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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A VIDA NUM SOPRO / José Rodrigues dos Santos
A VIDA NUM SOPRO / José Rodrigues dos Santos

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A VIDA NUM SOPRO

 

O sol jorrava por todas as janelas em cascatas de luz, tépidas e difusas, e os alunos inclinaram-se na sua direcção; pareciam flores em busca do calor meigo que lhes faltava, o rosto procurando a quentura acolhedora com as suas promessas de aconchego. O impiedoso Inverno transmontano aproximava-se, lento mas inexorável, e o calendário pregado à porta marcava 1929.

Luís Afonso passou a mão pelo cabelo, deixou a franja castanho-clara descair-lhe para o lado e espiou furtivamente a fila de janelas para lá do pátio do Liceu Central Emídio Garcia, em Bragança. Lá estava ela, a beldade do outro dia. Na semana anterior, os olhos castanhos de Luís haviam-se cruzado pela primeira vez com aqueles mesmos olhos cor de mel, verdadeiros rebuçados dourados que espreitavam do outro lado, da ala feminina. Foi um momento breve, o tempo de uma abelha beijar uma pétala, o instante que demora um fugaz palpitar do coração; mas também eterno, eterno como o incansável cintilar de uma estrela incrustada no firmamento negro ou o contínuo marulhar do mar sobre a areia fulgente da praia.

Eterno.

Aquele efémero momento foi eterno, porque foi com ele que tudo começou.

O olhar dos dois voltou a cruzar-se essa manhã, cada um na sua sala, ele no piso superior, ela no piso inferior, as duas alas separadas pelo pátio; ambos espreitavam pela janela como se o sonho estivesse para lá dela, como se o fluir da vida ali os aguardasse, mas desta vez a rapariga manteve-se um tudo-nada mais a fitá-lo, o olhar de jade prendendo-o no tempo, um instante sem fim, ela com aqueles olhos melífluos, não eram castanhos nem verdes, eram áureos e açucarados, carregados de promessas, olhos quentes e brilhantes. Como o mel.

O momento prolongou-se por três inextinguíveis segundos, tão longos como se o tempo tivesse parado, tão intensos que tudo desapareceu a não ser aquelas jóias hipnóticas, tão fortes que os corações ribombaram descontroladamente no peito; até que ela, com um súbito rubor a colorir-lhe a face delicada, acabou por virar a cara e escondê-la entre os cabelos ondu­lados com madeixas aloiradas. Um anjo, pensou Luís; era um anjo como nunca se vira por aquelas paragens.

"Então, senhor Afonso? Para onde está o senhor a olhar, pode-se saber?"

Luís estremeceu e voltou bruscamente o rosto, a realidade da aula impondo-se à fantasia da janela; encostado à sua carteira, as pontas dos dedos sujas com o pó branco de giz, o professor de Química observava-o, o bigode a tremelicar de irritação.

"Hã?"

"Aqui não há hã nem meio hã", repreendeu-o o profes­sor. "Faz o obséquio de me dizer para onde estava o senhor a olhar?"

"Eu?"

"Sim, o senhor."

"Oh, nada de especial", devolveu Luís, esboçando um gesto vago com a mão esquerda na direcção do pátio. "Estava apenas a... a ver ali uma pardaleca a pardalar."

O professor observou as raparigas visíveis na fileira de janelas do outro lado e, coruja velha, tamborilou os dedos na madeira rude da carteira do aluno.

"Você é que me saiu um bom pardal."

O toque das onze 'da manhã assinalou o fim da aula e, instantes depois, no meio da enxurrada de alunas que abando­navam a sala em catadupa, a rapariga esgueirou-se pela porta e deslizou pelo corredor na direcção das escadas. Com o coração aos pulos pela temeridade do que planeava fazer, Luís abandonou o lugar onde se ocultara, um discreto pilar estrategicamente colocado diante da sala, apressou o passo atrás dela e apanhou-a já na escadaria; ao ultrapassá-la abriu os braços e, com espalhafato, deixou tombar os cadernos nos degraus, mesmo à frente da beldade dos olhos de mel.

"Perdão", desculpou-se, dobrando o corpo para apanhar os cadernos espalhados diante dela. "Sou um desastrado." Voltou a cabeça e espreitou-a sobre o ombro, embora se man­tivesse debruçado a recuperar o material escolar. "Não se assustou, pois não?"

A rapariga tinha estacado num degrau, pestanejando de surpresa com a confusão gerada a seus pés. Mal o moço a encarou, porém, recuperou do espanto e reconheceu-o; era o rapaz da janela.

Num relance estudou-o da cabeça aos pés, procurando o que a longínqua janela escondera. O rapaz era mais alto e bem constituído do que parecia à distância; tinha os sapatos impecavelmente engraxados, as roupas claras vinham limpas e bem passadas, o cabelo liso castanho-claro brilhava à luz do dia, os pelinhos de adolescente-que-se-faz-homem nasciam--lhe nos cantos da boca e os expressivos olhos castanhos bri­lhavam na face máscula e quadrada de varão atraente. Era a primeira vez que o encarava de perto e reconheceu nele um ar bem tratado; o rapaz vinha certamente de boas famílias.

Ao vê-lo assim, naquela embrulhada diante dela, depois de tantas e tão intensas trocas de olhares pelas janelas do liceu, a rapariga logo suspeitou que não houvera ali acidente nenhum, antes um estratagema para meter conversa, e não conseguiu ocultar o leve esboço de um sorriso, pormenor pequeno, mas significativo, que não escapou a Luís.

"Não me assusto com facilidade", observou ela por fim, contornando-o e fazendo tenção de prosseguir caminho, cien­te de que uma rapariga de bem tinha de se dar ao respeito.

Luís recuperou os cadernos e apressou-se a acompanhá-la.

"Sabe, quando vejo uma moça bonita, assim como você, fico, sei lá, fico nervoso, não é? E foi isso que... que me atrapalhou."

A rapariga olhou-o, divertida com a audácia do piropo.

"Não, você não é desastrado. É atrevido."

"Receio que esteja a confundir atrevimento com sincerida­de." Estendeu a mão. "Sou o Luís e sou sincero."

Ela riu-se, ignorando a mão que lhe era oferecida.

"É atrevido e tem muita conversa, já vi."

"Não me diga que não me vai dizer o seu nome..."

"Para que quer o meu nome, pode-se saber?"

"Ora, para sermos amigos, claro."

"Ai quer ser meu amigo, ora é?"

Luís parou, dobrou o joelho e fez uma vénia.

"Seria uma honra."

"E para que preciso eu de um amigo?"

"Todas as damas têm o seu cavaleiro."

Encantada com aqueles modos, a rapariga estendeu-lhe enfim a mão e rendeu-se.

"Chamo-me Amélia."

Cumprimentaram-se e ele mirou-a com um sorriso.

"Amélia dos olhos garços?"

Amélia voltou as costas, embaraçada e deliciada com a audácia do moço, e apressou o passo com um doce e fresco menear das ancas, como se balouçasse o corpo ao ritmo de um sensual bolero. Correu assim para as amigas, que tudo observavam com invejosa curiosidade, soltando risinhos exci­tados e sussurrando com agitação. Uma vez com elas, Amélia voltou a cabeça, observou Luís parado na escadaria a admirá-la, os olhos inflamados por tanta graciosidade, e acenou timidamente com o braço.

"Adeus!"

E corou.

O resto do dia foi vivido por Luís com um misto de ansiedade e exaltação. Mal comeu ao almoço, a mente sempre absorvida a reconstituir o que sucedera na escadaria do liceu. Quando as aulas terminaram à tarde, seguiu direito para a pensão onde estava hospedado em Bragança e fechou-se no quarto.

Ah, Amélia! Que lindo nome! Tudo nela lhe parecia perfei­to. Uma estranha e saborosa euforia apossou-se dele, desinquietado com a temeridade com que se aproximara da rapariga mais bonita do liceu, alvoraçado com a reacção que dela tivera. A luz do Sol sorria-lhe da janela e convidava-o a abraçar o dia dourado. Reviu vezes sem conta as breves palavras que trocaram nos degraus e escalpelizou ao porme­nor as expressões desenhadas naquele rosto fino. Procurou ler nas entrelinhas do que não fora dito, buscou emoções por detrás dos sorrisos que Amélia lhe exibira, encontrou confor­to no adeus que ela lhe lançara na despedida. Ficara na escadaria a vê-la juntar-se às amigas; desejara ardentemente que ela se virasse, que ela não se mostrasse indiferente àquele encontro, que ela o olhasse uma derradeira vez.

E Amélia olhara.

Toc-toc-toc.

"Quem é?"

"Sou eu, menino Luís. A dona Hortense. Estamos todos à sua espera para a janta."

Luís rolou os olhos, impaciente com a inoportuna interrup­ção, a deleitosa cadeia de pensamentos e fantasias brutalmen­te quebrada pela voz esganiçada.

"Rai's t'a parta o diabo da mulher!", murmurou, contraria­do, desencostando-se da almofada langorosa. "Que maçada, só pensa na engorda..."

Saltou a custo da cama e entreabriu sem entusiasmo a porta. Parada diante dele como um arbusto plantado no corredor estava a dona da pensão, uma senhora redonda de meia-idade, de cabelo encaracolado e faces rosadas, o aspecto bonacheirão de transmontana bem nutrida.

"Atão, menino?"

"Desculpe, dona Hortense, mas não tenho fome."

"O menino não vem à janta?", admirou-se ela, limpando as mãos ao avental sujo.

"Sabe o que é? Tenho muito que estudar."

"Arre diabo! Então esteve a abelhinha da Graciete a esmerar-se para fazer um belo cozidinho, daqueles cheios de chicha

valente, como o menino gosta, e agora não quer comer? Logo o menino, que sempre foi tão lambiteiro!"

"Pois é, mas preciso de estudar."

A dona da pensão inclinou a cabeça e tentou espreitar pela frincha da porta entreaberta.

"Mas que estudos são esses, valha-me Deus, que o botam no quarto e não o deixam comer?"

O rapaz encostou a porta o mais que podia, de modo a manter a frincha num fio.

"São os trabalhos que os professores mandam para casa."

Desconfiada, dona Hortense fitou-lhe os olhos com aten­ção e, de repente, abrindo o rosto com ar de quem acabou de descobrir a resposta para o enigma, colou-lhe a palma da mão sapuda à testa.

"Não me diga que está febroso..."

"Não, não, eu estou bem."

Constatando que a temperatura na testa era normal, a dona da pensão endireitou-se e indicou com a cabeça o andar inferior, onde se situava a sala de jantar.

"O menino é muito fisquinho, tem de comer."

"Eu sei, dona Hortense. Mas primeiro preciso de alimentar a alma."

"Ora, cenórias! Primeiro enche-se o bandulho e só depois é que vem a alma. Sem paparoca boa, a cabeça não pensa. Além disso, a sua tia mandou-me cebá-lo bem e não quero cá reclamações."

"Fique descansada."

A dona da pensão deu meia volta e desceu as escadas, os braços gordos agarrados ao corrimão.

"Quando lhe der a galgueira, já sabe: vai à cozinha, hem?"

Vendo-a desaparecer nos degraus inferiores, Luís fechou a porta do quarto e suspirou.

"Que estopada!"

Mas logo se recompôs. O quarto era animado pelo alegre chalrar dos periquitos que esvoaçavam para cá e para lá dentro de uma espaçosa gaiola, as irrequietas penas verdes e amarelas contempladas pelo olhar vidrado dos peixes que deslizavam em silêncio no pequeno aquário do canto. Habitualmente era com os seus animais que se distraía, mas desta vez havia um atractivo diferente. A fantasia esperava-o na cama, a noite seria longa e os sonhos ardentes.

Ah, Amélia!

 

O apetite só lhe veio ao pequeno-almoço do dia seguinte e, mesmo assim, com uma moderação que deixou dona Hortense rubra de tão escandalizada.

"Concho!", exclamou, levando as mãos gordas ao rosto corado. "aquase que me dá um fanico de o ver assim a modos que estrelicado! Um moço tão peleiroso como o menino precisa de gafar melhor, ouviu? Senão falta-lhe a genica e nunca chegará a deitor!"

"O dona Hortense, não vale a pena exagerar. Bebi o leite e comi o papo-seco, não foi?"

"É pouco."

Luís arrastou a cadeira para trás e ergueu-se.

"Chega-me perfeitamente", disse. "Agora tenho de ir para o liceu, já se fazem horas."

"O quê?", admirou-se ela, seguindo-o com os olhos contrariados. "Mas ainda falta uma hora para as aulas começarem. Para quê essa pressa toda, valha-me Deus?"

"Tenho muito que fazer."

"Ai tem, tem. E a primeira coisa que tem a fazer é comer. Lembre-se que o menino não gafou nada ontem à noite. Devia ao menos levar uma merendinha."

"Não é preciso."

Dona Hortense virou-se e dirigiu-se à cozinha.

"Desculpe, mas tem de ser", insistiu. "Onde é que já se viu ir assim para a escola? Vou ali pedir à Graciete que lhe bote na cestinha as sobras do cozido e um chouricinho de mel."

"Não quero."

Mas a dona da pensão já nem o ouvia e desapareceu para além da porta.

"Ó Graciete! Gracieeeete!"

"Senhora?", respondeu uma voz longínqua.

"Preparas aí uma merendinha para o menino Luís, ora preparas?"

"Sim, senhora."

Percebendo que a preparação da merenda se iria eternizar, Luís pegou apressadamente na mala, que deixara encostada à parede do corredor, e correu lá para fora.

"Até logo!"

"Espere!", gritou dona Hortense da cozinha, apercebendo-se de que ele saía. "Espere pela merendinha, valha-me Deus."

A voz dele desaparecia já na rua.

"Adeus!"

A dona da pensão veio à porta da hospedaria, a sua figura larga a encher a entrada, e ficou a vê-lo descer a rua.

"Aiche, onde é que já se viu isto?", protestou ela, abanan­do a cabeça com uma expressão reprovadora, os braços à ilharga em pose afirmativa. "Olhem-me o moço, credo! Parece endiabrado!" Esticou o pescoço gordo e atirou em voz alta,

na esperança de ainda ser ouvida: "Se a sua tia sabe, vai-lhe ler a panjelíngua! Ai vai, vai!"

Alheio à voz que se esganiçava lá para trás, Luís estugou o passo em direcção ao liceu. Na verdade, não ia atrasado; tinha era pressa de chegar cedo. A excitação acelerava-lhe os movimentos, queria espreitá-la a entrar no edifício e adivinhar-lhe no rosto se pensara tanto nele como ele pensara nela.

Passou à frente de duas lojas e, abrandando, mirou-se no reflexo das vitrinas. Ia janota, o cabelo liso bem penteado para o lado, o corpo alto e elegante, o vestuário claro impecavelmente arranjado; não parecia o transmontano que era, mas um lisboeta que acompanhava a moda parisiense. Tivera o cuidado de vestir nessa manhã as suas melhores roupas e fez uma nota mental para, de tarde, dar um salto ao alfaiate e comprar calças e camisas ainda mais vistosas do que aquelas que trazia agora. Talvez até uma água-de-colónia.

Retomou a marcha e, como planeara, chegou cedo ao liceu. O movimento era ainda lento àquela hora matinal e Luís ficou cá fora a contemplar as chegadas. Os alunos vinham ainda a conta-gotas, a maior parte a pé, alguns de bicicleta, um ou outro era largado por um carro. Mas a manhã nascera fria e a exasperante inactividade da espera começou a deixá-lo gelado, pelo que, a contragosto, decidiu aguardar no interior. Não era decerto ao borralho, mas sempre se estava melhor.

Alguns colegas de turma vieram ter com ele para combinar um jogo de trincassuada no recreio, mas, de modos impacientes e olhar distraído, Luís não alimentou a conversa e eles acabaram por ir procurar parceiros para outro lado.

A medida que a hora do início das aulas se aproximava, o pingar de entradas foi-se intensificando até que se tornou corrente, era já um caudal de gente que afluía sem cessar pela

porta, numa crescente animação, a algazarra enchendo agora o pátio do liceu. Luís perscrutou com impaciência a multidão de rostos jovens e procurou Amélia a cada face, a cada corpo, a cada voz. Mas não a viu.

O primeiro toque soou e ele suspirou, decepcionado. Deu meia volta e percorreu apressado o corredor em direcção à sala. O dia começava com Matemática e nem pensar em chegar atrasado. O professor Marques não era para brincadeiras.

Seguiu a aula distraidamente, prestando à matéria a atenção mínima que a cautela requeria. Tomou os apontamentos que precisava de tomar, mas os olhos fugiam-lhe amiúde para a janela, como se na rua encontrasse a resposta para a raiz quadrada da equação seguinte. Da janela os olhos voavam para o relógio, do ponteiro dos minutos para o professor, da figura esguia do professor Marques para o caderno e de novo para a janela. Uma deliciosa impaciência ruminava-lhe no peito; queria vê-la e não havia meio de a aula terminar, tinha a impressão de que nunca uma hora lhe parecera tão longa.

Foi só ao segundo intervalo, entre as aulas de Biologia e Desenho, que deu com Amélia. Estava encostada a uma parede à conversa com duas amigas e ria-se com uma alegria desprendida. Luís sentiu um baque no peito ao vê-la assim tão contente. Como é que ela se consegue rir?, interrogou-se, perturbado. Então ando eu aqui de rastos, a morrer de impaciência por lhe pôr os olhos em cima, e ela a rir-se? Fitou-a com apreensão, preocupado com a possibilidade de ter inter­pretado mal as reacções dela na véspera, fazendo tábua rasa de tudo o que excitadamente concluíra ao longo de todas aquelas horas em que estivera fechado no quarto. Será que lhe sou indiferente? Serei eu apenas mais um?

Procurou-lhe os olhos, mas ela mantinha-se embrenhada na conversa com as amigas. Parecia divertida e ria-se e sorria com frequência. Do que se ri ela? Será de mim? Perscrutou-a com atenção, tanta que a perturbação se evaporou e a mente se deixou enlevar pelo brilho que dela emanava. Que sorriso tão bonito, pensou. Tão bonito, parece que cintila! Quando ela sorria, não era só a boca que sorria, eram os olhos, as bochechas, todo o rosto, o corpo inteiro. Abanou a cabeça, quase desesperado. Realmente, como posso eu atrever-me a desejar uma coisa assim tão bela? Suspirou, o peito oprimido pela angústia.

Foi então que os olhos se cruzaram.

Amélia deixou um sorriso suspenso enquanto o seu olhar cor de mel pousava em Luís. A graça parecia soltar-se-lhe naquele olhar. Viu-o, acenou timidamente e voltou a atenção para as amigas, mas com o ar algo comprometido.

Algumas notaram o gesto e viraram para ele as atenções, para logo se multiplicarem em risinhos e em murmúrios excitados.

"Olha para ele, olha para ele!", cacarejou uma voz no meio do pequeno tumulto.

"Onde?"

"Ali, parva!"

Risinhos.

Apanhado de surpresa pelas vozes indiscretas que flutuavam no corredor, Luís percebeu que falavam dele. Sentiu-se um animal enjaulado no zoológico e lidou mal com o desconforto. Embaraçado e irritado por se ter tornado objecto de tanto comentário mexeriqueiro entre as raparigas, voltou as costas e afastou-se com gestos alheados, como se a troca de olhares com Amélia tivesse sido acidental, coisa demasiado insignificante para justificar tão grande alarido.

Andou dias à procura de uma oportunidade, mas as coisas pareciam difíceis e a possibilidade de conseguir um momento a sós com Amélia escapava-se-lhe. Até que, na semana seguinte, quando já desesperava, a apanhou sozinha num intervalo das aulas, debruçada sobre um livro volumoso na biblioteca do liceu. A biblioteca estava quase deserta e, enchendo-se de coragem, o ritmo cardíaco acelerado e a garganta subitamente seca, Luís aproximou-se e sentou-se ao lado dela.

"Ora viva", saudou, surpreendido com o seu próprio atre­vimento. "Por aqui?"

Ela olhou-o com uma expressão de admiração e corou ao reconhecê-lo.

"Olá", devolveu, baixando de imediato os olhos para o livro, o ar muito comprometido.

Ele inclinou o rosto para o volume que ela tinha aberto sobre a mesa de madeira.

"Então? A estudar?"

"Sim."

"Está a ler o quê?"

Ela ergueu os olhos e girou o rosto em redor da biblioteca, como se receasse ser vista por alguém.

"Por favor, as minhas amigas podem aparecer a qualquer momento."

"E então? Elas comem-nos?"

"Não, mas... mas podem aparecer."

"Que eu saiba, não estamos a fazer nada de mal, pois não?"

Amélia pareceu por momentos ter perdido as palavras, como se o que quisesse dizer fosse tão óbvio que nem precisasse de ser dito.

"Elas vão comentar", observou por fim.

"E depois? Não me diga que tem medo daquelas galinhas..."

Ela soltou um riso nervoso.

"Não é isso. Mas são minhas amigas... Vai haver falatório, já sabe como é."

Luís torceu a boca.

"Eu pensei que você também fosse minha amiga..."

Amélia calou-se, sem resposta, e fixou de novo a atenção no livro. Assim sentada, serena e inatingível, dava a impressão de ser o tipo de rapariga que apenas se vislumbra num palacete distante, o perfil recortado pela neblina, os cabelos incendiados por halos de luz crepuscular.

Luís sentiu que tinha de forçar uma decisão. O burburinho dos últimos dias entre as raparigas e o quase distanciamento de Amélia machucavam-lhe o orgulho e enchiam-no de ansiedade. Passava tardes inteiras a considerar se lhe era ou não indiferente e tinha de pôr fim a essa angústia permanente. Precisava a todo o custo de clarificar a situação e aquela era a

oportunidade para o fazer. Tinha ou não hipóteses com ela? Valeria a pena suspirar sempre que a via? Sentia o coração aos pulos no peito e a respiração oprimida, receando a resposta à sua tormentosa dúvida, apavorado com a incerteza, mas mesmo assim não deixou de formular a pergunta.

"Quer que eu me vá embora?"

A rapariga ficou um instante calada, como se quisesse desaparecer nas páginas do livro que fitava mas não lia. Encolheu-se toda e sussurrou num fio de voz quase inaudível:

"Pode ficar."

Foi como se uma explosão de luz e cor enchessem a biblioteca. Luís sentiu um peso desprender-se de si e tornar-se leve como as páginas do livro aberto sobre a mesa. A rapariga mais bonita do liceu aceitava a sua companhia, deixava-o ficar ali com ela. O dia pareceu-lhe mais belo, a vida mais intensa, o ar mais puro.

Inebriado com a resposta, abriu o rosto num imenso sorriso e respirou fundo.

"Sabe quem é que você me faz lembrar?"

Amélia ergueu os olhos interrogativamente para ele.

"Quem?"

"A May McAvoy."

Ela franziu o sobrolho, como se nada daquilo fizesse sentido.

"A mãe e a maca da avó?"

Luís reprimiu um sorriso e arregalou os olhos, fingindo-se escandalizado.

"McAvoy. A May McAvoy."

"Não conheço."

"Não viu o Ben-Hur?"

"Claro que vi."

"A May McAvoy é a actriz principal."

Os olhos de Amélia iluminaram-se com a comparação.

"Ah, já sei. Aquela do..." Corou. "É... é bonita."

Luís riu-se.

"Bonita? É lindíssima!" Inclinou a cabeça, como se a avaliasse. "Acho que é esse seu ar meio melancólico, meio sonhador." Estreitou as pálpebras enquanto fazia a comparação mental. "Sim, você é a cara chapada da May McAvoy."

Amélia, que tal como ele se descontraía a olhos vistos, curvou os lábios rosados e simulou um ar amuado.

"Se quer que lhe diga, estou ofendida consigo."

"Porquê?"

"Esperava que me comparasse com a Garbo. Não são os homens que dizem que a Greta Garbo é a mais bela de todas?"

O rapaz abanou a cabeça, enfático.

"Nem pensar! Para mim, a May McAvoy é a mais bonita."

"A sério? Mais bonita do que a Greta Garbo ou a Gloria Swanson?"

"Ui, muito mais!"

"Ah, então está bem."

Fez-se silêncio. Luís endireitou-se, satisfeito com o piropo que acabara de lhe atirar e sobretudo com a reacção de Amélia. Ela parecia agora mais à vontade e calorosa, o que lhe dava maior confiança.

"E eu?", perguntou Luís.

"Você o quê?"

"Eu pareço-me com quem?"

Amélia fixou-lhe as linhas da face e fez um ar pensativo, como se considerasse a semelhança mais adequada. Passou os dedos pelos lábios e franziu os olhos, apreciando-lhe as linhas quadradas do rosto, a pele lisa de marfim, os cabelos castanho-claros a refulgir contra o hálito de luz, o olhar sonhador a emprestar um suave toque de poeta ao semblante másculo.

"Ah, já sei!"

"Quem?"

Voltou a franzir os olhos.

"Você parece-se com o... o... como é que ele se chama?"

"O Rudolfo Valentino?"

Ela soltou uma gargalhada.

"Não", disse. "O Carmona!"

"Quem?"

"Aquele que foi eleito no ano passado." Apontou para o quadro pregado na parede da biblioteca, exibindo a figura austera do presidente da República em farda militar, as medalhas a lampejarem-lhe ao peito como as penas vistosas de um pavão. "O Carmona!"

Luís observou a fotografia exposta no quadro, um homem de cabelo e bigode brancos, os malares salientes no rosto gasto e macilento, e esboçou um esgar incrédulo.

"Eu? O Carmona?"

Ela ria-se.

"Sim."

"A Amélia está a reinar comigo, não está?" Apontou para o quadro. "Onde é que eu me pareço com o Carmona?! Olhe para ele! É um velho jarreta!"

Mais risos.

"Então é o Carmona quando era novo."

"Ora bolas! O Carmona é feio!"

Amélia inclinou-se para ele, provocadora.

"Como sabe? Porventura aprecia a beleza dos homens?"

"Eu não", apressou-se Luís a dizer, preocupado em afirmar a sua masculinidade. "Mas... enfim, parece-me que o Carmona nunca entraria numa fita americana... acho eu."

"Pois nunca se pode ter a certeza. Às vezes é preciso botar alguém para o papel de mau, não é?"

Desconcertado com a resposta, Luís baqueteou os dedos pela madeira da mesa.

"Hmm... não me diga que se interessa pela política."

"Um bocadinho. Escuto as conversas."

O rapaz observou-a com mais atenção, fascinado. Aquela moça tinha algo de especial, era um je ne sais quoi que a tornava diferente, como se uma aura própria a envolvesse. Os olhos lânguidos e o sorriso insinuante incendiavam-lhe o rosto e inflamavam-lhe o corpo.

"A sério?"

"Hmm-hmm."

Considerou aquela revelação.

"Nunca conheci uma rapariga que se interessasse pela política."

Ela observou-o pelo canto do olho, com ar atrevido, segurando-lhe a atenção.

"E eu nunca conheci um rapaz que se parecesse com o Carmona."

"Já vi que tem resposta para tudo."

A rapariga soltou uma gargalhada.

"É o que diz a minha mãe. Sou respondona."

Esforçando-se por não parecer hipnotizado por Amélia, Luís levantou de novo os olhos para o quadro, fitando a figura emproada do presidente da República.

"A sério que me pareço com ele?"

Amélia abanou a cabeça.

"O que acha?"

"Quer dizer, eu acho que não."

"Claro que não", concedeu. "Você parece-se consigo mesmo, não há ninguém que se lhe assemelhe."

"Nem mesmo o Rudolfo Valentino?"

Ela voltou a rir-se, uma deliciosa expressão trocista a bailar-lhe nos olhos.

"Pff... não exagere!"

Foi nessa altura que soou o toque a anunciar que era hora de irem para as aulas. O burburinho recrudesceu lá fora e Amélia, quase num salto, agarrou no enorme volume que consultava, colocou-o na estante e escapuliu-se da biblioteca.

"Até logo!"

"Vemo-nos depois no recreio?"

Já no corredor, ela deitou-lhe um olhar traquina.

"Porque não?"

Passaram a encontrar-se todas as manhãs, antes do primeiro toque no liceu e nos intervalos das aulas. A princípio sentiam dificuldade em arranjar tema para conversa, tão acanhados ficavam um diante do outro, mas com o tempo foram ganhando à-vontade e as palavras começaram a fluir com naturalidade.

Passaram a tratar-se por tu e descobriram que várias pequenas coisas os uniam, entre elas a idade, uma vez que ambos tinham dezassete anos. Mas partilhavam também a orfandade. Luís perdera o pai aos cinco anos e a mãe no ano anterior; Amélia ficara sem o pai aos seis anos.

"Morreu com os gases", explicou ela num intervalo entre a aula de Aritmética e a de Português.

"Quais gases?"

"Os da guerra, claro. O papá era cabo no regimento 10, aqui de Bragança, e foi para França combater quando eu tinha quatro anos."

"Lembras-te dele?"

"Não, nem por isso. Ele é, na minha memória, um mero vulto." Torceu a boca e adoptou uma pose pensativa. "A única coisa de que me lembro é, aos seis anos, de o ouvir a tossir. Tossia, tossia, tossia, aquilo fazia impressão. Parecia

que os pulmões lhe iam sair pela boca, coitado. Até que um dia a minha mãe veio ter comigo e disse-me que ele tinha ido para o céu."

"Ainda te lembras da cara dele?"

Ela baixou a cabeça.

"É horrível, não é? Só me lembro dele pelas fotografias que a minha mãe guarda no quarto."

"E como era?"

"Oh, bonito, claro."

Luís fez beicinho.

"Mais do que eu?"

Amélia riu-se.

"Bem... tenho de pensar nisso", devolveu, diplomática. "Sabes, a minha mãe diz que os antepassados do papá vieram de Itália. E, não sei se já te disseram, mas os italianos..."

"Ai sim? Pois o meu pai tinha galegos lá para trás."

"Não me digas! E ainda tens nome galego?"

"Bem... quer dizer, o meu nome completo é Luís António Afonso. O Afonso vem de Alonso, era de um trisavô mas foi aportuguesado..."

"Ora, batatas! Que eu saiba, o sangue italiano é mais chie do que o galego!"

"Pois sim", assentiu Luís, sem vontade de entrar numa competição peloo pedigree internacional dos antepassados. "Quando morreu o teu pai?"

"Após a guerra, meses depois de ter voltado para casa. Foi em 1920, já lá vão nove anos."

"Portanto, tu ficaste filha única."

"Claro que não."

Ele arregalou os olhos.

"Tens uma irmã?"

"Tenho, pois. É três anos mais nova do que eu."

"Ai é? Mas eu ainda não a vi."

"É porque não vive cá. Está em casa do padrinho, que enviuvou. Mas a minha mãe quer trazê-la no próximo ano para Bragança."

Luís assentiu com a cabeça.

"Hmm... sim senhora, muito me contas", disse. "E ir­mãos?"

"Não... quer dizer, sim."

Ele sorriu.

"Não, sim. Em que ficamos?"

"Tenho uma espécie de irmão."

"Mau, não entendo nada."

"Foi um ano depois de a minha irmã nascer", explicou Amélia. "O meu pai tinha partido para a França e a minha mãe andava muito desorientada. Nessa altura, o padre Nogueira veio ter com ela e disse que tinham abandonado um bebé lá na igreja. A minha mãe foi lá vê-lo e... e ficou com ele."

"E o que disse o teu pai quando voltou?"

"Não ficou lá muito contente..."

Luís soltou uma gargalhada.

"Aposto que não. Como se chama o miúdo?"

"A minha mãe chamou-lhe Francisco. O Chico tem onze anos, mas um corpo de homenzinho, havias de ver. Tem ar de brutamontes. A minha mãe chama-o sempre que é preciso carregar qualquer coisa."

"E a tua mãe? Depois da morte do teu pai, não voltou a casar?"

Amélia fez um ar indignado.

"A minha mãe? Casar?" Ergueu o dedo, como quem emite uma sentença. "Pois fica sabendo que, na minha família, só há mulheres de um único homem." O dedo estremeceu. "De um único homem."

 

O carro de bois avançava devagar pela rua, arrastando um carregamento de azeitonas negras, tão reluzentes que pareciam pérolas. O agricultor que conduzia o carro seguia à frente, enérgico e transpirado, as mãos a puxarem a correia que guiava a direcção do animal.

"Uga! Uga!", repetia o homem, incentivando o boi. "Para a frente, vamos! Arriba!"

Uma bosta tombou da traseira do bovino sobre o empedrado da rua com um ploc espalhafatoso. Logo que o carro de bois passou, Luís cruzou para o outro passeio em ziguezague, evitan­do os excrementos de animais que se acumulavam pela via.

Foi então que a viu.

Amélia vinha a sair da mercearia a carregar um cesto de verga e nunca como nesse instante lhe pareceu tão adorável. Ainda nessa manhã de sábado a tinha encontrado nas aulas, aliás vira-a uma hora antes a sair do liceu, mas agora andava sem a bata escolar e adquirira novo brilho. Trazia um vestido branco com flores vermelhas, um lenço de seda púrpura aninhado ao pescoço, as saias perigosamente curtas a tomba­rem logo abaixo do joelho; trajes sem dúvida atrevidos, de uma elegância condenada nos púlpitos das igrejas de todo o mundo civilizado.

Sem se conter, Luís deu dois saltos na sua direcção.

"Olá."

Ela estacou, admirada.

"Oh", exclamou. "Então? Também vens às compras?"

"Eu não. Vinha a passear por aqui." Contemplou-lhe o vestido com ar apreciador. "Hoje estás toda chique."

Ela baixou a cabeça e mirou o seu vestido branco, rodando as ancas para fazer a saia rodopiar.

"Achas? Comprei-o no ano passado, quando fomos ao Porto. Dei com ele numa vitrina da Cedofeita."

"É janota. Mas essa saia logo abaixo do joelho, não achas que ela... enfim..."

"Ela o quê?"

"Não será um pouco curta de mais?"

"Ora! É a moda!"

"Mas aqui em Bragança, não sei se concordas, parece-me um pouco arrojada." Girou o rosto em redor. "O pessoal não te lança olhares?"

Amélia soltou um risinho.

"Ui, nem imaginas! Havias então de ver o padre Pintado! Ainda esta manhã o encontrei e ele deu-me logo um sermão!"

"Olha quem!"

"Chamou ao vestido uma indecência, uma tentação do Demónio, e até citou o arcebispo de Nápoles!"

"Quem?"

"O arcebispo de Nápoles, vê lá tu! Disse que o arcebispo responsabilizava estas saias pelo terramoto em Amalfi!"

Foi a vez de Luís se rir.

"Olha que se calhar tem razão." Lançou-lhe um novo olhar para as saias, mas desta vez com pura malícia. "E tu, assim vestida, és bem capaz de provocar um terramoto por aqui."

"Pateta!" Amélia virou-se para trás e procurou o relógio de pêndulo pregado na parede da mercearia. "Ai, já é quase uma hora. Tenho de me despachar."

"Estás com pressa?"

Ela ergueu o braço e exibiu as compras, de onde sobressaíam as verduras.

"É a minha mãe. Está à espera da salada para acabar o almoço."

Luís inclinou-se para o cesto.

"Deixa estar, eu ajudo-te a levar o barreleiro."

"Só um bocadinho", disse ela, entregando-lhe as compras e retomando a marcha pelo passeio. "Quando chegarmos perto de casa vais-te embora, está bem?"

"Porquê? Qual é o problema?"

"Se a minha mãe me vê com um rapaz, mata-me."

"Ena, que mãe mais bruta."

"Ai, nem imaginas. É uma autêntica polícia."

Luís endireitou-se e fez um ar empertigado.

"Achas que não ia gostar de mim?"

Amélia riu-se.

"De ti? Hmm... não sei. És rico, porventura?"

"Não sou pobre."

"Mas não sei se és o que ela espera. A minha mãe cismou que eu estou reservada para o filho de um homem rico, daqueles grandes capitalistas que aparecem nas revistas."

"E o que importa isso? Não é com ela que vou casar."

A rapariga fez um ar provocador.

"Então é com quem?"

Luís engoliu em seco. Não estava à espera que Amélia conduzisse as coisas naquela direcção e aquele não era certamente o momento nem o sítio adequado para irem mais longe do que já tinham ido.

"É... é com quem tiver de ser."

"Ah."

Caminharam alguns minutos em silêncio, ele da parte exterior do passeio a carregar o barreleiro, ela no interior a fitar o chão. A conversa tocara inadvertidamente num ponto sensível e ambos tacteavam agora terreno inexplorado.

Já se conheciam havia um mês e meio e tinham-se habituado aos encontros nos intervalos das aulas. Luís ardia de paixão, cada minuto acordado era ocupado por ela, cada momento a dormir era sonhado com ela; sentia-se ansioso quando não estava no liceu e apenas em paz quando se lhe juntava. Dir-se-ia que vivia exclusivamente para aqueles encontros; todo o resto do tempo era consumido num tormento, um doce suplício que apenas se atenuava quando se entretinha a recordar o que haviam dito um ao outro ou a planear temas para as próximas conversas.

Torturava-se a adivinhar o que lhe ia na cabeça. Será que ela gostava dele? Parecia-lhe que sim. Que outra explicação poderia haver para o facto de ela se afastar das amigas da turma para passar o tempo com ele? Mas a natureza exacta dos sentimentos que Amélia nutria por ele escapava-lhe. Seria apenas amizade? Achar-lhe-ia ela graça, mas nada mais do que isso? Ou será que ela pensava nele como ele pensava nela? Esta pergunta visitava-o com frequência e não achava resposta. Por vezes pensava que sim, convencia-se de que Amélia gostava mesmo dele, mas noutras ocasiões tinha dúvidas, tergiversava, achava que o seu desejo de que ela gostasse dele o fazia confundir tudo. No fim de contas, como explicar a sua passividade? Não tinha Amélia acabado de dizer que estava destinada a outro homem? Não passaria ele de mero passa­tempo para quem se prepara para mais altos voos? Em boa verdade, como podia Luís ambicionar uma rapariga tão bela? Não seria presunção sua pensar que a moça mais bonita do liceu poderia gostar dele, gostar de verdade, gostar como nos grandes amores dos filmes ou dos romances?

"A minha casa é para ali", disse Amélia, rompendo o silêncio que se instalara entre ambos.

Luís esticou a cabeça, esquadrinhando a fila de fachadas que se estendia pela rua.

"Qual delas?"

A rapariga franziu o sobrolho.

"Para que queres saber?"

"Ora, gostaria de conhecer a casa onde vives."

"Para quê? Para te botares lá à porta e a minha mãe dar contigo? Havia de ser bonito!"

Luís fechou o rosto, ofendido.

"Tomas-me por quem?" Entregou-lhe o barreleiro e despediu-se, agreste e seco, possuído por um súbito assomo de orgulho. "Adeus."

Deu meia volta e afastou-se. No entanto, volvidos três passos logo lhe começou a custar respirar; o coração tinha mergulhado num turbilhão e palpitava de angústia. Já tivera várias paixonetas, namoricos de criança, mas aquela era a sua primeira paixão a sério, coisa forte a valer, e não sabia como lidar com as múltiplas emoções que o sufocavam. Sentia-se zangado e mortificado ao mesmo tempo, perdido para além do horizonte da razão. Afastava-se dela e arrependia-se já da estúpida soberba que tomara conta dele, amaldiçoava-se em silêncio por deixar os sentimentos controlarem-lhe a mente; o que lhe passara pela cabeça para se armar em virgem ofendida? Talvez no dia seguinte se plantasse de joelhos a implorar-lhe perdão; a verdade é que se afastava e tinha já saudades dela, sabia que não era capaz de passar sem a ver.

"Luís!"

Aquele chamamento soou-lhe como um gongo salvador, ou talvez fosse apenas o adiamento da execução, efémero mas abençoado. Estacou e, quase a medo, olhou para trás e encarou-a. Amélia permanecia plantada na esquina da sua rua com o barreleiro pousado no chão, o vestido branco com flores vermelhas a bailar ao vento, o cabelo ondulado com madeixas aloiradas a cintilar ao sol, os olhos de mel derreten-do-se nele.

"O que é?"

Ela apontou para os pés.

"Amanhã esperas por mim aqui nesta esquina?"

"Amanhã?"

"Sim, levas-me até ao liceu?"

O rosto de Luís abriu-se num sorriso aliviado.

"Amanhã aqui, às sete e meia."

 

Começou a acompanhá-la todas as manhãs no caminho para a escola. Chegava sem falta pelas sete e vinte, era ainda lusco-fusco, e aguardava pacientemente o vulto adorável que lhe entrara de rompante na vida. Cumprimentavam-se com um sorriso feliz e caminhavam alegremente pelas ruas sóbrias e geladas de Bragança àquela hora matinal, ditosos e despreocupados, a conversa a remoinhar ao sabor apetitoso das palavras; contavam episódios da vida, comentavam assuntos da escola, observavam as coisas da cidade, deleitavam-se com sonhos do futuro.

"Um dia", disse-lhe ele num dos primeiros passeios, "hei-de levar-te de cavalo."

"O quê? Tens um cavalo?"

"Não, mas hei-de ter."

Amélia riu-se.

"Como os príncipes?"

"Isso."

"E como vai ser o teu cavalo?"

"Veloz como a luz." Mirou-a, divertido. "Que nome achas que lhe dê?"

"Será rápido, dizes tu?"

"Um campeão."

Ela fitou o infinito, os olhos sonhadores.

"Chamar-se-á Relâmpago.'''

Passou a viver para aquele passeio madrugador, de tal modo que o alvorecer se tornara o apogeu do dia. Vagueava nas aulas a relembrar o passeio dessa manhã e, quando se despediam no átrio do liceu e a mãe a vinha buscar, soltava-se-lhe a saudade, vagabunda no seu coração.

Gastava o final das tardes a languescer no quarto da pensão, planeando a próxima caminhada enquanto se espreguiçava na cama ou brincava com os periquitos ou os peixes do pequeno aquário. Ao jantar mal ouvia dona Hortense a discorrer a propósito de quão "fisquinho" ele se encontrava e da necessidade de comer até ficar "arressuado", e deitava-se a imaginar a conversa do dia seguinte.

As noites eram interessantes como as fitas de cinema, pois era então que, sonhando acordado, elaborava o guião que lhe convinha. Fantasiava que tudo se precipitaria quando se voltassem a encontrar pela manhã; ele abrir-lhe-ia a alma, Amélia devolver-lhe-ia o olhar apaixonado e ambos cairiam nos braços um do outro. Exactamente como nos filmes, ele Rudolfo Valentino, ela May McAvoy.

Esforçava-se nesses momentos por manter a mente casta e idealizar apenas palavras puras e esgares adoradores, mas o desejo puxava-o amiúde para a carne e, quase sem dar por isso, imaginava-se a meter-lhe os dedos pela bata para lhe apertar um seio fofo ou a mergulhar-lhe a mão pelas saias para lhe acariciar uma nádega macia. Chegado a esse ponto, a imaginação tendia a excitar-se ainda mais e, largando os seios e as nádegas, as mãos famintas metiam-se por entre as pernas de fêmea para lhe sentir o calor ardente e húmido.

Pela manhã apenas restava um vago sentimento de culpa, o travo indistinto de transgressão que se desvanecia na pressa do madrugar, quando o novo dia fazia dos calores da noite uma leve memória que logo queria esquecer, como se a lembrança dos ardores imaginados com Amélia se esmorecesse na urgência do vestir e do comer e do correr para chegar a tempo ao habitual ponto de encontro.

Com o desfiar pachorrento dos dias, os passeios até ao liceu confirmaram-se como o momento mais importante da jornada; eram tão deliciosos que lhe começaram a parecer enervantemente curtos. Das primeiras vezes optaram pelo caminho mais directo, mas depressa Luís se apercebeu de que teria de prolongar o instante e convenceu-a a fazer desvios em busca de rotas alternativas.

"É para ser diferente", alegou. "Assim a paisagem vai variando."

Um dos novos itinerários levou-os a passar diante da casa de fotografia da cidade, um pequeno estabelecimento com retratos a preto e branco expostos nas vitrinas, clichés que aprisionavam em sépia olhares esfumados no tempo. Amélia aproximou-se devagar da loja, como se possuída por um misto de horror e fascínio, e ficou a observar fixamente as imagens.

"O que é?", perguntou Luís, intrigado. "Queres uma fotografia?"

A rapariga manteve o olhar brilhante preso nos retratos. Um deles mostrava uma família com três crianças, outro registava um casal em trajes de domingo e expressão séria, a pose perdida num momento efémero.

"Antes de o meu pai morrer, a minha mãe trouxe-nos aqui. A mim e à minha irmã." Calou-se por um momento, os olhos pestanejantes. "O papá tinha passado muito tempo na guerra e mal nos conhecia. Tossia a toda a hora e estava já de cama. Foi então que a minha mãe veio aqui connosco para tirarmos uma fotografia. Queria que ele tivesse a nossa imagem sempre presente, queria que ele não nos esquecesse, queria que ele soubesse que havia uma razão para viver."

Aquele lugar parecia assombrado por fantasmas que perturbavam Amélia, pelo que Luís passou a evitá-lo; era melhor experimentar outros percursos. Mas, por mais variados que os novos itinerários fossem, o facto é que os passeios continuavam a afigurar-se-lhe pequenos.

Até que compreendeu que o problema estava nas conversas. Falar com Amélia era absorvente, os minutos tornavam-se segundos, parecia que o tempo se contraía. Dizia "olá!" quando se encontravam e logo se viam à entrada do liceu, Luís interrogando-se sobre como tinha sido possível o tempo acelerar daquela maneira.

"Já te contei que o meu pai era de origem italiana, não contei?", disse ela certa manhã, encolhida num grande casaco, Dezembro ia adiantado e o frio começava a apertar.

"Contaste, pois."

"O que não te disse é que a minha mãe é de famílias judias."

"A sério?" Franziu o sobrolho. "Mas já te vi a comer bifanas de porco."

Amélia riu-se.

"Palerma!", exclamou. "Eu não sou judia."

"Ah! É só a tua mãe?"

"Não, não é. Ela é católica."

Luís abanou a cabeça, como se não entendesse nada.

"Mau! É judia ou é católica?"

"É católica. Os antepassados dela converteram-se ao catolicismo há muito tempo." "Ah, é cristã-nova." "Pois."

A vida de Amélia era um mistério que fascinava Luís. Roído pela curiosidade, o rapaz sentia ganas de conhecer depressa a história toda, mas continha-se; queria prolongar o prazer da descoberta e ir sabendo tudo aos poucos, como se os passeios até ao liceu se tivessem tornado fascículos de uma grande novela, o passado de Amélia transformado num fascinante romance.

Esperou, por isso, mais uns dias para lhe fazer novas perguntas. Decidiu-se após uma noite em que tinha chovido muito. O dia acordara molhado, com o céu coberto por um manto de bronze gasoso; os telhados gotejavam ritmadamente para os passeios alagados, como se os pingos fossem notas de uma ária, uma suave melodia que fazia da conversa um dueto, ele o tenor e ela o soprano.

O chão estava ensopado, pelo que evitaram a lama acumulada na esquina onde habitualmente se encontravam e cruzaram a rua, contornando as poças de água barrentas e as bostas de bovino espalhadas pelo empedrado.

"Se o teu pai morreu quando eras miúda, vocês vivem de quê?", perguntou Luís quando pisaram terreno mais limpo no outro lado.

Esticando o pescoço, Amélia exibiu o lenço anil que trazia aos ombros, por baixo do casaco.

"Seda."

"Perdão?"

"A família da minha mãe tem um negócio da seda aqui em Trás-os-Montes. Não conheces a Casa Rodrigues?"

"Aquela loja junto ao Largo do Principal?"

"Essa. É da família."

"É mesmo?"

"Hmm-hmm."

Luís calou-se por momentos, pensativo.

"Mas os transmontanos são uns rústicos", observou. "Como é possível que alguém consiga viver aqui da venda de lenços de seda?"

Amélia soltou uma gargalhada.

"Ai que tonto! Então achas que só vendemos lenços de seda?"

"Bem, foi o que tu disseste..."

"Louvado seja Deus, não percebes nada disto! O negócio das sedas não são só lenços."

"Então é o quê?"

Ela começou a contar com os dedos.

"Olha, são veludos, são damascos, são cetins, são tafetás, são pelúcias... é uma série de coisas."

"Coisas para mulheres."

"E então? Temos alguma culpa de que os homens sejam uns brutos e não se interessem pelo que é belo?"

"Eu interesso-me."

Amélia fez um ar trocista.

"Ai sim? Interessas-te pelo que é belo e não sabes o que é um negócio de sedas?"

"Interesso-me por outro tipo de beleza."

"Como por exemplo? Jogar à trincassuada?"

"Eu não jogo à trincassuada."

Ela parou no passeio, o dedo acusador de quem o apanhou a faltar à verdade.

"Jogas, jogas! Eu já te vi!" Retomou a marcha. "Hás-de explicar-me qual é a beleza de ver um grupo de rapazes a

botarem-se nas costas uns dos outros. Parecem uns bois à cornada."

"Oh, não percebes nada disso!"

"Uns abrutalhados, é o que vocês são! Qual é a piada desse jogo, diz lá?"

"São coisas de rapazes."

"Coisas de brutos."

"De qualquer maneira, há muito tempo que não jogo à trincassuada. E só o fazia para estar com os meus amigos."

"Ora, ora! Ainda no início do ano lectivo te vi lá aos saltos no pátio do liceu."

Luís inclinou a cabeça e fitou Amélia de esguelha, os lábios curvando-se num sorriso malicioso.

"Ai é? A menina andava a espiar-me?

A rapariga corou.

"Ora, vi-te!" Encolheu os ombros e endireitou-se, emperti­gada, mirando-o em tom de desafio. "Porquê? É proibido?"

Ele manteve o sorriso.

"Eu não disse que era proibido. Limitei-me a constatar que me tinhas debaixo de olho."

Amélia rolou os olhos, simulando um ar de enfado.

"Ai que parvo! Não te tinha nada debaixo de olho. Mas não sou cega, não é? Se vejo os rapazes a fazerem figuras tristes, é impossível deixar de reparar. Lá em casa é o mesmo com o Chico."

"Qual Chico?"

"O meu... enfim, irmão. Aquele que a minha mãe criou. Às vezes ele parece-me mesmo um gorila, Deus me perdoe! Vo­cês, os rapazes, fazem cada figura de macacos..."

Vinham os domingos e Luís sentia-se rebentar de saudades. Precisava dos passeios matinais com Amélia como do ar para

respirar. As caminhadas com a rapariga eram o oxigénio que lhe alimentava a jornada e estar assim um dia inteiro sem a ver era coisa impensável, provação que não suportava. Passava esses dias mal-humorado, respondendo torto às invectivas de dona Hortense para que se enchesse de comida, e esforçava-se por completar os trabalhos de casa encomendados pelos professores; o de Matemática era o mais exigente.

A concentração nos estudos não se prolongava por muito tempo. Incapaz de permanecer fechado no quarto, pelas tardes saía à cidade e, quase sem querer, procurava-a por toda a parte; para onde os olhos se virassem tentava descortinar a sua silhueta delicada. Tratava-se já de um comportamento reflexo, sur-gia-lhe espontaneamente e sem que o pudesse controlar.

Julgou uma vez vê-la junto ao pelourinho, lá na Cidadela, mas era afinal outra, também bonitinha, mas sem metade da graça daquela por quem se perdia de amores. Havia algo de inesperadamente delicioso naquele afastamento, como se estar sem a ver, nem que fosse por apenas um dia, a tornasse ainda mais preciosa. Passava os domingos a sonhar com as segun-das-feiras, como se o objectivo de toda a sua existência fosse voltar a encontrá-la na manhã seguinte.

 

As coisas pioraram quando vieram as férias do Natal. Luís apanhou o comboio para Alfândega da Fé e depois a diligência com destino aos Cerejais. Deixou-se levar pela estrada de terra com os olhos perdidos na paisagem verde e montanhosa, resignado à pausa das aulas, sabendo que as férias significavam, na verdade, um interregno de Amélia.

"Vens um rapagão!", cumprimentou-o a tia Maria à porta da propriedade, segurando-o pelos ombros. "Um homem! Estás pronto a ajudar aqui no trabalho?"

"Bem... quer dizer...", atrapalhou-se Luís, para quem gastar as férias a trabalhar na terra não se afigurava uma perspectiva particularmente estimulante. "Há assim tanta... tanta coisa para fazer?"

A tia exibiu as oliveiras que se estendiam pela quinta; pareciam velhas bruxas carcomidas pelo tempo.

"Trabalho é coisa que não falta por aqui, valha-me Deus", exclamou. "Olha-me para este olival! Não é lindo?"

"Lá isso é", concordou sem convicção.

"Então vais-nos dar uma ajudinha."

"Sabe, as azeitonas não me interessam muito..."

"Então o que te interessa?"

O sobrinho quase embatucou. Não lhe parecia grande ideia passar as férias de Natal a tratar de um olival, ainda por cima com o frio que fazia. Mas não o podia explicar com essas palavras. Em busca de um pretexto para se escapar, contem­plou a propriedade e simulou uma expressão pensativa.

"A tia já ouviu falar na campanha do trigo?"

"Sim, andam agora com essa conversa. Porquê?"

"Não encara a possibilidade de passar a plantar trigo? Dizem que querem acabar com as importações e que é preciso tornar o país independente na produção do pão. Parece que o Estado paga uma fortuna por cada hectare plantado."

"Não é bem assim. Existe de facto um subsídio de cem escudos por hectare, mas só se o trigo for plantado em terras incultas ou onde houver cultura da vinha. Não é o nosso caso."

"Olhe que a campanha do trigo é o futuro, tia."

"Talvez, mas não para nós."

A conversa teve o dom de esfriar o entusiasmo de dona Maria pelo recrutamento do sobrinho. Tornara-se-lhe por demais evidente que Luís não mostrava o mínimo interesse no trabalho nos olivais e resolveu deixá-lo em paz.

Contudo, isso não foi necessariamente uma benesse, como Luís depressa percebeu. Se o tempo em Bragança já era lento, nos Cerejais teve a sensação distinta de que os relógios haviam literalmente parado. Não tinha nada que fazer.

Deitado na cama pela manhã, o corpo enroscado nas mantas para se abrigar do frio glacial, Luís desesperou de esperar, até porque esperava por nada. Limitava-se a languescer

na prostração mole das férias. Lá fora os caseiros trabalhavam nos olivais e a patroa dirigia tudo como um rijo capataz. A tia Maria era uma quarentona de armas, viúva de um professor da escola primária que encontrou na gestão da propriedade do falecido irmão o seu propósito de vida, e exibia uma energia de fazer inveja a qualquer rapazola.

Vendo-os assim ocupados, a ela e aos caseiros, Luís suspirou vezes sem conta, perguntando a si mesmo se queria de facto a vida de província, se o seu futuro estaria realmente naquele pedaço de terra, se iria terminar os estudos para se enterrar nos Cerejais.

"Que estopada!"

O Natal foi, porém, celebrado com inesperada animação. Mulher avançada para o seu tempo e disposta a ignorar convenções sociais quando a ocasião o aconselhava, a tia convidou o caseiro e a família para a ceia, uma alteração à rotina que contrastou com os usuais jantares a dois à luz do candeeiro de petróleo. O senhor Ferreira e a mulher tinham quatro filhos que pareciam não parar quietos, remexendo-se nas cadeiras ou correndo à volta da mesa; a mulher afadigava-se a tentar controlá-los e Luís seguia o pandemónio com um olhar divertido. Sempre era um espectáculo diferente a animar a noite.

"Então, Ferreira?", perguntou a tia. "A ceia está boa?"

"Ah, minha senhora, este arroz de polvo está uma espantação", respondeu o caseiro, as mãos grossas e rudes agarradas à colher. "O picoso é que me apoquenta um poucochinho, faz-me arder a boca." Olhou para Luís. "Não acha, senhor deitor?"

"Eu gosto assim."

Aquele arroz era o prato tradicional do Natal em casa e, servido molhado e com um travo suave a picante, apresentava o dedo inconfundível da tia.

"Então o que planeias fazer quando acabares o liceu?", quis ela saber quando entraram na sobremesa, um delicioso arroz-doce salpicado a pó de canela.

"Oh, não sei ainda."

"Tens ideia de vir para cá?"

"Para quê? Para colher azeitonas?"

Sabendo que os olivais não seduziam Luís, a tia desviou os olhos para o caseiro.

"Para isso temos aqui o senhor Ferreira." Voltou a encarar o sobrinho. "Na verdade, tudo isto está a funcionar muito bem. Mas tenho curiosidade de conhecer os teus planos, claro."

Luís encolheu os ombros.

"ó tia, não tenho planos para já. Vou terminar o liceu e depois logo se vê..."

Dona Maria serviu-se do arroz-doce, como se concentrasse nele toda a sua atenção.

"E moça? Já tens alguém em vista?"

Apanhado de surpresa, o sobrinho corou.

"Eu? Claro... claro que não."

"Mas é melhor ires pensando nisso. Já te vais fazendo um homenzinho e começa a ser hora de constituíres família."

"Tia! Eu só tenho dezassete anos."

"E então? Já estás em idade." Olhou para o caseiro, como se buscasse apoio. "Não acha, Ferreira?"

O caseiro assentiu de pronto, solícito com a patroa.

"Sem dúvida, minha senhora. Há tempo e retempo que o menino devia ter posto o olho numa mocinha." Mergulhou a colher no arroz-doce. "Eu cá casei aos quinze. Atrasmente era tudo cedinho."

Sem paciência para argumentar com o senhor Ferreira, que considerava um pacóvio das berças, Luís optou por se calar.

"Tu já viste a Natália?", arriscou a tia.

"Qual Natália?"

"A filha do doutor Leitão."

"Quem? A do farmacêutico?"

"Essa mesmo. Olha que é um bom partido." Voltou a espreitar o caseiro. "Não é, Ferreira?"

"Oh, se é!", concordou o homem, para quem a palavra de dona Maria tinha qualidade divina. "Ademais, e se a minha senhora me permite dizer isto, o deitor Leitão está cheio de cunfres e aquela cicisbeia ainda vai herdar uma grossa maquia."

Luís fez um estalido irritado com a língua.

"Eu quero lá saber da Leitona!"

"Natália", corrigiu a tia. "Está um amor de moça."

"É toda bem posta, sim senhora", concordou o senhor Ferreira com um balouçar afirmativo da cabeça, as palavras abafadas pelo arroz-doce que lhe enchia a boca. "Dá gosto vê-la."

O rapaz encolheu exageradamente os ombros, para sublinhar a sua indiferença.

"Bom proveito!"

O caseiro olhou-o de esguelha com a expressão entendida de quem conhecia a vida.

"Ou me engano muito, minha senhora, ou aqui o seu sobrinho é um salamurdo dos antigos", observou para a patroa. "Anda quietinho como um mocho, mas fá-las pela calada."

O assunto ficou encerrado, ou pelo menos assim parecia. Quando chegou a altura de abrir os presentes e Luís recebeu o seu, porém, o rapaz deparou com um pequeno livro de poe­mas que a tia lhe oferecera.

"Camões?", interrogou-se, contemplando a capa e o nome do autor. O título era Lírica. Fez um sorriso pouco convincente. "Obrigado, tia. Gosto muito."

A tia estendeu o braço na direcção do livrinho, pegou nele e folheou-o com cuidado.

"Queres ouvir isto?", perguntou, localizando um trecho com o dedo. Afinou a voz, preparando-se para recitar. "Ora presta atenção."

Amor, que o gesto humano na alma escreve, Vivas faíscas me mostrou um dia, Donde um puro cristal se derretia Por entre vivas rosas e alva neve.

"Que bem", disse Luís, esforçando-se por esconder o enfa­do e parecer sincero. "Muito bonito, sim senhora."

"É, não é?", sorriu a tia, acenando com o pequeno livro. "É disto que as catraias gostam. Recitas-lhes uns poemazitos de Camões com voz delicodoce e, tumba!, elas ficam logo todas caidinhas."

O sobrinho fixou os olhos no livro, de repente genuina­mente interessado.

"A sério?"

"Claro", confirmou ela. "As mulheres adoram palavras românticas, o que pensas tu? E quem há por aí que seja mais romântico do que o zarolho? Vais ter com a Natália, bufas--lhe estes poemas ao ouvido e vais ver o que acontece..."

Luís não queria saber de Natália nenhuma, mas descobriu uma óbvia utilidade naquele livro. Então elas gostam de palavras românticas, ora é? Ouvem Camões e ficam logo caidinhas, ora ficam? Bastam umas palavras doces e tumba!, ora tumba?

Agarrou-se aos poemas com a mesma genica com que se agarrava ao arroz-doce da tia e passou o resto das férias a decorar os versos românticos; haveria de ter toda a Lírica na ponta da língua e, convenceu-se, se isso não desferisse o golpe fatal, então mais nada o poderia fazer.

Veio a passagem do ano e entrou em 1930 preso ao livro de poesia que recebera pelo Natal, acreditando ter enfim encontrado a arma secreta que tudo decidiria.

Seria Camões a chave do coração de Amélia.

 

Os olhos saltitaram-lhe de alegria quando, numa madrugada gelada de Janeiro, já de regresso a Bragança e no recomeço das aulas, a viu descer a rua para o encontro no ponto habitual. Vinha linda, mais bonita do que era costume, as madeixas douradas do cabelo a fulgirem na luz baixa da manhã, um sorriso gaiato a bailar-lhe nos lábios, o corpo meneando-se como o de uma gata. Ou talvez fosse apenas a imaginação a pregar-lhe uma partida; se calhar Amélia vinha bonita como sempre, mas eram as saudades que a tornavam tão resplandecente.

Teve nesse instante ganas de a abraçar, de a esmagar contra o peito, exultante por ter terminado a longa provação das férias, mas conseguiu conter o ímpeto. Desceram pela rua a saltarinhar, alheios a tudo. Os transeuntes deslizavam pelo passeio como espectros, não passavam de leves sombras que se desvaneciam na neblina. Luís apenas tinha olhos para a sua amada, a angústia do Natal longe de Amélia substituída pela

excitação de estar enfim com ela, como se passasse da angús­tia à excitação com a facilidade de quem vem do frio da rua e num instante se instala no calor do borralho.

"Então?", perguntou ele, lutando por esconder a excitação. "Essas férias?"

Amélia encolheu os ombros, mas manteve o sorriso que lhe ateava o olhar.

"Foram normais. E as tuas?"

"Normais também."

"O que fizeste?"

"Fui aos Cerejais passar o Natal. E estudei, claro."

Ela lançou-lhe uma expressão maliciosa.

"Tu? A estudar?"

"Sim, claro. Porquê?"

"Por nada. Não tens ar de marrão."

"Nem sou. Mas estudo."

"Ah, bom."

"E leio poesia."

Amélia torceu os lábios e espreitou-o de esguelha, céptica.

"Estás a brincar."

"Juro. Queres ouvir?"

"Claro."

Luís fez hmm-htnm com a garganta, fixou-a com atenção e começou a recitar.

Ondados fios de ouro reluzente, Que, agora da mão bela recolhidos, Agora sobre as rosas estendidos, Fazeis que sua beleza se acrescente;

Olhos, que vos moveis tão docemente, Em mil divinos raios incendidos,

Se de cá me levais alma e sentidos, Que fora, se de vós não fora ausente?

Amélia escutou-o muito atenta, o olhar de caramelo a beber as palavras, a respiração enlevada pela doçura melancólica dos versos, o rosto banhado pela perfeição que o poema derramava como gotas douradas de mel.

Quando Luís se calou, ela demorou uns instantes a reagir.

"Ena, não te sabia poeta!"

O rapaz sorriu.

"Bem, os poemas não são meus", disse em jeito de confissão. "São de Camões."

"Bem bonitos. Passaste o Natal a ler poesia?"

"Sim."

Um cintilar fascinado perpassou-lhe pelo olhar.

"Estou... surpreendida."

"Porquê? O que achavas tu que eu fazia nas férias?"

"Ora! Julguei que fosses jogar à trincassuada!"

O rapaz parou e pôs as mãos na cintura, fingindo-se ofendido.

"Lá vem outra vez essa conversa da trincassuada. Mas por quem me toma a menina?"

Tentando libertar-se dos efeitos hipnóticos dos versos que a tinham encantado, Amélia soltou uma gargalhada.

"Por um lafardo!"

"Eu? Um lafardo?"

"Sim. Só os lafardos jogam à trincassuada."

Retomaram a marcha.

"Pois, pois. E qual dos lafardos da trincassuada no liceu era mais bonito?"

Ela voltou a rir-se.

"Para que queres saber isso?"

"Ora, por nada. Tenho curiosidade."

Amélia fez um ar pensativo.

"Quem era o mais bonito? Hmm... deixa cá ver. Eu acho que era... era o... o Gonçalves!"

"Quem?"

Luís fez um gesto como de quem a ia atacar e ela, com uma gargalhada, deu um salto para trás e escapou-se.

"O Gonçalves!"

Começaram a correr pela rua, Amélia a fugir numa casca­lhada de risos, ele atrás fingindo uma fúria. A rapariga escapulia-se com agilidade, apesar de trazer os cadernos apertados entre os braços, mas não tinha hipóteses perante a passada rápida e possante de Luís, que, sem se esforçar muito, deixando embora prolongar o delicioso jogo, adiando a captura pelo tempo que lhe pareceu razoável, acabou por alcançá-la.

"Ora diz lá outra vez", sussurrou-lhe ele ao ouvido enquanto a apertava entre os braços. "Quem era o mais bonito?"

"O Gonçalves!"

Ele apertou-a com mais força.

"Quem?"

"Ai, bruto!", gemeu ela, cerrando as sobrancelhas. "Larga-me! Estás a magoar-me. Para poeta, és uma besta."

Luís aliviou o aperto, mas manteve-a presa entre os braços e colou-lhe os lábios ao ouvido.

Ditoso seja aquele que somente Se queixa de amorosas esquivanças; Pois por elas não perde as esperanças De poder nalgum tempo ser contente.

"Hmm", ronronou a rapariga, rendendo-se à graciosa harmonia das palavras. "Que lindo."

"Então diz lá: quem era o mais bonito da trincassuada?"

"Hmm?"

"Quem?"

Amélia inclinou ligeiramente a cabeça para trás e fitou-o nos olhos. O sorriso maroto evaporou-se-lhe da boca e o rosto perfeito tornou-se meigo e doce, tão langoroso e suave como a resposta que soprou num murmúrio ardente.

"Tu."

Pela primeira vez tão perto um do outro, Luís cheirou-lhe o perfume de rosas e ela sentiu-lhe o cheiro a rapaz que já é quase homem. Os olhos de mel de Amélia fundiram-se nos castanhos dele, as respirações enlaçadas num único fôlego, os corações inflamando-se de ardor, ambos perscrutando o rosto do outro com a intensidade de quem sabe que encontrou o amor.

Incapaz de resistir, Luís inclinou-se devagar sobre ela. Foi apenas um movimento ligeiro, mas o suficiente para lhe tocar os lábios aveludados, primeiro ao de leve, como quem prova um doce, depois com sofreguidão, a gula tornada fome; eram pétalas açucaradas, gomos deliciosos que se abriam como uma flor diante do Sol. O dia fez-se noite e ambos se perderam para lá do horizonte, num paraíso de sensações e sentimentos, afogados um no outro, derretendo-se num amor incandescente. Era como se nada mais existisse no mundo; apenas havia o outro e aquele instante em que os lábios se colaram e os dois se fundiram num só.

O primeiro beijo.

 

"Acho que andam a pairar de nós", observou Amélia duas semanas mais tarde, logo que deu com Luís à sua espera na esquina da rua para a acompanhar no habitual percurso enamorado até ao liceu.

O rapaz lançou um olhar inquieto pelo passeio que ela percorrera, como se tentasse descortinar se alguém a seguira.

"Quem? A tua mãe?"

"As minhas colegas."

Luís sorriu de alívio.

"Ah, essas requeijiteiras?" Encolheu os ombros, indiferente. "Estou-me bem ralando."

"Mas não estou eu."

Puseram-se os dois a caminhar rua fora, ziguezagueando por entre as poças de água abertas pela chuva que caíra durante a noite, ele de mãos mergulhadas nos bolsos para aquecer os dedos gelados, ela de luvas brancas de lã macia.

Desde que tinham começado o namorico que Luís não voltara a beijar Amélia; não era por falta de tentativas, mas Por pudor dela. A rapariga evitava-lhe os lábios e a intimidade; dizia que não era chegado o momento e que precisavam de ter cuidado, que ela era uma rapariga de bem, que não queria que alguém a tomasse por uma chasqueta. Resignado, Luís percebeu que não lhe restavam senão as conversas e os poemas recitados no passeio até ao liceu. O namoro tornara-se

platónico, feito de palavras e de olhares e de desejos e pouco mais.

Então andas preocupada com as tuas colegas", disse ele, retomando o tema que a atormentava. "O que aconteceu?"

Foi ontem, no final da aula de Francês. Reparei que as minhas amigas se juntaram em grupinho aos murmúrios e lançavam espreitadelas vigilantes para todo o lado, como se tivessem medo de ser ouvidas."

Essas parvas estão sempre assim, aos segredinhos..."

Pois é. Aquilo é tão normal que eu pensei isso, achei que eram as palermices do costume."

Quais palermices? "

Sei lá. Pensei que estavam a comentar o ar janota do professor de Francês ou o penteado da Milú, essas coisas. Mas ontem notei que se botavam a olhar para mim enquanto coscuvilhavam umas para as outras e mais inquieta fiquei quando elas se calaram à minha passagem."

E qual é o problema?"

O Luís, é óbvio que estavam a falar de mim!" Que te importa isso?" "Ora, não gosto!

"E)deixa-as tagarelar à vontade." Estendeu o braço e procurou-lhe a mão. "Anda cá, lindona."

Mas Amélia afastou-se.

"Temos de ter cuidado, Luís. Já há falatório."

O rapaz soltou uma gargalhada e abriu muito os olhos, numa expressão de indiferença.

"E depois?"

"Para ti pode não ter importância nenhuma. Achas tudo engraçado, não achas? Vocês, os rapazes, são todos iguais! Olha que para mim isto é tudo muito aborrecido, ouviste? Ando toda arreliada!"

"Deixa-as falar, querida. Cão que ladra não morde."

"Isso é o que tu pensas", protestou ela. "Lembra-te que elas não são cães. São cadelas."

"É tudo o mesmo."

"Não é não. Além do mais, nesta terra a mordidela está no ladrar. Tenho de zelar pela minha reputação."

"Ora! O que te interessa a ti o que essas belfurinheiras dizem?"

"Não são elas que importam, Luís. É a minha reputação que está em jogo. É preciso que elas parem com o falatório."

"Ai é? E como tencionas convencê-las a calarem-se?"

Amélia ficou a observar o piso húmido da manhã, matutando no problema. Boa pergunta. Como calá-las? Era realmente preciso pôr cobro à situação antes que as coisas se descontrolassem. Talvez se impusessem medidas radicais, considerou, mas logo repensou o assunto: teria coragem para as tomar?

"Se calhar devíamos passar a ver-nos menos", disse, a voz muito baixa. Como se a afirmação lhe tivesse dado uma súbita força e resolução, fez nesse momento tenção de cruzar a rua. "É melhor começarmos agora." Apontou para o outro lado. "Eu vou daquele lado do passeio e tu vais deste. Assim não nos vêem juntos."

"Estás louca?"

parou a meio da rua, voltou-se para o namorado, abriu os braços e arregalou os olhos interrogativamente. Então diz-me: como é que as calamos?" Nao ligues, Amelinha." Luís aproximou-se, segurou-a pelos onbros e fitou-a nos olhos. "Ouve o que te digo: deixa essas alcoviteiras tagarelarem à vontade. Daqui a uns dias já se calam , vais ver.

Mas não se calaram. Dos comentários em surdina, as raparigas da turma passaram aos gracejos. A liderar a má língua estava Maria das Dores, a mais insolente da classe, uma espigadota:a morena muito temida entre as moças do liceu pela língua afiada e pelos modos atrevidos.

depois dos primeiros gracejos abafados por risadinhas tontas, maria das Dores notou no intervalo de uma aula que Amélia esquadrinhava o corredor do liceu com o olhar. De­pois de lançar um sinal cúmplice às amigas, a morena destacou-se do grupo e atirou em tom de escárnio a primeira piada em voz alta.

Então? Andas à procura do teu cão-d'água?" sucederam-se os risinhos infantis e Amélia congelou, parando um momento para pensar no que deveria dizer ou fazer. Jesus dizeres transmontanos, um cão-d'água é um rapaz que persegue uma rapariga para namorar. Não se tratava de uma laracha grave, considerou, pelo que se fez desper­cebida e deixou passar. No entanto, não deixava de ser sintomático que os chistes já lhe fossem lançados para serem ouvidos.

Nada disse ao namorado, mas, numa manhã da semana seguinte, Maria das Dores aproximou-se com ar de gozo perante o olhar do grupinho do costume e observou a bata

branca de Amélia como se estivesse a contemplar um deslumbrante vestido de baile.

"Então, Amelinha? Hoje vens toda bem posta!"

Amélia hesitou, pressentindo uma provocação.

"Eu?", admirou-se, defensiva, baixando os olhos para a bata que trazia vestida. "Venho como de costume..."

"Mas muito bem tratadinha, a bata passada que é um primor."

"Que tens tu a ver com isso?"

"Nada, nada." Risinhos lá atrás. "Isso são decerto cuidados para o teu galaripo."

Mais risinhos do grupo.

"Que galaripo? Do que estás tu a falar?"

Maria das Dores aguçou a expressão maliciosa, satisfeita por ter batido no ponto certo.

"Ora esta! Estás com o pocho, é? Que maus humores vêm a ser esses?"

"Não são maus humores nenhuns. O que eu não percebo é onde queres tu chegar..."

"Não percebes, ora não?"

"Não, não percebo!"

Maria das Dores pôs as mãos à cintura e fez um esgar de rapariga sabida.

"Não te faças de inês-d'orta! Eu sei muito bem dos teus segredinhos."

"Quais segredinhos?"

"Essas tuas conversinhas com o teu cão-d'água. Ele anda à cagadinha, à espera do momento oportuno para te ferrar o dente. E tu a dares-lhe trela..."

"Não digas tontices."

"Chama-lhe tontices, chama-lhe." Torceu o nariz. "Por que razão não se arreda ele de ao pé de ti?"

"Ora, somos amigos. O que tem isso?"

"Amigos, hem? Hmm... cá para mim estás-te a pilar pelo teu janota, é o que; é, esse ailila emproado com quem tu agora andas."

"O Luís não é nenhum ailila!"

"À certa!", riu-se a outra, olhando para as amigas a solicitar uma reacção cúmplice. Sucederam-se os habituais risinhos e Maria das Dores voltou a fitar Amélia. "Olha lá, se queres que te diga está-me cá a parecer que se calhar vocês já foram mais longe do que deviam..."

"Que queres dizer com isso?"

"Foram ou não foram?"

"Diz lá, o que queres dizer com isso?"

Maria das Dores cravou-lhe o olhar como quem quer medir a reacção à sua pergunta.

"Ele não te desvirginou?"

Amélia nem queria acreditar no atrevimento da colega.

"O quê?! O quê?!"

"Tu percebes muito bem."

Tremendo de fúria e de vergonha, a rapariga chegou a duvidar do que escutara.

"O que é que tu disseste?"

"Estou a perguntar-te se não te tornaste amásia dele."

Pab!

Foi como se a mão direita adquirisse vontade própria, libertando-se do (corpo de Amélia e comportando-se como se tivesse vida autómoma. A bofetada reverberou pelo corredor do liceu com fragor. Num instante estava Maria das Dores a sorrir-lhe com ar zombeteiro, no momento seguinte viu Maria das Dores com ;a face descaída para a direita, a bochecha esquerda subitamente ruborizada, os cabelos num desalinho, Amélia a sentir a palma da mão arder com a força da inopina-

da estalada. Foi tudo estranhamente rápido e lento, brusca a bofetada, vagarosa a sequência de acontecimentos que se seguiram ao estalo, o olhar pasmado de Maria das Dores, o ar boquiaberto das colegas atrás dela, o pasmo que se apossou da própria Amélia ao ver a mão adquirir inesperada vida para defender o seu bom nome.

Fez-se silêncio.

Perante a expectativa geral, Maria das Dores endireitou-se e, após uma breve pausa em que as respirações ficaram suspensas, soltou um grito e atirou-se a Amélia.

"Cala-te!"

Seguiu-se um bruá, Amélia sentiu as mãos da adversária puxarem-lhe os cabelos, viu tudo a andar à roda, agarrou em Maria das Dores e puxou-a também, as duas engalfinhadas uma na outra, o pandemónio instalou-se em redor, na confusão Amélia enxergava pernas, braços, chão e tecto, ouviam-se gritos, sentiu o corpo ser atirado para um lado e para o outro, tudo se sucedia numa sequência caótica, meu Deus o que é isto?, não se percebia já o que era direita e esquerda e cimo e baixo, no meio da barafunda interrogou-se sobre o que estava ali a fazer, que loucura era aquela, o que lhe passara pela cabeça, como escapar daquela tremenda confusão.

"Mas o que vem a ser isto?"

A voz de homem, ressoando como um trovão, impôs-se sobre a balbúrdia e, como por encanto, instalou o silêncio no corredor. As mãos que agarravam Amélia desapareceram de imediato e ela recuperou o sentido de equilíbrio. Levantou os olhos e, por entre a neblina difusa das suas próprias lágrimas, ainda algo atordoada com o inesperado da situação, vislumbrou o professor Marques de braços estendidos a separá-la da adversária. Maria das Dores, com os cabelos desgrenhados e a face enrubescida como um pimento, ofegava profusamente.

Num gesto quase instintivo, Amélia procurou os vidros do corredor para além da multidão que a rodeava e viu-se nos reflexos tão desconchavada quanto a outra. Mas foi uma mirada breve, quase de relance, pois logo uma mão poderosa lhe segurou o braço esquerdo e a puxou com brusquidão.

"Vamos ao reitor", ordenou o professor Marques. "Onde é que já se viu as meninas deste liceu comportarem-se desta maneira?"

Prendendo cada uma delas com uma mão, o docente de Matemática arrastou-as pelo corredor. Um burburinho excitado cresceu entre os alunos que se foram apinhando no local, substituindo a algazarra e o súbito silêncio de alguns momentos antes. O professor sentiu a animação aumentar em seu redor e, irritado, voltou a cara para os mirones que atulhavam a passagem.

"Para onde é que estão a olhar? Hã? Aqui não há nada para ver. Vamos, tudo para as salas! Andor!"

O professor Marques levou as duas alunas em lágrimas arrependidas para a porta do gabinete do reitor. Mandou-as aguardar ali, bateu à porta e desapareceu para além dela.

As duas permaneceram de pé, cabisbaixas, ainda a fungarem e a reprimirem os soluços, ansiosas por saírem daquele temido lugar, nervosas por saberem que não o podiam fazer. Receavam o que lhes iria suceder. A reputação do reitor era terrível; diziam que ele fazia trinta por uma linha por dá cá aquela palha e o medo adensou-se quando ouviram o desabafo espontâneo de um rapazinho que por elas passou.

"Estais quilhadas;."

 

A porta abriu-se e, com cara de poucos amigos, o professor Marques fez-lhes com a cabeça sinal de que entrassem. Amélia respirou fundo e assumiu a dianteira, resignada; tinha as pernas fracas de pavor, embora estivesse decidida a enfrentar o que fosse preciso. Cruzou a porta e mal entrou sentiu o cheiro a naftalina e o ambiente opressivo e escuro do gabinete, mas fez um esforço para controlar os nervos e não se deixou intimidar mais do que já estava.

Ergueu os olhos e viu o reitor sentado à secretária, gordo, a gravata negra e fina a estreitar-lhe o pescoço anafado, o colete a lutar por se manter apertado. Tornava-se evidente que aquele fato era pequeno de mais para tão grande corpanzil; o reitor parecia acreditar que uma roupa de número mais baixo conseguiria miraculosamente reduzir a imensidão da gordura que lhe tolhia os movimentos.

"Dá licença, senhor reitor?", murmurou Amélia, temerosa.

Atrás, Maria das Dores mostrava-se ainda mais intimidada e nem uma palavra conseguiu pronunciar.

"Hmpf", assentiu o reitor.

Fez-lhes sinal com os dedos sapudos de que se aproximassem. O professor Marques ficara lá fora, deixando-as sozinhas com o que lhes parecia ser um monstro horrendo. Amélia acercou-se da secretária de carvalho e Maria das Dores fez o mesmo, mas mais devagar, quase a arrastar-se pelo soalho frio; as duas trepidavam de medo, embora Amélia conseguisse ocultar melhor o tremor que lhe percorria o corpo e o terror que lhe insensibilizava as pernas. A sua adversária era porém menos controlada e as mãos agitavam-se-lhe desalmadamente; parecia em estado febril ou submetida aos rigores do gelo das serras.

O reitor ficou um instante a contemplá-las. Os olhos negros, pequenos e húmidos, traíam uma expressão astuta e cruel e saltitavam de uma para a outra, como se as medissem, avaliando-as em pormenor, urdindo em silêncio a ira punitiva. Amélia evitou cruzar o olhar com o dele e baixou os olhos. Com a atenção sempre pregada no chão, Maria das Dores soluçou e fungou.

"Com que então as meninas pensam que o liceu é uma arena de touros", disse por fim o reitor.

Tinha uma voz macia, quase um sopro. Noutras circunstâncias achá-la-iam bonita, mas ali parecia-lhes traiçoeira, o tom tenro insinuando ameaças invisíveis. Era como a brisa suave que precede as tempestades brutais; parece doce mas é amarga, tal como a rosa que atrai com as cores vivas das pétalas e trai com os espinhos que as folhas ocultam.

"Então? Perderam o pio? Não dizem nada?"

Mantiveram-se as duas caladas, sem saber o que fazer ou dizer. Intuíam que qualquer palavra poderia desencadear o pior, pelo que o mais sensato lhes pareceu o silêncio.

O reitor pegou numas fichas que tinha pousadas sobre a secretária e leu-as com lentidão intencional, quase a soletrar.

"Maria das Dores Carvalho Diniz", disse. Ergueu os olhos e fitou-as. "Quem é?"

Ambas continuaram caladas.

"Quem é?", rugiu com inesperada violência.

As raparigas deram um salto de susto, como se aquela pergunta fosse uma violenta bofetada; a voz branda transformara-se num feroz rugido. Maria das Dores começou a chorar copiosamente.

"É você?", perguntou ele, o tom assertivo mas agora menos violento, dirigindo-se a Maria das Dores.

Sem parar de gemer, a morena fez que sim com a cabeça.

"Então cale-se!", ordenou com rispidez. "Não quero aqui carpideiras!"

Intimidada, a rapariga quase susteve a respiração e o choro voltou a ser um gemido mal contido. Com um arrulhar de aprazimento, o reitor voltou a atenção para a outra ficha.

"Ana Amélia Rodrigues de Campos." Ergueu a cabeça e fitou Amélia. "É você?"

"Sim", assentiu ela, a voz reduzida a um fio.

Os olhos miúdos do reitor estreitaram-se, perscrutadores.

"Ana Amélia? Porque não Maria Amélia? Todas as raparigas são Marias. Por que razão há-de a menina ser diferente?"

Amélia encolheu os ombros, impotente.

"Foram os meus pais que assim decidiram..."

O reitor afagou o queixo, fitando-a com desconfiança.

"Estou a ver que os seus pais não são bons católicos." Inclinou-se para a frente. "Serão lefrains?"

A rapariga não entendeu a palavra e manteve-se silenciosa. O reitor torceu os lábios e demorou-se a fitá-la e a estudar a ficha; depois a sua atenção voltou-se para Maria das Dores e

os olhinhos negros puseram-se a saltitar entre as duas, mas sem que o responsável pelo liceu pronunciasse uma palavra.

Para combater o nervosismo, Amélia atreveu-se a olhar em redor. Atrás do reitor pendurava-se um retrato do general Carmona, de farda de gala e expressão sempre austera. A janela do gabinete estava corrida, com cortinados carmesim; era sobretudo isso que conferia um ar lúgubre ao local, uma vez que a luz do dia não passava de um ténue clarão que penetrava pelas frinchas, fazendo com que as sombras parecessem espectros a despontar pelos cantos. Havia algumas estantes de livros e uma enorme mesa com várias cadeiras junto a uma parede do gabinete, certamente a mesa de reuniões.

"Quero que me façam um favor", disse o reitor de novo em tom macio, rompendo o silêncio pesado. "Fazem?"

Ambas disseram que sim com a cabeça, quase com fervor. Fariam tudo o que estivesse ao seu alcance para impedir que se soltasse a ira que adivinhavam mal contida.

"Muito bem", exclamou ele. "Quero que me expliquem o que se passou no corredor."

As duas baixaram a cabeça, sem saber o que dizer. O que se passara era evidente para todos.

"Então?"

"Zangámo-nos", disse Amélia, timidamente.

"A sério?", perguntou ele, uma ponta de sarcasmo a trair-lhe a intenção do questionário. "Zangaram-se, foi?" O tom roçava a teatralidade. Claramente, zombava delas. "Ai as marotas! Então e porquê?"

Mantiveram-se caladas. O modo como os comentários foram proferidos e a pergunta formulada tornara evidente que o reitor estava a tirar prazer daquela situação; sendo assim, pressentiram que nada ganhariam com explicações, a não ser talvez mais chacota.

"Quem é que começou?"

Silêncio.

"Mau! Perderam o pio? Não dizem nada?"

Mais silêncio.

O reitor suspirou pesadamente, como quem exprime um profundo desagrado. Empurrou a cadeira para trás com gran­de espalhafato, ergueu-se com enorme esforço e fez sinal com a cabeça em direcção à mesa de reuniões.

"Vão para ali", ordenou.

As duas raparigas obedeceram de imediato, sem perceber bem onde queria ele chegar. Pelo canto do olho viram-no inclinar-se diante da secretária, abrir uma gaveta, retirar de lá um objecto indefinido, aproximar-se com esse objecto na mão e arregaçar as mangas.

"Deitem-se sobre a mesa e levantem as saias."

Olharam-no, surpreendidas.

"Perdão?"

Acto contínuo, observaram o objecto que lhe bailava nas mãos e reconheceram-no. Um bastão. O reitor tinha um bastão nas mãos e observava-as com um sorriso sem humor. O coração pulou-lhes no peito, descontrolado, e, o horror a turvar-lhes a visão, perceberam enfim o que lhes ia acontecer.

Iam ser sovadas.

"Deitem-se sobre a mesa!", vociferou o reitor, agastado por ter de repetir a ordem. "Vamos!"

"Mas... mas o senhor reitor não pode fazer isso", gaguejou Amélia, sem tirar os olhos do bastão. "Nós não somos nenhu­mas..."

"Cale-se!", gritou o reitor. Parecia já fora de si. "Cale-se! Onde é que já se viu umas catraias como vocês dizerem-me a mim, a mim!, o que posso ou não posso fazer? Hã? Onde é que já se viu isto?" Apontou com fúria para a mesa. "Deitem-se

- imediatamente! Vão aprender que aqui há regras! Neste liceu não admito a bandalheira! Deitem-se!"

Encurraladas, aterrorizadas, não querendo acreditar sequer no que lhes acontecia, interrogando-se sobre como tinham podido descer àquele ponto, obedeceram maquinalmente à ordem sem se atreverem a questionar mais nada e, de saias levantadas e as mãos assentes na madeira fria da grande mesa, expuseram as nádegas ao reitor.

Seguiu-se uma breve pausa. Ouviram-no a arfar pesada­mente, como se procurasse domar a ira e controlar a besta que o possuía antes de a libertar de novo. Logo Amélia ouviu o zumbido soprado do bastão a cortar o ar, escutou a estalada a soar-lhe na pele, sentiu as nádegas incendiarem-se e gritou de dor e de humilhação.

 

A porta do quarto mantinha-se fechada desde que Amélia viera do liceu e dona Beatriz Rodrigues, Campos por um casamento que nem a morte desfaria, começava já a preocupar-se; não era hábito a filha isolar-se assim quando vinha do liceu, e muito menos ostentar aquele rosto fechado que lhe vislumbrara de fugida antes de ela se trancar no quarto.

"O bijou, o que tens tu?"

A filha não respondeu e dona Beatriz, estranhando o com­portamento esquivo, bateu à porta do quarto. Amélia manteve-se silenciosa e a mãe, intrigada, sem saber o que pensar, encostou o ouvido à madeira; pareceu-lhe ouvir fungar e distinguiu um gemido baixo e abafado. Franziu o sobrolho, inquieta.

"Estás a chorar?", perguntou. "O que aconteceu, bijou}"

O gemido parou. Dona Beatriz bateu com insistência na Porta, algures entre preocupada e intrigada.

"Passa-se alguma coisa? Vamos, diz à mamã..."

Como Amélia insistia em não responder, dona Beatriz decidiu mudar de táctica. Deixaria as coisas correrem e, quan­do a filha se destrancasse do quarto, trataria de apurar o que se passava. Não devia ser coisa grave, raciocinou, pois se o fosse já algo se saberia; era com certeza assunto de rapariga, nestas idades já se sabe como elas são, a filha tinha-se zangado com uma amiga ou não lhe havia corrido bem um qualquer exercício na escola. Enfim, a seu tempo tudo se esclareceria; aquele arrufo não constituía decerto motivo para grandes ralações.

Procurando expulsar momentaneamente a filha do pensamento, dona Beatriz dirigiu-se à sala e foi acender a lareira. Mandou Francisco ao quintal buscar lenha e, quando ele voltou com a cesta cheia, deitou as achas no buraco enegrecido, acrescentou alguma carumba e lançou-lhe lume. A chama nasceu pequena, amarela e violácea, mas logo se espalhou, exalando uma quentura agradável que de imediato lhe aqueceu as palmas das mãos.

"Ó Amélia!"

A voz de rapariga era distante e vinha da rua. Dona Beatriz endireitou-se, interrogando-se se ouvira bem.

"Amélia!"

Definitivamente, alguém chamava pela filha.

"Quer que eu vá ver, senhora?", perguntou Francisco.

"Não, eu vou lá", disse ela. "Tu vais limpar o quintal."

Dona Beatriz saiu da sala em passo célere e foi à varanda do seu quarto, situada na parte da frente da casa. Abriu a portinhola de vidro e espreitou para a rua. Lá em baixo encontravam-se duas raparigas de bata escolar, as cabeças erguidas para a varanda.

"O que é? Que quereis?"

"A Amelinha, como vai?", perguntou uma delas, abraçan­do os cadernos ao peito.

"Botou-se no quarto. Porquê?"

"Ela está bem?"

Ali havia gato, percebeu dona Beatriz, relacionando as coisas. Não era normal a filha fechar-se no quarto e muito menos as amigas do liceu virem-lhe bater à porta a perguntar se ela se encontrava bem. Se queriam saber se Amélia ia bem é porque presumiam que podia estar mal. Mas mal de quê, santo Deus?

"Não, não anda muito bem", disse. "O que se passa?"

As raparigas mostraram-se desconcertadas com a pergunta.

"Ela não lhe contou?"

"Contou o quê? O que se passa?"

Lá em baixo, as duas entreolharam-se, algo embaraçadas.

"O que se passa?", insistiu dona Beatriz, a voz muito firme. "Que aconteceu?"

Uma delas levantou a cabeça e ganhou coragem.

"Foi o... o badigo."

"Qual badigo?"

"O... o gordo. O reitor."

"O que fez ele?"

"A Amélia e a Maria das Dores foram levadas ao gabinete dele."

Dona Beatriz arregalou os olhos com um ar surpreendido. Tudo aquilo era absoluta novidade para si.

"Ai sim? A Amélia foi ao gabinete do reitor? Porquê?"

"Nós achámos que era para lhes passar um batibardo. Ele tem fama de ser mau como o Facadas."

"Passaram um batibardo à Amélia? Mas o que fez a minha filha para merecer uma descompostura?"

As duas raparigas lá em baixo hesitaram, sem saber se deviam responder à pergunta.

"O badigo não lhes passou batibardo nenhum", disse uma delas, contornando a questão. "Então?" "Deu-lhes uma trepa!"

A espera foi impaciente, mas à hora do jantar já a noite caíra e apenas as lamparinas a óleo iluminavam dois ou três cantos da casa com a sua luz amarela e tremelicante; dona Beatriz lá sentiu a porta do quarto da filha destrancar-se e ouviu-lhe os passos ressoarem pelo soalho encerado. A mãe permaneceu no seu lugar, junto à lareira crepitante, as pernas cobertas por um cobertor de lã e as mãos inquietas a tecerem uma renda com um complicado desenho geométrico. Parecia concentrada na renda, mas a mente fervilhava-lhe de ideias e de dúvidas. O reitor dera uma trepa na filha? O que raio fizera ela para merecer tal tratamento? E era possível bater em alunos tão grandes?

"Rai's t'a parta o diabo!", remoeu, sem notar que transformava os pensamentos em palavras. "Que confusão para ali vai!"

Suspirou e deu um nó mais complicado na renda, a luz quente da lareira a dançar-lhe no corpo e no soalho, parecia que sombras fantasmagóricas lhe enchiam a sala. Ai se o seu Raul ainda por cá andasse! Maldita guerra, amaldiçoados gases que lhe tinham levado o homem! Que saudades sentia dele! Todos os dias pensava no Raul, que tanta falta fazia naquela casa. Precisava dele para si, para o seu aconchego, para as suas necessidades, para o seu corpo, para a sua tranquilidade, mas também precisava dele para as filhas. Isto de as meninas crescerem sem pai não lhe parecia nada bom. Como era difícil educar duas raparigas sem o pulso forte de um varão por perto! Francisco já se ia fazendo homenzinho, mas não era a mesma coisa; não passava de um monte desmiolado de músculos, para estas coisas não servia! Sabia que, sem Raul a seu lado, que Deus o tivesse na Sua infinita misericórdia, teria de fazer o papel de mãe e de pai. Se apenas um desses papéis já era difícil de desempenhar, imagine-se os dois ao mesmo tempo. E agora, pensou com fatalismo, chegara uma daquelas horas em que tinha de juntar forças e fazer o mais difícil: o papel de pai.

Sentiu a filha entrar na sala.

"Anda cá, Ana Amélia", ordenou com severidade, sem tirar os olhos da renda. "Bota-te aqui ao borralho."

A rapariga aproximou-se com passos ligeiros e parou diante de dona Beatriz, as pernas iluminadas pelo estrepitar nervoso da lareira, parecia que espectros se agigantavam no soalho.

"Sim, mamã?"

Dona Beatriz deu mais um nó complicado na renda.

"Então?", perguntou logo que o nó ficou pronto, mas sempre com os olhos fixos na renda. "Que se passa?"

"Nada, mamã."

Mais um nó.

"Vieram cá as tuas colegas. Queriam saber se estavas bem."

"Sim."

"Sim, o quê?"

"Estou bem."

Outro nó.

"Então por que razão te fechaste no quarto?"

Silêncio.

"Diz lá. Por que razão te fechaste no quarto?"

A rapariga encolheu os ombros.

"Apeteceu-me."

Dona Beatriz parou enfim de tricotar e ergueu a cabeça, fitando pela primeira vez os olhos inchados e avermelhados da filha.

"Olha lá, estás a brincar comigo?"

Amélia fitou o soalho, sem nada dizer.

"Diz-me, estás a brincar comigo?", insistiu a mãe, elevan­do pela primeira vez a voz.

"Não."

"Então faz o favor de me explicar imediatamente por que razão te fechaste no quarto!"

A filha permaneceu calada. Conhecendo-a e sentindo que por aquela via seria difícil arrancar dela alguma coisa, dona Beatriz decidiu mudar de ângulo. Precisava de ser arguta.

"As tuas amigas dizem que foste levada ao reitor. É verdade?"

Amaldiçoando as colegas em silêncio, a rapariga assentiu.

"É."

"E é verdade que ele te bateu?"

"Sim."

"A ti e à tua colega?"

Amélia calou-se.

"Em quem bateu ele?"

"Nas duas." Uma lágrima escorreu-lhe pelo rosto pálido e o lábio inferior começou a tremer. "Mas mais em mim."

A filha pôs-se a chorar baixinho, humilhada, e dona Beatriz carregou as sobrancelhas, atónita.

"Mais em ti? Que fizeste tu para merecer isso?"

Amélia fungou, tentando controlar-se.

"Nada."

"Mau! Nada não foi, de certeza." A mãe inclinou-se para a fitar bem nos olhos. "Por que razão bateu ele mais em ti?"

"Não sei, mamã." Gemeu baixinho. "Danou-se por eu não me chamar Maria."

"Che!", exclamou dona Beatriz. "Pode lá ser! O homem não te ia dar umas lapadas só por não te chamares Maria..."

"Mas deu!", insistiu a filha, indignada por a mãe pôr em dúvida a sua palavra em assunto tão sério. "Ele disse que as católicas são todas Marias e que se eu não era Maria é porque era uma... uma latraim... ou alefrim... enfim, uma coisa dessas." Mordeu o lábio. "Nem sei o que isso quer dizer..."

Dona Beatriz estreitou as pálpebras, intrigada. Só conhecia uma palavra que rimava com aquela.

"Terá sido lefraim?"

"Isso."

A mãe estremeceu, chocada.

"Valha-me Deus!"'

"O que foi, mamã? O que quer dizer isso?"

"É uma expressão do Rebordelo", explicou. "Ele chamou-te judia." Meditou um pouco, perplexa com aquela revelação. "Rai's t'a parta o diabo!", murmurou para si mesma. Fixou os olhos na filha. "O reitor convocou-te ao gabinete para te dar umas lapadas só porque eras uma lefraim?"

Amélia abanou a cabeça.

"Não. Chamou-me isso só depois de ver na ficha que eu não tinha Maria no nome."

"Então por que diabo te chamou ele ao gabinete?"

"Não foi ele que me chamou. Levaram-me a ele."

"E porquê, valha-me Deus?"

A filha calou-se.

"Diz lá: porque te levaram ao reitor?"

"Porque me zanguei com uma colega", sussurrou, quase inaudível.

"Discutiste com uma colega?"

"Sim."

"Foste levada ao reitor apenas por teres discutido com uma colega?" Dona Beatriz abanou a cabeça e contraiu o nariz, numa expressão céptica. "Não acredito. Alguma coisa mais deves ter feito."

"Zangámo-nos."

A mãe inclinou a cabeça.

"Andaram à bulha?"

"Sim."

Dona Beatriz endireitou-se. Estava explicado. A filha envolvera-se num conflito com uma colega e fora levada ao reitor, que as punira. A primeira parte parecia-lhe relativamente clara, a segunda nem tanto. Que ela soubesse, Amélia já não estava com idade de ser sovada no liceu. E aquela conversa de o reitor observar que ela não se chamava Maria, de dizer que ela era uma lefraim e de lhe ter batido mais do que à colega tinha muito que se lhe dissesse, ai tinha, tinha. Precisava de tirar tudo aquilo a limpo. Claro, era sempre possível que houvesse mais alguma coisa que a filha não lhe tivesse revelado; a bem dizer, isso até se lhe afigurava muito natural. As coisas não batiam certo naquela história toda. A começar por duas raparigas se terem envolvido à pancada, o que não lhe parecia nada normal. Ainda se fossem rapazes, enfim, já se sabe como eles são, bastava olhar para o bruto do Francisco. Mas... raparigas?

"Porque andaram vocês à bulha?"

"Ela estava a fazer pouco de mim."

"Como? O que dizia ela?"

"Dizia que..." Hesitou, percebendo nesse instante onde aquela conversa a iria inevitavelmente conduzir. "Enfim... fez pouco de mim."

"Isso já eu entendi", afirmou dona Beatriz, consciente pela hesitação da filha de que acabara de tocar num ponto crucial. "Mas o que te disse ela? Conta lá."

A rapariga fez um ar comprometido.

"Nada."

"Ana Amélia!", cortou dona Beatriz de súbito, a voz rompendo como um trovão. A filha deu um salto de susto, apanhada de surpresa pela violência da interpelação. "Fazes favor de me dizer imediatamente o que te disse a tua colega!"

Amélia baixou os olhos e manteve-se muda.

"Vou tirar este assunto a limpo", avisou a mãe, erguendo o dedo em jeito de aviso. "Ou dizes agora tudo o que se passou ou saio já à rua e vou a casa das tuas amiguinhas saber o que aconteceu! E podes ter a certeza que saberei tudo, ou eu não me chame Maria Beatriz Rodrigues de Campos!"

A filha olhou-a, alarmada. Bem capaz disso era ela, percebeu com mal disfarçado horror. E seria desastroso que a mãe tomasse conhecimento de tudo pela boca daquelas alcoviteiras; elas se encarregariam de expor o caso da forma mais maldosa e sórdida que lhes fosse possível. Isso Amélia não podia de modo algum permitir.

"Então?", insistiu dona Beatriz. "Dizes-me por que razão se puseram as duas à bulha ou vou ter de perguntar às tuas amiguinhas?"

Amélia quase se encolheu toda.

"Foi por causa de um amigo."

Ah!, pensou dona Beatriz, as peças do puzzle a encaixarem por fim. Um rapaz! Que estúpida fora em não ter percebido mais cedo! Claro que tinha de haver um rapaz na conversa, pois então!

Observou pela primeira vez a filha com olhos atentos de mulher. Amélia tinha o cabelo castanho-claro ondulado com madeixas douradas, olhos cor de caramelo, um rosto perfeito, ° corpo a encher-se no peito e no rabo, a cintura estreita realçando-lhe as curvas de fêmea voluptuosa. Parecia mesmo

uma daquelas actrizes americanas. Tinha de se render à evidência: a sua filha já não era a criança inocente que sempre vira, o anjo celestial que irradiava pureza virginal; tornara-se uma mulherzinha apetecível, ainda virgem decerto, mas uma maçã suculenta e pronta a ser mordida, objecto seguro de cobiça pecaminosa. Claro que os rapazes se interessavam por ela! E era evidente que ela se interessava pelos rapazes, afinal estava em idade disso.

Ah, como pudera ser tão cega?

"Um amigo, dizes tu? E quem é ele?"

"É... é lá do liceu."

"Como se chama?"

"Luís."

Fechando o rosto, dona Beatriz baixou os olhos e retomou a renda que deixara pousada no regaço. A lareira crepitava sem cessar e os estalidos da lenha a arder enchiam a sala escura.

"Hásde-mo trazer cá no domingo", ordenou a mãe. "Quero conhecê-lo."

Foi só na manhã seguinte, quando se encontrou com Amélia na habitual esquina da rua, que Luís soube do sucedido na véspera com as colegas e o reitor.

"Aquele... aquele porcho, aquele bestoiro", ruminou furiosamente, os músculos dos maxilares a contraírem-se de irritação. "Sabes o que lhe vou fazer?"

"Tem calma, Luís."

"Vou montar-lhe uma espera e dar-lhe umas valentes mur-raças!" Deu um soco no ar, como se o reitor estivesse diante dele. "Ai vou, vou!" Mais uns socos. "Vou desfazê-lo, vou reduzi-lo a fanicos, vou..."

"Não vais nada."

"Espera e verás!" Estreitou os olhos, tentando conter a fúria. "O lafardo! O tinhoso! O cara de trampa! Até mete ranço!" Mirou Amélia. "Quem pensa ele que é?"

A rapariga olhou em redor, preocupada com a atenção que o namorado atraía. Luís elevara a voz e alguns transeuntes miravam-nos já com interessada curiosidade, interrogando-se sobre se estaria iminente alguma altercação entre os dois.

"Pronto, pronto", disse ela, pegando-lhe no braço e procurando acalmá-lo. "Já passou, não interessa."

"Como, não interessa?", espantou-se Luís. "Então aquele javardo atreve-se a pôr-te a mão em cima e tu dizes que não interessa?"

"Não me pôs a mão. Pôs o bastão."

"Não desconverses: Ele bateu-te! Quem pensa ele que é? Como se atreveu?"

"A minha mãe vai falar com ele."

"Eu é que vou falar com ele." Exibiu o punho fechado. "Falar, não. Vou é partir-lhe aquele focinho de porco! Vou... vou desfazer-lhe aquela tromba de suíno!"

Atravessaram a rua, tomando cuidado para evitar uma carroça de lenha puxada por duas mulas. Amélia deixou-o praguejar durante algum tempo, sabia que ele precisava de libertar a irritação; era como se fervesse por dentro e o melhor que havia a fazer era deixar a fúria descarregar-se pelas palavras. Enquanto batesse no ar não batia em ninguém; enquanto praguejasse sozinho não haveria quem se sentisse insultado.

Quando o rapaz se calou, ela respirou fundo para ganhar coragem e concluir a conversa.

"Ainda não te contei o pior", disse Amélia.

"O quê? Há pior?"

"Há."

Luís rolou os olhos. Que mais viria aí?

"Diz lá."

"Tive de falar de ti à minha mãe."

Ele conteve-se, subitamente muito atento.

"A sério?"

"Teve de ser. Ela quis saber por que razão a Maria das Dores se meteu comigo."

O rapaz considerou aquela informação e sentiu a curiosidade crescer; ora ali estava uma novidade interessante.

"E então? O que disse ela?"

"Quer conhecer-te."

Luís sorriu, encantado com a ideia.

"Ai é? Mas isso parece-me óptimo!"

"Não sei."

"Porquê? Qual é o problema?"

Amélia manteve os olhos presos na calçada, olhando o empedrado mas vendo o futuro desenrolar-se diante de si, como se o passeio encerrasse o oráculo do seu destino.

"Tu não conheces a minha mãe."

 

O tapete de nuvens destilava um vapor de cinza, esganando a luz com a sua sombra ameaçadora. Dona Beatriz espreitou o céu de chumbo e percebeu que a obscuridade que se avizinhava era prenúncio certo de chuva. Fez sinal a Amélia e a Francisco de que não a largassem e apressou o passo em direcção à Igreja de São Vicente, no Largo do Principal.

Durante a missa dominical, a viúva considerou cuidadosamente a situação. Desde a morte do marido que assumira a educação de Amélia em Bragança, enquanto a filha mais nova fora para casa do padrinho, lá no Douro. O casamento das moças constituía o culminar natural desse processo, pelo que teria de ser encarado com muita cautela; cada pretendente seria sujeito a um exame cuidadoso, uma vez que lhe parecia fundamental que os candidatos tivessem uma situação e um estatuto à altura das ambições que alimentava para as suas meninas.

No final da missa cruzaram o painel de azulejos à saída da igreja e foram recebidos na rua por uma chuva miudinha;

eram por certo os céus a abençoar a decisão que a viúva havia tomado durante a homilia. Ou ela não se chamasse Maria Beatriz Rodrigues de Campos, a sua bijou não se casaria com o primeiro bandalho que lhe aparecesse pela frente.

A chuva intensificou-se pelo caminho, desfazendo-se numa cortina de veludo tracejante. As bátegas furiosas fustigavam os telhados e das bordas das telhas abatiam-se fios de água; pareciam lâminas de prata, com um gorgulhar molhado que se derramava em torrente pelas pedras da calçada. Os três aconchegaram-se uns aos outros e enfrentaram assim a intem­périe, fundindo-se na bruma líquida como fantasmas a derreterem-se em luz.

Ao chegarem a casa deram com uma sombra esguia, um vulto plantado à porta como uma sentinela, abrigado por um guarda-chuva negro. Dona Beatriz espreitou Amélia de relance e a expressão nervosa e ansiosa da filha confirmou-lhe que era aquele o sujeito que a trazia pelo beiço.

Sem sequer se dignar olhá-lo, entrou em casa e pôs-se à vontade. Tirou o casaco molhado, enroscou-se num xaile macio e foi instalar-se à lareira, que estalava numa fúria mal contida.

"Mamã, o Luís está aqui", disse-lhe Amélia, que ficara à entrada, dividida entre o aconchego do lar e a companhia do namorado.

Dona Beatriz pegou nuns rolos de lã, indicou a Francisco que permanecesse ao seu lado e pôs-se a tricotar uma camisola vermelha que tinha começado havia dois dias.

"Mamã?"

A viúva manteve o olhar baixo, fixo nos nós da camisola que tricotava com destreza.

"Ele que entre", disse enfim, depois de uma longa e pesada pausa.

Amélia fez um sinal para a rua e Luís entrou. Encostou o guarda-chuva molhado à porta, tirou o chapéu da cabeça e aproximou-se, acompanhado de Amélia.

"Bom dia, minha senhora", disse ele num tom apropriadamente submisso, o chapéu seguro pelos dedos nervosos.

Dona Beatriz nem levantou os olhos para o ver.

"Bom dia?", admirou-se, sempre concentrada na camisola que crescia na ponta das agulhas. "Porquê bom dia? Que eu saiba já passa do meio-dia. Será que o cavalheiro é porventura um daqueles ébrios que se bota nas tabernas até de madrugada e depois acorda a meio da tarde e ainda pensa que é manhã cedo?"

Luís arregalou os olhos e engoliu em seco. A entrevista começava inesperadamente mal.

"Bem... sim", gaguejou, desorientado. "Quer dizer... não, enfim... não frequento tabernas nem acordo tarde, minha senhora. Sou... sou até muito madrugador. Só que, como ainda não almocei, estou com a impressão que é de manhã, está a ver?"

"Não estou a ver, não." Fez um estalido com a língua. "Por que razão não almoçou? Não tem meios para se alimentar?"

"Sim. Claro que tenho, claro."

"E, no entanto, ao mencionar o almoço assim tão a despropósito dá a impressão de que quer vir aqui comer à nossa conta..."

"Não, não é nada isso", negou, abanando enfaticamente a cabeça. A viúva estava a dificultar as coisas e, apesar do frio, Luís sentiu um rubor a encher-lhe o rosto e gotas de suor a brotarem-lhe do alto da testa. "Só falei no almoço para dizer que na minha cabeça a tarde apenas começa depois do almoço, mais nada. Não estava de modo nenhum a insinuar o que quer que fosse."

Fez-se um silêncio penoso; apenas se escutava o som abafado da viúva a tricotar a camisola de lã, os estalidos da lenha a pipoquear na lareira e o harmonioso concerto das bátegas que tombavam ao de leve nas telhas, lá em cima, como se obede­cessem a uma melodia desordenada.

Luís observou pela primeira vez Francisco, que permanecia ao lado de dona Beatriz como um acólito, e ficou espantado com o seu aspecto; tinha o cabelo cortado curto e a testa abria-se em grandes arcadas supraciliares, por baixo das quais brilhavam dois olhinhos negros e inexpressivos. Mas o mais impressionante era o seu corpanzil baixo e atarracado, com costas largas e membros desenvolvidos, os braços da largura de pernas; parecia impossível que aquele rapaz compacto tivesse apenas doze anos acabados de fazer.

"Com que então o senhor anda a conversar com a Amélia", rosnou dona Beatriz, quebrando o falso sossego que se instalara na sala. "Alimenta, creio eu, propósitos em relação à minha bijou."

Luís não conhecia o petit nom, mas presumiu, e bem, que bijou seria alcunha familiar de Amélia.

"Sim, minha senhora."

"Como calcula, a minha bijou não sai com a primeira andorinha que lhe aparece à frente, não é?"

"Claro que não, minha senhora."

"Se bem entendi o que me disse a bijou, o senhor dispõe de meios..."

"Sim, sim. Os meus pais faleceram e herdei as terras."

Esta informação chamou a atenção da viúva. Dona Beatriz ergueu um olho e mirou Luís pela primeira vez.

"Herdou terras, ora é?"

"Sim, minha senhora. O meu pai finou-se quando eu era pequeno e a minha mãe faleceu no ano passado, de maneira que fiquei com as propriedades."

"E que propriedades são essas, pode-se saber?"

"São as terras que eram do meu pai, lá nos Cerejais."

"Cerejais, ora é? Onde é isso?"

"É um lugarejo junto a Alfândega da Fé, minha senhora."

Dona Beatriz parou totalmente de tricotar. Queria ter o cérebro livre para avaliar adequadamente o rapaz.

"Explique-me lá isso um pouco melhor. Sendo órfão e tendo terras perto de Alfândega, como faz o senhor para se sustentar e pagar os estudos aqui em Bragança?"

"As minhas terras produzem muita coisa, minha senhora. Azeitonas, cerejas e amêndoas. Pegamos nas azeitonas e fazemos muito azeite, que depois vendemos às mercearias de Alfândega."

"Não entendo. Se o senhor é órfão de pai e mãe e está aqui em Bragança a estudar no liceu, como faz para controlar a produção nessas terras?"

"É a minha tia, minha senhora. A irmã do meu pai está a administrar as propriedades enquanto eu termino os meus estudos."

"Hmm", murmurou a viúva, pensativa. "E são coisa grande, essas terras?"

Luís balançou a cabeça, hesitante; grande e pequeno pareciam-lhe conceitos relativos.

"É maior que um quintal", disse. "Mas também não se pode dizer que seja uma grande propriedade."

"Estou a ver", observou dona Beatriz. Ajeitou o rolo de lã e recomeçou a tricotar. "Vai terminar o liceu, ora é?"

"Sim, senhora."

"E depois? Gostaria de seguir a carreira militar?"

O rapaz observou-a, espantado com a inesperada e despropositada sugestão.

"Eu? Militar?" Abanou a cabeça. "Não, não estou a pensar em tal."

"E porquê?", interrogou-o ela, subitamente empertigada. "Tem alguma coisa contra os militares?"

Luís percebeu que se tratava, por algum motivo que não descortinava, de um ponto sensível.

"Claro que não."

Dona Beatriz voltou ao tricot.

"O meu marido era militar, que Deus o tenha. Tinha um grande futuro pela frente, mas teve azar em apanhar os gases, coitado." Ergueu a parte da camisola que já fizera e contemplou-a, avaliando o trabalho. "É uma excelente carreira, sem dúvida. Tem distinção e pode-se chegar longe. São os militares que mandam na porcaria deste país. Olhe o senhor presidente da República. Não é ele militar?"

"É verdade, minha senhora", assentiu, preparando-se para contornar a questão. "A carreira militar tem grande prestígio, sem dúvida. Mas, sabe, o problema é que é uma vida que não

me atrai muito."

A mãe de Amélia fez um estalido com o canto da língua,

mostrando o seu desagrado.

"Então o que tenciona fazer?"

"Bem, quero seguir um curso superior."

Dona Beatriz sorriu de leve. Ora ali estava algo que afinal poderia revelar-se interessante.

"Um doutor, portanto."

"Isso."

"Espero que seja Medicina ou Direito", sentenciou a mulher, transmitindo uma nova mensagem clara quanto às suas expectativas. Ergueu os olhos da camisola de lã e fitou-o. "Sabe, são os únicos cursos que interessam a uma pessoa distinta."

Luís hesitou. ,

"Ainda... ainda não sei, minha senhora. Não está nada

decidido."

"Mas tem alguma coisa em mente?"

"Eu... enfim, tenho."

"O quê?"

"Estava a pensar em... em Veterinária."

Dona Beatriz abriu o rosto numa expressão quase escandalizada.

"Veterinária? Valha-me Deus! Mas por que diabo quer você meter-se em Veterinária?"

"Sabe, gosto muito de animais..."

"Todos gostamos de animais", cortou a senhora com acidez. Olhou para Francisco, que permanecia especado ao lado dela. "Até tu, não é, Chico?"

"Sim, minha senhora."

"Gostas de animais, não gostas?"

"Adoro animais, minha senhora." Passou a língua pelos lábios. "O coelho de ontem estava muito bom."

A viúva riu-se e fitou Luís.

"Aqui o Chico tem graça", observou. "Não pense que ele está a brincar. É incapaz de dizer uma piada, não tem sentido de humor nenhum, mas é nisso que o rapaz tem graça." Pigarreou. "Pois, também eu gostei imenso do coelho de ontem, mas a verdade é que isso não me deu nenhum impulso de ser veterinária."

Luís vacilou, sem saber muito bem como lidar com o inesperado e estranho argumento.

"Bem, eu... enfim... ainda tenho de pensar no assunto", tergiversou, gaguejando. "Depois... depois decido."

"Pois então decida. E decida depressa e bem."

 

A conversa deixou dona Beatriz Campos hesitante. O rapaz não era o que sonhara para a filha. Embora lhe adivinhasse firmeza por detrás da postura aparentemente submissa, a verdade é que Luís se lhe afigurava uma aposta algo arriscada. Que história era aquela de querer ser veterinário? Para que precisava a filha de um homem que passasse o dia a tratar de pulgas? E, o que era mais importante, onde já se vira alguém querer seguir um curso superior sem ter claro na sua mente que tiraria Medicina ou Direito? Seria ele porventura tonto? Por outro lado, não lhe parecia ser oriundo de famílias abastadas. Era um facto que não se tratava de um pé-descalço qualquer, sempre tinha umas terrazitas lá para o cu de Judas; pela descrição não lhe parecia grande quinta, é certo, mas... enfim, sempre era melhor que nada, não era?

Ou se calhar não era.

Apesar das dúvidas de dona Beatriz, Luís continuou a acompanhar a namorada nos passeios matinais até ao liceu.

Depois do episódio com o reitor, tinham-se acabado as piadinhas das colegas; o casalinho era já conhecido e dizia-se que aquilo iria certamente acabar "em casório".

"A minha mãe foi ontem ao liceu e armou um escabeche que só visto", observou Amélia na semana seguinte, seguiam os dois pela rua fora a caminho do liceu.

"Não me digas!", exclamou Luís. "Ela falou com quem?"

"Com o badigo!"

"A tua mãe foi falar com o gordo?"

"Foi falar, não. Foi gritar."

"Tu estavas lá?"

Amélia abanou a cabeça.

"Fiquei à porta, mas ouvi tudo. A minha mãe disse-lhe das boas."

"Ai é?"

"Disse-lhe que eu não era filha dele e que não me podia bater assim sem mais nem menos. E perguntou-lhe a que propósito me chamou lefraim."

"E o tipo?"

"Oh, foi respondendo como pôde. Havias de o ter escutado. A princípio veio com ares muito autoritários, com a mania de que é bom, a dizer que ainda me ia instalar um procedimento disciplinar, que eu podia ser expulsa da escola, que isto e que aquilo. Enfim, essa conversa."

"E a tua mãe?"

"A minha mãe ouviu-o com muita calma e, quando ele se calou, começou o espectáculo. Gritou tanto que toda a gente parou e ficou a ouvir no corredor. Parecia que estavam a escutar uma novela na telefonia. O melhor foi quando a minha mãe disse que ia apresentar queixa ao inspector. Ficou tudo de boca aberta."

"Ah! E o badigo?"

"Amochou."

Riram-se os dois.

"Ela apresentou mesmo queixa?"

A rapariga encolheu os ombros.

"Sei lá."

"Mas devia", atalhou Luís. "O badigo pode abrir-te um procedimento disciplinar, mas não te pode bater, já não és nenhuma criança. A inspecção devia ser avisada."

"Bem, a minha mãe vai amanhã de viagem. Se calhar quer tratar do assunto pessoalmente em Lisboa."

"Ah, ela disse-te isso?"

"Claro que não. A minha mãe nunca me conta os seus planos."

"Porquê?"

Amélia suspirou.

"Tu não conheces mesmo a minha mãe."

O episódio com o reitor teve o condão de envolver Amélia num ambiente de solidariedade no liceu. O reitor não era uma figura que despertasse simpatia entre funcionários, alunos e pais. Tinham-lhe respeito, como era normal em relação a figuras de autoridade, mas era um respeito nascido apenas da posição hierárquica que ocupava, não do exemplo que dava ou da consideração que inspirava. Até Maria das Dores, a morena de língua afiada com quem Amélia se desentendera, se tornou mais dócil.

Acabaram-se assim os gracejos e os dois voltaram a encontrar-se com mais assiduidade nos intervalos das aulas. O passeio até ao liceu continuou a ser o momento alto do dia, a única altura em que conseguiam estar a sós, apesar de se encontrarem na rua. Mas passavam amiúde as manhãs juntos, nos corredores do liceu, sem esconderem o sentimento que os unia, embora evitando gestos que os comprometessem. Nisso Amélia era cuidadosa. Beijos, só os do encontro e os da despedida; os outros eram adivinhados entre a ternura derramada pelas palavras enamoradas e pelos olhares que trocavam.

"A minha mãe anda estranha", observou Amélia uma manhã, três semanas depois de ela ter falado com o reitor.

Aproximavam-se já do liceu, após um passeio particularmente silencioso da parte dela.

"Estranha como?"

A rapariga contraiu a boca.

"Não sei, anda menos faladora. Parece preocupada."

"Estará doente?"

Ela lançou-lhe um olhar perturbado.

"Sabes que já pensei nisso? Achas que ela pode mesmo estar doente e não me querer dizer nada?"

Luís passou a mão pelo queixo.

"É difícil de dizer. Quando é que ela começou a parecer-te preocupada?"

"Foi depois de voltar de viagem. Lembras-te que ela foi falar com o reitor e se ausentou logo a seguir?"

"Sim."

"Esteve uns dias fora e quando voltou passou a andar mais calada."

"E onde foi ela?"

"Sei lá."

"Terá ido a Lisboa?"

"Não sei. Na altura pensei que tivesse ido apresentar queixa ao ministério e passasse pelo Douro para ver a minha irmã, mas, se assim fosse, ter-me-ia dito alguma coisa, teria dado novidades dela, não é?"

"E não disse nada?"

"Nem uma palavra. Tem é andado mais calada, como se cismasse com alguma coisa." Parou e fitou-o com ansiedade. "Achas que está doente e não nos quer dizer nada? Achas que ela foi a um médico?"

"Caramba, onde já vai isso, rapariga! Não há-de ser nada, fica descansada."

"Mas tu próprio me perguntaste se ela estaria doente..."

"Sim, mas se fosse alguma coisa de grave já saberias. Se calhar ela foi mesmo a Lisboa queixar-se do badigo. Não te esqueças de que a tua mãe se ausentou logo depois de ter dito ao gordo que ia apresentar queixa dele à inspecção."

Chegaram à porta do liceu.

"Sim, tens razão." Reflectiu um instante. "Mas, se é só isso, por que razão anda tão calada? Que eu saiba, uma queixa à inspecção não é coisa que leve uma pessoa a mudar de comportamento."

Luís considerou este argumento.

"Pois, tens razão." Coçou a cabeça. "Olha lá, porque não lhe perguntas?"

"Já perguntei."

"E ela?"

"Diz que não é nada e que eu ando a imaginar coisas. A seguir torna-se mais faladora, mas eu bem vejo que é para disfarçar." Abanou a cabeça. "Não, passa-se mesmo alguma coisa."

"Não há-de ser nada de especial", insistiu ele, tentando desdramatizar.

Amélia fitou o namorado com intensidade.

"Eu conheço a minha mãe, Luís. Se há coisa que eu sei é que ela está a tramar qualquer coisa."

"Mas o quê?"

A rapariga estreitou os olhos.

"Não sei", disse. "Mas de certeza que não é coisa boa."

 

O Sol baixo do alvorecer pestanejava sem cessar, ora agora clareava, ora agora vinha a sombra, num permanente esconde--esconde entre o astro encandeante e as nuvens brancas. Os ardilosos farrapos de algodão deslizavam baixos, tapando e destapando a luz da manhã com divertida astúcia, o que emprestava ao dia uma tonalidade de humores incertos, num momento era alegria, logo depois tudo se toldava.

Ancorado na esquina da rua, Luís deixara já de notar este passatempo que o distraíra apenas alguns minutos antes; tinha agora uma outra prioridade. Consultou o relógio pela enésima vez e esfregou rapidamente as mãos para se aquecer.

"Sete e cinquenta e ainda não apareceu", murmurou agastado, o vapor da respiração a formar uma breve nuvem diante do rosto. "Chiça, já são vinte minutos de atraso!"

Bateu com os pés no empedrado da rua e, saltitando num sapateado curto, deu voltinhas ao passeio, num esforço para obrigar os pés a gerarem calor e a aquecerem assim o corpo.

Fazia frio e, como chegara um pouco adiantado, já ali estava havia uma boa meia hora. Espreitou de novo os ponteiros do relógio e fez um esforço para conter a impaciência.

"Que chatice!"

Nunca Amélia se atrasara tanto para o encontro matinal na esquina da rua. Uma vez tivera de esperar quinze minutos e lembrava-se de outras ocasiões em que fora forçado a aguardar dez minutos, mas vinte minutos, e sobretudo vinte minutos com aquela temperatura glacial, era coisa nunca vista! Um misto de enervamento e inquietação começou a apossar-se dele enquanto imaginava a causa daquele inusitado atraso. Ter-lhe-ia acontecido alguma coisa? Estaria doente?

Estreitou melhor o colarinho do casaco. Realmente, com aquele frio era fácil uma pessoa cair de cama com gripe. Teria sido isso o que acontecera? Essa possibilidade deixava-o inquieto. E se o atraso resultava de mera distracção? E se ela estava atrasada porque decidira pentear-se um pouco melhor ou limpar uma nodoazinha insignificante que lhe aparecera na bata? Ajeitou de novo o colarinho do casaco e sentiu os dentes tiritarem de frio. Não, isso já seria uma desconsideração. Não era possível que ela o tivesse deixado plantado na rua, em plena manhã gelada, por um motivo tão frívolo; decerto não o deixara a enregelar apenas por querer apresentar-se um pouquinho mais bem arranjada. Ou deixaria? Essa hipótese enervava-o.

Meia hora de atraso.

Luís contemplou o relógio, indeciso, e examinou o fundo da rua, procurando a fachada da casa. Deveria ir lá e perguntar por ela? Talvez fosse má ideia; a mãe não iria gostar e a verdade é que a própria Amélia lhe recomendara inúmeras vezes que evitasse ir lá bater à porta. Dona Beatriz era pessoa susceptível e parecia alimentar algumas reservas inexplicáveis

em relação a ele, pelo que a prudência lhe parecia aconselhável. Além do mais, havia uma questão de orgulho: se fosse lá, estaria a dar um sinal de fraqueza, mostrar-se-ia dependente dela, totalmente incapaz de passar sem a sua companhia. Embora no fundo tal fosse verdade, não queria deixar essa impressão.

Quarenta minutos.

Era de mais. Quarenta minutos de atraso afigurava-se-lhe realmente um exagero, Amélia passava já das marcas! O que raio teria acontecido? Se não ia à escola, porque não mandara alguém a avisá-lo? Vendo bem, ele estava a meros dois passos de casa dela. Custar-lhe-ia assim tanto enviar-lhe um recado a dizer que não esperasse mais, que se veriam à tarde? Mas o facto é que não recebera recado nenhum e teria de tomar uma decisão. Deveria esperar um pouco mais ou estaria já na hora de partir? Abanou a cabeça. Não. Não podia continuar ali eternamente à espera da donzela. Havia limites para tudo.

Encheu os pulmões e respirou fundo.

"Paciência!"

Voltou as costas à rua de onde Amélia habitualmente emergia e começou a caminhar, primeiro devagar e espreitan­do de quando em vez para trás, na tenaz esperança de a ver aparecer no derradeiro instante, como acontecia nas fitas americanas; mas depois, quando a esquina do habitual encontro se perdeu para trás dele, o passo lento tornou-se rápido, transformou-se em corrida, ia agora empenhado em chegar a tempo ao liceu antes ainda do segundo toque.

Passou os intervalos a tentar vislumbrá-la. Fazendo-se distraído, procurou a turma de Amélia e deambulou por entre as colegas, mas dela nem um vestígio. A busca acabou quando as aulas terminaram à tarde, altura em que definitivamente percebeu que Amélia não tinha ido ao liceu. Resignado, concluiu que devia estar doente.

A inquietação, contudo, não o largou. Ficou toda a tarde a matutar no assunto. Depois do lanche na pensão de dona Hortense, fechou-se mo quarto a estudar para um exercício marcado para o dia seguinte, mas o desassossego em relação a Amélia enchia-lhe a mente e nada conseguiu adiantar. Tinha de saber. Deitado na cama, voltou a admitir a hipótese de ir a casa da namorada, mas reconsiderou, e pelos mesmos motivos: dona Beatri* não iria gostar de o ver a bater-lhe a porta.

Contudo, tornava-se evidente que teria de estabelecer qual­quer tipo de contacto,; não aguentava a incerteza. Além disso, o seu silêncio poderia, parecer indiferença. É certo que Amélia também permanecera silenciosa e era ela que se encontrava em falta, mas, que diabo, se estava doente também não se lhe poderia exigir muito!! E, se assim era, quem sabe de que tipo de debilidade padeceria a essa hora? Este raciocínio deixou-o ainda mais inquieto.. Sim, que debilidade seria essa? O que teria ela afinal? Seria coisa grave?

Num impulso," saiiu da pensão e foi à praça; conhecia uma lojinha de esquina que lhe resolveria o problema. fingiu-se ao local e entrou no estabelecimento. Sobre a porta da entrada anunciava-se a Flornsta Alegre e lá dentro flutuavam fragrâncias deliciosas.           "Queria enviar um ramo de flores a uma pessoa", pediu a senhora que se encomtrava ao balcão.

A senhora, presumivelmente a dona da loja, fez um gesto em redor, exibindo a riqueza exuberante de pétalas coloridas que os rodeava.

"Tem em mente alguma coisa?"

Luís avaliou a panóplia de flores e coçou o queixo, indeciso.

"Não sei... queria uma coisa bonita."

"É para alguma ocasião especial?"

"É para uma pessoa que está doente."

"Ah!", exclamou ela, iluminando os olhos. Girou o rosto pela loja, como se procurasse alguma coisa, até que fixou a sua atenção num vaso. "Nesse caso sugiro salva."

Extraiu do vaso um ramo cheio de verde, com as pétalas dobradas como sinos, e exibiu-o ao freguês. Luís avaliou o ramo, um traço de cepticismo a curvar-lhe a boca.

"Salva? Porquê? Não me parece lá muito bonita..."

A florista acariciou o ramo.

"A salva significa 'saúde. Era uma planta medicinal no mundo antigo e servia para salvar as pessoas. Daí que os romanos lhe chamassem salvia, do latim salvare, ou salvar." Sorriu. "Salva, de salvar."

"Estou a ver", disse Luís. "Mas receio que a pessoa em causa não saiba nada disso."

A mulher sorriu.

"Razão pela qual lhe expliquei o significado desta planta. O senhor poderá agora dar esta explicação à pessoa que está doente e ela entenderá o seu gesto."

Era bem visto.

"Tem razão", assentiu ele. "Bote então aí um raminho."

"Quer levar ao natural ou tudo embrulhadinho?"

"Na verdade, não o quero levar. Vocês não fazem entrega ao domicílio?"

"Isso não fazemos." Fez um sinal na direcção da porta da rua. "Mas a mercearia aqui ao lado tem um rapaz que faz entregas. Se o senhor for lá, pode ser que a coisa se arranje."

Luís pagou e saiu com a planta nas mãos, o ramo enfeitado por um lacinho branco e cor-de-rosa que a florista atara aos pés. Foi à mercearia do lado, perguntou pelo rapaz, combinou o serviço e disse-lhe que pagaria logo que o ramo fosse entregue, ele que desse um salto à pensão da dona Hortense no caminho de regresso.

Voltou à pensão sorridente e satisfeito com a solução que havia encontrado. A salva era perfeita para a ocasião. Graças a ela não tinha de ir bater à porta de Amélia, mas ainda assim daria uma indicação, por sinal muito elegante, de que estava inquieto e pensava na sua amada. E teria notícias dela.

Era de mestre!

Sentindo-se já tranquilizado e com a paz de espírito recuperada, Luís fechou-se no quarto da pensão e pôs-se enfim a estudar para o exercício de Geografia que estava marcado para o dia seguinte. Embora tivesse a matéria adiantada pelo trabalho dos dias anteriores, faltava-lhe ainda fixar os nomes dos rios de todo o país, matéria que havia decorado na primária mas já tinha esquecido. Leu a lista e nomeou-os de rajada, entoando uma ladainha à maneira da tabuada, só que, em vez de quatro-vezes--cinco-vinte, dizia Alviela-Sabor-Lima-Mondego...

Toc-toc-toc.

A batida interrompeu-o quando ia chegar ao Sado.

"Quem é?"

"Sou eu, menino."

Luís rolou os olhos, exasperado. Era a dona da pensão. Ergueu-se da cama e, com gestos contrariados, foi abrir a porta.

"O que é, dona Hortense?"

"Aiche, Jesus!", exclamou ela, notando a expressão contra­feita de Luís. "O menino hoje está de gângaras!"

"É que estou a estudar, dona Hortense. Tenho muito que fazer." Suspirou, como se fosse dono de infinita paciência. "Diga lá, o que se passa?"

"Assucede que está um mocinho lá em baixo para si."

"Ah, sim!", lembrou-se, o mau humor varrido de um momento para o outro. "É para eu pagar. Diga-lhe que já vou."

Calçou os sapatos, pegou numa moeda de meio tostão que tinha sobre a mesa-de-cabeceira e desceu as escadas saltando os degraus de dois em dois. Viu o rapaz da mercearia à espera diante da porta de entrada, mas constatou que ele trazia o ramo enlaçado de salva nas mãos, o que Luís estranhou.

"Então?", questionou, ia ainda nos últimos degraus. "O que se passa? Não fez a entrega?"

"Eu fiz, senhor deitor."

Luís imobilizou-se diante do rapaz, as mãos à ilharga, uma expressão interrogativa no olhar.

"Então o que está a planta aí a fazer?"

"Não estava lá ninguém, senhor deitor."

"Como assim?"

"Eu botei-me à porta e bati, mas ninguém atendeu."

"É porque saíram, se calhar foram ao médico." Fez sinal com a cabeça na direcção do ramo. "Você devia ter deixado a planta com uma vizinha, sempre poupava o trabalho de lá voltar."

"Eu tentei, senhor deitor. Fui bater à porta da vizinha e pedi-lhe que fizesse o favor de entregar a planta à menina Amélia. Mas ela disse que já não era ali."

"O que não era ali?"

"A casa da menina Amélia."

"Você está a gozar comigo? Claro que é ali!"

"Não foi o que me disse a vizinha, senhor deitor. Ela disse que a casa foi fechada e as senhoras mudaram-se."

"Para onde?"

"Não sei, senhor deitor. Mas foram para outra terra."

Luís arregalou os olhos, estupefacto.

"O quê?"

"A menina Amélia já não mora em Bragança."

 

As janelas da fachada da casa apresentavam-se efectivamente corridas e lá de dentro não vinham quaisquer sinais de vida. Tremendo de ansiedade e a respiração oprimida pela aflição, Luís foi bater à porta, primeiro com delicadeza, depois com desorientada insistência. Mas, tal como o rapaz da mercearia havia avisado, ninguém abriu.

A mente agitava-se-lhe num turbilhão enquanto ele aguar­dava no intervalo das batidas. Vivia um sentimento de irrealidade, pensava que aquilo não lhe estava a acontecer, não podia estar a acontecer, haveria decerto uma qualquer explicação. Mas o facto é que a casa estava mesmo fechada e Amélia não se encontrava ali.

"Talvez tenham ido ao médico", murmurou para si mesmo. "Ou então foram passear, sei lá."

Deu alguns passos para o lado e foi bater à porta da vizinha. Tinha de haver uma razão lógica para aquilo, só podia haver um engano, de certeza que o rapaz da mercearia percebera tudo mal.

Uma mulher larga de aspecto desgrenhado, com um avental azul e uma vassoura na mão, espreitou por entre as cortinas da janela do rés-do-chão com ar interrogativo.

"Desculpe, sou um amigo da sua vizinha, a menina Amélia", apresentou-se, tirando o chapéu. "Vim aqui saber dela mas a casa parece fechada. Faz o obséquio de me dizer se ela se ausentou?"

A mulher abriu a janela.

"A dona Beatriz e a menina Amélia já aqui não moram."

"Não moram como? Abandonaram a casa assim sem mais nem menos?"

"Foi uma espantação!", exclamou a vizinha. "Até nós aqui em casa estamos fartinhos de comentar o assucedido. Ant'onte, no sábado, a dona Beatriz apareceu-nos aqui à pela uma da tarde a despedir-se. Vinha toda afergulhada e disse que tinha fechado a casa e qu'ia morar p'ra outra terra."

"Qual terra?"

"Ah, isso ela não m'explicou."

"Não lhe perguntou?"

"Aperguntar, até qu'aperguntei. Mas ela não disse nada e eu botei-me no meu lugar. Não m'ia pôr a alanzoar."

"Então como é que eu posso chegar à fala com a menina Amélia?"

"Ah, isso eu cá não sei."

"Não há ninguém que saiba para onde elas foram?"

"Eu não aconheço."

"Alguém de família, alguém de quem fossem amigos, sei lá..."

"Não aconheço ninguém."

Luís mordeu o lábio. Estava a ser difícil arrancar alguma informação que lhe permitisse localizar a namorada.

"A dona Beatriz não lhe explicou por que razão teve de se mudar assim tão... tão à pressa?"

"Disse que eram assuntos de família."

"Que assuntos?"

"Ah, isso eu não aperguntei. São lá coisas entre elas, não é?" Inclinou a cabeça para fora da janela, em tom conspira­dor. "Mas lá que achámos estranho, lá isso achámos. Ainda onte à noute eu disse ao meu André: ó menino, há gato em tod'esta história!" Olhou em redor, como se temesse ser escutada, e baixou a voz. "Assuntos de família, é?" Fez um esgar sabido. "A certa!" Voltou a olhar em redor, para se certificar de que não havia ouvidos indiscretos nas redondezas. "Eu cá não sou belfurinheira, toda a vizinhança sabe que nunca fui de alcarrotar nem dessas coisas, Deus me livre! Mas ninguém me tira qu'esta história dos assuntos de família é tudo boldreguices! Boldreguices, digo-lhe eu! Cá p'ra mim, sabe qual é a verdadeira razão p'ra se terem posto a andar? Sabe qual é? Sabe?"

"Não."

Abriu muito os olhos negros, como se fosse revelar um grande segredo.

"Conques."

"O quê?"

"É tudo questão de conques, home!" Remexeu o indicador e o polegar. "Cunfres. Carcanhol. Dinheiro."

"Que dinheiro?", espantou-se ele.

"Chiu", soprou ela, fazendo com as mãos sinal para falar mais baixo. Voltou mais uma vez a cabeça para a direita e para a esquerda, de modo a assegurar-se de que ninguém ouvira, e fixou Luís com uma expressão conspiradora. "Deve haver umas falcatruas pelo meio, é o que é!"

"Está a falar de quê?"

"Da loja, home! Da loja! A dona Beatriz não tem uma loja?"

"Ah, pois tem!", lembrou-se Luís. "A Casa Rodrigues!"

"Pois é. Cá p'ra mim, é tudo um problema de conques, está a ver?"

"Como sabe isso?"

A vizinha estreitou os olhos e fez um ar de entendida, como se soubesse mais do que dizia.

"Eu cá m'entendo!"

Luís olhou para ela, avaliando-a. Era claramente uma linguaruda virada para a maledicência, só mesmo uma alcarroteira é que garante não ser belfurinheira. Metade do que dissera, se não mesmo tudo, não passava com toda a probabilidade de produto da sua fértil imaginação intriguista. O facto, concluiu, é que a vizinha não deveria verdadeiramente saber por que razão dona Beatriz tinha vendido a casa. Se queria mesmo obter essa informação, teria de procurar noutro lado.

"Então e a menina Amélia?" Isto era algo que a vizinha, se as vira de facto partir, deveria pelo menos saber com segurança. "Como lhe pareceu ela?"

"Chorosa, tadinha!"

"A senhora viu-a mesmo?"

"Hom'essa, atão não vi? Co'estes meus olhinhos qua terra há-de comer!"

"E então?"

A vizinha fez um ar compadecido e passou os dedos gordos pelo bigode que lhe nascia sobre os cantos da boca.

"Dava dó, tadinha! Via-se mesmo que não queria ir. Mas já sabe como é a dona Beatriz, não sabe? Deve-lhe ter dado umas orelhadas, depois arrastou-a p'r'ó carro e ala!, foram-se embora!"

"Ah, foram de carro?"

"Foram, pois atão. Veio aí uma máquina preta buscá-las e lá foram elas e o macaquinho."

"Qual macaquinho?"

"O tosco, o Chico." Abanou a cabeça e suspirou, em comiseração. "Tadinha da menina Amelinha!"

Tornara-se claro que a vizinha tinha mais boatos fantasiosos para espalhar do que informações credíveis para oferecer, mas a conversa serviu para lembrar a Luís que havia um sítio onde o paradeiro de Amélia não poderia ser desconhecido. Consultou o relógio e praguejou, frustrado. Já era tarde, a loja devia estar fechada a essa hora e só lá poderia ir no dia seguinte.

Regressou cabisbaixo à pensão e foi imediatamente fechar-se no quarto. Para pasmo e consternação de dona Hortense, anunciou que não queria jantar nessa noite.

"Tenho ponto amanhã", foi tudo o que a dona da pensão arrancou dele depois de muita insistência.

Apenas engoliu uma pêra na manhã seguinte, quando saiu para as aulas. Ainda passou pelo habitual ponto de encontro com Amélia e esperou algumas dezenas de minutos, rezando para que a namorada aparecesse como de costume e assim desfizesse o pesadelo em que parecia ter mergulhado nos dois últimos dias.

Mas Amélia não apareceu.

Decidiu, por isso, faltar às primeiras aulas do dia. Em vez de seguir para o liceu, dirigiu-se ao Largo do Principal em busca do local onde sabia que o paradeiro de Amélia teria forçosamente de ser conhecido.

A Casa Rodrigues era um estabelecimento respeitável si­tuado em pleno centro de Bragança. Parou do outro lado da rua e contemplou a fachada do estabelecimento. A vitrina exibia tecidos variados, todos enrolados como grandes cigarros e encostados uns aos outros, à excepção de uma espécie de lençol escarlate que decorava um dos cantos.

Respirou fundo e, pela primeira vez, entrou na loja. O interior revelou-se escuro e poeirento, como o de uma caverna; no ar denso flutuava um ligeiro aroma a naftalina e a cânfora, e uma mulher de meia-idade arrumava tecidos por detrás do balcão, o cabelo grisalho apanhado num carrapito arredondado.

"Bom dia", cumprimentou Luís, aproximando-se do balcão. "A dona Beatriz está?"

A mulher parou as arrumações e olhou-o, desconfiada; não era comum ver um homem entrar na loja.

"A patroa não se encontra. Posso ajudá-lo?"

"Precisava de saber onde está a dona Beatriz. Tenho um assunto de muita urgência e delicadeza para tratar com ela. Porventura sabe onde a poderei localizar?"

A empregada franziu o sobrolho, sem saber o que pensar daqueles modos tão finos.

"A patroa foi de viagem."

"Terá a amabilidade de me dizer para onde?"

"Ah, isso eu cá não sei."

"Sabe por gentileza informar-me de quando ela volta?"

A mulher encolheu os ombros.

"Também não sei."

Luís cerrou as sobrancelhas, admirado com tanta ignorância, e decidiu abandonar as finuras de linguagem que não o estavam a levar a lado nenhum.

"Não sabe como? Esta loja não é dela?"

"É pois, mas eu não sei da vida da patroa."

O rapaz suspirou.

"Oiça, eu tenho muita urgência em falar com a dona Beatriz. O que posso fazer para chegar a ela?"

A senhora tirou um livro de uma gaveta e pousou-o sobre o balcão; era uma agenda com 1930 debruado a ouro na capa negra. A empregada abriu a agenda e folheou-a com rapidez.

"Ora bem, a patroa disse que vem cá tratar da contabilidade", observou, imobilizando os dedos numa página. "Isso está marcado para... para sexta-feira."

"Qual sexta-feira? Esta?"

"Sim", confirmou a empregada, fechando a agenda e fitan-do-o. "Daqui a três dias. Só se quiser vir cá nessa altura."

Apareceu no liceu com olheiras profundas a ensombrarem-lhe os olhos mortiços. Arrastou-se para a sala e foi a custo que completou o exercício de Geografia marcado para o final da manhã. Saiu da sala sem saber se a prova lhe tinha corrido bem ou mal. Nem isso lhe interessava; a mente voara-lhe para bem longe dali.

Com o ponto já fora do caminho, consultou a cábula que havia guardado num caderno com o horário escolar de Amélia e dirigiu-se à sala onde ela supostamente se encontraria.

"A Amélia?", perguntou logo que viu uma colega da na­morada. "Que é feito dela?"

A rapariga encarou-o, surpreendida primeiro e embaraçada a seguir.

"Então não sabes? Ela não te disse?"

"Disse o quê?"

A colega de Amélia contraiu o rosto, estranhando tanta ignorância da parte de quem tudo deveria saber.

"Vocês zangaram-se ou quê?"

"Claro que não nos zangámos. Porque perguntas isso?"

"Então como é que não sabes dela?"

Luís suspirou. Era uma boa pergunta, tão boa que ele próprio já a fizera inúmeras vezes.

"Não faço a mínima ideia", disse. "Despedimo-nos no sábado e estava tudo normal. Só que ontem já não a vi e não tenho notícias dela. Parece que se sumiu!"

A rapariga deu-lhe o benefício da dúvida.

"Ai sumiu, sumiu!", exclamou. "E de que maneira!"

"Então?"

"A Amélia mudou de escola."

"Foi para onde?"

"Sei lá!"

"Mas como sabes que ela mudou de escola? A Amélia veio cá? Foi ela que te disse?"

"Bem... não. Essa história começou a correr por aí e toda a gente percebeu que era verdade quando a professora de Português disse ontem de manhã que a Amélia já cá não andava e mandou ocupar a carteira dela." Esboçou uma expressão pensativa. "A bem dizer, a última vez que a vi também foi no sábado."

"Então ela desapareceu assim, de um dia para o outro, sem dizer nada a ninguém?"

A colega de Amélia ficou especada a olhar para ele, como se nunca lhe tivesse ocorrido pôr as coisas daquela maneira.

"Pois, foi isso mesmo o que aconteceu", acabou por concordar. "A Amélia desapareceu!"

 

Os três dias de espera revelaram-se incrivelmente penosos. Luís mal conseguiu pregar olho durante todo esse tempo e arrastava-se com tristeza de um lado para o outro, como se carregasse às costas um fardo de espinhos. Como era possível que Amélia se tivesse ido embora sem nada dizer? Nem um aviso, nem uma palavra, nem um recado. Sumira-se e era tudo.

Como sempre acontecia quando ficava ansioso, perdeu totalmente o apetite. Andou dois dias em que quase não tocou na comida; petiscava e nada mais. A situação chegou a tal ponto que dona Hortense não pôde conter o enervamento.

"Mas o que se passa, menino?", perguntou ao jantar de quinta-feira, já exasperada. "É a feijoada que não lhe agrada? E o vinhinho que não está bom?"

"Não, dona Hortense", disse ele, que apenas comera a sopa e recusara o prato principal. "Não tenho fome."

"Prefere que a Graciete lhe prepare um bifinho?"

"Não vale a pena", repetiu Luís.

"E uma omeleta? Vai uma omeletinha, vai?"

"Não tenho fome."

"Não tenho fome, não tenho fome", repetiu ela com uma careta, balouçando a cabeça e caricaturando-lhe o tom e a voz. "Mas afinal o que tem o menino?"

Saturado com a insistência, Luís levantou-se da mesa.

"Se me dá licença, preciso de ir estudar."

"Outra vez?", admirou-se ela. "Mas o menino não faz outra coisa que não seja estudar! É sempre a estudar, a estudar, a estudar... Credo, até me faz espécie!"

"O que quer? Ando numa época de muitos pontos..."

"O menino é muito zagucho, não há dúvida, essa cabeça até esmilha de tão esperta que é! Mas oiça o que eu lhe digo: só consegue estudar bem se comer melhor! Ouviu?" Ergueu o dedo, toda sentenciosa. "E como o lambiteiro do padre Álvaro costuma dizer sempre que cá vem encher a pança: mentis sanas em... uh... corpus sanus... ou lá o que é!"

Se não se sentisse tão abatido, Luís ter-se-ia rido.

"Isso", limitou-se a dizer, dirigindo-se às escadas. "Agora vou tratar da mentis."

Dona Hortense levantou-se também da mesa e foi atrás dele.

"Mas como é possível o menino andar tão penisqueiro, valha-me Deus? Por que razão não come nada?" Gesticulou. "Desde que aqui está que sempre teve tanta sapeira, sempre foi um lambaças de primeira! Quando há feijoadinha boa, oh, põe-se logo à husma! E agora... agora deu-lhe para isto?" Abanou a cabeça e bateu com a palma da mão na testa, em desespero. "Bem m'eu finto do que está a acontecer! Até parece que é por finca-ratunha!"

"Não é por finca-ratunha nenhuma", insistiu ele, sem parar de subir os degraus. "Não tenho fome e há muito trabalho pela frente. É só isso."

Dona Hortense ficou em baixo a vê-lo desaparecer no topo das escadas.

"Rai's t'a parta o diabo do catraio!", praguejou quando o ouviu fechar a porta do quarto. "Ora querem lá ver isto?" Abanou a cabeça e regressou contrariada para a mesa. "Chiça! Até mete ranço!"

A sexta-feira chegou e Luís passou pela Casa Rodrigues logo que saiu a caminho das aulas, mas, considerando que nem oito da manhã ainda eram, foi sem surpresa que verificou que a loja se encontrava encerrada. Um papelinho prega­do na porta indicava que o estabelecimento só abriria às dez da manhã, o que aliás acontecia com todo o comércio de Bragança.

Desejou ardentemente que houvesse um furo a partir das dez horas, mas, como se fosse de propósito para o contrariar, nenhum professor faltou. Parecia uma conspiração. Acompa­nhou as aulas com mal disfarçada impaciência. Não se cansa­va de consultar o relógio. Espreitou tanto os ponteiros que até o habitualmente distraído e extravagante professor de Latim notou.

"Ex abrupto", exclamou o professor de modo teatral, os olhos fixos em Luís, "ele olha para o relógio!"

"Perdão?", atrapalhou-se o aluno, regressando à sala e percebendo-se interpelado.

"Ah, voltou entra muros? Magnífico! Está finalmente hic et nunc! É que vejo-o tão preocupado com as horas... Serei eu que o maço, senhor Afonso?"

"Não, não", apressou-se Luís a esclarecer. "Sou eu que... que tenho um compromisso."

"In continenti?

"Não, não é imediatamente. É mais logo."

"Ah! Post meridiem."

"Isso."

"Esteja ad libitum. Se precisar de sair, nihil obstat. Mas, nota bene, enquanto estiver aqui na aula quero-o concentrado quantum satis no que aqui se passa. É essa a vexata quaestio. Entendeu?"

"Sim, senhor."

O professor emitiu um longo suspiro pedante e girou o dedo no ar, a boca curvada à maneira de Mussolini, imaginando-se talvez um senador a discursar no fórum de Roma.

"Dura lex sed lex!"

As aulas terminaram ao meio-dia e, em vez de ir direito para a pensão, onde, como era habitual àquela hora, o esperava o almoço, Luís previsivelmente seguiu para a Casa Rodrigues. Caminhou tão depressa que quase corria e em poucos minutos se pôs na loja.

Logo que o viu entrar de rompante, a senhora do balcão apontou para o grande relógio de pêndulo que se encontrava encostado à parede.

"Só à tarde. A patroa está agora a almoçar."

Os olhos de Luís acenderam-se, esperançados.

"Ah sim?", exclamou, arfando por causa da caminhada apressada. "Ela já cá está?"

"Já pois. Passou por aqui ainda há bocadinho."

"E onde foi almoçar?"

"Onde haveria de ser? A casa, pois então!"

Saiu da loja sem agradecer e sem se despedir, tão concentrado estava na sua busca. Correu pela rua com a mão a segurar o chapéu na cabeça, incapaz de reprimir a ansiedade; tinha de saber o que se passava e enquanto não soubesse não descansaria.

Parou diante da casa de Amélia e espreitou as janelas do primeiro andar. As cortinas tinham sido abertas para deixar entrar o sol; não havia dúvidas, estava alguém em casa. Com o coração aos pulos, não sabia se pelo esforço da corrida ou se pelo anseio por ter chegado o momento da verdade, bateu à porta e aguardou. Apercebeu-se de que arquejava e fez um esforço para recuperar o fôlego e controlar a respiração.

A porta abriu-se e viu dona Beatriz de avental e uma colher de pau na mão. Era evidente que estava a cozinhar.

"Boa tarde, minha senhora", cumprimentou, tirando o chapéu. "Desculpe incomodá-la. A Amélia está?"

A mulher permaneceu um instante a observá-lo, como se ponderasse o que haveria de dizer.

"Quem é o senhor?"

"Eu?", admirou-se o rapaz, uma expressão de perplexidade a atravessar-lhe o rosto. "Eu sou o Luís, o amigo da Amélia. Não se lembra? Vim cá noutro dia falar consigo."

"Quem o senhor é já eu sei muito bem", atalhou ela, a voz seca. "A minha pergunta é: quem é o senhor... para me vir aqui a casa à hora do almoço?"

Quase sem querer, os olhos de Luís pousaram na colher de pau.

"Ai, desculpe! Eu não... não..."

"Porventura veio aqui a esta hora para se fazer convidado?"

"Eu não, claro que não!"

"Cheirou-lhe a comida e ei-lo!"

"Desculpe!", empertigou-se o rapaz. "Não é disso que se trata. Apenas quero saber da Amelinha."

"Ai sim?", exclamou ela num tom irónico. "Pois o senhor tinha o dia inteiro para saber da bijou, mas, vejam só, escolheu justamente a hora do almoço para aqui vir!"

Luís engoliu em seco. Que mulher difícil!

"Oiça, minha senhora", disse no tom mais razoável de que foi capaz. "Estou aqui unicamente para saber da Amélia. Prefere que eu venha mais daqui a um bocado?"

"Claro que prefiro!", vociferou ela, como se tal pergunta não fizesse sentido tão óbvia era a resposta. "Isto são horas de aparecer em casa de alguém?"

"Então eu passo mais logo", decidiu, ignorando a pergunta provocatória de dona Beatriz. "Seis da tarde. Pode ser?"

"Olhe que eu hoje tenho muito trabalho pela frente..."

"Mas eu só quero saber onde está a Amelinha."

Dona Beatriz ponderou por momentos a situação.

"Pois bem, venha às três", concedeu por fim.

"Mas eu tenho aulas à tarde..."

"Às três", sentenciou numa pose majestosa e em tom magnânimo, como um juiz indulgente com o criminoso. "Eu conceder-lhe-ei cinco minutinhos."

 

Ainda hesitou entre ir almoçar à pensão e ficar-se por ali. Já nem era a questão das aulas à tarde, que dava por perdidas naquele dia; tratava-se de dona Hortense. Sabia que a proprietária da pensão tinha a refeição à sua espera e sentir-se-ia desconsiderada se ele nem ao menos a informasse de que não ia lá comer, mas, por outro lado, percebia que todo o cuidado era pouco com dona Beatriz. E se ela aproveitasse a pausa do almoço para voltar a abalar? Como resolveria o mistério do desaparecimento de Amélia? Poderia abandonar a entrada da casa?

A desconfiança acabou por prevalecer e Luís optou por dar um salto à mercearia para comprar uma regueifa e um queijo e regressar logo a seguir. Sentou-se a depenicar a regueifa debaixo de uma árvore plantada do outro lado da rua enquanto vigiava a porta de casa de Amélia, não fosse a mãe escapar-se-lhe por entre os dedos.

Às três em ponto voltou a atravessar a rua e foi de novo bater à porta de casa. Desta vez quem atendeu foi Francisco, que o encarou com a habitual expressão carrancuda.

"A senhora está à sua espera", grunhiu, deixando-o entrar.

Luís seguiu o rapaz pelo corredor até à sala e deu com dona Beatriz sentada à mesa do almoço, rodeada de papéis que manejava com destreza. Ao aperceber-se da sua presença, a dona da casa fez com a mão sinal de que se aproximasse e com a cabeça indicou a Francisco que os deixasse a sós. Quando Luís se plantou diante dela, pousou os papéis e o lápis que tinha em mãos, tirou os óculos redondos e fitou-o longamente, uma expressão altiva a incendiar-lhe os olhos.

"Então?", disse. "Já almoçou?"

"Já sim."

"O que comeu?"

Luís sentiu-se surpreendido com a pergunta. Para que dia­bo quereria ela saber o que almoçara?

"Uma regueifa com queijo."

"Mais nada?"

"Sim, foi só isso."

A mulher sorriu e voltou a encavalitar os óculos sobre o nariz, desviando a atenção para os papéis pousados à sua frente.

"Bem me queria parecer!", murmurou num ranger de dentes. "Bem me queria parecer!" Remexeu os papéis, simulando que procurava qualquer coisa. "Quer é vir aqui comer por conta, é o que é", ruminou, como se falasse sozinha mas sabendo perfeitamente que ele a escutava. "Pensam que nasci ontem, mas topo-os à distância!"

Ao escutar o inesperado solilóquio, Luís sentiu-se a ferver de irritação. Aquela mulher tinha o condão de distorcer tudo

o que dizia ou fazia; não percebia se era feitio ou provocação, mas o hábito começava a mexer-lhe com os nervos.

"Perdão?", interpelou-a, uma ponta de desafio no tom. "Como disse?"

"São cá coisas minhas", retorquiu ela, sem levantar os olhos dos papéis. Arrumou uns recibos ao canto da mesa. "Vamos mas é ao que interessa. O senhor veio cá porque quer saber da bijou, não é verdade?"

"É, sim senhora."

Voltou a fitá-lo, sempre emproada.

"Pois a bijou já cá não mora. Não vale a pena preocupar-se mais com ela, está em boas mãos."

"Pois, mas eu gostaria de saber onde se encontra a Amélia."

"O que lhe interessa isso? A bijou foi-se embora e não voltará mais. Ponto final. Portanto, esqueça-a."

Luís respirou fundo e considerou a melhor maneira de expor o que tinha a dizer.

"Minha senhora, veja se compreende isto", disse, esfor-çando-se por permanecer calmo. "Faz amanhã uma semana que me despedi da Amelinha no liceu e ela disse até segunda. Como vê, tudo normal. Só que na segunda-feira não apareceu. Nem água vai, nem água vem, não disse nada. Fui depois informado de que a casa estava fechada e a Amélia já não iria mais ao liceu porque tinha ido viver para outro lado. Ora ela não me tinha dado qualquer indicação de que ia mudar de liceu, de casa, de terra ou do que quer que fosse. Para além disso, não me deixou nenhuma mensagem, nenhum recado, nada." Encolheu os ombros e abriu os braços, num gesto de pasmo que lhe reforçava o sentimento de impotência. "Como deve calcular, acho tudo isto um pouco estranho e gostaria muito de saber o que se passa."

"O que se passa é que ela foi viver para outro sítio. É isso o que se passa."

"Mas posso ao menos falar com ela?"

"Não, não pode."

"Porquê?"

"Porque ela não está cá."

"Então diga-me onde está e eu vou lá falar com ela."

Dona Beatriz soltou uma gargalhada.

"Isso queria você!" Deixou o riso morrer e apontou-lhe o dedo, quase acusadora. "Não percebe que, se ela se foi embora, foi justamente por sua causa?"

Luís abriu a boca, atónito.

"Por minha causa?"

"Claro! Para que lhe ia eu dizer onde está a bijou? Para você ir lá fazer-lhe a cabeça e recomeçar tudo de novo? Era o que mais faltava! Eu quero que a minha bijou..."

"Espere!", cortou ele, elevando pela primeira vez o tom de voz. "Está a dizer-me que ela se foi embora por minha causa?"

Dona Beatriz soergueu a sobrancelha, as linhas do rosto assumindo o aspecto de quem não admite ser questionado.

"Pois claro que sim!", confirmou. "Ainda não tinha percebido? A minha bijou não é fruta para a sua boca."

"Que quer dizer com isso?"

"Quero dizer que a bijou não se vai casar com um pelintra como você! Quero dizer que..."

"Eu não sou nenhum pelintra!"

"Mas também não é homem para a minha filha! Onde é que já se viu a bijou estar destinada a um... um... um que vai passar a vida a tratar de porcos e burros e pulgas?"

A incredulidade estampou-se-lhe no rosto.

"Está a referir-se ao meu desejo de seguir veterinária?"

"Estou a referir-me a tudo! Estou a referir-me aos porcos que você quer tratar, estou a referir-me às suas terrinhas lá para trás do Sol posto, estou a referir-me aos seus modos e à sua irritante mania de aparecer em casa das pessoas à hora do almoço como um rafeiro que pedincha comida!" A voz ganhou-lhe força; dona Beatriz galvanizava-se. "A minha filha há-de ter o melhor! Ouviu? O melhor! E um... um coiso... um veterinário ou lá o que é, um provinciano sem maneiras, um larpão que só pensa no almoço, isso, meu caro senhor, não é o melhor!"

Luís abanou a cabeça e sorriu sem vontade. Os argumentos pareciam-lhe tão absurdos que nem sabia por onde começar para os desmontar.

"Ai não? Então o que é o melhor?"

"O melhor é aquilo a que a bijou está destinada."

"E a que está ela destinada? A um médico? A um advogado? A quem?"

"A quem lhe proporcionar um futuro em segurança." Fez um gesto na direcção do cesto de malhas que tinha pousado junto à lareira. "Ela sabe corte e costura, graças a Deus, mas precisa de um homem que lhe assegure o futuro. Neste mundo, a mulher é o que o homem for. Quanto mais prestigiada for a profissão do marido, mais promissor será o futuro da bijou."

O rapaz encolheu os ombros, resignado.

"Muito bem, não há problema", disse. "Vou inscrever-me em Medicina, não seja lá por isso..."

Dona Beatriz pegou no lápis e começou a brincar com ele entre os dedos.

"é tarde de mais", sentenciou.

"Não, não é. Vou terminar agora o liceu e, em vez de me inscrever em Veterinária, inscrevo-me em Medicina. É muito

simples até, não há dificuldade nenhuma. Aliás, se formos a ver bem, a veterinária é um ramo da medicina, pelo que a mudança não custa nada..."

"O senhor inscrever-se-á no que quiser e muito bem entender, mas a bijou não lhe está destinada."

"Mas porquê? Como pode a senhora dizer isso?"

A mulher cravou os olhos nele, fria e calculista.

"Porque a bijou já casou."

Convencido de que tinha ouvido mal, Luís sacudiu a cabeça.

"Como?"

"Foi no domingo passado, no Porto."

O rapaz ficou um longo instante a fitá-la, incapaz de processar a informação, tal a enormidade que lhe era atirada à cara.

"Que está a senhora a dizer?"

"Estou a dizer-lhe que a bijou não será sua porque já não é sua. No sábado passado fomos ao Porto e ela casou com um oficial. Foi uma cerimónia muito bonita logo na manhã de domingo e ela tem agora vida montada lá para aqueles lados. O oficial herdou terras, é um homem muito abonado e fará dela uma rapariga feliz."

Um baque quase lhe parou o coração, agora que começava a digerir a notícia.

"A Amélia casou?"

Dona Beatriz continuava a falar, aparentemente alheia ao efeito que as suas palavras estavam a produzir no visitante.

"Claro que é uma solução vantajosa para todos. Primeiro para ela, é evidente. Tornou-se proprietária de duas belas quintas, ficou muito bem na vida. Mas também este casamento foi conveniente para a família, não o nego. O nosso património ficou agora alargado." Olhou para cima e benzeu-se. "O meu Raul, se fosse vivo, ficaria muito contente. Ele também

era do exército, sabe? Tinha o sonho de casar bem as filhas e eu... eu consegui!"

"Mas... mas a Amélia casou por vontade própria?"

A pergunta trouxe-a à terra.

"O que quer dizer com isso de vontade própria?", perguntou, quase empertigada. "Onde é que uma criança com aquela idade tem vontade própria? Onde é que uma menina acabada de sair da escola é capaz de discernir o que é bom e o que é mau para ela? O óleo de fígado de bacalhau será porventura saboroso? Alguém o toma por prazer? E, no entanto, haverá quem duvide dos seus benefícios para a saúde?"

Luís sentiu a raiva apossar-se dele. A face enrubesceu-se--lhe, uma sombra cobriu-lhe os olhos e as têmporas começaram a latejar. Com que direito decidia aquela mulher a sua vida e a vida da filha?

"A senhora está a dizer-me que a Amélia casou à força?"

"A Amélia é uma rapariga que foi ensinada a ser obediente", disse dona Beatriz quase a soletrar as palavras, como se as pesasse com grande cuidado. "Como menina educada que é, está perfeitamente consciente de que o óleo de fígado de bacalhau sabe pavorosamente, mas faz muito bem à saúde! Será uma excelente esposa, boa mãe e uma grande dona de casa." Suspirou. "Claro que a Amélia ainda não vê bem as coisas desta maneira, não é verdade? Agora é jovem e tem muitas ilusões, acha que a vida é um conto de fadas... enfim! Felizmente cá estou eu para zelar pela sua felicidade e para..."

De cabeça já perdida e sem conseguir conter-se mais, Luís agarrou-a pelos colarinhos e puxou-a com força para ele, tão alto que ela ficou a espernear no ar.

"Grande puta!", berrou-lhe diante do nariz, os perdigotos a saltarem para a cara da senhora. "Cabra de merda!"

"Chico!"

Sacudiu-a de um lado para o outro, como um saco de batatas, e, apesar de estar cego de raiva, lutou contra a vontade quase irresistível de a esmurrar.

"Bicha-cadela! Calatre ordinário! Desanco-te toda, juco de trampa! Como te atreveste, grandessíssimo calhau? Como..."

"Chiiiiiiiiico!"

"... te atreveste a meter-te na nossa vida? Quem és tu para pôr e dispor de mim e da Amélia? Quem és tu..."

Uma força poderosa sugou-o para trás, obrigando-o a largar dona Beatriz. Sentindo a sala girar em seu redor, vislumbrou por uma fracção de segundo o rosto animalesco de Francisco antes do brutal impacto no estômago que o estendeu no chão, o corpo dobrado sobre si mesmo, uma dor cavada no estômago a roubar-lhe a respiração e luzinhas a cintilarem-lhe nos olhos, como pirilampos a esvoaçarem na noite.

Perdeu toda a noção do tempo, mergulhado na escuridão da dor que lhe moía o corpo. Teve apenas a vaga impressão de que o arrastavam, mas quase não se importou. Estava já para lá de tudo isso. Largaram-no sobre uma superfície dura e fria, cuja textura demorou a entender. Sentiu as costas molhadas e gemeu.

A mente ainda entorpecida, fez um esforço para raciocinar e percebeu enfim que se encontrava pousado no chão, abandonado, o corpo meio mergulhado em água gelada. Depois pensou no que se tinha passado e espantou-se por não se lembrar de quase nada. Apenas que Francisco o havia apanhado por trás e dera cabo dele. A lembrança do sucedido deixou-o atónito; era extraordinário como um rapaz de apenas doze anos tinha tamanha força.

Abriu devagar os olhos e deparou-se com o céu acinzentado da tarde, um manto de cobre recortado pelo ondular atijolado dos telhados. Não fazia ideia do sítio onde se encontrava.

 

Ergueu a cabeça a custo e olhou em redor. Rostos espantados observavam-no com um misto de medo e curiosidade, como se estivessem indecisos, tentando entender quem poderia ele ser. Tratar-se-ia de um bêbado? Era um maltrapilho? Seria perigoso?

Percebeu então que estava deitado na rua, para onde fora jogado como se não passasse de um saco de lixo.

 

                   1934 E se um sonho de esperança te surgir

As bailarinas, roliças e cintilantes, saltitavam no palco de um lado para o outro, acompanhando a batida frenética da orquestra naquele espectáculo feérico de música, luz, cor e movimento; em uníssono, sem parecerem sequer ofegantes, mantendo até o sorriso reluzente à maneira do show biz, cantavam em coro, as pernas movidas em maravilhosa sincro­nia pelo ritmo infernal da dança.

São mulheres nuas, saxofones a gritar; São girls, são pernas De bailarinas, bem ritmadas, a marcar; São projectores que nos inundam de luz, Um mundo irreal que nos seduz.

"Fantástico!", gritou um rapaz de cabelos negros ao ouvi­do de Luís. "Já viste?"

Sem tirar os olhos do palco, Luís assentiu.

"Até parece uma fita americana."

"Olha-me para estes jogos de pés!", exclamou o amigo, entusiasmado. "O Fred Astaire e a Ginger Rogers não fariam melhor!"

"Ó Fernando, também não vale a pena exagerares..."

O ar vibrava, a multidão exultava e os saltos das bailarinas ressoavam no soalho do palco com batidas surdas. As palmas irrompiam amiúde pela sala e os olhos dos homens seguiam com mal disfarçada gula as formas arredondadas das bailarinas. Não eram tão altas nem tão elegantes como as das fitas americanas; porém, debaixo dos focos de luz e apertadas naqueles vestidos resplandecentes que lhes deixavam as coxas à mostra, pareciam do melhor que por aquelas paragens tinha passado.

As bailarinas enchiam a sala, mas Luís não as seguia a todas. Tinha a atenção presa numa em particular, a terceira a contar da esquerda, aquela que ostentava uma vistosa cabeleira loira platinada, à Jean Harlow. Não tinha a certeza de que fosse a mais bonita. Vendo bem, não era de certeza; a alta do meio e a primeira da direita, a das mamas grandes, pareciam-lhe mais jeitosas, verdadeiras mulheraças, mas a sua loira chegava bem para fazer um figuraço junto dos colegas da faculdade.

"Bravo!", ululou Fernando quando o número acabou. "Bra-vooo!"

As palmas ribombavam pelo recinto em revoadas enquanto as girls abandonavam o palco.

"Já viste?", perguntou Luís, girando uma olhada pela sala. "Isto está apinhado!"

"Porque pensas que tive de comprar os bilhetes com uma semana de antecedência? Tem estado assim desde a estreia..."

Uma nova actriz pisou o palco e o público reagiu de imediato com uma monumental ovação.

"Quem gosta da Betty Boop?", perguntou ela com uma expressão maliciosa.

A sala encheu-se de gritos e assobios; pela reacção tornava-se evidente que a actriz era a sua favorita. A recém-chegada tinha cabelo negro liso, a franja cortada numa linha sobre os olhos, à condessa de Noailles, e a cara bolachuda e marota, feições distintivas mesmo à distância. Não havia no país quem não a reconhecesse, dos palcos ou dos filmes.

"A Beatriz Costa é o máximo!", observou Fernando, esfuziante.

Luís acompanhava a ovação, batendo palmas entusiásticas.

"Sem dúvida", concordou. "Não precisa de dizer uma graça para ser engraçada."

"Acho-lhe piada ao-corte do cabelo."

"Parece a Louise Brooks, já viste?"

"Tens razão", anuiu Fernando, fazendo mentalmente a comparação. Inclinou a cabeça em direcção a Luís. "A esta é que gostavas de ferrar o dente, hem?"

"A quem? À Beatriz Costa?"

"Não, à Greta Garbo. Claro que à Beatriz Costa, meu palerma!"

Luís abanou a cabeça.

"Nem pensar. É engraçadinha, mas é mais do género bibelot. Não lhe fazia nada, a não ser pedir-lhe que me fizesse rir."

"Pois, pois. Está-se mesmo a ver..."

Derramando talento no palco, a actriz da franja interpretava as suas deixas com convicção.

"Viva o Santo António milagreiro!", exclamou. "E ele... o homem dos meus sonhos!"

Um burburinho divertido percorreu a sala. O duplo sentido daquele nome era inconfundível; todos tinham entendido o trocadilho e prepararam-se para o que aí vinha.

"Isto é propaganda barata ao Salazar", observou Luís com acidez.

"E merecida!", atalhou Fernando, ignorando o desagrado do amigo. "O Toninho é o nosso Santo António milagreiro!"

"Ora!" Fez uma expressão irónica. "Se ele fosse tão modesto quanto apregoa, de certeza que não aprovaria."

"Pois, se calhar não..."

"Não sejas parvo!", exclamou o transmontano. "Se a censura e o Ferro deixaram passar, é porque ele gosta, não te parece?"

"Sei lá. Se calhar é um excesso de zelo do António Ferro. Não te esqueças de que o Toninho não acompanha o teatro ligeiro do Parque Mayer nem se interessa por estas coisas mais mundanas. Provavelmente nem sequer sabe que a peça existe."

Luís riu-se sem vontade.

"Achas mesmo? Então esta peça chama-se Santo António e ele não havia de saber?"

"Está bem, o Toninho lê no jornal que está o Santo António no Parque Mayer. E depois?"

"E depois?", admirou-se Luís. "Olha lá, a que Santo António pensas tu que o título se refere?"

Fernando hesitou, reflectindo na resposta à pergunta. Realmente, como acreditar que tal título não fosse entendido pelo Presidente do Ministério, Restaurador das Finanças e do Crédito de Portugal, quando o via todas as manhãs espetado na página de espectáculos dos jornais? No mínimo faria algumas perguntas. Além do mais, toda a gente sabia que o simples enunciar do nome António nas telas do cinema ou nos palcos de teatro tinha um duplo sentido inequívoco. Como poderia Salazar ignorar tal coisa?

"Seja", concedeu. "Admitamos que ele sabe."

Luís riu-se.

"Ele sabe? Provavelmente foi ele que aprovou a ideia!"

"Ena, onde é que isso já vai!"

"Achas? Tu reparaste quando é que o Santo António estreou?"

"No mês passado."

"Mais exactamente a 27 de Maio, meu caro. A data diz-te alguma coisa?"

O rosto do amigo iluminou-se.

"A véspera dos oito anos da revolução."

"Achas que foi coincidência?"

O amigo encolheu os ombros.

"Pois sim, admitamos que se tratou de uma operação montada para assinalar o aniversário da revolução nacional. E depois? Qual é o mál?"

"Se gostares de propaganda política camuflada, nenhum. Só estou a dizer é que estas tiradas não se coadunam com o ar pretensamente austero do Salazar."

"Está na moda, Luís. Não vês o que se passa na Alemanha e na Itália? É tudo assim, à grande!"

"Pois, mas o Salazar anda para aí a apregoar virtudes diferentes. A modéstia, a humildade... essas coisas."

"O Toninho acompanha os tempos", observou Fernando. "Além do mais, ser modesto não significa ser tolo."

"Chiu", lançou uma espectadora na fila de trás, empertigada. "Deixem ouvir!"

No palco começou uma nova canção, que Betty Boop, aliás Beatriz Costa, apresentara com o título de o homem dos meus sonhos.

O que o escudo nos reforça, Sem um grito, sem um berro, O que não tem quem o torça,

Pois tem tanta, tanta força, Que dobrou o próprio Ferro.

A sala ia desabando com a cascalhada de gargalhadas.

As luzes, a cor, os cenários, os vestidos deslumbrantes, a decoração, as melodias, os chistes, os movimentos graciosos, o coro de risos, os aplausos, o entusiasmo, a alegria, os assobios, tudo desapareceu como num truque de ilusionismo no instante em que os espectadores começaram a abandonar a sala do Avenida, mas os efeitos da emoção perduravam ainda, e não era caso para menos.

Não havia em Lisboa peça mais divertida que o Santo António, pelo que não admira que à saída, quando os espectadores jorravam já sobre o átrio da casa de espectáculos, os comentários se cruzassem como confetti em dia de festa. "A Beatriz Costa estava o máximo!", opinava um. "Viste o número em que ela fez de Branca Pitosga?", perguntava uma rapariga. "Giríssimo!" Uma terceira voz defendeu que "a Irene Izidro também estava muito bem", enquanto alguém à direita dizia que o melhor "foi o Vasco Santana a fazer de Zé Ralaço". Só a recordação desse número suscitou sorrisos, o que levou alguém a defender não haver dúvidas de que "o Vasco encontra-se em forma", ideia que mereceu a aprovação geral: "Grande artista!"

Ainda no átrio, Luís e Fernando separaram-se da multidão que saía do edifício para desembocar no passeio da Avenida da Liberdade e esgueiraram-se por uma porta lateral reservada aos artistas, mergulhando assim no labirinto de um novo e fascinante mundo: os bastidores do Teatro Avenida.

A harmonia deu então lugar a um caos atordoante. Para decepção dos dois visitantes, tudo o que se ocultava na parte

de trás da cena era confuso, desarranjado, feio até; davam-se gritos, ouviam-se ordens, os rostos desfaziam-se em suor, a maquilhagem desbotava, as raparigas moviam-se sem propósito aparente, os estafetas corriam de um lado para o outro, os homens davam voltas ou conversavam, as portas abriam-se e fechavam-se com estrondo.

"Onde é?", perguntou Fernando, que seguia o amigo.

"Ali à frente."

Cruzaram-se no caminho com a actriz da franja à condessa de Noailles e Luís teve vontade de lhe falar. No entanto, conteve-se; pensou que toda a gente teria decerto o mesmo desejo quando com ela se cruzava, dava a impressão de que a actriz lhe era familiar, mas sabia que isso não passava de ilusão. Além disso, ficou desconcertado com a expressão que ela trazia no rosto; já não era a cara divertida que apenas alguns instantes antes vira brilhar em palco, mas um semblante inesperadamente opaco, os olhos cansados e o corpo molenga, era quase uma da manhã e tinha acabado o segundo espectáculo da noite.

"Viste?", lançou Fernando num sopro, olhando para trás, mas não querendo que a actriz o escutasse. "Era a Beatriz Costa!"

"Eu sei", devolveu Luís num tom blasé, como se cruzar-se com as grandes estrelas fosse nele hábito antigo.

"Caramba! É baixinha!"

"E roliça."

Fernando observou o rabo que desaparecia ao fundo do corredor e riu-se nervosamente.

"A ti não te escapa nada."

O barulho recrudesceu e, ao dobrar da esquina, deram com uma sala cheia de bailarinas e uma nuvem cinzenta a pairar-lhes por cima. Fernando travou o amigo e ficou a observalas, os olhos arregalados de tão escandalizados.

"Elas estão a fumar!"

Luís encolheu os ombros, mantendo um ar indiferente, como se tudo aquilo fosse normal.

"E então?!"

"Mas... são mulheres!"

"São artistas", corrigiu-o.

"Está bem, são artistas. Mas não deixam de ser mulheres." Hesitou. "Ou deixam?"

"As artistas são diferentes. Não te esqueças de que este é o grupo das girls do Avenida. Elas estão na vanguarda."

"Qual vanguarda? Agora uma mulher fingir-se de homem é vanguarda?"

"Pelos vistos é."

"Porra!", exclamou Fernando, abanando a cabeça. "Só falta vê-las a mijarem de pé!"

Os dois amigos retomaram a marcha e aproximaram-se do molhe de bailarinas. Quando viram os estranhos a caminhar na sua direcção, as raparigas calaram-se e olharam-nos com suspeição.

"Dá licença?", disse Luís a nenhuma em particular, tentan­do enfiar-se no meio do grupo para chegar à porta.

Contudo, elas mantiveram a fileira cerrada, bloqueando--lhe ostensivamente a passagem.

"O malandro, onde pensas que vais?", disparou uma delas, de cigarro entre os dedos e expressão altiva.

"Vou ali falar com uma amiga."

"Isso é o que dizem todos!"

As bailarinas riram-se.

"A sério", insistiu Luís, enrubescendo. "E a Margarida."

A do cigarro fez um sinal a uma das parceiras, que acto contínuo deu um passo atrás e meteu a cabeça pela porta.

"Ó Guida!"

Ouviu-se uma voz lá de dentro.

"O que é?"

"Estão aqui dois marialvas à tua procura!"

Uma cabeça loira-quase-branca apareceu de imediato à porta e abriu-se num sorriso quando reconheceu o homem que a olhava para lá da barreira de bailarinas.

"Luís!", exclamou com entusiasmo. Deitou-se sobre os ombros das colegas, esticou o pescoço e beijou-o nos lábios. "Entra!"

O rapaz olhou para o molhe de raparigas que lhe obstruía a passagem.

"Dão licença?"

"Olha lá, ó Guida", disse a do cigarro, sem se mexer. "Nós somos avançadas, mas não exageremos! Onde é que já se viu os homens entrarem assim nos camarins das raparigas?"

"O Paula, não sejas implicativa! Isto não são camarins nenhuns, como tu bem sabes. Que eu saiba, estamos a desmaquilhar-nos, não estamos a despir-nos."

"São camarins de maquillage e são de senhoras, é a mesma coisa! Os homens aqui não podem entrar, muito menos quando vêm com propósitos amorosos."

"Olha-me esta!", soltou Margarida, pondo as mãos nas ancas. "Se o meu namorado me quer visitar na maquillage, quem és tu para dizer que ele não pode entrar?"

"Não nos camarins onde estão todas as outras!" A do cigarro voltou as costas e soltou uma baforada de fumo, num gesto négligé, à grande diva. "Agora se arranjares um camarim só teu e o quiseres lá meter, é contigo..."

"Chiça, Guida!", zombou uma outra bailarina, os olhos a saltitarem entre Fernando e Luís. "Aguentas com dois ao mesmo tempo?"

Risada no grupo.

"Sua ordinária!", devolveu Margarida, ofendida. "Sua... sua..."

Vendo a discussão subir inesperadamente de tom, Luís achou melhor intervir.

"Calma, calma!", pediu, erguendo as mãos num gesto pacificador. "Nós não vamos entrar, fiquem descansadas." Fixou Margarida, que tinha o cabelo loiro num desalinho. "Olha, Guida, esperamos-te lá fora no café, está bem?"

"Qual deles?"

"O Lisboa."

Antes que ela dissesse mais alguma coisa, deram os dois meia volta e regressaram pelo mesmo caminho, agora com Luís atrás. Quando se sentiu suficientemente à distância, Fernando virou a cabeça e riu-se para o amigo.

"Que galinhas."

 

A rapariga de cabelo castanho curto e formas redondas entrou no Café Lisboa e estacou por um momento à porta enquanto varria a sala com o olhar. Voaram de imediato piropos e gracejos. "Olha a girl!", disse uma voz; "Belo naco!", adiantou outra; "Vem aqui ao papá", acrescentou uma terceira. Habituada já aos barulhentos ajuntamentos masculinos, cena comum depois dos espectáculos, quando os excitados machos se apinhavam nas tascas e cafés do parque para ver as girls saírem dos teatros, a corista ignorou as atenções com que os homens nesse instante ruidosamente a presenteavam e, depois de localizar Luís a uma mesa do canto, dirigiu-se-lhe com passo decidido, embora sempre me­neando o corpo, consciente do efeito que produzia.

"Olá, querido!", lançou a desconhecida.

Os dois amigos petiscavam tremoços regados a imperial e Fernando estranhou a familiaridade com que a insinuante recém-chegada se dirigiu ao seu parceiro de mesa.

"Então, minha flor?", cumprimentou-a Luís.

A rapariga inclinou-se sobre ele, sentou-se-lhe ao colo, enlaçou-o com um braço e beijou-o nos lábios. Fernando observou a cena boquiaberto, os olhos arregalados, o copo da cerveja parado a caminho da boca. Não queria acreditar no que via; era já a segunda girl que se agarrava ao amigo no espaço de apenas meia hora. A segunda. Achou tudo aquilo inesperado e permaneceu um longo instante imóvel de pasmo, sem saber o que pensar.

Quando Luís descolou do beijo, fez um gesto na direcção do amigo, que por esta altura se remexia desconfortavelmente e olhava em todas as direcções excepto na dos seus dois companheiros de mesa.

"Apresento-te o Fernando."

Ela endireitou-se, afogueada, e lançou-lhe um sorriso rápido.

"Olá."

O rapaz levantou-se e estendeu-lhe a mão.

"Muito prazer."

A morena apenas lhe dedicou uma fugaz atenção. Girou o pescoço pelo café e fixou a atenção numa portinha lá ao fundo. Acto contínuo, deu um salto e largou o colo de Luís.

"Vou ali à casinha", anunciou, partindo em direcção ao quarto de banho. "Já venho."

Os dois amigos observaram-na a deslizar entre a multidão do café, o rabo a bambolear de um lado para o outro, incorrigivelmente provocadora, o corpo curvilíneo como uma viola. Parecia uma starlette a desfilar na passerelle. Dessa vez não se ouviram piropos, todos tinham visto que o homem dela também se encontrava no café e havia que respeitá-lo; o que não os impediu, todavia, de a espreitar de esguelha com mal disfarçada avidez.

Só quando a corista se fechou no quarto de banho é que Fernando voltou a cara para o amigo.

"Nunca vi nenhum gajo como tu", exclamou. "É impressionante! Absolutamente incrível!"

Luís observou-o com orgulho dissimulado, fingindo-se desentendido.

"Que queres dizer com isso?"

"Que quero dizer?!" Fez um gesto em direcção ao quarto de banho das senhoras. "Olha lá, quem é aquela?"

"É a minha nova namorada."

"A tua nova...", interrompeu-se, incapaz de pronunciar a palavra. Abanou a cabeça. "Isto contado, ninguém acre­dita."

"O quê?"

Fernando engoliu um trago de imperial.

"Quando te conheci na faculdade arranjaste logo uma namorada." Suprimiu um arroto. "Era a Luísa, não era?"

"Não, a Lulu foi a segunda. A primeira foi a São."

"Ah, pois. Despachaste primeiro a Conceição, depois a Luísa, depois a Deolinda. Ainda te vi com a Teresa..."

"A seguir à Deolinda foi a Belinha."

Fernando riu-se.

"Olha, essa escapou-me."

"Conheci-a num concurso da rainha da beleza das Socieda­des de Recreio."

"Ah, bom." Desenhou pontinhos no ar. "Pronto, foi a Deolinda, depois essa Nelinha do concurso de beleza..."

"Belinha."

"... depois a Teresa... e hoje convidaste-me aqui ao Parque Mayer para conhecer a tua nova namorada."

Fez-se um curto silêncio. Fernando aguardava que o amigo apresentasse uma justificação para aquilo a que assistira

instantes antes. Mas Luís pareceu não perceber a dúvida e encolheu interrogadoramente os ombros.

"E depois?"

"E depois?" Fernando voltou a abanar a cabeça, incrédulo. "E depois?" Apontou de novo para o quarto de banho das senhoras. "E depois apareceu mais esta."

"Sim, e então? E a minha nova namorada."

"Olha lá, quantas namoradas tens tu?"

"Bem... uma."

Fernando pousou os ombros na mesinha redonda e incli-nou-se na direcção do amigo.

"Ai é? E a girl loiraça que eu vi há bocado aos pulos no Santo António e que te espetou um grande chocho nos camarins? Não me vais dizer que era tua prima..."

"É essa a minha namorada."

Fernando respirou fundo, sem compreender.

"Mau! Qual é afinal a tua nova namorada? A girl loira ou... ou esta que apareceu agora aqui?"

Foi a vez de Luís soltar uma gargalhada.

"Esta é a loira!", exclamou.

"Qual loira? Esta tem o cabelo castanho, que eu bem vi!"

"E a mesma, palerma. Tu achas que os cabelos da girl que viste há pouco são mesmo loiros? Aquilo era uma peruca, meu grande camelo! A gaja que entrou agora aqui é a girl, mas sem a peruca! Percebeste? É a Guida."

O amigo abriu a boca, entendendo tudo.

"Ah! Esta é a loira!"

"Claro."

"Desculpa, não tinha percebido." Riu-se e recostou-se na cadeira, já descontraído. "Caramba, fico mais aliviado!"

"Pensavas que eu andava com duas girls ao mesmo tempo?"

"Pois... vejo-te há bocado com uma loira e agora com uma morena, o que querias que eu pensasse?" Trincou uns tremoços. "Além do mais, se queres que te diga fico mais descansado por descobrir que a loira afinal não é loira."

"Porquê?"

"Ora, porquê? Quando a apontaste no palco e disseste que ela era a tua nova namorada, pensei: mas onde é que este gajo arranja tipas deste calibre? Porra, o cabrão anda com a Mae West! Até fiquei complexado, caraças!"

O café enchera-se de homens acabados de sair dos espectáculos do Parque Mayer e fervilhava de animação. O ambiente era barulhento e uma nuvem de fumo pairava sobre as cabeças dos clientes, a maior parte de pé, com um cigarro e um copo na mão, à espera de um lugar numa mesa.

Os dois amigos ainda se estavam a rir no seu canto quando Margarida reapareceu vinda do quarto de banho e atravessou a multidão. Sempre desinibida, voltou a sentar-se ao colo de Luís; parecia uma menina traquina, daquelas que nunca param quietas.

"Aqui o Fernando pensou que eu tinha duas namoradas", anunciou-lhe Luís, provocando o amigo.

"Quais duas namoradas?", espantou-se a rapariga, interrompendo as carícias para lhe lançar um olhar desconfiado. "Há outra?"

"Pois há." Pôs-lhe o dedo na ponta do nariz. "És tu."

"Mas quem é a outra?"

"És tu, já disse." Apontou para Fernando. "Ele viu-te loira há bocado, viu-te morena agora e achou que eram moças diferentes. Até perguntou se podia ficar com a loira..."

"Não perguntei nada", corrigiu o amigo.

Margarida olhou para Fernando e simulou um ar ofendido.

"Oh! Não gostas de mim?"

"Bem...", atrapalhou-se ele, desconcertado com a pergunta. "Quer dizer..."

A rapariga endireitou a cabeça e fitou o namorado.

"Ou és aqui como o Luís, que esconde um segredo?"

"Qual segredo? Não digas disparates..."

"Ai escondes, escondes", cantarolou ela. Virou de novo a cara para Fernando. "Conheces o segredo dele?"

"Eu não."

"Chama-se Amélia."

"Cala-te!", cortou Luís com abrupta rispidez. "Cala-te!"

Fez-se um silêncio embaraçado entre os três. Mas a animação prosseguia em redor, ignorando a súbita tensão naquela mesa do canto, e isso de algum modo contribuiu para desanuviar o ambiente.

"Amélia!", cantarolou Margarida, como se o estivesse a testar. "Amélia!"

"Oh, vá lá", disse Luís, já mais macio, corrigindo a aspereza com que instantes antes a mandara calar. "Não venhas outra vez com essa conversa."

Vendo o amigo inopinadamente embaraçado, e passada que parecia a sua súbita irritação, Fernando deixou-se arrastar pela curiosidade e não deixou cair o assunto.

"Amélia?", perguntou, dirigindo-se a Margarida. "Quem é essa Amélia?"

"Isso queria eu saber", devolveu ela. "Nunca ouviste falar nela?"

"Nunca."

"Deve ser uma antiga namorada."

"Bem, eu conheci outras namoradas dele, mas confesso que jamais ouvi falar nessa."

Margarida apertou a bochecha do namorado.

"Aqui o Luizinho não me conta nada." Fez beicinho. "É mau!" Inclinou-se para trás, na direcção de Fernando, e sussur­rou muito alto: "Essa Amélia é segredo!"

"Não há segredo nenhum", repetiu Luís com ar de enfado.

"Então porque não me contas?"

"Porque não há nada para contar." Fez um gesto na direcção dos outros dois. "Calem-se lá com isso."

Mas Fernando não fazia tenções de mudar de tema e insistiu com Margarida.

"Como é que você soube dessa Amélia?"

A rapariga corou.

"Foi num momento... bem, uma altura em que estávamos os dois a sós. Aqui o Luís, em vez de me chamar Guida, no auge do... enfim, chamou-me Amélia." Fez uma expressão ofendida. "Amélia, veja lá! É de uma pessoa ficar sentida, não é?" Voltou a fitar o namorado. "Mas afinal quem é essa Amélia?"

"Porra!", exaltou-se de novo Luís, batendo ruidosamente com o copo da cerveja na mesa. "Vocês calam-se com isso ou não?"

"Pronto, pronto", murmurou Margarida, afagando-lhe o cabelo castanho-claro. "O menino não gosta de falar disto, pois não?"

Abraçou-o e beijou-o no rosto e nos lábios. Luís permaneceu um instante hirto, parecia uma estátua de bronze; mas logo o metal começou a derreter, o calor que a rapariga derramava sobre ele fazia gradualmente o seu efeito.

Sentindo-se a mais naquela cena melosa, Fernando pousou o copo de cerveja, deitou umas moedas sobre a mesa e levantou-se.

"Bem, vou-me embora."

Envolvidos um no outro, os dois namorados nem o ouviram. Ficaram sós na mesa, entregues aos lábios do outro, expostos aos olhares do café.

"Mas que deboche vem a ser este?"

Luís e Margarida descolaram-se e ergueram os olhos, surpreendidos com o tom agreste da interrupção. Um homem baixo e magro, de cabelo negro brilhante puxado para trás, observava-os com severidade.

"Perdão?", perguntou Luís, ajeitando os cabelos que lhe tinham descaído para a testa.

"Estamos num lugar público, por amor de Deus", rosnou o desconhecido. "Haja maneiras!"

"Como?"

"Isto aqui não é a bandalheira de outros tempos, ouviu? Onde pensa o cavalheiro que está? Aqui há respeito! Aqui há ordem!" Ergueu o dedo, parecia que pregava no púlpito. "E para haver respeito e ordem é preciso primeiro haver decoro e decência!"

Seria um padre?, interrogou-se Luís. Mas ali, no Parque Mayer? O que faria um padre naquele antro de pecado?

"Quem é o senhor?"

"Chamo-me Aniceto Silva, mas decerto que o meu nome não lhe diz nada", apresentou-se o homem, muito dono de si. "O que interessa é que sou um bom português, homem honrado e cumpridor, amante da ordem pública. E o que o cavalheiro e esta... esta menina estão a fazer, aqui à vista de toda a gente, é altamente reprovável." De novo o dedo no ar, para sublinhar a apreciação. "Altamente reprovável!"

"Mas o que tem o senhor a ver com isso?"

"Tenho o mesmo que tem qualquer pessoa que se vê confrontada com atentados à moral e aos bons costumes. As pessoas têm de saber comportar-se em público, que diabo! E quando não sabem alguém tem de lhes chamar a atenção."

Luís sentiu a irritação crescer dentro de si. Aquela conversa humilhava-o diante da namorada. Quem era aquele tipo para se lhe dirigir naquele tom? Com quem pensava ele que estava a falar? Não havia dúvidas, precisava de o pôr na ordem.

"Desculpe, mas o que eu faço é um problema meu e só meu", disse, empertigando-se. "Ninguém tem nada a ver com isso e não lhe admito homilias, percebeu?"

"O cavalheiro admitirá o que tiver de ouvir pelo seu comportamento à vista de todos", devolveu Aniceto Silva sem vacilar. Parecia um mestre-escola. "O que o cavalheiro faz no recato do seu lar é lá consigo e com a sua... a sua senhora. Mas aqui, perante toda a gente, mesmo que seja no Parque Mayer, o que o cavalheiro faz é um problema de toda a gente, percebeu? De toda a gente."

"Eu sou livre de me comportar como muito bem entender e o senhor não tem nada a ver com isso."

O homem soltou um riso trocista.

"Não me venha falar do que é ou não livre de fazer. O que sabe o cavalheiro sobre o que é ser livre? Será livre de andar nu na rua? Será livre de se envolver em cenas... em cenas destas? A sua liberdade tem o limite do respeito, da moral e do interesse comum, percebeu?"

"Mas que descaramento!", ripostou Luís. "O senhor viu--me a prejudicar alguém?"

Alguns dos fregueses começaram a aperceber-se da altercação e olhavam com crescente interesse na direcção da mesa.

"Prejudica a raça!"

"Qual raça?"

O homem fez um gesto que englobou toda a gente no café.

"A nossa, claro! Somos uma raça admirável, meu caro cavalheiro. Parecemos pequenos e insignificantes, não parecemos? Ninguém dá nada por nós, aqui perdidos neste recanto

da Europa. Mas a verdade é que descobrimos dois terços do mundo e erguemos um império que nem os Alemães alguma vez sonharam ter. Um império que chegou aos cinco continentes! É obra, que diabo!" O tom tornou-se sarcástico. "Acha que foi com liberdade que fizemos tudo isso? Acha?" Abanou a cabeça com violência e levantou a voz, galvanizado. "Não foi!" Ergueu o punho fechado e fez força. "Foi com disciplina. Sem ela, nada seríamos, percebeu? Somos um povo grande, mas é uma grandeza que nasce da ordem que nos impomos a nós contra a nossa própria natureza." "De que raio está o senhor a falar?"

"Estou a falar dos traços da nossa raça! Estou a falar deste povo afável, esperto, hospitaleiro, trabalhador, com um gran­de espírito de sacrifício. Estou a falar de tudo aquilo que nos está na massa do sangue. O problema é que sofremos de excesso de sentimentalismo e temos um horror absoluto a disciplina. Há demasiado individualismo e défice de tenacida­de nas nossas gentes. Daí que precisemos de ordem, de respeito e de bons usos e costumes." Indicou Luís e Margarida com a mão. "É por isso que é preciso combater esta vossa tendência para o abandalhamento. Porque o..."

"Desculpe?", atalhou o transmontano, definitivamente ir­ritado com o inopinado sermão. "Bandalho é o senhor! Como se atreve a vir aqui incomodar-nos com essa conversa para tolos?"

"Como?" O homem ruborizou, a irritação deixando-o em ponto de fervura. Espetou o corpo para a frente, a expressão muito indignada e os olhos injectados. "O que me chamou o cavalheiro?"

Vendo o desconhecido inclinar-se agressivamente sobre si, Luís ergueu-se da mesa e encostou a cara à cara do outro.

"Chamei-lhe o que o senhor me chamou. Porquê?"

Os clientes do café acercaram-se da mesa, na expectativa de um confronto, e um deles, de ar mais janota, com um fato à Príncipe de Gales, acorreu a intervir.

"Calma! Calma!", disse ele, tentando interpor-se e separar Luís do outro. "Não se exaltem, vamos lá." Fez um gesto na direcção de Margarida, que tremia no seu lugar. "Estão aqui senhoras, haja maneiras."

Apesar dos esforços para os separar, os dois mantiveram-se de rosto colado, olhando-se furiosamente.

"Já vi que o cavalheiro é do reviralho", rosnou Aniceto Silva.

"Se calhar sou. E depois?"

"O reviralho é a escória deste país."

"Talvez estejamos a precisar de alguma escória, quem sabe? Pode ser a maneira de correr com alguns camelos que por aqui andam a meter o nariz onde não são chamados."

Aniceto descolou por fim a cara, mirou Luís com uma expressão de desprezo e apontou-lhe o dedo.

"Eu, se fosse a si, tinha cuidado, ouviu? Muito cuidado. Quem sabe se um dia não o apanho na esquina..."

Deu meia volta e afastou-se, desaparecendo por entre a multidão ávida de escândalo. Perante este abandono, o silêncio expectante no café logo se tornou burburinho e depois algazarra; a diversão tinha terminado e tudo regressava ao normal. Os clientes voltaram aos copos e às conversas, soltan­do ocasionais piropos às girls que iam passando a conta-gotas lá fora; dizia-se que as melhores eram as espanholas, ou pelo menos era essa a moda, pelo que todos se mantinham atentos à passagem das coristas, um olho na conversa e outro na rua, não fosse aparecer uma andaluza ou uma asturiana e perderem esses grandes espectáculos da natureza.

"Eu, no vosso caso, evitava voltar a cruzar-me com o Aniceto", soltou uma voz junto à mesa.

Ainda a recuperar da tensão vivida momentos antes, o casal de namorados ergueu os olhos e viu um homem encostado à parede a fumar, como se estivesse ali a aguardar que um lugar vagasse para se sentar. Era o desconhecido do fato à Príncipe de Gales.

"Porquê? O que tem ele?"

O homem aspirou o cigarro, fez uma pausa deliberada e soltou pelas narinas uma nuvem cinzenta que lhe ficou a pairar diante do rosto; parecia neblina a flutuar numa noite de bruma.

"É um tipo perigoso."

Atirou o cigarro para o chão, esmagou-o com o pé e foi-se embora.

 

O grupo de rapazes irrompeu pelo átrio da Escola Superior de Medicina Veterinária com um ar nervoso que de imediato atraiu a atenção de Luís. Alguns vinham vestidos de fato--macaco, como se fossem operários, e outros apresentavam-se desarranjados, com as camisas fora das calças ou camisolas de lã remendadas nos cotovelos.

Um dos recém-chegados apareceu com um banco nas mãos, que claramente fora buscar a uma sala de aulas, e pousou-o no centro do átrio. Um rapaz de fato-macaco empoleirou-se no banco, o corpo elevando-se sobre o mar de cabeças.

"Atenção, pessoal! Atenção!"

A voz forte ressoou pela escola e em poucos instantes o átrio encheu-se de curiosos.

"O que é isto?", perguntou Fernando, abeirando-se de Luís. "Quem é este tipo?"

"Não sei. Chegaram aqui e o gajo pôs-se em cima do banco. Deixa ouvir."

O rapaz do banco fez sinal aos estudantes de que se aproximassem e então começou a falar.

"Camaradas!", gritou, erguendo os braços. "Camaradas, prestem atenção!" Aguardou um instante, enquanto se ou­viam uns chius e o burburinho amainava, deixando o silêncio impor-se. "Camaradas, a liberdade está em perigo! A ditadura quer transformar os Portugueses num bando de cordeiros! Nós somos estudantes! Nós somos o futuro do país! Temos de garantir os direitos do proletariado e do campesinato! Como estudantes, somos a vanguarda da classe operária! Temos um dever de rebelião e vamos revoltar-nos! Não votem nestas eleições! Não colaborem na farsa! Abaixo a ditadura!"

Algumas vozes no átrio ecoaram a palavra de ordem.

"Abaixo a ditadura!"

Nesse instante foi desfraldada uma grande bandeira vermelha que todos reconheceram como a do Partido Comunista.

"Viva a liberdade! Viva o marxismo-leninismo! Viva o camarada Estaline!"

Soaram alguns "vivas", mas a maior parte dos estudantes observava a cena com estupefacção. Alguns dos jovens que faziam parte do grupo recém-chegado começaram a distribuir folhetos pelo átrio e Luís foi um dos que receberam um panfleto. O papel tinha uma frase à cabeça a dizer "Abaixo o Fascismo!" e uma foice e martelo estampadas a vermelho no canto, com a sigla FJCP.

"Larga isso", disse Fernando, puxando o braço do amigo. "Vamos embora daqui."

"Não. Deixa ver o que eles querem."

"Estás doido?" Apontou para um activista plantado à porta. "Repara naquele. Não vês o que o gajo tem metido nas calças?"

Luís olhou e viu a coronha de uma pistola a espreitar do cinto.

"Os tipos estão armados."

"Anda, vamos embora."

Antes que Luís respondesse, ouviu-se um apito e instalou-se de imediato a confusão. O rapaz do banco saltou para o chão, a bandeira foi recolhida e os outros puseram-se a abrir alas por entre a assistência.

"Polícia!", exclamou uma voz junto à porta da entrada. "Vem aí a polícia!"

O grito pareceu despertar a multidão da letargia. Desataram todos a espalhar-se pelo átrio, procurando sair do caminho do que quer que aí viesse, e Luís deu consigo a correr pelo corredor da escola ao lado de um rapaz de fato-macaco.

No meio daquela balbúrdia vislumbrou fardas a cruzarem a porta ao fundo do corredor e a entrarem no edifício. Olhou para o rapaz do fato-macaco e constatou que ele não tinha avistado a polícia. Pior do que isso, corria para ela como uma lebre em direcção à armadilha. Num gesto quase instintivo, agarrou-o pelo braço e travou-o.

"Por aqui!", disse.

"Larga-me!", gritou o rapaz, tentando sacudir a mão. "Larga-me, porra!"

"Por aqui", repetiu Luís.

Foi nesse momento que o militante comunista viu as fardas e compreendeu o gesto do rapaz que o travava. Sem dizer uma palavra, mudou de direcção e seguiu Luís, confiando nele como um cego confia no seu cão.

Meteram por uma porta lateral e foram dar a um laboratório. Ziguezaguearam por entre as mesas e Luís guiou o rapaz de fato-macaco para um compartimento anexo, onde se encontravam jaulas com pequenos animais. Dirigiu-se a uma porta e abriu-a. Era uma passagem de serviço que ligava o edifício ao pátio interior arborizado, um belo jardim naturalista, à maneira inglesa. O estudante empurrou o activista para fora e indicou um ponto à esquerda.

"Estás a ver aqueles portões ali? É a saída das traseiras."

O rapaz do fato-macaco apertou-lhe a mão.

"Obrigado, camarada", disse. "Sou o Zé Pereira."

"Luís Afonso."

O fugitivo deu uns passos, mas logo travou e olhou de relance para trás, como se lhe tivesse ocorrido uma ideia.

"Olha lá, não te queres juntar à malta?"

Ignorando a pergunta, Luís apontou com insistência para o portão.

"Foge!"

A Escola Superior de Medicina Veterinária era aquilo que os amantes das palavras pomposas designavam por instituição vetusta. Nascera em 1830 com o nome de Real Escola de Veterinária, mas deixara de ser Real poucas décadas depois, talvez num acto de premonição do fim da monarquia. Era já uma instituição centenária, mas funcionava agora em instalações acabadas de erguer na Rua Gomes Freire. Na verdade, o edifício era tão recente que o cheiro a tinta fresca ainda vagueava pelo ar, apesar de nesse dia o aroma dominante ser o da insurreição.

"O Luís, tu estás parvo ou quê?"

Desciam a escadaria da escola, onde a calma já havia regressado, e Fernando acabara de ouvir o relato do sucedido na fuga.

"O que queres? Tinha de o safar."

"Mas o gajo era comunista, caraças!"

"Qual é o problema?"

Fernando revirou os olhos.

"Deves estar a gozar comigo", disse. "Para que é que o ajudaste?"

"Para o salvar."

"Mas porquê? És comunista?"

"Que eu saiba não."

"Então porque ajudaste o gajo?"

Luís meditou na pergunta.

"Se queres que te diga, não me entendo com os ares autoritários a que estes senhores se dão."

"Quem?"

"O regime."

"Mas que mal te fez o regime, caraças?"

O transmontano parou no pátio e seguiu com o olhar o balouçar insinuante das ancas de duas raparigas que subiam as escadas a par.

"Gosto de fazer o que me dá na real gana, sem ter de prestar contas a ninguém."

"Não é disso que estamos a falar. O que está aqui em causa é teres ajudado um comunista a escapar à polícia, quando o que devias ter feito era entregá-lo!"

"Não, o que está aqui em causa não é eu ajudar um gajo a safar-se à polícia. O que está aqui em causa é que eu não posso dar um beijo no café à minha namorada!"

"Ah, sim!", exclamou Fernando com uma expressão de sarcasmo. "Logo vi que era isso! Muito me admiraria se não houvesse saias por trás desta história."

"Não é uma questão de saias. É uma questão de liberdade, de poder fazer o que me apetece sem ter de estar a prestar contas a uns idiotas com a mania que são donos da verdade."

"Estás a referir-te ao tipo que te chateou ontem no Parque Mayer?"

"Estou a referir-me a tudo."

"Olha lá, como era em Trás-os-Montes? Também fazias com as miúdas o que te dava na real gana?"

"Claro que não. Foi por isso mesmo que vim para Lisboa."

"Julguei que tivesses vindo para ser veterinário..."

"Também. Junto o útil ao agradável, qual é o mal?"

Saíram do edifício e viraram à direita na direcção do jardim da Praça José Fontana. Sentaram-se num banco junto ao coreto, por entre as tílias, a apanhar sol e a apreciar as raparigas que saíam do Liceu Camões. A manhã permanecia fresca, mas a luz do dia temperava-lhes o rosto com uma brasinha deliciosa.

"Ainda não me contaste como são as coisas na tua terra."

Luís encolheu os ombros.

"Não há nada para contar. Aquilo é província, vive-se com a mentalidade do século xix e está tudo dito."

"Passeias na rua aos beijos às gajas?"

O transmontano riu-se.

"Deves estar a gozar! Em Trás-os-Montes anda tudo muito controladinho, o que pensas tu?" Indicou uma estudante do liceu que acabava de passar diante deles, apressada. "Olha, para ver as miúdas... só às escondidas. As mães delas são do pior que há, nem imaginas. Se descobrem que há namorico é uma chatice."

"Estás a ver? Afinal em Lisboa não estamos tão mal como isso..."

"Em comparação com a província, claro que não. Era o que mais faltava! Lá na parvónia as mães dispõem da vida das filhas como muito bem entendem. Chegam a ser elas quem decide com quem vão as miúdas casar..."

"Estás a brincar."

Luís respirou fundo.

"Quem me dera", disse, subitamente cansado. "Fiquei farto daquilo e enquanto não vim para aqui não descansei. Prefiro estar em Lisboa à minha vontade e fazer o que muito bem entender, sem ter ninguém a chatear-me, a andar lá a aturar aquela mentalidade. É por isso que não tolero estes anormais com a mania de se meterem onde não são chamados, estás a perceber? Eles que vão para o inferno!"

O amigo fez um gesto conciliador.

"Está bem, eu entendo isso. Mas tu também tens de com­preender que os tempos mudaram, Luís. Lisboa pode não ser a província, mas mesmo assim é preciso ter tino. Isto não é como antigamente."

"Se calhar antigamente é que estava bem."

"Qual quê! Não havia autoridade nenhuma, era uma desordem que nem te passa pela cabeça."

"E achas que é à bofetada que se impõe a ordem?"

"Se calhar é como dizia o outro: umas bofetadas bem dadas e na hora certa não fazem mal a ninguém. Podem até ter efeitos profilácticos."

"Isso, vai citando o Salazar."

"O Toninho tem razão, o que queres? Se os gajos desta manhã tivessem sido apanhados, levavam um sustozinho na esquadra e nunca mais se metiam noutra. Não há nada como uns bofes no momento mais oportuno."

"Dizes isso porque nunca os levaste."

"Não os levei porque nunca precisei. Sabes, Luís, o Estado tem de ter autoridade, e se o respeitarmos não haverá problemas." Mudou de voz, assumindo um tom declamativo. "Que o Estado seja tão forte que não precise de ser violento."

"Não me venhas com mais máximas de Salazar."

"Porque não? Se há ordem neste país, a ele o devemos."

"Não preciso deste tipo de ordem."

"Não me vais dizer que achas que é melhor vivermos na anarquia..."

"Na anarquia, não digo. Mas há de certeza coisas melhores do que isto. Passámos de um extremo ao outro, quando se calhar é possível encontrar um equilíbrio mais satisfatório."

Fernando fez um estalido com a língua, exasperado.

"Francamente!", exclamou. "Já viste o que aconteceria se o Toninho não estivesse cá?"

"Era uma maravilha. Para começar, sentíamo-nos livres."

"Não sejas parvo."

"Não me digas que gostas de ter estes idiotas à perna, sempre a dizerem-te o que podes e o que não podes fazer, como te deves comportar e vestir, o que deves dizer e o que não podes pensar, a avisarem-te de que tenhas sempre muito respeitinho, a impedirem-te de dar beijos à tua namorada na rua, a perseguirem-te por lançares uns vivas à liberdade, não podes isto, não podes aquilo..."

"Claro que não gosto. Mas já pensaste que este é o preço a pagar para que o país vá para a frente?"

"Balelas! Olha para a América, olha para a Inglaterra. Achas que eles precisam de palermas a dizerem-lhes o que as pessoas podem ou não fazer, dizer e pensar? E isso porventura impede-os de terem ordem e disciplina? Que eu saiba, são países onde o progresso existe sem ser necessário recorrer a estes ditadorzinhos de pacotilha."

O amigo olhou em redor, aflito, procurando certificar-se de que ninguém ouvira.

"Chiu", pediu. "Estás doido ou quê? Fala mais baixo. Não lhe chames isso..."

"Não lhe chamo o quê? Ditadorzinho de pacotilha?"

"Cala-te."

"Então vou dizer outra vez: ditador..."

"Assim vou-me embora!"

"...zinho de pacotilha."

Num assomo de irritação, Fernando ergueu-se do banco.

"Pronto, vou-me embora!"

Com uma gargalhada, Luís agarrou no amigo pela cintura e puxou-o para trás.

"Tem calma. Ninguém ouviu."

"Deixa-me!", insistiu o outro, tentando soltar-se. "Não estou para aturar isto!"

"Está bem, não volto a portar-me mal..."

Após uma breve hesitação, uma mera fracção de segundo em que avaliou a sinceridade da promessa, Fernando voltou a sentar-se.

"Ouve, Luís", disse, apontando-lhe o dedo em jeito de aviso. "Nós não estamos na América nem na Inglaterra."

"Infelizmente."

"Não digas disparates. O tipo de regime que eles têm não se coaduna com o nosso temperamento latino, que é desordeiro e individualista por natureza, como muito bem sabes. Tu viste a confusão que por aqui deu a democracia no tempo da república? E estás a ver a confusão que ela anda agora a dar em Espanha? É isso que queres?"

"De que te queixas? Em Espanha quem manda são as direitas."

"Mas há eleições. Quem me garante a mim que daqui a uns tempos as esquerdas não voltam ao poleiro?"

"Há sempre a Rússia", lembrou-se Luís. "Já viste a Rús­sia? Lá quem manda é o povo! A ditadura não é de um iluminado, como aqui, mas do proletariado. Não será isso bem melhor?"

"Também não estamos na Rússia. E ainda bem! Do que nos precisamos é de ordem, Luís. Não de ilusões! O exemplo

a seguir não é o da América, nem o da Inglaterra, nem o de Espanha, e muito menos o da Rússia. O exemplo a seguir é o da Itália, percebeste? Até os Alemães, que de parvos não têm nada, já o entenderam. Somos um império e um império não se mantém com capitalistas que só pensam no seu dinheiro ou com comunistas que só querem roubá-lo e esbanjá-lo e que nem sequer Deus respeitam! Um império ergue-se e mantém--se com sacrifício e com patriotismo. E para que haja sacrifício e patriotismo é evidentemente preciso ordem."

"Não me venhas com histórias."

"Não são histórias, Luís. É a pura verdade. Tu estavas lá a viver nas berças e se calhar não te apercebeste da rebaldaria que andava por este Portugal fora." Indicou o casario em redor da Escola Superior de Veterinária. "Mas eu nasci e vivi aqui em Lisboa e sei muito bem do que estou a falar. Sabes porque me irrito por te ver a ajudar aqueles comunistas? Porque desde miúdo que ando a ver esta cidade em pé de guerra. Volta e meia os malucos lá pegam em armas e põem--se aos tiros e à canhoada e a malta que se aguente. E estes gajos que aqui vieram esta manhã representam o regresso a esse estado de coisas."

"Está bem, admito que as coisas antigamente fossem com­plicadas. Mas não há partos fáceis, pois não? A república podia não ser perfeita e permitir abusos, mas sempre era melhor do que isto."

"Isso dizes tu! Olha, eu tinha dez anos quando foi a Noite Sangrenta e não me esqueço da cara do meu pai ao chegar a casa. Vinha lívido, absolutamente horrorizado. Tinha assistido ao fuzilamento do Machado Santos ali no Intendente e ele próprio nem sabia como conseguira escapar à..."

"Qual Machado Santos? O herói da república?"

"Esse mesmo."

Luís franziu o sobrolho, interessado.

"O teu pai assistiu ao fuzilamento do Machado Santos? Nunca me tinhas contado essa."

"É verdade."

"Mas como?"

"Não te lembras das eleições de 1921?"

"Estás a gozar comigo? Eu era um fedelho, sabia lá o que eram eleições! Além do mais, em Trás-os-Montes passava-nos tudo ao lado."

"Aqui em Lisboa garanto-te que nada nos passava desper­cebido, sobretudo por causa da rebaldaria que se instalou com as eleições." Hesitou. "Instalou, é uma forma de dizer. Na verdade, a rebaldaria tinha começado muito tempo antes."

"Adiante, adiante."'

"Bem, o Partido Liberal ganhou as eleições de 1921 e os republicanos radicais, esses grandes democratas, não gostaram. Uns meses depois puseram a GNR e a Marinha em acção e deram ordem de caça ao primeiro-ministro, que era então o... como é que ele se chamava? O coiso... o Granjo, o José Granjo."

"António", corrigiu Luís. "António Granjo."

"Ah, então conheces a história."

"Estás parvo ou quê? Toda a gente conhece a história da Noite Sangrenta. O que eu nunca tinha conhecido era uma pessoa que tivesse assistido a isso."

"Assistir, assistir... não assisti. Mas ouvi." Apontou para o outro lado da praça. "Na altura morávamos ao pé da Aveni­das da Liberdade e lembro-me de acordar com a artilharia pesada que a GNR instalou na Rotunda." Bateu duas palmas ruidosas, a simular detonações. "Pam! Pam! Até a casa tremeu. A minha mãe manteve-nos fechados no quarto e não nos deixou ver nada, mas o meu pai, que é militar, recebeu

imediatamente ordens para se apresentar ao serviço. Mandaram-no acompanhar o Machado Santos, que tinha a cabeça a prémio."

"Porquê?"

"Sei lá. Não gostavam dele, acho eu."

"E depois?"

"Os tipos revoltaram-se contra o governo saído das elei­ções e quiseram derrubar o Granjo, não foi? O que eles fizeram foi impor ao presidente da República uma série de nomes para o novo executivo, mas o problema é que o presidente se recusou a nomeá-los. Foi então que os radicais organizaram um comboio para ir buscar uma data de personalidades que se lhes opunham para as entregar à GNR, aos marinheiros e à multidão. Apanharam assim o primeiro-ministro e abateram-no como a um cão, a tiro e a golpes de espada. Depois mataram o comandante Maia e o comandante Silva."

"E o teu pai?"

"Ia com o Machado Santos quando a camioneta em que seguiam teve uma avaria no Intendente. A turba apanhou o Machado Santos e fuzilou-o logo ali. O meu pai ainda hoje não sabe como conseguiu fugir."

Luís coçou o queixo.

"Não há dúvida", concedeu. "Matar o primeiro-ministro e o herói da república foi um episódio chato, não se pode negar. Mas não temos agora de andar todos a pagar por esse disparate cometido há quinze anos, ou temos?"

"Há treze anos", corrigiu Fernando. "Foi em 1921."

"Não interessa. Já passou tempo suficiente."

"Ó Luís, tu achas mesmo que o que aconteceu na Noite Sangrenta foi um episódio isolado? Não foi! Não te esqueças de que tudo isso veio numa sequência de revoltas e mais

revoltas. A instabilidade naquele tempo era permanente, os governos não se aguentavam, à mínima coisa saía toda a gente à rua aos tiros, a economia estava num estado calamitoso... olha, daquela maneira não podíamos continuar a viver. Portugal estava transformado numa autêntica república de anedota."

"E agora? Não me vais dizer que chegámos ao paraíso..."

Fernando suspirou.

"A malta está cansada, Luís. Por que motivo pensas que o Toninho goza de tanto apoio popular? O pessoal está fartinho de confusão, quer é ficar descansado e viver a sua vidinha em paz." Meneou as sobrancelhas, condescendente. "Está bem, às vezes cometem-se uns abusos, a liberdade até podia ser um pouquinho maior, admito que sim. Mas esse é um pequeno preço a pagar pelo descanso que agora temos. Tu achas que há alguém de bom senso que queira voltar às trapalhadas da república?"

"Por acaso há."

"Quem?"

Luís indicou o edifício bege da Escola Superior de Medici­na Veterinária, mesmo à direita, uma grande bandeira pendurada no mastro da varanda sobre a entrada principal.

"Aqui na faculdade, por exemplo. Aqueles tipos que vimos esta manhã acham que devíamos derrubar este regime."

"Oh, o que sabem eles da vida? São uns idealistas, uns sonhadores, não têm noção de nada."

"E tu? Tens?"

"Tenho mais do que a maioria. Possuo sobretudo memória e se há coisa que sei é que não quero voltar ao antigamente."

"Falas como se, com Salazar, a paz se tivesse instalado no país. Mas isso não é verdade. Quando cheguei aqui a Lisboa dei logo de caras com a confusão. Lembro-me perfeitamente

dos atentados à bomba que para aí houve e de ver os republi­canos e os sindicalistas a manifestarem-se e a andarem constantemente à porrada com a polícia." Indicou de novo a fachada da escola. "Até aqui tivemos confusão, ou não te lembras das bulhas que houve entre a malta?"

Esta pergunta foi acolhida por Fernando com um sorriso.

"Então não me lembro?", retorquiu. "Eu próprio dei uns valentes estalos a um gajo do segundo ano, como é que ele se chama? O... o Armando. Aquele palerma andou a..."

"Achas que isso é que é a paz e a ordem do Estado Novo?"

"Nem queiras comparar."

"Ah, já não te convém a comparação..."

"São coisas diferentes."

"Dizes tu."

"Desculpa, mas não podes pegar numa meia dúzia de protestos envolvendo sindicalistas e estudantes e a partir daí dizer que a contestação ao regime é generalizada. Não é. O pessoal está farto de confusão e apoia o Toninho."

"Então e a tropa?"

"O que tem a tropa?"

"A tropa que saiu à rua para derrubar o regime", disse Luís. "Foi há apenas três anos, não é há tanto tempo como isso..."

"O quê? Estás a referir-te à revolta de 1931?"

"Pois, já eu cá andava em Veterinária."

"Ora, um piquenique! E bem útil, aliás! Esses idiotas permitiram ao Toninho perceber quem estava com ele e quem estava contra ele. Se não fosse essa sedição de imbecis, se calhar ele não tinha podido passar o exército e a função pública a pente fino e livrar-se dos indesejáveis." Soprou para a mão. "Pffff! Adeus reviralho! Foi o canto do cisne desses cretinos."

"Qual canto do cisne? Então e a greve geral? Que eu saiba foi há apenas..." Fez um rápido cálculo mental, com a ajuda dos dedos. "Cinco meses... menos do que isso."

"Outro fracasso! A excepção da Marinha Grande, no resto do país os reviralhistas falharam por completo."

"Não estás a perceber, Fernando. O que está em causa não é o fracasso da greve. É evidente que, com toda esta repressão, ela ia fracassar. O que eu estou a tentar dizer é que, e ao contrário do que tu defendes, o reviralhismo não acabou. Não te esqueças de que a greve geral é muito recente. E não te esqueças do que vimos ainda hoje aqui na escola. Isso mostra que a oposição está bem viva."

"Estava, Luís. Estava. Olha o que aconteceu ao professor Sousa. Foi dos poucos que aderiram à greve e o que lhe sucedeu? Acabou por ser despedido. Nunca mais poderá trabalhar para o Estado."

"Foi muito corajoso."

"Foi muito parvo, queres tu dizer. Achas que o resto do pessoal lhe quer seguir o exemplo?"

Luís quase saltou.

"Então estás a dar-me razão!"

"Em quê?"

"Se mais pessoas não aderiram, não foi porque defendem o regime. Foi porque têm medo. As pessoas têm medo de dizer o que pensam! E quando dizem têm logo a polícia à perna, como se viu ainda esta manhã. Vivemos num país de medo."

"Essa conversa só é válida para meia dúzia de intelectuais com a mania que sabem tudo." Indicou um transeunte que passava naquele momento. "O Zé Pagode está-se nas tintas para isso. O fracasso da greve geral é a prova de que o povo está cansado de confusão e quer é ordem e paz. Ninguém se esquece de que quem pôs o país nos eixos foi o Toninho. Sem ele, isto não ia a lado nenhum."

"Quem fez fracassar a greve geral não foi o povo, foi a polícia e o exército."

"O povo está com o Toninho, Luís. Além disso, não te esqueças de que a ditadura até tem sido mais democrática do que a república."

O amigo soltou uma gargalhada sem humor.

"Não me faças rir!"

"Achas graça? Mas é verdade!"

"A ditadura? Mais democrática do que a república? Em quê?"

"No sufrágio universal, por exemplo. Os republicanos eram uns grandes democratas, não eram? Mas depois montaram um esquema em que só uma pequeníssima parte da população podia votar. Ou seja, os deputados não representavam o povo, mas um punhado de idiotas pertencentes à elite! Além do mais, nem sequer deram direito de voto às mulheres! Eram progressistas que se fartavam, mas não deixavam as mulheres votar! Foi preciso vir o Toninho para que as mulheres tivessem o direito de voto! Só no ano passado é que as mulheres foram pela primeira vez às urnas em Portugal, ou já te esqueceste?"

"As eleições vão ser este ano."

"Estou a referir-me ao referendo da Constituição, idiota. O Toninho pô-las a votar, coisa que esses grandes democratas da república foram incapazes de fazer."

"Lá teriam as suas razões..."

Foi a vez de ser Fernando a rir-se.

"Eles tinham era medo de perder, é o que era!", exclamou. "Sabiam que, se deixassem os camponeses votar, os monárquicos ganhavam! E sabiam que, se deixassem as mulheres votar, a

Igreja Católica ganhava! Logo, tudo fizeram para controlar o voto e só deixaram votar aqueles que eram pela república! Achas que isso é democracia? Só votam aqueles que votam por nós?"

"Naquele tempo, ao menos, podia-se dizer o que se queria."

"Ah, sim! Falar era com eles, lá nisso ninguém os batia. O problema era quando chegava a hora de fazer coisas. Ui! Aí é que era uma chatice!"

"Desculpa lá, mas quem te ouvir e não souber como as coisas realmente são ainda vai pensar que Salazar é um democrata."

"Este ano vamos ter eleições."

"Eleições da treta! Só cinco por cento das pessoas é que podem votar e há apenas um partido inscrito! Achas que isto são eleições que se façam? É tudo uma fantochada!"

"Ora! Que eu saiba o Toninho nunca fingiu ser um democrata, antes pelo contrário. Além do mais, a União Nacional não é um partido. A Constituição não permite a existência de partidos."

"Claro que a União Nacional é um partido, só que lhe dão outro nome. Mas não enganam ninguém."

"Ouve, Luís", disse Fernando num tom paternal. "Os partidos só servem para dividir e a nação não precisa deles para nada. Portugal é um todo, é um corpo único. Os partidos só representam os interesses de determinado grupo e servem apenas para fragmentar o país. Se os deixarmos tomar conta do regime podem levar Portugal à ruína, como se viu com a república."

"Se assim é, por que razão se dão ao trabalho de organizar eleições? Hã? Não era mais fácil governar sem estar a montar esta palhaçada toda?"

"Sim, tens razão", concordou Fernando. "Mas acho que é uma maneira de legitimar o governo aos olhos do mundo.

Além do mais, vai servindo para ver onde está a oposição, não é verdade? A polícia agradece e actualiza os ficheiros..."

Aquele era um assunto em que nunca se iriam entender, concluiu Luís. Não fazia sentido prosseguirem a conversa, não iam chegar a sítio nenhum. Apercebendo-se das horas, levantou-se e deu umas palmadas nas nádegas para sacudir o pó que ficara colado às calças.

"Portanto, achas que agora é que é bom, não é?"

"Não sei se é bom, mas as coisas estão pelo menos muito melhor do que estavam."

"Então fica-te com a tua que eu fico-me com a minha", disse, em jeito de conclusão, pegando na pasta.

"Onde vais?"

Luís abriu a pasta e retirou um papelinho com o horário.

"Para as aulas, para onde haveria de ir?"

O amigo rolou os olhos e levantou-se a custo.

"Que chatice", resmungou, voltando o rosto para o Sol para gozar os últimos raios. "Estava-se aqui tão bem..."

"Pois é, mas há que trabalhar."

"Temos Parasitologia, não temos?"

Luís ia já em direcção à porta de entrada do edifício e abanou a cabeça, corrigindo o amigo.

"Zootecnia Tropical."

 

Apesar de as conversas políticas serem recorrentes, os dois nunca se chegaram a entender sobre o Estado Novo. Os argumentos de Fernando faziam sentido à sua maneira, os factos históricos que apresentava eram verdadeiros, mas mesmo assim havia algo que deixava Luís desconfortável. Não sabia o quê, mas o transmontano queria mais do que aquilo que via à volta. Devia haver melhor do que a mão de ferro sob a qual o país asfixiava. Era uma questão de procurar.

Procurar foi coisa que ele não deixou de fazer desde o dia em que compreendeu que Amélia nunca seria sua. A partir desse momento a sua vida tornou-se uma permanente busca, mas durante muito tempo não percebeu o que procurava. Procurava, e era tudo. Mudou-se para Lisboa alegando que ia tirar Veterinária, mas foi na verdade procurar. Procurou mulheres, procurou livros, procurou ideias. Sabia que tinha de encontrar algo, mas não percebia exactamente o quê.

Até que um dia, já perto do final do curso em Lisboa, entendeu finalmente. Não foi um grande acontecimento que trouxe a luz que lhe iluminou a consciência. Tratou-se antes de um pequeno incidente, uma verdadeira minudência, coisa tão ridiculamente trivial que jamais a guardaria na memória não fosse a poderosa cadeia de raciocínios que tal insignificância desencadeou, como um minúsculo calhau cuja simples deslocação acidental inicia a devastadora avalancha que tudo muda.

Acontece que, numa noite de Junho inesperadamente fresca, tinha ido ao São Luís Cine ver um filme com Fernando, como era costume às sextas-feiras. A fita dessa noite foi Uma Loira para Três, película americana que atraíra grande clientela masculina, ou não fosse a estrela principal quem era.

"Esta Mae West é um espectáculo", observou Luís no elegante foyer do mais chie dos cinematógrafos de Lisboa.

"Mulher endiabrada", concordou Fernando, os olhos a passearem pelas lápides de mármore com cartazes a exibirem os rostos dos grandes nomes do cinema. "Mas confesso que aprecio mais a Garbo. É uma beleza mais graciosa."

Saíram à rua e Luís reparou nas películas brancas que se espalhavam pelos ombros do casaco do amigo.

"Olha lá, estás cheio de caspa."

Fernando espreitou os ombros.

"Pois estou", constatou. Tentou sacudir as películas com os dedos. "Comecei agora a usar o Petróleo Hahn. Vamos lá a ver se faz efeito."

"Isso é mesmo bom?"

"Sei lá."

Luís aproximou o nariz do cabelo do amigo e inspirou duas vezes.

"Pelo menos não cheira a estrume."

Iam assim a conversar pela rua, brincando um com o outro e discutindo mundanidades, quando, depois de descerem o Chiado e ao chegarem ao Rossio, Luís reparou numa mulher andrajosa encolhida numa manta e sentada sobre folhas de jornal estendidas no passeio. Era já noite cerrada e a mulher tinha encostada ao peito a cabeça suja de uma criança adormecida, por certo a filha, e ao lado encontrava-se um cesto de vime com um bebé embrulhado lá dentro. Talvez aquela mãe nem fosse mulher, apenas uma rapariga que a vida prematuramente envelhecera, mas algo na sua fisionomia atraiu a atenção do estudante. Tratava-se de qualquer coisa de indefinível, talvez do fardo da miséria que lhe pesava nos olhos, quiçá do alívio que buscava no braço estendido aos transeuntes.

"Dê-me uma esmolinha, por amor de Deus."

Também a ele a pedinte dirigiu o braço suplicante. Em vez de a ignorar ou de lhe lançar umas moedas de caridade, porém, Luís ficou momentaneamente a contemplá-la. Já tinha visto muitos pedintes nas ruas, Lisboa estava cheia deles, sujos, andrajosos e deformados, mas percebeu que era a primeira vez que os via mesmo. Via-os.

Foi o momento da epifania. Numa explosão de consciência, Luís caiu em si e compreendeu por fim o verdadeiro desígnio da sua busca. A justiça. Como se tivesse sido atingido por um raio de luz, teve nesse mesmo instante a noção de que, desde que Amélia lhe havia sido retirada, a sua vida se tinha transformado numa demanda contra a iniquidade. A rapariga estendia-lhe o braço a implorar uma esmola e era como se fosse ele de braço estendido à vida a clamar por justiça.

Percebeu então que carregava dentro de si a revolta reprimida pelo amor que lhe havia sido roubado e alimentava uma sede louca, sôfrega, dolorosa, de justiça. Não queria vingança, não era disso que se tratava; procurava apenas um sentido de justiça. Vendo bem, considerou de imediato, se calhar nem era tanto a justiça o que verdadeiramente o atormentava, mas a injustiça. Incomodava-o a incerteza da vida, a arbitrariedade da sorte, a perversidade do destino. Com a imagem da pedinte esfarrapada diante dele, como um pequeno alçapão que se abriu e revelou o mais fundo de si mesmo, descobriu que o que realmente buscava era um sentido para a dor que não abrandava, e essa busca traduzia-se na demanda de um significado para a injustiça da existência.

"Então?", impacientou-se Fernando. "Vens?"

Quase automaticamente, Luís recomeçou a andar, mas sempre perdido nos seus pensamentos.

Murmurou algo imperceptível, tão incompreensível que levou o amigo a chegar-se mais a ele.

"O quê?"

Repetiu mais alto:

"Viver é sofrer."

Essa foi uma frase que lhe martelou na cabeça desde esse dia. Viver é sofrer. Essa verdade eterna estava-lhe presente na carne havia muito mais tempo do que imaginava. Qual a justiça de ter perdido os pais ainda em criança? Qual a justiça da miséria e da fome da pedinte com o braço estendido? Qual a justiça de lhe ter sido roubada a paixão do liceu? A infelicidade e o sofrimento, a perda e a dor, o que eram senão a regra deste mundo? Onde havia justiça no tormento?

Não. Em definitivo, viver é sofrer. Nós é que procuramos instituir alguma justiça onde ela por si mesma não existe. Tudo é injusto, o sofrimento está em toda a parte, a dor é permanente. Bastava, aliás, olhar para os animais que estudava na Escola Superior de Veterinária e perceber o seu modo de vida na natureza, vê-los a caçar, a devorar, a fugir e a ser devorados. Era afinal a isso que se resumia a sua existência, um permanente estado de horror e de flagelo em que a cada dia, a cada hora, a cada segundo, milhões de seres eram despedaçados e comidos vivos para sustentar uma única refei­ção de outros seres igualmente acossados por outros predadores. Disfarçada pela máscara cintilante da civilização, que polia a realidade com o talento lustroso de um ilusionista, a vida dos homens não se afigurava em boa verdade muito diferente da dos animais, como se podia descobrir no rosto e na vida daquela mulher que vira no Rossio. Para ela não havia animatógrafo nem poesia, apenas a mão estendida para sobre­viver a esse dia.

Começou a convencer-se de que o mundo não tinha significado nem propósito; existia simplesmente, com desprendimento, alheio ao espantoso sofrimento que as suas regras implacáveis ditavam. Cada vida é uma tragédia imensa para quem a vive, mas cruelmente insignificante à escala do universo. Os seres vivos sofrem e o mundo mostra-se estranho a esse sofrimento, encarando-o com indiferença, aceitando-o como fazendo parte da ordem natural das coisas, como se a dor fosse o motor da existência, a iniquidade o seu preço. Cada desejo procura satisfação, cada obstáculo gera sofrimento. Mesmo a satisfação de um desejo apenas suscita felicidade temporária; logo a seguir vem um novo desejo, de novo travado por mais um obstáculo, o que significa que a existência é sempre luta, o sofrimento omnipresente, a felicidade efémera. Caramba!, pensou enquanto cogitava sombriamente sobre a tragédia da vida. Olhem para Dante, que não teve qualquer dificuldade em imaginar o Inferno... Bastou-lhe ir buscar os elementos que já existiam no mundo e, pimba!, eis o Inferno! Mas, oh!, quando chegou a hora de conceber o Céu, aí é que foi o cabo dos trabalhos! O grande poeta não

teve artes para imaginar o Céu porque não havia neste mundo nada que o inspirasse para conceber o Paraíso! Nada! Meu Deus, não será isso a prova mais completa de que nós afinal vivemos no Inferno?

A descoberta deixou-o deprimido. Vivemos no Inferno! Se o sofrimento é a regra da vida, então Luís precisava de compreender a razão de estar ali, de respirar, de viver para o momento seguinte. Por que motivo era o mundo internamente doloroso? Qual o desígnio superior que o tormento servia? Qual o propósito de tanta dor?

Apercebeu-se de que, durante todos esses anos, fora essa busca que alimentara a sua convicção de que era necessária uma mudança. Mudança de Bragança para Lisboa, mudança de mulheres, mudança de políticos. Luís passou a viver obcecado pela mudança. Mudança significava mudar o presente, mas mudá-lo em busca de algo melhor. E o que era o melhor? Para seu pasmo, tomou consciência de que, para si, o melhor não era o futuro, nunca fora o futuro, mas o passado. O passado. E o passado eram os passeios matinais de mão dada até ao liceu de Bragança, o passado eram os olhos cor de mel por que se apaixonara anos antes, o passado era ela. Ela. Ah, como tinha saudades de Amélia!

No rescaldo da sua epifania no Rossio compreendeu gradualmente que todas as mulheres que tivera, todos os corpos que gozara, todas as almas que amara não eram mais do que representações do seu único amor. Mudava de mulheres por­que nenhuma era Amélia e no seu íntimo não aceitava que o seu verdadeiro amor estava agora para sempre perdido. Pensava nela todos os dias, embora cada vez mais pausadamente. Dava-lhe a impressão de que o tempo a ia arrumando com cuidado num canto, como se fosse uma fera cuja fúria não queria atiçar; mas o facto é que a dor permanecia lá. Talvez não tão dilacerante como no princípio; transformara-se já em sofrimento crónico, era como o murmúrio do vento a fustigar as folhas, uma chama que ardia em lume brando, um estrépito de fundo que não explodia mas também não morria. Vivia em negação, recusava-se a aceitar as consequências da perda da sua amada, evitava o luto que talvez o libertasse. Tudo o resto, a passagem para Lisboa, a oposição ao regime, o desejo insaciável de mudança, mais não eram do que sequelas do pecado original.

Sublimava essa ferida primordial de várias maneiras, e a forma como encarava o mundo em que vivia era uma delas. Queria mudar o presente e, em política, o que era o presente senão Salazar? Tornava-se, pois, necessário mudar Salazar. Era ele o rosto do estado das coisas, o símbolo da mentalidade que lhe levara Amélia. Mudando Salazar, mudava-se o pensamento tacanho e atrasado em que o país vivia, mas mudavam-se sobretudo os comportamentos mesquinhos e retrógrados que o haviam separado da eterna namorada. E talvez acabasse a dor. Talvez.

Ao perceber tudo isto, Luís chegou à conclusão de que teria de se pacificar. Precisava de aceitar a realidade, não podia continuar assim, urgia sarar aquela profunda ferida. A única maneira de o conseguir era fazer o que sempre evitara.

O luto por Amélia.

Quando Luís decidiu ir para Lisboa, os maiores obstáculos aos seus projectos foram levantados justamente pela pessoa que tinha a responsabilidade de lhe dar o dinheiro para os financiar, a tia Maria. Mulher prudente e desconfiada, ou não fosse transmontana até ao tutano, não se cansou de sublinhar a sinistra fama das fêmeas de Lisboa, umas vamps e coisas piores. Dizia ela que, entre as raparigas e senhoras de Alfândiga da Fé, se sabia de ciência certa que a maior parte das lisboetas eram fadistas de reputação duvidosa, sinuosas sereias que, entoando traiçoeiros cânticos hipnóticos, eram capazes de desviar do bom caminho o mais sério dos moços, pois então não se descobrira que nem certos padres resistiam à terrível tentação quando frequentavam os antros de pecado na capital?

As lisboetas revelaram-se, pelo menos à primeira vista, à altura de tão questionáveis pergaminhos. Com o seu olhar limpo e porte elegante, Luís chegou à grande cidade e conquistou-as de enfiada. Volta e meia descartava uma e ia buscar outra; os admiradores chamavam-lhe o Casanova de Bragança, mas os detractores conheciam-no por Matadouro de Virtuosas. Quem o acompanhava de perto sabia que as lisboetas não eram na realidade as debochadas sereias comedoras de homens de que tanto se falava em Trás-os-Montes; o verdadeiro predador à solta por Lisboa era antes aquele transmontano de falas meigas e expressão sedutora, o rapaz que as coleccionava como se fossem borboletas.

Luís estudou Veterinária dividindo os livros com os lençóis. Saltava da aula de Zootecnia Geral para a cama de Helena, dissecava um coelho em Anatomia Patológica e espremia um seio de Jacinta em anatomia feminina, discutia políti­ca com o amigo Fernando e amor com a varina Alzira.

"Há aqui muita matéria para estudar", gostava de dizer, um olho no livro, o outro na cachopa que se sentara ao lado.

Por vezes as aulas eram interrompidas por inspectores do regime, homens soturnos e de expressão severa que vinham lembrar aos futuros veterinários o seu dever de fazer "tudo pela Nação e nada contra a Nação", aforismo então muito em voga; e apontavam para a reforma agrária efectuada poucos anos antes na vizinha Espanha como prova final dos

perigos decorrentes dos aventureirismos loucos e irresponsáveis dos comunistas espanhóis, os mesmos sob cuja asa, não se esqueciam de sublinhar, os reviralhistas portugueses agora viviam.

Noutros casos os visitantes eram meros propagandistas, figuras menores como aquele gordinho do Ministério das Colónias que um dia foi à sala convencer os alunos a assinarem um papel para se candidatarem a lugares no império colonial, "terra de oportunidades", ou a senhora de óculos e com ar de galinha depenada que apareceu à cata de talentos para uma das inúmeras iniciativas promovidas pelo Secretariado da Propaganda Nacional, a instituição recentemente criada com a missão de dinamizar o trabalho dos modernos criadores portugueses-na promoção do regime.

Com o amigo Fernando ia às películas mais picantes dos cinematógrafos de Lisboa. Todas as sextas-feiras saíam para ver as novidades, sendo que as maiores sensações eram em geral as do Tivoli. Aí assistiram a O Sinal da Cruz, fita que a publicidade dizia ser "da Roma antiga, das bacanais e das multidões nos circos"; está-se mesmo a ver que a referência às "bacanais" lhes excitou a imaginação, mas o filme nada mostrou que estivesse à altura de tão sensacional propaganda. Quem não os decepcionou foi Marlene Dietrich, a nova diva loura que, no mesmo Tivoli, apareceu nua numa cena do filme Cântico dos Cânticos, em que posava como modelo de um escultor. É certo que a nudez se anunciou fugaz e aquele grande mulheraço nunca chegou a cumprir a promessa de tudo revelar, mas, caramba!, já era bem mais do que as pernas, sempre belas é certo, que a actriz exibia profusamente em todos os seus filmes.

Os momentos solitários eram vividos à volta dos livros. As frequentes visitas às livrarias do Chiado puseram-no em contacto com a literatura e a poesia do seu tempo, mais os gigantes da filosofia. Conheceu poetas e escritores que frequentavam aquelas bandas, alguns dos quais partilharam consigo à mesa do café as suas prosas e poemas mais secretos; estudou Kant à luz do dia e Marx à chama do petromax, mas os seus preferidos revelaram-se Kierkegaard e sobretudo Scho-penhauer; e, claro, leu os clássicos da literatura, como Eça de Queirós e Camilo Castelo Branco, os seus favoritos; mas também se esforçou por entender os mais difíceis José Régio ou Raul Brandão. Entre os estrangeiros, as suas preferências iam para os franceses, em particular Zola, Flaubert e Hugo, mais os poemas de Baudelaire e Rimbaud, com deambulações não muito bem sucedidas por Proust ou Gide.

O seu predilecto era, todavia, o Romances sans paroles, embalado ao ritmo das nostálgicas palavras de Verlaine, que recitava em voz alta quando se achava sozinho no seu quarto da Rua Luciano Cordeiro:

II pleure sans raison Dans ce coeur qui s'écoeure. Quoi! Nulle trahison?... Ce deuil est sans raison.

Cest bien la pire peine De ne savoir pourquoi Sans amour et sans haine Mon coeur a tant de peine.

As saudades de Amélia, vibrantes na melancólica letra dos poemas que devorava à noite antes de desligar o petromax, corroíam-no até à exaustão. Refugiava-se na lembrança do olhar dourado de Amélia e a memória dos dias em que

passeara a namorada até ao liceu de Bragança pesava-lhe no peito, estreitava-o com tanta força que quase sufocava. Que feliz tinha sido em cada segundo que vivera naqueles inesquecíveis passeios até às aulas! Como fora estúpido em não perceber que a simples viagem da esquina da casa dela até à porta da sala onde a deixava era a coisa mais bonita que fizera na vida! O que daria para tudo viver outra vez...

Revivia esses instantes mágicos sempre que se achava sozinho à noite e era nas crises mais agudas de saudade, quando a nostalgia o apertava tanto que até se sentia asfixiar, que tomava a decisão fatídica. Tratava-se de uma decisão de paixão, como era natural nestas coisas, mas assumida com uma frieza arrepiante: ia deixar aquela e procurar outra namorada. As amantes não passavam de páginas de um livro, existiam para serem fruídas; lia-as com deleite e depois de consumidas passava à seguinte, atrás de uma vinha sempre outra. Talvez a seguinte lhe trouxesse o que procurava, o poema que lhe escapava em cada livro, o final em que culminaria toda a história: a magia perdida de Amélia.

A cerimónia de entrega dos diplomas foi, como sempre, muito concorrida. A ocasião era solene e celebrava um dos mais importantes momentos na vida de uma pessoa. O calor antecipava o Verão de 1935, com a luz quente a vestir a cidade de cor, o sol inclemente a arrancar reflexos do vidro das janelas e a semear tonalidades laranja nas telhas do vasto casario que ondulava pelas colinas.

Apesar do ar abafado, o anfiteatro da Escola Superior de Medicina Veterinária encheu-se de gente. Os professores e os recém-licenciados compareceram em peso, como seria de esperar; mas a maioria dos presentes eram os familiares dos homenageados, parte dos quais viera da província de propósito para a grande ocasião.

"Puf!", soltou a tia Maria, abanando o leque com movimentos lânguidos. "Isto está insuportável! Por amor de Deus, não haverá nenhuma alma caridosa que abra as janelas?"

Luís estudou os vidros por onde espreitava a luz do dia.

"Elas já se encontram abertas, tia. O problema é que o dia está quente. Além do mais, o ar não circula, é uma maçada."

A tia sorriu e apertou-lhe a bochecha.

"Oh, não faz mal!", disse, conformada. "O que interessa é que estamos os dois aqui e tu já és doutor."

"Só quando me entregarem o diploma..."

"Oh, isso é uma formalidade. Tu passaste, não passaste?"

"Claro."

"Então já és doutor! Um verdadeiro home-de-recibo!" Entrelaçou as mãos. "Ai se os teus pais aqui estivessem... o orgulho que eles teriam!" Suspirou e voltou a abanar o leque. "Deixa estar, não faz mal. Eu sinto-me orgulhosa por toda a família." Parou de novo o leque. "Olha lá, para onde é que vais trabalhar agora? Espero que vás lá para os Cerejais..."

"Não sei, tia. Não me apetece lá muito fechar-me na quinta."

"Então para onde vais tu?"

"Para já, vou amanhã ao quartel para me certificar de que passei à reserva militar. Depois vou ver as vagas que existem para veterinário."

"Ao menos vai para Alfândega."

"Vamos ver..."

Uma fila de homens de batina negra entrou no anfiteatro e logo se fez silêncio. A reunião adquiria súbita solenidade e os sussurros e as tosses substituíram a algazarra.

"Quem são?", perguntou a tia Maria, o leque diante da boca para lhe abafar a voz.

"São os doutorados. O da frente é o director."

A senhora contemplou-os, fascinada.

"Que gente tão distinta", murmurou. "São zaguchos, ora são?"

"Sim, muito espertos. Têm de ser, não é?"

Os professores caminhavam com uma postura pomposa, pareceriam militares em parada se não fossem as batinas e o corpo curvado pelo hábito de se debruçarem sobre tanto livro.

"Mas têm um ar um pouco cediço", rematou a tia Maria, impressionada com a idade avançada de alguns.

Os professores subiram ao palanque e sentaram-se na longa mesa, enfrentando a assistência. O director, um homem frágil de bigode e sobrancelhas brancas e olhar cansado, conferenciou com os do lado por instantes, aparentemente a acertar procedimentos, até que se endireitou, olhou para a frente e pigarreou.

"Minhas senhoras e meus senhores", disse, a voz fraca e trémula. "Vamos dar início à sessão solene de formatura."

Depois de umas observações de circunstância, o director deu a palavra a um outro doutorado. Era um professor de meia-idade, o bigode e a barbicha pontiagudos e grisalhos, óculos muito graduados encavalitados sobre o nariz. O homem ergueu-se da mesa e, de olhos míopes quase colados ao papel, discursou sobre a nobre missão do veterinário e a importância do seu trabalho "para o progresso da nação". O discurso prolongou-se em tom monocórdico, algumas frases quase inaudíveis; mas as palavras adquiriram força quando o discursante, fazendo uma pausa na leitura e encarando a plateia, arrancou a frase de grande impacto.

"Temos obrigação de sacrificar tudo por todos", disse, "mas não devemos sacrificar-nos todos por alguns."

"Muito bem!", exclamou uma voz entusiástica.

As palmas ecoaram pelo anfiteatro, era de longe a tirada de melhor efeito de todo o discurso. A Luís, contudo, cheirou-lhe a plágio; havia ali dedinho alheio, por certo oratória com a assinatura inconfundível do Presidente do Conselho, Restaurador das Finanças e do Crédito de Portugal.

Depois do discurso, um outro professor veio juntar-se ao orador com uma pequena caixa de cartão, que pousou sobre uma mesinha. Tirou uma folha do bolso do casaco e começou a chamar.

"Adão Miguel Antunes Telles."

Um estudante ergueu-se da plateia e caminhou com pouca confiança até ao palanque. Foi-lhe entregue o diploma e o rapaz voltou para trás muito corado e debaixo de uma regulamentar salva de palmas.

Os nomes sucederam-se e logo se tornou evidente que a ordem de chamada era alfabética. Luís sabia que antes dele vinha o Licínio, pelo que, quando o colega subiu ao palanque, se preparou para ouvir o seu próprio nome.

"Luís António Afonso."

Luís António Afonso.

Assim. Sem tirar nem pôr. O nome estava afixado na lista do quartel e Luís via-o, encontrava-se lá escrito com todas as letras, mas mesmo assim recusava-se a aceitar.

"Deve haver engano", exclamou, abanando a cabeça.

Fernando esticou o pescoço e leu o nome dactilografado na folha pregada na parede.

"Luís António Afonso", confirmou. "És tu."

"Não pode ser."

"Olha lá, tu não te chamas Luís António..."

"Tem de haver engano."

"... Afonso?"

"Isto é mau de mais!", exclamou. "Então entregaram-me ontem o diploma de veterinário e hoje venho aqui ao quartel e topo com o meu nome para ir para a tropa?" Abanou a cabeça, agastado. "Não pode ser! Deve haver engano!"

Recusando-se a aceitar a evidência, Luís largou a lista e dirigiu-se ao guichet. Uma longa fila de jovens já se encontrava no local e o recém-chegado não teve alternativa que não fosse aguardar que os da frente se despachassem.

"Desculpe", disse, logo que chegou a sua vez. "Será que pode verificar a identidade de um nome que ali está afixado?"

O soldado do outro lado do vidro pediu-lhe o nome e foi confirmar nos calhamaços dos serviços de recrutamento. Lo­calizou um volume, lambeu o indicador para ajudar a folhear, parou numa página, hesitou, virou para a seguinte, passou o dedo pelas linhas, encontrou a que procurava e ergueu os olhos.

"Você é de Alfândega da Fé?"

"Sou."

O soldado fechou o calhamaço, as dúvidas desfeitas.

"É você."

Luís ficou a mirá-lo, entre o horror e a estupefacção.

"Mas... mas... não pode ser. Será que pode verificar outra vez?"

"Está verificado."

"Mas deve haver engano!"

Com ar enfadado, o soldado encolheu os ombros e lançou o olhar para além de Luís.

"O seguinte!"

 

Uma névoa acinzentada de óleo em vapor flutuava pela grande gare e o ar apresentava-se impregnado do cheiro ácido e sufocante do carvão queimado. Caminhando inclinado para a direita por causa do peso do malão que carregava com esforço, Luís acabara de chegar e sentia-se já desejoso de sair dali. A Estação de Santa Apolónia até podia ser muito bonita, resplandecente com os seus azulejos e ferros e vidros, mas o ar junto às linhas era absolutamente irrespirável.

"Onde é, Luís?", perguntou a tia Maria, apressada, cortando pela multidão que enchia o terminal.

O sobrinho apontou em frente. L ja aqui.

"Tens a certeza?"

Luís indicou o placar plantado junto à linha, o algarismo claramente visível.

"Linha dois. Está a ver?"

Constatando que se encontrava na plataforma correcta, a tia Maria consultou o bilhete enquanto caminhava ao longo do terminal.

"Temos de nos despachar, está quase a partir."

"Tenha calma, tia. O comboio só sai daqui a dez minutos."

"Valha-me Deus!", suspirou ela, tentando controlar a ansiedade. "Só fico descansada quando me vir lá dentro."

Localizaram a composição e, tomando balanço, Luís atirou o malão para o interior. Depois ajudou a tia a subir e conduziu-a pelo corredor até ao seu compartimento. Uma vez lá dentro, ganhou coragem para a derradeira tarefa. Respirou fundo, pegou na mala e, o rosto rubro de esforço e bufando e urrando como uma máquina a vapor, ergueu-a e encaixou-a na bagageira localizada por cima dos lugares dos passageiros.

Quando terminou, deixou-se cair com abandono num assento. Era como se o seu corpo exangue se tivesse transformado num saco de batatas, esvaziando-se de uma assentada, inerte e desamparado.

"Puf!", soltou, a arquejar. A parte mais difícil estava concluída, constatou com alívio. "Já está!"

A tia arrumou as suas coisas e aproximou-se da janela do compartimento, que se encontrava aberta.

"O cheirete lá fora é insuportável", constatou. Agarrou as pegas do vidro e puxou-as para baixo, fechando a janela com estrondo. "Chiça! Assim está melhor."

Sentindo as gotas de transpiração a deslizarem-lhe pela face, Luís assentiu com a cabeça.

"Sem dúvida."

Fez-se silêncio, apenas pontuado pelo arfar do sobrinho ainda a recuperar o fôlego.

"Se bem compreendo, vais ficar mais tempo em Lisboa", disse a tia Maria. "E depois mandam-te para um sítio qual­quer que ninguém sabe ainda onde é."

"A culpa não é minha, tia. Chamaram-me para a tropa e agora estou ao dispor deles. Não há nada a fazer."

"Que arreliação!", exclamou ela, dando um estalido com a língua. "Não podes ao menos pedir para ser colocado no regimento de Bragança?"

Luís encolheu os ombros num gesto de impotência.

"Para já, vou ter de ficar aqui em Lisboa. Mandaram-me frequentar o curso de oficiais milicianos e é isso que me espera nos tempos mais próximos. O resto ver-se-á depois."

A tia Maria considerou a informação.

"Já não é mau."

"O quê? Ficar em Lisboa?"

"Não. Tirares o curso de oficiais milicianos. Quer dizer que ao menos vais para oficial. Sempre é melhor do que mandarem-te para soldado raso, não é?"

"Ó tia, só cá faltava não me porem a oficial", riu-se ele. "Não se esqueça de que agora sou veterinário."

A tia franziu o sobrolho.

"É isso que eu não percebo. Se és veterinário, para que te querem eles na tropa? Não és muito mais útil a exercer a tua profissão na vida civil? Ademais, quem não trabalha arrisca-se a ficar na dependura. Eles pagam alguns cunfres de jeito?"

"Claro que não."

"Então porque te estão a atrapalhar a vida, valha-me Deus? Parece que é por finca-ratunha!"

"O problema é que eu sou veterinário. Andam à cata de veterinários para a tropa."

"Ora essa! Não vejo porquê."

"Por causa dos animais. Quem é que arrasta as peças de artilharia? Como é que se transportam os oficiais? Quem é que carrega os abastecimentos de um lado para o outro?"

"Sei lá."

"São os cavalos, tia. Os cavalos e as mulas e o que mais para lá houver. É por isso que eles precisam de veterinários."

A tia balouçou afirmativamente a cabeça, acompanhando o raciocínio.

"Estou a ver", disse. "E os teus colegas? Também foram todos chamados para a tropa?"

"Alguns."

"Aquele teu amigo, o... o coiso, como é que ele se chama?"

"O Fernando?"

"Esse. Ele também foi?"

"Não."

A tia olhou para lá da janela do compartimento e observou um comboio a chegar à estação com grande ruído e espalhafato; a chaminé libertava uma grossa coluna de fumo negro, adensando a névoa parda que pairava na gare.

"Teve sorte, o diabo do rapaz."

Luís sorriu sem vontade.

"Não foi sorte, tia. Foi cunha."

A tia arregalou os olhos.

"Cunha? Queres dizer que foi um favor?"

"Claro."

"Tiraram-no assim da tropa, a nome de palhas?"

"Foi."

"E tu ficas-te em trinta? Põe-te guicho, rapaz! Porque não fazes tu o mesmo?"

O sobrinho encolheu os ombros, resignado.

"Porque não conheço ninguém a quem possa pedir o favor."

"Mas conhece o teu amigo. Ele é teu amigo, não é?"

"Acho que sim."

"E para que servem os amigos? A mesma pessoa que o safou também te pode safar!"

"Isso não funciona assim, tia."

"Então funciona como?"

"O Fernando é de uma família que pertence à... à si­tuação."

"O que queres dizer com isso?"

"Eles são pelo regime."

"Ora, e tu também és."

A conversa complicava-se neste ponto. Luís ainda admitiu por momentos a hipótese de rebater a tia, mas logo reconsiderou. Não é que a tia Maria fosse uma simplória; não era. Mas o facto é que se tratava de uma mulher do campo e as subtilezas da política escapavam-lhe. Como explicar-lhe o que lhe era manifestamente incompreensível?

"Receio que as coisas não sejam assim tão simples, tia."

"Não vejo porquê", devolveu ela de imediato. "Basta o teu amigo falar com a pessoa a quem pediu o favor. Qual é a complicação?"

"Isso não pode ser feito assim às claras."

"Claro que não. Eles têm de falar à súchia, é evidente."

Luís coçou a cabeça, desconcertado. Teria de lhe explicar muitas coisas para que ela pudesse entender a dificuldade.

"Sabe, as..."

Um longo apito cortou o ar.

"Vamos partir!", exclamou ela, tremelicando de excitação no assento. "É agora."

O sobrinho quase suspirou de alívio. Salvo pelo apito! Desejoso de sair dali, ergueu-se num salto e beijou-lhe a mão.

"Com a sua licença, tia. É melhor ir-me imediatamente embora, senão já não consigo sair."

"Está bem, mas promete-me que vais falar com o teu amigo..."

"Não adianta, tia. As coisas não funcionam assim."

"Então vais andar a perder tempo na tropa?"

"Tia! O comboio está a partir!"

Como que a confirmar estas palavras, a composição estre­meceu e a locomotiva voltou a apitar.

"Arreda, moço", disse ela, fazendo gestos com as mãos para ele sair dali. "Andor! Susquedono! Vai com Deus."

O comboio arrancou no exacto momento em que Luís saltou para a gare. O rapaz ficou ainda um longo instante a balouçar a mão, dizendo adeus à mão que dele se despedia de uma das janelas da composição; ele era um dos muitos que ficaram a saudar os que partiam, a mão dela era uma das muitas espetadas das janelas das composições a apartarem-se dos que deixavam para trás.

Quando a longa centopeia metálica por fim desapareceu na curva, Luís deu meia volta, pôs o chapéu na cabeça e foi à sua vida.

 

A estação de Penafiel tinha o aspecto de apeadeiro campestre que caracterizava as estações das terriolas do interior, uma simpática casinha branca decorada a azulejos e rodeada pela verdura aprazível das árvores e arbustos. No ar flutuava o aroma fresco das vinhas já vindimadas e as conversas rumorejadas eram pontuadas pelo melodioso trilar em dueto dos rouxinóis. As folhas de algumas árvores avermelhavam, as cores vivas outonais realçadas pelo sol esplendoroso que aquecia a estação e refulgia no tapete de pétalas que adornava os canteiros.

O quadro bucólico de terra de província foi quebrado por um rumor distante que logo se transformou num brutal ronco estrepitoso; era o comboio que irrompia com grande aparato na estação. Parecia uma besta negra em fúria, fumegante e ruidosa. A composição imobilizou-se com um guincho e um estremeção, como se o animal ofegasse de raiva, e das portas começaram a jorrar viajantes que desciam os degraus metálicos com cautelosa lentidão.

Entre os recém-chegados viam-se alguns militares. A maioria caminhava com decisão, como se estivesse bem fami­liarizada com aquelas paragens; mas havia um que parecia inseguro, quase hesitante, os olhos a dançarem com incerteza pela estação. Desconhecendo por completo aquele lugar, o forasteiro optou pelo comportamento mais lógico e seguiu a corrente dos outros passageiros até chegar à porta da estação.

Um vulto verde-azeitona cortou-lhe o caminho já perto da saída.

"Alferes Luís?"

"Sou eu."

O homem fez continência.

"Boa tarde, meu alferes", saudou. "Sou a ordenança do capitão Branco." Inclinou-se na direcção da mala que o recém-chegado trazia na mão. "Dá-me licença?"

Aliviado por ter alguém a recebê-lo naquela terra desconhecida, Luís entregou a mala à ordenança e seguiu-a para fora da estação, onde os aguardava um automóvel negro. O soldado levantou a tampa da bagageira para depositar a mala e, nesse instante, a porta traseira do carro abriu-se e saiu de lá um oficial. O alferes olhou para os galões e apercebeu-se de que se tratava de um superior hierárquico, um capitão. Num gesto quase automático, interiorizado ao longo dos meses que passara na Escola Preparatória de Oficiais Milicianos, imobilizou-se e fez continência.

"Meu capitão."

O oficial devolveu a continência.

"Bem-vindo a Penafiel", disse. "Fez boa viagem?"

"Muito boa, meu capitão."

O capitão sorriu com bonomia. Era um homem de estatura média e porte erecto, a transbordar de dignidade.

"Oiça, vamo-nos deixar de formalismos, está bem? Eu sou o capitão Mário Branco e o senhor vai trabalhar sob as minhas ordens. Estou perfeitamente consciente de que o nosso alferes não é um militar de carreira, mas um médico veterinário, pelo que será tratado como tal."

"Sim, meu capitão."

"Aliás, para dizer a verdade nem sei se o trate por alferes ou por doutor. Como prefere?"

"É melhor alferes, meu capitão. Sempre estamos no exército, não é?"

O capitão Branco assentiu.

"Muito bem, fica alferes", disse. Fez um gesto na direcção do interior do automóvel. "Entre, faça o favor."

Constatando que a ordenança já guardara a mala e se dirigia para o lugar do condutor, Luís acomodou-se no assento traseiro.

"Agradeço-lhe a gentileza de me ter vindo receber à estação."

"Não tem de quê", devolveu o capitão, instalando-se ao lado do alferes veterinário. "Não é costume vir buscar um oficial miliciano, mas, tratando-se de um médico veterinário, achei que deveria ter este gesto. O nosso alferes nunca esteve por cá, pois não?"

"Esta é a primeira vez, meu capitão."

"Calculei. Como a viagem é cansativa, pensei que seria simpático vir acolhê-lo."

O automóvel arrancou e começou a escalar a colina em ritmo de passeio, afagando a frescura campestre. Para lá da estrada estendia-se uma vegetação opulenta em cores, o verde dos milheirais a misturar-se na encosta com o esmeralda dos linhares, enquanto a prata reluzente dos regatos gorgulhantes deslizava por entre o ouro das eiras; aqui e ali aparecia uma

herdade em cal ou um murete em granito, as heras entrelaçadas nas paredes como aranhas de verdura, para logo voltar a vegetação selvagem dos bosques.

Mas, uns dois quilómetros mais acima, as casas começaram a surgir apinhadas e uma tabuleta indicou Penafiel.

"Estamos a chegar", observou Luís, os olhos colados aos edifícios que iam aparecendo com mais frequência, embora ainda rodeados pela verdura dos quintais cultivados. "A cidade é grande?"

"Tem uns seis mil habitantes, não é muito. Mas olhe que é terra antiga."

"Ai sim?"

"Pois claro. Vem do século xn. Até temos aqui o túmulo do Egas Moniz."

"O aio da corda ao pescoço?"

"Sim, aquele que preferia morrer a faltar à palavra dada." Sorriu. "Como vê, Penafiel é terra de gente fiel. Fiel à sua palavra, fiel à sua pena. Penafiel."

O recém-chegado desviou a atenção das casas para o capitão e devolveu-lhe o sorriso. Não sabia porquê, mas aquele oficial era-lhe simpático.

"E o regimento?", quis saber. "Que tal é?"

"Infantaria 6 é o orgulho de Portugal, meu caro. Tem história! Foi criado no Porto ainda no século xm e combateu sob as ordens de Wellington contra Napoleão, desde o Buçaco até Toulouse. Estivemos em todas as batalhas. Além do mais, foi este regimento que iniciou a revolução liberal e uma das duas unidades que fizeram a defesa da Carta Constitucional quando ela foi proclamada em Coimbra."

"Muito passado, já vi", assentiu Luís, com um esgar impressionado. "E na Grande Guerra, como foi?"

"Mandámos um batalhão para a Flandres."

"O meu capitão também lá esteve?"

"Não, na altura eu pertencia a um outro regimento e fui enviado para Moçambique."

"Sorte, hem?"

"Qual quê! Aquilo foi muito complicado. Os Alemães vieram do Tanganhica e estavam a dar-nos uma tareia. Quan­do chegou a vez de a minha unidade partir para os enfrentar, pensei que não regressaria vivo. Até escrevi uma carta de despedida à minha família, veja lá. Só que foi exactamente nessa altura que veio a notícia de que a guerra tinha acabado. Ufa, nem imagina a festa que foi!"

Luís sorriu.

"Suponho que seja essa a vantagem de um médico veterinário na tropa: nunca terei de combater", disse. Pigarreou. "Para dizer a verdade, nem sei bem o que terei para fazer. O regimento tem muitas exigências para as minhas funções?"

"Oh, o normal."

"O que é o normal?"

"O nosso alferes teve alguma preparação especial para as necessidades do exército?"

"Sim, claro. Tirei o primeiro grau da Escola Preparatória de Oficiais Milicianos e trabalhei no Serviço Veterinário Militar e no Hospital Militar Veterinário Principal."

"Lidava com cavalos?"

"Meu capitão, eu prestei provas de equitação no Hospital Militar!", retorquiu o alferes, quase ofendido.

"Então vai estar aqui à vontade. Temos o Serviço Militar Veterinário, uma maneira pomposa de dizer que o nosso alferes vai tratar dos cavalos e dos burros."

"Só isso?"

"Bom, terá também a seu cargo a inspecção sanitária de tudo o que diz respeito à agropecuária do quartel, claro. No

fim de contas, temos de garantir a qualidade dos produtos que consumimos na messe, não se vá dar o caso de haver alimentos que não estejam em condições." Abriu as mãos e exibiu as palmas. "E é tudo."

"Não parece muito."

O capitão fez com o polegar um sinal para o exterior, por onde deslizavam agora as fachadas setecentistas do centro.

"Espera-o uma vida tranquila, vai ver."

O quartel era um paralelepípedo gigante de dois pisos que enchia um quarteirão inteiro mesmo diante da principal avenida da cidade. Apesar de se situarem em pleno centro, as instalações militares dispunham de amplo espaço em frente e num dos lados, o que se afigurava ideal para os exercícios e formaturas.

O capitão Branco conduziu o recém-chegado pelo edifício e levou-o ao gabinete do comandante da força militar ali insta­lada, o Regimento de Infantaria 6. Subiram ao primeiro andar, bateram à porta da antecâmara e uma voz mandou-os entrar. Sentado a uma secretária estava o oficial de operações, um alferes a quem Branco apresentou Luís.

"Bem-vindo!", saudou o alferes Boavida. "Já estava na altura de termos Veterinário, que diabo!"

"Não me diga que sou o único do quartel..."

"Ai digo, digo. O lugar vagou há dois meses."

"O que aconteceu ao anterior?"

"Era um miliciano, como o nosso alferes. Terminou o serviço militar e foi à sua vida."

Com alguma impaciência, Mário Branco indicou a porta do gabinete do comandante do regimento.

"Acha que podemos entrar?"

O oficial de operações esfregou as mãos num tique nervoso.

"Querem ver o coronel Silvério?"

"Sim", confirmou o capitão. "O nosso alferes veterinário apresenta-se hoje ao serviço e parece-me curdial que venha cumprimentar o nosso comandante."

"Pois é, mas o nosso coronel saiu para o almoço."

O capitão consultou o relógio e franziu o sobrolho. Eram já quatro e meia da tarde.

"Quando volta ele?"

"Não sei." O oficial de operações encolheu os ombros. "Já sabe como o nosso coronel é..."

Mário Branco sabia. Na sua experiência, se o comandante não tinha regressado até àquela hora, isso significava que já não regressaria nesse dia; o coronel era um pançudo de muito alimento e pouco trabalho, pelo que tal atraso significava provavelmente que estaria a digerir numa sesta o excesso de verde tinto que consumira à refeição.

"Como faz o nosso alferes para se apresentar ao serviço?"

O alferes Boavida encarou Luís.

"Tem aí os papéis?"

O recém-chegado tirou uns documentos do bolso do casaco e estendeu-os.

"Estão aqui."

"Deixe-os comigo", disse o oficial de operações, pegando neles. "O nosso coronel assinará amanhã."

Despediram-se ambos do alferes Boavida e saíram para o corredor. Quando a porta se fechou, o capitão fitou o rosto cansado de Luís.

"Oiça lá, não está com fome?"

Deram um salto à messe e encontraram-na fechada. Um cozinheiro ainda se ofereceu para fritar uma costeleta de Porco, mas o capitão Branco rejeitou a ideia e mandou chamarem-lhe a ordenança.

"Vamos ao Aires", anunciou enquanto aguardavam os dois à porta do quartel.

"É longe?"

O capitão apontou para a direita.

"É já ali", disse. "Está a ver aquele edifício?"

"Sim."

"Atrás dele encontra-se a Pensão Morais. O Aires fica em baixo."

Luís fitou o seu superior hierárquico, surpreendido.

"Mas então para que precisamos da ordenança?"

"Para lhe levar a mala."

"A mala? Não é melhor ela ser enviada para os meus aposentos?"

"Justamente. A Pensão Morais vai ser a sua morada nos próximos tempos."

A informação espantou-o ainda mais.

"Não vou instalar-me no quartel?"

"Claro que sim. Mas o seu quarto está ocupado e só ficará livre daqui a uma semana. No entretanto terá de se alojar na Pensão Morais."

Quando a ordenança apareceu, atravessaram a avenida em direcção ao Calvário e meteram pela Rua dos Combatentes da Grande Guerra. Passaram diante do Tribunal Judicial e entraram na pensão. Luís registou-se no balcão e a ordenança ajudou-o a levar a mala ao quarto.

Já instalado, o alferes veterinário desceu e o capitão conduziu-o ao Aires, o restaurante junto à pensão. Encontraram-no deserto, o que era natural considerando o adiantado da hora, e encostaram-se ao lado da janela. Consultaram a ementa, mas a empregada disse-lhes que já só havia o prato do dia.

"Venha daí a feijoada", exclamou Luís, que não comia nada desde essa manhã.

A empregada afastou-se, deixando-os a olharem um para o outro, meio sem jeito.

"O alferes é casado?", perguntou o capitão, mais para fazer conversa do que por curiosidade.

"Não. Nem tenciono."

A ênfase peremptória da resposta chocou o anfitrião.

"Não diga isso."

"A sério."

"Mas porquê? O que tem o nosso alferes contra o casamento?"

"Não tenho nada. Mas não quero casar."

O capitão analisou Luís com olhos perscrutadores.

"Cheira-me que anda por aí desgosto de amor..."

"Digamos que tenho os meus motivos", rematou o alferes veterinário. "E o meu capitão? É casado?"

A pergunta constituiu uma evidente tentativa para desviar a conversa, coisa que o superior hierárquico instantaneamente percebeu. No entanto, como homem sensível e bom diplomata, concluiu que não deveria insistir num assunto que Luís manifestamente evitava e aceitou a mudança de direcção implícita na pergunta do seu interlocutor.

"Sim, sou casado."

"Tem filhos?"

"Três."

"Caramba, isso já é uma ninhada!"

O capitão sorriu.

"É bom ser pai."

"São rapazes?"

"O mais velho é rapaz. As outras são meninas."

Prosseguiram a cavaqueira em tom morno, as palavras rolando ao ritmo mole da tarde. A feijoada apareceu requentada e servida com um arroz amarelado e seco, mas vinha

suculenta e rica. Meio entorpecido com o verde branco com que regou o prato, Luís foi dividindo a atenção entre a feijoada, que engolia com mal disfarçada glutonaria, o capitão, que o ia esclarecendo sobre os diversos aspectos da vida no quartel, e a janela, minúsculo ecrã tridimensional por onde lhe entravam as cores e os cheiros da cidade.

Lá fora a vida arrastava-se com indolência. Passava uma carroça, um boi sonolento largava uma bosta no empedrado, um camponês carregava um cesto repleto de uvas verde--esmeralda. A luz da tarde mudava imperceptivelmente com o adormecer gradual do sol, adquirindo hipnóticas tonalidades azuladas. Por vezes pela janela irrompia o clip-clap-clip-dap metálico dos cascos dos cavalos; pareciam batuques a injectar energia no ar, mas logo o mugir mandrião de uma vaca ou o farfalhar lento das árvores marcavam o compasso melódico da tarde preguiçosa.

Mais por gulodice do que por fome, Luís arrancou um naco de pão e passou-o pelo prato já vazio, empapando o miolo com o delicioso molho que restava. O seu interlocutor embrenhava-se numa exposição sobre as ligações de camioneta para o Porto; parecia que havia várias por dia nos dois sentidos e as viagens duravam umas duas horas. Enquanto ouvia o capitão discorrer sobre os horários dessas ligações, meteu o naco de pão na boca e olhou distraidamente pela janela.

Foi então que a viu.

O cabelo pareceu-lhe um pouco diferente, mais escuro, mas as linhas delicadas do rosto e aquele ligeiro ar a May McAvoy eram inconfundíveis. Sentiu um baque no peito e ficou petrificado.

"Então?", alarmou-se o capitão, vendo-lhe a fisionomia totalmente alterada. "Sente-se bem?"

Luís ergueu-se de rompante. Seria possível? Estaria com visões? Era mesmo ela? Precisava de tirar aquilo a limpo.

"Com licença!", exclamou. "Já venho!"

Saiu do lugar e deu um salto para a porta do restaurante. A rapariga já passara, mas o veterinário ficou um longo instante a vê-la de costas a afastar-se, o corpo a deslizar pelo passeio, o perfume a esvoaçar pelo caminho.

"Amélia."

 

Aquela imagem e aquele baque perseguiram-no o resto do dia. Vira-lhe o rosto fugazmente da janela do restaurante, sentira-lhe a fragrância, contemplara-a a afastar-se passeio fora. Parecera-lhe Amélia, mas não podia garantir com toda a segurança que fosse mesmo ela; é preciso não esquecer que já se tinham passado alguns anos. Dava-lhe a impressão de que o cabelo era ligeiramente mais escuro e notara algumas diferenças no corpo, em particular na forma como caminhava; o menear das ancas era algo diferente. Tirando isso, porém, iria jurar que se tratava mesmo dela.

Ficou sem saber o que fazer. Ansiando por uma confirmação, ainda pensou em interrogar o capitão sobre a identidade da moça; afinal estavam em terra pequena e todos se conheciam. Mas conteve-se. Não só o capitão Branco não a vira passar, como Luís achou que se arriscava a fazer figura de tonto. O que iria pensar dele o superior hierárquico? Que o seu veterinário queria conhecer a primeira rapariga com que se cruzara em Penafiel? Não, concluiu. Teria de descobrir por si mesmo. E discretamente.

Apesar da noite mal dormida, ou talvez por causa dela, com­pareceu manhã bem cedo no quartel. O capitão Mário Branco, que incrivelmente tinha sido ainda mais madrugador, recebeu-o com café e entreteve-o até à hora em que o comandante deu entrada no edifício, eram já quase nove da manhã.

Luís foi então levado ao gabinete do responsável pelo regimento e apresentou enfim os cumprimentos ao coronel Silvério.

"Você é que é o veterinário, hem?"

"Sim, meu comandante."

"Já não era sem tempo!", exclamou. "Tenho para cá muitos animais a precisarem de tratamento!"

Soltou uma gargalhada, muito satisfeito com o duplo sentido da sua tirada, e os dois subordinados sorriram por cortesia. A conversa limitou-se a palavras de circunstância, erráticas e vazias, tão fúteis que depressa o capitão o arrancou dali e o levou a conhecer os restantes oficiais.

Concluídas as apresentações, o capitão serviu de cicerone numa visita ao quartel, começando pelas camaratas e passan­do pelo paiol. Para último deixou os espaços onde Luís iria exercer mais directamente as suas funções. Foram ambos à enfermaria veterinária, onde o recém-chegado conheceu os enfermeiros hípicos que iria chefiar, e deram um salto à oficina de siderotécnica.

"Nunca percebi este nome", queixou-se Luís. "Siderotéc­nica."

"São os ferradores", explicou o capitão Branco.

O veterinário sorriu.

"Eu sei que são os ferradores. O que não percebo é por que razão chamam a isto oficina de siderotécnica e não oficina de ferragem!"

O superior hierárquico riu-se.

"Dá um ar mais modernaço, suponho eu."

A derradeira etapa foram os anexos, que visitaram já próximo do meio-dia. Ao saírem para o pátio, a primeira coisa que Luís notou foi o forte cheiro a estrume, um odor reminiscente da quinta da família, nos Cerejais. O fedor indiciava a presença de animais nas imediações, o que foi confirmado por um súbito relinchar.

"As cavalariças", anunciou Mário Branco ao chegar aos estábulos. "Está aqui o essencial do seu trabalho."

Luís aproximou-se e espreitou para o interior. Enormes vultos permaneciam plantados na sombra, rodeados de palha; eram os cavalos do regimento. O veterinário analisou-lhes o porte encorpado, quase gordo, e identificou a raça.

"São bolonheses." Mirou o capitão com uma expressão interrogativa. "Vocês montam estes cavalos?"

"Estes, não. Usamo-los para puxar a artilharia."

"Então quais são as montadas?"

O capitão indicou os estábulos ao lado.

"Estão ali."

Adiantaram-se uns metros e espreitaram para os estábulos vizinhos. Ao ver os animais ali recolhidos, Luís assentiu com a cabeça, numa expressão aprovadora; eram mais delgados que os anteriores.

"Célticos", constatou.

Entrou na cavalariça e acercou-se de um deles, um cavalo castanho e robusto. O animal remexeu-se, inquieto com a presença do desconhecido, e relinchou ruidosamente. O veterinário hesitou, nervoso; não estava muito familiarizado com aqueles equídeos. Em Trás-os-Montes lidara sobretudo com mulas e o que sabia sobre cavalos era o que aprendera em Lisboa pelos livros da Escola de Medicina Veterinária ou nos exercícios de equitação do Hospital Militar Veterinário Principal.

"E o pónei", disse o capitão, apoiando os cotovelos na cancela de acesso ao estábulo.

"O quê?"

"Essa égua está nervosa por causa do pónei."

"Qual pónei?"

O oficial indicou uma esquina da cavalariça.

"Aquele ali. É o filho dela. A Diana não gosta de ver estranhos a deambularem por aqui, por causa do pónei." Sorriu. "Sabe como é, coisas de mãe protectora."

O veterinário apercebeu-se de um vulto mais pequeno, entre a égua e o canto mais afastado do estábulo.

"Ah, estou a ver!""

Luís mostrava-se determinado a não dar parte de fraco. Procurando comportar-se como um entendido, encostou-se à égua e acariciou-lhe o topete. Depois murmurou-lhe palavras suaves ao ouvido.

"Linda menina, linda menina." As palavras saíam-lhe como sedativos, suaves e tranquilizadoras. "Pronto, está tudo bem. Linda menina."

Diana arfou e bateu com as patas traseiras no solo, mas, de­pois de novas carícias, pareceu ficar mais quieta. Vendo-a acalmar, Luís sorriu. Podia não estar muito familiarizado com cavalos, mas tinha um jeito muito especial para lidar com animais.

Conquistada a confiança da égua, levantou-lhe o lábio superior e analisou-lhe os incisivos.

"Então?", perguntou o capitão.

"Parece-me saudável."

Deslizou depois para o canto do estábulo e apreciou o pónei negro que a égua protegia. Era um cavalinho altivo e de olhar muito vivo, o corpo alto e a postura elegante.

"Belo animal, hem?"

Luís ficou a contemplá-lo, estranhando-lhe a raça. O corpo não conferia com as linhas da mãe; parecia-lhe ainda mais esbelto e ligeiro.

"É filho dela?"

"Sim."

"Mas não parece céltico."

"Tem toda a razão. O pai é o cavalo de um major que aqui esteve no ano passado. Um puro-sangue árabe."

De mãos à ilharga, o veterinário apreciou o pónei com outros olhos.

"É um bonito cavalo, sem dúvida", disse. "Acho que o vou treinar." Inclinou-se sobre o animal e acariciou-lhe o tronco, sentindo o pêlo sedoso deslizar-lhe pelos dedos. "Como se chama ele?"

"Ainda não tem nome."

"Não lhe parece que está na altura de ser baptizado?"

O capitão aproximou-se.

"Tem alguma coisa em mente?"

O pónei rinchou, como se percebesse que era ele o centro da conversa, e Luís pousou-lhe a mão no topete, tentando acalmá-lo.

"Relâmpago."

Apesar de o quartel estar equipado com uma messe, Luís improvisou uma desculpa relacionada com inspecções ao mercado, alegando que ia procurar os bovinos mais saudáveis para a cozinha do quartel, e passou a almoçar no Aires. Teve o cuidado de reservar a mesa junto à janela e dali ficou a vigiar a rua, atento a todos os transeuntes. Se ela passara uma vez por ali, raciocinou, decerto passaria de novo. Era uma questão de ser paciente e esperar.

Esperou um, dois, três dias. Como o quartel era quase ao lado, um major chegou a dar com ele por ali e lançou-lhe um gracejo, perguntando-lhe se era assim que inspeccionava o mercado.

Ao quarto dia, porém, a sorte sorriu-lhe. O almoço nessa ocasião era iscas com arroz de tomate, que depenicou sempre com os olhos pregados na janela, como se tornara seu costume. De repente, viu-a dobrar a esquina e meter-se pelo passeio, aproximando-se da porta do restaurante. Luís ergueu-se num salto e, o coração a bater com força, cravou nela os olhos intensos. Era a hora da verdade, o momento em que perceberia se ela era ou não Amélia.

A rapariga vinha com um vestido cor-de-rosa e transportava uma cesta de vime;dava a impressão de que ia à mercearia. A medida que se acercava, as suas feições foram-se tornando mais distintas. A expressão melancólica que lhe bailava nos olhos era indiscutivelmente de Amélia; o corpo, apesar do caminhar diferente, tinha as mesmas formas; até os lábios apresentavam a carnalidade sensual da antiga namorada.

Mas não.

Não era Amélia. Com decepção, mas também com um certo alívio, Luís constatou que se tratava de uma rapariga diferente. Apercebeu-se disso quando ela passou diante da janela, os olhos garços perdidos em pensamentos. O nariz era diferente, o cabelo também. Luís deixou-se cair na cadeira, quase ofegante. Não era Amélia.

A semelhança revelava-se espantosa, sem dúvida. Era tam­bém verdade que, desde a última vez que vira a namorada, julgava encontrá-la em cada rapariga que passava diante dele. Um sorriso, um olhar, por vezes um mero trejeito, qualquer coisa servia para a associar a Amélia. Era como se a visse por toda a parte. Mas desta vez, acreditava, havia algo de diferente e. Não era ele que tentava à viva força descortinar Amélia na primeira rapariga que lhe aparecia à frente; era aquela rapariga que possuía de facto inegáveis parecenças com Amélia.

A constatação de que não se tratava da antiga namorada deixou-o por instantes sem reacção. Se não era Amélia, o caso ficava arrumado. Mas, tal como a pequena traça que começa por corroer um canto da camisa e depressa faz o buraco alas­trar a todo o tecido, também a inquietação lhe nasceu num minúsculo ponto do espírito e logo se espalhou por todo o corpo. Era verdade que a rapariga não era Amélia, pensou, mas também era verdade que, mesmo tendo-a visto só de fugida, aquela semelhança fazia com que ela não lhe fosse indiferente. Podia ser pela beleza, podia ser pela graça, podia ser por todos os pormenores de parecença com a sua paixão do liceu. Sim, que fosse pela parecença! E então? Que mal havia nisso? O facto é que a rapariga o deixara perturbado.

Num movimento impetuoso, ergueu-se, largou uma nota na mesa e saiu do Aires quase a correr. Viu-a ainda a entrar no Tribunal Judicial e desaparecer para lá da porta. Sentiu uma necessidade absoluta de a ver de novo, de saber o que encontraria de Amélia naquela desconhecida. Foi por isso postar-se do outro lado da rua, vigiando a saída como um cão de guarda.

Ao fim de alguns minutos, porém, começou a sentir-se ridículo. O que pensariam as pessoas ao vê-lo ali plantado? Que comentários não se fariam na messe se algum camarada de armas deparasse com ele naquela pose? Diriam que o alferes veterinário estava a inspeccionar o gado que saía do tribunal?

Tirou uns documentos militares do bolso e pôs-se a consultá-los, fingindo-se absorvido em algo de grande relevância para as suas funções. Quem o visse diria que parara ali porque tinham acabado de lhe entregar coisas de incomensurável importância, talvez relatórios sanitários sobre os bovinos da região, quem sabe se não seriam notícias de uma grave epidemia animal?

A rapariga reapareceu dez minutos mais tarde. Retomou o caminho por onde tinha vindo, passando de novo diante da Pensão Morais e do Restaurante Aires, e dirigiu-se para a avenida principal. Luís enterrou o boné militar na cabeça, de modo a ocultar melhor os olhos, e seguiu-a à distância. Viu-a cruzar a Avenida Sacadura Cabral e meter por uma perpendicular, entrando no mercado municipal. O veterinário manteve-se no seu encalço; aquele sítio era perfeito para a vigiar.

Seguiu-a pelo mercado e fingiu inspeccionar as galinhas e os patos expostos nas bancadas, sempre com o cor-de-rosa do vestido dela presente no canto do olho. Topou-a de soslaio a comprar dois chouriços, uma broa e um pacote de maçãs, e de seguida esgueirar-se para a rua. Sem descolar, Luís observou-a a contornar a escola primária e a meter pela rua traseira do quartel. A meio da rua, ela encostou-se à direita e cruzou o portão do quintal de uma vivenda.

Parado na rua com os olhos a dançarem entre a vivenda e a fachada traseira do quartel, Luís não conteve um sorriso malicioso.

"Com que então somos vizinhos, hem?"

 

Durou apenas mais alguns dias a passagem de Luís pela tranquila Pensão Morais. A meio da semana seguinte, quando verificava a saúde de uma vaca jersey destinada ao refeitório, uma ordenança foi ter com ele e comunicou-lhe que o capitão Branco o chamara ao gabinete. O veterinário tirou a bata e subiu até à sala onde trabalhava o superior hierárquico. O capitão recebeu-o com um cabo, que disse pertencer ao serviço de alojamentos do quartel.

"Tenho uma boa notícia para lhe dar, meu alferes", anunciou o cabo. "O seu quarto já está disponível."

"Aleluia!"

O alferes estendeu-lhe um objecto metálico.

"Tem aqui a chave."

Luís avaliou o objecto. Era comprido e pesado, feito de ferro já meio enferrujado.

"Caramba, mas o que é isto?", exclamou. "A chave do castelo de Guimarães?"

Despediram-se do capitão Branco e, com o cabo a mostrar o caminho, subiram a escadaria interna e percorreram os corredores do quartel até chegarem ao quarto que tinha sido destinado ao veterinário. Ao abrir a porta, Luís deparou-se com um compartimento pequeno, banhado pela luz que jorrava de uma janela larga. Espreitou lá para fora e viu em baixo a escola primária e o mercado.

"Oiça", disse, torcendo o nariz. "Não tem nenhum quarto virado a norte?"

O homem do serviço de alojamentos pareceu desconcertado com a pergunta.

"A norte? Mas isso são as traseiras, meu alferes."

"Pois sim."

"Mas o meu alferes quer ir para um quarto das traseiras?"

"Qual é o mal? Há pulgas e carraças, porventura?"

"Que eu saiba, não."

"Então?"

"É só que... que..."

"Não me diga que não tem lá nada para mim..."

O cabo coçou a cabeça.

"Ter, ter, até tenho. O meu alferes faz mesmo questão de ir para as traseiras?"

"Absolutamente! É crucial para o meu trabalho! Já estive a ver a estrutura arquitectónica do quartel e parece-me que ali posso ter uma vista mais vantajosa sobre os estábulos."

O funcionário do serviço de alojamentos respirou fundo, vencido por tão inopinado argumento.

"Bem, se assim é..." Com a mão convidou Luís a sair, trancou a porta e meteu pelo corredor. "Venha comigo, meu alferes. Tenho ali um quartito que pode ser disponibilizado." Contraiu os lábios. "Não sei é se será do seu agrado."

"Será, será, fique descansado."

Chegaram ao corredor do fundo e viraram à esquerda. Fazia escuro por ali, os candeeiros estavam apagados e os pontos de luz natural não chegavam para iluminar o caminho. Andaram alguns metros e o cabo abriu uma porta à direita.

"É aqui."

O quarto era ainda mais pequeno que o anterior e tinha caixotes empilhados uns sobre os outros.

"Mas isto não está habitável", constatou Luís tentando desbravar caminho entre os caixotes.

"A noite estará, meu alferes. É uma questão de limpar tudo isto e trazer para aqui a mobília do outro quarto. Faz-se esta tarde, não há problema."

O veterinário inclinou-se para a janela e espreitou lá para fora. Do outro lado da rua, mesmo em frente ao quarto, estava a vivenda onde a rapariga havia entrado na semana anterior. Luís virou-se para o cabo e, abrindo os braços para abarcar o pequeno quarto, sorriu.

"É perfeito."

Desde que se mudou para o seu novo quarto, nas traseiras do quartel, Luís passou a ir amiúde à janela bisbilhotar o movimento na vivenda. Tratava-se de uma casa branca de dois andares, com um grande quintal de ambos os lados num terreno que findava num V muito estreito. Viam-se árvores de frutos, uma horta e até vinhas, no lado mais afastado, o que terminava em V. No outro, o que estava situado mesmo diante da janela do quarto do alferes veterinário, encontrava--se um pátio com baloiços, um banco de madeira, uma peque­na fonte e canteiros espalhados por toda a parte.

O movimento na vivenda era frequente e Luís habituou-se a ver a rapariga cirandar pelo quintal. Por vezes ajudava as criadas a porem a roupa a secar ou ia colher uns frutos ao limoeiro. Recebia ocasionalmente uma visita, mas a maior parte do tempo limitava-se a permanecer sentada no baloiço a cantarolar ou no banco de madeira a ler. Saía todos os princípios de tarde à rua, sempre com a sua cesta debaixo do braço, para voltar cerca de uma hora depois.

"Quem é que mora na vivenda aqui ao lado?", perguntou Luís ao alferes do serviço de alojamento, na primeira oportunidade que teve para abordar o assunto.

"Qual vivenda? Aquela do grande quintal?"

"Sim."

"O juiz Brandão."

"Quem é esse?"

O alferes arregalou os olhos.

"Ui! Homem severo." Sacudiu a mão direita. "Quando se põe a botar sentença ali no Calvário, é um ver se t'avias..."

Era então filha de um juiz!, concluiu com admiração. Vendo bem, fazia sentido. Isso explicava que a tivesse visto a passar diante do Aires a caminho do Tribunal Judicial, no Calvário; ia ver o pai, talvez mesmo levar-lhe alguma coisa para comer.

Luís ainda ponderou a possibilidade de interrogar o capitão Branco sobre o assunto, mas reconsiderou. Ia-lhe perguntar o quê? Como se chamava a filha do juiz? Que triste figura faria... O seu superior hierárquico, embora homem afável e disponível, parecia-lhe pessoa rigorosa e não se lhe afigurava alguém que desse confiança a esse tipo de conversa. Além do mais, vivia agora numa terra cujos costumes desconhecia; se Penafiel fosse como Bragança, e provavelmente era, a prudência seria o mais aconselhável em tais circunstâncias.

O melhor, concluiu com a avisada sensatez de quem está familiarizado com os rigores da província, era descobrir por ele mesmo.

O livro tinha já as páginas amareladas e a capa riscada, mas pouco importava; para os efeitos que trazia em mente, até lhe parecia melhor assim. Folheou uma derradeira vez O Crime do Padre Amaro e decidiu-se a levantá-lo.

"Vai ser mesmo este."

Saiu da biblioteca do quartel com o romance na mão e levou-o para o quarto. Tirou o casaco e empoleirou-se na janela a folhear o livro, mas com os olhos presos na vivenda branca. A custa de horas a estudar as rotinas da rapariga da vivenda, sabia que era pelo final do almoço que ela habitualmente saía de casa para levar a merenda do pai ao Tribunal Judicial.

Pouco passava das duas da tarde quando a vizinha emergiu da casa, desta feita com um vestido lilás, e cruzou o portão para iniciar o seu passeio habitual. Apercebendo-se de que chegara o momento de pôr o seu plano em marcha, Luís pegou no livro, estendeu-o para fora da janela e deixou-o cair.

O volume tombou com espalhafato na rua, lá em baixo, atraindo a atenção da rapariga. Ela fitou o livro com surpresa e olhou para cima, tentando perceber de onde caíra.

"Olá!", cumprimentou-a Luís, abrindo um sorriso embaraçado logo que foi avistado. "Será que me pode ajudar?"

"E seu?", perguntou ela, apontando para o livro escarrapachado na rua.

"Estava a ler e... caiu-me. Sou mesmo desastrado."

"Quer que o apanhe?"

"Se fizer o favor."

A rapariga pousou o cesto no passeio, olhou para os dois lados da rua e foi apanhar o volume. Com o livro na mão, ergueu os olhos para Luís, que permanecia à janela.

"E agora? O que faço?"

Luís ergueu a palma da mão, pedindo-lhe que aguardasse.

"Espere um pouco, não saia daí. Já vou ter consigo."

Antes que ela pudesse dizer alguma coisa, o alferes veterinário sumiu-se da janela.

Enquanto esperava, a rapariga encostou-se a uma árvore, no passeio, e pôs-se a estudar o romance. Foi nessa pose que Luís deu com ela quando apareceu na rua. Vinha janota na sua farda militar e sorriu ao aproximar-se da vizinha.

"Peço imensa desculpa pelo incómodo", começou por dizer. "Estava à janela a ler e o livro caiu-me."

A rapariga estendeu-lhe o volume e Luís olhou-a nos olhos. Era realmente parecida com Amélia, confirmou. Vendo-a assim de perto, a uns meros dois palmos de distância, reparou que as diferenças entre ela e a antiga namorada eram marcadas, mas afigurava-se-lhe inegável que partilhavam as duas o mesmo género de beleza.

"Está a gostar?", perguntou ela.

"De quê? De a conhecer?"

A rapariga enrubesceu e riu-se.

"Não, do livro."

"Ah, sim. É muito bom." Olhou de relance para o romance que ela lhe devolvera. "Já alguma vez leu O Crime do Padre Amaro}'''

"Claro. Quem não leu?"

"Era um maroto este Amaro, hem?"

Ela voltou a rir-se.

"Maroto é pouco."

Luís estendeu-lhe a mão.

"Eu chamo-me Amaro. Como está?"

"A sério? Chama-se mesmo Amaro?"

Ele piscou-lhe o olho.

"Não, sou eu a brincar. O meu nome é Luís." Indicou com o polegar a fachada traseira do quartel, do outro lado da rua. "Sou alferes veterinário aqui no regimento."

"Olá, eu sou a Joana."

"Joaninha dos olhos verdes, verdes?"

"Oh, não brinque."

"Desculpe, não resisti. Vive por aqui?"

Joana apontou para a vivenda branca.

"Ali mesmo."

"Ah, que engraçado! Somos vizinhos e nunca a vi!"

"Tem piada que eu também nunca o vi a si. O senhor é de cá?"

"Não", disse ele. "Vim de Lisboa. Cheguei há algumas semanas."

A rapariga assentiu com a cabeça.

"Então seja bem-vindo a Penafiel", disse, estendendo-lhe a mão. "Tive muito gosto em conhecê-lo. Boa tarde."

"Oh! Já se vai embora?"

Joana pegou na cesta, que estava pousada junto à árvore, e começou a caminhar.

"Tenho de ir." Acenou-lhe. "Adeus!"

 

O contacto estava estabelecido. Como um predador furtivo que ronda a presa inocente, sabia que só lhe restava fechar o cerco e desferir o ataque final.

Já tinha jogado aquele jogo inúmeras vezes em Lisboa, mas agora ele era um tudo-nada mais excitante, não só porque a sedução decorria numa terra de província, onde o contacto com o belo sexo se revelava mais difícil, e consequentemente mais apetecível e apimentado, como porque, de entre todas as raparigas que conhecera desde que saíra de Bragança, Joana era de longe a mais interessante, sem dúvida porque, devido à semelhança física, trazia com ela o perfume da memória de Amélia.

Não largou a janela do quarto nos dias que se seguiram. Quando a rapariga apareceu no quintal pela primeira vez depois do encontro, reparou de esguelha que ela lhe atirou um olhar furtivo logo que saiu de casa. Luís fingiu-se embrenhado na leitura e comportou-se como se não se tivesse dado conta da sua presença.

Mas, no dia seguinte, no preciso momento em que Joana assomou ao portão para sair à rua, largou o romance e lançou-lhe um adeus e um sorriso.

"Olá! Está tudo bem?"

A rapariga correspondeu com uma saudação calorosa.

"Bom dia! Ainda a ler o padre Amaro?"

"Muito interessante", disse ele, acenando com o livro. "Este Amaro é do arco-da-velha! Já não se fazem padres assim!"

Riram-se os dois e ela abanou a mão em despedida, inician­do o percurso do seu passeio do costume.

"Já não escapas", murmurou Luís, vendo-a tão consciente da sua presença. "És minha."

Assim continuaram por vários dias, trocando acenos e sorrisos à distância. O galanteador da janela foi alimentando desse modo aquela sedução platónica, quase à maneira das novelas, enleando a rapariga com uma subtileza feita de experiência, como um caçador batido a aguardar o momento decisivo. Avaliando dia a dia o modo como ela reagia à sua presença já habitual na janela, ultimou meticulosamente a táctica e marcou a estocada final para meio da semana seguinte.

Era uma quarta-feira soalheira e fria, um daqueles dias em que a brisa desce pelo vale do Sousa e congela a cidade. O capitão Branco tinha-se ausentado para Lisboa, onde ficaria um mês a exercer funções na Escola do Exército, deixando o veterinário mais à vontade com os seus projectos amorosos.

Logo que Joana apareceu no quintal, Luís fez-lhe sinal de que se preparasse e lançou para o vazio um objecto pontiagu­do branco. A rapariga ficou surpreendida primeiro e intrigada depois, os olhos presos naquela forma aguçada que zigueziava pelo ar, como uma folha seca, e que acabou por se estatelar na rua, mesmo diante da vivenda.

Após lançar uma mirada interrogativa para a janela de onde o militar a espreitava, saiu à rua e recolheu o objecto. Era um aviãozinho de papel. Voltou a olhar para Luís, que com um gesto lhe indicou que teria de desdobrar o avião. Joana obedeceu e deparou-se com uma mensagem inesperada.

Mil anos de tormento me parece Cada hora que sem ti e sem esperança Vivo de poder mais tornar a ver-te. Sustenta-me esta vida tua lembrança; A vida sobre tudo me entristece; A vida antes perdera, que perder-te.

Joana leu o poema três vezes; leu-o consecutivamente, acabava uma vez e voltava ao princípio. Depois de tudo ler e de se certificar de que os versos diziam o que ela pensava que diziam, ergueu os olhos brilhantes para a janela e encostou a folha ao peito, como se o gesto fosse outro poema, como se aquelas palavras lhe tivessem cantado ao coração.

Inclinado sobre a janela, Luís lançou-lhe um beijo. Afo­gueada de emoções, ela corou, baixou a cabeça e correu para casa. Vendo-a desaparecer tão precipitadamente, o alferes veterinário sorriu, fechou a janela e pousou a mão no velho livro de receitas amorosas que o acompanhava desde aquele Natal nos Cerejais, o título Lírica e o nome Camões estampa­dos a ouro na capa.

"Ah, grande zarolho!", exclamou. "Nunca falhas!"

Já em Lisboa tinha Luís afogado em mulheres o seu desgosto de amor e por várias vezes perguntou a si mesmo se não estaria agora a fazer a mesma coisa. Precisava de ultrapassar o trauma da separação de Amélia e era sempre à custa de outras que o conseguia. Sabia, contudo, que as suas namoradas não passavam de respostas transitórias. Cada uma servia para lhe alimentar a efémera ilusão de que vencia o desgosto, mas depressa o sentimento de perda regressava, como uma ferida mal sarada, e era esse o sinal de que tinha de mudar para outra. Estaria Joana destinada a ser mais uma na sua infindável lista?

Procurou a solução nos intervalos das suas obrigações de veterinário do regimento, quando se esgueirava do quartel e ia ter com a nova amiga. Aproveitava as saídas diárias de Joana para a acompanhar no passeio, que se foi tornando gradualmente mais longo e apimentado. Luís relatou-lhe a sua vida em Lisboa e as aventuras na faculdade, mas teve sempre o cuidado de omitir a infância em Trás-os-Montes; queria dar a impressão de homem da cidade, vivido e conhecedor das coisas do mundo, e achava que as suas raízes transmontanas não se coadunavam com essa imagem de sofisticação urbana.

O curioso é que também Joana se revelou reservada, embora neste caso tal derivasse da sua natureza.

"Sou órfã", revelou ela quando um dia o passeio os levou até ao recatado jardim da Praça da República. "A minha mãe morreu há dois anos."

"Ah, coitada", exclamou Luís, apercebendo-se de que a ferida era relativamente recente. "És agora tu quem trata do teu pai?"

"O meu pai morreu quando eu era pequenina."

"Mas, então, e o juiz?"

"É o meu padrinho. Ficou viúvo há uns anos e a minha mãe mandou-me para cá viver com ele."

"Porquê?"

"Porque ele não sabia cuidar dele mesmo, coitado. E por­que um dos desejos da minha mãe era que eu frequentasse aqui o Colégio do Sagrado Coração de Maria."

"O que tem o colégio de especial?"

"É um colégio de freiras francesas", disse, como se isso explicasse tudo. "Foi aqui que ela estudou quando era nova e tinha a mania de que não havia escola melhor." Baixou a voz, quase num aparte. "Eu cá acho que a viuvez do meu padrinho serviu de pretexto conveniente. Como ele vive aqui e o colégio é também em Penafiel, a minha mãe aproveitou e mandou-me para cá."

Havia em Joana algo que tocava fundo no transmontano. Luís apercebeu-se de que a rapariga tinha um encanto melancólico que lhe era estranhamente familiar, uma espécie de reminiscência de Amélia, como se o espírito de uma vivesse na outra. Aos seus olhos, Joana tornara-se, de certo modo, Amélia. A parecença física e alguns trejeitos davam-lhe a ilusão de que se tratava da mesma pessoa, uma impressão tão forte que a mente logo tratou de sublimar as diferenças registadas pelos olhos, como se a vontade de recuperar Amélia fosse mais poderosa do que a razão. Chegava a pensar que eram coisas da Providência; a paixão do liceu fora-lhe roubada, mas o destino compensava-o com uma segunda oportunidade. Amélia era-lhe devolvida com outro nome.

As coisas entre ambos só voltaram a evoluir ao fim de um mês, quando um dos passeios diários os levou para os lados dos Paços do Concelho. Os périplos da rapariga até ao tribunal tinham-se tornado cada vez mais variados, levando-os a outros pontos da pequena cidade; parecia a Luís que eram uma nova versão dos inesquecíveis passeios com Amélia até ao liceu de Bragança, só que numa outra terra e com um itinerário em permanente mutação.

Numa tarde invernosa ia ele garboso no seu sobretudo militar quando Joana o guiou até uma pequena rua que se abria à esquerda e descia íngreme, quase como se deslizasse para um poço. Uma pequena placa anunciava que estavam na Rua Direita.

"Anda daí", disse ela, encolhida num longo casaco azul--escuro. "Vou mostrar-te uma coisa."

"O quê?"

"O sítio mais romântico de Penafiel."

Descer o empedrado inclinado da rua requeria algum esforço de equilíbrio, pelo que o alferes veterinário teve de agarrar a mão da rapariga para a ajudar a caminhar. A pretexto de que estava frio, ela aconchegou-se em busca de calor, e desceram assim até diante de uma igreja de traça renascentista.

"Esta é a Igreja Matriz", revelou ela, os olhos garços a deslizarem pela fachada de pedra antiga. "Não é romântica?"

A igreja parecia inclinar-se na rua, tentando também ela manter o equilíbrio na artéria oblíqua, uma parte da fachada mais profunda do que a outra. O edifício tinha um óculo no topo e duas colunas jónicas a enquadrarem a porta.

"Bem... é bonita", concordou Luís, um pouco desconcertado. Para local romântico, esperava outra coisa. "Confesso-te que já vi por aqui sítios mais românticos. Olha, o jardim ao pé do tribunal, por exemplo. Parece-me um..."

Ela tapou-lhe a mão com a boca e voltou a olhar para a igreja.

"Os meus pais casaram aqui."

Considerando que se tratava de uma órfã, era evidente que o local onde os pais se haviam casado tinha para ela um intenso valor simbólico, quase mítico.

Cruzaram a entrada e Joana mostrou-lhe o altar.

"É lindo, não é?"

Era um grande altar rocaille, mas Luís sentia-se mais preocupado com o desconforto do que com a sua harmonia. Fazia muito frio dentro da igreja e no ar pairava o odor beato a hóstias e velas queimadas. Joana parecia porém alheia a isso, a atenção focada no altar, como se recuasse até ao dia do casamento dos pais.

A rapariga virou devagar o rosto para Luís e os seus olhos meigos pestanejaram, pareciam borboletas trémulas. Os dois aconchegavam-se ainda um no outro, as faces quase a tocarem-se, o perfume de Amélia a flutuar nos cabelos de Joana. Inebriado, Luís não conseguiu resistir. Inclinou a cabeça, cerrou as pálpebras e com os lábios mergulhou na boca quente.

O namoro foi vivido às escondidas. Encontravam-se na esquina do quartel e iam beijar-se num canto escondido do discreto jardim da Praça da República, atrás do Palacete do Barão do Calvário, onde funcionava o Tribunal Judicial, o vale verdejante espraiando-se para além do muro.

Ao contrário do que sucedera com os múltiplos casos amorosos em Lisboa, desta vez a ilusão de que a namorada era Amélia não se desfez com o tempo. Pelo contrário, foi-se consolidando. Isso constituiu uma surpresa para o veterinário, que se habituara já a ver a magia do enamoramento desfazer-se ao cabo de algumas semanas, quando as semelhanças das sucessivas raparigas com Amélia esbarravam na constatação de que nenhuma era como a primeira.

Com Joana foi diferente. A medida que o tempo passava, mais se acentuava a ilusão de que ela era Amélia. As parecenças entre as duas revelavam-se óbvias e Luís não as questionava; limitava-se a viver na felicidade do momento, como se Joana fosse realmente Amélia e estivesse diante do amor reencontrado. Na sua mente, as duas misturavam-se numa única e era sempre a antiga namorada que via quando se encontrava com a nova, de tal modo que por várias vezes quase chamou Amélia a Joana.

A semelhança entre ambas fez crescer em Luís aquela convicção de que lhe tinha sido mesmo dada uma segunda oportunidade. Cabia-lhe a ele decidir entre aproveitá-la e esbanjá-la. Começou a recear que circunstâncias que não controlava lhe roubassem Joana da mesma maneira que Amélia lhe havia sido tirada. A incerteza tornou-o ansioso. Estava convencido de que não dispunha de muito tempo para agir e foi na noite da passagem do ano, quando celebrou no quartel a entrada em 1936, que tomou a decisão.

Joana tinha ido celebrar a noite do Ano Novo a casa dos irmãos, que também viviam em Penafiel, e, como 1 de Janeiro era feriado, não tiveram maneira de se encontrar. Mas no dia seguinte, depois de trocarem sinais entre o quintal dela e a janela dele, cruzaram-se na esquina do quartel, como habitualmente, e seguiram em direcção à Praça da República, o seu poiso secreto.

"O que levas aí?", perguntou ela, indicando um cesto na mão do namorado.

Luís ajeitou o pano que cobria o cesto e manteve-o longe de Joana.

"Uma coisa especial", disse. "É surpresa."

Quando chegaram ao banco do jardim para onde iam sempre, o alferes veterinário pousou o cesto no chão e encarou-a.

"Vá, vira-te para o outro lado e tapa os olhos."

Joana fixou o cesto, como se tentasse ver para além do pano que o cobria.

"Mas o que é isso?"

"Já vais ver", insistiu ele. "Faz o que te digo: vira a cara e tapa os olhos. Anda."

Como uma criança irrequieta, Joana voltou relutantemente o rosto para o tribunal e pôs as mãos sobre os olhos. Ouviu um refolhar surdo atrás dela e suspirou com impaciência.

"Já posso?"

"Espera mais um bocadinho."

O barulho continuou e por duas vezes ela esteve à beira de não conseguir suster a impaciência e quase se virou. Mas conteve-se e esperou pela ordem do namorado.

"Já podes."

Voltou-se e viu uma toalha estendida no banco, sobre a qual se encontrava uma garrafa de vinho do Porto, dois cálices e um pratinho com várias fatias douradas de pão-de-ló.

"O que é isto?"

Luís estendeu-lhe um cálice e uma fatia do bolo.

"Entrámos em 1936 e vamos celebrar, minha querida, porque este ano vai ser muito especial." Tocou com o seu cálice no cálice dela. "Feliz ano novo!"

Beberam o vinho do Porto de uma assentada e Joana quase ficou sem fôlego. Para compensar o ardor alcoólico que lhe queimava a garganta, engoliu duas fatias de pão-de-ló e soltou uma gargalhada.

"Não sabia que davas tanta importância à passagem do ano."

"Na verdade, não estamos a celebrar apenas a entrada no novo ano."

"Ai não?"

Luís tirou um embrulho do bolso do casaco e estendeu-o à namorada. Joana pegou no pequeno presente e estudou-o com admiração.

"O que é?"

"Abre."

Com os dedos ágeis, a rapariga desfez o papel de embrulho até ficar com uma caixinha minúscula na palma da mão. Abriu a caixinha e o cintilar de uma pedra preciosa quase a ofuscou. Olhou interrogativamente para Luís, que com infinita delicadeza pegou no anel, o fez deslizar num dos dedos dela e lhe devolveu o olhar.

"Casas comigo, Joana?"

 

Os portões das cavalariças estavam entreabertos quando o capitão Branco se aproximou, o cachimbo espetado na boca, as botas salpicadas de lama. O veterinário encontrava-se ajoelhado sobre a palha e analisava as patas de Relâmpago; cheirava a cavalo e a estrume na estrebaria, mas o fedor não parecia incomodá-lo. O recém-chegado apoiou os cotovelos nos portões e tossiu muito alto, mais para sinalizar a sua presença do que a pedido dos pulmões.

"Meu capitão", admirou-se Luís, virando o rosto logo que ouviu a tosse. "Já voltou?"

"Não, ainda lá estou", disse com ironia. "Claro que voltei."

O veterinário ergueu-se e contorceu o tronco, para aliviar a dor provocada pela posição em que tratava dos animais.

"E como anda Lisboa?"

"Na mesma. O Norte trabalha e Lisboa diverte-se, como de costume."

"E o meu capitão? Divertiu-se?"

"Trabalhei."

"Mau. Não me diga que nem foi ao Parque Mayer..."

O capitão riu-se.

"Sou trabalhador, mas não sou parvo. Claro que fui ao Parque Mayer, então não havia de ir?"

"E então? Qual é a grande sensação do momento?"

"É o Arre, Burro! Mete as estrelas todas no Variedades, parece uma constelação! A Beatriz Costa, a Hermínia Silva, o António Silva e o Vasco Santana... está lá tudo!"

"Ena, é mesmo um elenco de luxo. De quem gostou mais?"

"De todos. De todos." Hesitou. "Bem, a grande figura continua a ser a Beatriz Costa, não é verdade? Que grande artista!"

"É, não é? Ela faz de quê agora?"

"De saloia, mas muito refilona, está a ver o género? Só lhe digo, é um estrondo!"

"Essa miúda é muito talentosa. Tem Lisboa aos pés."

Mário Branco soltou uma baforada aromática.

"E ela com Lisboa e você com Penafiel."

A observação surpreendeu Luís.

"Eu, meu capitão?"

"Sim, você. Bastou eu dar um salto a Lisboa e o alferes pôs-se logo a fazer das suas, hem?"

"Como diz, meu capitão?"

O oficial apontou-lhe o cachimbo fumegante.

"Então você não vai casar, homem?"

"O meu capitão já sabe?"

"Eu sei tudo. O meu dever é saber. A única coisa que ainda não sei é quando é que vossa excelência planeava dar-me a novidade. Ou ia casar sem dizer nada a ninguém?"

"Mas eu não lhe podia dar a notícia, meu capitão. O meu capitão não estava cá."

"Eu sei, mas... caramba, você é mesmo rápido. Mal virei costas, arranjou noiva e... pimba!, já vai dar o nó na próxima semana! Parabéns, homem! A Joana é uma rapariga e peras, hem?"

"O meu capitão conhece-a?"

"À Joana? Claro que conheço! Aliás, tenho obrigação, não é verdade? Afinal é minha cunhada."

"A sério?"

"É verdade, homem. Penafiel é terra pequena, o que pensa você? Aqui todos se conhecem e todos têm relação com todos."

O veterinário coçou a cabeça.

"Pois, estou a ver."

O capitão abriu os braços, efusivo.

"Venham daí esses o'ssos." Puxou o alferes veterinário para si. "Vamos ser da mesma família, que diabo!"

Luís caiu algo desconcertado nos braços de Mário Branco, ainda apanhado de surpresa pela inesperada relação familiar entre o capitão e a namorada. Ainda bem que nunca inquirira sobre Joana junto do superior hierárquico, pensou com alívio. Poderia ter sido embaraçoso.

"Você tem de ir lá a casa", disse o capitão quando se apartaram. "Isto é uma vergonha, a Joana vai casar e ninguém sabe com quem. A família tem de o conhecer."

"Estou às suas ordens."

"O casamento é de amanhã a oito, não é verdade?"

"Sim, é no sábado da próxima semana."

"Eu gostava de o levar este fim-de-semana, mas uma das minhas pequenas está engripada, não pode ser. Temos de lhe dar uns dias para se restabelecer. Que tal quarta-feira?"

"Quarta não posso, meu capitão. Vou passar o dia na feira de Amarante. Devo chegar tarde e a cheirar a gado."

"Não pode adiar isso?"

"Adiar a feira?"

O capitão reconsiderou.

"Tem razão, não pode ser", disse, fazendo um esforço para reconstituir mentalmente a sua agenda. "Quinta-feira não posso eu, já tenho um jantar com o doutor Reis. Só se for na sexta."

"Mas isso é a véspera do casamento, meu capitão."

"Pois é, mas não vejo alternativas. Ou tem melhor sugestão?"

"Não, não tenho."

"Então fica combinado. Jantar na sexta-feira em minha casa."

"Devo levar a Joana?"

O capitão assumiu uma expressão indignada e pôs as mãos à ilharga.

"O homem, você quer atrair azar à sua casa?" Ergueu o indicador, sentencioso. "Na véspera do casamento, nem pensar em pôr os olhos na moça, ouviu? Dá má sorte! Você vai sozinho e a minha patroa prepara-lhe um repasto de que nunca mais se esquecerá!"

Luís riu-se e voltou para junto de Relâmpago.

"Sempre quero ver isso."

Primeiro esticou o braço para fora e com a mão sentiu a temperatura; depois dona Maria desceu os degraus da composição e esperou que o cavalheiro atrás dela lhe trouxesse a mala. O homem tremia com o esforço, mas lá conseguiu pousar o malão no cais e, com um rápido movimento do chapéu, despediu-se da senhora que em má hora lhe pedira ajuda para tirar a bagagem.

Quando Luís chegou ao pé da tia e a cumprimentou, ela respondeu com um sorriso luminoso.

"Belo tempo aqui em Penafiel, hem?", observou, vendo o sol espreitar por entre os flocos de nuvens. "Quando saí de Alfândega à pela manhã estava uma bufarra que só visto. Até marcejava um bocadinho."

"Pois, o tempo aqui é mais ameno, sempre estamos mais perto da costa", concordou ele. Inclinou-se para a mala pousada ao lado da tia. "Dá-me licença?"

"Tem cuidado que trago aí umas porcelanas para oferecer à noiva. Vê lá se as arruinas."

Luís agarrou o malão e teve dificuldades em erguê-lo, de tão pesado que estava.

"Argh", gemeu, o rosto ruborescendo como um pimentão, o corpo a inclinar-se para o outro lado numa tentativa de contra­balançar aquele peso. "'Chiça, o que trás aqui? Chumbo?"

"São as minhas coisinhas", devolveu a tia Maria com indiferença. Era daquelas mulheres que achavam que os homens tinham sido feitos para carregar as tralhas das senhoras. "Onde vamos?"

"Ali!", apontou ele, indicando um automóvel estacionado ao pé da estação.

A tia observou a viatura e ergueu o sobrolho, intrigada.

"Olha lá, Luís. Tu agora tens uma carripana?"

O sobrinho bufava como uma máquina a vapor, esforçan-do-se por carregar a bagagem até ao automóvel.

"Não é minha", conseguiu dizer por entre duas arfadas valentes. "É do exército."

"Ai Jesus! Não me digas que traz uns canhões lá dentro!"

"Não tia." Mais um esforço. "É uma viatura de serviço." Estava quase a chegar. "Venha."

O malão era realmente pesado, mas o oficial miliciano lá conseguiu arrastá-lo até junto do automóvel e, depois de mais um esforço titânico, atirou-o para a bagageira.

"Ufa!", soprou, aliviado, o coração aos saltos e o peito ofegante. "A tia dá cabo de mim!"

"Não vejo porquê. O caseiro carregou-me a mala até à estação sem dificuldade nenhuma."

"Mas eu não sou o caseiro." Indicou o malão. "Para que trouxe tanta coisa? A tia só cá vai ficar três dias..."

"Não interessa. Uma senhora tem de andar sempre apresentável, sobretudo numa ocasião destas. O que iriam dizer os teus sogros se me vissem toda escanzelada? Lá vem esta pingúrria, é o que diriam! Lá vem a tia da parvónia! Ainda me chamavam benairo!" Abanou a cabeça com ênfase. "Não, nessas figuras não me apanham! Vou aparecer toda pimpona e fazer um vistaço, vais ver!"

Luís ajudou a tia Maria a instalar-se no automóvel e assumiu o lugar do condutor.

"Ninguém se preocupa com os trapos."

"A certa!", exclamou ela. "Os teus sogros haveriam de comentar, o que pensas tu?"

"Eu não vou ter sogros, tia", disse ele, ligando o motor. "A Joana é órfã."

"Lamento ouvir isso. Mas há-de ter família, não é ver­dade?"

"Com certeza. Tem dois irmãos e tem o padrinho, com quem vive há alguns anos."

"Gente distinta, sem dúvida."

O carro arrancou, subindo a estrada em direcção à cidade.

"Suponho que sim. O padrinho é juiz."

"Ah, então ainda é menina para receber uma herdança jeitosa! E os irmãos?"

"Vamos conhecê-los hoje. Fomos convidados para jantar em casa do capitão Branco, que é o meu chefe no quartel. Ele prometeu-me um repasto opíparo."

"Acho bem. Eu até nem sou gulaimas, como bem sabes, mas venho com uma galgueira que só visto."

Deixou a tia Maria na Pensão Morais e, enquanto ela descansava e se preparava para o jantar, deu um salto à lavandaria do quartel para ir buscar a farda de gala que o capitão Branco lhe emprestara para o casamento. A farda vinha aprumadinha e guardou-a no quarto, onde essa noite dormiria pela última vez. O compartimento estava já quase nu; havia apenas uma mala de roupa pousada sobre a cama. Pegou na mala e voltou a sair; tinha ainda uns pormenores para tratar.

Foi até à Praça Municipal e estacionou junto ao Café da Sociedade. Levou a mala pela Avenida Sacadura Cabral e meteu num edifício à esquerda, onde subiu até ao primeiro andar. Cruzou a porta e assomou ao apartamento que havia alugado; seria ali que iria viver com Joana. O apartamento já se encontrava parcialmente mobilado e Luís abriu a mala e guardou as roupas nas gavetas e no guarda-fatos.

Depois desceu até ao Café da Sociedade e entrou para encomendar umas doçuras. Decidiu-se pela especialidade da terra.

"Um pão-de-ló, se faz favor."

Com o embrulho na mão, atravessou a praça a pé e foi até à Foto Anthony, numa ruela diante do Colégio do Carmo, encomendar o serviço de um fotógrafo para a cerimónia.

"O senhor capitão Branco já veio falar comigo", revelou--lhe o senhor António Guimarães, dono do estabelecimento. "Eu próprio lá estarei para tirar os clichés."

"Bom, o senhor não precisa de se incomodar, pode mandar um funcionário..."

O homem pareceu empertigar-se.

"Tratando-se do matrimónio de uma senhora familiar do senhor capitão Mário Branco, eu próprio lá estarei!", declarou ele com grande convicção. "Não faltava mais nada."

Quando Luís terminou as suas voltas eram já seis e meia da tarde. Tinha combinado às sete em casa do capitão, pelo que seguiu direito para a Pensão Morais.

A tia aguardava-o numa cadeira, junto à recepção. Vinha com um grande vestido amarelo-claro e branco, cheio de rendilhados, e exalava um aroma perfumado.

"Ena, tia! Está muito jeitosa!"

Ela ergueu-se e sorriu, virando a cabeça para baixo para admirar o vestido.

"Estou, não estou? Venho toda adengada, ora venho?"

"Adengadíssima! Está muito chie, sim senhora!"

"De mim, ninguém dirá que sou uma pingúrria, ou eu não me chame Maria Afonso!"

"Ah, claro que não. Se houver por aqui algum solteirão de jeito, acho até que lhe vai fazer o sete..."

A tia deu com a língua um estalido desagradado.

"Vá, juizinho! Deixa-te de boldreguices! Vamos mas é andando! Marche!"

Levou-a até ao automóvel e desfilaram pela Avenida Sacadura Cabral. Penafiel era uma cidade pequena, quase exclusivamente erguida ao longo dessa artéria; bastava percorrê-la para chegar a qualquer parte, tudo girava em torno do eixo central. Depois de passarem pela Praça do Município viraram à direita e subiram em direcção ao ponto mais alto da povoação.

"A tua moça vai lá estar?", perguntou a tia, os olhos perdidos nas fachadas que emparedavam a rua.

"Quem? A Joana? Não. Anda ocupada com o enxoval. A tia só a vai ver amanhã, na igreja."

Um edifício enorme, com torres e cúpulas vistosas, erguia--se da verdura de um parque bem arranjado e coroava o monte como um castelo. Seguindo as instruções que o capitão previamente lhe dera, Luís estacionou logo ali. Saíram do carro e começaram a procurar o número da porta, mas dona Maria não tirava os olhos da fortaleza.

"O que é aquilo?"

"É o Sameiro."

"Sim, mas para que serve?"

"É uma igreja, tia."

A transmontana estacou para apreciar o edifício.

"A sério? Olha que não parece nada uma igreja."

"É porque tem traça francesa. O Sameiro foi construído à maneira do Sacré-Coeur de Paris."

"De Paris? Ena, isto é chie a valer. Vais casar ali?"

"Não, vai ser noutra igreja."

"Também francesa?"

O sobrinho riu-se.

"Não. É a Igreja Matriz. Coisa antiga."

"Se queres que te diga, acho bem. Como diz o Toninho, há que defender o que é nosso. Os Franceses que fiquem lá com as suas igrejas, que nós já cá temos as nossas, bem bonitas, por sinal. Não precisamos de andar a imitar os outros. As nossas igrejas são locais de culto, sítios de devoção, santuários de fé." Indicou o Sameiro com o polegar. "Não são castelos como este... este... sei lá como se chama isto. Onde é que já se viu uma igreja assim, valha-me Deus? Parece um quartel--general!"

Alheio ao solilóquio da tia, Luís tirou do bolso o papel que o capitão lhe dera com a anotação da morada e foi esprei­tando o número das portas, à procura da casa da família Branco.

"É aqui!", exclamou.

Parou diante de uma fachada estreita de três pisos e tocou à campainha. Ouviu o trrrrrrrrrim do outro lado e escutou o som de passos a aproximarem-se.

"Ora viva!"

O capitão Branco veio acolhê-los à porta. Depois de percorrerem um corredor estreito, levou-os por uma escada que rodava em caracol para a direita. Havia um certo odor a mosto dentro da casa; eram decerto as garrafas de vinho arrumadas ao lado da escada.

A fragrância mudou no primeiro andar; deixou de cheirar a vinho e o aroma tornou-se quente e suculento.

"Hmm, que bom!", exclamou dona Maria, que não comia desde essa manhã. "É um esturgidinho?"

"Como?"

"Um esturgido", insistiu ela, usando a expressão transmontana. "Um... um refogado."

"Não, não", corrigiu o capitão. "Vamos ter um belo assadinho."

"E dos valentes, pelo cheiro."

"Ah, sim! Disso pode estar certa! A minha patroa tem um dedo para a cozinha que só visto."

"Bem me cheira, bem me cheira!"

Atravessaram a sala de jantar, ocupada por uma longa mesa muito bem arranjada, os pratos, os copos e os talheres assentes numa toalha de renda branca.

Um vulto emergiu de repente da penumbra, à esquerda.

"Ora aqui está a minha mulher."

O vulto feminino cumprimentou dona Maria e virou-se para Luís. A sala estava escura e o alferes veterinário teve dificuldade em distinguir-lhe as feições.

"Olá, Luís."

A voz, um pouco rouca e estranhamente familiar, atingiu-o como um raio. A porta da cozinha abriu-se nesse instante e deixou a luz jorrar sobre aquela sombra difusa, revelando-lhe os traços delicados da face. Luís arregalou os olhos, incrédulo, vendo mas não querendo acreditar.

Era Amélia.

 

Foi com gestos maquinais e a mente a revolver-se num turbilhão atordoante de pensamentos que Luís sobreviveu a todo o jantar. As pessoas falavam em torno dele como se fossem estranhas; as conversas não passavam de mero ruído de fundo, de um rumor distante no mar de perplexidades em que se sentia naufragar.

Mas que raio estava Amélia ali a fazer? Era ela a irmã de Joana? Caramba, isso explicava as semelhanças entre as duas! As linhas do rosto, a suavidade dos traços, os olhos garços e melancólicos, as expressões nostálgicas, a maneira de sorrir, o leve toque a May McAvoy. Nenhuma daquelas parecenças era afinal um acaso! Amélia era a irmã de Joana! Mas como diabo não percebera isso antes? Como fora possível que nunca se tivessem cruzado, que nunca Joana lhe tivesse falado em pormenor da irmã, que nunca ele se apercebesse da inacreditável coincidência?

"Não achas, Luís?"

Olhou atarantado para a tia, que parecia esperar uma resposta.

"Hã?"

"A quinta dos Cerejais. Não achas que ela também podia ser adaptada para o vinho, como aqui a quinta do capitão?"

"Ah, sim. Claro. Sem dúvida."

A tia voltou-se para o anfitrião e a conversa transformou-se de novo num rumor distante. Luís fixou os olhos em Amélia, que parecia tentar evitá-lo e procurava fixar o marido enquanto falava. O coração apertou-se-lhe. Era ela a mulher do capitão Branco? Mas que loucura vinha a ser aquela? Como fora possível nunca a ter visto antes? Era verdade que o capitão sempre se mostrara um homem reservado, mas, que diabo, podia-se até ter dado o caso de sccruzar com o casal na rua ou vê-lo na missa. Houvera tantas oportunidades para se aperceber do que se passava, como raio uma coisa daquelas lhe havia escapado?

"... não é?"

Viu a tia de novo calada a olhá-lo, como se aguardasse nova resposta.

"Hã? O quê?"

Dona Maria apertou os lábios, impaciente.

"Olha lá, estás a ouvir o que eu estou a dizer?"

"Eu? Bem... sim, claro."

"Então o que achas?"

Luís embatucou. Olhou para a tia, para o capitão e para Amélia, sem saber o que dizer.

"Será que pode repetir a pergunta?"

Dona Maria suspirou.

"Bem, já vi que não estás a prestar atenção nenhuma ao que eu estou para aqui a dizer."

"Estou, estou", insistiu ele, contrariando o que era evidente. "O que se passa é que... que..." Buscou desesperadamente

um álibi convincente. "Tenho uma brutal dor de cabeça." Acto contínuo, pôs a mão na testa e os olhos tornaram-se-lhe mortiços. "Ui! Dói-me mesmo a cabeça..."

"Ah, coitadinho! Quando é que isso começou?"

"Foi há bocado. Sabe o que é, fiquei muito tempo sem comer."

"Não seja por isso", atalhou o capitão, empurrando uma travessa de cabrito na sua direcção. "Dê-lhe com força, homem! Arrefinfe-lhe!"

"Não, obrigado. Já comi muito e agora esta dor vai passar depressa."

"Bem, então a Amélia vai-lhe preparar uma tisana especial para as enxaquecas. Vais, querida?"

Querida? O uso da palavra deixou Luís chocado. Ela agora era a querida do... do... do outro?

"Claro que sim", disse a mulher, levantando-se de imediato.

"Não, não", exclamou Luís, erguendo a mão para a travar. "Espere. Não é preciso."

"Olhe que uma tisaninha fazia-lhe bem."

"Deixe estar, eu estou bem. Se ficar caladinho, isto passa. É sempre assim. Não precisa de se incomodar, já estou habituado a estas dores de cabeça. É coisa passageira, desaparece depois de eu comer, vai ver."

A tia e o capitão retomaram a conversa; Luís tinha a impressão de que falavam de terras e de cultivo, mas os pensamentos arrastaram-no de novo para Amélia. Será que ela também havia sido apanhada de surpresa por vê-lo ali? Cravou os olhos nela, perscrutando-a. Não, dava-lhe a impressão de que não. Vendo bem, ela lançara-lhe um Olá, Luís! muito revelador; não fora um cumprimento surpreendido, lançado por alguém submerso em espanto, mas uma saudação resignada, como se soubesse o que aí vinha. Agora que Luís

pensava nisso, pôs-se a escutar mentalmente o som da voz a saudá-lo quando entrara na sala. O Olá Luís! passou consecutivamente na sua cabeça, como um disco riscado no gramofone.

Foi então que se apercebeu de que aquelas palavras, e sobretudo o tom resignado em que haviam sido proferidas, exprimiam uma conformada e imensa tristeza.

"Olá, mãaaaae!"

A voz infantil interrompeu a conversa e duas crianças apareceram na sala a correr. Um rapazinho pequeno agarrou-se às pernas do capitão Branco, que com uma gargalhada o puxou para o colo, enquanto uma menina ainda mais nova saltitou para os braços de Amélia.

"Então, meninos?", perguntou o capitão. "Já vieram?"

"Simmm!"

Luís observava a cena embasbacado. Amélia era mãe! Com o choque de a encontrar ali nem se lembrara que o capitão lhe dissera que tinha filhos. Amélia era mãe! Foi nesse instante que caiu totalmente em si e tomou consciência da irreversibilidade da situação em que ela se encontrava. Amélia casara e não fora com ele; tinha filhos e não eram seus. Como diabo acontecera tudo aquilo? Que mal fizera ele para estar a ser confrontado com aquela realidade inultrapassável? Amélia era dele! Como fora possível que o tivessem espoliado daquele modo?

"Onde está o tio Chico?", perguntou Amélia à menina que se abraçava a ela.

"Vem ali!"

Um rapaz entroncado, de costas largas e corpo de gorila, o rosto a exibir grandes arcadas supraciliares, entrou na sala com um grande cesto na mão.

"Então, Chico? Tão cedo?"

"Foram os meninos, senhora. Queriam vir para casa."

Evitando encarar Luís, Amélia voltou-se para dona Maria.

"É o meu irmão Francisco", anunciou. "Ficou com as crianças em casa da minha sogra."

"A ideia era elas deixarem-nos jantar em paz", explicou o capitão Branco. Fez cócegas ao filho. "Mas acho que as tréguas já acabaram, não é seus marotos?"

Dona Maria olhava embevecida para as crianças.

"Ai que lindos meninos! Vocês têm dois filhos maravilhosos, não há dúvida."

"Três", corrigiu o capitão.

Francisco pousou o cesto no chão e afastou uma rendinha, revelando um bebé a dormir.

"É a Lourdinhas", disse Amélia. "Vai fazer um ano."

"Ai que querida! E os outros?"

"O António, quantos anos tens?", perguntou o capitão ao rapazinho sentado ao seu colo.

A criança exibiu a palma da mão aberta.

"Cinco."

"E a Rosinha tem três", acrescentou o pai.

Por mais que tentasse esconder o espanto, Luís tudo observava de boca aberta. Eram três filhos e o mais velho tinha cinco anos. Ora a última vez que vira Amélia fora no início de 1930, fazia por aquela altura seis anos. Isto queria dizer que fora logo no ano seguinte que ela tivera um filho de outro. De outro. E, depois disso, pelos vistos nunca mais parara! Sentiu uma fúria surda crescer-lhe no peito. Ela nunca mais tinha parado com o outro! Deixara a mãe afastá-la de Luís, casara com o capitão Branco e, não contente com tudo isso, desatara a parir filhos! Como pudera ela fazer-lhe aquilo? Como era possível que Amélia lhe tivesse sido tão infiel?

"E este rapaz?", perguntou dona Maria, apontando para o adolescente abrutalhado que permanecia em pé. "A senhora disse que é o seu irmão?"

"O Chico? Sim, é... é o meu irmão."

"Seu e da Joana?"

"Sim. Somos os três irmãos."

A atenção de Luís foi desviada para o rapaz de cabelo curto e pequenos olhos negros. Tinha um rosto que lhe era familiar. Atónito, os olhos arregalados de estupefacção, percebeu enfim quem ele era. A face alargara e alongara, o corpo tornara-se ainda maior e mais compacto, mas aqueles olhos e aquela expressão vazia não enganavam, não havia dúvidas de quem se tratava. Era o bastardo abandonado em bebé numa igreja de Bragança! Era o filho adoptivo de dona Beatriz! Era o fedelho que com apenas doze anos lhe dera uma tareia quando daquele derradeiro confronto com a mãe de Amélia!

"Bem, o mal está feito!", exclamou o capitão Branco, batendo com a palma da mão no joelho. "Se não dormem com a avó, dormem aqui. E é já."

"Oh, não!", protestou o pequeno António.

"Oh, sim!", devolveu o pai, que logo ergueu a cabeça para Francisco. "Dormes cá?"

"Não, senhor", disse o brutamontes, torcendo os dedos entrelaçados. "Vou dormir à quinta."

O capitão ergueu-se da mesa.

"Se me dão licença, vou então deitar os pequenos."

"Ai, senhor capitão", disse dona Maria. "Se calhar é me­lhor irmos andando. Já se vai fazendo tarde."

"Que disparate!", cortou o anfitrião. "Ainda nem nove horas são! Antes das dez não sai ninguém desta casa."

"Mas, senhor capitão..."

"Não há mas nem meio mas", atalhou ele, num tom que não admitia discussões. "Vou só pôr as crianças a dormir e já volto, está bem?" Olhou de relance para a mulher. "Vens,

querida?"

Amélia entregou-lhe a menina que se aninhava ao seu colo.

"Vai tu. Eu fico aqui com os convidados."

A tia Maria ergueu-se, prestável.

"Eu ajudo-o, senhor capitão."

"Não é preciso", disse ele. "Já estou habituado a adormecer as crianças." Fez um sinal na direcção da empregada, uma mulher pequena e silenciosa que se aproximava da mesa. "Além do mais, a Manelinha ajuda-me."

"Eu insisto", disse a tia Maria. "Adoro crianças e o senhor não me vai roubar o prazer de ajudar uma delas a adormecer,

pois não?"

"Por amor de Deus, não seja por isso. Venha daí!"

Metamorfoseando-se subitamente, a sala de jantar esvaziou-se. Num instante era uma algazarra infernal, no momento seguinte instalara-se a tranquilidade. O capitão e a tia Maria desapareceram com as três crianças e a criada, enquanto Francisco se despedia e saía discretamente de casa.

Na sala apenas se escutava o estrepitar nervoso e reconfortante da lareira; as chamas projectavam sombras dançantes pelos cantos e no ar flutuava o aroma quente da lenha a arder.

Foi então que o olhar de Luís se prendeu no de Amélia.

 

Amélia deixou escapar um suspiro.

"Sou uma péssima mãe", disse, preenchendo o embaraçoso silêncio que se instalara entre ela e Luís. Indicou com a cabeça a porta da sala, por onde todos tinham acabado de sair. "Ele é que trata dos miúdos. Conta-lhes histórias, canta-lhes napo­litanas, brinca com eles." Novo suspiro. "Eu não tenho paciência nenhuma. Nenhuma, nenhuma, nenhuma."

O silêncio voltou, pontuado pelo incansável estralejar da lareira no seu labor cálido. Luís manteve os olhos fixos na antiga namorada, a mente vazia e o coração cheio, sem nada falar e com tudo para dizer, as palavras a expirarem-lhe na garganta.

"O que nos aconteceu?"

Foi apenas o que conseguiu dizer, mas a pergunta encerrava tudo. Amélia baixou os olhos e sorriu o sorriso dos tristes, o rosto derramando-se numa expressão melancólica.

"Aconteceu-nos a vida."

A lareira estalou, como se quisesse argumentar.

"Mas como foi possível ter sucedido o que sucedeu?" Baixou a cabeça. "A bem dizer, nem percebo bem o que nos aconteceu..."

"Foi a minha mãe."

"Eu sei que foi a tua mãe. Mas porquê?"

Amélia encolheu os ombros.

"Cismou contigo. Achava que tu eras um parolo de Alfândega, que não sabias o que querias, que ainda davas em veterinário e eu acabaria numa casa cheia de pulgas e percevejos... enfim, essa lengalenga toda."

Luís contraiu o rosto, incrédulo.

"Mas tudo isto foi porque eu lhe disse que queria ser veterinário? Um veterinário é um médico, não é um cangalheiro. Que eu saiba, tenho uma profissão de prestígio. Como pôde ela criar todo este problema só por causa disso?"

A anfitriã mordeu o lábio inferior, pensativa.

"Tens razão", concedeu, após reflectir um instante. "Ven­do bem as coisas, aquela conversa do veterinário-não-presta não passava de uma desculpa que ela inventou às três pancadas. O facto é que a minha mãe não queria que eu casasse contigo, ponto final."

"Mas porquê?"

"Acho que ela tinha outras ideias."

"Que ideias?"

Amélia respirou fundo, como se lhe custasse abordar o assunto.

"É um pouco difícil de explicar."

"Julgo merecer que tentes."

Era uma boa razão para tentar explicar o inexplicável, raciocinou ela. Espreitou a porta da sala, para se assegurar de

que ninguém ali estava nem se aproximava, e inclinou-se na direcção de Luís.

"Não sei se percebeste, mas a minha mãe era uma pessoa traumatizada pela morte do meu pai", começou por dizer em voz baixa. "Como te contei uma vez, ele era cabo do exército e faleceu por causa dos gases que inalou lá em França. Foi então que ela cismou que as filhas iriam casar com um oficial. Achava que isso é que era coisa de prestígio. São os militares quem manda no país, costumava dizer. De maneira que primeiro tentou com a Joana. Conhecia muito bem o juiz Brandão, aqui de Penafiel, que se dá muito com militares."

"Aliás, vive ao lado do quartel."

"Nem mais. Quando o juiz ficou viúvo, a minha mãe mandou a Joana parar aqui, a pretexto de o ajudar. A verdadeira ideia, parece-me a mim, era integrá-la no meio militar, na esperança de que surgisse um pretendente."

"E surgiu?"

"Sim, alguns. Mas nenhum tinha pedigree que satisfizesse a minha mãe. Eram todos uns pelintras. Além do mais, a Joana era ainda muito nova, havia tempo."

"E depois?"

"Uma vez viemos aqui a Penafiel visitá-la e, num baile ali no Grémio, conheci o Mário, que na altura era tenente."

"Qual Mário?"

"O meu marido. Apresentou-se como o tenente Mário Branco. A minha mãe viu-me a conversar com ele, foi indagar e descobriu que era um rapaz de boas famílias."

"Quer dizer que já o conhecias antes de mim?"

"Sim, mas isso não significa nada. Namoriscámos um bocadinho, é verdade, mas eu era muito nova. Aquilo foi mais um jogo de adolescentes do que qualquer outra coisa."

"Então como acabaste por casar com ele?"

Amélia voltou a respirar fundo. Era notório que aquela parte era difícil de narrar.

"É muito complicado", disse. "O Mário era de uma famí­lia prestigiada aqui na cidade, tinha terras e tudo, e a minha mãe encorajou a coisa. Sempre que vínhamos a Penafiel visitar a Joana, pimba!, ela arranjava maneira de suscitar um encontro entre mim e o Mário. Ou era um almoço, ou era um piquenique, ou era um baile, ou era isto, ou era aquilo. Inventava sempre qualquer coisa. De modo que, embora não fôssemos namorados, criou-se uma certa relação entre nós."

"Mas a tua mãe dizia-te mesmo que queria que tu casasses com ele?"

"Não, não era assim tão directa. Na verdade, nem sequer tocava no assunto. Era demasiado esperta para o fazer. Mas o que é facto é que ia criando as oportunidades. Entre mim e o Mário não acontecia nada, mas as sementes estavam lançadas..."

"Até que apareci eu."

Amélia sorriu.

"A minha mãe entrou em pânico quando soube da tua existência."

"Ai sim? Ela disse-te?"

"Claro que não. Já te expliquei que ela era muito esperta. Mas é fácil perceber que vinhas dar cabo daqueles planos todos, não é verdade? Põe-te na posição dela: então andava ela em mil trabalhos a arranjar tudo muito bem arranjadinho e a filha ia apaixonar-se por outro? Tu eras a peça que não encaixava neste esquema grandioso que ela concebeu na sua própria cabeça. Pior ainda, eras a peça que dava totalmente cabo do esquema. Portanto, a minha mãe começou logo a minar as coisas e a montar um plano de emergência. Veio cá a Penafiel às escondidas e conversou com o Mário.

Disse-lhe que eu estava apaixonada por ele, mas que, como ele não se decidia, aparecera outro rapaz e a coisa poderia dar para o torto. Logo, e se o Mário estava mesmo interessado, era melhor consumar as coisas o mais rapidamente possível."

"E ele?"

"Estava interessado."

Luís sorriu sem vontade.

"Então não haveria de estar?", observou, admirando-lhe as linhas perfeitas do rosto. Que saudades sentia ele daqueles olhos de ouro! Subitamente fatigado, massajou as têmporas com a ponta dos dedos e abanou a cabeça. "Ou seja, a tua mãe precipitou os acontecimentos."

"E de que maneira! Conversou com o Mário e a família dele nas minhas costas, sempre convencendo-os de que me representava, e até marcou a data de casamento. Foi ao Porto preparar o enxoval e tudo. E eu, inocente e ingénua, não sabia de nada!"

"Isso é incrível."

"E incrível para quem não a conhecia, Luís. A minha mãe, quando se lhe metia uma coisa na cabeça, era capaz de tudo. De tudo."

"Como se viu."

"Até que, na véspera do casamento, deu o golpe que andava há tanto tempo a planear. Quando cheguei a casa, vinda do liceu, deparei-me com o meu quarto vazio. Numa manhã, ela e o Francisco empacotaram todas as minhas coisas e enfiaram-nas numa caminheta para Penafiel. Pergun-tei-lhe o que se passava e ela disse que eu era uma ingrata, que ela se sacrificara por mim e eu, em vez de lhe agradecer, cuspia nela. Perguntei-lhe a que se referia e ela respondeu-me que filha dela não se casaria com um veterinário nem iria

viver numa casa cheia de pulgas. Começámos a discutir e a minha mãe anunciou-me que me punha na rua. Eu não teria mais nenhum lugar para viver, iria para a rua. Pôs-me cheia de medo, como calculas. Fiquei a imaginar-me a viver literalmente na rua."

"Ela não te fazia isso..."

"Luís, já te disse mil vezes: tu não conhecias a minha mãe. Quando se lhe metia uma coisa na cabeça era capaz de tudo."

Ele esboçou um ar incrédulo.

"Tu achas que ela te punha na rua? A tua mãe?"

"Não tenho dúvidas nenhumas."

"Caramba!", exclamou, reconstituindo o rosto de dona Beatriz na mente. Logo que a conhecera percebera que ela era torcida, mas nunca imaginara que chegasse a tais extremos. "Podias ter vindo ter comigo."

"Pensei nisso, mas vi logo que não podia ser."

"Ora essa! Porquê?"

Amélia inclinou a cabeça.

"O Luís, ainda perguntas porquê? O que farias tu se eu te aparecesse à porta da pensão sem nada?"

"Acolhia-te, claro."

"Ai sim? íamos os dois dormir para o teu quarto na pensão?"

Luís percebeu o argumento.

"Pois, tens razão. Não podia ser." Considerou o cenário e pôs-se a imaginar soluções alternativas. "Bem, sempre podia mandar-te para a tia Maria..."

"E eu ia viver para Alfândega?"

"Porque não?"

"E a tua tia? Achas que ela ia mesmo acolher de braços abertos uma desconhecida que lhe aparecia pela frente?" Abanou a cabeça. "Temos de ser realistas, Luís. Tu ainda eras

estudante, não tinhas maneira de me sustentar. E eu era muito nova e estava aterrorizada. Já me via a viver na rua e tudo. Nestas circunstâncias, como poderia eu ir contra a vontade da minha mãe?" Encolheu os ombros. "Não podia."

Luís esfregou o queixo, rendendo-se à evidência. Ela tinha razão.

"Portanto, vieste para Penafiel."

"Chorei toda a viagem. A minha mãe tinha previsto tudo e alugou um automóvel para a viagem. Se não fosse isso, seria uma cena danada no comboio. Do que ela se livrou!"

"E casaste no dia seguinte."

"Toda a gente pensava que os meus olhos vermelhos eram de chorar de alegria."

Ele observou-a com compaixão.

"Como foi o casamento?"

"Muito duro. Tive de me forçar a sorrir para esconder o que me ia na alma."

"Podias ter feito cara contrariada. Assim toda a gente veria a verdade e talvez não te casasses."

"Não deves ter ouvido o que eu te expliquei, Luís", disse Amélia, abanando a cabeça. "Tu não estás a perceber o que me aconteceria se o Mário já não quisesse casar comigo?"

"Ficarias solteira na mesma."

"Ficava na rua, Luís. A minha mãe já me tinha expulsado de casa! Ou eu casava com o Mário e ficava com ele, ou não me casava e ficava na rua. É tão simples quanto isso."

"Não acredito."

"Que acredites ou não, isso não muda nada. A minha mãe não iria recuar nessa questão. Era para ela um ponto de honra. Por isso eu nunca poderia dar a entender que casava contrariada, entendes? Se o Mário se apercebesse disso, cancelaria ime­diatamente o casamento. Seria um desastre para mim! Foi por

isso que fiz por sorrir durante toda a cerimónia. E quando me vinham as lágrimas eu dizia que era de felicidade."

Luís recostou-se na cadeira, absorto nos seus pensamentos. Assim postas as coisas, não havia dúvida de que Amélia não tivera qualquer alternativa. A mãe encurralara-a. Grande cabra! Só tinha pena de não a ter esganado quando teve oportunidade.

"Onde está ela?"

"Quem?"

"A tua mãe, claro."

"Já faleceu, coitada. Foi há dois anos, com uma síncope. Estava na loja, em Bragança, quando caiu redonda no chão. Nem sequer soltou um ai."

Lembrou-se que Joana já lhe tinha contado que a mãe morrera dois anos antes. Não fizera a relação, como é evidente, uma vez que na altura desconhecia que Amélia e Joana eram irmãs e mesmo naquele momento isso parecia-lhe ina­creditável.

"Quando é que te apercebeste de que eu estava aqui em Penafiel?"

"Foi através da minha irmã."

"O quê?", espantou-se Luís. "Ela sabe de... de..."

"Não, não sabe nada. Disse-me que tinha um namorado e que ele se chamava Luís Afonso." Mordeu o lábio. "Ia-me dando um fanico quando ouvi o teu nome, mas ainda pensei que fosse coincidência, sobretudo porque ela me explicou que eras um oficial do exército. Mas depois de a Joana me revelar que eras o veterinário do quartel, logo vi que só podias ser tu. Ela fazia muita questão que eu te conhecesse, mas recusei-me liminarmente. Como compromisso, aceitei ficar no Jardim Público à hora em que vocês por ali iam passar. Foi assim que te vi."

Fez-se silêncio.

"E então?"

"E então, nada. Apeteceu-me morrer, só isso."

Luís fez um sinal com a cabeça, indicando a porta da sala.

"E ele? Sabe que nos conhecemos?"

"Não. Ninguém sabe nada de nada. Não disse a ninguém."

Mais uma pausa. A conversa avançava nesta altura aos solavancos.

"E agora?", perguntou Luís.

"Agora, o quê?"

"O que vamos fazer?"

Amélia encolheu os ombros, resignada.

"Nada."

"Nada como? Não percebeste o que aconteceu? Nós reencontrámo-nos! Podemos recuperar o que nos foi roubado! Temos a possibilidade de..."

"Não sejas tonto", atalhou ela. "Não podemos fazer nada."

Luís agarrou-lhe as mãos e fitou-a com intensidade.

"Estás enganada, Amélia. Não é tarde de mais. Ainda temos a vida à nossa frente. Agora que..."

"Luís."

"... nos reencontrámos, podemos..."

"Luís!"

Ao ouvi-la erguer a voz, ele hesitou.

"O que é?"

Amélia retirou as mãos que o antigo namorado agarrava com ardor.

"Eu sou casada e tenho três filhos. Tu estás noivo e vais casar amanhã com a minha irmã. É tarde de mais para nós. Percebes? É tarde de mais."

Ele bateu com a palma da mão na mesa, num gesto de rebeldia.

"Não me caso."

"Não sejas parvo."

"Não me caso, já disse."

"E fazes o quê? Deixas a Joana num pranto para quê? Para te casares comigo? Mas eu já estou casada! Tenho três filhos para criar! Para que vais complicar ainda mais as coisas?"

Luís passou a mão pelo cabelo, desorientado. Agora era ele que se sentia encurralado.

"Então que podemos fazer?"

"Nada."

"Nada, como? Como vou aguentar estar no altar a casar com a tua irmã e saber que tu estás ali atrás a ver tudo?"

Amélia apontou-lhe o dedo.

"Vais aguentar como eu aguentei!", exclamou ela. "Vais aguentar com um sorriso nos lábios e vais ser forte porque eu também serei forte! Vais aguentar porque não há alternativa senão aguentares!"

Luís voltou a recostar-se na cadeira e suspirou; o seu corpo parecia um balão a esvaziar-se.

"Estás a pedir-me o impossível. Estás a pedir-me que..."

"Chiu!"

Amélia mandou-o calar-se e voltou a cara para a porta, atenta aos barulhos. Como em resposta, ouviram-se passos e o som murmurado de uma conversa a aproximar-se. Acto contínuo, o capitão Branco e dona Maria entraram na sala, sorridentes.

"Já está", anunciou o oficial. "Os nossos anjinhos dormem o sono dos justos."

"Ai, são tão queridos!", exclamou dona Maria. "A senhora está de parabéns, dona Amélia. Os seus pequenos são realmente um encanto."

Amélia forçou um sorriso.

"Obrigada."

"Então e vocês?", quis saber o capitão, sentando-se à mesa. "Do que têm falado?"

"Oh, disto e daquilo", retorquiu Amélia, olhando de sos­laio para Luís. "Nada de especial."

"A minha Amelinha é uma pessoa muito melancólica, alferes", disse Branco. "Por isso, não estranhe."

"Melancólica? A Amélia? Nunca reparei em tal!"

Mal acabou de proferir a frase, Luís quase pôs a mão na boca. Ele e a sua língua enorme!

"Como é que nunca reparaste em tal?", perguntou a tia Maria. "Acabaste de conhecer a dona Amélia..."

"Pois, mas... enfim... nunca esta noite reparei que a... a dona Amélia fosse mefancóhca." Olhou para ela, simulando cerimónia. "O que eu quero dizer é que a senhora me parece perfeitamente normal."

A tia Maria soltou uma gargalhada.

"Então não havia de ser normal?", perguntou. "O Luís, tu hoje estás de todo! Deve ser dessa tua dor de cabeça."

"E do casamento", adiantou logo o capitão. "Não se esqueça que o rapaz casa amanhã. Não há homem que não fique um pouco atrapalhado quando está a vinte e quatro horas de pôr a corda ao pescoço, não é verdade?"

A tia Maria olhou para Luís e tocou no relógio, como quem diz que já se iam fazendo horas.

"Pois é", exclamou ele. "Justamente por causa do casamento, não podemos demorar-nos mais, não é verdade?"

"Oh! Já?", protestou o dono da casa.

"Tem de ser, tem de ser."

"Mas fiquem mais um pouco."

Os dois lados cumpriam o ritual do final dos jantares, os anfitriães insistindo que os convidados ficassem, os convidados

repetindo que tinham de sair para não se imporem. Depois de vigorosas insistências em ambos os sentidos, Luís levantou-se e fez uma vénia na direcção de Amélia e do capitão Branco.

"Minha senhora, meu capitão", disse. "O jantar estava uma delícia e a conversa foi maravilhosa. Mas amanhã vai ser um longo dia e precisamos de nos deitar cedo. Com a vossa licença..."

Ergueram-se todos da mesa numa cacofonia de cadeiras a arrastarem-se pelo soalho. Os donos da casa acompanharam os convidados até à porta, onde, e apesar do frio e da humidade, ainda ficaram mais um minuto a trocar amabilidades. No momento em que se beijaram no rosto em despedida, Amélia soprou duas palavras secretas ao ouvido de Luís.

"Sê forte."

 

Apesar do frio, a Igreja Matriz estava apinhada àquela hora da madrugada. As sóbrias fardas militares intrometiam-se entre os exuberantes vestidos e os elegantes fatos domingueiros escolhidos para a ocasião. A sociedade penafidelense comparecera em peso e exibia-se no casamento da protegida do distinto juiz Brandão.

Aperaltado na sua garbosa farda de gala, Luís virou a cabeça quando o burburinho da multidão morreu subitamente, como se a caótica orquestra de vozes obedecesse a um maestro invisível. Recortadas pela luz difusa da aurora, duas figuras assomaram à porta e começaram a desfilar devagar ao longo da nave central da igreja. Os olhos de todos pousaram na rapariga que o sisudo juiz levava pelos dedos e logo recomeçou o burburinho, mas agora sussurrado; eram os comentários à noiva e ao enxoval. Joana vinha deslumbrante, como todas as noivas em dia de casamento; trazia um vestido branco muito rendilhado, com uma longa saia a

deslizar pelo chão e uma pequena coroa cor-de-rosa a florir-lhe os cabelos.

Aguardando-a no altar, o noivo engoliu em seco. Tinha prometido a si mesmo que não olharia uma única vez para Amélia, mas naquele instante não resistiu e espreitou-a de fugida; a sua paixão do liceu estava na fila da frente, o rosto voltado para o corredor central, os olhos presos na irmã, que caminhava para o altar. Luís tentou adivinhar o que sentia, mas Amélia posicionara-se de perfil, o rosto fechado como uma estátua. Era impossível perceber o que lhe ia na cabeça.

Os dois recém-chegados chegaram ao altar e o juiz entregou Joana a Luís. Os noivos e os padrinhos de casamento, o juiz Brandão e a tia Maria, voltaram-se para o pároco, um homem magro já curvado pela idade, e a cerimónia começou.

"Deus criou o ser humano varão e mulher", disse o padre, a voz fraca e sibilante. "Deus abençoou-os dizendo-lhes: crescei e multiplicai-vos e enchei a Terra. Foi nesse instante que o Senhor instituiu os sagrados laços do matrimónio. E é por isso, meus filhos, que nos reunimos hoje, nesta sagrada Igreja Matriz de São Martinho, para celebrar a união destes dois filhos de Deus, Joana Maria Rodrigues Campos e Luís António Afonso. Deus, que é amor e criou o homem por amor, chama-o agora a amar." Apontou o dedo aos noivos. "Jesus disse: serão dois numa só carne. Que seja feita a Sua vontade."

"Ámen!", responderam os fiéis em coro.

A cerimónia prolongou-se por uma hora, com os salmos, as leituras, as orações e o sermão. Luís tinha os pés gelados sobre a pedra fria, mas sentia-se anestesiado, quase imune ao desconforto. Passou a cerimónia como se não fosse ele quem ali estava, como se fosse testemunha e não protagonista, como se o espírito se tivesse erguido do corpo e tudo observasse com alheamento.

Os minutos eternizavam-se e no meio do torpor que o invadira ouviu o padre mencionar o nome de Joana e viu-a responder "sim" sem quase entender o significado da palavra.

O estado beatífico de letárgico desprendimento só se esfumou quando, sem perceber como nem porquê, deu consigo no momento mais importante, o instante em que o padre se voltou para ele e lhe fez a mesma pergunta, aquela que todos tinham vindo à igreja ouvir.

"Luís António Afonso", interpelou-o o padre com solenidade, a voz a ganhar a força que até aí não tivera. "Aceitas Joana para amar e acarinhar, para honrar e confortar, na saúde ou na doença, na alegria ou na tristeza, até que a morte vos separe?"

O noivo arregalou os olhos, horrorizado, subitamente desperto, sem saber o que fazer, incapaz de se decidir, vacilante, interrogando-se sobre como fora possível ter chegado àquele ponto, àquela pergunta, àquela resposta.

"Sim."

Como se não passasse de um mero espectador, observou a sua própria boca murmurar o "sim" final como se tivesse vida própria. Parecia que naquele momento a mente alijara responsabilidades e atirara para o corpo o encargo de enunciar os votos matrimoniais; a razão sujeitara-se ao que o coração ainda não aceitara.

"Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, declaro--vos marido e mulher."

A fórmula pareceu materializar-se do nada e atingiu-o como um soco no estômago. Estava casado, e não era com Amélia! Pior, Amélia encontrava-se algures lá atrás e assistia a tudo. Como num sonho, o corpo sempre a comportar-se com o automatismo de uma coreografia muito ensaiada, pôs o anel de ouro no dedo de Joana, deixou que ela lhe fizesse o mesmo,

afastou o véu de renda branca que ocultava os olhos da mulher e colou-lhe nos lábios um beijo casto e seco.

Foi animada a festa no Café Lima, o estabelecimento da Praça Municipal reservado nesse dia para os convidados dos noivos. Um pianista dedilhava com entusiasmo as canções do momento e uma nuvem de fumo pairava sobre as cabeças dos comensais. Um grupo abrira alas e observava os casalinhos a rodopiarem ao ritmo alegre da música, enquanto outros iam petiscando os rissóis, os pastéis de bacalhau, as pernas de frango e os mais diversos aperitivos colocados nos pratinhos ao longo da mesa junto à parede do fundo.

Por várias vezes Luís buscou Amélia com os olhos, mas ela parecia evitá-lo; olhava para aqui e para ali, conversava com este e aquele, observava o pianista ou espreitava um casal a dançar, mas nem uma vez se voltou para o antigo namorado. Inquieto e irrequieto, Luís procurava-lhe um olhar de perdão, uma expressão de compreensão, um gesto de que nada mudara, mas dela apenas extraiu um rosto vazio, uma postura de alheamento, um desinteresse que o magoava. Como podia Amélia mostrar-se tão desapegada? Seria possível que ela já lhe fosse de tal modo distante que assistir ao seu casamento lhe tivesse sido totalmente indiferente?

"Em que pensas, querido?"

A voz fê-lo voltar a si.

"O quê?"

Era Joana, que se sentara ao seu lado e lhe agarrava o braço, terna e calorosa.

"Pareces ter um ar perdido. Estás bem?"

"Ah, sim. Estou bem, claro. Apenas um pouco cansado."

"Espero que não demasiado", adiantou ela, de imediato baixando os olhos e corando.

Admirado com o comentário, Luís olhou-a interrogativa­mente. Não a imaginava uma criatura com desejos; sempre a vira pura e virginal, talvez porque desde que a conhecera que a encarava como uma nova versão de Amélia. A constatação de que havia carne naquela fêmea despertou-lhe uma inesperada volúpia nas estranhas. A última vez que tivera uma mulher fora em Lisboa. Era verdade que o jantar da véspera e o reencontro com Amélia lhe tinham mostrado que continuava a amar a antiga namorada, mas, que diabo!, ele era homem e um homem era um homem. O casamento até podia ter sido um disparate e talvez jamais conseguisse superar a paixão por Amélia, mas, se não podia ter o futuro que desejava, podia pelo menos aproveitar o que havia e o que havia era a certeza de que nessa noite ia possuir uma mulher bonita.

Inclinou-se para Joana e beijou-lhe a face.

"Fica descansada", sussurrou. "Vais descobrir que casaste com um touro."

As prendas amontoavam-se a um canto do café, onde o par recém-casado ia deixando os pacotes depois de os receber dos convidados. Estes iam já saindo. A festa fora longa e estava na hora de voltarem para casa. Foi nessa altura que dona Maria decidiu aproximar-se. A tia e madrinha de casamento de Luís vinha com um pequeno embrulho nas mãos, mas não deixou que o sobrinho pegasse nele.

"Isto não é contigo", disse, puxando Joana para um canto. Depois de se certificar de que a atenção de Luís se desviara para outro lado, entregou o embrulho à noiva. "Toma, minha linda. Já te deixei ali umas porcelanas para a vossa casa, mas este é o meu presente de casamento apenas para ti. Espero que gostes."

Joana agarrou o pequeno embrulho e desfez o papel, revelando o objecto que o invólucro adornava.

"Um livro?"

"Não é um livro qualquer", disse a tia Maria, apontando para o título que encaixava o desenho de uma flor branca. "É o Livro das Noivas. Conheces?"

Joana analisou a capa, como se avaliasse o presente.

"Não."

"Foi-me mandado pela tia Paz, do Brasil. Ela disse que é muito bom."

"Ai sim?"

A tia Maria esfregou com os dedos uma rendinha da manga do vestido da noiva.

"Tiveste algum manual a preparar-te para o casamento?"

Joana encolheu os ombros.

"Não... quer dizer, apenas consultei um livro de ménage da condessa de Bassanville."

"É pouco", considerou a tia, batendo com o dedo na capa do livro que acabara de oferecer. "Considerando que já não tens cá a tua mãe para te aconselhar, esta pode muito bem vir a ser a tua melhor prenda de casamento."

"Ah, muito obrigada."

"Não é para agradecer, é para ler. Este livro pode ser-te muito útil, minha linda. Lembra-te que uma mulher não se deve resignar a ser um objecto de luxo na casa, uma espécie de adorno. Deve ser alguém que ajuda o marido a enfrentar a vida. O Livro das Noivas explica-te como fazer isso." Pegou no livro e abriu uma das páginas iniciais. "Ora vê o que diz aqui: «Rodeia-o sempre de respeito, de affecto, de dignidade; que o nome d'elle seja para ti um nome puro onde não possa cahir mácula.»"

A rapariga sorriu, condescendente.

"Este livro ensina-me a amar o Luís? Mas eu já o amo..."

"Não, filha. Uma coisa é o amor de namorados, que não se conhecem e se idealizam à distância; outra coisa é a vida

conjugal. O que o livro te ensina é a viver o dia-a-dia com o teu marido."

"Não estou a entender..."

A tia Maria folheou a obra e mostrou um capítulo intitulado "A roupa branca".

"Estás a ver? Como devemos arranjar a roupa? Como conseguir que o linho e o morim cheirem a flores? Como deve ser feita a entrega da roupa às lavadeiras? O livro tem todas as respostas." Apontou para o parágrafo final do capítulo. "«É na roupa branca», diz aqui, «que mais limpidamente se espelha a bôa administração de uma dona de casa.»"

Joana pegou no livro.

"Ah, muito bem. Realmente, parece útil."

"No Brasil, escreveú-me a tia Paz, está toda a gente a ler este manual. Ele ensina a tratar do marido ou de um filho quando um deles está doente e até mostra como separar os bons livros dos livros nocivos na biblioteca doméstica."

"Quais livros nocivos?"

A tia Maria indicou a sua prenda.

"Bem... é só leres, está tudo aí. Um livro nocivo é um livro que conta histórias pouco morais ou que estragam o bom gosto. As nossas leituras têm de ser sadias, não achas?"

"Com certeza, não há dúvida nenhuma."

"Pois essa é uma leitura sadia, minha filha. Podes ter a certeza. O Livro das Noivas ensina-te a escolher as melhores leituras, a apreciar a boa arte, a saber estar num baile, a escolher as jóias para as ocasiões, a lidar com os pobres e a ser caridosa... enfim, uma série de coisas." Pegou de novo no livro. "Tem aqui algo que me parece muito importante, deixa ca ver." Folheou a obra, à procura do extracto certo. "Aqui está: «Minhas amigas, não vos esqueçaes de que o homem é egoísta e auctoritário e de que para fazêl-o feliz, como vos

cumpre, tendes de renunciar ao doce ócio em que o vosso pensamento se balança e têl-o sempre vigilante e activo.»"

"Oh, o Luís não precisa de cuidados."

Uma voz interrompeu-as.

"Então, Joana? Vamos embora?"

Era Luís que a chamava.

"Já vou, querido." Joana voltou-se para dona Maria. "Tenho ir. Vamos agora para casa."

"Dizes tu que o Luís é diferente?"

"Tenho a certeza", confirmou ela, começando a empilhar todos os presentes numa cesta, para levar para casa. "Egoísta é coisa que ele não é, pode estar certa."

A tia Maria ergueu o dedo justiceiro.

"Isso é o que tu pensas, minha querida", sentenciou. "Não te esqueças do que eu te digo: o meu sobrinho é um homem e os homens são todos iguais."

"Oh, tia, que exagero! Francamente!"

"Eles só pensam neles próprios."

A imagem que o espelho reflectia mostrava-lhe que estava um brinco. Joana ajeitou apenas a alça da camisinha de dormir e suspirou, feliz. Passara o último mês a preparar ao pormenor a toilette da noite de núpcias, bordando com esmerado primor toda a camisinha de dormir. Tinha dado um trabalhão, pensou, mas valera a pena. Não havia qualquer dúvida de que o seu corpo resplandecia sob aquela requintada camisinha bordada, cheia de arremates, nozinhos franceses, pontos margarida e pontos atrás, todos devidamente alinhados, as linhas bem arre­matadas e sem criar sombras, o richelieu em linho fino...

"Então, Joana?"

A voz de Luís vinha do quarto e trazia um timbre de impaciente expectativa.

"Já vai, já vai!", retorquiu ela.

Contemplou-se uma última vez ao espelho, admirando a perfeição que lhe cobria o corpo. Que trabalho aquilo lhe dera! Só aquele pormenor do nozinho francês, por exemplo. O cuidado que tivera ao colocar a agulha na frente da linha e ao dar uma volta com ela em torno da agulha; ou ao segurar as laçadas junto ao tecido até a puxar toda para baixo; ou ao escolher o ponto de entrada da agulha no tecido assim tão próximo do ponto de saída. Realmente, estava um primor! E o arremate? Sim, o que dizer daquele arremate, valha-me Deus? Tivera de passar a linha por dentro de vários pontos, no avesso do tecido, para conseguir tal efeito! E depois ainda passou a trama na diagonal, de modo a obter um avesso perfeito! Jesus, o labor que tinha sido para obter tamanho requinte nos pormenores! Fora um mês daquilo, um mês de tortura às voltas com as agulhas, com as linhas e com todos os nós e pontos, mas... Virgem Maria, valera a pena!

Virou as costas e, vaidosa, lançou um derradeiro olhar apreciativo ao espelho.

Ah, estava mesmo um primor!

Saiu enfim do quarto de banho, resplandecendo como nunca na sua vida. Que lindo! Não tinha dúvidas de que Luís ficaria embasbacado. A riqueza dos pormenores e o esmero do trabalho eram de um chie verdadeiramente de arrasar.

Deslizou pelo quarto e, a transbordar de felicidade, deu dois passos e rodopiou diante do marido, como uma bailarina, exibindo no corpo aquela perfeição da arte de bordar.

"Estou linda?", perguntou.

Luís admirou-a por um breve segundo.

"Perfeita."

Acto contínuo, agarrou-se a ela e, com um movimento brusco e esfaimado, puxou-lhe o delicado vestido de noite,

rasgando-o brutalmente pelas bordas, e atirou-o para o canto do quarto.

O segundo choque veio pouco depois. Ainda combalida com a indiferença do marido pela sua obra-prima, Joana depressa se confrontou com outro problema de grande magnitude. Apesar da ânsia com que ele a envolvera nos seus braços, minutos mais tarde tornou-se penosamente claro que, por algum motivo, Luís não conseguia erguer a sua masculinidade. Persistiram ambos nos abraços e nos beijos ainda durante algum tempo, até não mais ser possível fingir que o que se estava a passar não se estava a passar.

"Eu... não sei o que tenho", balbuciou Luís, embaraçado com o que lhe sucedia, logo a ele que ainda horas antes se gabara de ser um verdadeiro touro. "Isto não... não..."

"Oh, deixa estar", murmurou ela, esforçando-se por esconder a decepção. "Não faz mal."

"Faz, sim", cortou ele, quase zangado. "Não sei o que se passa, isto nunca... enfim, não percebo."

Joana passou-lhe a mão pelo cabelo e acariciou-lhe o rosto, tentando tranquilizá-lo.

"Pronto, tem calma. Estamos um pouco nervosos, só isso." Inclinou a cabeça em direcção à porta. "Porque não vais comer alguma coisa? Vais ver que... que ficas logo melhor."

Ansiando por uma pausa, Luís aceitou a sugestão e foi à cozinha. Era a primeira vez que bloqueava no momento da verdade diante de uma mulher e, ou se enganava muito, ou sabia muito bem qual a origem do problema. Amélia! Só podia ser Amélia! O reencontro da véspera reacendera-lhe a paixão que nunca verdadeiramente se apagara; sabia agora que apenas ardera em lume brando durante os anos em que a julgara perdida. Mas só o acto de a ver já exercera um

poderoso efeito sobre ele. Tinha consciência de que, por mais que tentasse iludir-se, ele era dela e só a ela pertencia. Até o seu corpo parecia revoltar-se perante a imposição de uma outra mulher.

Confiando nos poderes da fruta bíblica, trincou uma maçã. Se a maçã conduzira Adão ao pecado, quem sabe se não poderia fazer o mesmo por ele. Mastigou a peça de fruta com vagar calculado e quando acabou regressou ao quarto e deslizou por entre os lençóis para junto do corpo quente e palpi­tante de Joana. Tocaram-se e abraçaram-se. Por entre os beijos e as carícias, a virilidade reapossou-se do seu corpo e com ela tomou posse do corpo da mulher.

Amaram-se com abandono, os olhos fechados e os corpos entregues à orgia das sensações. O que Joana não sabia é que Luís cerrara os olhos para se imaginar com Amélia e que foi com Amélia que ele nessa noite verdadeiramente fez amor.

 

A maior ironia do casamento foi o facto de ter aproximado Luís de Amélia. Acabou por ser uma evolução de certo modo natural, considerando que aconteceu por via dos cônjuges. Com frequência Joana queria estar com a irmã, mas por vezes era o próprio capitão Branco que insistia em convidar o seu camarada de armas. O facto é que o casal Afonso se tornou visita habitual na casa dos Branco e os dois antigos namorados passa­ram a encontrar-se com uma assiduidade quase embaraçosa.

Perante o inopinado evoluir da situação, nos primeiros dias Amélia esforçou-se por se manter longe da vista de Luís, invocando uma multiplicidade de pretextos: ou tinha de orientar a criada ou precisava de tratar dos filhos ou havia que ir ao mercado ou então era outra coisa qualquer. A irmã acompanhava-a, mas Amélia tinha o cuidado de manter os homens afastados.

Este distanciamento deixou Luís perturbado. Sempre que ia à casa do Sameiro sentia uma excitação surda pela perspectiva

de ver Amélia, mas uma vez lá sobrevinha a decepção. Quase nunca a via e começou a perceber que a invisibilidade da dona da casa era propositada e tinha a ver consigo. Seria possível que a sua presença lhe repugnasse? Mais do que desconfortável, essa possibilidade deixava-o triste. Para fugir ao isolamento, Luís refugiou-se na companhia do capitão, o que, aliás, parecia natural, sendo ambos camaradas no mesmo quartel. Foi assim que o visitante foi conhecendo melhor o seu rival secreto.

Mário Branco revelou-se-lhe um homem metódico e exigente, daqueles que nunca esquecem os seus deveres. Quando as visitas se prolongavam pela noite e o casal Afonso acabava por pernoitar em casa dos Branco, antes de se deitar o capitão pedia licença aos convidados e descia até ao escritório. Verificava junto à porta de entrada os gastos de electricidade desse dia e registava-os depois num livrinho preto pousado na escrivaninha. A luz de um candeeiro cujo clarão azulado tingia de sombras as paredes forradas a papel, anotava aí todos os gastos da família, mesmo os que poderiam parecer mais insignificantes. Luís percebeu que isso lhe estava na massa do sangue, era algo que emergia da sua natureza de homem disciplinado.

Ao fim de várias noites dormidas naquela casa, Luís descobriu que o capitão saía rumo ao quartel todas as manhãs à mesma hora, com o inacreditável pormenor de o fazer rigorosamente no mesmo minuto. Tão surpreendido ficou com esta constatação que comentou o assunto com a mulher.

"Isso é coisa famosa aqui em Penafiel", observou Joana, com um risinho discreto. "Ele toma sempre o mesmo itinerário. Desce aqui a rua, chega à Praça do Município e mete pela Rua Direita, onde está o jornal. Pois sabes o que faz o doutor Tomás Ferreira quando o vê passar?"

"Quem?"

"O doutor Ferreira. O director do nosso semanário, o Tempo. Estás a ver quem é?"

"Ah, sim. O que faz ele?"

"Acerta a hora!"

"Estás a brincar."

"A sério", garantiu ela. "O homem confia mais na hora de passagem do Mário à frente do jornal do que no próprio relógio!"

Apesar da relutância surda de Amélia, os casais passaram gradualmente a despender mais tempo juntos. As desculpas para a ausência da dona da casa tinham um limite para lá do qual se tornaria estranho o seu comportamento. Foi assim que a resistência da antiga namorada se foi a par e passo desmoronando, até ao dia em que o marido, durante um jantar na companhia do casal Afonso, deu inadvertidamente o passo decisivo. "Vocês já repararam como o tempo melhorou?" "É a Primavera, meu capitão", observou Luís. "O sol já espreita."

"Pois é", suspirou o anfitrião, saboreando um trago de branco verde. "Este fim-de-semana vamos para a quinta. Querem vir?" "Onde?"

"A nossa quinta, ali em Castelo de Paiva." "Não sabia que vocês tinham uma quinta." "Temos duas até. Uma é a Quinta de Pousada e a outra é a Quinta de Vales. Mas olhe que são coisas rústicas, não têm nada de especial."

"Ah, pois não!", exclamou Amélia com um sorriso irónico. "Pois foi graças a essas duas coisas rústicas que conquistaste a minha mãe."

"Que queres dizer com isso?", admirou-se o capitão Branco. "Eu casei contigo, não foi com a tua mãe."

"Eu cá me entendo."

Fez-se um silêncio breve. Surpreendido, Luís percebeu de imediato o alcance da inesperada observação de Amélia; era como se a antiga namorada lhe tivesse lançado uma mensagem velada, lembrando-lhe que o seu casamento não fora inteiramente livre. Aquelas palavras contrastavam frontalmente com o comportamento que Amélia adoptara desde que ele se tornara visita frequente da casa, pelo que as escutou com um indisfarçável sentimento de alívio. Era como se uma luz de esperança se tivesse acendido na desesperança em que se perdia.

O capitão, porém, não entendera o comentário da mulher e olhava-a com uma expressão interrogativa. Sentindo que era necessário desviar-lhe a atenção do assunto, Luís tratou de relançar a conversa.

"O meu capitão anda a comprar propriedades?"

"Não, claro que não."

"Então como tem essas quintas?"

Mário Branco indicou com o polegar um retrato pousado na estante; tratava-se de uma fotografia antiga onde se via um casal já idoso, ele em pé de gravata negra e bigode branco, ela sentada com um grande vestido escuro, a imagem granulada já a desbotar-se com o tempo.

"Herdei-as dos meus pais, que eram pessoas abastadas e tinham muitos terrenos nesta região. Quando eles faleceram, algumas foram para os meus irmãos e duas vieram para mim. Este sábado vamos para uma dessas propriedades, a Quinta de Pousada, ali em Castelo de Paiva." Inclinou a cabeça para os hóspedes. "Se vocês quiserem ser nossos convidados, teríamos muito gosto."

"Ah, Luís, vale a pena!", intercedeu Joana. "A quinta é uma maravilha, vais ver."

Luís lançou um olhar de relance a Amélia, tentando adivinhar-lhe a reacção à perspectiva de passar dois ou três dias com ele num espaço tão recluso. A antiga namorada manteve o rosto fechado, quase impenetrável, mas um leve movimento dos belos olhos dourados deu ao alferes o reconfortante sinal que procurava.

"Muito bem", decidiu naquele instante. "Contem connosco."

Cruzaram o Douro na estreita ponte Hintze Ribeiro, em Entre-os-Rios, terra assim chamada por ser justamente o local onde o Douro e o Tâmega confluíam. Do alto da ponte admiraram as duas estradas de água a convergir à esquerda, a união de ambas a formar um vigoroso caudal que passava por baixo da ponte e se perdia no horizonte à direita, em direcção ao Porto.

Uma vez na outra margem subiram a encosta pela estrada serpenteada, de um lado a verdura em socalcos, do outro a paisagem aberta para o grande rio. Mário ia ao volante, com Luís ao lado e as mulheres atrás, apertadas com as três crianças. Na borda da estrada apareciam esporadicamente casas de pedra ou muros rústicos, como megalitos embrenhados na verdura, até que, já lá no alto, o automóvel largou o caminho principal e meteu por um trilho que o conduziu a um portão estreito.

"Chegámos!", anunciou o capitão.

Para lá do portão, Luís deparou-se com um terreno inclinado pela encosta verde e castanha do monte, a vasta correnteza prateada do Douro a mover-se lá em baixo, enérgica quando vista de perto, plácida àquela distância. Toda a

propriedade estava coberta de vinhas, à excepção da grande casa de pedra assente em forma de L e do belo espigueiro mesmo em frente.

A chegada dos proprietários e dos convidados desencadeou um frenesim na quinta. Viam-se crianças a correr de um lado para o outro e da confusão emergiu um vulto corpulento.

"Chico!", guinchou Joana.

As duas irmãs foram ter com ele e Luís ficou a observá-los com sentimentos contraditórios; aquele rapaz era suposta­mente irmão delas, mas sabia que não se tratava de um irmão verdadeiro, antes de uma criança abandonada que a mãe das raparigas adoptara. Mais do que isso, aquele moço de feições grotescas tinha-se revelado uma espécie de homem de mão de dona Beatriz, como Luís descobrira à sua própria custa. Duvidava que alguma vez se viesse a habituar à presença de Francisco. A vantagem, pensou, é que aquela figura era quase invisível.

"Luís!", chamou a mulher. "Deixa-me apresentar-te o meu irmão."

Quase contrariado, o marido aproximou-se.

"Já o conheço", disse, estendendo o braço ao rapaz. "Então, Chico?"

"Olá."

Apertaram as mãos e Francisco virou a cara, fitando o rio lá em baixo.

"Sempre salamurdo, hem? Falar não é contigo..."

O cunhado não respondeu. Luís mirou-o com atenção e estudou-lhe as linhas goriláceas do rosto, tentando decidir se o rapaz era calado ou imbecil. Inclinou-se para a imbecilidade.

"Anda, vou mostrar-te a casa", disse Joana, puxando-o pelo braço.

Afastaram-se ambos em direcção à casa de pedra. Tratava-se de um edifício de campo, de aspecto rústico e frio, decerto desaconselhável para o Inverno. Com a chegada do tempo mais ameno, porém, constituía uma interessante fuga da rotina em Penafiel.

"O que está o gajo aqui a fazer?", perguntou Luís quando ficaram a sós.

"Quem? O Chico?"

"Sim. Não pôs os pés no nosso casamento mas vejo-o agora aqui. Vamos ter de o aturar?"

Joana respirou fundo.

"Ele é um pouco... como direi? Um pouco..."

"Abrutalhado?"

"... especial."

"Especial em quê?"

"Enfim, tem um feitio muito seu, não se dá com as pessoas. A minha mãe gostava dele, apesar de ser um rapaz pouco sociável. Mas tem muita força física, sabes? Além disso, era-lhe fiel. Fiel como um cão, estás a ver o género?"

"Pois, isso percebi eu."

Joana franziu o sobrolho.

"Já o conhecias?"

"Quer dizer... vi-o em casa da tua irmã, só isso. O que está ele agora aqui a fazer?"

"O Chico vive nas propriedades da Amélia... ou melhor, do Mário. Gosta da vida rude do campo e de trabalhos pesados. Como a minha irmã o acolheu, transferiu para ela aquela fidelidade canina que tinha em relação à minha mãe." Olhou para o marido. "Mas porquê? Isso incomoda-te?"

"Não, não é isso. Acho-o é um pouco estranho, percebes? Deixa-me assim meio inquieto, não sei bem explicar."

"Porquê? É por falar pouco?"

Luís encolheu os ombros.

"Sei lá", disse. "Nem interessa."

A mão esquerda de Francisco agarrou a galinha pelo pescoço e com a direita o rapaz torceu-lhe a cabeça e matou-a. Luís estava sentado nos degraus e observou a cena com desconforto. Aquele bruto matava um animal com a mesma indiferença com que bebia um copo de água.

"Venha daí", disse uma voz. "Vou mostrar-lhe a propriedade."

Era o capitão Branco, que, igualmente incomodado com os modos embrutecidos do cunhado, o veio puxar para um passeio para conhecer a Quinta de Pousada. Meteram ambos pelas vinhas e desceram os socalcos da encosta até chegarem junto de um homem de pele gasta e trigueira que se encontrava acocorado a inspeccionar as uvas.

"Então, Tino? Como vai isso?"

O homem ergueu-se, surpreendido, e limpou as mãos às calças.

"Oh, senhor capitão! Não sabia que vossa senhoria cá vinha hoje."

"É a Primavera", disse o proprietário, apontando para a luz que jorrava da abertura azul entre os flocos brancos de nuvens. "O Sol põe-se a espreitar e eu cá estou."

"Bons olhos o vejam, senhor capitão. O tempo está a ficar melhorzinho, graças a Deus."

O capitão olhou para o seu convidado, que vinha atrás.

"Este é o nosso caseiro, o Constantino Latino", apresentou-o a Luís. "Chamamos-lhe Tino." Virou o rosto para o homem e piscou-lhe o olho. "Mas não sei se você tem muito tino."

O caseiro soltou uma risada gutural, exibindo uma dentadura esburacada e apodrecida.

"Faz-se o que se pode, senhor capitão. A minha patroa bem se queixa do meu juízo."

O proprietário apontou para as vinhas.

"Então e as uvas? Vamos ter uma boa vindima este ano?"

"Se Deus quiser, senhor capitão. A chuva foi boa. Queira Deus que o sol ajude agora."

Luís acocorou-se para espreitar as uvas.

"São vermelhas", constatou, passando os dedos por um cacho escondido pelas folhas verde-esmeraldas. "Vocês fazem tinto, é?"

"O melhor de Castelo de Paiva."

"Lá está o meu capitão a exagerar...", sorriu o alferes veterinário.

Mário Branco fez um sinal ao caseiro.

"Se bem o conheço, Tino, você não larga a pinga. Tem aí alguma coisa para mostrar aqui ao nosso alferes, que pelos vistos desconfia das minhas palavras?"

O caseiro retirou um copo e duas garrafas de um cesto pousado junto a um pé de vinha.

"Está aqui, senhor capitão."

O proprietário despejou um dedo de tinto no copo e estendeu-o ao convidado.

"Ora experimente."

Luís pegou no copo e saboreou o vinho.

"Agh!", gemeu involuntariamente, sentindo os pelos eriçarem-se-lhe e a pele arrepiar-se. "Brrr..."

O capitão e o caseiro riram-se.

"Então? Não gostou?"

"Confesso que não", admitiu Luís. Depois da careta que fizera, não era possível esconder a verdade. "É... sei lá, um pouco azedo."

"É raspado", corrigiu o capitão.

"Sei lá o que é. Mas, se isto é o melhor da região..."

"E porque você não está habituado a estes néctares." Arrancou o copo da mão de Luís e engoliu o que restava. "Aaah!" Depois de o esvaziar, ergueu a garrafa e admirou o líquido escuro que bailava no interior. "Para quem gosta de tinto verde, este é de excelente qualidade." Agarrou na outra garrafa, despejou uns golos e voltou a estender o copo ao convidado. "Agora experimente este."

Com ar desconfiado, Luís estudou o líquido amarelo-esver-deado que balouçava no copo e, quase a medo, experimentou um trago. Era totalmente diferente; tinha um paladar fino, melífluo, e deslizava suavemente pela língua.

"Hmm, é bom!"

"E verde branco", disse o capitão, apontando para o outro lado da encosta. "É feito com aquelas uvas ali. Apanham muito sol e ficam adocicadas. Dão este vinho magnífico."

"É tudo produzido aqui na quinta?"

"Sim. Aqui o Tino e a família, mais o Chico, fazem a vindima, pisam a fruta, colocam tudo nuns lagares que temos para ali e depois metem o vinho em pipas. E um trabalho dos diabos. As uvas que sobram são vendidas à Quinta da Aveleda."

Sentiram movimento atrás e viram Amélia a aproximar-se.

"Meninos!", chamou. "O almoço está na mesa."

Vinha radiosa, com o cabelo a brilhar ao sol e as faces coradas. Ao vê-la assim, tão bela e apetitosa, Luís sentiu inesperadamente a volúpia despertar dentro de si. Já não era apenas a paixão platónica da juventude que o atraía, embora ainda endeusasse a primeira namorada como se ela fosse um anjo; mas agora alimentava-o também o desejo mais visceral e lascivo da carne. Amélia não era apenas a deusa idealizada da adolescência; a seus olhos tornara-se uma fêmea carnal.

Vendo-a ali no meio das vinhas, tomou consciência nesse instante de que já possuíra muitas mulheres na sua vida, mas nunca aquela que verdadeiramente amava. A constatação deixou-o assombrado. Como era possível que nunca tivesse amado aquela que verdadeiramente amava? E como poderia viver tranquilo quando a via tão perto e a sabia tão definitiva­mente para além do seu alcance?

"Viver é sofrer", murmurou, ecoando uma velha frase dos tempos da faculdade.

"Como?", perguntou Mário Branco, que caminhava já em direcção ao casarão.

Luís fez um gesto largo e melancólico que abarcou a quinta.

"Não há dúvida que o meu capitão é um homem de sorte", disse, desviando o pensamento. "Sabe porventura o que tem aqui?"

"O quê?"

"O paraíso."

E os seus olhos pousaram em Amélia.

 

"No próximo sábado voltamos cá e ficamos uma semana inteira."

Amélia contemplava da janela um dos jornaleiros a juntar palha para as mulas e as palavras do marido deixaram-na petrificada.

"O quê? Uma semana inteira?"

"Sim. Vamos começar os preparativos para as vindimas e eu tenho de andar por cá."

"Tu estás doido?"

O capitão Branco possuía duas quintas e, com a chegada da Primavera, os fins-de-semana passaram a ser vividos alternadamente em cada uma delas. Umas vezes iam para a Quinta de Pousada, outras seguiam para uma propriedade ainda maior, a Quinta de Vales, situada em Cadeado, Paços de Sousa.

Foi em Vales que pernoitaram nesse dia. A propriedade era dominada por uma enorme casa de forma circular, com um

pátio no meio; parte do solar ficara reservada aos aposentos dos proprietários, onde o casal se encontrava agora, e o resto estava dividido por lagares, adegas e cortes de gado, ou entregue às várias famílias de caseiros e a outros homens que trabalhavam a terra, entre eles os jornaleiros, encarregados dos jardins e que ajudavam nas vindimas e noutras tarefas pontualmente necessárias, e os moços, rapazes incumbidos das ceifas, de tratarem do gado e de levarem a cabo todo o tipo de trabalhos pesados que a manutenção da propriedade requeria.

Trabalho era coisa que não faltava por ali, uma vez que a quinta, para além das vinhas e de toda a cadeia de produção de vinho, dispunha ainda de campos de milho e de centeio, para além de outros produtos agrícolas. Daí que o capitão Branco optasse com mais frequência por vir para aqui. Dizia que precisava de seguir os trabalhos, mas a verdade é que apreciava o labor do campo.

O problema é que Amélia gostava mais da tranquilidade que encontrava na outra propriedade e a escolha tornou-se objecto de acaloradas discussões entre o casal. As divergências não eram muito graves enquanto se tratava de ir a um lado ou outro num mero fim-de-semana, mas naquele momento o capitão punha uma hipótese diferente. O que estava agora em questão era instalarem-se na Quinta de Vales durante uma semana inteira, possibilidade que deixou a mulher fora de si.

"Não posso deixar de vir a Vales", argumentou ele, tentan­do parecer razoável. "Há muito trabalho para fazer e eu preciso de estar cá para coordenar as coisas. Senão, já se sabe como é: patrão fora, dia santo na loja."

"Eu é que não tenho culpa", insistiu Amélia. "Saio da cidade justamente para ficar tranquila, mas aqui em Vales isso é impossível. Se é para andar no meio da confusão, mais vale ficar em Penafiel."

"O que queres que eu te faça?", perguntou o marido, abrindo os braços num gesto de impotência. "O trabalho tem de ser feito..."

A mulher apontou lá para fora, indicando o jornaleiro que retirava palha de uma carroça.

"Para ti este trabalho é diversão, mas para mim é um verdadeiro suplício. Ainda se fosse um fim-de-semana, vá lá, aguentava. Mas... uma semana inteira?"

O capitão Branco sentou-se na cama e ficou a tamborilar com os dedos na mesinha-de-cabeceira, matutando no assunto. Ele queria vir para Vales, ela não. Podia forçá-la, claro, mas depois teria de a aturar. Como resolver o problema?

"Ouve, vamos fazer assim", disse, confrontado com a solução óbvia. "Eu tenho mesmo de vir para Vales toda a semana, isto não pode ficar entregue aos caseiros. Mas, se não queres vir, então fica em Penafiel."

Amélia inclinou a cabeça e curvou a boca, numa expressão de desagrado.

"Então tu vens para o campo divertir-te e deixas-me abandonada em Penafiel?"

Ele fitou-a, baralhado.

"Não é isso que tu queres?"

"O quê? Ficar em Penafiel? Claro que não! Prefiro ir para Pousada."

"Então porque não vais?"

"Sozinha?"

"Com os miúdos, claro."

"Eu quero ficar tranquila, Mário, mas não planeio tornar-me uma eremita. Já viste o aborrecido que é eu e os miúdos sozinhos em Pousada? Morríamos de tédio!"

"Está lá o teu irmão."

"Ah, sim! Há-de valer-me de grande coisa, falador como ele é. Fico a vê-lo a torcer o pescoço às galinhas ou a degolar os porcos. Está-se mesmo a ver que vai ser divertido..."

O capitão coçou o queixo, absorto no problema.

"E porque não levas a tua irmã?"

"Já sabes que ela não vai sem o marido."

"Então ela que leve o marido."

"Leve o marido como? O Luís está no quartel a tratar da bicharada. Sabes muito bem que ele não se pode ausentar assim sem mais nem menos."

Os dedos do capitão voltaram a deslizar pensativamente pelo queixo.

"Eu trato disso", disse ele. "Há em Castelo de Paiva umas tarefas que requerem o trabalho de um veterinário e eu vou ver se arranjo maneira de o dispensarem do quartel por uma semana. Além do mais, ele precisa de treinar o cavalo que apadrinhou lá no quartel."

"É essa a tua ideia? A Joana e o Luís irem comigo para Pousada?"

"Sim", confirmou o marido, com esperança de ter encontrado a solução para o problema. "Tenho a certeza de que eles não se importam nada e eu fico com as mãos livres para vir a Vales tratar do que é preciso. Parece-te bem assim?"

Amélia sorriu pela primeira vez nesse dia.

"É perfeito."

Logo que na semana seguinte chegaram à Quinta de Pousada, Luís percebeu que algo havia mudado em Amélia. O distanciamento que a antiga namorada cultivava desde que ele começara a frequentar a sua casa parecia ter dado lugar a uma subtil aproximação. Não era uma postura directa ou óbvia,

mas uma maneira de estar, um estado de espírito, uma disposição de certo modo insinuante.

Apercebeu-se da mudança logo no primeiro dia em Pousada, quando estava sentado nas escadas do casarão a admirar o espigueiro. Sentiu uma presença à esquerda e virou rapidamente a cara, surpreendendo-a a mirá-lo. Logo que se viu descoberta, Amélia afastou os olhos e simulou indiferença. O incidente repetiu-se mais duas vezes, sempre com ela a procurar disfarçar o seu interesse. Mas disfarçava mal e, à medida que o tempo ia passando, tornou-se gradualmente claro que, naquele ambiente em que todos viviam perto uns dos outros, Amélia sentia crescentes dificuldades em reprimir os sentimentos.

Passaram assim os dois primeiros dias, entregues a este jogo de olhares dissimulados. Mas os acontecimentos precipitaram-se ao pequeno-almoço do terceiro dia.

"Estou farta de estar aqui fechada", queixou-se Joana enquanto barrava compota numa tosta. "E que tal se descêssemos até ao rio?"

"Sim!", concordaram em coro as duas crianças mais velhas, as bocas lambuzadas.

"Eu não posso", avisou logo Luís. "O Relâmpago precisa de treino e vou aproveitar a manhã para trabalhar com ele."

"Eu não posso ir", disse Amélia, olhando de relance para a loiça suja. "Há aqui coisas para fazer."

"Oh, mãe!", implorou o filho mais velho, puxando-lhe o braço. "Anda lá. Vamos ver os peixinhos."

"Já disse que não posso ir." Fez sinal à irmã. "Porque não vão vocês com a tia?"

"Podemos, tia?"

Joana encolheu os ombros.

"Porque não?"

Partiram dez minutos depois e deixaram Amélia e Luís inopinadamente sós. Ou talvez aquele momento inesperado não fosse tão inesperado quanto isso. Desde que o capitão o convidara para ir passar aquela semana a Pousada que Luís alimentava o secreto desejo de se apanhar a sós com Amélia. É certo que sempre pensara que, quando isso acontecesse, o desejo se dissolveria em fantasia e a realidade acabaria por se impor, mas logo que se viu na quinta percebeu que não seria assim. Se alguma coisa acontecera nesses três dias fora apenas o intensificar do desejo por Amélia. Era como se o corpo tivesse tomado conta da mente. Amava-a, sem dúvida. Amava-a com uma força redobrada, amava-a ainda mais do que nos dias em que com ela passeava a caminho do liceu de Bragança. Mas agora havia algo mais. Queria-a. Desejava-a acima de tudo e sentia que o desejo era recíproco.

Naquele instante, todavia, duvidou. Talvez estivesse a confundir as coisas; talvez a fome o fizesse alucinar. Talvez o desejo por ela lhe fizesse ver nela um desejo que se calhar ela não tinha.

"Ajudas-me a fazer as camas?"

A pergunta foi feita em tom casual, mas teve um efeito eléctrico em Luís. Nunca Amélia lhe tinha pedido que a ajudasse a fazer a lida da casa. Mas pedira agora. Era como um convite implícito a passarem juntos aqueles momentos em que os outros se tinham ausentado. Tão depressa suspeitou do pedido como logo abanou a cabeça. Que disparate, concluiu de imediato. Lá estava ele a ver o que não existia. Amélia precisava de ajuda porque não tinha a irmã ali e deixara a empregada em Penafiel. Tão simples quanto isso.

"Não ajudas?", admirou-se ela ao vê-lo a abanar a cabeça.

"Claro que ajudo", prontificou-se Luís, levantando-se da mesa da copa. "Começamos por qual?"

"Pela minha."

Amélia certificou-se de que a bebé dormia no berço e levou-o pelo corredor até ao quarto principal da casa. Entraram no compartimento e Luís viu a cama de casal desfeita. Amélia inclinou-se, pegou nos lençóis que estavam aos pés da cama e puxou-os para a frente, esticando-os sobre o colchão. Luís ajudou-a a alisar os lençóis e acompanhou-a no mesmo movimento até aos pés da cama para apanhar o cobertor.

Esticaram a manta e ficaram os dois pendentes para a frente, um de um lado da cama e o outro do outro, as cabeças convergindo até quase se tocarem. Luís cheirou-lhe o aroma a lavanda e sentiu a frescura suave dos lençóis a deslizar-lhe pelos dedos. Sem perceber como, constatou que as calças já mal lhe disfarçavam a erecção. Pararam o movimento, os cabelos muito próximos, cada um sentindo a respiração do outro. Luís ergueu a cabeça e viu-a a olhar para ele com aqueles grandes olhos de caramelo muito abertos. O peito inchava-lhe e desinchava-lhe, como se ela estivesse ofegante.

Permaneceram dois longos segundos assim paralisados, os olhos de um mergulhados nos do outro, os lábios abrindo-se devagar como pétalas molhadas ao sol, os corações a palpitar e palpitar e palpitar. Luís experimentou uma leve tontura e sentiu o controlo fugir-lhe e o instinto apossar-se dele.

"Hmmmm."

Caíram um sobre o outro com um gemido e colaram os lábios quentes e trémulos. Começaram devagar, quase delica­damente, a medo até, mas logo as bocas impacientes se puseram a devorar, sôfregas, as línguas húmidas deglutindo-se com voracidade, as mãos sedentas a agarrar a carne do outro, o calor a crescer e a transformar-se em ardor e depois em brasa, os corpos tão quentes e tão esfaimados e tão gulosos que se desnudaram às cegas, quase rasgando as roupas em gestos bruscos e impacientes, tão agitados e desesperados que se lamberam sem parar enquanto apalpavam e sentiam e despiam.

Num acesso de consciência, Amélia voltou-se para a porta e trancou-a. Depois encostou-se à madeira e olhou-o, afo­gueada e selvagem. O momento de controlo racional foi efémero, pois o corpo logo se tornou uma besta entregue aos sentidos. Incapaz de se conter mais, agarrou-se a ele e perdeu-se naquele corpo de homem. Lambeu-o na boca, ávida e molhada, como se o quisesse devorar. Luís largou-lhe os lábios e deslizou para os seios, gordos e arrebitados. Apertou os mamilos cor-de-rosa, tão largos que enchiam toda a ponta dos peitos, e abocanhou-os com gula. Ela deixou-o, a cabeça descaída para trás, as madeixas douradas e onduladas a tombarem-lhe no rosto, o corpo derramando-se em prazer, mas depois descolou-se e ajoelhou-se sobre o ventre dele para o saborear também ela.

"Pára!", gemeu ele, sentindo-se à beira do descontrolo. "Pára!"

Amélia parou e olhou-o. Agarrou-o pela cintura e puxou-o para ela, as pernas abrindo-se e enrodilhando-se nele. Os corpos começaram a nadar um no outro, primeiro devagar e depois num ritmo frenético, eléctricos já, ele com força, ela com fome, ambos gemendo ao ritmo do movimento, a cama a martelar a parede, ela sentindo-o a enchê-la, ele sentindo-a a derreter-se. Era como se os dois corpos se tivessem tornado um, ferro duro em lava incandescente, as batidas sincro­nizadas, o ritmo intensificando-se a cada pancada, sempre mais depressa, mais depressa, depressa, depressa, depressa, depressa.

A lágrima brotou do canto do olho e escorreu pelo rosto num ziguezague hesitante, aqui apressando-se, ali parando. Amélia passou as costas da mão pela face e espalhou a bátega de remorso pela bochecha corada.

"O que fizemos nós?", soluçou, a voz embargada. "Meu Deus, o que fizemos nós?"

Luís inclinou-se sobre ela e afagou-lhe o cabelo ondulado, tentando reconfortá-la.

"Chiu...", soprou, meigo. "Pronto, pronto."

"E agora? O que será de nós?"

"Nada."

"Nada, como? Tu tens a noção do que fizemos?"

O amante assentiu com a cabeça.

"Fizemos o que nos mandou o coração."

Amélia arregalou os olhos, como se o enunciado do acto fosse ainda mais horrível do que o próprio acto.

"Tu estás doido? Nós... nós cometemos adultério! Meu Deus! Cometemos adultério! Eu

"Chiu..."

"... eu sou uma adúltera. Traí o meu marido!" Fungou. "Pior..."

"Pronto, pronto."

"... do que isso, traí a minha irmã! A minha própria irmã!" Escondeu a cara nas mãos e os soluços tornaram-se quase contínuos. "Como pude eu fazer isto? A minha própria irmã! Meu Deus! Meu Deus! Que coisa horrível!"

Começou a chorar baixinho e Luís abraçou-a, procurando ajudá-la a controlar-se. Depois beijou-a na testa e nos cabelos e colou-lhe os lábios a uma orelha.

"Tem calma, meu amor", segredou-lhe. "Está tudo bem. Tem calma. Eu estou aqui e não vai acontecer nada."

O choro tornara-se um gemido contínuo, mas Amélia fez um esforço, engoliu em seco, fungou e o gemido parou, transformando-se numa sequência de soluços que com o tempo se foram tornando cada vez mais espaçados.

"E agora?", perguntou logo que assumiu maior controlo de si própria. "O que fazemos? O que vai ser de nós?"

"Nada, meu amor. Nós não fizemos nada de grave."

"Nós cometemos adultério, Luís!", repetiu ela, obcecada com a ideia. "Eu traí o meu marido e a minha irmã! O que pode haver de mais grave que isso?"

Luís pousou-lhe o indicador nos lábios, como se a mandasse calar.

"Chiu... nós não traímos ninguém."

"Traímos, sim. É horrível!"

"Nós não traímos. Nós fomos traídos, o que é bem diferen­te. Nós fomos traídos pela tua mãe quando ela te forçou a casar com o... com o teu marido. Ela é que nos traiu, enten­deste?"

Amélia fez que sim com a cabeça, mas nada disse.

"O amor que nos juntou hoje é o amor que nos alimenta há anos. Eu estou apaixonado por ti e tu estás apaixonada por mim. Não há nada que possamos fazer, é mais forte do que nós. Qual é o crime que duas pessoas apaixonadas cometem quando se amam? Nenhum. A traição não foi cometida por nós, foi cometida sobre nós. Tu não devias estar casada com o teu marido, eu não devia estar casado com a tua irmã. Nós devíamos era estar casados um com o outro, entendes? Se a tua mãe não se tivesse metido onde não era chamada, seria isso o que acabaria por acontecer. Nós casar-nos-íamos."

"Mas não casámos, Luís. Nós estamos casados com outras pessoas e agora nada pode mudar isso."

"Eu sei."

"Então o que fazemos?"

Luís pegou na mão dela e colou-a ao peito, comprimindo-a para que ela sentisse melhor as batidas do coração.

"Podemos não estar casados perante a lei, mas estamos casados perante nós próprios. Percebes? A tua mãe roubou-nos tudo, mas não roubou o que sentimos um pelo outro. Os nossos corpos podem estar entregues a outros, mas a minha alma pertence-te e a tua alma pertence-me. Não há nada a fazer. Mesmo que o quiséssemos, não existe coisa alguma que possa alterar isso. Nós pertencemos um ao outro. Temos de aceitar o nosso destino."

"Sim, mas... e agora? O que fazemos?"

O amante olhou para a janela, como se a resposta estivesse para além dela.

"Porque não fugirmos?"

"Estás doido?"

"Sim, vamos fugir!"

"Então e os meus filhos? Então e a minha irmã? Então e o Mário? Achas que algum deles merece isso?" Amélia estremeceu.

"Além do mais, seria incapaz de me separar dos meus filhos. Isso está totalmente fora de questão."

Luís suspirou.

"Tens razão."

Um grande soluço pareceu quase estrangular Amélia.

"O que vai ser de nós, meu Deus? Como poderemos estar ao pé um do outro à frente... deles?" Olhou-o. "Temos de deixar de nos ver."

"O que estás para aí a dizer?"

"Não nos podemos ver mais."

"Eras capaz disso?"

"Tem de ser, Luís. Não nos podemos ver um ao outro. Se estivermos juntos..."

"Tu eras mesmo capaz disso?

Ela calou-se por um momento, considerando essa possibilidade. Depois abanou a cabeça, os olhos quase desesperados.

"Não. Nunca."

Luís beijou-a com ternura na testa.

"Nem eu."

"Então o que fazemos?"

"Teremos de viver em segredo."

Amélia olhou-o interrogativamente.

"O que queres dizer com isso?"

"Aos olhos do mundo estamos casados com outros, aos nossos olhos estaremos casados um com o outro."

"O quê?"

"Seremos marido e mulher em segredo."

"Queres dizer... queres dizer que seremos amantes?"

"Vês alguma alternativa?"

"Nós? Amantes?" Pronunciou a palavra como se ela fosse maldita. "Mas isso é horrível!"

"Vês alguma alternativa?"

Ela manteve os olhos muito fixos nele, como se tentasse lê-lo, mas depois de um longo instante pestanejou e acabou por baixá-los, devagar, em rendição.

"Não."

"Então é o que seremos."

Os olhares entre Luís e Amélia tornaram-se diferentes, culpados quando Joana se encontrava presente, cúmplices quando se cruzavam a sós. Passaram a viver num desassossego miudinho, acossados por uma ambivalência dilacerante: temiam que alguém se apercebesse de algo, ansiavam por um novo ensejo de se juntarem em segredo. Começaram por tentar ser pacientes e aguardar tranquilamente a ocasião propícia, mas ela não surgiu de imediato e depressa ficaram inquietos.

Onde num momento prevalecia a paciência, passou a do­minar a inquietação. Já em desespero, na manhã seguinte Luís tentou a todo o custo criar uma oportunidade.

"Ó António", disse, interpelando o filho mais velho de Amélia. "Gostaste ontem de ir ao rio?"

"Sim."

"Querias voltar?"

"Queria."

Luís olhou para a mulher.

"Se calhar fazia-vos bem dar o mesmo passeio, Joana. Os miúdos gostam e..."

"Ai, hoje não. Descer até ao rio foi agradável, mas a subida... ufa, custou-me muito."

"Olha que te fazia bem", insistiu o marido. "O ar é óptimo e vieste com magníficas cores."

"Pois, mas é uma grande estafa." Franziu o sobrolho. "Olha lá, porque nao vais tu?

A tentativa não resultou, mas Luís não se deu por vencido. Ao almoço, e enquanto saboreava um copo de verde branco caseiro, lançou uma nova sugestão: e que tal Joana levar as crianças a ver como se fazia leite e queijo? Havia uma vacaria ali em Castelo de Paiva, a uns quilómetros da Quinta de Pousada, e decerto que seria uma tarde bem passada. Luís insistiu na sugestão, mas a mulher recusou liminarmente a ideia, alegando que queria passar a tarde a ler.

No primeiro instante em que, por momentos, Amélia o apanhou a sós na cozinha, logo depois do almoço, não escapou a uma repreensão.

"Tu estás maluco?", murmurou ela com muita intensidade, os olhos carregados.

"O que foi?"

"Tens de parar com essas sugestões despropositadas", disse Amélia, desviando a atenção para a porta de modo a assegurar-se de que ninguém vinha aí. "Se continuares a tentar mandá-la embora, ela vai acabar por perceber."

"Não percebe nada."

A amante apontou-lhe o dedo, como se o estivesse a avisar.

"A minha irmã pode ainda ser nova, mas não é parva. A partir de agora, bico calado, ouviste?"

Era evidente que Amélia tinha razão, mas não era isso que lhe resolvia o problema. Desejava-a ardentemente e as coisas eram agravadas por aquela situação de se encontrar tão próximo e tão distante dela. Luís estava a ficar desesperado; sentia absoluta necessidade de estar a sós com a mulher que amava, mas não via modo de aparecer uma nova oportunidade. Assim não poderia ser, concluiu, já cego pelo desejo. Se não conseguia chegar a ela de uma maneira, teria de ser de outra. Aquela semana na Quinta de Pousada acabaria em breve e

talvez tão cedo não dispusessem de uma oportunidade como aquela.

Na noite do quarto para o quinto dia, quando todos dormiam a sono solto, levantou-se cuidadosamente da cama, deslizou em silêncio pelo corredor e entrou com muito cuidado no quarto de Amélia.

"És tu, Luís?"

Era a voz da amante. Amélia estava acordada e soergueu-se na cama, apoiada nos cotovelos.

"Chiu."

Luís debruçou-se sobre ela muito devagar, quase com medo de que a sua respiração fosse audível por toda a casa, e bei-jou-a com paixão. Depois envolveu-se no cobertor, deitou-se ao seu lado e mergulhou-lhe no corpo, mas de imediato imobilizaram-se os dois. A cama chiava muito, cada movimento era um guincho e decerto que todos haviam sido despertados pela chinfrineira aguda das molas e pelo ranger dorido da madeira.

Aguardaram um instante, a respiração suspensa, os dois muito alerta, quase a ouvirem os próprios corações, os olhos vidrados, ambos a tentarem detectar algum movimento na casa. Nada aconteceu, porém. Tudo permanecia calmo. Tranquilizado, Luís debruçou-se de novo sobre Amélia para a beijar, mas a cama voltou a chiar.

"Porra!", praguejou muito baixinho. "Isto faz uma baru­lheira inacreditável!"

"Não pode ser mais devagar?"

Luís tentou movimentar-se com maior cuidado, movendo o corpo muito lentamente, mas os guinchos recomeçaram; pare­cia que a cama fazia de propósito.

"E agora?", perguntou ele, percebendo que era impossível não fazer barulho. "O que fazemos?"

Amélia ficou um instante calada, a avaliar as opções.

"E se fôssemos lá para baixo?"

A sugestão deixou Luís espantado. A casa tinha dois pisos, é certo, mas só aquele onde eles se encontravam, o primeiro, era habitável.

"Como assim?"

"Vamos lá para baixo."

"Mas lá em baixo não há nada."

"Há o curral."

Atravessaram com muito cuidado o corredor, evitando as partes do soalho que rangiam, e abriram a porta exterior. O gelo da noite húmida envolveu-lhes os corpos num abraço arrepiante. A tremer de frio, desceram as escadas e, uma vez cá em baixo, meteram-se no curral, situado mesmo por baixo da cozinha. Chamavam-lhe curral, mas na verdade era mais uma pocilga e um galinheiro, uma vez que ali só havia porcos e galinhas. Pairava no ar um forte cheiro a animais e os suínos, sentindo o movimento, puseram-se a grunhir; mas ao menos estavam longe do piso residencial da casa e, pormenor igualmente relevante, o espaço apresentava-se relativamente quente.

Escolheram um canto onde era guardada a palha e deitaram-se ali, envolvendo-se um no outro. Ainda tiritavam de frio, mas o calor dos corpos apertados foi crescendo ao ritmo dos beijos e das carícias e logo Amélia começou a sentir os lábios a arder. Tremiam ainda, mas já de antecipação, os corpos famintos, a carne voraz, os sentidos despertos. Luís lambeu-lhe a boca, os ouvidos, o ventre, lambeu-a com gula e avidez; tentou adiar o momento o mais possível até que se tornou impossível adiar mais e, com os gestos bruscos dos possessos, virou-lhe o corpo, assentou-a de gatas e entrou nela.

Os gemidos de Amélia irromperam pelo curral, misturados com o grunhido dos suínos; os porcos agitavam-se de um lado da cerca, os amantes bailavam do outro lado, animais uns e outros. As mãos dela agarravam-se à madeira enquanto o corpo balouçava ao ritmo das pancadas de Luís, ele arfando e ela vagindo. Sentindo aproximar-se o ponto para além do qual não se conseguiria controlar mais, Luís interrompeu os movimentos e recuou.

Foi o suficiente para recuperar algum controlo. Já mais recomposto, deitou-se de costas sobre a palha e fez-lhe sinal de que se sentasse em cima dele. Amélia obedeceu e montou-o, enterrando-se com um suspiro. Começou a subir e a descer, primeiro devagar, depois mais depressa, os gemidos acompanhando o ritmo dos movimentos.

"Quem está aí?"

Os amantes paralisaram, horrorizados.

Olharam em redor, atarantados, procurando identificar a direcção de onde vinha a voz. Viram um clarão azulado cair-lhes em cima e uma mão a segurar um candeeiro a petróleo. A luz bruxuleante bailava como um pêndulo, projectando sombras em movimento pelo curral e banhando de perfil os traços rudes e gastos de um homem que os observava embasbacado, o canto dos olhos sulcado de rugas, os dentes apodrecidos intervalados por buracos negros.

Era Tino, o caseiro.

 

O corpo compacto e grosseiro de Francisco cruzou a ombreira da porta da copa e imobilizou-se diante da mesa do pequeno-almoço. Luís parecia alheado de tudo, os olhos fixos para além da janela, perdidos num horizonte longínquo. Joana afadigava-se a dar de comer aos sobrinhos, parecia uma andorinha a esvoaçar no meio das crias.

"A Amélia?", perguntou Francisco.

"Ainda não se levantou", esclareceu a irmã, remexendo energicamente o copo de leite.

"Porquê?"

"Está mal disposta." Pegou no copo e estendeu-o à pequena Rosinha. "Anda, já tirei as natas. Podes beber."

Francisco deu meia-volta e desapareceu no corredor.

As crianças na copa agitavam-se, inquietas; queriam ir lá para fora brincar e o pequeno-almoço era um ritual que as enervava. A mãe conseguia mantê-las sob controlo, mas, sem Amélia ali, as coisas eram diferentes. A tia exercia menos

autoridade e os pequenos aproveitavam para montar na copa um verdadeiro circo.

" Luís, podias ajudar", queixou-se Joana, incapaz de dar resposta a todas aquelas solicitações.

O marido parecia vidrado na janela, entregue aos seus pensamentos, e estremeceu ao perceber-se interpelado.

"Hã?"

"Olha lá, estás a dormir ou quê? Ajuda-me! Isto está um pandemónio, valha-me Deus."

"Que queres que eu faça?"

A mulher indicou o sobrinho mais velho, que dava saltos frenéticos e guinchava como um cabrito junto à porta da cozinha.

"Então não vês o estado em que se encontra o António? Olha para aquilo! O diabo do rapaz foi ali às natas e despejou-as na cabeça!"

Luís observou a criança e constatou que, de facto, tinha uma pasta branca a pingar-lhe dos cabelos.

"Caramba, que porcaria!" Levantou-se, foi buscar um pano e esfregou-o na cabeça do pequeno. "O António, o que é isto?"

"É neve! É neve!"

"Qual neve, qual carapuça! É uma nojeira, é o que é!"

"Eu quero neeeeeeve!"

"Vá, juizinho."

Pegou no pequeno e, apesar da resistência que ele mostrou, obrigou-o a sentar-se à mesinha da copa. Cortou uma fatia de regueifa e barrou-a com manteiga, entregando-a a António.

"Vamos, come!"

"Não quero!"

"Come, António."

"Não queeeeero!"

"Ó meu grandessíssimo teimoso!", rugiu, já impaciente. "Ou tu comes isto tudo, ou então..."

"Senhor Luís."

Luís virou a cabeça para trás e viu Francisco de novo parado à porta, dessa vez com os olhos postos nele. Aquela pose surpreendeu-o. Que se lembrasse, era a primeira vez que o troglodita lhe dirigia palavra por iniciativa própria.

"Sim?"

"A Amélia pede que o senhor vá lá ao quarto."

Luís franziu o sobrolho, olhou de relance para Joana, que continuava às voltas com o leite da pequerrucha, levantou-se e saiu da copa com Francisco no encalço. Percorreram ambos o corredor até chegarem diante do quarto de Amélia. Luís deu três toques leves na madeira e a voz de Amélia mandou-os entrar.

"Querias falar comigo?"

Com os olhos vermelhos de fadiga, Amélia mirou o amante e o irmão adoptivo e fez-lhes sinal de que se instalassem aos pés da cama.

"Fechem a porta e sentem-se aqui", ordenou.

Os dois homens obedeceram e acomodaram-se na cama, a porta do quarto já trancada.

"O que se passa?", perguntou Luís.

Amélia suspirou.

"Acho que não precisamos de fingir ao pé do Chico."

"O que queres dizer com isso?"

"O Chico é a única pessoa que sabe que namorámos em Bragança. Não te esqueças de que ele estava lá e assistiu a tudo."

Luís estreitou os lábios.

"Como poderia eu esquecer?", perguntou com sarcasmo, espreitando Francisco de soslaio. "E então?"

"Ele é uma pessoa de confiança."

O amante coçou a cabeça, indeciso.

"Achas mesmo?"

"Desde a morte da minha mãe que o Chico me é muito dedicado. Como te disse, ele sabe que fomos namorados e, como vês, nunca contou a ninguém. Isso prova alguma coisa, não prova?"

Luís assentiu.

"Está bem, é de confiança. Mas por que razão estás a metê--lo nisto?"

Amélia olhou para o irmão adoptivo.

"Conta-lhe, Chico."

O brutamontes pigarreou, desconfortável. Estava mais habituado a ouvir do que a falar.

"A pela manhã passei pelo Tino."

"E então?"

Francisco engoliu em seco.

"Disse que não tarda nada o patrão vai correr-nos a todos daqui para fora."

A frase atingiu Luís com brutalidade. A realidade impunha-se de um modo cru e não havia maneira de lhe escapar. Desde a noite anterior que ele e Amélia viviam numa aflição, tentando adivinhar quais as intenções do caseiro depois de os ter visto juntos no curral. Sabiam que a denúncia constituía uma forte probabilidade, mas enquanto permanecia uma mera hipótese era uma coisa. O cenário que se desenhava agora diante deles, porém, já não era uma simples probabilidade, tornara-se algo mais do que isso. Transformara-se em certeza.

"Ele explicou porquê?"

"Eu perguntei-lhe."

"E ele?"

Os olhos de Francisco saltaram para a irmã adoptiva.

"Riu-se e disse: «Pergunta à tua maninha.»"

Fez-se um curto silêncio.

"E tu?"

"E eu vim aqui perguntar."

Foi a vez de Luís e Amélia trocarem olhares. A conversa entre Francisco e Tino tinha sido curta, mas muito reveladora. Não restavam dúvidas de que em breve todos iriam ser confrontados com um grande problema. Era como uma bomba à espera do momento de detonar. Quando explodisse, sabiam que ninguém sairia ileso. Haveria consequências para Amélia e para o marido, haveria consequências para os filhos, haveria consequências para Francisco, haveria consequências para Joana e para Luís. A bem dizer, não era que Luís estivesse grandemente preocupado consigo mesmo. Não se envergonhava de nada e, para ser honesto, na sua perspectiva a denúncia tinha até a virtude de tornar transparente a sua relação com Amélia; quem sabe se não seria mesmo aberta a oportunidade de viverem juntos. Não era isso, pois, o que o preocupava. O verdadeiro problema estava nos estilhaços que atingiriam toda a gente à sua volta.

"Será que me podem explicar?", insistiu Francisco.

Amélia ajeitou o cobertor.

"Eu e o Luís continuamos a ser namorados", disse, sem se atrever a olhar para o irmão adoptivo. "O que se passou é que o Tino nos viu juntos ontem à noite."

"Onde?"

Amélia corou de vergonha e encolheu-se na cama, como se tentasse desaparecer por entre os lençóis.

"No curral."

"E depois?"

"Viu-nos e... e foi-se logo embora."

"Não disse nada?"

"Não. Viu-nos e foi-se embora."

Fez-se um silêncio embaraçado.

"E a mana?"

"A Joana? Não sabe de nada. Ninguém sabe de nada. Só nós os três."

Francisco olhou para a porta trancada.

"Só nós os três mais o Tino."

Luís abanou a cabeça e respirou fundo.

"Só nós os três, mais o Tino, e a mulher do Tino, e a sogra do Tino, e os pais do Tino, e os filhos do Tino e toda a gente da quinta. O que quer dizer que amanhã já toda Castelo de Paiva sabe. E depois de amanhã já toda Penafiel sabe."

"Não", disse Francisco.

"Como assim, não?"

"A família do Tino não está cá."

"Ai não?"

"Foi ontem para Penafiel por causa da feira de São Martinho."

"O Tino está sozinho?", admirou-se Luís. "Não acredito. Deve ter ficado cá alguém, não se iam todos embora..."

"Foram todos para Penafiel", repetiu Francisco. "A feira de São Martinho é um grande acontecimento cá na terra, de maneira que a família do Tino foi para lá."

"Fazer o quê?"

"Foram vender regueifas e o vinho que restou das vindimas do ano passado."

"E o Tino? Porque ficou ele cá?"

"Tinha umas coisas para arranjar." Contraiu a boca e arqueou as sobrancelhas, para sublinhar a frase seguinte. "As vedações da pocilga."

"Ah."

Isso explicava a presença do caseiro no curral na noite anterior.

"Tens a certeza que ele ainda não contou a ninguém?", perguntou Amélia.

"Sim. Não está cá ninguém para contar."

"Pode ter contado aos vizinhos", disse Luís.

"Quais vizinhos? Foram todos para a feira de São Martinho."

"Todos, não acredito."

Francisco encolheu os ombros.

"Mesmo que tenham ficado alguns, o Tino ainda não saiu da quinta esta manhã. Portanto, não contou a ninguém."

Amélia e Luís suspiraram, aliviados.

"Quando é que essa feira acaba?"

"Começa hoje e acaba depois de amanhã."

Luís fez as contas.

"Portanto, temos dois ou três dias."

"Não", retorquiu Francisco. "Só algumas horas."

"Porquê?"

"Porque o Tino vai esta tarde para Penafiel."

Mal acabou de ouvir esta informação da boca de Francisco, Luís ergueu-se de um salto e abriu a porta do quarto.

"Vamos", disse, subitamente cheio de energia. "Não há tempo a perder."

"Vamos onde?"

"Falar com ele, claro."

 

A Primavera chegara, mas não sorria. O céu apresentava-se coberto por um tecto metálico, parecia prata líquida, e mesmo a verdura da encosta desmaiara sob a luz pálida da manhã. O dia nascera anémico e frio, influenciado pela nortada que atravessava o rio e agitava as árvores e os arbustos, o farfalhar inquieto a adensar o ambiente lúgubre da quinta. Ninguém diria que estavam em Abril.

Deram com o caseiro a aparelhar a mula à carroça. Os garrafões de tinto verde acumulavam-se na carga; eram os restos da vindima que iam ser vendidos na feira.

"Senhor Constantino", chamou Luís, aproximando-se a passos largos. "Dá-me licença?"

O caseiro voltou-se e mirou-o, desconfiado. Tinha um cigarro no canto da boca e mudou-o para o outro canto quando viu Francisco e Amélia a aproximarem-se também. Estreitou os olhos e focou o seu interlocutor.

"Faça o favor de dizer, senhor capitão."

"Não sou capitão", corrigiu Luís. "Sou alferes."

"Sim, senhor capitão."

Luís fitou-o, subitamente embaraçado. Nos olhos do caseiro fixara-se certamente a cena com que se deparara na noite anterior no curral, e o alferes veterinário tinha isso bem presente na mente. Por onde poderia começar a conversa?

"Oiça", disse. "O senhor... enfim, como hei-de dizer? O senhor esteve ontem no... no curral, não é verdade?"

"Estive sim, senhor capitão."

Luís olhou para trás, inseguro, como se buscasse apoio de Francisco e Amélia, e voltou a encarar o caseiro.

"O que eu... que nós queremos saber é se... enfim, se o senhor tenciona... quer dizer, queremos saber se o senhor vai... vai contar a alguém aquilo que viu."

O caseiro voltou-lhe as costas e puxou uma correia com força, para garantir que ela estava solidamente apertada. Feito isto, encarou de novo Luís. Aspirou fundo o cigarro e libertou devagar uma nuvem acinzentada.

"Direi o que tiver de dizer a quem tiver de dizer, senhor capitão."

Luís passou a mão pela testa, limpando as gotas de suor que lhe começavam a escorrer do couro cabeludo.

"Oiça, se o senhor disser alguma coisa, vai ser... vai criar muitos problemas. O senhor não quer criar problemas, pois não?"

"Não quero não, senhor capitão."

Acendeu-se uma luz de esperança.

"Então... então está ver que... enfim, se contar alguma coisa, cria-se um problema, não é?"

"Isso não sei, senhor capitão."

"Não sabe como? Então não vê que, se contar o que viu, se cria um grande problema?"

"Eu acho que não, senhor capitão."

"Então o que pensa você que vai acontecer se contar?"

"Resolve-se um problema, senhor capitão."

Fitou o caseiro com uma expressão interrogativa. Seria o homem parvo ou estaria a gozar com ele?

"O que quer dizer com isso?"

O homem mudou o cigarro de um canto para o outro da boca apenas com um rápido movimento dos lábios.

"Quero dizer que o senhor capitão Branco tem um problema, mas não sabe que o tem", disse, lançando um olhar hostil na direcção de Amélia. "Quando eu lhe contar, fica a saber a verdade e pode assim resolver o seu problema."

"Mas, oiça, ele não precisa de saber nada", insistiu Luís, vendo a conversa virar numa direcção que não lhe agradava. "Garanto-lhe que não se vai passar mais nada semelhante a... àquilo que o senhor viu no curral."

"Isso já não sei, senhor capitão."

"Mas sei eu. Aquilo não volta a acontecer, garanto-lhe. E se o senhor for contar ao capitão... cria-se um grande problema."

"Talvez sim, mas não será um problema meu, senhor capitão."

Luís suspirou. O homem era casmurro. Daria muito trabalho demovê-lo da ideia.

"Será um problema para toda a gente. Não se esqueça de que o senhor capitão Branco e a dona Amélia têm filhos. Eles vão sofrer com a sua atitude."

"Não serei eu quem os fará sofrer", retorquiu o caseiro, num tom indiferente. "Será quem anda a fazer coisas que não devia fazer e que são contra as leis de Deus."

Ainda por cima um beato, concluiu Luís. Pela conversa, percebeu que assim não iria lá. Tinha de recorrer à sua última

cartada, a mais forte de todas. Pôs a mão no bolso, retirou a carteira e extraiu uma nota.

"Dou-lhe vinte escudos", disse, estendendo-lhe a nota. "Por vinte escudos, e a minha promessa de que isto não voltará a acontecer, peço-lhe o seu silêncio."

"Não quero."

Sacou outra nota igual.

"Quarenta escudos, então."

"Nem que fossem dez contos", atalhou o caseiro com desdém, enquanto afastava as notas que lhe eram estendidas. "Não quero o seu dinheiro. O que eu quero é estar de bem comigo, com a minha família e com Deus."

"Mas qual é o problema? Você fica com o dinheiro e ninguém sabe de nada. Qual é o mal?"

O caseiro indicou o seu olho direito.

"Deus tudo vê e tudo sabe. Pode mais ninguém saber que eu recebi o dinheiro e me calei, mas Deus sabe." Apontou para cima. "Deus exige a verdade e será a verdade que eu direi."

O homem voltou as costas de novo, dando por encerrada a conversa, e recomeçou a aparelhar a mula.

Impotente, Luís voltou-se para trás e trocou com Amélia um olhar de desânimo. Foi nesse instante que Francisco deu dois passos em frente, empurrou Luís para o lado e chegou junto do caseiro.

"Ó Tino."

O homem manteve o corpo virado para a mula, mas voltou a cabeça e espreitou sobre o ombro.

"O que é?"

"Se contas alguma coisa, mandam-me embora aqui da quinta."

O caseiro soltou um riso seco e encolheu os ombros.

"Tanto melhor."

"Tanto melhor, o quê?"

Tino parou de fazer o que estava a fazer e virou-se finalmente para Francisco, que era dois palmos mais alto do que ele. Olhou para os pés do rapaz diante dele e subiu devagar os olhos até ficar com a cabeça voltada para cima.

"Tanto melhor mandarem-te embora", disse por fim, num tom de profundo desprezo. "Não estás aqui a fazer nada. Ninguém gosta de ti, és um merdas que para aqui anda. Até os miúdos têm medo quando te vêem. Chamam-te mostrengo."

Num acesso de fúria, Francisco pegou no caseiro pelos colarinhos e puxou-o para si, deixando-o pendurado, os pés no ar.

"Repete lá isso."

O homem riu-se.   '

"Ui, que medo! Vais bater-me, vais?"

"Tem calma, Chico", disse Luís lá atrás. "Assim não vamos resolver nada."

Mas o rapaz nem parecia ter ouvido.

"Repete lá isso."

Tino cuspiu o cigarro para o chão e libertou o fumo no rosto do seu adversário.

"Tu ouviste muito bem. Tens a mania que és mau, mas a mim não me acagaças, ouviste? Aqui o Tino é teso. Quando eu chegar a Penafiel, vou direitinho ter com o patrão e conto-lhe tudo. Tudinho. Depois quero ver como é."

Francisco colou o nariz ao nariz do caseiro e carregou os olhos.

"Não contas nada."

"Ai não? E como é que me vais impedir?"

O rapaz pôs o braço direito em gancho em torno da cabeça de Tino, de forma a que a mão lhe agarrasse a cara, e com o esquerdo manteve-o imobilizado.

"Assim."

Puxou nesse instante com inesperada brutalidade, torcendo a cabeça do caseiro. Ouviu-se um estalido brutal, como o crac seco de um tronco a partir-se numa árvore. Os pés pendurados agitaram-se num espasmo e o corpo imobilizou-se, a cabeça voltada para trás numa posição impossível, os olhos brancos, a língua roxa ao canto da boca.

Amélia gritou, horrorizada.

Com um movimento de desprezo, Francisco atirou o corpo para o chão. O caseiro ficou estendido como um espantalho partido, a barriga para cima, o rosto enterrado na lama, os pés ainda a tremerem num derradeiro estertor.

"Agora já não conta a ninguém."

Todo o inesperado da situação deixou Luís pregado ao chão, vendo e não acreditando no que via, experimentando um sentimento de irrealidade, como se tudo aquilo não passasse de um pesadelo, pouco plausível era verdade, mas incri­velmente realista.

As palavras de Francisco, porém, tiveram o condão de o despertar da letargia em que havia mergulhado. Acto contí­nuo, saltou para a frente e ajoelhou-se diante do corpo inerte estendido na lama. Rodou devagar a cabeça imóvel do caseiro e fez uma careta preocupada ao ver-lhe os olhos fixos. Aquilo não era bom. Premiu o dedo sobre a carótida e procurou a pulsação, mas não a sentiu. Inclinou a cabeça sobre o coração e pôs-se à escuta.

Nada.

"Está morto", constatou, endireitando-se.

Amélia mostrava-se siderada. Tinha as mãos a tapar a boca e não conseguia tirar os olhos do cadáver.

"E agora? E agora?"

Luís ergueu-se lentamente e encarou Francisco.

"Tu tens a noção do que fizeste?"

"Calei-o."

"Lá isso é verdade", concordou, olhando por instantes para o corpo estendido atrás dele. "Lá calado está ele, não há dúvida nenhuma. Só que, para resolver um problema complicado, criaste um problema ainda maior. A bem dizer, muito maior."

"Ele não me devia ter chamado mostrengo."

"Tens razão", voltou a assentir Luís. "Mas não era caso para o matares, pois não? O que vais agora dizer à polícia?"

Francisco fungou e não respondeu, os olhos sempre pousados no cadáver do caseiro.

"Vais chamar a polícia?", questionou-o Amélia.

A pergunta deixou Luís surpreendido.

"Quer dizer... ainda não pensei nisso. Mas é evidente que a polícia vai aparecer. Mais tarde ou mais cedo, eles vão surgir aí. Ou pensas que se mata uma pessoa e continua tudo na mesma?"

Ainda em estado de choque, Amélia sentia enormes dificuldades em raciocinar.

"Tens razão. A polícia vai aparecer."

"E irá começar a fazer perguntas", acrescentou Luís. "Muitas perguntas, mesmo. Quem o matou, porquê, o que aconteceu... tudo isso eles vão querer tirar a limpo."

Amélia indicou o irmão adoptivo com a cabeça.

"Achas que o vão prender?"

"O que achas tu?"

A amante manteve-se calada e o irmão adoptivo também.

"Diz-me, o que achas tu?", insistiu Luís, enervado por só ele estar a ver o óbvio. "Pensas que eles chegam aí, percebem que o Francisco matou o Tino e dizem: ó, coitadinho, vamos deixá-lo em paz, se calhar foi sem querer. Achas que vão dizer isso?"

"Tens razão."

"O Chico vai para a choça."

"Oh, não!"

"E se calhar nós também."

"Nós?"

"Claro. O adultério é um escândalo, mas o assassínio é um crime. Um grande crime. Se fores a ver bem, nós viemos aqui para tentar calar o Tino e o Francisco calou-o de facto. Tínhamos um bom motivo e dispusemos da oportunidade." Indicou o cadáver. "Quem é que vai convencer o juiz de que não tivemos nada a ver com isto?"

Posta perante a real magnitude do novo problema, Amélia escondeu a face com as mãos.

"Meu Deus! Meu Deus, meu Deus! Estamos perdidos! O que vai ser de nós, Virgem Santíssima?" Soluçou. "O que vai ser dos meus filhos?" Mais soluços. "No que nos fomos meter, Santo Deus? Que loucura é esta? Como é que isto chegou a este ponto?"

Vendo-a entrar em pânico, Luís aproximou-se e envolveu-a nos braços, já arrependido da crueza com que apresentara os factos.

"Pronto, pronto", murmurou. "Não te preocupes, tudo se há-de resolver, vais ver."

Amélia encarou-o, buscando esperança onde já a perdera.

"Como é que tudo se há-de resolver? Tu próprio o disseste: nenhum juiz vai acreditar que não tivemos nada a ver com... com isto. Como é que se vai resolver? Diz-me: como?"

"Eu sei o que disse. Mas, se nós explicarmos tudo muito bem explicadinho, vais ver que a polícia e o juiz percebem. Tem calma, não te enerves."

Vendo que nada mais lhe restava fazer, Francisco saiu do local e dirigiu-se ao casarão. Luís ficou a tentar confortar Amélia, mas na realidade nem ele próprio acreditava que fosse possível escaparem todos à cadeia. Falava por falar, para a acalmar, para a ajudar a preparar-se para os tempos complicados que já antevia. Não era difícil, aliás, prever a sucessão de acontecimentos que seria em breve desencadeada. O morto seria encontrado, a polícia interrogá-los-ia, provavelmente seriam detidos, haveria um escândalo, seguir-se-ia o julgamento, depois a condenação e a destruição de todas e de cada uma das vidas a que os três estavam ligados. Em suma, as coisas dariam uma grande volta, e para muito pior.

Enquanto ia prevendo os acontecimentos, Luís reparou que Francisco saía do casarão com um objecto às costas. Parecia um saco. De início não deu importância ao assunto, mais preocupado com Amélia e com o prenúncio do que aí vinha. Mas, à medida que ele se aproximava, começou a interrogar-se. Onde iria Francisco? Para que raio quereria ele o saco? Seria possível que planeasse meter o caseiro lá dentro? Que diabo teria na cabeça?

Caminhando com uma despreocupação desconcertante, Francisco aproximou-se dos dois e parou quando chegou ao local onde eles se encontravam.

"Vou-me embora, senhora."

Amélia, que chorava baixinho encostada ao peito de Luís, afastou o cabelo e olhou para o irmão adoptivo.

"Onde vais?"

"Vou fugir."

A resposta deixou-a abismada.

"Vais onde?"

"Vou fugir."

"Mas... mas tu não podes fazer isso."

"Ai não? Então faço o quê? Fico aqui à espera que me venham prender?"

"Bem... temos de enfrentar a justiça, não achas?"

"Para quê?"

A pergunta era embaraçosamente certeira. Para quê enfrentar a justiça? Que fim serviria tal sacrifício? Ficaram os três a olhar-se, sem saberem o que dizer.

Percebendo enfim que aquela era uma despedida, Amélia soltou-se do amante e abraçou-se ao rapaz que a mãe adoptara, afagando-lhe os cabelos com os dedos.

"O Chico! Desculpa! Desculpa tudo isto... toda esta confusão! Se eu tivesse juízo..."

"Fui eu que o matei. A senhora não tem de pedir desculpa."

Amélia fungou e fitou-o nos olhos.

"Tens a certeza do que estás a fazer?"

"Não."

Luís meteu a mão no bolso.

"Ele está a fazer a única coisa que pode fazer", observou, retirando a carteira. Tirou todo o dinheiro que lá tinha e entregou-o ao rapaz. "Toma. São cento e quarenta escudos, é tudo o que trago neste momento. Não é muito, mas sempre vai dar jeito."

Sem dizer uma palavra, Francisco aceitou o dinheiro e guardou-o no bolso. Depois beijou Amélia no rosto, pegou no saco e começou a andar em direcção ao portão.

"Para onde vais, Chico?", perguntou Amélia, ainda sem acreditar na rapidez com que os acontecimentos se haviam precipitado. "Para onde vais tu?"

"Para onde não me encontrem."

E desapareceu para lá do portão sem olhar uma única vez para o passado que deixava para trás.

 

                         1936

                   Não creias nele, porque tudo é nada

O rapaz perfilou-se à cabeça da fila, nu, plantado diante da secretária do oficial. O alferes Luís Afonso olhava para a rua pela janela, apreciando o ar pacato da cidade. Já se habituara a ela, de tal modo que contemplava com uma certa familiari­dade as fachadas dos edifícios e das lojas da Avenida Sacadura Cabral e o aspecto prazenteiro que o Campo do Conde de Torres Novas apresentava, mesmo em frente ao quartel.

Suspirou e olhou enfim para a ficha pousada na mesa.

"Nome?", perguntou, mirando a ficha.

"Aurélio do Carmo Silva."

O oficial miliciano levantou a cabeça, segurou os olhos do recruta e arregalou uma sobrancelha, com ar de quem não gostou da resposta.

"Aurélio do Carmo Silva, meu alferes", corrigiu Luís, acentuando o meu alferes.

O rapaz pareceu ter-se assustado e ficou ainda mais hirto.

"Aurélio do Carmo Silva, meu alferes."

O alferes veterinário pegou na caneta e tomou nota do nome na ficha.

"Data de nascimento?"

"Uh...", atrapalhou-se o rapaz. "Não sei, meu alferes."

O oficial mirou de novo o recruta, dessa vez com mais atenção. Tinha um ar rude, as mãos grosseiras, as unhas encardidas de preto; era um moço do povo, viera do campo e provavelmente os pais não o tinham registado logo à nas­cença.

"Em que ano nasceu você?"

"Em 1920, meu alferes. A minha mãe disse-me que foi na altura das colheitas, mas não sei o dia."

Luís voltou a levantar a sobrancelha.

"Não sei o dia, o quê?"

"Não sei o dia, meu alferes."

"Hmm", murmurou o oficial, debruçando-se mais uma vez sobre a ficha. Escrevinhou o ano, mas deixou em branco os espaços relativos ao dia e mês de nascimento. "Naturalidade?"

"Faz favor de dizer, meu alferes?"

"Naturalidade?"

"Como diz, meu alferes?"

"Onde nasceu você, rapaz? Aqui em Penafiel?"

"Ah! Nasci na casa da minha avó, mesmo ao pé do riacho, ali em Guilhufe, meu alferes."

No momento em que Luís ia a anotar a informação, o telefone negro pousado na secretária começou a tocar com um riiiiiing aflitivo. O oficial pousou a caneta e atendeu.

"Está sim?"

Uma voz metálica, quase eléctrica, respondeu-lhe do outro lado.

"Olá, Luís, como vai isso?"

Era o capitão Branco.

"Estou aqui a atender os novos recrutas", disse, olhando de relance para o homem nu à sua frente. "Preferia ir treinar o Relâmpago, mas o coronel Silvério insiste em pôr-me aqui nestas funções..."

"Nem tem ele outro remédio. O Porto ainda não nos mandou nenhum médico, de modo que tem de ser você a tratar das provas de aptidão." Pigarreou. "Por falar no coro­nel Silvério, veio aqui ter comigo o oficial de operações, o alferes Boavida, a convocar-nos para uma reunião esta tarde."

"A convocar quem?", perguntou Luís, convencido de que havia escutado mal a última frase.

"A nós."

"A mim também?" -

"Sim."

O veterinário coçou a cabeça, surpreendido.

"Mas o que raio me quer o nosso comandante?"

"O alferes não me explicou. Disse-me apenas que se tratava de um assunto melindroso e confidencial. Temos de estar no gabinete do nosso coronel às três da tarde."

Luís desligou e permaneceu um longo momento a olhar pela janela, meditativo, interrogando-se sobre que assunto seria esse que tanto melindre suscitava e para que raio o quereriam envolvido nele. Haveria novidades sobre Francisco? Desde o crime na Quinta de Pousada que ele e Amélia viviam em sobressalto. Quando a GNR aparecera para investigar a morte do Tino, a versão que apresentaram foi que tinham encontrado ali o corpo quando saíam do casarão depois do pequeno-almoço, tendo ainda constatado que Francisco havia desaparecido. Era, na verdade, a única coisa que poderiam dizer. Se revelassem a verdade, ela seria demasiado suspeita. Além do mais, forçá-los-ia a explicar como tudo tinha começado e tal explicação pertencia ao domínio do inconfessável. Com que cara iriam dizer que tudo acontecera porque o Tino os havia apanhado em flagrante no curral?

A versão que apresentaram revelou-se de longe a mais simples e inatacável, mas tinha um importante senão: se Francisco viesse a ser apanhado, seria uma catástrofe. O irmão adoptivo de Amélia não estava inteirado da versão que ambos acordaram para relatar os acontecimentos, pelo que depressa a polícia notaria as contradições que inevitavelmente iriam emergir durante o interrogatório. Era por isso imperativo que Francisco nunca viesse a ser capturado. Mas como diabo poderiam eles ter a certeza de que tal jamais aconteceria?

O dia-a-dia dos dois amantes havia-se assim tornado um inferno, sempre com receio de que rompesse a notícia da detenção de Francisco. E agora o coronel Silvério, que era nem mais nem menos que o comandante do regimento, queria falar com ele! E não era só com ele: era também com o marido de Amélia! Pior augúrio não poderia haver. De certeza que havia novidades, de certeza que a polícia tinha...

"Meu alferes", disse uma voz.

O oficial despertou dos seus pensamentos e, como se regressasse de um país longínquo, libertado da letargia pelo estalar dos dedos de um qualquer hipnotizador, olhou para o recruta nu e viu-o hirto à sua frente, uma expressão intrigada desenhada nos olhos.

"O que é, rapaz? Tens frio?"

"Uh... não, meu alferes."

"Então? E vergonha de estares como vieste ao mundo?" Sorriu. "Não te preocupes." Pegou no formulário e acabou de o preencher. "Daqui a um bocado passas pelo dispensário com este papel que te vou dar e eles entregam-te roupa

interior, lâmina de barbear e pincel, dois fatos de cotim, botas e alpergatas." Ergueu a cabeça e apontou para o recruta com o dedo. "Mas primeiro vais ter de tomar banho, ouviste? Cheiras mal, tresandas a bosta de boi."

"Sim, meu alferes." Hesitou. "Mas eu queria mesmo era saber outra coisa, meu alferes."

"O que é?"

O recruta indicou com o queixo o telefone pousado sobre a secretária.

"Eles falam mesmo de lá, é? Ou isso é conversa para nos enganar?"

O movimento na praça diante dos Paços do Concelho era lento, apesar de ser o centro da cidade. Alguns homens vestidos de preto ou castanho-escuro concentravam-se diante do Café Lima e do Café da Sociedade, locais que Amélia sabia serem-lhe interditos. Eram antros de álcool, tabaco e bilhar, zona exclusiva para homens. Passou por isso pelos cafés em passo lesto, sem sequer espreitar para o interior, como convinha a uma senhora da sua condição.

Entrou na Farmácia Oliveira e encomendou as aspirinas e o xarope Bromil que lhe tinham sido receitados por Luís. Desde a tragédia que fora a morte do Tino que Amélia não se sentia bem. Sofria de insónias frequentes e, quando acabava por adormecer, era acossada por sucessivos pesadelos relacionados com o que acontecera. Umas vezes sonhava que o marido a apanhava com Luís no curral de Castelo de Paiva; outras vezes imaginava que era a ela que Francisco partia o pescoço. Mas os sonhos mais frequentes eram aqueles que envolviam a polícia a algemá-la ou o juiz aos gritos a condená-la por assassínio e adultério ou o Tino a reaparecer vivo e a clamar por justiça.

Ao sair da farmácia sentiu uma mão a agarrá-la no braço e teve um sobressalto.

"Preciso de falar contigo."

Era Luís.

"Ai, Luís, que susto!", exclamou, pousando a mão no peito sobressaltado. "O que estás aqui a fazer?"

"Temos de conversar."

Amélia olhou em redor, aflita.

"Não pode ser aqui, à frente de toda a gente. Vão comentar."

"Eu sei, mas tenho urgência em falar contigo."

A amante indicou com a cabeça a grande igreja do outro lado da rua, mesmo no meio da praça.

"Vamos ali à Misericórdia, estamos mais tranquilos."

Cruzaram a estreita Rua Serpa Pinto aparentando o ar mais natural do mundo. Para reforçar essa aparência, Luís indicou o embrulho que Amélia tinha nas mãos e entabulou conversa.

"O que é isso?"

"São as aspirinas e o xarope que me receitaste. Fui agora à farmácia aviar a receita."

"Tens tido dores de cabeça?"

"Ainda esta manhã."

"Então toma as aspirinas depois de comeres alguma coisa. E os pesadelos?"

"O costume. Esta noite sonhei que me tinham atirado para os calabouços e que não conseguia andar na cela porque havia ratazanas por toda a parte."

"Usa o xarope para isso."

Amélia tirou o frasquinho do embrulho.

"Não sabia que havia medicamentos para os pesadelos."

Luís pegou no frasco e abanou-o, como se assim conse­guisse testar o líquido no interior.

"Na verdade, nem sei se isto funciona. Mas recebemos no quartel uns jornais do Brasil que dizem que o Bromil serve para tudo, desde a sífilis até aos pesadelos."

"Estás a brincar. Resulta mesmo?"

O alferes veterinário devolveu o frasco de xarope.

"Não há nada como experimentar, não é?"

Entraram na velha igreja seiscentista da Misericórdia e de imediato se calaram, sentindo a imponência do santuário. O interior apresentava-se cheio de luz e ricamente decorado, com uma vasta abóbada de pedra em caixotões trabalhados e pilastras toscanas a sustentar um entablamento classicista. Era talvez a mais bonita das muitas igrejas existentes em Penafiel.

"Tens a certeza de que este é um bom sítio para falarmos?", sussurrou Luís, sentindo as palavras retinir pela igreja.

Amélia indicou as bancadas vazias.

"Não vês que não está aqui ninguém?" Ajoelhou-se, juntou as mãos em oração e murmurou: "Faz de conta que estamos a rezar."

Luís achou boa ideia e imitou-a, ajoelhando-se e começan­do a fingir que rezava.

"Ligou-me o teu marido", disse ele, soprando as palavras como se rogasse perdão ao Senhor. "Disse-me que o comandante quer falar comigo e com ele."

"Sobre quê?"

"Não sei. Mas estou preocupado."

"Porquê? Pode ser um assunto qualquer do quartel."

"Lá poder, pode. Mas é a primeira vez que o comandante me convoca para uma reunião. E logo com o teu marido também presente."

"Achas que apanharam o Chico?"

"Não sei. Talvez."

Amélia quase gemeu.

"Ai meu Deus, Virgem Santíssima! Isto não pode estar a acontecer!"

"Tem calma, isto sou eu apenas a especular."

"Como é que te soou o Mário?"

"Normal. Mas ele também não sabe qual o assunto da reunião."

Amélia benzeu-se, embora dessa vez não tenha sido a fingir.

"Queira Deus que esteja tudo bem. E agora, o que fazemos?"

"A reunião é às três. Vamos esperar para ver o que o comandante tem a dizer."

A amante olhou para ele, subitamente irritada.

"Se não sabes ainda do que se trata, porque me vieste aqui desinquietar?", protestou, erguendo ligeiramente a voz. "Já sabes que eu ando com os nervos à flor da pele..."

"Desculpa", apressou-se ele a dizer, tentando acalmá-la. "É que a convocatória pôs-me nervoso e eu próprio precisava de desabafar com alguém."

Calaram-se um momento.

"Bem, não há-de ser nada", devolveu ela por fim, de novo a sussurrar. "Andamos os dois nervosos com a possibilidade de o Chico ser apanhado. Vais ver que não há-de ser nada."

"És capaz de ter razão." Chegou-se um pouco mais a ela. "Tenho saudades tuas."

"Eu também", devolveu a amante. "Tenho muitas saudades. Muitas, muitas."

"Não podemos continuar a viver assim."

Amélia afastou-se, fazendo um esforço por manter a dis­tância.

"Não temos alternativas, Luís. Não podemos voltar a fazer aquilo que fizemos em Castelo de Paiva. Nunca mais."

"Não consigo estar longe de ti."

"Tens de conseguir. Lembra-te que eu sou casada e tu também és casado, ainda por cima com a minha irmã. A nossa loucura em Castelo de Paiva provocou uma desgraça. Não podemos deixar que uma coisa dessas volte a acontecer. Se o Tino nos descobriu logo à segunda vez, a Joana também vai descobrir e o Mário também acabará por descobrir."

"Fugimos."

"Já te disse que não pode ser. E os meus filhos? Como poderei eu viver sem estar com eles?"

"Levamo-los connosco."

"Estás doido? Queres passar a vida toda com medo de ser preso?"

"Preso? Que eu saiba, não vou quebrar nenhuma lei."

"Mas vou eu. Não sabes que a lei agora diz que o homem é o chefe de família e que a mulher lhe deve obediência? Isto quer dizer que o Mário manda em mim. Se lhe desobedecer, estou a cometer um crime." Deixou escapar um suspiro. "Além do mais, se fugíssemos, que iria eu fazer? Ia esconder-me num sítio qualquer com os miúdos?"

"Podias trabalhar..."

"Isso é que era bom! Não sei se sabes, mas preciso de autorização do meu marido para poder trabalhar. Achas que, se eu fugisse e levasse as crianças comigo, ele me dava autorização para trabalhar?"

Sentindo-se apanhado numa ratoeira e sem ver como sair dela, Luís desistiu de argumentar. A lei fazia dela uma refém do marido.

"Porra para isto."

Respirou fundo e ergueu-se. Doíam-lhe os joelhos e as costas devido à posição em que estivera, mas isso não era nada comparado com a angústia que o agrilhoava. Precisava de se sentir livre e aquela igreja parecia-lhe um túmulo. Sem dizer mais uma palavra, sem sequer voltar a olhar para Amélia, virou as costas e foi-se embora.

 

O enorme Junkers inclinou-se para a esquerda, barulhento, rodou pesadamente no ar, à procura do vento dianteiro, e estabilizou no enfiamento da estreita faixa de alcatrão. Mas estabilizar é forma de dizer, o aparelho perdia altitude aos solavancos, como se descesse uma montanha invisível, aos saltos, aspirado por buracos de ar, tombando sempre mais e mais ainda.

Francisco Latino sentiu gotas de suor deslizarem-lhe pelas têmporas e os músculos retesarem-se a cada abanão; cerrou os olhos e murmurou um ansioso ave-maria, as palavras mais sentidas na parte final da oração, quando entoou o "rogai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa morte". Considerava-se um homem destemido, capaz de afrontar tudo e enfrentar todos, já o provara inúmeras vezes ao longo dos seus curtos e turbulentos dezanove anos de vida, mas aquilo, ah!, aquilo parecia-lhe loucura a mais, meter-se numa caixa fechada e voar sobre as nuvens como um pássaro afigurava-se-lhe

uma aventura demente, coisa de doidos. Onde é que já se vira alguém meter-se assim num caixão com asas?

Uma brutal sacudidela, acompanhada por um guincho estridente, anunciou-lhe que o avião tocara no solo. Apertou a almofada do assento diante de si com as grossas mãos, como se assim se conseguisse salvar, como se da sua enorme força dependesse a segurança da máquina. Mas as coisas pareceram acalmar; o JU-52 assentou por completo na pista e perdeu velocidade, ao ponto de quase parar.

Uma erupção de aplausos estalou dentro do avião.

"Viva la Légion!", gritou uma voz.

"Vivaaaaa!", devolveu o coro.

Os homens da 12.a companhia abandonaram em fila o Junkers da Lufthansa e Francisco foi dos últimos a sair. Sentiu o ar quente e seco do Sul de Espanha a bater-lhe na face. Corria o dia 27 de Julho de 1936 quando cruzou a porta do aparelho e desceu as escadas, ainda mal refeito das emoções do voo. Mas o calor não o impressionava; no fim de contas acabara de deixar Tetuán, e aí, mesmo às portas do grande deserto do Sara, é que se sabia o que era calor a sério, calor daqueles que seca a boca e deixa um homem prostrado, calor que mata e não amola apenas.

Pisou a pista da base de Tablada e seguiu a fila com a mochila às costas; os homens guiados por oficiais caminhavam para um hangar em busca de sombra e água fresca, mas alguns paravam pelo caminho e urinavam no alcatrão. Francisco passou por eles e só parou quando chegou ao hangar e deitou a mochila ao chão.

"Entonces, Paço?", disse-lhe um militar aloirado, de olhos ver-de-garrafa e um sorriso traquina a bailar-lhe no rosto. "Qué tal?"

"Qué tal o quê, ó merdoso?", rosnou Francisco. "Já te disse que não me chames Paço, ouviste?"

"Ay, carayl Entonces como te llamo, hombre?"

"Chico, já te disse mil vezes."

"Paço es mejor."

"Olha lá, Juanito, Paço é para espanhol. Eu sou portu­guês."

"Qué mal tiene Paço? El comandante Franco se llama Paço, no?"

"Quero lá saber!"

"Paço esta bien."

"O paneleiro, presta bem atenção." Ergueu o dedo, como quem faz um derradeiro aviso. "Na minha terra, Francisco dá Chico, percebes? Não dá Paço porra nenhuma, hã? Portanto, acaba lá com essa merda de me chamares Paço."

"Si, Paço."

"Cabrão!"

Francisco esticou o enorme braço e fez um movimento em gancho, tentando apanhar Juanito, mas o espanhol antecipou-se, ágil e rápido, e escapuliu-se com uma gargalhada. Juanito escondeu-se atrás de um grupo de militares e espreitou por entre eles com ar trocista.

"Paço! Paço!"

O português era um homem largo e forte, um verdadeiro Neanderthal, o corpo peludo e musculado, mas com os membros curtos; tinha a cabeça pequena, o cabelo cortado à escovinha, maciças arcadas supraciliares e olhos negros miú­dos encovados no rosto. Sabia que em força não havia quem o batesse, mas em velocidade era diferente. Juanito tinha-se escapado e nem foi atrás dele para o apanhar; não o conseguiria se tentasse. Em vez disso, acomodou a mochila contra a parede e sentou-se no chão, as largas costas assentes sobre ela.

Um burburinho nervoso enchia o hangar. Viam-se militares por toda a parte, uns a conversar, outros estendidos no chão

ou encostados às paredes, enquanto lá ao fundo os mecânicos se afadigavam em torno do motor dianteiro do único avião estacionado no local; o aparelho exibia na carlinga umas divisas bizarras, pareciam dois raios paralelos.

"Que avião é aquele?", perguntou Francisco a um homem que descansava à sua direita.

"Es un Savoia 81."

"Um quê?"

"Un Savoia 81. Es italiano. Acabo de llegar de Milano, emprestado por Mussolini." O legionário riu-se. "Pêro me parece que ya veyo con problemas, no?" Fez um gesto de desdém em direcção ao trimotor rodeado de mecânicos. "Mira. Solo nos mandan la mierda."

"Mas aquele em que viemos era diferente."

"Ah, pêro ese era de los alemanes. El tio Adolfo manda todo que es bueno, no?"

Francisco acomodou-se no seu lugar e fechou os olhos. Sabia que não dispunha de muito tempo para descansar e queria aproveitar todos os minutos que lhe concediam. Contudo, não conseguiu adormecer e, ao fim de uns quinze minutos, sentiu alguém encostar-se do seu lado esquerdo. Abriu os olhos e reconheceu Juanito.

"Hola, Paço."

"Cala-te com isso, paneleiro."

Juanito não respondeu. Pegou no cantil de alumínio, protegido por uma cobertura verde-azeitona, e bebeu um golo. Depois estendeu-o ao português.

"Quieres?"

"Não."

O espanhol enroscou a tampa e guardou o cantil junto à anca direita. Encostou-se à sua mochila e ficou a mirar o Savoia italiano.

"Ay, madre miar, suspirou. "Estive a falar com um tipo da V Bandera que veio cá. Disse-me que Sevilha está controlada e que começaram agora a ocupar o maior número possível de povoações, de preferência ao longo da fronteira com o teu país. Acho que os mandaram ontem tomar um povoado qualquer, chama-se Utrera ou Utreta ou lá o que é. Conquistaram a povoação num instante e deram cabo dos rojos que tentavam fugir pela carretera de Jerez de La Frontera. Foi tudo despachado a tiro de metralhadora."

Francisco encolheu os ombros, indiferente.

"Bom proveito."

O camião progredia aos solavancos e Francisco saltitava no assento de madeira, emparedado pelos homens da 12.a companhia. Juanito dormitava encostado ao seu ombro esquerdo, os lábios entreabertos e um fio de saliva a escorrer-lhe da boca. À direita, a cabeça apoiada no cano da sua metralhadora, estava o sargento Gomez, e mesmo em frente, os olhos perdidos na lona do camião, sentava-se Murillo, o italiano folgazão cuja jovialidade era vencida pela monotonia da viagem.

"Che ore sono?", quis saber Murillo.

Francisco consultou o relógio.

"Cinco da tarde. Já aqui estamos fechados há quatro horas."

"Quattro ore? Madona!", exclamou o italiano, rolando os olhos azuis. "Che viaggio!"

"Vá lá, não te armes em maricas. Já deve faltar pouco para chegarmos."

"Mi dispiace, non capisco."

"Capiscas, capiscas. Se eu te capisco, tu também me capis­cas, ou não é assim?"

O italiano não respondeu. Recostou-se no assento e fechou os olhos. Francisco percorreu o rosto dos homens que com ele seguiam no camião de transporte de tropas e percebeu que estavam todos demasiado cansados. Não tinham dormido na noite anterior devido aos preparativos para a viagem que o capitão Fuentes repentinamente lhes anunciara. Voaram do Norte de África nessa mesma manhã e, pouco depois de chegarem a Sevilha, foram metidos no camião para ajudarem a "limpar" um bairro da cidade, até ali nas mãos dos rojos. A operação revelou-se tranquila, uma vez que os legionários de outra unidade tinham já feito o essencial, pelo que acabaram depressa o trabalho e viram-se de novo atirados para o camião. Estavam finalmente a fazer aquilo para que haviam sido treinados, mas, ao cabo de tantas horas de viagem, já ninguém parecia especialmente excitado com a perspectiva de entrar em combate.

Francisco fungou e escarrou lá para fora. O camião erguia uma nuvem de poeira no seu encalço, ocultando os camiões que seguiam atrás. Murillo tinha razão, pensou o português. A viagem estava a tornar-se demasiado longa. Com um pouco de sorte, considerou, ainda lhes dariam umas horas de descanso antes de voltarem a entrar em acção. Mas talvez não o fizessem; afinal eles eram a ralé, os piores dos piores, os mais brutos da criação, e provavelmente ninguém se preocuparia com questões tão insignificantes como o cansaço.

A verdade é que a piores viagens já ele se submetera. De olhos fixos na nuvem de pó que se levantava atrás do camião, Francisco reviu a sua vida desde o momento fatídico que tudo mudara, o instante em que matara Tino com as suas próprias mãos em Castelo de Paiva. Tratou-se de um momento de viragem na sua vida porque foi nessa altura que se tornou um animal acossado. Saltitando ao ritmo dos solavancos do

camião, passou na mente as imagens da aventura que foi a fuga à GNR. Depois de sair da Quinta de Pousada, meteu-se pelos montes, atravessou o rio e refugiou-se sob a giesta de uma grosseira cabana do vale do Sousa, mas a guarda começou a rondar o local e fora obrigado a mudar-se para Trás-os-Montes. O cerco apertou-se de novo e viu-se forçado a descer para Castelo Branco. Descobriu que afinal o seu nome tam­bém estava referenciado pela polícia de toda aquela região, pelo que, após algumas semanas a saltitar daqui para ali, roubando comida e assaltando viajantes, sentiu-se cansado de tanto fugir e decidiu cruzar a fronteira.

Começou a deambular por Espanha. Voltou aos assaltos e aos roubos, era a única maneira que tinha de comer para viver, e depressa acabou com a Guardiã Civil no encalço. Foi nessa altura que as conversas com outros vagabundos lhe revelaram a existência de uma organização militar onde, dizia-se, se aceita­vam recrutas sem perguntas nem documentos, e ainda era ofere­cido um prémio de quinhentas pesetas por uma comissão de cinco anos e quase quatro pesetas mensais de soldo, mais uma gratificação anual de mil e quinhentas pesetas.

Um paraíso.

Francisco dirigiu-se à localidade mais próxima, que no caso foi Salamanca. Perguntou por um posto de recrutamento e, quando o encontrou, nem hesitou. Entrou lá dentro e quis saber se tudo o que lhe haviam dito era verdadeiro, se ninguém fazia perguntas e até lhe pagavam um soldo. Responderam-lhe que sim. Satisfeito por ouvir a confirmação, logo anunciou que se queria inscrever.

"Como te llamas?", perguntou o graduado que lhe preencheu os documentos.

Francisco hesitou. Depois do "Francisco" ainda esteve para dizer o nome da família que o adoptara e com o qual se baptizara, "Rodrigues". A boca ainda tinha formado o "Ro...", mas conteve-se a tempo; apesar de a inteligência não ser um dos seus principais atributos, percebeu nesse instante que começaria ali uma vida nova e precisava de um novo nome. Mais do que isso, precisava de um nome limpo. Limpo. Lembrou-se do Tino, do Constantino Latino que assassinara semanas antes com as suas próprias mãos, e achou que seria boa ideia ressuscitar o morto. Era uma forma de desfazer o que havia feito e talvez assim conseguisse um perdão dos céus.

"Latino."

"Francisco Latino?"

"Isso."

Rabiscou desajeitadamente uma cruz nos papéis que lhe estenderam e foi cumprimentado pelos homens do posto de recrutamento, que lhe ofereceram um copo de Rioja para assinalar o momento. Se soubesse ler teria logo decorado o nome da organização na qual acabara de se inscrever. O topo do papel de inscrição ostentava um logótipo e três palavras castelhanas. Tercio de Extranjeros.

A Legião Estrangeira.

 

Esperaram algum tempo sentados numa velha e dura cadeira de madeira, o sol forte da tarde a jorrar pela janela, transformando a salinha que servia de antecâmara ao gabinete do comandante num verdadeiro forno. O Verão ia adiantado e o calor apertava naquele dia de Agosto de 1936, fazendo da sala uma estufa abafada, como se os seus ocupantes estivessem a banhos.

O coronel Silvério tinha ido almoçar a casa e estava atrasado; é certo que a falta de pontualidade era desaprovada pela etiqueta militar, mas o facto é que a violação dessa etiqueta constituía uma prerrogativa que alguns superiores hierárquicos gostavam de chamar a si.

"Acha isto normal?", quis saber Luís, rodando a cabeça num irreprimível tique nervoso.

A convocatória enervara-o e via naquele atraso mais um mau augúrio. Seria possível que o coronel se encontrasse naquele momento na polícia? Teria Francisco sido mesmo

capturado? Estaria a demora relacionada com trâmites poli­ciais ou judiciais? A espera deixava-o inquieto para além do suportável. Com toda aquela ansiedade, não conseguia ficar quieto na cadeira; mexia os braços e as pernas sem cessar, dobrando-os e esticando-os, os pés quase a dançarem no soalho, as mãos ocupadas com tudo e com nada.

"Tenha calma, homem", pediu o capitão Branco, impressionado com tamanho desassossego. "Ele já aparece."

"Mas não acha estranho todo este atraso? Já estamos aqui há quase meia hora, que diabo! Deve estar a passar-se qualquer coisa..."

"Que coisa?"

"Não sei. Qualquer coisa, sei lá."

"Não se apoquente, o nosso comandante é mesmo assim."

"Meia hora de espera?" Luís pôs-se de pé, já incapaz de conter o nervosismo. "Não, não é normal."

"Oiça, Luís, por que razão está assim tão nervoso?", perguntou o capitão. "Passa-se alguma coisa?"

"Não, nada. É só que estranhei esta convocatória. Não acho normal o nosso comandante querer falar comigo. Ainda por cima chega atrasado..."

"Você não roubou nada, pois não?"

"Que eu saiba, não."

"Então está preocupado com quê?" Baixou a voz, para não ser escutado. "Você não sabe que o nosso comandante não é uma pessoa pontual? Ele até costuma dizer que os subordinados foram feitos para esperar..."

"O meu capitão tem a certeza?"

"Claro. Eu próprio já o ouvi dizer isso."

As palavras do capitão Branco acalmaram momentaneamente Luís, que voltou a sentar-se. Tinha de controlar os nervos, pensou. Estivesse ou não ansioso, isso não impedia

que o que tivesse de acontecer acontecesse. Além do mais, se Francisco tivesse sido capturado, tal já se saberia. Ou não?

O alferes Boavida entrou na antecâmara e interrompeu o vicioso e obsessivo ciclo de maus augúrios.

"Vem aí o nosso coronel", anunciou.

A chegada do comandante do regimento foi precedida pelo som de passos apressados a aproximarem-se, traque, traque, trunque, trunque, até que a porta se abriu com fragor e o coronel Silvério entrou de rompante na antecâmara, como se uma súbita tempestade ali tivesse desabado.

Com um salto, Luís e o capitão Branco ergueram-se da cadeira e fizeram continência ao mesmo tempo, os movimentos coordenados, como se tivessem ensaiado a saudação.

"Meu comandante."

O coronel acenou com a cabeça, fazendo sinal aos subordinados de que o seguissem.

"Ah, meus senhores", disse, abrindo a porta do seu gabinete. "Venham daí, temos de conversar."

O tom tranquilizou de imediato o alferes veterinário. Se fosse caso de polícia, o comandante teria falado de outro modo e provavelmente viria acompanhado da polícia militar ou civil. Foi como se um peso lhe tivesse saído do peito, embora se mantivesse em alerta. Fosse qual fosse o assunto, decidiu, convinha ser prudente na conversa. Meteu na cabeça que o importante era ouvir e não falar, não se fosse dar o caso de dizer algo que atraísse desnecessariamente as atenções sobre si.

O comandante do regimento era um indivíduo baixo, de cabelos brancos a escassearem no topo da testa e uma barriguinha que traía a natureza indolente de homem pachorrento

e amigo do bom garfo. No gabinete ostentava as bandeiras portuguesa e do regimento instaladas por trás da secretária, mesmo ao lado de uma enorme fotografia a preto e branco com o rosto seráfico de Salazar. Contudo, e ao contrário do que era habitual quando despachava com subordinados, o coronel optou por se sentar no sofá, convidando os dois subalternos a fazerem o mesmo.

"Fumam?", perguntou Silvério, exibindo um maço de cigarros logo que se acomodou.

"Agora não, meu comandante", disse o capitão, secundado pelo alferes. "Obrigado."

Silvério acendeu um cigarro e soltou uma nuvem cinzenta de fumo.

"Gosto sempre do meu cigarrinho depois do almoço", comentou com ar descontraído. "Os senhores não?"

"Eu prefiro o meu café, meu comandante."

Luís permaneceu calado, deixando o capitão Branco fazer as despesas da conversa e limitando-se a emitir um grunhido enquanto fazia sim e não com a cabeça.

"Querem que eu peça um café?"

"Não, não. Já tomámos ao almoço, meu comandante. Obrigado."

O coronel aspirou o cigarro e inclinou-se para a frente, assinalando que o curto interlúdio para a conversa de circunstância tinha terminado. Chegara a altura de ir direito ao assunto.

"Meus senhores, chamei-vos aqui por causa de uma missão delicada que vos vou confiar." Mirou o cigarro que lhe ardia entre os dedos amarelados de nicotina como se procurasse palavras para introduzir o tema. Ergueu por fim os olhos e fixou os subordinados. "Como sabem, houve no mês passado um levantamento militar em Espanha e aquilo vai

para lá uma enorme confusão, com os tipos todos aos tiros uns aos outros."

Fez uma pausa, como querendo confirmar que as suas palavras não traziam novidade nenhuma aos seus interlocutores, esforço decerto escusado, uma vez que por essa altura não devia haver adulto em Portugal que não soubesse que a guerra civil eclodira em Espanha.

Mesmo assim, e confrontado com aquele silêncio interrogativo do seu superior hierárquico, Mário Branco sentiu-se na obrigação de corresponder.

"Temos ouvido as notícias, meu comandante."

Luís continuou calado. Não era um oficial de carreira, mas um médico veterinário, pelo que não percebia bem o seu papel naquela conversa.

"E qual a vossa opinião?", quis saber o comandante.

Os dois homens remexeram-se no sofá, pouco à vontade. Não ignoravam a simpatia com que o regime encarava a revolta em Espanha e sabiam que um alinhamento errado poderia trazer-lhes problemas. As cautelas eram maiores da parte de Luís, devido ao seu menor estatuto no quartel, mas também por causa das opiniões antagónicas que nutria em relação à ditadura e sobretudo pelo facto de estar determinado a manter-se o mais invisível possível. Olhou por isso para Mário Branco, como que a pedir-lhe que respondesse por ele.

"Meu comandante, acho que se está a passar agora em Espanha o que aconteceu em Portugal em 1926", começou o capitão por dizer. "Os Espanhóis cansaram-se da bagunça republicana e querem pôr ordem na casa, só isso. Não nos podemos esquecer do que foram aqueles tempos de anarquia no nosso país, com a carestia de vida, a fome que havia por toda a parte, a violência, a indisciplina a todos os níveis da

sociedade, incluindo nos quartéis. Enfim, o caos. Não se lembra o meu comandante que, em apenas cinco anos, tivemos uma série de governos?"

"Dezoito."

"Pois, está a ver. E ao longo dos dezasseis anos de república houve também uns dezoito golpes de estado e revoluções."

"Foram mais", corrigiu o comandante. "Foram dezoito governos e vinte e dois golpes e revoluções. Contei-os todos, um a um. Vinte e dois golpes e revoluções, veja só!" Indicou com a cabeça a enorme fotografia de Salazar pregada à parede, por detrás da secretária. "Se não fosse aquele senhor ali, não sei não. Portugal não se punha direito."

"Pode ter a certeza disso, meu comandante. A diferença entre nós e os Espanhóis é que a nossa transição da bagunça para a ordem foi relativamente pacífica e a deles não está a ser."

O coronel Silvério aspirou de novo o cigarro que lhe bailava entre os dedos e inclinou-se para a frente, sinalizando que queria ser ele a dirigir a conversa dali para a frente.

"Há uma outra diferença, capitão", observou por entre o fumo, respeitando mais uma pausa, dessa feita com um certo ar de melodrama. "A nossa revolução de 1926 não teve impacto nenhum em Espanha. Nós ficámos com a ditadura e progredimos. Mas eles não foram influenciados pelo nosso rumo e caminharam em sentido contrário, pondo fim à monarquia e instituindo a democracia parlamentar, que abriu a porta a toda esta confusão. Primeiro ganharam as esquerdas, depois as direitas, e agora as esquerdas outra vez. O problema é que o que se está a passar em Espanha poderá ter um profundo impacto aqui em Portugal."

"O que quer dizer com isso, meu comandante? Não estou a entender..."

"Sabe, capitão, desde que foi instituída a república em Espanha que a gentinha do reviralho, que deixou de ter espaço aqui para as suas intrigas mesquinhas, resolveu fugir para lá. Encon­traram entre os Espanhóis o espaço ideal para alimentar as suas conspirações da treta contra o regime. Isso seria para rir, não se desse o caso de esses idiotas encartados terem começado a ser usados pelos comunistas espanhóis para fomentar o grande plano de Moscovo de uma Península Ibérica vermelha. Os bol­chevistas querem expandir o comunismo internacional e estão a encorajar os Espanhóis a abocanhar Portugal. Ora os palermas do reviralho que fugiram para Espanha aceitaram transformar-se em instrumentos dessa política expansionista dos vermelhos, tornando-se assim verdadeiros traidores à pátria."

Até aí sempre calado, Luís não conseguiu resistir nesse ponto e deu consigo a meter-se na conversa.

"Mas o meu comandante acha mesmo que os Espanhóis nos querem invadir? Não lhe parece que isso é um bocado conversa do... enfim, do regime?"

Silvério esboçou um gesto de impaciência.

"O alferes, não seja ingénuo! Então não sabe que a estratégia dos bolchevistas passa pela internacionalização do comunismo?"

"Mas quais bolchevistas, meu comandante?", insistiu Luís. "É verdade que a república tem comunistas, mas também tem socialistas, l