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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A TERRA SERÁ REDONDA / Magalhães & Alçada
A TERRA SERÁ REDONDA / Magalhães & Alçada

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

Antes dos Descobrimentos portugueses havia quem ainda pensasse que a Terra era plana!

O João conheceu alguns marinheiros que tinham essa ideia e teve de morder a língua para não lhes dizer a verdade. Foi uma viagem fantástica a bordo das caravelas comandadas por Diogo Cão, o famoso descobridor da terra que mais tarde se chamará Angola.

E não menos excitante foi a viagem da Ana e do Orlando, primeiro pelo deserto do Sara e depois pelo reino fabuloso do senhor Budomel e pelas terras do chefe Caramansa onde El-Rei Dom João II mandou erguer a Fortaleza de São Jorge da Mina.

 

 

 

 

                  O encontro

O dia estava tão lindo que até dava gosto andar na rua.

As pessoas acotovelavam-se para um lado e para o outro, numa azáfama de princípio de Verão. Mesmo as que iam carregadinhas de sacos e embrulhos pareciam leves, agora que vestiam roupas mais finas e ligeiras. Até o Sol se diria bem-disposto, brilhando e rebrilhando a beliscar as montras com reflexos de luz.

A Ana e o João, radiantes, abriam caminho por entre aquela chusma de gente com uma única ideia fixa na cabeça: sapatos de ténis.

No bolso das calças, muito bem enroladas, iam as notas que a avó enviara como presente de anos, mais as outras que tinham ido juntando para comprarem um par de sapatos de ténis daquela marca muito especial que ambos adoravam. O pior era o preço, caríssimos! Mas agora, depois de vários meses amealhando, julgavam ter reunido a quantia necessária, e era com o maior entusiasmo que se dirigiam a loja de artigos de desporto.

Só que, de repente, a Ana estacou de olhos arregalados:

— João! — disse baixinho. — Olha só para aqui! Estendeu o braço e ambos se debruçaram para o relógio cinzento e achatado que ela usava no pulso esquerdo.

«Bzzz... Bzzz... Bzzz...»

— Será avaria? — perguntou o João, cheio de esperança de que não fosse avaria nenhuma, mas sim aquilo por que esperavam há muito.

— Ora, que ideia a tua! Este «sinalizador» nunca avariou, é perfeitíssimo.

— Como é que sabes? É a primeira vez que o vemos a funcionar!

A Ana sorriu para o irmão e puxou-o de lado, para não impedirem a circulação das pessoas, pois já tinha levado vários encontrões. No seu pulso o mostrador quadrado continuava a emitir sinais. Tinha sido um presente de Orlando, o velho cientista de quem ficaram muito amigos desde o primeiro dia, aquele dia memorável em que os levara para uma viagem no tempo (1).

Além de ser um relógio vulgar, aquela maquineta continha um instrumento fantástico! Uma espécie de bússola mas, em vez de apontar o norte, indicava a presença de alguém que o portador quisesse encontrar. Para isso tinham tido de inscrever no programa do sinalizador o nome de código da pessoa escolhida. Orlando, claro! Alguns meses atrás ele próprio lhes enviara pelo correio, numa embalagem postal, aquela surpresa já preparada e um cartão

 

(1) Ver Uma Viagem ao Tempo dos Castelos, n.o 1 desta colecção.

 

a explicar o seu funcionamento. Se estivessem a menos de quinhentos metros, o sinalizador vibraria no pulso e alguns minutos depois acendia-se uma seta luminosa indicando a direcção que deviam seguir para o encontrar. O instrumento destinava-se sobretudo a evitar que se perdessem uns dos outros quando viajassem no tempo ou no espaço, mas os dois irmãos nunca mais o tiraram do pulso! Depois de grandes discussões, fizeram um acordo. Usá-lo-iam ambos, dia sim, dia não.

— Olha, olha, olha! A seta!

De facto, uma seta minúscula, encarnada, parecia sugerir-lhes que seguissem em frente.

— Vamos? — perguntou a Ana sentindo-se perturbada, tal era o receio de que por qualquer motivo não encontrassem o Orlando, o que seria uma enorme desilusão.

— Claro que vamos! Estás à espera de quê?

O João, sempre pronto a acreditar no melhor, já ia rua acima, de cabeça erguida e olhos brilhantes de expectativa. E cada careca que passava parecia-lhe mesmo a careca do Orlando!

Atrás dele, mais comedida, a irmã não tirava os olhos do mostrador. A seta lá estava, passando suavemente de encarnado a azul, de azul a amarelo, de amarelo a verde... Tal e qual como estava previsto nas instruções.

— Quanto mais perto, mais verde... — murmurou, no instante em que um besouro muito agudo devolveu a cor amarela agora a todo o mostrador.

— João! — gritou. — Já passámos. Temos de voltar para trás...

Um pouco atrás, a porta de uma antiga pastelaria emanando um delicioso cheiro a bolos devia ser o sítio exacto, pois a seta entretanto reaparecera num lom de verde-escuro.

— Se ele está aqui, juntamos o útil ao agradável! — exclamou o João, empurrando a porta de vidro.

Lá ao fundo, numa mesa posta com toalha e tudo, o Orlando regalava-se com uma quantidade incrível de bolos de creme, acompanhados por um batido de morango muito espesso e cheio de espuma.

Os dois olharam-no de longe com muito carinho. De cabeça baixa, limpava o bigode a um guardanapo, com aquele cuidado extremo que punha em todos os gestos. Quem não o conhecesse, tomá-lo-ia apenas por um velhote guloso que aproveitara a tarde bonita para ir lanchar fora. Mas eles sabiam muito bem que não era assim. Se o Orlando deixara o seu castelo na serra do Marão, abandonando as pesquisas que tanto o apaixonavam, com certeza tinha um motivo bem forte. Talvez a própria AIVET (1) o tivesse encarregado de uma missão.

Pé ante pé, aproximaram-se, dispostos a fazerem-lhe uma partida, mas ele virou-se no último momento e soltou uma das suas gargalhadas roucas:

— Ana! João! Bem tentei passar despercebido, mas vocês encontraram-me. Esqueci-me do maldito sinalizador!

— Oh, Orlando! Não diga que veio a Lisboa e não nos queria ver!

— Queria, claro! Mas mais tarde... talvez no regresso.

— No regresso de onde? — perguntou logo o João, arrebitando a orelha. — Vai viajar?

Ele baixou a cabeça e meteu um enorme pastel de nata dentro da boca para não ter de responder sem pensar melhor.

 

(1) AIVET: Associação Internacional de Viagens no Espaço e no Tempo.

 

Os seus olhos azuis escureceram e tornou-se evidente que estava muito preocupado.

A Ana, sentada em frente, observava-o. Alguma coisa se passava e, pela expressão do seu velho amigo, não devia ser coisa boa.

O irmão, impaciente, bombardeou-o com mil perguntas. Muito debruçado para diante, procurava falar em voz baixa, mas a estranha posição assumida, o olhar ansioso e os pontapés que dava por baixo da mesa, fazendo oscilar perigosamente o copo de batido, tornou-o alvo das atenções gerais. A pastelaria inteira já olhava para aquele rapaz cujas palavras não entendiam, mas que parecia tontinho assim aos estremeções.

— Está quieto — pediu a irmã, envergonhadíssima.

— Está tudo a olhar para ti!

— Ora! Quero lá saber! Diga-me, Orlando, o que é que aconteceu, hã? Está aborrecido, não está? Por que é que não pára de comer bolos e fala connosco, hã?

O Orlando deglutiu um último pedaço de bola-de-berlim e sorriu-lhe. Mas era um sorriso triste.

— Eu estou aqui de passagem — explicou, evasivo.

— Vocês com certeza já adivinharam...

— Vai ao passado?

— Ou ao futuro?"— arriscou o João, que não perdera a esperança de ir pelo menos até ao século XXIII, se mais não fosse possível.

— A... sim, claro! Vou daqui a nada.

— Mas aonde?

O Orlando encolheu os ombros e pôs-se a chupar o batido por uma palhinha. Via-se perfeitamente que não lhes queria dizer, mas eles fingiram-se desentendidos e continuaram:

— Diga lá!

— Conte-nos! Nós guardamos segredo!

— Bom — começou ele, como quem toma fôlego —, só lhes posso dizer que vou ao século XV.

A Ana agitou-se na cadeira.

— Um mergulho com quinhentos anos? Leve-nos consigo.

— Nem pensar. Desta vez vou sozinho. E não vale a pena perguntarem mais nada, porque eu não digo.

Os dois irmãos entreolharam-se. Nenhum deles tinha a menor intenção de desistir, mas pareceu-lhes que era mais prudente mudar de assunto para voltarem à carga daí a pouco. Assim, decidiram encomendar pãezinhos com fiambre, torradas e leite com chocolate, pois tinham a certeza de que ele não os abandonaria enquanto lanchassem juntos.

Completamente esquecido dos ténis, o João pensava de si para consigo:

«Nem que fique aqui toda a tarde a comer, hei-de conseguir que nos leve!»

A Ana, por sua vez, deitou uma mirada discreta aos pratos vazios sobre a mesa e fez os seus cálculos. Por qualquer razão que ignorava, o Orlando empanturrara-se de bolos antes de partir. Não tardaria muito que se sentisse pesado e sonolento. As pessoas quando estão maldispostas tornam-se mais vulneráveis e mais facilmente se deixam convencer. Quando lhe visse o olhar turvo, as pálpebras pesadas, não deixaria escapar a oportunidade. Com meia dúzia de tretas, convencê-lo-ia.

Ambos acertaram em cheio. As horas foram passando, as pessoas foram saindo e lá para meio da tarde, quando a sala ficou quase deserta, o Orlando recostou-se na cadeira e não resistiu mais. Contou-lhes uma história inquietante:

— Tenho de ir ao século XV procurar um pedaço de Sponezik 7. Como vêem, não é brincadeira nenhuma!

Eles ficaram perdidos de riso. Os cientistas são bem engraçados! Raramente se lembram de que as outras pessoas não estão dentro dos assuntos que andam a estudar e falam de uma maneira que ninguém entende.

O João resolveu divertir-se e fez uma expressão horrorizada.

— Perdeu-se um pedaço de Sponezik 7? Que horror! — E deitando as mãos à cabeça continuou: — Imagina lá, ó Ana, que em vez do número 7, se tinha perdido o n.o 8, hã?

O cientista riu-se e caiu em si.

— Desse perigo que imaginas estamos livres, porque não existe tal coisa. Só há Sponezik 7! Mas está bem, já percebi a mensagem. Vocês não sabem de que é que estou a falar.

— Pois não, mas estamos mortos por saber!

Antes de explicar, o Orlando certificou-se de que ninguém mais o ouvia. Apenas umas senhoras idosas continuavam a conversar animadamente numa mesa ao fundo. Os criados tinham desaparecido no interior da cozinha e só o chefe circulava a compor as toalhas brancas. Não parecia nada interessado em ouvir o que os clientes diziam.

— Sponezik 7 é um metal perigosíssimo — disse então, mantendo um tom de voz discreto. — Só existe numa galáxia distante e as suas propriedades estão a ser estudadas no século XXV por sete cientistas.

— Ah! Então daí é que lhe vem o nome?

— Exactamente.

— E como é que se sabe que é perigoso se ainda está em estudo? — perguntou a Ana.

— Porque algumas propriedades já são conhecidas.

— E quais são?

— Bom, se um pedaço de Sponezik 7 se infiltrar por um planeta como o nosso e chegar ao centro...

— Ao centro da terra? — interrompeu o João.

— Sim. Àquela zona do magma.

— O que é que acontece?

— Várias coisas. O Sponezik faz aumentar muito a temperatura do magma, que começa a crescer e vai provocar vulcões por todo o lado!

— No século XV?

O Orlando tossiu, um pouco atrapalhado.

— A... não. Eu evitei falar no assunto porque não vos queria assustar. Mas como são teimosos... enfim! Digo-vos tudo.

— Diga, diga e depressa!

— O tal pedaço escorreu por uma brecha do tempo e foi parar ao século XV. Mas os cientistas calculam que demore quinhentos anos a chegar ao centro da Terra, a provocar os tais vulcões e muitos tremores de terra.

— Então isso quer dizer que o desastre é agora... no século XX!

A Ana aguardou a resposta, lívida. Tinha aprendido que Lisboa se situava numa zona sísmica, que a cidade já fora destruída uma vez por um horrível terramoto... não lhe apetecia nada que isso voltasse a acontecer!

Filou o Orlando sem pestanejar até que ele concluiu:

— O perigo é esse. Se eu não encontrar o Sponezik bem depressa, pode ser o fim do mundo. Um fim do mundo pavoroso, com vulcões a rebentar no fundo dos oceanos, ondas gigantescas a varrer a terra, rios de lava a incendiarem tudo pelo caminho! O nosso planeta corre o risco de desaparecer do universo.

Aquela imagem medonha deixou-os pregados ao chão.

Não era só a cidade que estava em perigo, mas o mundo inteiro!

— A AIVET fez uma reunião de emergência e eu ofereci-me como voluntário para esta missão. Vou partir daqui a pouco. — Com um sorriso cansado acrescentou: — Desejem-me boa sorte!

— Nem pense! — gritou o João, levantando-se de um pulo. — Nós vamos consigo!

O criado o as senhoras olharam para eles, admirados. O Orlando e a Ana apressaram-se a disfarçar, pedindo a conta.

— Isto não é brincadeira nenhuma — disse o Orlando, entredentes. — Trata-se de uma missão perigosa por tudo o que já lhes expliquei e mais.

— Ainda há mais?

— Há. Este metal parece ouro. Se tiver ido parar às mãos de alguém, temos de lho tirar e, como vocês sabem, as pessoas não dão ouro com facilidade!

— É preciso manha — disse o João, encaminhando-se para a saída aos saltinhos de excitação. — E eu cá sou muito manhoso! Se for possível compro, se não for possível tiro... até era engraçado! Roubar por uma causa nobre! Roubar para salvar a humanidade! Conte comigo e é para já!

— Eu também vou — decidiu a Ana. — Quero ajudar no que for possível.

O Orlando abraçou-os, comovido.

— Tenho orgulho em vocês dois. Coragem não vos falta, sim senhor! Mas temos de nos despachar, que se faz tarde.

— Tarde? Que ideia! Basta passarmos a barreira do tempo e cada dia que passa só conta um minuto na nossa época. Se lá estivermos um mês, aqui só passou meia hora. Vão ver que ainda regresso a tempo de comprar os meus ténis!

A Ana riu, enfiou-lhe o braço e seguiram pela rua atrás de um Orlando subitamente apressado.

 

                 Um aparelho de cristal

Ao fim da tarde o movimento na cidade, em vez de diminuir, crescia. Às pessoas que num vaivém contínuo aproveitavam as últimas horas do dia para fazerem compras juntavam-se as que iam saindo do trabalho e corriam para o metropolitano ou para as paragens de autocarro, onde engrossavam bichas de gente ansiosa por chegar a casa. Assim, um imenso formigueiro humano percorria as ruas da Baixa em todas as direcções. Quando desembocaram no Rossio, foram envolvidos por um enorme engarrafamento que deixara peões e condutores com os nervos em franja. Os polícias tentavam restabelecer a ordem, gesticulando e soprando furiosamente nos apitos, mas quem é que os ouvia? Ao roncar dos motores sobrepunham-se ainda as buzinadelas dos mais impacientes e a gritaria das pessoas irritadas com aquela barafunda. Muitos empurravam-se abrindo caminho ao acaso por entre os automóveis, táxis, motos e camionetas, cujos escapes empestavam o ar com um fumo irrespirável. Um cheiro intenso a gasóleo queimado subiu-lhes às narinas. A Ana engasgou-se e tossiu.

— Hum! Que enjoo! — reclamou, no momento em que passavam à porta de uma taberna onde alguém assava sardinhas num fogareiro de barro. — Esta mistura de fumos e cheiros dá-me volta ao estômago.

O Orlando quase os empurrou na direcção da placa central, onde uma nuvem de pombos assustados voava em círculos entre os dois repuxos de bronze.

— A máquina do tempo? — perguntou o João. — Está aqui no meio da cidade?

— Está no vão de uma escada, naqueles prédios antigos ao pé da Pastelaria Suíça.

— Mas o único sítio de onde se podia partir não era de dentro da Torre de Belém? (1)

O Orlando riu-se.

— Isso julgávamos nós, porque conhecíamos muito mal esta zona que é Lisboa.

— Descobriram mais brechas?

— Lisboa está cheia de brechas! Pode passar-se para outras épocas em muitos lugares. Escolhi este por ser exactamente o centro da cidade no século XV. Tenho esperança de encontrar logo o Sponezik nas mãos de um dos ricos mercadores da época! Lembrem-se de que parece ouro.

Um pouco adiante, o velho cientista deteve-se. Na frente deles, uma porta de madeira carunchosa dava acesso à entrada escura e bafienta de um prédio muito antigo onde não morava ninguém.

Algumas placas de formatos e cores diferentes indicavam

 

(1) Ver O Ano da Peste Negra, n.o 3 desta colecção.

 

que os vários andares eram agora ocupados por armazéns e fabriquetas de luvas, carteiras, gravatas, lenços de senhora e ganchos para o cabelo. Aparentemente já não se encontravam empregados no edifício, que cheirava um pouco a canos.

— A máquina? — perguntou a Ana, franzindo o nariz.

Decididamente, estava sensível a cheiros!

— Está aqui, está aqui... mas invisível! Já te esqueceste de como devemos proceder?

O Orlando espreitou para a escada para ter a certeza de que se encontravam sozinhos. Nenhuma luz, nenhum ruído, nada! Seguro de que podia actuar à vontade, fechou a porta do prédio. Depois arregaçou as mangas, retirou do bolso uma placa de comando à distância e, carregando em pequenos botõezinhos, produziu um clarão lilás, tão intenso que quase os cegou!

— Hum! Até dói a vista!

— Fechem os olhos que isto não dura muito. Alguns segundos depois, a tonalidade foi-se esbatendo

e contemplaram maravilhados o aparelho que lhes iria permitir saltar pelo tempo fora! Mas não era a máquina que já conheciam. Era muito mais bonita. No entanto, o seu tamanho reduzido deixou-os bastante inquietos.

— Cabemos todos ali? — perguntou a Ana.

— Cabemos, mas muito apertados. Bem vêem, eu tencionava ir sozinho, por isso trouxe este modelo que é a última invenção dos nossos laboratórios!

— É pequena, mas linda!

De facto, aquela máquina estreitinha, toda em cristal facetado, parecia mais uma jóia do que outra coisa qualquer! E nem mesmo tinha porta. Formada de uma peça única, tornava-se difícil imaginar como entrariam lá dentro. O Orlando percebeu-lhes as dúvidas e soltou uma das suas gargalhadas roucas:

— Parece impenetrável, não é? Pois enganam-se. A passagem é bem mais agradável do que se abrisse normalmente. Ora ponham-se aqui, em fila indiana. Não precisam de se mexer!

Obedeceram-lhe.

A placa de comando emitiu um ruído suave e cada um deles ficou logo debruado por um fio de luz roxa, de brilho metálico muito intenso. Depois, uma luz idêntica desenhou as três figuras na superfície da máquina. Sem perceberem muito bem como, foram então sugados para o interior, atravessando aquele material desconhecido, tal e qual como os fantasmas atravessam paredes.

— A viagem agora é mais rápida e mais confortável. Aperfeiçoámos muito os nossos aparelhos!

— Mas temos de viajar em pé — disse o João. — Não vejo bancos nem cadeiras.

— Não é preciso. Estes painéis são computadores fabulosos — explicou o Orlando. — Carrega-se no botão de cima e eles começam imediatamente a fazer o estudo dos passageiros. Assim que têm os dados necessários, partimos. Em poucos segundos somos colocados na época desejada, vestidos a rigor, e nem sequer é preciso cinto para não nos desintegrarmos.

— Porquê?

— Porque recebemos na cara um feixe de raios especiais que produzem o mesmo efeito do cinto. Não nos desintegramos e entendemos todas as linguagens como se fosse a nossa!

— É um raio laser? — perguntou o João.

— Muito melhor do que laser! É um raio descoberto no século XXIV.

A conversa terminou ali porque o Orlando pressionou o dito botão. Não foi preciso mais nada para que ficassem a pairar, embalados entre o sono e a vigília.

«Dzzz... Dzzz... Dzzz...» Como era doce e agradável deslizar pelos séculos fora, arrastados por um aparelho de cristal!

 

         Um mergulho com quinhentos anos

A Ana e o João abriram os olhos ao mesmo tempo. Não perceberam logo onde se encontravam, pois o vão da escada tinha desaparecido, tal como o prédio, as ruas, as lojas, os carros. Através da película transparente que os envolvia, admiraram-se de que ninguém reparasse neles, mas o Orlando lembrou que dentro da máquina continuavam invisíveis. Por vontade de ambos teriam saído logo para o exterior, mas o velho cientista impediu-os. Era necessário esperar para que o corpo se habituasse a uma outra época, mantendo-se em funcionamento quinhentos anos atrás.

Assim, com a cabeça colada ao vidro, observavam maravilhados o Rossio de outros tempos.

Era tão diferente! Em vez de um rectângulo bem desenhado, com edifícios a toda a volta e os repuxos de bronze no meio, aparecia-lhes agora um espaço irregular, com chão de terra batida, algumas casinhas construídas ao acaso e um palácio lindíssimo no topo (1)

— O Palácio dos Estaus — disse o Orlando. — Reparem que tem torres de três andares e uma porta enorme.

— É ali que vive o rei?

— Não. Mas pertence à família real. É ali que recebem convidados ilustres, pessoas importantes que chegam de visita.

— Formidável! Já temos onde ficar! — disse o João, todo contente com a perspectiva. — A máquina podia vestir-nos de príncipes de um país do Norte e pronto! Instalávamo-nos ali e se calhar encontrávamos o Sponezik no mesmo minuto. Onde há príncipes, há ouro.

— Não querias mais nada!? — brincou o Orlando. — Sais daqui vestido de mercador e estás com muita sorte!

A Ana não prestava atenção ao que diziam, encantada com tudo o que via lá fora.

Pelos vistos, ao fim da tarde o movimento na cidade, em vez de diminuir, crescia. Muitas pessoas, num vaivém contínuo, aproveitavam as últimas horas do dia para fazerem compras nas tendas que continuavam abertas oferecendo grande abundância de frutas, avelãs, nozes, limões, amêndoas e figos. Não faltava também o peixe fresco, sobretudo sardinhas e atum, que se vendiam em grandes cestos de verga. Um imenso formigueiro humano ondulava, vindo de quantas ruas estreitinhas e sinuosas desembocavam no Rossio. Carruagens, cavalos, burros e carroças circulavam sem respeitar qualquer regra de trânsito, de modo que era difícil perceber como não chocavam entre si!

Logo que o Orlando os autorizou a saírem da máquina,

 

(1) Este palácio existia onde hoje é o Teatro de Dona Maria II.

 

encheram os pulmões de ar com volúpia julgando poder finalmente sentir na pele o tal ar muito puro de outrora. Mas a surpresa foi completa.

Um cheiro intenso a lixo, a suor, a bosta de cavalo, peixe podre, fruta em decomposição, envolvia tudo sem que as pessoas parecessem incomodadas com isso!

— Ainda falam da poluição no século XX! Este cheiro enjoa-me muito mais.

— É porque não estás habituada. Cada século tem o seu cheiro característico. Um dia mais tarde hei-de escrever um livro chamado O Cheiro dos Séculos. Não achas que é um bom título?

— Por que é que és tão doido, João?

O Orlando saiu discretamente da máquina e chamou-os:

— Ouçam lá, eu tenho de ficar um bocado porque preciso que o computador me dê informações. Nós sabemos que o metal caiu no século XV, mas não sabemos exactamente aonde.

— E o computador vai dizer?

— Vai indicar uma área. Temos esperança de que seja em Lisboa, mas nem sequer há a certeza. De qualquer maneira, enquanto eu trabalho vocês, se quiserem, dêem uma voltinha. Mas não saiam do Rossio.

— Fique descansado! Vamos só até ao palácio que é bonito. Queremos ver as pessoas. Pode ser que uma princesa se apaixone por mim!

O Orlando sorriu mas lembrou:

— João, por favor, não te metas em encrencas!

— Eu? — perguntou ele arregalando os olhos a fazer-se desentendido.

— Sim, tu! Já nos fizeste passar por boas.

— Eu tomo conta dele — prometeu a Ana, ansiosa por se misturar com os lisboetas do século XV. — Anda, João! Vamos embora!

O Orlando desapareceu como que sugado pelo ar. Regressara à máquina do tempo. Sozinhos, os dois irmãos incorporaram-se no grupo que abria caminho ao acaso em direcção às tendas de comidas e doces. Um fumo branco elevava-se no sítio onde uma mulher gorda sentada nos calcanhares assava sardinhas num fogareiro de barro.

— Estás a ver? Há coisas que não mudam, Ana!

As mesmas sardinhas O mesmo fogareiro As mesmas mulherzinhas E o mesmíssimo cheiro.

— Dei em poeta!

— Tu és é pateta!

Com a melhor das disposições, encaminharam-se para o Palácio dos Estaus. A porta estava fechada, e dos seus possíveis habitantes nem sinais.

O João ainda se lembrou de ir espreitar por uma janela, mas a irmã chamou-o:

— Olha o Convento de São Domingos, lembras-te? Já lá estivemos a dormir.

— Quando?

— Ora! Quando fomos ao Ano da Peste Negra!

— É verdade! E que noite aquela! Mas o convento está diferente.

— Claro! Passaram mais de cem anos desde a nossa última visita!

Arrastados pelas recordações de uma viagem anterior, aproximaram-se da grande porta de madeira.

Ao mesmo tempo, surgiu alguém de uma viela escura. A sua atitude era tão estranha que lhes chamou a atenção. Tratava-se de uma mulher toda vestida de preto que trazia qualquer coisa bem apertada de encontro a si. Caminhava num passo rápido mas inseguro, como se cambaleasse. Assim que chegou à porta da igreja, olhou para todos os lados e puderam ver-lhe a cara magra, lívida, com uma expressão de horrível sofrimento. Os olhos pretos brilhavam como quando se tem febre.

Deteve-se ali um instante e depois, num gesto sacudido e brusco, pousou o embrulho no chão e fugiu a correr.

— O que será aquilo?

 

NOTA: A cidade de Lisboa dos séculos XV-XVI foi descrita por Garcia de Resende, por Damião de Gois, e por dois estrangeiros: Jerónimo Miin-zer, que achou a cidade muito bonita, e um italiano anónimo que achou a cidade horrível.

 

           Uma criança enjeitada

Movidos pela curiosidade foram espreitar. A Ana debruçou-se e entreabriu os panos, soltando de imediato uma exclamação abafada:

— Ah! Não pode ser!

No meio daqueles trapos de lã estava uma criança de poucos dias. O corpinho franzino agitou-se e soltou um vagido:

— Uáá!

A Ana ajoelhou-se, pegando-lhe ao colo com mil ternuras.

Ao seu lado, o João abria e fechava a boca sem conseguir articular palavra.

— Meu Deus! — gaguejou por fim. — A... na! A mãe desta criança veio aqui abandoná-la e fugiu!

— Achas que foi isso? — perguntou ela, não querendo acreditar no que era evidente. — Como é que alguém tem coragem para abandonar assim um bebé?

Comovidos, fitaram o ser minúsculo que nos braços da Ana chorava sem parar.

— Deve ter fome!

— E agora? O que é que fazemos? Não temos leite para lhe dar!

— Bate à porta do convento e entrega-o aos frades. Deve ter sido isso que a mãe pensou fazer!

A Ana olhou de novo a carinha rosada da criança. Não lhe apetecia largá-lo, e a ideia de que aquele pequenino ia viver para ali sem pai nem mãe enchia-lhe o coração de tristeza. Mas não tinha outro remédio senão fazer o que o irmão sugeria.

Ele, verificando que ela hesitava, tomou a iniciativa e pôs-se aos murros na porta. Ninguém respondeu.

— E agora! Que complicação medonha! Se isto ao menos tivesse um badalo! Olha, Ana, fica tu aqui que eu vou de volta. Talvez haja outra entrada.

A Ana concordou, deliciando-se a embalar o menino que entretanto se calara e dormia profundamente. Parecia mesmo um boneco, com bochechas redondinhas, nariz achatado e uns olhos invulgarmente pestanudos. Para abandonar assim o filho, a mãe devia estar mesmo desesperada. Devia viver na miséria, ou ser muito doente.

«Se calhar morreu de parto e foi uma vizinha que o trouxe para aqui», pensou, sem perceber logo por que motivo preferia que fosse assim.

Como o João nunca mais aparecia, foi espreitar à esquina. Nem sinais dele! O bebé agitava-se choramingando de novo cheio de fome. Ocorreu-lhe então uma ideia. Talvez os frades do convento estivessem a espreitar lá de dentro mas só abrissem a porta se a criança ficasse mesmo abandonada. Enquanto a vissem ali, podiam julgar que era a mãe e ter esperança de que se arrependesse e o levasse consigo. Resolveu experimentar. Com mil cuidados pousou-a no degrau de pedra e escondeu-se atrás de uma árvore. Uma gritaria soou imediatamente nas suas costas:

— Sua desavergonhada!

— Isto são piores que os animais...

— Têm os filhos e depois abandonam-nos sem dó nem piedade!

A Ana voltou-se, surpreendida e assustada. Várias mulheres rodearam-na em fúria.

— Já estamos aqui há um bocado a ver o que fazias!

— A ver se tinhas coragem de abandonar um inocente, sua desalmada!

Aflita, percebeu então que julgavam que ela era a mãe.

— A... mas... a...

Na ânsia de se explicar, não conseguiu articular palavra. Teve de fazer um esforço tremendo, e o esforço foi tal que lhe saiu um grito esganiçado:

— Eu não sou a mãe! — berrou, sem reconhecer a sua própria voz.

— Isso é o que dizem todas! — respondeu uma velha, falando tão perto que a envolveu num bafo de mau hálito.

— Não sou! Não sou! Não sou!

Com os nervos, as lágrimas saltaram-lhe a quatro e quatro.

— Nem tenho idade para ter filhos!

— Ah! Ah! Ah!

— Na tua idade já eu tinha dois!

A algazarra era tanta que se foi juntando mais gente, apertando a pobre da Ana numa espécie de abraço agressivo e malcheiroso.

Quando o João assomou ao fundo da rua ficou perplexo.

Que seria aquilo? E a irmã, onde estaria? Optou por abrir caminho à cotovelada, deparando com o espectáculo insólito da Ana a soluçar perdidamente enquanto lhe gritavam os piores insultos.

Sem pensar duas vezes, puxou-a por um braço com toda a força.

— Vamos embora daqui! Vamos embora daqui!

— Quem é este fedelho? — perguntou uma mulher que entretanto pegara na criança.

Ele não se intimidou e, vermelho de fúria, disse:

— Deixem a minha irmã em paz!

— E a criança, hã? E a criança? Querem abandoná-la, não é?

A cara de espanto do João foi tão sincera, que se fez silêncio em redor. Ele aproveitou para dizer da forma mais calma e segura que conseguiu:

— A criança não é nossa.

Pela primeira vez as pessoas duvidaram. Por sorte, alguém se lembrou de mexer no recém-nascido, e de entre os panos caiu uma trança de cabelo preto com uma medalhinha de Santo António presa por um laço azul.

As mulheres emocionaram-se, pois todas sabiam o que aquilo significava.

— A mãe desta criança quer que Santo António seja o padrinho — disse uma velhota com a lágrima ao canlo do olho.

— Pobrezinha! Cortou o cabelo — disse outra, exibindo a trança negra. — Quis deixar um sinal junlo ao filho.

— E que lindo cabelo tinha! Coitada! São desgraçadas! Se estivesse ali, o mais certo era insultarem-na. Mas assim, de longe, era-lhes mais fácil serem compreensivas e mostrarem compaixão pela infeliz que, ao abandonar o filho, deixara junto dele dois sinais, na esperança de um dia o reencontrar. Assim, mais tarde, se a vida o permitisse, poderia ir perguntar aos frades do convento: «Onde está um menino que aqui deixei recém-nascido? Os sinais que trazia eram uma trança negra e a imagem de Santo António.»

Um tropel de cavalos aproximando-se a trote fez desviar as atenções para o terreiro. Vários cavaleiros ladeavam uma carruagem pequena, puxada por duas lindíssimas éguas brancas.

— A rainha! A rainha! — disseram todos em coro, reconhecendo o cortejo.

Respeitosamente abriram alas para os deixarem passar.

— A rainha vai ao Paço dos Estaus!

— Por certo de visita ao irmão, o duque de Viseu, que chegou ontem a Lisboa!

Aquele aglomerado de gente à porta do convento devia ter suscitado a curiosidade da rainha, que mandou parar a carruagem.

Um escudeiro veio perguntar o que se passava. Prontificaram-se a explicar o sucedido e o povo, fascinado, teve a oportunidade de ver a rainha abrir a portinhola e apear-se.

Era uma mulher ainda jovem, delgada de corpo, e vestia roupas muito mais simples do que seria de esperar. O toucado de seda emoldurava-lhe a cara de expressão muito doce e infinitamente triste. Perante o assombro geral, ordenou que lhe entregassem a criança. Tremendo de emoção, a mulher depositou-lhe o menino nos braços. Era a primeira vez na sua vida, e se calhar a última, que chegava tão perto da rainha.

Dona Leonor olhou o menino longamente, sorriu-lhe e depois entregou-o a uma dama que a acompanhava. Subiram as duas para a carruagem e o cortejo continuou o seu caminho.

— A rainha Dona Leonor é uma santa! — disse alguém. — Está sempre pronta a ajudar os pobres. Tem o coração cheio de misericórdia!

— Teve sorte, o miúdo. No palácio não lhe há-de faltar nada.

— Pois não. Se a rainha o levou é para que cuidem bem dele! Talvez assim mate saudades do próprio filho... (1)

— Coitada! Anda bem triste.

— Dizem que nunca mais se riu, desde que o rei teve um filho de outra mulher! (2)

Enquanto o povo se juntava, agora a comentar as intrigas da corte, a Ana e o João afastaram-se dali. Doí-lhes um pouco a cabeça e a Ana sentia-se enjoada. Tinha sido uma cena muito forte e incomodativa. Embora acabando em bem, ambos pensavam nos sinais deixados junto da criança. Não falaram no assunto entre si, mas entristecia-os saber que, se um dia a mulher batesse à porta do convento, os frades não lhe poderiam dizer qual o paradeiro da criança, que nem sequer tinham visto.

— Vamos ter com o Orlando — pediu a Ana.

— Eu preferia ir dar uma volta por aí.

— Oh, João! Não me apetece nada ir passear!

 

(1) O motivo por que o príncipe herdeiro não vivia na corte está explicado na parte final deste livro, pp. 191-192.

(2) Dom João II teve um filho bastardo de Dona Ana Mendonça, a quem baptizou com o nome de Jorge.

 

— Então vou eu.

— E se te perdes?

— Não me afasto muito. De qualquer maneira, empresta-me o sinalizador. Se for preciso localizo o sítio onde vocês estão com a seta verde.

— Vê lá o que fazes, hã?

Ela preferia que não se separassem, mas estava incapaz de discutir, por isso fez o que lhe pedia.

De sinalizador no pulso, o João afastou-se rua abaixo, já de cabeça no ar como era seu costume quando queria esquecer pensamentos incómodos. A Ana sentou-se numa pedra junto do sítio onde o Orlando trabalhava, no interior da sua máquina invisível. Claro que o cientista a viu através da película de cristal e apressou-se a sugá-la para dentro.

— O que foi? Onde se meteu o teu irmão?

Em vez de responder largou num pranto. As emoções de ainda há pouco tinham-se acumulado no peito e precisavam de sair em lágrimas e soluços.

O Orlando abraçou-a carinhosamente, aguardou que o choro abrandasse e depois ouviu a história toda de fio a pavio.

— Não penses mais nisso, filha! Quando viajamos pelo tempo, não nos podemos envolver assim. A história está escrita e não podemos alterá-la!

— Eu sei, eu sei...

— Bom, então temos de ir embora. Onde é que se meteu o João?

— Foi dar uma volta, mas levou o sinalizador para não se perder.

O Orlando virou-se, contrariado.

- Eu tinha dito para não saírem do Rossio!

Mal-humorado, virou-se de costas e pressionou vários botões. O computador piscou três vezes. No écran surgiu uma indicação inquietante: tinha-se perdido o contacto com o sinalizador.

A Ana empalideceu, aflita.

— E agora?

— Agora temos de ir procurá-lo! — exclamou o Orlando, irritadíssimo. — Este rapaz só arranja problemas!

— Acha que o encontramos?

— Temos de encontrar. Esperemos é que não lhe tenha acontecido nada pelo caminho. Com o jeito que tem para se meter em complicações!

Desligando todas as máquinas, o Orlando atirou-se a si próprio e mais a Ana para o exterior.

 

             A procura do João

As ruas de Lisboa não eram nem largas, nem direitas, nem limpas. Andar a pé significava abrir caminho por entre lama, poças de água suja, restos de comida que as pessoas atiravam pela porta fora ou da janela abaixo, visto que não havia esgotos nem recolha de lixo.

O Orlando hesitou quanto ao percurso que devia seguir.

— Onde é que se terá metido o teu irmão?

— Sei lá! Ele é sempre assim. Só arranja trapalhadas. Desconsolados, olharam em volta na esperança de o

verem aparecer. Mas do João, nem sombras!

De tudo o que viam em redor, o que lhe poderia ter interessado?

A colina do Castelo de São Jorge, cheia de casas, mosteiros e igrejas apertadas em ruas estreitinhas? Era pouco provável. Já lá tinham estado da outra vez e ele pelava-se por novidades. Do lado oposto, um enorme convento de pedra escura dominava a paisagem.

— Achas que ele foi para ali? A Ana duvidou:

— Não me parece que ele fosse a correr meter-se num convento!

— Mas pode tê-lo reconhecido. Aquele é o Convento do Carmo, foi destruído pelo terramoto de 1755. Como na nossa época ainda lá estão as ruínas, talvez ele tenha querido ver o edifício em pé!

— Hum! Não acredito. Ele com certeza nem reconheceu o monumento. Está tão diferente! Assim inteiro parece mais uma fortaleza do que outra coisa qualquer.

Parados no meio do Rossio, continuaram a tentar adivinhar qual o caminho escolhido pelo João. Teria resolvido sair por uma das portas da muralha para ir explorar os bosques e pomares que rodeavam a cidade? Ele adorava aventuras. De repente, uma mesma ideia atravessou-lhes o espírito e exclamaram em coro:

— O rio! Só pode ter ido para o rio!

— Foi no Tejo que viveu a parte mais empolgante da viagem ao Ano da Peste Negra! Vamos, Ana. Deve estar à beira-rio, em busca de emoções fortes.

De facto, o João embrenhara-se pelas ruas da parte baixa, e atrás de vendedores, saltimbancos, carroças e carruagens desembocara na zona do cais. E esquecera tudo o resto, fascinado com o movimento intenso que ali reinava. Algumas caravelas ancoradas ao largo preparavam-se para zarpar no dia seguinte. Em terra a azáfama era indescritível! Homens, mulheres, crianças, cavalos, carros de bois, pipas de mantimentos, circulavam pelo porto e sentia-se no ar uma corrente de emoção. Vários homens iam seguir viagem, à descoberta de novas terras. E ao nervosismo próprio das últimas horas misturava-se a ânsia de partir, o medo de não voltar, as saudades dos que iam e dos que ficavam. Velhos marinheiros, orgulhosos da sua longa experiência, riam-se dos que embarcavam pela primeira vez e contavam histórias mirabolantes deixando a assistência boquiaberta. Não era fácil entender se diziam aquelas coisas porque acreditavam nelas, porque se queriam vangloriar ou se apenas pretendiam divertir-se, assustando os outros.

O João, atraído pela voz rouca e grave de um barbudo, cujo nariz vermelhusco atestava o seu gosto pelo vinho, foi-se chegando a um grupo cada vez mais numeroso.

Sentado num monte de sacas, o velhote deliciava-se a provocar os ouvintes, relatando peripécias incríveis:

— Foi ali para os lados de Sintra, digo-vos eu. Uma noite de tempestade como nunca se viu outra. Eu e mais quatro, íamos metidos num batel que se soltou e ai Jesus! Não sei como as águas não nos esborracharam de encontro às rochas!

Balançando ligeiramente o corpo para trás e para diante, fez uma pausa breve e olhou bem de frente quem o escutava. Queria tê-los ao rubro, quando chegasse a parte mais emocionante do seu relato. Precaução desnecessária, porque as pessoas bebiam-lhe as palavras. Falar de tempestades a quem ia partir era garantia de sucesso! Por um lado, enchia-lhes a alma de susto, mas por outro também os sossegava, pois se aquele homem tinha sobrevivido aos perigos terríveis do mar, é porque era possível sobreviver.

— Conte o resto, tio Manel! — pediu uma criança pequena, não podendo conter mais a sua impaciência.

O homem fungou, tossiu, cuspiu, esfregou as mãos uma na outra e só depois retomou o fio à meada:

— Nessa noite fomos dar ali para os lados de Sintra. Não muito longe de uma aldeia chamada Colares. Conhecem? — E, sem esperar resposta, continuou: — Pois debaixo de um rochedo, há uma gruta batida pelo oceano (1). Quando a maré está cheia, as ondas entram por ali adentro e fazem um estrondo que nem queiram saber! Foi nessa gruta que eu vi, com estes olhos que Deus me deu...

— Viu o quê, tio Manel? — perguntou de novo a criança, cada vez mais impaciente.

— Um tritão.

— Um tritão? Que diabo é isso?

— Não sabes? É um homem marinho.

— Como as sereias? Com rabo de peixe?

— Não, senhor — explicou o velhote. — O tritão tem corpo de homem em tudo. São até bonitos e muito ágeis, mas a pele é toda às escamas. Usam cabelo comprido, grandes barbas...

— E falam como a gente, tio Manel?

— Se forem ensinados, falam.

— E o senhor viu um?

— Vi. Estava na gruta a cantar com a sua concha na mão! Lá em Colares muita gente viu os tritões porque eles às vezes saltam para terra e vêm brincar à praia. — Um sorriso malandro sublinhou a frase seguinte: — Houve até quem os atraísse, com a doçura da fruta daquela região. Vai daí, com falinhas mansas, conseguiram cativá-los e eles misturaram-se com as mulheres. Há descendentes dos homens marinhos, sabem?

— E como é que se reconhecem esses descendentes?

 

(1) Esta história foi escrita por Damião de Gois, no século XVI. A gruta que se refere é na praia da Adraga, perto de Colares.

 

— Ora, muito simples! Têm escamas em certas zonas do corpo, principalmente nos braços, nas pernas e no peito. Pode-se pensar que é uma ferida, mas não é! São escamas. O João sorriu, divertido. Conhecia muito bem a praia da Adraga, Colares, Sintra. A ideia de sereias e tritões a aparecerem de visita em pleno Verão, para brincarem com as pessoas na praia, era engraçadíssima. Mas o mais engraçado de tudo era que todos ali pareciam acreditar no velhote. E bailava-lhes nos olhos um desejo evidente de partir, partir por esses mares fora ao encontro de seres fantásticos, de terras desconhecidas.

O tio Manel, com o nariz mais vermelho do que nunca, espremeu um odre para a boca e regalou-se com várias goladas de vinho tinto. Se continuasse a beber daquela maneira, não tardaria a cair para o lado, bêbedo como um cacho.

Já meio tonto, o velho remexeu-se entre as sacas à procura de uma posição mais confortável. Foi só nesse momento que o João reparou na sua perna de pau. O tio Manel não voltaria a partir de viagem. Talvez fosse por isso que se embebedava. Devia ser triste para ele ficar no cais a ver os barcos ao longe. Assim, entre o vinho e as histórias, ia passando o tempo.

— Tu! Por que é que estás aí especado a olhar para a minha perna de pau, hã? — perguntou-lhe com voz de trovão. — Tens medo de que te aconteça o mesmo quando embarcares?

O João ia a responder, mas calou-se. Aquela frase pusera-lhe o coração em alvoroço. Embarcar! Por que não havia de embarcar também? Com o sinalizador, facilmente restabelecia o contacto com o Orlando. Podia até ajudar os marinheiros, caso se perdessem!

Entusiasmado com a ideia, olhou para o pulso disfarçadamente.

O sinalizador estava completamente baço. Nem vislumbres da seta luminosa!

— O que é isso que tens aí? Hã?

— A... hum...

Aflito, ficou sem saber o que responder e preferiu despedir-se com um sorriso amarelo.

— Até à vista, tiozinho! Até à vista.

O carro de bois que ia a passar carregado de velas enroladas salvou-o de uma situação embaraçosa, pois fingindo conhecer muito bem o condutor misturou-se com a carga.

 

             O peixe-cavalo

Apesar da pressa que tinham em chegar ao rio, a Ana e o Orlando foram todo o caminho de nariz no ar, não fosse acontecer que se desencontrassem. O João podia ter resolvido voltar para trás e cruzarem-se sem dar por isso.

Quando passaram pelo Largo do Pelourinho Velho, a Ana deu um grito:

— Lá está ele! João! João!

De braços abertos correu ao encontro de um rapaz e ia morrendo de vergonha quando ele se virou. Não era o irmão! Corada até à raiz dos cabelos, desculpou-se:

— Julguei que era outra pessoa! O rapaz armou logo em esperto:

— Não te aflijas por minha causa. Se perdeste o teu namorado, podes abraçar-te a mim!

— Eu estou à procura é do meu irmão!

Um coro de gargalhadas masculinas fê-la recuar, embaraçada. No meio do largo vários homens sentados diante de mesas, escreviam, utilizando penas de pato que iam mergulhando em recipientes com tinta.

— Anda cá, menina! — disse um deles arreganhando a dentuça. — Se quiseres escrevo-te uma carta de amor! E olha que não te levo muito dinheiro!

— Não vás nas falinhas mansas do Zacarias! — disse logo um outro com ar gozão. — Os meus preços são muito melhores. E ainda por cima sei fazer versos! (1)

A Ana não percebia nada daquela conversa e só queria ver-se longe dali. Estavam poucas mulheres na rua, raparigas então não se via nenhuma. Talvez por isso os homens não tiravam os olhos dela nem paravam de dizer piadas.

Felizmente o Orlando veio em seu socorro. Enfiou-lhe o braço e arrastou-a para uma rua larga, com belos edifícios de janelas quadradas e persianas de tabuinhas. Era a Rua Nova dos Mercadores. Ali o movimento continuava e era muito mais engraçado. Vários estrangeiros tinham naquela zona as suas casas e as suas lojas. Olhando para eles, via-se logo que não eram portugueses, pois a moda ainda não era igual em todo o mundo e cada um vestia os trajes da sua terra.

— Estou cansada! — queixou-se. — Parece-me que nunca mais encontramos o João no meio desta barafunda!

Como resposta, um ruído surdo elevou-se no ar: «BOUM... BOUM... BOUM...»

— O que é isto?

 

(1) No Largo do Pelourinho Velho havia homens que ganhavam a vida a escrever cartas, pedidos, recados, versos, discursos, elogios ou orações, tudo o que as pessoas lhes quisessem encomendar, pois a maioria da população era analfabeta. Os preços variavam conforme o assunto.

 

Eram tambores. Muitos tambores! Um grupo de homens, todos vestidos de igual, vinha pela rua fora, tocando num ritmo lento e pausado (1).

O cortejo parou adiante. Foi a vez de uma corneta chamar a atenção geral. Fez-se silêncio na rua e o pregoeiro avançou em cima de um cavalo negro. Com uma voz possante, anunciou para quem o quis ouvir:

— Por ordem do Sereníssimo Príncipe Dom João II, rei de Portugal e dos Algarves, de Aquém e de Além-Mar em África, devem recolher esta noite aos navios todos os homens de armas e todos os oficiais das caravelas capitaneadas por Diogo Cão! A armada largará do Tejo amanhã com a bênção de São Jorge e de Nosso Senhor Jesus Cristo!

O pregoeiro calou-se e ouviu-se de novo o rufar dos tambores.

«BOUM! BOUM! BOUM!»

A rua inteira permaneceu em silêncio, enquanto o cortejo seguia o seu caminho pela cidade.

— Vamos para o cais — disse o Orlando baixinho. — Depois disto, já sabemos onde está o teu irmão!

Àquela hora, o João acabava de ajustar na cabeça o barretinho vermelho dos marujos! Ainda há pouco vagueava pelo cais, metendo o nariz em todos os grupos, imiscuindo-se em todas as conversas, nada preocupado por ter perdido o contacto com o Orlando. A sua confiança no cientista era total. Não duvidava nem por um segundo de que ele

 

(1) Na véspera da partida das caravelas, os soldados e oficiais eram avisados que deviam recolher a bordo por pregoeiros acompanhados de tambores e trombetas.

 

utilizaria os recursos necessários para o encontrar onde quer que estivesse. Assim, quando soube que um dos marinheiros tinha adoecido e não podia seguir viagem, ofereceu-se imediatamente para o substituir. E como não era fácil arranjar mais um homem poucas horas antes da partida, aceitaram-no logo. Esse pormenor foi até uma das coisas interessantes que o João descobriu. No século XV ele já era considerado um homem, apesar da sua pouca idade. Mas numa época em que a maioria das pessoas morria antes dos quarenta anos, ter doze já era muito bom! Exactamente metade da idade do capitão, a quem o rei confiara a tarefa de comandar navios e homens por mares nunca dantes navegados. E o facto de não ter experiência nenhuma pouco ou nada importava. Além do comandante, dos pilotos e de mais meia dúzia de homens, o resto da tripulação sabia tanto como ele. A experiência adquiria-se no mar.

«Vendo bem, vendo bem, até sei mais do que eles!», pensou, divertido. «Sei nadar!»

Acabara de falar acerca disso com alguns rapazes que também iam partir e a quem já considerava seus amigos. Nenhum conseguia sequer aguentar-se à tona de água! A não ser Estêvão Ayres, que parecia aliás saber tudo. Falava pelos cotovelos, e não havia assunto relacionado com viagens que não trouxesse logo à baila uma nova história. Era fascinante escutá-lo, embora fosse muito mais velho do que os outros.

Alto e seco de carnes, tinha os músculos tão rijos que lhe chamavam «o homem de ferro». A pele escura e queimada do sol enrugava ao canto dos olhos, formando umas pregas de riso, que assentavam bem por cima da sua barba grisalha. Era o único dos velhos marinheiros a quem não faltava dente nenhum. Respirava saúde por todos os poros.

— Aprendi a nadar tinha para aí doze anos. Foi na primeira viagem que fiz. E que viagem! Entrámos no rio da Gâmbia e eu, com o entusiasmo, debrucei-me tanto que caí! Aquilo é que foi dar às pernas e aos braços para não me afogar! Engoli água que chegava para encher um barril, mas safei-me. Olhem, foi nesse dia que vi pela primeira vez o peixe-cavalo.

Os rapazes que o rodeavam agitaram-se. Nenhum deles tinha ainda navegado. Ouviam contar histórias fantásticas e ansiavam ir ver também aquele mundo de coisas misteriosas e estranhas.

— Mas era peixe ou cavalo? — perguntou um, arregalando os seus enormes olhos azuis.

— As duas coisas! Se queres que te diga, a forma do bicho é como a de uma vaca. Uma vaca bem gorda, curta de perna e com os pés rachados. A cabeça é do feitio da de um cavalo, mas a boca é muito maior! Os dentes têm para aí um palmo de comprido.

Pedro Afonso, que era como se chamava o rapaz dos olhos azuis, abanou a cabeça, impressionado. Não conseguia imaginar um peixe assim! Que anzol, que rede seria necessária para o pescar?

— Tem a certeza de que é peixe?

— Claro que tenho, tanto que anda na água! Aliás não é um, são muitos. Nadei no meio deles e apanhei um susto quando os vi saírem para a margem do rio com aquele corpanzil! Porque como têm quatro patas, também andam na terra.

— E escamas? Têm?

— Não. A pele é acastanhada e tão viscosa que dá arrepios só de olhar! Ainda um dia hei-de trazer para cá um destes peixes-cavalos.

O João não aguentou mais e largou à gargalhada:

— Ah! Ah! Ah! Que disparate!

À volta dele caiu um silêncio pesado. Estêvão Ayres era um velho experiente. Sabia muito mais com certeza do que aquele miúdo que nunca tinha viajado. E gostava pouco de que duvidassem da sua palavra, pois considerava-se incapaz de mentir.

Assim, branco de fúria, deitou-lhe a sua mão de ferro ao pescoço e abanou-o com toda a força.

— Estás a troçar de mim, meu fedelho? Duvidas da minha palavra? Hã?

O João, aflitíssimo, tentou libertar-se debatendo-se freneticamente mas o outro cada vez o abanava mais.

— Não acreditas? Não acreditas?

A voz saiu-lhe tão rouca como se viesse directamente do estômago.

— A... Sim... É verdade! É verdade! Desculpe, que eu

estava a brincar.

Estêvão Ayres largou-o então e mudou de atitude. Não era homem de rancores.

— Bem, para a outra vez, se quiseres brincar avisa primeiro, sim?

Ele suspirou de alívio. Daquela tinha escapado! Mas logo se virou em sobressalto. Alguém o agarrara e puxava para trás.

 

                 A véspera da partida

— Orlando! Ana! — exclamou. — Ainda bem que apareceram!

— Também me parece! — disse o Orlando num tom severo. — Pelos vistos tinhas-te metido numa alhada.

— Não! Que ideia! Foi só um mal-entendido — explicou, afastando-se um pouco para que não o ouvissem.

— Por que é que aquele homem te estava a apertar o pescoço? — perguntou a Ana.

O João riu-se.

— Foi engraçadíssimo! Ele pôs-se a falar num peixe que tinha visto em África, um peixe com corpo de vaca e cabeça de cavalo...

— Que disparate!

— Foi o que eu disse. Aliás, eu até só queria explicar que aquilo não é peixe nenhum, mas que se trata de um hipopótamo!

O Orlando sentiu ganas de fazer o mesmo que o velho Estêvão Ayres!

— Já te disse mil vezes que não tens nada que falar dos conhecimentos do século XX, quando andamos a viajar pelo tempo!

— Mas era só dizer o nome do bicho! Que mal tinha?

— Seja o que for! Não interessa. Se quiseres vir comigo na máquina do tempo, cumpres as regras. É rigorosamente proibido dar informações que as pessoas da época ainda não têm. É perigosíssimo!

— Não percebo muito bem porquê — resmungou ainda o João.

— Se pensares um bocadinho, aposto que chegas lá. A Ana tentou desviar o assunto:

— Por que é que tens esse barretinho vermelho? Deram-te, foi?

Ele fez-se de todas as cores! Atrapalhadíssimo, olhou para a biqueira dos sapatos. E receando confessar a verdade, preferiu calar-se.

— Queres saber, Ana? — perguntou o Orlando, que mordia a boca para não rir. — Aquele barrete é mais uma das ideias loucas do teu irmão.

— Como é que sabe? — perguntou ele, erguendo vivamente a cabeça.

— Ora! Que o barrete vermelho é usado pelos marinheiros das caravelas, ensinaram-me quando eu andava na escola! E como não sou parvo, basta raciocinar um pouco. Se não aparecêssemos, tencionavas meter-te nos barcos e ir com eles, não?

— A... bem, sabe...

Foi a vez de a Ana corar de indignação.

— Tu não deves estar bom da cabeça!

— Porquê?

— Oh, João! Francamente! Então deixavas-nos andar aqui doidos à tua procura, e desaparecias no mar todo satisfeito?

— Vocês descobriam-me logo com o sinalizador!

— Ah, sim? Nem percebeste que tínhamos perdido o contacto? Não?

— Percebi, claro. Mas sei muito bem que o Orlando tem outros recursos. Tinha a certeza de que me encontrava!

O Orlando abanou a cabeça, e encolheu os ombros, conformado.

— Tu dás cabo da paciência a um santo! O que te vale é eu achar graça às parvoíces que fazes.

Sentindo que o seu velho amigo amolecia a zanga, decidiu argumentar. E, falando muito depressa para evitar que o interrompessem, começou:

— Orlando, deixe-me ir! Não há perigo nenhum. Nós sabemos que esta viagem foi um êxito. O comandante é Diogo Cão. Vai descobrir Angola... Ó Orlando, deixe lá! Se precisar de mim, vai na máquina pelos ares buscar-me onde eu estiver! Deixe! Deixe! Deixe!

— Vou-te buscar se precisar de ti? Ó homem, quem é que precisa de ti? — respondeu o Orlando irritadíssimo.

Aquela frase, em vez de o deixar abatido, fê-lo exultar:

— Vê? Vocês não precisam de mim para nada! Tenho a certeza de que os dois encontram o Sponezik 7 num instante e depois passeiam à vontade por Lisboa, até eu voltar.

— O Sponezik 7! Meu Deus, já nem me lembrava do que vínhamos à procura!

— Eu também não me lembrei de te dizer que já sei onde

está.

— Onde? — perguntaram os dois irmãos.

— Em África!

— Oh, que bom! Então marcamos um sítio e encon-tramo-nos lá! Vocês vão na máquina do tempo, e eu vou nos barcos deste tempo... as caravelas! Perfeito, não acham?

Para grande espanto da Ana, o Orlando pareceu encarar a possibilidade.

— Bom... de facto, talvez tenhas razão! Se eu acertar o sinalizador para grandes distâncias, mantemo-nos em contacto.

— Oh, Orlando! Sim... Sim... Sim...!

Num gesto rápido, estendeu o braço e apresentou-lhe o mostrador cinzento.

— Tens de ter cuidado para ninguém ver isto — disse o cientista em voz baixa, enquanto pressionava os botõezinhos minúsculos com uma agulha de metal. — E tens também de me prometer uma coisa...

— Prometo tudo!

— Não abres a boca para contar seja o que for que eles não saibam! Juras?

— Juro.

A Ana assistiu ao diálogo incapaz de articular palavra. O Orlando estaria tão louco como o irmão, para o deixar ir assim à aventura? Não seria perigoso separarem-se?

Ele percebeu a sua angústia e passou-lhe um braço à volta dos ombros.

— Não te assustes, filha. Eu sei o que faço! Não vai acontecer nada, garanto-te.

O movimento crescia na beira do rio. Começara o embarque. Os botes enchiam-se de homens para logo em seguida se afastarem em direcção às caravelas.

No cais, as mulheres choravam, abraçando uma última vez os maridos, os filhos, os irmãos, que partiam para longe sem saber por quanto tempo, sem saber o que os esperava, sem saber se voltariam algum dia.

A cena era de partir o coração! A Ana sentiu vontade de gritar bem alto:

— Não se aflijam! Esta viagem vai correr muito bem! Mas depois lembrou-se de que, embora as caravelas de

Diogo Cão tivessem regressado a Lisboa, isso não significava que todos os homens tivessem também voltado à sua terra, sãos e salvos! O mais provável até era que alguns deles morressem pelo caminho.

Ao seu lado, uma rapariguinha loira chorava desabaladamente. Via-se que lhe custava soltar-se do abraço com que o noivo a apertava de encontro a si.

— Cecília — dizia ele com ternura na voz —, tens de ter coragem, pois chegou a hora!

— Volta, Pedro Afonso! Eu espero por ti! Eu espero por ti o tempo que for preciso, mas volta!

Os olhos azuis, tão grandes que se diriam grandes de mais para a cara, iluminaram-se com um brilho triste.

— Se eu não voltar, quero que saibas uma coisa.

— O quê?

— Quero que sejas feliz.

A rapariga, que entretanto o largara, voltou a abraçá-lo redobrando o choro.

— Pedro Afonso, Pedro Afonso! Se tu não voltares, eu não caso com mais ninguém!

A Ana sentiu um arrepio de mau pressentimento. Talvez fosse preferível ela não dizer aquilo, para não atrair a má sorte. Ficaram tantas noivas por casar!...

Mas o João apareceu eufórico e distraiu-a:

— Adeus, Ana! Vou embarcar agora mesmo. — E, baixando a voz, acrescentou: — Vou descobrir Angola!

— Palerma! — disse o Orlando. — O que tu vais descobrir é a foz do rio Zaire. Só mais tarde aquela terra se

chamará Angola!

— Uma coisa ou outra, tanto faz! — disse ele, já a despedir-se. — Até à vista! Portem-se bem! Divirtam-se muito! Adeus! Adeus!

Depois de beijos, abraços e acenos saltou para dentro do mesmo bote que Pedro Afonso. Ficaram a vê-lo ir em direcção à caravela maior.

— Tem sorte, o malandro! Vai na caravela do capitão-mor, que é sempre a melhor de todas.

A Ana não respondeu. Os olhos marejados de lágrimas e um nó na garganta impediram-na de o fazer.

Ao seu lado, Cecília chorava baixinho. Ambas fixavam o mesmo bote, de onde o João e Pedro Afonso acenavam, agitando no ar o barretinho encarnado.

 

               A partida

Ao cair da noite, o rio e o céu ficavam da mesma cor, primeiro azul-pálido, depois cinzento, tão brilhantes como se fossem de prata. O crescer e o baixar das águas trazia consigo uma brisa ligeira que varria o ar, levando para longe maus cheiros e maus pensamentos, de modo que a cidade empoleirada na margem parecia um local muito apropriado para se ser feliz sem sobressaltos. No entanto não era assim. Mergulhada nas sombras do entardecer, a cidade agitava-se, com as ondas de gente que iam chegando ao cais e engrossando o número dos que queriam ver partir a armada de Diogo Cão. Homens, mulheres, crianças, cavalos, bois, cães de raça e cães vadios, todos passariam a noite em claro, à roda das fogueiras. Contar-se-iam casos de outros que tinham partido e voltado, ou não. A Lua muito redonda e muito cheia tornava mais nítidos os contornos de um castelo na margem esquerda, o castelo de Almada.

A Ana ficou muito tempo ali. Sabia-lhe bem o cheiro a maresia, a frescura da tarde, as conversas e o movimento no cais.

Uma tristeza doce amolecia-lhe o corpo e a vontade de falar, de modo que permaneceu imóvel e em silêncio até que o Orlando apareceu na sua frente.

— Temos de ir procurar uma hospedaria, que eu já não tenho idade para dormir ao relento.

Ela levantou-se sem nada dizer.

— Que é isso, Ana? Pareces uma alma penada! De olhos baixos, preferiu não responder.

— Escuta, filha. Para ficares assim tristonha, não valia a pena vires comigo de viagem. Em casa estavas melhor, não achas? Anima-te, vá!

A Ana, impaciente, encolheu os ombros e só por respeito não lhe deu uma resposta torta. As pessoas mais velhas tornavam-se bem irritantes, quando se punham a dar conselhos daqueles. «Anima-te! Anima-te!» Ninguém fica triste ou alegre quando quer. Amuada, seguiu-o por um caminho tortuoso e empedrado que ia dar a um convento. Mas a hora fora mal escolhida. As portas estavam fechadas a sete chaves e ninguém respondeu. Não tiveram portanto-outro remédio senão continuar à procura de poiso, e com o estômago roncando de fome acabaram por entrar numa taberna com péssimo aspecto, mas que exalava um delicioso cheiro a carne assada.

A sala era muito pequena e escura, pois a única luz vinha das candeias de azeite. A mobília quase não era nenhuma. Apenas um balcão ao canto e uma mesa de madeira carcomida. A Ana hesitou, amedrontada. Os homens presentes pareciam saídos de um filme de corsários e piratas! A maior parte eram gordos, estavam mal vestidos e com a barba por fazer. Por certo não se lavavam há muito tempo, se é que alguma vez aquelas peles encardidas tinham experimentado água e sabão. Cheiravam mal e coçavam-se arrepanhando a carne com as unhas nojentas. Todos riam altíssimo, enquanto comiam e bebiam canjirões de vinho. Duas mulheres anafadas andavam pelo meio deles a servir, e quando algum dos clientes tentava agarrá-las riam-se também muito, mas ferravam-lhes um bofetão.

Se não estivessem com tanta fome, tinham dado meia volta para ir à procura de um sítio melhor. Mas o fumo convidativo dos fogareiros de barro, onde assavam apetitosas costeletas de carneiro, obrigou-os a ficar. Sentaram-se no banco corrido, pois não havia cadeiras, e esperaram que os atendessem procurando não dar muito nas vistas.

De olhos baixos, devorando grossas fatias de pão caseiro e rodelas de chouriço, a Ana verificou que, embora dissessem piadas e gracejos, todos falavam do mar. E preferiam sempre histórias trágicas, com barcos à deriva, naufrágios, tempestades medonhas, pessoas a afogarem-se. Quando um falava, os outros escutavam-no em suspenso à espera do desfecho e quanto mais terrível melhor! Depois pegavam na palavra, procurando contar uma história mais impressionante do que a anterior.

— Onze dias estive eu sem comer nem beber! — afirmou um grandalhão, que acabara de emborcar quase um litro de vinho e falava agora dando estalos com a língua. — Fui apanhado por uma trovoada como poucas vezes se tem visto. O rio cuspiu-nos para o mar, a mim e a mais três que andávamos à pesca numa barca. Fomo-nos afastando cada vez mais da terra e perdemos o tino. Só por milagre não morri. Os meus companheiros é que não tiveram a mesma sorte!

— Morreram? — perguntou alguém.

— Morreram, sim. Dois foram arrastados por um vagalhão que nos apanhou de bombordo e varreu o barco de uma ponta à outra. Fiquei eu e o Sardinho, coitado! Já levava às costas um bom par de anos e sempre na faina da pesca. Lutou ao meu lado como um gigante, até de manhã. Depois deu em tremer com febre. Seria o susto? Aquilo foi de mais para um velho. Morreu a chamar pela filha, o pobre! A filha única que ele adorava. Tive de o deitar borda fora com as minhas próprias mãos. Fiquei sozinho, sem vela, nem mastro, nem remos, nem nada! Onze vezes vi o Sol nascer e voltar a pôr-se. Quando me recolheram a bordo de uma caravela já nem dava acordo de mim!

O relato tinha sido demasiado forte. Os outros calaram-se e durante algum tempo só se ouviu mastigar e sorver colheradas de sopa. Até que alguém lá ao fundo gritou qualquer coisa que a Ana não entendeu mas que fez o Orlando corar de vergonha. Grossa asneira, por certo. Um coro de gargalhadas restabeleceu a barulheira.

— Temos de sair daqui o mais depressa possível! Este ambiente não é próprio para ti.

— São homens do mar — disse a Ana baixinho. — O João sentir-se-á bem no meio deles?

O João não podia sentir-se melhor. Ainda não tinha parado um instante, subindo e descendo pelas escadinhas de corda. O balanço suave do barco não lhe provocava o menor enjoo, pelo contrário! Divertia-se a manter o equilíbrio e aguardava a primeira oportunidade para trepar ao mastro. O único problema era «a comichão na língua»! De cada vez que os seus companheiros diziam qualquer coisa que ele sabia não ser assim, ficava em pulgas para lhes contar a verdade.

Já várias vezes estivera mesmo à bica de explicar que a Terra era redonda, que a África era muito maior do que eles pensavam, mas que daí a uns anos conseguiriam dar a volta pelo cabo da Boa Esperança, mas lembrando-se da promessa feita ao Orlando conseguira calar-se.

Estava ele todo contente debruçado na amurada, quando percebeu que o chamavam:

— Tu, grumete (1)! Anda cá!

Voltou-se e deu de caras nem mais nem menos do que com o capitão-mor!

Outro que fosse intimidava-se, mas ele nunca perdia o à-vontade e olhou bem de frente aquele homem ainda novo, que sem o saber estava à beira de se tornar famoso entrando para a História de Portugal como o descobridor do reino do Congo.

— Diogo Cão — murmurou, fascinado. — Diogo Cão!

Encarando-o, procurou fixar aquele rosto de linhas marcadas, queixo quadrado, olhos miúdos, de expressão viva e inteligente. Reparou também que o traje que vestia era diferente do dos marinheiros e que por baixo do chapéu se via um bom palmo da sua forte cabeleira.

— O que foi? — perguntou ele. — Por que é que estás pasmado a olhar para mim?

A voz era firme e grave, como se espera num verdadeiro comandante.

— Nada... por nada! — gaguejou o João.

— Bom, então vai ali ajudar os outros a arvorar a bandeira.

 

(1) Grumetes eram todos os rapazes admitidos a bordo, que ainda não tinham a categoria de marinheiros.

 

Ele apressou-se a cumprir a ordem e assim reuniu-se ao grupo onde também estava Pedro Afonso.

Tarefa concluída, desceram ao porão. Ali, muito bem arrumados, estavam os instrumentos e materiais necessários à viagem, desde ferramentas de carpinteiros e pedreiros, alavancas, escadas de corda, padiolas e pontes dobradiças para arrombarem e assaltarem outros navios se fosse necessário. Havia também velas sobresselentes, cordas, âncoras, várias carradas de lenha, pipas com mantimentos, água, vinho e armas, claro. Armas bem limpas e oleadas para o que desse e viesse! Encostadas ao fundo, iam umas colunas de pedra branca, destinadas a assinalar terras descobertas .

Parecia impossível que coubesse tanta coisa num espaço tão pequeno!

— Onde é que a gente dorme? — perguntou o João.

Foi gargalhada geral.

— Ah! Ah! Ah!

— Vê-se logo que és marinheiro de água doce! Ele não se ralou nada e insistiu:

— A gente tem de dormir em algum lado, não é? Pedro Afonso bateu com o punho numa prateleira suspensa de um lado e do outro do casco.

— É aqui. Quando chegar a nossa hora de dormir, estendemo-nos aqui. Se fizer frio, tapamo-nos com mantas.

— Frio? Vê-se mesmo que tu também ainda não foste longe. As terras de África são muito quentes, homem!

— Eu sei, eu sei! — disse o João, esquecido das promessas que fizera ao Orlando.

Mas logo mordeu a língua e desviou a conversa.

Estava escuro ali em baixo. A única iluminação vinha de candeias de azeite. Bocejou longamente. Apetecia-lhe imenso dormir uma soneca, mas pelos vistos na véspera da partida ninguém tentava sequer conciliar o sono.

Ainda olhou para a tal prateleira que lhe serviria de cama, mas preferiu encostar-se aos rolos de pano que eram as velas sobresselentes. Espreguiçou-se, cabeceou, cabeceou, com as pálpebras cada vez mais gordas e pesadas. Só percebeu que tinha adormecido quando no dia seguinte um tiro de artilharia o acordou em sobressalto.

Iam partir! Lá em cima já recolhiam a âncora. Da amurada, viu a multidão que acenava com lenços brancos, e julgou vislumbrar o rei Dom João II ao lado do bispo, que fazia o sinal da cruz sobre a armada.

Os marinheiros ajoelharam e benzeram-se, cada um pedindo ajuda ao santo da sua devoção.

Depois, para grande surpresa dos que nunca tinham viajado, alguns homens puseram-se a tocar flauta, pandeireta, e uns curiosos instrumentos de corda.

— Isto é para deixar saudades a quem fica, e alegrar os que partem como nós! Assim, não nos sentimos desacompanhados!

O João sorriu ao velho marinheiro. Com o vento a soprar brando nas velas e a música a tocar, foram-se afastando do cais. Apetecia mesmo viajar com aquele tempo magnífico!

Um pensamento voou-lhe para terra. Como seria a viagem da Ana e do Orlando? Onde e quando se voltariam a encontrar?

Com um trejeito maroto decidiu:

— Se não me acontecer nada de extraordinário pelo caminho, invento! Hei-de contar histórias de arrepiar! E esfregando as mãos de contente encostou-se à amurada. Mal sabia ele que não seria preciso puxar pela imaginação, pois não faltariam aventuras pelo caminho. E que aventuras!

 

                   Mudar de pele

Depois de terem jantado naquela taberna infecta, de terem pernoitado nas cocheiras de uma casa perto do rio e de terem visto partir as caravelas, a Ana e o Orlando regressaram à máquina do tempo. Chegara a hora de partirem também.

— O computador já indicou a zona onde está o Sponezik 7.

— Em África, não é?

— Pois — disse o Orlando. — Mas África é muito grande e aquele maldito Sponezik muito pequeno... por isso só sei que escorregou para uma certa zona. Temos de dar algumas voltas, até o encontrar.

— Mas começamos por onde?

— Isso é o que vamos ficar a saber dentro de momentos!

O Orlando pressionou botões e botõezinhos, carregou numa pequena alavanca e ficaram ambos à espera.

No écran de uma televisão encaixada na parede da máquina do tempo começou a formar-se o recorte do continente africano. Depois, um quadriculado luminoso assinalou uma superfície.

— Estamos tramados! Pelos vistos, o computador não consegue dar-nos uma informação mais precisa.

— Tente outra vez! — sugeriu a Ana. — Essa área de facto é enorme.

O Orlando bem tentou, mas sem qualquer êxito.

— Bom, temos de escolher um sítio ao acaso e depois, se não acertarmos à primeira, continuamos a fazer as nossas buscas.

— E por onde é que começamos?

O cientista ficou pensativo. As hipóteses eram mais que muitas. Mas acabou por decidir:

— Talvez pela zona do comércio do ouro. O Sponezik parece ouro e é atraído pelo ouro, da mesma forma que os metais são atraídos pelo imã!

— Se calhar a estas horas já se enfiou pela terra e está numa mina, a vários metros de profundidade...

— Talvez — disse o Orlando. — Mas quanto a isso só indo para lá. Quando chegarmos ao sítio certo, esta maquinaria dá sinal.

— É verdade — perguntou a Ana —, e como é que nos disfarçamos? Não podemos aparecer assim!

O Orlando brindou-a com uma das suas gargalhadas roucas:

— Pois não! Não podes ir assim vestida e nem sequer podes levar a tua própria pele! Nesta época ainda não há brancos em África. Só os marinheiros e comerciantes portugueses, mas esses andam na costa e nós vamos para o interior.

— Vai pintar-me de preto? — perguntou ela rindo.

— Não é preciso. De resto, decidi que nos vamos misturar primeiro com os azenegues.

— Isso francamente não sei o que é.

— Bem, a zona do Norte de África era habitada por árabes. Mas também por umas tribos de outro povo, os berberes. No século XV os portugueses chamavam azenegues (1) às tribos que com as suas caravanas de camelos atravessavam o deserto do Sara e iam comprar ouro aos negros, e...

A Ana não o deixou continuar.

— Então como é que vai ficar a minha pele?

— Entre o branco e o preto.

— Mulata?

— Não é bem. Chamemos-lhe «pele parda». Ora chega-te aqui.

 

(1) Os portugueses no século XV chamaram azenegues a todos os habitantes da costa ocidental da África até ao Senegal.

 

A Ana obedeceu e o Orlando empurrou-a para um círculo de vidro que havia no chão. Quando ela se pôs ali em cima, um foco de luz intensa e amarela envolveu-a dos pés à cabeça. Não sentiu nada de especial, além de um formigueiro na ponta dos dedos e na ponta do nariz. A operação durou poucos segundos. Uma onda magnética foi subindo em espiral, transformando-lhe a pele e a indumentária.

— Tem um espelho? — pediu ela, mal a luz se apagou.

— Não, filha! Não me lembrei de que vinha viajar com

mulheres.

— Ora, ora! Se o João aqui estivesse, havia de querer não um, mas dois ou três espelhos, para se ver melhor!

Cheia de pena, pois apetecia-lhe imenso apreciar o resultado da transformação, mirou-se numa placa de aço. E não ousou confessar que se achou giríssima! Ela que era clara, tinha passado temporariamente a bastante morena. Melhor, muito melhor do que o bronzeado da praia! As sobrancelhas, as pestanas e o cabelo escureceram também. Não lhe ficava nada mal, aquele tom, sobretudo porque tinha reflexos, de tão brilhante.

«Que bom que era se uma pessoa pudesse mudar assim instantaneamente de aspecto na minha época. Variar de cara, de corpo, de cabelo e de pele, como quem muda de camisa!», pensou, sem nada dizer.

Mas ao voltar-se não pôde reprimir uma gargalhada!

Na sua frente estava um homem irreconhecível! O Orlando, de pele escura, vestindo a túnica branca dos azenegues, fora obrigado a tingir os seus olhos azuis, que agora lhe sorriam com malandrice. Porque, carregando num botãozinho extra, aproveitara para cobrir a careca com abundância de caracóis pretos, iguais ao bigode.

— Orlando! Parece que vamos a um baile de máscaras!

— E eu nunca me disfarcei tão bem, não achas?

— Acho!

— Então, toca para... para, olha, vamos começar pela zona onde os azenegues faziam comércio com os negros beiçudos (1). Queres?

— Cá por mim, tanto faz.

— Agora a viagem é mais fácil — disse o Orlando. — Porque não vamos saltar no tempo. Só no espaço!

De costas para ela, começou a accionar os mecanismos necessários.

Desta vez a Ana não sentiu aquele arrepiozinho de desconforto, a que mais vulgarmente se chama medo, pois a experiência anterior tinha sido excelente. De pé, encostada à parede de cristal, roía a sua unha parda, à espera de sentir apenas aquele deslizar suave que a transportara pelos séculos fora. No entanto, as coisas não se passaram exactamente assim!

A máquina começou a vibrar, como se fosse um serviço de copos inteirinho, a tremer e a tilintar em cima de uma mesa que alguém abanasse. Depois, um silvo agudo e penetrante atordoou-a por completo. Fechou os olhos com força e entrou em pânico! Receava que a máquina estoirasse, como um cristal sob o efeito de marteladas, e que o seu corpo ficasse desfeito ou cravejado de estilhaços.

Queria gritar, mas não lhe saía a voz. O zumbido tornara-se insuportável! Sentiu-se flutuar e de repente foi como se girasse sobre si mesma a uma velocidade incrível. E aquilo nunca mais acabava! Incapaz de pensar, de raciocinar, de sentir outra coisa para além da vertigem e da náusea,

 

(1) Os pormenores deste comércio estão relatados na parte final deste livro, pp. 175-177.

 

como se o corpo todo estivesse reduzido a um vómito, desmaiou.

 

                   No país de Budomel

A boca seca e uma dor aguda no peito foram as primeiras sensações que teve ao acordar. Piscou os olhos, e não percebeu logo onde estava. Tinha-se-lhe varrido tudo da memória e o que via também não ajudava muito. Através da parede de vidro, estendia-se a maior e mais desolada planície que se possa imaginar. Terra avermelhada toda a direito, sempre igual, pelo menos até aonde os seus olhos alcançavam. Nem casas, nem bichos, nem gentes, nem plantas! Nada, nada, nada! Apenas o Sol, redondo, imenso, brilhante, punha uma nota amarela na paisagem. Ao seu lado, o Orlando permanecia hirto, de olhos fechados, sem dar acordo de si.

As suas roupas estranhas e o aspecto diferente da pele e dos cabelos trouxera-lhe de volta a lembrança de tudo o que se tinha passado antes de a máquina iniciar a viagem.

«Alguma coisa deve ter corrido mal», pensou, tão aflita que julgou desmaiar de novo, mas agora de susto!

O Orlando teria morrido? Se asssim fosse, estava perdida. Mas perdida aonde?

«Se calhar, em vez de aterrarmos em África, a máquina levou-nos para outro planeta. Será isto a Lua? Marte? Vénus?»

A sugestão foi tão forte, que o Sol pareceu-lhe muito maior do que de costume.

Ao seu lado, o cientista estremeceu e balbuciou qualquer coisa:

— Hum... Ba... Gag...

— Orlando! — gritou ela, abanando-o com força. — Acorde! Acorde, pelo amor de Deus!

Da mesma forma que ela ainda há pouco, teve de pestanejar várias vezes para sair daquele torpor que lhe impedia os movimentos.

— Ana! Onde estamos? — perguntou, humedecendo os lábios secos, com a língua ainda mais seca.

— Não sabe? — perguntou aterrada.

— Calma! Não te enerves! Calma.

A pouco e pouco recuperava o domínio de si mesmo e olhou para fora com olhos de ver.

— Estamos noutro planeta? Ele sorriu.

— Realmente parece outro planeta, mas não é!

— Onde é que estamos?

— No deserto do Sara.

— No deserto? Então e as dunas de areia?

— Isso é mais para baixo. Suponho que aterrámos algures a sul do oásis de Ouarzazate.

— O que é que aconteceu? Não era para aqui que queríamos vir, pois não?

— Não. Alguma coisa deve ter corrido mal.

— Mas esta máquina não é perfeitíssima?

— Nada neste mundo é perfeito. Qualquer máquina se pode avariar.

— E agora? Como é que vamos sair daqui?

— Já te disse que o que é preciso é calma. Eu vou tentar perceber onde está a avaria.

A Ana compreendeu que naquele momento a melhor ajuda que podia dar ao Orlando era manter-se quieta, em silêncio, e não mostrar que estava nervosíssima. Assim, ele poderia trabalhar em paz. Encostada à parede de cristal, que permanecia fresca apesar de estar ali à torreira do Sol no meio do deserto, viu-o fazer esforços para contactar com outros cientistas da AIVET. Não conseguiu. Depois tentou saber ao certo o local e a data onde estavam. Inútil! O computador não deu resposta.

— Mas que maçada — resmungou entredentes. — Vou experimentar o botão de emergência a ver o que acontece!

Para assombro de ambos, assim que o Orlando retirou o dedo, a máquina do tempo começou a oscilar para um lado e para o outro como um «sempre em pé», e depois, devagarinho, foi-se elevando no ar sem o mínimo ruído!

— Bom... vou conduzir esta geringonça como se fosse uma avioneta normal.

— Conduzir para aonde?

— Olha, para o sul, por exemplo! — respondeu, apontando-lhe uma velha bússola que não deixara de funcionar. — É engraçado, Ana! Este aparelho antigo é tão simples e elementar, que não avaria!

A viagem recomeçou, agora parecendo-se muito com uma viagem de balão. Voaram sobre o deserto, viram surgir as dunas, os tufos de palmeiras, viram até várias caravanas minúsculas e pachorrentas, com os camelos carregadinhos de mercadorias.

Na última, por sinal, deram por eles! Os azenegues agitaram-se de dedo no ar. Apontavam na sua direcção e a Ana imaginou o que diriam entre si acerca daquela bola de luz viajando no espaço!

«Foi uma estrela que fugiu da noite para o dia», «é um raio perdido da última tempestade», «é sinal de desgraça», «é sinal de boa sorte».

— Aqueles ali em baixo — disse Orlando —, quando chegarem à próxima povoação, vão anunciar coisas espantosas! Calculo que no mínimo garantam que viram no céu os sinais do fim do mundo!

A Ana riu-se.

— Era exactamente isso que eu estava a pensar. É tão fácil tirar conclusões apressadas a respeito do que não conhecemos!

— Pois é. E neste momento, para aquela tribo de azenegues, nós somos um «objecto voador não identificado»!

— Ó Orlando! Nunca pensei ser um OVNI. E estou a adorar.

A viagem prosseguiu para sul. E como avançavam a uma velocidade incrível, podiam navegar para o interior ou para o litoral com a maior das facilidades!

O Orlando resolveu baixar um pouco mais quando a terra deixou de ser tão seca e apareceram as primeiras manchas de verdura. Um grande rio corria para o mar e puderam descortinar vestígios de povoações.

— Quem é que vive aqui? São os negros beiçudos?

— Não creio. Mas vamos até lá para ficarmos a saber. A nave perdeu altura suavemente e aterrou numa zona

cuja vegetação exuberante rodeava uma aldeia de palhotas.

A Ana e o Orlando acharam por bem projectarem-se

para o exterior, esquecendo-se de mudar de roupa. E só deram pelo equívoco quando viram um grupo de negros correndo na sua direcção. No primeiro momento recearam ser atacados, mas logo perceberam que não havia problema. Os negros pararam a alguns metros de distância e acenaram, fazendo reverências. Atrás, apareceu um homem a cavalo que os saudou dizendo:

— Bem-vindos! Bem-vindos sejam! Estávamos à vossa espera! Tinham anunciado a chegada de uma caravana. Mas onde estão os outros? E os camelos?

O Orlando olhou o simpático cavaleiro negro e sorriu, fazendo também as suas mesuras para ganhar tempo. Depois lembrou-se de dizer:

— Eu e a minha neta viemos à frente. O resto da caravana está a... a cinco dias de caminho!

— Trazem muita mercadoria para comerciar?

— Sim... Trazemos! Trazemos muita coisa!

— Ainda bem, pois o nosso chefe, o Senhor Budomel, tem uma boa quantidade de escravos para vender — anunciou o negro, todo satisfeito. — Mas agora venham comigo. Vou levá-los à sua presença.

Foram conduzidos a uma aldeia de palhotas, cercada de sebes e tapumes feitos com troncos de árvores grossas. Cada choupana tinha um pátio em frente, rodeado de arbustos à maneira de jardim. Mas a casa do chefe, em vez de um, tinha sete pátios que comunicavam entre si por uma abertura na sebe. No meio de cada pátio havia uma árvore, e vários grupos de negros estavam ali sentados aproveitando a sombra. Alguns usavam túnicas de algodão até meio da coxa, com calças largas por baixo. Outros traziam apenas uma tanga de pele curtida. As mulheres tinham panos de algodão enrolados à cinta e o cabelo cuidadosamente penteado em tranças fininhas. Ninguém usava sapatos.

— Toda esta gente espera a sua vez para ser recebida pelo Senhor Budomel — explicou o que lhes servia de guia. — Mas a vocês recebe-os já.

A Ana e o Orlando entreolharam-se. Pelos vistos, os azenegues eram muito bem tratados naquela tribo!

Quando chegaram ao último pátio, quedaram-se assombrados.

Budomel era um homem novo, alto e bem constituído, com uma pele negra muito lisa e brilhante. O seu olhar era o olhar de um homem inteligente e altivo. De pé, muito direito, orgulhoso da sua condição de chefe, não se dignava baixar a cabeça para fixar os súbditos que o rodeavam. Estes, de joelhos e inclinados para a frente, tinham despido a roupa toda, excepto a tanga de couro. E falavam baixo, expondo os seus problemas, enquanto faziam uma coisa extraordinária! Com as duas mãos agarravam punhados de areia e atiravam-na para trás das costas e para cima da sua própria cabeça. Era a forma de mostrarem obediência ao chefe.

A Ana ficou aflita. Teria de fazer o mesmo? Seria obrigada a despir-se? E o Orlando? Nenhum deles trazia por baixo das roupas uma tanga de couro! Se os despissem, ficavam nus!

Mas logo sossegou. Os azenegues gozavam de facto de um tratamento especial. Havia vários naquela corte africana, conforme verificaram quando Budomel abandonou o pátio e os súbditos para os levar a uma palhota bastante maior do que as outras, onde um grupo de azenegues rezava ao seu deus, Alá. Eram todos muçulmanos e procuravam converter os negros à mesma fé.

Budomel apresentou-os.

— Estes são os meus conselheiros — explicou. — Vivem junto de mim e do meu povo, para nos ensinarem a vossa religião. Sois muçulmanos, não é verdade?

A Ana e o Orlando apressaram-se a acenar dizendo que sim. Mas os outros azenegues olharam-nos com desconfiança. Não conheciam aquele velho nem aquela rapariga. E quando Budomel explicou que se tinham antecipado à caravana, mais desconfiados ficaram. Pelos caminhos do deserto, não era costume as pessoas separarem-se e caminharem sozinhas. Além disso, traziam a cara destapada. Ora, todos os verdadeiros azenegues usavam à roda da cabeça um pano com uma ponta caída pela cara abaixo, cobrindo a boca e parte do nariz. Entre eles, consideravam a boca uma coisa feia, que deita constantemente ventos mal-cheirosos e portanto se deve trazer coberta e não a mostrar!

Muitas vezes tinham explicado isso mesmo àquela tribo de negros, que pouco ligavam. Mas enfim! Era outra raça, compreendia-se que não aceitassem facilmente costumes vindos de fora. Mas o velho e a rapariga, se fossem verdadeiros azenegues, com certeza tapavam a boca e o nariz, não só por causa do mau hálito mas também com medo de que por ali entrassem os maus espíritos. Assim, hesitaram antes de lhes dirigir a palavra. Depois, o mais velho optou por outra solução, bastante mais embaraçosa! Bombardeá-los com perguntas:

— Gostaria que me dessem algumas informações sobre a caravana com quem viajavam.

— Com certeza — disse Orlando já com a cabeça às voltas, procurando lembrar-se do que sabia a respeito da vida no deserto.

— Pois bem, de onde partiram? Quantos camelos trazem? Que mercadorias tencionam vender aqui no país de Budomel?

Por que motivo se separaram dos outros? Como chegaram tão depressa e sem nenhum animal?

A Ana empalideceu. Era evidente que aquele homem não acreditava neles e queria desmascará-los. O Orlando, cansado da viagem e preocupado com a avaria na máquina do tempo, que o obrigava a interromper uma missão delicada, talvez não tivesse resposta pronta para tudo. Resolveu ajudá-lo e a única coisa de que se lembrou foi de fingir que estava doente.

Inclinada sobre si própria, apertou o estômago com os braços e pôs-se a gemer:

— Ai! Ai que dores!

Budomel olhou-a por cima do ombro e limitou-se a dizer ao Orlando:

— Parece que a tua neta está doente. Aflito, chegou-se para junto dela.

— Que tens, filha? Sentes-te mal?

— Muito mal! Que dores horríveis! Não aguento! Vou estoirar... Fui envenenada!

Disfarçadamente piscou um olho ao Orlando e, cheia de pena de que o irmão não estivesse com eles para assistir, fez uma fita completa! Rojou-se no chão, revirou os olhos, esperneou, chegando ao cúmulo de arrancar um tufo da sua cabeleira preta!

Budomel ordenou que a levassem para casa de uma das suas nove mulheres, e que o sobrinho Bisboror, que tanto sabia de feitiços, viesse tratar da rapariga.

O truque funcionou. O Orlando viu-se livre das perguntas embaraçosas. Mas a Ana, coitada! Passou por vários tormentos. Primeiro julgou que a iam queimar viva, pois acenderam uma enorme fogueira cantando em redor.

«Se calhar são canibais!», pensou, horrorizada, quando a arrastaram para junto do lume. Ela bem se debatia para fugir dali, mas os negros tomavam os seus estremeções por sintomas de doença e cantavam cada vez mais alto:

— Balu! Balu! Abu! Abu! A... Lé! Lé! Lé!

E com uma força incrível seguraram-na no ar, rebolando-lhe o corpo, tal e qual como se faz a um frango que assa no espeto! O fumo entrou-lhe pelos olhos, pelo nariz, pela garganta, quase a pontos de a sufocar. Mas não ficou sequer chamuscada, pois tiveram o cuidado de não a aproximar das labaredas.

Quando aquilo acabou, teve a ilusão breve de que iam deixá-la em paz! Mas não. Duas mulheres levaram-na para uma palhota, despiram-na e besuntaram-lhe o corpo com um óleo que cheirava horrivelmente mal. Depois penduraram-lhe umas figurinhas ao pescoço e devolveram-lhe a roupa para que se vestisse.

Cá fora, o Orlando conversava com Bisboror.

— Não te aflijas, amigo! Este tratamento resulta sempre. A tua neta não tarda aí, mais saudável do que nunca. Verás!

Quando a pobre da Ana apareceu à porta da cabana, lívida, enjoadíssima, tremendo dos pés à cabeça, Bisboror exultou:

— Vês? Já está boa. Ainda treme um bocadinho, mas logo à noite passa.

O Orlando amparou-a carinhosamente. Com um beijo, murmurou-lhe ao ouvido:

— Foste sensacional! Obrigado pela ajuda. Afastaste os azenegues e agora temos um aliado. Este sobrinho do rei está contentíssimo por te ter posto boa e ficou nosso amigo!

De facto assim era. Bisboror convidou-os para sua casa. Ali se instalaram a comer, beber e descansar.

Tudo indicava que seria uma noite agradável, quando ouviram silvos e assobios em volta da cabana.

— Serpentes! — exclamou Bisboror. — A casa está cercada de serpentes venenosas.

 

                   Feitiços de arrepiar

Bisboror deu um salto e pôs-se de pé. As mulheres encolheram-se ao fundo da cabana, cheias de medo. Só uma escrava muito velha se levantou também e avançou atrás dele empurrando para o lado o grande cesto cheio de carne seca de onde todos comiam. Viram-na pegar numa lâmina afiada e seguir com Bisboror lá para fora.

«A velha irá matar as cobras?», pensou a Ana morta de curiosidade.

O Orlando também ficara espantado e, embora não gostasse lá muito de répteis, foi espreitar. O desejo de assistir à operação sobrepunha-se ao medo.

Cá fora, os animais domésticos estavam agitadíssimos. Cabras, vacas e bois enchiam a noite com os seus mugidos de susto, pois pressentiam perigo.

«TSSS... TSSS... TSSS...»

As cobras rastejavam em redor, de cabeça erguida, prontas a saltar em cima do primeiro ser vivo que lhes aparecesse.

Na cabana mais próxima, uma criança começou a chorar em altos berros, e por toda a parte apareceram vultos à espreita, receosos do que pudesse acontecer.

A escrava negra emitiu um som estranho com a garganta. Um som que começava rouco e depois ia subindo até se tornar estridente, como um grito esganiçado.

— Esta mulher saberá a linguagem das cobras? — perguntou a Ana, que enfiara a cabeça na porta para ver também.

— Pschiu! Cala-te que isto deve ser um feitiço! Bisboror, com um pau comprido, desenhara um círculo

no chão e de costas para eles parecia tocar um instrumento cujo som não reconheciam.

Puderam então assistir a uma cena tão incrível que ambos esfregaram os olhos, julgando sonhar! As cobras foram atraídas para dentro do círculo e ali ficaram, primeiro a remexerem-se umas por cima das outras, sempre a assobiar, depois, a pouco e pouco, aquietaram-se. De súbito, sem que eles percebessem porquê, vários rapazes acorreram, trazendo nos braços uma rede feita de folhas de palmeira que lançaram sobre os répteis, entoando um cântico. Bisboror e a sua escrava apressaram-se a esborrachá-los à paulada. Logo que terminou o estranho ritual, a aldeia em peso veio para a rua. E a cerimónia iria continuar, com as mulheres cantando e dançando no terreiro, ao som dos tambores enlouquecidos.

«Tum... Tum... Tum... Tum... Tum... Tum...» A Lua derramava uma claridade prateada muito doce sobre aquele recanto da selva, onde todos festejavam mais do que a vitória sobre as serpentes. É que o veneno seria utilizado na ponta das setas, tornando-as muito mortíferas. Depois de o retirarem das cobras,, misturavam-no com sementes que só alguns conheciam e dessa forma melhoravam as suas armas. Bastava que uma daquelas setas envenenadas fizesse um arranhão na pele do inimigo, que, se brotasse sangue, era morte certa!

A Ana e o Orlando estavam impressionadíssimos com aquilo tudo! Por mais que tentassem não conseguiram sossegar toda a noite, julgando ouvir de novo o silvo das serpentes. Além disso, fazia um calor insuportável a que não estavam habituados. Portanto, com o corpo dorido e a cabeça a andar à roda, levantaram-se mal o Sol nasceu.

— Vamos embora, Orlando! Aqui não encontramos o que queremos e, para dizer a verdade, ganhei medo.

— De dia não deve haver problema — respondeu pouco convencido.

Também ele olhava a selva em redor com desconfiança. Naquela zona havia leões, leopardos e elefantes. Se calhar às vezes atacavam as aldeias, para saciarem a fome. Talvez não fosse pior refugiarem-se na máquina do tempo e tentarem arranjá-la para partir em busca do Sponezik. Mas para desaparecerem sem ninguém dar por isso tinham de ser discretos.

— Temos de ter cuidado, Ana. Se desconfiam de nós, podem lembrar-se de usar aquelas setas envenenadas e estamos perdidos!

— Mas qual é a sua ideia? Se fingíssemos ir passear?

— Passear propriamente, não. Mas podemos ir ao mercado. Não há lugar melhor para passar despercebido do que no meio de muita gente.

A aldeia de Budomel era ponto de encontro de mercadores negros, que vinham das suas terras carregados de legumes, óleos, gamelas de pau, esteiras de palha e outros produtos para trocar. Aquela espécie de feira realizava-se à beira do rio, pois muita gente viajava de canoa.

Pelo caminho, a Ana reparou na imensidade de papagaios verdes. Eram às dúzias e enchiam o ar com os seus guinchos alegres. Pendurados nas árvores, viam-se os ninhos, redondos e ocos como bolhas de ar. Só uma pequena abertura permitia que os pais entrassem com a comida no bico para alimentar as crias. De cabeça erguida, observava os ramos cheios de ninhos, quando o seu companheiro lhe pregou um susto pois deu um salto para trás e puxou-a com violência:

— Ana! Ana! Olha para ali.

Ela bem olhou, mas não viu nada de extraordinário. Com os nervos abalados por causa das serpentes e da noite mal dormida, ficou pregada ao chão, à espera de outro perigo qualquer.

Mas o Orlando estava eufórico.

— O Sponezik, Ana! Acertámos por acaso e à primeira tentativa! Que sorte!

De facto, um dos mercadores tinha vários bocadinhos de ouro espalhados em cima de uma esteira. E um desses bocadinhos parecia uma pepita achatada ao meio.

— Vês? É aquilo.

— Tem a certeza, Orlando?

— Absoluta. Vi várias fotografias e filmes antes de partir. — Radiante da vida, continuou: — O impossível às vezes acontece. Viemos parar ao reino de Budomel e era exactamente aqui que tinha caído aquilo que procurávamos: o pedaço de Sponezik 7!

— Então e agora? O homem com certeza não nos vai dar ouro em troca de nada!

— Pois é. Temos de pensar numa solução. Mas vem comigo, antes que apareça outro comprador!

Mesmo a tempo. Um dos azenegues que vivia na corte de Budomel como conselheiro aproximou-se do negro com quem pretendia fazer negócio.

O Orlando precipitou-se sobre a esteira e deitou mão ao cobiçado bocadinho de metal amarelo. O seu gesto foi tão brusco, que os outros estranharam.

— Eu estava primeiro — disse o azenegue. — E este ouro interessa-me!

O Orlando hesitou, sem saber o que fazer. Não queria provocar ali escândalos, nem chamar a atenção sobre si próprio com discussões idiotas. Mas, por outro lado, não podia largar o Sponezik de maneira nenhuma! O que estava em jogo era mais importante do que tudo o resto. Mas se pura e simplesmente fugisse, os outros iriam atrás dele e, caso o agarrassem antes de entrar na máquina, sabe Deus o que poderia acontecer-lhe! A ele e à Ana. A vida de ambos corria perigo.

O azenegue, ignorando a importância daquele objecto, continuava dirigindo-se ao negro:

— Como eu estava primeiro, vamos negociar. Ofereço-te um conjunto de armas e duas vacas. Que dizes?

— Não! — respondeu o negro. — Quero um conjunto de armas e cinco vacas.

— Ah! Ah! Ah! — riu o azenegue. — Isso é muita coisa. Quando muito levas três vacas.

O Orlando ficou a assistir à discussão, sem saber como proceder, mas também sem largar o metal. Vários negros rodearam-nos para acompanhar a venda que se tinha transformado num espectáculo, pois aquela disputa de preços era costume entre eles. Mas o dono a certa altura virou-se para o Orlando e perguntou:

— E tu? O que é que me ofereces?

— A...

— Fico com a rapariga — propôs ele, apontando em direcção à Ana. — Se ma venderes, podes ficar com isso e não penso mais em armas nem em vacas.

A Ana corou até à raiz dos cabelos, pois toda a gente se voltou para ela. Pareciam aprovar a troca. Só o azenegue se preparava para reclamar.

A situação ter-se-ia tornado muito embaraçosa, se não aparecessem vários negros gritando:

— Amindele! Amindele! Fantasmas! Fantasmas! As almas dos nossos antepassados vêm aí! (1)

— Não é nada disso! São pássaros enormes com asas brancas que voam sobre o mar.

— Não! São peixes medonhos como nunca vi!

— São pássaros! Só os pássaros têm asas!

A algazarra generalizou-se. Homens, mulheres, crianças, todos corriam pela margem do rio cheios de medo, mas ao mesmo tempo cheios de vontade de ver de perto as tais asas misteriosas.

O Orlando, com uma energia inesperada para um homem daquela idade, empurrou a Ana na sua frente e, de Sponezik muito bem apertado na mão direita, fugiu para a máquina do tempo.

O entusiasmo pelos «pássaros brancos» distraíra toda a gente

 

(1) Para os africanos, os espíritos dos seus antepassados encarnavam em pessoas de pele branca ou vermelha e iam para as águas. Por este motivo, quando viram surgir do oceano pessoas brancas e com a pele vermelha do sol julgaram tratar-se dos espíritos dos seus antepassados. Para estes povos, os espíritos estavam entre o homem e Deus. Eram portanto uma espécie de divindade.

 

e eles puderam desaparecer no interior do seu cubo de cristal, que para todos os outros era invisível.

Arfando de cansaço, demoraram um bocado a refazer-se da corrida. Assistiram então, com um sorriso de infinita ternura, ao desembarque de um grupo de navegadores que só podiam ser portugueses, pois foram os portugueses os primeiros a chegar ali. E perceberam a dúvida no espírito dos negros. O barco com as velas desfraldadas tinha-lhes parecido uma ave enorme voando sobre as águas. Não tardariam a reconhecer o engano e a concluir que não eram nem almas do outro mundo, nem peixes gigantescos, nem aves enormes. O vento trazia-lhes de longe apenas homens. Homens de outra raça e de outra cor.

Da caravela saiu um rapaz alto, de cabelo liso e aloirado, bem bonito aliás! Vestia um gibão de seda preta e uma capa de lã. Acompanhavam-no vários marinheiros. Embora ele fosse o mais novo de todos, percebia-se logo que era o capitão. Os negros aproximaram-se, tocaram-lhe, mostrando grande espanto com o tecido de lã mas sobretudo com a brancura da pele. Houve até quem lhe esfregasse as mãos com cuspo, pensando que aquele tom era efeito de uma tinta clara! Vendo que não desbotava, recuaram surpreendidos.

— Quem é este navegador, Orlando?

— Não sei. Se queres que te diga, até estou na dúvida quanto ao ano em que nos encontramos. Partimos de Lisboa na Primavera de 1482, ao mesmo tempo que Diogo Cão. Mas neste momento nem sei a que ano viemos parar! Maldita avaria!

Tanto um como outro iam desmaiando quando uma voz metálica e artificial se fez ouvir dentro da cabina:

Este é o ano de 1455

— Que é isto? Quem é que está a falar? — berrou a Ana.

Através do computador, veio a resposta que os sossegou. Um cientista da galáxia de onde tinha escorregado o Sponezik foi dizendo, com a voz sempre alterada pela distância:

— Quando perdemos o contacto com a nave do tempo, fizemos buscas e localizámos o vosso rasto. A máquina foi já arranjada por telecomando. Podem prosseguir viagem.

— Não vale a pena — disse o Orlando. — Tenho boas notícias para todos, pois já temos o Sponezik 7 em nosso poder.

— Enganas-te, companheiro. O que apertas na tua mão direita não passa de uma simples pepita de ouro cujo formato te enganou!

— A sério? — balbuciou a Ana. — Então roubámos o pobre do negro.

— Isso não tem problema — disse o Orlando. — Devolve-se já.

Com um arremesso certeiro, a pepita atravessou os ares e foi bater na cabeça do azenegue que tanto a queria trocar por armas e vacas.

— Eles agora que se entendam! — riu o Orlando, já disposto a seguir viagem.

A voz do espaço voltou a ouvir-se:

— Encaminha-te de novo para o ano 1482, mas procura o mês de Janeiro. O Sponezik está entre as riquezas do chefe negro Caramansa.

— Mensagem recebida — disse o Orlando.

— Queres informações mais detalhadas?

— Não é preciso. Vou partir imediatamente. Estudei bem essa época e sei onde encontrar Caramansa.

A voz calou-se. O Orlando ia a carregar nos botões quando a Ana pediu:

— Espere! Pergunte lá ao computador quem é aquele capitão vestido de preto!

O Orlando sorriu-lhe com orgulho:

— Não é preciso, minha linda! Basta saber o ano, para saber também quem é o navegador!

— E quem é?

— É o Cadamosto! (1) A nossa cabeça também pode ser um belo computador se a pusermos a funcionar!

 

(1) Cadamosto era um navegador natural de Veneza. Chamava-se Alvise CadaMosto, mas os portugueses mudaram-lhe o nome para Luís Cadamosto. Fez duas viagens ao serviço do infante Dom Henrique. A primeira, com vinte e três anos. Escreveu o relato das suas navegações e foi ele quem nos deixou informações pormenorizadas sobre o país de Budomel.

 

           Quem passar o cabo Não voltará ou não!

O João ignorava tudo a respeito da viagem da irmã, pois nunca tinham entrado em contacto com ele. Mas isso não o inquietava. A ideia de que pudessem ter sofrido uma avaria nunca lhe atravessou o espírito, pois não era pessoa para imaginar desgraças. Além disso, tinha muito com que se entreter. A vida a bordo fascinava-o, e poucas horas depois da partida já estabelecera amizade com toda a gente.

Diogo Cão mantinha um ritmo de trabalho muito certo. Era humano, compreensivo, mas muito exigente também.

O João era um dos grumetes encarregados da limpeza do convés. Ele e o Pedro Afonso, seu companheiro de todas as horas, enchiam uma espécie de baldes feitos de madeira com água do mar e esfregavam, esfregavam, esfregavam, até ficarem com os dedos quase em sangue. Ao princípio tinha sido custoso. De gatas, com os joelhos e os braços sempre húmidos e a cabeça à torreira do Sol, quase desesperara. Chegou mesmo a ter a ousadia de perguntar ao capitão por que é que os mandava limpar o que já estava limpo. Ele, sem se alterar, respondeu:

— As madeiras têm de estar húmidas. Além disso, quero o meu barco impecável. Um convés como deve ser tem de brilhar desde que o Sol se levanta até que o Sol se põe.

Mas a verdade não era essa! O João, que de parvo não tinha nada, olhou-o bem no fundo dos olhos castanhos e percebeu o motivo. Os marinheiros não podiam estar desocupados. A viagem era longa. Durante dias e dias a única coisa que viam era mar e céu. Se não tivessem nada que fazer, o mais certo era envolverem-se em brigas para gastarem a energia acumulada.

Estêvão Ayres ia no mesmo barco que eles e, apesar de as suas relações terem começado mal, agora eram grandes amigos. Estêvão nunca guardava rancor a ninguém e divertia-se a assustar os mais novos com histórias mirabolantes ou a transmitir conhecimentos verdadeiros. Mas às vezes tornava-se difícil saber se falava a sério ou a brincar, pois, tanto num caso como no outro, os olhos brilhavam-lhe de entusiasmo e era convincente.

Uma vez acordou-os, falando baixo e cheio de mistérios:

— João! Pedro Afonso! Venham cá!

Eles soergueram-se, meio estremunhados. Tinham-se deitado há pouco tempo e, cansados como estavam, adormeceram imediatamente. Ao longo das prateleiras, vários homens ressonavam de boca aberta, um braço para cada lado, dormindo.

Os rapazes sentiram um arrepio desagradável. Ou o velho marinheiro estava com medo e queria companhia ou a brincadeira era de péssimo gosto!

— Venham comigo — pediu ele. — Venham lá acima ao convés...

Nem se dignou perguntar se queriam ir, ou explicar-lhes o que ia fazer. Mas por respeito seguiram-no, cambaleando de sono.

Cá em cima estava escuro como breu! Os poucos marinheiros de vigia nem se viam! Uma humidade terrível atravessou-lhes a roupa e deslizou-lhes pelo corpo até aos ossos.

— Vêem? Vêem?

O João, para dizer a verdade, não via nada. Nem um palmo adiante do nariz! E teve ganas de soltar um palavrão.

«Estava eu a dormir tão bem», pensou. «Para que é que este chato me foi acordar?»

Ao seu lado, o Pedro Afonso tremia como varas verdes batendo os dentes.

— Que é que tens?

— Nada, nada.

Estêvão Ayres, reduzido apenas a um vulto esfumado, movia-se lentamente e de forma estranha.

— Esta é a zona dos nevoeiros... é a zona dos terrores... venham comigo, pois aqui já tenho visto encantos de espantar!

Encaminhou-os no escuro em direcção à candeia de azeite que servia de farol para as outras caravelas não se perderem da capitaina.

Uma chamazinha tremeluzia ao de leve. Nessa noite, a utilidade era nenhuma, pois se eles ali ao pé mal a viam, quanto mais os outros de longe!

Incomodado, o Pedro Afonso lembrou:

— Com tanto nevoeiro, vamo-nos perder.

— Não te aflijas, que os pilotos estão habituados a isto. Sabem orientar-se.

Estêvão, que por momentos readquirira o seu tom normal, endireitou-se e fez-lhes sinal:

— Pschiu! Olhem! Ouçam!

O mar rugia, elevando-se em ondas cada vez maiores. A escuridão, a humidade, os balanços da caravela, fizeram-nos sentir inseguros, à deriva no meio do oceano. O Pedro Afonso, um pouco enjoado, levou a mão ao estômago e fechou os olhos. Mas em vez de melhorar piorou! Tentando ir ao encontro de qualquer coisa firme, cravou os dedos na amurada.

«Uuu... Raach ch...»

Madeiras, cordas, tudo rangia, num lamento cada vez mais forte, cada vez mais forte! Aflito, tapou os ouvidos com as mãos e perdeu o equilíbrio, escorregando sempre encostado à amurada. Mas era como se caísse num abismo. Os ruídos rebolavam-lhe dentro da cabeça, como as ondas em redor do navio. De olhos esbugalhados, divisou uma orla de espuma branca, mas logo em seguida a escuridão voltou a envolver tudo. Ao seu lado, o João e Estêvão Ayres conversavam sem se aperceberem de quanto ele sofria.

— Foi numa noite como esta! — contava Estêvão. — Vi sair das águas uma mulher marinha...

Na cabeça do Pedro as palavras do outro faziam eco. «Mulher marinhaaa... Mulher marinhaaa...» Soando como de dentro de um búzio. Um búzio gigante!

— Vi-a sair com tanta ligeireza, que os meus companheiros nem deram por nada!

— E como é que ela era? — perguntou o João.

— Da cintura para baixo tinha rabo de peixe. Toda coberta de escamas e com uma barbatana enorme! Mas da cintura para cima era das mulheres mais bonitas que eu vi na minha vida... Linda!

«Lindaaa... Lindaaa...»

O Pedro Afonso encolheu-se sobre si mesmo.

Deixara-se escorregar para o chão. Queria gritar e não lhe saía a voz. Queria pedir aos outros que se calassem, mas não era capaz! A humidade fazia-o tremer muito, e tinha frio. Um frio horrível no corpo e na alma.

— Cecília — conseguiu murmurar —, Cecília!

Os outros não o ouviram. Estêvão Ayres continuava a descrever a sua visão fantástica:

— O pior eram as orelhas! Grandes como as de um burro. Passavam-lhe mais de um palmo acima da cabeça!

O João, perdido de riso, não ousava contrariá-lo. Ainda não percebera ao certo se Estêvão os queria gozar ou se estava realmente convencido de ter visto uma sereia!

De repente porém assustaram-se ambos, pois o Pedro Afonso ergueu-se de um pulo e com o dedo espetado para o mar gritou:

— Cecília! Cecília! Cecília!

Depois caiu para o lado, e perdeu os sentidos. Estêvão Ayres ficou aflitíssimo. Levantou-o nos braços e desceu com ele ao porão.

— Ora que esta! Ora que esta! Valha-me Deus! Bastou tocarem-lhe na pele para verificarem que estava

a arder em febre.

O João queria ter ali todos os remédios do mundo para lhe valer! Mas só podia contar com os mantimentos da caravela. Feijão, grão, favas e ervilhas não seriam de nenhuma utilidade. Carne e peixe salgado ainda menos. Queijo? Só de pensar nisso ele próprio sentia vómitos. O queijo nas barricas de madeira ganhava um sabor tão esquisito que até o cheiro agoniava.

As frutas frescas já tinham acabado ou apodrecido com o calor.

— Vou-lhe dar vinho! — decidiu Estêvão Ayres. — Não há mal que resista a um quartilho de vinho tinto.

— Não! O vinho pode fazer ainda pior. A gente não sabe o que ele tem!

— Não sabes tu, mas sei eu! Tem febres. E as febres do mar é assim que se curam.

Foi inútil insistir. Mal o rapaz recuperou a consciência, Estêvão despejou-lhe várias canecas pela goela abaixo, pouco se ralando com os vómitos e estremeções que provocava.

O João assistiu ao «tratamento» sem poder fazer nada, mas depois lembrou-se de o obrigar a comer «biscoito». Ou seja, pão de trigo muito duro, cozido duas vezes para durar mais tempo. Procurou cuidadosamente em todas as pipas até encontrar um que não tivesse bolor nem traça. E foi desse que esfarelou migalhinhas dentro de água, conseguindo assim uma papa horrível que o fez sorver.

O Pedro Afonso ou tinha enlouquecido, ou delirava, ou estava bêbado, pois repetia sem cessar:

— Vi a Cecília nas ondas... Vi a Cecília no mastro... Ela veio buscar-me! Tinha o corpo cheio de escamas muito grossas, mas a cara continua linda, tão linda...

O João afagou-lhe os cabelos enternecido e o outro largou a chorar.

— Vinho! O que ele precisa é de vinho — insistia Estêvão Ayres. — Não se aflijam, que eu trato-lhe da saúde.

— Ele assim fica mas é bêbedo!

— Ora! Até há quem diga que um homem, para ser mesmo homem, para ser valente, deve andar sempre meio bêbedo! Força, rapaz! Bebe mais um quartilho que isso passa. E se vês a tua noiva em sonhos, bom proveito.

 

               A ilha das tartarugas

Depois daquela noite, o Pedro Afonso nunca mais foi o mesmo. A febre passou, mas ele continuava a queixar-se de dores de cabeça, tonturas e vómitos. Perdeu o apetite, emagreceu muito e quase nem tinha forças para trabalhar.

O João passou a içar os baldes sozinho, o que lhe desenvolveu imenso a musculatura.

Havia dias em que já nem pensava na irmã, no Orlando, em nada que dissesse respeito ao século XX. Tinha-se metido na pele de um verdadeiro grumete. Tisnado do Sol, passeava-se pelo convés, descalço, de calças arregaçadas e camisa aberta. Tinha aprendido muito com os homens do mar e adorava que lhe pedissem ajuda fosse lá para o que fosse! Como alguns adoeceram, não faltava trabalho para os que se mantinham em pé. Orgulhoso por ser tão resistente como Estêvão Ayres, de quem a doença parecia fugir, era o primeiro a oferecer-se para as tarefas mais difíceis. Levantar a âncora, enrolar as cordas, subir aos mastros.

Já sabia desfraldar as velas, mas o que mais lhe agradava era ficar pendurado lá em cima, alongando os olhos pela imensidão azul, para ser o primeiro a gritar a plenos pulmões:

— Terra à vista!

Várias vezes teve a oportunidade de o fazer. Passaram o cabo Bojador, Angra dos Ruivos, Angra dos Cavalos, Angra de Sintra, Pedra da Galé, até atingirem o cabo Branco. Umas vezes ao largo outras vezes mais perto da costa, percorreram aquele famoso caminho, todo ele baptizado pelos portugueses que em viagens anteriores foram descobrindo terras e dando-lhes nome.

Adiante do cabo Branco, Diogo Cão mandou fazer rumo para o golfo de Arguim. Começava a faltar água doce a bordo e os marinheiros mostravam-se cansados, com o desejo de pisar terra firme ainda que fosse só de passagem!

— Anima-te, Pedro! Aqui parece que há ilhas e vamos desembarcar!

O rapaz sorria, pouco ligando. Os seus olhos azuis derramavam uma tristeza infinita.

Estêvão também tentou entusiasmá-lo:

— Vais ver lobos-marinhos. Têm a carne tão saborosa, que nos vamos todos regalar! E as peles? São de pêlo macio que até dá gosto!

Ele acenou que sim, para não fazer a desfeita, mas via-se que tudo lhe era indiferente.

Ao entrar no golfo de Arguim foi necessário deitar uma sonda à água para ir verificando qual a profundidade. Aquela era uma zona de baixios e corriam o perigo de encalhar.

Os marinheiros da primeira viagem, debruçados na amurada, deram largas ao seu espanto.

— Olhem, olhem! Que cor tão esquisita! O mar aqui não é azul nem verde!

— É pardo!

Um deles lançou o balde e içou-o cheio a transbordar. Mas a surpresa foi completa, porque fora do oceano a água era cristalina e transparente.

— Ei! Olhem só que que ali vai!

Adiante, circulando entre ilhas, viram passar muitas canoas cheias de gente que remava com as próprias pernas penduradas de um lado e de outro.

— Vão nus! Vão todos nus!

A marinheiragem acorreu em cheio. Até o Pedro Afonso veio ver, mas não se animou.

— Quando as caravelas de Nuno Tristão aqui chegaram pela primeira vez, parece que foi um susto medonho! Viram almadias como estas, carregadas de gente, mas ao longe julgaram que era uma ave gigante, ou um peixe desconhecido.

— E depois? — perguntou o João, que logo se arrependeu de ter perguntado. A resposta não era muito edificante.

— Depois, quando perceberam que era gente, saíram dos barcos e foi um «vê se te avias»! Capturaram quantos puderam e levaram-nos para o reino para os venderem como escravos.

«Que horror!», pensou o João. «Oxalá que não façam o mesmo desta vez. Detestava participar em semelhante coisa. Se for preciso, liberto-os às escondidas e pronto!»

O capitão mandou lançar âncora ao largo da ilha das tartarugas, e autorizou os primeiros a saírem. O batel foi deitado à água e o João acotovelou quantos pôde para conseguir um lugar. Bem queria que o Pedro também fosse, mas ele deixou-se ficar para trás. Paciência!

Já no bote, pôs-se a remar com energia, ao despique com Estêvão Ayres.

Iam-se aproximando da ilha. Um ventinho morno lambia-lhes a cara. Não dava para refrescar, mas era agradável. A terra exalava um cheiro diferente! Foi com emoção que pôs os pés na areia grossa e dura, pejada de conchas partidas.

— Uma praia é sempre uma praia! — suspirou.

A lembrança da irmã insinuou-se-lhe então no seu espírito. Por onde andaria àquela hora? Que disfarces teriam utilizado? O mais certo era vestirem-se de igual aos habitantes das terras por onde iriam passar.

Enquanto os companheiros corriam em todas as direcções, dando largas à alegria de se verem em terra firme, ele fitou um grupo de azenegues. Uma das raparigas parecia mesmo a Ana! Da mesma altura, da mesma largura... até o andar era igual. Não conseguia ver-lhe a cara de frente, mas quanto mais a olhava, mais certeza tinha. A Ana estava ali, misturada com os habitantes das ilhas, em busca do metal perigoso. Como era mesmo o nome? Spo... Sponek...

«Esqueci-me, mas não faz mal. Vou-lhe pregar um susto.»

Convencido de que aquela menina só podia ser ela, correu-lhe no encalço de braços abertos e, já muito perto, soltou um berro monumental:

— Ana! Sou eu!

A pobre azenegue fugiu espavorida! Com certeza pensou que vinham prendê-la e levá-la à força para as caravelas.

— Ana! Ana! — gritou ainda, pois não aceitou de imediato a desilusão. Apetecia-lhe tanto encontrar ali a irmã, contar-lhe tudo sobre a viagem, ouvir as suas aventuras! Mas não era ela.

«Sabe Deus por onde andará!», pensou, sentindo-se sozinho pela primeira vez desde que partira. Deixou-se cair no areal abatido e saudoso.

Foi ali que Estêvão Ayres o veio encontrar. Trazia consigo uma enorme tartaruga assada nas brasas. Os marinheiros, fartos de carne seca e salgada, atiraram-se àquele petisco com uma sofreguidão indescritível. E valia a pena vê-los! Mastigavam de boca aberta, com muito ruído e saliva à mostra.

— Sabe-me a coelho guisado! — diziam uns.

— Cá para mim, esta carne parece cabrito. Tenrinha e tostada como eu gosto!

— Vocês perderam o paladar pelo caminho. Quem come tartaruga é o mesmo que comer perdiz. Oh, ricas perdizes da minha terra!

Estêvão Ayres engoliu um grande pedaço, limpou os beiços às costas da mão e disse:

— Ná! O bicho tem várias carnes. Umas são gordas, outras são magras. Umas sabem a vaca e outras a carneiro.

Mais uma vez o João não interferiu. Se fechasse os olhos, ele próprio conseguia imaginar que comia um bife com batatas fritas, que era o seu prato preferido. O mesmo se passava com os outros todos. A tartaruga variava de sabor conforme os desejos de cada um. Mas se dissesse aquilo em voz alta, ninguém acreditava nele.

No regresso à caravela levaram a casca para recordação. Era uma casca enorme, quase do tamanho de um homem (1).

Pedro Afonso recebeu-os sem reagir. Não tinha desembarcado

 

(1) Esta história encontra-se no manuscrito de Valentim Fernandes, que era reposteiro do rei. Nunca viajou, mas escreveu o que o navegador João Rodrigues lhe ditou na cidade de Tomar.

 

nem tencionava fazê-lo. Estava incapaz de vibrar fosse com o que fosse.

— Começo a ficar preocupado com ele. O que havemos de fazer, Estêvão Ayres?

O velho marinheiro encolheu os ombros. Não é que não lhe importasse, mas já tinha visto outros homens desanimarem assim.

— Isto é o diabo! Quando lhes entra a tristeza no corpo, é o diabo! É mau sinal! É muito mau sinal!

 

                 A grande tempestade

Depois de se terem abastecido de água doce e mantimentos frescos, prosseguiram viagem.

Mas a etapa seguinte foi terrível. Primeiro, atravessaram a zona das calmas equatoriais. Dias e dias seguidos em que não corria uma aragem!

— O vento desamparou-nos! — queixavam-se os marinheiros.

O calor e o ardor eram de tal ordem que receavam ver os navios em chamas. Nesse caso teriam de optar: ou morriam afogados ou morriam queimados! O medo apertava-lhes o coração e ninguém ousava subir ao convés senão de noite. A maior parte da comida apodreceu e foi borda fora, perante o desespero da tripulação esfomeada, exausta, desejando nunca ter saído da sua terra. Poucos mantiveram a força de espírito. Mas entre esses podiam contar-se o capitão, que nunca perdeu a coragem. E o bendito «homem de ferro», o bom Estêvão Ayres, que os entretinha contando histórias loucas, aventuras da terra e do mar, lembrando:

— Isto passa! Antes de nós, já muitos resistiram. O vento não tarda aí.

Finalmente, ao sexto dia qualquer coisa mudou. Deviam ser umas seis da tarde quando viram o Sol inclinar-se no horizonte, vermelho como nunca. Parecia incendiar-se numa imensa labareda redonda. Ao mesmo tempo, relâmpagos e trovões atroaram os ares. Aquilo eram sinais de tempestade. Os marinheiros conheciam-nos bem!

Firme e severo, Diogo Cão chamou todos aos seus postos. Cambaleando de fraqueza, subiram ao convés. O Pedro Afonso foi com eles, embora ardesse em febre, com as gengivas inchadas e a boca transformada numa ferida horrível.

De repente, uma névoa escura abateu-se sobre as caravelas e os ventos surgiram em força, soprando de todos os lados em remoinho. As águas moveram-se num vaivém impetuoso e logo do céu caiu uma chuvada tão grossa que o barco ficou sem governo.

— O abismo! — gritou o Pedro Afonso, desvairado. — Vamos cair no abismo!

Encharcado até aos ossos caminhava pelo convés de braços erguidos como uma alma penada.

— Chegámos ao fim do mundo! Vamos morrer. Raios e coriscos caíram sobre o mar, com grande

estrondo. Os ventos tornaram-se tão fortes que encapelavam as ondas, e elas abriam-se raivosamente, como se quisessem engolir barcos e gentes de uma só vez. Uma única ideia enchia-lhes o pensamento:

— Temos de nos salvar! Temos de nos salvar!

Só o Pedro Afonso parecia atraído pelo turbilhão e, encostado à amurada, repetia sempre:

— Cecília! Chegámos ao abismo! A terra acaba aqui!

O João correu para ele, receando que se atirasse ao mar.

— Pedro, vem para baixo!

Mas ele não ligou. Olhando-o, não dava mostras sequer de o conhecer.

Com força redobrada, deitou-lhe a mão a um ombro.

— Estúpido! Vem comigo!

— O abismo! O abismo!

— Qual abismo qual carapuça! É só uma tempestade! — berrou-lhe ao ouvido, pois os trovões, a chuva e o rugido do mar abafavam tudo o mais.

— Vamos morrer! Vamos morrer!

Esquecendo as recomendações do Orlando, o João anunciou em altos brados:

— Esta viagem acaba bem! Esta viagem acaba bem! Eu sei!

Inútil. O Pedro nem o ouvia, atento, sim, à tempestade que se desenrolava dentro de si próprio, com a febre a tomar -lhe conta do corpo e do espírito, misturando na sua cabeça a natureza em fúria, os seus medos, as suas lembranças, a figura da noiva que o chamava, ora de longe ora de perto. Parecia mesmo disposto a ajudar o destino, atirando-se à água.

Mas o João nunca o largou até amanhecer. Com uma força que ele nem sabia que tinha, manteve-o preso por um braço e impediu o pior.

Quando o Sol nasceu, ninguém sabia onde se encontravam. A pouco e pouco a tempestade ia amainando. O capitão e o piloto na coberta mediam já a altura do Sol com o astrolábio, para poderem escolher o rumo. Os marinheiros fizeram apelo à energia que lhes restava, para repararem os estragos da noite anterior. Era preciso substituir a vela que se tinha rasgado. Compor o mastro, tirar água do porão.

A azáfama substituiu o desespero, e a caravela transformou-se num autêntico formigueiro em actividade. Só o Pedro Afonso permaneceu inerte, deitado sobre duas sacas húmidas, respirando a custo.

À sua beira, o João limpava-lhe a testa, falando sem parar, como se assim o pudesse manter vivo:

— Tens muita febre, mas isso não é nada. Reaje, Pedro. Lembra-te da Cecília. Ela está à tua espera...

Ao ouvir o nome da noiva, agitou-se. Passou a língua pelos lábios em ferida e tentou abrir os olhos.

— Tens sede? Se calhar tens sede!

Num verdadeiro frenesim, o João vasculhou o porão de uma ponta à outra, até descobrir um restinho de água doce que lhe chegou à boca num púcaro.

— Bebe! Bebe, que ficas melhor! Vá, tens de reagir!

O Pedro fez um esforço tremendo e conseguiu finalmente descerrar as pálpebras.

— O abismo! O abismo! — murmurou, fitando um ponto algures lá atrás. — Chegámos ao fim do mundo e vamos cair no abismo.

O João amparou-o nos braços, desesperado.

O amigo estava cada vez pior, mas não podia morrer. Era estúpido morrer assim. Era injusto! O Pedro Afonso não passava de um rapaz, um rapaz novo. Tinha o direito de fazer a viagem até ao fim, de regressar a casa coberto de glória, de ser feliz, muito feliz!

— Pedro! — chamou. Ele não deu acordo.

Imaginou então que se lhe dissesse uma coisa estranha o despertaria. E segredou-lhe ao ouvido:

— Sabes, Pedro Afonso, se calhar a Terra é redonda...

e se for assim, não há fim do mundo... podemos andar à volta, à volta, sem nunca cair no abismo...

Nos olhos azuis brilhou um último sorriso. O João apertou-o mais de encontro a si, e repetiu com as lágrimas rolando a quatro e quatro pela cara abaixo:

— Acredita em mim, Pedro! Talvez a Terra seja redonda... mesmo que déssemos a volta toda, acabávamos por chegar a casa, sabes?

Mas ele já não o ouvia. A sua respiração ia-se tornando cada vez mais fraca, quase um sopro. Depois cessou por completo.

— Pedro! — chamou ainda uma vez. — Pedro!

Quando Estêvão Ayres desceu, encontrou o João a soluçar abraçado ao corpo do amigo. E receou que também ele tivesse contraído febres, pois dizia frases sem sentido:

— É redonda, sim... é redonda e levemente achatada nos pólos como uma laranja!

 

Caramansa

A Ana e o Orlando voavam a toda a velocidade para o reino do chefe negro Caramansa. O velho cientista parecia absorto, esquecido mesmo da presença da sua companheira, quando esta deu um suspiro profundo.

— O que é? — perguntou ele sobressaltado.

— Nada.

— Hum... pareces triste.

A Ana mordeu o lábio inferior com toda a força. Era um truque que usava desde pequena para se impedir de chorar. Não sabia porquê, mas de repente viera-lhe à lembrança o irmão. Alguma coisa lhe dizia que ele não estava bem.

Perante o silêncio prolongado, o Orlando insistiu:

— Conta lá! O que é que foi?

— O João! — foi a única coisa que se atreveu a responder.

— Ah! Estás com saudades? Não te preocupes que brevemente iremos ao seu encontro.

A Ana não ousou explicar que não eram saudades o que sentia, mas algo estranho. Uma espécie de transmissão de pensamentos! Como se de longe o João tentasse comunicar com eles, apesar da distância incrível que os separava.

No entanto, toda aquela tristeza se dissipou no momento em que aterraram.

A nave de cristal pousou numa baía segura e abrigada. Antes de saírem, permaneceram um bom bocado a observar o ambiente. Havia praias, grandes extensões de palmeiras e outras árvores. Uma gazela acompanhada por dois filhotes surgiu de dentro do arvoredo para ir beber a um rio de águas límpidas, que ali desaguava no mar.

— Ora cá estamos no famoso reino de Caramansa!

— Olhe, olhe, Orlando! Tantos barcos ancorados ali! Encostada à parede de vidro, contou-os um a um.

— São doze caravelas! E a da frente tem uma bandeira igualzinha à outra onde partiu o João! São eles que se juntaram a um grupo maior! — exclamou com o coração alvoroçado. — Oh, que bom!

O Orlando sorriu e pôs-lhe a mão no ombro para a acalmar: ,

— Não é nada disso. Quem ali está é Diogo de Azambuja, com os seus homens e um castelo prefabricado para construir nesta zona (1). Mas para o fazer, terá de pedir autorização ao tal chefe, o Caramansa que procuramos.

— E agora? Vestimo-nos de marinheiros e misturamo-nos com os portugueses a fingir que viemos nas caravelas?

— Nem penses! — disse Orlando. — O rei Dom João II deu ordens para matarem todos os espiões que encontrarem por aqui.

 

(1) Os pormenores sobre esta viagem e a construção do Castelo de São Jorge da Mina encontram-se na parte final deste livro, pp. 210-213.

 

Agora imagina lá que reparavam em nós e descobriam que não fazíamos parte do grupo, hã?

— Fugíamos!

— Pois! Mas, minha linda, eles trazem seiscentos soldados! Não é fácil escapar à perseguição de tanta gente.

— Mas por que é que o rei tem medo de que venham para aqui espiões e os manda matar?

— Porque esta zona é riquíssima. É a zona do comércio do ouro que há tanto tempo se procurava. Por isso mesmo é que vão construir o castelo. Assim defendem os mercadores portugueses e as mercadorias. E ai dos estrangeiros que se lembrem de vir aqui cheirar... tratam-lhes logo da saúde. É limpinho!

— Então o que é que fazemos?

— Transformamo-nos em pretos para nos podermos juntar à comitiva de Caramansa. Ele traz muitos homens e mulheres de várias tribos, para impressionar os portugueses, da mesma forma que os portugueses trazem muita gente ricamente vestida para impressionar os negros. Tu vais ver! Este encontro ficou na história.

— Então, já que vou ser preta, quero ser o mais preta possível — pediu a Ana, aproximando-se do círculo destinado às mudanças de pele.

Um foco de luz intensa e esverdeada envolveu-a dos pés à cabeça, formando um cilindro onde flutuavam partículas mínimas de material desconhecido. O mesmo formigueiro no nariz fê-la espirrar com violência. Depois, concluída a operação, correu para a placa de aço que já antes lhe servira de espelho e soltou uma gargalhada. Estava preta retinta! E a roupa tinha desaparecido. Só um pano lhe envolvia o corpo. Um pano de algodão branco muito leve e fresco! De tudo, o mais engraçado era o cabelo! Rijo e farto, entrançara-se em mil trancinhas pequeninas que feitas à mão levariam um tempo infinito. Mas assim, de um momento para o outro, adquirira o penteado mais original que alguma vez sonhara! As tranças cruzavam-se no alto da cabeça, formando uma espécie de cesto elegante.

Ao seu lado, o Orlando ensaiava vários tipos de corpo.

— Sabes, é que os negros desta zona são muito bem constituídos e musculados. Eu estou um bocado gordo, portanto vou fazer desaparecer as banhas! Ah! Ah! Ah! Como me sinto rejuvenescer!

Olhando-se também na placa de aço, passou a mão pela cabeleira, comentando:

— Não achas o máximo, esta carapinha fofa?

— Acho. Mas já que nos transformámos em pretos, vamos embora daqui. Estou louca por fazer parte de uma tribo.

Os portugueses tinham construído um estrado de madeira junto à praia por sugestão de um comerciante chamado João Bernardes, que já por ali andava fazendo os seus negócios e conhecia os negros. Sabia portanto como gostavam de solenidades.

Tal como o Orlando previra, Diogo de Azambuja saiu da caravela vestido que nem um rei, para impressionar. Já não era um homem novo e coxeava ligeiramente, pois tinha sido ferido numa perna alguns anos antes.

«Ele deve estar a morrer de calor!», pensou a Ana, que não conseguia tirar os olhos daquela figura imponente, cujo traje era mais próprio para um baile em Lisboa do que para desembarcar naquela praia quentíssima.

Por cima de sedas e brocados, tinha uma casaca de mangas tão largas como dois foles e ainda um colar de ouro e pedrarias!

Acompanhavam-no outros homens, igualmente bem vestidos, e todos juntos instalaram-se sobre o estrado. Um grupo começou a tocar trombetas, tamborins e tambores. O ar vibrou com a música daqueles instrumentos vindos de uma terra longínqua, e que ali soavam pela primeira vez.

Encantada, a Ana viu por entre as folhagens aproximar-se o cortejo de Caramansa. À frente vinha ele próprio. O seu corpo negro brilhava ao sol. Tal como os outros habitantes da região, untara-se com óleos para tornar a pele mais preta e mais bonita. A sua única peça de vestuário era uma tanga, bastante cómoda e adequada ao clima muito quente e muito húmido. Quanto a jóias, via-se bem que eram naturais de uma zona rica, pois ficavam a ganhar aos portugueses! Caramansa tinha os braços, as pernas e o pescoço cobertos de peças de ouro de vários tamanhos e feitios. Da barba e dos cabelos pendiam-lhe inúmeras campainhas e contas, de ouro também, que deixaram os visitantes assombrados! Diogo de Azambuja bem disfarçou, mas no fundo dos seus olhos bailava a cobiça.

O Orlando agitou-se:

— Ana! Olha aquela bolinha sobre a orelha esquerda do chefe. Estás a ver?

— Estou.

— É o Sponezik!

— Oh, Orlando, veja lá se não se enganou outra vez!

— Não. Agora tenho a certeza.

— Bom, e como é que pensa tirá-la «daquele sítio»? — perguntou com um vago sorriso de troça.

É que os negros traziam arcos, flechas, azagaias e escudos para mostrarem bem a sua força! Além disso, Caramansa deslocava-se de forma tão solene e grave que não devia ser nada fácil chegar ao pé dele. Quanto mais arrancar -lhe uma das suas jóias!

Naquele momento, Diogo de Azambuja e Caramansa cumprimentavam-se cerimoniosamente em cima do estrado.

Caramansa, com o porte altivo de um chefe que recebe um visitante, aproximou-se e tocou com a ponta dos dedos nos dedos de Diogo de Azambuja repetindo:

— Bere! Bere!...

Um intérprete que os portugueses levavam traduziu:

— Paz! Paz!

Diogo de Azambuja acenou que sim e disse por sua vez:

— Bere! Bere!

A Ana e o Orlando foram-se chegando disfarçadamente. Os negros eram muitos e os mais importantes e ricos levavam atrás os seus escravos, com uma cadeirinha de madeira para se poderem sentar quando lhes apetecesse.

— Misturamo-nos com os senhores ou com os escravos? — perguntou a Ana.

— Nem com uns nem com outros. É mais prudente mantermo-nos entre as pessoas vulgares para passarmos despercebidos.

De onde estavam, puderam ver os súbditos de Caramansa cumprimentarem Diogo de Azambuja. Primeiro molharam os dedos na boca, depois limparam-nos no peito e só em seguida tocaram no capitão português.

O intérprete explicou que aquele gesto era um sinal de grande deferência e respeito.

Contente, Diogo de Azambuja propôs que se sentassem para combinarem tudo sobre a construção do castelo.

Os escravos acorreram com as tais cadeirinhas e, enquanto havia discursos de um lado e do outro, tão longos e complicados que o intérprete já suava em bica e resumia tanto que alterava bastante o sentido das frases, um grupo de negros foi tocando baixinho uma bela melodia nos seus instrumentos exóticos: búzios, chocalhos, cornos e tambores (1).

— Só à noite é que vamos ter oportunidade...

— O quê?

O Orlando baixou-se e falou ao ouvido da Ana:

— Só à noite é que vamos poder assaltar Caramansa. Quando ele estiver a dormir na palhota, entramos pé ante pé e... olha! Seja o que Deus quiser.

— Ele dormirá com as jóias penduradas no cabelo?

— Não creio. Deve pô-las só em caso de festa. E este encontro é uma festa.

— Pois é — disse a Ana. — Com presentes e tudo! Sobre o estrado os dois chefes, sempre muito sérios, trocavam alguns presentes entre si.

A Ana reparou num tique engraçado que tinha o negro. Antes de falar, erguia as sobrancelhas como quem toma balanço. E a sua expressão resultava muito simpática e inteligente.

Ao pôr do Sol houve brindes. Os portugueses ofereceram vinho branco, e os negros vinho de palma. Todos provaram as duas qualidades. O calor ajudou a que bebessem mais e mais, de modo que quando a noite caiu reinava grande alegria no areal.

A Ana e o Orlando, sentados num pedregulho, bocejavam de cansaço e impaciência. A que horas terminariam os cantos e danças? Por aquele andar, nunca mais!

 

(1) O encontro de Caramansa e Diogo de Azambuja foi descrito pelos cronistas Rui de Pina, Garcia de Resende, João de Barros., Duarte Pacheco Pereira, Valentim Fernandes. A região foi descrita por todos eles e por Alexandre Magno de Castilho no seu roteiro da costa de África.

 

                 O assalto

A noite na selva enche-se com as vozes e os ruídos dos animais. A Ana, que tinha adormecido encostada a uma árvore, acordou espavorida! Ao longe, uma fera soltara o seu berro cavo, possante, e logo se ouviu uma guincharia infernal de macacos em alvoroço.

— Orlando! Orlando! Acorde!

O cientista também se tinha deixado vencer pelo cansaço e ressonava com a boca entreaberta.

— Ronc... Fum... Ronc... Fum...

O sono era tão profundo que foram precisos vários abanões para o despertar.

— Hã! O que foi?

— O que foi? — brincou a Ana. — Foi o vinho branco, misturado com o vinho de palma! Tanto bebeu, que o resultado está à vista.

— Deixa-te de graças! São horas de entrar em acção!

— Isso digo eu. Mas estou com medo.

— Medo de quê?

— De tudo. A avaliar pelos ruídos, esta selva está infestada de animais ferozes. E se calhar à espreita que passe alguém para ferrarem o dente!

— Tens razão — disse o Orlando meio estremunhado.

— Eu já li muito sobre esta zona, e sei. Há por aqui cobras venenosas, onças, elefantes, búfalos, leopardos, leões...

— Oh, Orlando! Cale-se, por amor de Deus! Quer-me assustar?

— Não! — respondeu ele com um bocejo. — Essa bicharada anda por aí, mas parece-me que não ataca!

— Tem a certeza?

— A certeza, não tenho — explicou, pondo-se de pé.

— Mas agora não é altura de pensarmos em desgraças. A Ana fitou a orla da floresta tropical. Para dizer a verdade, apetecia-lhe bastante mais ficar na praia. Ou melhor, meter-se na máquina do tempo e ver tudo através daquela maravilhosa parede de cristal. Seria o mesmo que assistir a um filme emocionante, passado no interior da selva. Por certo roeria as unhas até ao sabugo mas, tal como quando ia ao cinema, podia entusiasmar-se, rir, chorar, dar pulos na cadeira, sem correr perigo nenhum.

— É uma grande invenção, o cinema! — disse em voz alta.

— O quê?

— Nada, nada! Podemos partir quando quiser. Para seu grande espanto e alívio, o Orlando encaminhou-se para a máquina do tempo e foi assim que penetraram na aldeia. Sobrevoaram as palhotas e aterraram invisíveis quase à porta da casa do chefe. Tudo dormia em redor. Mesmo o guarda, cujo hálito a vinho se sentia à distância. Pé ante pé, aproximaram-se de Caramansa.

Deitado sobre uma esteira, de costas viradas para a porta, não deu qualquer sinal de os ter sentido. A palhota não continha mobília, mas alguém arrumara as jóias num grande cesto de folhas entrançadas.

A escuridão não permitia que procurassem o Sponezik. E também não seria prudente ficarem ali muito tempo a remexer nos tesouros do chefe! O Orlando ainda hesitou, mas não teve outro remédio senão decidir-se a levar tudo consigo.

— Pega daí, Ana, que isto pesa!

Como dois ladrões, esgueiraram-se para o exterior carregando o cesto nos braços.

A Ana sentia o bater do coração cada vez mais forte, cada vez mais forte... e a máquina que estava tão perto parecia-lhe a quilómetros de distância, tal era a urgência que tinha em lá chegar.

Quando já ia a ser sugada, ouviu um grito agudo de mulher. Alguém tinha dado por eles e lançara o alerta! De imediato caíram lanças e setas envenenadas em seu redor.

O Orlando foi mais rápido. Atirou-se em voo e arrastou-a consigo e com o cesto para dentro do cubo de cristal!

Os negros detiveram-se, estupefactos. Durante um bom pedaço andaram por ali às voltas, de nariz no ar, sem perceberem como tinham desaparecido assim de um momento para o outro o velho, a rapariga e o tesouro do chefe!

A tribo reunida já cantava o seu desespero, quando, para assombro geral, começaram «a chover jóias» de cima de um embondeiro. E para cúmulo acabou por cair lá de cima o próprio cesto que aterrou aos pés de Caramansa.

Radiante, ele ordenou às suas mulheres que verificassem se faltava alguma coisa. E elas apressaram-se a contar as jóias diante de toda a gente.

O Orlando e a Ana, de novo invisíveis dentro da máquina e já a uns bons metros de altura, riram-se a perder.

— Só falta uma! — exclamou o Orlando, que apertava na mão o Sponezik. — Mas não é grande perda, deixem lá!

A máquina estremeceu, estremeceu, e partiu vibrando em busca do João.

Quando sentiu que chegavam, a Ana fechou os olhos um momento. Ia ser emocionante. Tinham tantas coisas para contar um ao outro!

O Orlando abanou-a:

— Aí o tens! — disse-lhe, enternecido. — .Vê lá se o teu irmão não parece mesmo um verdadeiro grumete!

Ela descerrou as pálpebras e sentiu um baque no peito. Até custava a acreditar no que tinham pela frente!

— Já viste esta cena em qualquer parte, não foi? A voz do Orlando soava carinhosa e terna.

— Vi, sim. É parecida com um quadro que está no Museu da Marinha!

Num morro alto, Diogo Cão e os seus homens enterravam o padrão de São Jorge, para assinalarem o descobrimento da foz do rio Zaire. Assim o ordenara Dom João II! Era a primeira vez que um grupo de brancos ali punha o pé. E o rei queria assegurar-se de que o facto seria lembrado pelos séculos fora.

— Repara, um dos grumetes a puxar as cordas é o teu irmão!

Esquecidos que continuavam pretos, e portanto irreconhecíveis, saíram da máquina do tempo.

— João! — chamou a Ana. — João!

Ao ouvir a voz dela, largou a corda e correu ao seu encontro. Mas, diante de uma pretinha risonha, estacou...

— Quem és tu?

— Sou a Ana! Não me reconheces?

— E eu sou o Orlando. Estamos disfarçados!

— E bem disfarçados! — respondeu o João, meio atarantado com a alegria de os reconhecer.

Incapaz de dizer mais nada, apertou-os aos dois no mesmo abraço. E contra o que era costume, largou a chorar.

A uma certa distância, os marinheiros olhavam-nos sem perceber o que se passava.

O Orlando começou a ficar inquieto.

— Temos de ir embora daqui. Sigam-me!

Não foi preciso repetir a ordem duas vezes. A Ana e o João correram a bom correr, direitos à máquina do tempo.

Felizmente Diogo Cão dera ordem aos marinheiros para recomeçarem o trabalho, dizendo:

— Despachem-se, que quero prosseguir viagem! Estêvão Ayres ainda lembrou:

— E o rapaz? Não seria melhor eu ir chamá-lo?

— Não vale a pena — respondeu o capitão. — Foi dar uma volta com os indígenas e não deve tardar.

Já dentro do cubo de cristal, enquanto o Orlando e a Ana recuperavam a sua aparência de europeus, o João deixou-se ficar muito quieto a ver os companheiros acabarem a tarefa de enterrar no chão aquela espécie de coluna de pedra branca. E mesmo sabendo que não o podiam ver, acenou para se despedir. Os últimos dias tinham sido difíceis e estava ansioso por regressar a casa. Mas na hora da partida, lá vinham as saudades!

— Vão pensar que me perdi — suspirou. — Coitados! Tornámo-nos bons amigos. Não os queria afligir.

— Não te preocupes demasiado — disse o Orlando.

— Talvez pensem que preferiste ficar aqui a viver... houve casos, sabes?

A nave tremia já, apontada ao século XX. Ficaram a pairar entre o sono e a vigília. Como era doce e agradável deslizar pelos séculos fora, arrastados por um aparelho de cristal! Mais doce ainda se a viagem tinha o sabor do

regresso!

Uma voz metálica e alterada pela distância fez-lhes companhia pelo caminho, repetindo sempre:

«A nossa galáxia agradece terem encontrado o Sponezik 7! A nossa galáxia agradece aos corajosos portugueses... Parabéns! Parabéns pelo êxito das viagens...»

E foi assim, embalados por elogios vindos de muito longe, que voltaram a Lisboa.

 

 

                                                                  Ana Maria Magalhães & Isabel Alçada

 

 

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