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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A TENDA VERMELHA / Anita Diamant
A TENDA VERMELHA / Anita Diamant

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "SEBO"

 

 

 

 

   

Durante muito tempo andamos perdidas umas das outras.

O meu nome nada significa para vós. A minha memória é pó.

Nada disto é culpa vossa, nem minha. A cadeia entre mães e filhas quebrou-se e a palavra passou à guarda dos homens, que não tinham condição de saber. Por isso me tornei nota de rodapé, reduzindo-se a minha história a breve parte dentro da bem conhecida história do meu pai, Jacob, e da célebre crônica de José, meu irmão. Nas raras ocasiões em que fui recordada, de mim fizeram vítima. Pouco depois do início da Sagrada Escritura, há uma passagem que sugere a minha violação, seguindo-se a história sangrenta de como se vingou a minha honra.

Até espanta que alguma mãe tenha voltado a chamar Dina a uma filha. Apesar de tudo, houve quem o fizesse. Talvez já tenham adivinhado: muito mais passei além da cifra muda do texto. Talvez a musicalidade do meu nome assim o sugira: a primeira vogal longa e aberta, como quando as mães chamam as crianças ao anoitecer, a segunda suave, como segredos sussurrados na almofada. Diii-na.

Ninguém recorda a minha habilidade como parteira, nem as canções que entoei, nem os pães que cozi para os meus insaciáveis irmãos. Nada restou de mim, além de umas quantas alusões tibiamente atamancadas acerca daquelas semanas passadas em Siquém.

Muito mais haveria a relatar. A ter de falar do assunto, começaria eu pela história da geração que me criou, única ponta por onde desatar. Quem quiser compreender qualquer mulher terá primeiro de perguntar como era a mãe e ouvir com atenção. A história da comida encerra ligações muito fortes. A melancolia dos silêncios denuncia assuntos inacabados.   Quanto mais uma filha sabe acerca da vida da mãe (sem vacilações nem recriminações), mais forte se torna.

Claro que tudo isto é bastante mais complicado no meu caso, porque tive quatro mães, todas elas a ralharem, ensinarem e incentivarem diferentes coisas a meu respeito, dando-me presentes diferentes, amaldiçoando diferentes medos. Lea deu-me a vida e a sua arrogância esplêndida. Raquel ensinou-me a ser parteira e a arranjar o cabelo. Zilpah fez-me pensar. Bilhah ouviu-me. Nenhuma das minhas mães cozinhava da mesma maneira. Nenhuma delas falava ao meu pai no mesmo tom de voz nem ele a cada uma delas. Fiquem sabendo que as minhas mães eram também irmãs entre si, filhas de Labão e de diferentes mulheres, embora o meu avô nunca tenha reconhecido Zilpah e Bilhah, reconhecê-las ter-lhe-ia custado mais dois dotes e ele era terrivelmente sovina.

Como todas as irmãs que vivem juntas e partilham o mesmo marido, minha mãe e minhas tias urdiram uma teia apertada de lealdades e rancores. Traficavam segredos como quem troca braceletes, e tudo isso transmitiram a mim, única filha sobreviva. Disseram-me coisas ainda eu era demasiado nova para ouvi-las. Tomaram-me o rosto nas mãos e fizeram-me jurar que não esqueceria.

As minhas mães orgulhavam-se da quantidade de varões que deram a meu pai. Os filhos faziam o orgulho e a medida duma mulher. Mas o nascimento sucessivo de rapazes não era fonte de felicidade plena na tenda das mulheres. O meu pai vangloriava-se da sua tribo turbulenta e as mulheres amavam os meus irmãos, mas também suspiravam por filhas e queixavam-se entre si da masculinidade da semente de Jacob.

As filhas aliviavam o fardo das mães - ajudavam a fiar, a pilar, colaboravam na tarefa infindável de cuidar dos rapazes, sempre a fazerem xixi por todos os cantos das tendas, por mais que ralhássemos.

Mas outra razão ainda levava as mulheres a desejar o nascimento das filhas, e essa era a de perpetuarem a sua memória. Os rapazes, depois de desmamados, não prestavam atenção às histórias das mães. De modo que eu era a única. A minha mãe e as minhas tias-mães contaram-me infinitas histórias acerca de si mesmas. Qualquer que fosse a labuta das suas mãos (segurar nas crianças, cozinhar, fiar, tecer) enchiam-me os ouvidos.

Na sombra carmim da tenda vermelha, a tenda menstrual, passavam os dedos pelos caracóis do meu cabelo, recapitulavam as brincadeiras juvenis, as sagas da sua vinda ao mundo. Essas histórias eram como oferendas de esperança e arrimo derramadas diante da Rainha dos Céus, só que não se dirigiam a nenhum deus ou deusa - e sim a mim.

Ainda hoje sinto o grande amor das minhas mães. Sempre acalentei o amor delas. Nele me sustentei. Foi ele que me manteve viva. Mesmo quando deixei de estar junto delas, e mesmo agora, tanto tempo depois de morrerem, encontro conforto na sua memória.

Transmiti à geração seguinte os contos das minhas mães, mas as histórias da minha própria vida foram-me proibidas, e esse silêncio quase sufocou meu coração. Eu não morri, antes vivi tempo suficiente para virem outras histórias encher meus dias e minhas noites. Vi crianças abrirem os olhos perante um mundo novo. Encontrei motivos de riso e gratidão. Fui amada.

E agora vêm vocês ter comigo - mulheres de mãos e pés macios como os das rainhas, com cópia de tachos e panelas acima das vossas necessidades, tão seguras na parição e tão soltas de língua. Vocês vêm esfomeadas da tresmalhada história. Anseiam por palavras capazes de colmatar o grande silêncio que me engoliu, a mim e a minhas mães, e a minhas avós antes delas.

Bem gostaria de saber contar mais acerca das minhas avós. É terrível a quantidade de coisas esquecidas, razão bastante, julgo eu, para que a lembrança semelhe tanto o sagrado.

Muito agradeço a vossa vinda. Aqui despejarei quanto trago dentro de mim, para que todas possam retirar-se desta mesa supridas e fortalecidas. Abençoadas sejam. Abençoados vossos filhos. Abençoado o chão que pisam. O meu coração é concha de água pura, assim a sirvo, transbordante.

                                     Selah.

 

 

 

 

                             As Histórias da Minha Mãe

Esta história começa no dia em que o meu pai apareceu. Nesse dia irrompeu Raquel no acampamento em correria desatada, berrando como um bezerro desmamado. Antes que alguém tivesse tempo para repreendê-la por se comportar como um rapaz esgrouviado, extravasou dum só fôlego uma torrente de palavras que caíram como água na areia, uma história inverossímil acerca dum estranho à beira do poço.

Um maluco sem sandálias. De cabelo emaranhado. Cara enfarruscada. Beijou-a na boca, um primo, filho da tia delas, a quem tinha apascentado carneiros e cabras e defendido o poço dos salteadores.

- Que estás tu para aí a dizer? - perguntou Labão, seu pai. -      Quem é que veio ao poço? Quem é que o atendeu? Quantos sacos traz?

- Ele vai casar comigo - disse Raquel peremptoriamente, assim que conseguiu recuperar o fôlego. - Diz que lhe estou destinada e que se pudesse casava comigo amanhã. Vem a caminho daqui para falar consigo.

- Casar contigo? - disse Lea, de sobrolho carregado, ao mesmo tempo que cruzava os braços e atirava os ombros para trás. - Tu só és casadoira daqui a um ano - disse a rapariga, que apesar de poucos anos mais velha do que Raquel já tomava conta dos parcos haveres do pai.

        Quanto à mulher de Labão, já na casa dos quarenta, gostava de se dirigir à irmã em tom arrogante:

- Que vem a ser isto? Que história é essa de ele te ter beijado?

De fato, tratava-se duma terrível violação dos costumes, mesmo sendo primo, mesmo sendo Raquel suficientemente jovem para ser tratada como criança.

Raquel espetou o lábio inferior, num beicinho que ainda poucas horas antes passaria por coisa infantil. Algo se passara desde que ela tinha aberto os olhos nessa mesma manhã com a idéia urgente de descobrir o lugar onde Lea escondia o mel. Lea, essa grande burra, nunca se dispunha a partilhá-lo com ela, guardava-o para os convidados, de vez em quando dava umas pitadas a Bilhah e a mais ninguém.

Raquel só conseguia pensar no desconhecido desgrenhado cujos olhos tinham ido ao encontro dos dela com uma determinação que a fizera tremer até aos ossos.

Raquel sabia o que Lea queria dizer, mas o fato de não ter tido ainda a primeira regra não era coisa que a preocupasse naquele instante. Sentiu a cara a arder.

- Que vem a ser isto? - disse Lea, subitamente divertida.

- Olhem para ela, a jovem ficou sem jeito, já alguma vez a tinham visto corar?

- O que é que ele te fez? - perguntou Labão, rosnando como um cão ao cheiro de intrusos no rebanho. Cerrou os punhos, eriçou o sobrolho e concentrou toda a sua atenção em Raquel, a filha a quem nem uma só vez batera, a quem raramente olhava de frente. Ela assustava-o desde o instante em que nascera uma vinda ao mundo violenta, lastimosa e mortal. Quando a criança emergiu, as mulheres viram chocadas que a causa de tanta dor, sofrimento e sangue (e por fim da morte da mãe) era afinal uma menina invulgarmente pequena.

A figura de Raquel era arrebatadora como a Lua e não menos bela. Ninguém podia negar-lhe a beleza. Mesmo quando eu era criança e adorava o rosto da minha mãe, já sabia que a beleza de Lea empalidecia perante a irmã mais nova, sensação que sempre me fez sentir traidora. E, no entanto negá-lo seria negar o próprio calor do Sol.

A beleza de Raquel era invulgarmente cativante. Cabelo castanho com reflexos bronzeados, pele dourada, cor de mel, perfeita. Neste conjunto ambarino, a nota surpreendente de uns olhos escuros, não simplesmente castanhos-escuros, mas negros como obsidiana polida e fundos como um poço. Embora fosse pequenina (de ossatura miúda, mesmo durante a infância), possuía mãos musculosas e voz rouca, como se falasse pela boca de outra mulher muito maior.

Ouvi um dia dois pastores discutirem sobre o melhor traço de Raquel, jogo a que também eu já me dedicara. Para mim, o traço mais encantador de Raquel eram as maçãs do rosto, altas e salientes como figos. Quando eu era bebê, tinha a mania de tocar naquelas rosetas, a ver se conseguia colher o fruto do seu sorriso. Quando percebi que não podia arrancá-las, passei a lambê-las, à cata do gosto que teriam. E a minha linda tia ria-se com um riso que lhe vinha do fundo da barriga. Gostava mais de mim do que de todas as outras sobrinhas juntas pelo menos assim o dizia, enquanto me tecia elaboradamente as tranças, para as quais a paciência ou o tempo da minha própria mãe nunca bastavam.

É praticamente impossível exagerar a dimensão da beleza de Raquel. Já em bebê era uma jóia onde quer que se encontrasse, um ornamento, um prazer raro a criança de olhos negros e cabelos dourados. Deram-lhe a alcunha de Tuki, que significa "doçura".

Todas as mulheres se prestaram a cuidar de Raquel quando Huna, a mãe dela, morreu. Huna era uma parteira expedita, famosa pelas suas risadas guturais e muito pranteada pelas outras mulheres. Ninguém se queixou por ter de cuidar da órfã de Huna, e até os homens, sobre quem as crianças exerciam tão pouco fascínio como as pedras da lareira, não se coibiam de passar as mãos calejadas por aquelas bochechas singulares. Depois levantavam-se, cheiravam a ponta dos dedos e abanavam a cabeça.

Raquel cheirava a água. Verdade! Por onde quer que passasse a minha tia, sentia-se um cheiro a água fresca. Era um cheiro incrível, viçoso, delicioso, que enchia de vida e frescura aqueles montes empoeirados. O fato é que durante muitos anos o poço de Labão matou a fome à família.

A princípio houve esperança de que Raquel viesse a tornar-se vidente e fosse capaz de descobrir veios de água. Ela não fez jus à expectativa, mas ainda assim o aroma a água manteve-se agarrado à sua pele e às suas roupas. Quando uma das crianças desaparecia, muitas vezes íamos encontrá-la adormecida nos cobertores de Raquel, a chuchar no dedo.

Não admira que Jacob tivesse ficado igualmente rendido. Os outros homens tinham-se habituado à figura de Raquel e ao seu espantoso perfume, mas a Jacob deve ter semelhado uma aparição. Olhou-a diretamente nos olhos e ficou subjugado. Quando a beijou, Jacob gritou no mesmo tom do homem que se deita com a mulher. E por tal som despediu Raquel a sua infância.

Labão reparou logo que ele vinha de mãos vazias, mas também viu que a roupa e a túnica eram de boa qualidade, o odre de bom fabrico, e o cabo da faca, talhado em osso polido. Jacob postou-se diante de Labão e, vergando a cabeça, apresentou-se:

- Tio, eu sou filho de Rebeca, sua irmã, filha de Nacor e de Milca, assim como o tio é filho deles. Minha mãe ordenou-me de vir até vós, meu pai baniu-me para junto de vós. Contar-vos-ei toda a história quando não me encontrar tão sujo e descomposto. Solicito a vossa hospitalidade, tão afamada em toda a região.

Raquel abriu a boca para falar, mas Lea deu-lhe um puxão no braço e num relance mandou-a calar, nem mesmo a juventude de Raquel justificava que ela interrompesse um homem quando este se dirigia a outro. Raquel bateu com o pé no chão e pensou pensamentos envenenados acerca da irmã, essa coruja mandona, cabra vesga.

As palavras de Jacob acerca da afamada hospitalidade de Labão não passavam de mentira cortês, pois Labão estava longe de sentir satisfação pelo aparecimento do sobrinho. Poucas coisas provocavam contentamento no velho, e menos ainda a aparição inesperada de estranhos esfomeados. No entanto, nada havia a fazer - tinha de honrar a reclamação de parentesco, impossível negar a relação entre ambos. Jacob sabia os nomes e Labão reconheceu o rosto da irmã no homem que tinha diante de si.

- És bem-vindo - disse Labão, sem sorrir nem retribuir a saudação do sobrinho. Deu meia volta e, conforme se afastou, apontou o polegar a Lea, encarregando-a de tomar conta daquela chatice. A minha mãe acenou em concordância, encarou o forasteiro e assim ficou a conhecer o primeiro homem adulto que não desviava a vista ao confronto dos seus olhos.

        A visão de Lea era perfeita. Segundo uma das fábulas ridículas tecidas à volta da história da minha família, arruinou os olhos ao chorar um rio de lágrimas perante a idéia de casar com meu tio Esaú. Se em tal acreditam, talvez estejam também interessados em comprar um sapo mágico que fará desfalecer de amor todo aquele que vos olhar.

Mas os olhos de minha mãe não enfraqueceram, nem adoeceram, nem remelaram. A verdade é que os olhos dela enfraqueciam os outros e a maioria das pessoas preferia olhá-la de esguelha. Um era lápis-lazúli, o outro verde como o vidro egípcio.

Quando ela nasceu, a parteira declarou vinda ao mundo uma bruxa e a necessidade de afogá-la antes que lançasse alguma maldição sobre a família. Mas a minha avó Ada esbofeteou a estúpida mulher e amaldiçoou-lhe a língua.

- Mostra-me a minha filha - disse Ada em voz tão alta e altiva que até os homens lá fora a ouviram. Ada apelidou o seu último rebento de Lea, que significa "senhora", e chorou uma prece para que a criança sobrevivesse, pois já enterrara sete filhos e filhas.

Muitos continuaram convencidos de que a criança era um demônio. Não se sabe porquê, Labão, alma supersticiosa além dos limites da imaginação, sempre a bufar e a reverenciar cada vez que virava à esquerda, sempre a uivar a cada eclipse lunar, recusou a sugestão de que Lea devia ser abandonada à morte no relento da noite. Resmungou umas quantas imprecações por causa do sexo feminino da criança, mas de resto passou a ignorar a filha e nunca mencionou a sua peculiaridade. Mais uma vez, as mulheres suspeitaram que o velho era incapaz de distinguir as cores.

Nunca esmoreceu a cor dos olhos de Lea (ao contrário do que esperavam e prediziam certas mulheres), antes carregavam na diferença e na estranheza quando acicatada. Embora pestanejasse, como toda a gente, este reflexo era quase invisível, de modo que parecia nunca fechar os olhos. Mesmo o mais amoroso dos seus olhares dava parecenças de fixidez de cobra, poucos suportavam olhá-la a direito. As exceções eram recompensadas com beijos e risos e sopas de mel.

Jacob voltou a fixar os olhos de Lea, tanto bastou para que ela simpatizasse imediatamente com ele. A verdade é que Lea já tinha reparado nele, por ser tão alto. Ela era uma mão travessa mais alta do que a maioria dos homens seus conhecidos, por isso a todos rejeitava embora soubesse fazer injustiça, pois certamente, de todas essas cabeças que mal lhe chegavam ao nariz, algumas pertenceriam a muito bons homens. Mas desagradava-lhe a idéia de deitar-se ao lado de um par de pernas mais curtas e fracas do que as suas. Não que alguém a tivesse pedido. Ela bem sabia que lhe chamavam Dragão, Olhos de Diabo e outras coisas ainda piores.

O seu desagrado por homens baixos fora reforçado por um sonho em que um homem muito alto lhe sussurrara ao ouvido. As palavras não as recordava, mas tinham-na acordado e posto as coxas em brasa. Assim que viu Jacob lembrou-se do sonho e esbugalhou os olhos.

Jacob também ficou com boa impressão de Lea. Embora ainda estivesse a zunir do encontro com Raquel, não podia ignorar a presença de Lea.

Não só era alta, como bem proporcionada e forte. Fora abençoada com um peito cheio, alto, sempre a espreitar fora do vestido. Os antebraços eram de rapaz, mas a andadura era de mulher com quadris promissores.

Lea sonhara um dia com uma romã aberta em dois, com oito sementes vermelhas à vista. Segundo Zilpah, o sonho significava que ela havia de ter oito filhos saudáveis, e a minha mãe estava tão certa disso como estava certa da maneira como fazia o pão e a cerveja.

O odor de Lea não constituía mistério. Cheirava ao fermento que todos os dias amassava e cozia. Tresandava a pão, a bem-estar e (pelo menos assim pareceu a Jacob) a sexo. Deslumbrado da estatura daquela mulher, cresceu-lhe a água na boca. Tanto quanto sei, nunca disse uma palavra acerca dos olhos dela.

A minha tia Zilpah, segunda filha de Labão, dizia recordar-se de tudo quanto lhe acontecera. Garantia ter memória da sua própria vinda ao mundo e até dos dias passados na barriga da mãe. Jurava recordar-se da morte da mãe na tenda vermelha, onde caiu doente dias depois de Zilpah ter vindo ao mundo, de pés para a frente. Lea zombava destas gabarolices, embora não o fizesse diante de Zilpah, que era a única pessoa capaz de obrigar a minha mãe a calar a boca.

As recordações de Zilpah quanto à chegada de Jacob eram bem diversas das de Raquel ou Lea, mas é preciso ver que Zilpah era tida em pouca conta pelos homens, que ela descrevia como sendo gente peluda, bruta e meio humana. Dizia que as mulheres precisavam dos homens para gerar crianças e deslocar objetos pesados, mas de resto não lhes entendia o propósito, e muito menos lhes achava encanto. Amou apaixonadamente os filhos até lhes ver crescer a barba e daí para a frente mal lhes dirigiu o olhar.

Quando tive idade suficiente para lhe perguntar como foi quando o meu pai chegou, ela disse que a presença de El pairou à volta dele, única razão de o fazer digno de nota. Zilpah disse-me que El era o deus da trovoada, das cumeadas e dos sacrifícios horrendos. El era capaz de exigir a um pai que cortasse com o filho que atirasse com ele para o deserto ou pura e simplesmente o esquartejasse. Era um deus estranho, inflexível, incompreensível e frio, mas, isso lhe reconhecia, consorte à altura da Rainha dos Céus, a quem amava de todas as maneiras e feitios.

Zilpah era mais pronta a falar dos deuses e das deusas do que das pessoas. Coisa que me enfastia por vezes, mas ela expressava-se de forma encantadora e eu adorava as histórias acerca de Ninhursag, a grande mãe, e de Enlil, o primeiro pai. E depois ela debitava em tom esganiçado, ao som dum tamborzinho de barro, cânticos grandiosos de gente verdadeira que se encontrara com as divindades e com elas dançara ao som das flautas e dos címbalos.

Desde a idade da sua primeira regra, Zilpah teve-se na conta de uma espécie de sacerdotisa, guardadora dos mistérios da tenda vermelha, filha de Asherah, irmã de Siduri, conselheira das mulheres. Era uma tolice, pois apenas os sacerdotes serviam as deusas dos grandes templos da cidade, enquanto as sacerdotisas serviam os deuses. De resto, Zilpah não possuía nenhum dos dons oraculares. Faltava-lhe o talento para as ervas e era incapaz de profetizar, conjurar ou ler nas entranhas das cabras. A romã com oito sementes de Lea foi o único sonho que ela conseguiu interpretar corretamente.

Zilpah era filha de Labão, concebida por uma escrava chamada Mer-Nefat, comprada a um mercador egípcio nos tempos em que Labão ainda tinha cabedais para tanto. Segundo Ada, a mãe de Zilpah era uma lingrinha com cabelos de azeviche, tão calada que as pessoas até se esqueciam que ela possuía o dom da fala, traço que a filha não herdou.

Zilpah era poucos meses mais nova do que Lea, quando a mãe de Zilpah morreu, Ada amamentou-as ambas. Juntas brincavam e andavam por toda a parte, como é costume nas crianças, juntas guardavam o rebanho, colhiam amoras, inventavam cantigas e riam. Além de Ada, ninguém lhes fazia falta neste mundo.

Zilpah era quase tão alta como Lea, mas mais esguia e menos robusta de peito e pernas. De cabelo negro e tez escura, Lea e Zilpah semelhavam ao pai e partilhavam o nariz da família, tal qual Jacob - um magnificente bico de falcão que mais parecia alongar-se quando sorriam. Ambas falavam com as mãos, juntando as pontas do polegar e do indicador em oval enfática. Quando o sol as obrigava a franzir os olhos, idênticas rugas desenhavam no canto dos olhos.

Mas o cabelo de Lea era encaracolado, o de Zilpah escorrido até à cintura. Era o seu traço mais atraente, de modo que a minha tia detestava cobri-lo. Os toucados esmagavam-lhe a cabeça, dizia ela, levando a mão à cara com gesto tolo. Mesmo em criança era-me permitido rir dela. As enxaquecas justificavam a sua permanência na tenda das mulheres. Não se juntava a nós quando preguiçávamos ao sol da Primavera ou à brisa quente da noite. Mas quando era a lua nova (delgada e esquiva, mal se desenhando no céu), Zilpah deambulava pelo acampamento, bamboleando a cabeleira longa, batendo palmas, ofertando canções para encorajar o regresso da Lua.

Quando Jacob apareceu, Bilhah tinha oito anos e não reteve memória desse dia. "Devia estar em cima duma árvore qualquer, a chuchar nos dedos e a contar nuvens", dizia Lea, repescando a única imagem que restou da infância de Bilhah.

Bilhah era a órfã da família. Último rebento da semente de Labão, era filha duma escrava chamada Tefnut - uma negra de figura diminuta que fugiu numa noite em que Bilhah já tinha idade suficiente para perceber que fora abandonada. "Ela nunca se refez dessa mágoa", dizia Zilpah com muita brandura, sempre condoída da dor alheia.

No meio de toda aquela gente, Bilhah era uma solitária. Não só por ser a mais nova e ter outras três irmãs capazes de dar conta das tarefas. Bilhah era uma menina triste, sempre esquecida a um canto. Pouco falava, raramente sorria. Nem a minha avó Ada, que adorava crianças, que recolhera Zilpah, órfã de mãe, na sua roda e que era doida por Raquel, conseguia acalentar essa estranha avezinha solitária que nunca cresceu mais do que um menino de dez anos e cuja pele era da cor do âmbar escuro.

Bilhah não era bela como Raquel, nem competente como Lea, nem despachada como Zilpah. Era miudinha, escura, silenciosa. Ada exasperava-se com o cabelo dela, que mais encaracolado e revolto não podia ser. Em comparação com as outras duas meninas sem mãe, Bilhah andava desgraçadamente abandonada.

Entregue a si mesma, subia às árvores e punha-se a sonhar. Do seu poleiro estudava o mundo, as manchas do céu, os hábitos dos animais e das aves. Conhecia todos os pássaros de cada bando, a cada animal dava um nome secreto correspondente à sua personalidade. Uma noite regressou dos campos e sussurrou a Ada que havia uma cabra negra que ia parir gêmeos. Ora não só não era época de as cabras terem crias, como aquela cabra há quatro estações era estéril. Ada abanou a cabeça perante o desconcerto de Bilhah e enxotou-a.

No dia seguinte Labão trouxe notícia dum estranho acontecimento ocorrido nos rebanhos, a sua narrativa coincidia ponto por ponto com a predição de Bilhah. Ada foi ter com a menina e pediu-lhe desculpa. "Bilhah é muito esperta", disse Ada às outras filhas, que olharam para a irmã ignorada e repararam, pela primeira vez, na bondade dos seus olhos negros.

Quem prestasse um pouco de atenção via logo que Bilhah era boa. Era boa assim como o leite é bom, assim como a chuva. Bilhah observava os céus e os animais, observava também a família. Nos recantos escuros das tendas viu Lea esconder a sua mortificação dos olhos das outras pessoas. Reparou que Raquel temia a escuridão e Zilpah sofria de insônias. Bilhah sabia que Labão tinha tanto de mesquinho como de estúpido.

Bilhah diz que a sua primeira recordação de Jacob data do dia em que a este nasceu a primeira criança. Era um rapaz (Ruben) e, claro está, fez as delícias de Jacob, que levantou a criança nas mãos e se pôs a dançar com ela à volta da tenda vermelha.

- Ele era muito carinhoso com o menino - disse Bilhah.

Não deixava que a Ada lhe tirasse do alcance da vista, mesmo quando a criança começava a chorar. Dizia que o filho era um milagre de perfeição. Pus-me ao lado dele e ficamos juntos em adoração à criança. Contamos-lhe os dedos e acariciamos-lhe a moleirinha. Deliciamo-nos com ele e com a alegria um do outro. E foi assim que conheci teu pai Jacob.

Jacob chegou ao entrar da noite, numa semana de lua cheia, comeu uma refeição simples de pão de cevada e azeitonas e caiu num sono pesado que se prolongou pelo outro dia adiante. Lea ficou mortificada com a simplicidade da refeição que lhe tinham oferecido, de modo que no dia seguinte preparou um festim só visto em dias de grande festa.

- Suei aquela refeição como nunca tinha suado na cozinha - dizia Lea, quando me contava esta história, no calor abafado do poente, enquanto balouçávamos os jarros de pescoço alto, para coar a água da coalhada de cabra.

- O pai dos meus futuros filhos estava naquela casa, disso tinha eu a certeza. Eu bem via que ele estava de olho posto em Raquel, em cuja beleza eu reparei pela primeira vez. Mesmo assim, como ele olhava para mim sem pestanejar, não perdi a esperança. Matei um cabrito, um macho imaculado, como se fosse um sacrifício aos deuses. Pisei milho até o farelo ficar macio como as nuvens. Vasculhei as bolsas onde costumava guardar as especiarias mais preciosas e servi-me da última pitada de romã seca. Pilei, cortei e espremi que nem uma doida, convencida que ele havia de perceber o que eu lhe estava a oferecer. Ninguém me veio ajudar a cozinhar, aliás nem eu teria permitido que outras mãos tocassem no pão ou no cabrito, nem sequer no caldo do milho. Nem à minha mãe teria deixado verter água num pote - disse ela com um risinho.

Eu adorava esta história e pedi-lhe vezes sem conta que voltasse a contá-la. Lea era sempre ponderada, diligente, sóbria para além de qualquer leviandade. No entanto, quando recordava a primeira refeição confeccionada para Jacob, parecia uma rapariga tonta e lamecha.

- Eu era uma pateta - disse ela. - Queimei o primeiro pão e desatei a chorar. Até sacrifiquei um pedaço da sêmea seguinte, para favorecer as simpatias de Jacob. Tal como quando cozemos os bolos para a Rainha dos Céus ao sétimo dia, arranquei um punho de massa, beijei-o e ofereci-o ao fogo em sinal de esperança de que o homem me pretendesse. Nunca contes nada disto à Zilpah, senão moem-me o juízo - disse Lea, num sussurro conspirativo e zombeteiro. - E, claro está, belos açoites me havia de dar o nosso avô Labão, se fizesse a menor idéia da quantidade de comida que eu servi a um maltrapilho que mais não tinha do que um caneco de azeite para oferecer. Mas eu enchi o velho com tamanha quantidade de cerveja que ele nem piou. Ou talvez não tenha dito nada das minhas extravagâncias por saber que aquele parente lhe trazia sorte. Talvez tenha adivinhado que estava ali um genro que fraco dote havia de reclamar. Era difícil perceber o que ia na cabeça do velho. Parecia um boi, o teu avô.

- Um poste - disse eu.

- Um penedo - disse a minha mãe.

- Uma poia de cabra - disse eu.

A minha mãe apontou o dedo para mim como se eu fosse uma menina marota, mas depois desatou a rir, até porque descascar em Labão era o passatempo preferido das filhas.

Nunca mais me esqueci da ementa. Anho temperado com coentros, marinado em soro de leite de cabra e molho de romã. Duas qualidades de pão: ázimo de cevada e levedado de trigo. Marmelada e figos guisados com amoras e tâmaras frescas. Azeitonas, escusado será dizer. E para beber, um vinho doce de boa casta, três espécies de cerveja e caldo de cevada.

Tal era o cansaço de Jacob, que esteve à beira de faltar à refeição tão apaixonadamente concebida. Zilpah perdeu imenso tempo a tentar acordá-lo e por fim teve de deitar-lhe água fria no pescoço, coisa que o pôs tão alvoroçado que ele desatou a esbracejar e a deitou ao chão, onde ela ficou estendida a bufar como um gato.

Zilpah não simpatizou nada com Jacob. Percebeu muito bem que a presença dele vinha alterar as coisas entre irmãs e enfraquecer os seus laços com Lea. Irritou-a ser ele muito mais atraente do que os outros homens que elas conheciam e que não passavam de pastores desbocados, além dos mercadores viandantes que olhavam para as irmãs como se fossem um rebanho de ovelhas.

Jacob era bem-falante e bem-apessoado. E assim que ele cruzou olhares com Lea, Zilpah percebeu que a vida ia levar grande volta. Estava danadinha por travar a mudança, mas não sabia como.

Finalmente Jacob levantou-se, foi sentar-se à direita de Labão, à porta da tenda, e comeu até fartar. Lea lembrava-se de cada dentada dele.

- Atacou o guisado de anho vezes sem conta e serviu-se de três pedaços de pão. Reparei que gostou dos doces e que preferiu a cerveja doce à bebida acre que Labão despejou pela garganta abaixo. Já sei como lhe conquisto a barriga, pensei eu. Hei de descobrir como conquistar o resto.

Esta tirada fazia sempre as minhas outras mães rebolarem de riso, pois embora Lea fosse uma mulher prática, era também a mais lúbrica das irmãs.

- E então, depois de tanta trabalheira, depois de tanta comezaina, que imaginas tu que aconteceu? - perguntou Lea, como se eu não conhecesse tão bem a resposta como conhecia a pequena cicatriz em forma de crescente que ela tinha na raiz do polegar.

- O que se passou foi que Jacob adoeceu. Vomitou tudo até à última migalha. Deitou tudo fora até ficar de rastos e a ganir. Implorou a El, a Ishtar, a Marduk e à sua abençoada mãe que o livrassem de tamanha agonia ou o deixassem morrer. Zilpah, malvada, esgueirou-se para dentro da tenda a ver como estava ele e depois veio a correr contar-me, pintando as coisas ainda piores do que já eram. Disse-me que ele estava mais branco do que a lua cheia e vomitava as entranhas. Fiquei mortificada... e aterrorizada. E se ele morresse por causa dos meus cozinhados? Ou, o que ia dar no mesmo, se ele recuperasse e viesse culpar-me das suas desgraças? Enfim, quando vi que mais ninguém adoeceu a seguir à refeição, percebi que a culpa não era da comida. Mas depois, vê lá a minha parvoice, meteu-me na cabeça que o meu toque lhe era prejudicial. Ou que talvez tivesse errado na oferenda do pão, que em vez de o preitear a um deus ou uma deusa, tivesse feito praga maléfica. Tornei-me piedosa outra vez e verti o que restava de bom vinho, em nome de Anath, o Curandeiro. Isto foi pela terceira noite dos seus padecimentos, e na manhã seguinte ele estava curado.

Neste ponto da história ela sempre abanava a cabeça e suspirava.

Não foram bons auspícios para tão frutuosos amantes, verdade seja dita.

Jacob restabeleceu-se rapidamente e por ali foi ficando, até que por fim parecia que sempre tinha vivido naquele lugar. Tomou a seu cargo os rebanhos magricelas, de modo que Raquel já não precisava andar atrás dos animais, tarefa que lhe cabia a ela na falta de irmãos.

O meu avô culpava o estado lastimoso dos rebanhos e a sua míngua ao fato de todos os filhos varões terem morrido à nascença ou durante a infância, deixando-o só com filhas.      Não tinha a mínima consciência da sua própria indolência, convencido de que só um filho lhe podia alterar a sorte. Consultou os sacerdotes locais, que o mandaram sacrificar os melhores carneiros e um touro para que os deuses lhe dessem filho varão. Deitou-se com as mulheres e as concubinas no meio dos campos, como aconselhou uma velha parteira, mas o único ganho que daí tirou foi urticária nas costas e arranhões nos joelhos. Quando Jacob apareceu, já ele desesperara de ter um filho ou qualquer outra melhoria na vida.

Nada esperava de Ada, adoentada e já fora da idade de ter filhos. As outras três mulheres tinham morrido ou fugido e ele já não se podia dar ao luxo de pagar uma jovem escrava enjeitada, e menos ainda outra noiva. De modo que dormia sozinho, exceto nas noites em que lhe dava na gana de ir chatear o rebanho, como um miúdo traquina. Raquel dizia que a concupiscência do meu avô era famosa no meio dos pastores. "As ovelhas fogem como gazelas assim que vêem Labão a subir o monte.”

As filhas desprezavam-no por centenas de motivos e eu conhecia-os a todos. Zilpah contou-me que poucos meses antes da sua primeira regra, num dia em que lhe coube levar o almoço ao pai, ele estendeu a mão e lhe apertou o mamilo entre o indicador e o polegar, espremendo-o como quem ordenha cabras.

Também Lea dizia que Labão lhe tinha metido a mão debaixo do vestido, mas essa queixou-se a Ada, e a minha avó deu tal carga de pilão ao marido que o pôs a sangrar. A seguir espatifou-lhe os cornos ao deus guardião da casa seu favorito, por fim, quando ameaçou amaldiçoá-lo de furúnculos e impotência, ele jurou nunca mais tocar em nenhuma das filhas. Comprou braceletes de ouro para Ada e para as filhas até para Zilpah e Bilhah, a quem nunca reconhecia como sendo da sua linhagem. E trouxe para casa um lindíssimo asherah - um pilão muito alto, quase do tamanho de Bilhah - fabricado pelo melhor oleiro que conseguiu encontrar. As mulheres colocaram o pilão em cima do bamah, um altar onde se ofereciam sacrifícios. O rosto da deusa era invulgarmente amoroso, com olhos amendoados e sorriso rasgado. Sempre que derramávamos vinho por cima dela, nas noites escuras de lua nova, parecia que a boca da deusa mais se abria de prazer.

Mas tudo isto aconteceu anos antes da chegada de Jacob, quando Labão ainda tinha uns quantos escravos ao seu serviço, com as respectivas mulheres e filhos a espalharem no campo o cheiro dos cozinhados e o som dos risos. Quando o meu pai chegou, restavam-lhe apenas uma mulher doente e quatro filhas.

Se bem que Labão apreciasse a presença de Jacob, os dois homens detestavam-se profundamente. Eram diferentes como um corvo e um burro, mas estavam ligados por laços de sangue e, passado algum tempo, pela trama do negócio.

        Jacob revelou-se trabalhador diligente e com muito jeito para os animais - especialmente os cães. Conseguiu transformar os três rafeiros inúteis de Labão em ótimos cães pastores. Mal ele assobiava, os cães vinham logo à sua ilharga. Bastava-lhe bater as palmas, logo os rafeiros se punham a correr em círculos até reunir o rebanho diante dele. Entoava uma cantilena especial e eles punham-se de guarda com tal ferocidade que o gado de Labão nunca mais viu dente de raposa ou chacal. Quanto aos larápios, preferiam dar aos calcanhares a ter de enfrentar a ferocidade dos colmilhos da matilha.

Passado pouco tempo os outros homens começaram a invejar os cães de Jacob e propuseram-se comprá-los. Em vez de os vender, ele negociou um dia de trabalho em troca da primeira cria do cachorro com olhos de lobo. Quando a menor das nossas cadelas pariu as crias do cão, Jacob treinou os cachorros e vendeu quatro dos cinco pelo que nos pareceu uma montanha de tesouros, que ele se apressou a transformar em presentes probatórios de como entendia bem as filhas de Labão.

Levou Raquel ao poço onde se haviam conhecido e ofereceu-lhe um brinco de lápis-lazúli que ela usou até à morte. Foi ter com Lea quando ela estava a cardar a lã e, sem uma palavra, estendeu-lhe três braceletes finamente lavradas. A Zilpah ofereceu um pequeno vaso votivo com a forma de Anath e que vertia libações pelos mamilos. Depôs um saco de sal aos pés inchados de Ada. Nem se esqueceu de Bilhah, que teve direito a uma anforazinha de mel.

Labão queixou-se de que a cadela pertencia a ele, mas afinal fora o sobrinho quem revertera o lucro dos cachorros em proveito próprio. Mas o velho foi prontamente apaziguado com uma bolsa de moedas, pegou logo nelas, foi a correr à vila e voltou a comprar a Ruti. Pobre criatura.

Passado um ano Jacob já era administrador dos bens de Labão. Com seus cães, Jacob levava os cordeiros a pastar nos prados mais viçosos, as ovelhas enchiam a pança nos canteiros mais suculentos e os carneiros retouçavam nas ervas daninhas. Os rebanhos prosperaram de tal forma que na tosquia seguinte Jacob teve de contratar dois rapazes para acabarem a tarefa antes das primeiras chuvas. Raquel, Lea, Zilpah e Bilhah dedicaram-se à horta e alargaram o canteiro do trigo.

Jacob convenceu Labão a sacrificar dois carneiros gordos e um anho ao deus do seu pai, em agradecimento pelas dádivas. Lea amassou pãezinhos com fermento (à custa da reserva de trigo) para juntar à imolação, que foi executada segundo as instruções de Jacob.        Conforme o uso de seus pais, queimou pães inteiros e tudo quanto eram as melhores partes dos animais, e não apenas pequenas porções. As mulheres comentaram entre si o desperdício.

 Foi ano de grandes mudanças para a minha família. A manada multiplicou-se, o cereal floresceu e o ano fechou com casório. Um mês depois de ter chegado, Jacob perguntou a Labão pelo preço de Raquel, tal como ela previra logo no primeiro dia. Sendo evidente que o sobrinho nada possuía de seu, Labão pensou que podia fazer o negócio ao desbarato com a proposta magnânima de trocar a filha por sete anos de serviço. Jacob riu-se-lhe na cara:

- Sete anos? Estamos a falar duma rapariga, e não de um trono. Sei lá se daqui a sete anos ela ainda está viva? Eu próprio posso morrer. Aliás, o mais certo daqui a sete anos é você já estar morto, velhote. Dou-lhe sete meses. Quanto ao dote, fico com metade do seu miserável rebanho.

Labão pôs-se em pé num pulo e chamou ladrão a Jacob.

- Não restam dúvidas de quem és filho - disse ele. - Julgas que o mundo te deve alguma coisa? Não te armes em esquisito comigo, meu grandessíssimo deserdado, se não queres que te recambie para a faca do teu irmão.

Zilpah, a melhor espia de todas elas, transmitiu o relato da discussão, contando tintim por tintim como os dois regatearam o valor da minha tia, como Labão barafustou e Jacob teimou. Finalmente acordaram no preço da noiva: um ano de serviços. Quanto ao dote, Labão queixou-se de pobreza.

- Tenho tão pouca coisa, meu filho - subitamente armado em patriarca. - E ela é um verdadeiro tesouro.

Jacob não podia aceitar noiva sem dote. Seria o mesmo que tomar Raquel por concubina e fazer figura de tolo, pagando com um ano da sua vida por uma rapariga que apenas trazia consigo um almofariz, uma roca e a roupa que vestia. E assim Labão arredondou a conta juntando Bilhah, de modo que Raquel passava a ter estatuto de mulher com dote e Jacob, a prazo, ganharia uma concubina.

- Além disso tem de me dar uma décima dos anhos nascidos enquanto o rebanho estiver à minha guarda, durante o ano que hei de prestar-lhe serviço - disse Jacob.

Perante isto, Labão amaldiçoou a semente de Jacob e virou-lhe costas, furioso. Passou-se isto uma semana antes de os homens concluírem o negócio, uma semana inteira durante a qual Raquel choramingou e se portou como uma criança, enquanto Lea quase não abriu a boca e se limitou a servir papas de milho frias, comida de nojo.

Quando, finalmente, chegaram a acordo, Labão foi ter com Ada, para acertarem os preparativos da boda. Mas Ada disse que não: "Não somos desses bárbaros que dão as crianças em casamento.”

        Raquel nem sequer podia ser prometida, disse ela ao marido. A rapariga podia parecer pronta a casar, mas ainda não tinha maturidade suficiente, nem sequer sangrara. A minha avó disse que Anath havia de amaldiçoar a horta se Labão ousasse quebrar esta lei e que ela própria reuniria forças bastantes para rachar outra vez o pilão na cabeça do esposo.

Mas as ameaças eram desnecessárias. Labão percebeu logo que só lhe vinham vantagens do adiamento, foi imediatamente ter com Jacob e deu-lhe conta das novidades: teria de esperar até que a rapariga estivesse pronta, só então poderia marcar-se o casório.

Jacob aceitou a situação. Que outra coisa havia ele de fazer? Furiosa, Raquel pôs-se aos gritos com Ada, que lhe deu um par de estalos e a mandou chatear outro. Raquel, por seu turno, esbofeteou Bilhah, praguejou contra Zilpah e rezingou com Lea. Até chutou poeira aos pés de Jacob, chamando-lhe mentiroso e cobarde, a seguir derramou-lhe lágrimas no pescoço.

Raquel começou a recear o futuro. Talvez nunca sangrasse, talvez nunca casasse com Jacob, talvez nunca conseguisse ter filhos. Súbito, o seu peito maneirinho e espevitado, de que tanto se orgulhava, pareceu-lhe insignificante. Talvez fosse anormal, hermafrodita, como o ídolo tosco da tenda do pai, aquele com um pecíolo entre pernas e tetas de vaca.

De modo que Raquel fez por precipitar a puberdade. Antes da lua nova seguinte, amassou pãezinhos de oferenda à Rainha dos Céus, coisa que nunca tinha feito, e dormiu toda a noite com a barriga assente na base do asherah. Mas a lua minguou, voltou a crescer, e as pernas de Raquel sempre enxutas. Sozinha, foi à vila pedir ajuda a Inna, a parteira, que lhe deu uma infusão repugnante de urtigas colhidas numa nascente próxima dali. Mais uma lua nova, e Raquel sempre infante.

No quarto minguante seguinte, Raquel esmagou bagas vermelhas e chamou as irmãs mais velhas para verem a mancha no cobertor. Mas o sumo era púrpura e Lea e Zilpah riram-se das sementes disseminadas nas coxas dela.

No mês seguinte Raquel encafuou-se na tenda, donde não saiu nem sequer para ir ter com Jacob.

Por fim, no nono mês após a chegada de Jacob, Raquel teve a sua primeira regra e chorou de alívio. Ada, Lea e Zilpah entoaram a canção gutural reservada ao nascimento, à morte e ao amadurecimento das mulheres. Quando o Sol desceu para dar lugar à lua nova, untaram de henna as unhas e a sola dos pés de Raquel. Pintaram-lhe as pálpebras de amarelo e, recolhendo todas os braceletes, gemas e jóias que conseguiram encontrar, forraram-lhe os dedos das mãos e dos pés, os tornozelos e os pulsos. Cobriram-lhe a cabeça com o mais fino bordado e levaram-na para a tenda vermelha. Cantaram às deusas, à Innana e à Senhora Asherah do Mar. Falaram de Elath, mãe dos dezessete deuses, entre os quais Anath, a que cuida das crianças, defensora das mães.

Assim cantaram:

 

                 Que frescura se compara à de Anath.

                 Que beleza iguala a de Astarte?

                 Astarte é agora em teu ventre,

                 E carregas o poder de Elath.

 

Enquanto as mulheres cantavam todas estas canções de boas-vindas, Raquel comia mel de tâmaras e bolos de fina farinha de trigo com a forma triangular do sexo feminino. Bebeu vinho doce até mais não poder. Ada massageou-lhe os braços, as costas e o ventre com óleos aromáticos, até a pôr meia adormecida. Quando a levaram para o campo, onde desposou a terra, Raquel estava tonta de prazer e vinho. Nem percebeu como lhe tinham ficado as pernas polvilhadas de terra e sangue, e adormeceu a sorrir.

Sentia-se feliz e expectante, preguiçou na tenda durante os três dias seguintes, recolheu o precioso fluido num vaso de bronze - pois o primeiro mênstruo das mulheres constituía poderosa libação para a horta. Nesse período mostrou-se generosa e descontraída como nunca a tinham visto.

Assim que as mulheres deram por findos os ritos mensais, Raquel exigiu a marcação do casamento. Por mais que batesse o pé, não conseguiu demover Ada do costume de aguardar sete meses após a primeira menstruação. Assim ficou decidido, e conquanto Jacob já tivesse trabalhado um ano para Labão, o contrato foi selado e os sete meses seguintes também pertenceram a Labão.

 

Aqueles meses não foram fáceis. Raquel era arrogante, Lea suspirava como uma vaca em trabalho de parto, Zilpah amuou. Só Bilhah parecia imune ao rebuliço, fiando e tecendo, arrancando ervas daninhas do horto e tomando conta da fogueira de Ada, que, agora, estava sempre acesa para conforto dos seus ossos gelados.

Raquel passava tanto tempo com Jacob quanto lhe permitia a audácia, esgueirando-se do horto e do tear para se encontrar com o seu amado sozinho nos montes. Ada estava demasiado doente para a impedir de se comportar de forma tão desregrada e Raquel recusava-se a obedecer a Lea, que perdera parte do seu estatuto desde que a irmã mais nova se candidatara a ser noiva e mãe antes dela.

Aqueles dias com Jacob, nos campos, faziam as delícias de Raquel.

Ele brincava com os meus cabelos e olhava para mim maravilhado disse a minha bela tia. Fazia-me ficar em pé à sombra e, depois, ao sol, para ver os diferentes jogos de luz na minha face. Ele chorava perante a minha beleza. E cantava as canções da família dele e falava-me da beleza da mãe. Fantasiou sobre quão belos seriam também os nossos filhos. Rapazes de ouro, como eu, dizia ele. Rapazes perfeitos, futuros príncipes e reis. Eu sei o que todos pensavam (as minhas irmãs e os pastores), mas nós nunca nos tocamos. Bom, só uma vez. Ele abraçou-me contra o peito, mas de repente começou a tremer e afastou-me. A partir desse instante manteve sempre uma distância correta. O que, para mim, era ótimo. Ele cheirava mal, sabes. Cheirava muito melhor do que a maioria dos homens, mas mesmo assim o cheiro à cabra e a homem era avassalador. Eu corria para casa e enterrava o nariz em coentros.

Raquel gabava-se de ter sido a primeira a ouvir a história da família de Jacob. Ele era o mais novo dos rapazes gêmeos, o que o tornava herdeiro da mãe. Era o mais bonito e o mais esperto. Rebeca dissera a Isaac, seu marido, que o rapaz era fraco e doente, para poder amamentá-lo durante um ano depois de ter desmamado o irmão dele.

O parto dos gêmeos quase matou Rebeca, com sangria tamanha que lhe esvaiu a possibilidade de gerar nova vida dentro dela. Quando se apercebeu de que não teria filhas, Rebeca começou a sussurrar as suas histórias a Jacob.

Rebeca disse a Jacob que a bênção de Esaú era por direito, de Jacob pois por que outro motivo teria Innana feito dele o melhor dos dois? Além disso, na família de Rebeca, pertencia à mãe o direito de escolher o herdeiro. O próprio Isaac era o segundo filho da sua família. Se fosse por Abraão, Ismael teria sido o patriarca, mas Sarai tinha reclamado os seus direitos e nomeara Isaac em vez do irmão. Fora ela mesma que tinha mandado Isaac procurar noiva entre a família de sua mãe, como era costume desde os mais velhos tempos.

Mesmo assim, Jacob amava Esaú e detestaria fazer-lhe qualquer espécie de mal. Ele temia que o deus de Isaac seu pai e de Abraão seu avô o castigasse por seguir as palavras da mãe. Era perseguido por um sonho que o fazia acordar aterrorizado, um sonho em que era completamente destruído.

Raquel acariciava-lhe a face e dizia-lhe que os medos dele eram infundados.

- Eu disse-lhe que, se não tivesse obedecido aos pedidos da mãe, nunca me teria encontrado, e certamente que o deus de Isaac, que amava Rebeca, sorriria ao amor de Jacob por Raquel. Isto alegrava-o. Disse-me que eu alegrava o seu coração como um nascer de sol. Ele dizia coisas tão bonitas...

Enquanto Jacob dizia palavras doces a Raquel, Lea sofria - perdeu peso e negligenciou o cabelo, embora nunca tivesse descurado os seus deveres. O acampamento foi sempre bem dirigido, estava sempre limpo, aprovisionado e ativo. A fiação nunca parava, o horto florescia e as ervas eram mais do que suficientes para serem trocadas na aldeia por novas lâmpadas.

Jacob reparou nestas coisas, viu o que Lea fazia e soube que tinha sido ela a manter a ordem durante os anos magros em que Labão esmorecera. O velho era completamente inútil quando Jacob perguntava se o mercador de barba preta que vinha de Alepo era de confiança ou não, ou quando se tratava de saber qual dos rapazes devia contratar na altura da tosquia. Era a Lea que se deviam fazer perguntas acerca do rebanho: que ovelhas tinham parido no ano anterior, ou quais as cabras que descendiam do macho preto ou do malhado. Raquel, que trabalhara entre os animais, não conseguia distinguir um do outro, mas Lea lembrava-se do que via e de tudo o que Bilhah lhe dizia.

Jacob dirigia-se a Lea com a mesma deferência que demonstrava para com Ada, uma vez que, afinal, elas eram parentes, mas ele dirigia-se àquela muito mais vezes do que o necessário, ou pelo menos assim parecia a Zilpah.

Todos os dias Jacob inventava uma nova pergunta para a filha mais velha. Onde é que havia de levar os cabritos a pastar, na Primavera? Havia algum mel extra para regatear por uma boa ovelha? Estaria ela pronta para o sacrifício da colheita de cevada?

E estava sempre sedento da cerveja que ela fazia conforme as maravilhosas receitas que um mercador egípcio ensinara à mãe dela.

Lea respondia às perguntas de Jacob e servia-lhe a bebida desviando os olhos, com a cabeça quase enfiada no peito, como um pássaro no choco. Era-lhe penoso olhar para ele, e, no entanto, todas as manhãs, quando abria os olhos, o seu primeiro pensamento ia para ele. Viria falar com ela outra vez naquele dia? Notaria o quanto a mão dela tremia quando lhe enchia a taça?

Zilpah não suportava estar perto deles quando se juntavam.

- Era como estar perto de bodes com cio - dizia ela. E eram tão educados... Torciam-se todos para não terem de se encarar, não se desse o caso de caírem de imediato em cima um do outro como cães com cio.

Lea tentou ignorar o desejo do seu próprio corpo, e Raquel não estava consciente de nada senão dos preparativos do seu casamento, mas Zilpah via luxúria para onde quer que olhasse.

O mundo inteiro parecia-lhe subitamente úmido de desejo.

Lea dava voltas na cama à noite e Zilpah tinha visto Jacob nos campos, encostado a uma árvore, as mãos a trabucar no sexo até que caíra bruscamente de alivio. Durante o mês anterior ao casamento, Jacob deixou de sonhar com batalhas ou com os pais e o irmão e, em vez disso, passou as noites a andar sonambulamente com cada uma das quatro irmãs. Bebia das águas de um ribeiro, e encontrava-se no colo de Raquel. Levantava um grande seixo, para encontrar, debaixo dele, Lea nua. Fugia a correr da coisa horrível que o perseguia, e caía exausto nos braços de Bilhah, que tinha começado a adquirir formas de mulher. Salvava Zilpah da acácia, desemaranhando o longo cabelo dela dos ramos onde este se prendera. Acordava todas as manhãs a suar, com o sexo excitado. Rolava para fora do cobertor e agitava-se no chão até poder levantar-se sem embaraço.

Zilpah observava o triângulo de Jacob, Raquel e Lea enquanto este crescia até ao ponto de se transformar numa cunha que ela pudesse usar, pois por muito que amasse Lea, Zilpah nunca tinha gostado da bela Raquel. (Era o que Zilpah lhe chamava sempre - "Ah, e aí vem a bela Raquel", dizia ela, com vinagre na voz.) Ela sabia que não dispunha de meios para impedir Jacob de se tornar no patriarca da família e, de fato, estava tão impaciente para ter crianças quanto todas as outras mulheres. No entanto, queria ser ela a escolher o curso desse rio. Além disso apetecia-lhe fazer a bela Raquel sofrer um bocadinho.

Zilpah suspeitava que Raquel temia a noite de núpcias e incitava-a a confessar todas as suas preocupações. A rapariga mais velha suspirava e abanava a cabeça em sinal de comiseração enquanto Raquel revelava o muito pouco que sabia sobre os mecanismos do sexo. Não esperava ter prazer - só esperava sentir dor. Portanto, Zilpah disse à sua nervosa irmã que os pastores falavam do sexo de Jacob como de uma aberração da natureza. "Tem o dobro do tamanho do de qualquer homem normal", murmurou ela, demonstrando com as mãos um comprimento impossível. Zilpah levou Raquel ao pasto mais alto e mostrou-lhe os rapazes a fazerem o que queriam com as ovelhas, que baliam penosamente e sangravam. A irmã mais velha compadecia-se da tremula Raquel, sussurrando "pobrezinha", enquanto acariciava os cabelos da rapariga: "Pobre femeazinha.”

E essa foi a razão pela qual, no dia do seu casamento, Raquel entrou em pânico. A casta adoração de Jacob tinha sido agradável, mas agora ele viria exigir tudo dela e não havia maneira de recusar. O estômago de Raquel rebelou-se e ela vomitou. Arrancou punhados de cabelos. Lavrou as unhas na cara até fazer sangue. Implorou às irmãs que a salvassem.

- Raquel chorava enquanto a tentávamos vestir para o banquete - disse Lea. - Chorava, afirmando que não estava preparada e que não estava bem e que era demasiado pequena para o seu marido. Até tentou fazer aquele truque com as bagas esmagadas, levantando a saia e choramingando que Jacob a mataria se encontrasse sangue lunar no leito nupcial. Eu disse-lhe que parasse de se comportar como uma criança, uma vez que já usava o cinto de mulher.

Mas Raquel caiu de joelhos, aos uivos, e implorou à irmã que tomasse o seu lugar sob o véu de noiva.

- Zilpah diz que tu o farás - gritou ela.

- Fiquei completamente muda - contou Lea. - Pois é claro que Zilpah tinha razão. Não me passara pela cabeça tal coisa, que pudesse ser eu a estar com ele naquela noite. Quase não o conseguia admitir perante mim mesma, quanto mais diante da minha irmã, que não estava assim tão bela naquele momento, com os olhos vermelhos do choro, as faces riscadas de sangue e sumo de bagas.

Primeiro disse que não. Ele havia de perceber logo, nenhum véu poderia esconder a diferença de altura entre ambas. Recusar-se-ia a ficar comigo e, então, eu passaria a ser mercadoria danificada, incasável, e não haveria nada a fazer senão vender-me como escrava.     Mas enquanto protestava, o meu coração ia dizendo que sim. Raquel pedia-me que fizesse o que eu mais queria na vida. Portanto, ao mesmo tempo que argumentava, concordava.

Ada estava demasiado doente para ajudar a vestir a noiva, naquela manhã, pelo que Zilpah tomou conta da intriga, esfregando as mãos e os pés de Lea com henua, desenhando o kohl em volta dos olhos dela, cobrindo-a de pechisbeques. Raquel estava sentada a um canto, abraçando os joelhos contra o peito e tremendo, enquanto Lea se preparava para aquela que deveria ser a noite de núpcias de Raquel.

- Nunca me tinha sentido tão feliz - disse Lea. - Mas estava também cheia de medo. O que aconteceria se ele me virasse as costas com nojo? E se ele corresse para fora da tenda e me envergonhasse para sempre? Mas alguma coisa me dizia que ele me beijaria.

O banquete foi simples e teve poucos convidados. Dois flautistas da aldeia vieram e foram-se embora rapidamente, um dos pastores trouxe óleo como presente, que deixou assim que encheu a barriga. Labão esteve bêbado desde o inicio, com a mão debaixo do vestido da pobre Ruti, tropeçou nos próprios pés quando conduziu Lea para junto de Jacob. A noiva, muito curvada debaixo do véu, deu três voltas na mesma direção em torno do noivo, mais três na outra. Zilpah serviu a carne.

- Pensei que o dia nunca mais tinha fim - contou Lea. - Não me podiam ver através do véu, nem eu podia ver com clareza, mas como é que Jacob não percebia que era eu que ali estava? Esperei, infelicíssima, que ele me desmascarasse, que se levantasse de um salto e dissesse que tinha sido enganado. Mas ele não o fez. Estava sentado a meu lado, tão perto que eu conseguia sentir o calor da coxa dele contra a minha. Comeu cordeiro e pão, e bebeu tanto vinho como cerveja, embora não a ponto de se tornar sonolento ou estúpido. Por fim, Jacob levantou-se e ajudou-me a levantar. Conduziu-me à tenda onde passaríamos os nossos sete dias, com Labão a seguir-nos, a gritar e a desejar-nos muitos filhos varões - lembrou Lea. - Jacob não se aproximou de mim enquanto não se fez silêncio lá fora. Então, tirou-me o véu. Era uma peça linda, bordada a muitas cores e usada por gerações de noivas que tinham vivido centenas de noites de núpcias cheias de prazer, violência, medo, deleite e decepção. Tremi, pensando qual seria o meu destino. Não estava completamente escuro dentro da tenda. Ele viu a minha cara e não mostrou qualquer surpresa. Com uma respiração pesada, tirou-me o resto das roupas, primeiro soltou-me o manto dos ombros, desatando o cinto, e depois ajudando-me, quando dei um passo para fora das minhas roupas. Fiquei nua diante dele. A minha mãe tinha-me dito que o meu marido apenas me levantaria a roupa e que entraria em mim ainda com as roupas dele vestidas. Mas eu estava descoberta e, passado um instante, também ele estava, com o sexo apontado para mim. Parecia um asherah sem cara! Aquela idéia era tão cômica, que, se eu tivesse sido capaz de respirar, teria dado uma gargalhada. Mas eu estava com medo. Afundei-me no cobertor, e ele colocou-se imediatamente a meu lado.         Acariciou-me as mãos e tocou-me a cara e, depois, pôs-se em cima de mim. Tive medo. Mas lembrei-me dos conselhos da minha mãe e abri as mãos e separei os pés e ouvi o som da minha própria respiração em vez da dele. Jacob foi bom para mim. Entrou lentamente em mim, da primeira vez, mas acabou tão depressa que eu mal me pude acalmar antes que ele ficasse parado e pesado em cima de mim, como um homem morto, durante o que pareceram horas. Então as mãos dele ganharam vida. Vaguearam pela minha cara, pelo meu cabelo, e depois, oh, pelos meus seios e pela minha barriga, pelas minhas pernas e pelo meu sexo, que ele explorou com o mais leve dos toques. Era como o toque de uma mãe a seguir os traços da orelha da sua criança recém-nascida, uma sensação tão doce, que eu sorri. Ele olhou para o meu prazer e assentiu com a cabeça. Ambos rimos.

E, então, Jacob falou com ternura à sua primeira mulher.

- O meu próprio pai raramente falava comigo, e parecia preferir a companhia do meu irmão - sussurrou ele. - Mas, uma vez, enquanto viajávamos, passamos por uma tenda onde um homem batia numa mulher, esposa, concubina ou escrava, não havia maneira de saber.    Isaac, meu pai, suspirou e disse-me que nunca tinha levado nenhuma mulher para a cama dele senão a minha mãe, apesar de ela apenas lhe ter dado dois filhos pouco tempo depois do casamento deles. Rebeca tinha-o recebido com ternura e paixão quando se tinham casado, porque enquanto noivo dela, ele tinha-a tratado como se ela fosse a Rainha do Céu e ele fosse o consorte dela. A união deles era a união do mar e do céu, da chuva e da terra seca. Da noite e do dia, do vento e da água. As noites deles estavam cheias de estrelas e de suspiros, enquanto eles interpretavam os papéis de deusa e de deus. As carícias deles engendravam mil sonhos. Dormiam nos braços um do outro todas as noites, exceto quando chegava o tempo de ela entrar na tenda vermelha, ou quando ela amamentou os filhos. Foi isto que o meu pai me ensinou acerca de maridos e mulheres - disse Jacob, meu pai, a Lea, minha mãe, na primeira noite que passaram juntos. E, depois, chorou pela perda do amor do pai dele.

Lea chorou também, por pena do marido dela, e também de alívio e de alegria pela boa sorte que tinha. Ela sabia que a própria mãe dela também tinha chorado na sua noite de núpcias, mas essas lágrimas tinham sido lágrimas de desespero, pois Labão tinha sido rude desde o inicio.

Lea beijou o marido. Ele beijou-a. Beijaram-se uma e outra vez. E mesmo nessa primeira noite, quando tinha a carne tenra de ser aberta por um homem, Lea respondeu ao toque dele. Ela gostava do cheiro dele e da sensação que a barba lhe provocava na pele.     Quando ele entrou nela, ela fletiu as pernas e o sexo com uma espécie de força que a surpreendeu e que, a ele, lhe agradou. Quando Jacob gritou, no prazer final, foi inundada pela sensação do poder que ela própria tinha. E quando ela seguiu a própria respiração, descobriu o prazer próprio, uma abertura e um preenchimento que a fizeram suspirar e ronronar e, depois, dormir como não dormia desde criança. Ele chamou-lhe Innana. Ela chamou-lhe Baal, Irmão-amante de Ishtar.

Deixaram-nos a sós durante todos os sete dias e sete noites. Levavam-lhes comida, ao amanhecer e ao anoitecer, e eles comiam com a fome insaciável dos amantes. Pelo final da semana, tinham feito amor a todas as horas do dia e da noite. Estavam certos de ter inventado mil novos métodos de dar e de receber prazer. Tinham dormido nos braços um do outro. Tinham-se rido como crianças da estupidez de Labão e das esquisitices de Zilpah. Mas não tinham falado de Raquel.

Foi uma semana de ouro, cada dia mais doce, mas também mais triste. Nunca haveria outro momento em que Lea e Jacob pudessem vaguear pelas recordações de cada um deles, ou em que pudessem estar à vontade nos braços um do outro durante o dia. Aquelas refeições eram as únicas que eles alguma vez iriam partilhar, conversando e encontrando um no outro afinidades espirituais no tocante aos negócios e à política familiar.

Os dois decidiram que Jacob emergiria daquela semana simulando ira. Iria ter com Labão e diria:

- Fui ludibriado. Serviram-me vinho forte, e deste-me a velha e rezingona Lea, em vez da minha amada Raquel. O meu trabalho para ter Raquel foi recompensado com uma burla, pelo que exijo a devolução daquilo que te dei. E, muito embora tenha passado estes sete dias e sete noites com a tua filha mais velha, tal como era meu dever, não a considerarei minha mulher enquanto não me deres um dote em nome dela, e até que Raquel também seja minha.

E foi precisamente isso que Jacob disse, quando saiu da tenda.

- Tomarei a donzela Zilpah como dote de Lea tal como Bilhah será o dote de Raquel. Tomarei mais um décimo do teu rebanho para te livrar da tua desafortunada filha. E, para ser justo, trabalharei mais sete meses como preço a pagar por Lea. São estas as minhas condições.

Jacob fez este discurso perante todas as pessoas do acampamento, no dia em que ele e Lea emergiram da reclusão em que tinham estado. Lea manteve os olhos no chão enquanto o marido recitava as palavras que eles tinham ensaiado na noite anterior, nus, suando o suor um do outro. Ela fez de conta que chorava, enquanto torcia a boca para se impedir de rir.

Enquanto Jacob se pronunciava, Ada ia assentindo com a cabeça. Zilpah ficou branca, à menção do nome dela. Labão, que passara a semana bêbado em honra do casamento da filha, estava tão estupidificado que mal conseguiu cuspir um protesto antes de lançar as mãos ao ar amaldiçoando-os a todos, e de voltar à escuridão da sua tenda.

Raquel cuspiu aos pés de Jacob e afastou-se tempestuosamente. Algures, pelo final da semana nupcial, ela começara a arrepender-se do pânico que tinha sentido. Tinha perdido para sempre a posição de primeira esposa e, depois, tinha ouvido os sons vindos da tenda nupcial, risos e gritos de prazer abafados. Raquel tinha exposto a mágoa dela a Bilhah, que a levara a ver um par de cães a acasalar, e um par de ovelhas - nenhum dos quais parecia sofrer com o ato. Raquel foi à aldeia, e contou a Inna o que tinha acontecido. Inna contou-lhe histórias de paixão e prazer e levou Raquel à cabana dela, e mostrou-lhe como desvendar os segredos do próprio corpo.

Quando Jacob encontrou Raquel na árvore onde se costumavam encontrar, ela insultou-o sonoramente, chamando-lhe ladrão, degenerado, demônio e disse-lhe que ele era um porco que se metia em ovelhas, cabras e cães. Acusou-o de não a amar. Gritou que ele devia ter percebido que era Lea que lá estava, sob o véu, sentada ao lado dele na festa de casamento. Ele podia ter impedido tudo. Porque é que não o fizera? E chorou amargamente.

Quando as lágrimas se esgotaram, Jacob abraçou-a contra o peito, até parecer que ela estava a dormir, e disse-lhe que ela era a própria filha da Lua, luminosa, radiante e perfeita. Disse-lhe que o amor dele por ela era adoração, que só sentia que tinha um dever para com Lea, que era uma mera sombra da luz de Raquel. Que ela, apenas ela, Raquel, seria a noiva do coração dele, a primeira esposa, o primeiro amor. Que bela traição.

Aconteceu, assim, que, no dia antes da lua cheia seguinte, se deu uma segunda festa de casamento, ainda mais simples do que a primeira. E Raquel tomou o seu lugar na tenda com Jacob.

Pouco sei dessa semana, pois Raquel nunca falou do assunto. Ouviram-se lágrimas vindas da tenda de Jacob e Raquel, o que era bom sinal. Ninguém, por acaso, ouviu riso, também. Finda a semana, Raquel esgueirou-se até à tenda vermelha antes do amanhecer, onde dormiu até ao dia seguinte.

Na primeira lua nova a seguir à semana nupcial de Lea, não houve sangue entre as pernas dela, mas ela não deu a notícia a ninguém. No meio dos apressados preparativos para o casamento de Raquel, era suficientemente fácil esconder o fato de ela, na realidade, não precisar de mudar o lugar dela na palha e de não precisar de usar um trapo entre as pernas, quando andava.

Duas semanas depois de Raquel ter entrado na tenda nupcial com Jacob, Lea foi ter com a mãe e pôs a mão seca de Ada na sua jovem barriga. A mulher mais velha abraçou a filha. "Não pensei que viveria o suficiente para ver um neto", disse ela a Lea, sorrindo e chorando ao mesmo tempo. "Rapariga amada, filha minha.”

Lea disse que tinha mantido silêncio acerca da sua gravidez, para proteger a felicidade de Raquel. O estatuto de primeira esposa de Lea seria confirmado com o nascimento de um filho, e ela soube desde o início que estava a gerar um rapaz. Mas Raquel ficou furiosa, quando soube da gravidez de Lea. Pensou que a irmã não lhe tinha dito nada porque armara uma complicada intriga para a envergonhar, para assegurar o seu próprio papel enquanto primeira esposa e levar a que Jacob a abandonasse a ela.

As acusações de Raquel ressoavam até às bandas do poço, que ficava a uma boa distância da tenda onde ela gritava. Acusou Lea de ter pedido ajuda a Zilpah para lhe roubar o lugar que era dela por direito próprio. Insinuou que Lea não estava grávida de Jacob, mas de um pastor com lábio leporino e meio idiota que rondava o poço.

- Cabra ciumenta! - gritava Raquel. - Desastrada de mau olhado, o que tu querias era que Jacob te amasse tanto quanto me ama a mim. Sou eu quem ele ama! Sou eu o coração dele! Tu és uma égua parideira! Vaca patética!

Lea calou-se até Raquel ter acabado. Depois, calmamente, chamou burra à irmã e esbofeteou-a com força, primeiro numa face e, depois, na outra. Não disseram uma palavra uma à outra durante meses.

Suponho que Lea sempre tivera ciúmes de Raquel. E era verdade que Lea não cantara nem sorrira muito, durante a semana que Jacob passara com Raquel. De fato, ao longo dos anos, quando o meu pai levava a minha bela tia para a cama dele, a minha mãe mantinha a cabeça vergada sobre o trabalho dela, que foi crescendo na proporção do número dos filhos e do produto do trabalho de Jacob, donde resultava sempre mais lã para fiar.

Mas Lea não era ciumenta da mesma maneira que as raparigas parvas das canções de amor, que morrem de saudade. Não havia bílis na tristeza de Lea, quando Jacob se deitava com as outras esposas dele. Aliás, ela deliciava-se com todos os filhos dele, e amamentou a maior parte deles, em vários momentos. Podia contar com o chamamento de Jacob uma ou duas vezes por mês, para falarem acerca do rebanho e para uma taça extra de cerveja doce.       Nessas noites, sabia que dormiriam juntos, ela com os braços em volta da cintura dele, e que, na manhã seguinte, a família se banharia no sorriso dela e teria o prazer de comer um bom petisco.

Mas estou a adiantar-me na minha história. Pois levou anos até que Lea e Raquel aprendessem, finalmente, a partilhar um marido e, a princípio, elas eram como cães que rondavam, rosnavam e retinham as distâncias, enquanto exploravam a fronteira entre ambas.

Mesmo assim, a principio, pareceu que uma espécie de paridade iria sobrevir, porque na lua nova seguinte também Raquel descobriu que não precisava dos trapos e da palha. Ambas as irmãs estavam grávidas. A colheita de cevada foi enorme. Os pastores davam palmadas nas costas a Jacob e diziam piadas acerca da potência dele. Os deuses sorriam.

Mas, justamente quando a barriga de Lea começou a inflar a túnica dela, Raquel começou a sangrar. Uma manhã cedo, quase três meses depois do casamento, ela acordou todo o acampamento aos gritos. Lea e Zilpah acorreram e foram encontrá-la a chorar convulsivamente, embrulhada num cobertor ensangüentado. Ninguém a conseguia reconfortar. Não permitia que Ada se sentasse com ela. Não permitia que Jacob a visse. Durante uma semana, agachou-se a um canto da tenda vermelha, onde comeu pouco e dormiu um sono febril e sem sonhos.

Lea perdoou a Raquel as horríveis palavras dela e compadeceu-se. Experimentou tentá-la com os seus doces favoritos, mas Raquel cuspia na comida e em Lea, que se fazia maior e mais rotunda de dia para dia, e mais bonita do que alguma vez fora.

- Foi tão injusto. Tão triste - disse Bilhah, que finalmente convenceu Raquel a comer umas azeitonas e a persuadiu a sair do cobertor rígido e manchado de sangue. Foi Bilhah que caminhou até à aldeia onde Inna vivia, para ver se a parteira tinha alguma poção que arrancasse a irmã daquela espécie de morte em que se encontrava. A própria Inna voltou com ela, e passou horas com Raquel, lavando-a, dando-lhe a comer bocadinhos de pão molhados em mel, persuadindo-a a beber golinhos de hidromel aromático vermelho. Inna murmurou palavras secretas de reconforto e de esperança ao ouvido de Raquel. Disse-lhe que teria grande dificuldade em engravidar, mas predisse que, um dia, teria filhos lindos, luminosos como estrelas e guardiões da sua memória. Inna prometeu diligenciar toda a sua técnica, para que Raquel concebesse outra vez, mas só se ela fizesse tudo o que a parteira lhe dissesse para fazer.

Foi por isso que, quando Lea procurou a bênção da sua irmã no seu sexto mês, Raquel pôs as mãos na barriga de Lea e acariciou a vida que nela habitava. Raquel chorou nos braços da irmã, beijou as mãos de Ada e pediu a Zilpah que lhe escovasse o cabelo. Levou Bilhah para um canto e agradeceu-lhe por ter ido buscar Inna. Foi a primeira vez que Raquel agradeceu a alguém por ter feito alguma coisa.

Na manhã seguinte, Lea e Raquel saíram, lado a lado, da escuridão da tenda vermelha, de volta para a luz do mundo, onde estava Jacob. Raquel dizia que ele chorou ao vê-las juntas, Lea dizia que ele tinha sorrido.

"O primeiro parto de Lea não foi especialmente difícil", disse Raquel. Quando me contou a história da chegada de Ruben, a minha tia já tinha visto nascer centenas de bebês. E, muito embora Raquel se esquecesse de onde tinha posto o fuso assim que o pousava, lembrava-se de todos os pormenores de cada parto que tinha testemunhado.

Ela disse-me que, embora o trabalho de parto de Lea tivesse começado antes do pôr do Sol e não tivesse acabado antes do dia seguinte, o caminho fora sempre a direito. A cabeça do bebê estava virada para baixo e as ancas de Lea eram suficientemente largas. Apesar disso, o calor daquela noite de Verão era sufocante, e nunca nenhuma das irmãs assistira a um parto. Na verdade, o sofrimento maior de Lea foi o medo manifestado pelas irmãs.

O parto começou lentamente, durante a tarde, com dores breves que lhe espicaçavam as costas. Ela sorria, após cada pequeno ataque, contente por aquilo ter começado, ansiosa por ser admitida na irmandade das mães. Confiante de que o seu corpo, tão largo e grande, seria capaz de cumprir o seu propósito, ela cantou, nos primeiros momentos. Canções infantis, baladas, canções de embalar.

Mas, à medida que a noite foi passando, que a Lua se levantou no céu e depois se começou a afundar, deixou de haver canções e sorrisos. Cada contração apoderava-se de Lea, torcia-a, como um pedaço de pano, e deixava-a a arfar e temente da dor seguinte. Ada segurava-lhe a mão. Zilpah murmurava orações a Anath.

- Eu não fui de qualquer utilidade - recordava Raquel. - Vagueei para dentro e para fora da tenda, roída de ciúme. Mas, à medida que as horas passavam, cada uma mais difícil do que a outra, a minha inveja diminuiu e fiquei horrorizada com a dor que via em Lea, a forte, o touro invencível, que estava no chão a tremer e com os olhos muito abertos. Aterrorizou-me a idéia de me ver no lugar dela, de poder ainda vir a estar no lugar dela. E tenho a certeza de que os mesmos pensamentos fizeram Zilpah e Bilhah tremer e ficar em silêncio, enquanto a nossa irmã estava em trabalho de parto.

Bilhah apercebeu-se, por fim, de que a ajuda de Ada não bastava e foi buscar Inna, que chegou ao raiar do dia. Por essa altura, Lea gania como um cão. Quando Inna chegou, pôs as mãos na barriga de Lea e depois apalpou-a por dentro. Fê-la deitar-se de lado e massageou-lhe as costas e as coxas com um óleo que cheirava a menta. Inna sorriu a Lea e disse:

- O bebê está quase à porta.

E, enquanto tirava os instrumentos do estojo, pediu às mulheres que se juntassem ali à volta, para ajudarem a irmã a trazer o bebê ao mundo.

- Foi a primeira vez que vi os instrumentos de parteira - disse Raquel. - Faca, o cordel, canas para sucção, ânforas de cominhos, hissopo e óleo de menta. Inna pôs os seus dois tijolos no chão e disse a Lea que daí a nada teria de apoiar-se neles. Pôs-me a mim e a Zilpah de cada um dos lados para dar apoio a Lea, quando esta se agachasse sobre uma cama de palha limpa. Zilpah e eu fizemos de cadeira, passando-lhe os braços em volta dos ombros e por baixo das coxas.

- Sua sortuda - disse Inna a Lea, que por aquela altura não se sentia minimamente sortuda. - Olha para o trono real de irmãs que tens.

Inna falava sem parar, derrubando o silêncio amedrontado que se amuralhara à volta de Lea. Inna fez perguntas a Ada acerca das dores dela e arreliou Zilpah por causa do ninho emaranhado que era o cabelo dela. Mas quando vinha uma contração, Inna só tinha palavras para Lea. Elogiava-a, sossegava-a, dizia-lhe "bem, bem, bem, minha menina. Bem, bem, bem", arrulhando como um bando de rolinhas.

Inna começou a massagear a pele em volta do rabo de Lea, que tinha inchado até à deformidade. Massageou-a com movimentos cada vez mais fortes, à medida que as dores se tornavam mais próximas. Depois pôs as mãos de Raquel na barriga de Lea e mostrou-lhe como devia empurrar para baixo, suavemente, mas com firmeza, quando fosse chegado o momento. Disse a Lea que não devia empurrar, que não devia empurrar, até que Lea começou a berrar palavrões.

- Vi aquele bebê a vir ao mundo, como nunca tinha visto nada na minha vida - contou Raquel. - Claramente. Sem um pensamento para mim mesma. Pensei na minha própria mãe, que tinha visto aquilo tantas vezes, cujas mãos tinham guiado tantas almas para este mundo, mas que tinha morrido ao dar-me vida. Mas não tinha tempo para ter pena de mim própria, porque, de repente, uma estranha bolha vermelha emergiu do meio das pernas de Lea e, depois, quase de imediato, um dilúvio de água ensangüentada correu pelas coxas dela abaixo.

Lea fez força, com a cara vermelha, os olhos - azul e verde - esbugalhados, brilhantes. As pernas tremiam-lhe, como se a qualquer momento fossem quebrar, e foi preciso toda a força de Zilpah e de Raquel para a segurar. Então, Inna disse a Bilhah que tomasse o lugar de Raquel, para que esta pudesse apanhar o bebê, talvez o sangue do parto fizesse com que o ventre de Raquel se enchesse outra vez, também. E, assim, Raquel banhou-se no rio da vida.

Lea rugiu, e deu à luz um filho. O menino era tão grande, que foi preciso que Inna e Raquel o apanhassem, e começou a chorar mesmo antes de lhe levantarem a cabeça. Não foi necessário usar as canas para desimpedir o nariz e a boca do bebê.

Todas riram, com lágrimas a correr-lhes pelas faces, arfantes, por causa do esforço do parto de Lea.

Passaram o bebê em volta da tenda, limpando-o e beijando-o, elogiando-lhe os membros, o tronco, a cabeça, o pequeno sexo. Falavam todas ao mesmo tempo, com algazarra inaudita. Jacob gritou às mulheres que lhe contassem as noticias.

- És pai - disse Inna. - Vai-te embora. Em breve te mandaremos chamar, e verás o teu filho, o teu primogênito, quando tivermos acabado. - Depois ouviram Jacob berrar de alegria e gritar as noticias a Labão e Ruti, e aos cães dele, que ladravam, e às nuvens no céu.

A placenta caiu de dentro de Lea, que estava meia adormecida de exaustão. Inna fê-la beber e comer antes de a deixar descansar e pôs o bebê no peito de Lea, onde ele mamou. Mãe e filho dormiram, as irmãs cobriram-nos. Ada ficou a vê-los, com um sorriso de avó que lhe permaneceu na cara mesmo depois de adormecer. Inna embrulhou a placenta num trapo velho, enterrando-a nessa noite, no canto oriental da hamah, tal como se deve fazer à placenta de um filho primogênito.

Horas mais tarde, quando Lea acordou, deu ao bebê o nome de Ruben. O nome era uma espécie de grito alegre, um nome que, justamente, desafiava os espíritos malignos a fazerem-lhe mal. Mas Lea não tinha medos em relação ao seu robusto rapaz. Jacob foi chamado e acolheu o filho com grande ternura.

Quando Jacob foi-se embora depois do primeiro encontro com o filho, a felicidade dele pareceu evaporar-se. Curvou a cabeça até ao peito e pôs-se a matutar no que era preciso fazer a seguir. De acordo com o costume da família, o rapaz devia ser circuncidado, e não havia ninguém que o pudesse fazer senão o próprio Jacob. Jacob não deixaria Labão tocar no bebê, quanto mais com uma faca. Não conhecia homem algum na aldeia ou nos montes mais próximos que soubesse fazer aquilo, menos ainda quem percebesse por que razão faria ele aquilo ao filho primogênito. Teria de ser ele.

Jacob tinha visto o pai a cortar os prepúcios dos bebês filhos dos homens que trabalhavam para ele e não tinha desviado o olhar nem se tinha retraído durante toda a execução. Mas nunca tinha feito tal coisa ele próprio, nem, percebia-o agora, tinha observado com suficiente atenção o modo como o pai fazia o curativo da ferida. E, é claro, nunca tinha gostado tanto de um bebê na vida dele.

Mas como aquilo tinha que ser feito, fosse como fosse, ele iniciou os preparativos, que Zilpah observou, e contou a Lea, que estava doente com a idéia de ver o seu bebê, o seu prêmio, ser posto no altar da bamah para ser mutilado. Pois era dessa maneira que ela encarava aquilo. A aba de pele no pênis não significava nada para ela. Na realidade, agora que vira o aspecto de um homem circuncidado, preferia o aspecto do sexo de Jacob exposto, limpo, mesmo afoito -, à pequena mortalha que envolvia o membro do filho, fonte de muitas piadas estúpidas e ordinárias, na tenda vermelha. Uma vez, Lea ameaçara pegar num pedaço de madeira queimada e desenhar uma cara no sexo de Ruben, para que, quando Jacob puxasse para trás o prepúcio, deixasse cair a faca de espanto. As mulheres rolavam nas esteiras, agarradas a si próprias, rindo do tenro equipamento que os homens carregavam entre as pernas.

Mas, após alguns dias, as piadas pararam e Lea chorou tanto e durante tanto tempo por causa do rapaz que trazia ao peito, que os caracóis escuros da cabeça dele ficaram salgados de lágrimas. Mesmo assim, não objetou ao costume do pai do marido dela. Jacob tinha sobrevivido a isso, dizia ela repetidamente às irmãs, sobretudo para se tranqüilizar a si própria. Isaac tinha sido circuncidado, e antes dele Abraão. No entanto, a idéia de o bebê dela ir sentir dor e ficar em perigo fazia a jovem mãe tremer, e o fato de ter percebido que Jacob não tinha qualquer experiência daquela tarefa pô-la num frenesi de preocupação.

Zilpah observava, vendo igualmente que Jacob não estava à vontade com o ritual. Todas as noites ele se sentava na bamah com a faca dele, e afiava-a no altar. Do pôr do Sol até ao nascer da Lua, durante três noites seguidas, até que o fio estivesse perfeito, ele afiou e poliu a lâmina, até que ela cortasse um cabelo ao mais leve toque. Jacob pediu a Ada que fizesse ligaduras pequenas, tecidas de lã nova, tirada da primeira tosquia do cordeiro primogênito daquela temporada. Mandou perguntar a Lea se ainda tinha algum dos ungüentos da parteira para ajudar à cicatrização.

Na sétima noite após o nascimento de Ruben, Jacob sentou-se, observando silenciosamente o céu até o Sol raiar. Derramou libações e cantou ao deus dos pais dele. Derramou libações sobre a asherah, também, e abriu as mãos perante ela. Zilpah observou tudo aquilo e depois deixou de se referir a Jacob como "aquele rapaz," começou a chamá-lo pelo nome.

Na madrugada do oitavo dia após o nascimento do filho, Jacob matou um cabrito e queimou-o no altar. Lavou as mãos e esfregou-as com palha, até que ficassem vermelhas, como se tivesse estado a mexer num cadáver. E, então, caminhou até à tenda vermelha e pediu às mulheres que lhe dessem Ruben, o filho de Lea.

Chamou Labão para que o seguisse e os dois homens caminharam sozinhos até à bamah, onde Jacob despiu o bebê, cujos olhos estavam abertos, e o pôs no altar. Jacob deu um alto e um longo suspiro, enquanto desnudava o rapaz, depois fez um sinal a Labão para que ele segurasse as pernas do bebê. Com isso, Ruben começou a gritar. Jacob tomou a faca nas mãos e franziu o sobrolho.

- Tinha lágrimas nos olhos - disse Zilpah. - Tomou o sexo do bebê nas mãos e puxou a pele para cima com firmeza, segurando-a entre os dois dedos longos da mão esquerda. Com a mão direita, cortou, com um golpe rápido e seguro, como se fosse um velho hábito dele, como se soubesse o que estava a fazer - disse ela.

Ruben uivou e Jacob deixou cair a faca. Rapidamente, revestiu a ferida com a ligadura de Ada e embrulhou mal o bebê, como fazem os homens. Levou o filho de volta às mulheres, murmurando ao ouvido perfeito de Ruben palavras que mais ninguém podia ouvir.

A tenda vermelha, que tinha estado em silêncio durante a ausência do bebê, explodiu em atividade. Lea fez um curativo à ferida com o óleo de cominhos que Inna tinha deixado para as feridas de parto. Ada embrulhou bem o bebê e devolveu-o à mãe, cujo seio ele tomou com alívio, adormecendo de seguida.

O bebê sarou rapidamente, tal como Lea, durante o seu primeiro mês enquanto jovem mãe, dentro do abrigo da tenda vermelha. Ela foi mimada pelas irmãs, que mal a deixavam pôr os pés no chão. Jacob passava por lá todos os dias, levando aves acabadas de depenar para as refeições dela. Através da parede peluda da tenda, eles davam um ao outro as noticias dos seus dias, com uma ternura que aquecia quem os ouvisse.

Ada esteve felicíssima durante todo aquele mês e viu a sua filha sair da tenda vermelha recuperada e descansada. Ficou deliciada com os primeiros bocejos e os primeiros espirros do neto, foi a primeira a notar que Ruben levantava a cabeça. Segurava no bebê sempre que Lea o pousasse e a alegria de o ter tirou-lhe anos da cara e a dor dos ossos. Mas a doença que lhe tinha gasto a força não podia ser curada sequer pela maior das alegrias. E, uma manhã, não se levantou do seu cobertor.

Ada fora a única mãe que as irmãs tinham conhecido, puseram-lhe cinzas nos cabelos e prestaram-lhe as honras devidas. Zilpah escovou-lhe o cabelo até o deixar sedoso. Raquel vestiu-a na melhor túnica que possuíam, Bilhah ataviou-lhe os secos punhos, pescoço e dedos com os poucos anéis e pulseiras que Ada possuía. Juntas, cruzaram-lhe os braços e dobraram-lhe os joelhos, para que parecesse uma criança adormecida. Sussurraram-lhe desejos aos ouvidos, para que os levasse para o outro lado da luz, onde os espíritos dos antepassados dela receberiam a sua alma, que podia, agora, descansar no pó da terra e não conhecer mais sofrimento.

Embrulharam-na numa mortalha de lã virgem, debruada a ervas de cheiro doce, e enterraram-na no meio das raízes da grande árvore onde as mulheres freqüentemente se juntavam para ver a Lua nascer.

Jacob abriu a cova, enquanto Labão o observava, com cinzas nos cabelos, em honra da primeira esposa. Com Ada, Labão enterrou a juventude, a força e, talvez, um melhor eu esquecido. Ele atirou o primeiro punhado de terra, depois virou-se e foi-se embora, antes que as quatro irmãs acabassem de aconchegar Ada com terra, flores e grandes lamentações.

Dois meses depois de Ada morrer, Bilhah entrou na tenda vermelha. Com o desaparecimento de Ada e sem nenhuma outra anciã para tomar o lugar dela, Lea, que amamentava o filho, tornou-se na mãe que a acolheu. Cumprimentou a acólita e ensinou-lhe a gerir o fluxo de sangue, a alegrar-se com a escuridão da Lua, a juntar o ciclo do corpo dela à repetição da vida.

A roda tinha girado. E, muito embora Labão mantivesse o título de chefe do clã, iniciara-se o tempo de Jacob como patriarca. Também as minhas mães começaram a numerar os dias delas com a sabedoria das mulheres.

Muitos bons anos se seguiram. As chuvas vieram na estação certa, a água do poço era doce e abundante. A terra foi poupada à pestilência, a paz reinou entre as tribos circundantes. Os rebanhos prosperaram de tal maneira que Jacob já não conseguia fazer tudo sozinho, e portanto contratou Shibtu, o terceiro filho de um pastor local, como trabalhador, por sete anos. Depois contratou Nomir, que trouxe uma esposa, Zibatu, e houve uma cara nova na tenda vermelha.

A boa sorte e a crescente fortuna da família não eram resultado exclusivo das capacidades de Jacob, nem tudo podia ser atribuído à vontade dos deuses. O trabalho das minhas mães era responsável por grande parte dessas coisas. Conquanto ovelhas e cabras sejam sinal de riqueza, o seu valor só é plenamente concretizado no casamento das mulheres.       Os queijos de Lea nunca azedavam, e quando o bolor atacava o trigo ou o milho-miúdo, ela fazia com que as espigas afetadas fossem limpas para proteger o resto da colheita. Zilpah e Bilhah teciam a lã dos crescentes rebanhos de Jacob em padrões de preto, branco e açafrão que atraíam os mercadores e traziam riqueza acrescida.

Foram também tempos de grande fertilidade entre as mulheres. Muitos bebês nasceram, a maior parte deles sobreviveu. Lea usava o manto da grande mãe, quase sempre grávida ou a amamentar recém-nascidos. Dois anos depois do nascimento de Ruben, deu à luz um segundo filho, Simeão. Levi nasceu apenas dezoito meses mais tarde. Lea teve um aborto depois disso, mas um ano mais tarde varreu a mágoa com a alegria do quarto filho, Judá.

Estes irmãos, de idades tão próximas, formavam uma tribo por si sós. Ruben, sempre o mais pesado e alto, era amável com os mais novos. Simeão era um demônio - bonito e presumido, impertinente e mal-educado -, mas perdoava-se tudo por causa das covinhas que ele tinha. Levi era um ratinho dócil e o escravo de Simeão. Judá era um rapaz calado, terno para com toda a gente. Tinha a tez muito mais clara do que os irmãos, e Jacob disse a Lea que ele se parecia com o próprio irmão de Jacob, Esaú.

Enquanto Lea estava grávida de Simeão, também a Ruti de Labão carregava grande barriga, acabando por dar à luz um rapaz, Kemuel, ao qual se seguiu, um ano mais tarde, Beor. O velho adorava os seus filhos de sobrancelhas salientes, que, a principio, brincavam às lutas com os filhos de Lea, mas depois inventaram uma linguagem secreta que os trancou num pequeno mundo à parte. Labão pensava que aquilo demonstrava a superioridade dos seus filhos, mas o resto da família via aquilo como prova do incorreto desenvolvimento que era a natureza deles e das limitadas perspectivas que tinham.

A algazarra feliz das crianças cercava-os a todos, mas a bênção de gerar não era igualitariamente distribuída. Raquel abortava uma e outra vez. Depois de o dilúvio sangrento lhe ter iludido as esperanças pela quarta vez, caiu doente com uma febre que a enlouqueceu durante três dias e noites. Essa febre assustou tanto as demais irmãs, que elas insistiram em que parasse de tentar conceber e a persuadiram a beber a infusão de semente de funcho que sela o útero, pelo menos até ter recuperado peso e força. Raquel, exausta, concordou.

Mas ela não conseguia descansar durante muito tempo, no meio do clamor dos filhos das irmãs. Embora já não odiasse Lea tão intensamente como no passado, Raquel não conseguia sorrir à irmã, vendo que o seu próprio corpo continuava a não dar fruto. Ausentava-se freqüentemente das tendas da família, procurando os conselhos de Inna, que tinha uma aparentemente infinita lista de contorções e estratégias para lhe abrir o ventre.

Raquel experimentou cada remédio, cada poção, cada rumor de cura. Só usava vermelho e amarelo - as cores do sangue da vida e o talismã para uma menstruação saudável. Dormia com a barriga encostada a árvores que se dizia serem consagradas a deusas locais. Onde quer que visse água a correr, deitava-se nela, esperando que a vida do rio inspirasse vida dentro dela. Engoliu uma tintura feita de pólen de abelhas até que a língua se lhe tingiu de amarelo e a urina jorrar cor de açafrão. Comia cobra - o animal que, ano após ano, se dá à luz a si próprio.

É claro que quando alguém, adulto ou criança, encontrava uma mandrágora - a raiz que se parece tanto com um marido excitado -, a levava a Raquel e a passava para a mão dela com um piscar de olho e desejos de bons resultados: Ruben encontrou, uma vez, uma raiz particularmente grande, e levou-a à tia com o orgulho de um caçador de leões. Mas as mandrágoras não fizeram nada pelo ventre de Raquel.

Durante a sua procura de uma criança sua, Raquel deu assistência a Inna e tornou-se aprendiz. Aprendeu o que fazer quando o bebê se apresenta de pés para baixo, e o que fazer quando o bebê vem demasiado depressa e as carnes da mãe se rompem e ficam em chaga. Aprendeu o que fazer para que a mãe de um nado morto não morresse de desespero. E como, quando uma mãe morresse, abrir o ventre desta e salvar a criança que está lá dentro.

Raquel trouxe às irmãs histórias que as faziam chorar, e suspirar, e pensar. Histórias de uma mãe que morreu, e de um pai que vendeu a criança antes de o corpo da mãe esfriar. De um homem que desmaiou com a morte da esposa amada. De uma mulher que chorou sangue pela sua criança morta. Raquel falava de poções que operavam milagres numa mulher e que pareciam matar outra, de um monstro inócuo que tinha sido deixado a morrer ao ar da noite, de sangue que tinha bons resultados, e de sangue que curava.

Também havia histórias triunfantes, de gêmeos saudáveis, de um bebê nascido azul, com o cordão umbilical a envolver-lhe o pescoço, trazido de volta à vida por Inna, que sugara a vida das narinas do pequeno com uma cana do rio. Por vezes, Raquel fazia as irmãs rir, com imitações de mulheres que rugiam como leões, e de outras que sustinham a respiração e desmaiavam, para não fazerem barulho.

Raquel tornou-se o elo entre elas e o mundo maior. Com as histórias de vida e de morte, Raquel trazia também ervas novas para temperar vegetais, receitas de ungüentos para curar as feridas e remédios cada vez mais estranhos para a sua infertilidade, sendo que todos falhavam.

Muitas vezes, Raquel voltava com um bracelete, uma tigela, ou um pedaço de lã para dobar - provas de gratidão pela generosidade dela no leito dos partos. A beldade arrogante transformava-se numa terna curandeira ao serviço das mães. Chorava em cada parto, nos felizes como naqueles que acabavam em gritos agudos e em queixumes. Chorou com Ruti, e até com Lea.

Quando chegou o momento de Zilpah se pôr sobre os tijolos da parteira, foi Raquel sozinha - sem Inna -, quem conduziu a irmã através da provação, quem desatou o cordel, e quem corou de prazer ao ver o "seu" primeiro bebê, que lhe conferia o titulo de parteira. Lea cozinhou-lhe um banquete, nessa noite, e Zilpah derramou libações de sal e de vinho diante ela, em reconhecimento do seu novo estatuto de serva das mulheres em nome de Anath, a curandeira.

Com o correr do tempo, mais trabalhadores vieram viver ali e trabalhar para Jacob, com eles, vinham mulheres, que davam à luz crianças, e que perdiam crianças. Zibatu, deu à luz Nasi, mas depois perdeu a sua segunda criança, uma menina que veio dois meses antes do tempo. Iltani deu à luz duas gêmeas que prosperaram, embora tenha morrido de febre antes que as filhas pudessem conhecer a cara da mãe. Lamassi deu à luz um filho, Zinri, mas a filha dela foi deixada fora da tenda para morrer, porque tinha lábio leporino.

Na tenda vermelha, nós sabíamos que a morte era a sombra do parto, o preço que as mulheres pagam pela honra de dar vida. Portanto, a nossa dor era comedida.

Após o nascimento de Judá, Lea ficou cansada. Ela, que fora sempre a primeira a levantar-se e a última a retirar-se, que parecia mais satisfeita quando fazia duas coisas ao mesmo tempo (mexer uma panela enquanto cuidava de uma criança ou moer cereais enquanto supervisionava a fiação), começou a vacilar, à tarde, e a ver sombras onde elas não existiam. Inna aconselhou-a a não engravidar, por uns tempos, e trouxe-lhe sementes de funcho e mostrou-lhe como fazer um pessário de cera de abelhas.

Regozijava-se com a robustez dos filhos, parava todos os dias para os acariciar e para participar no jogo de pedras lisas deles. Fazia bolo com mel, tal como era costume, e planeou um novo horto em que as ervas atrairiam mais abelhas para as colméias próximas. Dormia bem à noite e levantava-se em paz de manhã.

Lea recordava os seus anos de repouso como um tempo de grande satisfação. Tinha a inteireza de cada dia nas mãos, enquanto enumerava a doçura das crianças, o prazer do trabalho. Deu graças à existência das sementes de funcho e ao bom senso de as ter usado. Os seus bolos excederam-se em doçura naquele ano, e ela respondia ao corpo de Jacob com mais ardor do que nunca.

Quando falava daquele tempo, Lea dizia: "O sabor da gratidão é como o néctar da colméia.”

Passados dois anos, ela pôs de lado as sementes de funcho e o pessário, e concebeu outro filho, que deu à luz com facilidade e a quem denominou Zebulon, que para Lea significava "exaltar" - porque, com o nascimento dele, Lea exaltava a capacidade do corpo dela de se curar e de dar vida mais uma vez. Ela adorava o novo bebê quase tanto quanto o seu primogênito.

E quando deu o filho a Jacob para a circuncisão, sorriu para o marido, e ele beijou-lhe as mãos.

 

Raquel foi caindo na modorra. Deixou de dar assistência a Inna e não saía debaixo da manta se Lea não a fosse abanar e insistir para que ajudasse as outras mulheres. Só assim Raquel fiava ou tecia ou trabalhava no horto, mas sem palavras nem sorriso. Jacob não conseguia tirá-la da tristeza. Repelido por aquele silêncio inabalável, desistiu de apelar à sua companhia durante a noite. A mágoa dela tornou-se um vulto tão denso, que até os bebês deixaram de procurar a sua tia bonita. Raquel ficou sozinha na sua própria noite negra.

Vendo o desespero de Raquel, Bilhah foi ter com ela, encontrou-a agachada debaixo da manta. A irmã mais nova deitou-se ao lado de Raquel e abraçou-a com doçura materna.

- Deixa-me ir ter com Jacob por ti - disse Bilhah num sussurro. - Deixa-me ter um filho nos teus joelhos. Deixa-me ser o teu ventre e os teus seios. Deixa-me sangrar o teu sangue e chorar as tuas lágrimas. Deixa-me ser o teu canal até que a tua vez chegue, pois a tua vez ainda chegará. Deixa-me ser a tua esperança, Raquel. Não te decepcionarei.

Raquel não respondeu. Não disse nada durante muito tempo. Bilhah perguntou-se se a irmã dormira enquanto ela falava, ou se a oferta a teria ofendido. Bilhah conta que esperou tanto tempo por uma resposta, que chegou a duvidar de que as palavras formuladas no seu coração alguma vez lhe tivessem passado pelos lábios.

Mas Bilhah, habituada ao silêncio, esperou. Por fim, Raquel voltou-se e beijou-a, apertando a pequena mulher contra o corpo, reconfortando-se no calor dela.

- E as lágrimas que ela chorou não eram amargas, nem mesmo salgadas - disse Bilhah -, mas doces, como água da chuva.

Bilhah sabia que, muito embora a proposta apresentada a Raquel fosse feita de amor, esse oferecimento também servia os desejos do seu coração. Ela compreendia o desejo de Raquel, porque também era esse o seu desejo. Já estava bem dentro da idade fértil. Os sons do amor, no pequeno mundo das nossas tendas, acordavam-na de noite, deixando-a abalada e insone. Assistir aos partos das irmãs provocara-lhe o desejo de participar desse grande mistério da maternidade que, pago com dor, é retribuído com o brilhante sorriso e a pele sedosa de uma criança. Doíam-lhe os seios ansiosos de amamentar.

A honesta Bilhah revelou cada canto do seu coração a Raquel, sobejamente conhecedora do vazio que a sua irmã descrevia. Nos braços uma da outra choraram, e depois adormeceram. Na manhã seguinte, Raquel foi ter com Jacob e pediu-lhe que ele fizesse um filho a Bilhah em nome dela. Aquilo não era um pedido, pois Raquel tinha o direito de ter um filho de Jacob.

Não era necessário procurar ou obter outra permissão. Jacob concordou. (Porque não haveria de concordar? Lea amamentava o mais recente filho dela, Raquel virara-lhe as costas havia meses.) Portanto, naquela noite, na lua cheia de um mês frio, Bilhah foi ter com Jacob e deixou-o na manhã seguinte, já não donzela, embora não fosse noiva.

Não houve henna para as mãos de Bilhah, nem banquete, nem presentes. Não houve sete dias para aprender os segredos do corpo de Jacob ou o significado das suas palavras. Quando o Sol nasceu, no dia seguinte, Jacob voltou à supervisão dos rebanhos e Bilhah foi ter com Raquel e contou todos os pormenores da sua noite à irmã. Anos mais tarde, contou a mim.

Ela chorou, quando entrou na tenda de Jacob, e ficou surpreendida com as suas próprias lágrimas. Queria ser iniciada no mistério do sexo, aprender os velhos hábitos de homens e mulheres. Mas sentia-se só, ao entrar na tenda do marido sem companhia, sem irmãs, ou cerimônia, ou celebração. Não tivera direito aos rituais de uma noiva com dote e, no entanto, sentia falta deles.

- Jacob foi amável - lembrou Bilhah. - Pensou que as minhas lágrimas eram sinal de medo, por isso abraçou-me como a uma criança, e deu-me um bracelete de lã.

Não era nada. Não era um metal precioso, ou marfim, ou qualquer coisa de valor. Só uma trança feita de restos. O tipo de coisa que os pastores fazem, sem pensar, sentados debaixo de uma árvore quando o Sol vai a pino, de pedaços de lá que ficam presos em sarças ou que são soprados para o chão. Jacob tinha rolado os fios castanhos, pretos e creme contra a coxa, até ter o suficiente para fazer uma trança.

Ele tirou aquela coisa simples do braço e cortou-a para se ajustar ao dela. Um triste e pequeno nada como preço a pagar pela noiva, mas ela usou-a durante o seu primeiro ano enquanto terceira esposa de Jacob, até que, um dia, o bracelete se desfez e ela o perdeu sem sequer saber onde. Ao pensar no seu bracelete, Bilhah sorriu, e, com o dedo indicador, recordou o lugar onde um pedaço de cordel a tinha atado a Jacob.

- Ele reconfortou-me com aquele presente pobre, sem uma palavra, e eu parei de chorar. Sorri para ele. E depois, oh, fui tão ousada, que mal me pude reconhecer a mim mesma. Pus a minha mão no sexo dele, e coloquei a mão dele no meu sexo. Ele levantou-me a saia e massageou-me a barriga e os seios. Enterrou a cara entre as minhas coxas, e eu quase dei uma gargalhada com o choque do prazer. Quando ele entrou em mim, foi como se eu tivesse caído numa poça de água, foi como se a Lua cantasse o meu nome. Foi tudo aquilo que eu esperava que fosse. Dormi nos longos braços de Jacob, embalada como uma criança pela primeira vez, desde que a minha mãe me segurara - que o nome dela esteja inscrito nas estrelas. Só por aquela noite, amei Jacob.

Bilhah contou tudo isto a Raquel. Não foi fácil para a minha bela tia ouvi-lo, mas ela insistiu com Bilhah para que ela não deixasse nada por contar. E a irmã mais nova repetiu a história tantas vezes quantas Raquel pediu para ouvir, até que a memória da consumação de Bilhah se tornou a memória da própria Raquel, e o prazer e a gratidão da irmã se entranharam nos sentimentos que ela nutria por Jacob.

No dia seguinte a Jacob ter conhecido Bilhah pela primeira vez, ele foi chamado para longe, para fazer negócio com um mercador de Carchemish, que ficava a dois dias de viagem. Bilhah sofreu com esta ausência, pois ansiava por se deitar com ele outra vez. Raquel sofreu, ao perceber que Jacob tinha encontrado a felicidade com Bilhah. Lea sofreu, por se sentir muito distante das vidas das irmãs. Zilpah observava tudo, dizia pouco e suspirava muito.

Quando voltou, Jacob trouxe a Raquel um colar de contas e passou a sua primeira noite com ela. Lea ainda estava a amamentar, pelo que Jacob chamou Bilhah com freqüência, nos meses seguintes, em especial quando Raquel se ausentava para assistir a um parto.

Jacob e a terceira esposa falavam muito pouco quando estavam juntos, mas os seus corpos juntavam-se em posturas assumidas francas, que lhes proporcionavam quer prazer, quer libertação.

- Jacob dizia que eu lhe dava paz - contou Bilhah com grande satisfação.

Bilhah concebeu. Raquel recebeu a notícia com beijos e regozijou-se com a irmã. à medida que os meses passavam e a barriga dela crescia, Raquel afagava-a e pedia-lhe que desse um nome a cada sensação, a cada dor aguda, a cada estado de espírito. Sabia Bilhah em que momento se enraizara a vida? O cansaço da gravidez fazia-se sentir nas pernas ou nos olhos? Ela tinha desejos de coisas salgadas ou de coisas doces?

As duas partilharam uma manta, durante a gravidez de Bilhah. A mulher estéril sentiu o lento inchar da barriga da irmã e o crescente peso dos seios dela. Viu a carne a esticar em linhas claras marcadas na barriga e nas coxas e notou a cor cambiante dos mamilos. À medida que a criança crescia em Bilhah, deixando-a descorada e sem energia, Raquel floria. Tornou-se suave e redonda como Bilhah, e as covas que a mágoa lhe tinha escavado na cara desapareceram. Ria-se e brincava com os sobrinhos e com as outras crianças do acampamento. Cozia pão e fazia queijo sem que lhe pedissem. Vivia tão profundamente na gravidez de Bilhah, que, durante o nono mês, lhe começaram a inchar os tornozelos, quando chegou o momento de o bebê vir ao mundo, Raquel chamou Inna, para que esta fosse a parteira, de modo a que só ela pudesse estar por trás de Bilhah durante o trabalho de parto, para a abraçar e sofrer com ela.

Felizmente para Bilhah, o parto foi tão simples e rápido quanto a gravidez tinha sido difícil. Após uma manhã de respiração ofegante e de gemidos, ela colocou-se em cima dos tijolos, enquanto Raquel se agachava em torno dela. Os cotovelos de Bilhah apoiaram-se nos joelhos abertos de Raquel e foi como se as duas mulheres partilhassem o mesmo ventre, durante a horrível hora em que o bebê percorreu o seu caminho para fora. As caras de ambas ficaram vermelhas de esforço, e quando a cabeça da criança apareceu gritaram a uma só voz. Inna disse que era como se uma mulher com duas cabeças tivesse dado à luz, raramente se tinha visto coisa tão estranha.

Nascido o rapaz, cortado o cordão umbilical, Raquel segurou-o primeiro, com as lágrimas a correr, durante muito tempo. Ou, pelo menos, assim pareceu a Bilhah, que mordeu a língua e esperou pelo momento em que abraçaria o primeiro rebento do seu ventre. Os olhos de Bilhah seguiram cada movimento de Raquel, enquanto esta limpava o sangue do corpo do bebê e verificava se ele tinha tudo no devido lugar e não apresentava nenhuma imperfeição. Bilhah mal respirava, de braços vazios na expectativa, mas não disse nada. Por lei, aquele filho pertencia a Raquel.

Anos e anos a assistir a tantos partos tinham tornado terno o coração de Raquel, com um grande suspiro pôs o rapaz nos braços de Bilhah, onde ele levantou os olhos para a cara da mãe e sorriu para os olhos dela antes de lhe tomar o peito.

Nesse instante, Raquel acordou do seu sonho e viu que o bebê não era filho dela. O seu sorriso desvaneceu-se, os ombros caíram-lhe, as mãos agarraram-se com força aos seus seios infantis. Inna tinha-lhe dito que, se deixasse o bebê chuchar neles durante tempo suficiente, ele encontraria leite dentro dela e ela poderia tornar-se a mãe de leite dele. Mas Raquel não tinha fé na capacidade do seu corpo para manter uma vida. Pôr uma criança a amamentar num peito vazio, causaria sofrimento ao filho, que não era de todo dela, mas de Bilhah. Além disso, era possível que Bilhah adoecesse e viesse mesmo a morrer, se não esvaziasse os seios, pois Raquel já tinha visto isso acontecer. E Raquel amava a irmã. Esperava que o bebê que estava no seio de Bilhah fosse tão bom homem quanto a mãe dele era boa mulher.

Raquel deixou Bilhah com o filho desta e foi ter com Jacob. Disse ao marido que o nome do bebê era Dan, que significa julgamento. Para a mulher que o tinha dado à luz, Dan tinha um som doce, mas para aquela em cujo nome ele fora concebido tinha um tom amargo.

Ver o bebê nos braços de Bilhah dia após dia quebrou, mais uma vez, a confiança de Raquel. Ela era apenas a tia, estava ali, era a estéril. Mas, dessa vez não se revoltou contra o céu nem virou a raiva contra as irmãs. Sentava-se (demasiado infeliz para chorar) debaixo da acácia consagrada a Innana, onde os pássaros se juntavam ao amanhecer. Foi à asherah, prostrou-se perante o amplo sorriso da deusa e murmurou: "Dá-me filhos, ou morrerei.”

Jacob, vendo o seu sofrimento, abraçou-a com grande ternura. E depois de tantos anos, tantas noites, tantos abortos e tantas esperanças perdidas, Raquel encontrou prazer nos braços dele.

- Na verdade, antes disso nunca tinha percebido porque é que Lea e Bilhah tinham procurado a cama de Jacob - contou Raquel. - Sempre tinha ido para a cama dele com uma certa vontade, mas sobretudo por dever. Mas, depois de Dan ter aberto o ventre de Bilhah, a minha paixão igualou-se, finalmente, à de Jacob, sabe-se lá porquê, e eu percebi a vontade das minhas irmãs de se deitarem com ele. E então fiquei de novo com ciúmes, por todos os anos de louca doçura entre os amantes que tinha perdido.

Raquel e Jacob passaram muitas noites juntos, explorando o novo cio entre eles, e Raquel teve esperança outra vez. Algumas parteiras diziam que o prazer aquecia demasiado a semente e a matava. Outras afirmavam que os bebês só vêm quando as mulheres sorriem. Foi isto que ela disse a Jacob, para inspirar as carícias dele.

Durante os últimos meses da gravidez de Bilhah, Zilpah foi para a cama de Jacob pela primeira vez. Não se ofereceu para o fazer, como Bilhah tinha feito, embora fosse pelo menos cinco anos mais velha do que esta - da idade de Lea, que nessa altura já tinha cinco filhos vivos.

Zilpah sabia que aquilo acabaria por acontecer, um dia, e tinha-se resignado. Mas, ao contrário de Bilhah, Zilpah nunca pediria semelhante coisa. Teria de ser Lea a mandar fazê-lo. Por fim, ela fê-lo.

- Uma noite, enquanto eu caminhava à luz da lua cheia, ela apareceu diante de mim - contou Zilpah. - A principio, pensei que estava a sonhar. A minha irmã tinha um sono tão pesado quanto Labão e nunca se levantava de noite. Mesmo os próprios bebês dela tinham dificuldade em acordá-la. Mas ali estava ela, no silêncio. Caminhamos sob a luz branca e brilhante da dona Lua, de mão na mão, durante muito tempo. E, mais uma vez, duvidei se seria realmente a minha irmã que ali estava ou um fantasma, porque a mulher a meu lado permanecia em silêncio, enquanto Lea tinha sempre alguma coisa a dizer. Por fim, com palavras cautelosas, pôs-se a falar da Lua. Disse-me o quanto gostava da luz branca e contou-me que lhe falava e que a chamava pelo nome todos os meses. Disse que a Lua era a única cara da deusa que parecia prestar-lhe atenção, a julgar pelo modo como regia o preenchimento e o esvaziamento do corpo dela. A minha irmã era sábia - acrescentou Zilpah. Parou, virou-se para mim e, tomando ambas as minhas mãos nas dela, perguntou-me: "Estás finalmente preparada para engolir a Lua?" O que é que eu havia de dizer? Era a minha vez.

De fato, talvez ela tivesse esperado demais, Zilpah tinha esperança de já ser demasiado velha para engravidar, aos cinco mais vinte anos. A idade, só por si, não era bom augúrio. Raquel fora estéril desde a juventude, apesar dos seus esforços. E Lea, fértil como uma planície regada, não parecia dar sinais de perda de capacidades. A única maneira de descobrir o que a mãe da vida tinha reservado para Zilpah era indo ela ter com Jacob e tornando-se a menor das esposas dele.

Na manhã seguinte, Lea falou com Jacob. Bilhah ofereceu-se para pôr henna nas mãos de Zilpah, mas ela fez um trejeito firme com a boca e recusou. Naquela noite, ela caminhou lentamente até à tenda de Jacob, onde ele se deitou com ela e a conheceu. Zilpah não retirou prazer do toque de Jacob. "Fiz o que esperavam de mim", disse ela, com um tom tal, que ninguém se atreveu a pedir que adiantasse mais nada.

Ela nunca se queixou das atenções de Jacob. Ele fez o melhor que podia para lhe acalmar os medos, tal como o tinha feito com as suas outras esposas. Chamou-a muitas vezes, tentando conquistá-la. Pediu-lhe que cantasse canções das deusas e escovou-lhe o cabelo. Mas, fizesse ele como fizesse, nada comovia Zilpah.

- Nunca percebi a vontade que as minhas irmãs tinham de se deitar com Jacob - dizia ela, com um cansado gesto da sua longa mão. - Era um dever, tal como moer cereais, algo que desgasta o corpo, mas que é necessário para que a vida continue. Mas, de resto, também não fiquei decepcionada - acrescentou ela. - Não era nada que eu esperasse gostar.

Zilpah concebeu, durante a gravidez de Bilhah. E, pouco depois do Dan de Bilhah ter nascido, parecia mesmo que Zilpah tinha engolido a Lua. Com a sua estrutura estreita, a barriga parecia enorme e perfeitamente redonda. As irmãs faziam pouco dela, mas Zilpah só sorria. Estava feliz por se ter visto livre das atenções de Jacob, pois os homens não se deitavam com mulheres grávidas. Ela glorificava o seu novo corpo e tinha maravilhosos sonhos de poder e de fuga.

Sonhava dar à luz uma filha, embora não uma criança, mas uma espécie de deusa colocada entre as mulheres, uma mulher-espírito. Crescida, com seios adultos. Não usaria mais do que um cinto de cordel, atrás e à frente. Percorreria a terra a grandes passos, e o sangue lunar dela faria as árvores crescerem, por onde quer que passasse.

- Adorava adormecer, quando estava grávida - contou Zilpah. - Viajava até tão longe nos meus cobertores, durante aqueles meses.

Mas quando o tempo dela chegou, o bebê demorou a aparecer e Zilpah sofreu. As ancas dela eram demasiado estreitas e o trabalho de parto durou de pôr do Sol a pôr do Sol, durante três dias. Zilpah chorava e gritava, certa de que a sua filha iria morrer ou de que ela própria morreria antes de ver a sua menina, a sua Ashrat, pois ela já lhe tinha escolhido o nome e tinha-o dito às irmãs, para o caso de não sobreviver.

Foi difícil, para Zilpah. No inicio da noite do terceiro dia do parto, ela estava quase morta por causa das dores, que, muito embora fossem fortes, não pareciam trazer o bebê para mais perto deste mundo. Por fim, Inna recorreu a uma poção que ainda não tinha experimentado e que comprara a um mercador de Canaã. Ela enfiou a mão até à teimosa porta do ventre de Zilpah e massageou-o com uma goma forte e aromática que fez o seu trabalho rapidamente, arrancando um grito agudo da garganta de Zilpah, por essa altura tão rouca por causa do seu trabalho de parto que parecia menos uma mulher e mais um animal apanhado no meio de um incêndio. Inna murmurou um fragmento de um encantamento em nome da antiga deusa da cura.

Gula, apressa o parto     Gula, apelo a ti, infeliz e desesperada Torturada pela dor tua serva   Sê misericordiosa e ouve esta oração.

Em breve, Zilpah estava em cima dos tijolos, com Lea em pé atrás dela, apoiando o nascimento da criança que tinha sido concebida em nome dela. Zilpah já não chorava, quando Inna lhe disse para fazer força. Estava cinzenta e fria, meia morta e sem forças sequer para gritar, quando o bebê finalmente veio, rasgando-lhe a carne à frente e atrás.

Não era a tão esperada filha, mas um rapaz, grande, magro, de cabelo preto. Lea abraçou a irmã e disse que ela tinha sorte em ter tido tal filho e em estar viva. Lea deu-lhe o nome de Gad, que quer dizer sorte, e disse: "Que ele te traga a Lua e as estrelas e segurança na tua velhice.”

Mas a alegria na tenda vermelha foi cortada por um outro grito de Zilpah. A dor tinha voltado.

- Estou a morrer. Estou a morrer - soluçava ela, chorando pelo seu filho, que nunca conheceria a mãe. - Ele viverá como eu vivi - gritou ela -, órfão de uma concubina, assombrado por sonhos de uma mãe fria e morta. Infeliz - choramingou ela. - Infeliz filho de uma infeliz mãe.

Inna e Raquel agacharam-se de cada lado da mãe em desespero, procurando a fonte desta nova dor. Inna pegou na mão de Raquel e pô-la na barriga de Zilpah, mostrando-lhe uma segunda criança no ventre.

- Não desistas ainda, mãezinha - disse Inna a Zilpah. - Terás gêmeos esta noite. Não sonhaste com isto? Não é grande sacerdotisa, pois não? - disse ela, com um sorrisinho.

O segundo bebê veio depressa, uma vez que Gad já tinha aberto o caminho. Caiu do ventre da mãe como fruta madura, mais um rapaz, também escuro, mas muito menor do que o outro.

Mas a mãe dele não o viu. Um rio de sangue seguiu o rasto do nascituro, e a luz dos olhos de Zilpah apagou-se. Uma e outra vez Inna e Raquel encheram-lhe o ventre de lã e ervas para estancar a hemorragia. Molharam-lhe os lábios com água e bebidas fortes com mel. Cantaram hinos de cura e queimaram incenso, para impedirem o espírito dela de voar para fora da tenda. Mas Zilpah permaneceu deitada no cobertor, não morta, mas também não viva, durante mais de oito dias. Não se apercebeu da circuncisão de Gad e do seu segundo filho, a quem Lea deu o nome de Aser, por causa da deusa que Zilpah amava. Lea deu de mamar aos rapazes, assim como Bilhah e uma das mulheres dos trabalhadores.

Passados dez dias, Zilpah gemeu e levantou as mãos.

- Sonhei com dois filhos - disse ela, com a voz rouca. - É assim?

Trouxeram-lhe os bebês, escuros e a prosperar. E Zilpah riu.

O riso de Zilpah era um som raro, mas os nomes fizeram-na cacarejar de riso.

- Gad e Aser. Sorte e a deusa. Parece o nome de um mito dos velhos tempos - disse ela. - E eu era Ninmah, a senhora glorificada, de quem nascera tudo.

Zilpah comeu e bebeu, e curou-se, embora não pudesse dar de mamar aos filhos. Mas com essa mágoa podia ela. Tinha dois filhos, ambos lindos e fortes, e não lamentava a sua filha sonhada. Quando eles cresceram e a deixaram, Zilpah lamentou-se do fato de não ter uma menina a quem ensinar coisas. Mas quando os abraçava saboreava apenas a alegria das mães, as mais doces lágrimas.

Inna disse-lhe que ela devia ter cuidado para não engravidar pelo menos durante dois anos, mas Zilpah não tinha intenções de passar por aquelas dores outra vez. Tinha dado dois filhos à sua família. Foi procurar Jacob, uma manhã, antes de ele ir para a pastagem, e disse-lhe que outra gravidez com toda a certeza a mataria. Pediu-lhe que se lembrasse disso, quando chamasse uma esposa para a cama dele, e nunca mais dormiu com Jacob.

De fato, Jacob tremera ao saber que tinha tido gêmeos dela. Ele próprio era um de dois gêmeos, coisa que só lhe tinha trazido sofrimento.

- Esqueçam que eles partilharam o ventre da mãe - ordenou ele. Assim foi, não porque Jacob tivesse mandado, mas porque os dois eram muito diferentes. Gad, alto e magro, com as suas flautas e o seu tambor, Aser, menor, magrinho e caseiro, com o talento do pai para animais.

A gravidez seguinte de Lea trouxe mais um par de gêmeos - Naftali e Issacar. No entanto, ao contrário dos gêmeos de Zilpah, estes dois eram tão parecidos que, enquanto crianças, nem mesmo a mãe conseguia sempre distingui-los. Só Bilhah, capaz de ver cada folha de uma árvore a uma luz diferente, nunca se deixava enganar por aqueles dois, que se amavam um ao outro com uma espécie de harmonia silenciosa que nenhum dos meus outros irmãos conhecia.

Pobre Bilhah. Depois de Dan, todo os bebês dela - um menino e duas meninas - morreram antes de serem desmamados. Mas ela nunca deixou a dor envenenar-lhe o coração e, em vez disso, amou o resto de nós.

 Jacob era, então, um homem com quatro esposas e dez filhos, e o nome dele era conhecido entre os homens do campo. Era um bom pai e levava os seus rapazes com ele para os montes, assim que eles fossem capazes de carregar a sua própria água, e ensinava-lhes os costumes das ovelhas e das cabras, os segredos do bom pastoreio, os hábitos de longas caminhadas, as técnicas da funda e da lança. Também aí, longe das tendas das mães deles, lhes contava a terrível história do pai dele, Isaac.

Quando ele e os filhos ficavam de vigia nas pastagens mais distantes, por causa de um chacal que tivesse sido avistado ou simplesmente para desfrutar do ar fresco de uma noite de Verão, ele contava aos filhos a história de como o avô dele, Abraão, atara os pés e as mãos de Isaac e, depois levantara uma faca sobre a garganta do rapaz, para dar a El o sacrifício do seu filho favorito. El era o único deus a que Jacob se curvava - um deus ciumento e misterioso, demasiado assustador (dizia ele) para ser esculpido em ídolo por mãos humanas, demasiado grande para ser contido por qualquer sitio - mesmo um lugar tão grande como o céu. El era o deus de Abraão, Isaac e Jacob, e era o desejo de Jacob que os filhos dele também aceitassem esse El como o deus deles.

Jacob era um tecelão de palavras e apanhava o seu público ávido na teia das suas histórias, descrevendo a faca brilhante, os olhos muito abertos de medo de Isaac. A salvação chegara no último momento, quando a faca já estava encostada à garganta de Isaac e uma gota de sangue rolava pelo pescoço do rapaz, tal como as lágrimas que molhavam os olhos de Abraão. Nesse instante, um espírito de fogo travou a mão do velho e trouxe um puro bode branco para ser sacrificado em vez de Isaac. Ruben e Simeão, Levi e Judá olhavam fixamente para o braço do pai, aberto contra a noite estrelada, e tremiam imaginando-se a si próprios no altar.

- O deus dos meus pais é um deus misericordioso - dizia Jacob. Mas quando Zilpah ouviu a história contada pelos filhos, disse: - Que misericórdia é essa, que seca o cuspo de medo na boca de Isaac? O deus do vosso pai pode ser grande, mas é cruel.

Anos mais tarde, quando os netos finalmente conheceram o rapaz da história, por essa altura um velho, ficaram horrorizados ao ouvirem como Isaac gaguejava, ainda com medo da faca de seu pai.

Os filhos de Jacob adoravam o pai e os vizinhos respeitavam-lhe o sucesso. Mas ele não estava à vontade. Labão era dono de tudo o que ele conseguira - dos rebanhos, dos trabalhadores e das famílias deles, dos frutos do jardim, da lá para o comércio. E Jacob não estava sozinho nos seus ressentimentos contra Labão. Lea e Raquel, Bilhah e Zilpah irritavam-se sob o governo do pai delas, que parecia tornar-se cada vez mais ordinário e arrogante, à medida que os anos passavam. Tratava as próprias filhas como escravas e batia nos filhos delas. Tirava lucro do labor dos teares delas sem uma palavra de agradecimento. Deitava olhares de soslaio às mulheres dos trabalhadores e ficava com a cerveja delas como suborno contra a sua luxúria. Maltratava Ruti todos os dias.

As quatro irmãs falavam dessas coisas na tenda vermelha, para onde sempre iam um dia antes do resto das mulheres do acampamento. Talvez os primeiros anos delas juntas, quando eram as únicas mulheres no acampamento, tivessem criado um hábito nos corpos delas que trouxesse o fluxo de sangue algumas horas antes das mulheres dos trabalhadores.    Ou talvez fosse uma necessidade dos corações delas passarem um dia juntas. De qualquer forma, as mulheres dos trabalhadores não se queixavam, nem lhes cabia dizer coisa alguma. Para além disso, as mulheres de Jacob acolhiam-nas sempre com doces, quando entravam para celebrar a lua nova e descansar na palha.

Ruti não dizia nada, mas os seus olhos pisados e as suas nódoas negras eram um modo de as censurar. Não sendo mais velha que Lea, Ruti tinha-se tornado macilenta. Após o nascimento dos seus filhos, Labão tinha-a tratado bem - o bode sovina até lhe tinha trazido pulseiras para lhe abrilhantar os pulsos e os tornozelos. Mas depois ela deixou de engravidar e ele começou a bater-lhe e a chamar-lhe nomes tão feios, que as minhas mães não mos repetiam. Os ombros de Ruti curvaram-se de desespero e perdeu vários dos dentes pela força dos punhos de Labão. Mesmo assim, ele continuou a usar o corpo dela a seu bel-prazer, idéia que fazia a minha mãe tremer.

Mas apesar de muito se condoerem dela, as esposas de Jacob não acolheram Ruti. Ela era a mãe dos rivais dos filhos delas, a inimiga material. As mulheres dos trabalhadores viam o modo como elas se mantinham afastadas de Ruti e imitavam-nas. Mesmo os próprios filhos delas se riam dela e tratavam-na como a um cão. Ruti, já sozinha, mantinha-se à parte. Tornou-se uma miséria de tal modo esfarrapada e estropiada, que ninguém a via. Quando foi ter com Raquel, desesperada por ajuda, parecia mais um fantasma do que uma mulher.

- Senhora, imploro-vos. Dai-me as ervas que expulsem o bebê que carrego - sussurrou ela, num silvo frio e inexpressivo. - Prefiro morrer a dar-lhe outro filho, e, se for uma rapariga, afogo-a antes que ela seja suficientemente crescida para sofrer nas mãos dele. Ajudai-me, pelos filhos do vosso marido - disse Ruti, com uma voz vinda do Outro lado da tumba. - Sei que não o fareis por mim. Vós odiais-me, todas vós.

Raquel levou as palavras de Ruti às suas irmãs, que a ouviram em silêncio e ficaram envergonhadas.

- Sabes como fazer isso? - perguntou Lea.

Raquel fez um gesto com a mão, desqualificando a pergunta como matéria passível de ser considerada. Não era uma questão difícil, especialmente porque Ruti estava no primeiro mês.

Os olhos de Bilhah chisparam.

- Não somos melhores do que ele, por a termos deixado sofrer sozinha, por não a termos reconfortado, por não a termos ajudado.

Zilpah virou-se para Raquel e perguntou-lhe:

- Quando é que vais fazer isso?

- Teremos que esperar pela próxima lua nova, quando todas as mulheres vierem ter conosco - respondeu Raquel. - Labão é demasiado estúpido para suspeitar de alguma coisa. Acho que nem mesmo a mais sutil de entre elas se apercebe daquilo que nós sabemos e fazemos entre nós, mas é melhor ter cuidado.

As irmãs não mudaram no seu tratamento aparente de Ruti. Não lhe falavam e não lhe demonstraram qualquer espécie de bondade. Mas à noite, quando Labão ressonava, uma das quatro encontrava-a, enrolada num cobertor imundo ao fundo da tenda, e dava-lhe a comer um caldo ou pão molhado em mel. Zilpah tomou o sofrimento de Ruti como se fosse seu. Não conseguia suportar o vazio dos olhos dela ou o desespero que a rodeava, como se de um nevoeiro vindo do mundo dos mortos se tratasse. Começou a visitá-la todas as noites para lhe murmurar palavras de encorajamento ao ouvido, mas ela limitava-se a estar ali deitada, surda a qualquer esperança.  Por fim, a Lua minguou e todas as mulheres entraram na tenda vermelha. Lea pôs-se em frente das mulheres dos trabalhadores e mentiu com o coração puro:

- Ruti não está bem. A menstruação dela está atrasada, mas a barriga dela está quente e tememos que ela aborte esta noite. Raquel fará tudo o que puder, com ervas e encantamentos, para salvar a criança. Cuidemos da nossa irmã Ruti.

Mas, passados alguns minutos, era claro para todas que o que Raquel ministrava a Ruti não tinha a intenção de salvar a criança, mas de a expulsar do ventre de Ruti. Todas olharam, do fundo da tenda vermelha, onde os bolos e o vinho permaneciam intactos, enquanto Raquel misturava uma infusão herbácea negra que Ruti bebeu em silêncio.

Ficou deitada, quieta, com os olhos fechados. Zilpah murmurou os nomes de Anath, a curandeira, e da antiga Gula, que assiste as mulheres durante o parto, enquanto Raquel murmurava palavras elogiosas a Ruti, cuja coragem se revelou durante a noite.

Quando as ervas começaram a fazer efeito, causando grandes cãibras, Ruti não fez qualquer barulho: quando o sangue começou a correr, grumoso e escuro, os lábios de Ruti não se abriram. À medida que as horas iam passando, o sangue corria e não parava e, mesmo assim, ela não dizia nada. Raquel encheu muitas vezes o ventre de Ruti com lã, até que, finalmente, tudo acabou.

Nenhum homem soube o que se passou naquela noite. Nenhuma criança contou o segredo, porque nenhuma mulher alguma vez falou daquilo, nem uma palavra, até que Zilpah me contou a história. Por essa altura, não era mais do que um eco vindo do Além.

A minha mãe contou-me que, depois do nascimento dos seus filhos gêmeos, tinha decidido não engravidar mais. Os seios dela eram como os de uma velha, a barriga estava flácida e doíam-lhe as costas todas as manhãs. A idéia de outra gravidez enchia-a de terror, por isso começou a tomar funcho, para impedir que a semente de Jacob mais uma vez criasse raiz.

Mas, então, aconteceu que, estando Inna longe, no Norte, o fornecimento de sementes se tornou escasso. Passaram-se meses e ela sem voltar com as suas bolsas de ervas. Lea experimentou um velho remédio - ensopar um floco de lã em azeite velho e pô-lo na boca do útero antes de se deitar com Jacob. Mas o expediente falhou e, pela primeira vez, o conhecimento de que tinha vida dentro dela deixou-a triste.

Lea não queria levar esta preocupação a Raquel, cuja fome por um bebê seu não tinha diminuído. A esposa fértil procurava poupar os sentimentos da irmã estéril mantendo-se afastada dela. Dividiam os deveres de uma primeira esposa. Lea estava encarregada da tecelagem e da cozinha, do jardim e das crianças. Raquel (ainda bonita e com a cintura estreita) servia o marido e tratava dos mercadores que vinham ao acampamento, tomava conta das necessidades de Jacob e, com as suas capacidades crescentes de curandeira, cuidava das dores e doenças de homens, mulheres e até dos animais.

Os partos e a lua nova juntavam as duas mulheres na tenda vermelha. Mas Lea dormia virada para a parede ocidental, enquanto Raquel abraçava a oriental, e só se falavam por intermédio das irmãs: Lea por Zilpah, Raquel por Bilhah.

Mas, agora, Lea não tinha escolha. Inna não voltara e Raquel era a única que conhecia as ervas, as orações, as massagens apropriadas. Não havia mais ninguém a quem recorrer.

Quando Raquel se foi embora para assistir a um parto num acampamento próximo, Lea deu uma desculpa qualquer acerca de ir buscar água e apressou o passo até se encontrar ao lado de Raquel. As faces de Lea queimavam, e de olhos baixos pediu à irmã a ajuda prestada a Ruti. Raquel surpreendeu-a com a amabilidade da sua resposta.

- Não te livres da tua filha - disse ela. - Estás grávida de uma menina.

- Mas então ela irá morrer - disse Lea, pensando nos abortos de Raquel. - (Inna tinha dito que eram todas meninas.) E mesmo que viva, não irá conhecer a mãe, porque eu estou quase morta de tanta gravidez.

Mas Raquel argumentou por todas as irmãs, que há muito guardavam os seus tesouros para uma filha.

- Faremos tudo por ti, enquanto estiveres grávida da nossa menina. Lea, por favor - pediu ela, usando o nome da irmã pela primeira vez na memória de cada uma das mulheres. - Faz o que digo antes que conte tudo a Zilpah - ameaçou Raquel. Lea riu e acalmou-se, pois o seu desejo de ter uma filha ainda era forte.

Enquanto dormia no ventre da minha mãe, apareci-lhe a ela e a cada uma das minhas tias em sonhos vividos.

Bilhah sonhou comigo numa noite em que dormia nos braços de Jacob.

- Vi-te vestida com um bom vestido de bom linho, coberto por um longo colete de contas azuis e verdes. O teu cabelo estava entrançado e carregavas um bom cesto através de um pasto mais verde do que qualquer outro que eu alguma vez tenha visto. Caminhavas por entre rainhas, mas estavas sozinha.

Raquel sonhou com o meu nascimento.

- Apareceste no ventre da tua mãe com os olhos abertos e com a boca cheia de perfeitos dentinhos. Falaste, enquanto deslizavas para fora, por entre as pernas dela, dizendo:     "Olá, mães. Cá estou eu, finalmente. Não há nada que se coma?" Isto fez-nos rir. Havia centenas de mulheres a assistir ao teu nascimento, algumas delas vestidas com roupas estrangeiras, de cores chocantes, com as cabeças rapadas. Todas nós rimos e rimos. Acordei no meio da noite a rir.

A minha mãe, Lea, dizia que tinha sonhado comigo todas as noites.

-Tu e eu sussurrávamos coisas uma à outra como se fôssemos velhas amigas. Tu eras muito sábia, dizendo-me o que comer para acalmar o meu estômago perturbado, como resolver uma questão entre Ruben e Simeão. Eu contei-te tudo sobre Jacob, teu pai, e sobre as tuas tias. Tu contaste-me coisas acerca do outro lado do universo, onde a escuridão e a luz não são separadas. Eras tão boa companhia. Eu detestava acordar. Havia uma coisa que me incomodava naqueles sonhos - disse a minha mãe. - Nunca conseguia ver a tua cara. Estavas sempre atrás de mim, mesmo atrás do meu ombro esquerdo. E, de cada vez que eu olhava para trás para conseguir ver-te por um momento, tu desaparecias.

O sonho de Zilpah não estava cheio de riso e de companheirismo. Ela dizia que me tinha visto a chorar um rio de sangue que dera lugar a monstros verdes achatados, que abriam as bocas cheias de filas de dentes afiados.

- Mesmo assim, não tinhas medo - disse Zilpah. - Caminhavas nas costas deles e domavas-lhes a fealdade, e desaparecias na direção do Sol.

Eu nasci durante uma lua cheia, numa Primavera memorável pela plenitude de cordeiros que nasceram. Zilpah ficou do lado esquerdo da minha mãe, enquanto Bilhah a apoiava no lado direito. Inna estava lá, para presenciar a celebração e apanhar a placenta no seu antiqüíssimo balde. Mas Lea pediu a Raquel que fosse a parteira e me agarrasse.

Foi um parto fácil. Depois de todos os rapazes que tinham vindo antes de mim, eu vim rapidamente e de forma tão indolor quanto um parto o pode ser. Era grande - tão grande quanto Judá, que fora o maior. Inna pronunciou-me "a filha de Lea" com uma voz cheia de satisfação. Tal como com todos os seus bebês, a minha mãe olhou primeiro para os meus olhos e sorriu, ao ver que eram ambos castanhos como os de Jacob e de todos os filhos dele.

Depois de Raquel me ter limpo, passou-me a Zilpah, que me beijou, e depois a Bilhah, que também me beijou. Tomei o seio da minha mãe com a boca ávida, e todas as mulheres do acampamento bateram palmas à minha mãe e a mim. Bilhah deu a comer à minha mãe leite com mel e bolo. Lavou o cabelo de Lea com água perfumada e massageou-lhe os pés.

Enquanto Lea dormia, Raquel, Zilpah e Bilhah levaram-me para fora, para o luar, e puseram-me henna nas mãos e nos pés, como se eu fosse uma noiva. Disseram uma centena de bênçãos à minha volta, ao Norte, ao Sul, ao Leste e ao Oeste, para me protegerem de Lamashtu e dos outros demônios ladrões de bebês. Deram-me mil beijos.

De manhã, a minha mãe começou a contar dois ciclos da Lua dentro da tenda vermelha. Após o nascimento de um rapaz, as mães descansavam de uma lua à outra, mas o nascimento de uma dadora de vida requeria um maior período de separação do mundo dos homens.

- O segundo mês foi de enorme prazer - disse-me a minha mãe. - As minhas irmãs tratavam-nos a ambas como rainhas. Nunca foste deixada deitada em cima de um cobertor por um só instante. Houve sempre braços para te segurar, para te fazer festinhas, para te abraçar. Púnhamos óleo na tua pele de manhã e à noite. Cantávamos-te canções ao ouvido, mas não te fazíamos cu-cu, nem te falávamos na linguagem dos bebês. Falávamos-te com todas as nossas palavras, como se fosses uma irmã crescida e não um bebê. E, antes de teres um ano, respondias-nos sem trocares as letras.

Enquanto era passada da minha mãe para uma tia atrás da outra, elas debatiam o meu nome. Isto levou a uma longa sessão de suspiros e de recordações de Ada, que ficaria tão deliciada com todos os seus netos. Mas Zilpah preocupava-se com o fato de esse nome poder confundir os demônios, que poderiam pensar que Ada tinha escapado do mundo inferior e vir atrás de mim.

Zilpah gostava do nome Ishara - que era uma homenagem à deusa e que era fácil de rimar. Ela tinha planos para muitas canções em minha honra. Mas Bilhah não gostava do som daquele nome. "Parece um espirro", disse ela.

Raquel sugeriu Bentresh, nome hitita que ela ouvira da mulher de um comerciante. "Parece música", disse ela.

Lea ouviu-as a todas, e quando as suas irmãs começaram a ficar demasiado excitadas nas suas discussões acerca da filha dela, ameaçou chamar-me Lillu, um nome que todas odiavam.

Na segunda lua cheia após o meu nascimento, Lea voltou a juntar-se ao seu marido e disse o meu nome a Jacob. Disse-lhe que fora eu própria que o escolhera.

- Durante os meus sessenta dias, murmurei cada nome que as minhas irmãs sugeriram ao teu pequeno ouvido. Todos os nomes que alguma vez tinha ouvido, e mesmo alguns que eu própria inventei. Mas quando disse "Dina" deixaste cair o mamilo da tua boca e olhaste para mim. É assim que és Dina, a minha última criança. A minha filha. A minha memória.

José foi concebido nos dias que se seguiram ao meu nascimento. Raquel tinha ido ter com Jacob a levar-lhe a notícia de que ele finalmente fizera uma filha saudável. Os olhos dela brilhavam enquanto lhe dizia e Jacob sorriu ao ver como a sua esposa estéril retirava prazer do bebê de Lea. Naquela noite, depois de se terem apreciado um ao outro à maneira suave dos casais que se conhecem bem, Raquel sonhou com o seu primeiro filho e acordou a sorrir.

Não disse nada a ninguém, quando o seu sangue lunar não veio. As muitas falsas partidas e as perdas logo no início assombravam-na, e ela guardou muito bem o seu segredo. Foi para a tenda vermelha na lua nova e mudou a palha como se a tivesse sujado. Ela era tão esguia, que o ligeiro engrossar da sua cintura passou despercebido a todas menos a Bilhah que manteve segredo sobre o assunto.

Ao quarto mês, Raquel foi ter com Inna, que lhe disse que os sinais pareciam bons para aquele rapaz, e Raquel começou a ter esperança. Mostrou a barriga inchada às irmãs, que dançaram em circulo em volta dela. Pôs a mão de Jacob no montinho do ventre dela. O pai de dez filhos chorou.

Raquel ficou com as costas vergadas. Os pequenos seios dela ficaram túrgidos e doridos. Os seus tornozelos perfeitos incharam. Mas ela não teve senão prazer nas queixas das mulheres grávidas. Começou a cantar, enquanto tomava conta das fogueiras usadas para cozinhar, e dedicou-se ao seu fuso. A família ficou surpreendida com a doçura da sua voz, que nunca tinham ouvido elevar-se para cantar. Jacob dormiu com Raquel durante todas as noites da gravidez dela, uma chocante quebra de costumes e um incitamento aos demônios. Mas ele não deu ouvidos aos avisos, e Raquel adorava as atenções dele, à medida que se ia avolumando.

No oitavo mês, Raquel começou a ficar doente. A pele dela ficou pálida e o cabelo caiu-lhe. Mal podia estar de pé sem cair de desmaio. O medo engoliu-lhe a esperança e ela mandou chamar Inna, que lhe receitou caldos fortes feitos de ossos de bodes e de touros. Disse a Raquel para descansar, e vinha visitar a amiga o mais freqüentemente que podia.

Inna veio assistir ao parto de Raquel. Os pés do bebê estavam virados para baixo e ela sangrou muito antes de ele aparecer. Os esforços de Inna para virar a criança causaram dores terríveis a Raquel e ela gritou de um modo que fazia tanta pena, que as crianças do acampamento começaram todas a chorar ao ouvi-la. Jacob estava sentado na bamah, olhando fixamente a cara da deusa, pensando se lhe deveria fazer alguma oferenda, muito embora tivesse prometido só adorar o deus do pai dele. Foi arrancando erva e segurou a cabeça até não poder agüentar mais os gritos dela, e foi para a pastagem mais alta até Raquel ter dado à luz.

Passaram dois dias, até Ruben ter sido enviado para o ir buscar. Dois terríveis dias, em que Lea e Zilpah e Bilhah se despediram de Raquel, pois parecia certo que ela iria morrer.

Mas Inna não desistiu. Deu a Raquel cada erva e cada remédio da sua bolsa.         Experimentou combinações que nenhum ervanário tinha usado. Murmurou orações secretas, embora não fosse iniciada nos mistérios das palavras mágicas e dos encantamentos.

Raquel não desistiu, mas lutou pelo desejo do seu coração, negado durante quinze anos. Lutou como um animal, com os olhos a rolar, o suor a escorrer. Mesmo passados três dias e três noites, não chamou a morte para a libertar do seu tormento. "Ela era um portento de se ver", disse Zilpah.

Por fim, Inna conseguiu fazer com que o bebê desse a volta. Mas o esforço pareceu partir algo dentro de Raquel, cujo corpo foi tomado por um tremor que não passava. Os olhos rolaram-lhe para dentro da cabeça e o pescoço estava tão tenso que a cara se lhe tinha virado para as costas. Era como se demônios se tivessem apossado do corpo dela. Até Inna ficou sem fôlego.

E, então, acabou. O corpo de Raquel foi libertado das garras da morte, a cabeça do bebê apareceu e Raquel reuniu as últimas energias para fazer força.

Ele era pequeno, com uma grande cobertura de cabelo. Um bebê como todos os outros bebês, enrugado, feio e perfeito. Mas o melhor de tudo é que ele era de Raquel. A tenda ficou em silêncio, enquanto cada mulher chorava lágrimas de gratidão. Sem uma palavra, Inna cortou o cordão e Bilhah recolheu a placenta. Lea limpou Raquel e Zilpah lavou o bebê. Suspiraram e secaram os olhos. Raquel viveria para ver o seu bebê crescer.

Raquel recuperou lentamente, mas não podia dar de mamar. Três dias depois do nascimento de José, os seios dela ficaram duros e quentes. Compressas quentes aliviaram-lhe a dor, mas o leite secou. Lea, que me estava a amamentar, deu de mamar a José, também. A velha raiva de Raquel por Lea avivou-se com aquilo, mas desapareceu quando descobriu que José era um bebê irrequieto, que gritava e esperneava até que o pusessem nos braços da mãe.

 

                                             A Minha História

Não estou certa de as minhas primeiras recordações serem realmente minhas, porque, quando penso nelas, sinto o hálito da minha mãe em cada palavra. Mas lembro-me do sabor da água do nosso poço, brilhante e fria contra os meus dentes de leite. E tenho a certeza de que fui apanhada por braços de cada vez que tropecei, pois não me lembro de alguma vez no início da minha vida me ter sentido sozinha ou de ter tido medo.

Como todas as crianças amadas, sabia que era a pessoa mais importante do mundo da minha mãe. E, mais ainda, não apenas para a minha mãe, Lea, mas também para as minhas tias-mães. Embora adorassem os filhos delas, era a mim que vestiam e afagavam enquanto os rapazes lutavam na poeira. Era eu que continuava a ir para a tenda vermelha com elas muito depois de ter sido desmamada.

Enquanto fui bebê, José era o meu constante companheiro. Primeiro, foi meu irmão de leite e, mais tarde, o meu mais verdadeiro amigo. Aos oito meses, ele levantou-se e andou até mim, que estava no meu lugar favorito à frente da tenda da minha mãe. Embora fosse muitos meses mais velha, ainda me agüentava mal nas pernas, provavelmente porque as minhas tias gostavam de andar comigo ao colo. José estendeu as duas mãos para mim, e eu levantei-me. A minha mãe dizia que, por recompensa por ele me ter ensinado a andar, eu o tinha ensinado a falar. José gostava de dizer às pessoas que a primeira palavra dele tinha sido "Dina", embora Raquel me assegurasse que tinha sido a palavra para Mamã. Ema.

Ninguém imaginava que Raquel viesse a ter outra criança, depois do que padecera com José, portanto, ele e eu recebemos o tratamento que é dado aos últimos frutos de uma esposa principal. De acordo com o costume ancestral, a criança mais nova herdava a bênção da mãe e, de uma maneira ou de outra, os pais normalmente seguiam a escolha delas. Mas José e eu fomos tratados com especial carinho e fomos mimados também porque éramos os bebês - os últimos filhos das nossas mães e a alegria do nosso pai. E também éramos as vítimas dos nossos irmãos mais velhos.

A idade criou duas tribos separadas entre os filhos de Jacob. Ruben, Simeão, Levi e Judá eram quase homens, quando eu aprendi os nomes deles. Estavam freqüentemente ausentes, cuidando dos rebanhos com o nosso pai e, enquanto grupo, não tinham grande utilidade para nós, os pequenos. Ruben era, por natureza, amável com as crianças, mas nós evitávamos Simeão e Levi, que se riam de nós e gozavam com Tali e Issa, os gêmeos. "Como é que vocês sabem qual de vós é quem?" zombava Levi. Simeão era ainda pior: "Se um de vós morrer, a nossa mãe não vai chorar, porque tem outro exatamente igual." Isto fazia sempre o Tali chorar.

Parecia-me ver saudade no modo como Judá observava os nossos jogos. Ele era demasiado velho para brincar conosco, mas, sendo o mais jovem dos irmãos mais velhos, era o menos considerado e sofria por isso. Judá andava freqüentemente comigo às costas e chamava-me Ahatti, irmãzinha. Eu pensava nele como o meu campeão entre os rapazes grandes.

A principio, Zebulon era o líder dos menores, e poderia ter-se tornado um tiranozinho. se nós não o tivéssemos adorado e não lhe obedecêssemos de livre vontade. Dan era o lugar-tenente dele - leal e doce. Tal como seria de esperar de um filho de Bilhah. Gad e Aser eram loucos, teimosos e difíceis companheiros de brincadeiras, mas eram uns mimos tão maravilhosos - gozando com Labão, por causa do andar pesado e da fala entaramelada pela bebida que ele tinha, com uma acuidade malvada -, que lhes perdoávamos tudo em troco de uma representação. Naftali, a quem nunca chamavam mais do que Tali, e Issacar, ou Issa, tentaram mandar em mim e em José, porque eram quase dois anos mais velhos. Chamavam-nos bebês, mas, um minuto mais tarde, juntavam-se a nós no chão, atirando um seixo ao ar para ver quantas mais pedras é que conseguíamos apanhar com a mesma mão. Era a nossa brincadeira favorita, até eu ter conseguido apanhar dez pedras contra as cinco deles. Foi então que os meus irmãos declararam que aquela era uma brincadeira de meninas e nunca mais brincaram àquilo.

No nosso sexto ano, José e eu tínhamos tomado conta do bando dos menores, porque éramos os melhores a inventar histórias. Os nossos irmãos carregavam-nos do poço à tenda da minha mãe e faziam-me grandes vênias a mim, sua rainha. Faziam de conta que morriam, quando José, o rei deles, lhes apontava um dedo. Mandávamo-los lutar contra demônios e trazerem-nos grandes riquezas. Coroavam-nos as cabeças com coroas de ervas daninhas e beijavam-nos as mãos.

Lembro-me do dia em que essa brincadeira acabou. Tali e Issa estavam a fazer o que lhes tinha pedido: empilhar pequenas pedras como um altar em minha honra. Dan e Zebulon estavam a abanar folhas para nos refrescar. Gad e Aser estavam a dançar diante de nós.

E, então, os nossos irmãos mais velhos por acaso passaram por ali. Ruben e Judá sorriram e continuaram, mas Simeão e Levi pararam e riram-se.

- Olhem como os bebês levam os rapazes mais velhos agarrados pelo nariz. Esperem até contarmos ao nosso pai que Zebulon e Dan são burricos para os rabos ao léu. Ele vai fazê-los esperar mais dois anos, antes de os deixar subir às pastagens mais altas conosco - e não pararam de gozar até José e eu ficarmos sozinhos. Abandonados pelos nossos companheiros de brincadeiras, que subitamente se viram através dos olhos frios dos irmãos deles.

Depois disso, Zebulon e Dan recusaram-se a fiar mais para as nossas mães, e, depois de muito implorarem, foi-lhes permitido seguirem os irmãos mais velhos para os montes. Os dois pares de gêmeos - quando não estavam a arrancar ervas daninhas do horto ou a ajudar nos teares - brincavam entre eles, e os quatro transformaram-se numa tribo à parte, dedicada a jogos de caça e a competições de luta.

José e eu viramo-nos cada vez mais um para o outro, mas nada era tão divertido só com nós dois. Nenhum dos dois dobrava o joelho perante o outro só por causa de uma história, e José tinha que lutar contra o gozo dos nossos irmãos, que faziam pouco dele pelo simples fato de ele brincar comigo. Havia muito poucas raparigas no nosso acampamento - as mulheres diziam, como piada, que Jacob tinha envenenado o poço contra elas. Tentei fazer amigas entre as poucas filhas das mulheres dos trabalhadores, mas era ou demasiado jovem ou demasiado crescida para as brincadeiras delas e, portanto, a partir do momento em que consegui carregar um jarro de água do poço, comecei a pensar em mim como pertencendo ao círculo da minha mãe.

Não é que as crianças fossem deixadas ao abandono dos seus jogos. Assim que crescíamos o suficiente para carregar uns pedaços de madeira, mandavam-nos arrancar ervas daninhas do horto, carregar água, cardar lã e fiar. Lembro-me de ser admoestada por causa da minha falta de jeito, por deixar a minha lã encher-se de ouriços, e pela falta de uniformidade do fio que eu fazia.

Lea era a melhor das mães, mas não a melhor professora. Aprendia as técnicas com tal facilidade, que não conseguia perceber como é que mesmo uma criança, por pequena que fosse, não conseguia fazer bem algo tão simples como enrolar a lá para produzir linha. Ela perdia freqüentemente a paciência comigo. "Como é que a filha de Lea pode ter dedos tão desastrados?", disse-me ela um dia, olhando para o emaranhado que eu tinha feito com o meu trabalho.

Odiei-a por aquelas palavras. Pela primeira vez na minha vida, odiei a minha mãe. A minha cara foi ficando quente, à medida que as lágrimas me vinham aos olhos, e atirei com tudo o que tinha fiado durante aquele dia para o chão. Foi um terrível ato de desperdício e de desrespeito, e acho que nenhuma de nós conseguia acreditar que eu tivesse feito aquilo. Num instante, o cortante bater da mão dela contra a minha cara estalou no ar. Fiquei muito mais chocada do que magoada. Embora a minha mãe batesse aos meus irmãos de vez em quando, era a primeira vez que ela me batia.

Fiquei ali parada durante um longo momento, a ver a cara dela a contorcer-se de dor pelo que tinha feito. Sem uma palavra, virei-me e corri de encontro ao colo de Bilhah, onde chorei e gemi contra o grande mal que me tinha sido feito. Disse à minha tia tudo o que me pesava no coração. Chorei por causa dos meus dedos inúteis, que nunca fariam com que a lã rodasse uniformemente, ou com que o fuso caísse e se virasse suavemente. Tinha medo de ter envergonhado a minha mãe por ser tão trapalhona. E tinha vergonha do ódio que subitamente sentia por aquela que amava tão completamente.

Bilhah acariciou-me o cabelo até eu parar de chorar e deu-me a comer um pedaço de pão molhado em vinho doce.

- Agora vou mostrar-te o segredo do fuso - disse ela, enquanto pousava um dedo nos meus lábios. - É uma coisa que a tua avó me ensinou, e agora chegou a minha vez de te mostrar.

Bilhah pôs-me no colo dela, para o qual eu era quase grande de mais. Os braços dela quase não eram suficientemente compridos para passarem à volta do meu corpo, mas lá estava eu sentada, mais uma vez bebê, abraçada em segurança, enquanto Bilhah murmurava a história de Uttu ao meu ouvido.

Há muito tempo, ainda as mulheres não sabiam como transformar lã em fio e fio em pano, as pessoas andavam nuas pela terra. Abrasavam de dia e tremiam de frio à noite, e os bebês pereciam.

Mas Uttu ouviu as mães que choravam, e teve pena delas. Uttu era a filha de Namia, deus da Lua, e de Ninhursag, a mãe das planícies. Uttu perguntou ao pai se poderia ensinar as mulheres a fiar e a tecer para que os bebês delas pudessem viver

Nanna escarneceu dela, dizendo que as mulheres eram demasiado estúpidas para se lembrarem da ordem de cortar, lavar e pentear a lã, da construção de teares, da construção da trama e da teia. É que os dedos delas eram demasiado grossos para dominarem a arte de fiar. Mas, porque Nanna amava a filha, deixou-a ir   Uttu foi primeiro ao Leste, à terra do Rio Verde, mas aí as mulheres não queriam pôr de lado os seus tambores e as suas flautas para ouvir a deusa.

Uttu foi para o Sul, mas chegou a meio de uma terrível seca, quando o Sol tinha roubado as mulheres das recordações delas. "Não precisamos de mais nada senão de chuva", disseram elas, esquecidas dos meses em que as crianças tinham morrido de frio. "Dá-nos chuva ou vai-te embora.”

Uttu viajou para Norte, onde as mulheres vestidas de peles eram tão aguerridas que tinham arrancado um seio para ficarem prontas para a infindável caçada. Essas mulheres eram demasiado impetuosas para as lentas artes do fio e do tear   Uttu foi ao Leste, onde o Sol se levanta, mas descobriu que os homens tinham roubado a língua das mulheres, e que elas não podiam responder por si próprias.

Uma vez que Uttu não sabia falar com os homens, chegou a Ur que é o ventre do mundo, onde conheceu a mulher chamada Enhenduanna, que desejava aprender.

Uttu sentou Enhenduanna no colo e envolveu os pequenos braços de Enhenduanna nos seus longos braços e pousou as suas mãos de ouro nas mãos de barro de Eiihenduanna, e guiou a mão esquerda desta assim como a mão direita.

Uttu fez cair um fuso feito de lápis-lazúli, que rodava como uma grande bola azul flutuando no céu dourado, e fiava fio feito de luz do Sol. Enhenduanna adormeceu no colo de Uttu.

Enquanto Enhenduanna dormia, fiava sem ver ou saber sem esforço nem fadiga. Fiou até haver fio suficiente para encher todo o armazém do grande deus Nanna. Ele ficou tão contente, que permitiu que Uttu ensinasse às filhas de Enhenduanna o modo de fazer cerâmica e bronze, música e vinho.

Desde então, as pessoas puderam deixar de comer erva e de beber água, e puderam comer pão e beber cerveja, em vez disso. E os bebês delas, embrulhados em cobertores de lã, já não morriam, mas podiam crescer para oferecerem sacrifícios aos deuses.

Enquanto Bilhah me contava a história de Uttu, pôs as leves e ágeis mãos dela à volta das minhas desastradas. Senti o suave e argiloso cheiro almiscarado da minha tia mais nova e ouvi a doce e líquida voz dela e esqueci toda a dor do meu coração. E, quando a história dela acabou, mostrou-me que o fio no meu fuso era tão uniforme e forte quanto o próprio trabalho manual de Lea.

Dei a Bilhah cem beijos e corri a mostrar à minha mãe aquilo que tinha feito. Ela abraçou-me como se eu tivesse voltado dos mortos. Não houve mais estalos, depois disso. Até comecei a gostar da tarefa de rolar nuvens de lá desordenada em fios bons e fortes, que se transformavam nas roupas, nos cobertores e nos bens de comércio da minha família. Aprendi a gostar da maneira como a minha mente vagueava para onde quer que fosse, enquanto as minhas mãos seguiam o seu próprio curso. Mesmo quando já era velha, e fiava linho em vez de lã, lembrava-me do perfume da minha tia, e do modo como ela pronunciava o nome da deusa, Uttu.

Contei a José a história de Uttu, a fiandeira. Contei-lhe a história da viagem da grande deusa Innana à terra dos mortos e do casamento dela com o rei-pastor, Dumuzi, cujo amor por ela assegurava abundância de tâmaras, de vinho e de chuva. Aquelas histórias ouvira-as eu na tenda vermelha, contadas e recontadas pelas minhas mães e pela ocasional esposa de um mercador, que chamava as deusas e os deuses por nomes que não me eram familiares e que, por vezes, forneciam diferentes finais para histórias antigas.

José, por seu turno, contou-me a história em que Isaac era atado, e o milagre da sua libertação e dos encontros do nosso bisavô Abraão com os mensageiros dos deuses. Ele contou-me que o nosso pai, Jacob, falava com o El dos pais dele mesmo quando não fazia nenhum sacrifício. O nosso pai dizia que o deus informe e sem cara que não tinha outro nome senão deus, vinha visitá-lo à noite, nos seus sonhos, e de dia, apenas quando ele estava só, e que Jacob tinha a certeza que o futuro dos seus filhos seria abençoado por Ele.

José descreveu-me o maravilhoso bosque de terebintos em Mamre, onde a nossa bisavó falava com os seus deuses todas as noites e onde, um dia, o nosso pai nos levaria para derramarmos libações em nome de Sarai. Estas eram as histórias que José ouvia de Jacob, sentado entre os nossos irmãos, enquanto as ovelhas e as cabras pastavam. Eu achava que as histórias das mulheres eram mais bonitas, mas José preferia as histórias do nosso pai.

As nossas conversas não eram assim tão sublimes. Partilhamos o segredo do sexo e da procriação e rimos, espantados, ao imaginar os nossos pais a comportarem-se como os cães na poeira. Coscuvilhávamos infinitamente acerca dos nossos irmãos, observando atentamente a rivalidade entre Simeão e Levi, que podia ascender à troca de golpes por coisa tão trivial como a colocação de um cajado contra uma árvore. Também havia rivalidade permanente entre Judá e Zebulon, os dois bois entre os irmãos, mas a deles era uma batalha bem disposta para ver qual deles era o mais forte, e cada um deles aplaudia a capacidade do irmão de levantar grandes rochas e carregar ovelhas adultas através de um prado.

José e eu observávamos tudo, à medida que os filhos de Zilpah se tornaram os campeões da minha mãe, porque Gad e Aser ficavam embaraçados com as excentricidades da própria mãe. A incapacidade dela de fazer pão decente levou-os à tenda de Lea. Eles não percebiam nem davam valor à habilidade de Zilpah com o tear e, é claro, não tinham maneira de conhecer o talento dela para contar histórias. Portanto, carregavam os seus pequenos troféus - flores, pedras de cores vivas, os restos de um ninho de pássaro - para o colo da minha mãe. Ela despenteava-lhes o cabelo com a mão e dava-lhes de comer, e eles pavoneavam-se como pequenos heróis.

Por outro lado, Tali e Issa, os gêmeos do próprio ventre de Lea, não gostavam assim tanto dela. Detestavam parecer-se tanto um com o outro e culpavam a mãe. Faziam tudo o que podiam para se distinguirem um do outro e quase nunca eram vistos juntos. Tali tornou-se muito amigo do Dan de Bilhah, e os dois gostavam de dormir lado a lado na tetija de Bilhah, suspensos das palavras do irmão mais velho, Ruben, que também era atraído pela paz e pelo silêncio que rodeavam a minha tia.

Lea tentou reconquistar Tali e Issa à custa de doces e pão extra, mas estava demasiado ocupada com o trabalho da sua família para desejar ardentemente as atenções de dois dos seus muitos filhos. E não sofria por falta de amor. Quando eu a apanhava a ver um dos seus rapazes a caminhar em direção à tenda de outra mãe, ao anoitecer, puxava-lhe a mão. Então, ela levantava-me, para que os nossos olhos se encontrassem, e beijava-me numa face, e depois na outra, e depois na ponta do nariz. Isto fazia-me sempre rir, o que, por sua vez, trazia sempre um sorriso quente à cara da minha mãe. Um dos meus grandes segredos era saber que tinha o poder de a fazer sorrir.

O meu mundo estava cheio de mães e irmãos, de trabalho e de jogos, de luas novas e boa comida. Os montes distantes seguravam a minha vida numa taça cheia de tudo aquilo que eu poderia querer.

Eu era ainda criança quando o meu pai nos levou para fora da terra dos dois rios, em direção ao sul, para o país onde ele tinha nascido. Jovem como era, percebi porque é que íamos. Sentia o muro quente de raiva que se erguia entre o meu pai e o meu avô. Quase conseguia ver o braseiro entre eles, nas raras ocasiões em que se sentavam juntos.

Labão alimentava ressentimentos contra o meu pai, por causa do sucesso com os rebanhos, e por causa dos seus filhos, que eram tantos e mais hábeis do que os dois rapazes dele. Labão detestava o fato de dever o seu sucesso ao marido das suas filhas. Amargava-lhe a boca, de cada vez que o nome de Jacob era mencionado.

Quanto ao meu pai, embora fosse ele que fizesse os rebanhos multiplicarem-se, o acampamento encher-se de trabalhadores e os mercadores passarem pelas nossas tendas, nunca fora mais do que um servo de Labão. O seu salário era escasso, mas era poupado, e esperto, no tocante ao seu pequeno armazenamento de bens, e tinha tido muito cuidado com o crescimento do seu próprio pequeno rebanho de cabras malhadas e de ovelhas cinzentas.

Jacob detestava a preguiça de Labão, a maneira como ele e respectivos filhos desperdiçavam o fruto do trabalho do próprio Jacob. Quando o rapaz mais velho, Kemuel, abandonou o seu posto de guardador das cabras que estavam no cio, uma Primavera, as melhores delas morreram, devido à batalha entre os machos mais fortes. Quando Beor bebeu demasiado vinho e adormeceu, um falcão levou um cabrito que Jacob tinha marcado para o sacrifício.

O pior foi quando Labão perdeu os dois melhores cães de Jacob - o mais esperto e preferido de Jacob. O velho tinha ido numa viagem comercial de três dias a Carchemish e, sem pedir, tinha levado os cães para tomar conta de um rebanho tão pequeno que até um rapaz teria conseguido conduzi-lo sozinho.

Enquanto Labão esteve na cidade, vendeu ambos os cães por uma ninharia que depois perdeu, num jogo de azar.

A perda dos seus cães enraiveceu o meu pai. Na noite em que Labão voltou ao acampamento, ouvi os gritos e os palavrões deles enquanto adormecia. Depois, a expressão carrancuda na cara do meu pai tornou-se impenetrável. Os punhos dele só se abriram depois de ele ir ter com Lea e lhe contar os pormenores da mais recente afronta.

A minha mãe e as minhas tias não sentiam senão compaixão por Jacob. A lealdade delas para com Labão nunca tinha sido forte e, à medida que os anos passavam, elas empilhavam razões para o desprezar - preguiça, desonestidade, a arrogância dos estúpidos filhos dele e o tratamento que dava a Ruti, que só piorara à medida do correr dos anos.

Uns dias depois da discussão por causa dos cães, Ruti veio ter com a minha mãe e atirou-se ao chão. "Estou perdida", chorou ela, feita triste poça de mulher no pó. O cabelo dela estava solto e coberto de cinzas, como se tivesse acabado de enterrar a própria mãe.

Labão tinha perdido mais do que as suas moedas, naquele jogo em Carchemish. Também tinha apostado Ruti, e, agora, chegara um mercador para a reclamar como sua escrava. Labão estava sentado na sua tenda e recusava-se a sair e reconhecer o que tinha feito à mãe dos seus filhos, mas o mercador detinha o cajado de Labão como prova e o seu supervisor como testemunha. Ruti pôs a testa no chão e implorou ajuda a Lea.

Lea ouviu-a e, depois, virou-se para cuspir no nome do pai dela        - O traseiro de um burro tem mais mérito do que Labão - disse ela. - O meu pai é uma cobra. É as vísceras putrefatas de uma cobra.

Lea pousou o jarro de leite que estava a transformar em coalhada e, com passos pesados, marchou para a pastagem próxima, onde o meu pai ainda estava a ruminar a história dos cães. A minha mãe estava tão embrenhada nos seus pensamentos que nem pareceu notar que eu a seguia.

As faces de Lea ficaram vermelhas, enquanto se aproximava do marido. E, então, fez algo de extraordinário. Lea ajoelhou-se e, pegando na mão de Jacob, beijou-lhe os dedos. Ver a minha mãe a submeter-se daquela maneira era como ver uma ovelha a caçar um chacal, ou um homem a dar de mamar a um bebê. A minha mãe, que nunca hesitava nas palavras, quase gaguejava enquanto falava.

- Esposo, pai dos meus filhos, amado amigo - disse ela.- Venho apresentar-te um caso sem mérito, por pura pena. Esposo - murmurou ela - Jacob, sabes que ponho a minha vida apenas à tua guarda, e que o nome do meu pai é uma abominação para mim. Mesmo assim, venho pedir-te que redimas a mulher do meu pai da escravatura a que ele a vendeu. Um homem de Carchemish veio reclamar Ruti, que Labão apostou no seu jogo de azar, como se ela fosse um animal do rebanho dele ou uma estranha entre nós, e não a mãe dos filhos dele. Peço-te que a trates melhor do que o próprio marido dela. Peço-te que atues como o pai.

Jacob franziu o sobrolho, ao ouvir o pedido da sua esposa, embora no fundo lhe deva ter agradado o fato de ela se ter dirigido a ele não só como marido dela, mas também como líder da família. Levantou-se frente à Lea, cuja cabeça estava curvada, e olhou para ela de cima com ternura.

- Esposa - disse ele, pegando-lhe nas mãos para a levantar, os olhos deles encontraram-se, e ela sorriu.

Fiquei chocada. Tinha vindo para ver o desenrolar da história de Ruti, mas descobrira uma coisa completamente diferente. Vi o cio entre a minha mãe e o marido dela. Vi que Jacob podia causar o brilho de assentimento e de felicidade que pensava que só eu podia invocar em Lea.

Os meus olhos abriram-se, pela primeira vez, para o fato de o meu pai ser um homem. Vi que ele não era apenas alto, mas que também tinha ombros largos e uma cintura estreita. Embora por essa altura ele já devesse ter passado o seu quadragésimo verão, as costas dele estavam direitas, e ele ainda tinha a maior parte dos dentes e uma vista clara. O meu pai era muito bonito, percebi eu. O meu pai estava à altura da minha mãe.

No entanto, não encontrei consolação nesta descoberta. Enquanto se dirigiam de volta às tendas, Lea e Jacob iam lado a lado, de cabeças quase juntas enquanto ela murmurava o resgate que Jacob podia recolher por entre as esposas para redimir Ruti: mel e ervas, uma pilha de pulseiras de cobre, um rolo de linho e dois rolos de lá. Ele ouviu em silêncio, acenando com a cabeça de tempos a tempos. Não havia espaço para mim entre eles, não havia necessidade de mim. Os olhos da minha mãe estavam cheios de Jacob. Eu não tinha para ela a importância que ela tinha para mim. Eu queria chorar, mas percebi que era demasiado crescida para isso. Em breve seria uma mulher e teria que aprender a viver de coração dividido.

Completamente infeliz, segui os meus pais, enquanto eles iam entrando no círculo de tendas. Lea calou-se e retomou o seu lugar atrás do marido. Foi buscar um jarro da sua cerveja mais forte, para ajudar Jacob a amolecer o resoluto mercador. Mas o homem tinha visto que, embora estivesse desgastada e fosse feia, a mulher de Labão não tinha lábio leporino nem era coxa, ao contrário do que o preço dela o levara a supor. E ele era suficientemente perspicaz para perceber que a sua chegada tinha causado agitação. Pressentiu a sua vantagem, donde resultou que foram precisos todos os tesouros das mulheres e um dos cachorros de Jacob para que o mercador perdoasse a dívida e partisse sem Ruti. Pouco depois, todas as mulheres do acampamento sabiam o que tinha acontecido e, nas semanas seguintes, Jacob comeu como um príncipe.

Labão nunca falou do modo como Jacob tinha resgatado a mulher dele. Só se tornou mais sujo no uso que fazia de Ruti, cujos olhos pareciam permanentemente negros, depois daquilo. Os filhos dela, seguindo o padrão de comportamento do pai, não demonstravam qualquer respeito pela mãe. Não carregavam água para as panelas dela e não lhe traziam carne das caçadas deles. Ela arrastava-se em volta dos homens dela, silenciosa e serviçal.

Entre as mulheres, Ruti só falava da bondade da minha mãe. Tornou-se a sombra de Lea, beijando-lhe as mãos e a bainha do vestido, sentando-se tão perto da sua salvadora quanto podia. A presença daquela mulher esfarrapada não agradava a Lea, que ocasionalmente perdia a paciência.

- Vai para a tua tenda - dizia ela, quando Ruti estorvava. Mas Lea arrependia-se sempre de ralhar a Ruti, que bajulava até as palavras iradas da minha mãe. Depois de a mandar embora, Lea procurava-a, sentava-se ao lado da pobre alma desgastada, permitia ser beijada e agradecida, uma e outra vez.

 

Nos dias seguintes à redenção de Ruti, Jacob começou a pensar seriamente em tirar-nos dali. À noite, com Lea ou com Raquel, falava do seu desejo de abandonar as tendas de Labão e voltar à terra de seu pai. Jacob disse a Bilhah que a sua irrequietude lhe consumia a paz e que dormia mal. Jacob encontrou Zilpa, numa noite em que a insônia os levou a ambos, separadamente, ao conforto sussurrante do grande terebinto que se erguia junto ao altar. Mesmo em noites paradas, sem ar, escondiam-se brisas entre as folhas largas e planas da árvore de Zilpa. Jacob disse à sua quarta esposa que o deus dele lhe tinha aparecido e que lhe tinha dito que era tempo de deixar a terra dos dois rios. Era tempo de levar as esposas, os filhos e a riqueza acumulados por suas mãos.

Jacob disse a Zilpa que os seus sonhos se tinham tornado ferozes. Noite após noite, vozes de fogo chamavam-no de volta a Canaã, à terra do pai dele. Por muito ferozes que fossem os seus sonhos, eram alegres, também. Rebeca brilhava como o Sol e Isaac abençoava-o com um sorriso. Mesmo o irmão já não o ameaçava, mas aparecia como um enorme touro vermelho que convidava Jacob a montar-se nas costas dele. E parecia que Jacob já não tinha motivos para ter medo do seu irmão, pois os mercadores de Canaã tinham trazido notícias de que Esaú se tornara um próspero dono de rebanhos, e que tinha muitos filhos e a reputação de ser generoso.

No seu dia de recolhimento na tenda vermelha, as esposas de Jacob falaram entre si dos sonhos e dos planos do marido. Os olhos de Raquel brilharam antevendo a possibilidade de se mudarem para o Sul. Ela era a mais viajada de entre elas, tendo assistido a partos pelos montes, em Carchemish e, uma vez, na própria cidade de Haran.

- Oh, ver grandes montanhas, e uma verdadeira cidade! - disse ela. - Mercados cheios de bons produtos e de frutas cujos nomes nós nem sequer conhecemos! Encontraremos caras dos quatro cantos. Ouviremos a música de pandeiretas de prata e de flautas douradas.

Lea não estava tão ansiosa para descobrir novos mundos para além do vale que lhe tinha dado vida.

- Eu contento-me com as caras que vejo aqui à minha volta - disse ela -, mas gostaria muito de me ver livre do fedor de Labão. Iremos, é claro. Mas eu partirei com pena. Bilhah abanou a cabeça.

- Sofrerei por deixar os ossos de Ada. Sentirei falta de ver o Sol nascer no lugar onde dei à luz o meu filho. Ficarei de luto pela passagem da nossa juventude. Mas estou preparada. E os nossos filhos estão loucos por se irem embora daqui.

Bilhah deu voz a uma verdade que não tinha sido dita. Não havia espaço suficiente para tantos filhos fazerem carreira em Haran, onde qualquer outeirinho já tinha sido reclamado havia gerações. Não havia terra no país das mães deles. Se a família não se fosse embora junta, as mulheres rapidamente ficariam com o coração partido, vendo os filhos virarem-se uns contra os outros ou desaparecerem em busca dos seus próprios caminhos.

A respiração de Zilpa começou a ficar cada vez mais alta e mais irregular, à medida que as irmãs viravam e apontavam o futuro.

- Não posso ir - rebentou ela. - Não posso deixar a árvore sagrada, que é a fonte do meu poder. Ou a bamah, que está embebida nas minhas oferendas. Como é que os deuses saberão onde é que estou, se eu não estiver aqui para os servir? Quem é que os vai proteger? Irmãs, seremos acometidas por demônios - disse ela com os olhos muito abertos. - Esta árvore, este lugar, é aqui que ela está, a minha pequena deusa, Nanshe.

As irmãs sentaram-se, para ouvir Zilpa dizer o nome da sua própria deidade, algo que só se fazia no leito de morte. A irmã delas sentia-se desesperançada e tinha a voz estrangulada de lágrimas enquanto dizia:

- Vocês também, irmãs. Todos os vossos deuses nomeados residem aqui. Este é o lugar em que somos conhecidas, onde sabemos como servir. Será fatal irmo-nos embora. Eu sei que sim.

Fez-se silêncio, enquanto as outras olhavam fixamente para ela. Bilhah falou primeiro.

- Cada lugar tem os seus nomes sagrados, as suas árvores e elevações - disse ela, com voz calma de mãe que se dirige a uma criança assustada. - Haverá deuses para onde formos.

Mas Zilpa não era capaz de olhar Bilhah nos olhos, limitando-se a abanar a cabeça de um lado para o outro.

- Não - sussurrou ela.

Lea falou a seguir.

- Zilpa, nós somos a tua proteção. A tua família, as tuas irmãs, são a tua única segurança contra a fome, contra o frio, contra a loucura. Por vezes, pergunto-me se os deuses não serão sonhos e histórias que nos ajudam a passar noites frias e pensamentos negros. - Lea pegou na irmã pelos ombros. - É melhor depositares a tua confiança nas minhas mãos e nas mãos de Jacob, do que em histórias feitas de vento e de medo.

Zilpa encolheu-se por baixo das mãos da irmã e virou-se.

- Não - disse ela.

Raquel ouviu a sensata blasfêmia de Lea maravilhada, e falou, escolhendo as palavras para pensamentos que só descobria à medida que lhes dava voz.

- Nunca poderemos responder ao teu medo com provas, Zilpa. Os deuses estão sempre silenciosos. Sei que as mulheres em trabalho de parto encontram força e conforto nos nomes dos seus deuses. Já as vi lutar para além de toda a esperança ao ouvirem o som de um encantamento. Já vi vidas serem poupadas no último momento, por nenhuma outra razão senão essa esperança. Mas sei, também, que os deuses não protegem mesmo as mais bondosas e as mais piedosas das mulheres de verem os seus corações partidos, ou da morte. Portanto, Bilhah tem razão. Levaremos Nanshe conosco - disse ela, nomeando a amada deusa de Zilpa, padroeira dos sonhos e dos cantores. - Também levaremos Gula - nomeando a deusa da cura, a quem Raquel fazia oferendas. E, então, enquanto a idéia crescia na sua cabeça, Raquel deixou-a sair: - Pegaremos em todos os teraphim das nossas tendas e levá-los-emos para Canaã, com o nosso marido e os nossos filhos. Certamente que não nos farão mal - continuou ela, ganhando balanço à medida que o plano se formava na sua cabeça. - Se eles estiverem à nossa guarda. Não farão a Labão qualquer bem - acrescentou ela astuciosamente. Bilhah e Lea riram-se nervosamente, com a idéia de Labão se ver desapossado das suas figuras sagradas. O velho consultava as estátuas quando tinha que fazer alguma escolha, acariciando as suas favoritas distraidamente durante horas. Lea dizia que elas o acalmavam, da mesma maneira que um peito cheio acalmava um bebê resmungão.

Irem-se embora com os teraphim era incitar a ira de Labão. Mesmo assim, Raquel tinha um certo direito a eles. Em tempos remotos, quando a família vivia na cidade de Ur, era direito inquestionável da filha mais nova herdar todos os objetos sagrados. Esses costumes já não eram universalmente respeitados e Kemuel poderia reclamar os teraphim como parte dos direitos de nascença de um filho mais velho com a mesma autoridade.

As irmãs ficaram sentadas em silêncio, a considerar a arrojada idéia de Raquel. Por fim, Raquel falou.

- Levarei os teraphim e eles serão uma fonte de poder para nós. Serão um sinal dos nossos direitos de nascença. O nosso pai sofrerá tal como fez outros sofrer. Não falarei disto outra vez.

Zilpa limpou as lágrimas. Lea aclarou a garganta. Bilhah levantou-se. Tinha sido decidido.

Eu nem me atrevia a respirar. Receava ser expulsa da tenda,. caso elas dessem conta da minha presença. Fiquei sentada e quieta entre a mão direita da minha mãe e a mão esquerda de Bilhah, surpreendida com o que ouvia.

Raquel era leal a Gula, a curandeira. As oferendas de cereal de Bilhah eram feitas a Uttu, a fiandeira. Lea nutria particular afeição por Ninkasi, a cervejeira, que para levedar a cerveja usava uma cuba feita de lápis-lazúli cristalino e uma concha de prata e ouro. Eu pensava nos deuses e nas deusas como tias e tios mais avantajados do que os meus pais e capazes de viver dentro do chão ou acima da terra, se o quisessem. imaginava-os imortais, inodoros, eternamente felizes, fortes, e atentos a tudo quanto me acontecesse. Fiquei assustada, ao ouvir Lea, a mais sábia das mulheres, perguntar-se se estes poderosos amigos não seriam simples histórias destinadas a acalmar os pesadelos infantis.

Tremi. A minha mãe pôs-me a mão na cara, para ver se eu tinha febre, mas o seu toque encontrou-me fresca. Mais tarde, nessa noite, acordei a gritar e a suar num terror de queda, mas ela veio ter comigo e deitou-se a meu lado, e o calor do corpo dela reconfortou-me. Segura, no conhecimento do amor dela, comecei a resvalar para o sono e, depois, acordei por um momento, ao pensar que tinha ouvido a voz de Raquel: "Lembra-te deste momento em que o corpo da tua mãe cura todos os problemas da tua alma." Olhei em volta. mas a minha tia não estava à vista.

Deve ter sido um sonho.

Três dias mais tarde, Lea foi até à pastagem rochosa a oeste, para dizer a Jacob que as esposas estavam preparadas para o acompanharem à sua terra de origem. Eu seguia atrás dela, carregando um pouco de pão e cerveja para o meu pai. Não me agradava muito ter sido obrigada a fazer este serviço num dia quente.

Quando cheguei ao topo do outeiro que separava o nosso acampamento da pastagem, fui parada por uma cena perfeitamente maravilhosa. Muitas das ovelhas estavam pesadas, com cordeiros na barriga, e quase não se mexiam no calor crescente. O Sol levante invocava o cheiro do trevo. Só as abelhas zumbiam sob a resplandecente bandeira azul do céu.

Parei, enquanto a minha mãe continuava e seguia adiante.

O mundo parecia tão perfeito, tão completo, e no entanto tão pouco permanente, que eu quase chorei. Teria que descrever a Zilpa este sentimento e perguntar-lhe se ela sabia uma canção para ele. Mas, então, percebi que algo no universo se movera. Algo de importante mudara. Procurei no horizonte: o céu continuava claro, o trevo continuava pungente, as abelhas zumbiam.

Reparei que a minha mãe e o meu pai não estavam sozinhos. Lea estava em pé diante do marido. Ao lado dela estava Raquel.

As duas mulheres tinham feito uma espécie de paz havia alguns anos: Não trabalhavam juntas nem se consultavam uma à outra. Não se sentavam perto uma da outra na tenda vermelha nem se dirigiam uma à outra diretamente. E nunca estavam na presença do marido ao mesmo tempo. E, no entanto, ali estavam os três, à vista de todos, a conversar como velhos amigos. As mulheres estavam de costas para mim.

A conversa suspendeu-se, quando eu me aproximei. A minha mãe e a minha tia viraram-se de costas para Jacob e, ao verem-me, voltaram-se e retomaram as suas expressões solenes, com aquele sorriso falso que os adultos fazem quando querem esconder alguma coisa às crianças. Não devolvi o sorriso. Sabia que eles tinham estado a falar da partida. Pus a comida e a bebida da minha mãe aos pés dele e virei-me, para seguir Lea e Raquel de regresso às tendas, quando Jacob, meu pai, falou.

- Dina - disse ele. Era a primeira vez que eu me recordava de ter ouvido o meu nome na boca dele. - Obrigado, rapariga. Que possas sempre ser um conforto para as tuas mães. Olhei para a cara dele e ele sorriu um sorriso verdadeiro para mim. Mas eu não sabia como sorrir ao meu pai nem como responder-lhe, por isso virei-me, para correr atrás da minha mãe e de Raquel, que já caminhavam direitas às tendas. Fiz a minha mão deslizar para a mão de Lea e olhei de relance para trás, para ver Jacob mais uma vez, mas ele já estava de costas para mim.

Jacob começou a negociar a nossa partida naquela noite. Ao cair da noite e durante muitas noites em seguida, as mulheres deitaram-se nas suas camas com o som das vozes altas dos homens a zoarem-lhes nos ouvidos. Labão estava perfeitamente disposto a ver Jacob partir com as filhas e os netos, que comiam muito e o respeitavam pouco. Mas o velho detestava a idéia de ver Jacob ir-se embora rico.

Durante as longas noites de gritaria, Labão sentou-se entre os filhos dele, Kemuel e Beor. Os três beberam cerveja e vinho e bocejaram na cara de Jacob e deram por finda a conversa antes que se chegasse a qualquer acordo.

Jacob sentou-se entre os seus filhos mais velhos, Ruben e Simeão, e não tocou em qualquer bebida mais forte do que cerveja de cevada. Por trás dele estavam Levi e Judá, em pé. Os sete filhos mais novos mantinham-se fora da tenda, esforçando-se por ouvir o que lá se dizia. José contou-me o que ouviu e eu repeti tudo às minhas mães. Mas não contei a José as conversas murmuradas entre as mulheres. Não lhe contei que estavam a acumular pão duro, nem que tinham começado a coser ervas na bainha das roupas. E era suficientemente esperta para não deixar escapar uma palavra acerca do plano de Raquel para levar os teraphin.

Noite após noite, Labão argumentou que não devia a Jacob mais do que os magros dotes dados a Lea e Raquel, o que privaria o nosso pai até das tendas que nos cobriam as cabeças. Então, numa grande demonstração de generosidade, ofereceu vinte cabeças de ovelhas e vinte cabras uma de cada por cada ano que Jacob o servira, proporcionando-lhe muito mais riquezas do que este alguma vez sonhara.

Jacob, pela parte dele, reclamava os direitos de qualquer supervisor, ou seja um décimo dos rebanhos e o direito de escolher as cabeças de gado que levaria. Exigia os pertences pessoais das esposas dele, que se traduziam num bom monte de mós e fusos, teares e jarros, jóias e queijos. Lembrou a Labão que as tendas, os rebanhos e os trabalhadores a quem este devia dinheiro tinham sido adquiridos graças ao labor de Jacob. Ameaçou procurar justiça no tribunal de Haran, mas isso só fez Labão rir-se dele. Ele tinha jogado e bebido muito com os pais da cidade durante muitos anos, e não tinha dúvidas sobre o partido que tomariam.

Uma noite, já tarde, depois de semanas de conversas infrutíferas, Jacob encontrou as palavras que comoveram o coração de Labão. O marido de Lea e Raquel, o pai dos filhos de Zilpa e Bilhah, olhou Labão nos olhos e disse-lhe que o deus dos pais dele não olharia com benevolência para quem intrujasse um dos ungidos da sua tribo. Jacob disse-lhe que o deus dele o visitara em sonhos e que lhe tinha dito que se fosse embora com as esposas e os filhos e com uma abundância dos rebanhos dele. O deus de Jacob tinha dito que quem tentasse contrariar Jacob sofreria no próprio corpo, nos seus rebanhos e nos seus filhos.

Isto preocupou o velho, que tremia perante o poder de qualquer deus. Quando Jacob invocou o nome do deus dos pais dele, o sorriso escarninho caiu dos lábios de Labão. O sucesso de Jacob com os rebanhos, a saúde dos seus onze filhos, a lealdade dos trabalhadores e mesmo as extraordinárias capacidades dos seus cães tudo isso era sinal de que Jacob era abençoado pelos céus. Labão recordou todos os anos de excelentes sacrifícios que Jacob tinha feito ao seu deus e chegou à conclusão de que El devia estar muito satisfeito com tanta devoção.

No dia seguinte, Labão fechou-se com os seus deuses lares e não foi visto até à noite, altura em que mandou chamar Jacob. No momento em que Jacob se viu frente ao sogro, percebeu que a sorte tinha mudado. Começou a negociar a sério.

- Meu pai - disse ele, com falso mel na voz , - porque foste bom para mim, só quero levar os animais que são malhados e às pintas, aqueles cuja lã e cuja pele me darão menos dinheiro no mercado. Ficarás com os puro-sangue dos rebanhos. Sairei de tua casa pobre, mas grato.

Labão sentiu que havia truque na oferta de Jacob, mas não conseguiu adivinhar onde estava o benefício. Toda a gente sabia que os animais mais escuros não produziam lã de que se pudesse fazer fio branco, nem as respectivas peles ficavam uniformemente curtidas. O que Labão não sabia era que os animais "mais pobres" eram mais robustos e saudáveis do que os animais que davam a lã e as peles mais bonitas. As ovelhas malhadas tinham gêmeos as maioria das vezes e a maior parte das suas crias eram fêmeas, o que significava mais queijo. O pêlo das cabras malhadas era particularmente oleoso, por isso produzia corda mais forte. Mas estes eram os segredos de Jacob, aprendidos durante os anos que passara com os rebanhos.   Era um conhecimento negado à preguiça de Labão.

Labão disse:

- Assim seja - e os homens beberam vinho para selar o acordo. Jacob ir-se-ia embora com as suas mulheres e os seus filhos, com os rebanhos malhados e às pintas, que não ascendiam a mais de sessenta cabras e sessenta ovelhas. Jacob poderia ter levado mais gado, mas trocou-o por dois trabalhadores e suas mulheres. Em troca de um burro e de um boi antiqüíssimo, Jacob concordou em deixar dois dos cães, incluindo o melhor dos cães pastores.

Todos os bens caseiros de Lea e Raquel eram para Jacob levar, tal como as roupas e jóias que Zilpa e Bilhah usavam. Jacob reclamou as capas e as lanças dos seus filhos, dois teares e vinte e quatro minas de lã, seis cestos de cereais, doze jarros de azeite, dez odres de vinho, e odres de água, um para cada pessoa. Mas esta foi apenas a contagem oficial, que não tomou em linha de conta a esperteza das minhas mães.

Eles decidiram a data da nossa partida: daí a três meses. Embora parecesse uma eternidade quando foi anunciada, as semanas passaram depressa. As minhas mães começaram a recolher, a deitar fora, a empacotar, a escolher, a trocar, a lavar. Conceberam sandálias para a viagem e cozeram vários pães duros. Esconderam as suas melhores jóias no fundo dos cestos de cereais, para o caso de sermos abordados por ladrões, na estrada. Rasparam os montes à cata de ervas para encher as bolsas.

Se tivessem escolhido fazê-lo, as minhas mães poderiam ter levado todo o horto. Poderiam ter levado cada bolbo de cebola, ter desenterrado cada um dos armazenamentos de cereais que estavam enterrados e ter esvaziado todas as colméias existentes a curta distância. Mas levaram apenas aquilo que consideravam ser seu de direito, e nada mais. Fizeram isto, não por respeito por Labão, mas pelo respeito que tinham pelas mulheres dos trabalhadores e pelas crianças delas que ficariam para trás.

Mandada a ir buscar coisas e a carregar outras, também eu trabalhei muito. Ninguém me mimava ou se preocupava muito com o meu cabelo. Ninguém me sorria ou elogiava a minha fiação. Senti que abusavam de mim e que me ignoravam, mas ninguém se apercebia de nada, quando eu ficava a remoer o assunto, pelo que deixei de sentir pena de mim própria e fiz o que me mandavam fazer.

Poderia ter sido uma época alegre, se não fosse pela Ruti, que, nas últimas semanas da nossa preparação, perdeu todo o ânimo. Começou a sentar-se no pó em frente à tenda de Lea, uma imagem fúnebre do desespero que forçava toda a gente a rodear o corpo dela. Lea agachou-se e tentou persuadir Ruti a sair dali, a ir para dentro da tenda e comer qualquer coisa, a reconfortar-se. Mas nada neste mundo podia confortar Ruti. Lea condoía-se da pobre mulher, que não era mais velha do que ela própria, mas cujos dentes já tinham desaparecido e que se arrastava como uma velha. Porém, não havia nada a fazer e, depois de várias tentativas de a fazer tentar sair da infelicidade em que se achava, a minha mãe levantou-se e continuou a fazer o que tinha a fazer.

Na noite anterior à última lua nova que passamos na terra dos dois rios, as esposas de Jacob juntaram-se silenciosamente na tenda vermelha. As irmãs sentaram-se, deixando os bolos de três cantos intactos, no cesto que estava diante delas. Bilhah disse:

- A Ruti vai morrer, agora. - As palavras dela pairaram no ar, incontestadas e verdadeiras. - Um dia, Labão vai bater-lhe de mais, ou ela vai simplesmente definhar de mágoa.

Zilpa suspirou no silêncio, Lea limpou as lágrimas. Raquel fixou os olhos nas mãos. A minha mãe puxou-me para o colo dela, um lugar para o qual eu já era demasiado grande. Mas eu fiquei lá sentada, deixei-a tratar-me como um bebê, desfrutei as carícias desatentas dela.

As mulheres queimaram uma porção do seu bolo lunar como oferenda, tal como faziam a cada lua nova, tal como faziam a cada sétimo dia. Mas não cantaram nenhuma canção de ação de graças nem dançaram.

No dia seguinte, as mulheres dos trabalhadores juntaram-se às mulheres de Jacob, mas daquela vez tudo se passou como se tratasse de um funeral e não como se fosse uma festa. Ninguém pediu à mulher grávida que falasse dos sintomas dela. Ninguém falou das façanhas do filho. As mulheres não entrançaram o cabelo umas às outras nem massagearam os pés umas das outras com óleo. Os bolos doces permaneceram intactos, a não ser pelos bebês que andavam dentro e fora, procurando os peitos e os colos das mães.

De todas as mulheres, só Zibatu e Uzna é que iriam para Canaã com as minhas mães. As outras ficariam para trás com os seus maridos. Era o fim de uma longa irmandade. Elas tinham segurado as pernas umas das outras nos partos, tinham dado de mamar aos bebês umas das outras. Tinham rido no horto e cantado harmonias à lua nova. Mas esses dias estavam a acabar, e cada mulher se sentava com as suas próprias recordações, a sua própria perda. Pela primeira vez, a tenda vermelha transformou-se num lugar triste, e eu fui sentar-me lá fora até estar suficientemente cansada para ir dormir.

Ruti não apareceu na tenda. Passou a manhã, e a noite, e ela sem vir. Quando o Sol se levantou no segundo dia, a minha mãe mandou-me procurá-la. Perguntei a José se a mulher do nosso avô tinha feito pão nessa manhã. Perguntei a Judá se tinha visto Ruti em qualquer lugar. Perguntei por ela aos meus irmãos e às filhas das mulheres dos trabalhadores, mas ninguém se lembrava de ter visto Ruti. Ninguém se conseguia lembrar. Por essa altura, a infelicidade tinha-a tornado quase invisível.

Fui ao topo do monte em que fora tão feliz há uns meses, mas, agora, o céu estava mortiço e a terra parecia cinzenta. Perscrutei o horizonte, mas não vi ninguém. Fui até ao poço, mas estava sozinha. Trepei aos ramos mais baixos de uma árvore, no limite da pastagem mais próxima das tendas, mas não vi Ruti.

Quando regressava para dizer à minha mãe que era impossível descobrir Ruti em lado algum, encontrei-a. Estava deitada num dos lados de um wadi seco, lugar desolado onde os cordeiros tresmalhados por vezes iam ter e partiam as pernas. A princípio, pensei que Ruti estava a dormir de barriga para o ar, deitada na encosta íngreme. À medida que me ia aproximando, percebi que tinha os olhos abertos, pelo que a chamei, mas ela não me deu troco.

Só então reparei que ela estava de boca aberta, com os cantos dos olhos cobertos de moscas, e depois vi o pulso, negro de sangue. Os pássaros que comem cadáveres voavam em círculos por cima dela.

Eu nunca tinha visto um cadáver. Os meus olhos encheram-se da cara de Ruti, que já não era a cara de Ruti, mas um pedaço de ardósia azul com traços de uma cara que eu recordava. Ela não parecia triste. Não parecia sofrida. Não tinha ar de coisa alguma, a não ser o de estar vazia. Olhei fixamente, tentando perceber para onde é que a Ruti tinha ido. E, embora não me apercebesse disso, estava a suster a respiração.

Poderia nunca me ter mexido daquele lugar, se o José não tivesse aparecido por trás de mim. Raquel também o tinha mandado procurar Ruti. Ele passou por mim e agachou-se ao lado do corpo. Soprou levemente sobre os olhos fixos dela, tocou-lhe a cara com o dedo e, depois, pôs a mão direita sobre os olhos para os fechar. Fiquei surpreendida com a coragem e a calma do meu irmão.

Mas, então, José estremeceu e deu um salto para trás, como se tivesse sido mordido por uma cobra. Correu até ao fundo do wadi, até ao lugar onde a água correra, em tempos, e onde devem ter crescido flores. Caindo de joelhos, José vomitou no leito seco. Com grandes soluços, ajoelhou-se e vomitou e tossiu. Quando fui ter com ele, ele pôs-se de pé a cambalear e fez um gesto para eu me manter afastada.

- Volta para trás e vai dizer-lhes - murmurei eu. - Eu fico aqui e mantenho os abutres longe dela.

Arrependi-me das minhas palavras no momento em que saíram da minha boca. José não se deu ao trabalho de responder, mas desatou a correr como se fosse perseguido por um lobo.

Virei-me de costas para o corpo, mas não conseguia abstrair-me do som das moscas no pulso dela e da faca ensangüentada a seu lado. Os abutres batiam as asas e gritavam. O vento passava pela minha túnica e eu tremia.

Fui até ao cimo do wadi e tentei ter bons pensamentos acerca da Ruti. Mas apenas conseguia pensar no medo expresso nos olhos dela, na poeira no cabelo dela, no cheiro azedo do corpo dela, nela agachada e vencida. Tinha sido uma mulher, da mesma maneira que a minha mãe era uma mulher, e no entanto era uma criatura completamente diferente da minha mãe. Eu não percebia a bondade de Lea para com Ruti. No fundo, eu partilhava o desdém dos filhos dela por ela. Porque se submetia ela a Labão? Porque não exigia o respeito dos filhos? Como é que tinha encontrado coragem para se matar, quando não tinha tido coragem para viver? Tive vergonha da frieza do meu coração, pois sabia que Bilhah teria chorado ao ver Ruti ali deitada, e que Lea poria cinzas no seu próprio cabelo, quando soubesse o que tinha acontecido.

Mas quanto mais tempo ficava ali, mais odiava a Ruti pela sua fraqueza, por me obrigar a ficar ali a guardá-la. Parecia que ninguém me vinha buscar, e comecei a tremer. Talvez Ruti se levantasse e me atacasse com a sua faca, como castigo pela crueldade dos meus pensamentos. Talvez os deuses do mundo inferior viessem buscá-la e me levassem a mim, também. Comecei a chorar, desejando que a minha mãe viesse e me salvasse. Chamei o nome de cada uma das minhas tias. Chamei José e Ruben e Judá. Mas parecia que eles me tinham esquecido.

Quando vi os vultos de duas pessoas que atravessavam o prado, estava doente de preocupação. Mas não havia ninguém para me reconfortar. As mulheres tinham permanecido na tenda. Só os horríveis filhos de Ruti tinham vindo. Atiraram um cobertor sobre a cara da mãe sem ao menos soltarem um suspiro. Beor lançou o pequeno fardo que era Ruti sobre os seus ombros, como se estivesse a carregar um cabrito tresmalhado. Segui-o sozinha. Kemuel não prestou qualquer atenção à sua pobre mãe morta e caçou um coelho no caminho de volta. "Ha, ha!" gritou ele, quando a sua seta acertou o alvo.

Só quando vi a tenda vermelha na orla do acampamento é que as lágrimas me começaram a correr pela cara abaixo outra vez, e corri para as minhas mães. Lea observou atentamente a minha cara, e cobriu-a de beijos. Raquel abraçou-me com força na cama bem-cheirosa dela. Zilpa cantou-me uma canção de embalar sobre chuvas abundantes e colheitas luxuriantes, enquanto Bilhah me massageou os pés até eu adormecer. Não acordei senão na noite seguinte, e, por essa altura, Ruti já estava na terra. Fomo-nos embora alguns dias mais tarde.

O meu pai e os meus irmãos mais velhos, todos os trabalhadores e os filhos de Labão foram para os pastos mais distantes para separar o gado malhado e pintado que agora pertencia a Jacob. De todos os homens, só Labão ficou no acampamento, contando jarros à medida que estes eram cheios, desarrumando artigos de lã arrumados, para verificar que não levávamos nada que ele não tivesse acordado que levássemos.

- É um direito meu - ladrava ele, sem se desculpar.

Labão acabou por se cansar de espiar os trabalhos das filhas e decidiu ir a Haran "em negócios". Lea escarneceu do anúncio.

- O velho vai jogar e beber e gabar-se aos outros idiotas preguiçosos de se ter finalmente livrado do genro ganancioso e das filhas ingratas - disse-me ela, enquanto cozinhávamos uma refeição para ele levar na viagem. Beor acompanhou Labão, que fez grande encenação para deixar Kemuel no comando. - Ele tem a minha autoridade em todas as coisas - disse Labão às esposas e aos filhos mais novos de Jacob, que reuniu para assistirem à sua partida.

Mal Labão desaparecera por trás do monte, já Kemuel exigia que Raquel, ela mesma, lhe trouxesse vinho forte.

- Não me mandem uma rapariga feia para me servir - gritou ele. - Quero a minha irmã.

Raquel não colocou qualquer objeção a servi-lo, uma vez que aquilo lhe dava a oportunidade de lhe pôr na taça uma erva que apressa o sono.

- Bebe bem, irmão - disse ela docemente, enquanto ele engolia a primeira taça. - Toma outra.

Uma hora depois da partida de Labão já ele estava a ressonar. De cada vez que acordava, Raquel ia à tenda dele com a sua poção, sentava-se com ele, fingia-se interessada nas rudes tentativas de sedução e enchia-lhe a taça de tal maneira e tantas vezes, que ele perdeu todo aquele dia e também o seguinte.

Enquanto Kemuel ressonava, os homens voltaram, trazendo os rebanhos para a pastagem mais próxima, logo a seguir à colina ao lado das tendas, o que fez com que as últimas horas da nossa preparação se enchessem de balidos, poeira e cheiros de animais. Essas horas também foram preenchidas pelo desacostumado barulho de tantos homens entre nós.

Em dias normais, as tendas só eram ocupadas pelas mulheres e crianças. Um homem doente ou fraco poderia ficar deitado na sua cama ou sentado ao sol enquanto o trabalho de lá, de pão e de cerveja progredia à volta dele, mas, tal homem, permaneceria embaraçado e à margem.

Nós tínhamos toda uma multidão de homens saudáveis com muito pouco que fazer.

- Que maçada - disse a minha mãe da incontornável presença dos meus irmãos.

- Eles estão sempre com fome - resmungou Bilhah (que nunca resmungava), depois de ter mandado Ruben embora, pela segunda vez naquela manhã, com uma tigela de lentilhas e de cebolas. De poucos em poucos minutos, Bilhah ou Lea tinham que fazer uma pausa nos seus afazeres para aquecerem as pedras do pão.

A presença dos homens acarretava outra dificuldade mais subtil. As tendas eram o domínio de Lea e, muito embora só ela soubesse o que era necessário ser feito, não dava ordens com o marido ao lado. Portanto, ficava de pé atrás de Jacob e perguntava suavemente: "O meu marido está pronto para desmantelar o tear grande e pô-lo na carroça?", e ele dirigia os filhos na realização das tarefas necessárias. E assim foi, até tudo estar pronto.

Durante as semanas de preparação, e especialmente depois de Labão ter partido para Haran, mantive-me junto da minha tia Raquel. Encontrava razões para a seguir de uma tarefa para a outra, oferecendo-me para carregar coisas para ela, pedindo-lhe conselhos sobre os meus deveres. Ficava ao lado dela até ao cair da noite, chegando mesmo a adormecer nos cobertores dela, e acordava de manhã para me encontrar coberta pela sua bem-cheirosa capa.         Tentei ser cuidadosa, mas ela sabia que eu a estava a observar.

Na noite anterior à nossa partida, Raquel olhou-me nos olhos, que eu mantinha fixos em cada movimento seu. A princípio, ela arregalou os olhos, mas depois olhou-me de uma maneira que queria dizer que eu tinha triunfado: podia segui-la. Fomos à bamah, onde Zilpa estava deitada de barriga para baixo ao lado do altar, murmurando aos deuses e às deusas que estávamos prestes a abandonar. Ela olhou para cima, enquanto nós nos sentávamos entre as raízes da grande árvore que aí havia, mas nem sequer tenho a certeza de que Zilpa me tenha visto sentar-me entre os joelhos de Raquel. Enquanto esperávamos, a minha tia entrançou-me o cabelo e falou-me das propriedades curativas das ervas comuns (sementes de coentros para a dor de barriga, cominhos para as feridas). Há muito tempo que ela tinha decidido que eu deveria aprender tudo quanto Inna lhe tinha ensinado.

Estivemos ali sentadas no colo da árvore até que Zilpa se levantou, suspirou e se foi embora. Ficamos sentadas até os sons das tendas desaparecerem e as últimas lâmpadas se apagarem. Ficamos ali até a Lua, que estava a meio caminho da completude, estar alçada sobre os ramos que nos cobriam, e até o único som ser o ocasional balido de uma ovelha.

Então, Raquel levantou-se, e eu segui-a, enquanto ela caminhava levemente até à tenda de Labão. Nem a minha tia deu sinais de estar consciente da minha presença, nem eu tive a certeza de que ela soubesse que eu estava atrás dela, até que ela segurou na aba aberta da tenda para eu passar para um lugar onde nunca tinha estado e onde não desejava ir.

Estava escuro como num poço seco, na tenda do meu avô, e o ar era fétido e bafiento. Raquel, que ali tinha estado para repetidamente levar bebida a Kemuel, passou pelo corpo ressonante dele diretamente para o canto da tenda em que um rústico banco de madeira servia de altar. Os teraphim estavam dispostos em duas filas. Raquel agarrou-os sem hesitar e deixou-os cair, um por um, no pano que trazia atado em volta da cintura, como se estivesse a colher cebolas. Quando o último dos ídolos caiu no avental dela, voltou-se, caminhou ao longo da tenda sem um olhar para Kemuel - que gemeu no sono, quando ela passou por ele -, e silenciosamente segurou a aba aberta da tenda para que eu passasse.

Saímos dali para o silêncio. O meu coração batia forte nos meus ouvidos, e eu respirei fundo para me livrar do mau cheiro da tenda, mas Raquel não fez qualquer pausa. Caminhou rapidamente até à tenda dela, onde Bilhah dormia. Ouvi a minha tia remexer nos cobertores, mas estava demasiado escuro para ver onde ela escondia os ídolos. Depois, Raquel deitou-se e eu não ouvi mais nada.

Quis abaná-la, exigir-lhe que me mostrasse os tesouros. Queria que ela me abraçasse, que me dissesse o quanto me portara bem ao manter-me quieta. Mas fiquei calada. Deitei-me com o coração a bater muito rápido, pensando que Kemuel irromperia pela tenda dentro e nos mataria a todas. Perguntei-me se os teraphim ganhariam vida e nos lançariam terríveis feitiços por os incomodarmos. Tinha a certeza de que a manhã nunca mais chegaria, e tremia no meu cobertor, embora a noite não estivesse fria. Por fim, os meus olhos fecharam-se, num sono sem sonhos.

Acordei com um grande barulho de vozes no exterior da tenda. Raquel e Bilhah já lá não estavam, e eu estava sozinha com dois montes de cobertores muito bem dobrados. Ela tinha-os levado com ela, percebi. Raquel tinha levado os ídolos sem mim. Depois de toda a minha cuidada observação e perseguição, tinha perdido aquele momento. Corri para fora, para ver os meus irmãos a enrolarem as peles de cabra que tinham sido a tenda de meu pai. à minha volta, as tendas estavam no chão, as estacas tinham sido reunidas, as cordas tinham sido enroladas. O meu lar tinha sido desmantelado. Íamos embora.

Jacob tinha-se levantado à alvorada e tinha feito um sacrifício de cereal, de vinho e de óleo, para a viagem. Os rebanhos, sentindo mudança, baliam e levantavam poeira. Os cães não paravam de ladrar. Metade das tendas estava no chão, deixando o campo com um ar tosco e desolado, como se um grande vento tivesse levado metade do mundo.

Tomamos uma refeição matinal salgada pelas lágrimas daqueles que não nos acompanhariam. As mulheres guardaram as últimas tigelas e ficaram de pé, com as mãos vazias. Não havia mais nada a fazer, mas Jacob não dava o sinal de partida. Labão não voltara de Haran, como tinha prometido.

O Sol começou a levantar-se, havia muito que nos deveríamos ter ido embora, mas Jacob permanecia em pé, sozinho, no topo da elevação que dava sobre a estrada para Haran, piscando os olhos à procura de um sinal de Labão. Os filhos de Jacob murmuraram entre si. Zilpa foi até à bamah, onde rasgou a túnica e pôs cinzas no cabelo. Começou a ficar calor, a fazer-se silêncio, e até os rebanhos se aquietaram.

Então, Raquel passou por Ruben e Simeão, Levi e Judá, que estavam no sopé da colina onde Jacob se mantinha de vigia, aproximou-se do marido, e disse:

- Vamos. Kemuel disse-me que o pai dele voltará com lanças e cavaleiros, para nos impedir a partida. Ele foi dizer aos juizes de Haran que és um ladrão. Não devemos esperar.

Jacob ouviu, e depois respondeu:

- O teu pai teme demasiado o meu deus para fazer coisa tão temerária. E Kemuel é parvo.

Raquel curvou a cabeça e disse:

- O meu marido poderá saber mais do que eu, mas os rebanhos estão prontos e os nossos bens empacotados. Os nossos pés estão calçados e estamos aqui sem nada que fazer. Não nos vamos embora a coberto da escuridão da noite. Não levamos senão aquilo que é nosso. Esta é a estação certa. Se esperarmos muito mais, a Lua vai começar a minguar, e uma Lua a escurecer não é propícia à viagem.

Raquel não disse mais do que a verdade, e Jacob não tinha qualquer desejo de ver Labão outra vez. Na realidade, ele estava furioso com o velho, por ele o estar a fazer esperar, por o fazer ir embora como um ladrão, sem se despedir como devia ser do avô dos filhos dele.

As palavras de Raquel iam ao encontro das intenções de Jacob, depois de ela o deixar, ele deu ordem de partida. Impacientes por se meterem a caminho, os filhos de Jacob gritaram de felicidade, mas um lamento levantou-se entre as mulheres que iam ficar para trás.

O meu pai fez-nos sinal para que o seguíssemos. Conduziu-nos primeiro a bamah, onde cada um de nós pôs uma pedra no altar. Os homens apanharam uma qualquer das pequenas pedras que estavam a seus pés, para deixarem como despedida. Lea e Raquel procuraram pedras ao pé do terebinto próximo, que lhes tinha dado anos de sombra e conforto.

Não se disse uma palavra. As pedras fariam testemunho de nós, embora Bilhah tenha beijado a sua antes de a pôr em cima das outras.

Só Zilpa e eu estávamos preparadas para aquele momento. Semanas antes, a minha sofredora tia tinha-me levado ao wadi onde Ruti morrera, mostrando-me um lugar no fundo da ravina, cheio de pedras lisas e ovais. Ela escolheu uma pedra branca muito pequenina. Do tamanho da unha do dedo polegar dela. Eu levei uma vermelha, com veios pretos, quase tão grande quanto o meu punho. Ela guardou-a para mim, e pô-la na palma da minha mão enquanto caminhamos pela última vez até ao lugar sagrado da minha família.

Depois, Jacob conduziu a família por sobre a colina, onde os homens dele esperavam com os rebanhos. As minhas mães não olharam para trás, nem mesmo Zilpa, cujos olhos estavam vermelhos, mas secos.

 

O meu pai organizou toda a família, os rebanhos e toda a sua casa, para a viagem. Jacob liderava a caravana, segurando um grande cajado de oliveira na mão, flanqueado por Levi e Simeão, que se pavoneavam, todos ufanos. Atrás deles, iam as mulheres e crianças que eram demasiado jovens para cuidarem dos rebanhos, pelo que os pequenos filho e filha de Uzna ficaram perto das pernas da mãe e Zibatu levava o seu bebê numa funda que carregava à cintura. Eu comecei por ir perto de Zilpa, esperando aliviar a tristeza que se tinha colado a ela, mas a mágoa dela acabou por me afugentar para perto da minha mãe e de Bilhah, que estavam absortas a planear as refeições e não me prestavam atenção. Por isso, dirigi-me a Raquel, cujo sorriso não esmaeceu mesmo quando o sol começou a bater-nos em cheio. A trouxa que ia às costas dela era mais do que suficientemente grande para levar os teraphim, e eu tinha a certeza de que era ali que eles estavam escondidos.

A José, Tali e Issa mandaram tomar conta dos animais de carga, perto das mulheres, o que os fez amuar e dar pontapés na poeira, e resmungar que já eram suficientemente crescidos para lhes serem confiados trabalhos mais importantes do que tomar conta de um burro calmo e do boi que puxava o carro pesado.

Exatamente atrás de nós e das bestas de carga, Ruben era responsável pelos rebanhos e pelos pastores, que incluíam Zebulon e Dan, Gad e Aser, e os trabalhadores: Nomir, marido de Zibatu. e Zimri, pai das crianças de Uzna. Os quatro cães corriam em volta do perímetro dos rebanhos, com as orelhas coladas às cabeças, enquanto trabalhavam. Só levantavam os olhos castanhos das cabras e das ovelhas quando Jacob se aproximava, e então dirigiam-se ao dono para desfrutarem, por um momento, do toque da mão e da voz dele.

Judá, o nosso guardião da retaguarda, caminhava atrás dos rebanhos, vigiando-os para que nenhum animal se perdesse. Eu tendia a sentir-me sozinha, sem ninguém com quem falar, até porque o meu irmão parecia estar a apreciar a solidão.

Estava espantada com a quantidade de pessoas que éramos e com aquilo que me parecia ser a nossa grande fortuna. José disse-me que éramos um pequeno grupo, fosse qual fosse a medida usada para nos qualificar, uma vez que só tínhamos dois animais de carga para carregar os nossos pertences, mas eu continuei orgulhosa das posses do meu pai, e pensava que a minha mãe se comportava como uma rainha.

Tínhamos andado durante muito pouco tempo, quando Levi apontou uma figura à nossa frente, sentada ao lado do caminho. Quando nos aproximamos, Raquel gritou: "Inna!" e correu a frente de nós, para cumprimentar a sua amiga e mestra. A parteira estava vestida para viajar, com um burro carregado de cobertores e de cestos a seu lado. A caravana não parou devido à inesperada presença da mulher solitária. Teria sido inútil fazer parar o rebanho na ausência de água. Em vez disso, Inna aproximou-se de Jacob, conduzindo o seu burro e andando um passo atrás do meu pai. Inna não se dirigiu ao meu pai, mas falou a Raquel para que Jacob pudesse ouvir as palavras dela.

A parteira apresentou o seu caso com frases rebuscadas, que pareciam estranhas vindas de uma boca que habitualmente falava nos mais normais e, por vezes, rudes termos.

- Oh, minha amiga - disse Inna -, não suporto ver-te partir. A minha vida seria desoladora na tua ausência, e já estou demasiado velha para arranjar outra aprendiz. Só desejo juntar-me à tua família e estar entre vós pelo resto dos meus dias. Daria ao teu esposo tudo aquilo que possuo, em troca da sua proteção e de um lugar entre as mulheres das suas tendas.

Acompanhar-te-ia como tua serva ou como tua criada, para praticar a minha arte no Sul e aprender o que eles lá tiverem a ensinar. Ministraria à tua família, pousando os tijolos para as mulheres que dela fazem parte, curando as feridas dos homens, oferecendo serviço a Gula, a curandeira, em nome de Jacob.

E depois elogiou o meu pai, a quem chamou sábio, para além de bondoso. Afirmou ser uma criada dele.

Eu fui uma das muitas testemunhas do discurso de Inna. Levi e Simeão ficaram por perto, curiosos por saber o que a parteira queria. Lea e Bilhah tinham apressado o passo, para descobrirem porque é que a sua amiga tinha aparecido entre elas. Até Zilpa acordou e se aproximou.

Raquel virou-se para Jacob, com as sobrancelhas a pôr a questão, as mãos juntas perto do peito. O marido sorriu-lhe.

- A tua amiga é bem-vinda. Aos meus olhos, será a tua criada. É tua como se fizesse parte do teu dote. Não há mais nada a dizer.

Raquel beijou a mão de Jacob e pô-la por um momento sobre o coração dela. Depois, levou Inna e o seu burro lá para trás, para perto dos nossos animais, onde as mulheres podiam falar com mais liberdade.

- Irmã! - disse Raquel à parteira. - O que é isto?

Inna baixou a voz e começou a contar uma história triste sobre um nascituro deformado - uma cabeça pequenina, membros tortos -, que uma rapariga que ficara grávida no seu primeiro sangue tivera.

- Muito jovem - contou Inna, zangada. - Mesmo muito jovem. - O pai era um desconhecido, um homem de cabelos revoltos, com muitos anos, que só usava uma tanga e que trouxera a sua esposa à cabana de Inna. Quando o bebê e a mãe morreram, ele acusou a parteira de lhe ter causado desgraça à custa de feitiços.

Inna, que tinha passado três terríveis dias a trabalhar para salvar a mãe, não conseguiu suster a língua. Exausta e pesarosa, chamou monstro ao homem e acusou-o de ser o pai da rapariga em vez de ser marido dela. E depois cuspiu-lhe na cara.

Enraivecido, o desconhecido agarrou-a pelo pescoço e tê-la-ia morto não fora pelos vizinhos, que tinham sido atraídos pelos gritos e que o apartaram dela. Inna mostrou-nos as nódoas negras no pescoço. O homem exigia ser recompensado pelas suas perdas pelo pai de Inna, mas Inna não tinha pai, nem tinha irmão ou marido. Vivia sozinha desde a morte da mãe.

Tendo mantido a cabana da sua família, não precisava de abrigo, e o ofício de parteira mantinha-a abastecida de cereal e de azeite, e mesmo de lã para mercadejar. Uma vez que não era um fardo para ninguém, ninguém se tinha preocupado com ela. Mas, agora, o desconhecido zangado exigia saber porque é que os habitantes da aldeia toleravam tal "abominação".

- Uma mulher sozinha é um perigo - gritou ele nas caras dos vizinhos de Inna. - Onde estão os vossos juizes? - disse ele num silvo. - Quem são os vossos anciãos?

Com isto, Inna começou a ficar com medo. O homem mais poderoso da sua aldeia de adobe odiava-a, desde que ela tinha recusado uma oferta de casamento feita em nome do filho tolo dele. Teve medo de que ele incitasse os homens contra ela, e que pudesse mesmo fazê-la escrava.

- Idiotas. Todos eles - disse ela, cuspindo no pó. - Os meus pensamentos viraram-se para vós, como refúgio - disse ela, dirigindo-se a todas as mulheres da minha família, que caminhavam por perto, ouvindo cada uma das palavras dela. Raquel sabe que eu sempre quis ver mais lugares do mundo para além destes montes poeirentos. E, uma vez que Jacob trata as esposas dele melhor do que a maioria dos homens, comecei a ver a vossa partida como um presente dos deuses - prosseguiu ela. - E, irmãs, tenho que dizer-vos, estou cansada de comer a minha refeição da noite sozinha. Desejo ver um bebê que eu tenha ajudado a nascer, a crescer até à idade adulta. Desejo celebrar a lua nova entre amigas. Quero ter a certeza de que os meus ossos serão bem plantados após a minha morte. - Olhando em volta para nós, sorriu abertamente. - Por isso aqui estou.

As mulheres sorriram-lhe, felizes por terem uma tal curandeira entre elas. Embora Raquel fosse muito capacitada, Inna era famosa pelas suas mãos de ouro e estimada pelas suas histórias.

Zilpa viu no aparecimento de Inna um bom presságio. A presença da parteira animou-lhe tanto o espírito que, daí a pouco, a minha tia começou a cantar. Não era nada de exaltante, apenas uma lengalenga infantil acerca de uma mosca que incomodava um coelho, que comia o inseto, mas era comido por um cão, que, por sua vez, era comido por um chacal, que era caçado por um leão, que era morto por um gabarola, que era levado por An e Enlil, os deuses do céu, e posto nos céus para aprender uma lição.

Era uma canção simples, que todas as crianças conheciam e que, portanto, também todos os adultos que tinham sido crianças conheciam. Por alturas da última estrofe, todas as minhas mães e as outras mulheres e as crianças destas cantavam. Até os meus irmãos se tinham juntado, com Simeão e Levi a fazerem um concurso daquilo, a verem qual é que conseguia gritar mais alto que o outro. Quando a canção acabou, todos bateram palmas e riram. Era bom estar livre da sombra de Labão. Era bom estar no limiar de uma vida nova.

Foi a primeira vez que eu ouvi vozes femininas e vozes masculinas a cantar em conjunto, e, durante toda a viagem, as fronteiras entre as vidas dos homens e das mulheres relaxaram. Nós juntamo-nos aos homens no trabalho de dar de beber ao rebanho, eles ajudaram-nos a desempacotar as coisas para a refeição da noite. Nós os ouvimos cantar canções de pastoreio, dirigidas ao céu noturno e cheias de histórias sobre as constelações. Eles ouviam as nossas canções de fiar, que cantávamos enquanto andávamos e trabalhávamos a lá com pequenos fusos. Aplaudíamo-nos uns aos outros e ríamos em conjunto. Era tempo fora da vida. Era como um sonho.

A maior parte das vezes os cantos eram entoados mesmo antes do sono ou de manhã cedo, enquanto ainda estávamos frescos. Pela tarde, toda a gente estava faminta e com os pés doridos. Só passados vários dias as mulheres se habituaram a usar sandálias do amanhecer ao anoitecer - em casa andávamos descalças nas tendas e à volta delas. Inna aliviava as nossas bolhas e as nossas dores, massageando-nos os pés com óleo perfumado com tomilho.

No entanto, não havia nada de mal com o nosso apetite. Os longos dias deixavam toda a gente ferozmente faminta, felizmente os meus irmãos supriam o pão ázimo e as papas de aveia da caminhada com aves e lebres que caçavam pelo caminho. A carne, preparada por Inna, tinha um sabor estranho mas maravilhoso, com uma especiaria de um amarelo vivo que ela tinha comprado.

Corria pouca conversa durante a refeição da noite. Os homens formavam uma roda, as mulheres outra. Quando a Lua se levantava, já toda a gente dormia - as mulheres e os bebês apinhados dentro de uma grande tenda, os homens e os rapazes em cobertores, debaixo das estrelas. Ao alvorecer, após uma refeição rápida de pão frio, azeitonas e queijo, recomeçávamos. Ao cabo de alguns dias nesta rotina, mal me conseguia lembrar da minha velha vida, enraizada num lugar só.

Cada manhã trazia uma nova maravilha. No primeiro dia, Inna juntou-se a nós. No segundo dia, ao fim da tarde, chegamos à beira de um grande rio.

O meu pai tinha dito que iríamos atravessar a grande água, mas eu não tinha pensado no significado das palavras dele. Quando chegamos ao topo de uma colina que dava sobre o vale do rio, fiquei espantada. Nunca tinha visto tanta água num só lugar, nem qualquer outro de nós, exceto Jacob e Inna. O rio não era muito largo no lugar onde o passamos a vau, a "ele", como Zilpa queria que eu dissesse. Mesmo assim, era vinte vezes mais largo do que os riachos que eu tinha conhecido. Estendia-se pelo vale como um carreiro brilhante, com o Sol poente a incendiar-se no seu caminho.

Chegamos a um ponto de passagem onde o fundo estava cheio de seixos e o vau era largo. O chão de cada uma das margens estava batido e alisado por muitas caravanas, e o meu pai decidiu que pararíamos ali até à manhã seguinte. Os animais foram conduzidos à água e nós acampamos, mas, antes da refeição, o meu pai e os meus irmãos juntaram-se nas margens do Eufrates e derramaram uma libação de vinho no grande rio.

Não éramos os únicos no vau. Nas margens, para cima e para baixo, tinham parado mercadores para comer e dormir. Os meus irmãos vaguearam e olharam para as caras novas e para as roupas estranhas. "Um camelo", gritou José, e os nossos irmãos correram atrás dele para verem mais de perto a besta de pernas magras. Eu não podia ir com eles, mas não fiquei com pena de ter sido deixada para trás, porque isso deu-me uma oportunidade de ir até ao rio, que me atraía como um contador de histórias.

Fiquei à beira da água até que o último traço da luz do dia se tivesse desvanecido do céu e, mais tarde, depois da refeição da noite, voltei para saborear o cheiro do rio, que era tão excitante para mim como incenso: pesado e escuro e totalmente diferente do aroma doce e pálido da água do poço. A minha mãe, Lea, teria dito que eu cheirava as ervas que apodreciam nas margens e a presença misturada de tantos animais e homens, mas eu reconheci a fragrância daquela água da mesma maneira que conhecia o perfume do corpo da minha mãe.

Fiquei sentada ao pé do rio mesmo depois dos outros terem ido dormir. Baloucei os meus pés na água até ficarem engelhados e suaves e brancos como nunca os tinha visto. Ao luar, vi o modo como as folhas iam deslizando corrente abaixo, até desaparecerem. Fui embalada pelo lento correr da água contra os bancos de areia e estava quase a dormir, quando fui acordada por vozes. Virando-me, para olhar para o lado da nascente, vi dois vultos a moverem-se no meio do rio. Por um momento, pensei que talvez pudessem ser demônios do rio ou bestas da água que me viessem arrastar para a minha sepultura aquática. Não fazia idéia de que as pessoas se podiam mover através da água daquela maneira, nunca tinha visto ninguém nadar. Mas depressa me apercebi de que eram apenas homens, os egípcios que eram donos do camelo, falando um com o outro na sua língua estranha e ronronada. Embora o riso deles fosse baixo, a água transportava o som como se eles estivessem a murmurar diretamente nos meus ouvidos. Não fui para o meu cobertor até eles terem deixado a água, e terem devolvido ao rio a capacidade de continuar a sua pacífica viagem através da noite sem ser perturbado.

De manhã, o meu pai e os meus irmãos caminharam até ao rio sem parar, levantando as roupas, para não as molharem. As minhas mães penduraram as sandálias nos cintos e deram gargalhadinhas, por revelarem tanto das suas pernas. Zilpa cantarolou uma canção do rio, enquanto fazíamos a travessia. Os gêmeos correram à frente, molhando-se um ao outro descuidadamente.

Mas eu tive medo. Embora me tivesse apaixonado pelo rio, podia ver que, no seu ponto mais profundo, a água batia contra a cintura do meu pai. Isso queria dizer que eu ficaria submersa até ao pescoço, e que seria engolida. Pensei em agarrar na mão da minha mãe, como um bebê, mas ela estava a equilibrar uma trouxa na cabeça. As mãos de todas as minhas mães estavam ocupadas e eu era demasiado orgulhosa para pedir a José que me desse a dele.

Não tinha tempo para ter medo. Os animais de carga estavam nas minhas costas, forçando-me a avançar, de modo que entrei no rio e senti a água a subir-me até aos tornozelos e às barrigas das pernas. A correnteza parecia uma carícia nos meus joelhos e coxas. Num instante a minha barriga e o meu peito ficaram submersos e eu soltei uma gargalhadinha. Não havia nada a temer! A água não continha qualquer ameaça, só um abraço que eu não queria quebrar. Desviei-me para um lado, quando o boi passou, seguido pelo resto dos animais. Mexi os braços por entre a água. sentindo-os flutuar à superfície, observando as ondas e o rasto que seguiam o meu gesto. Aqui estava a magia, pensei eu. Aqui estava algo de sagrado.

Observei as ovelhas a esticarem os pescoços para fora da água: as cabras, de olhos muito abertos, mal tocando o fundo com os cascos. E, depois, vieram os cães, que, sabe-se lá como, possuíam o truque de correr através da água movimentando as pernas e avançando, ofegando, mas não sofrendo. Aqui estava mais magia: os nossos cães conseguiam nadar tão bem quanto os egípcios.

Por fim, Judá juntou-se a mim, com um ar tão dubitativo em relação à água quanto o que eu tinha sentido alguns momentos antes.

- Irmã - disse ele. - Acorda e vem comigo. Aqui está a minha mão - ofereceu ele. Mas, quando eu estendi a minha mão para agarrar a dele, perdi o apoio e caí para trás. Judá agarrou-me e arrastou-me. Estava de costas, com o céu por cima, e senti a água a empurrar-me para cima. Aiii. Um gritinho agudo escapou da minha boca. Um demônio do rio, pensei eu. Um demônio do rio agarrou-me. Mas Judá puxou-me para os seixos da margem mais distante, e eu perdi a louca leveza no meu corpo.

Mais tarde, nessa noite, quando me deitei para dormir entre as mulheres, contei às minhas mães o que tinha visto e sentido na margem e dentro do rio, durante a minha travessia. Zilpa disse que eu estava enfeitiçada pelo deus do rio. Lea estendeu a mão e apertou a minha, tranqüilizando-nos a ambas. Mas Inna disse-me:

- És uma criança da água. O teu espírito respondeu ao espírito do rio. Tens de ir viver para perto de um rio, um dia, Dina. Só ao pé de um rio serás feliz.

Adorei cada momento da viagem para Canaã. Desde que mantivesse o meu fuso a trabalhar, as minhas mães não se importavam com o que eu fizesse ou onde é que eu ia, de modo que vagueava da frente da caravana para a retaguarda, tentando estar em todo o lado e ver tudo. Lembro-me pouco da terra ou do céu que devem ter mudado. Enquanto viajávamos. Uma vez Raquel e Inna levaram-me com elas para colher ervas e flores num monte que se tornava cada vez mais íngreme e mais escarpado, à medida que nos dirigíamos para sul. Fiquei espantada, ao ver árvores a crescer em tanta quantidade, que até mulheres tão elegantes como Raquel e Inna tinham de andar em fila indiana para passarem entre elas. Lembro-me das curiosas agulhas dessas árvores, que deixavam os meus dedos a cheirar a verde durante todo o dia.

Do que eu mais gostava, era das vistas da estrada. Havia caravanas que se dirigiam de volta ao Egito, carregadas de cedro, filas de escravos com destino a Damasco, e mercadores de Siquém que se dirigiam a Carchemish, perto da nossa antiga casa. Tanta gente estranha passava por nós: homens sem barba, como rapazes, e homens enormes, negros, de tronco nu. Embora houvesse menos mulheres na estrada, vi de relance mães cobertas de véus negros, escravas nuas, e uma bailarina que usava um peitoral feito de moedas de cobre.

José ficava tão fascinado pelas pessoas quanto eu, e, por vezes, corria para ver mais de perto um animal ou um trajo particularmente estranhos. Eu era demasiado tímida para ir com ele, e as minhas mães não o teriam permitido. O meu irmão descrevia-me o que via e nós maravilhávamo-nos com aquilo tudo.

Eu, no entanto, não partilhava as minhas observações da nossa família com José. Sentia-me como uma ladra, a espiar os meus pais e irmãos, mas ardia por saber mais coisas acerca deles, especialmente sobre o meu pai. Uma vez que Jacob caminhava um pouco conosco todos os dias, eu observava-o, e reparava no modo como ele tratava as minhas mães. Ele falava com Lea acerca de provisões e de planos, com Raquel acerca de memórias da sua viagem para norte, para Haran. Tinha cuidado para não desrespeitar nenhuma das mulheres com as atenções que lhes concedia.

Zilpa curvava a cabeça, quando o meu pai se aproximava, e ele respondia na mesma moeda, mas raramente falavam. Jacob sorria a Bilhah como se ela fosse filha dele. Ela era a única que ele tocava, passando a mão sobre o sedoso cabelo negro dela quando quer que passasse por ela. Era um ato de familiaridade que parecia exprimir a ternura dele, mas que também provava a ausência de poder dela enquanto a menor das esposas dele. Bilhah não dizia nada, mas corava imenso quando ele lhe fazia estas carícias.

Reparei que a devoção de Ruben por Bilhah não se tinha apagado com o tempo. A maior parte dos meus irmãos, à medida que iam ficando mais altos e lhes nascia a barba, desatava os laços de infância que tivera com as mães e tias. Todos, exceto Ruben, que gostava de andar perto das mulheres, especialmente de Bilhah. Durante a viagem, ele parecia saber onde é que ela estava a cada momento. Quando ele a chamava, ela respondia: "Sim, irmão", embora ele fosse sobrinho dela. Ela nunca falou dele a ninguém, e eu penso que nunca a ouvi dar voz ao nome dele, mas percebia muito bem o afeto que os unia e alegrava-me com isso.

Ruben era fácil de conhecer, mas Judá era irrequieto. Tinha escolhido a sua posição atrás do rebanho, mas por vezes fazia pressão sobre um dos irmãos mais novos para que este ocupasse o lugar dele, para poder vaguear. Subia ao topo de uma colina rochosa e gritava para nós, cá em baixo, e, depois, desaparecia até ao anoitecer.

- Ele ainda é jovem para isso, mas já está faminto por uma mulher - murmurou Inna à minha mãe, uma noite, quando Judá veio para o pé do fogo mais tarde, procurando o seu jantar.

Voltei-me para Judá e apercebi-me de que o corpo do meu irmão tinha começado a tomar a forma do corpo de um homem, com os braços bem musculados, as pernas cobertas de pêlos. Ele era o mais bonito de todos os meus irmãos. Os dentes dele eram perfeitos, brancos e pequenos, lembro-me disto porque ele sorria tão raramente, que os dentes dele eram sempre uma surpresa. Anos mais tarde, quando vi pérolas pela primeira vez, pensei nos dentes de Judá.

Ao olhar para Judá como um homem, pensei que Ruben já tinha certamente idade para casar e ter filhos. Na realidade, ele era pouco mais novo do que Nomir, cuja filha estava quase pronta para andar. Simeão e Levi também eram suficientemente crescidos para terem esposas. E, então, percebi outra das razões por que tínhamos deixado Haran para conseguir preços para as noivas dos meus irmãos sem que os dedos peganhentos de Labão se metessem no caminho. Quando fiz uma pergunta à minha mãe sobre isto, ela disse: "É claro que sim", mas eu fiquei impressionada com os meus conhecimentos mundanos e com a minha perspicácia.

Já ninguém falava de Labão. à medida que os dias foram passando e que a Lua começou a minguar, parecia que estávamos livres das garras do meu avô. Jacob quase tinha deixado de visitar Judá na retaguarda do rebanho, olhando por cima do ombro para ver se o seu sogro estaria a vir na nossa pegada. Em vez disso, os pensamentos dele viraram-se para Edom e para o encontro com Esaú, o irmão que não via havia vinte anos, desde o dia em que ele tinha roubado a bênção do pai e tinha fugido. Quanto mais nos afastávamos de Haran, mais Jacob falava de Esaú.

No dia anterior à lua nova paramos mais cedo, para termos tempo para preparar a tenda vermelha e cozinhar para os três dias que tinham sido dados às mulheres. Uma vez que íamos ficar naquele lugar por mais de uma noite, o meu pai também montou a tenda dele. Estávamos perto de um pequeno riacho muito bonito, em que crescia alho selvagem em profusão. O cheiro a pão logo começou a encher o acampamento, prepararam-se grandes panelas de guisado, para os homens terem comida suficiente enquanto as minhas mães se retiravam do serviço deles.

As minhas mães e Uzna entraram na tenda das mulheres antes do pôr do Sol. Eu fiquei cá fora, para ajudar a servir os homens. Nunca trabalhei tanto na minha vida. Não era tarefa pouca. dar de comer a catorze homens e rapazes e duas crianças pequenas, para não falar das mulheres que estavam dentro da tenda. A maior parte do serviço calhou-me a mim, uma vez que Zibatu estava freqüentemente a amamentar o bebê dela. Inna não tinha paciência para os meus irmãos.

Eu estava orgulhosa de alimentar a minha família, de fazer o trabalho de uma mulher adulta. Quando finalmente nos juntamos às minhas mães na tenda, depois de escurecer, nunca me senti tão grata por poder descansar. Dormi bem, sonhei que usava uma coroa e que servia água. Zilpa disse que eram sinais certos de que a minha maturidade não estava muito longe. Foi um sonho bom, mas acabou na manhã seguinte, num pesadelo assombrado pela voz de Labão.

Mas não era nenhum sonho. O meu avô tinha chegado exigindo justiça.

-Dai-me o ladrão que levou os meus ídolos - gritou ele. - Onde estão os meus teraphim?

Corri para fora da tenda mesmo a tempo de ver o meu pai, com o cajado de oliveira na mão, a andar em direção a Labão. Beor e Kemuel estavam atrás do meu avô, para além de três homens de Haran, que mantiveram os olhos no chão em vez de olharem Jacob (que eles estimavam) na cara.

- A quem chamas ladrão? - perguntou o meu pai.

Quem acusas tu, velho tolo? Servi-te durante vinte anos sem ser pago, sem honra. Não havia ladrão nenhum neste lugar, até tu teres quebrado a paz que aqui havia.

Labão ficou sem palavras face ao tom do genro.

- Eu sou a razão da tua confortável velhice - disse Jacob. - Fui um servo honesto. Não trouxe nada que não fosse meu. Não tenho nada aqui, exceto aquilo que tu concordaste que era meu e que não foi justo pagamento por aquilo que te dei. As tuas filhas são minhas esposas, e não querem ter nada a ver contigo. Os teus netos são meus filhos, e não te devem nada. Enquanto estive nas tuas terras, dei-te honras que não merecias, mas agora não estou tolhido pelas obrigações entre hóspedes e anfitriões.

Por essa altura, já todos os meus irmãos se tinham juntado atrás de Jacob, e, juntos, pareciam um exército. Até José segurava um cajado nas mãos. O ar estava pesado de ódio.

Labão deu um passo atrás.

- Meu filho! Porque me censuras? - disse ele lisonjeiramente, com a voz subitamente velha e suave. - Estou aqui apenas para me despedir da minha amada família: as minhas filhas e os meus netos. Somos parentes, tu e eu. Tu és meu sobrinho e eu amo-te como a um filho. Não percebeste bem as minhas palavras. Só desejo beijar a minha família e dar-te a minha bênção - disse ele, abrindo muito os dedos, curvando a cabeça, como um cão a mostrar submissão. - Não é o deus de Abraão também o deus dos meus pais? Ele é grande, com certeza. Mas, meu filho - disse Labão, olhando para cima, para a cara de Jacob -, o que é feito dos meus outros deuses? O que lhes fizeste?

- O que queres dizer? - disse o meu pai.

Labão semicerrou os olhos e respondeu:

- Os meus deuses lares foram roubados, e desapareceram quando da vossa partida.    Venho reclamá-los para mim e para os meus filhos. Porque é que desejas privar-me da proteção que eles me dão? Temes a ira deles, embora só adores o que não tem cara?

O meu pai cuspiu aos pés de Labão.

- Não trouxe nada. Não há nada na minha casa que te pertença. Não há lugar para ladrões, debaixo das minhas tendas.

Mas Labão ficou firme.

- Os meus teraphim são preciosos, para mim, sobrinho. Não deixo este lugar sem eles.

Com isto, Jacob encolheu os ombros.

- Eles não estão aqui - disse ele. - Vê por ti próprio.

- E, ao dizer aquilo, virou as costas a Labão e foi-se embora, entrando no bosque e desaparecendo.

Labão começou a sua revista. Os meus irmãos ficaram em pé, de braços cruzados contra o peito, e viram o velho a desatar cada trouxa, a desenrolar cada tenda enrolada, a passar os dedos por cada saco de cereal, a espremer cada odre de vinho. Quando ele se dirigiu à tenda de Jacob, Simeão e Levi tentaram bloquear-lhe o caminho, mas Ruben afastou-os. Eles seguiram-no e ficaram a vê-lo, enquanto ele remexia os cobertores do meu pai e até quando levantou o tapete do chão, para dar pontapés na terra, para o caso de ter sido aberto um buraco.

O dia foi passando e Labão sempre a procurar. Eu corria para trás e para a frente, do sitio onde o meu avô caçava para a tenda vermelha, contando o que via às minhas mães. As caras delas mantiveram-se inexpressivas, mas eu sabia que estavam preocupadas. Nunca tinha visto as mãos das mulheres a trabalhar durante a lua nova. No entanto, ali, cada uma delas estava ocupada com o seu fuso.

Depois de Labão ter revirado a tenda do meu pai, não havia outro lugar em que pudesse procurar senão na tenda vermelha. Os olhos dele fixaram-se na tenda das mulheres, que estava na orla do acampamento. Era impensável que um homem saudável entrasse de sua vontade naquele lugar durante o ponto alto do mês. Os homens e os rapazes olharam, para ver se ele se colocaria entre mulheres que sangravam - e ainda pior: as próprias filhas dele.

Labão murmurava consigo próprio, enquanto se aproximava.

Arregalou os olhos aos filhos e netos e, depois, abriu a aba e entrou na tenda.

A respiração rouca de Labão era o único som que se ouvia. Ele olhou de relance em volta da tenda, nervoso, não olhando para os olhos de nenhuma das mulheres. Ninguém se mexeu ou falou. Por fim, e com grande desprezo, ele disse: "Bah", e dirigiu-se à pilha de cobertores.

Raquel levantou-se do lugar dela na palha. Não baixou os olhos, quando se dirigiu ao pai. De fato, olhou diretamente para a cara dele e, sem raiva, nem medo, e sem aparentar qualquer emoção, disse:

- Fui eu que os trouxe, pai. Sou eu que tenho todos os teraphim. Todos os teus deuses. Eles estão aqui. Estou sentada em cima deles. Os teraphim da nossa família estão agora banhados no meu sangue mensal, pelo que os teus deuses estão poluídos para além da redenção. Podes levá-los, se quiseres - continuou Raquel calmamente, como se estivesse a falar de trivialidades. - Eu desenterro-os, e até os limpo para ti, se assim quiseres, pai. Mas a magia deles virou-se contra ti. Estás sem a proteção deles, daqui para a frente.

Ninguém respirou, enquanto Raquel falava. Os olhos de Labão foram-se abrindo e ele começou a tremer. Olhou fixamente para a sua linda filha, que parecia brilhar na luz rosada que se filtrava através da tenda. Foi um longo e terrível momento, que acabou quando Labão se virou e se arrastou para fora da nossa vista. Lá fora, na luz, encontrou-se cara a cara com Jacob, que voltara.

- Não encontraste nada - disse o meu pai, com suprema confiança. Como Labão não respondia, Jacob continuou: - Não há ladrões nas minhas tendas. Este será o nosso último encontro, velhote. Estamos conversados.

Labão não disse nada, mas abriu muito as palmas das mãos e curvou a cabeça, como sinal de aquiescência.

- Vem - disse ele. - Vamos resolver o nosso caso. - O meu avô fez um gesto para que Jacob o seguisse na subida do monte até ao acampamento. Os meus irmãos seguiram-nos, para darem testemunho.

Labão e Jacob escolheram dez pedras cada um, e dispuseram-nas em camadas umas em cima das outras até criarem um monte que marcasse as fronteiras entre eles. Labão derramou vinho por cima do marco. Jacob derramou azeite por cima do marco. Cada um dos homens jurou paz ao outro tocando a coxa um do outro. Depois, Jacob virou-se e desceu o monte. Foi a última vez que qualquer um de nós viu Labão, o que consideramos uma bênção.

Jacob estava ansioso por se ir embora daquele lugar, pelo que a tenda vermelha foi desmantelada na manhã seguinte e nós seguimos viagem para a terra a que o meu pai chamava lar.

O meu pai andava consumido pelas memórias de Esaú. Embora já tivessem passado vinte anos, Jacob ainda recordava a expressão de Esaú, quando este finalmente alcançara o significado do que lhe tinha acontecido. Não só Jacob o traíra ao roubar a bênção do amado pai deles, como era claro que Rebeca estivera por trás disso - derradeira prova da preferência dedicada ao filho mais novo.

Jacob tinha observado a expressão do irmão à medida que Esaú juntava as peças da traição familiar, e o meu pai tinha sentido vergonha. Jacob compreendeu a dor na barriga de Esaú e soube que, se tivesse estado no lugar do irmão, também ele o teria perseguido com uma adaga desembainhada.

Jacob vivia com o espectro terrível da vingança do seu irmão, descrevendo-o diariamente aos seus filhos, e a Lea, Raquel e Bilhah durante as noites que passava com elas, pois passara a montar a sua própria tenda, de forma a poder ser reconfortado por uma mulher até de manhã. O medo de Jacob era tão grande, que aludia toda a recordação do amor do seu irmão, sempre mais forte do que as curtas iras que o assolavam. Jacob esquecera os momentos em que Esaú lhe dera de comer e o protegera, rira com ele e o elogiara.

O medo do meu pai transformava Esaú num demônio vingativo, que eu imaginava como uma raposa vermelha com braços como troncos de árvore. Este tio assombrava os meus sonhos e tornava a viagem de que eu tinha gostado numa marcha forçada para a morte certa.

Não fui eu a única a caminhar com medo. A partir do momento em que o meu pai começar a contar as suas histórias acerca de Esaú, acabaram-se as canções na estrada ou no acampamento. A viagem foi silenciosa, nos dias que se seguiram à nossa despedida final de Labão, e mesmo Judá já não desejava andar sozinho na retaguarda do rebanho.

Pouco depois, surgiu outro rio para atravessar e Esaú foi varrido dos meus pensamentos. Regozijei-me, ao ver água a correr outra vez, e corri para a margem do rio para pôr a minha cara perto dos deliciosos cheiro e som.

Também o meu pai pareceu refrescado pela visão do rio e pela tarefa que ele impunha. Disse que acamparíamos na outra margem, naquela noite, e juntou os seus filhos à sua volta, para lhes distribuir tarefas.

Embora a água não fosse, nem de longe, tão larga como no grande rio mais a norte, este era mais profundo no centro e mais rápido. As folhas não deslizavam lentamente rio abaixo, mas corriam, como se perseguissem uma presa rápida. A nossa travessia tinha que ser rápida, uma vez que o Sol já começava a baixar.

Inna e Zilpa derramaram uma oferenda ao deus do rio, enquanto os primeiros animais eram conduzidos para a água e guiados para o outro lado. Os animais menores tiveram de ser levados dois a dois e pelo cachaço, com um homem de cada lado. Os cães trabalharam até à exaustão. Quase perdemos um deles na corrente, mas José agarrou-o e os irmãos fizeram dele o herói do dia.

Todos os homens começaram a ficar cansados. Até Judá cambaleava, devido ao esforço de conduzir animais assustados enquanto lutava contra a corrente. O rio foi generoso, nenhum dos animais se perdeu. Pela altura em que o sol pousava nos topos das árvores, só o boi, os burros, as mulheres e os bebês restavam.

Ruben e Judá lutaram com o boi aterrorizado, que mugiu como um animal que vai para o matadouro. Levou muito tempo, até que conseguissem arrastar a besta para o outro lado, por essa altura, já anoitecia. A minha mãe e eu fomos as últimas a serem levadas para o outro lado, desta vez com a minha mão na dela, para que eu não fosse roubada pela corrente. Quando chegamos à outra margem já era escuro, e só o meu pai ficara para trás.

Jacob gritou para o outro lado:

- Ruben - disse ele.

E o meu irmão respondeu:

- Estou aqui.

- Toma conta dos animais - disse o meu pai. - Não te incomodes com a tenda. A noite está suficientemente quente. Eu atravesso com a primeira luz do amanhecer. Estejam preparados para seguir viagem.

A minha mãe não ficou satisfeita com o plano de Jacob e disse a Ruben para gritar em resposta ao nosso pai e para se oferecer para passar a noite com ele. Ele não o permitiu.

- Diz à tua mãe para acalmar os medos. Não sou nem uma criança, nem um ancião fraco e tremulo. Dormirei sozinho debaixo do céu, tal como fiz na minha juventude, quando viajei para norte. Preparem-se para partir de manhã - disse Jacob, e não falou mais.

A Lua ainda era nova, portanto a noite era escura. A água teria adoçado o ar, se o pêlo molhado dos animais não tivesse enlameado o perfume da água com almíscar. Os animais baliram durante o sono, não estando habituados a estarem molhados no frio da noite. Eu tentei ficar acordada, para ouvir a música do curso de água, mas daquela vez o marulhar embalou-me num sono profundo. Todos dormiram profundamente. Se o meu pai gritou, ninguém ouviu.

Ruben estava com Lea, na margem do rio, antes do nascer do Sol, para receber Jacob, mas o meu pai não apareceu. O acolhimento do dia pelos pássaros já tinha acabado e o sol começava a secar o orvalho, mas não havia vestígio dele. Ao sinal de Lea, Ruben, Simeão e Judá mergulharam na água, para procurarem o pai. Encontraram-no espancado e nu, no meio de uma clareira de plantas rasteiras onde a erva e os arbustos tinham sido esmagados e partidos num círculo amplo, em volta dele. Ruben correu de volta para nós, a gritar por uma peça de vestuário para cobrir o nosso pai, e depois carregou-o de volta, através da corrente.

O tumulto deu lugar ao silêncio, quando Jacob foi trazido, sem sentidos, deitado nos braços do filho, com a perna esquerda a pender num ângulo esquisito, como se já não estivesse ligada ao corpo dele. Inna acorreu e ordenou que a tenda do nosso pai fosse montada. Bilhah fez uma fogueira. Os homens ficaram ali de pé, de mãos a abanar. Ruben não tinha respostas para as perguntas deles, e eles calaram-se.

Inna veio para fora da tenda e disse: "Febre." Raquel correu para o seu estojo de ervas. Inna fez um gesto para que Ruben a seguisse para dentro da tenda e, alguns momentos mais tarde, ouvimos o terrível grito animal, enquanto ele guiava a perna do nosso pai de volta ao lugar dela. Os queixumes que se seguiram foram ainda piores.

Não sendo notada, nem necessária, eu fiquei sentada fora da tenda, observando a cara resoluta de Inna e as faces coradas de Raquel, enquanto elas andavam para dentro e para fora. Vi os lábios da minha mãe comprimirem-se numa linha fina, enquanto ela curvava a cabeça para ouvir os relatórios delas. Escutei pelas paredes da tenda, enquanto o meu pai gritava a um demônio azul do rio e comandava um exército de anjos para lutar contra um poderoso inimigo que se levantava das águas. Zilpa murmurava encantamentos a Gula, Inna cantava sobre deuses antigos cujos nomes eu nunca tinha ouvido: Nintinugga, Ninisinna, Baba.

Ouvi o meu pai chorar, implorar demência ao irmão. Ouvi Jacob, o pai de onze filhos, chamar pela mãe dele: "Ema, Ema", como uma criança perdida. Ouvi Inna a calá-lo e a encorajá-lo a beber, como se ele ainda fosse um bebê.

Naquele interminável dia, ninguém comeu nem trabalhou. à noite, adormeci no meu lugar ao pé da tenda, com sonhos enformados pelos gritos do meu pai e pelos murmúrios das minhas mães.

Ao amanhecer, acordei sobressaltada e fui recebida pela quietude. Pus-me de pé num salto, aterrorizada, certa de que o meu pai estava morto. De certo seríamos capturados por Esaú e tornados escravos. Mas quando comecei a chorar Bilhah encontrou-me e abraçou-me.

- Não, pequenina - disse ela, acariciando-me o cabelo acachapado. - Ele está bem. Recuperou o juízo e dorme calmamente, agora. As tuas mães também estão a dormir, estão demasiado cansadas dos trabalhos delas.

Ao anoitecer da segunda noite depois da sua provação, o meu pai estava suficientemente bem para se sentar à porta da sua tenda para a refeição da noite. Ainda lhe doía a perna, mal podia andar, mas tinha os olhos claros e as mãos firmes. Dormi outra vez sem medo.

Ficamos durante dois meses ao pé do rio Jabbok, para que Jacob pudesse curar-se. Montaram-se as tendas das mulheres e as dos trabalhadores também. Os dias assumiram um caráter corriqueiro, com os homens a tomarem conta dos rebanhos, enquanto as mulheres cozinhavam. Construímos um forno com barro do rio, e foi bom ter pão fresco outra vez, úmido e quente, em vez daquela coisa seca que tínhamos comido na estrada e que sabia sempre a pó. Durante os primeiros dias da doença de Jacob foram abatidas duas ovelhas, para fazer caldos fortalecedores dos ossos delas, pelo que houve carne, durante algum tempo. Raro mimo, que semelhava tudo aquilo a um festival.

Mas, à medida que o meu pai foi recuperando a saúde, o medo dele voltou ainda maior do que antes, e transformou-o.

Jacob não conseguia falar de mais nada, senão da vingança do irmão, e via o ataque noturno e a sua luta com o exército de anjos como presságios da batalha que se aproximava. Começou a suspeitar de qualquer tentativa de o acalmar e mandou embora o amável Ruben. Em vez dele, começou a confiar em Levi, que deixava Jacob enumerar infindavelmente as suas preocupações e ia assentindo com ar sinistro às predições mais desesperadas do nosso pai.

Entre si, as minhas mães ponderavam o significado do mais recente sonho de Jacob, tão poderoso que tinha feito a travessia para este mundo. Debatiam as preocupações e os planos de Jacob. Deveria ele atacar? Seria um erro enviar um mensageiro a Esaú? Não seria mais sábio apelar à ajuda do pai dele, Isaac? Talvez as mulheres devessem mandar uma mensagem a Rebeca, que não era só sogra, mas também tia delas? Mas não faziam qualquer menção à mudança de trato do marido delas. O homem confiante tornara-se hesitante e cauteloso. O pai afetuoso fazia-se exigente e, mesmo, frio. Talvez elas pensassem que se tratava de um sintoma da doença, ou talvez simplesmente não vissem o que eu vi.

Eu comecei a odiar cada menção a Esaú, embora, passado algum tempo, o meu medo tivesse dado lugar ao aborrecimento. As minhas mães nem sequer se deram conta de eu ter começado a evitar as tendas delas. Estavam demasiado envolvidas no desenrolar da história do meu pai e em especulações acerca do que se seguiria, e havia pouca coisa para eu fazer. Toda a nossa lã estava fiada e os teares não seriam desempacotados, pelo que as minhas mãos permaneciam freqüentemente desocupadas. Ninguém me chamava para ir buscar água ou para carregar lã, não havia horto para mondar. Eu estava perto do fim da infância e era livre como nunca fora nem voltaria a ser.

José e eu começamos a explorar o rio. Andávamos pelas margens e observávamos os peixes pequeninos que enxameavam os remoinhos. Caçávamos rãs, de um verde vivido, diferente de qualquer outro que jamais víramos. Eu apanhava ervas e legumes selvagens. José apanhava gafanhotos em armadilhas, para os molhar em mel. Banhávamos os pés nas águas frescas e rápidas, molhávamo-nos um ao outro, até ficarmos a pingar. Secávamo-nos ao sol e as nossas roupas cheiravam à brisa e à água do Jabbok.

Um dia, seguindo direitos à nascente, descobrimos uma ponte natural sobre o rio - um carreiro de pedras lisas que permitia uma travessia fácil. Sem ninguém para nos proibir de o fazer, atravessamos para a outra margem e em breve nos apercebemos de que tínhamos encontrado o próprio local em que o nosso pai tinha sido ferido. Reconhecemos a clareira que ele tinha descrito - o círculo de dezoito árvores, a erva pisada e os arbustos partidos e dobrados. Encontramos um lugar queimado no chão, onde tinha ardido um grande fogo.

Os pêlos no meu pescoço eriçaram-se e José segurou a minha mão na dele, que estava úmida de medo. Olhando para cima, não ouvimos nada - nem canto de pássaro nem murmurar das folhas ao vento. O lugar queimado não emanava qualquer cheiro e mesmo a luz do Sol parecia silenciada, à nossa volta. O ar parecia tão morto como Ruti deitada no wadi. Eu queria ir-me embora, mas não conseguia mexer-me. José disse-me, mais tarde, que ele também teria fugido. Mas os pés dele tinham-se enraizado na terra. Levantamos os olhos para o céu, perguntando-nos se os anjos aterradores do nosso pai voltariam, mas os céus permaneciam vagos. Ficamos em pé como pedras, à espera que algo acontecesse.

Um grande barulho levantou-se do círculo de árvores como um trovão, e nós demos gritos agudos, ou pelo menos tentamos gritar, mas nenhum som saiu das nossas bocas abertas, enquanto um javali negro corria para fora da floresta. Correu diretamente de encontro a nós, através do prado batido. Gritamos outra vez o nosso grito silencioso, e não havia sequer o barulho dos cascos da besta, que se movia na nossa direção com a velocidade de uma gazela. Pensei que estávamos prestes a morrer, os meus olhos encheram-se de pena pelas nossas mães, ouvi Lea a soluçar atrás de mim.

Quando me voltei para a encarar, ela não estava lá. Apesar disso, o feitiço tinha-se quebrado. Os meus pés estavam livres e eu corri de volta ao rio, puxando o José com força maior do que a minha. Talvez também houvesse anjos do meu lado, pensei eu, quando alcancei as pedras de apoio e fiz a travessia. O José escorregou na primeira pedra e cortou o pé. Desta vez a voz dele soou de dor. O som da voz dele pareceu parar o javali no seu percurso e o animal caiu, como se tivesse sido atingido por uma lança.

José recuperou o equilíbrio e rastejou de volta para a outra margem, onde eu estendi as minhas mãos para ele e nos abraçamos, tremendo, entre os sons da água, o restolhar das folhas e o batimento aterrorizado dos nossos corações.

- O que era aquele lugar? - perguntou o meu irmão, mas eu só conseguia abanar a cabeça. Olhamos para o javali e para a clareira e para o círculo de árvores, mas a besta tinha desaparecido e a cena parecia agora normal e, até, bela: um pássaro voava contra o horizonte, chilreando, e as árvores abanavam ao vento. Eu tremi, José apertou-me a mão. Sem uma palavra, juramos manter segredo sobre aquele dia.

Mas o meu irmão nunca mais foi o mesmo. A partir daquela noite começou a sonhar com o poder dos sonhos do pai dele. A princípio, só falava comigo dos seus extraordinários encontros com anjos e demônios, com estrelas dançantes e bestas falantes. Mas passado pouco tempo os sonhos tornaram-se demasiado grandes só para os meus ouvidos.

 

José e eu voltamos ao acampamento com medo de sermos questionados acerca da nossa ausência e fazendo por esconder dos olhos da curiosidade das nossas mães o acontecido. Mas ninguém nos viu chegar. Todos os olhos estavam fixos num estranho que se postara diante de Jacob. O homem falava com o sotaque entrecortado do Sul, e as primeiras palavras que ouvi da boca dele foram: "O meu pai." Quando dei sorrateiramente a volta para ver a cara ao mensageiro, percebi que só podia ser um parente.

Era Elifaz, filho mais velho de Esaú, e meu primo, e tão parecido com Judá, que eu tapei a boca com a mão para não o dizer alto. Ele era tão coradinho e bonito como Judá, embora mais alto de fato, tão alto quanto Ruben. Ele falou com os gestos de Ruben: a cabeça a pender para um dos lados, o braço esquerdo a envolver-lhe a cintura, a mão direita a fechar e a abrir - à medida que nos trazia as notícias que temíamos há tanto tempo.

- O meu pai chega antes do anoitecer - disse Elifaz. - Vem com os meus irmãos e com servos e escravos, quarenta ao todo, incluindo as mulheres. A minha mãe está entre elas - acrescentou, fazendo um aceno de cabeça em direção às minhas mães, que sorriram, em resposta à cortesia, embora a contragosto.

Enquanto Elifaz falou, a cara do meu pai foi uma máscara imutável e impassível. No entanto, no seu coração, ele reprovava-se a si próprio e chorava. Os cuidadosos planos dele para nos dividir, para que Esaú não nos pudesse destruir com um só ataque, viam-se agora esmagados. Eram inúteis todas aquelas noites passadas a dizer aos meus irmãos quais os animais que deveriam ser dados como oferenda de paz, quais deveriam ser escondidos das garras de Esaú. As minhas mães ainda nem sequer tinham começado a separar e preparar os bens que o meu pai queria apresentar ao seu irmão mais velho, com a esperança de apaziguar a sua terrível ira.

Mas, agora, tinha caído numa armadilha, e amaldiçoava-se por ocupar os seus pensamentos durante demasiado tempo com demônios e anjos, e por nublar o seu objetivo, pois as nossas tendas estavam numa posição indefensável, com o rio a bloquear-nos a fuga.

Jacob, no entanto, não traiu nada disto ao sobrinho. Recebeu Elifaz com igual cortesia e agradeceu-lhe a mensagem. Conduziu-o à sua própria tenda, convidou-o a descansar, pediu comida e bebida. Lea foi preparar a refeição. Raquel trouxe-lhe cerveja de cevada, mas as mulheres não se apressaram, para que Jacob tivesse tempo para pensar.

Enquanto Elifaz descansava, Jacob encontrou a minha mãe e disse-lhe que vestisse as mulheres com os seus melhores vestidos e que preparasse oferendas. Disse a Ruben que juntasse os irmãos, também nos seus melhores trajes, mas disse-lhes que deviam pôr adagas escondidas à cintura, para que Esaú não os pudesse massacrar sem algum custo para ele próprio. Tudo isto foi feito rapidamente, de modo a que, quando Elifaz se levantasse da sua refeição, estivéssemos todos vestidos e prontos para partir.

- Não é necessário, tio - disse Elifaz. - O meu pai vem ter contigo. Porque não recebê-lo aqui com todo o conforto?

Mas Jacob disse que não.

- Tenho de receber o meu irmão de maneira apropriada a um homem da posição dele. Vamos ter com ele para o acolher.

Deixando apenas os servos e suas mulheres para trás, Jacob conduziu-nos. Elifaz caminhou ao lado dele, seguido da oferenda de animais (doze fortes cabras e dezoito saudáveis ovelhas) conduzidos pelos meus irmãos. Vi Lea a olhar para trás por sobre o ombro, e vi tristeza e medo passarem-lhe pelo rosto como nuvens que passam frente ao Sol, mas ela pôs a mágoa rapidamente de lado e refez a sua expressão numa imagem de serenidade.

Andamos durante pouco tempo (nem sequer o suficiente para que os nossos longos vestidos ficassem empoeirados) até o meu pai pousar o seu cajado. Esaú estava à vista do outro lado de um vale suavemente inclinado. Jacob caminhou sozinho para cumprimentar o irmão e Esaú fez o mesmo, seguidos a curta distância pelo séquito de filhos crescidos. Do monte, observei aterrorizada os dois homens a encontrarem-se cara a cara. Num instante, o meu pai estava no chão perante o irmão. Durante um horrível momento, pensei que ele tinha sido derrubado por uma seta ou uma lança invisíveis. Mas, depois, ele pôs-se de joelhos e curvou-se muito, prostrando-se no pó, uma e outra vez, sete vezes ao todo. Era o cumprimento de um escravo ao seu senhor. A minha mãe desviou o olhar, envergonhada.

Aparentemente, o meu tio também estava pouco à vontade com a exibição do irmão, pois baixou-se e pegou em Jacob pelo braço, abanando a cabeça de um lado para o outro. Eu estava demasiado longe para ouvir as palavras, mas percebemos que os dois homens falavam entre si, primeiro agachados perto do chão, depois em pé.

E, então, o impensável aconteceu. Esaú lançou os braços em volta do meu pai. Os meus irmãos puseram imediatamente as mãos nas adagas que tinham escondidas à cintura. Mas Esaú tinha-se mexido, não para magoar o irmão, mas para o beijar. Estreitou o nosso pai ao peito num longo abraço e, quando finalmente se largaram um ao outro, Esaú deu um empurrão no ombro a Jacob, um gesto de rapazes a brincar. Depois passou a mão pelo cabelo do nosso pai, e, com isto, ambos os homens riram a mesma forte gargalhada que provava que tinham partilhado o ventre da mãe, muito embora um fosse escuro e o outro claro, um fosse elegante e o outro de constituição robusta.

O meu pai disse alguma coisa ao irmão e, mais uma vez, Esaú o estreitou contra o peito, mas, desta feita, quando eles se separaram, não houve riso. Ruben disse mais tarde que tinham as faces úmidas de lágrimas, quando se voltaram na nossa direção, com os braços à volta dos ombros um do outro.

Eu estava espantada. Esaú, o vingador sedento de sangue com a cara vermelha, a chorar nos braços do meu pai? Como é que aquele homem podia ser o monstro que assombrara os meus sonhos e afugentara as canções dos lábios dos meus irmãos?

As minhas mães trocaram olhares de descrença, mas os ombros de Inna abanavam com riso silencioso.

- O teu pai foi tão tolo - disse ela semanas mais tarde, em Succoth, enquanto contávamos outra vez a história daquele dia. - Ter medo de um homem tão doce e com cara de bebê? Fazer-nos a todos ter pesadelos, por causa de um cordeiro como aquele?

O meu pai conduziu Esaú até onde nos encontrávamos e apresentou-lhe cada membro da família. O nosso tio cumpriu o dever de declinar os presentes três vezes e depois cumpriu o dever de aceitar as oferendas do irmão, elogiando cada uma delas nos termos mais lisonjeiros.    A cerimônia dos presentes levou muito tempo, e eu queria ver mais de perto os primos que estavam atrás de Esaú, especialmente as mulheres, que usavam colares e dúzias de braceletes nos braços e nos tornozelos.

Depois de ter aceito os animais, a lã, as comidas e o segundo melhor cão pastor de Jacob, Esaú virou-se para o irmão e perguntou-lhe, naquela que parecia a própria voz do meu pai:

- Quem são estes belos homens?

E Jacob apresentou, portanto, os seus filhos, que fizeram profundas vênias perante o tio, tal como Jacob os tinha instruído que fizessem.

- Aqui está Ruben, o meu primogênito, filho de Lea, que está ali. - A minha mãe curvou a cabeça profundamente, menos para mostrar respeito, penso eu, do que para impedir que Esaú notasse os seus olhos diferentes antes de ter contado todos os filhos dela. - E aqui estão mais dois filhos de Lea: Simeão e Levi. Este é Judá - disse o meu pai, dando uma palmada no ombro ao seu quarto filho. - Bem vês que a tua imagem nunca esteve longe da minha mente. - Judá e Esaú sorriram um para o outro com o mesmo sorriso. - Zebulon também é filho de Lea, e ali estão os gêmeos dela, Naftali e Issacar.

Esaú fez uma vênia à minha mãe e disse:

- Lea é a mãe de miríades. - E Lea corou de orgulho.

A seguir, o meu pai apresentou José.

- Este é o mais novo, o único filho da minha Raquel - disse ele, evidenciando o afeto que sentia pela minha tia. Esaú assentiu com a cabeça e olhou para o filho favorito e para a beleza de Raquel, que não diminuíra. Ela olhou fixamente para ele, ainda surpreendida pelos acontecimentos do dia.

A seguir, Jacob disse o nome de Dan.

- Este é o filho da criada de Raquel, Bilhah. E aqui estão Gad e Aser, que me foram dados pela rapariga de Lea, Zilpa.

Aquela era a primeira vez que eu ouvia fazerem-se distinções entre os meus irmãos ou as minhas tias de uma maneira tão clara ou pública. Vi os filhos das esposas menores, a que o mundo chamava "criadas", e vi como as cabeças deles caíam, ao serem assim nomeados.

Mas Esaú sabia o que era ser o segundo, e aproximou-se dos filhos menores tal como se tinha aproximado dos meus outros irmãos, indo ter com Dan, Gad e Aser, e pegando-lhes nas mãos para os cumprimentar. Os filhos de Bilhah e de Zilpa empertigaram-se, e eu tive orgulho de ter um tio como aquele.

Agora, era a vez de o meu pai perguntar a Esaú pelos filhos dele, que este nomeou um a um com orgulho:

- Já conheceste Elifaz, o meu primogênito de Ada, que ali está - disse ele, apontando para uma mulher pequena e roliça, que usava uma cobertura para a cabeça feita de discos de cobre martelados. - E este é Reuel - disse Esaú, pondo o braço em volta de um homem magro e escuro, com barba crescida. - Ele é filho de Basemath - fazendo um aceno de cabeça para uma mulher de cara doce, que segurava um bebê na anca. - Os meus rapazes pequenos são Jeús, Jaalam e Cora. Eles estão ali com Basemath, mas são os filhos de Aolibama, a minha esposa mais jovem - disse Esaú. - Ela morreu na última Primavera, ao dar à luz.

Houve muitos esticares de pescoço, enquanto eram feitas as apresentações, mas rapidamente nos pudemos ver uns aos outros mais de perto, à medida que todos foram iniciando a curta caminhada de regresso ao acampamento ribeirinho de Jacob. Os meus irmãos mais velhos olhavam para os seus primos crescidos mas não falavam. As mulheres juntaram-se e começaram o lento processo do conhecimento mútuo. Encontramos as filhas de Esaú entre elas, incluindo as duas mais novas de Ada. De fato, Ada tinha dado à luz muitas meninas, algumas das quais eram crescidas e já eram elas próprias mães, mas Libbe e Amat ainda estavam com ela. Não eram muito mais velhas do que eu, mas ignoraram-me, porque eu ainda usava um vestido de criança e elas eram mulheres.

Asemath era uma madrasta bondosa para as crianças de Aolibama, especialmente para a bebê, Iti, que tinha custado a vida a Aolibama. Basemath tinha perdido tantos bebês - quer rapazes quer raparigas -, que quase não os conseguia enumerar. Só tinha aquele único filho, Reuel, e uma filha viva, Tabea, que era exatamente da minha altura. Tabea e eu começamos a andar lado a lado, mas ficamos caladas, não nos atrevendo a perturbar o solene silêncio que caiu sobre a procissão.

Já era final de tarde quando chegamos às nossas tendas. Fora enviado um mensageiro, para dizer às servas que começassem a fazer a refeição da noite, e fomos acolhidos pelo cheiro do pão e da carne a cozerem. Mesmo assim, ainda faltava fazer muita coisa, antes de podermos ter o festim que uma ocasião tão grandiosa como a reconciliação dos filhos de Isaac reclamava.

As mulheres começaram a trabalhar e Tabea foi mandada ajudar-me a colher cebolas selvagens ao longo do rio. Assentimos com a cabeça, como filhas obedientes, mas logo que nos viramos de costas para as mulheres mais velhas quase dei uma gargalhada. Tinha-nos sido concedido um desejo. Podíamos estar sozinhas.

Tabea e eu andamos com grande propósito até ao canteiro de cebolas que eu tinha esvaziado no primeiro dia em que tínhamos chegado ao Jabbok e encontramos rebentos suficientes para encher o cesto dela. Mas decidimos que as nossas mães não precisavam de saber o que rapidamente tínhamos acabado e tiramos vantagem da nossa liberdade, pondo os pés na água e despejando o punhado de histórias que compõem a memória da infância.

Quando manifestei a minha admiração pelas pulseiras de cobre que ela trazia no pulso, Tabea contou-me a história da vida da mãe dela. De como Esaú se tinha apaixonado pela bela e jovem Basemath, quando a vira no mercado perto de Mamre, onde a nossa avó Rebeca vivia. Como preço pela noiva, ele tinha oferecido ao pai de Basemath, para além do habitual número de ovelhas e cabras, nada menos do que quarenta pulseiras de cobre, "para que os pulsos e os tornozelos dela lhe anunciassem a beleza", dissera ele. Esaú amava Basemath, mas ela sofria os tratos da primeira esposa dele, Ada, que tinha ciúmes.

Nem mesmo os nados mortos de Basemath tinham amaciado o coração de Ada. Quando perguntei como é que elas podiam celebrar a lua nova juntas com tanta raiva dentro de casa, Tabea disse-me que as mulheres da família dela não marcavam a morte e o renascimento da lua juntas.

- Isso é outra coisa que a avó odeia nas mulheres de Esaú - disse Tabea.

- Conheces a nossa avó? - perguntei. - Conheces Rebeca?

- Sim - disse a minha prima. - Vi-a duas vezes, em ceifas de cevada. A avó sorri para mim, embora não fale à minha mãe, nem a Ada, nem desse importância a Aolibama, quando ela era viva. A avó diz coisas odiosas da minha mãe, e isso está errado. - A minha prima franziu o sobrolho e os olhos encheram-se de lágrimas. - Mas eu adoro a tenda da avó. É tudo tão bonito, lá, e, muito embora ela seja a mulher mais velha que eu jamais vi, a beleza dela não se apagou. - Tabea deu uma gargalhadazinha e disse: - A avó diz que eu me pareço com ela, embora seja claro que eu me pareço com a minha mãe em tudo.

Tabea parecia mesmo uma cópia de Basemath, com o seu nariz fino e o cabelo brilhante e escuro, os pulsos e tornozelos delicados. Mas quando conheci Rebeca lembrei-me das palavras da minha prima e percebi o que a avó queria dizer com aquilo. Eram os olhos de Tabea que Rebeca podia reclamar como seus, pois os olhos da minha prima eram negros e diretos como setas, enquanto os de Basemath eram castanhos e se mantinham sempre baixos.

Contei a Tabea coisas sobre a tenda vermelha e sobre o modo como as minhas mães celebravam a lua nova com bolos e canções e histórias, deixando a má vontade lá fora, durante o período de escuridão. E de como eu, única filha, tinha sido admitida lá dentro com elas durante toda a minha infância, embora fosse contra os costumes que qualquer outra pessoa lá entrasse depois da idade de ser desmamada e antes de ser mulher. Com isto, ambas olhamos para baixo, para os nossos peitos, e puxamos as nossas túnicas contra o corpo, para compararmos o que estava a acontecer aos nossos corpos. Embora nenhuma de nós estivesse pronta para dar de mamar, parecia que eu iria alcançar a idade adulta primeiro. Tabea suspirou e eu encolhi os ombros, depois rimos até os nossos olhos se encherem de lágrimas, o que nos fez rir ainda mais, até rolarmos pelo chão.

Quando recuperamos o fôlego, falamos dos nossos irmãos. Tabea disse que não conhecia bem Elifaz, mas que Reuel era bondoso. Dos rapazes menores, odiava Jeús, que andava sempre a puxar-lhe o cabelo e lhe dava pontapés nas canelas de cada vez que o mandavam ajudá-la no horto. Eu contei-lhe como Simeão e Levi tinham feito José e os meus outros irmãos abandonar os nossos jogos e como eles me tratavam como a criada pessoal deles, como se o meu único dever fosse manter-lhes cheias as taças de vinho. Até lhe contei que cuspia nas taças deles, quando tinha oportunidade para o fazer. Falei da amabilidade de Ruben, da beleza de Judá, e de como José e eu tínhamos sido amamentados juntos.

Fiquei chocada quando Tabea disse que não queria ter filhos.

- Vi a minha mãe a embalar demasiados bebês mortos - disse ela. - E ouvi Aolibama gritar durante três dias, antes de dar a vida por Iti. Não estou disposta a sofrer dessa maneira. -        Tabea disse que não queria ter nada a ver com o casamento, que preferia servir em Mamre e mudar o seu nome para Débora. Ou então, disse ela, cantaria no altar de um grande templo, como o de Siquém. - Lá, tornar-me-ia numa das mulheres consagradas que tecem para os deuses e usam sempre vestidos limpos. Então, dormirei sozinha, a menos que escolha tomar um consorte no festival da cevada.

Eu não percebi os desejos dela. De fato, não percebi totalmente as palavras dela, uma vez que não sabia nada sobre templos e sobre as mulheres que lá servem. Pela minha parte, disse a Tabea que desejava ter dez fortes crianças, como aquelas que a minha mãe dera ao mundo, embora quisesse cinco raparigas, pelo menos. Era a primeira vez que eu dizia aquelas coisas alto e, talvez, a primeira vez que pensava nelas. Mas as palavras vinham-me do coração.

- Não tens medo nenhum do parto? - perguntou a minha prima. - E a dor? E se o bebê morre?

Abanei a cabeça.

As parteiras não temem a vida - disse eu, e percebi que tinha começado a pensar em mim mesma como aprendiz de Raquel e neta de Inna.

Tabea e eu olhamos fixamente para a água e perguntamo-nos se as nossas esperanças seriam concretizadas. Se alguma vez saberíamos o que teria acontecido uma à outra, depois de os nossos pais se apartarem. Os meus pensamentos voaram para trás e para frente, como a lançadeira num grande tear, pelo que, quando finalmente ouvi o meu nome na boca da minha mãe, senti alguma raiva no modo como tinha sido dito. Tínhamo-nos atrasado demasiado. Tabea e eu andamos rapidamente, de mão dada, de volta às fogueiras da cozinha.

A partir desse momento a minha prima e eu fizemos o nosso melhor para permanecermos juntas, observando as nossas mães a cirandarem umas à roda das outras com curiosidade finamente velada. Estudavam mutuamente roupas e receitas, pedindo educadamente umas às outras que repetissem os seus nomes, só mais uma vez, se faz favor, para aprender bem a pronúncia. Reparei nas sobrancelhas da minha mãe a levantarem-se, face ao uso que as mulheres cananitas faziam do sal, e reparei que Ada se empertigou ao ver Bilhah adicionar um punhado de cebolas frescas ao estufado de cabra seca dela. Mas todos os juízos foram mascarados por baixo de finos sorrisos, no meio da pressa para preparar o festim.

Enquanto as mulheres aprontavam a refeição, Esaú e Jacob desapareceram para dentro da tenda do meu pai. Depois de os filhos de Esaú montarem as suas tendas para passarem a noite, juntaram-se perto da porta do meu pai, onde também estavam os meus irmãos. Ruben e Elifaz trocaram galanteios acerca dos rebanhos dos pais de cada um deles, sutilmente comparando o número e a saúde de cada rebanho, medindo a abordagem de cada um ao pastoreio e as capacidades de cada um com os cães. Elifaz pareceu surpreendido, ao saber que nem Ruben nem nenhum dos seus irmãos se tinha ainda casado ou feito filhos, mas aquele não era um tema que Ruben discutisse com o filho de Esaú. Houve longas pausas, na conversa entre os primos, que davam pontapés no pó e cerravam e abriam os punhos de aborrecimento.

Por fim, a aba da tenda abriu-se e o meu pai e Esaú saíram, esfregando os olhos face à remanescente luminosidade do dia, pedindo vinho e que a refeição começasse. Os dois irmãos sentaram-se num cobertor que Jacob, ele próprio, estendeu. Os filhos deles dispuseram-se por autoconsciente ordem de posto: Elifaz e Ruben em pé por trás dos pais, José e Cora sentados ao lado destes. Enquanto corria de cá para lá, mantendo as taças de vinho cheias, reparei como os meus irmãos eram mais do que os de Tabea, e que eram muito mais bonitos do que os filhos de Esaú. Tabea serviu pão, enquanto as nossas mães e as criadas delas enchiam os pratos dos homens até eles não poderem comer mais. Cada mulher reparou em quem é que tinha tirado mais do estufado, do pão, da cerveja dela, e cada homem teve particular cuidado em elogiar a comida servida pelas esposas do irmão dele. Esaú bebeu muito da cerveja da minha mãe e mostrou preferência pelo acebolado prato de cabra de Bilhah. Jacob comeu pouco, mas fez o seu melhor para honrar a comida que lhe foi trazida por Basemath e Ada.

Quando os homens acabaram, as mulheres e as raparigas sentaram-se, mas, tal como acontece com grandes refeições, havia pouco apetite, após tantas horas a mexer e a provar. As mães foram servidas pelas escravas de Esaú - duas raparigas fortes que usavam pequenos brincos de prata em furos no alto das orelhas. Uma delas estava grávida, Tabea sussurrou que era a semente de Esaú e que, se desse à luz um filho, a rapariga tiraria o brinco superior e tornar-se-ia uma esposa menor. Olhei fixamente para a escrava robusta, com os tornozelos tão grossos quanto os de Judá e, depois, espiei de relance a elegante Basemath, e disse a Tabea que o gosto de Esaú em matéria de esposas era tão generoso quanto os outros apetites dele. Ela começou a dar pequenas gargalhadas, mas um arregalar de olhos de Ada sufocou-nos.

A luz começava a esvair-se quando Jacob e Esaú começaram a contar histórias. As nossas servas trouxeram lâmpadas e as escravas de Esaú mantinham-nas cheias de azeite, pelo que a luz das chamas dançava nas caras da minha família, subitamente mais numerosa. Tabea e eu sentamo-nos de joelho com joelho, ouvindo as histórias do nosso bisavô Abraão, que tinha deixado o antiqüíssimo lar de Ur, onde a Lua era adorada sob o nome de Nanna e Ningal, e tinha ido para Haran, onde a voz de El lhe tinha vindo e o tinha dirigido para Canaã. No Sul, Abraão tinha feito grandes atos - matando mil homens com um só golpe, porque El-Abraão lhe tinha dado o poder de dez mil.

Jacob falou da beleza de Sarai, a esposa de Abraão, e uma serva de Innana, a filha de Nanna e Ningal. Innana amava tanto Sarai, que lhe aparecera no bosque de terebintos em Mamre e lhe dera um filho saudável no extremo da vida dela. Esse filho era o nosso avô Isaac, marido de Rebeca, que era a sobrinha de Sarai, a sacerdotisa. Era Rebeca, a minha avó, que adivinhava para o povo, agora, no bosque sagrado de Sarai, em Mamre.

Tendo recordado a história da família da forma apropriada, o meu pai e o meu tio passaram às histórias da infância, dando palmadas nas costas um do outro enquanto recordavam os tempos em que se tinham esgueirado do horto da mãe para brincarem com os cordeiros bebês, ajudando-se um ao outro a recordar os nomes dos cães favoritos - o Preto, o Malhado e, particularmente, a Maravilha de Três Pernas, uma cadela miraculosa que tinha sobrevivido ao ataque de um chacal e ainda pastoreava com os melhores cães.

Foi maravilhoso ver a cara do meu pai à medida que estas histórias iam brotando. Podia vê-lo como um rapaz, outra vez sem encargos, forte, voluntarioso. O seu caráter reservado derreteu quando Esaú lhe lembrou o dia em que tinham caído para dentro de um wadi, e tinham entrado na tenda da mãe cobertos de espessa lama cinzenta. Riu a propósito de uma vez em que os irmãos roubaram todo o pão feito para esse dia e se empanturraram até à náusea e tinham levado uma bronca, por causa disso.

Depois de muitas histórias, caiu um silêncio satisfeito sobre a companhia. Ouvimos o sussurro dos rebanhos e o murmúrio do Jabbok. E, então, Esaú começou a cantar uma canção. O meu pai abriu um largo sorriso e juntou-se a ele, dando alta e forte voz às palavras de uma canção de pastoreio que eu não conhecia e que contava tudo sobre o poder de um certo carneiro. As mulheres foram apertando os lábios, à medida que as estrofes continuavam, cada uma mais explícita e audaz do que a anterior. Para meu espanto, os meus irmãos e os nossos primos conheciam cada uma das palavras da canção e juntaram-se a eles, fazendo um grande uníssono e acabando com um "woop" e, depois, com riso.

Quando os homens acabaram, Esaú fez um aceno de cabeça à primeira esposa dele, que fez um sinal, abriu as bocas das esposas e das filhas dele, das servas e das escravas. Era um hino a Anat, um nome que as mulheres cananitas usavam para Innana, e elogiava as façanhas da deusa na guerra e o poder dela no amor.

A canção delas não se parecia com nada que eu alguma vez tivesse ouvido, e os pêlos da minha nuca eriçaram-se, como se José me estivesse a fazer cócegas com uma folha de erva. Mas quando eu me virei para o censurar, vi que ele se sentava ao lado do meu pai, com os olhos a brilhar, fixos nas cantoras. Elas cantavam as palavras em uníssono, mas, não sei como, criavam uma teia de som com as vozes. Era como ouvir uma peça de tecido tecida com todas as cores do arco-íris. Não sabia que tal beleza podia ser formada pela boca humana. Nunca tinha ouvido harmonia antes.

Quando elas acabaram, descobri lágrimas nos meus olhos e vi que as faces de Zilpa também estavam molhadas. Os lábios de Bilhah estavam separados de admiração e os olhos de Raquel estavam fechados, para que ela pudesse ouvir com perfeita atenção.

Os homens aplaudiram e pediram mais, pelo que Basemath começou de novo, com uma canção acerca da colheita e da fecundidade da terra. Tabea juntou-se a elas, e eu fiquei deslumbrada, ao pensar que a minha amiga podia fazer um tal milagre com as mães dela. Fechei os olhos. As mulheres cantavam como pássaros, mas mais docemente. Soavam como o vento nas árvores, mas mais alto. As vozes delas eram como o correr da água do rio, mas com significado. Então, as palavras cessaram, e elas começaram a cantar com som que não queria dizer nada, e que, no entanto, dava nova voz à alegria, ao prazer, à saudade, à paz. "Lu, lu, lu," cantavam elas.

Quando acabaram, Ruben aplaudiu a música das nossas parentes e curvou-se profundamente perante elas. José e Judá e Dan também se levantaram e fizeram uma vênia de agradecimento e eu pensei: "Estes quatro são os meus favoritos e os melhores dos meus irmãos.”

Houve mais canções, e mais algumas histórias, e ficamos sentados à luz das lâmpadas. Só quando a Lua se começou a pôr é que as mulheres levantaram as últimas taças. Com crianças adormecidas nos seus braços, as mães jovens dirigiram-se às suas próprias camas, e os homens começaram a retirar-se, também. Por fim, só Jacob e Esaú permaneciam sentados, olhando fixa e silenciosamente para o pavio crepitante da última lâmpada.

Tabea e eu esgueiramo-nos dali para fora e fomos até ao rio, com os nossos braços em volta da cintura uma da outra. Eu estava perfeitamente feliz. Poderia ter ficado ali, de pé, até ao amanhecer, mas a minha mãe veio buscar-me e, embora sorrisse a Tabea, pegou na minha mão e puxou-me para longe da minha amiga.

Acordei na manhã seguinte com os sons da tribo de Esaú a preparar-se para partir. Durante a conversa pela noite dentro que teve com o irmão, o meu pai disse-lhe que não o seguiria de volta a Seir. Por muito amigavelmente que os irmãos se tivessem encontrado, os destinos deles não se podiam casar. As terras do meu tio eram vastas e a posição dele segura. Se nos tivéssemos juntado a ele, o valor de Jacob seria tomado como fraco, em comparação. Também os meus irmãos estariam em desvantagem. uma vez que os filhos de Esaú já tinham rebanhos e terras deles próprios. E, apesar de toda a camaradagem da noite anterior, os filhos de Isaac não estavam completamente reconciliados, nem alguma vez o poderiam estar. As cicatrizes que tinham carregado durante vinte anos não podiam ser apagadas com um só encontro e os hábitos daqueles anos, vividos em mundos tão diferentes, acabariam por separá-los.

No entanto, os irmãos abraçaram-se com declarações de amor e promessas de se visitarem um ao outro. Ruben e Elifaz agarraram-se um ao outro pelo ombro, as mulheres acenaram adeus com a cabeça. Tabea mostrou audácia ao fugir de ao pé da mãe para me abraçar, e nós provamos as lágrimas uma da outra. Enquanto nos abraçávamos, ela murmurou: "Tem coragem. Em breve estaremos juntas outra vez, na tenda da avó. Ouvi a minha mãe dizer que certamente vos encontraremos lá, no festival da cevada. Lembra-te de tudo o que acontecer de agora até lá, para mo poderes contar." Com isto, beijou-me e correu de volta para ao pé da mãe dela. Acenou com a mão até estar fora da minha vista. Assim que eles partiram, o meu pai instruiu Ruben e a minha mãe para que preparassem a nossa própria retirada.

Fiz a minha parte com o coração feliz, alegre por retomar a nossa viagem livre do medo de Esaú, ansiosa por ver a minha amiga outra vez e conhecer a minha avó, que já começara a viver na minha imaginação. Tinha a certeza de que Rebeca adoraria as minhas mães, afinal, elas eram sobrinhas dela, assim como eram noras dela. E imaginei-me como a neta de estimação, a favorita. Por que é que não haveria de ser, pensei eu. Afinal, eu era a herdeira feminina do filho preferido dela.

Na manhã seguinte partimos, mas não viajamos para muito longe. No segundo dia, o meu pai enterrou o cajado dele na terra, perto de um pequeno riacho que corria debaixo de um carvalho jovem, e anunciou a sua intenção de ficar ali. Estávamos perto de uma aldeia chamada Succoth, disse ele, um lugar que tinha sido bom para ele na viagem que ele fizera para norte. Os meus irmãos tinham explorado a terra antes e tinham assegurado um lugar para nós, passados poucos dias já havia currais e estábulos para os animais e um bom forno de barro, suficientemente grande para cozer pão e bolos. Vivemos ali durante dois anos.

A viagem desde a casa de Labão fizera-me adquirir um gosto pela mudança, pelo que as rotinas diárias da vida sedentária em Succoth aborreceram-me, a princípio. Mas os meus dias eram preenchidos do amanhecer até ao anoitecer, depressa aprendi a gostar da alquimia de transformar farinha em pão, carne em guisado, água em cerveja. Também passei da fiação para a tecelagem, que era muito mais difícil do que eu imaginava, e que nunca consegui dominar com a perícia de Zilpa e Bilhah a quem a teia nunca quebrava.

Sendo a rapariga mais velha, tomava muitas vezes conta das crianças das servas, e aprendi tanto a amar como a ficar ressentida com aqueles monstros ranhosos. Eu era tão necessária dentro do mundo das mulheres, que mal me dei conta de quão pouco eu tinha a ver com os meus irmãos, ou de como as coisas tinham mudado entre eles. Pois nesses dias Levi e Simeão substituíram Ruben à mão direita do meu pai e tornaram-se os conselheiros mais chegados dele.

Succoth foi lugar fértil para a minha família. Zibatu teve um novo bebê, assim como Uzna - ambos rapazes, a quem o meu pai levou ao altar dele, debaixo do carvalho. Ele circuncidou-os e declarou-os livres das irregularidades dos pais deles e membros de pleno direito da tribo de El-Abraão, e a tribo de Jacob cresceu.

Bilhah concebeu, em Succoth, mas abortou, antes que o bebê se mexesse no ventre dela. Raquel também foi afligida por aquele mal e, durante quase um mês depois disso, não perdeu José de vista. Também a minha mãe perdeu uma criança, que saiu do ventre meses antes do tempo. As mulheres desviaram o olhar da pequeníssima menina condenada, mas eu reparei na perfeita beleza dela. As pálpebras tinham veias como asa de borboleta: os dedos dos pés encaracolavam-se como pétalas de flor.

Peguei na minha irmã, a quem nunca foi dado nome, e que nunca abriu os olhos, e que morreu nos meus braços.

Não tive medo de pegar naquela pequena morte. A cara dela estava em paz, as mãos estavam perfeitamente limpas. Parecia prestes a acordar. As lágrimas dos meus olhos caíram na face de alabastro dela, que parecia chorar a passagem da sua própria vida. A minha mãe veio tirar-me a minha irmã, mas, ao ver a minha mágoa, permitiu-me que a levasse para o enterro. Ela foi amortalhada num pedaço de bom pano e posta debaixo da mais forte e mais velha árvore que se via da tenda da minha mãe. Não foram feitas oferendas, mas quando a trouxa foi coberta de terra, os suspiros que brotavam das bocas das minhas mães eram tão eloqüentes quanto qualquer salmo.

Quando nos afastamos da morte da bebê, Zilpa murmurou que os deuses daquele lugar estavam alinhados contra a vida, mas, como era costume, a minha tia estava a treler os sinais, pois as servas ficaram grandes com crianças, assim que desmamaram os bebês. Cada ovelha e cada cabra teve gêmeos, e todos eles sobreviveram. Os rebanhos cresceram rapidamente, tornando o meu pai num homem próspero, o que significava que os meus irmãos podiam casar.

Três deles casaram-se em Succoth. Judá casou-se com Shua, filha de um mercador. Ela concebeu durante a semana nupcial e deu-lhe Er, primeiro filho dele e primeiro neto do meu pai. Eu gostava de Shua, que era roliça, bondosa e amigável. Ela trouxe o dom cananita das canções para as nossas tendas e ensinou-nos harmonias. Simeão e Levi tomaram duas irmãs como esposas Ialutu e Inbu, filhas de um oleiro.

Calhou-me a mim ficar com os bebês e tomar conta das fogueiras, enquanto as esposas de Jacob assistiam às festividades. Fiquei furiosa por ter sido deixada para trás, mas nas semanas que se seguiram às núpcias ouvi as minhas mães falarem tanto de cada pormenor dos casamentos, que senti que eu própria lá tinha estado.

- Hás de admitir que o canto foi maravilhoso - disse Zilpa, que voltou de cada um dos casamentos a trautear uma nova melodia, batendo o ritmo com a mão contra uma coxa ossuda.

- É claro que sim - disse imediatamente a minha mãe. - Elas aprendem aquilo com as mães e com as avós.

Raquel sorriu, inclinando-se para Lea:

- É pena que as avós delas não soubessem cozinhar, hein?

Lea fez um sorriso tonto, concordando com ela.

- Quando for a vez da Dina de entrar na tenda nupcial, vou mostrar-lhes a todas como é que uma festa de casamento deve ser feita - disse ela, passando-me a mão pela cabeça.

Só Bilhah é que parecia ter gostado dos casamentos dos sobrinhos.

- Oh, irmã - disse ela a Lea -, não achaste que o véu era bonito, perpassado de fios dourados e com as moedas do dote penduradas nele? Eu achei que ela estava vestida como uma deusa.

Lea não queria saber de nada daquilo.

- Vai me dizer que tinhas a barriga cheia, depois da refeição? - disse ela.

Mas Lea não ficou infeliz com as noivas que os filhos dela lhe trouxeram. Eram todas saudáveis e respeitosas, embora Shua rapidamente se tenha tornado a favorita. As duas irmãs nunca entraram completamente no círculo da minha mãe, vivendo com os maridos a pouca distância de nós, mais perto dos rebanhos, diziam os meus irmãos. Eu acho que Simeão e Levi se mudaram porque Ialutu e Inbu queriam manter uma certa distância. Não senti falta nenhuma da companhia delas. Tratavam-me com desdém igual ao que os maridos delas usavam comigo e, para além disso, a minha mãe tinha razão: nenhuma delas sabia cozinhar.

Dos filhos mais velhos de Jacob, só Ruben continuava por casar. O meu irmão mais velho parecia contentar-se em servir a mãe e ser bondoso para Bilhah, cujo único filho ainda era demasiado jovem para caçar.

Uma manhã, cedo, ainda toda a gente dormia, uma voz de mulher chamou:

- Onde estão as filhas de Sarai? Onde estão as esposas de Jacob?

Era uma voz suave e, no entanto, acordou-me de um sono profundo, de onde eu estava deitada, aos pés da minha mãe. Tal como eu, Lea sentou-se, ao ouvir aquele som, e foi rapidamente lá para fora, chegando ao mesmo tempo que Raquel. Num piscar de olhos, Bilhah e Zilpa também lá estavam, e nós as cinco ficamos a olhar fixamente para a mensageira de Mamre, cujo vestido tremeluzia em prata, na difusa luz azul que anuncia o nascer do Sol.

O discurso dela foi formal, tal como o de todos os mensageiros.

- Rebeca, o oráculo de Mamre, a mãe de Jacob e Esaú, a avó de centenas de miríades, chama-vos ao pálio de terebintos para o festival da cevada. Que isto seja dito a Jacob, e que ele o saiba.

O silêncio acolheu a declaração daquela visitante, que falou com estranhos sotaques que dobravam cada palavra em três Lugares. Era como se estivéssemos todas a partilhar um sonho, pois nenhuma de nós alguma vez tinha visto cabelo vermelho, nem tínhamos visto uma mulher carregar o saco listado do mensageiro. E, no entanto, não era nenhum sonho, uma vez que o frio da manhã nos fazia tremer.

Por fim, Lea recuperou o fôlego e deu as boas-vindas, oferecendo à desconhecida um lugar para se sentar e pão para comer. Mas assim que nos juntamos em volta da nossa hóspede, as minhas tias e eu ficamos em silêncio, mais uma vez, e olhamos fixamente para ela, em puro espanto. A mensageira olhou em volta dela e abriu um sorriso que mostrou uma fila de dentes pequenos e amarelos entre um par de lábios estranhamente sarapintados. Falando então numa voz normal e com uma leveza que pôs toda a gente à vontade, ela disse:

- Vejo que tendes poucas ruivas entre vós. De onde eu venho, diz-se que as mulheres de cabelo ruivo são concebidas durante os períodos das mães delas. Tal é a ignorância das terras do Norte.

Bilhah riu-se alto, ao ouvir coisa tão audaciosa de uma desconhecida. Isso pareceu agradar à nossa hóspede, que se virou para a minha tia e se apresentou.

- O meu nome é Werenro, e eu sirvo a avó. - Com isso, ela puxou o cabelo para trás, para mostrar a orelha, furada no alto por singela tacha de bronze, e acrescentou: - Sou a escrava mais feliz do mundo. - Mais uma vez, Bilhah riu alto, face a tal franqueza. Eu dei uma gargalhadinha, também.

Assim que os homens foram alimentados, Lea mandou chamar Jacob e apresentou-lhe a mensageira, que, por essa altura, tinha coberto o fogo do cabelo e baixado os olhos.

- Ela vem da parte da tua mãe - disse Lea. - Rebeca pede-nos que vamos assistir ao seu festival da cevada. A mensageira aguarda a tua resposta.

Jacob pareceu assustado com a presença da recém-chegada, mas rapidamente se compôs e disse a Lea que obedeceriam a Rebeca em tudo e que ele iria ter com ela no tempo da ceifa, ele e as esposas, com os filhos e as filhas.

Werenro retirou-se, então, para a tenda da minha mãe e dormiu. Eu trabalhei ali por perto o dia inteiro, esperando vê-la de relance. Tentei inventar qualquer razão para entrar na tenda. Queria ver outra vez aquele cabelo, e os meus dedos desejavam tocar as vestes que se moviam como ervas em água a correr. Inna disse-me que as roupas de Werenro eram feitas de seda, uma espécie de pano que era tecido por minhocas nos seus próprios minúsculos teares. Eu ergui a sobrancelha - fazendo o meu melhor para copiar o gesto mais desdenhoso da minha mãe para mostrar que era demasiado crescida para ser enganada com um tal disparate. Inna riu-se de mim e não desperdiçou mais fôlego com a minha descrença.

Werenro descansou sem ser perturbada até tarde, pela noite dentro, até depois de os homens terem comido e as tigelas da refeição noturna das mulheres terem sido levantadas. As minhas mães tinham-se juntado perto da fogueira delas, na esperança de que a desconhecida aparecesse a tempo de nos dar uma história.

A mensageira saiu da tenda e, ao ver-nos alinhadas em volta dela, curvou-se profundamente, com os dedos bem abertos, num gesto de obediência que nos era pouco familiar. Depois, endireitou as costas, olhou para as nossas caras, uma por uma, e sorriu muito, como uma criança pequena que tivesse roubado um figo. Werenro não se parecia com nada nem ninguém neste mundo. Eu estava encantada.

Ela curvou a cabeça às minhas mães, em agradecimento pela tigela de azeitonas, queijo e pão fresco que lhe tinham reservado. Antes de comer, recitou uma oração numa língua que soava como o grito de um abutre. Eu ri-me, por causa do barulho, pensando que ela estava a fazer outra graça, mas a ruiva desconhecida dardejou-me com um olhar de raiva que foi enfraquecendo. Senti-me como se a minha cara tivesse sido esbofeteada, as minhas faces escaldaram, vermelhas como o cabelo dela, que estava mais uma vez visível e era de um vermelho nunca visto. Mas logo a seguir ela fez-me um sorriso de perdão e, dando palmadinhas no chão ao lado dela, indicou-me um lugar de honra.

Depois de ter posto de lado o resto da refeição, com elogios ao pão e extravagantes encômios à cerveja, Werenro começou a cantar. Havia muitos nomes estranhos na história dela, e uma melodia triste como eu nunca ouvira. Ela manteve-nos arrebatadas, como a um bebê ao colo.

A história falava sobre o início do mundo, a Árvore e o Falcão, que deram à luz o Lobo Vermelho, que povoou o mundo com um ventre que deu à luz toda a vida de sangue vermelho, exceto homem e mulher. Era uma história muito longa, misteriosa e cheia de nomes de árvores e animais que não me eram familiares. Passava-se num lugar de um frio terrível, onde o vento gritava de dor. Era assustadora, e excitante, e solitária.

Quando Werenro parou, a fogueira tinha-se apagado, só uma lâmpada dava uma luz fraca. Os menores estavam dormindo no colo das mães e mesmo algumas das mulheres dormitavam com as cabeças a caírem-lhes no peito.

Olhei para a cara da mensageira, mas ela não me viu. Os olhos dela estavam fechados, por cima de lábios sorridentes. Ela estava longe, na terra da história dela, uma terra fria de mitos estranhos, onde a própria mãe dela estava enterrada. Senti a solidão da mensageira, tão longe de casa. Percebi o coração de Werenro da mesma maneira que percebia o sol, quando este me aquecia a cara. Estendi a minha mão, e coloquei no ombro dela, e Werenro virou-se para mim, abriu uns olhos que cintilavam com lágrimas e beijou-me nos lábios.

- Obrigada - disse ela, e levantou-se.

Ela entrou na tenda da minha mãe e foi-se embora antes do nascer do Sol, sem me contar como é que o lobo vermelho da história dela dera lugar ao homem e à mulher. Mas isso não me preocupou, pois sabia que iria ouvir o resto em Mamre, quando fôssemos, finalmente, ver a avó.

 

Os preparativos para a viagem começaram um mês antes da ceifa da cevada. O meu pai decidiu que levaria a Mamre todas as suas esposas e a maior parte dos filhos. A Simeão e Levi mandou-os ficar para trás com os rebanhos e, uma vez que ambas as esposas deles estavam grávidas pela primeira vez, eles não objetaram. Embora Shua não estivesse grávida, Judá pediu também para ficar, e as mulheres sabiam todas porquê: os gritos dos prazeres noturnos deles eram uma fonte de piadas e de sorrisos tolos.

Os meus irmãos e eu fomos chamados à presença das nossas mães, que examinaram as nossas melhores roupas e as acharam insuficientes. Seguiu-se uma agitação de lavagem, remendos e costura. Raquel decidiu fazer uma túnica nova para o seu único filho. O traje de José, decorado com tiras de vermelho e amarelo, granjeou-lhe horríveis gozos por parte dos irmãos. Ele ignorou as gozações e jurou que preferia a peça de roupa que a sua mãe lhe tinha feito às coisas insípidas que eram dadas a usar aos homens. Não consegui perceber se ele estava a erguer uma fachada corajosa ou se realmente gostava do seu elegante vestuário.

A mim, deram-me braceletes para os pulsos - as minhas primeiras jóias. Eram só de cobre, mas eu adorava-as, especialmente o som feminino e adulto que elas faziam. De fato, passei tanto tempo a admirar o modo como as três tiras se juntavam Dos meus pulsos, que não prestei atenção aos meus pés e, no primeiro dia em que as usei, tropecei e esfolei o queixo, que ficou em carne viva. Fiquei horrorizada com a idéia de ir conhecer a avó com um ar de criança cheia de crostas. Estudei a minha cara no espelho de Raquel todos os dias, até nos termos ido embora, implorei a Inna que me desse ungüento e escarafunchei a enorme crosta vermelha.

No dia em que partimos para Mamre, estava fora de mim de excitação, ignorei todos os pedidos que me eram feitos. A minha mãe, em todo o lado ao mesmo tempo, certificando-se de que os jarros do azeite e do vinho estavam selados em segurança, de que os meus irmãos tinham penteado as barbas, de que tudo estava pronto, acabou por perder a paciência comigo. Foi uma das poucas vezes em que ela levantou a voz para mim.

- Ou me ajudas, ou deixo-te cá, para servires as mulheres dos teus irmãos - disse ela. Não precisou dizer mais nada.

A viagem demorou poucos dias e foi alegre. Cantamos enquanto caminhávamos, a arranjarmo-nos no nosso vestuário luxuoso, orgulhosos do nosso lindo rebanho, pois só os melhores animais tinham sido escolhidos para serem dados de presente à avó.

Jacob andava ao lado de Raquel, de manhã cedo, inalando o perfume dela, sorrindo, falando pouco. Depois, tomava o seu lugar ao lado de Lea para discutir os animais, as colheitas e a etiqueta apropriada para cumprimentar os pais dele. Ao fim da tarde, Jacob encaminhava-se para Bilhah, tirando o lugar a Ruben, a sombra dela. O meu pai caminhava com a mão sobre o pequeno ombro dela, como se precisasse do seu apoio.

Eu estava perfeitamente feliz. José ficava ao meu lado, e até se esquecia suficientemente da maneira como se devia comportar para me dar a mão, de tempos a tempos. À noite, eu ficava ao pé de Zilpa, que me alimentava a admiração pela avó com histórias sobre a reputação de Rebeca como adivinha, curandeira e profetisa, de modo que eu quase não conseguia adormecer. Quase não me conseguia conter para não correr, pois ia ver Tabea outra vez. Werenro sorrir-me-ia, contar-me-ia mais um bocado da sua história. E ia conhecer a avó, que eu imaginava que me perceberia instantaneamente e me adoraria acima de qualquer um dos meus irmãos.

A meio da manhã do terceiro dia, avistamos a tenda de Rebeca. Mesmo à distância, era uma maravilha, embora, a princípio, não tenha percebido o que é que brilhava no outro lado do vale diante de mim. A tenda era enorme - muito maior do que qualquer tenda que eu alguma vez tivesse visto - e completamente diferente das nossas habitações de pêlo de cabra.

Esta era um arco-íris preso à terra - vermelho, amarelo e azul -flutuando por sobre o terreno alto, sob um pálio de grandes e velhas árvores cujos ramos imploravam a um céu sem nuvens. À medida que nos aproximamos, tornou-se claro que aquilo era menos uma casa do que um pálio, aberto por todos os lados para receber os viajantes de todas as direções. Lá dentro, vimos de relance vividos objetos pendurados, em padrões simultaneamente delicados e audaciosos, com cenas de mulheres a dançar e peixes voadores, estrelas, crescentes, sóis, pássaros. Eram mais bonitos do que todas as coisas feitas à mão que eu alguma vez tivesse visto.

Quando quase conseguíamos sentir a sombra do bosque sagrado, apareceu a avó. Não saiu para nos receber nem mandou nenhuma das suas mulheres, mas esperou na sombra da tenda maravilhosa de braços cruzados, a observar. Não consegui desviar os meus olhos dela.

Não me lembro da saudação formal do meu pai ou da cerimônia para apresentar os meus irmãos, um por um, e depois os presentes, e finalmente as minhas mães e eu. Só a via a ela. A avó - a minha avó. Ela era a pessoa mais velha que eu alguma vez tinha visto. Os anos que ela tinha, proclamavam-se nas grandes rugas da testa e à volta da boca, mas a beleza da juventude ainda se agarrava a ela. Ela mantinha-se tão ereta quanto Ruben, quase tão alta quanto ele. Os seus olhos negros eram claros e penetrantes, pintados ao estilo egípcio - um padrão de kolil pesado e negro, que fazia parecer que ela via tudo. Os trajes eram púrpura - cor da realeza e da santidade e da riqueza. O toucado era longo e negro, perpassado de fios de ouro, criando a ilusão de um cabelo luxuriante onde, de fato, só uns poucos fios cinzentos lhe restavam.

Rebeca não reparou que eu a olhava fixamente. Os olhos da avó estavam fixos no filho que ela não via desde o tempo em que ele era um rapaz de faces macias, e que agora era um homem com filhos crescidos e avô. Não demonstrou emoção, enquanto Jacob lhe apresentou os filhos e as esposas dele, e os presentes que trouxera. Assentia com a cabeça, aceitava tudo, não dizia nada.

Eu pensei que ela era magnífica distante como uma rainha. Mas vi a boca da minha mãe apertar-se em desprazer. Ela tinha esperado uma demonstração de amor maternal pelo filho favorito. Eu não pude ver a cara do meu pai, para medir a reação dele.

Depois das boas-vindas oficiais, a avó virou-nos as costas e nós fomos levados para o lado oeste do monte, para montarmos as nossas tendas e nos prepararmos para a refeição da noite. Foi aí que eu soube que a Tabea ainda não tinha chegado e que Werenro tinha sido enviada a Tiro, para comerciar a rara tinta púrpura que a avó preferia.

Não vivia nenhum homem no bosque. Rebeca era assistida por dez mulheres, que também tomavam conta dos peregrinos que vinham procurar conselho e profecias daquela a quem chamavam "Oráculo". Quando fiz perguntas acerca do pai do meu pai, uma das assistentes da avó disse-me que Isaac morava a curta distância, na aldeia de Arba, numa barraca aconchegada que era mais bondosa para os velhos ossos dele do que uma tenda aberta. "Ele virá para a refeição desta noite", disse a mulher, cujo único nome era Débora. A avó chamava a todas as suas acólitas Débora, em honra da mulher que tinha sido a ama dela, na infância, e que a servira ao longo da vida, e cujos ossos jaziam enterrados sob as árvores de Mamre.

As mulheres da avó falavam em murmúrios tímidos e vestiam-se com a mesma simples túnica branca. Eram uniformemente amáveis, mas distantes, e rapidamente parei de tentar vê-las como indivíduos e comecei a pensar nelas todas como as Déboras.

A tarde passou rapidamente, na preparação para a refeição da noite. No preciso momento em que o primeiro pão saía do fogo, chegou palavra de que Isaac tinha chegado. Corri em volta da tenda para ver o meu avô aproximar-se do bosque. Rebeca também veio ver, erguendo a mão numa breve saudação. O meu pai foi ter com ele para o cumprimentar, o passo dele a tornar-se mais e mais rápido, até ele estar de fato a correr em direção ao pai.

Isaac não respondeu à saudação da esposa ou à excitação do filho. Continuou, aparentemente sereno, no seu assento almofadado em cima de um burro conduzido por uma mulher com os mesmos trajes brancos do séqüito da minha avó - embora esta usasse um véu que lhe cobria tudo exceto os olhos. Só quando ele se aproximou é que eu percebi que o meu avô era cego, e que tinha os olhos semicerrados num aperto que lhe azedava toda a cara numa carranca permanente. Tinha ossos pequenos, era magro, e teria parecido frágil se não tivesse o cabelo tão espesso e escuro quanto o de um homem mais novo.

A avó observou a criada a ajudar Isaac a descer e a acompanhá-lo ao seu cobertor no lado leste de Mamre. Mas, antes da criada lhe libertar o cotovelo, Isaac tomou a mão dela na sua e levou-a aos lábios. Beijou-lhe a palma da mão e pô-la na face dele. A cara de Isaac relaxou num sorriso, para que qualquer um que quisesse vê-lo pudesse saber que a mulher velada era a companheira do coração do meu avô.

O meu pai pôs-se perante Isaac e disse: "Pai?", numa voz transbordante de lágrimas. Isaac virou a cara na direção de Jacob e abriu os braços. O meu pai abraçou o velho e ambos choraram. Falaram em sussurros, enquanto os meus irmãos esperavam as apresentações. As minhas mães retraíram-se, trocando olhares furtivos por causa da comida, que ficaria seca e sem sabor se não fosse servida rapidamente.

Mas os homens não queriam ser apressados. Isaac puxou o filho para um lugar a seu lado, enquanto Jacob lhe apresentava cada um dos filhos. Isaac passou as mãos pelas caras dos meus irmãos Ruben e Zebulon, Dan, Gad e Aser, Naftali e Issacar. Quando José foi finalmente apresentado como o filho mais novo, o avô puxou-o para o colo dele, como se ele fosse um bebê e não um rapaz perto da idade adulta. Isaac passou os dedos pelos contornos da cara de José e pelos músculos dos braços dele com ternura. Levantou-se uma brisa, que ergueu a tenda de seda bem alto sobre eles, abraçando avô e neto no seu maravilhoso arco-íris. Era uma visão grandiosa, tirou-me o fôlego. E foi precisamente nesse momento que Rebeca, que até então se mantivera distante, finalmente quebrou o seu silêncio majestático.

- Deves estar com fome e com sede, Isaac - disse ela, oferecendo hospitalidade numa voz muito pouco graciosa. - As tuas crianças estão sedentas por causa da viagem. Deixa que a tua Débora te traga para dentro. Deixa as tuas noras mostrarem-me que sabem cozinhar.

Um rodopio de trajes brancos pôs a refeição na mesa e o festim começou. O meu avô comeu bem, tomando os seus bocados de comida dos dedos da mulher velada. Perguntou se os seus netos tinham comido o suficiente e de tempos a tempos esticava o braço para encontrar o seu filho - pondo uma mão amorosa e tonta no ombro ou na face dele, deixando manchas de gordura que o meu pai não limpou. Vi isto de trás de uma árvore, pois com todas aquelas criadas, não era necessário que eu carregasse comida ou água.

Os meus irmãos estavam com fome e acabaram rapidamente. Pouco depois, Zilpa veio-me buscar para o nosso lado da grande tenda, onde as mulheres se aglomeraram. A avó sentou-se e nós observamo-la enquanto ela provava uma única vez tudo o que estava em frente dela. Não disse nada acerca dos guisados ou dos pães ou dos doces. Não elogiou o queijo ou as azeitonas gigantes que as minhas mães tinham colhido. Não ligou à cerveja da minha mãe.

Mas o silêncio de Rebeca já não me surpreendia. Tinha deixado de pensar nela como uma mulher igual às minhas mães, ou mesmo a qualquer outra mulher. No espaço de uma tarde, ela transformara-se numa força dos deuses, como uma chuvarada ou um incêndio na mata.

Por causa de a avó ter comido pouco e não ter dito nada, a nossa refeição foi mais sombria do que festiva. Não houve passagem de tigelas para segunda prova, nem elogios, nem perguntas, nem qualquer conversa. O grande festim acabou em breves minutos e as Déboras levantaram as últimas taças sem dar tempo de pensar em voltar a enchê-las.

A avó levantou-se e encaminhou-se para a ponta ocidental da sua tenda, onde o Sol se punha num clarão de laranja e dourado. As assistentes dela seguiram-na. Rebeca estendeu as mãos, como se quisesse tocar os últimos raios de sol.

Quando deixou cair os braços, as assistentes começaram a cantar uma canção que convidava a Lua da ceifa de cevada a apresentar-se. As estrofes repetiam uma profecia antiqüíssima. Quando cada espiga de cevada tivesse vinte e sete sementes, o fim dos dias chegaria e haveria descanso para os cansados e o mal desapareceria da terra como a luz das estrelas ao nascer do Sol. O último refrão acabou justamente quando a escuridão engoliu o campo.

Acenderam-se lâmpadas no grupo dos homens, acenderam-se lâmpadas no das mulheres. A avó veio conosco, e eu temi que ficássemos sentadas em espera silenciosa durante toda a noite, mas o meu medo não tinha fundamento, pois, logo que as luzes foram acesas, ela começou a falar.

- Esta é a história do dia em que eu vim para a tenda de Mamre, para o bosque de árvores sagradas, para o umbigo do mundo - disse a avó, Rebeca, em tons que poderiam ter sido escutados pelos homens, caso estivessem a ouvir. - Foi nas semanas que se seguiram à morte de Sarai, a profetisa, amada de Abraão, mãe de Isaac. Aquela que deu à luz quando era demasiado velha para carregar água, quanto mais para carregar uma criança. Sarai, mãe querida. Na manhã em que entrei neste bosque, uma nuvem desceu sobre a tenda e sobre Sarai. Uma nuvem dourada que não carregava chuva, nem cobria o Sol. Era uma nuvem que só é vista sobre grandes rios e sobre o mar, mas nunca antes fora avistada em lugar tão alto. E, no entanto, a nuvem pairou sobre a tenda de Sarai enquanto Isaac me conheceu e eu me tornei esposa dele. Passamos os nossos primeiros sete dias como marido e mulher sob essa nuvem, em que os deuses com certeza estavam presentes. E nunca houve colheita mais rica em vinho e cereal e óleo do que naquela Primavera, minhas filhas - disse ela, num murmúrio que era ao mesmo tempo orgulhoso e derrotado. - Ah, mas para mim, tantas filhas nasceram mortas. Tantos filhos, mortos no ventre. Só dois sobrevivem. Quem poderá explicar este mistério?

A avó ficou silenciosa e a sua disposição sombria cobriu as ouvintes e os nossos ombros descaíram. Mesmo eu, que não tinha perdido nenhuma criança, senti uma aflição de mãe. Passado um momento, a minha avó levantou-se e apontou para Lea, para que ela a seguisse a uma câmara interior da grande tenda, onde as lâmpadas estavam acesas com óleo perfumado e as tapeçarias brilhavam. Nós, as restantes, ficamos sentadas durante algum tempo, até percebermos que tínhamos sido mandadas embora.

A entrevista da minha mãe com a avó deu-se pela noite dentro. Primeiro, Rebeca olhou longamente para a sua nora, traindo a sua miopia ao aproximar-se muito para observar a cara dela. Depois, começou o interrogatório cerrado sobre cada pormenor da vida de Lea.

- Porque é que não te deixaram fora para morrer, quando nasceste, com olhos como os teus? Qual é o local de enterro da tua mãe? Como é que preparas lá para tingir? Onde é que aprendeste a fazer aquela cerveja? Que espécie de pai é Jacob, o meu filho? Qual dos teus filhos é o teu favorito? Qual dos teus filhos é o que temes? Quantos cordeiros é que o meu filho sacrifica a El, no festival da Primavera? Qual é a tua prática na lua nova? Quantos bebês perdeste durante a gravidez? Que planos fazes para a entrada na idade adulta da tua filha? Quantos epahs de cevada cultivas em Succoth, e quantos de trigo?

A minha mãe nem se conseguia lembrar de todas as perguntas que lhe tinham sido postas naquela noite, mas respondeu-lhe cabalmente e sem tirar os olhos da cara da avó. Isto espantou a mulher mais velha, que estava habituada a enervar as pessoas, mas Lea não ficou intimidada. As duas arregalavam os olhos uma à outra.

Por fim, a avó não conseguia pensar em nada mais para perguntar, assentiu e fez um som sem palavras, um grunhido de ressentida aprovação.

- Muito bem, Lea, mãe de muitos filhos. Muito bem.

Com um meneio da mão, despediu a minha mãe, que foi direita ao seu cobertor e adormeceu, exausta.

Durante os dois dias seguintes, as minhas tias foram chamadas para a câmara interior da avó, uma por uma.

Raquel foi acolhida com beijos e carícias. Ouviu-se riso infantil quando as duas passaram uma tarde juntas. A avó deu palmadinhas nas faces da minha linda tia e beliscou-lhe os braços suavemente. Rebeca, que fora a beldade da sua geração, mostrou a sua caixa de maquiagem - uma coisa grande, negra, lacada, com muitos compartimentos, cada um deles cheio de uma poção ou um ungüento, de um perfume ou uma tinta. Raquel saiu da presença da avó sorrindo e a cheirar a óleo de lótus, com as pálpebras verdes e os olhos contornados com um Kohl negro brilhante que lhe dava um ar formidável, em vez de parecer apenas bonita.

Quando Zilpa foi chamada, a minha titi caiu de cara à frente da avó e foi recompensada com um pequeno poema sobre Asherah, consorte de El e deusa do mar. A avó olhou brevemente para a cara de Zilpa, fechou os seus olhos negros e predisse o tempo e o lugar da morte da minha tia. Esta notícia, que ela nunca revelou a ninguém, não perturbou Zilpa. Se alguma coisa fez, foi dar-lhe uma espécie de paz que durou o resto da vida dela. Desse dia em diante, Zilpa sorriu enquanto trabalhava no tear - não um sorrisinho ávido, mas um grande sorriso que a fazia mostrar os dentes, como se estivesse a lembrar de uma boa piada.

Bilhah temia a entrevista com a avó, e tropeçou enquanto se aproximava da velha mulher. A avó franziu o sobrolho e suspirou, enquanto Bilhah manteve os olhos fixos nas mãos. O silêncio tornou-se pesado e, passado um bocado, Rebeca virou-se e saiu, deixando Bilhah sozinha com as belas tapeçarias que pareciam estar a gozar com ela.

Estes encontros significavam pouco para mim. Durante três dias, os meus olhos estiveram no horizonte, à espera de Tabea. Ela chegou, finalmente, no dia do próprio festival, com Esaú e a primeira esposa dele, Ada. A visão da minha melhor amiga pôs-me num alvoroço, e eu corri para ela. Ela atirou-se num abraço contra mim.

Quando nos separamos, reparei quanto ela mudara nos poucos meses em que tínhamos estado separadas. Era mais alta do que eu uma boa meia cabeça e não havia necessidade de puxar as roupas dela de encontro ao corpo para lhe ver os peitos. Mas quando vi o cinto que a declarava mulher, caiu-me o queixo. Ela tinha entrado na tenda vermelha! Já não era uma criança, mas uma mulher. Senti as minhas faces arderem de inveja, enquanto as dela ficaram coradas de orgulho. Eu tinha mil perguntas para lhe fazer sobre como era e sobre a cerimônia, e sobre se o mundo era um lugar diferente, agora que o lugar dela nesse mundo era diferente.

Mas não tive tempo de perguntar nada à minha prima. A avó já tinha notado o avental da Tabea e aproximou-se da minha tia coberta de moedas. Poucos minutos depois, estava a gritar com Ada com uma fúria que eu pensava reservada aos deuses que tinham o trovão e o relâmpago à sua disposição.

A ira de Rebeca era terrível.

- Queres dizer que o sangue dela foi desperdiçado? Fechaste-a sozinha, como a um qualquer animal?

Ada bajulou-a e fez tenção de responder quando a avó levantou os punhos.

- Não te atrevas a defender-te, meu ignorante pedaço de nada - silvou a avó.        Sua babuína! Eu disse-te o que fazer e tu desobedeceste-me, e agora não há nada a fazer. A melhor das raparigas dele, a única das sementes dele com um traço de inteligência ou sentimento, e tu trataste-a como um... como um... Pah! - Rebeca cuspiu aos pés da nora. - Não tenho palavras para esta abominação. - A voz tornou-se-lhe gélida e baixa. - Basta. Não és digna de permanecer na minha tenda. Vai-te embora daqui. Maldita sejas, deixa este lugar e nunca mais me apareças à frente.

A avó ergueu-se em toda a sua altura e esbofeteou Ada com toda a força. A pobre mulher desfez-se no chão, lamentando-se, com medo que lhe tivessem lançado um feitiço. Os homens, que tinham acorrido a saber do motivo de desagrado da avó, arrepiaram caminho, ao verem a maldição do Oráculo, e rapidamente viraram costas àquilo que era claramente assunto de mulheres.

Ada arrastou-se para longe, mas Tabea lançou-se logo no chão aos pés de Rebeca, soluçando: "Não, não, não." A cara da minha prima tornou-se cinza, os olhos arregalados de terror.

- Toma o meu nome e chama-me Débora, também. Faz-me a mais insignificante das tuas servas, mas não me mandes embora. Oh, por favor, avó. Por favor. Imploro-te, imploro-te.

Mas Rebeca não olhou para a criatura que sofria a seus pés. Não viu Tabea a rasgar a cara até fazer correr riscas de sangue. Não a viu rasgar o vestido em bocados, nem a viu engolir punhados de pó. A avó virou costas e afastou-se dos últimos estertores da esperança de Tabea, embrulhando bem a capa em volta do corpo, como que para se proteger da infelicidade que tinha diante de si. As seguidoras da avó levantaram Tabea do chão e carregaram-na de volta para as tendas das esposas de Esaú.

Eu não compreendi verdadeiramente o que tinha acontecido, mas sabia que a minha querida amiga sofrera uma injustiça. Os meus ouvidos zuniam e o meu coração batia com muita força. Não podia acreditar na crueldade da avó. A minha amada prima, que gostava mais de Rebeca do que da própria mãe, tinha sido mais mal tratada do que os leprosos que vinham à procura de curas milagrosas. Odiei Rebeca como nunca tinha odiado ninguém.

A minha mãe pegou na minha mão, conduziu-me à tenda dela e deu-me uma taça de vinho doce. Acariciando o meu cabelo, respondeu à minha pergunta mesmo antes de eu a fazer. Lea, minha mãe, disse:

- A rapariga vai sofrer durante o resto dos seus dias, e a tua compaixão é apropriada. Mas o teu ódio não é merecido, filha. Não era intenção dela magoar a Tabea. Acho que ela a amava bastante, mas não teve escolha. Estava a defender a mãe dela e a defender-se a si própria, a mim e às tuas tias, a ti e às tuas filhas, depois de ti. Ela estava a defender os costumes das nossas mães e das mães delas, e a grande mãe, que dá por muitos nomes mas que está em perigo de ser esquecida. Isto não é fácil de explicar, mas eu vou dizer-te. Uma vez que és a minha única filha, e dado que vivemos tanto tempo de tal modo isolados, já sabes muito mais do que devias. Já passaste algum tempo conosco, na tenda vermelha. Até já assististe a um parto, que é uma coisa que nunca podes contar à avó. Eu sei que não vais revelar o que te vou dizer agora.

Assenti na minha promessa, e a minha mãe suspirou do coração. Olhou para baixo, para as próprias mãos, castanhas do sol, sábias do uso, raramente em repouso, como estavam agora. Pôs as palmas das mãos voltadas para cima sobre os joelhos e fechou os olhos. Meio a cantar, meio a murmurar, Lea disse:

- A grande mãe a quem chamamos Innana é uma guerreira feroz, noiva da Morte. A grande mãe a quem chamamos Innana é o centro do prazer, aquela que faz os homens e as mulheres virarem-se uns para os outros, à noite. A grande mãe a quem chamamos Innana é a rainha do oceano e a padroeira da chuva. Isto é do conhecimento de todos, tanto homens como mulheres. Dos bebês que mamam e dos avós que falham.

Aqui, ela parou, e abriu um grande sorriso infantil.

- Zilpa havia de rir-se, se me visse aqui a falar de lendas - disse ela, olhando diretamente para mim, por um momento, e eu retribui o sorriso, partilhando a piada. Mas, passado um momento, a minha mãe retomou a sua pose formal e continuou: - A grande mãe a quem chamamos Innana deu à mulher um dom que não é conhecido entre os homens, e este é o segredo do sangue. O fluxo no escuro do mês, o sangue curandeiro do nascimento da lua, para os homens isto é fluxo e mau feitio, aborrecimento e dor. Eles imaginam que nós sofremos e consideram-se sortudos. Nós não os desenganamos. Na tenda vermelha, a verdade é conhecida. Na tenda vermelha, onde os dias passam como uma corrente ligeira, enquanto o dom de Innana corre por nós, limpando o corpo da morte do último mês, preparando o corpo para a vida do novo mês, as mulheres dão graças pelo repouso, pela restauração, pelo conhecimento de que a vida vem de entre as nossas pernas, e de que a vida custa sangue.

Depois pegou na minha mão e disse-me:

- Digo isto antes do momento certo, filha minha, embora não tarde muito entres na tenda para celebrares comigo e com as tuas tias. Tornar-te-ás uma mulher cercada por mãos amantes que te carregarão e te apanharão o teu primeiro sangue e que se certificarão de que ele volte para o ventre de Innana, para o pó que formou o primeiro homem e a primeira mulher. O pó que foi misturado com o sangue da lua dela. Infelizmente, muitas das filhas dela esqueceram-se do segredo do dom de Innana e viraram as costas à tenda vermelha. As esposas de Esaú, as filhas de Edom, que Rebeca despreza, não ensinam nem acolhem as suas jovens, quando elas se tornam adultas. Tratam-nas como bestas: mandam-nas para fora, sós e amedrontadas, fechadas nos dias escuros da lua nova, sem vinho nem o conselho das mães. Não celebram o primeiro sangue daquelas que carregarão vida, nem o levam de volta à terra. Puseram de lado a costura, que é o assunto sagrado de mulheres, e permitem que os homens mostrem os lençóis ensangüentados das filhas deles, como se o mais insignificante dos baal pedisse tal degradação como tributo.

A minha mãe detectou a minha confusão. Ainda não podes compreender tudo isto, Dina disse ela. Mas em breve saberás, e eu certificar-me-ei de que sejas recebida na vida de mulher com cerimônia e ternura. Não temas.

Era escuro quando a minha mãe disse a última destas palavras. As canções do festival da cevada chegaram aos nossos ouvidos e a minha mãe levantou-se, oferecendo-me a mão. Saímos para a noite, para ver as oferendas, queimadas num altar, ao lado da árvore mais alta. Cantaram-se músicas maravilhosas, harmonias de muitas partes. As Déboras dançaram em círculo, ao som das suas próprias palmas. Espalharam-se e agacharam-se, saltaram e oscilaram como se partilhassem uma só mente, um só corpo, e eu percebi o desejo de Tabea de se juntar àquela dança.

Ada desapareceu durante a noite, levando consigo a minha amiga, amarrada às costas de um burro, como uma oferenda que ainda não estivesse morta, com um trapo enfiado na boca para lhe abafar os gritos.

 Nos poucos dias que antecederam a nossa partida evitei a avó e permaneci junto das minhas mães. Só desejava ir embora daquele lugar, mas, quando nos preparamos para voltar para Succoth, Lea veio ter comigo com uma cara soturna.

- A avó diz que ficas aqui em Mamre durante três meses - disse ela. - Rebeca falou com o teu pai e foi tudo combinado sem o meu... Ela parou, ao ver a minha cara acossada. - Gostaria de poder ficar ou de deixar Zilpa contigo, mas a avó não quer nada disso. Só te quer a ti. - Fez uma longa pausa antes de dizer: -        É uma honra. - Pôs as duas mãos em volta do meu queixo e acrescentou com ternura: - Havemos de estar outra vez juntas quando o trigo amadurecer.

Não chorei. Estava assustada e com raiva, mas decidida a não chorar, portanto, mantive a boca fechada, respirei pelo nariz e impedi os meus olhos de pestanejarem. Foi assim que sobrevivi, enquanto via a forma da minha mãe a tornar-se menor e, depois, a desaparecer no horizonte. Nunca tinha imaginado a solidão de estar sem ela, ou sem as minhas tias, ou, até, sem um dos meus irmãos. Senti-me como um bebê deixado ao relento para morrer, mas não chorei. Virei-me de volta para as Déboras, que me observavam ansiosamente, mas não chorei.

Só à noite, sozinha no meu cobertor, virei a cara para o chão e chorei até sufocar. Todas as manhãs me levantava tonta e confusa, até me lembrar de que estava sozinha na tenda da minha avó.

As minhas memórias daqueles meses em Mamre parecem pálidas e dispersas. Quando voltei para as minhas mães, elas ficaram desapontadas por eu não lhes poder falar mais de maravilhas que tivesse visto ou de segredos que tivesse aprendido. Era como se tivesse andado por uma gruta cheia de jóias e só tivesse apanhado um punhado de seixos cinzentos.

Eis o que recordo:

Uma vez em cada sete dias, a avó fazia um grande espetáculo de fazer bolos. Durante o resto da semana, ela não sujava as mãos com o trabalho de mulheres, muito menos a amassar e a manusear a massa. Mas, no sétimo dia, ela pegava em farinha e água e mel, dava-lhes voltas e dava-lhes forma, e sacrificava um canto de um bolo de três lados, "à Rainha do Céu", murmurava ela para a massa antes de a consignar às chamas.

Eu duvidava de que a Rainha gostasse lá muito das coisas secas e sensaboronas que Rebeca oferecia. "Não são bons?", perguntava ela, quando as coisas saíam do forno. Eu assentia, tal como era meu dever, empurrando a minha porção Com água, que era tudo o que me era dado a beber. Felizmente, as criadas dela eram muito melhores pasteleiras, e os bolos delas eram suficientemente doces e úmidos para qualquer rainha. Apesar de tudo, quando a minha avó murmurava a sua pequena oferenda doméstica, era a única vez que eu a via sorrir com os olhos.

Era tarefa minha ir ter com Rebeca de manhã cedo para a ajudar nas abluções matinais, que a preparavam para os peregrinos vindos ao bosque diariamente. Eu carregava a complicada caixa de cosméticos dela, que continha diferentes perfumes para a testa, os pulsos, os sovacos e os tornozelos, uma poção para a pele por baixo dos olhos e uma mistela de cheiro azedo para a garganta. Depois dos perfumes e dos cremes, ela começava a cuidadosa aplicação de cor aos lábios, aos olhos, às faces. Dizia ela que o mais importante de todos os tratamentos de beleza era cheirar bem, e o hálito dela estava sempre perfumado de menta, que mastigava de manhã à noite.

A avó parecia arder num fogo indefinível. Comia pouco e raramente se sentava. Olhava com desprezo para qualquer pessoa que necessitasse de descanso. Na realidade, criticava toda a gente exceto os filhos dela e, muito embora preferisse Jacob, elogiando a beleza dele e dos seus filhos, era claro que confiava no meu tio para fazer tudo. Mensageiros iam e vinham de Seir dia sim, dia não. Esaú era chamado para entregar um epah extra de cevada ou para encontrar carne digna da mesa da avó. Vi-o a cada quinzena, pelo menos, com braçadas de presentes.

O meu tio era um bom homem e um bom filho. Certificava-se de que os peregrinos abastados visitassem o bosque e trouxessem ricas oferendas. Encontrara a Isaac a cabana de pedra que permitia a Rebeca o luxo de viver como uma sacerdotisa, sem homem a quem servir. A avó dava palmadinhas na face de Esaú sempre que ele deixava a tenda dela, e ele irradiava como se ela o tivesse elogiado até ao céu. Coisa que ela nunca fez.

A minha avó nunca falou mal de Esaú, nem disse nada de bom acerca dele. As esposas dele, no entanto, eram detestadas ao pormenor. Embora fossem mulheres cumpridoras que, a dado momento, lhe enviaram bons presentes na esperança de conquistarem a sua aprovação, ela tomava-as a todas por idiotas descuidadas. Durante anos, tinha gozado com elas abertamente, de modo que elas só a visitavam quando Esaú insistia.

Ela não era mais bondosa com as minhas mães. Considerava Raquel preguiçosa, linda, mas preguiçosa. Chamava feia a Bilhah e chata supersticiosa a Zilpa. Admitia com um certo ressentimento que Lea era boa trabalhadora e claramente abençoada, por ter tido tantos filhos saudáveis. Mas nem mesmo Lea era suficientemente boa para Jacob, que merecia uma companheira perfeita. Não uma mulher gigante com olhos de cores diferentes.

Ela dizia mesmo estas coisas na minha presença! Como se eu não fosse a filha da minha mãe, como se as minhas tias não fossem, também, as minhas amadas mães. Mas eu não as defendia. Quando o Oráculo falava, não eram permitidas contradições. Eu não era tão arrojada quanto Lea, e as minhas lágrimas noturnas eram freqüentemente de vergonha, para além de serem de solidão.

Rebeca guardava o pior da sua verve para o marido dela, no entanto, Isaac tornara-se tolo com a velhice, dizia ela, e cheirava mal coisa que ela não conseguia suportar. Ele tinha esquecido o que lhe devia, pois não tivera ela razão ao fazê-lo dar a bênção a Jacob? Rebeca falava constantemente acerca da ingratidão de Isaac e dos sofrimentos padecidos às mãos dele. Mas, para mim, não era evidente o que o meu avô tinha feito. Ele parecia amável e inócuo, quando vinha, nos dias quentes, desfrutar a brisa sob os grandes terebintos. Eu ficava satisfeita por Isaac não necessitar dos cuidados de Rebeca. Era bem servido pela sua Débora velada. Corria o rumor de que a cobertura dela escondia um lábio leporino, embora fosse impensável que alguém assim não tivesse sido morto na infância.

Quando Esaú vinha a Mamre, visitava primeiro a mãe e tratava das necessidades dela. Era bem-educado e até atencioso, mas, assim que podia, virava-se para o avô e acompanhava-o de volta a Arba, onde os dois homens saboreavam o seu vinho noturno. Ficavam acordados até tarde, a falar e a rir, servidos pela Débora velada.

Soube isto através das outras que usavam branco. Elas eram boas para mim. Davam-me palmadinhas no ombro, quando me traziam o jantar, escovavam-me o cabelo e deixavam-me trabalhar com os belos fusos de marfim delas. Mas não contavam histórias, à noite, e nunca soube os nomes que as próprias mães lhes tinham dado, ou como é que tinham vindo para Mamre, ou se sentiam falta da companhia de homens. Elas pareciam suaves e contentadas, mas tão descoloridas como as vestes que usavam. Não lhes invejava a vida com o Oráculo.

Na lua nova, Rebeca não me permitiu entrar na tenda vermelha com as mulheres que sangravam, ela era muito estrita na observância desta regra. Ela, que já passara o seu período de engravidar, não entrava, nem eu, ainda imatura, podia entrar. Uma das outras Déboras também ficava conosco cá fora. Ela explicou-me que nunca lhe tinham vindo as regras, mas não se queixou da falta de descanso. Ela e eu cozinhamos e servimos as celebrantes, cujo riso baixo me fazia ansiar pela tenda das minhas mães.

Quando as mulheres emergiram descansadas e sorridentes - na manhã do terceiro dia, foi-me permitido segui-las, quando foram ao ponto mais alto do monte ver o Sol levante. A avó, ela própria, derramou uma libação de vinho, enquanto as mulheres cantavam uma canção sem palavras de calmo regozijo. No silêncio profundo que se seguiu, pareceu-me que a Rainha do Céu pairava nas árvores acima de nós. Essa recordação regressa à minha memória em cada lua nova.

Nunca aprendi a amar a minha avó. Não conseguia esquecer ou perdoar o que ela tinha feito à Tabea. No entanto, chegou o dia em que lhe prestei homenagem.

As portas da tenda do Oráculo estavam sempre abertas e de todas as direções era recebido o desconhecido. Este tinha sido o decreto de Sarai e Abraão, que, segundo se dizia, recebiam de igual modo príncipes e mendigos. Por conseguinte, todas as manhãs Rebeca recebia peregrinos na bela tenda. Ela via todos os que vinham desgraçados ou esplendorosos e não se apressava com os pobres.

Eu fiquei ao lado das suas acólitas enquanto ela cumprimentava os hóspedes. Primeiro, aproximou-se dela uma mulher sem filhos e implorou um filho. O Oráculo deu-lhe um cordão vermelho para ela atar numa das árvores de Mamre, murmurou uma bênção ao ouvido da mulher estéril e disse-lhe que fosse com a Débora que era habilidosa com as ervas.

A seguir, veio um mercador à procura de um amuleto para a sua caravana.

-Tem sido uma temporada má para mim - começou ele. - Estou quase pobre, mas ouvi falar dos teus poderes - disse ele, com uma espécie de desafio a insinuar-se-lhe na voz. - vim ver por mim mesmo.

A avó aproximou-se dele e olhou-o de frente até ele desviar os olhos desse profundo.

- Tu é que deves fazer uma devolução - disse ela, de uma maneira que parecia um aviso.

Os ombros dele descaíram e a sua arrogância derreteu.

- Não tenho bens para fazer a restituição, avó - disse ele.

- Não há outra maneira - disse o Oráculo, em voz alta e formal. Mandou-o embora com um gesto da mão, e ele retirou-se obedientemente às arrecuas e correu monte abaixo como se um exército o perseguisse.

Rebeca viu a minha boca aberta e explicou tudo com um encolher de ombros:

- Só os ladrões vêm à procura de negócios milagrosos.

O último peregrino daquela manhã era uma mãe que carregava uma criança suficientemente crescida para andar. Mas quando a mulher o desembrulhou, percebemos porque é que ele ainda estava nos braços dela. As pernas dele estavam atrofiadas e os pés cobertos de chagas, abertas e exsudantes e dolorosas de ver. Pelo olhar que fazia, era claro que estava quase morto de sofrimento. A avó tirou o rapaz dos braços da mãe. Levou-o até à almofada dela com os lábios encostados à testa dele e sentou-se com ele ao colo. Pediu um ungüento usado para queimaduras, algo que acalma mas não pode curar. Depois, com as próprias mãos, sem se retrair e sem se afastar, pôs aquilo nas feridas dele. Quando Rebeca acabou, envolveu os pés doentes dele nas mãos perfumadas dela, e segurou-os como se fossem preciosos, delicados e limpos. A mãe abriu a boca, mas o rapazinho não sentia admiração pela curandeira. Com a dor aliviada por um momento, ele descansou a cabeça no peito liso dela e adormeceu.

Ninguém se mexeu, nem falou. Não sei quanto tempo ficamos ali, enquanto ele dormitava, mas doeram-me as costas antes que a criança abrisse os olhos. Ele pôs os braços à volta do pescoço da avó e beijou-a. Ela retribuiu o abraço e depois devolveu-o à mãe, que chorou ao ver o sorriso na cara do seu rapaz, e que chorou outra vez ao ver a tristeza na cara do Oráculo, sinal de que nada podia fazer para manter aquele rapazinho vivo.

Não consegui odiar Rebeca, depois daquilo. Embora nunca a tenha visto demonstrar tal ternura por mais ninguém, não podia esquecer o modo como ela tomara a dor daquele rapazinho nas suas próprias mãos, reconfortando-o e dando paz à mãe dele.

Nunca falei sobre a Tabea com a minha avó. Não me atrevia. Em silêncio, chorava a perda da minha melhor amiga com tanta tristeza como se a tivesse embrulhado numa mortalha.

Mas foi Werenro que nós enterramos.

Eu andava ansiosa por ver a mensageira outra vez, tal como as outras, em Mamre. Ela era favorita entre as Déboras, que sorriam quando eu fazia perguntas acerca do retorno dela.

- Não deve tardar - disse aquela que gostava de me escovar o cabelo. - E, então, teremos histórias, à noite, e tu não estarás tão triste.

Mas chegou-nos palavra, através de um mercador vindo de Tiro, que Werenro, mensageira de Rebeca de Mamre, fora assassinada. Os restos do corpo dela foram encontrados às portas da cidade, com a língua cortada e cabelo vermelho espalhado por todo o lado. Um mercador que tinha visitado o templo havia alguns anos, lembrando-se da mulher de ar estranho que servia o Oráculo, reconheceu o saco dela. Juntou o que restava dela para trazer os ossos de volta à avó, que não traiu qualquer emoção ao saber das terríveis noticias.

O saco que ele carregava era penosamente pequeno, e nós enterramo-lo bem fundo na terra, num simples jarro de barro. Ouvi as Déboras chorar nessa noite, e acrescentei mais uma camada de sal ao meu próprio cobertor. Mas quando sonhei com Werenro, ela estava a sorrir o sorriso sarapintado dela de um assento numa grande árvore, com um grande pássaro pousado no ombro.

No dia a seguir a Werenro ter sido enterrada, fui ter com Rebeca de manhã, como era habitual, mas ela já estava vestida, perfumada e pintada para aquele dia. Estava sentada nas suas almofadas, silenciosa e ausente. Nem sei se ela deu conta da minha entrada. Tossi. Ela não olhou para mim mas, passado algum tempo, falou, e eu percebi porque é que os peregrinos vinham a Mamre.

- Eu sei que aqui estás, Dina - disse ela. - Eu sei que me odeias por causa da rapariga de Esaú. Foi uma pena. Ela era a melhor de todas, e é claro que a culpa não foi dela. Foi a pobre da estúpida da mãe dela, que não fez o que eu lhe disse para fazer, mas o que a estúpida da própria mãe dela lhe ensinou. Devia ter ficado com ela, quando era bebê. A rapariga não tinha hipótese.

A minha avó disse isto sem olhar para mim, como se estivesse a ventilar os seus próprios pensamentos. Mas depois virou os olhos para mim e fixou-me no seu olhar profundo.

- Tu estás salva desse destino - disse ela. - A tua mãe não os deixará fazer da tua virgindade um prêmio. Ela não permitirá que o teu sangue seja outra coisa que não uma oferenda ao ventre da grande mãe. Estás segura, nesse aspecto. - E depois, olhando para mim atentamente, tentando discernir o meu futuro: - Uma outra qualquer infelicidade te espera, no entanto. Algo que eu não consigo discernir. Tal como não consegui antes ver o fim de Werenro. Talvez a tua tristeza não seja mais do que um ou dois bebês perdidos, ou uma viuvez prematura, pois a tua vida será muito longa. Mas não há qualquer motivo para assustar crianças com o preço da vida.

Fez-se silêncio, durante algum tempo, e, quando Rebeca voltou a falar, embora as palavras dela fossem sobre mim, era como se eu já não estivesse lá.

- Dina também não é a herdeira. Vejo agora que não haverá nenhuma. Mamre será esquecida. A tenda não ficará levantada depois de mim - encolheu os ombros, como se aquilo não tivesse grande importância. Os grandes não precisam de nós para nada, na verdade. As nossas libações e orações não valem mais do que o canto dos pássaros ou o zumbido das abelhas. Pelo menos os louvores dirigidos a eles estão assegurados.

Ela levantou-se e veio na minha direção, até que os nossos narizes quase se tocaram.

- Perdôo-te por me odiares - disse ela, e fez um gesto para que eu saísse da tenda.

Ruben veio uns dias mais tarde e eu deixei Mamre sem sequer um aceno de cabeça da avó. Contente como estava por voltar para a tenda da minha mãe, os meus olhos picavam com lágrimas enquanto nos afastávamos. Voltava de mãos vazias. Pouca atenção recebi de Rebeca. Não consegui agradar-lhe.

 

Embora tivesse tido saudades de casa durante cada momento da minha ausência, fiquei chocada com o que vi logo à chegada. Nada era como eu me lembrava que era. O meu pai, os meus irmãos e todos os outros homens tinham-se tornado insuportavelmente rudes e brutos. Grunhiam em vez de falarem, coçavam-se e metiam o dedo no nariz e chegavam a aliviar-se à vista das mulheres. E o fedor!

O barulho do acampamento também era ensurdecedor. Cães a ladrar, ovelhas a balir, bebês a chorar e mulheres a gritar. Como é que eu nunca tinha notado o modo como elas se esganiçavam umas para as outras e para as crianças? Até a minha própria mãe tinha mudado. Todas as palavras que lhe saíam da boca eram Críticas, exigentes e arrogantes. Tudo tinha que ser feito à maneira dela, e nada do que eu fizesse era suficientemente bom. Só ouvia desprezo e raiva na voz dela, quando me dizia para ir buscar água ou para tomar conta de um dos bebês ou para ajudar Zilpa na tecelagem.

Sempre que ela falava comigo, os meus olhos picavam com lágrimas, a minha garganta fechava-se de vergonha e raiva e eu dava pontapés no pó.

- O que é que se passa? - perguntava ela três vezes por dia. - O que é que se passa contigo?

Não se passava nada de errado comigo, pensava eu. Era Lea que se tornara impaciente e amarga e insuportável. Não se sabe Como, ela tinha envelhecido anos durante os meses da minha ausência. As linhas profundas da testa dela muitas vezes estavam empasteladas com pó e a porcaria que trazia debaixo das unhas enojava-me.

É claro que nunca pude dar voz a tal desrespeito, portanto, evitava a minha mãe e escapava para a calma do tear de Zilpa e para a amabilidade da voz de Bilhah. Até comecei a dormir na tenda de Raquel, o que deve ter causado alguma dor a Lea. Inna (que eu percebia agora que era pelo menos tão velha quanto a própria avó) ralhava-me por eu estar a causar tal tristeza à minha mãe. Mas eu era demasiado jovem para perceber que as mudanças eram minhas e não da minha mãe.

Após algumas semanas, fui-me, mais uma vez, acostumando ao som e ao cheiro diários dos homens, e dei por mim fascinada por eles. Olhava fixamente para os pequeninos rebentos dos bebês que corriam por ali nus e espiava os cães a acasalar. Dava voltas no meu cobertor, deixava as minhas mãos vaguear por sobre o meu peito e entre as minhas pernas, e interrogava-me.

Uma noite, Inna apanhou-me ao lado da tenda de Judá, onde ele e Shua estavam a fazer outro bebê. A parteira agarrou-me pela orelha e levou-me embora dali.

- Já não tarda muito, rapariga - disse-me ela, com um olhar de soslaio. - O teu tempo está a chegar.

Eu fiquei mortificada e aterrorizada, ao pensar que Inna poderia contar à minha mãe onde é que me tinha encontrado. Mesmo assim, não conseguia parar de pensar no mistério de homens e mulheres.

 Durante as noites em que eu era consumida pela curiosidade e pelo desejo, o meu pai e os filhos dele estavam imersos em conversa. Os rebanhos brevemente seriam demasiado numerosos para as terras que tínhamos à nossa disposição e os meus irmãos queriam maiores perspectivas de vida para si próprios e para os filhos deles. Jacob tinha começado a sonhar, outra vez, desta feita, com uma cidade murada e um conhecido vale na encosta entre duas montanhas. Nos sonhos dele, já estávamos em Siquém, onde o avô dele tinha derramado vinho sobre uma pilha de pedras e lhe tinha chamado um altar sagrado. Os meus irmãos gostavam daquele sonho. Eles faziam negócio na cidade e voltavam às suas tendas cheios de histórias do mercado, onde lá chegado obtinham bons preços. O rei de Siquém, Hamor, era pacífico e acolhia tribos que desejassem fazer a terra florescer. Simeão e Levi falaram ao vizir de Hamor em nome do meu pai e voltaram a Jacob, todos orgulhosos, por causa do acordo que tinham feito para terem uma parcela de terra de bom tamanho e com um poço.

Portanto, as tendas foram desmontadas e os rebanhos juntos, e nós viajamos a curta distância até ao local que o rei tinha dito que podia ser nosso. As minhas mães afirmaram estar satisfeitas com o vale.

- As montanhas são onde o céu encontra a terra - disse Zilpa, satisfeita por ir encontrar inspiração.

- As montanhas vão proteger-nos contra os maus ventos - disse Lea, com razão.

- Tenho de encontrar uma ervanária local que nos mostre o que estes montes têm para oferecer - disse Raquel a Inna.

Só Bilhah parecia infeliz, na sombra de Ebal, que era o nome da montanha em cuja encosta montamos as nossas tendas.

- É tudo tão grande, aqui - suspirou ela. - Sinto-me perdida.

Construímos fornos e plantamos sementes. Os rebanhos multiplicaram-se, mais três dos meus irmãos tomaram mulheres, Jovens raparigas que não provocaram quaisquer objeções por parte das minhas mães. Elas eram de Canaã e não conheciam nada dos costumes de Haran, onde as mães são homenageadas pela força, assim como pela beleza. E, embora as minhas novas irmãs entrassem na tenda vermelha para agradar a Lea, nunca riram conosco. Elas observavam o nosso sacrifício à Rainha do Céu sem interesse e recusaram-se a aprender a fazê-lo.

- Os sacrifícios são para os homens - disseram elas, e comeram os seus doces. Apesar disso, as noivas dos meus irmãos eram boas trabalhadoras, e férteis. Adquiri muitas sobrinhas e sobrinhos em Siquém, e a família de Jacob prosperou.

Havia paz nas nossas tendas, com a exceção de Simeão e Levi, que viviam nas margens cada vez mais longínquas do seu próprio descontentamento. O poço, que tinha feito a terra parecer um bom prêmio, revelou ser uma antiqüíssima e arruinada pilha de pedras, que secou pouco depois da nossa chegada. Os meus irmãos cavaram outro, um trabalho de quebrar costas que falhou, no primeiro lugar que eles experimentaram. Simeão e Levi tinham a certeza de que Hamor os tinha burlado de propósito, e alimentaram-se da raiva um do outro acerca daquilo a que eles chamavam a sua humilhação. Pela altura em que o segundo poço estava a dar água, o ressentimento já fazia parte deles tanto como os seus próprios nomes. Eu dava graças por o meu caminho raramente cruzar o deles. Eles assustavam-me, com os seus olhares negros e as longas facas sempre penduradas ao cinto.

Quando o ar ficou doce com a Primavera e as ovelhas prenhas de cordeiros, o meu mês chegou. Ao anoitecer da primeira noite de escuridão, estava eu acocorada para me aliviar, quando dei conta da mancha de sujidade na minha coxa. Demorei alguns momentos até perceber o que via. Era castanho, em vez de vermelho. Não era suposto ser vermelho? Não deveria sentir uma dor na barriga? Talvez estivesse enganada, e estivesse a sangrar da perna, mas não conseguia encontrar nenhum arranhão.

Parecia que eu tinha estado à espera da idade adulta desde sempre, e, no entanto, não me pus de pé num salto para ir contar às minhas mães. Fiquei onde estava, apoiada nos quadris, escondida por ramos, pensando: a minha infância acabou. Vou usar um avental e cobrir a cabeça. Já não vou ter que carregar e ir buscar coisas durante a lua nova, em vez disso, vou sentar-me com o resto das mulheres, até estar grávida. Vou preguiçar com as minhas mães e as minhas irmãs na sombra corada da tenda vermelha durante três dias e três noites, até à primeira visão da deusa em crescente. O meu sangue fluirá na palha fresca, enchendo o ar com o cheiro salgado das mulheres.

Durante um momento, considerei a idéia de manter segredo e continuar a ser rapariga, mas o pensamento passou rapidamente. Só podia ser o que era. E era uma mulher.

Levantei-me, com os dedos manchados dos primeiros sinais da minha maturidade, e apercebi-me de que, de fato, havia uma dor difusa nas minhas entranhas. Com um novo orgulho, fui para dentro da tenda, sabendo que os meus peitos a inchar deixariam de ser motivo de piada entre as mulheres. Agora, seria bem-vinda dentro de qualquer tenda em que Raquel e Inna assistissem a um parto. Agora, poderia derramar o vinho e fazer oferendas de pão na lua nova e em breve saberia os segredos que passam entre homens e mulheres.

Entrei na tenda vermelha sem a água que me tinham mandado buscar. Mas antes que a minha mãe pudesse abrir a boca para me ralhar, levantei os meus dedos sujos.

- Também não me é permitido carregar nada, mãe.

- Oh, oh, oh! - disse Lea, que, por uma vez, não tinha palavras. Beijou-me em ambas as faces, e as minhas tias juntaram-se à minha volta e, à vez, acolheram-me com mais beijos. As minhas cunhadas bateram palmas, toda a gente começou a falar ao mesmo tempo. Inna correu lá para dentro, para descobrir a razão de tanto barulho, e eu vi-me cercada de caras sorridentes.

Estava quase escuro e a minha cerimônia começou quase antes de eu conseguir perceber o que se passava. Inna trouxe uma taça de metal polido cheia de vinho fortificado, tão escuro e doce que eu mal provei o poder dele. Mas, rapidamente a minha cabeça começou a flutuar. Ao contrário de uma noiva, pintaram uma linha vermelha dos meus pés ao meu sexo, e, a partir das minhas mãos, fizeram um padrão de bolinhas que conduzia ao meu umbigo.

Puseram-me Kohl nos olhos ("Para que possas ver longe", disse Lea), e perfumaram-me a cabeça e os sovacos ("Para que caminhes entre flores", disse Raquel). Removeram-me as braceletes e tiraram-me o vestido. Deve ter sido o vinho que me impediu de perguntar porque é que tinham tido tanto cuidado com a tinta e o perfume e, no entanto, me vestiam no rude vestido caseiro usado para as mulheres no parto, utilizado como mortalha para a placenta, depois de o bebê vir.

Elas foram tão amáveis para mim, tão engraçadas, tão doces. Não deixavam alimentar-me a mim mesma, em vez disso usavam os dedos para me encherem a boca com pedaços de eleição. Massagearam-me o pescoço e as costas até eu ficar tão flexível como um gato. Cantaram todas as canções conhecidas entre nós. A minha mãe mantinha a minha taça de vinho cheia e levava-a aos meus lábios com tanta freqüência que me era difícil falar, e as vozes à minha volta fundiam-se num cantarolar alto e feliz.

A esposa de Zebulon, Ahavah, dançou com a sua barriga grávida ao som do bater de palmas. Ri até me doerem as ilhargas. Sorri até me doer a cara. Era bom ser uma mulher!

Depois, Raquel pôs os teraphim à vista e toda a gente se calou. Os deuses lares tinham estado escondidos até àquele momento. Embora fosse uma jovem da última vez que os tinha visto, lembrava-me deles como de velhos amigos: a mãe grávida, a deusa que usava cobras no cabelo, aquele que era ao mesmo tempo masculino e feminino, o austero pequeno carneiro. Raquel dispô-los cuidadosamente e escolheu a deusa que usava a forma de uma rã sorridente, protegendo na boca larga os seus próprios ovos, com as pernas abertas num triângulo em forma de adaga, prontas para pôr mais um milhar de ovos. Raquel esfregou a figura de obsidiana com azeite, até a criatura brilhar e escorrer, à luz das lâmpadas. Olhei fixamente para a cara tonta da rã e dei umas gargalhadazinhas, mas ninguém se riu comigo.

No momento seguinte encontrei-me lá fora com a minha mãe e as minhas tias. Estávamos no canteiro de trigo no coração do horto, um lugar escondido, onde crescia cereal destinado ao sacrifício. O solo fora lavrado, em preparação para a sementeira que seria feita depois do retorno da Lua, e eu estava nua, deitada de cara para baixo na terra fresca. Tremi. A minha mãe pôs-me a cara encostada ao chão e soltou-me o cabelo em volta de mim. Dispôs-me de braços abertos, "para abraçar a terra", murmurou ela. Dobrou-me os joelhos e puxou-me as solas dos pés até se tocarem, "para dar o primeiro sangue de volta à terra", disse Lea. Eu sentia o ar da noite no meu sexo, e era estranho e maravilhoso estar tão aberta sob o céu.

As minhas mães juntaram-se em volta: Lea acima de mim, Bilhah à minha mão esquerda, a mão de Zilpa na parte de trás das minhas pernas. Eu estava a sorrir como a rã, meia a dormir, apaixonada por todas elas. A voz de Raquel, atrás de mim, quebrou o silêncio.

- Mãe! Innana! Rainha da Noite! Aceita a oferenda de sangue da tua filha, em nome da mãe dela, em teu nome. No seu sangue, possa ela viver, no seu sangue, possa ela dar vida.

Não doeu. O azeite facilitou a entrada, e o triângulo estreito encaixou perfeitamente, quando entrou em mim. Eu estava virada para Oeste, enquanto a pequena deusa estava virada para leste, quando quebrou o fecho do meu ventre. Quando gritei, não foi tanto de dor como de surpresa e talvez mesmo de prazer, pois parecia-me que a própria Rainha estava deitada em cima de mim, com Dumuzi, o seu consorte, por baixo de mim. Eu era como um pedaço de pano, apanhado no meio do amor que eles faziam, aquecido pela grande paixão.

As minhas mães gemeram suavemente, em jeito de compaixão. Se pudesse ter falado, tê-las-ia assegurado de que estava perfeitamente feliz. Pois todas as estrelas do céu da noite tinham entrado no meu ventre. Na mais suave e mais louca noite desde a separação da terra e da água, da terra e do céu, eu estava deitada a ofegar como um cão, e senti-me a revolutear através dos céus. E, quando comecei a cair, não tive medo.

O céu estava rosa, quando abri os olhos. Inna estava agachada ao meu lado, observando a minha cara. Eu estava deitada de costas, com os braços e as pernas muito abertos, como os raios de uma roda, com a minha nudez coberta pelo melhor cobertor da minha mãe. A parteira ajudou-me a levantar e conduziu-me de volta a um suave canto da tenda vermelha, onde as outras mulheres ainda dormiam.

- Sonhaste? - perguntou ela. Quando assenti com a cabeça, ela aproximou-se e disse: - Que forma é que ela tomou?

Estranhamente, eu sabia o que é que ela queria saber, mas não sabia o que chamar à criatura que tinha sorrido para mim. Nunca tinha visto nada como ela, enorme, negra, um sorriso cheio de dentes, com pele parecida com cabedal. Tentei descrever o animal a Inna, que parecia intrigada. Depois perguntou:

- Ela estava na água? - Eu disse que sim, e Inna sorriu.

- Eu disse-te que a água era o teu destino. Essa é uma Deusa muito velha, Taweret, uma deusa egípcia que vive no rio e que ri com uma grande boca. Ela dá o leite às mães e protege todas as crianças.

A minha velha amiga beijou-me as faces e depois beliscou-as suavemente. É tudo o que eu sei de Taweret, mas, em todos os meus anos de vida, nunca conheci mulher que tivesse sonhado com ela. Deve ser um sinal de sorte, pequenina. Agora dorme.

Os meus olhos não se abriram até à noite, e sonhei o dia inteiro com uma lua dourada que crescia entre as minhas pernas. E, de manhã, foi-me dada a honra de ser a primeira a sair, para acolher a primeira luz do dia da nova Lua.

Quando Lea foi dizer a Jacob que a filha dele se tinha tornado adulta, ficou a saber que ele já sabia. Inbu tinha falado sobre isso a Levi, que tinha murmurado ao pai dele sobre "abominações".

A mulher cananita tinha ficado chocada com o ritual que me tinha levado à antiqüíssima aliança da terra, do sangue e do céu. A família de Inbu não sabia nada da cerimônia para abrir o ventre. De fato, quando ela casou com o meu irmão, a mãe dela correu para dentro da tenda para pegar no cobertor manchado de sangue da noite de núpcias dela, em caso de Jacob (que tinha pago o total preço da noiva) quisesse prova da virgindade dela. Como se o meu pai quisesse olhar para o sangue de uma mulher.

Mas agora Inbu tinha contado a Levi o sacrifício no jardim (ou, pelo menos, a parte que tinha adivinhado) e ele foi ter com o nosso pai, Jacob. Os homens não sabiam nada da tenda vermelha ou das cerimônias e sacrifícios que nela aconteciam. Jacob não ficou satisfeito, ao saber daquilo. As esposas dele Cumpriam as suas obrigações para com ele e para com o deus dele, ele não tinha discussões com elas ou com as deusas delas. Mas já não podia fazer de conta que os teraphim de Labão não estavam na casa dele e não podia suportar a presença de bens que ele tinha abjurado.

Portanto, Jacob chamou Raquel à sua presença e ordenou-lhe que trouxesse os deuses lares que tinha tirado a Labão. Levou-os a todos para um lugar desconhecido e despedaçou-os, um por um, com uma pedra. Depois enterrou-os em segredo, para que ninguém pudesse derramar libações sobre eles.

Ahavah abortou na semana seguinte, o que Zilpa chamou um castigo e um presságio de coisas piores ainda por vir. Lea não estava assim tão preocupada com os teraphin.

- Estiveram escondidos num cesto durante anos e daí não nos veio mal algum. O problema é com as esposas dos meus filhos, que não seguem os nossos costumes. Temos que as fazer aprender. Temos que as fazer nossas próprias filhas.

Por conseguinte, a minha mãe tomou Ahavah no coração dela, e a Shua de Judá. Nos anos que se seguiram, ela também tentou ensinar a noiva de Issacar, Hesia, e a Oreet de Gad. Mas elas não podiam abandonar os costumes das próprias mães.

A traição de Inbu deixou uma marca profunda, uma divisão que nunca foi curada. As mulheres de Levi e Simeão nunca mais vieram à tenda vermelha, em vez disso quedaram-se sob os seus próprios tetos na lua nova e retiveram consigo as filhas. E Jacob começou a franzir o sobrolho à tenda vermelha.

A cada lua nova, eu tomava o meu lugar na tenda vermelha e aprendia das minhas mães o modo de impedir que os meus pés tocassem diretamente na terra, e como me sentar confortavelmente num trapo sobre palha. Os meus dias moldaram-se segundo o crescimento e o minguar da Lua. O tempo desenrolava-se ao ritmo das minhas entranhas, do inchar dos meus peitos, da dolorosa espera do alívio, dos três dias calmos de separação e pausa.

Embora tivesse deixado de adorar as minhas mães como criaturas perfeitas, ansiava por aqueles dias com elas e com as outras mulheres que sangravam. Uma vez, quando aconteceu que só as minhas mães e eu estávamos sentadas na tenda, Raquel comentou que era como nos velhos tempos, em Haran. Mas Lea disse:

- Não é nada o mesmo. Agora há muitas mulheres para nos servir e a minha filha senta-se na palha conosco.

Bilhah viu que as palavras da minha mãe tinham magoado o coração de Raquel, pois esta continuava a desejar uma rapariga e não tinha ainda perdido a esperança. A minha amável tia disse:

- Ah, mas, Lea, é realmente agradável com nós as cinco, outra vez. Como Ada teria sorrido.

O nome da minha avó produziu o seu habitual feitiço e as irmãs relaxaram, em memória dela. Mas o mal tinha sido feito: a velha frieza entre Lea e Raquel regressou aos aposentos das mulheres.

Não muito tempo depois de nos termos estabelecido na sombra de Ebal, Inna e Raquel ajudaram a nascer um bebê de grande traseiro a uma das nossas servas. A mãe viveu, algo raramente visto naquele lugar, com bebês que vinham de pés virados para baixo. Pouco depois, as mulheres dos montes, e mesmo de lá longe, no vale, começaram a chamá-las, aos primeiros sinais de um parto difícil. Corria o rumor de que Inna e Raquel - mas especialmente Raquel, que era parente do mesmo sangue da linhagem de Mamre - possuíam poderes para apaziguar Lamashtu e Lillake, antiqüíssimos demônios que se dizia sedentos de sangue recém-nascido e que eram muito temidos pelo povo local.

Saí muitas vezes com a minha tia e com a velha parteira, a quem era mais fácil apoiar-se no cajado sem um saco ao ombro. O povo dos montes ficou chocado por elas levarem uma rapariga solteira como eu a visitar mulheres parturientes. Mas no vale não pareciam preocupar-se, e as mães que o eram pela primeira vez - algumas mais novas do que eu - pediam que fosse eu a pegar-lhes nas mãos e a olhar nos olhos delas, quando as dores começavam a oprimir.

Embora eu estivesse certa de que as minhas professoras sabiam tudo acerca de ajudar bebês a nascer, Raquel e Inna tentavam aprender o que calhasse das mulheres que estavam onde quer que fossem. Ficaram satisfeitas por descobrirem uma menta especialmente doce que crescia nos montes. Esta planta acalmava o estômago rapidamente e era uma bênção para as que sofriam de inchaços e vômitos durante a gravidez. Mas quando Inna viu como algumas das mulheres dos montes pintavam o corpo das mães com espirais amarelas "para enganar os demônios", torceu o lábio e murmurou que aquilo só servia para irritar a pele.

Houve um grande presente que as minhas professoras aprenderam das mulheres do vale de Siquém. Não era uma erva nem um instrumento, mas uma canção de parto, o bálsamo mais calmante que Inna ou Raquel jamais tinham usado. Fazia as mulheres em trabalho de parto respirar mais facilmente, e fazia a pele esticar, em vez de rasgar. Acalmava as piores dores. As que morriam - pois, mesmo com uma parteira tão capaz como Inna, algumas morriam -, mesmo essas, sorriam ao fecharem os olhos para sempre, sem medo.

Cantávamos:

Não temas, o momento está a chegar Não temas, os teus ossos são fortes Não temas, a ajuda está por perto Não temas, gula está perto Não temas, o bebê está à porta Não temas, ele viverá para te honrar Não temas, as mãos da parteira são capazes Não temas, a terra está por baixo de ti Não temas, temos água e sal Não temas, mãezinha Não temas, mãe de todos nós.

Inna adorava aquela canção, especialmente quando as mulheres da casa conseguiam juntar-lhe harmonias e tornar a magia ainda maior. Ela estava pasmada de ter aprendido coisa tão poderosa tão tarde na vida.

- Mesmo a mais velha de nós - disse ela, abanando um dedo ossudo para mim -, até nós, velhas encarquilhadas, podemos aprender truques novos aqui e ali.

A nossa amada amiga Inna estava a envelhecer, e chegou o tempo em que ficou demasiado rígida para sair de noite, ou para agüentar caminhos íngremes, pelo que Raquel me levava com ela e eu comecei a aprender com as minhas mãos, assim como com os meus olhos.

Uma vez, quando fomos chamadas para ajudar uma jovem mãe a dar à luz o seu segundo filho - um parto fácil, de uma mulher doce, que sorria, ao mesmo tempo que estava em trabalho de parto -, a minha tia deixou-me pôr os tijolos e atar o cordão. No caminho para casa, Raquel deu-me palmadinhas no ombro e disse-me que eu seria uma boa parteira. Quando acrescentou que a minha voz ficava bem na canção da mãe destemida, senti-me mais orgulhosa do que nunca.

 

Por vezes éramos chamadas para ajudar uma mãe em trabalho de parto que vivia à vista da cidade. Essas viagens eram a minha especial delícia. As muralhas de Siquém causavam-me mais admiração do que as montanhas enevoadas que inspiravam sacrifícios a Jacob e a Zilpa. As mentes que tinham concebido tão grandioso projeto faziam-me sentir sábia, e a força dos músculos que tinham construído a fortaleza faziam-me sentir forte. Fosse qual fosse o momento em que visse as muralhas, não conseguia afastar o olhar.

Desejava ir lá dentro, ver a praça do templo e as ruas estreitas e as casas cheias de gente. Eu sabia algumas coisas acerca da forma do lugar através de José, que tinha ido a Siquém com os nossos irmãos. José dizia que o palácio onde Hamor, o rei, vivia em esplendor com a sua esposa egípcia e quinze concubinas continha mais quartos do que o número de irmãos que eu tinha. José dizia que Hamor tinha mais criados do que as ovelhas que nós tínhamos. Não que um pastor poeirento como o meu irmão pudesse ter esperança de dar uma olhadela para dentro de uma casa nobre como aquela. Mesmo assim, eu gostava das inacreditáveis histórias dele. Até mentiras sobre o lugar me excitavam, e eu imaginava que conseguia cheirar o perfume dos Cortesãos na túnica do meu irmão, quando ele voltava do mercado. A minha mãe decidiu que queria ver o lugar por si própria.

Lea tinha a certeza de conseguir fazer melhor negócio com a nossa lã do que Ruben, que era demasiado generoso para lhe serem confiadas tais transações. Quase lhe beijei as mãos, quando ela me disse que a acompanharia para a ajudar. Ruben estabeleceu-nos num bom lugar logo à saída do portão, mas ficou a alguma distância de nós, quando a nossa mãe começou a chamar cada desconhecido que passava e a regatear como um mercador de camelos com todos os que se aproximavam.

Eu pouco podia fazer senão olhar, o que fiz com felicidade. Aquele dia no portão oriental foi uma maravilha. Vi os meus primeiros malabaristas. Comi a minha primeira romã. Vi caras negras e caras castanhas, cabras com pêlo inacreditavelmente encaracolado, mulheres cobertas com vestes pretas e escravas que não usavam nada. Era como estar na estrada outra vez, mas sem os pés doridos. Vi um anão a coxear ao lado de um burro tão branco como a neve, e observei um alto sacerdote vestido com um cafetã a comprar azeitonas. E, depois, vi Tabea.

Ou, pelo menos, pensei que a tinha visto. Uma rapariga da altura dela e da cor dela veio até à nossa banca. Envergava as vestes brancas do templo, tinha a cabeça rapada e ambas as orelhas furadas. Eu levantei-me e chamei por ela, mas ela deu uma volta nos calcanhares e afastou-se apressadamente. Sem pensar, e antes que a minha mãe me pudesse impedir, corri atrás dela, como se fosse uma criança e não uma jovem mulher. "Tabea", gritei eu, "Prima!", mas ela não me ouviu, ou se ouviu não parou, e as vestes brancas desapareceram por um vão de porta.

Ruben apanhou-me.

- O que é que estavas a fazer? - perguntou ele.

- Pensei que era a Tabea - disse, quase em lágrimas. - Mas estava errada.

- Tabea? - perguntou ele.

- Uma prima da parte de Esaú. Não a conheces - disse eu. - Lamento ter-te feito vir atrás de mim. A mãe está zangada?

Ele riu-se com a tolice da minha pergunta e eu ri também.

Ela estava furiosa, e eu tive que me sentar virada para a muralha durante o resto da tarde. Mas, por essa altura, o meu coração tinha saído de mim, e eu satisfazia-me só de ouvir os sons do mercado, alimentando memórias da minha amiga perdida.

Depois do nosso regresso dessa viagem, chegou uma mensageira da cidade. Ela usava um vestido de linho e belíssimas sandálias e só queria falar com Raquel.

- Uma das mulheres da casa do rei está prestes a dar à luz - disse ela à minha tia. -A rainha de Hamor chama as parteiras da casa de Jacob para a ajudarem.

Lea não ficou satisfeita, quando eu comecei a preparar o meu estojo para a jornada. Foi ter com Raquel e perguntou-lhe:

- Por que não levas a Inna contigo à rainha? Por que é que insistes em levar a Dina para longe de mim, precisamente quando há azeitonas para colher?

A minha tia encolheu os ombros.

- Sabes que a Inna já não consegue calcorrear o caminho até à cidade. Se quiseres que eu leve uma escrava, eu levo. Mas a rainha espera duas pessoas e não se mostrará disposta a comprar os teus lanifícios se eu entrar no palácio sem assistência habilitada.

Lea arregalou os olhos face às palavras sutis da sua irmã e eu baixei os olhos para o chão, para que a minha mãe não visse o quanto eu desejava ir. Sustive a respiração enquanto a minha mãe decidia. "Pah", disse ela, levantando as mãos e indo-se embora. Pus as mãos com força em cima da boca para não me regozijar abertamente e Raquel fez-me um sorrisinho igual ao de uma criança que acaba de enganar os mais velhos.

Acabamos os nossos preparativos e vestimo-nos com vestidos de festival, mas Raquel parou-me, antes de sairmos, e entrançou-me o cabelo em suaves cordas. "Ao estilo egípcio" murmurou ela. Bilhah e Zilpa despediram-se de nós com acenos de mão, mas Lea não se fazia ver em lado nenhum, enquanto nós nos dirigimos para a cidade com a mensageira.

Ao passar os portões da cidade, naquela primeira vez, fiquei amargamente decepcionada. As ruas eram menores e mais poeirentas do que eu imaginava. O cheiro era uma horrível mistura de fruta podre e dejetos humanos. Andávamos demasiado depressa para poder olhar para dentro dos escuros casebres, mas eu consegui ouvir e perceber pelo cheiro que as cabras viviam com os seus proprietários, e, por fim, percebi o desdém do meu pai por morar na cidade.

Uma vez atravessado o portal do palácio, entramos num mundo diferente. As paredes eram suficientemente grossas para bloquear os sons e os cheiros da rua, e o pátio em que estávamos era espaçoso e bem iluminado.

Uma escrava nua aproximou-se e fez um gesto para que a seguíssemos por uma das portas para os aposentos das mulheres e, depois, para dentro do quarto em que aquela que iria ser mãe estava a arfar no chão. Tinha aproximadamente a minha idade e aparentava estar ainda no início do trabalho de parto. Raquel tocou na barriga dela, examinou-lhe o ventre e rolou os olhos para mim. Tínhamos sido chamadas para o mais simples dos partos. Não que qualquer uma de nós se importasse, a viagem ao palácio era aventura pela qual estávamos gratas.

Pouco tempo depois de termos conhecido a mãe, a rainha de Hamor entrou no quarto, curiosa de ver as parteiras criadas nos montes. A rainha, que se chamava Ranefer, usava um finíssimo vestido de linho coberto por uma túnica de contas azuis - a roupa mais elegante que eu jamais vira. Mesmo assim, a minha tia não foi ofuscada pela senhora. Velha como Raquel era, marcada pelo sol e pelo trabalho, agachada no chão com a mão entre as pernas de uma mulher em trabalho de parto, mesmo assim, a minha tia irradiava a sua luz dourada. O cabelo dela ainda era lustroso e os olhos negros faiscavam. As mulheres olharam-se uma à outra com aprovação e acenaram o seu cumprimento com a cabeça.

Ranefer subiu o seu vestido acima dos joelhos e agachou-se do outro lado de Ashnan, pois era esse o nome da jovem mãe que soprava e gemia, mais de medo do que de dor. As outras duas mulheres começaram a falar de óleos que poderiam ajudar a sair a cabeça do bebê e eu fiquei impressionada com o quanto a mulher nobre sabia acerca de partos e com a facilidade que Raquel tinha em conversar com uma rainha.

Ashnan, viemos a sabê-lo, era a filha da ama da rainha. A mulher que estava nos tijolos fora companheira de brincadeiras de infância do próprio filho da rainha e irmã de leite deste - exatamente como José e eu. A ama tinha morrido quando as crianças ainda eram bebês e Ranefer tinha sido terna para com a rapariga desde então e era-o ainda mais, agora que ela estava grávida de Hamor. Ashnan era a mais nova concubina dele.

Soubemos de tudo isto por Ranefer, que ficou atrás de Ashnan desde o meio-dia até quase ao pôr do Sol. A mãe era forte, todos os sinais eram bons, mas o parto foi lento, com fortes dores seguidas de longas pausas. Quando Ashnan adormeceu ao fim da tarde, exausta por causa do seu trabalho de parto, Ranefer levou Raquel para a sua própria câmara, para que esta se refrescasse, e eu fui deixada a tomar conta da mãe.

Eu própria estava quase a dormir, quando ouvi uma voz de homem na antecâmara. Devia ter enviado palavra pela escrava, mas não pensei nisso. Estava aborrecida e com o corpo rígido de permanecer sentada durante tantas horas, portanto levantei-me e fui eu mesma.

O nome dele era Shalem. Ele era um filho primogênito, O mais bonito e o mais sagaz dos filhos do rei, bem amado pelo povo de Siquém. Era dourado e belo como um pôr de Sol.

Baixei os olhos para o chão para não olhar fixamente para ele como se ele fosse uma cabra com duas cabeças ou qualquer outra coisa que desafiasse a ordem das coisas. E, no entanto, ele desafiava a Natureza. Era perfeito.

Por evitar olhar para cima, para a cara dele, reparei que tinha as unhas limpas e as mãos suaves. Os braços dele não estavam negros do sol, como os dos meus irmãos, mas também não tinham um ar doente. Só usava uma saia, e trazia o peito nu, sem pêlos, bem musculado.

Ele também estava a olhar para mim e eu tremi por causa das nódoas no meu avental. Até a minha túnica do festival parecia andrajosa e desinteressante, quando comparada com o brilhante tecido caseiro da simples peça de roupa que ele usava em casa. O meu cabelo estava despenteado e descoberto. Os meus pés estavam sujos. Comecei a ouvir o som de uma respiração, sem saber se era minha ou dele.

Por fim, não me consegui conter e levantei os meus olhos para os dele. Era mais alto do que eu pela largura de uma mão. O cabelo dele era preto e brilhante, os dentes direitos e brancos. Os olhos eram dourados ou verdes ou castanhos. Na verdade, não olhei para lá o suficiente para discernir a cor deles, porque nunca tinha sido recebida com um tal olhar. A boca sorria educadamente, mas os olhos procuravam a resposta para uma pergunta que eu não conseguia perceber na totalidade.

Os meus ouvidos zumbiam. Queria correr, e, no entanto, não queria acabar com aquela estranha agonia de confusão e necessidade que caíra sobre mim. Não disse nada.

Também ele estava atrapalhado. Tossiu para o punho, deu um olhar de relance para a porta onde Ashnan estava deitada, e olhou fixamente para mim. Por fim, gaguejou uma pergunta acerca da sua irmã de leite. Devo ter dito alguma coisa, embora não tenha memória das minhas palavras. Tudo aquilo de que me lembro é a dor que senti no momento em que nos conhecemos naquele pequeno e despido vestíbulo.

Surpreende-me pensar em tudo o que aconteceu no espaço de uma ou duas respirações silenciosas. Ralhei comigo o tempo todo, pensando: És Infantil! Tonta! A mãe vai-se rir, quando eu lhe contar.

Mas eu sabia que não iria contar isto à minha mãe. E esse pensamento fez-me corar. O motivo não foi o calor do meu sentimento por este Shalem, cujo nome eu ainda não sabia, cuja presença me tornava muda e fraca. O que fez com que as minhas faces adquirissem cor foi perceber que não iria falar do preenchimento e do fogo no meu coração a Lea.

Ele viu-me a adquirir cor e o seu sorriso abriu-se mais. O meu pouco à-vontade desapareceu e eu retribui o sorriso. E foi como se o preço da noiva tivesse sido pago e o dote combinado. Era como se estivéssemos sozinhos na tenda nupcial. A pergunta tinha sido respondida.

Aquilo parece-me cômico, agora, e se uma filha minha me confessasse tais coisas, eu rir-me-ia alto ou ralhar-lhe-ia. Mas, naquele dia, eu era uma rapariga pronta para um homem.

Enquanto sorríamos um para o outro, lembrei-me dos sons que vinham da tenda de Judá e percebi as minhas próprias noites febris. Shalem, que era alguns anos mais velho do que eu, reconheceu o seu próprio anseio e, no entanto, sentiu mais do que o simples estremecer do desejo, ou, pelo menos, foi isso que ele disse, depois de termos redimido a nossa promessa e de nos deitarmos nos braços um do outro. Disse que se tinha sentido assoberbado e tímido, na antecâmara dos aposentos das mulheres. Disse que tinha sido encantado, que tinha emudecido e que tinha ficado excitado. Tal como eu.

Acho que não dissemos mais nenhuma palavra, antes de Raquel e a rainha terem entrado no quarto e me terem puxado de volta para a câmara do parto. Não tive tempo para pensar em Shalem, então, pois as águas de Ashnan rebentaram e ela deu à luz um rapaz grande e saudável que mal lhe rasgou a carne.

- Vais estar curada dentro de uma semana - disse Raquel à rapariga, que soluçava de alívio por aquilo ter acabado.

Dormimos no palácio, naquela noite, embora eu quase não tenha fechado os olhos de excitação. Ir-me embora na manhã seguinte foi como morrer. Pensei que poderia nunca mais o ver. Pensei que talvez tivesse sido um erro da minha parte - a fantasia de uma rude rapariga do campo na presença de um príncipe. Mas o meu coração rebelou-se face a essa idéia e eu torci o pescoço a olhar para trás, quando partimos, pensando que ele talvez me viesse reclamar. Mas Shalem não apareceu e eu mordi os lábios para não chorar, à medida que subíamos os montes em direção às tendas do meu pai.

Ninguém percebeu! Pensei que elas iam todas vê-lo em mim. Pensei que Raquel iria adivinhar o meu segredo e que me extraísse a história enquanto caminhávamos para casa. Mas a minha tia só queria falar de Ranefer, que tinha elogiado as suas capacidades e lhe tinha dado um colar de contas de ônix.

Quando voltamos ao acampamento, a minha mãe abraçou-me sem sentir o novo calor do meu corpo e mandou-me para o olival, onde a colheita estava a decorrer afanosamente. Zilpa estava lá, a supervisionar a prensagem, e quase não respondeu à minha saudação. Até a Bilhah do coração perspicaz, preocupada com uma fornada de vasos de azeite que tinha rachado, não viu nada.

A falta de atenção delas foi uma revelação, para mim. Antes da minha viagem a Siquém, imaginava que as minhas mães eram capazes de ver os meus pensamentos e olhar diretamente para o meu coração. Mas agora descobria que estava separada, opaca, e que tinha sido arrastada para uma órbita de que elas não tinham conhecimento.

Deliciei-me com a descoberta da minha solidão e protegi-a, mantendo-me ocupada no extremo do pomar, chegando a dormir com as esposas dos meus irmãos na espécie de tenda que tinha sido montada perto da orla da colheita. Senti-me feliz por estar sozinha, pensando só no meu amado, enumerando as qualidades dele, imaginando-lhe as virtudes. Olhava fixamente para as minhas mãos, interrogava-me sobre como seria tocar os ombros dele, os belos braços dele. Nos meus sonhos, vi a luz do Sol a brilhar na água, e acordei a sorrir.

Passados três dias de ébria felicidade, as minhas esperanças começaram a azedar. Viria ele buscar-me? Seriam estas mãos calejadas demasiado ásperas para agradar a um príncipe? Roí as unhas e esqueci-me de comer. À noite, ficava deitada no meu cobertor, sem dormir, dando voltas e mais voltas ao nosso encontro, na minha cabeça. Não conseguia pensar em nada senão nele, e, no entanto, comecei a duvidar das minhas memórias. Talvez o sorriso dele tivesse sido de condescendência, em vez de reconhecimento. Talvez eu fosse uma tola.

Mas justamente quando comecei a temer trair-me às minhas mães num dilúvio de lágrimas, fui salva. O rei, em pessoa, mandou-me chamar. Hamor não era capaz de negar coisa alguma à sua jovem consorte, e quando Ashnan perguntou se a jovem e amável filha de Jacob poderia ser trazida para a distrair durante o período de reclusão, foi enviado um mensageiro. O homem do rei até trouxe uma escrava para tomar o meu lugar na colheita. A minha mãe achou o gesto atencioso e generoso.

- Deixa-a ir - disse ela ao meu pai. Jacob não colocou objeções e enviou Levi para me acompanhar à porta dos aposentos das mulheres, no palácio de Hamor.

Ao acenar às minhas mães, reparei que Bilhah e Raquel me observavam. A minha pressa ou o meu prazer em responder ao pedido do rei tinham-nas alertado para alguma coisa, mas por essa altura já era demasiado tarde para perguntar. Elas responderam ao meu aceno enquanto descia para o vale, mas eu sentia as perguntas delas nas minhas costas. Um falcão descreveu círculos no alto sobre nós durante toda a descida para o vale. Levi disse que era um bom sinal, mas o mensageiro cuspiu no chão de cada vez que a sombra do pássaro se cruzou no nosso caminho.

O meu irmão deixou-me na entrada para o palácio de Hamor, dizendo-me em voz alta e pomposa, para benefício do mensageiro, "que me comportasse como convém a uma das filhas de Jacob". Uma vez que eu era a única filha sobrevivente de Jacob, sorri. Tinham-me dito que me comportasse como eu própria, e eu tinha todas as intenções de o fazer.

Durante as três semanas seguintes conheci as filhas de Siquém. As esposas de todos os homens importantes vieram visitar Ashnan e o seu rapazinho, que não teria publicamente nome até atingir os três meses, de acordo com os costumes do Egito.

- Para que os demônios não saibam como encontrá-lo - murmurou Ashnan, temendo a presença do mal mesmo dentro da segurança dos confortáveis quartos dela.

Ashnan era uma rapariga um bocado tonta, com bons dentes e grandes seios, que voltaram à sua forma e beleza rapidamente, depois de o bebê ter sido entregue a uma ama. Nunca tinha ouvido falar de uma mulher saudável que tivesse entregue o seu filho ao peito de outra mulher, no meu mundo, uma mãe de leite só era usada quando a mãe estava morta ou a morrer. Mas que sabia eu das vidas das mulheres da realeza? De fato, quase tudo quanto via me espantava.

Não tinha grande vontade de ser a criada de Ashnan, pois era assim que ela me tratava. Trazia-lhe comida e dava-lhe na boca. Ela queria massagens, por conseguinte aprendi essa arte com uma mulher velha da casa. Também queria tintas e falava ininterruptamente, enquanto me ensinava a aplicar Kohl à volta dos meus próprios olhos e um pó verde nas pálpebras.

- Não só te faz parecer linda - disse Ashnan - como afasta os mosquitos.

Ashnan também me ensinou o aborrecimento, que era uma terrível calamidade que acometia as mulheres nos palácios. Houve uma tarde em que verdadeiramente verti lágrimas, por causa da monotonia de ter que ficar sentada e quieta, enquanto Ashnan dormia. A única coisa que me ocupava o espírito era saber se Shalem estava a par da minha presença debaixo do teto de seu pai. Comecei a duvidar de que ele se lembrasse da assistente despenteada da parteira da sua irmã de leite. Tinha caído numa armadilha sem respostas, pois as paredes entre o mundo das mulheres e o mundo dos homens eram grossas e, no mundo do palácio, não havia nenhum trabalho que permitisse cruzar caminhos.

Passados muitos dias, Ranefer veio ver como estava Ashnan e eu tentei arranjar coragem para falar com ela acerca do filho. Mas o mais que consegui foi gaguejar na presença dela e corar.

- Tens saudades da tua mãe, criança? - perguntou ela amavelmente. Eu abanei a cabeça, mas tinha um ar tão infeliz, que a rainha pegou na minha mão e disse: Precisas de uma distração, penso eu. Uma rapariga como tu, que vive debaixo do sol, deve-se sentir como um pássaro numa gaiola, dentro destas paredes.

Eu sorri a Ranefer e ela apertou-me os dedos.

- Vais sair para o mercado, com a minha criada - disse ela. - Ajuda-a a escolher as melhores romãs e vê se consegues caçar uns bons figos para o meu filho. Shalem gosta de figos.

Na manhã seguinte saí do palácio para o bulício da cidade, onde olhei fixamente para tudo, para satisfação do meu coração. A criada, a meu lado, não parecia nada apressada, deixava-me vaguear para onde eu quisesse. Parei em quase todas as barracas e cobertores, maravilhada com a quantidade e a variedade de lâmpadas, frutos, produtos de tecelagem, queijos, tintas, ferramentas, gado, cestos, jóias, flautas, ervas, tudo.

Mas não se conseguia encontrar figos, naquele dia. Procuramo-los até eu quase estar tonta por causa do calor e da sede, mas a idéia de voltar ao palácio sem satisfazer o pedido da rainha, sem levar fruta ao meu amado, parecia-me detestável. Por fim, quando já tínhamos procurado em todos os cantos, não havia mais nada a fazer senão voltar para trás.

No momento em que decidimos voltar para o palácio, espiei a mais velha cara que jamais vira - uma vendedora de ervas cuja pele preta estava muito marcada, como um wadi seco. Fiquei parada ao pé do cobertor dela e ouvi-a falar de um qualquer linimento "bom para as dores de costas". Mas quando me inclinei para tocar numa raiz que nunca tinha visto, ela agarrou-me no pulso e olhou fixamente para a minha cara.

- Ah, a menina quer qualquer coisa para o seu amado! Algo de mágico, que traga o seu jovem para a cama, para se ver livre da sua cansativa virgindade.

Eu puxei o meu braço para longe, horrorizada com o fato de a maga ter visto tão fundo no meu coração. Provavelmente, era só um discurso que ela fazia a cada rapariga que se aproximasse, mas a criada de Ranefer viu a minha confusão e riu. Eu fiquei mortificada e afastei-me rapidamente da velha.

Não vi Shalem aproximar-se, mas ele estava diante de mim, com a luz do Sol da tarde a encher o céu à volta da cabeça dele como uma coroa brilhante. Olhei para a cara dele e fiquei de boca aberta.

- Estais bem, minha senhora? - perguntou ele, com a voz doce e aflautada de que eu me lembrava. Eu estava muda.

Olhou para mim com a mesma fome que eu sentia e pôs-me a mão quente no cotovelo, para cavalheirescamente me acompanhar de volta ao palácio, com a mulher da rainha a seguir-nos, com um grande sorriso. A sua senhora estava certa, havia uma luz entre o príncipe e a neta de Mamre.

Ao contrário de mim, o filho de Ranefer não lograra esconder da sua mãe o que lhe ia no coração. Ranefer tinha desprezado as mulheres da cidade desde a sua chegada a Siquém, enquanto jovem noiva.

- Estúpidas e vazias marcou-as ela a todas. Fiam mal,vestem-se como homens, e não sabem nada de ervas. Vão dar-te crianças estúpidas - dissera Ranefer ao filho. Arranjaremos melhor para ti.

Ranefer ficara impressionada com o porte da parteira que vinha dos montes e também tinha gostado do ar da rapariga que carregava o saco dela. Tinha aprovado a minha altura e a força dos meus braços, a minha cor e o porte da minha cabeça. O fato de alguém tão jovem como eu já estar a caminho de ser parteira dizia-lhe que eu não era nenhuma tonta. Quando Raquel se foi refrescar com a rainha durante o trabalho de parto de Ashnan, Ranefer obteve informações sobre mim de forma discreta, que Raquel não suspeitou dos propósitos dela, enquanto era questionada acerca da minha idade, do estatuto da minha mãe, das minhas capacidades na lareira e no tear.

Quando Ranefer e Raquel me surpreenderam a mim e Shalem na antecâmara, aquela percebeu de imediato que a semente da sua idéia já tinha dado rebentos por si própria. E fez o que pôde para alimentar o seu crescimento.

Ranefer disse a Ashnan para me mandar chamar a casa de meu pai e disse ao filho que me fosse procurar ao mercado, naquela manhã.

- Tenho medo que a jovem dos montes se perca - disse ela a Shalem. - Sabes que a minha criada é suficientemente tonta para a deixar perder-se de vista. Mas talvez não te lembres de como é aquela que se chama Dina? - perguntou ela ao filho. - Era aquela rapariga de olhos escuros, com o cabelo encaracolado e as boas mãos, que veio com a parteira. Falaste com ela na antecâmara, quando Ashnan estava em trabalho de parto.

Shalem concordou em satisfazer o pedido da sua mãe tão rapidamente, que Ranefer teve problemas em conseguir abafar uma gargalhada.

Quando o príncipe e eu voltamos ao palácio, encontramos o pátio deserto, de acordo com as instruções de Ranefer. A criada desapareceu. Ficamos ali em silêncio por apenas um momento, e, depois, Shalem puxou-me para a sombra de um canto e pôs as mãos dele nos meus ombros e cobriu a minha boca com a boca dele e pressionou o corpo dele contra o meu. E eu, que nunca tinha sido tocada ou beijada por qualquer homem, não tive medo. Ele não teve pressa, nem empurrou, e eu pus as minhas mãos nas costas dele e encostei-me com força ao seu peito e derreti-me nas mãos e na boca dele.

Quando os seus lábios encontraram o meu pescoço, eu gemi, e Shalem parou. Olhou para a minha cara, para descobrir o que eu queria dizer, e, vendo apenas sim, pegou na minha mão e conduziu-me por um corredor que não me era familiar para um quarto com o chão polido e uma cama que se apoiava em pernas esculpidas em forma de garras de falcão. Deitamo-nos sobre lã negra de cheiro doce e encontramo-nos um ao outro.

Não gritei, quando ele me tomou, porque, muito embora fosse jovem, o meu amante não teve pressa. Depois, quando Shalem se deitou, finalmente quieto, e descobriu que as minhas faces estavam molhadas, disse:

- Oh, pequena esposa. Não me deixes magoar-te outra vez.

Mas eu disse-lhe que as minhas lágrimas não tinham nada de dor nelas. Eram as primeiras lágrimas de felicidade da minha vida. Prova-as - disse eu ao meu amado, e ele achou que elas eram doces. Chorou, também. Ficamos agarrados um ao outro até que o desejo de Shalem foi renovado, e eu não sustive a respiração quando ele entrou em mim, e, por isso, comecei a sentir o que estava a acontecer ao meu corpo e a perceber os prazeres do amor.

Ninguém nos incomodou. A noite caiu, deixaram-nos comida à porta - fruta maravilhosa e vinho dourado, pão fresco e azeitonas, e bolos que pingavam mel. Comemos cada bocadinho como cães famintos.

Depois de comermos, ele lavou-me, numa grande banheira de água quente que apareceu tão misteriosamente quanto a comida. Contou-me coisas sobre o Egito e sobre o grande rio, onde ele iria me levar para apanhar sol e nadar.

- Eu não sei nadar - disse eu a Shalem.

- Bom - respondeu ele. - Então posso ser eu a ensinar-te.

Entranhou as mãos no meu cabelo até este ficar todo emaranhado em nós, e ter demorado longos momentos a libertá-lo.

- Adoro estes grilhões - disse ele, vendo que não conseguia libertar-se, e ficou grande, e a nossa união foi requintadamente lenta. As mãos dele acariciaram-me a cara, e gritamos de prazer juntos.

Quando não nos estivéssemos a beijar ou a unir-nos ou a dormir, Shalem e eu trocávamos histórias. Eu contei-lhe coisas sobre o meu pai e as minhas mães e descrevi os meus irmãos, um por um. Ficou deliciado com os nomes deles, e aprendeu cada um, pela ordem por que tinham nascido, e soube qual é que vinha do ventre de que mãe. Não tenho a certeza de que o meu próprio pai conseguisse fazer a lista deles tão bem.

Falou-me do seu tutor, um aleijado com voz maravilhosa, que o ensinara a cantar e a ler. Shalem falou-me da devoção da mãe, e dos cinco meios-irmãos dele, que não tinham aprendido, nenhum deles, as artes do Egito. Contou-me a viagem dele à sacerdotisa, que o iniciara na arte do amor, em nome do Céu.

- Nunca vi a cara dela - disse ele. - Os ritos têm lugar na mais interior das câmaras, onde não há luz. Foi como um sonho fechado dentro de um sonho. - Contou-me das três vezes em que tinha dormido com uma escrava, que dera gargalhadinhas no abraço dele e que lhe pedira pagamento, depois.

Mas, no final do nosso segundo dia juntos, os nossos abraços já eram mais do que as experiências dele com outras mulheres.

- Esqueci-as a todas - disse ele.

- Então eu perdôo a todas - disse eu.

Fizemos amor uma e outra vez. Dormíamos e acordávamos com as mãos um no outro. Beijamo-nos por todo o lado e eu aprendi o sabor dos dedos dos pés do meu amante, o cheiro do sexo dele antes e depois de nos unirmos, a umidade do pescoço dele.

Estivemos juntos como noiva e noivo durante três dias, antes de eu me começar a perguntar porque é que não tinha sido levada para lavar os pés de Ashnan ou para massagear as costas dela. Também Shalem tinha esquecido as suas obrigatórias refeições noturnas com o pai. Mas Ranefer tomou cuidado para que nós não soubéssemos nada do mundo e para que o mundo nos desse paz. Mandou-nos comidas de eleição a todas as horas do dia e da noite, deu instruções aos criados para que enchessem a banheira de Shalem com água limpa e perfumada sempre que nós dormíamos.

Eu não tinha preocupações em relação ao futuro. Shalem disse que o amor que fazíamos selava o nosso casamento. Espicaçou-me com o preço de noiva que levaria ao meu pai: baldes de moedas de ouro, camelos carregados de lápis-lazúli e linho, uma caravana de escravos, um rebanho de ovelhas tão boas, que a lã delas nunca precisaria de ser lavada.

- Mereces o resgate de uma rainha - murmurou ele, enquanto vagueávamos nos nossos sonhos partilhados. - Vou construir-te um túmulo de inultrapassável beleza - disse Shalem. - O mundo nunca esquecerá o nome de Dina, que considerou o meu coração digno.

Gostaria de ter sido tão audaz quanto ele com as minhas palavras. Não que eu fosse tímida. Shalem sabia do prazer que eu tinha nele, da minha gratidão por ele, da minha luxúria por ele. Eu dei-lhe tudo. Abandonei-me a ele e nele. Só que não conseguia encontrar uma voz para o dilúvio da minha felicidade.

Enquanto estava deitada no primeiro abraço de Shalem, Levi estava a sair tempestuosamente do palácio de Hamor, furioso por não lhe ter sido concedida a audiência com o rei que ele considerava ser-lhe devida. O meu irmão tinha sido enviado para ver quando é que eu seria mandada para casa, e, se lhe tivesse sido dada uma boa refeição e uma cama para passar a noite, a minha vida talvez pudesse ter tido uma história diferente.

Mais tarde, imaginei o que é que poderia ter acontecido se tivessem sido Ruben ou Judá a vir-me buscar. Hamor não estava ansioso por se encontrar com aquele filho de Jacob em particular, aquele que discutia e que o tinha acusado de vigarizar a família dele. Porque é que o rei teria de passar por outra ronda de acusações vindas do choramingão filho de um pastor?

Se tivesse sido Ruben, Hamor tê-lo-ia acolhido para jantar e para passar a noite. De fato, se tivesse sido qualquer um dos outros mesmo José -, teria tido um bom acolhimento. Hamor aprovava Jacob quase tanto quanto a rainha gostava das esposas de Jacob. O rei sabia que o meu pai cuidava dos seus rebanhos com tal habilidade, que rapidamente se tinha tornado o mais rico dos pastores do vale. A lã de Jacob era a mais suave, as esposas eram habilidosas e os filhos dele eram leais. Não causava rixas entre os vizinhos. Tinha enriquecido o vale, e Hamor estava desejoso de manter boas relações com ele. Casamentos entre as suas duas casas eram muito desejáveis, portanto Hamor ficou satisfeito, quando Ranefer lhe murmurou que o seu filho tinha preferido a filha de Jacob. De fato, assim que o rei soube que Shalem estava deitado comigo, começou a fazer as contas a um bom preço de noiva.

Quando Hamor soube, através dos criados, que o jovem par se estava a dar bem, se adorava e estava ocupado a produzir o neto dele, as notícias excitaram-no tanto, que chamou Ashnan para a cama dele uma boa semana antes do fim previsto para a reclusão dela. Quando Ranefer os descobriu, quase não ralhou ao marido e à rapariga, tão grande era a sua alegria pela união do filho.

No quarto dia da nossa felicidade, Shalem levantou-se do nosso banho, vestiu-se e disse-me que ia falar com o pai.

- É tempo de Hamor combinar o preço da noiva. - Ele estava tão bonito, vestido com a túnica e as sandálias, que os meus olhos se encheram outra vez de lágrimas. - Nada de choro, nem mesmo de felicidade - disse ele, e levantou-me, ainda molhada da água, e beijou-me o nariz e a boca e pôs-me na cama e disse. - Espera por mim, amada. Não te vistas. Fica só aqui deitada, para que eu possa pensar em ti assim. Eu não me demoro.

Cobri a cara dele de beijos e disse-lhe que voltasse depressa. Estava eu a dormir, quando ele deslizou para o meu lado, a cheirar ao mundo que ficava para além da nossa cama, pela primeira vez em vários dias.

Hamor partiu cedo, na manhã seguinte, para o acampamento de Jacob, com um carro carregado atrás dele. Não levou uma tenda nem criados para uma estada de uma noite. Não estava à espera de ficar ou de regatear. Como havia ele de imaginar que se levantassem quaisquer objeções às boas notícias e à generosidade do presente que levava?

As notícias acerca de Shalem e da filha de Jacob eram conhecidas em toda a cidade, mas ainda não tinham chegado às tendas de Jacob. Quando este soube que eu tinha sido tomada como esposa pelo príncipe da cidade, não disse nada nem deu resposta à oferta de Hamor. Ficou em pé como uma pedra, olhando fixamente para o homem de quem os seus filhos Levi e Simeão tinham falado com tanto veneno, um homem com tantos anos quanto ele, ao que parecia, mas ricamente vestido, suave no falar, e gordo. O rei acenou para uma carroça carregada de bens e seguida de ovelhas e cabras. Declarou-os parentes, que em breve partilhariam um neto.

Jacob cobriu os olhos e tapou a boca, para que Hamor não lhe pudesse ver o desconforto ou a surpresa. Assentiu com a cabeça enquanto Hamor elogiava a beleza da filha. Jacob não tinha pensado num casamento para a filha dele, embora a sua esposa tivesse começado a falar disso. Ela tinha idade, com certeza. Mas Jacob não se sentia bem com esta união, embora não conseguisse dizer porquê, e sentiu o pescoço a ficar tenso face às expectativas de Hamor de que ele fizesse o que lhe era dito.

Procurou na sua cabeça uma maneira de adiar a decisão, uma maneira de voltar à mó de cima.

- Vou discutir isto com os meus filhos - disse ele ao rei, com mais força do que aquela que tencionava empregar.

Hamor ficou desagradado.

- A tua filha não é nenhuma virgem, Jacob - disse o rei para o pressionar. - E, no entanto, aqui está um preço de noiva digno de uma princesa virgem do Egito, mais do que o que o meu próprio pai deu pela minha esposa. Não que a tua filha não seja digna disto e de muito mais. Diz o que queres e será teu, pois o meu filho ama a rapariga. E ouvi dizer que ela também está disposta - e, aqui, Hamor fez um sorriso um pouco grande de mais para o gosto de Jacob. Ele não gostava de ouvir falar da sua filha tão rudemente, apesar de não conseguir recordar a imagem da cara de Dina. Tudo o que ele conseguia lembrar claramente era uma visão de cabelo desgrenhado e selvagem, quando ela perseguia José. Uma memória já muito antiga.

- Esperarei pelos meus filhos - disse Jacob, e virou as costas ao rei, como se o senhor de Siquém não fosse mais do que um pastor, e deixou às suas esposas o trabalho de acolher o rei com bebida e comida. Mas Hamor não viu razão para ficar e dirigiu-se de volta ao seu palácio, arrastando os seus presentes atrás de si.

Jacob chamou Lea e falou-lhe nas mais duras palavras que alguma vez tinha usado para com uma esposa.

- A tua filha já não é donzela - disse ele. - Foste insolente em esconder isto de mim. Já te excedeste antes, mas nunca para me envergonhar. E agora isto.

A minha mãe ficou tão surpreendida quanto o seu marido, e pressionou Jacob para que lhe desse noticias da filha.

- O príncipe de Siquém reclamou-a. O pai dele vem pagar todo o preço de noiva de uma virgem. E, assim, presumo que ela o fosse, até ter ido para dentro das muralhas daquele monte de excremento daquela cidade. - Jacob tornou-se amargo. - Ela é de Siquém agora, suponho eu, e não tem qualquer utilidade para mim.

Lea ficou furiosa.

- Vai procurar a tua esposa, a minha irmã - disse ela. - Foi Raquel que a levou lá. Raquel é aquela que tem olhos para a cidade, não eu, esposo. Pergunta à tua esposa. - E as palavras da minha mãe tresandavam a bílis.

Pergunto-me se ela sequer pensou em mim, na altura. Se ela sofreu por saber se eu teria consentido ou se teria gritado, se o coração dela se abriu para descobrir se eu chorava ou se me regozijava. As palavras dela falavam apenas da perda de uma filha, ida para a cidade, onde residiria com mulheres estrangeiras, aprenderia os costumes delas, e esqueceria a mãe.

A seguir o meu pai mandou chamar Raquel.

- Esposo! - gritou Raquel, sorrindo enquanto se aproximava dele. - Ouvi dizer que há notícias felizes.

Mas Jacob não sorriu.

- Eu não gosto da cidade nem do rei - disse ele. - Mas gosto ainda menos de uma filha em quem não se pode confiar e de uma esposa mentirosa.

- Não digas nada de que te possas vir a arrepender - respondeu Raquel. - A minha irmã vira-te contra mim e contra a tua única filha, que é amada pela tua mãe em Mamre. Este é um bom casamento. O rei diz que eles gostam um do outro, não diz? Esqueceste o teu próprio fogo, esposo? Envelheceste tanto que já não te lembras daquele anseio?

A cara de Jacob não deixava trair nada. Ele olhou para Raquel durante muito tempo e ela correspondeu ao olhar fixo dele.

- Dá-lhes a tua bênção, esposo - disse Raquel. - Fica com as carroças carregadas de prata e de linho e dá a Hamor o acolhimento que é devido a um rei. És tu o senhor, aqui. Não há necessidade de esperar.

Mas Jacob ficou tenso, face à insistência de Raquel.

- Quando os meus filhos voltarem das viagens deles, tomarei uma decisão.

Hamor não se lembrava de alguma vez ter sido tão maltratado. Mesmo assim, tinha uma disposição favorável em relação a Jacob.

- Um bom aliado, penso eu - disse ele a Shalem, no dia seguinte. - Mas um inimigo a evitar. É um homem orgulhoso - disse Hamor. - Não gosta de perder o controle sobre o destino da sua família. É estranho que ele ainda não saiba como as crianças deixam de servir o seu pai, uma vez crescidas. Mesmo as filhas.

Mas Shalem pressionou o pai para que este voltasse assim que possível.

- Eu amo a rapariga - disse ele.

Hamor sorriu.

- Não temas. A rapariga é tua. Nenhum pai a quereria de volta, tal como ela está agora. Volta para a tua esposa e deixa-me a mim preocupar-me do pai.

Mais uma semana passou e o meu esposo e eu começamos a amar-nos de formas mais sutis, com carícias e ternura. Os meus pés não tocavam no chão. Doía-me a cara de sorrir.

E, então, recebi um presente de casamento especial: Bilhah veio ver-me. A minha tia apareceu no portão do palácio a perguntar por Dina, a esposa de Shalem. Primeiro foi levada a Ranefer, que a encheu de perguntas acerca da hesitação de Jacob face à oferta do marido dela. A rainha fez perguntas sobre Lea e Raquel, também, e disse a Bilhah que não deixasse o palácio sem presentes para a família da sua nora. E, depois, foi a própria Ranefer que levou a minha tia até mim.

O meu abraço levantou a minha pequena tia do chão, e eu cobri a cara escura dela com uma dúzia de beijos.

- Estás radiante - disse ela, quando deu um passo atrás, segurando as minhas mãos nas dela. - Estás feliz - concluiu ela, a sorrir. - É maravilhoso que tenhas encontrado tal felicidade. Vou dizer à Lea e ela vai ficar conciliada.

- A minha mãe está zangada? - perguntei, espantada.

- Lea julga que Raquel te vendeu às mãos do mal. Ela é como o teu pai, na desconfiança em relação à cidade, e não está satisfeita com o fato de fazeres a tua cama entre muros. Sobretudo, acho que ela tem saudades tuas. Mas eu vou falar-lhe da luz nos teus olhos, do sorriso nos teus lábios e do teu porte adulto, agora que és uma esposa. Ele é bom para ti, sim? - perguntou Bilhah, dando-me a oportunidade de elogiar o meu Shalem.

Eu, a rebentar para contar a alguém os pormenores da minha felicidade, despejei tudo ao ouvido sedento de Bilhah. Ela bateu palmas, ao ouvir-me falar como uma noiva.

- Oh, amar e ser amado assim - suspirou ela.

Bilhah comeu comigo e deu uma olhadela a Shalem. Concordou que ele era muito bonito mas recusou-se a conhecê-lo.

- Não posso falar com ele antes de o meu marido o fazer - objetou ela. - Mas já vi o suficiente para levar de volta um bom relatório acerca da nossa filha.

De manhã, abraçou-me e foi-se embora com Ruben, que a tinha trazido. Levou a palavra da minha felicidade para as tendas do meu pai, mas a voz dela foi abafada pelos gritos dos meus irmãos, que me chamaram meretriz. E Jacob não fez nada para calar as bocas sujas deles.

Simeão e Levi tinham voltado para o meu pai, ao fim de vários dias, derrotados num propósito secreto. Eles tinham estado em Ashkelon, à procura de comércio não só para as cabras e ovelhas, a lã e o azeite da família, mas também para falarem com mercadores de escravos, cujo negócio poderia trazer uma riqueza muito superior a qualquer colheita da ceifa ganha com esforço. Simeão e Levi queriam riqueza e o poder que esta lhes traria, mas não tinham esperança de os herdar de Jacob: era claro que seria Ruben a obter o direito de nascença do pai, e que a bênção iria para José, portanto, eles estavam determinados a esculpir a sua própria glória conforme pudessem.

Mas Levi e Simeão descobriram que os mercadores de escravos apenas queriam crianças. O negócio estava mau. Mercadores a mais tinham enfraquecido o mercado, e, então, só tinham a certeza de obter um bom preço por crianças saudáveis. Os meus irmãos não conseguiram obter nada de nada no mercado pelas duas criadas velhas que tinham dos dotes das suas esposas. Voltaram à casa contrariados e amargos.

Quando souberam que Hamor tinha oferecido ao meu pai um preço de noiva de rei por mim, levantaram as suas vozes contra o casamento, sentindo que as suas posições seriam diminuídas por tal aliança. A casa de Jacob seria engolida pelas dinastias de Siquém, e conquanto Ruben pudesse aspirar a tornar-se um príncipe, eles e os seus filhos permaneceriam pastores, primos pobres, zés-ninguéns.

- Seremos mais baixos do que Esaú - murmuraram eles um ao outro, e aos irmãos sobre os quais ainda tinham ascendente: Zebulon, Issacar e Naftali, do ventre de Lea, e Gad e Aser, de Zilpa.

Quando Jacob chamou todos os filhos para a sua tenda, para ponderar a oferta de Hamor, Simeão levantou o punho e gritou:

- Vingança! A minha irmã foi atacada por um cão egípcio!

Ruben falou a favor de Shalem.

- A nossa irmã não gritou - disse ele -, nem o príncipe a põe de lado.

Judá concordou.

- O montante do preço da noiva é um elogio à nossa irmã, ao nosso pai e a toda a casa de Jacob. Nós próprios nos tornaremos príncipes. Seríamos tolos se não ficássemos com os presentes que os deuses nos dão. Que espécie de idiota é aquele que confunde uma bênção com uma condenação?

Mas Levi rasgou a roupa, como se estivesse a chorar a minha morte, e Simeão lançou o aviso:

- Isto é uma armadilha para os filhos de Jacob. Se permitirmos este casamento, a vida luxuosa da cidade consumirá os meus filhos e os filhos dos meus irmãos. Este casamento não agrada ao deus do nosso pai - disse ele, desafiando Jacob a discordar.

As vozes foram alteando, os meus irmãos arregalavam os olhos uns aos outros por sobre as lâmpadas, mas Jacob não dava a conhecer os seus próprios pensamentos.

- O cão não circuncidado viola a minha irmã todos os dias - trovejou Simeão. - Então eu tenho de consentir nesta profanação da nossa única irmã, filha da minha própria mãe?

Com isto, José pôs uma cara céptica e disse, quase num sussurro, a Ruben:

- Se o meu irmão está tão preocupado com a forma do pênis do nosso cunhado, deixai o nosso pai exigir o prepúcio dele como preço de noiva. Na realidade, fazei com que todos os homens de Siquém se tornem iguais a nós. Deixai-os empilhar as suas membranas tão alto quanto a estaca da tenda do meu pai, para que os filhos deles e os nossos mijem da mesma maneira e se excitem da mesma maneira, e para que ninguém seja capaz de nos diferenciar. E, assim, a tribo de Jacob crescerá não apenas nas gerações que virão, mas amanhã mesmo.

Jacob pegou nas palavras de José, que tinham sido ditas apenas para fazer troça dos irmãos que o torturavam desde a infância. Mas Jacob não ouviu acrimônia nas palavras do filho. Ele disse:

- Abraão pegou na faca para aqueles da sua casa que não eram da sua aliança. Se os homens de Siquém acordarem em fazer isto, ninguém poderá dizer que a nossa filha foi ferida. Se os homens da cidade fizerem tal sacrifício ao deus dos meus pais, seremos lembrados como feitores de almas, como coletores de homens. Como as estrelas nos céus, tal como foi dito pelo nosso pai Abraão. Como as areias do mar, foi predito pela minha mãe Rebeca. E, agora, farei acontecer. Farei o que José diz, pois ele tem o meu coração. - Jacob falou com tal paixão, que era escusado fazer mais discurso.

A cara de Levi contorceu-se de raiva face à decisão de Jacob, mas Simeão pôs uma mão no braço do irmão e puxou-o para a noite, para longe da luz das lâmpadas e dos ouvidos dos irmãos.

Quando Hamor viajou até à tenda de Jacob pela segunda vez, Shalem acompanhou-o. Determinado a não voltar à cidade sem a bênção do meu pai, levou dois burros carregados de ainda mais presentes. O meu amado estava confiante, quando partiu, mas quando chegou à tenda do meu pai, o grupo do rei foi mais uma vez recebido por braços cruzados e nem sequer uma concha de água lhes ofereceram antes de os homens começarem a discutir as condições.

O meu pai falou primeiro e sem cerimônia:

- Vindes pela minha filha - disse ele. - Concordaremos com o casamento, mas duvido que as nossas condições vos convenham, pois elas são severas.

Hamor respondeu, com a sua estima anterior pelo homem destruída pela insultuosa falta de hospitalidade.

- O meu filho ama a rapariga - disse o rei. - Ele fará qualquer coisa por ela e eu farei o que o meu filho desejar. Diz quais são as tuas condições, Jacob. Siquém cumpri-las-á, para que os teus filhos e os meus filhos tragam novas gerações à terra.

Mas quando Jacob disse qual era o preço da sua filha, Hamor empalideceu.

- Que forma de barbaridade é esta? - perguntou ele. - Quem é que pensas que és, pastor, para exigires o sangue da virilidade do meu filho, e o meu, e o dos meus parentes e súbditos? Estás louco por apanhares demasiado sol, por teres passado demasiados anos no deserto. Queres a rapariga de volta tal como ela está? Deves pensar muito mal desta filha, para brincares desta maneira com o futuro dela.

Mas Shalem deu um passo em frente, e pôs a mão no braço do pai.

- Eu concordo com as exigências - disse ele na cara de Jacob. - Aqui e agora, se o quiseres. Honrarei o costume da família da minha esposa e ordenarei aos meus escravos e às famílias deles que me sigam. Sei que o meu pai fala por temer por mim e por lealdade para com os seus homens, que iriam sofrer. Mas para mim não há questão, eu ouço e obedeço.

Hamor teria discutido contra a oferta do filho, e Levi e Simeão estavam preparados para lhe cuspir na cara dele. O ar cheirava a raios, as adagas estavam a pontos de ser desembainhadas, se Bilhah não tivesse aparecido, com água e vinho. Seguiram-se mulheres com pão e azeite, e Jacob assentiu com a cabeça para que elas servissem. Comeram alguns bocados em silêncio.

As condições foram acordadas naquela noite. Jacob aceitou quatro burros carregados como preço de noiva. Shalem e Hamor iriam à faca três dias depois, tal como os homens de Siquém, tanto nobres como escravos. Todos os homens saudáveis que se encontrassem dentro das muralhas da cidade na manhã desse dia, também aceitariam a marca de Jacob sobre eles, e Hamor prometeu que cada filho nascido dentro da cidade, daquele tempo em diante, seria circuncidado no oitavo dia, tal como era costume entre os filhos de Abraão. Hamor também afiançou que o deus de Jacob seria adorado no templo dele, e foi tão longe quanto chamar-lhe "Elohim", o deus dos muitos deuses.

O meu pai fez-me um bom dote. Dezoito ovelhas e dezoito cabras, todas as minhas roupas e jóias, o meu fuso e a minha pedra de moer, dez vasos de azeite novo, seis grandes rolos de lã. Jacob concordou em permitir casamentos entre os filhos dele e os de Siquém, daquele tempo em diante.

Hamor pôs a mão dele debaixo da coxa de Jacob, e Jacob também tocou no rei, e o meu noivado foi selado sem um sorriso e sem satisfação.

Naquela mesma noite, Shalem esgueirou-se da tenda do meu pai de volta para a nossa cama, com as notícias.

- És uma mulher casada, agora, e não apenas uma rapariga estragada - sussurrou ele, acordando-me antes da primeira luz da manhã.

Eu beijei-o, e afastei-o.

- Muito bem, então agora que estou casada e que não me podes pôr de lado, posso dizer-te que a minha cabeça me dói e que não posso receber o meu senhor, neste momento - disse eu, pondo o meu vestido em volta dos ombros e fingindo um grande bocejo enquanto, simultaneamente, fazia deslizar as minhas mãos por entre as pernas do meu marido. - Sabeis, meu senhor, que as mulheres só se submetem às carícias dos seus esposos, não gostam do uso bruto dos seus corpos.

Shalem riu e puxou-me para baixo, para a cama, e fizemos amor com grande ternura, naquela manhã. Foi uma reunião, depois daquela que tinha sido a nossa mais longa separação desde o dia em que ele me encontrara no mercado e me levara para a cama dele, que nós tínhamos feito nossa.

Dormimos até tarde, e só depois de termos comido é que ele me contou a exigência do meu pai. Fiquei gelada, o meu estômago deu uma volta. Na minha cabeça, vi o meu amado em agonias de dor, via a faca a cortar demasiado profundamente, a ferida a inflamar, e Shalem a morrer nos meus braços. Desatei a chorar, como uma criancinha.

Shalem tornou tudo leve.

- Não é nada - disse ele. - Uma ferida superficial. E ouvi dizer que, depois, o meu prazer em ti será ainda maior do que aquele que tenho agora. Portanto, prepara-te, mulher. Estarei em cima de ti noite e dia.

Mas eu não sorri. Tremi com um frio que me entrou nos ossos e não queria sair.

Ranefer tentou sossegar-me, também. Ela não estava desagradada com o acordo que o marido tinha feito.

- No Egito - disse ela -, levam os rapazes para a circuncisão quando as vozes deles mudam. É uma ocasião relativamente alegre, perseguem os rapazes e apanham-nos e, depois, eles são mimados e dão-lhes a comer todas as coisas doces e saborosas que eles pedem. Não te preocupes, eles sobrevivem todos.

- Faremos o meu guarda executar o ato - disse ela. - Nehesi já despachou muito prepúcio. Eu posso tomar conta da dor, e tu ajudar-me-ás, pequena parteira. - Não parava de dizer quão fácil seria, e, depois, disse num sussurro, com um conhecedor olhar de soslaio:

- O membro masculino não te parece mais atraente sem o seu capuz? Mas eu não encontrava nada de divertido no teste de Shalem, e não correspondi ao sorriso da minha sogra.

Os três dias passaram. Eu agarrei-me ao meu marido como uma coisa louca, naquelas noites, e as lágrimas corriam-me pela cara abaixo enquanto alcançava prazeres maiores do que os anteriores. O meu marido lambeu a água das minhas faces e fez a sua língua salgada correr todo o comprimento do meu corpo.

- Vou-te chatear com isto, quando o nosso primeiro filho nascer - murmurou ele, enquanto eu estava deitada no peito dele, ainda a tremer de frio.

A hora designada chegou. Shalem deixou-me ao alvorecer. Eu fiquei na cama, a fazer de conta que dormia, a vê-lo lavar-se e vestir-se, mantendo os olhos fechados. Ele baixou-se para me beijar, mas eu não virei a cara para cima, para ir ao encontro dos lábios dele.

Fiquei ali deitada, sozinha, a contar o meu ódio. Odiava o meu pai por pedir um tão terrível preço. Odiava o meu marido e o pai dele, por concordarem em pagá-lo. Odiava a minha sogra, por aplanar o caminho. Odiava-me a mim mesma, acima de tudo, por ser a causa de tudo aquilo.

Fiquei deitada na cama, encolhida debaixo dos cobertores, a tremer de raiva e de medo e de inominável pressentimento, até que o trouxeram de volta para mim.

Aquilo foi feito na antecâmara do rei. Shalem foi o primeiro, e, depois, foi o pai dele, Hamor. Nehesi disse que nem rei nem príncipe gritaram. Seguiu-se o pequeno filho de Ashnan, e ele gritou, mas o pequenino não sofreu durante muito tempo, pois tinha um seio cheio para o consolar. Os homens da casa e as poucas pobres almas que não tinham desaparecido para o campo, para fora das muralhas, não tiveram tanta sorte. Sentiram a faca com agudeza, e muitos gritaram como se estivessem a ser assassinados. Os gritos deles perfuraram o ar durante toda a manhã, mas cessaram ao meio-dia.

Fez-se um dia impiedosamente quente. Não havia nenhuma brisa ou nuvem e mesmo dentro das paredes grossas do palácio o ar estava úmido e pesado. Os homens que recuperavam, suando as roupas e ensopavam as camas onde dormiam.

Hamor, que não produzira qualquer som ao ser cortado, desmaiou de dor e, quando acordou, pôs uma faca entre os dentes, para não gritar. O meu Shalem também sofreu, embora não tanto. Ele era mais novo e os ungüentos pareceram aliviá-lo, mas, também para ele, o único remédio completo foi o sono. Dei-lhe a beber uma poção soporífera e, quando acordava, estava com a cabeça pesada e cansado, de boca aberta e confuso. Banhei a cara do meu amado, enquanto ele dormia o seu sono drogado, e lavei-lhe as costas suadas com o mais suave toque que consegui. Fiz o meu melhor para não chorar, para que a minha cara estivesse fresca quando ele acordasse, mas, à medida que o dia foi passando, as lágrimas vieram, apesar dos meus esforços. Ao cair da noite, estava exausta, e dormi ao lado do meu marido embrulhada em cobertores, contra os ventos gelados dos meus medos, ao mesmo tempo que Shalem dormia nu sob o calor.

Durante a noite, acordei uma vez, sentindo Shalem a acariciar-me a face. Quando ele viu os meus olhos a abrir, conseguiu fazer um sorriso dolorido e disse:

- Em breve isto não será nada mais do que um sonho, e os nossos abraços serão mais doces do que nunca. - Os olhos dele voltaram a fechar-se, e eu ouvi-o ressonar pela primeira vez. Enquanto voltava ao sono, pensei em como iria gozá-lo por causa do barulho que ele fazia no sono - como um cão velho ao sol. Até hoje, não sei se Shalem me disse aquelas palavras ou se foi um sonho que eu construí para me reconfortar.

O resto, sei que é verdade.

Primeiro, houve o som de uma mulher a gritar. Algo de terrível deve ter acontecido àquela pobre alma, pensei eu, tentando afastar-me do grito penetrante, esganiçado, agudo, demasiado horrível para o mundo real, o barulho de um pesadelo.

O grito louco, aterrorizado, vinha de muito longe, mas a angústia que ele transmitia era tão insistente e perturbadora, que eu não conseguia afastá-lo, e procurei despertar do meu sono pesado e escapar aos gritos. Eles tornaram-se mais e mais assustadores, até que percebi que os meus olhos estavam abertos e que a alma atormentada que eu lamentava não era sonhada e não estava distante. Os gritos eram os meus próprios gritos, o aterrador som estava a sair da minha boca torcida.

Estava coberta de sangue. Os meus braços estavam cobertos com o sangue grosso e quente que corria da garganta de Shalem, e que fazia o seu percurso, como um rio, cama abaixo, para o chão. O sangue dele cobria as minhas faces e picava nos meus olhos e salgava os meus lábios. O sangue dele ensopava os cobertores e queimava os meus seios, corria pelas minhas pernas abaixo, cobria os meus dedos dos pés. Eu estava a afogar-me no sangue do meu amante. Estava a gritar suficientemente alto para invocar os mortos e, no entanto, ninguém parecia ouvir. Nenhum guarda irrompeu pela porta. Nenhum criado entrou apressadamente. Parecia que eu era a última pessoa viva no mundo.

Não ouvi passos e não tive qualquer aviso antes que braços fortes me agarrassem, desprendendo-me do meu amado. Levaram-me da cama com sangue a desenhar um rasto atrás de mim, que gritava para o negrume da noite. Foi Simeão que me levantou, e Levi que me tapou a boca, e foram os dois a amarrarem-me de pés e mãos, como a uma cabra sacrificial, carregaram-me nas costas do burro e enviaram-me para a tenda do meu pai, antes que eu pudesse dar o alarme a qualquer pobre alma que ainda estivesse viva na cidade condenada. As facas dos meus irmãos trabalharam até que a alvorada revelou a abominação praticada pelos filhos de Jacob. Assassinaram todos os homens que encontraram vivos.

Mas eu não sabia nada disso. Só sabia que queria morrer. Nada senão a morte poderia pôr fim ao meu terror. Nada senão a morte poderia dar-me paz face à visão de Shalem esfaqueado, sangrante, morto no seu sono estremunhado. Se alguém não tivesse desapertado a mordaça quando vomitei, ter-se-ia cumprido o meu desejo. Durante todo o caminho de volta pelo monte acima, gritei em silêncio. Oh deuses. Oh céu. Oh mãe. Porque é que ainda vivo?

 

Por minha voz souberam elas daquilo. A minha própria mãe deu um grito esganiçado ao ver o meu corpo ensangüentado. Caiu no chão, a carpir a sua criança assassinada, e as tendas esvaziaram-se para conhecerem a causa da dor de Lea. Mas Bilhah desatou-me e ajudou-me a levantar, enquanto Lea olhava fixamente, primeiro horrorizada, depois aliviada, e, por fim, assombrada. Estendeu os braços para mim, mas a minha expressão deteve-a.

Eu virei-me, tencionando voltar a pé para Siquém. Mas as minhas mães levantaram-me do chão, e eu estava demasiado fraca para resistir. Despiram-me dos meus cobertores e das minhas roupas, negros e rijos do sangue de Shalem. Lavaram-me e ungiram-me com azeite e pentearam-me o cabelo. Puseram-me comida nos lábios, mas eu não comia. Deitaram-me num cobertor, mas eu não dormia. Durante o resto do dia, ninguém se atreveu a falar comigo, e eu nada tinha a dizer.

Quando a noite caiu outra vez, ouvi os meus irmãos a regressar, e ouvi o som do saque deles: mulheres a chorar, crianças aos gritos, animais a balir, carroças a gemer sob o peso dos bens roubados. Simeão e Levi gritavam ordens roucas. A voz de Jacob não se fazia ouvir em parte alguma.

Eu deveria estar derrotada pela dor. Deveria estar exausta a ponto de nada ver. Mas o ódio tinha-me endurecido a espinha. A viagem montanha acima, atada como num sacrifício, tinha-me sacudido e conduzido a uma raiva que se alimentava de si própria enquanto eu estava deitada no meu cobertor, rígida e atenta.

O som das vozes dos meus irmãos levantou-me da cama e eu saí para os enfrentar.

Os meus olhos dardejavam fogo. Teria sido capaz de os reduzir todos a cinzas com uma palavra, uma respiração, um olhar de relance.

- Jacob - gritei eu com a voz de um animal ferido. - Jacob - uivei, invocando-o pelo nome, como se eu fosse o pai e ele o filho travesso.

Jacob emergiu da tenda dele, a tremer. Mais tarde, afirmou que não tinha conhecimento do que fora feito em seu nome. Culpou Simeão e Levi e voltou-lhes as costas. Mas eu vi completa compreensão nos olhos turvados dele, enquanto esteve perante mim. Vi a culpa dele antes que ele a pudesse negar.

- Jacob, os teus filhos cometeram assassínio - disse eu, numa voz que não reconheci como a minha. - Mentiste e foste conivente, e os teus filhos assassinaram homens justos, abatendo-se sobre eles quando eles sentiam uma fraqueza que foi de tua própria invenção. Espoliaste os corpos dos mortos e pilhaste os locais onde eles estavam enterrados, pelo que as sombras deles te perseguirão para sempre. Tu e os teus filhos criaram uma geração de viúvas e órfãos que nunca te perdoará. Jacob - disse eu, numa voz que ecoava como o trovão. - Jacob - disse eu num silvo, na voz da serpente que larga vida e que, mesmo assim, vive. - Jacob - uivei, e a Lua desapareceu. - Jacob nunca mais conhecerá paz, outra vez. Perderá o que valoriza e repudiará aqueles que deveria abraçar. Nunca mais encontrará descanso, e as preces dele não encontrarão o favor do deus do pai dele. Jacob sabe que as minhas palavras são verdadeiras. Olha para mim, pois eu uso o sangue dos homens justos de Siquém. O sangue deles mancha-te as mãos e a cabeça, e nunca mais voltarás a estar limpo. Estás sujo e estás amaldiçoado - disse eu, cuspindo na cara do homem que tinha sido o meu pai. Depois, virei-lhe as costas, e ele morreu para mim.

Amaldiçoei-os a todos. Com o cheiro do sangue do meu marido ainda nas minhas narinas, nomeei cada um deles e invoquei o poder de cada deus e de cada deusa, de cada demônio e de cada tormento, para que os destruíssem e devorassem: os filhos da minha mãe Lea, e o filho da minha mãe Raquel, e os filhos da minha mãe Zilpa, e o filho da minha mãe Bilhah. O sangue de Shalem estava incrustado debaixo das minhas unhas, não havia piedade alguma no meu coração por qualquer um deles.

- Os filhos de Jacob são víboras - disse eu aos meus irmãos acobardados. - São pútridos como os vermes que se alimentam dos cadáveres. Os filhos de Jacob vão, cada um deles, sofrer, por sua vez, e vão voltar o sofrimento contra o pai deles.

O silêncio era absoluto e sólido como uma parede, quando eu lhes virei as costas. Descalça, não usando mais do que uma combinação, afastei-me dos meus irmãos e do meu pai e de tudo o que tinha sido o meu lar. Afastei-me também do amor, para nunca mais ver o meu reflexo nos olhos das minhas mães. Mas não podia viver entre eles.

Caminhei em direção a uma noite sem lua, ensangüentando os pés e aleijando os joelhos no caminho para o vale, mas nunca parei, até chegar às portas de Siquém. Ia agarrada a uma visão.

Enterraria o meu marido e seria enterrada com ele. Encontraria o corpo dele e embrulha-lo-ia em linho, pegaria na faca que lhe tinha roubado a vida e abriria os meus pulsos com ela, para que pudéssemos dormir juntos no pó. Passaríamos a eternidade no mundo silencioso, triste e cinzento dos mortos, comendo pó, olhando através de olhos feitos de pó para o falso mundo dos homens.

Não tinha outro pensamento. Estava sozinha e vazia. Era uma sepultura à espera de ser preenchida com a paz da morte. Andei até me encontrar perante o grande portão de Siquém, de joelhos, incapaz de me mexer.

Se Ruben me tivesse encontrado e me tivesse levado de volta, a minha vida teria acabado. Poderia ter andado e chorado por muitos mais anos, meio louca, acabando os meus dias no poial da terceira esposa de um irmão menor. Mas a minha vida teria acabado.

Se Ruben me tivesse encontrado, Simeão e Levi certamente teriam morto o meu bebê, deixando-o ao relento durante a noite, para que os chacais o despedaçassem. Poderiam ter-me vendido como escrava, em conjunto com José, arrancando-me a língua primeiro, para me impedirem de amaldiçoar os olhos, a pele, os ossos, os escrotos deles. Eu nunca seria aplacada pela dor e pelo sofrimento deles, não importa o quão horrível eles fossem.

Nem ficaria amolecida, quando Jacob se acovardou e tomou um novo nome, Israel, para que as pessoas não o lembrassem como o carniceiro de Siquém. Fugiu do nome Jacob, que se tornou uma outra palavra para "mentiroso", pelo que "Serves o deus de Jacob" era um dos piores insultos que um homem podia arremessar a outro naquela terra, durante muitas gerações. Tivesse eu lá estado para o ver, poderia ter sorrido, quando o dom dele para os animais o abandonou, e até os cães dele o desertaram. Ele não merecia nada menos do que a agonia de saber que José fora despedaçado por animais selvagens.

Se Ruben me tivesse encontrado às portas de Siquém, eu teria estado lá para dar a Raquel o enterro que ela merecia. Raquel morreu na estrada, para onde Jacob se dirigiu para escapar à ira do vale, que se levantou para vingar a destruição de Hamor e da paz de Siquém. Raquel pereceu em agonia, dando à luz o último filho de Jacob. "Filho da dor", chamou ela ao rapazinho que lhe custou um rio de sangue negro. Mas o nome que Raquel escolheu para o filho dela era demasiado acusador, pelo que Jacob desafiou o desejo da sua esposa moribunda e fez de conta que Ben-om era Benjamim.

O medo de Jacob afastou-o do pobre corpo esvaziado de Raquel, que ele enterrou à pressa e sem cerimônia, ao lado da estrada, com nada mais do que uns poucos seixos a recordar, lembrar o grande amor da vida dele. Talvez eu tivesse ficado ali, na sepultura de Raquel, com Inna, que se plantou naquele lugar e juntou pedras lindas para fazer um altar à memória da única filha dela. Inna ensinou as mulheres do vale a dizer o nome de Raquel e a atarem cordões vermelhos à volta do pilar dela, prometendo que, como recompensa, os ventres delas só carregariam frutos vivos, assim assegurando que o nome da minha tia vivesse para sempre nas bocas das mulheres.

Se Ruben me tivesse encontrado, eu teria visto a minha maldição a enrolar-se à volta do pescoço dele, despoletando uma vida inteira de paixão nunca levada a cabo e de declarações de amor não ditas a Bilhah, e do amor dela por ele. Quando essa barragem se quebrou, eles foram sem fôlego para os braços um do outro, abraçando-se nos campos, sob as estrelas, e mesmo dentro da própria tenda de Bilhah. Eles eram os amantes mais verdadeiros, a própria imagem da Rainha do Mar e do seu Senhor-Irmão, feitos um para o outro, e condenados por isso.

Quando Jacob os surpreendeu, deserdou o mais merecedor dos seus filhos e mandou-o para uma pastagem distante, onde ele não podia proteger José. Jacob bateu a Bilhah na cara, partindo-lhe os dentes. Desde então, ela começou a desaparecer. A doce, a pequena mãe tornou-se menor e mais magra, mais silenciosa, mais observadora. Já não cozinhava, só fiava, e o fio dela era mais fino do que o que mulher alguma jamais fiou, tão fino como uma teia de aranha.

E, um dia, desapareceu. As roupas dela estavam em cima do seu cobertor e os seus poucos anéis foram encontrados onde as mãos dela talvez pudessem estar pousadas. Nenhumas pegadas levavam à distância. Ela desapareceu, e Jacob nunca mais voltou a pronunciar o seu nome.

Zilpa morreu de febre, na noite em que Jacob esmagou o último dos deuses lares de Raquel debaixo de uma árvore sagrada. Ele encontrou a pequena deusa rã a que tinha destrancado o ventre de gerações de mulheres e, pegando num machado, despedaçou o ídolo antiqüíssimo. Urinou na pedra esmagada, amaldiçoando-a como causa de todo o seu infortúnio. Vendo isto, Zilpa arrancou o cabelo e gritou aos céus, implorou a morte, cuspiu na memória da mãe que a tinha deixado. Deitou-se no chão e pôs punhados de poeira na boca. Foram precisos três homens para a atar, para a impedir de se magoar a si mesma. Foi uma morte terrível, e, enquanto a preparavam para a sepultura, o corpo dela partiu-se em pedaços, como uma velha e quebradiça lâmpada de barro.

Ainda bem que não vi nada disso. Estou grata por não ter estado lá quando Lea perdeu o uso das mãos e, depois, dos braços, e por não a ter visto na manhã em que ela acordou no meio do seu próprio esterco, incapaz de se levantar. Ela ter-me-ia implorado, tal como implorou às insensíveis noras dela, que lhe desse veneno, e eu tê-lo-ia feito. Eu teria tido pena e teria cozinhado a bebida mortal e tê-la-ia morto e tê-la-ia enterrado. Antes isso do que morrer mortificada.

Se Ruben me tivesse levado de volta às tendas dos homens que me tinham transformado no instrumento da morte de Shalem, teria cometido assassínio no meu coração todos os dias. Teria provado bílis e amargor nos meus sonhos. Teria sido um borrão na terra.

Mas os deuses tinham outros planos para mim. Ruben veio demasiado tarde. O Sol brilhava por cima das muralhas da cidade quando ele chegou ao portão oriental, e por essa altura, já outros braços me tinham carregado dali para fora.

 

                                           Egito

Encontrava-me deitada sem sentidos nos braços de Nehesi, criado e guarda de Ra-nefer. Levou-me para o palácio, estava infestado de moscas atraídas pelo sangue de pais e filhos. Os meus demoníacos irmãos tinham levantado as facas mesmo contra o bebê de Ashnan, e a pobre mãe esvaíra-se em sangue ao tentar defendê-lo - deceparam-lhe o braço quando tentou bloquear a lâmina do machado.

De todos os homens daquela casa, só Nehesi sobreviveu. Quando os gritos começaram, correu para os aposentos do rei, para proteger Ra-nefer de Levi e de um dos homens dele. Quando Nehesi chegou, a rainha levantava a adaga contra Levi. Ele feriu o meu irmão na coxa e matou logo o esbirro dele. Teve que arrancar a lâmina da rainha à força, para a impedir de a enterrar no próprio coração.

Nehesi levou-me a Ra-nefer, que estava sentada no pó do pátio, com a cabeça contra a parede, o cabelo todo empoeirado, as unhas empastadas de sangue. Só passados muitos anos percebi porque é que ela não me tinha deixado morrer, por que é que o assassínio daqueles que lhe eram queridos não a enchera de raiva contra mim, que tinha causado aquilo tudo. Mas Ra-nefer só se culpava a ela própria pela morte do marido e do filho, porque tinha desejado o nosso casamento e tinha feito sacrifícios para assegurar a nossa união. Fora ela quem mandara Shalem procurar-me no mercado, quem nos atirara para os braços um do outro, sem obstáculos. Tomou a culpa para si própria e nunca a pôs de lado.

O outro motivo de compaixão de Ra-nefer para comigo era ainda mais forte do que o remorso. Ela tinha esperança de vir a ter um neto, alguém que lhe construísse o túmulo e que redimisse o desperdício da sua vida, alguém por quem viver. Eis a razão por que, momentos antes de fugir de Canaã, Ra-nefer acordou e enviou Nehesi à cidade chorosa para me procurar.

O servo obedeceu em silêncio, mas com medo. Ele conhecia a rainha melhor do que ninguém, melhor do que as criadas dela e, certamente, melhor do que o marido dela. Nehesi tinha vindo para Siquém com Ra-nefer, quando ela lá chegara como jovem e amedrontada noiva. E, quando ele me encontrou, pensou se deveria acrescentar mais dor à dor da sua senhora levando ainda mais tristeza para a presença dela. Eu estava deitada nos braços dele como um cadáver e, quando me mexi, foi para gritar e para arranhar a minha garganta até fazer sangue. Tiveram que me atar as mãos e amordaçar-me a boca, para que nos pudéssemos esgueirar da cidade sem sermos detectados, na escuridão da noite.

Ra-nefer e Nehesi desenterraram vasos cheios de ouro e prata e foram-se embora sorrateiramente, comigo, para o porto de Joppa, onde contrataram um barco minóico para fazer a viagem até ao Egito. Durante a viagem, uma terrível tempestade rasgou as velas e quase virou o navio. Os marinheiros que me ouviam gritar e soluçar pensaram que eu estava possuída por um demônio que agitava as águas contra eles. Só a espada de Nehesi os impediu de me atirarem às ondas.

Eu não sabia de nada disto, enquanto estava deitada na escuridão, embrulhada, a suar, a tentar seguir o meu marido. Talvez fosse demasiado jovem para morrer de dor, ou talvez tivessem tomado conta de mim demasiado bem para que eu perecesse de tristeza. Ra-nefer nunca me deixou sozinha. Manteve os meus lábios úmidos e falou-me no tom calmante e de perdão total que as mães usam com os bebês irrequietos.

Ela encontrou uma causa para ter esperança. Uma lua nova chegou, enquanto eu estava deitada na minha própria escuridão, e nenhum sangue manchou os cobertores por baixo das minhas pernas. A minha barriga estava mole, os meus peitos queimavam, o meu hálito cheirava a cevada. Daí a uns dias, o meu sono tornou-se menos febril. Comecei a sorver uns golos do caldo que Ra-nefer me dava a comer, e apertava-lhe os dedos em sinal de gratidão muda.

No dia em que atracamos, a minha sogra veio ter comigo, pôs os dedos com firmeza sobre os meus lábios e falou com uma urgência que não tinha nada a ver com a minha saúde.

- Voltamos à terra da minha mãe e do meu pai - disse ela. - Ouve o que te digo, e obedece. Chamar-te-ei filha, em frente do meu irmão e da esposa dele - disse ela. - Dir-lhes-ei que tu serviste na minha casa e que o meu filho te tomou, a ti, uma virgem, com o meu consentimento. Direi que me ajudaste a escapar dos bárbaros. Tornar-te-ás minha nora e eu serei a tua senhora. Terás o teu filho nos meus joelhos e ele será um príncipe do Egito.

Os olhos dela encontraram os meus e exigiram compreensão. Ela era boa e eu amava-a, e, no entanto, algo parecia errado. Não consegui dar um nome ao meu medo, enquanto ela falava. Mais tarde, percebi que a minha nova mãe não tinha dito o nome do filho dela, meu marido, não dizendo nada sobre o assassínio dele, nem sobre os meus irmãos e as falácias deles. Nós nunca choramos nem lamentamos Shalem, nem ela me disse onde é que o meu amado estava enterrado. O horror devia permanecer indizível, a minha dor devia permanecer selada por trás dos meus lábios. Nunca mais falamos da nossa história partilhada, e eu fiquei atada ao vazio da história que ela contava.

Quando pus o pé no Egito, estava grávida e tinha enviuvado. Vestia o linho branco das egípcias e, embora já não fosse uma donzela, andei de cabeça descoberta como as outras mulheres daquela terra. Carreguei um pequeno cesto de Ra-nefer, mas não trouxe nada de meu. Não tinha nem sequer um pedaço de lã tecido pelas minhas próprias mães, nem sequer o consolo da memória.

Houve muitas maravilhas para ver, na viagem para a grande cidade do Sul que era o lar do irmão de Ra-nefer. Passamos por cidades e pirâmides, pássaros e caçadores, palmeiras e flores, desertos e colinas arenosas, mas eu não vi nada disso. Os meus olhos ficavam, a maior parte das vezes, no próprio rio, e eu olhava fixamente para a água, deixando correr uma mão pela escuridão, que era à vez castanha, verde, preta, cinzenta e, uma vez, quando passamos por uma oficina de curtumes, da cor do sangue.

Nessa noite, acordei agarrada ao pescoço, a afogar-me em sangue, a gritar por Shalem, por ajuda, pela minha mãe, num pesadelo que me visitaria repetidamente. Primeiro, sentia o peso de Shalem contra as minhas costas, um maravilhoso peso que me reconfortava completamente. Mas depois sentia um calor no peito e nas mãos que não era natural e de repente descobria que a minha boca estava cheia do sangue de Shalem, que o meu nariz estava entupido com o cheiro poeirento da vida que escorria dele. Os meus olhos estavam turvos de sangue, eu esforçava-me para os abrir. Gritava sem respirar, embora não ouvisse nenhum som. Mesmo assim, continuava a gritar, com a esperança de que o meu coração e o meu estômago se levantassem de mim, no grito, e que eu também morresse.

Na quarta noite em que tive este sonho, precisamente quando o sangue começou a engolir-me e a minha boca se abriu para procurar a morte, recebi um choque que me fez recuperar os sentidos e que chegou através de uma dor penetrante que me deixou sem respiração. Sentei-me, e vi Nehesi acima de mim, com a ponta chata da sua larga espada encostada às solas dos meus pés, onde ele me tinha batido.

- Já chega - silvou ele. - Ra-nefer não agüenta isto.

Deixou-me, estava eu com os cabelos em pé, a tentar recuperar o fôlego. E, a partir daquela noite, acordava assim que sentia o calor a escorrer para os meus peitos. Ofegante e a suar, ficava deitada de costas e tentava não adormecer outra vez. Comecei a temer o pôr do Sol da mesma maneira que alguns homens temem a morte.

Durante o dia, o sol branqueava os meus medos. De manhã, antes de o calor descer, Ra-nefer sentava-se comigo e com Nehesi, e contava histórias alegres acerca da infância dela. Vimos um pato, e ela lembrou-se de expedições de caça com o pai e os irmãos dela, o mais velho dos quais seria o nosso refúgio. Quando era pequena tinham-lhe sido confiados os paus para atirar, que ela dava aos caçadores, prevendo as necessidades deles. Quando passamos por uma grande casa, Ra-nefer descreveu a casa do pai em Mênfis e os muitos jardins e lagos que havia no grande pátio dessa casa. O pai dela fora escriba dos sacerdotes de Ra, a vida tinha sido agradável para a família dele.

Ra-nefer lembrava-se de cada criado e de cada escravo que a tinham servido quando era criança. Falava da sua própria mãe, Nebettany, que recordava como sendo bonita mas distante sempre perto dos seus frascos de Kohl, sentindo-se mais feliz quando os criados lhe deitavam panela após panela de água perfumada sobre as costas na sua linda banheira. Mas Nebettany morrera de parto quando Ra-nefer ainda usava o caracol na testa que as meninas usam.

A minha sogra reviu a sua juventude com encantadores contos e histórias que iam até à precisa semana em que tinha deixado o Egito para se casar. Fizeram-se os preparativos e ela seguiu viagem juntamente com um grande dote. Ra-nefer conseguia lembrar-se das próprias quantidades de linho que enchia as arcas, das jóias que tinha nos dedos e no pescoço, dos barqueiros que a levaram para o mar.

Inclinei-me para a frente, esperando conhecer algum pormenor da vida em Siquém, de ouvir a história do nascimento de Shalem ou um conto da meninice dele. Mas ela parou precisamente no ponto em que chegou ao palácio do marido, um olhar fixo e vazio substituiu a alegria dela. Não disse nada sobre Canaã, nem sobre o marido, nem sobre os bebês que lhe deu. Não disse o nome de Hamor uma vez que fosse, e era como se Shalem nunca tivesse nascido, nem me tivesse amado, nem se tivesse esvaído em sangue nos meus braços.

O silêncio de Ra-nefer latejava de dor, mas quando estendi a mão para tocar a dela, ela voltou a pôr um sorriso alegre e virou-se para palrar acerca da beleza das palmeiras ou da alta posição do irmão dela, que era escriba-chefe e supervisor dos sacerdotes de Ra. Voltei o meu olhar para a água e assim o mantive até chegarmos a Tebas.

A grande cidade era deslumbrante, ao pôr do Sol. Para oeste, escarpas roxas continham um vale verde salpicado por templos pintados de cores vivas, com galhardetes verdes e dourados. Na margem leste, havia grandes casas, assim como templos e edifícios menores, caiados, todos a brilhar em tons de rosa e ouro à medida que o Sol começava a sua retirada por trás das escarpas ocidentais. Vi tendas brancas nos telhados e perguntei-me se uma raça separada de pessoas vivia acima dos cidadãos. As ruas que conduziam para longe do rio eram barulhentas e empoeiradas, passamos por elas rapidamente, procurando o nosso destino antes do cair da noite. O odor do lótus tornou-se mais forte, à medida que a luz desaparecia. Nebesi perguntou a um transeunte se ele sabia o caminho para a casa do escriba Nakht-ra. O homem apontou para um grande edifício que ficava à ilharga de um dos grandes templos da margem oriental.

Uma jovem nua abriu a grande porta polida e piscou os olhos aos três desconhecidos que tinha diante de si. Ra-nefer exigiu uma audiência com Nakht-ra, seu irmão. Mas a criança só olhava fixamente. Ela viu uma senhora egípcia que usava um vestido poeirento e que não tinha maquiagem nem jóias, um grande guarda negro com uma adaga na cintura mas sem sapatos nos pés, e uma estrangeira num vestido que lhe caía mal, e que tinha a cabeça tão baixa que poderia estar a esconder um lábio leporino.

Como a criada não se mexeu, mesmo depois de Ra-nefer repetir o pedido, Nehesi empurrou a porta e passou do vestíbulo para uma grande sala. O senhor da casa estava a concluir os negócios do dia, com rolos no colo e assistentes aos pés. Olhou fixamente para Nehesi, surpreendido e não compreendendo o que se estava a passar, mas, quando viu Ra-nefer, Nakht-ra pôs-se de pé de um salto, espalhando papiros, enquanto se apressava para abraçar a irmã.

Conforme a envolveu nos braços, Ra-nefer começou a chorar - não lágrimas de alivio e de felicidade de uma mulher contente por se reunir à família, mas antes soluços crus de uma mãe cuja criança fora assassinada na cama. Ra-nefer uivou nos braços do seu perplexo irmão. Caiu de joelhos e gritou, dando voz a um coração destroçado.

O terrível som trouxe toda a casa de Nakht-ra à sala: cozinheiros e jardineiros, padeiros e crianças, e a dona da casa. Nakht-ra pegou na irmã e pô-la na sua própria cadeira, onde foi abanada e servida de água. Todos os olhos estavam fixos em Ra-nefer, que tomou a mão do irmão na sua e lhe contou os simples pormenores da sua história, tal como a tinha ensaiado para mim. Disse que a sua casa fora invadida por bárbaros, que lhe tinham roubado os haveres, que a família dela tinha sido chacinada, que toda a sua vida fora pilhada. Narrou a fuga e a tempestade no mar. Quando Nakht-ra lhe fez uma pergunta acerca do marido, ela respondeu: "Morto. E o meu filho!", e desatou a chorar, mais uma vez. Com isto, as mulheres da casa começaram um agudo lamento de luto que subiu pela carne do meu pescoço como uma maldição.

Mais uma vez, Ra-nefer foi abraçada pelo irmão, e mais uma vez se recompôs.

- Nehesi é o meu salvador - disse ela, dirigindo todos os olhos para onde ele estava, a meu lado. - Eu teria morrido, não fosse o braço forte e a esperteza dele, e o amparo que ele me deu. Trouxe-me para fora de Canaã, com esta jovem, que era a consorte do meu filho e que carrega o meu neto no seu ventre. -Todos os olhos se viraram para a minha barriga, então, e as minhas mãos moveram-se, de modo próprio, para o lugar onde o bebê crescia.

Aquilo era um espetáculo mudo para mim. Eu só conhecia uma meia dúzia de palavras da língua deles, e essas tinha-as aprendido do meu amado na cama. Sabia as palavras para as partes do corpo, para nascer e pôr do Sol, para pão e vinho e água. Para amor.

Mas os Egípcios são pessoas expressivas, quando falam, o que me permitiu seguir a história. Observei a cara de Ra-nefer e soube que o pai dela tinha morrido, que o irmão mais novo estava longe, que a amiga favorita (ou talvez a irmã) tinha morrido de parto, que Nakht-ra igualava o sucesso do pai.

Fiquei de pé junto à porta, segura e esquecida, até que tive um colapso. Acordei algum tempo depois, no escuro, numa pequena cama bem cheirosa, ao lado da cama em que Ra-nefer dormia suavemente. O resto da casa também parecia adormecida.

O silêncio era tão profundo que, se não tivesse caminhado pelas ruas barulhentas de uma cidade naquela mesma tarde, ter-me-ia julgado no meio de um prado deserto ou no topo de uma montanha.

Um pássaro quebrou o silêncio, e pus-me à escuta, tentando decifrar a melodia da sua louca canção. Alguma vez tinha ouvido um pássaro cantar à noite? Não me conseguia lembrar. Por um momento, esqueci tudo, exceto o som do pássaro a cantar à meia lua, e quase sorri.

O meu prazer acabou no momento seguinte, quando senti um leve toque nos dedos. Pus-me de pé de um salto, mas, lembrando-me da espada de Nehesi nos meus pés, sufoquei o meu grito. Uma pequena sombra movia-se em circulo, à minha volta. O pássaro ainda chilreava, mas agora parecia gozar com a alegria que eu tinha sentido um momento antes.

Observei, aterrorizada, a sombra a saltar para a cama de Ra-nefer e, depois, a parecer desaparecer. Doeram-me os olhos de tanto procurar no escuro, e dei por mim a chorar pela morte da minha boa senhora, pois era certo que a criatura a tinha morto. Torci as mãos e tive pena de mim mesma, sozinha e abandonada numa terra distante. Escapou-me um soluço, e Ra-nefer mexeu-se.

- O que é que foi, criança? - murmurou ela, meio a dormir.

- Perigo - solucei.

Sentou-se direita, e a sombra saltou para baixo, na minha direção. Tapei a cabeça e dei um grito agudo.

Ra-nefer riu suavemente.

- Um gato - explicou ela. - É só o gato. Bastet reina sobre o coração da casa, aqui. Agora dorme - suspirou ela, e voltou-se de novo para a sua almofada.

Deitei-me, mas os meus olhos não se fecharam outra vez, naquela noite. Daí a nada a luz começou a filtrar-se pelas janelas que faziam um friso na parede, junto ao teto. À medida que a luz do Sol enchia o quarto, estudei as paredes caiadas, vi uma aranha a tecer uma teia no canto. Olhei para teraphini que não me eram familiares, aconchegados em nichos à volta das paredes, e estendi a mão para tocar na bela perna da cama da minha senhora, esculpida à semelhança da pata gigantesca de uma besta. Inalei o aroma da minha cama - feno adoçado pelo odor de uma flor que não me era familiar. O quarto parecia cheio de cestos elaborados e tapetes entrançados. Uma coleção de frascos estava dentro de uma caixa marchetada, ao lado de uma grande pilha de panos dobrados, que mais tarde vim a saber que eram toalhas de banho. Cada superfície estava tingida ou pintada de cores vivas.

Eu não tinha lugar, entre todas aquelas coisas maravilhosas, e no entanto esta era a minha única casa.

Mal me dei conta da criança dentro de mim, naquelas primeiras semanas. O meu corpo não parecia nada diferente, e estava tão ocupada com o meu novo ambiente, que não me apercebi do progresso da Lua, que as mulheres egípcias marcavam com pouca cerimônia e nenhuma separação. Fiquei ao lado de Ra-nefer, que passou os seus primeiros dias a descansar no jardim e a servir de intérprete, quando eu não compreendia as poucas palavras que me eram dirigidas.

Não fui mal tratada. Toda a gente na casa de Nakht-ra era boa, até a esposa dele, Herya, que subitamente se via obrigada a partilhar a casa com uma irmã há muito esquecida e com os dois estranhos que eram servos dela. Nehesi sabia como fazer-se útil e Nakht-ra rapidamente o mandou levar mensagens entre a casa, o templo e as sepulturas que estavam a ser construídas no vale ocidental.

Eu não era bem uma criada e não era bem uma sobrinha, apenas uma estrangeira sem língua e aparentemente inútil. A dona da casa dava-me palmadinhas, quando me via, mais ou menos como a um gato, mas desandava logo para não ter de falar. Os criados também não sabiam o que pensar de mim. Mostraram-me como se fiava linho, para que eu pudesse ajudar no trabalho da casa, mas as minhas mãos eram lentas a aprender e, uma vez que eu não podia estar com eles na cozinha, deixavam-me só.

A minha principal ocupação era dar assistência a Ra-nefer, mas ela preferia a solidão, pelo que encontrei outras tarefas com que ocupar os meus dias. Fui atraída especialmente pelas escadas da casa, e pegava em qualquer desculpa para andar para cima e para baixo, observando o modo como o quarto mudava, a cada passo. Assumi a tarefa de varrer os quartos, à noite, e de os lavar, de manhã, e assumi um orgulho descuidado na manutenção dos mesmos.

Sempre que podia, subia as escadas todas, até ao telhado, onde uma brisa do norte vinda do rio poderia levantar a tenda que estava pendurada para dar sombra. A maior parte das pessoas da casa dormia ali em cima, nas noites quentes, embora eu nunca me juntasse a eles, temendo levar o meu pesadelo para o meio deles.

Do telhado, eu olhava fixamente para o Sol, que se refletia no rio, e para a graciosidade dos barcos que velejavam lá em baixo. Lembrei-me da primeira grande água que tinha visto, quando era menina, quando a minha família tinha atravessado de Haran para o Sul. Pensei no rio em que José e eu tínhamos sido atacados por um poder invisível, de que tínhamos sido salvos pelo amor das nossas mães. Quando me lembrei da promessa de Shalem de que me ensinaria a nadar, a minha garganta fechou-se em agonia. Mas mantive os olhos muito abertos, como tinha feito em Mamre, e olhei fixamente para o horizonte, para não soluçar e para não cair da açoteia abaixo.

Os dias passaram num nevoeiro de novos hábitos e novas vistas, mas as noites eram sempre as mesmas. Lutei contra os sonhos que me deixavam encharcada em suor, molhando a cama tal como o sangue de Shalem tinha encharcado a nossa, que me deixavam a arfar e receosa de emitir qualquer som. De manhã doíam-me os olhos e a minha cabeça latejava. Ra-nefer inquietava-se comigo, e aconselhou-se com a cunhada. Ordenaram-me que descansasse durante a tarde. Ataram-me um cordão vermelho à volta da cintura. Fizeram-me beber leite de cabra misturado com uma poção amarela que me manchava a língua.

À medida que a minha barriga começou a inchar, as mulheres da casa desfizeram-se em cuidados comigo. Já passara muito tempo desde a última vez que tinha havido um bebê na família de Nakht-ra, e elas estavam ávidas de uma criança. Serviram-me comidas fantásticas, tão exóticas, para mim, como as flores do jardim que ficava por trás da casa, permanentemente florido. Comi melões de polpa cor de laranja e melões de polpa cor-de-rosa, e havia sempre tâmaras em abundância. Nos muitos dias de festa dedicados aos deuses ou aos dias da família, havia ganso temperado com alho, ou peixe em molho de mel.

Mas o melhor de tudo eram os pepinos, a mais deliciosa comida que eu podia imaginar, verde e doce. Mesmo sob o calor do sol, um pepino beijava a língua com a frescura da Lua. Era capaz de comê-los infindavelmente e nunca ficar cheia ou maldisposta. A minha mãe adoraria este fruto, pensei eu, quando pela primeira vez dei uma mordidela no coração aquoso daquele fruto. Foi o meu primeiro pensamento sobre Lea em mais de um mês. A minha mãe não sabia que eu estava grávida. As minhas tias nem sequer sabiam que eu estava viva. Estremeci de solidão.

Herya viu os meus ombros a tremer e, pegando-me na mão, levou-me até ao vestíbulo da porta da frente. Paramos no nicho da parede e ela fez um gesto para me dar a entender que retirasse a pequena deusa. Era um cavalo-marinho que estava em pé, apoiando a cauda, com uma enorme barriga e uma enorme boca sorridente. "Taweret", disse ela, tocando a figura de barro e, depois, movendo a mão para a minha barriga. Franzi o sobrolho. Ela agachou-se, como uma mulher em trabalho de parto, e pôs a figura entre as pernas e, em pantomima, mostrou-me que Taweret iria assegurar um trabalho de parto fácil.

A dona da casa pensou que eu tinha medo de dar à luz. Assenti com a cabeça e sorri. Ela disse: "Rapaz", e deu-me palmadinhas na barriga outra vez.

Assenti. Sabia que estava a carregar um filho. "Rapaz", disse eu, na língua da casa.

Herya fechou as minhas mãos em volta da estátua, indicando que eu devia ficar com ela, e beijou-me as faces. Por um momento, o gargarejo rouco do riso de Inna soou tão alto aos meus ouvidos que eu pensei que a velha parteira estava naquela sala comigo, a rir-se a bandeiras despregadas acerca da sua profecia de que Taweret me tomaria para si.

Na semana seguinte, senti um esvoaçar, como da asa de um pássaro, debaixo do meu coração. Fiquei surpreendidíssima com o meu amor pela vida que carregava. Comecei a murmurar ao meu filho por nascer enquanto estava deitada na minha cama, trauteei-lhe as canções da minha infância enquanto varria e fiava. Pensava no meu bebê enquanto penteava o cabelo e enquanto comia, de manhã e à noite.

Os sonhos sangrentos sobre Shalem foram substituídos por um sonho acerca do filho dele, a quem eu chamei Bar-Shalem. No sonho, o meu filho não era um bebê, mas uma pequena cópia do pai dele, aconchegado nos meus braços, contando-me histórias acerca da sua infância no palácio, acerca das maravilhas do rio, acerca da vida no outro lado desta vida. Nesse sonho, o meu amado protegia-me e lutava contra um crocodilo faminto que tinha vindo por mim e pelo rapaz, afastando-o.

Eu detestava acordar, e comecei a dormir até mais e mais tarde só para permanecer dentro deste sonho. Ra-nefer permitia-me a minha cama e tudo o resto. Antes de dormirmos, ela e eu observávamos a minha barriga a rolar e a tremer.

- Ele é forte - regozijava-se ela.

- Que ele seja forte - rezava eu.

Eu não estava preparada, quando chegou a minha hora. Confiante em tudo quanto aprendera de Raquel e Inna, não tinha preocupações em dar à luz. Tinha testemunhado a chegada de muitos bebês saudáveis e a coragem de muitas mães capazes: imaginei que nada tinha a temer.

Quando a primeira verdadeira dor me agarrou a barriga e me roubou o fôlego, lembrei-me das mulheres que tinham desmaiado, das mulheres que tinham gritado e implorado a morte. Lembrei-me de uma mulher que morreu com os olhos muito abertos de terror e de outra que morreu numa torrente de sangue, com os olhos encovados de exaustão.

Soltou-se um soluço da minha boca, quando as águas me rebentaram e correram pelas minhas pernas abaixo. "Mãe", gritei, sentindo a ausência de quatro caras amadas, quatro pares de mãos ternas. Quão longe estavam elas. Quão só estava eu. Como eu desejava ouvir as vozes delas a dizerem-me palavras de reconforto na minha própria língua.

Porque é que ninguém me tinha dito que o meu corpo se tornaria um campo de batalha, um sacrifício, um teste? Porque é que eu não sabia que dar à luz é o pináculo onde as mulheres descobrem a coragem de se tornarem mães? Mas é claro que não há maneira de dizer isto, ou de o ouvir. Até se ser a mulher nos tijolos, não se tem idéia de como a morte está no canto da sala pronta para cumprir o seu papel. Até se ser a mulher nos tijolos, não se sabe o poder que se levanta das outras mulheres - mesmo desconhecidas que falam numa língua desconhecida, invocando nomes de deusas que não nos são familiares.

Ra-nefer ficou de pé atrás de mim, com o meu peso nos joelhos, elogiando a minha coragem. Herya, a dona da casa, segurou-me o braço direito, murmurando orações a Taweret, Isis e Bes, o feio deus anão que adorava bebês. A cozinheira, do meu lado esquerdo, abanava um pau vergado (com cenas de partos esculpidas) por sobre a minha cabeça, para aliviar a dor. Acocorada à minha frente, para apanhar o bebê, estava uma parteira chamada Meryt. Era-me desconhecida, mas as mãos dela eram tão seguras e ternas como eu imaginava que as de Inna deviam ter sido. Soprou para a minha cara, para que eu não pudesse suster a respiração quando as dores vinham, e até me fez rir um pouco e soprar de volta para ela.

As quatro mulheres palravam por sobre a minha cabeça, quando as dores enfraqueciam, e arrulhavam palavras de encorajamento, quando as dores voltavam. Puseram sumo de fruta na minha boca e limparam-me com toalhas perfumadas com um cheiro agradável. Meryt massageou-me as pernas. Os olhos de Ra-nefer brilhavam com lágrimas.

Chorei, e gritei. Desisti de toda a esperança e rezei. Vomitei, e os meus joelhos tremiam. Mas, muito embora os sobrolhos delas se franzissem em resposta às minhas dores, nenhuma parecia preocupada ou ansiosa. Portanto, continuei a lutar, sossegada.

Depois, comecei a fazer força, porque não havia mais nada a fazer.

Fiz força e fiz força, até que pensei que iria desmaiar. Fiz força até que o bebê não veio. O tempo passou. Mais força. Nenhum progresso.

Meryt olhou para Ra-nefer e eu vi-as trocar um olhar de relance que tinha visto passar entre Raquel e Inna em momentos como este, quando a comum passagem de vida para vida se tornava uma luta entre vida e morte, e senti a sombra no canto da sala inclinar-se para mim e para o meu filho.

- Não - gritei, primeiro na língua materna. - Não - disse eu, na língua das mulheres que estavam à minha volta. - Mãe - disse eu a Ra-nefer -, traz-me um espelho para que eu própria possa ver.

Trouxeram-me um espelho e uma lâmpada, que me mostravam a minha própria pele esticada.

- Mete a mão - disse eu a Meryt, lembrando-me da prática de Inna. - Tenho medo de que ele esteja virado para o outro lado. Mete a mão e vira-lhe a cara, o ombro.

Meryt tentou fazer o que eu lhe pedia, mas as mãos dela eram demasiado grandes. A minha pele estava demasiado apertada. O meu filho era demasiado grande.

- Traz uma faca - disse eu, quase a gritar. - Ele precisa de uma porta mais larga.

Ra-nefer traduziu, e Herya respondeu-lhe num grave sussurro.

- Não há nenhum cirurgião cá em casa, filha - explicou-me, por sua vez, Ra-nefer. - Vamos mandar chamar um agora, mas...

As palavras vieram-me de longe. Tudo o que eu queria fazer era esvaziar-me daquele bloco de pedra, expulsar a agonia e dormir, ou até morrer. O meu corpo gritava para que eu fizesse força, mas quando a sombra no canto do quarto fez um sinal de assentimento, eu recusei-me a obedecer.

- Fá-lo tu - disse eu a Meryt. - Pega numa faca e abre o caminho para ele. Por favor - implorei eu, e ela olhou para mim com pena e incompreensão. - Uma faca. Mãe! - gritei, desesperada. - Raquel, onde é que estás? Inna, o que é que eu faço?

Ra-nefer chamou alguém, e foi trazida uma faca. Meryt pegou nela cheia de medo. Enquanto eu gritava e lutava para não fazer força, ela pôs a lâmina contra a minha pele e abriu a porta, da frente para trás, tal como eu tinha visto fazer antes. Ela meteu a mão para mover o ombro do bebê. A dor cegava, como se eu me tivesse sentado sobre o próprio Sol. Num instante, o bebê saiu. Mas, em vez de um grito de alegria, foi recebido com silêncio: tinha o cordão enrolado à volta do pescoço, os lábios dele estavam azuis.

Meryt apressou-se. Cortou o cordão do pescoço e pegou nas canas dela, chupando-lhe a morte da boca, soprando-lhe vida nas narinas. Eu estava a gritar, a soluçar, a tremer. Herya abraçou-me, enquanto todas observamos o trabalho da parteira.

A sombra da cabeça de cão da morte andou em frente, mas, então, o bebê tossiu e, com um grito zangado, baniu todas as dúvidas. O canto escuro ficou mais claro. A morte não se demora onde é derrotada. As vozes de quatro mulheres ecoaram à minha volta, palrando, rindo, altas. Eu cai na cama e não soube de mais nada.

Acordei na escuridão. Uma única lâmpada tremeluzia ao meu lado. O chão tinha sido lavado, e até o meu cabelo cheirava a limpo. A rapariga que ficara a tomar conta de mim viu os meus olhos a abrirem-se e correu para ir buscar Meryt, que trazia nas mãos uma trouxa de linho.

- O teu filho - disse ela.

- O meu filho - respondi eu, confusa, tomando-o nos braços.

Tal como não há aviso para o parto, não há preparação para a visão de uma primeira criança. Estudei a cara, os dedos, as dobras das pequenas pernas sem ossos, as volutas das orelhas, os pequenos mamilos no peito dele. Sustive a respiração quando ele suspirou, ri quando ele bocejou, interroguei-me acerca do modo como ele me agarrava o polegar.

Devia haver uma canção para as mulheres cantarem neste momento, ou uma oração para recitar. Mas talvez não haja nenhuma porque não há palavras suficientemente fortes para descrever este momento. Tal como cada mãe depois da primeira mãe, eu sentia-me vencida e vazia, exultante e devastada. Tinha feito a travessia desde a meninice. Vi-me a mim própria bebê, nos braços da minha mãe, e tive uma visão momentânea da minha própria morte. Chorei, sem saber se me regozijava ou se me condoía. As minhas mães e as mães delas estavam comigo, enquanto eu segurava o meu bebê.

- Bar-Shalem - murmurei. Ele tomou o meu peito e mamou durante o sono. - Sortudo - disse eu, vencida. - Dois prazeres de uma vez só.

Ambos dormimos debaixo do olhar vigilante da parteira egípcia, que eu sabia que iria amar para sempre, mesmo que nunca mais voltasse a ver a cara dela. No meu sonho daquela noite, Raquel dava-me um par de tijolos dourados e Inna presenteava-me com uma cana de prata. Eu aceitava os presentes delas com solenidade, orgulhosa, com Meryt ao meu lado.

Quando acordei, o meu filho tinha desaparecido. Assustada, tentei levantar-me, mas a dor manteve-me colada à cama. Gritei, e Meryt veio, com enchimento macio e ungüentos para as minhas feridas.

- O meu filho - disse eu, na língua dela.

Ela olhou para mim com ternura e respondeu:

- O bebê está com a mãe dele.

Pensei que não a tinha percebido bem. Talvez não tivesse usado as palavras certas. Perguntei outra vez, falando lentamente, mas ela tocou-me, com pena, e abanou a cabeça, dizendo não.

- O bebê está com a mãe dele, a senhora.

Ainda confusa, gritei:

- Ra-nefer, Ra-nefer. Eles levaram o meu rapazinho. Mãe, ajuda-me.

Ela veio, trazendo o bebê, que estava embrulhado num bom cobertor de linho branco debruado a fio de ouro.

- Minha filha - disse Ra-nefer, em pé diante de mim -, foste muito bem. Na realidade, foste magnífica, e todas as mulheres de Tebas conhecerão a tua coragem. Quanto a mim, ficar-te-ei grata para sempre. O filho que tu deste à luz nos meus joelhos será um príncipe do Egito. Será criado como sobrinho do grande escriba Nakht-ra, e neto de Paser, o escriba dos dois remos e guardião do livro de contas do próprio rei.

Ela olhou para a minha cara confusa e acossada e tentou sossegar-me, ao mesmo tempo que me abatia.

- Eu sou a mãe dele, no Egito. Tu serás a ama dele e ele saberá que tu lhe deste a vida. Cuidar dele será a tua bênção, mas ele chamar-nos-á às duas Mãe, e ficará aqui até estar preparado para ir para a escola. E, por isto, podes ficar grata. Pois este é o meu filho, Ra-mose, filho de Ra, que tu carregaste para mim e para a minha família. Ele construirá o meu túmulo e inscreverá o teu nome nele. Será um príncipe do Egito.

Ela passou-me o bebê, que tinha começado a chorar, e voltou-se para nos deixar.

- Bar-Shalem - murmurei eu no ouvido dele. Ra-nefer ouviu e parou. Sem se virar para olhar para mim, disse:

- Se o chamares por esse nome outra vez, mando-te pôr fora desta casa, ponho-te na rua. Se não seguires as minhas instruções nesta matéria e em todas as questões que tenham a ver com a educação do nosso filho, perdê-lo-ás. Deves compreender isto cabalmente. - Depois virou-se, e eu vi que as faces dela estavam molhadas. -A minha única vida é aqui, ao pé do rio - disse ela, com a voz pesada de lágrimas. - A má sorte, a coisa maléfica que me roubou o meu ka e que o atirou para entre os animais selvagens do deserto ocidental, finalmente acabou. Reuni-me à minha família, à Humanidade, ao serviço de Ra. Consultei os sacerdotes que o meu irmão serve, e, a eles, parece-lhes que o teu ka, o teu espírito, deve pertencer aqui, também, caso contrário não poderias ter sobrevivido à tua doença, ou à viagem, ou a este parto. - Ra-nefer olhou para o bebê que estava no meu peito e, com infinita ternura, disse: - Ele será protegido contra maus ventos, malfeitores, e negadores. Ele será um príncipe do Egito. - E, depois, num murmúrio que não escondia nada do que ela tinha resolvido: - Farás o que te digo.

 A princípio, as palavras de Ra-nefer pouco significado tiveram para mim. Tinha o cuidado de nunca chamar Bar-Shalem ao meu filho quando estivesse mais alguém no quarto, mas, de outra forma, eu era a mãe dele. Ra-mose ficou comigo dia e noite, para que eu pudesse dar-lhe de mamar de cada vez que ele chorasse. Dormia ao meu lado e eu andava com ele ao colo e brincava com ele e memorizava cada uma das disposições e dos traços dele.

Durante três meses, vivemos no quarto de Ra-nefer. O meu filho cresceu de hora a hora, tornando-se gordo, e luzidio, o melhor bebê jamais nascido. Sob os bons cuidados de Meryt, eu sarei completamente. Durante o calor da tarde, Ra-nefer tomava conta dele para que eu pudesse tomar banho e dormir.

Os dias passaram sem forma nem trabalho, sem memória.

O bebê que estava no meu peito era o centro do universo. Eu era a completa fonte da felicidade dele e, durante umas poucas semanas, a deusa e eu fomos uma e a mesma pessoa.

No inicio do seu quarto mês, a família juntou-se na grande sala onde Nakht-ra se sentava entre os assistentes. As mulheres juntaram-se ao longo das paredes, enquanto os homens se juntaram à volta do bebê e puseram as ferramentas do escriba nas pequenas mãos dele. Os seus dedos enrolaram-se em volta de pincéis de cana novos, e ele agarrou um prato circular em cima do qual as tintas eram misturadas. Abanou um pedaço de papiro com ambas as mãos, como se fosse um leque, o que deliciou Nakht-ra, que afirmou que ele tinha nascido para aquela profissão. E assim foi o meu filho acolhido no mundo dos homens.

Só então me lembrei do oitavo dia, quando os rapazes recém-nascidos da minha família eram circuncidados e as mães pela primeira vez se amedrontavam na tenda vermelha, enquanto as mulheres mais velhas as sossegavam. O meu coração partiu-se em dois bocados, com metade dele a chorar por o deus do meu pai não ser capaz de reconhecer este rapaz, nem o meu irmão José, ou mesmo as avós dele. E, no entanto, estava ferozmente orgulhosa do fato de o sexo do meu filho vir a permanecer inteiro, pois por que é que ele deveria ter uma cicatriz que trazia à memória a morte do próprio pai dele? Porque havia ele de sacrificar o prepúcio a um deus em cujo nome eu tinha sido feita viúva e o meu filho se tinha tornado órfão?

Naquela noite houve banquete. Eu sentei-me no chão, ao lado de Ra-nefer, que ficou com o meu bebê ao colo e lhe pôs repetidamente purê de melão nos lábios, e lhe fez cócegas com penas e o acariciou, para que ele sorrisse aos convidados que tinham comparecido a celebrar a chegada de um novo filho à casa de Nakht-ra.

Foram trazidas comida e bebidas em quantidades que eu não conseguia calcular: peixe e caça, fruta e doces tão ricos que arrepiavam os dentes, vinho e cerveja em abundância. Músicos tocavam gaitas e sistrums, instrumentos com martelos que tilintam com um som que apenas se assemelha ao da água a cair. Houve canções parvas, canções de amor e canções aos deuses. Quando os sistrunis apareceram, entraram as dançarinas, revoluteando e saltando.

Os toucados dados a cada convidado à porta eram cones de cera perfumada, que derretia em rios de lótus e lírios à medida que a noite minguava. O meu bebê estava pegajoso de perfume, quando o levantei, completamente a dormir, do colo de Ra-nefer, e o aroma agarrou-se ao cabelo escuro dele durante dias.

Entre as muitas maravilhas do meu primeiro banquete, estava o modo como as mulheres comiam em conjunto com os homens. Maridos e mulheres sentaram-se lado a lado durante toda a refeição e falaram uns com os outros. Vi uma mulher a pôr a mão no braço do marido e um homem que beijou os dedos da mão cheia de jóias da companheira. Era impossível pensar nos meus próprios pais a comerem uma refeição na companhia um do outro, quanto mais a tocarem-se perante outros. Mas isto era o Egito, eu é que era a estranha.

Aquela noite marcou o fim da minha reclusão. A minha ferida tinha sarado, a criança era saudável, pelo que fomos mandados para o horto, onde a porcaria dele não sujava o chão e os seus balbucios não perturbavam o trabalho dos escribas. Portanto, os meus dias eram passados no exterior. Enquanto o meu filho fazia uma sesta nos canteiros de flores, eu arrancava as ervas daninhas e colhia o que quer que a cozinheira precisasse, e assim fiquei a conhecer as flores e os frutos daquela terra. Quando ele acordava, era recebido pelas canções de pássaros egípcios, e abria os olhos deliciados enquanto eles levantavam vôo.

O horto tornou-se a minha casa e o tutor do meu filho. Ra-mose deu os primeiros passos à beira de um grande lago povoado de peixes e aves que ele observava maravilhado, de boca aberta. As primeiras palavras dele (depois de "Má") foram "pato" e "lótus".

A avó trazia-lhe bons brinquedos. Ela surpreendia-o quase todos os dias com uma bola ou um pião ou um pau de caça em miniatura. Uma vez, ela presenteou-o com um gato de madeira cuja boca abria e fechava puxando um cordel. Esta maravilha não me deliciou a mim menos do que ao bebê. O meu filho amava Ra-nefer e, quando a via aproximar-se, dava uns passinhos vacilantes para a receber com um abraço.

Eu não era infeliz no horto. Ra-mose, saudável e solar, dava-me um objetivo e um estatuto, uma vez que toda a gente da casa o adorava e me dava o crédito pelas maneiras afáveis e pelo temperamento agradável que ele tinha.

Todos os dias eu beijava os meus dedos e tocava a estátua de Isis, dando graças que seriam distribuídas pela multiplicidade de deuses e deusas do Egito cujas histórias eu não sabia, como forma de mostrar a minha gratidão pela dádiva do meu filho. Dava graças de cada vez que o meu filho me abraçava e, a cada sétimo dia, partia um pedaço de pão e dava-o a comer aos patos e aos peixes, em memória do sacrifício das minhas mães à Rainha do Céu, e em prece pela saúde continuada do meu Ra-mose.

Os dias passavam docemente, somaram-se em meses consumidos pelas infindáveis tarefas de amar uma criança. Eu não tinha tempo livre para olhar para trás, nem necessidade de futuro.

Teria ficado para sempre dentro do horto da infância de Ra-mose, mas o tempo é o inimigo das mães. Sem que eu desse conta, o meu bebê que caminhava e segurava a mão tinha desaparecido, para dar lugar a um rapaz que corria. Uma vez desmamado, perdi a modéstia de Canaã e passei a usar uma combinação de linho muito fino, tal como as outras mulheres egípcias. O cabelo de Ra-mose foi rapado e foi-lhe dada a forma de um caracol lateral entrançado, que todas as crianças egípcias usavam.

O meu filho tornou-se forte e musculoso, brincando às lutas com Nakht-ra, seu tio, a quem ele chamava Ba. Eles adoravam-se um ao outro, e Ra-mose acompanhava-o nas expedições de caça aos patos. Nadava como um peixe, segundo Ra-nefer. Embora eu nunca deixasse a casa e os jardins, ela ia na barca. Quando tinha apenas sete anos, o meu filho conseguia vencer o seu tio no senet e até nos vinte quadrados, que eram complicados jogos de tabuleiro que requeriam estratégia e lógica. Desde o momento em que ele conseguira segurar um pau, Nakht-ra mostrara ao meu filho como fazer imagens em pedaços de pedra partida, como um jogo, a princípio, e, depois, de professor para aluno.

À medida que ia crescendo, Ra-mose passava mais tempo dentro de casa, observando Nakht-ra a trabalhar, praticando as suas letras, tomando a refeição da noite com a avó. Uma manhã, enquanto tomava o café da manhã comigo na cozinha, vi-o a ficar muito direito e a corar, quando eu parti um figo ao meio com os dentes, e lhe dei metade. O meu filho não me disse nada que me causasse dor - mas Ra-mose deixou de comer comigo, depois disso, e começou a dormir no telhado da casa, deixando-me sozinha na minha pequena cama no jardim, perguntando-me para onde é que tinham ido oito anos.

Aos nove, Ra-mose chegou à idade em que os rapazes atavam a sua primeira faixa, pondo fim aos dias de nudez. Era tempo de ele ir para a escola e de se tornar escriba. Nakht-ra decidiu que os professores locais não eram suficientemente bons para o seu sobrinho, por isso mandou-o para a grande academia de Mênfis, onde os filhos dos mais poderosos escribas recebiam educação e comissões de trabalho, e onde o próprio Nakbt-ra fora ensinado. Ele explicou-me tudo isto no jardim, uma manhã. Falou com amabilidade e compaixão, pois sabia o quanto me doeria a partida de Ra-mose.

Ra-nefer vasculhou os mercados, à procura dos cestos certos para as roupas dele, de sandálias que durassem, de uma caixa perfeita onde ele pudesse pôr os seus pincéis. Encomendou uma placa esculpida para misturar tinta. Nakht-ra planeou um grande banquete em honra da partida de Ra-mose e deu-lhe de presente um requintado conjunto de pincéis. Os olhos de Ra-mose estavam arregalados de excitação, face à perspectiva de sair para o mundo, e sempre que estávamos juntos falava da sua viagem.

Eu observei os preparativos do fundo de um poço escuro. Se eu tentasse falar com o meu filho, os meus olhos transbordavam e a minha garganta fechava-se. Ele fez o seu melhor para me reconfortar.

- Eu não vou morrer, Má - disse-me ele, com uma doçura séria que me fez ficar ainda mais triste. - Vou voltar com presentes para ti e, quando for um grande escriba, como o Ba, vou-te construir uma casa com o maior jardim de todas as Terras do Sul. - Abraçou-me e segurou-me a mão muitas vezes, nos dias que antecederam a sua partida. Manteve o queixo levantado, para que eu não pensasse que ele tinha medo ou que estava infeliz, embora fosse claro que não passava de um rapazinho que deixava as suas mães e a sua casa pela primeira vez. Beijei-o pela última vez no jardim, perto do lago onde ele se tinha maravilhado com os peixes e rido com os patos, e, depois, Nakht-ra pegou-lhe na mão.

Fui para a açoteia, donde os vi sair de casa, com um pano enfiado na boca, para poder finalmente chorar até à exaustão. Naquela noite, o velho sonho voltou em plena força e vi-me mais uma vez sozinha, no Egito.

 

Desde o momento em que ele nasceu, a minha vida passou a girar em torno do meu filho. Os meus pensamentos não se afastavam da sua felicidade e o meu coração batia com o dele. As delícias dele eram as minhas delícias e, uma vez que ele era de tal modo uma criança de ouro, os meus dias eram preenchidos com objetivos e gosto.

Quando se foi embora, fiquei ainda mais só do que quando cheguei ao Egito. Shalem fora o meu marido, durante umas poucas e curtas semanas, e a memória dele tinha decaído até se transformar num vulto triste que assombrava o meu sono, mas Ra-mose tinha estado comigo durante toda a minha vida adulta. No espaço dos anos que ele tinha, o meu corpo tinha assumido toda a sua forma e o meu coração tinha crescido em sabedoria, pois eu percebia o que era ser mãe.

Quando olhei de relance para mim, no lago, vi uma mulher com lábios finos, cabelo encaracolado e olhos pequenos e estrangeiros. Quão pouco parecida com o meu escuro e belo filho era eu, e ele era mais parecido com o seu tio do que com qualquer outra pessoa, e estava a tornar-se naquilo que Ra-nefer tinha profetizado: um príncipe do Egito.

Sobrava-me pouco tempo para remoer sobre a minha solidão, pois tinha de merecer o meu lugar na grande casa de Nakht-ra. Embora Ra-nefer nunca tivesse deixado de ser amável comigo, com Ra-mose ausente tínhamos muito menos que dizer uma à outra, e eu senti o silêncio entre nós tornar-se constrangedor. Eu raramente ia para dentro de casa.

Fiz um lugar para mim própria no jardim, no canto de um barracão que servia para armazenar foices e enxadas - um lugar em que Ra-mose costumava esconder os seus tesouros: pedras lisas, penas, pedaços de papiro recolhidos na sala de Nakht-ra.

Ele deixou estas coisas para trás sem um olhar, mas eu mantive-as embrulhadas num pedaço de bom linho, como se fossem teraphim de marfim e não apenas brinquedos esquecidos de uma criança.

Os homens que tratavam do horto não objetaram a ter uma mulher entre eles. Eu trabalhava muito e eles apreciavam o meu jeito para flores e frutos, que eu fornecia às cozinheiras. Eu não queria companhia, repelia as atenções dos homens tão freqüentemente, que eles pararam de me procurar. Quando via a família do meu filho a gozar a sombra do jardim, acenávamos uns aos outros e não trocávamos mais do que saudações educadas.

Quando chegou palavra de Ra-mose de Mênfis, foi o próprio Nakht-ra que me trouxe as notícias enviadas por Kar, o mestre-escola que tinha sido o seu próprio instrutor. Foi assim que eu soube que Ra-mose tinha dominado algo chamado keymt em apenas dois anos - um feito de memorização que provava que o meu filho iria longe e que talvez chegasse a servir o próprio rei. Nunca houve palavra acerca de ele vir a casa. Ra-mose recebia convites para ir caçar com os filhos do governador - não seria possível rejeitar uma oferta tão auspiciosa. Depois, o meu filho foi escolhido como aprendiz e ajudante de Kar, quando o mestre foi chamado a ajuizar acerca de um caso de lei, o que ocupou as semanas durante as quais os outros rapazes visitavam as suas famílias.

Uma vez, Nakht-ra e Ra-nefer visitaram Ra-mose em Mênfis, durante uma peregrinação ao túmulo do pai deles, que ficava lá. Voltaram com cumprimentos afetuosos para mim e com notícias acerca do crescimento dele, após quatro anos longe, ele era mais alto do que Nakht-ra, bem-falante e seguro. Também trouxeram provas da educação dele pedaços de cerâmica cobertos de escrita.

- Olha - disse Nakht-ra, apontando um dedo para a imagem de um falcão. - Vê quão fortes faz ele os ombros de Horus.

Deram-me de presente este tesouro vindo da mão do meu filho. Eu maravilhei-me com ele, e mostrei-o a Meryt, que ficou devidamente impressionada com a regularidade e a beleza das imagens dele. Eu fiquei espantada com o fato de o meu filho conseguir tirar sentido de arranhadelas em pedaços de barro e reconfortei-me com o fato de saber que ele iria ser um grande homem qualquer dia. Ele poderia ser escriba dos sacerdotes de Amon ou, talvez, vizir de um governador. Não tinha sido o próprio Nakht-ra a dizer que Ra-mose talvez até pudesse aspirar ao serviço do rei? Mas é claro que nenhum destes sonhos me enchia os braços ou me reconfortava os olhos. Sabia que o meu filho se estava a tornar um homem e temia que quando o voltasse a ver fôssemos estranhos um para o outro.

Eu poderia ter desaparecido, durante aqueles longos anos, sem que ninguém se tivesse dado conta senão de passagem, com a exceção de Meryt. Mas Mervt estava sempre lá, nunca perdendo a bondade, mesmo quando eu lhe virava as costas e não lhe dava razão para me amar.

A parteira veio ver-me todos os dias, nas semanas que se seguiram ao nascimento de Ra-mose. Tratou das minhas ligaduras e trouxe-me caldo de ossos de boi, para me dar força, e cerveja doce para o meu leite. Massageou-me os ombros nos lugares em que eles estavam rígidos de embalar o bebê, ajudou-me a levantar para o meu primeiro verdadeiro banho enquanto mãe, derramando água fresca e perfumada por sobre as minhas costas, embrulhando-me numa toalha lavada.

Muito depois da minha reclusão ter acabado, Meryt continuou a visitar-me. Preocupava-se com a minha saúde e deleitava-se com o bebê, examinava-o de perto e dava-lhe lentas e sensuais massagens que o ajudavam a dormir durante horas. No dia em que ele foi desmamado, Meryt até me trouxe um presente uma pequena estátua de obsidiana de uma mãe a dar de mamar. Eu fiquei confusa com a generosidade dela, mas quando tentei recusar qualquer uma das atenções ou dos presentes. ela insistiu.

- A vida da parteira não é fácil, mas isso não é razão para não ser bonita - dizia ela.

Meryt sempre falou comigo de parteira para parteira. Não fazia diferença que eu nunca tivesse visto o interior de uma sala de parto desde que o meu próprio filho nascera, ela continuou a honrar a capacidade que eu tinha demonstrado no parto de Ra-mose. Quando voltou para a sua própria casa, depois de o meu filho ter nascido, pediu à sua senhora que soubesse o que pudesse de mim, a senhora dela, Ruddedit, tinha procurado saber a história através de Ra-nefer, que só lhe deu alguns detalhes. Meryt pegou neles e fez deles uma história fabulosa.

Na versão de Meryt, eu era a filha e a neta de parteiras que conheciam os efeitos das ervas e dos cascos de árvore ainda melhor do que os necromantes de On, onde as artes de cura do Egito são ensinadas. Ela acreditava que eu era uma princesa de Canaã, descendente de uma grande rainha que tinha sido destronada por um rei mau.

Não a corrigi, temendo que, se nomeasse as minhas mães ou Inna, a minha história se derramasse de mim, e que fosse posta fora da casa e que o meu filho fosse ostracizado, por ter o sangue de assassinos a correr-lhe nas veias. Portanto, Meryt bordou a minha história, que repetia às mulheres que ia conhecendo (e elas eram muitas), enquanto assistia à maior parte dos nascimentos dos distritos nortenhos, tanto nobres como de baixa extração. Ela contava a história de como eu tinha salvo a vida do meu filho com as minhas próprias mãos, deixando sempre de fora o papel dela na história. Falava dos meus conhecimentos acerca de ervas e do renome que eu tinha ganho no deserto ocidental como curandeira. Estas coisas foi ela que as imaginou inteiramente por si própria. E quando eu ajudei uma das criadas de Nakht-ra a dar à luz o seu primeiro bebê, Meryt espalhou as notícias de como eu o tinha virado dentro do ventre ao sexto mês. Graças a Meryt, tornei-me uma lenda entre as mulheres locais, sem sequer uma vez me ter aventurado para fora do jardim de Nakht-ra.

Meryt tinha a sua própria história para contar. Embora tivesse nascido em Tebas, o sangue da mãe dela estava misturado com o do distante Sul, e a pele dela mostrava a cor da Núbia. Mas ao contrário de Bilhah, cuja cara me saltava à memória enquanto Meryt palrava, ela era alta e imponente.

- Se não me tivesse tornado parteira - disse ela -, gostaria de ter sido dançarina, contratada para grandes festas nas grandes casas, e mesmo no palácio do próprio rei. Mas essa vida esgota-se demasiado rápido - disse ela, com um suspiro fingido. -       Eu já estou demasiado gorda para dançar para príncipes - dizia ela, dando palmadas na pele debaixo do seu braço magricela, que não mexia, e atirando uma gargalhada a que eu não conseguia resistir.

Meryt conseguia fazer qualquer pessoa rir. Mesmo as mulheres que estavam em pleno trabalho de parto esqueciam a sua agonia para sorrirem das suas piadas. Quando era pequeno, Ra-mose chamava-lhe "a amiga da Má", mesmo antes de eu me aperceber de que ela era verdadeiramente minha amiga e que era uma bênção.

Eu sabia tudo o que havia para saber sobre Meryt, pois ela adorava falar. A mãe dela era uma cozinheira casada com um padeiro, também conhecida como cantora. Era freqüentemente chamada para animar as festas do seu senhor. A voz dela fazia o público estremecer de prazer, com a sua ressonância profunda.

Se ela não estivesse de peito nu, eles teriam dúvidas de que fosse uma mulher - disse Meryt.

Mas a mãe morreu quando a filha ainda era uma menina e a casa não precisava dela, pelo que Meryt foi mandada para o lugar onde vivia até aos dias em que eu a conheci. Enquanto criança, carregou água para Ruddedit, filha de On, onde os sacerdotes são famosos como magos e curandeiros. A senhora via Meryt com bons olhos, e quando viu que Meryt era esperta, mandou-a aprender com a avozinha-parteira local, uma mulher com dedos invulgarmente longos, que dava sorte às mães.

Meryt chegou à idade adulta naquela casa e, tal como sua mãe, casou com um padeiro local. Ele era um homem bom, que a tratava bem. Mas Meryt era estéril, nada conseguia induzir o ventre dela a dar fruto. Passados muitos anos, Meryt e o marido adotaram dois rapazes cujos pais tinham sido ceifados pela febre do rio. Os filhos já se tinham tornado homens e faziam pão para os trabalhadores, na aldeia dos construtores de túmulos, na margem ocidental do rio.

O marido dela há muito que tinha morrido, Meryt, embora raramente visse os filhos, gabava-se freqüentemente das capacidades e da saúde deles.

- Os meus rapazes têm os dentes mais lindos que alguma vez viste - dizia ela solenemente, pois a própria boca dela era um poço de decadência, e ela mascava manjerona o dia inteiro, para aliviar a dor.

Durante anos, Meryt não me poupou a qualquer detalhe da sua vida, na esperança de que eu partilhasse um qualquer bocadinho da minha. Por fim, desistiu de me fazer perguntas acerca de mim mesma, mas nunca parou de me convidar para ir cuidar de mulheres que fossem dar à luz com ela. Parava na casa de Nakht-ra e pedia a Herya ou a Ra-nefer que me fosse permitido acompanhá-la. As senhoras diferiam o pedido para mim, mas eu declinava sempre. Eu não tinha qualquer desejo de me afastar de Ra-mose, nem tinha qualquer desejo de ver o mundo. Não tinha dado um passo para fora dos terrenos desde que chegara e, à medida que os meses se transformaram em anos, comecei a ter medo da própria idéia. Estava certa de que me perderia, ou pior: de que seria descoberta, de uma forma qualquer. Imaginei que alguém reconheceria o pecado da minha família na minha cara e que eu seria despedaçada no próprio lugar. O meu filho descobriria a verdade acerca da mãe e dos irmãos dela, seus tios. Seria exilado da vida boa que parecia destinado a herdar e amaldiçoaria a minha memória.

Eu tinha vergonha destes medos secretos, que me fizeram virar as costas às lições que me tinham sido ensinadas por Raquele Inna e, por conseguinte, à memória delas. A minha falta de utilidade aprisionava-me, mas mesmo assim não conseguia fazer o que sabia que devia fazer.

Meryt nunca desistia. Por vezes, se um parto corria mal, ela voltava no fim, mesmo a horas tardias, acordando-me na minha pequena cama na barraca do jardim, para me contar a história e para me perguntar como é que poderia ter feito melhor as coisas. A maior parte das vezes, conseguia assegurá-la de que tinha feito o melhor que qualquer pessoa conseguia fazer, e ficávamos as duas sentadas em silêncio. Mas, às vezes, ouvia uma história que me fazia doer o coração. Uma vez, quando uma mulher morreu subitamente durante o parto, Meryt não pensou em pegar numa faca para tentar libertar o bebê que estava no ventre, pelo que ambos pereceram. Não escondi o meu desalento suficientemente bem, e Meryt leu-o na minha cara.

- Diz-me, então - exigiu ela, agarrando-me pelos ombros. - Não torças a boca, quando podias ter salvo o bebê. Ensina-me, pelo menos, para que eu possa tentar.

Envergonhada por causa das lágrimas de Meryt, comecei a falar dos métodos de Inna, do modo como ela usava a faca, dos truques de manipulação dela. Tentei explicar o uso que ela fazia das ervas, mas faltavam-me os nomes egípcios para as plantas e raízes. Por isso, Meryt trouxe o estojo de ervas dela, e começamos a traduzir. Eu descrevi o uso que a minha mãe fazia da urtiga, do funcho e dos coentros, e ela vasculhou os mercados, à procura de folhas e sementes que eu não via desde a infância.

Meryt trouxe-me amostras de cada flor e de cada caule que eram vendidos no cais. Alguns deles eram-me familiares, mas outros cheiravam mal, especialmente as cocções locais, feitas à base de coisas mortas: pedaços de animais secos, pedras e conchas esmagadas, e excrementos de todos os gêneros. Os curandeiros egípcios aplicavam o esterco de cavalos-marinhos e de crocodilos e a urina de cavalos e de crianças a várias partes do corpo, em diferentes estações. Havia alturas em que as mais odiosas preparações pareciam ajudar, mas eu ficava sempre espantada com o fato de um povo tão preocupado com a limpeza do corpo aceitar remédios tão malcheirosos.

Embora o conhecimento egípcio das ervas fosse profundo e antigo, fiquei contente por conhecer métodos e plantas dos quais eles sabiam pouco. Meryt encontrou sementes de cominhos no mercado e ficou surpreendida ao saber que estas ajudavam à cura de feridas. Comprou hissope e menta, com as raízes ainda intactas, e elas prosperaram no solo negro e pungente do Egito. Ninguém mais sofreu de azia, na casa de Nakht-ra. E, assim, Meryt tornou-se famosa pelas "suas" curas ervanárias exóticas e eu tive a satisfação de saber que a sabedoria das minhas mães estava a ter um bom uso.

A minha vida calma acabou durante o quarto ano após Ra-mose ter saído da casa de Nakht-ra, quando a filha de Ruddedit foi pôr-se em cima dos tijolos.

O nome dela era Hatnuf e estava num mau caminho. O seu primeiro bebê nascera morto - de tamanho normal e perfeito em cada um dos seus traços, mas sem vida. Depois de anos a abortar, uma outra criança tinha finalmente criado raiz, mas ela antevia este parto com terror. Após um dia inteiro de trabalho de parto, as dores não tinham aberto caminho ao bebê. Meryt estava a assistir ao parto e a dona da casa tinha mandado chamar um físico-sacerdote, que se pôs a cantar orações, encheu o quarto de amuletos pendurados e pôs uma pilha de ervas e de esterco de cabra a fumegar, enquanto Hatnuf se acocorava sobre esta.

Mas o cheiro fez a mãe desmaiar e, ao cair, a rapariga cortou a testa e sangrou. Depois disso, Ruddedit baniu o médico do quarto e fê-lo esperar do lado de fora da porta da frente, onde ele recitava encantamentos com o zumbido nasal de um sacerdote. O dia fez-se noite, mais uma vez, e a noite começou a clarear numa outra alvorada e, mesmo assim, nem as dores aliviavam nem o bebê se mexia. Hatnuf, filha única da senhora, estava quase morta de medo e de dor, quando Meryt sugeriu que eu fosse chamada.

Dessa vez, não era uma questão de me perguntarem se queria ir. Meryt apareceu à porta da minha barraca de jardim com Ruddedit em pé, em frente da luz da alvorada, por trás dela. O cansaço quase não diminuía a beleza, numa cara que já não era nova.

- Den-ner disse ela, com o sotaque do Egito -, tens de vir e fazer o que puderes pela minha filha. Não nos resta experimentar nada. O cheiro de Anúbis já está na câmara de parto. Traz o teu estojo e segue-me.

Meryt contou-me a história rapidamente, e eu agarrei numas quantas ervas que tinha posto a secar nas vigas da minha barraca. A senhora ia quase a correr. Mal tive tempo de perceber que estava fora do jardim. Passamos à frente da casa de Nakht-ra, e lembrei-me do dia em que a tinha visto pela primeira vez, há uma vida inteira atrás. A luz do Sol bateu nos mastros de bandeira com ponta de ouro do grande templo, onde as bandeiras pendiam sem vida, na quietude da alvorada. A casa de Ruddedit era logo do outro lado do templo, por isso não nos levou tempo nenhum a chegar à antecâmara onde Hatnuf estava deitada no chão a lamentar-se, cercada pelas criadas da casa, que estavam quase tão exaustas quanto a mãe que estava em trabalho de parto.

A morte assolava o quarto. Vi-a nas sombras debaixo da estátua de Bes, amigável e grotesco guardião das crianças, que parecia sorrir comprometido à sua incapacidade.

Ruddedit apresentou-me à filha, que olhou para cima, para mim, com olhos vazios, mas que fez o que lhe pedi para fazer. Ela pôs-se de lado, para que eu pudesse enfiar uma mão oleada até ao ventre dela, mas não senti sinal da cabeça do bebê. O quarto estava muito silencioso, enquanto as mulheres esperavam para ver o que eu faria, ou o que pediria delas.

A sombra em forma de cão da morte mexeu-se, sentindo o meu desalento. Mas a avidez dele só me fez ficar zangada. Amaldiçoei o latido e a cauda e a própria mãe dele. Fiz isto na minha língua nativa, que soava com dureza aos meus ouvidos, passados tantos anos a ouvir palavras egípcias. Meryt e as outras pensaram que eu estava a dizer um encantamento secreto e murmuraram em sinal de aprovação. Até Hatnuf se mexeu e olhou em volta.

Pedi azeite e um almofariz e misturei as ervas mais fortes que tinha à mão: birthwort e um extrato de cânhamo, sendo que ambas por vezes fazem com que o ventre expulse o seu conteúdo, no inicio da gravidez. Não sabia se iriam fazer efeito e fiquei preocupada com o fato de a combinação poder causar danos, mas não sabia que mais havia de tentar, uma vez que ela estava a morrer. O bebê já estava morto, mas não havia razão para desistir da mãe.

Apliquei a mistura e, pouco depois, a rapariga foi acometida de fortes dores. Fiz com que as mulheres ajudassem Hatnuf a subir outra vez para os tijolos, onde massageei a barriga dela e tentei empurrar o bebê para baixo. As pernas de Hatnuf não a agüentavam e, pouco depois, Meryt teve que tomar o lugar de Ruddedit por trás e Hatnuf, de onde lhe sussurrava palavras de encorajamento, enquanto eu metia a mão dentro dela outra vez, para apalpar a cabeça do bebê, que agora estava perto da porta.

A pobre mulher, acometida de dores incomparáveis e intoleráveis, revirou os olhos e caiu nos braços de Meryt, sem sentidos, incapaz de fazer força.

Já era completamente de dia, naquele momento, mas a sombra no quarto não deixava os raios do Sol penetrar a escuridão. As minhas faces estavam raiadas de lágrimas. Eu não sabia que fazer a seguir. Inna tinha contado uma vez uma história acerca de ter libertado um bebê do ventre da sua mãe morta, mas esta mãe não estava morta. Eu não possuía mais nenhum truque, não tinha ervas.

E então lembrei-me da canção com que Inna tanto se deliciara, a canção que ela aprendera nos montes sobranceiros a Siquém.

"Não temas," cantei eu, recordando facilmente a melodia, indo ao fundo buscar as palavras.

Não temas, o momento está a chegar Não temas, os teus ossos São fortes Não temas, a ajuda está por perto Não temas, Gula está perto Não temas, o bebê está à porta Não temas, ele viverá para te honrar Não temas, as mãos da parteira são capazes Não temas, a terra está por baixo de ti Não temas, temos água e sal Não temas, mãezinha Não temas, mãe de todos nós.

Meryt juntou-se a mim, a cantar as palavras "Não temas", sentindo o poder dos sons, sem saber o que é que estava a dizer à terceira vez, todas as mulheres estavam a cantar "Não temas", e Hatnuf recomeçou a respirar profundamente.

O bebê nasceu pouco depois e, de fato, estava morto. Hatnuf virou a cara para a parede e fechou os olhos, só desejando juntar-se a ele. Mas quando Meryt começou a encher o pobre e ferido ventre dela com linho fervido, Hatnuf gritou outra vez, com uma voz de mãe em trabalho de parto.

- Há outra criança   - disse Meryt.  Vem Den-ner - disse ela.        - Apanha o gêmeo.

Com mais um bocado de força, apenas, Hatnuf deu à luz um bebê completamente diferente do irmão. Onde o primeiro era gordo e perfeito e não tinha vida, este era magricela, engelhado e gritava com pulmões de touro.

Meryt riu-se, com o som, e o quarto irrompeu em estrépito e ruidoso divertimento e risinhos de alivio e de alegria. O bebê ensangüentado, por lavar, sujo, foi passado de mão em mão, beijado e abençoado por todas as mulheres que ali estavam. Ruddedit caiu de joelhos e riu e chorou com o seu neto nos braços. Mas Hatnuf não nos ouviu. O pequenino chegou numa torrente de sangue que não cessava. Nenhuma quantidade de enchimento estancava o fluxo: momentos depois do nascimento do seu filho, Hatnuf morria, com a cabeça no colo da mãe.

A cena, no quarto, era terrível: a mãe morta, um bebê morto, um recém-nascido magricela a berrar pelo peito que nunca lhe daria de comer. Ruddedit ficou sentada, desolada pela morte da sua única filha, avó pela primeira vez. Meryt chorou com a sua senhora e eu esgueirei-me dali para fora, desejando nunca me ter aventurado fora do meu jardim.

 Depois do horror daquela cena, pensei que seria proibida de entrar em qualquer outra câmara de parto. Mas, da maneira como Meryt contava a história, eu era a única responsável por se ter salvo a vida da criança sobrevivente, que tinha nascido, dizia ela, num dia tão odiado por Set, que era um milagre que ele alguma vez tivesse exalado uma única respiração.

Passado pouco tempo, vinham mensageiros das outras casas importantes de Tebas à porta do jardim de Nakht-ra, com ordens para não voltarem a casa sem Den-ner, a parteira. Eram os criados de sacerdotes, de escribas, de outros a quem não se podia dizer que não. Eu só consentia se Meryt me acompanhasse, mas, uma vez que ela concordava sempre, tornamo-nos as parteiras da nossa vizinhança, que compreendia muitas casas boas, onde as senhoras e as suas criadas gozavam de ventres férteis. "Éramos chamadas pelo menos uma vez a cada sete dias, e por cada bebê saudável éramos recompensadas com jóias, amuletos, bom linho ou jarros de azeite. Meryt e eu dividíamos estes produtos e, embora eu oferecesse a minha parte a Ra-nefer, ela insistia em que eu ficasse com eles.

Bastou um ano destas lides para atravancar a minha barraca com uma coleção de objetos que eu não usava nem me faziam gosto. Meryt olhou em volta, um dia, e declarou que eu precisava de uma caixa de vime para colocar os meus pertences. Uma vez que eu era proprietária de coisas mais do que suficientes para fazer trocas, Meryt selecionou um dia auspicioso para irmos ao mercado.

Por essa altura, eu tinha saído para assistir a muitos partos, mas, mesmo assim, estava aterrorizada com esta aventura no mundo maior. Meryt sabia que eu tinha medo, pegou-me na mão, quando saímos do jardim, palrando o caminho todo, para me impedir de cismar nos meus medos. Agarrei-me a ela como um bebê com medo de perder a sua mãe, mas, passado algum tempo, encontrei coragem para observar a azáfama do cais de Tebas. A colheita ainda estava longe e a maior parte dos lavradores pouco tinha a fazer senão esperar pelo amadurecimento, pelo que as bancas estavam entupidas de gente do campo, sem nada de especial para mercadejar, para além de tempo.

Meryt trocou um colar de contas de uma das mães dela por um bocado de bolo doce e nós fomos mordiscando enquanto vagueávamos, de braço dado, de banca em banca. Fiquei maravilhada com a quantidade de joalharia ali posta à venda e perguntei-me quem é que poderia comprar tantos pechisbeques.

Vi fazedores de sandálias a fabricar sapatos baratos, feitos por encomenda. Uma fila de homens esperava por um barbeiro em particular, conhecido por ter a melhor coscuvilhice. Desviei os olhos de uma pilha de lanifícios cananitas, que poderiam ter sido tecidos pelas minhas próprias tias. Meryt e eu rimo-nos das travessuras de um macaco que segurava pela trela uma parelha de cães altos e de ar famélico e os fazia implorar por bocados de comida.

Depois de termos absorvido as vistas, a minha amiga disse que era tempo de começarmos a nossa caça, mas o primeiro cesteiro que encontramos não tinha nada suficientemente grande para corresponder às minhas necessidades, pelo que continuamos a andar, passando pelos mercadores de vinho e de azeite, padeiros e vendedores de pássaros vivos. Também vimos muitas coisas bonitas: cerâmica kushita incisa, jarras de bronze martelado, deuses e deusas lares, bancos e cadeiras de três pernas. Os meus olhos recaíram sobre uma bonita caixa com uma cobertura marchetada que floria com um jardim feito de marfim e faiança e madrepérola.

- Ora bem, ali está uma peça digna do túmulo do mestre - disse Meryt, com honesta admiração.

O carpinteiro apareceu por trás do seu trabalho e começou a contar a história da sua feitura: onde é que tinha comprado a madeira de acácia, a dificuldade que tinha tido em aplicar o marfim. Falou refletida e lentamente, como se estivesse a contar uma história, em vez de estar a tentar fazer uma venda. Eu mantive os meus olhos na caixa, enquanto ele falou, ouvindo apenas o calor da voz e olhando fixamente as mãos dele, à medida que traçavam o desenho que dera origem ao seu trabalho manual.

Meryt começou a picar o tipo.

- Por quem é que nos tomas, parvo? - perguntou ela. - Pensas que somos senhoras ricas disfarçadas de parteiras? Quem mais, se não um homem rico, poderia comprar uma coisa tão boa quanto esta? Quem é que poderia reclamar ter feito tal obra de arte, se não o construtor do túmulo do próprio rei? Estás a gozar comigo, homenzinho - disse ela.

Ele riu-se das palavras dela, e respondeu:

- Se pensas que eu sou pequenino, deves vir de uma terra de gigantes, irmã. Eu sou Benia - apresentou-se ele. - E olha que vais ficar surpreendida com as pechinchas que estão disponíveis na minha banca. Tudo depende do comprador, minha querida - picou ele de volta. - As mulheres bonitas conseguem sempre o que querem.

Face àquilo, Meryt uivou de riso e deu-me uma cotovelada nas costelas, mas eu não disse nada, porque sabia que as palavras dele tinham sido dirigidas a mim. Um instante mais tarde, também Meryt percebeu que o carpinteiro tinha estado a falar para mim e, muito embora eu não tivesse dito uma palavra, o som da voz dele e a suavidade das suas palavras tinham tido efeito em mim.

Os meus dedos, quase de motu próprio, seguiram o padrão de uma folha de um branco leitoso, que estava embutida na canxa.

- Isto vem do coração de uma criatura do mar, que vive lá longe, no Norte - disse Benia, apontando para outra parte do desenho.

Reparei no tamanho das mãos dele. Os dedos eram grossos como os ramos de uma jovem árvore de fruto, e ainda mais longos do que as enormes palmas das mãos dele, que o trabalho árduo tinha roído em montes e vales de músculos. Apanhou-me a olhar fixamente e retirou a mão, como que envergonhado.

- Quando eu nasci, a minha mãe olhou para mim e gritou, quando as viu - disse Benia. - Elas já eram demasiado grandes para o meu corpo, mesmo nessa altura. "Um escultor", disse ela ao meu pai, que me pôs de aprendiz com o melhor cortador de pedra. Mas eu não tinha qualquer talento para pedra. O alabastro rachava, só de eu olhar para ele, e mesmo o granito não permitia que eu me aproximasse. Só a madeira compreendia as minhas mãos. Flexível, e quente, e viva, a madeira fala comigo e diz-me onde devo cortar, como a devo moldar. Adoro o meu trabalho, senhora.

Olhou-me nos olhos, que eu tinha levantado para a cara dele, enquanto ele falava.

Meryt viu o olhar a passar entre nós e intrometeu-se no silêncio, como uma peixeira astuta.

- Esta é Den-ner, mercador, uma viúva, e a melhor parteira de Tebas. Vimos ao mercado à procura de um simples cesto, para guardar o pagamento das mães que lhe estão gratas.

- Mas um cesto não é suficiente para uma mestra - disse Benia, voltando-se para regatear com Meryt. - Deixa-me ver o que é que trouxeste para trocar, Mãe, pois eu estive aqui sentado todo o dia sem sorte.

Meryt desembrulhou a nossa coleção de bugigangas: uma lousa esculpida para preparar malaquite em sombra verde para os olhos, um grande escaravelho de cornalina, demasiado vermelho para a minha barriga, e um belíssimo toucado feito de contas, presente de uma bela concubina que deu à luz um bom rapazinho que deu diretamente à sua senhora, sem sequer olhar para o bebê. (Meryt e eu vimos muitas coisas estranhas nas salas de parto de Tebas.)

Benia fingiu estar interessado no escaravelho.

- Para a tua esposa? - perguntou Meryt, sem qualquer pretensão de subtileza.

- Não tenho esposa - respondeu Benia simplesmente. - Vivo em casa da minha irmã há já muitos anos, mas o marido dela está impaciente com o meu lugar à mesa dele. Em breve deixarei a cidade, para viver entre os homens do Vale dos Reis - disse ele lentamente, falando para mim, mais uma vez.

Com isto, Meryt ficou excitada em seu próprio proveito e contou-lhe tudo sobre os filhos dela, que eram padeiros, que tinham sido empregados para os trabalhadores de lá.

- Quando for para lá, irei procurá-los - prometeu Benia, acrescentando: - Ser-me-á dada a minha própria casa, lá, tal como é devido a um mestre artesão. Quatro quartos só para mim - disse ele, como se já ouvisse a própria voz a ecoar nas câmaras vazias.

- Que desperdício, carpinteiro - respondeu Meryt.

Enquanto os dois trocavam estas confidências em minha intenção, os meus dedos seguiam as margens do lago que Benia tinha talhado na cobertura da caixa. Antes que eu me pudesse afastar, ele cobriu a minha mão com a sua própria.

Tive medo de olhar para a cara dele. Talvez ele estivesse a olhar de soslaio. Talvez ele pensasse que, por fazer esta transação absurda - trocando uma bugiganga bonita por uma obra de mestre -, eu lhe ficasse a dever o uso do meu corpo. Mas quando Meryt me deu uma cotovelada nas costelas, para que eu respondesse, só vi bondade na cara do carpinteiro.

- Traz a caixa à porta do jardim, na casa de Nakht-ra, escriba dos sacerdotes de Amon-Ra - disse Meryt. - Trá-la amanhã. - Ela passou-lhe o escaravelho.

- Amanhã durante a manhã - disse ele. E nós fomo-nos embora.

- Bem, aquilo é que foi uma boa transação, rapariga -disse Meryt. - E aquele escaravelho foi uma peça de sorte, para te comprar uma caixa de tesouro e um marido também.

Abanei a cabeça à minha amiga e sorri como se ela estivesse a dizer disparates, mas não disse que não. Não disse nada. Estava embaraçada e excitada. Senti a face corada e um aperto entre as pernas que não me era familiar.

E, no entanto, não percebi inteiramente o meu coração, pois isto não era nada como o que tinha sentido da primeira vez que vi Shalem. Nenhum vento quente soprou através de Benia para dentro de mim. Este sentimento era muito mais frio e calmo. Mesmo assim, o meu coração batia mais depressa e eu sabia que os meus olhos estavam mais brilhantes do que anteriormente.

Benia e eu tínhamos trocado umas poucas palavras e apenas roçáramos os dedos um do outro. E no entanto sentia-me ligada àquele desconhecido. Não tinha dúvidas de que ele sentia o mesmo.

Durante todo o caminho para casa, o meu passo foi cadenciado pelo ritmo do meu espanto - "Como é que isto pode ser? Como é que isto pode ser?”

Quando nos aproximamos da casa de Nakht-ra, Meryt quebrou um silêncio pouco costumeiro e riu, dizendo:

- Ainda vou ajudar os teus bebês a nascer. Pelas minhas contas, ainda não estás há trinta anos neste mundo. Vou ter netos através de ti, filha do meu coração - e deu-me um beijo de despedida.

Mas, tendo entrado no jardim, todos os pensamentos sobre Benia foram banidos. A casa estava num alvoroço. Ra-mose tinha voltado!

Ele tinha chegado pouco depois de eu ter saído. Os criados tinham ido à minha procura e, uma vez que eu nunca deixava o local sem informar Ra-nefer primeiro, ela tinha ficado alarmada, até tinha enviado palavra à sua amiga Ruddedit. Quando a minha sogra me viu entrar no pátio com um bolo meio comido trazido do mercado, ficou zangada e deu uma volta nos calcanhares sem dizer palavra. Foi a cozinheira que me disse para me apressar e ir ver o meu filho, que tinha vindo para casa recuperar.

- Recuperar? - perguntei-lhe, subitamente gelada de medo. - Ele esteve doente?

- Oh, não - disse ela com um sorriso aberto. -Veio para casa para sarar da circuncisão e para celebrar a sua entrada na idade adulta em grande estilo. Vou ter de trabalhar da alvorada até à meia-noite, durante toda esta semana - disse ela, e deu-me um beliscão na cara.

Não ouvi nada, depois da palavra "circuncisão". A minha cabeça zumbia e o meu coração batia a toda a força, quando entrei de rompante na grande sala onde Ra-mose estava deitado numa liteira, perto da cadeira de Nakht-ra. Olhou para mim e sorriu com leveza, sem um traço de dor na cara, que era, agora, uma cara completamente diferente.

Já tinham passado quase cinco anos desde que ele me deixara, o rapazinho já era um jovem. O cabelo dele, que já não estava rapado, tinha crescido grosso e negro. Os braços mostravam músculo, as pernas já não eram suavemente sedosas, e o peito sugeria a beleza do pai.

- Mãe - disse o jovem que era meu filho. - Oh, Mãe, estás com bom ar. Ainda melhor do que aquele de que me lembrava.

Ele estava apenas a ser educado. Era um príncipe do Egito a dirigir-se à criada que o tinha dado à luz. Justamente o que eu temia: éramos estranhos um para o outro, as nossas vidas nunca nos permitiriam passar daí. Fez um gesto para que eu me aproximasse e me sentasse ao lado dele e Nakht-ra fez um sorriso de aprovação.

Perguntei-lhe se ele sofria, e ele afastou a questão.

- Não tenho dores - disse ele. - Eles dão-nos vinho com um bocadinho de sumo de papoula, antes de desembainharem a faca, e depois, também. Mas tudo isso foi há uma semana, já estou bastante recuperado. Agora é tempo de celebrar, e estou em casa para o banquete. - E logo, variando: - Mas como é que estás, Má? Dizem-me que agora és uma parteira famosa, a única em quem as grandes senhoras de Tebas confiam, quando são chamadas ao leito do parto.

- Sirvo como posso - disse eu calmamente, e pus a pergunta dele de lado, pois o que é que uma mulher pode dizer a um homem acerca de bebês e de sangue? - Mas tu, filho, conta-me o que é que aprendeste. Fala-me dos teus anos na escola, das tuas amizades, das honrarias que ganhaste, pois o teu tio diz que eras o melhor entre os teus companheiros.

Uma nuvem passou pela cara de Ra-mose, e eu reconheci o rapazinho que rebentava em lágrimas, quando encontrava um pato- bebê morto, no jardim. Mas o meu filho não falou do escárnio dos seus companheiros de carteira, nem me contou os gritos de gozo que o seguiam para todo o lado, durante o primeiro ano dos estudos dele: "Onde é que está o teu pai? Tu não tens pai.”

Ra-mose não falou da sua solidão, que cresceu à medida que ele foi provando ser o melhor da sua turma, e que o professor o notou e o elegeu favorito. Só falou de Kar, seu professor, que ele amava e a quem obedecia em todas as coisas, e que o amava como um tonto.

Ao contrário de outros mestres, ele nunca batia nos seus alunos nem ralhava com eles por causa dos erros cometidos.

- Ele é o homem mais nobre que eu jamais conheci, com a exceção do tio - disse Ra-mose, tomando a mão de Nakht-ra na sua. - Estou em casa não só para celebrar a minha maioridade, mas também para celebrar o grande presente que Kar me deu. O meu professor pede-me que eu o acompanhe ao Sul, a Kush, onde o mercado de ébano e marfim foi reavivado e onde o vizir foi apanhado a desviar dinheiro do rei. O próprio rei pediu a Kar que fosse e supervisionasse a instalação de um novo supervisor, e que fizesse um inventário e relatasse o que lá visse. Eu irei, para dar assistência ao meu professor e para o observar, quando ele se sentar como juiz, e as pessoas trouxerem as suas disputas perante ele. - Ra-mose fez uma pausa, para que eu ouvisse a importância das palavras seguintes. - Foram-me dadas instruções no sentido de aprender os deveres de um vizir. Depois desta viagem, a minha educação ficará completada e eu receberei a minha própria comissão e começarei a ganhar honras para a minha família. O meu tio está satisfeito, mãe. Tu também estás satisfeita?

A pergunta era sincera, ecoando com o anseio de um rapaz que pede à mãe que se pronuncie acerca dos feitos dele.

- Estou satisfeita, meu filho. És um bom homem que honrará esta casa. Desejo-te felicidades, uma boa mulher, e muitos filhos. Estou orgulhosa de ti, e orgulhosa de ser tua mãe.

Era tudo o que eu podia dizer. Tal como ele não me falou da dor que tinha sofrido na escola, eu não lhe falei do quanto sentia falta dele, ou de quão vazio o meu coração tinha estado, ou de como ele tinha levado a luz da minha vida, ao partir. Olhei-o nos olhos e ele correspondeu ao meu olhar com afeto. Deu-me uma palmadinha na mão e levantou-a até aos lábios. O meu coração batia ao ritmo dos tambores gêmeos da felicidade e da solidão.

Duas noites mais tarde, observei Ra-mose do outro lado da sala, durante a festa dada em honra dele. Ficou sentado ao lado de Nakht-ra e comeu como um rapaz a quem não tivessem dado de comer durante uma semana. Bebeu do vinho, e os olhos dele brilharam de excitação. Eu também bebi vinho, e olhei fixamente para o meu filho, interrogando-me sobre a vida que ele iria viver, surpreendida com o fato de ele já ser um homem, de ser poucos anos mais novo do que o pai dele era quando o vi pela primeira vez, na casa do pai deste.

No limiar da idade adulta, Ra-mose era meia cabeça mais alto do que Nakht-ra, tinha olhos límpidos, era aprumado como uma árvore. Ra-nefer e eu sentamo-nos lado a lado, pela primeira vez em vários anos, e admiramos o homem-criança que nos tinha dado a ambas uma razão para viver. A minha mão roçou a dela, e ela não retirou a mão ao sentir o meu toque, mas segurou os meus dedos nos dela, e, pelo menos por um momento, partilhamos o nosso amor pelo nosso filho e, através dele, pelo não nomeado filho e marido de Siquém.

Uma bonita empregada de mesa levantou os olhos para ele, e ele namoricou de volta. Eu ri-me, ao pensar no bebê cujo rabo eu tinha lavado a interessar-se, agora, por uma mulher.

A minha cara doía de sorrir e, no entanto, os meus suspiros eram tão altos, que Ra-nefer se virou, uma vez, para perguntar se eu tinha alguma dor.

Foi o melhor banquete a que eu jamais assistira, com grande parte da Tebas nobre a comparecer. As flores brilhavam à luz de cem lâmpadas. O ar estava carregado do cheiro a comidas ricas, lótus fresco, incenso e perfume. O riso, alimentado por seis tipos de cerveja e três variedades de vinho, ressoou pela sala, as dançarinas saltavam e giravam até brilharem de suor e ofegarem, no chão.

Fora contratada uma segunda trupe de músicos, para complementar os executantes locais. Aquela companhia ia velejando pelo rio, parando em templos e em casas nobres, para tocar, mas, ao contrário de outras, recusavam-se a tocar com dançarinas no chão, insistindo em que o público prestasse atenção às suas canções, que diziam ter qualidades mágicas. A misteriosa líder era uma senhora velada. Cega, tal como muitas mestras da harpa, ela era senhora do sistrwn, o sino-tambor.

De acordo com os rumores, a cantora tinha escapado das mandíbulas de Anúbis, ganhando uma segunda vida, mas ele arrancara-lhe a cara à dentada, razão pela qual ela usava um véu. A história era contada com um piscar de olho e uma cotovelada, pois os egípcios sabiam usar uma história suculenta para atrair mais clientes. Mesmo assim, quando a cantora cega foi conduzida para dentro da sala, caiu um silêncio expectante e a multidão ébria sentou-se.

Estava vestida de branco, coberta da cabeça aos pés num material tipo gaze, que flutuava em camadas, até ao chão. Ra-nefer inclinou-se na minha direção:

- Parece uma nuvem de fumo.

Instalada num banco, libertou as mãos das vestes, para pegar no instrumento, e o silêncio libertou um suave arfar de surpresa, pois as mãos dela eram tão brancas como as vestes que usava, de uma palidez espantosa, como se tivessem sido marcadas por um terrível fogo. Ela abanou o sistrum quatro vezes, produzindo quatro sons inteiramente diferentes que fizeram os ouvintes ficar sóbrios e calarem-se, para prestarem atenção.

Primeiro, o grupo tocou uma canção leve, de flautas e tambores, depois, uma trombeta solitária produziu uma melodia chorosa, que fez com que as senhoras suspirassem, e com que os homens afagassem o queixo. Uma velha canção infantil fez com que toda a gente na sala sorrisse, com a expressão descuidada que em tempos tinham usado, enquanto rapazes e raparigas.

Havia, de fato, magia nesta música, que podia transformar a mais negra tristeza na mais luminosa alegria. Os convidados levantaram bem as mãos na direção dos executantes, para baterem palmas e erguerem as taças em sinal de gratidão para com Nakht-ra, pelo ótimo entretenimento.

Silenciados os aplausos, a tocadora de sistrum começou a cantar, acompanhada pelo seu próprio instrumento e por um único tambor. Era uma canção longa, com muitos refrões. A história que contava não era extraordinária: uma história de amor encontrado e perdido, a mais velha história do mundo. A única história.

No início da canção, o homem correspondia ao amor da rapariga e eles deleitavam-se um no outro. Mas, então, a história dava uma reviravolta triste e o amante rejeitava a sua senhora, deixando-a sozinha. Ela chorava e rezava a Hathor, a Senhora Dourada, mas sem qualquer resultado. O amado não a aceitava de volta. A tristeza da rapariga era infindável e insuportável. As mulheres choravam abertamente, a todas recordando a juventude. Os homens limpavam os olhos, sem vergonha, lembrando a primeira paixão. Até os mais novos suspiravam, sentindo agonia de perdas vindouras.

Acabada a canção, fez-se um longo silêncio. A harpista escolheu uma ária calma, mas a conversa parou. Não se ergueram mais taças. Ra-nefer levantou-se e abandonou a sala sem cerimônia. Um por um, o resto da companhia retirou-se. A festa acabou silenciosamente, a sala esvaziou-se ao som de suspiros e de agradecimentos murmurados. Os músicos guardaram os instrumentos e levaram a sua líder. Alguns dos criados dormiam no chão, demasiado exaustos para iniciarem as limpezas. A casa estava completamente silenciosa.

Ainda faltavam umas horas para a alvorada quando me pus a caminho do lugar onde os músicos dormiam. A mulher velada estava encostada a uma parede, sem se mexer. Pensei que ela também estivesse a dormir, mas ela virou-se, com as mãos esticadas, para descobrir quem é que se aproximava. Eu pus as minhas mãos nas dela, que eram pequenas e frias.

- Werenro - disse eu.

O som do meu sotaque assustou-a.

- Canaã - disse ela, num sussurro amargo. Era esse o meu nome, no tormento.

- Eu era uma criança - disse eu. - Tu eras a mensageira de Rebeca, a minha avó. Contaste-nos uma história de que nunca me esqueci. Mas tu foste morta, Werenro. Eu estava lá, com a avó, quando te levaram de volta. Eu vi-as enterrar os teus ossos. Voltaste, realmente, dos mortos?

Houve um longo silêncio, e a cabeça dela caiu para a frente, por baixo dos véus.

- Sim - disse ela. E, depois, passado um momento: - Não. Não escapei. A verdade é que estou morta. - Que estranho que e, encontrar um fantasma daquele tempo aqui, numa grande casa, ao pé do rio. - Diz-me - perguntou ela -, também estás morta?

- Talvez esteja - respondi, tremendo.

- Talvez estejas, pois os vivos não fazem essas perguntas, nem conseguem agüentar a dor da verdade sem o consolo da música. Os mortos compreendem. Conheces o rosto da morte? -      perguntou ela.

- Sim - disse eu, lembrando as sombras em forma de cão que assistem a tantos partos, simultaneamente pacientes e ansiosas.

- Ah - disse ela, e, sem aviso, levantou o véu. Os lábios dela não tinham sido tocados, mas o resto da cara estava despedaçado e cheio de cicatrizes. O nariz fora partido e rasgado até ficar aberto, as bochechas tinham caído para dentro e estavam cozidas com cicatrizes profundas, os olhos eram pedras leitosas. Parecia impossível que alguém pudesse sobreviver àquela destruição. - Eu estava de saída de Tiro com um frasco de tinta púrpura para ela, para a avó. Era o momento da alvorada, e o céu envergonhava todas as tendas de Mamre. Estava eu a olhar para cima, quando eles me apanharam. Eram três, homens cananitas como quaisquer outros, porcos e estúpidos. Não me disseram nada a mim, nem uns aos outros. Pegaram na minha bolsa e no meu cesto e rasgaram-nos e, depois, viraram-se contra mim.

Werenro começou a balançar-se, para trás e para a frente, e a voz dela ficou inexpressiva.

- O primeiro empurrou-me para o chão mesmo no meio da estrada. O segundo rasgou-me as roupas. O terceiro levantou a veste e caiu em cima de mim. Esvaziou-se para dentro de mim, que nunca me tinha deitado com um homem. E, depois, cuspiu-me na cara. O segundo tomou a sua vez, mas não conseguiu fazer o seu ato e, portanto, começou a bater-me, amaldiçoando-me por lhe ter causado o seu problema. Partiu-me o nariz e vários dentes, e só quando me viu a sangrar é que ficou suficientemente excitado para fazer o que queria. O terceiro varou-me e rasgou-me por trás. E riu. - Ela parou de se balançar e sentou-se direita, ainda a ouvir aquele riso. - Eu fiquei deitada de cara para baixo, na estrada, enquanto eles os três ficaram de pé à minha beira. Pensei que fossem matar-me e assim acabassem com o meu tormento. Mas não. "Porque é que não gritas?", gritou o que tinha rido. "Não tens língua? Ou talvez não sejas mulher coisa nenhuma, pois não és da cor das mulheres. És da cor da merda de um cão doente. Vou-te ouvir a gritar, já veremos se és mulher ou fantasma." E foi então que eles me fizeram o que podes ver. Não preciso de falar disso. - Werenro baixou o véu e começou a balançar-se outra vez. - Ao primeiro som de passadas, deixaram-me como morta. O cão de um pastor encontrou-me onde eu estava estendida, seguido por um rapaz, que gritou, quando me viu. Ouvi-o vomitar e pensei que ele iria fugir, mas em vez disso cobriu-me com as roupas dele e trouxe a mãe. Ela aplicou-me cataplasmas na cara e ungüentos no corpo e afagou-me as mãos com pena, e manteve-me viva, e nunca me pediu para explicar nada. Quando se chegou à conclusão que eu sobreviveria, ela perguntou-me se deveria mandar uma mensagem para Mamre, pois tinha reconhecido os pedaços das minhas roupas. Mas eu disse que não. Estava farta de ser escrava, estava farta da arrogância de Rebeca, e estava farta de Canaã. O meu único desejo era vir para casa, sentir o cheiro do rio e o perfume do lótus, de manhã. Disse-lhe que desejava estar morta em Mamre e ela fez com que isso acontecesse. Cortou punhados do meu cabelo e embrulhou-o, com as minhas roupas e alguns ossos de ovelha, no meu saco. Mandou o filho à cidade, onde ele encontrou um mercador que se dirigia a Mamre, que levou à avó a notícia da minha morte. A mulher cananita deu-me um véu e uma bengala e levou-me a Tiro. Procurou uma caravana que se dirigisse à terra do grande rio. Eles aceitaram-me, em troca de um animal do rebanho dela e da promessa de que eu os distrairia com canções e histórias. Os mercadores trouxeram-me até On, onde me veio parar às mãos um sistrum, e agora encontro-me aqui, contigo, com Canaã na minha boca outra vez. - Dito isto, ela voltou a cabeça para longe de mim, e cuspiu. Uma cobra deslizou do lugar onde o cuspo dela caiu e eu estremeci, na rajada fria da ira de Werenro. - Seria capaz de amaldiçoar a nação inteira, com a exceção da bondade da mulher cananita. Os meus olhos foram apagados, pelo que nunca vi a cara dela, mas imagino-a a brilhar com luz e beleza. De fato, quando penso nela, vejo a cara da lua cheia. Talvez ela estivesse a fazer penitência por qualquer mal que tivesse cometido. Ou talvez tivesse sido abandonada, um dia, e alguém a tivesse ajudado a escapar. Ou talvez ninguém a tivesse ajudado, quando ela estava necessitada. Não me perguntou nada, nem sequer o meu nome. Salvou-me, sem outra razão além da bondade do seu coração. O nome dela era a bondade em pessoa: Tamar, o fruto que sustenta - disse Werenro, e começou a balançar-se outra vez. - Não sou infeliz. Nem estou satisfeita. Não há nada no meu coração. Não gosto de ninguém, nem de coisa alguma. Sonho com cães de dentes arreganhados. Estou morta. Não é assim tão mau, estar morta.

Os suspiros e o ressonar dos músicos adormecidos, interromperam as palavras dela.

- Boas almas - disse ela dos seus companheiros, com ternura. - Não pedimos nada uns aos outros. Mas tu - perguntou-me Werenro -, como é que vieste a falar a língua do rio?

Sem hesitação, contei-lhe tudo. Encostei a cabeça para trás, fechei os olhos e dei voz à minha vida. Nunca em toda a minha vida tinha falado tanto e durante tanto tempo e, no entanto, as palavras vieram sem esforço, como se fosse coisa que eu tivesse feito muitas vezes, anteriormente.

Surpreendi-me a mim própria, ao lembrar-me de Tabea, ao lembrar-me de Ruti, ao lembrar-me da minha maioridade na tenda vermelha. Falei de Shalem e do nosso modo apaixonado de fazer amor, sem corar. Falei da nossa traição e do assassínio dele. Contei-lhe do acordo de Ra-nefer comigo e do carinho que Meryt tinha por mim, e falei do meu filho com orgulho e com amor.

Não foi difícil. De fato, foi como se eu tivesse estado sedenta e houvesse água fria na minha boca. Disse "Shalem", e a minha respiração estava limpa, após tantos anos de fedor e amargura. Chamei ao meu filho "Bar-Shalem" e um velho aperto no meu peito desfez-se.

Recitei os nomes das minhas mães e soube, com toda a certeza, que elas estavam mortas. Encostei a cara ao ombro de Werenro e ensopei o vestido dela em memória de Lea e Raquel, de Zilpa e Bilhah.

Durante toda a minha narração, Werenro assentiu com a cabeça, e suspirou, e segurou-me na mão. Quando eu, finalmente, fiquei em silêncio, ela disse:

- Não estás morta. - A voz dela traiu um pouco de tristeza. - Tu não és como eu. A tua dor brilha no interior do teu coração. A chama do amor é forte. A tua história não está acabada, Dina - disse ela, com o sotaque das minhas mães. - Não "De-nner", a parteira estrangeira, mas "Dina," a amada filha de quatro mães.

Werenro afagou-me a cabeça, que descansava no ombro dela, enquanto a sala começou a clarear, com os primeiros indícios da alvorada. Eu adormeci encostada ali, mas, quando acordei, ela tinha ido embora.

Ra-mose foi embora uma semana mais tarde, na companhia de Kar, que chegou de Mênfis, a caminho de Kush. Ra-mose trouxe o venerável mestre ao jardim, para nos apresentar, mas ele mal reconheceu a presença da mãe de baixa extração do seu aluno favorito. Depois de eles partirem, perguntei-me, sem pena, se o velhote sobreviveria a tão longa viagem.

 

Benia tinha ido entregar a caixa, como combinado, mas eu não estava lá para a receber. Quando ele a trouxe ao portão do jardim, disseram-lhe com rudeza que Den-ner estava sentada na sala grande com o filho e não podia ser chamada por causa de um mercador. A caixa foi posta num canto da cozinha e eu não a vi senão depois de Ra-mose ter deixado Tebas e de a casa ter voltado ao normal.

Quando a cozinheira me deu, a curiosidade dela desaquietou-a. Como é que algo tão elegante e raro me tinha vindo parar às mãos? E quem era o homem que tinha perguntado por mim tão avidamente? Eu nada disse acerca dele ou da caixa às pessoas da casa, e a coscuvilhice rapidamente morreu. Também não enviei palavra a Benia, esperando que ele tomasse o meu silêncio como uma rejeição da oferta indireta que ele me tinha feito no mercado. Embora tivesse ficado impressionada com as palavras e com o toque dele, não me conseguia ver a viver como as outras mulheres. Apesar das palavras de Werenro, eu estava certa de que Ra-mose contaria os próximos e últimos capítulos da minha história.

Meryt ficou furiosa comigo, por eu recusar Benia.

Um homem como ele? De tanto sucesso? Tão amável?

Ela ameaçou nunca mais falar comigo, mas ambas sabíamos que isso nunca poderia acontecer. Eu era a filha dela, e ela nunca me poria de lado.

Mas a caixa de Benia continuava a ser um embaraço e uma reprovação, para mim. Não pertencia a uma barraca de jardim. Não era feita para uma parteira nascida no estrangeiro, sem estatuto ou posição social. Era minha apenas porque o carpinteiro reconhecera a minha solidão e porque eu também tinha visto a necessidade nele. Enchi a caixa com presentes dados pelas minhas mães, mas cobri a sua brilhante beleza com uma velha esteira de papiro, para que não me lembrasse de Benia, que eu consignei ao canto do meu coração, com outros sonhos que tinham morrido.

As semanas fluíram calmamente e transformaram-se em meses; o tempo passou, pautado por histórias de nascimentos, a maior parte deles saudáveis. Aprendi que um tônico feito da garança vermelha que crescia no meu jardim aliviava o parto a muitas mães, e Meryt e eu éramos chamadas a locais cada vez mais distantes. Uma vez, foi enviada uma barca para nos levar à cidade de On, onde a concubina favorita de um sacerdote estava a morrer. Encontramos uma rapariga demasiado jovem para ser mãe, a gritar de terror, sozinha num quarto, sem o conforto da presença de outra mulher. Pouco depois de termos chegado, fechamos-lhe os olhos e eu tentei libertar o bebê, mas também estava morto.

Meryt foi falar com o pai, que, longe de estar desolado pelas mortes, começou a amaldiçoar a minha amiga e a mim, por termos morto a sua esposa e a sua filha. Entrou de rompante na câmara de parto, antes que eu tivesse tido tempo de cobrir a pobre mãe.

- A estrangeira levantou uma faca para ela? - gritou ele. -   Só um cirurgião pode fazer tal coisa. Esta mulher é uma ameaça, um demônio enviado do leste para destruir o reino do rio. - Atirou-se a mim, mas Meryt parou-o e, com uma força que eu não sabia que ela possuía, prendeu-o contra uma parede e tentou explicar-lhe que eu tinha cortado a mãe com a esperança de salvar a criança.

Mas eu não vi razão para dar explicações. Olhei para os olhos dele e vi uma alma odiosa e mesquinha, e fiquei cheia de raiva e de pena por causa da jovem mulher que estava deitada a meus pés.

- Pervertido - rugi eu, na língua das minhas mães. - Filho nojento de um verme; que tu e outros como tu definhem como trigo no deserto. Era uma rapariga que não era amada, esta que está aqui a meus pés. O mau cheiro da infelicidade dela está-lhe agarrado. Por isto, morrerás em agonia.

Tanto Meryt como o sacerdote olharam fixamente para mim, enquanto eu lançava as minhas maldições e, quando acabei, o homem começou a tremer e, num sussurro aterrorizado, disse:

- Uma feiticeira estrangeira na Casa dos Deuses!

O som das nossas vozes tinha atraído outros sacerdotes, que não me olharam nos olhos e que seguraram o seu irmão, para que nós pudéssemos ir embora. Na viagem de volta, vi a linha da margem passar e lembrei-me da profecia de Inna de que eu encontraria o que o meu coração desejava nas margens de um rio. Abanei a cabeça, face à ironia da visão dela, e voltei à minha barraca de jardim irrequieta e descontente.

Pela primeira vez desde a minha infância, estava irrequieta. Já não sonhava com Shalem, ou com a morte dele, mas acordava todas as manhãs assombrada por visões de paisagens desertas, ovelhas magras e mulheres que uivavam de choro. Levantava-me da minha pequena cama a tentar, em vão, dar um nome à minha inquietação. Meryt notou que eu tinha cabelos brancos na cabeça e ofereceu-se para me fazer uma tinta de cinza e do sangue de um boi negro. Eu ri da idéia, embora soubesse que ela usava a poção e que parecia muito mais nova do que os anos que tinha por causa desta. A sugestão dela fez-me ver a minha irrequietude como nada mais do que um sinal dos anos que passavam. Eu era quase da idade em que as mulheres deixam de sangrar na lua nova, e via-me a passar o crepúsculo dos meus dias na familiar paz do jardim de Nakht-ra. Pus uma estátua de Isis sobre a minha cama e rezei pela sabedoria e tranqüilidade da senhora deusa, curandeira de mulheres e homens.

Mas esqueci-me de rezar pelo bem-estar dos meus protetores terrenos. Uma noite, já tarde, fui acordada pelo som de gatos a uivar e, na manhã seguinte, Nakht-ra veio dizer-me que Ra-nefer tinha morrido durante o sono. O corpo foi levado por sacerdotes, que o preparariam para a vida depois da morte com um ritual elaborado, no túmulo do pai dela em Mênfis, onde tinha sido preparada uma estátua em sua memória. Os ritos durariam três dias.

Nakht-ra perguntou-me se eu gostaria de assistir aos ritos com ele. Eu agradeci-lhe, mas disse que não. Deve ter ficado aliviado, pois ambos sabíamos que, para mim, não havia um lugar cômodo entre os celebrantes.

Nos dias que se seguiram à morte de Ra-nefer, amaldiçoei-a tanto quanto chorei pela morte dela. Tinha sido a minha salvadora, e tinha-me aprisionado. Tinha-me dado Shalem e, depois, tinha-me roubado a memória dele. Por fim, não conhecia de todo a mulher. Tinha-a visto muito pouco, desde que Ra-mose fora para a escola, e não fazia idéia de como é que ela se ocupara durante todos aqueles anos, se fiava ou tecia, se dormia durante todo o dia, se chorava durante a noite pelo filho e pelo marido. Se me odiava ou tinha pena de mim ou me amava.

Tive sonhos com pormenores vividos, nas noites que se seguiram à morte dela, e Ra-nefer visitou-me sob a forma de uma pequena ave que saía a voar do Sol nascente, gritando "Siquém" com uma voz familiar a que eu não conseguia dar nome. A ave Ra-nefer tentava levantar pessoas e objetos do chão e batia as asas com frustração, até estar exausta e furiosa. Todas as noites, ela desaparecia de encontro ao Sol, com gritos agudos. Parecia que a alma perturbada dela nunca encontraria paz. Depois de sete noites dessa visão, eu já só sentia pena dela.

Nakht-ra morreu na estação seguinte, por ele, chorei sem reservas. Honesto, generoso, bem-humorado e sempre bondoso, era o modelo de um nobre egípcio. O meu filho era abençoado por ter um pai daqueles, e eu sabia que Ra-mose iria chorar pelo único Ba que jamais conhecera. Presumi que Ra-mose tivesse ido a Mênfis para os ritos, embora tal não me fosse dito. Só Nakht-ra é que pensava em falar-me das viagens do meu filho. Com a morte dele, senti a minha ligação a Ra-mose enfraquecer.

Depois da morte de Nakht-ra, a mulher dele foi viver com o irmão, algures no Norte, no Delta. A casa seria dada a um novo escriba. Se Ra-mose fosse um pouco mais velho e tivesse mais prática da política do templo, talvez lhe tivesse sido dada a posição. Em vez disso, escolheram um dos rivais de Nakht-ra. A maior parte do pessoal ficaria lá e a cozinheira insistiu para que eu também ficasse. Mas o frio nos olhos da nova senhora, que veio sondar aquela que seria a sua nova casa, fez-me querer tudo menos isso.

Também Meryt estava a enfrentar uma mudança. O filho mais velho, Menna, tinha-lhe oferecido um lugar debaixo do teto dele, no Vale dos Reis. Fora nomeado padeiro-chefe e tinham-lhe dado uma casa maior, onde a mãe seria bem-vinda. Menna fez a viagem para vir ver a mãe e disse que, embora nascessem muitos bebês às mulheres dos artesãos, no vale, não havia parteiras hábeis, e muitas mulheres tinham morrido. Meryt seria uma cidadã com honrarias, se fosse viver entre eles.

A minha amiga estava tentada. Desde a desastrosa viagem a On tinham começado a circular rumores acerca da parteira nascida no estrangeiro e da sua companheira. O sacerdote que eu tinha amaldiçoado perdera o uso da voz e depois ficou coxo. Havia menos chamados para assistir aos partos de mulheres nobres, embora as criadas delas e as mulheres dos mercadores ainda nos procurassem.

Eu sabia que a minha amiga apreciava a idéia de honrarias e de um novo começo, mas preocupava-a o fato de ir viver com uma nora, e inquietava-se por ter de abandonar os confortos da vida em Tebas. Disse ao filho que iria ponderar o convite até à estação seguinte, em que o novo ano começava. Afinal, explicou-me ela, a aparição de Sírio marcava o tempo mais auspicioso para fazer mudanças.

A minha amiga e eu pesamos as nossas hipóteses, mas ficávamos freqüentemente silenciosas, mantendo secretos os nossos piores medos. Na verdade, eu não tinha para onde ir. Herya não me tinha oferecido um lugar com ela. Teria, simplesmente, que ficar onde estava e ter esperança em que tudo corresse pelo melhor. Se Meryt se fosse embora para casa do filho, a solidão engolir-me-ia, mas mantive-me calada em relação a isso, enquanto ela descrevia a vida no vale.

Meryt nunca considerou ir-se embora sem mim, mas ficava preocupada com a idéia de pedir à nora que aturasse duas mulheres na casa dela. A minha amiga apresentou o seu dilema à sua boa senhora, e Ruddedit implorou-lhe que ficasse, e deu-lhe palavra de que também eu sempre teria um lugar debaixo do teto dela.

Mas o marido da senhora não era nada parecido com Nakht-ra. Era um tirano de vistas curtas, com um feitio que, por vezes, se abatia sobre as costas dos criados, e até Ruddedit mantinha uma certa distância, face a ele. A minha vida seria roubada e furtiva, se eu fosse para aquela casa.

Poderia ter perdido o alento, se não fosse pelo consolo que encontrei nos meus sonhos, em que um jardim de mil lótus floria, crianças riam e braços fortes me abraçavam e me faziam sentir segura. Meryt deu grande importância a estes sonhos e visitou um oráculo local, que me previu amor e riqueza nas entranhas fumegantes de uma cabra.

O ano novo veio e Menna voltou para ver a mãe. A mulher dele, Shif-ra, acompanhou-o, dessa vez, e disse:

- Mãe, vem para casa conosco. Os meus filhos trabalham todo o dia com o pai, na padaria, e eu, muitas vezes, estou sozinha em casa. Há imenso espaço para te sentares ao sol e descansares. Ou, se quiseres continuar a ser parteira, eu carregarei o teu estojo, e tornar-me-ei tua assistente. Serás honrada, na casa do meu marido e, depois da tua morte, honraremos a tua memória com uma boa estela com o teu nome no lado oeste.

Meryt ficou comovida com o discurso da nora. Shif-ra era alguns anos mais nova do que eu, era uma mulher feia, com a exceção dos olhos, grandes e orlados de pestanas negras e grossas, radiantes de compaixão.

- Menna tem sorte em ter-te disse Meryt, tomando as mãos da mulher nas suas. - Mas eu não posso deixar a Den-ner aqui. Ela, agora, é minha filha e, sem mim, está sozinha no mundo. Na verdade, ela é que é a mestra parteira, e eu sou assistente dela. É a ela que as mulheres da Tebas real chamam, quando o tempo delas se aproxima. Não te posso pedir para a acolheres. E, no entanto, se lhe ofereceres a mesma hospitalidade, acredito que serás bem recompensada, nesta vida. Ela carrega a marca do dinheiro e da sorte. Sonha com grande acerto e vê através das mentiras. Tudo isto se colou a mim, e também te beneficiará a ti e à tua casa.

Shif-ra foi falar com o marido com as palavras de Meryt. Menna não ficou satisfeito com a idéia de ter outra mulher a envelhecer em casa dele, mas a promessa de sorte acabou por fazer efeito. Veio com a mãe e a mulher à minha barraca, para me fazer sentir bem-vinda, e eu aceitei a oferta dele com genuína gratidão. Tirei um escaravelho turquesa da minha caixa e dei-o a Menna.

- A hospitalidade é o tesouro dos próprios deuses - disse eu, pondo a testa no chão perante o padeiro, que ficou embaraçado por lhe ser feita tão profunda vênia.

- Talvez o meu irmão te possa dar o jardim - disse ele, ajudando-me a levantar. A mulher dele não tem jeito para cultivar coisas, e a minha mãe diz-me que tens o toque do próprio Osíris, com a terra.

Foi a minha vez de ficar embaraçada com a sua amabilidade. Como é que eu tinha encontrado tantas pessoas boas na minha vida? Qual era o propósito de tão boa sorte?

O trabalho de Menna chamava-o de volta a casa, pelo que tivemos poucos dias para nos prepararmos para a viagem. Primeiro, fui ao mercado e contratei um escriba que escrevia em nome de pessoas iletradas e, por meio dele, mandei palavra a Ra-mose, assistente do escriba Kar, residente em Kush, para o informar que a mãe, Den-ner, se tinha mudado para o Vale dos Reis, para casa do padeiro-chefe chamado Menna. Enviei-lhe bênçãos em nome de Isis e de Horus, filho dela. E paguei ao escriba o dobro dos honorários, para ter a certeza de que a mensagem encontraria o meu filho.

Juntei as ervas do meu horto, levando pedaços de raízes, assim como plantas secas. Enquanto trabalhava, lembrei-me de como as minhas mães despojavam o horto delas, antes de deixarem uma vida por outra. Aventurei-me no mercado sozinha e troquei a maior parte das minhas bugigangas por azeite e óleo de castor, e por óleo e bagas de zimbro, pois tinha ouvido dizer que poucas árvores se davam bem no vale. Vasculhei as bancas à procura da melhor faca que pudesse encontrar e, no dia antes de irmos embora, Meryt e eu fomos até ao rio, e colhemos canas suficientes para salvar mil bebês.

Emalei o que me pertencia na caixa de Benia, que se tornava cada vez mais bonita, à medida que a madeira amadurecia. Ao fechar a tampa, senti alívio pela minha fuga a um futuro infeliz.

Na noite anterior a ir-me embora da casa de Nakht-ra mantive vigília no jardim, andando à volta do lago, passando os dedos por cada arbusto e árvore, enchendo o nariz com os odores ricos do lótus a florir e do trevo fresco. Quando a Lua começou a pôr-se, esgueirei-me para dentro de casa e vagueei, pelo meio de corpos adormecidos, em direção ao telhado. Os gatos roçaram-se contra mim e eu sorri, lembrando o meu primeiro medo, ao ver as "cobras com pêlo" daquela terra.

Todos os meus dias no Egito tinham sido passados naquela casa e, olhando para trás, para esses dias, ao ar da noite, lembrava-me de pouco senão de coisas boas: o odor do meu filho bebê e a cara de Nakht-ra, pepinos e peixe com mel, o riso de Meryt e os sorrisos das novas mães que eu tinha ajudado a darem à luz filhos e filhas saudáveis. As coisas dolorosas (a história de Werenro, a escolha de Ra-nefer, até a minha própria solidão) pareciam os nós de um lindo colar, necessários para manter as contas no lugar. Os meus olhos encheram-se, enquanto eu me despedia desses dias, mas não senti qualquer arrependimento.

Estava sentada do lado de fora da porta do jardim, com a minha caixa e com uma pequena trouxa a meu lado, quando os outros chegaram, de manhã. Ruddedit caminhou conosco até ao barco e abraçou-me, quando entrei nele. Ela chorou nos braços de Mervt durante muito tempo, mas era a única que chorava, quando o barco se afastou da margem. Acenei-lhe uma vez, mas, depois, virei os olhos para oeste.

A viagem da casa do escriba para a casa do padeiro só demorou um dia, mas a passagem media a diferença entre dois mundos.

O barco estava apinhado de residentes do vale que estavam numa disposição de gala, a caminho de casa, vindos do mercado. Muitos dos homens tinham pago o ministério de barbeiros ao ar livre, pelo que as faces deles brilhavam, e o cabelo também. As mães conversavam acerca das crianças que tinham à ilharga, mimando-as e ralhando-lhes à vez. Desconhecidos entabulavam conversa uns com os outros, comparando compras e tentando estabelecer uma ligação ao compararem nomes de família, ocupações e moradas. Pareciam encontrar sempre um amigo ou um antepassado comum e, depois, davam palmadas nas costas uns dos outros, como irmãos há muito separados.

Estavam à vontade consigo próprios e com os outros de uma maneira que eu nunca tinha visto em quaisquer outras pessoas. Interroguei-me acerca da razão de ser de tudo aquilo. Talvez fosse por não haver nem senhores nem guardas, no barco, nem mesmo um escriba. Só artesãos e respectivas famílias, dirigindo-se para casa.

Depois do barco, seguiu-se uma curta e íngreme subida para a cidade, que se estendia à distância, na entrada do vale, como um gigantesco ninho de vespas. O meu coração perdeu o alento. Era o lugar mais feio que eu jamais vira. No calor cauterizante do sol da tarde, as árvores que havia ao longo das ruas desertas tinham um ar doente e sujo. As casas amontoavam-se, lado a lado, às centenas, cada uma tão pouco digna de atenção e monótona como a seguinte. Os poiais conduziam do caminho estreito à escuridão, e eu perguntei-me se seria demasiado alta para estar em pé nos poiais mais altos. As ruas não demonstravam qualquer indício de jardins, de cores, ou de qualquer uma das coisas boas da vida.

Não sei como, Menna distinguia uma rua da seguinte, e conduziu-nos ao poial da casa do irmão dele, onde estava um rapazinho a olhar. Quando nos viu, gritou pelo pai, e o segundo filho de Meryt, Hori, saiu de rompante para a rua, com ambas as mãos cheias de pão fresco. Correu para Meryt e levantou-a pelos cotovelos, fazendo-a rodar e rodar em volta, sorrindo com o sorriso da própria Meryt. A família dele juntou-se e bateu palmas, enquanto a avó se ria para o filho e o beijava no nariz. Hori ainda tinha a casa cheia de crianças, cinco ao todo, que iam de uma filha casadoira ao bebê nu que primeiro nos tinha espiado.

A família transbordou para a rua, atraindo vizinhos às portas, sorridentes perante tanta excitação. Depois, Meryt foi conduzida através da antecâmara da casa de Hori para a sala dele, um quarto modesto, onde as janelas altas deixavam cair a luz da tarde sobre esteiras de chão de cores vivas, e sobre as paredes pintadas com uma luxuriante cena de jardim. A minha amiga foi sentada na melhor cadeira da casa e formalmente apresentada aos netos, um por um.

Fiquei sentada no chão, ao pé de uma parede, vendo Meryt a banhar-se na glória dos seus filhos. As mulheres trouxeram comida dos quartos traseiros, onde eu vi uma cozinha de jardim. Meryt elogiou a comida, que estava bem condimentada e era muita, e declarou que a cerveja era melhor do que qualquer uma que ela tivesse provado na cidade dos nobres. A nora ficou radiante com aquelas palavras e o filho assentiu com orgulho.

As crianças olhavam fixamente para mim, nunca tendo visto uma mulher tão alta ou uma cara tão obviamente estrangeira. Mantiveram a distância, com a exceção do pequeno sentinela, que trepou para o meu colo e ficou lá, com o polegar na boca. O peso de uma criança no meu peito lembrou-me da doçura dos dias em que eu pegava em Ra-mose daquela maneira. Esquecendo-me das boas maneiras, suspirei com tal saudade que os outros se viraram para mim.

- A minha amiga! - gritou Meryt, que correu para o meu lado. - Perdoa-me por te ter esquecido. - A mãe da criança veio e tirou-me, e Meryt juntou-se a mim, a meus pés. - Esta é Den-ner - anunciou ela, - e virou-me, como a uma criança, para que toda a gente pudesse ver a minha cara. - Menna dir-vos-á que ela é uma parteira sem amigos que ele acolheu por compaixão. Mas eu digo-vos que eu sou amiga e irmã dela, e que sou aluna dela, pois nunca vi nem ouvi falar de uma parteira tão habilidosa. Tem as mãos de Isis e, com o amor da deusa pelas crianças, mostra a compaixão do céu pelas mães e pelos bebês.

Meryt, com as faces coradas por causa da atenção que recebia da sua família, falou sobre mim como uma mercadoria no mercado a vender os seus objetos.

- E ela também é um oráculo, meus queridos. Os sonhos dela são certeiros, e a raiva dela é temível, pois eu vi-a a arrancar um homem mau à primavera da vida dele, por ele ter feito mal a uma jovem mãe. Ela vê com clareza nos corações dos homens e nenhum a engana com lindas palavras que escondam um coração mentiroso. Ela vem do Leste - disse Meryt, já bêbada da própria voz e da atenção dos filhos. - Lá, as mulheres são freqüentemente tão altas quanto os homens do Egito. E a nossa Den-ner é tão esperta quanto alta, pois fala tanto a língua do Leste como a nossa língua. E deu à luz Ra-mose, um escriba, o herdeiro de Nakht-ra, que um dia será um dos poderosos desta terra. Temos sorte em ter a mãe dele entre nós, e a casa de Menna considerar-se-á com sorte, quando ela dormir sob o teto dele.

Eu estava mortificada, vendo tantos olhos postos em mim.

- Obrigada - foi tudo o que eu consegui dizer. - Obrigada - disse eu, fazendo uma vênia a Menna e Shif-ra, e depois a Hori e à mulher dele, Takharu. - Obrigada pela vossa generosidade. Sou uma vossa criada, como forma de exprimir a minha gratidão.

Voltei ao meu canto, ao pé da parede, contentando-me em observar a família, enquanto eles comiam e gracejavam e saboreavam a presença uns dos outros. À medida que a luz começou a desaparecer, fechei os olhos por um momento, e vi Raquel com José ao colo, a face dela comprimida contra a dele.

Não tinha pensado no meu irmão José durante anos, e não conseguia localizar a memória com exatidão. Mas a cena era tão vivida como as minhas memórias do toque de Lea, tão clara na minha mente como as tendas de Mamre. Já em criança eu sabia que seria José a levar a história da família até à geração seguinte. Seria ele que se transformaria em algo de mais interessante e complicado do que, muito simplesmente, um homem muito bonito nascido de uma mãe muito bonita.

A família de Meryt pensou que eu estava a fazer uma sesta, enquanto me mantive sentada contra a parede, mas eu estava perdida em pensamentos sobre José e Raquel, Lea e Jacob, sobre as minhas tias e Inna, e sobre os dias antes de Siquém. Suspirei outra vez, o suspiro de uma órfã, e a minha respiração encheu a sala de uma melancolia momentânea, que anunciou o fim da festa de boas-vindas.

A noite estava a chegar quando Menna nos conduziu, a Meryt e a mim, pelas ruas iluminadas pelo luar, até casa dele, que era próxima. Embora fosse maior e ainda melhor atribuída do que a de Hori, o ar estava quente e abafado, lá dentro, pelo que carregamos as nossas pequenas camas por um escadote acima, em direção ao terraço, onde o dossel de estrelas parecia ao alcance da mão.

Eu acordei mesmo antes do nascer do Sol e levantei-me para ver toda a cidade e sonhar. Eles estavam deitados, sozinhos ou em pares, ou em grupo, com crianças e cães. Uma gata seguia rua abaixo, levando qualquer coisa na boca. Pôs a coisa no chão e eu vi que era um gatinho, que ela começou a limpar com lambidelas. Enquanto os observava, o sol fez as colinas ficarem cor-de-rosa e, depois, douradas. As mulheres mexeram-se e espreguiçaram-se e, depois, desceram escadas abaixo. Pouco depois, o cheiro de comida enchia o ar e o dia começava.

A princípio, Shif-ra não permitia que eu ou Meryt fizéssemos fosse o que fosse na cozinha ou no horto dela, pelo que nós duas ficávamos sentadas, inúteis, a vê-la trabalhar. Meryt tinha horror de se tornar uma sogra intrometida, mas as mãos dela estavam ansiosas por se ocuparem.

- Deixa-me só prensar a cerveja - pedia ela.

- Eu podia varrer o chão - propunha eu. Mas Shif-ra parecia sentir-se insultada com as nossas ofertas. Ao cabo de uma semana de estarmos sentadas, não agüentava mais. Pegando num jarro grande e vazio, anunciei:        Vou à fonte e saí porta fora, antes que a minha anfitriã pudesse levantar qualquer objeção, surpreendendo-me a mim própria, assim como a Meryt. Depois de anos de ter medo das ruas em Tebas, saí rapidamente para esta rua, não inteiramente segura de para onde é que devia ir. Mas, uma vez que havia sempre outras mulheres a ir ou a vir da fonte, rapidamente descobri a minha rota.

Enquanto andava, fui olhando para dentro dos poiais e sorri a crianças nuas que brincavam na poeira. Comecei a ver diferenças entre uma casa e a seguinte: flores plantadas aqui e ali, lintéis pintados de vermelho ou verde, bancos postos à entrada. Sentia-me outra vez menina, com os olhos abertos a novas cenas, com o meu dia esvaziado de trabalho.

Perto da fonte, ultrapassei uma mulher grávida que cambaleava à minha frente.

- Este não é o teu primeiro, pois não? - perguntei-lhe com vivacidade, quando fiquei ao lado dela. Quando se virou para olhar para mim, vi a cara de Raquel, tal como esta deve ter sido, nos longos anos antes de, finalmente, ter tido José. A cara da mulher contorceu-se de raiva e de desespero. - Oh, minha querida - disse eu, envergonhada. - Falei antes de perceber o que isto significa para ti. Não temas, mãezinha. Este rapaz será saudável.

Os olhos dela abriram-se de medo, e com esperança, e a boca dela caiu, aberta.

- Como é que te atreves a falar comigo dessa maneira? Este irá morrer como os outros antes dele. Sou odiada pelos deuses. - As palavras saíram tintas de amargura e raiva. - Sou uma mulher sem sorte nenhuma.

A resposta saiu-me com a segurança da própria grande mãe, uma voz que veio através de mim, mas não de mim.

- Ele nascerá perfeito, e em breve. Se não for esta noite, será amanhã. Chama-me, e eu ajudar-te-ei nos tijolos e cortarei o cordão.

Ahouri era o seu nome, depois de termos enchido os nossos jarros, conduziu-me de volta à casa do padeiro. Ela vivia poucas portas a leste de Menna e, quando o tempo dela chegou, na noite seguinte, o marido veio procurar a parteira nascida no estrangeiro.

Com Meryt, assisti a um dos partos mais fáceis e menos complicados da minha vida. Ahouri soluçou de alívio, enquanto segurava a terceira criança do seu ventre, mas a única que nascera a respirar. Era um rapaz robusto, a quem ela chamou Den-nouri, o primeiro a quem era dado nome em minha honra. O marido dela, um oleiro, deu-me um belíssimo jarro, como forma de agradecimento, e beijou-me as mãos, e ter-me-ia levado para casa nos braços se eu o tivesse permitido.

Meryt espalhou a história de que eu tinha feito uma qualquer espécie de maravilha por Ahouri e, passado pouco tempo, estávamos mais ocupadas do que tínhamos estado em Tebas. A maior parte dos homens que trabalhava no vale era jovem, com mulheres em idade de ter filhos, e nós assistimos a uns bons dez partos por mês. Shif-ra já não tinha convidadas ociosas a quem dar de comer e, na verdade, rapidamente ganhou mais iguarias e linho do que precisava. Menna estava orgulhoso de ter mulheres tão respeitadas sob o seu teto e tratava-me como se eu fosse a sua própria tia.

As semanas e os meses passaram rapidamente e a vida no vale tomou um ritmo cadenciado. As manhãs eram os momentos de maior azáfama, antes que o grande calor caísse. Os homens saíam cedo, as crianças brincavam nas ruas enquanto as mulheres varriam a casa, cozinhavam as refeições do dia e iam buscar água às fontes, onde se trocavam notícias e faziam planos para o festival seguinte.

Embora o grande rio não fosse visível da cidade, regulava, mesmo assim, o fluxo da vida quotidiana naquele vale árido. As estações do rio eram celebradas pelos artesãos (que tinham crescido ao pé do Nilo a embeberem-se nos ritmos agrícolas) com grande exaltação. Após tantos anos na terra do grande rio, aprendi finalmente os belíssimos nomes das estações que ele regulava: Akhit a inundação, perit a descida das águas, sheniou a colheita. Cada uma delas tinha o seu feriado, o seu rito lunar, as suas próprias comidas e canções festivas.

Mesmo antes da minha primeira lua das colheitas no vale, veio um escriba à porta de Menna, com uma carta do meu filho. Ra-mose escreveu para dizer que estava outra vez a viver em Tebas, que lhe tinha sido atribuído o lugar de escriba do novo vizir, que se chamava Zafenat Paneh-ah, e que era o escolhido do rei. Enviou saudações em nome de Amon-Ra e Isis, e uma oração pela minha saúde. Era um bilhete formal, mas eu fiquei feliz por ter pensado em mim o suficiente para o enviar. E aquele pedaço de calcário, escrito pela sua própria mão, tornou-se a mais preciosa das minhas posses e, apesar dos meus protestos, tornou-se prova do meu estatuto de pessoa de importância.

Não muito depois de a carta do meu filho ter chegado, apareceu outro homem à porta, a procurar a mulher chamada Den-ner. Shif-ra perguntou-lhe se eram a mulher ou a filha dele que precisavam dos tijolos da parteira, mas ele disse:

- Nenhuma delas.

Então, ela perguntou se ele era um escriba com outra carta vinda de Tebas, mas ele disse que não. "Sou carpinteiro.”

Shif-ra foi ao jardim, com notícias curiosas acerca de um carpinteiro solteiro que procurava uma parteira. Meryt tirou os agudos olhos da fiação e, ostentando falso desinteresse, disse:

- Den-ner, vai ver o que é que o desconhecido quer. - Eu fui sem pensar.

Os olhos dele estavam mais tristes, mas, em todas as outras coisas, continuava o mesmo. Fiquei ali parada um momento, antes de Benia estender a mão direita na minha direção. Sem hesitar, pus a minha mão esquerda na mão dele. Estendi a minha mão direita e pegou nela com a esquerda dele. Ficamos assim, de mão na mão e a sorrir como tontinhos, sem falar, até que Meryt não conseguiu agüentar mais tempo sem saber o que se passava.

- ó Den-ner - chamou ela com falsa preocupação. - Estás aí, ou era um pirata que estava à porta?

Conduzi-o pela casa, até lá atrás, onde Meryt saltitava como um pássaro, de um pé para o outro, com o sorriso louco do deus Bes na cara. Shif-ra também sorria, tendo, justamente, sabido que Meryt passara os últimos meses à procura do artista que me tinha dado o seu coração, em conjunto com a caixa luxuosa que me acompanhava desde Tebas.

Elas disseram-lhe que se sentasse e ofereceram-lhe cerveja e pão. Mas Benia só olhava para mim. E eu correspondia ao olhar fixo dele.

- Vá lá, então - disse Meryt, dando-me um abraço e, depois, um empurrão. - Menna irá levar-te a tua caixa, de manhã, e eu irei atrás dele, com pão e sal. Vai, em nome da senhora Isis e do consorte dela, Osíris. Vai e alegra-te.

Ao deixar a casa da minha amiga para seguir um desconhecido, fiquei surpreendida com a minha própria certeza, mas não hesitei.

Caminhamos pelas ruas, lado a lado, durante o que me pareceu muito tempo, sem dizer nada. A casa dele era perto da margem da colônia, perto do caminho que levava aos túmulos, muitas ruas longe de Meryt. Enquanto caminhamos, lembrei-me das histórias das minhas mães acerca de mãos pintadas com henna, e de canções para o noivo e para a noiva, quando eles estavam a caminho da tenda nupcial. Sorri, ao pensar em mim mesma como estando numa espécie de procissão, naquele momento, a caminhar para o meu leito nupcial. Também sorri, ao pensar em como Meryt iria correr de fonte para fonte, na manhã seguinte, contando a toda a gente o caso entre Benia, o mestre carpinteiro, e Den-ner, a parteira mágica. Quase ri, ao pensar nisso. Benia interpretou o som que escapou da minha boca como um sinal de tensão. Pôs o braço em volta de mim, pôs os lábios contra o meu ouvido, e sussurrou:

- Não temas.

Palavras mágicas. Encostei a cabeça ao ombro dele, e fizemos o resto do caminho de mãos dadas, como crianças.

Quando chegamos a casa dele, que era quase tão grande quanto a de Menna, levou-me a ver todos os quartos e, com grande orgulho, mostrou-me a mobília que tinha construído: duas cadeiras que pareciam tronos, uma cama com ornamentações esculpidas, caixas de muitas formas. Ri-me, quando vi a cadeira de alívio, que era demasiado bonita para o propósito sujo a que servia.

- Pensei em ti, quando fiz estas coisas - disse ele, encolhendo os ombros de embaraço. - Pensei em ti aqui sentada, a dormir aqui, a pores as coisas na ordem, ao teu próprio modo. Quando a Meryt me encontrou, fiz isto para ti.

Pegou numa requintada caixa que estava num nicho da parede. Não era ornamentada, mas era perfeita, feita de ébano (madeira usada quase exclusivamente para os túmulos dos reis), polida até brilhar como lua negra.

- Para o teu estojo de parteira - disse ele, e estendeu-me.

Olhei fixamente para ela, por um momento, assoberbada pela generosidade e pela ternura.

- Não tenho nada para te dar como testemunho - disse eu.

Encolheu um ombro, num gesto que eu rapidamente vim a conhecer tão bem como conhecia as minhas próprias mãos.

- Não tens que me dar nada. Se me tirares isto das mãos livremente, a tua escolha será o teu testemunho.

E foi assim que me tornei uma mulher casada, no Egito.

Benia pôs uma refeição na mesa, para nós, que consistia em pão e cebolas e fruta, e ficamos sentados na cozinha e comemos e bebemos num silêncio nervoso. Eu era uma jovenzinha, da última vez que me tinha deitado com um homem. Benia tinha pensado em mim desde aquele dia no mercado, dois anos antes. Éramos tímidos como dois virgens que são casados pelos pais.

Depois de comermos, pegou na minha mão e levou-me para o quarto principal, onde estava a linda cama, cheia de linho lavado. Lembrou-me a cama de Ra-nefer, na casa de Nakht-ra. Lembrou-me a cama de Shalem, na casa do pai dele. Mas, então, Benia virou-me para ele, pousou as mãos na minha cara, e eu esqueci todas as camas que tinha visto antes daquele momento.

Deitarmo-nos juntos foi uma terna surpresa. Desde a nossa primeiríssima noite que o Benia teve grande cuidado com o meu prazer, e parecia descobrir o seu próprio prazer no meu. A minha timidez desapareceu, durante aquela noite, e, à medida que as semanas passaram, descobri poços de desejo e de paixão que nunca tinha suspeitado possuir. Quando Benia se deitava comigo o passado desaparecia e eu era uma alma nova, renascida no sabor da boca dele, no toque dos dedos dele. As enormes mãos agarravam-me o corpo e desatavam nós secretos, criados por anos de solidão e silêncio. A visão das suas pernas nuas (grossas e torcidas como cordas, por causa dos músculos) excitava-me tanto, que Benia me espicaçava, quando saía de manhã, levantando a saia, para revelar o topo da coxa, fazendo-me corar e rir.

O meu marido ia para a sua oficina todas as manhãs, mas, ao contrário dos cortadores de pedra e dos pintores, não tinha de trabalhar nos túmulos, pelo que voltava para mim à noite, que era quando eu e ele descobríamos ter ainda maior prazer um no outro - assim como o triste fato de eu não saber cozinhar.

Durante os anos que passei na casa de Nakht-ra, raramente vagueei para dentro da cozinha, quanto mais preparar uma refeição. Nunca tinha aprendido a fazer pão num forno egípcio, ou a amanhar peixe, ou a depenar aves. Comíamos fruta verde do jardim negligenciado de Benia e eu implorava pão a Menna. Envergonhada, pedi a Shif-ra que me desse uma lição de culinária, a que Meryt assistiu só para fazer pouco de mim.

Tentei recriar as receitas da minha mãe, mas não tinha os ingredientes, e tinha-me esquecido das proporções. Sentia-me tonta e envergonhada, mas Benia só se ria.

- Não vamos morrer à fome - disse ele. - Mantive-me vivo durante anos com pão pedido emprestado, e fruta, e com o ocasional banquete em casa dos meus amigos e da família. Não me casei contigo para seres minha cozinheira.

Mas, muito embora fosse uma estranha, na cozinha, encontrei grande alegria em tratar da minha própria casa. Era enorme doçura decidir onde devia ficar uma cadeira, decidir o que plantar no jardim. Apreciei o prazer de criar a minha própria ordem, trauteando canções enquanto varria o chão ou dobrava cobertores. Passava horas a dispor as panelas na cozinha, primeiro por ordem de tamanho e, depois, de acordo com a cor delas.

A minha casa era um mundo que me pertencia, um país em que eu era governante e cidadã, onde escolhia e servia. Uma noite, voltando para casa muito tarde, exausta, depois de ter assistido ao parto de gêmeos saudáveis, pensei que me tinha perdido no caminho. Parada no meio da rua, na noite escura, reconheci a minha casa pelo cheiro - uma mistura de coentros, de trevo, e do odor a cedro de Benia.

Meses depois de me ter mudado para a minha própria casa, Menna preparou um pequeno banquete para mim e para Benia. Os trabalhadores do meu marido cantaram canções da oficina deles. Os filhos de Meryt cantaram sobre pão. E, depois, todos os homens, com as suas mulheres e crianças, juntaram as vozes para cantarem canções de amor, das quais parecia haver um número infinito. Eu reagi timidamente à atenção que chovia sobre nós, às taças levantadas, aos sorrisos abertos, e aos beijos. Apesar de Benia e eu sermos demasiado velhos para aqueles disparates, estávamos atordoados de deleite um com o outro. Quando Meryt se inclinou para mim e me disse para parar de ficar ressentida com as pessoas por terem a oportunidade de se banharem na luz da nossa felicidade partilhada, pus de lado toda a timidez com gratidão e sorri aos meus amigos.

Tinha tido razão em confiar em Benia, que era a alma da bondade. Uma noite, deitamo-nos de costas a olhar fixamente para os céus. Havia apenas uma lasca de Lua e as estrelas dançavam por cima de nós, quando me contou a vida dele. As palavras vieram lentamente, pois grande parte das memórias eram tristes.

- Só tenho uma recordação do meu pai - disse Benia. - A visão das costas dele, enquanto se afastava de mim, num campo onde eu estava sentado atrás do arado, a desfazer torrões de terra. Tinha eu seis anos quando ele morreu, deixando a Mãe com quatro crianças. Eu era o terceiro filho. Ela não tinha irmãos, nem uma família de gente generosa. Teve de encontrar colocação para nós, portanto levou-me à cidade e mostrou as minhas mãos aos cortadores de pedra. Tomaram-me como aprendiz e ensinaram-me e fizeram-me trabalhar até que as minhas costas se tornaram rijas e as minhas mãos calejadas. Mas eu era a piada das oficinas. O mármore rachava se eu entrasse numa sala, o granito chorava se eu levantasse um cinzel para ele. Um dia, ao vaguear pelo mercado, vi um carpinteiro a arranjar um banco velho, para uma mulher pobre. Ele viu o meu cinto e fez uma vênia profunda, pois, muito embora eu fosse apenas um aprendiz, os cortadores de pedra, que trabalham em materiais imortais, são considerados muito melhores do que os que trabalham a madeira, cujas façanhas, mesmo as mais grandiosas, decaem como o corpo de um homem. Disse ao carpinteiro que desperdiçava o respeito dele em mim e que até o mero arenito me derrotava. Confessei que estava em perigo de ser mandado para a rua. O trabalhador da madeira tomou a minha mão na dele, virando-a para um lado e para o outro. Deu-me uma faca e um pedaço de madeira e pediu-me que fizesse um brinquedo para o neto dele. A madeira parecia quente e viva, e o boneco ganhou forma nas minhas mãos sem esforço. O próprio grão do pinho parecia sorrir para mim. O carpinteiro fez um sinal de assentimento, face à coisa que eu tinha feito, e levou-me para a oficina do professor dele, apresentando-me como um provável aprendiz. E foi aí que descobri o trabalho da minha vida.

Aqui, o meu marido suspirou.

- Foi, também, lá que eu conheci a minha mulher, que era uma criada na casa do meu mestre. Éramos tão jovens - disse ele suavemente, e no silêncio que se seguiu, eu percebi que ele tinha amado a esposa da sua juventude com todo o coração. - Depois da longa pausa, continuou: - Tivemos dois filhos.

Mais uma vez parou e, no silêncio, ouvi as vozes de rapazinhos; o riso tonto de amor de Benia; uma mulher a cantar uma canção de embalar.

- Morreram de febre do rio - disse Benia. - Tinha-os levado para fora da cidade, para ir ver o meu irmão, que, por casamento, fazia parte de uma família de agricultores. Mas quando chegamos à casa, encontramos o meu irmão a morrer e o resto da família dele infectado. A minha mulher tomou conta deles todos - sussurrou ele. - Devíamos ter-nos vindo embora - concluiu, com uma auto-reprovação ainda em carne viva, passados tantos anos. - Depois disso vivi apenas para o meu trabalho, e só amei o meu trabalho. Visitei as prostitutas, uma vez - confessou ele embaraçado. - Mas era demasiado triste. Até ao dia em que te vi no mercado, não me dei ao trabalho de ter esperança em nada. Quando te reconheci como minha amada, o meu coração voltou à vida. Mas quando desapareceste e pareceste desdenhar-me, fiquei zangado. Pela primeira vez na minha vida, tive raiva do céu, por me ter roubado a minha família e, depois, por te ter balouçado em frente aos meus olhos e te ter arrebatado para longe de mim. Estava furioso e assustado com a minha própria solidão. Por isso, arranjei uma mulher.

Eu tinha estado completamente quieta. até ali. mas aquele anúncio fez-me sentar.

- Sim, sim - disse ele, embaraçado. - A minha irmã encontrou-me uma rapariga casadoira. Uma criada em casa de um pintor, e eu trouxe-a para aqui, comigo. Foi um desastre. Eu era demasiado velho para ela, ela era demasiado parva para mim. Oh, Den-ner - disse ele, numa infelicidade de desculpas. - Nós éramos tão errados um para o outro, que até poderia parecer engraçado. Nunca falávamos. Tentamos partilhar a minha cama duas vezes, e até isso foi horrível. Por fim, ela teve mais coragem do que eu, a pobre rapariga. Passadas duas semanas, foi-se embora. Saiu de casa, enquanto eu estava a trabalhar, foi até ao barco e voltou para casa do pintor, onde ainda está. Resignei-me a fazer das bebidas fortes a minha companhia regular, até que Meryt me procurou. Visitou-me três vezes, antes que eu tivesse concordado em ir ver-te. Tenho sorte, por a tua amiga não entender o significado de "não".

Virei-me para o meu marido e disse:

- E a minha sorte é medida pela tua bondade, que não tem limites.

Fizemos amor muito lentamente, naquela noite, como se fosse a última vez que o fizéssemos, a chorar. Uma das lágrimas dele caiu na minha boca, onde se transformou numa safira azul, fonte de força e de esperança eterna.

Benia não me pediu que lhe contasse a minha história. Os olhos dele enchiam-se de perguntas, quando eu mencionava a maneira de fazer cerveja da minha mãe, ou a habilidade da minha tia como parteira, mas ele refreava sempre o impulso de saber. Acho que tinha medo que eu me esfumasse, se ele tentasse sequer perguntar o significado do meu nome, ou como é que se dizia "água" na minha língua natal.

Noutra noite sem luar, contei-lhe, quanto podia, da minha verdade: que o pai de Ra-mose era o filho de Ra-nefer, irmã de Nakht-ra, e que eu tinha vindo para Tebas depois do assassínio do meu marido, que tinha ocorrido na nossa própria cama. Quando me ouviu dizer isto, Benia estremeceu, pôs os braços dele à minha volta como se eu fosse uma criança, acariciou-me o cabelo e limitou-se a dizer: "Pobrezinha." Que era tudo o que eu desejava ouvir.

Nenhum de nós alguma vez deu voz aos nomes dos nossos amados mortos e, por este ato de respeito, eles permitiram que nós vivêssemos em paz com os nossos novos companheiros, e nunca assombraram os nossos pensamentos durante o dia, nem visitaram os nossos sonhos à noite.

A vida era doce, no Vale dos Reis, na margem ocidental do rio. Benia e eu encontrávamos quanto precisávamos um no outro. Na realidade, éramos ricos de todas as maneiras menos de uma, pois não tínhamos filhos.

Eu era estéril, ou talvez apenas demasiado velha para ficar grávida. Embora já tivesse vivido uma vida preenchida (perto de duas vintenas de anos), as minhas costas eram fortes e o meu corpo ainda obedecia à atração da Lua. Tinha a certeza de que o meu ventre era frio, mas, mesmo assim, nunca consegui arrancar a raiz da esperança do meu coração, e quedava-me triste a cada passagem da lua nova.

Apesar disso, as crianças não estavam completamente ausentes das nossas vidas, pois Meryt vinha sentar-se freqüentemente na soleira da nossa porta, com os netos atrás, que nos tratavam como tio e tia - especialmente a pequena Kiya, que gostava tanto de dormir na nossa casa, que a mãe por vezes a mandava ficar conosco, para ela me ajudar no jardim e para dar mais cor às nossas vidas.

Benia e eu partilhávamos histórias, à noite. Eu falava-lhe dos bebês que apanhava e das mães que morriam, embora felizmente fossem poucas. Ele falava das encomendas dele - cada uma delas um novo desafio, baseada não só nos desejos do comprador e dos construtores, mas também nos desejos da madeira na mão dele.

Os dias passavam em paz, e o fato de não haver muita coisa que diferenciasse um dia do dia seguinte parecia-me um grande presente. Eu tinha as mãos do Benia, a amizade da Meryt, o toque da carne de recém-nascido, os sorrisos das novas mães, uma menina que ria na minha cozinha, uma casa minha.

Era mais do que o suficiente.

 

Eu soube da mensagem de Ra-mose, antes mesmo de o mensageiro chegar à minha casa. Kiya correu até à minha porta, com a notícia de que um escriba tinha ido à casa de Menna procurar Den-ner, a parteira, e que aquele estava a caminho da porta da casa de Benia.

Fiquei deliciada com a idéia de mais uma carta do meu filho. Já tinha passado mais de um ano desde a última, e imaginei-me a mostrar a Benia a própria escrita do meu filho na lousa de calcário, quando ele chegasse a casa, naquela noite.

Fiquei à porta, ansiosa por descobrir o conteúdo da carta. Mas, quando o homem virou a esquina, cercado por um grupo de criancinhas excitadas, percebi que o mensageiro trazia a sua própria mensagem.

Ra-mose e eu olhamos fixamente um para o outro. Eu vi um homem que não conhecia a imagem de Nakht-ra, com a exceção dos olhos, que eram iguais aos do pai dele. Não vi nada de mim no príncipe do Egito que estava à minha frente, vestido de bom linho, com um peitoral de ouro a brilhar e sandálias novas nos pés cuidados.

Não sabia o que é que ele via, quando olhava para mim. Pareceu-me detectar desdém nos olhos dele, mas talvez isso fosse só o meu próprio medo. Perguntei-me se ele conseguiria ver que eu estava mais alta, agora que carregava menos dor às costas. O que quer que ele tenha visto ou pensado, éramos estranhos um para o outro.

- Desculpa-me os meus modos - disse eu. - Vem para dentro da casa de Benia e deixa-me dar-te cerveja fria e fruta. Eu sei que a viagem desde Tebas é poeirenta.

Ra-mose também recuperou, e disse:

- Perdoa-me, mãe. Já passou tanto tempo desde que vi pela última vez a tua amada cara. - As palavras eram frias, o abraço que me deu rápido e embaraçado. - Tomaria uma bebida de bom grado - disse ele, seguindo-me para dentro de casa.

Eu vi cada quarto através dos olhos dele, que estavam acostumados à beleza espaçosa de palácios e templos. A sala da frente, a minha sala, de que eu tanto gostava por causa da colorida pintura da parede, parecia subitamente pequena e vazia, e eu fiquei contente quando ele se apressou a passar por ela. A sala de Benia era maior e estava mobiliada com peças que só se encontram em grandes casas e túmulos. A qualidade das cadeiras e da cama recolheu a aprovação dos olhos do meu filho, e eu deixei-o lá, para ir buscar comida e bebida. Kiya tinha-nos seguido lá para dentro e olhava fixamente para o homem tão bem vestido que estava na minha casa.

- Esta é a minha irmã? - perguntou Ra-mose, apontando para a criança silenciosa.

- Não - disse eu. - Esta é a sobrinha de uma amiga, e é como uma sobrinha para mim. - A minha resposta pareceu dar-lhe alivio. - Os deuses parecem ter ordenado que tu continues a ser o meu único filho - acrescentei. - Estou contente por te ver saudável e cheio de sucesso. Diz-me: já és casado? Já sou avó?

- Não - disse Ra-mose. - Os meus deveres mantêm-me demasiado ocupado para que possa constituir a minha própria família - disse ele, com um tenso abanar de mão. - Talvez um dia a minha situação melhore e eu te possa dar pequeninos para tu embalares nos teus joelhos.

Mas isto não era mais do que conversa educada, que pairava no ar e cheirava a falsidade. O fosso entre nós era demasiado largo para qualquer tipo de familiaridade. Se e quando eu me tornasse avó, só conheceria os meus netos através de mensagens enviadas em lajes de calcário, que seriam deitadas fora, depois de lidas.

- Má - disse ele, depois de beber da sua taça. - Estou aqui não só para meu próprio prazer. O meu senhor envia-me para vir buscar a melhor parteira do Egito para assistir ao parto da mulher dele. Não, é verdade - disse ele, desmentindo o meu encolher de ombros. - Não digas nada que diminua a tua reputação, pois ninguém tomou o teu lugar em Tebas. A senhora do meu senhor teve dois abortos e quase morreu, por causa de um nado morto. Os físicos e necromantes não conseguiram fazer nada por ela e, agora, as parteiras têm medo de assistir uma princesa que teve tão pouca sorte no leito do parto. A própria mãe dela já morreu, e ela tem medo. O meu senhor adora a mulher e anseia por ter filhos dela. As-naat ouviu as criadas dela falar das tuas capacidades e pediu ao marido que procurasse a mulher nascida no estrangeiro com as mãos de ouro, que em tempos serviu as mulheres de Tebas. O meu senhor, que confia em mim para todas as coisas, incumbiu-me, também, desta questão - disse Ra-mose, com a boca a tornar-se menor e mais apertada, a cada menção que fazia ao seu senhor. - Imagina a minha surpresa, quando eu soube que ele não procurava mais do que a minha própria mãe. Ficou subitamente impressionado com a minha linhagem, quando soube que eras compatriota dele - acrescentou Ra-mose com ironia. - O vizir mandou-me pôr de lado assuntos de Estado para vir até ao Vale dos Reis e acompanhar-te a casa dele. Ordenou-me que não voltasse sem ti.

- Não gostas desse homem - disse eu brandamente.

- Zafenat Paneh-ah é vizir em Tebas por desejo do rei - disse o meu filho, em tom formal, mas de maldição. - Dizem que ele é um grande adivinho, que vê o futuro e que lê sonhos como um mestre escriba que lê atentamente os hieróglifos de um aluno. Mas é iletrado - disse Ra-mose com amargura. - Não consegue fazer contas ou escrever ou ler, que é a razão pela qual o rei me nomeou, a mim, o melhor aluno de Kar, o braço direito dele. E é aí que eu estou agora, sem mulher, sem filhos, subalterno de um bárbaro.

Fiquei muito direita, quando ouvi aquela palavra. Ra-mose notou a minha reação, e enrubesceu de vergonha.

- Oh, Mãe, tu não - disse ele rapidamente. - Tu não és como os outros, senão o meu pai e a minha avó nunca te teriam escolhido. Tu és boa - disse ele. - Não há mãe nenhuma no Egito que seja melhor do que tu. - A lisonja dele fez-me sorrir, contra a minha própria vontade. Abraçou-me e, por um momento, voltei a ter o rapaz carinhoso que tinha sido meu filho.

Bebemos a nossa cerveja em silêncio, durante um momento, e depois eu disse:

- É claro que te acompanharei a Tebas. Se o vizir do rei te comanda que me leves, irei. Mas, primeiro, tenho que falar com a minha amiga, Meryt, que é o meu braço direito na câmara de parto, e que deve vir comigo. Tenho de falar com o meu marido, Benia, o mestre carpinteiro, para que ele saiba onde é que eu vou e quando deverei voltar.

Ra-mose comprimiu os lábios outra vez.

- Não há tempo para isso, Má. Temos que ir embora agora, pois a senhora está em trabalho de parto, e o meu senhor espera-me a qualquer hora. Manda ali a rapariga informar os outros. Eu não me posso demorar.

- Temo que tenhas que te demorar - disse eu, e saí da sala. Ra-mose seguiu-me até à cozinha e agarrou-me pelo cotovelo, como um senhor que está prestes a bater numa criada desobediente.

Afastei-me e olhei para a cara dele.

- Nakht-ra preferiria morrer a tratar um parente, quanto mais uma mãe, desta maneira. É assim que honras a memória do único pai que alguma vez conheceste? Eu lembro-me dele como um homem nobre, a quem tu deves tudo, e cujo nome tu desonras.

Ra-mose parou e deixou cair a cabeça. A ambição e o medo dele estavam em conflito, e a sua cara mostrava a divisão que lhe ia na alma. Caiu no chão e fez uma vênia profunda, ficando com a testa a meus pés.

- Eu perdoo-te - disse eu. - Não vou demorar muito a preparar-me, e encontraremos a minha amiga e o meu marido no caminho para Tebas.

Ra-mose levantou-se outra vez do chão e esperou lá fora enquanto eu me preparava para uma viagem que detestava fazer. Enquanto juntava o meu estojo e umas poucas ervas, sorri, face ao meu próprio descaramento: envergonhar o meu poderoso filho por causa da falta de educação dele, insistindo nas minhas despedidas. Onde é que estava a mulher dócil que tinha vivido na casa de Nakht-ra todos aqueles anos?

Meryt estava à minha espera, à porta da casa do filho, faminta por noticias. Os olhos dela abriram-se muito, quando eu a apresentei a Ra-mose, que ela não via desde que ele era um rapaz. Ela cobriu a boca de espanto, quando ouviu o convite para assistir a mulher do vizir do rei, mas Meryt não me podia acompanhar.

Havia três mulheres na cidade que deviam estar a dar à luz a qualquer momento, e uma delas era uma parente, a filha do irmão de Shif-ra. Abraçamo-nos e ela desejou-me que eu tivesse o toque de Isis e a sorte de Bes. Ficou à porta e acenou alegremente.

- Traz-me de volta umas boas histórias - gritou ela, e o seu riso seguiu-me pela rua abaixo.

Benia não se separou de mim com riso. Ele e o meu filho olharam um para o outro com frieza, Benia mergulhou a cabeça em reconhecimento da posição do escriba e Ra-mose fez um sinal de assentimento face à autoridade do carpinteiro sobre uma tão importante oficina. Não havia maneira de eu e o meu marido nos despedirmos convenientemente um do outro. Trocamos os nossos votos de despedida com os olhos. Eu voltaria. Ele não ficaria satisfeito até que eu voltasse.

Ra-mose e eu saímos do vale, dizendo pouco um ao outro. Antes de iniciarmos a descida do vale para a margem do rio, pus a minha mão no braço dele, fazendo-lhe sinal para que parasse. Voltando-me para olhar para casa, deixei cair uma trança de arruda e um pedaço de pão do meu forno, para assegurar um rápido retorno.

Já era escuro, quando chegamos ao rio, mas não precisávamos de esperar pelo barco da manhã. A barca do rei, iluminada por uma centena de lâmpadas, estava à nossa espera. Muitos remos remaram e daí a nada estávamos a andar à pressa pelas ruas adormecidas da cidade e a entrar no grande palácio, onde Ra-mose me deixou à porta dos aposentos das mulheres. Fui levada a uma câmara onde uma mulher jovem e pálida estava empoleirada na sua grande cama, sozinha.

- Tu és Den-ner? - perguntou ela.

- Sim, As-naat - respondi eu suavemente, pousando os meus tijolos no chão. - Deixa-me ver o que é que os deuses nos reservaram.

- Temo que este também esteja morto - sussurrou ela. - Se assim for, deixa-me morrer com ele.

Encostei o meu ouvido à barriga dela e toquei-lhe no ventre.

- Este bebê está vivo - disse eu. - Não temas. Está apenas a descansar para a viagem.

Ao amanhecer, as dores dela tornaram-se sérias. As-naat tentou manter-se calada, como é suposto uma senhora da realeza fazer, mas a natureza tinha feito dela o tipo que grita muito, pelo que rapidamente encheu o ar com rugidos, a cada dor.

Pedi água limpa para lavar a cara da mãe, pedi palha fresca, pedi cones de lótus para refrescar o quarto, e cinco criadas, que se juntaram em volta da patroa para a encorajarem. Às vezes é mais fácil para as mulheres pobres, pensei eu. Mesmo as que não têm família vivem tão perto dos vizinhos, que os gritos de uma mãe em trabalho de parto fazem sair as outras mulheres, como gansos a responder ao chamamento de um líder em fuga. Mas os ricos estão rodeados de criadas, que têm demasiado medo das suas senhoras para agirem como irmãs.

As-naat não teve um parto fácil, mas não foi, nem de perto, o pior parto que eu tivesse visto. Ela fez força durante longas horas, apoiada por mulheres que se tornaram irmãs dela, pelo menos durante aquele dia. Logo depois do pôr do Sol, fez aparecer um filho magricela, mas saudável, que rugiu pelo peito dela, assim que o agarraram direito.

As-naat beijou-me as mãos, cobrindo-as de lágrimas de alegria, e mandou uma das criadas dela dizer a Zafenat Paneh-ah que ele era pai de um filho perfeito. Fui levada para um quarto silencioso, onde cai num sono escuro e sem sonhos.

Acordei na manhã seguinte encharcada em suor, com a cabeça a latejar e a garganta em fogo. Estendida na minha pequena cama, semicerrei os olhos, por causa da luz que entrava pelas janelas altas, e tentei lembrar-me da última vez que tinha estado doente. A minha cabeça martelava, e fechei os olhos de novo. Quando eles se abriram outra vez, a luz escoava-se do quarto.

Uma rapariga que estava sentada ao pé da parede apercebeu-se de que eu tinha aberto os olhos e trouxe-me de beber, e pôs-me uma toalha fria na testa. Passaram-se dois dias, ou talvez tivessem sido três, num nevoeiro de sono febril e de compressas. Quando a minha cabeça finalmente esfriou e a dor desapareceu, descobri que estava demasiado fraca para me levantar.

Por essa altura, tinha-me sido mandada uma mulher chamada Shery para tomar conta de mim. Olhei-a fixamente, de boca aberta, quando ela se apresentou, pois o nome dela, que significa "pequenina", era um bocado estranho na mulher mais gorda que eu alguma vez tinha visto.

Shery lavou o cheiro azedo do meu corpo e trouxe-me caldo e fruta, e ofereceu-se para me ir buscar qualquer outra coisa que eu desejasse. Nunca tinha sido tratada assim e, embora não me agradasse o fato de ela pairar por perto de mim, senti-me grata pela ajuda que me dava.

Após alguns dias, retomei forças e pedi a Shery que me desse noticias do bebê que eu tinha ajudado a nascer. Ficou deleitada com a minha pergunta e assentou o peso dela sobre um banco, pois Shery adorava ter público.

O bebê estava bem, relatou ela.

- Ele está faminto, e quase que gastou os mamilos da mãe, com a alimentação constante - disse Shery, com um sorriso malvado. Tivera pena da falta de filhos da sua senhora, mas achava que As-naat não passava de uma menina arrogante. - A maternidade vai-lhe ensinar tudo - confidenciou-me a minha nova amiga. - O pai deu ao rapaz o nome de Menashe, um nome horrível, que deve querer dizer qualquer coisa boa, na língua materna dele. Menashe. Soa a mastigar, não é assim? Mas tu também és de Canaã, não é assim?

Eu encolhi os ombros.

- Já foi há tanto tempo - disse eu. - Por favor, continua com a história, Shery. É quase mágico, o modo como as tuas palavras me fazem esquecer as minhas dores.

Olhou para mim com um ar perspicaz, para me fazer saber que a lisonja não conseguia esconder as minhas reticências. Mas continuou, de qualquer maneira.

- Zafenat Paneh-ah é, verdadeiramente, um arrogante filho da puta - disse ela, fazendo prova de confiança em mim, ao chamar nomes ao senhor dela. - Gosta de falar do baixo início de vida dele, como se isso fizesse ainda mais grandiosa a poderosa posição a que ascendeu. Mas isso não é grande coisa, no Egito. Muitos grandes homens (estadistas e artesãos, guerreiros e artistas) nascem nas camadas mais baixas. É o caso do teu próprio marido, hem, Den-ner? - perguntou ela, dando-me a perceber que a minha história não lhe era completamente desconhecida. Mas eu só sorri. - O cananita é muito bonito, não há dúvidas quanto a isso. As mulheres desfalecem ao vê-lo, ou, pelo menos, desfaleciam, quando ele era mais jovem. Os homens também são atraídos por ele, e não só aqueles que preferem rapazes. É claro que essa beleza não lhe serviu de muito, quando ele era jovem. Os próprios irmãos odiavam-no tanto, que o venderam a um grupo de mercadores de escravos, imaginas um egípcio a fazer tal coisa? Todos os dias agradeço aos deuses ter nascido no vale do grande rio.

- Sem dúvida - disse eu, medindo a largura dela, pois não havia outra terra que pudesse alimentar tal excesso. Shery percebeu o que eu queria dizer, e agarrou a sua parte do meio com ambas as mãos. - Ha, ha, sou uma criatura de proporções espantosas, não sou? O rei beliscou-me, uma vez, e disse que só os anões lhe agradam mais do que a visão de alguém grande e redondo, como eu. Nem imaginas a quantidade de homens que acham isto desejável - disse Shery. - Na minha juventude - começou ela a contar num sussurro conspiratório - dei prazer ao velho rei, até que a mulher dele ficou com ciúmes e fez com que me recambiassem para Tebas. Mas isso - piscou ela o olho é outra história, para outro momento. Tu queres a história desta casa, que já é suficientemente suculenta - confidenciou ela. - Zafenat Paneh-ah foi vendido como escravo, tal como eu disse, e os seus novos senhores eram porcos, os cananitas dos cananitas. Não tenho dúvidas de que ele foi espancado e violado e forçado a fazer o trabalho mais sujo. É claro que sua majestade não fala disso, hoje em dia. Zafenat Paneh-ah só recentemente adquiriu esse nome. "O Deus Fala e Ele Vive", realmente.! Costumavam chamar-lhe Pau, pois quando ele veio para o Egito era tão magricela quanto o filho recém-nascido. Quando os donos dele vieram para Tebas, foi vendido a Pu-ti-far, um guarda do palácio com dedos pegajosos, que vivia numa grande casa nos arredores da cidade. E porque Pau era mais esperto do que o seu senhor, foi posto a cuidar do jardim e, depois, foi-lhe dada a supervisão da prensagem do vinho. Por fim, foi posto acima dos outros criados da casa, pois Pu-ti-far amava o rapaz cananita, e usava-o para seu próprio prazer. Mas, a mulher de Pu-ti-far, uma grande beldade chamada Nebetper, também olhava para ele com desejo, e os dois tornaram-se amantes mesmo debaixo do nariz do senhor. Até há alguma coscuvilhice à volta de quem é que foi o pai da última filha dela. De qualquer forma, Pu-ti-far acabou por os descobrir na cama juntos, e já não podia fazer de conta que não sabia do que se passava. Portanto, fazendo um grande espetáculo da sua raiva e da sua vingança, mandou o Pau para a prisão.

Nesta fase dos acontecimentos já eu tinha perdido o interesse na história de Shery, que aparentemente não tinha fim. Queria dormir, mas não havia maneira de calar a mulher, que não viu a minha insinuação, quando eu bocejei, ou mesmo quando fechei os olhos.

- A prisão tebana não é para rir disse ela, num tom sombrio. E um buraco hediondo, onde os homens morrem assassinados e de desespero, tanto quanto de febre. Está cheio de loucos e de assassinos. Mas o diretor começou a ter pena do seu belo prisioneiro, que não era nem odioso, nem louco. Pouco tempo depois, começou a tomar as suas refeições com o cananita, que, por essa altura, já falava bem egípcio. O diretor era um solteirão e não tinha filhos, e tratava o Pau como a um filho. À medida que os anos passaram, ele deu ao Pau a responsabilidade pelos companheiros dele, até que, por fim, era ele que determinava qual era o homem que dormia ao pé de uma janela e qual é que era acorrentado perto da latrina, pelo que os prisioneiros faziam o que podiam para o subornar e lhe agradarem. Digo-te, Den-ner - disse Sherv, abanando a cabeça de admiração - onde quer que este homem vá, o poder parece passar para as mãos dele. Entretanto, o velho rei morreu, e o novo rei tinha o hábito de punir pequenos delitos contra ele mandando as pessoas para a cadeia. Se não lhe agradasse a textura do seu pão ao jantar, podia mandar o padeiro para a prisão por uma semana, ou mais. Os portadores das taças, os criados que serviam o vinho, os fazedores de sandálias, até os capitães da guarda eram mandados definhar naquele lugar, onde conheciam o Pau. Toda a gente ficava impressionada com o porte principesco dele e com a habilidade que ele tinha para interpretar sonhos e adivinhar o futuro. Ele disse a um pobre bêbado que este não veria o fim daquela semana e, quando o encontraram morto (e não tinha sido assassinado, atenção, tinha simplesmente sucumbido a tantos anos de bebida forte), os prisioneiros proclamaram-no como oráculo. Quando um portador de taças voltou da prisão com a história de um carcereiro que via o futuro, o rei mandou chamar o Pau e pô-lo a interpretar uma série de sonhos que o incomodavam havia meses. Não era um sonho difícil de interpretar, se queres saber a minha opinião - disse Shery. Peixe gordo a ser devorado por peixe espinhoso, vacas gordas a serem pisadas por vacas magras e, depois, sete espigas de trigo que eram abatidas, deixando sete espigas mortas. Qualquer mago meio tolo que tire pássaros de debaixo de cestos, no mercado, podia ter interpretado aquele sonho - disse Shery, com um desagradável risinho escarninho. - Mas os sonhos assombravam e amedrontavam o idiota do rei, e acalmou-o ouvir dizer que tinha sete anos para se preparar para a fome que aí vinha. E, por isso, ele fez o carcereiro ascender, um traidorzinho nascido no estrangeiro e iletrado tornou-se no primeiro dos comandantes dele. Imagino que o teu filho já te disse que este Zafenat Paneh-ah é completamente dependente de Ra-mose. E agora que Zafenat é não só vizir mas também pai, não haverá maneira de lhe quebrar o orgulho - fumegou Shery, azafamando-se à volta do quarto e preparando-me a cama, pois tinha falado durante todo o resto da tarde. - E ontem - resmungou ela, falando sozinha, - por aquela altura esse louco exigiu que o filho dele fosse circuncidado. Não quando estiver à porta da idade adulta, e for capaz de agüentar tal coisa. Não como as pessoas civilizadas, mas agora. Imediatamente! Consegues imaginar alguém a querer fazer isso a um bebê pequenino? Só prova quem nasça bárbaro nunca há de mudar. As-naat gritou e comportou-se como uma gata estripada, quando ouviu a ordem. E eu não a posso censurar por isso.

- José - sussurrei eu, horrorizada e não acreditando no que ouvia.

Shery deitou um olhar na minha direção.

- O quê? - disse ela. - O que é que disseste, Den-ner?

Mas eu fechei os olhos, sentindo-me subitamente incapaz de respirar. Percebi, ao mesmo tempo, porque é que tinha sido chamada a Tebas e porque é que a Shery me tinha contado a infindável história do vizir. Mas, com certeza, que não podia ser verdade. Era a febre que enfraquecia a razão. Tonta e enfraquecida, deitei-me na cama, a ofegar.

Shery percebeu que havia algo de errado comigo.

- Den-ner - disse ela. - Não estás bem? Precisas de alguma coisa? Talvez já estejas preparada para comer alguma coisa sólida, agora. Mas aqui vem uma coisa que te vai alegrar - disse ela, olhando para cima, ao ouvir o som de passos. - O teu filho vem visitar-te. Aqui está Ra-mose. Vou trazer-vos a ambos alguma coisa para se refrescarem - murmurou ela suavemente, e deixou-me com o meu filho.

- Mãe? - disse ele, com um tom formal e com uma rígida vênia. Mas, quando viu a minha cara, assustou-se. - Má? O que é que foi? Disseram-me que tinhas melhorado muito e que te podia ver, hoje - disse ele, com dúvidas. - Mas, talvez este não seja o melhor momento.

Virei a cara para a parede e abanei a mão, para que ele saísse do quarto. Ouvi a Shery a sair com ele e a murmurar uma explicação. Os passos apressados dele a afastarem-se, à distância, foram a última coisa de que tive conhecimento, antes de adormecer.

Shery tinha falado a Ra-mose da nossa conversa, e repetiu a palavra que eu tinha dito antes de voltar a cair numa febril escuridão mental. E, assim, o meu filho tomou "José" na boca dele e, sem se fazer anunciar, foi à sala grande, onde o vizir do Egito estava sentado sozinho, a sussurrar palavras reconfortantes ao seu filho primogênito, que tinha sido circuncidado naquele dia.

- José - disse Ra-mose, atirando o nome contra ele, como um desafio. E aquele que era conhecido como Zaphenat Paneh-ah, tremeu.

- Conheces uma mulher chamada Den-ner? - perguntou ele.

Durante um momento, Zafenat Paneh-ah não disse nada e, depois, perguntou:

- Dina? - O senhor olhou o seu escriba nos olhos. - Tive uma irmã chamada Dina, mas ela morreu há muito tempo. Como é que te chegou o nome dela? O que é que sabes de José? -   perguntou ele, em tom de comando.

- Dir-te-ei o que há para dizer, depois de descreveres a morte dela - disse Ra-mose. - Mas só então.

A ameaça presente na voz dele inflamou José. Mas, muito embora estivesse sentado num trono com o seu filho saudável nos braços, e houvesse guardas prontos a fazer o que lhes pedisse, sentiu-se compelido a responder. Tinha passado uma vida inteira, desde a última vez em que ele ouvira o seu próprio nome, vinte anos, desde a última vez em que ele dissera o nome da irmã em voz alta.

E, portanto, ele começou. Numa voz calma, que fez com que Ra-mose se chegasse mais perto do trono, disse-lhe que Dina tinha ido ao palácio de Siquém com a mãe dele, Raquel, a parteira, para cuidar de um parto que havia naquela casa.

- Um príncipe da cidade reclamou-a como noiva dele - disse José, e Ra-mose ficou a saber como Jacob tinha rejeitado o belo preço de noiva e como, finalmente, o aceitara apenas nas mais cruéis condições.

Ra-mose estremeceu, ao saber o nome do seu pai dos lábios de José, mas, no momento seguinte, soube que os meus irmãos, os seus próprios tios, tinham morto Shalem cruelmente, na própria cama dele. Ra-mose mordeu a língua, para não gritar.

José afirmou a repugnância que sentia pelo crime, e proclamou a sua própria inocência.

- Dois dos meus irmãos ensangüentaram as mãos - disse ele, mas admitiu que talvez quatro deles devessem ter tido um papel qualquer no assassínio. - Todos nós fomos punidos. Ela amaldiçoou-nos a todos. Alguns dos meus irmãos ficaram doentes, outros viram os filhos deles morrer. O meu pai perdeu toda a esperança e eu fui vendido como escravo. Eu costumava culpar a minha irmã pelos meus infortúnios, mas já não o faço. Se soubesse onde é que ela está enterrada, iria derramar libações e construir uma estela à memória dela. Eu, pelo menos, sobrevivi à vilania dos meus irmãos e, com o nascimento deste filho, o deus do meu pai mostra-me que eu não morrerei esquecido. Mas o nome da minha irmã foi apagado, como se ela nunca tivesse respirado. Ela era minha irmã de leite - disse José, abanando a cabeça. - É estranho falar dela, agora que sou pai. Talvez dê um nome em honra dela ao meu próximo filho - e calou-se.

- E o que é José? - perguntou Ra-mose.

- José é o nome que a minha mãe me deu - disse, calmamente, Zafenat Paneh-ah.

Ra-mose virou-se para se ir embora, mas o vizir chamou-o de volta.

- Espera! Temos um acordo. Diz-me como é que soubeste o meu nome e o nome da minha irmã.

Ra-mose parou e, sem se virar para ele, disse:

- Ela não está morta.

As palavras pairaram no ar.

- Ela está aqui, no teu palácio. Na verdade, foste tu que pediste que ela fosse trazida aqui. Den-ner, a parteira, aquela que ajudou o teu filho a nascer, é a tua irmã, Dina. A minha mãe.

Os olhos de José abriram-se de espanto, e ele sorriu como uma criança feliz. Mas Ra-mose cuspiu aos pés dele.

- Queres que te chame tio? - sibilou ele. - Odiei-te desde o principio. Roubaste-me uma posição que é minha por direito e promoves-te aos olhos do rei por causa das minhas capacidades. Agora, vejo que tu arrasaste a minha vida desde que eu nasci! Assassinaste o meu pai na primavera da vida dele. Tu e os teus irmãos bárbaros também assassinaram o meu avô, que, embora fosse cananita, agiu honradamente. Arrancaste o coração da minha avó. Traíste a tua irmã, enviuvaste a minha mãe, e fizeste de mim um órfão e um proscrito. Quando eu era rapaz, a criada da minha avó disse-me que, quando eu finalmente encontrasse os assassinos do meu pai, os nomes deles iriam rasgar-me a alma em pedaços. As palavras dela eram verdadeiras. Tu és meu tio. Oh deuses, que pesadelo - gritou Ra-mose. - Um assassino e um mentiroso. Como é que te atreves a dizer que estás inocente dessa abominação? Talvez não tenhas erguido tu próprio nenhuma espada, mas não fizeste nada para os impedir. Deves ter sabido alguma coisa da conspiração, tu, e o teu pai, e o resto da tua semente. Vejo o sangue do meu pai nas tuas mãos. A tua culpa ainda está nos teus olhos.

José desviou os olhos.

- Não me resta fazer mais nada senão matar-te, ou morrer cobarde. Se eu não vingar o meu pai, serei indigno desta vida, quanto mais da outra.

A voz de Ra-mose, levantada em ódio, alertou os guardas, que o subjugaram e o levaram, enquanto Menashe berrava nos braços do pai.

Quando eu, finalmente, acordei, Shery estava sentada ao meu lado, com uma cara preocupada.

- O que é que foi - perguntei.

- Oh, senhora - disse ela, com uma grande pressa de me contar tudo o que sabia -, tenho más noticias. O teu filho e o vizir discutiram e Ra-mose está debaixo de guarda nos aposentos dele. Diz-se que o senhor está furioso e dizem que o jovem escriba corre sério perigo. Não sei qual foi a causa da discussão deles, ainda não, pelo menos. Mas, quando souber qual foi, digo-te imediatamente.

Levantei-me cambaleante, mas determinada.

- Shery - ordenei eu. - Ouve-me, pois eu não irei discutir, nem me irei repetir. Tenho de falar com o senhor da casa. Vai e anuncia-me.

A criada fez uma vênia a partir da cintura, mas, com uma voz baixinha, disse:

- Não podes ir ter com Zafenat Paneh-ah com o ar com que estás. Deixa-me dar-te um banho e arranjar-te o cabelo. Põe um vestido lavado, para que possas argumentar como uma senhora, e não como uma mendiga.

Abanei a cabeça, em sinal de assentimento, subitamente assustada com a cena que se seguiria. Que palavras é que eu poderia usar com um irmão que não via há tantos anos? Agachei-me na banheira, enquanto Shery despejava água fria em cima de mim, e encostei-me para trás, enquanto ela me penteava e me arranjava o cabelo. Sentia-me como uma escrava prestes a ser exibida perante uma galeria de compradores.

Quando fiquei pronta, Shery conduziu-me à porta da sala de Zafenat Paneh-ah, onde ele estava sentado com a cabeça nas mãos.

- Den-ner, a parteira, pede uma audiência - disse ela.

O vizir levantou-se e acenou para que eu entrasse.

- Deixem-nos - rosnou ele. Shery e todos os criados desapareceram. Estávamos sozinhos. Nenhum de nós se mexeu. Ficamos nos nossos lugares, em lados opostos da sala, e olhamos fixamente um para o outro.

Embora os anos lhe tivessem custado as faces sedosas e alguns dos dentes, José ainda era bonito de cara, e forte, ainda era o filho de Raquel.

- Dina - disse ele. - Ahatti, irmãzinha - disse ele, na língua da nossa juventude. - A tumba libertou-te.

- Sim, José - disse eu. - Estou viva, e espantada por estar na tua presença. Mas, a única razão pela qual venho ter contigo, é para te perguntar o que é feito do meu filho.

- O teu filho sabe a história da morte do pai dele e ameaça a minha vida - disse José, com rigidez. - Considera-me responsável pelos pecados dos meus irmãos. Só a ameaça que ele me fez bastava para causar a sua execução, mas, porque ele é teu filho, vou só mandá-lo para longe. Não sofrerá qualquer espécie de mal. Prometo - disse José amavelmente. - Recomendei que o rei o encarregasse de uma prefeitura no Norte, onde ele não ocupará o segundo lugar de ninguém. Com o tempo, apaixonar-se-á pelo mar (apaixonam-se todos) e construirá uma vida temperada com o ar salgado e a água salgada, e não desejará nenhuma outra. Tens que lhe dizer que faça o que eu digo e que esqueça essa conversa de vingança - disse José. - Tens que fazer isso agora, esta noite. Se ele levantar a mão contra mim, se ele sequer me ameaçar na presença da minha guarda, terá que morrer.

- Duvido que o meu filho escute as minhas palavras - disse eu tristemente. - Ele odeia-me, pois eu sou a causa da infelicidade dele.

- Disparate - disse José, com a suprema autoconfiança que fazia os nossos irmãos terem tantos ciúmes dele. - Os homens do Egito honram as suas mães como nenhuns outros homens no mundo.

- Tu não sabes - disse eu. - Ele chamava mãe à avó. Eu não era mais do que a ama dele.

- Não, Dina - disse José. - Ele sofre demais, para que seja essa a verdade. Irá ouvir-te, e terá que ir.

Olhei para o meu irmão e vi um homem que não conhecia.

- Farei como dizes, senhor - disse eu, com a voz de uma boa criada. - Mas não me peças mais nada. Deixa-me sair deste lugar, pois ele é um túmulo para mim. Ver-te, é como entrar no passado, onde está a minha tristeza. E, agora, por causa de ti, perco toda a esperança no meu filho.

José assentiu.

- Eu compreendo, Ahatti, e será como dizes, exceto numa questão. Quando a minha mulher for para os tijolos outra vez (e eu já sonhei com um segundo filho), terás que vir assisti-la. Poderás vir sem me veres, se quiseres, e serás paga. Na verdade, serás paga com terra, se quiseres, tu e o carpinteiro.

Controlei-me, face à sugestão de que era pobre, e anunciei:

- O meu marido, Benia, é um mestre artesão no Vale dos Reis.

- Benia? - perguntou ele, e a cara de José caiu de arrependimento. Esse era o nome pelo qual o nosso irmão Benjamim (o último filho da minha mãe, que morreu ao dar-lhe vida) era chamado, em criança. Eu costumava odiar o Benia por a ter morto, mas, agora, acho que daria metade do que é meu, só para pegar na mão dele.

- Não tenho qualquer desejo de o ver - disse eu, surpreendendo-nos a ambos com a raiva que havia na minha voz. - Já não pertenço a esse mundo. Se as minhas mães morreram, então sou órfã. Os meus irmãos não significam mais para mim do que o gado da nossa juventude. Tu e eu fomos familiares, quando éramos crianças, quando nos conhecíamos suficientemente bem para partilharmos o que ia nos nossos corações. Mas isso foi noutra vida.

A grande sala estava em silêncio, com cada um de nós perdido em recordações.

- Vou ter com o meu filho - disse eu, por fim. - Depois, ir-me-ei embora.

- Vai em paz - disse José.

Ra-mose estava deitado de barriga para baixo, nos seus belos aposentos. O meu filho não se mexeu, nem falou, nem demonstrou qualquer sinal de reconhecimento. Eu falei para as costas dele.

As janelas dele abriam-se sobre o rio, que brilhava ao luar.

- O teu pai adorava o rio - disse eu, lutando contra as lágrimas. - E tu adorarás o mar. Não te vou ver outra vez, Ra-mose, e não haverá qualquer outra oportunidade de te dizer estas palavras outra vez. Ouve a tua mãe, que vem para te dizer adeus. Não te peço que perdoes os meus irmãos. Eu nunca o fiz. Nunca o farei. Só peço que me perdoes a mim a má sorte de ter sido irmã deles. Perdoa-me, por nunca te ter falado do teu pai. Foi por ordem da tua avó, pois ela pensava que o segredo era a única maneira de te poupar a agonia que agora te abate. Ela sabia que o passado podia ameaçar o teu futuro, e temos que te continuar a proteger contra os acidentes do teu nascimento. A verdadeira história da tua família ainda só é conhecida de ti, de mim, e de Zafenat Paneh-ah. Não há qualquer necessidade de a contar a mais ninguém. Mas, agora que partilhamos este segredo, vou-te contar mais uma coisa. Ra-mose, o teu pai chamava-se Shalem, e era tão belo quanto o pôr do Sol que lhe dava o nome. Escolhemo-nos um ao outro, para nos amarmos.

O nome que eu te dei, quando estavas no meu peito, foi .Bar-Shalem, filho do pôr do Sol, e o teu pai vivia em ti. A tua avó chamou-te Ra-mose, fazendo de ti um filho do Egito e do deus Sol. Em qualquer uma das línguas, e em qualquer um dos dois países, és abençoado pelo grande poder dos céus. O teu futuro está escrito na tua cara e eu rezo para que tenhas a plenitude de anos que foi negada ao teu pai. Que possas encontrar contentamento. Lembrar-me-ei de ti de manhã e ao fim da tarde, todos os dias, até que feche os meus olhos para sempre. Perdoo-te todos os pensamentos desagradáveis que tiveres acerca de mim e as maldições que possas atirar ao meu nome. E, quando finalmente me perdoares, proíbo-te de sofreres um só momento de culpa em meu nome. Peço só que lembres a minha bênção a derramar-se sobre ti, Bar-Shalem Ra-mose.

O meu filho não se mexeu do seu leito, nem disse uma palavra, e eu retirei-me, com o coração despedaçado, mas livre.

 

Voltar para casa, foi como renascer. Enterrei a cara no linho da cama e passei as mãos por cada peça de mobiliário, cada planta do jardim, deliciada por descobrir que as coisas estavam onde eu as tinha deixado. Kiya entrou e encontrou-me a abraçar um jarro de água. Mandei-a ir dizer a Meryt que estava em casa e, depois, fui, tão depressa quanto pude, à oficina de Benia.

O meu marido viu-me aproximar e correu para me receber. Parecia que tínhamos estado afastados durante anos, e não durante dias.

- Estás tão magra, esposa - sussurrou ele enquanto me abraçava.

- Fiquei doente, na cidade - expliquei. -Mas já estou outra vez saudável.

Estudamos a cara um do outro.

- Aconteceu mais qualquer coisa - disse Benia, passando os dedos ao longo da minha testa, e lendo qualquer coisa dos choques dos últimos dias. - Voltaste para ficar, minha amada? - perguntou ele, e eu percebi a causa das sombras por baixo dos olhos dele.

Sosseguei-o com um beijo que nos fez ganhar um grande grito dos homens na oficina.

- Estarei em casa assim que puder - disse ele, beijando-me as mãos. Eu assenti, demasiado feliz para dizer mais.

Meryt estava à minha espera com pão quente e cerveja, quando cheguei a casa. Mas quando me viu gritou.

- O que é que te fizeram, irmã? Estás magra como um osso, e os teus olhos têm ar de teres chorado um rio.

Falei à minha amiga da febre e da discussão de Ra-mose com o seu senhor. Quando a minha amiga me ouviu dizer que ele tinha sido colocado no Norte, os olhos dela encheram-se de comiseração.

Depois de termos comido o que Meryt tinha trazido, ordenou-me que me deitasse na cama e massageou-me os pés. Toda a dor das semanas anteriores se derreteu, quando me massageou os dedos dos pés e me embalou os calcanhares. Depois de eu estar em paz, e aquietada, pedi-lhe que se sentasse ao meu lado, peguei-lhe na mão, ainda quente e úmida de óleo, e contei-lhe o resto do que me tinha acontecido em Tebas, incluindo o ter descoberto que Zafenat Paneh-ah, o braço direito do rei, era o meu irmão José.

Meryt ouviu-me calada, observando a minha cara, enquanto eu contava a história das minhas mães e a história de Siquém e do assassínio de Shalem. A minha amiga não se mexeu e não deixou escapar um som, mas a cara dela revelava o trabalho do coração, mostrando-me horror, raiva, comiseração, compaixão.

Quando acabei, ela abanou a cabeça.

- Vejo por que é que não me disseste isto antes - disse ela com tristeza. - Gostava de ter podido ajudar-te a suportar esse fardo desde o início. Mas, agora, que confias o teu passado à minha guarda, ele está seguro. Sei que não precisas de nenhuma jura de mim, senão não me terias dito nada. Minha querida - disse ela, pondo a minha mão na cara dela - sinto-me muito honrada por ser o vaso em que despejas esta história de dor e de força. Durante todos estes anos, nenhuma filha me poderia ter feito mais feliz ou mais orgulhosa do que tu. Agora que sei quem tu és, e o que é que a vida te custou, só te respeito mais, por te poder contar entre aqueles que amo.

Depois de um confortável silêncio, Meryt juntou as coisas dela e preparou-se para se ir embora.

- Vou-me embora, para te dar tempo para te preparares para a chegada do Benia - disse ela, tomando as minhas duas mãos nas dela. Bênçãos de Isis. Bênçãos de Hathor. Bênçãos das mães da tua casa.

Mas, antes de sair, a cara da minha amiga voltou a adquirir o seu sorriso endiabrado e, com um amigável olhar de soslaio, disse:

- Venho visitar-te amanhã. Vê lá se consegues levantar-te tempo suficiente, entre hoje e amanhã, para me fazeres qualquer coisa para comer, para variar, hein?

Benia entrou a correr, pouco depois, e caímos na cama por fazer como amantes jovens, sem fôlego e apressados. Depois, enrodilhados na roupa um do outro, dormimos o sono faminto dos amantes reunidos. Acordei uma vez, durante a noite, estremunhada e a sorrir, a detestar fechar os olhos à alegria de estar em casa.

Depois do meu regresso, nunca mais perdi inteiramente a minha veneração pelos prazeres normais. Levantava-me antes do Benia, para estudar a cara dele, e respirava silenciosas orações de agradecimento. Ao ir até à fonte, ou ao arrancar ervas daninhas no horto, era assoberbada pela percepção de que tinha passado um dia inteiro sem o peso do passado a esmagar-me o coração. O canto dos pássaros levava-me às lágrimas e, cada nascer do Sol, parecia um presente moldado para os meus olhos.

Quando a mensagem do vizir chegou à nossa porta, como eu sabia que chegaria um dia, congelei de horror, face à idéia de sair nem que fosse por um só dia, mas, para meu alívio, a carta não me chamava para a grande casa na margem oriental. O sonho de José tinha-se cumprido, nascera-lhe um segundo filho. Este veio tão rapidamente, no entanto, que As-naat não teve tempo de me mandar chamar, antes que aquele que se chamou Efraim tivesse encontrado o seu caminho para o mundo.

Embora eu não lhe tivesse prestado qualquer serviço, Zafenat Paneh-ah enviou um presente de três peças de linho branco como a neve. Quando Benia me perguntou porque é que o presente era tão extravagante, eu contei-lhe tudo.

Era a terceira vez que dava voz a toda a história: primeiro a Werenro, depois a Meryt. Mas, daquela vez, o meu coração não bateu muito, nem os meus olhos se encheram, enquanto a contava. Era só uma história do passado longínquo. Depois de me ouvir até ao fim, Benia abraçou-me, para me reconfortar, e eu aninhei-me na paz protetora das mãos de Benia e do coração dele, que batia.

Benia era o rochedo sobre o qual a minha vida se levantava com firmeza, e Meryt era o meu poço. Mas a minha amiga era mais velha do que eu uma geração, e a idade estava a fazer estragos.

Os últimos dentes tinham-lhe caído da boca, algo por que ela afirmava estar grata.

- Acabou-se a dor - riu-se ela, baixinho. - Acabou-se a carne, - também disse ainda, com um triste encolher de ombros. Mas, a nora dela, Shif-ra, cortava em bocadinhos e fazia cada prato em purê, e a minha amiga manteve-se forte e continuou a desfrutar da sua cerveja e das suas piadas tanto quanto sempre o tinha feito. Assistiu a muitos partos comigo, deleitando-se com o sorriso dos recém-nascidos, chorando pelas mortes que se nos atravessavam no caminho. Partilhamos refeições sem conta, e eu sempre deixei a mesa dela a rir-me baixinho. Ambas sabíamos que os dias dela tinham conta certa, e dávamo-nos beijos de despedida de cada vez que nos separávamos. Não havia nada entre nós que tivesse sido deixado por dizer.

Veio a manhã em que Kiya apareceu à porta, para dizer que Meryt não se conseguia levantar da cama.

- Estou aqui, querida, irmã - disse eu, quando cheguei ao lado dela, mas a minha velha amiga já não me podia cumprimentar. Não se conseguia mexer de todo. O lado direito da cara dela tinha sofrido um colapso e a respiração era trabalhosa.

Respondeu ao aperto dos meus dedos na mão esquerda dela, e piscou os olhos para mim.

- Oh, irmã - disse eu, tentando não chorar. Mexeu-se um pouco e eu percebi que, embora estivesse a aproximar-se da morte, Meryt estava a tentar reconfortar-me. Isso não podia ser. Olhei-a nos olhos e consegui fazer um sorriso de parteira. Eu sabia qual era o meu papel. Sussurrei:

Não temas, o momento está a chegar Não temas, os teus ossos São fortes.

Não temas, a ajuda está por perto Não temas, Anábis é um companheiro gentil.

Não temas, as mãos da parteira são espertas.

Não temas, a terra está por baixo de ti.

Não temas, mãezinha.

Não temas, mãe de todos nós.

Meryt relaxou e fechou os olhos, cercada de filhos e filhas, netos e netas. Deu um longo suspiro, que soou como o vento a passar pelas canas, e deixou-nos.

Juntei-me às mulheres, na aguda e penetrante canção de morte que alertou toda a vizinhança para a morte da amada parteira, mãe, e amiga. As crianças desataram a chorar, com aquele som, e os homens coçavam os olhos com punhos úmidos. Eu tinha o coração despedaçado, mas fora reconfortada por um dos últimos presentes de Meryt para mim, pois, no seu leito de morte, tornei-me num dos membros da família dela, que a chorava.

Na verdade, fui tratada como a mais velha das parentes femininas e foi-me dada a honra de lhe lavar os mirrados braços e pernas. Embrulhei-a no bom linho do Egito que era meu e que eu podia dar. Arranjei os membros dela na posição agachada de um bebê que está prestes a entrar no mundo e sentei-me com ela durante a noite.

À alvorada, levamo-la para descansar, numa gruta que se abria sobre os túmulos dos reis e das rainhas. Os filhos dela enterraram-na com os colares e os anéis que lhe pertenciam. As filhas dela enterraram-na com o fuso, a taça de alabastro e outras coisas pertences que ela adorava. Mas o estojo de parteira não tinha lugar na outra vida, e passou para a guarda de Shif-ra, que segurou as ferramentas de Meryt com veneração, como se fossem feitas de ouro.

Enterramos Meryt com canções e lágrimas e, no caminho para casa, rimo-nos em honra dela, recordando o que ela se deleitava com surpresas, piadas, comida, e todos os prazeres da carne. Eu tinha esperança em que ela continuasse a desfrutar desses prazeres na outra vida, que ela acreditava ser muito parecida com este mundo, só que sem morte, e eterna.

Naquela noite, sonhei com Meryt e acordei a rir, com alguma coisa que ela tinha dito. Na noite seguinte, sonhei com Bilhah, acordando com lágrimas na cara, que sabiam a especiarias que a minha tia usava nos cozinhados dela. Uma noite mais tarde, Zilpa recebeu-me, e nós voamos pelo céu noturno transformadas num par de falcões fêmeas.

Quando o Sol se pôs mais uma vez, eu sabia que iria encontrar-me com Raquel, em sonhos. Ela estava tão bonita quanto eu a recordava. Corremos pelo meio de uma chuva quente, que me lavou completamente, como a um bebê, e acordei a cheirar como se me tivesse banhado em água de um poço.

Ansiosamente aguardei o meu sonho com Lea, mas ela não veio na noite seguinte, nem na noite que se seguiu a essa. Só na escuridão da lua nova é que fui visitada pela mãe da minha carne. Foi a primeira vez que o meu corpo não deu o que era devido à lua. Eu tinha passado o tempo de dar vida, e a minha mãe, que tinha carregado tantas crianças, veio reconfortar-me.

- Tu, agora, és a mais velha - disse suavemente. - Tu és a avó, que dá voz à sabedoria. Honra te seja feita - disse a minha mãe Lea, curvando a testa até ao chão perante mim, pedindo perdão. Levantei-a, e ela transformou-se num bebê embrulhado em panos. Segurando-a nos meus braços, implorei o perdão dela, por alguma vez ter duvidado do seu amor por mim, e senti o seu perdão em todo o meu coração. Fui ao túmulo de Meryt, na manhã que se seguiu ao sonho com Lea, e derramei vinho, agradecendo-lhe por ter mandado as minhas mães de volta para mim.

Com Mervt morta, eu era a mulher sábia, a mãe, a avó, e, mesmo, a bisavó daqueles que me rodeavam. Shif-ra (que se tornara avó recentemente) e Kiya (prestes a casar-se) davam-me assistência, onde quer que eu fosse colocar os tijolos. Elas aprenderam o que eu tinha a ensinar e, passado pouco tempo, foram sozinhas salvar as mulheres do medo e da solidão do parto. As minhas aprendizes tornaram-se minha irmã e minha filha. Nelas, encontrei água nova no poço que eu julguei para sempre seco, após a morte de Meryt.

Passaram-se meses, e anos. Os meus dias eram ocupados, as minhas noites pacíficas. Mas não há paz duradoura, antes do túmulo, e, uma noite, depois de Benia e eu termos ido para a cama, José apareceu-nos portas adentro.

A visão dele, ali, vestido com uma longa capa negra que o transformava numa sombra, era tão estranha, que eu pensei que ele fizesse parte de um sonho. Mas o tom de voz do meu marido acordou-me para aquele momento, subitamente escuro e perigoso.

- Quem é que entra na minha casa sem bater? - rosnou ele, como um cão que sente o perigo, pois o homem que ali estava não era, obviamente, um pai preocupado, à procura da parteira.

- É José - sussurrei eu.

Acendi lâmpadas e Benia ofereceu ao meu irmão a melhor cadeira que tínhamos. Mas José insistiu em seguir-me até a cozinha, onde eu lhe servi uma taça de cerveja, que ficou por tocar.

O silêncio era espesso e rígido. As mãos do Benia estavam fechadas, pois receoso de que eu estivesse prestes a ser-lhe tirada, o maxilar dele estava trancado, pois não tinha a certeza de como deveria falar ao nobre que ali estava empoleirado num banco, na cozinha dele. José fez-me olhares fugidios, cheios de urgência tácita, pois não tinha vontade de falar em frente de Benia. Eu olhei de uma cara para a outra e apercebi-me de quão velhos tínhamos ficado.

Por fim, eu disse ao José:

- Benia é teu irmão, agora. Diz ao que vieste.

- É o papá - disse ele, usando uma palavra de bebê que eu não ouvia desde Canaã. - Está a morrer, e nós temos de ir ter com ele.

Benia fungou de nojo.

- Como é que te atreves? - disse José, pondo-se de pé de um salto, e pondo a mão na adaga que trazia à cintura.

- Como é que tu te atreves? - respondeu Benia com igual paixão, aproximando-se. - Porque é que a minha mulher deve ir chorar ao lado da cama onde está deitado um pai que assassinou a felicidade dela e a própria honra dele? Um pai que te mandou para as facas longas de homens que eram conhecidos pela crueldade deles?

- Conheces a história, então - disse José, subitamente derrotado. Sentou-se, pousou a cabeça nas mãos e gemeu. - Eles mandaram-me palavra do Norte, onde os meus irmãos e os filhos dele cuidam dos rebanhos do Egito. Judá diz que o nosso pai não chegará ao fim desta estação e que Jacob deseja dar a bênção dele aos meus filhos. Eu não quero ir - disse José, olhando para mim como se eu tivesse alguma resposta para ele. - Pensei que tinha acabado o meu dever lá. Pensei que até tinha perdoado ao meu pai, embora não sem que eles pagassem um preço. Quando eles vieram à minha casa, a morrer de fome e à procura de refúgio, eu revirei a faca na ferida. Acusei-os de roubo e forcei-os a rastejarem perante o poderoso Zafenat Paneh-ah. Vi Levi e Simeão porem as testas no chão a meus pés, e tremerem. Regozijei-me com a humilhação deles e mandei-os de volta a Jacob, exigindo que fosse mandado o Benjamim. Castiguei o nosso pai por escolher favoritos. Também castiguei os meus irmãos, e fiz com que eles temessem pela vida. Agora, o velho quer pôr as mãos nas cabeças dos meus rapazes, para lhes transmitir a bênção. Não os filhos de Ruben ou de Judá, que o sustentaram estes anos todos, e que lhe aturaram as disposições e os caprichos. Nem mesmo os filhos de Benjamim, o último filho. Eu conheço o coração de Jacob. Ele quer reparar os males do passado, ao abençoar os meus filhos. Mas eu temo por eles, com tal direito de primogenitura. Eles herdarão memórias atormentadoras, e sonhos estranhos. Acabarão por odiar o meu nome.

José continuou a queixar-se, enquanto eu e Benia escutávamos. As dores do passado agarravam-se a ele, apanhadas nas dobras da sua longa capa negra. Esbracejou como um cordeiro que se está a afogar.

Enquanto falava de anos fartos e de anos magros, de solidão e de noites passadas em claro, do modo como a vida o tinha tratado de forma tão cruel, eu procurei o irmão de que me lembrava, o companheiro de brincadeiras que escutava as palavras das mulheres com respeito e que, em tempos, olhava para mim como amiga dele. Mas não vi nada daquele rapaz no homem absorto em si próprio que estava perante mim, cuja disposição e cuja voz pareciam mudar de momento a infeliz momento.

- Sou um fraco - disse José. - A minha raiva não diminuiu, e não sinto, no meu coração, pena de Jacob, que se tornou cego, como o pai dele antes dele. E, no entanto, não lhe consigo dizer que não.

- As mensagens perdem-se - disse eu com suavidade. - Os mensageiros por vezes são assaltados na estrada.

- Não - disse José. - Essa mentira acabaria por me matar. Se eu não for, ele vai assombrar-me para sempre. Eu irei, e tu irás comigo - disse José, subitamente falando alto, um homem habituado ao poder.

Não tentei esconder o meu nojo, face ao tom de voz dele e, quando viu o meu desprezo, deixou cair a cabeça de vergonha. E, então, o meu irmão curvou-se e pôs a testa no chão de terra da cozinha de um carpinteiro, e pediu-me desculpa, e ao Benia também.

- Perdoa-me, irmã. Perdoa-me, irmão. Não quero ver o meu pai a morrer. Não quero vê-lo de todo. E, no entanto, não consigo desobedecer-lhe. É verdade que te posso obrigar a ires comigo, por nenhuma outra razão que não seja segurares-me a mão. Mas também tu prosperarás nisto.

Levantou-se e reassumiu o comportamento de Zafenat Paneh-ah - Vocês serão os meus convidados - disse suavemente. - O mestre carpinteiro irá fazer negócios para o rei. Eu vou comprar madeira no Norte e necessito dos serviços de um artista que saiba escolher a melhor madeira. Irás ao mercado de Mênfis e verás a oliveira, o carvalho, e o pinho em abundância, escolhendo só aquilo que ficar bem na casa e no túmulo do rei. Trarás honra à tua profissão, e ao teu próprio nome.

As palavras dele eram sedutoras, mas Benia só olhou para mim.

Depois, José aproximou a cara dele da minha, e disse com suavidade:

- Ahatti, esta é a tua última oportunidade de veres os frutos dos ventres das tuas mães, os netos e as netas delas. Pois, aqueles não são só os filhos de Jacob, também são os filhos de Lea, Raquel, Zilpa e Bilhah. Tu és a única tia do sangue das mães deles, e as nossas mães desejariam que tu visses as netas delas. Afinal, tu és a única filha, aquela que elas amavam.

O meu irmão conseguia convencer qualquer um, e falou até o Sol se levantar e Benia e eu estarmos exaustos. Embora nunca tivéssemos dito que sim, não havia maneira de dizer não a Zafenat Paneh-ah, o vizir do rei, tal como não havia maneira de dizer não a José, filho de Raquel, neto de Rebeca.

Fomos embora com ele, de manhã. No rio, acolheu-nos uma barca de luxo inultrapassável, cheia de cadeiras e de camas, pratos e taças pintados, vinho doce e cerveja fresca. Havia flores e frutos por todo o lado. Benia ficou atordoado com tanta riqueza, e nenhum de nós conseguia olhar para as caras dos escravos nus que nos serviam da mesma forma servil com que serviam Zafenat, e os dois filhos dele, e o nobre séquito.

Os rapazes já eram suficientemente crescidos para deixarem crescer o cabelo, e eram bons rapazes, curiosos acerca dos convidados do pai, mas suficientemente educados para não fazerem perguntas. Benia deleitou-os esculpindo pequenas criaturas em madeira, a cada qual deu seu nome. Apanhou-me a observá-lo, e o seu sorriso triste disse-me que tinha feito o mesmo para os filhos dele, que tinham morrido havia muito tempo.

As-naat não veio conosco e José nunca disse uma palavra acerca da mulher. O meu irmão era assistido por uma jovem guarda, todos eles tão bonitos quanto ele fora na juventude, e eu via-o freqüentemente a olhar fixamente para os belos companheiros dele com desejo. Ele e eu mal falamos um com o outro, na viagem para Norte. Tomamos as nossas refeições separadamente, e ninguém suspeitou que a mulher do carpinteiro tinha alguma coisa a dizer ao poderoso vizir. Quando, de fato, trocávamos palavra (para dizermos bom dia ou para fazermos algum comentário acerca das crianças), nunca falamos na nossa língua materna. Isso poderia ter chamado a atenção para o fato de ele ter nascido no estrangeiro, questão sensível para muitos dos que estavam ao serviço do rei.

José manteve-se distante, na proa da barca, debaixo de um toldo brilhante, embrulhado na sua capa escura. Se eu tivesse estado sozinha, poder-me-ia ter sentado como ele, revivendo a viagem que me tinha trazido à casa de Nakht-ra, onde me tinha tornado mãe, lembrando, também, a perda do meu filho. Se não fosse o Benia, teria pensado no iminente encontro com os meus irmãos e teria aberto as velhas feridas no meu coração.

Mas Benia estava sempre por perto, e o meu marido era cativado pelas vistas de uma viagem que era, para ele, a dádiva de uma vida extra. Dirigiu os meus olhos para as velas no rio ou, quando o ar estava parado, para a harmonia dos remos dos remadores. Nada lhe escapava à atenção, apontava os horizontes e as árvores, as aves em vôo, os homens que aravam os campos, as flores silvestres, um campo de papiro que parecia um campo de cobre ao pôr do Sol. Quando passamos por cardume de cavalos-marinhos, a excitação dele só foi igualada pela dos rapazes de José, que se amontoaram ao lado dele, para verem os filhos de Taweret a chapinhar.

No terceiro dia da nossa viagem pus de lado o meu fuso e fiquei sentada em silêncio, a ver a água a bater nas margens, com a cabeça tão calma e tão vazia de palavras como a superfície do rio. Inalei o cheiro argiloso do rio e ouvi o som da água no casco, que era como uma brisa constante. Deixei os meus dedos arrastarem-se pela água, vendo-os ficar enrugados e brancos.

- Estás a sorrir! - disse o Benia, apanhando-me de surpresa.

- Quando eu era criança disseram-me que só encontraria contentamento ao lado de um rio - contei-lhe eu. - Mas foi uma falsa profecia. A água acalma-me o coração e os pensamentos, e é verdade que eu me sinto em casa ao pé da água, mas encontrei a minha alegria em montes secos, onde a fonte está distante e o pó é espesso.

Benia apertou-me a mão, e vimos o Egito a passar, verde-esmeralda, enquanto o sol fazia a água brilhar em incontáveis pontos de luz.

De manhã, e ao pôr do Sol, quando a barca atracava para passar a noite, Menashe e Efraim saltavam para a água. Os criados ficavam de vigia aos crocodilos e às cobras, mas o meu marido não conseguia resistir ao convite dos rapazes para que se juntasse a eles. Tirava a saia e saltava para a água, com um rugido a que respondiam infantis gritos agudos. Eu ria-me, ao ver o meu marido mergulhar abaixo da superfície e disparar outra vez para cima, como uma garça, como um rapaz. Quando contei ao Benia um sonho em que eu era um peixe, ele sorriu e prometeu-me que faria com que isso acontecesse.

Por isso, uma noite, sob a lua cheia, Benia levou o dedo aos lábios e levou-me até à margem. Em silêncio, fez gestos para que eu me deitasse nos braços dele, onde me agarrou sem esforço, como se eu fosse tão leve como um bebê e ele fosse tão forte quanto dez homens juntos. Com as mãos, persuadiu-me e sossegou-me, até eu deitar a cabeça para trás e abrir as mãos, e me deitar como se estivesse numa cama. Quando relaxei,o meu marido libertou-me, e eu só sentia as pontas dos dedos dele nas minhas costas, enquanto o rio me abraçava e o luar tornava a água prateada.

Todas as noites me fui tornando mais arrojada. Aprendi a flutuar sem o apoio das mãos do meu marido e, depois, a mexer-me de costas, voltada para a Lua minguante. Ele mostrou-me como ficar à superfície, como nadar como um cão, dando pontapés e amassando a água para manter a querida vida. Eu ri-me, e engoli água. Era a primeira vez que me divertia como uma criança, desde que o meu filho era bebê.

Por alturas do fim da viagem para Norte, eu conseguia esconder a cabeça debaixo de água, e até conseguia nadar lado a lado com o Benia. Sussurrando na nossa pequena cama, depois, contei-lhe a primeira vez em que tinha visto alguém nadar, no rio, no caminho para fora de Haran.

- Eles eram egípcios - contei eu, recordando as suas vozes. - Pergunto-me se estariam a comparar a água daquele rio com a deste, tal como eu estou a fazer esta noite.

Voltamo-nos um para o outro e fizemos amor tão silenciosamente como os peixes, e dormimos como crianças embaladas no peito do grande rio - fonte e realização.

Em Tanis, deixamos o rio e iniciamos a viagem até aos montes, onde os filhos de Jacob viviam. No Egito, os agricultores e mesmo os fabricantes de curtumes eram mais estimados do que os pastores, cujo trabalho era considerado a mais baixa e hedionda das ocupações. O objetivo oficial da viagem de Zafenat Paneh-ah era fazer um censo dos rebanhos e selecionar os melhores animais para a mesa do rei. Na realidade, a tarefa estava abaixo da posição dele, era o tipo de coisa habitualmente atribuída a um escriba que estivesse a meio da hierarquia. Mesmo assim, servia de desculpa ao meu irmão para visitar os parentes que ele não via havia dez anos, desde que lhes concedera refúgio da fome em Canaã.

Viajar na caravana de Zafenat Paneh-ah não tinha nada a ver com as viagens da minha juventude. O meu irmão era carregado numa liteira pelos carregadores militares e os filhos dele iam montados em burros, logo atrás. Benia e eu, que andamos a pé, estávamos cercados de criados, que nos ofereciam cerveja fresca ou fruta mal levantássemos uma mão para protegermos os olhos. À noite descansávamos em grossas camas, debaixo de tendas de um branco puro.

O luxo não era a única diferença. Esta viagem foi muito silenciosa, quase calada. José sentava-se sozinho, com o sobrolho franzido, os nós dos dedos brancos nos braços da liteira. Eu também estava inquieta, mas não havia maneira de falar com o Benia sem sermos ouvidos.

Só os filhos de José andavam despreocupados. Menashe e Efraim chamaram Huppim e Muppim aos burros e inventaram histórias acerca deles. Atiravam uma bola para trás e para a frente, entre eles, e riam-se, e queixavam-se de ter os traseiros negros, de tanto cavalgar. Se não fosse por eles, ter-me-ia esquecido de como é que se sorria.

Passados quatro dias, chegamos ao acampamento onde viviam os filhos de Jacob. Fiquei chocada com o tamanho do acampamento. Tinha imaginado um ajuntamento como o de Siquém, com uma dúzia de tendas e metade desse número de fogueiras para cozinhar. Mas havia uma aldeia inteira: vintenas de mulheres de cabeça coberta precipitavam-se para trás e para a frente, carregando jarros de água e lenha. Gritos de bebês levantavam-se do murmúrio da minha língua materna a ser falada, gritada, e cantavam em sotaques que me eram tão familiares como desconhecidos. Mas o que me levou às lágrimas foram os cheiros: cebolas a fritar em azeite, o pó almiscarado dos rebanhos a misturar-se com o perfume do pão a cozer. Só a mão do Benia me impediu de vacilar.

Uma delegação dos líderes da tribo destacou-se para receber o vizir, o parente deles. José enfrentou-os com os filhos a seu lado, flanqueado pelos belos guardas. Atrás dele vinham criados, carregadores e escravas e, a uma certa distância, para um dos lados, um carpinteiro e a mulher dele. A cara de José estava quase branca de ansiedade, mas ele mostrou os dentes num grande sorriso falso.

Os filhos de Jacob estavam perante nós, mas eu não reconheci nenhum daqueles velhos. O mais velho, com a cara cheia de profundos sulcos e escondida por sujos cabelos brancos, falou lentamente, pouco à vontade, na língua do Egito. Entregou saudações formais a Zafenat Paneh-ah, o protetor e salvador deles, aquele que os tinha trazido em paz para aquela terra e lhes dera de comer.

Foi só quando ele mudou para a fala do seu nascimento, que eu reconheci o orador.

- Em nome do nosso pai, Jacob, dou-te as boas-vindas, irmão, às nossas humildes tendas - disse Judá, que tinha sido tão bonito na juventude. - O papá está perto do fim - disse ele. - Nem sempre está em si, e agita-se na cama, chamando por Raquel e Lea. Acorda de um sonho e amaldiçoa um filho, mas, noutra hora, abençoa o mesmo homem com profusos elogios e promessas. Mas ele tem esperado por ti, José. Por ti, e pelos teus filhos.

Enquanto Judá falava, eu comecei a reconhecer alguns dos homens que estavam atrás dele. Lá estava Dan, com o cabelo preto e parecido com musgo da mãe dele, com a pele ainda sem rugas e os olhos calmos, como os de Bilhah. Já não era difícil distinguir Naftali de Issacar, pois Tali era coxo e Issacar curvado. Zebulon ainda se parecia com Judá, embora aparentasse menos o desgaste da vida. Vários dos homens mais novos, que eu pensava que seriam meus sobrinhos, faziam lembrar Jacob tal como ele era na juventude. Mas eu não conseguia adivinhar de quem é que eles eram filhos, nem qual deles era Benjamim.

José ouviu Judá sem, sequer uma vez, cruzar o olhar com o do irmão, cujos olhos estavam fixos nele. Mesmo quando Judá acabou de falar, José não respondeu, nem levantou a cabeça.

Por fim, Judá falou outra vez.

- Estes devem ser os teus rapazes. Que nomes é que lhes deste?

- Menashe é o mais velho, e este é Efraim - respondeu José, pondo as mãos nas cabeças deles à vez. Ao ouvirem os nomes deles, os rapazes olharam para o pai, com as caras a brilharem de curiosidade acerca do que estava a ser dito naquela língua que soava estranha e que eles nunca tinham ouvido da boca do pai deles. - Eles mal compreendem porque é que estamos aqui - disse José. - Eu próprio também não sei.

A raiva passou rapidamente pela cara de Judá, mas rapidamente mudou para derrota.

- Não há maneira de desfazer os erros do passado - disse ele. - Mesmo assim, é bondade tua dar ao velho uma morte em paz. Ele viveu em tormento, desde o momento em que te dissemos morto, e nunca recuperou, mesmo depois de ter sabido que ainda estavas vivo. Vem. Vamos ver se o nosso pai está acordado. Ou queres comer e beber antes?

- Não - respondeu José. - É melhor ir fazer isso.

Com os filhos pela mão, José seguiu Judá para a tenda em que Jacob estava a morrer. Eu fiquei parada, com o resto dos criados e do séquito de Zafenat Paneh-ah, vendo-os desaparecer na aldeia poeirenta.

Eu estava agarrada à terra, a tremer, furiosa com o fato de nenhum deles me ter reconhecido. Mas também estava aliviada. O Benia levou-me suavemente para o local em que os criados estavam a levantar tendas para passar a noite, e esperamos lá.

Mal houve tempo para enumerar os meus sentimentos, antes de José reaparecer, com Menashe e Efraim, que tinham olhos fixos no chão, de medo. O meu irmão passou por mim, e entrou na tenda dele sem uma palavra.

O Benia não conseguiu persuadir-me a comer, naquela noite, e, muito embora eu me tivesse deitado ao lado dele, não fechei os olhos. Olhei fixamente para a escuridão e deixei o passado como que quebrar em ondas sobre mim.

Recordei a bondade de Ruben e a beleza de Judá. Recordei a voz de Dan a cantar e o modo como Gad e Aser imitavam o nosso avô até eu cair de riso. Recordei-me de como Issa e Tali choravam, quando Levi e Simeão os atormentavam e lhes diziam que eles podiam ser trocados, aos olhos da mãe. Recordei o modo como Judá me tinha feito cócegas até eu fazer xixi, em tempos, mas nunca tinha dito nada a ninguém. Recordei o fato de Ruben costumar andar comigo aos ombros, de onde eu conseguia tocar as nuvens.

Por fim, não consegui mais estar deitada quieta e saí para a noite, onde José estava à minha espera, andando de um lado para o outro, ao lado da minha tenda. Afastamo-nos lentamente do acampamento, pois não havia lua, e a escuridão cobria tudo. Depois de termos posto alguma distância entre nós e o acampamento, José atirou-se para o chão, e contou-me o que se tinha passado.

- A princípio, ele não me reconheceu - disse o meu irmão. - O papá choramingava como uma criança cansada, a gritar:

"José. Onde é que está o José?" Eu disse: "Aqui estou." Mas, mesmo assim, ele perguntava: "Onde é que está o meu filho José? Porque é que ele não vem?" Eu pus a boca ao pé do ouvido dele, e disse: "O José está aqui, com os filhos dele, tal como pediste." Depois de muitas destas trocas de palavras, subitamente percebeu e agarrou-me a cara, as mãos, a roupa. A chorar, repetiu o meu nome uma e outra vez e implorou o meu perdão, o meu e o da minha mãe. Amaldiçoou a memória de Levi e Simeão, e de Ruben, também. Depois gritou, por não ter perdoado ao seu primogênito. Pronunciou o nome de cada um dos meus irmãos, abençoando-os e amaldiçoando-os, transformando-os em animais, suspirando por causa das diabruras de infância deles, chamando as mães deles, para lhes limparem o rabo. É horrível envelhecer daquela maneira - disse José, com pena e com nojo na voz. - Rezo para que morra antes que venha o dia em que eu não saiba se os meus filhos são crianças ou avós. Jacob pareceu adormecer, mas, um momento depois, gritou outra vez: "Onde é que está o José?", como se ainda não me tivesse beijado. "Aqui estou eu", respondi. "Deixa-me abençoar os rapazes", disse Jacob. "Deixa-me vê-los agora," Os meus filhos estavam a tremer, ao meu lado. A tenda tresandava à doença dele, e a gritaria dele tinha-os assustado, mas eu disse-lhes que o avô desejava abençoá-los e empurrei-os na direção dele, um de cada lado. Pôs a mão direita na cabeça do Efraim, e a mão esquerda na do Menashe. Abençoou-os em nome de Abraão e de Isaac, depois sentou-se, e rugiu: "Lembrem-se de mim!" Eles encolheram-se, e esconderam-se atrás de mim. Eu disse a Jacob quais eram os nomes dos netos dele, mas não me ouviu. Olhou fixamente, sem vista, para o teto da tenda, e falou com Raquel, pedindo-lhe desculpas por ter abandonado os ossos dela ao lado de uma estrada. Chorou pela amada dele e implorou-lhe que o deixasse morrer em paz. Não se deu conta de nada, quando eu me vim embora com os meus filhos.

Enquanto José falava, senti um velho peso voltar ao meu coração, e reconheci o peso que tinha carregado durante os meus anos na casa de Nakht-ra. O fardo não era feito de tristeza, tal como eu tinha pensado. Era raiva, o que se levantava de mim e encontrava a sua voz perdida.

- E de mim? - disse eu. - Ele falou de mim? Arrependeu-se do que me fez? Falou do assassínio de Siquém? Chorou pelo sangue inocente de Shalem e de Hamor? Arrependeu-se da matança da própria honra dele?

Fez-se silêncio, no chão, onde José estava deitado.

- Ele não disse nada sobre ti. Dina está esquecida na casa de Jacob.

As palavras dele deviam ter-me enterrado, mas não o fizeram. Deixei José no chão e cambaleei de volta para o acampamento, sozinha. Subitamente, estava exausta, e cada passo era um esforço, mas os meus olhos estavam secos.

Depois de José ter chegado, Jacob deixou de comer e de beber. A morte dele chegaria dentro de horas, no máximo dentro de dias. Por isso, esperamos.

Passei o tempo sentada à porta da minha tenda, a fiar linho, estudando os filhos de Lea, Raquel, Zilpa e Bilhah. Vi os sorrisos e os gestos das minhas mães e ouvi o riso delas. Algumas das ligações eram tão claras como o dia. Reconheci uma cópia exata de Bilhah, naquela que tinha de ser a filha de Dan, uma outra menina usava o cabelo da minha tia Raquel. O nariz afilado de Lea evidenciava-se por todo o lado.

No segundo dia da vigília de morte de Jacob, aproximou-se de mim uma rapariga, com um cesto de pão fresco nas mãos. Apresentou-se na língua do Egito como Gera, filha de Benjamim e da esposa egípcia dele, Neset. Gera tinha curiosidade em descobrir como é que uma mulher com o meu estatuto se sentava e fiava, enquanto as outras que assistiam Zafenat Paneh-ah cozinhavam e iam buscar coisas e limpavam o dia inteiro.

- Eu disse às minhas irmãs que tu deves ser a ama dos filhos do vizir meu tio - disse ela. - É assim? Adivinhei bem?

Eu sorri, e disse:

- Adivinhaste bem - e pedi-lhe que se sentasse e que me falasse das irmãs e irmãos dela. Gera aceitou o meu convite com um sorriso satisfeito e começou a estender a teia e a trama da família dela.

- As minhas irmãs ainda são crianças - disse a rapariga, apesar de ela própria ainda estar a alguns anos da idade adulta. - Temos gêmeas, Meuza e Naamah, que são demasiado jovens para sequer fiarem. O meu pai, Benjamim, também teve filhos em Canaã, de uma outra esposa que morreu. Os meus irmãos chamam-se Bela, Becher, Ehi e Ard, e são rapazes razoavelmente bons, embora não os conheça melhor do que aos filhos dos meus tios, que são tão numerosos quanto os nossos rebanhos, e tão barulhentos quanto estes - disse ela, e piscou-me o olho, como se fôssemos velhas amigas.

- Tens muitos tios? - disse eu.

- Onze - disse Gera. - Mas os três mais velhos estão mortos.

- Ah - assenti eu, despedindo-me de Ruben, no meu coração.

A minha sobrinha acomodou-se ao meu lado, retirando um fuso do avental e começando a trabalhar, enquanto desenrolava o rolo da história da nossa família.

O mais velho era Ruben, filho de Lea, a primeira mulher do meu avô. No caso dele, o escândalo é que Ruben foi encontrado deitado com Bilhah, a mais jovem das esposas de Jacob. Jacob nunca perdoou o seu primogênito, mesmo depois de Bilhah ter morrido, muito embora Ruben lhe tivesse dado netos e mais riqueza do que o resto dos irmãos juntos. Dizem que o meu tio chorou pelo perdão de Jacob, quando morreu, mas o pai dele não o foi ver. Simeão e Levi, também nascidos de Lea, foram assassinados em Tanis, quando eu era bebê. Disso, ninguém sabe a história toda, mas, entre as mulheres, diz-se que eles tentaram levar a melhor a um mercador numa pequena questão qualquer. Para vítima deles, escolheram o mais impiedoso assassino do Egito, que os matou, por causa da ganância deles.

Gera olhou para cima, e viu Judá a entrar na tenda de Jacob.     - O tio Judá, filho de Lea, tem sido o líder do clã desde há muitos anos. Ele é um homem justo e carrega bem os fardos da família, embora alguns dos meus primos pensem que ele se tornou demasiado cauteloso, na velhice.

Gera continuou, ensinando-me a história dos meus irmãos e das esposas deles, apontando para os filhos deles, recitando os nomes de sobrinhas e sobrinhos, carne da minha carne, com os quais eu nunca poderia trocar uma palavra.

Ruben tinha três filhos com uma esposa chamada Zillah. A segunda mulher dele, Attar, deu-lhe duas meninas, Bina e Efrat.

Simeão tinha cinco filhos da hedionda Ialutu, que Gera lembrava como uma horrível rabugenta com mau hálito. Tinha outro filho de uma mulher siquemita, mas esse tinha entrado num wadi inundado, e afogara-se.

- A minha mãe diz que ele se suicidou - disse Gera num sussurro. - Aquele homem ali chama-se Merari - disse ela. - O milagre, nele, é que ele é um bom rapaz, apesar de ter nascido de Levi e Inbu. Os irmãos dele são tão maus como o pai deles era.

Um homem de boca aberta arrastou-se até ao pé de Gera, que lhe deu um bocado de pão e o mandou embora.

- Aquele era Shela - explicou ela -, filho de Judá com Shua. Ele tem a cabeça fraca, mas é um doce. O meu tio teve uma segunda esposa chamada Tamar, que lhe deu Peretz e Zerach, e a minha melhor amiga, Dafna. Ela é a beldade da minha família, nesta geração. Aquela ali, é Hesia - disse ela, acenando com a cabeça a uma mulher quase da minha idade. - Esposa de Issacar, filho de Lea. Hesia é a mãe de três filhos, e de Tola, que tomou a vida de parteira. Se Dafna é a herdeira da beleza de Raquel, Tola tem as mãos de ouro dela.

- Quem é Raquel? - perguntei eu, esperando ouvir dizer mais coisas sobre a minha tia.

- É a mãe do teu senhor - disse ela, surpreendida com a minha ignorância. - Embora suponha que não há razão para saberes o nome dela. Raquel era a segunda esposa, a amada de Jacob, a beldade. Ela morreu a dar à luz Benjamim, meu pai.

Eu assenti com a cabeça, e dei-lhe uma palmadinha na mão, vendo nela a forma dos dedos de Raquel.

- Continua, querida - disse eu. - Conta-me mais coisas. Gosto do som dos nomes da tua família.

- Dan foi o único filho de Bilhah - disse Gera. - Ela era a terceira esposa de Jacob, criada de Raquel, e aquela que se deitou com Ruben. Dan tem três filhas de Timna, chamadas Edna, Tirza e Berit. Todas elas são mulheres de bom coração, são elas que cuidam de Jacob. Zilpa era a quarta esposa, criada de Lea, e teve gêmeos. O primeiro foi Gad, que amava a esposa dele, Serah Imnah, com um grande amor. Mas ela morreu, a dar à luz a sua quarta criança, a primeira filha, Serah, que tem o dom do canto - disse Gera. - Gad, o gêmeo de Aser, casou-se com Oreet - prosseguiu ela. - A criança mais velha deles era uma filha, Areli, que deu à luz uma filha, na semana passada, cujo nome é Nina. O Naftali de Lea foi pai de seis crianças de Yedida, cujas filhas são Elisheva e Vaniah. E, é claro, conheces os filhos de José melhor do que ninguém - disse Gera. - Ele não tem filhas? - perguntou ela.

- Ainda não - respondi eu.

Gera avistou duas jovens raparigas e, apontando para mim, fez um sinal de assentimento com a cabeça de forma enfática.

- Aquelas são duas das filhas de Zebulon, filho de Lea. A mãe delas, Ahavah, produziu seis raparigas, que constituem a sua própria pequena tribo. Eu gosto, quando elas me incluem no círculo delas. É um grupo alegre. Liora, Mahalat, Giah, Yara, Noadya e Yael - disse ela, contando os nomes delas pelos dedos. - Têm a melhor coscuvilhice. Foram elas que me contaram a história do filho da mulher siquemita, que se suicidou. Ele enlouqueceu - disse ela, baixando a voz -, quando soube das terríveis circunstâncias do seu nascimento.

- O que é que lhe poderia ter causado tal desespero? - perguntei eu.

- É uma história feia - respondeu timidamente, inclinando-se na minha direção para aguçar o meu interesse.

- Essas são, muitas vezes, as melhores histórias - respondi eu.

- Muito bem - disse Gera, pousando o fuso, e olhando-me diretamente nos olhos. - De acordo com a história da Titi Ahava, Lea teve uma filha que sobreviveu. Ela deve ter sido uma grande beldade, pois foi tomada em casamento por um nobre siquemita, um príncipe, na realidade. O filho do rei Hamor! O rei levou a Jacob um belo preço de noiva com as próprias mãos, mas isso não era suficiente, para Simeão e Levi. Diziam que a irmã deles tinha sido raptada e violada e que a honra da família tinha sido aviltada. Fizeram tanto barulho, que o rei, curvando-se perante a grande paixão do filho pela filha de Lea, duplicou o preço de noiva. Ainda assim, os meus tios não ficaram satisfeitos. Diziam que aquilo era uma conspiração dos cananitas para tomarem o que era de Jacob e tornarem o que era dele propriedade de Hamor. Portanto, Levi e Simeão tentaram desfazer o casamento, ao exigirem que os siquemitas entregassem os seus prepúcios e se tornassem jacobitas. Agora, vem a parte da história que me faz pensar que isto não é mais do que um conto que as raparigas contam umas às outras. O príncipe submeteu-se à faca! Ele e o pai dele e todos os homens da cidade! As minhas primas dizem que isto é impossível, porque os homens não são capazes de um tal amor. Na história, o príncipe concordou. Ele, e os homens da cidade, foram circuncidados. - Gera baixou a voz, dando-lhe um tom sombrio, para o triste final. - Duas noites depois do corte, enquanto os homens da cidade gemiam de dor, Levi e Simeão infiltraram-se na cidade e mataram o príncipe, o rei, e todos os homens que encontraram dentro das muralhas. Levaram o gado, e as mulheres da cidade também, que é a razão pela qual Simeão veio a ter uma esposa siquemita. Quando o filho dele soube da vilania do pai, afogou-se.

Os meus olhos tinham estado fixos no meu fuso, enquanto ela contava a história.

- E o que é que foi feito da irmã? - perguntei eu. - Aquela que foi amada pelo príncipe?

- Isso, é um mistério - disse Gera. - Eu, acho que ela morreu de dor. A Serah inventou uma canção acerca de ela ter sido levada pela Rainha do Céu e ter sido transformada numa estrela cadente.

- O nome dela é recordado? - perguntei eu suavemente.

- Dina - disse ela. - Gosto do som do nome dela, tu não? Um dia, se tiver uma filha, vou chamar-lhe Dina.

Gera não disse mais nada acerca da filha de Lea, e continuou a palrar acerca de lutas familiares e de amores entre os primos dela. Continuou a falar até ao fim da tarde, antes de se lembrar de me fazer perguntas acerca de mim e, por essa altura, eu podia retirar-me, pois estava na hora da refeição da noite.

Jacob morreu naquela noite. Ouvi uma mulher a soluçar e perguntei-me quem é que, de entre as noras dele, chorava pelo velhote. Benia abraçou-me, mas eu não senti nem dor nem raiva.

Gera tinha-me dado paz. A história de Dina era demasiado terrível para ser esquecida. Enquanto a memória de Jacob vivesse, o meu nome seria lembrado. O passado tinha-me feito o pior possível e eu não tinha nada a temer do futuro. Deixei a casa de Jacob mais reconfortada do que José.

De manhã, Judá preparou-se para levar o corpo de Jacob para se deitar com os pais dele, em Canaã. José ficou a observar, quando eles levantaram Os ossos para a liteira coberta de ouro que era dele, que ele lhes deu para a viagem fúnebre.

Antes de Judá se ter ido embora para enterrar o pai, ele e José abraçaram-se pela última vez. Virei as costas àquela visão, mas, antes de chegar à minha tenda, senti uma mão no ombro e virei a cara para Judá, cuja expressão era um mapa de incerteza e de vergonha.

Estendeu-me um punho fechado.

- Era da nossa mãe - disse ele, falando a custo. - Quando ela morreu, mandou-me chamar e disse-me que desse isto à filha dela. Eu pensei que estivesse louca - disse Judá. - Mas previu o nosso encontro. A nossa mãe nunca te esqueceu, e, embora Jacob o tivesse proibido, ela falou de ti todos os dias, até morrer. Toma isto, da nossa mãe, Lea. E que possas conhecer paz - disse ele, empurrando-me qualquer coisa para a mão, antes de se afastar, com a cabeça baixa.

Eu olhei para baixo, para o anel de lápis-lazúli de Raquel, o primeiro presente que Jacob lhe dera. A princípio, pensei em chamar Judá de volta, para lhe perguntar porque é que a minha mãe me tinha mandado o testemunho do amor de Jacob pela irmã dela. Mas, é claro, ele não podia saber porquê.

Foi bom ver o rio outra vez. Depois do calor dos montes, o abraço do Nilo era doce e fresco. E, à noite, nos braços do Benia, contei-lhe tudo o que tinha ouvido de Gera e mostrei-lhe o anel.

Fiquei confusa acerca do significado dele e rezei por um sonho que explicasse o mistério, mas foi o Benia que me deu a resposta. Pegando na minha mão contra a luz e olhando para ele com olhos habituados a ver a beleza, disse:

- Talvez a tua mãe quisesse que ele fosse um testemunho de que tinha perdoado a irmã. Talvez seja um sinal de que ela tenha morrido com o coração indiviso, e que desejava o mesmo para ti.

As palavras do meu marido atingiram o seu alvo e eu lembrei-me de algo que Zilpa me tinha dito na tenda vermelha, quando eu era criança, e era demasiado jovem para perceber o significado das palavras dela.

- Nascemos todos da mesma mãe - disse ela. Uma vida inteira mais tarde, percebi que aquilo era verdade.

Embora, durante a viagem, não tivesse acontecido nada digno de registro e as minhas mãos tivessem estado desocupadas, fiquei exausta com a viagem para casa. Ansiava por voltar à minha própria casa, por ver Shif-ra e o bebê de Kiya, que tinha nascido durante a minha ausência.

Estive terrivelmente irrequieta, durante a paragem de três dias em Mênfis, mas guardei a impaciência para mim, por causa do Benia. Ele voltava do mercado todas as noites, transbordante com a beleza que tinha visto. Fez exclamações acerca do toque sedoso da madeira de oliveira, do negro puro do ébano, dos cedros aromáticos. Trouxe pedaços de pinho e ensinou os filhos de José a esculpir. Também me comprou um presente: uma bilha com a forma de uma sorridente Taweret, que me fazia sorrir, de cada vez que olhava para ela.

A barca do vizir arrastava atrás de si uma barcaça carregada de boas madeiras, quando saímos do porto de Mênfis para iniciarmos a última parte da viagem para Tebas. José e eu despedimo-nos na escuridão da última noite. Não havia necessidade de tristeza, na nossa separação, disse ele com leveza.

- Isto é apenas um "até logo". Se As-naat ficar grávida outra vez, chamar-te-emos.

Mas eu sabia que não voltaríamos a encontrar-nos.

- José - disse eu - não está nas nossas mãos. Fica bem - sussurrei eu, tocando a face dele com a mão que usava o anel da mãe dele. - Pensarei em ti.

- Eu também pensarei em ti - respondeu ele suavemente.

De manhã, Benia e eu voltamo-nos ansiosamente para oeste.

Uma vez chegados a casa, voltamos à ordem dos nossos dias.

O filho novo de Kiya era bem-disposto e aprendeu a manifestar a sua felicidade, quando a mãe dele me passava, nas noites em que ia assistir a um parto. Eu, no entanto, raramente a acompanhava para além do pôr do Sol, pois estava a ficar velha.

Os pés doíam-me, de manhã, e as minhas mãos estavam a ficar rígidas, mas, mesmo assim, ainda me considerava feliz, por não estar fraca nem ser aborrecida. Tinha força suficiente para a minha casa e para tomar conta do Benia. Ele continuava forte e seguro, com o olhar sempre límpido, amante, constante como o Sol, do trabalho e de mim.

Os meus últimos anos foram bons. Kiya teve mais dois bebês, mais um rapaz e uma rapariga, que se apoderaram da minha casa e do coração do meu marido. Recebíamos, todos os dias, incontáveis beijos de hálito doce.

- Vocês são o elixir da juventude - dizia eu, enquanto lhes fazia cócegas e me ria com eles. - Vocês alimentam estes velhos ossos. Vocês mantêm-me viva.

Mas nem sequer a devoção das criancinhas pode afastar a morte para sempre, e a minha hora chegou. Não sofri durante muito tempo. Acordei durante a noite, sentindo um peso esmagador no meu peito, mas depois do primeiro choque não houve dor.

Benia segurou-me a cara entre as suas mãos grandes e quentes. Kiya chegou e aconchegou os meus pés entre os longos dedos dela. Choraram e eu não conseguia formar as palavras para os reconfortar. Depois, mudaram perante os meus olhos, e eu não tinha palavras para descrever o que via.

O meu amado transformou-se num farol tão brilhante como o Sol, e a luz dele aquecia-me plenamente. Kiya brilhava como a Lua e cantava com a voz verde e solene da Rainha da Noite.

Na escuridão que rodeava as luzes brilhantes da minha vida, comecei a discernir as caras das minhas mães, cada uma delas a arder com o seu próprio fogo. Lea, Raquel, Zilpa e Bilhah. Inna, Ra-nefer e Meryt. Até a pobre da Ruti e a arrogante Rebeca estavam alinhadas para me receber. Embora nunca as tivesse visto, também reconheci Ada e Sarai. Forte, corajosa, maravilhada, bondosa, prendada, quebrada, leal, tola, talentosa, fraca, cada uma delas a dar-me as boas-vindas à sua maneira.

- Oh - gritei eu, maravilhada. Benia abraçou-me com ainda mais força e soluçou. Pensou que eu sofria, mas não sentia nada, senão excitação face às lições que a morte me estendia. No momento antes de passar para o outro lado, soube que os sacerdotes e os magos do Egito eram tolos e charlatães, por prometerem prolongar as belezas da vida para além do mundo que nos é dado. A morte não é nenhum inimigo, mas a fundação da gratidão, da comiseração e da arte. De todos os prazeres da vida, só o amor não deve nada à morte.

- Obrigada, amado - disse eu ao Benia, mas ele não me ouviu. - Obrigada, filha - disse eu a Kiya, que tinha encostado o ouvido ao meu peito e que, ao não ouvir nada, começou a carpir.

Eu morri, mas não os deixei. Benia ficou sentado ao meu lado e eu permaneci nos seus olhos e no seu coração. Durante semanas e meses e anos, a minha cara viveu no jardim, o meu cheiro ficou agarrado aos lençóis. Durante todo o tempo que ele