisadores tiveram uma idéia estapafúrdia. Afinal, não podemos odiá-los: é o trabalho deles. Fizeram com que algumas pessoas usassem óculos especiais que inver­tiam as imagens. Nos primeiros dias, essas pessoas viam o mundo de cabeça para baixo, o que, necessariamente, não devia ser muito prá­tico... mas, depois de uns oito dias, a informação foi corrigida pelo cérebro e elas começaram a ver direito outra vez, como se não usas­sem mais os óculos! Aconteceu a mesma coisa quando os óculos foram retirados; essas pessoas precisaram de oito dias para que o cérebro se acostumasse e elas voltassem a ver normalmente.

Não posso deixar de encontrar aí a prova, se não flagrante, ao menos provável, de que a nossa visão do mundo não passa de uma gigantesca ilusão, interpretada por nossos cérebros doentes. No fundo, o real não tem muito a ver com a imagem que fazemos dele. As vezes, estranhamente, isso me tranqüiliza.

Agnès voltou para casa um pouco depois das 18 horas. Levantei-me imediatamente e lhe dirigi um sorriso. Ela pendu­rou o casaco na entrada e parou na porta da sala.

Boa-noite, Vigo.

Boa-noite.

Enfiei as mãos nos bolsos, pouco à vontade. Vi nos olhos dela que estava tão embaraçada quanto eu. Era difícil esquecer o fias­co da véspera. Mantínhamos distância, o olhar furtivo. Apertar as mãos teria sido um gesto frio demais, e beijar-nos, muito fami­liar. Na verdade, eu não sabia em que ponto estávamos. As coi­sas haviam ficado em suspenso, não resolvidas. Não havíamos trocado uma palavra depois do acontecido — ou, melhor, do que não havia acontecido — no sofá... Ao longo de todo o dia, eu me havia indagado como seria o nosso encontro, como poderíamos assumir o nosso relacionamento. Por um instante, eu havia espe­rado que ela me beijasse, com uma desenvoltura inesperada, e que tudo ficaria resolvido. Mas nada é assim tão simples. E, visi­velmente, Agnès não queria retomar as coisas do ponto em que havíamos parado na véspera.

Vou fazer um chá — anunciou ela, entrando na cozinha.

Hesitei um instante, depois a segui. Porém, como ela havia feito um pouco antes, parei na soleira da porta. Apoiado no batente, vi que ela ligava a chaleira elétrica. Parecia preocupada, tensa. Mas continuava bonita. Como eu era imbecil! Tivera essa mulher nos braços, ela me havia beijado, despira-se na minha frente e eu não havia conseguido controlar a situação. Agora, estávamos numa espécie de no man's land relacional e não sabía­mos, nem um nem outro, em que pé estávamos.

Tudo bem? — perguntei, sempre com as mãos nos bolsos.

Um dia de merda.

Problemas na delegacia?

Os de rotina. Um chá?

Aceitei. Ela não parecia querer contar mais nada.

Hoje à tarde, tive a minha consulta com Zenati. Sempre saio abalada, só isso. E você, não vai mais lá?

Dei de ombros.

Para quê? Não sou esquizofrênico...

Não era uma resposta aceitável, mas, na verdade, depois de tudo o que havia acontecido, uma sessão com a psicóloga me pa­recia uma coisa bem ridícula...

Avançou nas buscas? — perguntou Agnès, como se qui­sesse mudar de assunto.

Na verdade, não.

Não encontrou nada sobre o seu médico? — insistiu ela, enchendo duas xícaras.

Eu quase havia esquecido que havíamos combinado de acabar com a cerimônia. Isso ainda exigia de mim um esforço. Eu não conseguia me sentir à vontade, ser natural. De nada adiantava estarmos ali, os dois, na cozinha e ter passado aquela noite tão íntima, eu ainda me sentia um estranho. Um intruso. Talvez até mais do que antes.

Não. E também nada sobre a clínica Mater. Quanto à Feuerberg, a firma em que eu trabalhava, ela simplesmente desa­pareceu. Fui ver in loco, alguns homens estavam desocupando o escritório!

Ela ergueu as sobrancelhas.

Desocupando o escritório?

Sim. Os móveis, tudo. E dois sujeitos estavam postados na entrada.

Que loucura! Não pode ser coincidência...

Ela pôs as duas xícaras na pequena mesa da cozinha e caiu pesadamente numa cadeira. Sentei-me na frente dela.

Depois de alguns minutos de um silêncio pesado demais, senti-me tão pouco à vontade que não pude deixar de enfrentar a situação:

Tenho... tenho a impressão de que a estou incomodando, Agnès...

Não, de jeito nenhum!

É por causa de ontem à noite?

Não, estou exausta, só isso...

Tem certeza? O que aconteceu ontem...

Eu havia bebido demais, sinto muito. Não faça uma idéia errada.

Idéia errada? Não tinha certeza de captar o que ela queria dizer. Ou, melhor, tinha medo de compreender...

Confesso que não sei direito em que ponto estou — disse eu. — Ou em que ponto estamos...

Ela suspirou, inclinou-se por cima da mesa e segurou a minha mão.

Ouça, Vigo, eu o estimo muito e estou feliz por recebê-lo aqui, mas o que fiz ontem à noite foi uma verdadeira idiotice. Peço desculpas, não devia ter feito isso. Acabei de sair de uma história longa e dolorosa, estou meio desorientada e fazendo bes­teiras. Tudo o que quero é ajudá-lo. Como amiga, combinado?

Concordei com a cabeça. Não era o que eu esperava, mas, ao menos, a mensagem era clara. Talvez fosse melhor assim. Ao menos eu queria me convencer disso. Como uma amiga.

Agnès soltou a minha mão e começou a tomar o chá. Fiz o mesmo. A atmosfera ficou um pouco menos tensa.

Aconteceu-me uma coisa estranha — disse eu, encostando a cabeça na parede.

O quê?

No metrô, ouvi vozes...

Ela recuou ligeiramente.

E daí? Você... Você está começando a se acostumar, se assim posso dizer, não?

Sim, claro... Porém, não sei se vou me acostumar real­mente. Mas o caso, sabe, é que as vozes não diziam coisas sem significado. Eram vozes que eu já tinha ouvido...

Como assim?

Pois bem, no passado, eu fazia questão de não pegar o metrô ou me aproximar das bocas de esgoto, porque, por várias vezes, ouvi cochichos estranhos, que me assustavam. Na época, dizia a mim mesmo que eram alucinações, sem dúvida causadas pelo meu medo do escuro, meu medo do vazio ou sei lá o quê. No meu pequeno jargão de esquizofrênico, eu as chamava de o murmúrio das sombras. Mas, há pouco, quando ouvi, e agora sei que não são alucinações, percebi uma coisa...

O quê?

Quase todas as vezes que ouvi esses murmúrios foi nos mesmos lugares. Em Denfert-Rochereau, perto da firma Feuerberg e na Défense, perto da torre SEAM...

Nada de muito surpreendente, Vigo. São os dois lugares em que você ia com mais freqüência...

É, pode ser. Mas também passei muito tempo no bairro dos meus pais e não me lembro de ter ouvido lá. E, nos últimos dias, aqui, neste bairro, também não. Sei que pode ser apenas coincidência, mas algo me faz pensar que tudo isso tem relação com a minha história.

Como assim?

Há pouco, quando ouvi de novo os murmúrios no metrô, tentei prestar atenção. Eu me concentrei bem e...

O quê?

Dei um suspiro. A lembrança me gelava o sangue.

Ouvi palavras que não me deixam nenhuma dúvida.

Que palavras? — apressou-me Agnès.

— Bom, três delas me chamaram a atenção. Três palavras que não podem ser fruto do acaso, Agnès. A primeira foi "SEAM". É só o nome de uma sociedade, eu sei, mesmo assim, a ligação com o atentado...

Qual mais?

A segunda foi "Ravel"... Não preciso dizer em que me fez pensar. Sei bem que não sou o único no mundo que tem o sobre­nome Ravel, mas a coincidência é surpreendente...

Certamente.

Mas foi, sobretudo, a terceira expressão, Agnès, que não me deixou a menor dúvida. Porque, sabe, a terceira coisa que ouvi nesses murmúrios do metrô não foi nada mais do que o nosso querido "Protocolo 88"...

É... É incrível! Tem certeza? Tem certeza de que não interpretou mal palavras quase inaudíveis? Está tão obcecado com essa história que pode ser que veja correlação em tudo, não? Seria bem compreensível...

E possível. Mas estou quase certo de ter ouvido essas pala­vras. Admito que posso ter me enganado a respeito de "SEAM" ou "Ravel"... Mas "Protocolo 88", ora...

É estranho.

Passei o dia tentando compreender. Acredite, eu me per­guntei de novo se não estava louco. Mas essa história é tão cheia de surpresas que acho que posso acreditar no que ouvi. A priori, logicamente, isso quer dizer que alguém no metrô, ou em algum lugar perto do metrô, falava ou pensava em toda essa história. Na minha história. Alguém cujos pensamentos chegaram até mim diretamente... Sei que é totalmente inacreditável, mas não tenho outra explicação.

Acho que ainda nos faltam muitos elementos para tirar conclusões...

Concordei. No entanto, tínhamos de começar a buscar hipó­teses. Fiquei em silêncio por um curto momento antes de conti­nuar:

Acha... Acha que as pessoas com as quais estamos envol­vidos poderiam... poderiam estar escondidas no metrô? Embaixo da terra? Eu me lembro de também ter ouvido essas vozes no dia em que me refugiei nas pedreiras embaixo de Paris...

Ela deu de ombros.

Não sei. Isso me parece meio forçado. Mas podemos nos informar, se quiser. Talvez haja construções subterrâneas nesses dois lugares. Existem muitas em Paris...

Construções secretas?

Ela sorriu.

Não vamos nos precipitar!

Mesmo assim! — insisti. — E surpreendente que eu tenha escutado exatamente o mesmo tipo de murmúrios no subsolo da Défense, no de Denfert-Rochereau e nas catacumbas, não é?

Parece que também há catacumbas em Denfert- Rochereau. Ouça, há um departamento da polícia parisiense especializado nos subterrâneos: a Equipe de Busca e Intervenção nas Pedreiras. Há algum tempo conheci um colega que trabalha nesse departamento. Poderia falar com ele, se quiser.

Quero, pelo sim, pelo não...

Ela se serviu de mais um pouco de chá.

E você? — perguntei. — Encontrou alguma coisa do seu lado?

Encontrei. Não tive muito tempo, tivemos muito trabalho na delegacia, mesmo assim fiz algum progresso... Venha, vou contar tudo na sala. Estou acabada, preciso relaxar.

Eu a segui e nos instalamos no sofá, com a xícara na mão.

Bom. Primeiro me concentrei no banco. E tenho más notí­cias, Vigo.

Pus a minha xícara na mesa e esfreguei a testa, preparando-me para o pior.

A sua conta no banco foi encerrada.

Como?

Os seus pais, ou as pessoas que se fazem passar como tais, encerraram ontem a sua conta no banco.

Mas... Mas como é possível?

Eles são os seus tutores legais. Obviamente por causa dos seus distúrbios psiquiátricos, eles têm a liberdade de fazer isso aos olhos da lei. A conta foi encerrada ontem, às 10h30.

Ontem? Mas... E o meu dinheiro? Como... Como vou sair dessa, agora?

-— Não sei. E claro que é muito embaraçoso... Você não tinha nenhuma poupança em outro lugar?

Não! Não! Sempre preferi ter dinheiro vivo. Peguei o que eu tinha outro dia, ao passar em casa, mas não dá para viver muito tempo! Ah, filhos da mãe! Como vou fazer?

Agnès exibiu uma expressão embaraçada.

Posso ajudar por algum tempo, Vigo. Enquanto ficar aqui, não vai precisar de muita coisa, e, depois, será preciso arranjar um novo emprego. De qualquer maneira, terá de voltar a traba­lhar algum dia!

Mas essa história é muito louca! — exclamei, em pânico. — Você não percebeu! Não tenho mais nada! Nada! Não tenho nome, não tenho identidade, não tenho pais, não tenho dinheiro! Eu não existo mais, Agnès!

Joguei a cabeça para trás, desesperado.

Não posso viver às suas custas — murmurei, fechando os olhos. —Já aborreço demais morando aqui na sua casa...

Vamos encontrar uma solução, Vigo. Por enquanto, não é isso o mais importante.

Fiquei imóvel por um instante, tentando recuperar a calma. Não podia sucumbir ao pânico. Abri os olhos e virei-me para Agnès.

Em todo caso, isso quer dizer que os meus pais estão em algum lugar...

As pessoas que afirmam serem seus pais, sim. Eles estão por aí e, incontestavelmente, decidiram cortar todos os seus meios de subsistência. O que confirma que estão no mesmo time das pessoas que o procuram.

Dei um longo suspiro desiludido.

De Telême, o doutor Guillaume, os meus pais... As úni­cas pessoas nas quais eu confiava...

Se o que suspeitamos for verdade, Vigo, essas pessoas manipularam a sua vida por mais de dez anos. Eles sempre men­tiram para você. E, agora, acho que sabem que você descobriu a mentira e tentam botar a mão em você. Sobretudo cortando o seu sustento.

Mergulhei de novo no silêncio. Outra vez a raiva me domi­nou. Doravante, descobrir a verdade não era suficiente para mim; tinha de fazer essas pessoas pagarem! Fazê-las pagar pelas men­tiras, pelas manipulações.

E a conta deles? — continuei. — Encontrou a conta ban­cária dos meus pais?

Encontrei. Na sua agência havia uma conta em nome de Marc e Yvonne Ravel... Mas ela foi encerrada junto com a sua. Isso não muda em nada o fato de esses nomes não serem verda­deiros... Aliás, o departamento central de documentação confir­mou que a sua carteira de identidade é falsa...

Mas, talvez, se esmiuçássemos essa conta pudéssemos encontrar informações sobre eles, não? Descobrir quem são na verdade.

Para isso, seria preciso abrir um processo judicial, Vigo, com consentimento do procurador. Não se pode brincar assim com o Código de Processo Penal! Ao fazer a minha pequena investiga­ção pessoal, já ultrapassei e muito os limites da legalidade. Fui obrigada a contornar a lei e pedir favores discretos a vários colegas que compactuam comigo, mas, confesso, na verdade não gosto disso. Se os meus superiores descobrirem tudo o que fiz, posso ter problemas. Agora, cabe a você decidir. Eu acho que já temos provas suficientes para entregar a sua história nas mãos do pro­curador. A polícia judiciária terá toda a liberdade para investigar o caso...

Não! Não, Agnès! Você prometeu me ajudar a entender antes de avisar as autoridades. Agora, temos a prova de que não sou louco, que não inventei toda essa história! Sabemos que algu­ma coisa está sendo tramada! Passei dez anos da minha vida sendo manipulado. Quero compreender por mim mesmo. E, sabe: eu tinha razão em não confiar em ninguém. Todas as pessoas que fizeram parte da minha vida nos dez últimos anos me traíram. Não posso confiar em ninguém, Agnès, nem mesmo na justiça!

Está exagerando. A justiça não tem nada a ver com essas pessoas!

Isso é o que você pensa! Tudo o que sei, Agnès, é que essas pessoas aparentemente têm muito poder e muitos recursos. Elas foram capazes de fazer com que três pessoas vivessem dez anos sob uma falsa identidade, em plena capital! Foram capazes de camuflar a existência de uma clínica médica no alto da maior torre da Défense. E foram capazes de fazer desaparecer, do dia para a noite, uma empresa estabelecida na praça Denfert-Rochereau. Por enquanto, não sabemos com quem estamos lidando. E estamos apenas no começo das descobertas. Então, sim, realmente, prefiro terminar o que começamos antes de nos voltarmos para a justiça. Eu lhe peço, Agnès, você prometeu me ajudar e já progredimos na nossa investigação!

Ela fez uma cara exasperada.

Percebe o que está me pedindo? Eu sou tira, apesar de tudo!

E você percebe o que estou vivendo? Agnès, eu descubro que não sou esquizofrênico, de alguma maneira, ouço o pensa­mento das pessoas, e uns caras dos quais não sei nada me mani­pulam há mais de dez anos! Acha mesmo que um procurador vai acreditar em mim sem provas concretas? Precisamos saber mais. Por favor! Peço apenas alguns dias a mais...

Ela sacudiu a cabeça.

Só para ver aonde isso nos leva! — insisti.

Saiba que desaprovo totalmente...

Quer dizer que aceita me ajudar mais alguns dias?

Ela hesitou.

Quarenta e oito horas. Nem um segundo a mais.

Concordei, aliviado.

É fim de semana. Não vou trabalhar. Com a exceção de sábado à noite, quando tenho um jantar, ficarei aqui com você nos dois dias e poderemos fazer algumas pesquisas juntos. Mas, depois, acabou.

Obrigado — disse eu apertando a mão dela nas minhas.

Só espero não estar fazendo a maior besteira da minha vida...

Ela soltou a mão nervosamente.

Você teve tempo de encontrar mais alguma coisa? — per­guntei, afundando de novo no sofá.

Tive... E talvez seja o começo de uma pista. O colega do departamento central de documentação que contatei encontrou a quem pertence, ao menos há doze anos, o apartamento onde você morou com os seus pretensos pais.

Verdade? A quem? — apressei-a.

A uma empresa offshore, denominada Dermod, e cuja ati­vidade oficial é importação-exportação, como a maioria dessas empresas fictícias instaladas em paraísos fiscais.

Dermod?

Sim.

Nunca ouvi falar.

Em todo caso, é o início de uma pista. Não sei aonde nos levará, mas vale a pena procurar.

Concordei com a cabeça.

Obrigado por tudo, Agnès.

Espero sinceramente não ter de lamentar por me compro­meter assim por você.

Não sei como agradecer...

Ela deu de ombros.

Tenho de confessar que também estou particularmente intrigada com toda essa história. Mas continuo convencida de que deveríamos informar tudo às autoridades, mas, bom, não vou insistir. Em todo caso, não por enquanto. De toda forma, estou avisando, se isso ficar muito perigoso, mesmo antes das quarenta e oito horas que lhe dei, quer queira, quer não, vou entrar em contato com o procurador.

Combinado.

Bom, chega! Basta por hoje. Preciso refrescar a cabeça.

Está bem... De qualquer modo, acho que não ia conseguir ouvir mais nada — confirmei, sorrindo.

Não vamos outra vez ao restaurante. Vou preparar alguma coisa para nós...

Posso ajudar?

Se quiser.

Caderneta Moleskine, anotação n° 173: recordação, precisão.

O meu nome não é Vigo Ravel. Tenho 12 anos, talvez 13. Estou na parte traseira de um carro, é uma caminhonete, uma grande cami­nhonete verde. Os adultos, na frente, são marido e mulher. Devem ser os meus pais. Os meus verdadeiros pais. Mas não distingo os seus ros­tos. Não passam de dois fantasmas.

Do lado de fora, agora tenho certeza, estendem-se as colinas ver­des da costa normanda. Antigas casamatas surgem por detrás dos outeiros de relva, imortais cubos de concreto, como se a terra jamais esquecesse os ferimentos da guerra. Ao longe, as falésias de argila se projetam sobre um mar agitado.

Eu olho a mosca idiota. Ela pousa, vai embora, volta lentamen­te. Sei que não vou conseguir expulsá-la. Ela está ali para desviar meu olhar, para me levar para longe dos segredos do mundo adulto.

Na frente, a conversa envenena-se. Fico contrariado. Estou can­sado. Já ouvi mil vezes essas recriminações, essa discórdia, mil vezes vi esse pugilato.

Deve ser culpa minha, pois estou ali.

Depois, o carro para. Vejo as minhas mãos que se seguram no apoio de cabeça. Ouço o barulho da areia nos pneus, o mar, as por­tas que batem. Pum, pum, pum, como três bofetadas nas faces verme­lhas da minha recordação.

Arrasto os pés na praia deserta. Sigo de longe os adultos que não me ouvem. Andamos nos seixos. O clamor das ondas e o vento aba­fam toda a paisagem.

Na nossa frente, vejo o longo espigão coberto de algas verdes. Em seguida, novamente, a recordação se apaga lentamente, no bater das asas de uma gaivota.

No dia seguinte, de manhã, ao sair do banheiro, vi que Agnès já estava no escritório. Sem me esperar, ela havia começado as buscas na Internet. Não pude deixar de ficar emocionado ao vê-la da porta: a nuca delicada, as mãos tocando de leve o teclado. Eu não conseguia esquecer os beijos que ela me dera, os poucos minutos de uma intimidade que parecia perdida para sempre e que, no entanto, eu gostaria de desfrutar outra vez.

Você ronca, Vigo.

Como?

Ela não se virou.

Você ronca como um ogro! Ouço até no meu quarto.

Eu... eu sinto muito...

Finalmente, Agnès girou a cadeira para me olhar de frente. Um sorriso gozador iluminava o seu rosto.

Nunca ouvi ninguém roncar tão alto! É incrível!

Sinto... Sinto muito, de verdade!

Ela parecia deleitar-se com o meu embaraço.

Venha ver, acho que encontrei alguma coisa interessante a respeito da sua carta anônima.

Eu me aproximei do computador.

Olhe. Tenho a impressão de que identifiquei o cara que deixou a mensagem no hotel!

Verdade?

Agnès mostrou-me a tela. O Internet Explorer estava aberto num fórum.

Este é o nome de um hacker, um ciberpirata, se preferir, e não é um qualquer...

No meio da longa lista de mensagens exibidas na tela, ela me fez notar várias vezes a mesma assinatura: EsFiNgE.

Ah, é. E por que diz que não é um qualquer?

Quando li a sua mensagem, tive a impressão de já ter visto esse nome em algum lugar. Então, verifiquei. E aí está... Com certeza, devo ter notado o nome na Internet. Olhe, ele é o cara misterioso que fez revelações sobre a Pedra de Iorden...

Ah, é, eu me lembro. A famosa mensagem oculta de Cristo...

Exatamente. As revelações causaram um escândalo na época e permitiram desmantelar a Acta Fidei, uma organização mafiosa infiltrada no Vaticano...

E qual é a relação conosco?

Ela deu de ombros.

Não tenho a menor idéia. Mas, ao menos, sabemos que é sério. Eu me permiti enviar um e-mail para essa misteriosa EsFiNgE, espero que não se incomode. Veremos se ela respon­de! Criei uma conta para nós no fórum, que vai permitir que enviemos e mandemos mensagens.

Fez bem. Tem certeza de que é a pessoa que assinou a minha carta?

Quase. Veremos, conforme a resposta. Mas, olhe, é a mesma tipografia, com uma maiúscula a cada duas letras.

Isso. Mesmo assim, é incrível! Eu me pergunto por que um ciberpirata teria deixado essa mensagem no hotel!

Bem, lendo as mensagens, tive a impressão de que esse cara passa todo o tempo denunciando escândalos políticos, finan­ceiros e outros mais. O site dele parece uma espécie de Canard enchainé da Web!

Interessante...

É. Ainda não olhei tudo, mas parece confiável... Mesmo assim, é preciso desconfiar, existem muitos malucos na Web, pseudojornalistas de investigação que denunciam teses totalmen­te fajutas.

Como aquele que explicou que nenhum avião havia caído no Pentágono nos atentados de 11 de setembro...

E um exemplo... Mas esse não parece ser o gênero da nossa EsFiNgE. Li um ou dois artigos que ele publicou no Opus Dei sobre o caso Clearstream e são muito coerentes... Veremos.

É mesmo uma boa notícia! Espero que ele possa nos con­tar mais. Já tomou o café da manhã?

Não. Vamos tomar.

Passamos o resto do dia juntos, dividindo o tempo entre refeições, conversas e novas buscas na Internet, que confirmaram a nossa boa impressão a respeito do misterioso hacker. Porém, não recebemos nenhuma resposta para a mensagem de Agnès.

No fim da tarde, quando eu estava lendo um artigo da famo­sa EsFiNgE sobre o escândalo da prisão de Abu Ghraib, no Iraque, ouvi a voz de Agnès na sala:

Vigo! Venha depressa! Novidades sobre o atentado!

Levantei-me e corri para me sentar com ela no sofá. O telejornal exibia a foto de um homem de uns 30 anos.

...chamado Gérard Reynald, teria sido preso hoje de manhã no seu domicilio parisiense, no caso da investigação sobre o atentado de 8 de agosto. Esse homem de 36 anos, desconhecido do departamento policial, é suspeito de ser um dos envolvidos na explosão da torre SEAM. Segundo as informações, o suspeito sofre de distúrbios psi­quiátricos muito sérios, do tipo esquizofrênico...

Senti a mão de Agnès crispar-se no meu braço.

...essa prisão surpresa põe em dúvida a tese da pista islâmica e da rede Al-Qaeda... O juiz de instrução encarregado do dossiê recusou-se a fazer comentários sobre o caso, mas soubemos de fontes ligadas à polícia que outros suspeitos ainda estão sendo procurados... Agnès e eu ficamos longos minutos perplexos diante da televisão. Quando o jornalista passou para o caso seguinte, eu me virei para ela e tudo o que consegui dizer foi:

Que merda! Merda, merda e merda!

Agnès limitou-se a concordar. Ela estava tão embasbacada quanto eu.

Um esquizofrênico! —- murmurei, sacudindo a cabeça.

Não é possível... Não pode ser coincidência! Não... não é possível!

Guardou o nome do cara? — perguntei, preocupado.

Sim, sim. Gerard Reynald.

Temos de descobrir quem é esse cara. Com certeza, tem alguma relação comigo. Com certeza!

De repente, percebi que um elemento-chave da verdade havia aparecido. Mas não havia nada que pudéssemos fazer por enquanto. Nada, a não ser aceitar essa notícia no mínimo pertur­badora.

Foi Agnès quem, finalmente, decidiu tirar-nos do torpor.

Bom, não vamos ficar aqui a noite inteira de olhos arrega­lados, como dois imbecis, Vigo. Principalmente porque tenho de ir ao jantar. No fim das contas, vamos nos alegrar: eis uma pista a mais, e uma confirmação de que a sua história não é produto da sua imaginação e que, talvez, ela tenha uma ligação direta com o atentado de 8 de agosto.

Atentado perpetrado na torre onde ficava o consultório fantasma do doutor Guillaume!

Você acha que...

Que o quê? — perguntei, levantando-me.

Acha que esse cara é como você? Que é outro paciente do doutor Guillaume e pode ter explodido a torre?

É uma explicação plausível, não é? Esse Gérard Reynald, provavelmente, não é mais esquizofrênico do que eu. Talvez seja um cara que descobriu as maquinações do doutor Guillaume e, para se vingar, pôs as bombas na torre SEAM...

Agnès anuiu lentamente.

É preciso... É absolutamente preciso sabermos mais sobre esse sujeito!

Quer dar uma olhada na Internet?

Vamos, mas rápido, vou me atrasar.

Nós nos instalamos novamente no computador. Estava se tornando um hábito do qual eu começava a gostar. Mais uma vez, não encontramos nenhuma informação interessante. Com exceção de um comunicado da AFP que não dizia muito mais do que escutáramos na televisão, não havia nenhuma pista tangí­vel a respeito de Gérard Reynald, em todos os resultados lista­dos pelos sites de busca.

Suspirei.

Pode olhar se a EsFiNgE respondeu à sua mensagem?

Agnès conectou-se no fórum, mas logo viu que ainda não havíamos recebido nenhum correio eletrônico. Ela deu de ombros com ar desolado.

Não saberemos mais nada hoje à noite — disse ela. — Tenho de ir. Não o convido para vir, pois é um jantar de poli­ciais...

Certo, fique tranqüila...

Tente relaxar, pensar em outra coisa. Amanhã recomeça­remos.

Concordei com a cabeça. Mas assim que ela saiu continuei as buscas na Internet. Passei horas tentando cruzar referências, o nome do suspeito preso, o Protocolo 88, a clínica Mater... Porém, não encontrei nada de concreto.

Até uma hora da manhã Agnès ainda não havia voltado. Exausto, fui dormir na sala.

No dia seguinte, fui acordado bruscamente por uma súbita luz. Agnès havia aberto as cortinas e estava na minha frente com um café na mão. Surpreso, olhei o relógio do videocassete. Agora, indicava uma hora bem real: já eram 10 horas.

Vigo, encontrei as coordenadas do advogado de Gérard Reynald.

Ela se sentou na beirada do sofá-cama e me entregou a xíca­ra de café. Eu me ergui com dificuldade.

Vamos tentar encontrá-lo? — propôs ela.

Franzi as sobrancelhas.

Num domingo de manhã?

E daí? Prefere esperar? Lembro que o seu sursis termina­rá logo, Vigo. Amanhã, aconteça o que acontecer, vou ligar para o procurador.

Resmunguei.

Você é bem matinal! A que horas voltou?

— Por volta das 2 horas... Mas não podemos perder tempo, Vigo... Por isso, comecei cedo hoje. Eu trabalho por você, meu caro...

Sorri. Por mais que tentasse mostrar impertinência, estava cativada pela nossa investigação, ao menos tanto quanto eu. Eu poderia jurar que ela lamentava ter de entregá-la à justiça no dia seguinte.

— Bom — disse eu —, deixe, ao menos, eu me levantar.

Tomei o café e fui me vestir no banheiro. Quando voltei, Agnès me entregou o telefone.

Ligue para o advogado. Diga que quer encontrá-lo.

Mas... Como quer que eu proceda?

Sei lá. Diga-lhe que tem informações importantes para dar a ele...

Sacudi a cabeça. Disse a mim mesmo que Agnès seria mais eficiente do que eu para tomar esse tipo de providência. Mais convincente. Mas a responsabilidade era minha. Peguei o telefo­ne e digitei o número do advogado. Evidentemente, o escritório estava fechado. No entanto, a mensagem da secretária eletrônica indicava um número de telefone celular em caso de urgência.

Alguns instantes depois, finalmente, o doutor Blenod estava do outro lado da linha. Ele não parecia feliz de ser incomodado num domingo de manhã. Mas eu não podia ficar ressentido. Além disso, não era hora para delicadezas.

Doutor, preciso urgentemente falar com o seu cliente Gérard Reynald. Tenho informações para lhe transmitir que podem ser capitais na defesa e preciso conversar com ele a res­peito do atentado da torre SEAM...

Está brincando? É uma farsa?

Não... Tenho de me encontrar com o seu cliente.

Ora, senhor! Ele está em prisão cautelar!

Tenho informações essenciais que devem chegar até ele.

Ouça, nem sei quem é o senhor!

Hesitei. Não podia assumir o risco de dar o meu nome tão facilmente.

Não posso dizer nada por telefone. Tem de confiar em mim... Tenho informações realmente importantes. Preciso encon­trar o seu cliente.

Repito que é impossível. O meu cliente está em prisão cautelar, não pode encontrá-lo e ponto final.

Estou lhe dizendo que sei coisas... Coisas importantes... Que poderiam ser úteis no processo e...

Pode ser, mas é assim, senhor... E, agora, me desculpe, tenho coisas importantes a...

Ele lhe falou sobre a clínica Mater? — interrompi.

O advogado ficou em silêncio.

Ele lhe falou, não é?

Mais um momento de silêncio. Não havia nenhuma dúvida. O nome da clínica dizia-lhe alguma coisa.

Sinto muito, mas aquilo que o meu cliente me fala no âmbito da sua prisão cautelar é estritamente confidencial. Além do mais, não sei quem é o senhor e não vejo que ligação pode ter com o caso...

Eu estava na torre no momento do atentado. Ouça, diga ao seu cliente que tenho informações sobre a clínica Mater. Diga-lhe apenas isso e me ligue de volta.

Ele deu um suspiro, mas concordou. Eu lhe dei o número do meu celular.

Vou aguardar a sua ligação, doutor.

Não lhe prometo nada.

Ele desligou. Lancei um olhar satisfeito a Agnès.

Tenho certeza de que o cliente dele falou da clínica. Ele ficou surpreso quando pronunciei a palavra Mater.

Então, estamos na pista certa.

Por precaução, anotei o número e o endereço do advogado na minha caderneta Moleskine.

Agnès e eu passamos uma boa parte do dia procurando, em vão, outras informações na Internet; depois, no fim da tarde, o meu celular tocou finalmente. Atendi logo, impaciente:

Alô!

Quem fala é o doutor Blenod. Ouça, quero encontrá-lo amanhã, segunda-feira, às 11 horas.

Não podemos nos ver esta noite?

Não. Quero encontrá-lo amanhã, se puder, realmente, for­necer informações importantes...

Combinado.

As 11 horas, em frente ao Palácio da Justiça.

Já anotei.

Ele desligou. Virei-me de novo para Agnès.

Deixe-me adivinhar — disse ela com um ar exasperado. — Vai me pedir para esperar até amanhã à tarde para avisar o pro­curador.

Fiz uma cara embaraçada.

O advogado não pode me ver hoje... Temos uma pista, Agnès, uma pista verdadeira. Não vamos desistir!

Não é razoável, Vigo! O seu caso está ficando perigoso...

Mas foi você quem me disse para ligar para o advogado, e eu não vou abandonar tão perto do fim...

Bom... No fim das contas, o problema é seu! — soltou ela com voz desanimada.

Agnès estava dividida entre a vontade de me ajudar e as suas próprias angústias, que eu adivinhava pela tensão da sua voz, no seu olhar. Eu tinha vergonha de abusar assim da sua ajuda e da sua hospitalidade num momento tão delicado da sua vida. Ela deve ter percebido e procurou arejar a minha cabeça propondo outra noite de vídeo... Agnès preparou o jantar e escolheu uma velha comédia americana na sua biblioteca.

Havia nessa mulher uma generosidade profunda e sincera, abandonada, que me emocionava sem que eu pudesse expressar o meu reconhecimento. Por várias vezes, durante o filme, senti a mão dela fechar-se sobre a minha com uma ternura discreta. Mas não nos arriscamos, nem um nem outro, a levar avante essas tímidas provas de afeição.

Por volta das 11 horas, o telefone de Agnès tocou. Ela se levantou e foi isolar-se no quarto. Por trás da porta, ouvi o tom da sua voz subir progressivamente, e, rapidamente, a conversa transformou-se numa longa briga. Só distingui algumas palavras, mas foram suficientes para compreender quem estava do outro lado da linha: o marido dela. Sem dúvida, as coisas estavam mais complicadas do que Agnès quis me dizer.

Quando, finalmente, a voz dela se calou, um silêncio de chumbo invadiu o apartamento. Eu não ousava me mexer, mesmo sabendo que ela chorava, sozinha, deitada na cama. Resisti ao desejo de ir ter com ela no quarto para dar-lhe o con­forto de que certamente precisava. Eu não teria encontrado as palavras certas. Eu ainda não a conhecia muito bem. E, no entan­to, eu não conhecia outra pessoa além dessa mulher.

Agnès não voltou para a sala. Fui dormir por volta de 1 hora da manhã, terrivelmente preocupado, silenciosamente desconso­lado.

Na segunda-feira de manhã, novamente sozinho no aparta­mento, preparei-me para passar o dia. Depois de tomar um rápi­do café da manhã, liguei o computador de Agnès. Conectei-me no fórum, no qual havíamos tentado entrar em contato com a misteriosa EsFiNgE, e imediatamente descobri que tínhamos uma resposta. Senti o pânico e, ao mesmo tempo, a excitação tomarem conta de mim. Não ousava lê-la sem a opinião de Agnès. Afinal, o correio eletrônico era dela.

Agnès e eu não havíamos trocado nem uma palavra depois da sua briga com o marido na véspera. Ela havia saído muito cedo, antes que eu acordasse. Hesitei por um instante, depois liguei para o seu celular.

Bom-dia, Vigo — disse ela, em voz baixa.

Eu a incomodo?

Estou no escritório... Mas pode falar...

Recebemos uma resposta da EsFiNgE.

Ela ficou em silêncio por um instante.

Você a leu?

Não.

Pois bem, vá em frente, olhe!

Obedeci. A mensagem era de poucas linhas. Li em voz alta:

Saiam imediatamente — IMEDIATAMENTE — do apartamen­to. Vocês correm perigo. E diga a Vigo para não usar mais o celu­lar. Entraremos em contato sem demora. EsFiNgE.

Comecei a tremer.

De quando data a mensagem? — pressionou-me Agnès do outro lado da linha.

Olhei no cabeçalho do correio eletrônico.

Foi enviada hoje de manhã, às 7h54.

Vigo, desligue imediatamente e saia do apartamento! Encontre-me em frente ao restaurante.

Hein?

Desligue, merda! E desligue o celular, não o ligue de jeito nenhum!

Cortei a conversa e desliguei o telefone na mesma hora. Pensei um pouco, recusando-me a sucumbir ao pânico. Agnès tinha razão. Não podia perder um minuto. Ambos sabíamos que o hacker era confiável — a primeira mensagem havia provado —, não podíamos assumir o risco de ignorar seus conselhos. Precisava agir depressa. Bem depressa. Raciocinar e agir rapidamen­te. Sem esperar um segundo a mais, corri para a sala, peguei a mochila e juntei as minhas coisas. Dei uma última olhada no apartamento, depois me precipitei para a entrada, enfiei o meu casaco e saí.

Ao chegar ao corredor, ouvi que o elevador subia. Um barulho característico dos cabos que deslizavam. A cabine em movimento aproximava-se lentamente. Vocês correm perigo. A mensagem do hacker era clara. Alguém podia vir, e rápido, ao apartamento. Seriam eles? Dei meia-volta e abri a porta da escada de emergên­cia. Desci os degraus correndo. Ao chegar ao andar térreo, parei em frente à porta. E se houvessem deixado alguém em frente ao prédio? Decidi fugir pela garagem.

Dei meia-volta outra vez e despenquei pelos degraus para o primeiro subsolo. A luz apagou. Hesitei. Decidi não acender a minuteria. As cegas, procurei a porta que dava para a garagem. A minha mão encontrou uma maçaneta. Abri.

As fileiras de carros estavam iluminadas pelas fracas luzes verdes do letreiro da saída de emergência. Não havia ninguém, nenhum barulho. O meu coração batia forte. E se eu desse de cara com os sujeitos? Ainda via os meus dois perseguidores da Défense, com os seus agasalhos cinza. Esperava vê-los surgir a qualquer momento ao volante de um carro, todos os faróis ace­sos, avançando para cima de mim.

Mas não, não devia ter medo. Não havia ninguém na gara­gem. Eu me enchi de coragem e avancei na penumbra. Atento, passei ao lado dos capôs dos carros alinhados. Vi a rampa de saída na minha frente. Acelerei o passo. De repente, um motor deu a partida atrás de mim. Eu me virei. Vi os faróis de um carro escuro de quatro portas se acenderem. Fiquei com medo. Corri para detrás de um carro e me agachei. O quatro portas saiu len­tamente do lugar e virou na minha direção. A luz dos faróis me cegou. Eu me abaixei mais. Sentia o sangue latejar nas têmporas, o suor escorrer nas costas e na palma das mãos. O carro aproximou-se. Cerrei os dentes. Quando chegou à altura de onde eu estava, inclinei-me para ver o motorista. Soltei um suspiro de alívio. Era uma velhinha, colada ao volante.

O carro parou na saída da garagem. A motorista inseriu um cartão no leitor magnético. A porta se abriu. Esperei que ela saís­se, depois corri atrás dela para aproveitar a porta aberta. Com as costas encurvadas, subi rapidamente a longa rampa. Ao chegar em cima, grudei na parede. Em seguida, avancei com cuidado para a rua. Com toda a cautela, dei uma olhada para a esquerda. A entrada do prédio ficava a uns 15 metros. E, como eu temia, um homem vigiava em frente à porta. Não usava um agasalho cinza, mas não parecia um anjo. Jaqueta de couro, mãos nos bol­sos, cabeça raspada, parecia um leão de chácara de boate. Eu tinha certeza de que era um deles. Um dos caras que me procu­ravam.

Recuei a cabeça, com a respiração entrecortada. Hesitei um instante. Precisava encontrar um jeito de sair dali o mais rápido possível. Sem dúvida devia haver outros caras em cima, e, quan­do descobrissem o apartamento vazio, provavelmente iriam pro­curar nas outras saídas do prédio.

Dei mais uma olhada na entrada. Esperei alguns segundos e, quando o sujeito virou de costas, saí correndo no sentido opos­to. A toda a velocidade, correndo paralelamente à parede, sem me virar, dobrei na primeira rua à direita.

Agnès havia dito para eu me encontrar com ela em frente "ao restaurante". Não havia especificado qual, supondo que ouviam a nossa conversa, mas eu tinha quase toda a certeza de que ela falava do Parfait Silence, onde havíamos jantado. Se se tratasse do Wepler, sem dúvida ela teria dito "cervejaria"... Esperava não estar enganado. Continuei a correr, atravessei duas ruas, depois parei para ver se era seguido. Não vi ninguém atrás de mim. No entanto, não era razão para me demorar. Recomecei imediata­mente a correr e só parei quando avistei o restaurante.

Agnès ainda não estava lá. Por precaução, mantive-me a dis­tância. Escondido no pórtico de um prédio, esperei, o coração disparado. Uns dez minutos depois, eu a vi chegar num passo rápido. Avancei pela calçada e lhe fiz um sinal. Ela me viu e veio ao meu encontro, correndo.

Tudo bem? — perguntou-me, sem fôlego.

Sim, tudo bem. Mas acho que os caras estão na sua casa.

Tem certeza?

Ouvi o elevador subir, saí pela garagem e vi um cara vi­giando a entrada do prédio.

Merda! Dessa vez as coisas foram longe demais, Vigo! Temos de avisar o procurador.

Não!

Não vá recomeçar! Ouça, agora, eu estou sendo ameaçada! E se os caras estiverem revistando o meu apartamento, você é gentil, mas acho que tenho o direito, se não o dever, de fazer alguma coisa!

Espere ao menos que eu fale com o advogado. Venha comigo, se quiser, e depois você fará o que lhe parece certo.

Ela sacudiu a cabeça.

Você é um chato... A que horas vai vê-lo?

Às 11 horas.

Está bem. Espere.

Eu a vi pegar o celular e digitar rapidamente um número. Ela começou a andar em círculos na calçada, com o telefone colado no rosto. Depois, ouvi a sua conversa: "Michel? E Agnès. Sim... Olhe, preciso que me faça um favorzão... Sim, chegou a sua vez, meu caro! Acho que uns caras estão assaltando o meu apartamen­to... Não tenho tempo de explicar... Não posso ir até lá, tenho... tenho uma emergência. Pode ir ao apartamento com dois rapa­zes? Sim. Obrigada, retribuirei o favor. Mantenha-me a par." Ela desligou, depois veio na minha direção.

Venha, vamos buscar o meu carro, vou levá-lo para falar com o advogado.

Tem... tem certeza?

Tenho. Ande, vamos embora.

Andamos num passo rápido para a delegacia central. Eu olha­va constantemente para trás, para confirmar se não estávamos sendo seguidos. Quando chegamos à rua de Clignancourt, Agnès foi buscar o carro no estacionamento da delegacia, depois nos pusemos a caminho do Ier arrondissement.

Sentado obedientemente ao lado dela, percebi claramente a tensão de Agnès. A cabeça dela fervia. Aliás, ela acabou dizendo o que estava sentindo.

Vigo, nós vamos ao seu famoso encontro e, depois, vamos parar, certo? Isso está ficando muito arriscado. Você tem de avi­sar o juiz.

Concordei com a cabeça, sem dizer nada. No fundo, a gene­rosidade de Agnès não tinha limites. Sem dúvida, o seu aparta­mento estava sendo revirado pelos meus inimigos invisíveis e, apesar de tudo, ela ainda preferia me ajudar...

Hoje de manhã tentei encontrar o comandante Berger, o colega de quem eu lhe falei e que trabalhava na Equipe de Busca e Intervenção nas Pedreiras, para falar a respeito da sua história das catacumbas. Infelizmente, ele se aposentou.

Sem tirar os olhos do caminho, ela me entregou um pedaço de papel.

Tome, esse é o telefone particular dele. Pode tentar entrar em contato com ele da minha parte, mas não tenho certeza de que poderá ajudá-lo.

Obrigado. Obrigado por tudo, Agnès.

Ela ficou em silêncio todo o resto do trajeto. Um pouco antes das 11 horas, chegamos em frente ao Palácio da Justiça.

Doutor Blenod?

O homem anuiu. Alto, magro, cabelos grisalhos, ele nadava dentro de um terno largo demais. Segurava embaixo do braço uma pasta de couro marrom. Tinha o olhar indiferente e os ges­tos apressados de um homem de negócios.

Obrigado por aceitar me encontrar.

Não vamos ficar aqui.

O advogado parecia estressado. Nós o seguimos até o outro lado do bulevar, depois ele nos guiou até uma ruazinha, um pouco mais longe. Inspecionou repetidas vezes os dois lados da rua, depois me olhou direto nos olhos.

Posso saber como se chama?

Prefiro continuar anônimo.

Então, eu me despeço, senhor.

O advogado deu meia-volta. Eu o segurei pelo braço.

Espere!

Sinto muito, mas num processo como esse não estou dis­posto a falar com um desconhecido... Preciso saber com quem estou tratando.

Não posso lhe dizer o meu nome — expliquei. — Já estou envolvido demais nesse caso.

Posso prometer que não vou revelar o seu nome a nin­guém... Tenho o direito de proteger as minhas fontes.

Como posso ter certeza?

Confiança mútua. A decisão é sua.

Eu me virei para Agnès com um olhar de interrogação. Com um sinal de cabeça, ela me encorajou a dizer o meu nome. A idéia não me agradava, mas era preciso fazer o advogado confiar.

Eu me chamo Vigo Ravel.

O advogado pareceu cético.

Ravel? Posso ver a sua carteira de identidade?

Ergui as sobrancelhas.

Como?

Aceitei encontrá-lo sem a menor informação tangível, sem saber quem o senhor era... Desculpe-me, mas acho que ao menos tenho o direito de me certificar da sua identidade.

Eu sorri. O pobre homem não sabia que eu era incapaz de garantir a mim mesmo o que quer que fosse em relação à minha identidade... Ele não podia entender a ironia da sua pergunta. Peguei a minha carteira e lhe entreguei os documentos, por mais falsos que fossem.

Certo. E a senhora?

Agnès Fedjer. Sou tenente de polícia — disse ela tirando a carteira.

Ele pareceu surpreso.

Tenente da polícia? É uma piada?

Não. Estou aqui oficiosamente — replicou ela. — Dou assistência ao senhor Ravel.

O advogado sacudiu a cabeça.

Sinto muito, mas prefiro conversar a sós com o senhor Ravel.

Por quê?

Parece não perceber muito bem a situação. O meu cliente ainda está em prisão cautelar, eu não devia estar aqui. O senhor Reynald é suspeito de ter cometido um ato terrorista que custou a vida de mais de 2.600 pessoas, então, deixe-me lhe dizer que o pessoal lá de cima não está brincando. O juiz de instrução está no meu pé. Nunca sofri tamanha pressão. Você compreende por que não gosto muito que uma tenente da polícia participe da nossa conversa, quaisquer que sejam as suas relações com ela.

Eu já me preparava para protestar, mas Agnès me pegou pelo braço e respondeu no meu lugar.

Não tem problema, doutor, compreendo. Vigo, eu o espe­ro no café — disse ela, indicando uma cervejaria na esquina do bulevar do Palais com a rua Lutèce.

Agnès afastou-se num passo rápido, sem esperar a minha res­posta. Suspirei. Certamente, a presença dela seria bem mais tran- quilizadora! Eu teria de me virar sozinho.

Não se zangue comigo, mas a situação é particularmente tensa, sou obrigado a tomar precauções. Para dizer a verdade, não sei por que aceitei encontrá-lo, espero que suas informações...

Ora, doutor — interrompi. — Sabe muito bem por que aceitou se encontrar comigo.

Ah, é?

É.

Ele ficou em silêncio. Eu tinha certeza de que não estava enganado. O silêncio dele o traíra na véspera, quando citei o nome da clínica Mater.

E se fôssemos falar sobre tudo isso num café? — propus.

Não — respondeu o advogado. — Diante da importância desse processo, sou vigiado de perto, o juiz parece inflexível. Vamos dar uma volta de carro, é mais seguro.

De carro?

Sim, estacionei ali — disse ele, apontando o fim da rua.

Fiz uma careta. Não gostei muito da idéia de entrar no carro de um desconhecido em quem não confiava muito, mas parecia que, realmente, eu não tinha escolha.

Está bem.

Eu o segui até o pequeno Mercedes cinza, sentei-me ao seu lado e pus a mochila nos pés, pouco à vontade. Em seguida, ele deu a partida e saiu na direção da praça Saint-Michel.

Ele ligou o rádio numa estação musical, com o volume muito alto.

Primeiro, faço questão de esclarecer uma coisa. Tudo o que o meu cliente me contou durante a prisão cautelar é segredo da instrução. Portanto, não espere que eu lhe diga alguma coisa sobre esse assunto. Está bem claro?

Perfeitamente.

Bem. Pode falar — disse ele finalmente, enquanto atraves­sávamos o Sena.

Inspirei profundamente. Não me havia preparado o bastante para a conversa. Eu tinha de prestar atenção para não falar demais, apenas o suficiente para que ele confiasse em mim e, por sua vez, desse informações. Isso prometia ser uma verdadeira partida de xadrez.

Pois bem — comecei, pigarreando —, estou numa situa­ção que parece ser muito parecida com a do seu cliente e não acredito que seja uma coincidência.

O que quer dizer?

Durante mais de dez anos, fui acompanhado, depois de diagnosticarem em mim uma esquizofrenia paranoide aguda, por uma clínica médica que ficava na torre SEAM: a clínica Mater... Ora, depois do atentado, descobri coisas perturbadoras a respei­to dessa clínica. Portanto, a pergunta que me faço é a seguinte: o seu cliente também era paciente dessa clínica?

Não posso lhe dar essa informação.

Fiz uma careta. Não ia ser fácil fazer o advogado falar. Porém, eu precisava de uma confirmação: a clínica Mater tinha relação com o atentado e com Reynald? A reação do advogado na véspera me levava a crer que sim, é verdade, mas eu queria ter certeza.

Doutor, compreendo o seu ponto de vista e juro que posso lhe dar informações úteis para a defesa do seu cliente. Mas por que lhe daria essas informações sem nem mesmo saber se esta­mos na mesma pista? O fato de o seu cliente ter ou não freqüen­tado a clínica Mater não é segredo da instrução...

Chegamos a um sinal vermelho. O carro parou. O advogado virou-se para mim e encarou-me por um instante.

Estou disposto a dar-lhe alguma coisa se o que tiver para me dizer puder, realmente, ser útil para mim. Elas por elas.

Ele indicou a pasta de couro no banco de trás.

Preparei uma pasta com algumas informações. Nada que traia o segredo da instrução, é verdade, nada do que foi dito durante a prisão cautelar, mas talvez tenha alguma coisa que possa ajudá-lo. A decisão é sua.

Era a segunda vez que ele me saía com essa réplica. A decisão é sua! Estava começando a me aborrecer seriamente. Dei uma olhada na maleta que estava atrás.

Nem sei o que tem na sua pasta! — protestei.

Tirei uma fotocópia do dossiê que estabeleci sobre o senhor Reynald, ele contém as informações que pude reunir pre­viamente. Não é grande coisa, mas estou certo de que vai lhe interessar. De qualquer maneira, é preciso que compreenda uma coisa: por enquanto, não sei praticamente nada. Enquanto o meu cliente estiver em prisão cautelar, não tenho acesso ao dossiê. E só pude conversar com ele por duas vezes, uma meia hora. Se tiver informações que possam me ajudar, estou disposto a ouvi-lo.

Hesitei. Eu tinha de decidir se podia revelar ao advogado a informação que, sem dúvida, era a principal pista nesse dossiê, se confiássemos no hacker: o Protocolo 88. Eu ainda não sabia do que se tratava, mas, se acreditasse na mensagem da EsFiNgE, o protocolo estava no centro do nosso caso. Dar essa única refe­rência era arriscado. Afinal, eu tinha tantas razões para descon­fiar desse advogado quanto do procurador que Agnès fazia ques­tão de prevenir... Não. Seria melhor guardar o Protocolo 88 para mim. E se eu falasse da misteriosa sociedade Dermod, que Agnès havia descoberto ser proprietária do apartamento dos meus pais? De uma forma ou de outra, eu tinha certeza de que essa socieda­de estava ligada à história. Porém, mais uma vez, era uma infor­mação preciosa... Em compensação, talvez eu pudesse falar sobre a Feuerberg. Não sabia se a empresa na qual eu havia trabalha­do por tanto tempo estava envolvida em tudo isso, mas tinha boas razões para supor que sim: o meu patrão me havia traído, parecia conspirar com o doutor Guillaume e os escritórios haviam sido misteriosamente esvaziados.

Doutor, estou longe de deter a verdade a respeito desse caso, mas acho que o seu cliente e eu somos vítimas de uma mesma maquinação.

Maquinação?

Sim. Certamente o senhor fez a sua investigaçãozinha a respeito da clínica Mater...

Ele não respondeu.

Então, sabe que, oficialmente, essa clínica não existe. No entanto, o seu cliente e eu a freqüentamos durante muitos anos... Alguém tinha interesse em acompanhar ao menos dois pacientes esquizofrênicos numa clínica médica não declarada, oculta numa torre da Défense. Por quê? Ainda não sei.

Não passam de suposições... Você me havia prometido informações.

Eu sorri. O advogado não perdia o norte.

Estou disposto a revelar o nome de uma sociedade, sobre a qual tenho boas razões para pensar que estava ligada de perto a essa maquinação.

Pode falar.

Hesitei. Tinha a impressão de que entregaria a ele, numa tra­vessa de prata, um elemento-chave da investigação. Mas, talvez, fosse o preço a pagar para encontrar novas pistas. Era bom saber qualquer informação. Era mais forte do que eu, eu queria saber o que havia na desgraçada da maleta. No fundo, era também um meio de contentar Agnès: ao pôr o advogado na pista da Feuerberg, indiretamente, eu estava alertando a justiça, sem precisar avisar pessoalmente um procurador e comprometer-me no caso.

Decidi revelar ao advogado o nome Feuerberg. Nada mais.

— Tenho boas razões para acreditar que a clínica Mater ou, em todo caso, o doutor Guillaume, está ligada a uma sociedade de patentes denominada Feuerberg.

O advogado ergueu as sobrancelhas. Imediatamente, adivi­nhei que não era a primeira vez que ele ouvia esse nome.

Isso lhe diz alguma coisa? — perguntei.

Não.

Ele estava mentindo, eu poderia jurar.

Pois bem, tem aí uma pista importante. Os escritórios da Feuerberg acabaram de ser mudados, como por acaso. Também tenho quase certeza de que o diretor da sociedade, o senhor De Telême, estava a par da maquinação da qual o seu cliente e eu fomos vítimas.

Mais uma vez, não passam de suposições, senhor...

Não. Não são suposições. E uma pista. Só precisa ir pes­soalmente à sede social da sociedade Feuerberg, verá que se passa alguma coisa de anormal.

O advogado anuiu.

É tudo o que pode me dizer?

Isso já deveria ajudar muito. Investigue sobre a Feuerberg e sobre a clínica Mater e vai encontrar material para a defesa do seu cliente.

E o que espero. E uma informação bem minguada.

O advogado fez uma cara de decepção, mas eu estava certo de que as minhas informações lhe seriam particularmente úteis.

Agora é a sua vez. O que pode me dizer sobre o senhor Reynald?

Verá tudo isso no dossiê...

Acha que ele é realmente esquizofrênico? — insisti.

O advogado pareceu surpreso.

O que quer dizer?

Ele parece ser realmente esquizofrênico?

O doutor Blenod hesitou.

Cabe aos especialistas decidirem isso... No entanto, as afirmações dele são bem confusas, até mesmo incoerentes, ele sofre de um delírio de perseguição.

Se ele fala da mesma perseguição que eu, provavelmente não é um delírio — insinuei. — Por mais que seja um distúrbio típico da esquizofrenia, reconheça que a história da clínica Mater é preocupante...

Pode ser, é preciso verificar.

Sorri com a idéia de que o advogado talvez me tomasse por um sujeito tão maluco quanto o seu cliente. Isso não tinha lá muita importância.

Alguma coisa a mais?

Só precisa ler o dossiê. E se posso lhe dar um conselho, no seu lugar eu desistiria dessa investigação... Se continuar a meter o nariz em tudo o que é lugar, a polícia vai acabar caindo em cima de você.

Foi nesse exato momento que notei alguma coisa anormal. Alguma coisa que poderia muito bem ter me escapado, mas que, por sorte, percebi com o canto dos olhos. Como uma imagem subliminar, um diapositivo furtivo.

Havíamos acabado de passar em frente ao Palácio da Justiça, e, em vez de parar, o advogado virou numa rua à esquerda. Inicialmente, achei que procurava um lugar para estacionar, mas logo compreendi que ele tramava outra coisa. O advogado pare­cia cada vez mais agitado, quando, à sombra de um grande pór­tico, percebi a silhueta de dois homens. Com uma única olhada através do vidro, tive a certeza de tê-los reconhecido. Eram os meus dois perseguidores da Défense, com os seus agasalhos cinza.

Observei o advogado e vi no seu olhar fugidio que havia me traído. Ele ia me entregar ao inimigo.

Nem parei para pensar e me deixei levar pelo instinto, espec­tador dos meus próprios reflexos. Com um movimento brusco, peguei o volante e puxei de uma vez para a direita. O Mercedes girou com um guinchar de pneus e entrou numa caminhonete estacionada ao longo da calçada. O choque foi de uma violência inaudita. Houve um grande estrondo, barulho de lataria amassa­da e de vidro que voava aos pedaços. Os nossos corpos foram projetados para a frente e imediatamente detidos pelos air bags brancos.

Não perdi o controle dos meus atos, a percepção da emergên­cia, nem por um instante. Ou melhor, foi como se alguém, uma espécie de consciência extralúcida, houvesse assumido o contro­le dos meus movimentos. Com gestos seguros e precisos, soltei o cinto de segurança, abri a porta o máximo possível e desem­baracei-me do air bag inflado contra o meu peito. Deslizei pela pequena abertura, peguei a minha mochila e o dossiê na maleta do advogado, no banco de trás. Escapuli com agilidade entre a caminhonete e o carro destroçado. Uma vez na rua, comecei a correr imediatamente, deixando para trás o corpo inerte do advo­gado, cujo olhar estupefato percebi de relance.

Correndo na direção oposta, não me virei nem uma única vez. Sabia muito bem que eles estavam nos meus calcanhares. Eu ouvia ao longe o estalar dos passos deles na rua. Entretanto, eu estava na frente e, sem dúvida, a surpresa contava a meu favor. Corri com todas as minhas forças, a mão fechada na pasta do advogado, mudei várias vezes de direção, assumindo riscos insensatos ao atravessar, sem desacelerar, as ruas onde os carros passavam a toda a velocidade. Por pouco não fui derrubado várias vezes, porém eu corria cada vez mais, movido por uma força invisível, feita de raiva e frustração. Cheguei aos cais do Sena, esgueirei-me por entre turistas atônitos, depois, como eu havia feito na Défense, pulei num ônibus apenas alguns segun­dos antes de as portas se fecharem.

O motorista lançou-me um olhar indiferente, arrancou e enfiou-se rapidamente no trânsito. Dei uma olhada na rua. Eu tinha certeza de que dessa vez os dois sujeitos não me viram entrar. Eu os vi do outro lado do cruzamento, desamparados, examinando de todos os lados para tentar encontrar a minha pista. Sob o olhar perplexo de uma velha senhora sentada no fundo do ônibus, ergui o dedo médio da mão direita e agitei na direção deles.

Recuperando o fôlego, introduzi o dossiê do advogado na mochila, depois me sentei num banco isolado, no qual me joguei, soltando um longo suspiro. Sem dúvida, fiquei assim por longos minutos, em estado de transe, deixando que os meus batimentos cardíacos voltassem ao ritmo normal, antes de me dar conta de que havia me esquecido de Agnès.

Eu me ergui no banco e enfiei a mão no bolso para pegar o celular. Hesitei por um longo momento antes de ligá-lo. Na mensagem, o hacker me havia recomendado com firmeza que o desligasse e não mais o usasse. Mas eu precisava avisar Agnès a todo custo. Não tinha escolha. Liguei. Vi na tela o símbolo que indicava que eu tinha uma mensagem. Acessei imediatamente a minha caixa de mensagens.

Vigo! Sou eu! Onde você está? Estou começando a ficar seria­mente preocupada. Bom. Espero que não tenha acontecido nada com você... Sinto muito, não posso esperar mais... Eles reviraram o meu apartamento, os meus colegas me esperam, tenho de ir até lá. Estou me mandando. Ligue-me rápido.

Digitei sem demora o número dela. Foi a minha vez de cair na caixa de mensagens. Hesitei. Como lhe dizer? Como explicar? O bipe ressoou no meu ouvido. Pus a mão na frente da boca, esperando que os outros passageiros não me ouvissem, e tentei ser breve:

Agnès... Sou eu... Estou bem... Mas era uma cilada. O advoga­do está do lado deles... Fui obrigado a fugir. Não sei muito bem o que fazer. Aguardo notícias suas. Mas tenho de desligar o celular... Envie um SMS, vou verificar constantemente... Um beijo.

Passei boa parte da tarde vagando pelo Quartier Latin, ainda aturdido com o rumo que os acontecimentos haviam tomado.

Não conseguia acreditar que o advogado pudesse ter me traído assim. E, sobretudo, não compreendia bem por que ele havia procedido daquele jeito... Por que não me havia entregue de cara aos sujeitos de agasalho cinza? Por que essa palhaçada? Esperava obter informações antes que eles pusessem as mãos em mim? Sem dúvida, era a melhor explicação. Mas eu estava furioso por me deixar enganar desse jeito. E, principalmente, eu me pergun­tava o que poderia fazer agora. Claro, nem pensar em ir ao encontro de Agnès, por enquanto. Estava por minha conta e isso me angustiava terrivelmente.

No fim da tarde, quando eu ia na direção do Odeon, senti, repentinamente, despontarem os sintomas de uma crise epilépti­ca. A dor de cabeça, o zumbido, o equilíbrio que ia embora, a visão que se turvava... Em breve, eu sabia, as vozes iam me sub­mergir com os pensamentos de todas aquelas pessoas à minha volta. Não! Não queria mais ouvi-los, não queria mais senti-los! Não suportava mais essa submissão impotente do meu cérebro doentio! Devia haver um meio de resistir, de me defender.

Cambaleando, fui em direção a um banco, onde me joguei pesadamente. Dobrado ao meio, segurei a cabeça com as mãos e tentei não pensar em mais nada, expulsar o mundo externo, os odores, as cores. Mas os murmúrios foram chegando lentamen­te, penetrantes, rodopiantes, como uma cantilena confusa. Lembrando-me do que havia funcionado na casa de Agnès, concentrei-me novamente na frase misteriosa da torre SEAM. Rebentos transcranianos... Repeti uma a uma as palavras sem sen­tido, como uma fórmula mágica. E, progressivamente, a dor desapareceu da minha fronte, os murmúrios voaram para longe. Aos poucos, as vozes calaram-se. Abri os olhos. O mundo volta­ra a ser claro, único, fluido, na sua normalidade reconfortante. Eu havia vencido a crise.

Levantei-me e recuperei a calma. Ou, ao menos, uma aparên­cia de calma.

Mas, agora, o que fazer? Aonde ir? Eu havia voltado ao ponto de partida, confrontado com a minha solidão e o meu julgamen­to, que, precisava admitir, ainda era frágil.

Pensei um instante no dossiê do advogado dentro da minha mochila. Estava impaciente para ver o que continha, mas a rua não era o melhor lugar para lê-lo. Perigoso demais. Isso tinha de esperar. De qualquer maneira, precisava encontrar um hotel. Então, poderia consultar tudo com calma.

Retomando a caminhada pelo bairro estudantil, com a cabeça enfiada entre os ombros, tentei analisar a situação, fazer metodicamente a soma das minhas descobertas. No fundo, a minha investigação já estava bem substancial. Eu começava a ver um pouco mais claro; já tinha até algumas convicções. Mas ainda res­tavam muitas perguntas e eu tinha de ir em frente, com ou sem Agnès. Eu me perguntei onde ela poderia estar no momento. Decidi verificar o celular e, de fato, ela havia deixado um SMS.

Apoiei-me numa parede e li a mensagem:

Vigo, mensagem recebida. Tranqüilizada, mas cuide de você. Quanto a mim... Difícil dizer por SMS. Mandei uma mensagem pela Internet, na nossa caixa de entrada, no fórum. Seja cuidadoso.

O meu coração começou a disparar. O que ela queria dizer? Difícil dizer por SMS. O que queria me comunicar? O cuidado... Só podia ser um mau sinal. Não consegui impedir que a angús­tia me dominasse e me preparei para o pior.

Impaciente e preocupado, comecei imediatamente a procurar um cibercafé. Era o tipo de coisa que não devia faltar naquele bairro. Andei depressa, quase correndo. Algumas ruas depois, vi um pequeno estabelecimento que parecia corresponder ao que eu procurava. Através da vitrine, podia-se ver fileiras de computa­dores, jovens inclinados sobre os monitores com fones nos ouvi­dos... Atravessei apressadamente a rua e entrei no cibercafé. O sangue latejava cada vez mais forte nas minhas veias e eu tinha a sensação de que um nó se apertava no meu estômago.

Um sujeito, na recepção, fez-me sinal para eu me sentar onde quisesse. Atravessei a sala mal-iluminada e me instalei em frente a um computador, o mais longe possível da rua.

Conectei-me à Internet e, sem dificuldade, encontrei o fórum no qual havíamos entrado em contato com a EsFiNgE da primei­ra vez. Digitei a senha para ter acesso à caixa de correspondên­cia que Agnès havia criado. Então, vi a mensagem dela. Com a mão trêmula, cliquei no ícone. Os meus piores temores foram confirmados.

 

Vigo... Gostaria de poder lhe dizer de viva voz, mas as circuns­tâncias não me facilitam a tarefa... E, é claro, você deve realmente evitar usar o seu telefone...

No fundo, talvez seja melhor que eu lhe diga isso por escrito. Não sei se teria forças para dizer de outra maneira.

Acho... Acho que não vou poder continuar a ajudá-lo. Tudo isso aconteceu num momento ruim... No pior momento possível. Estou furiosa comigo mesma por abandoná-lo assim, mas tudo está ficando muito complicado. Complicado demais.

Luc me ligou de novo. Não posso mentir a mim mesma. Preciso resolver as coisas com ele. É o meu marido... Não sei mais onde estou. Onde estamos. Acho que vou viajar por alguns dias. Tirar umas férias e encontrá-lo na Suíça. Tentar consertar as coisas, se é que isso ainda é possível. De qualquer maneira, não me fará mal me afastar um pouco de tudo. Talvez seja melhor para nós dois...

Espero que não me odeie. Que compreenda. Gosto muito de você, Vigo. Muito. Mais do que saberia dizer. Porém, é o momento errado.

Se ao menos...

Saiba que compreendo que você tenha a necessidade de conhecer a verdade da sua história e respeito a sua escolha. Até o admiro. Você é bem mais forte do que pensa. Espero que consiga; porém não posso mais ajudá-lo.

Prometo manter segredo. Cabe a você decidir se quer avisar o procurador. Acho que deveria fazê-lo, mas, afinal, isso ê com você. Diga-se de passagem, você é um desgraçado de um cabeçudo. Você me lembra o meu pai.

Quanto ao meu apartamento, meus colegas foram lá. Os caras quebraram tudo e levaram o meu computador! Não sei o que pode­riam encontrar, a não ser a mensagem da EsFiNgE, mas isso não é muito importante. Demos queixa de roubo... Estou escrevendo do meu escritório...

Seja gentil e não tente me encontrar. Dê-me um tempo. Dê-nos um tempo.

A não ser em caso de emergência, é claro.

Boa sorte. Desculpe-me. Vou sentir saudades. Muitas.

Um beijo.

Agnès.

P.S.: Deixei um envelope para você no restaurante, fale com Jean-Michel em meu nome.

 

Fiquei imóvel na cadeira por muito tempo, arrasado, incré­dulo. Imediatamente, o rosto de Agnès me veio à cabeça. Eu o vi, inteiro, todo ele, afastar-se, desaparecer lentamente sem que eu pudesse detê-lo. O pensamento de não mais revê-la torturou a minha alma, deixou-me dilacerado em três, em quatro mil pedaços.

Sentindo os olhares dos outros freqüentadores do cibercafé, lutei para resistir às lágrimas que ameaçavam invadir esses olhos que tanto gostavam de vê-la. Enfiei a mão no bolso e segurei o telefone desligado. Queria ligar para ela, impedi-la, dizer que ela havia sido o que de melhor acontecera na minha vida de adulto, dizer que não queria perdê-la. Mas precisava encarar os fatos: era razoável, talvez fosse melhor assim. Não podia lhe impor o que eu estava vivendo, nem impedi-la de salvar o casamento. Eu tam­bém devia respeitar a sua opção. Tinha de submeter-me, de resignar-me.

Resignar-me, de novo. Afinal, os meus ombros poderiam dobrar-se uma vez mais, já tinham tantos anos de treinamento! Eu tinha de aceitar. Pelo menos, por enquanto. Talvez, algum dia, eu voltasse a encontrá-la, se ainda fosse possível... Mas, por ora, devia concentrar-me na minha investigação.

Minha investigação. Já que era assim, melhor aproveitar a solidão para me dedicar totalmente a ela. Em todo caso, foi a mentira que disse ao meu coração para impedir que ficasse em farrapos.

E pronto. Na penumbra do pequeno estabelecimento do Quartier Latin, num dia estranho — no mínimo tão estranho quanto os anteriores —, eu me conscientizei de que estava sozi­nho de novo. Por minha conta e obrigado a ir em frente, apesar de tudo.

Você é bem mais forte do que pensa.

Lentamente, ergui os olhos para a tela do computador. Ten­tando expulsar a dor que me apertava o coração, forcei-me a refletir. Imediatamente, pensei na EsFiNgE e na sua última mensagem, naquela mesma manhã, que me havia feito sair com urgência do apartamento de Agnès. Uma mensagem no mínimo lacônica, escrita às pressas, mas que dava a entender que o hacker sabia bem mais do que nós sobre o que se tramava em segredo. Talvez devesse entrar em contato com ele e pedir explicações...

Procurei o e-mail dele no fórum e mandei uma mensagem particular. Aqui é Vigo. Preciso de informações. Agradeço se me res­ponder o mais rápido possível.

Em seguida, decidi fazer algumas investigações sobre a socie­dade Dermod. Digitei a palavra num site de busca. Encontrei mais de 45 mil referências. Aparentemente, Dermod era um nome irlandês bem comum. Várias pessoas homônimas eram cita­das aqui e acolá. No entanto, visivelmente, nenhuma sociedade de importação-exportação. Contudo, num site de genealogia, descobri a etimologia da palavra, o que me interessou. Era gaélica e significava "homem livre". Eu não tinha certeza de que isso tivesse a menor importância, mesmo assim anotei na minha caderneta Moleskine.

Alguns minutos depois, quando eu continuava a navegar em busca de eventuais informações sobre a sociedade Dermod, uma janela se abriu para indicar que eu havia recebido uma mensagem particular no fórum. Eu a abri.

Vigo, aqui não... Este fórum não é seguro. Estaremos melhor no canal irc do nosso servidor. Conecte-se imediatamente no hacktiviste.com usando o login Vigo. Quanto à senha, você tem de adivinhar...

Franzi as sobrancelhas. Eu tinha a impressão de fazer parte de um seriado americano de má qualidade. Porém, se quisesse saber mais, era obrigado a entrar no jogo. Segui as instruções do hacker. Digitei o endereço do servidor dele no navegador.

Uma janela se abriu e pediu um login e uma senha. No pri­meiro, digitei Vigo. Mas a senha eu teria de adivinhar sozinho... Hesitei. Certamente, ela deveria ter uma ligação com a minha história. Digitei protocolo88. Não funcionou. Evidente demais. Tentei feuerberg, depois dermod, sem sucesso. Lembrei-me então do caso que havia tornado a EsFiNgE famosa e digitei iorden. Também não era essa. Tentei agnès, ao acaso, depois ravel... Mas ainda não era a senha certa. Inevitavelmente, o hacker devia ter escolhido uma senha que eu poderia encontrar sozinho e que eu sabia que ele também conhecia. Portanto, era preciso uma refe­rência comum, que nos ligasse. Pensei imediatamente na primei­ra vez que vira o nome da EsFiNgE. No hotel. Digitei a palavra Novalis. Não, não era essa. Comecei a perder a paciência. Que idéia! Deixar que eu adivinhasse sozinho a senha! Existiam mil combinações possíveis! Eu pensei: o que o hacker havia dito exa­tamente? Quanto à senha, você tem de adivinhar... Sorri. Era muito simples. Digitei você tem de adivinhar. O navegador conectou-se imediatamente no site.

Era uma página com um design high-tech preto e verde fluo­rescente e, no centro, várias notícias mais ou menos ligadas à segurança informática ou aos diversos dossiês eletrizantes nos quais a EsFiNgE devia trabalhar, como o grupo Carlyle, o pro­grama "Petróleo como alimento" do Iraque, o Bilderberg...

No alto da página, vi links para várias subcategorias do site. Uma delas chamava-se canal irc. Cliquei em cima. Uma janela de diálogo se abriu. Então, eu vi aparecer o pseudônimo do hacker.

- Bravo! Você encontrou a senha...

As palavras apareceram no alto da janela, em verde, num fundo preto. O símbolo ">" piscava na linha seguinte, como se o computador esperasse a minha resposta. Hesitei. Olhei em vol­ta. Ninguém parecia prestar atenção em mim. Decidi responder:

- Sim...

Sinto muito pelas precauções. Somos vigiados de perto. Mas, aqui, ficamos à vontade, tranqüilos. Impedimos todos os acessos.

Eu sorri. O cara devia ser mais paranoico do que eu.

Conseguiram sair do apartamento a tempo?

- Sim.

Perfeito. Nós estávamos com medo de que fosse tarde demais!

Nós? Vocês são muitos?

Somos. EsFiNgE é o nome de um grupo...

E com quem estou falando?

Com dois de nós.

Posso saber os nomes?

O que vai adiantar?

Não sei nem quem são vocês e parece que vocês sabem muitas coisas sobre mim!

Pois bem, considere que somos dois ciberjornalistas de investi­gação.

Isso não é suficiente.

Diremos os nossos nomes quando chegar a hora. Não aqui.

Decidi não insistir. O essencial era tirar o máximo de infor­mações. Mas não podia deixar de sentir uma desconfiança.

Qual é o objetivo de vocês?

Como assim?

EsFiNgE... Que grupo é esse? O que vocês fazem, exatamente?

Buscamos a verdade. A Internet é o último espaço no qual a liberdade de expressão ainda tem um pouquinho de sentido.

É o que você diz.

Usamos a Web para denunciar os escândalos políticos e finan­ceiros. Achamos que o público tem o direito de saber e a imprensa ins­titucional nem sempre faz o seu trabalho...

Eu ainda não conseguia acreditar que estivesse on-line com os sujeitos que me haviam enviado o misterioso bilhete no hotel. Para mim, eles continuavam a ser totalmente irreais. E, no entan­to, naquele momento eu conversava com eles, ao vivo. Final­mente, talvez eu ficasse sabendo mais.

O que me garante que vocês são mesmo o que dizem ser e que querem realmente me ajudar?

Nada. Mas agora sabe que o bilhete no seu hotel era justificá­vel. E você deve ter feito suas pequenas buscas sobre nós, não? Sabe que somos pessoas sérias.

Pessoas sérias... Não estava muito certo disso. Mas Agnès havia achado que eles tinham alguma credibilidade. Já era algu­ma coisa. De qualquer jeito, eu não podia bancar o difícil. Precisava desesperadamente de informações.

A sua amiga está com você?

Minha amiga? O mais provável é que conhecessem a identi­dade de Agnès. Inevitavelmente, já que nos haviam recomenda­do sair do apartamento dela! Eu tinha de me acostumar. Esses sujeitos sabiam muitas coisas e certamente mais do que queriam admitir.

Não. Ela preferiu... se retirar do caso. 0 apartamento dela foi saqueado pelos caras...

Não foi muito esperto da sua parte confiar num tira...

Ela é uma pessoa de confiança.

É o que esperamos, por você. No futuro, desconfie.

Eu já estava ficando impaciente. Não estava certo de gostar dessa condescendência. Afinal, tinha o direito de desconfiar deles, tanto quanto de Agnès. Não sabia a sua identidade e não tinha nenhuma prova de que não trabalhassem para o inimigo! Mas não podia me fazer de rogado.

Decidi ir direto ao assunto.

O que é o Protocolo 88?

Ainda não sabemos.

Então, por que me deixaram esse bilhete? E como estão a par de todo esse caso?

Descobrimos por acaso, quando fazíamos pesquisas sobre outro dossiê.

Que dossiê?

O nosso servidor foi vítima de vários ataques nos últimos meses. Isso acontece todos os dias, é claro, mas esses ataques eram particu­larmente corrompidos e todos vinham da mesma fonte. Não pudemos identificar com precisão os autores desses ataques, mas conseguimos ver que eles eram feitos da sede social de uma companhia offshore que investigávamos.

Que companhia?

Dermod.

Franzi o cenho. Dermod. A misteriosa sociedade, proprietá­ria do apartamento dos meus pais. Então era ela que havia posto os hackers na pista do meu caso.

O que vocês sabem sobre a Dermod?

Pouca coisa. Sabemos que ê uma espécie de holding offshore. O seu objetivo declarado é importação-exportação, mas, na verdade, é difícil saber suas reais atividades. Certamente não é a indústria têxtil. Nós nos indagamos por que um dos seus membros teria interes­se em atacar o nosso site, e, portanto, fizemos uma pequena investi­gação. Ao piratear uma parte do servidor interno da Dermod foi que encontramos documentos... espantosos. Um deles nos levou até você.

Que tipo de documentos?

Ainda os estamos analisando. A maioria está codificada e não está muito claro. Mas, entre aqueles que conseguimos decifrar, havia a cópia de um acordo que ligava os seus pais à sociedade Dermod.

Como assim?

Sinto muito, pode não gostar disso...

Já estou começando a me acostumar.

É um contrato entre os seus pais e a Dermod, que especifica, principalmente, o montante da pensão que os seus pais receberiam em troca dos serviços prestados.

Serviços?

É. Obviamente a sociedade Dermod pagava para eles, no míni­mo, desde 1991, para que passassem por seus pais, com o sobrenome de Ravel, e que cuidassem de você, fazendo com que tivesse a certe­za de que era esquizofrênico...

Estremeci. É bem verdade que não era uma descoberta, mas saber que a maquinação de que eu era vítima estava detalhada em algum lugar, preto no branco, aterrorizava-me ainda mais. Eu não passava de um pau-mandado num complô inacreditável. Eu me sentia estúpido e traído, ao mesmo tempo.

Compreende que, ao encontrar esse contrato, percebemos que havíamos descoberto, por acaso, alguma coisa enorme. O tipo de dos­siê que nos interessa. Portanto, quisemos saber mais sobre você e seus pais e, assim, descobrimos que eles haviam desaparecido e que você havia fugido, depois do atentado. Depois que o encontramos, decidi­mos informá-lo da única coisa que sabíamos com certeza: "O seu nome não é Vigo Ravel e você não é esquizofrênico." Também encon­tramos uma ficha sobre Gérard Reynald, o homem acusado de haver cometido o atentado.

Vocês sabem por que a sociedade Dermod pagava as pessoas para que passassem por meus pais?

Não. Isso não sabemos! O contrato fazia referência a um certo Protocolo 88, sem especificar do que se tratava. Achamos que era justo pô-lo na pista desse famoso protocolo. Por enquanto, tentamos saber mais sobre a sociedade Dermod. Até hoje, sabemos apenas que é a holding à qual pertence a clínica Mater, bem como a sociedade Feuerberg, onde você e Gérard Reynald trabalhavam e que ela é pro­prietária do seu apartamento e do de Reynald.

Reynald havia trabalhado na Feuerberg? No entanto, achava que nunca ouvira esse nome na época. Certamente, ele havia tra­balhado em outro departamento... Afinal, todos nós vivíamos iso­lados, separados e nos relacionávamos pouco uns com os outros. Mesmo assim! Eu podia muito bem tê-lo encontrado! Quanto ao fato de o apartamento dele pertencer à Feuerberg... era difícil não ver aí a prova de uma gigantesca maquinação.

Vocês têm certeza em relação ao apartamento?

Temos.

Onde ele fica?

Avenida de Bouvines, no XT.

Qual é o número?

Dezoito.

Anotei o endereço na minha caderneta Moleskine.

Obrigado. E como souberam onde me contatar?

Você não é muito discreto, Vigo.

Dava no mesmo eu não ser discreto, esses sujeitos haviam conseguido encontrar o hotel onde eu me escondia, depois o apartamento de Agnès... Eles deviam vigiar-me de perto e usan­do recursos provavelmente muito modernos!

Vocês dispõem de muitos recursos para simples hackers!

Não somos "simples hackers", senhor Ravel. Digamos que nos viramos bem. E, depois, o nosso grupo goza de alguns apoios finan­ceiros e logísticos... Tem de acreditar que não somos os únicos que gos­tam da verdade neste país. Temos generosos doadores e uma boa rede de informação.

Precisamos nos encontrar.

Sim. Em breve. Vamos organizar isso. Mas, primeiro, temos de verificar algumas pistas. Gostaríamos de poder ajudá-lo, Vigo, de lhe dar novas informações, mas é preciso ter paciência. Estamos par­ticularmente interessados nesse caso. Só terá de voltar freqüentemen­te a este site, tentaremos mantê-lo a par de tudo. Memorize esta nova senha: AdB_4240. Não anote em lugar nenhum. Memorize. Nós a mudaremos constantemente.

Repeti o código várias vezes para não esquecê-lo.

Existe um sistema de caixa de mensagens no alto, à direita da janela, parecido com o fórum no qual nos contatou. Poderemos lhe deixar mensagens, não hesite em fazer o mesmo. Entraremos em con­tato assim que for possível.

Espere! E eu, o que faço agora?

Evite ser notado. Instale-se num hotel com uma identidade falsa, seja cauteloso e aguarde notícias nossas.

Não posso mesmo usar o celular?

Não. Nem pensar! Mesmo desligado, podem localizá-lo por triangulação. Tem de tirar a bateria. Livre-se dela, ainda é o que há de mais simples. Não sabemos se é a Dermod, mas uma coisa é certa: alguém o escuta e está atrás de você.

Como sabe disso?

Rá-rá. Nós também o escutamos...

Está brincando?

Não, sinto muito. Não brincamos com esse dossiê. No futuro, use as cabines telefônicas e evite falar mais de quarenta segundos. Assim que for possível, nós lhe forneceremos um telefone protegido. Da mesma forma, nunca fique muito tempo num cibercafé, trinta minutos no máximo, e não volte duas vezes ao mesmo. Tenha cuida­do, Vigo. Faremos o possível para ajudá-lo.

Obrigado.

O pseudônimo dos hackers desapareceu da tela. Desconectei imediatamente. Com a sua paranóia, os caras da EsFiNgE me haviam deixado mais ansioso do que eu já estava. Paguei e saí rapidamente do cibercafé. Uma vez na rua, joguei o celular numa lata de lixo. Senti um aperto no coração. Com ele, desaparecia toda possibilidade de que Agnès pudesse me ligar algum dia... Mas eu não tinha escolha. No fundo, se eu estivesse sob escuta, também era uma maneira de protegê-la.

Continuei a andar, os olhos perdidos no vazio. Lentamente, comecei a me conscientizar de tudo o que os hackers me haviam dito. A situação era ainda mais incrível do que eu havia imagina­do e, sobretudo, eu me sentia cada vez mais vulnerável. Estava certo de estar sendo espionado de todos os lados. Ao andar, eu via inimigos em todas as esquinas. Não ousava cruzar o olhar com as pessoas. Estava impaciente para me pôr a salvo, para poder ler o dossiê do advogado. No entanto, antes disso, ainda tinha uma coisa para fazer. Na mensagem, Agnès havia explica­do que deixara um envelope para mim "no restaurante". Peguei um ônibus e fui para o bairro da praça Clichy.

Mal tinha dado alguns passos na rua, o desejo de ir ter com Agnès — que estava a alguns minutos dali — tornou-se odiosa­mente premente. No entanto, eu sabia que não era possível. Assim como não podia ligar para ela. A frustração foi terrível. A injustiça, sufocante. Talvez ela já houvesse partido para a Suíça. E. Era melhor dizer a mim mesmo que ela não estava mais lá...

Com o coração apertado, dirigi-me ao Parfait Silence. O pro­prietário, Jean-Michel, reconheceu-me facilmente. Ele me fez sinal para esperar, em seguida me trouxe um envelope. Piscando o olho, disse com um ar cúmplice:

— Tenha cuidado. Se precisar de alguma coisa, venha aqui. Os amigos de Agnès são meus amigos.

Agradeci, pouco à vontade, e saí. Afastei-me do restaurante e abri o envelope, com o coração disparado.

Dentro, como eu suspeitava, encontrei cinco notas de 100 euros e um pedaço de papel: Isso é tudo o que posso fazer. Espero que saia dessa. Boa sorte. Agnès.

Dessa vez não pude conter as lágrimas que haviam esperado por muito tempo. A generosidade de Agnès tornava a sua ausên­cia ainda mais penosa, mais cruel.

Enquanto me dirigia para o metrô, guardei o dinheiro no bolso, depois tratei de arrumar um quarto. Optei por um velho hotel no bairro da Nation, não muito longe do apartamento de Gérard Reynald. Ainda não tinha certeza se teria coragem, mas a idéia de ir revistar o apartamento dele me havia passado pela cabeça...

Assim que entrei no quarto, não agüentei mais, joguei-me na cama, acendi um cigarro e abri a pasta que havia pegado no carro do advogado. Ansioso, retirei rapidamente os dois elásticos que a mantinham fechada. E, então, tive de enfrentar mais uma desilu­são: eu havia sido enrolado! Não tinha nada do dossiê. Apenas algumas folhas em branco!

O desgraçado do advogado zombara de mim até o fim. Eu havia sido redondamente enganado e, além do mais, correra o risco de ser apanhado!

Estava rasgando as folhas em branco de raiva quando, de repente, fui paralisado por uma imagem que acabara de aparecer na televisão, acima da cama. Eu me ergui imediatamente, embas­bacado. Não podia acreditar no que via. Foi como se tivesse leva­do um soco no estômago.

O telejornal das 20 horas havia acabado de divulgar minha fotografia.

Caderneta Moleskine, anotação no 181: os espelhos.

Eu gostaria de entender a razão desse distúrbio, desse mal-estar que os espelhos me causam. Esse relacionamento doentio que temos. Sei que existe uma razão oculta, profunda, por isso procuro, vascu­lho. Como sempre, procurei nos dicionários, nos livros. Não sei se a resposta está nas entrelinhas. Elas nunca me dizem nada.

Um espelho é uma superfície suficientemente polida para que uma imagem se forme nele. Daí a dizer que é preciso ser polido para refle­tir é só um passo.

O adjetivo relativo a espelho é "especular", pois o espelho — como, às vezes, eu mesmo tento fazer — especula, reflete.

Antes de entrar em considerações metafísicas — arrá, a palavra maldita — tentei compreender como os espelhos eram fabricados, para não morrer na ignorância, caso eu viesse a morrer.

Originalmente, os espelhos eram uma simples superfície de metal, polida até se tornar refletora. Atualmente, os espelhos usados normal­mente nas casas são feitos com uma placa de vidro mais ou menos espessa, na qual é aplicada uma camada refletora de alumínio ou de prata, depois uma camada de cobre ou de chumbo (antes era usado o estanho). O vidro serve de suporte e de proteção para a camada refletora, sendo que a última camada torna o espelho completamente opaco. Assim, um espelho sem a camada de cobre ou de chumbo pode ser usado para espionar, pois se vê através dele. É o que chamamos de espelho falso.

Assim, todas as vezes em que vejo um espelho, tenho suspeitas. A partir daí, é possível nos questionarmos. É legítimo.

O espelho plano reflete uma imagem supostamente fiel da pessoa que se olha nele. Eu disse supostamente. A priori, ele permite que nos vejamos tal como somos, sobretudo com os nossos defeitos. Portanto, ele é freqüentemente associado à verdade, ao conhecimento, como o espelho mágico da Branca de Neve, por exemplo.

Se a base do conhecimento é o "Conhece-te a ti mesmo", a frase que encimava o templo de Delfos e que se atribui a Sócrates, então o espelho talvez seja a primeira ferramenta do conhecimento. Caso, realmente, ele permita conhecer a si mesmo, tal como se é de verda­de... Mas, pessoalmente, tenho dúvidas.

Havia um sujeito, o alquimista Fulcanelli, que foi ainda mais longe. Creio que é uma tendência disseminada entre os alquimistas. Ir um pouco mais longe. Segundo ele, só se poderia ver a verdadeira natureza num espelho, pois ela nunca se mostraria espontaneamente a quem a procura... Sobre esse aspecto, encontramos lendas sobre a medusa e o basilisco, criaturas míticas que não se podia olhar nos olhos sob pena de ficar petrificado, mas que, mesmo assim, se podia ver num espelho.

Em resumo, o espelho seria uma porta aberta para o que inevita­velmente não se vê com os olhos... Desculpem, porém tenho mais dúvidas.

Uma coisa é certa: mesmo que o espelho reflita uma imagem do mundo, ele não é o mundo. Ele não é eu.

Esse cara no espelho não sou eu. E não venham me dizer o con­trário.

Uma das coisas que me incomodam no espelho não é a superfície e sim as costas. A face escondida, que é o preto absoluto, o desconhe­cido.

Para mim é muito difícil olhar-me num espelho sem nunca saber o que há por trás.

Fala-se com freqüência, sobretudo nos contos fantásticos — e não apenas Lewis Carroll —, sobre o "outro lado do espelho", que evoca um mundo paralelo, supostamente oculto, e do qual não se sabe nada...

O espelho faz com que eu mergulhe em questionamentos sobre a ilusão... Assim como a Maia dos hindus, talvez ele seja o que pode­mos perceber do mundo, mas que não é a realidade...

No entanto, foi no campo da psicanálise que encontrei um arre­medo de resposta. Zenati, psicóloga, 1o andar à esquerda, teria orgu­lho de mim. Eu olhei. Segundo Lacan, o estágio do espelho é a fase da constituição do ser humano. E um momento fundamental na for­mação do primeiro esboço do ego. Segundo ele, a fase do espelho ê o momento da "individualização do sujeito". Antes dessa fase, a crian­ça vive na confusão de si e do outro. O que a experiência do espelho lhe traz ê a faculdade de individualização do próprio corpo. Três momentos se superpõem: inicialmente a criança vive na confusão de si mesmo com o outro. Depois, posta diante de um espelho, ela com­preende que o que vê nesse espelho não passa de uma imagem; em outras palavras, que o outro do espelho não é real. Finalmente, num terceiro momento, este, decisivo: a criança reconhece a imagem do espelho como sendo a sua. Visivelmente, é um momento crucial.

Eu me pergunto se, algum dia, passei pela fase do espelho.

Eu estava tão chocado que, até me recuperar, só consegui pegar o fim dos comentários do jornalista. Eu o ouvi repetir o meu nome, "Vigo Ravel", e confirmar que eu era suspeito de estar envolvido no atentado de 8 de agosto. Oficialmente, supunha-se que eu era o principal cúmplice de Gérard Reynald e a polícia lançou um alerta de busca internacional. A minha foto ia ser divulgada no mundo inteiro.

Acho que nunca senti uma angústia igual, uma raiva igual. No fundo, era o que podia acontecer de pior para a minha para­nóia já amplamente exacerbada: saber que a minha foto era exi­bida em milhões de telas. Que essa imagem seria afixada em todas as delegacias, em todas as fronteiras... E eu não tinha nenhum meio de me defender. Estava sozinho, mais sozinho do que nunca. Eu me sentia vítima de uma terrível injustiça para a qual não via nenhuma saída feliz. Eu gostaria de gritar a minha inocência, a minha revolta, mas não havia nada para fazer. Era a minha esquizofrenia contra o mundo inteiro.

Nesse instante, senti a cabeça rodar, o meu coração bater anormalmente rápido. Eu conhecia muito bem esses pequenos avisos. A minha visão se turvou de novo. Não. Eu não devia me deixar vencer pelo medo. Tinha de me acalmar, pensar, com­preender e encontrar uma solução. Encontrar a saída.

Concentre-se, Vigo. Você é inocente. A verdade está em algum lugar. Encontre-a! É a única saída. A única saída possível!

Alguém me havia traído. Podia ser qualquer um. Zenati, o desgraçado do advogado, até mesmo Agnès, ou os hackers do grupo EsFiNgE, no fim das contas! Qualquer um! A não ser que fosse uma manobra daqueles que haviam montado a incrível maquinação da qual eu era, havia muito tempo, uma das vítimas dóceis. O doutor Guillaume, De Telême, meus falsos pais...

Depois de longos minutos de perplexidade, levantei-me, de punhos cerrados, e comecei a andar em círculos no quarto do hotel. O que fazer? Me entregar? Claro que não! Fugir? Infe­lizmente, era a melhor solução. Mas acabariam me pegando. Mais uma vez, eu não poderia correr o resto da vida. E se o recepcionista do hotel me houvesse reconhecido? Talvez eu esti­vesse em perigo ali, agora, imediatamente!

Sem hesitar por mais tempo, corri para o banheiro, peguei o estojo de toalete na mochila e espalhei a espuma de barbear na cabeça. Olhos fixos, diretos, examinei a minha imagem no espe­lho. Depois, com a mão trêmula, comecei a deslizar o barbeador da nuca até a testa, lentamente, metodicamente. Cortei-me várias vezes, desajeitado, e o meu couro cabeludo ficou irritado, mas, depois de alguns minutos, finalmente estava careca. Enxaguei a cabeça e olhei-me de novo. Nem eu mesmo me reconheci. Perfeito, isso resolvia o caso. Eu estava com outra cara. A cara de um goleiro marselhês.

Reuni rapidamente as minhas coisas, verifiquei se não estava esquecendo nada e saí do quarto. Desci prontamente as escadas do hotel. Ao chegar embaixo, dei uma olhada na recepção. Ninguém. O caminho estava livre. Inspirei profundamente, fui em direção à porta e saí para a rua.

A noite começava a cair. A penumbra tinha, para mim, algu­ma coisa de reconfortante. Eu podia me acostumar. Tornar-me um animal noturno. Eu me perguntava se algum dia iria poder sair em pleno dia. Por quanto tempo teria de viver com medo de ser descoberto, reconhecido? Se, realmente, houvesse um meio de provar a minha inocência, teria de ser rápido. Não poderia escapar da polícia eternamente. O cansaço e o medo acabariam por me fazer cometer um erro. Sempre termina assim.

Com o coração acelerado, andei de cabeça baixa para a aveni­da de Bouvines, do outro lado da praça da Nation. As minhas mãos tremiam e todas as vezes que eu cruzava com alguém, des­viava os olhos com medo de ser identificado. Era uma sensação horrível. Como se cada segundo que passasse fosse um novo sursis. Não podia deixar de pensar que iam me pegar, de repente, em plena rua, e que nunca mais haveria um abrigo, nenhum refúgio.

Não demorei a ver o prédio onde ficava o apartamento de Gérard Reynald. Hesitei. Decerto era a coisa mais idiota que eu podia fazer no momento em que a polícia me procurava ativa­mente, em que o Plano Vigipirate havia sido elevado ao nível máximo em todo o país. Certamente não havia um meio melhor de cair na boca do lobo. Mas eu não sabia mais o que fazer, aonde ir, como sair desse pesadelo. Eu estava sozinho e pronto para tudo. Se acabassem me pegando, ao menos eu teria tentado alguma coisa!

Esse Gérard Reynald era uma das minhas únicas pistas verda­deiras. Com certeza eu tinha coisas para saber dele. E, no fim das contas, não tinha muito a perder. Eu havia perdido o meu passado, perdido o meu nome, perdido dez anos da minha vida, perdido Agnès... O que me restava de tão precioso para temer a prisão? Uma única coisa tinha preço, e eu ainda não a possuía: a verdade.

Decidi tentar a sorte. Dei mais alguns passos e, então, notei duas viaturas de polícia estacionadas diante do prédio. Nada a fazer. Eu não era suicida a esse ponto. O apartamento de Reynald estava sendo vigiado. Eu devia ter desconfiado.

Imediatamente, dei meia-volta. Tinha de encontrar outra coisa, sem demora. Não podia continuar vagando pela cidade. Tinha uma necessidade desesperadora de agir, de ir em frente. Não havia nenhuma salvação na inércia.

Foi então que tive uma idéia. Peguei a minha caderneta Moleskine e procurei o endereço do detestável doutor Blenod. Já que ele me havia enrolado, já que se recusara a me dar qualquer informação, melhor buscá-la eu mesmo. Eu sentia vontade de roubar. O escritório dele ficava no VIIe arrondissement.

Com medo de ser reconhecido, afundei-me num banco no fundo de um ônibus. Finalmente cheguei em frente ao escritório do advogado, um pouco antes das 22 horas, no segundo andar de um antigo prédio parisiense. Hesitei por um momento, verifiquei se não havia ninguém na escada e toquei a campainha. Nenhum barulho. Toquei de novo. Ainda nada. O escritório estava vazio.

O que aconteceu, então, escapou ao meu próprio entendi­mento, ou ao menos à minha consciência direta. Sem pensar, tive um reflexo inexplicável, maquinal. Provavelmente levado por um sentimento de urgência e de pânico, tirei o canivete suíço da mochila e tentei arrombar a fechadura.

Eu fazia gestos de uma precisão inusitada, como se os hou­vesse feito mil vezes, como se, de repente, começasse a repetir, de cor, as estrofes de um velho poema já esquecido. Eu tinha a mesma sensação do dia em que havia dirigido o carro do meu patrão: a impressão de dominar perfeitamente uma técnica, da qual, no entanto, eu me sentia logicamente incapaz.

Inseri a ponta mais fina do canivete suíço na fechadura. Retire-a lentamente para avaliar a pressão das molas. Em seguida, faça a fechadura girar ligeiramente. Insira novamente a ponta; puxe para você, agora fazendo pressão sobre as cavilhas. De novo e de novo, aumentando a pressão rotativa a cada passagem até que os pistões comecem a se posicionar. Pronto. Quase todas as cavilhas estão no lugar. Agora raspe a fechadura. Terminado.

A porta se abriu.

Eu me levantei e olhei as minhas mãos, perplexo. Como havia feito aquilo? Onde eu havia aprendido? Teria sido um ladrão outrora, no passado do qual eu não sabia mais nada? Sacudi a cabeça, divertido e estupefato ao mesmo tempo.

Verifiquei se ainda não havia ninguém na escada e entrei sem fazer barulho no escritório do advogado. Fechei a porta atrás de mim.

E se houvesse um alarme? Inspecionei as paredes, os tetos, todos os recantos, em busca de sensores de movimento. Nada. Surpreendente. O senhor Blenod não era assim tão esperto. Avancei pela sala de espera, tentei me localizar. Havia vários escri­tórios, mas um deles era mais amplo e mais bonito do que os outros. Com certeza era o do advogado. Entrei imediatamente.

Dei uma volta rápida, observei os arquivos, os armários, a mesa. Havia dossiês por todo lado. Soltei um suspiro. Como ia me entender no meio daquilo tudo?

Coragem. Certamente deveria haver ali alguma ponta de ver­dade. Comecei pelo primeiro arquivo. Os dossiês estavam classi­ficados em ordem alfabética. Olhei a letra R, de Reynald. Nada. Tentei a letra S, de SEAM. Também nada. Abri um grande ar­mário, atrás da mesa. Nenhuma classificação; os dossiês estavam empilhados sem ordem aparente. Impossível verificar todos. Soltei um palavrão, virei-me e dei uma rápida olhada na mesa. Vários dossiês estavam reunidos do lado direito. Levantei um por um. Nenhum deles parecia corresponder ao que eu procura­va. A esquerda, a tela do computador estava em espera. Puxei a tábua sob a mesa e cliquei numa tecla do computador. A tela acendeu lentamente. Bingo! Uma das pastas mostradas na tela era denominada Dossiê_G_Reynald_SEAM. Cliquei duas vezes na pasta. Vários arquivos apareceram. Alguns nomes citavam recor­tes da imprensa, outros, relatórios médicos, mas um deles em especial chamou a minha atenção: era um arquivo de texto inti­tulado elementos_de_personalidade. Eu o abri.

No mesmo instante, percebi com o canto dos olhos um díodo vermelho que piscava no canto esquerdo da sala, bem em cima da porta. Franzi as sobrancelhas. Ao me levantar, percebi a cai­xinha cinza. Um alarme! Teria me detectado? Já estaria piscando antes da minha chegada? Senti minha pulsação se acelerar. Não poderia continuar ali, esperando que viessem me pegar. Eu tinha de dar o fora. Mas não sem o arquivo! Ergui novamente os olhos para a tela. O texto era formado de cinco páginas, visivelmente notas biográficas a respeito de Gérard Reynald, que o escritório do advogado havia reunido. Eu não tinha tempo de ler tudo. Decidi passar para o papel e sair o mais rápido possível. A im­pressora acendeu. A seqüência de inicialização, barulhenta, durou longos segundos. Eu estava impaciente, lançando olhares constantes para a entrada. Finalmente, uma a uma, as páginas começaram a sair na bandeja para papel. De repente, ouvi um ruído de chave na porta do outro lado do escritório. Meu coração parou de uma vez. Eu ia ser pego com a boca na botija! Corri para o cabo de alimentação da impressora e o arranquei da pare­de com uma puxada. A máquina apagou imediatamente. Peguei as três páginas que haviam saído, guardei-as na mochila e corri para me enfiar atrás da primeira porta de vidro.

Tem alguém aí?

Não era a voz do doutor Blenod. A polícia? Já? Não, não era possível, não tão rápido. Ouvi os passos avançarem na direção do escritório.

Martine, é você?

Cerrei os punhos. Era alguém do escritório. Senti o sangue latejar nas têmporas. O que fazer? Continuar escondido ou ten­tar fugir esperando não ser reconhecido? O homem se apro­ximou. Vi a sua sombra aumentar na abertura da porta. Não tinha jeito de sair dessa. Ele entrou no escritório.

Que bagunça é essa?

Ele se virou e deu um grito ao me pegar atrás da porta.

O que... o que faz no meu escritório? Quem é você?

Permaneci imóvel, petrificado. Seu escritório? Eu não com­preendia. Seria um colega de Blenod?

Senhor Ravel? E você? — disse o homem recuando, com os olhos arregalados. — Você... você me deu o cano hoje de manhã... O que faz aqui?

Dei o cano? Compreendi imediatamente. Por mais incrível que pudesse parecer, aquele homem era o verdadeiro doutor Blenod! O sujeito com quem eu me encontrara de manhã era um impostor!

Não havia tempo para eu me explicar! Vi a mão do advoga­do deslizar discretamente na direção de uma gaveta da sua mesa. Talvez ele possuísse uma arma. Sem hesitar, atirei-me para a frente e acertei-lhe um soco em pleno rosto. Ouvi o osso do seu nariz quebrar com o golpe. O doutor Blenod foi projetado para trás e caiu batendo na mesa, inconsciente.

Olhei a minha mão, incrédulo. Abri o punho, os meus dedos ensangüentados começaram a tremer.

Ergui a cabeça. O díodo vermelho continuava a piscar. Eu não podia vacilar nem mais um segundo. Saí correndo do escri­tório e desci os degraus do prédio em disparada. Ao chegar do lado de fora, corri com todas as minhas forças, atravessei várias ruas esperando que ninguém me houvesse notado, em seguida me precipitei para o ponto de ônibus. Sentei no banco, sem fôlego.

Puta que pariu, você é completamente imbecil ou o quê?

Observei novamente a minha mão direita. Como pude fazer aquilo? Limpei nervosamente os traços de sangue dos meus dedos. O ônibus chegou. Entrei, tentando disfarçar a minha agi­tação, depois fui me sentar bem no fundo.

Quando me recuperei um pouco, tirei da mochila as folhas que havia impresso e li as anotações do advogado. Não estavam muito organizadas e incluíam várias abreviações. Provavelmente, o doutor Blenod ainda não tivera tempo de passar tudo a limpo...

 

Gérard Reynald (segundo CI — nenhuma informação —ficha de estado civil não encontrada — provável pseudônimo — agente da polícia secreta?), nascido em Paris em 10 de fevereiro de 1970. Se­gundo CV encontrado pela PJ no seu dom. (fonte of.), filho único, pais Jean-Michel e Christiane, mortos em 2004 num ac. de automóvel.

Domiciliado na av. De Bouvines, 18, 75011.

Sem emprego desde X? Pensão por invalidez.

Emprego de digitação de dados na Feuerberg SA entre ? e ? Abandono do emprego.

Esquizofrenia paranoide aguda, acompanhado pelo doutor Guillaume (?) da clínica Mater na torre SEAM (?) (ambos inexis­tentes no Conselho Regional de Medicina). No entanto, vários rela­tórios e IRM anexos parecem vir dessa clínica (falsos?).

Alucinações audit. verbais. Amnésia retrógrada 1991. Obsessão por número (sobretudo 88 ou 888, cf. data e hora do atentado) e por datas (aritmomania).

Delírio de perseguição. Convencido de que pessoas o seguem e conspiram contra ele (cf. abordagem clínica da esquizofrenia). Discurso incoerente. Acha que seus pais não são os seus pais verda­deiros. Afirma que a clínica Mater manipula a sua vida e os seus pensamentos. Sujeito a crises, alteração do rosto. Senso do real desregulado.

Medicação pesada, neurolépticos e antipsicóticos (ZYPREXA, neurolép. atípico) (tentar encontrar receitas para ver que nome de médico aparece e cruzar com o Conselho Regional).

Um dedo cortado na mão esquerda.

Grande força física. Possivelmente violento.

Cultura pobre, apesar de obss. pela leitura e escrita.

Fonte of. (possivelmente PF ainda não esteja a par. RG?): desde dez. de 2006, aluga um ap. conj. em Nice, rua do Château, 5.

 

Apertei o papel com os dedos. Pela primeira vez naquele dia, tinha a impressão de, enfim, ter encontrado alguma coisa.

Ali havia várias informações importantes. Eu não perdera o meu tempo. Continuei a ler, entusiasmado. A vida de Gérard Reynald se parecia em muitos pontos com a minha. As coinci­dências eram tantas, que eu mal conseguia acreditar. Seguiam detalhes da sua prisão e as informações a respeito da sua prisão cautelar...

Quando terminei de ler, dobrei as folhas e enfiei-as no bolso. Fechei os olhos e tentei analisar todas as informações contidas nas anotações. Três delas me interessavam particularmente. Primeiro, a idéia de verificar nas receitas o nome do médico que havia prescrito a Reynald, assim como a mim, os neurolépticos e os antipsicóticos. Se o doutor Guillaume não existia, ele devia ter usado o nome de um médico de verdade para que o Seguro Social não percebesse a fraude... Talvez ali houvesse uma pista séria. Em seguida, havia a ocorrência do número 88 e a relação que o advogado havia estabelecido com o atentado. Dia 8 de agosto, às 8 horas. 8/8, às 8 horas. Teria alguma relação com o Protocolo 88? Com certeza. Mas qual? Finalmente, o apartamen­to em Nice. O que Reynald poderia ter ido fazer em Nice? E, so­bretudo, como supunha Blenod, se a polícia ainda não estivesse a par da existência desse apartamento conjugado, talvez ali hou­vesse um meio de encontrar informações de primeira mão. O apar­tamento em Paris estava sob vigilância, portanto impossível investigar desse lado. Mas em Nice...

O ônibus parou. Desci e procurei com os olhos um ponto de táxi. Não tinha razão para ficar perambulando.

Cerca de meia hora depois, cheguei à estação de Lyon. Dirigi-me ao guichê. Pouco à vontade por causa do aviso de "procura-se", tentei parecer desenvolto, esperando que o meu interlocutor não me reconhecesse. Eu precisava ser razoável. Provavelmente, nem todo mundo tinha visto a minha foto na televisão, e mesmo que aquele sujeito a tivesse visto, havia pouca chance de que tivesse memorizado meu rosto e que me reconhe­cesse com a cabeça raspada.

Boa-noite, a que horas parte o próximo trem para Nice?

Bom, amanhã de manhã tem o direto das 7h54.

Não tem nenhum hoje à noite?

O senhor, está brincando? Já passa de 23 horas. O último trem partiu um pouco depois das 21 horas.

Então, dê-me uma passagem para amanhã de manhã.

Vi o homem dedilhar no computador. Foi nesse instante que me dei conta do risco que estava correndo. Ele perguntaria o meu nome? Não tinha certeza se uma passagem de trem era nominativa... E, se realmente a polícia houvesse lançado um aviso de busca, a minha cara não estaria estampada em todos os guichês das estações e dos aeroportos do país?

Meus dedos crisparam-se no meu bolso à medida que o bilheteiro fazia a busca no computador. Eu estava preparado para fugir à menor suspeita, observando cada um dos gestos dele.

Passagem só de ida?

Sim.

Então, reservo um lugar no trem das 7h54?

Sim.

Como vai pagar, senhor?

Fiz uma careta. Em dinheiro, é claro; além do mais, não ia dizer a ele o meu nome! Mas um pagamento em dinheiro era, certamente, o melhor meio de despertar suspeitas. De qualquer jeito, eu não tinha escolha.

Em dinheiro.

Eu o vi concordar com a cabeça, sorrindo. Ele olhou a tela. Os segundos pareciam durar horas. De repente, uma impressora começou a funcionar.

São 105 euros e 70 centavos, senhor.

Paguei com o dinheiro que Agnès me havia deixado.

O funcionário entregou-me a passagem, todo sorrisos. Não perguntou o meu nome e não parecia questionar sobre a minha identidade. Soltei um suspiro de alívio e afastei-me do guichê rapidamente. Então vi uma patrulha de policiais armados até os dentes que avançava lentamente pelo meio da estação. Dei meia- volta e dirigi-me rapidamente para fora. Os policiais continuaram o seu caminho sem prestar atenção em mim.

Uma vez do lado de fora, desci num passo rápido para o bule­var Diderot, com as mãos nos bolsos, a cabeça enfiada nos ombros. Andei pela rua, perguntando a mim mesmo o que poderia fazer até o dia seguinte. Não tinha a menor vontade de ir para outro hotel. Era tarde e eu tinha muito medo de que reconhecessem o meu rosto. Quanto mais eu pudesse evitar contatos, melhor. Mas e aí? Ir aonde? Eu tinha de matar o tempo por oito horas...

Continuei a andar ao acaso, meio perdido, meio confuso, e cheguei ao bairro da Bastilha. As ruas estavam movimentadas, e disse a mim mesmo que talvez não fosse tão ruim me misturar à multidão noturna.

Subi a rua do Faubourg-Saint-Antoine. Depois de alguns minutos de caminhada, cheguei diante do La Fabrique, um bar e restaurante aonde eu havia ido uma ou duas vezes e que, tarde da noite, se transformava em clube noturno. Eu estava morren­do de fome e buscava o anonimato. Decidi entrar.

O restaurante já estava fechado, mas concordaram em me fazer uma grande salada. Comi rapidamente numa mesa de canto, no meio da barulheira do ambiente.

Enfiado num canto escuro, decidi ficar ali, na discrição dos jogos de luzes. Passei uma boa parte da noite afundado numa poltrona ovóide, uma noite insólita banhada de ruídos e de cores, aturdido pelos uísques e White Russians que eu emendava sem contar, a house ininterrupta de um DJ superligado que gesticulava no meio da pista de dança, e a fumaça acre dos meus pró­prios cigarros. A minha permanência nesse antro furioso foi como uma longa alucinação esquizofrênica, à qual todos os meus sentidos se submeteram como escravos voluntários — contentes, sem dúvida, de escapar por algum tempo das cores angustiantes do real. As horas desfilaram como minutos esfumados, cheias de flashes, de imagens sincopadas nas quais se imobilizavam os ros­tos em transe, punhos levantados e cabelos esvoaçantes. Os bati­mentos do meu coração pareciam responder em eco aos baixos regulares da música eletrônica que me estimulava as tripas. Talvez tenha trocado algumas palavras com outros freqüentado­res sem compreendê-los realmente, dancei um pouco, desajeita­do, reconheci um ator de cinema cercado de uma horda de jovens, a não ser que também fossem falsas lembranças...

No meio da noite, sem referência cronológica, lembro-me de ter atravessado a multidão que dançava para ir ao banheiro. A minha cabeça rodava. Apoiado na pia, olhei-me interrogativamente num pequeno espelho rachado, cercado de pôsteres e de flyers coloridos. Eu estava com os olhos vermelhos, a pele macilenta, gotas de suor perlavam na minha cabeça e na testa. Nesse momento, percebi o rosto de uma moça no canto direito do espe­lho. Ela se aproximou devagar, com um sorriso nos lábios. Pensei reconhecê-la. Longos cabelos ruivos, narizinho de gato, boca carnuda, travessa. Havíamos dançado juntos alguns minutos antes. Pareceu-me que ela flertava comigo, mas atribuí o fato à minha paranóia ou ao álcool. Não havia acreditado realmente, nem pres­tado atenção. Com certeza eu estava errado e não era o momen­to de me deixar enganar pelas inépcias do meu pobre cérebro... No entanto, naquele instante, eu não podia estar errado. Lenta­mente, a jovem se colou nas minhas costas. Eu sorri. Devia estar sonhando! Em seguida, senti os lábios dela no meu pescoço, bem reais. Levantei os olhos. Vi nossas duas silhuetas enredadas no reflexo do espelho. Suas mãos deslizaram ao longo dos meus quadris. Um arrepio atravessou-me a coluna. Segurei seus dedos para impedi-los. Meu coração disparou. Na incongruência do instante, senti o desejo, violento, crescer em mim. E a evidência invadiu-me. Eu estava com tesão. Comecei a rir. Fantástico, eu estava com tesão! Eu me virei e peguei a moça pelos ombros, afastei-a lentamente de mim, do meu corpo. Dirigi-lhe uma expressão desolada.

Ela sorriu, deu de ombros e partiu em direção ao banheiro.

Completamente desnorteado, voltei a me afundar no grande ovo branco que cintilava sob os spots coloridos. Meu olhar perdeu-se além do balé de luzes. Furtivamente, o rosto de Agnès surgiu como um imenso slide no teto da boate. Seus grandes olhos verdes me fitavam. Eu gostaria de dizer-lhe: Estou curado. Dei um suspiro e me deixei levar pelas ondas da minha embria­guez. Logo me perdi no curso dos acontecimentos e as vibrações do tempo e das notas reuniram-se num magma nebuloso. Aban­donei-me, resignado. No fundo, eu estava bem, longe de tudo, longe de mim.

Eram mais de 5 horas quando notei, distraído, que a sala se havia esvaziado em grande parte. Alguns minutos depois, um rapaz de camiseta preta, provavelmente um barman, veio avisar-me que já estava na hora de levantar acampamento. Levantei-me, atordoado, e saí para a rua cambaleando, meio bêbado, extenuado.

Por volta das 6 horas, cheguei novamente em frente à estação de Lyon. Eu flutuava num estado de sonolência e ainda tinha de esperar quase duas horas. Encontrei um velho banco verde na grande esplanada, afastado dos carros, e joguei-me, grogue, para finalmente cair numa sonolência agitada, com a cabeça para trás, apoiada num muro áspero. A cada quinze minutos eu saía com dificuldade dos braços de Morfeu, olhava o relógio da estação e voltava a dormir sem realmente pensar. Em certo momento, acordei sobressaltado com o ruído de passos de um sujeito que se afastava apressado. Não tinha a certeza de que fosse muito real. Eu teria sonhado ou o cara havia esvaziado meu bolso? Enfiei a mão na jaqueta. A carteira ainda estava lá.

As 7h40, com a mente suficientemente clara para sentir nova­mente o sabor da urgência, fui para a plataforma já movimentada da estação de Lyon e subi no trem sem perda de tempo.

Abri caminho até o meu lugar, enfiei a mochila embaixo do assento e me instalei confortavelmente. Dormi durante toda a primeira metade do trajeto.

Um pouco antes do meio-dia, fui acordado pelos raios cinti­lantes do sol. Eu me estiquei, a mente embaralhada por essas horas estranhas. Tinha a impressão de não ser eu mesmo, de não estar no controle. Uma espécie de sincronicidade, de desencarnação. Ou talvez ressaca, simplesmente. Precisava de um café.

Levantei-me e fui para o bar do TGV. Sentado numa ban­queta alta, meus olhos iam e vinham entre o bilhete de Agnès — que eu havia guardado com as notas de 100 euros e que havia aberto na minha frente — e o espetáculo róseo da Côte d'Azur que desfilava sob o grande céu de verão. Deixei-me envolver pela costa recortada, pelas casas de balaustrada, pela terra vermelha dos pequenos canyons que o trem atravessava, pelo azul artificial das luxuosas piscinas e pela baía dos Anges que, lentamente, se revelava ao longe... Depois, voltei a mergulhar nas poucas pala­vras de Agnès: Isso é tudo o que eu posso fazer. Espero que saia dessa. Boa sorte. A sua ausência, a sua partida estragavam o hori­zonte como as horríveis barreiras de imóveis erguidos em frente ao mar. Um insulto à beleza simples de como deveria ter sido. Entre Cannes e Antibes peguei-me a detestá-los.

O trem entrou na estação de Nice às 13h33. Assim que saí do vagão, com a pequena mochila no ombro, fui envolvido pelo calor sufocante da cidade.

Eu tinha a impressão de ter saído da França, porque, para mim, há muito tempo, a França se resumia à cara de Paris. Alguma vez eu vivera em outro lugar? Ali, tudo era diferente, tudo era estranho. As pessoas, as árvores, o céu, os odores... Nem os segundos eram parecidos. Ali cheirava à Itália e à Nouvelle Vague até nos óculos de sol imensos dos pedestres per­fumados. Eu era Michel Piccoli, e o meu desdém, a minha ausente, minha Brigitte Bardot, eram algumas palavras amassa­das no fundo do meu bolso. Espero que saia dessa. Boa sorte.

Eu havia pegado um mapa da cidade no balcão de informa­ções da estação e desci diretamente para a Nice Velha. Afinal, era melhor ir direto ao objetivo, eu não tinha ido bancar o turista de agosto.

Havia muita gente nas ruas da Cidade Velha, uma nuvem de pessoas impelida por um vento invisível, pessoas da região, com sotaque e voz forte, viajantes de todos os lugares do mundo, de todas as cores. O sol forçava a andar mais devagar, a não ter pressa. Todos aproveitavam a sombra oferecida pelas ruelas mais estreitas, diminuíam o passo. Isso formava engarrafamentos humanos. Levado pela multidão, eu me deixava invadir pelos amarelos e vermelhos dos muros de Nice, pelas fachadas em tons pastéis, pelas lousas pintadas que vendiam as virtudes do absin­to, pelas guirlandas de toalhas de mesa provençais, pelos cafés, pelas lojas, pelas velhas de cabeça coberta com seus xales, reuni­das atrás das grandes portas onde deviam trocar mil mexericos, pelos jovens indisciplinados avançando nas suas scooters, pelos barulhentos camelôs... Não demorei a chegar ao bairro dos artis­tas, pontilhado de galerias, de bobos do Sul, de vitrines cobertas com dezenas de cartazes coloridos; em seguida, desci a rua Droite, passei ao lado do palácio Lascaris e, finalmente, encon­trei a viela que localizara no mapa.

Estremeci ao tomar consciência de que ali estava a razão da minha viagem. E uma boa parte das minhas últimas esperanças. O apartamento secreto de Gérard Reynald estava a apenas alguns metros. Encontraria ali as respostas? Novas pistas? A polícia ainda ignoraria a sua existência? Nenhuma certeza. Talvez a minha viagem houvesse sido em vão. Porém, ao menos, eu pro­curava. Não era um peão, era um ator. Ao menos, tentava sê-lo.

A rua do Château ou, como especificava a placa colada na parede, a Carriera del Castu, era uma pequena ruela estreita, que subia, abrupta, para a grande colina que dominava a baía dos Anges. As fachadas, dos dois lados da rua, eram tão próximas umas das outras que parecia que iam se juntar antes de abraçar o céu. O piso, em escada, era pavimentado de pedras brancas. As paredes — rosa, ocre ou amarelas — apareciam aqui e ali por trás das cortinas de roupas que secavam nas janelas. Já era a Sicília.

Subi os longos degraus. A direita, meninos jogavam numa casa com as portas escancaradas. Ouviam-se a algazarra de um futebol de mesa e o eco dos seus gritos de alegria. Continuei, aparentando flanar, e parei em frente ao número 5. A entrada do imóvel estava fechada por uma velha porta de madeira gasta e um interfone, no qual aparecia uma meia dúzia de sobrenomes. Aproximei-me com prudência, as mãos nos bolsos. Um dos botões trazia a inscrição "G.R.". Seria a abreviação de Gérard Reynald? Era bem provável. Apesar de tudo, hesitei um instan­te. Observei mais uma vez à minha volta. E se Blenod estivesse errado? Se os tiras já estivessem lá, esperando-me tranqüilamen­te no apartamento? Não estaria cometendo o erro mais estúpido de um homem acuado? Resolvi que era tarde demais para desis­tir. Eu havia atravessado toda a França, não era o momento de voltar atrás. De qualquer modo, estava cansado de esperar. Se minha investigação terminasse ali, pois bem, que fosse! Preferia cair nas garras da polícia depois de tentar alguma coisa do que ficar enterrado em Paris. Apertei o botão. Nada. Segunda tenta­tiva. Ainda nenhuma resposta. Sem dúvida, o apartamento esta­va vazio, como eu esperava. Dei uma olhada na porta de madeira. Sabia que não resistiria a uma boa ombrada, mas não era o momento de chamar atenção. Alguns meninos brincavam na rua a alguns metros dali. Seria melhor aguardar as sombras anônimas da noite. De qualquer modo, eu estava morrendo de fome.

Perambulando pelas ruas estreitas da Cidade Velha, em busca de um lugar para comer, fui repentinamente atraído pela vitrine reluzente de uma pequena loja. Na verdade, sem pensar, parei, com as mãos nos bolsos, como um cliente despreocupado. Diante de mim, dezenas de relógios estavam alinhadas, expostos com capricho em estojos coloridos. Havia relógios de todos os tama­nhos, de todos os tipos, para homens, mulheres, crianças, relógios de quartzo, relógios automáticos, com ponteiros ou mostrador analógico, belos relógios de marca ou simples artigos baratos. Fiquei fascinado com aquele espetáculo, embora banal, com todos aqueles objetos anódinos que, abandonados atrás dos grandes vidros, mediam sabiamente o passar do tempo. Sob a iluminação quente das lâmpadas, todos os relógios indicavam a mesma hora, dóceis. Ergui o meu punho e olhei o meu. Continuava a piscar os mesmos números hipnóticos, 88:88. Sorri. Por que eu teimava em não acertar a hora? No momento, definitivamente, tratava-se de superstição. Talvez eu tivesse a impressão de ficar fora do tempo, fora do mundo... Ou, talvez, o homem que eu havia sido houvesse morrido no instante em que meu relógio quebrou, no momento do atentado, e que isso fosse bom. Eu ainda não esta­va preparado para voltar a viver. Para encarnar.

Dei meia-volta, voltei ao bairro do apartamento de Reynald e, finalmente, fui comer num pub irlandês, todo de madeira e pintado de verde.

A garçonete, uma britânica de origem pura, faces vermelhas e cabelos claros, recebeu-me com largos sorrisos.

O que posso servir-lhe? — perguntou ela, com um sota­que delicioso.

Percorri o cardápio, depois pedi uma cerveja e uma jacket potatoes & cheese, para seguir as regras do jogo. Fui instalar-me num recanto escuro, atrás de uma imitação de barricada de velhos tonéis, e comi olhando, com o canto dos olhos, a retrans- missão de uma partida de rúgbi, numa grande televisão presa na parede. A mudança de país me distraiu. Afinal, não estávamos longe da Promenade des Anglais...

Quando a garçonete veio buscar o meu prato vazio, decidi fazer uma tentativa:

Desculpe-me, por acaso conhecia Gérard Reynald?

Ela franziu as sobrancelhas.

Você é policial?

Jornalista — menti. — A polícia já veio interrogá-la?

Não, ninguém. Mas é o cara que foi preso na semana pas­sada, não?

Concordei. A maneira como pronunciava os "erres" e os erros de gênero eram encantadores.

Sim, ele vinha aqui de vez em quando. Mas nunca con­versamos realmente... Não posso acreditar que ele tenha cometi­do um atentado. Parecia um homem de bem. Quando vi a foto dele na TV, não acreditei nos meus olhos!

Ele vinha sozinho, aqui?

Sim. Sempre sozinho. Como o senhor, ele sentava neste canto, aqui. E não falava muito. Era tímido...

Nunca notou nada especial?

Como o quê?

Não sei... Um comportamento diferente, alguma coisa...

Não, realmente. Ouvi na televisão que ele era... esquizofrê­nico, mas quando vinha aqui, não parecia ser louco. Só um pouco tímido... O senhor trabalha em que jornal?

Na televisão — respondi com desenvoltura.

Ela pareceu satisfeita e afastou-se com um sorriso. Deixei uma gorjeta na mesa e saí para andar na rua.

Passei o fim da tarde e o começo da noite vagando na Cida­de Velha, as mãos nos bolsos, como se perambular pelas mesmas ruas que Reynald deveria andar pudesse me aproximar dele, ajudar-me a compreendê-lo. Por que esse cara que se parecia tanto comigo havia colocado as bombas? A resposta estaria escri­ta nas paredes das ruelas de Nice? A alma dele ainda estaria ali, em alguma parte? Eu, que ouvia o pensamento das pessoas, não poderia encontrar nada ali, nas calçadas que ele devia ter pisado mil vezes?

Eu mesmo estava surpreso com a minha determinação. A apatia dos primeiros dias, a indolência forçada dos neurolépticos, o medo, a indecisão, tudo esquecido. Eu me tornara um homem diferente. De tanto buscar a mim mesmo, acabei por me cons­truir. No entanto, não conseguia me acostumar às atitudes inatas das quais eu dava prova desde o início do caso. A corrida de per­seguição na Défense, depois no carro do meu patrão, o arrombamento da fechadura, o soco no advogado, a investigação que eu fazia com uma obstinação completamente nova... Eu tinha a impressão de ser possuído por um fantasma do passado, de saber fazer muito mais coisas do que podia suspeitar e, quanto mais o tempo passava, mais eu adquiria a certeza de que havia uma explicação racional por trás de tudo isso: alguma coisa na minha vida anterior que me predispunha a essa situação. Eu começava a me perguntar se não havia sido um tira ou um ladrão... Alguma coisa assim. Em todo caso, de uma coisa eu tinha certeza: não havia sido no escritório de uma firma de patentes que eu havia aprendido a dirigir como um piloto das vinte e quatro horas de Le Mans ou a dar ganchos de direita!

Anoitecia tarde naquela parte da França e esperei muito tempo a escuridão total antes de, finalmente, decidir voltar ao velho prédio da rua do Château.

O bairro havia adquirido o seu aspecto noturno. Havia menos gente nas ruas, e vozes animadas, provocadas pelo álcool e pela vibração da noite, elevavam-se em eco entre as fachadas escure­cidas. Ouvia-se ao longe as músicas eletrônicas dos últimos cafés abertos.

Ao chegar à rua deixei passar um grupo de baderneiros e, quando tive certeza de estar sozinho, apertei novamente o interfone. Nenhuma resposta. Inspecionei os dois lados da rua. Ninguém. Com uma ombrada, arrebentei a fechadura da grande porta e passei pelo pórtico.

A entrada do prédio estava mergulhada na escuridão. Apertei um interruptor, a luz iluminou um pequeno hall deteriorado onde reinava um cheiro nauseabundo. Examinei detalhadamente o local. A lista dos moradores estava estampada ao lado das cai­xas de correspondência. Segundo as etiquetas, o apartamento de "G.R." ficava no segundo andar, à direita. Subi as escadas.

Os degraus de madeira rangiam e tive de tomar mil precau­ções para ser o mais discreto possível. Com uma das mãos, apoiava-me na parede rachada; com a outra, mantinha o equilí­brio para subir sem ruído.

Ao chegar ao segundo andar, bati três vezes na porta. Ninguém havia respondido ao interfone, mas era melhor ter cer­teza. Também não obtive resposta. Peguei o canivete suíço no fundo da mochila e comecei o meu trabalho de pequeno arrom- bador. Agora eu sabia: bastava seguir o instinto.

No mesmo instante, ouvi vozes na rua. Um grupo aproxi­mava-se do prédio. Acelerei o ritmo. A ponta entrou na fechadu­ra. Franzi o cenho. Nenhuma resistência. Eu nem tinha verifica­do! Provavelmente, estava aberta... Embaixo, a porta do prédio foi aberta. Depois, gritos hilários de três ou quatro rapazes, cuja noite devia ter sido bem regada, subiram até mim. Pus a mão na maçaneta da porta e girei. Ela estava aberta. Estranho. Isso não pressagiava nada de bom. E se os tiras estivessem escondidos lá dentro? Pensei em voltar atrás, mas os jovens já estavam subin­do as escadas. Não havia tempo para pensar. Empurrei a porta e entrei rapidamente no apartamento de Gérard Reynald.

Não tive tempo de me defender. Assim que fechei a porta atrás de mim, fui jogado contra a parede, o braço preso nas cos­tas, com o cano de um revólver na têmpora.

Mas...

Shhhh...

O punho apertou mais o meu braço e um joelho forçou a minha lombar. Poderia tentar alguma coisa, soltar-me. Conhecia a técnica. Eu sabia, eu sentia: inscritos nos meandros insuspeitos da minha memória estavam os gestos exatos para me soltar desse golpe e virar a situação. Mas não era o momento de fazer baru­lho. Havia aquelas pessoas nas escadas. Naquele momento, per­maneci imóvel.

As vozes dos caras alegres ressoaram bem diante da porta, depois subiram no prédio e, finalmente, desapareceram.

Imediatamente, eu me deixei levar pela fantasia de lutador, pelos meus reflexos inconscientes. Tudo se passou numa fração de segundos, sem que eu precisasse pensar. Com a velocidade de um felino, virei-me, dobrei o braço preso, segurei com força o punho do meu agressor e empurrei-o contra a parede para desarmá-lo, depois deslizei atrás dele, passei o braço em volta do seu pescoço e dei-lhe uma rasteira. O homem soltou um grunhido de dor e caiu na minha frente. Desarmado, ele estava de joe­lhos, uma das mãos esmagada contra a parede, e a garganta aper­tada pelo meu cotovelo. Sufocando, ele tentava falar. Aliviei ligeiramente o golpe.

Vigo — balbuciou ele com uma voz gutural —, ghhh, solte-me...

Qual é o seu nome, babaca? — repliquei com uma agres­sividade que surpreendeu a mim mesmo.

EsFiNgE... Faço parte do grupo EsFiNgE! — exclamou ele, sem fôlego.

Abaixei-me com precaução, peguei o revólver caído no chão, soltei o homem que estava aos meus pés e dei alguns passos para trás, com a arma apontada para ele. Não podia ver bem os seus tra­ços na escuridão, mas ele me pareceu meio velho para um hacker...

Acenda a luz! — ordenei.

O sujeito ficou ainda algum tempo de joelhos, com a mão no pescoço, tossindo. Depois, levantou-se com dificuldade e apertou o interruptor. Então, vi o rosto dele. Devia ter uns 40 anos, não tinha físico de assassino, nem de pirata da informática, traços finos, cabelos pretos meio longos e grandes olhos azuis, assusta­dos. Usava luvas.

Que provas eu tenho de que você pertence mesmo ao grupo EsFiNgE?

O homem pensou antes de responder:

Eu... eu sou Damien Louvel. Foi comigo que você entrou em contato outro dia na Internet... O código que eu lhe dei... foi AdB_4240.

Era realmente o código que me haviam passado. Não era uma garantia absoluta, é verdade — afinal, alguém podia ter espiona­do a nossa conversa —, mas decidi me contentar com isso. No fundo, ele parecia tão pouco com a imagem que eu fazia de um hacker que acreditei nele. A verdade é sempre mais surpreenden­te do que pensamos. Enfiei o revólver na cintura.

Prazer, senhor Louvel... ou deveria dizer EsFiNgE?

O sujeito sacudiu a cabeça. Ainda estava sob efeito do golpe.

Chame-me de Damien, está bom. Caramba! Você bate sem dó!

Sinto muito, mas foi você quem pôs a arma na minha cabeça!

Mas... mas o que veio fazer aqui, Vigo?

Dei de ombros, divertido.

O mesmo que você, suponho...

Bom, isso não foi muito esperto da sua parte! Nós o acon­selhamos a se manter discreto...

Não posso ficar de braços cruzados...

O sujeito concordou lentamente com a cabeça. Parecia com­preender. Ou então, ainda estava com medo de mim.

Mal o reconheci — suspirou ele. — Belo corte de cabelo!

A gente faz o que pode...

Louvel acabou sorrindo. Achei-o simpático de cara. Não saberia explicar, mas alguma coisa no seu olhar me deixava à vontade, uma espécie de cumplicidade e simplicidade sinceras. Eu tinha a impressão de que estávamos no mesmo barco. Há vários dias fazíamos a mesma investigação, paralelamente, e, ao menos, tínhamos um objetivo em comum: a verdade. Além do mais, o seu lado de hacker, de Robin Hood do futuro, agradava-me a priori. Mas tinha de me manter com um pé atrás. A vida não cessava de me ensinar a não confiar em ninguém.

E agora, o que fazemos? — perguntei dando uma olhada no apartamento de Reynald atrás de mim.

O apartamento estava numa desordem inominável. Um velho colchão no chão, alguns móveis de fórmica destroçados, papéis e livros jogados por todo lado, sacolas esportivas cheias até a boca, roupas espalhadas pelo chão, folhas grudadas nas paredes... No canto oposto à entrada, uma cozinha americana, e na parede em frente, uma janela com as persianas fechadas por onde filtrava a luz de um poste de iluminação.

Agora, vou tentar recuperar o fôlego...

O hacker arrumou as roupas, esfregou mais uma vez o pes­coço e inspirou profundamente.

Bem — disse ele, finalmente —, agora, já que está aqui, suponho que não vá embora...

Isso é certo. Vim buscar respostas e alguma coisa me diz que há algumas neste apartamento...

Creio que sim. Ouça, o tempo urge, Vigo. Não devemos nos demorar por aqui. Não sei quanto tempo temos antes que os tiras acabem descobrindo a existência deste apartamento. Então, ajude-me a terminar o que tenho para fazer e vamos sair daqui.

E o que está fazendo, exatamente?

Ele tirou uma pequena máquina digital do bolso.

Fotos. Não há tempo de pegar tudo.

Com um sinal de cabeça, ele me convidou a segui-lo até o meio do apartamento.

Estou tentando pegar o máximo de coisas. Fotografei tudo o que podia daqui até lá — disse ele, indicando a primeira meta­de da sala. — Preciso fotografar o resto.

Está bem.

Tome. Use isto. Não vale a pena deixar as nossas impres­sões por todo lado.

Vesti o par de luvas que ele me entregou. Peguei o revólver dele nas minhas costas, hesitei, depois devolvi. Ele sorriu, guardou-o, levou a máquina aos olhos e começou a metralhar os documentos que havia espalhado no chão.

Fui inspecionar a parede ao lado da cozinha americana, onde estava afixada a maior parte dos documentos. O meu olhar foi imediatamente atraído por uma folha em especial. Em caracteres enormes, escritos à mão, estava o começo da frase que eu ouvira na torre SEAM. Rebentos transcranianos, 88, está na hora do segundo mensageiro.

Senti o meu coração parar. Essas palavras retomavam, repen­tinamente, a gritante realidade. Eu não podia tê-las inventado. Além do mais, tendiam a mostrar que era Reynald quem eu ouvira no dia do atentado. Sim. Não havia dúvida. Mas a frase continuava sem sentido para mim. No entanto, devia significar alguma coisa importante. Parecia um slogan, uma espécie de grito de guerra... Se, ao menos, eu conseguisse decifrá-la! Reme­morei a continuação. Hoje, os aprendizes de feiticeiro na torre, amanhã, nossos pais assassinos no ventre, sob 6,3. Por mais compli­cada que fosse a frase, a resposta ao enigma talvez estivesse escondida ali, naquela sala...

Continuei a examinar a parede. Havia vários recortes de publicações, alguns que pareciam retirados de revistas científicas, a maioria em inglês, outros extraídos de sites da Internet. Li alguns títulos, ao acaso: Auditory hallucinations and smaller supe­rior temporal gyral volume in schizophrenia; mais à frente, Distúrbios psicóticos: distúrbios esquizofrênicos e distúrbios delirantes crônicos; embaixo, mais um, Increased blood flow in Broca's area during auditory hallucinations in schizophrenia; e, enfim, mais embaixo, TMS in cognitive plasticity and the potential for rehabilitation. Visivelmente, Reynald interessava-se de perto pelas alucinações esquizofrênicas e por um monte de assuntos ligados à neurociência.

Fotografou tudo isso? — perguntei, mostrando os artigos.

Sim, sim — respondeu o hacker sem interromper o tra­balho.

Fui além, fascinado. De repente, o meu olhar passou por outro documento que, na mesma hora, entrou em ressonância com as minhas lembranças. Tratava-se de um texto curto, manuscrito, com a mesma letra — a letra de Reynald, claro. E a relação com a primeira frase era evidente: E o segundo anjo tocou... Uma coisa parecida com uma grande montanha de fogo caiu no mar. Uma terça parte do mar se transformou em sangue (Apocalipse, 8:8). Repeti a referência em voz alta: "Apo­calipse, 8:8." Mais uma vez esses dois números! Eu me virei de novo para o hacker.

E isto... você fotografou? — disse eu com voz trêmula.

Louvei levantou a cabeça.

Mas claro! — disse ele com voz irritada. — Tudo o que está nas paredes é bom!

Ele apontou um monte de folhas ao lado dele.

Pode me ajudar? Vire esses papéis e arrume aqueles ali no chão, abertos.

Afastei-me lentamente da parede e obedeci. Olhei os docu­mentos que Louvel fotografava. Havia duas folhas muito gran­des; plantas arquitetônicas com anotações de Reynald. A primei­ra — que trazia o título "A Torre" — eu tinha certeza de que representava a torre SEAM. A segunda, em compensação, não me lembrava nenhum prédio em particular, mas o título escrito por Reynald outra vez fazia referência à frase misteriosa: "O Ventre".

Meu coração estava disparado. Minha viagem não havia sido inútil! Ainda era muito vago, mas eu tinha certeza, tudo o que estava ali ia fazer a nossa investigação avançar muito, desde que soubéssemos decifrar, é claro.

Ainda ficamos uma boa meia hora fotografando tudo o que nos parecia importante: inúmeros documentos, fotos pessoais, livros, manuais, material que poderia servir para fabricar bombas artesanais e um monte de objetos diferentes, alguns que, prova­velmente, não teriam nenhum interesse para nós, mas era melhor fazer demais do que de menos. Logo achamos que nada havia escapado da objetiva. Damien Louvel guardou a máquina e bateu no meu ombro.

Vamos nos mandar!

Concordei com a cabeça. Mesmo assim, dei uma última olha­da no apartamento conjugado, esperando não termos esquecido de nada. Em lugar nenhum eu vira um documento que mencio­nasse o misterioso "Protocolo 88" que, no entanto, parecia ser o elemento central de todo o caso. Mas havíamos encontrado mui­tas coisas. Era um bom começo. Dei meia-volta e segui o hacker no corredor. Ele fechou a porta atrás de nós e descemos a esca­da num passo rápido.

Não havia mais ninguém na rua do Château. Soltei um sus­piro de alívio. Aparentemente, tivéramos sucesso na empreitada. Alguma coisa me dizia que estávamos próximos do objetivo. Talvez simplesmente eu quisesse acreditar nisso.

Tenho um quarto num hotel não muito longe daqui, quer vir comigo? — ofereceu Louvei quando nos afastamos do prédio.

Hesitei. Por mais que eu tivesse bons pressentimentos a res­peito desse sujeito, ainda não estava completamente à vontade. Afinal, não sabia quase nada a seu respeito e menos ainda a res­peito dos outros membros do misterioso grupo.

Eu... Eu não sei.

Quer continuar a sua investigação sozinho, Vigo?

Não sei nada sobre você... Que provas eu tenho de que quer me ajudar realmente? Parece fazer a sua própria investigação...

Ele inclinou a cabeça.

Como quiser, meu velho, mas é melhor partilharmos nos­sas informações, não?

Depois de tudo o que aconteceu comigo, aprendi a não confiar em ninguém. Por que confiaria em você?

Porque sabe que busco a verdade tanto quanto você. E, depois, seja honesto, você está na merda, Vigo. Os tiras o pro­curam em todo o país. Provavelmente somos os únicos a não considerá-lo um terrorista e os únicos a poder lhe oferecer pro­teção.

Fiz uma cara de cético.

Você tem realmente meios de me proteger?

Tenho.

Ele havia respondido com convicção.

E está pronto a me contar tudo o que sabe?

Estou — disse ele sem hesitar. — E você?

Fiz uma pausa. A pergunta merecia reflexão. Estaria pronto a compartilhar as minhas informações com esses hackers que eu não conhecia? O que estaria arriscando, afinal? Já estava achando que precisava mais deles do que eles de mim. E uma coisa me parecia cada vez mais certa: não tinha ombros tão sólidos nem recursos suficientes para continuar essa investigação sozinho. Acabei cedendo. Talvez levado pela minha eterna necessidade do outro.

Combinado. Vamos formar uma equipe — propus. Louvel deu um largo sorriso. E apertou amigavelmente o meu ombro.

Caderneta Moleskine, anotação no 191: metempsicose.

Essas lembranças inconscientes que me vêm do passado, esse fan­tasma desconhecido que surge aqui e ali... As vezes me pergunto se não fui um outro. Por que eu não poderia ser o envelope carnal de uma nova alma errante?

Eu não seria o primeiro a dar algum crédito à reencarnação ou à metempsicose. Platão, Pitágoras, os egípcios, os essênios, os cabalistas, os bramanistas, os budistas, os cátaros... Deveria eu temer tais companhias? Talvez.

Certamente a reencarnação não passa de uma resposta preguiço­sa, entre algumas dezenas, para a nossa angústia da morte. Morrer não seria mais deixar de viver, mas viajar para outro corpo. No Bhagavad-Gita, podemos ler: "Certa é a morte para aquele que nasce, e certo é o nascimento para aquele que morre." Ah, se ao menos os mortos tivessem certezas!

A fé na reencarnação não é apenas um fenômeno antigo. Havia um canadense, Ian Stevenson. Sem dúvida, o seu sobrenome o predis­punha a sonhar com viagens... Ele trabalhava no Departamento de Medicina Psiquiátrica da Universidade da Virgínia e consagrou a carreira ao estudo das pessoas — essencialmente na Ásia — que afirmavam lembrar-se de vidas anteriores. Entre os 2.600 casos que estudou, ele se concentrou nuns sessenta, cuja análise descreveu rigorosamente em artigos na imprensa científica e em suas obras, trabalhando essencialmente nos vínculos biológicos que tentou encontrar entre essas pessoas e as que elas teriam sido em vidas anteriores... Ele fez, sobretudo, uma reflexão sobre as marcas de nascença, tentando ver se elas poderiam ser resultado de traumatismos das vidas anterio­res. Olhando mais de perto, acabamos rapidamente por nos divertir diante desse invólucro pseudocientífico, cujo segredo a América do Norte possui... No entanto, por várias vezes, tive a sensação de já ter sido outro.

As pessoas que sofrem de amnésia retrógrada talvez estejam bem mais aptas a declararem-se reencarnadas. No fundo de mim mesmo tenho certeza de não ser mais aquele que fui.

O hotel Brice era um elegante três estrelas perto do bairro empresarial, à margem da Cidade Velha. Damien Louvel havia reservado um quarto grande no último andar. Pelo modo como cumprimentou o funcionário da recepção, compreendi que, ali, ele estava em terreno conhecido.

Assim que entrou no quarto, ele se dirigiu a um laptop e conectou a máquina fotográfica digital. Em silêncio, vi-o transfe­rir todas as fotos que havia tirado no apartamento de Gérard Reynald e achei que as enviava para um servidor na Internet. Aliás, reconheci a página inicial do site no qual nos falamos, hacktivista.com. Sem sombra de dúvida, ele estava acostumado a usar todo esse material.

O que está fazendo? — perguntei, aproximando-me.

Mandando as fotos para os outros, em Paris. Precisaremos de tempo para estudar tudo isso... O nosso analista vai poder começar a trabalhar.

O seu analista? Você fala como se a EsFiNgE fosse uma grande sociedade...

Ele sorriu.

Não... Não somos uma grande sociedade. Mas somos qua­tro, trabalhando em tempo integral para o grupo.

É estranho... Na Internet, vocês passam a imagem de sim­ples hackers amadores.

Sim, deliberadamente. E um meio de não chamar muito a atenção. Preferimos que nossos adversários não nos levem muito a sério.

Por quê? Vocês têm muitos adversários? — surpreendi-me.

Qualquer pessoa que se preocupe em esconder a verdade é um adversário em potencial.

Mas vocês trabalham para quem?

Para ninguém, Vigo. Somos uma estrutura privada, inde­pendente. Uma espécie de pequena ONG da informação, se pre­ferir assim.

Eu não conseguia compreender como e por que esse grupo existia. Havia um lado completamente romanesco na imagem que eu fazia desses justiceiros da Web. No entanto, eles me pareciam cada vez mais reais, cada vez mais sérios.

Vocês dizem que são independentes — insisti —, mas devem precisar ser financiados, não?

Eu lhe disse outro dia, temos doadores generosos. E, quan­do os clientes nos parecem dignos de confiança, pode acontecer de cobrarmos por nosso serviço. Mas isso é excepcional. Somos adeptos da gratuidade. Não se preocupe, verá tudo isso em Paris. Por enquanto, merecemos relaxar um pouco. Vigo, quer tomar alguma coisa?

Não sei...

Ora, vamos, depois do esforço, o reconforto! Vou mandar subir uma garrafa. Gosta de uísque?

Concordei. Ele ligou para a recepção e, alguns minutos depois, estávamos frente à frente, sentados num sofá, segurando um copo de uísque delicioso.

Consegui relaxar rapidamente; sem dúvida, Louvel tinha razão, eu merecia um pouco de repouso. No entanto, não pude deixar de pensar em Agnès. A última vez que havia tomado um uísque, assim, sentado num sofá, havia sido com ela, no peque­no apartamento da praça Clichy. Mais uma vez, percebi o quan­to sentia a sua falta. A calma e o reconforto em que terminava aquele dia estapafúrdio se mesclaram com uma inevitável melan­colia e com um sentimento de irrealidade.

Não pude evitar de fazer um balanço dos últimos quinze dias. O atentado, a descoberta da minha não identidade, meus falsos pais, o sentido inexplicável das minhas crises epilépticas, Agnès, Feuerberg, Dermod e, agora, Nice... Que controle eu tivera sobre tudo isso? Estava certo de compreender bem o que acontecia comigo? Como isso acabaria? Podia imaginar uma saída feliz para essa aventura que ia além do entendimento? E sobretudo, sobretudo, não conseguia esquecer os questionamentos da minha angústia escatológica. Talvez eles encontrassem um novo eco nessa busca a que eu me dedicava, sem pensar. Isso porque, no fim das contas, para o que ela serviria? Uma vez resolvida essa investigação — se realmente eu conseguisse terminá-la —, isso mudaria alguma coisa da minha angústia? Das minhas dúvidas sobre o futuro do Homo sapiens? Não podia me impedir de pres­sentir a inanidade das minhas novas ações. O ridículo da minha busca da verdade. Estaria buscando a verdade certa? A que estancaria minha sede?

Nesse instante, me dei conta do estado de fadiga nervosa em que eu estava, do desânimo, da confusão. Mas, enfim, não me saía tão mal. Qualquer um poderia sucumbir por muito menos. Com medo de me deixar levar por uma onda de depressão, dei um gole no uísque e recomecei a conversa.

Como souberam a respeito do apartamento de Nice?

Visivelmente, a minha pergunta divertiu Louvel.

No futuro, Vigo, saiba que não se é obrigado a arrombar o escritório de um advogado, nem lhe quebrar a cara para ver o que há no computador dele. Há meios bem mais discretos de fazer isso, à distância...

Dei um sorriso embaraçado.

Então, vocês sabem o que aconteceu em Paris...

Sabemos, é claro. E não podemos dizer que tenha se mos­trado muito esperto com esse golpe. E uma coisa a mais para os tiras ficarem na sua cola. E um milagre que ainda esteja em liber­dade... Um milagre... Digamos que tem a sorte de ter anjos da guarda.

Estou vendo... Suponho que lhes deva agradecimentos.

Ora, sabe, eu passei por isso, Vigo. Acredite, vivi situações que não estavam muito longe da sua.

É por isso que me ajuda?

Entre outras coisas, é. O que quer que seja, não pode permitir-se assumir mais riscos desse tipo! E, depois... Preci­samos lhe dar documentos de identidade provisórios.

Fácil assim? — repliquei perplexo.

Você é procurado em toda a França, meu velho. Veja o que está circulando.

Louvel levantou-se, foi pegar o laptop e o pôs na minha fren­te. Ele digitou alguma coisa no teclado e uma janela de vídeo se abriu.

Essas imagens são de uma câmera de vigilância da praça da Coupole, na Défense. E a última seqüência que foi salva em 8 de agosto...

Sentei na beirada do sofá para ver melhor. Assim que o vídeo começou, os batimentos do meu coração aceleraram-se. A ima­gem em preto e branco era entrecortada, mas era possível ver cla­ramente os rostos. Em todo caso, reconheci o meu. Em pânico, eu era visto correndo da torre SEAM. Uma imagem que a polí­cia só podia interpretar de maneira errada. Depois, via-se Gérard Reynald que fugia, apenas alguns segundos depois de mim. A se­qüência continuava, as pessoas passavam, as portas abriam-se e fechavam e, de repente, a explosão. O vídeo terminava num preto total. Louvei repassou várias vezes.

Você escapou de boa. Uma coisa que meus colegas e eu não conseguimos compreender, Vigo. Como soube que aquilo ia explodir? — perguntou-me ele, sem tirar os olhos da tela.

Sem dúvida era uma pergunta capital para o meu interlocu­tor. É bem verdade que ele já me havia provado que queria acre­ditar na minha inocência, mas esse último detalhe técnico devia obcecar a ele e aos colegas.

Engoli em seco. Rever aquelas imagens era como viver o pesadelo uma segunda vez, lembrar-me da realidade. Ter, mais uma vez, consciência de que aquilo realmente havia ocorrido... Que não era produto da minha imaginação.

Eu... Acho que ouvi os pensamentos de Reynald.

Ele me encarou por longo tempo.

Vai ser difícil explicar isso ao juiz...

Dei de ombros.

No entanto, é a verdade.

Fechando o laptop, ele me olhou direto nos olhos.

Por mais incrível que possa parecer, meu velho, acredito em você. Isso pede algum esforço, é verdade, mas... acredito em você.

Eu lhe dei um sorriso reconhecido. Era bom ouvir aquilo. Agora que Agnès havia ido embora, eu precisava recuperar um pouco de confiança, alguém que acreditasse um pouco em mim.

Hesitei em dizer mais. Em dizer exatamente o que eu ouvi­ra: a frase cujo início estava pregado em letras grandes na pare­de do apartamento de Reynald. Rebentos transcranianos, 88, está na hora do segundo mensageiro. Hoje, os aprendizes de feiticeiro na torre, amanhã, nossos pais assassinos no ventre, sob 6,3. Talvez ainda fosse muito cedo. Antes, eu preferia fazê-lo falar.

O que soube a mais depois da conversa que tivemos na Web? — perguntei, voltando a afundar no sofá.

Não muita coisa. Ainda não temos nada sobre o Protocolo 88. Absolutamente nada. Acabamos por nos indagar se essa coisa realmente existe. Quanto à pista Dermod, por enquanto, também não temos resposta... Está tudo bem bloqueado. Esses sujeitos se protegeram bem.

Deve haver um meio de identificá-los — repliquei. — Sobretudo se estiverem ligados à Feuerberg. Eles fecharam o escritório correndo... Isso prova que não estavam tão protegidos assim. Todos esses movimentos de última hora devem ter deixa­do pistas.

Sim, mas, por enquanto, não encontramos nada. Contudo, o que fotografamos no apartamento de Reynald provavelmente vai nos ajudar...

Sim.

Era o que eu também esperava.

Você viu a anotação sobre as receitas? — perguntei, pen­sando em todas as pistas que eu havia considerado. — O doutor Guillaume não estava registrado no Conselho Regional de Medicina, então eu disse a mim mesmo que poderia tentar encontrar com que nome a clínica Mater fazia as minhas receitas de neurolépticos... Talvez isso nos desse a identidade real de uma pessoa envolvida na sociedade deles.

Guardou as suas receitas?

Não, todas ficaram no apartamento dos meus pais, mas deve haver um meio de recuperá-las, não? Quem sabe na farmá­cia aonde eu ia sempre, ou diretamente no Seguro Social...

Vamos procurar.

Ele abriu o computador e registrou, suponho, uma anotação a esse respeito.

Uma coisa é certa — continuou ele —, os tiras também devem estar na pista de Dermod. Agora que você é suspeito, eles devem ter feito investigações sobre você, tanto quanto sobre Reynald. E o fato de ambos terem trabalhado na Feuerberg não lhes deve ter escapado. Também devem saber que o apartamen­to dos seus pais, assim como o de Reynald, pertencia a essa hol­ding offshore... Em resumo, o juiz de instrução vai investigar sobre isso. A verdade acabará aparecendo, Vigo, pelo menos em parte. Mas temos razões para querer descobri-la primeiro. Obrigatoriamente.

Por quê?

Um mau pressentimento.

O que quer dizer?

Louvel fez uma cara embaraçada.

Temos a impressão de que Dermod tem apoio no alto escalão. Daí, pode ser que uma ordem venha não se sabe de onde e obrigue o juiz de instrução a deixar de lado essa pista...

Está brincando?

Na verdade, não. Vigo, não quero assustá-lo, mas esse dossiê cheira a corrupção a mil quilômetros de distância.

E não era um paranoico feito eu que ia dizer o contrário.

Aliás, sabe que a sua amiga tira não foi trabalhar hoje?

Sei. Mas isso não tem nada a ver. Ela está de licença médica...

Louvel fez uma cara cética.

E, fora isso, não fizeram nenhum avanço? — insisti para mudar de assunto.

Bom, como você, descobrimos a existência desse aparta­mento em Nice, inspecionando o computador do advogado. Em desespero de causa, decidi revistar eu mesmo. Em geral, não sou eu que cuida desse tipo de missão meio especial, mas todos estão sobrecarregados. Isso me trouxe algumas lembranças e me fez remoçar. Em todo caso, será preciso analisar todas as fotos. Acho que há alguma coisa aproveitável, sobretudo as plantas arquitetô­nicas com anotações de Reynald. Tenho certeza de que uma delas era da torre SEAM... Mas havia outra, você viu?

Sim. O Ventre. Acha que é outro prédio que Reynald queria explodir?

Parece muito provável, não?

— Pode ser.

E você, Vigo? Descobriu outra coisa?

Estou meio perdido, Damien. Entre as minhas crises epi­lépticas e os problemas de memória, confesso que tenho dificul­dade em manter as idéias claras. Depois, há uma coisa que me intriga cada vez mais...

O quê?

A minha identidade passada. O homem que eu era antes da amnésia.

O que quer dizer?

Fiz uma pausa antes de prosseguir. Era estranho desabafar tão abertamente com um homem que havia conhecido algumas horas antes, mas eu tinha a impressão de que o conhecia havia muito tempo.

Às vezes tenho a impressão de ter feito parte da Máfia, ou alguma coisa parecida, na minha vida anterior! Eu me peguei fazendo coisas... no mínimo surpreendentes.

De que tipo?

Arrombar uma fechadura, dirigir um carro como um pilo­to de corrida, lutar...

Ah, sim, lutar... É, eu vi isso há pouco! O meu braço se lembra. Ora, talvez você seja um ex-boxeador, Vigo! — exclamou o hacker, rindo.

Eu estou, mesmo, completamente perturbado.

Não se preocupe. Acabaremos descobrindo.

Em certos momentos, eu me pergunto se quero mesmo saber...

Louvel levantou o copo de uísque.

Vamos, brindemos à verdade, Vigo! À verdade!

Brindei com ele, sem muito entusiasmo. Ficamos em silêncio por um momento, perdidos nos nossos respectivos pensamentos. Louvei acabou levantando-se.

Bem, já está tarde! Vamos deitar. Você está com uma cara horrível. Sem falar da sua aparência! Amanhã de manhã, vou levá-lo para fazer compras. Já está na hora de lhe comprar uma mala e um novo guarda-roupa. Você está começando a parecer um mendigo.

Eu sorri.

Aceito, com prazer. Faz duas semanas que ando com as mesmas roupas...

Vamos dar um jeito nisso. Roupa é comigo mesmo. Tenho mais jeito para elas do que para o boxe. Depois, voltaremos a Paris. Eu o levarei ao nosso escritório. Tentaremos analisar tudo o que conseguimos aqui.

Combinado.

Vou lhe dar o quarto. Eu durmo no sofá.

Tem certeza?

Tenho, tenho. Vá dormir, Vigo.

Aceitei. Não tinha nada contra uma boa noite de sono.

Caderneta Moleskine, anotação no 193: recordação, fim.

Meu nome não é Vigo Ravel. Tenho 13 anos. Estou atrás da caminhonete verde. Meus pais estão na frente. Agora, vejo o rosto deles. O sorriso de minha mãe, seus olhos cansados, as marcas de tris­teza. E meu pai, cabelos à escovinha, rosto quadrado, queixo largo, olhar duro, voz séria, uma alegoria da autoridade.

Fora, estendem-se as colinas verdes da costa normanda. Deauville desaparece no horizonte, dando lugar às velhas casamatas. Depois, aproximam-se as falésias de argila, como a foto de um cartão-postal.

Eu nem olho a mosca idiota que voa à minha volta. Sei que ela não tem importância, que só está aqui para me distrair, que me afasta do que eu tenho de ouvir, compreender.

Os meus pais brigam e me usam para justificar o que os separa. Eu sei. A minha educação é o pretexto das suas opiniões discordan­tes. Eles me esquartejam em vez de se dilacerarem. Não agüento mais.

O carro para num dique. As portas batem. Sigo os meus pais na praia deserta, as mãos enfiadas nos bolsos, os punhos cerrados sobre a raiva que ressoa. Andamos nos seixos. O clamor das ondas e o vento mal conseguem sufocar o combate entre eles, incessante. O último combate.

Subitamente, o meu pai volta para perto de mim, deixando a minha mãe à beira da água. Vejo-o inclinar-se para a frente, segu­rar o meu ombro.

A sua mãe e eu vamos nos separar, meu filho.

Eu sei.

Ele parece surpreso. Não sou o idiota que ele gostaria que eu fosse.

Você virá morar comigo.

Cruzo os braços e franzo as sobrancelhas. Todo o meu corpo se recusa.

Não!

Não diga bobagem.

Prefiro ficar com a mamãe!

Ele suspira.

Mamãe tem de se ausentar por um tempo.

Para onde ela vai?

Para o hospital.

Ela está doente?

— Não. Ela... Ela precisa de repouso. Voltaremos esta noite para Paris, meu filho. Mamãe vai ficar em Deauville. Iremos vê-la de vez em quando.

Eu choro. Sei que as crianças não têm armas para lutar contra isso.

"Iremos vê-la de vez em quando." Ele nunca cumpriu a promessa.

No dia seguinte, de manhã, como o previsto, Damien Louvel me levou para fazer compras na grande rua de pedestres do cen­tro da cidade. Inicialmente achei meio estranho, até mesmo intimidante, o fato de estar com um sujeito que eu mal conhecia experimentando roupas nas lojas de Nice sob o olhar alegre das vendedoras, depois acabamos nos divertindo sinceramente. Louvel tinha um senso de humor e uma ironia que me deixaram rapidamente à vontade, e, de fato, ele parecia ter um gosto cer­teiro para o prêt-à-porter: ele se empenhou em me dar um novo visual da cabeça aos pés, zombando da minha escolha das roupas.

Não quer abandonar o visual esquizofrênico complexado, meu velho? Olhe, experimente este jeans, isso vai lhe tirar uns dez anos e um ou dois quilos.

Eu tinha a impressão de representar uma cena de Uma linda mulher! Como um irmão mais velho, ele me ajudou a escolher calças, camisas, paletós, um par de sapatos... e pagou todas as vezes com seu cartão de crédito. Agradeci, pouco à vontade.

Não se preocupe, isso vai entrar como despesa! Não basta raspar a cabeça, Vigo. Se quiser mesmo uma nova cara, não pode hesitar em mudar tudo... está fora de cogitação levá-lo de volta a Paris vestido assim! Tenho uma reputação a preservar. Além do mais, as suas roupas velhas estão tão sujas que será preciso queimá-las.

Depois de duas horas de compras, amontoei as inúmeras sacolas numa mala nova e finalmente partimos para a estação, deixando para trás o rosto colorido da Côte d'Azur, em direção a Paris.

No trajeto de volta, Louvel recebeu vários telefonemas, sem dúvida de outros membros do grupo da EsFiNgE. Todas as vezes, ele se levantava e ia para o fim do vagão para não incomo­dar os outros passageiros ou, talvez, para que ninguém — prin­cipalmente eu — pudesse ouvir a conversa. Ao vê-lo usar o celu­lar, não pude me impedir de pensar novamente em Agnès. Gostaria tanto de ligar para ela! Todo o tempo, imaginava o seu rosto, o seu olhar, a sua voz. Com os olhos perdidos no vazio, a cabeça colada no vidro da janela, perdi-me nas lembranças.

 

Agnès. Praça Clichy. O Wepler. Parfait Silence. Para onde quer que eu olhasse, o sorriso dela se desenhava. Você pode dizer o que quiser, buscar mil razões para fugir de mim, mas sei que sentiu por mim essa pequena diferença que muda tudo. Essa evidência que o coração aceita e que a alma ignora ou finge ignorar. Eu vi no seu olhar, ouvi nos seus suspiros e mesmo entre as linhas do seu último bilhete, percebi essa centelha. Eu sofro como você porque o presente nos escapa, porque para nós dois não existe o aqui e o agora. Não sei se voltarei a vê-la algum dia, se a encontrarei em algum lugar, se esse lugar e esse instante existem, e nada me faz sofrer mais do que essa ignorância. Viverei para sempre essa improcedência como uma injustiça. Como a linha da vida que não pudemos seguir. Cada segun­do que passo longe de você é uma sentença de prisão perpétua. Não sei se é o fato de não poder abraçá-la, de imaginá-la nos braços de outro que me dá o desejo de possuí-la e lamentar não ter sabido dizer eu a amo, não sei se é por não poder ligar para você que me torturo a esse ponto, não sei se minto para mim mesmo, se é uma complacência à infelicidade, mas, puta que pariu, estou sofrendo!

Quanto mais procuro esquecê-la, mas a sua lembrança se aviva. Sei muito bem que é ridículo, que almas irmãs não existem, que é um mito de adolescente e que certamente há outras mil histórias de amor que poderiam cruzar os nossos caminhos, o meu, o seu, mas tudo isso não passa de um discurso da razão e o coração tem razões que a pró­pria razão desconhece. Nem tudo é razão. Há outra coisa. Essa força imensa que não se explica. Estou me lixando para ser racional, estou me lixando para ser razoável, é você quem eu quero hoje, é nossa his­tória que quero viver, agora, contra tudo e contra todos. Sinto a sua falta. Você é essa dor escura no fim de todos os caminhos que a minha memória atravessa, e você não está mais lá.

Está tudo bem, Vigo?

Eu me assustei.

Como?

Damien Louvel olhou-me, preocupado.

Você está bem?

Passei as costas da mão no rosto. As lágrimas se apagaram sob os meus dedos.

Estou. Tudo bem.

Deve estar exausto, meu velho.

Sem dúvida.

Por que ele me chamava todo o tempo de "meu velho"? Ele devia ter dez anos mais do que eu! Certamente era um termo afetivo. Ou então devia ser o meu olhar pleno de velhice prematura.

O que você está passando... Ninguém pode compreender. Ninguém deveria ter de passar por isso...

Soltei um suspiro.

Tudo bem, não se preocupe. Um pouco de cansaço.

Louvel sorriu. Ele não era bobo. Vi no seu olhar muito mais compreensão do que poderia esperar. Esse sujeito havia passado por muitas coisas, isso transparecia no seu sorriso, nos seus silên­cios. Fui invadido por um violento desejo de sinceridade.

Sinto falta de Agnès. Tenho medo de perdê-la.

Ele meneou a cabeça e apontou o telefone.

Quer ligar para ela?

Ela me pediu para não fazê-lo.

Ele me lançou um olhar no qual acreditei ver amizade. Alguma coisa parecida com isso. Eu não conhecia muito sobre esses sentimentos.

Vamos tirá-lo disso, Vigo, eu prometo.

Forcei-me a sorrir.

Obrigado.

O silêncio instalou-se de novo. Fechei os olhos e apoiei a cabeça na janela do trem. Olhei a paisagem desfilar, teatro silen­cioso e indiferente à minha aflição. Os minutos se passaram e domaram a minha angústia. Finalmente, chegamos a Paris, ao consolo cinza do concreto e das fumaças esbranquiçadas.

Segui Louvel pela estação de Lyon, lembrando-me da estra­nha noite que havia passado ali. Mas eu era outro homem, e não só porque havia me separado dos meus farrapos.

Um táxi levou-nos ao XXe arrondissement, bulevar de Ménilmontant. Andamos pela rua sem falar. Eu ouvia o barulho da cidade. O bairro fervilhava de gente, vibrava de vida, de calor humano. Eu gostava disso. Louvei guiou-me até um prédio anti­go. Fiquei surpreso de que a toca do grupo da EsFiNgE ficasse daquele lado da capital. Eu esperava um bairro mais moderno, um bairro de escritórios. Mas, no fundo, aquilo devia parecer mais com eles do que eu imaginava. Passamos sob um pórtico, atravessamos um primeiro pátio, um corredor, um segundo pátio, depois, quando chegamos diante de uma grande porta de vidro pintado, Louvel virou-se para mim.

Bom. Eis nossos escritórios. Vigo, não quero parecer sole­ne, mas tem de me prometer nunca revelar o que quer que seja do que vai ver aqui...

Fiz um sinal com a cabeça para dizer que compreendia.

Normalmente, não aceitamos visitas. Você é... uma exceção.

Eu não sabia o que responder.

Está certo — disse eu, na falta de coisa melhor. — Obrigado.

O hacker enfiou a chave na enorme porta blindada que fecha­va o local secreto. Ele entrou na frente.

O escritório do grupo EsFiNgE era uma espécie de antigo loft desativado, onde reinava uma desordem desconcertante. Era uma grande mistura de bugigangas, cartazes, pilhas de documen­tos e material high-tech, monitores, computadores, um monte de aparelhos cuja verdadeira função eu não adivinhava. Cabos de todas as dimensões corriam por toda parte de um lado ao outro do recinto, de uma sala até a outra... As paredes eram cobertas de estantes de livros e de armários onde se amontoavam centenas de dossiês, CD-ROMs, impressoras, caixas de papelão... Num canto, num velho bar de latão, alguns copos largados. Grandes vigas de metal, pintadas de um verde velho metropolitano, sus­tentavam um grande telhado de vidro quatro ou cinco metros acima. Uma luz azulada penetrava através das vidraças coloridas. No fundo do loft, uma pequena escada levava a um mezanino envidraçado, empoleirado em quatro outros pilares metálicos.

Duas pessoas estavam ocupadas nos seus computadores. Um asiático baixo, magro, de uns 20 anos, sem dúvida, com um visual de cantor de rock japonês saído diretamente dos anos 1980, com piercing e cabelos oxigenados. Um pouco mais afastado, um homem de uns 30 anos verdadeiramente obeso, com grossos ócu­los redondos, uma impressionante cabeleira negra desgrenhada, usava uma larga camiseta de Superman. A mesa dele, além de um conjunto de máquinas de informática, estava coberta de latas de refrigerante e velhas caixas de fast-food...

Por fim, uma jovem, que provavelmente não tinha nem 20 anos, veio ao nosso encontro, toda sorrisos. Alta e magra, tinha longos cabelos castanhos e pequenos óculos redondos. Vestida como uma estudante, completava na perfeição o trio incongruen- te de jovens apaixonados pela informática...

Vigo, eu lhe apresento Lucie.

Muito prazer — disse eu, estendendo-lhe a mão.

Olá — disse ela com voz alegre e descontraída.

Aquele ali é Sak, o nosso analista — disse Louvei, apon­tando o jovem asiático. — E o privilegiado ali, escondido atrás dos grandes monitores, é Marc, que é, ao mesmo tempo, o nosso programador, quem faz a computação gráfica e o maior devorador de pizzas de Paris.

Os dois rapazes me dirigiram um cumprimento de cabeça sem, na verdade, interromper o trabalho.

Lucie... como devo dizer? Pois bem, Lucie, mesmo sendo a mais moça de todos, é a pessoa que criou a EsFiNgE...

Ergui as sobrancelhas, um pouco surpreso.

Ela estava comigo quando entramos em contato com você na Internet.

Sim — confirmou a moça. — E, aliás, temos novidades!

Perfeito! — exclamou Louvei. — Vamos lá em cima, poderá nos dar todas as informações. A não ser, Vigo, que quei­ra tomar um banho e se refrescar.

Não, não, vou com vocês.

Então, vamos. Ficaremos tranqüilos lá em cima, ali é o que chamamos de "aquário" — explicou-me Louvei, indicando o mezanino de vidro.

Eles começaram a andar na direção da escadinha metálica e eu os segui, pouco à vontade. Louvei parou no caminho diante do cara obeso, que não tirava os olhos da tela do computador.

Marc, Vigo precisa de novos documentos de identidade. Pode fazer isso?

O rapaz soltou um suspiro.

É você, o famoso telepata? — resmungou ele, com ar sar­cástico.

Louvel fez uma cara embaraçada.

Marc, por favor...

O rapaz se ergueu negligentemente.

OK, OK... Como queira. Tenho apenas de tirar uma foto.

O tal de Marc foi buscar uma máquina fotográfica arrastan­do os pés, com o jeans baggy caindo, depois me pediu para ficar em frente a uma das raras partes de parede ainda branca... Obe­deci, meio desconcertado. Decididamente, o programador não via o meu caso com a mesma boa vontade que Louvel. Ele tirou a minha foto e voltou para o computador, sem dizer nada.

Não ligue para ele — cochichou-me Damien ao ouvido. — Ele é sempre assim. O nosso cético de plantão. Preciso disso aqui para manter os pés na terra. E, depois, ele é um excelente pro­gramador. Vamos, Lucie nos espera lá em cima.

Concordei com a cabeça. Esse pequeno mundo se comporta­va como se tudo fosse perfeitamente normal, mas eu tinha a impressão de flutuar em pleno sonho. Sem dúvida, aqueles caras não se davam conta da estranheza da sua pequena comunidade.

Tentei não demonstrar a minha perturbação e subi a escada que levava ao escritório de Louvel, isolado pelas paredes de vidro. A jovem já estava sentada lá dentro, nós nos juntamos a ela em volta de uma pequena mesa de reunião.

E então, vovô, tudo bem na volta?

Sim — respondeu Louvei, sorrindo.

Uma grande cumplicidade parecia uni-los, alguma coisa pare­cida com uma relação pai e filha ideal, pós-crise de adolescência.

Quer um café?

Eu não, e você, Vigo?

Não, obrigado.

Então, pode falar, Lucie. Vigo está tão impaciente quanto eu para saber o que descobriram...

Quer que... que aborde tudo?

Louvel sorriu.

Sim. Agora, Vigo quase faz parte da equipe... Acho que podemos dizer tudo.

Agradeci com um sinal de cabeça. Ele não estava represen­tando. Agora eu sabia.

  1. Pois bem, graças ao que você nos enviou ontem à noite de Nice, Sak e eu avançamos muito a respeito de Dermod e acho que nós os pegamos!

Louvel lançou-me um olhar entusiasmado. Devolvi um sor­riso. Talvez fosse a primeira boa notícia depois de muito tempo... Se havia uma coisa com a qual eu sonhava, era "pegar" os responsáveis por tudo o que acontecia comigo!

Damien, você teve uma boa premonição: Dermod não é nada mais do que uma empresa de "segurança privada", como se diz.

Eu tinha certeza! — replicou Louvel, batendo as mãos na mesa. — Eu tinha certeza! Esse troço cheirava a paramilitar!

Franzi as sobrancelhas.

Podem me esclarecer? O que é uma empresa de "seguran­ça privada"?

Por alto, são sociedades de mercenários — explicou a jovem. — Parece que a Dermod é uma dessas agências de segu­rança privada e de gestão de crises que apareceram no pós-Guerra Fria e mais ainda depois que as tropas francesas saíram da África. Há uns vinte anos, a assistência técnica militar teve uma lamentável tendência a se privatizar. Em linhas gerais, a Dermod fornece armas e mercenários aos governos... E adivinhe quem é um dos principais acionistas secretos da Dermod?

A SEAM? — sugeriu Louvei.

Sim! Não procuramos muito desse lado... Tenho de con­tar que a montagem financeira dessa sociedade offshore é espe­cialmente nebulosa. Mas o envolvimento da SEAM, que é a segunda maior exportadora de armas da Europa, com uma socie­dade de segurança privada não é de surpreender, mesmo que seja desconcertante do ponto de vista deontológico. Tudo é lucro para a SEAM. O gênero de pequenas empresas como a Dermod desempenha um papel cada vez mais importante no fornecimen­to de armas para todo tipo de regimes dos países do Sul. Elas estão numa posição privilegiada para levar os negócios aos fabricantes de armas: têm ligação com os governos em guerra, com­panhias aéreas de carga etc.

Fiquei olhando para Lucie. Havia paixão na sua voz e no seu olhar. Ela entrava de cabeça no caso, como se a sua vida depen­desse disso. E, talvez, esse fosse o caso. Se, na verdade, essa jovem de 20 anos havia criado a EsFiNgE, é porque tinha uma sede extraordinária de verdade e algum motivo pessoal. Apesar do visual de eterna adolescente, alguma coisa fazia dela uma adul­ta, talvez mais madura do que eu. E o conhecimento que parecia ter adquirido de todos esses assuntos me impressionava. Sem dúvida, ela e Louvei eram as duas pessoas mais singulares que eu já havia conhecido. E, estranhamente, eu queria parecer-me com eles. Subitamente, senti uma nova força, uma motivação aumenta­da. O desejo de pertencer a um grupo. Naquele instante, pela pri­meira vez na vida, eu não tinha mais a impressão de estar sozinho.

Lucie — perguntei —, como descobriu que a Dermod era uma sociedade de segurança privada?

Dois documentos de Gérard Reynald nos puseram na pista. Em seguida, pudemos cruzar as fontes para verificar. O primeiro documento envolvia diretamente a Dermod numa operação militar patrocinada oficiosamente pelo Estado francês no início de 1997. A Dermod teria enviado trinta mercenários ao Congo para enquadrar o exército de Joseph Mobutu, que havia sido vencido pelos soldados de Laurent-Désiré Kabila.

Simples assim?

É. E o segundo documento se referia a outra missão do mesmo tipo, lançada por um conselheiro do Elysée, bem no iní­cio de 2000. Mais uma vez, a Dermod teria enviado seis homens para apoiar o general Robert Guei na Costa do Marfim, para ajudá-lo a destruir os grupos de oposição e reestruturar a guarda presidencial...

Black operations — murmurou Louvel.

Exatamente.

Que disparates são esses? — disse eu, totalmente estarre­cido.

Não são disparates — replicou Louvei, virando-se para mim. — Essas operações são cada vez mais freqüentes. O Estado francês, mesmo que o negue, recorre regularmente a sociedades privadas e a mercenários para a gestão de crises desse tipo.

Por quê?

Bem, para que não se possa chegar até os governantes. Há ocasiões em que a divisão de ação, o famoso 11? de choque, da DGSE não pode executar operações especialmente delicadas do ponto de vista político. A vantagem é que os mercenários, ao contrário dos militares, são bens consumíveis, descartáveis... Não têm nenhum vínculo oficial com as autoridades; em resumo, não deixam pistas. Todos os presidentes da Quinta República recorreram a serviços de empresas particulares, De Gaulle na Biafra, Giscard no Benim, Mitterrand no Chade e no Gabão, Chirac no Zaire, na Costa do Marfim... Sem falar nos america­nos que cada vez mais fazem isso, no Afeganistão, no Iraque...

Existem várias sociedades desse tipo na França — emen­dou Lucie, com voz exaltada. — Elas vendem seus serviços muito caro para o Estado. Em geral são criadas por ex-policiais do Elysée, ex-militares que saem do batalhão de paraquedistas, das tropas da marinha ou da Legião Estrangeira, e há também vários agentes "aposentados" do serviço secreto. Esses caras saem do exército, muito burocrático para o gosto deles e não muito... lucrativo.

Louvel concordou.

É, e em geral mantêm os vínculos com suas divisões de origem, com a DGSE ou com o Departamento Africano do Élysée.

Esse parece ser o caso da Dermod, além do que ela goza dos recursos privados vindos da SEAM, que é uma das maiores sociedades européias de armamentos e cujo acionista majoritário, por acaso, é...

O Estado francês.

Sim! Em linhas gerais, por intermédio da SEAM, o nosso país é indiretamente acionista de uma estranha sociedade de mer­cenários...

Incrível — murmurei.

Lucie dirigiu um sorriso ao vizinho.

Já vimos coisa pior — disse ela com ar sarcástico. — Em resumo, graças às duas pistas fornecidas pelos documentos de Reynald pudemos ir mais longe e descobrir o envolvimento da Dermod em outras operações, por exemplo, na Bósnia e no Congo-Brazzaville.

E aonde isso tudo nos leva?

Minha idéia é que o Protocolo 88 deve ser o nome de um código de uma dessas black operations... O problema é que não sabemos qual. Ainda não temos nada sobre isso.

Vamos acabar encontrando — afirmou Louvei. — Esta­mos na pista certa.

Espero... Vamos continuar a procurar. Agora, trabalhamos em outros documentos igualmente interessantes.

Quais?

Bem, primeiro, entre os documentos que você fotografou, havia uma carta de um fornecedor de acesso à Internet com todas as informações a respeito da caixa de e-mail de Reynald. Bom... Isso não é muito legal, mas fomos ver o que havia nela...

Uma vez a mais não faz diferença — observou Louvel, fazendo uma careta.

Reynald tomava o cuidado de apagar todos os e-mails, tanto na caixa de entrada quanto na caixa de saída, mas o nosso caro Sak não é de se deixar desarmar por esse tipo de desafio... Ele conseguiu recuperar boa parte dos e-mails enviados por Reynald no ano passado. E no que era recuperável, encontramos alguns que despertaram o nosso interesse. Vários deles lhe eram endereçados, Vigo.

A mim? Mas nunca recebi e-mails desse cara! — sur­preendi-me retesando-me na cadeira.

No entanto, ele enviou ao menos dois para o seu endereço...

Por que nunca os recebi?

Não sei. Talvez a Dermod os tenha interceptado. Ou tal­vez os seus falsos pais filtrassem o seu correio...

Pensando bem, isso era bem possível... Em todo caso, era a explicação mais provável. Meus pais e eu dividíamos o mesmo computador e várias vezes eu me perguntei — como um adoles­cente desconfiado — se a minha mãe não lia os meus e-mails.

O primeiro e-mail — emendou Lucie — era a respeito da torre SE AM e sente-se bem a obsessão, ahn... assassina, que o homem cultivava a respeito do edifício... O segundo se refere a um misterioso "comandante L.". É um longo panfleto sobre um tipo de polícia secreta, mas que não parece muito realista. Francamente, esse Reynald deve ser meio débil e é difícil saber se o que ele diz tem algo de real... Mas tem uma coisa ainda mais interessante. Encontramos um terceiro e-mail muito, muito curioso... Imaginem que, na véspera do atentado, Reynald enviou uma mensagem a vinte pessoas, entre elas... você de novo, Vigo.

E o que dizia o e-mail?

Esse também é muito estranho. Meio codificado, se assim posso dizer. O objeto especificado é o nosso famoso "Protocolo 88" e o conteúdo retoma, sobretudo, algumas coisas que estavam pregadas na parede do apartamento conjugado de Reynald. Vejam.

A jovem nos estendeu uma folha impressa. Eu me aproximei de Louvel e li por cima do seu ombro:

De: Gérard Reynald

Data: 7 de agosto, 15h50

Para: undisclosed recipients

Assunto: Protocolo 88

Rebentos transcranianos, 88, está na hora do segundo mensageiro. Hoje, os aprendizes de feiticeiro na torre, amanhã, nossos pais assas­sinos no ventre, sob 6,3. Faço isso por nós todos. Espero ir até o fim [E o segundo anjo tocou... Uma coisa parecida com uma grande montanha de fogo caiu no mar. Uma terça parte do mar se transfor­mou em sangue.] (Apocalipse, 8:8).

O que é essa algaravia? — disse Louvel.

Lucie deu de ombros.

A... A primeira frase — balbuciei. — Foi a que ouvi na torre, justo antes da explosão. Os pensamentos de Reynald... Ele devia se repetir essa frase todo o tempo.

Louvel franziu as sobrancelhas.

— Foi esta frase que fez você sair da torre correndo?

Foi...

Ele anuiu, como se, finalmente, começasse a compreender.

Vocês têm alguma idéia do que isso quer dizer? — per­guntou ele, dirigindo-se tanto a mim quanto à Lucie.

— Claramente, anuncia o atentado de 8 de agosto —- sugeriu a jovem.

Ele deve ter querido nos prevenir — continuei.

"Nós" quem?

Não sei... As pessoas interessadas... Faço isso por nós todos. Puderam identificar os outros destinatários do e-mail?

Não, ainda não. Mas uma coisa é estranha: na lista dos destinatários, há um pseudônimo que corresponde a cada ende­reço de e-mail. E o seu era: Il Luppo. Isso lhe diz alguma coisa?

Eu pensei.

Não, não vejo...

Quer dizer "o lobo", em italiano... Todos os outros apeli­dos são do mesmo tipo. Nomes de animais...

Estremeci. O lobo. Deslizei a mão lentamente para o meu ombro, os olhos arregalados.

O que foi? — perguntou Louvel, ao ver o meu estado de consternação.

Tenho... Tenho uma tatuagem no ombro. Nunca soube de onde vinha. Não me lembro...

E o que é?

Um lobo.

Houve um breve momento de silêncio. Cada um refletia no seu canto. Pouco a pouco, as peças de um quebra-cabeça ainda vago começavam a se encaixar.