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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A VINGANÇA DE OPALA / Eion Colfer
A VINGANÇA DE OPALA / Eion Colfer

 

 

                                                                                                                                                

  

 

 

 

 

 

Em sua última aventura com o Povo das Fadas, Artemis Fowl teve sua mente apagada de qualquer lembrança do povo. Ele não se lembra da Capitã Holly e de seus amigos, do ouro, da supertecnologia e, principalmente, não se lembra de sua maior inimiga: a duende Opala Koboi, que, depois de um ano em coma auto-induzido e tempo de sobra para bolar um plano brilhante, conseguiu escapar da clínica onde estava presa, deixando um clone perfeito em seu lugar.

De volta a uma vida de crimes, digamos, comuns, Artemis está em Berlim planejando o roubo da valiosa pintura O Ladrão das Fadas, guardada em condições máximas de segurança em um banco. No melhor estilo Missão Impossível, ele consegue driblar guardas, gerentes e sair do banco com a tela dentro da mochila sem ninguém perceber. O que ele não sabe é a surpresa que Opala reservou para ele junto com a tela.

Enquanto isso, na Cidade do Porto, a Capitã Holly está prestes a ganhar uma promoção quando o líder dos goblins escapa da prisão e força Holly e um outro membro da LEP a entrarem em uma arapuca mortal, armada, é claro, por Opala. Ela é acusada de alta traição e, sozinha, não tem outra saída a não ser procurar Artemis e torcer para que ele se lembre dela...

Só os dois, com a ajuda de Butler e Palha, podem impedir que Opala destrua o Mundo das Fadas e o dos Homens da Lama. Dessa vez, Artemis está diante de uma adversária tão esperta quanto ele. Será que um plano genial será suficiente para salvá-los?

 

 

 

 

 

 

Este artigo foi colocado na Internet do povo das fadas, no site www.sensoequino.gnom. Acredita-se que o site é mantido pelo centauro Potrus, mas isso jamais foi provado. Quase todos os detalhes do relato seguinte contradizem a informação oficial divulgada pelo departamento de imprensa da LEP

Todos ouvimos a explicação oficial para os trágicos acontecimentos relacionados com a investigação da Sonda Zito. A declaração da LEP continha poucos detalhes concretos, preferindo turvar os fatos e questionar as decisões de uma certa policial.

Sei, com certeza absoluta, que a policial em questão, a capitã Holly Short, se comportou de modo exemplar, e se não fosse por sua capacidade como agente de campo, muitas outras vidas iriam se perder. Em vez de colocar a capitã Short como bode expiatório, a Liga de Elite da Polícia deveria lhe dar uma medalha.

Os humanos estão no centro deste caso específico. A maioria dos humanos não tem inteligência suficiente para achar os buracos das pernas de suas calças, mas há alguns Homens da Lama espertos a ponto de me deixar nervoso. Se eles descobrirem a existência de uma cidade subterrânea do povo das fadas, certamente farão o máximo para explorar os moradores. A maioria dos homens não seria páreo para a tecnologia superior de nosso povo, mas há alguns tão inteligentes que quase podem passar por criaturas das fadas. Um humano, em particular. Acho que todos sabemos de quem estou falando.

Na história do povo das fadas apenas um humano se saiu melhor do que nós. E realmente sinto um espinho no casco ao pensar que esse humano específico é pouco mais do que um garoto. Artemis Fowl, o irlandês gênio do crime.

O pequeno Arty fez a LEP dançar miudinho através dos continentes, até que por fim ela usou tecnologia do povo subterrâneo para apagar de sua mente o conhecimento de nossa existência. Mas ao mesmo tempo em que apertava o botão do apagador de mentes, o talentoso centauro Potrus se perguntou se o povo das fadas não estaria sendo enganado de novo. Será que o garoto irlandês não teria deixado para trás algo que o fizesse se lembrar? Claro que sim, como todos descobriríamos mais tarde.

Artemis Fowl tem um papel significativo nos acontecimentos narrados a seguir, mas pela primeira vez não estava tentando roubar algo do Povo, já que havia esquecido completamente que existíamos. Não, o gênio do crime que está por trás deste episódio é uma criatura das fadas.

Portanto, quem está envolvido nessa trágica história de dois mundos? Quais são os principais atores do povo das fadas? Obviamente Potrus é o verdadeiro herói. Sem suas inovações a LEP estaria lutando contra os Homens da Lama nas nossas portas dos fundos. Ele é o herói não-homenageado que resolve charadas de eras, enquanto as equipes de Reconhecimento e Resgate flanam acima do solo recolhendo toda a glória.

E há a capitã Holly Short, a oficial cuja reputação está sob fogo cerrado. Holly é um dos melhores e mais inteligentes membros da LEP. Piloto com habilidade nata e dom para improvisação no campo. Não é a melhor em receber ordens, característica que lhe rendeu problemas em mais de uma ocasião. Holly foi a criatura que esteve no centro de todos os incidentes com Artemis Fowl Os dois quase viraram amigos, quando o Conselho ordenou que a LEP apagasse a mente de Artemis, e exatamente quando ele estava virando um Garoto da Lama legal.

Como todos sabemos, o comandante Julius Raiz teve participação nos acontecimentos. O mais jovem comandante geral da LEP. Um elfo que guiou o Povo através de muitas crises. Nem de longe é a criatura mais fácil, mas às vezes os melhores líderes não são os melhores amigos.

Acho que Palha Escavator merece ser mencionado. Até recentemente Palha estava preso, mas conseguiu escapar de novo. Este anão cleptomaníaco e flatulento representou um papel relutante em muitas aventuras envolvendo Fowl. Mas Holly ficou feliz em ter sua ajuda nesta missão. Se não fosse Palha e suas funções corpóreas, as coisas poderiam ter sido muito piores. E foram bem ruins.

No centro deste caso está Opala Koboi, a duende-diabrete que bancou a tentativa de tomada de controle da Cidade do Porto pela gangue de goblins. Opala estava diante de uma pena de prisão perpétua atrás das grades de laser. Isto é, se conseguisse se recuperar do coma que sofreu quando Holly Short estragou seu plano.

Durante quase um ano Opala Koboi ficou na cela acolchoada na Clínica J. Argônio, sem demonstrar qualquer reação aos feiticeiros médicos que tentavam revivê-la. Durante todo esse tempo não falou uma única palavra, não comeu absolutamente nada e não exibiu qualquer resposta a estímulos. A princípio as autoridades suspeitaram. Está fingindo!, declararam. Koboi está fingindo catatonia para evitar o processo. Mas à medida que os meses se passaram, até os céticos se convenceram. Ninguém podia fingir um coma por quase um ano. Certamente não. A criatura precisaria ser totalmente obcecada...

 

A CLÍNICA J. Argônio não era um hospital estatal. Ninguém ficava ali de graça. Argônio e sua equipe de psicólogos só tratavam de criaturas que pudessem pagar. Dentre todos os pacientes ricos da clínica, Opala Koboi era única. Tinha criado um fundo de emergência para si mesma mais de um ano antes de ser internada, só para o caso de algum dia ficar maluca e precisar pagar pelo tratamento. Foi uma jogada inteligente. Se Opala não tivesse criado o fundo, sua família sem dúvida iria colocá-la numa instituição mais barata. Não que a instituição em si fizesse muita diferença para Koboi, que tinha passado o ano anterior babando e tendo os reflexos testados. O dr. Argônio duvidava de que Opala tivesse notado até mesmo um troll macho batendo no peito diante dela.

O fundo não era o único motivo para Opala ser especial. Ela era a grande celebridade da Clínica Argônio. Depois da tentativa de tomada de poder por parte da tríade goblin dos B’wa Kell, as cinco sílabas do nome de Opala Koboi se tornaram as mais infames embaixo do mundo. Afinal de contas, a duende bilionária tinha formado uma aliança com o descontente oficial Urze Porrete, da LEP, e financiou a guerra da tríade contra o Porto. Koboi havia traído sua própria espécie, e agora sua mente a estava traindo.

Durante os primeiros seis meses de prisão, a clínica foi assediada por jornalistas que filmavam cada tremor da duende-diabrete. A LEP se revezava em turnos guardando a porta da cela, e cada funcionário da clínica era investigado e recebia olhares sérios. Ninguém estava livre. O próprio dr. Argônio era submetido a testes de DNA aleatórios para garantir que era quem dizia ser. A LEP não iria se arriscar com Koboi. Se ela escapasse da Clínica Argônio, não somente os policiais se transformariam em objeto de riso do mundo subterrâneo, mas uma bandida altamente perigosa estaria à solta na Cidade do Porto.

Mas, à medida que o tempo passava, poucas equipes de cinegrafistas apareciam a cada manhã nos portões. Afinal de contas, quantas horas de baba uma platéia pode agüentar? Aos poucos as equipes da LEP foram reduzidas de doze guardas para seis, e finalmente havia um único policial por turno. Aonde Opala poderia ir?, raciocinavam as autoridades. Havia uma dúzia de câmeras focalizadas nela, vinte e quatro horas por dia. Havia um buscador-adormecedor sob a pele de seu braço e ela passava por testes de DNA quatro vezes por dia. E se alguém retirasse Opala, o que poderia fazer com ela? A diabrete nem mesmo conseguia ficar de pé sem ajuda, e os sensores diziam que suas ondas cerebrais praticamente não passavam de linhas retas.

Dito isso, o dr. Argônio sentia muito orgulho de sua importante paciente e costumava mencionar o nome dela em jantares. Desde que Opala Koboi fora internada na clínica, virou moda ter um parente fazendo terapia. Quase toda família na lista dos mais ricos tinha um tio maluco no sótão. Agora o tio maluco podia receber o melhor atendimento no colo do luxo.

Se ao menos todas as criaturas internadas fossem tão dóceis quanto Opala Koboi! Ela só precisava de alguns tubos intra-venosos e um monitor, o que fora mais do que pago por seus primeiros seis meses de despesas médicas. O dr. Argônio esperava fervorosamente que a pequena Opala jamais acordasse. Porque, assim que isto acontecesse, a LEP iria levá-la ao tribunal. E quando fosse condenada por traição, seus bens seriam congelados, inclusive o fundo para pagamento da clínica. Não, quanto mais o cochilo de Opala demorasse, melhor para todo mundo, especialmente para ela. Por causa do crânio fino e do grande volume cerebral, os duendes-diabretes eram suscetíveis a várias doenças, como catatonia, amnésia e narcolepsia. Portanto era bem possível que seu coma durasse vários anos. E mesmo que Opala acordasse, era bem possível que sua memória permanecesse trancada em alguma gaveta em seu enorme cérebro de diabrete.

 

O Dr. J. Argônio fazia a ronda todas as noites. Não costumava realizar muitas terapias pessoalmente, mas era bom que os funcionários sentissem sua presença. Se soubessem que Jerbal Argônio estava com o dedo no pulso, era mais provável que os outros médicos ficassem com os dedos naquele pulso também.

Argônio sempre deixava Opala para o fim. De algum modo se acalmava ao ver a pequena diabrete dormindo em seu arnês. Freqüentemente, no fim de um dia estressante, invejava a existência imperturbável de Opala. Quando tudo havia se tornado demais para ela, seu cérebro simplesmente havia se fechado, deixando apenas as funções mais vitais. Ela ainda respirava e ocasionalmente os monitores registravam um pico de sonho nas ondas do cérebro. Mas, afora isso, para todos os propósitos, Opala Koboi não existia mais.

Numa noite fatídica, Jerbal Argônio estava se sentindo mais estressado do que de costume. Sua mulher estava pedindo divórcio, argumentando que ele não havia lhe dito mais do que seis palavras consecutivas em dois anos. O Conselho ameaçava tirar sua verba governamental por causa de todo o dinheiro que estava ganhando com os novos clientes-celebridades, e ele sentia uma dor no quadril que nenhuma quantidade de magia era capaz de curar. Os feiticeiros diziam que provavelmente tudo estava na cabeça dele. E pareciam achar isso engraçado.

Argônio mancou pela ala leste da clínica, verificando o prontuário de plasma de cada paciente enquanto passava pelos quartos. Encolhia-se a cada vez que o pé esquerdo encostava no chão.

Os dois diabretes zeladores, Mervall e Melodia Brill, estavam do lado de fora do quarto de Opala, tirando a poeira com escovas estáticas. Os diabretes eram empregados maravilhosos. Eram metódicos, pacientes e decididos. Quando um diabrete era instruído a fazer alguma coisa, você podia ficar tranqüilo, porque a coisa seria feita. Além disso eram bonitinhos, com cara de bebê e a cabeça desproporcionalmente grande. Bastava olhar um diabrete para a maioria das pessoas se animar. Eles eram uma terapia ambulante.

— Boa noite, rapazes — disse Argônio. — Como vai nossa paciente predileta?

Merv, o gêmeo mais velho, levantou o olhar.

— O mesmo de sempre, o mesmo de sempre, Jerry. Antes achei que ela havia mexido um dedo, mas foi só uma ilusão de ótica.

Argônio riu, mas foi um riso forçado. Não gostava de que o chamassem de Jerry. Afinal de contas, a clínica era dele; ele merecia algum respeito. Mas os bons zeladores eram como ouro em pó, e os irmãos Brill vinham mantendo o prédio impecável e nos trinques há quase dois anos. Os Brill eram quase celebridades. Gêmeos são muito raros no Povo. Mervall e Melodia eram o único par de diabretes gêmeos que moravam em Porto. Tinham aparecido em vários programas de TV, inclusive no Canto, o programa de entrevistas de maior audiência da PPTV.

O cabo Larva Kelp estava de sentinela. Quando Argônio chegou ao quarto de Opala, o cabo assistia a um filme em seus óculos de vídeo. Argônio não o culpou.

— Bom filme?—perguntou o médico num tom simpático. Larva ergueu as lentes.

— Nada mau. É um faroeste humano. Um monte de tiros e de caras sérias.

— Posso pegar emprestado quando você terminar?

— Sem problema, doutor. Mas cuide bem dele. Os discos humanos são muito caros. Vou lhe dar um tecido especial, para limpar.

Argônio assentiu. Agora se lembrava de Larva Kelp. O policial da LEP era muito zeloso de suas posses. Já havia escrito duas cartas de reclamação à diretoria da clínica por causa de um rebite no chão que havia arranhado suas botas.

Argônio consultou o prontuário de Koboi. A tela de plasma na parede mostrava um gráfico constantemente atualizado dos sensores presos às têmporas da paciente. Não havia mudança, e ele não esperava que houvesse. Todos os sinais vitais estavam no padrão normal e a atividade do cérebro era mínima. Ela tivera um sonho no início da noite, mas agora sua mente havia se acalmado. E por fim, como se ele precisasse ser informado, o buscador-adormecedor implantado no braço lhe informou que Opala Koboi estava de fato onde deveria estar. Em geral os buscadores-adormecedores eram implantados na cabeça, mas o crânio dos duendes era frágil demais para qualquer cirurgia.

Jerbal digitou seu código pessoal no teclado da porta reforçada, que deslizou, revelando um quarto espaçoso com luzes pulsando suavemente no piso. As paredes eram de plástico macio e suaves sons da natureza se derramavam de alto-falantes escondidos. Naquele momento, um riacho borbulhava em pedras lisas.

No meio do quarto Opala Koboi estava suspensa num arnês de corpo inteiro. As tiras eram almofadadas com gel e se ajustavam automaticamente a qualquer movimento do corpo. Se por acaso Opala acordasse, o arnês poderia ser acionado por controle remoto para se lacrar como uma rede, impedindo-a de se machucar ou escapar.

Argônio verificou os sensores, certificando-se de que fizessem bom contato com a testa de Koboi. Levantou uma das pálpebras da diabrete, apontando uma minilanterna para a pupila, que se contraiu ligeiramente, mas Opala não desviou os olhos.

— Bom, tem alguma coisa para me dizer hoje, Opala? — perguntou o médico em voz baixa. — Um capítulo de abertura para o meu livro?

Argônio gostava de conversar com Koboi, só para o caso de ela poder ouvi-lo. Ele achava que teria estabelecido contato quando ela acordasse.

— Nada? Nenhuma idéia?

Opala não reagiu. Como acontecia há quase um ano.

— Tudo, bem — disse Argônio, passando dentro da boca de Koboi o último chumaço de algodão que estava em seu bolso. — Quem sabe amanhã, hein?

Enrolou o chumaço de algodão numa pequena almofada esponjosa em sua prancheta. Segundos depois o nome de Opala piscou numa tela minúscula.

— O DNA não mente jamais — murmurou Argônio, jogando o algodão numa lixeira de reciclagem.

Com um último olhar para a paciente, Jerbal Argônio se virou para a porta.

— Durma bem, Opala — disse quase com carinho.

Sentiu-se calmo de novo, quase esquecendo a dor no quadril. Koboi estava apagada como sempre. Tão cedo não acordaria. O fundo Koboi estava em segurança.

É incrível como um gnomo pode errar.

Opala Koboi não estava catatônica, mas também não estava desperta. Encontrava-se em algum lugar no meio, flutuando num mundo líquido feito de meditação, onde cada memória era uma bolha de luz multicolorida saltando suavemente na consciência.

Desde a juventude Opala fora discípula de Gola Schweem, o guru do coma de limpeza. A teoria de Schweem era de que havia um nível mais profundo de sono do que o que era experimentado pela maioria das criaturas do Povo. O estado de coma de limpeza geralmente só podia ser alcançado depois de décadas de disciplina e prática. Opala havia alcançado seu primeiro coma de limpeza aos quatorze anos.

Os benefícios do coma de limpeza eram que a criatura poderia passar o tempo de sono pensando — ou, neste caso, tramando — e além disso acordar totalmente revigorada. O coma de Opala era tão completo que sua mente estava quase totalmente separada do corpo. Podia enganar os sensores e não sentia nenhum embaraço diante das indignidades da alimentação intravenosa e dos banhos dados pelos outros. O mais longo coma induzido conscientemente já registrado era de quarenta e sete dias. Opala estava apagada há onze meses e continuava assim, mas não planejava continuar por muito mais tempo.

Quando havia juntado forças com Urze Porrete e seus goblins, ela percebeu que precisava de um plano de reserva. A trama para derrubar a LEP fora engenhosa, mas sempre havia a chance de que algo pudesse dar errado. Nesse caso, Opala não tinha a intenção de passar o resto da vida na cadeia. O único modo de conseguir uma saída limpa era todo mundo pensar que ela continuava presa. Por isso havia começado a fazer os preparativos.

A primeira coisa foi criar o fundo de emergência para pagar pela Clínica Argônio. Isso garantiria que fosse mandada ao local certo caso tivesse de induzir um coma de limpeza. O segundo passo foi colocar dois de seus funcionários de maior confiança instalados na clínica, para ajudá-la numa fuga eventual. Então começou a separar quantidades enormes de ouro de suas empresas. Opala não queria se tornar uma exilada pobre.

O passo final foi doar parte de seu próprio DNA e autorizar a criação de um clone que ocuparia seu lugar na cela acolchoada. A clonagem era algo totalmente ilegal e fora banida pelas leis do Povo há mais de quinhentos anos, desde as primeiras experiências em Atlântida. A clonagem não era de modo algum uma ciência perfeita. Os médicos jamais tinham conseguido criar um clone exato de uma criatura das fadas. Os clones pareciam ótimos, mas eram basicamente cascas, tendo capacidade cerebral suficiente só para comandar as funções básicas do corpo. Não tinham a fagulha da vida verdadeira. Um clone totalmente adulto parecia apenas a pessoa original em coma.

Perfeito.

Opala havia mandado construir um laboratório-estufa longe das Indústrias Koboi e tinha desviado verbas suficientes para manter o projeto ativo durante dois anos: o tempo exato que levaria para produzir um clone de si própria adulta. Então, quando quisesse escapar da Clínica Argônio, uma perfeita réplica sua seria deixada no lugar. A LEP jamais saberia que ela havia fugido.

Do modo como as coisas aconteceram, ela teve razão em planejar com antecedência. Urze acabou sendo um traidor, e um pequeno grupo de criaturas do Povo e humanas tinham garantido que a traição dele a levasse à queda. Agora Opala tinha como objetivo incrementar sua força de vontade. Manteria esse coma pelo tempo que fosse necessário, porque havia contas a acertar. Potrus, Raiz, Holly Short e o humano Artemis Fowl. Eram os responsáveis por sua derrota. Logo estaria livre desta clínica. Então visitaria os que haviam lhe causado tanto desespero e lhes daria um pouquinho de desespero também. Assim que seus inimigos estivessem derrotados, ela poderia prosseguir com a segunda fase do plano: apresentar os Homens da Lama ao Povo — de um modo que não pudesse ser resolvido com alguns apagamentos mentais. A vida secreta das criaturas das fadas estava quase no fim.

O cérebro de Opala Koboi liberou algumas endorfinas felizes. A idéia da vingança sempre lhe dava uma sensação quente e turva.

Os irmãos Brill observaram o dr. Argônio seguir mancando pelo corredor.

— Panaca — murmurou Merv, usando seu aspirador telescópico para tirar poeira de um canto.

— Falou e disse — concordou Melo. — O velho Jerry não poderia analisar nem mesmo uma tigela de molho de tatu. Não é de espantar que seja abandonado pela esposa. Se ele fosse um bom psiquiatra, teria visto isso.

Merv desligou o aspirador.

— Que horas são?

Melo verificou o luômetro.

— Oito e dez.

— Bom. Como está o cabo Kelp?

— Ainda assistindo ao filme. O cara é perfeito. Temos de agir esta noite. A LEP poderia mandar alguém inteligente para o próximo turno. E, se esperarmos mais, o clone vai crescer mais dois centímetros.

— Muito bem. Verifique as câmeras de espionagem. Melodia levantou a tampa do que parecia ser um carrinho de faxina, cheio de esfregões, trapos e latas de spray. Escondido embaixo de uma bandeja de bicos de aspirador havia um monitor colorido dividido em várias telas.

— E então? — sussurrou Merv.

Melo não respondeu logo, verificando antes todas as telas. Os sinais de vídeo chegavam de várias microcâmeras que Opala havia instalado pela clínica antes de ser presa. As câmeras de espionagem eram na verdade material orgânico produzido por engenharia genética. Por isso as imagens que transmitiam eram literalmente “ao vivo”. As primeiras máquinas vivas do mundo. Era totalmente impossível detectá-las com instrumentos comuns.

— Só a equipe da noite — disse finalmente. — Não há ninguém neste setor, além do cabo Idiota, ali.

— E o estacionamento?

— Livre.

Merv estendeu a mão.

— Tá legal, mano. É isso aí. Não tem volta. Estamos dentro? Queremos Opala Koboi de volta?

Melo soprou uma mecha de cabelos de cima de um dos olhos redondos de diabrete.

— Sim, porque, se ela acordar sozinha, vai achar um modo de fazer a gente sofrer — respondeu ele apertando a mão do irmão. — É, estamos dentro.

Merv pegou um controle remoto no bolso. O instrumento era ligado a um receptor sônico no alto de uma parede externa. Este, por sua vez, estava conectado a um balão de ácido pousado suavemente no principal cubo de energia na caixa de conexões do estacionamento da clínica. Um segundo balão estava em cima do cubo de reserva no porão de manutenção. Como zeladores da clínica, fora simples para Merv e Melo colocar os balões de ácido na noite anterior. Claro, a Clínica Argônio também era ligada à grade principal de eletricidade, mas, se os cubos fossem desligados, haveria um intervalo de dois minutos antes que a energia principal chegasse. Não havia necessidade de preparativos mais elaborados; afinal de contas aquilo era uma instalação médica, e não uma prisão.

Merv respirou fundo, tirou a tampa de segurança e apertou o botão vermelho. O controle remoto emitiu um comando infravermelho, ativando duas cargas sônicas. As cargas emitiram ondas de som que explodiram os balões e os balões derramaram o conteúdo ácido nos cubos de energia da clínica. Vinte segundos depois os cubos foram completamente comidos e todo o prédio foi mergulhado na escuridão. Merv e Melo colocaram rapidamente óculos de visão noturna.

Assim que a eletricidade falhou, feixes de luz verde começaram a pulsar suavemente no chão, guiando o caminho até as saídas. Merv e Melo seguiram com rapidez e objetividade. Melodia guiava o carrinho e Merv foi direto ao cabo Kelp.

Larva estava tirando os óculos de vídeo.

— Ei — disse ele, desorientado com a escuridão súbita. — O que está acontecendo aqui?

— Queda de energia — respondeu Merv, trombando nele com uma falta de jeito calculada. — Essas linhas elétricas são um pesadelo. Eu vivo dizendo ao dr. Argônio, mas ninguém quer gastar dinheiro na manutenção quando há carros chiques para comprar.

Merv não estava jogando conversa fora; esperava que o adesivo de sedativo solúvel que ele havia grudado no pulso de Larva fizesse efeito.

— Nem fale — disse Larva, subitamente piscando muito mais do que o normal. — Eu andei fazendo campanha para termos armários novos na delegacia Plaza. Estou realmente com sede. Mais alguém está com sede? — Larva enrijeceu, imobilizado pelo soro que se espalhava por seu organismo. O policial da LEP sairia daquela condição em menos de dois minutos e ficaria alerta instantaneamente. Não teria lembrança do período de inconsciência, e com sorte não notaria o lapso de tempo.

— Vá — disse Melo, tenso.

Merv já havia ido. Com facilidade digitou o código do dr. Argônio na porta de Opala. Completou esta ação mais rápido do que Argônio jamais conseguiu, devido a horas passadas treinando num teclado roubado, em seu apartamento. O código de Argônio mudava a cada semana, mas os irmãos Brill se certificavam de estar fazendo a limpeza diante do quarto quando Argônio ia fazer a ronda. Em geral os diabretes conseguiam todo o código no meio da semana.

A luz do teclado, alimentado a pilha, piscou verde e a porta deslizou. Opala Koboi balançava suavemente diante dele, suspensa em seu arnês como um inseto num casulo exótico.

Merv baixou-a sobre o carrinho. Movendo-se rapidamente e com precisão treinada, levantou a manga de Opala e localizou a cicatriz no braço, onde o buscador-adormecedor fora inserido. Segurou o calombo duro entre o polegar e o indicador.

— Bisturi — falou, estendendo a mão livre. Melo entregou o instrumento. Merv respirou fundo, estendeu-o e fez uma incisão de dois centímetros e meio na carne de Opala. Enfiou o indicador no buraco e tirou a cápsula eletrônica. Era revestida de silicone e tinha mais ou menos o tamanho de um analgésico.

— Lacre — ordenou.

Melo se curvou para o ferimento e pôs um polegar em cada extremidade.

— Cure — sussurrou ele, e fagulhas azuis de magia correram, parecendo anéis em seus dedos, mergulhando no ferimento. Em segundos as dobras de pele tinham se juntado, deixando apenas uma cicatriz rosa-claro para mostrar que um corte fora feito — uma cicatriz quase idêntica à que já existia. A magia de Opala havia secado há meses, já que ela não estava em condições de fazer um ritual de restauração de energia.

— Srta. Koboi — disse Merv rapidamente. — Hora de acordar. Acorde, acorde.

Desamarrou Opala completamente do arnês. A criatura inconsciente desmoronou sobre a tampa do carrinho da limpeza. Merv lhe deu um tapa na bochecha, deixando-a vermelha. A respiração de Opala acelerou ligeiramente, mas os olhos permaneceram fechados.

— Dê um choque nela — disse Melo.

Merv pegou dentro do casaco um cassetete elétrico da LEP. Ligou-o e tocou o cotovelo de Opala. O corpo dela se sacudiu com espasmos e a diabrete saltou para a consciência, como alguém que despertasse de um pesadelo.

— Porrete — gritou Opala. — Você me traiu!

Merv agarrou os ombros dela.

— Srta. Koboi. Somos nós, Mervall e Melodia. Está na hora.

Opala o encarou, furiosa, os olhos arregalados.

— Brill? — disse depois de respirar fundo várias vezes.

— Isso mesmo. Merv e Melo. Precisamos ir.

— Ir? O que você quer dizer?

— Partir — disse Merv ansioso. — Temos cerca de um minuto.

Opala balançou a cabeça, afastando o atordoamento pós-transe.

— Merv e Melo. Precisamos ir.

Merv a ajudou a descer da tampa do carrinho.

— Isso mesmo. O clone está pronto.

Melo puxou um fundo falso, de tecido metálico, no carrinho. Dentro havia um clone de Opala Koboi, usando roupa de coma da Clínica Argônio. O clone era idêntico, até o último folículo. Melo retirou uma máscara de oxigênio do rosto do clone, tirou-o do carrinho e começou a prendê-lo no arnês.

— Impressionante — disse Opala, passando os nós dos dedos na pele do clone. — Sou tão linda assim?

— Ah, é — respondeu Merv. — Mais ainda. De repente Opala soltou um guincho:

— Idiotas. Os olhos dela estão abertos. Ela pode me ver! Melo fechou os olhos do clone rapidamente.

— Não se preocupe, srta. Koboi, ela não pode contar a ninguém, mesmo que o cérebro pudesse decifrar o que está vendo.

Opala subiu grogue no carrinho.

— Mas os olhos podem registrar imagens. Potrus pode pensar em verificar. Aquele centauro do inferno.

— Não se abale, senhorita — disse Melo, dobrando o fundo falso do carrinho sobre sua patroa. — Logo, logo, esta será a menor das preocupações de Potrus.

Opala prendeu a máscara de oxigênio sobre o rosto.

— Mais tarde — falou com a voz abafada pelo plástico. — Mais tarde conversamos.

Koboi caiu num sono natural, exausta até mesmo por esse pequeno esforço. Poderiam se passar horas até que a diabrete recuperasse a consciência. Depois de um coma tão extenso, havia até o risco de nunca mais ser tão inteligente como antes.

— Horas? — perguntou Merv. Melo olhou para o luômetro.

— Restam trinta segundos.

Merv terminou de prender as tiras exatamente como estavam. Parando apenas para enxugar o suor da testa, fez uma segunda incisão com o bisturi, desta vez no braço do clone, e inseriu o buscador-adormecedor. Enquanto Melo lacrava o corte com um jorro de fagulhas mágicas, Merv arrumou de novo o material de limpeza em cima da parte falsa do carrinho.

Melo estava impaciente.

— Oito segundos, sete. Pelos deuses, esta é a última vez que tiro a chefe de dentro de uma clínica e a substituo por um clone!

Merv girou o carrinho sobre as rodas e o empurrou pela porta aberta.

— Cinco... quatro...

Melo deu uma última olhada rápida em volta, examinando tudo que haviam tocado.

— Três... dois...

Chegaram ao lado de fora e puxaram a porta.

— Um...

O cabo Larva afrouxou o corpo ligeiramente e logo se retesou, atento.

— Ei... o quê...? Estou mesmo com sede. Mais alguém está com sede?

Merv enfiou os óculos de visão noturna no carrinho, piscando para afastar uma gota de suor da pálpebra.

— É o ar aqui dentro. Fico desidratado o tempo todo. Tenho dores de cabeça terríveis.

Nesse momento a eletricidade voltou e, uma após outra, as lâmpadas piscaram e se acenderam por toda a extensão do corredor.

— Vamos lá — riu Melo. — Acabou o pânico.Talvez agora eles comprem uns circuitos novos, não é, irmão?

O dr. Argônio veio rapidamente pela passagem, quase no mesmo ritmo das luzes que piscavam.

— Então, seu quadril melhorou, Jerry? — perguntou Merv. Argônio ignorou os diabretes. Tinha os olhos arregalados, a respiração ofegante.

— Cabo Kelp — ofegou ele. — Koboi, ela...? Ela...? Encrenca revirou os olhos.

— Calma, doutor. A srta. Koboi ainda está suspensa onde o senhor deixou. Dê uma olhada.

Argônio apoiou as mãos na parede, primeiro verificando os sinais vitais.

— Tudo bem, sem alterações. Sem alterações. Um lapso de dois minutos, mas tudo bem.

— Eu lhe disse — insistiu Larva. — E, já que está aqui, preciso falar sobre essa dor de cabeça que venho tendo.

Argônio o empurrou de lado.

— Preciso de um chumaço de algodão. Melo, você tem algum?

Melo bateu nos bolsos.

— Desculpe, Jerry. Não.

— Não me chame de Jerry! — uivou Argônio, levantando a tampa do carrinho de limpeza. — Deve haver chumaços de algodão em algum lugar aí — falou com o suor grudando os cabelos finos em sua larga testa de gnomo. — É um carrinho de zelador, pelo amor dos céus. — Seus dedos grossos reviraram o conteúdo, roçando no fundo falso.

Merv o empurrou com o cotovelo antes que ele pudesse descobrir o compartimento secreto ou as telas de espionagem.

— Aqui, doutor — disse ele, pegando um tubo cheio de chumaços de algodão. — Suprimento para um mês. Aproveite.

Argônio pegou um chumaço, descartando o resto.

— O DNA não mente jamais — murmurou ele, digitando seu código no teclado. — O DNA não mente jamais.

Entrou correndo no quarto e esfregou rudemente o chumaço dentro da boca do clone. Os irmãos Brill prenderam a respiração. Esperavam estar fora da clínica quando isso acontecesse. Argônio passou o chumaço de algodão na pequena almofada de esponja em sua prancheta. Um instante depois o nome de Opala Koboi piscou na minitela de plasma.

Argônio soltou um suspiro enorme, apoiando as mãos nos dois joelhos. Deu um riso envergonhado na direção dos observadores.

— Desculpe. Entrei em pânico. Se perdêssemos Koboi, a clínica jamais sobreviveria. Sou só um pouco paranóico, acho. Rostos podem ser alterados, mas...

— O DNA não mente jamais — disseram Merv e Melo simultaneamente.

Larva reajustou seus óculos de vídeo.

— Acho que o dr. Argônio precisa de umas férias.

— Nem fale — riu Merv, empurrando o carrinho para o elevador de serviço. — De qualquer modo, é melhor irmos, mano. Precisamos descobrir a causa da queda de energia.

Melo o seguiu pelo corredor.

— Alguma idéia de onde pode estar o problema?

— Uma intuição. Vamos dar uma olhada no estacionamento, ou talvez no porão.

— Como quiser. Afinal de contas, você é o irmão mais velho.

— E mais sábio — acrescentou Merv. — Não se esqueça.

Os diabretes seguiram pelo corredor, com a conversa despreocupada mascarando o tremor nos joelhos e o coração batendo forte dentro das costelas. Só quando retiraram as provas de suas bombas de ácido e estavam indo para casa num furgão, começaram a respirar normalmente outra vez.

No apartamento onde morava com Melo, Merv abriu o zíper do esconderijo lacrado de Opala. Qualquer preocupação que tivessem quanto ao QI de Opala desapareceu imediatamente. Os olhos da patroa estavam brilhantes e alertas.

— Quero saber tudo, rapidamente — disse ela, saindo trêmula do carrinho. Mesmo com a mente funcionando por completo, iria demorar alguns dias num eletromassageador para seus músculos voltarem ao normal.

Merv a ajudou a sentar-se num sofá baixo.

— Tudo está no lugar. O dinheiro, o cirurgião, tudo. Opala bebeu, sedenta, água do núcleo, direto de uma jarra que estava na mesinha de centro.

— Bom, bom. E meus inimigos?

Melo parou junto ao irmão. Eram quase idênticos, a não ser pela testa de Merv, um pouco mais larga. Merv sempre fora o inteligente.

— Ficamos de olho nele, como a senhorita pediu — respondeu Melo.

Opala parou de beber.

— Pedi?

— Instruiu — gaguejou Melo. — Instruiu, claro. Foi o que eu quis dizer.

Os olhos de Koboi se estreitaram.

— Espero que os irmãos Brill não tenham desenvolvido alguma idéia independente desde que fui dormir.

Melo se curvou ligeiramente, quase fazendo uma reverência.

— Não, não, senhorita Koboi. Nós vivemos para servir. Apenas para servir.

— É — concordou Opala. — E só viverão enquanto servirem. Agora, quanto aos meus inimigos. Estão bem de vida e felizes, imagino.

— Ah, sim. Julius Raiz está cada vez mais forte como comandante da LEP Foi indicado para o Conselho.

Opala deu um maligno sorriso de lobo.

— O Conselho. Um bela altura da qual cair. E Holly Short?

— De volta ao serviço ativo. Seis missões de reconhecimento bem-sucedidas desde que a senhorita induziu o coma. O nome dela foi posto na lista para promoção a major.

— Major, que coisa. Bem, o mínimo que podemos fazer é garantir que essa promoção jamais aconteça. Planejo destruir a carreira de Holly Short, para que ela morra em desgraça.

— O centauro Potrus continua chato como sempre — continuou Melo Brill. — Sugiro uma coisa particularmente ruim...

Opala ergueu um dedo delicado, interrompendo-o.

— Não. Nada vai acontecer com Potrus por enquanto. Ele será derrotado apenas pelo intelecto. Por duas vezes na vida alguém foi mais esperto do que eu. Nas duas vezes, Potrus. Só matá-lo não exige engenhosidade. Quero que ele seja derrubado, humilhado e que fique sozinho. — Ela bateu palmas, numa expectativa deliciada. — E depois vou matá-lo.

— Estivemos monitorando as comunicações de Artemis Fowl. Parece que o jovem humano passou a maior parte do ano tentando achar uma certa pintura. Descobrimos que o quadro está em Munique.

— Uma pintura? É mesmo? — Engrenagens giraram no cérebro de Opala. — Bem, vamos nos certificar de encontrá-la antes dele. Talvez possamos acrescentar alguma coisinha à sua obra de arte.

Melo assentiu.

— É. Isso não é problema. Vou esta noite. Opala se esticou no sofá como uma gata ao sol.

— Bom. Este dia está ficando ótimo. Agora chamem o cirurgião.

Os irmãos Brill se entreolharam.

— Srta. Koboi? — perguntou Mervall, nervoso.

— Sim, o que é?

— O cirurgião. Esse tipo de operação não pode ser revertido, nem mesmo por magia. Tem certeza de que não gostaria de pensar...

Opala saltou do sofá. Seu rosto estava vermelho de fúria.

— Pensar! Você gostaria que eu pensasse nisso! O que imagina que fiz durante o ano que passou? Pensei! Vinte e quatro horas diárias. Não me importa a magia. A magia não me ajudou a escapar, e sim a ciência. A ciência será minha magia. Agora chega de conselhos, Merv, caso contrário seu irmão será filho único. Está claro?

Merv estava pasmo. Nunca tinha visto Opala numa fúria tão grande. O coma a havia mudado.

— Sim, srta. Koboi.

— Agora chame o cirurgião.

— Imediatamente, srta. Koboi.

Opala se deitou de novo no sofá. Logo tudo estaria certo no mundo. Logo seus inimigos estariam mortos ou desacreditados. Assim que essas pontas soltas fossem amarradas, ela poderia começar uma vida nova. Koboi esfregou as orelhas pontudas. Como será que ficaria com uma aparência humana?

 

OS LADRÕES TÊM seu próprio folclore: histórias de roubos engenhosos e assaltos que desafiam a morte. Uma dessas lendas fala do ladrão egípcio Faisil Mahmud, que escalou a cúpula da basílica de São Pedro para saltar sobre um bispo visitante e roubar seu báculo.

Outra história é sobre a vigarista Mary Keneally, a Vermelha, que se vestiu de duquesa e conseguiu entrar na coroação do rei da Inglaterra. O palácio negou que o fato tenha acontecido, mas de vez em quando surge num leilão uma coroa muito parecida com a que está na Torre de Londres.

Talvez a lenda mais empolgante seja a história da obra-prima perdida de Hervé. Toda criança do primário sabe que Pascal Hervé foi um impressionista francês que pintava imagens lindas do povo das fadas. E todo comerciante de arte sabe que as pinturas de Hervé só têm valor inferior às do próprio Van Gogh, com preços que passam dos cinqüenta milhões de euros.

Há quinze pinturas na série do Povo das Fadas, de Hervé. Dez estão em museus franceses e cinco em coleções particulares. Mas há boatos sobre uma décima sexta. Circulam rumores nos mais altos escalões criminosos de que existe outro Hervé: O ladrão das fadas, mostrando uma criatura do Povo roubando uma criança humana. Segundo a lenda, Hervé deu o quadro de presente a uma linda jovem turca que ele conheceu nos Champs-Elysées.

Imediatamente a jovem partiu o coração de Hervé e vendeu o quadro a um turista inglês por vinte francos. Semanas depois a pintura foi roubada da casa do inglês. E desde então tem sido retirada de coleções particulares por todo o mundo. Desde que Hervé pintou essa obra-prima, acredita-se que O ladrão das fadas foi roubado quinze vezes. Mas o que torna esses roubos diferentes de bilhões de outros cometidos nesse período é que o primeiro ladrão decidiu ficar com o quadro. Assim como todos os outros.

O ladrão das fadas se tornou uma espécie de troféu para os principais ladrões do mundo. Apenas uma dúzia sabe de sua existência, e apenas um punhado sabe de seu paradeiro. O quadro é para os criminosos o que o prêmio Turner é para os pintores. Quem consegue roubar o quadro perdido é reconhecido como o principal ladrão de sua geração. Não são muitos os que sabem desse desafio, mas os que sabem, importam.

Naturalmente Artemis Fowl sabia sobre O ladrão das fadas e recentemente havia descoberto o paradeiro do quadro. Era um teste irresistível para suas habilidades. Se conseguisse roubar a obra perdida iria se tornar o mais jovem ladrão na história a fazer isso.

Seu guarda-costas, o gigante eurasiano Butler, não ficou muito satisfeito com o último projeto do patrão.

— Não gosto disso, Artemis — disse Butler em sua voz grave. — Meus instintos dizem que é uma armadilha.

O garoto irlandês de quatorze anos colocou uma bateria em seu videogame portátil.

— Claro que é uma armadilha — respondeu. — O ladrão das fadas vem enganando ladrões há anos. Isso é que o torna interessante.

Estavam circulando pela Marienplatz, de Munique, num Hummer H2 alugado. O veículo militar não fazia o estilo de Artemis, mas seria coerente com o estilo das pessoas que eles fingiam ser. Artemis estava sentado no banco de trás, vestido não com seu terno escuro de sempre, mas com roupas normais de adolescente.

— Essa roupa é estapafúrdia — disse ele, fechando o zíper do agasalho de corrida. — De que adianta um capuz que não é à prova d’água? E todos esses logotipos? Estou me sentindo um anúncio ambulante. E esses jeans não se ajustam direito. O gancho é frouxo, vai quase até os joelhos.

Butler sorriu, olhando pelo retrovisor.

— Acho que você está ótimo. Juliet diria que você está sinistro. Juliet, a irmã mais nova de Butler, viajava pelos Estados

Unidos com uma equipe de luta-livre, tentando ficar famosa. Seu nome no ringue era Princesa de Jade.

— Sem dúvida estou me sentindo sinistro — admitiu Artemis. — Quanto a esses tênis... como é que alguém pode correr com um solado de cinco centímetros de grossura? Parece que estou andando em pernas-de-pau. Honestamente, Butler, no momento em que voltarmos ao hotel vou jogar essa roupa fora. Estou sentido falta dos meus ternos.

Butler entrou na ImTal, onde ficava o Banco Internacional.

— Artemis, se não está confortável, talvez a gente devesse adiar esta operação, não é?

Artemis guardou o videogame numa mochila que já continha uma variedade de típicos itens de adolescente.

— Absolutamente não. Esta janela de oportunidade demorou um mês para ser organizada.

Há três semanas Artemis fizera uma doação anônima à Escola St. Bartleby para Jovens Cavalheiros, com a condição de que os garotos do terceiro ano fossem levados a Munique para a Feira de Escolas Européias. O diretor ficou feliz em honrar os desejos do doador. E agora, enquanto os outros garotos assistiam a várias maravilhas tecnológicas numa exposição no Estádio Olímpia de Munique, Artemis ia ao Banco Internacional. Para o diretor Guiney, Butler estava levando de volta ao hotel um aluno que tinha se sentido mal.

— Crane e Sparrow provavelmente mudam o quadro de lugar várias vezes por ano. Eu certamente faria isso. Quem sabe onde ele estará daqui a seis meses?

Crane e Sparrow eram advogados ingleses que usavam os negócios como fachada para um empreendimento de roubos e receptação extremamente bem-sucedido. Há muito Artemis suspeitava de que eles possuíam O ladrão das fadas. A confirmação tinha chegado há um mês, quando um detetive particular que era rotineiramente empregado para espionar Crane e Sparrow informou que os vira transportando um tubo de pintura para o Banco Internacional. Podia ser O ladrão das fadas.

— Talvez eu só tenha essa chance de novo quando for adulto — continuou o jovem irlandês. — E de jeito nenhum vou esperar tanto. Franz Herman roubou O ladrão das fadas quando tinha dezoito anos; preciso quebrar esse recorde.

Butler suspirou.

— O folclore dos criminosos nos diz que Herman roubou o quadro em 1927. Ele simplesmente afanou uma pasta. Hoje há muito mais a enfrentar. Precisamos abrir um cofre-forte num dos bancos mais seguros do mundo, em plena luz do dia.

Artemis Fowl sorriu.

— É. Muitos diriam que é impossível.

— Diriam mesmo. — Butler enfiou o Hummer numa vaga de estacionamento. — Muitas pessoas sãs. Especialmente para alguém que estivesse num passeio escolar.

Entraram no banco pelas portas giratórias do saguão, à plena vista do circuito interno de TV. Butler foi na frente, caminhando com objetividade pelo piso de mármore com veios dourados em direção a um balcão de informações. Artemis foi atrás, balançando a cabeça ao som de alguma música que tocava em seu discman. Na verdade o discman estava vazio. Artemis usava óculos espelhados que escondiam os olhos, mas lhe permitiam examinar o interior do banco sem ser observado.

O Banco Internacional era famoso em certos círculos por ter os cofres mais seguros do mundo, incluindo a Suíça. Segundo os boatos, se os cofres do Banco Internacional fossem arrombados e o conteúdo jogado no chão, talvez um décimo da riqueza do mundo estaria amontoado no mármore. Jóias, ações ao portador, dinheiro, títulos, obras de arte. Pelo menos metade disso roubada dos donos de direito. Mas Artemis não estava interessado em nenhum desses objetos. Quem sabe, na próxima vez.

Butler parou diante do balcão de informações, lançando uma sombra larga sobre o monitor de tela fina empoleirado ali. O sujeito magro que estivera trabalhando diante do monitor levantou a cabeça para reclamar, mas pensou melhor. O mero tamanho de Butler costumava causar esse efeito nas pessoas.

— Em que posso ajudá-lo, Herr...?

— Lee, coronel Xavier Lee. Quero abrir meu cofre — respondeu Butler em alemão fluente.

— Sim, coronel. Claro. Meu nome é Bertholt e vou ajudá-lo hoje. — Bertholt abriu o arquivo do coronel Lee no computador com uma das mãos enquanto a outra girava um lápis como se fosse um bastão de baliza em miniatura. — Só precisamos completar a verificação de segurança. Posso ver seu passaporte?

— Claro — respondeu Butler, pondo um passaporte da República Popular da China em cima da mesa. — Espero nada menos do que os procedimentos de segurança mais rígidos.

Bertholt pegou o passaporte com os dedos magros, primeiro verificando a fotografia, depois colocando-o num scanner.

— Alfonse — disse Butler rispidamente a Artemis. — Pare de se remexer e fique com as costas eretas, filho. Você fica tão frouxo que algumas vezes acho que não tem coluna vertebral.

Bertholt sorriu com uma falsidade que até um bebê perceberia.

— Alfonse, prazer em conhecê-lo.

— E aí, cara? — disse Artemis, com igual hipocrisia. Butler balançou a cabeça.

— Meu filho não se comunica bem com o resto do mundo. Espero ansioso o dia em que ele possa entrar para o exército. Então veremos se há um homem por baixo de todo esse mau-humor.

Bertholt sorriu simpático.

— Eu tenho uma filha. Dezesseis anos. Em uma semana, gasta mais dinheiro meu em telefonemas do que toda a família gasta com comida.

— Adolescentes, são todos iguais. O computador soltou um bipe.

— Ah, sim, seu passaporte foi liberado. Agora só preciso de uma assinatura. — Bertholt empurrou por cima da mesa uma minitela para escrita à mão. Havia uma caneta digital presa à tela por um fio. Butler pegou-a e rabiscou sua assinatura na linha. A assinatura seria reconhecida. Claro que sim. A original era do próprio Butler, já que o coronel Xavier Lee era uma das doze identidades falsas que o guarda-costas havia criado no correr dos anos. O passaporte também era autêntico, ainda que os detalhes escritos nele não fossem. Butler o havia comprado há anos, do secretário de um diplomata chinês no Rio de Janeiro.

De novo o computador soltou um bipe.

— Bom — disse Bertholt. — De fato o senhor é quem diz que é. Vou levá-lo à sala do cofre. Alfonse vai nos acompanhar?

Butler se levantou.

— Sem dúvida. Se eu deixá-lo aqui, provavelmente vai acabar sendo preso.

Bertholt tentou fazer piada.

— Bem, se é que posso dizer, coronel, ele está no lugar certo.

— Hilário, cara—murmurou Artemis. — Você devia ter, tipo assim, um programa de humor.

Mas o comentário de Bertholt era correto. Havia seguranças armados por todo o prédio. Ao primeiro sinal de qualquer impropriedade, eles iriam para pontos estratégicos, cobrindo todas as saídas.

Bertholt foi na frente, até um elevador de aço escovado, e levantou seu crachá para uma câmera sobre a porta.

E piscou para Artemis.

— Temos um sistema de segurança especial, meu jovem. É tudo bem empolgante.

— Sei. Acho que vou desmaiar — respondeu Artemis.

— Pára com isso, filho — ralhou Butler. — Bertholt está simplesmente tentando conversar.

Bertholt ficou impávido diante do sarcasmo de Artemis.

— Quem sabe você gostaria de trabalhar aqui quando crescer, hein, Alfonse?

Pela primeira vez Artemis deu um sorriso sincero e, por algum motivo, essa visão provocou tremores na coluna de Bertholt.

— Sabe de uma coisa, Bertholt? Acho que alguns dos meus melhores trabalhos serão em bancos.

O silêncio incômodo que se seguiu foi interrompido por uma voz vinda de um minúsculo alto-falante abaixo da câmera.

— Sim, Bertholt, estamos vendo você. Quantos?

— Dois — respondeu Bertholt. — Um proprietário da chave e um menor de idade. Descendo para abrir uma caixa.

A porta do elevador deslizou, revelando um cubóide de aço sem botões ou painéis, apenas uma câmera num dos cantos do alto. Eles entraram e o elevador foi ativado por controle remoto. Artemis notou Bertholt torcendo as mãos assim que eles começaram a descer.

— Ei, Bertholt, qual é o problema? É só um elevador. Bertholt forçou um sorriso. Um mero vislumbre de dentes apareceu embaixo do bigode.

— Você não deixa escapar muita coisa, não é, Alfonse? Não gosto de espaços pequenos. E não há controles aqui, por questão de segurança. O elevador é operado a partir da mesa de controle. Se desse defeito, nós teríamos de contar com os guardas para nos resgatar. Esta coisa é virtualmente estanque. E se o guarda tiver um ataque cardíaco ou fizer uma pausa para o café? Todos iríamos... — A fala nervosa do funcionário foi cortada pelo sibilar da porta do elevador. Tinham chegado ao andar do cofre-forte.

— Aqui estamos — disse Bertholt enxugando a testa com um lenço de papel. Parte do papel continuou presa nas rugas de preocupação da testa e balançou ali como uma biruta ao sopro do ar condicionado. — Em segurança, não é? Não precisamos nos preocupar nem um pouco. Tudo está bem. — Ele riu nervoso. — Vamos?

Um segurança corpulento esperava do lado de fora. Artemis notou a arma no cinto dele e o fio do fone de ouvido descendo pelo pescoço.

— Willkommen, Bertholt, você chegou inteiro. De novo. Bertholt tirou o pedaço de lenço de papel da testa.

— Sim, Kurt, cheguei, e não acho que o escárnio na sua voz passe despercebido.

Kurt deu um suspiro enorme, permitindo que o ar fizesse seus lábios vibrarem.

— Por favor, perdoem meu compatriota fóbico — disse a Butler. — Tudo o aterroriza, de aranhas a elevadores. É um espanto que ele se levante da cama. Bom, se puderem ficar no quadrado amarelo e levantar os braços até o nível do ombro...

Havia um quadrado amarelo desenhado com fita adesiva no piso de aço. Butler entrou nele, levantando os braços. Kurt fez uma revista que teria envergonhado um policial da alfândega, antes de pedir que ele passasse por um detector de metais.

— Está limpo — disse em voz alta. As palavras seriam captadas pelo microfone em sua lapela e transmitidas para a cabine de segurança. — Agora você, garoto. A mesma coisa.

Artemis obedeceu, entrando no quadrado com os ombros frouxos. Levantou os braços apenas uns quinze centímetros longe do corpo.

Butler o encarou furioso.

— Alfonse! Não consegue fazer o que o homem mandou? No exército eu colocaria você para limpar as latrinas por esse comportamento.

Artemis o olhou de volta, também irritado.

— É, coronel, mas não estamos no exército, não é? Kurt tirou a mochila das costas de Artemis e examinou o conteúdo.

— O que é isso? — perguntou, tirando um objeto de plástico duro.

Artemis pegou o objeto e o desdobrou com movimentos hábeis.

— Um patinete, cara. Você já deve ter ouvido falar. Transporte que não polui o ar que respiramos.

Kurt pegou o patinete de volta, girando as rodas e verificando as juntas.

Artemis deu um riso de desprezo.

— É claro que além disso é um cortador a laser, para eu poder arrombar seus cofres.

— Você é mesmo engraçadinho, garoto — rosnou Kurt, enfiando o patinete de volta na mochila. — E o que é isso?

Artemis ligou o videogame.

— Um jogo. Essas coisas foram inventadas para que os adolescentes não precisem falar com os adultos.

Kurt olhou para Butler.

— Ele é uma preciosidade, senhor. Gostaria de ter um igual.

— Em seguida sacudiu um chaveiro preso no cinto de Artemis.

— E o que são essas coisas? Artemis cocou a cabeça.

— É... chaves?

Kurt trincou os dentes audivelmente.

— Sei que são chaves, garoto. O que elas abrem? Artemis deu de ombros.

— Coisas. Meu armário. O cadeado do meu patinete. Uns dois diários. Coisas.

O segurança examinou as chaves. Eram chaves comuns e não abririam uma tranca complicada. Mas o banco tinha uma regra contra chaves. Somente as chaves das caixas do cofre-forte podiam passar pelo detector de metais.

— Desculpe. As chaves ficam aqui. — Kurt soltou o chaveiro e colocou as chaves numa bandeja. — Pode pegar de volta na saída.

— Posso ir agora?

— Pode — respondeu Kurt. — Por favor, mas primeiro entregue a mochila ao seu pai.

Artemis entregou a mochila a Butler, por fora do arco do detector de metais. Em seguida o atravessou, fazendo soar o alarme.

Kurt o acompanhou, impaciente.

— Você tem mais alguma coisa metálica aí? Uma fivela? Moedas?

— Dinheiro? — zombou Artemis. — Gostaria muito.

— O que está acionando o detector, então? — perguntou Kurt, perplexo.

— Acho que sei. — Artemis enfiou o dedo dentro do lábio superior e o puxou para cima. Duas faixas de metal passavam por cima dos seus dentes.

— Aparelho dentário. É isso — disse Kurt. — O detector é extremamente sensível.

Artemis tirou o dedo da boca.

— Preciso tirar isso também? Arrancar dos dentes? Kurt levou a sugestão a sério.

— Não. Acho que você está bastante seguro. Passe. Mas comporte-se aí dentro. É um cofre, e não um parque de diversões. — Kurt fez uma pausa, apontando para uma câmera acima da cabeça deles. — Lembrem-se, vou ficar de olho.

— Olhe o que quiser — respondeu Artemis descaradamente.

— Ah, vou olhar, garoto. Se você ao menos cuspir numa daquelas portas eu o expulso daqui, À força.

— Ah, pelo amor de Deus, Kurt—disse Bertholt. — Não seja tão teatral. Essas câmeras não são de uma rede de TV aberta.

A porta era uma placa de aço circular com cerca de cinco metros de diâmetro. Apesar do tamanho, girou facilmente ao toque de Bertholt.

— Perfeitamente equilibrada—explicou o funcionário. — Uma criança poderia abri-la. Até as cinco e meia, quando é fechada para a noite. Naturalmente o cofre tem fechadura de tempo. Ninguém pode abrir a porta até as oito e meia da manhã. Nem mesmo o presidente do banco.

Dentro do cofre havia fileiras e mais fileiras de caixas de aço de todas as formas e tamanhos. Cada caixa tinha um único buraco de fechadura retangular, rodeado por uma luz de fibra ótica. No momento todas as luzes estavam vermelhas.

Bertholt pegou uma chave no bolso; estava presa ao cinto por um cabo de aço trançado.

— Claro que a forma da chave não tem importância — disse ele, inserindo a chave numa fechadura-mestra. — As fechaduras também são operadas por microchip.

Butler pegou uma chave semelhante em sua carteira.

— Estamos prontos?

— Quando quiser, senhor.

Butler passou os dedos em várias caixas até chegar ao número setecentos. Em seguida enfiou sua chave na fechadura.

— Pronto.

— Muito bem, senhor. Quando eu disser. Três, dois, um. Vire.

Os dois viraram as chaves simultaneamente. A salvaguarda da chave-mestra impedia que um ladrão abrisse uma caixa com uma chave só. Se as duas chaves não fossem viradas com menos de um segundo de intervalo, a caixa não iria se abrir.

A luz em volta das duas chaves mudou de vermelha para verde. A porta da caixa de Butler se abriu.

— Obrigado, Bertholt — disse Butler, enfiando a mão na caixa.

— Não há de quê, senhor — respondeu Bertholt, quase fazendo uma reverência. — Estarei do lado de fora. Mesmo com a câmera, há uma regra de três minutos de inspeção. Portanto verei o senhor dentro de cento e oitenta segundos.

Assim que o funcionário saiu, Artemis lançou um olhar interrogativo ao guarda-costas.

— Alfonse? — disse ele pelo canto da boca. — Não me lembro de ter decidido sobre o nome do meu personagem.

Butler acionou o cronômetro de seu relógio.

— Eu estava improvisando, Artemis. Achei que a situação exigia isso. E, se é que posso dizer, você fez um adolescente chato muito convincente.

— Obrigado, velho amigo. Eu me esforço.

Butler tirou de sua caixa uma planta de arquiteto, desdobrando o documento até ficar com cerca de um metro por meio metro. Segurou-o com os braços esticados, aparentemente estudando o desenho a tinta.

Artemis olhou para cima, para a câmera no teto.

— Levante os braços mais cinco centímetros e dê um passo à esquerda.

Butler fez isso de modo casual, disfarçando os movimentos com uma tosse e sacudindo o papel.

— Bom. Perfeito. Fique aí mesmo.

Quando Butler alugara a caixa, em sua última visita, havia tirado numerosas fotos do cofre com uma microcâmera no botão do paletó. Artemis usou as fotos para fazer uma imagem digital do lugar. Segundo seus cálculos, a posição atual de Butler lhe daria uma cobertura de três metros quadrados. Nesta área, seus movimentos estariam escondidos pelo desenho. No momento apenas seus tênis podiam ser vistos pelos seguranças.

Artemis apoiou as costas numa parede de caixas, entre dois bancos de aço. Apoiou os dois braços nos bancos e se levantou, deixando no chão os tênis grandes demais. Com cuidado, o garoto deslizou para cima do banco.

— Fique de cabeça baixa — aconselhou Butler. Artemis remexeu na mochila para pegar o videocubo. Embora a caixa contivesse realmente um jogo de computador, sua função principal era como painel de raio X com visão em tempo real. Os painéis de raio X eram de uso comum entre os mais altos escalões de criminosos e fora relativamente simples para Artemis disfarçar um deles como brinquedo de adolescente.

Artemis ativou o raio X, passando-o pela porta da caixa ao lado da de Butler. O guarda-costas havia alugado a caixa dois dias depois de Crane e Sparrow terem alugado a deles. Era de imaginar que as caixas fossem próximas, a não ser que Crane e Sparrow tivessem requisitado um número específico. Neste caso era voltar à prancheta. Artemis achava que sua primeira tentativa de roubar O ladrão das fadas tinha quarenta por cento de probabilidade de sucesso. Não era uma porcentagem ideal, mas ele não tinha opção além de ir em frente. No mínimo aprenderia mais sobre a segurança do banco.

A pequena tela do videogame revelou que a primeira caixa estava cheia de dinheiro.

— Negativo — disse Artemis. — Só dinheiro. Butler levantou uma sobrancelha.

— Você sabe o que dizem: dinheiro nunca é demais. Artemis já havia passado à caixa seguinte.

— Hoje não, velho amigo. Mas vamos manter o aluguel da nossa caixa, para o caso de precisarmos voltar.

A caixa seguinte continha documentos jurídicos amarrados com fitas. A próxima estava cheia de diamantes soltos numa bandeja. Artemis encontrou o ouro na caixa seguinte. Figurativamente. Dentro da caixa havia um tubo comprido contendo uma tela enrolada.

— Acho que conseguimos, Butler. Creio que pode ser.

— Haverá tempo suficiente para se empolgar quando a pintura estiver pendurada na parede da mansão Fowl. Depressa, Artemis, meus braços estão começando a doer.

Artemis se controlou. Claro que Butler estava certo. Ainda faltava muito para possuir O ladrão das fadas, se esta fosse de fato a obra-prima de Hervé. Poderia ser facilmente um desenho de um helicóptero a lápis de cera, guardado por um avô orgulhoso.

Artemis moveu a máquina de raio X para a base da caixa. Não havia marcas de fabricante na porta, mas freqüentemente os artesãos eram orgulhosos e não resistiam a colocar uma assinatura em algum lugar. Mesmo que ninguém soubesse que ela estava ali. Artemis procurou por cerca de vinte segundos até achar o que estava procurando. No lado de dentro da porta, no painel de trás, estava gravada a palavra Blokken.

— Blokken — disse em triunfo. — Estávamos certos. Havia apenas seis empresas no mundo capazes de construir cofres-fortes daquela qualidade. Artemis tinha invadido os computadores delas e encontrado o Banco Internacional na lista de clientes da Blokken. A Blokken era uma pequena empresa familiar de Viena que também fazia cofres para vários bancos de Genebra e das Ilhas Cayman. Butler fizera uma visitinha à oficina deles e roubara duas chaves-mestras. Claro que as chaves eram de metal e não escapariam ao detector, a não ser que, por algum motivo, fosse permitida a entrada de algo metálico.

Artemis enfiou dois dedos na boca, deslocando o aparelho dos dentes superiores. Atrás do aparelho havia um retentor de plástico, e preso nele estavam as duas chaves. As chaves-mestras. O garoto girou o maxilar por alguns segundos. — Assim está melhor — falou. — Achei que ia engasgar. O problema seguinte era a distância. O espaço entre a caixa e a fechadura-mestra era de cerca de dois metros e meio. Não somente era impossível uma pessoa abrir a porta sem ajuda, mas quem ficasse junto à fechadura-mestra seria visto pelos seguranças.

Artemis tirou o patinete da mochila. Puxou um pino, soltando a coluna de direção da base. Este não era um patinete comum. Um engenheiro amigo de Butler o havia construído a partir de um projeto muito específico. A base era totalmente comum, mas a coluna de direção se transformava num braço telescópico ao toque de um botão acionado por mola. Artemis desatarraxou um dos punhos do patinete e o atarraxou de novo na outra ponta da coluna. Havia uma fenda na extremidade de cada punho, onde Artemis prendeu uma chave-mestra. Agora só precisava colocar as duas chaves nos buracos correspondentes e girá-los ao mesmo tempo.

Enfiou uma das chaves na caixa de Crane e Sparrow.

— Pronto? — perguntou a Butler.

— Sim — respondeu o guarda-costas. — Não se afaste mais do que o necessário.

— Três, dois, um. Lá vai.

Artemis apertou o botão, acionando a mola na coluna de direção. Em seguida andou com cuidado sobre o banco, puxando o braço telescópico. Enquanto o garoto se mexia, Butler girou o tronco de modo que Artemis continuasse escondido pelo papel. Moveu a planta apenas o suficiente para cobrir a fechadura-mestra, sem expor os tênis de Artemis sem as pernas. Mas a caixa onde estava a pintura ficaria visível, até mesmo com o braço telescópico, pelo tempo que Artemis demorasse para enfiar a segunda chave.

A fechadura-mestra ficava a cerca de um metro da extremidade do banco de aço. Artemis se inclinou o máximo que pôde, sem perder o equilíbrio, e enfiou a chave na fechadura. Encaixou perfeitamente. Artemis voltou depressa. Agora Butler podia esconder de novo a caixa de Crane e Sparrow. Todo o plano dependia da suposição de que os seguranças estariam concentrados em Butler e não notariam uma haste fina se estendendo para a fechadura-mestra. O fato de a haste ter exatamente a mesma cor das caixas ajudava.

Artemis voltou à caixa original e torceu o punho do patinete. Um sistema de cabo e polias dentro da haste fez o outro punho girar simultaneamente. As duas fechaduras ficaram verdes. A caixa de Crane e Sparrow se abriu. Artemis sentiu um momento de satisfação. Seu equipamento havia funcionado. Mas, afinal de contas, não havia motivo para não funcionar: todas as leis da física tinham sido obedecidas. Era espantoso como a segurança eletrônica mais rigorosa podia ser derrotada por uma haste, uma polia e um aparelho dentário.

— Artemis — gemeu Butler. — Está ficando desconfortável manter os braços levantados. Portanto, se você não se importar...

Artemis interrompeu a comemoração mental. Ainda não tinham saído do cofre. Virou os punhos do patinete de volta à posição original e puxou a barra. As duas chaves saíram das fechaduras. Com o toque de um botão, a haste voltou ao tamanho normal. Artemis não montou o patinete de novo, por enquanto. Talvez a haste fosse necessária para procurar em outras caixas.

Examinou a caixa com o painel de raio X antes de abrir a porta totalmente. Estava procurando por algum fio ou circuito que pudesse disparar alarmes secundários. Havia um. Um fio preso a uma sirene portátil. Seria extremamente embaraçoso para qualquer ladrão se as autoridades fossem alertadas pelo gemido rouco de uma sirene de nevoeiro. Artemis sorriu. Parecia que Crane e Sparrow tinham senso de humor. Talvez ele os contratasse como advogados.

Tirou os fones de ouvido do pescoço e soltou um dos alto-falantes. Assim que os fios internos foram expostos, torceu um pedaço junto a cada extremidade do fio que acionava o alarme. Agora podia cortar o fio sem acionar o circuito. Puxou a porta. A sirene permaneceu em silêncio.

Por fim a caixa estava aberta à sua frente. Dentro havia um único tubo encostado à parede dos fundos. O tubo era feito de acrílico e continha uma tela enrolada. Artemis retirou o tubo e o colocou diante da luz. Por vários segundos examinou a pintura através do plástico transparente. Não podia se arriscar a abrir o tubo até que estivessem em segurança no hotel. Um trabalho apressado agora poderia causar danos acidentais à pintura. Havia esperado anos para obter O ladrão das fadas; podia esperar mais algumas horas.

— A pincelada é inconfundível — falou, fechando a caixa. — Pinceladas fortes. Densos blocos de luz. É Hervé ou uma cópia brilhante. Acredito que conseguimos, Butler, mas não posso ter certeza sem usar raio X e uma análise da tinta.

— Bom — respondeu o guarda-costas olhando o relógio. — Isso pode ser feito no hotel. Guarde e vamos sair daqui.

Artemis enfiou o cilindro na mochila, junto com o patinete remontado. Em seguida prendeu as chaves no retentor e pôs o aparelho dentário.

A porta do cofre se abriu no instante em que o jovem irlandês enfiou os pés nos tênis. A cabeça de Bertholt apareceu na abertura.

— Tudo certo aí dentro? — perguntou. Butler dobrou o desenho e o enfiou no bolso.

— Ótimo, Bertholt. Na verdade, excelente. Pode nos acompanhar ao térreo.

Bertholt fez uma ligeira reverência.

— Claro. Sigam-me.

Artemis estava de volta ao papel do adolescente irritante.

— Muito obrigado, Berty. Isso aqui foi o maior barato. Adoro passar as férias em bancos, olhando papéis.

Bertholt merecia todo o crédito: seu sorriso não se abalou.

Kurt os esperava junto ao arco do raio X, os braços cruzados diante do peito que parecia de rinoceronte. Esperou até Butler ter passado, depois deu um tapinha no ombro de Artemis.

— Você se acha mesmo espertinho, não é, garoto? — disse ele, rindo.

Artemis riu de volta.

— Comparado a você? É claro que sim.

Kurt se curvou com as mãos nos joelhos, até estar com os olhos no nível dos de Artemis.

— Eu estava olhando da cabine de segurança. Você não fez nada. Gente do seu tipo nunca faz.

— Como é que você sabe? Eu poderia estar arrombando aquelas caixas.

— Sei muito bem. Sei porque pude ver seus pés o tempo todo. Você não se mexeu nem um centímetro.

Artemis pegou o chaveiro na bandeja e correu atrás de Butler para entrar no elevador.

— Desta vez você venceu. Mas eu volto. Kurt pôs as mãos em concha ao redor da boca.

— Venha mesmo — gritou. — Estarei esperando.

 

A CAPITÃ Holly Short ia ser promovida. Era a virada de carreira do século. Menos de um ano tinha se passado desde que fora objeto de duas investigações internas, mas agora, depois de seis missões bem-sucedidas, Holly era a criatura de ouro do esquadrão de Reconhecimento da Liga de Elite da Polícia. Logo o Conselho iria se reunir para decidir se ela seria ou não a primeira major na história do LEPrecon. E, para dizer a verdade, a perspectiva não lhe agradava nem um pouco. Em geral os majores raramente punham um kit de asas e voavam entre a terra e as estrelas. Em vez disso, passavam o tempo enviando policiais de patente inferior em missões na superfície. Holly tinha decidido recusar a promoção, caso lhe fosse oferecida. Poderia viver com um salário menor se isso significasse que ainda veria a superfície regularmente.

Decidiu que seria sensato contar ao comandante Julius Raiz o que planejava fazer. Afinal de contas, Raiz é que a havia defendido nos inquéritos, e era Raiz que a havia recomendado para a promoção. O comandante não receberia bem a notícia. Ele jamais recebia bem qualquer notícia: até as boas eram recebidas com um obrigado carrancudo e uma porta batida na cara.

Naquela manhã Holly estava diante da porta de Raiz, juntando coragem para bater. E embora, medindo exatamente noventa centímetros, Holly estivesse logo abaixo da altura mediana de uma criatura das fadas, sentia-se feliz com o centímetro e meio dado pelo cabelo castanho espetado. Antes que pudesse bater, a porta foi escancarada e a cara vermelhusca de Raiz apareceu.

— Capita Short! Venha cá! — gritou ele, com o cabelo curto e grisalho estremecendo. Então notou que Holly estava parada junto à porta. — Ah, você está aí. Entre. Temos um problema que precisa de solução. Tem a ver com um dos nossos amigos goblins.

Holly acompanhou Raiz, entrando na sala. Potrus, o conselheiro técnico da LEP, já estava lá, suficientemente perto da tela de plasma na parede para chamuscar os pêlos do nariz.

— Vídeo do Pico do Uivo — explicou Raiz. — O general Escamoto fugiu.

— Fugiu? — ecoou Holly. — E sabemos como? Potrus estalou os dedos.

— D’Arvit! Era isso que deveríamos estar pensando, em vez de ficar aqui parados brincando de espião.

— Não temos tempo para o sarcasmo de sempre, Potrus — rosnou Raiz, com a pele ficando cor de vinho tinto. — Isso é um desastre de relações públicas. Escamoto é o inimigo público número dois, só está atrás da própria Opala Koboi. Se os noticiários ficarem sabendo disso seremos motivo de riso em Porto. Para não mencionar que Escamoto poderia reunir alguns de seus colegas goblins e reativar a tríade.

Holly foi até a tela, dando uma cotovelada na anca de Potrus, para ele sair do caminho. Sua conversinha com o comandante Raiz podia esperar. Havia trabalho policial a ser feito.

— O que você está olhando?

Potrus destacou um trecho da tela com um ponteiro a laser.

— Pico do Uivo, instituição penitenciária para goblins. Câmera oitenta e seis.

— Mostra o quê?

— A sala de visitas. Escamoto entrou, mas não saiu. Holly examinou a lista de câmeras.

— Não há câmera dentro da sala?

Raiz tossiu, ou pode ter sido um rosnado.

— Não. Segundo a terceira convenção de Atlântida sobre 01 direitos das criaturas das fadas, os detidos têm direito a privacidade na sala de visitas.

— Então não sabemos o que aconteceu lá?

— Não.

— Que gênio projetou esse sistema, afinal?

Apesar da seriedade da situação, Raiz deu um risinho. Jamais podia resistir a dar uma cutucada no centauro presunçoso.

— Nosso amigo eqüino aqui desenhou sozinho o sistema de segurança automatizada do Pico do Uivo.

Potrus fez beicinho, e quando um centauro faz beicinho, seu lábio inferior quase chega ao queixo.

— Não é o sistema. O sistema é à prova de erros. Cada prisioneiro tem um buscador-adormecedor subcutâneo padrão, implantado na cabeça. Mesmo que um goblin possa escapar por milagre, podemos derrubá-lo por controle remoto e depois pegá-lo.

Holly ergueu as mãos.

— Então qual é o problema?

— O problema é que o buscador-adormecedor não está transmitindo. Ou, se está, não conseguimos captar o sinal.

— Isto sim é um problema.

Raiz acendeu um fedorento charuto de fungo. A fumaça foi sugada instantaneamente por um reciclador de ar em sua mesa.

— O major Kelp saiu com uma unidade móvel, tentando captar o sinal.

Encrenca Kelp tinha sido recentemente promovido ao segundo posto na linha de comando, logo abaixo de Raiz. Não era o tipo de oficial que gostava de ficar atrás de uma mesa, ao contrário do irmão mais novo, o cabo Larva Kelp, que adoraria ficar preso atrás de uma mesa segura pelo resto da carreira. Se Holly fosse obrigada a receber a promoção, esperava ser uma major com metade da capacidade de Encrenca. Holly voltou a atenção para a tela de plasma.

— Então, quem estava visitando o general Escamoto?

— Um dos seus milhares de sobrinhos. Um goblin chamado Boohn. Parece que isso significa testa nobre em dialeto goblin.

— Eu me lembro dele — disse Holly. — Boohn. A alfândega acha que ele é um dos goblins por trás das operações de contrabando da B’wa Kell. Não há nada de nobre nele.

Potrus abriu uma pasta na tela de plasma usando o ponteiro a laser.

— Aqui está uma lista de visitantes. Boohn entrou às sete e cinqüenta, hora média dos Elementos de baixo. Pelo menos isso eu posso mostrar no vídeo.

Uma tela granulada mostrou um goblin corpulento no corredor de acesso da prisão, lambendo nervosamente os globos oculares enquanto o laser de segurança o examinava. Assim que foi confirmado que Boohn não estava tentando contrabandear nada para dentro, a porta dos visitantes se abriu.

Potrus fez a lista correr pela tela.

— E olhe aqui. Ele saiu às oito e quinze.

Boohn saiu rapidamente, sem dúvida pouco à vontade dentro da prisão. A câmera do estacionamento mostrou-o correndo de quatro para chegar mais rapidamente ao seu carro.

Holly examinou a lista com cuidado.

— Então você está dizendo que Boohn saiu às oito e quinze?

— Acabei de dizer isso, não foi, Holly? — respondeu Potrus, irritado. — Vou dizer outra vez bem devagar. Oito e quinze.

Holly pegou o ponteiro a laser.

— Bem, se isso é verdade, como ele conseguiu sair de novo às oito e vinte?

Era isso mesmo. Oito linhas abaixo na lista, o nome de Boohn surgiu de novo.

— Já vi. É um erro — murmurou Potrus. — Só isso. Ele não poderia sair duas vezes. Não é possível. Às vezes isso acontece, é um bug, nada mais.

— A não ser que na segunda vez não fosse ele. O centauro cruzou os braços, na defensiva.

— Acha que eu não pensei nisso? Cada um que entra ou sai no Pico do Uivo é escaneado uma dezena de vezes. Nós usamos pelo menos oitenta pontos de referência faciais a cada exame. Se o computador diz que é Boohn, é ele. De modo nenhum um goblin pode derrotar meu sistema. Eles mal têm capacidade cerebral para andar e falar ao mesmo tempo.

Holly usou o ponteiro para rever todo o vídeo da entrada de Boohn. Ampliou a cabeça dele, usando um programa de manipulação de fotos para melhorar a imagem.

— O que você está procurando? — perguntou Raiz.

— Não sei, comandante. Alguma coisa. Qualquer coisa.

Demorou alguns minutos, mas por fim Holly conseguiu. Soube imediatamente que estava certa. Sua intuição zumbia como um enxame de abelhas na nuca.

— Olhem aqui — disse ela, ampliando a testa de Boohn. — Uma bolha de escama. Esse goblin está trocando de pele.

— E daí? — perguntou Potrus, carrancudo. Holly abriu de novo o arquivo da saída de Boohn.

— Agora olhem. Não há bolha.

— Então ele estourou a bolha. Grande coisa.

— Não. É mais do que isso. Quando Boohn entrou, estava com a pele quase cinza. Agora está de um verde brilhante. Ele tem até um padrão de camuflagem nas costas.

Potrus fungou.

— O que não falta é boa camuflagem na cidade.

— O que você está pensando, capitã? — perguntou Raiz, apagando o charuto.

— Boohn trocou de pele na sala de visitas. Então onde está a pele?

Houve silêncio por um longo momento enquanto os outros absorviam as implicações desta pergunta.

— Isso daria certo? — perguntou Raiz, ansioso. Potrus estava quase aparvalhado.

— Pelos deuses, acho que daria.

O centauro pegou um teclado, os dedos grossos voando sobre as letras do alfabeto gnomês. Uma nova caixa de vídeo apareceu na tela. Nessa caixa, outro goblin saía da sala. Parecia-K muito com Boohn. Muito, mas não exatamente. Algo não estava muito certo. Potrus deu um zoom até a cabeça do goblin. Na ampliação máxima, ficou claro que a pele do goblin não se encaixava direito. Faltavam retalhos e o goblin parecia estar segurando dobras ao longo do peito.

— Ele fez isso. Não posso acreditar.

— Foi tudo planejado — disse Holly. — Não foi por oportunismo. Boohn esperou até trocar de pele. Depois visitou o tio e os dois tiraram sua pele. O general Escamoto vestiu a pele e simplesmente saiu pela porta, enganando todos os seus scanners no caminho. Quando o nome de Boohn apareceu de novo, você achou que era defeito do equipamento. Simples, mas completamente engenhoso.

Potrus se deixou cair numa cadeira de escritório especialmente projetada.

— É incrível. Os goblins podem fazer isso?

— Está brincando? — perguntou Raiz. — Uma boa costureira goblin pode tirar uma pele sem causar um único rasgo. É disso que eles fazem as roupas, quando se incomodam em usar alguma.

— Eu sei. O que quis dizer foi: será que os goblins conseguem fazer isso sozinhos? Não creio. Precisamos pegar Escamoto e descobrir quem planejou.

Potrus discou uma conexão para a câmera de Koboi na clínica de Argônio.

— Vou verificar se Opala Koboi ainda está apagada. Esse tipo de coisa é bem do estilo dela. — Um minuto depois ele girou para encarar Raiz. — Não. Ainda está no país dos sonhos.

Não sei se isso é bom ou ruim. Odiaria ter Opala de novo em circulação, mas pelo menos saberíamos o que estamos enfrentando.

Um pensamento golpeou Holly, tirando o sangue de seu rosto.

— Você não acha que poderia ser ele, acha? Não poderia ser Artemis Fowl?

— Definitivamente não — respondeu Potrus. — Não é o Garoto da Lama. Impossível.

Raiz não estava convencido.

— Eu não diria esta palavra com tanta freqüência, se fosse você. Holly, assim que pegarmos o Escamoto, quero que assine um pacote de vigilância e passe uns dois dias na trilha do Garoto da Lama. Veja o que ele está fazendo. Só para garantir.

— Sim, senhor.

— E, Potrus, estou autorizando um aumento na vigilância. O que você precisar. Quero ouvir cada telefonema que Artemis der e quero ler cada carta que ele enviar.

— Mas Julius, eu mesmo supervisionei o apagamento mental dele. Foi um serviço muito bem-feito. Suguei a memória que ele tinha do povo das fadas e deixei a coisa mais limpa do que quando um goblin suga um caramujo de dentro da casaca. Mesmo se aparecêssemos na porta de Artemis dançando o cancã, ele não se lembraria. Seria necessário algum tipo de gatilho implantado para dar início pelo menos a uma lembrança parcial.

Raiz não gostava que discutissem com ele.

— Um: não me chame de Julius. Dois, faça o que eu digo, cavalão, caso contrário cortarei seu orçamento. E três: o que, em nome de Fronde, é cancã?

Potrus revirou os olhos.

— Esquece. Vou organizar o aumento na vigilância.

— Muito sensato — respondeu Raiz, tirando um telefone que vibrava em seu cinto. Ouviu durante vários segundos, grunhindo afirmações ao aparelho.

— Esqueça Fowl por enquanto — disse ele, fechando o telefone. — Encrenca localizou o general Escamoto. Está no E37. Holly, fique comigo. Potrus, siga-nos no transporte técnico. Parece que o general quer falar.

A Cidade do Porto estava acordando para o comércio matinal, embora fosse meio equivocado chamar isso de manhã, já que só havia luz artificial no subsolo. Segundo os padrões humanos, Porto era pouco mais do que um povoado, tendo pouco mais de dez mil habitantes. Mas em termos do povo das fadas, era a maior metrópole desde a Atlântida original, cuja maior parte estava enterrada sob um terminal de lançadores, de três andares, na nova Atlântida.

O carro do comandante Raiz atravessou o tráfego da hora do rush, com seu campo magnético afastando automaticamente os outros veículos do caminho e colocando-os em fendas na pista de baixa velocidade. Raiz e Holly estavam sentados no banco de trás, querendo chegar logo. A situação ficava mais estranha a cada minuto. Primeiro Escamoto foge, e agora seu paradeiro é descoberto e ele quer falar com o comandante Raiz.

— O que acha disso? — perguntou Raiz finalmente. Um dos motivos para ele ser um comandante tão bom era que respeitava a opinião de seus subordinados.

— Não sei. Pode ser uma armadilha. O que quer que aconteça, o senhor não pode entrar lá sozinho.

Raiz assentiu.

— Sei disso. Nem mesmo eu sou tão teimoso assim. De qualquer modo, Encrenca provavelmente estará com a situação resolvida quando eu aparecer. Ele não gosta de ficar esperando a chegada do chefe. Como outra pessoa que eu conheço, né, Holly?

Holly meio riu, meio fez uma careta. Fora repreendida mais de uma vez por ignorar a ordem de esperar reforços.

Raiz levantou a barreira à prova de som entre eles e o motorista.

— Precisamos conversar, Holly. Sobre o negócio de major. Holly espiou os olhos de seu superior. Havia um toque de tristeza neles.

— Não ganhei o posto — disse ela, incapaz de esconder o alívio.

— Não. Não, você ganhou. Ou vai ganhar. O anúncio oficial será amanhã. A primeira major do sexo feminino na história do Recon. Tremendo feito.

— Mas, comandante, não acho que...

Raiz a silenciou balançando o dedo.

— Quero lhe dizer uma coisa, Holly. Sobre minha carreira. Na verdade é uma metáfora da sua carreira. Há muitos anos, quando você ainda usava macacões de bebê com o traseiro acolchoado, eu era famoso no Recon. Adorava o cheiro de ar puro. Cada momento que passava ao luar era um momento dourado.

Holly não tinha dificuldade para se colocar no lugar do comandante. Sentia exatamente o mesmo em suas viagens à superfície.

— E fazia meu serviço do melhor modo possível, um pouquinho bem demais, por sinal. Um dia acabei sendo promovido.

Raiz prendeu um globo purificador na ponta de um charuto para que o cheiro não empesteasse o carro. Era um gesto raro.

— Major Julius Raiz. Era a última coisa que eu queria ser, por isso fui ao escritório do meu comandante e disse: “Sou um agente de campo. Não quero ficar sentado atrás de uma mesa preenchendo formulários.” Acredite ou não, fiquei bastante agitado.

Holly tentou parecer pasma, mas não conseguiu. O comandante passava a maior parte do tempo num estado de agitação, com o rosto vermelho, o que explicava seu apelido, Raiz de Beterraba.

— Mas o comandante disse uma coisa que me fez mudar de idéia. Quer saber o que foi?

Raiz prosseguiu com a história sem esperar resposta.

— Meu comandante disse: Julius, esta promoção não é para você; é para o Povo. — Raiz levantou uma sobrancelha. — Vê onde quero chegar?

Holly sabia. Esta era a falha em seu argumento. Raiz pôs a mão no ombro dela.

— O Povo precisa de bons oficiais, Holly. Precisa de criaturas como você para protegê-lo dos Homens da Lama. Quer saber se eu preferiria estar zunindo sob as estrelas com o vento nas narinas? Sim. Será que eu estaria fazendo o mesmo bem? Não.

Raiz parou para tragar profundamente o charuto, cujo brilho iluminou o globo purificador.

— Você é uma boa policial do Recon, Holly. Está entre os melhores que já vi. Às vezes meio impulsiva, sem muito respeito pela autoridade, mas mesmo assim uma policial intuitiva. Eu não sonharia em tirá-la das linhas de frente se não achasse que você poderia servir melhor à LEP embaixo do solo. Entende?

— Sim, comandante — respondeu Holly, lamentando. Ele estava certo, mesmo que seu lado egoísta ainda não estivesse pronto para aceitar isso. Pelo menos havia a vigilância de Fowl para fazer antes que o novo cargo a ancorasse aos elementos de baixo.

— Há um lado positivo em ser major — disse Raiz. — Algumas vezes, só para aliviar o tédio, você pode dar uma missão a si mesma. Algo na superfície. No Havaí, talvez, ou na Nova Zelândia. Olhe o Encrenca Kelp. Ele é um novo estilo de major, mais com a mão na massa. Talvez seja disso que a LEP necessita.

Holly sabia que o comandante estava tentando amenizar o golpe. Assim que o distintivo de major estivesse em sua lapela, ela não iria à superfície tanto como agora. Se tivesse sorte.

— Estou colocando meu pescoço na corda, Holly, ao recomendá-la para o cargo de major. Até agora, para dizer o mínimo, sua carreira foi acidentada. Se pretende recusar a promoção, diga agora e eu retiro seu nome.

Ultima chance, pensou Holly. Agora ou nunca.

— Não. Não vou recusar. Como poderia? Quem sabe quando o próximo Artemis Fowl vai aparecer?

Aos ouvidos de Holly, sua própria voz parecia distante, como se outra pessoa estivesse falando. Imaginou os sinos do tédio de toda a vida tocando por trás de cada palavra sua. Um serviço burocrático. Tinha ganhado um serviço burocrático.

Raiz lhe deu um tapinha no ombro, a mão enorme fazendo o ar sair dos pulmões.

— Anime-se, capitã. Há vida abaixo da superfície, você sabe.

— Sei — disse Holly com absoluta falta de convicção.

O veículo policial parou ao lado do E37. Raiz abriu a porta, começou a desembarcar e parou.

— Se é que faz alguma diferença — disse em voz baixa, quase sem jeito. — Sinto orgulho de você, Holly. — E saiu pela porta misturando-se à multidão de policiais da LEP que apontavam as armas para a entrada da estação.

Faz diferença, pensou Holly, observando o comandante assumir instantaneamente o controle da situação. Uma grande diferença.

Os poços eram passagens de magma natural que se estendiam do núcleo da terra até a superfície do planeta. A maioria emergia embaixo d’água, fornecendo fontes quentes que alimentavam a vida no fundo do mar, mas algumas filtravam seus gases pela rede de rachaduras e fendas que perfuravam a superfície seca. A LEP usava a energia das explosões de magma para impelir seus policiais até a superfície, dentro de ovos de titânio. Uma viagem mais calma podia ser feita através de um poço adormecido. O E37 saía no centro de Paris e até recentemente fora o poço usado pelos goblins em suas operações de contrabando. Fechado ao público há muitos anos, o terminal do poço tinha ficado sem manutenção. Atualmente os únicos ocupantes do E37 eram os membros de uma empresa de cinema que estavam produzindo um filme para a TV sobre a rebelião dos B’wa Kell. O papel de Holly estava sendo representado por SkylarTurfa, três vezes ganhadora do AMP, e Artemis Fowl seria totalmente gerado por computador.

Quando Holly e Raiz chegaram, o major Encrenca Kelp estava com três esquadrões do comando tático da LEP dispostos em volta da entrada do terminal.

— Informe, major — ordenou Raiz.

Kelp apontou para a entrada.

— Temos um caminho de entrada e nenhum de saída. Todas as entradas secundárias desmoronaram há muito, de modo que, se Escamoto estiver aí, tem de passar por nós para ir embora.

— Temos certeza de que ele está aí?

— Não — admitiu o major Kelp. — Captamos o sinal dele. Mas quem quer que o tenha ajudado a escapar pode ter aberto a cabeça dele e tirado o transmissor. Só temos certeza de que alguém está brincando conosco. Mandei dois de meus melhores duendes do Recon e eles voltaram com isto. — Encrenca lhes entregou um chip de som. Os chips eram do tamanho de uma unha de polegar e geralmente eram usados para gravar curtas mensagens de aniversário. Este tinha a forma de um bolo de aniversário. Raiz fechou os dedos ao redor do chip. O calor de sua mão iria alimentar os microcircuitos.

Uma voz sibilante brotou do alto-falante minúsculo, tornada ainda mais reptiliana devido ao equipamento barato.

— Raiz. Eu falaria com você. Contaria um grande segredo. Traga a fêmea, Holly Short. Só os dois. Não mais. Qualquer um a mais, e muitos morrerão. Meus camaradas garantirão isso... — A mensagem terminava com uma cantiga de aniversário tradicional, cuja alegria destoava do que fora dito.

Raiz fez um muxoxo.

— Goblins. Adoram um teatro,

— É uma armadilha, comandante — disse Holly sem hesitar. — Nós é que estávamos nos Laboratórios Koboi há um ano. Os goblins nos consideram responsáveis pelo fracasso da rebelião. Se entrarmos aí, quem sabe o que nos espera?

Raiz assentiu, aprovando.

— Agora você está pensando como uma major. Nós não somos dispensáveis. Então, quais são as opções, Encrenca?

— Se o senhor não entrar, muitos morrerão. Se entrar, talvez o senhor morra.

— Não são belas opções. Não tem nada de bom para me dizer?

Encrenca baixou o visor de seu capacete, consultando uma minitela projetada no plástico.

— Conseguimos conectar de novo os scanners de segurança do terminal e fizemos análises térmicas e de substância. Achamos uma única fonte de calor no túnel de acesso, portanto Escamoto está sozinho, se for ele. O que quer que esteja fazendo lá, ele não tem nenhum tipo de armamento ou explosivos. Apenas algumas barras de besouro e um pouco da velha e boa H2O.

— Está para acontecer alguma explosão de magma? — perguntou Holly.

Encrenca passou o dedo por um sensor na luva esquerda, fazendo correr a imagem na tela do visor.

— Nada nos próximos dois meses. Esse poço é intermitente. Portanto Escamoto não está planejando assar vocês.

As bochechas de Raiz brilharam como duas resistências de aquecedor.

— D’Arvit — xingou ele. — Achei que nossos problemas com os goblins estavam terminados. Fico tentado a simplesmente mandar o esquadrão tático e correr o risco de que Escamoto esteja blefando.

— Este seria o meu conselho—disse Encrenca. — Ele não tem nada que poderia fazer mal ao senhor. Dê-me cinco policiais e terei Escamoto num camburão antes que ele saiba que foi preso.

— Imagino que a parte adormecedora do buscador-adormecedor não esteja funcionando, não é? — perguntou Holly.

Encrenca deu de ombros.

— Temos de supor que não esteja. O buscador-adormecedor não funcionou até agora, e quando chegamos aqui o chip tinha sido deixado para nós. Escamoto sabia que estávamos vindo. Até deixou uma mensagem.

Raiz bateu com o punho na palma da outra mão.

— Tenho de entrar. Não há perigo imediato lá dentro e não podemos presumir que Escamoto tenha descoberto um modo de cumprir essa ameaça. Não tenho escolha, realmente. Não vou ordenar que venha comigo, capitã Short.

Holly sentiu o estômago dar uma cambalhota, mas engoliu o medo. O comandante estava certo. Não havia outro modo. Era isso que significava ser oficial da LEP Proteger o Povo.

— Não precisa ordenar, comandante. Eu me apresento como voluntária.

— Bom. Agora, Encrenca, deixe Potrus e o veículo dele passar pela barricada. Talvez tenhamos de entrar, mas não precisamos ir desarmados.

Potrus tinha mais armas atulhadas na parte de trás de um único lançador do que a maioria das forças policiais humanas guardavam em todo o seu arsenal. Cada centímetro das paredes tinha um cabo de energia aparafusado ou um fuzil pendurado num gancho. O centauro estava sentado no meio, sintonizando uma pistola Neutrino. Jogou-a para Holly quando ela entrou no furgão.

A capitã pegou-a habilmente.

— Ei, cuidado com isso. Potrus fez um muxoxo.

— Não se preocupe. O gatilho ainda não foi codificado. Ninguém pode disparar esta arma até que o computador registre o dono. Mesmo que a arma caia nas mãos dos goblins, seria inútil para eles. É um dos meus últimos desenvolvimentos. Depois da rebelião da B’wa Kell, achei que estava na hora de melhorar a segurança.

Holly envolveu o cabo da pistola com os dedos. Uma luz vermelha correu por toda a extensão do cabo de plástico, depois mudou para verde.

— É isso aí. Você é a dona. De agora em diante essa Neutrino 3000 é arma de uma pessoa só.

Holly sopesou a arma transparente.

— É leve demais. Prefiro a 2000.

Potrus baixou as especificações da arma numa tela de parede.

— É leve, mas você vai se acostumar. No lado positivo, não há partes metálicas. É alimentada por energia cinética, o movimento de seu corpo, com uma minicélula nuclear de reserva. Naturalmente está ligada ao sistema de alvo em seu capacete.

O material é praticamente impenetrável e, mesmo sendo eu que estou dizendo, é uma tremenda ferramenta.

Potrus passou a Raiz uma versão maior da arma.

— Cada tiro é registrado no computador da LEP, de modo que podemos dizer quem disparou, quando disparou e em que direção. Isso deve economizar um bocado de tempo de computador do Departamento de Assuntos Internos. — Ele piscou para Holly. — Algo que você vai gostar de saber.

Holly devolveu o olhar de soslaio do centauro. Ela era bem conhecida no DAI. Eles já haviam realizado dois inquéritos sobre sua conduta profissional e adorariam a oportunidade de fazer um terceiro. A única coisa boa em ser promovida seria a expressão deles quando o comandante prendesse o distintivo de major em sua lapela.

Raiz pôs sua arma no coldre.

— Tudo bem. Agora podemos atirar. Mas e se atirarem em nós?

— Ninguém vai atirar em vocês — insistiu Potrus. — Eu entrei no sistema dos scanners do terminal e coloquei dois sensores meus, também. Não há nada lá que possa fazer mal a vocês. Na pior das hipóteses, vão tropeçar nos próprios pés e torcer o tornozelo.

A pele de Raiz ficou vermelha até o pescoço.

— Potrus, devo lembrar que seus sensores já foram enganados antes, neste mesmo terminal, se é que lembro corretamente.

— Tá legal, tá legal. Pega leve, comandante — disse Potrus baixinho. — Não esqueci do ano passado. Como poderia, com Holly me lembrando a cada cinco minutos?

O centauro levantou duas malas fechadas que estavam sobre um banco. Digitou uma seqüência de números nos teclados de segurança delas e abriu as tampas.

— Estas são as roupas da próxima geração do Recon. Estava planejando revelá-las na conferência da LEP no mês que vem, mas com um comandante de verdade entrando em ação, é melhor vocês usarem hoje.

Holly tirou um macacão de dentro da mala. Ele brilhou rapidamente, depois se transformou na cor das paredes.

— É feito de tecido de camuflagem, de modo que vocês ficam praticamente escondidos o tempo todo. Torna desnecessário usar seu escudo mágico — explicou Potrus. — Claro que essa função pode ser desligada. As asas fazem parte da roupa. Um projeto completamente retrátil e silencioso, um conceito novíssimo na construção de asas. Elas usam energia de uma célula no cinto e, claro, cada asa é coberta de minipainéis solares para vôos acima da superfície. Além disso, as roupas têm equalizadores de pressão; agora vocês podem passar direto de um ambiente a outro sem dificuldade.

Raiz segurou a segunda roupa.

— Deve custar uma fortuna. Potrus assentiu.

— Você não faz idéia. Metade do meu orçamento de pesquisa do ano passado foi gasto desenvolvendo essas roupas. Elas não vão substituir as antigas pelo menos nos próximos cinco anos. Estas duas são os únicos modelos operacionais que temos, por isso eu gostaria de tê-las de volta. São à prova de choque, resistentes ao fogo, invisíveis ao radar e repassam um fluxo contínuo de informações de diagnóstico para a Delegacia Plaza. O atual capacete da LEP manda dados vitais básicos, mas a nova roupa envia um segundo fluxo de informações que pode nos dizer se suas artérias estão obstruídas, diagnosticar fraturas e até detectar pele seca. É uma clínica voadora. Há até mesmo uma placa à prova de balas no peito, para o caso de um humano atirar em vocês.

Holly segurou a roupa diante de uma tela de plasma verde. O tecido de camuflagem ficou instantaneamente cor de esmeralda.

— Gostei — disse ela. — Verde é a minha cor favorita.

Encrenca Kelp tinha requisitado refletores deixados no local pela companhia de cinema e os apontou para o nível mais baixo do terminal de lançamento. A luz forte capturou cada grão de poeira que voava, dando a toda a área de embarque uma sensação subaquática. O comandante Raiz e a capitã Short entraram no salão, empunhando as armas e com os visores abaixados.

— O que acha da roupa? — perguntou Holly, analisando automaticamente cada um dos vários mostradores na parte de dentro do visor. Os recrutas da LEP costumavam ter dificuldade para desenvolver o foco duplo necessário para observar o terreno e as telas do capacete. Em geral isso resultava numa ação conhecida como encher o vaso, que era como os policiais da LEP chamavam vomitar dentro do capacete.

— Nada mau — respondeu Raiz. — Leve como pluma, e nem dá para saber que a gente está usando asas. Não conte a Potrus que eu disse isso; a cabeça dele já é inchada demais.

— Não precisa dizer, comandante — soou a voz de Potrus cm seu fone de ouvido. Os fones eram de uma nova variedade com gel vibrante, e parecia que o centauro estava dentro do capacete, com ele. — Estou com vocês a cada passo do caminho, aqui da segurança do veículo, é claro.

— Claro — disse Raiz secamente.

Os dois avançaram com cuidado, passando por uma linha de cabines de check-in. Potrus tinha garantido que não havia perigo possível nessa área do terminal, mas o centauro já havia errado antes. E erros no campo custam vidas.

A companhia de cinema tinha decidido que a sujeira do terminal não era suficientemente autêntica, por isso havia borrifado pilhas de espuma cinza em vários cantos. Tinham até mesmo posto uma cabeça de boneca num dos montes. Um toque pungente, ou pelo menos é o que pensavam. As paredes e a escada rolante estavam enegrecidas com falsas queimaduras A laser.

— Tremendo tiroteio — disse Raiz, rindo.

— Meio exagerado. Duvido que tenha sido feita meia dúzia de disparos.

Seguiram pela área de embarque até as docas. O lançador original usado pelos goblins em suas viagens de contrabando fora ressuscitado e estava numa doca. Ele fora pintado de preto brilhante para parecer mais ameaçador, e uma proa goblinesca fora acrescentada ao nariz.

— Qual a distância? — perguntou Raiz, ao microfone.

— Estou transferindo a assinatura térmica para seus capacetes — respondeu Potrus.

Segundos depois surgiu um esquema nos visores. A imagem era ligeiramente perturbadora, já que eles estavam olhando para si mesmos, de cima. Havia três fontes de calor no prédio. Duas estavam próximas, movendo-se lentamente na direção do poço: Holly e o comandante. A terceira figura estava parada no túnel de acesso. Centímetros depois da terceira figura, o analisador térmico ficava branco devido ao calor ambiente do E37.

Chegaram à porta antiexplosão: mais de dois metros de aço sólido que separava o túnel de acesso do resto do terminal. Os lançadores e ovos deslizavam num trilho magnético para ser largados no poço propriamente dito. As portas estavam lacradas.

— Pode abri-las por controle remoto, Potrus?

— Mas claro, comandante. Consegui, engenhosamente, combinar meu sistema operacional com os antigos computadores do terminal. Não foi tão fácil quanto parece...

— Aceito sua palavra — interrompeu o comandante. — Só aperte o botão antes que eu vá aí e o aperte com sua cara.

— Certas coisas nunca mudam — murmurou Potrus, apertando o botão.

O túnel de acesso cheirava como uma fornalha. Antigas estalactites de minério derretido pendiam do teto, e o chão era rachado e traiçoeiro. Cada passo rompia uma crosta de fuligem, deixando uma trilha de pegadas fundas. Havia outro conjunto de pegadas levando à figura sombria encolhida no chão, bem perto do poço.

— Pronto — disse Raiz.

— Estou com ele — disse Holly, pousando o foco de sua mira a laser no tronco da figura.

— Mantenha-o na mira — ordenou o comandante. — Estou indo.

Raiz avançou pelo túnel, permanecendo fora da linha de fogo de Holly. Se Escamoto fizesse algum movimento, Holly precisaria de um tiro limpo. Mas o general (se é que era ele) permaneceu agachado, imóvel, com a coluna vertebral encurvada ao longo da parede do túnel. Seu corpo estava coberto por uma capa de corpo inteiro, com capuz.

O comandante ligou o amplificador de som do capacete, para ser ouvido acima do uivo do vento do núcleo.

— Você aí. Fique de pé, virado para a parede. Ponha as mãos na cabeça.

A figura não se moveu. Holly não esperava que ele se movesse. Raiz chegou mais perto, sempre cauteloso, com os joelhos meio dobrados, pronto para mergulhar para longe. Cutucou o ombro da figura com sua Neutrino 3000.

— De pé, Escamoto.

O cutucão foi suficiente para derrubar o sujeito. O goblin tombou, caindo no chão do túnel de cara para cima. Flocos de fuligem flutuaram em volta dele como morcegos perturbados. O capuz se deslocou, revelando o rosto: mais importante, os olhos.

— É ele — disse Raiz. — Foi mesmerizado.

Os olhos do general, por trás das fendas das pálpebras, estavam injetados e vazios. Isso era sério, porque confirmava que mais alguém havia planejado a fuga, e que Holly e Raiz tinham entrado numa armadilha.

— Recomendo que a gente saia—disse Holly. — Imediatamente.

— Não — respondeu Raiz, inclinando-se sobre o goblin. — Agora que estamos aqui, podemos muito bem levar Escamoto de volta.

Ele pôs a mão livre na gola do goblin, preparando-se para levantá-lo. Mais tarde Holly iria registrar em seu relatório que foi neste exato momento que as coisas começaram a dar terrivelmente errado. O que tinha sido uma tarefa rotineira, embora estranha, de repente se tornou um negócio totalmente sinistro.

— Não toque em mim, elfo — disse uma voz. Uma voz sibilante de goblin. Mas como podia ser? Os lábios do general não tinham se mexido.

Raiz recuou, depois recuperou a compostura.

— O que está acontecendo aqui?

O sentido de soldado de Holly estava zumbindo em sua nuca.

— O que quer que seja, não vamos gostar. Deveríamos sair, comandante, agora mesmo.

As feições de Raiz estavam pensativas.

— Essa voz veio do peito dele.

— Talvez ele tenha feito cirurgia. Vamos sair daqui.

O comandante baixou uma das mãos e puxou de lado a capa de Escamoto. Havia uma caixa de metal presa no peito do general. A caixa tinha trinta centímetros de lado com uma pequena tela no centro. Havia um rosto sombreado na tela, e aquele rosto estava falando.

— Ah, Julius — disse o rosto, com a voz de Escamoto. — Eu sabia que você viria. O famoso ego do comandante Raiz não lhe permitiria ficar fora da ação. Era uma armadilha óbvia e você caiu direto nela.

A voz era definitivamente de Escamoto, mas havia algo na escolha de palavras, no ritmo. Era sofisticada demais para um goblin. Sofisticada e estranhamente familiar.

— Já deduziu, capitã Short? — perguntou a voz. Uma voz que estava mudando. Passando para um tom mais agudo. O tom não era mais masculino, nem mesmo de goblin. É uma fêmea falando, pensou Holly. Uma fêmea que eu conheço.

Um rosto apareceu na tela. Um rosto lindo e malicioso. Olhos luminosos de ódio. O rosto de Opala Koboi. O resto da cabeça estava coberto de bandagens, mas as feições eram bem visíveis.

Holly começou a falar rapidamente ao microfone do capacete.

— Potrus, temos um problema aqui. Opala Koboi está solta. Repito, Opala Koboi está solta. Esse negócio todo é uma armadilha. Isolem a área, perímetro de quinhentos metros, e tragam os feiticeiros médicos. Alguém vai se machucar.

O rosto na tela riu, minúsculos dentes de diabrete brilhando como pérolas.

— Fale o quanto quiser, capitã Short. Potrus não pode ouvir. Meu equipamento bloqueou suas transmissões tão facilmente quanto bloqueei seu buscador-adormecedor e o analisador de substância que eu imagino que vocês tenham usado. Mas seu amiguinho centauro pode vê-los. Deixei as preciosas lentes dele.

Holly deu um zoom imediatamente no rosto da diabrete na tela. Se Potrus captasse a imagem, deduziria o resto. Opala riu de novo. Estava realmente se divertindo.

— Ah, muito bem, capitã. Você sempre foi esperta. Relativamente falando, claro. Mostre meu rosto a Potrus e ele iniciará um alerta. Desculpe desapontá-la, Holly, mas este equipamento é construído com minério dissimulado e é praticamente invisível a olhos artificiais. Potrus só verá um ligeiro tremular de interferência.

O minério dissimulado fora desenvolvido para veículos espaciais. Ele absorvia todas as formas de onda ou sinais conhecidos pelas criaturas das fadas ou pelos homens, portanto era invisível a quase tudo, a não ser o olho nu. Também era de produção incrivelmente cara. Até a pequena quantidade necessária para cobrir o equipamento de Koboi teria custado um armazém cheio de ouro.

Raiz se empertigou rapidamente.

— As chances estão contra nós, capitã. Vamos nos deslocar para a saída.

Holly não se incomodou em ficar aliviada. Opala Koboi não deixaria as coisas tão fáceis. De jeito nenhum eles sairiam dali. Se Potrus podia invadir os computadores do terminal, Koboi também podia.

O riso de Opala se estendeu até um guincho quase histérico.

— Deslocar para a saída? Que expressão tática, comandante! Você realmente precisa aumentar seu vocabulário. O que virá depois? Buscar cobertura?

Holly puxou um pedaço de velcro na manga, revelando um teclado em gnomês. Acessou rapidamente o banco de dados criminológico do capacete, abrindo o arquivo de Opala Koboi no visor.

“Opala Koboi”, disse a voz da cabo Fronde. A LEP sempre usava Fronde para as narrativas e os vídeos de recrutamento. Ela era glamurosa e elegante, com trancas louras que balançavam e unhas bem-cuidadas, de dois centímetros e meio, que não tinham utilidade nenhuma em campo. “Inimiga número um da LEP. Atualmente sob guarda na clínica de J. Argônio. Opala Koboi é um gênio confirmado, alcançou mais de trezentos pontos no teste de QI padrão. Além disso é suspeita de megalomania, com personalidade obsessiva. Estudos indicam que Koboi pode ser mentirosa patológica e sofre de leve esquizofrenia. Para informações mais detalhadas, favor consultar a biblioteca central da LEP no segundo andar da Delegacia Plaza.

Holly fechou o arquivo. Gênio obsessivo e mentirosa patológica. Exatamente o que eles precisavam. A informação não ajudou muito; dizia o que já era sabido. Opala estava solta, queria matá-los e era inteligente o bastante para deduzir um modo de fazer isso.

Opala ainda estava desfrutando de seu triunfo.

— Vocês não sabem o quanto esperei por este momento — disse ela, depois fez uma pausa. — Na verdade sabem. Afinal de contas, foram vocês que destruíram meu plano. E agora tenho os dois.

Holly estava perplexa. Opala podia ter graves problemas mentais, mas isso não poderia ser confundido com estupidez. Por que falava tanto? Estaria tentando distraí-los?

A mesma coisa ocorreu a Raiz.

— Holly! As portas!

Holly girou e viu as portas antiexplosão deslizando, com o som dos motores mascarado pelo vento do núcleo. Se as portas se fechassem, eles estariam totalmente isolados da LEP, à mercê de Opala Koboi.

Holly apontou para os rolamentos magnéticos na borda superior da porta, dando um tiro depois do outro nos mecanismos com sua Neutrino. As portas se sacudiram mas não pararam. Dois rolamentos estouraram, mas o ímpeto da enorme estrutura fez com que elas se juntassem com um estrondo maligno.

— Enfim, sós — disse Opala, parecendo uma inocente colegial em seu primeiro encontro com um namorado.

Raiz apontou a arma para o aparelho preso no tronco de Escamoto, como se de algum modo pudesse machucar Koboi.

— O que você quer? — perguntou ele.

— Vocês sabem o que quero. A questão é: como vou conseguir? Que forma de vingança seria mais satisfatória? Naturalmente vocês dois vão acabar mortos, mas isso não basta. Quero que sofram como eu sofri. Desacreditada e desprezada. Pelo menos um de vocês; o outro terá de ser sacrificado. Não me importa qual.

Raiz recuou até as portas antiexplosão, sinalizando para Holly ir atrás.

— Alguma opção? — sussurrou ele, de costas para o aparelho de Koboi.

Holly ergueu o visor, enxugando uma gota de suor da testa. Os capacetes eram providos de refrigeração, mas algumas vezes o suor não tinha nada a ver com a temperatura.

— Temos de sair daqui. O único caminho é o poço. Raiz assentiu.

— Concordo. Vamos voar o bastante para sair do sinal do bloqueador de Koboi, e depois alertar o major Kelp.

— E o Escamoto? Ele está mesmerizado até as guelras; não pode cuidar de si mesmo. Se escaparmos, Opala não vai deixá-lo por aí, como prova.

Era lógica criminal básica. As típicas figuras que querem dominar o mundo não são avessas a destruir alguns de seus parceiros, se isso significar uma fuga limpa.

Raiz grunhiu.

— Realmente faz minha barba cocar, a necessidade de correr perigo por causa de um goblin, mas esse é o serviço. Vamos levar Escamoto. Quero que você dispare algumas cargas naquela caixa em volta do peito dele e, quando o zumbido parar, eu o jogo no ombro e vamos partir pelo E37.

— Entendido — respondeu Holly, baixando o ajuste de sua arma para o mínimo. Parte da carga seria transferida a Escamoto, mas isso não faria muito mais do que secar seus globos oculares por alguns minutos.

— Ignore a diabrete. Independentemente do que ela disser, mantenha a mente no trabalho.

— Sim, senhor.

Raiz respirou fundo várias vezes. De algum modo, ver o comandante tão nervoso quanto ela acalmou Holly.

— Tudo bem. Vamos.

Os dois elfos giraram e foram rapidamente para o goblin inconsciente.

— Bolamos um planozinho? — perguntou Koboi, zombando deles na tela pequenina. — Algo engenhoso, espero. Algo em que não pensei?

Séria, Holly tentou não ouvir as palavras, mas elas penetraram em seus pensamentos. Algo engenhoso? De jeito nenhum. Era simplesmente a única opção que tinham. Algo em que Koboi não tinha pensado? Improvável. Opala podia estar planejando isso há quase um ano. Será que estavam para fazer exatamente o que ela queria?

— Senhor... — começou Holly, mas Raiz já estava posicionado junto a Escamoto.

Holly disparou seis tiros na telinha. Todos os seis acertaram as feições de Koboi. A imagem desapareceu numa tempestade de estática. Fagulhas se espremeram entre as emendas de metal e uma fumaça azeda saiu pela grade do alto-falante.

Raiz hesitou um momento, permitindo que a carga se dispersasse, depois segurou Escamoto firmemente pelos ombros. Nada aconteceu.

Eu estava errada, pensou Holly, soltando o ar que ela não percebera que havia prendido. Eu estava errada, graças aos deuses. Opala não tem plano. Mas não era verdade, e Holly não acreditava realmente nisso.

A caixa no tronco de Escamoto era presa por um jogo de octoligas, um dispositivo com oito cabos telescópicos freqüentemente usado pela LEP para conter criminosos perigosos. Eles podiam ser trancados e destrancados por controle remoto, e assim que se travavam não podiam ser removidos a não ser pelo controle remoto ou com um esmerilhador angular. Assim que Raiz se abaixou, as octoligas se soltaram de Escamoto C saltaram como chicotes em volta do tronco do comandante, liberando Escamoto e prendendo a caixa de metal no peito de Raiz.

O rosto de Koboi apareceu no lado reverso da caixa. A cortina de fumaça tinha sido exatamente isso: uma cortina de fumaça.

— Comandante Raiz — disse ela, quase ofegando de malícia. — Parece que você é o sacrificado.

— D’Arvit! — xingou Raiz, batendo na caixa de metal com o cabo da pistola. As ligas se apertaram até a respiração de Raiz sair em jorros agonizados. Holly ouviu mais de uma costela estalar. O comandante lutou contra a ânsia de cair no chão. Fagulhas mágicas azuis saltavam em seu tronco, curando automaticamente os ossos partidos.

Holly correu para ajudar, mas antes que pudesse chegar ao superior um bipe urgente começou a brotar do alto-falante do aparelho. Quanto mais perto ela chegava, mais alto o bipe.

— Fique longe — grunhiu Raiz. — Fique longe. É um gatilho.

Holly parou em meio à fuligem, dando um soco no ar, frustrada. Mas o comandante provavelmente estava certo. Ela já ouvira falar de gatilho de proximidade. Os anões os usavam nas minas. Colocavam uma carga explosiva nos túneis, ativavam o gatilho de proximidade e o acionavam de uma distância segura, usando uma pedra.

O rosto de Opala reapareceu na tela.

— Ouça o seu Julius, capitã Short — alertou. — A hora é de cautela. Seu comandante está certo: o som que vocês ouviram é de fato um gatilho de proximidade. Se você chegar perto demais, ele será vaporizado pelo gel explosivo que há na caixa de metal.

— Pare de fazer sermão e diga o que quer — rosnou Raiz.

— Ora, ora, comandante, paciência. Suas preocupações logo terminarão. De fato já terminaram, então por que não espera em silêncio enquanto seus últimos segundos vão se esvaindo?

Holly andou ao redor do comandante, mantendo o bipe constante, até ficar de costas para o poço.

— Há um modo de sair disso, comandante — disse ela. — Só preciso pensar. Preciso de um minuto para deduzir as coisas.

— Deixe-me ajudá-la a deduzir as coisas — disse Koboi, zombando, com as feições infantis parecendo feias de tanta malícia. — No momento seus colegas da LEP estão tentando abrir caminho a laser até aqui. Claro que nunca chegarão a tempo. Mas pode apostar que meu velho colega de escola, Potrus, está grudado à sua tela de vídeo. E o que ele vê? Vê sua boa amiga Holly Short aparentemente apontando uma arma para o comandante. Por que ela faria isso?

— Potrus vai deduzir — disse Raiz. — Ele já venceu você antes.

Opala apertou as octoligas por controle remoto, forçando 0 comandante a se ajoelhar.

— Talvez ele deduzisse. Se tivesse tempo. Mas, infelizmente para você, o tempo quase acabou.

No peito de Raiz, um mostrador digital se iluminou. Havia dois números. Um seis e um zero. Sessenta segundos.

— Um minuto para viver, comandante. Qual é a sensação? Os números começaram a diminuir, tiquetaqueando.

O tique-taque, os bipes e a zombaria de Opala penetravam no cérebro de Holly.

— Desligue, Koboi. Desligue isso ou juro que vou...

O riso de Opala saiu escancarado. Ecoou pelo túnel de acesso como o grito de ataque de uma harpia.

— Vai o quê? Exatamente. Morrer ao lado de seu comandante?

Mais estalos. Mais costelas partidas. As fagulhas azuis de magia circulavam o tronco de Raiz como estrelas apanhadas num redemoinho.

— Vá agora — grunhiu ele. — Holly. Estou ordenando que você vá.

— Com todo o respeito, comandante. Não. Isto ainda não acabou.

— Quarenta e oito — disse Opala numa voz feliz e cantarolada. — Quarenta e sete.

— Holly! Vá!

— Eu obedeceria se fosse você — sugeriu Koboi. — Há outras vidas em risco. Raiz já está morto; por que não salvar quem pode ser salvo?

Holly gemeu. Outro elemento numa equação já sobrecarregada.

— Quem eu posso salvar? Quem está em perigo?

— Ah, ninguém importante. Só uns dois Homens da Lama.

Claro, pensou Holly: Artemis e Butler. Dois outros que tinham impedido o plano de Koboi.

— O que você fez, Opala? — perguntou Holly, gritando acima do som do gatilho de proximidade e do vento do núcleo.

O lábio de Opala baixou, imitando uma criança culpada.

— Acho que posso ter colocado seus amigos humanos em perigo. Neste momento eles estão roubando um pacote no Banco Internacional em Munique. Um pacotinho que eu preparei para eles. Se o jovem sr. Fowl for tão inteligente quanto parece, só vai abrir o pacote quando chegar ao hotel Kronski e puder verificar se há alguma armadilha. Então uma biobomba será ativada, e tchau humanos chatos. Você pode ficar aqui e explicar tudo isso; tenho certeza de que não vai demorar mais do que algumas horas com o pessoal do Departamento de Assuntos Internos. Ou pode tentar resgatar seus amigos.

A cabeça de Holly ficou num redemoinho. O comandante, Artemis, Butler. Todos a ponto de morrer. Como poderia salvá-los? Não havia jeito.

— Vou caçar você, Koboi. Para você não haverá um centímetro seguro no planeta.

— Que veneno! E se eu lhe desse uma saída? Uma chance de vencer?

Agora Raiz estava ajoelhado, com sangue escorrendo pelo canto da boca. As fagulhas azuis tinham sumido; ele estava sem magia.

— É uma armadilha — ofegou o comandante, com cada sílaba fazendo-o se encolher. — Não seja enganada outra vez.

— Trinta — disse Koboi. — Vinte e nove.

Holly sentiu a testa latejar de encontro ao forro do capacete.

— Tudo bem. Tá legal, Koboi. Diga depressa. Como eu posso salvar o comandante?

Opala respirou fundo, teatralmente.

— No aparelho. Há um ponto-chave. O ponto vermelho embaixo da tela. Se você acertar esse ponto de fora da área de acionamento do gatilho de proximidade, vai desligar o circuito. Se errar, mesmo que por um fio de cabelo, aciona o gel explosivo. É uma chance esportiva; mais do que você me deu, Holly Short.

Holly trincou os dentes.

— Você está mentindo. Por que me daria uma chance?

— Não atire — disse Raiz, com uma calma estranha. — Só fique fora do alcance. Vá salvar Artemis. É a última ordem que lhe dou, capitã. Não ouse ignorá-la.

Era como se os sentidos de Holly estivessem sendo filtrados por um metro de água. Tudo era turvo e lento.

— Não tenho opção, Julius. Raiz franziu a testa.

— Não me chame de Julius! Você sempre faz isso logo antes de me desobedecer. Salve Artemis, Holly. Salve-o.

Holly fechou um dos olhos e apontou a pistola. A mira a laser não adiantava para esse tipo de precisão. Teria de fazer isso manualmente.

— Vou salvar Artemis em seguida. — Holly respirou fundo, prendeu o fôlego e apertou o gatilho.

Acertou o ponto vermelho. Tinha certeza. A carga penetrou no aparelho, espalhando-se pela face de metal como um incêndio minúsculo.

— Acertei — gritou para a imagem de Opala. — Acertei o ponto.

Koboi deu de ombros.

— Não sei. Acho que foi um pouquinho abaixo. Azar. Estou sendo sincera.

— Não! — gritou Holly.

A contagem regressiva no peito de Raiz ficou mais rápida do que antes, saltando números. Agora restavam apenas instantes.

O comandante lutou para ficar de pé, erguendo o visor do capacete. Seus olhos estavam firmes e sem medo. Sorriu gentilmente para Holly. Um sorriso que não culpava. Pela primeira vez não havia sequer um toque do humor febril em suas bochechas.

— Fique bem — disse ele, e então uma chama laranja brotou no centro de seu peito,

A explosão sugou o ar do túnel, alimentando-se de oxigênio. Chamas multicoloridas saltaram como plumas de pássaros em luta. Holly foi lançada para trás por uma parede de ondas de choque, cuja força acertou cada superfície ao redor do comandante. Microfilamentos explodiram em sua roupa ao serem sobrecarregados por calor e energia. O cilindro da câmera em seu capacete saltou do suporte, girando para o E37.

Holly foi lançada no poço, girando como um graveto num ciclone. As esponjas sônicas em seus fones de ouvido se lacraram automaticamente quando o som da explosão acompanhou o impacto. O comandante havia desaparecido numa bola de fogo. Tinha morrido, disso não havia dúvida. Nem mesmo a magia poderia ajudá-lo agora. Algumas coisas não têm conserto.

Tudo que estava no túnel de acesso, inclusive Raiz e Escamoto, se desintegrou numa nuvem de entulho e pó, partículas ricocheteando nas paredes. A nuvem seguiu o caminho de menor resistência, que, evidentemente, era na direção de Holly. Ela mal teve tempo de ativar as asas e subir alguns metros antes que o entulho voando abrisse um buraco na parede do poço abaixo dela.

Holly pairou no túnel vasto, com o som da própria respiração enchendo o capacete. O comandante estava morto. Inacreditável. Assim, pelo capricho de uma diabrete vingativa. Será que existia mesmo um ponto-chave no aparelho? Ou será que ela havia errado o alvo? Provavelmente nunca iria saber. Mas, para os observadores da LEP, pareceria que tinha disparado contra o próprio comandante.

Olhou para baixo. Fragmentos da explosão espiralavam na direção do núcleo da terra. À medida que se aproximavam da esfera de magma borbulhante, o calor incendiou cada um deles, cremando tudo o que restava de Julius Raiz. Num momento brevíssimo, as partículas brilharam em ouro e bronze, como um milhão de estrelas caindo na terra.

Holly ficou pairando ali por vários minutos, tentando absorver o que tinha acontecido. Não podia. Era medonho demais. Em vez disso congelou a dor e a culpa, preservando-as para mais tarde. Neste momento tinha uma ordem a obedecer. E iria fazer isso, mesmo que fosse a última coisa da vida, porque fora a última ordem dada por Julius Raiz.

Aumentou a potência das asas, subindo pelo enorme túnel enegrecido. Havia Homens da Lama a salvar.

 

DURANTE O DIA, Munique era como qualquer outra grande cidade do mundo: absolutamente congestionada. Apesar do metrô, um sistema eficiente e confortável, a população em geral preferia a privacidade e o conforto dos carros e como resultado Artemis e Butler ficaram presos na estrada do aeroporto, num engarrafamento da hora do rush que se estendia do Banco Internacional ao hotel Kronski.

O jovem sr. Artemis não gostava de atrasos. Mas hoje estava concentrado demais em sua última aquisição, O ladrão das fadas, ainda lacrado no tubo de acrílico. Estava louco para abri-lo, mas os donos anteriores, Sparrow e Crane, poderiam ter posto uma armadilha no invólucro. O simples fato de não ter armadilhas visíveis não significava que não houvesse uma invisível. Um truque óbvio seria embalar a tela em vácuo e depois injetar um gás corrosivo que reagiria com o oxigênio e queimaria a pintura.

Demoraram quase duas horas para chegar ao hotel, uma viagem que deveria ter levado vinte minutos. Artemis vestiu um terno de algodão escuro e depois ligou para a mansão Fowl, apertando a tecla de memória de seu celular. Mas antes de completar a ligação conectou o telefone, através de um firewire, ao seu Powerbook, para gravar a conversa. Angeline Fowl atendeu ao terceiro toque.

— Arty — disse sua mãe, parecendo ligeiramente ofegante, como se estivesse no meio de alguma coisa. Angeline Fowl não acreditava em vida fácil, e provavelmente estava fazendo exercícios de Tae Bo.

— Como está, minha mãe? Angeline suspirou.

— Estou bem, Arty, mas você parece no meio de uma entrevista para trabalho, como de hábito. Sempre tão formal! Não poderia me chamar de mamãe ou mesmo de Angeline? Isso seria tão terrível?

— Não sei, mãe. Mamãe parece infantil demais. Já tenho quatorze anos, lembra?

Angeline riu.

— Como poderia esquecer? Não são muitos os adolescentes que pedem o ingresso para um simpósio de genética como presente de aniversário.

Artemis estava com um dos olhos fixo no tubo de acrílico.

— E como está meu pai?

— Maravilhoso — respondeu Angeline num jorro. — Fico surpresa ao ver como ele está ótimo. A prótese da perna é maravilhosa, e a aparência geral dele também. Jamais reclama. Acho sinceramente que ele está com uma atitude melhor com relação à vida agora do que antes de perder a perna. Está sendo cuidado por um terapeuta maravilhoso, que diz que a parte mental é muito mais importante do que a física. Na verdade esta noite vamos viajar para o spa particular em Westmeath. Eles têm um maravilhoso tratamento com algas marinhas, que deve fazer maravilhas pelos músculos do seu pai.

Artemis Fowl pai tinha perdido uma perna antes de ser seqüestrado pela Mafiya russa. Por sorte Artemis pudera resgatá-lo com a ajuda de Butler. Fora um ano cheio de aventuras. Desde a volta, Artemis pai vinha mantendo a promessa de virar uma página e se tornar honesto. Artemis filho deveria segui-lo, mas estava tendo problemas para abandonar os empreendimentos criminosos. Se bem que algumas vezes, quando via o pai e a mãe juntos, a idéia de virar um filho normal com pais amorosos não parecesse uma coisa tão absurda.

— Ele está fazendo os exercícios de fisioterapia duas vezes por dia?

Angeline riu de novo, e de repente Artemis sentiu vontade de estar em casa.

— Sim senhor, vovô. Eu estou garantindo isso. Seu pai diz que vai correr a maratona daqui a doze meses.

— Bom, fico feliz em saber. Algumas vezes acho que vocês dois passariam o tempo caminhando pelo quintal de mãos dadas, se eu não ficasse verificando.

A mãe suspirou e um jorro de estática veio pelo fone.

— Estou preocupada com você, Arty. Um garoto da sua idade não deveria ser tão... responsável. Não se preocupe conosco; preocupe-se com a escola e os amigos. Pense no que realmente quer fazer. Use esse seu cérebro grande para ficar feliz e tornar as outras pessoas felizes. Esqueça os negócios da família. Viver é o negócio da família, agora.

Artemis não sabia como responder. Metade dele queria observar que realmente não haveria negócios de família se não fosse ele para salvaguardá-los. A outra metade queria entrar num avião e andar pelo quintal com sua família.

A mãe suspirou de novo. Artemis odiava a idéia de ela ficar preocupada só de falar com ele.

— Quando você vem para casa, Arty?

— A viagem termina daqui a três dias.

— Quero dizer: quando vem para casa de vez? Sei que a escola St. Bartleby’s é uma tradição de família, mas queremos você em casa conosco. O diretor Guiney entenderá. Há um bocado de escolas boas aqui perto.

— Sei.

Será que poderia fazer isso?, pensou Artemis. Simplesmente fazer parte de uma família normal. Abandonar seus empreendimentos criminosos. Será que poderia levar uma vida honesta?

— As férias começam daqui a duas semanas. Então poderemos conversar. — Usando uma tática de adiamento, continuou:

— Para ser franco, não posso me concentrar agora. Não estou me sentindo muito bem. Achei que poderia ser intoxicação alimentar, mas é só um enjôo. O médico disse que amanhã estarei ótimo.

— Coitadinho — gemeu Angeline. — Talvez eu devesse colocá-lo num avião para casa.

— Não, mãe. Já estou me sentindo melhor. Sério.

— Como quiser. Sei que esses enjôos são desagradáveis, mas é melhor do que uma intoxicação alimentar. Você poderia ficar de cama durante semanas. Beba bastante água e procure dormir.

— Vou fazer isso, mãe.

— Você vem para casa logo?

— Sim. Diga a meu pai que eu liguei.

— Direi, se puder achá-lo. Acho que está na sala de musculação, na esteira.

— Tchau, então.

— Tchau, Arty, conversaremos mais quando você voltar — disse Angeline, com a voz baixa e um tanto triste, parecendo muito distante.

Artemis desligou o telefone e imediatamente repassou a gravação no computador. Sempre que falava com a mãe, sentia culpa. Angeline Fowl tinha a capacidade de despertar sua consciência. Isso era uma coisa relativamente recente. Há um ano ele poderia sentir uma alfinetada de culpa ao mentir para a mãe, mas agora até mesmo o truquezinho que estava para fazer assombrava seus pensamentos durante semanas.

Viu o medidor de ondas sonoras na tela do computador. Ele estava mudando, sem dúvida. Esse tipo de dúvida vinha aumentando nos últimos meses — desde que havia descoberto misteriosas lentes de contato espelhadas em seus próprios olhos numa manhã. Butler e Juliet estavam usando lentes iguais. Eles haviam tentado descobrir de onde elas tinham vindo, mas tudo que o contato de Butler nesse campo pôde dizer era que o próprio Artemis havia pago por elas. Era cada vez mais curioso.

As lentes continuaram um mistério. E também os sentimentos de Artemis. Na mesa, diante dele, estava O ladrão das fadas, de Hervé, uma aquisição que o estabelecia como o ladrão mais importante da atualidade. Um status que havia desejado desde os seis anos. Mas agora que a ambição estava literalmente ao alcance, ele só conseguia pensar na família.

Seria hora de se aposentar?, pensou. Aos quatorze anos e três meses era o melhor ladrão do mundo. Afinal de contas, aonde posso ir, depois disso? Repassou uma parte da conversa telefônica de novo: Não se preocupe conosco; preocupe-se com a escola e os amigos. Pense no que realmente quer fazer. Use esse seu cérebro grande para ficar feliz e fazer as outras pessoas felizes.

Talvez a mãe estivesse certa: deveria usar seus talentos para tornar os outros felizes. Mas havia um negrume dentro dele. Uma superfície dura no coração, que não se satisfazia com a vida tranqüila. Talvez houvesse maneiras de tornar as pessoas felizes que só ele poderia realizar. Maneiras do lado oposto da lei. Do outro lado do muro.

Esfregou os olhos. Não conseguia chegar a uma conclusão. Talvez viver em casa em tempo integral o ajudasse a decidir. Era melhor continuar com o trabalho do momento. Ganhar algum tempo e depois autenticar a pintura. Mesmo sentindo alguma culpa por ter roubado a obra-prima, nem de longe isso era o bastante para fazer com que ele a devolvesse. Especialmente aos srs. Crane e Sparrow.

A primeira tarefa era afastar qualquer indagação do pessoal da escola. Precisaria de pelo menos dois dias para autenticar a pintura, já que alguns dos testes teriam de ser encomendados fora. Abriu um programa de manipulação de áudio em seu Powerbook e começou a cortar e colar as palavras de sua mãe a partir do telefonema gravado. Quando tinha escolhido as palavras que queria e colocado na ordem certa, ajustou os níveis para fazer com que a fala parecesse natural.

Quando o diretor Guiney ligasse seu celular depois da visita ao Estádio Olympia de Munique, haveria um novo recado esperando por ele. Seria de Angeline Fowl, e ela não estaria de bom humor.

Artemis roteou o telefonema passando pela mansão Fowl, depois mandou o arquivo de som alterado, por infravermelho, para seu celular.

— Diretor Guiney. — A voz era inconfundivelmente de Angeline Fowl, e o identificador de chamadas confirmaria isso. — Estou preocupada com Arty. Ele teve uma intoxicação alimentar. Sua aparência geral é maravilhosa e ele jamais reclama, mas o queremos em casa conosco. O senhor entenderá. Pus Artemis num avião para casa. Estou surpresa vendo que ele teve uma intoxicação alimentar sob seus cuidados. Conversaremos mais quando o senhor voltar.

Isso cuidaria da escola por alguns dias. A metade sombria de Artemis ficou numa empolgação elétrica por causa desse subterfúgio, mas a consciência crescente sentiu uma pontada de culpa ao usar a voz de sua mãe para tecer uma teia de mentiras.

Baniu a culpa. Era uma mentira inofensiva. Butler iria acompanhá-lo até em casa e sua educação não sofreria com alguns dias de ausência. Quanto a roubar O ladrão das fadas, ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão. Era quase justificável. Sim, disse uma voz em sua cabeça. Se você devolver o quadro ao mundo.

Não, respondeu a metade que tinha coração de granito. Este quadro é meu até que outro possa roubá-lo. Este é o sentido da coisa. Baniu a indecisão e desligou o celular. Precisava se concentrar totalmente na pintura, e um telefone vibrando no momento errado poderia fazer sua mão tremer. A vontade natural era de tirar a tampa do tubo de acrílico. Mas isso poderia ser mais do que idiotice: poderia ser fatal. Havia muitos presentinhos que Crane e Sparrow poderiam ter deixado para ele.

Pegou um cromatógrafo na mala rígida que continha seu equipamento de laboratório. O instrumento tiraria uma amostra do gás do interior do tubo e iria processá-la. Escolheu uma agulha entre várias e a atarraxou no tubo de borracha que se projetava da extremidade achatada do cromatógrafo. Segurou a agulha cuidadosamente com a mão esquerda. Artemis era ambidestro, mas a mão esquerda era um pouco mais firme. Com cuidado, enfiou a agulha pelo lacre de silicone do tubo até chegar ao espaço ao redor da pintura. Era essencial que a agulha se movesse o mínimo possível, para que o gás dentro do invólucro não vazasse e se misturasse com o ar. O cromatógrafo sugou uma pequena amostra de gás, aspirando-a para uma entrada aquecida. Qualquer impureza orgânica era expulsa pelo calor, e um gás transportador levava a amostra por uma coluna de separação até um Detector de Ionização por Chama. Ali os componentes individuais eram identificados. Segundos depois um gráfico saltou no mostrador digital do instrumento. As percentagens de oxigênio, hidrogênio, metano e dióxido de carbono combinavam com uma amostra tirada anteriormente no centro de Munique. Havia uma parcela de cinco por cento de gás não identificado. Mas isso era normal. Provavelmente causado por complexos gases de poluição ou pela sensibilidade do equipamento. Afora o gás misterioso, Artemis entendeu que era perfeitamente seguro abrir o tubo. Fez isso, cortando cuidadosamente o lacre com um estilete.

Calçou luvas cirúrgicas e tirou a pintura de dentro do cilindro. Ela caiu na mesa, um rolo apertado, mas se desenrolou quase imediatamente. Não estivera no tubo por tempo suficiente para reter a forma. Artemis abriu a tela, prendendo os cantos com sacos de gel lisos. Soube imediatamente que aquela não era uma falsificação. Seu olhar para as artes captou as cores primárias e a pincelada em camadas. As figuras de Hervé pareciam compostas de luz. Eram tão lindamente produzidas que o quadro parecia brilhar. Era uma coisa exótica. Na imagem, um bebê enrolado em panos dormia na cama ensolarada perto de uma janela aberta. Uma criatura com pele verde e asas diáfanas havia pousado no parapeito e estava se preparando para roubar o bebê do berço. Os dois pés da criatura estavam do lado de fora da janela.

— Ela não pode entrar — murmurou Artemis distraidamente, e ficou imediatamente surpreso. Como sabia disso? Em geral não verbalizava opiniões sem ter alguma evidência para apoiá-las.

Relaxe, disse a si mesmo. Era simplesmente uma suposição. Talvez baseada em alguma informação apanhada enquanto surfava na Internet.

Voltou a atenção para a pintura propriamente dita. Tinha conseguido. O ladrão das fadas era seu, pelo menos por enquanto. Escolheu um bisturi em seu kit e raspou uma lasca de tinta minúscula da borda do quadro. Depositou a lasca num frasco de amostra e rotulou. Isso seria mandado para a Universidade Técnica de Munique, onde havia um dos espectrômetros gigantes necessários para fazer datação por carbono. Artemis tinha um contato lá. O teste por radiocarbono confirmaria que a pintura, ou pelo menos a tinta, era tão antiga quanto deveria.

Chamou Butler, que estava no outro quarto da suíte.

— Butler, poderia levar esta amostra à universidade agora? Lembre-se, entregue apenas a Christiana, e lembre a ela que a rapidez é vital.

Por um momento não houve resposta, então Butler veio correndo pela porta, arregalado. Não parecia alguém que viesse pegar uma amostra de tinta.

— Algum problema? — perguntou Artemis.

Dois minutos antes Butler estivera com a mão na janela, perdido num raro momento de distração. Olhou para a mão, quase como se a combinação de luz do sol com a força do olhar tornasse a pele transparente. Sabia que havia algo diferente nele. Algo escondido abaixo da pele. Tinha se sentido estranho nesse último ano. Mais velho. Talvez as décadas de esforço físico estivessem cobrando um preço. Apesar de ter apenas quarenta anos, seus ossos doíam à noite e o peito parecia estar usando um colete Kevlar o tempo todo. Certamente não era tão rápido quanto aos trinta e cinco anos, e até sua mente parecia menos concentrada, mais inclinada a vagar... Exatamente como agora, censurou-se o guarda-costas.

Flexionou os dedos, ajeitando a gravata, e voltou ao trabalho. Não estava totalmente satisfeito com a segurança do hotel. Os hotéis eram um pesadelo para os guarda-costas. Elevadores de serviço, andares superiores isolados e rotas de fuga totalmente inadequadas tornavam a segurança do principal quase impossível de ser garantida. O Kronski era luxuoso, sem dúvida, e os funcionários eficientes, mas não era isso que Butler procurava num hotel. Procurava um quarto no térreo, sem janelas e com porta de aço de quinze centímetros de espessura. Desnecessário dizer que era impossível encontrar quartos assim, e mesmo que ele conseguisse encontrar um, o jovem sr. Artemis sem dúvida recusaria. Butler teria de se virar com esta suíte no terceiro andar.

Artemis não era o único com uma mala de instrumentos. Butler abriu uma pasta de cromo sobre a mesinha de centro. Ele possuía uma dezena de pastas assim, guardadas em cofres-fortes nas capitais do mundo. Cada mala era repleta de equipamento de vigilância, de contravigilância e armamentos. Ter uma em cada país significava que não precisava violar as leis das alfândegas em cada viagem para fora da Irlanda.

Escolheu um detector de grampos e rapidamente o passou pelo cômodo, procurando equipamentos de escuta. Concentrou-se nos aparelhos elétricos: telefone, televisão, fax. A interferência eletrônica destes aparelhos freqüentemente podia abafar o sinal de um grampo, mas não com aquele detector em particular. O Olho Espião era o detector mais avançado no mercado e podia descobrir um microfone do tamanho de um alfinete a um quilômetro e meio de distância.

Depois de vários minutos, ficou satisfeito. Estava a ponto de recolocar o instrumento na pasta quando ele registrou um minúsculo campo elétrico. Não era grande coisa, apenas uma única barra azul piscando no indicador. A primeira barra se solidificou e adquiriu um azul forte. A segunda começou a piscar. Algo eletrônico estava se aproximando deles. A maioria das pessoas teria desconsiderado aquela leitura. Afinal de contas havia vários milhares de equipamentos eletrônicos num raio de um quilômetro e meio em volta do hotel Kronski. Mas os campos eletrônicos normais não eram registrados pelo Olho Espião, e Butler não era a maioria das pessoas. Esticou a antena do detector e girou o aparelho pelo cômodo. A leitura teve um pico quando a antena foi apontada para a janela. Uma garra de ansiedade apertou os intestinos de Butler. Algo vinha pelo ar, em rápida velocidade.

Correu depressa, tirou as cortinas de renda dos ganchos e escancarou a janela. O céu de inverno estava de um azul pálido, com pouquíssimas nuvens. Trilhas de jatos se entrecruzavam como um gigantesco jogo-da-velha. E ali, vinte graus acima — uma suave curva espiralada — havia um foguete de metal azul cm forma de lágrima. Uma luz vermelha piscava no nariz e chamas incandescentes saíam da extremidade posterior. O foguete vinha para o Kronski, sem dúvida.

É uma bomba inteligente, disse Butler a si mesmo, sem um pingo de dúvida. E o alvo é o jovem sr. Artemis.

O cérebro de Butler começou a repassar a lista de alternativas. Era curta. Havia apenas duas opções, na verdade: cair fora ou morrer. Como cair fora é que era o problema. Estavam no terceiro andar, do lado oposto à saída. Gastou um instante olhando pela última vez para o míssil que se aproximava. Era diferente de tudo que já vira. Até mesmo a emissão era diferente das armas convencionais, praticamente sem nenhuma trilha de vapor. O que quer que fosse, era novo em folha. Alguém queria tremendamente matar Artemis.

Deu as costas para a janela e entrou correndo no quarto de Artemis. O jovem patrão estava ocupado fazendo seus testes com O ladrão das fadas,

— Algum problema? — perguntou Artemis.

Butler não respondeu porque não tinha tempo. Em vez disso agarrou o adolescente pelo cangote e o jogou nas costas.

— A pintura! — conseguiu gritar Artemis, com a voz abafada pelo paletó do guarda-costas.

Butler agarrou a pintura, enfiando sem cerimônia a obra-prima no bolso do paletó. Se Artemis pudesse ver a pintura de um século se rachar, teria soluçado. Mas Butler só era pago para proteger uma coisa, e essa coisa não era O ladrão das fadas.

— Agarre-se com toda a força — alertou o enorme guarda-costas, tirando o colchão king-size da cama.

Artemis se agarrou com força, tentando não pensar. Infelizmente seu cérebro brilhante analisou automaticamente os dados disponíveis: Butler tinha entrado no quarto a toda velocidade e sem bater; portanto havia algum tipo de perigo. Sua recusa em responder às perguntas significava que o perigo era iminente. E o fato de Artemis estar nas costas de Butler, agarrando-se com toda a força, indicava que eles não escapariam do tal perigo por saídas convencionais. O colchão indicava que era necessário algum tipo de amortecimento.

— Butler — ofegou Artemis. — Sabe que estamos no terceiro andar?

Butler pode ter respondido, mas seu patrão não ouviu, porque então o guarda-costas gigante passou pela porta dupla e saltou por cima do parapeito da varanda.

Por uma fração de segundo, antes da queda inevitável, as correntes de ar giraram o colchão e Artemis pôde ver seu quarto. Naquela fração de segundo viu um estranho míssil atravessar a porta e parar totalmente acima do tubo de acrílico vazio. Havia algum tipo de rastreador no tubo, disse a porção minúscula de seu cérebro que não estava em pânico. Alguém quer me ver morto.

Então veio a queda inevitável. Nove metros. Direto para baixo.

Butler abriu automaticamente os membros, fazendo um X de pára-quedista, apertando os quatro cantos do colchão para impedi-lo de balançar. O ar preso embaixo do colchão reduziu um pouco a queda, mas não muito. Os dois desceram direto, rápido, com a força G aumentando a velocidade a cada centímetro. Céu e chão pareceram se esticar e pingar como tinta a óleo numa tela, e nada mais parecia sólido. Essa impressão terminou abruptamente quando eles bateram no telhado, extremamente sólido, de um galpão de manutenção nos fundos do hotel. As telhas pareceram quase explodir sob o impacto, mas a madeira do telhado ficou firme — por pouco. Os ossos de Butler pareciam ter se liquefeito, mas ele soube que ficaria bem depois de alguns instantes de inconsciência. Já tivera colisões piores.

A última impressão antes que seus sentidos o abandonassem foi a sensação das batidas do coração do jovem sr. Artemis através de seu paletó. Então ele estava vivo. Os dois tinham sobrevivido. Mas por quanto tempo? Se o assassino tinha visto a tentativa falhar, talvez tentasse de novo.

O impacto de Artemis foi aliviado por Butler e o colchão. Sem eles, certamente estaria morto. Mas o corpo musculoso do guarda-costas foi suficientemente denso para partir duas de suas costelas. Artemis ricocheteou quase um metro no ar antes de pousar nas costas do segurança inconsciente, de rosto virado para o céu.

Cada respiração era curta e dolorosa, e duas pontas de ossos se projetavam como nós dos dedos em seu peito. A sexta e a sétima costelas, supôs.

Acima, um bloco de luz azul iridescente relampejou, saindo pela janela do quarto. Iluminou o céu por uma fração de segundo, com a parte inferior cheia de clarões azuis ainda mais fortes que se retorciam como minhocas num anzol. Ninguém prestaria muita atenção; a luz poderia ser de um flash de máquina fotográfica grande demais. Mas Artemis sabia que não.

Biobomba, pensou. Bem, como é que sei disso?

Butler estava inconsciente, caso contrário estaria se mexendo, por isso Artemis é que deveria impedir a próxima tentativa assassina do agressor. Tentou sentar-se, mas a dor no peito era forte e suficientemente intensa para nocauteá-lo por um segundo. Quando voltou a si, todo o corpo estava escorregadio de suor. Viu que era tarde demais para escapar. Seu assassino já estava ali, agachado como um gato sobre a parede do barracão. Era um indivíduo estranho, não maior do que uma criança, mas com proporções de adulto. Era do sexo feminino, com feições bonitas e incisivas, cabelo curto castanho-avermelhado e enormes olhos amendoados, mas isso não significava necessariamente que teria misericórdia. Uma vez Butler havia lhe dito que oito dos dez assassinos mais bem pagos do mundo eram mulheres. Ela usava um macacão estranho que mudava de cor para se fundir ao fundo, e aqueles olhos grandes estavam vermelhos de chorar.

As orelhas dela são pontudas, pensou Artemis. Ou estou em choque ou ela não é humana.

Então cometeu o erro de se mexer de novo, e uma das costelas partidas atravessou a pele. Uma mancha vermelha brotou na camisa e Artemis desistiu da luta para ficar consciente.

Holly tinha levado apenas noventa minutos para chegar à Alemanha. Numa missão normal, demoraria pelo menos o dobro tio tempo, mas tinha decidido violar alguns regulamentos da LEP. Por que não?, pensou. Não poderia entrar em encrenca maior ainda. A LEP já achava que ela havia matado o comandante e suas comunicações estavam bloqueadas, de modo que não podia explicar o que realmente havia acontecido. Sem dúvida estava classificada como desertora e já existiria um esquadrão do Resgate em sua pista. Para não mencionar o fato de que Opala Koboi provavelmente a estava rastreando eletronicamente. De modo que não podia perder tempo.

Desde que as gangues de goblins tinham sido apanhadas trazendo contrabando humano através de poços que não eram mais usados, sentinelas tinham sido postas em cada terminal da superfície. O de Paris era guardado por um gnomo dorminhoco que estava a apenas cinco anos da aposentadoria. Foi acordado do cochilo da tarde por um comunicado urgente da Delegacia Plaza. Havia um policial desertor do Recon subindo. Devia ser detido para interrogatório. Proceder com cautela. Ninguém realmente esperava que aquele gnomo tivesse sucesso. Holly Short estava no auge da forma física e já sobrevivera a uma briga com um troll. O gnomo sentinela nem podia se lembrar da última vez em que estivera em forma, e precisava se deitar quando arrancava sem querer um pedaço de cutícula. Mesmo assim guardou de bom grado a saída do poço até que Holly passou por ele a toda velocidade, a caminho da superfície.

Assim que estava no ar, ela puxou uma tira de velcro no antebraço e fez uma busca no computador. O computador achou um hotel Kronski e criou três opções de rota. Holly escolheu a mais curta, embora significasse passar por vários grandes centros de população humana. Mais regulamentos da LEP foram despedaçados. Àquela altura, não se importava. Sua carreira estava fora de qualquer salvação, mas não fazia mal. Holly jamais fora um elfo de carreira. O único motivo para não ter sido expulsa da LEP era o comandante. Ele tinha visto seu potencial, e agora Raiz não existia mais.

A terra passava embaixo a toda velocidade. Cheiros europeus atravessavam os filtros do capacete. O mar, terra ensolarada, vinhedos e o aroma da neve pura. Em geral era para isso que Holly vivia, mas não hoje. Hoje não sentia nem um pouco da euforia por estar acima da superfície. Hoje estava simplesmente solitária. O comandante havia sido a coisa mais próxima de uma família que lhe restara. Agora ele também se fora. Talvez porque ela tivesse errado o ponto vermelho. Será que ela própria havia matado Julius? Era medonho demais para pensar, e medonho demais para esquecer.

Abriu o visor para enxugar as lágrimas. Artemis Fowl precisava ser salvo. Tanto por causa do comandante quanto por ela mesma. Fechou o visor, sacudiu as pernas e acelerou ao máximo. Hora de ver o que essas asas novas de Potrus eram capazes de fazer.

Em pouco mais de uma hora entrou no espaço aéreo de Munique. Baixou para trinta metros de altura e ativou o radar do capacete. Seria uma vergonha chegar tão longe e ser esmigalhada por algum avião que passasse. O Kronski aparecia como um ponto vermelho em seu visor. Potrus poderia ter mandado uma imagem ao vivo, por satélite, ou pelo menos o vídeo mais recente, mas não havia como contatar o centauro e, mesmo que fizesse isso, o Conselho ordenaria que ela voltasse imediatamente à Delegacia Plaza.

Fixou a direção no ponto vermelho em seu visor. Era para lá que a biobomba iria, por isso precisava ir também. Baixou mais, até que o teto do Kronski estivesse abaixo de seus pés, e tocou o telhado. Agora estava por conta própria. O rastreador só iria levá-la até ali. Teria de localizar o quarto de Artemis sozinha.

Mordeu o lábio por um momento, depois digitou um comando no teclado do pulso. Poderia ter usado comando de voz, mas o programa era sensível e ela não tinha tempo para erro de computador. Em segundos o computador de bordo tinha invadido o computador do hotel e estava mostrando uma lista de hóspedes e uma planta-baixa. Artemis estava no quarto 304. Terceiro andar, ala sul do hotel.

Holly correu pelo telhado, ao mesmo tempo ativando as asas. Estava a segundos de salvar Artemis. Ter uma criatura mitológica arrancando-o do quarto do hotel poderia representar um certo choque, mas não tanto quanto ser vaporizado por uma biobomba.

Parou. Um míssil teleguiado vinha do horizonte na direção do hotel. Era tecnologia do povo das fadas, sem dúvida; mas era novo, mais esguio e mais rápido, com foguetes de cauda maiores do que ela já vira num míssil. Opala Koboi obviamente estivera fazendo melhorias.

Girou nos calcanhares, correndo para o outro lado do hotel. No fundo do coração sabia que era tarde demais e percebeu de súbito que Opala havia tramado contra ela outra vez. Jamais houvera qualquer esperança de resgatar Artemis, assim como jamais houvera chance de resgatar o comandante.

Antes que suas asas ao menos tivessem a oportunidade de se mover, houve um brilhante clarão azul embaixo da borda do telhado e um ligeiro tremor quando a biobomba detonou. Era a arma perfeita. Não haveria dano estrutural ao quarto do hotel e o invólucro da bomba iria se consumir sem deixar nenhuma prova de que estivera ali.

Holly se ajoelhou, frustrada, tirando o capacete para engolir o ar da superfície em longos haustos. O ar de Munique era cheio de toxinas, mas mesmo assim tinha um gosto melhor do que o do subterrâneo, filtrado. Mas Holly não notou a doçura. Julius estava morto. Artemis estava morto. Butler estava morto. Como poderia continuar? Qual era o sentido? Lágrimas caíram de seus cílios, escorrendo para rachaduras minúsculas no concreto.

Levante-se!, disse seu núcleo de aço. A parte dela que fazia de Holly Short uma oficial excelente. Você é uma oficial da LEP. Há mais coisas em risco do que seu sofrimento pessoal. Mais tarde terá tempo para chorar.

Daqui a um minuto. Em um minuto me levanto. Só preciso de sessenta segundos. Sentia como se a tristeza houvesse arrancado suas entranhas. Sentia-se oca, entorpecida, incapacitada.

— Que tocante — disse uma voz robótica e familiar. Holly nem olhou para cima.

— Koboi. Veio cantar vantagem? O assassinato a deixa feliz?

— Hmm? — respondeu a voz, seriamente considerando a pergunta. — Sabe de uma coisa? Deixa. Na verdade me deixa feliz.

Holly fungou, afastando as últimas lágrimas dos olhos. Decidiu que não choraria de novo até que Koboi estivesse atrás das grades.

— O que você quer? — perguntou, levantando-se do teto de concreto. Pairando à altura de sua cabeça havia uma pequena biobomba. Este modelo era esférico, mais ou menos do tamanho de um melão, equipado com uma tela de plasma. As feições felizes de Opala estavam chapadas no monitor.

— Ah, eu só segui você a partir do poço porque queria ver como é um desespero total. Não é muito bonito, não é?

Por alguns instantes a tela mostrou o rosto perturbado de Holly, antes de voltar ao de Opala.

— Detone isso logo e vá se danar — rosnou Holly.

A biobomba subiu trinta centímetros, circulando lentamente a cabeça de Holly.

— Por enquanto, não. Acho que ainda há uma fagulha de esperança em você. Então gostaria de extinguir isso. Num momento vou detonar a biobomba. Legal, não é? O que acha do projeto? Oito impulsionadores separados. O que acontece depois da detonação é que é importante.

A curiosidade policial de Holly estava estimulada, apesar das circunstâncias.

— O que acontece, Koboi? Não diga: o domínio do mundo. Koboi deu um risinho e o volume distorceu o som através dos microalto-falantes da bomba.

— Domínio do mundo? Você faz com que pareça tão inalcançável! O primeiro passo é pura simplicidade. Só preciso colocar os humanos em contato com o Povo.

Holly sentiu seus problemas se esvaírem num instante.

— Colocar os humanos em contato com o Povo? Por que faria isso?

As feições de Opala perderam o jeito alegre.

— Porque a LEP me aprisionou. Me estudou como um animal enjaulado, e agora veremos o que vão achar. Haverá uma guerra e eu darei aos humanos as armas para vencer. E depois de terem vencido, a nação que escolherei será a mais poderosa da terra. E eu, inevitavelmente, me tornarei a pessoa mais poderosa dessa nação. Holly quase gritou.

— Tudo isso por uma vingança infantil de uma diabrete. Ver o desconforto de Holly animou Opala num instante.

— Ah, não, não sou mais uma duende-diabrete. — Koboi desenrolou devagar as bandagens em volta da cabeça para revelar duas orelhas humanóides, cirurgicamente arredondadas. — Agora faço parte do Povo da Lama. Pretendo estar do lado vencedor. E meu novo papai tem uma empresa de engenharia. E essa engenharia está mandando uma sonda ao subsolo.

— Que sonda? — gritou Holly. — Que empresa? Opala balançou um dedo.

— Ah, não, chega de explicar. Quero que você morra desolada e ignorante. — Por um momento seu rosto perdeu a alegria falsa e Holly pôde ver o ódio nos olhos enormes. — Você me custou um ano da vida, Short. Um ano de uma vida brilhante. Meu tempo é especial demais para ser desperdiçado, especialmente prestando contas a organizações patéticas como a LEP. Logo nunca mais terei de prestar contas a ninguém, jamais.

Opala ergueu uma das mãos à vista. Estava segurando um pequeno controle remoto. Apertou o botão vermelho. E, como todo mundo sabe, o botão vermelho só pode significar uma coisa: Holly tinha milésimos de segundo para bolar um plano. O monitor se apagou e uma luz verde no console do míssil ficou vermelha. O sinal fora recebido. A detonação era iminente.

Holly pulou e pôs o capacete sobre a bomba esférica. Pôs o peso do corpo no capacete, empurrando-o para baixo. Era como tentar submergir uma bola de futebol. Os capacetes da LEP eram compostos de um polímero rígido que podia suportar explosões de solínium. Claro, o resto da roupa de Holly não era rígido e não poderia protegê-la da biobomba, mas talvez o capacete bastasse.

A bomba explodiu, fazendo o capacete girar. Uma luz azul pura jorrou da parte de baixo do capacete, dissipando-se pelo concreto. Formigas e aranhas pularam uma vez e seus corações minúsculos se imobilizaram. Holly pôde sentir o dela se acelerar, lutando contra o solínium mortal. Segurou-se pelo maior tempo possível, então a concussão a lançou para longe. O capacete girou, afastando-se, e a luz fatal estava livre.

Holly ajustou o controle das asas para subir, partindo para o céu. A luz azul foi atrás dela como uma parede de morte. Agora era uma corrida. Será que havia ganhado tempo e distância suficientes para superar a biobomba?

Sentiu os lábios sendo puxados para trás, sobre os dentes. A força G ondulava a pele das bochechas. Estava contando com a possibilidade de que o agente ativo da biobomba fosse luz. Isso significava que ela podia ser concentrada até um certo diâmetro. Koboi não ia querer chamar a atenção para seu aparelho apagando um quarteirão da cidade. O alvo era apenas Holly.

Holly sentiu a luz roçar nos dedos dos pés. Uma sensação pavorosa de vazio se esgueirou pela perna antes que a mágica a banisse. Esticou o corpo, arqueando a cabeça para trás, dobrando os braços em volta do peito, tentando com a força do pensamento fazer as asas acelerarem até a segurança.

De repente a luz se dissipou. Apagou-se, deixando apenas uma dezena de clarões sinuosos. Holly tinha sido mais rápida do que a luz mortal, sofrendo apenas pequenos danos. As pernas estavam enfraquecidas, mas a sensação sumiria logo. Mais tarde teria tempo para se preocupar com isso. Agora precisava voltar aos Elementos de Baixo e dar um jeito de alertar os colegas sobre o que Opala estava planejando.

Olhou para o teto do hotel, abaixo. Nada restava para sugerir que ela ao menos tivesse estado lá, a não ser os restos do capacete, que giravam como uma tampa velha. Em geral os objetos inanimados não eram afetados pelas biobombas, mas a camada reflexiva do capacete havia feito a luz ricochetear internamente a tal ponto que ele havia se superaquecido. E assim que o capacete entrou em curto, todas as leituras biológicas de Holly também cessaram. Para a LEP e para Opala Koboi, o capacete da capitã Holly não estava mais transmitindo seu batimento cardíaco nem seu ritmo respiratório. Ela estava oficialmente morta. E estar morta tinha suas vantagens.

Algo atraiu o olhar de Holly. Lá embaixo, no centro de um agrupamento de construções de manutenção, vários humanos convergiam para um galpão. Com sua visão privilegiada, Holly podia ver que o telhado do galpão fora arrebentado. Havia duas figuras deitadas nos caibros. Uma era enorme, um verdadeiro gigante. A outra tinha o tamanho mais parecido com o seu. Um garoto. Artemis e Butler. Será que poderiam ter sobrevivido?

Virou as pernas para cima, mergulhando em direção ao local da queda. Não ligou o escudo, conservando sua magia. Parecia que cada fagulha de capacidade curativa que possuía seria necessária, portanto teria de confiar na velocidade e em sua roupa revolucionária para ficar escondida.

Os outros humanos estavam a vários metros de distância, abrindo caminho pelo entulho. Pareciam mais curiosos do que com raiva. Mesmo assim era vital que Holly tirasse Artemis dali, se ele estivesse vivo. Opala poderia ter espiões em toda parte e um plano de reserva, só esperando para saltar numa operação mortal. Era pouco provável que eles pudessem enganar a morte de novo.

Pousou no telhado do galpão e espiou para dentro. Era Artemis, sem dúvida, e Butler. Ambos respirando. Artemis estava até consciente, mas claramente sentindo dor. De súbito uma rosa de sangue vermelho se espalhou em sua camisa branca, os olhos se reviraram para trás e ele começou a arquear. O Garoto da Lama ia entrar em choque e parecia que uma costela havia perfurado a pele. Poderia haver outra em seu pulmão. Ele precisava ser curado. Agora.

Holly baixou até o peito de Artemis e pôs a mão nas pontas de osso que se projetavam abaixo do coração.

— Cure — disse ela, e as últimas fagulhas de magia que existiam em seu corpo de elfo desceram correndo pelos braços, intuitivamente se dirigindo aos ferimentos de Artemis. As costelas estremeceram, se retorceram elasticamente e se juntaram de novo num sibilar de osso derretido. Vapor saiu do corpo trêmulo de Artemis enquanto a magia expulsava as impurezas do organismo.

Mesmo antes de Artemis terminar de se sacudir Holly havia se enrolado o máximo possível ao redor do garoto. Precisava tirá-lo dali. O ideal seria levar Butler também, mas ele era volumoso demais para ser escondido por seu corpo pequeno. O guarda-costas teria de cuidar de si mesmo, mas Artemis precisava ser protegido. Em primeiro lugar porque era sem dúvida o alvo principal, e em segundo porque ela precisava de seu cérebro desonesto para ajudá-la a derrotar Opala Koboi. Se Opala pretendia entrar para o mundo dos homens, Artemis era o contraponto ideal para o gênio dela.

Cruzou os dedos às costas de Artemis e levantou seu corpo frouxo até ficar de pé. A cabeça do garoto tombou sobre seu ombro e ela sentiu a respiração dele na bochecha. Estava regular. Bom.

Dobrou as pernas até que os joelhos estalaram. Precisaria de todo o impulso possível para disfarçar a fuga. Do lado de fora, as vozes ficavam mais próximas, e ela sentiu as paredes tremerem quando alguém enfiou uma chave na fechadura.

— Tchau, Butler, velho amigo — sussurrou. — Volto para pegar você.

O guarda-costas gemeu uma vez, como se tivesse ouvido. Holly odiou ter de deixá-lo, mas não havia escolha. Era Artemis sozinho ou nenhum dos dois, e o próprio Butler lhe agradeceria pelo que estava fazendo.

Trincou os dentes, retesou cada músculo do corpo e acelerou as asas. Decolou do galpão como um dardo saindo de uma zarabatana, deixando uma nuvem de poeira para trás. Mesmo que alguém estivesse olhando direto, tudo que veria seria poeira e um borrão cor do céu, com talvez um sapato se projetando. Mas devia ser ilusão de ótica, porque sapatos não voam. Não é?

 

POTRUS não podia acreditar no que estava acontecendo. Seus olhos mandavam informações ao cérebro, mas o cérebro se recusava a aceitar. Porque, se aceitasse essas informações, teria de acreditar que sua amiga Holly Short acabara de atirar no próprio comandante e agora estava tentando escapar para a superfície. Isso era completamente impossível, embora nem todo mundo estivesse tão relutante em aceitar.

O laboratório móvel do centauro fora requisitado pelo Departamento de Assuntos Internos. Agora a operação estava sob a jurisdição deles, porque uma oficial da LEP era suspeita de crime. Todo o pessoal da LEP fora expulso do veículo, mas

Potrus teve permissão de ficar simplesmente porque era o único capaz de operar o equipamento de vigilância.

O comandante Ark Sool era um gnomo da LEP que investigava policiais suspeitos. Sool tinha uma altura incomum e era magro para um gnomo, como uma girafa em pele de babuíno. O cabelo escuro era esticado para trás num estilo formal, e os dedos e as orelhas não tinham nenhum dos ornamentos dourados em geral tão amados pelas famílias de gnomos. Ark Sool era o oficial gnomo de mais alta patente no Assuntos Internos, e acreditava que a LEP era composta basicamente por um bando de malucos comandados por um indisciplinado. E agora o indisciplinado estava morto, aparentemente assassinado pela figura mais louca do bando. Holly Short pode ter evitado por pouco as acusações de crimes em duas ocasiões anteriores. Desta vez não escaparia.

— Repasse o vídeo, centauro — instruiu ele, batendo no topo da mesa com a bengala. Coisa irritante.

— Já olhamos isso uma dúzia de vezes — protestou Potrus. — Não vejo qual é o sentido.

Sool o silenciou com uma expressão irritada nos olhos avermelhados.

— Não vê o sentido? O centauro não vê o sentido? Não sei por que isso é um fator importante na equação atual. O senhor, sr. Potrus, está aqui para apertar botões, e não para dar opiniões. O comandante Raiz dava muito valor às suas opiniões, e olhe onde isso o levou, hein?

Potrus engoliu a dezena de respostas azedas que estavam fazendo fila em sua língua. Se fosse excluído desta operação agora, não poderia fazer nada para ajudar Holly.

— Passar o vídeo. Sim, senhor.

Potrus repassou o vídeo do E37. Era uma coisa espantosa. Julius e Holly ficaram um bom tempo em volta do general Escamoto. Pareciam bastante agitados. Então, por algum motivo, por mais incrível que parecesse, Holly atirou no comandante com algum tipo de bala incendiaria. Nesse ponto eles perderam todas as informações de vídeo dos dois capacetes.

— Volte a fita vinte segundos — ordenou Sool, inclinando-se perto do monitor. E cutucou a tela de plasma com a bengala. — O que é isso?

— Cuidado com a bengala — disse Potrus. — Essas telas são caras. Eu trouxe de Atlântida.

— Responda à pergunta, centauro. O que é isso? — Sool cutucou a tela duas vezes, só para mostrar como se importava pouco com as geringonças de Potrus.

O comandante do Departamento de Assuntos Internos estava apontando para um leve tremor no peito de Raiz.

— Não sei — admitiu Potrus. — Pode ser distorção de calor, ou talvez falha do equipamento. Ou talvez só um probleminha técnico. Terei de fazer alguns testes.

Sool assentiu.

— Faça seus testes, mas não espero que vá encontrar nada. Short pirou de vez, é simples, Ela sempre foi doida. Quase a peguei antes, mas desta vez ela está acabada.

Potrus sabia que deveria morder a língua, mas precisava defender a amiga.

— Isso tudo não é conveniente? Primeiro nós perdemos o som, por isso não sabemos o que foi dito. Depois há um trecho turvo na imagem, que pode ser qualquer coisa; e agora esperam que acreditemos que uma oficial condecorada simplesmente deu um tiro no comandante, um elfo que era como um pai para ela.

— É, entendo o que você quer dizer, Potrus — disse Sool com voz macia. — Muito bem. É bom saber que está pensando em algum nível. Mas vamos nos ater a nossos respectivos serviços, está bem? Você constrói o equipamento e eu opero. Por exemplo, essas novas Neutrino com as quais nosso pessoal de campo está armado.

— É, o que é que tem? — perguntou Potrus cheio de suspeitas.

— Elas são personalizadas com cada policial, não é? Ninguém mais pode disparar com elas. E cada tiro é registrado?

— Correto — admitiu Potrus, consciente demais de para onde estava sendo levado.

Sool balançou a bengala como um maestro.

— Bem, então só precisamos verificar o registro da arma da capitã Short para ver se ela disparou um tiro no momento exato indicado no vídeo. Se fez isso, então o filme é autêntico, e Holly Short assassinou o comandante, independentemente do que possamos ouvir ou não.

Potrus trincou seus dentes eqüinos. Claro que fazia todo o sentido. Ele havia pensado nisso há meia hora e já sabia o que a pesquisa iria revelar. Baixou o registro da arma de Holly e leu a parte relevante.

— Arma registrada às nove e quarenta e cinco, hora local. Seis pulsos às nove e cinqüenta e seis, depois um pulso nível dois disparado às nove e cinqüenta e oito.

Sool bateu com a bengala na palma da mão, em triunfo.

— Um pulso de nível dois às nove e cinqüenta e oito. Exato. O que quer que tenha acontecido a mais naquele poço, Short disparou contra o comandante.

Potrus desceu de sua cadeira de escritório especialmente projetada.

— Mas um pulso de nível dois não poderia causar uma explosão tão grande. Ela praticamente arrebentou todo o túnel de acesso.

— E por isso Short não está presa neste momento — disse Sool. — Vai levar semanas para limpar o túnel. Tive de mandar uma equipe de Resgate pelo El, em Tara. Eles terão de viajar acima da superfície até Paris e pegar a pista dela a partir de lá.

— Mas e quanto à explosão em si?

Sool fez uma careta, como se as perguntas de Potrus fossem uma castanha amarga numa refeição deliciosa.

— Ah, tenho certeza de que há uma explicação, centauro. Gás combustível, defeito, ou só azar. Descobriremos isso. Por enquanto minha prioridade, e a sua, é trazer a capitã Short de volta para julgamento. Quero que faça conexão com a equipe de Resgate. Repasse para eles atualizações constantes da posição de Short.

Potrus assentiu sem entusiasmo. Holly ainda estava usando o capacete. E o capacete da LEP podia verificar sua identidade e repassar um fluxo constante de informações de diagnóstico para os computadores de Potrus. Eles não tinham som nem vídeo, mas havia informações suficientes para rastrear Holly, onde quer que ela fosse no mundo, ou embaixo dele. No momento Holly estava na Alemanha. Seus batimentos cardíacos estavam elevados mas, afora isso, ela parecia bem.

Por que você fugiu, Holly?, perguntou Potrus em silêncio à amiga ausente. Se é inocente, por que fugiu?

— Diga onde a capitã Short está agora — exigiu Sool.

O centauro maximizou a transmissão ao vivo do capacete de Holly na tela de plasma.

— Ainda na Alemanha. Munique, para ser exato. Agora parou de se mover. Talvez decida voltar para casa.

Sool franziu a testa.

— Duvido seriamente, centauro. Ela é uma maça podre, completamente.

Potrus fumegou. A educação ditava que só um amigo poderia falar com outra criatura chamando-a pelo nome de sua espécie, e Sool não era seu amigo. Nem de ninguém.

—. Não podemos ter certeza — respondeu Potrus entre os dentes trincados,

Sool se inclinou ainda mais para perto da tela de plasma, com um sorriso lento esticando a pele retesada.

— Na verdade, centauro, você está errado. Acho que podemos dizer com certeza que a capitã Short não vai voltar. Chame de volta a equipe de Resgate, imediatamente.

Potrus verificou a tela de Holly. Os sinais vitais de seu capacete eram linhas retas. Num segundo ela estava estressada, mas viva, e no outro já era. Sem batimentos cardíacos, sem atividade cerebral, sem leitura de temperatura. Não poderia ter simplesmente tirado o capacete, e havia uma conexão por infravermelho entre cada policial da LEP e seu capacete. Não. Holly estava morta, e não fora por causas naturais.

Potrus sentiu as lágrimas inchando nas pálpebras. Holly também, não.

— Chamar de volta a equipe de Resgate? Está maluco, Sool? Temos de achar Holly. Descobrir o que aconteceu.

Sool não se afetou com a explosão de Potrus. No mínimo, pareceu gostar.

— Short era traidora e obviamente estava em conluio com os goblins. De algum modo seu plano nefasto saiu pela culatra e ela foi morta. Quero que você ative o incinerador remoto do capacete dela, imediatamente, e fecharemos o livro de uma policial desertora.

Potrus ficou aparvalhado.

— Ativar o incinerador remoto! Não posso fazer isso. Sool revirou os olhos.

— De novo cheio de opiniões. Você não tem autoridade aqui; simplesmente obedeça.

— Mas terei uma imagem de satélite em trinta minutos — protestou o centauro. — Certamente podemos esperar esse tempo.

Sool passou por Potrus e foi até o teclado.

— Negativo. Você conhece os regulamentos. Nenhum corpo pode ser deixado exposto para os humanos encontrarem. É uma regra dura, eu sei, mas necessária.

— O capacete pode ter dado defeito — reagiu Potrus, agarrando-se à ultima esperança.

— É provável que todas as leituras de sinais vitais ficassem retas no mesmo instante devido a uma falha de equipamento?

— Não — admitiu Potrus.

— E qual é a probabilidade de isso acontecer?

— Cerca de uma chance em um milhão — respondeu arrasado o conselheiro técnico.

Sool rodeou o teclado.

— Se você não tem estômago para isso, centauro, eu mesmo faço. — Ele digitou sua senha e detonou o incinerador no capacete de Holly. No topo de um prédio de Munique, o capacete se dissolveu numa poça de ácido. E, em teoria, o mesmo aconteceu com o corpo de Holly.

— Pronto — disse Sool, satisfeito. — Ela se foi, e agora podemos dormir um pouquinho mais tranqüilos.

Eu não, pensou Potrus, olhando arrasado para a tela. Vai se passar muito tempo antes que eu possa dormir tranqüilo de novo.

 

Artemis Fowl acordou de um sonho assolado por pesadelos. No sonho, estranhas criaturas de olhos vermelhos tinham aberto seu peito com presas que pareciam cimitarras e jantaram seu coração. Sentou-se numa cama pequena demais, com as duas mãos indo até o peito. A camisa estava cheia de sangue seco, mas não havia ferimento. Respirou trêmulo várias vezes, bombeando oxigênio no cérebro. Avalie a situação, é o que Butler sempre dizia. Se estiver num território desconhecido, familiarize-se com ele antes de abrira boca. Dez segundos de observação podem salvar sua vida.

Olhou em volta, as pálpebras tremendo como diafragmas de máquinas fotográficas, absorvendo cada detalhe. Estava num cômodo pequeno, com uns três metros de lado. Uma das paredes era totalmente transparente e parecia dar para o cais de Dublin. Pela posição da ponte do Milênio, o cômodo ficava em algum lugar na área de Temple Bar. Era construído de algum material estranho. Algum tipo de tecido cinza-prateado. Rígido porém maleável, com várias telas de plasma nas paredes opacas. Tudo era extremamente de alta tecnologia, mas parecia muito velho e quase abandonado.

No canto havia uma garota sentada numa cadeira dobrável. Estava com a cabeça apoiada nas mãos, os ombros se sacudindo levemente com soluços.

Artemis pigarreou.

— Por que está chorando, garota?

Ela se empertigou num salto, e num instante ficou óbvio que não era uma garota normal. Na verdade parecia pertencer a uma espécie totalmente diferente.

— Orelhas pontudas — observou Artemis, com compostura surpreendente. — Próteses ou de verdade?

Holly quase sorriu em meio às lágrimas.

— Típico Artemis Fowl. Sempre procurando opções. Minhas orelhas são muito reais, como você bem sabe... sabia.

Artemis ficou quieto por vários instantes, processando a quantidade de informações naquelas poucas frases.

— Orelhas pontudas de verdade? Então você é de outra espécie, e não humana. Uma criatura das fadas?

Holly assentiu.

— Sou. Na verdade sou elfo. Também sou o que vocês chamam de leprechaum, ou leprecon, mas isso é só um trabalho.

— E as criaturas das fadas falam inglês, é?

— Falamos todas as línguas. O dom das línguas faz parte de nossa magia.

Artemis sabia que essas revelações deveriam fazer seu mundo sair dos eixos, mas se pegou aceitando cada palavra. Era como se sempre tivesse suspeitado da existência daquelas criaturas e isso fosse apenas uma confirmação. Se bem que, estranhamente, não podia se lembrar de ao menos ter pensado em criaturas das fadas antes desse dia.

— E você diz que me conhece? Pessoalmente ou devido a algum tipo de vigilância? Sem dúvida vocês parecem ter tecnologia para isso.

— Já o conhecemos há alguns anos, Artemis. Você fez o primeiro contato, e desde então estamos de olho em você.

Artemis ficou meio espantado.

— Eu fiz o primeiro contato?

— Sim. Em dezembro, há dois anos. Você me seqüestrou.

— Esta é a sua vingança? Aquele míssil explosivo? Minhas costelas? — Um pensamento horrível tomou conta do garoto irlandês. — E Butler? Está morto?

Holly fez o máximo para responder a todas as perguntas.

— É vingança, mas não minha. E Butler está vivo. Só precisei tirar você de lá antes que fosse cometido outro atentado contra sua vida.

— Então agora nós somos amigos? Holly deu de ombros.

— Talvez. Veremos.

Tudo isso era um tanto confuso. Mesmo para um gênio. Artemis cruzou as pernas na posição de lótus e encostou as têmporas nas pontas dos dedos.

— É melhor me contar tudo — disse ele, fechando os olhos. — Desde o início. E não deixe nada de fora.

Foi o que Holly fez. Contou a Artemis como ele a seqüestrou e depois soltou-a no último instante. Contou como tinham viajado ao Ártico para resgatar o pai dele e como tinham frustrado uma rebelião de goblins comandada por Opala Koboi. Narrou em grandes detalhes a missão a Chicago para roubar de volta o Cubo C, um supercomputador construído por Artemis a partir de tecnologia pirateada do povo das fadas. Por fim, em voz baixa, contou sobre a morte do comandante Raiz e o plano sinistro de Opala Koboi para juntar os mundos dos homens e das fadas.

Artemis ficou sentado perfeitamente imóvel, absorvendo centenas de fatos incríveis. Sua testa estava ligeiramente enrugada, como se as informações fossem difíceis de digerir. Por fim, quando o cérebro organizou os dados, ele abriu os olhos.

— Muito bem — falou. — Não lembro nada disso, mas acredito. Aceito que nós, humanos, temos vizinhos morando abaixo da superfície do planeta.

— Assim, tão fácil? Artemis deu um leve sorriso.

— Nem um pouco. Peguei sua história e cruzei com os fatos que conheço. A única outra hipótese que poderia explicar tudo o que aconteceu, inclusive seu aparecimento bizarro, é uma tortuosa teoria de conspiração envolvendo a Mafiya russa e uma equipe fantástica de cirurgiões plásticos. Não é provável. Mas sua história se encaixa, até uma coisa da qual você não poderia saber, capitã Short.

— O que é?

— Depois do meu suposto apagamento mental, eu descobri lentes de contato espelhadas nos meus olhos e nos de Buder. Uma investigação revelou que eu mesmo havia encomendado as lentes, mas não tinha lembrança do fato. Suspeito de que as encomendei para trapacear o seu mesmer.

Holly assentiu. Fazia sentido. As criaturas tinham o poder de mesmerizar os humanos, mas o contato visual fazia parte do truque, junto com uma voz mesmérica. As lentes de contato espelhadas deixariam a pessoa totalmente no controle, enquanto fingisse estar sob o mesmer.

— O único motivo para isso seria se eu tivesse deixado um gatilho em algum lugar. Algo que fizesse minha lembrança das criaturas voltar num instante. Mas o que seria?

— Não faço idéia. Esperava que simplesmente o fato de me ver disparasse a lembrança.

Artemis sorriu de um modo bem irritante. Como alguém faria se uma criança sugerisse que a lua era feita de queijo.

— Não, capitã. Acho que a tecnologia de apagamento mental do seu sr. Potrus é uma versão avançada das drogas de supressão mental que estão sendo experimentadas por vários governos. Veja bem, o cérebro é um instrumento complexo; pode ser convencido de que algo não aconteceu, pode inventar todo tipo de situações para manter essa ilusão. Nada pode mudar seu pensamento, por assim dizer. Mesmo que a consciência aceite uma coisa, o apagamento mental terá convencido o subconsciente de outra coisa. Portanto, independente de o quanto você for convincente, não pode converter meu subconsciente alterado. Meu subconsciente na certa acredita que você é uma alucinação ou uma miniespiã. Não, o único modo de trazer de volta minhas lembranças seria se o subconsciente não pudesse apresentar um argumento razoável; digamos, se uma pessoa em quem eu confio totalmente me apresentasse uma prova irrefutável.

Holly se pegou ficando chateada. Artemis podia irritá-la como ninguém mais. Uma criança que tratava todo mundo como criança.

— E quem é essa pessoa em quem você pode confiar? Artemis sorriu genuinamente pela primeira vez desde que estava em Munique.

— Ora, eu mesmo, claro.

 

Butler acordou e descobriu sangue pingando da ponta de seu nariz. Pingava no chapéu branco do chefe de cozinha do hotel. O chefe estava parado com um grupo de funcionários da cozinha no meio do galpão arrebentado. O sujeito estava segurando um cutelo com a mão cabeluda, só para o caso de aquele gigante sobre o colchão em frangalhos nos caibros do telhado ser louco.

— Com licença — disse o chefe com educação, o que era incomum para um chefe de cozinha. — O senhor está vivo?

Butler pensou na pergunta. Aparentemente, por mais improvável que parecesse, estava. O colchão o havia salvado daquele míssil estranho. Artemis também tinha sobrevivido. Lembrou-se de sentir as batidas do coração do patrão logo antes de apagar. Agora elas não estavam ali.

— Estou vivo — grunhiu, com uma pasta feita de pó de telhas e sangue escorrendo dos lábios. — Cadê o garoto que estava comigo?

As pessoas reunidas no depósito arruinado se entreolharam.

— Não havia nenhum garoto — disse o chefe por fim. — O senhor caiu pelo telhado sozinho.

Sem dúvida esse grupo gostaria de uma explicação, caso contrário iria informar à polícia.

— Claro que não havia garoto. Perdão; a mente costuma ficar confusa depois de uma queda de três andares.

Os funcionários assentiram como se fossem um só. Quem poderia culpar o gigante por se sentir meio atrapalhado?

— Eu estava encostado no corrimão, pegando sol, quando ele cedeu. Por sorte consegui agarrar o colchão enquanto caía.

Essa explicação foi recebida com o ceticismo em massa que merecia. O chefe verbalizou as dúvidas do grupo:

— O senhor conseguiu agarrar um colchão?

Butler precisou pensar depressa, o que não é fácil quando todo o sangue do corpo está concentrado na testa.

— É. Ele estava na varanda. Eu tinha me deitado ao sol.

Esse negócio do sol era extremamente improvável. Em especial considerando que era o meio do inverno. Butler percebeu que só havia um modo de afastar aquelas pessoas. Era drástico, mas deveria dar certo.

Enfiou a mão no bolso do paletó e pegou um caderninho espiral.

— Claro que pretendo processar o hotel por danos. Só o trauma deve valer alguns milhões de euros. Para não mencionar os ferimentos. Presumo que posso contar com vocês, pessoas tão gentis, como testemunhas.

O chefe de cozinha empalideceu, assim como os outros. Servir de testemunha contra o patrão era o primeiro passo para o desemprego.

— Eu... não sei, senhor — gaguejou ele. — Na verdade não vi nada. — E parou para farejar o ar. — Acho que estou sentindo cheiro do meu Pavlova queimando. A sobremesa vai ficar arruinada.

O chefe saltou por cima dos montes de telhas quebradas e desapareceu de volta no hotel. Os outros empregados o seguiram, e em segundos Butler estava sozinho outra vez. Sorriu, mas a ação lançou uma explosão de dor pescoço abaixo. A ameaça de processo em geral fazia as testemunhas se espalharem com tanta eficácia quanto se ele tivesse usado uma metralhadora.

O eurasiano gigante se desemaranhou dos restos do caibro. Realmente tivera uma sorte incrível por não ter sido empalado nas traves. O colchão tinha absorvido a maior parte do impacto, e a madeira estava podre e havia se partido sem causar danos.

Desceu até o chão, espanando pó do terno. Agora a prioridade era encontrar Artemis. Parecia provável que quem cometera o atentado contra sua vida tinha levado o garoto. Mas por que alguém tentaria matá-lo e depois levá-lo como prisioneiro? A não ser que o inimigo desconhecido tivesse se aproveitado da situação e decidido pegar um refém.

Voltou ao quarto, onde tudo estava como haviam deixado. Não existia absolutamente nenhum sinal de que alguma coisa explodira ali. As únicas coisas incomuns reveladas pelas investigações de Butler eram pequenos amontoados de insetos e aranhas mortos. Curioso. Era como se o clarão de luz azul só afetasse seres vivos, sem afetar objetos inanimados.

Uma enxaguadora azul, disse seu subconsciente, mas o consciente não se deu conta.

Rapidamente guardou a caixa de truques de Artemis e, claro, a dele também. As armas e o equipamento de vigilância seriam guardados num bagageiro do aeroporto. Deixou o hotel Kronski sem pagar a conta. A saída tão cedo atrairia suspeitas, e com sorte toda essa coisa poderia ser resolvida antes que os alunos da excursão voltassem para casa.

Pegou o Hummer no estacionamento do hotel e partiu para o aeroporto. Se Artemis tivesse sido seqüestrado, os seqüestradores fariam contato com a mansão Fowl pedindo o resgate. Se Artemis tivesse simplesmente se afastado do perigo, iria para casa, como Butler sempre alertara. De qualquer modo a pista levava à mansão Fowl, portanto era para lá que Butler pretendia ir.

 

Artemis havia se recuperado o suficiente para que a curiosidade natural viesse à tona. Andou pela sala atulhada, tocando a superfície esponjosa das paredes.

— O que é este lugar? Algum tipo de esconderijo de vigilância?

— Exato — respondeu Holly. — Fiz uma tocaia aqui há alguns meses. Um grupo de anões desgarrados ia se encontrar com receptadores de jóias. De fora isto é apenas mais um trecho de céu em cima de um prédio. É um casulo cam.

— “Cam” de camuflagem?

— Não, “cam” de camaleão. Esta roupa é “cam” de camuflagem.

— Acho que você sabe que os camaleões não trocam de cor para se ajustar ao meio ambiente. Trocam de cor de acordo com o humor e a temperatura.

Holly olhou por cima do bairro de Temple Bar. Abaixo deles, milhares de turistas, músicos e moradores caminhavam pelas pequenas ruas dos artesãos.

— Você teria de dizer isso ao Potrus. Ele é que dá nome às coisas que faz.

— Ah, sim. Potrus. Ele é um centauro, não é?

— Isso mesmo. — Holly se virou para encarar Artemis. — Você está recebendo isso com muita calma. A maioria dos humanos pira de vez quando descobre que nós existimos. Alguns entram em choque.

Artemis sorriu.

— Eu não sou a maioria dos humanos.

Holly se virou de novo para a paisagem. Não iria discutir com isso.

— Então diga, capitã Short. Se sou uma ameaça para o povo das fadas, por que me curou?

Holly pousou a testa na face translúcida do casulo cam.

— É nossa natureza. E, claro, preciso de você para me ajudar a encontrar Opala Koboi. Já fizemos isso antes, podemos fazer de novo.

Artemis parou junto de Holly, diante da janela.

— Então primeiro você apaga minha mente, e agora precisa de mim?

— É, Artemis. Pode tripudiar à vontade. A poderosa LEP precisa da sua ajuda.

— Claro que há a questão do meu pagamento.—Artemis abotoou o paletó por cima da mancha de sangue na camisa.

Holly se virou para ele.

— Seu pagamento? Está falando sério? Depois de tudo que o Povo das Fadas fez por você? Não pode fazer uma coisa boa pela primeira vez na vida?

— Obviamente vocês, elfos, são uma raça emocional. Os humanos são ligeiramente mais voltados para os negócios. Eis os fatos: você é uma fugitiva da justiça, perseguida por uma diabrete genial e assassina. Não tem verbas e tem poucos recursos. Eu sou o único que pode ajudá-la a encontrar essa tal de Opala Koboi. Acho que isso vale algumas barras do ouro de alguém.

Holly o encarou, furiosa.

— Como você disse, Garoto da Lama. Não tenho recursos.

Artemis abriu os braços, magnânimo.

— Estou preparado para aceitar sua palavra. Se puder me garantir uma tonelada métrica de ouro de sua verba de resgate, eu bolo um plano para derrotar essa tal de Opala Koboi.

Holly estava num buraco e sabia disso. Não havia dúvida de que Artemis poderia lhe dar uma vantagem sobre Opala, mas estava furiosa por ter de pagar a alguém que já fora seu amigo.

— E se Koboi nos derrotar?

— Se Koboi nos derrotar, e presumivelmente nos assassinar, pode considerar a dívida nula.

— Fantástico — resmungou Holly. —• Quase vale a pena.

Saiu de perto da janela e começou a revirar o armário de remédios do casulo.

— Sabe de uma coisa, Artemis? Você é exatamente como quando a gente se conheceu: um Garoto da Lama ganancioso que não se importa com ninguém, além de você mesmo. É isso realmente que quer ser pelo resto da vida?

As feições de Artemis continuaram estáticas, mas por baixo da superfície suas emoções estavam num tumulto. Claro que estava certo em pedir pagamento. Seria estúpido não fazer isso. Mas o simples fato de ter pedido o deixava com culpa. Era a idiota da consciência recém-descoberta. Sua mãe parecia capaz de ativá-la à vontade, e esta criatura também. Teria de manter um controle mais rígido sobre as emoções.

Holly terminou de revirar o armário.

— Bem, sr. consultor, qual é o primeiro passo? Artemis não hesitou.

— Somos apenas dois, e não somos muito altos. Precisamos de reforços. Enquanto falamos, Butler está indo para a mansão Fowl. Talvez já esteja lá.

Artemis ligou o celular e apertou o botão de discagem automática para Butler. Uma mensagem gravada disse que a pessoa que ele estava tentando contatar não se encontrava disponível. Recusou a oferta de tentar de novo, e em vez disso ligou para a mansão Fowl. Uma secretária eletrônica atendeu depois do terceiro toque. Aparentemente seus pais já tinham ido para o spa em Westmeath.

— Butler — disse Artemis para a secretária eletrônica. — Espero que esteja bem. Eu estou. Ouça atentamente o que tenho a dizer, e acredite que cada palavra é verdade... — Artemis passou a resumir os acontecimentos do dia. — Chegaremos logo à mansão. Sugiro que façamos um estoque das coisas essenciais e sigamos para um esconderijo seguro...

Holly deu-lhe um tapa no ombro.

— Vamos sair daqui. Opala não é idiota. Eu não me surpreenderia se ela tivesse algum plano B para o caso de nós sobrevivermos.

Artemis cobriu o fone com a mão.

— Concordo. Isso é o que eu faria. Essa tal de Koboi provavelmente está a caminho agora mesmo.

Como se tivesse recebido a dica, as paredes do casulo chiaram e se dissolveram. Opala Koboi estava parada no buraco, flanqueada por Merv e Melodia Brill. Os gêmeos diabretes tinham pistolas de plástico transparente. O cano da arma de Merv soltava um brilho fraco depois do tiro que derreteu a parede.

— Assassino! — gritou Holly, tentando sacar sua arma. Merv deu um tiro casual, suficientemente perto da cabeça para chamuscar as sobrancelhas dela. Holly se imobilizou, levantando as mãos, submissa.

— Opala Koboi, presumo? — disse Artemis; se bem que, se Holly não tivesse lhe contado toda a história, ele jamais adivinharia que a pessoa diante dele era algo além de uma criança humana. Seu cabelo preto descia pelas costas numa trança e ela estava com um avental xadrez do tipo usado por milhões de menininhas em jardins de infância por todo o mundo. As orelhas, é claro, eram arredondadas.

— Artemis Fowl, que bom vê-lo de novo. Acredito que em circunstâncias diferentes nós seríamos aliados.

— As circunstâncias mudam — respondeu Artemis. — Talvez ainda possamos ser aliados.

Holly optou por dar o benefício da dúvida a Artemis. Talvez ele estivesse bancando o traidor para salvar a pele dos dois. Talvez.

Opala tremulou suas sobrancelhas compridas e curvas.

— É tentador, mas não. Acho que no mundo só cabe uma criança gênio. E agora que estou fingindo ser criança, esse gênio seria eu. Conheça Belinda Zito, uma garota com grandes planos.

Holly estendeu a mão para a arma, mas parou quando Merv apontou sua pistola transparente para ela.

— Conheço vocês — disse ela aos irmãos Brill. — Os diabretes gêmeos. Vocês apareceram na TV.

Melodia não conseguiu conter o riso.

— É, no Canto. Foi o programa de maior audiência da temporada. Estamos pensando em escrever um livro, não é, Merv? Sobre como nós...

— ... terminamos as frases um do outro — completou Merv, mesmo sabendo que isso iria lhe custar caro.

— Quietos, seus imbecis — gritou Opala, lançando um olhar assassino para Merv. — Mantenha a arma apontada e a boca fechada. Isso não tem a ver com vocês; é comigo. Lembrem-se disso e talvez eu não tenha de liquidificar vocês dois.

— Sim, claro, srta. Koboi. Tem a ver com a senhorita. Opala quase ronronou.

— Isso mesmo. Sempre teve a ver comigo. Eu sou o único ser importante aqui.

Artemis enfiou uma das mãos casualmente no bolso. A que segurava o celular ainda conectado com a mansão Fowl.

— Se é que posso dizer, srta. Koboi, a ilusão de importância é comum entre os que despertaram recentemente do coma. É conhecida como síndrome de Narciso. Escrevi um artigo sobre esse assunto para o Livro do Ano dos Psicólogos, sob o pseudônimo de Sir E. Brum. Você passou muito tempo em sua própria companhia, por assim dizer, de modo que todas as outras pessoas ficaram irreais...

Opala assentiu para Merv.

— Pelo amor dos deuses, faça com que ele se cale. Merv adorou obedecer, lançando um projétil azul no peito de Artemis. O garoto irlandês desmoronou no meio do discurso.

— O que você fez? — gritou Holly, abaixando-se ao lado de Artemis. Ficou aliviada ao encontrar batimentos cardíacos firmes por baixo da camisa ensangüentada.

— Ah, não — disse Opala. — Ele não está morto, apenas dolorosamente atordoado. O jovem Artemis está tendo um dia incrível.

As feições bonitas de Holly estavam distorcidas pelo sofrimento e pelo ultraje enquanto olhava para a pequena diabrete.

— O que quer de nós? O que mais você pode fazer? O rosto de Opala era a própria imagem da inocência.

— Não me culpe. Você mesma provocou isso. Eu só queria destruir a sociedade do povo, como nós a conhecemos, mas ah, não, você não quis. Então planejei uns dois assassinatos relativamente simples, mas vocês insistiram em sobreviver. Parabéns por ter sobrevivido à biobomba, por sinal. Eu estava olhando a coisa toda de vinte metros acima, no meu veículo invisível. Conter o solínium com um capacete da LEP foi bem pensado. Mas agora, como você me causou tanto problema e chateação, acho que vou aproveitar um pouquinho.

Holly engoliu o medo que subia pela garganta.

— Aproveitar?

— Ah, sim. Tenho uma situaçãozinha maligna planejada para Potrus, algo teatral envolvendo as Onze Maravilhas. Mas agora decidi que você merece mais.

Holly ficou tensa. Deveria tentar sacar a arma, não havia outra opção. Mas precisou perguntar. Era a natureza das criaturas das fadas.

— Maligna em que nível?

Opala sorriu, e maldosa era a única palavra para descrever essa expressão.

— Maligna no nível de troll. E mais uma coisa. Só conto isso porque você está para morrer, e quero que me odeie no momento da morte tanto quanto odeio você. — Opala fez uma pausa, permitindo o aumento da tensão. — Lembra do ponto vermelho na bomba que prendi em Julius?

Holly sentiu como se seu coração tivesse se expandido para ocupar todo o peito.

— Lembro.

Os olhos de Opala chamejaram.

— Bom, era mentirinha.

Holly tentou sacar a arma e Merv a acertou no peito com uma carga azul. Ela dormiu antes de bater no chão.

 

TRÊS MIL METROS abaixo da superfície do Atlântico, um sublançador da LEP ia a toda velocidade através de uma pequena trincheira vulcânica em direção à foz de um rio subterrâneo. O rio levava a um terminal de transporte da LEP onde os passageiros do sublançador poderiam se transferir para um veículo regular.

O veículo tinha três passageiros e um piloto. Os passageiros eram um anão bandido e os dois policiais de Atlântida que o estavam transportando. Palha Escavator, o bandido em questão, estava bem animado, para alguém que vestia roupas de presidiário. O motivo é que sua apelação finalmente tinha sido recebida e seu advogado estava otimista, achando que todas as acusações contra o cliente seriam retiradas devido a uma questão técnica.

Palha Escavator era um anão de túnel que abandonara as minas em troca de uma vida de crimes. Retirava objetos de valor das casas do Povo da Lama e vendia no mercado negro. Nos últimos anos seu destino havia se entrelaçado com o de Artemis Fowl e Holly Short, e ele tinha representado um papel fundamental nas aventuras dos dois. Inevitavelmente, essa vida estilo montanha-russa despencou em cima dele quando o longo braço da LEP chegou perto. Antes de ser levado para cumprir o resto da pena, Palha Escavator teve permissão para se despedir de seu amigo humano.

Artemis lhe dera duas coisas: uma era um bilhete alertando para ele verificar as datas no mandado de busca original para sua caverna. A outra era um medalhão de ouro para ser devolvido a Artemis no prazo de dois anos. Aparentemente, nesse tempo Artemis queria ressuscitar a parceria dos dois. Palha tinha estudado o medalhão mil vezes, procurando segredos, até que, de tanto esfregar, gastou o banho de ouro e revelou um disco de computador por baixo. Obviamente Artemis tinha gravado uma mensagem para si mesmo. Um modo de devolver as memórias que a LEP lhe havia retirado.

Assim que fora transportado da Prisão de Segurança Máxima das Profundezas, perto de Atlântida, Palha pediu uma entrevista com o conselho. Quando o advogado nomeado pelo

Estado apareceu de má vontade, Palha alertou para ele verificar as datas no mandado de busca para sua prisão original. De algum modo, espantosamente, as datas estavam erradas. Segundo o computador da LEP, Julius Raiz tinha revistado sua caverna antes de obter um mandado de busca. O mandado anulava esta prisão e todas as outras que vieram em seguida. Tudo que restava era um longo período de processo judicial e uma última entrevista com o oficial encarregado da prisão, e Palha seria um anão livre.

Por fim o dia tinha chegado. Palha estava sendo levado à Delegacia Plaza para o encontro com Julius Raiz. A lei do Povo permitia a Raiz uma entrevista de meia hora para tentar espremer alguma confissão de Palha. O anão só precisaria ficar quieto e estaria comendo cozido de rato do campo em seu restaurante de anões predileto na hora do jantar.

Fechou o punho ao redor do medalhão. Não tinha dúvida de quem estava mexendo os pauzinhos. De algum modo Artemis tinha invadido o computador da LEP e mudado seus registros. O Garoto da Lama o estava libertando.

Um dos policiais, um elfo magro com guelras, de Atlântida, sugou o ar pelo pescoço e soltou pela boca.

— Ei, Palha — disse ele com a voz chiada. — O que vai fazer quando sua apelação for recusada? Chorar que nem uma mulherzinha? Ou vai receber a coisa verdadeiramente no controle, como um anão?

Palha sorriu, expondo seu número incrivelmente grande de dentes.

— Não se preocupe comigo, peixinho. Esta noite vou jantar um primo seu.

Em geral, bastava a visão dos dentes gigantescos de Palha para impedir qualquer comentário engraçadinho, mas o policial não estava acostumado a ser repreendido por um prisioneiro.

— Fique com essa bocarra fechada, anão. Eu tenho um monte de pedras para você comer lá nas Profundezas.

— Nem sonhando, peixinho — retrucou Palha, adorando a troca de insultos depois de meses de submissão.

O policial se levantou.

— Veixin, meu nome é Veixin.

— Pois é, peixinho, foi o que eu disse.

O segundo policial, um duende aquático com asas que pareciam de morcego cruzadas às costas, deu um risinho:

— Deixe-o em paz, Veixin. Não sabe com quem está falando? Este aqui é o Palha Escavator. O ladrão mais famoso embaixo do mundo.

Palha sorriu, embora a fama não seja uma coisa boa quando você é ladrão.

— Esse cara tem uma lista enorme de ações geniais.

O sorriso de Palha desapareceu quando ele notou que estava para ser motivo de mais piadas.

— É, primeiro roubou a copa Jules Rimet dos humanos e tentou vender para um policial da LEP disfarçado.

Veixin sentou-se esfregando as mãos, cheio de animação.

— Não diga! Que cérebro! Como é que cabe nessa cabecinha?

O duende caminhou pelo corredor do veículo, falando as frases como um ator.

— Depois pegou um pouco do ouro de Artemis Fowl e ficou na moita em Los Angeles. E sabe como é que ele fica na moita?

Palha gemeu.

— Conte — chiou Veixin, com as guelras incapazes de sugar o ar em velocidade suficiente.

— Comprou pra si mesmo um apartamento de cobertura e começou a montar uma coleção de Oscars roubados.

Veixin riu até que as guelras começaram a se sacudir. Palha não agüentava mais. Não precisava suportar isso; era praticamente um anão livre, pelo amor dos deuses.

— “Pra si mesmo”? “Pra si mesmo”? Acho que você passou tempo demais embaixo d’água. A pressão está esmagando seu cérebro.

— Meu cérebro está esmagado? — disse o duende. — Não fui eu que passei dois séculos na prisão. Não sou eu que estou usando algemas e um anel na boca.

Era verdade. A carreira criminosa de Palha não tinha sido exatamente um sucesso total. Ele fora apanhado mais vezes do que escapara. A LEP era avançada demais tecnologicamente. Mas estava na hora de virar honesto, enquanto ainda tinha beleza.

Sacudiu as correntes que o prendiam a uma barra na parede.

— Não vou usar isso por muito tempo.

Veixin abriu a boca para responder e se interrompeu. Uma tela de plasma estava piscando vermelha num painel da parede. Vermelho era urgente. Havia uma mensagem importante chegando. Veixin prendeu o fone de ouvido e virou a tela de modo que Palha não visse. Quando a mensagem foi dada, seu rosto perdeu qualquer traço de tranqüilidade. Vários segundos depois, jogou os fones de ouvido no console.

— Parece que você vai usar essas corrente por muito mais tempo do que imaginava.

O queixo de Palha se retesou contra o anel que prendia a boca.

— O que foi? O que aconteceu?

Veixin cocou um eczema da guelra no pescoço.

— Eu nem deveria lhe dizer isso, prisioneiro, mas o comandante Raiz foi assassinado.

Palha não poderia ficar mais chocado nem se o tivessem conectado à grade do submundo.

— Assassinado? Como?

— Explosão — respondeu Veixin. — O principal suspeito é uma oficial da LEP. A capitã Holly Short. Ela está desaparecida, supostamente morta na superfície, mas isso não foi confirmado.

— Não estou nem um pouco surpreso — disse o duende aquático.—As fêmeas são temperamentais demais para o trabalho policial. Nem conseguem cuidar de um simples serviço de transporte como este.

Palha estava em choque. Sentia como se o cérebro tivesse se soltado e girasse na cabeça. Holly assassinando Julius? Como seria possível? Não era possível, e ponto final. Tinha de haver algum erro. E agora Holly estava desaparecida, supostamente morta. Como isso podia estar acontecendo?

— De qualquer modo — continuou Veixin. — Temos de virar essa carroça e voltar a Atlântida. Obviamente sua pequena audiência foi adiada indefinidamente, até que a confusão seja resolvida.

O duende aquático deu um tapinha no rosto de Palha.

— Que pena, anão. Talvez eles desembaracem a burocracia daqui a uns dois anos.

Palha mal sentiu o tapa, mas as palavras penetraram. Dois anos. Será que poderia passar dois anos nas Profundezas? Sua alma já gritava, ansiando pelos túneis. Precisava sentir a terra macia entre os dedos. Suas entranhas precisavam de fibras de verdade para se limpar. E, claro, havia a chance de que Holly ainda estivesse viva e precisasse de ajuda. De um amigo. Não tinha opção além de escapar.

Julius morto. Não podia ser verdade.

Avaliou lentamente suas habilidades de anão para escolher a melhor ferramenta de fuga. Há muito tempo tinha aberto mão da magia ao violar a maior parte dos mandamentos do Livro das Fadas, mas os anões tinham dons extraordinários concedidos pela evolução. Alguns eram de conhecimento comum do Povo, mas os anões eram uma raça conhecida por guardar segredos, que acreditava que sua sobrevivência dependia de esconder esses talentos. Era sabido que os anões escavavam túneis ingerindo a terra através das mandíbulas desencaixadas e depois ejetavam a terra reciclada pela outra extremidade. A maior parte das criaturas do Povo sabia que os anões podiam beber através dos poros, e que, se parassem de beber durante um tempo, esses poros se transformavam em minúsculas ventosas. Um número menor de criaturas sabia que a saliva dos anões era luminosa e que endurecia quando posta em camadas. E ninguém sabia que um subproduto da flatulência dos anões era uma bactéria produtora de metano chamada Metanobrevibacter smithii, que impedia a doença de descompressão em mergulhadores no fundo do mar. Para ser justo, os anões também não sabiam disso; só sabiam que, nas raras ocasiões em que se pegavam acidentalmente saindo de uma escavação para o mar aberto, a embolia não parecia afetá-los.

Palha pensou nisso um momento e percebeu que havia um modo de combinar todos os seus talentos e sair dali. Precisava colocar seu plano em prática imediatamente, antes que eles entrassem nas profundas trincheiras atlânticas. Assim que o sublançador fosse fundo demais, ele jamais conseguiria.

O veículo girou num arco longo até estar virado para a direção de onde tinha vindo. O piloto ligaria os motores assim que eles estivessem fora das águas de pesca da Irlanda. Palha começou a lamber as palmas das mãos, alisando o cuspe através do halo de pêlos ásperos.

Veixin riu.

— O que está fazendo, Escavator? Limpando-se para seu colega de cela?

Palha teria adorado desencaixar o maxilar e arrancar um pedaço de Veixin, mas o anel na boca o impedia de abri-la o bastante para desencaixar. Tinha de se contentar com um insulto.

— Posso ser prisioneiro, peixinho, mas daqui a dez anos estarei livre. Você, por outro lado, será um borra-botas feio pelo resto da vida.

Veixin cocou furiosamente o eczema da guelra.

— Você acaba de ganhar seis semanas de solitária, moço. Palha cobriu os dedos de saliva e a espalhou no topo da cabeça, chegando até onde as algemas permitiam. Podia sentir o cabelo endurecendo, grudando-se à cabeça como um capacete. Exatamente como um capacete. Enquanto lambia, Palha respirava profundamente pelo nariz, armazenando o ar nos intestinos. Cada respiração sugava ar do espaço pressurizado mais depressa do que as bombas podiam recolocá-lo.

Os policiais não notaram esse comportamento incomum e, mesmo que tivessem notado, sem dúvida achariam que era por causa do nervosismo. Respirar fundo e se enfeitar. Clássicos comportamentos de nervosismo. Quem culparia Palha por estar nervoso? Afinal de contas, ele estava voltando ao lugar que era o pesadelo dos criminosos.

Palha lambia e respirava, o peito inchando como um fole. Sentia a pressão aumentando lá embaixo, ansiosa para ser liberada.

Segure, disse a si mesmo. Você vai precisar de cada bolha desse ar.

A carapaça em sua cabeça estalava audivelmente agora e, se as luzes fossem diminuídas, ela iria luzir. O ar estava ficando rarefeito e as guelras de Veixin notaram, mesmo que ele não notasse. Elas ondulavam e balançavam, aumentando a absorção de oxigênio. Palha sugou de novo, um enorme hausto. Uma placa de popa estalou à medida que a pressão externa aumentava.

O duende marinho foi o primeiro a notar a mudança.

— Ei, peixinho.

A expressão dolorida de Veixin falava de anos suportando esse apelido.

— Quantas vezes tenho de dizer?

— Tá legal, Veixin, não precisa soltar as escamas. Não está ficando difícil respirar aqui? Não consigo manter as asas levantadas.

Veixin tocou as guelras; estavam ondulando como uma bandeira ao vento.

— Uau. Minhas guelras estão enlouquecendo. O que está acontecendo aqui? — Ele apertou o painel do interfone da cabine. — Está tudo certo? Talvez a gente deva aumentar a força das bombas de ar.

A voz que retornou era calma e profissional, mas com um tom inconfundivelmente ansioso.

— Há uma perda de pressão na área de carga. Estou tentando descobrir o vazamento.

— Vazamento? — guinchou Veixin. — Se a gente despressurizar nesta profundidade, o lançador vai ser esmagado como um copo de papel.

Palha inspirou com força outra vez.

— Todo mundo para a cabine de comando — declarou a voz. — Venham pela escotilha estanque, agora mesmo.

— Não sei — disse Veixin. — Não deveríamos soltar as algemas do prisioneiro. Esse sujeito é escorregadio.

O sujeito escorregadio inspirou de novo. E dessa vez uma placa de popa amassou com um estalo que parecia de trovão.

— Tudo bem, tudo bem. Estamos indo. Palha estendeu as mãos.

— Depressa, peixinho. Nem todo mundo aqui tem guelras. Veixin passou seu cartão de segurança na tira magnética das algemas de Palha. Elas se abriram com um estalo. Palha estava livre. Tão livre quanto possível num sublançador da prisão, com três mil metros de uma água esmagadora por cima. Levantou-se, sugando o ar uma última vez. Veixin notou aquilo.

— Ei, prisioneiro, o que está fazendo? Sugando todo o ar? Palha arrotou.

— Quem, eu? Isso é ridículo.

O duende parecia igualmente cheio de suspeitas.

— Ele está tramando alguma coisa. Olha, o cabelo dele está todo brilhando. Aposto que isso é uma das artes secretas dos anões.

Palha tentou parecer cético.

— O quê? Sucção de ar e cabelo brilhante? Não fico surpreso por a gente ter guardado segredo disso.

Veixin franziu a vista para ele. Seus olhos estavam vermelhos e a fala engrolada pela privação de oxigênio.

— Você está tramando alguma coisa. Estenda as mãos. Ser algemado de novo não fazia parte do plano. Palha fingiu fraqueza.

— Não consigo respirar — falou, encostando-se na parede. — Espero não morrer sob a custódia de vocês.

Essa declaração causou distração suficiente para Palha inspirar de novo, com força. A placa de popa se dobrou para dentro e uma fina linha de tensão estalou através da pintura. Luzes vermelhas de indicação de pressão se acenderam em todo o compartimento.

A voz do piloto estrondeou pelo alto-falante.

— Venham para cá! — gritou ele sem nenhum resíduo de compostura. — O sub vai se dobrar todo!

Veixin agarrou Palha pelas lapelas.

— O que você fez, anão?

Palha se deixou cair de joelhos, abrindo a aba do traseiro de seu macacão da prisão. Dobrou as pernas embaixo do corpo, pronto para se mover.

— Escute, Veixin — disse ele. — Você é um imbecil, mas não é um sujeito mau, portanto faça como o piloto disse e vá para lá.

As guelras de Veixin balançavam debilmente, procurando ar,

— Você vai ser morto, Escavator.

Palha piscou para ele.

— Já estive morto antes.

Palha não conseguia prender o gás por mais tempo. Seu trato digestivo estava esticado como um balão de mágico em forma de animal. Cruzou os braços diante do peito, apontou o cocuruto coberto pela carapaça de saliva contra a placa enfraquecida e soltou o gás.

A emissão resultante sacudiu o sublançador até os rebites, lançando Palha como um foguete. Ele se chocou contra a placa de popa, bem no centro da linha de falha, atravessando direto. Sua velocidade o lançou pelo oceano talvez por meio segundo antes que a súbita mudança de pressão enchesse a câmara do sub. Meio segundo depois a câmara de popa foi esmagada como se fosse de papel-alumínio. Veixin e seu colega tinham escapado para a cabine do piloto na última hora.

Palha foi rapidamente para a superfície, com um jorro de bolhas do gás liberado acompanhando-o à velocidade de vários nós. Seus pulmões de anão se alimentaram do ar preso no trato digestivo, e o luminoso capacete de cuspe lançava uma coroa de luz esverdeada iluminando o caminho.

Claro que eles foram atrás. Veixin e o duende aquático eram ambiciosos moradores de Atlântida. Assim que soltaram o compartimento traseiro esmagado, os policiais saíram pela escotilha estanque e partiram atrás do fugitivo. Mas não tinham a menor chance: Palha estava acionado a ar, eles tinham meramente asas e barbatanas. Qualquer equipamento de perseguição que possuíssem estava no fundo do oceano, junto com o compartimento de popa, e os motores de reserva da cabine mal eram capazes de vencer um caranguejo na corrida.

Os policiais de Atlântida só puderam ficar olhando o cativo ir a jato até a superfície, zombando deles com cada bolha que saía do traseiro.

O celular de Butler fora reduzido a lascas de plástico e fios devido ao salto da janela do hotel. Isso significava que Artemis não podia chamá-lo se precisasse de ajuda imediata. O guarda-costas estacionou o Hummer em fila dupla do lado da primeira loja Phonetix que viu e comprou um telefone de banda tripla e um kit para carro. Ativou o telefone a caminho do aeroporto e digitou o número de Artemis. Não adiantou. O celular do garoto estava desligado. Butler desligou e tentou o número da mansão Fowl. Não havia ninguém em casa, nem recados.

Respirou fundo, permaneceu calmo e pisou fundo no acelerador. A ida ao aeroporto demorou menos de dez minutos. O guarda-costas gigante não perdeu tempo devolvendo o Hummer ao estacionamento da locadora, preferindo abandoná-lo junto à área de embarque. O veículo seria rebocado e ele receberia uma multa, mas não tinha tempo para se preocupar com isso agora.

O próximo avião para a Irlanda estava lotado, por isso Butler pagou a um empresário polonês dois mil euros por sua passagem de primeira classe, e em quarenta e cinco minutos estava no vôo da Aer Lingus para o aeroporto de Dublin. Continuou tentando o número de Artemis até que os motores foram acionados e ligou o telefone de novo assim que as rodas tocaram o solo.

Estava escuro quando saiu do terminal de desembarque. Menos de meio dia havia se passado desde que tinham invadido o cofre-forte do Banco Internacional de Munique. Era incrível que tanta coisa pudesse acontecer em tão pouco tempo. Mesmo assim, quando a gente trabalhava para Artemis Fowl II, coisas incríveis aconteciam quase diariamente. Butler estava com Artemis desde o dia de seu nascimento, há apenas quatorze anos, e nesse tempo fora arrastado para mais situações fantásticas do que um guarda-costas presidencial comum.

O Bentley dos Fowl estava estacionado no nível vip do estacionamento expresso. Butler encaixou o telefone novo no kit do carro e tentou ligar para Artemis outra vez. Sem sorte. Mas, quando acessou por controle remoto a secretária eletrônica na mansão Fowl, havia uma mensagem. De Artemis. Butler apertou com mais força o volante de couro. Vivo. O garoto pelo menos estava vivo.

A mensagem começava bastante bem, depois tinha uma virada decididamente estranha. Artemis afirmava não estar machucado, mas talvez sofresse de uma concussão ou estresse pós-traumátrico, porque também afirmava que criaturas das fadas eram responsáveis pelo estranho míssil. Uma diabrete, para ler exato. E agora estava na companhia de uma elfo, que aparentemente era um animal completamente diferente de uma diabrete. Não somente isso, mas a elfo era uma velha amiga chamada Holly, que os dois tinham esquecido. E a diabrete era uma velha inimiga que eles não conseguiam lembrar. Tudo muito estranho. Butler só podia concluir que Artemis estava tentando lhe dizer alguma coisa, e que escondida na fala maluca havia uma mensagem. Teria de analisar a fita assim que voltasse à mansão Fowl.

Então a gravação se transformou num drama. Mais atores entraram no alcance do telefone de Artemis. A suposta diabrete, Opala, e seus guarda-costas se juntaram ao grupo. Ameaças foram trocadas e Artemis tentou se livrar com palavras. Não deu certo. Se Artemis tinha um defeito era que tendia a ser muito paternalista, mesmo em situações de crise. A diabrete, Opala, ou quem quer que ela realmente fosse, certamente não gostou de ser tratada com condescendência. Parecia se considerar igual a Artemis em todos os sentidos, se é que não superior. Ordenou que Artemis silenciasse no meio do discurso e seu comando foi obedecido instantaneamente. Butler experimentou um instante de pavor, até a diabrete declarar que Artemis não estava morto, apenas atordoado. A nova aliada de Artemis também fora apagada, mas não antes de ficar sabendo do plano teatral da diabrete. Algo que tinha a ver com as Onze

Maravilhas e trolls.

— Você não pode estar falando sério — murmurou Butler saindo da estrada principal em direção à mansão Fowl.

Para um passante comum, pareceria que vários cômodos da mansão no fim da avenida estavam ocupados, mas Butler sabia que as lâmpadas nesses cômodos estavam todas ligadas a temporizadores e se alternavam a intervalos irregulares, Havia até mesmo um aparelho de som conectado a cada quarto, que espalharia som de rádio em várias áreas da casa. Tudo isso eram medidas destinadas a afastar ladrões comuns. E nada espantaria um ladrão profissional, sabia Butler.

O guarda-costas abriu o portão eletrônico e acelerou pelo caminho de pedras. Parou o carro diretamente em frente à porta principal, sem se incomodar em deixá-lo no abrigo da garagem dupla. Sacou a pistola e o coldre de pentes de uma tira magnética embaixo do banco do motorista. Era possível que os seqüestradores tivessem mandado um representante. Que já poderia estar dentro da mansão.

Assim que abriu a porta, Butler soube que havia algo errado. O alerta de trinta segundos do alarme deveria ter começado a contagem regressiva imediatamente, mas isso não aconteceu. Porque toda a caixa estava envolta em alguma substância brilhante parecida com fibra de vidro. Butler cutucou-a cautelosamente. Aquele negócio luzia e parecia quase orgânico.

Prosseguiu pelo saguão, grudando-se às paredes. Olhou para o teto. Luzes verdes piscavam nas sombras. Pelo menos as câmeras de circuito interno ainda estavam funcionando. Mesmo que os visitantes da mansão tivessem ido embora, ele poderia vê-los pelas fitas de segurança.

O pé do guarda-costas roçou em alguma coisa. Olhou para baixo. Uma grande tigela de cristal estava sobre o tapete, com os restos de um pavê de cereja no fundo. Ao lado havia um pedaço de papel-alumínio sujo de gordura. Um seqüestrador faminto? Dois metros depois achou uma garrafa de champanha Moet vazia e uma carcaça de frango dizimada. Quantos intrusos tinham estado aqui?

Os restos de comida formavam uma trilha levando para o escritório. Butler a acompanhou até o segundo andar, passando por cima de um filé meio comido, dois pedaços de bolo de frutas e uma casca de torta. Uma luz estava acesa do outro lado da porta do escritório, lançando uma sombra no corredor. Havia alguém lá dentro. Alguém não muito alto. Artemis?

O ânimo de Butler cresceu por um segundo quando escutou a voz do patrão, mas diminuiu rapidamente. Reconheceu as palavras; ouvira-as no carro. O invasor estava escutando a mensagem gravada na secretária eletrônica.

Butler esgueirou-se para o escritório, pisando tão leve que as pegadas não alertariam um cervo. Mesmo de costas, o intruso era estranho. Mal chegava a um metro de altura, com tronco atarracado e membros musculosos. Todo o corpo era coberto de pêlos grossos e revoltos que pareciam se mover de modo independente. A cabeça estava envolta num capacete da mesma substância luzidia que tinha incapacitado a caixa do alarme. O intruso usava um macacão azul com aba atrás. A aba estava meio aberta, dando a Butler a visão de um traseiro peludo que parecia incomodamente familiar.

A mensagem gravada estava chegando ao fim. A seqüestradora de Artemis estava dizendo o que aguardava o garoto irlandês.

— Ah, sim. Tenho uma situaçãozinha maligna planejada para Potrus, algo teatral envolvendo as Onze Maravilhas. Mas agora decidi que você merece mais.

— Maligna em que nível? — perguntou a nova aliada de Artemis, Holly.

— Maligna no nível de troll — respondeu Opala.

O intruso na mansão Fowl fez um ruído de sucção, alto, depois descartou os restos de um pernil de carneiro.

— Nada bom — disse ele. — Isso é realmente ruim. Butler engatilhou a arma, apontando direto para o intruso.

— E vai piorar — falou.

Butler fez o intruso se sentar numa das poltronas de couro do escritório, depois puxou outra poltrona para ficar diante dele. De frente, aquela criaturazinha era ainda mais estranha. O rosto era basicamente uma massa de pêlos grossos com olhos e dentes. Os olhos ocasionalmente brilhavam vermelhos como de uma raposa, e os dentes pareciam duas cercas de madeira. Aquilo não era uma criança peluda: era algum tipo de criatura adulta.

— Não diga — suspirou Butler. — Você é um elfo. A criatura se empertigou.

— Como ousa! — gritou. — Sou um anão, como você sabe muito bem.

Butler pensou na mensagem confusa de Artemis.

— Deixe-me adivinhar. Eu conhecia você, mas de algum modo esqueci. Ah, sim, a polícia do povo das fadas apagou minha mente.

Palha arrotou.

— Correto, você não é tão burro quanto parece. Butler levantou a arma.

— Isto aqui ainda está engatilhado, portanto veja como fala, homenzinho.

— Perdão, não sabia que agora nós éramos inimigos. Butler se inclinou para a frente na poltrona.

— Nós éramos amigos? Palha pensou nisso.

— A princípio, não. Mas acho que você passou a me amar pelo meu charme e pelo caráter nobre.

Butler fungou.

— E pela higiene pessoal?

— Isso não é justo. Você tem alguma idéia do que tive de fazer para chegar aqui? Escapei de um sublançador e nadei uns três quilômetros e meio em água gelada. Depois tive de invadir uma oficina de ferreiro no oeste da Irlanda, deve ser o único lugar onde ainda existem ferreiros, e tirar o anel da boca. Não pergunte. Depois cavei atravessando todo o país para descobrir a verdade sobre esse negócio. E quando cheguei aqui, um dos únicos Homens da Lama de quem não tenho vontade de arrancar um pedaço está apontando uma arma para mim.

— Espere um minuto — disse Butler. — Preciso pegar um lenço de papel para enxugar os olhos.

— Você não acredita em nada disso, não é?

— Se acredito em polícia do povo das fadas, conspirações de duendes e anões que abrem túneis? Não, não acredito.

Palha enfiou a mão lentamente no bolso do macacão e pegou o disco de computador folheado a ouro.

— Talvez isto abra sua mente.

Butler ligou um dos Powerbooks de Artemis, certificando-se de que o laptop não estivesse ligado a nenhum computador, fosse por cabo ou infravermelho. Se aquele disco contivesse um vírus, só seria perdido um disco rígido. Limpou o disco com um spray e um pano e o enfiou no multidrive. O computador pediu uma senha.

— Este disco está trancado — disse Butler. — Qual é a senha?

Palha deu de ombros, com um pão francês em cada mão.

— Ah, não sei. O disco é de Artemis.

Butler franziu a testa. Se fosse realmente de Artemis, a senha de Artemis iria abri-lo. Digitou três palavras: Aurum est potestas: ouro é poder. O lema da família. Segundos depois o ícone de disco trancado foi substituído por uma janela contendo duas pastas. Uma estava com o rótulo “Artemis”, e a outra “Butler”. Antes de abrir qualquer das duas, o guarda-costas passou um antivírus, só para garantir. O disco estava limpo.

Sentindo-se estranhamente nervoso, Butler abriu a pasta que tinha seu nome. Havia mais de cem arquivos nela. Na maioria eram de texto, mas alguns também de vídeo. O maior se chamava veja-me primeiro. Butler deu um clique duplo nele.

Abriu-se uma pequena janela do QuickTime. Na imagem, Artemis estava sentado àquela mesma mesa, com o laptop em cima. Estranho. Butler clicou no triângulo do PLAY.

— Olá, Butler — disse a voz de Artemis, ou uma imitação muito sofisticada. — Se você está assistindo a isto, nosso bom amigo o sr. Escavator apareceu.

— Ouviu só? — cuspiu Palha através de um bocado de pio. — Bom amigo sr. Escavator.

— Quieto!

— Tudo que você acha que sabe sobre este planeta está para mudar — continuou Artemis. — Os seres humanos não são as únicas criaturas inteligentes na Terra, na verdade nem somos os mais avançados tecnologicamente. Abaixo da superfície há várias espécies de criaturas. A maioria descende possivelmente de primatas, mas não tive oportunidade de fazer exames médicos por enquanto.

Butler não conseguia esconder a impaciência.

— Por favor, Artemis. Vá ao que interessa.

— Mas outra hora falamos mais sobre esse assunto — disse Artemis, como se tivesse escutado. — Há uma possibilidade de que você esteja assistindo a isto num momento de perigo, portanto devo lhe dar todo o conhecimento que juntamos durante nossas aventuras com a Liga de Elite da Polícia.

Liga de Elite da Polícia?, pensou Butler. Isso tudo é falso. De algum modo, é falso.

De novo, o Artemis no vídeo pareceu ler seus pensamentos.

— Para verificar os fatos fantásticos que estou para revelar, direi uma palavra. Só uma. Uma palavra que não poderia saber se você não tivesse me dito. Algo que você falou enquanto estava agonizante, antes que Holly Short o curasse com sua magia. O que você me diria se estivesse morrendo, velho amigo. Qual seria a única palavra que você diria?

Diria a você meu primeiro nome, pensou Butler. Algo que apenas duas outras pessoas no mundo sabiam. Algo completamente proibido pela etiqueta dos guarda-costas, a não ser que fosse tarde demais para importar.

Artemis se inclinou para a câmera.

— Seu nome, velho amigo, é Domovoi.

Butler estava tonto. Ah, meu Deus, pensou. É verdade. É tudo verdade.

Algo começou a acontecer em seu cérebro. Imagens desconjuntadas relampejavam no subconsciente, soltando lembranças reprimidas. O passado falso foi varrido para longe pela verdade ofuscante. Um elétrico jogo de ligar os pontos atravessou seu crânio, tornando tudo claro. Agora tudo fazia sentido. Sentia-se velho porque a cura o envelhecera. Algumas vezes achava difícil respirar porque fios de Kevlar tinham se entretecido na pele por cima do ferimento no peito. Lembrou-se do seqüestro de Holly e da revolução dos goblins da B’wa Kell. Lembrou-se de Holly e Julius, do centauro Potrus e, claro, de Palha Escavator. Não havia necessidade de ler os outros arquivos; uma palavra havia bastado. Lembrava-se.

Examinou o anão com novos olhos. Agora tudo era tremendamente familiar. Os cabelos crespos e vibrantes, a postura de pernas arqueadas, o cheiro. Saltou da cadeira e atravessou a sala até Palha, que estava ocupado atacando o frigobar do escritório.

— Palha, seu velho réprobo. Que bom vê-lo!

— Agora ele se lembra—disse o anão sem se virar. — Tem alguma coisa a dizer?

Butler olhou para a aba do traseiro que estava aberta.

— Sim. Não aponte esse negócio para mim. Já vi o dano que ele pode causar.

O sorriso do guarda-costas congelou no rosto quando ele se lembrou de um detalhe do recado de Artemis.

— Julius Raiz. Ouvi alguma coisa sobre uma bomba. Palha se virou de costas para a geladeira, a barba enfeitada com um coquetel de derivados de leite.

— É. Julius morreu. Não consigo acreditar. Ele vinha me caçando há tantos anos!

Butler sentiu um cansaço terrível nos ombros. Tinha perdido muitos colegas no correr dos anos.

— E mais — continuou Palha. — Holly foi acusada de assassiná-lo.

— Não é possível. Temos de achá-los.

— Agora você está falando. — O anão bateu a porta da geladeira. — Tem algum plano?

— Sim. Encontrar Holly e Artemis. Palha revirou os olhos.

— Puro gênio. É um espanto você precisar de Artemis.

Agora que o anão tinha comido até se fartar, os dois amigos reencontrados sentaram-se à mesa de reuniões e se atualizaram rapidamente.

Butler limpou a arma enquanto falava. Freqüentemente fazia isso em momentos de tensão. Era reconfortante.

— Então, de algum modo Opala Koboi saiu da prisão e bolou uma trama complicada para se vingar de todo mundo que a colocou lá. Não somente isso, mas tramou para Holly ficar com a culpa.

— Isso faz você se lembrar de alguém? — perguntou o anão.

Butler poliu o cursor da Sig Sauer.

— Artemis pode ser criminoso, mas não é mau.

— Quem disse alguma coisa sobre Artemis?

— Bom, e você, Palha? Por que Opala não tentou matá-lo?

— Ah, bem — suspirou o anão, o eterno mártir. —A LEP não divulgou meu envolvimento. Não seria bom que os orgulhosos oficiais de nossa força policial fossem manchados pela associação com um criminoso conhecido.

Butler assentiu.

— Faz sentido. Então você está em segurança, por enquanto, e Artemis e Holly estão vivos. Mas Opala tem algo planejado para eles. Algo a ver com trolls e as Onze Maravilhas. Alguma idéia?

— Nós dois sabemos sobre trolls, certo?

Butler assentiu de novo. Tinha lutado contra um troll não fazia muito tempo. Sem dúvida a batalha mais dura em que já estivera envolvido. Não podia acreditar que a LEP tivesse apagado isso de sua mente.

— E as Onze Maravilhas?

— Onze Maravilhas é um parque temático no distrito antigo de Porto. As criaturas do Povo são obcecadas com os Homens da Lama, por isso um bilionário esperto achou que seria grande idéia construir modelos menores das maravilhas humanas do mundo e colocar todas num lugar só. A coisa deu certo por alguns anos, mas acho que olhar para aquelas construções fez o Povo se lembrar do quanto sentia falta da superfície.

Butler fez uma lista na cabeça.

— Mas só existem sete maravilhas no mundo.

— Antes eram onze. Acredite, eu tenho fotos. De qualquer modo, agora o parque está fechado. Toda aquela área da cidade está abandonada há anos; os túneis não são seguros. E todo o lugar foi dominado por trolls. — Ele parou de repente, o horror do que tinha dito finalmente ficando claro. — Ah, deuses. Trolls.

Butler começou a montar rapidamente sua arma.

— Precisamos descer lá agora mesmo.

— Impossível — disse Palha. — Nem consigo imaginar como.

Butler obrigou o anão a se levantar e o empurrou para a porta.

— Talvez não. Mas você conhece alguém. Gente na sua área de negócios sempre conhece alguém.

Palha trincou os dentes, pensando.

— Sabe, há alguém. Um diabrete que deve a vida a Holly. Mas o que quer que eu o convença a fazer por nós, não será legal.

Butler pegou um saco de armas num armário.

— Ótimo. Ilegal é sempre mais rápido.

 

O LANÇADOR de Opala Koboi era um modelo-conceito que jamais fora produzido em massa. Estava anos adiante de qualquer coisa no mercado, mas sua pele de minério dissimulado e tecido de camuflagem tornava o custo de tal veículo tão exorbitante que nem mesmo Opala Koboi poderia ter conseguido um sem as verbas governamentais que tinham ajudado a pagá-lo.

Melo colocou os prisioneiros na área de passageiros, enquanto Merv pilotava, levando-os à Escócia e depois para o subterrâneo, entrando por um rio de montanha nas terras altas. Opala se ocupava garantindo que seu outro plano, o que envolvia o domínio do mundo, estivesse prosseguindo como devia.

Ela abriu a tela de seu videofone e digitou uma conexão com a Sicília.

A pessoa do outro lado atendeu ao primeiro toque.

— Belinda, querida. É você?

O homem que atendera tinha quase cinqüenta anos, com boa aparência latina e cabelos pretos com riscas grisalhas emoldurando o rosto bronzeado. Usava jaleco de laboratório por cima de uma camisa Versace aberta no colarinho.

— Sim, papai. Sou eu. Não se preocupe, estou em segurança. A voz de Opala tinha camadas do mesmer hipnótico. O coitado do humano estava totalmente sob seu poder, como acontecia há mais de um mês.

— Quando você volta para casa, querida? Estou com saudade.

— Hoje, papai, daqui a algumas horas. Como estão as coisas aí?

O homem deu um sorriso sonhador.

— Molto bene. Maravilhoso. O tempo está ótimo. Podemos passear de carro nas montanhas. Quem sabe eu ensino você a esquiar?

Opala franziu a testa, impaciente.

— Escute, idiota... Papai. Como vão as coisas com minha sonda? Estamos no prazo?

Por um momento um relâmpago de irritação franziu a testa do italiano, e logo ele estava enfeitiçado de novo.

— Sim, querida. Tudo está no prazo. Os casulos explosivos estão sendo enterrados hoje. A verificação dos sistemas da sonda foi um sucesso estrondoso.

Opala bateu palmas, a própria imagem de uma filha deliciada.

— Excelente, papai. Você é tão bom para sua Belindinha! Logo estarei com você.

— Venha logo para casa, querida — disse o homem, absolutamente perdido sem a criatura que ele imaginava ser sua filha.

Opala encerrou a ligação.

— Imbecil — disse cheia de desprezo. Mas Giovanni Zito teria permissão de viver pelo menos até que a sonda que estava construindo, segundo as especificações dela, penetrasse nos Elementos de Baixo. Agora que falara com Zito, Opala estava ansiosa para se concentrar na parte de seu plano relativa à sonda. A vingança era certamente doce, mas também era uma distração. Talvez devesse simplesmente jogar aqueles dois para fora do lançador e deixar o núcleo de magma da terra ficar com eles.

— Merv — rosnou ela. — Quanto tempo falta para chegarmos ao parque temático?

Merv verificou os instrumentos no painel do lançador.

— Acabamos de entrar na rede principal de túneis, srta. Koboi. Cinco horas — gritou ele por cima do ombro. — Talvez menos.

Cinco horas, pensou Opala, enrolando-se em sua poltrona como um gato contente. Podia esperar cinco horas.

Algum tempo depois, Artemis e Holly se remexeram em suas poltronas. Melo os ajudou a voltar à consciência com dois choques de um cassetete elétrico.

— Bem-vindos de volta à terra dos condenados — disse Opala. — O que acham do meu lançador?

O veículo era impressionante, mesmo que estivesse transportando Artemis e Holly para a morte. As poltronas eram cobertas com peles coletadas ilegalmente e a decoração era mais luxuosa do que num palácio comum. Havia pequenos cubos de hologramas suspensos do teto, para o caso de os passageiros quererem assistir a um filme.

Holly começou a se remexer quando notou onde estava sentada.

— Pele! Sua animal!

— Não — respondeu Opala. — Você está sentada nos animais. Como eu lhe disse, agora sou humana. E é isso que os humanos fazem, arrancam a pele dos animais para obter conforto. Não é, jovem sr. Fowl?

— Alguns fazem isso — disse Artemis com frieza. — Eu, pessoalmente, não.

— Ora, Artemis — observou Opala em tom malicioso. — Não acho que isso o qualifique para a santidade. Pelo que ouvi dizer, você é tão ansioso para explorar o Povo quanto eu.

— Talvez. Não lembro.

Opala se levantou e pegou uma salada leve no bufê.

— Claro, eles apagaram sua mente. Mas sem dúvida você já deve se lembrar, não é? Nem mesmo seu subconsciente podo negar que isto está acontecendo.

Artemis se concentrou. Conseguia se lembrar de alguma coisa. Imagens vagas e desfocadas. Nada muito específico.

— Lembro uma coisa. Opala ergueu o olhar do prato.

— É?

Artemis a fixou com um olhar frio.

— Lembro como Potrus derrotou você usando o intelecto superior. Tenho certeza de que vai fazer isso de novo.

Claro que Artemis não tinha se lembrado realmente disso; estava simplesmente repetindo o que Holly lhe dissera. Mas a declaração teve o efeito desejado.

— Aquele centauro ridículo! — guinchou Opala, jogando o prato na parede. — Ele teve sorte e eu fui atrapalhada por aquele imbecil do Porrete. Desta vez, não. Desta vez sou a arquiteta de meu próprio destino. E do de vocês.

— E desta vez o que é? — perguntou Artemis, zombando. — Outra rebelião orquestrada? Ou quem sabe um dinossauro mecânico?

O rosto de Opala ficou branco de fúria.

— Não há limites para sua imprudência, Garoto da Lama? Desta vez não é nenhuma rebelião em pequena escala. Tenho uma visão mais grandiosa. Vou liderar os humanos para encontrar o Povo. Quando os dois mundos colidirem, haverá uma guerra e meu povo adotado vencerá.

— Você é uma criatura das fadas, Koboi — exclamou Holly. — É uma de nós. Orelhas redondas não mudam isso. Acha que os humanos não vão notar quando você não crescer?

Opala deu um tapinha na bochecha de Holly, de modo quase afetuoso.

— Minha pobre policial querida e mal paga. Acha que não pensei em tudo isso enquanto ficava de molho naquele coma por quase um ano? Acha que não pensei em tudo? Sempre soube que os humanos acabariam nos descobrindo, por isso me preparei. — Opala se inclinou mais para perto, dividindo os cabelos pretos para revelar uma cicatriz de sete centímetros no couro cabeludo, desbotando-se por magia. — Arredondar as orelhas não foi a única cirurgia que eu fiz. Também inseri uma coisa no meu crânio.

— Uma glândula pituitária — adivinhou Artemis.

— Muito bem, Garoto da Lama. Uma pequenina glândula pituitária humana. O HCH é um dos sete hormônios secretados pela pituitária.

— HCH? — interrompeu Holly.

— Hormônio do crescimento humano — explicou Artemis.

— Exato. Como o nome sugere, o HCH estimula o crescimento de vários órgãos e tecidos, especialmente músculos e ossos. Em três meses já cresci mais de dois centímetros. Ah, talvez jamais consiga entrar para o time de basquete, mas ninguém acreditará que sou uma criatura das fadas.

— Você não é uma criatura das fadas — disse Holly com amargura. — No fundo, sempre foi humana.

— Imagino que isso deveria ser um insulto. Talvez eu mereça, considerando o que vou fazer com vocês. Daqui a uma hora não restará o suficiente de vocês dois para encher o baú de butim.

Essa era uma expressão que Artemis não tinha ouvido antes.

— Baú de butim? Parece uma expressão de piratas. Opala abriu um painel secreto no piso, revelando um pequeno compartimento embaixo.

— Isto é um baú de butim. A expressão foi cunhada por contrabandistas de legumes há mais de mil anos. Um compartimento secreto que passaria despercebido pelas autoridades da alfândega. Claro que hoje em dia, com raios X, infravermelho e câmeras sensíveis a movimento um baú de butim não adianta grande coisa. — Opala deu um sorriso tímido, como uma criança que tivesse sido mais esperta do que o professor. — A não ser, é claro, que o baú seja completamente construído de minério dissimulado, que seja refrigerado e tenha projetores internos para enganar os raios X e o infravermelho. O único modo de detectar este baú de butim é colocar o pé dentro dele. Portanto, mesmo que a LEP abordasse meu transportador, os policiais não descobririam o que eu quisesse contrabandear. Que, nesse caso, é um vidro de trufas de chocolate. Não é exatamente ilegal, mas a geladeira está cheia. Trufas de chocolate são minha paixão, você sabe. Durante todo o tempo em que estive fora, as trufas eram uma das únicas duas coisas que eu queria. A outra era vingança.

Artemis bocejou.

— Fascinante. Um compartimento secreto. Que gênio você é! Como pode fracassar no domínio do mundo com um baú de butim cheio de trufas?

Opala alisou o cabelo de Artemis para trás, afastando-o da testa.

— Faça quantas piadas quiser, Garoto da Lama. Tudo que você tem agora são palavras.

Minutos depois Merv fez o lançador invisível parar. Artemis e Holly foram algemados e obrigados a descer a prancha retrátil. Saíram num túnel gigantesco, mal iluminado por feixes de luz. A maioria dos painéis estava despedaçada e o resto parecia nas últimas. Essa área do túnel já fizera parte de uma metrópole próspera, mas agora estava completamente deserta e destruída. Havia cartazes de demolição grudados em vários painéis meio caídos.

Opala apontou para um deles.

— Todo este lugar vai ser derrubado dentro de um mês. Nós chegamos bem a tempo.

— Que sorte — murmurou Holly.

Merv e Melo os empurraram ao longo do túnel, sem dizer nada, usando o cano das armas. A superfície da rua era rachada e irregular. Sapos xingadores se agrupavam em áreas úmidas, gritando palavrões. A calçada estava cheia de barracas abandonadas e lojas de lembranças. Numa vitrine, havia bonecos humanos arrumados em várias poses de guerra.

Artemis parou, apesar da arma nas costas.

— É assim que vocês nos vêem? — perguntou.

— Ah, não — respondeu Opala. — Vocês são muito piores do que isso, mas os fabricantes certamente não querem assustar as crianças.

Havia várias estruturas gigantescas e semi-esféricas no fim do túnel. Cada uma tinha o tamanho de um estádio de futebol. Eram construídas de painéis hexagonais soldados nas emendas. Alguns painéis eram opacos, outros transparentes. Cada painel tinha mais ou menos a dimensão de uma casa pequena.

Diante dos hemisférios, havia um arco gigantesco, com velhas guirlandas de folhas douradas. Um cartaz pendia do arco, escrito em gnomês com letras de dois metros de altura.

— As Onze Maravilhas do Mundo Humano — declarou Opala teatralmente. — Dez mil anos de civilização e vocês só conseguiram produzir onze supostas maravilhas.

Artemis testou suas algemas. Estavam bem apertadas.

— Você sabe, claro, que só existem sete maravilhas na lista oficial.

— Sei — respondeu Opala, irritada. — Mas os humanos têm uma mente muito estreita. Os eruditos do Povo estudaram vídeos e decidiram incluir o templo de Abu Simbel no Egito, as estátuas dos Moai na Ilha da Páscoa, o templo de Borobudur na Indonésia e o Salão do Trono em Persépolis, no Irã.

— Se os humanos têm a mente tão estreita — comentou Holly —, estou surpresa por você querer ser um deles.

Opala passou pelo arco.

— Bem, eu preferiria ser uma duende-diabrete, sem ofensa, Artemis, mas o povo das fadas será apagado da terra em breve. Cuidarei disso pessoalmente assim que tiver deixado vocês dois em seu novo lar. Dentro de dez minutos estarei a caminho da ilha, vendo vocês dois serem despedaçados nos monitores do lançador.

Seguiram pelo parque temático, passaram pelo primeiro hemisfério que continha um modelo em escala de dois terços da Grande Pirâmide de Gizé. Vários painéis hexagonais tinham sido arrancados e Artemis pôde ver os restos do modelo através das aberturas. Era uma visão impressionante, ainda mais por causa da quantidade de criaturas peludas que andavam pelas encostas da pirâmide.

— Trolls — explicou Opala. — Tomaram conta do parque. Mas não se preocupe, eles são extremamente territoriais e só atacam se você se aproximar da pirâmide.

Nesse ponto Artemis nem conseguia mais se espantar, mas mesmo assim a visão daqueles carnívoros magníficos atacando uns aos outros bastou para fazer seu coração acelerar algumas batidas. Parou para examinar o espécime mais próximo. Era uma criatura aterrorizante: tinha pelo menos dois metros e meio, com dreadlocks sujos balançando na cabeça enorme. Os braços peludos do troll iam até abaixo dos joelhos, e duas presas curvas e serrilhadas se projetavam do maxilar inferior. A fera ficou olhando enquanto eles passavam, com olhos noturnos luzindo vermelhos nas órbitas.

O grupo chegou à segunda mostra. O Templo de Artemis em Efeso. O holograma perto da entrada mostrava uma imagem giratória da construção, na Turquia. Opala leu o painel histórico.

— Interessante — disse ela. — Bom, por que você acha que alguém daria o nome de uma deusa a um menino?

— É o nome do meu pai — disse Artemis cansado, tendo explicado isso milhares de vezes. — O nome pode ser usado por homens e mulheres, e significa caçador. Bem adequado, não acha? Talvez lhe interesse saber que o nome humano que você escolheu, Belinda, significa “bela serpente”. Também bastante adequado. Pelo menos a metade.

Opala apontou um dos dedos para o nariz de Artemis.

— Você é uma criatura muito irritante, Fowl. Espero que nem todos os humanos sejam assim.

Ela assentiu para Melo.

— Spray neles — ordenou.

Melo pegou um pequeno borrifador no bolso e espirrou o conteúdo em Holly e Artemis. O líquido era amarelo e fedia.

— Feromônios de troll — disse Melo, quase pedindo desculpas. — Esses trolls vão farejar vocês e ficar absolutamente malucos. Para eles vocês cheiram como fêmeas no cio. Quando descobrirem que não são, vão destroçá-los em milhares de pedacinhos e depois comer. Nós consertamos todos os painéis quebrados, então não há como fugir. Podem pular no rio, se quiserem; o cheiro vai sair em cerca de mil anos. E, capitã Short, retirei as asas de sua roupa e provoquei um curto no tecido de camuflagem. Deixei o aquecimento. Afinal de contas, a gente merece uma chance esportiva.

Adiantaria muito usar o aquecimento contra os trolls, pensou Holly carrancuda.

Merv estava verificando a entrada através de um dos painéis transparentes.

— Tudo bem. Caminho livre.

A diabrete abriu a entrada principal usando o controle remoto. Uivos distantes ressoaram dentro da exposição. Artemis podia ver vários trolls bramindo na escadaria da réplica do templo. Ele e Holly seriam despedaçados.

Os irmãos Brill os empurraram para dentro do hemisfério.

— Boa sorte — disse Opala enquanto a porta se fechava. — Lembrem-se, vocês não estão sozinhos. Nós vamos assistir pelas câmeras.

A porta se fechou com um estrondo agourento. Segundos depois o painel de tranca eletrônica começou a chiar, quando um dos irmãos Brill o derreteu por fora. Artemis e Holly estavam trancados no meio de um monte de trolls amorosos e tinham um cheiro irresistível para eles.

O Templo de Artemis era um modelo em escala que fora construído com precisão impressionante, até mesmo com humanos animatrônicos fazendo suas tarefas cotidianas como em 400 a.C. A maioria dos modelos humanos fora quase totalmente destruída pelos trolls, mas alguns se moviam espasmodicamente nos trilhos, levando presentes à deusa. Qualquer robô cujo caminho o levasse perto demais de um bando de trolls era golpeado e despedaçado. Era uma feia antecipação do destino de Artemis e Holly.

Havia apenas um suprimento de comida. Os próprios trolls. Filhotes e desgarrados eram apanhados pelos machos e destroçados com dentes, garras e presas. O líder do bando ficava com a parte do leão, depois jogava a carcaça aos outros que ululavam. Se os trolls ficassem confinados ali por muito mais tempo, iriam se extinguir mutuamente.

Holly empurrou Artemis com força para o chão.

— Depressa — disse ela. — Role na lama. Cubra-se, diminua o cheiro.

Artemis obedeceu, jogando lama sobre o corpo com as mãos algemadas. Qualquer lugar que deixasse limpo foi imediatamente coberto por Holly. Fez o mesmo com ela. Em instantes os dois estavam quase irreconhecíveis.

Artemis sentia algo que não se lembrava de ter experimentado antes: medo absoluto. As mãos tremiam, chacoalhando as correntes. Não havia espaço em seu cérebro para o pensamento analítico. Não posso, pensou. Não posso fazer nada,

Holly assumiu o controle, colocando-o de pé com um puxão e empurrando-o até um amontoado de réplicas de barracas de mercadores ao lado de um rio que corria rápido. Os dois se agacharam atrás da lona amarrotada, olhando os trolls através de compridos rasgos causados por garras. Dois mercadores animatrônicos estavam sentados em tapetes diante das barracas, com os cestos cheios de estatuetas em ouro e marfim da deusa Artemis. Nenhum dos modelos tinha cabeça. Uma delas estava caída no chão, a pouco mais de um metro, o cérebro artificial aparecendo através de um buraco de mordida.

— Precisamos tirar as algemas — disse Holly ansiosa.

— O quê? — murmurou Artemis.

Holly sacudiu as algemas diante do rosto dele.

— Precisamos tirar isso agora! A lama vai nos proteger por um minuto, depois os trolls virão atrás de nós. Temos de entrar na água, e com as algemas seremos arrastados pela correnteza.

Os olhos de Artemis tinham perdido o foco.

— A correnteza?

— Caia na real, Artemis — sibilou Holly diante do rosto dele. — Lembra-se do seu ouro? Você não vai poder cobrar se estiver morto. O grande Artemis Fowl, desmoronando ao primeiro sinal de encrenca. Já estivemos em situações piores do que esta.

Isso não era exatamente verdade, mas o Garoto da Lama não podia lembrar, podia?

Artemis se recompôs. Não havia tempo para uma meditação calmante; simplesmente teria de reprimir as emoções que estava sentindo. Muito pouco saudável, psicologicamente falando, mas melhor do que ser reduzido a nacos de carne entre os dentes de um troll.

Examinou as algemas. Era alguma forma de polímero plástico ultraleve. Havia um painel digital no centro, posicionado de modo que o usuário não pudesse ler os dígitos.

— Quantos números? — perguntou ele.

— O quê?

— No código das nossas algemas. Você é policial. Sem dúvida sabe quantos números há no código das algemas.

— Três. Mas há possibilidades demais.

— Possibilidades, mas não probabilidades — respondeu Artemis, irritante mesmo quando sua vida estava em perigo.

— Estatisticamente, trinta e oito por cento dos humanos não se incomodam em mudar o código de fábrica nas trancas digitais. Só podemos esperar que as criaturas das fadas sejam igualmente negligentes.

Holly franziu a testa.

— Opala é qualquer coisa, menos negligente.

— Talvez. Mas seus dois pequenos capangas talvez não sejam tão atentos aos detalhes.

Artemis estendeu as algemas para Artemis.

— Tente três zeros.

Holly fez isso, usando um polegar. A luz vermelha continuou vermelha.

— Noves. Três noves.

Holly tentou rapidamente todos os dez dígitos três vezes. Nenhum deu resultado. Artemis suspirou.

— Muito bem. Dígitos triplos eram meio óbvios demais, acho. Há alguma outra seqüência de três dígitos que sejam marcantes na consciência das criaturas das fadas? Algo que todas saibam e não tenham probabilidade de esquecer?

Holly revirou o cérebro.

— Nove cinco um. O código de área de Porto.

— Tente.

Ela tentou. Não deu certo.

— Nove cinco oito. O código de Atlântida. De novo não adiantou.

— Esses números são regionais demais — reagiu Artemis irritado. — Qual é o número que todo macho, fêmea e criança sabe?

Os olhos de Holly se arregalaram.

— Claro. Claro. Nove zero nove. O número de emergência da polícia. Está no canto de todos os cartazes embaixo do mundo.

Artemis notou uma coisa. Os uivos tinham parado. Os trolls haviam cessado a luta e estavam farejando o ar. Os feromônios estavam na brisa, atraindo as feras como se elas fossem marionetes nos fios. Num sincronismo fantasmagórico, as cabeças se viraram para o esconderijo de Holly e Artemis.

Artemis sacudiu as algemas.

— Experimente depressa.

Holly experimentou. A luz ficou verde e as algemas se abriram.

— Bom. Excelente. Agora deixe-me abrir as suas. Os dedos de Artemis pararam sobre o teclado.

— Não sei ler os numerais da língua do Povo.

— Sabe. Na verdade você é o único humano que sabe — disse Holly. — Só não lembra. O teclado tem o desenho padrão. De zero a nove. Da esquerda para a direita.

— Nove zero nove — murmurou Artemis, apertando as teclas. As algemas de Holly se abriram na primeira tentativa, o que foi uma sorte, porque não haveria tempo para uma segunda.

Os trolls estavam chegando, saltando dos degraus do templo com velocidade e coordenação de dar medo. Usavam o peso dos braços peludos para balançar à frente, ao mesmo tempo em que esticavam as pernas musculosas. Esse método de lançamento podia fazer com que pulassem seis metros num único movimento. Os animais pousavam sobre os nós dos dedos, balançando as pernas embaixo para o próximo salto.

Era uma visão quase petrificante. Uma quantidade de carnívoros enlouquecidos, descendo por uma leve inclinação arenosa. Os machos maiores pegavam o caminho mais direto, disparando pela ravina. Os machos adolescentes e os mais velhos se mantinham nas encostas, tomando cuidado com mordidas casuais e presas que pareciam cimitarras. Os trolls se chocavam com manequins e com o cenário, indo direto para a barraca. Seus dreadlocks balançavam a cada passo e os olhos luziam vermelhos à meia-luz. Eles mantinham a cabeça virada para trás, de modo que o ponto mais elevado era o nariz. Nariz que os levava diretamente a Holly e Artemis. E o pior é que Holly e Artemis também podiam sentir o cheiro dos trolls.

Holly enfiou os dois pares de algemas no cinto. Eles tinham unidades de carga e podiam ser adaptados para calor ou até mesmo como armas, se Holly sobrevivesse o bastante para usá-las.

— Tá legal, Garoto da Lama. Para a água.

Artemis não argumentou nem questionou; não havia tempo. Só podia supor que, como muitos animais, os trolls não gostassem de água. Correu para o rio, sentindo o chão vibrar com centenas de pés e punhos. Os uivos também tinham recomeçado, mas era um tom mais afoito, insensato e brutal, como se qualquer controle que os trolls possuíssem houvesse desaparecido.

Artemis se apressou para alcançar Holly. Ela estava à frente, esguia e ágil, abaixando-se para pegar um pedaço de tronco falso de uma fogueira de acampamento. Artemis fez o mesmo, enfiando-o embaixo do braço. Talvez ficassem na água por muito tempo.

Holly mergulhou, fazendo um arco gracioso no ar antes de entrar na água praticamente sem causar espirros. Artemis foi cambaleando atrás. Esse negócio de correr para salvar a vida não era seu estilo. O cérebro era grande, mas os membros eram finos, exatamente o oposto do necessário quando a gente está com trolls nos calcanhares.

A água estava morna, mas o bocado que Artemis engoliu sem querer tinha um gosto notavelmente doce. Sem poluentes, supôs com a pequena parte do cérebro que ainda pensava de modo racional. Algo agarrou seu tornozelo, cortando a meia e a carne. Então ele deu um chute e pulou no rio, e estava livre. Uma trilha de sangue quente permaneceu um momento, antes de ser levada pela correnteza.

Holly estava no meio do rio, a cabeça acima d’água. O cabelo castanho-avermelhado permanecia de pé, em pontas lisas, e a roupa estalou para combinar com o ambiente, nas partes em que a lama havia saído.

— Está machucado? — perguntou ela.

Artemis balançou a cabeça. Não tinha fôlego para palavras.

Holly notou o tornozelo dele, que estava perto da superfície.

— Sangue, e eu não tenho nem uma gota de magia para curar. O sangue é quase tão ruim quanto os feromônios. Temos de sair daqui.

Na margem, os trolls estavam literalmente pulando feito loucos. Golpeavam repetidamente a cabeça no chão, batendo os punhos em ritmos complexos.

— Ritual de acasalamento — explicou Holly. — Acho que gostaram de nós.

A correnteza era mais forte no meio do rio e atraiu rapidamente os dois. Os trolls seguiam pela margem, alguns lançando pequenos objetos na água. Um deles acertou o tronco de plástico de Holly, quase deslocando-a.

Ela cuspiu um bocado d’água.

— Precisamos de um plano, Artemis. Esse é o seu departamento. Eu trouxe a gente até aqui.

— Ah, sim, muito bem — respondeu Artemis, aparentemente tendo recuperado o sarcasmo. Em seguida afastou o cabelo molhado da frente dos olhos e espiou em volta, para além da confusão na margem. O templo era enorme, lançando uma sombra alongada e cheia de pontas na área deserta. O interior estava escancarado, sem nenhum abrigo óbvio contra os trolls. O único local deserto era o telhado.

— Os trolls podem escalar? — perguntou ofegando. Holly acompanhou o olhar dele.

— Sim, se for necessário, como os grandes macacos. Mas só se for necessário.

Artemis franziu a testa.

— Se ao menos eu pudesse lembrar. Se ao menos eu soubesse o que sei!

Holly nadou até ele, segurando seu colarinho. Os dois giraram na água branca, com bolhas e espuma espremendo-se entre os troncos.

— Se ao menos não adianta, Garoto da Lama. Precisamos de um plano antes do filtro.

— Do filtro?

— Este é um rio artificial. É filtrado por um tanque no centro.

Uma bolha estourou no cérebro de Artemis.

— Um tanque central. É a nossa saída.

— Nós seremos mortos! Não faço idéia de quanto tempo ficaremos embaixo d’água.

Artemis olhou em volta pela última vez, medindo, calculando.

— Dadas as circunstâncias atuais, não há outra opção. Mais adiante a correnteza começava a circular, puxando para dentro qualquer entulho recolhido das margens. Um pequeno redemoinho se formava no meio do rio. A visão dele pareceu acalmar os trolls. Desistiram dos cutucões e das pancadas e se acomodaram para olhar. Alguns seguiam pela margem; mais tarde estes provariam ser os mais inteligentes.

— Vamos seguir a correnteza — gritou Artemis acima do chiado. — Vamos seguir e ter esperança.

— É isso? Esse é o seu plano brilhante?—A roupa de Holly estalou enquanto a água ia abrindo caminho para dentro dos circuitos.

— Não é tanto um plano quanto uma estratégia para salvar a vida — retrucou Artemis. Teria dito mais, porém o rio o interrompeu, arrancando-o de perto da companheira para dentro do redemoinho.

Sentiu-se insignificante como um graveto diante daquela força. Se tentasse resistir à água, ela arrancaria o ar de seus pulmões como um valentão espancando sua vítima. O peito de Artemis foi comprimido; mesmo quando a boca arfava acima d’água ele não conseguia forçar uma quantidade adequada de ar para dentro dos pulmões. O cérebro estava faminto de oxigênio. Não conseguia pensar direito. Tudo era curvo. O redemoinho de seu corpo, o movimento da água. Círculos brancos sobre azuis sobre verdes. Seus pés dançavam em pequenos padrões de tiras de Mõbius abaixo do corpo. Dança irlandesa. Ha-ha.

Holly estava à frente, segurando os dois troncos entre eles. Uma balsa improvisada. Gritou alguma coisa, mas o som se perdeu. Agora havia apenas água. Água e confusão.

Ela ergueu três dedos. Três segundos. Então iriam afundar. Artemis respirou o mais fundo que o peito comprimido permitia. Dois dedos agora. E um.

Artemis e Holly soltaram os troncos e a correnteza os sugou para baixo como aranhas sumindo por um ralo. Artemis lutou para manter o ar, mas a água violenta o espremia para fora, por entre os lábios. Bolhas espiralaram atrás deles, correndo para a superfície.

A água não era muito funda nem escura. Mas era rápida e não permitia que muitas imagens se mantivessem por tempo suficiente para serem identificadas. O rosto de Holly passou rapidamente diante de Artemis, mas ele só conseguiu ver os grandes olhos amendoados.

O funil do redemoinho ficou mais estreito, forçando Holly e Artemis um contra o outro. Foram levados diagonalmente para baixo, numa confusão de corpos se chocando e membros se sacudindo. Juntaram as cabeças com força, cada qual achando algum conforto nos olhos do outro. Mas isso durou pouco. O progresso foi interrompido brutalmente por uma grade de metal que cobria o tubo. Eles se chocaram contra ela, sentindo o arame deixar marcas na pele.

Holly bateu na grade, depois enfiou os dedos nos buracos. A grade era brilhante e nova. Havia marcas de solda recentes nas bordas. Aquilo era novo e todo o resto era velho. Koboi!

Algo cutucou o braço de Holly. Um aquacasulo. Estava preso à grade por uma amarra plástica. O rosto de Opala enchia a pequena tela engastada dentro, e seu riso ocupava a maior parte do rosto. Ela estava dizendo algo repetidamente. As palavras eram inaudíveis na confusão de chiados e bolhas, mas o significado era claro: venci vocês de novo.

Holly agarrou o aquacasulo, arrancando-o da amarra. O esforço a arrancou da torrente para a água mais calma ao redor. Suas forças haviam sumido, e ela não tinha opção além de ir para onde o rio a levasse. Artemis se arrastou para longe da grade, usando o resto do oxigênio para chutar com as pernas, apenas duas vezes.

Estava livre do redemoinho, flutuando atrás de Holly em direção a um monte mais escuro, rio abaixo. Ar, pensou desesperado, preciso respirar. Não daqui a pouco. Agora. Agora ou nunca.

Rompeu a superfície com a boca na frente. A garganta estava sugando o ar antes mesmo de sair da água. A primeira respiração veio junto com líquido, mas a segunda foi limpa, e a terceira também. Sentiu a força voltar para os membros como mercúrio nas veias.

Holly estava em segurança. Deitada numa ilha escura no rio. O peito arfava como um fole e o aquacasulo estava embaixo de seus dedos esparramados.

— Ora! — disse Opala Koboi na tela. — Tã-ã-ão previsível. — Falou isso repetidamente, até que Artemis lutou para sair da água rasa, subiu na ilha e achou o botão de MUDO.

— Estou começando realmente a odiá-la — ofegou. — Talvez ela venha a lamentar os pequenos toques, como a televisão subaquática, porque são coisas assim que me dão motivação para sair daqui.

Holly sentou-se, olhando ao redor. Estavam num monte de lixo. Artemis achou que, como Opala havia soldado a grade no tubo do filtro, a corrente havia levado para esse local raso tudo que os trolls descartavam. Uma pequena ilha de lixo na curva do rio. Havia cabeças robóticas sem corpo. Junto com estátuas quebradas e restos de trolls. Crânios de trolls com a cunha grossa do osso da testa e pêlos apodrecendo.

Pelo menos aqueles trolls específicos não podiam comê-los. Os perigosos, que os tinham seguido, estavam se sacudindo até provocar uma espuma de suor nas duas margens. Mas havia pelo menos seis metros de água separando-os da terra. Por enquanto estavam em segurança.

Artemis sentia lembranças tentando aflorar à superfície. Estava prestes a se lembrar de tudo, tinha certeza. Ficou sentado completamente imóvel, forçando a memória. Imagens desconectadas relampejavam por trás dos olhos: uma montanha de ouro, criaturas com escamas verdes soltando bolas de fogo pelas ventas, Butler engastado em gelo. Mas as imagens escorriam da consciência como gotas de água num pára-brisa.

Holly sentou-se.

— Alguma coisa?

— Talvez. Algo. Não tenho certeza. Tudo está acontecendo depressa demais. Preciso de tempo para meditar.

— Estamos sem tempo — disse Holly, subindo no topo da pilha de lixo. Crânios estalavam sob seus pés. — Olhe.

Artemis se virou para a margem esquerda. Um dos trolls tinha pegado uma pedra grande e levantado acima da cabeça. Artemis tentou encolher. Se aquela pedra acertasse o alvo, os dois seriam gravemente feridos, no mínimo.

O troll grunhiu como um profissional de tênis sacando, fazendo a pedra girar sobre o rio. Errou a pilha por pouco, e a pedra caiu com estardalhaço na água rasa.

— Tiro ruim — disse Holly. Artemis franziu a testa.

— Duvido.

Um segundo troll pegou algo para atirar. E um terceiro. Logo todos os monstrengos estavam jogando pedras, pedaços de robôs, pedaços de pau e qualquer coisa que conseguissem pegar. Nenhum acertou os dois que tremiam sobre a pilha de lixo.

— Continuam errando — disse Holly. — Todos.

Os ossos de Artemis doíam de frio, medo e tensão constante.

— Eles não estão tentando nos acertar—disse ele. — Estão construindo uma ponte.

 

O terminal de transportes de Tara era o maior da Europa. Mais de oito mil turistas passavam por ano através de seus portais de raio X. Oitocentos e cinqüenta metros cúbicos de terminal escondidos embaixo de um pequeno morro coberto de mato no meio da fazenda McGraney. Era uma maravilha de arquitetura subterrânea.

Palha Escavator, anão cleptomaníaco fugitivo, também era bastante maravilhoso na área subterrânea. Butler dirigiu o Bentley dos Fowl para o norte e, seguindo instruções de Palha, reduziu a velocidade do carro de luxo a quinhentos metros da entrada camuflada do terminal. Isso permitiu que Palha escavasse a partir da porta traseira, direto para dentro da terra. Rapidamente submergiu abaixo de uma camada de rico solo irlandês. O melhor do mundo.

Palha conhecia bem o terminal. Uma vez havia tirado seu primo Nord da custódia policial ali mesmo, quando a LEP o prendera sob acusação de poluição industrial. Um veio de argila ia direto até a parede da estação e, se você soubesse onde procurar, havia uma folha de metal que fora desgastada pela umidade irlandesa. Mas nesta ocasião em particular Palha não estava interessado em fugir da LEP; muito pelo contrário.

Chegou à superfície dentro do arbusto holográfico que escondia a entrada de serviço do terminal. Saiu de seu túnel, sacudiu a argila do traseiro, tirou todo o ar do túnel de dentro do organismo com um pouco mais de ruído do que era absolutamente necessário e esperou.

Cinco segundos depois a escotilha da entrada deslizou e quatro mãos se estenderam, puxando Palha para o interior do terminal. Palha não resistiu, permitindo-se ser levado por um corredor escuro até uma sala de entrevistas. Foi jogado numa cadeira desconfortável, algemado e deixado sozinho, para esperar.

Mas não tinha tempo para esperar. Cada segundo que passava aqui tirando insetos dos pêlos da barba era outro segundo que Artemis e Holly tinham de passar fugindo dos trolls.

Levantou-se da cadeira e bateu com as palmas das mãos no espelho bidirecional engastado na parede da sala de entrevistas.

— Chix Verbil — gritou ele. — Sei que está me vigiando. Precisamos conversar. É sobre Holly Short.

Palha continuou batendo no vidro até que a porta da cela se abriu e Chix Verbil entrou. Chix era o agente da LEP na superfície. Fora a primeira baixa na revolução dos goblins da B’wa Kell, há um ano e, se não fosse por Holly Short, teria sido a primeira baixa fatal. Mas acabou ganhando uma medalha do

Comitê, deu uma série de entrevistas de alto nível na rede de TV e recebeu um belo serviço fácil no El.

Chix entrou, cheio de suspeitas, com as asas de duende dobradas atrás do corpo. A presilha do coldre de sua Neutrino estava aberta.

— Palha Escavator, não é? Está se rendendo? Palha fungou.

— O que você acha? Eu tenho todo o trabalho de fugir só para me render para um duende. Acho que não, burrinho.

Chix ficou eriçado, com as asas se abrindo.

— Ei, escute, anão. Você não está em condição de fazer piadinhas. Está sob minha custódia, para o caso de não ter notado. Há seis seguranças cercando esta sala.

— Seguranças do povo das fadas. Não me faça rir. Eles não poderiam vigiar uma maçã num pomar. Eu escapei de um sublançador mais de três quilômetros embaixo d’água. Posso ver pelo menos seis modos de sair daqui sem derramar uma gota de suor.

Chix pairou nervosamente.

— Gostaria de ver você tentando. Dispararia duas cargas no seu traseiro antes que você pudesse desencaixar esse seu maxilar.

Palha se encolheu. Os anões não gostavam de piadinhas sobre o traseiro.

— Tá legal, vá com calma, sr. Valentão. Vamos falar da sua asa. Está se curando bem?

— Como sabe disso?

— Foi uma tremenda notícia. Você apareceu em todas as TVs durante um tempo, até nos canais piratas por satélite. Assisti ao seu rosto feio em Chicago, não faz muito tempo.

Chix se empertigou.

— Chicago?

— Isso mesmo. Você estava contando, se me lembro bem, como Holly Short salvou sua vida e como os duendes nunca se esquecem de uma dívida, e que sempre que ela precisasse você estaria lá, custasse o que custasse.

Chix tossiu nervoso.

— Muito disso estava escrito no roteiro. E, de qualquer modo, foi antes...

— Antes que a oficial mais condecorada da LEP decidisse pirar de repente e atirar no próprio comandante?

— É. Antes.

Palha encarou o rosto verde de Verbil.

— Você não acredita nisso, não é?

Chix pairou ainda mais alto por um longo momento, as asas balançando nas correntes de ar. Depois voltou ao chão e se sentou na outra cadeira da sala.

— Não, não acredito. Nem por um segundo. Julius Raiz era como um pai para Holly. Para todos nós. — Ele cobriu o rosto com as mãos, com medo de ouvir a resposta à próxima pergunta. — Então, Escavator, por que você está aqui?

Palha se inclinou mais para perto.

— Isto está sendo gravado?

— Claro. Procedimento padrão.

— Você pode desligar o microfone?

— Acho que sim. Mas por que faria isso?

— Porque vou lhe dizer uma coisa importante para a sobrevivência do Povo. Mas só se os microfones estiverem desligados.

As asas de Chix começaram a bater de novo.

— É melhor que isso seja realmente bom. É melhor que eu goste do que você vai dizer, anão.

Palha deu de ombros.

— Ah, você não vai gostar. Mas é realmente bom.

Os dedos verdes de Chix digitaram um código num teclado sobre a mesa.

— Certo, Escavator. Podemos falar livremente. Palha se inclinou à frente.

— O negócio é que Opala Koboi voltou.

Chix não respondeu verbalmente, mas a cor sumiu de seu rosto. Em vez do esmeralda robusto de sempre, a pele do duende estava de um pálido verde-lima.

— Opala escapou, de algum modo, e iniciou uma grande vingança. Primeiro o general Escamoto, depois o comandante Raiz, e agora Holly e Artemis Fowl.

— O... Opala? — gaguejou Chix, com a asa ferida latejando subitamente.

— Está matando todo mundo que colaborou para que ela fosse presa. O que, se a memória não me falha, inclui você.

— Eu não fiz nada — guinchou Verbil, como se protestar sua inocência para Palha fosse ajudá-lo.

Palha se recostou na cadeira.

— Ei, não adianta falar comigo. Não vim pegar você. Se me lembro corretamente, você apareceu em todos os programas de entrevistas falando como foi pessoalmente o primeiro membro da LEP a entrar em contato com os contrabandistas goblins.

— Talvez ela não tenha assistido — disse Chix cheio de esperança. — Estava em coma.

— Tenho certeza de que alguém gravou para ela. Verbil pensou nisso, distraidamente alisando as asas.

— Então o que você quer de mim?

— Preciso que mande uma mensagem a Potrus. Diga o que falei sobre Opala. — Palha cobriu a boca com a mão para enganar qualquer leitor de lábios que pudesse assistir à fita. — E quero o transportador da LEP. Sei onde ele está estacionado. Só preciso do chip de partida e do código de ignição.

— O quê? Isso é ridículo. Eu iria para a cadeia. Palha balançou a cabeça.

— Não, não. Sem o som gravado, tudo que a Delegacia Plaza verá é outra engenhosa fuga de Palha Escavator. Eu nocauteio você, roubo o seu chip e abro um túnel pela tubulação atrás daquele bebedouro.

Chix franziu a testa.

— Volte à parte do “me nocauteia”. Palha bateu com a palma da mão na mesa.

— Escute, Verbil, Holly está correndo perigo mortal agora mesmo. Talvez já esteja morta.

— Foi o que ouvi dizer — exclamou Chix.

— Bem, ela estará definitivamente morta se eu não descer lá agora mesmo.

— Porque não devo avisar sobre isso? Palha suspirou dramaticamente.

— Por que, seu imbecil, quando a equipe de resgate da Delegacia Plaza chegar aqui, será tarde demais. Você conhece as regras: nenhum policial da LEP pode agir a partir da informação de um criminoso condenado a não ser que a informação seja verificada por outra fonte.

— Ninguém presta atenção a essa regra, e me chamar de imbecil não ajuda.

Palha ficou de pé.

— Você é um duende, pelo amor dos deuses. Deveria ter aquele antigo código de cavalheirismo. Uma fêmea salvou sua vida e agora a vida dela está em perigo. Como duende, você tem uma dívida de honra, deve fazer o que for necessário.

Chix sustentou o olhar de Palha.

— Tudo isso é verdade? Diga, Palha, porque essa coisa terá repercussões. Não é só um roubozinho de jóias.

— É verdade. Você tem minha palavra. Chix quase gargalhou.

— Minha nossa! A palavra de Palha Escavator. Posso levar para depositar no banco. — Ele respirou fundo várias vezes e fechou os olhos. — O chip está no meu bolso. O código está escrito na etiqueta. Vê se não quebra nada.

— Não se preocupe. Sou um excelente motorista.

Chix se encolheu de ansiedade.

— Não estou falando do lançador, seu estúpido. Estou falando do meu rosto. As damas gostam de como eu sou.

Palha recuou o punho nodoso.

— Bem, eu odiaria desapontar as damas — falou, e com um soco derrubou Chix da cadeira.

Palha examinou rapidamente os bolsos de Chix. O duende não estava inconsciente de verdade, mas fingia. Foi sensato. Em segundos Palha havia retirado o chip de partida e enfiado na barba. Um punhado de fios se enrolou com força em volta do chip, formando um casulo à prova d’água. Além disso, afanou a Neutrino de Verbil, embora ela não fizesse parte do trato. Depois atravessou a sala em dois passos e enfiou uma cadeira embaixo da maçaneta. Isso deve me render uns dois segundos, pensou. Envolveu com um dos braços o bebedouro ao mesmo tempo em que desabotoava a aba do traseiro. Agora a velocidade era vital, porque quem estivera assistindo à entrevista pelo espelho já estava batendo na porta. Palha viu um ponto negro, de queimadura, surgir na porta; eles estavam abrindo caminho a fogo.

Arrancou o bebedouro da parede, deixando que dezenas de litros de água gelada inundassem a sala de entrevistas.

— Ah, pelo amor dos deuses — gemeu Chix no chão. — Essas asas demoram séculos para secar.

— Cale-se. Você deveria estar inconsciente.

Assim que a água parou de correr, Palha mergulhou no tubo. Seguiu-o até a primeira junta e a chutou longe. Pedaços de argila caíram, bloqueando o tubo. O anão desencaixou o maxilar. Estava de volta à terra. Agora ninguém poderia pegá-lo.

A área de embarque ficava no nível mais baixo, mais perto do poço propriamente dito. Palha virou para baixo, guiado por sua infalível bússola interna, de anão. Já estivera nesse terminal antes e a disposição do local estava gravada em sua memória, bem como a disposição de cada construção em que ele já estivera. Depois de sessenta segundos mastigando terra, retirando dela os minerais e ejetando o resto pela outra extremidade, chegou cara a cara com uma tubulação de ar. Esse duto em particular levava direto à área de embarque; o anão podia sentir a vibração dos motores através dos pêlos da barba.

Em geral queimaria o painel metálico do duto com algumas gotas de polidor de rochas, mas os guardas da prisão tendiam a confiscar itens assim, portanto Palha explodiu um painel com um disparo concentrado da pistola roubada. O painel se derreteu como uma camada de gelo diante de um aquecedor. Deu um minuto para o metal derretido se solidificar e esfriar, em seguida se enfiou no duto. Depois de virar duas vezes para a esquerda, seu rosto se grudou à grade que dava na área de embarque. Luzes vermelhas, de alarme, estavam girando acima de cada porta, e uma sirene áspera garantia que todo mundo soubesse que havia alguma emergência. Os trabalhadores da área estavam reunidos diante da tela de vídeo, esperando notícias.

Palha saltou no chão com mais graça do que seu corpo sugeria ser possível e se esgueirou até o lançador da LEP O veículo estava suspenso de nariz para cima sobre um túnel vertical, de suprimentos. Palha se esgueirou para dentro, abrindo a porta do carona com o chip de Chix Verbil. Os controles eram tremendamente complicados, mas o anão tinha uma teoria sobre os controles dos veículos: ignore tudo que não seja o volante e os pedais, e você vai ficar bem. Até agora, em sua carreira, tinha roubado mais de cinqüenta tipos de transporte, e sua teoria ainda não o deixara na mão.

Enfiou o chip de partida na fenda, ignorando o alerta do computador para fazer uma verificação do sistema, e soltou o botão de liberação. Oito toneladas de lançador da LEP caíram como uma pedra no poço, girando como um patim de gelo. A gravidade o agarrou, lançando-o para o centro da terra.

O pé de Palha pisou no pedal do acelerador apenas o bastante para interromper a queda.

O rádio no painel começou a falar com ele.

— Você aí no lançador. É melhor voltar para cá agora mesmo. Não estou brincando! Dentro de vinte segundos vou apertar pessoalmente o botão de autodestruição.

Palha mandou um bocado de cuspe de anão no alto-falante, abafando a voz irada. Gargarejou mais um bocado na garganta e depois mandou sobre uma caixa de circuitos abaixo do rádio. Os circuitos soltaram faíscas e chiaram. É isso aí, autodestruição!

Os controles eram um pouco mais pesados do que Palha estava acostumado a encontrar. Mesmo assim conseguiu domar a máquina depois de raspar algumas vezes nas paredes do poço.

Se o veículo fosse recuperado pela LEP, precisaria de uma nova pintura, e talvez de um novo pára-choque de estibordo.

Um facho de energia a laser passou chiando pela escotilha. Era o tiro de alerta. Um acima da proa, antes que deles deixassem o computador mirar. Hora de ir. Palha chutou as botas longe, enrolou os artelhos de juntas duplas em volta dos pedais e disparou pelo poço, em direção ao ponto de encontro.

Butler estacionou o Bentley uns 25 quilômetros a nordeste de Tara, perto de um afloramento de rochas com a forma de um punho fechado. A rocha do indicador era oca, como Palha tinha lhe dito. Entretanto o anão deixara de mencionar que a abertura estaria atulhada de sacos de batata frita e pedaços de chiclete deixados dos piqueniques de adolescentes. Butler abriu caminho pelo entulho e descobriu dois garotos encolhidos no fundo, fumando. Um filhote de labrador estava dormindo aos pés deles. Obviamente os dois tinham se oferecido para passear com o cachorro para poder fumar uns cigarros. Butler não gostava de fumar.

Os garotos olharam para a figura enorme acima deles e as expressões de adolescentes presunçosos congelou nos seus rostos.

Butler apontou para os cigarros.

— Essas coisas vão prejudicar seriamente a saúde de vocês — rosnou. — E, se não prejudicarem, talvez eu prejudique.

Os adolescentes apagaram os cigarros e saíram rapidamente da caverna, exatamente o que Butler queria. Empurrou para o lado um monte de arbustos secos no fundo da caverna e descobriu uma parede de lama.

“Atravesse direto a lama”, tinha dito Palha. “Em geral eu como um caminho e remendo depois, mas talvez você não queira fazer isso.”

Butler cravou quatro dedos rígidos no centro da parede de lama, onde rachaduras estavam começando a se espalhar, e de fato a parede tinha apenas alguns centímetros de espessura e desmoronou facilmente com a pressão. O guarda-costas puxou alguns pedaços até haver espaço suficiente para se espremer pelo túnel que havia atrás.

Dizer que havia espaço suficiente talvez seja um pequeno exagero; quase bastante talvez seja mais exato. O corpanzil de Butler foi comprimido em todos os lados por paredes irregulares de argila preta. Ocasionalmente uma rocha pontuda se projetava, fazendo um rasgo em seu terno de grife. Dois ternos arruinados em dois dias. Um em Munique, e agora o segundo no subsolo da Irlanda. Mesmo assim os ternos eram a menor de suas preocupações. Se Palha estivesse certo, Artemis estava correndo pelos Elementos de Baixo agora mesmo, com um grupo de trolls sedentos de sangue atrás dele. Butler já havia lutado com um troll e a batalha praticamente o matou. Nem podia imaginar como seria lutar com um grupo inteiro.

Cravou os dedos na terra, puxando-se para a frente pelo túnel. Esse túnel em particular, como Palha tinha informado, era uma das muitas passagens ilícitas para o sistema de poços dos Elementos de Baixo, comidas por anões fugitivos no correr dos séculos. O próprio Palha tinha escavado este, há quase trezentos anos, quando precisara se esgueirar de volta a Porto para a festança de aniversário de um primo. Butler tentava não pensar nos processos de reciclagem do anão enquanto prosseguia.

Depois de alguns metros, o túnel se alargou numa câmara arredondada. As paredes luziam num verde suave. Palha também tinha explicado aquilo. As paredes eram cobertas de cuspe de anão, que endurecia ao contato prolongado com o ar e além disso produziam luz. Espantoso. Poros que bebiam água, pêlos vivos e agora saliva luminosa. O que viria em seguida? Catarro explosivo? Não ficaria nem um pouco surpreso. Quem sabia quais segredos os anões escondiam na manga? Ou em outros lugares?

Chutou de lado uma pilha de ossos de coelho, restos de refeições anteriores de anões, e se sentou para esperar.

Verificou o mostrador luminoso de seu relógio Omega. Tinha deixado Palha em Tara há quase trinta minutos; o sujeitinho já deveria estar aqui. O guarda-costas mal tinha espaço para ficar de pé, quanto mais para andar de um lado para o outro. Cruzou as pernas, acomodando-se para um cochilo reparador. Não dormia desde o ataque do míssil na Alemanha, e não era mais tão jovem. O ritmo do coração ficou mais lento e a respiração diminuiu, até que por fim seu peito praticamente não se mexia.

Oito minutos depois a pequena câmara começou a tremer violentamente. Pedaços de cuspe quebradiço caíam da parede, estilhaçando-se no chão. O terreno sob seus pés ficou vermelho, e um jorro de insetos e minhocas disparou do ponto quente. Butler ficou de lado, espanando calmamente a roupa. Instantes depois um trecho cilíndrico de terra se soltou do piso, deixando um buraco fumegante.

A voz de Palha veio pelo buraco, nas ondas do sistema de amplificação do lançador.

— Vamos, Homem da Lama. Mexa-se. Temos pessoas para salvar e a LEP está no meu traseiro.

No traseiro de Palha Escavator, pensou Butler, estremecendo. Ótimo local para se estar.

Mesmo assim o guarda-costas se enfiou no buraco e passou pela escotilha aberta no transporte da LEP que pairava. Os lançadores da polícia eram apertados, até mesmo para as criaturas do Povo, mas Butler nem mesmo poderia se sentar ereto numa cadeira, ainda que houvesse uma do seu tamanho. Teve de se contentar em ficar de joelhos atrás do banco de comando.

— Tudo certo? — perguntou.

Palha pegou um besouro no ombro de Butler. Enfiou-o na barba, onde o inseto infeliz foi imediatamente envolto num casulo de pêlos.

— Para depois — explicou. — A não ser que você queira. Butler sorriu, mas foi um esforço.

— Obrigado. Já comi.

— Ah, é? Bem, o que quer que você tenha comido, mantenha na barriga, porque estamos com pressa e talvez eu tenha de violar alguns limites de velocidade.

O anão estalou todas as juntas dos dedos das mãos e dos pés, depois mandou o veículo num mergulho íngreme e espiralado. Butler escorregou para a traseira e teve de prender três cintos de segurança juntos para não se sacudir mais.

— Isso é mesmo necessário? — grunhiu com as bochechas ondulando.

— Olhe para trás — respondeu Palha.

Butler lutou para ficar de joelhos, olhando pela janela traseira. Estavam sendo perseguidos por um trio do que pareciam vaga-lumes, mas eram apenas lançadores menores. Os veículos acompanhavam exatamente cada espiral e sacudida que davam. Um deles disparou um pequeno torpedo com fagulhas, que provocou uma onda de choque por todo o casco. Butler sentiu os poros de sua cabeça raspada cocarem.

— Unicasulos da LEP — explicou Palha. — Acabaram de tirar nosso mastro de comunicações, para o caso de termos cúmplices em algum lugar nos poços. Aqueles casulos estão travados em nosso sistema de navegação. Seus computadores vão nos seguir para sempre, a não ser...

— A não ser o quê?

— A não ser que possamos ir mais depressa. Sair do alcance deles.

Butler apertou os cintos em volta do tronco.

— E podemos?

Palha flexionou os dedos das mãos e dos pés.

— Vamos descobrir—falou, pisando fundo no acelerador.

 

Holly e Artemis estavam encolhidos juntos na ilhota de carcaças podres, esperando que os trolls terminassem de fazer a ponte. Agora as criaturas estavam frenéticas, jogando uma pedra depois da outra na água rasa. Alguns até mesmo se arriscavam a colocar um dedo dos pés na água, mas o retiravam depressa com uivos horrorizados.

Holly enxugou água dos olhos.

— Tudo bem — disse ela. — Tenho um plano. Eu fico aqui e luto com eles. Você volta para o rio.

Artemis balançou a cabeça.

— Agradeço. Mas não. Seria suicídio para nós dois. Os trolls devorariam você num segundo e depois simplesmente esperariam a corrente me trazer de volta para cá. Deve haver outro modo.

Holly jogou um crânio de troll contra a criatura mais próxima. O brutamontes o segurou habilmente com as garras, espatifando-o.

— Estou ouvindo, Artemis.

Artemis cocou a testa, forçando o bloco de memória a se dissolver.

— Se eu pudesse lembrar! Talvez...

— Você não se lembra de nada?

— Imagens. Alguma coisa. Nada coerente. Só figuras de pesadelo. Isso tudo poderia ser uma alucinação. É a explicação mais provável. Talvez eu devesse apenas ficar tranqüilo e esperar até acordar.

— Pense nisso como um desafio. Se fosse um jogo de RPG, como o personagem escaparia?

— Se fosse um jogo de guerra, eu precisaria conhecer as fraquezas do inimigo. Uma delas é a água...

— E a luz — disse Holly rapidamente. — Os trolls odeiam luz. Ela queima a retina deles.

Agora as criaturas estavam se aventurando pela ponte improvisada, testando cuidadosamente cada passo. O fedor de seu pêlo sujo e o hálito abominável chegavam à ilhota.

— Luz — repetiu Artemis. — É por isso que eles gostam daqui. Praticamente não tem luz.

— E. As tiras luminosas estão apenas com energia de emergência, e o sol falso está no mínimo.

Artemis olhou para cima. Nuvens holográficas corriam por uma imitação de céu, e bem no centro, posicionado dramaticamente sobre o teto do templo, havia um sol de cristal, praticamente sem energia nas entranhas.

Uma idéia brotou em sua mente.

— Há um andaime no canto mais próximo do templo. Se nós subíssemos e chegássemos ao sol, será que você poderia usar as células de energia de nossas algemas para acender o sol?

Holly franziu a testa.

— Sim, acho que sim. Mas como vamos passar pelos trolls? Artemis pegou o casulo à prova d’água que estivera repassando a mensagem de Opala.

— Vamos distraí-los com um pouco de televisão. Holly mexeu nos controles da tela do casulo até encontrar o de brilho. Colocou o ajuste no máximo. A imagem de Opala branqueou num bloco de luz ofuscante.

— Depressa — aconselhou Artemis, puxando a manga de Holly. O primeiro troll estava na metade da ponte, seguindo pelo resto do grupo precariamente equilibrado. Era a fila de conga mais peluda do mundo.

Holly envolveu o telecasulo com os braços.

— Isso provavelmente não vai dar certo — falou. Artemis se posicionou atrás dela.

— Eu sei, mas não há outra opção.

— Tudo bem. Mas se não conseguirmos, lamento por você não se lembrar. É bom estar com um amigo num momento desses.

Artemis apertou o ombro dela.

— Se passarmos por essa, seremos amigos. Ligados pelo trauma.

Agora a ilhota estava se sacudindo. Crânios eram deslocados de seus apoios, caindo na água. Os trolls estavam quase em cima deles, abrindo caminho pela passagem precária, guinchando a cada gota d’água que caía em seu pêlo. Os que ainda estavam na margem batiam no chão com os punhos, com compridas cordas de saliva pendendo dos maxilares.

Holly esperou até o último momento, para causar efeito máximo. A tela do telecasulo estava encostada no monte de lixo, de modo que os animais que se aproximavam não faziam idéia do que viria.

— Holly? — disse Artemis, ansioso.

— Espere — sussurrou ela. — Só mais uns segundos.

O primeiro troll da fila chegou à ilha. Era obviamente o líder do grupo. Esticou-se, ficando com quase três metros, balançando a cabeça hirsuta e uivando para o céu artificial. Então pareceu notar que Artemis e Holly não eram de fato trolls fêmeas, e uma fúria selvagem tomou conta de seu cérebro minúsculo. Gotas de veneno pingaram de suas presas e ele inverteu as garras para cortar de baixo para cima. O golpe mortal preferido dos trolls era por baixo das costelas. Assim rasgavam o coração rapidamente e não davam tempo para a carne endurecer.

Mais trolls se apinharam na ilhota, ansiosos para participar da matança ou conseguir uma nova companheira. Holly escolheu esse momento para agir. Virou o telecasulo para cima, apontando a tela luminosa diretamente para o troll mais próximo. A criatura recuou, gadanhando a luz odiada como se fosse um inimigo sólido. A luz acertou as retinas do troll, fazendo-o cambalear para trás, de encontro aos companheiros. Um grupo dos animais caiu no rio. O pânico se espalhou pela fila, como um vírus. As criaturas reagiam à água como se fosse ácido e batiam no pêlo ao mesmo tempo em que recuavam depressa para a margem. Não era uma retirada organizada. Qualquer coisa no caminho era retalhada ou mordida. Jorros de veneno e sangue voavam, e a água borbulhava como se estivesse fervendo. Os uivos de luxúria dos trolls se transformaram em gritos de agonia e terror.

Isso não pode ser real, pensou Artemis Fowl atordoado. Devo estar alucinando. Talvez esteja em coma, depois da queda da janela do hotel. E como seu cérebro deu essa explicação plausível, as lembranças continuaram trancadas.

— Agarre meu cinto — ordenou Holly, avançando pela ponte improvisada. Artemis obedeceu instantaneamente. Não estava na hora de discutir liderança. De qualquer modo, se houvesse a mínima possibilidade de isso estar mesmo acontecendo, a capitã Short era mais qualificada para cuidar daquelas criaturas.

Holly segurava o telecasulo como se fosse um canhão a laser portátil, avançando passo a passo pela ponte improvisada. Artemis tentava se concentrar em manter o equilíbrio sobre o terreno traiçoeiro. Os dois saltavam de pedra em pedra, balan-çando-se como equilibristas novatos na corda bamba. Holly girava o telecasulo, mirando em trolls por todos os ângulos.

São muitos, pensou Artemis. São muitos. Jamais conseguiremos.

Mas não havia futuro em desistir. Por isso continuaram, dando dois passos para a frente e um para trás.

Um animal hábil se abaixou, evitando o movimento de Holly numa das direções. Em seguida estendeu a garra, rasgando o invólucro à prova d’água do casulo. Holly cambaleou para trás, derrubando Artemis. Os dois caíram no rio, espirrando a água rasa.

Artemis sentiu o ar saindo dos pulmões e respirou por instinto. Infelizmente engoliu mais água do que ar. Holly manteve os cotovelos firmes, de modo que o invólucro do casulo rompido ficou fora do rio. Algumas gotas entraram na rachadura e fagulhas começaram a surgir na tela.

Ela lutou para ficar de pé, ao mesmo tempo em que apontava a tela para o troll. Artemis levantou-se atrás, tossindo água dos pulmões.

— A tela foi danificada—ofegou Holly. — Não sei quanto tempo temos.

Artemis afastou os cabelos de cima dos olhos.

— Vá — disse ofegante. — Vá.

Seguiram pela água, rodeando os trolls que espadanavam. Holly escolheu um ponto livre na margem para sair. Era um alívio estar em terra seca de novo, mas pelo menos a água havia ajudado; agora estavam realmente em território de trolls.

O resto dos animais os rodeou a uma distância segura. Sempre que um chegava perto demais, Holly girava o telecasulo em sua direção e a criatura recuava como se tivesse sido ferida.

Artemis lutava contra o frio, a fadiga e o choque no organismo. O tornozelo estava doendo, onde o troll o havia lanhado.

— Temos de ir direto para o templo — falou com os dentes trincados. — Subir o andaime.

— Tudo bem. Fique firme.

Holly respirou fundo várias vezes, juntando forças. Seus braços estavam cansados de segurar o telecasulo, mas ela não deixaria a exaustão surgir no rosto, nem o medo. Olhava os trolls direto nos olhos vermelhos e deixava claro que os monstros estavam enfrentando um inimigo formidável.

— Pronto?

— Pronto — respondeu Artemis, embora não fosse exatamente verdade.

Holly respirou fundo uma última vez e atacou. Os trolls não estavam esperando essa tática. Afinal de contas, que tipo de criatura atacaria um troll? Eles romperam as fileiras diante do arco de luz e seu desconcerto durou apenas o bastante para Artemis e Holly atravessarem a abertura na fileira.

Subiram a encosta em direção ao templo. Holly não tentou evitar os trolls, correndo direto para eles. Quando ficavam numa cegueira temporária, as criaturas só causavam mais confusão entre elas próprias. Uma dezena de brigas violentas irrompeu depois da passagem de Holly e Artemis, enquanto os animais se cortavam acidentalmente com garras afiadas como navalhas. Alguns trolls mais inteligentes aproveitaram a oportunidade para resolver velhas diferenças. As brigas se espalharam pela planície numa reação em cadeia, até que toda a área era uma confusão de animais se retorcendo e poeira.

Artemis grunhia e bufava subindo a ravina, os dedos envolvendo o cinto de Holly. A respiração da capitã Short havia se estabelecido num ritmo firme e rápido. Não estou em forma física, pensou Artemis. E isso pode me custar caro. Preciso exercitar mais do que o cérebro, no futuro. Se eu tiver um futuro.

O templo se erguia à frente deles, um modelo em escala, mas mesmo assim com mais de 15 metros de altura. Dezenas de colunas idênticas erguiam-se até as nuvens holográficas, sustentando um teto triangular decorado com intricados moldes de gesso. As partes inferiores das colunas tinham milhares de marcas de garras, onde trolls mais jovens haviam subido em busca de segurança. Artemis e Holly subiram os cerca de vinte degraus até as colunas.

Felizmente não havia trolls nos andaimes. Todos os animais estavam ocupados tentando matar uns aos outros ou tentando não ser mortos, mas era apenas questão de segundos antes que se lembrassem de que havia intrusos. Carne fresca. Não eram muitos os trolls que haviam provado carne de elfo, mas os que tinham estavam loucos para experimentar de novo. Apenas um dos que estavam ali havia provado carne humana, e a lembrança da doçura ainda assombrava seu cérebro obtuso à noite.

Foi esse troll em particular que saiu do rio carregando dez quilos extras de umidade. Casualmente deu um cascudo num filhote que havia chegado perto demais e farejou o ar. Havia um cheiro novo. Um cheiro que ele recordava do curto tempo passado sob a lua. Cheiro de humano. O mero reconhecimento do cheiro fez com que a saliva brotasse das glândulas na garganta. Partiu numa corrida em direção ao templo. Logo havia um grupo de feras famintas disparando para o andaime.

— Estamos de volta ao menu — observou Holly quando chegou ao andaime.

Artemis soltou os dedos do cinto da capità da LEP. Teria respondido, mas seus pulmões exigiam oxigênio. Sugou jorros de ar, apoiando os punhos nos joelhos.

Holly segurou seu cotovelo.

— Não temos tempo para isso, Artemis. Você precisa subir.

— Depois de você — conseguiu ofegar Artemis. Sabia que >eu pai jamais permitiria que uma dama permanecesse em perigo enquanto ele fugia.

— Não temos tempo para discutir — disse Holly, guiando Artemis pelo cotovelo. — Suba em direção ao sol. Vou ganhar alguns segundos com o telecasulo. Vá.

Artemis olhou nos olhos de Holly para agradecer. Eram redondos, amendoados e... familiares? Lembranças lutavam para se libertar, batendo contra paredes de células.

— Holly? — disse ele.

Holly o girou de frente para o andaime, e o instante se foi.

— Suba. Você está perdendo tempo.

Artemis forçou os membros exaustos, tentando coordenar os movimentos. Pisar, segurar, puxar. Deveria ser bem fácil. Já havia subido em escadas de mão. Pelo menos em uma. Sem dúvida.

As barras do andaime eram cobertas de borracha para facilitar o apoio, e eram espaçadas a intervalos de exatamente quarenta centímetros, distância confortável para as criaturas medianas do Povo. E, por coincidência, a distância confortável para um humano de quatorze anos. Artemis começou a subir, sentindo o esforço nos braços antes de ter superado seis degraus. Era cedo demais para estar cansado. Faltava muito.

— Venha, capitã — ofegou por cima do ombro. — Suba.

— Ainda não. — Holly estava de costas para o andaime e tentava encontrar algum padrão nos grupos de trolls que se aproximavam.

Houvera um curso sobre ataques de trolls na Delegacia Plaza. Mas, no caso, era de um contra um. Para eterno embaraço de Holly, o palestrante usara um vídeo de sua luta com um troll na Itália há mais de dois anos. “Este”, dissera o palestrante congelando a imagem de Holly na tela grande e batendo nela com uma ponteira, “é um exemplo clássico de como não fazer.”

Agora era uma situação totalmente diversa. Eles jamais tinham recebido instruções sobre o que fazer quando fossem atacados por toda uma matilha de trolls em seu próprio hábitat. Ninguém seria tão estúpido, observaram os instrutores.

Havia dois grupos convergindo, vindo diretamente para ela. Um do rio, liderado por um verdadeiro monstro com veneno anestésico pingando das duas presas. Holly sabia que bastaria uma gota daquele veneno sob sua pele para ela cair num estupor feliz. E mesmo que escapasse das garras do troll, o veneno lento acabaria paralisando-a.

O segundo grupo se aproximava pela crista a oeste, composto principalmente por retardatários e filhotes. Havia algumas fêmeas no centro do templo, mas estavam se aproveitando da distração para pegar carne de carcaças abandonadas.

Holly baixou o ajuste de luminosidade do telecasulo. Precisaria de uma noção de tempo exata para conseguir o efeito máximo. Era a última chance que teria, porque assim que começasse a subir, não poderia mirar de novo.

Os trolls subiram correndo os degraus do templo, lutando para ficar na frente. Os dois grupos se aproximavam em ângulo reto, ambos voltados diretamente para Holly. Os líderes se lançaram de uma distância, decididos a dar a primeira mordida na intrusa. Seus lábios recuavam, revelando fileiras de dentes carnívoros, e os olhos se concentravam apenas no alvo. E foi então que Holly agiu. Pôs o ajuste de luminosidade no máximo e queimou as retinas dos dois monstros enquanto ainda estavam no ar. Com uivos cortantes, eles tentaram golpear a luz odiada e caíram no chão numa confusão de braços, garras, presas e dentes. Cada troll presumiu que estava sendo atacado por um grupo rival, e em segundos a base do andaime era um caos de violência primitiva.

Holly aproveitou a confusão, saltando com agilidade os três primeiros degraus da estrutura metálica. Prendeu o telecasulo no cinto, apontando diretamente para baixo como um canhão de popa. Não servia muito como proteção, mas era melhor do que nada.

Em instantes havia alcançado Artemis. A respiração do garoto humano estava entrecortada e seu progresso era lento. Um lento fio de sangue escorria da ferida no tornozelo. Holly poderia ter passado por ele facilmente, mas em vez disso prendeu um dos braços nas barras da escada e verificou a situação dos trolls. Muito bem. Um deles, relativamente pequeno, escalava as barras com a agilidade de um gorila das montanhas. Suas presas imaturas mal se projetavam além dos lábios, mas eram afiadas e o veneno se juntava em gotas ao longo das pontas. Holly virou a tela para ele, e o bicho soltou os degraus para proteger os olhos queimados. Um elfo teria inteligência suficiente para se segurar com uma das mãos e usar o outro antebraço para proteger os olhos, mas os troll não têm QI muito maior do que as minhocas-de-cheiro, e agem quase completamente por instinto.

O pequeno troll caiu em terra, pousando no tapete peludo que se retorcia embaixo. Foi instantaneamente arrastado na confusão. Holly voltou a subir, sentindo o telecasulo bater nas pernas. O progresso de Artemis era dolorosamente lento, e em menos de um minuto ela estava junto ao ombro dele.

— Você está bem?

Artemis assentiu, os lábios comprimidos. Mas os olhos estavam arregalados, à beira do pânico. Holly já vira esse olhar, no rosto de policiais da LEP estressados pela batalha. Precisava levar o Garoto da Lama para a segurança antes que ele perdesse a sanidade.

— Venha, Artemis. Só mais alguns degraus. Vamos conseguir.

Artemis fechou os olhos por cinco segundos, respirando fundo pelo nariz. Quando os abriu de novo eles brilhavam com nova decisão.

— Muito bem, capitã. Estou pronto.

Estendeu a mão para a barra seguinte, puxando-se mais quarenta centímetros para perto da salvação. Holly foi atrás, instigando-o como um sargento durante o treino.

Demoraram mais um minuto para chegar ao telhado. Nesse ponto os trolls tinham se lembrado do que estavam caçando e haviam começado a escalar o andaime. Holly arrastou Artemis para o teto inclinado e eles foram de quatro até o ponto mais alto. O gesso era branco e sem marcas. À luz fraca, parecia que estavam andando num campo nevado.

Artemis parou. A visão tinha despertado uma vaga lembrança.

— Neve — falou inseguro. — Lembro alguma coisa... Holly segurou seu ombro, arrastando-o para a frente.

— É, Artemis. O Ártico, lembra? Vamos conversar longamente sobre isso mais tarde, quando não houver trolls tentando nos comer.

Artemis voltou ao presente.

— Muito bem. Boa tática.

O teto do templo subia num ângulo de quarenta graus em direção ao orbe de cristal que era o sol de mentira. Os dois se arrastaram o mais depressa que os membros exaustos de Artemis permitiam. Uma trilha de sangue marcava o caminho pelo gesso branco. O andaime se sacudia e batia contra o telhado enquanto os trolls chegavam mais perto.

Holly montou na cumeeira e estendeu a mão para o sol de cristal. A superfície era lisa sob seus dedos.

— D’Arvit! — xingou. — Não consigo encontrar a entrada de energia. Deveria haver um soquete externo.

Artemis se arrastou para o outro lado. Não tinha particularmente medo de altura, mas mesmo assim tentou não olhar para baixo. Não era necessário sofrer de vertigem para se preocupar com uma queda de 15 metros e uma matilha de trolls furiosos. Esticou-se para cima, sondando o globo com os dedos de uma das mãos. O indicador encontrou uma pequena reentrância.

— Achei alguma coisa — anunciou.

Holly foi até o seu lado, examinando o buraco.

— Bom. Uma entrada de energia externa. As células de energia têm pontos de conexão padronizados, por isso as células das algemas devem se encaixar.

Tirou as algemas do bolso e abriu as coberturas das células. As células propriamente ditas eram mais ou menos do tamanho de cartões de crédito e tinham um brilho azul por toda a extensão.

Holly se levantou na cumeeira afiada, equilibrando-se habilmente nas pontas dos dedos. Agora os trolls vinham pela borda do telhado. Avançando como cães do inferno.

O teto de gesso branco foi coberto pelos tons pretos, castanhos e avermelhados dos pêlos dos trolls. Os uivos e o fedor os precediam enquanto se aproximavam de Holly e Artemis.

Holly esperou até estarem todos acima da borda, então enfiou as células de energia no soquete do globo. O globo zumbiu, vibrou e piscou uma vez. Uma parede ofuscante de luz. Por um momento toda a região do templo luziu num branco brilhante, depois o globo se apagou de novo com um zumbido agudo.

Os trolls rolaram como bolas numa mesa de bilhar inclinada. Alguns caíram pela borda do telhado, mas a maioria se juntou na extremidade, onde ficaram deitados, gemendo e cocando a cara.

Artemis fechou os olhos para acelerar o retorno da visão noturna.

— Eu esperava que a célula alimentasse o globo por mais tempo. Pareceu muito esforço para um adiamento tão curto.

Holly tirou as células e as jogou de lado.

— Acho que um globo assim precisa de muita potência. Artemis piscou, depois sentou-se confortavelmente no telhado, apertando os joelhos.

— Mesmo assim. Temos algum tempo. As criaturas noturnas podem demorar até quinze minutos para recuperar a orientação depois da exposição à luz forte.

Holly sentou-se ao lado.

— Fascinante. De repente você está muito calmo.

— Não tenho escolha— respondeu Artemis simplesmente. — Analisei a situação e concluí que não há como escaparmos. Estamos em cima de um ridículo modelo do templo de Artemis, rodeados por trolls temporariamente cegos. Assim que eles se recuperarem, vão saltar aqui e nos devorar. Temos talvez quinze minutos para sobreviver, e não tenho intenção de gastá-los com histeria para diversão de Opala Koboi.

Holly olhou para cima, examinando o hemisfério em busca de câmeras. Pelo menos uma dúzia de luzes indicadoras vermelhas piscavam na escuridão. Opala podia ver sua vingança por todos os ângulos.

Artemis estava certo. Opala adoraria se eles fossem despedaçados diante das câmeras. Provavelmente passaria o vídeo para se animar quando o fato de ser princesa do mundo ficasse muito estressante.

Holly recuou o braço e jogou as células de energia gastas, que deslizaram pelo telhado. Parecia que era o fim. Sentia-se mais frustrada do que apavorada. A ordem final de Julius tinha sido salvar Artemis, e ela não conseguira fazer nem isso.

— Sinto muito por você não se lembrar do Julius — falou. — Vocês dois discutiam um bocado, mas no fundo ele o admirava. Mas era de Butler que ele gostava realmente. Aqueles dois estavam no mesmo comprimento de onda. Dois velhos soldados.

Abaixo deles os trolls estavam se reunindo. Piscando para afastar as estrelas dos olhos.

Artemis espanou um pouco do pó das calças.

— Eu lembro, Holly. Lembro de tudo. Especialmente de você. É um verdadeiro conforto ter você aqui.

Holly ficou surpresa. Até chocada. Mais pelo tom de voz de Artemis do que pelo que ele tinha dito, mas isso também era surpreendente. Nunca vira Artemis tão caloroso, tão sincero. Em geral as demonstrações emocionais eram difíceis para o garoto, e ele tropeçava desajeitado diante delas. Isto não se parecia nem um pouco com ele.

— É muita gentileza, Artemis — disse, depois de pensar um momento. — Mas não precisa fingir.

Artemis ficou perplexo.

— Como você sabia? Achei que tinha retratado as emoções perfeitamente.

Holly olhou para os trolls amontoados. Vinham subindo cautelosos, de cabeça baixa para o caso de um segundo clarão.

— Ninguém é tão perfeito assim. Por isso eu soube. Agora os trolls estavam correndo, balançando os antebraços peludos para aumentar o ímpeto. A medida que a confiança retornava, o mesmo acontecia com as vozes. Os uivos para o teto ricocheteavam na estrutura de metal. Artemis puxou os joelhos para perto do queixo. Era o fim. Acabou-se. Inconcebível morrer desse jeito, quando havia tanto por fazer.

O uivo tornava difícil se concentrar. O cheiro também não ajudava.

Holly segurou o ombro dele.

— Feche os olhos, Artemis. Você não vai sentir nada. Mas Artemis não fechou os olhos. Em vez disso olhou para cima. Para o alto, onde seus pais esperavam notícias suas. Pais que nunca tinham tido a oportunidade de realmente se orgulharem dele.

Abriu a boca para sussurrar um adeus, mas o que viu no alto fez as palavras engasgarem na garganta.

— Aí está a prova — disse ele. — Tem de ser alucinação. Holly olhou para cima. Uma parte do painel hemisférico tinha sido retirada e uma corda estava sendo baixada em direção ao teto do templo. Balançando na corda havia algo parecido com um traseiro nu e extremamente peludo.

— Não acredito! — exclamou Holly, pulando de pé. — Você teve a gentileza de vir aqui!

Parecia estar conversando com um traseiro. E depois, mais espantosamente, o traseiro pareceu responder.

— Também te amo, Holly. Agora feche qualquer coisa que estiver aberta, porque vou sobrecarregar os sentidos desses trolls.

Por um momento o rosto de Holly ficou inexpressivo, então a percepção a fez arregalar os olhos e tirou o sangue de suas bochechas. Ela agarrou Artemis pelos ombros.

— Deite-se com as mãos sobre os ouvidos. Feche os olhos e a boca. E, independentemente de qualquer coisa, não respire.

Artemis se deitou no telhado.

— Diga que há uma criatura do outro lado daquele traseiro.

— Há. Mas é com o traseiro que temos de nos preocupar.

Neste ponto os trolls estavam a segundos de distância. Suficientemente perto para Holly e Artemis verem o vermelho de seus olhos e os anos de sujeira presa em cada dreadlock.

Acima, Palha Escavator (porque obviamente era ele) soltou um suave busca-pé de vento pelo traseiro. Só o bastante para o impelir num círculo suave na ponta da corda. O movimento circular era necessário para garantir uma liberação homogênea do gás que ele pretendia soltar. Assim que terminou três voltas, concentrou-se e soltou cada bolha de gás que estava em seu estômago inchado.

Como os trolls são por natureza criaturas de túneis, são guiados tanto pelo olfato quanto pela visão noturna. Um troll cego pode sobreviver por anos orientando-se apenas pelo olfato até a comida e os suprimentos de água.

A súbita liberação de gás reciclado de Palha lançou um milhão de mensagens olfativas conflitantes no cérebro de cada troll. O cheiro era bastante ruim, e o vento foi suficiente para empurrar para trás os dreadlocks dos trolls, mas a combinação de cheiros no gás do anão, inclusive argila, vegetação, insetos e tudo mais que Palha havia comido nos últimos dias, bastou para provocar um curto-circuito em todo o sistema nervoso dos trolls. Eles desmoronaram de joelhos, segurando as pobres cabeças doloridas com as mãos em garras. Um deles estava tão perto de Artemis e Holly que seu antebraço peludo pousou nas costas da capitã da LEP.

Holly se retorceu, saindo de baixo do membro.

— Vamos — disse puxando Artemis de pé. — O gás não vai derrubar os trolls por mais tempo do que a luz.

Acima, os giros de Palha estavam ficando mais lentos.

— Obrigado — disse ele com uma reverência teatral, o que não é fácil numa corda. O anão subiu pela corda, segurando-se com os dedos dos pés e das mãos, depois baixou-a para Artemis e Holly.

— Pulem — disse ele. — Depressa. Artemis testou a corda com ceticismo.

— Sem dúvida essa criatura é pequena demais para puxar nós dois lá para cima.

Holly pôs o pé num laço na ponta da corda.

— É, mas ele não está sozinho.

Artemis forçou a vista para o buraco no teto. Outra figura tinha aparecido na abertura. Suas feições estavam nas sombras, mas a silhueta era inconfundível.

— Butler! — disse ele sorrindo. — Você está aqui.

E de repente, apesar de tudo, Artemis se sentiu totalmente em segurança.

— Depressa, Artemis — gritou o guarda-costas. — Não podemos perder nem um segundo.

Artemis subiu na corda ao lado de Holly e Butler puxou-os rapidamente para longe do perigo.

— E então? — disse Holly, com o rosto a centímetros do dele. — Sobrevivemos. Isso significa que somos amigos agora? Ligados pelo trauma?

Artemis franziu a testa. Amigos? Será que tinha espaço na vida para uma amiga? Mas, afinal de contas, será que existia opção?

— Sim — respondeu. — Tenho pouca experiência nesta área, portanto talvez precise ler um pouco a respeito.

Holly revirou os olhos.

— A amizade não é ciência, Garoto da Lama. Esqueça um minuto seu cérebro enorme. Só faça o que achar certo.

Artemis não podia acreditar no que ia dizer. Talvez a em-polgação de sobreviver estivesse afetando seu julgamento.

— Acho que eu não deveria ser pago para ajudar uma amiga. Guarde seu ouro do Povo. Opala Koboi tem de ser impedida.

Holly sorriu com calor genuíno pela primeira vez desde a morte do comandante, mas havia uma pontada de aço ali também.

— Com nós quatro atrás dela, Opala não tem chance.

 

PALHA TINHA deixado o transporte roubado da LEP no portão do parque temático. Fora simples para Butler desligar as câmeras do parque e retirar uma parte meio apodrecida do teto do hemisfério para fazer o resgate.

Quando voltaram ao lançador, Holly ligou os motores e fez uma verificação do sistema.

— O que diabos estava fazendo, Palha? — perguntou, espantada com as leituras do computador. — O computador disse que você veio até aqui embaixo em primeira marcha.

— Havia marchas?—perguntou o anão?—Achei que essa carroça tinha câmbio automático.

— Alguns pilotos preferem marchas. É antiquado, eu sei, mas dá mais controle nas curvas. E outra coisa, você não precisava fazer aquele negócio do gás na corda. Tem um monte de granadas de atordoamento no depósito de armas.

— Esse negócio tem um depósito também? Marchas e depósitos. Bem, eu não fazia idéia.

Butler estava fazendo um exame geral em Artemis.

— Você parece bem — disse, pondo a palma enorme no peito do garoto. — Vejo que Holly consertou suas costelas.

Artemis estava meio atordoado. Agora que se encontrava fora de perigo imediato, os acontecimentos do dia o atingiram. Quantas vezes uma pessoa podia enganar a morte em vinte e quatro horas? Sem dúvida suas chances estavam diminuindo.

— Diga, Butler — sussurrou para os outros não ouvirem. — Isso tudo é verdade? Ou uma alucinação? — Ao mesmo tempo em que as palavras saíam de seus lábios, Artemis percebeu que era uma pergunta impossível. Se tudo fosse alucinação, seu guarda-costas também era um sonho.

— Eu recusei ouro, Butler — continuou, ainda incapaz de aceitar seu gesto grandioso. — Eu. Recusei ouro.

Butler sorriu, e era muito mais o sorriso de um amigo do que de um guarda-costas.

— Isso não me surpreende nem um pouco. Você estava se tornando bastante caridoso antes do apagamento mental.

Artemis franziu a testa.

— Claro que você diria isso, se fizesse parte da alucinação. Palha estava entreouvindo a conversa e não pôde resistir a um comentário.

— Você não sentiu o cheiro da coisa que eu atirei nos trolls? Acha que aquilo pode ser alucinação, Garoto da Lama?

Holly acionou os motores.

— Segurem-se aí atrás — gritou por cima do ombro. — Está na hora de ir. Os sensores captaram alguns lançadores fazendo varredura nos poços locais. As autoridades estão procurando por nós. Precisamos ir para algum lugar fora dos mapas.

Holly pisou de leve no acelerador e os ergueu suavemente do chão. Se o lançador não tivesse escotilhas, talvez os passageiros não notassem a decolagem.

Butler cutucou Palha.

— Viu isso? Isso é uma decolagem. Espero que você tenha aprendido alguma coisa.

O anão ficou tremendamente ofendido.

— O que será que preciso fazer para ter um pouco de respeito aqui? Vocês todos estão vivos por minha causa, e só recebo ingratidão.

Butler riu.

— Tudo bem, amigo. Desculpe. Nós lhe devemos a vida, e eu, pelo menos, nunca vou esquecer.

Artemis acompanhou com curiosidade essa conversa.

— Deduzo que você lembrou tudo, Butler. Se, por um momento, eu aceitar esta situação como realidade, é que sua memória deve ter sido estimulada. Será que por acaso deixei algo para trás?

Butler tirou o disco laser do bolso.

— Ah, sim, Artemis. Neste disco havia uma mensagem para mim. Você deixou uma para si mesmo, também,

Artemis pegou o disco,

— Até que enfim. Uma conversa inteligente.

Artemis achou um pequeno banheiro na parte de trás do veículo. O toalete propriamente dito só era para ser usado numa emergência e o assento era feito de um material esponjoso que, segundo Palha garantiu, destruiria qualquer dejeto que passasse. Artemis decidiu testar o filtro em outra ocasião e se sentou numa pequena laje perto da escotilha.

Havia uma tela de plasma na parede, presumivelmente para diversão no banheiro. Ele só precisava enfiar o disco de computador no drive embaixo da tela, e suas lembranças do Povo lhe seriam devolvidas. Todo um mundo novo. Um mundo velho,

Girou o disco entre o polegar e o indicador. Psicologicamente falando, se colocasse esse disco na máquina significava que alguma parte dele aceitava a verdade daquilo tudo. Colocar o disco na fenda poderia jogá-lo mais fundo em algum tipo de episódio psicótico. Não colocar poderia condenar o mundo a uma guerra entre espécies. Os mundos das criaturas das fadas e o humano iriam colidir.

O que meu pai faria!, perguntou-se.

Pôs o disco na fenda,

Dois arquivos apareceram na tela, marcados com GIFs animadas em 3-D, algo que o sistema do povo das fadas obviamente havia acrescentado. Ambos tinham nomes em inglês e na língua do Povo. Artemis escolheu seu arquivo tocando a cobertura transparente da tela de plasma. O arquivo brilhou em cor laranja e depois se expandiu para encher a tela. Artemis se viu na mansão Fowl, sentado à sua mesa no escritório.

— Olá — disse o Artemis na tela. — Que bom você me ver. Sem dúvida esta será a primeira conversa inteligente que você tem há algum tempo.

O verdadeiro Artemis sorriu.

— Correto.

— Fiz um segundo de pausa aqui — continuou o Artemis da tela. — Para lhe dar a chance de responder, qualificando isto como uma conversa. Não haverá mais pausas, já que o tempo é limitado. A capitã Holly Short está lá embaixo sendo distraída por Juliet, mas sem dúvida virá me verificar logo. Neste momento partimos para Chicago, para cuidar do sr. Jon Spiro, que roubou uma coisa de mim. O preço para a ajuda das criaturas das fadas neste caso é um apagamento mental. Todas as lembranças do Povo serão apagadas para sempre, a não ser que eu deixe uma mensagem para meu eu futuro, provocando assim a lembrança. Esta é a mensagem. O vídeo a seguir contém detalhes específicos de meu envolvimento com o povo das fadas. Espero que esta informação faça os caminhos cerebrais brilharem de novo.

Artemis cocou a testa. Os vagos clarões misteriosos persistiam. Era como se o cérebro estivesse pronto para reconstruir os caminhos. Só precisava do estímulo certo.

— Concluindo — disse o Artemis na tela. — Gostaria de desejar a você, eu mesmo, toda a sorte do mundo. E bem-vindo.

A hora seguinte se passou num borrão. Imagens piscavam na tela, grudando-se a espaços vazios no cérebro de Artemis. Cada lembrança parecia correta no instante em que Artemis a processava.

Claro, pensou. Isso explica tudo. Mandei fazer as lentes de contato espelhadas para poder mentir para as criaturas e esconder a existência desta gravação. Mexi no mandado de busca de Palha Escavator para que ele pudesse me devolver o disco. Butler parece mais velho porque está mais velho; a cura feita pelas criaturas em Londres salvou sua vida, mas lhe custou quinze anos.

Nem todas as lembranças traziam orgulho. Seqüestrei a capitã Short. Aprisionei Holly. Como pude fazer isso?

Não podia negar mais. Era tudo verdade. Tudo que seus olhos tinham visto era real. As criaturas existiam e sua vida es-tivera entrelaçada com a delas por mais de dois anos. Um milhão de imagens brotava na consciência, reconstruindo pontes elétricas no cérebro. Elas piscavam como estroboscópio por trás dos olhos, numa demonstração confusa de cor e espanto. Uma mente menor do que a de Artemis poderia ficar absolutamente exausta, mas o garoto irlandês estava empolgado.

Agora sei de tudo, pensou. Derrotei Koboi antes, e farei isso de novo. Esta determinação foi alimentada pela tristeza. O comandante Raiz se foi. Koboi o tirou de seu Povo.

Artemis sabia disso antes, mas agora significava alguma coisa.

Havia outro pensamento, mais persistente do que o resto. Que se chocou contra o cérebro como um tsunami.

Eu tenho amigos?, pensou Artemis Fowl Segundo. Eu tenho amigos.

Saiu do banheiro como se fosse outra pessoa. Fisicamente ainda estava espancado, arranhado e exausto, mas emocionalmente sentia-se preparado para tudo que havia adiante. Se um analista de linguagem corporal o estudasse naquele momento, observaria os ombros relaxados e as palmas abertas, e concluiria que aquele indivíduo, psicologicamente falando, era mais afá-vel e digno de confiança do que o que tinha entrado no banheiro há uma hora.

O lançador estava estacionado num poço secundário, fora das vias principais, e os ocupantes continuavam à mesa de refeições. Vários pacotes de ração da LEP tinham sido abertos e devorados. A maior pilha de embalagens laminadas estava na frente de Palha Escavator.

Palha olhou para Artemis e notou a mudança imediatamente.

— Já estava na hora de você colocar ordem na cabeça — grunhiu ele, lutando para se levantar da cadeira. — Preciso ir urgentemente àquele banheiro.

— Prazer em vê-lo também, Palha — respondeu Artemis, ficando de lado para o anão passar.

Holly se imobilizou, com uma embalagem de suco a caminho da boca.

— Você se lembra dele? Artemis sorriu.

— Claro, Holly. Nós nos conhecemos há mais de dois anos. Holly saltou da cadeira e segurou os ombros de Artemis.

— Artemis. É fantástico ver você. O você verdadeiro. Os deuses sabem que precisamos de Artemis Fowl agora mesmo.

— Bem, ele está pronto para o serviço, capitã.

— Você se lembra de tudo?

— Sim. Lembro, E em primeiro lugar peço desculpas por aquele negócio de consultor. Foi muita grosseria. Por favor, perdoe.

— Mas o que fez você lembrar? — perguntou ela. — Não diga que uma visita ao banheiro estimulou sua memória.

— Não, exatamente. — Artemis levantou o disco de computador. — Eu dei isso a Palha. É o meu diário em vídeo. Ele deveria me devolver assim que fosse solto da cadeia.

Holly balançou a cabeça.

— Não é possível. Palha foi revistado por especialistas, A única coisa que você lhe deu foi o medalhão de ouro.

Artemis virou o disco para captar a luz,

— É claro — gemeu Holly, batendo na testa. — Você disfarçou esse disco como o medalhão de ouro. Muito inteligente.

Artemis deu de ombros.

— Na verdade é genial. Vendo agora, parece apenas inteligente, mas a idéia original foi pura genialidade.

Artemis inclinou a cabeça.

— Genial. Claro. Acredite ou não, senti falta desse riso.

Artemis respirou fundo.

— Sinto muito pelo Julius. Sei que nosso relacionamento não era exatamente sólido, mas eu sentia respeito e admiração pelo comandante.

Holly enxugou os olhos com as costas das mãos. Não disse nada, apenas assentiu. Se Artemis precisasse de mais um motivo para ir atrás de Opala Koboi, a visão da capitã elfo tão perturbada foi o suficiente.

Butler comeu o conteúdo de um pacote de ração de uma vez só.

— Agora que nos reconhecemos, vamos achar Opala Koboi. O mundo é grande.

Artemis balançou os dedos, desconsiderando.

— Não precisa. Sei exatamente onde está nossa ex-futura assassina. Como todos os megalomaníacos, ela tem tendência a se exibir. — O garoto foi até um teclado de computador na parede e baixou um mapa da Europa.

— Vejo que está lembrando do gnomês — fungou Holly.

— Claro. — Artemis ampliou parte do mapa. — Opala revelou um pouquinho mais de seu plano do que imaginava. Deixou duas palavras escaparem, mas uma bastaria. Disse que seu nome humano era Belinda Zito. Bom, se você quisesse guiar os humanos até o Povo das Fadas, quem melhor para adotá-la do que o renomado bilionário ambientalista Giovanni Zito?

Holly foi para perto da tela.

— E onde encontraríamos o dr. Zito?

Artemis digitou algumas teclas, dando um zoom na Sicília.

— Em sua mundialmente famosa FazendaTerra. Bem aqui, na província de Messina.

Palha enfiou a cabeça para fora do banheiro. O resto estava misericordiosamente escondido atrás da porta.

— Ouvi você falar de um Homem da Lama chamado Zito? Holly se virou para o anão, depois continuou girando.

— Sim. E daí? E, pelo amor dos deuses, feche a porta. Palha puxou a porta de modo a restar apenas uma fresta.

— Eu estava assistindo à televisão humana aqui, como vocês costumam fazer. Bem, há um tal de Zito na CNN. Acham que é a mesma pessoa?

Holly pegou um controle remoto na mesa.

— Espero realmente que não. Mas aposto minha vida que é. Um grupo de cientistas apareceu na tela. Estavam reunidos no que parecia um laboratório pré-fabricado e todos usavam jalecos brancos. Um se destacava do resto. Tinha quarenta e poucos anos, a pele bronzeada, feições fortes e bonitas e cabelos compridos e escuros se encaracolando sobre a gola. Usava óculos sem aro e jaleco. Uma camisa Versace, de listas, se projetava por baixo das lapelas brancas.

— Giovanni Zito — disse Artemis.

— É incrível, realmente — estava dizendo Zito a um repórter num inglês com leve sotaque. — Podemos mandar veículos a outros planetas, no entanto não temos idéia do que há embaixo de nossos pés. Os cientistas podem dizer qual é a estrutura química dos anéis de Saturno, mas não sabemos honestamente o que há no centro de nosso próprio planeta.

— Mas já foram mandadas sondas antes — disse o repórter, tentando dar a impressão de que não tinha acabado de receber esta informação pelo ponto eletrônico no ouvido.

— Sim — concordou Zito. — Mas somente até uma profundidade de cerca de 15 quilômetros. Precisamos chegar ao núcleo externo, a cerca de 3 mil quilômetros de profundidade. Imagine se as correntes de metal líquido do núcleo externo pudessem ser utilizadas. Naquele metal há energia grátis suficiente para alimentar para sempre as máquinas da humanidade.

O repórter estava cético. Pelo menos o cientista de verdade que falava em seu ponto eletrônico o mandou parecer cético.

— Mas isso tudo é especulação, dr. Zito. Sem dúvida uma viagem ao centro da terra não passa de fantasia. Só é possível nas páginas da ficção.

Uma breve irritação nublou as feições de Giovanni Zito.

— Não é fantasia, rapaz, garanto. Não é uma viagem fantástica. Estamos mandando uma sonda não tripulada, cheia de sensores. Descobriremos o que quer que haja lá embaixo.

Os olhos do repórter se arregalaram de pânico quando uma questão particularmente técnica veio pelo ponto eletrônico. Ele prestou atenção durante vários segundos, murmurando as palavras enquanto as ouvia.

— Dr. Zito, é... Essa sonda que o senhor está mandando, acredito que estará engastada em cem milhões de toneladas de ferro derretido a cerca de cinco mil e quinhentos graus Celsius. Correto?

— Perfeitamente — confirmou Zito.

O repórter pareceu aliviado.

— É. Eu sabia. De qualquer modo, o que quero dizer é que demoraria vários anos para acumular tanto ferro. Então por que pediu que viéssemos aqui hoje?

Zito bateu palmas empolgado.

— Esta é a parte maravilhosa. Como vocês sabem, a sonda do núcleo era um projeto de longo prazo. Eu tinha planejado acumular o ferro nos próximos dez anos. Mas agora perfurações a laser revelaram um profundo veio de hematita, ou minério de ferro, na borda inferior da crosta, aqui mesmo na Sicília. É incrivelmente rico, talvez com oitenta por cento de ferro. Só precisamos detonar várias cargas dentro daquele depósito e teremos nosso ferro derretido. Já garanti os direitos de mineração com o governo.

O repórter fez a pergunta seguinte sozinho:

— Então, dr. Zito, quando vai detonar?

Giovanni Zito tirou dois charutos grossos do bolso do jaleco.

— Detonaremos hoje — disse ele, entregando um charuto ao repórter. — Dez anos antes. Este é um momento histórico. — Zito abriu as cortinas do escritório, revelando uma área cercada no terreno cheio de arbustos, abaixo da janela. Uma seção metálica de tubo se projetava da terra no meio do cercado de um metro de largura. Enquanto eles observavam, uma equipe de trabalhadores saiu de dentro do tubo, afastando-se rapidamente. Fiapos de gás refrigerante brotaram em espirais de dentro do tubo. Os homens subiram num carrinho de golfe e deixaram a área. Buscaram abrigo num bunker de concreto no perímetro.

— Há vários megatons de TNT enterrados em pontos estratégicos dentro do veio de minério — explicou Zito. — Se fossem detonados na superfície, causariam um terremoto que chegaria a sete na escala Richter.

O repórter engoliu em seco,

— É mesmo? Zito riu.

— Não se preocupe. As cargas são direcionadas. A explosão é focalizada para baixo e para dentro. O ferro será liqüefeito e começará a descer para o centro da terra, levando com ele a sonda. Não sentiremos nada.

— Para baixo e para dentro? Tem certeza?

— Tenho. Estamos perfeitamente seguros aqui.

Na parede atrás do cientista italiano, um alto-falante guin-chou três vezes.

— Dottore Zito — disse uma voz rouca. — Tudo limpo. Tudo limpo.

Zito pegou sobre a mesa um detonador preto, por controle remoto.

— Chegou a hora — disse ele em voz sonhadora. E olhou direto para a câmera. — Adorada Belinda, isto é para você.

Zito apertou o botão e esperou, arregalado. Os outros ocupantes da sala, cerca de doze cientistas e técnicos, viraram-se ansiosos para vários painéis de instrumentos e monitores.

— Detonado — anunciou um deles.

Mil e seiscentos metros abaixo da superfície, quarenta e duas cargas direcionadas explodiram, liqüefazendo simultaneamente 118 milhões de toneladas de ferro. O conteúdo de rocha foi pulverizado e absorvido pelo metal. Uma coluna de fumaça saiu da abertura cilíndrica, mas não houve vibração detectável.

— A sonda está funcionando cem por cento — disse um técnico.

Zito soltou o ar.

— Essa era nossa grande preocupação. Mesmo que a sonda seja projetada exatamente para essas condições, o mundo jamais viu esse tipo de explosão antes. — Ele se virou para outro técnico. — Algum movimento?

Abaixo da crosta da terra, uma montanha de ferro e rocha começou a descida vagarosa para o núcleo. Ela se sacudia e borbulhava, chiando, rasgando o manto abaixo. Dentro da massa derretida, uma sonda do tamanho de uma laranja grande continuava a transmitir dados.

Uma euforia espontânea irrompeu no laboratório. Homens e mulheres se abraçavam. Charutos foram acesos e rolhas de champanhe espocaram. Alguém até pegou um violino.

— Estamos a caminho — gritou Zito em júbilo, acendendo o charuto do repórter. — O homem está indo para o centro da terra. Cuidado aí embaixo!

No lançador roubado da LEP, Holly congelou a imagem. As feições triunfantes de Zito se espalharam na tela.

— Cuidado aí embaixo — repetiu ela, carrancuda. — O homem está vindo para o centro da terra.

O estado de espírito de todos no lançador ia de sombrio a desolado. Holly estava achando aquilo particularmente difícil. Toda a civilização do Povo era ameaçada de novo, e desta vez o comandante Raiz não estava presente para enfrentar o desafio. E não era apenas isso. Como os casulos de perseguição da LEP tinham estourado os sistemas de comunicação, não havia como alertar Potrus sobre a sonda.

— Não tenho dúvida de que ele já sabe — disse Artemis. — Aquele centauro monitora todos os canais de noticiários humanos.

— Mas ele não sabe que Opala Koboi está dando a Zito seu conhecimento. — Ela apontou para a imagem de Giovanni na tela. — Olhem os olhos dele. O coitado foi mesmerizado tantas vezes que suas pupilas estão em frangalhos.

Artemis cocou o queixo, pensativo.

— Se eu conheço Potrus, ele vem monitorando este projeto desde o início. Provavelmente já tem um plano de contingência.

— Tenho certeza de que sim. Um plano de contingência para um esquema furado que aconteceria daqui a dez anos e provavelmente nunca daria certo.

— Claro — concordou Artemis. — Em vez de um esquema cientificamente viável, agora mesmo, que tem toda a probabilidade de dar certo.

Holly foi para a cabine de comando.

— Tenho de me apresentar, mesmo sendo suspeita de assassinato. Há mais coisas em risco do que o meu futuro.

— Calma aí — discordou Palha. — Eu fugi da prisão por sua causa. Não quero ser jogado lá dentro de novo.

Artemis postou-se na frente dela.

— Espere um minuto, Holly. Pense no que acontecerá se você se entregar.

— Artemis está certo — acrescentou Butler. — Você deveria pensar nisso. Se a LEP for como a polícia humana, os fugitivos não são exatamente recebidos de braços abertos. Mais provavelmente será com portas de celas abertas.

Holly se obrigou a parar e pensar, mas foi difícil. Cada segundo que esperava era outro segundo para a gigantesca lesma de ferro abrir caminho pelo manto.

— Se eu me entregar ao Departamento de Assuntos Internos, serei presa. Como oficial da LEP, posso ser mantida por setenta e duas horas sem advogado. Como suspeita de assassinato, posso ser mantida por até uma semana. Mesmo que alguém acredite que sou totalmente inocente, e que Opala Koboi estava por trás de tudo isso, levaria pelo menos oito horas para autorizarem uma operação. Mas com toda a probabilidade minhas afirmações seriam vistas como os protestos comuns de uma pessoa culpada. Em especial com vocês três apoiando minha história. Sem ofensa.

— Não me ofendi — disse Palha.

Holly sentou-se, apoiando a cabeça nas mãos.

— Meu mundo acabou completamente. Fico pensando que haverá uma volta, mas as coisas só giram cada vez mais fora de controle.

Artemis pôs a mão no ombro dela.

— Coragem, capitã. Pergunte-se, o que o comandante faria?

Holly respirou fundo três vezes, depois saltou da cadeira, de novo cheia de determinação.

— Não tente me manipular, Artemis Fowl. Eu tomo minhas próprias decisões. Mesmo assim, Julius cuidaria pessoalmente de Opala Koboi. Portanto é o que faremos.

— Excelente — respondeu Artemis. — Nesse caso, precisaremos de uma estratégia.

— Certo. Eu piloto o veículo; você coloca esse seu cérebro para trabalhar e bola um plano.

— Cada um na sua — disse o garoto. Em seguida sentou-se numa das cadeiras do lançador, massageou suavemente as têmporas com as pontas dos dedos e começou a pensar.

 

O PLANO de Opala, de juntar o mundo dos homens e o das criaturas das fadas, era de execução simples, mas de concepção genial. Ela simplesmente tornou mais fácil para um humano fazer o que ele já pensava. Quase toda grande empresa de energia do mundo tinha um documento sobre sondas de núcleo, mas todas as idéias eram hipotéticas, considerando a quantidade de explosivos necessária para arrebentar a crosta e o ferro necessário para fazer a sonda atravessar o manto.

Opala escolheu Giovanni Zito em sua lista de possíveis marionetes devido a duas coisas: Zito tinha uma grande fortuna e terras exatamente acima de um gigantesco veio de hematita de alta qualidade.

Giovanni Zito era um engenheiro siciliano, pioneiro no campo de fontes de energia alternativa. Ambientalista engajado, desenvolveu modos de gerar eletricidade sem exaurir a terra nem destruir o meio ambiente. A invenção que fez sua fortuna foi o moinho solar Zito. Um moinho de vento com painéis solares no lugar das pás, tornando-o muitas vezes mais eficiente do que os moinhos convencionais.

Seis semanas antes, Zito voltara de um encontro de ambientalistas em Genebra, onde fez a palestra principal para ministros da União Européia. Quando chegou à sua propriedade às margens do Estreito de Messina, o sol estava soltando manchas laranja na água e Giovanni estava exausto. Era difícil falar com políticos. Mesmo os que se interessavam genuinamente pelo ambiente eram impedidos pelos que estavam nos bolsos dos grandes empresários. Os poluíticos, como a mídia os apelidara.

Giovanni tomou um banho de banheira. A água era aquecida por painéis solares no telhado. De fato, toda a propriedade era auto-suficiente em energia. Havia potência suficiente nas baterias solares para manter a casa aquecida e iluminada por seis meses. Tudo isso com emissão zero de poluentes.

Depois do banho, Zito se enrolou num roupão e se serviu de uma taça de Bordeaux, acomodando-se em sua poltrona predileta.

Tomou um longo gole de vinho, esforçando-se para evaporar a tensão do dia. Lançou o olhar para a fileira familiar de fotos emolduradas na parede. A maioria era de capas de revistas comemorando suas inovações técnicas, mas a predileta, que o tornara famoso, era a capa da revista Time mostrando um jovem Giovanni Zito montando uma baleia corcunda, com um navio baleeiro erguendo-se acima dos dois. A criatura infeliz tinha se desgarrado para águas rasas e não podia mergulhar. Por isso Zito saltou de um barquinho de ambientalistas para as costas da criatura, protegendo-a dos arpÕes dos baleeiros. Alguém no barquinho tirou uma foto, e essa foto se tornou uma das imagens mais famosas da mídia do século passado.

Zito sorriu. Dias intensos. Já ia fechar os olhos para um rápido cochilo antes do jantar quando algo se moveu nas sombras no canto da sala. Algo pequeno, praticamente da altura da mesa.

Zito se empertigou na poltrona.

— O que é isso? Tem alguém aí?

Um abajur se acendeu, revelando uma menina empoleirada num banquinho feito de tronco. Segurava o fio da lâmpada e não parecia nem um pouco amedrontada ou perturbada. Na verdade a garota estava calma e composta, olhando Zito como se ele é que fosse o intruso.

Giovanni se levantou.

— Quem é você, menina? Por que está aqui?

A garota o encarou com os olhos mais incríveis. Profundos e castanhos. Profundos como um barril de chocolate.

— Estou aqui por você, Giovanni — disse ela numa voz linda como os olhos. Na verdade, tudo na garota era lindo. As feições de porcelana. E os olhos. Os olhos não o soltavam.

Zito lutou contra o feitiço.

— Por mim? O que quer dizer? Sua mãe está por aqui? A garota sorriu.

— Não, não está por aqui. Agora você é minha família. Giovanni tentou entender aquela frase simples, mas não conseguiu. Será que era realmente importante? Aqueles olhos, aquela voz. Tão melódica! Camadas de cristal tilintando.

Os humanos reagem de modo diferente ao mesmer das criaturas. A maioria cai imediatamente sob o feitiço hipnótico, mas há alguns com mente forte que precisam ser empurrados um pouco. E, quanto mais são empurrados, maior o risco de dano cerebral.

— Sou sua família agora?—perguntou Zito devagar, como se estivesse examinando cada palavra em busca do significado.

— Sim, humano — reagiu Opala, impaciente, forçando mais. — Minha família. Sou sua filha, Belinda. Você me adotou no mês passado, em segredo. Os documentos estão na sua escrivaninha.

Os olhos de Giovanni perderam o foco.

— Adotada? Escrivaninha?

Opala tamborilou os dedinhos na base do abajur. Tinha esquecido como alguns humanos podiam ser chatos, especialmente sob o mesmer. E este era supostamente um gênio.

— É. Adotada. Escrivaninha. Você me ama mais do que sua própria vida, lembra? Faria absolutamente qualquer coisa por sua amada Belinda.

Uma lágrima brotou na pálpebra de Zito.

— Belinda. Minha menininha. Eu faria qualquer coisa por você, querida, qualquer coisa.

— É, é, é — disse Opala, impaciente. — Claro. Eu disse isso. Só porque você está mesmerizado não significa que tenha de repetir tudo que eu digo. É cansativo demais.

Zito notou duas pequenas criaturas no canto. Criaturas com orelhas pontudas. Esse fato penetrou na fuga do mesmer.

— Sei. Ali. Eles são humanos?

Opala olhou irritada para os irmãos Brill. Os dois deveriam ficar fora de vista. Mesmerizar uma mente forte como a de Zito era uma operação suficientemente delicada sem que houvesse distrações.

Acrescentou outra camada à voz.

— Você não consegue ver aquelas criaturas. Não vai vê-las de novo.

Zito ficou aliviado.

— Claro. Bom. Absolutamente nada. Mente aprontando.

Opala deu um muxoxo. O que é que havia com a gramática dos humanos? Ao primeiro sinal de tensão, saía pela janela. Mente aprontando. Imagina só!

— Bom, Giovanni, papai. Acho que precisamos falar de seu próximo projeto.

— O carro movido a água?

— Não, idiota. Não o carro movido a água. A sonda de núcleo. Sei que você projetou uma. Um bom projeto para um humano, mas farei mudanças.

— Sonda de núcleo. Impossível. Não pode passar crosta. Não ferro suficiente.

— Não pode passar/»^ crosta. Não temos ferro suficiente. Fale direito, pelo amor dos deuses. Já é um esforço falar a língua do Homem da Lama sem ouvir suas bobagens. Francamente, vocês, gênios humanos, não são nem um pouco o que alardeiam.

O cérebro assediado de Zito fez o esforço.

— Desculpe, adorada Belinda. Simplesmente quero dizer que o projeto da sonda de núcleo é de longo prazo. Terei de esperar até encontrar um meio prático de acumular o ferro e cortar a crosta da terra.

Opala olhou para o siciliano atordoado.

— Coitado do papaizinho estúpido. Você desenvolveu um superlaser para cortar a crosta. Não lembra?

Uma gota de suor escorreu pela bochecha de Zito.

— Um superlaser? Agora que você falou...

— E pode adivinhar o que vai achar quando fizer o corte? Zito podia. Parte de seu intelecto ainda era seu.

— Um veio de hematita? Teria de ser enorme. De alta pureza.

Opala o levou à janela. À distância, as pás dos moinhos de vento refletiam o brilho das estrelas.

— E onde você acha que deveríamos cavar?

— Acho que deveríamos cavar embaixo dos moinhos de vento — disse Zito, pousando a testa no vidro frio.

— Muito bem, papai. Se você cavar lá, eu ficarei feliz para sempre.

Zito deu um tapinha nos cabelos da diabrete.

— Feliz para sempre — disse sonolento. — Belinda, minha menina. Papéis na escrivaninha.

— Os papéis estão na escrivaninha — corrigiu Opala. — Se você insistir com essa fala de neném, terei de castigá-lo.

Ela não estava brincando.

 

Holly teve de ficar fora dos poços principais a caminho da superfície. Potrus tinha sensores monitorando todo o tráfego através das rotas comerciais e da LEP. Isso significava se orientar através de poços secundários e tortuosos, mas a alternativa era ser captada pelos equipamentos do centauro e ser arrastada de volta à Delegacia Plaza antes de fazer o serviço.

Desviava-se de estalactites do tamanho de arranha-céus e rodeava enormes crateras cheias de insetos bioluminescentes. Mas o instinto é que pilotava. Os pensamentos de Holly estavam a milhares de quilômetros dali. Parecia que o coração finalmente alcançava o corpo.

Todas as suas aventuras anteriores com Artemis eram quase como peripécias de histórias em quadrinhos comparadas à situação atual. Antes sempre foram do tipo felizes para sempre. Houvera alguns perigos extremos, mas todo mundo saíra vivo. Holly examinou o dedo de apertar o gatilho. Uma leve cicatriz envolvia a base, onde ele fora decepado durante a aventura no Ártico. Poderia ter curado a cicatriz ou coberto com um anel, mas preferia mantê-la onde pudesse ver. A cicatriz fazia parte dela. O comandante também fizera parte dela. Seu superior, seu amigo.

A tristeza a esvaziou, depois encheu de novo. Por um tempo, pensamentos de vingança a alimentaram. Mas agora nem mesmo a idéia de jogar Opala Koboi numa cela podia acender uma fagulha de alegria vingativa no coração. Continuaria garantindo que o Povo estivesse a salvo dos humanos. Talvez, quando esta tarefa acabasse, fosse hora de dar uma olhada em sua vida. Talvez houvesse algumas coisas que precisassem de mudança.

Artemis chamou todo mundo até a área de passageiros assim que terminou de trabalhar no computador. Suas lembranças novas-velhas estavam lhe dando um prazer imenso. Enquanto os dedos roçavam sobre o teclado gnomês, ele se maravilhava com a facilidade com que navegava na plataforma de informática das criaturas. Também se maravilhava com a tecnologia em si, mesmo não sendo mais estranha para ele. O garoto irlandês sentia a mesma empolgação da redescoberta que uma criança pequena tem ao encontrar por acaso o brinquedo preferido.

Na hora anterior, a redescoberta fora um tema importante em sua vida. Ter um tema importante durante uma hora não parece grande coisa, mas Artemis tinha um catálogo de lembranças, todas clamando para serem reconhecidas. As lembranças em si eram bastante espantosas: abordar um trem radiativo perto de Murmansk, voar sobre o oceano escondido sob tecido de camuflagem da LEP. Mas o que o interessava era o efeito cumulativo dessas lembranças. Ele podia se sentir literalmente virando outra pessoa. Não exatamente como era, mas mais perto daquele indivíduo. Antes que as criaturas tivessem apagado sua mente como parte do trato a respeito de Jon Spiro, sua personalidade estivera passando pelo que podia ser considerado uma mudança positiva. Tanto que ele decidira virar totalmente honesto e doar noventa por cento da enorme fortuna de Spiro para a Anistia Internacional. Depois do apagamento da mente, havia retornado aos velhos tempos, cedendo à paixão por atos criminosos. Agora estava em algum lugar no meio. Não tinha vontade de ferir nem magoar os inocentes, mas tinha dificuldade em abrir mão dos hábitos criminosos. Algumas pessoas simplesmente precisavam ser roubadas.

Talvez a maior surpresa fosse o desejo que sentia de ajudar seus amigos do Povo e a verdadeira tristeza pela perda de Julius Raiz. Artemis não era estranho à perda; em algumas ocasiões, perdera e encontrara todos os que lhe eram próximos. A morte de Julius o feriu tão fundo quanto qualquer uma daquelas perdas. Seu impulso para vingar o comandante e impedir Opala Koboi era mais poderoso do que qualquer ânsia criminosa que já havia sentido.

Sorriu consigo mesmo. Parecia que o bem era uma motivação mais poderosa do que o mal. Quem imaginaria isso?

O resto do grupo se reuniu em volta do projetor holográfico central. Holly tinha estacionado o transporte no piso de um poço secundário perto da superfície.

Butler foi obrigado a se agachar na nave de tamanho adequado para as criaturas.

— Bem, Artemis, o que você descobriu? — perguntou o guarda-costas, tentando cruzar os braços enormes sem derrubar alguém menor.

Artemis ativou uma animação holográfica que girou lentamente no meio da câmara. A animação mostrava um corte da terra, da crosta ao núcleo. O garoto ligou um ponteiro a laser e começou seu discurso.

— Como vocês podem ver, há uma distância de aproximadamente dois mil e novecentos quilômetros da superfície da terra até o núcleo externo.

Na projeção, o núcleo externo líquido redemoinhava e borbulhava com magma derretido.

— No entanto a humanidade jamais conseguiu penetrar mais do que quinze quilômetros na crosta. Para ir mais fundo, seria necessário o uso de ogivas nucleares, ou quantidades gigantescas de dinamite. Uma explosão dessa magnitude provavelmente geraria enormes movimentos nas placas tectônicas da terra, provocando terremotos e maremotos por todo o globo.

Como sempre, Palha estava comendo alguma coisa. Ninguém sabia o quê, já que ele tinha esvaziado o armário de comida há mais de uma hora. E ninguém queria perguntar.

— Isso não parece uma coisa boa.

— Não, não é — concordou Artemis. — Motivo pelo qual a teoria da sonda envolta em ferro jamais foi posta em prática até agora. A idéia original é de um neozelandês, o professor David Stevenson. É brilhante, na verdade, embora não seja prática. Envolva uma sonda reforçada em cem milhões de toneladas de ferro derretido. O ferro vai afundar pela rachadura gerada pelo explosivo, até mesmo fechando a rachadura atrás. Em uma semana o ferro chegará ao núcleo e a sonda vai se desintegrar aos poucos. Todo o processo é até seguro em termos ambientais,

A projeção transformou as palavras de Artemis em imagens.

— Por que o ferro não se des-derrete? — perguntou Palha. Artemis levantou uma sobrancelha comprida e fina.

— Des-derrete? O simples tamanho do veio de minério o impede de se solidificar.

Holly se levantou, entrando na projeção e examinando o veio de minério.

— Potrus deve saber tudo sobre isso. Os humanos não podem manter uma coisa tão grande em segredo.

— É verdade — disse Artemis, abrindo uma segunda projeção holográfica. — Fiz uma busca no banco de dados a bordo e encontrei o seguinte: Potrus fez várias simulações por computador há mais de oitenta anos. Concluiu que o melhor modo de lidar com a ameaça era simplesmente transmitir informações equivocadas para qualquer sonda que fosse mandada para baixo. Para os humanos, a sonda simplesmente afundaria por uns trezentos quilômetros através de vários minérios de baixa qualidade e depois o ferro iria se solidificar. Um fracasso retumbante e muito caro.

A simulação por computador mostrava a informação sendo transmitida de Porto para a sonda envolta em metal. Na superfície, cientistas de desenho animado cocavam a cabeça e rasgavam as anotações.

— Muito engraçado — disse Artemis. Butler estava examinando o holograma.

— Já estive em campanhas suficientes para saber que há um grande furo nessa estratégia, Artemis — disse ele.

— Sim?

Butler se esforçou para ficar de joelhos e traçou o caminho da sonda com o dedo.

— Bem, e se a viagem da sonda a pusesse em contato com um dos poços do Povo? Assim que o metal penetrar no poço, entrará numa viagem expressa até Porto.

Artemis ficou deliciado com a astúcia do guarda-costas.

— É. Claro. Motivo pelo qual há um lançador de ataque supersônico, a postos vinte e quatro horas por dia, para desviar toda a massa derretida, se houver necessidade. Todos os projetos humanos de sonda são monitorados, e se algum for considerado ameaça, é sabotado discretamente. Se isso não der certo, a unidade geológica da LEP faz um buraco sob a massa derretida e a desvia com algumas cargas direcionadas. O ferro segue o novo caminho aberto para ele e Porto fica em segurança. É claro que o transportador supersônico nunca foi usado.

— Há outro problema—acrescentou Holly. — Temos de colocar na equação o envolvimento de Opala. Ela obviamente ajudou Giovanni Zito a furar a crosta, possivelmente com um laser criado pelo Povo. Podemos imaginar que tenha melhorado a sonda para que os sinais falsos de Potrus não sejam aceitos. De modo que seu plano deve ser colocar a sonda em contato com o Povo. Mas como?

Artemis projetou uma terceira animação holográfica, desligando as duas primeiras. Essa representação em 3-D retratava a Fazenda Terra, de Zito, e a crosta e o manto por baixo.

— Acho que é o seguinte — disse ele. — Zito, com a ajuda de Opala, liqüefaz seu veio de ferro aqui. Este começa a afundar a uma taxa de cinco metros por segundo em direção ao núcleo da terra, fazendo leituras precisas graças às melhorias de Koboi. Enquanto isso, Potrus acha que seu plano está funcionando perfeitamente. Agora, a uma profundidade de cento e setenta quilômetros, a massa de metal chega a cinco quilômetros deste poço importante, o E7, que sai no sul da Itália. Os dois seguem paralelos por duzentos e noventa e nove quilômetros, depois se separam de novo. Se Opala quisesse abrir uma brecha entre os dois túneis, o ferro seguiria pelo caminho de menor resistência e jorraria no poço.

Holly sentiu as forças abandonarem seus membros.

— Para o poço, e direto até Porto.

— Exato — respondeu Artemis. — Esse poço específico segue numa diagonal irregular durante mil e novecentos quilômetros, chegando a quinhentos metros da cidade propriamente dita. Com a velocidade que ganhará com a queda livre, o ferro derretido cortará cerca de metade da cidade. Tudo que restará estará transmitindo sinais para o mundo ouvir.

— Mas temos paredes à prova de explosão — objetou Holly.

Artemis deu de ombros.

— Holly, não existe na terra uma força suficiente para parar cem milhões de toneladas de hematita derretida em queda livre. Qualquer coisa no caminho será obliterada. A maior parte do ferro vai fazer a curva e seguir o túnel, mas uma quantidade suficiente continuará descendo até atravessar as paredes antiexplosão.

Os ocupantes do veículo olhavam a simulação por computador, em que o ferro derretido atravessava as defesas da Cidade do Porto, permitindo que todos os sinais eletrônicos do Povo fossem captados pela sonda.

— Estamos diante de uma possibilidade de cinqüenta e oito por cento de baixas — disse Artemis. — Talvez mais.

— Como Opala poderá fazer isso sem que os sensores de Potrus captem?

— Simples. Ela meramente coloca uma carga direcionada no E7, a uma profundidade de cento e sessenta e sete quilômetros, detonando-a no último minuto. Desse modo, quando Potrus detectar a explosão, será tarde demais para desarmá-la ou fazer qualquer coisa.

— Então precisamos remover essa carga. Artemis sorriu. Se ao menos fosse tão simples!

— Opala não vai correr nenhum risco com a carga. Se ela a deixasse na parede do poço por qualquer tempo, um tremor poderia soltá-la, ou um dos sensores de Potrus poderia captar sua existência. Tenho certeza de que o dispositivo está bem isolado, mas um vazamento no invólucro o faria transmitir dados como um satélite. Não, Opala só colocaria a carga no último minuto.

Holly assentiu.

— Tem razão. Então esperamos até que ela a coloque, então desarmamos.

— Não. Se esperarmos no poço, Potrus vai nos captar. Se isso acontecesse, Opala nem se aventuraria a descer pelo poço.

— Isso é bom, não é?

— Na verdade, não. Podemos atrasá-la por algumas horas, mas lembre-se, Opala tem uma janela de trezentos e vinte quilômetros para colocar a carga. Ela pode esperar que a LEP nos prenda e ainda ter tempo suficiente para completar sua missão.

Holly apertou os olhos.

— Não entendo. Sem dúvida todo mundo deve saber que Opala fugiu. Sem dúvida Potrus pode deduzir tudo isso.

Artemis fechou o punho.

— Aí é que está. Esta única questão é a essência de toda a situação. Potrus obviamente não sabe que Opala fugiu. Ela seria a primeira pessoa a ser verificada depois da fuga do general goblin.

— Ela foi verificada. Eu estava lá. Quando Escamoto fugiu, Opala ainda estava catatônica. De jeito nenhum poderia ter planejado isso.

— No entanto planejou — disse Artemis. — Será que Opala poderia ter uma sósia?

— Não é possível. Eles fazem testes de DNA todo dia.

— Então a criatura que está sob vigilância tem o DNA de Opala, mas pouca ou nenhuma atividade cerebral.

— Exato. Ela está assim há um ano. Artemis pensou em silêncio por um minuto.

— Até onde será que a tecnologia de clonagem se desenvolveu no mundo subterrâneo?

Foi rapidamente até o terminal principal de computador e baixou os arquivos da LEP sobre o assunto.

— “O clone maduro é idêntico ao original em todos os sentidos, mas suas funções cerebrais são limitadas ao suporte de vida” — leu ele. — “Em condições de estufa, leva-se de um a dois anos para um clone crescer até ficar adulto.” — Artemis se afastou do computador, batendo palmas. — É isso. Foi assim que ela fez. Induziu o coma para que a substituição não fosse notada. Impressionante.

Holly bateu com o punho na outra mão.

— Então, mesmo que sobrevivêssemos aos atentados, toda a conversa sobre a fuga de Opala seria vista como papo furado de gente culpada.

— Eu disse a Chix Verbil que Opala tinha voltado — disse Palha. — Isso não tem problema, porque ele já acha que eu estava de papo furado.

— Com Opala à solta — continuou o garoto irlandês —, toda a LEP estaria procurando algum tipo de trama. Mas com Opala ainda no coma...

— Não há motivo para alarme. E a sonda é simplesmente uma surpresa, e não uma emergência.

Artemis desligou a projeção holográfica.

— Então estamos sozinhos. Precisamos roubar aquela última carga e detoná-la de modo inofensivo acima do trecho paralelo. Não só isso, mas precisamos expor Opala para ela não colocar simplesmente seu plano em ação de novo. Obviamente, para fazer isso, precisamos achar o lançador de Opala.

De repente Palha ficou pouco à vontade.

— Vocês vão atrás dela? Bem, desejo toda a sorte. Podem me deixar na próxima esquina.

Holly o ignorou.

— Quanto tempo temos?

Havia uma calculadora na tela de plasma, mas Artemis não precisou dela.

— O ferro derretido está descendo a uma velocidade de cinco metros por segundo. São dezessete quilômetros por hora. A essa velocidade, levaria aproximadamente nove horas e meia para chegar ao trecho paralelo.

— Nove horas a partir de agora?

— Não. A partir da detonação, que aconteceu há quase duas horas.

Holly foi rapidamente para a cabine e se prendeu no banco do piloto.

— Sete horas e meia para salvar o mundo. Não há alguma lei dizendo que precisamos ter pelo menos vinte e quatro?

Artemis sentou-se na cadeira do co-piloto e prendeu os cintos.

— Acho que Opala não se incomoda com leis. Bom, você consegue falar enquanto pilota? Há algumas coisas que preciso saber sobre lançadores e cargas.

 

TODO MUNDO na Delegacia Plaza só falava na sonda de Zito. Na verdade isso servia como distração dos acontecimentos recentes. A LEP não perdia muitos policiais no campo. E agora eram dois no mesmo turno. Potrus estava achando isso difícil, em especial a perda de Holly Short. Uma coisa era perder uma amiga no cumprimento do dever, mas essa amiga ser falsamente acusada de assassinato era insuportável. Potrus não suportava a idéia de que o Povo iria se lembrar de Holly para sempre como uma assassina fria. A capitã Short era inocente. E mais, era uma heroína condecorada e merecia ser lembrada como tal.

Uma tela de comunicação se acendeu em sua parede. Um dos assistentes técnicos da ante-sala surgiu. As orelhas pontudas do elfo estavam tremendo de empolgação.

— A sonda desceu cem quilômetros. Não acredito que os humanos chegaram tão longe.

Potrus acionou uma tela em sua parede. Também não acreditava. Em teoria, deveriam se passar décadas até que os humanos desenvolvessem um laser suficientemente sofisticado para furar a crosta sem fritar meio continente. Sem dúvida Giovanni Zito estava muito à frente e desenvolveu o laser sem se preocupar com as projeções de Potrus para sua espécie.

Potrus quase lamentou ter de acabar com o projeto de Zito. O siciliano era uma das maiores esperanças da raça humana. Seu plano de usar a energia do núcleo externo era bom, mas o custo era a revelação do Povo das Fadas, e esse era um preço alto demais a pagar.

— Fique de olho — disse ele, tentando parecer interessado. — Em especial quando ficar paralelo ao E7. Não prevejo nenhum problema, mas abra os olhos, só para garantir.

— Sim, senhor. Ah, e estamos com o capitão Verbil na linha dois, da superfície.

Uma minúscula fagulha de interesse iluminou os olhos do centauro. Verbil? O duende tinha permitido que Palha Escavator roubasse um transporte da LEP. Palha tinha escapado algumas horas depois de seus amigos da polícia serem mortos. Coincidência? Talvez. Talvez não.

Potrus abriu uma janela de comunicação com a superfície. Nela podia ver o peito de Verbil. Potrus suspirou.

— Chix! Você está pairando. Desça aonde eu possa vê-lo.

— Desculpe — respondeu Chix, pousando no chão. — Estou meio agitado. Encrenca Kelp me deu uma tremenda bronca.

— O que você quer, Chix? Um abraço e um beijo? Tenho coisas para fazer aqui.

As asas de Verbil balançaram atrás do corpo. Ficar no chão era um verdadeiro esforço.

— Tenho um recado para você, de Palha Escavator. Potrus lutou contra a ânsia de relinchar. Sem dúvida Palha teria algumas palavras especiais para ele.

— Então continue. Diga o que nosso amigo boquirroto pensa de mim.

— Isto fica só entre nós dois, está bem? Não quero ser aposentado com o argumento de que sou instável.

— Sim, Chix, fica entre nós. Todo mundo tem o direito a uma instabilidade temporária. Ainda mais hoje.

— Na verdade é ridículo. Não acredito nem por um minuto. — Chix tentou dar um risinho confiante.

Potrus falou com rispidez:

— O que é ridículo? Em que você não acredita? Conte, Chix, ou eu enfio a mão pelo canal de comunicação e arranco isso de você.

— Estamos num canal seguro?

— Sim! — gritou o centauro. — Estamos num canal seguro. Diga. Dê o recado de Palha.

Chix respirou fundo, dizendo as palavras enquanto soltava o ar.

— Opala Koboi voltou.

O riso de Potrus começou em algum lugar perto dos cascos e cresceu em volume e intensidade até explodir pela boca.

— Opala voltou! Koboi voltou! Saquei agora. Palha convenceu você a deixá-lo roubar o transporte. Aproveitou seu medo de Opala acordar e você engoliu. Opala voltou; não me faça rir.

— Foi o que ele disse — murmurou Chix, carrancudo. — Não precisa rir tanto. Você está cuspindo na tela. Eu tenho sentimentos, você sabe.

O riso de Potrus foi parando. De qualquer modo não era um riso verdadeiro, era só um jorro de emoção. Principalmente tristeza, com alguma frustração misturada.

— Tudo bem, Chix. Não é sua culpa. Palha enganou duendes mais espertos do que você.

Chix demorou um instante para perceber que estava sendo insultado.

— Poderia ser verdade — falou magoado. — Você poderia estar errado, impossível, você sabe. Talvez Opala Koboi tenha enganado você.

Potrus abriu outra janela na parede.

— Não, Verbil, não é possível. Opala não poderia ter voltado porque estou olhando para ela agora mesmo.

A conexão ao vivo da Clínica Argônio confirmava que Opala continuava suspensa em seu arnês, em coma. Tinha passado por testes de DNA havia alguns minutos.

A petulância de Chix desmoronou.

— Não acredito — murmurou ele. — Palha pareceu tão sincero! Cheguei a pensar que Holly estava correndo perigo.

A cauda de Potrus tremelicou.

— O quê? Palha disse que Holly estava correndo perigo? Mas Holly já era. Ela morreu.

— É — disse Chix, arrasado. — Acho que Palha só estava me fazendo uma mutreta cavalar. Sem ofensa.

Claro. Opala armaria para Holly ficar com a culpa da morte de Julius. Esse toquezinho cruel seria bem do estilo dela. Se não estivesse ali, no arnês. O DNA não mente jamais.

Chix bateu ao lado da tela, para atrair a atenção de Potrus.

— Escute, Potrus, lembre-se do que você prometeu. Isso fica entre nós. Ninguém mais precisa saber que fui enganado por um anão. Vou acabar limpando cozido de rato-do-campo na calçada depois dos jogos de esmagobol.

Potrus desligou distraidamente a janela.

— É, tudo bem. Fica entre nós. Certo.

Opala ainda estava em segurança. Sem dúvida. Na certa não poderia ter escapado. Se tivesse, talvez essa sonda fosse mais sinistra do que parecia. Ela não poderia ter escapado. Não era possível.

Mas o lado paranóico de Potrus não abandonava sua mente. Só para ter certeza, havia alguns testezinhos que ele poderia fazer. Na verdade precisaria de autorização, mas se estivesse errado, ninguém precisava saber. E se estivesse certo, ninguém se importaria com algumas horas de uso de computador.

Fez uma busca rápida no banco de dados de vigilância e escolheu as imagens do túnel de acesso onde Julius tinha morrido. Havia algo que queria verificar.

 

O lançador roubado foi em alta velocidade para a superfície. Holly voava o mais depressa que podia sem queimar a caixa de câmbio ou esmagá-los contra uma parede. O tempo podia ser essencial, mas a tripulação seria de pouca utilidade se tivesse de ser raspada da parede como patê amassado.

— Essas latas velhas são usadas principalmente para mudanças de turno de serviço — explicou Holly. — A LEP comprou esta de segunda mão, num leilão de objetos usados por criminosos. Foi modificada para evitar as naves da alfândega. Pertencia a um contrabandista de molho de pimenta.

Artemis fungou. Um leve odor avermelhado ainda pairava na cabine.

— Por que alguém iria contrabandear molho de pimenta?

— O molho extrapicante é ilegal em Porto. Morando no subsolo, temos de ter cuidado com as emissões, se entende o que quero dizer.

Artemis entendeu e decidiu não continuar com o assunto.

— Temos de localizar o lançador de Opala antes de nos aventurarmos na superfície e revelar nossa posição.

Holly parou perto de um pequeno lago de óleo preto, com os jatos de ar sob o transporte fazendo a superfície ondular.

— Artemis, acho que eu mencionei que é um lançador dissimulado. Nada pode detectá-lo. Não temos sensores sofisticados o bastante. Opala e seus capangas diabretes poderiam estar sentados no veículo na próxima curva, e nossos computadores não iriam captar.

Artemis se inclinou sobre os mostradores do painel.

— Você está abordando isso do modo errado, Holly. Nós temos de descobrir onde o transporte não está.

Artemis acionou vários sensores, procurando traços de certos gases num raio de cento e cinqüenta quilômetros.

— Acho que podemos presumir que o lançador invisível está bem perto do E7, talvez bem na boca; mas isso ainda nos deixa com muito terreno para cobrir, em especial se só pudermos contar com os olhos.

— É o que eu estava dizendo. Mas continue; tenho certeza de que você tem algum argumento.

— Então estou usando os sensores limitados deste transporte para examinar daqui até a superfície acima do poço, e uns quarenta e cinco quilômetros abaixo de nós.

— Examinar o quê? — perguntou Holly exasperada. — Um buraco no ar?

Artemis riu.

— Exato. Veja bem, o espaço normal é composto de vários gases: oxigênio, hidrogênio e assim por diante, mas o transporte invisível impediria que qualquer um deles fosse detectado dentro do casco do veículo. Portanto, se acharmos um pequeno trecho sem os gases normais do ambiente...

— Achamos o lançador invisível.

— Isso mesmo.

O computador terminou o exame rapidamente, mostrando na tela um modelo da área ao redor. Os gases apareciam na forma de várias cores em redemoinho.

Artemis instruiu o computador a procurar anomalias. Ele encontrou três: uma com saturação anormalmente alta de monóxido de carbono.

— Isso é provavelmente uma saída de ar. Tem muita fumaça de escapamento.

A segunda anomalia era uma grande área com apenas traços de gases.

— Um vácuo, provavelmente um centro de computadores — supôs Artemis.

A terceira anomalia era uma pequena área do lado de fora da borda do E7, que parecia não conter qualquer tipo de gás.

— É ela. O volume é exato. Está no lado norte da entrada do poço.

— Muito bem — disse Holly, dando-lhe um soco de leve no ombro. — Vamos lá.

— Você sabe, claro, que assim que pusermos o focinho no sistema de poços principais, Potrus vai nos captar.

Holly deu alguns segundos para o motor se aquecer.

— É tarde demais para se preocupar com isso. Porto está a mais de novecentos quilômetros abaixo. Quando alguém chegar aqui, já seremos heróis ou fora-da-lei.

— Já somos fora-da-lei — disse Artemis.

— E. Mas logo poderemos ser fora-da-lei sem ninguém nos perseguindo.

 

Opala Koboi voltou. Seria possível? A idéia beliscava a mente organizada de Potrus, desenrolando qualquer cadeia de pensamento que ele tentasse compor. Não encontraria paz até ter certeza. De um modo ou de outro.

O primeiro local para procurar eram os vídeos do E37. Se alguém presumisse que Opala Koboi estava mesmo viva, vários detalhes poderiam ser explicados. Em primeiro lugar a névoa estranha que aparecia em todas as fitas não era simplesmente interferência, e sim uma coisa produzida para esconder algo. A perda de sinal de áudio também poderia ter sido orquestrada por Koboi para encobrir qualquer diálogo entre Holly e Julius no túnel. E a calamitosa explosão poderia ser coisa de Koboi, e não de Holly. A possibilidade trouxe uma paz tremenda a Potrus, mas ele a conteve. Ainda não tinha provado nada.

Passou a fita por vários filtros, sem resultado. A estranha parte borrada se recusava a entrar em foco, a ser clonada ou mudada de lugar. Isso, em si, era incomum. Se o ponto borrado fosse apenas um problema de computador, Potrus deveria ser capaz de fazer alguma coisa a respeito. Mas o trecho indistinto se mantinha firme, repelindo tudo que era tentado.

Você pode ter coberto todas as possibilidades de alta tecnologia, pensou o centauro, mas e quanto à boa e velha baixa tecnologia?

Potrus adiantou o vídeo até momentos antes da explosão. O trecho borrado havia se transferido para o peito de Julius e, de fato, algumas vezes o comandante parecia estar olhando para ele. Haveria um instrumento explosivo ali? Nesse caso poderia ter sido detonado por controle remoto. O sinal de interferência provavelmente era mandado a partir do mesmo controle remoto. O comando de detonação suplantaria todos os outros sinais, inclusive o de interferência. Isso significava que, talvez por um milésimo de segundo antes da detonação, o que quer que estivesse no peito de Julius ficaria visível. Não o suficiente para ser capturado pelo olhar de uma criatura do Povo, mas uma câmera veria muito bem.

Potrus adiantou o vídeo até a explosão e começou a recuar, quadro a quadro. Era um trabalho agonizante ver o amigo ser restaurado pelo filme passado ao contrário. O centauro tentou ignorar isso e se concentrar no trabalho. As chamas se encolheram de plumas laranja para fagulhas brancas, por fim se contendo num minissol laranja. Então, num único quadro, algo apareceu. Potrus passou por ele, depois voltou. Ali! No peito de Julius, bem onde estava o borrão. Um tipo de dispositivo.

Os dedos de Potrus apertaram o controle de ampliação. Havia um painel de metal com trinta centímetros de lado, preso por octoligas ao peito de Julius. A imagem fora captada pela câmera num único quadro. Menos de um milésimo de segundo, motivo pelo qual tinha passado despercebido pelos investigadores. Na face do painel havia uma tela de plasma. Alguém estivera se comunicando com o comandante antes de ele morrer. Esse alguém não queria ser ouvido por outras pessoas, daí a interferência de áudio. Infelizmente agora a tela estava vazia, já que o sinal de detonação que cortou a interferência também cortaria a conexão de vídeo.

Mas sei quem é, pensou Potrus. Opala Koboi, de volta do limbo.

No entanto, precisava de prova. A palavra do centauro valia tanto para Ark Sool quanto um anão negando que havia soltado pum.

Olhou para a imagem transmitida ao vivo do Instituto Argônio. Lá estava ela. Opala Koboi, ainda em coma. Aparentemente.

Como você fez isso?, pensou Potrus. Como pôde trocar de lugar com outra criatura?

Cirurgia plástica não adiantaria. Cirurgia não alterava o DNA. Potrus abriu uma gaveta em sua mesa e tirou um equipamento parecido com dois minúsculos desentupidores de pia. Havia apenas um modo de descobrir o que estava acontecendo. Teria de perguntar diretamente a Opala Koboi.

Quando Potrus chegou ao instituto, o dr. Argônio relutou em deixá-lo entrar no quarto de Opala.

— A srta. Koboi está em catatonia profunda — disse o gnomo em tom petulante. — Quem sabe que efeitos seus instrumentos terão sobre a psique dela? É difícil, talvez impossível, explicar a um leigo os danos que estímulos intrusivos podem causar numa mente em recuperação.

Potrus relinchou.

— Você não teve problema para deixar as equipes de TV entrarem. Acho que elas pagam melhor do que a LEP. Espero que não esteja começando a ver Opala como sua posse pessoal, doutor. Ela é prisioneira do Estado e posso mandar transferi-la para uma instalação estadual quando quiser.

— Talvez só uns cinco minutos — disse Jerbal Argônio, digitando o código de segurança da porta.

Potrus passou por ele batendo os cascos e largou sua pasta na mesa. Opala balançou suavemente na corrente de ar que entrou pela porta. E realmente parecia ser Opala. Mesmo de perto, com as feições em foco, Potrus poderia jurar que era sua antiga adversária. A mesma Opala que havia competido com ele por cada prêmio na faculdade. A mesma Opala que praticamente tivera sucesso em culpá-lo pela revolta dos goblins.

— Tire-a daí — ordenou ele.

Argônio posicionou uma maça sob o arnês, reclamando a cada passo.

— Eu não deveria estar fazendo esforço físico — gemeu. — É o meu quadril. Ninguém sabe a dor que sinto. Ninguém. Os feiticeiros não podem fazer nada por mim.

— Você não tem funcionários para esse tipo de coisa?

— Normalmente tenho — respondeu Argônio, baixando o arnês. — Mas meus zeladores estão de licença. Os dois ao mesmo tempo. Normalmente eu não deixaria, mas é difícil arranjar bons empregados diabretes.

As orelhas de Potrus se eriçaram.

— Diabretes? Seus zeladores são diabretes?

— Sim. Nós temos muito orgulho deles, chegam a ser celebridades, você sabe. Os gêmeos diabretes. E, claro, eles têm o maior respeito por mim.

As mãos de Potrus tremiam enquanto pegava seu equipamento. Tudo parecia estar se encaixando. Primeiro Chix, depois o estranho dispositivo no peito de Julius, agora zeladores diabretes que estavam de licença. Só precisava de mais uma peça do quebra-cabeça.

— O que você tem aí? — perguntou Argônio ansioso. — Nada que possa causar dano, não é?

Potrus inclinou para trás a cabeça da diabrete inconsciente.

— Não se preocupe, Argônio. É só uma Retimagem. Não vou passar dos olhos.

Ele abriu um dos olhos da duende-diabrete de cada vez, prendendo os copos dos minidesentupidores em volta dos globos oculares.

— Toda imagem é gravada nas retinas. Isso deixa uma trilha de micromarcas que podem ser melhoradas e lidas.

— Sei o que é uma Retimagem — respondeu Argônio, irritado. — Eu leio publicações científicas ocasionalmente, você sabe. Então você saberá o que foi a última coisa que Opala viu. De que isso vai adiantar?

Potrus ligou os instrumentos a um computador na parede.

— Veremos — falou, querendo parecer mais enigmático do que desesperado.

Abriu o programa da Retimagem na tela de plasma e duas imagens escuras apareceram.

— Olhos esquerdo e direito — explicou Potrus, batendo numa tecla até que as duas imagens se sobrepusessem. Era obviamente uma cabeça vista de lado, mas estava escura demais para identificar.

— Aah, que inteligência — disse Argônio com sarcasmo. — Será que devo chamar as redes de TV? Ou será que devo somente desmaiar de espanto?

Potrus o ignorou.

— Clarear e aumentar a resolução — disse ao computador. Um pincel gerado por computador passou pela tela, deixando uma imagem mais nítida e clara.

— É uma diabrete—murmurou Potrus. — Mas ainda não tem detalhes suficientes. — Em seguida cocou o queixo. — Computador, compare essa imagem com a da paciente Koboi, Opala.

Uma imagem de Opala surgiu numa janela separada. Em seguida mudou de tamanho e girou até estar no mesmo ângulo da primeira. Setas vermelhas saltaram entre as imagens, ligando-se a pontos idênticos. Depois de alguns instantes, o espaço entre as duas imagens foi completamente coberto por linhas vermelhas.

— Essas duas imagens são da mesma pessoa? — perguntou Potrus.

— Afirmativo — disse o computador. — Mas há uma possibilidade de zero vírgula cinco por cento de erro.

Potrus apertou o botão de imprimir.

— Vou aceitar a probabilidade.

Argônio chegou mais perto da tela, como se estivesse atordoado. Seu rosto estava pálido e empalideceu ainda mais ao perceber as implicações da imagem.

— Ela se viu de lado — sussurrou ele. — Isso significa...

— Que havia duas Opala Koboi — completou Potrus. — A verdadeira, que você deixou escapar. E esta casca aqui, que só pode ser...

— Um clone.

— Exato — respondeu Potrus, pegando a cópia na impressora. — Ela mandou fazer um clone de si mesma, depois seus zeladores saíram valsando com Opala daqui, embaixo de seu nariz.

— Minha nossa!

— Minha nossa não é bem o caso. Talvez agora seja um bom momento para chamar as redes de TV ou desmaiar de espanto.

Argônio aceitou a segunda opção, desmoronando frouxo no piso. A súbita evaporação de seus sonhos de fama e fortuna era demais para suportar de uma vez só.

Potrus passou por cima dele e galopou até a Delegacia Plaza.

 

Opala Koboi estava com dificuldade para ser paciente. Tinha esgotado a última gota de paciência na Clínica Argônio. E agora queria que as coisas acontecessem ao seu comando. Infelizmente, cem milhões de toneladas de hematita só afundam na terra a cinco metros por segundo, e não há muito que se possa fazer a respeito.

Decidiu passar o tempo assistindo a Holly Short morrer. Quem ela pensava que era, com seu cabelo curto e os lábios bonitinhos? Opala se olhou numa superfície reflexiva. Isso é que era beleza de verdade. Isso é que era um rosto que merecia sua própria moeda, e provavelmente era o que ela faria em breve.

— Mervall — disse rispidamente. — Traga-me o disco do Onze Maravilhas. Preciso de algo para me animar.

— Agora mesmo, srta. Koboi — respondeu Merv. — Gostaria que eu terminasse de preparar a refeição primeiro ou quer que eu leve o disco agora?

Opala olhou para seus próprios olhos no reflexo.

— O que foi que eu disse?

— Para levar o disco.

— Então o que acha que deveria fazer, caríssimo Mervall?

— Acho que deveria levar o disco.

— Gênio, Merval. Puro gênio.

Merv saiu da quitinete do transporte e ejetou um disco do gravador. O computador tinha o filme gravado no disco rígido, mas a srta. Koboi gostava de ter suas imagens preferidas em disco, para se animar onde quer que estivesse. Dentre essas estavam o colapso nervoso de seu pai, o ataque contra a Delegacia Plaza e Potrus abrindo o berreiro na cabine de operações. Merv entregou o disco.

— E? — perguntou a diabrete minúscula.

Merv ficou pasmo por um momento, depois se lembrou. Um dos mandamentos de Opala era que os irmãos Brill deveriam fazer uma reverência quando se aproximassem da líder. Ele engoliu o orgulho e se curvou.

— Melhor. Agora você não deveria estar preparando o jantar?

Merv recuou, ainda fazendo a reverência. Havia um bocado de orgulho sendo engolido por ali nas últimas horas. Opala estava infeliz com o nível de serviço e respeito demonstrado pelos irmãos Brill, por isso determinara uma série de regras. Dentre as diretrizes, estavam a reverência mencionada, jamais olhá-la nos olhos, sair do lançador para soltar pum e não falar alto demais a menos de três metros da patroa.

— Porque eu sei o que vocês estão pensando — dissera Opala numa voz grave e trêmula. — Posso ver seus pensamentos fazendo redemoinho em volta da cabeça. Neste momento estão maravilhados em ver como sou linda.

— Incrível — ofegou Merv, ao mesmo tempo em que tinha o pensamento traidor de que havia alguns parafusos a menos na cabeça dela. Opala estava saindo seriamente dos trilhos com esse negócio de trocar de espécie e dominar o mundo. Melo e ele já a teriam abandonado, se a patroa não tivesse prometido que eles poderiam ficar com Barbados quando ela fosse Rainha da Terra. Isso e o fato de que, se a abandonassem agora, Opala acrescentaria os irmãos Brill à sua lista de vingança.

Merv recuou para a cozinha e continuou com os esforços para preparar a comida sem tocar nela. Outra regra nova. Enquanto isso, Melo estava na área de carga verificando os relês dos detonadores nas últimas duas cargas direcionadas. Uma para fazer o serviço e outra de reserva. As cargas tinham o tamanho aproximado de melões, mas fariam uma bagunça muito maior se explodissem. Verificou que os casulos dos relês magnéticos estavam presos nos invólucros. Os relês eram unidades padrão para mineração, que aceitariam o sinal do detonador remoto e mandariam uma carga de nêutron para a barriga dos explosivos.

Melo piscou para o irmão através da porta da cozinha.

Merv franziu os lábios, indicando silenciosamente que alguém estava pirada. Melo assentiu, cansado. Os dois estavam ficando exaustos do comportamento ultrajante de Opala. Só a idéia de tomar pina colada na praia em Barbados os mantinha no serviço.

Sem saber do descontentamento em seu grupo, Opala pôs o disco de vídeo no multidrive. Assistir a um inimigo morrer em cores fantásticas e com som surround era certamente uma das maiores vantagens da tecnologia. Várias janelas de vídeo se abriram na tela. Cada uma representava a visão de uma das câmeras do hemisfério.

Assistiu deliciada enquanto Holly e Artemis eram obrigados a entrar no rio perseguidos por um bando de trolls babões.

Soltou aaahs e oohs quando eles se refugiaram na ilha minúscula feita de cadáveres. Seu coração minúsculo bateu mais depressa quando eles escalaram o andaime do templo. Já ia mandar Merval lhe servir algumas trufas de chocolate da caixa de butim para acompanhar o filme, quando as câmeras se desligaram.

— Mervall — guinchou ela, retorcendo os dedos delicados. — Melodia! Venham cá.

Os irmãos Brill correram para o aposento, as pistolas nas mãos.

— Sim, srta. Koboi? — disse Melo, colocando as cargas direcionadas sobre um sofá coberto de pele.

Opala cobriu o rosto.

— Não olhe para mim! — ordenou. Melo baixou os olhos.

— Desculpe. Nada de contato visual. Esqueci.

— E pare de pensar isso.

— Sim, srta. Koboi. Desculpe, srta. Koboi. — Melo não fazia idéia do que deveria estar pensando, por isso tentou apagar tudo.

Opala cruzou os braços e tamborilou com os dedos nos antebraços até que os dois irmãos estavam dobrados numa reverência.

— Algo deu errado — disse ela, com a voz tremendo ligeiramente. — Nossas câmeras no Templo de Artemis parecem ter dado defeito.

Merv recuou o vídeo até a última imagem. Nela os trolls estavam avançando para Artemis e Holly, pelo teto do templo.

— Parece que, de qualquer modo, eles estão acabados, srta. Koboi.

— Falou e disse — concordou Melo. — Não tem como sair dessa.

Opala pigarreou.

— Em primeiro lugar, “falou e disse” é pura redundância, e não admito que usem gíria comigo. Nova regra. Em segundo, já presumi uma vez que Artemis Fowl estava morto, e como resultado passei um ano em coma. Devemos prosseguir como se Fowl e Short tivessem sobrevivido e estivessem na nossa trilha.

— Com todo o respeito, srta. Koboi — respondeu Merv, direcionando as palavras para os dedos dos pés. — Este é um lançador dissimulado; nós não deixamos trilha.

— Imbecil — respondeu Opala em tom casual. — Nossa trilha está em toda tela de televisão da superfície, e sem dúvida abaixo dela. Mesmo que Artemis Fowl não fosse um gênio, adivinharia que estou por trás da sonda Zito. Precisamos colocar a última carga agora. Qual é a profundidade da sonda?

Melo consultou um terminal de computador.

— Cento e sessenta quilômetros. Temos noventa minutos para chegar ao melhor ponto de explosão.

Opala andou de um lado para o outro durante alguns instantes.

— Não captamos nenhuma comunicação com a Delegacia Plaza, portanto, se eles estiverem vivos, estão sozinhos. Melhor não arriscar. Colocaremos a carga agora e vamos vigiá-la. Melodia, verifique os invólucros outra vez. Mervall, faça uma análise de sistemas do lançador. Não quero um único íon escapando pelo casco.

Os irmãos diabretes recuaram, fazendo reverência ao mesmo tempo. Iriam obedecer, mas sem dúvida a chefe estava meio paranóica.

— Ouvi esse pensamento — guinchou Opala. — Não estou paranóica!

Merv foi para trás de uma divisória de aço, para abrigar suas ondas cerebrais. Será que a srta. Koboi realmente havia interceptado o pensamento? Ou seria apenas a paranóia de novo? Afinal de contas, os paranóicos geralmente acreditam que todo mundo acha que eles são paranóicos. Merv tirou a cabeça de trás da divisória e lançou um pensamento na direção de Opala, só para ter certeza.

Holly Short é mais bonita do que você, pensou o mais alto que pôde. Um pensamento traiçoeiro, sem dúvida. Um pensamento que Opala não deixaria de captar, se fosse mesmo capaz de ler mentes.

Opala o encarou.

— Mervall?

— Sim, srta. Koboi.

— Você está olhando direto para mim. Isso faz muito mal à minha pele.

— Desculpe, srta. Koboi — respondeu Merv, desviando o olhar. Por acaso seus olhos espiaram pelo pára-brisa da cabine, em direção à boca do poço. Bem na hora de ver um transporte da LEP surgir através da rocha holográfica que cobria a porta da área de embarque. — Ah, srta. Koboi, temos um problema. — E apontou para o pára-brisa.

O transporte havia se erguido até dez metros de altura e estava pairando acima da paisagem italiana, obviamente procurando alguma coisa.

— Eles nos encontraram — disse Opala num sussurro horrorizado. Então conteve o pânico, analisando rapidamente a situação.

— Aquele é um veículo de transporte, e não de perseguição — observou, entrando rapidamente na cabine, seguida de perto pelos gêmeos. — Devemos presumir que Artemis Fowl e a capitã Short estejam a bordo. Eles não têm armas e só possuem analisadores básicos. Com esta luz fraca, estamos praticamente invisíveis a olho nu. Eles estão cegos.

— Devemos detoná-los? — perguntou ansioso o irmão Brill mais jovem. Finalmente um pouco da ação que fora prometida.

— Não — respondeu Opala. — Um tiro de plasma entregaria nossa posição aos satélites policiais humanos e do Povo. Vamos ficar quietos. Desligar tudo. Até o suporte de vida. Não sei como eles chegaram tão perto, mas o único modo de descobrirem nossa posição exata é trombar conosco. E, se isso acontecer, aquele veiculozinho deles vai se amassar como papelão.

Os Brill obedeceram imediatamente, desligando todos os sistemas do lançador.

— Bom — sussurrou Opala, colocando um dedo fino sobre os lábios. Eles ficaram observando o transporte durante vários minutos até que Opala decidiu romper o silêncio.

— Quem quer que esteja soltando pum, pare com isso, caso contrário vou bolar uma punição adequada.

— Não fui eu — murmuraram os irmãos Brill simultaneamente. Nenhum dos dois estava ansioso para descobrir qual seria a punição adequada para soltar pum.

 

Holly conduziu o lançador da LEP por um poço secundário, particularmente difícil, até o E7. Quase imediatamente duas luzes vermelhas começaram a pulsar em seu console.

— O relógio está correndo — anunciou. — Acabamos de acionar dois sensores de Potrus. Eles vão associar o transporte à sonda e virão correndo.

— Quanto tempo? — perguntou Artemis. Holly calculou de cabeça.

— Se vierem em velocidade supersônica no veículo de ataque, menos de meia hora.

— Perfeito — disse Artemis, satisfeito.

— Fico feliz por você pensar assim — gemeu Palha. — Policiais da LEP supersônicos nunca são uma visão bem-vinda para os ladrões. Como regra geral, preferimos que nossos policiais sejam subsônicos.

Holly prendeu o lançador num afloramento rochoso na parede do poço.

— Está dando para trás, Palha? Ou é só o gemido de sempre?

O anão girou a mandíbula, aquecendo-a para o trabalho adiante.

— Acho que tenho o direito de gemer um pouquinho. Por que esses planos sempre envolvem me colocar no caminho da encrenca, enquanto vocês três ficam esperando no transporte?

Artemis lhe entregou um saco refrigerador, da cozinha.

— Porque você é o único que pode fazer isso, Palha. Só você pode estragar o plano de Koboi.

Palha não ficou impressionado.

— Não estou impressionado. É melhor eu ganhar uma medalha por isso. De ouro de verdade. Chega de discos de computador folheados a ouro.

Holly o empurrou até a escotilha de estibordo.

— Palha, se não me trancarem na prisão pelo resto da vida, vou começar a campanha para lhe dar a maior medalha que há no armário da LEP.

— E anistia por qualquer crime passado e futuro? Holly abriu a escotilha.

— Passado, talvez. Futuro, sem chance. Mas sem garantia. Não sou exatamente a criatura predileta na Delegacia Plaza.

Palha enfiou o saco dentro da camisa.

— Tudo bem. Possível grande medalha e provável anistia. Aceito. — Pôs um pé na superfície lisa da rocha. O vento do túnel sugou sua perna, ameaçando jogá-lo no abismo. — Nos encontramos de volta aqui em vinte minutos.

Artemis entregou ao anão um pequeno radiocomunicador tirado do armário da LEP.

— Lembre-se do plano — gritou acima do rugido do vento. — Não se esqueça de deixar o comunicador. Só roube o que deve roubar. Nada mais.

— Nada mais — ecoou Palha, sem parecer muito satisfeito. Afinal de contas, quem sabia que coisas valiosas Opala teria por lá? — A não ser que algo realmente pule na minha cara.

— Nada — insistiu Artemis. — Agora, você tem certeza de que consegue entrar?

O riso de Palha revelou fileiras de dentes retangulares.

— Consigo. Só garanta que a energia deles seja desligada e que estejam olhando para o outro lado.

Butler sopesou o saco de brinquedos que tinha trazido da mansão Fowl.

— Não se preocupe, Palha. Eles estarão olhando para o outro lado. Garanto.

Delegacia Plaza, Elementos de Baixo

Todos os chefões estavam na Sala de Operações, assistindo a atualizações ao vivo sobre o progresso da sonda, quando Potrus entrou intempestivamente.

— Precisamos falar—disse o centauro aos oficiais reunidos.

— Quieto — sibilou o chefe do conselho, Cahartez. — Tome uma tigela de cozido.

O chefe Cahartez tinha uma frota de trailers que vendiam cozido na Cidade do Porto. O cozido de rato-do-campo era sua especialidade. Obviamente estava patrocinando aquela pequena sessão de vídeo.

Potrus ignorou a mesa do bufê. Pegou um controle remoto no braço de uma poltrona e desligou o som.

— Temos um grande problema, senhoras e senhores. Opala Koboi fugiu e acho que está por trás da sonda Zito.

Uma cadeira giratória de encosto alto girou. Ark Sool estava nela.

— Opala Koboi? Incrível. E está realizando tudo isso psiquicamente, acho.

— Não. O que você está fazendo nesta cadeira? É a cadeira do comandante. Do verdadeiro comandante, e não do de Assuntos Internos.

Sool bateu no distintivo dourado na lapela.

— Fui promovido. Potrus empalideceu.

— Você é o novo comandante do Recon?

O sorriso de Sool poderia ter iluminado uma sala escura.

— Sim. O Conselho achou que o Recon andava meio descontrolado ultimamente. Eles acharam, e devo dizer que concordo, que o Recon precisa de mão firme. Claro que permanecerei no Departamento de Assuntos Internos até que encontremos um substituto adequado.

Potrus fez um muxoxo. Não tinha tempo para isso. Agora, não. Precisava de autorização para um lançamento supersônico imediatamente.

— Muito bem, Sool, comandante. Posso apresentar minha objeção mais tarde. Neste momento temos uma emergência.

Agora todo mundo estava escutando. Mas nenhum com muito entusiasmo, a não ser a comandante Vinyaya, que sempre estivera do lado de Julius Raiz e certamente não devia ter votado em Sool. Vinyaya era toda ouvidos.

— Qual é a emergência, Potrus? — perguntou ela. Potrus enfiou um disco de computador no multidrive da sala.

— Aquela coisa na Clínica Argônio não é Opala Koboi. É um clone.

— Alguma prova? — perguntou Sool. Potrus selecionou uma janela na tela.

— Examinei as retinas dela e descobri que a última imagem que o clone viu foi da própria Opala Koboi. Obviamente durante a fuga.

Sool não ficou convencido.

— Nunca confiei nos seus badulaques, Potrus. Sua Re-timagem não é aceita como prova nos tribunais.

— Não estamos num tribunal, Sool — disse Potrus com os dentes trincados. — Se aceitarmos que Opala pode estar à solta, os acontecimentos das últimas vinte e quatro horas assumem todo um novo significado. Um padrão começa a surgir. Escamoto morreu, diabretes desapareceram da clínica, Julius foi assassinado e Holly ficou com a culpa. E horas depois disso uma sonda é mandada para baixo, uma década antes da programação. Koboi está por trás de tudo isso. Aquela sonda está vindo para cá e nós ficamos sentados assistindo àTV... comendo cozido de rato-do-campo!

— Protesto contra a afirmação pejorativa sobre o cozido — disse Cahartez, magoado. — Mas, afora isso, entendo seu argumento.

Sool pulou da cadeira.

— Que argumento? Potrus fica ligando pontos que não existem. Só está tentando inocentar sua amiga falecida, a capitã Short.

— Holly pode estar viva! — respondeu Potrus, irritado.

— E tentando fazer alguma coisa com relação a Opala Koboi. Sool revirou os olhos.

— Mas os sinais vitais dela terminaram, centauro. Nós destruímos o capacete por controle remoto. Eu estava junto, lembra?

Uma cabeça apareceu à porta. Era um dos aprendizes de Potrus no laboratório.

— Peguei a caixa, senhor — ofegou ele. — O mais rápido que pude.

— Muito bem, Roob — disse Potrus, pegando a caixa na mão do aprendiz. Em seguida girou-a. — Eu dei uniformes novos a Holly e Julius. Protótipos. Os dois têm biossensores e rastreadores. Não estão ligados ao computador central da LEP. Não pensei em verificá-los antes. O capacete de Holly pode estar fora de ação, mas o uniforme ainda funciona.

— O que os sensores do uniforme dizem, Potrus? — perguntou Vinyaya.

Potrus estava quase com medo de olhar, Se gráficos dos sensores tivessem a forma de linhas retas, seria como perder Holly de novo. Contou até três e consultou a telinha na caixa. Um dos uniformes não estava mandando sinais. O de Julius. Mas o outro estava ativo em todas as áreas.

— Holly está viva! — gritou o centauro, dando um beijo estalado na bochecha da comandante Vinyaya. — Viva e razoavelmente bem, a não ser pela pressão sangüínea um pouco elevada e quase zero de magia no tanque.

— E onde está ela? — perguntou Vinyaya, sorrindo. Potrus ampliou o localizador na tela.

— Subindo pelo E7, no lançador roubado por Palha Es-cavator, se não me engano.

Sool estava deliciado.

— Deixe-me entender direito. A suspeita de assassinato Holly Short está num veículo roubado, perto da sonda Zito.

— Isso mesmo.

— O que a torna a principal suspeita em qualquer irregularidade relativa à sonda.

Potrus se sentiu tentado a pisotear Sool, mas segurou a raiva, em nome de Holly,

— Só estou pedindo, Sool, que você me dê sinal verde para mandar o lançador supersônico investigar. Se eu estiver certo, seu primeiro ato como comandante terá sido evitar uma calamidade.

— E se estiver errado, coisa que provavelmente está?

__ Se eu estiver errado você poderá trazer a inimiga pública número um, a capitã Holly Short.

Sool cocou o cavanhaque. Era uma situação sem possibilidade de perda.

— Muito bem. Mande o lançador. Quanto tempo levará para ser preparado?

Potrus tirou um telefone do bolso e apertou um número na memória do aparelho.

— Major Kelp — disse ele ao fone. — Sinal verde. Vá. — Potrus sorriu para Ark Sool. — Enquanto vinha para cá, falei com o major Kelp. Eu tinha certeza de que você entenderia o meu argumento. Em geral os comandantes entendem.

Sool fez um muxoxo.

— Não fique cheio de intimidades comigo, cavalão. Este não é o início de um belo relacionamento. Estou mandando o lançador porque é a única opção. Se você estiver me manipulando ou distorcendo a verdade, vou enterrá-lo em audiências judiciais pelos próximos cinco anos. Depois vou demiti-lo.

Potrus o ignorou. Haveria tempo suficiente para trocar ameaças mais tarde. Precisava se concentrar no progresso do lançador. Tinha passado pelo choque da morte de Holly uma vez; não pretendia viver isso de novo.

 

Palha Escavator poderia ser atleta. Tinha a mandíbula e o equipamento de reciclagem perfeitos para corridas de escavação em alta velocidade, ou mesmo para maratona. Muita habilidade natural, mas nenhuma dedicação. Tentou isso durante uns dois meses na faculdade, mas o regime rígido de treinamento não lhe servia. Ainda se lembrava de seu técnico de abertura de túneis na faculdade falando com ele uma noite depois do treino.

— Você tem maxilar para isso, Escavator — admitiu o velho anão. — E sem dúvida tem traseiro para isso. Nunca vi ninguém que possa disparar as bolhas como você. Mas não tem coração para isso, e o coração é que é importante.

Talvez o velho anão estivesse certo: Palha nunca teve coração para atividades altruístas. Abrir túneis era um trabalho solitário e não havia muito dinheiro a ganhar. E como era um esporte étnico, as redes de TV não se interessavam. Devido à falta de anunciantes não havia grandes contratos de pagamento para os atletas. Palha decidiu que sua habilidade em escavar seria mais lucrativa se utilizada no lado sombrio da lei. Talvez, se tivesse um pouco de ouro, as anãs telefonassem de volta para ele.

E agora aqui estava, violando todas as suas regras, preparando-se para invadir um veículo cheio de sensores e ocupado por inimigos hostis. Só para ajudar alguém. De todos os veículos em cima e embaixo do planeta, Artemis tinha de se interessar pelo lançador mais tecnologicamente avançado que existia. Cada centímetro quadrado do lançador dissimulado teria alarmes de laser, sensores de movimento, películas estáticas e sabe-se lá o que mais. Mesmo assim os alarmes não adiantariam nada se não fossem ativados, e era com isso que Palha contava.

Acenou um adeus na direção geral do transporte, só para o caso de alguém ainda estar olhando, e atravessou a laje de rocha até a segurança da parede do poço. Anões não gostam de altura, e estar tecnicamente abaixo do nível do mar não ajudava em sua vertigem.

Cravou os dedos num veio de argila macia que brotava na parede de rocha. O lar. Qualquer lugar na terra era lar para um anão, desde que tivesse argila. Palha sentiu a calma dominá-lo. Agora estava em segurança, pelo menos por enquanto.

Desencaixou as mandíbulas com estalos que fariam qualquer outra espécie racional se encolher. Abriu as presilhas da aba do traseiro e se lançou na argila. Os dentes arrancavam baldes de argila da parede do poço, criando um túnel instantâneo. Palha se arrastou para dentro daquele espaço, lacrando a cavidade atrás com a argila reciclada pelo traseiro.

Depois de meia dúzia de bocados, os filamentos de sonar dos cabelos detectaram um trecho de rocha adiante, por isso ajustou o rumo. O lançador invisível não estaria pousado em rocha porque era um veículo de ponta, e como tal teria uma haste de bateria. As hastes se projetavam da barriga da nave, escavavam até vinte metros abaixo do solo e recarregavam as baterias com a energia da terra. A mais limpa que existia.

A haste de bateria vibrava ligeiramente enquanto retirava eletricidade, e era essa vibração que atraía Palha agora. Ele demorou apenas uns cinco minutos para se desviar da rocha e chegar à ponta da haste da bateria. As vibrações já haviam afrouxado a terra, e foi simples abrir uma pequena caverna. Espalhou saliva nas paredes e esperou.

Holly pilotou o veículo da LEP pelo pequeno terminal de lançamento, passando pelas portas com seu código de acesso do Recon. A Delegacia Plaza não havia se incomodado em mudar seu código, porque, para eles, ela estava morta.

Uma cobertura de nuvens escuras de chuva espalhava sombras no campo italiano enquanto eles saíam da rocha holográfica que escondia o terminal. Uma geada fina cobria a argila avermelhada, e um vento sul levantou a cauda do lançador.

— Não podemos ficar aqui fora por muito tempo — disse Holly, fazendo o veículo pairar. — Este transporte não tem defesas.

— Não precisamos de muito tempo — disse Artemis. — Voe num padrão de busca em grade, como se não tivéssemos certeza de onde, exatamente, o lançador dissimulado está.

Holly digitou algumas coordenadas no computador de vôo.

— Você é que é o gênio.

Artemis se virou para Butler, que estava de pernas cruzadas no corredor.

— Agora, velho amigo, pode garantir que Opala olhe para cá?

— Pode ser — disse Butler, engatinhando até a saída de bombordo. Bateu no botão de acesso e a porta deslizou para trás. O lançador balançou um pouco quando a pressão da ca-bine se igualou, depois parou outra vez.

Butler abriu a sacola de armas e escolheu um punhado de esferas metálicas, mais ou menos do tamanho de bolas de tênis. Soltou a tampa de segurança de uma delas e apertou com o polegar o botão que havia embaixo. O botão começou a subir para a posição original.

— Dez segundos até que o botão chegue ao nível da superfície. Depois ele faz a conexão.

— Obrigado pelo discurso — disse Artemis secamente. — Mas esta não é a hora.

Butler sorriu, jogando a esfera no ar. Cinco segundos depois ela explodiu, abrindo uma pequena cratera na terra embaixo. Linhas queimadas emanaram da cratera, dando-lhe a aparência de uma flor.

— Aposto que agora Opala está olhando — disse Butler, acionando a granada seguinte.

— Tenho certeza de que outros estarão olhando logo. Explosões não costumam ficar despercebidas durante muito tempo. Estamos relativamente isolados aqui. O povoado mais próximo fica a cerca de dezesseis quilômetros. Se tivermos sorte, isso nos dá um intervalo de dez minutos. Próximo quadrado da grade, por favor, Holly. Mas não perto demais; não queremos espantá-los.

Vinte metros abaixo da superfície, Palha Escavator esperava em sua pequena caverna olhando a ponta da haste da bateria. Assim que ela parou de vibrar, ele começou a subir pela argila solta. A haste telescópica estava quente, aquecida pela energia conduzida até as baterias do lançador. Palha usou-a para ajudar na jornada, puxando-se para cima. A argila que consumia estava partida e aerada pela ação da haste, e Palha ficou satisfeito com esse ar extra. Converteu-o em pum, usando-o para acelerar a subida.

Aumentou a velocidade, bombeando ar e argila por seus canais de reciclagem. Opala só ficaria distraída pelo lançador por algum tempo, antes de lhe ocorrer que aquilo era uma distração. A haste ia ficando mais grossa à medida que ele subia, até que Palha chegou a um lacre de borracha na barriga do lançador, que estava pousado em três pernas retrateis a sessenta centímetros do chão. Quando o lançador estava voando, esse lacre seria coberto por um painel metálico; mas nesse momento não estava voando, e os sensores tinham sido desligados.

Palha saiu de seu túnel e encaixou o maxilar de novo. Esse era um trabalho de precisão e ele precisava de controle total dos dentes. A borracha não era recomendada para a dieta dos anões, por isso não podia ser engolida. A borracha meio digerida poderia lacrar suas entranhas com tanta eficácia quanto um barril de cola.

Era uma posição incômoda. Difícil de encaixar a mordida. Palha encostou a bochecha na haste da bateria, subindo até que os incisivos conseguissem se prender ao lacre. Apertou os dentes na borracha dura, girando o maxilar em pequenos círculos até que os dentes superiores a romperam. Depois cravou os dentes, alargando o corte até haver um rasgo de dez centímetros na borracha. Agora podia colocar um dos lados da boca na abertura. Abocanhou pedaços grandes, tendo o cuidado de cuspi-los imediatamente.

Em menos de um minuto tinha rasgado um buraco com trinta centímetros de lado. O bastante para ele passar espremido. Qualquer pessoa não familiarizada com os anões apostaria que Palha jamais passaria seu corpo bem alimentado por um buraco tão pequeno, mas perderia o dinheiro. Os anões passaram milênios escapando de desmoronamentos e desenvolveram a capacidade de se espremer por buracos menores do que esse.

Palha encolheu a pança e passou pelo lacre rasgado. Ficou feliz por estar fora da fraca luz da manhã. O sol era outra coisa de que os anões não gostavam. Depois de apenas alguns minutos à luz direta do sol, a pele dos anões ficava mais vermelha do que um camarão fervido. Seguiu rapidamente ao longo da haste da bateria até o compartimento do motor do veículo. A maior parte do espaço pequeno era tomada por baterias chatas e um gerador de hidrogênio. Havia uma escotilha de acesso no alto, que levava à área de carga. Tiras de iluminação percorriam toda a extensão do compartimento, soltando uma luz verde pálida. Qualquer vazamento de radiação do gerador apareceria em roxo. O motivo para as tiras de luz ainda estarem funcionando sem energia era que a iluminação era produzida por algas especialmente cultivadas. Não que Palha soubesse nada disso; só sabia que a luz era muito semelhante à luminescência do cuspe de anão, e a familiaridade o fez relaxar. Relaxou um pouco demais, por acaso, permitindo que um pouquinho de gás de túnel escapasse pela aba do traseiro. Esperava que ninguém notasse...

Cerca de meio minuto depois escutou a voz de Opala, vinda de fora.

— Quem quer que esteja soltando pum, pare com isso, caso contrário vou bolar uma punição adequada.

Epa, pensou Palha, cheio de culpa. Nos círculos dos anões, é considerado quase criminoso deixar que outra pessoa seja culpada por suas bolhas de ar. Pela pura força do hábito, Palha quase levantou a mão para confessar, mas por sorte o instinto de autopreservação foi mais forte do que sua consciência.

Instantes depois o sinal chegou. Era difícil não perceber. A explosão sacudiu todo o lançador, inclinando-o vinte graus fora do centro. Estava na hora de agir e confiar em Artemis quando ele disse que era quase impossível não olhar uma explosão.

Abriu uma fresta na escotilha usando o topo da cabeça. O anão esperava que alguém pisasse na escotilha, mas a área de carga estava vazia. Dobrou a escotilha para trás e se esgueirou para dentro da pequena câmara. Havia muita coisa que o interessava ali. Caixas de lingotes, caixas de acrílico com moedas humanas e jóias antigas penduradas em manequins. Obviamente Opala não pretendia ser pobre em seu novo papel de humana. Palha pegou um único brinco de diamante num busto próximo. Artemis tinha lhe dito para não pegar nada. E daí? Um brinco não iria atrapalhá-lo.

Enfiou na boca o diamante do tamanho de um ovo de pomba e engoliu. Poderia liberá-lo mais tarde, quando estivesse sozinho. Até então a pedra ficaria alojada na parede do estômago e sairia mais brilhante do que tinha entrado.

Outra explosão sacudiu o piso sob seus pés, lembrando-o para ir em frente. Foi até a porta do compartimento, que estava meio aberta. A câmara seguinte era a área de passageiros, e tão luxuosa quanto Holly tinha descrito. Os lábios de Palha se ondularam ao ver as poltronas cobertas de pele. Repulsivas. Para além da área de passageiros, ficava a cabine de comando. Opa-la e seus dois amigos estavam claramente visíveis, olhando atentamente pelo pára-brisa dianteiro. Não faziam nenhum som, não falavam uma palavra. Exatamente como Artemis tinha dito.

Palha se ajoelhou e engatinhou pelo tapete. Agora estava totalmente exposto. Se um dos diabretes decidisse se virar, ele estaria no centro da área de passageiros tendo apenas um sorriso atrás do qual se esconder.

Só vá em frente e não pense nisso, disse Palha a si mesmo. Se Opala pegar você,finja que se perdeu ou está com amnésia, ou que simplesmente acabou de sair de um coma. Talvez ela simpatize com você, lhe dê um pouco de ouro e o mande embora.

É, tá legal.

Algo estalou ligeiramente sob o joelho de Palha. O anão se imobilizou, mas os diabretes não reagiram. Presumivelmente era a tampa da caixa de butim. O pequeno esconderijo de Opala. Palha engatinhou em volta da caixa. Se havia algo de que não precisava, eram mais estalos.

Sobre uma poltrona havia duas cargas direcionadas, no nível do nariz de Palha. Não dava para acreditar. Ali mesmo, a menos de um metro. Esta era uma parte do plano que dependia da sorte. Se um dos irmãos Brill estivesse com a carga enfiada sob o braço ou se houvesse mais cargas do que ele poderia carregar, teriam de se chocar contra o lançador e esperar que isso danificasse o veículo. Mas ali estavam elas, quase implorando para ser roubadas. Quando cometia um roubo, Palha costumava dar vozes aos objetos que ia apanhar. Sabia que isso pareceria meio maluco para o resto do mundo, mas passava muito tempo sozinho e precisava conversar com alguém.

Venha, sr. Anão Bonitão, disse uma das cargas num falsete rouco. Estou esperando. Não gosto deste lugar, você sabe. Por favor, me resgate.

Muito bem, madame, respondeu Palha em silêncio, pegando a sacola dentro da camisa. Vou levá-la, mas não vamos muito longe.

Eu também, disse a outra carga. Quero ir também. Não se preocupem, moças. No lugar aonde vocês vão, tem espaço suficiente para as duas.

Quando Palha Escavator se esgueirou de novo pelo lacre rasgado, um minuto depois, as cargas não estavam mais na poltrona. Em seu lugar havia um pequeno comunicador portátil.

Os três duendes-diabretes estavam sentados em silêncio na cabine de comando do lançador dissimulado. Uma estava concentrada no veículo de transporte que pairava duzentos metros adiante. Os outros dois se concentravam em não soltar pum e não pensar em soltar pum.

A porta lateral do lançador de transporte se abriu e algo piscou à luz da manhã enquanto caía na terra. Segundos depois algo explodiu, sacudindo o lançador dissimulado em suas bolsas de suspensão.

Os irmãos Brill ofegaram e Opala deu um cascudo na orelha de cada um.

Opala não estava preocupada. Eles estavam fazendo busca. Atirando no escuro, ou muito próximo disso. Talvez em trinta minutos haveria luz suficiente para enxergar a nave a olho nu, mas até então ela estava se fundindo muito bem com o campo ao redor, graças ao casco feito de minério dissimulado e tecido de camuflagem. Potrus devia ter adivinhado onde eles estavam por causa da proximidade desse poço com relação à sonda. Mas tudo tinha sido uma dedução aproximada. Claro que seria delicioso explodi-los no ar, mas os jorros de plasma iluminariam os sensores dos satélites de Potrus e colocariam um alvo no casco deles.

Pegou uma prancheta digital no painel e rabiscou uma mensagem nela.

Fiquem quietos e calmos. Mesmo que uma daquelas cargas nos acerte, não vai penetrar no casco.

Mervall pegou a prancheta.

Talvez nós devêssemos ir embora. Os Homens da Lama vão aparecer.

Opala escreveu uma resposta:

Caro Mervall, por favor, não comece a pensar; sua cabeça vai doer. Vamos esperar até que eles saiam daqui. Tão de perto eles poderiam ouvir nossos motores sendo ligados.

Outra explosão sacudiu o lançador dissimulado. Opala sentiu uma gota de suor rolar pela testa. Era ridículo: ela não suava, certamente não na frente dos empregados. Em cinco minutos os humanos viriam investigar. Era a natureza deles. Por isso esperaria cinco minutos e depois passaria pelo transporte da LEP e, se não pudesse passar, iria explodi-lo e se arriscar com relação ao lançador supersônico, que sem dúvida viriam investigar. Mais granadas caíram do veículo da LEP, mas agora ele estava mais longe, e as ondas de choque mal provocavam um tremor no casco do lançador. Isso continuou durante dois ou três minutos sem que houvesse o mais remoto perigo para Opala ou os Brill, e subitamente o veículo de transporte lacrou sua porta e desceu de novo pelo poço.

— Hmm — disse Opala. — Surpreendente.

— Talvez tenham ficado sem munição — sugeriu Merv, mas sabia que Opala iria puni-lo por ter opinado.

— É o que você acha, Mervall? Que eles ficaram sem explosivos e decidiram deixar a gente em paz? Realmente imagina que é verdade, sua imitação imbecil de criatura pensante?

— Só estava bancando o advogado do diabo — murmurou Merv, debilmente.

Opala se levantou, balançando a mão para os irmãos Brill.

— Calem a boca. Preciso falar comigo mesma por um minuto. — E andou de um lado para o outro na cabine estreita. — O que está acontecendo aqui? Eles nos acompanham até fora do poço, depois fazem uma grande demonstração de fogos de artifício, e em seguida vão embora. Assim. Por quê? Por quê?

Sacudiu as duas têmporas com os nós dos dedos.

— Pense. — De repente Opala se lembrou de uma coisa. — Ontem à noite foi roubado um lançador no El. Ouvimos pela faixa de rádio da polícia. Quem roubou?

Melo deu de ombros.

— Não sei. Um anão. É importante?

— Isso mesmo. Um anão. E não havia um anão envolvido no cerco a Artemis Fowl? E não houve boatos de que o mesmo anão ajudou Julius a invadir os laboratórios Koboi?

— Boatos. Não houve provas. Opala se virou para Melo.

— Talvez porque, ao contrário de você, esse anão seja esperto. Talvez não queira ser apanhado. — A diabrete levou um instante para ligar os pontos. — Então eles têm um anão ladrão, um lançador e explosivos. Holly deve saber que aquelas granadas patéticas não penetrariam no nosso casco, então por que ficou atirando? A não ser...

A verdade a acertou como um golpe físico na barriga.

— Ah, não — ofegou. — Distração. Ficamos aqui sentados feito idiotas olhando as luzes bonitas. E o tempo todo...

Empurrou Melo de lado, passando por ele até a área de passageiros.

— As cargas — guinchou ela. — Onde estão? Melo foi direto à poltrona.

— Não se preocupe, srta. Koboi, estão exatamente... — Ele parou, com a última palavra da frase presa na garganta. — Eu... é... elas estavam exatamente aqui. Na poltrona.

Opala pegou o pequeno rádio portátil.

— Eles estão brincando comigo. Diga que você colocou a de reserva em algum lugar seguro.

— Não — respondeu Melo, arrasado. — As duas estavam juntas.

Merv passou por ele e entrou no compartimento de carga.

— O compartimento do motor está aberto. — Ele enfiou a cabeça pela escotilha. Sua voz voltou abafada pelos painéis do piso. — O lacre da haste da bateria foi rasgado. E há pegadas. Alguém entrou aqui.

Opala virou a cabeça para trás e gritou. Sustentou o grito por um tempo enorme, para um indivíduo tão pequeno. Por fim o fôlego terminou.

— Sigam o veículo deles — disse ofegante, quando recuperou o ar. — Eu mesma modifiquei aquelas cargas, e elas não podem ser desarmadas. Ainda podemos detonar. Pelo menos vamos destruir meus inimigos.

— Sim, srta. Koboi — disseram Merv e Melo juntos.

— Não olhem para mim! — uivou Opala.

Os irmãos Brill correram para a cabine, tentando ao mesmo tempo fazer uma reverência, olhar para os pés, não pensar em nada perigoso e, acima de tudo, não soltar pum.

 

Palha estava esperando no ponto de encontro quando o lançador da LEP chegou. Butler abriu a porta e puxou o anão pelo colarinho.

— Conseguiu? — perguntou Artemis ansioso. Palha entregou a sacola volumosa.

— Aqui. E, antes que você pergunte, deixei o rádio.

— Então tudo correu segundo o plano?

— Totalmente — respondeu Palha, evitando mencionar o diamante aninhado na parede de seu estômago.

— Perfeito. — Artemis passou pelo anão e foi até a cabine.

— Vá — gritou, batendo no apoio de cabeça de Holly. Holly já estava com o lançador ligado, segurando-o no freio.

— Já fomos — disse ela, soltando o freio e pisando no acelerador. O veículo da LEP saltou da saliência rochosa como uma pedra voando de uma catapulta.

As pernas de Artemis foram puxadas do chão, balançando atrás deles como uma biruta de aeroporto. O resto do corpo teria ido atrás se ele não tivesse se segurado no apoio de cabeça.

— Quanto tempo temos? — perguntou Holly com os lábios ondulados pela força G.

Artemis se arrastou até o banco do carona.

— Minutos. O minério derretido vai chegar a uma profundidade de cento e sessenta e oito quilômetros exatamente dentro de quinze minutos. Opala estará atrás de nós a qualquer instante.

Holly se grudou à parede do poço, girando entre duas torres de rocha. A parte mais baixa do E7 era bastante reta, mas esse trecho parecia um saca-rolhas através da crosta, seguindo as rachaduras das placas.

— Isso vai dar certo, Artemis? Artemis pensou na pergunta.

— Avaliei oito planos, e esse era o melhor. Mesmo assim temos sessenta por cento de chance de sucesso. A chave é manter Opala distraída para não descobrir a verdade. Isso fica por sua conta, Holly. Você consegue?

Holly apertou os dedos no volante.

— Não se preocupe. Não é sempre que tenho chance de pilotar com estilo. Opala vai estar tão ocupada tentando nos pegar que não terá tempo de considerar mais nada.

Artemis olhou pelo pára-brisa. Estavam apontando direto para o centro da terra. A essa profundidade e com essa aceleração, a gravidade flutuava, por isso eram alternadamente grudados às poltronas e forçados contra os cintos de segurança. A escuridão do poço os envolvia como piche, a não ser pelo cone de luz dos faróis do lançador. Gigantescas formações rochosas apareciam e sumiam no cone, vindo direto para o nariz deles. De algum modo Holly conseguia se desviar sem pisar no freio nenhuma vez.

No painel de plasma, o ícone que representava a anomalia gasosa que era a nave de Opala se aproximava pela tela.

— Estão atrás de nós — disse Holly, captando o movimento com o canto do olho.

O estômago de Artemis estava embolado de náusea resultante do vôo, da ansiedade, da fadiga e da empolgação.

— Muito bem — disse quase para si mesmo. — A perseguição começou.

Na boca do E7, Merv estava ao volante do lançador invisível. Melo estava nos instrumentos e Opala encarregada de dar ordens e chatear.

— Temos algum sinal da carga? — guinchou a diabrete em sua poltrona.

A voz dela está ficando realmente chata, pensou Melo. Mas não muito alto.

— Não — respondeu. — Nada. O que significa que deve estar no outro lançador. Os escudos deles devem estar bloqueando o sinal da carga. Precisamos chegar mais perto, ou então eu poderia mandar o sinal de detonação de qualquer jeito. Talvez tenhamos sorte.

O guincho de Opala ficou mais estridente.

— Não! Não devemos detonar antes que aquele veículo chegue a cento e sessenta e oito quilômetros. Se fizermos isso, o minério derretido não vai mudar de rumo. E esse comunicador estúpido? Recebeu alguma coisa através dele?

— Negativo — respondeu Melo. — Se houver outro, deve estar desligado.

— Sempre podemos voltar à fazenda de Zito — disse Merv. — Temos mais uma dúzia de cargas lá.

Opala se inclinou para a frente na poltrona, socando os ombros de Merv com os punhos minúsculos.

— Idiota. Imbecil. Panaca! Está participando de algum concurso de estupidez? É isso? Se voltarmos à fazenda de Zito, o ferro derretido estará fundo demais quando retornarmos. Para não mencionar o fato de que a capitã Short apresentará à LEP sua versão dos acontecimentos e eles terão de investigar. Precisamos chegar mais perto e precisamos detonar. Mesmo que percamos a sonda, pelo menos destruiremos qualquer testemunho contra mim.

O lançador dissimulado tinha sensores de proximidade ligados ao programa de navegação, o que significava que Opala e companhia não precisavam se preocupar em colidir com a parede do poço ou com estalactites.

— Quanto tempo antes de chegarmos ao alcance de detonação? — latiu Opala. Na verdade foi quase um ganido.

Merv fez alguns cálculos.

— Três minutos. Não mais do que isso.

— A que profundidade eles estarão nesse ponto? Mais algumas somas.

— Duzentos e quarenta e nove quilômetros. Opala beliscou o nariz.

— Pode dar certo. Presumindo que estejam com as duas cargas, a explosão resultante, mesmo que não seja direcionada como planejamos, pode bastar para abrir uma rachadura na parede. É nossa única opção. Se isso fracassar, pelo menos teremos tempo de fazer alguma coisa. Assim que eles chegarem a cento e sessenta e oito, mande o sinal do detonador. Mande continuamente. Talvez tenhamos sorte.

Merv levantou a capa de plástico do botão de DETONAR. Só faltavam alguns minutos.

As entranhas de Artemis estavam tentando abrir caminho para fora da garganta.

— Essa lata velha precisa de giroscópios novos — disse ele.

Holly mal assentiu, ocupada demais concentrando-se numa série particularmente complicada de desvios e giros no poço. Artemis consultou o painel.

— Agora estamos à profundidade de cento e sessenta e oito. Opala vai tentar detonar. Está se aproximando depressa.

Palha enfiou a cabeça na porta da área de passageiros.

— É realmente necessário chacoalhar tanto? Eu comi muita coisa recentemente.

— Estamos quase chegando — respondeu Artemis. — O passeio quase acabou. Diga a Butler para abrir a sacola.

— Tudo bem. Tem certeza de que Opala vai fazer o que você quer?

Artemis deu um sorriso tranqüilizador.

— Claro que tenho. É a natureza humana, e agora Opala é humana, lembra? Agora, Holly. Pare.

Mervall bateu na tela.

— Não vai acreditar nisso, Op... srta. Koboi.

Uma minúscula sugestão de sorriso apareceu nos lábios de Opala.

— Não diga. Eles pararam. Merv balançou a cabeça, perplexo.

— É, estão pairando a duzentos quilômetros de profundidade. Por que fizeram isso?

— Não adianta tentar explicar, Mervall. Simplesmente continue mandando o sinal de detonação, mas diminua a velocidade do veículo. Não quero estar perto demais quando conseguirmos uma conexão.

Ela ficou tamborilando com as unhas no comunicador portátil deixado por Palha. Todos os segundos até agora.

Uma luz vermelha piscou no comunicador, acompanhada por uma ligeira vibração. Opala sorriu, abrindo a tela do walkie-talkie.

O rosto pálido de Artemis preencheu a tela minúscula. Estava tentando sorrir, mas era obviamente um riso forçado.

— Opala, estou lhe dando a chance de se render. Nós desarmamos suas cargas e a LEP está a caminho. Seria melhor você se entregar à capitã Short do que fugir perseguida por uma nave armada da LEP.

Opala bateu palmas.

— Bravo, jovem sr. Fowl, que ficção maravilhosa! Bom, por que não diz a verdade verdadeira? Você percebeu que as cargas não podem ser desarmadas. O simples fato de que eu posso receber seu sinal de comunicação significa que meu sinal de detonação logo vai penetrar seus escudos. Você não pode simplesmente se livrar dos explosivos, caso contrário eu os detono no poço, como planejei originalmente. Depois simplesmente disparo contra seu veículo alguns mísseis orientados por calor. E se vocês ainda tentarem fugir, eu os persigo e penetro em seus escudos antes que possam sair do trecho paralelo. Vocês não estão em comunicação com a LEP. Se estivessem, teríamos captado sua transmissão. De modo que a única alternativa é esse blefe patético. E é realmente patético. Você está obviamente tentando me atrasar até que o minério derretido ultrapasse a sua profundidade.

— Então você se recusa a se render?

Opala fingiu pensar nisso, batendo no queixo com a unha bem-cuidada.

— Bom, é. Acho que vou lutar, contra todas as chances. E, por sinal, faça o favor de não olhar diretamente para a tela: é ruim para a minha pele.

Artemis deu um suspiro dramático.

— Bem, se tivermos de morrer, pelo menos vamos morrer de barriga cheia.

Mesmo para um humano, esse era um comentário arrogante demais, quando restavam segundos de vida.

— De barriga cheia?

— É — respondeu Artemis. — Palha trouxe outra coisa de seu lançador.

Ele pegou uma pequena bola coberta de chocolate e balançou-a diante da tela.

— Minhas trufas?—ofegou Opala.—Vocês pegaram! Isso é maldade demais.

Artemis enfiou o bombom na boca e mastigou devagar.

— São realmente divinas. Dá para ver por que você sentiu falta delas no instituto. Realmente teremos de fazer um tremendo esforço para comer tudo que pegamos antes que você possa nos explodir em pedacinhos.

Opala sibilou como uma gata.

— Matar vocês será fácil demais. — E se virou para Merv. — Já temos sinal?

— Nada, srta. Koboi. Mas teremos logo. Se temos comunicação, a coisa não vai demorar.

Holly pôs a cabeça diante da câmera. Uma das bochechas estava estufada com as trufas.

— Elas realmente derretem na boca, Opala. É a última refeição dos condenados.

Opala cutucou a tela com a unha.

— Você sobreviveu duas vezes, Short. Isso não vai acontecer de novo, garanto.

Holly gargalhou.

— Você deveria ver o Palha. Está jogando as trufas goela abaixo.

Opala ficou lívida.

— Algum sinal? — Mesmo agora, faltando apenas instantes para a destruição, eles ainda zombavam.

— Ainda não. Logo.

— Continue tentando. Mantenha o dedo nesse botão. Opala soltou o cinto de segurança e caminhou pela área de passageiros. O anão não poderia ter carregado todas as trufas e os explosivos. Certamente não. Ela estivera tão ansiosa para comer um daqueles chocolates divinos assim que Porto fosse destruída!

Ajoelhou-se no carpete, enfiando a mão por baixo da emenda até a maçaneta escondida. O fecho saltou sob seus dedos e a tampa da caixa de butim se levantou.

Não havia uma única trufa na caixa. Em vez disso, havia duas cargas direcionadas. Por um momento Opala não pôde entender o que via. Então tudo ficou terrivelmente claro. Artemis não tinha roubado as cargas; simplesmente havia mandado o anão trocá-las de lugar. Assim que estivessem na caixa de butim, não poderiam ser detectadas nem detonadas, enquanto a tampa permanecesse lacrada. Ela própria abrira a caixa. Artemis a havia enganado para que selasse seu próprio destino. O sangue sumiu do rosto de Opala.

— Mervall — gritou ela. — O sinal do detonador!

— Não se preocupe, srta. Koboi — gritou o diabrete da cabine de comando. — Conseguimos contato. Agora nada pode impedir.

Relógios verdes de contagem regressiva se ativaram nas duas cargas e começaram a contagem regressiva, a partir de vinte. Um fusível padrão de mineração.

Opala saltou para a cabine. Tinha sido enganada. Caíra feito uma idiota. Agora as cargas iriam detonar inutilmente a cento e vinte quilômetros de profundidade, muito acima do trecho paralelo. Claro que seu próprio veículo seria destruído e ela ficaria à deriva, pronta para ser recolhida pela LEP. Pelo menos essa era a teoria. Mas Opala Koboi jamais se permitia ficar sem opções.

Prendeu-se na poltrona da cabine.

— Aconselho vocês a prenderem os cintos — disse rapidamente aos irmãos Brill. — Vocês fracassaram. Desfrutem da prisão.

Merv e Melo mal tiveram tempo de prender os cintos antes que Opala ativasse os casulos ejetores, de gel, que ficavam embaixo das poltronas. Os dois foram imediatamente imersos em bolhas âmbar, feitas de gel antiimpacto, e ejetados através de painéis que se abriram no casco.

As bolhas de gel de impacto não tinham fonte de energia e dependiam da propulsão inicial de gás para escapar da dificuldade. O gel era à prova de fogo, resistia a explosões e continha oxigênio suficiente para trinta minutos respirando devagar. Merv e Melo foram catapultados pelo espaço escuro até entrar em contato com a parede do poço. O gel se grudou à superfície rochosa, deixando os irmãos Brill presos, a milhares de quilômetros de casa.

Enquanto isso Opala estava rapidamente digitando códigos no computador do veículo. Tinha menos de dez segundos para completar o último ato de agressão. Artemis Fowl podia tê-la derrotado desta vez, mas não viveria para cantar vantagem.

Habilmente ativou e lançou dois foguetes de plasma, orientados pelo calor, pelos tubos de proa, depois lançou seu próprio casulo de fuga. Para Opala Koboi não era um plasma-gel. Claro, ela havia incluído um casulo de luxo no projeto da nave. Mas só um; os empregados não precisavam viajar no conforto. De fato Opala não se importava muito com o que tivesse acontecido com os irmãos Brill. Não eram mais úteis para ela.

Acelerou até o fundo, ignorando as regras de segurança. Afinal de contas, quem se importava se ela chamuscasse o casco do lançador? Ele iria ficar muito mais do que chamuscado. O casulo partiu para a superfície a mais de oitocentos quilometros por hora. Bem rápido, mas não o suficiente para escapar por completo da onda de choque das duas cargas direcionadas.

O lançador dissimulado explodiu num clarão de luz multico-lorida. Holly levou o veículo da LEP para perto da parede, para evitar o entulho que caísse. Depois que as ondas de choque passaram, os ocupantes do transporte esperaram em silêncio o computador fazer uma varredura no trecho de poço acima deles. Por fim, três pontos vermelhos apareceram na representação em 3-D do poço. Dois estavam estáticos, o outro se movia rapidamente para a superfície.

— Eles conseguiram — suspirou Artemis. — Não tenho dúvida de que aquele ponto em movimento é Opala. Deveríamos pegá-la.

— Deveríamos — respondeu Holly, não parecendo feliz como seria de esperar. — Mas não vamos. Artemis captou o tom de voz da capitã.

— Por quê? O que há de errado?

— Isso é o que há de errado — disse Holly apontando para a tela. Mais dois pontos haviam aparecido e vinham para eles a extrema velocidade. O computador identificou os pontos como mísseis, e rapidamente examinou o banco de dados.

— Foguetes de plasma guiados por calor. Mirando nos nossos motores.

Palha balançou a cabeça.

— Essa Koboi é uma diabrete da pesada. Não poderia deixar a coisa como estava.

Artemis olhou para a tela como se pudesse destruir os mísseis com a concentração.

— Eu deveria ter previsto isso.

Butler enfiou a cabeça enorme para além do ombro do patrão.

— Você tem algum dispositivo quente para atrair os mísseis para longe?

— Este é um lançador de transporte — respondeu Holly. — Tivemos sorte de ter escudos.

— Os mísseis estão vindo atrás de nossa assinatura de calor?

— É — disse Holly, esperando que houvesse alguma idéia a caminho.

— Há algum modo de alterar significativamente a assinatura?

Então uma opção apareceu na mente de Holly. Era tão radical que ela nem se incomodou em contar aos outros ocupantes do veículo.

— Há um modo — falou, e desligou os motores.

O veículo caiu como uma pedra pelo poço. Holly tentou manobrar usando os flaps, mas, sem propulsão, era como tentar guiar uma âncora.

Não havia tempo para medo ou pânico. Só havia tempo para se agarrar em alguma coisa e tentar manter a última refeição dentro do corpo.

Trincou os dentes, engolindo o pânico que tentava abrir caminho a dentadas, e lutou com o volante. Se pudesse manter os flaps centrados, eles não deveriam bater nas paredes do poço. Pelo menos assim tinham uma chance.

Virou os olhos rapidamente para os mostradores. A temperatura do núcleo do motor estava caindo, mas seria suficientemente rápido? Esta parte do poço era bastante reta, mas havia uma protuberância quarenta quilômetros adiante e eles bateriam nela como uma mosca acertando um elefante.

Butler se arrastou para cima, em direção à traseira do veículo. No caminho, pegou dois extintores de incêndio e soltou os pinos. Jogou os extintores na sala do motor e fechou a porta. Pela escotilha, dava para ver os extintores girando e cobrindo o motor com a espuma congelante.

A temperatura do motor baixou mais um pouco.

Agora os mísseis estavam mais perto, e se aproximando.

Holly escancarou todas as aberturas de ventilação, inundando o veículo com ar frio. O mostrador de temperatura desceu mais um ponto em direção ao verde.

— Anda — falou com os lábios ondulando. — Mais uns graus.

Caíam cada vez mais, girando para o negrume. Pouco a pouco a nave se desviava para estibordo. Logo iria se chocar contra a protuberância que vinha ao seu encontro. O dedo de Holly pairava sobre a ignição. Esperaria até o último momento possível.

Os motores se resfriaram mais ainda. Eram unidades eficientes que economizavam energia. Quando não eram usados, mandavam rapidamente o excesso de calor para as baterias de suporte de vida. Mas mesmo assim os mísseis mantinham o curso.

A protuberância na parede do poço apareceu nos faróis. Era maior do que uma montanha comum e composta de rocha dura, implacável. Se o lançador se chocasse, iria se amassar como uma lata.

Artemis espremeu as palavras pelos lábios.

— Não está funcionando. Ligue os motores.

— Espere — respondeu Holly.

Agora os flaps estavam vibrando e o lançador começou a dar uma cambalhota. Dava para ver os mísseis orientados pelo calor rugindo atrás deles, depois na frente, depois atrás de novo.

Agora estavam perto da rocha. Perto demais. Se Holly demorasse ao menos mais um segundo, não teria espaço suficiente para manobrar. Apertou a ignição, virando para bombordo no último milésimo de segundo. As placas de proa lançaram um jorro de fagulhas quando rasparam na protuberância rochosa. E logo estavam livres, disparando para o vácuo negro. Isto é, se você achar que ser perseguido por dois mísseis é estar livre.

A temperatura do motor ainda estava caindo e continuaria assim por cerca de meio minuto, enquanto as turbinas se aqueciam. Será que bastaria? Holly pôs a imagem da câmera de ré na tela da frente. Os foguetes continuavam se aproximando. Implacáveis. Combustível púrpura queimando na esteira. Três segundos para o impacto. E dois.

Então os mísseis perderam o contato e se afastaram do alvo. Um passou por cima, outro por baixo da quilha.

— Deu certo — suspirou Artemis, soltando o ar que ele não tinha notado que estava preso.

— Muito bem, soldado — riu Butler, desalinhando o cabelo de Holly.

Palha enfiou a cabeça pela porta da área de passageiros. Seu rosto estava ligeiramente verde.

— Tive um pequeno acidente — falou. Ninguém perguntou qual era.

— Não vamos comemorar por enquanto — disse Holly, verificando seus instrumentos. —Aqueles mísseis deveriam ter detonado de encontro à parede do poço, mas não detonaram. Só posso pensar num motivo para não continuarem andando em linha reta.

— Captaram outro contato — sugeriu Butler.

Um ponto vermelho apareceu na tela de plasma. Os dois mísseis iam diretamente para ele.

— Exato. Um lançador de ataque supersônico da LEP, e ficou parecendo que acabamos de disparar contra eles.

O major Encrenca Kelp estava ao volante do lançador de ataque da LEP. O veículo viajava a uma velocidade três vezes maior que a do som, disparando pelo poço como uma agulha de prata. Os vôos supersônicos eram autorizados muito raramente, já que poderiam causar desmoronamentos e, em casos raros, ser detectados por sismógrafos humanos.

O interior do veículo era cheio de gel de impacto para abafar as vibrações que poderiam quebrar ossos. O major Kelp estava suspenso no gel, numa roupa de piloto modificada. Os controles do veículo eram conectados diretamente às suas luvas, e o vídeo era projetado em seu capacete.

Potrus estava em contato constante, da Delegacia Plaza.

— O lançador roubado voltou para o poço — informou a Encrenca. — Está pairando a duzentos e um quilômetros de profundidade.

— Já vi — disse Encrenca, localizando o ponto em seu radar. Sentiu o coração acelerando. Havia uma chance de que Holly estivesse viva e a bordo daquele veículo. E se isso fosse verdade, ele faria todo o possível para levá-la em segurança para casa.

Um jorro de luz branca, amarela e laranja saltou em seu visor.

— Aconteceu algum tipo de explosão. Teria sido o lançador roubado?

— Não, Encrenca. Veio de lugar nenhum. Não havia nada lá. Cuidado com os entulhos.

A tela ficou riscada por dezenas de linhas amarelas ser-rilhadas, quando lascas de metal quente caíram para o centro da terra. Encrenca ativou os lasers de proa, pronto para qualquer coisa que viesse na sua direção. Era improvável que seu veículo fosse ameaçado; nesta profundidade, o poço era mais largo do que uma cidade mediana. Os fragmentos da explosão não se espalhariam por mais de um quilômetro e meio. Ele tinha bastante tempo para sair do caminho.

A não ser que alguns dos entulhos o acompanhassem. Duas das tiras amarelas vinham de modo estranho em sua direção.

O computador de bordo fez um exame. Os dois objetos tinham propulsão e sistemas de orientação. Mísseis.

— Estou sob fogo — disse ao microfone. — Dois mísseis se aproximando.

Será que Holly tinha disparado contra ele? Seria verdade o que Sool tinha dito? Será que ela realmente havia ficado má? Encrenca estendeu a mão no ar e bateu numa tela virtual. Tocou as representações dos dois mísseis, marcando-os para ser destruídos. Assim que chegassem ao alcance, o computador iria acertá-los com um disparo de laser. Encrenca foi para o meio do poço, para que os lasers tivessem a maior linha de fogo possível. Os lasers só serviam em linha reta.

Três minutos depois os mísseis surgiram, fazendo a curva no poço. Encrenca mal os viu, e o computador soltou dois disparos rápidos, despachando os mísseis com eficiência. O major Kelp voou direto através da onda de choque, isolado por camadas de gel antiimpacto.

Outra tela se abriu em seu visor. Era o recém-promovido comandante Ark Sool.

— Major, você está autorizado a responder ao fogo. Use toda a força necessária.

Encrenca fez uma careta.

— Mas, comandante, Holly pode estar a bordo.

Sool levantou uma das mãos, silenciando todas as objeções.

— A capitã Short deixou claras suas alianças. Dispare quando quiser.

Potrus não pôde ficar quieto.

— Não dispare, Encrenca. Você sabe que Holly não está por trás de tudo isso. De algum modo Opala Koboi disparou esses mísseis.

Sool bateu na mesa.

— Como pode ser tão cego para a verdade, cavalão? O que Short precisa fazer para convencê-lo de que é traidora? Mandar um e-mail? Ela assassinou o comandante, aliou-se a um criminoso e disparou contra o lançador da LEP. Arrebente com ela.

— Não! — insistiu Potrus. — A coisa parece ruim, admito. Mas deve haver outra explicação. Dê a Holly a chance de dizer o que é.

Sool estava apoplético.

— Cale a boca, Potrus! O que está fazendo, dando ordens táticas? Você é civil, agora saia da linha de comunicação.

— Encrenca, escute — começou Potrus, mas foi só isso que conseguiu dizer antes que Sool o interrompesse.

— Pronto — disse o comandante acalmando-se. — Você tem suas ordens. Dispare contra aquele veículo.

Agora o lançador roubado estava à vista. Encrenca ampliou a imagem no visor e notou imediatamente três coisas. Primeira, faltava o mastro de comunicações do veículo. Segundo, esse era um lançador de transporte e não tinha mísseis. E terceiro, ele podia ver Holly Short na cabine de comando, com o rosto sério e desafiador.

— Comandante Sool — disse ele. — Acho que temos algumas circunstâncias atenuantes.

— Eu mandei disparar! — guinchou Sool. — Você vai me obedecer.

— Sim, senhor — disse Encrenca, e disparou.

Holly tinha seguido os mísseis de Opala através da tela, sem piscar. Seus dedos apertaram o volante até que a borracha guinchou. Não relaxou até que o lançador de ataque, em forma de agulha, destruiu os mísseis e passou pelos destroços.

— Sem problema — disse ela, dando um sorriso luminoso para o resto do pessoal.

— Não para ele — observou Artemis. — Mas talvez para nós.

Agora o lançador de ataque pairava a bombordo, esguio e mortal, banhando-os numa dúzia de faróis. Holly franziu os olhos diante da luz pálida, tentando ver quem estaria na cadeira do capitão. Um tubo se abriu e um cone metálico se projetou.

— Isso não é bom — disse Palha. — Eles vão disparar contra nós.

Mas, estranhamente, Holly sorriu. É bom, pensou ela. Alguém lá embaixo gosta de mim.

A haste de comunicação viajou a curta distância entre os dois lançadores, enterrando-se no casco do veículo roubado. Um selador de secagem rápida brotou de alguns furos na base da haste, lacrando o buraco, e o cone do nariz se desatarraxou e caiu no chão fazendo barulho. Embaixo havia um alto-falante cônico.

A voz de Encrenca Kelp encheu o lugar.

— Capita Short, tenho ordens para explodir vocês. Ordens que acabo de desobedecer. Portanto comece a falar e me dê informações suficientes para salvar nossas duas carreiras.

Então Holly falou. Deu a versão condensada. Como tudo aquilo foi orquestrado por Opala e como eles poderiam pegá-la se revistassem o poço.

— Isso basta para manter você viva por enquanto — disse Encrenca. — Mas, oficialmente, você e qualquer outro ocupante do veículo estão presos até encontrarmos Opala Koboi.

Artemis pigarreou.

— Com licença. Não creio que o senhor tenha qualquer jurisdição sobre humanos. Seria ilegal me prender ou ao meu colega.

Encrenca suspirou. Pelo alto-falante, pareceu uma lixa raspando.

— Deixe-me adivinhar: Artemis Fowl, não é? Eu deveria saber. Vocês estão se tornando uma tremenda equipe. Bem, digamos que você é convidado da LEP, se é que isso o deixa mais feliz. Bom, há uma equipe de Resgate no poço. Eles vão cuidar de Opala e dos colegas dela. Sigam-me de volta ao Porto.

Holly quis protestar. Queria pegar Opala pessoalmente. Queria ter o prazer pessoal de jogar a diabrete venenosa numa cela de cadeia. E depois sumir com a chave. Mas a situação deles já era bastante precária, por isso, pela primeira vez, decidiu obedecer às ordens.

 

ASSIM QUE chegaram ao Porto, um esquadrão de soldados de infantaria da LEP entrou no lançador para pegar os prisioneiros. Os policiais entraram com arrogância, rosnando ordens. Então viram Butler e sua presunção se evaporou como água da chuva numa estrada quente. Tinham lhes dito que o humano era grande. Mas isso era mais do que grande. Era monstruoso. Montanhoso.

Butler sorriu como se pedisse desculpas.

— Não se preocupem, criaturinhas. Eu causo esse efeito na maioria dos humanos também.

Os policiais soltaram um suspiro de alívio coletivo quando Butler concordou em acompanhá-los calmamente. Eles poderiam tê-lo dominado se Butler lutasse, mas o humano gigantesco poderia cair em cima de alguém.

Os detidos foram colocados no salão executivo do terminal de lançadores, expulsando vários advogados e empresários. Foi tudo muito educado: boa comida, roupas limpas (não paraBuder) e centros de diversão. Mas mesmo assim, estavam sob guarda.

Meia hora depois, Potrus irrompeu no salão.

— Holly! — disse ele, envolvendo-a com o braço peludo.

— Fico tão feliz por você estar viva!

— Eu também, Potrus. — Holly deu uma risada.

— Um olazinho não faria mal — disse Palha, carrancudo.

— Como vai, Palha? Há quanto tempo, Palha! Aqui está sua medalha, Palha.

— Ah, certo — respondeu Potrus, passando o outro braço peludo em volta do anão igualmente peludo. — É bom ver você também, Palha, mesmo que tenha afundado um dos meus subs. E não, nada de medalha.

— Por causa do sub — argumentou Palha. — Se eu não tivesse feito isso, seus ossos estariam enterrados embaixo de cem milhões de toneladas de ferro derretido agora mesmo.

— Bem observado — disse o centauro. — Vou mencionar isso em sua audiência. — Em seguida se virou para Artemis. —Vejo que conseguiu enganar o apagamento mental, Artemis.

O garoto sorriu.

— O que foi bom para todos nós.

— É verdade. Jamais cometerei o erro de tentar apagar sua mente outra vez. — Ele segurou a mão de Artemis e apertou calorosamente. — Você tem sido amigo do Povo. Você também, Butler.

O guarda-costas estava encolhido num sofá, os cotovelos nos joelhos.

— Você pode pagar construindo uma sala onde eu possa ficar de pé.

— Desculpe. Não temos aposentos para pessoas do seu tamanho. Sool quer que todos sejam mantidos aqui até que sua história possa ser verificada.

— Como vão as coisas? — perguntou Holly. Potrus pegou uma pasta de papel dentro da camisa.

— Na verdade eu não deveria estar aqui, mas achei que você gostaria de informações atualizadas.

Todos se apertaram em volta de uma mesa enquanto Potrus espalhava os relatórios.

— Achamos os irmãos Brill na parede do poço. Estão cantando como vermes fedorentos, isso é que é lealdade com a patroa! Os peritos recolheram peças suficientes do lançador dissimulado para provar que ele existia.

Holly bateu palmas.

— Então é isso aí!

— A coisa não está perfeita — corrigiu Artemis. — Sem Opala, ainda poderíamos ser responsabilizados por tudo. Os Brill poderiam estar mentindo para nos proteger. Vocês a pegaram?

Potrus apertou os punhos.

— Bom, sim e não. O casulo de fuga se rompeu devido à explosão, por isso pudemos rastreá-lo. Mas quando chegamos ao local onde ele caiu, na superfície, ela havia desaparecido. Fizemos uma análise térmica da área e isolamos as pegadas de Opala. Seguimos até uma cabana rústica na região vinícola perto de Bari. Podemos vê-la pelo satélite, mas vai demorar para organizar uma inserção. Ela está no papo, e vamos pegá-la. Mas pode demorar uma semana.

O rosto de Holly ficou sombrio de fúria. — É melhor que ela aproveite essa semana, porque será a melhor do resto de sua vida.

 

O veículo de Opala chegou capenga à superfície, soltando plasma pelo gerador rachado. Ela sabia que, para Potrus, esse plasma era tão bom quanto uma pista feita de setas. Tinha de se livrar do veículo o mais rápido possível e achar algum lugar onde ficar escondida até poder acessar parte de seu dinheiro.

Saiu do terminal e conseguiu voar quase dezesseis quilômetros pelo campo antes que os motores pifassem, obrigando-a a cair num vinhedo. Quando deixou o casulo, Opala encontrou uma mulher alta, de cerca de quarenta anos, esperando-a com uma pá na mão e uma expressão furiosa no rosto.

— Esse vinhedo é meu — disse a mulher em italiano. — As uvas são minha vida. Quem é você para cair aqui no seu aviãozinho e destruir tudo que eu tenho?

Opala pensou depressa.

— Onde está sua família? — perguntou. — Seu marido?

A mulher soprou um fiapo de cabelo que estava sobre o olho.

— Não tenho família. Nem marido. Trabalho sozinha. Sou a última da linhagem. Este vinhedo significa mais para mim do que minha vida, e certamente mais do que a sua.

— Você não vive sozinha — disse Opala, acionando o mesmer hipnótico. — Agora você me tem. Sou sua filha, Belinda.

Por que não?, pensou. Se deu certo uma vez...

— Be-linda — disse a mulher lentamente. — Eu tenho uma filha?

— Isso mesmo — concordou Opala. — Belinda. Lembra? Nós trabalhamos juntas nesse vinhedo. Eu ajudo a fazer o vinho.

— Você me ajuda?

Opala fez uma careta. Os humanos nunca pegavam as coisas da primeira vez.

— É — respondeu ela, mal disfarçando a impaciência. — Eu ajudo você, trabalho com você.

Os olhos da mulher se clarearam subitamente.

— Belinda. O que está fazendo aí parada? Pegue uma pá e limpe essa bagunça. Quando terminar, vá fazer o jantar.

O coração de Opala falhou por um instante. Trabalho braçal? De jeito nenhum. Outras pessoas faziam esse tipo de coisa.

— Pensando bem — disse pressionando o mesmero máximo que pôde. — Sou sua mimada filha Belinda. Você nunca me deixa fazer nenhum trabalho para não estragar minhas mãos. Está me guardando para um marido rico.

Isso deveria cuidar do assunto. Iria se esconder com essa mulher por algumas horas e depois escaparia para a cidade.

Mas havia uma surpresa.

— Esta é minha Belinda! — disse a mulher. — Sempre sonhadora. Agora pegue a pá, menina, senão vai para a cama com fome.

As bochechas de Opala ficaram vermelhas.

— Não me ouviu, sua bruxa? Eu não faço trabalho braçal. Você vai me servir. Esse é o seu objetivo na vida.

A italiana avançou para a filha minúscula.

— Escute aqui, Belinda. Estou tentando não ouvir essas palavras venenosas que saem de sua boca, mas é difícil. Nós duas trabalhamos no vinhedo; é assim que sempre foi. Agora pegue a pá ou eu tranco você no seu quarto com cem batatas para descascar e nenhuma para comer.

Opala estava pasma. Não conseguia entender o que acontecia. Diante do mesmer, até mesmo os humanos de mente forte pareciam massa de modelar. O que estava acontecendo?

A verdade simples era que Opala fora inteligente demais para seu próprio bem. Ao colocar uma glândula pituitária humana no próprio crânio, tinha efetivamente se humanizado. Gradualmente o hormônio do crescimento humano estava suplantando a magia em seu organismo. O azar de Opala foi ter usado a última gota de magia para convencer esta mulher de que era filha dela. Agora estava sem magia, e era virtual prisioneira no vinhedo da italiana. E mais, estava sendo obrigada a trabalhar, e isso era ainda pior do que ficar em coma.

— Depressa! — gritou a mulher. — A previsão do tempo anunciou chuva e temos muito a fazer.

Opala pegou a pá, encostando a lâmina na terra seca. A ferramenta era mais alta do que ela, e tinha o cabo marcado e gasto.

— O que eu devo fazer com esta pá?

— Cave com a lâmina, depois abra uma vala de irrigação entre essas duas fileiras. E depois do jantar preciso que você lave um pouco da roupa que eu peguei esta semana. É do Carmine, e você sabe como são as roupas dele. — A mulher fez uma careta, deixando Opala sem dúvida quanto ao estado das roupas desse tal de Carmine.

A italiana pegou uma segunda pá e começou a cavar ao lado de Opala.

— Não faça cara feia, Belinda. O trabalho é bom para o caráter. Daqui a alguns anos você vai entender isso.

Opala usou a pá, acertando o chão com um golpe ridículo que mal levantou uma lasca de terra. Suas mãos já estavam ardendo de segurar a ferramenta. Dentro de uma hora seria uma massa de dores e bolhas. Talvez a LEP viesse e a levasse embora.

Seu desejo seria realizado, mas só uma semana depois, quando as unhas estavam rachadas e marrons, a pele cheia de inchaços. Tinha descascado batatas incontáveis e cuidado da nova mãe, abaixada de quatro. Opala também sentiu horror ao descobrir que a mãe adotiva criava porcos, e que limpar o chiqueiro era outra de suas tarefas aparentemente intermináveis. Quando os policiais de Resgate da LEP vieram pegá-la, quase ficou feliz ao vê-los.

 

A cerimônia de reciclagem de Julius Raiz foi feita um dia depois de Artemis e Holly chegarem à Cidade do Porto. Todos os figurões da LEP apareceram à cerimônia. Todos, menos a capitã Holly Short. O comandante Sool se recusou a deixar que ela comparecesse, nem mesmo sob escolta armada. O tribunal que investigava o caso ainda não havia tomado a decisão e, até lá, Holly era suspeita numa investigação de assassinato.

Por isso ela ficou sentada no saguão executivo assistindo à cerimônia pelo telão. De todas as coisas que Sool lhe fizera, essa era a pior. Julius Raiz fora seu maior amigo, e ali estava ela, assistindo à reciclagem dele numa tela, enquanto todos os figurões compareciam pessoalmente, olhando tristes para as câmeras.

Cobriu o rosto com as mãos quando eles baixaram um caixão vazio no ornamentado tanque de decomposição. Depois de seis meses, seus ossos e tecidos teriam sido completamente separados e os restos seriam usados para alimentar a terra.

Lágrimas brotaram entre os dedos de Holly, escorrendo sobre as mãos.

Artemis estava sentado junto dela e pôs a mão em seu ombro com gentileza.

— Julius teria orgulho de você. Porto continua existindo graças ao que você fez.

Holly fungou.

— Talvez. Talvez, se eu fosse um pouquinho mais inteligente, Julius também estaria aqui hoje.

— Pode ser, mas não creio. Estive pensando nisso e não havia saída, naquele túnel. Pelo menos sem um conhecimento anterior.

Holly baixou as mãos.

— Obrigada, Artemis. É gentileza sua dizer isso. Você não está ficando frouxo, está?

Artemis ficou genuinamente perplexo.

— Honestamente, não sei. Metade de mim quer ser um criminoso, e a outra metade quer ser um adolescente normal. Sinto que tenho duas personalidades em conflito e uma cabeça cheia de lembranças que ainda não são minhas de fato. É estranho, não saber quem a gente é exatamente.

— Não se preocupe, Garoto da Lama. Vou ficar de olho em você e garantir que permaneça no caminho certo.

— Tenho dois pais e um guarda-costas que já tentam isso.

— Bem, então talvez seja hora de deixar que eles façam.

A porta do saguão se abriu deslizando e Potrus trotou empolgado para dentro, seguido pelo comandante Sool e dois puxa-sacos. Sool não estava obviamente tão empolgado quanto o centauro, e trouxera os outros policiais só para o caso de Butler se agitar.

Potrus segurou Holly pelos ombros.

— Você está livre. — Ele riu de orelha a orelha. — O tribunal decidiu a seu favor, sete votos a um.

Holly fez uma careta na direção de Sool.

— Deixe-me adivinhar quem foi o “um”. Sool ficou irritado.

— Ainda sou seu oficial superior, Short. Quero ver isso refletido em sua atitude. Você pode ter escapado desta acusação, mas daqui em diante estarei vigiando-a como uma águia.

Palha estalou os dedos diante do rosto de Potrus.

— Ei, cavalão. Aqui. E eu? Sou um anão livre?

— Bem, o tribunal decidiu processá-lo pelo roubo de veículo.

— O quê? Depois de eu ter salvado toda a cidade?

— Mas — continuou Potrus — levando em conta o tempo já cumprido por um mandado de busca ilegal, eles estão preparados a considerá-lo quite. Mas lamento dizer que não haverá medalha.

Palha deu um tapa na anca do centauro.

— Você não poderia dizer isso simplesmente, poderia? Precisava fazer questão de enfatizar.

Holly não tinha parado de fazer cara feia para Sool.

— Deixe-me contar o que Julius me disse pouco antes de morrer — disse ela.

— Por favor — respondeu Sool com a voz pingando de sarcasmo. — Acho fascinante tudo o que você diz.

— Julius me disse, mais ou menos, que meu trabalho era servir ao Povo, e que eu deveria fazer isso de qualquer modo que pudesse.

— Esperto. Espero que você pretenda honrar estas palavras. Holly arrancou o distintivo da LEP do ombro.

— Pretendo. Com você olhando por cima de meu ombro a cada turno, não poderei ajudar ninguém, por isso decidi agir sozinha. — Ela jogou o distintivo na mesa. — Peço demissão.

Sool deu um risinho.

— Se é um blefe, não vai funcionar. Ficarei feliz em vê-la pelas costas.

— Holly, não faça isso — implorou Potrus. — A polícia precisa de você. Eu preciso de você.

Holly deu um tapinha no flanco dele.

— Eles me acusaram de assassinar Julius. Como é que posso ficar? Não se preocupe, velho amigo. Não estarei longe. — Ela assentiu para Palha. — Você vem?

— O quê, eu? Holly riu.

— Agora você é um anão livre, e todo detetive particular precisa de um parceiro. Alguém com ligações no submundo.

O peito de Palha inchou.

— Palha Escavator, detetive particular. Gosto disso. Ei, eu não sou apenas um ajudante, sou? Porque o ajudante sempre leva a pior.

Em seguida Holly se virou para Artemis.

— Conseguimos de novo, Garoto da Lama. Salvamos o mundo, ou pelo menos impedimos o choque de dois mundos.

Artemis assentiu.

— A coisa não fica mais fácil. Talvez outra pessoa devesse ter a vez.

Holly lhe deu um soco de leve no braço.

— Quem mais tem o nosso estilo? — Em seguida se inclinou e sussurrou: — Farei contato. Estaria interessado em algum trabalho de consultoria?

Artemis ergueu uma sobrancelha e assentiu levemente. Era a resposta de que ela precisava.

Em geral Butler ficava de pé para se despedir, mas dessa vez teve de fazer isso ajoelhado.

Holly ficou praticamente invisível em seu abraço.

— Até a próxima crise — disse ela.

— Ou talvez você possa fazer uma visita — respondeu ele.

— Vai ser mais difícil conseguir visto, agora que sou civil.

— Tem certeza de que deseja isso? Holly franziu a testa.

— Não. Estou dividida. — E assentiu para Artemis. — Mas quem não está?

Artemis deu seu sorriso mais cheio de escárnio para Sool.

— Parabéns, comandante, o senhor conseguiu afastar a melhor oficial da LEP.

— Escute aqui, humano — começou Sool, mas Butler rosnou e as palavras se encolheram na boca do comandante. O gnomo foi rapidamente para trás do maior dos seus policiais. — Mandem-nos para casa. Agora

Os policiais sacaram as armas, apontaram e dispararam. Uma bala tranqüilizadora se grudou ao pescoço de Artemis, dissolvendo-se instantaneamente. Os policiais acertaram quatro em Butler, sem querer se arriscar.

Artemis pôde ouvir Holly protestando enquanto sua visão se turvava como um quadro impressionista. Como O ladrão dasfadas.

— Não precisa disso, Sool — disse ela, segurando o cotovelo de Artemis. — Eles já viram o poço. Você poderia tê-los devolvido conscientes.

A voz de Sool pareceu estar soando no fundo de um poço.

— Não vou me arriscar, capitã, quero dizer, srta. Short. Os humanos são criaturas violentas por natureza, em especial quando estão sendo transportados.

Artemis sentiu a mão de Holly em seu peito. Ela enfiou algo no bolso de dentro do paletó. Mas ele não podia perguntar o que era, porque a língua não queria obedecer. Tudo que podia fazer com a boca era respirar. Ouviu uma pancada atrás.

Butler se foi, concluiu. Só resto eu.

E depois apagou também.

 

Artemis voltou a si gradualmente. Sentia-se bem e descansado, e todas as lembranças estavam no lugar. Mas talvez não estivessem. Como poderia saber?

Abriu os olhos e viu o afresco no teto. Estava em seu quarto.

Não se moveu por vários instantes. Não que não pudesse, era só que estar deitado aqui parecia absolutamente um luxo. Não havia diabretes atrás dele, nem trolls perseguindo seu cheiro, nem tribunais do Povo julgando-o. Podia ficar ali deitado e simplesmente pensar. Sua ocupação predileta.

Tinha uma grande decisão adiante: para onde iria sua vida? A decisão era dele. Não poderia culpar as circunstâncias ou a pressão dos colegas. Era dono de si, e inteligente o bastante para perceber isso.

A vida solitária de crimes não o atraía mais tão completamente como antes. Não tinha desejo de criar vítimas. Mas ainda havia algo que o atraía na empolgação de executar um plano brilhante. Talvez houvesse um modo de combinar seu gênio criminoso com a moral recém-descoberta. Algumas pessoas mereciam ser roubadas. Ele poderia ser como um Robin Hood moderno: roubar dos ricos e dar aos pobres. Bem, talvez só roubar dos ricos. Um passo de cada vez.

Algo vibrou no bolso de seu paletó. Enfiou a mão e tirou um comunicador do Povo. O que fazia par com o que eles haviam posto no lançador de Opala Koboi. Artemis tinha uma vaga lembrança de Holly enfiando alguma coisa em seu bolso logo antes de ele desmaiar. Ela obviamente queria manter contato.

Levantou-se, abriu o aparelho e o rosto sorridente de Holly apareceu na tela.

— Então você chegou em casa em segurança. Desculpe pelos sedativos. Sool é um porco.

— Esqueça. Não faz mal.

— Você mudou. Houve um tempo em que Artemis Fowl juraria vingança.

— Houve um tempo. Holly olhou ao redor.

— Escute, não posso falar muito tempo. Tive de conectar esta coisa num amplificador pirata só para conseguir sinal. A ligação está custando uma fortuna. Preciso de um favor.

Artemis gemeu.

— Ninguém liga para mim só para dizer olá.

— Na próxima vez. Prometo.

— Vou cobrar isso. Qual é o favor?

— Palha e eu estamos com o primeiro cliente. É um comerciante de arte de quem roubaram uma pintura. Francamente, estou perplexa, por isso pensei em perguntar a um especialista.

Artemis sorriu.

— Acho que tenho alguma experiência na área de arte roubada. Diga o que aconteceu.

— O negócio é que não há como entrar ou sair dessa exposição sem ser detectado. A pintura simplesmente sumiu. Nem mesmo os feiticeiros têm esse tipo de magia.

Artemis ouviu passos na escada.

— Espere um segundo, Holly. Tem alguém vindo. Butler entrou rapidamente, com a pistola na mão.

— Acabei de acordar — disse ele. — Você está bem?

— Ótimo. Pode guardar isso.

— Eu meio esperava que Sool ainda estivesse aqui, para amedrontá-lo um pouquinho. — Butler foi até a janela e empurrou para o lado as cortinas de renda. — Há um carro vindo pela estrada. São seus pais de volta do spa em Westmeath. É melhor bolarmos uma história logo. Por que viemos da Alemanha para casa?

Artemis pensou depressa.

— Só vamos dizer que fiquei com saudade. Senti falta de ser o filho dos meus pais. Isso é bem verdade.

Butler sorriu.

— Gosto dessa desculpa. Espero que você não precise usá-la de novo.

— Não pretendo.

Butler estendeu uma tela enrolada.

— E isto? Já decidiu o que vai fazer com ele?

Artemis pegou O ladrão das fadas e abriu sobre a cama. Era realmente lindo.

— Sim, velho amigo. Decidi o que vou fazer. Agora, por favor, segure meus pais lá embaixo; tenho de terminar este telefonema.

Butler assentiu, descendo a escada de três em três degraus. Artemis voltou ao comunicador.

— Bom, Holly, quanto ao seu probleminha. Já pensou que a pintura que você está procurando pode ainda estar na sala, e que nosso ladrão pode ter simplesmente mudado-a de lugar?

— Foi a primeira coisa em que pensei. Qual é, Artemis, você deveria ser um gênio. Use o cérebro.

Artemis cocou o queixo. Estava achando difícil se concentrar. Ouviu pneus rangendo no cascalho da entrada, e então a voz de sua mãe rindo enquanto descia do carro.

— Arty? — gritou ela. — Desça. Precisamos ver você.

— Desça, garotão — gritou o pai. — Venha dar as boas-vindas.

Artemis descobriu que estava sorrindo.

— Holly, pode me ligar depois? Neste momento estou ocupado.

Holly tentou zombar.

— Tá legal. Daqui a cinco horas, e é melhor você ter alguma sugestão para mim.

— Não se preocupe, terei. E também minha conta de consultor.

— Certas coisas não mudam nunca — disse Holly, e desligou.

Artemis trancou rapidamente o comunicador no cofre do quarto, depois correu para a escada.

Sua mãe estava embaixo, de braços abertos.

 

Na semana passada o mundo da arte ficou pasmo com a descoberta de um quadro desaparecido, pintado por Pascal Hervé, o mestre do impressionismo francês. Os boatos da recuperação de O ladrão das fadas (óleo sobre tela) foram confirmados quando a pintura foi enviada ao museu do Louvre, em Paris. Alguém, supostamente amante das artes, usou o serviço comum dos correios para enviar a obra-prima ao curador. A autenticidade foi confirmada por seis especialistas independentes.

Um porta-voz do Louvre declarou que o quadro será exibido no próximo mês. Assim, pela primeira vez em quase um século, os amantes da arte poderão desfrutar da obra-prima de Hervé. Mas talvez a parte mais impressionante deste caso seja o bilhete datilografado que chegou Junto com O ladrão das fadas. O bilhete dizia simplesmente “Outros virão”. Será que alguém por aí está recuperando obras-primas perdidas ou roubadas, devolvendo-as ao povo? Se for assim, cuidado, colecionadores. Nenhum cofre secreto está em segurança. Este correspondente espera com a respiração presa. Outros virão. Os amantes da arte em todo o mundo certamente esperam que sim!

 

 

                                                                                                    Eion Colfer

 

 

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