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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A VINGANÇA DA CAGLIOSTRO / Maurice Leblanc
A VINGANÇA DA CAGLIOSTRO / Maurice Leblanc

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

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GOSTARIA de deixar registrado que, embora aprecie como convém e ateste a exatidão das aventuras a mim atribuídas por meu biógrafo titular, faço certas restrições à maneira como ele as apresenta em seus livros.
Há cem métodos de adaptar ao gosto do público uma aventura real. A melhor talvez não seja mostrarme sempre sob o aspecto mais lisonjeiro, situando-me obstinadamente em primeiro plano. Não satisfeito com negligenciar os numerosos episódios da minha vida em que fui dominado pelas circunstâncias, demolido por meus adversários, ou tratado com grosseria pelos respeitáveis agentes da autoridade, meu biógrafo dispõe, atenua, desenvolve, exagera e, sem deturpar os fatos, arranja-os de modo a deixar-me embaraçado, modesto que sou.
É um método de narrativa que desaprovo. Não sei quem disse: "É preciso conhecer as próprias limitações e apreciá-las". Conheço as minhas e sinto-as com certa satisfação, já que tenho horror a tudo o que é sobre-humano, anormal, excessivo e desmesurado. Basta-me o que sou; tudo o que o ultrapasse seria inverossímil e ridículo. Ora, uma das minhas fraquezas é o temor de cair no ridículo.
E caio sem dúvida no ridículo - a razão essencial deste breve prefácio - quando me apresentam ao público numa invariável, perpétua e irritante situação de homem apaixonado. Não nego, com certeza, que tenho o coração muito sensível e o amor à primeira vista me espreita a cada esquina. Não nego também que as mulheres mostraram-se em geral acolhedoras e benignas no que a mim respeita. Guardo recordações lisonjeiras e fui objeto feliz de desfalecimentos que para outros seriam causa de ufania. Mas daí a fazerme representar o papel de Don Juan, de irresistível Lovelace é uma falsidade contra a qual protesto. Conheci rejeições. Rivais desprezíveis levaram a melhor. Sofri uma boa parcela de humilhações e traição, desfeitas incompreensíveis, mas que é preciso registrar, caso se queira rigorosamente autêntica a minha imagem.
Este o motivo pelo qual insisti em que fosse narrada a presente aventura sem rodeios ou cautelas. Nem sempre me distinguirei por irritante infalibilidade. Meu coração não suspira em detrimento da razão. Meus poderes de sedutor estão singularmente contidos. Tudo isso me valerá talvez a indulgência daqueles a quem horroriza o excesso dos meus méritos e das minhas conquistas, não sem motivo.
Mais uma palavra: Josêphine Balsamo, que foi a grande paixão dos meus vinte anos e, dizendo-se filha do conde de Cagliostro, o famoso impostor do século XVIII, pretendia dele ter herdado o segredo da eterna juventude, não aparece neste livro por motivos que o próprio leitor apreciará em toda a sua intensidade. Mas, por outro lado, como deixar de unir seu nome ao título de uma história sobre a qual sua imagem projeta sombra tão trágica, o amor se desdobra em ódio e a vingança se envolve em trevas tão espessas?

 

 

 


 

 

 

 

PRIMEIRA PARTE

Dos Dramas, o Segundo

NA TRILHA GUERREIRA

As belas manhãs de janeiro, de ar cortante impregnado de sol já mais cálido, constituem fonte de exaltação revigorante. Em pleno inverno pressente-se um sopro de primavera. A tarde prolonga-se, desdobrando as horas. A juventude do ano rejuvenesce o homem. Era, evidentemente, o que sentia Arsène Lupin ao passear naquele dia pelas avenidas, cerca das onze horas.
Caminhava a passo elástico, erguendo-se mais que o necessário na ponta dos pés, como se executasse um movimento de ginástica. De fato, a cada passada do pé esquerdo correspondia uma profunda inspiração, que parecia duplicar a capacidade do tórax de amplitude já extraordinária.
A cabeça pendia ligeiramente para trás, o torso descrevia linha convexa. Nada de sobretudo. Terno cinzento leve, de pleno verão, e chapéu de feltro sob o braço.
O rosto, que parecia sorrir aos transeuntes - e principalmente às transeuntes, por menos bonitas que fossem -, era o de um senhor que caminha alegremente para o marco dos cinqüenta anos, se é que já não transpôs a linha de chegada. Mas, visto de costas, ou de longe, esse mesmo senhor dinâmico, esguio, bem na moda, poderia protestar contra quem lhe atribuísse mais de vinte e cinco anos.
"E ainda assim!" - pensava, contemplando nas vitrinas sua elegante silhueta. - "Quantos adolescentes me invejariam!"
O que podia despertar inveja a qualquer um era o ar de força e segurança e tudo o que nele revelava equilíbrio físico, saúde moral e a tríplice satisfação de um bom estômago, um intestino escrupuloso e uma consciéncia irrepreensível. Com isso pode-se caminhar em linha reta e de cabeça erguida.
Observemos ainda que a carteira estava bem provida, que o bolso do revólver continha quatro talões de cheques de bancos diferentes e tirados em nomes diversos, e que por toda a França, em esconderijos seguros, leitos de rios, cavernas desconhecidas, brechas de despenhadeiros inacessíveis, ele possuía lingotes de ouro e sacos de pedras preciosas.
E não mencionamos o crédito que lhe concediam em todos os continentes, em nome de Raul de Limésy, Raul d'Avenac, Raul d'Enneris, Raul d'Averny, simples e modestos sobrenomes da pequena nobreza provinciana, ligados pelo mesmo prenome. Ele passava justamente pelo Banco das Províncias, onde depositaria um cheque vultoso em nome de Raul d'Averny. Entrou e efetuou a operação. Em seguida desceu ao subsolo, assinou o registro e dirigiu-se ao seu cofreforte para recolher alguns documentos.
Enquanto escolhia aqueles de que precisava, percebeu nas proximidades um senhor de luto, ar envelhecido e antiquado de notário provinciano, retirando de um cofre vizinho vários pacotes bem enrolados. Cortando os barbantes contou, um por um, maços de dez notas de mil francos, presos por um grampo.
O senhor, muito míope, e que a intervalos lançava ao redor um olhar inquieto, não percebeu que Arsène Lupin acompanhava seus gestos. Prosseguiu na tarefa até acomodar numa pasta de marroquim oitenta ou noventa maços de notas, isto é, a soma de oitocentos ou novecentos mil francos.
Lupin havia contado ao mesmo tempo que ele, dizendo consigo mesmo: "Que diabo estará tramando esse respeitável capitalista? cobrador? tesoureiro? Ou seria um desses desavergonhados que desviam uma quantia, subtraindo-a às exigéncias do fisco? Tenho horror a esses sujeitos... Fraudar o Estado... Que torpeza!"
Terminada a operação, o cavalheiro fechou a pasta de marroquim com uma correia, ajustando-a cuidadosamente.
Em seguida passou por Lupin e subiu a escada.
Lupin saiu na sua pista, pois nem a mais irrepreensível das consciéncias é capaz de impedir que se acompanhe um senhor que transporta um milhão em dinheiro. Tal soma possui um odor que atrai os bons cães de fila. E Lupin era um bom cão de fila, dotado de faro que não conduzia jamais a uma pista falsa. Seguiu, portanto, no encalço da presa, ar menos vitorioso, talvez, pois não queria ser notado, mas com frémitos de prazer e nenhum projeto em mente, aliás. Nem o mais ligeiro plano preconcebido. Para quem goza de consciéncia irrepreensível e número respeitável de tesouros, que representa um maço de notas?
O senhor entrou numa confeitaria da Rue du Havre, saiu com um embrulho de doces e dirigiu-se à estação de Saint-Lazare.
- Diabo! - murmurou Lupin. - Será que vai tomar o trem e me levar sei lá para onde?
O senhor tomou o trem. Lupin, embora sob protesto, tomou-o também, e, no longo compahimento cheio de passageiros, seguiram pela linha de Saint-Germain. O homem segurava contra o peito, qual mãe acalentando o filho, a pasta de marroquim.
Desceu após a cidadezinha de Chatou, na estação de Vésinet, o que agradou a Lupin. Gostava do local.
A doze quilômetros de Paris, aninhada num meandro do Sena, Vésinet, ou pelo menos aquele recanto de Vésinet, encontra-se sob rigoroso controle de planejamento e construção, expandindo-se ao redor de um lago adormecido sob árvores. Suas amplas avenidas são contornadas de jardins e belas residéncias. Naquela manhã, o sol arrancava cintilações dos ramos das árvores, onde permaneciam gotas de orvalho da geada noturna. O solo era rijo e sonoro. Que delícia caminhar assim sem outra preocupação que velar pela fortuna do próximo!
Belas residéncias, contornadas por uma alameda externa, erguiam-se em torno de uma primeira extensão d'água, modesta lagoa, menor e mais discreta, cujas margens pertenciam aos proprietários das casas que a rodeavam.
Os dois passaram pela vila Roseiral, adjacente à Laranjal. O senhor ergueu a aldraba de uma casa que tinha o nome de Clematites.
Lupin prosseguiu caminho, discreto, de modo a não chamar atenção. A porta se abriu. Duas moças surgiram, exclamando alegremente:
- Atrasado, tio! O almoço está pronto! Que trouxe de gostoso?
Lupin encantou-se. A recepção carinhosa ao tio, aos doces, a exuberância das sobrinhas, a construção baixa e um tanto fora de moda, era tudo muito simpático. Seria realmente agradável penetrar naquele círculo cordial, respirar a cálida atmosfera de uma família unida.
Quinhentos metros adiante estendia-se o grande lago. Almoçava-se ali num excelente restaurante, onde Lupin fez honras ao menu. Decidiu em seguida contornar o lago, admirando o exterior de residéncias simpáticas, quase todas fechadas nesses dias de inverno.
Uma delas chamou-lhe a atenção, não só por ser atraente e estar rodeada de um jardim bem planejado, como porque ostentava um cartaz preso à grade, onde se lia: "Ensolarada. Vende-se. Para visitas e informações dirigir-se à vila Clematites".
Clematites! Precisamente a vila onde 'titio' almoçava! O destino era na verdade malicioso. Como não associar a idéia da pasta de couro à Ensolarada?
Dois pavilhões flanqueavam o portão de entrada. O jardineiro morava no da direita. Lupin tocou a campainha. Mostraram-lhe a casa e ele imediatamente se encantou. Era adorável, um tanto desleixada, até mesmo arruinada em determinados pontos, mas tão bem distribuída e prestando-se de tal modo a uma hábil restauração!
Cinco minutos após, Lupin apresentava seu cartão. O senhor Raul d'Averny foi conduzido ao senhor Philippe Gaverel, que se achava num salão-estúdio do térreo com as duas" bonitas sobrinhas. O tio fez as apresentações.
O senhor Gaverel conservava sob o braço a pasta de marroquim ainda cingida pela correia. Devia ter almoçado sem dela se separar.
Lupin expôs o objetivo da visita: a eventual aquisição da Ensolarada. Philippe Gaverel formulou as condições.
Lupin refletiu um instante, observando as duas irmãs. Um rapaz que fazia a corte à mais velha e que ela própria apresentou como seu noivo acabava de reunir se às moças e os trés riam. Raul perturbou-se Escrupuloso cono sempre, perguntou a si mesmo, até que ponto o projeto de aquisição a preço baixo lesaria as solicitou, afinal, um prazo de quarenta e oito horas para decidir.
De acordo - respondeu o senhor Gaverel. - Mas queira dirigir-se ao meu notário. Viajo daqui a pouco
para o sul.
Explicou que, tendo enviuvado há oito meses e casando-se o filho em Nice, pretendia reunir-se a ele e passar junto ao jovem casal uma parte do ano.
Não moro aqui em casa de minhas sobrinhas,
aliás. Minha residéncia é ao lado, a vila Laranjal. Os jardins são unidos. A casa é muito agradável, mas não poderá julgá-la, fechada como está e com todas as venezianas cerradas.
Lupin permaneceu uma hora conversando e gracejando com as moças, contando inúmeras aventuras e histórias divertidas. Entretanto, observava de soslaio o senhor Gaverel.
Passearam no jardim da Clematites e no jardim da Laranjal. Philippe Gaverel, pasta de marroquim sob o braço, dava ordens ao criado de quarto que, após colocar malas e sacolas numa camioneta, seguiu na frente para a estação de Lyon.
- E a pasta, tio? Vai levá-la? - perguntou uma das irmãs.
- Claro que não. São documentos comerciais sem importância, que trouxe de Paris e vou guardar em
casa.
De fato, entrou em casa. Vinte minutos após saía sem a pasta e sem volume no bolso que indicasse estarem as notas em seu poder.
"Escondeu-as em casa", pensou Lupin. "Deve ter muita confiança no esconderijo. Decididamente é um velho ladino, que lesou o fisco ao liquidar o inventário da mulher. Essa gente não merece consideração."
Afastando-se com ele, disse:
- Pensando bem, senhor Gaverel, decidi comprar.
- Perfeito - aplaudiu o senhor Gaverel, entregando as chaves da casa às sobrinhas.
Saíram juntos. O tio não levava, decididamente, a pasta de marroquim.
Duas semanas após, Lupin assinava um cheque. Simples entrada cedida ao vendedor, já que o custo da Ensolarada achava-se mais que coberto pelos pacotes de notas escondidos na Laranjal. Nem mesmo se apressou a fazer as necessárias pesquisas, calculando que o esconderijo seria bastante seguro, uma vez que inspirava tanta confiança ao possuidor do dinheiro. O que constitui a qualidade de um esconderijo é ser desconhecida de todos a existéncia do tesouro nele encerrado. Lupin era conhecedor.
Antes de mais nada precisava sair em busca de um arquiteto para restaurar a Ensolarada. O acaso apresentou-lhe um. Recebeu, certo dia, carta de um médico que há tempos lhe prestara inestimável serviço1, conhecia a sua verdadeira personalidade e estava sempre a par dos seus avatares e sucessivos endereços. O dr. Delatre escreveu:
"Caro amigo,
Ficaria muito grato se pudesse fazer algo pelo jovem Félicien Charles, arquiteto diplomado, por quem me interesso. Ele tem talento. .. etc."
Ver A Agulha Oca.
Lupin convocou o rapaz, que lhe pareceu tímido, reservado, desejoso de agradar, mas sem saber como. Um belo jovem, aliás, de vinte e sete ou vinte e oito anos, inteligente, um artista. Compreendeu muito bem tudo o que dele se esperava e ofereceu-se também para decorar a Ensolarada e recuperar o jardim. Ficaria instalado no pavilhão da esquerda.
Passaram-se meses.
Lupin visitou a casa trés ou quatro vezes apenas. Apresentara Charles às duas irmãs, mantendo-se assim a par do que se passava na Clematites. Ele próprio, aliás, gostava de visitar as moças. A mais velha adoeceu gravemente com bronquite, o que a forçou a adiar o casamento.
A cerimônia foi, afinal, marcada para o dia 9 de julho. Como tio Gaverel estaria presente, Lupin, que viajava pela Holanda, decidiu regressar oito dias antes para operar o escamoteamento do dinheiro.
O plano era simples. Verificara yque era possível subtrair o barco de uma propriedade vizinha indo até ao extremo de uma passagem pública que conduzia, entre dois muros, ao lago. Assim, uma noite chegaria ao jardim da Laranjal e entraria na casa.
De posse do dinheiro arrumaria os pacotes de modo a devolver-lhes a aparéncia anterior. Nas vinte e quatro horas que pretendia passar, não na Laranjal, mas em casa das duas irmãs, Philippe Gaverel se contentaria, sem dúvida, em verificar se o pacote estava no lugar. Não examinaria o conteúdo. O roubo só seria descoberto, portanto, quando ele regressasse em outubro.
Mas quando Lupin chegou de automóvel, certa manhã, um drama terrível, de trágicas repercussões, abatera-se na véspera sobre as margens tranqüilas do pequeno lago. p

II
HOMICÍDIOS
QUE fique bem estabelecido desde logo: o almoço que precedeu, na vila Clematites, as terríveis horas em que se acumularam as peripécias do drama foi para as duas moças e os dois rapazes ameaçados de desgraça tão próxima todo de alegria natural, leve e despreocupada, mesclada a gentilezas e sentimento amoroso. Nem todas as tempestades são anunciadas por sinais precursores. Esta desabou súbito em firmamento sereno, sem qualquer pressentimento a oprimir o coração daqueles que seriam suas vítimas.
Os quatro riam e conversavam alegremente acerca de projetos imediatos, assim como de planos para o dia e a semana seguintes.
As irmãs Gaverel, após a morte dos pais, isto é, há sete ou oito anos, residiam na Clematites, sob a supervisão de uma governanta que as criara desde pequeninas, a velha Amélie, e de seu marido, Edouard, o criado.
A mais velha, Elisabeth, jovem alta e loura, fisionomia um tanto pálida de convalescente e sorriso ingenuamente sedutor, conversava principalmente com o noivo, Jérôme Helmas, belo rapaz de expressão franca, sem situação no momento, e que, órfão, conservara a pequena casa onde residira sua mãe no centro de Vésinet, às margens da estrada nacional de Paris.
Amigo de Elisabeth antes de ser seu noivo, conhecera a mais moça, Rolande, bem pequenina e tratava-a com familiaridade. Fazia as refeições na Clematites.
Rolande, bem mais moça que a irmã, era mais expressiva que Elisabeth, de beleza mais auténtica e principalmente de charme mais vivo e misterioso. Não havia dúvida de que o outro rapaz, Félicien Charles, sentia-se atraído por ela, pois não cessava de observá-la, furtivo, como se não ousasse fitá-la de frente. Estaria apaixonado? A própria Rolande seria incapaz de dize-lo. Era dessas pessoas enganadoras, cujas fisionomias não refletem sua natureza íntima e que não parecem pensar ou sentir como de fato sentem ou pensam.
Terminada a refeição, os quatro entraram no estúdio, peça vasta, mas aconchegante, graças à disposição dos móveis, dos bibelôs e dos livros. A janela, à inglesa, muito ampla, escancarada, abria-se para um gramado estreito, que separava a casa do lago. A água imóvel, sem um arrepio, refletia as árvores frondosas, de longos ramos pendentes, que vinham unir-se aos ramos refletidos como num espelho. Inclinandose, a pessoa percebia à direita, a sessenta metros, a outra casa, Laranjal, onde morava o tio Philippe. Uma cerca viva de pouca altura marcava a fronteira entre os dois jardins, mas a faixa__de relva contornava de forma ininterrupta toda a margem do lago.
Elisabeth e Rolande deram-se as mãos por um instante. Pareciam estimar-se profundamente. Rolande sobretudo manifestava sua dedicação e constante inquietude. A saúde de Elisabeth, após a doença, exigia certas precauções.
Deixando-a com o noivo, a mais moça sentou-se ao piano e chamou Félicien Charles, que tentou esquivar-se.
- Perdão, senhorita, mas almoçamos hoje mais tarde e meu trabalho começa todos os dias à mesma hora.
- Seu trabalho não tem horário livre?
- Justamente por ser livre devo me mostrar pontual, tanto mais que o senhor d'Averny chega amanhã cedo. Viajará de automóvel a noite inteira.
- Que bom revé-lo! Ele é tão simpático, tão interessante!
- Então deve compreender por que desejo satisfazé-lo.
- Ainda assim, fique... meio minuto, pelo menos. ..
Ele obedeceu, calado.
- Fale comigo - pediu ela.
- Devo falar ou escutá-la?
- As duas coisas ao mesmo tempo.
- Só posso falar se deixar de tocar piano.
Ela não respondeu. Continuou simplesmente a dedilhar acordes com tanta suavidade e abandono que mais parecia fazer uma confissão. Tentaria levá-lo a compreender algo secreto, ou forçá-lo a maior expansão e entusiasmo? O rapaz, porém, conservou-se em siléncio.
- Vá embora - ordenou ela.
- Ir-me... por qué?
- Já conversamos bastante por hoje - gracejou. Ele hesitou, aturdido, mas como Rolande repclisst
a ordem, saiu.
Dando de ombros, ela continuou a tocar. Observava Elisabeth e Jérôme, que falavam em voz baixa, entreolhando-se, sentados lado a lado no sofá, embalados pela música que os aproximava ainda mais. Vinte minutos passaram-se assim.
Finalmente, Elisabeth levantou-se, dizendo:
Jérôme, é hora do nosso passeio diário. É tão
bom deslizar sobre a água, entre os ramos das árvores.
Será prudente, Elisabeth? Vocé ainda não se
recuperou de todo.
- Claro que sim! O passeio é repousante, me faz muito bem.
- Mas...
- Mas é isso mesmo, Jérôme querido. Vou buscar o barco e traze-lo para junto da relva. Não se mova daqui.
Subiu ao quarto e, como fazia diariamente, abriu a escrivaninha e escreveu algumas linhas no diário onde registrava seus pensamentos íntimos. Ali seriam encontradas mais tarde suas últimas palavras.
"Jérôme pareceu-me um tanto distraído, absorto. Perguntei-lhe porqué. Respondeu que eu estava enganada. Insisti e ele deu a mesma resposta, porém mais indecisa.
- Não, Elisabeth, não tenho nada. Que mais poderia desejar, uma vez que vamos nos casar e meu sonho, que data de um ano, vai realizar-se? Exceto...
- Exceto?
- Às vezes o futuro me preocupa. Vocé sabe que não sou rico. Tenho quase trinta anos e nenhuma situação.
Cobri-lhe os lábios com a mão e ri.
- Mas eu sou rica... É evidente que não podemos fazer loucuras... Por que vocé é tão ambicioso?
- Por sua causa, Elisabeth. Quanto a mim, não sou exigente.
- Eu também não, Jérôme! Contento-me com pouco. Quero apenas ser feliz. Nada mais peço - falei, rindo - Não combinamos morar aqui, simplesmente, até que uma boa fada nos traga o tesouro prometido? *
- Ah, eu não creio em tesouros!
- Como? O nosso existe, Jérôme... Lembra-se do que contei a vocé? Um velho amigo de nossos pais, um primo afastado que não vemos há anos e que não tem dado notícias, mas gosta muito de nós... Quantas vezes a minha velha Amélie repetiu: 'Senhorita Elisabeth, um dia será muito rica. Seu primo Georges Dugrival deixará em seu nome toda a fortuna dele. E está muito doente, parece.' Vocé vé, Jérôme...
Ele murmurou:
- Dinheiro... dinheiro... Gostaria de trabalhar. O que desejo para vocé, Elisabeth, é um marido à sua altura...
- Não diga mais nada. - Sorri. - Jérôme... meu querido Jérôme, será que alguém pensa no futuro quando ama como nós nos amamos?"
Elisabeth abandonou a caneta. A confidência diária estava encerrada. Arrumou-se, empoou-se, avivou as faces com um pouco de ruge, verificou se o fecho do belo colar de pérolas herdado da mãe, e do qual não se separava, estava bem fechado, e desceu ao jardim do tio Philippe, dirigindo-se aos degraus de madeira junto aos quais estava amarrado o barco.
Jérôme não se movera do diva desde que Elisabeth saíra, escutando distraído os improvisos de Rolande. Interrompendo-se, ela disse:
- Estou muito feliz, Jérôme. E vocé?
- Eu também.
- Elisabeth é maravilhosa, não acha? Se conhecesse a bondade e a nobreza de sua futura mulher! Mas vocé as conhecerá, Jérôme.
Voltando ao teclado, atacou vigorosamente os acordes de marcha triunfal destinada a expressar felicidade sobre-humana.
Súbito, imobilizou-se.
- Um grito... Vocé ouviu, Jérôme? Escutaram.
Profundo siléncio invadiu a sala, vindo do tranqüilo gramado, do lago sereno. Rolande devia ter-se enganado. E recomeçou a tocar com entusiasmo seus acordes vibrantes de alegria e triunfo.
De repente levantou-se.
Ouvira um grito, tinha certeza.
Elisabeth... - murmurou, correndo à janela.
Uma voz abafada gritou:
- Socorro!
Jérôme já se encontrava junto dela.
Inclinando-se, viu junto à margem, no ponto onde ficavam os degraus, um homem que parecia estrangular Elisabeth. A moça tinha as pernas mergulhadas n'água. Jérôme, gritando de horror, desatou a correr no encalço de Rolande, que já se achava no gramado.
O agressor voltou-se para os dois. Largando imediatamente a vítima, recolheu algo no chão e fugiu pelo jardim da Laranjal.
Jérôme, então, mudou de idéia. Passando à peça vizinha, tomou uma carabina pendurada à parede, com a qual as duas irmãs exercitavam-se muitas vezes e que ele sabia estar carregada. No alto da escadaria que dominava os jardins, parou.
O homem fugia. Estava diante da casa e era evidente que queria chegar à horta da Laranjal, de onde havia uma saída direta para a avenida circular.
Levando a arma ao ombro, Jérôme fez pontaria e disparou. O homem atirou-se para a frente e tombou num canteiro de flores onde, após alguns estremecimentos, permaneceu inerte. Jérôme desatou a correr para o lago.
- Está viva? - gritou, aproximando-se de Rolande que, ajoelhada, abraçava a irmã.
- O coração já não bate - soluçou Rolande.
- Não, é impossível!... Podemos reanimá-la... - murmurou Jérôme, apavorado.
Atirou-se sobre o corpo imóvel e, antes mesmo de constatar se vivia ou não, balbuciou, olhar desvairado:
- O colar desapareceu... O homem a estrangulava para arrancar as pérolas... Que horror! Está morta! ...
Pôs-se a correr como um louco, seguido do velho criado, Edouard, enquanto Rolande e a governanta Amélie permaneciam junto à vítima. Encontraram o homem caído de bruços no canteiro. A bala, penetrando entre as omoplatas, devia ter atingido o coração.
Com a ajuda de Edouard, Jérôme virou o corpo. Era um indivíduo de cinqüenta a cinqüenta e cinco anos, pobremente vestido, boné sujo, rosto pálido, aureolado de barba grisalha.
Jérôme revistou-o. A carteira imunda continha alguns papéis, entre os quais dois cartões com um nome escrito a mão: Barthélemy.
Num dos bolsos do colete, o criado descobriu o colar de pérolas que ele roubara a Elisabeth.
Os gritos e o disparo haviam chamado a atenção nas cercanias das duas residéncias. Em breve formava-se um grupo de pessoas querendo saber o que se passava, espiando por cima dos muros, abrindo os portões e tocando a campainha da Clematites. Telefonou-se ao comissariado de Chatou e ao quartel de polícia. A ordem foi restabelecida. Com os intrusos afastados, procedeu-se às primeiras constatações.
Jérôme Helmas deixara-se cair junto à" noiva morta, esfregando os olhos com os punhos crispados. Quando a transportaram para casa, não se moveu, e quando o chamaram a pedido de Rolande, que cheia de feroz energia, dominando a dor, vestia em Elisabeth o traje de noiva, não quis entrar. Recusava-se a guardar daquela a quem amava uma idéia diversa e alterada, menos bela que a deslumbrante imagem do passado.
Félicien Charles, que voltara à Clematites tão logo a notícia do drama se espalhou e que não foi recebido por Rolande, tentou distrair Jérôme interessando-o pela investigação. Colocou-o diante do cadáver do assassino, que fora estendido sobre uma padiola, e perguntou-lhe se já o tinha visto. Interrogou-o sobre as circunstâncias do drama. Nada o interessou, nada o arrancou do torpor.
Finalmente, como os policiais o crivassem de perguntas, Jérôme refugiou-se no estúdio, onde pela última vez contemplara Elisabeth com vida, e dali não saiu.
À noite, já que Rolande não se afastava do quarto da irmã, ele aceitou do criado Edouard algum alimento, que consumiu maquinalmente. Em seguida adormeceu pesadamente, arrasado de cansaço. Mais tarde saiu para o jardim, onde vagueou ao luar; depois atirou-se ao gramado e tornou a adormecer entre as flores, na relva úmida.
Principiou a chover e ele voltou à casa. Junto à escada encontrou Rolande que descia, vacilante e desesperada. Apertaram-se as mãos sem dizer palavra. Era como se para os dois nada existisse além da sua dor. Era uma hora da manhã quando ele se foi.
Rolande subiu ao quarto de Elisabeth, voltando à sua vigília fúnebre, em companhia da governanta. Os círios choravam. A brisa vinda do lago fazia estremecer as chamas.
Começou a chover forte. Mas o dia nasceu num firmamento azul pálido, onde estrelas ainda cintilavam. Pequenas nuvens douravam-se pouco a pouco aos primeiros clarões do sol.
Foi nesse momento que, no caminho que conduz à cidade de Chatou, um operário encontrou Jérôme Helmas semidesacordado na orla da estrada, roupas encharcadas de chuva, gemendo, colarinho manchado de sangue.
Instantes depois, noutro caminho por onde ninguém passava àquela hora matinal, um leiteiro descobriu outro ferido, este com uma facada no peito. Era um rapaz corretamente vestido, com calças de veludo preto e colete da mesma cor, gravata de laço de pois brancos. Parecia um artista. Era alto e forte.
Estava mais gravemente ferido que Jérôme. Não se movia. Contudo, respirava ainda e seu coração batia debibilmente.

RAUL INTERVÉM
DURANTE toda a manhã, na tranqüila Vésinet, houve idas e vindas, aparições de policiais, inspetores à paisana e agentes uniformizados, ronco de motores, engarrafamentos, corridas de repórteres e fotógrafos. Todos queriam saber. Circulavam os boatos mais insólitos e contraditórios.
O único lugar tranqüilo era o jardim da vila Clematites. Ali, ordem inflexível: proibida a entrada a qualquer pessoa, exceto à polícia. Nada de curiosos. Nada de jornalistas. Falava-se em voz baixa por respeito à morta e à dor de Rolande.
Ao saber da agressão de que fora vítima Jérôme Helmas, a moça desatou a chorar.
- Minha pobre irmã... minha pobre Elisabeth...
E deu ordens para internarem o rapaz numa clínica próxima, a mesma que acolheu o outro ferido. O cadáver de Barthélemy, que havia estrangulado- a jovem, fora colocado na garagem e aguardava transporte para o necrotério.
Cerca das onze horas, o senhor Rousselain, juiz de instrução, sentado junto ao procurador da República numa confortável poltrona de jardim, lutava contra o sono escutando as minuciosas explicações que o inspetor-chefe Goussot apresentava sobre o múltiplo drama de Vésinet.
O senhor Rousselain era um homem de baixa estatura, barrigudo, pernas grossas, vítima de digestões difíceis e com bons motivos. Juiz de instrução na província há quinze anos, indolente, sem ambições, tinha tudo para não sair da região aonde o seu amor pela pesca o prendia. Infelizmente, o caso do castelo cTOrsac1, no qual dera provas de tanta percepção e clarividéncia, havia chamado atenção para a sua pessoa, valendo-lhe, com profundo desgosto para ele, uma transferéncia para Paris. O colete negro de alpaca e a camisa de tecido cinzento amarrotada denotavam sua perfeita despreocupação em matéria de elegância. Apesar da aparéncia, era um homem sutil, de espírito agudo, muito independente na maneira de agir e às vezes até um tanto fantasista.
O inspetor-chefe Goussot, que tinha mais fama que verdadeiro mérito, concluiu com um tom de voz que despertou o senhor Rousselain:
- Em suma, a senhorita Gaverel foi atacada no momento em que se inclinava para pegar a corrente do barco. E o ataque foi tão violento que os trés degraus de madeira que conduzem à água quebraram-se. Observem que a senhorita Gaverel molhou-se até a cintura. Logo em seguida houve luta na margem, roubo do colar de pérolas e fuga do assassino, que tinha igualmente as pernas molhadas. Quanto ao criminoso, que foi examinado pelos legistas e se acha estendido na garagem onde poderão vé-lo, dele não possuímos qualquer informação, exceto o nome de Barthélemy. O rosto e as roupas são os de um vagabundo. Matou para roubar. Mais não sabemos.

l
Vide O Rosário Vermelho.
O inspetor-chefe Goussot tomou fôlego e prosseguiu, com a satisfação de quem se expressa sem buscar palavras:
- Agora, vamos aos outros dois. O senhor Jérôme Heimas abateu com um disparo de fuzil o assassino, que sem isso teria certamente fugido. Este é o único ponto que podemos precisar. No mais, as declarações que me fez em seu leito de dor e apesar do abatimento são totalmente vagas. Para começar, não conhecia o assassino da noiva. Não reconheceu também seu agressor noturno e ignora a razão pela qual foi atacado. Além disso, não dispomos de qualquer indício relativo à identidade do segundo ferido, ou sobre as condições do assalto que sofreu. No máximo podemos supor que em ambos os casos o agressor foi o mesmo.
Alguém interrompeu o policial.
- Não é o caso de se supor também, senhor inspetorchefe, que houve esta noite não um drama entre trés homens, ou seja, um agressor e duas vítimas, e sim um drama entre dois homens apenas? O senhor Jérôme Helmas foi assaltado por um indivíduo que, ferido por Helmas, conseguiu arrastar-se trezentos ou quatrocentos metros até o ponto em que tombou esta noite?
Todos escutaram, interessados, a imprevista hipótese do homem que acabava de falar, observando-o com surpresa. Quem seria? Haviam notado que ele saíra da vila Clematltes e ouvira as conclusões do inspetor Goussot. Mas que direito teria de se intrometer?
_ O inspetor-chefe, irritado por apresentarem uma hipótese em substituição à sua, perguntou:
- Quem é o senhor?
- Raul d'Averny. Minha propriedade fica próximo daqui, à margem do grande lago. Ausente de Paris há semanas e regressando esta manhã, soube o que se passava pelo jovem arquiteto encarregado da restauração da minha propriedade e que mora em minha casa. Félicien Charles era amigo das senhoritas Gaverel e almoçou ontem com elas. Há uma hora acompanhei-o em visita à senhorita Rolande e julguei não ser indiscreto passeando um instante pelo jardim e escutando suas notáveis deduções, senhor inspetor-chefe. Elas revelam um mestre da investigação.
Raul d'Averny tinha um sorriso indefinível e um certo ar malicioso que dariam a qualquer outro que não o inspetor-chefe Goussot a sensação de ridículo. Mas o inspetor estava certo da própria importância e muito seguro dos seus talentos para experimentar tal impressão. Lisonjeado pelo cumprimento, limitou-se a recolocar no lugar o simpático amador.
- É uma hipótese que não deixei de aventar, senhor - disse, sorrindo. - Cheguei mesmo a apresentá-la ao senhor Helmas, que respondeu: "Com que arma eu o teria abatido? Estava desarmado. Não. Defendime como pude, a murros e pontapés".
"Com um murro no rosto, disse o senhor Helmas, pus o adversário em fuga quando eu já estava ferido." Resposta categórica, não acha o senhor? Ora, examinei o segundo ferido. Não apresenta marcas de socos no rosto, ou de pontapés em qualquer parte do corpo, aliás. Portanto...
Raul d'Averny inclinou-se, por sua vez.
- Raciocínio perfeito.
Mas o juiz de instrução, senhor Rousselain, que simpatizara com o recém-chegado, perguntou:
- Tem qualquer outra observação a nos comunicar, senhor?
- Pouca coisa. Temo abusar...
- Fale, fale, por favor. Estamos diante de um caso que parece inexplicável e o menor passo adiante pode ter a sua importância. Diga...
Pois bem: o que precipitou Elisabeth Gaverel à
água no momento do assalto foi, sem dúvida, o desabamento dos degraus de madeira, não é? Eu examinei os degraus que desabaram. Estavam apoiados sobre duas pilastras bastante fortes, mergulhadas no lago. Ora, essas pilastras cederam pelo fato de terem sido recentemente serradas em trés quartos de sua circunferéncia.
Um leve gemido acolheu aquelas palavras. Rolande saía do estúdio, apoiada ao braço de Félicien Charles. Oscilante, escutou as palavras do senhor d'Averny.
- Será possível? - balbuciou. Precipitando-se para as escadas, o inspetor Goussot
recolheu uma das pilastras que o senhor d'Averny havia colocado na margem e trouxe-a, dizendo:
- É exato. O corte é nítido e bem recente. Rolande observou:
- Há uma semana minha irmã, diariamente à mesma hora, ia buscar o barco. Quem a matou saberia disso? E teria preparado tudo?
Raul meneou a cabeça.
_ - Não creio que as coisas se tenham passado assim, senhorita. O assassino não tinha necessidade de atirá-la à água para arrancar-lhe o colar. Bastava um ataque repentino, uma luta de dois ou trés segundos na margem... e a fuga.
O juiz de instrução perguntou, muito interessado: Na sua opinião, seria outra a pessoa que armou a medonha cilada?
- Creio que sim.
Quem? E por que uma cilada?
- Ignoro-o.
O senhor Rousselain não pôde conter leve sorriso.
Caso se comPlica- Haveria, então, dois assassinos, um de intenção e outro de fato. O último não
teria, em suma, lucrado com a ocasião. Mas por onde entraria na propriedade? E onde estaria escondido?
Ali - disse Raul, apontando a Laranjal, a casa
do tio Philippe Gaverel.
, Naquela casa? Inadmissível. Observe. Todas as
janelas e portas do térreo estão fechadas e tém venezianas.
Raul replicou, displicente:
Todas tém venezianas, mas nem todas estão
hermeticamente fechadas.
- Ora!
- Uma delas, a porta-janela à direita, não está fechada. Os batentes foram abertos por dentro e encostados. Verifique, senhor inspetor.
- Mas de que modo o indivíduo teria entrado na casa? - perguntou o senhor Rousselain.
- Pela porta da frente, que dá para a avenida, com certeza.
- Tinha chaves falsas, portanto?
- Sem dúvida.
- E teria escolhido este local para observar a senhorita Gaverel e atacá-la? É extraordinário.
- Tenho a minha idéia a respeito, senhor juiz de instrução. Mas aguardemos a chegada do senhor Gaverel. Prevenido ontem por telegrama da senhorita Rolande, deve chegar de Cannes, onde se acha em vilegiatura na casa do filho. É aguardado a qualquer momento, não é, senhorita?
- Já devia ter chegado - afirmou Rolande. Seguiu-se prolongado siléncio. A autoridade do senhor
d'Averny se impunha aos que o escutavam. Tudo o que dizia parecia verossímil, a ponto de ser admitido como verídico, apesar das contradições e impossibilidades.
O inspetor Goussot, imóvel diante da vila Laranjal, observava a porta-janela que, de fato, não estava fechada. Os magistrados conversavam em voz baixa. Rolande chorava baixinho. Félicien fitava alternadamente a moca e o senhor d'Averny.
Finalmente, este falou:
- O senhor juiz de instrução observou que o caso é complicado. Na verdade é extraordinariamente complicado. Em casos assim, desconfio do que vejo e do que sinto e inclino-me a simplificar, já que a realidade se atem quase sempre a uma certa unidade de linhas. Não existe na vida tal confusão de acontecimentos simultâneos. É coisa que não acontece. Jamais o destino se diverte acumulando tantos golpes teatrais.
Yío espaço de doze horas, um afogamento, um estrangulamento, um roubo, um homicídio, duas agressões, que poderiam terminar em outras duas mortes! Tudo isso é incoerente, tolo, absurdo, inumano. Excessivo, na verdade... E é por isso...
- E é por isso... E é por isso que me pergunto se não haverá neste acúmulo uma linha que separe os fatos, dispondo uns à direita, outros à esquerda... Em suma, se não haverá, em lugar de um só caso sobrecarregado, dois casos normais, que em determinado ponto de sua evolução encontraram-se fortuitamente. Se for assim, basta descobrir o ponto de contato a partir do qual houve confusão das linhas e começaremos a entender alguma coisa.
- Ah! - exclamou sorrindo o senhor Rousselain. - Penetramos no domínio da fantasia. Tem alguma prova em que se basear?
- Nenhuma - confessou Raul d'Averny. - Mas as provas são às vezes menos comprobatórias que a lógica.
Calou-se. Todos refletiam. Ouviu-se um automóvel parar diante da Clematites. Rolande correu ao encontro do tio Gaverel.
Subiram juntos à câmara mortuária. Momentos depois, o senhor Gaverel reunia-se aos magistrados.
Foi colocado a par dos acontecimentos em poucas palavras. Raul d'Averny mostrou-lhe então a porta aberta da Laranjal, dizendo:
- É provável, senhor Gaverel, que alguém tenha entrado na sua casa.
O tio empalideceu.
- Alguém entrou? Mas com que intenção?
- Roubar. Deixou aqui objetos preciosos? Valores?
O tio de Rolande oscilou.
- Objetos? Valores? Não... Afinal, como saberiam? Não, não, não acredito...
Súbito desatou a correr como um doido, gritando:
- Não!... Não venham... Não venha ninguém! Seguiu direto para a Laranjal, empurrou a porta
aberta e desapareceu.
Passaram-se dois minutos. Ouviram-se exclamações. Instantes depois, ele surgiu agitando os braços e deixou-se cair no patamar de entrada, onde o aguardavam.
- Sim, fui roubado... Descobriram o esconderijo... É horrível... Impossível... Levaram tudo...
- Um roubo de vulto? - perguntou o juiz de instrução. - Em quanto calcula a perda?
O senhor Gaverel ergueu-se. Estava lívido e como que assustado da confidencia.
- Sim, vultoso... Mas isso só a mim interessa... A justiça deve levar em conta apenas uma coisa: fui roubado. Que encontrem o ladrão! Devolvam-me o que me foi tirado!

Raul cTAverny e o inspetor Goussot entraram na casa. No vestíbulo constataram que a fechadura da porta principal, que dava para a avenida, fora forçada, conforme previra d'Averny, e estava fechada apenas com o ferrolho de segurança acionado por dentro.
Voltaram ao jardim e Raul aproximou-se de Rolande.
- A senhorita contou-me que, ao saltar a janela do estúdio, ontem, avistou o assassino de sua irmã, que na fuga se abaixava para recolher alguma coisa.
- Sim, é exato...
- Como era o objeto?
- Mal o vi.
- Um pacote?
- Sim, creio que era un pacote de pequenas dimensões ... Ele o escondeu sob o casaco ao fugir.
Que fim teria levado o pacote? O criado, Edouard, que foi chamado e de quem era impossível suspeitar, afirmou que nada encontrara no cadáver.
Todos os que foram interrogados, policiais ou curiosos, declararam que nem na véspera, nem pela manhã haviam descoberto volume algum.
Philippe Gaverel mostrou-se mais esperançoso.
- Ele será encontrado... Tenho certeza de que a polícia o descobrirá.
- Para que o pacote seja encontrado precisamos de uma descrição - replicou o senhor Rousselain.
- Uma pequena sacola de tecido cinzento.
- Que continha?
O senhor Gaverel exaltou-se.
- Isto só a mim interessa! O caso é meu! Importa a alguém que eu tenha julgado prudente ocultar dinheiro ou documentos?
- Era dinheiro, afinal?
- Não, não, eu não disse isso! - protestou o senhor Gaverel, cada vez mais exaltado. - Por que acha que seria dinheiro? Não... Cartas... Documentos de valor inestimável para mim.
- Em suma...
- Uma sacola de tecido cinzento, é o que reclamo. A justiça deve procurar apenas uma sacola de tecido cinzento.
- Seja o que for, a prova existe - disse Raul, após longo siléncio. - Há duas noites, um ladrão, o velho Barthélemy, entrou nesta casa. À força de pesquisar acabou descobrindo a sacola. Como sair? Pelo vestíbulo e a porta que dá para a avenida? Não, em pleno dia poderia ser surpreendido. Então abriu esta porta, pensando que no jardim de uma casa desabitada não encontraria ninguém. Passaria pela horta. Foi neste preciso instante que Elisabeth Gaverel saiu da Clematites. Encontro inesperado. A moça gritou e foi vagamente ouvida em casa. Que aconteceu então? O ladrão precipitou-se para ela, que tentou fugir. O choque ocorreu nos degraus. O resto nós sabemos.
O inspetor deu de ombros novamente.
- É bem possível. .. Mas eu não estava presente.
- Eu também não.
- Nada demonstra, portanto, que as coisas tenham se passado assim, isto é, que Barthélemy não tenha ele próprio planejado o atentado de que foi vítima a senhorita Gaverel.
- Nada o demonstra, de fato - concedeu Raul.
Mas a manhã avançava. O substituto teria de voltar a Paris e o estômago do senhor Rousselain começava a atormentá-lo. Consultou em voz baixa o criado. Haveria por ali um bom restaurante?
- Senhor juiz de instrução - interveio Raul d'Averny
- se quiser dar-me a honra de aceitar o meu convite. .. Creio que não se passa demasiado mal em minha casa.
Convidou também o inspetor-chefe, que recusou bem-humorado, mas desejoso de não interromper a investigação, astando-se com Raul d'Averny, Rolande falou, emocionada:
- Confio no senhor... Minha irmã será vingada, não é?... Eu a amava tanto...
Raul afirmou:
- Sua irmã será vingada. Mas tenho a impressão de que é principalmente a senhorita quem poderá. ..
- fitando-a bem nos olhos, repetiu: - É principalmente a senhorita quem poderá me ajudar... O problema a resolver é terrível e não dispomos de qualquer esclarecimento. Reflita sempre no assunto. Verifique se sua irmã tinha algum inimigo, se algo em sua vida seria capaz de provocar ciúmes ou ódio... Caso positivo, conte-me. Estou inteiramente à sua disposição... Venceremos.

IV
O INSPETOR GOUSSOT ATACA
O ALMOÇO oferecido por Raul, e ao qual Félicien Charles compareceu, satisfez de tal modo ao senhor Rousselain que este se desdobrou em cumprimentos e exclamações.
- Ah, que lagosta!. .. Ah, que Sauternes!... E o frango!
- Eu conhecia seu fraco, senhor juiz - confessou Raul.
- Não diga! Por intermédio de quem?
- De um dos meus amigos, Boisgenét, que acompanhou o famoso caso do Castelo d'Orsac, no qual o senhor realizou maravilhas.
- Eu? Deixei que os acontecimentos seguissem seu curso.
- Sim, conheço a sua teoria. Quando há drama passional, são os próprios atores que, pelo desencadear das paixões, dissipam pouco a pouco o mistério.
- Certamente. E é uma pena que o mesmo não aconteça hoje. Roubo de dinheiro, roubo do colar... Nada de interessante.
- Quem sabe? Alguém armou uma cilada a Elisabeth Gaverel.
- Sim, a cilada dos degraus serrados. Mas acredita realmente nessa maquinação? Acredita em dois casos distintos?
Não veja em mim, senhor juiz de instrução, um detetive amador cônscio de seus pequenos talentos. Não. Li muito... Nunca romances policiais, que me aborrecem. .. Leio A Gazeta dos Tribunais e narrativas de crimes auténticos. E tirei das minhas leituras uma certa experiéncia e pontos de vista ora corretos, ora inteiramente errôneos, que às vezes me permitem tagarelar a torto e a direito, espantando policiais de segunda categoria. .. como o bravo inspetor Goussot. Na verdade toda a história é diabolicamente obscura! Só uma coisa é de limpidez cristalina - acrescentou, rindo. - O senhor Philippe Gaverel não quer que se pense que ele guarda dinheiro em casa. Mas, supondo-se que a sacola cinzenta seja encontrada, para que servirá se estiver vazia?
- O primeiro cuidado do ladrão será abrir a sacola e apoderar-se do conteúdo, sem dúvida - disse o senhor Rousselain. - Assim há poucas probabilidades de se encontrar o dinheiro.
Félicien mantinha-se calado. Durante toda a refeição escutara atento Raul d'Averny, sem tomar parte na conversa.
Aí pelas trés horas, o senhor Rousselain levou-os ao jardim da Clematites, onde se encontrava o inspetorchefe.
- Alguma novidade, senhor inspetor? Goussot adotou um ar distante.
- Pouca coisa. Fui à clínica saber notícias do senhor Jérôme Helmas e conversei com os médicos. Embora não haja perigo de vida, não me permitiram interrogá-lo a fundo. Contou-me apenas que o indivíduo que o seguia e acabou por atacá-lo saiu, segundo lhe pareceu, da passagem que conduz ao lago.
- E o punhal do crime?
- Não conseguimos encontrá-lo.
- O outro ferido?
- Continua em estado grave e os médicos não ousam fazer prognósticos.
- Nenhuma informação a respeito dele?
- Nenhuma.
O inspetor fez uma pausa e acrescentou, com ar distraído:
- Contudo.. . estabeleci a propósito dele um fato bastante estranho.
- Qual?
- Esse indivíduo, que seria atacado à noite, esteve ontem neste jardim.
- Neste jardim?
- Aqui mesmo.
- Mas, como?
- Entrou em primeiro lugar na vila, aproveitando-se de que o senhor Félicien Charles entrava também, já que logo após a morte da senhorita Elisabeth ele tentou falar à irmã dela, Rolande.
- E depois?
- Depois misturou-se às pessoas atraídas pelo disparo e que entravam aqui por todos os lados, antes que a ordem fosse estabelecida.
- Tem certeza?
- O testemunho de pessoas a quem interroguei na clínica é positivo.
- Deve ter entrado por acaso ao mesmo tempo que o senhor - falou o juiz de instrução, voltandose para Félicien.
- Eu não notei - respondeu o rapaz.
- Não notou coisa alguma? - insistiu Goussot.
- Nada.
- Estranho. Viram-no conversando com ele.
- É possível - disse o rapaz, nem um pouco embaraçado. - Falei com diversas pessoas, policiais, curiosos. ..
- E não reparou num rapaz alto, jeito de artista, gravata de laço de bolinhas brancas?
- Não... ou talvez sim... Não sei... Estava tão aturdido.
Houve uma pausa. O inspetor Goussot insistiu:
- Mora num pequeno pavilhão nas dependéncias da propriedade do senhor d'Averny, aqui presente?
- Moro.
- Conhece o jardineiro?
- Certamente.
- Pois o jardineiro afirma que ontem, no momento do disparo, o senhor estava sentado no jardim.. .
- É exato.
- E sentado com um senhor que já o havia visitado duas ou trés vezes. Esse senhor é o nosso homem. O jardineiro reconheceu-o formalmente na clínica, há instantes.
Félicien corou, enxugou a testa, hesitou e acabou respondendo:
- Não sabia que se tratava dele. Repito que estava tão perturbado que seria incapaz de dizer se me acompanhou até a Clematites, ou se estava entre a multidão.
- Como se chama seu amigo?
- Não é amigo meu.
- Não importa! Como se chama?
- Simon Lorient. Procurou-me um dia em que eu pintava à margem do grande lago. Disse que também era pintor, mas não sabia onde colocar seus quadros. Pediu-me então para apresentá-lo ao senhor d'Averny. Prometi que o apresentaria.
- Encontrou-o com freqüéncia?
- Quatro ou cinco vezes.
- Onde mora ele?
- Em Paris. É só o que sei.
O rapaz recuperara a serenidade, a ponto de o juiz murmurar:
- Tudo isso é muito plausível. Mas Goussot não desistiu.
- Então, encontrou-se com ele ontem?
- Sim, perto do pavilhão onde moro. Julgava que o senhor d'Averny estaria de volta, quando eu então o apresentaria.
- E mais tarde, depois que mandei evacuar o jardim?
- Não tornei a vé-lo.
- No entanto, ele continuou a rondar as casas que contornam o lago. Jantou numa taberna vizinha e há quem esteja quase certo de té-lo visto ontem à noite próximo daqui, escondendo-se nas sombras.
- Não sei nada disso.
- Que fazia então?
- Jantei no meu pavilhão, servido, como sempre, pelo empregado do senhor d'Averny.
- E depois?
- Depois li e me deitei.
- A que horas?
- Cerca das onze horas.
- E não tornou a sair?
- Não. f
- Tem certeza?
- Tenho.
O inspetor Goussot voltou-se para um grupo de quatro pessoas a quem já havia interrogado. Uma delas, um senhor de certa idade, adiantou-se.
Goussot perguntou:
- Mora numa das casas vizinhas, não é?
Sim, para além da horta do senhor Gaverel.
- A casa é limitada de um lado por uma passagem pública, que permite a todos chegar ao lago?
- Sim.
- O senhor declarou que cerca da meia-noite e quarenta e cinco minutos estava tomando ar à janela quando viu alguém remando no lago e atracando o barco no extremo da passagem. A pessoa aproximou a embarcação da sua propriedade e prendeu-a à estaca habitual. Era seu o barco usado. Reconheceu a pessoa, não é exato?
- Sim. As nuvens dissiparam-se e o luar bateulhe em cheio no rosto. Então ele se inclinou para uma faixa de sombra. Era o senhor Félicien Charles, que permaneceu na passagem por longo tempo.
- E depois?
- Depois, não sei. Deitei-me e dormi.
- Afirma que se tratava do senhor Félicien Charles, aqui presente?
- Creio que posso afirmá-lo sem medo de errar. Voltando-se para Félicien, o inspetor Goussot perguntou:
- Neste caso, passou a noite fora de casa e não na sua cama?
Félicien replicou em tom firme:
- Não saí do meu quarto.
- Se não saiu do quarto, como é possível que o tenham visto saltar do barco e postar-se na passagem? E que o senhor Helmas julgasse perceber que seu agressor vinha deste caminho?
- Não saí do quarto - repetiu Félicien.
O senhor Rousselain mantivera-se em siléncio, um tanto embaraçado por ter almoçado com um rapaz que se defendia tão mal. Relanceou para Raul d'Averny, que também escutara calado, observando Félicien.
Finalmente interveio.
- Enquanto esperamos que o inquérito verifique todos esses boatos e lhes atribua o seu verdadeiro sentido, senhor inspetor, posso indagar aonde quer chegar no que respeita a Félicien Charles?
Goussot replicou:
- Meu único objetivo é reunir os elementos da verdade.
- Tais elementos, senhor inspetor, são sempre reunidos de acordo com uma idéia geral da verdade que já se julga pressentir.
- Não tenho idéia alguma.
- No caso atual, resultaria de seu interrogatório:
Primeiro que o senhor está se ocupando principalmente com o segundo drama, isto é, o roubo do dinheiro e as duas agressões noturnas. 2.°) que Félicien, tendo saído de casa esta noite, serviu-se do barco para entrar no jardim da Laranjal e procurar a sacola cinzenta contendo as notas e que, por volta de uma hora da manhã, oculto nas sombras, acompanhou o noivo da vítima, senhor Jérôme Helmas, e atacou-o, ignoro com que razões. E é claro que, no fundo, o senhor se pergunta se não terá sido ele também o agressor do outro ferido, Simon Lorient.
- Eu não me pergunto coisa alguma, senhor - replicou Goussot secamente. - E não estou habituado a que me interroguem.
- Permita-me apenas observar que suas suspeitas parecem associar Félicien Charles a Simon Lorient - prosseguiu Raul. - Nesse caso, eles seriam coniventes, de modo que Félicien Charles seria simultaneamente cúmplice e agressor de Simon Lorient?
Goussot não respondeu. Raul deu de ombros.
- Tais hipóteses são insustentáveis.
Mas o siléncio do inspetor encerrou a cena. De pé à entrada, muito bela em seu vestido de luto, Rolande escutava, apoiada ao braço do tio. Iam os dois à clínica visitar Jérôme Helmas.
Raul não insistiu. Pouco depois disse a Félicien:
- Vamos.
E despediu-se do juiz de instrução.
No trajeto, Raul d'Averny permaneceu taciturno. Quando chegaram à vila conduziu o rapaz a um pequeno gabinete de trabalho sitiado para além dos salões e dando para um recanto de jardim isolado por cercas vivas.
Fazendo sinal para que sentasse, disse:
- Nunca me perguntou por que o convidei a trabalhar para mim.
- Não ousei, senhor.
- Ignora, portanto, a razão por que sugeri que decorasse esta casa e aqui se hospedasse?
- Ignoro.
- E não está curioso?
- Temo ser indiscreto. O senhor não me interrogou.
->- Sim. Interroguei-o acerca do seu passado. Disseme que seus pais morreram há anos e que a vida não tem sido fácil. Mas senti tal reserva, tal desejo de nada revelar sobre a sua pessoa que não insisti. Não voltamos a conversar e o resultado é que nada sei a seu respeito. Hoje...
Fez uma pausa, como se hesitasse, e concluiu, brusco:
- Hoje parece-me que se envolveu num caso desagradável, ou pelo menos que lhe seria difícil explicar o papel que representou, talvez involuntariamente. Quer confiar em mim sem reticéncias?
Félicien replicou:
- Não acreditaria até que ponto sou grato pelo que fez por mim. Mas nada tenho a confessar.
- Não rejeito a sua resposta. Na sua idade, e nas circunstâncias em que se encontra, é preciso saber desembaraçar-se sozinho. Se for culpado de alguma coisa, pior para vocé. Se for inocente, a vida o recompensará.
Erguendo-se, Félicien aproximou-se de Raul.
- Que acha o senhor?
Raul observou-o por longo tempo. O rapaz pestanejou. Não havia franqueza na expressão.
- Não sei.
O enterro de Elisabeth Gaverel realizou-se no dia seguinte. Corajosa, Rolande caminhou até o cemitério e não desviou o olhar da sepultura aberta.
Estendendo o braço sobre o caixão, murmurou palavras que ninguém ouviu. Certamente transmitia à irmã o seu desespero e jurava permanecer fiel à sua memória.
Afastou-se, então, pelo braço do tio. Este entreteve uma longa conversa com o senhor Rousselain. Por mais acabrunhado que estivesse, não se afastava do seu refrão.
- Dinheiro algum, senhor juiz. Cartas e documentos de valor. Encarrego a justiça de descobrir a sacola de tecido cinzento que os continha. E é nesses termos que redigirei uma queixa à Câmara antes de regressar ao sul.
Raul d'Averny passeou em torno do lago. Depois, sentando-se num marco, terminou a leitura dos jornais matutinos.
Um deles, evidentemente informado por um repórter audacioso e hábil, que se escondera na véspera
Deus sabe onde para escutar e espionar, publicava todos os detalhes do inquérito e transcrevia o perturbador interrogatório feito por Goussot a Félicien Charles.
- Como é possível trabalhar em tais condições? - resmungou d'Averny, mal-humorado.
Voltou à sua propriedade, onde viu Félicien a trabalhar. Entrando em casa, seguiu direto para o pequeno gabinete onde gostava de refletir e devanear.
Aguardava-o ali uma mulher vestida com simplicidade, foulard vermelho ao pescoço - uma desconhecida, que permaneceu de pé, rosto magnífico atormentado por expressões diversas, no qual se mesclavam a dor, o desvario, a cólera e a hostilidade.
- Quem é a senhora?
- A amante de Simon Lorient.
FAUSTINE CORTINA E SIMON LORIÇNT
A FRASE foi pronunciada em tom francamente agressivo e como se Raul d'Averny fosse o responsável pelas desventuras de Simon Lorient. Raul replicou:
- Suponho que tenha lido esta manhã o artigo no Echo de France, onde aparentemente acusam meu hóspede Félicien Charles. Ignorando onde encontrá-lo, decidiu procurar-me, não é?
Após o primeiro choque, a cólera da moça desencadeou-se, uma cólera entremeada de soluços e susto, revelando uma natureza violenta, sombria, incapaz às vezes de controle.
- Há trés dias o homem a quem amo desapareceu, trés dias em que o procuro em vão, correndo de um lado para outro como louca. E hoje de manhã, de repente, no jornal - leio a todos assustada, temendo descobrir que foi vítima de um acidente - dei com o nome dele... Diziam que estava ferido, quase moribundo. Talvez já esteja morto neste momento...
- Então, por que veio até aqui, em lugar de se dirigir à clínica?
- Quis antes falar-lhe.
- Por qué?
Ela não respondeu à pergunta. Aproximando-se de Raul, furiosa e soberba, explodiu:
Por qué? Porque é o autor de toda essa história. Sim, o senhor! Todo o caso é obra sua, basta ler o jornal. Félicien Charles? Um cúmplice. O chefe é o senhor! Tive a intuição, a certeza... Quando li o jornal, disse comigo mesma; "É ele!"
- Quem, eu? Não me conhece!
- Sim, eu o conheço.
- Conhece a mim, Raul d'Averny?
- Não, conheço Arsène Lupin!
Raul embaraçou-se. Não esperava aquele ataque direto, ou que o seu verdadeiro nome fosse pronunciado como um insulto. Como o saberia aquela mulher?
Segurou-lhe a mão com violéncia.
- Arsène Lupin? Como?
- Ora, não minta! Para qué? Há muito que eu sei. Simon falou-me tantas vezes a seu respeito, mencionando esse nome d'Averny sob o qual se esconde! Vim até aqui na semana passada, na sua auséncia, sem que pessoa alguma soubesse. Ele queria que eu visse a casa de Arsène Lupin. Ah, eu o preveni! "Não procure conhecé-lo. Ele nos trará infelicidade. Que espera desse aventureiro?"
Estendeu o punho crispado para Raul, injuriando-o com o olhar e a voz trémula de desprezo. Raul escutava, impassível. Qual seria a origem daquela estranha história? Fora visitar Simon Lorient na clínica e não o reconhecera. Com que intenção Lorient pretendia entrar em contato com ele? Como teria adivinhado que Raul d'Averny não era outro senão Arsène Lupin? Que seqüéncia de acasos teria levado o rapaz à posse do segredo?
Raul teve a impressão de que a moça era incapaz de informá-lo, ou pelo menos não o queria. Havia obstinação no seu rosto e no olhar inflexível. Ereta, vibrante em sua imobilidade, nada perdia do encanto
um tanto bárbaro, mantendo no porte extraordinária nobreza. Sabia - por hábito ou instinto? - servirse de sua beleza e realçá-la. A seda leve do decote contornava-lhe as formas e revelava a linha harmoniosa dos ombros.
Corou diante da visível admiração de Raul. Inclinando-se sobre uma poltrona, braços cruzados, mãos no rosto, procurou ocultar-se. Súbito, desatou a chorar.
-• Não pode imaginar o que ele significa para mim... É toda a minha vida... Se morrer, eu morro também... Nunca amei outro homem. .. Ajoelhavame diante dele... Seria capaz de me matar para poupar-lhe uma dor. E ele me amava tão profundamente... Ficaríamos ricos, casaríamos e viajaríamos... Sim, viajaríamos...
- Quem os impede?
- E se ele morrer?
Mas a idéia da morte despertou-a de novo. Passava de um extremo a outro no espaço de segundos, numa agitação desordenada de idéias e sensações.
Lançou-se contra Raul.
- Foi o senhor quem o matou... não sei como... Mas a culpa é sua. .. Eu me vingarei como se vinga o povo da minha terra, a Córsega. Não é preciso que ele morra para ser vingado. O golpe que recebeu veio de Arsène Lupin. E eu gritarei seu nome por toda parte... Eu o denunciarei à polícia. E sem demora! Todos devem saber quem é: Arsène Lupin, o malfeitor, o ladrão... Arsène Lupin!
Abriu a porta e tentou fugir, vociferando como uma louca. Raul cobriu-lhe a boca e forçou-a a voltar ao gabinete. Houve luta violenta. Ela se defendeu como uma selvagem e ele precisou agarrá-la pelos braços, atirá-la a uma poltrona para imobilizá-la. Mas
quando a sentiu próxima, palpitante, vencida, fremente de indignação e ódio, teve um momento de vertigem e inclinou-se para beijá-la.
Retesou-se imediatamente, furioso com a tolice do gesto. Ela desatou a rir, num acesso de raiva que a fazia tremer toda.
- Ah, vocé também! Igual aos outros! É fácil desembaraçar-se de uma mulher segurando-a como... mulher... A Lupin tudo é permitido! Todas lhe pertencem! Cabotino! Se me tivesse tocado a boca eu o mataria como a um cão.
Raul estava exasperado.
- Chega de tolices! Não veio para me denunciar, ou me matar. Fale, diabo! Que quer? Vamos, fale já!
Tornou a segurá-la pelos braços, mantendo-a diante dele. Voz fremente, declarou:
- Nada tenho a ver com este caso. Não fui eu quem agrediu Simon Lorient... Juro que não fui eu... Vamos, fale. Que quer?
- A salvação de Simon - murmurou, dominada.
- Concordo. Assim que ele melhorar, farei com que desapareça. Não tenha medo. Ele não irá para a prisão.
Ela estremeceu.
- Ele, na prisão! Nada fez para ser preso! É um homem honesto. Não, ele só será salvo por meu intermédio. Só eu posso salvá-lo cuidando dele.
- Como?
- Quero ser admitida na clínica e ficar junto dele, velando-o dia e noite. Fui enfermeira durante quatro anos. Só eu posso cuidar dele. Mas é preciso que seja hoje mesmo... agora!
Ele deu de ombros.
- Por que não disse logo, em lugar de perder tempo acusando-me sem motivo?
- Então, combinado? - perguntou, ríspida.
- Combinado.
- Imediatamente, não é?
Ele refletiu e acabou prometendo:
- Sim, vou falar ao diretor da clínica. Ele não recusará. Providenciarei para que não recuse e pedirei sigilo. Mas tem que me deixar agir à minha maneira. Como se chama?
- Faustine... Faustine Cortina.
- Apresente-se à clínica com outro nome e não diga palavra acerca de suas relações com Simon Lorient.
Ela continuava desconfiada.
- E se nos trair?
- Desapareça! - replicou ele, impaciente, empurrando-a para o pequeno jardim.
O gabinete comunicava-se com a garagem e o chofer estava ausente. Raul abriu a porta de um cabriolé e ordenou:
- Tire o lenço vermelho para não chamar atenção. Entre.
Ela obedeceu.
Raul saiu da propriedade pelo portão dos fundos e rumou para o Sena, que atravessou em Pecq. O automóvel subiu rápido a encosta.
- Para onde vamos? - perguntou ela. - Se for uma cilada, pior para o senhor!
Ele não respondeu.
Em Saint-Germain parou diante de uma loja de confecções e comprou uma blusa e véu de enfermeira.
Uma hora depois, Faustine era admitida como enfermeira na clínica e especialmente encarregada do ferido. Simon Lorient, dominado pela febre, esgotado pelo ferimento, não a reconheceu.
Muito pálida, fisionomia contraída, mas controlada, rígida em sua blusa de enfermeira, ela ouviu as instruções que lhe eram dadas e murmurou:
- Eu salvarei vocé, meu querido. Eu salvarei vocé...
Ao sair da clínica, Raul encontrou Rolande Gaverel, que acabava de levar ao quarto de Jérôme Heimas flores colhidas no túmulo da irmã. O estado de saúde do rapaz apresentava melhoras. A febre baixara. Ele seria interrogado no dia seguinte.
Caminhando ao lado dela, Raul perguntou:
- Refletiu?
- Não penso noutra coisa. É a vontade de saber que me sustenta.
- E o que vocé concluiu até agora?
- Nada. Pesquiso as minhas recordações. Busco nos guardados de Elisabeth. Nada até agora.
Chegando à C/emaíztes, ela mostrou o diário da irmã. Há meses falava apenas no expandir suave, lento e radioso do amor, mesclado às vezes de mórbida melancolia, para de novo desabrochar na alegria da convalescente e noiva feliz.
- Leia a última página - sugeriu Rolande. - Como estava tranqüila e despreocupada! Entre eles e a felicidade próxima não havia obstáculos.
Lá fora, o senhor Rousselain terminava a última investigação do local e fazia sinal a Raul para aproximar-se.
- As coisas vão mal para o jovem Félicien.
- Por que, senhor juiz de instrução?
- As acusações já são mais definidas. Eis a última, que me foi apresentada pelo criado Edouard e por seu jardineiro, que travaram amizade aqui. Há quinze dias, no final da tarde, Edouard foi conversar com o amigo. Estavam próximos à cerca que separa seu jardim
do terreno reservado aos jardineiros. Na conversa falaram sobre o tio das moças e o criado cometeu a indiscrição de tagarelar a respeito do senhor Philippe Gaverel.
"Um sujeito que gosta de juntar dinheiro! Um avarento! Há tempos correram histórias de complicações com o fisco. Desde essa época sei que ele esconde dinheiro em casa... Isso vai acabar mal."
Pouco depois viram uma pequena chama através da cerca viva e sentiram cheiro de fumo. Havia alguém fumando do outro lado... Félicien Charles e Simon Lorient. Os dois haviam escutado a conversa.
Raul perguntou:
- Como sabe que eram eles?
- Acabo de conversar com Félicien Charles, que não negou.
- E o que concluiu?
- As conclusões de um juiz de instrução tém que ser lentas. Há etapas a cobrir. No máximo tem-se o direito de imaginar que surgiu então a idéia de um golpe na cabeça de um deles e que encarregaram da execução do plano o velho Barthélemy, cúmplice subalterno, habituado a esse tipo de tarefa.
- E depois?
- Na noite seguinte, depois de roubada, perdida e novamente encontrada a sacola cinzenta, os dois amigos brigaram, armados de punhal.
- E o papel de Jérôme em toda a história?
- É o do figurante que perturba um dos atores do drama e de quem é necessário desembaraçar-se.
Dois dias após, ao saber que Simon Lorient havia piorado, Raul correu à clínica.
O senhor Rousselain já ali se encontrava, juntamente com o inspetor Goussot. Faustine permaneceu a distância, voltando-lhe as costas. Raul vislumbrou uma fisionomia rígida e sem esperanças.
Simon Lorient agonizava. De repente, sentou-se na cama e passeou pelos circunstantes um olhar lúcido. Ao ver a amante sorriu-lhe.
Contudo, as trevas da agonia voltaram a dominálo e suavemente, como uma criança, gemeu, delirando:
- O esconderijo... O velho encontrou a sacola... E depois... Procurei... Não sei mais nada... Félicien...
E repetiu várias vezes:
- Félicien... Félicien... Um golpe tão bem combinado ... Félicien...
Recaiu no travesseiro, inerte.
Prolongado siléncio. Raul encontrou o olhar cheio de ódio de Faustine. O homem que matara seu amante não seria aquele cujo nome fora pronunciado pela voz sincera de um moribundo?
O senhor Rousselain, acompanhado do inspetor Goussot, conduziu Raul d'Averny para fora e disse:
- Lamento, senhor d'Averny. Félicien Charles era seu hóspede. O senhor o protegia. Mas as suspeitas tornam-se muito expressivas...
Parecia hesitar. Raul, obcecado pelo desespero de Faustine, pensou que na prisão, culpado ou não, Félicien estaria ao abrigo de um tolo gesto de vingança e não protestou.
- Não posso discordar, senhor juiz de instrução. Félicien deve estar no pavilhão que ocupa em minha casa.
O consentimento de Raul firmou a decisão do senhor Rousselain, que declarou:
- Leve-o para a delegacia, inspetor Goussot. Que fique à minha disposição.

VI
A ESTÁTUA
À NOITE, depois do jantar, sabendo por intermédio dos criados que a prisão de Félicien fora efetuada discretamente, Raul dirigiu-se ao pavilhão que o rapaz habitara. Era uma construção térrea, com duas peças, uma das quais era o atelié e a outra Félicien transformara em quarto, com banheiro contíguo.
Raul instalou-se no atelié, deixando encostada a porta de entrada.
A noite caiu. Leve a princípio, noite fechada dentro em pouco. Ao final de uma hora, ele ouviu ranger o portão do jardim, que nunca ficava fechado a chave. Passos cautelosos aproximaram-se do pavilhão, pisaram a relva, subiram os degraus da entrada e esgueiraram-se pelo vestíbulo.
Raul adiantou-se ao encontro de Faustine. Mal parecendo vé-lo, a moça deixou-se conduzir a uma poltrona.
- Onde está ele? - murmurou daí a instantes.
- Félicien?
- Onde está?
- Na prisão. Não sabia? Ela repetiu, alheia:
- Na prisão?
- Sim. Percebi em seu rosto tal expressão de ódio que, desconfiado, permiti que o prendessem. Agi bem. não acha?
Faustine respondeu, abatida:
Não sei... não sei... Procuro quem atacou
Simon Lorient. Ah, se eu soubesse!
- Conhece Félicien?
- Não.
- Neste caso, por que veio até aqui?
- Para interrogá-lo. Perceberia se foi ele... Falava tão baixo e com tal lassidão, que Raul mal
a escutava.
- Deve estar a par de alguma coisa. Deve saber, por exemplo, que a polícia não conseguiu identificar Barthélemy. E Simon Lorient? Tentaram inutilmente descobrir onde mora. Seguiram uma pista que conduziu a certas rodas de Montmartre, a cafés de artistas onde é conhecido. Mas, onde mora? Onde estão os documentos dele? Que negócios tramou com Félicien? E por que estou envolvido no caso? Todos ouviram as últimas palavras de Simon... Num delírio de agonizante acusou-se a si próprio: "O esconderijo... O velho encontrou a sacola... Procurei..." Eram cúmplices, portanto, não eram? Cúmplices... E Félicien também.
Ela meneou a cabeça como se negasse que Simon era ladrão e tivesse aludido à trama. Raul, perdendo a paciéncia, exclamou:
- Afinal, Simon Lorient me perseguia. Rondavp por aqui! Responda, Faustine!
Mas encontrou siléncio irredutível. Faustine chorava. Rosto coberto de lágrimas de desespero, expressa vá a dor torcendo as mãos.
- Foi a única pessoa a quem amei... E ele morreu... Nunca mais tornarei a vé-lo... Morreu. Quem o matou? Como viverei se não vingá-lo? Preciso fazélo... Jurei.
Passou a noite a chorar, fazendo juramentos de vingança, que despertavam a intervalos Raul, sentado próximo a ela.
Pela manhã, os sinos das igrejas dobraram. Era a missa de finados.
- Estão dobrando por ele. Ontem, na clínica, escolheram esta hora. Serei a única a rezar por Simon. E pedirei perdão por não té-lo vingado ainda.
Saiu. O ritmo do seu andar era harmonioso e vivo. As pernas eram longas e os quadris, ondulantes.
Raul atingira um estágio de sua vida agitada em que a idéia de repouso apresentava-se às vezes como uma perspectiva agradável. Não um repouso definitivo. Era ainda jovem e demasiado ávido de ação para renunciar à sua grande paixão pelas aventuras. Mas principiava a organizar por toda a Franca, na Cote d'Azur, na Normandia, na Savóia, ou nos arredores de Paris, certos oásis onde ficaria bem próximo desse eventual repouso. Um desses oásis era a propriedade de Vésinet. Instalou na casa, como nos outros domínios, antigos camaradas - um criado-chofer, uma cozinheira e jardineiros-porteiros - a quem proporcionava assim abrigo tranqüilo em memória de serviços passados. E eis que de repente o destino lançava-o mais uma vez em luta assustadora, que ele não buscara, nem desejara.
Desistir? Impossível. Quisesse ou não, precisava agir. Antes de mais nada, tinha que descobrir - ponto essencial do problema - de que modo ele, personagem inocente, cidadão pacífico de Vésinet, envolvera-se em acontecimentos que pareciam ter-se combinado a despeito da sua vontade, e talvez mesmo contra ela. Em tais circunstâncias, o acaso nada explica.
A explicação devia partir dos fatos. Mas onde encontrar esses fatos? E como consegui-los?
Raul encerrou-se na Ensolarada e dali não saiu por mais de uma semana. Não recebia ninguém, recusavase a qualquer atividade, mas lia todos os jornais. Soube assim que Félicien estava profundamente incriminado, mas não colheu nenhuma outra informação.
O problema que se apresentava com crescente insisténcia ao seu espírito era saber como se achava envolvido naquele caso detestável. Decidido a resolver o enigma, elaborava hipóteses, abria árduos caminhos em todas as direções e inevitavelmente defrontava-se com obstáculos e impasses.
E repetia a mesma indagação sob as mais diversas formas:
- Que tenho eu a ver com tudo isto? Se existem dois dramas ligados entre si - e quanto a isto não há dúvida - por que eu figurava num deles? Por que foi perturbado o meu refúgio de Vésinet? E quem o perturbou?
No dia em que, por acaso, formulou a pergunta sob esta última forma, viu-se obrigado a responder a si próprio:
- Quem? Félicien, diabo! E acrescentou:
- Como veio parar aqui? A recomendação do dr. Delattre era de tal valor a meus olhos que não tomei qualquer informação a respeito do rapaz! De onde vem? Quem eram os pais dele? Será que me ludibriaram sem que eu percebesse?
Consultou o caderninho de endereços: "Dr. Delattre, Praça de L'Aboni". Telefonou. O médico estava em casa. Raul entrou imediatamente no carro.
O dr. Delattre, velho alto e seco, de barba branca, recebeu-o imediatamente, apesar dos inúmeros clientes que o aguardavam.
- Sempre de boa saúde?
- Excelente, doutor.
- Então, de que se trata?
- De uma informação. Quem é Félicien Charles?
- Félicien Charles?
- Não lé os jornais, doutor?
- Não tenho tempo.
- Félicien é o jovem arquiteto que me recomendou há seis ou oito meses.
- De fato... lembro-me agora.
- Tem boa opinião a respeito dele?
- Eu? Nunca o vi.
- Mas foi-lhe recomendado?
- Sem dúvida. Mas, por quem? Vejamos. .. Deixe-me pensar... Ah, já me lembro. Engraçado.. . Eu tinha nessa época um criado de quem muito gostava. Era um homem de certa idade, inteligente, discreto, que me servia em parte de secretário. No dia em que recebi sua última carta e lhe pedi para anotar o seu endereço, ele examinou curioso o papel, como se reconhecesse a letra, e disse, lembro-me perfeitamente: "É muito elegante este senhor d'Averny. O doutor devia recomendar-lhe o jovem arquiteto para cujos pais trabalhei há tempos e de quem já lhe falei". Ele próprio bateu a máquina uma carta e eu a assinei. Eis a história.
- Nunca mais viu esse criado? O médico desatou a rir.
- Percebi que havia desviado uma quantia bastante vultosa e fui obrigado a despedi-lo. Ficou desesperado. "Suplico, doutor... Aqui eu me regenerei... Tenho medo de deixá-lo.. . Não me expulse. A má vida vai recomeçar."
- Como se chamava ele, doutor?
- Barthélemy.
Raul não pestanejou. O nome não foi surpresa.
- Esse Barthélemy tinha família?
- Dois filhos, dois patifes, confessou-me um dia, choramingando. Um deles, principalmente, arrasta-se por todos os prados de corrida e bares de Grenelle.
- Os filhos vinham visitá-lo aqui?
- Nunca.
- Ninguém o visitava?
- Sim, várias vezes surpreendi-o com uma mulher... Mulher de classe média, mas refinada e extremamente bonita. Um dia, ano e meio atrás, ela veio me procurar desvairada e conduziu-me a um ferido que se achava próximo daqui.
- Pode dizer-me quem era, doutor?
- Não há indiscrição alguma, pois o caso esteve nos jornais. Tratava-se de Alvard, o célebre escultor, o que expôs no Salão, ano passado, aquela maravilhosa Afrodite. - Rindo, o médico observou: - Mas espero que sua investigação não oculte nenhum desígnio tenebroso.
Raul saiu pensativo. Conseguira finalmente encontrar um fio da meada e já podia supor um acordo entre o velho Barthélemy, a corsa e Félicien, acordo que levara o rapaz a Vésinet.
Depois de se informar, dirigiu-se à casa do escultor Alvard, que morava a cinco minutos dali, e entregou seu cartão.
Encontrou, num amplo atelié, um homem ainda jovem, de aparéncia frágil, belos olhos negros, a quem se apresentou como um amante da pintura, visitando a Franca para adquirir obras de arte.
Examinou e apreciou como verdadeiro conhecedor os esboços, bustos, torsos e silhuetas inacabadas que se acumulavam no atelié, observando ao mesmo tempo o escultor. Que relacionamento teria tido com a corsa aquele homem um tanto afeminado, mas fino e elegante? Ela o teria amado?
Comprou duas encantadoras estatuetas de jade. Em seguida, indicando sobre um pedestal uma grande estátua recoberta por tela branca, perguntou:
- E esta?
- Não está à venda - declarou o escultor.
- É a sua famosa Afrodite?
- Sim.
- Posso vé-la?
Alvard descobriu a estátua, e no instante em que a viu Raul soltou uma exclamação que o escultor só pôde interpretar como de admiração, mas que na verdade continha surpresa, quase espanto. A mulher representava, sem dúvida alguma, Faustine Cortina. Eram dela a expressão, a forma do rosto, as linhas que o vestido leve sugeria.
Raul permaneceu longo tempo calado, ofuscado por aquela visão magnífica. E suspirou:
- Ah, não existe mulher assim!
- Esta existe - afirmou Alvard, sorrindo.
- Sim, mas interpretada pelo grande artista que é o senhor. Desde as deusas do Olimpo e as cortesãs gregas, tal perfeição já não se encontra.
- Esta existe. Não precisei interpretá-la e sim copiá-la.
- O qué? Um modelo, esta mulher?
- Um modelo, simplesmente, que ganhava para posar. Um dia me procurou dizendo que já posara para dois colegas meus, porém seu amante era muito
ciumento. Como o adorava e não queria magoá-lo, viria escondida se eu concordasse.
- Por que posava?
- Precisava de dinheiro.
- Ele nunca soube?
- Vigiava-a e um dia, quando ela estava se vestindo, forçou a porta do meu atelié e agrediu-me. Ela foi buscar um médico das vizinhanças. O ferimento não era grave.
- Tornou a vé-la?
- Encontrei-a há dias. Estava de luto pelo amante e pediu-me dinheiro emprestado para dar-lhe uma sepultura condigna.
- E vai posar de novo?
- A cabeça, mais tarde. Nada mais. Ela jurou.
- Como se sustentará?
- Não sei. Não é mulher que se prostitua.
Raul contemplou longamente a bela Afrodite e murmurou:
- Não a cederia por preço algum?
- Por preço algum. É a obra da minha vida. Nunca mais farei outra com tal entusiasmo e tanta fé na beleza feminina.
- Na beleza da mulher a quem amou - disse Raul, gracejando.
- A quem desejei, confesso, já que foi em vão. Ela amava. Mas não lamento... Resta-me a Afrodite.

VII ZANZI-BAR
O LETREIRO ostentara há alguns anos o nome Ao Velho Taberneiro, que espreita ainda, aqui e ali, sob a camada de tinta onde se acha agora a fórmula mais moderna: Zanzi-Bar. Mas o local permanece desolador. É Grenelle, bairro popular em plena zona fabril e próximo ao majestoso Sena, que atravessa pouco antes uma das mais solenes paisagens parisienses: Notre Dame e o Campo de Marte.
O Zanzi-Bar é freqüentado por todos os moradores do bairro que vivem das corridas, ou nelas se endividam, apostadores contumazes, bookmakers dissimulados, vendedores de palpites.
Ao meio-dia, hora de saída das fábricas, os negócios chegam ao auge, assim como às cinco horas, quando se faz o ajuste de contas.
À noite é a tavolagem clandestina. Às vezes há brigas. Com freqüéncia os clientes se embriagam. E é nesse momento que Thomas Lé Bouc - abreviatura francesa de bookmaker - assume toda a sua importância. Thomas Lé Bouc jogava firme e ganhava sempre. Bebia firme também, mas dificilmente se embriagava. Rosto bonachão, mas de expressão cruel, cabeça fria, silhueta robusta, bolsos recheados, vestido de cavalheiro, inclusive com o chapéu-coco que não largava jamais, passava por homem "que conhece o
seu ofício". Que ofício? Ninguém o definia. Mas naquela noite viram-no em ação e o respeito que inspirava ganhou alguns pontos a mais.
Cerca das onze horas surgiu a uma mesa de jogo um sujeito pálido, que mal se sustentava nas pernas trémulas após recentes libações. Seu sobretudo, embora gasto e sujo, apresentava vestígios de um talhe excelente. O colarinho falso não estava limpo, mas ainda assim era um colarinho falso! Mãos limpas, queixo barbeado, em suma, um sujeito decaído.
- Kummel! - pediu.
O dono do bar exigiu num desafio:
- Pagamento antecipado.
O indivíduo tirou da carteira uma nota de dez francos.
Thomas Lé Bouc não hesitou. Foi logo propondo:
- Quer jogar o troco no pôquer de dados? E apresentou-se:
- Thomas Lé Bouc.
O outro retribuiu a delicadeza com ligeiro sotaque inglés:
- 'Gentleman'. Mas não jogo dados.
- Que sugere, então?
- Carteado.
O resultado nas cartas foi o mesmo que seria no jogo de dados.
Gentleman pediu revanche. Após diversas tentativas, perdeu duzentos francos.
Entretanto pagara e bebera o segundo kummel. Seria a bebida ou o azar? Choramingou e afastou-se andando em ziguezague.
A proeza de Thomas foi aplaudida, mas com certa reserva. O Gentleman derrotado era simpático. Tinha classe.
Voltou no dia seguinte em tal estado de embriaguez que mal conseguia segurar as cartas. Estava bem claro que não eram as moedas de ouro que o deprimiam e sim os copos de kummel, pois tornou a choramingar, murmurando frases confusas. Algumas soaram tão estranhas a Thomas Lé Bouc, que este serviu-lhe trés doses de kummel e absorveu outras tantas, embora não tolerasse o licor misturado a outras bebidas alcoólicas.
Saíram trôpegos e sentaram-se num banco da Avenida Émile Zola, onde adormeceram.
Ao despertarem, conversaram de modo mais coerente e Thomas Lé Bouc, já de idéias claras, passou afetuosamente o braço pelo pescoço do companheiro.
- Tudo bem, camarada? Vocé bebe demais e conta histórias que podem mandá-lo para a cadeia.
- Eu, na cadeia! - protestou o Gentleman.
- Claro! Que história é essa de Vésinet, que vocé contou na taberna?
- Vésinet?
- Sim, Vésinet. É caso de polícia. Os jornais estão falando a respeito. Vocé afanou o dinheiro?
- Vocé tem cada idéia!
- Não afanou?
- Não. O dinheiro me foi entregue por uma pessoa.
- Quem?
- Um sujeito.
- Um sujeito de Vésinet?
- Não.
- Vocé esteve em Vésinet, afinal?
- Estive.
- Quando? 4
- Antes da guerra.
- Está brincando... O dinheiro que vocé tem não é.de antes da guerra.
- Não.
Foram precisos vinte minutos de conciliábulos e discussões para que o Gentleman acabasse declarando:
- Tem razão, Lé Bouc. Deve ser dinheiro mais recente.
- Dez ou doze dias, talvez?
- Ah, isso não posso dizer, Lé Bouc.
- Não pode?
- Não. O sujeito proibiu.
- Por que deu o dinheiro a vocé?
- Em recompensa.
- Recompensa por alguma coisa que vocé fez?
- Não, uma coisa que precisava ser feita.
- Que coisa? j
- Esqueci.
Nova discussão interminável. Os dois arrastaramse pela avenida, entraram noutro bar, onde o Gentleman bebeu mais duas doses de kummel, sob a condição de que Lé Bouc também bebesse. Depois saíram cantando e chegaram ao cais.
Desceram à calçada inferior que contorna o Sena e onde atracam as barcaças. O Gentleman deixou-se cair entre montes de areia. Thomas lavou o rosto e, molhando o lenço, passou-o na testa do companheiro.
Este respirou melhor e Lé Bouc voltou à carga, ansioso por obter uma resposta. Mas procedeu de outra maneira, tentando em primeiro lugar avivar as idéias no cérebro do homem embriagado.
- Vou explicar... Roubaram numa casa de Vésinet uma sacola cinzenta contendo vultosa quantia. A sacola desapareceu. Deram a vocé cinco notas para procurá-la?
- Não.
- Sim. Um rapaz alto, gravata de bolinhas...
- Nada disso... Nada de sacola, nem gravata de bolinhas...
- Mentira! Então, por que o homem deu quinhentos francos a vocé?
- Não me deu quinhentos francos.
- Quanto, então?
- Cinco notas de mil.
- Cinco mil francos!
Thomas Lé Bouc entrou em estado de agitação extraordinária. Cinco mil francos! E ele não conseguia descobrir a verdade, que fugia como água entre seus dedos! A embriaguez se acentuava e foi ele quem começou a choramingar como um tolo e a fazer confidencias, que escapavam na forma de queixas sem que ele o percebesse.
- Escute, meu velho... Agiram comigo como patifes. .. Sim, o velho Barthélemy e Simon... Me deixaram sempre fora dos golpes. Disseram apenas: "Alugue uma camioneta e espere nas proximidades da ponte de Chatou.. . Depois do golpe, nós nos reuniremos a vocé". E os dois acabaram morrendo. Mas nada disso tem importância. Não vamos falar no assunto ... Há outra coisa...
Na escuridão, o Gentleman ergueu-se pouco a pouco, apoiado numa das mãos e com olhar que a embriaguez não toldava, observou o rosto lacrimejante de Thomas Lé Bouc.
- Outra coisa? Qual? - murmurou. - A que outra coisa se refere, Lé Bouc?
- Um golpe que eles planejaram. Um golpe formidável. Sei muita coisa, mas não tudo. Sei contra quem planejaram, mas não me disseram que nome tem o sujeito agora e onde se encontra... Se eu soubesse
ganharia centenas de milhares de francos... Centenas de milhares... Ah, se eu soubesse!
- Sim... - murmurou o Gentleman. - Se a gente soubesse! Mas eu posso ajudá-lo.
- Vocé ajudaria, não é? - choramingou Lé Bouc.
- Claro que ajudaria, diabo! Há firmas que resolvem certos negócios... agéncias...
- Conhece alguma?
- Se conheço? Foi assim que ganhei cinco mil francos.
- Vocé disse que foi um sujeito.. .
- Um sujeito duma agéncia.. . Ele me disse: "Gentleman, há um senhor que quer saber quem é o sujeito chamado Félicien, que acabam de prender. Saia em campo. Ganhará a mesma quantia quando conseguir a informação".
Thomas Lé Bouc sobressaltou-se. O nome de Félicien perturbou-o.
- Que história é essa? Vocé tem que procurar um sujeito chamado Félicien?
- Sim, aquele que foi preso. E tenho que falar pessoalmente com o homem.
- Aquele que lhe deu os cinco mil francos?
- É.
- Marcou encontro com ele?
- Com o chofer, que me levará à casa dele.
- Onde é o encontro?
- Place de Ia Concorde, diante do monumento de Estrasburgo.
- Quando?
- Dentro de trés dias.. . Quinta-feira, às onze da manhã. O chofer estará segurando o Journal.. . Vocé vai ver como eu posso ajudá-lo.
Thomas Lé Bouc apertava a cabeça entre as mãos, como se quisesse conter as idéias e dar-lhes forma,
compreender, saber. Félicien? O sujeito dos cinco mil francos? Não seria uma pista?
- Onde mora o homem? - perguntou. O Gentleman respondeu:
- Parece que em Vésinet... É isso, mora em Vésinet.
- Disseram o nome dele, é claro.
- Sim, os jornais falaram no caso... É algo assim como Taverny... d'Averny.
O Gentleman parecia muito cansado. Emudeceu.
Com grande esforço, Lé Bouc tentou reduzir ao siléncio o tumulto de seu cérebro e colocar em ordem a confusão. A história era muito complicada. Embora incapaz de perceber as contradições da narrativa, percebia nas trevas dois ou trés pontos mais fixos, mais luminosos, ao redor dos quais suas idéias giravam em torvelinho.
Junto a Lé Bouc, cabeça inclinada sobre o peito, o Gentleman cochilava. A noite quente e abafada recobria-se de um véu de grandes nuvens. Luzes de barcaças imóveis dançavam na superfície do rio. Na margem oposta delineava-se a silhueta negra das casas, o perfil do Trocadero, os arcos das pontes. Nenhum transeunte no cais.
Bem de leve Lé Bouc insinuou a mão entre o casaco e o colete do Gentleman e apalpou-lhe os bolsos. Na parte interior do colete, preso por um alfinete (que dificuldade em abri-lo!), sentiu sob os dedos o volume das notas. Puxou-as. Infelizmente espetou-se fundo no alfinete, o que lhe provocou um leve movimento de reação.
Despertando subitamente, o Gentleman, sem ter consciéncia talvez do que se passava, inclinou-se para diante. Lé Bouc nem sequer se embaraçou. Com um forte safanão tentou livrar-se, enquanto o adversário
agarrava com ambas as mãos o punho que lhe queria escapar.
A resisténcia foi tão vigorosa quanto inesperada para Thomas. Unhas mergulharam-lhe na carne, dilacerando-a. E a vítima começou a gritar por socorro.
Lé Bouc assustou-se. Afastou o adversário com energia, arrastando-o para o chão. Súbito, o outro, exausto, deixou-se cair. Mas a raiva do bookmaker impelia-o. Já menos embriagado, percebia que fizera confidencias e, sem saber quais, enfureceu-se. Quando conseguiu libertar a mão, os dois defrontaram-se, ajoelhados como lutadores, à beira do rio. Lé Bouc lançou um olhar em volta.
Ninguém.
Empurrou, então, o Gentleman, precipitando-o no rio, e permaneceu imóvel alguns instantes, apavorado com o que fizera quase involuntariamente. Por que agira assim? Para roubar o outro? Ou para impedi-lo de comparecer ao encontro marcado pelo homem dos cinco mil francos?
Lá embaixo viu o homem debater-se, mergulhar, voltar à superfície e finalmente desaparecer.
Voltando-se, Lé Bouc regressou à casa...
O Gentleman nadou por baixo d'água durante um minuto, deixando-se levar pela correnteza. Certo de não ser visto por Lé Bouc, continuou a braçadas rápidas, bom nadador que era, até pouco antes da ponte de Grenelle.
O chofer aguardava-o nas proximidades. Entrou no carro, mudou de roupa e seguiu para Vésinet.
Às trés da manhã, Raul estava deitado na sua cama da Ensolarada.

VIII
THOMAS LÉ BOUC
As INVESTIGAÇÕES não progrediam. No dia seguinte, Raul encontrou o juiz de instrução de excelente humor. Era assim que se sentia o senhor Rousselaín todas as vezes que se dedicava a um caso cuja solução parecialhe escapar das mãos.
- Observe que não chegamos ao fim. De modo algum! Existem pontos a reunir e pistas a verificar. Goussot parece muito confiante. Quanto a mim, sou como a irmã Anne no alto da torre. Não avisto ninguém.
- Algum indício acerca de Barthélemy?
- Nenhum. As fotografias de um cadáver publicadas no jornal dão apenas uma idéia muito vaga de como o homem seria em vida. Além disso, Barthélemy devia freqüentar apenas as rodas criminais, onde ninguém está interessado em ajudar à polícia. Mesmo que alguém o reconheça, ficará calado, temendo comprometer-se.
- Descobriu alguma ligação entre Barthélemy e Simon Lorient?
- Nenhuma, tanto mais que Simon era nome falso e ignora-se também a origem dele.
- Mas o inquérito revelou que freqüentava certos meios e era visto pelos cafés de baixa categoria. Um jornal chegou a mencionar uma mulher muito bonita.
- Tudo isso é vago. Quanto à mulher, nada se obteve de preciso. Essa gente se escondia e com freqüéncia mudava de identidade, é óbvio.
- E o meu jovem arquiteto?
- Félicien Charles? Mistério também aí. Nenhum documento. Ignora-se o estado civil do rapaz. Papéis do serviço militar em ordem, ficha antropométrica em ordem, espaço em branco no que se refere à data e local de nascimento.
- E ele, que diz?
- Nada. Guarda sobre o passado o mais absoluto siléncio.
- E quanto ao presente?
- Mesma atitude. "Não matei. Não roubei." E eu pergunto: "Então, como explica isto? E aquilo?" E ele replica: "Não cabe a mim explicar. Nego tudo." Por outro lado, constatei que não recebia nenhuma correspondéncia quando estava na sua casa.
- Nenhuma - confirmou Raul. - Eu também ignoro tudo a respeito da vida e do passado do rapaz. Precisava de um arquiteto e decorador. Um amigo, não me lembro quem, deu-me o nome e o endereço de Félicien. Era o endereço de uma pensão familiar, onde estava hospedado de passagem. Escrevi. Ele apareceu.
- Admita que existe em torno de Félicien Charles uma atmosfera nebulosa, senhor d'Averny - concluiu o senhor Rousselain.
No dia seguinte, Raul bateu à porta da vila Clematites. Pelo criado, soube que Rolande estava no jardim.
Viu-a, de fato, costurando em siléncio. Perto dela, Jérôme Helmas, que continuava em tratamento na clínica, mas começava a sair. Estendido numa espreguiçadeira, lia. Havia emagrecido visivelmente. Tinha escuras olheiras e o rosto encovado manifestava cansaço.
Raul não permaneceu muito tempo. Achou a moça mudada, mais no moral que no físico. Parecia absorta e avessa a qualquer confidencia. Mal respondeu às perguntas que ele fez. Jérôme mostrou-se também pouco loquaz. Anunciou que viajaria em breve. Os médicos haviam recomendado que passasse o fim do verão na montanha. Aliás não tinha coragem para permanecer em Vésinet, onde tudo despertava a sua dor.
Assim, fosse para onde fosse, d'Averny encontrava os mesmos obstáculos. Para começar, inquérito estacionário. Entre as pessoas, mutismo e desconfiança. Félicien Charles, Faustine, Rolande Gaverel, Jérôme Helmas, todos se introvertiam, guardando o seu segredo, ou recusando-se a dar as suas impressões e contribuir para a descoberta da verdade.
Mas na manhã da quinta-feira ele faria uma importante jogada. Thomas Lé Bouc viria? Não teria nenhum pressentimento? Nenhuma reflexão o avisaria da verdadeira personalidade do Gentleman e da maneira equívoca usada para aproximá-lo da Ensolarada? No decorrer daqueles dois dias, com espírito mais lúcido, não teria vislumbrado uma cilada?
D'Averny esperava que não, e na hora marcada enviou o chofer ao local fixado, convicto de que Thomas Lé Bouc, incapaz de suspeitar das divagacões de um bébado, compareceria ao encontro. Além disso, razão mais poderosa o dominaria. Ele matara o Gentleman. Não desejaria que o crime resultasse em algo mais substancial que algum dinheiro recolhido do bolso da vítima?
Ouviu o ruído de um motor e reconheceu-o. O carro entrou no jardim. Instalou-se imediatamente no seu gabinete, depois de dar instruções, e aguardou. O encontro tão vivamente desejado e preparado com
tanto esforço estava prestes a ocorrer. Thomas Lé Bouc, o único homem que podia informá-lo acerca da maquinação urdida contra Arsène Lupin e que dava andamento ao plano tramado por Barthélemy e Simon, estava ali.
Raul passou o revólver do bolso da calça para o do colete, a fim de té-lo bem à mão. Precaução necessária. O sujeito era perigoso.
- Entre - disse, quando o criado bateu à porta. Lé Bouc entrou. Mas um Lé Bouc transformado, de
classe social mais elevada, terno limpo, calças vincadas, chapéu em bom estado. Mantinha-se ereto, andava com desembaraço, peito erguido.
Os dois fitaram-se por alguns segundos. Raul concluiu imediatamente que o visitante não reconhecera o Gentleman do Zanzi-Bar, não estabelecera nenhum elo entre o desclassificado que havia atirado ao rio e Raul d'Averny, proprietário da Ensolarada.
- É o senhor a pessoa que encarreguei, por intermédio de uma agéncia, de fazer um levantamento da vida de Félicien Charles?
- Não.
- Ora! Então, quem é o senhor?
- Um substituto dessa pessoa.
- Com que intenção a substituiu? Thomas quis saber:
- Estamos sós? Não seremos interrompidos?
- Teme alguma interrupção?
- Temo.
- Por qué?
- Porque pretendo dizer certas coisas que devem ser ouvidas por uma única pessoa no mundo.
- Quem?
- Arsène Lupin.
Lé Bouc elevou a voz ao pronunciar o nome, como se contasse com uma reação de surpresa. De saída assumia posição de adversário e colocava-se na ofensiva. O tom, a atitude, não deixavam dúvidas. Lupin não se alterou. Naquele mesmo lugar Faustine pronunciara seu nome. E ela possuía ligações com Simon Lorient e com Thomas Lé Bouc.
Lupin limitou-se a responder:
- Se veio à procura de Arsène Lupin, acertou. Sou Lupin. E o senhor?
- Meu nome não importa.
Um tanto desconcertado pela serenidade imprevista de Raul, Thomas Lé Bouc buscou outro meio de prosseguir no ataque.
Raul tocou a campainha e o chofer apareceu.
- Leve o chapéu que este senhor conserva na cabeça.
Compreendendo a lição, Lé Bouc entregou o chapéu ao criado, que o levou. Irritado e sarcástico, exclamou:
- Maneiras de aristocrata, não é? Arsène Lupin. .. nobreza antiga. Sempre um título no bolso. Não faz meu género. Não sou aristocrata, nem tenho título. Tenha a bondade, portanto, de descer um degrau. Conversaremos melhor.
Acendeu um cigarro e riu.
- Isso o perturba, não é? Quando a pessoa está habituada a lidar com duques e marqueses e encontra pela frente um selvagem destemido...
Impassível, Raul replicou:
- Quando trato com duques e marqueses, procuro ser tão bem-educado quanto possível. Quando lido com um comerciante de porcos, eu o trato...
- Como?
- À Lupin.
Com um gesto arrebatou o cigarro dos lábios do homem, dizendo, brusco:
- Vamos, termine logo. Estou com pressa. Que quer?
- Dinheiro.
- Quanto?
- Cem mil.
Raul fingiu surpresa.
- Cem mil! Então tem algo de muito importante a me propor?
- Não.
- Neste caso é uma ameaça?
- Mais ou menos.
- Chantagem, então?
- Exato.
- Quer dizer que, se eu não pagar, vocé fará isto ou aquilo contra mim?
- Exato.
- E que é que pretende fazer?
- Denunciá-lo.
Raul meneou a cabeça.
- Erro de cálculo. Nunca ajo quando sou pressionado.
- Pois terá que agir.
- Não. Neste caso, o que acontecerá?
- Vou escrever à polícia, dizendo que o senhor Raul d'Averny, envolvido nos crimes de Vésinet, é Arsène Lupin.
- E depois?
- Depois será preso, Lupin.
- E depois? Ganhará os cem mil pacotes? - Deu de ombros. - Idiota! Só conseguirá algo de mim se eu estiver livre e com medo do que vocé faria contra mim. Procure outra coisa.
- Já achei.
- O qué?
- Félicien.
- Tem provas contra ele? É cúmplice do roubo? Cúmplice dos homicídios? Corre o risco de ser preso? Enforcado? Que me importa isso?
- Já que não se importa, por que gastou cinco niil francos para obter informação a respeito dele?
- Isso é outra coisa. Mas, que ele esteja na prisão ou noutro local, para mim não faz a menor diferença. Sabe quem mandou prender Félicien? Eu.
Na pausa que se seguiu, Raul percebeu um sorriso nos lábios do homem e sentiu ligeira inquietação.
- Por que está rindo?
- Por nada.. . Uma lembrança que me veio à cabeça.
- Que lembrança?
A inquietação de Raul dissipou-se. Tinha a impressão de que algo surgiria do passado e que estava a ponto de descobrir as razões do seu envolvimento naquela tenebrosa história.
- Que lembrança? Fale.
- Conhece o dr. Delattre?
- Conheço.
- Foi ele que seus cúmplices raptaram há tempos, enviando-o para a província, onde vocé agonizava num albergue. Ele o operou e salvou-o, não é?1
- Ah! Está a par dessa velha história - disse Raul, surpreendido.
- E de muitas outras. Então foi o doutor Delattre quem recomendou o jovem Félicien?
- Foi.
Vide A Agulha Oca.
- E como o doutor nunca tinha ouvido falar no seu protegido, deve saber que a recomendação foi inspirada e redigida pelo criado do médico, chamado Barthélemy, mais tarde assassinado na Laranjal
- Não me contou nada de novo até agora.
- Paciéncia. Não demoro. Mas precisa compreender exatamente o mecanismo do caso. Então, foi Barthélemy quem introduziu Félicien na sua casa.
- Com a cumplicidade de Félicien?
- É claro.
- E qual o objetivo da maquinação?
- Roubá-lo.
- Plano fracassado, uma vez que Barthélemy morreu e Félicien está preso.
- Sim, mas vou continuar por minha conta. Este é o segredo da visita que lhe faço.
- É o que não entendo. De que se trata, na verdade?
- Calma. Estou contando a história às avessas, isto é, da frente para trás. Há quinze anos Barthélemy acompanhava de longe a vida de Félicien enquanto o rapaz lutava para obter o diploma de arquiteto. Anteriormente havia sido empregado de uma mercearia. Antes disso, trabalhava numa administradora. E antes da administradora, numa garagem do interior. Chegamos assim à época em que Barthélemy o encontrou numa fazenda do Poitou. Félicien foi criado com os filhos da fazendeira.
Raul interessava-se cada vez mais pela história, procurando, não sem alguma apreensão, descobrir aonde o homem queria chegar. E perguntou:
- Félicien não ignora esses detalhes, é claro, embora não os revelasse no inquérito?
- Provavelmente.
- Mas como foi que Barthélemy soube?
Pela fazendeira, cujo marido acabava de morrer e de quem ele se tornou amigo. Foi ela quem contou secretamente que uma criança lhe fora confiada, um dia, por uma mulher. Essa mulher entregou-lhe importante soma para as despesas.
Raul d'Averny começava a perturbar-se sem saber porqué, e murmurou:
- Em que ano isso aconteceu?
- Não sei.
- A mulher saberia? :
- Morreu.
- Mas Barthélemy sabia!
- Morreu também.
- Mas deve ter falado, já que vocé sabe.
- Sim, ele me falou no assunto uma vez.
- Nesse caso, explique-se. E essa mulher? A mãe da criança?
- Não era a mãe.
- Não era a mãe?
- Não, ela havia raptado a criança.
- Por qué?
- Por vingança, creio.
- Como era a mulher?
- Muito bonita.
- Rica?
- Parecia rica. Viajava de carro. Disse que voltaria. Nunca mais apareceu.
A agitação de Raul acentuava-se.
- Ora, vamos! Ela deve ter fornecido dados. O nome da criança. Félicien?
- Foi a fazendeira quem lhe deu esse nome. . Félicien Charles, dois nomes próprios. Chamava-o ora por um, ora pelo outro...
- Mas qual era o verdadeiro?
- A fazendeira não sabia.
- Mas sabia alguma coisa? Raul estava exasperado.
- Talvez, talvez, mas nada disse.
- Mente! Vejo que está mentindo. Ela sabia e falou.
- Ela nada sabia. Mas Barthélemy, durante a ligação com ela, andou investigando. O automóvel havia sofrido uma pane a dez quilômetros da aldeia, numa cidadezinha vizinha, onde a senhora parou para aguardar uma peça de reposição. E na oficina de consertos o mecânico encontrou uma carta debaixo de uma das almofadas. A senhora chamava-se condessa de Cagliostro.
D'Averny sobressaltou-se.
- A condessa de Cagliostro!
- Sim.
- E a carta, que fim levou? ,
- Barthélemy roubou-a do mecânico.
- Vocé a viu?
- Barthélemy leu-a para mim.
- E vocé se lembra?
- Do texto, não.
- De que, então?
- Do nome.
- Qual?
- O nome do pai da criança.
- Diga! Diga já!
- Raul.
Raul saltou sobre o interlocutor, agarrando-o pelos ombros.
- Está mentindo!
- Juro!
- Mente! Inventou essa história. Raul nada significa. Há cem mil nomes de Raul na Franca. Raul de qué?
Raul de Limésy... Parecido com o seu nome,
Raul d'Averny. Um nome à Lupin.
Raul oscilou. Adotara no passado o nome de Raul de Limésy! Que horror! Todo um período medonho de sua vida emergia da sombra. Mas seria possível que Félicien?. . •
Revoltou-se contra tal hipótese e disse em voz
baixa:
- Tolice! Pura imaginação.
- Eu não podia imaginar o nome de Limésy. f
- Quem o revelou?
- Barthélemy.
- Barthélemy era um impostor. Eu não o conhecia. Ele não me conhecia.
- Conhecia.
- Como?
- Esteve sob suas ordens.
- Que história é essa?
- É um dos seus antigos cúmplices.
- Barthélemy?
- Ele não usava esse nome.
- Como se chamava?
- Auguste Daileron. Lupin colocou-o na chefia dos contínuos da Presidéncia do Conselho, quando era chefe da Sureté.1
Vide 81 J,

IX
O CHEFE
RAUL inclinou a cabeça. Recordava. Na primeira parte de sua vida aventureira, Auguste Daileron fora um dos cúmplices mais ativos, que ele envolvia, confiante, em vários dos seus mais secretos empreendimentos. Desde o caso da Presidéncia do Conselho não ouvira mais falar nele.
E justamente Auguste Daileron transformara-se em Barthélemy e planejara toda aquela maquinação contra o seu antigo chefe!
Face à atitude de Raul, Thomas Lé Bouc tornou-se mais audaz. Ar vitorioso, declarou:
- São duzentos mil, agora. Nem um centavo a menos.
E com ar de familiaridade, em tom condescendente, explicou:
- Está compreendendo, não é? Não se abalou quando se tratava da sua pessoa. Mas já que se trata do seu filho, diabo, a história é mais delicada! Se não me pagar trezentos mil... (digo trezentos mil, pois vale bem isso) revelo ao juiz de instrução os detalhes inegáveis do passado de Félicien Charles, demonstrando por A + B que ele é filho de Raul d'Averny, ou seja, filho de Arsène Lupin. Um duplo golpe, não é? D'Averny é Lupin e Félicien é filho de Lupin que, sob o nome de barão de Limésy, casou com a senhorita...
Erguendo a cabeça, Raul ordenou, imperioso:
- Cale-se. Proíbo-o de pronunciar esse nome. Mas, no íntimo, ele o pronunciou. E toda a trágica
aventura ressuscitou em sua mente o amor sincero e puro que sentira por Claire d'Estigues, seguido de uma desenfreada paixão por Joséphine Balsamo, condessa de Cagliostro, criatura impiedosa e bárbara. .. E após lutas violentas, seu casamento com Claire. O desenlace? Cinco anos após, nascia uma criança inscrita regularmente no registro civil sob o nome de Jean de Limésy. No dia seguinte ao do nascimento, a mãe morria em conseqüéncia do parto e a criança desaparecia, seqüestrada pelos emissários da condessa de Cagliostro.
Seria Jean de Limésy a criança que a terrível criatura, génio do ódio e da vingança, confiara um dia à fazendeira do Poitou? Esse Jean que ele havia procurado em memória da suave Claire d'Estigues? Seria o Félicien esquivo e sombrio, que viera à sua casa para armar um complô contra ele? Seria seu filho, seu próprio filho, que ele atirara à prisão?
- Julguei que a condessa de Cagliostro houvesse morrido.
- E daí? A criança não morreu, já que é Félicien.
- Tem provas?
- A justiça as encontrará - disse Lé Bouc com uma risada.
- Tem provas? - repetiu Raul.
- Elas existem e são das mais formais, pacientemente reunidas por Barthélemy. Vocé percebe, não é? O grande golpe da vida dele! Depois de colocar o filho na sua casa, tinha-o sob as garras. O que faço hoje por minha conta, com que viva alegria ele pretendia fazer, só para atirar-lhe no rosto: "Salve-me da miséria, ou eu os entrego à justiça, a vocé e ao seu filho... A vocé e ao seu filho!"
- Vocé tem provas? - perguntou Raul pela terceira vez.
- Barthélemy mostrou-me um dia a carteira onde as reunira após a investigação que durou anos.
- Onde está essa carteira?
- Creio que a entregou à amante de Simon, uma corsa, com quem se entendia muito bem.
- Essa mulher é acessível?
- Dificilmente. Não a vejo desde a morte de Barthélemy. E creio que é procurada pela polícia.
Raul permaneceu calado por longo tempo. Em seguida tocou a campainha chamando o criado.
- O almoço está pronto?
- Está, sim, senhor.
- Coloque mais um lugar à mesa.
E impeliu Lé Bouc para a sala de jantar.
- Sente-se.
O homem obedeceu, desconcertado. Estava certo de que as negociações se achavam concluídas e hesitava apenas quanto à cifra, que gostaria de fixar em quatrocentos mil francos. Raul d'Averny, arrasado sob o ataque imprevisto, não regatearia.
Raul quase não comeu. Se não estava arrasado, conforme supunha o adversário, sentia-se bastante preocupado. O problema parecia-lhe extremamente complexo e ele o revirava em todos os sentidos para chegar a uma solução. Problema duplo, aliás, e exigindo, portanto, dupla solução. Precisava encontrar uma saída no que se referia a Félicien. E outra mais imediata para enfrentar a grave ameaça de Thomas Lé Bouc. Passaram ao escritório.
Mais trinta minutos de siléncio. Lé Bouc, refestelado numa poltrona, fumava com
volúpia um gordo charuto escolhido numa caixa de havanas. Raul caminhava de um lado para outro, mãos às costas, pensativo.
Finalmente, Lé Bouc falou:
- Pensando bem, não aceito menos de quinhentos mil francos. É um preço razoável. Observo, aliás, que tomei as minhas precauções. No caso de me pregar uma peça, a carta-denúncia será colocada no correio por um amigo meu. Assim, nada a fazer. Está preso à engrenagem. Não regateie. Quinhentos mil. Nem um centavo a menos.
Raul não replicou. Parecia calmo e menos absorto, como alguém que tomou uma decisão e dela não se desviará.
Após dez minutos, consultou o relógio da escrivaninha, sentou-se ao telefone e discou.
Depois de obter linha, indagou:
- Delegacia de Polícia? Ligue para o gabinete do senhor Rousselain, por favor.
E acrescentou logo em seguida:
- Fala Raul d'Averny. É o senhor juiz de instrução?... Muito bem, obrigado... Sim, tenho novidades. Está em minha casa um indivíduo que participou de modo ativo nos dramas de Vésinet... Não, ainda não confessou, mas a situação é tal que será obrigado a fazé-lo... Alô?... Sim, é isso mesmo... É melhor que mande buscá-lo... O inspetor Goussot? Ótima idéia. Ah, não tenha medo. Ele não escapará. Está no chão, amarrado... Obrigado, senhor juiz.
Raul desligou.
Thomas Lé Bouc escutara com crescente estupefação. Lívido, fisionomia transtornada, gaguejou:
- Está louco! Que quer dizer isso? Pretende entregar-me... a mim? É o mesmo que entregar a si próprio e a Félicien.
Raul aparentemente não o escutava. Agira e continuava a agir como se Thomas Lé Bouc não estivesse presente e como se obedecesse a um plano de conduta com o qual o adversário não tivesse qualquer relação. Tudo aquilo dizia respeito a Raul d'Averny, não a Thomas Lé Bouc.
Este, fora de si, sacou do revólver, destravou-o e fez mira.
- Os loucos devem ser abatidos.
Mas não atirou. Matando d'Averny não chegaria a seu objetivo, que era embolsar o dinheiro. Seria admissível, aliás, que Raul se lançasse pessoalmente ao fogo só para ter o prazer de atingir ao mesmo tempo Lé Bouc? Não. Havia blefe, mal-entendido ou erro. E de qualquer modo ele dispunha de uma boa meia hora para se explicar.
Acendendo o segundo charuto, gracejou:
- Boa jogada, Lupin. Decididamente, vocé está à altura de sua reputação e do que me contou Barthélemy. Incrível, que bela réplica! Mas não me abala. Reflita, Lupin: admitamos que me entregue à polícia. Entregará apenas um sujeito que quis dar um golpe num dos seus semelhantes. No caso, Arsène Lupin. O prato principal será vocé. Afinal, nem sequer me conhece! Acha que tenho algo a temer da polícia? Eu? Sou perfeitamente inocente. Não tenho um só deslize a me censurar.
- Então, por que empalideceu? Por que olha para o relógio?
- Não mais que vocé, meu velho. Repito que sou honesto.
- Volte-se, homem honesto. Tome esta chave e abra a secretária. Isso. Está vendo um fichário neste escaninho? Passe para cá. Obrigado. Mantenho certo
número de dossiés sempre atualizados, ou quase. Sua ficha se encontra neste aqui.
Raul procurou, enumerando as sucessivas iniciais - P.Q.R.S.T.
- Chegamos. Vocé está no caso T.
- Caso T?
- Evidentemente. Classifiquei-o como Thomas. Abrindo o dossié, leu em voz alta:
- "Thomas Lé Bouc, ou Thomas Bookmaker. Alt. l,75m. Torso, 95cm. Bigode tipo escova. Rosto escanhoado. Expressão vulgar, às vezes bestial. Residéncia: Rua Hardevoux, 24, Grenelle, por cima de uma salsicharia. É amante da proprietária. Perfume predileto: lilás branco. Nas gavetas, duas ceroulas de seda azul-celeste, quatro pares de meias idem". Estamos conversados, Thomas Lé Bouc.
Thomas fixou-o, aturdido.
- Prossigo - disse Raul. - "O mencionado Thomas Lé Bouc era irmão do aprendiz de pintor Simon Lorient e ambos eram filhos do velho Barthélemy, o ladrão da Laranjal."
Thomas Lé Bouc retesou-se.
- Que significa isso? Uma porção de mentiras!
- Verdades que a polícia confirmará na investigação que não vai tardar, seja no seu domicílio, seja na casa da sua salsicheira, ou no Zanzi-Bar, freqüentado assiduamente por vocé.
- E daí? - exclamou Lé Bouc, que apesar de aturdido tentava desafiar. - E daí? Que me importa? Acha que existe nessa história algo para me condenar?
- Há o suficiente para prendé-lo, pelo menos.
- Juntamente com vocé, neste caso!
- Não, pois tudo isso é apenas a parte superficial e insignificante do dossié judiciário que preparei para
a polícia e que deixaremos sobre esta mesa até a chegada do inspetor-chefe Goussot. Mas há melhor.
- O qué?
A voz de Lé Bouc perdera a segurança.
- Sua visita secreta... Há detalhes, certos atos que vocé cometeu, para os quais me será fácil orientar a polícia. Reuni todos os elementos.
Thomas Lé Bouc empunhava o revólver com mão crispada, recuando aos poucos em direção à porta que dava para o jardim, próximo à garagem.
- Tolices! - murmurou. - Truques de Lupin... Nem uma só palavra verdadeira. Nem uma prova.
Aproximando-se, Raul falou, cordial:
- Largue o Browning... E não tente fugir... Não estamos brigando! Estamos conversando. E temos ainda uns quinze minutos. Escute. É exato, ainda não tive tempo de reunir verdadeiras provas, mas encontrá-las será brincadeira de criança para Goussot e seus colegas. Além disso, há novidades. Percebe a que estou aludindo? Há trés dias... e não se trata de um pecadilho...
Thomas Lé Bouc empalideceu. Assaltou-o uma recordação cheia de pavor do crime recente. Raul precisou:
- Vocé esqueceu o bom rapaz a quem chamavam Gentleman, encarregado pela agéncia de uma investigação para mim? Por que tomou o lugar dele e veio até aqui?
- Foi ele quem pediu.
- Não é verdade. Telefonei à agéncia. Não o véem há dias... Desde domingo à noite... Então eu me pus em campo, fui ao Zanzi-Bar, o seu quartel-general. No domingo à noite vocés saíram juntos, muito embriagados. Depois, ninguém mais soube de nada.
- Isso não prova.. .
90 Duas testemunhas viram vocé no cais em
companhia dele. E daí?
Daí? Ouviram os dois à margem do Sena...
Vocés brigavam. O sujeito gritou por socorro... Tenho os nomes dessas testemunhas. ..
Lé Bouc não protestou. Poderia ter perguntado por que essas invisíveis testemunhas não se haviam intrometido e nem mesmo dado sinal de sua presença. Mas já não raciocinava. Arquejava de medo.
E Raul, que não o deixava tomar fôlego, prosseguiu:
- Vocé terá que explicar a esses senhores o que fez ao seu companheiro e de que modo ele se afogou. Pois o Gentleman afogou-se. Encontraram o cadáver ontem à noite, ao longo da ilha dos Cisnes.
Lé Bouc enxugou a testa com a manga do casaco. Evocava, sem dúvida, o momento assustador do crime, a visão do bébado caindo, debatendo-se e desaparecendo na água negra. Contudo, tentou protestar:
- Não sabem de nada... Não viram nada...
- Talvez, mas acabarão por descobrir. O Gentleman havia prevenido ao seu chefe e aos camaradas da agéncia, naquela manhã, dizendo: 'Se me acontecer alguma coisa, procurem Thomas Lé Bouc. Desconfio dele. É encontrado no Zanzi-Bar de Grenelle". De fato, foi lá que descobri a sua pista...
Raul sentiu que o adversário estava arrasado, incapaz de qualquer resisténcia. Thomas Lé Bouc percebia a derrocada total e definitiva de seu plano e, reduzido à impoténcia, incapaz de compreender aonde Raul o conduzia pela força imperiosa de sua vontade, estava pronto para a aceitação irracional de tudo o que ele ordenasse. Sentia não só a angústia do criminoso, mas principalmente a derrota de um ser diante de outro que ordena, diante de um chefe.
Apoiando a mão no ombro de Lé Bouc, Raul forçou-o a sentar-se, dizendo cordial, sereno:
- Vocé não tem salvação, não é mesmo? Meus criados estão aí, alertas. Acredite: contra Lupin não há o que fazer. Se me escutar sairá desta em excelentes condições. Mas é preciso que me obedeça sem reclamar. Coragem e franqueza. Responda: tem ficha na polícia?
- Não.
- Esteve envolvido em roubos ou falcatruas?
- Nenhum que se soubesse.
- Alguém desconfia de vocé e poderá acusá-lo?
- Não.
- Nenhuma ficha antropométrica no Serviço de Identificação?
- Não.
- Jura?
- Juro.
- Neste caso, vocé me serve. Dentro de minutos, Goussot e seus homens chegarão. Vocé se deixará prender sem opor resisténcia.
Lé Bouc retesou-se apavorado, olhar esgazeado.
- Está louco!
- Que diferença faz ser preso pela polícia, uma vez que já está preso por mim, o que é bem mais sério? Muda de mãos, é só. E me presta um serviço.
- Presto serviço a vocé? - exclamou Thomas Lé Bouc, olhar cintilante.
- É evidente que um serviço desta importância será bem pago. E como! Só tenho um meio de saber se Félicien é meu filho: interrogá-lo! É preciso que eu o veja a qualquer preço. E se for meu filho, acha que vou deixá-lo na prisão?
É inevitável.
- Não é. Eles nada tém além de hipóteses. Nada de sólido. A sua prisão e confissão vão demolir todo o sistema acusatório.
- Que confissão?
- Diga: que fazia vocé no dia em que o velho Barthélemy estava roubando e durante a noite em que seu irmão Simon foi atacado?
- De acordo com nossa combinação, aluguei unia camioneta e aguardava os dois próximo a Chatou, no caso de precisarem de mim. Cerca de meia-noite e meia, pensando que tinham voltado para casa por outro caminho, fui-me embora.
- É capaz de provar a hora em que regressou?
- Sim, já que coloquei a camioneta na garagem e conversei com o vigia da noite. Era pouco maís de uma hora da madrugada.
- Perfeito. Vocé dirá exatamente isso no interrogatório. Dirá que esperou nas imediações de Chatou, mas que antes da meia-noite - antes da meia-noite, ouviu? - inquieto, vocé rondou Vésinet pelos lados da Laranjal. Em seguida percorreu o caminho que desemboca no lago, puxou o barco e foi verificar o que se passava na propriedade. Não encontrou nem o velho Barthélemy, nem Simon, nem os avistou pelas avenidas, e regressou à camioneta. E basta.
Thomas Lé Bouc, que escutara atento, meneou a cabeça.
- Muito perigoso! Vão me acusar de cumplicidade. Reflita. Falar da Laranjal e dessa história de barco é dizer que eu estava a par do caso.
- Cumplicidade passiva. Seis meses de prisão. O essencial é poder demonstrar que no momento em que seu irmão e Jérôme Helmas foram atacados, vocé já se achava de volta a Paris.
- Sim, mas não escaparei com menos de dois a trés anos. E Félicien será libertado.
- Exatamente. Do momento em que a polícia já não tenha certeza de que foi Félicien a pessoa vista no barco, passará a crer que foi vocé quem rondou a Laranjal para procurar o dinheiro. E as suspeitas reunidas contra Félicien, já frágeis, desabarão.
Após uma última hesitação, Lé Bouc declarou:
- Está bem. Mas...
- Mas...?
- Tudo depende do preço. Corro um risco maior do que pensa.
- E receberá pagamento mais alto do que merece.
- Quanto?
- Cem mil no dia em que Félicien for libertado. Cem mil no dia em que libertarem vocé. Ganhará as duas somas ao mesmo tempo.
Lé Bouc pestanejou, balbuciando:
- Duzentos mil... É uma boa soma.
- Dá até para se tornar honesto. Com isso poderá comprar uma salsicharia na província ou no exterior. E vocé sabe que compromisso com Lupin vale uma assinatura do Banco de França.
- Confio em vocé. Ainda assim pode haver complicações.
- Quais?
- Admitamos que consigam descobrir certos detalhes do meu passado e me mandem para a penitenciária?
- Eu providenciarei sua evasão.
- Impossível!
- Idiota! E se eu tivesse denunciado seu pai quando ele era bedel da Presidéncia? Não providenciei a evasão em plena Paris, e no mesmo dia em que anunciei que o faria publicamente?
É verdade. Mas terá dinheiro suficiente?
Não seja ingénuo!
Uma evasão é dispendiosa.
Não se preocupe.
- Custa centenas de milhares! O preço da evasão e as imunidades que me prometeu. É muita coisa. Tem certeza?
- Venha cá... Passe a mão pelo fundo da minha secretária, sobre a prateleira onde está o fichário... Achou?
Thomas Lé Bouc obedeceu, tirando da gaveta um saquinho de tecido cinzento.
- Que é isto? - perguntou Raul.
- A sacola do dinheiro - balbuciou Lé Bouc.
- Veja. Rasguei o tecido... Está vendo os maços de notas? É o dinheiro do tio Gaverel, que o velho Barthélemy encontrou na Laranjal.
Tonto, Lé Bouc deixou-se cair numa cadeira.
- Diabo!... Diabo! Que sujeito terrível!
- É preciso viver - replicou Raul, bem-humorado. - E ajudar aos amigos nos momentos de necessidade.
- Mas, como conseguiu?
- Fácil! Quando cheguei, na manhã seguinte à do crime, pensei logo que Simon Lorient devia ter encontrado a sacola no jardim, ou num lugar próximo, e que a polícia procuraria inutilmente pelo dinheiro. Corri ao local onde ele fora agredido. Não me enganei. A sacola havia rolado pela relva uma boa distância, e ninguém dera por ela... Não quis que o dinheiro se perdesse.
Thomas Lé Bouc, abismado, falou, abandonando o tom de intimidade desrespeitosa:
- O senhor é mesmo extraordinário.
E num gesto espontâneo apresentou os punhos.
- O carro da polícia não deve tardar. Prenda-me, chefe. Tem razão. Sou o homem que lhe convém. Onde passou o pai, o filho passará. Só um idiota se voltaria contra Lupin!
- De fato... Seu pai foi um bom homem no passado. E soube que ele tentou o impossível para se tornar honesto.
- O caso de Félicien preocupava-o. Simon obrigou-o a dar o golpe, assim como o obrigou, ainda por cima, a dar o golpe na Laranjal. "Um roubo, vá lá", disse ele. "Uma chantagem é divertida. Ficaremos ricos. Mas nada de assassinato, hein?"
- No entanto ele matou. Estrangulou Elisabeth Gaverel.
- Quer saber a minha opinião, chefe? O velho matou sem querer. Mais: correu para salvar a moça quando ela caiu n'água. Sim, para salvá-la. .. O velho era capaz desses arrebatamentos. Mas, ao sair da água, viu o colar de pérolas e perdeu a cabeça.
- É a minha opinião - disse Raul. Ouviu-se o motor de um carro.
- Não revele o verdadeiro nome de seu pai. Essa velha história da Presidéncia do Conselho misturada à de hoje chamaria atenção para Lupin. E isso eu não quero. Minha situação neste caso já é bastante difícil. Seja prudente, portanto, não se afaste nem um pouco da versão que adotamos. Nem uma palavra fora disso. Em caso de dúvida, a melhor resposta é o siléncio. E conte comigo, meu velho.
Aproximando-se, em tom cordial, acrescentou:
- Mais um detalhe: não se preocupe muito com a história do Gentleman que vocé matou.
- Por qué?
- O Gentleman era eu.
Thomas Lé Bouc abandonou-se às mãos do inspetor Goussot numa espécie de éxtase. O roubo da sacola cinzenta, a audácia e perfeição com que Lupin representara o papel de Gentleman, a alegria imprevista de saber que ele, Thomas Lé Bouc, não havia matado, tudo isso deixou-o fora de si de alegria. Que tinha a temer com um protetor desse calibre? Entrara na Ensolarada disposto a subverter toda a situação e seguia para a prisão como quem conquistou uma bela vitória e se prepara para repeti-la entregando-se à justiça e prestando um serviço a um benfeitor.
- Meus cumprimentos, senhor d'Averny - disse o inspetor Goussot, distante. - Então este sujeito está envolvido em nosso caso?
- E como! É irmão de Simon Lorient!
- O qué? Irmão? Mas, por que prodígio conseguiu capturá-lo?
- Ora, não houve grande mérito - replicou Raul, com ar modesto. - O idiota deixou-se prender.
- E o que ele queria?
- Extorquir-me dinheiro.
- Sob que pretexto?
- Félicien Charles. Veio dizer-me que tinha provas de que Félicien, cúmplice de Simon Lorient, irmão dele, matara Simon para roubar-lhe o dinheiro. E pediu-me elevada soma, como se eu fizesse questão de guardar o segredo. Telefonei então ao senhor Rousselain. Deixe-o de molho, senhor inspetor. Estou certo de que conseguirá confissões das quais vai tirar proveito e glória.
À porta, Thomas Lé Bouc, arrastado pelo policial, voltou-se para Raul, fingindo cólera e rancor.
- Um dia me pagará!
- É claro. E com juros! Lé Bouc saiu assobiando.
Raul escutou os passos que se afastavam. Daí a instantes o carro partia.
Ao contrário do que tinha por hábito, não fez um só gesto para manifestar a alegria da vitória. No entanto, que bela vitória mandar Thomas Lé Bouc para a cadeia! Permaneceu taciturno e absorto. Pensava em Félicien, encerrado na prisão. Seria seu filho? Conseguiria libertá-lo? E quem seria aquele filho equívoco, cúmplice de Barthélemy e Lorient?

X
"EU, CONDESSA DE CAGLIOSTRO, ORDENO..."
NUM domingo de calor, Raul deteve-se numa rua de Chatou, cidadezinha próxima a Vésinet. Uma casa de dois pavimentos, situada entre a rua e uma horta que se estendia ao longo do Sena, oferecia quartos mobiliados para alugar. Passando pelo café dirigido pela proprietária, Raul subiu ao segundo andar e enveredou por um sombrio corredor até encontrar o quarto número 5. A chave estava na porta. Bateu. Como não respondessem, entrou silenciosamente.
Faustine dormia reclinada em humilde cama de ferro que, juntamente com a cômoda, duas cadeiras e uma mesa, compunha todo o mobiliário do modesto aposento.
Não se afastara de Vésinet. Seu implacável desejo de vingança mantinha-a na região onde morrera Simon Lorient. Haviam-na conservado como auxiliar de enfermagem na clínica, mas como as instalações eram acanhadas, ela alugara um quarto fora. Para ali voltava todas as noites e nele se fechava aos domingos.
Naquele dia, devia ter adormecido cosendo o corpete, pois tinha os ombros nus e a peça de roupa repousava nos seus joelhos. Segurava ainda o dedal e a agulha com linha.
Por sobre as árvores do jardim avistava-se, na moldura da janela, uma serena paisagem fluvial.
Jornais espalhavam-se à sua volta na cama e na mesa, provando a atenção com que acompanhava os acontecimentos dos últimos dias. De longe, Raul leu as manchetes: "Preso Irmão de Simon Lorient. Interrogatório Preliminar". "Os Dois Irmãos Seriam Filhos do Velho Barthélemy".
Contemplou longamente Faustine. Pareceu-lhe tão bonita quanto na animação e entusiasmo da vigília, mais bela talvez, com a pureza dos traços pacificada. E evocou a magnífica Afrodite do escultor Alvard.
Um raio de sol insinuou-se pela janela, espreitando entre nuvens. Sem dela afastar os olhos, Raul aproximou-se de manso e esperou que o raio incidisse sobre o rosto adormecido, as pálpebras fechadas. Faustine agitou-se então e ergueu lentamente as pálpebras contornadas de longos cílios.
Mal teve tempo de despertar e Raul já a segurava pelos ombros. Deitando-a na cama, envolveu-a nas cobertas, imobilizando-lhe braços e pernas.
- Não grite! Nem uma palavra! - murmurou.
- Covarde! Covarde! - gemeu Faustine, exasperada, tentando libertar-se.
Mas Raul cobriu-lhe a boca com a mão.
- Cale-se. Não venho como inimigo. Nada tem a temer se fizer o que eu digo.
Debateu-se furiosamente, insultando-o, apesar da mão que lhe fechava rigidamente a boca. Mas, pouco a pouco, a resisténcia foi cedendo. Inclinado sobre ela, Raul repetiu:
- Não venho como inimigo... Não venho como agressor. Mas quero que me escute e responda. Caso contrário, pior para vocé.
Segurando-a pelos ombros, mantinha-a deitada. Inclinado sobre ela, disse em voz baixa:
- Conversei com o irmão de Simon, Thomas Lé Bouc. Conversei muito tempo com ele. Revelou-me o que sabia a respeito de Félicien. O resto, vocé é quem vai me dizer. Vocé me conhece, Faustine. Eu não cedo. Ou então... ou então...
Aproximou o rosto do de Faustine, desconfiada e amedrontada. Os lábios da moca afastaram-se dos lábios que se acercavam.
- Fale, Faustine, fale - ordenou ele, com voz alterada.
Ela viu bem próximos dos seus os olhos implacáveis de Raul e sentiu medo.
- Deixe-me - murmurou, vencida.
- Vai falar?
- Sim.
- Agora? Sem evasivas e sem reservas?
- Sim.
- Jure em nome de Simon Lorient.
- Juro.
Libertou-a e afastou-se para a janela, voltando-lhe as costas.
Depois que ela se recompôs, ele a fixou um instante com tristeza, como se contemplasse uma bela presa a escapar-lhe. E teve início o diálogo rápido, preciso.
- Thomas Lé Bouc diz que Félicien é meu filho.
- Não conheço Thomas Lé Bouc.
- Mas por intermédio de Simon Lorient conhecia o pai, o velho Barthélemy?
- Conhecia.
- Ele confiava em vocé?
- Confiava.
- Que sabia a respeito da vida secreta do velho?
- Nada.
- E da vida de Simon Lorient? De seus projetos?
- Nada.
- Nem sequer a maquinação contra mim?
- Não.
- No entanto, eles disseram que Félicien é meu filho.
- Disseram.
- Sem apresentar provas?
- Não as pedi. Que me importava?
- Mas a mim importa - disse Raul, com a fisionomia contraída. - Preciso saber se ele é ou não meu filho. Era uma farsa que estavam representando, usando de certos informes colhidos ao acaso? Ou então a verdade, de que procuravam aproveitar-se ameaçando-me com a divulgação? Não posso viver nesta incerteza. Não posso...
Ela parecia surpresa com a emoção contida que o tom de voz revelava. Contudo, repetiu com mais energia:
- Nada sei.
- Talvez. Mas pode saber. Ou pelo menos colocar-me em condições de saber.
- Como?
- Thomas Lé Bouc afirma que Barthélemy entregou a vocé uma carteira contendo documentos relativos ao caso.
- Sim, mas...
- Mas?
- Um dia, depois de lé-los, queimou-os na minha frente, sem dizer a razão. Guardou apenas um, que colocou num envelope. Lacrou-o e confiou-o a mim.
- Com instruções?
- Disse apenas: "Guarde isto. Mais tarde, veremos".
- Pode me dar o envelope?
Ela hesitou.
- Por que não? - insistiu ele. - Barthélemy morreu. Simon Lorient também. E foi Thomas Lé Bouc quem me revelou toda a história.
Ela refletiu por longo tempo, testa ligeiramente franzida, olhar distante. Em seguida retirou da gaveta da cômoda uma pasta contendo cartas. Entre elas encontrou o envelope, cujo selo abriu sem hesitar. Retirou um papel dobrado ao meio.
Queria verificar, antes de mais nada, o que significavam as poucas linhas escritas no papel e se devia ou não comunicá-las.
Ao lé-las, sobressaltou-se. Contudo, entregou o bilhete a Raul sem pronunciar palavra.
Era uma frase, ou antes, duas, formuladas como a ordem imperiosa de um déspota ou chefe de quadrilha dirigindo-se a um subalterno. A caligrafia era alta, pesada, empastada, homogénea. Como deixaria de reconhecer ao primeiro relance a letra daquela a quem chamara no passado criatura infernal? E como não reconhecer a maneira brutal e desdenhosa com que sempre proferia suas ordens mais monstruosas?
Raul leu e releu por trés vezes as linhas assustadoras:
"Transforme a criança num ladrão, num assassino, se possível. Mais tarde volte-o contra o pai."
E a assinatura altiva, cortada por uma dupla espada.
A palidez de Raul assustou a moça. Provinha de sofrimento inexprimível, de terrores ressuscitados, de toda a angústia de um passado que mesclava ao presente uma trágica ameaça. Com que curiosidade, e quase simpatia, naquele momento, observou a fisionomia
atormentada, o violento esforço para se controlar!
- Ódio... vingança... Vocé compreende isso, Faustine... Mas esta mulher não era apenas ódio e vingança... Era a necessidade, a volúpia do mal... Que monstro de orgulho e maldade! Ainda hoje perdura a sua obra... A criança que educaram para se opor a mim, para ser transformada num criminoso. Nada me assusta na vida, mas não posso pensar nela sem pavor. E a idéia de que será necessário recomeçar a horrível luta...
Faustine aproximou-se dele, hesitou e, em seguida, disse em voz surda:
- O passado não voltará... A condessa de Cagliostro morreu.
Raul voltou-se vivamente, com a respiração alterada.
- Que está dizendo? Morreu? Como soube?
- Ela morreu.
- Não basta afirmar. Vocé a viu? Conheceu-a?
- Sim.
- Conheceu-a! Será possível? Como é estranho! Por duas ou trés vezes eu me perguntei se não seria uma emissária dela... Se não continuava a obra destruidor a contra mim.
Ela meneou a cabeça.
- Não. Ela nunca me disse nada.
- Fale.
- Eu era uma criança. Há quinze anos levaramna à minha aldeia, na Córsega, e instalaram-na numa casa pequenina. Estava semilouca, mas de uma loucura mansa, tranqüila... Ela me chamava com gentileza. Já não conversava. Chorava muito, grandes lágrimas que não enxugava. Era ainda bonita. .. Mas
uma doença destruiu-a depressa... E um dia, há seis anos, velei junto ao seu leito de morte.
- Tem certeza? - insistiu, dominado pela emoção. - Quem disse o nome dela?
- Todo mundo sabia na aldeia. Além disso...
- Além disso?
- Eu o soube por intermédio do velho Barthélemy e por Simon Lorient, que a procuravam por toda parte e a encontraram na aldeia pouco antes de sua morte. Foi nessas poucas semanas que nos apaixonamos, Simon e eu. Ele me levou a Paris...
- Por que a procuravam? Após uma hesitação, ela explicou:
- Disse que nada sabia da vida secreta de Simon e do pai... Hoje compreendo que fizeram muita coisa errada, ocultando-me tudo. Pouco a pouco, interrogando com habilidade, adivinhei a história de Félicien. Não toda, pois nem eles próprios a conheciam, por inteiro.
- Barthélemy encontrou-o realmente numa fazenda do Poitou?
- Encontrou.
- Entregue pela condessa de Cagliostro?
- Não se sabe ao certo. Simon achava que talvez o pai tivesse forjado a carta encontrada pelo mecânico.
- Mas a ordem contida neste bilhete foi com certeza escrita pela Cagliostro. De onde vem?
- Simon não sabia.
- Mas a ordem referia-se à criança criada pela fazendeira, isto é, Félicien Charles?
- Há dúvidas a respeito. Barthéiemy não disse nada de preciso. Simon e ele haviam encontrado a pista da Cagliostro e foi assim que chegaram à Córsega, inutilmente, aliás.
- Com que finalidade? '
- O objetivo de Barthélemy foi sempre, hoje eu o percebo, apresentar a vocé o dossié provando que Félicien era seu filho.
- E, portanto, extorquir dinheiro. Mas Félicien era cúmplice no plano? Foi de combinação com eles, conforme pretende Thomas Lé Bouc, que veio à minha casa? Tornou-se o que a Cagliostro desejava, um patife, um criminoso?
- Não sei - disse ela, sincera. - Isso fazia parte da vida secreta de ambos e nunca falei com Félicien Charles.
- Então só ele pode me informar. E é a ele que devo interrogar para compreender toda a aventura.
Fez uma pausa e concluiu:
- Fui eu quem mandou prender Thomas Lé Bouc, com o consentimento dele, aliás. Vai confundir o inquérito e demolir as acusações acumuladas contra Félicien. Se, conforme espero, for libertado, ele não se arriscará a sofrer a sua vingança, Faustine?
- Não - respondeu, sem rodeios. - Não, se não foi ele o causador da morte de Simon. Para mim, isto se acha acima de tudo. Não me é possível viver sem a idéia de vingança. Parece-me que Simon não descansará em paz se o crime não for punido.
A entrevista estava encerrada. Raul estendeu a mão a Faustine, que se recusou a apertá-la.
- Está bem - disse ele. - Sei que não tenho nem a sua confiança, nem a sua amizade. Mas não sejamos inimigos, Faustine. Quanto a mim, agradeço por ter falado...
Raul, estabelecendo-se na Ensolarada, só saía de casa para breves passeios por Vésinet e imediações. Diversas vezes avistou Jérôme Helmas, que parecia ter desistido da viagem às montanhas e estava semtindo
pré a caminho da Clematites, ou de lá saindo. Viu-o mesmo em companhia de Rolande Gaverel. Os dois caminhavam lado a lado numa alameda, silenciosos.
Raul cumprimentou-os de longe. Tinha a impressão de que Rolande não queria conversar com ele.
Um dia foi chamado pelo juiz de instrução, a quem encontrou imerso em perplexidade, pois Thomas Lé Bouc restringia-se ao círculo de defesa muito estreito que Raul lhe designara. Não cometia um erro. Suas afirmativas não variavam e a habilidade do senhor Rousselain não conseguia pegá-lo em falta. "Fiz isto... fiz aquilo... Quanto ao mais, não sei."
- Tudo se resume às declarações tanto de Lé Bouc, como de Félicien Charles - disse o senhor Rousselain, confessando-se embaraçado. - Frases preparadas, sempre as mesmas, ou siléncios. Nem uma brecha por onde possa se infiltrar um pouco de luz. Até parecem lições decoradas. Sabe qual a minha impressão, senhor d'Averny? As coisas se encadeiam como se uma força superior tentasse substituir Thomas Lé Bouc por Félicien Charles.
O senhor Rousselain fixou Raul, que pensou: "Nada tolo, o homem!" O juiz prosseguiu:
- Não é estranho? Começo a crer que Félicien não é culpado. Mas ainda não aceito a idéia de que Lé Bouc, que se acusa, tenha feito o passeio noturno pelo lago. Chamei o proprietário do barco e confrontei-o com Félicien e Lé Bouc. Mostrou-se menos positivo. Que acha?
Não afastava os olhos de Raul, que meneou a cabeça, ar aprovador. Finalmente o juiz disse, mudando de assunto:
- É muito estimado em altos círculos, senhor d'Averny. Sabia?
- Ora! Tive oportunidade de prestar alguns serviços.
- Sim, foi o que me disseram... sem acrescentar detalhes, aliás.
- Um desses dias, quando tiver tempo, senhor juiz, eu lhe darei esses detalhes. À minha vida não falta um certo tom pitoresco.
Os acontecimentos pareciam encaminhar-se bem, sem dúvida. Alguns problemas foram esclarecidos. Assim, o papel de Faustine já não guardava mistérios. Um elo muito frágil prendera-a no passado à Cagliostro, e seu amor por Simon Lorient, levando-a à França, envolvera-a de longe e inadvertidamente nas maquinações do velho Barthélemy e de seu filho. Era uma simples apaixonada, sem outro objetivo senão vingar o homem a quem amara.
Por outro lado, a certeza da morte da condessa de Cagliostro alegrava Raul e nada lhe permitia crer que a ordem abominável por ela assinada se aplicasse a Félicien. O plano contra Raul, que teria éxito sob a direção da condessa, nas mãos de homens de segunda categoria como Barthélemy e seus filhos só poderia chegar a um resultado negativo e absurdo. De fato. Vendo-se de repente em face de um rapaz que talvez fosse seu filho - ou talvez não fosse - agora que o destino arrebatara Barthélemy e Simon Lorient, Raul d'Averny não dispunha de meio algum para descobrir uma verdade que, tudo indicava, ninguém neste mundo conhecia.
Passaram-se trés semanas. Certa manhã, Raul soube que Félicien fora solto por insuficiéncia de provas.
Às onze horas, por telefone, o rapaz pediu-lhe autorização para recolher seus pertences durante a tarde.
Após o almoço, passeando em volta do lago, Raul viu Rolande e Jérôme sentados num banco da ilha. Era um lindo dia de agosto. Soprava uma brisa do norte, que mal agitava os ramos das árvores.
Pela primeira vez Raul notou que os dois conversavam. Jérôme, principalmente, falava com animação. Rolande escutava, respondia com frases breves, tornava a escutar, olhos fixos nas flores que segurava.
Calaram-se. Daí a um minuto Jérôme, voltando-se para a moca, disse novamente qualquer coisa. Ela meneou a cabeça, fitou-o e sorriu de leve.
Raul voltou à Ensolarada sem se apressar, mas um tanto emocionado à idéia de reencontrar aquele desconhecido que de repente assumia tal lugar em sua vida e para quem nenhum impulso o impelia. Sua simpatia por Félicien nunca fora muito viva e reduzirase ao saber que o jovem poderia talvez invocar certos direitos à sua afeição.
De qualquer modo, não admitia que Félicien se limitasse a pegar suas coisas e apertar-lhe a mão. Queria antes uma explicação e o reinicio de uma vida em comum na qual pudesse estudá-lo à vontade. Não se tratava ainda de saber se Félicien era ou não seu filho, mas se gostaria de apresentar-se a ele como tal. Numa palavra, seria cúmplice de Barthélemy e Lorient? Teria participado do complô? Todas as provas concluíam pela afirmativa. A prova formal só seria dada pelos fatos e as palavras do rapaz.
- O senhor Félicien já chegou? - perguntou ao jardineiro.
- Há um quarto de hora, senhor.
- Está bem de saúde?
- Parecia muito agitado. Trancou-se imediatamente no pavilhão.
- Estranho - murmurou d'Averny.
Dirigiu-se ao pavilhão.
A porta estava trancada.
Inquieto, deu volta à casa, sacudiu a janela do quarto, não conseguiu abri-la, e se pôs à escuta.
Ouviu gemidos.
Quebrando uma das vidraças abriu o trinco. De um salto transpôs o peitoril e afastou as cortinas.
Félicien estava ajoelhado contra uma cadeira, cabeça baixa, um lenço manchado de sangue encostado ao pescoço. No chão, ao seu lado, um revólver.
- Ferido! - exclamou Raul.
O rapaz tentou responder, mas desmaiou.
Raul ajoelhou-se, auscultou o coração, examinou o ferimento, manuseou o revólver e pensou:
"Tentou matar-se, mas o braço tremeu. O ferimento não é grave."
Enquanto cuidava do ferimento observava o rosto pálido de Félicien. Uma avalanche de perguntas subiu-lhe aos lábios: "Será meu filho? e de Claire d'Estigues? Será ladrão e criminoso, cúmplice de dois bandidos mortos? E por que tentou suicidar-se, infeliz?"
Cinco minutos depois, os criados rodeavam o ferido.
- Nem uma palavra a respeito, ouviram? - ordenou Raul.
Escreveu um bilhete:
"Faustine,
Félicien tentou suicidar-se. Não diga a ninguém e venha cuidar dele. Não quero saber de médicos. Explique na clínica que alguém precisa de uma enfermeira particular.
D'Averny"
Lacrou o bilhete e mandou o chofer entregá-lo na clínica.
Quando o carro trouxe Faustine, Raul esperava à entrada do pavilhão.
- Vocés não se conhecem?
- Não.
- Simon Lorient não falava a seu respeito?
- Não.
- Félicien não foi à clínica nos dias em que Simon estava à morte?
- Sim, mas prestou tanta atenção a mim como a qualquer outra enfermeira.
- Está bem. Não revele quem é, ou quem eu sou. Faustine entrou no pavilhão.

SEGUNDA PARTE

Dos Dramas, o Primeiro

NOIVADO
ASSIM, em seis semanas a situação evoluíra pouco a pouco, transformando-se inteiramente. Como Raul d'Averny intuíra desde o início, dois dramas independentes se haviam unido, dois caminhos se tinham cruzado num ponto de interseção determinado pelo simples acaso. Um dia, Raul d'Averny, na pista de alguém que carregava maços de notas, desembarcara em Vésinet e adquirira uma propriedade com a intenção de cobrir essa despesa - bem como seu deslocamento para lá - com o roubo das cédulas. Essa série de atos levara ao mesmo local Barthélemy e seu filho que, ao prepararem a chantagem contra Raul, acabaram lucrando ao roubar o dinheiro escondido na Laranjal. Por outro lado, nesse mesmo dia - e aí surge o ponto de interseção, a encruzilhada dos caminhos - um drama absolutamente diverso, já em vias de execução, conduz Elisabeth Gaverel à vila Laranjal no momento em que Barthélemy concluía a sua tarefa. Daí em diante, todos os acontecimentos se entrelaçavam numa confusão de mistérios insondáveis, em meio aos quais a justiça se imobilizara dentro de um emaranhado sombrio.
"Hoje tudo se esclarece e simplifica, pelo menos para mim", pensava Raul d'Averny. "Os dois casos são nitidamente independentes um do outro. O segundo (caso da chantagem Barthélemy) é encerrado pela morte de Barthélemy e Simon, pela captura de Thomas Lé Bouc e pela confissão de Faustine. O primeiro (caso das irmãs Gaverel, que só me interessa de passagem) continua sem solução à vista. Resta Félicien, cuja ação indefinida parece ter-se estendido de um caso a outro."
E repetiu pensativo:
"Resta Félicien, o próprio objeto e condição essencial de uma chantagem, cujos organizadores desapareceram... Personagem escusa, inquietante, de aparéncia fria e indiferente, a quem as peripécias do caso Barthélemy sobrecarregaram de mistério. Só conseguirei desmascará-lo se solucionar o drama das duas irmãs. Qual o papel dele? Quem é? Ninguém tenta suicidar-se sem uma boa razão. Há, portanto, algo bastante poderoso a perturbá-lo e impeli-lo para a beira do abismo. Quem é ele? E o que quer de mim?"
Perscrutava-o com olhar agudo a cada visita que fazia ao pavilhão. E como ansiava falar-lhe! A febre cedera. Faustine retirara os curativos. Mas Félicien permanecia lasso, acabrunhado, como se a causa de sua terrível tentativa persistisse, fazendo-o sofrer.
Certa manhã, Faustine, que dormia no atelié, afastou-se com Raul.
- Alguém o visitou esta noite.
- Quem?
- Não sei. Ouvi um ruído e quis entrar no quarto. A porta estava trancada. Cochicharam por longo tempo, com intervalos de siléncio. Depois a pessoa saiu sem que eu conseguisse vé-la.
- Então, não tem indício algum?
- Nenhum.
- Que pena!
Fosse quem fosse, Raul constatou nos dias seguintes o resultado da entrevista noturna: Félicien transformara-se. O rosto assumira instantaneamente nova expressão. Sorria. Conversava com Faustine. Queria até retratá-la e pretendia voltar ao trabalho. Raul não hesitou. Trés dias após, sentou-se junto dele, no pavilhão onde o rapaz repousava, e começou:
- É um prazer vé-lo recuperado, Félicien, e espero que nossas relações voltem a ser como antes. Mas para isso precisamos conversar francamente. A decisão do senhor Rousselain colocou-o fora da questão relativamente aos fatos incluídos no inquérito por ele instaurado. Mas há outros que se referem mais especialmente a vocé e a mim.
E perguntou em tom brando, amigo:
- Por que não me contou, Félicien, que foi criado numa fazenda por uma mulher do Poitou?
O rapaz corou, murmurando:
- Não é fácil confessar que se é filho de pais desconhecidos. ..
- Mas antes dessa época?
- Não guardo nenhuma recordação anterior a essa época. Minha mãe adotiva, que foi minha verdadeira mãe, morreu sem nada me dizer. Limitou-se a me entregar uma soma de dinheiro que lhe fora confiada por uma senhora... que não era minha mãe, parece.
- Lembra-se de que nos últimos anos instalou-se um homem na fazenda?
- Sim, um amigo... Um parente, creio.
- Como se chamava?
- Não sei exatamente. Não me lembro, pelo menos.
- Chamava-se Barthélemy - afirmou Raul. Félicien sobressaltou-se.
- Barthélemy? O ladrão? O assassino?
- Sim, o pai de Simon Lorient. Esse homem não o perdeu de vista. Manteve-se a par do que vocé fazia em Paris e de todos os seus endereços. Finalmente foi ele quem o recomendou a mim por intermédio de um dos meus amigos.
Félicien parecia estupefato. Raul não desviava dele os olhos, atento aos menores gestos e reações, observando os mais ligeiros sinais de sinceridade ou dissimulação.
- Por qué? - perguntou o rapaz. - Com que finalidade?
- Não sei. É certo que Barthélemy manobrou para que fosse colocado junto a mim com determinada intenção, e que seu filho Simon veio até Vésinet para ajudá-lo na execução de certo projeto contra mim dirigido. Mas, com que intenção? Que projeto? Não consegui descobrir. Simon Lorient não aludiu ao assunto em conversa com vocé?
- Não... Nada sei dessa história.
- Neste caso, no que diz respeito a vocé, o objetivo foi sempre trabalhar nesta casa?
- Que outra coisa eu faria?
Raul sentiu-se satisfeito. Félicien dizia a verdade. Não era cúmplice da chantagem e se, por mais absurdo que fosse, estivesse a par de qualquer coisa, parecia nada exigir.
- Mais uma coisa, Félicien: Thomas Lé Bouc confessou que é o homem que foi visto no barco na noite do crime e do roubo. A confissão não o surpreendeu?
- Por que me surpreenderia, já que não fui eu? Estava dormindo a essa hora.
Mas, desta vez, a inflexão não era a mesma. O olhar tornara-se fugidio, perdera a franqueza. O rapaz corou.
"Está mentindo", pensou Raul. "E se mente neste ponto, pode mentir em tudo o mais."
Pôs-se a caminhar de um lado para outro, com passadas ruidosas. A duplicidade do rapaz tornava-se evidente. Era um falso, um impostor. Mais cedo ou mais tarde, invocaria seu direito de filho e o ameaçaria, como seus cúmplices. Incapaz de conter a cólera, Raul dirigiu-se à porta, mas Félicien interveio, ansioso:
- O senhor não acredita em mim. Não, não. .. eu o sinto. Sou ainda aquele que voltou à noite para procurar uma sacola de dinheiro roubada e que talvez tenha matado e ferido seu cúmplice, Simon Lorient. Nessas condições é melhor que eu me vá.
- Não - replicou Raul, áspero. - Exijo, pelo contrário, que permaneça aqui até que se estabeleça entre nós uma verdade irrefutável, neste ou naquele sentido.
- Essa verdade existe no sentido indicado pelo juiz de instrução.
Raul protestou, veemente:
- A decisão do senhor Rousselain nada significa. Foi provocada por falsas declarações de Thomas Lé Bouc, com quem conversei e a quem paguei para que as fizesse. Mas o seu papel em particular continua inexplicável desde o início. Não senti ainda, nem por um instante, um desses impulsos de franqueza ou revolta que iluminam até o fundo o temperamento de uma pessoa. Seus atos mais graves, mais violentos, estão envoltos em sombras. A tentativa de suicídio, por exemplo. Voltou aqui para se despedir de mim, não é? E para explicar-se. E eu o encontro quase agonizante, revólver em punho. Por qué?
Félicien não respondeu, o que exasperou d'Averny.
- Siléncio, sempre siléncio... Ou então duplicidade, evasivas, como diante do juiz de instrução.
Responda, diabo! O que nos separa é este muro de siléncio e reserva que ergueu entre nós. Derrube tudo isso, se quiser que eu confie em vocé! Caso contrário... desconfio, suponho, imagino, arriscando-me a me enganar e acusá-lo erroneamente. É o que deseja?
E segurando-o pelo braço:
- Na sua idade é por amor que se mata. Fiz uma investigação para descobrir como ocupou seu tempo no dia da tentativa de suicídio. Acompanhou de longe Rolande Gaverel e Jérôme Helmas, que saíam de casa e se dirigiam ao lago. Os dois sentaram-se num banco da ilha. Viu... o que eu vi, isto é, que entre os dois jovens existe uma intimidade que nada deixava prever. Interrogou meu jardineiro com ar de desinteresse e soube que os dois se encontravam diariamente. Uma hora depois disparou o revólver. É exato?
Félicien escutava, com a fisionomia crispada.
- Rolande Gaverel, não sei como, soube da sua tentativa. Aflita, veio visitá-lo à noite, há trés dias, suplicando-lhe que vivesse e afirmando que suas suspeitas eram infundadas. As explicações da moça convenceram-no. Depois d.essa noite anda feliz e está curado. Não é exato?
Desta vez o rapaz não pôde ou não quis fugir a perguntas tão insistentes. Mas hesitou, pelo menos quanto à maneira de responder. Finalmente, disse:
- Senhor, não revi Rolande Gaverel desde o dia do drama. A pessoa que me veio visitar há dias não foi ela. Minhas relações de amizade com Rolande não lhe permitiriam esse gesto. E menos ainda a decisão que tomou e me anunciou por carta que seu criado acaba de me entregar.
Félicien passou a carta a Raul, que leu com crescente surpresa:
"Félicien,
A infelicidade nos reuniu, a Jérôme Helmas e a mim. De tanto chorarmos juntos pela nossa querida Elisabeth, sentimos que não haveria consolo senão permanecermos fiéis, lado a lado, à sua querida memória. Tenho a nítida impressão de que é ela própria quem nos aproxima e pede que fundemos um lar no mesmo local onde ela foi tão feliz e sonhava ser mais ainda.
Não sei quando será o nosso casamento. Preciso dizer que tanta coisa me retém, que temo enganar-me e que até o último instante esse temor me fará hesitar? Mas como viverei de outro modo? Já não tenho forças para continuar sozinha em face de mim mesma.
A vocé que a conheceu, Félicien, peço que venha amanhã à Clematites dizer-me que ela teria aprovado.
Rolande
Lentamente, Raul releu a carta a meia-voz.
- Estranha aventura. - Riu. - Esta jovem tem um modo engraçado de se manter fiel à memória da irmã! Vá visitá-la, Félicien, e dé-lhe o seu apoio. O trabalho aqui não tem pressa, e vocé necessita de alguns dias de descanso.
Após refletir um instante, inclinou-se para o rapaz.
- Mas não consigo afastar uma idéia insistente: a de que existe um entendimento entre os noivos.
- É evidente que há um entendimento entre eles, já que estão comprometidos - replicou Félicien, surpreendido.
- Sim, mas esse entendimento não será mais antigo?
- Mais antigo? De que época?
Sílaba por sílaba, Raul pronunciou uma frase terrível:
- Da época em que Elisabeth Gaverel ainda era viva.
- E o que isto significa?
- Significa que é muito estranha a cilada criminosa armada para Elisabeth dois meses antes do casamento.
Com um gesto de indignação, Félicien exclamou:
- Sua hipótese é impossível! Conheço a ambos. Conheço o amor de Rolande pela irmã... Não, não se tem o direito de acusá-la de tal infâmia.
- Não acuso. Levanto uma questão que é impossível evitar.
- Por qué?
- Por causa desta carta, Félicien. Há nestas linhas tamanha inconsisténcia!
- Rolande é uma pessoa leal e virtuosa.
- Rolande é mulher... Mulher que está em vias de esquecer.
- Tenho certeza de que ela não esquece.
- Não, mas vai fundamentar seu lar em condições que não devem ser-lhe desagradáveis - gracejou Raul.
Erguendo-se, Félicien replicou gravemente:
- Não diga mais nada, por favor. Rolande está acima de qualquer suspeita.
Raul devolveu-lhe a carta e deu alguns passos pelo gramado. Tinha a impressão de que com perseverança conseguiria insinuar-se naquele temperamento sombrio e sigiloso, no qual percebia arrebatamento e revolta. Ia insistir, quando ouviu abrir-se o portão de entrada.
- Diabo! É o inspetor-chefe Goussot. Que virá nos comunicar esse pássaro agourento? -
O inspetor adiantou-se para o pequeno renque de
árvores onde se encontravam os dois e apertou a mão de Raul, que disse a rir:
Como? Não estamos livres do senhor, inspetor?
- Sim, claro - replicou Goussot, num tom de brincadeira que não lhe era habitual. - Mas quando a justiça envolve alguém, conserva sobre a pessoa um direito de...
- De vigilância.
- Não. De atenção cordial. É por isso que, prosseguindo no meu inquérito, vim saber notícias do nosso doente.
- Félicien Charles vai muito bem, não é, Félicien?
- Tanto melhor! Tanto melhor! Correu boato na região de que houve um disparo, tentativa de suicídio, etc. Chegamos até a receber uma carta anônima datilografada. Um monte de mentiras, nas quais não acreditei nem por um instante. Um inocente que vé declarada a sua inocéncia não tenta suicidar-se.
- É claro.
- A menos que não seja inocente - insinuou Goussot.
- É uma questão em que ninguém pensa no momento.
- Claro que sim.
- Ora, vamos!
- Sem dúvida. Tão logo soube que ao sair da prisão, desculpem os procedimentos policiais, o seu jovem amigo havia telefonado. ..
- Telefonou-me, realmente.
- E em seguida à senhorita Rolande Gaverel, para solicitar-lhe permissão de visitá-la durante o dia.
- E daí?
- A mencionada senhorita recusou-se a recebé-lo.
- E isso quer dizer...
- Que ela não o julga inocente... Caso contrário. ..
Raul zombou:
- Foi a única conclusão que tirou de sua maldosa investigação, senhor inspetor?
- Sim, palavra.
- Neste caso...
Raul indicou-lhe o caminho do portão. Goussot deu meia-volta, mas enfrentando novamente o adversário, falou:
- Já ia esquecendo: descobriram no depósito de bagagens de uma das ferrovias de Paris uma valise pertencente a Simon Lorient. E no bolso de um casaco encontrei este cartão de visitas. Verá atrás, a lápis, o plano do pavimento térreo de uma residéncia, com uma cruz em tinta vermelha. É o pavimento onde o pai de Simon Lorient, amigo de Félicien Charles, roubou o dinheiro do senhor Philippe Gaverel.
- E que nome traz o cartão?
- Félicien Charles.
O inspetor cumprimentou Raul e Félicien, e desenvolto, irônico, retirou-se, dizendo:
- Documento de segunda mão, que exibo apenas como lembrete. Mas talvez haja uma seqüéncia...
Apressando o passo, Raul reuniu-se a ele no portão.
- Um momento, inspetor!
- Que posso fazer pelo senhor?
- Nada. Sou eu quem posso fazer pelo senhor. Está vendo as duas pilastras deste portão?
- É claro!
- Eu o aconselho a jamais ultrapassar este limite.
- Meu cargo de policial...
- Só tem valor quando se conduz como policial cortés e bem-educado, à maneira dos seus colegas, e
não como beleguim amargo e rancoroso. A bom entendedor.. •
Raul voltou para junto de Félicien, que durante toda a cena não se movera, nem pronunciara palavra.
Vocé me afirmou que não tornou a ver Rolande.
. Ela se recusou a me receber.
. . E insiste em que não tentou suicidar-se por causa dela?
O rapaz não respondeu.
- Mais uma coisa: o cartão de visitas?
- Simon Lorient deve té-lo apanhado aqui, um dia, antes de voltar a Paris.
- E o plano da Laranjal?
- Ele próprio deve té-lo desenhado. Nada tenho a ver com isso.
- O caso demonstra que continua suspeito aos olhos da polícia. Não está preocupado?
- Não, senhor. Já tentaram tudo contra mim. Nada conseguiram. Uma vez que não sou culpado, não tenho o que temer.

II
VISITA MISTERIOSA
RAUL desistiu. Não conseguira nenhuma explicação de Félicien. Ameaças de perigo não venceriam uma despreocupação, talvez aparente, mas que tinha o valor de uma inflexível resisténcia. Palavras não lhe arrancariam o segredo.
Era preciso agir.
De início, os acontecimentos não se prestaram a isso. Faustine voltara ao trabalho na clínica. Félicien, que antes almoçava com ela no pavilhão, começou a fazer a refeição na Clematites, onde passava a tarde.
No quinto dia Raul, para investigar, dirigiu-se também à casa de Rolande.
A cozinheira abriu a porta, dizendo:
- Creio que a senhorita Rolande está no jardim. Se quiser poder passar pela sala de jantar.
O vestíbulo tinha duas portas. Raul entrou na sala, mas em lugar de descer ao jardim, lançou um olhar através das cortinas transparentes que cobriam as portas envidraçadas do estúdio. Uma cena inesperada surpreendeu-o.
À esquerda da peça, em plena luz, diante de Félicien sentado ao seu cavalete de pintura, Faustine posava, ombros descobertos, braços nus.
Raul sentiu irritação a que se mesclava - não se iludia a si próprio - o mau humor do ciúme.
Miserável! Que faz aqui? E que quer dela esse rapaz atrevido?
Ele a via de frente, mas os olhos da moça desviavam-se para a grande janela aberta para o gramado e o lago. Os ombros cobertos de luz eram cheios, harmoniosos, de alvura dourada. Mais uma vez emergiu a recordação que o perseguia e ele evocou a Afrodite do escultor.
Silencioso, entreabriu a porta, querendo ouvir o que diziam. Avistou então os noivos, Rolande e Jérôme Helmas, sentados no peitoril da janela, pernas para fora.
Conversavam em voz baixa. A intervalos, Félicien voltava para eles a cabeça. Raul sentiu profunda convicção de que todo o drama da Clematites e da Laranjal, o primeiro dos dois dramas, encontrava-se ali naquele estúdio, representado pelos quatro personagens presentes. Inútil procurar além outros atores. Tragédia amorosa, ódio, ambição, ciúme, tudo fervilhava naquele quadro restrito. Os quatro pareciam calmos e atentos às suas ocupações atuais. Mas o passado e o futuro, o crime e o castigo, a vida e a morte defrontavam-se como adversários desenfreados.
Que papel representava cada qual naquele conflito? Que papel Félicien, que sem dúvida amava Rolande, representaria entre os noivos?
De que modo Faustine, a enfermeira, ingressara naquele círculo? E por que razão Rolande, de classe tão diversa, a teria admitido? Questões insolúveis.
Entretanto, os noivos desapareceram no jardim e Raul entrou, silencioso. Quando Faustine voltou o olhar para o cavalete, avistou-o por sobre a tela e a cabeça de Félicien.
Confusa e corada, imediatamente cobriu-se com um xale.
- Não se levante, Félicien - disse Raul. - Vocé tem um belo modelo!
- Admirável e do qual sou totalmente indigno - confessou o rapaz.
- Não tem pretensões, neste caso?
- Nenhuma diante de tanta beleza. Raul soltou uma risada.
- E vocé, Faustine? Diverte-se mais posando nesse trajes do que cuidando dos doentes da clínica?
- Há poucos no momento e tenho as tardes livres.
- E as noites também. Aproveite-se disso, Faustine. Aproveite a juventude.
Reuniu-se aos noivos no jardim e felicitou-os pelo casamento próximo, observando Rolande. Achava-a menos radiosa que Faustine, de beleza menos teatral, porém mais comovente. E, como Faustine, ostentava aquele encanto sensual do rosto e das formas que perturba mais que a própria beleza. Jérôme contemplava-a com apaixonada admiração.
Como o rapaz precisasse ir a Paris, Rolande e Raul conduziram-no pela horta da Laranjal, por onde sairia. Passaram assim pelos sinistros degraus, cuja ruptura causara a queda e, em seguida, a morte de Elisabeth. Aparentemente os dois jovens não deram atenção ao local. Detiveram-se, despreocupados, ociosos, olhos na margem oposta do lago, onde um barco ondulava, conduzindo trés homens: Goussot e dois de seus agentes, um dos quais sondava o fundo do lago.
- A investigação prossegue - observou Jérôme. - Procuram a arma com a qual fomos atingidos, Simon Lorient e eu.
Rolande estremeceu, murmurando:
gerá que este pesadelo não termina?
Jérôme despediu-se e Rolande e Raul voltaram lentamente à Clematites. Em tom que sublinhava seu pensamento secreto, Raul disse à moça: Pretende residir aqui depois do casamento?
- Creio que sim... Faremos as reformas necessárias.
.- Mas, após uma viagem, sem dúvida... Uma longa viagem?
- Não há nada decidido...
Fez outras perguntas. Rolande, que respondia com frases curtas e vagas, interrompeu o interrogatório, dizendo:
- Alguém bateu à porta. Não espero visitas!
No momento em que chegaram ao patamar, ouviram uma discussão que logo se transformou em briga ruidosa. Edouard, o criado, dizia com voz exaltada:
- Não pode entrar! Enquanto eu for vivo não pisará nesta casa!
Rolande atravessou correndo a sala de jantar. Félicien e Faustine já se achavam no vestíbulo. À porta, o velho criado tentava impedir a entrada de um senhor idoso, que dizia em voz mansa:
- Acalme-se, por favor. Quero falar com a senhorita Rolande... Vá avisá-la da minha visita.
Rolande, que se detivera no limiar da porta, fixou o recém-chegado e disse:
- Creio que não tenho a honra, senhor...
Sem uma palavra, o visitante entregou o cartão. Olhando de relance para ele, a moça perturbou-se. Como se temesse uma recusa, ele insistiu:
- Quero falar-lhe, Rolande... É uma entrevista indispensável... Não pode recusar. É no seu interesse.
Tinha ombros recurvos, cabeça branca, traços finos e de palidez excessiva, indicando doença e esgotamento.
Rolande hesitou, mas em seguida ordenou ao criado:
- Deixe-nos, Edouard... Sim, deixe-nos. Eu quero. Edouard saiu furioso. Dirigindo-se ao visitante, Rolande falou:
- Lamento que meu noivo não esteja aqui. Eu o apresentaria.
- De fato, soube que está noiva, Rolande.
- Sim, de Jérôme Helmas.
- Eu sei. .. Ele se casaria com sua irmã, não é?
- Sim.
- Conheci a mãe dele. Era um garoto naquela época.
Mas Rolande não quis que a conversa prosseguisse diante de terceiros. Convidou:
- Vamos para o meu boudoir. Conversaremos mais à vontade.
E conduziu-o escada acima. Ele subiu devagar, com evidente esforço.
Bastou a Raul um olhar para persuadir-se de que Félicien e Faustine estavam tão intrigados quanto ele. Não compreendiam aquela visita. •
Aguardaram os trés em siléncio, cada qual ocupado à sua maneira.
Só duas horas depois o visitante desceu, apoiado em Rolande, que tinha os olhos vermelhos e a expressão alterada.
- Então, em que data será o casamento, Rolande? Como se tomasse uma súbita resolução, ela respondeu:
- Dentro de doze dias. O tempo de publicar os papéis.
Seja feliz, Rolande.
Beijou-a na testa. Rolande chorava. Desembaraçando-se suavemente, conduziu-o à porta. Posso acompanhá-lo?
- Não, a estação não fica longe. Prefiro ir sozinho. Até breve, Rolande. Ficaria tão feliz se a visse em minha casa! Vocé prometeu! Mas não demore!
Não se voltou. Rolande acompanhou-o com o olhar, fechou a porta e entrou pensativa no estúdio. Sem aguarda-la, Raul saiu pela sala de jantar da Clematites, com ã intenção de seguir o desconhecido e colher alguma informação. Mas logo avistou na rua o visitante apoiado ao braço de um chofer uniformizado. Próximo à estrada nacional achava-se estacionado um luxuoso automóvel. O motorista ajudou-o a entrar e o carro partiu. Raul constatou apenas que o veículo estava muito empoeirado, como se tivesse percorrido um longo trajeto.
Pelas sete horas, encontrou Faustine, que saía da clínica.
- Soube alguma coisa a respeito daquele senhor? Rolande nada disse?
- Não.
- Diabo! Ainda que tivessem comentado algo vocé não diria palavra! Não tem importância. Eu me arranjarei sozinho. Não é muito difícil. Acrescentarei uma parcela de verdade a tudo o que já descobri. Estamos fazendo progresso, Faustine.
E acrescentou em tom áspero, agressivo:
- A propósito: qual a sua jogada na Clematites? Parece amiga da casa. A que título? Que existe de comum entre os quatro? É para perturbar Félicien que exibe seus encantos? Cuidado, menina, senão eu faço desaparecer o rapaz e vocé ficará sozinha.
Sem se aborrecer, ela perguntou sorrindo:
- E consegui agradar-lhe?
- Não!
- No entanto, gosta de mim.
- E bastante! - respondeu, acalmando-se, e rindo por sua vez. - Deve ser por isso que perdi um pouco a cabeça.
À noite e no dia seguinte de manhã, Raul realizou uma pesquisa que o conduziu, em vinte minutos de carro, a um asilo de anciãos situado nas proximidades de Garches. A seu pedido chamaram ao parlatório o velho Stanislas, todo trémulo e recurvo, a quem expôs o objetivo de sua visita.
- O senhor nasceu na comunidade de Vésinet e ali viveu e trabalhou como criado por mais de quarenta anos, trinta dos quais com o mesmo patrão, que era o pai do senhor Philippe Gaverel, atual proprietário da Laranjal. Não estou enganado, estou? A municipalidade de Vésinet incluiu-o numa distribuição de ajuda e fui encarregado de entregar-lhe uma nota de cem francos.
Após cinco minutos de efusões e uma hora de conversa sobre Vésinet, seus habitantes, as pessoas que freqüentavam a Laranjal, as que ocupavam as residéncias vizinhas, Raul sabia exatamente o que queria.
Descobrira em particular que o pai de Elisabeth e Rolande, o senhor Alexandre Gaverel, irmão do tio Philippe, não vivia bem com a mulher. Era um conquistador que a fazia infeliz. Era também um ciumento que finalmente devia ter encontrado motivos para o ciúme diante da assiduidade das visitas de um parente da mulher.
Em suma, Stanislas contou que as brigas eram ouvidas do jardim da Laranjal.
E um dia, a senhorita Elisabeth acabava de completar trés anos, um dia o senhor Alexandre expulsou o primo de madame. Os dois chegaram a se bater no vestíbulo e Edouard, amigo meu, precisou ajudar o patrão. E como gritavam! Lá em casa dizia-se na cozinha que o verdadeiro pai da senhorita Elisabeth era o primo Georges Dugrival.
- E o casal Gaverel acabou por se entender?
.- Mais ou menos, embora tivessem outra filha, trés ou quatro anos depois, a senhorita Rolande. Mas ele voltou à vida antiga e acabou por morrer de uma hemorragia, após uma farra com amigos em Paris.
- E nunca mais se viu o primo?
- Nunca mais. Todos os anos, até morrer, a senhora Gaverel passava o verão com as filhas na praia, em Cabourg. E Cabourg fica a vinte quilômetros de Caen, onde reside agora o senhor George Dugrival, primo da senhora Alexandre. Lá em casa dizia-se na cozinha que ele foi visto muitas vezes na praia de Cabourg com a senhora Alexandre e sem as meninas, é claro. A cozinheira disse, uma vez: "Vocés verão que ele deixará toda a fortuna para a senhorita Elisabeth. Já está decidido. É uma combinação entre ele '-e a senhora Alexandre. Ah, ela terá um belo dote, a senhorita Elisabeth!"
Raul ficou muito satisfeito com a expedição. Quanto mais refletia, melhor compreendia a importância dos resultados. Um halo de luz formava-se em torno do conflito de família, no qual ele pressentia a origem de tantos atos tenebrosos. O drama começava a adquirir certo sentido.
À tarde e no dia seguinte visitou a vila Clematites, onde encontrou, apesar da acolhida cordial que lhe fizeram, a mesma impressão de isolamento que na primeira vez, a mesma atmosfera patética. Cada qual vivia em si, com seus pensamentos e seus objetivos particulares.
Em que pensavam? A intervalos, Rolande e Jérôme trocavam um olhar afetuoso. E a intervalos os olhos de Félicien desviavam-se de Faustine e do retrato que pintava para fixarem Rolande e Jérôme. No siléncio reinante, a moça perguntou ao noivo:
- Os papéis estão prontos, Jérôme?
- Sem dúvida.
- Os meus também. Hoje é dia 7, terça-feira. Vamos marcar o casamento para sábado, dia 18, está bem?
Jérôme tomou-lhe a mão e beijou-a com um arrebatamento que revelava todo o entusiasmo do seu amor. Ela sorriu e fechou os olhos.
Félicien pintava com aplicação.
Raul pensou consigo mesmo:
"18 de setembro é daqui a onze dias. É necessário que até lá tudo esteja solucionado e que as paixões façam explodir a verdade ainda tão longínqua e complexa."
Já não se falava na misteriosa visita recebida por Rolande. Que a teria causado? Por que Rolande, tão hostil de início, parecia tão suave e emocionada ao despedir-se? Jérôme Helmas estaria a par da história?
No sábado, 11 de setembro, Raul foi chamado por Rolande à Clematites, aonde o inspetor Goussot deveria chegar às trés horas para um importante comunicado. A moça desejava que o senhor d'Averny e Félicien Charles estivessem presentes.
Raul compareceu pontualmente ao encontro, assim como Félicien. Faustine não apareceu.
O comunicado do inspetor Goussot foi breve. Fingindo não notar a presença de Raul e Félicien, dirigiu-se unicamente a Rolande e Jérôme.
- Aqui estão as cartas anônimas que temos recebido. São todas datilografadas, mal datilografadas,
aliás, e colocadas no correio à noite, em Vésinet. Minha investigação em torno das pessoas que possuem máquina de escrever deve ter-se divulgado, pois esta manhã encontraram uma máquina de fabricação antiga sobre um monte de lixo a trés quilômetros daqui. Mas serviram-se dela pela última vez ontem à noite para enviar à Prefeitura esta carta, cuja leitura terão a bondade de ouvir:
"Ao longo da avenida onde Simon Lorient foi atacado no decurso da famosa noite estende-se uma propriedade particular, desabitada há meses. O muro baixo possui uma grade. Através da grade vé-se um lenço sob os arbustos. Seria bom verificar a origem do lenço."
- Segui o conselho - prosseguiu o inspetor. - O lenço, que aqui está, acha-se evidentemente sujo e molhado de chuva e orvalho. Mas é fácil distinguir a marca longa, angulosa e vermelha deixada por uma lâmina tinta de sangue. Só há uma inicial, como na maioria dos lenços comprados em loja: a letra F. Já que se encontra presente, senhor Félicien Charles, quer ter a bondade?
Félicien obedeceu, mostrando seu lenço. Goussot comparou-os.
- Este não tem inicial. Mas percebe-se que se trata do mesmo tecido fino. E tem rigorosamente as mesmas dimensões. Obrigado. Estas peças serão entregues à polícia e o laboratório verificará se as manchas escuras são manchas de sangue. Caso positivo, uma acusação das mais graves será feita contra quem abateu Simon Lorient e já havia agredido o senhor Helmas.
O inspetor nada mais acrescentou. Cumprimentando os noivos, saiu.
- Meu caro Félicien - disse Raul, levantando-se , os acontecimentos precipitam-se. A polícia já não
tem dúvidas a seu respeito. Dentro de alguns dias o senhor Rousselain será obrigado a chamá-lo ao seu gabinete e então...
Félicien não respondeu. Parecia pensar noutra coisa. Raul detestou-o.
À noite, após o jantar, quando passeava pelas sombras do jardim, Raul ouviu na avenida um assobio e divisou uma silhueta feminina, que caminhava à margem do grande lago, rumando para a esquerda, em direção oposta à vila Clematites.
Raul achou que o assobio era um sinal. De fato, Félicien não tardou a sair do pavilhão. Abrindo devagarinho o portão, dobrou também para a esquerda.
Tendo o cuidado de passar pelo portão da garagem, Raul saiu atrás.
Avistou no caminho que contornava o lago duas silhuetas que se afastavam. A noite ainda não baixara de todo. Reconheceu Faustine e Félicien que conversavam muito animados.
Acompanhou-os a distância.
Os dois atravessaram a ponte e sentaram-se no mesmo banco em que ele vira Rolande e Jérôme Helmas.
Como estavam de costas, ele pôde aproximar-se até uns vinte e cinco a trinta metros.
Percebeu então, com toda clareza, que Félicien, nos braços de Faustine, apoiava a cabeça no ombro da moça.

III
O SEQÜESTRO
BRUTAL reação instintiva teria impelido Raul a agredir os apaixonados, dando-lhe a satisfação imediata de atirar Félicien à água e estrangular Faustine. Se não o fez e chegou mesmo a imobilizar-se após dois ou trés passos na direção da ponte foi por motivos que só percebeu mais tarde.
Conservou-se, portanto, sereno. A hora não se prestava a acessos de raiva e agressões irrefletidas. Nunca sentira por Faustine mais do que desejo, sem mistura de amor. E no momento em que tudo anunciava tempestade próxima, a borrasca do desenlace, ele não obedeceria a uma crise de loucura e orgulho, que poria tudo a perder. Os fatos, que começavam a classificarse em sua mente, apesar da confusão, poderiam tornar a embaralhar-se caso ele interviesse de repente.
E a imagem da condessa de Cagliostro surgiu diante dele. Pai e filho um contra o outro, lutando pela mesma mulher! Que vitória para a morta! Com que execrável rigor se realizaria a vingança que ela confiara ao destino!
Raul voltou para casa. Fechou o portão e ajustou o dispositivo de que nunca se servia, mas que acionava uma campainha elétrica quando ele se abria.
Meia hora depois a campainha tocou. Félicien estava de volta. Raul adormeceu.
Passou toda a manhã seguinte a ruminar contra Félicien, a quem detestava cada vez mais. Naquele momento, apesar de todas as contradições e absurdos, inclinava-se a admitir como certa a cumplicidade de Rolande e Jérôme. Os projetos dos noivos deviam basearse naquela história vaga da herança Dugrival.
Raul fez um curto passeio e almoçou, decidido a ir a Caen, para investigar em torno de Georges Dugrival, talvez falar-lhe e, de qualquer modo, fazer-lhe uma interessante visita domiciliar na noite seguinte.
Mas quando se dispunha a entrar no carro, o telefone chamou-o à casa. Jérôme Helmas suplicava que viesse com urgéncia à Clematites, sem perda de um minuto. Parecia desesperado.
Dois minutos após, Raul chegava. Jérôme aguardava-o à porta com o criado. Com voz sufocada, balbuciou:
- Raptada!
- Quem?
- Rolande. Raptada por aquele miserável.
- Que miserável?
- Félicien Charles.
- Ora, vamos! - protestou Raul, que ainda via Félicien nos braços de Faustine. - Rolande teria consentido?
- Está louco? - protestou Jérôme, indignado. - Foi raptada à força! De carro! Vou explicar... Pensei imediatamente que só o senhor poderia...
Raul entrou no carro.
- Que estrada seguiram?
- Seguiram para os lados de Saint-Germain, não foi, Edouard? Vocé os viu?
- Sim, foram por Saint-Germain - afirmou o criado.
O carro de Raul já estava em movimento.
A trezentos metros dobraram à direita, enveredando pela estrada nacional, e atravessaram o Sena. A estrada 190 seguia na direção de Rouen, da Normandia... .
Jérôme murmurava, fora de si:
- Ela não percebeu nada... Eu também... Ele trouxe de Paris um carro, dizendo que queria comprálo. Aproveitou-se de que eu estava no jardim para convidá-la a dar uma volta... Ela entrou, mas quando ele punha o motor em marcha quis descer, sem dúvida, pois gritou, e Edouard ouviu. Eu também ouvi. Quando Edouard correu, o carro já ia longe.
- Que tipo de carro?
- Um conversível.
- Algum detalhe especial?
- Carroceria amarelo-clara.
- Há quanto tempo já partiu?
- Dez minutos no máximo.
- Nós os alcançaremos. Félicien dirige mal. Raul enveredou por Saint-Germain, mas de repente virou para Versalhes.
- Dez a doze quilômetros de reta. Vamos correr.
- Mas, por que mudou de estrada?
- Uma idéia. Félicien criou-se em Poitou. Já que não dispomos de nenhuma indicação precisa, temos que reduzir os riscos de erro e supor que se refugiaria numa região que ele conhece. A estrada nacional número
10 deve ser a escolha certa.
- E se estiver enganado?
- Pior para nós.
Atravessaram a toda velocidade a praça de armas de Versalhes e seguiram para Saint-Cyr e Trappes.
- Já deveríamos ter avistado o carro amarelo. Félicien provavelmente está dirigindo à velocidade máxima.
- Tem certeza?
- Absoluta. Estamos a cento e dez por hora. A esta velocidade é certo que os alcançaremos em Rambouillet.
Estava satisfeito com a vitória imediata. Que vingança contra o maldito Félicien. Nada o salvaria da derrota e do ridículo!
- Tem certeza? Tem certeza? - objetou Jérôme. - E se tiver escolhido a estrada errada?
-. Impossível!... Veja, não serão eles, lá adiante, entrando na floresta?
- Sim, são eles! - exclamou Jérôme. Subitamente exaltado, explodiu em injúrias: - Miserável! Eu bem sabia que ele a amava... Disse mais de vinte vezes a Rolande... Sempre gostou dela. .. Desde o início girava em torno de Rolande, mesmo no tempo da pobre Elisabeth... Foi ela quem notou. Ele a ama, tenho certeza... Cabotino! Esconde-se, fingindo dar atenção a Faustine, mas eu sentia que me odiava, tinha ciúme feroz. Quando ela anunciou o casamento, bem que disfarçou, mas tremia de cólera. Ele a ama... Ele a ama e seqüestrou-a. .. Ah, se escapar... Está vendo como corre? E Rolande não pode fugir dele! Que horror! Mais depressa! Não estamos ganhando terreno...
Lá no fundo, Raul sentia confusa satisfação. Percebia-a e a saboreava. Félicien às vezes demonstrava ousadia. Em meio à angústia, perseguido pela polícia, que fazia? Conquistava Faustine e seqüestrava Rolande! Em vez de se defender, ou proteger-se do perigo, permanecia em plena batalha e chegava a assumir a ofensiva, fossem quais fossem as conseqüéncias. Que audácia!
Em Rambouillet, a longa rua pavimentada e tortuosa forçou-o a diminuir a marcha, tanto mais que
dois caminhos se abriam diante dele, um conduzindo a Chartres e o outro a Tours.
Vamos escolher um ao acaso - propôs Raul.
Assustado, Jérôme descontrolou-se.
- Covarde! Eu bem disse a Rolande que devia desconfiar! Um sujeito dissimulado... hipócrita... sem contar o resto... Sim, sem contar o resto. Tenho minhas idéias acerca dessa história da Laranjal... Ah, se eu pudesse agarrá-lo!
Sacudiu os punhos. Raul pensou que sendo um rapaz alto, sólido, de constituição vigorosa, desportista, facilmente derrotaria Félicien, mais esguio e de constituição menos robusta. Mas nada impediria Raul de levar ao fim a perseguição, alcançar o fugitivo. Seu rancor exigia que ele fosse derrotado.
Súbito, após uma curva, o carro amarelo surgiu a trezentos ou quatrocentos metros. O automóvel de Raul pareceu dobrar de velocidade, como um cavalo de corrida na reta final. Nenhum obstáculo, nenhuma distância impediria a captura do seqüestrador.
E nem sequer a aproximação foi progressiva. O intervalo reduziu-se de repente. Súbito, o carro de Raul encontrou-se à frente do outro, obrigando-o a diminuir a marcha sob perigo de colisão e forçando-o a parar no espaço de cinqüenta metros, à beira da estrada.
À frente ou à retaguarda, ninguém.
- Venha! - gritou Jérôme Helmas, saltando do carro.
Félicien já saltava também. Rolande desceu em plena estrada, passo incerto.
Jérôme, que de início corria à luta, pôs-se a caminhar pesadamente, como um boxeador preparando-se para o ataque.
Félicien não se moveu.
A moça quis interpor-se entre os dois. Raul d'Averny impediu-a, segurando-a pelos ombros.
- Fique onde está.
Ela tentou desembaraçar-se.
- Não! Eles vão brigar.
- E daí?
- Eu não quero... Ele o matará...
- Descanse... Preciso saber.
- É abominável! Deixe-me. ..
-i - Não. Quero saber se ele é medroso.
Rolande debatia-se, mas Raul segurou-a, observando Félicien com intensidade.
Félicien não tinha medo. Estranho, parecia até sorrir. Um sorriso provocador, trocista, cheio de desprezo e segurança. Seria possível?
A dois metros dali, Jérôme Helmas deteve-se e resmungou duas vezes:
- Desapareça... Desapareça, senão... Félicien deu de ombros e o sorriso acentuou-se.
Nem sequer se pôs na defensiva.
Um passo, mais outro. Com todo o ímpeto de seu corpo vigoroso, Jérôme adiantou o punho para o rosto que se oferecia.
Félicien moveu a cabeça e afastou-se para evitar o choque.
Jérôme, projetado para a frente, voltou-se e vociferou:
- Não se mova, Rolande! O caso está decidido. E teve início uma luta de boxe acirrada, violenta.
Félicien, firme nas pernas, não recuou um passo. Após o primeiro impacto, Jérôme devia ter percebido que não conseguiria a decisão daquele modo e atirou-se contra o adversário, agarrou-lhe o corpo e estreitou-o com todas as forças, usando do seu peso para derrubá-lo.
Félicien resistiu um momento, dobrado para trás, rins quase a se romperem. Súbito, deixou-se cair, arrastando Jérôme.
Rolande continuava a debater-se e a gritar. Raul fechou-lhe a boca.
- Cale-se. .. Não há o que temer... Se um deles sacar de uma arma, estou aqui e me responsabilizo.
- É odioso - murmurou ela.
- Não. É preciso que esta briga se resolva... É preciso.
E resolveu-se rápido. Os dois. lutadores rolaram na estrada e no capim empoeirado. Félicien dava sinais de fraquejar. O desenlace estava próximo. Mas foi o oposto do que se poderia esperar. Félicien levantouse, sacudiu a poeira da roupa, enquanto Jérôme gemia e permanecia no chão, inerte.
- Ótimo! - Raul soltou uma risada. - Muito bem!
Adiantando-se para o vencido, inclinou-se e constatou que tinha apenas o braço dolorido.
- Dentro de dois minutos estará de pé. Mas aconselho que fique aí, já que estamos diante de tal selvagem!
Félicien afastava-se lentamente. Sua fisionomia não manifestava qualquer emoção, dor ou prazer. Ninguém acreditaria que acabava de derrotar o homem que era, aparentemente, um rival odiado. Passou junto de Rolande sem que ela o censurasse, ou sequer lhe dirigisse a palavra.
Livre dos braços de Raul, Rolande parecia ansiosa e indecisa, fixando os dois rapazes. Em seguida olhou em torno.
Um carro aproximava-se. Era um táxi desocupado, que voltava a Rambouillet. Ela fez sinal'ao chofer, entendeu-se com ele e entrou.
Jérôme, que se levantara, entrou também. O táxi partiu.
Félicien não parecia sequer ter registrado o incidente. Quando se dispunha a entrar no carro, Raul dirigiu-se a ele.
- Meus cumprimentos. Um belo golpe de jiu-jitsu, clássico aliás, mas tão bem executado... A torção do braço. Onde diabo aprendeu-a? E que domínio do boxe! Mais uma vez eu o cumprimento, já que o adversário tinha a vantagem de altura e volume.
Félicien esboçou um gesto de indiferença e abriu a porta do carro, mas Raul deteve-o.
- Vocé está sempre me surpreendendo, Félicien. Que estranho temperamento! Ama Rolande o suficiente para perder a cabeça e raptá-la e depois a entrega ao adversário sem lhe dar importância.
Félicien murmurou:
- Estão noivos.
- Justamente. Quando se está com a vantagem, luta-se até o fim.
Encarando Raul, o rapaz replicou, delicado, mas seco:
- Eu teria lutado até o fim e ganho a partida se o senhor não interviesse a favor de Jérôme. Também os considera noivos e, neste caso, não passo de um intruso, a quem se persegue como a um ladrão. Agora só resta deixar as coisas como estão, aconteça o que acontecer!
Palavras enigmáticas, como o eram todos os gestos dos trés jovens, a atitude de Rolande. Vendo Félicien afastar-se, Raul refletiu por longo tempo. Novos fatos encadeavam-se àqueles cujo significado secreto ele decifrara. Novas hipóteses avolumavam-se na sua mente. A verdade tornava-se mais consistente e mais
lógica. Nada de mais emocionante que dissipar dúvidas!
Em lugar de regressar a Paris, seguiu caminho, rumo a noroeste. Sentia-se alegre e não pôde deixar de rir e monologar à meia-voz:
Um desportista? Um atleta completo? Sob aquela aparéncia de arquiteto unicamente preocupado com o trabalho, ele possui músculos, nervos, coragem, audácia. É encantador o rapaz! Com algumas lições particulares de jiu-jitsu, boxe e certos truques eu faria dele um homem totalmente honesto. Meu velho Lupin, como filho não é tão mau quanto vocé julgava! Precisa investigar, meu velho Lupin.
Acelerou o carro. A rota se definia. Decididamente, os atos do jovem Félicien tornavam-se mais simpáticos.
Nonancourt... Evreux... Lisieux... Cerca das oito da noite, Raul parou diante de um grande hotel de Caen, mandou retirar do carro uma valise, que mantinha sempre arrumada, e jantou.
Naquela mesma noite iniciou a pesquisa em torno de George Dugrival, o velho amigo da senhora Gaverel e suposto pai de Elisabeth.
Era domingo, 12 de setembro. No sábado seguinte, Rolande se casaria com Jérôme Helmas.

IV
O ESCRÍNIO AZUL
GEORÔES Dugrival vivera sempre com muito conforto. Sua fortuna, baseada em vultosas participações em sociedades de mineração e usinas normandas, permitia-lhe dedicar-se à criação de cavalos. Possuía um haras e uma pequena cavalariça para corridas regionais.
Morava sozinho com os criados numa velha mansão do tipo que ainda se encontra na antiga e pitoresca cidade de Caen. A fachada, ornada com esculturas da Regéncia, tinha janelas elevadas abrindo-se para uma rua tranqüila e pouco freqüentada. Raul passou diante da casa diversas vezes naquela mesma noite. Trés das janelas mantiveram-se iluminadas até altas horas. Uma delas correspondia ao pavilhão dos porteiros; as outras duas, situadas no segundo andar, e veladas em parte por cortinas, deviam pertencer ao quarto de dormir.
A primeira idéia de Raul foi fazer uma visita a Georges Dugrival e expor-lhe a situação. Mas na manhã seguinte soube que o velho era vítima de uma doença hepática incurável, achava-se em plena crise e que ele, Raul, não tinha a mais leve chance de ser recebido. O quarto iluminado era o do proprietário da casa. Dois enfermeiros velavam-no dia e noite. O porteiro
146 não se deitava, sempre pronto a chamar o médico...
"Conclusão: visita domiciliar noturna", pensou
Raul.
Mas por onde entrar?
A mansão era ampla e os fundos davam para um pátio ajardinado, que separava a casa de uma rua paralela. O muro muito alto era interrompido apenas por um portão maciço. Teria seus cinco metros de altura e a rua era uma das mais freqüentadas da cidade'. A proeza parecia difícil, senão impraticável.
Perplexo, Raul voltou ao hotel. Ao passar do vestíbulo para a sala de jantar deteve-se bruscamente em face da cena mais extraordinária. Através dos vidros percebeu, almoçando no restaurante, Félicien Charles e Faustine, entretidos em conversa muito animada.
Com que tenebroso objetivo se encontrariam ali? Que tarefa pretendiam executar como cúmplices ligados entre si pelas circunstâncias e também, sem dúvida, já que ele os surpreendera, por relações de intimidade?
Esteve a ponto de sentar-se à mesa dos dois e pedir o almoço. Não o fez por saber com que tom áspero e riso mau lhes falaria. Além disso, por que viriam rondar Georges Dugrival?
Almoçou rapidamente no quarto, interrogando com habilidade o empregado daquele pavimento.
O casal chegara pelo trem noturno e pedira quartos separados. O hotel estava quase lotado. A senhora ficara no segundo andar e o senhor, no quarto andar.
Pela manhã, o senhor saíra sozinho. A senhora permanecera no hotel.
Raul desceu. Os dois continuavam a conversar, inclinados um para o outro, com ar de quem discute um
caso ou procura em conjunto a melhor decisão a tomar.
Antes que terminassem, Raul postou-se nas imediações do hotel, num jardim público.
Vinte minutos após, Félicien saiu. Vinha só.
Por entre as grades, Raul notou sua expressão decidida. Era evidente que sabia o que ia fazer e estava disposto a executar a tarefa ponto por ponto. Conhecia o objetivo e o meio mais seguro e rápido de alcançá-lo. Não tinha um minuto a perder.
Dirigiu-se à parte da cidade onde residia Georges Dugrival, mas em lugar de ir direto à casa, enveredou pela rua paralela, que passava pelo pátio ajardinado.
- Afinal, ele não vai escalar o muro em pleno dia, diante de todos os transeuntes e lojistas das vizinhanças! Não leva escada no bolso, que eu saiba. Por outro lado, arrombar uma fechadura não é coisa que se faça a estas horas. É tarefa complicada, que atrai atenção e em geral conduz a pessoa à delegacia.
Félicien parecia não se preocupar com esses problemas, inquietar-se com obstáculos, ou com a escolha entre diversas alternativas. Caminhava a passo vivo, mas não exagerado, que chamasse atenção. Acompanhou o muro alto e postou-se diante do portão, chave em punho.
"Bravo!" pensou Raul. "Sujeito cauteloso. Sabendo que o processo mais simples e banal para se abrir uma porta fechada é possuir a chave dessa porta, ele a possui. O proprietário entra em casa, simplesmente. Quem se importaria?"
De fato, o rapaz deu voltas à chave, girou duas vezes uma outra, que acionava o ferrolho interno, entrou e desapareceu.
Raul pensou que se Félicien se contentara - suposição provável - em cerrar a porta não seria difícil
reabri-la. Abrir uma fechadura que não esteja duplamente fechada é coisa para principiantes. Basta um gancho e uma ampla experiéncia. Ele possuía ambos. Empregou, portanto, o método usado por Félicien. Atravessou a rua, introduziu o gancho na fechadura, manobrou-o e...
"Um segundo proprietário entra em casa, simplesmente."
Metade da parte esquerda do pátio era ocupada por um acréscimo feito à casa, construção de um só pavimento, de modo que das janelas da mansão não se via quem entrava ou saía desse andar térreo.
Raul entrou silenciosamente. Deu com um pequeno vestíbulo, que se abria de um lado para o vestiário, onde se achavam pendurados alguns sobretudos, e em frente para uma peça isolada, que Dugrival reservara para si e que fora mobiliada como escritório. Continha arquivos e armários de livros. Havia tapetes por toda parte.
A um canto, um armário aberto, onde se ocultava um cofre-forte. De joelhos diante do cofre, Félicien.
Estava de tal modo absorto na tarefa que não percebeu a chegada cautelosa de Raul que, aliás, permaneceu na entrada, espiando pela porta entreaberta.
Diante do cofre, o rapaz agiu com a rapidez de costume. Girou os trés botões sem hesitar, como se conhecesse a combinação, e usou uma chave que cumpriu corretamente a tarefa de abrir o cofre.
O pesado batente de aço girou.
No interior, uma porção de dossiés, cujos títulos ele nem sequer leu. Era evidente que procurava outra coisa.
Afastou os de cima, depois os da prateleira intermediária, passando a mão por trás da papelada. Na
segunda tentativa, retirou um escrínio azul de grandes proporções, que devia ser o objeto procurado.
Sempre de joelhos, voltou-se um pouco para a janela, a fim de ver melhor, o que permitiu a Raul não perder um só de seus movimentos.
A tampa abriu-se. O escrínio azul continha meia dúzia de diamantes, que o rapaz examinou lentamente, um a um, colocando-os em seguida no bolso com os mesmos gestos fleugmáticos.
Foi a fleugma que surpreendeu Raul. Tinha provas de que o caso fora preparado de tal modo, os informes tão bem colhidos, as medidas tão corretamente tomadas, que Félicien podia agir com toda tranqüilidade. Nem sequer prestava atenção aos ruídos do pátio e da casa. Sabia que não seria interrompido.
"Transformar a criança num ladrão" - determinara a condessa de Cagliostro. Se era Félicien a criança em questão, a ordem fora executada. Félicien roubava. Félicien trapaceava. E com que habilidade! Sem o menor gesto inútil. Com sangue-frio. Método. Reflexão. Arsène Lupin não faria melhor.
Depois de esvaziar o escrínio, verificou se não tinha fundo falso. Examinou também a prateleira inferior para ver se continha apenas dossiés. Dispôs-se então a fechá-lo.
Raul, preferindo evitar o encontro, deslizou para o vestiário e escondeu-se entre os sobretudos pendurados. Nenhuma apreensão, aliás, afligia Félicien, que se afastou sem suspeitar que fora observado.
Atravessou o pátio, saiu e, de fora, cerrou a fechadura e o ferrolho.
Raul voltou então ao amplo gabinete. A segurança de Félicien fora tão profunda que deixara nele uma agradável sensação. Instalou-se confortavelmente numa poltrona, disposto a meditar à vontade.
"Transformar a criança num ladrão." A vontade da condessa de Cagliostro cumpria-se. Félicien roubava. Roubara sob as vistas do próprio pai. Que terrível vingança.
"Sim. terrível se ele for realmente meu filho", pensou Raul. "Mas posso admitir que meu filho seja um ladrão? Vejamos, Lupin: vocé é sincero consigo mesmo não é? Ninguém está escutando. Não há necessidad'e de fingir. Pois bem, se no fundo de sua consciéncia leal vocé acreditasse, mesmo por um segundo, que esse vulgar escroque era seu filho, não sofreria a pior das mortes? Sofreria, não é verdade? Ora, vocé não sofreu coisa alguma ao ver Félicien roubar. Portanto, ele não é seu filho. Claro como água. E desafio qualquer pessoa a provar-me o contrário. Decididamente, meu velho Félicien, sua maneira de agir decai mais uma vez. Roube, se isso o diverte. Eu não me importo."
E acrescentou em voz alça:
- Agora a questão pode ser encarada de outra maneira...
Mas Raul não se interrogou. Tinha mais o que fazer, além de raciocinar. Precisava remexer as gavetas da escrivaninha.
Forçou com habilidade as fechaduras, pensando, irônico, ao vasculhar as gavetas, que não sentia pelo ofício de larápio a mesma aversão vingativa que o sacudia quando o roubo era executado por outra pessoa.
O essencial, no caso, era vencer. E venceria. Uma descoberta de considerável importância o recompensou.
Numa prateleira, no fundo de uma gaveta secreta, encontrou duas dúzias de cartas sem assinatura, com caligrafia feminina. Certos detalhes revelavam a origem. Haviam sido escritas pela mãe de Elisabeth e
Rolande e provavam que, apesar das aparéncias, a senhora Gaverel continuava fiel ao marido por ocasião do rompimento entre os dois homens.
Só mais tarde se teria o direito de supor, graças a algumas alusões veladas, e ao tom mais carinhoso da correspondéncia, que ela havia cedido ao amor de Georges Dugrival. Assim, caso uma das duas irmãs fosse filha dele, só poderia ser Rolande. Mas isso ninguém soubera, ou tinha o direito de afirmar. Sem dúvida alguma Rolande ignorava o segredo do seu nascimento e devia continuar a ignorá-lo. Era essa uma das preocupações da mãe. Uma frase bem precisa dizia: "Que ela nunca venha a saber, suplico..."
Raul meditou longamente sobre a descoberta, tanto mais que era impossível sair por onde havia entrado. Precisava aguardar a noite.
Cerca das sete horas, subiu os quatro degraus que conduziam ao andar térreo da mansão. Um vasto salão estendia-se à sua frente, quase sombrio por causa das cortinas cerradas, capas sobre os móveis e o piano. Abria-se para o vestíbulo, de onde partia uma ampla escadaria e do qual se avistava, através de um óculo, o pavilhão dos porteiros.
Cerca das oito horas, confusão na casa. Dois homens desceram. Foram chamar o médico, que subiu tão logo chegou, depois de trocar algumas palavras com eles.
Os dois, modestamente vestidos, conversavam em voz baixa com o porteiro e, enquanto esperavam, sentaram-se nas cadeiras do vestíbulo, junto à porta entreaberta do salão, onde de novo puseram-se a cochichar. Raul captou algumas palavras. Eram primos de Georges Dugrival e falavam sobre a saúde do dono da casa e do desenlace que não poderia tardar mais que uma ou duas semanas. Aludiram também aos selos,
que seria necessário colocar no gabinete que dava para o pátio, por causa "da caixa de jóias guardada no cofre-forte, onde havia diamantes de grande valor".
O médico desceu. Para acompanhá-lo, os dois primos foram recolher os chapéus numa peça vizinha. Raul aproveitou para sair do salão como um familiar da casa. Estendeu a mão ao médico, a quem o porteiro, de seu pavilhão, abrira a porta, e saiu tranqüilamente.
Às dez da noite deixou a cidade de Caen. Surpreendido em viagem por violenta tempestade, pernoitou em Lisieux e só transpôs a ponte do Pecq, próximo à costa de Saint-Germain, quando a manhã já ia adiantada.
O chofer ali se encontrava, de sentinela.
- Que houve? Alguma novidade? - perguntou Raul.
O homem sentou-se rapidamente junto dele.
- Sim, patrão. Temia que viesse por outra estrada!
- Fale.
- O inspetor Goussot revistou a casa esta manhã.
- Minha casa? A Ensolarada? Que importa?
- Não a casa. O pavilhão.
- A casa de Félicien? Ele estava presente?
- Estava. Voltou ontem à noite. Vasculharam o pavilhão na presença dele.
- Que descobriram? '
- Não sei. !
- Levaram-no?
- Não. Mas a casa está cercada. Félicien foi proibido de sair. O pessoal precisa pedir autorização aos agentes. Prevendo a jogada, saí antes.
- Estou envolvido na questão?
- Está.
- Mandado?
- Não sei... Goussot trazia um documento da Prefeitura relativo ao senhor. Aguardam a sua volta.
- Diabo! Fez muito bem em vir me encontrar aqui. Não vale a pena atirar-me à ratoeira.
Murmurou:
- Que querem eles? Prender-me? Não, não... Não ousariam. Ainda assim, é possível que vasculhem a casa. E daí?
Após um siléncio determinou:
- Volte para casa. Não saio de Ranelagh até amanhã de manhã. Telefono à tarde.
- E Goussot e seus homens?
- Se não tiverem saído até então, é porque tudo está perdido. Vamos, siga. Ah, uma coisa... Faustine?
- Falaram a respeito dela. Iam passar pela clínica... muito breve, creio.
- Isso é grave. . . Vá.
O chofer partiu. Raul, para evitar a estrada nacional e Vésinet, deu a volta pela península de Croissysur-Seine e voltou a Chatou.
Dos Correios telefonou para a clínica.
- Senhorita Faustine, por favor.
- Quem deseja falar com ela?
Não teve outro remédio senão dar seu nome.
- É da parte do senhor d'Averny. Chamaram a moça.
- É vocé, Faustine? Sou eu, d'Averny... Vocé corre perigo... É exato. Precisa esconder-se. Pague a conta do hotel e venha encontrar-me nas imediações de Chatou, na estrada de Croissy. Não se apresse. Há tempo.
Ela não respondeu. Mas trinta minutos após surgia, valise na mão.
Sem uma palavra enveredaram por Bougival e Malmaison. Em Neuilly, ele perguntou:
Onde posso deixá-la?
Na Porta Maillot. Como endereço é vago - riu. Ainda desconfia de mim?
Ainda.
Tolice! Todos os nossos problemas são decorrentes da sua desconfiança. E por qué? Acredita que isso me impediu de almoçar ontem ao mesmo tempo que vocés, no hotel onde estavam hospedados em Caen, e de assistir ao roubo de Félicien na mansão Dugrival? E julga que me impedirá de vencé-la, Faustine, e de obter o que sempre desejei? Adeus, querida.
Raul refugiou-se num dos seus esconderijos de Paris, em Ranelagh, onde depois de almoçar dormiu toda a tarde e a noite inteira.
No dia seguinte dirigiu-se à Prefeitura e mandou entregar seu cartão ao senhor Rousselain, juiz de instrução.
Era quarta-feira, 15 de setembro.
Rolande e Jérôme se casariam no sábado seguinte.

CASAMENTO?
EMBORA alguns minutos tivessem transcorrido antes de o introduzirem no gabinete do juiz de instrução, Raul percebeu ainda vestígios da surpresa que sua visita causava ao senhor Rousselain. Seria possível que, de espontânea vontade, o senhor d'Averny se entregasse aos perigos que o ameaçavam? O juiz não conseguia refazer-se do espanto.
Raul estendeu-lhe a mão. Surpreendido, o senhor Rousselain apertou-a.
- É o que se chama forçar a mão - observou Raul, a rir.
E como o juiz sorrisse, gracejou:
- É a nota dominante da nossa aventura, aliás. Querem forçá-lo, mais uma vez, a agir contra Félicien Charles. Hoje querem, além disso, forçá-lo a agir contra mim.
- Contra o senhor? - repetiu o juiz.
- Ouvi dizer que o senhor Goussot leva no bolso um mandado relativo a mim.
- Uma intimação, no máximo.
- Ainda assim é excessivo, senhor juiz de instrução. Comigo basta telefonar: "Caro senhor, preciso de alguns esclarecimentos." E eu venho correndo. Portanto, aqui estou. Que posso fazer para ajudá-lo?
O senhor Rousselain recuperou o equilíbrio, divertido com aquele diabo de sujeito que em poucas palavras restabelecia a sua situação de colaborador. Resultado: despachou o escrivão, pedindo-lhe que passasse pela polícia judiciária com ordens para enviarem imediatamente a pessoa que ele mandara chamar. Em seguida replicou, alegre:
- Em que me pode servir? Dizendo o que sabe.
- Direi uma parte hoje e o restante no sábado, ou no domingo. Até lá deixe-me trabalhar à vontade.
- Há dois meses vem trabalhando à vontade, senhor d'Averny, manipulando os acontecimentos, mandando prender Félicien e substituindo-o em seguida por Lé Bouc. . . Isso não basta?
- Não. Conceda-me mais trés dias.
- Veremos. Primeiro vamos conversar a respeito de Félicien Charles. Ontem de manhã o inspetor Goussot, a quem encarreguei de convocá-lo, não o encontrou na Ensolarada e achou que podia aproveitar-se da sua auséncia para submeter a casa de Félicien Charles a nova revista. Encontrou num esconderijo habilmente improvisado dois objetos: uma faca e a lâmina de uma serra. Conseguimos estabelecer que a faca. . .
- Perdoe se o interrompo, senhor juiz, mas não estou aqui para defender Félicien Charles.
- Para defender quem, neste caso?
:- A mim mesmo. Sim, a minha pessoa, a quem parece censurar. São censuras que constituem, no fundo, uma verdadeira acusação e que eu gostaria de conhecer melhor. Estarei enganado?
O senhor Rousselain divertia-se.
- Sempre fantasioso, senhor d'Averny. Já não sou eu quem orienta a nossa conversa. É o senhor. . . Enfim, sobre que devo informá-lo?
- Acerca do que tem contra mim.
- Está bem - concordou o senhor Rousselain. - Todas as peripécias desta aventura, todas as ocorréncias do meu -inquérito, todas as declarações e reticéncias de Thomas Lé Bouc dão-me a impressão - a palavra não é justa -, deixam-me convicto de que, em medida que é impossível precisar, está diretamente envolvido no caso. E, por minha vez, permita-me fazer uma pergunta: será que me engano?
- E eu respondo com a mesma franqueza: não, não se engana. Mas é a seu favor que eu trabalho.
- Combatendo-me?
- Por exemplo?
- Foi o senhor quem nos levou a prender Thomas Lé Bouc e ditou as respostas dele, não foi?
- Confesso que sim.
- Por qué?
- Queria libertar Félicien.
- Com que objetivo?
- Para conhecer seu papel no caso, o que a justiça foi incapaz de estabelecer.
- Conhece esse papel?
- Eu o descobrirei no sábado ou domingo, sob condição de me permitir agir com liberdade.
- Não posso permitir se estiver agindo em sentido contrário às minhas decisões.
- Tem outro exemplo a dar?
- O dia de ontem.
- Como?
- Temos todos os motivos para crer que a senhorita Faustine, colocada pelo senhor como enfermeira na clínica, e que cuidou de Simon Lorient, era amante desse mesmo Lorient. Exato?
- Exato.
Durante o dia, Goussot foi à clínica para interrogá-la. Ela havia desaparecido. Ao meio-dia e trinta entrou num carro. O seu, com certeza?
O meu.
Nesse momento bateram à porta do gabinete do senhor Rousselain.
_- Entre.
Um homem alto e forte entrou.
. Mandou me chamar, senhor juiz de instrução?
. Mandei. Quero uma informação. Mas, antes,
permita que o apresente: Mauléon, comissário da polícia judiciária. Conhece o comissário, senhor d'Averny?
- De nome, certamente. O comissário Mauléon foi inimigo ferrenho do famoso Arsène Lupin no caso dos Bônus da Defesa.1
- E o senhor Mauléon conhece o senhor d'Averny? - perguntou Rousselain.
Mauléon calou-se, confuso, olhos fixos em Raul. Finalmente, com um sobressalto, balbuciou:
- Sim. . . sim. . . Ora, vejam só! É. . .
O juiz de instrução interrompeu-o e, tomando-o pelo braço, afastou-se com ele. Tiveram um ou dois minutos de conversa animada. Em seguida, o senhor Rousselain abriu a porta, dizendo:
- Fique aí no corredor, Mauléon. E chame alguns companheiros para lhe fazerem companhia. E siléncio! Nem uma palavra, ouviu?
Voltando ao gabinete, pôs-se a caminhar rápido, ventre estremecendo sobre as pernas curtas, a fisionomia, em geral despreocupada, toda contraída.
Raul observava-o, ruminando:
"Pronto! Fui identificado. No fundo, apesar de despreocupado com publicidade, ele bem que gostaria de
da Brigada de Costumes.
pegar Lupin. .. Que glória! Mas ousaria assumir o gesto? Aí é que está. Se quiser agir, colocar a assinatura sob um mandado, ninguém neste mundo poderá impedi-lo... Ninguém!"
O senhor Rousselain tornou a sentar-se bruscamente, bateu na mesa com a faca de cortar papéis e, com voz rouca e trémula de emoção, perguntou:
- Em troca, que propõe?
- Em troca de qué?
- Nada de rodeios, por favor. Sabe muito bem do que se trata.
Raul sabia muito bem, de fato, o que significava aquela troca e em que consistia a barganha. E, quando o senhor Rousselain repetiu a pergunta, respondeu sem rodeios:
- O que proponho? O nome da pessoa ou pessoas que serraram as pilastras que sustentavam os degraus, provocando a morte de Elisabeth Gaverel. E o nome de quem agrediu, isto é, matou Simon Lorient.
- Aqui estão pena e papel. Escreva os nomes.
- Dentro de trés dias.
- Por que o prazo?
- Porque então ocorrerá algo que me permitirá fixar-me num sentido ou no outro.
- Então, hesita entre dois culpados?
- Sim.
- Quais? Não lhe dou o direito de se calar. Quais?
- O culpado é Félicien Charles, ou...
- Ou?
- Ou o casal Jérôme e Rolande.
- Ah! - suspirou o senhor Rousselain, sem fôlego. - Que disse? E a que acontecimento se refere?
- Ao casamento que será celebrado no sábado de manhã.
- Mas o casamento não tem qualquer relação...
Tem. Creio que o casamento não se realizará se Félicien for o culpado.
Por qué?
Porque ele ama Rolande como um louco. Não
consentirá jamais que a mulher por quem teria cometido dois crimes, e a quem já seqüestrou, pertença a outro. • • Um homem a quem já agrediu. . . Lembrase da noite do drama? Além disso, não é só o amor.
. Que mais?
Dinheiro. Rolande herdará em futuro próximo
uma grande fortuna deixada por um primo. Na realidade, o pai dela. E ele o sabe.
- E se consentir no casamento?
- Neste caso, eu me enganei a respeito dele. E os culpados são os que se beneficiam com os crimes: Rolande e Jérôme.
- E Faustine? Qual o papel de Faustine?
- Não sei - confessou Raul. - Mas sei que Faustine só vive para vingar o amante, Simon Lorient. Ora, se ela anda em torno do trio Félicien, Rolande e Jérôme é porque seu instinto de mulher a impeliu para eles... Félicien, Rolande, Jérôme. . . Não é preciso ir além! Não digo que a história esteja esclarecida! Não, há coisas inexplicáveis que só se desvendarão com o desenrolar dos acontecimentos. De qualquer modo, somente eu posso solucionar o caso. Se houver envolvimento da justiça, tudo estará perdido.
- Por qué? A pista que nos indicou. . .
- A pista não conduz a nada de certo. A verdade está na minha mente, onde se acham reunidos todos os elementos do problema. Sem mim, o senhor continuará a tatear, como vem fazendo há dois meses.
senhor Rousselain hesitou. Aproximando-se, Raul falou em tom amigável:
- Não reflita demais, senhor juiz de instrução. Há certas decisões cujas conseqüéncias é preciso conhecer antecipadamente.
O senhor Rousselain resistiu.
- Um juiz de instrução é senhor absoluto de suas decisões, senhor d'Averny.
- Sim, mas acontece que antes de tomá-las deve prevenir a quem de interesse.
- Prevenir a quem?
Raul não respondeu. O senhor Rousselain parecia muito agitado. Recomeçara a caminhar de um lado para outro. Era evidente que não ousava comprometer-se sozinho no caminho que a consciéncia lhe apontava.
Finalmente dirigiu-se à porta e abriu-a. Raul avistou o comissário Mauléon conversando com meia dúzia de companheiros.
O senhor Rousselain tranqüilizou-se. A vigilância estava bem feita. Saiu.
Raul d'Averny ficou sozinho.
Daí a instantes entreabriu a porta. Mauléon adiantou-se vivamente. Raul fez um aceno amigável ao comissário e fechou-lhe a porta no nariz.
Passaram-se dez minutos. Não mais. O conselho dos superiores, ou antes, do superior situado em altos círculos, a quem o senhor Rousselain acabava de consultar, devia ter sido peremptório, pois ele voltou ao gabinete com expressão contraída que não lhe era habitual. E começou:
- Conclusão...
- Conclusão: nada a fazer até sábado - disse Raul, a rir.
- Entretanto, Félicien Charles é mais que suspeito.
- Eu me encarrego dele. Se tentar fugir, será entregue de mãos e pés atados. Se não receber um telefonema
de minha parte antes das onze da manhã de sábado é porque o casamento se realizou. Neste caso...
Neste caso...
Venha fazer-me uma visitinha cerca das nove e
meia, na Ensolarada. Será domingo, dia de descanso. Conversaremos. E se quiser almoçar comigo. ..
O senhor Rousselain deu de ombros, murmurando:
- Levarei Goussot e seus homens.
- Como quiser. Mas será inútil - observou d'Averny, rindo. - Eu jamais entrego a mercadoria caso não esteja bem empacotada e amarrada. Ah, ia esquecendo. Tenha a bondade de escrever um bilhete a Goussot para que ele suspenda momentaneamente toda a operação em Vésinet. É preciso que o ambiente esteja bem tranqüilo neste fim de semana.
Dominado, o senhor Rousselain tomou uma folha de papel.
- Não é preciso - disse Raul. - Já escrevi a carta. Basta assiná-la... Sim, é este papel.
Desta vez o mau humor do senhor Rousselain dissipouse de todo. Riu à vontade. Mas em lugar de assinar a carta preferiu telefonar a Goussot. Em seguida acompanhou até o fim do corredor Raul d'Averny, que passou por Mauléon e pelo grupo de policiais com um movimento harmonioso do torso e amáveis inclinações de cabeça.
Quinta e sexta-feiras, Raul e Félicien não ultrapassaram o recinto delimitado pelo muro gradeado da Ensolarada. Era como se tudo o que se passasse fora dali não tivesse para eles qualquer interesse e a vida alheia pudesse seguir seu curso sem que fossem obrigados a dela participar, ou sequer tomar conhecimento.
Encontraram-se com freqüéncia, mas unicamente en função das obras e decoração da casa. Nenhuma alusão aos incidentes da véspera ou do dia seguinte.
Busca, novas acusações, cerco ameaçador da polícia, súbita libertação, casamento de Rolande e Jérôme, nada disso tinha importância.
Na verdade, Raul não pensava em nada disso. Os fatos em sua brutalidade, ou no seu mistério, haviam perdido para ele todo significado. Em sua mente o problema situava-se apenas do ponto de vista psicológico, e se ele tentava resolvé-lo inteiramente era porque o caráter dos trés atores do drama permaneciam em parte desconhecidos para ele.
Há dois meses vinha assistindo a quase toda a vida de Félicien e parecia-lhe impossível adivinhar seus atos ocultos, uma vez que ignorava os pensamentos e impulsos profundos do rapaz. E que sabia da verdadeira alma de Rolande e Jérôme, personagens distantes, perdidos em brumas como fantasmas?
Raul falara ao senhor Rousselain com a certeza que sempre aparentava nos momentos de indecisão e o juiz sentira o peso daquela segurança como o sentiam todos a quem ele dobrava sob a sua autoridade. Mas no fundo só podia afirmar uma coisa, graças a uma argumentação lógica mesclada a boa dose de intuição: o casamento de Jérôme e Rolande era em si um desenlace ao qual Félicien e os noivos dariam uma nota explicativa.
Até o último instante, porém, Félicien aparentava indiferença. A tentativa de seqüestro fechara-lhe, naturalmente, a porta da Clematites, não lhe permitindo ir à Prefeitura ou à igreja. Mas no sábado de manhã nem um músculo de seu rosto se contraiu quando chegou a hora da assinatura no cartório. Emoção alguma abalou-o ao soarem os sinos da igreja. No entanto, o caso estava encerrado. Rolande, perdida para ele. Levava o nome de outro. Em seu dedo brilhava a aliança nupcial.
Seria dissimulação? Domínio absoluto dos nervos? Rejeição de todo o seu amor? Raul, que o vigiava com atenção apaixonada, não captou um só indício. O rapaz prosseguia nas suas ocupações, trabalhava nos planos de decoração com a mesma serenidade, como se nada de grave perturbasse a sua existéncia.
Toda a tarde transcorreu assim, na paz de um belo dia de setembro, em que as primeiras folhas mortas destacaram-se e tombaram em siléncio.
E durante todo o dia e à tardinha, Raul entregouse a um monólogo interior.
"Então, vocé não está sofrendo? Não pensa no que acontecerá daqui a pouco? A mulher a quem ama vai pertencer a outro e vocé não protesta? Então, por que a seqüestrou?"
Assim que a noite caiu - noite escura, quente, pesada de mistério - Raul saiu furtivamente da Ensolarada pelo portão da garagem, deu volta à propriedade e postou-se na escuridão, próximo à entrada. Idéias confusas invadiram-lhe a mente. Imaginava Félicien em Caen, na mansão de Georges Dugrival, ajoelhado diante do cofre e embolsando as jóias do escrínio azul. Evocava o duelo do rapaz com Jérôme Helmas diante de Rolande, que balbuciava: "Vai matá-lo". E recordava a conduta enigmática de Faustine. Que fim teria levado? Afinal, faltava ao drama um dos quatro personagens. Faustine seria capaz de renunciar ao papel que representava nas sombras?
Em algum canto, um relógio bateu dez horas. Raul sabia pelos criados que o tio de Rolande, Philippe Gaverel, viera do sul para o casamento, em companhia do filho e da nora. E Félicien devia saber também. O jantar de família estaria terminado. Ninguém permaneceria na Clematites, exceto os recém-casados. Félicien se resignaria? Não interviria, abatendo o inimigo, liquidando o senhor de Rolande?
Quinze minutos, meia hora. . .
Raul, escondido atrás de uma árvore da avenida, ouviu estalar o cascalho da alameda. Passos adiantavam-se cautelosos. O portão foi lentamente aberto e fechado sem ruído.
Alguém adiantou-se. Era a silhueta de Félicien Charles.
Mal ultrapassou as árvores, Raul colocou-se de modo que ele não pudesse vé-lo, saltou sobre ele, agarrou-o e abateu-o.
A luta não foi longa. Atacado inesperadamente, Félicien não opôs resisténcia. Um capuz cobriu-lhe a cabeça. Cordas ligaram-no solidamente.
Tomando-o nos braços, Raul levou-o até a Ensolarada, atou-o a uma coluna do vestíbulo, envolveu-o numa cortina para maior segurança e deixou-o inerte, incapaz de um gesto.
Saiu, livre para agir.. .
- Dos quatro, o primeiro! - murmurou.

VI ÓDIO
QUANDO previa ser necessário fazer uma visita noturna a uma casa, Raul preparava a expedição com ampla antecedéncia. Assim, possuía uma chave do portão da horta que ladeava a direita do jardim da vila Laranjal. Anotara também a localização dos ganchos que sustentavam uma espaldeira colada à fachada lateral da Clematites.
Entrou na horta, contornou o lago diante da Laranjal, notando que todas as luzes estavam apagadas, e chegou à Clematites. A sala de jantar e os cômodos superiores estavam às escuras. O estúdio achava-se profusamente iluminado, mas deserto. Rolande e o marido deviam estar nos aposentos de cima, iluminados, e que eram o boudoir da moça, o quarto, o vestíbulo, e uma ampla peça mobiliada - Raul o sabia - para a câmara nupcial e que ficava contígua ao antigo apartamento de Elisabeth.
Tateou, encontrou os ganchos de ferro das calhas da fachada lateral e subiu sem grande dificuldade até a peça do ângulo da casa, isto é, o banheiro. As venezianas do boudoir estavam encostadas, mas não fechadas, a janela entreaberta. Raul avistou Rolande sentada numa poltrona, de costas para a janela. Despira o vestido de noiva e envolvera-se num penhoar. Um lenço de musselina cobria-lhe os ombros.
Jérôme, muito elegante em traje caseiro, caminhava de um lado para outro. Os dois estavam silenciosos.
"Pronto", pensou Raul. "O pano ergueu-se."
No decurso de sua vida movimentada, raro aguardara com tal intensidade, que era quase dolorosa, as primeiras cenas, as primeiras palavras que revelariam desde o início a atmosfera em que evoluía o casal, seu estado de espírito, as relações de afeto, o próprio segredo de sua existéncia. O que não conseguira estabelecer com exatidão estava a ponto de surpreender.
Após longo siléncio, Jérôme imobilizou-se diante de Rolande.
- Como se sente?
- Melhor.
- Então, Rolande?
- Que quer dizer?
- Por que não veio ao meu encontro há instantes... em nosso quarto?
- Tenha paciéncia - murmurou ela. - Preciso recuperar-me completamente.
Uma pausa. Ele sentou-se, cotovelos apoiados nos joelhos, olhos fixos nela.
- Estranho! Estamos casados e eu ainda não compreendo bem...
- Que é que vocé não compreende?
- Nosso casamento.. . Tudo aconteceu num clima tão extraordinário! Passei da amizade ao amor sem o perceber... E quando o confessei a vocé estava tão convicto da sua recusa que tremi... Amo-a tanto que me parece que não a amava quando lhe ofereci meu amor.
E acrescentou mais baixo:
- Não é uma declaração que lhe faço... Digo tudo isso porque me sinto obrigado e com certa angústia que não consigo explicar.
Aguardou uma resposta que não veio. Fazia menção de prosseguir, quando se voltou, alerta.
- Parece-me que ouvi ruído no seu quarto.
- Como?
- Um ruído...
- Impossível. Os criados dormem na outra ala e no sótão.
- Sim. . . sim. . . escute.
Levantou-se, mas ela o precedeu, espreitou pela fresta da porta, trancou-a e tirou a chave, exclamando:
- Ninguém. Aliás, quem estaria aqui? Ele pensou um instante.
- Vocé nunca permitiu que eu entrasse no seu quarto.
- Não. É o meu quarto de solteira.
- E daí?
Ela tornara a sentar-se com lassidão. Ajoelhandose junto dela, Jérôme fitou-a por longo tempo e depois suavemente, com gestos quase imperceptíveis, tomou-lhe a mão e inclinou a cabeça pouco a pouco sobre o braço nu. Mas no instante em que seus lábios tentaram tocá-lo, Rolande ergueu-se bruscamente.
- Não, não! Proíbo!
Encararam-se, olhos nos olhos, Jérôme procurando ler o fundo daquela alma que se furtava a ele. Mas conteve-se e com a mesma voz suave e terna falou:
- Não se irrite, minha querida Rolande. Vocé ainda não se refez da emoção desta manhã. Daquele incidente. . . No entanto, havíamos combinado, e eu tinha comunicado a vocé o desejo de minha mãe, lembra-se? Mamãe não era rica. Deixou-me apenas o anel de noivado, que jamais quis vender. E dizia sempre: "Quando vocé casar, faça com sua mulher o que seu pai fez comigo. Dé-lhe este anel ao voltar da igreja. Coloque-o sobre a aliança. .." Vocé sabia. Nós havíamos
combinado. No entanto, vocé desmaiou quando eu lhe dei o anel.
- Simples coincidéncia - balbuciou. - A emoção, o cansaço. . .
- Mas vocé o aceitou de boa vontade?
Ela estendeu a mão. O anular ostentava a aliança e um bonito diamante montado em ouro.
- O anel e a aliança - disse ele, sorrindo. - A aliança que eu escolhi e o anel que minha mãe escolheu e eu dei a vocé. .. Neste caso, Rolande, esta mão me pertence. .. Vocé a colocou na minha, que eu pedi. ..
- Não.
- Como não? Vocé não colocou sua mão na minha?
- Não. Vocé disse: "Posso esperar que um dia vocé queira casar comigo?"
- E vocé respondeu: "Sim".
- Respondi sim, mas não coloquei minha mão na sua.
Estavam de pé, um diante do outro. Jérôme murmurou:
- Que significa isto? Vocé às vezes parecia uma estranha. . . E esta noite. . . Esta noite está ainda mais distante de mim, será possível?
E, irritado:
- Precisamos esclarecer tudo... Sua mão, Rolande, que leva a aliança e o anel de noivado, ponha-a na minha. . . Tenho o direito de tomá-la. . . Tenho o direito de beijá-la.
- Não.
- Como? É inconcebível!
- Vocé a beijou um dia? Permiti que a tocasse? Que tocasse meus lábios, meu rosto, minha testa, meus cabelos?
Não, certamente... Mas vocé me disse a razão Era por causa de Elisabeth. Em memória dela,que permanecia tão viva entre nós, vocé não queria, por uma espécie de pudor. .. Não queria as minhas carícias.-- Compreendi... Cheguei a aprovar... Mas agora...
. Que foi que mudou?
. Rolande, vocé é minha mulher.. . E daí?
Estupefato, voz alterada, ele protestou:
Então, vocé quer... É assim que imagina?. ..
Ela replicou em tom grave:
- Julga que posso consentir, nesta casa onde ela viveu, onde vocé a amou?
Ele protestou, arrebatado:
- Vamos para onde vocé quiser! Mas repito: é e será minha mulher.
- Não.
- Como não?
- Não no sentido que vocé quer. Bruscamente ele a abraçou e buscou-lhe os lábios.
Ela o repeliu com inesperada energia, gritando:
- Não! Não! Nem uma carícia.. . Nada.
Ele quis forçá-la, mas encontrou tal resisténcia que cedeu confuso, adivinhando-a indomável. Estremecendo, falou:
- Há outra razão, não há? Se fosse apenas isso vocé não estaria assim. Há outra razão.
- Muitas outras. . . E uma, principalmente, que fará com que vocé compreenda bem a situação.
- Qual?
- Amo outro homem. Não é meu amante porque me respeitou.
Fez a confissão sem baixar os olhos, em tom arrogante que era um desafio acrescentado à injúria.
Ele sorriu, fisionomia contraída.
- Por que mente? Como acreditaria que vocé, Rolande. . .
- Repito, Jérôme: amo outro homem. Amo-o acima de tudo.
- Cale-se! Cale-se! - gritou, fora de si, punhos erguidos contra ela. - Cale-se... Sei que é falso e vocé diz isso para me exasperar, por motivos que não posso sequer imaginar. . . Mas acabará me fazendo perder a cabeça. Vocé, Rolande!
Batendo com o pé, gesticulou como um louco e tornou a aproximar-se dela.
- Eu a conheço, Rolande. Se fosse verdade não estaria com este anel no dedo.
Arrancando o anel, ela o atirou longe. Ele explodiu:
- Que absurdo! Por que fez isso? Vai atirar fora também a aliança? A aliança que aceitou? Que eu coloquei no seu dedo?
- Que outro colocou no meu dedo. Esta não é a sua.
- Mentira! Mentira! Nossos nomes estão gravados aí: Rolande e Jérôme.
- Não estão. É outra aliança e tem outros nomes.
- Mentira!
- Tem outros nomes. . . Rolande e Félicien.
Precipitando-se para ela, agarrou-lhe a mão, arrancou brutalmente a aliança de ouro e examinou-a com olhar desvairado.
- "Rolande"... "Félicien" - murmurou, num sopro.
Defrontava-se com uma realidade intolerável, na qual recusava-se a crer e que o rodeava de todos os lados, sem possibilidade de fuga.
Em voz baixa falou:
quanta loucura. . . Por que casou comigo? Por
vocé é minha mulher? Isto nada poderá modificar É minha mulher. . . Tenho direitos sobre vocé . Esta é a nossa noite de núpcias. . . Estou na minha casa... na minha casa.. . com minha mulher.
Ela replicou serena, obstinada:
. Não está na sua casa. . . Esta não é a nossa
noite de núpcias. . . Vocé é um estranho, um inimigo. . • E quando eu pronunciar certas palavras, vocé partirá.
- Eu, partir? Está louca!
- Sairá daqui para ceder o lugar ao outro, aquele que é o senhor desta casa.
- Que venha! Que ouse vir!
- Ele já veio, Jérôme. Veio ao meu encontro na mesma noite em que Elisabeth morreu. .. Chorei nos seus braços e estava tão infeliz que confessei-lhe o meu amor. . . Voltou duas vezes. . . Está ali no meu quarto, Jérôme, no meu quarto que será o dele... Há pouco foi a ele que vocé ouviu. . . E não se irá. Esta noite de núpcias é dele.
Jérôme atirou-se contra a porta, tentando abri-la, ou demoli-la a socos.
- Não se dé ao trabalho - disse Rolande, com calma assustadora. - Eu tenho a chave. Vou abrir. . . Mas recue, recue dez passos. . .
Ele não obedeceu. Hesitava. Prolongado siléncio baixou no quarto. De seu canto, na sacada, escondido atrás das venezianas semicerradas, Raul d'Averny, confuso pela trágica cena de desenlace tão imprevisto, pela violéncia implacável e contida da jovem, dizia consigo mesmo:
"Como pode afirmar que Félicien está no quarto? E impossível. Eu o deixei amarrado na Ensolarada há menos de um quarto de hora..."
Mas qualquer raciocínio soa falso nessa espécie de crise. Os acontecimentos se encadeiam sem lógica e Raul assistia, palpitante, à angústia de Jérôme. O rapaz agarraria Rolande, tentaria arrancar-lhe a chave e atacaria violentamente Félicien?
Mas Rolande apontou para ele um minúsculo revólver, repetindo:
- Recue... Recue dez passos...
Ele recuou. Rolande adiantou-se então e, mantendo-o sob a mira da arma, escancarou a porta.
Félicien apareceu. Félicien, a quem Raul deixara imobilizado na Ensolarada.
Saiu do quarto sorrindo.
- A arma é inútil, Rolande. Não é possível lutar quando se está, como ele, em bonito traje caseiro. Além disso, ele nem sequer pensa em brigar.
Félicien tinha o ar distante de costume. Raul achoulhe a expressão mais franca, os olhos brilhantes e a atitude serena e grave como a de Rolande.
"Mas, como chegou aqui?", não cessava de perguntar a si mesmo. "Como conseguiu libertar-se?"
Félicien inclinou-se para apanhar o anel caído no tapete e colocou-o na penteadeira, dizendo, enigmático:
- Não o tire do dedo, Rolande. Sabe que tem o direito de usá-lo.
E voltando-se para Jérôme:
- Rolande quis este encontro. Só concordei porque ela tem sempre razão e é preciso haver uma explicação entre nós trés.
- Entre nós quatro - disse ela. - Elisabeth está conosco. Desde que morreu não me abandonou. Não fiz um gesto sem pedir-lhe conselho. Começa a compreender o que eu pretendia, Jérôme?
Ele estava pálido, fisionomia dura e crispada.
- Se quis prejudicar-me conseguiu, Rolande. Este casamento, onde pensei encontrar a felicidade, não passava de medonha cilada.
- Sim, uma cilada. Desde o instante em que pressenti a verdade, planejei uma cilada que eqüivaleria àquela outra, mortal, armada por vocé. Compreende, não é?
Inclinou-se um pouco, sempre calma, porém dominada pelo ódio que fervia em seu íntimo.
- Não, não compreendo.
Tomando uma fotografia da irmã sobre a lareira, com gesto brusco, apresentou-a a ele.
- Olhe para ela, olhe! Era a mais suave e a mais carinhosa das mulheres. Amava vocé.. . E vocé a matou. Miserável!
Raul d'Averny esperava a acusação desde que constatara o desentendimento entre Rolande e Jérôme. Mas o que o surpreendia era que jamais, em suas suspeitas, separara Rolande e Jérôme. Jamais supusera, apesar de certos indícios que deveriam té-lo esclarecido, que Jérôme fosse o culpado sem a cumplicidade de Rolande. Era preciso que a jogada da moca tivesse sido planejada com superior habilidade para desorientar a tal ponto um observador do seu calibre. Na cegueira da paixão, Jérôme não se enganaria?
O rapaz não se curvou. Deu de ombros.
- Agora, somente agora, compreendo sua trama. Para vingar a irmã precisava de uma vítima e é a mim que acusa. Um detalhe, Rolande: parece-me que vocé e eu vimos, com nossos próprios olhos, sua irmã viva nas mãos do assassino, o velho Barthélemy... Não sabe que eu o executei com um tiro de fuzil justamente para vingá-la?
Rolande, por sua vez, deu de ombros.
- Não busque desculpas e subterfúgios. O que sei de vocé, o que fui percebendo pouco a pouco, ao investigar seu passado, ao observá-lo, é tão preciso que sua confissão torna-se desnecessária. - E tirando de uma gaveta um caderno de capa dura: - Veja, escrevi no próprio diário de Elisabeth toda a sua vida de mentiras e hipocrisia... Quando a justiça tomar conhecimento, vocé será, como já é para mim, o único criminoso.
Com uma contração facial que o desfigurou, ele quis saber:
- Então pretende...
- Pretendo, em primeiro lugar, mostrar a vocé a acusação.
- Para me julgar em seguida - disse ele, rindo. - Estou no tribunal.
- Está diante de Elisabeth. Escute.
Jérôme fitou-a, olhou para Félicien e percebeu sem dúvida que os adversários, armados como estavam, seriam capazes de abaté-lo como a um cão se tentasse resistir. Cruzando as pernas com desembaraço, como quem se resigna a ouvir um sermão aborrecido, suspirou:
- Fale.

VII
MORRE ALGUÉM
ROLANDE falava com voz pausada, sem arrebatamento ou aspereza. Não era uma acusação, e sim o resumo de uma aventura que ela não sobrecarregou de comentários ou considerações psicológicas sobre a natureza de Jérôme Helmas.
- A primeira vítima, Jérôme, foi sua mãe. Não proteste. Vocé próprio o confessou. Ela morreu em conseqüéncia de suas faltas, das faltas que ninguém ao redor conhecia, pois ela as ocultava com zelo materno. Falsificação de assinaturas, cheques sem fundo, indelicadezas... Ninguém soube, pois ela pagou até arruinar-se... Até morrer. Não falemos nisso.
- É preferível - disse ele, rindo. - Mas devo preveni-la de que tudo isso é fantasia. Está perdendo tempo.
Rolande prosseguiu:
- Ignoro o que vocé fez nos anos seguintes. Vivia na província, ou no exterior. Por acaso entrou em contato com Elisabeth, voltou a instalar-se na casa de Vesinet e passou a freqüentar regularmente a Clematites. Vocé já tinha um plano.
- Que plano?
Casar com Elisabeth, idéia ainda vaga, pois o dote que ela receberia não estava à altura da sua ambição.
Mas a idéia se ampliaria após uma confidencia que Elisabeth teve a imprudéncia de fazer.
- Verdade?
- Sim. Ela confiou a vocé que um dia o dote seria acrescido de soma considerável, legada por um primo de nossa mãe.
- Pura invenção - protestou Jérôme. - Nunca
soube disso.
- Por que está mentindo? O diário de Elisabeth, que eu nunca permiti que vocé lesse por uma espécie de reserva instintiva, já que o mostrei a outras pessoas, é formal neste ponto. Tranqüilo quanto ao dinheiro, sabendo que o primo estava à morte, vocé tornou-se mais insistente, conquistou Elisabeth e ela aceitou seu pedido. Estava feliz. Vocé também, ou pelo menos parecia. Entretanto, começou a investigar.
- O qué?
- A razão que motivava o legado desse primo. Interrogou à direita e à esquerda - não negue, contaram-me -, colheu boatos antigos, soube que houve uma briga entre nosso pai e esse primo, luta, escândalo, etc., e que, na época, as más línguas diziam que Elisabeth era filha de Georges Dugrival. Pronuncio o nome, já que se trata de abominável calúnia.
- Calúnia, de fato.
- Não importa. Vocé insistiu em saber. Quis certificar-se dos projetos de Georges Dugrival e, enquanto Elisabeth estava presa em casa, doente, vocé foi a Caen investigar. Entrou uma noite, não sei como, no quarto do próprio Georges Dugrival, abriu o armário, leu o testamento datado de dez anos atrás e descobriu que Elisabeth nada receberia e que a legatária era eu. A partir daí, Elisabeth estava condenada.
Jérôme meneou a cabeça.
se houvesse uma só palavra de verdade no seu
lance Por que Elisabeth estaria condenada? Bastaria romper o noivado.
como eu me casaria com vocé se tivesse rompido com ela? O rompimento de sua parte, a traição, eqüivaliam à perda de toda esperança. A herança estaria perdida. Então hesitou e, com o passar dos dias, um plano monstruoso infiltrou-se em sua mente. .. Um nlano covarde e hipócrita. Homicídio era uma solução terrível e tão perigosa! Precisava matar para libertar-se? Não, mas precisava ganhar tempo, evitar o casamento por meios escusos, invisíveis, anônimos, pode-se dizer. Bastava que Elisabeth, já doente, com os pulmões atingidos, sofresse uma recaída grave e o casamento não se realizaria, seria impossível. E vocé reconquistaria pouco a pouco a liberdade e a possibilidade de um dia, em breve, voltar-se para mim sem que houvesse rompimento ou homicídio. A morte, talvez, mas morte por acidente, do qual vocé não seria responsável. E trabalhou na sombra, sem dúvida com a idéia de não ir até o fim, de entregar-se ao acaso, mas trabalhou, ainda assim. Serrou as pilastras, solapando os degraus pelos quais Elisabeth descia diariamente à mesma hora.
Rolande estava exausta. Mal se ouvia sua voz. Calou-se.
Diante dela, Jérôme fingia-se despreocupado, desdenhando toda aquela história que era obrigado a escutar.
Félicien observava-lhe os menores gestos.
Por trás das venezianas, Raul d'Averny escutava e olhava com atenção. A acusação prosseguia com lógica implacável. Só um ponto permanecia obscuro: Rolande não mencionara a razão pela qual era ela e não Elisabeth a eventual legatária de Georges Dugrival.
Mas a razão, admitindo-se que a tivesse pressentido, não a impediria de agir e falar como se a ignorasse. Rolande prosseguiu:
- É certo que o homicídio cometido diante de seus olhos, e do qual vocé era responsável, enlouqueceu-o no primeiro instante. Teve horas de aturdimento e até desespero. Mas o encontro da sacola de dinheiro junto ao cadáver de Barthélemy recuperou-o.
- Na confusão daquela tarde, em meio às idas e vindas, vocé conseguiu esconder a sacola não sei onde. No estúdio, sem dúvida. Mas alguém viu-o pegar o dinheiro. Simon Lorient rondava entre as pessoas que invadiram a casa e ficou a observá-lo. À noite seguiuo e atacou-o. Lutaram no local onde ele foi descoberto pela manhã, abatido pelo ferimento do qual viria a morrer, enquanto vocé, igualmente ferido, mal conseguiu afastar-se dali. O segundo crime do dia.
- Vamos ao terceiro - gracejou Jérôme.
- Vocé não tardou a prepará-lo. Era preciso evitar suspeitas dirigindo-as para outra pessoa. Quem? O acaso agiu a seu favor. Félicien atravessou o lago de barco para encontrar-se comigo e me consolar. Ficou duas horas ao meu lado e, quando saltou em terra, na volta, alguém o viu e reconheceu. Foi aproximadamente nessa hora que vocé saiu da Clematites, seguido de Simon Lorient. Interrogado a respeito, respondeu: "Meu agressor saiu da passagem." Daí em diante, as investigações giraram em torno de Félicien, que não se defendeu e não quis defender-se. Incapaz de explicar sua presença nos arredores do lago sem me acusar de té-lo recebido em meu quarto, ele negou, afirmando que não saiu de casa. E acabou sendo preso. Assim o terreno ficou livre para vocé. Mas... eu comecei a refletir.
E repetiu em voz surda frases cada vez mais trémulas: _
- Sim, refleti. Não cessava de refletir... Era uma constante obsessão. No cemitério, mão estendida sobre o caixão, jurei a Elisabeth vingá-la... Jurei que minha vida inteira não teria outra finalidade, que sacrificaria tudo o mais a este objetivo. E foi por isso que sacrifiquei imediatamente Félicien... "Olhe em volta", recomendou o senhor d'Averny. "Olhe em si mesma, não recue diante de nenhuma acusação..." À minha volta? À minha volta só encontrava Félicien e vocé. Como Félicien não era culpado, pois não tinha qualquer motivo para matar Elisabeth, deveria pensar que vocé, Jérôme...? A leitura atenta do diário de Elisabeth despertou-me a atenção. Na hora em que ela ia buscar o barco para o passeio de todos os dias, vocé estava distraído, embaraçado. Queixava-se de não ter uma situação. Inquietava-se com o futuro e a minha pobre irmã devia té-lo animado com a perspectiva da herança... Eu ainda não desconfiava de ninguém... Mas desconfiava de todo mundo, inclusive do senhor d'Averny que, no entanto, havia descoberto que os degraus de madeira tinham sido serrados. Não falei a pessoa alguma. Não me preocupei com o caso de Simon Lorient e Barthélemy. Quando vocé voltou para junto de mim, convalescente, ao sair da clínica, houve siléncio entre nós. Não pensei em interrogá-lo, ou desconfiar de vocé. Não tive nenhum pressentimento, nenhuma dúvida em relação a sua pessoa. Mas um dia...
Rolande concentrou-se. E aproximando-se um pouco de Jérôme:
Um dia estávamos lendo no jardim. Às cinco horas, vocé me tomou a mão para se despedir e conservou-a dois ou trés segundos além do necessário.
Não foi um gesto de amizade, nem de tristeza em recordação de Elisabeth. Não, era diferente. Era a pressão de um homem que buscava expressar sentimentos ignorados. Foi quase uma confissão, quase um apelo. Que imprudéncia, Jérôme! Esse gesto só deveria ter sido esboçado dentro de um, dois anos! Mas não ao fim de um més! A partir desse dia fixei-me em vocé. À minha volta, no meu círculo íntimo, o culpado só podia ser o homem que, noivo de Elisabeth, um més após a morte dela voltava-se para a irmã. O enigma parecia insolúvel. Mas a solução estava em vocé, no segredo da sua alma, no que vocé sabia, no que desejava. Eu já não precisava refletir, mas examiná-lo sem trégua, estudar todos os acontecimentos relativos a nós dois e a Elisabeth como se fosse vocé o culpado. Fiz mais: para armar uma cilada e incrementar sua confiança, aceitei o amor que fingia sentir por mim. Vocé acreditou que eu também o amava e acabou por me amar de fato, perdendo então toda a lucidez.
Baixou a voz.
- Por mais lamentável que fosse a minha vida, eu adquiria forças, graças à convicção que diariamente se aprofundava. Tinha certeza de que vingaria Elisabeth. E temia tanto que adivinhassem o meu segredo! Guardava-o como a um tesouro. Cheguei a princípio a recusar ver Félicien quando ele saiu da prisão, permitindo que acreditasse na minha traição a ele e a Elisabeth. Só mais tarde, ao saber que tentara suicidar-se, fui visitá-lo, aflita, uma noite, e contei-lhe tudo. Mais tarde Faustine confiou-me seu ódio e projetos de vingança e eu comuniquei-lhe minhas desconfianças relativas ao homem que matara seu amante. Desconfianças? Eu devia dizer certeza. Foi assim que Faustine julgou a situação. Mas como vocé procurou nos confundir!
Vocé vivia na própria casa da vítima, passeava no jardim, em frente aos degraus que havia serrado fazia-me a corte, a mim, irmã dela, repetindo as mesmas palavras que tinha dito a Elisabeth semanas antes. Ah, miserável! Como teve coragem?
Novamente prestes a explodir, Rolande controlou-se e prosseguiu:
Mas, se vocé fazia jogo encoberto, não desconfiava do nosso acordo. Tomamos tantas precauções! Como vocé tinha ciúmes de Félicien, adivinhando desde o início o interesse dele por mim, Félicien e Faustine andavam sempre juntos e sua inquietação adormeceu. Vocé prosseguiu na tarefa de difamar Félicien enviando cartas anônimas... Pois foi quem as escreveu e enviou. E foi quem as atirou próximo ao local onde agrediu Simon Lorient e jogou ao jardim um lenço manchado de sangue, um lenço do mesmo tipo dos usados por Félicien. Mas tudo isso seria a prova formal de que eu necessitava? Finalmente aconteceu. O acaso agiu a meu favor. Um dia, Georges Dugrival me procurou e casualmente vocé não estava na Clematites.
Jérôme estremeceu e não tentou disfarçar a perturbação. Angústia crispou-lhe o rosto.
- Sim, ele veio me visitar. A princípio, recusei a entrevista, sabendo que houvera uma briga entre ele e meu pai. Mas Dugrival insistiu, por graves razões. Eu o recebi nesta peça e ele me falou da profunda afeição que tivera por minha mãe. E, de repente, reveloume a verdadeira causa da visita:
"Rolande, como tenho estado doente, o armário do meu gabinete foi forçado. Abriram o testamento onde lego a vocé parte da minha fortuna e roubaram de um escrínio de couro, contendo belas jóias de família, pedras Preciosas, anéis e brincos. Desapareceu um anel
que formava par com outro. Dias depois recebi de Vésinet, onde mantenho amigos que me põem a par das novidades, carta anunciando o seu casamento e dando sobre seu noivo Jérôme informações desagradáveis. Pareceu-me, Rolande, que convinha preveni-la. .."
Preciso dizer mais sobre a nossa conversa, Jérôme? Supliquei que rasgasse o testamento, pois não havia motivo para eu ser herdeira, mas aceitei jóias que me ofereceu. Combinamos que Félicien iria procurá-lo em Caen. Prevendo uma piora no seu estado de saúde, Georges Dugrival entregou-me as chaves necessárias para que Félicien pudesse, em caso de necessidade, entrar na casa sem ser visto ou perturbado e abrir o cofre-forte onde se achava guardado o escrínio de couro. Foi assim que as coisas se passaram. Félicien abriu o cofre-forte. E o escrínio está aqui, nesta gaveta. Contém o anel semelhante ao que foi roubado. E então pude agir. Se o anel que vocé diz ter ganho de sua mãe para me oferecer no dia do nosso casamento é semelhante ao que se acha neste escrínio, é porque vocé o roubou para dá-lo como presente de núpcias. É porque vocé é o assassino de Elisabeth e Simon Lorient. Mas, para dispor desta prova, eu precisava me casar com vocé. Félicien opôs-se, até mesmo pela força. Perturbado com a idéia de que eu levaria seu nome, ainda que só por um dia, ele me seqüestrou. Gesto inútil. O que devia acontecer aconteceu. E esta manhã vocé me ofereceu o anel. Agora compreende por que, apesar de todas as minhas certezas e do meu ódio, senti-me mal ao vé-lo. Pois os anéis são idénticos: mesma montagem, brilhantes iguais. Era a prova irrefutável do seu crime. Compreende agora, miserável? Compreende?
A voz de Rolande tornara-se cada vez mais áspera. Tremia de desprezo e ódio. Com todo o seu ser a jovem ameaçava e insultava.
Mas para que ameaças e injúrias? Percebeu de repente que Jérôme não escutava.
Cabisbaixo, olhar vago, sentia-se preso nas malhas cerradas da acusação, confundido ao ver todo o caso exposto em sua realidade, desmascarado. E renunciava a defender-se.
Erguendo a cabeça, murmurou:
- E depois?
- Depois?
- Sim, quais são as suas intenções? Vocé me acusa, mas pretende denunciar-me?
- Sim, a carta já está escrita.
- E foi enviada?
- Não.
- Quando será?
- À tarde.
- À tarde? Sim, para me dar tempo para fugir para o exterior - disse, amargo.
Após um siléncio, objetou:
- Por que me denunciar? Acha que já não se vingou expulsando-me de sua vida? Quer acrescentar à dor de não poder amá-la o meu desespero?
- E Félicien? Não desconfiam dele? Não é perseguido? Como salvá-lo, a ele que é inocente, se o culpado não for denunciado? Quero uma garantia... Quero ter certeza de que vocé não voltará, de que tudo se acha definitivamente encerrado. A carta será, portanto, entregue à justiça.
Prosseguiu, depois de uma hesitação:
- A carta será entregue, a menos que... A menos que...
- Há papel e tinteiro na mesa. Sente-se, escreva que é o único culpado da morte de Elisabeth, da de Simon Lorient, das acusações contra Félicien Charles, a quem difamou. .. e assine.
Jérôme refletiu por longo tempo. Mais que dor, seu rosto expressava profunda derrota. Murmurou, finalmente:
- Resistir para qué? Estou tão cansado! Vocé tem razão, Rolande. Como pude representar esta comédia? Quase havia conseguido persuadir-me de que Elisabeth não morreu, afinal, por minha culpa e de que atirei em Simon Lorient para me defender. Como se pode ser covarde! Mas eu amava você e estava apavorado com o que havia feito... Vocé não poderia perceber. . . E eu me transformava pouco a pouco. . . Vocé me teria salvo de mim mesmo.. . Não falemos mais nisso. . . São coisas passadas. . .
Sentou-se à mesa, tomou a pena e pôs-se a escrever. Rolande leu por cima do ombro dele.
- É o que vocé queria? - perguntou, depois de assinar.
- É.
Levantou-se. Tudo terminado conforme queria Rolande. Fitou-os, um após o outro. Que esperava? Um adeus? Uma palavra de perdão?
Rolande e Félicien conservaram-se mudos e imóveis.
E então, no último instante, ele teve um repente de cólera e um gesto de execração. Mas conteve-se e saiu.
Ouviram-no entrar no quarto - a câmara nupcial - sem dúvida para recolher alguns objetos. Minutos depois desceu a escada. A porta do vestíbulo abriu-se sem ruído e tornou a se fechar. Jérôme saiu.
Vendo-se a sós, os dois jovens deram-se as mãos, olhos úmidos de lágrimas.
Félicien beijou Rolande na testa como se beija a mais respeitada das noivas. Ela disse a sorrir:
- Nossa noite de núpcias, Félicien, nós a passaremos como noivos, vocé em sua casa, eu aqui.
- Sob duas condições, Rolande. Ficarei ao seu lado pelo menos uma ou duas horas, para ter certeza de que ele não voltará.
- A outra condição?
- Noivos tém o direito de se beijar pelo menos uma vez, e não apenas na testa...
Ela corou, lançou um olhar para o quarto e disse, toda confusa:
- Está bem, mas não aqui... Lá embaixo, no estúdio onde fiz a minha primeira confissão musical.
Guardou no escrínio das jóias o papel assinado por Jérôme. Desceram.
Logo em seguida, Raul d'Averny entrou no quarto, retirou o papel do escrínio e guardou-o no bolso.
Voltou então à varanda, passou à calha da fachada lateral e saiu pela horta.
Às trés da manhã, Félicien voltou ao pavilhão. Raul, que o aguardava e dormia numa poltrona, estendeulhe a mão.
- Peço que me perdoe, Félicien.
- Por que, senhor d'Averny?
- Por té-lo atacado e amarrado há pouco. Queria impedi-lo de cometer uma tolice.
- Que tolice, senhor?
- Por causa da noite de núpcias... Félicien desatou a rir.
- Imaginei que fosse o senhor. Em todo caso, estamos quites e eu também lhe peço perdão.
- Por qué?
Por ter me libertado.
- Sozinho?
- Não.
- Quem o ajudou?
- Faustine.
- O que eu pensava - murmurou Raul. - Então, Faustine andou por aqui esta noite... Contanto que não a prendam!
E concluiu:
- Veremos... Félicien, serei obrigado a telefonar amanhã bem cedo para Rolande Gaverel, a fim de tranqüilizá-la, caso procure o papel assinado por Jérôme. Como o juiz de instrução virá me visitar hoje, às nove e meia, achei útil evitar a Rolande e a vocé novos embaraços e peguei o papel que estava no escrínio.
- Como? - exclamou Félicien, espantado. - Não é possível que tenha...
- Que ela não se preocupe - disse Raul, retirando-se. - E previna-a de que irei visitá-la em breve. Eu o encontrarei por lá, não, é, Félicien?

VIII AFRODITE
O SENHOR Rousselain foi pontual ao encontro. Às nove e meia da manhã, quando Raul terminava o café, apresentou-se não como juiz de instrução, e sim como pescador que vinha, conforme disse, provocar o peixe lá pelos lados de Croissy. Tinha um velho chapéu de palha na cabeça, macacão amarelo e calçava sandálias.
- Meus cumprimentos, senhor juiz de instrução! - exclamou Raul. - O dia será magnífico. Boa ocasião para esquecer um pouco o nosso complicado caso.
- O senhor acha?
- Creio que sim.
- No entanto convocou-me para o desenlace, que deveria ter ocorrido esta noite.
- E ocorreu.
- Mas não vejo certa mercadoria que fazia muita questão de pegar, a ponto de deixar-lhe toda liberdade de ação.
- Amanhã não basta?
- Amanhã será tarde demais. Raul observou-o.
- Alguma novidade, senhor juiz? O senhor Rousselain desatou a rir.
- Sim, Senhor d'Averny, há novidades e, contrariamente às nossas convenções, sou eu quem as comunico.
E sublinhou: - Há hora e meia, o comissário
de polícia de Chatou telefonou à Prefeitura dizendo que a criada de Jérôme Helmas acabava de encontrálo morto no vestíbulo de sua casa de Vésinet. Matouse com um tiro no coração. Acabava de entrar, a porta ainda estava aberta. O inspetor Goussot se acha no local. Soube da notícia ao saltar do trem. Sem se alterar, Raul declarou:
- É a conclusão lógica do caso, senhor juiz. O culpado fez justiça a si próprio.
- Infelizmente, segundo as pesquisas preliminares, Jérôme Helmas não deixou nenhum bilhete que permita crer na sua culpabilidade. O suicídio não é uma confissão. Por outro lado, surpreende que Jérôme Helmas, recém-casado, tenha abandonado o domicílio conjugai para se matar em sua antiga residéncia.
- O ato resulta precisamente da confissão que fez em presença de Rolande Gaverel, Félicien Charles e de mim próprio.
- Confissão verbal, sem dúvida?
- Confissão escrita.
- Está em seu poder?
- Está aqui.
E entregou ao juiz o papel assinado por Jérôme Helmas.
- Creio desta vez que o problema está quase resolvido - exclamou o senhor Rousselain. - Para que se esclareça inteiramente, e o caso não apresente nenhuma dúvida, é necessário que me preste certos esclarecimentos, senhor d'Averny... E me faça certas confissões, talvez.
- Concordo - disse Raul alegremente. - Mas a quem tenho a honra de falar? Ao senhor juiz de instrução Rousselain, representante da justiça, ou ao senhor Rousselain, pescador, bom homem, de quem conheço o
temperamento indulgente, a finura psicológica e o espírito humanista? Com o primeiro serei obrigado a usar de reserva. Com o segundo falarei de coração aberto. E em conjunto e de acordo um com o outro escolheremos o que será dito publicamente e o que permanecerá mais ou menos na sombra.
- Exemplo, senhor d'Averny?
- Aqui vai um. Félicien Charles e Rolande Gaverel se amam. Há dois meses, na noite do drama, se Félicien tomou o barco foi para ir ao encontro de Rolande. E se permitiu que o acusassem foi para não comprometé-la. Não acha que este segredo deve ser mantido na sombra?
O senhor Rousselain, coração sensível, ficou logo de olhos marejados e exclamou:
- É o pescador que aqui se encontra, senhor d'Averny. Fale sem rodeios. E pode falar com tanta liberdade porque na Prefeitura colocaram-me a par do papel exato que representou junto a nós, como colaborador ocasional, e dos grandes serviços que nos prestou. Apesar de um passado...
- Um tanto agitado, não é?
- Exato. Apesar de todos os desvios que imprime às regras estritamente legais, o senhor é persona grata em altos círculos. Fale, senhor d'Averny!
O senhor Rousselain palpitava de curiosidade. E Raul forneceu a essa curiosidade tais elementos que o juiz esqueceu a pescaria, aceitou almoçar na Ensolarada e até às trés da tarde não fez outra coisa senão escutar o relato de Raul d'Averny mesclado às confidencias de Arsène Lupin.
Ao despedir-se falou com voz trémula de exaltação: t - Graças ao senhor passei um dos dias mais emocionantes da minha vida. Agora vejo o caso sob todos os seus ângulos e sou da sua opinião: só deve ser divulgada
com prudéncia e discernimento. É uma bela história de amor, apesar dos crimes e dos interesses materiais que a complicam. Mas é, antes de mais nada, uma bela história de ódio e vingança! Como a nossa bonita Rolande conseguiu levar até o fim a sua tarefa! Que energia! Que violéncia de sentimentos!
- O senhor nada tem a me perguntar, senhor juiz?
- Sim, um pequeno suplemento de informações relativas a dois pontos... ou talvez trés. Pura curiosidade, aliás.
- Fale.
- Em primeiro lugar, quais as suas intenções relativas a Félicien? E, antes de mais nada, acredita que ele seja seu filho?
- Não sei e não o saberei jamais. Ainda que fosse meu filho, minha conduta em relação a ele seria a mesma. Nada direi. É melhor considerar-se uma criança enjeitada que vir a saber que é filho... de quem o senhor sabe. Concorda?
- Certamente - respondeu o senhor Rousselain, muito comovido. - Segundo: que fim levou Faustine?
- Mistério. Mas eu a encontrarei.
- Faz questão de revé-la?
- Faço.
- Por qué?
- Porque é muito bonita e eu não esqueço a estátua de Afrodite.
O senhor Rousselain inclinou-se como homem a quem nenhum sentimento ou desejo é estranho. E concluiu:
- Terceiro: reparou, senhor d'Averny, que em toda esta confusão nunca se falou da sacola cinzenta e das centenas de cédulas que ela continha? Afinal, essa fortuna não pode estar perdida para todos!
- É o que também penso. Deve ter havido um beneficiário.
- Quem?
- Não sei, palavra, mas suponho que alguém tenha sido mais esperto que os outros e vasculhado no local exato em que ocorreu a luta entre Simon Lorient e seu agressor. Os dois adversários saíram feridos e a sacola deve ter rolado pela grama, caindo na
vala.
Alguém mais esperto que os outros... - repetiu o senhor Rousselain. - Não vejo quem seria mais esperto. ..
- Sim, sim... - murmurou d'Averny que, tomando um cigarro, acendeu-o, com olhar sonhador.
O senhor Rousselain fizera a pergunta sem malícia, mas, súbito, a atitude de Raul esclareceu-o. Estava fora de dúvida que, de passagem, tranqüilamente, seu interlocutor achara conveniente apossar-se do tesouro inútil de Philippe Gaverel, caído na vala...
"Que homem estranho", pensava o juiz, fitando Raul. "Cheio de delicadezas e, apesar disso, no fundo, um inalterável ladrão. Arrisca a vida para salvar os outros, mas não resiste à tentação de subtrair-lhes a carteira! Devo estender-lhe a mão ao me despedir?"
Raul parecia responder a esta hesitação dizendo a rir:
- A meu ver, senhor juiz, é necessário desculpar quem deu o golpe. Talvez seja um homem perfeitamente honesto, que jamais teria tido a idéia de prejudicar o próximo, mas a quem a conduta do mau contribuinte Phillippe Gaverel fez esquecer qualquer escrúpulo.
E, bem-humorado, acrescentou:
- Pensando bem, senhor juiz, creio que é a minha última aventura... Sim, tenho necessidade de respirar atmosfera mais pura, interessar-me por tarefas mais nobres. Além disso, trabalhei tanto pelos outros que sinto vontade de pensar um pouco em mim. Não
tenho absolutamente intenção de me encerrar no claustro. Ainda assim... Meu desejo é que digam quando eu me for: "Afinal, era um bom homem... Mau sujeito, talvez, mas bom homem..."
O senhor Rousselain estendeu-lhe a mão ao despedir-se.
- Vim despedir-me, senhorita Rolande. E também de vocé, Félicien. Sim, estou de partida... Quero dar volta ao mundo, ou quase. Tenho amigos em toda parte, que reclamam a minha visita... Além disso, preciso desculpar-me e desde já agradeço por me pouparem censuras. . . Sim, sim, confesso que não agi muito bem. Não foi delicado da minha parte retirar do escrínio a folha de papel de que precisava para entregar ao juiz de instrução. E se tivesse feito apenas isso! Rolande, conheço do princípio ao fim toda a sua noite de núpcias... Se isso é possível? Eu estava no melhor dos lugares, de camarote. Vi e ouvi tudo. E me achava também no gabinete de Georges Dugrival, em Caen, quando vocé roubou o cofre-forte, Félicien. E tantas outras coisas mais ou menos discretas... ou indiscretas.
- Mas tudo isso foi por culpa de vocés, meus amigos. Lembre-se, Rolande, que, de início, pediu-me conselho e eu julguei que caminharíamos de mãos dadas. De repente, siléncio... Vocé voltou as costas à amizade que eu lhe oferecia... Adeus, Raul, cada qual para seu lado! A vocé, Félicien, solicitei com insisténcia a sua confiança. Mas, não! Fez um pequeno cruzeiro pelo lago e em lugar de me dizer francamente: "Sim, fui em busca da minha amada", preferiu ir para a cadeia.
- E depois, que aconteceu? Colocados em campos diversos, nem sempre fizemos, cada qual por seu lado, o que deveríamos ter feito. Sim, agimos erroneamente com
freqüéncia. Ora eu trabalhei de acordo com o senhor Rousselain, ora contra ele. Afinal, julgando Félicien inocente, cheguei a considerar Rolande e Jérôme cúmplices dó crime. Exatamente. Como poderia imaginar, Rolande, que sua conduta baseava-se no ódio? O ódio não é um sentimento comum. O ódio levado a esse ponto é uma anomalia e induz, portanto, a cometer tolices. E que tolices vocé cometeu, minha querida Rolande!
Sentando-se junto da moça, Raul tomou-lhe a mão. Vejamos: acha que foi inteligente levar a situação até o casamento? Pois não deve esquecer que é casada, leva o nome de Jérôme Helmas, é a senhora Heimas. E para merecer sua verdadeira noite de núpcias levará meses de esforços absurdos e inúteis aborrecimentos.
- Jamais, se me tivesse honrado com sua amizade, eu teria permitido que cometesse tal tolice. Havia dez meios de alcançar o mesmo objetivo sem passar pelo cartório. Que a impedia, por exemplo, de dizer ao namorado: "Meu querido Félicien, vocé soube navegar até minhas janelas, escalar a minha sacada. Tenha -agora a gentileza de se introduzir na casa de Jérôme e subtrair o anel que ele roubou. Assim poderemos compará-los". A jogada estaria decidida. Tanto mais, Rolande, que sua ambição não era absolutamente entregar Jérôme à polícia e vé-lo guilhotinado, e sim aturdi-lo e mandá-lo ao diabo. Vamos, seja sincera. Confesse que seria bem melhor se tivesse confiado em Raul d'Averny.
Rolande fez menção de responder e seu sorriso indicava em que sentido, mas Raul não o permitiu.
Nao. Não vim pedir confissões e sim fazer meu
pequeno discurso, trazer uma solução e felicitá-la.
Rolande, eu a felicito por casar com Félicien.
Enganei-me a respeito dele, julguei-o capaz de graves desvios. Ele é principalmente capaz de amor. É um rapaz corajoso, obstinado, com quem me irritei por ter querido furtar-se à minha amizade, e que não me guardou rancor, embora eu me envolvesse, contra a vontade dele, na sua vida. Era em benefício dele. Félicien a tornará perfeitamente feliz. Feliz como merece.
- Agora, meu presente de casamento... Sim, aceitará porque é vantajoso para mim e vocés terão que conquistá-lo. Os trabalhos da Ensolarada estão quase terminados. Mas tenho outros a confiar-lhe, Félicien... Uma velha construção que possuo nas proximidades de Nice, corri um magnífico olival, onde poderá realizar algo de muito belo e a seu gosto. Dentro de uma quinzena, portanto, depois de conversarem com o senhor Rousselain e de estar encerrado o caso, instalem-se em Nice, os dois, e aguardem longe daqui o ano de espera. Precisam disso. Posso beijá-la, Rolande?
Beijou Rolande com um carinho que o surpreendeu. Em seguida beijou Félicien e, estendendo-lhe ambas as mãos, fitou-o nos olhos por alguns segundos.
- Talvez tenha muita coisa a dizer-lhe, Félicien. Mas nós nos encontraremos mais tarde, se os deuses me protegerem... E eles me protegem, pois eu o mereço.
Beijou-os de novo e deixou-os surpreendidos e bastante emocionados.
Raul viajou durante mais de um ano, correspondendo-se freqüentemente com Rolande e Félicien. O rapaz enviava-lhe seus planos, pedia conselhos, habituando-se pouco a pouco a escrever com mais franqueza e confiança. Mas Raul convenceu-se de que jamais haveria entre eles laços mais íntimos.
"Talvez seja filho de Claire d'Estigues e meu Mas faço questão de saber? Teria mesmo em caso de certeza, um coração de pai? .
Contudo, estava satisfeito. A Cagliostro vingara-se, vingança saíra às avessas e, de tempos em tempos
Raul dirigia-lhe breves discursos irónicos.
Perdeu a jogada, Josephine Balsamo. Não só o menino se for Felicien não é ladrão
ou assassino,
como vivemos de perfeito acordo, ele e eu. Perdeu a
jogada, Joséphine. Conforme previra, o caso da Llematites e da Laranjal foi arquivado. O infeliz Thomas Lé Bouc não teve sorte. A descoberta do verdadeiro culpado devia ter-lhe aberto as portas da prisão. Infelizmente, o inquérito revelou graves acusações contra ele, que o teriam mandado direto à penitenciária se uma forte gripe não o subtraísse a tal desgraça.
Ao final de quinze meses, Raul voltou à França e instalou-se em sua maravilhosa propriedade da Cote d'Azur, que ele havia acrescido de vasta plantação de flores.
Um dia, numa das salas de jogo de Monte Cario, notou uma senhora extremamente elegante, rodeada por um grupo de admiradores atraídos por sua beleza. Conseguindo aproximar-se por trás, murmurou:
- Faustine.
Ela se voltou bruscamente.
- Ah, é vocé! E sorriu.
- Sim, sou eu... Procuro-a por toda parte com tanto empenho!
Saíram e puseram-se a passear diante daquele maravilhoso panorama. Raul contou os últimos incidentes do caso e interrogou-a sobre a noite em que a vira sentada num banco, abraçando Félicien.
- Não abraçando Félicien. Ele estava encostado ao meu ombro. Chorava.
- Chorava?
- Sim. Apesar de tudo, sentia ciúmes de Jérôme Helmas e odiava a idéia do casamento. Sofria profundas depressões. E foi assim que naquela noite eu o consolei com a minha afeição.
Raul falou sobre a noite de núpcias, cujos detalhes ela ignorava. Bruscamente, voltando-se para ela, perguntou:
- Foi vocé, não foi?
- Quem, eu?
- Sim. Vocé não duvidava de que Jérôme fosse o culpado. Sabia que Rolande o expulsaria e previu que, temendo uma denúncia, ele voltaria à casa antes de fugir.
- E daí?
- Ficou à espreita diante da casa dele. Mal abriu a porta, vocé atirou. . . Foi assim, não foi? Afinal, Jérôme não era do tipo que se suicida.
Sem responder, ela apontou a linha indecisa do horizonte.
- Minha terra fica naquela direção... A Córsega. Há dias em que se pode avistá-la daqui. Os ofendidos só encontram a paz quando são vingados.
- Vocé é feliz, Faustine?
- Muito feliz. Feliz por causa do passado e do seu desenlace. Feliz pelo presente. Um rico senhor italiano ofereceu-me o coração e um palácio de mármore cor-de-rosa em Génova.
- Casada, portanto?
- Sim.
- Vocé o ama?
- Ele tem setenta e cinco anos... E vocé, Raul, é feliz?
- Seria se não faltasse algo à minha felicidade. O qué?
Seus olhares se cruzaram e ela corou.
Eu não a esqueci - murmurou ele. - Não esqueci aquilo que não chegou a acontecer.
O que não chegou a acontecer talvez não valesse o que esperava.
Olhando-a da cabeça aos pés, ele repetiu:
- Eu não esqueci.
Após um siléncio, ela replicou, ousada:
- Prove-o.
- Prová-lo?
- Sim. Dé-me a prova de que conservou a lembrança precisa e a dor do que não aconteceu.
- É mais que dor, Faustine.
- Prove.
- Concede-me um dia? Amanhã a esta hora, eu a trarei aqui.
Acompanhou-o até o carro. Partiram e em uma hora ele a conduzia às alturas que dominam Nice, nas proximidades da aldeia de Aspremont.
Abriu-se um portão. Ela leu o nome da propriedade sobre as duas pilastras: Vila Faustine.
Embora comovida, murmurou:
- Prova de que recorda, mas não de que lamenta.
- Prova de uma esperança... A esperança de que um dia eu a verei nesta vila.
Ela meneou a cabeça.
- Um homem como vocé, Raul, deve ter mais a oferecer que um nome sobre duas pilastras.
- Tenho mais, infinitamente mais. Vocé não se decepcionaria. Mas antes, uma pergunta, Faustine: por que desde o início me foi tão hostil? Havia desafio, mas também rancor, ira. Responda francamente.
Ela corou ao murmurar:
- É verdade, Raul. Eu o detestava.
- Por qué?
- Porque não o detestava o bastante. Raul tomou-lhe o braço com vivacidade. Trilharam a pé caminhos que galgavam terraço
após terraço, com vistas admiráveis para as montanhas áridas e a neve dos Alpes.
Chegaram ao cimo, ao terreno superior, que era rodeado pelas colunas de uma pérgula.
No centro, radiosa, viva em todo o seu esplendor de deusa, a estátua de Afrodite.
- Sou eu!... Eu! - murmurou Faustine, comovida.
Faustine permaneceu doze semanas na vila que ostentava seu nome.

 

 

                                                   Maurice Leblanc         

 

 

 

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