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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A TARDE AZUL / William Boyd
A TARDE AZUL / William Boyd

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A TARDE AZUL

 

A Tarde Azul é uma belíssima história de amor cujo início e fim não conseguimos com precisão localizar. Por isso se conserva enigmática e intemporal.

Onde se inicia o processo Carriscant? Por onde começar a desenrolar o fio e os segredos desta teia tão admirável e surpreendentemente urdida? Em Manila, em 1902, um médico cirurgião, Carriscant, depois de ter saído de um bordel, é alvo de um disparo quase fatal. Em Los Angeles, Kay Fischer, arquitecta, jovem e dinâmica, é inesperadamente abordada por um homem, estranho e envelhecido, que lhe diz ser seu pai. Em Lisboa, os protagonistas reúnem-se e toda a história acaba por se iluminar. E como será que tudo isto se entrelaça?

 

 

Lembro-me daquela tarde, ainda no início do nosso périplo, quando, sentada no tombadilho ao sol tépido do meio do Atlântico, num dia vagamente baço e brumoso, o céu de um azul desbotado acima das chaminés fumegantes, perguntei ao meu pai qual a sensação de se pegar num bisturi e fazer uma incisão na carne humana. Ele meditou com um ar sério durante alguns momentos antes de responder.

 

- Depende onde se corta - disse. - Às vezes é como uma faca a atravessar barro ou plasticina. Outras é como cortar um manjar branco frio ou... ou frango cru.

 

Reflectiu ainda um pouco e depois meteu a mão no bolso do casaco e sacou de lá um bisturi. Retirou a pequena bainha de couro que protegia a lâmina e estendèu-me a faca esguia.

 

- Pega nisto. Experimenta tu mesma.

 

Tomei o bisturi da mão dele, pequeno como uma caneta mas muito mais pesado do que eu imaginara. Ele baixou o olhar para os restos do nosso almoço sobre a mesa: um pedaço de queijo com uma grossa casca amarela, uma tigela de fruta, quatro maçãs e um melão verde, alguns pãezinhos.

 

- Fecha os olhos - disse. - Vou-te buscar qualquer coisa que seja uma réplica perfeita.

 

Fechei os olhos e segurei o bisturi com força entre o polegar e os dois primeiros dedos. Senti a mão dele sobre a minha, a suave pressão dos seus dedos ásperos e secos, depois ele levantou-me a mão e senti que a puxava, guiando-a até que a lâmina veio repousar sobre uma superfície firme mas até certo ponto elástica.

 

- Faz um corte - disse ele. - Um pequeno corte. Carrega na lâmina.

 

Carreguei. Fosse o que fosse que estava a cortar cedeu facilmente e a lâmina penetrou uns dois centímetros, ou assim me pareceu, suavemente, sem problemas.

 

- Não abras ainda os olhos... Qual foi a sensação?

 

Reflecti um ou dois segundos antes de responder. Queria exprimir o que sentira o mais correctamente possível, de um modo exacto, científico.

 

- Foi como... Como manteiga fria, sabe, saída do frigorífico. Ou lombo de vaca, como cortar um lombo de vaca tenro.

 

- Vês? - disse ele. - Não tem nada de misterioso, nada de alarmante.

 

Abri os olhos e vi a sua face quadrada, sorrindo-me, quase triunfante, como se acabasse de me provar que tinha razão. Tinha o antebraço esquerdo estendido, nu, as mangas do casaco e da camisa arregaçadas até à dobra do cotovelo. Sobre o músculo saliente, quinze centímetros acima do pulso, vesículas brilhantes de sangue gotejavam de um fino corte com cinco centímetros.

 

- Aí está - disse ele. - É fácil. Uma bela incisão. Nem uma tremura, uma pressão uniforme, e ainda por cima de olhos fechados.

 

Nesse momento, a sua expressão alterou-se para uma espécie de tristeza mesclada de orgulho.

 

- Sabes - acrescentou - terias dado uma grande cirurgiã.

 

         LOS ANGELES, 1936

Saí do Sunset Boulevard ao volante do meu automóvel e subi a Micheltoreno até à casa em construção. O dia estava enevoado e um vento errático e nervoso agitava as folhas das palmeiras anãs que o empreiteiro plantara ao longo da rua. No momento em que encostava o carro ao lancil do passeio defronte do número 2265, avistei o velhote. Era a primeira vez que realmente reparava nele, mas ao fazê-lo imediatamente veio-me à mente, por qualquer razão, que já antes o vira vagueando por ali. Quando se apercebeu que eu o fitava ele começou por olhar para as próprias mãos e depois, de um modo muito estranho e algo desajeitado, para as solas dos sapatos, como se tivesse pisado trampa de cão ou uma bola de pastilha elástica, até que, nada encontrando, virou costas e afastou-se rapidamente.

 

Não dei grande importância ao sucedido, o indivíduo tinha um aspecto desleixado e pouco seguro de si, era talvez alguém em busca de trabalho. Ou então talvez não tivesse compreendido que era eu a arquitecta - coisa que estava sempre a acontecer-me. Esqueci o incidente enquanto descalçava os sapatos e enfiava um par de galochas nos pés. A casa estava construída num declive e a chuva da semana anterior encharcara e tornara escorregadio o terreno argiloso que a rodeava.

 

Esta pequena casa quase concluída, erguendo-se no seu love de terra inclinada, representava o meu futuro, e quaisquer que fossem as frustrações futuras que ela me reservava, cada vez que a via sentia ainda um pequeno frémito de... de quê? De amor, suponho eu, ou de alguma coisa próxima desse sentimento. Eu tinha sonhado aquela casa, tinha-a desenhado, estava a supervisionar a sua construção e, pregada a um poste da vedação, encontrava-se a prova ocular deste facto - uma tabuleta com o meu nome. K. L. Fischer, arquitecta. O pequeno letreiro azul estava apenas ligeiramente desfigurado pela brutal supressão do nome do meu ex-sócio - Eric Meyersen -, uma simples barra de tinta preta ocultando a sua identidade. Quem me dera poder apagar com igual facilidade as memórias da nossa associação: Meyersen e Fischer, cinco anos de mentiras e duplicidade, de trapaças e má fé. O único consolo era eu saber que um dia ele ia ter a paga merecida.

 

Atravessei a soleira e entrei no vestíbulo sombrio. Do andar de cima vinha o ruído de martelos e serras, acompanhado pela voz de tenor entusiástico de Larry Rugola, o contramestre, cantando "Se tu fosses a única rapariga no mundo". Caminhei devagar pelos quartos do andar inferior. A casa era pequena, o seu tamanho ditado exactamente pela forma do terreno, e tinha dois andares: o primeiro incluía dois quartos, uma casa de banho e uma varanda espaçosa - a que eu com uma certa extravagância chamava o "patamar de vento" - e o rés-do-chão um grande salão com sala de jantar, cozinha e pátio ajardinado. A fachada virada para a rua dividia-se numa série de lanços em estuque creme, rectângulos lisos de cimento pintado dispostos de modo a revelarem brechas - de vidro, de espaço - ou a sobreporem-se ligeiramente, dando uma sensação de recuo dos volumes. A rigorosa geometria desta composição era realçada, e contrabalançada, pelos dois pinheiros que eu tinha deixado que crescessem junto à berma do passeio. A justaposição dos troncos de pinheiro, sinuosos e nodosos, e do cimento liso banhado pelo sol, com as suas sombras recortadas e vigorosas, resultava excepcionalmente bem. A fachada virada para o vale era em puro Estilo Internacional: paredes de vidro abruptas cortadas por painéis de estuque horizontais e, aqui e além, verticais. A brecha formada pelo patamar de vento dava a impressão que fora removido todo um segmento do edifício, como que por uma mão gigantesca, mas a integridade do seu espaço permanecia, assegurada pelas grossas vigas de carvalho da latada.

 

No interior reinava a simplicidade. Tectos baixos, armários, guarda-roupas e madeiramentos em teca, paredes ou de vidro

- enquadrando a paisagem - ou então de estuque liso amarelo-claro. Os soalhos eram de carvalho cor de manteiga e, nos locais onde eu achava que uma textura mais suave complementaria as superfícies austeras, mandara assentar uma grossa alcatifa cinzento-amarelada. Tudo isto ganhava vida na minha imaginação, bem entendido, ali parada no meio das pilhas de tábuas, o chão juncado de aparas loiras de madeira e de ferramentas abandonadas, as paredes por pintar, fios pendendo de futuras tomadas eléctricas. Faltava-nos ainda um pouco para atingirmos a perfeição.

 

- Ah, Mrs Fischer! - Larry desceu as escadas ruidosamente, um martelo de cabeça redonda rodopiando numa das mãos como se fosse o seis-tiros de um pistoleiro. - Não chegámos a receber aquelas almofadas para as portas. Da serração disseram... - Sorriu-me timidamente, um sorriso imbuído de compreensão. - Disseram, ah, que não podem aceitar uma encomenda daquele tamanho sem haver um depósito em dinheiro.

 

- Mas nós temos lá uma conta, Santo Deus!

 

- Foi o que eu lhes disse. Mas o tipo respondeu que essa conta está em nome de Meyersen e Fischer. Não tem lá nenhuma em nome de K. L. Fischer.

 

Girei sobre os calcanhares, avancei até ao painel de vidro laminado da parede transparente e contemplei a vista. Silver Lake, tal era o nome fantasioso dado a esta área em volta duma represa artificial escavada entre duas cadeias de montes, a norte do centro da cidade e a este de Hollywood. Estradas de cascalho serpenteavam e descreviam voltas por entre as pimenteiras e carvalhos. A Micheltoreno era uma das mais compridas; partia do Sunset e subia, descia, coleava sinuosamente até chegar lá acima à represa. No cume tinha-se uma vista tanto para este como para oeste, mas aqui as encostas inclinadas ofereciam um panorama da cidade tentacular que, em certos casos, podia estender-se até ao oceano, o seu brilho de escamas de peixe formando uma linha luminosa bruxuleando no horizonte. Concentrei-me intensamente no que via, observando o fulgor metálico dos tejadilhos dos automóveis que circulavam em ambos os sentidos no Sunset; uma pequena figura masculina pendurava um grande cobertor mexicano numa corda; uma mulher num biquini azul-cobalto tomava um banho de sol num terraço alcatroado. Encostei as pontas dos dedos ao vidro quente e senti as ténues vibrações sónicas da cidade ecoando através da transparência. A rapariga no terraço alcatroado espalhava o que parecia ser margarina sobre o umbigo. Quando recobrei a calma sosseguei Larry, dizendo-lhe que iria pessoalmente à serração resolver o problema.

 

- Ah, agora me lembro. Aquele velhinho esteve aqui de novo à sua procura. Pelo menos pareceu-me que era a si que ele queria encontrar.

 

- Que história é essa? Que velhinho?

 

- Esteve mesmo agora aqui. Perguntou se o seu nome era, ah, deixe-me cá ver... Carriscant - penso eu. É isso. Miss Carriscant.

 

- Carriscant?

 

- Eu disse-lhe que devia estar enganado. Que havia uma Mrs Fischer, mas nenhuma Miss Qualquer-Coisa. E que além disso sempre se tinha chamado Fischer. Pelo menos que eu me... - Calou-se e examinou o meu rosto tenso com uma expressão que, para o Larry, traduzia uma genuína preocupação.

 

- Espero não ter feito, quero dizer...

 

- Não. É estranho, mesmo há pouco... Não, deixe estar. Não há problema absolutamente nenhum.

 

O meu nome é Kay Fischer. O meu nome é Kay Fischer e na época em que se passa esta história tinha trinta e dois anos de idade, era divorciada e arquitecta de profissão. Tinha um metro e sessenta e sete de altura (ainda tenho), cabelo castanho-escuro e olhos castanho-claros, uma bonita cara redonda e uma inteligência arguta. E, à imagem da maior parte das pessoas que se sabem mais inteligentes do que o grosso dos seus semelhantes que encontram ao longo da vida, a minha inteligência impelia-me por vezes a ser um pouco cruel. Nesse tempo fumava de mais e bebia e comia igualmente de mais, porque, suponho, na altura estava mais vezes triste do que alegre, e em consequência a minha silhueta outrora esbelta tornara-se rechonchuda e larga de coxas. Mas tanto me fazia, na verdade. Tanto me fazia.

 

Ao volante do meu carro abandonei a serração onde, após ter desfrutado durante anos de facilidades de crédito sem quaisquer entraves, fui obrigada a pagar 200 dólares para poder abrir uma nova conta. Funcionários que lidavam comigo desde que eu começara a exercer citavam agora regras e regulamentos com um ar pesaroso e remetiam-me para o jovem gerente no seu gabinete envidraçado. - Acho que não me estou a fazer entender disse eu a este indivíduo pestanejante e cinzento - Meyersen é quem está falido, ou pelo menos vai estar quando eu tiver acabado de lhe tratar da saúde. A fanfarronice fez retumbar a minha voz. As regras são para se cumprir, replicou o gerente, evitando habilmente os meus olhos, e acabei por me submeter e pagar.

 

Chegada a casa, um pequeno apartamento num imóvel novinho em folha na Laurel Avenue, em West Hollywood, despudoradamente baptizado Apartamentos do Escoriai em homenagem às suas raízes coloniais espanholas, preparei uma caneca de café, forte e viscoso, e pus-me de novo a remoer pensamentos sobre traição e Eric Meyersen. A casa Taylor em Pasadena, o centro comercial em Burbank... Três anos de trabalho, do meu trabalho, pertenciam agora a Meyersen e à sua nova e luxuosa firma. Num acesso de fúria súbita e tempestuosa, telefonei ao meu advogado, George Fugal, mas do serviço de assinantes ausentes responderam-me que ele tinha ido passar o fim-de-semana fora. Enfim, o café sabia bastante bem, escaldante e aromático, fumei três Picayunes uns a seguir aos outros para manter acesa a minha cólera e deambulei pela sala arrumada num passo vingativo.

 

A funcionalidade pesadona do Escoriai deixara-me pouca margem de manobra. Reduzira ao mínimo as minhas necessidades de mobília e mandara aplainar e pintar de branco o reboco com embutidos espiralados das paredes interiores. Duas poltronas Breuer de couro e aço cromado postavam-se frente a frente, em lados opostos de uma mesinha baixa de vidro assente num tapete Gertrud Arndt azul e amarelo. A única peça de mobiliário restante na divisão era o meu estirador. Para mais, não havia quadros nas paredes e quanto aos livros, guardava-os no meu quarto. O resultado era o mais parcimonioso e repousante que se podia conseguir num imóvel de Los Angeles, costumava eu dizer. O meu lema fora adoptado de Hannes Meyer: apenas o necessário, nada de supérfluo.

 

Os Apartamentos do Escoriai foram demolidos em 1963 por um agente imobiliário que construiu três casas disformes no seu lugar. Na época em que lá vivi, os melhores apartamentos que não incluíam o meu - rodeavam uma pequena piscina cor de água marinha. Debruçando-me pelo canto da janela da minha cozinha (o que fiz enquanto passava a cafeteira por água), conseguia divisar um triângulo cintilante da extremidade menos funda. O sol do entardecer iluminava a cobertura de telha e o estuque cor de tangerina das paredes do imóvel e projectava formas entrelaçadas e ondulantes de reflexos aquáticos, que estremeciam sobre os anteparos de vidro das varandas. Ouvi o chapinhar da água e o riso deliciado de uma rapariga - vindo do mais fundo da sua garganta - e senti uma enorme ânsia de nadar, de me imergir naquele azul impregnado de cloro e limpar-me de Meyersen e das pequenas humilhações da serração. No meu quarto, escolhi um fato de banho e despi o vestido, mas ao deparar com as minhas coxas e ancas no espelho quadrado do toucador decidi em vez disso trabalhar um pouco. A humilhação maior de me despir em frente dos residentes do Escoriai constituía um desencorajamento impossível de ignorar.

 

Sentei-me portanto defronte do meu estirador, ajustei a lâmpada e desenrolei os alçados interiores da Micheltoreno 2265. O meu credo enquanto arquitecta era o mais simples que eu conseguia conceber: de que espaço necessitávamos, eu ou o meu cliente, e como aprisioná-lo. A grande libertação outorgada pelos novos materiais do século XX viera redimensionar as prioridades do arquitecto: o espaço envolvido tornara-se mais importante do que o que envolvia esse espaço. Outros exprimiram-no de modo mais eloquente do que eu, mas para mim, revestimentos de estuque, tijolos de vidro e cimento armado, baquelite e aço cromado, contraplacado e alumínio eram vantajosos apenas na medida em que serviam o espaço que iriam conter. O meu segundo critério era a simplicidade. A minha missão era desenhar o espaço e utilizar o mínimo para construí-lo. A casa na Micheltoreno fora concebida, se preferirem, como um conjunto de blocos de ar. Alguns destes blocos encontravam-se entre paredes de estuque, alguns eram limitados imperceptivelmente por painéis de vidro, outros por vigas e travessas de madeira e parapeitos de varandas e outros ainda pelas formas orgânicas das árvores que eu ordenara que fossem poupadas aquando da terraplenagem do local.

 

O meu dilema presente era que, embora precisasse de um roupeiro no quarto principal, construí-lo implicaria diminuir a superfície desta divisão. Nada de muito grave na escala dos problemas do mundo, poder-se-ia pensar, mas nesse caso o quarto deixaria de ocupar exactamente a mesma superfície que a grande varanda com a qual comunicava - o espaço que eu concebera, e a harmonia que desejava, ficariam comprometidos. Joguei com as dimensões durante um bocado e fiz alguns esboços, até que uma solução se apresentou. Construir o roupeiro no quarto e em seguida contrabalançá-lo na varanda erguendo dois pilares de madeira à laia de "suportes" descentrados para a latada. Estes teriam uma função apenas imaginária, mas a simetria manter-se-ia e o patamar de vento permaneceria como uma réplica espacial do quarto vizinho. Até aqui tudo perfeito. Comecei então a preocupar-me com o que uma cama faria aos meus blocos de ar vazios...

 

O porteiro ligou-me da recepção.

 

- Está aqui um senhor para a ver, Mrs Fischer.

 

Olhei para o relógio: Philip Brockway (o meu ex-marido) chegara antes da hora. Eu sabia que ele me ia pedir dinheiro emprestado. Tinha-o acusado disso mesmo quando ele me telefonara e ele negara com tal veemência que eu ficara a saber que era verdade. Ele queria apenas ver-me, disse, acrescentando uma qualquer treta descosida sobre os "velhos tempos".

 

Apesar de tudo, caminhei pelo corredor em direcção à recepção alimentando pensamentos não demasiado severos acerca de Philip - ele era tão bonito, com a sua carinha delicada e encantadora, o seu narizinho de menina e o espesso cabelo trigueiro. Ia brincar com ele um bocado, obrigá-lo a convidar-me a sair para tomar um copo, até me dar por vencida e pagar-lhe para ele me deixar em paz uma vez mais.

 

Empurrei as portas de vaivém, penetrei no átrio e vi o homem do estaleiro de obras, o homem que tinha perguntado pela Miss Carriscant. Era velho, com cabelo grisalho, mas de ombros largos e entroncado, vestido de negro como quando eu o vira junto à casa. Segurava o chapéu de feltro mole na sua frente como um volante de automóvel e deu três passos na minha direcção, fítando-me intensamente, como se buscasse algum sinal de reconhecimento. A manifesta apreensão que denotava aliviou-me um pouco.

 

- O que procura? - perguntei. - Por que razão...

 

- Miss Carriscant?

 

- Não, não, eu não sou Miss Carriscant.

 

Ele estendeu a mão e tocou-me no braço nu, fugazmente, como que para se tranquilizar. Os seus dedos eram secos, abrasivos, asperamente calejados.

 

- Peter? - chamei o porteiro. - Este cavalheiro está de saída.

 

- Você é Kay Carriscant.

 

- Eu sou Kay Fischer. Você está a cometer um erro aborrecido e irritante, Sr. ...

 

- Está bem, está bem. Em tempos você chamou-se Kay Carriscant. Você nasceu a 9 de Janeiro de 1904, durante a tarde. Como vê, eu...

 

- Quer fazer a fineza de me deixar em paz, Sr. Não-Sei-Quantos? Este disparate está-me a começar...

 

- O meu nome é Carriscant. Salvador Carriscant. Sabe quem eu sou?

 

- É claro que não.

 

A negação pungente na minha voz, o óbvio tom de irritação nela contido, fizeram a expressão dos olhos dele alterar-se. Uma sombra de tristeza cruzou o seu olhar e uma dor profunda ficou aí exposta durante um breve instante. Por qualquer razão isto comoveu-me e senti pena dele e da sua busca desesperada por essa tal Miss Carriscant.

 

- O que procura? - repeti, num tom mais ameno. - Quem é você?

 

O seu rosto pareceu retesar-se, como se ele sentisse uma dor nas entranhas. Fechou os olhos um instante e contraiu os lábios. Suspirou.

 

- Sou o teu pai - disse.

 

Philip aceitou as cinco notas de dez dólares que eu lhe estendi tão casualmente como se fossem cigarros. Tentando não sorrir, dobrou-as e guardou-as numa carteira de couro.

 

- Obrigado, Kay. - Fico-te a dever.

 

- Oh se ficas! Duzentos bem contados.

 

- Ora essa. É só dinheiro.

 

- É só o meu dinheiro! - Soltei uma gargalhada, apesar de tudo Philip estava a ser carinhoso esta noite, como só ele sabia sê-lo, e isso deleitava-me. Tínhamos arranjado mesa num piano-bar chamado Mo-Jo's, situado perto do centro, na esquina da Broadway com a 3ª Rua, uma baiuca que Philip conhecia e onde lhe concediam crédito. Era um sítio curioso, uma mescla única de Polinésia idílica e aldeia de pescadores do Nantucket1. Depois de penetrar no vestíbulo, o visitante afastava uma cortina

 

Ilha ao largo do sudoeste do Massachusetts: outrora centro da indústria baleeira, hoje local de veraneio. '(N. T.)

 

de missangas e atravessava uma ponte de toros sobre um regato de água corrente, para se ver confrontado com uma sala escura contendo um bar decorado com bandeiras de sinalização e bóias de cortiça. Os empregados de balcão usavam camisolas listadas à marujo e lenços vermelhos ao pescoço. Tufos luxuriantes de palmeiras em vasos resguardavam cabinas privadas, feitas de caixotes velhos e destroços de madeira. Gárgulas indígenas esculpidas, iluminadas no interior, serviam de candelabros de parede e derramavam uma luz fosca, vermelho-alaranjada, sobre uma pintura mural emoldurada a bambu ocupando toda uma parede, representando um clíper de velas quadradas a fugir diante de um vento gélido e impetuoso. Era a antítese de tudo aquilo em que eu acreditava, em termos arquitectónicos, e dava-me vontade de rir. Philip e eu divertíamo-nos a imaginar as instruções de Mo-Jo ao seu decorador: "Estilo Moby Dick encontra Paul Gauguin, não sei se tá a ver?", Assim a modos que quente e húmido mas ao mesmo tempo tranquilo e despretensioso", "Um sonho molhado de Nathaniel Hawthorne". Em cada mesa havia um botão dourado de campainha eléctrica, permitindo chamar uma das empregadas de pele bronzeada - corpetes sem costas e saias de palha, flor atrás da orelha - que matavam o tédio em altercações com os marujos na penumbra atrás do balcão. Ao estender o braço para premir a campainha, Philip deixou que os seus dedos me roçassem nos seios.

 

- Estás diferente, Kay. Estás mais... sei lá, mais cheia. Agrada-me. Tu, ah, ficas bem assim.

 

- Isso é suposto ser um elogio?

 

- OK! Segunda tentativa: posso ir contigo para casa esta noite?

 

- Achas que a Senhorita Oxigenada não se irá opor?

 

- Estás a ser injusta. Isso já acabou, há muito tempo. Sabe-lo bem.

 

- Não.

 

- Por favor...

 

- Não, Philip. Não. - Um certo tom peculiar de cansaço transpareceu na minha voz, memórias de velhas discussões, e ele percebeu que não devia insistir.

 

Levantou-se. - Tenho que ir à privada. Pede o mesmo para mim.

 

Observei-o enquanto ele abria caminho por entre as mesas em passo ligeiro. A sua figura alta e magra serpenteava, deixando para trás empregadas e clientes, o ombro esquerdo adiante, depois o direito, como se dançasse. Uma dança escocesa, desenhando círculos no chão... Por que razão teria eu pensado numa dança escocesa? Sorri ao recordar o corpo pálido de Philip, quase glabro, e os seus tornozelos delgados, com o tendão-de-aquiles saliente e exposto, como o de um manequim num desfile de alta costura. Ele costumava fazer amor comigo de um modo competente mas egoísta, a cabeça enterrada no ângulo entre o meu pescoço e o meu ombro, nunca levantando o olhar, nunca me vendo a cara, nunca me olhando nos olhos, até terminar.

 

Pedi mais uma bebida para cada um de nós e pensei acerca do homem, Salvador Carriscant, que dizia ser meu pai.

 

Quando Carriscant proferira a sua bizarra afirmação eu tinha respondido de pronto que o meu pai estava morto, mas tal não o fizera sequer hesitar, apenas fincara os dedos no meu antebraço ainda mais ferozmente, dizendo num tom suave, insistente: -- O teu pai está aqui neste instante, na tua frente, vivo e de saúde. Bem sei que te fiz mal mas agora preciso do teu perdão. Do teu perdão e da tua ajuda.

 

Voltei a chamar Peter e soltei o braço do aperto de Carriscant.

 

Peter aproximou-se dele rapidamente pelas costas e agarrou-lhe os cotovelos, juntando-os um contra o outro. - OK, amigo, lá para fora.

 

- Solte-me! - gritou Carriscant, a voz de súbito dissonante com a raiva. - Tire as mãos de cima de mim, estou a avisá-lo!

 

Um raro timbre de ênfase na sua voz fez Peter obedecer. Carriscant recuou em direcção aos portões em ferro forjado do Escoriai, o olhar persistente e suplicante ainda pregado em mim.

 

- Só precisamos de falar, Kay - lançou-me. - Então tudo se esclarecerá. - Pronunciou estas últimas sílabas de um modo inglesado, e pela primeira vez notei que ele tinha um sotaque: inglês, de certo modo, mas de um inglês ilocalizável, com a perfeição ligeiramente formal de um completo bilingue. - Por favor, Kay, é tudo o que eu peço. - Os músculos do seu maxilar retesaram-se e a sua face quadrada pareceu avermelhar-se, como se o esforço para suprimir o que tinha a declarar-me provocasse uma explosão interior. Depois virou-se e partiu, cruzando a rampa de cimento em passadas largas - surpreendentemente lestas para um homem de idade - e atravessando a rua.

 

Philip e as nossas bebidas frescas chegaram ao mesmo tempo. Philip deixou-se cair e escorregou sobre a banqueta até a sua coxa roçar na minha.

 

- Fui convidado para um almoço na praia amanhã. Em casa da Lisa van Baker. Queres vir comigo?

 

- Não posso, receio bem.

 

- Mas vão lá estar estrelas de cinema - disse ele, mãos abertas, sobrancelhas erguidas, fingindo-se horrorizado com a minha indiferença.

 

- Detesto estrelas de cinema.

 

- OK. Qual é o programa alternativo?

 

- Cozinha caseira.

 

Observei a minha mãe cortar maçãs descascadas e descaroçadas às fatias para dentro de um passador de estanho. A lâmina afiada escorregava facilmente através da polpa amarela à medida que ela ia cortando discos delgados com um rangido deslizante, semelhante ao som de passadas cautelosas na neve gelada. As maçãs eram por ela cortadas meticulosamente, cada disco com uma espessura precisa, a sua atenção centrada exclusivamente nesta tarefa. Era uma mulher pequena, tímida e modesta.

 

Usava o cabelo sempre da mesma maneira, tanto quanto eu me conseguia lembrar, penteado para trás e seguro num rolo vertical do cocuruto até à nuca. As suas feições eram vulgares e nada tinham de excepcional: só quando punha os óculos é que o seu rosto adquiria alguma personalidade.

 

Vivia com o meu padrasto, Rudolf Fischer, numa pequena casa em Long Beach. Um velho bungalow de ripas amarelo-canário desbotado, com um telhado de madeira de quatro águas, ao qual fora acrescentada uma garagem para dois carros que tinha vindo ocupar grande parte do que em tempos fora um relvado cheio de remendos. Uma sebe de ciprestes separava-o de uma casa idêntica pintada de rosa-flamingo. Fora aqui que eu crescera, embora não tivesse aqui nascido. O meu local de nascimento situava-se na antiga colónia alemã da Nova Guiné. Sempre me parecera uma das contradições mais cruéis da minha existência: nascida na Nova Guiné, criada em Long Beach. Eu não possuía qualquer memória concreta do meu pai verdadeiro. Rudolf- Pappi, como lhe chamávamos, incluindo a minha mãe - sempre estivera presente na minha vida, com o seu grande rosto vermelhusco, o bestunto felpudo em vias de desertificação, o curioso quisto na cara, um centímetro abaixo do canto direito da boca, duro e reluzente, como um pedacito mastigado de doce que alguém tivesse ali colado. "Exactamente como Oliver Cromwell, costumava ele dizer, nem sequer me falta a verruga!" Era um tipo simpático, robusto, cuja afabilidade fácil escondia um carácter fraco. A minha asseada e tímida mãe era a verdadeira força motriz daquela família, algo que a presença corpulenta, trôpega e ruidosa do Pappi parecia desmentir. Só a família conhecia de facto a verdade.

 

Pappi era um americano da segunda geração, filho de imigrantes da Vestefália que, num acto consciente de assimilação, tinham deixado de falar alemão assim que haviam conseguido alinhar duas frases em inglês e tinham ainda assegurado que os filhos crescessem como americanos monoglotas. A minha mãe abandonara a sua língua materna quando casara com ele, dizia, afirmando que agora até os seus sonhos eram em inglês. Mas eu ainda a ouvia cantar para si mesma as suas canções preferidas:

 

"An die feme Geliebte" e "Es war, ais hatt' der Himmel", quando por acaso se distraía.

 

Olhei por sobre o ombro para o interior da sala de estar. Pappi, sentado numa cadeira de repouso, de boca aberta, pronto a rir, ouvia rádio. A minha mãe espalhava cuidadosamente os discos de maçã numa base de massa de tarte.

 

- Fala-me do pai - disse eu.

 

- O Pappi? Oh, ainda tem a perna inflamada. Eu bem lhe disse...'

 

- Não. Estou a falar do meu pai.

 

Ela passou as mãos pelo jacto da torneira, pensativa, depois lançou-me um olhar vivo, um dos seus olhares penetrantes e intensos. Era em momentos como este - quando a surpreendia - que eu via a sua dureza e sabia onde colhera a minha.

 

"Hugh." Ela pronunciou o nome dele calmamente, como um suspiro, como se o provasse, um fruto estranho, uma sobremesa exótica. "O que há para dizer? Já foi há tanto tempo."

 

Hugh Paget, o meu pai, inglês, missionário e professor, que em 1903 conheceu e desposou a minha mãe Annaliese Leys, professora, na Nova Guiné Alemã. Eu nasci em 1904 e dois meses mais tarde Hugh Paget morria, queimado num incêndio. Dois anos depois, Mrs Paget e a filha bebé eram acolhidas sob a asa vasta e tutelar de Rudolf Fischer, viúvo, comerciante e importador de fibra de coco e cânhamo de Los Angeles. Dezassete por cento dos capachos da zona sul da Califórnia eram feitos com fibra de coco fornecida pelas Fibras Fischer, disto se gabava orgulhosamente a companhia. Rudolf e Annaliese casaram-se em 1907 e estabeleceram-se em Long Beach.

 

- Então e os pais dele, e os outros parentes? - deixei cair casualmente, enquanto procurava nos bolsos o maço de cigarros.

 

- Os pais dele já tinham morrido quando eu o conheci. Havia uma irmã, Meredith, em Coventry. Ou talvez em Ipswich. Viajavam muito. Ainda escrevemos uma à outra durante uns tempos, mas depois perdi o contacto. - Sorriu. - É assim a vida. A princípio tenta-se com força manter a memória viva.

 

Mas é difícil, as vidas das pessoas seguem em direcções diferentes. Ao fim de algum tempo...

 

- Ainda tens as cartas dela?

 

- Duvido. Porquê todo este interesse?

 

- Nada de especial... Apenas senti uma certa curiosidade. Sabes, uma pessoa põe-se a pensar.

 

- Claro. Eu também penso nele. - Ela pareceu triste ao recordar este estranho, o meu pai.

 

Acendi o cigarro. - Posso ver a fotografia?

 

- Claro que sim. Quando?

 

- Agora.

 

Hugh Paget estava de pé defronte de um edifício quadrado de chapa ondulada, com o telhado coberto de folhas de palmeira e remates de madeira em forma de cruz em ambos os topos. Envergava um fato de algodão sarjado, as calças enfiadas em botas tropicais de lona e, à volta do pescoço, trazia a banda branca da coleira de padre. Eu via um homem magro e alto, com feições tão esborratadas que nem mesmo com uma lupa seria possível transformá-las em algo de semelhante a um rosto identificável. Uma brisa levantara-lhe uma madeixa de cabelo da testa e a fotografia fixara este desalinho no tempo, para todos os tempos. Parecia - pensamentos capciosos, sabia-o bem uma pista permitindo entrever o seu carácter, um gesto, um indício acerca da sua natureza. Criancice, entusiasmo, um certo acanhamento desajeitado... Tentei colar uma personalidade a esta imagem insignificante, com a minha falta de sucesso habitual.

 

Cabelo louro. Cabelo louro. O meu era escuro.

 

- Vocês devem ter tirado algumas fotografias no casamento.

 

- Já te disse, perdemos tudo no incêndio. Essa estava na capela, tive sorte.

 

Deixei as coisas ficarem por ali, de momento. Sabia que ela era capaz de continuar a conversa despreocupadamente, mas em breve começaria a interrogar-se acerca dos motivos para tantas perguntas e acabaria ela própria por fazer algumas. E nessa altura, que diria eu? Na realidade, nem eu mesma conseguia explicar uma tão súbita curiosidade acerca do meu pai. Que é que me levaria a reagir às alegações de um desconhecido, alegações essas para mais tão manifestamente absurdas? Quem era Salvador Carriscant e com que intuito me escolhera ele para este exercício de identificação filial? Los Angeles estava cheia de gente louca, é certo, mas o que mais me perturbava em Carriscant era o facto de ele nem sequer parecer particularmente desequilibrado. E que poderia ele saber acerca de Hugh Paget? E com que motivos vinha agora, mais de trinta anos passados sóbre a morte do meu pai, insinuar que se tratava de um impostor...? Tudo isto era ridículo, disse eu para mim própria, e preparava-me para contar à minha mãe o meu encontro com este indivíduo bizarro quando a minha meia-irmã Bruna surgiu à porta da frente com as duas filhas, Amy e Greta, interrompendo-me. Os gritos teatrais de amor e adoração soltados pelo Pappi encheram a pequena casa.

 

A minha mãe fez deslizar a tarte para dentro do forno e limpou as mãos cuidadosamente ao avental.

 

- Em que altura é que eu nasci? - perguntei. - Quer dizer, a que hora do dia?

 

- Oh, mais ou menos às quatro e meia da tarde. Porquê?

 

- Só para saber. Mera curiosidade.

 

- Gosto desse conjunto, Kay - disse ela com um ténue sorriso. - Ficas elegante. Muito eficiente.

 

E assim o assunto foi encerrado, no fim de contas. Eu agradeci-lhe, retribuí elogiando o broche que ela tinha posto e juntas passámos à sala de estar.

 

Ao enfiar a chave na fechadura vi o canto do envelope a espreitar por baixo da porta do meu apartamento. Dobrei-me, retirei-o da fresta e pu-lo no bolso. Uma vez dentro de casa, coloquei-o sobre o meu estirador e preparei um pequeno scotch. Sabia que era de Carriscant, ainda que não estivesse endereçado. Pressenti imediatamente que tinha chegado a uma espécie de "encruzilhada. Quem não conhece aquela sensação, quando quase Iconseguimos ver as duas ou mais direcções que a nossa vida poderá vir a tomar, um momento em que sabemos que a escolha que nos preparamos para fazer vai ser crucial e possivelmente final, que não há caminho de regresso, e que nada voltará a ser colmo antes? Eu podia rasgar a carta sem chegar a abri-la, de futuro ignorar este homem e chamar a polícia se ele continuasse a importunar-me. Ou podia abrir a carta e ler o respectivo conteúdo, Ideixando-me assim mergulhar um pouco mais no seu curioso mundo e na sua estranha obsessão por mim e pela nossa relação.

 

Abri a carta:

 

Minha querida Kay,

Sei que deves estar a interrogar-te se não estarás por acaso a lidar com um lunático. Acredita em mim, não é o caso. Sou tão equilibrado como tu. Temos de falar convenientemente, sem medo de sermos interrompidos. Não te voltarei a incomodar, mas informo-te que estou hospedado no 105 da Olive Street durante os próximos dez dias apenas. Por favor entra em contacto comigo, há tanta coisa para dizer.

Dr Salvador Carriscant

 

A minha escolha estava feita.

 

Sentada ao volante, emergi do túnel da 3ª Rua e desci a Hill Street, gingando depois pela 5ª Rua acima e continuando a subir até à Olive Street, no topo do Bunker Hill. Daqui de cima conseguia ver a torre da nova sede da Câmara Municipal, alta e branca, cintilante sob os feixes cruzados dos seus projectores. No meio das casas antigas, e para lá dos lotes devolutos, vislumbrava a espaços a flecha eléctrica reluzente do Wilshire Boulevard estendendo os seus vinte e cinco quilómetros para oeste em direcção ao oceano, e os últimos laivos cor de canela do crepúsculo. O 105 da Olive Street era uma velha mansão estilo Rainha Ana, construída provavelmente na década de 1880, agradavelmente assimétrica e não tão sobrecarregada de ornamentos como algumas que eu já vira. Tinha um telhado em escamas de ardósia e um grande torreão abobadado com um pára-raios torto. Uma varanda rodeava três quartos da casa, mas o friso delicadamente esculpido do seu parapeito, bastante danificado, assemelhava-se ao bordo esfrangalhado de um naperom de papel. Uma pimenteira coberta de pó, com um pneu a fazer as vezes de baloiço, erguia-se no pedaço de terra batida que em tempos fora um relvado. À velha mansão estava agora reservado o humilde papel de hospedaria para trabalhadores temporários. Numa janela, um letreiro manuscrito em cartão dizia "QUARTOS 1 DÓLAR". Alguns homens fumavam, sentados nos degraus da frente, homens pequenos e castanhos com roupas baratas mas limpas. Deduzi que seriam japoneses.

 

Encostei o carro ao passeio e preparei-me para esperar - esperar o quê? Não tinha bem a certeza, mas sentia a necessidade de inverter as posições momentaneamente, de observar o próprio Carriscant, às ocultas, como ele me observara a mim, antes de embarcarmos nesta conversa solene e tão ardentemente solicitada.

 

Carriscant apareceu à porta principal cerca de quarenta minutos mais tarde. Trazia um sobretudo azul, justo, com um corte naval, e na cabeça o chapéu de feltro mole. Saí do carro e segui-o até à paragem do funicular que ligava as alturas do Bunker Hill à Hill Street. Sentia que não dava particularmente nas vistas, sentia-me quase masculina, de facto: trazia umas calças desportivas largas, um impermeável e uma boina puxada para cima dos olhos.

 

Carriscant entrou na pequena carruagem de cor creme e foi sentar-se na parte da frente. Eu esperei até ao último momento e só então deslizei para o interior, ficando de pé junto à porta. Houve um pequeno solavanco e a carruagem começou a descer em direcção às ruas buliçosas mais abaixo. A noite estava clara, tão clara que eu conseguia distinguir as luzes de Huntington Park e de Montebello e, mais para sul, o brilho das grandes labaredas cor de laranja ardendo nos campos petrolíferos Dominguez, em Compton.

 

Segui Carriscant enquanto ele atravessava a Hill Street e se dirigia para a Main Street. Os passeios estavam apinhados: de ambos os lados da rua havia cinemas, clubes exibindo espectáculos de variedades, exposições populares, lojas de pechinchas e galerias de tiro ao alvo. Entre os passantes abundavam os mexicanos e os grupos de marinheiros vindos dos arsenais em San Pedro. Carriscant parou num alfarrabista e remexeu durante algum tempo nos caixotes de livros colocados no passeio diante da porta. Eu virei-me para a vitrina de uma churrasqueira e concentrei a minha atenção numa exposição de bifes para grelhar, de um vermelho artificial contrastando com a camada de gelo picado sobre a qual estavam dispostos em leque, como grossas cartas de jogar feitas de borracha. Por fim, Carriscant seguiu caminho e entrou num restaurante aberto toda a noite, intensamente iluminado, e sentou-se numa mesa do fundo. Caminhei para um lado e para o outro defronte da janela um par de vezes e observei-o enquanto fazia o seu pedido ao empregado. Reparei que ele não tirara o chapéu da cabeça e, ao virar-me para começar a minha terceira trajectória discreta, decidi de imediato que protelar mais a situação seria ridículo. Empurrei a porta de vidro e entrei para ir ao seu encontro.

 

Ele não pareceu minimamente surpreendido por me ver, o que por momentos me irritou e me fez lamentar ser tão impulsiva. Soergueu-se do assento e tocou na aba do chapéu, num gesto de cortesia maquinal. Este acto pareceu recordar-lhe que ainda tinha o chapéu na cabeça e tirou-o cuidadosamente, pousando-o no assento vazio a seu lado, antes de alisar o cabelo com as palmas das mãos em dois movimentos vagarosos. Parecia cansado, muito mais velho de repente, e as luzes intensas do restaurante desenhavam-lhe sombras marcadas no rosto, transformando as linhas salientes em sulcos, como rasgões na pele. Sentei-me à sua frente.

 

- Eu podia oferecer-te alguma coisa para comer... - começou ele.

 

- Não, não. Vim só vê-lo a si. A sua carta... Você dizia que precisava de ajuda.

 

- E preciso, não há dúvida que preciso. - Sorriu-me. Seguiste-me até aqui?

 

- Sim.

 

Ele casquinou. "Querida Kay!"

 

Ignorei estas palavras. - Você está metido em sarilhos?

 

- Sarilhos? - Pareceu meditar acerca da palavra, como que ponderando a sua semântica. - Não exactamente, mas preciso mesmo de ajuda. Sinto-me um completo estranho, sabes. completo.

 

Um empregado trouxe-lhe a comida que ele pedira, um grande prato de guisado escuro e pastoso acompanhado por puré de batata e o que parecia ser abóbora. Ele procurou os pedaços de carne com gestos ostensivos e em seguida cortou vagarosamente as poucas tiras cartilaginosas em pequenos cubos antes de começar a comer.

 

- Encontra-se mais carne na perna de uma carriça - murmurou, irado. - Esta comida é uma desgraça - disse. - Não há desculpa, e então logo neste país. Preferia cozinhar eu mesmo a minha comida, mas a hospedaria não tem instalações próprias.

 

- Gosta de cozinhar? - Eu sabia que estava a fazer conversa de circunstância, conversa de circunstância canhestra, e deItestava-me por isso, mas sentia-me estranhamente desconfortável na presença dele, como se ao corresponder ao seu convite itivesse de algum modo perdido a vantagem. Ele, pelo contrário, [mostrava-se muito descontraído e sorriu-me pacientemente, - Eu sou cozinheiro. Adoro cozinhar.

 

- O quê? É essa a sua profissão?

- Sim. Pelo menos tem sido nos últimos quinze anos.

 

- Na sua carta assinou como "Doutor".

- Primeiro fui médico, depois cozinheiro.

 

Ele comeu a sua refeição com uma rapidez surpreendente, [como se alguém lhe fosse arrancar o prato das mãos, com uma [concentração e energia quase alarmantes. Depois de terminar [disse que se sentia cansado e não desejava conversar mais. Caminhámos de regresso ao funicular - o "Voo do Anjo" - que [nos levaria de volta a Bunker Hill. Ele mantinha-se em silêncio, [mas reparei que olhava à sua volta quase temerosamente, como se a extensão, a actividade febril, o alarido e o brilho da cidade o aterrassem. Sob a luz eléctrica difusa da rua a sua pele tomava tons oliváceos acentuados, ao ponto de ele poder passar por mexicano ou latino, e dei comigo de novo a pensar na ascendência que ele entendia dar-me e no absurdo de toda esta situação. Ao lado da sua, a minha pele era pálida e insípida. Ambos possuirmos cabelos escuros e olhos castanhos constituía escasso fundamento para um processo de reivindicação de paternidade.

 

À porta da hospedaria, marcámos um encontro para o dia seguinte. Os homenzinhos continuavam sentados nos degraus diante da porta de entrada, onde os tínhamos deixado uma hora antes: fitaram-me, curiosos, sem malícia nem hostilidade.

 

- Por que é que há tantos japoneses aqui? - perguntei-lhe em voz baixa.

 

Ele virou-se e falou aos homenzinhos sentados nos degraus numa língua que não consegui reconhecer. Eles desataram todos a rir, com genuína hilaridade, ao que parecia.

 

- Japoneses? - disse-me ele, com um ar reprovador. - Estes homens são filipinos.

 

Sentei-me com Salvador Carriscant no banco de ripinhas de madeira de um trólei vermelho que bamboleava e chocalhava enquanto atravessávamos o Pico Boulevard em Sawtelle e nos dirigíamos para oeste, através dos campos de feijão, em direcção a Santa Monica. Aqui e além o boulevard estava a ser alargado, e extensas fiadas de pequenas lojas de um só andar tinham sido demolidas para dar lugar às novas faixas de rodagem. Em breve toda a gente poderia ir de carro até à praia.

 

O trólei parou na estação de Ocean Avenue e Carriscant e eu errámos calmamente, descendo até Ocean Park. Uma vez mais pude reparar que a multidão, o barulho e as cores vivas dos guarda-sóis pareciam a um tempo atraí-lo e desarmá-lo. Parámos junto das galerias de jogo japonesas para observarmos homens e mulheres apostando mercadorias em vez de dinheiro, e deixámos para trás os clubes de praia, os numerosos pontões e as atracções de feira como baloiços de volta completa e rodas de aviõezinhos, o ar vibrante com os gritos das crianças e o zumbido rabugento das lanchas a motor transportando pescadores desde a praia até às embarcações - velhas escunas desmastreadas e clippers com casco de madeira - ancoradas ao largo, a uma centena de metros da costa. Só a Aldeia dos Macacos pareceu perturbá-lo. A multidão em volta das gaiolas tinha seis filas de espessura e, quando conseguimos furar o suficiente para ver qual era o chamariz, vi a expressão na face dele mudar num instante da curiosidade para a repugnância ao contemplar os chimpanzés melancólicos e os gibões sarnentos e neuróticos nas suas jaulas de barras estreitas. Ele agarrou-me num cotovelo e obrigou-me a partir.

 

- O que é que se passa? - perguntei.

 

- Aqueles macacos nas gaiolas, não gosto daquilo... Fazem-me lembrar uma pessoa. - Mudou de assunto. - Vamos comer - disse. - Quero comer peixe.

 

Fomos a um dos novos imóveis de apartamentos mobilados, o Sovereign, cujo restaurante estava aberto ao público. Carriscant pediu cavalinha espanhola grelhada, que comeu com a sua habitual concentração. - Este peixe é fresco - disse com relutância - e é a melhor coisa que provei até agora na América.

 

O sucesso do menu dissipou a cólera causada pela Aldeia dos Macacos e senti que ele começava a divertir-se.

 

- Nunca me consegui fartar de peixe durante aqueles anos todos - disse ele - ainda que não estivéssemos longe da costa. Vendíamos tudo o que pescávamos.

 

Não o incitei a prosseguir, nem lhe perguntei o que eram "aqueles anos" a que ele se referia. Mais tarde haveria tempo de sobra para fazer perguntas e, para mais, eu estava convencida que seria ele próprio a contar-me tudo no devido momento, se sentisse vontade de fazê-lo. Compreendi que este passeio até ao mar era apenas um meio para nos conhecermos melhor um ao outro - muito no género do pai restabelecendo os laços com a filha há muito perdida - e o meu silêncio, a minha reserva, encorajavam esta disposição de ânimo, o que lhe agradava, eu sabia-o bem.

 

E depois perguntei a mim mesma por que havia eu de querer agradar-lhe, por que encorajava esta - esta quê? - esta amizade, esta relação cada vez mais estreita. Ele sabia a minha data de nascimento, mas o que é que isso provava? Sabia a hora a que eu nascera, mas isso podia não ter passado de uma conjectura inspirada, um palpite sortudo... E, contudo, na forma como ele lidava comigo transparecia uma confiança que me parecia diferente, que indicava uma elementar segurança de propósitos que, eu sentia-o, nenhum aldrabão ou embusteiro seria capaz de simular. Não era forçada, não tinha como fito impressionar-me. Ele parecia descontraído na minha companhia - como se a minha companhia fosse tudo o que desejasse - e isso por seu turno descontraía-me.

 

Ele levantou os olhos do prato e lançou-me um sorriso pronunciado e vivo, a sua face larga enrugando-se por momentos. Talvez, pensei, talvez por ser tão manifesto que Rudolf Fischer não era o meu pai, e Hugh Paget possuir a consistência de um mito, eu me estivesse a agarrar com demasiada firmeza a este novo candidato, bem presente em carne e osso, aqui e agora? Era uma forma de tentação, eu sabia-o, uma espécie de sedução contra a qual, dei-me conta enquanto contemplava aquele velhote robusto e elegante, não estava tão bem equipada para resistir como julgava.

 

Quando lhe perguntei se queria sobremesa, ele respondeu que preferia comer outro peixe. Pediu uma posta cozida de atum que consumiu devagar, saboreando intensamente todos os condimentos, ao mesmo tempo que eu comia um gelado e fumava um cigarro. Terminado o segundo peixe ele pediu um conhaque, o mais barato da lista. Discretamente, palitou os dentes com uma pena de ganso (trazia um pacotinho destas com ele) e pareceu em seguida bochechar com o brandy. Comecei a tagarelar - o que não era nada o meu género - para encobrir um certo embaraço diante desta toilette dentária, desta drenagem bucal que parecia não terminar. Ele ouviu-me educadamente enquanto eu lhe falava de Santa Monica, de Venice e da praia de Malibu tal como as conhecera ao longo dos anos, mas durante todo este tempo era-me impossível deixar de reparar nele beberricando brandy e depois, mais incomodativo ainda, ouvir o sussurro espumoso na sua boca quando ele chocalhava e fazia borbulhar o líquido entre os dentes.

 

- E a Roosevelt Highway ainda não existia - prossegui eu.- Quer dizer, agora pode-se ir sempre por aí ao longo da costa até Oxnard, mas lembro-me de ter vindo uma vez aqui com o Pappi - eu devia ter mais ou menos doze anos...

 

- Doze?

 

- Sim, eu...

 

Ele franziu o sobrolho: - Isso deve ter sido por volta de 1916, não?

 

- Mais coisa menos coisa. Doze ou treze, calculo eu. O Pappi tinha um cliente - chamava-se J. W. Considine, de facto

 

- que tinha uma casa em Malibu e para lá chegar tivemos que apanhar um barco do cais de Santa Monica. Isto era mesmo isolado naquele...

 

- Kay...

 

Parei de falar imediatamente. Percebi que ele não me estivera a ouvir.

 

- ...Se eu estivesse à procura de um homem na Califórnia

- disse ele - como é que seria a melhor maneira de o encontrar?

 

- Depende... Sabe o nome dele?

 

- Chama-se Paton Bobby. Tudo o que sei é que vive na Califórnia. Ou pelo menos dantes vivia.

 

Apaguei o cigarro. - Paton Bobby. Tem mais alguma informação sobre ele?

 

- É um pouquinho mais velho do que eu. E acho que ele era polícia.

 

- Isso poderá ajudar. Mais alguma coisa?

 

- É tudo.

 

Olhei para ele. Compreendi que a nossa empresa, qualquer que ela viesse a ser, estava a começar, agora, irrevogavelmente.

 

- Posso saber por que o quer encontrar?

 

Ele esboçou um sorriso lânguido e sonhador. O seu humor havia mudado desde que eu referira a minha viagem de infância a Malibu, a minha idade na altura e a data em que ocorrera. Tinha-o feito recuar no tempo, talvez até àquele lugar em que nunca se fartava de comer peixe, e os seus pensamentos tinham-se fixado aí.

 

- Desculpa, minha querida, o que é que disseste?

 

- Por que razão precisa de encontrar esse Paton Bobby? Ele suspirou, baixou o olhar para o prato vazio, virou o garfo

 

de modo a que os dentes apontassem para baixo e depois fitou-me directamente.

 

- Suponho que se poderá dizer - disse ele, um ar de inocência nos olhos muito abertos, uma expressão doce no rosto que ando em busca de um assassino.

 

Philip preencheu o cheque com um prazer evidente, embora ridiculamente desproporcionado, e entregou-mo com uma vénia cortês.

 

- Pagável à ordem de Mrs Kay Fischer, duzentos dólares - disse - com um sorriso rasgado nos lábios.

- Então arranjaste um emprego - disse eu.

- E uma conta bancária. Já levo seis semanas de trabalho na MGM. Sou o terceiro argumentista no Quatro Pistoleiros para o Texas.

 

- Soa a coisa gratificante.

 

- Soa a dinheiro.

 

Estávamos sentados no meu escritório no Hollywood Boulevard. Da minha janela podiam ver-se os três últimos andares do Edifício Guaranty e as frondes poeirentas de uma palmeira. Eu tinha alugado três divisões por cima de um grossista de roupas

- Tex-Style Imports Co. - especializado em calças de ganga, roupas de algodão grosso e botas de trabalho para a indústria petroquímica. A divisão que dava para o boulevard era o meu gabinete de trabalho, do qual partia um pequeno corredor conduzindo a um cubículo sem janelas que funcionava como sala de desenho, onde o meu solitário assistente, Ivan Feinberg, trabalhava. No extremo do corredor situava-se a zona da recepção, com vista para o parque de estacionamento. Mary Duveen, a minha secretária, tinha ali a sua escrivaninha, entalada entre dois blocos de gavetas de arquivo. Era tudo um tanto ou quanto humilde, com um ar ligeiramente atamancado, especialmente em comparação com aquilo a que eu me habituara na Meyersen e Fischer, mas, depois do grande cismo e da acção em tribunal, vira-me obrigada a economizar. Um dos meus antigos colegas tinha-me contado que Meyersen se mudara para o meu velho gabinete. Quem sabe se não fora esse o seu único fito desde o início?...

 

Peguei no cheque que Philip me estendia e guardei-o na carteira. Ele tinha cortado o cabelo e vestia um casaco desportivo novo, em algodão, de um padrão axadrezado em tons de verde, e umas calças largas cor de cogumelo. O cabelo curto, pensei, fazia-o parecer ainda mais novo, dava-lhe um ar de colegial atrasado, e por momentos senti um breve acesso de comiseração por mim própria enquanto pensava no nosso curto casamento e em tudo o que perdera ao correr com ele. Eu mantinha o título de "Mrs", não porque impressionasse os meus clientes mas porque os punha à vontade, acrescentando-lhe contudo o meu nome de solteira. A conjunção obtida parecia-me reflectir de forma ideal o meu estatuto social e pessoal. Philip, porém, sentia-se ofendido e magoado: assim eu tinha sol na eira e chuva no nabal, disse ele com truculência. Mas afinal de contas não é isso que todos queremos da vida, repliquei, não é esse o objectivo que todos perseguimos? Um breve acesso de comiseração por mim própria, mas que desapareceu tão depressa como tinha chegado.

 

- Filmes - disse eu com despreocupação. - O teu nome vai aparecer neste?

 

- É possível.

 

Ri-me. "E um dia as galinhas vão ter dentes, ouvi dizer." Pus-me de pé. "vou para baixo contigo, tenho que almoçar em qualquer sítio."

 

Enquanto descíamos os dois andares até à rua perguntei a Philip se ele conhecia alguma maneira de localizar um homem chamado Paton Bobby, que andava na casa dos sessenta e talvez tivesse sido polícia.

 

- Já tentaste a lista telefónica? Quem é esse Paton Bobby?

 

- Um amigo meu precisa de o encontrar. Pensei que tu talvez soubesses como.

 

Ele encolheu os ombros. - Podias contratar um detective particular, acho eu... Ou talvez eu possa perguntar ao chefe da segurança lá no estúdio... - O seu rosto abriu-se num sorriso.

 

- Ouviste isto? "Lá no estúdio" - Sou o máximo, o sucesso pura e simplesmente não pode continuar a fugir-me. Este tipo era chui, talvez tenha alguma ideia.

 

Avançámos num passo tranquilo pelo passeio fora, em direcção a um vendedor ambulante. O sol batia-me com força no alto da cabeça e desabotoei o primeiro botão da blusa. Estava um belo dia, com um céu azul-bebé lá no alto, onde vagueavam algumas nuvens perfeitas. Uma brisa fresca soprava por entre as frondes das palmeiras novas, cuja altura mal chegava a metade dos candeeiros de iluminação, produzindo um ruído cortante de tesouras de unhas ou de fósforos raspados contra uma mesa de vidro. Pus os óculos escuros para me proteger do reflexo intenso da luz nas paredes brancas do lado oposto da rua. Demasiada Streamline Moderne para o meu gosto nestes tempos. Paredes curvas, vidro curvo, painéis espelhados dispostos aqui e além, cornijas avivadas a vermelho e preto para realçar as linhas horizontais, dosséis dobrando as esquinas ou, sempre que possível, descendo sobre os átrios... O que é que se passava aqui? Além do mais estava tudo manchado pelos letreiros berrantes e painéis espalhafatosos em cores violentas, presos às fachadas dos edifícios ou então montados em armações de madeira suspensas sobre os terraços. BONS PETISCOS! OVOS com TOUCINHO, MÁQUINAS FOTOGRÁFICAS, PRESENTES, ESTACIONAMENTO. Ao passarmos em frente da CHURRASQUEIRA HARROLD'S atravessámos uma nuvem de cheiro picante a cebola frita e acercámo-nos do vendedor ambulante com o seu carrinho metálico resplandecente. Pedi um supercachorro com chile, mostarda e dose reforçada de cebola.

 

Philip tocou-me no braço. - Ouve lá, não estás metida em sarilhos, pois não, fofa? - Ele estava a ser sincero, e era tocante a sua preocupação. Dei-me conta que ainda gostava muito dele.

 

- É claro que não, sosseguei-o. É só um velhote que eu conheço que precisa de achar o rasto desse sujeito.

 

Philip lançou-me um olhar penetrante, não totalmente convencido, enquanto eu pagava e recebia o meu cachorro. Era óbvio que estava a interrogar-se sobre quantos "velhotes" é que eu conhecia e que motivos teria eu para ajudar um deles a localizar uma pessoa desaparecida.

 

- Pára de olhar para mim dessa maneira. Ninguém te obriga a ajudar se não quiseres.

 

- Não, não. Eu vou ver o que é que posso fazer. Impossível resistir mais. Mordi avidamente o cachorro com chile, as minhas narinas subitamente invadidas por um calor acre. com um dedo, empurrei um fiapo perdido de cebola para dentro da boca. Mastiguei.

 

Philip contemplou-me com um ar enojado. - Ia convidar-te para jantares esta noite comigo, mas agora que vi o teu almoço calculo que não vás ter fome.

 

- Ah. Ah. Telefona-me mais tarde, talvez tenhas sorte.

 

Quando regressei ao escritório, George Fugal estava lá à minha espera, um largo sorriso estampado na cara estreita. George era um quarentão alto e magro, com um ar nervoso e sobressaltado, em contraste bizarro com uma conduta profissional que só podia ser descrita como pedante ao mais alto grau. Tinha um cabelo castanho já ralo, grandes olhos aguados e um queixo fugidio sempre com um aspecto azulado e mal barbeado. Se eu não soubesse que ele era advogado, tê-lo-ia tomado por um delinquente em liberdade condicional ou um devedor em fuga à Inspecção de Contribuições e Impostos. George nunca parava de olhar em torno de si ou por cima do ombro, onde quer que estivesse; nos restaurantes insistia em ficar de costas para a porta, de maneira a poder rodopiar a cada instante no assento.

 

- Então, que boas notícias me traz? - perguntei-lhe.

 

- Arranjámos um comprador. Tenho a certeza. Uma tal de... - Consultou a agenda. - Uma tal de Mrs Luard Turner. Uma senhora bem simpática. Mesmo agora lhe estive a mostrar a casa. - vou acabá-la primeiro. Espero que ela compreenda isso

- disse eu com uma animosidade mal-agradecida. E de súbito senti-me estranhamente triste. Alguém ia comprar a minha casa. Outra pessoa ia viver nos meus volumes de ar cuidadosamente construídos.

 

- Ela sabe isso, ela sabe isso. Mas adora a casa. Tem classe, disse ela. É de primeira classe, disse. Foram estas as palavras dela, Kay, sem tirar nem pôr.

 

Continuou a tagarelar, excitado, satisfeito por mim, o seu olhar saltando de mim para Mary e depois para o caixote do lixo, passando pela porta do escritório. Precisávamos do lucro desta venda para permitir à K. L. Fischer sobreviver e dar o salto para projectos maiores e mais ambiciosos. Mas mesmo assim a perda causava-me uma dor aguda.

 

- Conseguimos, Kay - disse George Fugal. - Chegaste lá. Sorri-lhe. Algo me impedia de acreditar que fosse assim tão fácil.

 

Em arquitectura, como na arte, quanto mais se reduz, mais rigorosos têm de ser os padrões utilizados. Quanto mais se despoja e elimina, maior a pressão sobre o que resta, maior a sua importância. Se uma divisão vai possuir apenas uma porta e uma janela, então essas duas aberturas devem ajustar-se exactamente ao volume de espaço contido entre as quatro paredes, o chão e o tecto. Devem ser concebidas e desenhadas com uma infinita concentração e convergência de esforços. Dois centímetros, um centímetro, podem fazer toda a diferença entre algo perfeito e algo atamancado. Na ausência de decoração, de distracção, a proporção torna-se o factor essencial.

 

O meu mentor estético, o meu inspirador neste domínio foi o arquitecto alemão Oscar Kranewitter (1891-1929). Amigo de Gropius, ele foi, tal como este, grandemente influenciado pela ideologia austera de Johannes Itten. Kranewitter, um dos primeiros membros do Werkbund Alemão, leccionou ocasionalmente na Bauhaus entre 1923 e 1925 (abandonou esta para não regressar mais depois de uma altercação brutal - que chegou a vias de facto - com Hannes Meyer). É incontestável que, não fora a sua morte trágica e prematura (num acidente de automóvel), Kranewitter seria considerado como um dos arquitectos alemães de maior nomeada e um dos expoentes do Estilo Internacional. Devido ao seu temperamento exigente e às restrições que impunha a si próprio, bem como aos seus clientes, acabou por construir muito pouco, e os textos que publicou reduzem-se a alguns artigos esparsos em revistas obscuras como a Metall e a Neue Europãische Graphik. E foi nestes textos densos e elaborados que ele introduziu o conceito de Armut - ou "Pobreza" - na arquitectura moderna. Mas o sentido com que Kranewitter carrega e impregna este substantivo abstracto é complexo: para ele, o sentido da palavra perde toda e qualquer conotação negativa ou pejorativa e transforma-se em algo mais próximo de "Pureza. A abstrusa teorização por detrás da Armut recebeu uma dimensão física na obra-prima de Kranewitter, a Casa Lotário (1924-1929) em Obertraubling, perto de Regensburg. Foi aí, durante os cinco anos da construção minuciosa, que a obsessão e a atenção fanática de Kranewitter para com todos os detalhes tomaram proporções legendárias e o seu conceito de Armut adquiriu forma plástica. Quando a casa estava praticamente concluída ele mandou deitar abaixo todo o tecto da sala de jantar para o reconstruir quatro centímetros mais alto. Desenhou toda a mobília (teca, aço cromado e couro foram os únicos materiais usados), banindo tapetes e cortinas. Os pavimentos eram de uma pedra escura e polida. As paredes foram pintadas de branco no rés-do-chão e de amarelo-claro no primeiro andar (o amarelo é uma cor mais "leve" que o branco, segundo Kranewitter, e como tal adequada para as divisões acima do nível do solo). Todas as fechaduras e maçanetas das portas eram em alumínio forjado sem pintura, o mesmo acontecendo com os radiadores maciços do aquecimento central, especialmente desenhados. Lâmpadas eléctricas nuas iluminavam os quartos. A casa foi destruída por um rasto de bombas perdidas durante um raide sobre Regensburg, na Segunda Guerra Mundial.

 

Quanto mais eu estudava Kranewitter, mais admirava a dedicação do homem ao seu ideal e a coerência implacável das suas ideias. Rigor, clareza e precisão pareciam-se ser atributos a um tempo admiráveis e práticos. A Armut de Kranewitter nada tem de miserável ou indigente: possui um carácter libertador, purgativo. À medida que o século XX vai avançando, mais rudemente complicadas se tornam as nossas vidas, mais invasoras se fazem as ihjunções prepotentes do mundo comercial - COMAM! COMPREM! JOGUEM! GASTEM! DIVIRTAM-SE! -, as quais passam a dominar cada instante da nossa existência, mas também a calma e o vazio, a natureza pura, livre, despojada de entraves do mundo que Kranewitter tentou criar ganham um encanto cada vez maior.

Tais eram as ambições que eu tentava levar à prática e incorporar na minha obra, e devo dizer que se encontram manifestamente encarnadas nas duas construções que desenhei - a casa Taylor em Pasadena e o centro comercial de Burbank. Todos os detalhes irrelevantes foram suprimidos. Os interiores são implacavelmente simples, as únicas linhas são verticais ou horizontais. Mesmo num templo ao consumismo desenfreado como um centro comercial - a antítese americana da Armut - a filosofia ascética de Kranewitter é evidente. E resulta.

 

Resultou tão bem que me custou o emprego. O sucesso do centro comercial de Burbank implicou que a Meyersen e Fischer fosse abordada pelo grupo retalhista Ohman para conceber o seu novo complexo de lojas e restaurantes no Wilshire Boulevard. Eu fiz os esboços e planos iniciais e mandei construir um modelo reduzido à escala. Pouco antes da assinatura dos contratos definitivos, Eric Meyersen chamou-me ao seu gabinete e comunicou-me que eu estava despedida. Quando lhe perguntei porquê, ele respondeu tranquilamente: "Por nenhuma razão em especial, querida. Deve ser porque não quero ver mais a tua cara por aqui, calculo eu." Meyersen, numa palavra, conseguira o que queria de mim - uma obra, uma reputação limitada mas em crescimento, um estilo. Agora que o negócio com a Ohman estava assegurado, achava que podia continuar sozinho. Fugal analisou o documento de parceria que eu tinha assinado tão avidamente cinco anos antes e desenterrou com precisão as cláusulas que conferiam a Meyersen este poder unilateral. Mesmo assim, eu ordenei-lhe que processasse o sacana. Apresentei a queixa no tribunal no momento em que o contrato do Edifício Ohman era assinado pela Eric Meyersen Architects Inc. Os registos da casa Taylor e do centro comercial de Burbank foram também alterados para esta nova designação. Só me restava montar a minha própria firma e mostrar ao mundo quem era o verdadeiro criador destes edifícios. O 2265 da Micheltoreno ia ser o primeiro prego no caixão de Meyersen.

 

Philip arrendara uma casita de madeira em Venice, a uma rua de distância do passeio de tábuas que corria ao longo da praia. Subi os dois degraus até ao alpendre descascado pelo sol, meti o termo debaixo do braço, pousei o saco das compras numa velha cadeira de baloiço em palhinha e bati com força no caixilho da porta de rede. Lá de dentro veio o ruído de algumas tossidelas doridas e depois apareceu Philip, envergando um robe amarrotado e encardido, o cabelo escorrido e gorduroso. Tinha-se barbeado há pouco tempo mas não se notava grande diferença, apresentava olheiras fundas, o rosto amassado e lívido.

 

- Olá, coração - disse eu. - Chegou a mamã.

 

Ele tinha feito a cama - um cobertor navajo e três almofadas - sobre um sofá-cama decrépito na sala de estar. Vindo da casa ao lado, o som da rádio do vizinho tocando "American Dreamer" era vagamente audível. Quando acabei de deitar a sopa numa tigela e lha levei ele já voltara a enfiar-se debaixo do cobertor, os joelhos dobrados para cima, o rosto fixo numa expressão de sofrimento estóico.

 

- Sopa de batata e bolos, agráda-te? Trouxe-te tarte de noz, queijada de limão e quatro variedades de bolachinhas com recheio.

 

- És um anjo. - Apoderou-se da tigela de sopa e começou a sorvê-la avidamente, como um camponês esfomeado. - Já não comia há quarenta e oito horas.

 

Eu tinha visto a garrafa de Bourbon vazia na kitchenette.

- O que é que se passa?

- Fui despedido. Ao fim de quatro míseros dias, puseram-me na rua. - bom, era um filme merdoso...

 

- ...era trabalho, Kay. Pago a quatrocentos dólares por semana. - Falava numa voz rabugenta e carregada de autocomiseração. Sentei-me e observei-o enquanto ele terminava a sopa, após o que se atirou de imediato à queijada. Encheu demasiado a boca e engoliu com dificuldade. Tossiu, lançando migalhas para cima do sofá-cama.

 

- Calma - disse eu. - Ninguém te vai roubar a comida. Queres um café?

 

- Acho que tenho um tumor na garganta. Será que podes dar uma olhadela?

 

Abriu a boca para mim. Segurei-lhe o belo rosto magoado entre as palmas das mãos e inclinei-o de maneira a que a luz da janela lhe incidisse nas goelas. Nada vi para além de uma garganta rosada palpitante e uma certa quantidade de queijada de limão, mas eu conhecia estes estados de alma de Philip e sabia que ele precisava de algo a que se agarrar.

 

- Não vejo nada de especial... Talvez esteja um pouco vermelha.

 

- Santo Deus... E os meus olhos? Não têm um tom amarelado?

 

- Hoje a tua cor é o vermelho, receio bem. Porquê amarelado?

 

- Sinto umas dores aqui nas costas. Devo ter o fígado todo lixado - cirrose ou coisa parecida. Talvez um cancro.

 

- Eu se fosse a ti largava o Bourbon. - Levantei-me. Vou-te fazer um café.

 

Voltei para a kitchenette e pus um púcaro de água a aquecer enquanto procurava o café. Ouvi os passos melancólicos e arrastados de Philip aproximando-se nas minhas costas e depois senti os braços dele abraçarem-me a cintura. Ele aninhou o rosto na minha nuca, dando-me pequenos beijos ternurentos.

 

- Kay-Kay, posso ir passar uns dias a tua casa? Detesto estar assim sozinho.

 

- Não, Philip, sabes bem que...

 

- Já não aguento mais. É que...

 

- ...parar de beber. Tudo. bem, foste despedido. Não é o fim do mundo. Esta cidade está cheia de filmes merdosos a precisarem de argumentistas. E cheia de argumentistas no desemprego à procura de filmes merdosos.

 

- Era um bom emprego, Kay. O melhor. - Afastou-se de mim e enterrou os punhos bem fundo nos bolsos do robe. "Seis, oito semanas e eu estava lançado." Tirou um pedaço de papel amarrotado de um dos bolsos e contemplou-o com estranheza. "Céus, já me esquecia, isto é para ti." Estendeu-mo. "Encontraram o teu - comoéco gajosechama - Paton Bobby. Foi o mcGuire lá do estúdio... A porra do estúdio."

 

Alisei a folha e li o que lá estava escrito: "Xerife Paton Bobby, Rancho Los Feliz, White Lakes, Santa Fé."

 

- Santa Fé?

 

- O tipo nem sequer está na Califórnia - disse Philip. Ainda bem que me disseste que ele era chui. Se não fosse isso nunca mais o encontrávamos.

 

Virei-me e olhei pela janela da cozinha. Defronte desta erguia-se um cipreste raquítico, maltratado, partido ao meio a um metro de altura e, mais adiante, uma vedação de rede que marcava os limites de um ramal da via férrea para automotoras eléctricas. Paton Bobby era portanto um xerife em Santa Fé, no Novo México. O que poderia o doutor Salvador Carriscant querer dele?

 

- Então o tal café, vem ou não? - disse Philip. - A minha garganta está a matar-me.

 

Encontrei-me com Carriscant de manhã cedo, na estação de comboios de Pasadena. Ele tinha-me pedido que o acompanhasse a Santa Fé e, sem saber porquê, para meu grande espanto, eu assentira de pronto, sem sequer reflectir e sem me arrepender do que fizera.

 

Ele pedira e eu respondera que sim, e só mais tarde é que me apercebi de quão impertinente tinha sido a atitude dele e paradoxal a minha. Mas ele incendiara a minha imaginação, este Salvador Carriscant, e a sua asserção tranquila dos laços que nos uniam era algo que me punha cada vez menos de sobreaviso e que eu começava a nem sequer questionar. Contudo, afastei esta motivação particular em favor de outra que, embora quixotesca, era mais aceitável. Isto era uma aventura, disse para mim própria, uma demanda intrigante, que eu me arrependeria de não acompanhar pelo menos durante mais algumas etapas. Podíamos fazer a viagem de ida e volta em dois dias e a minha curiosidade acerca de Carriscant e Paton Bobby era intensa e, para mais, nunca tinha visitado o Novo México.

 

A sala de espera em Pasadena estava limpa e cheirava a ácido fénico; começavam a chegar as primeiras pessoas dirigindo-se para os empregos e os quiosques regurgitavam ainda de jornais e revistas por vender. Carriscant esperava-me no local combinado, à entrada da cafetaria, com um ar apreensivo e perdido. O sorriso na sua cara quando me viu era sincero. Exibiu dois bilhetes enquanto eu me aproximava.

 

- Comprei o teu bilhete - disse ele. - Não é necessário reembolsares-me.

 

- Não se preocupe. Eu não mudei de ideias.

 

- Estou-te muito grato por me acompanhares - disse ele ao caminharmos em direcção à plataforma do expresso para Santa Fé. - Pode custar-te a crer, mas a última vez que andei de comboio foi de Glasgow para Liverpool em 1897.

 

O rancho de Paton Bobby situava-se a sul de Santa Fé, a alguns quilómetros de White Lakes, sobre um outeiro coberto de erva, tendo como pano de fundo a cordilheira de Sangre de Cristo, escura e maciça. Alugámos um táxi por todo o dia (uns meros vinte dólares) e, findo o pequeno-almoço, deixámos o nosso hotel, próximo da estação de comboios. Perguntei a Carriscant se tomara a precaução de telegrafar a Bobby avisando-o da nossa vinda. Ele respondeu-me que tinha decidido não o fazer.

 

- Então e se ele não estiver lá? - disse eu, irritada.

 

- Oh, eu informei-me com antecedência para não correr esse risco. Só não queria que ele ficasse a saber que eu vinha.- O sotaque inglês de Carriscant tinha o efeito de, em certos momentos, dar às suas palavras um tom insuportavelmente presumido, e este era um desses momentos.

 

- Quem é este Paton Bobby? - disse eu. - Donde é que o conhece?

 

- Encontrámo-nos há já muito tempo. Fomos amigos bastante chegados, num certo período.

 

Não insisti mais, deliberadamente; não queria dar-lhe a satisfação de continuar a exercer sobre mim a sua exasperante arte do subterfúgio. No tocante às suas investigações, Carriscant mostrava uma grande relutância em contar-me fosse o que fosse. As informações acerca dos seus objectivos e do seu passado eram destiladas a conta-gotas, e em geral de forma espontânea. De tempos a tempos, uma pepita de informação era posta na minha frente como um amuse-gueule, para melhor me aguçar o apetite, mas se eu procurasse saber mais ele retraía-se. Eu não chegava a perceber se ele estava a jogar comigo algum jogo complicado do gato e do rato, se era simplesmente ingénuo um velhote cuja memória só ocasionalmente era reavivada ou ainda se se tratava de um dos aldrabões mais refinados que eu jamais conhecera. Porquê, por exemplo, aquela referência à viagem de comboio de Glasgow para Liverpool em 1897? Seria apenas uma manifestação da sua insegurança, da sua vulnerabilidade, ou tratar-se-ia de uma peça destinada a completar um puzzle mais vasto? De momento, eu desistira de extrair novas revelações: também eu era capaz de me fingir indiferente e obtusa quando necessário.

 

Saímos da estrada Albuquerque-Las Vegas e seguimos as setas para Clines Cors e Encino. Em White Lakes indicaram-nos uma pista de terra batida branca que bordejava uma extensa mesa coberta de artemísias. Atingimos uma vedação feita de toros fendidos e em breve avistámos o portão e o letreiro "Rancho Los Feliz", gravado a ferro em brasa no lintel de madeira.

 

- O que é aquilo? "Rancho das Pessoas Felizes"? - disse Carriscant. Engraçado como o espanhol o salva da vulgaridade.

- O sorriso no seu rosto desvaneceu-se. - "Nunca imaginaria Paton Bobby num sítio como..." Não concluiu a frase. De repente, pareceu inquieto.

 

Por muito desengraçado que fosse o seu nome, o rancho tinha um aspecto bem tratado, limpo e arrumado. Os grandes pedregulhos postados à entrada haviam sido caiados havia pouco tempo, a pista com dois pares de sulcos paralelos que subia até à casa estava limpa de ervas daninhas, e a sua tira central de relva estava aparada, tal como as bermas. De um lado e doutro viam-se cavalos pastando em prados bem irrigados. Os campos de luzerna e os arbustos verdejantes com cachos de flores brancas pareciam transpirar prosperidade e ordem.

 

Olhei de novo para Carriscant. Rígido no assento, tenso, mordiscava vagamente o lábio inferior. O olhar parecia perdido, distante, mal se dando conta do que o rodeava. Era como se ele não tivesse decidido levar a cabo esta viagem por sua própria vontade, mas estivesse, isso sim, a ser arrastado até aqui, como um prisioneiro para o cadafalso ou um recruta para o campo de batalha, passivo, impotente para alterar o decurso dos acontecimentos. Senti pena dele, dominada por um bizarro instinto protector, subitamente consciente do seu estranho desamparo neste grande país, e congratulei-me por tê-lo acompanhado.

 

Um coro de ladridos de cães elevou-se quando parámos defronte da casa, um edifício novo, com empenas de pedra e uma longa varanda sombria ao longo da fachada, provida de uma bordadura de flores exuberantes. Disse a um trabalhador mexicano do rancho que estávamos ali para ver Mr Bobby e fomos conduzidos à porta da frente, onde uma criada nos introduziu numa pequena sala de visitas. Pouco depois, uma mulher, pouco mais velha do que eu, veio ao nosso encontro e apresentou-se como Estelle Bobby. Eu calculei que ela fosse a filha, mas em breve se tornou evidente que era a nova esposa. Era tímida e bonita, com olhos azuis ligeiramente protuberantes e cabelo loiro.

 

Se Bobby tinha sessenta e muitos anos, levava pelo menos trinta de avanço sobre a mulher, não restavam dúvidas.

 

Apresentei-me e apresentei também Carriscant, que nessa altura dava mostras de uma tal passividade que eu me sentia no papel de uma dama de companhia dominadora. O nome dele pareceu nada significar para Estelle Bobby quando o pronunciei.

 

Ela indicou-nos cadeiras para nos sentarmos como se tivesse aprendido as regras de boa educação através de um curso por correspondência.

 

- O meu marido estará de volta em menos de uma hora disse ela. - Foi dar uma volta a cavalo. Permitem-me que inquira qual o motivo da vossa visita?

 

Virei-me para Carriscant.

 

- Eu, ah, sou um velho amigo do seu marido, tartamudeou ele desajeitadamente. Já não o vejo há mais de trinta anos...

 

- Estávamos em Santa Fé em negócios, improvisei eu. Mr Carriscant achou que valia a pena fazer uma visita ao seu marido, mesmo arriscando-nos a não o apanharmos.

 

- com certeza, estejam à vontade, são muito bem-vindos disse Mrs Bobby e saiu para nos ir buscar algum café enquanto esperávamos.

 

Duas chávenas mais tarde, com Mrs Bobby atarefada algures num ponto afastado da casa, ouvimos o som dos cascos de um cavalo e vimos uma charrette elegante com um baio de passada nervosa atrelado entre os varais penetrar no pátio e aproximar-se, desaparecendo atrás da casa. Pude entrever um homem forte e corpulento segurando as rédeas, bastante calvo e com um grande bigode de pontas. Ouvimos uma porta abrir-se nas traseiras e o ruído de vozes conversando. Virei-me para Carriscant. Estava pálido, com a boca entreaberta.

 

- Sinto-me mal, Kay - disse ele roucamente. - Acho que vou vomitar.

 

Estendeu uma mão trémula e, sem pensar, eu tomei-a nas minhas e apertei-a com força.

 

- Vá lá, beba um pouco de café, isso já passa.

 

- Acho que devíamos partir. Já. O pânico brilhava-lhe nos olhos.

 

- Não seja ridículo. Fizemos esta viagem toda. Afinal o que é que ele lhe fez, este homem?

Carriscant abanou a cabeça sem emitir um som. Para lhe dar algum tempo, levantei-me e passei ao vestíbulo, fechando a porta da sala de visitas atrás de mim. Paton Bobby vinha nesse momento a sair da cozinha. Debaixo da cabeçorra perfeitamente glabra e luzidia tinha uma cara quadrada e cheia de rugas, com olhos ternos e um largo bigode grisalho, aparado com esmero, que efectivamente lhe dividia o rosto em dois de orelha a orelha. Era espadaúdo e carregava a sua grande barriga com facilidade, quase com orgulho. Há homens a quem a gordura parece assentar bem e Paton Bobby era um deles, confortável, atraente mesmo, na sua sólida obesidade.

 

Apertou-me a mão e eu apresentei-me e pedi desculpas por ter aparecido sem prevenir.

 

Ele olhou-me com uma expressão arguta. "A minha mulher diz-me que este cavalheiro é um velho amigo meu. Eu não tenho nenhum velho amigo chamado Tarrant." A sua voz era lenta e afável, com um timbre mais grosso vindo algures no fundo da garganta. Reparei numa boquilha de charuto em couro projectando-se, como uma flauta de Pan, do bolso da frente do seu casaco.

 

- Não - disse eu cuidadosamente, lançando um sorriso a Mrs Bobby. - Não é Tarrant. É Carriscant. Doutor Salvador Carriscant.

 

A curiosidade amável no rosto de Paton Bobby desapareceu de imediato, completamente transformada numa expressão de assombro digna de uma personagem de desenhos animados. As sobrancelhas arqueadas, os olhos arregalados, a boca aberta formando um "O quê?" silencioso. As suas pálpebras começaram a bater rapidamente.

 

- Salvador Carriscant? - repetiu. - Você está doida ou quê?

 

- Não, Paton, não está.

 

Virámo-nos para ver Carriscant, enquadrado pela ombreira da porta da sala de visitas, recomposto, o olhar penetrante. Paton Bobby deu um passo atrás, como que para ver melhor, as sobrancelhas ainda levantadas, olhando fixamente a figura que acabara de surgir.

 

- Jesus, Deus do Céu! - disse ele baixinho, quase a medo, a voz embargada pela emoção. - Salvador!

 

E foi nesse preciso momento que me senti percorrida por uma onda de raiva. A minha ignorância era tão grande e eu fora tão deliberadamente mantida neste estado, que presenciar agora o choque profundo suscitado por esta reunião, ver claramente o seu impacte melodramático, fazia-me sentir usada, explorada. Carriscant apertando vigorosamente a mão de Bobby entre as suas, os dois soltando mútuas exclamações de espanto em vozes másculas e sonoras... Era este o sujeito medroso que há momentos ameaçava vomitar, que precisava que lhe segurassem na mão para ganhar alento? O que mais me doía, ali parada a observá-los, era o ponto a que este homem se conseguira já insinuar na minha vida. E com tanta desenvoltura... O que lhe devia eu? Que domínio exercia ele sobre mim? Que responsabilidades me cabia assumir? Nenhumas, tal era a resposta pronta e simples a esta pergunta, e tomei a firme resolução de não mais me envolver com ele nem com as suas bizarras maquinações privadas.

 

- O que é que se passa? - disse eu, com uma brusquidão um tudo-nada excessiva. - O que é que há entre vocês os dois?

 

Bobby virou-se, surpreendido. - Então ele não lhe contou? Meu Deus, o Salvador era...

 

- Mais tarde, Kay, por favor - interrompeu Carriscant, educadamente. - Se não te importas. Primeiro tenho que falar com Paton.

 

- Tudo bem. Eu espero no carro. Diga-me quando estiver pronto para partir.

 

Sentei-me no carro durante dez minutos, furiosa e cheia de raiva de mim própria, até que o desconforto causado pelo couro quente e pegajoso debaixo das minhas coxas me obrigou a sair novamente. Caminhei para cá e para lá fumando um cigarro, sob o olhar vagamente curioso do condutor do táxi, um velho taciturno chamado Arthur Clough, possuidor de grandes dentes amarelos e tortos e que fungava sem parar. Do local onde eu me encontrava conseguia ver o alto do crânio de Paton Bobby, que parecia não fazer outra coisa o tempo todo senão inclinar a cabeça para a frente. Perguntei a Arthur se conhecia Bobby.

 

- Claro - respondeu. - Acho que ele em tempos foi xerife de Los Alamos - e não concorreu uma vez às eleições para mayor de Santa Fé? Depois de ter saído do exército, ou lá o que foi. Vi a cara dele no jornal já faz algum tempo.

 

Aceitou um dos meus cigarros e fumou-o desdenhosamente, como um dândi vitoriano, segurando-o entre o polegar e o indicador, com a palma da mão para cima.

 

Carriscant e Paton Bobby apareceram à porta principal cerca de uma hora mais tarde. À distância a que me encontrava, apesar de não poder garanti-lo, parecia-me que Bobby estivera a chorar, mas a ideia era quase inacreditável, de tão incongruente. Os seus gestos, porém, eram agora quase servis, a sua pose confiante, de costas direitas e pernas afastadas, parecia ter desaparecido, e ouvi-o claramente dizer no momento das despedidas: "...espero que me consiga perdoar, Salvador." "É claro", replicou Carriscant, com uma entoação de sinceridade genuína. "Nunca achei que a culpa fosse sua, Paton. Nunca. Você estava a fazer o seu trabalho e", neste ponto fez uma pausa, "e eram tempos difíceis."

 

Carriscant entrou no carro e sentou-se ao meu lado, o rosto tenso, transtornado. Encostou-se para trás no assento e fechou os olhos.

 

- Pobre Paton - disse.

 

- Mas o que é que se passa? - exclamei eu, cheia de uma curiosidade enraivecida. - Não pode continuar a esconder-me tudo!

 

- Oh, Kay, Kay, dá-me só um momento.

 

O táxi arrancou. Paton Bobby não se tinha demorado na varanda. Carriscant olhou-me e conseguiu esboçar um sorriso forçado.

 

- Estou desolado, Kay... Eu bem sei que não é justo, Kay, mas esta conversa era crucial, era essencial para mim, minha querida Kay, se apenas tu pudesses...

 

- Pare de repetir o raio do meu nome!

 

A veemência das minhas palavras pareceu arrancá-lo da sua complacência paternalista, do seu estado triunfante. Pois ele tinha obtido naquela casa uma espécie de vitória, há muito adiada, suspeitava eu, e estava a saboreá-la. Em todo o caso, ele parou de falar, meteu a mão no bolso do casaco e retirou de lá uma pequena carteira de couro, que abriu. No interior encontrava-se uma página dobrada em quatro de uma revista ilustrada. Pude ver de relance um anúncio a uma cerveja que não reconheci e algumas frases em espanhol, ou pelo menos assim me pareceu. Sem mais explicações, Carriscant estendeu-me a folha, que eu espalmei sobre os joelhos. A página incluía seis fotografias com legendas por baixo. A língua era o português, via-o agora, e as fotografias pareciam ser de acontecimentos sociais ou jornalísticos rotineiros. O meu olhar reteve um casamento, um político de chapéu alto discursando com um gesto largo de mãos, uma bela mansão danificada pelo fogo. O dedo de Carriscant apontou para a fotografia do canto inferior direito. Um homem envergando roupa branca de tenista recebia um enorme trofeu de prata das mãos de uma jovem mulher esplendorosa, com um cloche na cabeça e vários colares de pérolas ao pescoço. Reparei na data no fundo da página: 25 de Maio de 1927. Dei uma olhadela à legenda, tentando traduzi-la. Uma partida de ténis de beneficência... O vencedor, Jean-Claude Riverain - eu lembrava-me do famoso jogador de ténis e contemplei-o agora com curiosidade nas suas roupas largas de flanela cobertas de poeira, uma vírgula de cabelo molhado colada à testa alta e bronzeada -, e Miss Carmencita Barrera, a célebre actriz de cinema, toda ela rendas e lantejoulas cintilantes, a cara branca como giz...

 

- A actriz? - perguntei.

 

- Não, a mulher dois lugares ao lado.

 

Examinei a imagem mais de perto. Uma mulher elegante, talvez nos seus cinquenta anos, ainda atraente, aplaudindo, um leve sorriso ambíguo na face. A focagem era nítida, eu conseguia distinguir o estampado com motivos intrincados do seu vestido, mas não me era possível ajuizar se o que iluminava o seu rosto era um sorriso polido de aborrecimento ou um sorriso polido de entusiasmo. Entre ela e a actriz estava um homem idoso com cabelo branco, vestindo um fato escuro; à sua esquerda, um oficial de marinha de patente elevada; as restantes figuras não se distinguiam. À parte a actriz e a estrela do ténis, ninguém mais estava identificado.

 

Carriscant tirou-me a página das mãos e dobrou-a com todo o cuidado, voltando a enfiá-la na carteira.

 

- Esta é ela - disse simplesmente e com uma curiosa autoridade. - Eu não tinha a certeza, não tinha mesmo a certeza, era por isso que precisava de me encontrar com Paton. Ele era o único que podia dar-me a confirmação.

- Confirmação de quê?

- Que ela era - que ela é - quem eu pensava que era.

- E ele fê-lo?

- Sem hesitar. Sem hesitar nem um segundo. - Deixou escapar um longo suspiro trémulo. - E agora já sei. Nem imaginas esta sensação, ao fim de trinta e três anos.

 

- Doutor Carriscant, tem que me explicar do que é que está a falar. Não faz sentido eu estar aqui se não...

 

Ele ergueu uma mão no ar para me interromper e depois respirou fundo, dilatando e encolhendo o peito uma dúzia de vezes, como que para se revigorar, como se tivesse estado a dormir durante muito tempo. O que me irritou imenso.

 

- Durante todo este tempo - começou ele - pensei que ela talvez estivesse morta, sabes. Julguei que nunca iria descobrir o que tinha sucedido. Mas depois encontrei esta fotografia, por um... por um miraculoso, por um sinuoso capricho do destino. E agora sei que ela está viva.

 

- Mas essa fotografia já tem quase dez anos.

 

- Mas ela está viva. Ela parece... - Lágrimas brotaram-lhe das pálpebras, a voz embargou-se-lhe. - Sei que ela está à minha espera. - Disse isto com uma confiança inflexível e depois virou-se para mim.

 

- Iremos os dois à procura dela.

 

- Iremos? - O que é que está para aí a dizer?

 

- Tu e eu, Kay, querida Kay. - Iremos a Lisboa ter com ela.

 

É difícil encontrar um cemitério pequeno em Los Angeles. E eu estava decidida a que o meu filho fosse enterrado num pequeno recanto solitário, um lugar pouco frequentado, onde os olhares desatentos fossem menos numerosos do que numa enorme necrópole ou no vasto parque-mortuário estendendo-se a perder de vista que constitui a norma.

 

Descobri uma velha missão parcialmente reconstruída no extremo norte do Vale de San Fernando onde, por força de uma choruda doação ao fundo de restauro, me foi concedido um love a um canto, protegido do sol por um bosquete de eucaliptos. vou lá de tempos a tempos, mais ou menos uma vez por mês, tentando não transformar as minhas visitas num ritual, bem disposta ou de mau humor, mas, inevitavelmente, o lugar acabou por forjar as suas associações (afinal de contas, não tenho qualquer memória real dele) e agora é o rumorejar das folhas secas, o cheiro a gato vadio dos eucaliptos, até mesmo a filigrana do sol através dos ramos, que se conluiam para me recordar o meu filho morto.

 

Reflecti também um certo tempo acerca da pedra tumular: o que é que se escreve quando uma vida durou apenas dezasseis dias? "Aqueles que os deuses amam..."? "Vaidade das vaidades - disse o pregador - tudo é vaidade"? No fim de contas, escolhi um mármore branco, muito simples, e mandei embutir o nome e a data em bronze. COLEMAN BROCKWAY, 10 de Abril de 1930 - 26 de Abril de 1930. com o passar dos anos o verdete das letras de bronze escorreu, manchando o mármore com lágrimas verdes. Lágrimas verdes para o meu bebé azul. Coleman Brockway veio ao mundo com todas as cartas contra ele desde o primeiro dia: tinha um buraco no coração.

 

Mrs Luard Turner trazia uma esfola de raposa branca sobre o conjunto cor de água marinha, apesar de o dia estar quente e de o céu se manter de um azul inalterável. Além disso, estava pesadamente maquilhada, como uma actriz, pensei eu, com uma espessa camada de base e pó-de-arroz cobrindo uma pele que começava a exibir sinais de pouca firmeza e elasticidade. Fechei a porta do roupeiro grande do quarto.

 

- Há-de reparar que a casa tem muitos roupeiros - disse eu - e que muitos deles têm o dobro do tamanho normal.

 

- Como? Ah sim, de facto, eu julguei...

 

- A ideia, compreende, é que não haja montões de coisas espalhadas. Tudo pode ser arrumado nos armários. - Sorri para ela, eu começava a usar um tom autoritário, sabia-o bem, um hábito que tenho quando suspeito que alguém não me está realmente a prestar atenção. "Não posso impedir as pessoas de possuírem objectos, mas posso encorajá-las a manterem-nos longe da vista.

 

- Oh, sem dúvida - disse ela - devolvendo-me um sorriso hesitante. - Eu, ah, também gosto de ter as coisas em ordem.

 

- Tudo nesta casa foi pensado longamente, Mrs Turner. Cada uma das proporções é rigorosa. Sempre que possível encastrei a mobília - como na cozinha, como aquele bloco de gavetas e prateleiras na sala de estar - porque a senhora pura e simplesmente não pode, numa casa deste estilo, desta ética, se me é permitido dizê-lo, chegar aqui e...

 

- Desculpe? Éti-quê?

 

- ...não pode meter aqui mobília normal, o seu sofá do costume, as poltronas, etc.

 

- Não posso?

 

- No caso de achar que precisa de mobília nova, peço-lhe - na verdade, imploro-lhe - que se dirija a fabricantes de mobiliário especializados. Encomende peças que se adequem à casa e verá que não se arrepende. Posso dar-lhe meia dúzia de nomes de...

 

- Mrs Fischer tem muito orgulho nesta casa - interrompeu George Fugal com um riso nervoso.

 

- Oh, sem dúvida - disse Mrs Turner, olhando em volta.

 

- Ah, a casa de banho já funciona? Indiquei-lha.

 

- É negócio feito - disse George. - Ela está louca pela casa.

 

- Então disfarça muito bem. Ela tem algum problema? Parece-me um bocado distante, como se não estivesse aqui connosco. Será que...

 

- Kay, já tenho os dez por cento do sinal. Ela não anda a brincar. Olhou nervosamente por cima do ombro e baixou a voz. - Consegue-se ouvir o barulho do autoclismo? Quer dizer, aqui, neste quarto?

 

- Provavelmente. Porquê?

 

- Não se importa de descer? Sinto-me desconfortável, compreende, quando ela sair - detesto esse momento.

 

George e eu descemos as escadas ruidosamente, batendo com os pés nas tábuas nuas, para que Mrs Turner pudesse puxar o autoclismo sem receio de embaraços.

 

- Acho que você podia ter feito estas escadas mais largas.

 

- George, eu não lhe dou conselhos em matéria jurídica. Mrs Luard Turner reapareceu na devida altura e mostrou-se

devidamente satisfeita. Esqueceu-se de me pedir - mas ainda assim eu dei-lha - uma lista com nomes de marceneiros capazes de lhe fornecer uma mesa de sala de jantar e cadeiras que não destruiriam as linhas harmoniosas das minhas divisões perfeitas. Ficou acordado que os contratos seriam assinados no escritório de Fugal pelas 10 da manhã do dia seguinte.

 

Guiei para oeste pelo Sunset Boulevard e cortei na Normandie em direcção a Hollywood. Carriscant estava a andar de um lado para o outro em frente à porta principal do meu edifício. Haviam-se passado cinco dias sobre a nossa viagem a Santa Fé e eu não o vira desde essa altura, tendo concentrado todos os meus esforços nos retoques finais na casa, preparando-a para a venda. Todo um agregado de emoções, por esta altura cada vez mais familiar, coagulou dentro de mim quando encostei o carro ao passeio e o vi aproximar-se precipitadamente - uma massa informe de surpresa, curiosidade, cólera e fadiga. A viagem a Santa Fé revelara-se uma dieta de Salvador Carriscant demasiado prolongada e substancial. De momento, convinha reduzir as doses.

 

Carriscant seguiu-me até ao escritório, colado aos meus calcanhares, como se esperasse ver-me desatar a correr de repente; eu sentia a sua impaciência e excitação impregnarem a atmosfera à nossa volta, mas mesmo assim recusei-me a ceder ou a deixar-me apressar e tomei o tempo necessário para verificar as mensagens com Mary, antes de gastar cinco minutos com Ivan analisando os desenhos preliminares para um novo terreno que havíamos encontrado em Silver Lake, algumas ruas a norte da Micheltoreno.

 

Finalmente, autorizei Carriscant a sentar-se no meu gabinete enquanto ligava a Fugal para confirmar que o negócio com Mrs Luard Turner decorria sem entraves - tudo estava em ordem. Voltei a pousar o telefone.

 

- Olhe que não vai poder ficar aqui muito tempo - disse eu - estou nas minhas horas de serviço. Se soubesse tudo o que tenho para...

 

- Kay, eu compreendo. Ninguém melhor do que eu compreende. Foi só que achei que gostarias de ser a primeira a saber.

 

- O quê?

 

- O que eu descobri sobre a fotografia. - Retirou a carteira macia do bolso do casaco. - É espantosa a quantidade de informação que se consegue desenterrar numa biblioteca pública bem equipada.

 

- Sou toda ouvidos.

 

Carriscant contou-me que tinha descoberto mais coisas sobre a partida de ténis retratada na fotografia. Esta fizera parte de uma série de eventos de beneficência, estendendo-se ao longo de três dias - corridas de bicicleta, combates de boxe, uma tômbola com prémios em dinheiro -, co-patrocinados pela legação dos Estados Unidos, pela Cruz Vermelha Portuguesa e por uma organização anglo-portuguesa de caridade social chamada os Cavaleiros de 1147, em memória do ano, Carriscant informou-me com um ar didáctico incomodativo, em que os cruzados ingleses ajudaram a tomar Lisboa aos Mouros. O festival tinha decorrido entre 20 e 23 de Maio, para celebrar as bodas de ouro dos Cavaleiros e a visita a Lisboa do cruzador ligeiro Olympia, da Marinha Americana, e de uma flotilha de destroyers britânicos. A partida de ténis fora o ponto alto dos três dias de diversões, um jogo de exibição entre Riverain e Carlos Pelicet. "Riverain ganhou por 6-2, 6-4, informou-me Carriscant. Ao que parece foi um jogo mais renhido do que o resultado sugere." O mais interessante, continuou, era que a taça fora baptizada com o nome da esposa do legado americano - Taça Lillian Aishlie.

 

- E ainda mais interessante - disse Carriscant, inclinando-se para a frente, pousando ambas as mãos sobre a minha secretária - é que o troféu não foi entregue pela esposa do legado.

 

Deduzi que Carriscant me iria explicar porquê que isto era "ainda mais interessante" quando bem lhe aprouvesse.

 

- Eu sei - disse eu docilmente - foi aquela actriz - já não me lembro bem do nome - que o entregou.

 

- Exactamente. Q. E. D.

 

- Não estou a perceber.

 

- A esposa do legado não pode ter estado presente.

 

- Possivelmente. E então?

 

- E então isso significa que as outras pessoas na tribuna eram quase de certeza funcionários da legação americana.

 

Finalmente, comecei a perceber a linha sinuosa seguida pelo seu raciocínio. - Portanto - disse eu pausadamente - se a esposa do embaixador não pode entregar o seu próprio troféu...

 

- Chama-se uma actriz de cinema. Mas alguém da legação tem que estar presente.

 

- Por que não a Cruz Vermelha ou os Cavaleiros mija-na-escada?

 

- Porque se tratava do evento americano. - Retirou a sua preciosa fotografia da carteira e desdobrou-a sobre o meu mata-borrão. A actriz, o homem de cabelos brancos e fato escuro, a senhora de Carriscant com o seu sorriso enigmático, o oficial de marinha.

 

- A convidada de honra - disse Carriscant, o indicador apontando Carmencita Barrera (a unha tinha uma orla de sujidade, reparei) - saltou as duas caras seguintes na fila - o oficial de marinha - voltou ao senhor de cabelos brancos - o legado e... - fez uma pausa - a convidada do legado ou a esposa do oficial de marinha.

 

Percebi que esta última designação o incomodava. - Parece plausível - disse eu - mas não se pode ter a certeza. - Peguei na página da revista e virei-a para ele. - Todas estas pessoas estão à esquerda da deslumbrante Carmencita. As pessoas mesmo importantes podiam estar do lado direito.

 

- Não, de maneira nenhuma. Os fotógrafos de imprensa têm sempre o cuidado de apanhar os dignitários quando tiram o boneco.

 

Compreendi que ele não estava na disposição de se deixar prender com detalhes. Imbuído das certezas irracionais de um zelota, ninguém o faria mudar de opinião.

 

- Portanto, está a dizer... - comecei eu.

 

- Estou a dizer que esta mulher... - havia agora na sua voz um nítido tremor, um vibrato emocional. - Esta mulher era amiga ou esposa de um funcionário da Embaixada dos Estados Unidos em Lisboa em 1927. - Recostou-se na cadeira, o rosto crispado no curioso meio esgar de alguém que luta para reter as lágrimas. Apertou os braços em torno do peito, abraçando-se a si próprio.

 

- É aqui que a pista começa - disse, a voz rouca de triunfo.

 

- De certeza que é por aqui que se deve começar.

 

- Pois bem, boa sorte para si.

 

Olhou-me por alguns instantes com uma expressão de perplexidade, o olhar vazio, como se eu subitamente tivesse falado numa língua estrangeira.

 

- Não, Kay, nós vamos começar. Nós dois, tu e eu. Não posso ir sem ti.

 

- Já lhe disse da última vez, não vou a lado nenhum. Tenho uma casa para desenhar. Tenho uma vida para viver aqui, pelo amor de Deus.

 

- Só iria demorar seis semanas, dois meses.

 

Soltei uma gargalhada: mais um arquejo de incredulidade do que uma gargalhada, na verdade.

 

- Dr. Carriscant, esta... esta obsessão é sua, não é minha. Eu mal o conheço. Não posso simplesmente...

 

- Não tenho meios para ir a Lisboa - disse ele com um ar petulante, acusador, como se a culpa fosse minha. - Não tenho dinheiro.

 

- Nenhum de nós tem dinheiro.

 

- Ainda agora vendeste a tua casa.

 

- Sim, a minha casa. Para poder construir outra. Aqui trabalha-se na corda bamba, olhe à sua volta.

 

Ele baixou a cabeça para fitar as mãos sobre os joelhos, de pulsos soltos. Os seus ombros arquearam-se e voltaram a baixar várias vezes, como se ele estivesse a aliviar alguma dor, e quando olhou de novo para mim tinha lágrimas despudoradas correndo-lhe pela face.

 

- Kay, peço-te como minha filha...

 

- Pare com isso, imediatamente...

 

- ...como teu pai. Vem comigo, ajuda-me.

 

- Você não é meu pai - gritei-lhe. - O meu pai era Hugh Paget. Como é que se atreve...

 

- Não, Kay, sou eu, sou eu! - gritou ele por sua vez. Sou eu!

 

A confiança fervente com que ele proferiu esta afirmação silenciou-me e deixou-me transtornada. Compreendi que, na minha associação com Salvador Carriscant, nas horas que passara na sua companhia, na nossa viagem de dois dias a Santa Fé, eu tinha tacitamente posto de parte as minhas dúvidas e, de uma forma complacente - talvez voluntária -, tinha permitido que o seu postulado se instalasse entre nós os dois, como um presente oferecido mas ainda não aceite. E todavia ainda não rejeitado. Era chegado o momento de agir.

 

- Se você é o meu pai - disse eu num tom moderado, a voz controlada, então quem é a minha mãe?

- Ora, é a tua mãe, claro. A Annaliese.

 

- Ela está viva e de saúde e mora em Long Beach, na Califórnia, se lhe quiser fazer uma visita.

 

A expressão dele tornou-se sombria e abanou a cabeça, silencioso, depois fungou e limpou as lágrimas que lhe secavam nas bochechas. Perguntei a mim mesma, não pela primeira vez, se ele seria um pobre idiota inocente ou apenas e só um muito mau actor.

 

- Ela nunca aceitaria ver-me - disse ele. - Nunca iria admitir que me conhece.

 

- E por que não?

 

- Por causa do que eu lhe fiz.

 

- Quanto tempo é que estiveram casados?

 

- Cinco anos.

 

Reprimi o desejo de lhe fazer mais uma pergunta que fosse, apesar de dúzias delas se perfilarem, clamando, na minha cabeça. Qual fora a data do casamento? Que idade tinha eu quando se dera a separação?... O problema era que todas as minhas perguntas pressupunham a veracidade da sua versão dos acontecimentos - e eu tinha compreendido que era assim que Salvador Carriscant atraía as pessoas, as enredava e as fazia atolarem-se. E eu não estava disposta a jogar mais os seus jogos perigosos.

 

- Lamento, doutor Carriscant - disse abruptamente. Não o posso ajudar neste assunto, não.

 

Ele fitou-me, ameaçador, carrancudo, o olhar cheio de uma nova antipatia e ressentimento. E depois, num repente, o mau humor passou e a face iluminou-se-lhe. Deixou escapar um suspiro, curvou as espáduas e sorriu debilmente.

 

- Oh, bom - disse ele, quase alegremente - que hei-de eu fazer? Espero que não vejas inconveniente em eu tentar fazer-te mudar de ideias - de tempos a tempos.

 

- Pode sempre tentar - disse eu - mas não vai dar resultado.

 

A coxa de Philip estava quente contra a minha. Demasiado quente. Afastei-me ainda mais dele, muito devagar, deslizando aos poucos sobre o colchão até que senti a humidade sob o meu flanco começar a arrefecer. Nenhuma parte do meu corpo tocava no seu, o halo calorífico que dele emanava deixara de me aquecer: não fora o som surpreendentemente alto da sua respiração e eu poderia ter-me imaginado sozinha na cama. Abri os dedos e as pontas tocaram numa mancha molhada no colchão

- o seu esperma, sem dúvida, e logo me veio ao espírito a rotina banal da lida caseira, a necessidade de mudar outra vez os lençóis, postos de lavado há menos de um dia...

 

Fora um erro convidá-lo a passar a noite comigo. Tínhamos feito amor, que era obviamente o que eu queria, uma súbita e simples necessidade de sexo eficiente e relativamente prolongado - para poder experimentar os seus prazeres singelos e viscerais sem nenhuma das complicações pessoais do preâmbulo e do epílogo. Philip era a única pessoa que podia dar-me isso, e tinha-o feito, com, para ele, uma dimensão acrescida de gozo (já se passara mais de um ano desde a última vez), mas mergulhara no sono literalmente um minuto depois de terminar, parecia-me, com a cabeça colada à cova entre o meu ombro e o seio, as pernas contra as minhas, uma mão espalmada na minha coxa. Só ao fim de dez minutos de pequenas manobras pacientes me tinha conseguido libertar dos vários contactos com o seu corpo e agora estava deitada, imóvel e intocada na minha pequena zona de frescura, desejando que ele estivesse lá longe em sua casa e tentando não sentir raiva de mim mesma.

 

Conheci Philip em 1928 no campus da UCLA1, onde eu frequentava aulas suplementares de alemão à noite. Philip também estava a estudar alemão, com um vago projecto de ir trabalhar para a Alemanha, na indústria cinematográfica. Eu tinha um interesse ávido em melhor compreender e traduzir alguns dos artigos de Kranewitter publicados na Metall, enquanto Philip procurava apenas adquirir uma fluência coloquial básica. Tinha sido um dos seus muitos caprichos passageiros; neste caso durou três semanas, mas o seu entusiasmo sobreviveu o tempo suficiente para que reparássemos um no outro, nos achássemos mutuamente atraentes e combinássemos os tão casualmente encontros a dois.

 

Jantámos fora, saímos juntos. Naquela época eu era muito mais elegante e, tenho a certeza, uma companhia muito mais divertida. Sem grandes sobressaltos, encetámos um namoro. Algumas semanas mais tarde, entre dois apartamentos, Philip veio dormir na minha casinha no bairro de Westwood e, discretamente, foi-se deixando ficar. Casámos pouco depois, na primavera de 1929. Coleman nasceu um ano mais tarde, azul e condenado, e quando ele morreu toda a felicidade pareceu abandonar-nos. Divorciámo-nos no México nesse verão e só passado um ano constrangedor conseguimos ficar amigos outra vez. Eu sabia que Philip ainda se sentia atraído por mim, mas eu tinha mudado e, por muito que ele me divertisse, a sua manifesta fraqueza era-me agora demasiado evidente. Passou muito tempo até eu baixar a guarda e dormirmos juntos de novo. Esta noite tinha sido a quarta vez. Tais ocasiões estavam a tornar-se progressivamente menos agradáveis.

 

Esgueirei-me para fora da cama mas consegui mesmo assim puxar o lençol de cima dele. Philip não se mexeu. Na penumbra feita de sombras do quarto fechado eu conseguia ver distintamente o seu pénis longo e esguio apoiado sobre a curvatura da coxa e o brilho pálido do sémen, como o rasto de um caracol, correndo desde a ponta do pénis até aos meus lençóis amarrotados mas limpos. Voltei a cobri-lo e fui até à casa de banho, fechando

 

Universidade da Califórnia (Los Angeles). (N. T.)

 

a porta atrás de mim antes de acender a luz. Fiquei perplexa, o que me acontecia regularmente, ante o corpo pálido e compacto da mulher reflectida no espelho, os seios macios e grandes, o ventre firme pregueado sob o umbigo... A imagem mental que possuía de mim própria tinha ficado cristalizada em

1926, o ano em que me diplomara pelo MIT1, "Mestre em Arquitectura", autorizada a acrescentar "Arquitecta e Engenheira" depois do nome, jovem, esguia e entusiástica, com os meus olhos de grandes pestanas cheios de esperança. A realidade pesadona e de anca larga apanhava-me sempre desprevenida em momentos como este. Voltei a desligar a luz, sentei-me e fiz o que tinha a fazer no escuro, pensando de repente, sem razão especial, no magro e desfocado Hugh Paget, o meu pai inglês, e neste estranho moreno e irritante que tão bruscamente queria corrê-lo à viva força da minha vida e das minhas memórias. O doutor Salvador Carriscant, pequeno, largo de ombros, veemente e temperamental, com uma propensão para a lágrima fácil absurda num homem adulto, arrogante e impaciente, estrepitoso na busca de satisfação dos seus bizarros interesses... De uma forma incomodativa, frustrante, eu começava a sentir que já o conhecia há longos anos.

 

Almocei com a minha mãe na Cozinha Espanhola, a do Beverly Boulevard. Nada havia de invulgar em nos encontrarmos assim: almoçávamos juntas de dois em dois meses ou coisa parecida, muitas vezes por sugestão dela. Estou certa que ela se sentia curiosa acerca de mim e da minha vida, mas era demasiado educada para alguma vez me fazer perguntas directas. Porém,

 

Massachusetts Institute of Technology. (N. T.)

 

não era raro eu dar-me conta que ela me examinava minuciosamente, como se mudanças ínfimas na minha aparência física - uma tonalidade de baton diferente, uma blusa nova, uma permanente - lhe fornecessem pistas sobre a pessoa com quem eu saía nesse momento, se eu estava ou não satisfeita, como é que a vida em geral me corria. Eram encontros amigáveis, estes, dado que gostávamos uma da outra e, mais importante ainda, nos respeitávamos uma à outra, isto para não falar do facto de a minha mãe parecer mais animada e senhora de si longe da jovialidade ruidosa do Rudolf. Passámos as nossas duas horas juntas sem nenhuma tensão nem boas maneiras forçadas. Ela gostava de comida condimentada e com muita pimenta para a qual Rudolf não tinha estômago e que ela nunca cozinhava em casa - e portanto havia tendência para escolhermos restaurantes espanhóis ou mexicanos, onde ela saboreava menudo ou chiles verdes rellenos com um prazer evidente. Tal como em ocasiões anteriores, perguntei a mim mesma onde teria ela adquirido este gosto - no Oriente, talvez? Seria, juntamente comigo, uma herança do seu breve casamento com Hugh Paget?

 

Quando a nossa refeição se aproximava do fim, perguntei-lhe num tom casual se ela me poderia fazer um favor, nada de especial, mas que talvez implicasse ter de passar uma hora ou duas sentada comigo no carro. Mostrei-me deliberadamente vaga e pouco específica.

 

- Mas com certeza - disse ela. - Tem alguma coisa a ver com o teu processo em tribunal?

 

- Sim e não - menti eu em parte. Tinha-lhe contado tudo sobre Meyersen e as suas manigâncias durante o almoço, tentando não deixar que a minha voz soasse demasiado triunfante. George Fugal telefonara-me às 11 h. e 30 minutos dessa manhã para me anunciar a assinatura do contrato Turner e a conclusão da venda. A K. L. Fischer Inc. obtivera um lucro de 21 058 dólares na sua primeira transacção imobiliária e estavam já a ser elaboradas as escrituras de compra do novo terreno que tínhamos encontrado em Silver Lake, um love de um hectar onde, em caso de necessidade, poderíamos construir duas casas ou um conjunto de moradias. Sentia já a minha animosidade em relação a Meyersen começar a apagar-se, diminuir, distanciar-se no passado.

 

Rolámos pelo Beverly abaixo direitas ao centro e à grande torre branca do edifício da Câmara Municipal. Chegadas à Olive Street, estacionei o carro obliquamente do lado contrário ao da hospedaria de Carriscant, e a minha mãe e eu fumámos um Picayune cada enquanto nos preparávamos para esperar.

 

Passados cerca de trinta e cinco minutos, vi Carriscant, vindo das bandas do funicular, descendo a Olive Street do nosso lado. Trazia uma gabardina castanho-clara que eu não lhe vira antes e um embrulho de papel pardo debaixo do braço. Deixei-o aproximar-se mais e, no momento em que ele se preparava para atravessar a rua, disse à minha mãe numa voz o mais despreocupada possível:

 

- Aquele homem que vai ali a atravessar a rua... Conhece-lo de algum lado?

 

Mantive os olhos sempre fixos no rosto dela.

 

Ela observou-o com atenção.

 

Carriscant parou ao chegar à escada da frente, sobre a qual se recostava o contingente habitual de filipinos, e tirou o chapéu respeitosamente enquanto trocava algumas palavras com eles.

 

- Não - disse ela devagar. Não creio. Parece-se um pouco com aquele actor velho, tu sabes qual.

 

Não vi fosse o que fosse, nem uma tremura, nem um pestanejar, nem um músculo crispando-se. Ela virou-se e cruzámos olhares.

 

- Quem é ele?

 

- Acho que deve ser um detective privado, contratado pelo Meyersen. Queria saber se ele por acaso tinha andado a rondar-te, a bisbilhotar, a fazer perguntas...

 

- Não, nem pensar. - Sorriu. - Era só isto? Podes deixar-me na Bullock's?

 

Estou parada no interior do 2265 da Micheltoreno. Agora está construído, pronto, acabado para todos os efeitos. O sol do entardecer brilha obliquamente através do vidro laminado da parede oeste, projectando uma sombra bem marcada no estuque liso de cor ocre. Sinto que o espaço da casa se contrai à minha volta, com os seus volumes de ar empilhados e reunidos, encaixotados e confinados pelos respectivos materiais. As ramadas simples no pátio, as superfícies planas das paredes de vidro e as paredes de estuque adjacentes, o jardim na varanda definido pelas duas traves de carvalho, a maneira como o corredor se funde no volume do átrio, o qual por seu turno desliza escada abaixo até ao terraço de gravilha sob a fachada ocidental. Serenidade e ordem. Ausência de barafunda, um mundo impassível de arestas lisas, de ângulos exactos, e tudo concebido por mim. Por um momento, aqui parada no quarto vazio, desce sobre mim uma certa paz. Penso que isto é o mais próximo da felicidade que me é possível alcançar nestes tempos.

 

A minha mãe tinha mentido bem. De facto, a perícia de que dera mostras tinha sido nada menos que brilhante. Que tremendo choque ela ocultara, que turbulência maciça de emoções conseguira esconder sob uma aparência de absoluta calma e placidez. O seu único erro tinha sido esquecer-se da curiosidade natural. Quando uma filha informa a mãe de que um rival do mesmo ofício talvez tenha contratado um detective privado para lhe seguir os passos, a mãe não pede imediatamente para ser deixada num grande armazém de lojas. E a sua despreocupação forçada tivera o efeito de transformar em crença e aceitação o que a princípio não passara de instinto e suspeita. A ousada e incrível alegação de Carriscant começava agora a tomar contornos de facto incontroverso. com uma estranha mescla de relutância e alívio, fui obrigada a admitir que aquilo de que suspeitara desde o início assomava agora como uma certeza biográfica: Salvador Carriscant era meu pai.

 

Larry Rugola, mal barbeado de fresco, o sangue ainda a brilhar num corte com péssimo aspecto abaixo da orelha, veio buscar-me ao meu apartamento às 7 da manhã para irmos de carro visitar o novo terreno em Silver Lake. Tratava-se uma vez mais de um love inclinado (os terrenos planos estavam para além das minhas possibilidades, por enquanto), com uma vista distante sobre a represa. Uma curta estrada secundária de betão rasgava este flanco da colina e, no sopé, deparou-se-nos uma vedação de rede com um portão fechado a cadeado. Presos à vedação, painéis sedutores de empresas imobiliárias anunciavam os lotes para venda, proclamando "VISTA SOBRE O LAGO!" em letras excitadas.

 

Era verdade: à luz clara da manhã, por entre os carvalhos e as pimenteiras, eu conseguia ver à justa uma tira de água cinzenta.

 

Larry destrancou o portão e percorremos o nosso hectar, trazendo connosco os planos e uma fita métrica. Virei-me e olhei de volta para a estrada: uma pessoa seria capaz de saltar desta directamente para cima do telhado de qualquer moradia de um só piso, tal era a inclinação da encosta.

 

Lancei ao Larry, que caminhava com um ar solene, contando as suas grandes passadas: - Podíamos construir sobre vigas em balanço, em vez de escavarmos a encosta.

 

- Não fica barato.

 

- Então e se fossem duplex? Apartamentos duplex, uma fiada de três, ou mesmo quatro?

 

Larry veio tranquilamente até junto de mim, enrolando a fita métrica. - É uma ideia - disse. - Dessa maneira conseguia-se acompanhar o declive.

 

- Salas de estar em cima, quartos em baixo. Desce-se um degrau e fíca-se com um terraço por cima do tecto do quarto. - com vista para o lago e tudo.

 

Pusemo-nos outra vez a tirar medidas, com um fervor renovado. O love tinha uma forma bizarra em leque, alargando-se no sopé da colina. Abrimos caminho através da salva e dos arbustos de loureiro-bravo até à base da ladeira, onde o solo mergulhava aos poucos num arroio entupido de vegetação. Os lotes de ambos os lados estavam ainda desocupados, mas detrás de um renque de árvores, sobre a esquerda, chegava-nos o som repercutido de marteladas.

 

- Fica com uma data de terreno livre na frente - disse Larry.

 

- Podemos ajardiná-lo e cobramos um extra.

 

- Parece-me uma excelente ideia.

 

Voltámos a pôr o cadeado no portão antes de retomarmos a estradinha até Ivanhoe.

 

- A nossa rua já tem nome? Que tal Lakeview? - disse Larry.

 

- Lago Vista é melhor. "A colina de Lago Vista." Soa bem.

- Bati no ombro do Larry. - Vire aqui à direita, Larry, vamos pela Micheltoreno, quero rever a casa velha.

 

Serpenteámos para oeste no meio do tráfego até Angus e depois virámos para sul na Micheltoreno. Senti um rebuliço agradável nas entranhas, uma velha sensação que há muito não experimentava - felicidade, excitação. Baptizar uma rua, dizer "a casa velha"; exprimia progresso, o desenvolvimento de uma obra, uma avenida de amanhãs radiantes.

 

Chegámos ao alto de uma subida na Micheltoreno e o número 2265 surgiu diante de nós. A dominá-lo erguia-se um guindaste esguio, cujo braço içava uma secção plana do telhado, sob a orientação de um grupo de homens envergando fatos-macaco verdes. Um bulldozer verde fazia marcha-atrás na área do terraço completamente aplanada, resfolegando vapores de diesel, e outros homens juntavam as vigas de madeira sólida, restos da latada do pátio coberto. Junto ao passeio estavam estacionados dois camiões de transporte de entulho, que tinham escrito nos lados "John Dexter Demo-Lições".

 

- Raio de merda! - exclamou Larry Rugola parando o carro, os olhos arregalados tentando entender o que se passava.

- Raio de merda do caralho!

 

Corremos para a casa, onde um homem de fato-macaco verde tentou barrar-nos o caminho enquanto a secção do telhado, balançando suspensa no ar, era transferida por sobre as nossas cabeças para a caixa de um camião. Do interior da casa vinha o silvo plangente das serras eléctricas e o barulho dos pés-de-cabra manejados com entusiasmo, forçando madeiras e arrancando pregos. Dois homens transportando a banheira emergiram da abertura que anteriormente fora a porta principal, seguidos por três outros de fato completo e capacetes de alumínio, lenços no nariz para se protegerem da poeira. Um deles tirou o capacete e uma mecha de finos cabelos loiros esvoaçou ao vento.

 

- Ah, Mrs Fischer - disse Eric Meyersen. - Sempre extemporânea. Queria que visse o terreno já limpo. Ia telefonar-lhe. Espero que tenha guardado um registo fotográfico.

 

O guindaste rodopiou para recolher outra secção do telhado.

 

- Onde está Mrs Luard Turner? - disse eu, fitando-o, tentando não olhar à minha volta.

 

- Julgo que se candidatou a um papel na Metro - disse Meyersen. - Uma senhora talentosa. E cobra honorários bastante razoáveis.

 

Foi então que dei um passo em frente para o esbofetear, para lhe arrancar os olhos claros da cara sorridente, mas Larry Rugola segurou-me pelo cotovelo.

 

- Vamos embora, Mrs Fischer. Deixe estar esse pulha. Caminhámos depressa até ao carro.

 

- Não se preocupe - gritou-me ainda Meyersen. - Vamos construir outra casa aqui. com um projecto muito parecido, de facto. Só o arquitecto é que vai ser diferente, mais nada.

 

Arrancámos pela Micheltoreno abaixo. Larry, laboriosa e convictamente, cumulava Meyersen com todas as obscenidades do seu repertório. Uma litania pertinaz, logo abafada por um bramido surdo nos meus ouvidos, o meu sangue a ferver, deduzi, um caudal vermelho e espumoso, aquecendo-me as artérias, escaldando-me os órgãos internos com a sua raiva furiosa. O ruído acabou por tornar-se mais fraco, ou diluiu-se no trânsito, quando virámos para oeste no Sunset e avançámos às cegas, rumando algures para o oceano distante banhado pelo sol.

 

Carriscant desviou o olhar da janela. Através do vidro oval eu podia ver a asa cor de prata crivada de tachões, a nacela do motor e metade do disco fumado da hélice, impulsionando o aparelho através do ar rarefeito das alturas. Voávamos para Nova Iorque a bordo do Sky Chief áa. companhia Transcontinental and Western. Algures por baixo de nós estava Montana. Ainda nos faltavam dezoito horas de viagem.

 

- É realmente extraordinário - disse Carriscant, batendo com as palmas das mãos nos braços do assento, depois indicando com um gesto o corredor central do avião, - os outros passageiros e a hospedeira aprimorada que servia chávenas de café.

- Aqui estamos nós, sentados numa poltrona, com gente a servir-nos bebidas... Pensar que podemos fazer tudo isto, em tão pouco tempo, aqui em cima no ar. É inacreditável. Sinto-me como se tivesse levado um valente dunt na cabeça e acordasse num mundo diferente. Como Rip van Winkle, sem tirar nem pôr.

 

- Dunt? O que é um duntl

 

* Optou-se por não traduzir este substantivo, dado que tal não faria qualquer sentido. (N. T.)

 

Ele casquinou. Estava de bom humor, notava-se. - É uma palavra escocesa. Quer dizer uma "pancada", uma "cacetada". O meu pai dizia-a muito.

 

Pressenti que se aproximava uma das minhas raras oportunidades: ele parecia receptivo a algumas perguntas.

 

- O seu pai era escocês?

 

- Sim. De uma cidade chamada Dundee. Chamava-se Archibald Carriscant.

 

- Então Carriscant é um nome escocês?

 

- É o nome de uma aldeiazinha em Angus. Também existe um rio Carriscant, afluente do Tweed.

 

- Então você é de origem escocesa - disse eu devagar, assimilando tudo isto. Angus. Tweed.

 

Ele olhou-me atentamente, não se deixando enganar pela minha candura, dando pancadinhas com o dedo médio na cova do queixo, hesitando entre responder-me e deixar morrer a conversa. Pela minha parte interroguei-me se ele não estaria a arquitectar alguma trapaça intrigante, para me engodar um pouco mais.

 

- Sou meio escocês, na verdade - replicou ele. - E um quarto espanhol e outro quarto filipino.

 

Disfarcei a minha intensa surpresa. - Ah. Daí o Salvador.

 

- Exactamente. Achas que podias pedir à jovem que me sirva um pouco de café?

 

Vista sob uma determinada perspectiva, esta tinha sido uma das decisões mais fáceis da minha vida - ele era meu pai e fizera-me um pedido - vista de outro ângulo diferente, tinha sido a mais irreflectida e espontânea de todas. Mas Eric Meyersen e a sua destruição gratuita e brutal da minha casa haviam funcionado como uma poderosa força propulsora. Quando George Fugal me disse que eu nada podia contra Meyersen, que em termos legais este tinha todo o direito de fazer o que fizera, eu compreendi que devia sair da cidade por uns tempos, fugir da vergonha, deixar para trás o alvo da minha ira e do meu rancor. Acima de tudo, precisava de tempo.

 

De modo que quando Salvador Carriscant me visitou de novo com a sua agora tentadora proposta de uma viagem à Europa encontrou-me banhada em lágrimas. - fraca e fácil de convencer. Ele pôs os braços à minha volta, bateu-me devagarinho nas costas e murmurou-me ao ouvido palavras de consolo. - Pronto, pronto, Kay... Não te preocupes, tudo isto vai passar. - Eu abracei-o com força e deitei as mágoas cá para fora, contei-lhe a traição de Meyersen e a minha impotência. - Vem comigo - Kay, disse ele. - Só nós dois, tu e eu, para longe disto tudo. Tira umas férias, reflecte na situação com calma e depois quando voltares endireitas as coisas outra vez. Por uma vez era isto o que eu queria ouvir e por uma vez queria que outra pessoa governasse o curso da minha vida por uns tempos. Estava exausta, cansada de me defender sozinha... Todos já experimentámos essa sensação, quão vulneráveis nos sentimos, quando o nosso único desejo é que seja outra pessoa a assumir as responsabilidades. E foi exactamente isso que o meu pai fez ao pedir-me que partisse com ele. E eu aceitei de bom grado. Que outra coisa me restava?

 

Pus de lado todos os planos para os apartamentos Mira Lago, disse a Larry Rugola que ia de férias - ele compreendeu - e gastei uma parte dos lucros da venda do número 2265 da Micheltoreno para embarcar nesta "demanda". Zarpávamos dali a dois dias de Nova Iorque para Lisboa a bordo do S.S. Herzog, da companhia Hamburg-American, à custa de Eric Meyersen. Tentei extrair alguma satisfação deste facto, mas não fui capaz. Desde a destruição da minha casa, o meu moral nunca estivera tão em baixo. Carriscant, pelo contrário, estava positivamente rejuvenescido pela perspectiva da nossa viagem, dinâmico e bem-humorado, quase ao ponto de se tornar insuportável. Eu pusera apenas uma única e inamovível condição: ele tinha que me contar tudo, que enigma era este afinal de contas, quem era esta esposa dum diplomata e que mistério iria ser desvendado em Lisboa se a encontrássemos lá. Julguei chegado o momento de lhe recordar esta obrigação.

 

- Oh, eu conto-te - disse ele despreocupadamente. - É uma longa história. Quando tivermos chegado a Lisboa saberás tanto como eu.

 

- Perfeito - disse eu. - Comecemos pela árvore genealógica.

 

Eis o que ele me contou. Archibald Carriscant era um engenheiro, membro dessa diaspora mundial de profissionais escoceses, e tinha quarenta e poucos anos em 1863, quando desembarcou pela primeira vez nas Filipinas - na época uma colónia espanhola -, enviado pela firma Melhuish & Cobb, com sede em Hong Kong, para supervisionar a reconstrução do molhe sul que formava a entrada do porto de Manila, junto do rio Pasig. Concluída essa tarefa, foi-lhe confiada a construção do caminho de ferro a vapor de bitola estreita ligando os embarcadouros aos armazéns e barracões de mercadorias por detrás do edifício da alfândega. A Melhuish & Cobb obteve o contrato para a construção da linha férrea Manila-Dagupan, financiada por um consórcio inglês, e Archibald Carriscant passou o resto da sua vida profissional a percorrer de uma ponta à outra as centenas de quilómetros que separavam a baía de Manila do golfo de Lingayen, projectando canais de escoamento, diques, aterros e pontes. Homem alto, de pele clara, tímido, calvo desde os vinte e poucos anos, Archibald Carriscant tinha-se resignado, sem grande mágoa, a uma vida de celibato permanente. Contudo, na época em que estava a instalar em Tarlac as linhas de manobra para vagões de mercadorias, travou amizade com um proprietário mestizo local, Don Carlos Ocampo. Durante o mês em que esteve hospedado na propriedade de verão de Don Carlos, perto de Tarlac, ficou muitíssimo admirado ao descobrir que os galanteios tímidos, quase imperceptíveis, que dirigira à filha mais velha do seu anfitrião, Juliana, haviam sido coroados de sucesso. Casaram-se um ano depois e foram viver numa grande casa que Don Carlos lhes ofereceu em Intramuros, a velha cidade murada no coração da malha urbana de Manila. Em 1870, Archibald Carriscant foi nomeado director regional das operações da Melhuish & Cobb em Luzon, e Juliana deu à luz um filho, Salvador. Filho único, inteligente e alegre, Salvador foi educado na Escola Municipal para Rapazes e prosseguiu gstudos em Medicina na Universidade de San Tomas. Em 1893, a pedido do pai já doente, partiu para a Europa para completar os seus estudos e diplomar-se em cirurgia pela escola médica da Universidade de Glasgow. Archibald Carriscant morreu enquanto o filho estava ausente na Escócia. Salvador Carriscant regressou a Manila em 1897 para começar a exercer.

 

- E passado pouco tempo, conheci a tua mãe - disse Carriscant.

 

- Em Manila? - Todas estas revelações começavam a confundir-me.

 

- Claro. Onde é que julgavas?

 

- Não interessa. - Caminhávamos de volta para o hotel, vindos de uma churrasqueira na Rua 41.

 

- E depois começou a guerra - disse Carriscant com um encolher de ombros.

 

- Qual guerra?

 

- A guerra entre os Estados Unidos e as Filipinas. Decidi que bastava de perguntas por aquela noite.

 

Pela manhã, depois de uma visita ao Consulado português para me carimbarem um visto no passaporte (Carriscant, sendo cidadão britânico, não precisava destas formalidades), entrei numa livraria para tentar descobrir mais sobre este conflito americano-filipino, mas não consegui encontrar fosse o que fosse. Contudo, num pequeno volume intitulado História de Bolso dos Estados Unidos da América 1492-1930 deparei com o seguinte parágrafo, que transcrevi.

 

Uma das consequências da Guerra Hispano-Americana foi a libertação das ilhas Filipinas do jugo do poder imperial quando o comodoro George Dewey destruiu a frota espanhola na baía de Manila, a 1 de Maio de 1898. Os rebeldes filipinos, comandados por Emilio AguinaJdo, que se tinham revoltado contra os governantes hispânicos alguns anos antes, viram na Guerra Hispano-Americana uma oportunidade para declarar a independência e constituir uma república filipina. Quando descobriram que os Estados Unidos se propunham apenas substituir a Espanha no papel de potência dominadora, os insurrectos, como eram conhecidos, atacaram prontamente os seus antigos libertadores a 4 de Fevereiro de 1899 e puseram cerco a Manila. A guerra subsequente durou três anos e apenas terminou após a captura do chefe rebelde, Aguinaldo, em 1901. Este .conflito, um dos mais prolongados e mortíferos nos anais do império, cobrou um pesado tributo. Pereceram cerca de 230 000 homens, mulheres e crianças, dos quais 4234 valorosos soldados americanos, e o custo para os cofres da nação foi a quantia astronómica de 600 milhões de dólares.

 

Archibald e Juliana Carriscant e o seu filho Salvador... O comodoro George Dewey e a batalha da baía de Manila... A captura de Emílio Aguinaldo... Seiscentos milhões de dólares do dinheiro dos contribuintes americanos gastos numa esquecida e sangrenta aventura colonial do outro lado do mundo... O que é que tudo isto tinha a ver comigo? Perguntei a mim mesma como é que isto podia explicar a minha viagem a Lisboa, na companhia de um homem que afirmava ser meu pai, em busca de uma mulher cuja cara eu conhecia de uma página arrancada a uma revista ilustrada de 1927.

 

A nossa viagem a bordo do S.S. Herzog foi de uma tranquilidade rara e gratificante. A superfície do Atlântico manteve-se espelhada e dócil enquanto singrávamos para leste envoltos numa luz fraca e brumosa, o penacho esfarrapado de fumo das nossas duas chaminés altas arrastando-se atrás de nós teimosamente, como que relutante em dissipar-se nas suaves brisas oceânicas.

 

Durante os dez dias que durou a travessia, Carriscant cumpriu à risca a palavra dada - contou-me tudo, e respondeu sem reticências a todas as perguntas que lhe coloquei, por mais embaraçosas que fossem ou por mais que as respostas pudessem manchar o retrato do seu carácter ou dos seus motivos. Como o leitor verá, a sua franqueza foi impressionante. Eu mantive registos copiosos de tudo o que ele me foi revelando e, sempre que possível, tentei apanhá-lo em falso ou corroborar certos detalhes. Ao reproduzir aqui a sua história permiti-me alguma da liberdade do romancista, adornei-a com informações que obtive mais tarde e com factos coligidos nas minhas próprias pesquisas. Mas no fim de contas esta é a história de Salvador Carriscant e eu vi-me obrigada, como qualquer outro nas mesmas circunstâncias, a confiar no narrador. Contudo, o que se segue é, estou em crer, o mais próximo da verdade a que seria possível chegar.

 

         MANILA, 1902

         Língua

De acordo com a memória dos acontecimentos que ele próprio guardou, no dia do primeiro assassinato, o doutor Salvador Carriscant - o cirurgião mais célebre das Filipinas - saiu de casa apoquentado por uma ligeira dor de cabeça e decidiu, como fazia ocasionalmente, ir a pé até ao trabalho. Naquela época, em Manila, ninguém com o mínimo de importância ou de amor-próprio, com uma réstia que fosse de respeito por si mesmo, andava a pé pelas ruas, mas o doutor Carriscant apreciava o curto passeio desde a sua bela casa na Calle de la Victoria até ao hospital de San Jeronimo, não apenas porque suscitava nele um agradável sentimento de solidariedade libertária mas também porque este interlúdio o ajudava a acalmar-se, a esquecer as irritações e a frustração da sua vida doméstica e a desanuviar o espírito para as tarefas quotidianas, estimulantes mas complexas, que o esperavam nas enfermarias do hospital.

 

O hospital de San Jeronimo em Manila era um edifício relativamente recente, tendo sido concluído em 1878 e remodelado quase vinte anos mais tarde, aquando da instalação da luz eléctrica. Segundo dissera a Carriscant um membro já idoso do conselho de administração do hospital, a traça do edifício fora até certo ponto inspirada no Palazzo Salimberri de Siena e, na realidade, a fachada virada para a rua apresentava certas semelhanças com um rude edifício do quattrocento, toda ela construída em tijolos de adobe de arestas bem marcadas, com um telhado de duas águas em telhas de terracota, sobre o qual cresciam inúmeros fetos, musgos e outras ervas daninhas. Um portão em arco com pesados batentes de madeira e, na parede acima deste, uma fiada de pequenas janelas quadradas, conferiam ao conjunto um aspecto sólido e irredutível, como se o edifício tivesse que ser defendido em caso de insurreição ou pudesse servir de estabelecimento prisional. Lá dentro, contudo, abria-se um vasto pátio empedrado, rodeado em três lados por um claustro e em cujo topo se encontrava um viçoso jardim botânico murado, percorrido por carreiros sinuosos de cascalho. Vários consultórios médicos, gabinetes administrativos e o dispensário davam para as arcadas dos claustros, ao passo que os blocos operatórios, e o hospital dispunha de dois, situavam-se noutras tantas alas atarracadas que se projectavam do corpo principal da construção, para este e para oeste, em lados opostos do jardim, como se alguém tivesse decidido acrescentá-las tardiamente. A sala de operações do doutor Carriscant situava-se na ala este. O director clínico do hospital de San Jeronimo, doutor Isidro Cruz, praticava a sua arte na projecção ocidental.

 

O plano do San Jeronimo era simples e, contanto que o número de doentes não aumentasse demasiado depressa, como acontecia quando se declaravam epidemias de cólera ou de varíola, revelava-se bastante eficiente. Os pacientes começavam por visitar os médicos no piso térreo, e estes, quando necessário, encaminhavam-nos para os cirurgiões. Os cuidados pós-operatórios eram ministrados nas enfermarias que ocupavam o andar superior. As únicas desvantagens do edifício acabavam por ser a inexistência de laboratórios e salas de dissecção e as dimensões algo exíguas da morgue. Consequentemente, experiências e trabalhos de anatomia tinham que ser efectuados no hospital de San Lázaro ou em clínicas particulares. San Jeronimo gozava, quase desde a sua fundação, da fama de excelente hospital, graças à celebrada destreza do doutor Cruz (que, num só dia em 1882, levara a cabo mais de três dúzias de amputações), mas essa fama tinha aumentado ainda mais em anos recentes desde o regresso de Salvador Carriscant da Escócia, ocorrido em 1897, e da introdução por parte deste do listerismo1 e dos mais recentes métodos cirúrgicos, com o notável acréscimo na taxa de sucessos resultante destas inovações. A

 

' De Joseph Lister (1827-1912), cirurgião britânico que introduziu o uso de anti-sépticos. (N. T.)

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administração do hospital tinha já aumentado o seu ordenado-base por quatro vezes, além de lhe ter concedido o título honorífico de cirurgião-chefe, medida que o doutor Cruz contestara publicamente com grande veemência e que tivera o condão de selar e, por assim dizer, oficializar, a animosidade pessoal que os dois cirurgiões nutriam um pelo outro. Em público os dois homens mantinham uma aparência de reserva cortês, embora profissional, mas toda a gente sabia que o doutor Cruz detestava o doutor Carriscant e tudo o que este advogava enquanto médico. Tais sentimentos eram recíprocos: para Cruz, Carriscant era um maníaco das inovações e um experimentador descuidado; para Carriscant, Cruz não passava de uma mistura de endireita antediluviano e artista de circo sinistro, e assim por diante.

 

O doutor Carriscant atravessou o largo portão em arco, retribuindo o cumprimento respeitoso do porteiro de serviço. A sua dor de cabeça era agora menos intensa, notou ele com prazer, e sentia-se ansioso pela primeira operação do dia, a extirpação de um grande tumor na língua de um adolescente. Tencionava praticar um novo tipo de incisão, que lhe iria permitir coser a ferida em vez de a cauterizar como era prática habitual, de tal modo que o rapaz talvez conseguisse falar, ainda que defeituosamente, depois de curado. Extirpações destas eram a especialidade do doutor Cruz, que se gabava de as executar em poucos segundos, como se lancetasse furúnculos, mas Manila estava cheia de semimudos gemebundos, com línguas desnecessariamente reduzidas a cotos, fruto da celeridade desajeitada de Cruz. Se a operação daquele dia fosse um sucesso, iria abalar ainda mais a boa reputação imerecida de Cruz: o director clínico do hospital de San Jeronimo ficaria com ainda menos trabalho para fazer.

 

Ao atravessar o pátio em direcção ao seu consultório, Carriscant reparou que a sala de espera estava já cheia e havia meia dúzia de pessoas sentadas num banco corrido de madeira do lado de fora da porta. Deitou uma olhadela ao consultório de Cruz no lado oposto e viu que a porta principal estava fechada e as persianas corridas. O número de pacientes de Cruz não cessava de diminuir desde o regresso de Carriscant, e agora apenas a ignorância ou o mais completo desespero levavam alguém a solicitar uma consulta com o velho cirurgião. Pertencia a uma espécie em extinção, este Cruz, meditou Carriscant, era uma curiosidade pré-histórica, um símbolo dos maus velhos tempos da profissão, mas manejava bem o bisturi, havia que admiti-lo, e tinha um golpe de vista impecavelmente seguro. E era rápido, Cruz - rápido como o Diabo. Durante a guerra, os seus conhecimentos de perito tinham sido extremamente solicitados e ele praticara centenas de amputações mas, com o fim do conflito, a sua actividade abrandara de novo e agora o velhote passava a maior parte do tempo no seu grande rancho em Flores, onde continuava a exercitar-se operando macacos e cães no laboratório particular que aí mandara construir. Carriscant nunca esqueceria a primeira e quase última intervenção cirúrgica que executara juntamente com Cruz. Cruz tinha acompanhado atentamente com o olhar a sua lavagem das mãos precedendo a entrada na sala de operações. "Vejo que prefere lavar as mãos antes da operação, Carriscant - comentara Cruz em tom ácido. - Eu prefiro lavá-las depois." Durante as rondas pelas enfermarias, a sua franqueza brutal tornara-se também legendária: "Isso é um dos piores cancros que alguma vez vi", lançava ele a uma qualquer alma agonizante, encolhida sob as cobertas. Ou: "A perna vai ter que sair, e a anca também, o melhor é não correr riscos inúteis." Ou ainda: "Estados como o seu, meu caro amigo, são inevitavelmente fatais. Duvido que alguma vez volte a sair deste hospital."

 

O doutor Carriscant foi saudado pela sua secretária, a senora Diaz, uma mulher pequena, desengraçada e eficiente, com uma infeliz profusão de pêlos faciais, e passou os olhos pela agenda desse dia que ela elaborara. O rapaz do tumor já estava preparado. Restavam a Carriscant apenas alguns minutos para visitar os doentes na sua enfermaria antes de iniciar o trabalho.

 

- O Dr. Quiroga já chegou? - perguntou ele.

 

- Sim. Foi até ao dispensário.

 

Pantaleão Quiroga era o seu anestesista e o seu melhor amigo. Era um homem ainda jovem, à beira dos trinta anos, um filipino - um ilustrado, como eram conhecidas as classes instruídas - do sul de Luzon que fora educado em Manila e estudara Medicina em Madrid e depois em Berlim. Tal como Carriscant, tinha-se entusiasmado pelos últimos desenvolvimentos na prática cirúrgica e regressara a Manila determinado a proporcionar ao seu povo os benefícios da ciência médica. Não era, contudo, um cirurgião nato, faltava-lhe o "toque" misterioso, o dom que só alguns possuem e não pode ser adquirido, e tinha sido Carriscant que o convencera a dedicar-se à anestesia. Trabalhando em equipa no hospital de San Jeronimo, tinham desenvolvido uma compreensão mútua que era caso único na medicina do arquipélago. Graças à sua formação, Quiroga podia também prestar auxílio nas operações mais delicadas - era como ter quatro mãos, dizia Carriscant - e a sua perícia no manejo da garrafa de clorofórmio pedia meças à de qualquer um dos anestesistas mais prestigiados de Baltimore ou Paris, afirmava Carriscant.

 

Ouviu-se um toque suave na porta e Pantaleão Quiroga entrou. Trazia a bata branca já vestida e o barrete na mão. Era um homem dolorosamente magro e além disso alto, de uma estatura invulgar para um filipino, ultrapassando Carriscant por uma boa cabeça, com um bigode bem aparado e olhar melancólico. Solteiro, vivia sozinho (os pais já haviam falecido) fora de Intramuros, em Santa Cruz, donde apanhava todos os dias o trem puxado por cavalos até ao hospital. Frequentemente, Carriscant dava por si a interrogar-se sobre o que faria Pantaleão com o seu considerável salário, acrescido dos honorários suplementares cobrados em seu benefício. Imaginava que Pantaleão devia enviá-lo em grande parte à família no sul de Luzon - os tios e tias, a avó, os incontáveis primos -, levando em consequência disso uma existência bastante frugal.

 

Apertaram-se as mãos calorosamente, como faziam no início de cada dia de trabalho.

 

- A massa está no forno - disse Pantaleão. - Pronta a cozer.

 

- Ainda há tempo para eu fazer a minha ronda?

 

- Acho que o desgraçado vai ter um colapso. Quanto mais depressa melhor, compreendes.

 

- Vamos lá então. - Lançou uma olhadela à lista da senora Diaz, pousada em cima da sua secretária: duas amputações

- uma mão, depois uma perna à altura do joelho -, uma hérnia estrangulada e uma fístula vaginal. Podia fazer as amputações antes do almoço; a hérnia e a fístula ocupariam a tarde. Seguiu a silhueta alta de Pantaleão pelo corredor fora até à sala de preparativos, notando pelo caminho que o outro estava a perder cabelo a bom ritmo no alto do crânio. Tentou imaginar um Pantaleão careca e, por qualquer razão, esta ideia mergulhou-o numa profunda e súbita tristeza. Precisava de algo mais na vida, este Pantaleão, algo para lá do seu trabalho em San Jeronimo - um caso amoroso, uma noiva, uma esposa, uma família...

 

Carriscant tirou o casaco, vestiu uma bata branca ainda cheirando a lavada, mudou de sapatos e lavou as mãos com um forte sabão carbólico antes de entrar na sala de operações. O cheiro do desinfectante fez-lhe arder os olhos enquanto cumprimentava as suas enfermeiras, a enfermeira Santos e a enfermeira Arrieta, e inspeccionava a sala com o olhar. O soalho de madeira tinha sido esfregado até ficar verde-claro e todas as superfícies estavam limpas, brilhantes e húmidas. O zumbido ténue que emanava do grande arco de luz eléctrica montado por cima da mesa de operações confundia-se com o ligeiro tilintar dos instrumentos cirúrgicos, vibrando nos esterilizadores a vapor colocados sobre mesinhas metálicas. Carriscant respirou fundo discretamente: já começava a sentir aquela deliciosa sensação de fraqueza a percorrer-lhe o corpo, vinda das solas dos pés, uma lassidão, uma moleza nas entranhas, os cabelos arrepiando-se-lhe na nuca.

 

O doente era um rapaz chinês de catorze anos, filho de um comerciante abastado de Cavite. Estava deitado de costas sobre a mesa, bastante inclinada para permitir que a sua língua pendesse melhor para a frente, o tumor claramente visível, do tamanho de uma pequena maçã, e mantinha a boca aberta com toda a força, o que lhe dava uma expressão imbecil. Tinha a testa perlada de suor e os olhos fitaram Carriscant por um momento e depois saltaram de novo noutra direcção.

 

Carriscant tentou tranquilizá-lo com algumas frases feitas e virou-se para os seus instrumentos enquanto Pantaleão ajustava a máscara de gaze sobre a boca e o nariz do rapaz.

 

- Reparei que a ponte de Jacinto foi baixada - disse Pantaleão.

 

- Tive imensas dificuldades em chegar cá esta manhã disse a enfermeira Arrieta, passando um escalpelo a Carriscant.

- Imensas.

 

- Você devia era apanhar uma barca para o trabalho. Tem aí aquela clamped

 

- Não estou a ver a enfermeira Santos numa barca, disse Pantaleão. Ela não quer morrer afogada antes de se casar.

 

- Doutor Quiroga, importa-se! - A enfermeira Santos era de uma corpulência imponente. Não eram raras as brincadeiras na sala de operações a propósito do seu tamanho. Toda a gente se riu. O moço chinês olhou os lábios sorridentes e os ombros sacudidos pelas gargalhadas sem nada compreender.

 

- Não ajuste esse afastador bucal enquanto Pantaleão não o adormecer - disse Carriscant. - Força com isso, doutor.

 

Ainda casquinando, Pantaleão começou a deixar cair gotas de clorofórmio do frasco de vidro calibrado para a máscara de gaze, endireitando o recipiente de tempos a tempos para verificar o nível do líquido. Quando o rapaz perdeu os sentidos, as duas enfermeiras inclinaram-lhe a cabeça para a frente e afastaram-lhe as mandíbulas. Carriscant ajustou uma clampe mesmo atrás do tumor, apertou-a e puxou a língua o mais possível para fora da boca. A enfermeira Santos pegou no cabo do instrumento, segurando a língua com firmeza. Pantaleão tocou no olho do rapaz para testar o reflexo palpebral. Abriu o olho usando o polegar e o indicador: o tamanho da pupila indicava-lhe até que ponto o sistema nervoso se encontrava anestesiado. Fez um sinal aprovador com a cabeça.

 

Carriscant sentiu a respiração abrandar e o cérebro desanuviar-se enquanto fazia uma breve pausa antes de trocar o seu escalpelo por outro mais pequeno, de lâmina comprida e delgada. Passados todos estes anos, todas estas operações, a sensação era ainda e sempre a mesma: os sentidos vivificados, totalmente alerta, como se tivessem acabado de despertar de um estado de entorpecimento; uma consciência repentinamente mais aguçada, manifestando-se não apenas numa extraordinária percepção da natureza física dos objectos na sala - o brilho cintilante do metal, o leque perfeito das pestanas do rapaz repousando na pálpebra inferior, o bordo puído da manga direita de Pantaleão

- mas também numa compreensão sobrenatural dos outros seres humanos presentes em tais momentos. Sentia a melancolia inexorável na alma de Pantaleão como se fosse a ele mesmo a experimentá-la; sentia o peso e a suavidade dos seios da enfermeira Santos enchendo o algodão azul da bata engomada que ela trazia vestida; partilhava o cansaço da enfermeira Arrieta que passara a noite a pé cuidando do sogro irascível e incontinente... Todas estas emoções, todas estas sensações lhe eram apresentadas, lhe eram oferecidas, e fluindo penetravam na sua mente que tudo abarcava e recebia, para aí serem registadas e incorporadas. Conheço-vos a todos, dizia aos circunstantes o seu olhar silencioso, conheço o vosso lado humano sofredor, as vossas angústias, as vossas necessidades, os vossos anseios, tudo o que vos deixa indiferentes, as vossas costas doridas, o vosso cansaço... Sei tudo isso. E compreendo. Compreendo tudo.

 

Ergueu o escalpelo, sentiu-lhe o peso ligeiro e o seu olhar ficou preso no brilho da fina lâmina biselada. Num gesto espontâneo, a enfermeira Santos colocou uma tina de esmalte sob o queixo do rapaz. com três golpes rápidos e precisos, Carriscant fez uma incisão através das papilas fungiformes até ao tecido muscular subjacente, cortando num ângulo de quarenta e cinco graus em direcção à garganta. O sangue brotou da língua parcialmente mutilada. A enfermeira Arrieta aplicou uma mecha de gaze. Carriscant levantou a clampe para expor a parte de baixo do membro e voltou a golpear, fazendo uma bifurcação lateral, conseguindo deste modo que o bordo inferior da língua ficasse mais comprido. O tumor caiu molemente na tina. A enfermeira Arrieta passou-lhe a agulha e o fio. A ferida foi lavada com fluido anti-séptico e Carriscant coseu uma à outra as abas da língua.

 

Afastou-se, a testa seca, a garganta ressequida, os dedos da mão direita pegajosos com o brilho do sangue do rapaz. Foi até a um lavatório num dos lados da sala e fez correr água sobre os dedos ensanguentados. Absorto, reparou que tinha também grandes manchas de sangue na parte da frente da bata. Despiu-a devagar e deitou-a para dentro do cesto de vime colocado junto à porta, pensando de súbito em Cruz, o qual insistia em operar envergando uma sobrecasaca preta com a lapela e a parte da frente incrustadas de pus e sangue secos, qual brasão obsceno destinado a celebrar o seu ofício.

 

Uma náusea rara e pouco habitual fez-lhe vir o vómito à garganta. A língua era uma parte tão curiosa do corpo, um músculo palpitante, latejante, com os seus dois sentidos - o paladar e o tacto - uma espécie de órgão anfíbio plantado na garganta como uma anémona presa à sua rocha, indeciso sobre se deveria estar dentro ou fora do corpo. Ao cortá-la ela parecera encolher-se...

 

Interrompeu-se, furioso: porquê alimentar pensamentos destes? Sentia regressar a dor de cabeça lancinante e com ela a lembrança do que a causara, a curta mas violenta discussão com Annaliese nessa manhã. "Trabalho, trabalho e mais trabalho, tinha ela gritado rancorosamente enquanto ele se vestia para sair. Para quê casares-te, para quê o incómodo de viveres comigo?..." Para quê, sim, gritara ele por sua vez, se é isto a tal de felicidade conjugal. Mulher estúpida, de vistas curtas.

 

Os maqueiros levaram o moço chinês ainda entorpecido numa maca rolante e Carriscant e Pantaleão passaram à sala ao lado para vestirem de novo as suas roupas.

 

- O que é que achaste? - perguntou Pantaleão. - Pareceu correr tudo bem.

 

- Vamos ver como é que a coisa sara. Ao menos ainda lhe sobra alguma língua.

 

- Se der resultado o Cruz vai ficar furibundo - sorriu Pantaleão. - Ainda mais furibundo.

 

- Se der resultado, fotografamos a próxima. Faremos uma descrição.

 

- A glossotomia de Carriscant

 

A senora Diaz interrompeu esta risota autocomplacente para lhes anunciar que um membro do gabinete do governador pedia para falar com o doutor Cruz. Carriscant enfiou o casaco com um alçar de ombros, endireitou o nó da gravata e caminhou pelo corredor fora até ao seu gabinete, esfregando as mãos uma na outra vigorosamente - o ácido carbólico do sabão secava a pele e fazia descamar os nós dos dedos. Abriu a porta do gabinete e um homem em uniforme militar - caqui, cinto de couro levantou-se da cadeira em frente à secretária e fez a continência. Era corpulento, a puxar para o gordo, e o uniforme apertava-o na barriga. Tinha testa alta, cabelo ralo e um bigode de pontas longas cuidadosamente aparado que lhe dividia o rosto exactamente ao meio.

 

- Doutor Carriscant, obrigado por me receber - disse ele.

- Eu sou Paton Bobby, o chefe da polícia.

 

O primeiro cadáver

 

De pé ao lado de Paton Bobby no meio do arrozal, o doutor Carriscant observava o cadáver nu, meio submerso, do que fora um miliciano de dezoito anos originário do Kansas.

 

- Não é nenhum desses macacos amarelos de merda - disse Bobby, as sobrancelhas unidas e a testa franzida por uma careta. - Para dizer a verdade, é quase o homem mais branco que alguma vez vi.

 

De facto, a palidez geral do cadáver exibia uma tonalidade peculiar, azulada, glacial. A gordura das nádegas parecia brilhar através da pele como sorvete embrulhado em pergaminho, pensou Carriscant, bastante satisfeito com a comparação que lhe ocorrera.

 

- Isso é porque estamos com os pés enfiados numa solução do seu sangue - notou Carriscant. O corpo jazia no centro de uma mancha castanho-escura ainda em expansão, agitada pelo chapinhar das botas dos homens. Carriscant inclinou-se para a frente: ouvia-se um zumbido irritante de insectos e o olho solitário acima da superfície da água estava coberto de moscas alimentando-se da sua gelatina.

 

- Alguém lhe mexeu?

 

- O camponês que o encontrou virou-o ao contrário e deu uma olhadela - disse Bobby. - Foi assim que soubemos que precisávamos de um médico.

 

- Então e o doutor Wieland? - O doutor Wieland exercia as funções de superintendente dos serviços de saúde junto do governador americano. Carriscant tinha-o encontrado em diversas ocasiões, um alcoólico inveterado, um tipo jovial cujos conhecimentos médicos eram quase tão avançados como os de Cruz.

 

- O doutor Wieland hoje está... indisposto - disse Bobby, reprimindo em parte um sorriso. - Ele sugeriu que consultássemos o doutor Cruz. Encolheu os ombros. - Que não estava no hospital. Mas ficamos muito satisfeitos em tê-lo a si. Sem ofensa.

 

- De modo algum, Mr Bobby, de modo algum... Posso ver melhor?

 

Carriscant virou o cadáver delicadamente com a biqueira da bota; o corpo rolou sem dificuldade, boiando na água castanha. As moscas levantaram voo com um zumbido irado. Ele enxotou-as da cara com a mão.

 

Rasgada no torso do cadáver podia ver-se uma extensa ferida em forma de L invertido, cosida como uma bola de râguebi. O corte mais longo ia desde o esterno até aos órgãos genitais. O braço mais curto do L cruzava o lado esquerdo do peito em ângulo recto, cinco centímetros abaixo do mamilo. A ferida tinha sido eficaz e firmemente cosida com fio. As moscas pousaram de novo e começaram a investigar.

 

- A coisa está bastante bem feita.

 

- Agora já percebeu por que é que achámos que isso devia ser visto por um cirurgião.

 

- Quem é ele?

 

- Julgamos que seja o soldado Ephraim Ward. Ausente sem licença desde há três dias. vou chamar alguém da unidade dele para o identificar. Podemos usar a vossa morgue?

 

Carriscant ficou um pouco surpreendido com esta pergunta.

- bom, sim, suponho que sim, mas não se trata de um assunto governamental?

 

- Pode ter a certeza que é, dotor. Mas também é um assunto do Paton Bobby. Este tipo não picou o dedo numa agulha de coser. - Bobby sorriu, à sua maneira: só a boca se mexeu debaixo do bigode largo, os olhos permaneceram atentos, alerta. Eu é que digo para onde é que vai este presunto.

 

Patinharam na água de volta para a estrada. Alguns soldados americanos ainda jovens esperavam junto às carruagens que os haviam trazido até ao arrozal. Ombros descaídos e costas encurvadas nos uniformes largueirões, as camisas azuis por cima das calças de caqui escurecidas pelo suor. Taciturnos e nervosos, tinham as espingardas desnecessariamente prontas a disparar, como se temessem ver saltar insurrectos da berma da estrada a qualquer momento. Bobby mandou-os buscar o corpo e ofereceu a Carriscant um pequeno charuto de uma caixa de estanho. Carriscant declinou, bateu com os pés no chão para soltar a lama dos sapatos e olhou à sua volta: o arrozal era próximo de Paço, uma aldeia situada um quilómetro e meio a sudeste de Manila. Por todo o lado viam-se restos de velhas trincheiras e taludes cobertos de ervas e arbustos milim dispersos. Em 1899, aquando do ataque dos rebeldes, a linha da frente americana tinha-se situado aqui. Carriscant lembrava-se bem desse dia, quando ficara parado na sua azotea1 na cidade, uma chávena de chá na mão, escutando o ribombar abafado da artilharia, sentindo a ténue deslocação de ar à sua volta, os grãos de poeira dançando ao ritmo da percussão distante, a colher de chá tilintando na porcelana.

 

Virou-se para Bobby, que assoprava na ponta do charuto, dando-lhe uma cor alaranjada.

 

- Sabe que lugar é este onde nos encontramos...

 

- Sim - replicou Bobby. - Estava mesmo aqui a pensar se terá algum significado.

 

' Termo castelhano que designa o terraço de uma casa. (N. T.)

 

O soldado Ephraim Ward jazia, inerte, no tampo de mármore da mesa de observações na morgue de San Jeronimo, enfim livre de moscas, o clarão das lâmpadas acentuando a brancura quase luminosa da sua tez exangue. Carriscant tinha dito a Bobby que, além de não possuir o equipamento necessário, não se considerava sequer qualificado para levar a cabo uma autópsia. Bobby objectara em tom educado, contrapondo que Carriscant era provavelmente a pessoa mais qualificada em todo o arquipélago das Filipinas para executar a tarefa, mas que dadas as circunstâncias ficaria mais que satisfeito com um exame pericial da ferida e talvez alguma hipótese explicativa sobre o que se tinha passado exactamente.

 

Carriscant inspeccionou os pontos de sutura. Pareciam-lhe cosidos com baraço e agulha de veleiro. Ou com uma agulha de correeiro. Manila estava cheia de pessoas capazes de fazerem um trabalho destes: qualquer indivíduo que alguma vez tivesse fabricado um saco de juta podia ter cosido a barriga de Ephraim Ward. Carriscant começou a percorrer todo o comprimento da incisão, abrindo-a a golpes de tesoura de baixo para cima e virando à direita no esterno. Ao chegar a este ponto, no momento em que, cortado o barbante, os lábios da ferida cediam, viu um grande coágulo de sangue. Ajustou um par de afastadores e, mantendo a ferida aberta, removeu os resíduos negros e lamacentos do coágulo. Não demorou muito até ver que o coração tinha sido brutalmente dilacerado com uma arma branca.

 

Afastou os bordos da ferida no abdómen, revelando os anéis vermiformes dos intestinos e os restantes órgãos internos, estranhamente mirrados, limpos pela sua longa imersão no campo de arroz, isolados na cavidade estomacal como pequenas porções de comida numa tigela demasiado grande. Carriscant procedeu a uma rápida verificação: aparentemente não faltava nada, ainda que parecesse reinar uma certa desordem. Portanto, o soldado Ward tinha sido apunhalado no coração, entre a sexta e a sétima costelas, e a ferida fora temporariamente disfarçada por esta mutilação subsequente. A seu ver, isto não fazia qualquer sentido.

 

Bobby veio vê-lo durante a tarde para saber a que conclusões ele tinha chegado. Carriscant expô-las sentado no seu gabinete, enquanto Bobby andava pensativamente de um lado para o outro, fumando outro pequeno charuto mal aceso, por vezes apoiando o pesado quadril no canto da secretária e deixando a perna livre balançar ao mesmo tempo que ouvia.

 

- Você não é espanhol, pois não? - perguntou Bobby subitamente.

 

- Não. Bem, a minha mãe é meio espanhola, o meu pai era inglês.

 

- Você tem portanto a nacionalidade inglesa.

 

- Sim... Por que é que pergunta?

 

- Isso torna as coisas mais fáceis quando eu expuser o caso ao governador. Especialmente se formos trabalhar os dois em conjunto.

 

Carriscant não reagiu a estas palavras, apesar da curiosidade que sentia acerca do tipo de colaboração a que Bobby se estaria a referir; todavia, já que se falava em colaboração, decidiu entrar no jogo.

 

- Há uma coisa que me intriga - começou Carriscant pausadamente. É impossível ter a certeza, mas fiquei com a impressão que as entranhas - os intestinos, fígado, rins, estômago tinham sido... não sei, tinham sido deslocadas ou manipuladas.

 

- Não estou a perceber.

 

- Já alguma vez abriu um cadáver?

 

- Antes de vir para aqui estive na revolta dos Boxers, retorquiu Bobby. Estou farto de ver homens mortos e estropiados.

 

- Não é bem o mesmo. Quando se abre o invólucro abdominal e se expõem os órgãos por baixo, é incrível a maneira... Carriscant fez uma pausa e procurou a palavra certa. - A maneira arrumada como todos eles se encaixam uns nos outros. O desenho da coisa é espantoso, de tão compacto. - Pôs-se de pé e bateu com as mãos no peito, nos flancos, no ventre, carregando com os dedos no estômago. - Chamam-lhe "tronco" e a palavra ajusta-se bem. Está tudo aqui contido, seguro. Os órgãos podem mexer-se, mas estão protegidos. Todos a funcionar, nos seus devidos lugares. E as tarefas que executam... Não vale a pena continuar, mas havia qualquer coisa com os órgãos de Ward, mesmo tendo em conta que o sangue e os fluidos já se tinham perdido. Não parecia...

 

- Alguém andou lá a remexer, ou coisa do género?

 

- Possivelmente.

 

- E onde é que isso nos leva?

 

- Você é que é o detective. Eu não passo de um cirurgião.

 

Bobby não podia demorar-se muito mais, dado que o governador esperava o seu relatório. O seu palpite, confiou a Carriscant, era que Ward tinha sido morto por um homem da mesma unidade, a velha história da discussão que descamba em rixa, alguém saca da navalha e... Os revoltosos filipinos mutilavam muitas vezes as vítimas, acrescentou, e neste caso o culpado provavelmente queria fazer com que o crime parecesse obra de um rebelde.

 

- Eles não costumam mutilar desta maneira - disse Carriscant.

 

- Certo - reconheceu Bobby. - E só para os imitar você vai, corta a pica do seu camarada e enfia-lha na boca. É um bocado forte, convenhamos. Torna-se mais simples, sei lá, fazer uma ferida em L com a navalha ou coisa parecida.

 

- Para quê cosê-la, então?

 

- Não sei, Carriscant, eu cá não sei - exclamou Bobby, um travo de irritação na voz. - Mesmo assim... vou tentar descobrir, mas temos tantos pés-descalços1 neste exército que não espero ter grande sucesso.

 

- Pés-descalços?

 

- Rapazes do Sul. Parece que vêm todos do Mississippi, ou do Texas, ou do Kansas. Todos patriotas. Encobrem-se sempre uns aos outros.

 

Carriscant sorriu. Conseguia ver a inteligência rude por detrás da confiança grosseira de Bobby, sentir as energias que se agitavam sob a sua corpulência amável.

 

- Tenho que ir ter com o governador Taft. Você ajudou-me imenso, Carriscant.

 

' "Crackers" no original. Trata-se de um termo de calão americano que designa os brancos pobres e iletrados do Sul dos Estados Unidos. (N. T.)

 

Carriscant mostrou a Pantaleão o cadáver na morgue. Tinham adiado a operação à fístula marcada para essa tarde.

 

- Um americano? - perguntou Pantaleão desapaixonadamente, contornando a cabeça. Agarrou-a a mãos ambas e mexeu-a para a frente e para trás como que para obter um melhor ângulo de visão sobre as feições moles do homem. - Agora ao menos eles já não podem exercer represálias.

 

- Eles acham que foi outro americano que o matou. - Carriscant expôs-lhe a teoria de Bobby, mas Pantaleão parecia não o ouvir. O soldado americano morto prendia-lhe a atenção, e começou a contar a Carriscant uma história descosida que tinha ouvido da boca de um tio, sobre uma companhia de soldados americanos enviada em perseguição do general Elpidio em Batangas. Um dos soldados caíra num fosso com o fundo atapetado de estacas aguçadas de bambu. Como represália, todos os habitantes das duas aldeias mais próximas - homens, mulheres e crianças - haviam sido abatidos e os seus corpos queimados.

 

- Julgo que mais ou menos duzentas pessoas pagaram com as suas vidas pela morte daquele único homem... - Encolheu os ombros. - Parece-me muito injusto. Quer dizer...

 

- Preferia que não falasses sobre isso - disse Carriscant abruptamente; estava muito quieto, hirto, como alguém que acabou de sair do esconderijo e tem pânico de mexer-se.

 

Embaraçado, Pantaleão desfez-se em desculpas. - Que burrice a minha, Salvador - disse. - Esqueci-me completamente. Lamento imenso, peço-te que me desculpes.

 

Carriscant recompôs-se. - Que dia esquisito, este - disse.

- Normalmente, sinto-me bem. Acho que o americano... Deixou a frase suspensa e conseguiu esboçar uma espécie de sorriso. - Pantaleão - disse - será que posso acompanhar-te a tua casa? Só por uma hora ou duas. Não me sinto em condições de trabalhar, e...

 

- Mas é claro que sim - disse Pantaleão, escondendo a surpresa. - Aliás, já andava para te convidar há algum tempo. Tenho lá uma coisa que gostaria que visses.

 

O celeiro nipa'

 

O doutor Salvador Carriscant e o doutor Pantaleão Quiroga apanharam um trem puxado por cavalos na Plaza Magellanes, atravessaram o Pasig na Ponte de Espanha em direcção ao subúrbio de Santa Cruz. A carruagem estava apinhada de trabalhadores índios regressando da cidade e Carriscant apercebia-se dos seus olhares sinceramente surpreendidos enquanto tentavam adivinhar o que fariam aqueles dois kastilas de fato e gravata neste meio de transporte para gente pobre.

 

Os dois homens saíram do trem na Calle Azcarrega e caminharam até à casa de Pantaleão, um edifício de dois andares construído em adobe e madeira, numa rua relativamente elegante. Pantaleão ocupava metade das divisões da casa, alugando as restantes a um casal de americanos, professores encarregados de pôr em prática a reforma dos programas educativos na escola local. Pararam só o tempo necessário para Pantaleão ir buscar uma chave e em seguida continuaram por uma vereda de terra batida pelo meio das hortas, até chegarem a um enorme terreno baldio na margem norte de um estero, um dos muitos braços meandrosos do Pasig. Diante deles um renque de árvores marcava outra curva vermiforme no percurso do rio e, sobre o lado esquerdo, Carriscant distinguia os telhados em ferro galvanizado de Sampaloc. Ficou surpreendido ao ver que Pantaleão morava assim tão perto de Sampaloc; arquivou esta informação na sua mente.

 

Um véu de nuvens brumosas obscurecia o sol do entardecer, o calor do dia atenuava-se e, de tempos a tempos, a brisa do sul trazia

 

1 Celeiro construído com as folhas da palmeira nipa fruticans, abundante em todo o Sudoeste Asiático. (N. T.)

 

o cheiro intenso a malte da cervejaria San Miguel. Pantaleão avançava em passadas largas, animado por um genuíno entusiasmo, e Carriscant teve que fazer um esforço para o acompanhar.

 

Abrindo caminho com os braços, atravessaram um buraco numa sebe de dentilária e, ao chegarem ao outro lado, no extremo de um longo campo de erva queimado pelo sol, Carriscant viu um celeiro nipa de construção recente, invulgarmente largo, as paredes de bambu ainda verdes e o telhado de folhas de palmeira só em parte descorado.

 

- O que é isto? - perguntou Carriscant.

 

- É meu - disse Pantaleão. - Mandei-o construir. Esta terra aqui é minha. - Fez um gesto para indicar o prado aloirado estendendo-se na frente deles.

 

Pantaleão destrancou o cadeado que prendia as portas do celeiro e escancarou-as. Carriscant perscrutou a penumbra e avistou o que lhe parecia ser uma curiosa montagem de madeira e fios, apoiada sobre numerosos cavaletes. À primeira vista, dir-se-ia que Pantaleão estava a construir uma gigantesca cruz oca, colocada na horizontal, mas, à medida que os seus olhos se iam habituando à luz ténue, começou a distinguir novos detalhes menos fáceis de explicar: várias rodas, alavancas presas a fios e algo que se assemelhava a um par de assentos de bicicleta colocados um atrás do outro. Carriscant deambulou em volta da construção, tocando nos fios retesados, puxando-os ao de leve com a ponta dos dedos. O significado deste objecto escapava-lhe completamente.

 

- Foste tu que construíste isto? - perguntou a Pantaleão.

 

- Carpinteiros aqui da zona. Segundo as minhas especificações.

 

- É uma espécie de habitação? Um abrigo prefabricado? Pantaleão soltou uma gargalhada estridente, deliciado.

 

- Não, não, não - disse. - Nem de perto nem de longe. É... - Fez uma pausa para aumentar o efeito da revelação. É uma máquina voadora mais pesada do que o ar.

 

Carriscant regressou tarde a casa. Depois da visita ao celeiro nipa tinha ido com Pantaleão beber alguns copos de cerveja americana - Schlitz - ao café defronte do teatro Zorilla, em Santa Cruz, e Pantaleão tentara explicar-lhe os conceitos por detrás da máquina voadora que estava a construir. Carriscant regozijou-se com o entusiasmo do amigo e compreendeu que obtivera já a resposta à pergunta que colocara a si próprio nessa manhã com respeito ao dispêndio do salário de Quiroga. Depois apanhou um carromato1 de volta a Intramuros, chegando a casa muito depois do escurecer. A grande porta principal foi-lhe aberta por Danil, a mulher do cozinheiro, a quem ele pediu que lhe trouxesse um café. Atravessou a área do rés-do-chão, ocupada pelos quartos da criadagem e pelos estábulos, onde eram guardadas as suas duas carruagens e os seus póneis. Trazia ainda na boca o sabor acre da cerveja e sentia uma ligeira tensão nos ombros enquanto subia as escadas ligando o pátio interior aos aposentos do primeiro andar. Candeeiros a petróleo ardiam nas salas de recepção, o seu brilho alaranjado reflectindo-se no encerado lustroso dos soalhos de madeira de lei. Nas traseiras da casa, dando para o jardim murado, havia um grande terraço - a azotea - e ele viu Annaliese lá sentada a ler à luz difusa de um candeeiro. A noite estava fria e ventosa e do jardim elevava-se o coaxar gutural das rãs e o brrr monótono das cigarras.

 

Annaliese olhou em volta enquanto ele atravessava a sala de estar e, por breves instantes, os discos ovais dos seus óculos lampejaram, reflectindo a luz. Ele beijou-a ao de leve na testa e sentou-se numa cadeira de rotim defronte dela, desculpando-se pelo atraso. Contou-lhe a descoberta do soldado americano assassinado e como isso lhe arruinara o dia.

 

Annaliese olhou-o placidamente, como se ele fosse uma testemunha e ela uma advogada a quem cabia avaliar da veracidade do seu depoimento.

 

- Queres comer alguma coisa? - acabou por dizer. - Sobrou alguma carne de porco. - Tinha apenas um ligeiro sotaque alemão: Carriscant lembrou-se como em tempos este sotaque

 

1 Espécie de carruagem de duas rodas, normalmente puxada por um só cavalo. (N. T.)

 

o atraíra, como lhe parecera exótico e estranho, como o excitara em certos momentos.

 

- Não, obrigado. Bebi algumas cervejas com o Pantaleão. Não vais acreditar no que ele está a...

 

- Não tinhas dito há bocadinho que te atrasaste por causa daquela história do assassinato?

 

- Sim, e foi por isso. Mas depois o Pantaleão pediu-me que visse uma geringonça que ele está a construir. Uma máquina voadora - acreditas?

 

- É tão acriançado, esse Pantaleão.

 

- Não sejas ridícula.

 

Era por uma desavença assim que ambos esperavam, e aproveitaram pára se entregarem a uma discussão curta e feroz sobre se construir uma máquina voadora era uma criancice ou um gesto inspirado. O rancor mal dissimulado nesta troca de palavras pareceu, paradoxalmente, reduzir a tensão entre eles. As animosidades tinham sido libertadas, soltas por momentos; como num abcesso lancetado, o fluxo de purulência aliviou a dor durante algum tempo.

 

O café de Carriscant foi trazido e ele beberricou-o devagar, estudando o rosto da mulher por cima do bordo da chávena, vendo-a ler. Ela usava uns pequenos óculos ovais que lhe davam um ar mais velho, especialmente quando prendia o cabelo muito junto à cabeça, enfiado atrás das orelhas. Annaliese nunca fora muito bonita, pensou, mas também não podia ser descrita como feia. Não havia no rosto dela traços que se pudessem considerar inestéticos, mas também nada havia de particularmente sedutor. Perguntou a si mesmo, como fazia muitas vezes na ressaca de uma das suas discussões, que diabo o levara a pedi-la em casamento.

 

Annaliese Leys era a filha mais nova de um comerciante de tabaco alemão, Gerhardt Leys, que, juntamente com o irmão, Udo, dirigia em Manila um pequeno mas próspero negócio de exportação de charutos para a Europa. Carriscant conhecera Annaliese num concerto ao ar livre na Luneta, pouco depois do seu regresso da Escócia e da Faculdade de Medicina em 1897. Ela parecera-lhe engraçada, alegre, inteligente e - mais importante ainda - recordava-lhe vivamente uma rapariga que ele tinha encontrado e desejado silenciosamente certo verão em Edimburgo, onde passara umas férias brumosas e solitárias a vaguear pelas extensas praias de Musselburgh e a tentar em vão dominar os segredos do golfe. Ele e Annaliese tinham-se casado em menos de um ano, mas pouco tempo depois a mãe dela morrera e o pai, com a saúde abalada pela tragédia, vendera tudo e regressara com o resto da família a Bremen. Fora então que o casamento de ambos começara a deteriorar-se, talvez por ela estar longe da família pela primeira vez na vida, talvez por ter sentido muito a perda da mãe, mas o facto é que a partir dessa data tinha havido, Carriscant notara-o, um endurecimento perceptível da personalidade de Annaliese. O calor tinha começado a abandoná-la.

 

Este distanciamento não fora reconhecido por eles em privado, e aos olhos do mundo exterior tudo corria bem. Annaliese trabalhava a tempo parcial para o bispo de Manila, tratando da contabilidade da escola episcopal (tinha uma boa cabeça para números), e geralmente participava nos assuntos da diocese quando era sentido que um leigo entusiasta podia revelar-se útil. Os americanos chegaram em 1898, mas quando a guerra com os rebeldes filipinos eclodiu e se tornou evidente que a vida do casal em Manila estava à beira de sofrer mudanças irreversíveis, também eles admitiram finalmente que chegara a altura de pôr de lado a hipocrisia e confirmar em privado que o casamento feliz de Salvador e Annaliese Carriscant não era mais que um simulacro cómodo. Possuíam fortuna e uma boa reputação, eram figuras eminentes e respeitadas da comunidade estrangeira de Manila, que crescia rapidamente à medida que o processo de colonização americana se consolidava implacavelmente - Annaliese mantinha mesmo relações amistosas com a esposa do governador -, mas todo o afecto, todo o amor que tivesse existido entre eles, desaparecera sem deixar rasto.

 

O principal indício deste estado de coisas era o facto de, desde há mais de um ano, não haver relações sexuais entre eles. Curiosamente, tudo tinha começado com Annaliese a perguntar-lhe, de cada vez que ele chegava a casa ao fim do dia, que operações ele executara no hospital. No caso de ele ter feito alguma amputação, ela recusava-se a deixá-lo partilhar a sua cama. Esta animosidade, dirigida mais à profissão do que à pessoa dele, não parara de crescer desde então. Certas noites ela troçava dele cruelmente: "Quantas pernas é que cortaste hoje?" Normalmente ele ignorava-a, até que uma noite, espicaçado em demasia, replicara: "Duas, por acaso, mais um braço e um globo ocular", levando-a a fugir do quarto em prantos. Ademais, Annaliese queixava-se do cheiro das roupas dele, um pivete adocicado que o acompanhava e que ele, embora afirmando ser incapaz de o detectar, sabia ser o odor da putrefacção, do pus. Tudo isto o consternava: sentia-se impotente e desamparado. O que deveria fazer? Procurar um novo emprego? Perturbado por este bizarro colapso do seu casamento e exausto pelo trabalho em San Jeronimo, ele ganhara o hábito de dormir no divã do estúdio, uma medida temporária, dissera a si mesmo, para evitar incomodá-la quando chegava tarde, mas que, inevitavelmente, tinha adquirido um carácter permanente.

 

Um pouco triste, contemplou objectivamente a mulher ali diante de si, e tentou imaginar o seu corpo nu, algum detalhe ou traço especial que dantes lhe agradasse - os seus seios redondos e afastados, a penugem macia na auréola dos seus mamilos, o seu umbigo surpreendentemente fundo - e que pudesse estimular os velhos sentimentos, inflamar as velhas memórias, como uma brasa quente ao ser assoprada, mas nada aconteceu. Em vez disso, os seus pensamentos viraram-se para uma ideia que lhe ocorrera nessa tarde, quando, no prado de Pantaleão, avistara os telhados de zinco de Sampaloc. Sampaloc e a sua mal afamada Rua das Gardenias, repleta de bares e bordéis vistosos... Como é que chamavam às raparigas de lá? "Pombas que voam baixo." Não era natural esta abstinência, este celibato forçado. Um homem da sua idade a masturbar-se no divã em plena escuridão, como um adolescente. Seria talvez uma pomba a voar baixo na Rua das Gardenias aquilo de que ele necessitava?

 

Chez doutor Isidro Cruz

 

O doutor Carriscant caminhou lentamente entre as duas fileiras de camas na enfermaria de cuidados pós-operatórios. Tinha acabado de examinar o adolescente chinês e descobrira que, embora aparentemente a língua estivesse a cicatrizar bem, o doente apresentava alguma febre, três dias após a operação, o que era um pouco preocupante. Levantou os olhos: no outro extremo da enfermaria, Pantaleão fazia-lhe sinais, tentando não chamar as atenções das enfermeiras.

 

Carriscant foi ter com ele. "Pantaleão, o que é que..."

 

- O corpo desapareceu.

 

- Que corpo?

 

- O do soldado americano. Foi levado ontem.

 

- Por quem? Pelo Bobby?

 

- Não. Acho que foi levado pelo doutor Cruz.

 

Paton Bobby, com Salvador Carriscant ao seu lado, conduziu a carruagem para o interior da pequena aldeia de Flores. Era meio-dia e os vendedores ambulantes da praça já tinham guardado os seus produtos. Só um vendedor de peixe salgado parecia relutante em partir; sentado num banco baixo, enxotando as moscas com um espanador de folha de palmeira, olhou com curiosidade os americanos que passavam ruidosamente na bela carruagem puxada por dois póneis Abra de pêlo lustroso.

 

Carriscant disse a Bobby para virar à direita junto à igreja de adobe e, depois de passarem entre os dois pilares de tijolo de um portão ameaçando ruína, subiram uma pista de terra batida crivada de buracos, bordejada por arbustos rozal, em direcção à casa imponente do doutor Isidro Cruz.

 

- Ainda não consegui perceber qual foi a ideia do tipo - repetiu Bobby. - Como é que ele teve o desplante de chegar ali e tirar o corpo sem mais nem menos? Quem é que o cabrão julga que é? Julga que manda nisto tudo? Explique-me lá, para ver se eu percebo.

 

- É típico do Cruz. Lembre-se que ele é um peninsularo. Nunca há-de mudar.

 

- O que é que isso quer dizer, um peninsularo? Ele é espanhol, ou não?

 

Carriscant explicou as várias divisões de classe existentes nas Filipinas durante o domínio espanhol. No topo da pirâmide estavam os colonos e oficiais nascidos em Espanha, os peninsulares. Estes olhavam com desprezo os insulares, espanhóis nascidos nas ilhas, a quem consideravam grosseiros e pouco educados, o rebotalho da sociedade espanhola que só conseguia encontrar lugar numa colónia distante. Os insulares, por seu turno, tratavam com desdém os mestizos, espanhóis ou chineses casados com indígenas. Toda a gente desprezava esta última categoria, os índios, incluindo os índios educados - os ilustrados

 

- que tinham estudado no estrangeiro. E quanto aos índios! Não faziam distinções: todo e qualquer branco era um kastila

 

- um castelhano - e era tratado como inimigo.

 

- Até que vocês americanos chegaram - disse Carriscant jovialmente. - Agora eles já têm mais um homem branco para detestar.

 

- Então você é um mestizo"! - perguntou Bobby.

 

- Sim, mas de um género à parte, por assim dizer. O meu pai era inglês, a minha mãe era de uma família de insulares. Muito complexo. Mas o Cruz é da velha escola: odeia toda a gente, excepto talvez o Alfonso.

 

- Quem é esse?

 

- O rei de Espanha.

 

Bobby não se deixou impressionar. Ele era um homem de princípios, disse a Carriscant, que na sua vida se guiava por uma máxima: "Jogo limpo."

 

- E isso quer dizer jogo limpo para toda a gente. Não só para os peninsulares ou para os insulares ou lá que raio é que lhes chamam. Jogo limpo para toda e qualquer pessoa, eis o meu lema. Mas também não me ralo de jogar sujo uma vez por outra, se for preciso para que se faça justiça.

 

Carriscant replicou que compreendia a lógica enviesada desta posição.

 

- É melhor que este Cruz não se meta comigo - disse Bobby. - Já sobrevivi durante um ano inteiro sem mais nada para comer senão ovos de pássaros e água da chuva. Se eu fosse a ele tinha muito cuidadinho.

 

A casa de Cruz era um vasto edifício de pedra com a cobertura de telhas eriçada de ervas daninhas e as paredes, caiadas cor de açafrão, sujas e com o reboco a cair. Duas grandes palmeiras busi cresciam de ambos os lados da larga escadaria provida de uma balaustrada que ascendia até à porta principal. Atrás da casa, encobertos por um pequeno bosque de goiabeiras e árvores baleie, havia uma série de anexos em madeira com telhados de colmo bastante pontiagudos. Para lá dos jardins, avistavam-se alguns hectares de matagal plantados com feijão e tabaco.

 

Um criado comunicou-lhes que o doutor Cruz se encontrava no seu gabinete de trabalho e conduziu-os através da casa até às construções nas traseiras. Um grande cercado de bambu continha meia dúzia de rafeiros sarnentos e, numa gaiola de ferro pendurada das traves do telhado num estábulo vazio, dois gibões melancólicos catavam-se um ao outro sem entusiasmo. O criado bateu à porta da cabana maior e recuou, temeroso, quando ela se abriu com violência passados alguns segundos.

 

Vestido com um fato negro de alpaca cujos punhos estavam desabotoados e as mangas arregaçadas até aos cotovelos, o doutor Isidro Cruz tinha as mãos a escorrer sangue e o seu colete, bem como as abas do seu casaco, brilhavam com um outro fluido viscoso e escuro. Era um homem alto, na casa dos sessenta, com uma cabeça grande e enérgica, uma barbicha grisalha pontiaguda e cabelo áspero penteado com força para trás. Virando-se para o criado, começou a praguejar violentamente em tagalog1.

 

1 Língua de um povo das Filipinas com o mesmo nome, originário da região em volta de Manila, adoptada como língua oficial deste país. (N. T.)

 

- Ouve lá, meu cabrão filho duma puta velha, não estás farto de saber...

 

Reparou em Carriscant e na sólida silhueta em uniforme de Bobby ao seu lado e interrompeu-se abruptamente. Fez um gesto mandando o criado afastar-se e limpou as mãos nas costas.

 

- O que é que deseja, Carriscant? - disse, mudando para espanhol, com uma altivez impecável.

 

Carriscant apresentou Bobby e explicou quem ele era.

 

- Estamos à procura do corpo de Ephraim Ward - começou Bobby.

 

- Diga-lhe que eu não falo inglês - atalhou Cruz.

 

Carriscant sabia que na verdade Cruz falava inglês razoavelmente bem mas, numa tentativa de manter algum decoro, concordou em traduzir. Repetiu pacientemente a frase de Bobby e em seguida acrescentou um seu comentário em voz mais baixa.

 

- Você não tinha o direito de tirar aquele corpo do lugar.

 

- Tinha todos os direitos e mais algum - disse Cruz com um ar confiante. - Sou director clínico, devo lembrar-lhe, e além disso desagrada-me o tom de voz que está a utilizar.

 

- Foi o comandante da polícia em pessoa que pediu para...

 

- Foi o doutor Wieland em pessoa que me pediu que tomasse todas as medidas necessárias para proteger as provas.

 

- O Dr. Wieland não tem nenhuma autoridade neste caso. O comandante Bobby...

 

- Onde é que está o corpo? - disse Bobby, impaciente, interrompendo a discussão.

 

Cruz olhou para ele, a face lívida.

 

- Onde é que está o corpo? - traduziu Carriscant com um suspiro.

 

- Aqui. E em perfeita segurança.

 

Após mais algumas curtas trocas de palavras, Cruz concordou em deixar entrar os dois homens no seu laboratório. A sala estava iluminada com lamparinas de acetileno das quais jorrava um clarão intenso e artificial. Longas fitas espiraladas de papel mata-moscas salpicadas de pontos negros oscilavam, penduradas do tecto, e pairava no ar um fedor intenso a carne putrefacta que fez Carriscant sentir náuseas. Sobre uma grande mesa de dissecção jaziam os cadáveres esventrados de dois cães. Bobby recuou vivamente ao sentir o mau cheiro e cambaleou até ao exterior, onde Carriscant o ouviu pigarrear e cuspir. Abanando a cabeça com um ar condoído, Cruz pegou num vaporizador de ácido carbólico em estanho e accionou-o vigorosamente até que o cheiro do desinfectante cobriu os odores fétidos sem os ocultar completamente, mas ajudando, como perfume num trabalhador suado. Carriscant levou um lenço ao nariz e olhou à sua volta. Noutra mesa, viu mais dois cães; da cavidade torácica aberta de um deles emergiam tubos de borracha ligando-o ao corpo do outro, o qual, tanto quanto Carriscant conseguia ver, respirava ainda com dificuldade, as costelas afastadas arfando irregularmente. Junto à cabeça do animal encontrava-se uma garrafa de clorofórmio e uma bucha de gaze.

 

- Mantive estes dois cães vivos, com um só coração, durante cinco minutos - declarou Cruz orgulhosamente. - Para o caso de estar na dúvida sobre esta experiência.

 

- Não seja absurdo.

 

- O seu cepticismo enfadonho não me afecta, Carriscant.- Bateu com os dedos num caderno de apontamentos manchado de sangue. - Está tudo aqui, e o que é mais, em presença de testemunhas.

 

- Em presença dos seus criados, sem dúvida. Do mais fidedigno.

 

- Aqueles dois cães estiveram vivos durante cinco minutos!

- gritou Cruz, o sangue afluindo à sua cara larga, subitamente enfurecido.

 

- Isso é fisicamente impossível. A menos que você seja Jesus Cristo!

 

- Recuso-me a ouvir as suas blasfémias sórdidas!

 

- Cavalheiros, cavalheiros! - Bobby reentrou, acalmando-os. - Onde é que está Ephraim Ward?

 

Murmurando consigo próprio, Cruz conduziu-os até a uma divisão ao fundo. Aí, no centro do soalho, estavam duas grandes arcas de madeira, com dois metros e meio de comprimento e um metro e vinte de altura. Cruz levantou com esforço a tampa da primeira e Carriscant viu que havia uma outra arca no interior, esta feita de chumbo, o interstício entre as duas cheio de palha bem acamada. A segunda tampa foi levantada, revelando o corpo nu e estiolado de Ephraim Ward, envolto em gelo como uma peça de carne. Carriscant franziu as sobrancelhas, esticou o braço e afastou alguns grânulos de gelo junto ao ombro do cadáver.

 

Um rosto de mulher surgiu, macilento e exangue. Uma índia.

 

- Pelo amor de Deus - disse Bobby roucamente. - Quantos mais é que tem guardados ali dentro?

 

- Três e alguns órgãos. E o que é que você tem a ver com isso? - respondeu Cruz em espanhol, esquecendo-se que era suposto não entender o inglês.

 

- Não há lugar na morgue do hospital - explicou Carriscant. - A maioria dos cirurgiões têm de guardar cadáveres nas suas próprias casas.

 

- Mas porquê? - disse Bobby. - Por que é que não os enterram?

 

- Para o avanço da ciência médica - disse Carriscant num tom razoável. - Se não fosse assim, acha que conseguíamos fazer tudo o que fazemos? Curar, sarar?

 

- Precisamente - concordou Cruz, acenando com a cabeçorra.

 

Carriscant reparou no olhar de Bobby que pousava alternadamente ora em si, ora em Cruz, visivelmente perturbado, desconcertado.

 

- É uma prática comum - disse Carriscant mansamente, um pouco incomodado por fazer coro com Cruz - e essencial.

 

Cruz afastou-se deles e bombeou algumas baforadas de ácido carbólico para a atmosfera. Bobby recobrou ânimo e pediu a Carriscant que explicasse a Cruz que o corpo de Ephraim Ward deveria ser devolvido à morgue de San Jeronimo sem perda de tempo. Cruz recusou-se a fazer fosse o que fosse sem uma ordem expressa do governador Taft. Bobby disse que lhe entregaria a dita ordem com a maior brevidade.

 

- Aquele homem é um monstro! - exclamou Bobby com paixão, enquanto a carruagem se afastava da casa de Cruz.

 

- Aqueles desgraçados dos cães e dos macacos. Os cadáveres empilhados no quarto ao lado... Aquilo não é normal.

 

- Nunca se esqueça - disse Carriscant. - Ele é um peninsularo. Esses tipos partem do princípio que o mundo foi organizado para eles. Aqui nas Filipinas, eles é que decidem o que é normal e o que não é. Ou pelo menos decidiram durante trezentos anos. É difícil para eles adaptarem-se.

 

Bobby discordou, mas na verdade Carriscant já não o escutava. Os lábios contraídos, o cenho cerrado, meditava: aqueles cães... Dois animais, um coração. O que é que o velho tonto andava a tentar fazer?

 

O Aeromóvel

 

Pantaleão estendeu os planos no solo em frente do celeiro nipa e prendeu os quatro cantos com pedras. Carriscant acocorou-se, apoiado nos calcanhares e soltou assobios condizentes de aprovação.

 

- O Aeromóvel - leu. - bom nome.

 

- Pensei assim: se já existe o automóvel, que melhor descrição para uma máquina voadora?

 

- Parece-me ideal.

 

Carriscant examinou minuciosamente os desenhos a traço fino. O que viu parecia algo a meio caminho entre uma ponte metálica e um pássaro estilizado. Havia duas asas eriçadas de longarinas e cabos, mas a cauda no extremo da fuselagem era encurvada e semicircular, com caneluras, como a cauda de um pombo aberta em leque. Ele achava tocante o sonho de Pantaleão de um voo motorizado num engenho mais pesado que o ar, uma obsessão inofensiva mas, apesar do seu cepticismo e de a sua visita ali ser um mero pretexto, sentia aumentar em si a curiosidade natural acerca do projecto.

 

- Trata-se de um concurso - explicou Pantaleão. - Dois homens de negócios, um americano e um francês, instituíram um prémio, o prémio Amberway-Richault. Oferecem dez mil dólares pela primeira máquina voadora que se erga acima do solo pelos seus próprios meios e voe no mínimo ao longo de cem metros. Pelos seus próprios meios, sem rampas de lançamento, sem roldanas, sem declives. A proeza tem que ser totalmente certificada, é claro.

 

- E tu achas que este... este "Aeromóvel" vai conseguir?

 

- Em princípio, não tenho dúvidas - disse Pantaleão, com uma segurança tranquila. -- Ainda há alguns problemas por resolver... A potência do motor é o principal, claro. Mas estou no caminho certo. Os modelos planadores têm dado resultados muito satisfatórios. - Sorriu timidamente antes de confessar:

- É o que me tem ocupado neste último ano.

 

- Impressionante - disse Carriscant. - bom, tenho mesmo que ir...

 

- Felizmente para mim, Pantaleão baixou a voz, apesar de não haver absolutamente ninguém no prado além deles, ainda que me custe admiti-lo, a chegada dos americanos tornou as coisas bem mais fáceis. - Eles estão na vanguarda, compreendes. Eles e os franceses. - Olhou em volta, com uma ligeira expressão de desprezo. - Estávamos para aqui a apodrecer disse - em todos os sentidos. Uma pessoa põe-se a pensar e vê que nada mudou realmente desde o século XVIII. Nada.

 

- Sim. Sim, tens razão - disse Carriscant, subitamente contagiado por algum do entusiasmo de Pantaleão. - Basta ver o que se passou connosco, na nossa área do saber. Tivemos que partir, viajar pelo estrangeiro, para descobrirmos todos os progressos espantosos que estavam a ser feitos. E contudo ainda temos que aturar velhos charlatões como Cruz e Wieland.

 

- Imagina só - disse Pantaleão sonhadoramente, já sem o ouvir - se eu, Pantaleão Quiroga, fosse o primeiro homem a conseguir um voo motorizado. Aqui, nas Filipinas...

 

- Sabias que o Cruz guardou o coração e o fígado do americano - disse Carriscant, sombrio. - É de uma arrogância inconcebível! - Bobby voltou a protestar junto de Taft.

 

- O século XX... Como é incrível que estejamos a viver estes momentos. Tudo vai mudar, Salvador, tudo.

 

Os dois homens calaram-se, ocupados com os seus próprios pensamentos, enquanto a luz morna cor de pêssego do crepúsculo se reunia em volta deles no prado louro varrido pelo vento, e da outra margem do rio chegava o ecoar dos sinos batendo melancolicamente as ave-marias. Carriscant deu uma palmada no ombro do seu jovem amigo.

 

- É bom falar contigo, Pantaleão - disse sinceramente. É bom para mim, em todo o caso. Distrai-me de... de certas coisas. - Virou-se para contemplar a massa desconexa de longarinas e fios no celeiro nipa. - Estou altamente impressionado com a tua máquina, o teu Aeromóvel. - Se houver alguma coisa em que eu possa ser útil, diz-me.

 

- Na verdade, talvez possas, Salvador. Vamos beber uma cerveja?

 

- Fica para outra vez, amigo. Tenho que regressar. Carriscant deixou Pantaleão, que ficou no celeiro declarando que ia começar a prender a tela às asas e fazia tenções de trabalhar até altas horas da noite. Voltou sobre os seus passos até Santa Cruz e apanhou um carromato que percorreu a curta distância até Sampaloc.

 

Sampaloc era um pouco melhor que um bairro-de-lata, um degrau acima, talvez, da imundície de Tondo, mas mesmo assim oferecia ao olhar um desfile miserável de barracas de madeira com tectos de ferro galvanizado e estreitas ruelas de terra batida cobertas de sujidade e água dos esgotos. A Rua das Gardenias era a sua única marca de glória, uma curta avenida empedrada de lojas que tinham sido convertidas em bares e cafés improvisados. Estes estabelecimentos ainda mantinham os toldos de lona dos antigos frontispícios das lojas, grandes abas de tecido que se projectavam da parede sobre um aro metálico e depois pendiam quase até ao chão, concebidos para produzir o máximo de sombra. O efeito era o de furtar o interior aos olhares dos transeuntes, permitindo-lhes contudo ver, entre dois toldos, o brilho das luzes coloridas, e ouvir os ecos da música, as gargalhadas e o barulho das vozes dos homens. Esta dissimulação parcial era mais tentadora, pensou Carriscant, que qualquer exibição ostensiva de licenciosidade.

 

Sentou-se num pequeno bodegon nas cercanias de Sampaloc, lendo o jornal e bebendo sucessivas chávenas de café, até que o cair da escuridão obrigou a que se acendessem os candeeiros a petróleo. Quando achou que podia aventurar-se no exterior com alguma esperança de manter o anonimato, embrenhou-se na Rua das Gardenias. Esta encontrava-se pejada de homens, soldados e marinheiros americanos, e no ar cruzavam-se inúmeras vozes falando inglês, uma experiência perturbante para ele. Deu-se conta que já não ouvia tanta gente a falar inglês desde o seu embarque em Liverpool, em 1897, para a viagem de regresso a casa. Enquanto vagueava para um lado e para o outro ao longo da Rua das Gardenias, sentiu-se dominado por uma súbita melancolia ao contemplar mentalmente o passado já tão distante da sua juventude. Lembrou-se do assombro extasiado que tinha sentido ao percorrer as ruas de Glasgow, no início dos seus estudos de medicina. Lembrou-se de como para ir até ao centro da cidade costumava apanhar o trem puxado por cavalos em Gilmorehill, uma elevação com a universidade nova no cume e a enfermaria onde trabalhava e estudava no sopé. Toda aquela gente nas suas roupas pesadas e escuras. Caminhava pelas ruas apinhadas embriagado pelo barulho do tráfego, o tagarelar do inglês ressoando-lhe nos ouvidos. E, por onde quer que andasse, sempre calçadas de pedra dura debaixo dos seus pés. Os aros de ferro das rodas dos trens, dos cabrioles, das carroças, ressoando com fragor. Inscrições por todo o lado, nomes e anúncios em todas as superfícies verticais, ou quase. Numa loja, uma montra cheia com 200 chapéus de palha. Parecia trazer uma ideia de sol, uma ideia de trópicos a esta cidade sólida e quadrada, com os seus grandes edifícios sobrecarregados de ornamentos e negros de fuligem, respirando por todos os poros comércio e orgulho cívico.

 

Tão diferente da sua terra natal, Manila, a cidade plana, verde e odorífera no seu estuário preguiçoso envolto em vapores húmidos, concentrada em torno das longas muralhas decrépitas e cobertas de vegetação de Intramuros. Aqui e além, uma cúpula, um campanário, emergiam acima das árvores e da planura de telhados brancos de zinco e terracota. O calor, a humidade, o ritmo vagaroso. A vida movia-se à velocidade de uma carroça caraboa1, diziam as pessoas, quilómetro e meio por dia. E agora, aqui em Sampaloc, voltava a ouvir estas vozes grossas de brancos, sotaques diferentes mas com a mesma confiança enérgica e arrogante. Também aqui o comércio ia de vento em popa. Sentiu um breve acesso de nostalgia pela vida que conhecera antes da chegada dos americanos. O começo tardio da jornada, a cidade mergulhada numa letargia húmida, a siesta, depois a curiosidade polida, os galanteios discretos e corteses do paseo... Todavia, dado que as suas necessidades mais imediatas voltavam a impor-se, afastou do espírito estas meditações e decidiu entrar num estabelecimento chamado Salão de Gelados Thichupwah, um dos edifícios maiores e mais imponentes da rua. No primeiro andar, acima do toldo, havia uma varanda de ferro forjado de aspecto bizarro e, através das janelas abertas de certos quartos, Carriscant conseguia distinguir as silhuetas fugazes do que lhe parecia serem mulheres a andarem de um lado para o outro.

 

Afastou o toldo de lona e abriu a porta que dava para uma grande sala barulhenta, com a atmosfera toldada de fumo, cheia de militares americanos, grande parte dos quais em uniforme. Em muitas mesas decorriam jogos de cartas e os gritos desinibidos das apostas quase abafavam o ruído do grande gramofone que, a um canto, tocava "My Kentucky Belle" para os poucos pares lânguidos que arrastavam os pés na pequena pista de dança de madeira ao fundo da sala. Carriscant abriu um caminho sinuoso por entre as mesas até ao balcão, onde um grande letreiro proclamava: "Cerveja Americana, 40 centimes, Mex." Pediu uma Schlitz e lançou em volta de si um olhar cuidadoso, tentando manter um ar natural. Atrás do balcão, uma mulher branca de cara encovada, com uma maquilhagem que lhe acentuava

 

1'Carroça puxada por búfalos-aquáticos, também designados carabaos, empregues como animais de tiro em todo o Sul do continente asiático. (N. T.)

 

ainda mais a magreza das feições, perguntou-lhe se ele queria dançar. Falava inglês com um sotaque estrangeiro ilocalizável. Polaco, tanto quanto Carriscant conseguia aperceber-se, corso, ou valão.

 

- Consigo? - perguntou ele sem pensar. Um dos dentes da frente dela estava completamente lascado e nas axilas do seu vestido de algodão fino havia duas manchas escuras de suor.

 

- com uma qualquer das moças. Eu custo mais. - Sorriu, mostrando as gengivas, e com um gesto indicou as raparigas sentadas num banco junto à pista de dança, esperando por parceiros. - Cinquenta centimes por uma dança. Dois dólares mexicanos por uma "dança" no andar de cima. As raparigas brancas custam cinco dólares. - Voltou a sorrir-lhe. - Eu custo dez... És americano?

 

- Sim. Obrigado. - Ele mal conseguiu pronunciar as palavras. Afastou-se do balcão e avançou pelo meio da vozearia dos jogadores em direcção à pista de dança, atrás da qual, via-o agora, começava um lanço de escadas. Dentre a meia dúzia de mulheres que não estavam a dançar havia três "raparigas" brancas, duas magricelas e uma roliça, todas com o cabelo pintado. O da gorducha era de um loiro quase branco, preso num carrapito desmazelado no alto da cabeça, com alguns caracóis desfeitos e pendentes, lembrando-lhe, infelizmente, o papel mata-moscas no laboratório do doutor Cruz. As outras moças eram índias, vestidas com versões berrantes das suas roupas tradicionais: blusas de abacá1 de mangas largas e, à volta da cintura, xailes garridos sobre sayas de algodão estampado até ao tornozelo. Todas abanavam leques contra o mau cheiro e o calor, fazendo cintilar em lampejos fugazes as suas pulseiras de imitação, que se entrechocavam ao ritmo irregular da música roufenha e plangente. Uma delas usava o cabelo escuro caído, lustroso e pesado do óleo de coco. Era baixa, com lábios invulgarmente carnudos e grossas sobrancelhas que lhe davam um ar sério inverosímil. Carriscant viu-a fechar o leque com um estalo

 

' Tecido fabricado a partir das folhas de uma planta filipina, Musa textilis. (N. T.)

 

seco e passá-lo por cima do ombro para coçar uma omoplata.

Tendo tomado a sua decisão, contornou a pista de dança para ir ao encontro dela, a mão no bolso procurando o dinheiro.

 

Falou em inglês. - Dois dólares - disse desajeitadamente, como um papalvo, mostrando-lhe as notas, "lá em cima". No calor húmido da sala conseguia cheirar o óleo de coco no cabelo dela, doce e apimentado.

 

Ela aceitou o dinheiro e guardou-o algures com um gesto gracioso e discreto. - Tu vir com eu - disse ela - nós quarto cinco. - E sem mais delongas virou-se e começou a andar, cruzando a pista de dança em direcção às escadas. Um par enlaçado atravessou-se no caminho de Carriscant, obrigando-o a parar e de seguida a contornar os passos de dança desajeitados dos outros dois antes de poder seguir a sua moça. A sua moça... "Tu vir com eu, nós quarto cinco." Era tudo tão límpido, uma simples questão de negócio, sem confusões, sem exigências de outra ordem. Das poucas vezes em que a ela recorrera anteriormente, ficara sempre surpreendido com a simplicidade desta transacção, com o seu lado directo, sem rodriguinhos - dinheiro em troca do curto aluguer de um corpo. Quando chegou à base das escadas, contudo, a rapariga já tinha subido. E a descer los degraus, apertando o cinto, vinha o doutor Saul Wieland.

- Ora vejam só se não é o estimado doutor Carriscant exclamou Wieland em alta voz, mostrando as duas fiadas de dentes num sorriso amarelado. - Aquela a quem eu acabei de dar uma palmada no rabiosque é a sua franganota? - Wieland estava bêbedo, como de costume.

 

- O que é que você está para aí a dizer? - Carriscant ficou hirto, os braços junto ao corpo.

 

Wieland chegara à base das escadas e estava encostado ao corrimão. Era um homem baixote, na casa dos cinquenta, com queixos múltiplos, como barbelas, caindo sobre o colarinho rígido. Tinha um bigode felpudo e mal aparado e uma boca bizarra, frouxa, de lábios pendentes e húmidos.

 

- Prometo que não conto à mamã. Calma. - Inclinou o corpo pesadamente e deu uma pancadinha tranquilizadora no cotovelo de Carriscant.

 

Carriscant conseguiu produzir uma espécie de risadinha em forma de fungadela desdenhosa. Estendeu o braço e agarrou a maçaneta da porta à sua frente.

 

- Não sei do que é que está a falar - disse. - Vim até aqui para assistir a mãe da minha cozinheira. Ela tem uma hérnia. Boa noite para si.

 

E com estas palavras fez girar a maçaneta, escancarou a porta e atravessou a soleira em passo confiante. Ouviu Wieland dizer, em tom de sarcasmo grotesco, enquanto fechava a porta atrás de si: - Oh, peço imensa desculpa, não fazia ideia. - Carriscant não ficou ali parado, para o caso de Wieland tentar segui-lo. Caminhou pelo corredor fora, passou diante da entrada duma cozinha atravancada e escura e saiu por uma porta das traseiras que dava para um pátio comprido e estreito cercado por muros altos. Junto a um destes muros havia uma fiada de capoeiras e chegava-lhe aos ouvidos o cacarejar em surdina das galinhas nos poleiros e às narinas o cheiro intenso a nozes e a caldo de carne dos seus dejectos acumulados. Avançou cuidadosamente às apalpadelas para a sua esquerda e espreitou através da fresta de um postigo. Conseguia ver Wieland sentado a uma mesa com mais três homens brancos vestidos à civil, um dos quais segurava um baralho na mão e estava a dar cartas.

 

Carriscant não tinha a menor vontade de oferecer a Wieland mais oportunidades de o avistar no Salão de Gelados e dar largas às suas insinuações escarninhas, e decidiu portanto que esperaria até ser possível abandonar o local sem que o vissem. Ninguém, ao que parecia, o tinha visto entrar no pátio onde, por conseguinte, estaria em segurança durante uma hora ou mais. Embrenhou-se ainda mais na escuridão ao fundo do quintal até que encontrou uma posição resguardada contra a parede. Puxou um velho pedaço de esteira e sentou-se em cima desta, aninhado no ângulo que a parede fazia com a roda de madeira maciça de uma carroça caraboa. Estendeu as pernas e massajou a cara, rindo de si próprio, um pouco descoroçoado: lá se fora a sua "pomba que voava baixo" - a estas horas ela estava lá em cima no seu ninho, perguntando onde é que se metera o seu americano. Burro, disse para si mesmo, burro, burro, burro...

 

Acordou, a cabeça encostada contra o aro da roda, o zumbido penetrante de um mosquito nos ouvidos. Afastou o insecto com uma palmada e pôs-se de pé, vacilante, hirto, batendo com os pés para reactivar a circulação. Nem conseguia acreditar que se tivesse deixado dormir assim... Aproximou-se da janela iluminada e consultou o seu relógio de corrente: duas e meia da manhã. Música e barulho de vozes continuavam a emanar do Salão de Gelados e, espreitando de novo pelo postigo, viu que a casa estava ainda repleta de gente e, mais incomodativo, que Wieland e os seus compinchas estavam ainda embrenhados no jogo de cartas. Isto era absurdo, disse para si próprio, que fazer agora? Atravessar a sala e ser visto por Wieland a esta hora da noite apenas encorajaria mais especulações obscenas. Reflectiu enquanto caminhava de um lado para o outro no pátio, desassossegando as galinhas sonolentas. Por este andar, Wieland talvez ficasse ali até ao amanhecer. E Annaliese já devia estar deitada há horas, deu-se conta, sem dúvida cada vez mais desgostosa com a sua conduta. Foi até ao fundo do pátio, encostou uma caixa velha contra o muro e, com um pequeno impulso, empoleirou-se no topo deste, já quase desmoronado. Na sua frente havia apenas escuridão, mas uma escuridão ondulante, suspirante, que sugeria vegetação - e nem um lampejo de luz à vista. Rezou para que o seu fato de alpaca cinzento-claro não se sujasse demasiado e para que o terreno lá em baixo não fosse demasiado íngreme. Tomou balanço e saltou.

 

Lama.

 

Enterrado até aos joelhos, tropeçou, esticou o braço para se apoiar em alguma coisa e a mão mergulhou na massa mole até ao cotovelo. Endireitou-se, voltou a vacilar e conseguiu a custo recuperar o equilíbrio. Deu algumas passadas, com os pés a prenderem-se e a produzirem um barulho de sucção, os braços estendidos para a frente como um cego. Os seus dedos roçaram em folhas, espessas, felpudas, com a margem ligeiramente serrada e, abandonando o lodaçal, ele subiu para o terreno abençoadamente firme e mais seco em volta do tronco da árvore. Uma mangueira, pensou. Virou-se para contemplar o reflexo das luzes nas traseiras do Salão de Gelados e nos restantes estabelecimentos de um lado e doutro da Rua das Gardenias. O carreiro para onde tinha saltado devia correr paralelamente aos quintais das casas neste extremo da rua, e era sem dúvida para lá que os moradores despejavam todos os géneros de águas sujas e detritos imagináveis e inimagináveis. Estava fora de questão tentar sair do local onde se encontrava sem conseguir ver onde é que punha os pés. Sentou-se com precaução numa grossa raiz exposta: só lhe restava esperar.

 

Os primeiros alvores do dia chegaram mesmo antes das seis horas. Tinha sido uma espera arrasadora: Carriscant fumara todos os cigarros que trazia consigo - dezassete -, planeara a sua carreira futura ao mais ínfimo detalhe, cantara e trauteara todas as melodias que alguma vez ouvira, e mesmo assim a noite indolente tinha-se arrastado sem fim à vista. Mas agora o dia nascera e a lama nas suas roupas estava quase seca. Esfregou o queixo, sentindo na palma da mão a aspereza da barba por fazer. Para casa, o mais rápida e discretamente possível.

 

A árvore debaixo da qual tinha esperado era de facto uma mangueira e fazia parte, podia agora vê-lo, de uma pequena plantação que, uma vez atravessada, dava lugar a uma paisagem brumosa de campos de cana-de-açúcar e arrozais, para lá da qual se distinguia, a um quilómetro ou dois de distância, a massa baixa e azulada dos subúrbios a norte de Manila, obscurecida pelo fumo das fogueiras matinais. Pôs-se em marcha, percorrendo com dificuldade um trilho no topo de um dique, em direcção a San Miguel e, esperava ele, ao primeiro trem puxado por cavalos que conseguisse apanhar.

 

Encontrar o caminho revelou-se mais complicado do que ele esperava. O trilho tinha desembocado numa pista de terra batida mas Carriscant virara no sítio errado, e veio a descobri-lo quando a pista descreveu uma curva que a fez desviar-se outra vez para norte; viu-se obrigado a dar meia volta e a repetir parte do percurso em sentido inverso. Depois deparou-se-lhe um estero serpenteante do Pasig e teve que fazer um desvio para o contornar e retomar o seu caminho para sul ao longo das margens enlameadas dos arrozais; antes de avistar, ainda distante, por entre algumas árvores à sua frente, o brilho do telhado de terracota e das paredes brancas do Palácio Malacanan - a residência oficial do governador Taft. Agora já sabia onde estava. Voltou a consultar o relógio: quase oito em ponto: com um pouco de sorte estaria em casa dali a meia hora.

 

Sabedor que uma carreira de ferries assegurava a travessia do Pasig não longe do palácio, tomou um atalho que conduzia directamente a este, abandonando aquele que seguira até aí. Novo erro, como veio a verificar-se, quando o atalho terminou num celeiro de bambu meio demolido. Apressou o passo, mesmo assim, cortando pelo meio de um campo de feijão-mungo em direcção a um bosque cerrado de acácias. Durante .as suas deambulações através dos campos recolhera uma nuvem esvoaçante de moscas persistentes, atraídas, embora ele mal se atrevesse a especular, por algum ingrediente menos ortodoxo da lama de Sampaloc que ainda lhe cobria as calças. Carriscant desferiu palmadas furiosas, tentou em vão deixá-las para trás com uma corrida até que, parando, tirou o casaco e, qual toureiro enlouquecido, fê-lo rodopiar em volta da cabeça e dos ombros enquanto prosseguia o seu caminho.

 

Estava mais fresco no meio das acácias e o carreiro tinha o piso bem batido, tornando mais fácil o avanço. Mas, à medida que o suor lhe ia secando no rosto, este alívio revelou-se de curta duração: começou a reflectir em tudo o que acontecera durante as últimas horas e sentiu-se invadido por uma raiva profunda de si mesmo. Que raio de ideia fora aquela de ir a Sampaloc, a um bordel? Mas depois da decisão tomada, por que diabo não conseguira comportar-se na presença de Wieland de uma maneira mais mundana, mais como um homem entre homens? O que haveria de tão desonroso, especialmente num ambiente daqueles, em admitir que ocasionalmente se visitava uma prostituta? Realmente, agora via bem a figura ridícula que fizera, absurdamente empertigado, a fugir por aquela porta como uma virgem importunada pelos olhares maliciosos de um atrevido. E veja-se onde é que aquele ataque de dignidade acobardada o tinha conduzido: atormentado pela vergonha, coberto de lama, exausto, numa corrida por montes e vales infestados de mosquitos...

 

Ele viu realmente - viu realmente - a seta voar direita à sua cara desprevenida.

 

Alertado por um rasgar de folhagem, por uma agitação, tinha-se virado, a cabeça girando instintivamente para a direita, e viu o projéctil voar ao seu encontro. Nem se conseguia lembrar de como reagira, se tinha ficado estático, se mergulhara de cabeça ou se se encolhera, mas sentiu a seta passar perto do rosto como um sopro de criança, e em seguida ouviu o vhunggg do impacte na acácia ao seu lado. Virou-se. A flecha lá estava, a haste apontando para cima. As penas brancas ainda vibrando.

 

Deixou-se cair sobre as mãos e os joelhos e gatinhou aos tropeções para trás de um arbusto, um queixume surdo na garganta, esperando pela chegada de mais setas, esperando ver os seus agressores irromperem do matagal, brandindo os bolos de lâminas afiadas no ar da manhã.

 

Silêncio. Nenhum estalar de ramagens, nada... E depois ouviu-os, não muito distantes. Risos. Risos de mulheres.

 

Arrancou a seta cravada no tronco da árvore e começou a percorrer a sua trajectória em sentido inverso, sentindo que a raiva dentro de si lhe distorcia o rosto, lhe puxava as feições para baixo, quase como se ele quisesse transformar as próprias feições numa ponta enraivecida e bicuda, fazer das sobrancelhas, nariz, boca, bochechas, um chifre furibundo e ameaçador para trespassar os seus perseguidores. O medo desaparecera, o terror desvanecera-se: havia gente a rir-se dele, havia mulheres a rirem-se.

 

Abriu caminho brutalmente através de uma espessa sebe de arbustos cogal, arranhando as costas das mãos, e deu consigo pestanejando na claridade de um relvado batido pelo sol. Na sua frente estavam três alvos redondos para tiro ao arco, ligeiramente inclinados, e um pouco mais longe meia dúzia de mulheres, mulheres brancas, envergando blusas de mangas em balão e saias compridas de sarja, com chapéus de palha na cabeça para se protegerem do sol e aljavas de setas penduradas a tiracolo. Uma delas ajustou outra flecha ao arco, retesou a corda...

 

* Grandes facas com lâmina de um só gume usadas pelos nativos das Filipinas. (N. T.)

 

- PARE! - gritou ele, a emoção fazendo-o rouquejar. Pare imediatamente, sua cabra dum raio!! Raios a partam!

 

Avançou para lhes fazer frente, brandindo a seta.

 

- Um centímetro mais ao lado e esta porcaria tinha-se espetado na minha cabeça - gritou-lhes. - Menos de um centímetro, suas idiotas desmioladas! Menos de um centímetro e a esta hora eu estava morto por causa da vossa inconsciência, por causa da vossa inconsciência de estúpidas desleixadas!

 

Elas fitaram-no, os olhos arregalados seguindo cada um dos seus gestos, de queixos caídos, absolutamente atónitas. Ele sentiu que a raiva começava a abandoná-lo, como que a escoar-se por um ralo destapado, e o embaraço apressando-se a preencher o vazio. Via-as agora claramente: estava em presença de respeitáveis mulheres americanas - Santo Deus -, ainda por cima jovens. O que teriam elas pensado ao vê-lo sair disparado da floresta, coberto de lama, a barba por fazer, gritando enfurecido? Será que tinha praguejado? Oh Deus, subitamente assaltou-o a terrível lembrança de ter proferido uma imprecação, uma imprecação obscena.

 

- Quem é a pessoa responsável? - prosseguiu em tom combativo, tentando não perder a vantagem que a sua condição de parte ofendida lhe conferia. - Quem foi a pessoa que disparou esta seta?

 

De imediato, uma mulher deu um passo em frente e ele rodopiou para a encarar. Uma mulher alta. De ombros largos. Um rosto sardento, vigoroso, de pele clara. Uma qualidade rara emanava daquele rosto, pensou ele, a garganta subitamente apertada. Algo que ele nunca tinha visto antes, O cabelo castanho com reflexos ruivos preso na nuca, num carrapito folgado. Os detalhes surgiram em catadupa: tinha um nariz ligeiramente adunco, viu ele de relance, com narinas pequenas e arqueadas, e apercebeu-se também rapidamente que a alça de couro da aljava dela separava a massa suave do seu peito em dois seios bem distintos.

 

Ela fez-lhe frente. Franca, categórica. Olhos pequenos de pestanas claras. Bizarra, aquela combinação. Pele branca, salpicada de sardas, mas muito branca. Olhos azuis, julgar-se-ia à partida. Mas não, castanhos, como café sem leite, um olhar feroz.

 

Minúsculas gotículas de suor no sulco bem definido do seu lábio superior.

 

- Fui eu que a disparei - disse ela. - Um sotaque sibilante. Do Sul, seria? - Lamento muito, foi totalmente acidental. Estou só a aprender...

 

A língua de Carriscant permaneceu inerte na sua garganta seca.

 

- ...e sem eu saber bem como a seta deu um sacão para cima quando a disparei. Subiu imenso e desapareceu no meio das árvores. Lamento imenso.

 

- É um escândalo - conseguiu ele articular, debilmente. Eu podia estar morto a esta hora. Desculpas. Exijo desculpas. O seu nome.

 

- Ouça, eu já pedi desculpas várias vezes. vou voltar a fazê-lo: lamento imenso. Ninguém se magoou. Foi um acidente.

 

- Qual é o seu nome? - A pergunta saiu-lhe quase como um grito dilacerante.

 

Ela olhou-o.

 

Suspirou. - O meu nome não é para aqui chamado, e não é nada da sua conta - disse - o seu tom alterando-se, tornando-se mais irritado, mais sério de repente. Seja lá você quem for, seu homenzinho pateta e convencido. O seu comportamento é do mais despropositado, para não dizer ofensivo. E agora faça o favor de continuar o seu caminho, dado que está a interromper a nossa lição.

 

Sangue corrompido

 

O jovem chinês tinha morrido durante a noite, súbita mas não inesperadamente. Desde o dia da operação tornara-se evidente que havia algo de errado com ele: tinha febre, sofria de oclusão intestinal, e a sua língua - que a princípio parecia sarar admiravelmente - começara a exsudar pus e a escurecer em volta das suturas. O listerismo e a assepsia alcançavam prodígios. Mesmo aqui em Manila, em San Jeronimo, a taxa de convalescença nas suas enfermarias era cinco vezes superior à verificada entre os doentes de Cruz, mas quando Carriscant via estes sinais, sabia que a sua capacidade de intervenção se esgotara. Embora fosse raro, já duas ou três vezes antes tinha deparado com uma peritonite associada a uma erisipela do pescoço. Ele supunha que os estreptococos conseguiam atingir a membrana serosa através do sangue. De qualquer modo, medicara o rapaz com opiáceos, tentando aliviar-lhe um pouco o sofrimento, e, impotente, vira-o sucumbir. Perdera toda a esperança quando, ao entrar na enfermaria, tinha visto o rapaz deitado de costas, com os joelhos espetados para cima, as mãos trémulas levantadas acima da cabeça para aumentar a capacidade torácica. O seu rosto estava já emaciado, os olhos inquietos, as mãos frias e húmidas. Começou a vomitar regularmente e a sua parede abdominal ficou rígida, como uma tábua de madeira. O meteorismo instalou-se, o abdómen ficando tenso e timpanítico quando percutido. O rapaz queixava-se não apenas de uma dor pungente nos intestinos mas também de uma sede torturante. Foi-lhe E administrado um clister de água fria. Bebeu um pouco de leite frio misturado com água gaseificada e pintaram-lhe a língua com uma solução de glicerina, numa tentativa de a manter húmida. Sem grandes resultados. O pulso tornou-se mais rápido, débil e filiforme. O rapaz começou a soluçar violentamente, sintoma muito preocupante que, Carriscant sabia-o bem, tornava o prognóstico extremamente reservado. Desenvolveu a clássica face grippée, contraída e encovada, o sulco nasolabial muito fundo. A língua cobriu-se de uma camada de sujidade e o vómito tornou-se nauseabundo. Sordes apareceram nos dentes e lábios. Compadecido, Carriscant observou a agitação do rapaz - nos casos de peritonite não havia coma abençoado para aliviar o sofrimento - e viu os seus membros ficarem frios e azuis. No momento da morte, jorraram-lhe da boca e do recto duas grandes golfadas de fluido malcheiroso e acastanhado. Momentos como este atormentavam Carriscant com a visão do imenso vazio da sua própria ignorância e impotência. Os instrumentos que usava eram esterilizados, a sua sala de operações limpa e desinfectada, antes de lá entrar esfregava as mãos pressurosamente até ficarem rosadas, usava batas brancas acabadas de sair da lavandaria e contudo, de alguma forma, saído de algum lugar, o temido estreptococo tinha conseguido infectar o sangue do rapaz, corrompendo-o. Saído "de algum lugar"... essa suposição vaga só por si era suficientemente má. Uma incisão na língua tinha ocasionado uma infecção da membrana serosa do abdómen. Carriscant sabia que os intestinos estariam cobertos por uma exsudação de pus e fluido, uma espessa camada de linfa ao longo das linhas de contacto entre as várias dobras da tripa. Uma vez infectado, o corpo do paciente sucumbia inevitavelmente às toxinas no sangue corrompido, e a uma nova sensação de impotência invadia todos os que se viam reduzidos a observar e esperar pela morte. Sangue corrompido... Em alturas como esta ele compreendia a vã obsessão dos seus pouco esclarecidos precursores pelas sanguessugas e sangrias.

 

Olhou o corpo nu do rapaz, jazendo à sua frente na mesa de dissecção da morgue, enquanto se preparava para examinar a sua mórbida anatomia. Um pouco anafado, com um peito quase efeminado e um pequeno tufo de pêlos púbicos acima dos órgãos genitais entumescidos. Carriscant tocou na carne fria, mole, fez pressão sobre a caixa torácica, deixou que as suas mãos modelassem os contornos do abdómen. Conhecia todos os componentes daquele corpo, tudo o que estava escondido por debaixo daquele invólucro de pele, maleável mas resistente. O interior de um homem ou mulher era-lhe tão familiar como o rosto de um amigo ou a disposição dos móveis na sua sala de estar, mas era uma familiaridade concedida apenas depois da morte. A cabeça, o peito, a coluna vertebral, o coração... Ele não se atrevia a cruzar este limiar enquanto o corpo ainda retinha um sopro de vida. Ei-lo aqui, um cirurgião altamente especializado, ombreando, gostava ele de pensar, com qualquer outro em todo o mundo civilizado e contudo, para todos os efeitos, encontrava-se num beco sem saída, atado de pés e mãos pelo medo e pelos limites patéticos do seu saber. Sentia-se como um homem de enorme fortuna que comprou um palácio de esplendor imenso e sem igual. Pode deambular pelos jardins, dar voltas pelo exterior, espreitar através das janelas, admirar as mobílias com ornatos dourados e as tapeçarias imponentes, as obras de arte fabulosas e os candelabros rutilantes. Tudo isto me pertence, podia ele pensar, e todavia o acesso estava-lhe para sempre vedado, sob pena de infligir a morte. Sob pena de infligir a morte.

 

Virou o cadáver ao contrário. É claro, pensou com desdém, tem-se sempre acesso à uretra ou ao recto, e às outras portas de que o organismo se dotou, até onde cateteres e sondas, pinças e escalpelos, conseguem chegar. Quantas vezes tinha ele pacientemente reduzido a pó os cálculos da bexiga de um homem torturado pelas dores, os seus delicados instrumentos bem fundo na bexiga, serrando e moendo. Era conhecido pela delicadeza da sua manipulação: dentre as dúzias de operações que executara à bexiga, só três doentes tinham morrido subsequentemente de peritonite. Sabia logo quando o seu toque o havia traído. No momento em que o litotritor era retirado ou o cateter extraído do pénis, lá estava aquela pequena e fatal assinatura de sangue. Depois a prece silenciosa: oh Deus, faz com que seja apenas um arranhão na parede da bexiga. Mesmo a mais ínfima perfuração parecia acarretar a mais pesada das sentenças...

 

Voltou a virar o corpo do rapaz ao contrário e pegou no escalpelo, pronto a descerrar uma vez mais as cortinas sobre os tesouros furtivos e delicados do corpo. Tinha lido recentemente que certos médicos americanos recomendavam o uso de luvas de borracha durante as operações - ele quase que conseguia ouvir o riso escarninho e incrédulo de Cruz. Até ele próprio, Salvador Carriscant, arauto orgulhoso de tudo o que era novo em medicina, sentia algumas dúvidas acerca deste método - o que seria do "toque" de cada cirurgião, da magia do seu dom? Essa combinação única, como já ouvira defini-la, entre os dedos de uma bordadeira e o pulso de um marujo? Qual era a utilidade de apurar uma destreza para depois a abafar deliberadamente em borracha? Fazia lembrar aquelas princesas árabes escondidas atrás de véus negros. Por que há-de uma mulher bela ocultar...

 

E, é claro, voltou a pensar na mulher americana. Rara era a hora que passava nestes dias sem que ela se viesse intrometer nos seus pensamentos. Algo na nobreza do seu olhar, na geometria da sua face, a sua tez estranha, actuara sobre ele com uma eficácia arrebatadora, intransigente. Nunca antes, nunca antes... Como um líquido inerte que, galvanizado por um estranho catalisador, tivesse entrado numa louca efervescência. E aqui estava ela, na cidade onde ele vivia... Era isto que o reduzia à impotência: sentiu aquela curiosa fraqueza invadi-lo uma vez mais, brotando de uma nova glândula na base da espinha dorsal e crescendo pelo seu corpo como uma árvore.

 

Pousou o escalpelo com um ruído metálico e, juntando os braços, deixou a cabeça pender sobre o cadáver pálido e destroçado do rapaz. "Jesus Cristo - disse numa prece invulgar que Deus me valha."

 

- Salvador, o que é que se passa? - Pantaleão entrou na sala, apreensivo, preocupado por encontrá-lo assim.

 

- Eu estou bem, estou bem - disse Carriscant endireitando-se.- Apenas um pouco cansado, acho. - Pôs o escalpelo de parte. - Isto pode esperar.

 

Virou-se. Pantaleão enfiou as mãos bem fundo nos bolsos.

 

- O que é que se passa? - perguntou Carriscant.

 

- Posso dar-te uma palavrinha em privado?

 

Carriscant mandou um dos maqueiros do hospital conduzi-lo numa carruagem até às docas, onde os embarcadouros em ambas as margens do Pasig estavam, como sempre, coalhados de navios - vapores, escunas de velas redondas e latinas, juncos e ferry-boats, barcos a vapor de fundo chato movidos a rodas capazes de transpor os trechos arenosos do rio mais a montante e, por último, os grandes cascos, oscilando e entrechocando-se, lanchões convertidos em casas flutuantes para a população nómada do rio, amarrados em filas de quatro e cinco ao longo dos cais. Sentia-se aliviado por ter saído do hospital, bastante feliz em prestar este serviço a Pantaleão, o que lhe dava a oportunidade de se recompor e ainda de perscrutar todas as europeias e americanas que via passar nas carruagens que se cruzavam com a sua, na esperança ardente de entrever mais uma vez aquele rosto de pele branca salpicado de sardas e de sentir cravado em si o olhar frio daqueles cândidos olhos castanhos...

 

A carruagem parou à entrada de uma ruela estreita, a Calle Crespo, em Quiapo, onde porta sim, porta não, parecia haver um funileiro e o ar vibrava com o ruído surdo dos martelos batendo o ferro galvanizado. Enquanto descia da viatura, Carriscant viu um novo painel iluminado do lado oposto do cruzamento: GALERIA DE TIRO AO ALVO CONEY ISLAND - claramente, os americanos estavam para ficar. No número 89 da Calle Crespo encontrou o letreiro que procurava: entre "Sam. M. Goodforth, inspector naval" e "Pablo Eulegio, limpeza de chapéus" estava o seu destino - "Udo Leys, comerciante de tabaco".

 

Depois de o pai de Annaliese, Gerhardt Leys, ter regressado à Alemanha juntamente com a irmã dela, o seu tio Udo permanecera nas Filipinas, assistindo estoicamente ao declínio irreversível da fortuna familiar. Carriscant trepou as escadas e empurrou a porta do escritório. A secretária não se encontrava no vestíbulo e, no escritório propriamente dito, Udo permanecia invisível. Ao longo das paredes alinhavam-se humidificadores de vidro vazios e cartazes extravagantes anunciando charutos de Manila. Nas décadas de 1870 e 1880 o campo estivera mais ou menos livre para os dois irmãos. Agora, só em Manila havia oito fábricas de charutos e cigarros; já ninguém era obrigado a comprar a Udo Leys e este vira-se obrigado a diversificar, gerindo um negócio oportunista de importação/exportação, esperando que uma carência se manifestasse e depois correndo desesperadamente a fornecer os produtos em causa, quer fossem bicicletas ou perfumes, forragem para gado ou bugigangas. Da última vez que Carriscant o vira, Udo confiara-lhe num sussurro conspirativo que tinha setenta e cinco pianos de parede guardados num armazém em Tondo. "Pensa em todas aquelas escolas americanas novas - dissera Udo, a voz alterada pelo fascínio antecipado do lucro - todos aqueles salões de festa... Onde é que vão tocar o "Stars and Stripes"? Numa semana despacho-os todos." Carriscant sorriu, recordando a convicção inabalável do velhote, e deu alguns passos até à janela. Aí reinava uma barulheira infernal: lá em baixo, no pátio, dez homens fabricavam baldes.

 

Virou-se ao ouvir o som de uma porta a abrir-se e viu Udo emergir de um pequeno compartimento ao fundo do escritório com um penico na mão, os botões da braguilha ainda por abotoar. O seu aspecto não era o mais saudável, um velho robusto, atarracado, com uma face vermelhusca e nodulosa e um bigodinho mal aparado que parecia estar a crescer em quatro direcções simultaneamente.

 

- Ah, Salvador, meu rapaz, que surpresa agradável - disse ele. - Dá-me só um segundo.

 

Coxeou até à janela, abriu-a e despejou o conteúdo do penico sobre os homens que fabricavam baldes. Nem por um momento o som das marteladas abrandou.

 

Udo encolheu os ombros. - É suposto estes merdosos pararem à hora de almoço, mas quem é que se rala? - Falava inglês com um sotaque alemão acentuado. Carriscant apertou a mão esquerda que Udo lhe estendia enquanto com a direita continuava a segurar o penico: sentia algum carinho pelo velhote, mas Annaliese gostava de reduzir ao mínimo os contactos com ele. Udo pousou o penico na secretária e desembaraçou os dedos de algumas gotas de líquido, limpando-os ao mata-borrão. Abriu uma gaveta e ofereceu um charuto a Carriscant, que este declinou.

 

Udo agitou os dedos rechonchudos sobre os charutos alinhados, escolheu um e fê-lo girar voluptuosamente debaixo do nariz bolboso e raiado de veias.

 

- La Flor de la Isabella - disse, pensativamente. - Tão bons como os melhores havanos. Já alguma vez te tinha dito isto?

 

- E com grande convicção - replicou Carriscant. - E que tal o negócio dos pianos?

 

- Vai devagar. Já te contei que penso abrir uma lavandaria?

 

Especularam um pouco sobre o inevitável sucesso desta empresa antes de Carriscant lhe dizer ao que viera. - Um amigo

- começou - encomendara uma máquina industrial de França e precisava que ela fosse despachada até Manila, mas discretamente.

 

Este amigo receava que, como filipino, talvez não lhe fosse permitido importar o componente em questão.

 

- E do que é que se trata? - perguntou Udo. - Um morteiro?

 

- Um motor. É um... um tipo especial de motor. Para um género de automóvel.

 

- Ele está a construir um carro motorizado? Muito perspicaz. Vi um no outro dia, aqui nas docas. Espantoso. Alemão, claro.

 

- É qualquer coisa desse tipo. E ele não se pode dar ao luxo de pagar a taxa alfandegária.

 

Udo garantiu-lhe que o assunto não oferecia qualquer dificuldade. Podia custar uma pequena quantia extra, mas ele conhecia muitos capitães de navios compreensivos e muitas companhias de transportes marítimos que estariam dispostas a facilitar. Caso o motor fosse transportado até Hong Kong, a partir desse ponto podia ser assegurada a máxima discrição.

 

Udo coxeou até ao cimo das escadas para acompanhar Carriscant à saída.

 

- O que é que se passa, Udo?

 

- Gota, ou coisa parecida. Tenho a perna a mudar de cor. Está a ficar azul.

 

- Venha ao hospital, eu dou uma olhadela nisso.

 

- Vais é cortar-ma, isso sim. - Olhou-o com uma expressão melancólica. - Sem ofensa, Salvador, mas eu cá não confio muito em vocês médicos.

 

Quando Carriscant já ia a meio das escadas, Udo lançou-lhe:

- E a Annaliese, como é que vai?

 

- Ah... Bem. Muito bem.

 

- Adorava vê-la outra vez.

 

- É claro, Udo. Muito em breve. Obrigado pela ajuda.

 

O gabinete de Paton Bobby situava-se no segundo andar do Ayuntamiento, a sede da Câmara de Manila, um enorme edifício vermelho-coral e branco, profusamente decorado, na Plaza Mayor, junto à catedral. Bobby, vestido à civil, com um fato leve de tweed e um laçarote, estava sentado atrás da sua secretária. O efeito era surpreendente: como se o rude agente da lei se tivesse transformado num catedrático de universidade ou num professor de música. Da cadeira onde se encontrava, Carriscant conseguia ver uma das torres abobadadas da catedral, rematada por uma cruz, em cima da qual estava pousada uma gaivota alisando as penas. Bobby relatava-lhe a série de conversas inconclusivas que mantivera com os homens do pelotão de Ephraim Ward: parecia agora improvável, concluiu com relutância, que Ward tivesse sido assassinado por um dos seus camaradas.

 

A gaivota arqueou o corpo, lançou-se no ar e planou, desaparecendo do enquadramento da janela.

 

- E no entanto alguém deu cabo dele. Ele abandonou o posto e houve algum cabrão de merda que deu cabo dele.

 

Carriscant mudou de posição no assento: a morte de Ephraim Ward parecia-lhe neste momento algo de muito remoto.

 

- Temos a certeza absoluta que ele não foi morto por uma bala, não é assim? Não seria possível alguém extrair-lhe a bala do corpo? Você acha que ele foi apunhalado, certo? - Bobby coçou o crânio através do cabelo ralo com a ponta dum lápis.

 

- Tenho a certeza. Já agora, Cruz ainda não devolveu o coração. O fígado sim, mas não o coração. - Carriscant fechou os olhos por um instante e tentou que o seu tom de voz saísse o mais neutral possível. - A minha mulher - começou lentamente - a minha mulher conheceu uma americana há umas noites atrás, numa das suas reuniões paroquiais, mas esqueceu-se completamente do nome. Uma mulher nova, à beira dos trinta anos, alta, sardenta, com cabelo castanho arruivado. Pelo menos foi o que ela me disse.

 

- Santo Deus, Carriscant, você sabe quantas americanas é que há por aí agora? Esposas, enfermeiras, missionárias, professoras... Devem ser umas boas centenas.

 

- Foi o que eu lhe disse. Mas a minha mulher insistiu para que eu perguntasse, mesmo assim... - Fez uma pausa. - É possível que ela ocupe uma posição importante, algum posto. Ela referiu o Palácio Malacanan. Talvez um clube desportivo?

 

Bobby meditou. - Cabelo arruivado - diz você. - Uma mulher bastante atraente?

 

- Sim. Quer dizer, pelo que eu consegui perceber.

 

- Agora que fala nisso, essa descrição ajusta-se bem à Miss Caspar. Como é o nome dela? Invulgar... Já sei, Miss Rudolfa Caspar. Rudolfa, é isso.

 

- Miss?

 

- Directora do colégio Gerlinger. O novo, em Binondo.

 

- Obrigado, assim já posso dizer à minha mulher.

 

A conversa derivou uma vez mais para o assassinato de Ward, com Carriscant a sugerir que o responsável poderia ser qualquer criminoso dos tugúrios de Tondo, e Bobby relutante em admitir uma possibilidade tão aleatória como essa. Caminharam os dois até à porta e Bobby seguiu Carriscant pelo vasto patamar de mármore no topo da escadaria principal.

 

- Mas para quê largá-lo a quilómetros de distância? - dizia Bobby. - E por que não deixá-lo ficar onde foi morto?

 

Um homem em uniforme passou por eles, parou e virou-se.

- Olá, Bobby - disse. - Alguma novidade?

 

Bobby apresentou-o a Carriscant - um tal de coronel Sieverance. Tinha uma cara agradável, arrapazada, e um bigode fino, um pouco desigual. Se aquele era o bigode de melhor qualidade que a cara de alguém conseguia produzir, pensou Carriscant, então o melhor seria rapá-lo completamente. O coronel Sieverance parecia extraordinariamente jovem para deter um posto tão elevado, e além disso lembrava-lhe alguém... Talvez já se tivessem encontrado antes em qualquer lugar.

 

- Ward pertencia ao regimento do coronel - explicou Bobby. - Foi o doutor Carriscant que examinou o corpo tem-nos dado imensa ajuda.

 

Sieverance sorriu; o homem tinha um porte cativante, entusiástico, nem por sombras belicoso ou militar, pensou Carriscant. - Doutor? - disse ele, alegremente. - Um clínico geral, espero eu?

 

- Sou cirurgião, receio bem.

 

- Cos diabos. Por que raio não consegue o exército dos Estados Unidos contratar um médico de clínica geral decente? - Sorriu com um ar pesaroso. - Pensei que você me ia salvar o dia. Prazer em vê-lo. Até breve, Bobby.

 

- Ele agora faz parte da equipa de assessores do governador - disse Bobby, vendo Sieverance afastar-se em passadas largas por um corredor fora. - É um tipo agradável.

 

Uma dieta de caldo de carne

 

- Os peixes estão a saltar - disse Pantaleão. - Está na hora de desenterrar as minhocas.

 

Carriscant fez um corte na zona dos rins. A carne apresentava-se flácida e edematosa, o que o preocupou. O homem deitado na mesa de operações, um cambista de Binondo, era um doente de Cruz que algum tempo depois de receber alta regressara ao hospital, queixando-se de dores no abdómen e de uma turvação na urina. Carriscant cortou a parede abdominal e separou os músculos. Fez uma pausa enquanto as enfermeiras aplicavam mechas absorventes e limpavam a ferida com esponjas.

 

- O que é que o Cruz fez a este fulano, Panta? - perguntou.

 

Pantaleão consultou os seus apontamentos. - Achou que podia ser malária, ou então - desta tu vais gostar - "obstipação persistente".

 

- Santo Céu.

 

- Aplicou uma fomentação quente sobre iodeto de potassa. Repara, ainda são visíveis os vestígios das queimaduras.

 

Carriscant sentiu-se enojado. - Sabes, às vezes sinto-me como se vivesse em cavernas a lutar com dinossauros. Este homem está a morrer de perinefrite e o Cruz besunta-o com unguentos que lhe enchem a pele de pústulas.

 

- Sem esquecer a morfina em supositórios.

 

- Estás a brincar!

 

- E uma dieta de caldo de carne.

 

Carriscant soltou uma sonora gargalhada, secundado pelas suas enfermeiras. Só lhe restava rir-se, sem dúvida. Se as pessoas soubessem aquilo a que se sujeitavam confiando excessivamente nos seus médicos...

 

A incisão foi mantida aberta por meio de afastadores e Carriscant examinou o órgão exposto. A parcela que via era de um cinzento malsão, grande parte da superfície estando obscurecida por uma massa de gordura e tecido fibroso. Introduziu um dedo na cavidade e explorou entre o rim e o diafragma. Um esguicho de pus salpicou-lhe a manga. Sentiu o seu cheiro adocicado e farináceo e reparou na cor, de um verde lamacento. Tinha encontrado o abcesso, do tamanho aproximado de uma tangerina, calculava.

 

- Como é que vai o novo projecto? - perguntou a Pantaleão enquanto cosia a parede da cavidade do abcesso a um dos lábios da ferida.

 

- Muito bem. Devo dizer que o nível da carpintaria local é espantoso. Os tipos conseguem fazer tudo o que uma pessoa lhes pedir.

 

- Eu sei. - Carriscant retirou com os dedos farrapos soltos de tecido celular e sacudiu-os para dentro de uma tina. - Lembro-me de ter mandado um tipo que vivia em Tondo substituir uma marchetaria. A oficina dele era uma simples barraquinha, nada mais. A peça tinha sido feita no Japão. Quando ele acabou o trabalho, não se notava diferença nenhuma. - Tu devias ver as pás da hélice: uma maravilha. Quanto tempo mais? O pulso está um bocadinho fraco.

 

- Cinco minutos... Pinça, enfermeira.

 

Carriscant puxou mais algumas porções de tecido adiposo.

- Depende se há ou não uma fístula, suponho. - Tacteou com o dedo. - Não me parece.

 

- Espero ter todos os painéis prontos para a semana que vem.

 

- A sério? Trabalho rápido... Aqui há uma data de supuração.

 

Lavou a cavidade do abcesso com uma solução de ácido carbólico e introduziu um tubo de drenagem. Tinha descoberto a morada do colégio Gerlinger, onde a americana trabalhava. Não lhe parecia boa ideia ir lá esperá-la enquanto as crianças estivessem a ter aulas. Talvez mais ao fim do dia. Fechou a ferida com alguns pontos. Uma das enfermeiras cobriu-a com um grande chumaço de algodão em rama molhado.

 

- Assim deve chegar - disse ele. - E julgo que talvez seja necessário um enema prolongado e abundante.

 

Pantaleão casquinou. - Cruz aprovaria certamente.

 

- E alguma ergotina de centeio. Duas doses durante os próximos três dias. Levem-no daqui.

 

Dirigiu-se ao lavatório para lavar as mãos. O fedor a pus agarrava-se a uma pessoa. Como a Annaliese detestava isso. Trazes o pivete do trabalho para dentro de casa. Parece que sou casada com um vendedor de peixe.

 

- O que é que se segue? - perguntou em voz alta à enfermeira.

 

- Vólvulo do intestino delgado.

 

Dia atarefado, pensou ele, dia atarefado.

 

Passeio na Luneta

 

O colégio Gerlinger situava-se numa rua perpendicular à Escolta, a uma centena de metros desta artéria próspera de lojas elegantes e do fascínio espalhafatoso dos grandes armazéns de artigos de luxo chineses. Era uma antiga caserna da guardiã civil e conservava este aspecto um pouco institucional e carrancudo, apesar do esforço feito recentemente para embelezá-la plantando um renque de zínias ao longo da fachada. Quando Carriscant chegou, ao fim da tarde, as crianças tinham já saído.

 

Uma velhota que esfregava as lajes de pedra no átrio de entrada indicou-lhe o caminho para a sala de professores, onde um trio de freiras jovens confirmou que Miss Caspar já saíra e não voltava naquele dia.

 

- É algum assunto urgente? - perguntou uma delas, polidamente.

 

- Ah, não, Irmã, é... - Fez uma pausa: como expressá-lo?

 

- Um assunto pessoal.

 

Alguma da sua angústia deve ter transparecido nesta expressão corriqueira, dado que as três freiras trocaram olhares compreensivos e em seguida uma delas informou-o de que Miss Caspar tinha por hábito dar um passeio na Luneta antes de regressar a casa. Especialmente se a banda da polícia lá estivesse a tocar.

 

A Luneta era um pequeno parque situado entre as fortificações de Intramuros e o quebra-mar, onde tradicionalmente os cidadãos de Manila se reuniam ao crepúsculo para o paseo. O costume sobrevivera à chegada dos americanos e constituía uma das raras ocasiões em que estrangeiros, mestizos e filipinos nativos se juntavam numa espécie de mescla social descontraída e igualitária.

 

Quando Carriscant chegou à modesta esplanada, em volta da qual tinha lugar grande parte do exibicionismo aparatoso e da maledicência dissimulada, algumas pessoas começavam já a abandonar lentamente o local e, vindo da cidade velha, ouvia-se o som distante dos últimos sinos batendo as ave-marias. Mesmo assim havia ainda mais de cem carruagens dando voltas e mais voltas em ritmo pausado no sentido dos ponteiros do relógio, sob as luzes agora bruxuleantes dos candeeiros públicos. Carriscant mandou o seu cocheiro parar e continuou a pé pela área pavimentada central, atravessando a custo a multidão de mirones em direcção ao coreto, donde a brisa marítima trazia até si os acordes de uma valsa de Strauss tocada de forma competente. Lançava à sua volta olhares rápidos enquanto caminhava, examinando todos os rostos de mulheres brancas, absolutamente confiante de que os seus olhos seriam capazes de a distinguir - um pouco como o nosso próprio nome nos salta à vista em qualquer página impressa - na massa de pessoas que deambulavam de um lado para o outro, tagarelando, namoriscando, trocando olhares apaixonados, tecendo comentários sobre os landaus e as vitórias reluzentes e os atavios rendilhados das mulheres que neles se pavoneavam. Viam-se muitos militares americanos nos seus uniformes brancos com os chapéus de feltro macio na cabeça, chineses ricos vestidos com sedas de cores garridas, ingleses de casacos de vela e capacetes coloniais e, aqui e além, um velho frade que se apressava, nervoso, sonhando com os velhos tempos antes da revolução e da chegada dos americanos. À direita de Carriscant estendia-se a vasta e plácida baía, de águas escuras agora que o sol ia desaparecendo aos poucos por detrás da península de Bataan, as silhuetas ainda mais escuras dos navios ancorados pontilhadas por luzes coloridas.

 

Esperou junto ao coreto durante alguns tensos e intermináveis minutos, mas não a conseguiu avistar. Apesar do frio do anoitecer, transpirava de impaciência e excitação. Enxugou a testa e secou as palmas das mãos húmidas com um lenço antes de atravessar a rua até junto do quebra-mar, onde ficou parado por momentos, os olhos fechados, dizendo a si próprio para se descontrair e abanando o panamá junto à cara perlada de suor. À medida que se acalmava, um novo estado de espírito, racional e ponderado, começou a dominá-lo... Que raio de ideia lhe teria passado pela cabeça para se pôr a correr pela Luneta como um colegial apaixonado? Ele era o doutor Salvador Carriscant, cirurgião-chefe do hospital de San Jeronimo, e grande número de pessoas ali presentes o poderiam reconhecer. Deitou olhadelas hesitantes à esquerda e à direita; ainda bem que a penumbra se adensava - para lá da luz dos candeeiros, os contornos da maioria dos rostos tornavam-se imprecisos. E se tivesse encontrado a mulher-na escola, que teria ele feito, pensou, censurando-se ainda mais? Arquitectara uma história acerca de querer inscrever no colégio uma sobrinha imaginária, mas as primeiras perguntas elementares da parte dela teriam revelado imediatamente tratar-se de um pretexto falacioso. Sentiu uma enorme repugnância pela sua disparatada impetuosidade: era tudo menos dignificante. Enterrou o chapéu na cabeça e virou-se para regressar a casa, pensando com sensatez pesarosa que a dignidade era a primeira qualidade a ser abandonada quando o coração assumia o governo dos assuntos humanos.

 

E foi então que a viu.

 

com duas outras mulheres e, reparou um momento mais tarde, dois acompanhantes masculinos alguns passos atrás, dois homens envergando fatos de sarja, todos aproximando-se do coreto, sobre o qual a banda tinha agora atacado uma irritante marcha de Sousa1 ao melhor estilo umpah-pah.

 

Atravessou a rua, precipitando-se por entre as carruagens, e começou a seguir o grupo, mantendo-se a uma certa distância, um pouco desviado para o lado. Ela trazia um pequeno chapéu que lhe dava uma aparência mais arranjada e formal do que naquele dia no campo de tiro ao arco, mas o seu rosto respirava animação, mostrando que ela se estava a divertir e, pela primeira vez, ele viu-a sorrir.

 

Reuniram-se os cinco junto ao coreto e a música voltou a mudar, desta vez para uma execução algo marcada pela sonoridade dos metais, ainda que plangente, do "Quando me'n vo" de La Bohème. Ele foi ocupar uma posição oblíqua nas costas dela, donde lhe via o rosto a um quarto de perfil, e observou-a levando os dedos entrelaçados à garganta enquanto articulava a letra da ária para si própria, desfrutando a música. Os olhos de Carriscant desceram e viu-lhe as ancas bamboleando para cá e para lá, as pregas da sua saia comprida rodando de um lado para o outro à medida que ela se apoiava num e noutro pé, quase a dançar sozinha, enlevada pelos ritmos pungentes da melodia.

 

Aquilo era de mais para ele: aquilo era de mais para qualquer pessoa na sua situação. Sentiu cair sobre si uma espécie de desfalecimento irreprimível, uma leveza, como se o seu corpo se tivesse esvaziado, e ali ficou, qual vagem seca, pronto a ser levado para longe pela mais leve brisa.

 

As duas mulheres que a acompanhavam mantinham-se à frente dela, um pouco afastadas. Um dos homens a seu lado apontou para uma rapariga que vendia doces e nozes cristalizadas. Ela assentiu com a cabeça e ele afastou-se para fazer a compra, enquanto o outro homem perguntava o mesmo às duas

 

' John Philip Sousa (1854-1932), compositor americano de marchas militares. (N. T.)

 

mulheres. Seria algum destes tipo o seu namorado, interrogou-se Carriscant? Ou seriam apenas colegas do colégio Gerlinger? Ei-la agora parada, sozinha por breves instantes, absorta na música. Três passadas levaram-no até junto dela.

 

- Miss Caspar - disse ele numa voz baixa, em tom íntimo.

- Se me permite, por favor...

 

Ela não reagiu, não se virou. Ele repetiu o seu nome, levantando um pouco a voz. Nada. Estendeu o braço e, com dedos trémulos, tocou no tecido da sua blusa azul-celeste.

 

Ela virou-se com um ligeiro frémito de surpresa e ele fitou aquele rosto mais uma vez.

 

- Miss Caspar, desculpe-me, precisava vê-la. Fui esperá-la...

 

- Quem é o senhor? Receio bem não... - Ela passou os dedos pela testa acima do olho direito enquanto os seus olhos se fixavam nele. As suas sobrancelhas juntaram-se.

 

- Santo Deus, é você. Você é aquele fulano maluco que saiu disparado a gritar do...

 

- Miss Caspar, vim pedir-lhe desculpas. Queria vir pessoalmente...

 

- Pare. Peço-lhe. O assunto está encerrado. Não há necessidade disso.

 

Ela esboçou um sorriso de circunstância e começou a virar-se. Na periferia do seu campo de visão Carriscant apercebeu-se dos dois amigos dela regressando com as guloseimas.

 

A sua voz tornou-se premente: - Miss Caspar...

 

- Escute, se você me volta a chamar isso, eu...

 

- Rudolfa, então - disse ele - num assomo de coragem. Se me permite, Rudolfa, gostaria de explicar...

 

- Como? Que é que você está para aí a dizer? Rudolfa? Ela deu um passo atrás, abruptamente. - Faça o favor de me deixar em paz ou eu chamo a polícia.

 

Um dos homens surgiu de repente ao lado dela. Apercebendo-se de que nem tudo estava bem, lançou a Carriscant, em tom agressivo: - O que é que o senhor deseja? - Virou-se para ela. - Está tudo bem, Delphine?

 

Delphine...

 

- Peço imensa desculpa - disse Carriscant, que a custo conseguiu esboçar uma pequena vénia. - Perdoem-me, trata-se de uma confusão de identidades.

 

Afastou-se da esplanada em passadas rápidas, chocando com pessoas pelo caminho, indiferente, o rosto crispado num esgar altivo e senhorial para disfarçar o seu embaraço gritante, pensando apenas: - Diabos te levem, Paton Bobby, meu americanaço imbecil duma figa.

 

A casa de San Teodoro

 

Carriscant observou a mãe, amparada por uma rapariguinha, caminhar em passo arrastado até à azotea e em seguida instalar-se com alguma dificuldade na sua cadeira preferida. A veneziana de bambu do lado oriental estava levantada para permitir que os débeis raios de sol matinal a aquecessem um pouco. A casa de San Teodoro (a uma distância de mais ou menos noventa quilómetros de Manila) era grande e sóbria, de dois pisos, composta por vastas divisões quadradas com soalhos de madeira bem encerados. Pertencia à família da mãe de Carriscant desde há gerações e o seu pai sempre parecera um tudo-nada deslocado dentro daquelas paredes, algo perdido, esmagado pela opulência majestosa do edifício - para que eram precisas quatro salas de recepção no piso térreo? - e nunca dera mostras de lá se sentir verdadeiramente confortável. Era como se, na condição de intruso estrangeiro, ele fosse assombrado pelos espectros dos proprietários mestizos, arrogantes e enfatuados, que tinham dirigido o seu feudo de San Teodoro durante cem anos, com pulso firme e convicção inabalável, até à chegada dos americanos. Quem é este engenheiro de pele clara e cabelos ruivos, pareciam ecoar aquelas vozes ancestrais, o que tem este sujeito dócil, vindo dum país distante fustigado pela chuva, a ver com esta família, com o seu património e responsabilidades?

 

E o seu pai sentira-o, Carriscant compreendia agora, enquanto supervisionava a disposição das coisas para o chá, e era mais feliz percorrendo o seu caminho de ferro de uma ponta à outra ou nos escritórios do consórcio em Manila. Sempre que vinham passar uma temporada a San Teodoro algo nele parecia mirrar e encolher-se, até ao momento em que a carruagem os levava outra vez para longe dali, percorrendo a alameda de árvores nassa que dava acesso à casa, e só então a sua coluna vertebral parecia endireitar-se, os seus ombros reencontravam a flexibilidade, e ele voltava a ser Archibald Carriscant, nascido em Dundee, engenheiro.

 

Carriscant verteu algum café de milho do bule inglês enquanto a sua mãe contemplava silenciosamente as madre de cacao no jardim, prestes a desabrocharem em flor. Estava habituado aos silêncios da mãe, na verdade agradava-lhe a liberdade de não ser obrigado a fazer conversas de circunstância, e como tal recostou-se na sua cadeira e beberricou a infusão amarga. Desde a morte do seu pai ela tornara-se cada vez mais excêntrica, não exactamente taciturna ou absorta, mas temperamental, na medida em que o seu estado de espírito exercia a cada momento um domínio absoluto sobre a sua conduta. Quando se sentia alegre era uma companhia maravilhosa; quando estava deprimida tornava-se a personificação da melancolia. Além disso, não tentava sequer desculpar-se por estas mudanças bruscas, encarava mesmo como uma virtude a sua própria recusa em fingir. Carriscant olhou-a de relance: hoje não era muito fácil adivinhar qual o seu humor. "Preocupada" talvez, ou "pensativa" nada de demasiado sombrio, em todo o caso. Ao adquirir esta nova franqueza, ela parecia ter abandonado alguma da fatuidade da sua sofisticação mestizo, e, à medida que ia envelhecendo, parecia também ter-se tornado mais escura, como se o seu sangue de índia estivesse a ressudar à superfície da pele, uma velha pigmentação a restabelecer-se. Além disso, tinha posto de parte o seu guarda-roupa espanhol e europeu em favor de roupas mais tradicionais. Naquele dia envergava uma simples blusa de abacá de mangas largas sobre uma saia de veludo negro e em volta dos ombros tinha um panuelo com uma fímbria de renda, ricamente ornamentado com bordaduras delicadas. Do pulso pendia-lhe um pequeno leque de ébano e, a cada minuto ou dois que passavam, ela abria-o com um estalo e abanava o rosto vigorosamente, mais por reflexo do que por necessidade. A sua face estava encovada e vincada por rugas como um caroço de pêssego, mas os olhos castanhos e húmidos permaneciam alerta e desconfiados. Ainda era ela quem governava a casa de San Teodoro e encontrava-se regularmente com os capatazes das suas fazendas. Uma vez por trimestre, os rendeiros desciam das propriedades no Norte para lhe apresentarem cópias da contabilidade mensal.

 

Carriscant bebeu um golo de café e pousou a chávena: a mistela era horrível, pensou ele, só a bebia para agradar à mãe. O gosto pelo café que ela tinha adquirido recentemente era, sem dúvida, mais um passo na aproximação aos seus antepassados.

 

- Ainda não perguntaste como é que eu me sinto - disse ela. - Para que é que serve ter um filho médico se ele não mostra curiosidade pelo nosso estado de saúde?

 

- É porque eu já vi que estás óptima. Tens excelente aspecto.

 

- Não estou nada óptima. Tenho-me sentido pessimamente desde que mataram o Flaviano. As coisas nunca mais foram iguais.

 

Flaviano, o mordomo dela, tinha morrido na guerra.

 

- bom, agora já temos a paz - disse ele. - A vida vai voltar ao normal. - Como era fácil expressar este sentimento: ele próprio quase acreditava nisso.

 

- Agora somos todos americanos - disse ela. - Vai ser interessante. Não que eu vá ficar cá muito tempo para ver.

 

- Antes isto do que o estado em que as coisas estavam antes - disse ele sem entusiasmo.

 

Ela olhou-o, cheia de desdém. - Havia outras opções, sabes - disse. - Não era um simples caso de ou tudo ou nada.

 

- Se quisermos ser realistas...

 

- Conheces alguns deles? Americanos?

 

- Imensos. São pessoas muito gentis.

 

- Não te esqueças que eu já vi quão gentis eles podem ser - disse ela em tom soturno, virando-se para contemplar o jardim. Não precisava que lhe recordassem - nem ele, aliás - o dia em que uma companhia do 3° Regimento de Voluntários do Wyoming visitara San Teodoro.

 

- Escuta, eu cá por mim não tenho nada contra os americanos - disse ele. - Do meu ponto de vista - com algumas excepções - eles só têm feito coisas boas. Pelo menos esforçam-se. Antes estávamos para aqui a apodrecer. Atrasados, esquecidos. Parecíamos uma província espanhola do século XVIII, cheia de frades e fidalgos. Estamos no século XX, mãe... - Parou ao ver a expressão dela e mudou de assunto. - Como é que vai a tua anca?

 

- Péssima. Esta última estação das chuvas foi um martírio. Um horror. Lembro-me que o teu pai sofria de artrite e eu costumava achar que ele fazia umas fitas ridículas. Agora já sei como é.

 

Carriscant pensou no pai e em como o conhecera tão mal. Um homem justo, honesto, afável, não muito expansivo... De repente desejou que o seu pai estivesse vivo, desejou que ele estivesse ali ao seu lado para lhe poder pedir conselho. A força deste sentimento deixou-o surpreendido. Tinha saudades dele, e sentia no peito essa dor. E depois, tentou pôr a ideia de parte por absurda. Oh, pai, já não amo a minha mulher e estou obcecado por uma americana desconhecida, o que devo fazer?

 

- Quando casaste com o pai - perguntou ele à mãe abruptamente - a tua família opôs-se? Desagradou-lhes a ideia?

 

- Por que é que lhes havia de desagradar? Já tinha havido casamentos mistos na família. Além disso, o meu pai sabia que eu queria casar, e nunca me teria impedido.

 

- Um homem iluminado.

 

- Um homem inteligente. - Ela agitou o leque na sua direcção. "Lê coeur a sés raisons que la raison ne connaìt point." Lançou-lhe um olhar penetrante. - Quem foi que disse isto?

 

- Ah... Voltaire?

 

- Pascal, meu tonto. O grande Pascal. Quando se está numa situação dessas não há nada a fazer. O melhor ainda é obedecer ao coração. Ao menos assim talvez a pessoa encontre a felicidade. - Olhou-o sagazmente. - Durante algum tempo, em todo o caso.

 

Carriscant meditou nestas palavras, contemplando o jardim. Debaixo das madre de cacao alguns pombos cortejavam fêmeas, marchando para cá e para lá, bolas de penas frementes de luxúria.

 

Ele pôs-se de pé. - Tenho que ir - disse - bruscamente decidido.

 

- Vai lá, vai lá. Já te demoraste tempo suficiente. Volta lá para os teus queridos americanos.

 

Sorrindo, ele curvou-se e beijou-a na face. Pousou as mãos nos seus ombros e sentiu os ossos frágeis através do tecido. Ela segurou-lhe o rosto entre as mãos ossudas, com os nós dos dedos salientes, e beijou-lhe a testa.

 

- Adeus, mãe. E obrigado.

 

Veio-lhe à mente, como sempre acontecia quando chegava o momento das despedidas, que ele era o produto de uma estranhíssima união - o encontro de um tímido engenheiro escocês de Dundee com uma herdeira mestizo combativa e provinciana do sul de Luzon. Não admirava que por vezes nem ele próprio conseguisse compreender a sua personalidade.

 

- O que queres dizer com esse "obrigado"? Está tudo bem contigo? - perguntou ela. - Não se passa nada de errado, ou passa-se?

 

- Não, é claro que não.

 

- Não vais partir para longe outra vez, pois não? Foi tanto tempo da última vez. Em breve estarei morta, nessa altura podes ir para onde quiseres.

 

- Não, não, não vou para lado nenhum. Ficarei por cá.

 

- bom, toma cuidado contigo. E da próxima vez podes trazer aquela tua mulher, se quiseres. Prometo não ser grosseira para ela.

 

- Assim farei, ela com certeza vai gostar de cá vir.

 

Voltou a beijá-la e deixou-a na azotea. Acenou para a pequena silhueta lá atrás enquanto a carruagem se punha em marcha do terreiro defronte da casa e o transportava ao longo da alameda em direcção a San Teodoro, ora brilhando ao sol ora mergulhando na sombra lançada pelas árvores nassa. Sentiu a coluna vertebral endireitar-se e os ombros alargarem-se ao pensar no que o esperava, verdadeiramente o filho de Archibald Carriscant. A brisa trouxe até si um cheiro de melaço.

 

Alvorada no Pasig

 

Frágeis espirais e volutas de névoa elevavam-se das águas turvas verde-acinzentadas do Pasig enquanto o pequeno ferry de fundo chato rumava direito ao cais na margem norte. O único passageiro àquela hora era o doutor Salvador Carriscant, envergando um velho casacão puído e um pequeno boné. Saltou da proa para o embarcadouro de madeira e levantou a gola do casaco. Tinha-se vestido desta maneira numa tentativa de não levantar suspeitas e dar o menos possível nas vistas. Ainda fazia um certo frio e o sol, quase a elevar-se da linha do horizonte, dava ao ar e à paisagem repleta de orvalho um brilho metálico, fosco. Apressou-se sob os olhares curiosos dos poucos camponeses índios que aguardavam com as suas sacas de legumes e desapareceu no carreiro que, atravessando um renque de árvores ribeirinhas, conduzia em direcção às paredes brancas do Palácio Malacanan, visíveis na distância.

 

Esta era a sua terceira visita crepuscular ao campo de tiro ao arco, sob o impulso de um plano vago e desesperado que consistia, antes de mais, em ver de novo a americana e depois, talvez, em segui-la quando ela regressasse a casa ou ao colégio. Mas era sobretudo a própria necessidade de agir, de ter algo de concreto para fazer, que suscitava estes despertares madrugadores. Sentia que se procedesse a mais averiguações acabaria inevitavelmente por tornar-se notado, e estava também posta de parte a hipótese, se alguma vez a voltasse a encontrar em público, de a abordar e tentar explicar-lhe quem era e a razão da sua presença. Tinha que a ver a sós, dera-se conta, e só então poderia esclarecer o mal-entendido.

 

E recusava-se deliberadamente a pensar para além desse momento, se conseguiria fazê-lo acontecer, e no que sucederia depois; todos os seus esforços seriam empenhados simplesmente em torná-lo realidade, após o que caberia ao acaso, ao destino, à fortuna, determinar os acontecimentos subsequentes. Estas expedições ao alvorecer faziam-no sentir ao mesmo tempo ridículo e imbuído de satisfação: ele sabia, dum ponto de vista racional e desapaixonado, que havia qualquer coisa de grotesco e degradante em todo este rastejar por entre arbustos e, contudo, era inegável que a sensação de aventura, de incerteza ansiosa, constituía por si só fonte de excitação e prazer. Nos últimos dias ele tinha vivido mais intensamente, as suas horas de vigília tinham sido mais carregadas de expectativa, como há muitos anos não se recordava. Talvez fosse esta afinal a definição de obsessão? A capacidade de ver o erro manifesto numa linha de conduta e mesmo assim prosseguir com um empenho feroz... Fosse lá o que fosse, fazia-o sentir-se realizado; permitia-lhe continuar com o seu trabalho no hospital, levar uma vida famiIliar normal com uma certa dose de controle e serenidade, porque tinha presente a cada momento que dali a um dia ou dois estaria uma vez mais sentado na humidade matinal do bosque de acácias, com o sol a aquecer as copas das árvores, esperando que Delphine aparecesse. Delphine.

 

Murmurou o nome para si próprio, saboreando as sílabas que o compunham, enquanto penetrava no bosque. Delphine. Ao menos aquele encontro medonho na Luneta permitira-lhe descobrir o seu nome de baptismo. Outro dia estivera prestes a perguntar a Bobby se conhecia alguma americana chamada Delphine, mas no último momento um sobressalto de prudência fizera-o conter-se. Colocar uma pergunta dessas equivalia a ter que responder a muitas outras; melhor seria nada revelar de momento.

 

Abandonou o carreiro e abriu caminho através da floresta em direcção à sebe de arbustos cogal que marcava o perímetro da carreira de tiro. Tinha encontrado uma posição que lhe oferecia uma boa perspectiva do campo e da pista conduzindo ao palácio e a San Miguel. Em manhãs anteriores avistara carruagens subindo por este caminho. Anichou-se no seu esconderijo, as costas contra o tronco rugoso de uma acácia, e preparou-se para esperar.

 

O sol banhava totalmente o campo relvado e as primeiras moscas começavam a zumbir à volta da sua cabeça quando lhe chegou aos ouvidos, vindo da vereda, o tamborilar de cascos e o rangido das rodas de carruagens. Três carruagens fizeram alto e cerca de dez ou doze senhoras desceram, por entre exclamações e gritinhos estridentes; num enorme rebuliço, ajustando resguardos nos pulsos, retesando arcos e escolhendo flechas das aljavas. Carriscant viu quase de imediato que Delphine não se contava entre elas e a frustração, mantida ao largo durante as últimas quarenta e oito horas pela sua vigilância às ocultas, invadiu-o com uma violência deprimente. Encostou-se à árvore, extenuado, uma vez mais censurando-se amargamente, enquanto ecoavam através do campo os gritos e risos das jovens americanas que se entregavam ao seu desporto, seguidos dos impactes surdos e abafados à medida que as primeiras flechas vinham embater nos alvos de palha.

 

Carriscant evocou o rosto de Delphine, naquele primeiro dia em que a tinha visto; evocou a maneira como a alça da aljava tinha realçado os seus seios - bastante cheios e grandes, pensou agora, maiores e mais arredondados que os de Annaliese. E deu consigo a recordar igualmente a maneira como ela tinha bamboleado as ancas ao som da música, naquele fim de tarde na Luneta... Era uma mulher alta, nada havia nela de agarotado ou delicado, nada de pueril. E a sua pele era tão estranha, branca como um peixe das cavernas... As suas nádegas deviam também ter a palidez do leite, pensou, e as coxas... Fechou os olhos sob o dossel da floresta sarapintado de sol e tentou imaginá-la nua, mudando de posição para permitir à sua erecção túrgida mover-se livremente nas calças. Uma varinha de luz solar refulgiu através de uma brecha na folhagem e veio aquecer-lhe a ilharga. Retendo estas imagens na sua mente, adornando-as, tirou o lenço do bolso com uma mão enquanto com a outra desabotoava tremulamente os botões da braguilha. Delphine. Desembaraçando-se da aljava, os dedos ligeiros nos botões da sua blusa, os seus marmelos raiados de azul, livres, oscilantes, as... "Yay! Pasayluha ako."

 

Parado a seis metros de Carriscant, com um baro em farrapos até ao joelho, o velho de peito magro fitava-o através de um hiato nas árvores, estupefacto, petrificado na atitude de apanhar um ramo caído, um pequeno molho de lenha debaixo do outro braço.

 

Carriscant pôs-se de pé num salto, horrorizado, dobrando-se em dois no mesmo movimento, procurando esconder-se.

O velho sorriu-lhe afectuosamente, exibindo os poucos dentes manchados de betei que lhe restavam, e disse qualquer coisa em tagalog, casquinando.

 

Carriscant abriu caminho aos repelões pelo meio do mato até ao carreiro. Ouviu o velho gritar-lhe, e as palavras deliciadas deste conseguiram romper através do uivo esganiçado de humilhação que reverberava na sua cabeça.

 

- É humano, meu filho! - gritava o velhote em tagalog.- Não tenhas vergonha, é humano!

 

A ponte em Santa Mesa

 

Annaliese acordou-o, sacudindo-lhe o ombro suavemente e chamando-o pelo nome. "Salvador... Salvador, está aqui um homem para te ver."

 

Carriscant soergueu-se num gesto abrupto, estranhamente embaraçado por ver a mulher no seu estúdio. Ela vestia um robe de lã justo ao corpo e tinha o cabelo despenteado e revolto. Deixou cair a rede do mosquiteiro e deu um passo atrás, indecisa, afastando-se do divã, como se também ela sentisse subitamente a vergonha de se ver confrontada com a maneira pouco ortodoxa como ambos dormiam em quartos separados.

 

- Que homem? - perguntou Carriscant, olhando-a através da musselina transparente. - Pantaleão?

 

- Um americano. Diz que é muito urgente.

 

Carriscant vestiu-se rapidamente e passou à sala de estar. Paton Bobby, de uniforme, coberto por uma capa até aos pés, esperava-o parado no centro do tapete. Criados nervosos espreitavam dos vãos das portas, os olhos arregalados.

 

- Peço desculpa, Carriscant - disse Bobby. - Foi-nos impossível encontrar Wieland. Houve outro assassinato.

 

Mesmo à saída de Santa Mesa, uma aldeola miserável três quilómetros a este de Manila, uma ponte de pedra atravessava o rio San Juan. A carruagem - Bobby segurando as rédeas, Carriscant ao seu lado - avançou com estrondo pelo pavimento de calhaus arredondados do tabuleiro e parou com uma guinada suave. Eram três da manhã em ponto. Mais abaixo, junto à borda da água, Carriscant avistou meia dúzia de soldados americanos, alguns segurando lanternas.

 

Carriscant deixou-se escorregar pela margem relvada atrás de Bobby, a quem um dos soldados passou uma lanterna. "Está debaixo da ponte", disse Bobby num tom neutro, agitando o feixe de luz na direcção indicada. Os pés enterrados no solo encharcado e pantanoso, as narinas cheias de um fedor a decomposição e a excrementos humanos, Carriscant seguiu com precaução um Bobby decidido.

 

O corpo do homem estava encostado ao pilar de pedra do primeiro arco da ponte, quase como se, ao fazer uma pausa para descansar, tivesse caído no sono. Ainda trazia vestidas as calças e as botas, mas não havia sequer vestígios do resto do uniforme. Desta vez, a causa da morte era visível de imediato: um único golpe de bolo vibrado no alto da cabeça, fendendo-a como um melão. Todo o tronco estava coberto de sangue pegajoso e seco proveniente da ferida na cabeça e Carriscant descobriu-o com um sobressalto ao acocorar-se para a examinar, de uma versão mais dilacerada e sem costura da ferida em L invertido que tinha desfigurado o cadáver de Ephraim Ward. Um troço de intestino com cerca de sessenta centímetros, estraçalhado e reduzido a tiras, fora extirpado do ventre, provavelmente por ratazanas do rio. A mão e o antebraço direito tinham desaparecido, cortados rente à altura do cotovelo.

 

- Foi encontrado à meia-noite - disse Bobby, a voz ressoando sob a abóbada da ponte. - Estava de licença. Foi visto pela última vez às dez e meia da noite de ontem num bar de Sampaloc.

 

- Há pouco mais de vinte e quatro horas... Sampaloc é só a quilómetro e meio daqui, ou coisa que valha. É um soldado?

 

- Cabo Maximilian Braun. Ortografia alemã.

 

- É-me impossível examiná-lo aqui. Vamos levá-lo para o hospital.

 

Ouviu-se o som de rodas ecoando no tabuleiro da ponte sobre as cabeças deles e em breve se lhes reuniu, para ligeira surpresa de Carriscant, o jovem coronel Sieverance, que os saudou a ambos com a solenidade devida.

 

- Cos diabos, que pivete que está aqui em baixo! O que é que esta gente despeja nestes rios? -- Inclinou-se para a frente cuidadosamente, como um homem a espreitar por cima do parapeito dum prédio alto, e cuspiu no chão, enojado. Tapou o nariz com um lenço enquanto falava: - O governador Taft quer um relatório completo - disse, explicando assim a sua presença. Tirou o chapéu e coçou a cabeça com força, nervosamente. Tinha os olhos lacrimejantes e o tufo de cabelos que inadvertidamente deixou em pé no alto da cabeça dava-lhe um ar absurdamente jovem e vulnerável, pensou Carriscant.

 

- Estou-lhe mais uma vez muito grato, doutor Carriscant disse ele. - Acabámos por localizar o doutor Wieland, mas ele não está capaz de conduzir investigação de espécie nenhuma. Quando dei com ele nem sequer conseguia investigar o paradeiro das próprias botas.

 

Alguns soldados trouxeram uma padiola e o cadáver do cabo Braun foi transportado com toda a precaução até ao topo da margem e carregado na carruagem de Bobby. Uma lona cobriu o corpo e Bobby e Carriscant, com Sieverance a segui-los de perto, percorreram o caminho de regresso através da cidade escura e silenciosa até ao hospital de San Jeronimo. Os maqueiros descarregaram o cadáver e colocaram-no sobre uma maca de madeira com rodas, cujo rumorejar monótono os três homens seguiram ao longo dos corredores sinistros conduzindo à morgue. A porta estava trancada; a chave dos maqueiros não servia, nem a de Carriscant. A religiosa de serviço, depois de chamada, explicou que o doutor Cruz mandara mudar a fechadura e que a única chave estava em seu poder.

 

Carriscant conseguiu a custo dominar a raiva e deu ordens aos maqueiros para transportarem o corpo até à sua sala de operações, após o que deviam despi-lo e lavá-lo. Entretanto, ele próprio, Bobby e Sieverance beberam uma chávena de chá quente com algumas gotas de rum na sua sala de consultas.

 

Bobby parecia comovido e transtornado. - Isto é uma loucura, repetia uma e outra vez. Um, ainda vá, pode-se explicar. Algum rufião ressentido decide retalhar a vítima. Dois, e a história passa a ser completamente diferente. Temos aqui um sarilho dos grandes.

 

- De quem é que você disse que se tratava? - indagou Sieverance.

 

- De um tal cabo Braun.

 

- Dois soldados. De certeza que foram os insurrectos, não?

 

- Só que os únicos insurrectos que restam estão noutra ilha, a quinhentos quilómetros de distância, perseguidos por tropas americanas aos milhares.

 

- Assim é, de facto. - Sieverance franziu o sobrolho. Sim. Bem lembrado.

 

- Um sarilho dos grandes.

 

No anfiteatro, o corpo lavado e nu de Braun jazia sobre a mesa de cirurgia numa poça de luz brilhante. Tanto Sieverance como Bobby pareciam mais impressionados pelos cromados cintilantes e pelo asseio geral da sala do que por qualquer outra coisa, enquanto davam passos em volta examinando o equipamento.

 

- Tem aqui uma aparelhagem e pêras, doutor - disse Sieverance. - Sem ofensa, tenho a impressão que podíamos estar nos Estados Unidos, não sei se me faço entender.

 

- Bem, teria que estar nalgum sítio muito especial - disse Carriscant. - Muito deste equipamento não é fácil de encontrar.

 

- Não me espanta - assentiu Sieverance com a cabeça, num gesto apreciador. - Quando penso na sala de operações do Wieland. A imundície, o primitivismo...

 

- Temos que falar sobre Wieland, coronel - disse Bobby.

 

- Seriamente.

 

Carriscant aproximou-se do corpo, deixando os outros dois a trocarem algumas frases curtas em voz baixa. Braun era um homem entroncado, de trinta e muitos anos, com uma pança imponente. Tinha o peito e a barriga cobertos por uma espessa floresta de pêlos grisalhos crescendo em todas as direcções. Carriscant escolheu uma sonda afilada do seu tabuleiro de instrumentos e introduziu-a na ferida larga do peito.

 

- O coração desapareceu - disse ele.

 

- O quê? - responderam à uma os dois homens, e galgaram o espaço que os separava da mesa.

 

- O coração, e a mão direita, obviamente. Removidos de forma competente mas sem grande perícia.

 

Sieverance virou a cara para longe, empalidecendo e levando as costas da mão à boca. - Isso faz algum sentido? Há por aqui algum culto nativo? Algum culto sacrificial ou coisa parecida?

 

- Que eu saiba não - disse Carriscant.

 

- Então e este L invertido? - perguntou Bobby. Os outros órgãos ainda aí estão?

 

Carriscant afastou os lábios da ferida. Tal como ele esperava, os intestinos apresentavam-se um pouco deslocados, mas de resto tudo parecia tão normal quanto possível.

 

- E o último estava cosido - disse ele - mas ainda tinha o coração. Desta vez levaram o coração e deixaram a ferida aberta. Cá para mim não faz sentido - não consigo encontrar uma razão por detrás disto.

 

- Mas não pode ser uma mera coincidência - disse Bobby.

 

- Sabemos que deve ser o mesmo assassino. Ou assassinos.

 

- Onde é que ele foi visto pela última vez?

 

- Estava numa casa de passe em Sampaloc e foi às traseiras para dar uma mija. Ninguém se deu conta que ele nunca mais voltou. Pensaram que estava no andar de cima.

 

- O que é que há nas traseiras desses sítios? - perguntou Sieverance.

 

Carriscant tossiu e aclarou a garganta. Os dois homens olharam-no, na expectativa, mas ele ergueu as duas mãos abertas à laia de escusa. Bobby encolheu os ombros.

 

- Alguns quintais, uns tantos barracões, umas couves, campo aberto - disse ele. - Qualquer um pode entrar ou sair.

 

Carriscant e Bobby abandonaram o gabinete do governador Taft no Palácio Malacanan e percorreram em silêncio o corredor largo até à escadaria central. Taft, um homem corpulento e afável, transpirando copiosamente num fato branco, tinha-se mostrado devidamente reconhecido a Carriscant pelo seu auxílio e, em confidência, tinha-lhe pedido a sua opinião profissional acerca do doutor Wieland. "Um charlatão incompetente e retrógrado", tal foi o veredicto sincero de Carriscant. Quando ele e Bobby se preparavam para sair, Taft tinha pedido que os seus cumprimentos fossem transmitidos a Mrs Carriscant, uma solicitação que surpreendera Carriscant um pouco, até que se lembrou das relações mundanas de Annaliese com a esposa do governador.

 

Enquanto esperavam, debaixo do enorme arco do portão, que chegassem as respectivas carruagens, Bobby disse-lhe: - Sabe, o cabo Braun também pertencia ao regimento do Sieverance.

 

- Estranho. Ele não disse nada.

 

- Calculo que "Brown" soe como um nome muito vulgar. Não deve ter percebido como é que se escreve. Não se deu conta.

 

- Além disso também não o reconheceu.

 

- Eu cá não o reconhecia a si com a cabeça fendida até aos dentes de baixo - disse Bobby com leviandade sardónica. Seja lá como for, vou ter meia dúzia de coisas para lhe perguntar, quando ele descobrir.

 

Carriscant pensou um pouco. - Acha que foi alguém que faz parte da unidade? Algum ressentimento?

 

- É uma explicação possível.- Bobby alisou o bigode farto com o polegar e o indicador. - E ainda há outra coisa, o seu colega, o doutor Quiroga...

 

- O que é que ele tem a ver com isto?

 

- Um dos tios dele é o general Elpidio. Esteban Elpidio. O que nos deu aquele grande baile em Tabayan a Primavera passada.

 

- Onde é que você quer chegar? Vocês já capturaram Elpifdio.

 

- Não, foi uma coisa que você disse sobre os órgãos no cadáver do Ward. As mexidas. Agora neste falta um coração - "removido de forma competente", disse você - talvez tenha

havido mão de um profissional...

 

- Fiquemo-nos por aqui, Bobby. Isso é ridículo. Se você se vai pôr a suspeitar de todos os filipinos que têm um insurrecto como parente, ainda acaba...

 

- Eu suspeito de quem diabo me apetecer, Carriscant, seja lá quem for. - Bobby olhou-o ferozmente, irritado pelo seu tom de voz, depois deixou descair os ombros e esboçou um sorriso de desculpas.

 

- Desculpe-me, desculpe-me... - disse ele, pousando uma mão apaziguadora por um instante na manga de Carriscant. Não sei, esta história toda está a pôr-me os nervos em franja. Em franja.

 

Altitude, direcção e inclinação

 

- Os senhores não têm o direito, não lhes dou o direito de se dirigirem a mim dessa maneira - exclamou Carriscant, tentando suprimir o tremor de raiva na sua voz. Na divisão reinava uma atmosfera de hostilidade satisfeita, de uma fatuidade desagradável, impressionante. Estes dois homens - pensou Carriscant - prometendo a si mesmo manter-se absolutamente calmo quaisquer que fossem as provocações -, estes dois homens julgam que a balança do poder pende a favor deles, sentem-se seguros que as cartas distribuídas os favorecem. O que saberiam eles, interrogou-se? Como explicar esta confiança altiva e ameaçadora?

 

O doutor Isidro Cruz e o doutor Saul Wieland, hirtos como magistrados, sentavam-se em cadeiras no gabinete de Cruz. Este tinha acabado de sair de uma operação: no seu colarinho engomado via-se um ponto de interrogação de sangue brilhante, como um broche, e nas roupas transportava um odor a bafio e a putrefacção. Wieland, frio, o rosto inexpressivo, examinava as peles nas unhas da mão direita, depois da esquerda, afectando desinteresse.

 

Carriscant tinha recus'ado um assento - não fazia tenções de se demorar - e permanecia de pé no centro do tapete de seda, no meio do gabinete de Cruz, um sítio lúgubre com um soalho escuro e encerado e uma mobília pesada, de acabamentos exuberantes. Só o privilégio de saber que os poucos livros encadernados a couro que se alinhavam atrás das portas de vidro dos armários eram textos médicos teria alertado o visitante incauto para o facto de se encontrar no consultório de um cirurgião outrora eminente.

 

Carriscant recomeçou a falar, moderando a voz, tentando soar tão razoável quanto possível. - Nada disto aconteceu por minha instigação. O comandante Bobby só me tem chamado nas ocasiões em que o doutor Wieland se encontra, ah, indisponível.

 

- Mas você aceitou o convite para ir ao palácio do governador - disse Cruz - incapaz de disfarçar uma nota de triunfo escarninho na voz.

 

- Exactamente - ecoou Wieland.

 

- Pelo amor de Deus, o que é que eu havia de fazer? Foi o próprio governador que...

 

- Você devia ter-se dirigido directamente a mim. Como director clínico do hospital de San Jeronimo, isso é da minha responsabilidade. Você faz parte do meu pessoal. É a mim que compete falar em nome do conselho de administração, em nome da instituição. -

Estas mortes nada têm a ver com o hospital.

 

- Os cadáveres dos americanos estão a ser guardados no meu hospital, e eu sou o último a saber! É intolerável! - Bateu com o punho no braço da cadeira, irritado. - E mais - continuou ácido - o doutor Wieland, nosso colega e grande amigo meu, foi oficialmente repreendido pelo governador Taft por causa de afirmações suas.

 

Wieland pôs-se de pé, abandonando por completo a pose de neutralidade estudada. Tinha o olhar carregado de ressentimento e aversão. - Exijo saber o que você disse ao governador.

 

- E eu ordeno-lhe que lho diga - acrescentou Cruz. Carriscant sentiu os músculos das mandíbulas crisparem-se e os ombros formarem uma corcova. Esperou deliberadamente alguns segundos antes de responder, adoptando, para melhor os espicaçar, um tom monótono de indiferença burocrática. Eles tinham acabado de lhe entregar os trunfos todos, com aqueles ares pomposos de valentões; agora já não o perturbavam.

 

- Isso é um assunto confidencial entre mim e o governador, e assim deve permanecer. O governador pediu-me que a nossa discussão acerca dos atributos meritórios, ou outros, do doutor Wieland fosse conduzida sob tais condições. Lamento...

 

Isto foi manifestamente de mais para Wieland, que avançou um passo em direcção a Carriscant. - Ouve cá, meu escarumba de merda...

 

- O que é que você me chamou? Aviso-o já, olhe que eu...

 

- Mulato intriguista, vê se não te metes...

 

O punho de Carriscant aterrou demasiado alto, na orelha esquerda de Wieland, fazendo-lhe retinir de dor os nós dos dedos, mas a força foi suficiente para deitar Wieland ao chão, e no momento seguinte Carriscant estava escarranchado em cima dele, com os dedos em volta da garganta balofa e pregueada, os polegares procurando a traqueia. Cruz atirou-se a ele usando todo o seu peso, carregando-o com o ombro como alguém que tentasse arrombar uma porta, e fê-lo voar contra a secretária, a cabeça de Carriscant embatendo numa das enormes pernas torneadas desta.

 

Durante um ou dois segundos os três homens ficaram estatelados no chão, a elite médica de Manila em plena discussão profissional. Wieland foi o primeiro a levantar-se, tossindo, massajando a garganta, e ajudou Cruz a erguer-se, vacilante. Carriscant, um pouco aturdido, esfregou a cara entre as mãos, ao mesmo tempo excitado e chocado com a violência que crescera em si. Pôs-se de pé devagar, a cabeça dorida e o corpo fremente.

 

- Hei-de lixar-te, Carriscant! - gritou-lhe Wieland, roucamente. Cuspiu no soalho envernizado de Cruz. Por duas vezes. Dois dólares de prata.

 

Cruz pareceu não reparar, ou não se importar. - vou participar de si à administração - berrou também. - Você vai ser despedido! - O seu peito arquejava, tinha o cabelo grisalho revolto e eriçado.

 

Carriscant não articulou palavra. com um braço estendido, as pontas dos dedos roçando na parede, contornou a divisão até à porta. Uma vez aí, parou e virou-se para os encarar.

 

- Se você me volta a insultar mais alguma vez – Wieland - disse ele numa voz baixa e trémula - eu mato-o.

 

- Eu ouvi isso! - vociferou Cruz. - Sou testemunha dessa ameaça!

 

Carriscant virou-se para Cruz. - E quanto a você, vou pedir à administração que o destitua do cargo de director clínico. Você é a vergonha desta profissão.

 

Abandonou a sala, indiferente aos urros furiosos dos outros dois.

 

- Meu Deus - disse Pantaleão, com um sorriso entusiástico. - É a guerra!

 

- Tinha que acontecer, mais cedo ou mais tarde - disse Carriscant. Caminhavam lado a lado, dirigindo-se para o celeiro nipa, vindos da casa de Pantaleão. - Mas tenho cá a impressão que tudo vai acalmar. - Sorriu com alguma amargura. - O Cruz sabe muito bem que tu e eu somos o verdadeiro garante da prosperidade do hospital. E eu tenho Bobby - até Taft - do meu lado. O Cruz já deu o que tinha a dar. O Wieland é um charlatão e um bêbedo inveterado. Tu e eu podíamos mudar-nos para San Lázaro amanhã, que eles recebiam-nos de braços abertos. - Abriram caminho através do buraco na sebe de dentilária. - Não, estou à espera de alguma coisa mais sub-reptícia, mais digna deles os dois, como tipos insidiosos que são.

 

As portas do celeiro estavam abertas de par em par, e do interior vinha o som de marteladas cuidadosas, pequenos martelos batendo em tachas finas.

 

- A propósito - continuou Carriscant - lembras-te daquela arrecadação, no corredor para o anfiteatro? Mandei limpá-la.

 

- A sério? Para quê?

 

- É a nossa nova morgue. Já dei ordens para porem lá algumas das arcas congeladoras do Cruz. Grandes fechaduras nas portas, para ter a certeza que Braun fica em segurança. vou ver se consigo trazer Ward lá do outro sítio. - Encolheu os ombros. - Espero que melhore um pouco as coisas. Talvez o Cruz e o Wieland nos larguem da mão. - Virou-se para o celeiro. E tu, em que fase do trabalho vais?

 

- Espera aqui - disse Pantaleão. - Eu mostro-te. Carriscant viu Pantaleão desaparecer no interior do celeiro e o ruído das marteladas cessou. Suspirou e fechou os olhos, sentindo as suas dores, uma tensão cada vez maior nos seus membros cansados. De momento, sabia-o bem, a sua vida estava já suficientemente complicada, suficientemente agitada, sem ser precisa uma explosão de animosidade violenta entre ele e Cruz, mas a neutralidade constrangida que tinha existido desde o final da guerra, em Julho, estava condenada a ruir, mais cedo ou mais tarde. Talvez fosse melhor assim, tentou convencer-se a si próprio, ao menos serviria para desviar as suas atenções daquela paixoneta impossível, obsessiva, que não cessava de o atormentar... Mandar o Cruz de volta para junto dos seus cães e macacos, dirigir o hospital à sua maneira, segundo os seus princípios e métodos científicos avançados, varrer os pesos mortos.

 

- Salvador, olha!

 

Abriu os olhos. Um quarteto de carpinteiros locais faziam rolar a máquina voadora de Pantaleão para fora da oficina. A fuselagem delgada e esguia apoiava-se num trem formado por quatro rodas de bicicleta, com uma quinta, mais pequena, em posição recuada, para maior estabilidade. O Aeromóvel, lembrava-se agora do nome, tinha duas asas, uma sobre a outra, unidas por uma densa rede de finas hastes de bambu e cabos esticados. Acima do nariz redondo havia uma terceira asa, mais curta, projectando-se para a frente e para o alto, suportada por braços de madeira. Na traseira encontrava-se a cauda horizontal semicircular e Carriscant notou que tanto esta como a pequena asa da frente estavam ligadas por um sistema de roldanas e fios a simples alavancas de madeira montadas acima do trem de quatro rodas. A maior parte da fuselagem e das asas eram revestidas por painéis de seda quase transparentes. Esticou o braço e tocou na ponta de uma asa: o tecido, rígido e envernizado, ressoava como um tambor sob o toque da sua unha.

 

- Extraordinário! - exclamou ele, com genuína estupefacção. - E tens a certeza que esta coisa consegue voar?

 

- Em teoria. O suficiente para ganhar o prémio, com certeza.

 

A seus olhos a máquina parecia muito frágil e muito feia. Semelhante a um modelo gigante e atamancado de uma libélula, toscamente concebido, cujo autor fosse alguém que nunca tivesse visto libélulas, apenas as conhecesse através de uma descrição feita por outrem, e a quem tivessem mandado construir uma imitação com entrançado de cestos, lascas de madeira e papel. Parecia pesadão e pouco prático... E contudo havia qualquer coisa de tocante e etéreo no seu ar canhestro, na sua própria deselegância. Como certos insectos, certos efémeros, que parecem nunca ter sido destinados por Deus para voar e mesmo assim conseguem levantar voo para surpresa geral. Talvez com a máquina de Pantaleão sucedesse o mesmo.

 

- O que falta são as hélices, duas - disse Pantaleão, indicando um suporte de madeira na asa inferior. - Hélices como as dos navios, mas maiores. O motor ficará aqui, no nariz, e depois estendem-se correntes até além para mover as hélices.

 

Carriscant deu a volta em passo lento até à traseira do aparelho. Pantaleão merecia que lhe dessem os parabéns: esta dedicação idealista, esta determinação inabalável em concretizar um sonho, eram raras e produziam um Pantaleão que ele só a custo

reconhecia. Sentiu lágrimas súbitas de emoção correrem-lhe pela cara e o seu olhar turvou-se com água salgada. Lágrimas de orgulho e admiração, lágrimas de amor por este seu amigo, jovem e magricela.

 

Pantaleão fazia oscilar a grande cauda semicircular. Esta encontrava-se montada sobre um bloco móvel, permitindo-lhe girar parcialmente em torno do seu eixo: uma extremidade descaía cinquenta centímetros enquanto a outra se elevava, e vice-versa.

 

- Este é o comando essencial - dizia Pantaleão. - Demorei um ano a desenvolvê-lo, e para isso precisei de uma longa observação das aves planadoras - falcões, búteos. É a capacidade que elas têm de oscilar a cauda para um lado e para o outro... - demonstrou com os dedos afastados, fazendo-os pender para a esquerda e para a direita - ...que controla a sua inclinação em voo. - Sorriu. - Altitude, direcção e inclinação disse - eis o que o aeromobilista tem que dominar. Assim que conseguirmos controlar estes três demónios, o ar tornar-se-á o nosso novo domínio... - Aproximou-se de Carriscant e pôs-lhe um braço em volta dos ombros. - Por favor, Salvador, não chores, não há necessidade.

 

Carriscant, em silêncio, dominado pela emoção, virou-se e assoou-se a um lenço.

 

- Estou sem palavras, Panta, não sei o que dizer. - Abraçou-o. - Depois do dia que tive hoje, nem calculas a energia, a inspiração que me proporcionas, meu amigo!

 

Carriscant supervisionou pessoalmente a instalação das arcas frigoríficas na nova morgue. Inventadas na Austrália, estas serviam na realidade para o transporte marítimo de alimentos perecíveis, ouvira Carriscant da boca de Udo Leys quando lhe descrevera o uso que delas fazia Cruz. E tinha sido Udo que lhe conseguira obter estes três exemplares em segunda mão, não tão espaçosos como os de Cruz, é certo, mas suficientemente amplos para conterem dois cadáveres sem quaisquer apertos. Carriscant mandara substituir a palha da parede interna dupla e cobrir com tinta a inscrição gravada num dos lados: "Oh Chung Lu, Importadores de Carne e Peixe". Cheias de gelo, as arcas (uma contendo Ward, que ele conseguira recuperar da velha morgue, outra contendo Braun) foram alinhadas contra três das paredes da nova morgue, enquanto o centro da sala era ocupado por uma mesa de observações de tampo esmaltado, com três bacias de estanho por baixo. Na quarta parede havia já um lavatório e, seguindo as suas instruções, as tábuas de madeira do soalho tinham sido impermeabilizadas com corticite. Esta morgue serviria perfeitamente até ele conseguir o despedimento de Cruz. Além disso, proporcionava-lhe o lugar ideal para as suas próprias dissecções e trabalhos de investigação, caso viesse a precisar de efectuá-los. Deixava de ser necessário utilizar o laboratório de anatomia no hospital de San Lázaro: tudo aquilo de que precisava estava agora debaixo daquele tecto.

 

Era lá que se encontrava às seis da tarde do dia seguinte, indeciso, sem saber se deveria ir para casa, agora que o seu dia de trabalho terminara, ou se deveria fazer uma última ronda pelas enfermarias, quando um dos maqueiros bateu à porta e lhe entregou um envelope, assinalado "urgente e pessoal". Abriu-o e leu o bilhete que continha, escrito em grandes gatafunhos apressados:

 

Caro Carriscant,

 

Preciso da sua ajuda com a máxima urgência num assunto do foro médico bastante delicado. Ficar-lhe-ei imensamente grato se puder passar, ainda hoje por minha casa, no n° 5, Lagarda Street, em San Miguel, o mais cedo que lhe for possível, a qualquer hora da noite. Conto com a sua ajuda e discrição. Atenciosamente,

 

Jepson Sieverance.

 

A casa de Sieverance era uma dentre cinco grandes villas ainda novas, construídas no estilo antilhano não longe do Palácio Malacanan, todas ocupadas por assessores do governador, e que formavam um pequeno complexo chamado Calle Lagarda.

 

Havia até, à entrada do beco sem saída, um marine de sentinela, sentado preguiçosamente numa guarita. com um aceno distraído da mão, mandou avançar a vitória de Carriscant quase sem levantar os olhos.

 

Carriscant foi conduzido ao salão do primeiro piso, onde Sieverance o cumprimentou num estado de manifesta ansiedade, o rosto tenso, chupado, como se tivesse perdido um peso considerável nas vinte e quatro horas anteriores. Apertou a mão de Carriscant avidamente, quase servil na sua gratidão.

 

- Não sei como agradecer-lhe, Carriscant. Fico em dívida para consigo.

 

- Não tem que me agradecer, a sério. Qual é o problema? Você não me parece nada bem, devo dizer-lhe.

 

- Por aqui, se fizer favor.

 

Conduziu Carriscant para fora do salão e precedeu-o ao longo de um corredor, dirigindo-se, imaginou este, a um quarto de cama onde poderia ser examinado em privado. Parou diante de uma porta e bateu suavemente.

 

- Delphine? - disse ele. - Podemos entrar?

 

Carriscant compreendeu imediatamente, é claro, sem quaisquer dúvidas e sem ter de pensar duas vezes. Teve a vaga noção de ver Sieverance abrindo a porta, e de o seguir para dentro do quarto. Candeeiros a petróleo, com a chama reduzida, sobre a cabeceira de uma cama. As pregas diáfanas de um mosquiteiro. O vaivém do punkah1 no tecto, para a frente e para trás, para a frente e para trás...

 

Ordenou às pernas que o transportassem até à cabeceira da cama enquanto Sieverance erguia o mosquiteiro com delicadeza. Manteve o rosto imóvel, os olhos parados, esperando pelo momento em que, desperta do sono leve, ela se iria virar para ver quem era.

 

Ela estava apoiada em várias almofadas, o cabelo castanho-mate espalhado, solto, um brilho húmido de transpiração na face pálida e tensa.

 

' Ventarola de grandes dimensões, suspensa do tecto, usada nos países tropicais. (N. T.)

 

Sieverance disse-lhe em voz baixa: - Este é o médico de que eu te falei, meu amor. O doutor Carriscant.

 

Ela franziu as pálpebras, levantou um braço como que para se proteger do brilho de um candeeiro e arregalou os olhos de incredulidade.

 

- Como vai, Mrs Sieverance, conseguiu ele articular, as palavras a saírem-lhe muito depressa. Estou desolado por vê-la assim doente.

 

Sentiu a cara a arder, um prurido intenso na pele.

 

- Doutor Carriscant?... Doutor? - Ela sacudiu a cabeça, tentando aclarar as ideias.

 

"O médico de quem te falei. O hospital, lembras-te? Equipado com o que há de mais moderno."

 

Ela fechou os olhos e suspirou. Ele soube, súbita, instintivamente, que ela não ia dizer nada.

 

- Doutor Carriscant... - repetiu ela. - Obrigado por ter vindo.

 

Ele permitiu-se um sorriso débil e crispado. Quase a cair, sentiu o suor a escorrer-lhe das axilas, a camisa a colar-se-lhe às costas encharcadas. Estendeu o braço e puxou uma cadeira para junto da cama. Não demasiado perto.

 

- Qual vem a ser o problema?

 

Ela contou-lhe, com Sieverance a servir de ponto ocasional, que desde há pouco mais de uma semana vinha sofrendo de dores no abdómen, a que não dera grande importância, julgando tratar-se de problemas digestivos. Até que, naquela tarde, fora acometida por uma forte crise de vómitos e a dor atingira níveis insuportáveis. Tinha-se sentido febril. Uma amiga tinha chamado um médico.

 

- Chamou o doutor Wieland - interpôs Sieverance. Eu estava a trabalhar. E foram buscar o doutor Wieland. - Lançou a Carriscant um olhar sugestivo, como que a justificar-se. - Ele é o nosso médico oficial. Era a coisa mais natural para se fazer, infelizmente.

 

- E qual foi o diagnóstico dele?

 

- Não formulou nenhum diagnóstico. Receitou um purgativo e ópio.

 

- Estou a ver. Tem estado a tomá-los? - Dirigiu o olhar de novo para ela. Delphine. Mesmo doente e a sofrer, aquele rosto, o seu cabelo solto, fazem-me... Sorriu, tentando tranquilizá-la o mais possível.

 

- Sim, claro - respondeu ela, uma ponta de irritação na voz. - Que queria que eu fizesse? Aliviou-me as dores, mas o purgativo... - Estremeceu. - Mas a febre subiu, e a dor está a voltar, em força.

 

- Foi por isso que o chamei. - Sieverance fitou-o, suplicante.

 

- Para sermos rigorosos, Mrs Sieverance é agora doente do doutor Wieland. Eu realmente não posso...

 

- Que se lixe isso tudo! - exclamou Sieverance com uma violência pouco característica. Não me vou preocupar com essas esquisitices do protocolo médico. - A minha mulher está gravemente doente. Não quero saber...

 

- Jepson - disse ela em voz exausta. - Não te preocupes. O doutor Carriscant vai ajudar.

 

Ela sabia o poder que detinha. Já há um segredo entre nós. Uma promessa silenciosa, pensou Carriscant.

 

- Onde é que dói? - perguntou ele.

 

- Aqui no estômago, em baixo, do lado direito.

 

- O doutor Wieland examinou-a?

 

- Não.

 

Ele suspirou. Inacreditável. - Eu vou ter que o fazer - disse. - Se mo permitir. Peço desculpa de falar como um compêndio, mas a palpação é muitas vezes o nosso melhor método de diagnóstico. Posso?

 

Sieverance pediu permissão à mulher com o olhar.

 

- É claro - disse ela. - Faça favor.

 

Carriscant dobrou o lençol cuidadosamente, destapando-a até aos joelhos. Ela vestia uma camisa de noite de algodão branco com peitilho de folhos. Por breves instantes, um aroma elevou-se da cama. O seu aroma, uma réstia de perfume e pó-de-arroz, de suor fresco e um odor momentâneo e acre a excrementos. Ele encheu as narinas antes de o punkah varrer o cheiro para longe.

 

- Importa-se de indicar...

 

O dedo dela deslocou-se até a um ponto sete centímetros para a esquerda da sua anca direita. com toda a delicadeza, Carriscant pousou as pontas dos dedos da mão direita sobre o seu corpo, sentindo a sua macieza através do algodão, sentindo o seu calor, e carregou.

 

- Está tudo inflamado aí nessa zona. Não consigo situar exactamente...

 

- Diga-me quando lhe doer.

 

Deslocou a mão mais para a esquerda. Debaixo da ponta do dedo mínimo sentiu o roçar dos seus pêlos púbicos, um emaranhado áspero. Ele palpou um pouco mais abaixo. Ela deu um grito sufocado de dor. Carriscant sentiu debaixo dos dedos a cápsula tumefacta e madura do abcesso tuberoso, pútrido, prestes a rebentar.

 

- Posso cheirar o seu hálito? - Virou a cara, incapaz de olhá-la nos olhos, e ela lançou um bafo nauseante e fétido sobre o seu rosto. Mediu-lhe a temperatura: 39 graus.

 

- O doutor Wieland mandou-me tomar os purgativos de quatro em quatro horas.

 

- Não me espanta. Ele não tem ideia do que anda a fazer. Posso vê-los, por favor?

 

Sieverance passou-lhe uma dúzia de saquetas de papel pardo que se encontravam numa gaveta da mesinha-de-cabeceira e Carriscant guardou-os no bolso. Recostou-se na cadeira, as mãos espalmadas uma contra a outra, fazendo força nos dedos para estes pararem de tremer.

 

- Mrs Sieverance, você tem aquilo a que na América se chama uma "apendicite".

 

- E o que é isso?

 

- Numa parte do seu intestino, chamada o "cego", há um pequeno apêndice vermiforme. É literalmente um "apêndice" do seu intestino, que agora se inflamou e inchou. Calculo que já esteja perfurado, daí as dores e os vómitos. Originou um abcesso que vai romper-se, diria eu, a qualquer momento durante as próximas vinte e quatro horas. - Fez uma pausa. - O que vai acontecer nessa altura é que a matéria corrompida vai invadir a cavidade abdominal, o peritoneu. E se deixarmos as coisas chegarem a esse ponto, pouco haverá a fazer.

 

- Morrerei. - Ela olhou-o com um ar franco.

 

- Sim.

 

Quando os dois homens regressaram ao salão, Sieverance sentou-se numa cadeira e começou a chorar baixinho. Carriscant sentiu um enorme constrangimento, mas logrou permanecer a seu lado até que ele se recompôs, apertando-lhe o ombro num gesto que esperava pudesse reconfortá-lo. E, ao explicar a Sieverance o que o futuro reservava a Delphine e o que tinha de ser feito, sentiu também ele vontade de chorar.

 

- Não nos resta outra alternativa, coronel Sieverance. Caso contrário ela morre, já vi acontecer isto vezes sem conta.

 

- Mas essa tal operação, já alguma vez a praticou?

 

- É rara. Já a pratiquei duas vezes, infelizmente sem sucesso.

 

- Ou seja?

 

- Cheguei demasiado tarde. O apêndice tinha-se rompido, havia uma septicemia generalizada, incontrolável.

 

- Santo Deus, você quer abrir-lhe a barriga e nunca salvou um doente que fosse com essa operação?

 

- Olhe, os purgativos ridículos do Wieland só vão enfraquecê-la ainda mais depressa. Podíamos dizer umas palavras mágicas, que vinha quase a dar ao mesmo. Ela tem que ser operada.

 

- Não posso correr esse risco.

 

- Então coloque-lhe a questão a ela.

 

- Ela está a sofrer. Acha-a em condições de ajuizar com clareza? - A voz saía-lhe estridente, efeminada, descontrolada pela aflição. Levantou-se, foi até à janela e olhou a escuridão da noite lá fora. - Wieland deve chegar dentro de meia hora.

 

- Não lhe peça a opinião, homem. Ele só diz disparates. Leve-a para o hospital e nós operamo-la esta noite mesmo.

 

- Prefiro esperar por Wieland. Depois decido.

 

O doutor Wieland não fez qualquer esforço para disfarçar o seu enorme desagrado, o mesmo acontecendo com o doutor Cruz, por quem Wieland se fizera acompanhar para, segundo disse, confirmar o seu diagnóstico.

 

- O doutor Carriscant não tem nada que estar aqui - disse Wieland, a raiva distorcendo-lhe a voz. - Mrs Sieverance é minha doente.

 

- Ele foi autorizado por mim - insistiu Sieverance. - A minha mulher está doente e eu quero o melhor para ela.

 

Palavras que Wieland acatou com uma má vontade evidente, antes de pronunciar o seu diagnóstico.

 

- Pensamos, e o doutor Cruz está de acordo comigo nesta matéria, que o intestino está inflamado devido à falta de mobilidade. O calomelano vai encorajar o movimento da tripa ao mesmo tempo que o ópio controlará a dor. Dentro de duas ou três semanas...

 

- ...ela estará morta e enterrada - cortou Carriscant brutalmente. Viu Sieverance estremecer.

 

Cruz encarou-o com uma expressão ameaçadora e falou rápida e asperamente em espanhol. - Como se atreve a contradizer-nos? Isto é dos casos mais óbvios de peritiflite que já alguma vez vi. Todos estes disparates modernaços sobre o apêndice são indesculpáveis nas circunstâncias presentes. Acho a sua presença aqui deplorável e ordeno-lhe...

 

- Meus senhores, peço-lhes - interrompeu Sieverance. Deixem-me ver se eu entendi bem: os senhores são totalmente contrários à ideia do doutor Carriscant de efectuar uma operação cirúrgica, e preferem continuar com os purgativos e o ópio.

 

- E um caldo de carne quatro vezes ao dia - acrescentou Cruz em inglês. - com álcool. Para fortalecer.

 

- Coronel Sieverance, não perca tempo, peço-lhe - suplicou Carriscant. - A sua esposa tem que ser operada sem demora.

 

- É apenas uma cólica que inflamou o intestino! - gritou Wieland. - Abrir o abdómen equivale a um assassinato!

 

- O rei de Inglaterra foi operado há poucos meses para lhe extraírem o apêndice - retorquiu Carriscant, mantendo a voz calma. - Salvou-lhe a vida.

 

Isto pareceu silenciá-los durante alguns momentos. Em seguida Wieland disse, sem muita convicção: - Não estamos a falar da mesma coisa, é uma falsa analogia. - Virou-se para Sieverance. - O problema das pessoas como o doutor Carriscant é que operam sem reflectir. Se você tivesse uma indigestão, ele sugeria-lhe logo a extracção do apêndice. É a chamada abordagem "moderna", e Carriscant não se rala nada...

 

- Só um momento - interrompeu Carriscant, aproximando-se de Wieland, que recuou. - Tenha muito cuidado com o que vai dizer, Wieland. Se me insulta, eu não respondo por...

 

- Pelo amor de Deus! - Sieverance estava exasperado. vou falar com a minha mulher. Dêem-me um momento, por favor. - Deixou-os sozinhos na sala.

 

Cruz disse, malevolamente: - Isto é o seu fim, Carriscant. é uma violação flagrante da ética médica.

 

- Foi o próprio Sieverance que me chamou aqui, seu velho idiota.

 

- Sim, seu pulha - gritou-lhe Wieland - mas só por causa dos boatos sórdidos que você anda a segredar ao ouvido do Taft! - Apontou-lhe um indicador trémulo. - O que é que se passará consigo e com os tipos como você, Carriscant? Vocês são doidos pelo bisturi. Não fazem mais nada senão cortar, cortar, cortar. Mrs Sieverance não é um cadáver qualquer numa sala de dissecção!

 

- É claro que não. - Carriscant conseguiu dominar-se mesmo a tempo, a voz carregada de emoção. - Ela está à beira da morte. Eu sei como salvá-la. Vocês dois, seus imbecis, apenas iriam prolongar-lhe a agonia, fazê-la sofrer mais um dia ou dois com as vossas poções inúteis.

 

- Você enoja-me - disse Cruz. - Você é um verme, um insecto, você desonra a sua profissão.'

 

Os três homens enfrentaram-se, silenciados pela sua animosidade virulenta. Carriscant sentiu enorme fadiga mental apoderar-se de si. Eles podiam ficar ali durante horas a trocar insultos; nenhum deles cederia sequer um milímetro de terreno. Virou-lhes costas e atravessou a sala. No canto mais afastado havia um pequeno piano de cauda, com pilhas de partituras soltas amontoadas em cima da tampa. Era a música dela, soube ele intuitivamente, no momento em que pegou nalgumas pautas Brahms, Mendelssohn, Mozart - e aproximou das narinas as páginas de um concerto para piano, como se de alguma forma esperasse sentir a fragrância dela desprender-se do papel.

 

- Doutor Carriscant - disse Sieverance, tornando a entrar na sala. - A minha mulher gostaria de vê-lo.

 

Sieverance acompanhou-o de volta ao quarto. No rosto dela lia-se o esgotamento, a exaustão. Tinha o cabelo em volta da testa e das têmporas molhado de suor.

 

- Ouvi-vos gritar- disse ela. - O que é que se passa?

 

- O doutor Wieland desaconselha a operação - disse Sieverance:

 

Ela olhou para Carriscant, directamente. Os olhos escuros pareciam maiores do que nunca. - O que é que você acha?

 

- Acho... - A pergunta emocionou-o até às lágrimas e sentiu crescer em si um sentimento que não conseguia reconhecer. Ela fitava-o com um olhar que excluía tudo o resto. - Acho que o Wieland é um imbecil e um charlatão e seria loucura dar-lhe ouvidos - disse. Queria pegar-lhe na mão e encostá-la com força aos seus lábios. - Já não lhe resta muito tempo disse - dominando a custo a emoção. Esta operação é muito simples. Só quando as pessoas a adiam é que há perigo. - Tinha esperança que os seus olhos dissessem tudo o que as suas palavras calavam: eu vou salvar-te, vou tratar de ti, confia-me a tua vida, ninguém mais cuidará dela tão bem como eu.

 

Ela ergueu a mão debilmente e pareceu oferecer-lha, como se tivesse ouvido os seus pensamentos. Sieverance abeirou-se e pegou-lhe.

 

- Quero que o doutor Carriscant me leve - disse ela.

 

No interior do corpo

 

Anestesiada pela morfina, ela tinha os lábios frouxos, e os seus olhos entreabertos e de olhar difuso contemplavam o universo através do véu das suas pestanas. Pantaleão permanecia junto à cabeça dela, armado da sua máscara e do frasco conta-gotas de clorofórmio. Duas enfermeiras, com os seus aventais engomados e barretes de folhos, aguardavam junto aos tabuleiros cheios de instrumentos reluzentes. Delphine Sieverance jazia na mesa de operações ainda em camisa de noite, dado que fora trazida directamente de casa para a sala de operações. Não havia tempo a perder; todos os preparativos haviam sido efectuados com a máxima rapidez.

 

Pantaleão olhou para Carriscant. - O vento está a soprar com força. É a altura de levantar ferro.

 

Carriscant assentiu com a cabeça e Pantaleão fez gotejar algum clorofórmio sobre a máscara. Ao fim de poucos segundos ela estava inconsciente. Carriscant segurou-lhe na orla da camisa de noite e lembrou-se. Um acto fulcral de preparação...

 

Pigarreou. - Peço-lhes o favor de deixarem a sala. Só por um minuto ou dois. Todos, Pantaleão, se fizeres favor.

 

As enfermeiras e Pantaleão trocaram alguns olhares e saíram da sala sem fazerem perguntas. Carriscant fechou os olhos e um lento calafrio percorreu-lhe o corpo. Agarrou na camisa de noite que cobria Delphine e levantou-a, arregaçando-a até ficar enrolada à altura das costelas. O seu olhar incidiu primeiro sobre o denso emaranhado dos pêlos púbicos, de um louro avermelhado, para depois abarcar a palidez do busto, quase descorado em contraste com a zona inflamada do baixo ventre onde, debaixo da pele repuxada, sobressaía a vermelhidão fatídica da peritonite iminente. Sorveu uma grande golfada de ar para dentro dos pulmões, em seguida virou-se e foi a um armário por baixo do lavatório buscar os instrumentos de que precisava. Encontrou-os e afiou a navalha com gestos rápidos na grossa tira de couro pendurada acima das torneiras.

 

De novo debruçado sobre o corpo de Delphine, usou um pincel para formar uma bola de espuma no creme de barbear e depois, com curtos movimentos circulares, impregnou de espuma branca o emaranhado de caracóis do púbis. Num acto reflexo, testou o gume da lâmina no polegar antes de rapar os pêlos com quatro ou cinco golpes firmes. Limpou o sabão restante com uma toalha e, incapaz de resistir, pousou a mão por um momento sobre o monte-de-vénus, sentindo a macieza e a frescura, até que o calor da sua palma se transmitiu à pele. Moveu a mão alguns centímetros para a esquerda e, palpando suavemente, sentiu a forma inchada do abcesso. Servindo-se de um lápis de tinta-da-china, desenhou pequenas marcas na pele para funcionarem como pontos de referência - as minhas marcas, pensou, o meu sinal - e delimitar o local da incisão. Estendeu panos brancos sobre o ventre e as coxas de Delphine, deixando exposta apenas a área a operar, e chamou os outros de volta para a sala. Eles nada disseram, não houve quaisquer comentários sobre o que acontecera na sua ausência, e voltaram a ocupar as respectivas posições.

 

- Escalpelo.

 

Carriscant sentiu a enfermeira encostar com firmeza o cabo fino do bisturi à palma da sua mão aberta. Os seus dedos fecharam-se em volta do instrumento e o terror súbito que o percorreu quase o fez vacilar. Ao longo de todos os seus anos como cirurgião, das centenas de vezes que estivera debruçado sobre um ser humano vivo empunhando um bisturi, sentira apenas e só a exaltação da tarefa que se aprestava para cumprir. Esta angústia que lhe soltava as tripas tinha algo de chocante, de desconhecido. As mãos tremeram-lhe ao pousá-las na pele inflamada e repuxada do ventre de Delphine. O que é que se estaria a passar com ele? De onde provinha este medo horroroso, esta insegurança?

 

Obrigou a lâmina recurva a ferir a pele, mesmo acima do ligamento de Falópio do lado direito, e com enorme esforço exerceu uma maior pressão, até que o gume rasgou a epiderme e o sangue brotou. Moveu o bisturi na diagonal, fazendo um corte com cerca de quinze centímetros, revelando o tecido adiposo pintalgado de sangue e depois a superfície macia e nacarada do peritoneu, semelhante a um mármore amarelo raiado de vermelho. Chegara o momento: mais uma incisão e a cavidade abdominal ficou exposta. Alargou a abertura e explorou-a com o dedo, que mergulhou dentro do corpo dela em busca do apêndice. Conseguiu localizá-lo, agora transformado num abcesso entumescido e supurante, e puxou-o cuidadosamente para fora do corpo. Introduziu um tubo de borracha na cavidade assim aberta e drenou o fluido aí contido. As enfermeiras aplicavam mechas e limpavam. Carriscant deu um nó no apêndice para separá-lo do cego e seccionou-o. Fechou a ferida, coseu-a e fez o penso com gaze embebida em iodofórmio.

 

Recuou e olhou para o relógio de parede - só se tinham passado trinta e cinco minutos. - Sentia-se exausto, arrasado. Lavou as mãos e, atordoado, passou ao vestiário. Afundou-se numa cadeira, os cotovelos apoiados nos joelhos, a cabeça pendente, vendo as gotas de suor caírem-lhe do nariz para os mosaicos hexagonais debaixo dos seus pés. Ouviu Pantaleão entrar e sentiu que ele lhe apertava tranquilizadoramente o ombro.

 

- Belo trabalho - disse Pantaleão. - Acho que dispúnhamos de uma ou duas horas.

 

- É melhor eu ir ter com Sieverance.

 

Mudou de roupa e foi ao encontro de Sieverance, que o esperava na sua sala de consultas, e disse-lhe que a operação terminara e parecia ter corrido bem. Para seu assombro e grande atrapalhação, Sieverance desfaleceu-lhe nos braços, tomado por uma espécie de desmaio lacrimejante, e teve que ser reanimado com um copo de brandy.

 

- Está tudo bem - disse-lhe Carriscant. - Já terminou. Correu bem. Tenho a certeza que ela vai ficar bem.

 

Sieverance agarrou-se a ele, os dedos fincados nos seus antebraços, como um náufrago que acabou de ser içado da água.

 

- Deus o abençoe, Carriscant - disse. - Deus o abençoe, nunca hei-de esquecer isto.

 

Carriscant disse-lhe qualquer coisa, uma frase afável e consoladora, sabendo que havia uma dose dupla de veracidade na afirmação de Sieverance. Ele nunca iria esquecer, disso não restavam dúvidas, como também não restavam dúvidas de que nunca deixaria igualmente de lamentar.

 

Um "simples cirurgião"

 

Salvador Carriscant, os olhos fixos nos dedos entrelaçados, tentava rezar, contemplando as rugas verticais e horizontais nas articulações, cada uma delas única e diferente, como ideogramas chineses gravados na carne solta sobre os ossos. Por que seria assim? interrogou-se distraidamente. Por exemplo, a primeira articulação do dedo mínimo esquerdo dobra-se de maneira idêntica à da outra mão, contudo na esquerda a pele dobrada faz um efeito estrelado bem visível, enquanto na direita...

 

Ergueu os olhos para a nuca do homem curvado sobre o banco à sua frente. Colarinho demasiado apertado, pequenas pregas de carne transbordando de ambos os lados. E além disso cabelos crescendo-lhe pelo pescoço abaixo. Não. Pareciam mais crescer-lhe pelas costas acima. Até onde é que o barbeiro aparava? Por obséquio, quer fazer o favor de despir a camisa, cavalheiro. Voltou a olhar para as suas mãos juntas: a pele entre as articulações com os pequenos tufos arrumados de pêlo, quase com aspecto de terem sido penteados, crescendo todos na mesma direcção. Mais densos no anelar, curiosamente, será que o mesmo acontece nos outros homens? Uma mancha hepática nas costas da mão. Ou uma grande lentigem, talvez?

 

Pensou imediatamente nas sardas do antebraço de Delphine Sieverance, que os seus olhos haviam acariciado enquanto lhe tomava o pulso no dia anterior. Sardas também na garganta dela, na parte de cima do peito e nas suaves reentrâncias das suas clavículas. Até onde desceriam elas, perguntou a si mesmo. Os seus seios e ombros seriam sarapintados de manchinhas, como a pele duma truta, como certos ovos de galinha, ligeiramente sombreados? Não havia nenhumas no seu ventre, nenhumas no seu...

 

Fechou os olhos enquanto o padre convidava os fiéis a juntarem-se-lhe na oração. Carriscant mexeu os lábios e um som escapou-se-lhe do peito, meio queixume de desejo, meio grunhido abafado de dor. Annaliese deu-lhe uma cotovelada vigorosa e ele virou-se para ela, os olhos cheios de arrependimento devoto, bateu ao de leve no peito e fez uma cara de quem está com indigestão.

 

"...tibi Domine commendamus animam famuli tui, ut defunctum saeculo, tibi vivai..."

 

"Ámen", conseguiu ele dizer.

 

Os membros da congregação reuniram-se nos degraus da Igreja de Santa Clara esperando pela chegada das suas carruagens. Annaliese tagarelava com alguns conhecidos enquanto Carriscant se mantinha um pouco afastado, as mãos atrás das costas, a cabeça baixa, batendo compassadamente com a biqueira do sapato nos degraus de mármore rachado. Desencheu os pulmões e forçou um sorriso para uma família espanhola que conhecia vagamente - um homem que ajudava a sogra, uma anciã envolta em rendas, a descer os degraus baixos até à vitória que aguardava. O rosto dela era branco e sem brilho, coberto de pó-de-arroz. Que idade teria? Algures na casa dos oitenta. Que mudanças não tinha ela testemunhado! Se olhasse para a direita podia ver a enorme bandeira americana flutuando sobre o forte de Santiago; à sua esquerda estendia-se a Plaza Mayor, agora rebaptizada Plaza McKinley1 em honra do presidente assassinado. Há sessenta anos atrás, era ela uma jovem e altaneira peninsulara, tais ideias, tais transformações, teriam parecido para além dos limites da imaginação mais tresloucada. Ela estava agora delicadamente instalada na pequena carruagem e algumas netas sentaram-se a seu lado. Olhava em frente, a direito, os olhos de tinta negra, húmidos e impiedosos. Quantos mais anos deste novo século veria ela? interrogou-se Carriscant. Provavelmente estava já pronta para partir, ansiosa mesmo. Acontece. O corpo cansa-se, o espírito pressente esta fadiga: a hora da partida chegou.

 

1 William McKinley (1843-1901), 25° que morreu assassinado. (N. T.) presidente dos EUA. (1897-1901)

 

Meditava ainda nesta questão, sentado na carruagem lado a lado com Annaliese, enquanto o cocheiro os conduzia a casa pela Calle Palácio. Annaliese ia-lhe relatando um mexerico qualquer a que ele mal prestava atenção. A carruagem foi obrigada a fazer um desvio, subindo a Calle da Ando, dado que os americanos estavam a escavar um troço empedrado da Palácio para poderem macadamizar a rua. Viraram à esquerda e, ao cruzarem a Calle Real, Carriscant ordenou subitamente ao cocheiro, Constando, que parasse.

 

- Onde é que vais? - perguntou Annaliese, estupefacta, ao vê-lo abrir a portinhola do seu lado.

 

- Ao hospital. Dado que estamos aqui tão perto. Lembrei-me de um doente que tenho que ver. Operei-o ontem. Estou um pouco preocupado.

 

- Mas hoje é domingo! - protestou Annaliese, o olhar carregado de... de quê? Decepção? Desconfiança?

 

- Minha querida, a doença não descansa só porque é fim-de-semana.

 

- Não faças de mim... - Ela retomou a frase numa voz baixa e áspera, consciente das costas imóveis de Constancio, que os ouvia. - Mas tu nunca estás em casa, nunca, nestes últimos tempos. Por que é que não te mudas e não instalas a tua cama lá no hospital?

 

- Não deixa de ser uma sugestão divertida, minha querida, mas francamente...

 

- Salvador - a voz dela não admitia réplica. - Isso pode esperar por amanhã. Nada pode ser tão urgente.

 

- Não estás a compreender. O novo hospital americano começa a fazer-nos uma séria concorrência. com todos aqueles cirurgiões contratados que eles trazem para cá. Eu só estou a pensar no nosso futuro. - A mentira soou frágil e inepta; pareceu deixar-lhe na boca um sabor amargo a cinzas. Recuou sem dizer mais nada, acenou com a mão, sorriu e afastou-se em passadas largas pela Calle Real em direcção ao seu hospital.

 

Delphine Sieverance recuperara lenta mas seguramente da operação. A primeira semana tinha sido a pior, com o medo angustiante da peritonite na mente de todos, mas à medida que o tempo passava e ela ia recuperando forças, tornou-se claro que a operação fora um sucesso completo. Internada em San Jeronimo há quase duas semanas, num quarto privado, ela já conseguia levantar-se da cama e dar alguns passos hesitantes até à janela. Carriscant visitava-a todos os dias sem falta, mesmo que apenas por breves minutos, mas raramente a sós. Sieverance contratara uma enfermeira americana para ficar de vigília durante a noite e ele próprio ia muitas vezes ao hospital. Delphine recebia também muitas visitas de amigas, e a notícia da operação, do risco que ela tinha corrido e da sua convalescença progressiva já trouxera a Carriscant um aumento da clientela americana. A sua fama espalhara-se e já não tinha mãos a medir. Para ele, contudo, o importante era a presença de Delphine: ela estava ali, perto dele, debaixo do mesmo tecto. Podia subir as escadas, bater à porta do quarto dela, medir-lhe a temperatura, consultar a sua ficha clínica, mandar que lhe fosse mudado o penso. Podia estar próximo dela, podia estar junto dela sempre que desejava. A comichão podia sempre ser aliviada, a ânsia sempre satisfeita. Mas agora era a ideia da sua partida que começava a pesar-lhe. Sieverance tinha perguntado se ela poderia passar o Natal em casa e Carriscant respondera não ter dúvidas de que tal seria possível. O simples facto de Delphine ter recomeçado a andar tornava difícil para ele prolongar o período de internamento.

 

Subiu as escadas até ao quarto dela e ao chegar à porta cruzou-se com uma enfermeira que vinha a sair, trazendo um tabuleiro com os restos de uma refeição. Bateu e entrou ao ouvi-la responder de dentro. Delphine estava sentada na cama, apoiada em almofadas, o cabelo ruivo caído sobre os ombros, um livro aberto no regaço. Pela janela aberta ele podia ver, para lá das enormes muralhas da cidade cobertas de vegetação, um troço do jardim botânico com as suas áleas mal cuidadas e poeirentas, circundado por um meandro castanho e lamacento do Pasig. Das cozinhas de Quiapo, mais adiante, elevava-se o fumo da hora de almoço. Havia uma névoa no ar esta manhã, pensou ele, húmida, quase como se fosse um dia de Junho.

 

- Mrs Sieverance, como é que se sente?

- Melhor do que nunca. - Delphine sorriu-lhe. Ela tinha sempre gosto em vê-lo, Carriscant sabia-o. O homem que lhe salvara a vida: ela confiava nele, o seu amigo, o seu salvador.

- Sentei-me na cadeira a ler. Levantei-me da cama e deitei-me outra vez. Nem uma pontada.

 

- Daqui não tarda tiramos esses pontos.

 

- Espero bem que sim.

 

- Posso? - Pousou a palma da mão na testa dela. Estes pretextos para tocar-lhe, quanto tempo durariam ainda? Os seus olhos castanhos ergueram-se para ele, confiantes. Ele pegou-lhe no pulso e mediu-lhe as pulsações. Os lábios dela estavam ligeiramente afastados e ele viu a ponta rosada da sua língua humedecer os dentes da frente com saliva. O seu cabelo era espesso, seco, sem brilho, quase mate. A sua camisa de noite era de algodão azul-claro, e por cima vestia uma matinée acolchoada em pequenos losangos, com cruzes carmesim bordadas no centro. Ele tinha que dizer qualquer coisa.

 

- Henry James - disse, apontando para o livro. - Era o Retrato de Uma Senhora. - Eu só li Daisy Miller. - Soltou o pulso de Delphine.

 

- Encontrei-o uma vez - sabe - disse ela. - Na Suíça, em Genebra, há alguns anos. Fui-lhe apresentada por uma amiga minha que o conhecia bem. Constance Fenimore Woolson. Uma mulher extraordinária, maravilhosa. Conhece algum dos romances dela?

 

- Não, receio bem que não. Aqui as coisas chegam-nos um pouco atrasadas.

 

- Eu empresto-lhos.

 

- Obrigado, isso seria óptimo. - Num instante o plano brotou, floresceu. Uma troca de leituras. Annaliese andava sempre a ler romances, a casa estava pejada deles. - Foi durante alguma viagem pela Europa com o coronel Sieverance?

 

- Não. Eu não estava com ele. Ele tinha... - Ela ia completar a frase e dizer qualquer coisa pouco abonatória, calculou ele, mas arrependeu-se. - Na altura ainda não éramos casados. Não, eu estava com uma amiga e com a tia dela. – Esboçou um sorriso, um tudo-nada trocista, pensou ele. - O coronel Sieverance e eu só nos casámos há quatro anos. Nós mulheres conseguimos fazer algumas coisas sozinhas, sabe. Algumas de nós até são capazes de comprar uma passagem num vapor, atravessar o oceano e viajar através de países estrangeiros.

 

- Não devia fazer pouco de mim, Mrs Sieverance - disse ele. - Eu sou apenas um simples cirurgião.

 

A explosão de riso dela encheu-o de espanto e fê-lo vibrar ao mesmo tempo. Uma explosão de indignação fingida, espontânea e rouca, que retiniu nos ouvidos de Carriscant como um hossana.

 

Ele devolveu-lhe um sorriso beatífico. Como um simplório. Como um papalvo contente.

 

Ela franziu a testa de repente. - Não me faça rir, doutor Carriscant. Faz-me doer. - Enfiou a mão por debaixo do lençol para tocar na virilha e virou-se de lado, procurando uma posição confortável. A sua matinée moveu-se, no momento em que ela erguia uma anca para se apoiar na outra, e Carriscant julgou adivinhar os seus seios redondos sob a camisa de noite. Sentiu-se submerso por um absoluto desamparo, por uma impotência avassaladora, em face dos seus sentimentos por esta mulher.

 

- Ora essa, um simples cirurgião - disse ela - repreendendo-o de dedo em riste. Nunca mais o quero ouvir dizer isso. Nunca mais.

 

A enfermeira regressou nesse momento e Carriscant disse que tinha de partir.

 

- Aquela romancista de que falou. Como é que se chamava?

 

- Fenimore Woolson. vou pedir ao meu marido que traga o livro.

 

- Não - disse ele demasiado depressa. - Quer dizer, ah, não é urgente. Quando você já estiver em casa eu vou ter que ir lá vê-la algumas vezes. Posso trazê-lo em qualquer altura.

 

Calou-se, subitamente temeroso: esta era a pior maneira, a pior maneira possível de encerrar a conversa. Um tom demasiado familiar, demasiado cheio de suposições. Tinha que pensar noutra coisa e, como costuma acontecer em momentos de tensão, do seu cérebro saíram apenas banalidades.

 

- Posso ser-lhe útil de alguma maneira? - indagou ele.- Há alguma coisa especial que eu lhe possa trazer? Sei lá, eu...

 

- Por acaso até há, sabe - disse ela. - Pedi ao Jepson, mas ele não teve sorte. É que eu tenho esta paixão por violetas açucaradas. Violetas cristalizadas, sabe? Uma paixão insaciável. São a minha guloseima favorita. Trouxe quilos comigo, mas já as acabei todas. Aqui sentada a ler fico cheia de vontade de enfiar os dedos de tempos a tempos num frasco de violetas açucaradas. E dou comigo de mão esticada, no ar. Acha que consegue encontrá-las em Manila? - Ela olhou-o, sorrateira, provocadora. Ficava ainda mais em dívida para consigo, doutor Carriscant.

 

- vou fazer os... - Aclarou a garganta, subitamente nervoso, subitamente emocionado. A atmosfera parecia, de repente, ter-se carregado de potencialidades. - vou ver o que consigo fazer. - Forçou um breve sorriso e depois saiu.

 

Um chá com Paton Bobby

 

A fábrica de gelo governamental situava-se na margem esquerda do Pasig, junto à ponte suspensa de Colgante. Carriscant observou três enormes blocos de gelo envoltos em névoa sendo içados para fora do armazém da fábrica e pousados nas tábuas de uma carroça caraboa, que chiava sob o peso. Os búfalos pachorrentos permaneciam imóveis, de canga ao pescoço, piscando os olhos para enxotar as moscas insistentes, as mandíbulas ruminando lentamente e deixando cair pedaços de erva mastigada.

 

Vendo o terceiro bloco a ser colocado sobre as tábuas, Carriscant repetiu as suas instruções: "Têm vinte minutos. Basta que dez por cento esteja derretido à chegada e já não pagamos." Entusiasticamente chicoteados, os caraboas puseram-se em marcha e a carroça rolou pesadamente em direcção à porta de Parian e à cidade murada.

 

Carriscant ouviu gritar o seu nome e virou-se para ver quem era. Paton Bobby, debruçado sobre a portinhola de uma vitória, chamava-o com um aceno.

 

- Procurei por si no hospital - disse ele. - Disseram-me que você tinha vindo comprar gelo. Os corpos têm-se aguentado bem, ha?

 

- Extraordinariamente bem. Basta mudarmos a camada superior de gelo, trinta centímetros ou coisa assim, de três em três dias, e o resto já não se desfaz. Na realidade, no fundo da arca forma-se uma massa de gelo compacto. Parece que se derrete mas depois, à medida que goteja para baixo, volta a congelar.

 

- Óptimo. Então não temos que nos preocupar com a fábrica de refrigeração.

 

Havia uma nova fábrica de refrigeração em San Miguel, construída recentemente junto aos alojamentos das enfermeiras. Carriscant tinha sugerido a utilização destas instalações como um local onde os corpos fossem armazenados indefinidamente, mas Wieland indeferira oficialmente o pedido com o argumento de que representava um risco para a saúde. Agora já não fazia diferença: os cadáveres, quase completamente congelados, não apresentavam quaisquer sinais de decomposição.

 

- Tenho que reconhecer que as arcas do Cruz funcionam bastante bem. E pelo menos sabemos onde estão os corpos, e quem tem acesso a eles.

 

- Exactamente - disse Bobby. - Foi uma boa ideia. Engenhosa.

 

- Alguma novidade?

 

- Talvez... Tem meia hora? Posso convidá-lo para tomar chá ou um café? Podemos ir ao Clube Americano.

 

O Clube Americano situava-se na Calle de San Augustin, em Intramuros, não muito longe do hospital. Era um velho edifício labiríntico em cujo primeiro andar algumas das paredes interiores haviam sido demolidas para criar salas mais amplas, em especial uma sala de jantar e um espaçoso salão com punkah, mobília de rotim e cópias velhas de jornais americanos. Nas janelas viam-se ainda as velhas conchas translúcidas de kapis, que não tinham sido substituídas por vidraças à americana, e produziam uma luz suave e coada que deixava os cantos da sala na penumbra. Um criado chinês serviu-lhes café americano e um prato de bolinhos de arroz. Havia muito pouca gente no clube àquela hora: Carriscant viu um oficial de marinha dormitando a um canto numa cadeira de convés e um grupo de homens de negócios em fatos de sarja brancos jogando póquer, envoltos numa nuvem de fumo de charuto que o punkah mal agitava no seu movimento vagaroso; vindo de uma sala nas traseiras, sobranceira à azotea, ouvia-se o retinir abafado de bolas de bilhar entrechocando-se.

 

Bobby bebeu o seu café, comeu três bolos de arroz e encheu um pequeno cachimbo de sabugo de milho com tabaco que ia retirando de uma bolsa de couro mole. O fornilho do cachimbo era minúsculo, tão pequeno que parecia destinado a um aprendiz de fumador. Bobby acendeu-o com baforadas rápidas, soprando rolos de fumo pelo canto da boca.

 

- O tabaco que vocês plantam aqui é uma maravilha, há que reconhecê-lo.

 

- Vale todo este esforço de colonização?

 

- Oh, sobre isso já não digo nada. Limito-me a apreciar uma boa cachimbada.

 

Conversaram um pouco sobre Taft, sobre os boatos segundo os quais Roosevelt lhe tinha oferecido um lugar no Supremo Tribunal.

 

- Acha que ele vai aceitar? - perguntou Carriscant.

 

- Ele é um advogado. Juiz do Supremo Tribunal deve ser o galho mais alto dessa árvore.

 

Continuaram a tagarelar, Carriscant esperando pacientemente. Por esta altura já conhecia Bobby o suficiente para compreender que esta demonstração de sociabilidade não era desinteressada. De facto, não passou muito tempo sem que Bobby se inclinasse para a frente, os cotovelos apoiados nos joelhos.

 

- Wieland diz que você esteve em Sampaloc. Num bordel.

 

- Sim. - Carriscant não ficou surpreendido. Já calculava que Wieland não iria guardar essa informação para si, especialmente agora, mas que interesse tinha Bobby no assunto? - Já agora, o Wieland estava bêbedo - deixou cair Carriscant, para não se ficar atrás. Completamente.

 

- Costuma lá ir muitas vezes? Não é que isso me importe - apressou-se Bobby a acrescentar. - Eu próprio vou às putas de tempos a tempos.

 

- Eu tinha ido visitar a mãe da minha cozinheira, que estava doente.

 

Bobby fitou-o, os olhos inexpressivos. Está a dar-me tempo para eu mudar a minha história, pensou Carriscant. Velho truque de polícia experimentado.

 

- Uma hérnia. - Para quê mentir? Seria tão fácil desmascará-lo.

 

- Wieland não o viu sair. Acha que você passou lá a noite.

 

- Mas que história é esta? O Wieland não estava capaz de ver coisíssima nenhuma. Eu vim-me embora. E lá por isso, também não o vi a ele.

 

Bobby esvaziou o cachimbo de brinquedo com algumas pancadas secas na borda de um cinzeiro.

 

- Não voltou a lá ir?

 

-Não.

 

Bobby fez uma cara como se tivesse acabado de receber notícias desagradáveis. Levantou-se, cumprimentou com um aceno de cabeça um dos homens de negócios que jogavam às cartas e apalpou distraidamente os bolsos do uniforme, como se tivesse perdido a carteira.

 

- Não quero tomar-lhe mais tempo, doutor Carriscant, mas agradecia-lhe que me acompanhasse em mais uma visita.

 

- Não tenho o dia todo - disse Carriscant, pondo-se também de pé. - Onde é que vamos?

 

A esquadra de polícia junto à porta de Parian era um edifício defronte do qual Carriscant já passara centenas de vezes sem lhe dedicar mais do que um olhar absolutamente casual. Construído em adobe bulik, as janelas do rés-do-chão possuíam grades extravagantes, como se em volta dos caixilhos tivessem sido montadas gaiolas barrocas de ferro forjado. No interior respirava-se uma atmosfera surpreendentemente fresca, as espessas paredes reflectindo o calor da tarde ensolarada. Bobby conduziu Carriscant ao longo de um corredor e escancarou uma porta de madeira com tachões de ferro. No centro da sala estava uma pequena secretária ocupada por um polícia filipino e, encostado à parede do fundo, havia um banco corrido de madeira em muito mau estado. Sentado neste, um velho fumava pacientemente um cigarro. Carriscant reconheceu-o assim que o viu.

 

- Conhece este homem? - perguntou Bobby.

 

- Não.

 

O velho desatou numa algaraviada em tagalog, apontando o cigarro directamente a Carriscant, sorrindo e casquinando, exibindo os poucos dentes manchados de betei.

 

O polícia traduziu. "Ele diz que viu este homem no bosque de acácias entre Sampaloc e Nactajan na manhã daquele dia. Ele vive em Nactajan. Estava a apanhar lenha ao nascer do Sol e encontrou este americano na floresta. É este o homem."

 

Bobby virou-se para Carriscant, o rosto vazio, neutral. - Há alguma verdade nisto?

 

- É claro que não. - Carriscant mentiu imediatamente, com mestria, sem medo, e sem nenhuma razão válida. - Que raio de conversa é esta, Bobby?

 

- Temos que seguir todas as pistas. - Bobby encolheu os ombros. - A única coisa invulgar, a única coisa fora do normal em volta de Sampaloc durante o período em que Braun desapareceu foi este "americano", visto ao alvorecer. Este velhote forneceu-nos uma descrição bastante rigorosa. Devo dizer que quanto mais ele falava, mais o retrato se parecia consigo.

 

- Nunca o vi mais gordo.

 

- Há também o mestre de uma barca que diz ter transportado um kastila de uma margem para a outra. Pelo menos o passageiro falou com ele espanhol. Na alvorada desse mesmo dia. Mas não nos consegue dar uma descrição. Parece que para ele os kastilas são todos iguais... Mas alguém, um homem branco, esteve nas imediações de Sampaloc a essa hora. E eu quero saber quem foi.

- Acha que esse homem poderá ter matado Braun?

- Não sei. Limito-me a investigar.

 

O velho recomeçou a sua vozearia e todos se viraram para ele. Tinha o rosto franzido num esgar prazenteiro e enquanto isso balançava-se ritmicamente, sacudia o punho para cima e para baixo entre os joelhos e com a outra mão apontava a extremidade acesa do cigarro a Carriscant. O polícia fê-lo parar com um grito furioso.

 

- Mas o que é que se passa? - perguntou Bobby, estupefacto.

 

O embaraço do agente era notório. - Ele diz que este homem - deitou um olhar fugidio a Carriscant - diz que estava a segurar o coiso. Percebe, com a mão, a bater...

 

- Chega! - interrompeu Bobby. - Já ouvi o suficiente. Ponha-me esse velho nojento daqui para fora.

 

Bobby e Carriscant estavam de pé em pleno sol nos degraus defronte da esquadra, com Carriscant assegurando a Bobby uma vez mais que tudo estava bem, que compreendia o facto de Bobby ter o seu trabalho a executar e que queria mesmo regressar a pé ao hospital.

 

- Nem sabe quanto eu lamento isto - repetia Bobby. Velho tarado! - Estava visivelmente a suar de atrapalhação e mal-estar, os cabelos ralos colados ao crânio em fiapos molhados.

 

- Era o seu trabalho, você tinha que o fazer. A sério. Eu teria feito o mesmo.

 

- O tipo tinha-o descrito com todos os detalhes. Até essa cicatriz pequena que você tem na sobrancelha... Mas calculo que você seja um homem bastante conhecido em Manila. Uma cidade pequena e isso tudo. Ele pode tê-lo visto no hospital, em qualquer parte. - Abanou a cabeça, exasperado. - Cabrão de velho maluco. Quero dizer, que raio de coisa para ele inventar...

- Sorriu para Carriscant, como que a desculpar-se, e Carriscant devolveu-lhe um sorriso cúmplice.

 

O Flanquin de quatro cilindros - doze cavalos

 

Udo Leys estava gravemente constipado, os olhos ardiam-lhe, o nariz entupido pingava-lhe copiosamente e no peito sentia uma dor surda causada pela tosse seca que, qual ladrido, irrompia dos seus pulmões de tempos a tempos. Dir-se-ia o chamamento lamentoso de algum, estranho animal mitológico buscando a companheira durante o cio, meio leão-marinho, meio macaco, disse ele, e a ideia divertiu-o tanto que foi acometido por novo acesso de tosse. Acalmada esta, Udo assoou o nariz, limpando o bigode farfalhudo com o maior cuidado.

 

- Posso ser um velho - disse - mas isso não serve de desculpa. Não há nada mais repugnante do que o bigode de um velho quando está constipado. Os bigodes do meu pai, ainda me lembro... - Franziu a cara, enojado. - Cheios de ranho seco. Tirava-me toda a vontade de comer. Faz o favor de me dizer, Salvador, se deixei alguma coisa. - Estendeu para a frente o rosto de pele encaroçada para ser inspeccionado, levantando o nariz carnudo com um dedo. - com certeza, Udo. Está bem limpo, não se preocupe.

 

- É longe daqui? - perguntou Pantaleão. - Carriscant sentia o frémito reprimido de excitação no corpo magro do amigo. Como um cão de parar, vibrante de energia e impaciência.

 

- dez minutos - disse Udo. - Eles passaram pela alfândega esta tarde.

 

- E não houve problemas?

 

- Devo dizer-lhe, doutor Quiroga, que não há ninguém como Nicanor Axel em todo o mar da China. - Udo conduziu-os à porta. - Quando se trata de uma incumbência discreta ou delicada, o Axel é único. Tem feito maravilhas por mim, autênticas maravilhas.

 

Desceram do escritório para a Calle Crespo, quase mergulhada em silêncio agora que as oficinas dos latoeiros já tinham fechado, embora do extremo mais distante viessem os estampidos da galeria de tiro ao alvo e o som de um realejo tocando "Em Pleno Coração do Texas". Os dois médicos içaram Udo para o interior da vitória de Carriscant e espremeram-se o melhor que conseguiram nas pontas do assento. Constancio chicoteou a garupa do pónei e arrancaram num ressoar de cascos em direcção ao porto, evitando, a pedido de Pantaleão (para evitar ser reconhecido, disse), a multidão que fazia compras na Escolta, indo em vez disso pela Plaza Calderon e serpenteando através de vielas escuras e malcheirosas entre armazéns, para emergirem no cais junto ao quartel dos bombeiros.

 

Apearam-se e perscrutaram a massa dos navios fundeados no Pasig. Colunas de fumo elevavam-se de braseiros na popa dos cascos baloiçantes e o brilho das luzes eléctricas do quartel dos bombeiros e do posto da alfândega tornava difícil distinguir as formas para além da borda da água: pouco mais do que um emaranhado de mastros e cordame e, aqui e acolá, ainda mais longe dos ancoradouros, a silhueta compacta e escura dos vapores e navios de cabotagem que asseguravam as ligações entre as ilhas.

 

- E no caminho de regresso? - perguntou Carriscant. Haverá espaço suficiente?

 

- Não te preocupes - disse Pantaleão. - Eu carrego-o directamente para casa. Alugo um carromato.

 

Constancio foi mandado procurar um, após o que os três homens encetaram a caminhada cautelosa sobre um passadiço de tábuas arqueadas, por entre cachos de casas flutuantes, em direcção ao local em que o vapor de Axel estava amarrado. À esquerda e à direita havia famílias que cozinhavam o jantar em volta do fogo, só as crianças mostrando curiosidade acerca destes três americanos de fato branco que se passeavam pelo meio das suas casas.

 

- Por que é que ele não acosta num molhe? - perguntou Carriscant.

 

- O objectivo não é tornar as coisas fáceis ou simples de resolver - explicou Udo com um ar enigmático. - O que vocês pretendem do Axel deve ser muito importante, para se darem a este trabalho todo.

 

Ancorado bordo contra bordo com o último casco encontrava-se o pequeno e feio vapor de Nicanor Axel, o General Blanco. Era um navio de cabotagem largo, de linhas fugidias, com a sua única chaminé alta, notavelmente aerodinâmica, situada à popa. Em frente do castelo da ponte situavam-se três porões, sobrepujados por guindastes de aspecto primitivo. Um cheiro infecto, a acidez e podridão, parecia pairar sobre a embarcação como um miasma. Carriscant sentiu uma volta no estômago e cobriu o nariz com um lenço enquanto os três subiam a escada em diagonal para o convés, precedidos pelos berros joviais de "Nicanor, Nicanor, onde é que andas?" que Udo ia soltando.

 

Uma vez no convés, Carriscant julgou ter localizado a fonte do cheiro. Um dos porões estava cheio de gado, cabras e cabritos, e o respectivo fundo parecia atapetado com vegetação apodrecida, tanto quanto ele conseguia distinguir à luz de um candeeiro a petróleo ali pendurado.

 

- Trampa de cabra - disse Pantaleão. - Velha de séculos.

 

Udo explicou que, durante as viagens entre as ilhas e nas travessias mais longas até Hong Kong ou o Japão, a tripulação subsistia à custa do gado. - Deita-se o lixo todo ali para dentro, as cabras comem-no, comem-se as cabras. - Sorriu e fez uma pausa para acender um charuto. - O cheiro é levado da breca, não acham? Se eu fosse fiscal da alfândega não ia querer demorar-me neste barco, garanto-vos.

 

Um homem desceu do castelo da ponte e aproximou-se deles cruzando o convés, limpando as mãos a um trapo. Havia algo de curioso no seu andar, algo de oblíquo, acanhado, pensou Carriscant, como se um cúmplice invisível o estivesse a empurrar por detrás, forçando-o a avançar contra a sua vontade. Udo fez as apresentações. Nicanor Axel era um homem pequeno e frágil, de ombros descaídos, com uma pele escura, trigueira, que fazia um contraste bizarro com os seus olhos azuís-claros e com o seu cabelo loiro, quase branco. Uma observação mais cuidada permitiu a Carriscant dar-se conta que a cor de pele do homem se devia à sujidade encardida: óleo, sebo e poeira pareciam ter penetrado através dos poros para formarem uma camada subcutânea debaixo da epiderme, da mesma maneira que a tinta de uma tatuagem parece brilhar através da pele, mais do que à superfície desta. Nenhuma lavagem, por mais diligente que fosse, conseguiria alguma vez devolver o brilho rosado e nórdico às bochechas de Nicanor Axel - ele estava tingido de sujidade, impregnado de porcaria.

 

Era também um tipo taciturno, evasivo, pensou Carriscant, com um aperto de mão lasso e fugaz. Aceitou o dinheiro de Pantaleão afectando relutância e contou o molho de notas por duas vezes, ostensivamente, antes de mandar dois marujos a bordo da lorcha1 que o vapor rebocava, um casco de escuna com os mastros cortados que, embora reduzisse a velocidade do General Blanco sobre as águas, permitia duplicar a sua capacidade de carga.

 

- Agradeço-lhe imenso - disse Pantaleão. - Não houve problemas?

 

- Não - respondeu Axel. - O pacote estava lá em Hong Kong à espera.

 

Os marujos aproximaram-se carregando um pequeno baú de madeira, que pousaram no convés. Na face lateral, Carriscant leu as palavras impressas: "Ets. Flanquin. Paris". Usando um formão como alavanca, Axel levantou a tampa, pondo à vista, bem fixo nos seus suportes de madeira, um pequeno motor a gasolina, novinho em folha, recoberto por uma fina camada de óleo.

 

Pantaleão ajoelhou-se diante do baú, acariciando ao de leve os cilindros. "O Flanquin de doze cavalos", disse ele em voz baixa, reverente, a face extasiada e incrédula. O sonho estava agora um pouco mais próximo.

 

' Pequena embarcação, de dimensões inferiores a um junco, empregue na navegação à cabotagem no mar da China. (N. T.)

 

Carriscant acercou-se da casa dos Sieverance na Calle Lagarda num estado de alguma agitação e desassossego. Delphine Sieverance tivera alta a 22 de Dezembro: o ano novo já se arrastava há três dias e ele ainda não a tinha conseguido ver. Em casa de Carriscant o Natal fora tenso mas suportável, em grande medida porque ele optara por passar a maior parte do tempo no hospital e Annaliese estivera ocupada com o seu trabalho periódico junto do bispo. Udo, convidado para a consoada, tinha bebido em demasia e tornara-se cada vez mais piegas à medida que o serão se aproximava do fim, acabando por passar três dias com eles. Mas pelo menos a sua presença claudicante servira para dissipar a frieza que agora existia entre Carriscant e Annaliese. Nada fora dito abertamente, em nenhum momento o assunto havia sido sequer insinuado, mas algures durante aquele período tinha-se estabelecido entre eles um acordo tácito: não adiantava continuar a fingir, do afecto que em tempos os unira já pouca coisa restava, e nada havia a fazer. Era um facto inelutável, Carriscant sabia-o, mas admiti-lo deprimia-o mesmo assim, e tinha arranjado maneira de celebrar o ano novo a reconstruir o recto de um padre jesuíta, regressando exausto à casa escura e silenciosa depois de uma longa e árdua operação.

 

Armou um sorriso, agora, enquanto subia as escadas até ao salão onde Sieverance o acolheu com calorosas demonstrações de afecto. Sieverance, vestido à civil, vestia um fato de linho riscado de azul e um laçarote frouxo cor de cereja que, por qualquer razão, Carriscant achou irritante e afectado.

 

- Como está Mrs Sieverance? - perguntou, depois de ter tranquilizado o outro acerca do seu próprio bem-estar.

 

- Excelente, e a melhorar de dia para dia, meu caro amigo, graças a si.

 

Carriscant recebeu mais alguns elogios enquanto era conduzido pelo corredor fora até ao quarto dela. Quem lhes abriu a porta foi a enfermeira americana, uma jovem mulher anafada com um grande intervalo entre os dentes da frente. Tinha modos atarefados e muito eficientes, roçando a insolência, pensou Carriscant.

 

- Já conhece a enfermeira Aslinger? - perguntou Sieverance.

- com certeza. bom dia, Miss Aslinger.

 

- Dia, doutor, está tudo pronto para si.

 

Ele virou-se para a cama. Ela estava sentada, esperando pacientemente, e sorria-lhe, um sorriso de que emanavam um prazer e um calor tão sinceros que ele sentiu vontade de chorar.

 

- Ah, o meu médico predilecto. Doutor Carriscant, um feliz ano novo para si.

 

Ele pegou na mão que ela lhe estendia e apertou-a fugazmente. - Desejo-lhe o mesmo, Mrs Sieverance. Um ano feliz e cheio de saúde.

 

- E já agora próspero também - acrescentou Sieverance com uma risada tola.

 

- Saúde e felicidade chegam perfeitamente para 1903 disse Delphine, antes de prosseguir: - Sinto-me óptima, doutor. Todos os dias me aventuro um bocadinho mais longe no jardim. Até já dei uma voltinha de carruagem.

 

- Da próxima vez irá até à Luneta - disse ele - para ouvir a música. Durante toda a próxima semana vai tocar a banda da polícia. - Aproximou-se da cama, evitando o olhar dela.

 

- Por falar em Luneta, por acaso não tem visto a Miss Caspar nos últimos tempos, ou tem? - perguntou ela. O seu rosto espelhava apenas uma serena inocência.

 

Por momentos ele julgou não ter ouvido bem, incrédulo ante tal temeridade, tal descaramento malicioso. - Como? Ah, não, acho que não...

 

- De quem é que estás a falar, querida? - perguntou Sieverance.

 

- Da Miss Rudolfa Caspar - disse ela - impassível, os olhos fixos em Carriscant. Uma pessoa que ambos conhecemos. É uma velha amiga do doutor Carriscant, não é assim, doutor? Uma amiga especial.

 

- Julgo que devíamos... - Carriscant esboçou um gesto vago em direcção à cama.

 

- Desculpem-me, eu saio já. - Sieverance abandonou o quarto.

 

A enfermeira Aslinger puxou para baixo o lençol que cobria o regaço de Delphine. Apesar de a camisa de noite ter sido arregaçada até à cintura, havia toalhas cobrindo as coxas e o ventre, de modo que somente a zona do penso se encontrava exposta. Enquanto Carriscant o removia cuidadosamente, a enfermeira Aslinger mantinha-se a seu lado, o olhar atento. A sutura, com uma extensão de quinze centímetros, apresentava um tom cor-de-rosa vivo, mas cicatrizara bem. com a boca cada vez mais seca, ele conseguiu apenas entrever, sob a orla da toalha, o sombreado dos novos pêlos púbicos em crescimento. Suavemente, com a ponta dos dedos, tocou na ferida: brilhante, macia e dura, mas sem pregas nem sulcos.

 

- Uma bela cicatriz - disse ele automaticamente, sem pensar.

 

- Não é esse o adjectivo que eu escolheria - disse ela.

 

- Vai desaparecer com o tempo. Daqui a um ano ou dois quase não dará por ela.

 

A enfermeira Aslinger fez um novo penso enquanto ele recitava as proibições rotineiras: nada de esforços excessivos, de movimentos bruscos, de andar a cavalo.

 

- Oh, tenho uma coisa para si - disse ela, e, abrindo a gaveta da mesinha-de-cabeceira, tirou de lá um livro e estendeu-lho. Ele pegou-lhe: Anjos do Oriente, de Constance Fenimore Woolson. Abriu-o e viu o nome dela escrito na guarda em grandes letras, a tinta violeta: "Para Delphine Blythe, com afecto, Fenimore." Outra mão acrescentara "Sieverance" a seguir a "Blythe".

 

- Delphine Blythe Sieverance - disse ele. - Soa bem. Obrigado.

 

- Depois vou querer que me dê a sua opinião.

 

Bateram à porta e Sieverance reentrou, o rosto iluminado, cheio de uma vivacidade invulgar.

 

- Mrs Sieverance está a fazer progressos excelentes - disse Carriscant, com a jovialidade cadenciada de um médico numa má peça de teatro, enfiando o livro no bolso do casaco. Estamos muito satisfeitos com ela.

 

- Então esta é a ocasião ideal para expressarmos a nossa gratidão.

 

- Francamente, não vejo necessidade, já me deram provas...

 

- Carriscant começou a frase, mas depois emudeceu quando viu Sieverance fechar os olhos, erguer a face radiante em direcção aos céus, pegar na mão de Delphine e em seguida, para grande alarme do cirurgião, na sua.

 

- Peço-lhes que unam as mãos diante do Senhor - disse ele a Carriscant e à enfermeira Aslinger - que prontamente enfiou a mão na de Carriscant. E peço-lhes o favor de se ajoelharem comigo.

 

Carriscant deu por si de joelhos aos pés da cama de Delphine. O rosto de Sieverance estava agora franzido numa expressão beatífica, a um tempo austera e devota, enquanto a enfermeira Aslinger deixara pender respeitosamente a cabeça, revelando uma grave erupção na nuca, causada pelo calor.

 

- Ó Altíssimo - entoou Sieverance numa voz cava, intensa - concede-nos neste dia a Tua bênção e recebe a nossa gratidão pelos Teus abençoados poderes de curandeiro de que beneficiou a nossa bem-amada Delphine.

 

- Ámen - disse a enfermeira Aslinger.

- E agradecemos-Te, ó Senhor das hostes do Céu, a dedicação e perícia que outorgaste ao Teu servo Salvador Carriscant. Agradecemos-Te, ó Senhor nosso Deus, por nos teres conduzido a este homem...

 

Carriscant deixou de prestar ouvidos às expressões de gratidão que Sieverance continuava a dirigir ao Todo-Poderoso. Sentiu que as bochechas e as orelhas lhe ardiam, numa forma de embaraço no estado puro que já não experimentava desde os seus tempos de criança. A mão da enfermeira Aslinger estava quente e húmida, a de Sieverance era ossuda e agarrava-a com uma força desnecessária. Contemplou o tapete de ponto miúdo (rosas vermelho-escuras sobre fundo amarelado) sobre o qual estava ajoelhado e concentrou-se na dor surda que lhe começava a invadir a rótula esquerda. Porém, algo o fez levantar pouco a pouco os olhos: Delphine olhava-o fixamente e a sua boca silenciosa articulou uma palavra - "Desculpe." Eram os dois cúmplices de novo e ele teve subitamente a sensação, uma vez mais, que começava a mergulhar de cabeça para baixo.

 

A acção de graças durou quase cinco minutos e, quando terminou, o contentamento de Sieverance tornou-se quase insuportável. Carriscant dirigiu a Delphine algumas palavras de despedida e regressou com Sieverance ao salão, onde este insistiu em oferecer-lhe um copo de limonada.

 

Carriscant bebeu em pequenas goladas rápidas, mantendo o copo junto aos lábios.

 

- Nós militares, sabe - disse Sieverance, afagando o bigode louro e ralo com os nós dos dedos - quase nunca damos importância à providência divina.

 

- Calculo que não - disse Carriscant, casualmente, sem compreender qual o rumo da conversa e sem se importar nada com isso. - Esta limonada não está mesmo nada má.

 

- É preciso que aconteça uma coisa deste género para nos darmos conta da sorte que tivemos.

 

- Calculo que sim.

 

- Quero eu dizer, e se a Delphine só tivesse caído doente na próxima semana e não antes do Natal? Só Deus sabe o que teria acontecido. - Estremeceu, perturbado por esta visão de um futuro hipotético. - Nem consigo pensar nisso.

 

- Receio bem não ter compreendido.

 

- O quê? Eu ainda não lhe disse?

 

- Ah, não.

 

- O meu regimento vai ser enviado para Mindanao. Vamos combater os temíveis Moros1. Parto na próxima semana.

 

' Grupo de povos predominantemente muçulmanos do Sul das Filipinas, conhecidos pela qualidade das armas que fabricam. (N. T.)

 

Duas hélices propulsoras

 

Pantaleão Quiroga fez girar a manivela na frente do Flanquin e o motor despertou, cuspindo labaredas. O Aeromóvel estremeceu e começou a trepidar, como que subitamente dotado de vida. As correntes de ligação às hélices zumbiram e rangeram nas suas rodas dentadas. Carriscant e Pantaleão recuaram, um instante estupefactos diante da máquina ronronante, até que Pantaleão chamou Carriscant com um gesto até junto das hélices (ainda com as pás por montar), cujos núcleos giravam freneticamente. Carriscant pousou a mão ao de leve num painel de seda envernizada e sentiu as vibrações poderosas percorrendo-lhe o braço. Pela primeira vez teve a sensação que o sonho de Pantaleão não era afinal de contas uma fantasia ilusória, que este rapaz talvez estivesse prestes a conseguir alguma coisa.

 

- Duas hélices propulsoras - gritou Pantaleão, girando os dedos para ilustrar estas palavras. - Mas estou um pouco preocupado com o peso que calculei para o depósito de gasolina e para o radiador. São mais pesados do que eu julgava.

 

- E isso é mau?

 

- Se os meus cálculos baterem certo, estamos perto de atingir o peso máximo. Muito perto.

 

Pantaleão passou uma perna sobre o mais adiantado dos dois assentos de bicicleta montados acima do trem de quatro rodas em que a máquina repousava. Esticando o braço, regulou a válvula de alimentação e, em resposta, o ruído tornou-se mais abafado à medida que o motor abrandava. Por momentos, deixou-se ficar à escuta, a cabeça inclinada de lado, e depois desligou-o.

 

Carriscant olhou por sobre o ombro de Pantaleão para as duas alavancas de madeira montadas à sua frente e para os pedais que eram operados pelos seus pés. Acima dos seus ombros havia mais duas alavancas que se projectavam, como pegas de um carrinho de mão, do bordo frontal da asa superior.

 

Pantaleão viu-o a olhar e explicou. - Todo o bordo frontal desta asa é articulado - disse, agarrando nas alavancas e fazendo uma demonstração. De facto, uma pala na frente da asa movia-se para cima e para baixo num ângulo de quarenta e cinco graus. - Ao descolar é preciso levantá-lo todo, e assim obtém-se a máxima força ascensional. Uma vez no ar posso baixá-lo para diminuir a resistência ou levantá-lo se precisarmos de mais... - procurou a palavra certa, "...flutuação". Carriscant teve a súbita percepção de um vocabulário que se adaptava, que ia sendo elaborado. Como na medicina e na cirurgia, em que novas descobertas iam enriquecendo a linguagem - germe, apêndice, bacilo, fagócito, microrganismo...

 

- Chamo-lhe o "apanha-vento" - disse ele. - Já pedi o registo da patente. Se funcionar, quem sabe? Talvez eu possa...

 

- Se funcionar? Meu caro Panta, não podes correr um risco desses.

 

- Nos modelos planadores parece dar bom resultado. Mas quando estivermos no ar com uma máquina deste peso... - Virou-se e apontou para o segundo assento de bicicleta atrás de si, igualmente equipado com alavancas. - Foi por isso que reproduzi aqui o mecanismo de inclinação da cauda.

 

- Não me digas que vais saltar de um assento para o outro em plena... - ia dizer "viagem", mas a palavra não lhe pareceu apropriada. - ...enquanto a máquina estiver no ar? No seu percurso aéreo?

 

- Não, não. O meu companheiro de voo - o meu co-piloto, na realidade - ficará a controlar a inclinação da cauda, enquanto eu me encarrego dos lemes de profundidade, Pantaleão apontou para os pedais, e do apanha-vento.

 

- Estou a ver. Faz sentido, suponho. - Carriscant franziu o sobrolho: por esta altura tinha-se já habituado ao Aeromóvel, à sua fealdade frágil e translúcida, mas estes comandos pareciam-lhe desnecessariamente complexos. De certeza que havia uma maneira mais simples? Todas estas superfícies móveis - para inclinar, elevar, apanhar - todas estas alavancas, longarinas e cabos. Quando se via um pássaro a voar tudo parecia... Parou. Pantaleão olhava-o fixamente, os olhos arregalados, estranhos,

 

- O que é que se passa? - disse Carriscant.

 

- Estava aqui a pensar, Salvador, se tu me darias a honra...

 

- De quê?

 

- De me acompanhar neste voo histórico.

 

Chuva

 

As primeiras chuvas chegaram cedo nesse ano, mas o doutor Salvador Carriscant, sempre prudente, trazia consigo o guarda-chuva desde o final de Janeiro e, quando as primeiras gotas lhe caíram na cabeça, congratulou-se pela sua previdência. Dobrou o pequeno cavalete, guardou o bloco de desenho e fechou a caixa de aguarelas antes de se abrigar num bosque de bambus próximo dali, de onde ainda tinha uma boa vista para a Calle Lagarda e para a entrada da casa dos Sieverance. O bosque de bambus era na margem oposta de um pequeno riacho coberto de vegetação - o estero San Miguel -, em face da Calle Lagarda com as suas villas espaçosas. Consciente dos riscos que correra da última vez que se tinha entregue à espionagem, tomara algumas precauções de modo a tornar plausível a sua presença naquele local, caso fosse descoberto. No seu bloco de desenho havia várias perspectivas escolhidas ao acaso e incompletas desta zona dos subúrbios de Manila, igual a tantas outras. Uma extensão de terreno pantanoso, alguns arrozais, meia dúzia de palmeiras e, na distância, a cúpula e o campanário elegante da igreja e convento de San Sebastian. Ele sempre planeara vagamente fazer da pintura em aguarelas um passatempo, uma pausa nas exigências implacáveis da sala de operações, e vira neste entretenimento a maneira perfeita de satisfazer este impulso e observar "inocentemente" a casa dos Sieverance.

 

Via-se obrigado a reconhecer, todavia, que era a proximidade da casa e da respectiva ocupante que o distraíam e lhe dominavam a mente e não o efeito apaziguador das suas pinceladas caóticas.

 

O coronel Jepson Sieverance e o seu novo regimento, o 1° de Voluntários do Nebraska, haviam embarcado para Mindanao cinco dias antes no vapor Brewster, segundo uma nota no Manila Times, facto que Paton Bobby também confirmara. com o marido ausente, Carriscant sabia que precisava de ver Delphine mais uma vez, mas sem a presença da enfermeira Aslinger como chaperone. A enfermeira, deduzia ele, devia sair da casa ocasionalmente, mas em três dias de prática paciente da aguarela - duas horas no primeiro, quatro e meia no segundo - não vira senão criados entrando e saindo da moradia. Consultou o seu relógio de corrente: hoje já ali estava há quase três horas e, agora que a chuva começara, perguntou a si mesmo se valeria a pena esperar ainda mais. Levantou os olhos para o céu turbulento, plúmbeo. Nas Filipinas a chuva é um fenómeno natural pujante, implacável. As grossas gotas tamborilavam ruidosamente no tecido do guarda-chuva e ele sentia que a terra debaixo dos seus pés começava a amolecer e a liquefazer-se. Acima da sua cabeça, as frondes delgadas e pontiagudas dos bambus agitavam-se para um lado e para o outro, batidas por uma brisa forte. Um escaravelho em busca de abrigo passou zumbindo, murmúrio agreste num ponto negro...

 

Um leve ruído de cascos fê-lo olhar vivamente para a outra margem do estero, quando, para sua surpresa, viu o portão da moradia dos Sieverance abrir-se e dele emergir um pequeno carromato transportando, indubitavelmente, debaixo de um impermeável, as formas generosas da enfermeira Aslinger. A viatura afastou-se a trote pela Calle Lagarda abaixo em direcção ao Palácio Malacanan e enquanto isso, Carriscant, dobrado sob o seu guarda-chuva, correu ao longo da margem, subindo o riacho até à ponte Marquez, e chapinhou pelo carreiro enlameado que conduzia de volta a San Miguel. Em cinco minutos estava defronte da porta de Delphine. Dois minutos mais tarde percorria o seu salão para trás e para diante, as roupas húmidas, esperando que a criada informasse Mrs Sieverance que o doutor Carriscant a tinha vindo visitar. Na mão segurava o exemplar de Anjos do Oriente, de Constance Fenimore Woolson, que Delphine lhe emprestara. Como uma pessoa cumpridora e responsável, disse ele para si próprio, viera devolver prontamente o livro ao respectivo proprietário.

 

Ela entrou na sala em passo lento, amparando-se em duas bengalas. Trazia um vestido verde-maçã e tinha o cabelo enrolado, torcido no alto da cabeça. O seu largo sorriso acolhedor era pronunciado e irrefutável. Carriscant sentiu o seu nervosismo regressar com uma força que o deixou perplexo.

- Doutor Carriscant, que surpresa. - Ela franziu as sobrancelhas, subitamente. - Não me esqueci de nada, pois não? Não tínhamos combinado...

 

- Não, não. Ah... eu vim visitar o meu colega, o doutor Quiroga. Aproveitei a ocasião para lhe vir devolver o seu livro. Estendeu-lhe bruscamente o volume como se tivesse acabado de aprender o significado da frase, deu-se conta que ela ia ter alguma dificuldade em pegar-lhe, sobretudo com as duas bengalas, e olhou em volta, apalermado, procurando uma mesa onde pousá-lo.

 

- Vamos pô-lo outra vez na minha biblioteca - disse ela, solucionando-lhe o dilema diplomaticamente. - Já lhe mostrei a minha biblioteca, doutor Carriscant? Em qualquer caso, vou fcrecisar da sua ajuda.

 

Ele recusou as suas ofertas para tomar limonada, chá e café e fceguiu-a para um pequeno estúdio contíguo ao salão. Uma das fcaredes estava forrada de estantes desde o chão até ao tecto e, defronte duma janela sobranceira ao jardim alagado pela chuva, Pbncontrava-se uma pequena escrivaninha antiga, com um tampo de couro castanho-avermelhado já gasto, coberto de papelada.

- Estava a escrever ao Jepson - disse ela - arrumando apressadamente a caneta e uma pilha de folhas de papel.

 

- Uma longa carta - disse Carriscant. Santo Céu, o fulano ainda nem tinha partido há uma semana. Meu Deus, estou com ciúmes.

 

- Bem, para dizer a verdade, é uma peça de teatro.

 

- Uma peça? Você é escritora? E dramaturga, para mais?

 

- Não, a menos que a aspiração em si me confira esse título. Escrevi para jornais, alguns artigos para revistas, como a Harper's, The Atlantic. A peça, bem, a peça é um pouco o meu sonho. Mas agora que ele está longe já não tenho desculpas.

 

- É sobre quê?

 

- É sobre uma mulher... - Delphine fez uma pausa, parecendo transtornada. - É sobre uma mulher que está casada, mas que sente que cometeu um terrível... - Voltou a calar-se.

- É sobre o poder aterrador das instituições sociais.

 

Ela pareceu subitamente embaraçada por todas estas revelações e virou-se para a janela. - Meu Deus, veja só esta chuva! Será que é agora? perguntou-lhe. - Lê deluge est-il arrive? Ela tinha um sotaque francês correcto, pensou ele, com um toque bizarro de orgulho. Uma mulher inteligente, cultivada.

 

- Receio bem que sim - disse Carriscant, e lançou-se numa curta dissertação sobre a estação das chuvas nas Filipinas, o calor enervante e húmido, os tufões, as constantes chuvadas. Há quem vá para as montanhas, é claro, onde não é tão húmido, mas a maioria de nós aguenta aqui até que a coisa passe. Esperando com impaciência que chegue Outubro e as noites frescas.

 

Ela tirou uma pequena caixa da escrivaninha, abriu-a e estendeu-lha. Violetas cristalizadas, cobertas de açúcar em pó.

 

- São as que você me deu - disse ela. - As minhas reservas estão no fim.

 

Ele declinou a oferta. - Eu vou arranjar-lhe mais - prometeu. - O meu fornecedor é de confiança. - Ela pegou numa das violetas e meteu-a na boca. Ele observou-a a chupar durante breves instantes, as bochechas côncavas, os maxilares movendo-se para extraírem o sabor açucarado.

 

- Afinal sou capaz de comer uma, se me der licença - disse ele, tirando um pequeno ramo de cor malva da caixa de novo estendida.

 

- Tenho uma autêntica obsessão por estes doces - disse ela. - Acho que é porque me agrada a ideia de comer uma flor.

 

Carriscant teve a sensação que ia desmaiar a qualquer momento, o calor na sala parecia-lhe insuportável, o cheiro penetrante dos volumes encadernados a couro... Ergueu o livro dela com dedos debilitados, entorpecidos.

 

- Onde é que eu ponho isto?

 

- Se não se importasse de o voltar a pôr no lugar... Já agora, o que é que achou do romance? Eu não lhe disse que ela era uma óptima escritora?

 

- Muito agradável. - Não se lembrava sequer de uma linha. Tinha lido o livro numa espécie de embriaguez, vendo as palavras sem as compreender.

 

- Aquele episódio em que a Esmerelda leva a melhor sobre o desprezível capitão Farley é uma maravilha. Que bela sátira!

 

- Não posso estar mais de acordo. Absolutamente. - O seu entusiasmo, esperava ele, presumia ele, disfarçaria a sua total ignorância.

 

- Ora aí está o tipo de mulher independente que eu admiro

- disse ela. - Não concorda comigo?

 

- Mmm. Agora onde é que eu...

 

Ela apontou para uma prateleira alta, a segunda a contar do topo da estante, onde se via a fenda oblonga correspondente ao volume em falta.

 

- Os Woolson estão todos ali em cima, receio bem - disse ela. - Vai ter que usar o escadote de biblioteca.

 

E indicou uma cadeira de carvalho com uma aparência irrefutável de assento robusto, que só um segundo olhar mais atento revelava possuir demasiadas travessas algo supérfluas e, num dos lados, um gancho de cobre sem utilidade aparente. - Desdobra-se e forma uma escada - explicou ela.

 

E com efeito assim era, graças a um mecanismo bastante engenhoso, pensou Carriscant, dado que lhe bastou um simples gesto para transformar a cadeira num lanço de cinco degraus de madeira, mantidos em posição pelo gancho agora útil.

 

- É o meu objecto favorito - disse ela. - Comprei-o em Inglaterra, durante a lua-de-mel. Numa cidadezinha chamada Moreton-in-Marsh.

 

- Extraordinariamente simples - disse ele. - E sólido.

 

Subiu os cinco degraus e enfiou o livro no respectivo lugar junto dos outros Fenimore Woolson. Tudo por ordem alfabética, notou ele, e bem limpo. Um espírito bem metódico, isso agrada-me. Lembrou-se do seu plano, subitamente, e tirou outro Woolson da estante, ao acaso.

 

- Posso levar este? Tornei-me um verdadeiro admirador.

 

- Mas é claro, com todo o gosto. Formaremos uma sociedade de crítica literária, aqui em Manila. Um clube a dois.

 

Estará ela a cortejar-me? pensou ele, sentindo-se pouco à-vontade no alto da escada. Um clube a dois, isso sugere-me um certo... chaleur. Nervoso, começou a descer às arrecuas os cinco degraus e, enquanto o fazia, o gancho de bronze, só em parte ajustado ao respectivo orifício, deslizou os poucos milímetros necessários para aí se fixar com firmeza. Esse pequeno ajustamento (concluíram eles mais tarde) - uma simples impulsão, um encaixe - foi o suficiente para o desequilibrar na sua descida cuidadosa às arrecuas. Vacilou para a esquerda e, para compensar, pousou o pé direito com toda a força no último degrau. Ao estalar, a respiga deste produziu o ruído de uma bolacha seca a partir-se em dois. Ele caiu para trás, os braços agarrando o vazio, e aterrou no chão com um estrondo surpreendente, acima do qual conseguiu mesmo assim ouvir o grito alarmado de Delphine. O peito de Carriscant esvaziou-se num sopro violento e a sua visão toldou-se em tons de laranja-acinzentado. O ponto em que a cabeça embatera no soalho de madeira começou a retinir de dor, audivelmente, pensou ele. O seu único pensamento era: parti o objecto de que ela mais gostava.

 

Ao abrir os olhos viu a face pálida de Delphine pairando acima da sua, tentando desapertar-lhe o nó da gravata com os dedos. Compreendeu que perdera os sentidos durante alguns segundos e sentiu-se embevecido ante a solicitude dela. Mas o médico dentro de si ficou chocado por vê-la ajoelhada no chão no seu estado presente.

 

- Está tudo bem consigo? - perguntou ela, cheia de ansiedade. - Meu Deus, que queda! Espectacular!

 

- Mrs Sieverance, peço-lhe. - Ele lutou para se soerguer, aspirando grandes golfadas de ar. - Não devia... ajoelhar-se. Eu estou bem. Estou bem.

 

Sentia-se confuso, estúpido, a cabeça pesada e leve ao mesmo tempo. - Lamento imenso - disse a custo. - Estraguei o seu escadote de biblioteca.

 

Delphine debruçava-se agora, apoiada nos braços. Carriscant tentou não reparar na forma como os seus seios pendiam para a frente e lhe faziam peso no corpete enquanto ela, de gatas, se virava para examinar o escadote. Arrastou-se para junto dela sobre as nádegas; não se sentia ainda capaz de se pôr de pé. Ela fez escorregar pedacinhos de madeira entre os dedos.

 

- Orifícios de formiga branca. Teria sucedido o mesmo à próxima pessoa que subisse o degrau. - Ela sorriu-lhe. - Poderia até ser eu. Salvou-me outra vez, doutor.

 

De novo aquele tom. - Tem que me deixar consertá-la disse ele muito depressa. - O doutor Quiroga conhece os melhores carpinteiros.

 

- Oh, não tem importância.

 

- Mas você disse...

 

- É só um objecto, afinal de contas. Alguém o possuiu antes de mim, alguém o há-de possuir depois. Na realidade estou apenas a usá-lo por empréstimo. Todos estamos. Prendemo-nos demasiado aos nossos haveres, aos objectos. Não podemos possuí-los inteiramente, como a comida ou o vinho Foram-nos apenas emprestadas, estas coisas a que damos tanto valor.

 

A sinceridade deste pequeno discurso silenciou-o.

 

- Tudo isso é verdade - disse ele, apalermado. - Mas mesmo assim lamento imenso.

 

Carriscant pôs-se de pé, devagar, e estendeu as mãos. Ela pegou-lhes. Ela pegou-lhes...

 

- Acho que será melhor você pôr-se atrás de mim - disse ela. - Os músculos no meu estômago...

 

- Talvez devêssemos chamar a criada?

 

- Doutor Carriscant, por favor.

 

Ele postou-se atrás de Delphine e, quando ela ergueu os braços, ajustou as mãos às concavidades quentes das suas axilas. Sentiu o grande músculo, o pectoralis major, crispar-se sobre os seus indicadores no momento em que a levantou, suportando todo o peso do seu corpo (e ela não era nenhuma pena leve, deu-se conta) para a erguer do chão. Ela assentou os pés e ele apanhou-lhe rapidamente as bengalas.

 

- Pronto - disse ela - um sorriso intrigante no rosto. Que tragédia! Quem diria que a devolução dum livro ia causar toda esta balbúrdia?

 

Nesse instante, Carriscant quis declarar-lhe o seu amor, agarrar-lhe a mão e dizer-lhe que ela era a mulher mais bela que alguma vez vira, que todos os seus gestos, todas as facetas do seu ser o faziam arder de desejo. Quis colar os lábios aos dela e saborear as violetas na sua língua.

 

Mas o seu rosto permaneceu impassível. Pestanejou. Uma enxaqueca começava a manifestar-se. O músculo de um ombro contraía-se em espasmos.

 

- Estou desolado pelo escadote - repetiu. - Insisto em mandá-lo reparar. O doutor Quiroga conhece quem o saiba consertar.

 

- Sujou o seu casaco - disse ela - estendendo a mão para tocar na coxa de Carriscant e sacudir a poeira com algumas pancadas leves.

 

Ele sentiu-se indescritivelmente diminuído, totalmente desarmado. Tinha que sair dali.

 

Delphine seguiu-o até ao topo das escadas enquanto ele se despedia. O seu sorriso era ainda ambíguo, pensou ele, dela parecia emanar uma sensação de poder, como de alguém que passou a controlar perfeitamente a situação. Mas como? Porquê? O que ocasionara isto? O seu ar canhestro? O seu comportamento atordoado, titubeante? Saiu para a chuva, expondo-se com deleite às cordas de água que caíam do céu, o cabelo em breve colado ao crânio, gotas escorrendo-lhe pela cara quente abaixo, sem olhar para trás. À medida que caminhava pela rua em direcção a Quiapo, para o bodegon onde Constancio o esperava com a carruagem, as interrogações voltaram a atormentá-lo. Tanto quanto se conseguia lembrar, o seu comportamento, antes e após a queda, fora de um absoluto decoro, um autêntico modelo de discrição e cortesia. Então por que se comportava ela como se soubesse alguma coisa que ele ignorava? O equilíbrio desta relação alterara-se acentuadamente, pensou ele, com um pequeno frémito de pressentimento: a balança pendia agora para o lado dela.

 

Escalpelo

 

O cadáver da mulher jazia de barriga para baixo numa pequena torrente vigorosa, alimentada pelas chuvas, que desaguava no estero Tatuban. O riacho situava-se um pouco a norte da cidade, entre o caminho de ferro de Dagupan e a pista de corridas de Santa Cruz. Carriscant olhou à sua volta: embora estivessem apenas a um quilómetro e meio de Intramuros, a rodeá-los havia mato rasteiro e campos pantanosos sob nuvens baixas e carregadas. Uma paisagem deprimente, desolada. Desolada1 era a palavra perfeita, pensou. Ou drookit2, um bom termo escocês, excepto que possuía conotações de frio e aqui reinava um calor húmido. A chuva tamborilava-lhe compassadamente no chapéu e no impermeável amarelo. A seu lado, Bobby segurava um chapéu de chuva acima da cabeça e, não muito longe, meia dúzia de polícias nativos aguentavam estoicamente, encharcados até aos ossos.

 

- Este carreiro aqui vai até Tondo - disse Bobby, de dedo apontado, antes de girar sobre os calcanhares. - Se formos em sentido oposto vamos ter ao hospital chinês.

 

- Ela é chinesa?

 

- Mestizo, creio eu. Não a conseguimos identificar. O mais provável é que seja de Tondo.

 

A mulher estava descalça e as roupas que tinha no corpo eram de má qualidade, gastas. Carriscant encolheu os ombros.

- Tondo. Pode levar-vos meses a descobrir quem ela era, se é que conseguem.

 

Drear no original. (N. T.)

 

' Adjectivo intraduzível neste contexto, usado na Escócia para qualificar um terreno alagadiço e gélido. (N. T.)

 

- Temos que tentar - replicou Bobby, secamente.

 

Carriscant franziu o sobrolho: Bobby não estava bem disposto - compreensível, talvez, mas quanto a ele, não entendia porque fora convocado. - Em que é que eu posso ser útil? perguntou.

 

Bobby fez sinal aos agentes para removerem o corpo do leito do riacho e, afastando-se, ofereceu a Carriscant um charuto que, por uma vez, este aceitou. Seguiram-se algumas tentativas agitadas para acender os charutos, com Carriscant a gastar três fósforos húmidos e Bobby dois antes de o conseguirem. Carriscant soltou uma baforada de fumo, o olhar perdido para lá da paisagem monótona. O charuto era barato, sabia a seco, a palha, e ardia-lhe na garganta, num estranho contraste com tudo o que via e lhe trazia à mente a palavra "frio": céu cinzento, prados lamacentos, chuva, terrenos alagados. Tinha a impressão de estar a respirar uma sopa morna. Sentia-se completamente molhado debaixo do seu guarda-chuva luzidio, quente e molhado.

 

Bobby soprou na ponta do seu charuto e disse: - Acho que é o mesmo tipo.

 

- O que quer dizer com isso?

 

- Quem a matou foi a mesma pessoa que matou o Ward e o Braun.

 

Bobby conduziu-o até à carroça de quatro rodas onde a mulher se encontrava agora estendida. Era nova, não passaria muito dos vinte e cinco anos, calculou Carriscant, e tinha o rosto coberto de cicatrizes de varíola. Parecia magra e malnutrida, e o lado direito da sua blusa de musselina estava rasgado. Quando Bobby levantou o braço do cadáver Carriscant pôde ver, através do rasgão, a incisão pregueada de um brutal ferimento de faca, entre a quarta e a quinta costelas.

 

- Apunhalada no coração - disse Bobby. - E, tal como os outros, encontrada dentro de água ou perto desta, sobre as linhas Filipinas ou americanas tal como elas se apresentavam a 4 de Fevereiro de 1899.

 

- Quem é que esteve aqui? - inquiriu Carriscant, surpreendido.

 

- O Primeiro de Montana.

 

Carriscant mostrou-se céptico. - Se fosse um soldado americano morto, eu apoiaria a sua conjectura. Mas é uma camponesa, além disso doente, aposto, saída de um tugúrio qualquer de Tondo. E não há ferida em forma de L.

 

Bobby enfiou a mão no bolso e tirou de lá qualquer coisa que mostrou a Carriscant: um escalpelo. Carriscant pegou-lhe.

 

- Encontrámo-lo junto do corpo, mesmo ali na margem disse Bobby.

 

Era um escalpelo Merck e Frankl, de uso corrente, com uma sólida lâmina biselada de cinco centímetros de comprimento, viu Carriscant.

 

- É o que nós chamamos um bisturi direito, de ponta aguçada. Não serve para trabalhos de precisão. De fabrico clássico disse Carriscant, devolvendo-o.

 

- Pensamos que o assassino foi surpreendido. Se não fosse isso haveria certamente uma ferida em forma de L e o coração teria desaparecido.

 

- Mas porquê uma mulher? Porquê uma moradora num bairro de barracas?

 

- Não sei.

 

- Nós... - Carriscant fez uma pausa, não sabendo muito bem como exprimir-se. - Nós temos bisturis destes em San Jeronimo.

 

- Eu sei - disse Bobby. - Também os há em San Lázaro e no hospital First Reserve. - Guardou o escalpelo cuidadosamente no bolso. - Consegue descobrir se falta algum dos vossos?

 

- Possivelmente.

 

- Agradecia-lhe muito.

 

Carriscant olhou de novo o cadáver. As roupas ensopadas colavam-se ao pequeno corpo descarnado. O ventre estava nitidamente distendido. Os lábios entreabertos expunham os dentes da frente, manchados. Perturbado, inquieto, o cérebro de Carriscant raciocinou rapidamente.

 

- Acho que você vai descobrir - disse ele a Bobby - que esta mulher está grávida. De quatro ou cinco meses. - Apontou o ventre dilatado do cadáver.

 

- A sério? Meu Deus... - A informação pareceu transtornar Bobby desmedidamente. - Que coisa horrível.

 

- Eu confirmarei no hospital - disse Carriscant, despedindo-se.

 

No percurso de regresso a Manila deu por si repisando uma e outra vez as mesmas conclusões inquietantes. O bisturi encontrado junto ao corpo da mulher provinha da sua sala de operações em San Jeronimo, disso não tinha dúvidas. Não conseguia explicar de onde lhe vinha esta certeza. Mas ela atingiu-o com a clareza de uma revelação sobrenatural. Alguém roubara o instrumento e esse alguém, ou essas pessoas, tinham-no deixado junto do cadáver com o único fito de o implicar a ele, Carriscant, nos homicídios.

 

A tarde azul

 

- Tivemos problemas enormes - disse Pantaleão - os traços crispados, o queixo sujo da barba por fazer. Mas acho que os conseguimos resolver.

 

Estavam os dois à porta do celeiro nipa olhando a chuva que caía continuamente sobre o prado. Atrás deles, mergulhado na penumbra com cheiro a bafio, encontrava-se o Aeromóvel, quase completo, apenas lhe faltando uma hélice.

 

- Problemas de esforço de torção - continuou Pantaleão.

 

- As hélices fazem o aparelho desviar-se para a direita e eu tive que contrabalançar uma hélice com a outra. Muito complicado.

 

- Beliscou a cana do nariz. - É o peso. Preciso de mais combustível. Fez-me atrasar várias semanas, mas estamos quase.

 

- Não te mates a trabalhar, Panta - disse Carriscant, pousando uma mão carinhosa no ombro do amigo. - Coisas destas não podem ser feitas à pressa. Um dia, estou certo, tu vais levantar voo.

 

- Não, tu não estás a perceber - disse Pantaleão em tom exaltado. - Eu não estou sozinho. Há outros.

 

- Outros quê? - Carriscant começava a ficar preocupado acerca do amigo, cujo estado de espírito se revelava cada vez mais febril e neurótico.

 

- Outros aviadores. Há o Santos-Dumont em França, o Bosendorf na Alemanha, aquele tipo na América - como é que ele se chama? - com os planadores tripulados.

 

- Mas tu estás quase a conseguir. - Carriscant virou-se e indicou a máquina com um gesto. - Olha para isto. Uma façanha espantosa.

 

- Chanute, é assim que ele se chama. Mas é do Santos-Dumont que eu tenho mais medo. Ele é riquíssimo. Dinheiro é o que não lhe falta, compreendes.

 

- Panta...

 

- E ainda por cima isto! - Ergueu o punho e agitou-o em direcção à chuva. - Normalmente, esta porcaria não devia começar senão daqui a dois meses, no mínimo. O que é que se anda a passar? Olha-me para aquele campo. É um lamaçal, praticamente submerso. Foi para evitar problemas assim que eu comprei este terreno. Era suposto o solo drenar naturalmente. O camponês que mo vendeu jurou sobre a cabeça dos filhos que isto não ia acontecer.

 

Carriscant contemplou o céu enquanto Pantaleão continuava a vituperar contra o camponês e a sua má fé. Era meio-dia e as nuvens pareciam dispersar-se. Embora sem ter a certeza, Carriscant julgou distinguir uma névoa azulada para lá do tapete verde-claro.

 

- Precisas é de uma estrada - disse, sem mesmo pensar nas suas palavras. - Uma estrada de brita, como as que os americanos estão a construir em Intramuros. Aguenta bem a chuva, o piso é macio, e então já podias... - Calou-se. Pantaleão fitava-o, o lábio inferior preso entre o polegar e o indicador. - O que é?

 

- Uma estrada... Mas é claro!

 

- Alguma coisa firme, seja lá o que for. Uma pista de terra batida, uma...

 

Pantaleão saiu do celeiro, indiferente à chuvada, medindo o solo com as suas passadas largas. Carriscant suspirou, abriu o guarda-chuva e seguiu-o, afastando o pescoço, que a humidade irritava, da gola da camisa. Nessa manhã tinha mesmo encontrado bolor numa camisa guardada no armário. Uma camisa branca em perfeito estado com bolor azul crescendo no tecido, como num queijo.

 

Apanhou Pantaleão no extremo do prado. Através de um renque de goiabeiras via-se um arrozal e, mais adiante, a massa castanha e caudalosa do estero, juncado, ainda mais do que o habitual, de couves, como bolas de futebol de um verde intenso. O Pasig estava cheio delas, notara Carriscant naquela manhã ao atravessar a ponte de Colgante.

 

- vou eu mesmo mandá-la construir - disse Pantaleão com fervor, os braços estendidos à sua frente apontando para o celeiro. - Uma base de brita, postes de bambu estendidos de metro a metro com tábuas de madeira pregadas em cima.

 

- Mas Panta, olha que são quase cem metros. Pensa no custo, homem!

 

- Não, não. É uma excelente ideia. Obrigado, Salvador. Agarrou-lhe a mão e apertou-a, muito excitado. - Obrigado, Deus te abençoe.

 

- Não tens de quê. Chapinharam de volta ao celeiro.

 

- Já reconsideraste, Salvador? Tu sabes como é importante para mim.

 

- Eu já te disse, é-me impossível. Eu não sou como tu, ficaria aterrorizado. Só iria estorvar. Treina um jovem qualquer. Além disso, eu peso demasiado.

 

- Não, não, por aí não há problema. Tens que ser tu. Calculei tudo com base no teu peso.

 

- Não, Panta, sinceramente:..

 

- Não digas que não. Não faças isso. Pensa só mais um pouco no caso.

 

A chuva cessou momentaneamente enquanto Carriscant regressava a Intramuros. O vento soprava de leste e ele conseguia ver enormes continentes de nuvens formando-se sobre os contrafortes dos montes Benguet. É só uma pausa momentânea, pensou, tirando o chapéu-e enxugando a cara com um lenço, esta noite é que vão ser elas.

 

Uma vez no hospital, instalado no seu consultório, passou os olhos pelo inventário que pedira à enfermeira-chefe. Numerosos artigos estavam em falta, incluindo um bisturi Merck e Frankl direito de ponta aguçada, tal como ele previra. Mas como saber quando tinha desaparecido? Podia ter-se perdido, podia ter sido roubado há meses, podia ter sido deitado ao lixo acidentalmente, enrolado num molho de compressas sujas... Então por que suspeitava ele do dedo dos doutores Cruz e Wieland? Começou, tão metodicamente quanto possível, a explorar as ramificações desta hipótese, exercício que abandonou passados dois minutos, esgotado pelo acumular de incongruências e deduções arrevesadas. Num estado de espírito destes, compreendeu, qualquer pessoa podia ser vista como um inimigo - Cruz, Wieland, até Bobby. Quem sabe se Bobby não teria posto o bisturi junto ao cadáver, para o perturbar, para o pôr à prova de alguma forma... Mas porquê? O que é que isso implicava? Era de dar em doido, ele sabia-o, e pôs o assunto totalmente de parte. Uma longa bicha de doentes aguardava diante da porta do seu consultório.

 

Mais tarde, findo o trabalho desse dia, Carriscant demorou-se junto à janela das traseiras do seu gabinete, contemplando um recanto do jardim do hospital. No ar ressoavam os murmúrios de trovões distantes e nuvens altas cor de ameixa encastelavam-se sobre a cidade. A oeste, contudo, sobre a baía de Manila, o céu estava límpido e o Sol brilhava intensamente ao mergulhar no horizonte, enchendo o jardim com uma espessa luz cremosa e fazendo refulgir os velhos telhados de Intramuros, cuja terracota, por momentos reavivada, contrastava com a massa borbulhante e enegrecida das nuvens de tempestade. As primeiras gotas caíram como moedas de prata através da luz radiosa do jardim e, no momento em que as nuvens se abatiam sobre a cidade, decididas a abafar este sol audacioso, uma mescla fugaz de neblina cor de malva e de luminosidade crepuscular tornou o céu azul, quase alterando a sua natureza invisível para a transformar em algo de presente, tangível, como se a luz azul que enchia o jardim fosse uma bruma de minúsculas gotículas suspensas na atmosfera.

 

Encantado, embevecido, sem pensar, Carriscant abriu a janela e esticou a mão para fora como uma criança tentando apanhar, tentando tocar, este maravilhoso fenómeno. Os seus dedos fecharam-se no vazio. Em vez disso viu as centenas de tonalidades de verde nas folhas, nos arbustos, na erva; cheirou o aroma ferroso e bafiento da chuvada iminente; grossas pingas de chuva bateram-lhe na palma da mão aberta e ele ouviu o ribombar do trovão sobre San Juan del Morte no preciso momento em que, diante do seu olhar extasiado, o entardecer se pintava de azul.

 

Este devaneio foi interrompido por um breve alarido de vozes exaltadas vindo da antecâmara. As objecções polidas da senora Diaz prenunciaram o seu toque na porta, detrás da qual emergiu a sua cara rechonchuda, com um ar de quem pede desculpa.

 

- É um doente, doutor, estou desolada. Eu disse que já tinha passado da hora, mas é uma emergência, julgo.

 

- Mande-o entrar, senora Diaz. E pode-se ir embora. Eu vou ficar até mais tarde.

 

Carriscant sentou-se atrás da sua secretária e, distraidamente, desenhou traços com a unha unindo as manchas de tinta no mata-borrão. A chuva recomeçou a cair copiosamente, fustigando a terra, enchendo as sarjetas até transbordar, por toda a parte o ruído da água chapinhando. Extraordinário, pensou ele, aquele efeito da luz no jardim. A atmosfera tão carregada de humidade, a luz branca do sol e o cinzento azulado das nuvens como que fundindo-se nas gotas microscópicas. Uma espécie de efeito de prisma monocromático, se é que tal existia, verdadeiramente mágico. Tivera a impressão que podia tocar no ar, que quase podia apanhá-lo, às mãos-cheias de azul.

 

Levantou os olhos e viu-a. Ela entrara no consultório tão silenciosamente que, por um momento de loucura, ele julgou estar em presença de mais uma visão, de mais um efeito mágico e sublime da luz. Soltou um pequeno grito de espanto que conseguiu transformar num acesso de tosse e levantou-se da cadeira abruptamente.

 

- Mrs. Sieverance...

 

Ela trazia um chapéu de palha e uma jaqueta de algodão azul-marinho sobre uma saia cinzento-clara até ao tornozelo. Tinha os cabelos espessos presos na nuca com uma fita de veludo castanho-avermelhada.

 

- Peço imensa desculpa de chegar tão tarde, doutor. Não me estava a sentir bem.

 

Carriscant saiu de trás da secretária e puxou uma cadeira para Delphine. Reparou que ela já não utilizava bengalas para se apoiar. Desde há alguns dias que não a via, mas mesmo assim isso indicava progressos rápidos. Ela estava pálida, tinha a testa perlada de suor e a sua respiração era arquejante.

- Já sem as bengalas? Está a exagerar, suspeito bem.

- Sinto-me muito mais forte. Sentia-me, quero dizer. Mas esta tarde estava a escrever e comecei a sentir uma fraqueza muitíssimo estranha.

 

- A enfermeira Aslinger não...

 

- Dei-lhe um dia de folga, sentia-me tão bem, compreende.

 

Ele tomou-lhe o pulso. O feixe de luz do candeeiro eléctrico na parede permitia-lhe, olhando Delphine de perfil, ver a fina penugem no seu lábio superior. Um veludo de pêssego de uma infinita delicadeza. O seu velo, a sua pelagem. A ponta da sua língua surgiu para humedecer o lábio inferior. Um arco de luz incidiu na geleia sombreada de pestanas do seu globo ocular. Uma substância preta nas suas pestanas. Pó-de-arroz nas madeixas loiras à frente das suas orelhas.

 

- Está um bocadinho rápido, o pulso.

 

- Bem me parecia. E a minha respiração. Não a consigo acalmar. Como se houvesse alguma coisa a apertar-me os pulmões.

 

- E a ferida? Algumas dores?

 

- É estranho. Uma espécie de formigueiro. Parece... uma efervescência nessa zona, de lado.

 

- Se fizer o favor de se deitar na marquesa, eu não me demoro nada. - Sorriu-lhe e dirigiu-se para a porta.

 

- Onde é que vai?

 

- Chamar uma enfermeira.

 

Ela riu-se e abanou a cabeça, de espanto, pensou Carriscant.

 

- Doutor Carriscant, francamente, o senhor abriu-me a barriga e tirou de lá uma parte do meu corpo. Agradeço o seu sentido das conveniências, mas não há necessidade disso. - Tirou o chapéu, pousou-o na cadeira e foi instalar-se na marquesa oculta por um biombo.

 

- Pode dar-me uma ajuda? Faz-me impressão levantar as pernas de repente.

 

Ele acocorou-se rapidamente diante dela, a garganta seca, os dedos sobre os seus tornozelos. Pequenas botinas pretas de saltos baixos em pele macia, um entrecruzamento de atacadores presos a argolas de cobre. Carriscant levantou-lhe as pernas até as pousar na marquesa. Um ténue rangido de couro no momento em que ela se virou para ele antes de se estender.

 

- Agradeço-lhe muito, doutor.

 

- Não, não. Fez bem em vir.

 

Os dedos dela começaram a desabotoar a saia de lado. Botões dos dois lados. E também o brilho de fivelas.

 

- Ainda há estas fivelinhas.

 

- Já as vi. - Ele soltou-as de ambos os lados e dobrou para baixo o que era agora a aba frontal da cintura da saia. Ela desprendeu os últimos botões da jaqueta e abriu-a. Por baixo trazia uma camisa de algodão com finas listas amarelas. Sob a bainha da camisa Carriscant conseguia ver uma tira do seu ventre, acima do umbigo, e a orla franzida das suas cuecas, seguras por uma fita de tecido atada com um laço. Ela puxou as pontas do laço, soltando-o, e alargou o mais que pôde a cintura das cuecas.

 

Ele já não raciocinava. Na sua cabeça nada havia para além do ruído da chuva escorrendo, tamborilando. Um aroma de água-de-rosas, adocicado, fugaz, emanava dela. Pousou o olhar na janela: o jardim estava mais escuro, envolto em sombras, e as luzes da sala brilhavam intensamente no lusco-fusco precoce.

 

- vou só... - começou ele, os dedos segurando a fita solta das cuecas. Puxou para baixo com cuidado, expondo primeiro o umbigo e a saliência pálida do ventre, depois as saliências suaves da pélvis, e aí parou.

 

- Pedia-lhe só que levantasse um pouco as costas...

 

- Tenho medo que me doa, os meus músculos aí estão fracos.

 

- Vejamos.

 

Enfiou a mão debaixo do corpo dela, com a palma virada para cima, rra curvatura dos rins. Levantou-a e ela arqueou-se com precaução, as mãos remexendo debaixo das nádegas, soltando a aba traseira da saia, empurrando-a para baixo sobre a curvatura das ancas. A mão de Carriscant estava quente sobre a sua coluna vertebral.

 

Os dedos na bainha das cuecas, baixou-as um pouco mais de modo a expor a cicatriz. A fita encontrava-se mais solta do que ele previra e o seu puxão revelou uns bons três centímetros do púbis, com os pêlos dourados e espessos já quase do tamanho normal.

 

Ao ver isto Carriscant quedou-se hirto, o peito subitamente cheio de ar, as virilhas percorridas por sacudidelas pulsantes à medida que o seu pénis engrossava, empurrando contra as calças. Voltou a arregaçar um pouco as cuecas, cobrindo o púbis

- aí está - e repuxou o lado direito de maneira a deixar à vista a cicatriz. Mantinha a cabeça baixa: não seria capaz de olhá-la nos olhos, receoso que ela tivesse visto que ele tinha visto.

 

Ei-la, a marca rosada e luzidia que ele lhe fizera. Nem sinais de inflamação. Percorreu o vergão com a ponta dos dedos, as marcas dos pontos praticamente desvanecidas. As suas mãos de novo sobre ela. Fechou os olhos.

 

Ela disse em voz baixa: - Não há ninguém chamado Esmerelda.

 

- Como?

 

- Naquele romance, Anjos do Oriente. Não há ninguém chamado Esmerelda, não há nenhum capitão Farley, ninguém "leva a melhor" sobre ninguém em particular. Ela fitava-o com um olhar de uma franqueza intolerável. Ele afastou as mãos do seu ventre.

 

- Não estou a compreender - disse ele, dando-se agora conta do quanto revelara de si próprio e dos seus motivos naquele dia em casa dela.

 

- Você não leu aquele livro. Mentiu-me acerca dele, e apesar disso quis que eu lhe emprestasse outro. Porquê?

 

Ela soergueu-se, apoiada nos cotovelos. Havia na sua voz um tom de zombaria calma enquanto continuava a fitá-lo. Estava a fazer perguntas cujas respostas já conhecia.

 

- Porque.. - Carriscant falou numa voz baixa, reservada, quase um sussurro. - Porque queria vê-la.

 

Debruçou-se e, no momento em que os seus lábios tocaram nos dela, sentiu à volta do pescoço os braços de Delphine puxando-o para baixo.

 

A porta trancada, as luzes apagadas, eles fizeram amor com uma imensa e terna solicitude e o mínimo absoluto de movimentos, por receio de repuxar ou rasgar a ferida em cicatrização no ventre de Delphine. Ele tirou-lhe a saia e as cuecas e depois, com a sua ajuda, ela virou-se e pôs-se de gatas em cima de Carriscant enquanto ele se preparava, soltando a fivela do cinto e abrindo a braguilha, para depois, centímetro a centímetro, Delphine descer com mil cuidados o seu corpo sobre o dele. Os seus cabelos soltos, que a fita já não prendia, roçavam na cara de Carriscant e, a dado momento, este enfiou-lhe as mãos debaixo da camisa de algodão para segurar os seus seios pendentes.

 

"Não me dói", sussurrou ela enquanto se balançava em movimentos curtos para a frente e para trás.

 

Ele deitou-se de costas, imóvel, as mãos nas suas coxas agora que ela subia e descia suavemente, em minúsculas ondulações.

 

Ele era incapaz de se conter por muito mais tempo e, quando o momento chegou, a imobilidade quase absoluta da postura de ambos, a ausência de contacto corporal, de qualquer esforço ou tensão, deu a tudo uma aparência de sonho, de sobrenatural, como se esta experiência extraordinária se desenrolasse enquanto ele boiava num ribeiro tépido ou pendia dos ramos mais elevados e batidos pelo vento de uma árvore de proporções gigantescas.

 

Depois ela deixou o corpo cair e deitou-se sobre ele e só então ambos se beijaram e se tocaram, se acariciaram e se aconchegaram um no outro. Carriscant não conseguia pensar em nada para dizer. Nada. E os dois ficaram assim, imóveis em cima da mesa de observações, atrás do biombo, na sala às escuras, enquanto lá fora a chuva tombava copiosamente e a noite começava.

 

As rapariguinhas do pónei

 

Depois de ela partir Carriscant ficou sentado na penumbra, entorpecido por um sentimento de júbilo, exausto e estupidamente feliz. Fechou os olhos e tentou trazer à mente os cheiros e texturas dela, as palavras que haviam trocado um com o outro, certos momentos que só a custo acreditava terem acontecido. A sua memória revelou-se extremamente ardilosa. Durante breves instantes pôde reviver a doce plenitude dos seios de Delphine nas suas mãos, mas logo uma imagem do tecto do consultório, com o pesado candeeiro e as manchas de humidade de cor sépia, se veio sobrepor a esta sensação, para ser por seu turno varrida pela sua voz sussurrante falando-lhe ao ouvido "eu sei, eu sei" - ou a sua espessa cabeleira fazendo-lhe cócegas na cara, a visão do seu torso virando-se no momento de reabotoar a saia ou do seu belo rosto pálido aproximando-se para um último beijo. Quais tinham sido as últimas palavras que haviam trocado? Não se conseguia lembrar. Quando tinham combinado voltar a encontrar-se? Apesar de tudo, tinham certamente planeado alguma coisa? De súbito, apoderou-se dele um medo aterrador, medo que esta primeira vez que tinham estado juntos assim fosse também a última e, num acesso de azedume, amaldiçoou o seu próprio casamento e o dela. Subitamente detestou Manila e o seu provincianismo, a sua tacanhez, a impossibilidade de se gozar o mínimo de privacidade entre os seus exilados cheios de ressentimentos e curiosidade doentia, a presença constante dos criados, espreitando, murmurando, a impossibilidade de se estar incógnito ou sozinho em qualquer sítio.

 

Abandonou o hospital preso desta frustração e caminhou pela penumbra azul, descendo a Calle Palácio e a Calle Fundacion até à porta Real. Atravessou o fosso de água estagnada e dirigiu-se para a Luneta que via agora na sua frente, com o seu anel de luzes eléctricas brilhando intensamente no anoitecer. Do outro lado da baía as colinas da Sierra de Marivelles erguiam-se, opacas e escuras, uma última fita amarelo-alaranjada a recortar-lhes a silhueta. Do coreto chegaram-lhe acordes de música enquanto ele se aproximava da multidão e das dúzias de carruagens que rolavam lentamente, dando voltas e mais voltas aos canteiros de relva no centro da praça oval.

 

Como sempre, os passeantes estavam na sua maioria vestidos de branco e, a esta hora - ou seriam os seus olhos a enganá-lo, interrogou-se? -, os fatos de linho e as camisas de musselina pareciam brilhar de uma maneira crua, sobrenatural, na penumbra cada vez mais cerrada. A música mudou de uma interpretação em ritmo vivo d'"A Rosa Amarela do Texas" para uma valsa cadenciada, e mais uma vez lhe pareceu que o andamento das pessoas que passeavam em círculos e dos póneis atrelados às carruagens abrandou, ajustando-se ao novo ritmo da música. Homens e mulheres que Carriscant conhecia saudavam-no enquanto ele deambulava ao acaso pelo meio da multidão e em resposta ele levantava um braço num gesto rápido, mantendo um vago sorriso nos lábios, tomando esta direcção, depois aquela, mudando de trajectória a cada encontro para evitar toda e qualquer conversa.

 

O seu espírito estava ainda maravilhado, meditava no que ocorrera, pensava em Delphine e em como tinham feito amor delicada e ternamente. Sentia-se ao mesmo tempo abençoado pelos deuses e humilde, agradecido e insuportavelmente comovido pela generosidade daquela mulher. A sua dança sinuosa acabou pôr conduzi-lo até junto do limite da luz projectada pelos cachos brilhantes de globos eléctricos, e, uma vez aí, por momentos sozinho, virou-se e olhou de novo para a multidão desordenada dando voltas e mais voltas numa marcha lenta sem destino, acompanhada pela música maravilhosa, pelo tagarelar de centenas de conversas, pelo estalar ocasional de risadas.

 

Atravessando sem cessar a multidão, os canteiros relvados, a rua, ao sabor do acaso, duas rapariguinhas americanas montavam um pónei sem sela, os cabelos loiros flutuando ao vento, presos num dos lados com um grande laço folgado à americana, as magras pernas nuas e os pés calçados de sapatilhas de veludo balançando lado a lado em cada flanco do animal. A rapariga sentada à frente, que segurava as rédeas, parecia feliz e excitada, com um largo sorriso, os olhos em constante movimento, cheios de curiosidade. Pelo contrário, a rapariguinha que seguia atrás, agarrada ao vestido da irmã, tinha uma expressão solene e temerosa e segurava-se com força, os olhos fixos resolutamente no chão. Deram duas voltas à Luneta e depois Carriscant perdeu-as de vista atrás das carruagens aglomeradas do outro lado. Não voltaram a surgir e ele sentiu-se invadido por um sentimento de perda esmagador, um terrível sentimento da transitoriedade e brevidade da vida, uma súbita compreensão do significado que esta visão encerrava. Atravessou a rua até ao paredão e aí se sentou, as pernas balançando sobre a praia estreita, contemplando, para lá das barraquinhas com rodas e das águas escuras da baía, os últimos laivos de lilás no horizonte. Sozinho, ao abrigo dos olhares, mergulhou a cabeça nas mãos e começou a chorar.

 

Hipotítica

 

O bisturi Merck e Frankl estava pousado no centro da secretária de Paton Bobby, no seu gabinete no Ayuntamiento, a lâmina apontando para Salvador Carriscant.

 

- Diz você então que falta um - repetiu Bobby. Sem necessidade, pensou Carriscant.

 

- Segundo o meu inventário.

 

Bobby franziu as sobrancelhas, ergueu as mãos acima do tampo da secretária e juntou cuidadosamente as pontas dos dedos, o queixo apoiado nos polegares. Carriscant reparou que o dedo médio e o anelar da sua mão direita estavam ligados.

 

- O que é lhe aconteceu aos dedos? - perguntou.

 

Bobby pôs um ar lastimoso. - Lembra-se daquele dia, quando encontrámos o corpo da mulher? E o bisturi? Guardei-o no bolso e esqueci-me dele lá. Dez minutos depois quis tirar os fósforos e... au!

 

- Acontece. Quando trouxer consigo um bisturi precisa de um estojo ou de uma bainha de couro. Como esta. - Carriscant exibiu o seu próprio escalpelo.

 

- Certo, mas não faço tenção de carregar um a tempo inteiro.

 

- bom, lá no hospital falta-nos um, se é que isso lhe adianta alguma coisa.

 

- Talvez adiantasse. Só que em San Lázaro deram pela falta de três e do First Reserve desapareceu uma caixa inteira.

 

- É para que veja como são os hospitais.

 

Bobby levantou-se e começou a andar de um lado para o outro, denotando uma perplexidade evidente. Virou-se e pareceu ir começar uma frase, mas acabou por ficar em silêncio. E depois mudou outra vez de ideias. Carriscant pensou que raramente tinha visto as intenções de uma pessoa tão claramente estampadas na sua cara - o que não constituía propriamente o melhor dos trunfos para um polícia, a seu ver. Esperou pacientemente que Bobby se abrisse com ele.

 

- Se aquele bisturi veio de San Jeronimo - começou Bobby, imitando bastante bem um homem a reflectir enquanto anda - então é concebível - concebível, note-se - que possa ter sido o doutor Quiroga a tirá-lo. Certo?

 

- Ouça - Bobby - eu já lhe disse...

 

- É apenas uma suposição. Hipotética.

 

Pronunciou "hipotítica" e Carriscant teve que fazer um esforço para não sorrir.

 

- Essa suposição é completamente absurda - disse Carriscant. - Está a sugerir que o doutor Quiroga tem alguma coisa a ver com estes homicídios? Isso é ridículo.

 

- É uma pista, tem que o admitir. Primeiro a ligação ao general Elpidio e agora este bisturi. E a precisão cirúrgica das mutilações. "Feitas com competência", foi você que o disse, não eu. - Bobby fez uma pausa, apontando a Carriscant um dedo não envolto em ligaduras. - A família do doutor Quiroga é de Batangas, no sul de Luzon. Foi uma das zonas mais violentas da rebelião. E ele viajou até lá por três vezes, que eu tenha conhecimento, durante o último ano da guerra.

 

- E depois? Também eu fiz o mesmo. A minha mãe vive em San Teodoro.

 

- E durante a guerra, em Fevereiro e Março de 1902, o regimento do coronel Sieverance esteve em operações naquela zona. São demasiadas ligações, Carriscant, não as posso ignorar.

 

- Você está a agarrar-se a insignificâncias - disse Carriscant. - As mais frágeis, as mais efémeras insignificâncias... Ouça, até eu podia ter tirado aquele bisturi. Ou qualquer pessoa do meu pessoal, qualquer maqueiro. O doutor Cruz, o doutor Wieland. Até o coronel Sieverance, até você. Todos vocês estiveram na minha sala de operações, ou tiveram acesso a ela.

 

Bobby corou e por um instante pareceu muito pouco à-vontade. - Não é preciso entrarmos nesse tipo de sarcasmo, Carriscant. Eu tenho que explorar todas as pistas.

 

Carriscant curvou a cabeça como quem se desculpa. - O bisturi levanta toda uma série de perguntas, concordo - disse ele, olhando fixamente para Bobby, o qual, pensou, parecia particularmente incomodado pelo seu olhar. - Se não o tivéssemos encontrado, eu diria que o assassinato da mulher nada teve a ver com o dos soldados... A propósito, ela estava grávida, de quatro meses. - Calou-se: decidiu contar a Bobby a sua própria hipótese. - Se quer a minha opinião, aquele bisturi foi lá colocado deliberadamente. Não para implicar o doutor Quiroga... mas para me implicar a mim.

 

- Pelo amor de Deus! Agora é você que está a ser absurdo. Quem é que faria uma coisa dessas?

 

- O doutor Cruz ou o doutor Wieland. Ou os dois juntos. Bobby riu-se, a sua confiança regressando subitamente.

 

Está a dizer que eles assassinaram uma camponesa qualquer e depois puseram um dos seus bisturis junto ao corpo? Não faz sentido. Estamos a falar de homens com um prestígio sólido na comunidade. Não, não.

 

- Não digo que tenham assassinado. Mas eles são bem capazes de... de agarrarem uma oportunidade para me tentarem desgraçar. O Cruz tem muitos contactos na polícia. A polícia de Tondo leva muitas vítimas de rixas para o hospital. Para as enfermarias do Cruz.

 

- Não posso aceitar isso.

 

- Eles não têm o mínimo escrúpulo e são meus inimigos jurados.

 

- Isso é uma fantasia. Melodrama puro.

 

- Tenho que lhe dizer o que penso. Eles querem desacreditar-me e não olham a meios. Não estou a dizer que mataram a mulher. Há uma epidemia de cólera nas províncias. Todas as semanas morrem dúzias de pessoas. E só Deus sabe quantos cadáveres é que o Cruz tem de reserva no seu laboratório diabólico. Ele pode ter...

 

- Não, chega. Isto não tem pés nem cabeça. Meu caro Carriscant, isso são delírios, disparates. Você surpreende-me, meu velho, sempre o achei um género de pessoa mais calma, mais senhora de si.

 

- Estou convencido que aquele escalpelo foi roubado da minha sala de operações.

 

- Ouça, acho que estamos a precipitar-nos um bocado. Esta maldita chuva faz-nos apodrecer os cérebros até ficarem cheios de bolor.

 

Carriscant decidiu deixar o assunto por ali. Estava satisfeito, todavia: a sua confissão tivera um resultado inesperado. O alívio de Bobby ante as suas acusações fora evidente, e estas tinham sido repelidas com demasiada vivacidade. Estava agora convencido que o roubo do bisturi da sua sala de operações fora levado a cabo nem mais nem menos do que pelo comandante da polícia, Paton Bobby em pessoa.

 

O coração suturado

 

Annaliese Carriscant espalhou mel sobre outro triângulo de pão torrado e voltou a pôr a colher no frasco, não sem antes a lamber. Ela anda a comer demasiado, pensou Carriscant, engorda a olhos vistos. Debaixo do seu maxilar inferior despontava uma pequena saliência de carne, um duplo queixo incipiente. Num amargo acesso de lucidez, Carriscant viu quão feia era a sua mulher, repentinamente - quão seca, apesar da corpulência recém-adquirida, quão desengraçada. Comparada com Delphine, ela era... Empurrou para longe de si o prato de frango com arroz. Como é que ela conseguia comer torradas com mel, umas atrás das outras, o serão inteiro?

 

- Tenho que ir ao hospital - disse ele.

 

Ela olhou-o, numa impassibilidade resvalando para o desprezo, pensou ele.

 

- Eu não te espero.

 

Carriscant voltou a cobrir a ferida com o penso. O doente era um inglês, oficial da guarda costeira, sofrendo de um grande broncocele ou quisto gasoso do pescoço que chegara a atingir o tamanho de uma beringela e fora extraído dois dias antes. Embora fraco, o paciente parecia apresentar melhoras. Carriscant passou à cama seguinte mas foi interrompido por uma das enfermeiras, a irmã Encarnação, que tinha entrado apressadamente na enfermaria.

 

- Doutor Carriscant, por favor. Enfermaria onze. Uma urgência.

 

Carriscant seguiu-a em passo rápido ao longo do corredor conduzindo à ala oeste do edifício. A enfermaria onze pertencia ao serviço do doutor Cruz. Entrar nesta área do hospital era como atravessar uma fronteira, pensou Carriscant, ou viajar para trás no tempo. Nas extremidades da sua esfera de influência encontravam-se os suportes com as bacias de esmalte cheias de desinfectante e sabão de ácido carbólico e ainda os tabuleiros com cal em pó colocados no chão, nos quais todas as pessoas vindas das enfermarias de Cruz eram obrigadas a limpar os pés. Até a qualidade do ar parecia mudar: aqui reinavam os velhos cheiros a putrefacção, a roupas de cama sujas e a corpos mal lavados. Os corredores estavam encardidos, os pavimentos por varrer, as paredes cheias de marcas de dedos, luzidias devido ao contacto dos corpos gordurosos. Cruz ainda acreditava firmemente que as doenças eram transmitidas através do ar, que as infecções se deviam a correntes de ar viciadas e mefíticas, pelo que todas as janelas e portas das suas enfermarias permaneciam hermeticamente fechadas. A irmã Encarnação empurrou a porta da enfermaria onze e introduziu Carriscant numa sala comprida, fétida e abafada, dividida em cubículos por meio de tabiques de madeira do chão até ao tecto, com uma cama em cada compartimento. Tudo isto tendo como fito, deduziu Carriscant sardonicamente, impedir a circulação das aragens nocivas que matavam 60 por cento dos doentes de Cruz. A enfermeira conduziu-o a um cubículo e Carriscant curvou-se sobre um homem novo, um filipino, a quem, apercebeu-se de imediato, restavam apenas alguns dias de vida.

 

- O que é que se passou aqui? - perguntou.

 

A irmã Encarnação explicou que, ao substituir a cobertura da sua choupana, o homem caíra e se empalara na vedação de bambu que rodeava o seu jardim. Uma lasca aguçada de bambu tinha-lhe penetrado no corpo mesmo abaixo do esterno e viajara para cima até perfurar o coração.

 

Um saco de lona impermeável cheio de gelo repousava sobre o peito do homem. Carriscant levantou-o, expondo um enorme amontoado de ligaduras. Para sua surpresa, viu que das ligaduras saía um tubo de borracha, ligado a um frasco de vidro cheio de sangue até a meio. A ponta do tubo gotejava.

 

- O que é isto?

 

- Um dreno do pericárdio.

 

- O quê? - Isto não fazia sentido. Carriscant tomou o pulso ao homem. Muito fraco, irregular.

 

- Que operação é que o doutor Cruz executou aqui?

 

A irmã Encarnação explicou-lho, e acrescentou que o doutor Cruz ficara muito satisfeito com o resultado e ordenara que o doente fosse vigiado atentamente. Tinham enviado um mensageiro a casa do doutor Cruz, mas este não ia certamente chegar a tempo, e dado que o doutor Carriscant se encontrava no hospital...

 

Carriscant estava estupefacto, mais que estupefacto. Um interrogatório mais aprofundado revelou que o doutor Cruz tinha aberto o peito do homem e exposto o saco contendo o coração que a farpa de bambu perfurara. Tinha então cosido a ferida no pericárdio, deixando um trocarte na cavidade cardíaca para a drenar. Carriscant olhou para o homem. O seu rosto apresentava-se macilento e pálido, coberto de suor, e respirava com dificuldade. Talvez Cruz tivesse cosido a ferida no pericárdio, mas era evidente que o coração fora também atingido. Devia haver uma minúscula ferida no coração ainda a bombear sangue para dentro da cavidade, demasiado para qualquer dreno. Em breve a pressão do líquido iria abafar e depois silenciar os batimentos do coração, ou então seriam os pulmões a ceder, uma vez que o sangue provavelmente já passara igualmente para a cavidade torácica, invadindo-os. Carriscant nada podia fazer. Afastou-se, frustrado e furioso, e percorreu a enfermaria, espreitando para os outros cubículos, reparando na sujidade das janelas de persianas corridas. A maior parte estavam vazios: numa das camas jazia um cadáver, o lençol a cobrir-lhe a cara. Dois outros cubículos continham doentes (um rapazito e um homem novo), ambos com sacos de gelo sobre o peito.

 

- Que doentes são postos nesta enfermaria?

 

- Só os feridos no peito. O doutor Cruz pediu que esta fosse reservada exclusivamente para feridos no peito. - A irmã Encarnação fez um ar infeliz. - Recebemos demasiados criminosos, doutor Carriscant. A polícia de Tondo trá-los para aqui quando são feridos em rixas. O doutor Cruz pediu que só trouxessem os que têm feridas no peito. São indivíduos da pior espécie... - Baixou a voz. - Não estamos habituados a isto aqui em San Jeronimo. Nem por sombras.

Foi só ao aproximar-se das traseiras da casa dos Sieverance que Carriscant começou a pensar noutra coisa que não no doutor Isidro Cruz e nas suas novas e arrojadas operações. Alugara um carromato para o transportar até Uli-Uli, uma aldeia muito próxima do palácio, e fizera a pé o caminho de volta até à Calle Lagarda, antes de, já exausto, abandonar a rua e percorrer a corta-mato a distância até ao beco sem saída com as suas sumptuosas residências. O céu estava em grande parte encoberto, mas a Lua, no seu último quarto, surgia de tempos a tempos entre farrapos de nuvens para lhe iluminar o caminho. Alcançou a sebe ao fundo do jardim dos Sieverance sem contratempo de monta. Uma escorregadela pelo talude inclinado de um arrozal tinha-lhe ensopado um sapato e enlameado uma perna das calças, mas à parte isso tudo estava em ordem, de modo que, depois de abrir caminho através dos espessos arbustos cogal e de hibiscos, ele cruzou furtivamente o jardim banhado pelo luar em direcção à casa.

 

Uma vez mais, perguntou a si mesmo o que viera ali fazer e, como sempre, deu-se conta que a justificação residia no esforço em si. Era a inércia que o matava: fazer alguma coisa, por mais despropositado, por mais insensato que fosse, era crucial. Deste modo, tomou posição atrás de uma massa densa e arqueada de buganvílias que engolira uma pérgula de madeira e dispôs-se a esperar. Talvez ela se aventurasse a sair para apanhar ar fresco na azotea e ele a conseguisse chamar discretamente. Vê-la, nem que fosse de relance, seria só por si recompensa suficiente. Muitas das janelas nas traseiras da casa estavam iluminadas e Carriscant ouvia as vozes dos criados tagarelando e o ruído das panelas e outros utensílios vindo das cozinhas no piso térreo. O jantar já terminou, deduziu ele. Tinha a certeza que conseguia localizar o quarto de dormir de Delphine, bem como a biblioteca, mas parecia-lhe demasiado temerário atirar uma pedrinha a uma destas janelas na esperança de atrair a sua atenção. E se no quarto estivesse uma criada? Ou pior, a enfermeira Aslinger? O melhor seria manter-se à espreita e rezar para que a sorte o não abandonasse.

 

Por vezes via sombras passando defronte das janelas tapadas com rede, mas eram tão vagas e difusas que não as conseguia identificar. Foi então que ouviu alguém a tocar piano - deve ser ela, pensou - uma série de harpejos sobre uma nota prolongada, em seguida os acordes obsessivos de uma melodia, algumas escalas executadas rapidamente, subindo e descendo, e depois o silêncio. Mais sombras passaram fugazmente diante das janelas e veio-lhe à mente a ideia que ela estaria a deambular pelos quartos da casa, agitada, reflectindo, incapaz de se sentar, pensando nele tal como ele pensava nela. Talvez mesmo a sua presença no jardim, o facto de ele estar tão próximo, fosse a causa deste delicioso nervosismo... Concentrou-se intensamente, tentando transmitir os seus pensamentos a Delphine, desejando que ela abrisse a porta e saísse para o terraço das traseiras. Mas ela não apareceu. Carriscant ouviu uma porta bater, viu a luz apagar-se no que deduziu ser o quarto dela e depois mais nada. A humidade na erva em breve lhe impregnou por completo as solas dos sapatos e sentiu no pescoço um vento fresco carregando consigo o odor a terra que anunciava uma chuvada próxima. Começou a chuviscar insistentemente e, no jardim vizinho, um cão desatou a ladrar sem descanso, logo imitado por outro nos alojamentos da criadagem dos Sieverance. Chegara a altura de partir. Sentia-se estranhamente satisfeito ao transpor de novo a sebe para regressar à estrada. Aos olhos de qualquer outra pessoa a sua vigília húmida no jardim teria parecido uma perda de tempo absurda e fútil, mas para um amante, disse ele a si próprio enquanto calcorreava San Miguel em busca de um carromato, para um amante este género de incómodo desnecessário tinha um significado especial, o de indicar a profundidade da sua devoção. A ária, a melodia que ela tocara fugazmente, pairava-lhe na mente. Deu consigo ainda a trauteá-la no momento em que, deitado no divã, se preparava para dormir.

 

Uma recepção oficial

 

Carriscant estava a arrumar os seus papéis nas gavetas da secretária quando bateram à porta e uma das irmãs enfermeiras apareceu.

 

- Dá-me licença, doutor Carriscant. O doutor Cruz manda-lhe cumprimentos e pede-lhe que vá até à sala de operações dele. O assunto é bastante urgente.

 

Carriscant foi apanhado de surpresa. Ele e Cruz mal tinham trocado uma palavra desde a discussão acerca da apendicite de Delphine.

 

- Na sala de operações dele, diz você?

 

- Sim. De imediato, se fizer favor.

 

Carriscant atravessou o pátio em direcção ao consultório de Cruz e seguiu a enfermeira ao longo de um corredor mal iluminado conduzindo ao anfiteatro. A velha tinta amarela que cobria as paredes estava a esfarelar-se, e havia um cheiro curioso no ar, um fedor adocicado, gorduroso, enjoativo, que se entranhava nas narinas, colando-se ao palato quase como se se destinasse a ser saboreado, mais do que cheirado. Era um odor a restos de comida rançosa, Uma exalação de cozinhas sujas. Carriscant reconheceu-o imediatamente como o cheiro a putrefacção.

 

A sala de operações de Cruz representava, aos olhos de Carriscant, uma cena de um dos círculos do Inferno. Velhos ladrilhos de terracota rachados no chão, paredes de estuque sujas e, por qualquer razão obscura, cobertas de garatujas e rabiscos, vetustos tabuleiros e mesas de madeira. Cruz reinava sobre o seu domínio, envergando a famosa sobrecasaca coberta de sarro, de líquen purulento, os punhos desabotoados e as mangas do casaco e da camisa arregaçadas para expor os antebraços poderosos com o seu tosão de pêlos escuros. Limpou as mãos besuntadas de sangue a um farrapo de pano. Três enfermeiras estavam postadas em volta da mesa de operações juntamente com um outro médico, o doutor Filomeno, que servia de anestesista a Cruz. O doutor Filomeno vestia um fato castanho-claro, devastado em todo o lado direito por uma espadanada de sangue que ele tentava esfregar com um molho de compressas em gestos vigorosos, entremeados por queixas enérgicas a uma das enfermeiras.

 

- Ah, Carriscant - disse Cruz, lançando o trapo para cima de um tabuleiro de instrumentos. - Ainda bem que conseguiu vir. - A satisfação consigo mesmo, o deleite mal disfarçado na voz, faziam-no arrastar as palavras como se estivesse embriagado. - Estava desejoso que você visse isto. - Acenou a Carriscant para que se aproximasse da mesa.

 

Sobre esta jazia um homem com a cavidade torácica aberta, os lábios da ferida mantidos em posição por afastadores. Olhando mais de perto, Carriscant viu que também o pericárdio fora aberto, os lados seguros por clampes.

 

- Repare - disse Cruz. Ali, no meio dos coágulos de sangue e dos tecidos rasgados, Carriscant viu o coração do homem, pulsando a um ritmo irregular, qual criatura marinha, meio vegetal, meio bivalve sem casca, um ser agarrado a uma rocha bem no fundo do oceano, expandindo-se e contraindo-se debilmente, preso à vida por um fio. Carriscant virou-se para Cruz. O outro passou as mãos pelo cabelo à escovinha e começou a desenrolar as mangas.

 

- Convoquei um fotógrafo - disse ele orgulhosamente. O mundo está prestes a saber quem é Isidro Cruz. Você não é o único cirurgião por estas bandas capaz de causar sensação.

 

- A que é que se está a referir?

 

- Repare - disse Cruz, acercando-se do corpo. - Repare só, Carriscant.

 

Este perscrutou o coração sacudido por espasmos. Seis pontos de sutura justos, seda atada. Cruz introduziu brutalmente um dedo na caixa torácica e tocou no órgão palpitante.

 

- Suturas cardíacas, Carriscant. Numa ferida provocada por uma faca.

 

As enfermeiras atarefavam-se em volta do corpo, verificando os drenos do pericárdio e da pleura.

 

- O doutor Filomeno recolocará a costela e fechará a ferida. Eu vou fazer um comunicado à imprensa.

 

Carriscant não resistiu: estendeu um dedo e tocou ao de leve na superfície do coração pulsante, vacilante, lustroso na sua cavidade. Os seis pontos fechavam uma ferida bem visível no ventrículo esquerdo, com cerca de dois centímetros e meio de comprimento. Carriscant reparou num saco de gelo pousado numa mesa rolante vizinha. Acto contínuo, olhou para a cara do homem.

 

- Posso? - Retirou a máscara que cobria o rosto do doente: a pele estava quase cinzenta. Carriscant reconheceu-o.

 

- O pulmão esquerdo entrou em colapso - explicou o doutor Filomeno.

 

Carriscant assentiu com a cabeça. Este era o homem que ele vira somente dois dias antes na enfermaria de Cruz. Todavia, a enfermeira nada dissera sobre uma ferida no coração. No pericárdio, sim. O cérebro de Carriscant começou a trabalhar: na altura o homem não poderia ter este entalhe no coração, ou teria morrido numa questão de horas. Uma pequena perfuração talvez, fora esse o seu diagnóstico, mas não uma ferida deste tamanho. Donde lhe vinha então esta ferida bem nítida que Cruz se encarregara de coser? Nem mesmo o Cruz, com certeza, poderia ser tão...

 

- Suturas cardíacas - repetia Cruz, sarcástico. - Suturas cardíacas, Carriscant.

 

- Este homem vai morrer.

 

- Duvido muito. A hemorragia parou. O pulmão vai voltar a encher-se de ar.

 

- Mesmo assim. Não, é a imundície deste local que vai acabar com ele. Olhe para si. Vi-o passar as mãos pelo cabelo mesmo antes de lhe ter tocado no coração.

 

- Disparates modernaços, Carriscant. Dogmas da moda.

 

- Podia ter operado um cadáver, vinha a dar ao mesmo.

 

- A inveja profissional é o mais degradante dos sentimentos, não acha, Filomeno?

 

- Sem sombra de... atchim!

 

Filomeno soltou um espirro, levando a mão ao nariz um décimo de segundo demasiado tarde. Carriscant virou a cabeça e lançou um olhar sobre a sala fétida e mal iluminada, cheia de pessoas vestindo as roupas de todos os dias, que se coçavam e fungavam, o sangue seco e a sânie de dúzias de operações esfarelando-se em crostas sobre as abas dos casacos.

 

Um maqueiro apareceu na soleira da porta. - Está aqui um cavalheiro do Manila Times, senhor - disse.

 

Carriscant foi incapaz de resistir. Mais tarde arrependeu-se de não ter deixado Cruz sofrer todo o impacte da humilhação pública, mas esta vitória pessoal era demasiado apetecível para lhe resistir.

 

- Dou-lhe os parabéns pelas suas suturas, Cruz. Um trabalho impecável, como sempre. Só que você chegou um pouco atrasado. Se eu fosse a si embrenhava-me sem perda de tempo no campo da cirurgia asséptica. Quem sabe, talvez alcance grandes feitos.

 

- O que é que quer dizer com isso, "um pouco atrasado"?

-- Sete anos atrasado, para ser preciso. As primeiras suturas cardíacas executadas num doente vivo - que sobreviveu - foram-no em 1896. Francoforte do Meno. O cirurgião chamava-se doutor Louis Rehn. Sorriu. - Bela tentativa. Agora, se me dão licença, tenho que ir a uma recepção oficial.

 

A lancha esperava-os no cais, junto aos edifícios dos armazéns de frio. Carriscant ajudou Annaliese a descer para a cabina atrás do motor e aguardou que os outros membros do grupo embarcassem. O ar da noite estava abafado e quente e ele deu consigo a interrogar-se por que razão as recepções oficiais nos trópicos tinham que obedecer às mesmas regras e etiqueta adequadas aos climas temperados. Ser obrigado a vestir casaca, colarinho engomado e gravata branca para ir a uma festa numa ilha no meio do mar da China parecia-lhe uma afectação ridícula, para não dizer uma completa loucura. Toda a satisfação que sentira por ter reduzido Cruz tão inequivocamente à sua insignificância se tinha evaporado, para dar lugar à irritação e à má vontade. Saltou para dentro da lancha, a qual se afastou do cais e começou a subir o Pasig num roncar de motores em direcção ao Palácio Malacanan. Ao menos aqui Carriscant sentia algum alívio, uma vaga frescura, e esticou o pescoço acima do colarinho e abriu as mãos húmidas para apanhar a brisa criada pelo movimento da embarcação. À sua volta, os membros do grupo - os amigos de Annaliese, não os seus - tagarelavam animadamente. O convite fora extensivo ao bispo e aos seus colaboradores, daí a insistência de Annaliese para que fossem à recepção. Carriscant observou-os: Mr e Mrs Freer, ingleses de meia-idade, ele oculista; Monsieur e Madame Champoursin, ele jornalista; a senora Pilar Prospero, directora da escola episcopal; o padre Agoncillo, jovem e anafado, amigo íntimo de Annaliese; e Mrs Kelly, uma amiga dos Freer, mulher de um cirurgião-veterinário de Ilpilo, de visita a Manila durante um mês. Que grupo mais medíocre, pensou Carriscant amargamente. Os homens estavam todos de fato de cerimónia como ele, as mulheres podiam ter-se vestido para um baile numa qualquer cidade europeia provinciana - vestidos compridos, saias rodadas, jóias modestas, seda, rendas e tafetá, espartilhos e pentes no cabelo e chinelas de salto alto. Uma ou duas abanavam leques, à parte isso poderiam estar em Aberdeen ou Bristol, Lyon ou Hamburgo, Génova ou Sevilha. Ele estava decidido, custasse o que custasse, a não se divertir.

 

Em breve divisou o palácio, os jardins espraiando-se até ao rio iluminados com lanternas chinesas e as amplas arcadas na fachada do piso térreo e do primeiro andar engrinaldadas com lâmpadas eléctricas vermelhas e amarelas. Eles desembarcaram e abriram caminho através dum número surpreendente de pessoas até à bicha de convidados que esperavam a vez de cumprimentar os anfitriões. O governador e Mrs Taft estavam de pé sobre um pequeno estrado, coberto por um baldaquino de pano de vela que o vento agitava. Num dos lados a banda da polícia, com os músicos sentados em semicírculo, tocava energicamente uma gavota, e mesmo atrás deles, sobre alguns campos de ténis relvados, fora instalada uma pista de dança ao ar livre rodeada por três filas de assentos. Em vários pontos do jardim havia bufetes e pequenas mesas com taças de ponche. Por todo o lado viam-se bandeiras estreladas: como os americanos adoram a sua bandeira, pensou Carriscant.

 

Apertou a mão a Taft. O homem ficava grotesco no seu fato de cerimónia, mais obeso do que nunca. Tinha o rosto inchado cor-de-rosa e luzidio de suor, mas cumprimentava todas as pessoas com uma cordialidade inalterável, apertando-lhes a mão vigorosamente e repetindo "prazer em conhecê-lo, muito prazer em conhecê-lo", à maneira americana. Carriscant esperou, um pouco embaraçado, enquanto Annaliese tagarelava com Mrs Taft. Não conseguiu perceber se o governador o tinha reconhecido - Taft acolhia todos os convidados com a mesma familiaridade ruidosa - e achou que não era a altura de lhe recordar a última vez que se tinham encontrado. Taft alisou o bigode e sorriu-lhe como o faria um tio folgazão. Carriscant respondeu-lhe com um sorriso contido. Perguntou a si mesmo vagamente se Bobby lhe teria falado da mulher assassinada. A banda atacou "Campdown Races" e Taft acompanhou alguns acordes com gestos joviais.

 

- É de longe a minha favorita - disse ele - aparentemente dirigindo o comentário a Carriscant, embora o seu olhar parecesse fixo num ponto distante.

 

- Como? Peço desculpa, eu...

 

- É uma música tão bonita. Alegra-me sempre ouvi-la.

 

- Ah, sim?...

 

Para seu alívio, Annaliese terminara a conversa e ele pôde finalmente apertar a mão flácida de Mrs Taft, sorrir-lhe e prosseguir caminho. Guiou Annaliese em direcção a uma mesa onde criados chineses serviam ponche. Grandes pedaços de gelo boiavam num líquido de uma cor acinzentada bastante suspeita. Era difícil dizer quais os seus constituintes, mas pelo menos estava frio. E era forte. Carriscant esvaziou o seu primeiro copo e não perdeu tempo a reabastecer-se. Começava já a sentir os efeitos do álcool: afinal de contas talvez conseguisse sobreviver a esta recepção.

 

Deambulou com Annaliese até junto da orquestra, parando para trocar algumas palavras com conhecidos. Detiveram-se, observando os músicos nos seus uniformes azuis com dragonas vermelhas tocarem o rigodão que abria o baile oficialmente, e os primeiros pares avançarem para a pista de dança. Carriscant sentia-se entorpecido pelo álcool, um pouco aturdido pelo ponche, e deu consigo de olhar pousado numa mestizo, elegante, com o cabelo cheio de brilhantina formando um véu negro acetinado sobre uma camisa pintada à mão cujas mangas em forma de leque eram ornadas por riquíssimos bordados em espiral. Nunca vi uma camisa tão delicadamente bordada, pensou, e virou-se para chamar a atenção de Annaliese, mas ela afastara-se alguns passos para falar com o padre Agoncillo.

 

- Boa noite, Dr. Carriscant.

 

O sangue gelou-lhe nas veias e sentiu as entranhas soltarem-se e caírem-lhe aos pés.

 

Ela estava apenas a alguns metros dele, envergando um longo vestido azul-ardósia com o corpete bem justo. Trazia na mão uma fina bengala de ébano com punho de prata. Os cabelos estavam presos no alto da cabeça, frisados e revoltos, num penteado que ele nunca lhe vira antes. O seu olhar era vivo e sorridente, e o decote plissado do vestido descobria as clavículas e a palidez sardenta do seu colo.

 

Annaliese voltou para junto dele.

 

- Querida, acho que ainda não conheces a Mrs Sieverance.

- Apresentou Annaliese. - A minha esposa, Annaliese.

 

- Mrs Sieverance, folgo muito por vê-la com tão bom aspecto.

 

- Ah, tudo graças ao seu marido, Mrs Carriscant. Seguiu-se um silêncio infernal.

 

- Então e... quero dizer, não. Ah, não sente nenhum desconforto? Não tem dificuldade em...

 

- Não se preocupe, doutor - disse ela, sorrindo. -A bengala, devo confessar, é um pouco um luxo. Sinto-me relutante em pôr de lado um acessório tão vistoso.

 

- Sim - disse ele estupidamente, vendo-a deitar uma olhadela a Annaliese. Sim.

 

- O seu marido está cá? - perguntou Annaliese.

 

- Está em Mindanao. Têm tido problemas, creio, com os insurrectos.

 

Ele sentia-se quase a desmaiar. - Dão-me licença, acho que estou a ver ali o comandante Bobby. - Fez uma pequena vénia e afastou-se em passo decidido, deixando-as a conversar. Não tinha visto Bobby em parte alguma, mas dirigiu-se para um grupo de convivas reunidos em volta de um bufete e bebeu mais dois copos de ponche, tentando recobrar a compostura. Encheu um prato com biscoitos salgados em forma de estrela para levar a Annaliese. Sentia... Não sabia bem o que sentia. Nunca vira ninguém tão belo, pensou. Nunca desejara fisicamente uma mulher de maneira tão intensa: a pressão de estar ao lado dela sem lhe poder tocar era insuportável, chocante. Passados alguns momentos conseguiu acalmar-se, viu que Annaliese estava de novo sozinha e atravessou o relvado para se juntar outra vez a ela.

 

- O que é isto?

 

- Pensei que pudesses ter fome.

 

- Não, obrigada.

 

Ele entregou o prato a um criado que passava.

 

- É mesmo uma rapariga estilo Gibson1 - disse Annaliese em tom condescendente. Sem tirar nem pôr. - O que pensará ela de nós, pobres colonos?

 

- Quem?

 

- Essa tua Mrs Sieverance. É das tais que "subiu na vida", como se costuma dizer. Aquela carapinha deve ter uns bons quinze centímetros de altura. Pelo menos.

 

- Recuperou muito bem da operação.

 

- Acho que aquele cabelo todo desarranjado lhe dá um aspecto de balconista.

 

- Estar a pé e sair de casa depois de uma operação daquela gravidade é...

 

- Vulgar. Tão americano.

 

Mais tarde, enquanto Annaliese estava sentada junto à pista de dança com Mrs Freer e Madame Champoursin, Carriscant

 

1 Referência ao protótipo da beleza feminina na viragem do século, retratado nos desenhos do ilustrador americano Charles Dana Gibson (1867-1944). (N. T.)

 

aproveitou a oportunidade para se escapulir e ir procurar Delphine. Avistou-a debaixo de uma frangipana a conversar com alguns americanos - julgou reconhecer um dos que a acompanhavam naquela noite na Luneta - e passou a escassos metros do grupo, de modo a que ela o pudesse ver. Foi sentar-se a uma mesa coberta por uma bandeira americana e mandou vir mais outro ponche - sentia-se encharcado em ponche, mas pouco mais lhe restava para fazer.

 

- Olá outra vez, doutor Carriscant.

 

Ele virou-se para a encarar. Sentiu lágrimas a picarem-lhe os olhos. Reparou que os outros deitavam olhadelas atrás dela.

 

- Deseja um...? Posso oferecer-lhe...

 

Ela parecia tão calma, tão senhora de si. Guardaram meio metro de distância entre ambos. Ele estendeu-lhe a taça de ponche. A mão tremia-lhe e o líquido salpicou por cima da borda.

 

- Não me tinhas dito que a tua esposa era tão atraente. Ela foi muito... cortês, achei.

 

- Não interessa - disse ele, com a língua pastosa. - Não é importante. Não há nada entre nós, nada, já te contei.

 

- Fiquei um pouco surpresa, devo confessar.

 

- Tive saudades tuas - disse ele em voz baixa, tentando dar a impressão de alguém envolvido em amena cavaqueira. Tenho que te ver outra vez. Podes vir ao hospital?

 

- Não. Vem visitar-me a casa, depois de amanhã. Três da tarde. Para me devolveres o livro.

 

- Amo-te - disse ele. - Adoro-te.

 

- Eu sei. - Ela olhou-o de um modo especial, depois ergueu a voz. - vou ter isso em conta, doutor Carriscant. Obrigada.

 

Ele olhou em volta. Paton Bobby, com um largo sorriso nos lábios, avançava em passadas largas pelo relvado ao encontro deles.

 

- 'Noite, doutor, você hoje tem um ar quase distinto. Quase.

- 'Noite, Mrs Sieverance.

 

Apertaram as mãos. Era óbvio, para grande surpresa de Carriscant, que Bobby a conhecia bastante bem. Bobby marcou um encontro com ele para o dia seguinte e tagarelaram um pouco sobre a situação em Mindanao. Passado um minuto, Bobby deixou-os.

 

- Agora tenho que ir - disse ela, os olhos carregados de mensagens secretas.

 

- Sim - disse ele com a voz alterada. Sentia-se um cretino de língua pastosa e seca. Um dos semimudos de Cruz.

 

Ela virou-se e regressou em passo despreocupado para junto dos amigos. O tremor nas pernas de Carriscant obrigou-o a caminhar rapidamente até ao muro baixo que marcava o limite do jardim, onde se sentou. Só ao fim de cinco minutos se sentiu capaz de ir à procura de Annaliese e sugerir-lhe que estava na altura de voltarem para casa.

 

A biblioteca

 

Delphine trancou a porta e virou-se para ele. Carriscant adivinhou, pelo ritmo rápido da sua respiração, que também ela estava excitada.

 

- Temos dez minutos - disse ela.

 

Beijaram-se. Carriscant apertou-a contra si furiosamente, o rosto escondido na cova do seu pescoço. Aflorou-lhe a pele húmida com os lábios, saboreando o seu gosto a sal. Inebriou-se com o seu odor.

 

- Virgem santa - disse ele. - Meu Deus, nem imaginas como...

 

- Não chores - disse ela, sorrindo-lhe. - Ou eu começo também.

 

- A enfermeira está...

 

- Não. Mas há os criados. Não posso correr riscos.

 

Sentaram-se de frente um para o outro, ele segurou-lhe ambas as mãos nas suas e fez-lhe todas as declarações banais de que se conseguiu lembrar. Beijou-lhe os nós dos dedos, encostou-os contra a sua fronte.

 

- Tenho que estar contigo - disse ele. - Isto está a dar cabo de mim. Temos que encontrar alguma solução.

 

- Mas qual?

 

- Não sei - disse ele - uma nota de desespero na voz. Simplesmente não me ocorre nada.

 

- Um hotel?

 

- Em Manila? Não há segredos nesta cidade miserável. Toda a gente me conhece. As pessoas espiam-se todas umas às outras. Impossível. - Sentiu crescer em si a frustração. - Diabos levem este sítio! Diabos levem esta cidade nojenta! - Caiu de joelhos diante de Delphine, abraçou-lhe as ancas, enterrou a cabeça no seu colo, sentiu as mãos dela a acariciarem-lhe a cabeça e os ombros.

 

- Eu podia voltar a ir ao hospital - sussurrou ela. - Uma última vez. Não posso sair sozinha demasiadas vezes. Podia ter outra crise ou coisa parecida. Uma recaída, talvez.

 

- Quarta-feira, à mesma hora. Não vai lá estar ninguém.

 

- O dia livre dela é à sexta-feira.

- Sexta-feira, nesse caso. - Beijou-a, a língua dentro da boca dela. A boca fresca de Delphine, a sua língua escorregadia e rápida. Apertou-lhe os seios.

 

- Salvador, não. - Ela pôs-se de pé e destrancou a porta. Agitou uma pequena campainha e sentou-se, deixando a porta entreaberta. - Temos que ser cuidadosos - disse ela. - Muitíssimo cuidadosos. Fica e toma chá comigo, para todos os criados nos verem. Será a coisa mais natural do mundo. Quando escrever ao Jepson conto-lhe a tua visita. Temos que nos manter acima de qualquer suspeita.

 

Primeiro ensaio

 

As mãos de Pantaleão agarraram o rebordo da lâmina superior da hélice. O Aeromóvel estava fora do barracão; à sua frente estendiam-se setenta metros de uma nova pista entabuada. Carriscant, postado num dos lados, segurava as cordas presas aos grandes calços de madeira colocados sob as rodas da frente do trem de aterragem. Pantaleão imprimiu à hélice um movimento brusco e em resposta o motor foi sacudido por um breve estralejar e uma nuvem de fumo azulado libertou-se do escape. Pantaleão insistiu e desta vez o motor pegou. Ele deu um salto atrás e a hélice começou a girar até se dissolver num disco bruxuleante. Pantaleão contornou a asa, inclinou-se e empurrou uma alavanca para accionar a correia de transmissão da outra hélice, que começou também a girar, de início lentamente e, passado um ou dois segundos, a grande velocidade. O motor produzia um ruído estridente e colérico e o Aeromóvel estremecia e vibrava, como um puro-sangue antes de uma corrida. Pantaleão instalou-se no assento da frente e ali ficou por um momento, a cabeça curvada, as mãos sobre as alavancas, como se estivesse a rezar, e depois virou-se e gritou algo a Carriscant que este não pôde ouvir devido ao ruído do motor - embora um gesto largo com a mão indicasse que queria os calços retirados. Carriscant arrastou-os para o lado e, para sua estupefacção, pois nunca chegara a acreditar que o Aeromóvel se conseguisse mover, o aparelho começou a avançar lentamente, zumbindo e vibrando como uma libélula em voo planado, à medida que Pantaleão ia abrindo a válvula de alimentação. Carriscant caminhou apressadamente ao lado da pista gritando incitamentos a Pantaleão, depois começou a correr, tentando acompanhar o aparelho que ganhava velocidade, mas logo ficou para trás. Parou, sem fôlego, e gritou em voz sumida: "Força, Pantaleão, força!" Nessa altura, porém, Pantaleão desligou o motor, interrompendo abruptamente o movimento das hélices, curvou-se para aplicar os travões às rodas da frente e o Aeromóvel começou a abrandar, embora guinasse para a direita. Carriscant viu as rodas alcançarem o bordo levantado da pista e o aparelho, movendo-se agora à velocidade de um homem a passo, tombar lentamente sobre o nariz. Ouviu-se um som nítido de esmigalhamento, parecido com o de um molho de ramos secos a partirem-se.

 

Carriscant correu ao encontro de Pantaleão, que descia do assento. O leme de profundidade da frente estava torto, com a seda do revestimento rasgada e franzida. Pantaleão tinha o rosto vermelho de susto e as mãos tremiam-lhe de excitação. Espontaneamente, ele e Carriscant abraçaram-se, dando grandes palmadas nas costas um do outro.

 

- Meu Deus, Salvador, devias ter sentido isto! A potência! Ele estava ansioso por sair do chão. Eu sentia-o. E só tinha puxado a válvula do motor até a meio. Ele estava em pulgas para voar, digo-te, em pulgas!

 

- Parabéns, Panta. Sabes, eu nunca acreditei mesmo... Mas pus-me a correr e de repente ele passou-me à frente. Magnífico, magnífico!

 

Examinaram o leme partido na frente e verificaram que os danos não eram irreparáveis. com algum esforço, arrastaram o aparelho de novo para cima da pista e depois empurraram-no às arrecuas em direcção ao celeiro nipa.

 

- Uma coisa é certa, esta roda traseira tem que poder mover-se - disse Pantaleão - para podermos manter a trajectória sobre a pista. Um simples dispositivo de direcção, uma espécie de cana do leme. - O seu rosto, vivo e móvel, respirava alegria. - Sinceramente, Salvador, nunca tinha sentido nada assim. Senti-me... - Calou-se, incapaz de encontrar o termo exacto. - Não sei. Num limiar. Como um explorador, calculo, prestes a descobrir um continente ou um oceano. Qualquer coisa do género. Não consigo ver o que me espera e vou dar um passo no vazio, vou abrir uma cortina, se é que entendes o que eu quero dizer.

 

Carriscant entendia: ele próprio experimentara essas sensações em relação ao corpo humano. Da primeira vez que abrira a cavidade estomacal. Agora imagine-se o que seria expor, ainda em vida, o cérebro, a coluna vertebral, o coração. Não sentia inveja de Pantaleão: eram colegas, espíritos irmãos doravante, cada um explorando a sua terra incógnita.

 

Fizeram rolar o Aeromóvel para dentro do celeiro e Pantaleão atarefou-se em volta do aparelho, verificando os seus componentes. Uma longarina saltara dos encaixes e parecia haver uma pequena fuga no depósito de combustível. Carriscant recuou, deixando Pantaleão cuidar da sua criatura.

 

A um canto do celeiro nipa, reparou, fora instalado uma espécie de acampamento: uma cama baixa de lona, uma mesa com uma cafeteira e um jarro em cima e ainda uma lanterna. Carriscant foi ver mais de perto. Num prato metálico havia um pedaço de pão e algumas espinhas de peixe.

 

- Contrataste alguém para ficar aqui de guarda, Panta? perguntou Carriscant, meio a brincar. Estás a proteger a tua preciosa invenção?

 

- É para mim - disse Pantaleão. - Trabalho aqui de noite cada vez com mais frequência. Era mais lógico montar aqui uma cama.

 

Carriscant abanou a cabeça de admiração: aqui estava a verdadeira dedicação a um sonho. A verdadeira devoção a uma causa. E, agora que tinha visto o Aeromóvel em movimento, começava a achar bem possível que o nome de Pantaleão Quiroga viesse, afinal de contas, a ficar gravado nos anais do esforço humano.

 

Brahms

 

O rosto dela estava a cinco centímetros do seu. Ele passou-lhe um dedo pela face e pelos lábios e foi percorrido por um extraordinário sentimento de libertação, uma imensa gratidão, que o encheu de humildade. Parecia-lhe quase inacreditável, fantástico, poder segurá-la assim nos seus braços, sentir o corpo dela apertado contra o seu, poder tocá-la e acariciá-la a seu bel-prazer. Era uma dádiva maior que qualquer acto de generosidade, e ele não se cansava de a tocar fugazmente - no rosto, nos seios, nos braços, nas nádegas - como que para assegurar-se de que não estava enganado.

 

Tinham feito amor sobre a marquesa forrada de couro, desta vez de um modo mais ortodoxo, embora com a mesma ternura cuidadosa. Nenhum dos dois se despira completamente, como se, de comum acordo, achassem que o consultório de Carriscant não era o sítio apropriado para a nudez total, e que este momento era ainda algo de efémero e furtivo. Delphine guardara uma camisola e um saiote de algodão; ele tirara tudo menos a camisa e as ceroulas. Em seguida ela tinha-se deitado na marquesa e levantara a orla do saiote até à cintura. Ajoelhado entre as suas pernas abertas, ele desabotoara atabalhoadamente as ceroulas que ela o ajudara a puxar para baixo até se lhe enrolarem à volta dos joelhos.

 

Mais tarde, já deitados lado a lado, ele levantara-lhe a camisola para lhe desnudar os seios e beijara-os com ternura e reverência. E agora perscrutava-lhe o rosto, estudando todos os seus traços e contornos como se os tivesse que decorar para um exame.

 

- Nem quero acreditar - disse ele. - Nem quero acreditar que te tenho aqui, que posso abraçar-te e tocar-te...

 

Ela sorriu e aconchegou-se entre os seus braços, a mão sobre as suas costelas, o ombro anichado na sua axila. Ele mexeu uma perna e sentiu o pé ultrapassar o bordo da marquesa. A sua alegria desvaneceu-se de imediato, e a crua realidade da situação em que se encontravam atingiu-o mais uma vez - estavam juntos às escondidas, numa sala de consultas de um hospital, e dentro em pouco teriam que se separar outra vez. Como que pressentindo esta mudança de humor, ela acariciou-lhe a face e esticou o pescoço para lhe beijar o queixo, - O que é que vamos fazer? - perguntou ela.

- Não sei - disse ele. Esboçou um sorriso forçado. - Se "estivéssemos em Paris, ou Londres, não seria difícil. Mas em Manila... - Levantou os olhos para o tecto. - Por que é que não nos encontrámos na Europa?

 

- Viena - disse ela em tom sonhador. - Teria sido maravilhoso. Conheces Viena?

 

- Não - disse ele, melancólico. Viena com esta mulher: uma sede dolorosa de vidas não vividas trespassou-lhe as entranhas. Batalhões de existências alternativas perfilaram-se para o escarnecer.

 

- Eu estive lá na primavera de noventa e sete. No dia sete de Março fui a um concerto e Brahms estava na assistência. Já muito doente. Quase castanho. Um velho doente, magro e castanho. Mas vi-o. Tocaram a quarta sinfonia dele. Conhece-la?

 

- Não - disse ele. - Não, receio bem que não. - Sentiu uma amargura pesar sobre si. - Brahms, repetiu em voz baixa, como se a palavra fosse um talismã. Brahms. Estar em Viena contigo. Assistir a um concerto de obras de Brahms... - ImagiInou uma fria cidade europeia. Uma lareira acesa num quarto acolhedor. Talvez a neve tombando lá fora. Delphine a esperá-lo, nua, numa enorme cama branca e fofa. Gemeu. Isto era angustiante, insuportável, uma tortura aterradora. Era então isto que experimentavam as pessoas perdidas de paixão: delícias sublimes e tormentos diabólicos. Pensou de novo no concerto de Brahms: antes de morrer havia de ouvir a quarta sinfonia. Pagaria a uma das orquestras itinerantes de segunda categoria

 

- Por que é que casaste com ele? - perguntou Carriscant de rompante. - Desculpa, não é da minha...

 

- Não - disse ela, com um sorriso triste. - Boa pergunta. Não sei. Na altura, ele parecia... enfim, não o melhor, mas tudo o que uma mulher na minha posição podia sensatamente esperar de bom. Quando ele me pediu em casamento, não me consegui lembrar de nenhuma razão convincente para responder "não". Ela enroscou-se contra ele. - Foi um terrível... Foi um grande erro.

 

- Ao menos foi ele que fez com que nos encontrássemos.

 

Ela estendeu o pescoço e beijou-o. - Tive um sonho - disse. - Uma história que eu ouvi contar, uma história verdadeira, sobre uma inglesa que ia a caminho da índia para se juntar ao marido. Numa escala em Porto Said, no canal do Suez, ela foi a terra com um grupo de amigos para visitarem o souk. Enquanto andavam pelas ruelas a multidão separou-a do grupo e quando foram à procura dela já não a conseguiram encontrar. Ela tinha desaparecido, tinha-se eclipsado. Para nunca mais ser vista.

 

- E o teu sonho, qual era?

 

- Tenho a teoria que foi tudo planeado, e que ela fugiu. Que está sã e salva, a viver a vida que sempre quis. Noutro lugar qualquer. Todos os seus amigos e familiares julgam que ela foi morta ou raptada, mas eu imagino-a óptima, a viver sob um nome falso na Austrália, no Brasil, na Turquia ou em Moscovo.

 

- Tu podias fugir assim - disse ele. - Desaparecias sem mais nem menos... E depois eu podia ir ter contigo. Podíamos ir viver para...

 

- Não digas esse género de coisas, Salvador. Não é justo. Por favor.

 

- Não, tu podias mesmo. Depois eu podia...

 

Ela pousou-lhe um dedo nos lábios para o silenciar. – Ssssh - disse. Ele calou-se.

 

- Aquela seta que eu disparei chegou mesmo a tocar-te? perguntou ela.

 

Ele levantou a mão, o indicador e o polegar afastados cinco centímetros, e ela desatou a rir, um riso do fundo da garganta, fazendo os seus seios tremerem debaixo da camisola. Ele encostou-se contra a sua coxa, muito excitado.

 

- Delphine, ainda temos tempo, podíamos...

 

- Não. Tenho que ir. - Ela esticou o braço e correu os dedos pela sua erecção. - Desculpa. Mas temos que ser prudentes.

 

- Tens razão, tens razão. - Ele soergueu-se, toda a sua raiva regressando. - Temos que encontrar uma maneira. Temos mesmo.

 

- Vamos até Paris, lançou ela num tom de jovialidade simulada.

 

- Viena.

 

- Salzburgo.

 

- Samarcanda!

 

-Timbuctu!

 

- Qualquer sítio menos aqui - disse ele com veemência.

 

Isto reduziu-os ao silêncio e vestiram-se depressa, um pouco taciturnos. Fantasiar desta maneira era uma perigosa faca de dois gumes, pensou Carriscant: entusiasmava tanto como deprimia.

 

À porta do consultório beijaram-se.

 

- Sinto o teu cheiro em mim - disse ele. - Vai dar comigo em doido. O que é que vamos fazer? Quando é que eu te vejo?

 

- Eu arranjo forma de entrar em contacto contigo - disse ela, subitamente perturbada. - Talvez em minha casa outra vez... logo verei.

 

- Amo-te, Delphine. Amo-te.

 

- Não o digas, por favor. Isso transtorna-me.

 

- Porquê?

 

- Porque... Porque me faz pensar. - Ela tomou-lhe o rosto entre as suas mãos e olhou-o nos olhos. - Faz-me pensar demasiado e isso é mau.

 

Abraçaram-se. Depois Carriscant rompeu o amplexo suavemente. Destrancou a porta e abriu-a.

 

Do outro lado estava Pantaleão, a mão levantada, aprestando-se para bater.

 

A culpabilidade incendiou-os, Carriscant soube-o, emanando deles como uma bola de fogo. A culpabilidade e o choque. Gravados nas suas caras como uma caricatura grosseira.

 

Passado esse instante, tudo readquiriu uma aparência de normalidade. Fizeram-se apresentações escusadas. Num inglês rudimentar, Pantaleão perguntou pela saúde de Mrs Sieverance. Carriscant tagarelou de forma idiota, inventando uma patranha incoerente sobre espasmos dolorosos, razão desta visita imprevista, tentando convencer-se a si mesmo que não havia qualquer rubor nas bochechas e na testa de Delphine. A compostura desta regressou o suficiente para lhe permitir uma despedida ortodoxa.

 

- Desça as escadas com cuidado, Mrs Sieverance - gritou-Ihe Carriscant num tom jovial. Não tente correr antes de saber andar! - Conseguiu dar uma pequena gargalhada e regressou ao seu gabinete onde Pantaleão, de costas viradas para ele, parecia obcecado com qualquer coisa que via no jardim invadido pelo crepúsculo.

 

- Uma mulher muito simpática - disse Carriscant. A voz saiu-lhe insuportavelmente pomposa, pensou, ridiculamente formal.

 

- Peço imensa desculpa - Salvador, disse Pantaleão, num tom grave, solene.

 

- O que é que queres dizer com isso?

 

- Julguei que já tinhas saído, depois ouvi vozes. Acredita em mim, eu seria incapaz de escutar às portas, nunca... - Fez uma pausa. - Desculpa-me.

 

Carriscant deixou-se cair lentamente na cadeira atrás da secretária, pegou num pisa-papéis de cristal e fê-lo rodar entre os dedos. Pantaleão tinha razão, é claro. Teria sido impossível continuarem os dois a fingir que não sabiam. Encostou o vidro pesado e frio à face quente.

 

- Não há nada a fazer, Panta - disse ele, a voz subitamente vibrante com o alívio de poder confessar-se. - Estou desesperadamente apaixonado por ela. E desesperado.

 

No celeiro nipa

 

Por esta altura Carriscant já conhecia bem a rotina. Sentado no celeiro nipa, imaginava as várias etapas da viagem de Delphine ao seu encontro. Delphine sai de sua casa acompanhada pela jovem criada Domenica, trazendo consigo o seu cavalete, o seu rolo de papel de desenho e a sua caixa de aguarelas. Diz adeus à enfermeira Aslinger e repete-lhe que a sua saúde nunca esteve melhor. A vitória transportando Delphine e Domenica segue rua abaixo até Uli-Uli, onde atravessa a ponte e corta à esquerda pela Calle de Santa Mesa, que percorre ao longo de setecentos metros antes de virar para uma vereda entupida de vegetação, baptizada pomposamente Calle Lepanto. Param no extremo desta: à esquerda erguem-se na distância os grossos muros cinzentos da prisão de Bilibid, diante delas estende-se campo aberto, pontilhado de pequenas aldeias isoladas. Delphine e Domenica, cada uma transportando a respectiva trouxa, embrenham-se no carreiro em direcção a Sulican. Param passados cinco minutos. Delphine monta o cavalete (o pretexto das aguarelas fora ideia de Carriscant) enquanto a criada desenrola uma esteira de palha na sombra de uma palmeira burl e dispõe um pequeno piquenique. Delphine pinta durante mais ou menos uma hora, consoante o tempo o permite, após o que faz uma pausa para o almoço. Terminada a refeição, pega no bloco de desenho e anuncia que vai dar um passeio em busca de inspiração, garantindo a Domenica que estará de regresso antes das três e meia. Atravessa os campos circundantes, parando aqui e acolá, enquanto ainda se encontra dentro do raio de visão da criada, para esboçar uma parelha de búfalos num arrozal, ou um tufo de bambus que pende sobre a curva de um estero, antes de tomar um carreiro que a conduz por sobre uma pequena ponte de madeira até a uma sebe de dentilária. Abrindo caminho através desta, ela atinge um prado vasto e plano, no extremo do qual se ergue um celeiro nipa de construção recente.

 

Carriscant esperava-a. Delphine fechou a porta atrás de si e colocou-lhe uma tranca. Abraçaram-se os dois e em seguida, contornando o Aeromóvel, dirigiram-se sem perda de tempo para os alojamentos improvisados de Pantaleão ao fundo do celeiro. Carriscant trouxera uma colcha e alguns lençóis, numa tentativa de tornar a cama um pouco mais confortável. Despiram-se rapidamente e, com o necessário cuidado, instalaram-se na cama de campanha (surpreendentemente confortável e bastante robusta) e fizeram amor.

 

Fora depois de se abrir com Pantaleão que Carriscant tivera a ideia de usar o celeiro nipa para os seus encontros amorosos. Pantaleão tinha-lhe confiado uma chave sem qualquer má vontade, dizendo apenas que não queria saber mais nada do assunto e acrescentando oportunamente que nunca trabalhava no Aeromóvel durante a tarde. Carriscant lançara-se em agradecimentos exuberantes, mas o outro interrompera-o. "Sou teu amigo - tinha dito Pantaleão - mas isso não quer dizer que eu aprove." Carriscant deixara as coisas ficarem por aí e o assunto não voltara a ser abordado. Para Delphine, Pantaleão nada sabia da combinação. Carriscant limitara-se a dizer-lhe que possuía uma cópia da chave e que Pantaleão estava de serviço no hospital nas tardes em que eles se encontravam, pelo que não havia perigo.

 

Esta era a quinta vez que ele e Delphine se juntavam no celeiro, e já se tinham estabelecido pequenas rotinas e hábitos. Ele trazia-lhe sempre um presente - uma insignificância, uma gracinha - e Delphine guardava-lhe qualquer coisa do piquenique - uma maçã, uma romã, uma perna de frango. Faziam amor rapidamente e sem grandes floreados nos cinco minutos que se seguiam à chegada e em geral voltavam a fazê-lo, a um ritmo mais pausado, perto do final do tempo de que dispunham. No intervalo, deitados na cama de campanha, conversavam.

 

Ela contou-lhe a sua vida. Nascera em Waterloo, no estado de Nova Iorque, filha única de Dalson e Emma Blythe. Ambos tinham morrido de tifo durante a epidemia de 1879 e ela fora adoptada por um tio e uma tia, Wallace e Matilda Blythe, sendo ele um matemático e o director de um colégio em New Brunswick, no New Jersey. Delphine recebera uma educação esmerada e, durante algum tempo, a presença de primos mais velhos fornecera-lhe um arremedo de vida familiar, até que estes deixaram a casa paterna. A sua adolescência tornou-se então cada vez mais solitária, ao lado dos tutores envelhecidos. Fora uma amiga do colégio e a sua tia, uma mulher inteligente e emancipada, a arrancá-la a esta vida doméstica poeirenta, levando-a numa série de viagens estivais à Europa nos anos 1890, no decurso das quais, disse ela, tinha descoberto que possuía opiniões e uma personalidade própria e ao mesmo tempo se dera conta de quão limitada e sem perspectivas havia sido a sua vida em New Brunswick. A sua tia morrera, a doença do seu tio agravara-se. Foi então que, certa noite, convidada para um jantar em Manhattan, conhecera um jovem oficial chamado Jepson Sieverance...

 

Carriscant lembrou-se do presente que tinha para ela.

 

Desta vez trouxera uma caixa de cigarros turcos de forma oval, com duas listas douradas numa ponta, e Delphine aceitou experimentar um. Carriscant, nu, deslizou para fora da cama de campanha e procurou os fósforos no bolso do casaco. Acocorou-se diante dela para lhe acender o cigarro antes de acender um para si. Pôs-se de pé, gozando a sensação de estar nu na atmosfera quente e poeirenta do celeiro. Tiras delgadas de luz solar infiltravam-se pelas fissuras nas paredes de bambu e iluminavam o interior com uma luz sombria e doce. Saboreando a frescura da terra batida debaixo dos pés, ele aproximou-se do Aeromóvel, que exibia sinais evidentes de estar a sofrer reparações. O motor tinha sido retirado dos suportes e jazia pousado sobre tijolos no chão, e as correias de transmissão das hélices estavam desmontadas. Carriscant deu a volta ao aparelho e subiu para o assento da frente, sentindo o calor do couro contra as nádegas. Virou-se e olhou para Delphine que, sentada na cama de campanha, examinava a ponta do seu cigarro turco com um certo ar reprovador.

 

- É um bocado forte para mim - disse ela. Ele viu-a meter o cigarro na boca, inalar cuidadosamente e em seguida, esticando o pescoço pálido, soprar uma nuvem de fumo azulado em direcção às traves do tecto.

 

Ela apagou o cigarro no chão. - O que é que fazes aí em cima?

 

- O Panta está a ter problemas com o seu aparelho. Decidiu montar o motor lateralmente. Enfim, sobre um dos lados, para reduzir ao mínimo as vibrações. Ele acha que as vibrações laterais - dos pistões, sabes - serão menores que as verticais.

 

- Cá para mim não faz muito sentido. Nunca vai resultar. Ela afastou a colcha para o lado e abandonou a cama de campanha para vir até junto dele. Na penumbra, o seu corpo cheio exibia uma palidez fantasmagórica; Carriscant distinguiu as sombras em foice debaixo dos seus seios, o triângulo dourado e espesso dos seus pêlos púbicos contrastando com as coxas leitosas. Sentiu o seu desejo por ela espessar-se como uma pedra na garganta.

 

- É um sonho louco - disse ela, encostada à perna de Carriscant, remirando o Aeromóvel de uma ponta à outra, tamborilando com os dedos na fuselagem. Ele reparou nos minúsculos salpicos das sardas nos seus ombros nus. - Esta coisa nunca há-de voar.

 

- Se ao menos nós dois pudéssemos voar nela para longe disse Carriscant, a voz embargada de emoção.

 

Ela curvou-se e beijou-lhe o ombro. "Ámen", disse. O volume macio dos seus seios espalmou-se contra o braço dele. Carriscant desceu do assento e puxou-a para si.

 

- Talvez nós dois pudéssemos voar para longe daqui - repetiu ele com circunspecção.

 

- Abre as portas - exclamou ela com uma gargalhada. Liga o motor - lateral ou vertical - e aí vamos nós, assim como estamos!

 

Ele beijou-a, rindo-se também. Cada vez eram mais frequentes entre eles as brincadeiras sobre este assunto, com um toque de melancolia. Era uma maneira de falarem do assunto sem o encararem de frente. Os chistes, contudo, estavam a ganhar um peso pungente, uma importância tácita, cada vez mais difícil de ignorar, ainda mais difícil de suportar.

 

- Talvez ele tenha um acidente em Mindanao - disse Carriscant audaciosamente. - Talvez algum insurrecto lhe dê um tiro por acaso e nos resolva todos os problemas.

 

- Não digas isso, Salvador. Eu não o odeio assim tanto. Não o quero ver morto. Não quero que penses essas coisas.

 

- Tornava as coisas mais simples.

 

- Mas eu recuso-me sequer a imaginar isso. Não quero ser cúmplice de pensamentos desses.

 

- Mas então e se fosses tu a morrer? - disse ele muito depressa. - E se toda a gente pensasse que tu tinhas morrido, como aquela inglesa em Porto Said?

 

- Pára.

 

- Não, insisto. Não estaríamos a fazer mal a ninguém. E se as pessoas julgassem que tu... não sei - te tinhas afogado? Num acidente de barco, ou coisa parecida, mas na realidade terias nadado para terra. Nessa altura ele julgar-te-ia morta. E tu ficarias livre.

 

- Sonhos, Salvador, sonhos.

 

Começaram, quase por brincadeira, como uma espécie de exercício, a encadear hipóteses. Um incêndio. Um barco virado. Uma excursão às montanhas da qual uma pessoa nunca chegaria a regressar. Ela jogou o jogo durante algum tempo, mas em breve ele se apercebeu que os seus aspectos plausíveis, as suas possibilidades práticas, começavam a transtorná-la. A ideia, contudo, ganhara raízes firmes no espírito de Carriscant.

 

- Vem - disse ele, e regressaram os dois para a cama de campanha. Ele viu-a pegar na pequena esponja presa a um fio e mergulhá-la de novo na garrafa de líquido transparente antes de, acocorada de costas para ele, a inserir. Ele apertou-se um pouco para lhe dar espaço quando ela se deitou.

 

- Amo-te - disse ele. Este era outro dos seus novos hábitos.

 

- Talvez nós dois voemos para longe - disse ela em voz doce, enquanto ele lhe beijava ternamente o pescoço. Um dia.

 

A busca

 

Com um gemido colectivo, os quatro agentes da polícia viraram a grande arca, e uma pequena avalancha de grãos de gelo espalhou-se pelo chão. Ouviu-se um choque abafado e um embrulho envolto em oleado rebolou por terra. Bobby afastou-o com a biqueira da bota enquanto os outros se certificavam que nada mais havia na arca a não ser gelo.

 

- O que é isto? - perguntou Bobby.

 

Carriscant acocorou-se e desembrulhou o invólucro. - É um fígado - respondeu - Humano, acho eu.