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A VIRGEM DE 18 QUILATES / Pitigrilli
A VIRGEM DE 18 QUILATES / Pitigrilli

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A VIRGEM DE 18 QUILATES

 

- O NOSSO amor durará um ano.

- Ainda?

- Um ano, contando o que já nos aturamos.

E os amantes passaram do absoluto silêncio meridiano ao bulício da sala de refeições, enquanto o dono da casa, escorrendo unção e presunção, lhes corria ao encontro com o mais baunilhado dos seus sorrisos, afastando as cadeiras e apresentando a lista dos vinhos.

A entrada da actriz despertou um movimento vibratório, um murmúrio bisbilhoteiro de curiosidade.

Na noite anterior, depois do último espectáculo da temporada e após várias horas de automóvel, viera reunir-se ao amante, para passar com ele um mês, naquela aldeia do alto da montanha, onde o lírio silvestre do Outono aparece em Julho, naquele hotel meio rústico, decorado sumptuosamente por três inigualáveis artistas: o nitro, o musgo e o líquen.

Sentou-se, sem olhar em torno, como quem tem repugnância da comida e das pessoas, O companheiro esboçou uma reverência resumidora e semicircular, a que responderam, aqui e ali, das mesinhas floridas de lírios vermelhos e orquídeas silvestres.

- Já andaste a planear enredos? - insinuou ela, servindo-se, com mau modo, de conservas. - Quem é aquela senhora só, que está a ler?

- Uma egípcia.

- Autêntica?

- Como um crocodilo.

- com aqueles cabelos cor de mostarda?

- Exactamente por isso. Se fosse imitação, ter-se-ia dado ao incómodo de os pintar, para verosimilhança.

- Que apito toca?

- Não sei se estuda ou ensina, se se diverte ou diverte os outros.

- Quem é o seu amante?

- O mais gravemente indiciado é aquele senhor de cabeça redonda e vermelha como um queijo holandês: é enfatuado a quarenta atmosferas, porque possui ricas minas de volfrâmio na Suécia e fabrica um derivado do alcatrão, o nitrobenzol, que lhe impregna as roupas de insuportável cheiro de amêndoas amargas; para não sentir esse cheiro é que a mulher dele vem veranear nestas mesmas montanhas, mas na vertente oposta.

- E as três senhoritas vestidas do mesmo jeito, com sete filas de botões de madrepérola, enfileirados com teclas de sanfona?

- Três irmãs indefloráveis: conheci-as, o Inverno passado, no Patronato de Reabilitação das Crianças Antropófagas ou em não sei que outro bordel de beneficência. Estão mais perto da menopausa que da puberdade, e têm uma espécie de pai ridículo, que conserva permanentemente o chapéu na cabeça para se resguardar dos raios ultravioletas e toma parte nos seus jogos de salão com a correspondente penitência, a qual consiste em fazer, num pé só, três voltas ao redor de uma mesa, ou dizer uma graçola a um senhor pacificamente mergulhado no seu jornal. Oh! São espirituosíssimas. Entre todos os quadros piedosos observados nas minhas breves excursões pelo mundo, um só me dá prazer: ver as virgens envelhecerem, deteriorarem-se, acabarem-se à espera vã de um hipotético marido, como acontece ao avarento que fica de tanca porque um belo dia as suas moedas não têm valor,

A mulher de teatro dignou-se sorrir.

- Pois a mim fazem pena - confessou melancolicamente -, se bem que eu pergunte a mim mesma se são mais de lamentar as velhas solteironas que, para pegar de armadilha um marido, nunca se entregaram a ninguém, ou aquelas que, por se entregarem todas as vezes que tinham desejos, não conseguiram nunca arranjar marido.

Sketch não respondeu. Sketch possuía nome e cognome, mas, como todos os amantes, tinha um apelido de alcova: Sketch.

A grande actriz, que chegara muito jovem à celebridade, a mulher que conhecia os perfumes das flores de todas as estufas do mundo, porque em todos os meridianos e em todos os paralelos celebrara diante de multidões magnetizadas os mistérios da sua arte, a bela actriz trágica, protagonista de histórias e de lendas, com fama de amores lésbicos, suspeita de paixões régias e de espionagem no tempo da guerra, a mulher que experimentara todas as emoções, guardava um único anseio, de uma só coisa sentia falta: a casa, uma velha casa de campo, com um grande fogão, junto ao qual um avô adoravelmente maçador conte as suas extraordinárias aventuras de terra e mar.

- Todos nós somos falhados - observava nas horas de abatimento -, porque quiséramos ser coisa diversa do que somos. Felizes talvez sejam os humildes, de escasso ideal e baixo voo, que no domingo vão passear com a bengala na mão, a caneta de tinta permanente à mostra no bolso externo do casaco e a prolífera consorte pelo braço. Eu, mulher invejada, sinto-me a menos invejável de todas as mulheres.

- Mas aqui não existem pessoas interessantes - recomeçou Sketch fechando prudentemente o parêntese triste e passando em revista os outros comensais. - Gente enriquecida há pouco, que se senta à mesa de través, frisa os bigodes com o dorso da mão e sai com o palito no canto da boca proclamando que a melhor água mineral é o vinho.

- E aquele rapazelho?

- Um senhor muito em voga: o que há de mais up to date. Tem alguma dificuldade de palavra: falta de lubrificação do centro de Broca, defeito que o obriga a dizer menos asneiras do que desejaria.

- Está a devorar com os olhos a sua vizinha, a senhorita só.

- Não lhe será difícil devorá-la também com o resto: é uma meretrícula principiante, bonitinha, mas falta-lhe a patina do tempo.

- Quem a sustenta?

- Todas as noites deita as cartas para saber se no dia seguinte lhe chegará o cheque. A sua situação financeira ainda não está consolidada. Mas tem o senso da publicidade: faz larga distribuição gratuita de beijos-reclamo.

- Recebeste alguns?

- Recebi sorrisos-recordações. Aquela outra, que está a fazer exercícios de caligrafia em seco com a colher sobre a toalha, é uma virgem, uma virgem de verdade, a virgem-padrão, a virgem de 18 quilates.

- Conheces?...

- Não.

A grande actriz compreendeu que aquele "não" peremptório era uma descarada afirmação.

O caixeiro espumava uma sopa de caldo ralo como um romance psicológico, quando uma voz gárrula protestou:

- Mas isto não é sopa: é refresco!

A actriz passeou os olhos pela que falara e voltou-se para Sketch:

- É bem desenxabida a tua virgem!

- Minha? Uma virgem? Não tenho temperamento para iniciador.

Nem bem Sketch tinha reparado que a rapariguinha insignificante existia e já a sua amante, pela maravilhosa intuição das mulheres, compreendera que obscuras correntes recíprocas atraíam os dois.

- Está só, aqui?

- Sim, veio encontrá-la um dia o pai. Um esplêndido tipo de homem louro como a filha, pelos cinquenta e cinco anos: o tipo de polígamo voluntário, enérgico, decidido. Um daqueles, indivíduos que esperamos ver de um momento para outro no senado ou no tribunal e que têm colados às malas etiquetas dos melhores hotéis do mundo e sinetes de quarenta alfândegas. De outra vez recebeu a visita de uma boa mulher, doce e bojuda como um açucareiro, mas que se deu pressa de partir de novo no primeiro comboio.

- E por que a deixam só?

- Educação inglesa. À primeira vista parece uma menina na idade ingrata, uma insípida catorze primaveras.

- Aquilo a que os Alemães chamam Backfich.

- Exactamente.

- E os Americanos, frango tenro, spring chicken.

- Mas, ao contrário, tem vinte anos e não é tola. Não dança e, portanto, não levanta poeira. Tem o grande mérito de não arranhar o violino, nem o piano, nem outros instrumentos de tortura.

- Em suma, agrada-te.

- Tem uma bela boca. Parece um timbre de laca.

- Sobre a rolha de um tubo de bacilos. Tens um fraco por cadáveres em disponibilidade, por aspirantes ao sanatório. Para que uma mulher te agrade, é preciso que tenha as clavículas descarnadas.

- A beleza clássica não me satisfaz. Defeito grave da arte clássica é a saúde. Se as inúmeras Junos tivessem sofrido de febre gástrica e as Madonas de nefrites, certas estátuas e certas telas seriam suportáveis ainda hoje.

- Mas a tua virgem não é uma beleza de museu.

- É bela como todas as raparigas da sua idade.

- Isto é para dar a entender que eu sou velha.

- Não me atribuas palavras que não digo e coisas que não penso.

- Pensas e dizes.

- São fantasias tuas.

- Insultas-me, agora!

- Não levantes a voz. Observam-te.

- Não ligo,

- Fazes bem. Mas, quando se vive em pequenos conglomerados...

- Dos teus conglomerados eu enxugo a garganta.

- Procura dominar os nervos!

- Quem sabe dominar os nervos é quem não os tem. com relação, pois, àquela senhorita, não te ocorra nunca a bizarra ideia de ma apresentar. Deve ser uma daquelas provincianas que perdem o comboio e deixam que lhe batam a bolsa no eléctrico.

O frango opunha enérgica resistência à faca de Sketch, que se apoiava sobre ela com todo o seu peso, para lhe desarticular os ossos da bacia e para esconder o rosto vermelho de cólera. E como a mulher se mostrasse Implacável com as suas lamentações, rogou-lhe:

- Não me faças cenas em público. Se queres abrir um inquérito, transfiramos a sessão para outro lugar.

- Era o que te ia propor. E saíram.

A senhora egípcia honrou-os com uma olhadela lânguida, enquanto cortava uma folha do livro com as costas da faca, para formar os chanfros batidíssimos do papel, que marcam os livros lidos com demasiado aborrecimento.

- Bacará, aonde vais? - guinchou a semiloura meretrícula ainda não trabalhada pelo tempo, para imobilizar o cão que se largara atrás de Sketch.

E o basSef jesuítico e comprido voltou arrependido para junto da sua dona com o seu andar vagaroso e molenga de muçum.

- Bem conservada - disse o rapaz do mundo, quando a actriz chegou à porta. - Deve ter sido bela.

- Sim, no reinado de Carlos Alberto - volveu a meretrícula inclinando-se para atar o indisciplinado Bacerá.

Um droguista enriquecido:

- Não é cara nova.

- Pudera! Há cinquenta anos que a usa.

- Não os mostra.

- Elle a du chien - sentenciou a egípcia. - Elle a du cran!

O fabricante de nitrobenzol atirou uma olhadela oblíqua ao rapaz do mundo, e, depois que os seus olhares se encontraram, comentou:

- O senhor queria orquestra durante as refeições. Vamos ter melhor: teatro.

- O grand-guignol. Que temperamento têm aqueles dois!

- Não creia! - emendou o químico patrício, grande frequentador de palcos. - Eu conheço-os. Tomados cada um de per si, têm um carácter brando; mas, postos em contacto um com o outro, explodem: são como a essência de terebintina, substância inócua, e a tintura de iodo, substância inerte; mas, se se misturam as duas, produzem dano.

- Certos pares de amantes - gemeu com fúnebre sorriso a egípcia transcendental, diafragmando os grandes olhos em amêndoa - experimentam a esquisita necessidade de mutuamente se fazerem sofrer. É uma necessidade de martírio.

Espetou o cotovelo no canto da mesa e, conservando o antebraço espichado, entesou a mão em ângulo recto, passando-lhe lentamente sobre o dorso uma têmpora para alisar a orla dos cabelos nas pedras dos anéis.

A virgem de 18 quilates saiu para rir cá fora à vontade.

A marquesa ("meu tio o arcebispo, meu cunhado o almirante, o marquês meu marido") ordenou num francês aproximativo à engomada aia (saboiana, já se vê) que levasse dali o marquesinho de 14 meses, o qual, se bem que destinado à carreira das armas, não devia ainda ouvir semelhante conversa.

- C'est abominable, madame la marquise! - exclamou horrorizada a aia, arrebatando, com as mãos, o marquesinho de 14 meses, vermelho e apalermado como um porquinho do condado de York.

As três senhoras indefloráveis, aquelas senhoritas que em onze noites contam onze estrelas, continuaram, sem se distrair, as suas castas discussões sobre a frescura comparada das fontes e sobre as sebes carregadas de morangos, os morangos de que o tio Baptistinha é tão guloso. Como se divertiria o tio Baptistinha se tivesse adi!

Alguns meses antes, durante uma impremeditada vagabundagem sem destino pelas ruas de uma grande cidade, entrara numa perfumaria, ao acaso:

- Desejo um frasco de essência.

- Para homem ou para mulher?

- Para os dois sexos.

E apanhara alguns compassos de diálogo, entre o empregado reverencioso e uma senhora desconfiada e fleumática:

- Quanto custa?

- Custa-lhe trezentas liras, por ser a senhora.

- E se não fosse eu?

- O dobro.

- Preferia pagar o dobro e não ser eu. Ele aproximara-se então da bela cliente:

- Desculpe, minha senhora: um homem que não dança, não frequenta a boa sociedade, não segue as mulheres, não as detém na rua, não submete a interrogatórios as porteiras, não suborna serviçais de hotel, como deve portar-se para travar conhecimento com uma mulher que lhe interessa?

- É simples - respondera a senhora, fitando-o com os grandes olhos cinzentos, pigmentados de lâminas amarelas. -? Pode fazer como fez.

- Pois bem: sou Mauro Mauri, de vinte e oito anos, bem colocado, sem morada fixa; pequena condenação condicional por ofensa a um ferroviário, e Wassermann negativa. Se as modistas, os autores, os admiradores, as representações, os ensaios, lhe deixam livre meia hora, dedique-a a mim. Não tenho más intenções.

- Se não tem más intenções, não é interessante. Contudo, venha esta noite.

Na manhã seguinte, apertando-se-lhe ao pescoço com o mórbido calor do corpo nu, advertia-o:

- Tu, meu pequeno, não deves ser para mim uma tragédia. Nem uma comédia demasiado ligeira. Nem tão-pouco demasiado longa. Serás um acto breve, um pouco sentimental e um pouco alegre, aquilo que se chama um sketch.

E o apodo ficara-lhe:

- Sketch!

A existência calma de Mauro Mauri entrava, assim, numa fase imprevisível. Viajou também com a companhia dramática da sua amante, de cidade em cidade. Viveu a vida fictícia e maravilhosamente intensa do palco. Aprendeu o calão, assimilou as superstições, escutou os mexericos dos bastidores, participou das intrigas dos camarins, aprendeu como se imita o estrépito do furacão, como se encurtam os narizes e se suprimem os anos. Experimentou a emoção da partida apressada depois da representação de uma comédia que deveria ser repetida, na noite seguinte, a oitocentos quilómetros de distância; gozou e sofreu o prazer um pouco ridículo de ser o amante da primeira actriz, aquele que sai do camarim quando a diva tem de mudar de vestuário, lhe leva o cão a passeio, julga e decide sobre as comédias dos novos, dá informações aos cronistas e entradas de favor aos importunos. O amante de uma mulher célebre faz a figura do guarda de museu fotografado aos pés do enorme monstro pré-histórico para que, do contraste, ressalte evidente o tamanho do gigante. O amante da primeira actriz é uma espécie de príncipe consorte que os contratados interrogam com silenciosa malícia e sorridente censura, quando a directora de cena, mais nervosa que de costume, revela qualquer coisa de insatisfeito e de insaciado na sua condensada feminilidade.

Ficou a saber como as mulheres catastróficas, presumidas volatilizadoras de milhões, sabem ser ternas, sabem ser meninas, sabem ser mulheres, quando arrancam a máscara mutável que se lhes tornou por de mais pesada. Sofreu o irónico e inexpressivo juízo da opinião pública, a que repugnava o ser ele o eleito da grande actriz, do ídolo das multidões.

- Não te preocupes com a opinião pública - advertia-lhe ela. - Se te virem com uma mulher elegante, serás rufião; se for com tua mulher, corno; com um amigo, pederasta; se andares só, onanista. Só há um meio de se defender contra a opinião pública: suportá-la.

A actriz abandonara-se a ele com a sua alma poliédrica, envolvendo-o com a sua paixão vampiróide, absorvendo-o com o seu desejo tentacular, com a experiência sagaz da sua vida múltipla, composta das inúmeras existências das personagens fictícias e tremendas que animava, matava, ressuscitava, todas as noites, em cena. Sketch ficou a saber como aquelas mulheres proteiformes, belas e espinhosas como os cactos, que parecem sínteses de infâmias e de esplendores, são capazes de grandes ímpetos, mas sabem também, às vezes, inocular o desespero com a frieza do louco incendiário que ateia fogo ao palheiro e se vai embora assobiando.

Até então os seus amores tinham-se limitado às senhoritas que saem da casa da gente sem vertigem e sem remorso, prometendo que talvez voltem, e não nos deixam de si mesmas senão algum fio de cabelo enroscado no pente e um véu de pó de arroz na gola do casaco.

Sufocara a sua juventude entre restaurantes e quartos mobilados, húmidos, desoladores, mortificantes, malcheirosos de exalações de alho, de sabonetes vulgares e de remédios suspeitos, onde a gente se sente sepulcralmente só, mesmo que do quarto contíguo nos chegue o tilintar das esporas que uma ordenança areia, ou o estribilho que uma cançonetista gargareja, mesmo que de cada hóspede passado alguma coisa sobreviva entre aquelas mesmas equívocas paredes consteladas de pregos esquálidos, dos quais se dependuram alternativamente irrigadores e crucifixos.

O amor à actriz ilustre fora a revelação desconcertante de um horizonte fantástico, a passagem de uma juventude incolor a uma pitoresca maturidade agitada sobre cenários de comédias modernas, entre histriões genialóides e cortesãs intelectuais, que punham a ferver a água antifecundativa dos seus bidés sobre o Fogo Sagrado da Arte. Vivendo na sublimação do absurdo, na exasperação do irreal, ele quisera tornar ainda mais vagabunda a sua já instável vida de errante para multiplicar o espaço e abreviar as noites com o prolongar os serões até à alvorada, às luzes eléctricas lívidas que fazem exangues os pómulos e cavadas as faces. Os cheiros de femearia, de infidelidade, de adultério, que esvoaçavam por entre os camarins dos teatros, exasperavam-lhe a cerebral sensualidade; e o artifício que cabe no vão da boca-de-cena dava-lhe a volúpia do falso, a embriaguez envenenadora que deforma as concepções do mundo, como nas parabólicas visões dos febricitantes.

A grande actriz tinha centrifugado os seus gostos, as suas emoções, os seus sentimentos, infligindo-lhe com sábia perfídia o martírio da recusa, ministrando-lhe com imprudente inconsciência a tortura do engano.

Quantas vezes, depois do espectáculo, despedido por ela com um irrecorrível "até amanhã, à hora do ensaio", ele passou e tornou a passar, retorcendo os nervos, sob as janelas da amante, rosadas de uma luz morna, que recortava nas cortinas sombras anónimas até alta noite! E quantas vezes, entrando ao romper do dia no quarto da grande actriz, sentiu o cheiro de cigarros diferente dos que ela fumava!

- Esta noite não janto contigo! - anunciava ela, imperturbável.

E um dia em que ele ousou um sinal de oposição, ela pôs-lhe sob os olhos a conta de uma modista, precisando:

- Oitenta e seis mil liras. És tu que a vais pagar?

Depois de um destes episódios, ele desaparecia num comboio qualquer, o primeiro comboio que partia. Mas na noite seguinte comparecia de novo ao fundo da plateia, para aplaudir com o entusiasmo de um colegial, e recomeçar a sua cadeia de crises e de abandonos, de voltas e de ameaças, de loucuras reincidentes, de implacáveis desejos, de ciúme sangrento.

A bela amante envenenava-o com a ilogicidade do seu amor, com a aberração intermitente da sua ternura, com a fria maldade dos seus nervos carregados de corrente de alta frequência. Hoje repelia-o sem piedade depois de o ter chamado a si com palavras serenas da mais simples amante: amanhã despedaçava-o com a minuciosa descrição de uma das suas traições, e, quando via turvarem-se no fundo das pupilas dele os, sinais de uma loucura nascente, curava-o com pérfida doçura:

- Criança! Não te enganei. Por que não vieste? Ter-me-ias encontrado só. Esperava-te.

Moreno simpático, vinte e oito anos, como se descrevem nos anúncios económicos os que procuram uma "afeição sincera" na quarta página dos jornais, Sketch provinha de uma daquelas boas casas onde a chegada de um telegrama é um acontecimento sensacional que faz parar a circulação do sangue a todos os membros da família, e o visitante, antes de ser introduzido, tem de submeter-se a miúdo exame e rigoroso interrogatório através da portinhola. Mas pertencia também à grande raça dos inquietos, dos irregulares, dos refractários, dos vagabundos, dos homens que andam sem guarda-chuva sob o aguaceiro, que desprezam os lebréis russos e os gatos de Angora, porque não toleram nenhuma aristocracia, nem mesmo a dos animais.

Abandonara a casa para não suportar disciplina de nenhum género, nem sequer o horário das refeições, e porque os diálogos costumários da mesa já lhe produziam fastio. "Quando a gente se conheça há vinte anos, não tem mais nada de inédito para se dizer", explicou a quem lhe perguntava por que tinha abandonado com resolução tão irrevogável o pai, a mãe, a casa com banheiro, adega e pomar.

Raras vezes cortejara as mulheres. Eram as mulheres que o procuravam a ele pela sonhadora indiferença que o tornava tão diferente dos habituais empreiteiros do amor. A primeira vez que falara à actriz, pedindo-lhe aquela meia hora de colóquio, que se converteu numa noite de sensualidade e no início de um grande amor, fora movido por curiosidade cerebral, e não por desejo dos sentidos. E à actriz ele agradara pela falta de rebuscamento que ela via nas suas palavras e nos seus gestos de homem ordinário.

Mas o homem ordinário transformara-se nas mãos desta mulher experimentada, que lhe estimulara aptidões sopitadas, despertara talentos adormecidos, valorizara possibilidades até então latentes na sua vida incolor, entre a gentalha inútil. Ela revelara-o a si mesmo, refinando-lhe os gostos, aguçando-lhe a cerebralidade, multiplicando-lhe as exigências, escancarando-lhe os olhos sobre um mais vasto ângulo do horizonte, fazendo-lhe vibrar todo o registo fisiológico com uma inesperada variedade de sofrimentos e de prazeres.

Os amores vorazes como este são um parêntese de velhice enxertado na juventude de um homem.

- Vai-te! - sibilava ela. - Não aceito imposições nem censuras de ninguém, a não ser de mim mesma: o diamante não pode ser atacado senão pelo próprio pó. Ou me tomas como sou, com todas as minhas extravagâncias e traições, ou vai-te. O ser recebido no meu leito não te dá direitos, mas deveres. Eu não sei ser fiel; a vida tem certas necessidades diante das quais se dobram até os gigantes. E se estas razões não te bastarem, dir-te-ei que uma mulher como eu não pode ser julgada com os critérios correntes. Uma artista está acima da moral: deveria também estar acima da lei. Aliás, qualquer coisa que eu conceda de mim mesma a outros não vale o que ofereço a ti: porque te dou o meu amor.

Consciente da superioridade sobre todas as outras mulheres, sobre os homens e sobre o seu amante, abolira o conceito evangélico da reciprocidade. Ela podia enganá-lo, mas não admitia que ele dirigisse uma palavra ou um olhar a outras mulheres. Tendo-o surpreendido, durante os ensaios de uma soporífera comédia simbólica, em colóquio com uma característica, arrebatara da mão desta as folhas do seu papel e ordenara-lhe que passasse pela administração e se considerasse despedida; e ao marido da característica, que arriscava uma tentativa de defesa, gritara com a sua voz mais estridente:

- Cale-se, imbecil! E peço perdão aos imbecis se os ofendo comparando-os ao senhor.

Entretanto, Sketch não se preocupava de romper a grave cadeia do terrível amor! A estupefaciente esterilidade daquela mulher absurda, que o amava com um amor oscilante, hoje rarefeito até à indiferença, amanhã exasperado até à crise, tornara-se-lhe já necessária. Entrara-lhe no sangue, como escrevem os psicólogos sem pretensões, que afinal são os mais exactos; entrara-lhe no sangue como um vírus incurável.

- Só há um tratamento para o teu mal! - dissera-lhe um dia o brilhante actor da companhia, que escrevia comédias, estudava norueguês, entalhava xilografias e lia revistas de medicina. - Um tratamento soroterápico: injectar sob a pele os bacilos atenuados do amor, isto é, enamorares-te de uma mulher menos célebre, porém mais mulher. Uma vez que tiveste a desgraça de te haveres com um útero pensante, que te envenenou, procura enamorar-te de uma torneadora de tampões, de uma dactilógrafa, de uma professora elementar, que te conduza à realidade.

Como se afiguram simples os dramas dos outros! As contas estão sempre certas nos bolsos dos outros, e resolvem-se com a aritmética elementar. "Faze por deixá-la! Não penses mais nela!" Mas Sketch não tinha ânimo de abandoná-la. Aos 18 anos custa pouco esquecer uma mulher: basta fazer um passeio com outra. Mas, quando se está no limiar da maturidade, a que mentirosamente chamam segunda juventude, o separar-se de uma amante é operação cruenta. Deu-nos demasiado de si e demasiado lhe comunicámos de nós mesmos, para podermos readquirir inteira a nossa individualidade. A nossa voz tomou as inflexões da sua, os seus nervos sofreram a influência dos nossos; adoptou-se um mesmo fraseado; deu-se na dela e na nossa carne uma recíproca polarização; os nossos dois corpos fundiram-se numa célula que, para quem nos julga, é um par, mas para nós próprios é um núcleo indivisível. Já não temos uma individualidade nossa: cada um dos nossos gestos está subordinado a ela. Somos como uma electrocalamita inerte, que se anima somente quando é o fluido daquela mulher que a percorre e envolve. Todas as outras mulheres nos parecem seres assexuais, e, se um dia, por um capricho de sensibilidade marginal, chegamos a possuí-las, conservam-se ainda estranhas, e convencem-nos mais uma vez de que estamos fatalmente encadeados à amante única, à necessária, à insubstituível.

Sketch não podia separar-se da actriz. As ásperas discussões, os frequentes choques devidos à hiperestesia dela, aconselhavam-no a afastar-se para sempre. Mas ele sabia quanto são efémeras as fugas, tremendos os remorsos e perigosas as voltas da chama. Não podia viver nem com ela nem sem ela, como dizem os amantes orográficos, de Ovídio para cá. Era inútil ir-se; na noite seguinte estaria de volta, no fundo da plateia, entre o cheiro de homens e de cascas de laranja, a aplaudir com o infantil entusiasmo de uma menina do Sagrado Coração fugida do colégio.

Os superficiais, os simples, que apreciam sumariamente o amor, julgando-o uma relação social grosseira como todas as outras, crêem que o momento mais oportuno para a ruptura entre amantes ocorre depois de uma briga, uma crise, uma descarga de ciúme ou uma traição. Ingénuos! Essa é a ocasião mais inadequada para o abandono. O sofrimento, a cólera, não repelem, mas atraem: têm força coesiva, não desagregadora. A separação definitiva, sem probabilidade de volta, só se pode levar a cabo num período de serenidade, quando não há no horizonte a menor sombra de traição, quando se pode olhar na alma um do outro como numa água clarificada em que nenhum abalo faça subir do fundo à tona velhas escórias de recordações turvas ou de sentimentos impuros.

Nesse estado de serenidade viveram vários dias os dois amantes, no lugarejo do alto da montanha, onde o Verão dura vinte dias, num alto vale. percorrido por grandes carros e frequentado por senadores.

Carros e senadores. Algum que outro estrangeiro caído ali por equívoco e muitos aristocratas piemonteses que lustram com grande fereza e cautelosas economias as arranhadas bolotas, da coroa folheada a ouro.

Uma grande senhora de magnífico nome desce todos os domingos do seu pálido castelo moderno, guarnecido de torres, para vir ajoelhar a sua venerável pessoa diante do altar da paróquia; e este é o mais sensacional acontecimento da estação: todo o caminho, do castelo à aldeia, se anima de saias escarlates - o vestuário do vale - e de tartarinescos forasteiros calçados e ferrados como para andar no gelo, que ostentam à cinta do binóculo prismático a redonda téssera balouçante da última temporada de corridas. A velha senhora ilustre chega pontualmente, preanunciada pela buzina do seu automóvel cintilante: o pároco, um daqueles sacerdotes de montanha, mais instrutores de esgrima que eclesiásticos, está de pé à porta da igreja, vestido já com os paramentos litúrgicos, como para dar a entender que o bom Deus está pronto e só espera por Ela.

Acabada a missa, levanta-se do seu banco, que uma simples almofada de veludo vermelho distingue dos outros, e sai para o pátio cheio de sol, de aromas alpestres e de saias vermelhas: os pseudo-aristocratas piemonteses sacodem as nádegas ao redor dela, masturbando os brasões, com toda a sua miserável arrogância estendida para receber da augusta senhora a esmola de uma palavra ou de um sorriso.

Alguns aristocratas puro-sangue inclinam-se com uma reverência vieux temps, entre ruídos anacrónicos de molas dos aparelhos fotográficos.

E ela sorri, bondosa, com aquele seu rosto cor das gardénias exangues, de que transparece a autêntica realeza, a superioridade da estirpe e do espírito; a todos dá a mão e a todos reconhece. E faz perguntas a todos: ninguém escapa àquelas vastas pupilas que acumularam séculos de senhoria na sua profundeza melancólica, E enquanto cantam os sinos do meio-dia, a branca senhora torna a partir, aclamada aos brados, no seu esvoaçante automóvel, silencioso como uma liteira. Nas curvas, a buzina desperta ecos metálicos, como se um batedor de estrada de antigas idades galopasse à sua frente, lançando os seus agudos trombeteies.

- E a senhorita não foi à missa? - perguntou Sketch, uma manhã, à loura virgem padrão, a virgem de 18 quilates.

- Há lá demasiadas condessas, duquesas, marquesas. gorjeou ela com um fio de capim entre os dentes. - Preferi ir visitar as minhas rãs num charco próximo daqui. São mais de mil entre rãs e sapinhos: quem sabe como se aborreceriam se eu não fosse algumas vezes distraí-los. Já me conhecem. Saem dos seus esconderijos antes mesmo de eu lhes anunciar com pedrinhas a minha chegada,

A virgem de 18 quilates descia aos pulos por um caminho estreito tendo um livro entre o antebraço e o flanco e o dedo médio entre as páginas.

- Tem bom gosto a senhorita! - condescendeu Sketch, lançando um olhar ao título.

- Que julgava que eu lesse? - queixou-se comicamente a jovem. - O Palito Envenenado, O Gorila Fantasma ou A Devoradora de Homens?

Uma vez que os conhecimentos literários das nossas moças não vão além dos rifões toscanos enrolados nos confeitos, experimenta-se uma curiosa surpresa vendo, entre mãos tão imaculadas e tão discretas, o poeta Mallarmé, o lírico doido.

A loura mocinha desatou a rir.

- E a sua amiga?

- Está a vestir-se para o almoço. - A sua amiga não vai à igreja?

- Diz que quando não tiver mais prazeres do Aquém, procurará os do Além; enquanto o público for ao teatro para ouvi-la, ela não irá ao teatro para ouvir os outros. Irá escutar as histórias que os outros contam no dia em que os outros não escutarem mais as que ela conta.

- E ainda está muito longe esse dia?

- Creio que sim. Hoje ela está no seu melhor momento.

- Há trinta anos que ela está no seu melhor momento. E, sem dar a Sketch o tempo de replicar, atenuou:

- Perdoe. Sou má. Porém a sua senhora deve ser pior do que eu.

A jovem magríssima, maravilhoso conjunto de ossos e de luz, era como as virgens representadas nos vitrais das catedrais e vestidas de sol. Um langor hierático derramava-se-lhe às vezes por toda a pessoa; outras, uma inquietude infantil movia-lhe o corpo quase esquelético, ofegava como se um fogo interior a estivesse devorando. Sorria tristemente, com os lábios fechados, sem deformar a boca pentagonal e vermelha como os cravos do alto da montanha. Comprazendo-se da sua compleição magra de bailados russos, sabia realçá-la apertando-se em vestidos negros que acentuavam o louro da cabeleira e lhe alongavam desmedidamente o porte. Fina, delgada, transparente, perfumada como uma haste de baunilha, passava indiferente pelo meio da palrice do hotel, desencadeada em torno de um piano, e saia, sã, na noite, a escutar a polifonia do vale, ou a vagar como uma bela gatinha branca, cujos olhos luminosos rivalizavam, na treva, com a brasa do seu cigarro. Muito se murmurava, no hotel, sobre os serões da jovem, e formulavam-se as mais malignas hipóteses de misteriosos encontros; e ela comprazia-se destas calúnias em surdina, que a seguiam enquanto ela saía para o ar livre, à procura da pálida gatinha sentimental, que todas as noites, sobre uma rústica balaustrada de madeira, passava longas horas a escovar o seu manto branco, para agradar à lua.

- Quer que fiquemos amigos? - propôs a Sketch.

- Não creio isso possível. A escritora francesa Rachilde disse que amizade entre homem e mulher cest de famour blanc. Preliminares do desejo, em outras palavras.

- Até à vista! - e estendeu a mão a Sketch. - Se a sua senhora nos surpreende, mata-me. E hoje não é dia adequado para estas operações, visto que do mar me chegou um canastro de pêssegos deste tamanho. Não gosta de frutas? Eu gosto. Poderia passar só com frutas e açúcar. Sou gulosa como as abelhas.

- Gulosa e loura. Devia chamar-se Mélita.

- Que quer dizer?

- Abelha.

- É bonito, E fica-me bem. Chamar-me-ei Mélita. E ao senhor, como devo chamá-lo?

- Chame-me... Chame-me todas as vezes que quiser.

Sketch e a actriz encontraram naquele lugarejo de montanha uma tranquilidade até então ignorada. Depois da briga do primeiro dia, devida talvez a alguns resíduos de electricidade urbana que lhes ficara nos hábitos, tinham transcorrido longos dias anódinos nas espreguiçadeiras do terraço, em frente à policromia cintilante das geleiras, ou então procurando, nos campos, os trevos de quatro folhas, ou roendo biscoitos ingleses, ou jogando poker com o proprietário do hotel e com a senhora egípcia, que quis ofertar à actriz um antiquíssimo escaravelho, proveniente do Vale dos Reis (Made in Germany).

A conduta dos quatro jogadores, que diante da mística pureza dos montes passavam viciosamente as tardes com cartas pagãs de poker, provocava irritação em todos os outros hóspedes do hotel. O pai das três filhas indefloráveis, que não tirava da cabeça o chapéu duro para proteger o crânio contra os raios ultravioletas e dormia com óculos enfumaçados para não ser despertado, de manhã, pelo raio que se filtra por entre as persianas, levava as três recatadíssimas filhas a passeios por longe, a fim de que não ouvissem as diabólicas expressões dos jogadores curvados sobre as cartas.

- Passo.

- Passo.

- Abro.

- Fico.

- Vejo.

- Não.

- Cartas.

- Uma.

- Três.

- Duas.

- Basta.

- Chip.

- Aposto dez.

- Vinte.

- Vinte e mais vinte,

- Vejo.

- Full de damas.

- Flush.

Um digníssimo senador, sentencioso e dogmático, pneumaticamente inflado de doutrinas e de solenidade, com os pêlos da barba corridos perpendicular e paralelamente como as suas convicções políticas e os elementos da sua bem disciplinada erudição, foi interpelado por uma pia matrona de sangue azul, presidente de várias ligas em que a simploriedade se alia ao bom coração, e que desejava saber que parte de culpa tinha o poker na decadência dos tempos modernos. Esta irrepreensível senhora recomendara à governante que não deixasse o seu pimpolho brincar senão com os da sua idade que se pudessem gabar de ter ao menos três quartos de nobreza; e descia para a mesa do almoço em primeiro lugar, a fim de não suportar a humilhação de ver que ninguém se dava ao incómodo de se levantar à sua entrada. O senador interrogado, penteando com os longos dedos espirituais a barba sábia, falou do alarme social, do plasma germinal sobrevivente nos indivíduos pluricelulares, e, invocando o animalismo religioso, o polidemonismo dos povos primitivos, concluiu que o poker não é jogo de azar, mas ginástica espiritual, porque geometriza a vida, conduzindo o sujeito aos domínios do percepcionismo, agilizando a intuição, lubrificando os liames associativos e aperceptivos, e curando, se não os casos graves de adinamia, pelo menos as formas autênticas mais benignas. Ele próprio confessou, com um sorriso colérico-moderado, que quando o doutoraram honoris causa na Universidade de Buffalo, jogou com quatro professores da Faculdade de Filosofia, e, tendo na mão um simples par de damas, fez disparar o magnífico reitor que estava com uma sequência até rei.

Aquele rei correndo de um par de damas na mão de um senador decepcionou gravemente a pudica senhora devota dos princípios monárquicos, e tirou-lhe as últimas ilusões sobre a dignidade do Senado do reino.

E nessa mesma tarde o proprietário do hotel era intimado a suspender as suas partidas de poker com a egípcia, a actriz e o amante desta, se não quisesse que todos os eupátridas do hotel, inclusive o meridional da cabeça vermelha e redonda como um queijo da Holanda, e a marquesa ("meu tio o embaixador, meu primo o núncio pontifício") partissem no dia seguinte de madrugada, pelo primeiro comboio.

À mesa dos jogadores de pocker faltou, pois, o quarto.

- A senhorita joga?

- Sim.

E foi assim que a actriz apertou a mão da virgem de 18 quilates, a lourinha dos grandes olhos azuis, de um azul mineral, sombreados por negros cílios recurvos.

Ao apresentar-se à jovem, a actriz deu o próprio nome de família.

A egípcia emitiu algumas sílabas aspiradas, precedidas de um Lady.

E a jovem pronunciou com vaga emoção o nome que lhe sugerira Sketch algumas manhãs antes, quando ela se confessara gulosa de frutas, como as abelhas:

- Mélita.

O puritanismo senil de todo o hotel trepidou pela sorte da pálida donzela das grandes íris azuis, atraída para a órbita vertiginosa, para a ventosa espiritual da actriz com fama de amores lésbicos. Mas, quando se começou a notar que nada mudara na rósea frescura das faces e na despreocupação juvenil e no apetite de criança, o público de forasteiros foi-se aproximando pouco a pouco, timidamente, prudentemente, da sombria mulher de teatro.

- Os meus admiradores sou eu que os escolho - proclamava ela.

O jovem up to date, que saía para fazer rir os cervos com uma soberba espingarda Hammerless, um impermeável Biskery e irrepreensíveis luvas de canguru, e passava impávido sob o fogo cruzado dos olhares femininos com uma máscara absorta, cogitabunda, contraída sob o peso da desmedida inteligência, fora apelidado pela actriz: "O Imbecil Que Pensa". Como em cada casa se encontra um pianista, em cada grupo existe o "imbecil que pensa", isto é, aquele que tem opinião política formada sobre o Guerin Meschino, exalta os benéficos efeitos do leite fermentado, sustenta gravemente que tudo é relativo e que a excepção confirma a regra e, quando alguém emite uma opinião um pouco original, ele rosna com sarcasmo, reservando-se para, na primeira ocasião, desembuchá-la solenemente como sua.

- Gosto dos homens simples - declarou-lhe a actriz virando-lhe as costas. - Hoje que todos se fazem de interessantes, os únicos verdadeiramente interessantes são os que não o são.

O rapaz do mundo, ressentido, invocou a própria linhagem nobre, os magnânimos lombos que lhe não permitem ter as mesmas opiniões que qualquer burguês. E a actriz replicou:

- Aristocracia, nada. A única aristocracia que eu reconheço é a aristocracia da inteligência!

O rapaz do mundo, sentindo inflamar-se ainda mais o orgulho da própria estirpe, atirou-se por todas as salas do hotel à procura do amante daquela que o ofendera.

- Senhohh! - exclamou. - A sua senhohha ofendeu-me ghhavemente. Assume o senhohh a hhesponsabilidade das suas palavhhas? Exijo imediata hhepahhação. Tehhá bhheve notícias minhas!

com efeito, uma hora depois Sketch recebia a visita de dois senhores de preto, perfumados, impávidos, truculentos, com os casacos irrepreensivelmente abotoados sobre as panças cavalheirescas, como dois bandolins apertados nas capas de pano. Estes dois fidalgos eram: o cavalheiro e o barão.

O cavalheiro, caraça alvar de encefalite letárgica, era um daqueles capitães reformados por amolecimento cerebral precoce e que, contudo, como os frutos verdes que se põem no armário para amadurecer, chegam a majores, tenentes-coronéis, coronéis, generais, e sempre podem encontrar emprego como escrivães diligentes, oficiais de justiça arrogantes, despachantes meticulosos e probos.

O barão (o outro fidalgo) era o marido da baronesa Esmeralda, a famosa literata, autora, como todos sabem, de O Dedinho no Narizinho, romance para crianças. O barão e a baronesa residiam num casarão colonial, opulentamente rodeado de urtigas e composto de um quarteirão e um puxado, com duas ou três ameias, um quadrante solar e um brasão. De oito em oito dias, punham em posição de repouso, bem à vista, no terraço do "Castelo", um faisão embalsamado, e usavam meias de seda Verão e Inverno: alguns desprezíveis burgueses insinuavam que o mesmo par, cortado pelo meio da perna, servia para o senhor barão, que calçava (com os sapatos de entrada baixa) a parte da barriga da perna para baixo, e para a senhora baronesa, que enfiava (com botas de cano alto) a parte da barriga da perna para cima. E mediante o módico dispêndio de um só par de meias, os cônjuges salvavam o decoro do seu nome cinco vezes secular.

O cavalheiro e o barão apresentaram a Sketch a carta de desafio, convidando-o a designar os seus dois padrinhos.

- Não me seria difícil - respondeu ele - encontrar dois desocupados. Mas, ou serão dois cretinos, e nesse caso eu não os julgo em condições de tutelarem a minha honra e a minha pele; ou serão dois homens inteligentes, e nesse caso não aceitarão a jocosa incumbência de virem discutir com os senhores dois a respeito de bobagens que não lhes dizem respeito.

Os dois intemeratos fidalgos retiraram-se com dignidade, declarando que o transmitiriam a seu primo.

O primo, o rapaz do mundo, preparou as malas cheio de indignação. E com a espingarda Hammerless a tiracolo sobre o impermeável Biskery, e as mãos nas sugestivas luvas de canguru, partiu em demanda da capital, à procura de dois outros padrinhos mais resolutos e experimentados nas delicadas coisas da cavalaria. A sua dignidade espezinhada por uma comediante, fosse quem fosse, reclamava enérgica reparação. A sua honra não podia ficar sem satisfação. O que ficou sem satisfação foi a conta do hoteleiro.

E ASSIM se renova o público. No lugar da semiloura meretrícula ainda não trabalhada pelo tempo, que partira inesperadamente porque a pressão barométrica não era própria para o susceptível Bacará, passou a sentar-se uma solteirona de cinquenta anos, a última das sonhadoras: uma fita celeste entre os cachos em sinos repicados, perfumados com ilhang-ithang (1901), uma bolsinha pirografada em style liberíy (1902), uma capinha bordada à Richelieu (1903) sobre o seio todo palpitações pelo niquelado inexistente cavalheiro, caminhava na relva com sapatos de verniz e saltos Luís XV e ia-se ajoelhando ao longo dos regatos para colher os não-te-esqueças-de-mim.

Ao tempo do caso Dreyfus, quando apareceram os primeiros espartilhos rebenta-barriga, tivera uma decepção amorosa, ou uma paixão mal correspondida, como dizem as cartomantes.

Uma comissão de espiritistas (aqueles espiritistas que se improvisam em todos os hotéis de montanha, nos dias de chuva), depois de ter incomodado os espíritos malignos e as sombras dos heróis que passeiam por entre os asfódelos dos Elíseos, propôs à actriz que participasse das suas sessões mediúnicas.

- Quem sabe se a senhorita não é médium? - arriscou o mais inteligente do bando, um viajante comercial (tules, bordados, guipures).

- Não sou médium - atalhou a actriz -, nem creio nesses espirituosos jogos de salão.

- Entretanto, hoje em dia - sentenciou o mais inteligente do bando (tules, bordados e guipures) - não é lícito pôr em dúvida certos fenómenos, conquanto não se possam explicar.

- Eu explico-os muito bem - retrucou-lhe a actriz. - Em toda a casa onde há uma mesinha que manqueja, todos se julgam médiuns. O espiritismo não existiria se os carpinteiros fossem mais exactos no cortar as pernas das mesinhas.

Um grupo de jovens pulhinhas pulhinhas, daquelas para quem polir as unhas e bater uma bola de ténis constituem o alfa e o ómega da existência, aproximaram-se da actriz, esguichando o seu acervo de espírito, que se resume nestas expressões de uma subtileza alarmante: "exagerado", "cheio de chique", "também isso não", "mais elegante do que isto só morrendo", "tomei um rico café", mas foram acolhidos com um silêncio de despedida. Outro grupo de jovens estudou maneiras opostas, para ver se tinham mais sorte junto da bela trágica, e deram-se ares de criaturas estranhas, de catadeiras de impossível, de ar esfingético, olhos ambícuos, boca enigmática, mãos enganadoras, psique indecifrável, alma pejada de antíteses tremendas. Raparigas que dilatam as narinas, erguem os olhos para o tecto, cerram os lábios e, com voz transcendente, exclamam: "Talvez!"

- Nós somos meninas modernas! - declararam à actriz para entrar nas suas graças. - Somos raparigas adiantadas.

- Adiantada ou retrógrada, a rapariga é sempre como o definiu Baudelaire - respondeu glacial a actriz: - "Une petite sotte et une petite salope; La plus grande imbécilité unie à la plus grande dépravation. Il y a dans la jeune filie toute l'abjection du voyou et du collégien."

Mas à virgem de 18 quilates que entrava naquele momento e olhava para ela com olhos extraviados, disse, estendendo-lhe as duas mãos:

- Salvo pouquíssimas excepções, Mélita.

E passou-lhe os longos e finos dedos pelos cabelos. As outras não voltaram mais.

- Toma cuidado - suplicou-lhe Sketch quando se acharam sós. - Tu insultas as raparigas, ofendes os homens, proporcionas-me lances cavalheirescos com mosqueteiros de baile à fantasia: tornas-nos hostil toda a população do hotel.

- Hostil? Pois é o que quero: assim não me apoquentam mais. Fizeste-me vir a esta ignóbil tasca de senhores feudais na miséria e matronas em tailleur.

- É o melhor hotel do lugar.

- Não devíamos ter vindo a este lugar.

- Foste tu quem o escolheu.

- Nunca tinha estado aqui.

- Eu tão-pouco.

- Bastava que te informasses.

- E depois?

- Que me sugerisses outro.

- És uma mulher a quem não se pode sugerir coisa nenhuma diversa da que resolveu.

- Cala-te! Há dois anos que faço a tua vontade, como a mais passiva das mulheres.

- Mas quem obedece sou eu.

Uma pausa. Entrava alguém na sala, desdobrava um jornal e punha-se a ler.

- Fala baixo - rogou Sketch. - Há público.

- Estou acostumada a ter muito mais - e moderou o tom.

- Aliás - retomou Sketch -, em qualquer hotel de qualquer lugar aonde houvéssemos ido, teríamos encontrado este mesmo ambiente. Porque por toda a parte se encontra o veranista: no campo, os homens adquirem a psicologia do veranista. Não é mais o médico, o guarda-livros, a estudante, a concubina, o deputado, mas o veranista, com todo o seu séquito de numerosa e juncada estupidez.

- Sei, mas já estou farta desta gente que me oprime! Espiritistas, bailarinos, intelectuais, aristocratas, droguistas que conversam de uma mesa para outra, meninas modernas à procura de algum distraído que as comprometa, raparigas de alma algébrica, ébrias de fatalismo, sentimentais solteironas rococó, marquesas que calçam as meias ao avesso e se perfumam com musgo e bergamota. Basta, basta! Acabarei por ser arrastada, eu também, neste ciclone de cretinice! As campainhas eléctricas não tocam. Pede-se essência de cedro e trazem sumo de limão. Manda-se trazer água morna e ela vem a ferver; põe-se no balcão para refrescar um pouco e fica gelada. Dá-se a capa à camareira, e, ao invés de batê-la por dentro, escova-a a contrapelo. Nunca vi criatura tão estúpida como aquela camareira.

- Se fosse inteligente, não se empregaria como camareira. Estaria fazendo de cocotte.

O senhor que entrara no salão para ler tinha lido, tornado a dobrar o jornal, esboçado uma reverência e enfiado porta fora. Depois que os advogados lançaram a moda de denunciar as testemunhas, não é prudente assistir às tragédias de amor.

A mulher pôde levantar novamente a voz e alcançar o registo das lamentaciúnculas.

- Se tivesse ido a outra parte, não teríamos encontrado aquela loura afectada.

- Quem?

- Aquela cara deslavada de tuberculosa: a tua virgem hierática e fatal.

Sketch procurou falar-lhe devagar, com doçura.

- Peço-te que reflictas um quarto de segundo, meu amor! Não és por acaso tu que lhe passas as mãos pelos cabelos e lhe sorris?

- Por certo. Não sou tão provinciana que me vá mostrar ciumenta.

- Poderias não te importar.

- Para te deixar à vontade.

- Eu nem sequer olho para ela.

- Mas passas-lhe a mão.

- Deixa-te de extravagâncias.

- São factos.

- Não há a mais leve sombra de verosimilhança.

- Também este Inverno não havia a mais leve sombra de verosimilhança quando te surpreendi em derriços com aquela característica, quando te encontrei na rua com a mulher do administrador, quando te peguei jantando com...

- Conversar, namorar, jantar, passear. São estas as minhas culpas! Que poderia eu dizer de ti, que vais para a cama com todos os homens que te caem entre as pernas?

- Eu faço o que quero.

E ergueu-se. Ficando só, Sketch começou a vaguear automaticamente ao redor do salão. No silêncio da hora, não se ouvia mais que o estalido do mosaico sob os seus passos; na penumbra da sala, o último raio de sol pousara sobre os candelabros do piano. Sketch apoiou a fronte à vidraça da janela e contemplou as geleiras cintilantes à luz loura do crepúsculo; uma aranha recolhia-se à casa deslizando ao longo da sua audaciosa ponte pênsil estendida entre o portal e a arquitrave; um listão do entalhe em freixo deixava cair sobre a vidraça uma lenta lágrima de resina.

O jovem retirou-se, indeciso, parou perplexo e foi para sair, sair por onde saíra a sua amante.

No vão sombrio da porta que dava para a escada, Mélita postou-se-lhe à frente, dominando-o com os grandes olhos e deixando pender vagamente a cabeça em silêncio.

Muito fina e esguia, quase incorpórea, era como uma aparição; do rosto exangue irradiava-se a desordenada auréola de cabelos luminosos; os braços pendiam ao longo do talhe longo.

com aquela palidez aureolada de louro radiante sobre o corpo erguido no vão sombrio da porta, parecia um ostensório de ouro.

A campainha ressoou com impaciência. Um camareiro entrou no corredor, leu o número no quadro das chamadas eléctricas, galgou em dois pulos as duas rampas da escada e, depois de um momento, voltou, dirigindo-se a Sketch:

- O senhor também deixa o quarto?

- Porquê?

- A senhora parte amanhã. Deu ordem para que lhe reservem um lugar no ómnibus da tarde.

Sketch não respondeu. Procurou uma decisão no rosto claro de Mélita: mas os olhos azuis do mais líquido azul conservaram-se abertos, e a boca pentagonal e vermelha como os cravos silvestres não se contraiu.

A menina esguia, que tinha a mórbida graça da anemia e lhe parecera mais ingénua e transparente do que um cristal de quartzo, revelava-se-lhe agora perturbadora como um enigma.

Era daquelas figuras que ninguém sabe pintar, porque as linhas são assaz imateriais, e porque as cores não têm assaz de fluorescência. Só se podem ver em sonho. Ou em música, porque a música é um sonho que se conta.

O camareiro fez menção de se ir embora:

- Se o senhor tiver ordens...

- Chamarei.

O Sol punha-se por trás dos montes, numa sangrenta jucundidade, cauterizando com um poeirejamento de brasas agonizantes as cristas sanguíneas das geleiras. O vale abismava-se, estremecendo sob a caliginosa melancolia azul da tarde.

Sketch e Mélita saíram para o ar livre. Ele tinha necessidade de olhar de frente esta criatura que, na transparência aparente da sua alma, escondia quem sabe que insídias. Conhecia-a tão pouco e, contudo, causara-lhe obscuras inquietações; tinham trocado poucas palavras e. no entanto, parecia-lhe conhecê-la de anos, ter andado em companhia dela através de horizontes fantásticos, numa vida anterior.

Ela nada fazia por influir sobre a sua sorte. Não era incómoda. Não era inoportuna, e todavia, em certos momentos de dúvida, no vórtice de algumas crises, vira-a diante de si, aparecer e desaparecer em silêncio, deixando-lhe nos nervos uma inexplicável inquietude, e no coração, o perfume casto das suas vestes leves.

- Gostas dela! - afirmara a amante, referindo-se a Mélita.

- Gostaria de prender-lhe às orelhas duas cenouras - atenuara Sketch: - devem ficar bem duas placas vermelhas aos lados daquele rosto exangue de mastigadora de cânfora.

Mas agora, depois de alguns dias, depois de uma troca de palavras insignificantes e um cruzamento de olhares eloquentes, depois de raros encontros ocorridos nos pontos angulares do seu amor pela mulher perturbadora, aquela menina pura como a pureza, aquele esqueleto louro, parecia-lhe a encarnação de um perigo, o símbolo de uma ameaça, o árbitro (inconsciente, talvez) do seu destino.

- Deixe-se olhar, Mélita - insistiu com ânsia, examinando-a como se examina um adversário que pode esconder uma arma.

Mas a menina deslizou sob o seu olhar e afastou-se dois ou três passos dele.

- Olhe-me!

Saltara para cima de um cubo de rocha negra como o basalto e talhada a modo de pedestal. Dali, a dois metros do nível da estrada, o seu pequeno vulto destacava-se cândido sobre o tenebroso manto de veludo em que se embuçam de noite as montanhas e que só se despojam dele, nas noites serenas, para mergulhar num banho de luar.

Mas não lhe ficava bem aquela postura comicamente estatuária. Desceu e achegou-se ao amigo, para que não suspeitasse nela a garridice de se fazer perseguir.

- Permite que lhe dê o braço? E pendurou-se nele.

O caminho perlongava a torrente: uma torrente que canta, naquele ponto, como nenhuma outra torrente; canta como um violino a que faltassem as três cordas mais graves, e só restasse a prima gasta pelo vento e pela sua voz.

O Lys!

Até o seu nome não É mais que uma strappata sobre a cantadeira.

- Vamos descer - propôs Mélita aplicando o ouvido a um tilintar monótono de panelinhas de alumínio. - Excursionistas que regressam.

E, sem lhe soltar o braço, descreveu meio arco de circunferência em torno dele. O hotel fazia reluzir no fundo negro oito pequenos rectângulos de luz.

- Eu desejava apenas cumprimentá-lo - murmurou Mélita depois de longa hesitação. - Você partirá amanhã. Não nos veremos nunca mais. E não podemos dizer-nos adeus como dois estranhos que o acaso levou a encontrarem-se num mesmo salão de restaurante e que o maitre-d'hotel fez sentar a duas mesas diferentes. Queria estender-lhe as mãos um pouco longe de toda aquela gentinha. Até ao ómnibus não iria: quem parte tem muito em que pensar com a própria bagagem... Além disto, a essa hora não estarei aqui.

- Também desce?

- Subo. Em direcção oposta. Para a montanha.

- com quem?

- com ninguém. Sempre andei só; viram-me sempre só, à beira-mar, pelas sendas dos vales e nas ruas rumorosas das metrópoles. E não o faço por fita, acredite. Tudo se pode fingir, menos o amor à solidão. Quem finge, por uma atitude de snob, amar a solidão e não a ama, ao fim de alguns dias atraiçoa-a com o primeiro que passa.

- Então eu...

- Você não É o primeiro que passa. Passaram muitos outros e deixei-os seguirem os seus caminhos.

Como os excursionistas se aproximavam com os seus passos cadenciados, Mélita e Sketch apartaram-se para um lado.

Pelo cheiro de amêndoas amargas, que atrás de si deixou, reconheceram o fabricante de nitrobenzol. Quando a massa confusa de sacos e de pessoas se apagou na bruma, a rapariga recomeçou:

- Sabe onde É que a gente se sente, de verdade, só? No meio da multidão, entre três milhões de habitantes, entre três milhões de desconhecidos. Ao revés, nas regiões desertas, na mais desoladora das aldeias, não se encontra solidão, pois basta conhecer uma só pessoa para vê-la a cada passo aos nossos pés.

E descendo na bruma, com a jovem pálida e loura, vestida de claro, tão leve, a julgar pelo braço, tão tépida, a julgar pela longa mão nua que o roçava, ele pensava confusamente, sem convicção:

"Esta rapariga é um belíssimo, colorido, pinturesco vegetal; caminhando ao seu lado parece-me, quando muito, ter uma flor à lapela."

Mentia a si mesmo. com ninguém nos atrevemos a ser tão descaradamente mentirosos como com nós próprios.

- Nunca esteve no estrangeiro? - perguntou a rapariga. -? Eu estive. Viajei muito.

- Sozinha?

- Sozinha.

- Não tem família?

- Não tenho ninguém. Tenho irmãos, irmãs, pai. Mas não tenho mãe. Quem não tem mãe não tem família.

Calou-se, pensativa. E continuou:

- Depois, depois... Os verdadeiros parentes não são aqueles que temos por destinação genealógica: com esses a gente, em regra, sente que não tem nenhuma afinidade; um dia encontraremos no mundo um estranho que sentiremos irmão, pai. Esse será um verdadeiro parente!

- E aquela senhora...

- ...que veio visitar-me? Uma tia qualquer. Há um mês, como hoje, eu comia pastelinhos num bar de má fama de Cannebière. No ano passado, por esta época, depois de ter escutado até atordoar-me o chiar das cigarras na Provença, fui mergulhar no silêncio religioso do golfo de Biscaia entre bailarinas de fandango e pelotaris à chistera, isto é, jogadores de pelota com luvas de junco. Viajaria sempre. No estrangeiro, quando se tem a sorte de ignorar a língua, todos parecem geniais; quando a gente não sabe o que dizem, pensa que dizem quem sabe quantas coisas espirituosas, originais. Mas, no dia em que se começa a compreendê-los, verifica-se que raciocinam como todos os outros. Então a gente manda pôr nova estampilha no passaporte, passa uma fronteira, vai para um país onde falam de modo diverso, e a ilusão ressurge.

Tinham chegado a uma pontezinha improvisada, assentada sobre pedras inseguras e maliciosamente balouçante. Mélita deixou-se apoiar sobre o seu braço.

- Mas para que lhe digo estas coisas?

- Para demorar o momento da despedida. Temos medo daquele momento.

O violino do Lys tremulava a sua longa nota sustentada na prima, e a pontezinha estremecia sob os seus passos. Detiveram-se.

- Não tenho medo de nada! - declarou Mélita.

Mas, como um sopro de vento descido das geleiras lhe roçasse a nuca e fizesse ondear mais ameaçadoramente os ramúsculos de bétula e estalejarem algumas folhas secas, agarrou-se com as duas mãos aos braços dele e apoiou todo o peso do corpo sobre o seu peito.

Ele respirou o perfume dos cabelos moles de bruma, estreitou-a toda palpitante, toda quente, toda viva, de encontro ao seu corpo, e pousou os lábios naquela nuca tépida e nua, pelos cabelos aparados masculinamente à navalha, saturada de uma sensual tepidez de juventude intensa.

- Não! - gemeu ela atirando a cabeça para trás como um passarinho, para lhe oferecer a face pálida, mas ardente, para oferecer-lhe uma boca cheia de amor e dois olhos cheios de pranto.

Uma rapariga loura, a noite enevoada, o vento, a pontezinha sobre a torrente que canta...

Nas antigas idades maravilhosas, quando os postes telegráficos não profanavam as montanhas para civilizá-las, as belas lendas que os simples depois narravam, e os poetas punham em rimas, e os enamorados repetiam. (os enamorados são poetas sem rimário), nas antigas idades maravilhosas, as belas lendas formavam-se assim.

- Você tem alguma coisa a dizer-me, pobre rapaz - murmurou a jovem com voz alterada. - Diga-me tudo. Nesta penumbra de confessionário é grato fazerem-se pequenas confidências.

A passos lentos, desceram em direcção ao hotel que os chamava com a sua luz velada e imprecisos toques de gongo.

- O senhor sabe se a senhora almoça no quarto? - perguntou com fleumática loquacidade o maitre-d'hotel, tirando da mesa de Sketch um dos dois serviços.

- Chegaram os jornais?

Dobrou a folha ao meio e alternou uma colherada de sopa com cada período de prosa. Mas não saberia dizer se lia o artigo de um daqueles acrobatas da economia, que com as mesmas operações sobre os mesmos algarismos podem demonstrar que o país corre para a falência ou que tem ouro suficiente para calçar as estradas, ou ainda se lia a tentativa de demolição de um artista célebre, estéril desabafo solitário de um de tantos desconhecidos, que com os seus artigos indigestos não lograrão nunca forrar-se à obscuridade perpétua e aos protestos de letras.

Mélita e a actriz, a mulher que representava o seu ontem e a menina que podia clarear o seu amanhã, a mulher que fora a amante, a menina que podia ser o amor, confundiam-se, sucediam-se, compenetravam-se na sua mente inquieta.

O salão do restaurante não existia mais para os seus olhos; tiravam-lhe o prato e serviam-lhe outro, sem que desse por isso; desejou bom apetite a um senhor que saía, temperou com mostarda francesa a marmelada de tâmaras; respondeu sim ao moço que lhe perguntava se queria café, e quando o viu servir sustentou que não o pedira. Mas depois bebeu-o, sem querer.

Mélita vestira uma roupa vaporosa de tule verde, donde lhe saiam os magros braços de criança, ainda quase insexuais; parecia envolta naquelas algas macias e recortadas a que os pescadores chamam rendas das sereias.

"gostar dela, não!", repetia a si mesmo para se sugestionar, recordando a impressão de pouco antes. "Gostaria de vaguear pelas ruas e entrar nos cafés cheios de luz, tendo ao lado o conjunto pitoresco de cores harmoniosas e berrantes que aquela deliciosa criaturinha tem o bom gosto de reunir no seu corpo. Mas amá-la, não!"

Mélita, sentada em frente, estendeu um braço para pegar qualquer coisa na mesa contígua. E espichou-se toda.

"Dolicoesquelética loura", definia Sketch consigo, contemplando-a. "Há um insecto, um ortóptero, que se parece com ela: também é verde e longo e tem, igualmente, o corpete achatado, o tórax recolhido, os grandes olhos cheios de curiosidade, e os bracinhos secos e imensuráveis, dobrados em atitude de prece: Mantis religiosa, chama-se."

"Mas já a comparei a demasiados insectos", pensou, como que por um sentimento de remorso; e, reagindo contra a instintiva ternura, completou: "...aquele querido animalzinho."

- Levaram o almoço para a senhora?

- Já se deitou.

- Não está bem?

- Muito bem. Dorme.

Depois da crise de nervos, dormia.

O galã da companhia, grande leitor de revistas científicas, dizia-lhe que o encolher-se e o bufido ameaçador dos gatos é produto de uma descarga de adrenalina.

- Descarga de adrenalina! - anunciava o actor cómico nos ensaios ou nas noites de borrasca, quando o artista preparava, de nervos tensos, uma explosão de fúria.

E às suas descargas de adrenalina Sketch estava habituado: tinham-se-lhe tornado quase necessárias.

Disputar todas as manhãs durante dez minutos com a amante é uma saudável ginástica que dispõe bem para as lutas quotidianas com o mundo. Todos os dias ela o fazia praticar os seus dez minutos de exercício físico.

- Aquela mulher tem uma acção excitante sobre os teus nervos, como o cloreto de sódio - diagnosticava o actor cómico. - Tu precisas de brometo. O brometo acalma.

O brometo podia ser Mélita, a menina que lhe aparecera com um fio de capim entre os dentes.

Mas o brometo, usado por muito tempo, é estupefaciente.

Insectos, recordações remotas, remédios, sucediam-se em turbilhão no seu cérebro.

"Já agora", pensava, "não posso amar senão mulheres vulcânicas, iguais a ela: mas nunca encontrarei uma mulher tão perturbadora. Uma virgem, uma virgem loura, é como um copo de água mineral oferecido a um alcoólico.

Mas, ainda que encontrasse uma mulher mais bela, mais sensível, mais inteligente, que me amasse mais, não conseguiria substituir a outra. Amar uma mulher quer dizer habituar o nosso sistema cerebrospinal a não vibrar senão por ela. Cada mulher tem o seu próprio "comprimento de onda", como diria um radiotelegrafista. Pode-se explorar todo o universo, que não Se encontrará outra mulher que tenha o seu "comprimento de onda", ainda que seja mais bela, mais sensual, mais enamorada que ela.

Entretanto, aquela mulher envenena-me. Faz-me envelhecer. Deforma-me a visão de todos os factos, a apreciação dos valores de tudo, É um fenómeno inexplicável, como a jetatura e a hipnose. É uma espécie de influência maléfica que actua sobre mim, me comunica a sua loucura lúcida, a sua loucura circular. Ponho-me a rir como se aspirasse protóxido de azoto, o gás hilariante; fico triste como se comesse uma salada boliviana de folhas de coca. Depois de um atrito com ela, ando vários dias superexcitado: irrito-me sem motivo.

Torno-me ridículo perante mim mesmo, passando as noites sob as suas janelas, a contar quantas vezes o amante a faz acender a luz.

Torno-me ridículo perante os outros, trazendo no rosto os sinais das suas unhas."

- Antes de travar uma discussão com aquela mulher - tinham-lhe sugerido - é recomendável uma injecção antitetânica preventiva.

Tinha ficado só na sala de jantar. Um garçon diminuiu todas as luzes, menos a da sua lâmpada. No telégrafo óptico do pessoal de hotel, este sinal quer dizer:

"Senhor, só esperamos que se vá embora".

Sketch não se moveu:

"Partir? Seria vã tentativa. Não, não será vã tentativa. Era-o quando nos separávamos num período longo de crise, de desespero, de angústia, quando me roía o ciúme. Mas hoje, que não existe entre ela e mim nenhum homem, talvez pudesse ir-me sem que o ciúme me induzisse a voltar.

Se se traçasse com um gráfico o nosso amor, quantas interrupções apareceriam, e quantos borrões e quantos recomeços!

Amanhã parte, diz ela. E partirá, se eu não lhe suplicar que fique.

E, se eu não suplicar?"

O caixeiro despira a casaca protocolar e começava a virar as cadeiras sobre as mesas com um ruído insolente.

- O senhor deseja ainda alguma Coisa?

Sketch levantou-se e saiu

Fechada num voluptuoso casaquinho de castor, com os dois punhos mergulhados nos bolsos, Mélita descia devagar a escadaria, detendo-se em equilíbrio sobre uma perna em cada degrau.

- Aonde vai, Mélita, com tanta pressa?

- Comprar cigarros e fazer uma consulta meteorológica.

- Acompanho-a.

- À montanha?

- Ao observatório meteorológico.

- Vamos.

- Mas amanhã não poderá partir. Verá que tempo horrível! Se não chover, vou consigo. Quer?

- Demoro-me alguns dias.

- vou por alguns dias. Quer?

- Queria.

E fizeram abrir com um alegre tilintar de campainha de alarme a porta da tabacaria.

O velho de grande barba ondulada, qual mármore corroído pelas acuas, entregou à jovem freguesa o habitual pacote de cem cicarros.

- Que tempo vamos ter amanhã cedo?

O velho tomou um punhado de sal, examinou-lhe as condições higroscópicas, depois levantou a cabeça, procurando através das vidraças embaciadas da tabacaria um ponto invisível nas colinas brumosas.

- Não há erro possível - sentenciou. - Quando...

E declamou um provérbio de rima aproximativa numa língua incompreensível, mistura de alemão avariado e de céltico decomposto, que Mélita compreendeu muito bem: chuva segura.

- Que disse ele?

- Magnífico sol - traduziu a jovem. Cumprimentaram

- E você não é um devorador de fumo? Não? Eu fui criada por uma formidável ama búlgara que, enquanto me abandonava as suas balcânicas mamas, fumava num grande cachimbo de madeira.

Ao saírem, uma alegre algazarra de campainha acompanhou-os por muito tempo, cheia de festiva, gárrula, tilintante malícia. O jovem sentiu ecoar-lhe mais tarde nos ouvidos aquele repique augural de campainha quando, no seu quarto, tendo descoberto um longo fio de cabelo louro sobre o ombro, o contemplava à luz da lâmpada.

Durante toda a noite a actriz esperou num langor misto de cansaço e de desejo. Fizera-se mais bela mediante hábil emprego do seu pequeno instrumental, os delicados perfumes, os milagrosos cremes: moderara a luz, improvisando um lucívelo com um lenço de seda de grandes manchas, a fim de que o seu corpo, já demasiado conhecido pelo amante, em todas as suas sombras mais íntimas, lhe oferecesse a novidade do mistério. Mas a noite passou em branco. Nenhum toque de sino, nenhum ladrido de cão à distância, nenhum estalido de caruncho (o sino, o cão, o caruncho de todas as noites sem sono). Até o Lys abafara a voz para não se deixar ouvir mais, como se a sociedade dos hoteleiros o subvencionasse para só tocar de dia.

Deixara entreaberta a porta, a fim de que por entre os batentes encostados escoasse, como chamado para o amante, um feixe de luz, e para que ele pudesse entrar sem se humilhar.

Adormeceu, acordou, contorceu-se naquele tormentoso período hipnogógico que faz intermináveis as noites, tornou a engolfar-se em profundo sono de enferma. Quando acordou de novo, era dia.

Sem pôr em ordem os cabelos, nem olhar-se ao espelho, enfiou um roupão e correu à porta do quarto do amante.

- Abre! Silêncio.

- Suplico-te que abras, querido!

E agarrou-se à porta com os dedos contraídos, como a um esquife que lhe arrebatassem,

- Perdoa-me! Que te fiz eu? Eu amo-te!

Sob a pressão do seu corpo, o frágil batente pareceu ceder.

Ela empurrou-o com as duas palmas abertas, e encontrou-se no quarto de Sketch.

Cheiro de água-de-colónia e de dentifrício de hortelã: a cama remexida; a desordem desesperada de quem teve pressa em sumir-se.

A mulher voltou para o próprio quarto a passos vagarosos, em silêncio, sem chorar, sem rasgar lenços, sem quebrar frascos de cristal.

Escolheu entre os ferros enfileirados no toucador uma lima finíssima de cabo de marfim, e pôs-se com meticuloso cuidado a acertar a ponta de uma unha, que se lascara ligeiramente na porta rebelde.

DUAS formas humanas subiam, à luz orvalhada da manhã, por um trilho banhado de sereno a meia encosta, rasgado no ervaçal filigranado de arabescos vaporosos.

No atalho da montanha, como contrabandistas de amor que carregassem escondido o perigoso tesouro da sua ilusão, calavam-se durante a fuga, pelo receio de que a voz os denunciasse.

Ela, porém, Mélita, que ia à frente, balouçava-se sobre os tornozelos sorrindo como se a alma cantasse dentro dela, em voz baixa, o refrão da sua juventude.

- Está cansado, Mauro? - motejou a rapariga, advertindo que lhe tomara alguns passos de dianteira.

Sketch sorriu e alcançou-a.

Chamava-se Mauro Mauri. Alguns pais, em vez de pedirem perdão ao filho pelo não pedido presente da vida, permitem-se jogos de palavras idiotas e insulsas argúcias sobre o seu nome.

Mauro Mauri estava sereno como se não trouxesse na carne o seu drama, mas o tivesse deixado lá em baixo... A angústia da noite anterior acalmara-se por milagre, diluindo-se numa como que obliteração de espírito.

O mal roía-lhe as entranhas, mas ele arrasíava para longe o seu mal, num estado de narcose. Certos doentes resignam-se a morrer, com a condição de irem morrer noutra parte, e apenas reclamam uma droga que os acalme para esta última viagem.

Sabia que a mulher perturbadora tinha velado inquieta, esperando que ele fosse beijar-lhe, como acontecera em outros casos idênticos, a grande cabeleira desfeita sobre o travesseiro, mergulhada em pranto.

Mas ele deixara-se ficar absorto, no próprio quarto, sem conseguir adormecer, seguindo na treva espessa da noite as duas lancetas fosforescentes do despertador luminoso, que se arrastavam, perseguindo, alcançando e passando uma a outra sobre o fósforo das horas.

Não tinha dormido para velar sobre o sono da própria vontade,

De repente, ao primeiro tremeluzir de uma aparência de aurora, levantara-se como os hipnotizados em estado de vigília, reunira alguns objectos espalhados e, metendo-os numa bolsa de excursionista, descera à estrada na ponta dos pés retendo a respiração para não despertar a própria vontade adormecida.

Mélita, toda bela, toda loura, toda jorrando juventude, mais fresca do que um fruto, no ar frio que parecia encrespar-lhe os cabelos curtos, esperava-o em trajo de montanha com um vestido de lã curto, e pesado, de desenho escocês, à moda do kilt que ondula sobre os joelhos num dos highlanders e evoca uma nostálgica alegria de tambores e cornetas.

E puseram-se a caminho, falando, a longos intervalos, de coisas estranhas à loucura.

- Que botou no seu alforje, Mélita, para estar tão volumoso?

- Tudo o que você não pôs no seu.

O baque dos bastões ferrados nos rochedos marcava-lhes o ritmo do andar. Mélita, à frente; Mauro, dois passos atrás, olhava mais para ela do que para o caminho; entre a cabeleira de ouro posta em desordem pelo vento, e o casaco de veludo, abria-se um parêntese róseo de carne, velado pelo ténue louro de vaga penugem. Na transparência do céu, uma grinalda de nuvens vagava indecisa para cá e para lá.

Desceram por uma ladeira, atravessaram a torrente espumejante e subiram pela rampa oposta. A sua passagem pelo meio de um grupo de choupanas fez assomarem caras curiosas às portas tenebrosas, e provocou uma fuga de galinhas que confabulavam em torno de uma fonte.

E depois, de novo a solidão.

Outra aldeia, com um pequeno cemitério e alguns rapazes que brincavam às escondidas entre a erva altíssima das sepulturas.

- Neste lugar as crianças não têm medo da morte - observou Mauro, olhando através do portão. - As crianças, que estão mais perto da natureza do que nós, talvez tenham a obscura intuição de que os cemitérios são silenciosos laboratórios onde a morte se transforma em vida.

- Bravo! - aprovou uma voz, de dentro.

Era um velho que cavava uma fossa. E em vez de cantar, como o coveiro de Hamlet, bebia.

- bom dia, mestre! - cumprimentou Mélita, virando-se.

O velho (mestre-escola, síndico, coveiro e fiscal da sociedade hidroeléctrica) apoiou o queixo barbudo sobre o cabo da pá e sentenciou:

- Não têm medo da vida porque não sabem o que é um vale de lágrimas.

- Um vale de lágrimas canalizadas nos tubos – motejou Mélita apontando com o seu bastão para os condutores hidroeléctricos.

- Lagos, torrentes... - ilustrou com gesto largo o filósofo despachante para o Além. - Acua há de sobra.

- Mas bebe-se pouca - acrescentou Mauro.

- Que quer? O médico ordenou-me que comesse uvas sem engolir as cascas nem os caroços; eu faço-os tirar por outro, "com a prensa, e bebo dois meses depois o que ele espremeu.

Mélita atirou para trás a cabeça, rindo como uma criança, e leu sobre uma esfera a epígrafe apagada:

"Un peu de fête, beaucoup de devil; puis un cercueil... la vie est faite".

- Exageros! - protestou. E puxando Mauro por um braço, cumprimentou à pressa e levou-o consigo.

- Simpático, aquele empacotador de cadáveres! - nesta casa mora quem lhos fornece.

Uma casa de campo pequena e risonha, com um balcão enfeitado por um grande vaso de gerânios.

- Um médico - zuniu Mélita -, mais céptico do que o coveiro. Tem sempre três receitas prontas: uma para dor de cabeça, outra para dor de barriga e a terceira para todos os mais casos. Quando vêm chamá-lo à noite, a mulher indaga da janela os sintomas da moléstia, e dá uma das receitas. Na manhã seguinte, o marido vai tranquilamente à casa do doente, prescreve o tratamento e, se lhe parece que é caso perdido, redige o atestado de óbito e a autorização para o enterro, deixando a data em branco, para que os parentes a ponham quando Deus quiser.

Havia duas horas que caminhavam.

- Mauro, tem fome?

- Tenho sede.

- Não se bebe em marcha.

E, para atenuar o tom autoritário, endireitou-lhe a gravata.

- Quer açúcar, Mauro?

- Não.

- Quer um beijo?

- Sim.

- É muito cedo. Ainda estamos nos mil e seiscentos metros. Numa volta, apareceu um rebanho de carneiros. Alguns fugiram assustados: os cordeirinhos aproximaram-se de Mélita, que os chamava com um tom de voz especial e estendendo a mão fechada. Rodeada, apertada, assediada de todos os lados por aquela onda de lã viva, tirou do seu bornal um grande pedaço de pão e deixou-o arrebatar pelos mais audazes, que não lhe deram tempo de o partir.

Ávidos, infantis, prepotentes, ecoístas, os que tinham ficado atrás abriram caminho com as cabeças abaixadas ou erguidas, suspendendo a benfeitora. E Mélita ria com um riso voluptuoso, estremecendo ao contacto mórbido daqueles focinhos macios, tão suaves.

- Não há mais - vocalizou, espichando os dedos e mostrando as palmas a todos aqueles olhares arregalados de avidez. Alguns pararam a contemplá-la, absortos, com os olhos lânguidos e os perfis semíticos. Um dos cordeirinhos, erguido sobre uma rocha como um pesa-papéis, permaneceu imóvel até que as duas misteriosas personagens desapareceram atrás de um desfiladeiro.

- É delicioso o focinho daqueles bichos! - confiou Mélita, enxaguando a mão babada num regato claro. - Acariciando-os, experimenta-se esquisito estremecimento em toda a pele. Quando eu era menina, considerava-me uma degenerada, porque não compreendia a música, não olhava para os quadros, não achava graça na poesia, ao passo que sentia um prazer que me faria empalidecer palpando certos tecidos de seda, certos frutos aveludados, certas coisas macias, quentes, e adesivas, como o focinho dos cavalos. Acariciava as plantas do nosso jardim, em Calcutá, onde meu pai era cônsul, e parecia-me acariciar as patas rugosas de um elefante, e perguntava a mim mesma a razão por que, de dentro de um tronco grosseiro e sem valor, saíam coisas delicadas como as flores e preciosas como os frutos; encostava a face à casca deles para ver se descobria esses mistérios e beijava os rebentos húmidos, mais tenros do que a boca de uma criança. Minha mãe dizia que tenho os olhos na ponta dos dedos, como o caracol os tem nos cornos.

Mauro calava-se, sob a fatalidade daquele calcorrear por uma montanha atrás de uma rapariga tão esguia e tão loura, que parecia uma figura da mitologia do Norte, como dizem os que desconhecem tanto a mitologia do Norte como a do Sul.

Nem sequer sabia que destino levavam. Um povoado? Um ermo? Uma aldeia da outra vertente?

- Admiro as alturas - confessava ele, irreverente - quando são domesticadas por um funicular que leva até o cume. Compreendo as neves eternas, mas quando posso contemplá-las de um terraço de hotel, estendido numa espreguiçadeira, tendo ao lado uma máquina de café a pingar na xícara, e nas mãos um artigo de Bergeret. Mas esfolar as canelas nas rochas, pendurar-se sobre abismos, dormir em cavernas, vestir-se de esquimó, voltar congestionado, pelado e blefarítico, afigura-se-me um sacrifício que as rochas, ainda que sejam virgens, e as neves, ainda que sejam perpétuas, não merecem. Isto sem falar de outro género de alpinismo, senhoril, snobístico, passional, melodramático, furibundo, com perigo de morte no programa!... Como é que se pode levar a sério o pretenso fanatismo das tais senhoras elegantes, lânguidas, melosas e enjoadas, que na cidade são incapazes de subir a um primeiro andar sem manobrar o ascensor e, quando compram um sabonete, mandam-no levar a casa, e entretanto devoram quilómetros de subida por caminhos intransitáveis, com pesos acabrunhadores sobre as espinhas espichadas?

- É preciso ver - subtilizou Mélita, dando-lhe o braço e caminhando a seu lado - se estão na verdade aqui ou na cidade. Pode ser que, estragadas pela vida urbana, deixem na planície as suas molezas e enjoos, e, subindo cá em cima, se purifiquem: que não sejam falsas no ar livre oxigenado das montanhas, e sim no ambiente perfumado dos salões. Parece-te ilógico? Parece-te absurdo? E não achas que são belas as coisas ilógicas? Não será por acaso absurdo que tu e eu, neste momento, estejamos neste caminho?

Parou, procurando o caminho. Deu alguns passos à frente, examinou o chão.

- Mauro - disse, virando-lhe as costas para lhe mostrar o saco -, estás a ver esse nó? Desata-o.

- Pronto!

- Que há?

- Chocolate.

- Tira o chocolate. Que vem depois?

- Chá.

- Fora o chá. Que há em baixo?

- Tintura de iodo, algodão hidrófilo, tâmaras em calda.

- Fora tudo. E depois?

- Um sobrescrito amarelo.

- Dá-me o sobrescrito amarelo, e põe de novo dentro do saco tâmaras, iodo, algodão, chocolate e chá

Cumpridas as ordens Mauro beijou-lhe a nuca, enquanto ela, com cómica seriedade, consultava o mapa militar.

- Não perturbes o estado-maior.

E, pondo-o novamente no sobrescrito, passou-lho por cima do ombro.

- Mete no saco também o mapa. E agora vamos. Por aqui, Anémicas lagartixas, espichadas sobre os rochedos mornos.

segundo as prescrições da helioterapia, fugiam para as suastocas.

- Se nos sentássemos?

- Pois sim, querido, para provar as tâmaras em calda? Puseste muito ao fundo o pote? Aqui está. Deixa, que euabro: é muito simples: aberto. Procura a colherinha. Repara bem. Viste que é bastante? Começa tu, que és hóspede. Abre a boca. Baixa as mãos. Não é bom? E agora uma. para mim. Mais devagar, glutão! Outra para ti. E esta para mim. Gostas de calda. Oh! Repara que ainda tem! Nãohão-de querer picar-me! Que marotas! Pousam na beira.

- São as abelhas dos últimos alvéolos. Trata-se de uma comissão que as tuas irmãs, as castas bebedoras de orvalho, enviam ao teu encontro para te darem as boas-vindas.

- bom dia, comissão. Bem podiam mandar duas rainhas em vez de duas operárias.

- É uma delegação operária.

- Tenho pouca confiança nas minhas louras irmãs. Entre irmãos também é possível o fratricídio. Abandona-lhes o pote e vamos.

Vermelha e carnuda como um rododendro, uma menina de três anos assomou no limiar de uma cabana troglodítica. A mãe, de uma elevação próxima, arrancava quatro espigas de cevada, crescidas como uma esmola no meio das pedras, sobre um palmo de terra.

A criança ria com a boquinha cortada em semicírculo na cara redonda como um boião.

- Um boião que espera a oblata de um caramelo. Não agradeceu o presente nem o levou à boca, mas permaneceu em êxtase a contemplá-los.

- Lavam-te alguma vez a cara? - trinou Mélita, com bom humor.

- Não! - desmentiu a menina, repelindo com energia " caluniosa insinuação.

- Vamos - rogou Mélita. - Estás cansado?

- Eu não. Mas tu, que és tão frágil, diáfana, imponderável ...

Justo! Por que não dizes antes impalpável, imaterial, ectoplásmica?

- E se houvesse de te apertar nos braços, teria medo de quebrar-te.

- Tratas-me como uma boneca de vidro de Murano. Entretanto, sei ser forte. Verás. Tenho vontade para mim e para os outros.

- Eu não tenho nem para mim. Falta-me vontade, decisão. Quando for muito rico, contratarei um homem, encarregado de impor-me a sua vontade, de tomar iniciativas, de combinar as minhas viagens, de recomendar-me gravatas, de mandar-me dormir. Em lugar de contratar um criado, contratarei um tirano. É preferível ter um tirano a um escravo. Pensarei que obedeço à vontade dele, mas na realidade obedecerei à minha, porque é à minha vontade potencial e amorfa que ele terá dado forma e actualidade.

- Que linguagem cabalística! - gracejou Mélita. - Fazes-me lembrar o senador do nosso hotel, que todas as noites amarra um chumbinho a cada fio da barba e dorme sentado para não perder o ar catedrático durante o sono. Ofendi-te? Perdoa-me. Quando me conheceres melhor compreenderás. Adoro os ingénuos. E procuro-os, nas minhas vagabundagens; mas encontro poucos. As criaturas excepcionais tornaram-se tão comuns que encontrar um ser comum é caso excepcional: todos tomam ares de complicados, de cépticos. Os cépticos divertem-me por um momento; mas depois do primeiro paradoxo não os tolero mais. O cepticismo parece-me ingenuidade mascarada, parece-me o álibi da importância, e dá-me tanta pena como a miséria de casaca. Gosto dos ingénuos, dos primitivos, dos simples, que lêem presságios de morte nas bolhinhas de café, decifram o destino nas linhas das mãos e ouvem o mugido do oceano no vácuo de uma concha. Não posso suportar as senhoras da minha categoria e da minha idade, porque todas são artificiais, porque, ouvindo-as, julga-se que têm almas espirálicas, psiques labirínticas, a tragédia de serem incompreendidas. E, no entanto, são umas pulhas! E considerando-me também incompreendida, detesto-as porque receio ser também uma exibicionista.

- De quem és incompreendida?

- Da minha família. É por isso que ando a vaguear pelo mundo. Eu sou infeliz: por isso me aproximei de ti, que não és feliz.

Mauro quis sentar-se. Pousou o saco e recostou-se a um rochedo. Tinha as mãos frias, os olhos fixos e cansados, com uma tendência invencível para se fecharem.

- Não durmas! - suplicou-lhe Mélita. - Não durmas! Mexe-te, fala! - ordenou-lhe, autoritária. - Dize-me qualquer coisa!

O espectro do mal de montanha aterrava-a. Estavam no alto, numa garganta silenciosa, longe de qualquer habitação, numa esqualidez de rochas e de áridas ervas sem caule, entre pedras calcárias, da brancura de ossos esbranquiçados, sob o sol morno.

Mélita sentiu-se perdida, com aquele corpo inerte entre os braços.

Ao redor, o silêncio perfumado de menta-selvagem, de canela e de musgo rasteiro. Centenas de gafanhotos cinzentos saltavam em parábolas desordenadas, e no salto abriam as asas, modesto manto pardo, a fim de desdobrarem ao sol, por um momento, as vestes interiores escarlates.

- Esforça-te, Mauro. Ergue-te. Poucos metros mais e começa a descida.

Ele abriu os olhos e, sem falar, levantou-se. Apoiado ao braço da companheira, subiu com fadiga, tonto de sono, em direcção à saída, que parecia próxima, mas que se afastava a cada passo; a última volta do caminho de mulas fazia aparecer outra, que se espichava para o céu, como um vértice para além do qual não restasse mais que o azul do céu e a frescura do declive.

- Chegámos! - exultou a rapariga, respirando profundamente, com a boca aberta.

Estavam num planalto árido, cheio de uma vegetação vária e compacta como a lã de um rico tapete de Esmirna salpicado de tufos brancos, bordado de caprichosas policromias que, vistas de perto, revelavam a simetria geométrica de pequenas corolas e a oblação de muitos e muitos cálices minúsculos, transbordantes de néctar.

- Estás a ver, lá no fundo?

- Um lago. Parece mais pequeno do que um tub.

- E o rectângulo branco na margem?

- Vejo. Parece uma cabana.

- No entanto, é uma estalagem. Pararemos lá.

Tinham chegado à orla do tapete, onde começa a descida: papel de estanho, cascas de ovos, uma caixa de película Kodak, denunciavam a passagem recente de algum homem civilizado.

Como o saco parecia mais leve, e mais ténue o ar, à vista daquele lago de turquesa que ia aumentando e fazendo-se cada vez mais transparente!

- Dá vontade de chupá-lo todo, com uma palha, como se fosse refresco.

O vestidinho escocês da rapariga, riscado em todos os sentidos de ramúsculos e crivado de frutos, balouçava em graciosas pregas pesadas sobre as pernas nervosas que saltavam de pedra em pedra, no feltro do declive, e, fazendo centro no bastão, desenhavam no salto elegantes arcos de circunferência.

Junto à minúscula casa, duas mulherzinhas, paradas na soleira, olhavam para eles.

- bom dia! - disse Mélita, metendo nas mãos de uma das mulheres um níquel propiciatório, - Estão desocupados os dois quartos que dão para o lago?

E descansou o saco, tirou o gorro, soltando ao sol puríssimo a puríssima coma de um lindo louro chartreuse. O vento enfunava-lhe a camiseta branca.

- Estás com frio, Mauro. Põe a minha capa. Mauro, calado, contemplava a montanha,

e o lago,

e o sobrenatural silêncio,

e a neveira bifurcada para o sul, que se espelhava na água encrespada pelo vento,

e o solene voo dos falcões,

e o infinito,

como escrevem os jovens romancistas que têm mais papel para encher do que ideias para expor.

- Preferes o frango?

- Prefiro.

- com as favas caras à Pitágoras?

- Pitágoras tinha gostos de professor de Matemática. Aborreço-as.

- Cogumelos, então.

- Desde que não haja iminente perigo de morte.

- Eu própria tomei informações na cozinha, e deram-me referências irrecusáveis.

- Fizeram a prova do alecrim e da moeda de prata?

- São provas que não provam nada. Só há um meio: fazê-los provar por um parente próximo.

- Há certos parentes - respondeu Mauro - que resistiriam até aos cogumelos venenosos. Como é a cozinha?

- A última palavra em matéria de modernidade.

- Limpa?

- Esterilizada. vou transmitir as ordens.

Mauro estava já sentado à mesa, e olhava à roda, um pouco maravilhado de se encontrar naquela espécie de refeitório de mosteiro, desataviado numa sublimidade de renúncia: largas pranchas apoiadas a cavaletes, toalhas grosseiras, imaculadas, e bancos de um lado e de outro.

Nas paredes, nem almanaques, nem convites para provar tal ou qual aperitivo, nem quadros com o Mouro de Veneza ou o combate de Affa Garina ou o retrato de Menelik.

Duas janelas abertas para a geleira.

Fugira movido por um instinto de defesa, e um automatismo inconsciente impelira-o por todo o caminho. Não soubera para onde ia, desconhecendo os lugares e seus nomes. Parecera-lhe que percorria as ilustrações de um livro de ciências naturais: passara pelas bétulas, depois pelas plantas de folhas caducas, e depois pelos rododendros ferruginosos; quando rarearam os lariços e os abetos, tinham-se insinuado as coníferas anãs, e as violetas delicadíssimas emergiam entre os musgos e os líquenes.

A princípio, parecia-lhe que cometia uma daquelas travessuras que se perdoam "se não fizeres mais". A sua separação da actriz era irremediável; sabia-o, mas não pensava nisso. Era irremediável porque não podia voltar antes de ela partir, e não saberia onde ir encontrá-la, tendo ela feito vaga referência ao propósito de ir a Paris fazer uma encomenda de vestidos, e a Praga, para se entender com um cenógrafo boémio ultra-neo-impressionista hipermetafísico sobre a encenação da nova comédia cirúrgico-musical A Pulga na Orelha, agonia em três actos, com bailados religiosos de Nikotina e Kartchov.

Ao primeiro sinal de angústia, procurara sufocá-lo, recordando o sofrimento, as inquietações, os espasmos com que aquela mulher de nervos estragados tinha dramatizado o seu amor.

Mélita ia na sua frente, embalando-se no vestido escocês e parando a escutar o rumor festivo da torrente.

Havia uma hora que andavam e ele sentia a tentação de largar o saco, voltar para trás, correr à actriz, a maravilhosa falsificadora de balanços sentimentais, aquela que lhe fizera experimentar todos os múltiplos e submúltiplos do amor, a mulher injusta e bela como um privilégio, a trágica de muitas vidas, a mulher que o prendera por aquele seu substrato ferino, que o fascinara com a sua genialidade de fundo histerõide, com a natureza inquieta, intermitente, oscilante, reincidente, da paixão, com o seu carácter massacrante, com os seus nervos carregados a cinquenta mil quilovátios com a exaltada virulência da sua linguagem amorosa, a imaginosa linguagem de amor que nenhuma outra mulher saberia, nunca mais, falar-lhe.

Mélita caminhava à sua frente, sobre a esteira de relva, loura loura, leve leve, passando, de vez em quando, um lenço de seda vermelha na pálida nuca empoeirada de ouro.

"Acabou-se, acabou-se", repetia a si mesmo. "Não a verei mais. Pior: vê-la-ei todas as vezes que quiser, mas não poderei mais falar-lhe. E revê-la-ei nos seus momentos melhores: em cena. Passará rente a mim, de noite, com outros, depois do espectáculo; será ainda bela, para outros: seca e sarcástica como a esterilidade, fixar-me-á com os enormes olhos cinzentos, pigmentados de lamínulas metálicas."

Mélita, à frente, olhava a paisagem, consultava o relógio de pulso e seguia.

"Dedicará a sua ternura e a sua neurastenia a outro: a outro que lhe conduzirá o cão a passeio, suportará os pedidos e o descontentamento dos contratados, e fará sorrir o galã da companhia que tinha sempre no bolso uma gramática norueguesa e uma revista científica e para me consolar dizia: Pobre amigo, aquela mulher inflama-se até sem ser provocada, porque se acende espontaneamente, como o fósforo."

"Tem paciência", dirá a outro o cómico amador de medicina. - "Ela não é culpada: é a idade crítica, a véspera da decadência. Fenómenos que se explicam: desequilíbrios hormónicos, insuficiência ovariana. Prenúncios da menopausa. A delinquência feminina é mais forte na puberdade e na idade crítica: os acessos nervosos, as crises de choro, as cóleras insensatas são apenas equivalentes epilépticos.

E a vítima responderá: Mas parece-te humano que eu abandone a minha tranquilidade à mercê da sua insuficiência ovariana e dos seus desequilíbrios hormónicos?

E, apesar de tudo, permanecerá amarrada a ela, no estado de catalepsia espiritual, na ilusão, na hipertrofia da ilusão que me fez viver até hoje."

Mélita havia-o guiado até ali, com a sua leveza encantadora de criança inteligente, prendendo a sua atenção em conversas sensatas, distraindo-o com facécias, acariciando-lhe docemente a face e o coração com os seus longos dedos castos, mas armados de unhas lanceoladas e vermelhas. E, chegados à estalagenzinha clara, junto ao lago adormecido, transformara a própria cela espargindo perfumes, queimando um cone de resina odorífera do Japão, dispondo com graça, na simples mesa que servia de cómoda, laços de cores vivas, caixinhas de prata, um livro encadernado em couro, um porta-retrato de tartaruga loura, uma flor de calceolária colhida durante a ascensão, uma cruz de topázios, e a sua roupa branca interior, fina e garrida. (Para ser virgem não é obrigatório ensacar a própria virgindade em calções de grosso tecido).

Ao leito pobre e nu dera aspecto alegre pondo-lhe em cima os crisântemos amarelos e os dragões vermelhos do seu quimono de crepe-da-china.

Onde quer que se encontrem, certas mulheres sabem criar um conchego de intimidade.

- Tens apetite, Mauro? Eu tenho. Disseste que não? É preciso ter apetite. Eu quero. Tens apetite?

- Tenho.

Tomou lugar em frente dele, enquanto uma das duas mulheres trazia um grande prato fumegante.

- Não olhes assim tanto para a montanha rubicunda e come!

- Não tenho gostos geórgicos - sorriu Mauro com amargura.

Entraram com grande estrépito dois enormes pares de sapatos ferrados, calafetados com sebo.

Dos sapatos saíam dois empertigados excursionistas ingleses em knicker-bocker: um homem e uma mulher que em exame atento poderia até passar por mulher. Tiveram todo o cuidado de não emitir sequer aquele grunhido de foca resfriada que para os anglo-saxões no estrangeiro equivale a um cumprimento.

Quatro rapazotes morenos, de rostos queimados e de amplos calções de veludo apertados nos tornozelos, assomaram à soleira, levando ao gorro, verticalmente, a mão aberta, com a palma para fora.

- Franceses - disse Mélita.

De facto encheram o quarto de um rumoroso calão de trincheira e, batendo na mesa com o cabo do cachimbo, reclamaram vinho em altas vozes.

- Du pinard!

Mélita e Mauro saíram ao ar livre; tinham necessidade de silêncio.

À sua frente um grande plaino de feltro vagamente ondulado que conduzia ao lago. Mélita recordava ter visto nas montras dos armazéns de modas peixes vermelhos nadarem em aquários improvisados na fralda de certas capas, para demonstrar a impermeabilidade do pano. Aquele lago calmo era como um pouco de água numa nesga do tecido árido, estendido sob a coroa dos montes; uma coisa fantástica, onde brilha a íris perlácea da neveira, cintilam os diamantes das geleiras, e o horror da mole escura de ágata se casa à serenidade esmeraldina das pastagens ...

(Esta descrição idiota serve para satisfazer o paladar dos guardas-civis. Para as senhoras que estudam para mestras, acrescentei os pontinhos de suspensão, e um lamento... longínquo... de campanários.)

Um vento pungente atacava-os, comprimindo o pano do vestido num movimento gracioso de modelado, sobre o peito, sobre o ventre, ao longo das pernas de Mélita.

Quando chegaram junto ao lago, a um ponto tranquilo, cheio de sol, um sol acariciante, que fazia subir centelhas de erva e bandos de gafanhotos saltitantes da terra meticulosamente varrida pelo vento.

- Há lugar para dois.

E cruzou as pernas à maneira turca. Mauro estendeu-se de barriga para baixo, apoiando-se nos cotovelos e descansando o queixo sobre as mãos sobrepostas.

Direito, em frente a Mauro, o vale donde tinham subido.

Contemplava-o fixamente, calado, ausente.

- Preciso de te dizer uma coisa, Mauro. Calei-me até agora, não porque não ousasse confessá-lo a ti, mas porque não o julgava urgente. Podia ter-te falado ontem à noite, lá em baixo: ou esta manhã, durante a ascensão, ou na mesa; mas parecia-me que se pudesse adiar, ou que tu não me acompanharias.

- Então?

- É preciso que eu te deixe, por duas horas.

Ele virou-se de lado e olhou-a nos olhos. Depois retomou a posição anterior olhou ainda para o vale aberto como duas longas mãos estendidas que o chamavam, e deixou cair o rosto nas duas mãos abertas.

Não chorava. Mas os ombros e as costas tinham vibrações e sobressaltos.

- Que horas são?

Mélita olhou para o pulso: duas. Mas não respondeu.

Inclinou-se roçando o flanco dele, tocando-lhe um ombro com o seio. Procurou fazê-lo erguer a face, insinuar entre o seu rosto e a terra as mãos esguias. Mas ele permaneceu como petrificado, com a boca na relva, como se quisesse fazer entrar de novo na terra todas as lágrimas que da terra, isto é, da carne, provinham.

Mélita interpôs o próprio rosto entre o rosto e as mãos dele, misturando, à amargura do seu tormento de homem antiquado, todo o perfume da sua juventude, toda a fragrância da sua alma clara.

E beijando-lhe as faces meio escondidas, e a boca húmida de lágrimas candentes, murmurava-lhe em voz baixa:

- Chora, pobre Mauro! Chora!

Lá em baixo, a cinco horas de marcha, alguns camareiros de atitude reverenciosa, entre diplomática e pederasta, prestavam homenagem ao ómnibus, carregado de poeira e de malas.

Um grupo de senhoras de inteligência chata como os seus sapatos de ténis procurava decifrar sob o véu o rosto da solitária dama que partia.

- Mas agora não chores mais. Não te deixarei: aqui está a tua Mélita. Não, não: não se irá.

Do refúgio que fora a casa de caça de um grande rei, e que agora, com o nome pomposo de estalagem, reconforta e hospeda os sonhadores que empreendem a escalada das nuvens, chegava-lhe o canto dos quatro rapazotes franceses, que da trincheira conservavam o calão e as canções.

Cantavam a Madelon.

Grandes moitas de arnica amarelejavam entre as rochas escuras.

A uma altura vertiginosa, uma esquadrilha de falcões entregava-se a exercícios de virtuosismo, ao sol que lhes servia de reflector. Giravam em lentas espirais, em evoluções magníficas, agitavam as asas, deixavam-se cair como coisas inertes e, de repente, retomavam o voo para se levantarem até mais alto.

(Se, afinal, não era de falcões que se tratava, dá no mesmo. De qualquer modo, melros não seriam.)

De longe, o jovial refrão de nostálgico amor soldadesco:

- a Madelon.

E o Sol descia imprevistamente por trás de um pico altíssimo, franjado de brasas, deixando após si um frio húmido. Mélita ficou com as mãos geladas e pareceu-lhe que se afogava na humidade violácea daquela sombra.

- Vamos para dentro.

Os quatro rapazes tinham partido. O inglês homem, com cachimbo de raiz de cereja entre os longos incisivos, lia a Bíblia, projectando sobre as sagradas páginas bafos profanadores de fumaça, enquanto o inglês mulher lhe preparava uma fatia de marmelada, manteiga e mel.

- Se tomássemos chá, nós também? - propôs Mélita. vou à cozinha prepará-lo. No meu quarto encontrarás um pacote branco e uma garrafa amarela.

Encontrou os biscoitos e o rum. Antes de sair, olhou ainda a mesinha rústica, transformada num recanto de intimidade. Os laços, a cruz de topázios, o porta-retrato de tartaruga loura com a fotografia da mãe, uma caixinha de prata, um... Um curioso objecto mal enrolado no papel: uma espécie de caixa de fósforos feita de folhas de estanho comprimidas sobre folhas de parafina.

Mauro observou-o de todos os lados, sopesou-o com ar de curiosidade, e com o pacote e a garrafa entrou na sala de jantar esquálida, monástica e bela como um refeitório.

Tomaram o chá. Mélita ofereceu rum aos ingleses; os ingleses ofereceram marmelada de morangos e relembraram o sol de Roma, a fonte das tartarugas, as alcachofras à judia que se comem desde Pipemo até o monte Cenci. Mélita mostrou-se a par das excentricidades do príncipe de Gales, disse a sua nostalgia do Tamisa e dissertou sobre a última partida de múmias chegadas ao British Museum.

Mauro pensava que àquela hora uma mulher velada viajava quem sabe para onde, à procura de quem sabe quem.

O jantar não foi longo e não foi alegre, à frouxa luz amarela da lâmpada de azeite. A noite estava fria: num rasgão de nuvens branquejavam algumas nebulosas, entre picos de asteróides.

A rapariga quis que Mauro tomasse uma cápsula calmante, certificou-se de que o leito onde ele devia dormir estava fofo, liso, com boas cobertas; e quando lhe pareceu que o remédio começava a actuar sobre os nervos dele, entrou no próprio quarto.

Mas ele não dormiu.

O cansaço, as emoções, o calmante, toldavam-lhe o espírito e comunicavam-lhe uma sonolência nervosa. A fantasia apresentava-lhe extravagantes visões de factos recentes e remotos, retorcidos em pavoroso novelo, em que se abriam dois grandes olhos cinzentos pigmentados de lâminas amarelas, e uma dupla fila de bicos acesos na base de uma boca-de-cena cheia de luz dourada: sentia-se levantar para o alto, por cima de uma multidão que aplaudia, pelos falcões negros que voavam no anfiteatro dos montes, por sobre o pequeno lago azul.

- Mélita! - gritou, com a garganta ardendo em febre. Ela não respondeu. Seria possível que dormisse, enquanto

ele, no desolado quarto de uma antiga casa de caça, solitária como um lazareto, retorcia as mãos, devorado por uma incipiente loucura?

- Eu sou como aquelas bonecas - disse Mélita - que, mal são deitadas de costas, fecham automaticamente os olhos.

Saltou da cama. Aproximou-se da porta, bateu.

Ninguém.

A superstição de que se contagiara no ambiente dos bastidores aguçou-se, aterrando-o. Pensou na vingança, no castigo: a mulher dos olhos cinzentos com lamínulas amarelas tinha qualquer coisa de mágico no olhar. Também ela, quinze horas antes, batera a uma porta suplicando-lhe.

- Sketch!

Também ela, forçando a porta, não encontrara ninguém. Mauro chamou ainda:

- Mélita.

Silêncio. Do sótão, alguém que queria dormir bateu três pancadas resolutas.

Esperou, retendo a respiração, e olhou em torno: depois empurrou a porta, iluminando frouxamente o quarto com a própria lanterna.

A cama estava deserta. Todas as coisas de Mélita, nos seus lugares. Os laços, a caixinha de prata, o crucifixo de topázios, o roupão de crepe-da-china com dragões vermelhos e crisântemos. Examinou os objectos um por um. A coisa feita de folhas de estanho comprimidas sobre folhas de parafina, essa não estava.

Vestindo-se o melhor que pôde, envolveu-se na capa e saiu para a noite, chamando por Mélita em voz baixa. Não se poderia ter afastado muito. Estaria, com certeza, por ali perto, e naquele silêncio era impossível não vê-la.

- Mélita!... Mélita!...

Fez uma volta ao redor da casa, entrou novamente no quarto, saiu, chamou por ela, vagueou para um lado e outro, ao acaso, nas trevas, na direcção do lago, na direcção da montanha. Pareceu-lhe que se tinha afastado muito, e na realidade encontrou-se de novo junto a uma parede. Avançou devagar, por uma espécie de trilho, afundou os pés numa poça, viu qualquer coisa que tremeluzia nas trevas: o espelho do lago? Adiantou-se com cautela e continuou a chamar Mélita, em vão.

Deu voltas naquela sombra desolada por uma hora, duas, quem sabe quantas. Sentiu-se só, como se todos os homens tivessem desaparecido da face da terra e ele ficasse por último para contemplar a pavorosa desolação.

Não era a solidão, mas o silêncio que lhe dava medo. A natureza tem horror ao vácuo: o homem tem horror ao silêncio.

O silêncio!

Que era que aquele homem lia na Bíblia? E aqueles pássaros negros que tinham traçado estranhas circunferências cabalísticas por cima da sua cabeça, como que a cingir-lhe uma coroa de martírio?

- Mélita!

Sombra. Montanhas monstruosas: o lago era como uma pedra sepulcral de cristal.

Coordenou as ideias. Disciplinou a vontade.

Mélita não podia ter-se ido embora. Por que havia de ter deixado todos os objectos? Por que partir sem lhe dizer uma palavra? E para onde ir, de noite, por aqueles caminhos invisíveis, a várias horas das habitações mais próximas?

Procurou a direcção da casa; parecia ser por ali; deu alguns passos, desviou-se; não era aquela. Aplicou o ouvido: um rumor? Voz?

Nada. Vagueou de um lado para outro. Deu voltas, incerto, cambaleando.

Um vagalume.

Estava como quem tem um sonho angustioso, e, por mais que saiba estar sonhando, não consegue acordar.

Não. Não era um vagalume. A luz do vagalume palpita, acende-se, escurece a intervalos regulares. Aquela luzinha era fixa. Excursionistas de chegada? Em direcção ao albergue?

Correu no rumo do feixe de luz, tropeçou numa pedra, caiu, ergueu-se, correu ainda.

Uma voz.

De mulher.

Parou, prestando ouvidos.

A voz de Mélita.

Avançou cauteloso, retendo o alento, fechando as abas da capa que esvoaçavam com rumor de asas.

Não conseguia avistar quem acompanhava Mélita: uma lanterna eléctrica, projectando um triângulo de luz, ora para a frente, ora sobre a estrada, mergulhava os dois vultos no mais denso negrume.

Receou ser descoberto: bastava um jacto na direcção dele para o iluminar em cheio. Depois que pararam pôde distinguir, olhando-os pelas costas, os dois corpos recortados como um papel negro sobre o cone de luz.

Devia ser um homem bastante jovem: da mesma altura dela. Distinguiu algumas palavras: pareceu-lhe que se tratavam por "tu".

Chegados à casa, ela abriu cautelosamente a porta e ficou toda banhada pela fraca luz do interior: a lanterna eléctrica que tinha na mão, iluminou o rosto do desconhecido. Despediram-se em voz baixa. O desconhecido beijou a jovem e voltou sobre os próprios passos na noite escura, precedido pelo cone de luz branca.

Mélita entrou no quarto pé ante pé e fechou a porta. A casa, que por um momento emergia das trevas, afundava na escuridão.

A lanterna do misterioso viajante, projectou sobre o solo um disco de luz, esguichou para um lado e para outro, tornou-se um ponto confuso, sumiu-se.

DESPERTADA pouco depois de surgir o Sol, pelo relincho e pelo escoucear das mulas que esperavam pelos ingleses, Mélita saiu à esplanada árida a fim de saudar os montes velados de róseo e respirar fundo o ar matinal. Sobre o cume mais alto tinha nevado durante a noite.

Entrou de novo para acordar todas as suas coisas adormecidas: uma tampa que salta e rola zunindo, petulante, a água que canta caindo na bacia, o baque do pente no espelho ...

- "Padre Eterno é o ser potente..."

Mélita cantava, ensaboando a nuca com um pincel, "...que noite e dia imploravas..."

Descansou o pincel, apertou uma lâmina entre as duas barras da navalha de segurança.

- "...mas que te mandou à fava..."

Atarrachou o cabo, e com auxílio de dois espelhos conjugados, um pelas costas e outro pela frente, começou a raspar a nuca.

- "...no momento de aflição..."

- Posso entrar, Mélita?

- Pode!

Continuou a passar a navalha a longas passadas sobre a nuca: o braço nu, erguido e virado para trás, deixava ver na cavidade da axila ainda não depilada uma fina poeira de ouro pálido, vaporosa amostra de intimidade.

- Escandalizou-te a minha canção? De alguns anos para cá o Padre Eterno vem gozando muito prestígio. Preferes as romanças napolitanas em que se fala de chiagnere, pusil leche e muri?

Mauro não respondeu. Ela então levantou-se, descansou o espelho e a navalha e pegou-lhe nas mãos, examinando-lhe o rosto:

- Que tens? Sofres? Não dormiste? Fala!

As feições descompostas, os cabelos em desordem, caídos de um lado e emaranhados de outro, os olhos apagados nas órbitas lívidas.

- Onde estiveste esta noite?

- Viste-me?

- Sim.

- Seguiste-me?

- Sim.

- E então, por que perguntas?

- Não te segui.

- Fizeste mal. E que viste?

- Vi-te voltar. Quem era aquele homem?

- O papão. O homem que devora as meninas.

- com efeito, aproximou a boca da tua.

- Não me beijou na boca: viste mal. Aquele homem... Senta-te aqui, na minha cama. Vou-te dizer. Espera. A água do café está a ferver; preparava-o para to levar eu mesma: levantaste-te demasiado cedo. Dá-me aquela toalha. O cabo está de pelar. Muito açúcar? Pouco açúcar? Assim? Um momento: ainda não coou. Gostas de forte?

Ofereceu-lhe a xícara e sentou-se na cadeira, a seu lado.

- Não julgarás, meu caro, que tenha vindo até aqui por puro amor à montanha: conheço regiões mais bonitas. Dá-me a xícara. Deixa que eu ponho. Deves saber que... Um momento. Ontem, quando estávamos estendidos na minha capa junto ao lago, não te avisei de que precisava de te deixar só durante duas horas? E tu disseste-me: "Não, querida, não me deixes só: tenho medo." Não disseste isso?

- Disse.

- Como vês, não te escondia nada.

- E então, por que fugiste à noite?

- Para não notares que estavas só. Dormias.

- Não dormia.

- Devias ter-me chamado. Eu ficaria a teu lado, assim, como agora.

- Isso não explica aonde foste nem quem é aquele indivíduo.

- Quem julgas que seja?

- Não sei.

- Então, responde: consideras-me leviana? "

- Não.

- Pérfida?

- Tão-pouco.

- No entanto, pensas que eu te arrastei até aqui para te fazer assistir a... isso que suspeitas. Mas, sim. Dize-me de uma vez: supões que aquele homem seja meu amante?

- Não.

- Então, quem pode ser um homem que, visto à noite, num lugar deserto, com quem converso horas e horas e que me acompanha à casa e me beija?

- Não sei.

- Digo-te eu: meu irmão. Uma longa pausa.

- Acreditas?

Mauro moveu a cabeça, em resposta. É muito mais simples exprimir-se assim, quando se sofre. E, em vez de dizer com palavras a própria ternura, achou mais fácil aproximar o rosto da garganta nua da jovem, que se lhe prendeu ao pescoço com os loncos braços níveos, bordados de veias azuis e pulverizados de ouro pálido na cavidade das axilas, como se da grande massa chamejante dos cabelos metálicos tivesse caído na concha de carne um pouco de limalha.

O quimono de crepe-da-china, com dragões medrosos rastejando entre crisântemos, abriu-se-lhe no peito, deixando aparecer a camisa de seda levíssima. Ela procurou fechá-lo, encolhendo os ombros; mas os braços estavam enleados em torno do pescoço do rapaz. Então, para esconder aos seus olhos indiscretos a tímida carne, apertou o peito contra o peito dele, roçando-o, esfregando-o com os dois pequenos seios, sentinelas avançadas da sua latente sensualidade.

- Não acabei de me raspar - suspirou, desprendendo-se e dominando-se.

Procurou a navalha. Mas a mão tremia-lhe.

- Ensaboa-me; o pincel está aí. Continua tu. Mauro obedeceu.

- Repara - disse Mélita com a cabeça baixa, estremecendo um pouco pelo fio da lâmina que lhe corria pelas vértebras. - Este é o penteado à Titus, o corte à la victime.

Tira o seu nome da toilette que se faz ao condenado antes de a lâmina da guilhotina fazer o resto.

- Tens um belo pescoço para a guilhotina, com efeito. Ficava-te bem uma fita vermelha, com uma gota de rubi pingando na taça da garganta. Tens belas espáduas.

- Magras.

- Bela nuca.

- Adulador!

- Bela gorja.

- Mentes! Mentes pela gorja.

- E o teu irmão, tornarás a vê-lo? Mora aqui todo o ano?

- Todo o ano.

- Sozinho?

- com um criado que lhe tem dedicação, um hábil impulsor de trenós que no Inverno desce até o vale para fazer provisões. Foi seu assistente na guerra e salvou-lhe a vida. Meses depois meu irmão salvava a vida dele com uma transfusão de sangue. Do seu próprio sangue.

- E que faz aqui, em cima?

- Lê, estuda, estuda sempre, estuda de tudo; pensa muito; não vê ninguém; não quer ver ninguém.

- É um estelita.

- Um estelita moderno. A única pessoa que consegue aproximar-se dele sou eu. Obrigada. Dá-me a navalha. Lava as mãos. O sabão está ali. Eu e meu irmão temos caracteres idênticos: por isso nos queremos bem e nos compreendemos. Apresentar-to-ei, se quiseres.

- Mas ele é que não quererá saber de mim.

- Meu irmão quer tudo o que eu quero.

- E faz muitos anos que ele vive aqui por cima?

- Doze.

- Nunca mais desceu?

- Sim, para a guerra. Prestou os seus serviços. Foi ferido. Depois voltou, e ficou.

- E porque escolheu este lugar para seu ermo?

- Para ficar perto de um cadáver.

- Um cadáver?

- Tragado por uma fenda no gelo. Há geleiras que não se derretem, nem no Verão, Era uma jovem de dezoito anos.

- Eram noivos?

- Sim. Está fria a manhã. Gostas desta camiseta de flanela? Abotoa-se no ombro e resguarda o pescoço. É um modelo russo: quem a fez foi uma costureira de Odessa estabelecida em Viena.

- Dá-te um ar moscovita.

- Nos primeiros dias do nosso conhecimento, disseste-me que tenho corpo de bailado russo. Volta para o teu quarto e faze-te belo, tu também. Eu vou tratar do café com leite. Se entre os meus objectos há algum que te sirva...

Ficaram a ser os únicos hóspedes: alguma comitiva de passagem detinha-se o tempo suficiente para folhear um jornal atrasado e beber um cheiroso génépi.

O lago colorido de concêntricos veios cor-de-rosa, o anfiteatro solene das montanhas, o enorme silêncio, eram todo o seu mundo.

Procuraram gritar, lançar um assobio, disparar um tiro de revólver. A voz não ressoou, o som perdeu-se e a explosão produziu apenas o rumor efémero de um baque.

Sós!

As refeições não se regulavam pelo tempo, mas o tempo era medido pelas refeições. Não havia mais a disciplina de um gongo a chamá-los para a mesa, nem o interruptor da luz a anunciar oficialmente a noite. Ninguém a quem sorrir, a cujo cumprimento corresponder. Podiam errar pelos desfiladeiros e despenhadeiros, perturbar o sono do lago, parar para comer as gencianas sem provocar comentários malévolos sobre a sua amizade, ou insinuações de mau agouro sobre a sua serenidade.

Serenidade.

- Não me dês equações sentimentais a resolver - respondeu Mauro à rapariga, uma noite em que, caminhando ambos abraçados à luz das estrelas, ela o interrogava sobre a natureza da sua afeição.

Como brilhava aquela noite, o firmamento, lá no alto, onde não há poetas que o adulem, nem astrónomos indiscretos, ocupados em reduzir a números as estrelas!

- E que será de nós dentro de alguns dias? - perguntou, noutra ocasião, o jovem, pensando na fatalidade da separação. - Que será de nós amanhã? Ver-nos-emos? Encontraremos maneira de nos ver? E como? E onde?

- Não faças projectos para o futuro - respondeu ela, mostrando-lhe um jornal e apontando com o dedo o registo fúnebre. Trinta e sete. Trinta e sete pessoas que faziam programas para o dia seguinte.

Serenidade.

Não analisar, não prever, não interrogar um ao outro nem a respeito do futuro nem do passado.

Ignorar.

Parecia que soubessem tudo um do outro e que nenhum ponto da vida de cada um tivesse mistério para o outro.

- Tens já dois fios de cabelo branco - anunciou ela uma vez, acariciando-lhe uma têmpora com o polegar. - É tempo de te casares.

- Não tenho um brasão para vender a uma açougueira rica, nem uma virilidade plebeia para uso de uma aristocrata lânguida.

- Contudo, chegará o teu dia: uma boa provinciana romântica, que confundirá num único amor os cravos, o marido e as galinhas.

- Mélita, respeita os meus cabelos brancos!

- Se só tens dois...

- Respeita esses dois.

Tinham descoberto uma caverna formada por enormes rochas, forradas de líquenes e iluminadas por grandes moitas amarelas de arnica. Ajoelhados em frente um do outro, naquele íntimo teatro todo deles, preparavam o chá num pré-histórico fogão composto de quatro pedras e alimentado por um combustível apanhado no chão, que, espalhando ao vento uma fumaça espessa, os fazia rir e tossir.

E rindo e tossindo, acabavam invariavelmente com um beijo, um longo beijo, de joelhos.

Mélita dizia:

- Parece o beijo de Hugo e Parisina.

A rapariga trouxera um livro encadernado em couro, todo impresso em prata. Era o livro de um poeta morto muito jovem, que ela conhecera quando criança.

- A esse tempo meu pai era, como já te disse, cônsul em Calcutá. O poeta enfermo, que visitava a índia procurando em "belas terras, quentes e longínquas" a sua cura, foi a nossa casa tratar de uma formalidade burocrática qualquer: uma estampilha ou uma assinatura. Eu teria talvez dez anos; o italiano pálido e louro que, segundo me diziam, era poeta e amava as borboletas, encheu-me de curiosidade. Habituada como estava a ver homens de pele de bronze que se interessavam por feras e por serpentes, descobri no anémico sonhador alguma coisa de mim mesma, da minha raça. Falava de presentes que lhe tinham dado: um dente de elefante, uma unha de tigre, uma pele de leopardo... Eu fui ao meu quarto, peguei numa grande borboleta cor de ouro, como só se encontram no golfo de Bengala, e levei-lha timidamente, assim, nas pontas dos dedos. Dois meses depois, o poeta enviava-me, da Itália, este livro com este corta-papel de prata.

Mauro examinou a lâmina inofensiva, ingenuamente cinzelada ao gosto antigo; e ela, estendida de costas, com as pernas juntas e espichadas, e a cabeça apoiada à moita amarela das arnicas, começou a ler a meia-voz uma poesia torturante, em que uma mulher bela e triste confessa ao poeta: "Eu, no meu sonho errante, sofro por todo o vasto mundo que não é meu! Sonho uma aurora que os meus olhos nunca viram; desejo, desejo ainda terrivelmente! ..."

- É uma poesia que faz mal! - exclamou Mauro estendendo-se ao lado de Mélita e colocando o corta-papel entre os seus corpos.

Ela fechou o livro.

O calor do meio-dia mergulhava-a em suave sonolência. Ficaram por muito tempo calados, sem se tocar, sem se olhar. Deitados paralelamente, com as mãos estendidas ao longo do corpo, os rostos cheios de sol.

- Parecemos Tristão e Isolda - comentou Mélita com uma risada -, que, desgraçados e castos, dormiam com uma espada desembainhada (e dizendo isto levantou o corta-papel) colocado entre os seus corpos.

Os gracejos de Mélita eram o álibi do seu sonho, a máscara do seu sentimento.

- Mas que provisão tens de quadros plásticos de amantes célebres! - disse Mauro, zombeteiro. - Hugo e Parisina, Tristão e Isolda. Podes até comparar-nos a Paulo e Virgínia. Não seria difícil arranjar-se todo um calendário perfumado. Estás cansada? Tens sono?

A jovem sentia-se mergulhar num torpor de voluptuosa castidade, e ele, imóvel, fartava os olhos na adoração daquela criatura espiritual, descorada, transfigurada, de perfil suave, de grandes sobrancelhas arqueadas sob uma fronte luminosa e vasta.

No torpor, a boca pentagonal descerrou-se.

Uma borboleta, pequena e azul como uma lasca de esmalte, esvoaçou incerta sobre a moita amarela de arnica e de cabelos, adejou em torno de uma das mãos da adormecida e foi pousar sobre o livro do poeta morto demasiado jovem, o poeta pálido e louro que adorava as borboletas.

- É muito simples - explicou ela quebrando o ovo na beira do cálice e separando a clara da gema, com a caricatura de solenidade que punha em certos gestos comuns. Põe-se a gema numa colher - e dizendo isto afastou os dedos, como faz o prestidigitador para mostrar que não há truque -, deitam-se-lhe um pouco de pimenta, duas gotas de limão e uma pitada de sal.

- Porque também sal?

- Porque sim. Os meninos bem educados não fazem perguntas. Põe na boca: coragem! A Mélita não se diz não. Precisas de te alimentar. Não admito objecções. Obedece. Viste?

E desse modo Mauro, por influência de Mélita, aprendeu a tomar ovos à ostra.

A rapariga sentia-se irresistivelmente atraída para aquele homem que ela arrastara até lá acima, por uma fraternal obra de piedade, por um samaritano instinto de consolação, mas a quem logo começara a amar. Justamente porque já não se sentia irmã, estudava atitudes de irmã para mentir a si mesma e para se ocultar a ele.

Julgava que os beijos pudessem marcar o limite extremo do seu amor e que bastasse dar-se ares de irmã para refrear o desejo.

- Nós encontrámo-nos por um puro acaso, ou por um acaso impuro - disse-lhe ela repelindo as mãos que procuravam segurar a sua cabeça para receber ainda uma vez na boca o perfume dos aromáticos cabelos. - Eu dei-te alguma coisa de mim mesma, mais do que quisera; pretendia oferecer-te apenas consolo, mas amor, não! Tratei de te curar da tua horrível enfermidade, matando a tua paixão por aquela mulher. Sabes o que é eutanásia? É o assassínio piedoso. A tua paixão era um doente incurável que sofria e não tinha outro recurso a não ser a morte. Eu apressei-lhe o fim suave de que nem mesmo te deste conta. E agora, que o teu romance está destruído e não tem mais probabilidade de recomeçar, deixo-te o teu destino. E eu seguirei o meu.

Olhava-o com as grandes pupilas dilatadas.

- Não nos podemos separar - afirmou o jovem, passando-lhe o braço pela cintura, e guiando-a em direcção oposta ao vale, como se tivesse medo só ao pensar na volta à planície. - Já não és a pequena Mélita. a frívola comedora de açúcar que me pareceste no primeiro dia. És uma mulher que eu amo. Amo-te com toda a alma.

- E eu com todo o corpo - gemeu ela prendendo-se-lhe ao pescoço e apertando-o como que para absorvê-lo inteiramente. - Amo-te, amo-te, mas não te quero amar.

E, dizendo estas palavras, oferecia-lhe os lábios gulosos. De repente soltava-se.

- Deixa-me! Não deves ver em mim senão a amiga, a samaritana, o delfim, o cão peludo - e um riso meio louco fazia-lhe brilhar a esclerótica - que te quis salvar. Mas a amante, não.

- Contudo, as tuas palavras estão em contradição com os teus gestos, com a voz, com o instinto, com o impulso que te atira aos meus braços. Eu já te sinto minha, como se te houvesse possuído.

- Pertenço-te. Fizeste-me tua sem me pagar. Parece-me que só vivo quando tu me sugas os lábios.

E chegou-se toda para ele.

Um langor morno difundiu-se-lhes pelos corpos. Tinham chegado ao recanto escondido entre os enormes rochedos e clareado pelo coxim amarelo de arnicas.

Descia a noite.

O horror da montanha tenebrosa pesava sobre as cabeças deles, advertindo-os pela voz ampla do vento.

Deixaram-se cair, fazendo-se pequenos, e ele aconchegou-a toda sobre o peito, e beijou-lhe as mãos geladas e mórbidas, e para aquecê-la e para defendê-la (pobre criaturinha extraviada que tinha medo) beijou-lhe o pescoço, a espádua, procurando o calor do seio entre as dobras de veludo, e apertando-lhe o coração com a boca, como se quisesse fazer calar os batimentos insensatos.

Deitada no solo, soltava, de lábios contraídos, um fraco gemido, apertando a cabeça sobre uma das mãos de Mauro que lhe servia de travesseiro, enquanto a outra mão, sem encontrar defesa, palpava convulsa ao longo do cinto para desamarrar os nós, procurando pelas aberturas o caminho mais curto para chegar à carne.

Fazendo sumir-se a Lua, a pequena nuvem franjada enegrecera, engrossara, adensara-se em enorme nimbo.

O traço de um relâmpago fez empalidecer os seus rostos. E o estrondo que se seguiu, crepitando, arrancou um grito à rapariga.

- Vamos embora!

Uma carga de água gelada seguiu-os no caminho e novos relâmpagos e mais graves ribombos perseguiam-nos: com as cabeças metidas debaixo da mesma capa, meio curvos, assustados e rindo, fugiam para casa; e mal tinham entrado no quarto de Mélita, quando desabou uma pancada violenta, martelando as vidraças das janelas e o tecto de ardósia.

- Fecha a porta, querido, e enxuga os cabelos. Depois vem aqui ver o temporal. Repara que jorros! Tens as faces frias; encosta o rosto no meu. e fica ao meu lado, quietinho, assim.

Uma centelha eléctrica iluminava de vez em quando, por um instante, a paisagem esmerilhada, indecifrável, para depois a mergulhar num cinza mais denso.

A nuvem imensa era cortada por golpes, em ziguezague, de uma espada aquecida ao rubro, e nos olhos feridos deles estampava-se a imagem oposta: uma nuvem vermelha sulcada em ziguezague por um friso negro.

-? Nunca vi espectáculo tão soberbo! - exaltou-se o jovem, contemplando a rapariga iluminada pelo relâmpago.

- Como estou?

- Estás pálida, bela.

- Mas, bela de que modo?

- De uma beleza intraduzível.

- Dize-me, dize-me de que modo estou bela. Quisera ver-me. Olha-me tu com os teus olhos e depois dize-me como estou. Quero saber se me pareço com...

- com quem?

- Fica quieto.

- Dize com quem te queres parecer.

- com uma mulher magra como eu, mas morena, e que tinha olhos iguais aos meus, e viajava através da Lituânia, da Boémia, da Galícia, com uma caravana de ciganos caldeireiros, dançarinos e talvez até ladrões.

- Quem era?

- E cantava uma canção - acrescentou ela - que dizia: "A rapariga cigana que se enamora de um homem de outra raça é como uma pomba errante que quer pousar na ponta de um punhal. Não pode suster-se e o ferro traspassa-lhe o coração."

Deram um salto. Um punhado de saraiva, que caiu inesperadamente sobre as vidraças, fê-los estremecer como se lhes tivesse batido no rosto: e o granizo começou a cair, saltando, ricocheteando, aclomerando-se em grupos desordenados, espalhando-se em miríades de colares desfiados. A ventania fazia pressão sobre as vidraças e empurrava a porta como se quisesse abri-la, e toda a casa, envolvida pelo furacão, ressoava como um monstruoso instrumento acompanhador de danças macabras.

- Os carros dos ciganos deviam ser sombrios e medonhos como este albergue, quando se desatrelavam os cavalos para que o remoinho não os virasse.

Nos dedos, na palma, no pulso de Mauro, palpita a carne tépida da rapariga que ele conseguira alcançar introduzindo a mão entre a camiseta e o calor mórbido do seio.

O seio, um rijo hemisfério que cabia todo na sua mão, repetia-lhe o pulsar do coração, e entre dois dedos contíguos o veludo do bico se inturgescia, como se àquele ponto convergissem, reunidos, todos os desejos, toda a sensualidade espalhada pelas veias.

Atormentada pelas carícias, Mélita inteiriçou-se, curvou-se para trás como um arco tenso, e deixou-se cair sobre o braço de Mauro. com outro braço ele ergueu-a até o próprio peito, até ao pescoço, e, antes de a depor no leito, quis conservá-la suspensa de encontro a si, para destacá-la do mundo, para a isolar do solo, para que fosse toda sua.

Na escuridão do quarto, sobre o leito sombrio, não brilhavam mais que os grandes olhos abertos, de esclerótica cintilante, e os dentes cravados entre os lábios entreabertos; e estas duas manchas brancas eram tão brancas que, pelo contraste, escureciam o rosto da jovem enlanguescida.

Não se defendeu quando Mauro lhe desnudou o peito e desabotoou o cinto da saia; mas apertava-se toda com movimentos voluptuosos de encontro às mãos másculas um pouco trémulas, e torcia-se procurando as carícias, e impacientava-se por ele ser demasiado moroso no descobrir-lhe as pálidas intimidades.

Entre os seios pendia um fio de ouro claro, suspendendo um curioso objecto, pequeno como um morango, pequeno como um bico do seio: um cone de chumbo, amassado na ponta, com a base formada por um escudozinho de prata.

Um amuleto?

Magra. Mas era toda uma harmonia de curvas lentas, suaves, admiravelmente fundidas degradando-se em sinuosidades, emergindo de ténues relevos, desabrochando em vagas convexidades.

Ele acariciava-lhe com a face e com a boca todo o corpo, da garganta aos joelhos, e na sua longa carícia não encontrava nem a resistência do pudor da rapariga nem a aspereza pilosa que por selvagem herança dos seus avós se conservou, através da evolução animal, a encobrir o sexo.

Era toda glabra, de um glabro estatuário, e o sexo, inocentemente impudico, qual uma criança, parecia marcado por um escultor apressado, com um toque de polegar.

Pudibunda leitora que corta as páginas deste livro com a perna de um gancho de cabelos, indolentemente reclinada nos lençóis prosmícuos do honesto tálamo, do lado esquerdo, enquanto o seu marido, do lado direito, lê "o relatório da directoria e a proposta do aumento de capital"; ilibada leitora, que coça um joelho ou palpa o pezinho martirizado pelo sapato demasiado estreito, e boceja porque o senhor seu marido boceja; casta leitora, ao chegar a este ponto da história de Mélita e Mauro, o joelho não lhe comicha mais, e quando cai o gancho não o levanta.

Intemerata leitora, que concebe sem pecar e peca sem conceber, para a não defraudar dos direitos autorais que a senhora indirectamente me pagou, deveria contar-lhe o que aconteceu sobre aquele corpo nu de menina, naquela cama modesta, numa triste casa de caça, longe do mundo, enquanto a saraivada metralhava as vidraças. Deveria contar-lhe quantas vezes e em que medida, quantidade, qualidade e peso o macho penetrou o mistério que não é mistério para ninguém, descrever-lhe as fases acrobáticas da cerimónia. Desse modo, dar-lhe-ia, inocente leitora, um pretexto para amanhã, durante o chá das cinco, arremeter contra a frívola "literatura de pós-guerra", expressão difundida por aqueles lívidos escritores caquéticos e leitosos que não conseguiram serem lidos depois da guerra nem antes.

Pois bem, incontaminada leitora de alma conchóide e consciência ortogonal, que, em virtude da sua posição na sociedade, tem o dever de dizer mal dos meus livros; a senhora, que só engana o marido nas grandes ocasiões, e quando o engana o faz exclusivamente para depois amá-lo mais e para ver quanto ele é superior aos outros homens; espiritualíssima senhora, imagine o que possa ter-se passado entre os dois amantes desta história.

com licença: a senhora deixou sobre o criado-mudo uma bolota ovoidal, envolta numa folha de estanho. Desenrole-a.

Ao rumor metálico do papel, seu marido compreende-lhe a intenção e sorri, de agradecimento e resignação.

Pronto?

Muito bem. Enquanto a senhora espera que se dissolva, dir-lhe-ei que entre Mauro e Mélita não se passou aquilo que pensa.

Não foi por vício que se abstiveram da maravilhosa cerimónia.

Nem por um escrúpulo literário qualquer.

Abstiveram-se porque...

Mas repare que a esta hora o óvulo antifecundativo está desmanchado, e que o seu consorte acabou o "relatório da directoria e a proposta de aumento do capital".

Façam como se eu não estivesse presente.

Entretanto, descreverei a paisagem. Descrever a paisagem é o "olhar para o outro lado" que o autor faz quando não quer reproduzir os gestos ou as palavras das personagens ...

O temporal tinha cessado. Raras gotas caíam ainda e ...

A Lua, que o crepúsculo agigantava, viajava sobre flocos errantes de nuvens, os quais...

O céu parecia...

O lago estava como...

Alguns raros passarinhos...

O arco-írís...

Acabaram? Saiba então que Mélita e Mauro não se uniram naquela cama, como dois vulgaríssimos esposos. Repugnava-lhes praticar daquele modo o sublime acto que a senhora e seu marido e todas as outras mulheres e todos os maridos fizeram ignóbil rebaixamento ao nível das mais humildes necessidades corporais.

Mélita, a rapariga de olhos azuis e cabelos louros (traços característicos das bonecas), não podia sacrificar a sua virgindade sobre os lençóis em que haviam dormido excursionistas de volta de esconderijos e cheirando a couro, a palha húmida e a suor.

Mélita, gulosa e dourada como as abelhas, fora atraída lá para o alto, bem no alto, longe das casas dos homens, longe das leis e dos preconceitos, para celebrar os ritos do amor nos reinos do azul, como a abelha-mestra.

Um quarto era ainda mundo. Uma cama era ainda quarto fechado. Não queria entregar-se ali dentro.

Entregou-se toda, inteiramente, no dia seguinte, sob o sol, em pleno meio-dia, sobre a erva quente, perfumada de tomilho: as lágrimas que lhe brotaram dos olhos azuis, sob o céu azul, encheram-se de sol, e um fio de sangue banhou de vermelho uma moita daquelas florinhas brancas de que não sei o nome, e que justamente por não lhes saber o nome são muito mais belas.

Nos meio-dias pré-históricos, quando o comércio ainda não tinha criado a necessidade da mentira e o ardil de esconder o artigo para valorizá-lo, a vénus vagabunda entregava-se sobre o tapete vivo na relva, sob o vivo dossel azul, tecido de mistério, de infinito e de estrelas.

Oferecia-se ao ar livre, como Mélita, no meio do espaço onde tudo que a rodeia é amor. A centelha desprendida entre nuvem e nuvem é um beijo violento entre duas forças eléctricas que se encontram; as imensas evoluções dos astros executam-se em virtude do amor; o pólen, na sua viagem cega pelo ar, encontra por virtude do amor o ventre floral onde pousar; o perfume das corolas é um afrodisíaco para o erotismo das borboletas; a cor das penas é um pijama elegante para o amor; o insecto que vai de cálice em cálice desflorando primeiro uma antena e depois um pistilo é um pródomo no casamento das flores.

E agora, casta leitora de alma hiperespecial, lave-se (se desejar), enxugue-se e apague a luz.

NAQUELA tarde Mélita cantou uma canção cigana que diz: "Os biquinhos do meu seio far-se-ão túrgidos como ameixas-silvestres, e eu, que afinal tos entreguei, deixarei que os apertes enquanto o tocador de esporões de prata derramar no teu copo de absíntio algumas gotas de música." Uma costureirinha teria exclamado:

- Agora vais desprezar-me! Uma estudante de letras:

- Trataste-me como a uma costureira. Uma professora:

- Tinha-me conservado pura até ontem. Uma senhora honesta:

- Agora também sou como as outras! Uma rapariga de família burguesa:

- Desgraçaste-me. E depois:

-? Sabes qual é o teu dever. E em seguida:

- Se não, conto ao meu pai e aos meus oito irmãos.

(É curioso como certas raparigas, depois de incidentes deste género, têm mais irmãos do que tinham antes. Em vez de dar ao mundo filhos, dão irmãos).

Mélita não disse nada. Cantou a canção cigana:

"E o tocador de esporões de prata, enquanto tu me beijares, derramará no copo de absíntio algumas gotas de música."

E, sentando-se sobre os joelhos de Mauro, com o braço por trás das suas costas, confiou-lhe ao ouvido um grande segredo:

- É preciso querer muito bem a Mélita!

A outra mão estendia-se para os carvões rubros de um braseiro improvisado, agitando os dedos, e quando estavam bem quentes passava-os no rosto do amante.

Através das vidraças da janela descobria-se a estagnante neblina do Outono que se aproximava.

- Uma mula - apontou Mélita com o cigarro - leva ao meu irmão a provisão da lenha. Estamos quase no Outono; já o sinto nos ossos. Tens o focinho frio, meu pobre gato!

O reflexo das brasas avermelhava-lhes os perfis, acentuando as sombras negras do rosto e do quarto. A névoa pardacenta, flutuante, lá fora, nas vagas aparências do crepúsculo, oferecia um tablado para a projecção dos sonhos das suas fantasias.

- Imagina, naquela névoa silenciosa - ia dizendo Mélita em tom de mistério - uma fuga de luzes em duas filas intermináveis, e que convergem para o infinito: de vez em quando, a luz violenta de um farol de automóvel pulveriza o nevoeiro, condensa-o em gotinhas irisadas. No passeio de asfalto reluzente de humidade e pegajoso, gente, sem conta, com impermeáveis molhados, com chapéus de chuva que gotejam nos sapatos e brilham à luz das montras, É assim que vejo, amo, sinto a grande metrópole. Caminhar, caminhar no nevoeiro, sempre para diante, impelida pela corrente e atraída por aquela dupla enfiada de luzes; parar junto às montras, para olhar as coisas bonitas e mirar-se no espelho dos cristais empanados; e caminhar sempre para a frente, empurrada por este, empurrando aquele, até que os bairros elegantes se vão esvaziando, e não se vêem senhoras com peles, mas começa a chegar ao nariz um democrático cheiro de comidas quentes. Os globos eléctricos não acabam, mas a sua rectilineidade bifurca-se em outras paralelas, e a gente continua, continua, por entre bancas de verdura e de peixes deitados sobre prismas de gelo, entre o som de um piano eléctrico de bar e o frigir do arco voltaico de um cinema.

"Conheço-os, estes cinematógrafos de terceira ordem, preferidos pelos pares proletários, pelos seus recantos sombrios condescendentes. Antigos anúncios, fotografias amarelas pregadas na entrada; películas arranhadas; um pregoeiro de laringe desencarnada e libré desbotada exalta o valor dramático da fita diante de um solitário vendedor de postas de peixe com gosto de azeite e fumaça, ou de bananas negruscas em avançado estado de putrefacção.

E a gente continua ainda, e passa uma ponte sobre um rio: todos os rios das grandes cidades se parecem: todos hipocondríacos, escuros, todos com grandes reflexos esverdeados de vitríolo. Nos bancos das margens, sentam-se pares de amantes; e eles também se parecem: de noite todos os gatos são pardos e todos os amantes são pretos. Ela é um pouco menor; ele, caminhando, inclina-se sobre o seu ombro. É sempre o mesmo par: tem-se a impressão de haver passado por eles minutos antes; aquele que a gente encontra num banco à margem do Danúbio, parece já tê-lo visto nos cais do Sena ou do Tibre, ou do Tamisa. Quando leio que uma mulher se afogou, creio reconhecer nela uma daquelas que vi passear ao longo daquele rio, com o amante, um jovem que parava, para beijá-la, nas zonas de penumbra, onde se amortece a luz de um foco e ainda não começa a luz do outro."

Mauro escutava a narradora: pequena sultana Sheherazade, sabia evocar visões de cidades remotas, congestionadas de multidão, naquela sombria casa de caça, afastada dos homens, onde não havia outro sinal de vida além do fogo de um braseiro e do bater dos seus corações.

Calava a cada passo, pois sabia a graça das pausas e o valor musical do silêncio. Na nostalgia transbordante das suas palavras havia um desejo de voltar para as cidades populosas.

Mauro formulou uma pergunta precisa.

- Sim - suspirou ela, depois de breve hesitação. - Uma fatalidade hereditária impele-me a errar pelo mundo. Tenho sangue nómada; sou filha de cigana. Minha mãe passou a infância e a adolescência num carro de ciganos húngaros. A raça cigana tem tradições, lei, e um rei a quem todos obedecem, mesmo que andem dispersos pelos pontos mais opostos do mundo; minha mãe era de sangue real, e apesar disso desobedeceu às leis da sua estirpe, casando com meu pai.

"Há uma canção que diz: "A rapariga cigana que se enamorar de um homem de outra raça é como uma pomba errante que procura pousar na ponta de um punhal. Não consegue suster-se e o ferro traspassa-lhe o coração."

Enamorou-se de meu pai, que era adido comercial em Viena, e fugiu com ele; casaram-se; teve dois filhos; meu irmão e eu. As mulheres que desertam da caravana para seguir um homem de outra raça, cedo ou tarde serão punidas; os ciganos têm o segredo de venenos misteriosos, e preparam certos projécteis especiais que levam na base um pequeno escudo de prata com um cunho - o cunho da tribo.

- É uma espécie de assinatura, a tribo de minha mãe tinha por cunho um olho entre duas cruzes.

Mas não conseguiram descobri-la nem na nossa remota vila de Xangai nem no bangaló de Calcutá. Uma noite, quando já tínhamos regressado à Europa e morávamos num andar térreo oculto por um jardim, ouvimos um disparo."

Mélita interrompeu-se. com o dedo puxou o fio que caía entre a camisa e a pele e tirou uma espécie de amuleto, um cone de chumbo amarrotado na ponta e fechado na base por um escudo de prata.

Mauro examinou-o: estava quente do calor de Mélita, e no escudo de prata havia gravado um olho entre duas cruzes.

- Ferida - prosseguiu a narradora -, sarou logo. Mas, um mês depois, em Paris, num restaurante nocturno, em que um cigano autêntico dirigia uma orquestra de pseudociganos, executaram a canção que diz: "A pomba errante que procura pousar na ponta de um punhal..."

"O papá e a mamã jantavam em companhia de muita gente; oficiais, diplomatas, actrizes.

A mamã empalideceu. Levaram-na nos braços, desmaiada. Durante todo o tempo que meu pai permaneceu em Paris, ela saía raramente e fazia as refeições no hotel. No dia em que deviam partir, foram servidos por um garçon novo, que evitava falar e respondia por gestos e monossílabos."

- Cala-te, menina! - e Mauro tapou-lhe a boca com a mão.

- Morreu quase instantaneamente. O garçon desapareceu: ninguém soube jamais donde viera.

A jovem suspirou profundamente, enrolou um cigarro entre as palmas e acendeu-o numa brasa.

- Pertenço a uma raça errante; há séculos que as crianças nascem dentro dos carros, que continuam a rodar pelas planícies e pelos vales, sem que os detenha o facto banal de um nascimento: antes de vir ao mundo percorreram centenas de milhas e deixaram para trás centenas de países.

Mauro interrompeu:

- E o teu irmão...

- Compreendo o que queres dizer. Como é que, tendo o mesmo sangue, em vez de ser vagabundo como eu, é um misantropo, imobilizado como um cristal no meio do gelo? Explico-te: sou mulher: forte, como mulher, forte para reagir, forte para me defender; mas fraca para reagir contra mim mesma, fraca para me defender da minha melancolia.

"Meu irmão é forte: não tem necessidade de ver os aspectos caleidoscópicos da vida das cidades e de mergulhar na multidão para dominar a própria dor. Ele pensa, como Nietzsche, que a filosofia é via livre no meio dos gelos, no alto da montanha; é a procura de tudo que há de estranho e de enigmático na existência; de tudo que é vedado pela moral.

Meu irmão segue um regime de solidão para higiene do espírito: impelido pela necessidade de conhecer todos os homens, afastou-se de todos e observa-os de longe; eu, para não conhecer nenhum, para não me afeiçoar a nenhum, procuro aproximar-me de todos. E, desse modo, o solitário misantropo e a irrequieta vagabunda acharam-se de acordo sobre o mesmo ponto, chegando a duas conclusões simétricas e equivalentes; não ver ninguém para conhecer todos, e ver todos para não conhecer ninguém."

Entendeu, leitora intelectual? Repito: não ver ninguém para conhecer todos, e ver todos para não conhecer ninguém.

A explicação no próximo número.

Compreendo que isto não lhe interessa. O essencial, para a senhora que comprou este livro por engano, é que o coração de Mauro e o de Mélita "batam em uníssono", como se lê nos bons romances recomendados pelo Corriere della Será.

Esqueci-me de acrescentar que a cor (violeta, evidentemente) do crepúsculo e o nevoeiro aumentavam o pathos.

O pathos é um produto de que ainda se fala às mesas dos cafés de província. A senhora também, às vezes, nos dias em que exibe os trajes de gala do seu guarda-roupa cultural, talvez aluda ao pathos; salvo que, julgando-o palavra francesa, pronunciará pato.

- Apaga! - ordenou Mélita deixando cair o vestido de Ártemis caçadora e desabotoando a blusa.

Mauro não obedeceu. Metido até os olhos debaixo das cobertas, assistia pela terceira noite à revelação daquela nudez subtil.

- vou mostrar-te uma bela coisa - prometeu ela.

- As belas coisas vêem-se melhor à luz.

- Mas esta observa-se no escuro. E soprou a luz.

- Olha para os meus cabelos! - e passou o pente. Escuta: não ouves um ruído fino de enxofre que se esmigalha entre os dedos?

- É verdade! Faze outra vez.

E o ruído acompanha o pente por todo o comprimento dos cabelos.

Pequenas faíscas. É belíssimo.

Mélita soltou o pente e pronunciou com uma paródia de mistério:

- Electricidade!

Enfiou-se em baixo das cobertas, e, sem lhe deixar tempo para exprimir o seu assombro por aquela estranheza zoológica, fechou-lhe a boca com um fruto quente de carne. E só lho tirou da boca para o substituir por outro fruto de carne exactamente igual, mas um pouco mais frio, porque durante esse tempo ficara descoberto.

- Basta!

Escorregou para baixo, ao longo do corpo dele, toda palpitante, acariciante, adesiva.

Dormiam estreitamente enlaçados num só nó de membros, numa mistura de respirações, e o seu sono era perturbado por acessos de desejo, por visões extenuantes, pela necessidade de satisfazer as últimas curiosidades dos sentidos.

Mas os banhos matinais na água gelada lavavam dos nervos os venenos esquisitos acumulados durante a noite de amor, e limpavam da pele as marcas avermelhadas da face de um no ombro do outro. E a serenidade transparente daquele anfiteatro alpino, e a massa negrusca da rocha, e os despenhadeiros bizarros e o lago cerúleo, e o templo de neve decorado de gelo acolhiam a sua saída para o ar livre, com um regalo de cores e uma bênção de luz.

Ao inebriamento de amor sucedia o inebriamento de pureza; as suas almas pareciam leves, soltas, na inocência da sua contemplação. Sentiam que eram os amantes ideais, isto é, forças obscuras da terra, que das profundezas subterrâneas emergem inconscientemente, por um instante; a contemplar as estrelas, a olhar para os jardins suspensos do infinito.

Quem não se uniu somente à própria mulher ou à Calipso de cinco francos compreenderá como a gente se possa sentir puro mesmo depois de uma noite de espasmos, quando o ar frio da manhã faz reabrirem-se nos lábios os pequenos cortes que os dentes rasgaram durante o frenesi violento da noite.

Esperar pela amante num recanto da rua, dar ao cocheiro o endereço de um albergue por hora, copular, sair, também a isto as gentes chamam amor. Mas não é amor. Ao coito, no verdadeiro amor, chega-se sem saber, gradualmente ou de um salto: e quando se readquire a lucidez de espírito, não é possível precisar de que modo se chegou àquele gesto.

No amor verdadeiro, a comunhão dos corpos realiza-se como o coito das flores, como as bodas dos insectos.

Os insectos, que sublimes mestres do amor! É muito mais interessante ver como amam os coleópteros do que as cortesãs, as actrizes, os poetas, os frades, os filósofos e os reis.

- Sinto-me inteiramente tua! - confessava Mélita ao amante. - A minha peregrinação pelo mundo talvez fosse apenas a procura de um homem que me completasse, a procura de ti.

- Não buscavas a solidão?

- Há uma coisa mais bela do que a solidão: a solidão a dois. Existiam em mim grandes reservas de amor em estado latente; tu foste aquilo que os fotógrafos chamam o líquido revelador. Deixarás um grande traço na minha vida!

- Falas como se tivéssemos de nos separar amanhã.

- Amanhã, não; mas breve. O nosso amor foi episódio tão espontâneo e imprevisto na minha vida que não deve alcançar o peso de um vínculo, nem murchar num hábito, Separar-nos-emos para que o nosso amor sobreviva. Entendes?

- Não. Isto não são palavras: são símbolos, hieróglifos, fórmulas mágicas.

- É necessário. Os outros amores podem acabar num concubinato ou num casamento, ou numa série de encontros metódicos de três horas por dia, inclusive beijos, passeata e aperitivo. O nosso amor é diferente, por agora. Mais tarde nos tornaremos amantes como todos os outros, e acabaremos pela antipatia, ou a resignação, que é o pior, ou o casamento, que é a resignação obrigatória. Fui inteiramente tua; serei tua ainda alguns dias; e o que quer que me aconteça, não te causarei aborrecimento. Tu nem mesmo chegarás a sabê-lo.

Mélita calou-se. Uma casinha branca aparecera de repente sobre um bloco. Um esporão de rocha ocultava-a como um ninho.

- Chegámos - anunciou ela.

Uma escada de poucos degraus talhada na rocha conduzia à porta do ermitão.

Mélita soltou um assobio, e a porta abriu-se.

Uma lanuda cadela de pastor, horrivelmente bela, veio-lhes ao encontro, com ar de policial em diligência, e, depois de um exame olfactivo desconfiado, concedeu, com amplos abanos de cauda, o seu consentimento.

Um homem de cerca de trinta anos, de cor azeitonada, com a cabeleira negra atirada para trás e barba em desalinho, acolheu-os com largo gesto hospitaleiro. Da blusa de veludo preto, apertada por um cinto de couro, saíam o colarinho da camisa de tela, dobrado sobre a gola, e os punhos moles, admiravelmente brancos entre o moreno da mão e o negro do veludo.

- bom dia, Iluska! - e moveu-se ao encontro da irmã que lhe oferecia a fronte.

- bom dia, Sândor. E apresentou:

- O senhor Mauro Mauri, meu irmão Sândor. Sândor estendeu-lhe a mão e fê-lo entrar.

Três paredes estavam inteiramente cobertas de livros. Filas de obras em vários tomos; volumes altos, pela lombada robusta, revelavam o carácter científico do conteúdo, destinado a alimentar longas meditações e suportar frequentes consultas.

- Tenho-te esperado estes dias, Iluska.

- Prometera-te vir antes de regressar à planície. Amanhã partimos.

- Não lhe posso oferecer mais, senhor - disse Sândor convidando Mauro a chegar à janela - do que este horizonte.

A geleira incandescente, martelada pelo Sol, desprendia fagulhas.

- Parecem as cúspides douradas das igrejas russas. Fiz saliente assim a cornija para não ver que atrás de mim ainda existem cumes.

- Ilusão de óptica.

- A mais inocente das ilusões.

Sobre a mesinha, junto à janela, muitos livros amontoados, abertos, davam testemunho do trabalho interrompido.

Dois retratos. Uma mulher idêntica à que Mélita trouxera na moldura de tartaruga loura, e uma jovem de aproximadamente dezoito anos.

De um lado e de outro da porta, algumas fotografias da infinita puszta húngara.

- Anteontem, Iluska, nem sequer me falaste do noivo de Donata.

- É verdade - disse Mélita; e, voltando-se para Mauro:

- Donata é uma irmã nossa, filha natural do meu pai, que após a morte da mãe a recolheu em casa. Mas a notícia

- e voltou-se para Sândor - interessa-te tão pouco, como aliás me é de todo indiferente. Ao noivo só conheço de retrato: deve ter pança e ser calvo, porque tirou a fotografia de busto e com o chapéu na cabeça.

- Se é certo que na evolução animal os cabelos têm de desaparecer, os calvos são precursores.

- Chama-se... Escuta que belo nome: Don Ciccillo Cacace di Capafugata. uma das mais antigas famílias do Sul.

- A nobreza, quanto mais antiga é, tanto mais suspeita. - Provém de... de... de uma daquelas regiões que exportam bergamotas e agentes investigadores.

- Entendo: em que o analfabetismo se eleva a quarenta e cinco por cento da população. E quem foi que preparou a tramóia?

- Ela própria. Sente-se feliz por desposar um "don" que atordoa toda a gente com a magnificência da sua árvore genealógica. Os mais belos nomes pertencem à nobre estirpe dos Capafugata. Frederico II? Um Capafugata. De Musset? Um Capafugata! Garibaldi? Um Capafugata! Hindenburg, Eleonora Duse, Lenine, Girardengo, todos pertencem à nobre linhagem dos Capafugata.

- Casarão breve?

- Penso que sim. Ela anseia tanto por ter filhos!

- Filhos! - exclamou Mauro. - Nunca compreendi como é que os homens são tão imprevidentes em pôr filhos ao mundo, em convidar novos esfomeados para este miserável banquete sobrecarregado de comensais. Os homens hesitam menos para fazer um filho do que para tomar um eléctrico.

- Julgam que fazem crianças - disse Sândor - e não pensam que fazem homens. Questão de palavras.

- É a espécie que tem necessidade de se perpetuar - observou Mélita, chegando à janela e deixando os dois homens discutirem a sós.

- Mas o indivíduo tem o dever de disciplinar esta necessidade cega da espécie. Se a multiplicação dos homens não fosse tão desordenada, não se teria de recorrer de vez em quando a essas cruentas práticas malthusianas que são as guerras, e que, despidas de retórica, de tinturas poéticas e de pretextos ocasionais, tendem simplesmente a reduzir pela violência o número de comensais, a fim de que os que ficam tenham com que matar o apetite.

- Não estou de acordo com o senhor - objectou Sândor.

- Creio que a vontade dos pais representa papel mínimo no nascimento dos filhos; são estes que procuram vir ao mundo, e a sua vontade de sair do nada, do estado ideal, domina a vontade, os instintos, daqueles que hão-de ser os seus progenitores. O destino dos filhos não depende da vontade dos pais, mas são os pais que obedecem inconscientemente à vontade do filho, o qual procura tornar-se matéria, substância, animal, homem. Nós estamos habituados a considerar o tempo sempre na mesma direcção, do passado ao presente, do presente ao futuro; julgamos que o após seja produto do antes, e que as coisas são como são porque as coisas foram predispostas de certa maneira. Daí que ao filho que nasce o consideramos consequência da união dos genitores: se essa união não se tivesse dado - argumentamos no nosso simplismo - o filho não teria nascido. Penso que se devam olhar os factos do alto, sem referências à cronologia. O filho, querendo vir ao mundo, provocou a união do macho e da fêmea que foram seu pai e sua mãe. Não posso crer que Dante, Leonardo, Napoleão, Pasteur, fossem o fruto acidental de um coito. Eram eles que tinham de vir ao mundo, e provocaram-no. Todo o furor que a sociedade descarrega contra a senhora-mãe. é monstruoso, A senhora-mãe obedeceu, não ao preconceito, que é o passado, mas ao futuro. A reacção da natureza contra os que provocam o aborto (doenças e até morte da mãe) é a prova do que digo. A mãe não queria o filho, e efectivamente agora a natureza nega-lhe o direito de "não o querer mais".

- Admitam, porém - respondeu Mélita, erguendo-se da janela e voltando a sentar-se entre os dois - que os pais, depois do nascimento, formam o filho, plasmam-no pela educação.

- Infelizmente sim, Iluska! A educação, quando dá resultados, cria seres medíocres; a educação é êxtase, imobilidade; como valor formativo, como valor plástico, é a negação do progresso. Educar o nosso filho significa modelar a sua consciência e a sua inteligência de modo a fazê-lo um exemplar idêntico a nós, isto é, impedir a transformação, o renovamento, o progresso. No seu resultado prático, a educação dos filhos não tem outro fim além de garantir-nos a sua fidelidade no dia em que não precisarem mais de nós. Se se bastarem a si mesmos, deixar-nos-ão.

O criado estendeu uma bandeja.

- Ofereço-lhe um kiimmel - disse Sãndor, mudando de assunto - que o meu companheiro de exílio prepara,

O criado inclinou-se levemente.

- Colhe as sementes de kiimmel e trata-as à maneira russa, ajuntando-lhes certa dose de Agaricus moscarias, um cogumelo venenoso que contém um alcalóide afim da atropina.

- Aquilo que torna belo os olhos.

- Sim, Iluska. É por isso que as bebedoras de kummel têm a pupila dilatada.

Ofereceu um copo a cada um dos dois hóspedes e ao cnado.

QUando eU era estudante de Medicina em Petrogrado, todas as noites nos embriagávamos de kiimmel: os colegas que conservavam a consciência, antes de se deixarem tocar por nós, examinavam-nos os olhos para procurar os vestígios do inebriante veneno.

- É formado em Medicina?

- Sim.

- Serviu como médico?

- No exército russo. Não é verdade, "Páprika"? "Páprika" tinha pousado a cabeça lanuda sobre o joelho

do dono, soltando um afago, e quando sentiu a mão afectuosa entre os crespos cor de palha, cerrou os olhos, escutando.

- Sou súbdito russo. Era considerado mau oficial, porque tratava com o mesmo carinho os russos e os inimigos, os soldados e os generais, os prisioneiros e os heróis. Para mim, o doente, o ferido, o moribundo, não têm postos nem honras, nem indicações de religião ou de pátria: é um homem nu: nu e sangrando, sem galões e sem medalhas. A dor e a agonia não têm nacionalidade. Para mim, uma mulher grávida é simplesmente uma criatura a que se devem cuidados e piedade; mesmo que seja adúltera, mesmo que seja casada, mesmo que se tenha vendido. Mas, lá em baixo, ainda se dividem as doenças em morais e imorais, confessáveis e inconfessáveis. Para mim, as enfermidades são simplesmente curáveis ou incuráveis. Lá em baixo existe aquela coisa horrenda que é a organização, isto é, a instituição de relações e de interesses ou, noutras palavras, de prepotência e de tráficos. Entre os gelos e os falcões, não vejo a gente organizada. É a organização que amesquinha até as coisas mais belas: em cada cidade, há um cárcere; em cada casa, a privada; em cada corpo humano, o tubo digestivo. A organização é mais vergonhosa do que o caos. Os pais irritam os filhos, e queixam-se se estes os detestam; os vinhateiros envenenam os clientes e, quando estão ébrios, fazem-nos levar pelos guardas; a burguesia obriga as mulheres a venderem-se e depois chamam-lhes prostitutas.

- Não descerá mais às cidades?

- É difícil, agora que me habituei ao absoluto, que torne ao convencional. São os valores convencionais que amesquinham todas as coisas. O ouro foi, em tempos, coisa puríssima. Começou a não o ser mais no momento em que lhe imprimiram uma cifra e um perfil de soberano. O nu da mulher foi puríssimo até o momento em que enfiaram uma liga na coxa. E, depois, lá em baixo, aquele cheiro mesclado de todas as fermentações humanas que repugna. Odeio a multidão, esta monstruosa limalha de ferro que se amontoa ao redor de qualquer íman, de qualquer homem cujo único mérito consiste em ter compreendido que é melhor ser íman do que limalha. Amo os indivíduos, mas odeio a turba. Quando um homem quebra o braço, fico com pena; mas, quando uma epidemia destrói centenas de milhares de homens, alegro-me. Tenho medo da turba, tenho a obsessão, a fobia, da turba. Acho que, se enlouquecesse, a minha loucura não seria povoada de espectros ou de sonhos, mas de multidão ameaçadora, berrante.

- Eu, pelo contrário - disse Mélita - gosto de mergulhar naquele oceano de formas.

- Não, Iluska! A plebe não tem formas, nem ideias, nem vontade. Para a fazer adorar um homem, basta publicar a fotografia deste, em formato dezoito por vinte e quatro, na primeira página de um jornal. É mais fácil do que a fazer usar uma pasta ou pomada. A multidão que no dia da entrada na guerra linchou os súbditos inimigos e arremessou os seus móveis pela janela é a mesma que teria aclamado o rei deles, se viesse de visita ao seu país; os que, cantando hinos à anarquia, ocuparam as fábricas, escarraram nos galões dos oficiais e tomaram os corpos de guarda a tiros de revólver são exactamente os mesmos que dois anos depois incendiaram a Câmara de Trabalho cantando hinos ao rei. Se amanhã o prestígio do papa declinasse, saqueariam as igrejas, sempre dispostos, porém, a gritar "viva o papa-rei!", se o pontífice manobrasse com alguma probabilidade de êxito para reaver o poder temporal. Eles constituem uma tremenda máquina que se torna dócil instrumento nas mãos de um só; servir-se da turba significa oferecer-lhe o modo de dar vazão à própria exuberância de imbecilidade ou de ferocidade; pelo prazer do assassínio e do saque, a multidão serve um partido e o partido contrário com a mesma indiferença. Fala-se das ovelhas de Panurgo. Devia-se dizer os tigres de Panurgo.

- A multidão não tem culpa - atenuou Mélita, com doçura

- se os os que a incitam e guiam a fazem tornar-se cruel.

- Não é necessário, Iluska, instigá-la, nem provocar os seus baixos instintos; basta abrir uma válvula; as leis comprimem estes instintos; quando se libertam, com a revolução, o homem não adquire instintos excepcionais, criados do nada sem mais nem menos, mas apenas revela aquilo que era e que as leis tinham domado à força.

- Mas no meio da massa não há também gente inteligente e de boa fé?

- Sim, Iluska, os que julgam servir a uma ideia, e não compreendem que servem a um homem, um banco, um grupo de industriais.

- O senhor disse há pouco que amava os homens.

- Sim, senhor Mauro, individualmente.

- E por que não exerce a Medicina?

- Dirigi por algum tempo uma pequena clínica cirúrgica. Mas o meu trabalho era fiscalizado por um administrador, que me fazia observações porque gastava demasiado algodão hidrófilo. Era vítima da organização. Não se concebe de que modo o cirurgião, o homem que tem poder de vida e de morte, aquele que fica logo depois de Deus - se há Deus -, pode ser fiscalizado por um guarda-livros qualquer. É como um poeta julgado por um tribunal. Eu tinha ilusões, naquele tempo. Mas depois compreendi que, para conservar alguma ilusão sobre a Medicina, é preciso abster-se de a estudar. O médico consciencioso sabe que não é indispensável: os segredos são tão poucos que todos os médicos os conhecem. Não creio que, se eu descesse destas montanhas, os que sofrem teriam com isso grande proveito. Nem que me agradecessem. Lembra-te, Iluska, se vires um homem prestes a ficar debaixo de um automóvel, não o segures, porque, ao invés de agradecer o teres-lhe salvado a vida, queixar-se-á de que lhe amarrotaste a manga.

- Parece-me, Sândor, que contradizes o que disseste antes. O teu amor aos indivíduos...

Sândor ficou um momento absorto.

- Sim, sou incoerente. Mas é tão estúpido e tão fácil ser coerente! Basta dizer sempre a mesma coisa. A coerência é a cristalização da ideia.

O criado preparava a mesa, para três.

Um tilintar de campainha fez voltarem-se Mélita e Mauro.

- É o telefone sem fios - explicou Sândor, apontando para a caixinha escura que ficara inobservada na sombra. Anuncia as notícias da tarde: as taxas do câmbio na Bolsa de Paris, a resenha da sessão da câmara dos deputados, os acontecimentos sensacionais do dia. É pouco interessante. Daqui a pouco anunciarão o começo de um concerto: são seis horas: sexta-feira.

E consultou um largo cartaz pendurado na parede.

Outra campainhada.

Sândor virou o altifalante na direcção dos hóspedes e, com um par de pinças de madeira, fez girar dois botões na parte de trás do aparelho, para regular a extensão de onda.

As seis válvulas termoiónicas acenderam-se, e da boca do altifalante saiu o nome de um violoncelista célebre, o título e o autor de uma obra, e o nome de uma sala de concertos parisiense.

Ao violoncelista seguiu-se um quarteto de arcos; mas, no episódio mais patético, foi interrompido como que por uma rarefacção.

- Que foi?

- Perturbação atmosférica - explicou Sândor, tocando no indicador com as pinças de madeira. - As válvulas termoiónicas apagaram-se.

- Esperemos que passe a tempestade - disse - e vamos para a mesa. Não posso oferecer-lhes ostras de Arcachon, nem rosas da Côte-dAzur.

- Já experimentaste, Sândor, o condensador que te trouxe anteontem?

- Funciona muito bem.

- Eu temia que aquela parafina que separa as duas folhas de estanho se fundisse com o calor do bornal.

- Efectivamente.

- E o senhor ouve música todos os dias?

- Transmitem-me os concertos de Londres e de Paris. Ouço a música sem ver o público, sem ser distraído pela pessoa do artista, sem ler os extravasamentos de bílis dos seus companheiros de conservatório bombardeados sistematicamente nos exames e recusados pelas orquestras dos cafés, que se converteram nos críticos, incontestáveis dos jornais diários.

"Páprika, fique quieta!

Está acostumada a comer à minha mesa, pobre Páprika, e, quando estamos sós, permito-lhe até que ponha as patas na toalha. Aquecemo-nos um ao outro tantas vezes, na trincheira! Resignou-se a viver, também ela, entre estas rochas, e a comer carne em conserva, isto é, a engolir ácido salicílico. Mas a gente habitua-se até ao ácido salicílico, não é verdade, Páprika? E, no Inverno, quando quebramos a martelo a bolacha de marinheiros? Mas Páprika tem bons dentes. Mostre-os a estes senhores."

E Sândor meteu-lhe na boca um pedaço de carne.

Depois das frutas e do café, que encheu o quarto de um delicioso perfume, ouviram ainda o Andante Religioso de Bach, tocado em Londres, por Marcelo Boasso.

E, como caísse a noite, despediram-se do dono da casa. Sândor beijou Iluska na testa.

A peluda cadela de pastor, horrivelmente bela, seguiu-os por algumas centenas de metros, até que um cheiro mais interessante a deteve.

Tinham um grande desejo de beijar-se. Quando se viraram para adquirir a certeza de que estavam realmente sós, Páprika voltava, a correr, para casa.

Mélita estreitou-se ao amante, chupou-lhe os lábios em ventosa e apertou o passo.

- Vamos para a cama, em seguida.

- Em seguida.

Mélita, voluptuosa e vibrante, pensava:

"Ele passará a noite entre os meus peitos".

(Previno ao ilustríssimo senhor representante do Ministério Público que esta frase não é minha. Foi tirada do Cântico dos Cânticos, de Salomão, um escritor de pós-guerra de há uns 3000 anos.)

Ficaram ainda duas noites e um dia na antiga casa de caça, e partiram. A descida não foi triste: triste foi o aparecimento do hotel entre os lariços.

Antes de chegarem à aldeia, encontraram alguns grupos de veranistas que, à sua chegada, interrompiam as palestras, olhavam-os de esguelha e desabafavam a comprimida virtude em comentários repenicados de risadinhas sarcásticas. Mauro e Mélita sentiam-se acompanhados pelos virulentos juízos, como por pequenas esferas de vidro que ao romper-se exalassem um cheiro pestífero. A crítica de costumes feita pela gente honesta compõe-se toda de esferas assim malcheirosas de pestífero puritanismo.

A baronesa Esmeralda (O Dedinho no Narizinho, romance para crianças), solene na torre, estava a secar ao sol os cogumelos entre as ameias do antigo solar. As três senhoras indefloráveis, acocoradas dentro dos balões dos vestidos brancos num prado verde-esmeralda, faziam um magnífico efeito de ovos cozidos sobre chicória. O senador filósofo e jogador de pocker passeava para facilitar as funções do metabolismo, com a agilidade venerável, com a desenvoltura grisalha dos enxertados do professor Voronoff. Num campo de ténis, uma senhora honesta, disposta a não ceder, jogava com um cavalheiro jovem; o marido assistia, enlevado, e de vez em quando saía aos pulinhos pela relva à procura das bolas que se perdiam.

Do salão do hotel vinha a música de uma dança em moda, daquela dança convulsa que azeda nas mamas o leite das parturientes.

Pararam junto à janela, do lado de fora.

Ao piano, um moço de sociedade bracejava com grande esvoaçar de cabeleira e projecção de punhos, e para reforçar o colorido daqueles espasmos epiléptico-musicais, batia ora com os nós dos dedos na estante, ora com uma chave no pires do castiçal.

- Os delinquentes da música - sussurrou Mélita.

Pares de damas deliquescentes e rapazes janotas puxavam-se uns aos outros em roda, aderindo por aquela parte do corpo por onde não é costume a gente unir-se em público, nos povos civilizados. A música, monótona a ponto de repetir na mesma tecla o estilicídio de uma mesma nota, arrastava-os a passos uniformes em que havia mais passeios digestivos que de dança; mas, de repente, desencadeava-se uma barulhada infernal, e os pares torciam-se, desaprumavam-se, sacudiam-se, num bambolear de mamitas gelatinosas, oscilante e trémulo, e num chocalhar furioso de intestinos.

Cada par tem o seu estilo próprio. Este bailarino, esteta exangue, cria efeitos fisionómicos juntando os lábios em coração e erguendo para os céus os olhos inspiradores, nos movimentos lânguidos; e, quando o ritmo se faz convulso, dilata as narículas palpitantes de fauno, arregala os olhos espantados, arreganha a dentuça e deixa pender o beiço libidinosamente humedecido.

Estoutro faz dar voltas à sua dama, gravemente, como se a fizesse contemplar os exemplares de um museu de antiguidades: dança como se cumpre um dever e tem a máscara solene de quem está a prestar um juramento ou a assistir a um enterro.

Aqueloutro, bufão, apalhaçado, caricatural, empenhado em fazer rir a todo o custo, enruga o nariz, enverga os olhos, põe-se rijo como um fantoche, atira para trás as vértebras do sacro e do cóccix a fim de exibir a cauda de que os seus remotos antepassados injustamente o deserdaram.

Cada vez que passa pela frente do espelho lança um olhar a si próprio, satisfeito de si mesmo.

É aquele moço "que dança bem", que pratica a dança verdadeiramente científica, e acompanha a música com absorta gravidade e se concentra sobre os próprios pés como se a cada compasso tivesse de enfrentar um problema imprevisto; vastas calças esvoaçavam-lhe sobre as pernas finas que saem dos sapatos baixos, decotados, sem saltos, de animal plantígrado; com os instrumentos de precisão das pernas não pratica dança, mas trigonometria: fazendo centro num pé, gira sobre si mesmo segundo o compasso e com o outro pé vai traçando medidos segmentos de circunferência; depois segura a dama pela cintura, levanta-a por cima do desenho geométrico, a fim de que não o apague, pousa-a com requintada delicadeza, atira-a para trás, de surpresa, quase até fazê-la tocar com as espáduas no solo, mas detém-na com o braço a um palmo do soalho e ergue-a triunfante, para o alto, como uma oferenda. A dama atirada para o tecto deixa cair uma perna, e o público, por um instante, goza a fugitiva visão de uma liga, uma nesga de pele e qualquer coisa esbranquiçada.

A mulher do vinhateiro enriquecido, com muitos cordões dourados e bugigangas no pescoço e na pança, oferece o triste espectáculo da pessoa acanhada que quer mostrar desembaraço. Julgando imprudente deixar na cadeira a bolsinha de couro, aperta-a na mão gorducha, carregada de minerais, de encontro à espinha do cavaleiro.

A senhora sem preconceito conserva no canto da boca o cigarro (opiado, subentende-se, ainda que seja dos comuns) e, conversando, fá-lo saltar em movimentos verticais, piscando um olho molestado pela fumaça. A senhora refinada, de mórbida espiritualidade - diz ela -, apenas roça o cavalheiro, permanecendo unida a ele por virtude do fluido magnético: a mão, arqueada como as pétalas de um nenúfar, move-se com a ondulação voluptuosa do colo de um cisne.

A senhora madura, sempre jovem (para ela os anos não passam), resigna-se às danças modernas, conservando contudo no coração a nostalgia da Bostom e da quadrilha de lanceiros, e nas articulações alguns depósitos de ácido úrico.

E as duas irmãs (feias, coitadinhas!) que, com a prévia autorização materna, dão juntas alguns saltos?

E os casados? Há sempre um casal sofrivelmente conservado que, meio por gracejo e meio a sério, quer mostrar aos rapazes de hoje quanta energia dispõe ainda. Sorriem com orgulho da sua performance, protestando contra o pianista que acelera os andamentos e que, para se vingar perfidamente, recomeça várias vezes o trecho.

E, quando são obrigados a dar-se por vencidos, atiram-se fumegantes e apopléticos sobre as cadeiras, enxugando o suor com um só lenço para os dois.

Mélita e Mauro atravessam um salão, onde se entabulava o seguinte diálogo entre um rapaz e uma senhora (o macho e a fêmea do Idiota elegans):

- Não fumo.

- Não fuma?

- Não tenho vícios.

- Fumar não é vício.

- Porque já o tem.

- Se fosse um vício, não o teria

- Terá outros.

- Você é que o diz.

- Porque sei.

- Schocking!

- Perdoa-me?

- Lá isso é que não!

- Façamos as pazes?

- Jamais de la vie!

Mélita e Mauro passaram à sala de leitura. Outro diálogo inteligente entre dois espirituosíssimos representantes da idiotia integral:

- Isto é para mim?

- É para ti. Subiram para o quarto.

Na mesa de cabeceira de Mauro, o despertador estava parado, as flores estavam secas, e branquejava uma carta da amante abandonada.

Deitou-se, mas não pôde dormir. A música epileptóide fez vibrar as paredes durante várias horas.

"Oh, como compreendo - pensava ele - o gesto de Apoio que esfolou vivo a Marsias, o sátiro frígido que sabia tirar da flauta suavíssimos sons! Esse virtuoso era, com certeza, seu vizinho ou companheiro de hotel."

Mélita, porém, adormeceu. A rapariga, de feições de boneca, era como aquelas bonecas que, mal se deitam de costas, fecham os olhos e adormecem. Antes fora cumprimentar pela última vez a gatinha sentimental que passava longas horas a escovar o seu manto branco para agradar à Lua.

Um céu inverosimilmente palpitante. Estrelas amarelas, estrelas azuis, estrelas cor-de-rosa, estrelas brancas. Na imutabilidade estereotipada, convencional, gregária, de todas aquelas estrelas, eis que uma se emancipa, e com voo hiperbólico corta o horizonte e desaparece.

É uma estrela separatista.

Na manhã seguinte, Mélita partia com Mauro para a cidade.

- Escrever-me-ás? - perguntou ela, tomando-lhe a mão. O ómnibus descia de motor parado, silenciosamente. A luz

rósea da manhã suaviza o perfil agudo das rochas.

- Não - respondeu o amante. - Detesto as cartas de amor e as correspondências seguidas. A circulação de papel denota pouca reserva metálica de paixão.

Aproximou-se da planície.

Uma galinha por pouco ia deixando as penas debaixo dos pneus. Mélita soltou um grito e, quando a viu escapar, cacarejando, sorriu aliviada.

- As galinhas - comentou - parecem-se a nós, mulheres. Quando estão na iminência de serem atropeladas, em vez de saírem para o lado, atravessam a estrada.

Duas horas de comboio e estavam na cidade. Beijaram-se, combinaram um encontro para a tarde do dia seguinte na sala de chá de uma confeitaria e separaram-se.

Mélita saiu devagar no meio da multidão, procurando alguém por cima das cabeças, e por entre as malas carregadas ao ombro.

- Iluska!

Eram a tia, doce e pançuda como um açucareiro, e o pai, belo tipo enérgico e louro de macho bem conservado.

Não lhe parecia verdade que fosse ter em casa, ainda que por poucas semanas, a filha vagabunda, a criatura instável que detestava a casa, a peregrinar irrequieta sempre em busca de novas fronteiras e línguas diversas.

Mélita tinha, naquele dia, tanto amor nas veias!

Atirou a pequena mala de mão para os braços da tia, abraçou-se ao pescoço do pai e disse-lhe uma palavra que raramente pronunciava:

- Papá!

NUMA única coisa o romance se parece com a vida: na divisão de capítulos.

A infelicidade e a felicidade poder-se-iam dividir em capítulos, porque se alternam em série, como a sorte e falta de sorte no jogo; a infelicidade nada mais é do que uma sucessão ininterrupta de incidentes desagradáveis.

Quando fizerem um traje de luto, cuidem que o tecido seja forte; acabado um luto, terão de começar segundo e talvez terceiro, porque estão na série triste. Ou alegre. Digamos, porém, triste, ainda que seja alegre; é uso dizê-lo assim.

Para Mauro, começava um capítulo novo. O último tinha sido um sonho: um sonho, para nos desapertarmos com uma comparação expedita e acessível a todas as bolsas. O amor inesperado de Mélita, a posse do seu corpo incontaminado, a revelação do amor num canto remoto do mundo, num cenário de tribo primitiva.

O penúltimo: vagabundagem de cidade em cidade, de hotel em hotel, com uma actriz de olhos turvos, de temperamento melancólico e carácter extra-dry, que lhe produzira a paralisia da vontade e a catálise do espírito e lhe abrira na alma feridas tais que mão humana, não fosse a de Mélita, a menina inocente, não teria podido curar. Em certos momentos de meditação, perguntava se não se teria curado obedecendo aos preceitos da medicina de 1600, que prescrevia, para sarar, comunicar o próprio mal a uma rapariguinha implume. As rapariguinhas implumes de hoje, talvez por vingança, põem em circulação o mal recolhido pelas suas antepassadas de 1600.

Antepenúltimo capítulo: peregrinação pelos lúgubres quartos mobilados, malcheirosos a condimentos gordos e sabonetes vulgares.

E agora?

Pegá-lo-iam de novo os quartos mobilados?

Não. Tinha de preparar um ninho prodigiosamente belo para receber Mélita. Não podia recebê-la num de tantos quartos mobilados, todos iguais entre si, com o tapete intencionalmente turco, furado aqui e ali por fumadores distraídos, e com a Nossa Senhora encostada a um ramúsculo de oliveira, enfeitada com um garrido sinal feito por alguma mosca iconoclasta que lhe tenha pousado no canto da boca.

E não podia tão-pouco resignar-se à garçonnière (apartamento de solteiro, para os puristas que digerem mal) decalcada sobre o habitual modelo de baixa literatura, quebra-luz velado, tapetes que abafam os passos, almofadas de todas as cores e de todos os calibres sobre um colchão superelevado de um palmo acima do chão; cofrezinho das doces recordações em que se guarda o pozinho do Extremo Oriente para alimentar o queima-perfumes, e os infalíveis biscoitos, e a garrafa de balsâmico Porto para estimular o sistema do grande simpático vacilante.

Mélita devia ser tratada como uma mulher diferente das outras, pois, como todas as amantes em exercício, era uma mulher excepcional.

Encontrou um andar térreo numa casa digna dela, dela tão acima do preconceito e tão imaculada, não obstante ter um amante. Nessa casa, no primeiro andar, morava a concubina de um íntegro magistrado, a qual de vez em quando recebia algum advogado novo desejoso de perscrutar o acampamento inimigo, e no segundo e último andar, uma boa senhora, assustadoramente honesta e ininterruptamente grávida, estabelecera uma criação intensiva de indivíduos de ambos os sexos.

Pedreiros, tapeceiros, marceneiros, preparavam um apartamento diferente de tudo quanto se tinha visto até então.

Cada um que o imagine, a seu gosto.

Quase todos os dias, à hora da sesta, Mélita se dirigia para ali com o seu passo elástico, e saía quando, na leve bruma daquele início de Outono, as luzes dos focos eléctricos se confundiam com a claridade do dia que findava.

Outras vezes encontravam-se na sala de chá de Baratti, confeitaria um tanto bisbilhoteira que reúne quanto há de mais "velha Inglaterra" no mundanismo da cidade: senhores, de voz aflautada e dicionário escolhido, que quando emitem vocábulos de luxo, como incompatibilidade, pessimismo, hipercrítico, incomensurável, levantam a voz para não privar do gosto de ouvi-las os fregueses mais afastados. Senhoras retardadas que levam a mão aos lábios do jovem irresistível, como nas estampas do bom tempo antigo; velhas senhoras que põem à prova o vigor dos dentes artificiais no açúcar cristalizado das castanhas cobertas. Um rapaz irresistível, recém-lançado na laboriosa carreira de solicitador, senta-se com carranca de tédio, abre nervosamente o jornal, honra com um olhar céptico o artigo de fundo, torna a dobrá-lo de qualquer jeito e, atirando uma ordem impaciente ao garçon, observa as senhoras, com a superioridade que lhe conferem as quinze liras que tem no bolso, resultado de uma batida à bolsa da mãe, da venda de uma Divina Comédia e de um empréstimo camarada da cozinheira.

A poetisa Amália Guglielminetti leva distraidamente ao soave di Calliope labbro um calicezinho cheio de espírito -? tal qual ela -, regulando a exposição dos dentes no espelho altíssimo.

Um indivíduo com ares de elegante, de sobretudo quase novo (a fazenda foi virada do avesso uma única vez), segurando-se com as duas mãos na bengala enganchada a um ombro, assoma à porta com ar de quem procura alguém. E como esse alguém nunca está, depois de investigar o horizonte em todos os sentidos, sai sem fazer despesa, acompanhado pelo sorriso irónico de Angelo, o conhecedor de doces e de mulheres, o psicólogo distribuidor de chá aromático e de informações perfumadas.

Mauro e Mélita permaneciam lá até à hora em que a fauna gárrula dos escritórios se derrama nas ruas, e os passeios se reanimam, rejuvenescem, adquirem um ritmo mais acelerado e mais vário.

Os eléctricos transbordantes passam apressados, campainhando, por grupos de gente impaciente que espera. Nas lojas, enquanto um empregado abaixa as cortinas, entrevê-se a caixeira que enfia as luvas e arruma com dois toques o cabelo por baixo do chapéu. Há alguém, fora, ou pouco distante, que espera.

Mauro acompanhava Mélita pelas ruas repletas de vida e de erotismo, e junto ao jardim da casa dela separavam-se, felizes pelas horas que passaram, felizes porque outras horas como aquelas passariam no dia seguinte. Às vezes, de imprevisto, na tranquilidade da sala de chá da antiga confeitaria, bastava o encontro das mãos ou do olhar para os mergulhar em doce languidez. Soltavam a chávena, deixavam em meio o aperitivo, e, em três minutos de automóvel, chegavam à vila aninhada aos pés da colina, na poeira de ouro que o Outono sopra sobre as árvores.

Ao entrarem na casa, macia de almofadas e de tapetes, recebiam-nos os vinte e dois centígrados da estufa eléctrica, perfumados por uma bandeja de frutas suspensa do tecto. Experimentada preparadora de misturas alcoólicas (um barman negro de New Orleans ensinara-lhe o segredo de certos cocktails), Mélita derramava com grande precisão vários licores no batedor de níquel; e, enquanto o agitava violentamente para misturar a mixórdia, Mauro tirava-lhe os sapatos para lhe enfiar umas pantufas vienenses de melodrama de Verdi.

Antes de oferecer o copo ao amante, provava-o, batendo com os incisivos no cristal.

Apareceram os primeiros abrigos de pele que expedem ondas de perfume misto de cânfora, pó-de-arroz e mulher, naqueles dias em que por toda a parte flutua um fedor cadavérico de crisântemos, e através das portas das casas burguesas os corredores sopram um cheiro de mosto e de uva pisada.

Os amantes caminhavam no nevoeiro ao longo do rio, sob faróis de luz mortiça, por entre a ténue ramagem de árvores descarnadas, de aspecto tão velado que parecia como se houvesse por trás as varetas esguias de um leque. Caminhavam como os pares de namorados que Mélita encontrara nos cais do Sena, nos passeios da margem do Tibre, do Tamisa, e que são sempre os mesmos, porque reproduzem o tipo costumado: o casal dos iludidos, que persegue na sombra o fantasma inatingível da felicidade.

Consumiam infantilmente a apetecida guloseima do amor, às vezes cautelosos como dois culpados, outras temerários a ponto de fazerem estalar os beijos na presença daqueles indivíduos promovidos de um grau que se chamam guardas-civis.

- Como se estaria bem na minha casa - suspirou ela uma tarde - se não fosse aquele sinapismo do meu futuro cunhado! É uma criatura que me produz náuseas. com a fúria de roer as unhas, reduziu os dedos a dez salsichas cozidas ao infinito: e come-as à mesa, antes das refeições, depois das refeições, quando discute, quando dorme. Não sei como Donata pode suportá-lo. É uma dessas criaturas que, para olharem, precisam de ter a cara encostada, e não podem falar sem meter a língua na boca da gente. Como na sua terra, quando rapaz, puxava a corda do fole do órgão da catedral, julga ser entendido em música, e ao almoço e ao jantar revela-nos as belezas do Rigoletto e do Trovador, e refere minúcias importantíssimas sobre o corpo de baile do teatro municipal da sua aldeia.

- De onde é?

- De...

- Deve tocar bandolim.

- Não.

- Um homem desse lugar que não toque bandolim é como uma doceira inglesa que não saiba preparar pudim.

- Toca, porém, ocarina. Conheces aquele instrumento imbecil de terra cozida que parece um rato esfolado, e guincha como o rato durante o esfolamento? Além disso, tem a mania da estatística amena. Sabe dizer quantas vezes faria a volta da Terra uma fita composta de todas as pontas de cigarros que se deitam fora durante o dia, e quantas libras custaria ao câmbio de hoje a torre de Babel, construída em cimento armado.

- Por que não o atiras pela janela fora?

- Precisaria de ter pés apreensores como os macacos. com as mãos dá-me nojo tocá-lo.

Don Ciccillo Cacace. Nascera numa antiga casa do Beco do Manicómio Provincial, esquina da Rua do Peso Oficial, num daqueles lugares que obrigam os funcionários postais a desencadernarem, blasfemando, o dicionário de nomes próprios: um daqueles lugares de que nunca mais se falou desde o tempo da repressão da pirataria.

A falta de uma escola técnica, prometida por todos os ministérios desde Crispi até os nossos dias, mas ainda não criada, levou-o a deixar o lugarejo natal para pedir hospitalidade a certos primos habitantes de uma região vulcânica florescida de giestas.

Coroados os seus estudos com um diploma de guarda-livros, foi sacudido num mar tinto de helenismo, onde ainda se recolhem ale uns vocábulos gregos, até que um dia lhe deram um mostruário de colas, gelatinas e vernizes, uma relação de fregueses, um passe circular, e disseram-lhe: vai!

Ganhou em breve a estima dos patrões - dizia ele - É um curioso modo de falar, composto das primícias do linguajar característico das regiões visitadas pelo seu comércio de vernizes, colas e gelatinas.

A corajosa conversa e o nome do ilustre (de Capafugata), uma das mais insignes famílias do Mundo, dilataram-lhe logo o âmbito dos negócios, e na sua primeira viagem para o norte conheceu Donata.

Donata: a coisa mais característica que havia nesta rapariga era o não ter nada de característico.

Fazia pensar nas boas tartarugas caseiras, estúpidas e mansas, tímidas e taciturnas, que pisamos e não protestam, mas limitam-se a recolher a cabecinha para dentro da casca; parece que escutam o que se lhes diz, quando em verdade dormem: julga-se que durmam e entretanto estão à espera de alguma coisa que nunca lerão, porque nunca saberão fazer-se entender.

Donata amava Don Ciccillo.

E amava também a tia, e o pai e Mélita, se bem que Mélita zombasse dela e da sua adoração por aquele curioso indivíduo.

- Olhas para o teu Ciccillo de boca aberta, como se te estivesse a fazer inalações de amor.

E Donata sorria, com as mãos debaixo do avental, baixando os olhos pudicos.

- Faltei ao respeito à tia - confessou um dia a Mélita -, mas já pedi perdão à Virgem.

- Era melhor pedir perdão à tia - observou Mélita com um vago sorriso zombeteiro.

Donata passava manteiga nas palavras. Mélita não lhe poupava as pastilhas acidulas do seu sarcasmo.

- Para fazer o meu abrigo foram precisas quatrocentas e sessenta e seis peles de toupeira - anunciou-lhe Donata, descrevendo o seu enxoval de noiva.

- Quatrocentas e sessenta e seis! Quantas toupeiras, para vestir uma só! - comentou Mélita; e apoiando-se nos braços, de um salto foi empoleirar-se sobre o radiador do termosifão.

- E por que não fazes desaparecer essa constelação de sardas que tens na testa?

- Que queres, Iluska? Deus fez-me assim.

-? Mas não te proibiu embelezares-te. Também à água oxigenada ele fez assim, para uso de quem tem sardas a tirar.

- Perguntarei a Ciccillo se está de acordo.

- Que me desculpasse, minha bela senhora Iluska - disse a Mélita, fazendo-se acompanhar de uma mímica de surdo-mudo - e não se fizesse ignorante se deixo escapar um advertimento. Dona agrada-me como é: nem melhor nem pior do que é: não é díscola, não é sofista, e quando ouço que lhe dão conselhos de elegância, penso que querem zombar de mim. Dona não usa camisas bordadas, nem gola de arminho, como vocês, e não tem as fantasias do chique; lamentar-me-ia, doer-me-ia se a visse mudada. Perdoe-me, Iluska, e conserve-se assim.

Mélita, inteligente, fina, nutrida de ideias modernas, não podia concordar com aquele selvagem recheado de preconceitos, que à mesa apontava o palito com a faca, se servia de vinho com um ar de grande de Espanha, e no vestuário caligráfico revelava gostos de negro; polainas brancas e medalhas com alvos de tiro na pança, sob um casaco preto apertadíssimo, de golão tão lustroso que brilhava como os espelhos de seda de um smoking.

Donata sofria com estes atritos.

- Acredita-me, Iluska: Ciccillo é bom como o pão!

- Como o pão e salame, Donata!

Donata, contrariada, recolheu-se ao seu quarto, arrumou uma tela no cavalete, traçou uma linha horizontal em toda a largura. Em cima, azul. Em baixo, verde. Sobre a linha, uma vírgula branca. Era a marinha quinquagésima que pintava, com barquinho de vela à distância.

Don Ciccillo, em matéria de moral, tinha ficado duzentos anos para trás. Na sua aldeia, as senhoras de boa família nunca saem sós, e quando andam de carro o cocheiro fecha a portinhola e guarda a chave.

As suas cinco irmãs não sabiam o que era o cinema, não tinham visto um teatro nem folheado um jornal de modas; cresciam sob os olhos vigilantes da mãe, que considerava acto de mulher leviana não só o mostrar-se à janela, como o simples espiar através das persianas (a não ser quando passava uma procissão).

A mãe das cinco raparigas trazia uma escrita cuidadosa dos seus incómodos mensais, e quando a qualquer delas a estação das chuvas ocasionava atrasos, irregularidades ou imprevistos, havia tragédias: o ter olhado através das persianas podia ter sido fatal. E então, cozimento de aipo!

Para que reinasse calma era indispensável que uma ou outra estivesse de cama, doente dos intestinos, e tivesse necessidade de gotas de láudano.

Naquela família, como em todas as famílias bem sortidas de senhoras, comprava-se láudano aos garrafões.

Não obstante a sua atávica ferocidade, o sarraceno recheado de superstições e de dogmas tomava a liberdade de falar em amor.

- Na minha terra, começa-se a namorar aos oito anos.

- Como as enguias - comentava Mélita, maligna.

E enquanto ele reagia com um sorriso contrafeito, explicando que na sua terra namorar significa passar três anos debaixo de uma janela, Donata fixava em Iluska dois grandes olhos atónitos que imploravam misericórdia. Don Ciccillo tentava defender-se contra a ironia de Iluska com algum lampejo de espírito, mas só conseguia tornar-se grotesco e grosseiro como um hipopótamo que espetasse na orelha uma pena de pavão.

- A ironia é uma arte difícil - advertia-lhe Mélita. - Ou é demasiado leve, e não se compreende, ou é demasiado pesada, e cai esmagando os cascos de quem a faz. A ironia é mais difícil de dosear que os vernizes, as gelatinas e as colas.

(Donata engolia uma lágrima).

Mélita e Ciccillo representavam duas psicologias, duas civilizações, duas consciências opostas. Inteligência bastante para vender colas, gelatinas e vernizes, mas insuficiente para compreender o que se passa fora das suas marmitas e das suas caixas; instinto investigador do policial; capaz de decifrar no espelho as manchas do mata-borrão, de interceptar uma carta, de seguir as pegadas, espiar, escutar, submeter a interrogatórios, procurar apanhar em flagrante, devassar as gavetas de outrem.

- Se você não levasse a mal, Iluska, perguntava-lhe por que chegou tão tarde à mesa hoje, ontem e anteontem. Em toda esta casa apalaçada não há uma senhora que fique na rua a tarde inteira. Eu tenho cinco irmãs e três primas, mas nunca saem sós. Desculpasse-me, Iluska, se me quis fazer tirar esse espinho do coração, mas...

Mélita atirou-lhe ao rosto um olhar cheio de desprezo e respondeu:

- Por hoje basta toda a estupidez que disse. Guarde o resto para amanhã.

E levantou-se da mesa.

A tia, enchendo-se como uma gaita-de-foles, suspirou.

A boa tia! Existem ainda as boas tias, imensuravelmente simples, a quem se pode fazer crer que a sífilis se pega por telefone, e que se volta para casa às três da madrugada porque na linha do eléctrico faltou a corrente.

Donata derramou a lágrima quotidiana e don Ciccillo, para levantar o moral da mesa, explicou de que modo Bismarck, Mascagni e São Januário pertenciam à nobre estirpe dos Capafugata; e, demolindo com os dentes o último resíduo de uma unha, fez de memória o cálculo exacto dos porcos que teriam de ceder gentilmente os seus intestinos para o fabrico de um salame que fosse da Terra à Lua.

As aparições do pai de Mélita eram breves. Chegando inesperadamente, pedia notícias de Iluska, mas não ouvia a resposta, porque se pusera a abrir um telegrama ou telefonava uma ordem. Os negócios e as mulheres deixavam-lhe pouco tempo para dedicar à família: frequentes vezes permanecia em casa o tempo necessário para pegar num documento e para reservar, pelo telefone, uma cabina no primeiro carro-dormitório. Homem de gesto seguro, olhar firme, palavra decidida, acostumado a acalmar juntas administrativas rebeldes e a dominar tumultuosas assembleias de accionistas, não prestava atenção às ocorrências de pequena monta que interessavam à família e, não se admirando da prolongada permanência de Ciccillo Cacace em sua casa, nem sequer procurava antecipar a data do casamento deste e de Donata.

- Você, Iluska, tem um segredo - atacou um dia o futuro cunhado, com um sorriso entre canalha e polido. - Confie-se a mim. Sabe que as confidências entram-me por um ouvido e saem...

- Pela boca - riu Mélita, sarcástica.

- Eu sei - continuou o outro, manhoso e inquisidor que todos os dias se avista com um cavalheiro. Tenha cuidado com o que faz. O seu pai desgostar-se-ia se soubesse. Tenha cuidado, Iluska! Eu preveni-a.

Mélita, a independente, a insofrida, habituada a não obedecer a outra vontade que não a própria, explodiu de cólera.

- Mas por que não voltas para a tua fértil terrinha, estúpido selvagem, cruzamento ignóbil de albanês, negro e maometano? Volta para a terra dos teus avós! Não sentes a nostalgia do Trópico, do Oriente, da floresta? Volta para onde há o coco, a gutapercha, a cânfora, a tapioca, o sândalo, o sagu, a banana, a tâmara, o baobá, a peste-negra, a febre-amarela e o suplício do empalamento!

- Ih! Ih! Ih! - guinchou longamente o selvagem ferido na cor local; e, tomado de improvisada crise de onicofagia, levou simultaneamente quatro unhas à boca. - Dizia-o pelo seu bem. Mas, se não quer ouvir, faço como Pôncio Pilatos. Lavo as mãos.

- Assim as terá finalmente limpas.

Mélita ameaçou partir para a Hungria ou atravessar o oceano. Para amar a casa é preciso estar longe. Foi necessária toda a doçura da tia, diluída nas lágrimas de Donata, para a induzir a um armistício com Ciccillo...

- Tu, Iluska, tens má impressão contra esse homem. Julgas que é tolo, quando, ao contrário, é inteligente.

- Será inteligente. Mas nunca deu mostras disso.

- Exerce bem as suas ocupações.

- Se fosse inteligente, em dez anos teria chegado a patrão; no entanto, continua simples empregado. Pobre Donata! Tu, que regas todas as noites a planta do teu sonho, à espera de que esse sujeito se disponha a casar, não compreendes que esse dia jamais chegará?

- És injusta.

- Vejo claro, Donata! O homem encontrou em nossa casa um quarto com calefacção termo-hidráulica, mesa a seu gosto, cama de mogno, uma janela para o sul, e ficará aqui até que o mandem embora.

- Mas, Iluska, tu não o conheces. Juro-te que Ciccillo não é mau.

- É venenoso como uma carta anónima.

- Transferimos o casamento por causa do enxoval e da casa; mas...

- Mas transferi-lo-ão ainda, e definitivamente, E quando ele regressar à sua terra, confirmará a lenda difundida naquelas regiões sobre a gente do Setentrião, isto é, que nós aqui viveríamos ainda sobre estacas se de vez em quando não viesse um de lá civilizar-nos, e que todas as mulheres tombam fulminadas de amor, mal um deles as honra com o seu olhar carbonizante.

- Fazes regionalismo, Iluska.

- Não, Donata. Vistos na sua terra, eles são muito simpáticos. Os que ficam entre os seus montes têm qualidades de carácter prodigiosas; mas chegam a ser intragáveis os poucos que, com um diploma técnico e uma mala de papelão, partem arrogantemente para a colonização do Norte.

- O papá, que conhece os homens, fez bom juízo de Ciccillo.

- Não creio que o tenha estudado muito de perto e haja tomado informações a seu respeito. Não é verdade, papá?

O pai entrava naquele momento.

- Não se trata dele - acentuou friamente -, mas de ti. Preciso de te falar.

Donata saiu.

Ficaram a sós Mélita e o pai.

- Iluska, todos os dias vais a casa de um homem. Mélita não respondeu.

- É verdade?

- É verdade. Foi Ciccillo quem o disse. Não podia ser senão ele, com aquele instinto de investigador, de carcereiro e de espião!

- Repito-te - atalhou o pai procurando dominá-la com a voz e com o gesto - que não se trata agora de julgá-lo.

- E muito menos a mim.

- Isto serei eu quem decide.

Ela não pôde mais dominar-se. Pálida, esguia, frágil, delicada como as santas retratadas nos vitrais das igrejas, deixou-se colher por um ímpeto de raiva e gritou:

- Fazem-se lazaretos para os coléricos, manicómios para os loucos, prisões para os delinquentes, e não há um asilo fechado para os imbecis, que são muito mais perigosos do que os coléricos, do que os loucos e do que os criminosos!

- Ouve-me, Iluska - recalcou ele com enérgica firmeza.

- Estou habituado a tratar com as mulheres e a dominar os homens, e previno o ataque e prevejo a defesa antes que o adversário tenha pensado em fazê-lo. Por isso te aviso de que. para economia da discussão, comigo é melhor argumentar que explodir. Como vês, estou calmo. Não te falo da minha dor, porque detesto as palavras inúteis.

O tom clacial do pai desarmou-a.

- Não faço nada de mal - declarou ela com lealdade.

- És sua amante.

- Que sabes disso, pai?

- Sei. E se digo que sei, não é para te fazer confessar. Não arranco as confissões com baixos expedientes. Digo-te que sei, porque tenho provas.

Mélita ficou petrificada. Provas? Que provas podia ele ter? O que acontecera entre ela e Mauro ninguém mais além de Mauro sabia.

E, como não se animava a mentir e não se sentia obrigada a desculpar-se, retirou-se para o seu quarto e fechou a porta com um violento empurrão.

A tia, informada da complicação sentimental, fez o sinal da cruz.

As mulheres, diante de qualquer desgraça, fazem, com fim preventivo, o sinal da cruz, como os médicos do interior, diante de qualquer moléstia, não sabem de início fazer outra coisa que não seja receitar óleo de rícino.

E depois disse ao pai de Mélita a frase em que se resume todo o bom senso caseiro:

- Eu sempre te disse, mas nunca quiseste acreditar!

- O quê?

- Que lhe davas excessiva liberdade. Quando uma rapariga ainda não tem vinte anos, não se deixa andar sozinha pelo estrangeiro.

- Que tem que ver isto com o estrangeiro? O amante dela não é estrangeiro.

Ouvindo a palavra amante, a boa senhora voltou a fazer o sinal da cruz.

- Estás bem certo do que dizes?

- Tenho a certeza. Ciccillo descobriu numa gaveta de Mélita um certo aparelho de higiene íntima que só uma senhora experimentada o pode usar.

A tia invocou uma dúzia de santos de ambos os sexos.

- Mas quem te afirma que ela o use?

- Boa mulher que és! Não hás-de pretender que ela o tenha como objecto para fumar cigarros!

Outros doze santos compareceram, a chamado.

- E Ciccillo sustenta que a viu, pelo buraco da fechadura, fazendo o uso hidráulico para o qual aquele objecto foi feito.

Benigna leitora, a senhora dirá que este ignominioso escritor leva a audácia a ponto de fazer de um tubo de ebonite para a higiene íntima o deus ex machina de uma situação dramática, o ponto de partida de uma complicação sentimental.

Sabe, senhora, como também amo aqueles que apoiam as escadas nas nuvens, e como seria feliz se pudesse esvoaçar nos espaços do sonho, levantando por cima das cumeeiras, como papagaios azuis, as páginas do livro em que se fala de amor. Seria melhor poder considerar o amor como sonhávamos quando crianças.

Todas as crianças são sonhadoras. Mas, crescendo, alguns conservam-se crianças: são os poetas; outros tornam-se homens: são os taberneiros.

Os poetas continuam a içar no espaço os papagaios das suas páginas de amor; mas os taberneiros prendem-nos à terra com um fio e observam-nos com o binóculo da moral.

A moral (estratificação sucessiva de leis económicas herdadas dos nossos avós, com todo o juro acumulado dos preconceitos, falsas interpretações, fanatismos, chinesices), a moral é como um binóculo de teatro: alonga-se, encurta-se, reduz e aumenta, alarga e restringe o campo, em obediência a uma rosca situada entre dois canudos.

Naquela rosca, que tem o poder mágico de regular as distâncias, os valores, os planos e as proporções, existem todas as coisas inerentes ao sexo.

É repugnante (não é verdade, senhora?) ouvir falar de sexo, de objectos íntimos, de funções glandulares. Entretanto, toda a engrenagem da moral sexual repousa sobre esse breve capítulo da fisiologia humana.

Ouça:

Se na nobre família Cacace di Capafugata uma irmã de Don Ciccillo tivesse um atraso ou uma suspensão interessando a contabilidade ginecológica mantida com louvável diligência pela mãe, poder-se-ia, naquela casa, andar de barco sobre torrentes de lágrimas.

Mas se ela casasse, todos os parentes rodeá-la-iam augurando como um divino dom aquela interrupção do ritmo catamenial, que numa donzela seria assustadora.

Se o marido não fosse suficientemente robusto para o cumprimento do seu dever de macho, encontraria toda a família dela constituída em tribunal de justiça para o acusar de impotente e defender a esposa que, jovem como é, tem desejos; e é uma vergonha que o marido não baste para satisfazê-la. Mas se antes do casamento ela houvesse tido a audácia de confessar aquele mesmo desejo, toda a família tê-la-ia acusado de mulher perdida, viciosa, degenerada, advertindo-a de que uma donzela não só não deve sentir desejos, mas deve até ignorar que seja possível tê-los.

Se o seu corpo de virgem tende para o amor, ou se, como o de Mélita, se entrega, a tendência para o amor ou a entrega regelam o sangue da moralíssima parentela consternada e maldizente. Mas se Donata se casa, eis que aparece, em primeiro lugar, em todas as conversas, em todos os actos, em todos os preparativos, aquele estupro legalizado pelo juiz, que não repugna a mais ninguém, mas a cuja execução todos concorrem, sorrindo, com o seu auxílio.

Os véus brancos e as flores de laranjeira anunciam que aquilo que vai acontecer esta noite àquela rapariga ainda não aconteceu.

Amanhã, oferecer-lhe-ão rosas vermelhas. Não mais brancas. Porque a coisa se deu.

A partida para a viagem de núpcias é combinada de modo que, na cidade onde desembarcarem, tenham toda uma noite diante de si. Nenhum dos presentes ao banquete e à cerimónia se abstém de imaginar aquela virgem lilial no acto de oferecer a sua nudez a um homem que esta manhã, antes de entrar na pretoria, não a tinha beijado ainda.

A engraçada menina de vinte anos, habituada a brincar com bonecas no papel de ingénua (como é pura! Imagina que me dizia: "vou casar com o meu pai."), conversará livremente a respeito da viagem, do hotel, do quarto e da cama. Ela, que não teria despido as calças na presença da mãe, considerará naturalíssimo meter-se debaixo das cobertas em companhia daquele senhor.

Como vê, bela leitora, não é o romancista que põe em primeiro plano a brutal materialidade do sexo.

É Don Ciccillo Cacace di Capafugata, é a tia, é o pai, é a multidão, é o público, é a sociedade que projecta sobre os valores morais a sombra de uma glândula.

Mélita e Mauro tinham-se encontrado num mundo puríssimo; puro como podem ser as montanhas; o coito deles tinha-se dado em virtude de uma força superior à sua vontade, cega como aquela que guia a abelha da antena de uma flor ao estigma de outra; uma afinidade física, uma sensualidade sincrónica; um instinto impassível de análise tinha feito a felicidade dos seus corpos e dos seus espíritos, sem que a empanassem nenhum cálculo: a casualidade do encontro e a ausência de projectos para o futuro e de preocupações pelo passado tinham elevado o seu amor à sublimidade de um símbolo.

Mas, eis que um Ciccillo Cacace qualquer, um carcereiro falhado, turva a sua pureza e faz-se campeão da moral, e com as mãos imundas de roedor de unhas agita um objecto achado numa gaveta de Mélita. um aparelho de higiene que as nossas mulheres cometem o erro de usar pouco ou de nunca usar.

O olhar dos parentes de Mélita estava fixado sobre os seus órgãos. Falava-se de moralidade, de bem, de mal, de honesto e de pecaminoso, mas a atenção de toda a família convergia sobre o seu sexo.

A família, célula da sociedade.

Senhora, se deseja ser feliz, retire-se para um ilhéu perdido no oceano, ou para um ermo como o escolhido por Sândor. Mas não para o mesmo de Sándor, porque correria o risco de formar, com ele, nova família.

A família, tremendo mal, causa de infelicidades, de erros e de crimes. Os adolescentes aniquilam-se em vícios solitários porque os pais, de olhos fixos sobre o órgão do sexo, lhes impedem as funções naturais. Os rapazes contraem enfermidades funestas porque não se podem desinfectar sem provocar suspeitas; as raparigas ficam grávidas porque em casa não há a possibilidade de lavagens vaginais; abortam (ou morrem de peritonite), pois não é permitido confessar a gravidez, ou matam o recém-nascido por não se atreverem a mostrá-lo ao mundo, a este mundo sórdido que, em face do milagre da maternidade, ainda tem a cretinice de indagar se nove meses antes a mulher se entregou numa cama, num banco ou sobre a relva, e se o macho tinha previamente feito uma assinatura e pronunciado um sim diante de uma pança judicial disfarçada nas amplas vestes talares.

com um livro aberto numa das mãos, e a outra abandonada entre as da japonesinha, Mauro Mauri, enfiado até o pescoço num cartucho branco envolvente, olhava a jovem asiática no espelho à sua frente, que, com o espelho oposto, multiplicava ao infinito o quebra-luz amarelo, o cartucho branco e a cara cor de açafrão.

- Do-e-u? - sibilava ela com uma vozinha fina como o fio das suas lancetas, sem levantar os olhos do trabalho de punção e lima, toda a vez que lhe parecia ter pisado a beira de uma unha ou esflorado a carne.

Dos compartimentos contíguos, através do anteparo leve e do segredo convencional das cortinas corridas, filtravam-se vozes indistintas de senhoras, risadas obrigatórias de cortesia profissional, frases em francês, diálogos em compassos breves, interrompidos pela respiração entrecortada de uma bomba de vaporização, pelo sopro metálico de um secador eléctrico, por um enxaguar de cabelos numa pia, e pontuados pelo estremecimento de protesto que provoca uma gota fria escorregando pelo fio da coluna vertebral, ou pelo grito de alarme ante um ferro em brasa.

De vez em quando, o sonoro martelo de claro timbre da porta, seguido de um macio de passos nos trilhos do corredor, e um frufru de saias, um ressoar cristalino de vozes que passam e se perdem nos gabinetes próximos. Perfume abafado de feminilidade, resultante do odor hircinus da pele, misturado com as exalações dos tecidos, com os eflúvios das águas balsâmicas, com o cheiro de álcool queimado e de cabelos torrados num ar rarefeito, húmido e estagnado.

-? Per-mi-ta, se-nhor, ou-tra mão - gorjeou em sílabas mastigadas a japonesa, reunindo os seus utensílios e puxando para trás o seu banquinho.

Mauro contraiu os supercílios e levantou um dedo para lhe pedir que se calasse e ficasse quieta, e permaneceu naquela atitude por uns instantes, como quem escuta uma voz indistinta.

Reconheceu-a.

- Faça - e entregou a mão à ocidentalizada musmé.

- Lúcio! - chamou com força.

- Quem é? - respondeu do outro lado da cortina a voz do homem invisível; e por uma fresta saiu uma cabeça de homem ensaboada de um lado, barbeada do outro, encapuçada numa rede de arame e iluminada por um monóculo radiante.

Um pouco daquela espuma de sabão passou, no abraço, da bochecha de Lúcio à bochecha de Mauro.

- Efeminado!

- Alta cirurgia.

- Em homenagem a quem?

- À civilização.

- Civilização japonesa? - A luz vem do Oriente.

- Cuidado com o perigo amarelo.

- Chegaste hoje?

- Há uma hora.

- Vi os anúncios. Quanto tempo ficam?

- Um mês. Não me perguntas notícias de...

- Não.

O barbeiro, de cabeleira bastante crespa, fez lampejar a lâmina da navalha, e o actor cómico foi sentar-se na cadeira operatória.

- Anunciam duas novidades.

- Dois desastres.

- Compreendo. Pertencem ao "mau teatro francês", como dizem os que julgam fazer bom teatro nacional.

- Uma dessas comédias é deliciosa: teatro parisiense, subtilíssimo, feito de finuras. Aqui não basta que uma comédia tenha espírito; a nossa gente exige a substância: ovos duros, recheio. A outra é demasiado original para obter êxito. O que é de verdade original não pode agradar ao público. Só agrada o que tem ares de originalidade, que não sobe mais de um degrau da escala do novo. Se subir de um salto a escala inteira, é desastre certo, O público só admite roupa cortada pelos figurinos habituais.

- Mas o autor tem de escrever para o público, não para si mesmo.

- Belo conceito! O meu chapeleiro também é dessa opinião.

- Peço-te que não me ofendas.

- Não te ofendo. O meu chapeleiro é o meu público.

- E a companhia?

- Sempre a mesma, salvo o galã, que foi substituído por...

- Conheço. Um bom elemento.

- Como canta!

- Também canta?

- Dizia-o da navalha.

- Ah! E o outro, por que se despediu?

- Arrufos com a estrela.

- Ma-go-ou?

- Deu muito prazer!

- Magoou o meu dedo. É uma pergunta da manicura.

- Não a procurarás mais?

- A quem?

- A tua ex-amante.

- Nunca.

- Não irás vê-la?

- Terei o cuidado de evitá-la. - Nem de um camarote?

- Nem da galeria.

- Não te interessa?

- É-me indiferente. Quem é o seu novo amante?

- Vês que te interessa?

- Mas não me preocupa.

- Se perguntas isso...

- Uma pergunta de passagem. Então, quem é?

- Se insistes, não é mais uma pergunta de passagem. É uma pergunta a sério.

- Como és subtil!

- Agora és tu que me ofendes na presença da japonesa.

- Sim.

- Não entende a nossa língua.

- E do meu barbeiro.

- Eu sou uma máquina, senhor. - Lúcio, demoras muito ainda?

- Dois minutos, senhor. Um pouco de brilhantina. - Nesse caso, mãos à brilhantina! E tu?

- Brilhantina às mãos, ou antes, às unhas!

- Que livro lias?

- O Poker: Proporções Matemáticas e Cálculo das Probabilidades.

- Jogas na certa.

- Sim... É um livro que ensina a perder cientificamente.

- com quem jogas?

- com três ou quatro amigos, todas as noites.

- Estás instalado aqui?

- Tenho casa.

- Mulheres!

- Uma.

- Propriedade privada?

- Não. Usufruto.

- Domínio público?

- Não, ainda!

- Jovem?

- Menina.

- Viúva?

- Senhora.

- Custa muito?

- Pouco.

- Voraz?

- Espiritual.

- Dispéptica?

- Deliciosa.

- Onde a encontraste?

- Hotel.

- Criada?

- Hóspede.

- De trato?

- Primeira classe.

- Níqueis?

- Nota.

- Herdeira?

- Não me interessa.

- Filha única?

- Pelo contrário...

- Irmãos?

- E irmãs.

- Hum!... Que uso fazes dela?

- Adoro-a.

- Uso externo.

- De joelhos.

- E ela?

- Também.

- Não deve ser nada cómodo.

- Estamos para acabar.

- Separam-se?

- Dizia-o à manicura.

- Também estou pronto.

Pagamento, escova, salamaleques, curvaturas humildes da jovem japonesa.

Mauro e Lúcio desceram a escada branca, brilhante, de mosaicos, e saíram para a rua. O actor levantou em torno do rosto a gola de opossuna e pegou o amigo pelo braço.

- Estás tranquilo, em duas palavras.

- E não posso acrescentar outras. Estou tranquilo. Tranquilidade sem limites e sem sombras. Encontrei uma pessoa inteligente, que tem os mesmos gostos que eu, a mesma sensibilidade. Sensualmente, existe entre nós um sincronismo perfeito, e ambos imaginamos de idêntico modo o amanhã, porque nem ela nem eu pensamos no futuro.

- Mas não tem quem pense por ela?

- Viveu sempre longe de casa; viaja sozinha nos expressos internacionais e nos transatlânticos; é órfã de mãe; o pai tem uma amante em cada cidade de população superior a cem mil habitantes, e trata com os ministros como tu com o lacaio da tua companhia. Ela entregou-se a mim sem pedir nada, nem sequer amor; sem arrancar a promessa de nada, nem mesmo de um bilhete-postal; não me apresentou uma perspectiva de perigos nem uma possibilidade de ameaças; vem todos os dias à minha casa...

- Mudar as flores nos vasos?

- Também isso, sim.

- Como são líricos!

- Mas ela não é ridiculamente lírica; executando esse gesto um pouco literário, condena-o de todo o sentimentalismo convencional, cantarolando as estrofes malthusianas de Papini (antes da conversão) ou algum refrão picante aprendido num tingetangel de Viena. Dá-me o perene espectáculo de uma jovialidade infantil; sabe ser boa companheira, aquilo que os franceses chamam un copam.

- Uma vez esgotado o repertório de ternuras e de amor, que fazem vocês em casa?

- Revelação e impressão de negativos, pintura de biombos de estilo javanês com tintas vegetais que nós mesmos preparamos; corte e costura de pantalhas e almofadas. Todos os dias quer mudar as posições das lâmpadas para tornar mais misteriosos os cantos; electrificou-me a casa: estufa eléctrica, ventilador eléctrico, forno eléctrico para torrar pão; há sempre qualquer coisa a introduzir na instalação, e como é ela quem se encarrega disso queima sistematicamente os fusíveis. É divertidíssimo.

- Em resumo, enfeitam o ninho. Passatempo de canários!

- O amor é feito de pequenas coisas humildes.

- E xaropes. Essa mulher não te prenderá por muito tempo.

- Enganas-te. Tem a grande arte de não pedir, de não pretender, de não dar valor. Juro-te que várias vezes senti que a amava tão tenazmente que estive a ponto de propor-lhe casamento.

- Para a não amar mais!

- Não me compreendes.

- É o que dizem todos os que não sabem explicar-se.

- Não compreendes o amor, que só vês através das comédias leves que representas, e através das cenas daquelas mesmas comédias que as actrizes de fora do teatro representam nos teus braços; estás acostumado às histriúnculas que lavam a cara com vaselina, e quando se estiram num canapé parece que esperam o sinal do ponto.

- Não faças pouco da minha classe!

- Sei alguma coisa da tua classe. Conheci um certo exemplar que me fez enlouquecer.

- com efeito, deliras.

- Aquela criatura pérfida...

- Pérfida é exagero.

- Pretendes defendê-la?

- Não.

- Parece.

- Defendo-me a mim mesmo.

- Serias por acaso tu a sua vítima actual?

- Por acaso. Acertaste.

- És o seu amante?

- Ligeiramente - consentiu o actor.

- Mas que prazer me dás! - e Mauro iluminou-se. - É uma sensação curiosa: saber que um amigo nosso é o amante daquela que foi nossa amante, é uma espécie de colar da Annunziata, que nos torna primos.

- A causa da aventura foste tu mesmo. Quando vos separastes da montanha, ela telegrafou a todos os contratados, em vilegiatura pela península, e reuniu em poucos dias a companhia. Depois do primeiro espectáculo, chamou-me ao seu camarim para me dizer que és um miserável.

- Acreditaste?

- Era o meu dever de contratado. Crise de histerismo. Procuro acalmá-la: põe-se a chorar; ensopa-me um ombro e estraga-me uma casaca.

- E depois?

- Renovou o meu contrato por três anos.

- E estragou-te outro vestuário?

- Não, porque daí em diante, quando tenho de a consolar, ponho o pijama.

- Pobre amigo! - lamentou Mauro. - Quando penso que eras tu quem me aconselhava a livrar-me dela!

- Os higienistas recomendam que se evitem os bacilos, mas são os primeiros a procurar infecções.

- Moro aqui - disse o actor cómico quando chegaram em frente de uma porta de hotel.

- Ela também?

- É claro. Quando nos encontramos?

- Quando quiseres.

- Esta noite, depois do espectáculo?

- Eu, de noite, jogo uma partida com três amigos. Saindo do teatro virás buscar-me?

- Café?

- No de costume.

- Que constância!

- Um humorista disse que é mais fácil mudar de religião que de café.

O actor empurrou a porta giratória e desapareceu no vestíbulo, cumprimentado militarmente por um rapazinho de divisa vermelha, gola alta e gorro atravessado sobre o crânio esferoidal.

Mauro comprou um jornal, saltou num eléctrico que passava em direcção à colina, e leu o dramático suicídio de uma costureirinha que, não podendo conseguir o consentimento paterno ao seu casamento, rasgou o ventre com uma tesoura na presença dos pais consternados.

E pensou: os pais consternados que se opuseram ao casamento mereciam que se lhes desse o mesmo fim, com a mesma tesoura.

Deu uma moeda ao condutor do eléctrico e recebeu de troco uma porção de saliva servida num rectângulo de papel.

Um menino, de joelhos sobre o banco, encostou-lhe um pé nas calças irrepreensíveis.

"Nunca compreendi", disse ele consigo, "porque, no eléctrico, não deixam viajar cães grandes e toleram crianças pequenas. Seria mais lógico autorizarem os cães e obrigar as crianças a correr atrás do carro."

Tornou a dobrar o jornal, desceu e subiu por uma rua deserta, em suave declive, uma rua cheia de silêncio: os passeios desertos corriam ao longo de pequenas vilas senhoriais; estúdios de artistas; gaiolas de ouro para amantes de homens sérios; e, entre as pedras da calçada, uma ou outra moita de erva.

Apressou o passo. Aquela hora Mélita esperava-o em casa, já vestida com pijama masculino, ocupada em arrumar nafruteira os caquis rechonchudos e as rosadas maçãs, ou era tostar no forno eléctrico fatias de pão para as torradas, ou em cantar: Yes, we have no bananas, atirando farelos de biscoito aos peixinhos chineses, incomparáveis desenhistas de curvas douradas na azulinidade do aquário de reflexos lunares.

Entrou. Escuridão.

- Mélita!

Acendeu a luz e ficou com a mão no comutador. Ergueu a cortina e farejou no ar um cheiro de cigarros.

Chegou à janela, perscrutando a rua deserta. Desceu à portaria: não a tinham visto. Caras, nenhuma. Voltou para o quarto; escreveu quatro palavras numa folha de papel e deixou-a bem à vista, no portal.

E saiu.

A cada carro, a cada automóvel, lançava o olhar, e de quando em quando virava-se.

- Mauro!

Pondo a cabeça à portinhola, Mélita ordenou ao motorista que parasse.

Mauro subiu, e deu o próprio endereço.

- Vinhas procurar-me? Onde? Em minha casa?

- Por que esta demora?

- Uma grande discussão com a minha gente, por causa daquele maometano falhado.

- Coisa grave? E acrescentou:

- Reparável.

- Espero.

Desceram. Em casa, ela pendurou-se-lhe ao pescoço com uma ternura desesperada e, olhando sem falar, procurou com um supremo sorriso recalcar as lágrimas. Mas, eis que aos lados da boca se sulcam dois parêntesis, o lábio inferior caído para a frente tem um leve tremor, o queixo contrai-se e todo o corpo vibra como uma corda.

Era a primeira vez que Mauro a via chorar.

Pobre rapariga, tão meiga, tão sensível! Ela, que tinha as feições das bonecas e a alma perenemente errante por horizontes longínquos!...

O amante levantou-a nos dois braços estendidos, experimentou quase que um susto pela leveza daquele corpo delgado que, num abandono de todos os membros, se deixava cair como desmaiado.

Quando foi deposta sobre o pêlo macio do divã, abriu os olhos e sorriu.

- Fala - suplicou Mauro.

Por resposta, ergueu-se com todo o busto, tornou a prender-se-lhe ao pescoço, atirou-se para trás e, caindo sobre as almofadas, apertou entre os seios e os braços a cabeça de Mauro.

- Nada, nada! - murmurou. E esforçando-se para rir acrescentou: - Também sou uma senhora como as outras. Tenho os meus dias de nervos.

E, deixando escorregar as pernas do divã para o chão, pôs-se de pé com uma agilidade de ginasta.

- Água, chá, açúcar, manteiga, pasta de anchovas, frutas frescas e frutas secas.

Mauro foi buscar. Ela ligou a ficha do fogão eléctrico, enxugou os grandes olhos, fez a chamada dos peixinhos chineses que se retorciam no aquário. Coitados! Também eram vítimas daquilo que se chama o ambiente. O ambiente! Palavra incolor, cinzenta, enganadora. Muitas vezes, coisas horrendas ocultavam-se em palavras lindas; as enfermidades mais atrozes têm nomes harmoniosos: tísica, sífilis, epitelioma; os explosivos mais terríveis têm nomes graciosos, que poderiam ser apelidos de namoradas: haloxilina, lidite. O ambiente, palavra inocente, indica coisa nefasta que obriga os peixinhos vermelhos e amarelos de Mauro a retorcerem-se sobre si mesmos, em curvas contínuas, para não baterem com o nariz no cristal. O ambiente é aquela sala de torturas chinesas que impede os peixes e as mulheres de andarem em linha recta e obriga-os a contorções hipócritas.

Mélita, a rapariga independente, curiosa de fronteiras sempre novas e de mares diversos, tornara a cair no aquário.

- Como estão morosos, hoje, os peixes! - disse Mauro, indo-lhe ao encontro a tomar-lhe a bandeja da mão.

- Pretendes expor-me um projecto de electrificação dos peixes?

Uma hora depois, o amante acompanhava-a de volta a casa por uma alameda silenciosa, imersa num nevoeiro de Novembro, que não entristece mas insinua o desejo de tépidas voluptuosidades; aquele nevoeiro quase palpável, em que os automóveis são luzes que se afastam, e as ramarias das árvores se encrespam como cachos de cabelos.

Atravessaram uma ponte atirada sobre um rio de névoa.

As campainhas dos eléctricos insistem, ameaçadoras, apressando os peões que hesitam em se afastar. Entre o fio invisível e o carro que se adivinha, explode uma faísca; e é como uma pérola de fel e de luz. Os motoristas dos táxis enfileirados à frente dos cafés dormem reclinados sobre os volantes. Uma capa de cavalo protege o peito do radiador. A névoa pulverulenta deposita-se sobre os panos, como chuva, e os faróis estendem estrelas de luz, franjas de luz, nebulosas de luz; cada gota minúscula decompõe os raios em círculos incertos de vermelho, em tímidos vapores alaranjados, em vagos esfumados de amarelo, em ténues vibrações de verde, em veios de azul, em morbidezas de índigo e violeta. As coisas desconhecidas tomam, vindo ao encontro da gente, uma linha indecisa, que rapidamente se afirma, se deforma, se apaga numa dissolução irisada. As montras aproveitam-se do nevoeiro, revelam-se, acendem-se, mostram-se em plena luz; mas, logo que a gente as decifrou, o cristal luminoso turva-se, perde a transparência, escurece, desaparece. Aquele pequeno mundo impreciso, narcotizado pela cinza, entorpecido pelas meias-tintas, revela-se-nos e some-se nos passeios luzentes de humidade, serpeados de reflexos cambiantes: é um turbilhão de pessoas extraviadas que se procuram umas às outras com empenho através da gelatina caliginosa, consultam as indicações confusas dos eléctricos que chegam inesperadamente, como um espectáculo de ilusionismo. Tudo é inesperado; o cavalheiro que pára a fim de ver a hora, curvando-se um pouco, para desviar o reflexo do quadrante; o vendedor de balões, pendurado do seu cacho multicor de frutos de gás; a banca de jornais, que parecia fosse mais adiante; o monumental cavalo de bronze, nobremente suado de neblina, que, tendo perdido o cavaleiro rarefeito na bruma, parece procurar o caminho mais curto conducente à estrebaria.

Aos pés do monumento, um mendigo cego lê em voz alta, nos tipos Braille, a história de Ulisses, narrada por outro cego errante de há trinta séculos, e o cão peludo, deitado com soberbo desinteresse junto do pratinho das esmolas, devora senhorilmente o próprio abdómen.

Depois de deixar Mélita perto de casa (tinha a boca a arder entre os pêlos frios do abrigo), Mauro voltou pelo mesmo caminho; na gola do sobretudo ficara-lhe um perfume feminino de violeta e de peles: o perfume da alma de Mélita, sentimental como as violetas e selvagem como...

Continue a senhora leitora. Selvagem como...

Todas as senhoras o dizem, mesmo as que foram educadas por freiras. Selvagem como...

- Como uma pequena fera.

- Bravo, senhora! Isso mesmo.

Mauro e Mélita sulcavam aquela fase risonha do amor em que é grato, aplacados os sentidos, abandonar-se à contemplação da própria felicidade e ao indulgente comentário do que se passa em torno; o amor condensa-se e solidifica-se como uma esfera, e os amantes jogam à pela com ela, seguros de que, se cair, saltará de novo sem se quebrar nem deformar. Período insidioso, este! No gozo pacífico da própria riqueza, não se luta mais por conservá-la e descamba-se então nas imprudências, nas incorrecções, nas faltas de estilo, nos erros de gramática do coração, e revelam-se defeitos e fraquezas.

Esgrimistas demasiado seguros de si, afrouxaram a guarda.

Só se podem considerar superiores os amantes que neste período crítico nada perdem do seu recíproco prestígio.

A pureza de Mélita cada dia aumentava de transparência e o seu espírito brilhava de uma nova luz.

- Por que não casas com ela? - perguntou a Mauro o actor cómico. - Razões de dinheiro?

- Sim.

- Tem pouco?

- Tem de mais.

O actor encastoou a lente no olho.

- Manda fazer um exame de sangue.

- Para quê?

- Paralisia progressiva em primeiro grau. Falas em demasia, referindo-te a dinheiro: delírio de grandeza.

- Pedi-la em casamento pareceria uma exploração.

- O casamento é um contrato em que os dois contraentes têm a certeza de que estão a fazer um óptimo negócio.

- Guarda as máximas para as galerias das récitas dominicais: nunca serviram como regra infalível de conduta. Sou pobre ou quase, e não tenho títulos: o pai dela é rico; os irmãos são formados; um é médico, o outro segundo-tenente veterinário.

- Deus! Um veterinário!

- Não há que rir. Tu, que te enfartas de revistas científicas, devias ter em maior apreço um veterinário do que um professor de Grego: o veterinário estuda coisas reais, úteis, positivas; ao passo que os rebuscadores de hieróglifos egípcios, de cançonetas provençais e de charadas filosóficas são meros coleccionadores de antiguidades, de curiosidades, trapeiros do saber, dignos, quando muito, de benévola tolerância, como inócuos, maníacos que preferiram esse divertimento pessoal ao de coleccionar selos, aos jogos de salão, aos acrósticos, aos sonetos com rimas obrigadas. Para que serve um professor de Sânscrito? Mas é muito mais de admirar um veterinário, que descobriu o meio de...

- De endireitar as pernas dos cães. Então, pelo facto de a tua amante ter um irmão veterinário e um pai rico, renuncias à tua felicidade? És grotesco.

- Mas...

- Obsceno.

- Compreenderás...

- Idiota.

- É preciso pensar...

- Ridículo.

- Que eu...

- Desprezível. Esta noite, por exemplo, querido Mauro, jogaste o pocker como poderia jogar uma irmã de caridade; foste a flush com três cartas; não negaste um único bluff; tinhas um par de valetes e foste ver uma contra-aposta forte.

- Ganhei duzentas liras.

- Jogaste mal do mesmo modo. Ganhar não importa para jogar bem. Ter êxito no pocker, com as mulheres e na vida, não quer dizer merecê-lo; indica, a maior parte das vezes, ter sorte nos encontros, isto é, achar um adversário com cartas piores que as nossas.

Mauro e Lúcio andavam à deriva através das ideias e das ruas. Os passeios indecisos, sem rumo, sublinham, habitualmente, palestras cambaleantes, sem conclusão. A cidade refervia dos fermentos nocturnos que a fazem parecer-se a um cenário desmanchado depois do espectáculo. No meio de uma grande praça deserta, um homenzinho manipula um realejo áfono atacado de laringite, cuja parte mais sonora é a manivela chiante de ferrugem. Vendedoras ambulantes de amor a preço fixo. Guardas nocturnos que deixam pontualmente o seu cartão de visita entre as cortinas de aço das lojas e a parede, a fim de que os ladrões saibam a que horas poderão operar tranquilos.

- Se lhes propusesse casarmo-nos, teria um acesso de hilaridade.

- Ninguém ri daquilo que é conforme à natureza.

- Conforme à natureza é não casar. Conforme às convenções, quererás dizer. Pois bem, depois que te deixei, ao sair da barbearia, encontrei-a tão abatida que, quase por um sentimento de protecção, tive vontade de propor-lhe...

- Que entrasse na posse da chaleira eléctrica, da ratoeira eléctrica, da cadeira eléctrica. E por que não o fizeste?

- Uma vagabunda por instinto, uma centrífuga, uma instável igual a ela...

- Mas até os andarilhos, um belo dia, param; até os estafetas têm direito à aposentadoria. Aliás, depois de casados, poderão viajar juntos, fazendo da vida uma interminável viagem de núpcias. Se soubesses como se briga bem, num comboio!

- Eu sei.

A poucos passos de distância, seguiam-nos os amigos; tendo saído do café quando os empregados, apagadas quase todas as luzes e trancadas as portas, levantam a vassouradas a flora bacteriana do pavimento, puseram-se a passear ao acaso pela cidade deserta, como faziam todas as noites. Ao grupo haviam aderido outros amicos encontrados de volta a casa, e outros ainda, meio relutantes, que se defendiam com o relógio na mão, foram arrastados e movidos a acompanhá-los.

Para prolongar a vida não há mais que um meio: diminuir as horas de sono.

- Um automóvel! Dois automóveis! Três automóveis! gritou Simonetti, o caricaturista megalómano, o anarquista-vivedor, despertando em sobressalto os motoristas adormecidos.

E enquanto se formava o cortejo, acrescentou;

- Não há mais que um meio de não ficar debaixo dos automóveis: andar dentro deles.

Os três veículos derramaram os doze amigos num café nocturno, fechado perante a lei, mas aberto do lado do pátio, para os fregueses silenciosos, discretos e bem dispostos.

Decotes magníficos, flores na lapela, ombros nus. Garrafas de vinho espumante mergulhadas no balde de gelo, friorentas e pudicas, conservam o incógnito sob o guardanapo branco, manto pretensioso (ou piedoso sudário!) destinado a cobrir o nome indígena e as medalhas das exposições nacionais.

Gente que fuma e que ri. Cortesãs matriculadas, caixeiros equívocos que oferecem charutos de contrabando, cavaleiros acima de toda a suspeita, representados muitas vezes nos anúncios dos grandes filmes. A fotografia de alguns, tirada de frente e de perfil, com assinatura autografa e impressões digitais, é conservada no arquivo do gabinete de identidade da polícia.

É o ambiente ambíguo, envenenado pela elegância, pelo álcool, pelo anidrido carbónico, pelos alcalóides, que supriu os romancistas destes últimos anos, pondo finalmente em quem lê e em quem escreve um desejo de andar sem gravata pelas ruas, com os bolsos cheios de frutas para descascar com os dentes, parando para beber das fontes ou para cuspir as sementes contra os sobreviventes jornais literários pendentes dos quiosques, ou nos corredores refinados e parafinados das casas patrícias.

Um garçon cumprimentou, dando com o guardanapo uma chicotada no ar, e recebeu as ordens.

- Não é verdade, Angelo, que ele faria bem casar-se?

- Por certo! - respondeu Paschetta. - É o conselho que lhe dou todos os dias.

- Para depois zombar de mim, se o atendesse.

- Obrigamo-nos - prometeu solenemente Paschetta - a nunca mais falar no teu casamento. Cada homem tem o seu fraco. O teu será esse. Nunca to lançaremos em rosto. É como se o ignorássemos. A vida animal tem tantas necessidades odiosas, que se satisfazem sem dar conta aos amigos e sem que os amigos interroguem a gente a seu respeito! Consideraremos o teu casamento como um daqueles actos de que não se fala à mesa, entre pessoas de boa educação.

- com a condição de não fabricares moluscos humanos

- protestou Cároli, pintor desconfiado.

- Filhos, não - respondeu Paschetta. - Os nascimentos deveriam ser regulados como certos serviços públicos: um para cada mil habitantes.

- Casa-te! - encorajou-o Casalegno, fotógrafo sem problema central. - Só há duas categorias de homens: os que se casaram e os que se arrependem de não ter casado.

- E os que se arrependem de ter casado?

- São da primeira categoria.

Piti, escritor antiliteráriol engoliu de um sorvo a sua cerveja louríssima e fria como uma inglesa, que, como o amor das inglesas, deixa um vago amargor de lúpulo nos lábios. Depois disse:

- Convirás, querido Mauro, em que o amor gratuito, o capricho a título de favor, pode-se pretender até certa idade. Mas depois, paga-se para deixar o passe livre aos outros. Tu, até agora, como todos os celibatários, tens levado uma vida repleta de felicidade, isto é, de aventuras. com os anos, compreenderás que isso assim não é viver, é necessário mudar. Tu, pois, na tua posição...

- Não tenho posição.

- bom motivo para adquiri-la, casando. A sociedade exige-o.

Paschetta aprovou:

- Quando se vive num país de supersticiosos, urge adoptar-lhe os usos e costumes. Aquela mulher, que é rica, oferece-te o modo de tirar da vida todo o gozo que ela pode dar: produtos e subprodutos.

- Causas-me horror. Não quero casar com ela porque me intimam a casar.

- Quem?

- A família.

- O pai?

- O irmão mais novo: tem um irmão furioso. Casalegno, fotógrafo sem crises de alma, aconselhou-lhe:

- Procura fazê-lo calar com uma das tuas gravatas já usadas. Não há irmão que resista à sedução de uma gravata.

- Ele não usa gravata, porque é militar.

- As mais belas pernas do teatro italiano! - iluminou-se Piti, à entrada de Ema Sanfiorenzo, fulgurante e perfumada como uma noite de Verão.

Os seus dois cavalheiros desembaraçaram-na da capa, e, sentados ao lado dela, levantaram-se repetidas vezes para corresponder aos cumprimentos. O grupo de Mauro dispersou-se em torno da actriz, que, com solenidade episcopal, atenuada por uma garridice de soubreíte, ofereceu o dorso da mão a meia dúzia de bocas. Junto a Mauro só ficaram dois.

- Continua!

- Hoje, pois, acompanho-a a casa e volto para a minha. Estás-me a seguir?

- Estou-te a perceber.

- Na porta, encontro um senhor dos seus cinquenta e cinco anos.

- O pai.

- com um segundo-tenente.

- Veterinário?

- Exactamente: o irmão. Cumprimentos gelados. Apresentações abaixo de zero. Faço-os entrar e submeto-lhes duas cadeiras. "O senhor arruinou minha irmã!", exagera o oficial. "O senhor comprometeu minha filha!", atenua o pai. "Um momento!", digo eu. "É preciso reparar!", grita o irmão com voz de apito resfriado. O burguês hipnotiza-me; o guerreiro fulmina-me. "Reparar!", impõe em estilo telegráfico. "Re-pa-rar!", soletra o outro para me fazer entrar no crânio o problema das reparações. O irmão tem a cara daqueles mastins das lendas, que lançam chamas pelas narinas. "Que resolve o senhor?", esbraveja o pai. "Não há nada que resolver!", retruca o militar. "Minha filha está desonrada!", sentencia o pai. "Perdida!", proclama o filho, que em literatura não passou de Paul Margueritte. "Desculpem, senhores", digo eu aproveitando uma pausa, "se são só os dois que falam, desejaria saber por que vieram ter este colóquio justamente na minha casa." O progenitor, como se eu nem sequer tivesse aberto a boca, pronuncia o ultimato: "Vinte e quatro horas de tempo para reflectir!" E o filho bate com o punho no coldre da pistola e exclama: "Cumpra o seu dever, ou meto-lhe dois pentes na barriga. Dois pentes de sete balas cada um."

- São catorze. Não deve ter o pulso firme esse segundo-tenente carnífice.

Enquanto vou fechar a porta, repete: "Dois pentes: pistola Manser!"

Do outro lado do café estalavam as risadas cristalinas da parisiense artista de variedades, enquanto o musicista Ripp, cara de eminência cinzenta, cantava-lhe a meia-voz o estribilho da sua última composição: A Ornitorrinca Enferma de Esplim.

O louro Emanuel Sella, poeta e economista, ouvia com atenção o projecto de Calandrino para ganhar dinheiro. Calandrino é o último dos boémios; pitoresco e desleixado, tem qualquer coisa do clown musical, do místico à procura de um convento que o receba, do evadido de um cárcere da Sibéria ou de um conto de Edgar Poe. Olhar ascético e doce de certos loucos políticos, o fato desbotado pelo sol e pela água; corte sempre na moda, porque na moda nunca esteve.

- vou abrir - explicava ele - um armazém de ideias: um quiosque de madeira com uma portinhola, uma mesa, uma lâmpada, um samovar sempre quente. Armazém de ideias: por cinquenta liras, vende-se uma ideia, a um pintor para um esboço, a um novelista para um conto, a um confeiteiro para um reclamo, a um romancista para um título, a uma mulher para reconquistar o marido, a um marido para se desembaraçar da mulher.

- Vende-me uma ideia para me livrar de um irmão! suplicou-lhe Mauro.

- Ainda não abri o meu armazém de ideias - respondeu sério o humorista. E continuou: - Mas com esta indústria não me tornaria milionário. Imaginei outra: preparar um remédio em quantidade fantástica; difundi-lo por todo o mundo com a mais estrondosa publicidade; quando todas as farmácias, até das mais pequenas aldeias, o tiverem adquirido, lançar a primeira onda de bacilos de uma moléstia que só pode ser curada por aquele remédio. Os farmacêuticos têm cometido até agora o erro de lançar os remédios, em vez de lançar as doenças; a gripe espanhola foi mal lançada...

- Vamos? Sabem que horas são? Quatro.

- Ora! Que me importam as horas? - resmungou Paschetta. - Pela estúpida circunstância de que os ponteiros do relógio chegam a certo ponto do quadrante, em vez de chegar a outro qualquer, hei-de eu interromper o meu sono, o meu amor, as minhas conversas?

- O garçon manda-nos embora.

- Quando tiveres mulher, irei todas as noites à tua casa. Assim não estarei sujeito à ferocidade do garçon.

- O casamento não tem outra vantagem? Passoni respondeu:

- Para nós, contrabandistas daquilo que chamamos prazer, habituados às aventuras extemporâneas, o casamento não representa mais que a possibilidade de se tirarem os sapatos para amar. Em breve chegará o dia em que eu nem já admita esta utilidade: então fechar-me-ei em casa, com uma provisão de fumo e uma pianola.

- O escalda-pés da harmonia - disse Piti.

- Quando tiver dez mil liras, comprarei uma.

- Custa menos casar com uma pianista! - lembrou alguém.

- Mas a pianista, quando se casa, é para não tocar mais.

Se este livro tivesse sido escrito há quarenta anos, ou por algum dos meus caros colegas em atraso de quarenta anos (daqueles que têm como divisa: "reedificar!"), não se teria cometido um descuido que vou logo remediar.

As últimas páginas que se passam no café nocturno não ocupam duas horas, mas a mesma hora em duas noites sucessivas.

O grupo de Mauro, a certa altura, saiu, dispersou-se e vinte e quatro horas depois recompôs-se para voltar ao café. Os diálogos foram recomeçados e a noite subsequente foi igual à precedente: os mesmos tipos, as mesmas bebidas, as mesmas conversas, ao cabo, embaralham a noção do tempo.

Entre uma e outra noite, ocorreu o encontro de Mauro com o veterinário e com o pai, do qual o vil sedutor fez, mais tarde, pormenorizada relação aos amigos. A discussão com o veterinário explica por que Mauro, depois de o ter considerado um cientista puro, o qualificou de bruto feroz, semelhante àqueles cães das lendas que sofrem de inflamação nas narinas.

- Em suma, pode-se saber por que te querem obrigar a casar com ela?

- Porque foi minha amante.

- Só por isso? Possuir uma mulher e ter de desposá-la é como obrigar quem roubou uma buzina de automóvel a comprar um carro inteiro. Propõe pagar a buzina!

- Não pago nada.

- Acabarás por casar.

- Não casarei.

- Aposto os bigodes, como casarás.

- Se não tens bigodes...

- Aposto sob palavra.

- Mas tu ama-la?

- Amava-a com um amor ideal.

O poeta Emanuel Sella, que, saindo, abotoava a pelica de barítono, deteve-se para apertar a mão de alguém, e declamou:

- O ideal é como o regime vegetariano: precisa de um correctivo de carne; vocês procuram em vão ser cépticos: de dentro das suas prisões de humorismo contemplam através das grades algum naco de céu! Não se envergonham de amar: amar até ao absurdo, até ao cretinismo. Em que outras circunstâncias pode um homem inteligente permitir-se o luxo de ser cretino, senão quando está enamorado?

Mauro sorriu ao poeta e reclinou-se no divã com um abandono de Cristo deposto. As emoções da jornada tinham-lhe produzido um esgotamento que o convidava agora ao sono; não adormeceu, mas conservou-se naquele estado de sonolência que faz abstrair-se parcialmente do lugar e das pessoas e permite ouvir e não ouvir: sonolência branda, que torna equidistantes as vozes, indefinidas as personagens, e confunde o ambiente, num ondular de reflexos e vaporosidade.

Chegavam-lhe frases indistintas.

- Seremos um grande povo no dia em que nos convencermos de que somos uma nação pequena.

Outro respondia:

- A política não se faz com palavras altissonantes, mas com os cordões da bolsa.

E por cima de tudo reboava a voz do teósofo Pavia, o explorador dos mais intricados labirintos filosóficos:

- Antes de entrar nas galés da sociedade, o homem suporta a prisão preventiva da família.

Mauro cabeceava com sono; ouviu um tinir de moedas sobre o mármore, um campainhar de telefone, o ronco do aspirador. E vozes, vozes confusas, ruídos de copos batidos, de fósforos riscados, risos de mulheres que saíam, risos de mulheres que entravam.

- O ciúme do passado não é mais que receio de apanhar sífilis - dizia Paschetta.

- Os gonococos, antes de manifestarem a sua virulência

- explicava Piti -, ficam inertes por seis horas, para dar às pecadoras provincianas que vêm distrair-se na cidade o tempo de voltarem ao campo e se desinfectarem.

Mauro, de olhos semicerrados pelo sono, pensou: "Deve ser tarde, pois a conversa já chegou às moléstias venéreas."

Ouviu distintamente que, mais longe, Simonetti discutia estética com a Sanfiorenzo.

- O segredo da beleza consiste no acentuar o próprio tipo: não no alterá-lo. É morena? Faça-se mais escura. É loira? Mais clara! Mas é erro numa trigueira aloirar-se. Ainda hei-de fundar um instituto de beleza, em que se entre com a cara de Filippo Turati e se saia com a da actriz Tatiana Pavlova.

Mauro, recostado para um lado, começava a dormir e despertava de repente, pelo deslocamento do centro de gravidade.

Aquelas conversas não lhe interessavam, porque não se falava de amor.

- A mulher finge que é escolhida, mas é ela que escolhe o homem - analisava Paschetta. - Põe o homem em condições de avançar. Quando um lhe agrada, fá-lo entender que, se pedir, terá. Dá a ilusão de ser escolhida, mas é ela que escolhe; faz como os prestidigitadores que nos dão a ilusão de tirarem a carta que queremos, quando, ao contrário, nós é que pegamos na carta que ele nos mete na mão.

Falava-se novamente de amor. Mauro acordou. Casalegno, fotógrafo antimetafísico, explicava com critérios vários o fenómeno do amor eterno:

- A mulher conserva-se presa a um homem porque já lhe sacrificou parte de si mesma e do seu tempo. Para não perder o capital, desembolsa novas somas; para não perder os dez minutos que levou esperando num canto da rua, espera mais meia hora; quem perdeu cem liras joga mil para recuperar as cem, e perde as mil. A mulher apega-se a nós por todo o resto da vida para não perder os primeiros três meses de amor.

O pensativo advogado Passoni esgotava uma garrafa de gargalo comprido, sorrindo maliciosamente daqueles pseudogozadores que misturavam tintas transcendentes ao álcool.

- Em que pensas?

- Penso - mastigou, térreo, Passoni - que ser vivedor em Turim é o mesmo que sofrer de enjoo de mar num lago de jardim.

Entrou um famoso azarento.

Isolamento geral. Houve um que não se moveu.

- Fazes mal - advertiu-lhe Emanuel Sella, o loiro poeta

- em não acreditar na má sorte, nos anéis maléficos, nos amuletos. Porque ali onde para os outros não existe mais nada, para o crente nestas coisas existe ainda um respiradouro!

Mas como? O loiro poeta não tinha saído, abotoando na barriga vegetariana a pelica baritonal?

Sim, porém voltou, pois eram passadas mais vinte e quatro horas.

Nestas vinte e quatro horas, um peixinho vermelho morrera e ao redor do seu corpo estendido e flutuante os companheiros realizavam fúnebres evoluções.

Mauro não vira Mélita, mas encontrara-se novamente com o irmão, e, depois de uma reunião com os amigos mais íntimos, tinha voltado ao café.

Café.

Lúcio ouvia com paciência as amarguras do condenado ao casamento, através do monóculo (o olho de gelo, dizia o pintor Cároli) e pensava, distraído, nos seus casos.

Quando os amigos nos contam as suas desventuras, esse é o melhor momento para reflectirmos sobre os nossos próprios males; resolvemos de memória as multiplicações da contabilidade miúda, e o amigo tem o alívio de nos abrir inteiro o seu coração.

Mauro dizia:

- Nada fiz para conquistar aquela rapariga. Entregou-se a mim como...

- Poupa-nos as comparações - deteve-o Piti, literato anti-retórico.

- Não a amava. Interessava-me, quando muito. Tinha a fascinação da inocência.

- A inocência... - ia sentenciar Paschetta.

- Livra-nos dos aforismos - rogou Piti.

- Parecera-me uma irmã. Amava-a como tal.

- Para dar o sabor de incesto ao teu amor.

- Uma irmã com a qual conversava de coisas inocentes: contava-me que tinha os sapatos apertados; eu falava-lhe da minha dor de cabeça, julgando que os nossos diálogos não pudessem ir além. Ensinou-me a tomar ovos à ostra. Garanto-vos que, ante a minha anterior amante, a mulher de nervos estragados que me fizera viver numa atmosfera de siroco, esta, a que me ensinava a tomar ovos à ostra, representava o oásis no...

-? No Saara. Sai fora.

- Aquele contínuo movimento amebóide que a outra tinha imprimido ao nosso amor fizera-me desejar o amor inerte, estático, imóvel. A menina era a paz.

- Tudo isso sabemos nós; já nos contaste.

- Mas Paschetta ainda não sabe.

- Feliz dele! Imagina-o.

- Passámos alguns dias deliciosos, divinos, edénicos, paradisíacos. Não saberia mesmo encontrar o adjectivo exacto.

- Não te preocupes a procurá-lo.

- Numa pequena estalagem do alto da montanha, onde foi minha!

- Sem preâmbulos?

- Sem as porcarias preliminares, sem aquelas contrafacções do pudor que são um excitante malicioso.

- Dispensa as análises.

- Mas na sua entrega pôs tanta honestidade que até me disse: "O que quer que me aconteça, tu nem sequer o saberás!"

- Elas sempre dizem assim!

- Tiro matrimonial de grande alcance.

- Não posso crer que tivesse propósito de casamento uma vagabundazinha que folheava constantemente os opúsculos das sociedades de viagens e das companhias de navegação, e que após três meses de permanência num país sente a necessidade imperiosa de atravessar a fronteira.

- Conheço esse tipo de vagabundas. Julgam deixar depositado, em cada alfândega, um passado.

- Ela não tinha passado de que se purificar: fui eu O primeiro.

Os três ouvintes olharam-se entre si, mas nenhum fez objecções.

- Não acreditam?

- Tudo é possível.

O advogado, que escutava sem intervir na conversa, esboçou aquele comentário sarcástico de boca fechada, consistente na emissão de três ou quatro hh pelo nariz. Depois tocou Piti com o cotovelo e apontou para Mauro:

- É assim que se chega a corno sem mestre.

"A Inatingível", quase bela à luz cianótica dos quebra-luzes lívidos, entrou. Incessu patuit dea. Uma frase latina, a certas horas da noite, reconforta o espírito. Faz o mesmo efeito que aquilo que se diz de "tomar qualquer coisa quente".

"A Inatingível" entrou com andar hierático, acompanhada por um senhor esmaltado que a ajudou a tirar a pelica de forro flamejante. Do pescoço nu pendia-lhe sobre o seio infecundo um fio de platina com uma cruz de ouro. "A Inatingível", que tem renome de nunca se ter entregado, representa o tipo mais pérfido de prostituição. Fala-se, ora de uma deformação anatómica, ora de uma psicose sexual. Mas não se sabe como vive nem qual seja, entre os homens, a sua forma de actividade profissional.

O fotógrafo antimetafísico reconheceu-a:

- É uma daquelas estudantes russas (não vês a fascinação euro-asiática?) que há doze anos vinham à Itália pregar o amor livre e fazerem-se desposar pelos revolucionários italianos. E recusa-se por frieza histérica.

O filósofo Pavia, idealista humanitário, sentenciou:

- Pode ser que se recuse por um sentimento aristocrático de pureza e por um desejo de elevação.

Piti respondeu:

- A melhor vingança contra as mulheres que se fazem crer virtuosas é acreditar piamente na sua virtude.

O companheiro da "Inatingível" chamou o homem das ostras, que o atendeu, apresentando as suas homenagens e os seus moluscos.

- Ali não é de ostras que se precisa!

- O melhor excitante para uma mulher é uma nota de quinhentos - disse Piti.

- Há excepções - protestou o filósofo.

- Sim as que pretendem as duas - admitiu Piti,

A cena continua a ser a mesma, mas passou mais um dia. No café ainda não há quase ninguém. À margem de um jornal, Piti escreve as "quadrinhas económicas de bolso" em honra de uma meretrícula principiante que vendeu apenas cinquenta e três vezes a sua virgindade:

A boca fresca, a fronte pura de miniatura setecentesca.

O que torna insuportável a poesia moderna é o uso de papel largo que leva a escrever versos longos. Se os poetas adquirissem o hábito de escrevinhar nas margens dos jornais, quanto proveito não tiraria disso a poesia!

Disse-me: Sim,

toda corada

sob a camada de pó carmim.

Piti escrevera, enquanto Lúcio, actor cómico e comediógrafo, lhe derrama no seio a sua cólera pelas referências frias feitas pela crítica à sua última comédia.

- A crítica... - investiu Lúcio.

E Piti:

Ela entregou-se, nua, impudica, tal uma rica batata-doce.

- Só a pau! E Piti:

? gritou Lúcio. - É uma cocoíte!

- Uma cocotte? A viva imagem de um personagem de Walter Scott.

E Lúcio, recomeçando:

- A crítica...

Piti faz uma bola das suas quadras de bolso, e com a ponta do polegar atira-a ao traseiro do garçon. E responde, indulgente:

- Não digas mal da crítica, desta pia, santa, benéfica, filantrópica instituição, que serve aos falidos para desabafarem nobremente a sua raiva.

- Deixa em paz os críticos - protesta o comediógrafo Nino Berrini mostrando o seu sorriso senegalês sob os dois espessos bigodes de burro sem rabo especializado. - Deixa-os dizerem, homem! É o único desabafo. Tu tens o teatro cheio, sucesso, aplausos; e eles não têm nada. Estão condenados à obscuridade vitalícia e, no seu angustioso sofrimento pelos nossos êxitos, não têm outro prazer senão odiar-nos.

E cravou os sessenta e quatro dentes furibundos numa rodela de ananás com licor de cerejas.

A cocotezinha, pré-rafaelita, de tez de aguarela, tossiu, apenas para fazer qualquer coisa, virando a cara para o ombro, e, em vez de levar a mão à boca. tossiu sobre a omoplata.

- Gosto da cocotezinha.

- com cinquenta liras a cavas...

- com cinquenta liras a tomas.

- Eu te curarei.

- Deus me livre dos médicos! - berrou Piti. - A Medicina é a arte de acompanhar com palavras gregas à derradeira morada.

- Sifilizou os mais belos exemplares da nossa jeunesse dorée.

- E curou-se?

- Mas depois voltou de novo.

- Poderia adoptar a divisa de DAnnunzio: "Eu tenho aquilo que dei."

Um ambíguo efebo, demasiado belo e demasiado loiro, entra indolentemente, num ondeamento provocador das ancas, senta-se e pede com voz inspirada uma bebida estranha (anis e água). É um hipersensível, um hiperesteta. Pálido de enfado, espalha sobre o mármore folhas de papel, muitas folhas, muitíssimas folhas, e, escorando a fronte com a ponta do anelar, escreve linhas longas e linhas breves, com abundante profusão de pontos de exclamação.

Dois epicuristas de café com leite, que jogam aos dados para ver quem pagará a despesa, chamam-no:

- Teresinha!

Ele ergue a fronte clara como uma noite de luar, sorri espiritualmente e cumprimenta com uma oscilação lânguida de madeixa de ouro entre os arqueados supercílios.

O jovem médico Santori examina, através das novas dioptrias dos seus óculos, uma pálida Taís em atitude de espera, e faz, à distância, um diagnóstico de vegetações adenóides: e o arquitecto Pagano Pagatching, confrangido atrás de um par de lentes gigantescas rodeadas de tartaruga (daquelas que repousam os olhos e martirizam os narizes), com a máxima convicção responde-lhe que, quanto a isso, lava as suas mãos. Piero Belli, romancista de guerra, demonstra com cálculos complicados que, se fizermos a soma do que custa uma mulher durante toda a vida, e dividirmos esta soma pelo número de vezes que um marido de constituição robusta faz uso dela, obtém-se como quociente uma cifra que dá folgadamente para pagar, o mesmo número de vezes, os favores da mais esperta cocotte, da mais exigente aventureira, da mais impressionante American beauty.

Mauro não aparecera ainda, e devia ser tarde, pois Paschetta já estava na fase dos aforismos fúnebres:

- Pensar nos mortos entristece-me porque há demasiado , poucos. Traz-me à ideia os vivos, e então torno-me ainda mais melancólico, porque vivos há em excesso.

Sentia-se no ar certa inquietação. Quem sabe se Mauro Mauri não estaria na cama com dois pentes de balas na barriga?

- Serão indigestos dois pentes?

- Sendo fraco de estômago, sim - respondeu o cirurgião.

O filósofo Pavia, passando os dedos pelos cabelos restantes no crânio (os outros tinham caído na gola), fazia massagens filosóficas numa prostituta intelectual, daquelas que têm os cantos de Aleardi em cima da cómoda, por baixo do frasquinho de glicerina; e explicava-lhe que a criança é cruel com os mais fracos porque "ainda" é mulher.

- O professor Pavia-observou alguém - está a procurar redimir a Madalena, arrependida de ter começado tarde.

- Espera encontrar, como Voltaire, uma Ninon de Lenclos que lhe deixe dois mil francos para comprar livros.

- Meia-noite.

- Ei-lo!

Mauro Mauri entrou.

- Se soubessem!

Encolheram as pernas em baixo do sofá, afastaram a mesa e fizeram-no sentar-se no meio.

- Imaginem que, para andar mais depressa, tomei um automóvel, mas trinta metros adiante atropelamos um padre.

- Morreu?

- Ficará bom em duas ou três semanas; mas tivemos de levá-lo ao hospital, ir à delegacia, perder tempo. Os padres dão um peso! Venho da minha casa. Deixem-me beber. Discuti até agora com aquela gente. Tiro o sobretudo. Toda a família; até a tia, até aquele rinoceronte macho da tia. Quer-se bater comigo.

- A tia?

- O irmão.

- Quer-se fechar num convento. - O irmão?

- A tia: por vergonha do escândalo. Quer denunciar-me ao promotor público.

- A tia?

- O pai.

- Mas, conta por ordem!

- Não é fácil. Havia até o turco.

- Quem é o turco?

- O noivo.

- Mas tem noivo?

- Ela, não. A irmã.

O arquitecto Pagano escancarou-lhe as mandíbulas e o jovem cirurgião atirou-lhe para a goela um copinho de genciana.

Mauro imobilizou-se numa careta horrenda; depois continuou:

- Após o primeiro colóquio, deram-me vinte e quatro horas de prazo para resolver, mas depois de doze horas vejo-os de novo na minha frente. Restava-me ainda um saldo de doze horas.

- Exacto.

- O veterinário disse-me à queima-roupa...

- Mas por que não se ocupa ele com as suas mulas?

- Cavalos, não mulas. Está num regimento de cavalaria.

- Não respondas aos apartes. Continua. Que te disse ele à queima-roupa?

- Casar!

- Mas isso já to tinha dito.

- Repetiu-o: casar!

- Contenta-se com pouco!

- Parece-me justo.

- O pai falou-me logo de dote.

- Simpático, esse pai! - Depende da soma.

- O irmão, porém, falou de datas: amanhã, publicação dos editais; daqui a quinze dias, casamento.

- Que pressa!

- Pouparam-te o período do noivado. E tu, que respondeste? :

- Não.

- És um fenómeno. Gostas dessa criatura?

- Sim.

- Tens-lhe amor?

- Sim.

- Queres um dote maior?

- Não ligo ao dote.

- E então?

Mauro fez aquela pausa que equivale a uma mudança de registo, e disse com acentuada clareza:

- Não poderia mais amar uma rapariga que, depois de se ter entregado sem cálculos, tirasse partido da sua entrega para arranjar marido.

- Mas não é ela quem quer obrigar-te ao casamento.

- Eu sei; contudo, não poderia nunca separar a sua personalidade da dos parentes. Afinal, foi ela quem declarou aos parentes que era minha amante. Isto equivalia a revoltá-los contra mim.

- É preciso verificar se declarou ou confessou ou deu a entender.

- Cambiantes, caro advogado!

- Ou se o descobriram eles próprios.

- Não te metas a defensor gratuito.

- E tu não a acuses sem lhe teres falado. Viste-a já depois da tal cena?

- Não a deixam sair.

- Canalhas! E que dizem a respeito dela?

- Para me fazerem pena, contam que está tuberculosa. Acredita-se ainda que os bacilos de Koch estejam sempre dispostos a entrar em cena depois de uma falência, do insucesso num concurso, de uma decepção amorosa.

- Sabem que és um sentimental; e a tuberculose ainda costuma dar sorte entre os românticos.

- Mas não entre os higienistas. Para a fazerem passar por mártir, apresentam-na como cretina. Receiam que se mate. "Quer que se mate?", guinchava a tia. "Coisas que se dizem!", respondo eu. "Coisas que se fazem!", retrucou ela; e informaram-me de que a menina tem sempre sublimado corrosivo na mesa de cabeceira.

- Basta que lho tirem.

- Foi o que eu disse. Em lugar de me fazerem amá-la mais, tornam-ma odiosa. Imagina que, quando a tia me repetiu: "Mas quer que ela se mate?", eu respondi: "Não faria mais que o seu dever." Se tivesse ouvido os berros da tia! Uma fúria! Uma virgem que se debate entre as garras de um gorila. Não sabia como fazê-la calar. Quanto mais procurava acalmá-la, mais gritava!

- Bastava cortar-lhe o nervo laríngeo - explicou sem se alterar o cirurgião.

- Hoje, então, vieram à minha casa dois oficiais.

- Veterinários?

- De cavalaria. Cartão de desafio.

- Bates-te?

- Não se pode recusar, quando se é um cavalheiro. Aqueles que apunhalam num ímpeto de cólera, ainda que movidos por uma paixão explicável ou uma provocação tremenda, são assassinos. Mas quem, depois de anos de salas de armas, para fazer belo gesto, espeta um seu semelhante, é um cavalheiro.

- E os teus padrinhos?

- Pedi ao meu porteiro que me fizesse o favor, pois, quando lhe pedem para lavar vidros, rachar lenha, matar frangos, nunca se recusa.

- Aceitou?

- Não. Na casa em frente, mora Orubel Ik, o palhaço vieux style, cómico irresistível da Cáspite-Film. Apresento o meu cartão de visita; sou recebido; pergunto-lhe se quer assistir-me.

- Anda depressa. Que respondeu o palhaço?

- Que é demasiado sério para representar papéis desses.

- É uma opinião.

- Finalmente, encontro Pellini e Fermenti...

Mauro fez a tríplice figa. com o polegar entre o anelar e o mínimo, em cada uma das mãos. Os outros tocaram ferro, madeira, figas de coral ou marfim e outros amuletos mais íntimos, isolando o peso por diversos meios, segundo o ritual das diferentes escolas (metálica, vegetal, zoológica).

- Pellini e Fermenti, na qualidade de empresários de pompas fúnebres, têm todo o interesse em fazer que do duelo saia pelo menos um cadáver. com efeito, assim que se encontraram com os padrinhos do adversário, combinaram o duelo à pistola, a dez passos de distância, liberdade de pontaria, número ilimitado de tiros.

- Já o mataste?

- Não. O pai veio há duas horas à minha casa pedir que me não batesse, porque um duelo assim atrairia a curiosidade dos maldizentes sobre a pequena, arruinando-a para sempre.

- Confere, E os teus empresários de pompas fúnebres, que perderam assim um cadáver certo?

- Diante do solene compromisso assumido pela tia, de morrer de síncope cardíaca dentro de três meses, retiraram-se, deixando o endereço da firma, com o número do telefone e a tabela dos preços.

- E agora, estás tranquilo?

- Não. Porque fizeram queixa contra mim, de corrupção de menor.

- Não tem vinte e um anos?

- Vai fazê-los daqui a meses.

- Tomaste-a com violência?

- Que pergunta!

- Entregou-se voluntariamente?

- Isso não tem importância; todas as mulheres se entregam espontaneamente. Nunca nenhuma é levada por força.

- Poderás ser condenado?

- Sim, se não me casar.

- Nesse caso. os juizes proferem uma leve condenação condicional. Não é verdade, bacharel?

- É a praxe. Eu te defenderei.

- Mas já tenho uma condenação condicional por agressão a um ferroviário. E se me condenarem de novo...

- Terás de cumprir as duas penas, a velha e a nova.

- Não há outra saída?

- Não vejo.

- Casares-te.

- Corromper o legítimo matrimónio.

- Subir ao altar.

- com o anel no dedo.

O garçon, em cumprimento a uma ordem misteriosa, depôs na mesa um balde metálico suado pelo gelo e fez saltar duas rolhas com a obrigatória explosão incluída no preço.

O arquitecto esvaziou de um trago a taça espumejante, antes de começar o discurso, a fim de não a derramar sobre si no fogo da improvisação; mas tornou a enchê-la, porque não se pode improvisar um discurso com a taça vazia.

O pintor ofereceu-se para imitar cenas setecentescas, espiritualmente obscenas, nas pançudas liteiras Luís XV, e o cirurgião pôs o fórceps à disposição do primogénito, naturalmente macho.

- Sobretudos!

Saíram. Eram quatro da manhã.

Na porta, um mendigo cumprimentou-os.

- Não lhe dês nada. É um coxo fingido.

- Dou-lhe o dobro. Que mérito teria se fosse coxo autêntico? Como se dá ao trabalho de fingir, é justo que o seu trabalho seja recompensado.

Mauro e o actor dirigiram-se para o lado do hotel em que este se hospedava com a actriz.

- Estiveste na rua toda a noite. Não receias a sua cólera?

- Não me dirá nada.

Quando chegaram em frente do hotel, levantaram os olhos para uma janela do segundo andar, iluminada. E os seus olhos encontraram-se. Também a Mauro acontecera algumas vezes ficar livre toda a noite, mas ele ficava até de madrugada, na rua, a contemplar a janela, e a contar quantas vezes a misteriosa personagem lhe fazia acender a luz.

- Feliz de ti que não sofres por isso! O actor suspirou.

- Das mulheres, meu pobre Mauro, é preciso receber o que elas dão, e não exigir mais. Tomá-las como são. São deliciosos animaizinhos.

- Sim, deliciosos animais, que se deviam admirar nos jardins zoológicos, por trás de grades vigorosas, como estravagâncias da Criação.

MÉLITA, acometida de tremores de febre, retirara-se para o seu quarto, recusando-se a responder a quem quer que fosse. Duas ou três vezes, o tribunal composto do pai, a tia e o veterinário viera interrogá-la, implorar-lhe, procurar demovê-la daquela muda resistência. Fechada no seu silêncio, sentada numa poltrona, ninguém lhe arrancava uma palavra.

Mas não sofria. A ira asfixiante de que a casa estava saturada não a contaminara. O seu modo de sentir era tão incompatível com o temperamento ambiente que permanecia indiferente aos ralhos, impermeável à censura daquela gente que, empenhando todas as forças em defesa da moral, oferecia o quadro panorâmico da sua estupidez medieval.

Os resmungos da tia, as censuras do irmão, as palavras severas, mas calmas, do pai, chegavam aos seus ouvidos como sucessões desorganizadas de sílabas. Ela e a parentalha eram, moralmente, como corpos que aderem, mas não se misturam; são como o lacre e o sinete: o que num é relevo, no outro é depressão. As convexidades audazes e inovadoras de Mélita correspondem às retrógradas concavidades fanáticas da família.

Mélita, que se conservara virgem até dois meses antes, talvez por um retardo na maturação sexual dos seus desejos, tinha uma concepção demasiado moderna, demasiado cientificamente esquemática do amor, para se deixar viciar pelos tolos preconceitos daquela pobre gente a que a uniam efémeros e convencionais laços de família. Estivera na Áustria, na Alemanha, nos países de grande desenvolvimento industrial, onde o amor livre não é maculado pelo bom-senso jesuíta dos países latinos. Estivera na Bélgica, onde os casais se dissolvem quando o amor não os retém mais, reunindo-se de vez em quando os cônjuges para tratar "dos negócios administrativos", como se exprimem os ministros demissionários. Na Avenida Anspach, de Bruxelas, vira senhoras de boas famílias cumprimentarem com a mão rapazes desconhecidos que à passagem tinham dito palavras de elogio à sua graça; sabia que lá, quando uma senhora volta grávida para casa, não encontra um progenitor que arranque, amaldiçoando, a cândida barba veneranda, e corra pela porta fora a culpada com o "fruto da sua culpa"." Mas é recebida com as expressões de ternura e carinho que merece a mulher devotada ao mistério sobrenatural da maternidade; e quando a criança vem ao mundo é bem-vinda, e se a mãe não se pode ocupar em criá-la e educá-la, são os avós que provêm a isso.

Na Bélgica, os acidentes no trabalho de Cupido são comédias de desfecho alegre; na Itália, fazem parte do sangrento repertório do Grand-Guignol. O pai pode matar impunemente a filha desonrada, como o marido pode estrangular a adúltera. Todos sabem como aqui o corno que mata a mulher está certo da absolvição, porque, dada a imponente maioria dos cornos, em dez jurados há pelo menos cinco, e este número basta para o absolver.

Donata, alguns dias antes, horrorizara-se por ver Mélita, nua da cintura para cima, dirigir-se do quarto à casa de banho, para fazer as fricções de esponja com água gelada no seio.

O seio!

E Mélita, rindo do escrúpulo de Donata, dissera-lhe, excedendo-se:

- Mulher nagás!

Durante várias horas, Donata tinha chorado.

- Mulher nagás! Por que me chamaste mulher nagás? perguntou a Mélita depois de esgotar toda a reserva aquosa do seu ressentimento.

- As mulheres nagás são como tu, Donata. Fazem residir o pudor nas mamas. Cada país localiza o pudor numa região diferente do corpo: no Japão é do tornozelo para baixo, em certos países siberianos, na planta dos pés; na Turquia, no rosto; entre os guaicuns, as mulheres envergonham-se, não de se mostrarem nuas, mas de se despirem; e os homens de se vestirem.

-? Realiza uma conferência sobre a psicologia dos povos

- interrompeu sarcástico Don Ciccillo, que chegara nas pontas dos pés. - Eu, que sou turco, como a menina diz, posso servir-lhe de objecto de estudo.

- De um estudo sobre os animais que não se conseguem aclimatar - remoqueou Iluska.

Donata procurou derramar uma segunda torrente de lágrimas, mas, tendo os reservatórios secos, deixou-se cair sobre uma cadeira, como um pugilista se abandona sobre as cordas depois de um fatigante assalto.

O bourbónico Don Ciccillo Cacace di Capafugata sentiu-se atraído, por simpatia e afinidade, pelo segundo-tenente veterinário. Este jovem que, deixando repentinamente a estrebaria do regimento, tinha afrontado trinta e seis horas de comboio para vir fazer do seu peito escudo à honra de uma irmã que mal conhecia, agradava-lhe. Mélita e Bernardo (o veterinário) tinham-se separado crianças e nunca mais se haviam visto, pois ele, terminados os estudos numa daquelas pequenas Universidades em que os lentes constrangem suavemente os estudantes a prestarem-se gentilmente ao papel de receber um diploma, conseguira classificação em último lugar entre cento e cinquenta concorrentes a quatrocentas vagas de segundo-tenente veterinário. Os seus colegas de turma já eram capitães, mas ele, sem ambição de títulos ou de qualquer glória terrena, continuava segundo-tenente. Bernardo expôs a Don Gccillo Cacace di Capafugata os caracteres que diferenciam a pulga do cavalo da do cão e da do homem, e contou-lhe que friccionara com pomada antiparasitária o cavalo do general Cadorna...

- Um Capafugata!

Don Ciccillo tocou-lhe na ocarina um trecho do Trovador, a ópera que se levava, de preferência, no teatro municipal da sua aldeia, e calculou de memória a quantidade de goma ingerida durante a vida por um homem que tenha o hábito de humedecer directamente na língua os selos da sua correspondência.

Donata, ocupada com as quatrocentas e sessenta e seis toupeiras da sua pelica, com o bordado exacto dos cinco bicos da futura coroa sobre a roupa de mesa e de cama, sentia-se desolada por ter de ir às lojas de bordados e armazéns sem a companhia do noivo, o qual encontrara em Bernardo uma conformação mental tão simétrica da própria que quase se esquecia dela.

- Tenho um tio que é bastante rico - confiou Ciccillo a Bernardo com grande profusão de mímica. - Mas tem um caroço no meio. Meu tio tem um filho!

E explicou-lhe que, se aquele tio não tivesse tido aquele filho, seria ele quem herdaria as vastas propriedades e a via férrea económica Marancio-Tesmoforia.

Don Ciccillo sentia-se feliz de desposar Donata, para a tirar daquela casa corrupta que lhe oferecia o exemplo impuro de Iluska, a viajante misteriosa que parara para se atirar nos braços de um homem.

Sentia-se feliz de casar, Don Ciccillo!

De casa, tinham-lhe escrito uma carta tão piedosa que ele, acompanhado de Bernardo, foi ao correio expedir às cinco irmãs um vale de cem liras, suplicando-lhes que tivessem paciência até o dia do casamento. O dote de Donata salvaria a situação; é verdade que, se aquele tio das ricas propriedades e da via férrea económica Marancio-Tesmoforia não tivesse tido aquele filho, a coisa andaria melhor; mas, afinal, realizado o casamento, Ciccillo havia de se lembrar da mãe e das cinco irmãs.

De volta a casa, Ciccillo falou a Bernardo da própria riqueza e das várias "casas apalaçadas" que possuem nos seus feudos as cinco irmãs, todas imaculadas como Donata.

E beijou Donata na fronte.

Donata amava Don Ciccillo, mas a seu modo.

Certas mulheres são enamoradas sem ter um amante, e agarram-se ao primeiro que chega. É um amor indeterminado, um tiro sem alvo, um estado físico que corresponde ao cio, nas fêmeas dos animais; qualquer macho que se apresente serve muito bem para qualquer uso, até como marido.

Enquanto Ciccillo beijava-a na fronte, ela endireitou-lhe o nó da gravata do mais sobrenatural celeste; celeste como a alma oitocentista de Donata, que ficara no sentimentalismo da hera seca num livro, no divertimento da bexiga formada por uma pétala de rosa e estalada na testa, no gracejo do fósforo apagado de surpresa com um sopro, enquanto o papá aproxima a chama da ponta do "trabuco".

- Iluska! , Não estava.

- Iluska!

Saíra sem que ninguém tivesse dado por isso.

Entrou na casa de Mauro escorrendo chuva como se todo o seu corpo chorasse. Mas os olhos estavam brilhantes e límpidos. Mélita não era presa fácil da lacrimação.

- Querem purificar-me - começou ela com um sorriso escarninho, tirando lentamente as luvas. - Parece-me que sou uma daquelas regiões que todos querem a todo o custo redimir, e que de bom grado dispensariam o ser redentas.

Sorria como uma criança.

A criança!

Aquela que desencadeara a tempestade.

O homem olhava para ela, inquisidor.

- Eu sei no que estás a pensar - disse-lhe ela, impassível. - Em que a causa de tudo isto sou eu.

Gesto evasivo de Mauro.

- Não merecias tantos incómodos. Fui eu que quis que nos amássemos. Fui eu que te procurei.

- Não, Mélita. Nenhum de nós dois procurou o outro. O encontro dos nossos desejos foi simultâneo. Não seguimos o processo habitual da conquista e o habitual fingimento da recusa, e chegámos à posse recíproca sem preâmbulos de garridice, sem pactuaçõeSi ignóbeis e sem perguntarmos um ao outro que coisas nos reservaria o dia seguinte.

- Não é verdade, Mauro. Tu perguntaste-me, então, o que aconteceria "depois". E eu respondi-te: "Nada". E prometi que, qualquer que fosse a consequência do nosso amor, havias de ignorá-lo. No entanto...

A primeira neve do Inverno caía lenta, e no tear rectangular da janela formava a vaga trama de um véu. Mélita levantou-se, afastou uma cortina, deixou-a cair. Os peixinhos chineses moviam-se compassadamente; tamborilando com as unhas no vidro do aquário, Mélita assustou-se. Acendeu um cigarro, e, soprando para o tecto um jacto de fumo azulado que se contorceu e se enrolou em espirais, tornou a sentar-se junto ao amante.

- Julgas - e tomou-lhe as duas mãos - que tenha sido eu quem açulou contra ti a fúria de toda aquela gente?

- Não - respondeu ele sem convicção. - Mas não me explicou de que modo possam ter descoberto um segredo tão hermético e tão nosso.

A princípio frouxas, e depois mais fortes, chegaram até ele as musicais plangências femininas de um acompanhamento fúnebre. Na moldura da janela, passavam as coisas sobressalentes do cortejo: uma cruz, o cocheiro de tricórnio e cabeleira empoada, os quatro archotes fumegantes, o semicírculo de uma coroa de violetas. E, pouco depois, um carro de flores. Quando chegou em frente da janela, a banda atacou uma marcha fúnebre, toda em perguntas e respostas alternadas entre um trombone consolador e uma flauta inconsolável, exasperada pela dúvida filosófica da tuba em fá e pelas afirmações categóricas do bombo materialista.

- Quem será esse cacete que se faz sepultar com tanto barulho? - perguntou Mélita.

Mauro olhou-a ainda uma vez de frente, procurando a verdade no fundo azul mineral das íris enormes.

- Queres ver se chorei? Não. Não creio que se remedeie a nenhuma situação com espremer duas ou três gotas de água salgada dos canais lacrimais.

- É verdade que te querias matar?

-? Quem inventou isso? Minha tia? Mas não terão ainda acabado com essa mania de me fazer ridícula?! E tu acreditaste?

- Não.

No seu rosto, liam-se os sinais da inteligência: a única força capaz, talvez, de matar a dor.

A rapariga calava-se. Mas a emoção erguia-lhe e comprimia o peito com aquela oscilação ofegante que tem nos relógios a mola do pêndulo. Conquanto o amor tivesse impresso nela os traços da mulher, conservava a pureza da virgem, como certas mulheres continuam a ser honestas mesmo depois de se terem vendido, como certas nações continuam a ser grandes, mesmo depois de terem sido derrotadas.

- agora Não há mais que uma pessoa capaz de nos salvar. Meu irmão Sândor, aquele que conheceste na montanha. É um médico, um homem acostumado a olhar as coisas do alto dos seus dois mil e quinhentos metros, por cima das pequenas misérias, das hipocrisias, das convenções. Mas não é fácil fazer-lhe chegar uma carta lá em cima. A esta hora, deve haver na montanha dois metros de neve, e da agência postal mais próxima ninguém sobe até lá.

- O rádio? - lembrou Mauro.

- Tinha pensado nisso. Mas, como telefonar-lhe, se não está avisado com antecedência? Para receber a comunicação é preciso que ele regule o seu aparelho pelo comprimento de onda do nosso; não havendo este acordo entre o transmitente e o recebedor, a comunicação não é possível.

Calou-se. Apertou entre os lábios uma cruz russa de braços duplos, que lhe pendia do pescoço por uma fita de veludo negro, e ficou pensativa.

- Achei! - e a cruz tombou-lhe dos lábios. - Todos os dias ouve os concertos de Paris e o noticiário de política exterior de Londres; basta saber qual o comprimento de onda daquelas transmissões: à mesma hora, com a mesma onda, transmito-lhe eu um recado, de um aparelho qualquer.

- A ideia é excelente, mas sabes que as nossas leis permitem o uso do aparelho receptor, mas proíbem o do transmissor.

- Exactamente porque é proibido pela lei, podemos ter a certeza de que existem muitos.

Duas horas mais tarde, Mélita apresentava-se no laboratório de um desconfiado professor da Politécnica e mostrava-lhe os oito incisivos e os quatro caninos do seu honesto sorriso. A graça perfumada da sua juventude vicejante passou frívola e leve por entre o emaranhado dos fios, o mistério dos acumuladores, a solenidade das máquinas dínamo-eléctricas, os galvanómetros meticulosos e as cubas cheias de líquidos amarelos.

E depois de rápida conversa...

Todos os amadores de rádio, apreciadores dos concertos de Paris e das notícias políticas de Londres, ouviram estas palavras:

"Sândor Virgili. sou tua irmã Iluska, e peço que venhas imediatamente. Não há nada de grave, mas preciso de ti. Não podes responder, mas estou certa de que, se ouviste, virás. Espero-te."

E Sândor na sua pequena cabana erguida como um farol num oceano de neve estava estendido sobre uma espécie de divã, com um cachimbo entre os dentes e a áspera cabeça peluda do cão entre as mãos, a ouvir com indiferença as notícias atiradas no quarto pela negra boca metálica do altifalante: cotações do algodão no Havre, em Liverpool e em Alexandria, as operações da Bolsa de Paris, câmbio, valores, preços do açúcar, dos cereais, do café, resultados das corridas hípicas e partidas de futebol, discursos parlamentares, etc., e esperava o início dos concertos anunciados na véspera. A senhora Fanny-Heldy, na Ópera, cantaria Cétait une vieille chanson d'amour, dos Confos de Hoffmann. Devia ser emocionante, para um homem isolado no espaço, ouvir lá de cima o canto da parisiensíssima actriz, sportswoman triunfante, como soprano, na doirada soledade do teatro real, e como jóquei na pista dos hipódromos.

O criado estava a preparar o café para Sândor.

Do altifalante saiu, repentinamente, uma voz de mulher que pronunciava nitidamente o seu nome:

- Sândor Virgili! E continuava:

- Sou tua irmã Iluska...

Sândor conteve o alento e imobilizou as mandíbulas de Páprika, que, ao seu repentino sobressalto de surpresa, se pusera a ladrar irrequieta.

Acabadas as últimas palavras, começaram alguns acordes de piano.

- Fecha! - ordenou ao criado, apontando para o aparelho. E encostou-se às vidraças. As montanhas e o céu eram um anteparo branquíssimo, sem relevo, sem vida.

- Amanhã descemos. Acompanhas-me até ao fundo do vale?

E sentou-se junto à janela, pensativo. Páprika pousou-lhe o focinho na mão, e semicerrou os olhos, como que para se tornar mais leve.

Dois trenós e um cão desceram pelos declives cintilantes, levantando de quando em quando jorros de gelo pulverizado.

Quando chegaram junto ao primeiro campanário, um dos dois parou num grupo de cabanas meio sepultadas sob a neve, e o outro, com o cão, prosseguiu.

O telegrama endereçado a Mélita lançara o alarme na casa. A tia entrou-lhe no quarto para o ler, mas depois contentou-se com perguntar:

- Era para ti aquele telegrama?

Ela respondeu, enquanto enfiava uma meia:

- Tinha o meu nome no endereço?

- Sim.

- Então era para mim.

- E pode-se saber donde veio?

- Pode-se - respondeu, fazendo estalar a liça. - Tanto que eu sei.

-E agora vais sair?

- vou.

- Para onde?

- Para a rua.

- E se eu te dissesse que não saísses?

- Responder-te-ia que sairia do mesmo modo.

- E se eu te proibisse?

- Far-me-ias rir, tia!

- Rirá melhor quem rir por último.

- Os provérbios são a riqueza dos pobres de espírito, tia!

- Os provérbios são a sabedoria dos povos.

- E a ignorância dos indivíduos.

- Queres que te dê um conselho? - Dá-me uma escova.

- E se fechar a porta?

- Será absurdo que não a feches depois que eu tiver saído. Mélita envolveu-se na pelica e abotoou-se enquanto descia

as escadas. Na sala de saída da estação acabou a maquilhagem do rosto, num espelinho convexo.

Sândor e o cão!

Mélita lançou-se entre os braços do irmão e conservou-se imóvel no abraço, até que o íntegro funcionário encarregado de receber os bilhetes lhes pediu burocraticamente que deixassem livre a passagem.

A chegada de Sândor perturbou toda a família. Ciccillo, irrepreensível na sua gravata celeste, observou com um sentido de educado desprezo aquele homem jovem, mas de rosto encovado, que durante a apresentação ritual não tirou as mãos do bolso da blusa e não proferiu as fórmulas mentirosas de agrado. Magnífico tipo de pensador misantropo, de rosto emoldurado pelos cabelos negros atirados para trás e pela barba em desalinho, dominava-os a todos com o seu olhar de homem justo. O colarinho branco da camisa dobrava-se sobre a gola de veludo da túnica, desnudando-lhe o pescoço; e um cinto de couro apertava-o pela cintura, à moda russa.

- Nosso pai não está? - perguntou. - Quando volta?

Donata não sabia explicar a si mesma a chegada imprevista do barbudo meio-irmão quase desconhecido; o segundo-tenente veterinário e Don Ciccillo Cacace procuraram interrogar Mélita, que não respondeu. A tia, presa da inquietação que experimentam os ignorantes e os animais diante dos acontecimentos que não sabem explicar, teria vontade de repreender Sãndor pela sua repentina chegada, mas contentou-se com perguntar-lhe por que trouxera também "aquele animalejo".

- Este cão não está matriculado no Kennel Club, mas fez a guerra comigo.

- Suja-me o tapete com as suas patas.

- As patas que amassaram a lama das trincheiras têm o direito de caminhar sobre os tapetes dos paços e os mosaicos das catedrais.

A tia não retrucou. Don Ciccillo, Donata, o segundo-tenente veterinário observavam-no como se observa um louco político.

- Peço licença a esta bela sociedade - declamou Don Ciccillo - e retiro-me.

- Um momento! - deteve-o Sãndor. - Preciso de lhe dizer duas palavras.

- Em particular?

- Em público.

Ciccillo baixou os olhos jesuítas diante daquele olhar duro. Depois, tentou sair-se com espírito:

- Meu belo senhor, queira desculpar, mas olha-me por transparência como se eu fosse uma nota de banco.

- com efeito, parece-me falso! O outro não replicou.

- Mas, Sãndor... - balbuciou a tia.

- Por favor, tia, não te intrometas entre mim e este indivíduo.

- Indivíduo será o senhor! - protestou Don Ciccillo.

- E a você - respondeu-lhe, calmíssimo, Sândor - aconselho-lhe que não se ocupe mais com minha irmã Iluska, se não quer ser despachado para a sua terra numa dupla caixa de zinco.

O selvagem retirou-se com dignidade, seguido pela trémula Donata, e quando teve a certeza de estar fora do campo

auditivo de Sândor, exclamou:

- Aquele saiu maluco! Blusa de veludo, pescoço nu, sem decote, botas ferradas, faz-me lembrar os polícias que se disfarçavam de capuchinhos para dar caça aos salteadores.

- Preciso de falar contigo - disse o segundo-tenente veterinário a Sândor.

- De bom grado te ouvirei, mas não aqui. Acompanha-me: ao meu hotel.

- Não ficas? - perguntou a tia enquanto o veterinárioenganchava o sabre no cinturão.

- Obrigado, voltarei mais tarde. Espero encontrar aqui o nosso pai. E tu, Iluska, vem ao meu hotel daqui a duas horas.

O cão desceu a ladrar pelas escadas, seguido pelo tilintar da invicta espada do veterinário e pelo baque dos pregos de Sândor no mármore.

- É preciso, antes de tudo, que te informe - começou Bernardo logo que se viram na rua.

- Estou inteiramente ao corrente de tudo - atalhou Sândor. - Iluska falou-me das suas relações, da espionagem daquele tipo zarolho que vocês meteram em casa.

- Vocês? Eu estou fora há mais de seis anos.

- Rectifico: eles meteram. Mas todos, inclusive tu, vosvalestes da espionagem dele para descarregar sobre Iluska a sua desbragada prepotência.

- Tu não sabes de que natureza são as relações de Iluska com aquele sujeito.

- São amantes. É natural. Quereis impor-lhes a abstinência? Porquê?

- Deixemos isso - simplificou o bravo zoólatra fulminando com o olhar um primeiro-sargento que o saudara com um movimento pouco enérgico.

- Soube também que mandaste desafiar o amante de Iluska, para depois retirar o desafio logo que o outro aceitou o duelo...

- Não é verdade.

- É verdade porque foi Iluska que mo contou.

Parou. O cão retrocedeu dois passos. Sândor cravou o olhar no rosto do irmão, e continuou:

- Para que te serviram os teus quatro anos de Universidade? Estudaste as grandes leis que governam o mundo físico, estiveste em contacto com a dor, palpaste os mistérios da vida e da morte, conheceste os fenómenos eternos, e agora encontro-te a braços com estas ridículas manifestações de mosqueteirismo de melodrama! Sabes quanto eu amo e aprecio os químicos, os físicos, os naturalistas, os médicos, os veterinários, porque são os mais próximos dos grandes problemas do universo. Logo que Iluska me informou de tudo e me disse que tinhas deixado o regimento para vires pôr em ordem este enredo, eu disse: É um veterinário! Por força havemos de nos entender; um homem que olhou através de um microscópio não pode pensar como um homem ordinário, ou uma mulher. E entretanto, tens a mentalidade da tia. Retardaram o passo. A cadela não se afastava deles. No cruzamento das ruas, Sândor segurava-a pela coleira.

O segundo-tenente Bernardo Virgili era o mais belo exemplar do hibridismo científico-militaresco. As grandes leis, os problemas imanentes, os mistérios da vida, os fenómenos eternos a que fizera referência seu irmão, o doutor Sãndor, tinham-lhe modelado uma mentalidade tendencialmente científica, e o contacto com oficiais de cavalaria, que ele considerava cegos a essas grandes luzes, dava-lhe a convicção de ser espiritualmente superior a eles. Mas os oficiais de cavalaria apenas o suportavam com desdém: no fundo, que valia, diante do seu prestígio mundano, da sua elegância desportiva, dos seus postulados éticos, um simples veterinário? Por outro lado, ele não se atrevia a fechar-se no seu isolamento científico, a exprimir o seu desprezo pela etiqueta, as formalidades, o protocolo, tão caros à cavalaria. Além de tudo, sob certo aspecto, também ele era oficial de cavalaria. Bernardo agitava-se no drama de se sentir superior aos outros pelo prestígio moral da sua missão zoófila de combater a dor, complicado pela amargura de não ver reconhecida a própria superioridade científica, porque tinha, também ele, duas esporas nos calcanhares e uma espada à cintura.

A tragédia da sua carreira reflectia-se ainda no colóquio mantido por ele e Sândor: o segundo-tenente Bernardo estava no dever de vingar com as armas a honra da irmã; ao passo que o zoólatra Bernardo, que estudara nos livros científicos o problema do amor e as incontrastáveis forças do instinto sexual, devia rir-se do convencionalismo da honra sexual, e deixar a outros os lances esgrimísticos de quermesse de caridade.

O doutor Sândor tinha-o desarmado dirigindo-se ao homem de ciência; em nome das forças da natureza defendera Iluska, pedindo-lhe a ele e aos outros parentes furibundos a suspensão imediata de toda a hostilidade.

Sob o avental branco do serviço sanitário cintilavam as esporas do oficial. Os argumentos expendidos pelo irmão em defesa de Iluska persuadiam-no a meias; sentia-se demasiado oficial para os admitir, e demasiado cientista para os rejeitar. Contudo, a certa altura parecia acalmado; mas naquele momento passavam diante de uma repartição qualquer da administração militar e a sentinela apresentou-lhe armas. Bastou este sinal para lhe fazer fermentar no fundo da consciência o fermento da honra.

- A nossa irmã está desonrada! - exclamou.

- Palavras - condescendeu Sândor, com um sorriso de piedade. - O amor não desonra; o que desonra é opor-se ao amor. Qualquer coisa que se sobreponha ao amor contamina-o; criar obstáculos ao amor, constranger o amor, vendê-lo, legalizá-lo sob qualquer forma, é maculá-lo. Vocês turvam-no com essas ameaças, com esses escrúpulos, com os teus fantochados desafios, com aquelas denúncias ao Ministério Público.

- Este último acto parece-me honesto; haverá nada mais legal que a denúncia de um crime que o código prevê?

- A coisa mais estúpida que fizeram foi essa denúncia! Arrastar o amor de dois jovens à mesa de um pretor, entre um conto de vigário e uma contravenção por embriaguez! Não te sentes ridículo?

- Tu vives demasiado longe do mundo para compreender!

- Sei. A sociedade é como os maus cheiros; quem vive no meio deles habitua-se, porque os absorve. Mas, como não pretendo ficar neste ambiente mais de dois dias, quero que liquidemos de uma vez o caso de Iluska. Quando voltas para o regimento?

- Logo que o amante de Iluska se tenha resolvido a casar.

- E se não casar?

- Terá de se avir com o tribunal. Sândor fitou-o com silenciosa comiseração.

- O meu hotel é aqui. Sabes onde encontrar-me. Onde mora aquele senhor?

O veterinário ditou-lhe o endereço de Mauro. E separaram-se.

Entraram em casa. O segundo-tenente encontrou na antecâmara a pelica do pai. Voltara. E Don Ciccillo, arrumada à pressa a mala, partira.

- Porquê?

- Porque recebeu este telegrama - gorjeou Donata, toda trepidante, entregando-lhe um polígono amarelo; e acrescentou: - Coitado!

- Coitado, porquê? - interveio a tia. - Herda de um golpe vários milhões. Este -? e apontou para um nome escrito no telegrama - é o tio, senhor de grandes propriedades e de uma linha férrea; estoutro - e repetiu o gesto - é o filho único, que seria herdeiro universal. com a morte dos dois, pai e filho, a herança toca a Don Ciccillo!

Donata destilou vinte e cinco gotas de dor.

- Não chores, tolinha! - volveu a tia. - São milhões que correm para os teus bolsos.

- Deve ter sido uma morte cruel! - gemeu Donata. - Queimados vivos, juntos!

- Mal para dois, meio prazer! - comentou a tia, que tinha sempre um provérbio à mão.

E por prudência fez um sinal da cruz.

Donata abriu o piano de meia cauda e começou a teclar uma valsa, naturalmente de Waldteufel, simplificada para principiantes.

- Então? - perguntou o actor entrando em casa de Mauro.

- Parece-me que sou um daqueles gatos aos quais, quando sujam no tapete, enterram o nariz no monte, dizendo: Possuíste-a? Casa! A minha vida nestes dias transformou-se num acto de certas brilhantes comédias parisienses em que a cena, dividida ao meio, representa dois quartos de uma casa equívoca: uma infinidade de personagens indefiníveis entram sem se anunciar, saem sem se despedir, erram a porta, encontram-se, abraçam-se chorando, voltam com um pretexto qualquer, caem em transe, provocam para duelos, esquecem-se do chapéu de sol, empunham o cachimbo como se fosse um revólver. Tu agora estás sentado na minha casa, no meu divã, em aparente tranquilidade. Mas não te espantes se de um momento para outro vires chegar, que sei eu?, uma domadora de crocodilos, o bei de Tunes com o fez, um detective americano disfarçado em antiquário, um cacique pele-vermelha, um homem nu evadido do manicómio, ou um delegado de polícia que te dê voz de prisão.

- Isso é um expediente para me mandar embora? Mauro esticou o polegar na direcção da antecâmara, donde

vinha um tinir de campainha.

- Eu vou-me!

- Fica!

Mal tinha aberto a porta, entrou um homem vestido de mulher: para que a ilusão fosse completa, tinha até uns grandes seios que giravam em torno do corpo robusto, culminando num esquisito chapéu de penas amarelas.

- A tia!

Lúcio, ante a aproximativa apresentação, fez uma mesura indiferente, e foi entreter-se com o king, um instrumento chinês composto de pedras de diversos tamanhos suspensas a um tear de bambu.

- Pode-se saber o que decidiu o senhor?

- Eu, nada. E a senhora?

- Que se case.

- Isto já está resolvido há muito tempo.

- Mas o senhor ainda não aprovou.

- Nem nunca aprovarei.

- Em suma, recusa?

- Não.

- Consente?

- Resigno-me.

- Então, quando é que vai pedir a mão de minha sobrinha?

- Pedir? Não tenho nada a pedir, visto que ma impõem.

- Combinar a data do casamento.

- Fixem à vontade.

- Conhecer os parentes.

- Não faço questão disso.

- Mas fazemos nós.

- Isso não basta.

- Será preciso falar também sobre o dote.

- Dote? Não faço transacções.

- Meu irmão fixou, como dote, a quantia de...

- Repito que não aceito nem um real: podem impor-me a mulher, mas não o seu dinheiro.

- E o senhor é suficientemente rico para a sustentar?

- Sou pobre e cheio de dívidas.

- Então, que lhe vai dar para comer?

- Não lhe conheço os gostos.

- Será preciso também falar sobre a mobília.

- Um assunto que não me diverte nada.

- Mas, sua mulher, onde irá dormir?

- Isso é coisa que não me diz respeito.

- Então, que espécie de marido vai ser o senhor?

- Um péssimo marido.

A tia apitou como uma locomotiva a vapor: deixou-se cair sobre o divã, saltou para o meio da casa, deu uma volta em roda, gritando:

- Que barulho é este?

- São os inquilinos do lado que batem para lhe pedirem que se cale.

Outros apitos mais agudos; evoluções desordenadas pela sala com tropeções nos móveis.

- Que querem dizer essas pancadas?

- São os inquilinos do andar superior que rogam silêncio. Lúcio interveio, tirando prudentemente o monóculo.

- Senhora...

- Depois do que fez! - vociferou a tia apontando com o índice vingador para o pobre Mauro. - com a culpa que tem na consciência!

- É culpa possuir uma mulher?

- Depois do casamento, não - sentenciou categórica a tia-, mas antes, sim.

- Se a culpa consiste no "antes" - sublinhou Mauro -, basta não realizar o casamento; desse modo, o "antes" não existirá.

Lúcio sorriu; a tia fulminou-o.

- Que cínico! - gritava. E cada vez que o seu olhar pousava em Mauro, horrorizava-se como à vista de Jack, o estripador.

Num acesso de asma, o peito, em movimento de sanfona, soprava todo o ar em forma de injúrias estéticas.

- Rebento!

- Faço votos. Mas não lhe seria possível ir rebentar lá fora? - convidou gentilmente Mauro. - Seria mais cómodo para todos.

Campainhada. Um cão saltou no quarto, assustando os peixes, imprimindo no sobretudo negro de Lúcio as folhas de avenca das suas impressões digitais, e passou ao lado da tia sem se dignar cheirá-la.

Mauro fez as apresentações.

- Então, o senhor consente em se casar com minha irmã?

- Por força.

- Por força?

- Não posso dizer que seja por amor.

O doutor Sândor voltou-se para Mauro como se os outros não existissem:

- Não tomo atitudes de gladiador nem me dou ares de iluminado - disse. - Sou simplesmente um homem que foge das prevenções e dos apriorismos. Tendo descido à cidade, chamado por minha irmã, num apelo quase sobrenatural, venho encontrá-la oprimida por toda esta gente assanhada e empenhada numa empresa nada menos que insólita de compra e venda e de extorsão. Ainda mesmo que não fosse minha irmã, eu defendê-la-ia, porque é um ente frágil; simpatizo por instinto com as minorias, com os fracos, com os que têm a culpa; são tantas as pessoas que têm razão! Não acredito, porém, que Iluska seja culpada, e, ainda que tivesse cometido a mais grave das faltas, bastaria a desproporção entre as suas forças e as dos seus acusadores para ma fazer sagrada. Soube que ao senhor foram feitas ameaças e dirigidos ultimatos. É verdade?

- Sim. E já respondi que consinto em casar com sua irmã, contanto que acabem as apoquentações, as visitas, as conversas, as ameaças, as lágrimas! Há três dias que esta boa senhora vem chorar à minha casa. A humidade da sua desesperação está-me a fazer sair todo o salitre das paredes. Já disse que me caso. Que é que pretendem mais?

- com que entusiasmo! - grunhiu a tia.

- E querem ainda entusiasmo! - protestou Mauro. - É de mais! Sob a persuasão de uma faca na garganta pode-se entregar a bolsa; mas oferecê-la com um sorriso nos lábios e implorar a graça de a aceitarem é coisa que excede a todas as minhas evangélicas possibilidades!

Sândor calava, pensativo. Depois disse:

- Compreendo o seu rancor pelos parentes. Mas o essencial é que o senhor queira bem a Iluska.

- Não a amo mais.

- Ah, canalha, bandido, miserável! - gritou a tia suspirando entre os braços de Lúcio.

- Detesto-a! - repisou Mauro, impassível.

- Detesta Iluska? E que mal lhe fez a pobrezinha?

- Eu sei, doutor, que ela não tem nada a ver com isto; mas não consigo considerá-la estranha a esta conjuração. Considero-a como a expoente de um movimento desencadeado contra mim. Podem-me obrigar a casar com ela, mas não me podem impedir de a detestar.

- Se até há oito dias a amava!

- Há oito dias, sim. Mas há sete apareceu a família!

- Tem razão - concordou Sândor, levantando-se.

O cão sacudiu-se, espreguiçou-se, enrolando um palmo de língua.

A tia traspassou com um supremo olhar a Jack, o estripador, e saudou um bom-dia ao amigo.

Sândor fez uma mesura, e acompanhou-a.

Os queridos parentes tinham conseguido destruir o amor.

O problema ficava reduzido a duas fórmulas:

A do médico: que importa que se case, se ele já não a ama?

E a do segundo-tenente: que importa que ele já não a ame, se se dispõe a casar?

Durante dois dias, Sândor tentou fazer triunfar a sua tese. O pai, acostumado a olhar de cima para os homens, as suas paixões e os seus interesses, diante do problema da moral sexual apoucava-se numa ideologia barata, e todos os argumentos de Sândor se quebravam de encontro à sua decisão.

- Reparar com o casamento!

Enquanto isso, o afecto de Mauro por Mélita ia-se manchando de desprezo. Até o seu amor cristalino se turvava na sua recordação, e, falando nele com os amigos, evocava-o com vulgar irreverência.

- Por que te foste comprometer com uma jovem? - perguntou alguém.

- Que queres? - gracejou, sacudindo os ombros. - Já que naquela região não havia cocottes, tive de me contentar com uma virgem.

Don Ciccillo Cacace di Capafugata escreveu uma longuíssima carta para explicar de que modo a sua honra e a da sua nobre estirpe o impediam de se aparentar com Donata, cuja irmã dera provas de perversão de costumes, e cujo irmão, refugiado nas montanhas, lhe tivera uma linguagem que um Capafugata não pode ouvir sem se sentir apunhalado no amor-próprio. E concluiu retirando a sua promessa.

A fortuna que o tio lhe deixara fazia dele o jovem mais rico da região: como tal, podia aspirar à mão de uma ilibada menina, cujo nome ocultamos por explicável delicadeza, ornada de incalculáveis virtudes e de calculáveis milhões.

Na noite de núpcias, todas as pessoas conspícuas do lugar foram convidadas à casa de Ciccillo: o director do Inconcusso (semanário conservador), o médico-cirurgião parteiro e rabdomante, o geómetra adido ao aqueduto, alguns rapazes de sociedade, educados no temor de Deus e na veneração do último Bourbon. Esgotados os habituais assuntos bolorentos (feminismo, espiritismo, teosofia, motocontínuo e outros inócuos passatempos desse género, sobre os quais, segundo testemunho dos exploradores, ainda se discute nalgumas cidades de província, Don Ciccillo, "que tinha viajado", fez uma conferência sobre o Setentrião, e particularmente sobre uma cidade desregrada, onde se fala meio francês e onde todas as mulheres - dizia ele traçando no ar uma linha recta com o polegar e o indicador unidos em anel - todas as mulheres se entregam a um simples pedido. Os homens, então, são tão simplórios, que no eléctrico basta dizer "passe!", para viajar sem pagar bilhete; nos cafés, as pessoas levantam-se e vão-se embora sem pagar, e nas casas de família onde haja uma senhora casadoira, obtém-se com facilidade comida e alojamento grátis, apenas com dar-lhe a vaga esperança de casar com ela.

Mas, quando se possuem os nobres sentimentos de Don Ciccillo, não se pode viver mais de dois meses nas corruptas casas de família daquela cidade dissoluta.

DoNATA preparou-se para ingressar num convento, sanatório místico para os incuráveis do amor. O segundo-tenente Bernardo partiu para o regimento, chamado por um telegrama de serviço à cabeceira de um garanhão moribundo de melancolia.

O doutor Sãndor e a sua cadela Páprika voltaram para o meio dos montes. Mas, antes de se apartarem, Sãndor e Iluska abraçaram-se como se nunca mais se tornassem a ver.

- Pode ser - mentiu ela - que, quando estivermos casados, ele torne a gostar de mim, como antes.

- Creio-o - profetizou o irmão apertando-lhe a mão através da janela.

O comboio afastou-se.

- Mas eu não o creio! - pensou Mélita, procurando o lenço de seda no fundo da bolsa de camurça.

Virou-se. O comboio tinha desaparecido. Sãndor voltava ao seu exílio com a visão do sorriso de Iluska. O sorriso triste de Iluska: os lábios descerrados e quanto basta para deixar entrever dois incisivos. Sãndor voltava para o meio dos seus gelos, onde só podia viver um amante do silêncio, como ele, um solitário ébrio de vertigem; voltava para a sua dúvida quase serena, para o seu cândido observatório donde via todos, porque não via ninguém. Era como quem, lendo na estante a partitura de uma sinfonia, na solidão e no silêncio, longe de qualquer instrumento, ouve cantar no próprio cérebro toda uma orquestra.

A jovem não tinha a garridice da dor; saindo à praça, lançou um assobio de repetição, e um automóvel que passava, desenhando uma curva hábil, veio parar mesmo junto a si.

Mauro veio abrir.

- Está aqui o teu pai - sussurrou.

- Terei prazer em vê-lo - respondeu ela, calma, entrando.

- Que vieste fazer aqui? - perguntou o pai.

- E tu?

- Falar a teu respeito.

- A pessoa de quem falam interessa-me. Ajoelhou em cima do divã, sentando-se sobre os pés.

- Continuem! - e tirou de uma caixa de lata um punhado filamentoso de tabaco louro, que arrumou no côncavo de uma delgada folha de papel rectangular.

- Terminamos.

- Concluindo?

- Amanhã, proclamas; daqui a quinze dias, casamento. Mélita estendeu o tabaco com dois indicadores, e enrolou,

com um movimento só, entre a coxa e a mão, do joelho ao quadril, o cigarro.

O gr. cav. Virgili ofereceu-lhe um fósforo. Não perdia a sua linha de cavalheiro; continuava a ser o diplomata estilizado que, dez anos antes, tendo surpreendido uma ladra, bela e coberta de jóias, com as mãos em certos documentos secretos, quis pessoalmente fazer-lhe o curativo num arranhão do dedo enquanto esperavam pela polícia.

Para defender o núcleo social da família, a sociedade vai buscar armas até nos mais insuspeitos esconderijos. O pai de Mélita, polígamo, enérgico e combativo, habituado a acalmar ásperos conselhos de administração, e a dominar tumultuosas assembleias de accionistas, o infatigável sobre cujas malas gritavam o nome os mais famosos hotéis do mundo, transformara-se num pobre pai pequeno-burguês, oprimido pelo incubo: "A minha filha é uma mulher perdida."

E a tia, doce e bojuda como um açucareiro, que estudava com auxílio de uma lente as "1000 receitas úteis", e pertencia àquela classe de pessoas que quando encarregam alguém de levar uma carta a entregam aberta, aumentando desse modo o incómodo com o de passar a saliva, a boa tia adquiria de repente os traços dos horrendos chineses lendários que exerceram a pirataria no mar Amarelo.

- A minha filha eu tinha destinado um dote de... - e pronunciou uma cifra.

Mauro responde:

- Não sei que fazer dele.

- Porém resolvi dar-lhe... - e dobrou a cifra.

- Já declarei que não quero dinheiro.

- Contudo, terá de sustentar sua mulher.

- Nem penso nisso.

- Tem o dever de pensar.

- Pensaria, se a tivesse pedido; uma vez que ma impuseram...

- Justamente por isso é que lhe oferecemos os meios de prover com largueza a todas as despesas.

- E se eu, depois da cerimónia matrimonial, não me ocupar mais de minha mulher) e a abandonar à saída da preteria?

- O caso é previsto pela lei. Mas o senhor não fará isso, O pai pegou nas luvas.

- Vamos, Iluska.

- Eu fico.

- Tu vens.

- Fico. Não é o meu noivo? Que receias?

- É inútil dizer-te que é que receio.

- É inútil dizê-lo porque o que receias já aconteceu.

- Embora! Vem comigo.

- Podes insistir três horas, que não conseguirás nada. Farás melhor figura indo-te três horas antes.

O gr. cav. Virgili enfiou as luvas de quatro onças, alisando os cabelos rarefeitos, antes de cobri-los com o chapéu.

- É verdade, Mauro, que já não me amas?

Fez uma pequena pausa e acariciou-o com os dedos frescos que cheiravam a jasmim e tabaco. O quarto estava mergulhado em noite. Ficaram calados. No aquário, multiplicava-se o raio de um lampião.

Recostou a cabeça no ombro de Mauro, roçando-lhe o rosto com os cabelos, e perguntando-lhe com uma entonação nostálgica de canção cigana, onde teria ficado o amor.

- Junto de um pequeno lago alpino, verde como uma limonada, que dava desejos de chupá-la, por um canudinho de palha? - cantarolou, acariciante. E recordou uma moita amarela de arnica que lhe servira de travesseiro; e a borboleta celeste, pequeno triângulo de esmalte, que pousara no livro do poeta morto demasiado jovem; e o dossel azul debaixo do qual os seus corpos se uniram numa superterrena pureza; e a frágil cabana de caça batida pela saraiva e transpassada pelos relâmpagos, em que ele a beijara, pálida de susto.

Mauro calava, segurando-a nos braços. Mas via, à distância, outra Mélita, aquela que só lhe dera amor, aquela que entre dois espelhos conjugados raspava com a navalha a nuca à la victime, vestida de um revelador pijama de crepe com dragões vermelhos e crisântemos amarelos, em que sentira palpitar pela primeira vez o seu seio morno de adolescente ébria de distâncias e estirarem-se em arco os seus flancos nervosos de cigana loira. Aquela que ele sentia agora entre os braços era apenas uma grosseira contrafacção da outra.

- Vai-te, vai-te! Não te amo mais.

A jovem levantou-se, caminhando como um autómato pelo quarto, e saiu noite fora. Tocando numa das têmporas que estalavam, sentiu escorregar-lhe até à palma da mão uma gota que lhe ficara presa entre os cabelos.

Era uma lágrima do seu amante.

com aquela gota de pranto na palma, pôs-se a caminhar, ao acaso, em delírio, na sombra, como uma figura funerária que levasse na mão uma chama fragílima.

- O senhor Mauro Mauri, por sua livre e espontânea vontade, recebe como esposa a senhora Iluska Virgili?

- com muito prazer! - respondeu.

- Deve responder "sim" - corrigiu o funcionário. E repetiu a fórmula.

- Sim.

- A senhora Iluska Virgili, por sua livre e espontânea vontade, recebe como esposo o senhor Mauro Mauri?

Ela ficou calada.

O funcionário repetiu a pergunta.

- Mas, sim! - deixou escapar.

- Responda simplesmente "sim".

- Sim.

- De acordo com a vontade, perante mim... etc.! - murmurava o juiz; e, enquanto os nubentes assinavam a acta, lançou do alto da sua toga talar um autoritaríssimo Sh! filtrado por entre os dentes ao público barulhento, ao público habitual que arrasta a sua desocupada curiosidade das salas de julgamento do júri à sala das celebrações de casamentos, às antecâmaras das casas de operações e dos dispensários.

Mauro, nos quinze dias precedentes, não tinha visto nenhum dos seus adversários. No dia anterior, o gr. cav, Virgili chamara-o ao telefone.

- O senhor continua irremovível? Não quer que vamos juntos para o foro?

- Não.

- Encontramo-nos lá?

- Sim.

- Às onze.

- Exactas.

- com as suas testemunhas.

- De acordo. bom dia.

- Um momento - acrescentou o gr. cav. Virgili -, A tipografia que imprime as participações encarrega-se de as expedir; já dei uma relação de parentes e amigos; se o senhor quiser fazer o mesmo...

- E qual é a tipografia?

O gr. cav disse um nome e pousou o telefone. Mauro correu à tipografia.

- Já estão impressas! - anunciou-lhe o tipógrafo.

- Expedidas?

- Ainda não. Mas, quem é o senhor?

- O marido. Leu, e depois:

- Assim não serve. Demasiada literatura. Inutilize tudo. E escreveu quatro linhas no reverso de um cartão.

- Imprima isto, e expeça.

No dia do casamento, quatrocentas pessoas recebiam esta participação:

ILUSKA VIRGILI e MAURO MAURI

Casados hoje.

Não se aceitam flores e dispensam-se visitas.

Entre duas alas de vagabundos, Mauro e Mélita desceram as escadarias do foro. Seguia-os aquela noz-vómica da tia e o pai com as duas testemunhas da esposa. Estas eram nada menos que um general reformado e um professor de Universidade, o célebre Mansueto Birri, docente de História do Extremo Oriente; uma verdadeira glória da ciência, conhecido especialmente na Alemanha pelas suas pesquisas relativas à mãe de Gengis-Khan. Todos sabem que este conquistador mongol era considerado filho de uma virgem; e essa injusta fama, esse monstruoso erro histórico, persistira quem sabe até quando, se o Professor Mansueto Birri não tivesse escrito os seus três volumes publicados por Laterza (com prefácio de Benedetto Croce) para desfazer a lenda.

As testemunhas do esposo, dois desocupados apanhados à última hora na praça do foro, tinham-se ido embora.

Quando o cortejo chegou ao fim da escadaria, o solene lacaio, reluzente de peles e de metais, abriu a porta do automóvel. A esposa subiu.

Mauro Mauri fez um profundo cumprimento, atravessou os pórticos e entrou na praça, perdendo-se no meio da multidão.

O Professor Mansueto Birri, testemunha da esposa, ficou petrificado. Entre os costumes dos povos que estudara durante vinte anos, nunca tinha visto a cerimónia nupcial encerrar-se com a fuga do esposo.

- Inaudito! - e puxou pelas duas pontas o negro acento circunflexo dos bigodes merovíngios.

Desceu do automóvel, olhou o relógio de níquel seguro a um cordão de seda preta, cumprimentou a esposa, o pai, a tia, com uma fórmula latina que se apressou a traduzir, e subiu gravemente ao seu quarto andar, exclamando:

- Horribile dictul

E, visto que também quando falava consigo mesmo costumava fazer seguir a tradução, acrescentou:

- Causa horror dizer-se!

Tomou as sátiras de Horácio e afundou-se numa daquelas poltronas que, quando se vêem na cena no princípio do quarto acto, dão a entender que o primeiro actor rebentará.

- Os braços de uma mulher podem ser deliciosos - murmurou -, mas os braços de uma poltrona são menos infiéis.

E pôs-se a ler.

Para ele, habituado a decifrar os indecifráveis autores do Extremo Oriente, a leitura de Horácio, o mais boulevardier dos poetas latinos, era um alívio do espírito, nos quartos de hora de melancolia, como para nós o contemplar as adolescentes em camisa nas páginas ilustradas da Vie Parisienne.

Mauro Mauri nunca mais foi visto. Um dos amigos que foi a casa dele encontrou-o ocupado em polir com pó de esmeril e um pedaço de camurça o casco de uma tartaruga viva.

- Vai poli-la até que esguiche fora a carne?

- Até que esteja brilhante como um pente espanhol - e continuou imperturbável a esfregá-la de momento a momento com o braço estendido, para apreciar melhor o efeito.

- Parece que a operação não lhe desagrada.

- É mulher.

- As mulheres pensam mais na pele do que na alma. E, com efeito, as manchas da consciência tiram-se com mais facilidade que as sardas.

Mauro olhou interrogadoramente para a face dele.

- Essa frase é demasiado bela para ser tua - disse.

- É de um ironista: Mauro Ramperti.

- Parecia-me. Bebe.

- Que é?

Leu, num lado da garrafa prismática:

- Curvoisier, the brandy of Napoleon.

- E os teus peixes?

- Mortos.

- Tua mulher?

- Morta, para mim.

- Por que não apareces no café?

- Morto para todos.

- Que animal!

- Animal hibernante. Sairei no dia em que puder andar pelas ruas seguido por um carrasco obediente às minhas ordens.

- Não virás mais nem à mesa de pocker? O jogo é um grande narcótico.

- É um excitante,

- É um entorpecimento da memória. Tens amante? - Não. Tenho mulheres.

- É a mesma coisa.

- É diferente. As lâminas de barbear e as mulheres troco-as cada vez que as uso. Saio à rua: a primeira que encontro, trago-a para casa, pago-a e mando-a embora.

- Mulheres pagas. Que horror!

- Preconceito! Parece-te diminuir o prestígio do amor porque se pague a mulher? Mas se, em vez de dizer: "Dá-me dez liras e serei tua", te impusesse esta condição: "Compra-me o retrato do rei e pertenço-te", não irias a correr comprar um retrato do rei, no qual ainda está escrito: "Vale dez liras"?

- com esse critério, o furto não é mais do que uma apropriação de fotografias.

- Se vieste aqui para discutir, podes-te ir embora.

- Mas que génio irritável!

- Não te pedi juízos sobre o meu génio.

- Dize de uma vez que me vá.

- Já to disse.

Nem sequer se levantou para acompanhar o amigo. O chilrear monossilábico dos pardais chamou-o à sala contígua, que dava para um jardinzinho. Eram os de sempre; reconheceu-os: cada um tinha o seu nome. Quando ele apareceu, levantaram-se até a altura do primeiro andar, e, depois de rápida evolução, vieram-lhe pousar em torno, debicando, a chilrear, os farelos que ele atirava. Pouco a pouco, foram-se acercando de Mauro, até que Pierrot, o mais inteligente (ou o mais ingénuo?) fez uma volta indecisa ao redor da sua cabeça e veio pousar-lhe na mão.

Das janelas fronteiras, os vizinhos contemplavam o santo de pijama. Uma criada agitou um tapete e os passarinhos foram-se, voando.

Voltou para dentro. Passando pela cozinha, pegou com um par de pinças de prata uma brasa vermelha. Na mesinha mourisca jazia um cachimbo de vidro de Veneza, munido, na base, de uma pequena ampola cheia de fios de algodão. Derramou no algodão algumas gotas de perfume, e descansou o cachimbo. De uma caixa de sândalo tirou algumas folhas, enrolou-as num rectângulo de filigrana de prata, e introduziu tudo no cachimbo, com a brasa.

E aspirou, primeiro em rápidas e depois em longas fumaças, estendido de lado, sacudindo a cabeça, como se sonhasse.

- Que estás a fumar? Escancarou os olhos.

Mélita, em pé, diante dele, numa bruma cinzenta de cheiro pesado, aparecera como uma visão. Alucinado pelo fumo venenoso do meimendro, não foi capaz de precisar se se tratava de uma sombra ou de uma mulher.

- Ópio?

- Não - respondeu sem se mexer. - O ópio é literatura exótica para os rapazes.

- Haschisch?

- Literatura decadente para professoras histéricas.

- Então, que é? - e tentou arrancar-lhe da boca o instrumento de vidro.

- Cachimbo.

E acrescentou, rindo como um doido:

- Simplesmente um cachimbo.

Mélita sentou-se no chão, sobre a pele estendida junto ao divã.

- Tu és como isto - disse ele. - És como o meimendro. Sabes que é o meimendro? Teu irmão, o veterinário coração-de-leão, nunca to explicou? Tu ca como o meimendro: calmante do sistema nervoso, hipnótico excelente para os casos de mania aguda, de paralisia agitante e de delirium tremens; mas, quando se fuma, produz excitação, embriaguez, alucinação, felicidade, e depois o delírio, e após o delírio a morte. É preciso usá-lo segundo as prescrições da farmacopeia. Se eu te houvesse tomado segundo as prescrições da farmacopeia moral, seria hoje feliz. Quis-te tomar de modo diferente. Foi o meu erro!

- Tinha-te escrito - disse Mélita reunindo em baixo de si alguns travesseiros - uma carta, daquelas que a gente não relê. porque se a reler não a expede.

- Espero que a tenhas relido.

- Preferi vir falar contigo.

Pegou-lhe nas mãos, com as suas escaldantes. Certos animais têm uma temperatura superior à nossa: o tigre, quarenta graus. Mélita era ardente.

- Que me querias dizer? - perguntou ele, soltando-se. Ela ergueu-se, deu alguns passos pelo quarto, absorta, e apoiou sobre um móvel a amarga silhueta curvilínea.

- Tu odeias-me, Mauro. Mas eu ainda te amo.

Mauro aspirou uma fumaça esverdeada que gargarejou no canudo de vidro, e soprou-a para o chão. O fumo conservou-se estagnado.

- Não te odeio. És-me indiferente.

- Eu, porém, amo-te, Mauro. Sabes quanto me pesa a minha casa, depois dos últimos acontecimentos. Sempre viajei; agora teria maior liberdade e mais motivos de viajar, para ficar longe dos parentes. E se permaneço aqui é só por estar perto de ti.

- Querias aproximar-te mais?

- Queria - e acocorou-se ao lado dele - ser recebida como se acolhe uma amante, em relação à qual não se tem obrigações, a não ser a de gostar dela.

- Parece-te pouco?

- É pouco. Eu teria o direito de ser recebida aqui dentro como esposa.

- Ah! Pretendes a execução do contrato, ainda que extorquido com ameaças. Não foste educada em vão na escola de um enérgico homem de negócios.

- Não me deixaste acabar. Insultas-me demasiado cedo. Peço para ser recebida algumas vezes como amante. Uma amante que gosta de ti.

A tartaruga do casco polido cintilou como um grande camafeu que caminha. Mauro lançou-lhe um jacto de fumo e soltou uma gargalhada metálica, deixando-se cair, com o cachimbo entre os dentes.

A rapariga calou-se. O fumo do meimendro esparso no aposento produzia-lhe também nela uma espécie de embriaguez lânguida, uma confusão obtundente, uma desordem de pensamentos imprecisos. Sorriu, com aquele seu sorriso feito de dois lábios que se abrem o quanto basta para descobrir a brancura de dois incisivos.

- Tu também! - ordenou Mauro, introduzindo-lhe entre os dentes o canudo de vidro.

Ela aspirou,

- Uma tu, outra eu. Uma tu, outra eu... - e ia passando o cachimbo, alternadamente. da sua boca para a dela e da dela para a sua.

- Sede! - disse ela; e pegou na garrafa prismática de licor.

- És bela! - murmurou Mauro, contemplando-a com os olhos semicerrados. - E inteligente. A inteligência é o único bem que redime a vergonha de ser homem. Amas-me e tens piedade de mim. Na piedade das mulheres há sempre uma pontinha de maledicência, sadismo ou necrofilia. O teu amor extraordinário agrada-me porque me envenena. És como aquelas máquinas engenhosas que num instante extraem raízes quadradas, e parecem brinquedos. Chamam-se calculadoras. És uma bela calculadora e pareces um brinquedo. Mas perdoo-te porque este passeio é belo. O mar cheira a magnólia. No barco, uma sultana deixou cair o seu colar. Não faças estalar os dedos, que isso me dá ânsias. Parece que se vão quebrar. Produzem um ruído de esqueleto perturbado. A sultana vai embarcada. Está pálida. Tem a face de aguarela, como tu. Volta para o harém. Eu também vou aos haréns cooperativos escolher mulheres. Tens a languidez das muçulmanas. Olhos cor de sulfato de cobre, corpo de dançarina do Camboja, e danças no meio de uma festa pirotécnica. Cada girândola é um sol; dispara chuvas de faíscas feitas com os teus cabelos pálidos. Uma grande girândola loira. E um cossaco a cavalo atira o lenço e, inclinando-se para o chão, levanta-o na carreira. És bela, tão bela, Mélita, que não deves envelhecer, não viverás mais de trinta anos, como as leoas e as panteras. Se queres que te mate, matar-te-ei sem dor, num país deslumbrante... Na Terra Santa, um belo hotel: o Hotel Gólgota, ou no Bar do Cireneu Cerimonioso, ou na Taverna do Mau Ladrão.

Abriu os olhos.

- Mélita.

Deu um salto até o meio do quarto; procurou o interruptor da luz eléctrica.

Tinha fugido.

Mauro cambaleou para um lado e para outro e caiu junto à janela. A cabeça enredou-se no king, o instrumento chinês feito de pedras de vários tamanhos pendentes de teares de bambu.

Ao entrar em casa, Mélita encontrou-se com o Professor Mansueto Birri, que saía. com o sobretudo desabotoado e as mãos enterradas nos bolsos do casaco, descia as escadas com relativa segurança; mas, chegando ao fim de cada rampa, explorava o terreno com a ponta do pé, para se certificar de não existir mais um degrau, e punha nessa pesquisa tamanha atenção que Mélita pôde passar-lhe rente sem ser reconhecida.

- Quem mandou essas rosas?

- O Professor Birri - respondeu a criada, que acudira a uma chamada da campainha.

- Leve-as para a sala de jantar.

- São para a senhora.

- Então deite-as fora.

O pai e a tia interrogaram-se em silêncio, com o olhar.

- Ò Professor Birri - começou o pai - veio procurar-nos.

- Encontrei-o na escada. Pisou-me um pé e não me reconheceu. Vê-se que gosta pouco de mim.

- Pois ama-te - respondeu o pai - e veio pedir a tua mão.

- A minha mão? E que uso faria dela? Precisará da minha mão para lhe aplicar os sinapismos?

- Não zombes, Iluska.

- Que é que ele quer?

- Casar contigo.

- Mas já estou casada.

- O teu casamento anula-se.

- De modo que terei contraído matrimónio só para o anular?

- Uma vez que deu mau resultado...

- Mudaria para pior.

- Para melhor.

- Um homem que podia ser meu pai.

- Isso é uma vantagem.

- Que horror! com aquela cara amarrotada que parece permanentemente contraída.

- É um homem de experiência, que compreende as coisas, pisa sempre firme.

- Tive a prova disso na escada.

- Passaria por cima do teu passado.

- Não o conhece.

- Tanto melhor!

- Valente habilidade!

- Não pretenderás viver por muito tempo nas condições actuais: estás casada sem que te possas considerar esposa; tens um marido que não é marido, e vives como uma rapariga solteira na casa paterna.

- Não evoques o quadro da minha infelicidade, porque foste tu que a quiseste.

- Iluska, não te compreendo!

- Só agora descobriste que não me compreendes?

O pai calou-se. Mélita foi atacada por uma crise de riso nervoso.

- Eu, mulher de um professor de... De quê? Línguas mortas? com aqueles bigodes de Nanquim e aquele nariz luminoso como um farol!

- Um farol pode ser útil a uma rapariga que se extraviou.

- Reflecte, Iluska! - implorou a tia. - Ele diz que tem a certeza de te fazer feliz.

- Que presunção! Mas quanta gente conspira contra mim para me dar a felicidade!

Mauro, depois de uma noite passada no tapete, espantou-se de acordar vestido, às onze da manhã, com uma ferida na fronte. Do cachimbo de vidro de Veneza restava apenas um montinho de fragmentos.

Levantou-se com tonturas. Automaticamente despiu-se, tomou um banho frio, envolveu-se no roupão e, pendurando um espelho nos varões da janela, começou a ensaboar o rosto.

Nunca se sentira tão triste. Tudo lhe produzia aborrecimento: a luz, os pardais, o pingar da torneira mal fechada, que marcava as lentas pulsações do Outono. De uma janela fronteira, uma senhora espiava-o.

Ensaboou-se bufando.

A senhora continuava a olhar para ele.

- Agora vou-ta arranjar - resmungou.

Tirou o roupão, atirou-o para longe e voltou, completamente nu, para junto da janela.

"Vais-te arrepender de olhar!", disse consigo.

Efectivamente, a senhora sumiu-se para o interior da casa, voltando pouco depois com uma cadeira e um binóculo.

Depois de se empoar cuidadosamente, pôs um remédio no ferimento e saiu.

Era meio-dia.

O seu aparecimento em casa de Mélita desconcertou a tia.

- Iluska está?

- vou ver.

- Não se incomode. Digo-lhe que está.

- Que queres?

- Que venhas almoçar comigo. Mélita hesitou.

- Não sou teu marido?

- Sim.

- Pois bem, peço-te que venhas almoçar comigo. É demasiado?

- Não.

- Vai-te vestir. Espero-te em baixo.

A tia desfez-se em lágrimas; Donata aspirou sais; o pai empalideceu.

- Impuseram-mo para toda a vida e impressionam-se de eu ir com ele por duas horas?

Mélita e Mauro dirigiram-se vagarosamente à cidade.

- Ontem, Mélita, dei-te um desagradável espectáculo. Precisava do teu perdão.

Ela pendurou-se-lhe ao braço.

O pai de Mélita seguia-os à distância, escondendo-se por trás dos postes e das pessoas.

Pelas suas atitudes pareciam extraordinariamente calmos. Entraram num restaurante que viu o Ressurgimento, hospedou antigos parlamentares e ainda é servido por alguns garçons ao estilo de antanho, daqueles que, quando morria um freguês, comemoravam comovidos o facto e acompanhavam o cadáver à derradeira morada.

O gr. cav. Virgili não entrou; mas de fora, pela fenda das cortinas, observou os dois que se consultavam sobre a lista dos pratos, enquanto um rapaz imberbe e louro (um Cupido de casaca, para servir pares de amantes) derramava em dois cálices, um vinho claro.

- Como vêem não me matou - disse ao voltar a casa, de noite.

- Esperemos que o professor não te haja visto! - augurou a tia.

- Ei-lo! - disse o pai, a um sinal da campainha.

- Boa noite, professor!

Mansueto Birri entrou, cheio de mesuras e solenidade, não sem um certo embaraço de sacerdote em traje leigo, todo flamante nos punhos cilíndricos por onde se escapavam as mangas da camiseta de malha.

O laço (feito) da gravata estava um pouco desarvorado e meio enviesado pela emoção.

A tia ajudou-o a libertar-se da pelica de cão reencarnado em marta.

- Como está. professor?

- Ut fafa trahunt - respondeu; e traduziu: - Como permite o destino.

- Não se queixe do destino! - disse a tia, solícita e sorridente. - Um homem célebre como o senhor!

- Vellem nescire litteras. E, naturalmente, traduziu:

- Que pena não saber escrever. E a senhorita Iluska? (Para mim, é sempre senhorita.) Está bem?

- Está muito bem.

- Posso ter a honra de lhe apresentar os meus respeitos?

- A honra será dela. A tia bateu.

- Não o quero ver.

- Sê razoável.

- Não estou em casa.

- Dissemos que estás.

- Saí.

- Não é verosímil, a esta hora.

- Dize-lhe que fui para o Inferno.

- Não se pode.

- Dize-lhe que vá ele.

O professor ouviu os pormenores de uma repentina enxaqueca de Iluska, minuciosamente descrita pela tia. e puxou os bigodes merovíngios, dizendo uma frase latina que nos guardaremos bem de repetir, para não sermos depois obrigados a traduzi-la.

- Em suma, é preciso escolher, senhor Mauri. - intimou o pai de Mélita tirando as luvas e metendo-as dentro do chapéu. - Ou o senhor consente na anulação do casamento, ou se resolve a receber Iluska em sua casa, com todos os direitos de esposa.

- A anulação do casamento? E porquê, se me obrigaram a casar por força?

- E a obrigação que deve a Iluska?

- Falou disso a ela também?

- Evidentemente.

- Que respondeu?

- Pôs-se a chorar.

- Parece-me estranho. As mulheres empregam as lágrimas para interromper a comunicação nos diálogos embaraçantes. Mas Iluska não recorre a estes expedientes.

- O senhor tem muita estima por Iluska.

- Infinita.

- E por que não a ama?

- Adoro-a.

- Então? Por que não se dispõe a recebê-la em casa? A esquecer?

- Porque quero continuar a amá-la. Porque, se a recebesse em casa como esposa, veria em Iluska a criatura que se entregou sem aparência de cálculos, mas que esperou para fazer os cálculos depois, e encerrou com lucro o seu balanço.

- Acredita, senhor Mauro, na minha palavra de cavalheiro? Juro-lhe que Iluska não fez nada pela realização do seu casamento.

- Pois sim. Estou convencido disso. Agora que Iluska não me pede nada, acredito na sua pureza, como acreditava quando se entregou, sem nada pedir. Mas amanhã, vendo-a em minha casa com direitos de esposa, considerá-la-ia outra vez uma calculadora. As opiniões podem-se rectificar, mas as sensações não!

- Para amar a minha filha, o senhor sente necessidade das situações irregulares.

- Talvez. Se não me tivessem imposto a sua mão, eu mesmo a teria pedido.

- Se conseguíssemos anular o casamento, o senhor viria pedir-me a mão dela?

- Talvez.

- Não acha que é mais simples eliminar estas complicações e esquecer o passado?

- Impossível.

- Então, anulemos o casamento.

- São necessários motivos graves.

- Os advogados sabem inventá-los.

- Mas os juizes não os reconhecem.

- Os médicos confirmam-nos.

- Os médicos não podem confirmar o que não é,

- Pagando, obtém-se tudo. O dinheiro faz ver mais longe do que qualquer instrumento de precisão. A impotência do marido...

- Que bela ideia!

- Desgosta-lhe?

- É-me indiferente. Mas não será verosímil, visto que um mês atrás me acusaram de... De que foi mesmo que me acusaram? Rapto de menor? Estupro?

- É verdade. Pode-se recorrer ao divórcio.

- Será preciso ir ao estrangeiro.

- Uma viagem agradável.

- Pode ser.

- O senhor iria com Iluska, durante três meses, para a Hungria ou para...

- Se ela quisesse...

- Falar-lho-ei. Está disposto a partir?

- No mesmo instante.

- Tem passaporte?

- Em ordem.

- Até à vista.

E ao motorista que, de boné na mão, lhe abria a portinhola, ordenou:

- Biblioteca.

O orientalista Mansueto Birri descansou os óculos sobre o livro e, depois de um momento de incerteza, reconheceu o visitante.

- Consente em se divorciar - anunciou logo o industrial ao erudito. - Dentro de quatro ou cinco meses, poderei conceder-lhe a mão de minha filha.

Um sábio que meditava, penteando a barba com um lápis, ordenou silêncio.

- E como conseguiu? Falou-lhe do meu propósito?

- Não, professor, teria tido o resultado oposto. Para obter, é preciso não acentuar a necessidade, visto que ela valoriza a coisa que interessa à gente. É preciso desvalorizá-la e deixar ao outro a ilusão de que o interesse é dele.

- Certo. Mas que interesse pode ver o outro em separar-se da esposa?

- Sendo a legalidade do casamento o que o impede de amar Iluska, espera que, anulado este, renasça o amor.

- O excitante da ilegalidade. Curioso! Entre todos os estímulos do amor, este ainda não tinha descoberto!

Um estudioso, que preparava a sua tese para a livre docência - "Sobre a influência das fases lunares na reprodução da cauda das lagartixas" - martelou com a unha na mesa. E o Professor Mansueto Birri baixou novamente a voz.

- Mas não haverá perigo de que, realizado o divórcio, o divorciado ame novamente a senhorita Iluska?

- Depois de três meses de permanência no estrangeiro, durante os quais só se encontrarão uma vez em presença do advogado e outra no tribunal, não sentirão um pelo outro mais que indiferença.

- O senhor acredita que eles não se verão mais vezes?

- Tenho a certeza.

- E por mais tempo?

- Estou seguro.

- E em particular?

- Conheço a minha filha.

Mélita, à ideia de partir no Expresso do Oriente, exultou como uma criança. Ao regressar da montanha, quando o inefável Dom Ciccillo Cacace, roedor de unhas e de virtudes, desencadeara a tragédia, ela quisera partir de novo para um país estrangeiro, continuar a vida errante dos últimos anos. Mas o gr. cav. Virgili, irremovível da sua imposição, respondera-lhe simplesmente:

- Não partirás.

Outro pai ter-lhe-ia dito:

- Não partirás para não causar uma grande dor ao teu pai. Ele, porém, sem levantar sequer os olhos de um telegrama

cheio de números, decidiu simplesmente:

- Não partirás, porque não te dou o dinheiro necessário. Agora, finalmente, voltaria para os países onde se fala

outra língua, onde gente de raça diversa dá uma efémera ilusão de novidade.

UMA hora antes da partida, a tia já estava na estação para reservar um assento, mas com os seus quadris de volume avantajado, ocupou dois.

Iluska e Donata chegaram precedidas de uma grande mala, quando já campainhavam os primeiros sinais, e a tia proferiu a única frase que as senhoras dizem quando vêm reservar lugar num veículo.

- Receava que não chegasses a tempo.

No compartimento contíguo, Mauro tirava monótonos harpejos do elástico do chapéu.

Quando as portinholas já se tinham fechado, criando entre os que partem e os que ficam aquele estado de espírito absorto e sorridente de quem não sabe mais o que dizer, um homem vestido de preto e veloz como um escaravelho perseguido, correu ao longo do comboio, parando entre os braços da tia.

- Vês que belas flores te trouxe o professor? - adulou a bondosa tia, fazendo o transbordo dos cravos das mãos do orientalista para as luvas imaculadas de Iluska.

- Não queria que partisse sem a minha homenagem. Iluska fez a mais disparatada das suas reverências, e o comboio partiu.

- Escreve! - ansiou a tia.

- Telegrafa! - chorou Donata.

- Todos os dias-aperfeiçoou o professor. - Nutta dies sine lima.

E provavelmente terá explicado também o significado dessas palavras latinas, mas o ruído do comboio cobriu-lhe a voz. As duas mulheres sacudiram os lenços e o professor afastou-se em primeiro lugar, evidentemente comovido. Mélita viu apenas um homem de negro um pouco curvo apressar-se em direcção à saída, com um pedacinho de flanela branca que, escapando-lhe de uma perna da calça, caía estouvadamente sobre o sapato de vitela.

Agarrada repentinamente pela cintura por duas mãos, dobrou a cabeça para trás, oferecendo o pescoço nu, branquejante entre os pêlos de castor, aos lábios de Mauro.

Enquanto isso, a tia Donata e o professor lamentavam a pobre Iluska, tão desventurada ao ponto de ter que partir em companhia daquele monstro; a pobre Iluska, que antes de realizar o seu sonho de amor por Mansueto Birri, o insigne orientalista, tinha de despedaçar, com o divórcio, a pesada cadeia.

- Que viagem pavorosa, para Iluska! - lamentou Donata. Serão Três meses de martírio - dramatizou a tia.

O comboio deslizava através da campanha hibernal. - Adoro a neve - sorria Mélita, contemplando a planície velada. - Não posso suportar aquela cortesã da Primavera.

- Será uma viagem deliciosa!

- A nossa verdadeira viagem de núpcias.

- Três meses de amor, Mélita.

Do homem agaloado que convidava para a carruagem-restaurante, tomou dois bilhetes:

- Seis e sete, treze: dá sorte.

Mélita lançou fora os cravos do professor, e nesse instante um sopro de ar frio, que entrou pela abertura, revolveu-lhe os loiros cabelos, fazendo-os exalar um cheiro penetrante de juventude.

Na casa de Iluska, houve outra vez serenidade. Donata pintou novas marinhas com uma vírgula branca velejando na linha do horizonte, indecisa sobre que ordem monástica a escolher para se tornar esposa do Senhor, depois que abortou o seu sonho de se fazer esposa de Don Ciccillo.

A tia esqueceu a lente entre as páginas das 7000 Receitas Úteis e ocupou-se do enxoval de Iluska, mobilizando as irmãs dos mais diversos conventos para a confecção das camisas para a noite e para o dia, para o bordado das calças com elástico equatorial, e para o embainhamento dos lençóis entre os quais o ilustre orientalista havia de dar a sua modesta contribuição para a conservação da espécie.

Intermediários e agências encarregaram-se da busca de um ninho: cartas, telefonemas, propostas, contrapropostas. Quantas operações para o único fim de fazer encaixarem-se dois umbigos de sexo diferente! Queriam uma casa austera, silenciosa, de preferência antiga, visto que o Professor Mansueto Birri detestava as construções modernas onde todos os rumores da habitação se condensam no quarto da gente, e onde não se pode espirrar sem que a pianista do andar superior interrompa os seus mortificantes exercícios de independências e de velocidade, para desejar "saúde"!

Depois de longas e pacientes pesquisas, encontrou-se um apartamento um pouco sombrio, taciturno até, numa casa velha, mas que um tapeceiro de bom gosto assumiu o compromisso de tornar garrido.

- Que surpresa vai ter Iluska - exclamava a tia - quando descer do comboio e se vir logo transportada para a sua casa!

O professor sorria por baixo dos truculentos bigodes merovíngios.

Todas as noites vinha à casa dos Virgili para ler as cartas de Iluska, admirar com os óculos cavalgados na extremidade da cartilagem nasal os seus bilhetes-postais ilustrados, e trocar ideias sobre alguns pormenores da habitação.

- O que não consigo explicar - disse uma noite o professor - é o procedimento do marido depois da cerimónia nupcial. O abandono repentino e definitivo.

- Um louco! - explicou a tia.

- Mas foi ele que quis o casamento?

- Por certo! Pediu de joelhos a mão de Iluska!

- Estranho! - meditou o professor, remexendo os bigodes. - Fala-se de abandonos ocorridos um minuto antes da cerimónia, mas não um minuto depois. Ou então, na noite seguinte ao casamento, quando o marido não encontrou pura a esposa. Mas logo depois, não!

A honestíssima tia convenceu-o, se bem que não fosse preciso, de que Iluska era pura como a água pluvial; e se não fosse pura não se teriam atrevido a oferecer-lha. Aliás, ele próprio, testemunha do casamento, tinha visto que entre os cônjuges não houvera sequer o contacto de um beijo.

Iluska não prometera casar com o professor, mas o pai, confiando na política do facto consumado, tinha a certeza de que diante do enxoval pronto, da casa preparada, da notícia oficial, ela não ousaria dizer que não.

Passou o Inverno. As cartas de Iluska anunciavam iminente a sentença de divórcio.

- Chegará amanhã à noite! - exultou Donata.

- Depois de quatro meses e meio de residência em país estrangeiro - gemeu a tia - em contacto com aquele indivíduo nefasto, quem sabe como deve estar contente por se libertar!

- É uma verdadeira viagem de libertação!

- Pensar que aquele tipo nunca mais a verá! Naquele instante, numa carruagem-cama do Expresso do

Oriente, em viagem de regresso, os dois amantes estreitavam-se perdidamente num abraço desesperado, como se estreitam os pares suicidas no momento de se lançarem enlaçados aos líquidos mistérios da morte.

A monótona paisagem primaveril corria veloz através das cortinas violetas da janela, acelerando o ritmo das suas recordações: cafés com orquestras causticantes e ensurdecedoras como bebidas difíceis - teatros luminosos; ruas desalinhadas; hotéis onde se dança e onde se joga, imponentes e faustosos como convém ao grande quartel-general do adultério e da galantaria. Reviam - abraçados naquela fugitiva cela de veludo - todos os recantos onde se tinha desenrolado o seu amor; dramas representados em grandes teatros por belas actrizes, e que todavia os deixavam indiferentes, pois o seu amor constituía para eles todo o mundo. Quantas vezes os espectadores próximos tinham secamente convidado a calar, enquanto eles, esquecidos do lugar, trocavam expressões cheias de ternura! E quantas vezes, no meio do espectáculo, haviam repentinamente abandonado a sala, para se perderem na escuridão das ruas desertas, para se sentirem mais perto, para estarem mais sós!

- Quatro meses de sonho! - recordava Mélita, toda reclinada sobre ele, vendo com olhos extintos fugirem as árvores floridas. - Quatro meses de amor!

E apoiou a fronte sobre a face dele. O amor morria com o reflorir das amoreiras e dos pessegueiros.

Mauro acariciava-lhe os cabelos e beijava-lhe a boca perfumada de fruto.

- Agora poderei morrer sem pesar - dizia ela -, pois experimentei tudo que a vida pode dar. Nestes quatro meses de amor, vivi como em quarenta anos, pois foram uma condensação de doçura. Morrer! Parece-me que vou ao encontro da morte.

Mauro fechou-lhe a boca.

- E és tu, Mauro, que assim quer. Agora que somos livres, divorciados, desapareceu o fantasma do "tráfico matrimonia!" para nos separar, por que não unirmo-nos para sempre? Fazes questão da liberdade, da ilegalidade, da rebelião, da corrente contrária. Para que me ames, é necessário que eu não te pertença de direito. Pois bem, agora somos novamente irregulares. Estamos novamente em atrito com todos. Queres que nos unamos para sempre, como amantes?

Ele sacudiu a cabeça:

- Todos os dias me fazes esta pergunta e todos os dias te tenho respondido as mesmas palavras. Felizes como nos últimos tempos, não poderemos ser nunca mais. Eu seria um mau marido. Os meus antepassados transmitiram-me funesta herança; a loucura e o suicídio. Dos meus consanguíneos, só aqueles que tiveram uma vida tranquila, serena, sem contraste e sem lutas, ficaram indemnes. Mas os outros... Meu avô suicidou-se com um tiro de revólver, num acesso de neurastenia; meu tio enforcou-se numa árvore, depois de ter sofrido, durante anos, de uma terrível psicose. Na minha cabeça, há meses que se vem processando uma desagregação. Não pude ficar tranquilo, como os médicos me aconselham; os médicos prescrevem a tranquilidade, o repouso e a calma, como se cada um pudesse comprar esses medicamentos, em frascos, na farmácia. No Outono passado, ao tempo do nosso casamento, surpreendi-me a cometer extravagâncias, a dizer coisas insensatas. Por maior felicidade que me pudesse dar em nossa vida por vir, eu seria sempre atormentado pela ideia fixa da passada felicidade; recordaria constantemente estes quatro meses à margem do Danúbio, que nunca mais voltam, o nosso Outono turinês, antes da catástrofe, aqueles longos dias no alto da montanha, que jamais poderemos repetir, naquele silêncio em que eu não ouvia outra voz além da tua.

- Criança!

- Criança, eu? Existem crianças que nunca sorriram e homens que nunca foram crianças. Pertenço a esta categoria.

Resignemo-nos, Mélita, ao nosso limitado tesouro de ternura. É possível que, como dizes, em quatro meses tenhamos condensado toda uma vida!

Calaram-se. E reviram o Danúbio verde, sobre que deslizavam grandes blocos de gelo: o Danúbio toldado de lendas antigas entre os palácios modernos da metrópole cinzenta; a chegada deles, numa tarde de Inverno, à capital desconhecida; o ómnibus que os conduzia para o hotel abria caminho, penosamente, na infinita neve azul, dourada a intervalos por grandes lampiões acesos muito antes do crepúsculo; aos seus olhos fatigados por três dias de viagem, o desfilar das montras pareceu como que um mundo de conto de fadas, povoado de uma flora e de uma fauna de Natal, de polichinelos graciosos (brinquedos para crianças), de belos tecidos, ricas pelicas, jóias fascinantes (brinquedos para mulheres) e damas elegantes, ocupadas de loja em loja, mulheres belas (brinquedos para homens) como são belas as mulheres que se vê quando se chega às cidades desconhecidas.

Mélita, aconchegada a ele, introduziu-lhe a mão por debaixo da blusa, procurando o coração.

Calavam-se, mas os seus olhos fechados reviam o quarto quente do hotel, situado lá em cima, no último andar, donde os transeuntes e os veículos pareciam minúsculos e vagarosos como os actores e cenários do teatro de polichinelos. Os trenós leves, puxados por cavalos, punham uma nota nórdica nas ruas brancas flanqueadas de cafés cheios de luz, cada um dos quais deixava filtrar pela porta giratória um som peculiarmente seu: escoceses de joelhos nus assobiando Tipperary; um cossaco giratório ao infinito sobre um rolar de tímpanos, com grande agitação do fole torácico; uma andaluza que bailava com um cravo de pano entre os dentes, ao som do último fandango espanhol de um compositor húngaro.

As raras paradas do directíssimo, os dois amantes repetiam com angústia o nome anunciado ao longo do comboio, e fechavam os olhos, apertando-se com mais força.

Corriam em direcção ao céu azul da Itália; a colina turinesca devia estar toda uma sinfonia de delicadas flores róseas, como os quartos que certos suicidas ornam de flores para descerem no sono aos jardins perfumados da morte.

- Sofres, Mélita?

- Sente como as minhas mãos ardem. Tenho aqui, no cérebro, tantos pensamentos confusos, ideias desconexas, recordações desordenadas! Sinto-me como há quinze dias, quando o cirurgião me fez adormecer, com éter; aquele bom doutor Wolf, que ria com todos os dentes blindados de ouro...

Enredavam-se-lhe na memória os factos salientes e os pormenores insignificantes da sua temporada de amor. As longas noites cheias de volúpia; os despertares tarde alta; o franzir de testa do maitre, tipo de marechal de campo, que contraía os cenhos escuros vendo-os descer à sala das refeições às três da tarde ou às dez da noite, com aquela incontinência infantil que lhes provinha dos relógios parados; para eles o tempo não era medido pelas horas, nem dividido por dias e noites, mas desdobrava-se com o ritmo febril da paixão toda ímpetos de sensualidade, pausas de repouso, zonas claras de ternura; amavam-se quando os outros iam para a mesa: deitavam-se à hora em que todos iam passear; muitas vezes faziam servir as refeições na cama, e quando a camareira anunciava "oito horas", tinha de acrescentar logo se da noite ou da manhã.

O ponto de contacto das suas bocas era o centro de todo o universo, um universo sem leis, sem fiscalização, sem parentes. Voltava a serenidade gozada no alto da montanha, quando não pensavam no dia seguinte, quando nenhum homem de vestes talares tinha ordenado a ela que o seguisse, e a ele que a protegesse e mantivesse, e subministrasse o que prescreve o Código Civil. Desde o dia em que uma força estranha ao seu amor os tinha arrastado, algemados, ante a lei, a repulsão separara-os; e quando de novo outros tomaram empenho em separá-los, o seu amor ressurgira, e a viagem de divórcio convertera-se numa viagem de núpcias. Nenhuma lua-de-mel foi mais apaixonada do que aquela deliciosa viagem realizada com o único fim de destruir um vínculo.

Beijavam-se nos cafés, nas praças, no vestíbulo do hotel.

- Viram-nos.

- Quem? Se não há ninguém.

- Tens razão. Estamos só nós.

Surpreendidos a beijarem-se numa catedral, no meio de um rescender de incenso, foram expulsos pela indignação cheia de consoantes aspiradas de um sacristão; mas saíram calmos, sorridentes, sem o terror da polícia e sem o pavor do sacrilégio.

Relembravam a navegação de Budapeste a Viena, no barco a vapor danubianc engalanado de lâmpadas eléctricas como um carrocel, e as viagens de Viena a Praga, de Praga a Linz, enquanto advogados e juizes se ocupavam do seu divórcio; viagens por planuras branquíssimas, em comboios deliciosamente aquecidos, que levavam nos flancos festões de gelo coagulado de neve,

A noite de fim de ano, tinham-na passado num tingeltangel vienense, de vestíbulo futurista, onde as mulheres tiravam as enormes polainas de pêlo e entravam na sala sapateando, no ritmo da música de Kalman e de Stols. Por entre as mesas, o primeiro violino dava voltas, para inocular nas mulheres a sua música subcutânea, e nas pausas atirava o arco para o alto, e apanhava-o com a destreza de um clown, continuando a tocar; um faquir hindu vendia pedaços de uma corda de enforcado. Mélita comprara um; estava demasiado novo para já ter servido, a menos que o suicida fosse um higienista. Uma vendedora de doces passava, em clâmide grega e sandálias de antílope, com a solenidade hierática de uma portadora de oferendas, gritando:

- Backerei! Backerei!

Mauro perguntara a Mélita se Backerei era algum deus do Walhalla, a quem a sacerdotisa consagrava os biscoitos e as maçãs.

- Tolo, quer dizer doces; significa petií-fours.

E desde aquela noite Backerei ficou sendo sinónimo de gulodices, mas não daquelas que se comem. Quantas vezes, desde então, ela, estirando-se lânguida como uma gata e esfregando-se no corpo dele, se oferecera voluptuosamente, implorando-lhe:

- Backerei!

Ao romper da meia-noite, as luzes tinham-se apagado por um instante, entre estalar de beijos e explosões de risos. Quando se reacendeu a luz, um varredor de ruas, acolhido com aterrorizada hilaridade, pôs-se a distribuir pelas mesas os galhos secos de uma das suas vassouras. Um senhor checo, num linguajar cheio de dj e de tz, pediu a Mauro licença para bater com o próprio galho nas costas da sua loira companheira, acrescentando que isso dava sorte.

Sorte. Todas as mulheres ofereceram as costas aos vizinhos enquanto as rolhas do espumante, projectadas contra o tecto, vinham cair sobre os crânios e sobre as mesas.

Sorte para todo o ano! Como Mélita estava triste no meio de tudo aquilo! Nada conseguia fazê-la rir; nem as graças dos palhaços boémios que, num palco central, tiravam uns após outros quarenta coletes; nem o clown sérvio que deixava arrancar um dente grande como uma cartola, de cuja raiz cariada se escapavam vários ratinhos brancos. Mélita sabia que o ano nascente só lhe reservava amarguras.

As faixas das estrelas errantes entrecruzavam-se com os festões de acanto e de bolotas penduradas das lâmpadas, e a cuja luz as espirituais vienenses de dentes de ouro mastigavam os weidner-wiirstel fumegantes, temperando-os com uma mostarda que faria espirrar as estátuas, enquanto a orquestra imitava a voz solene do harmónio.

Mélita não ria, nem mesmo quando alguma cocotóide meio ébria cantava ridi pagliaccio em húngaro, com a boca cheia de espinafres, nem quando o chefe dos garçons - o ober-, solene como um ministro, passou com uma enorme seringa atirando para o tecto longos jactos de lysoform, que tornava a cair num pulvisculo irisado sobre as salsichas fumegantes e sobre os copos de cerveja.

O ano que entrava prometia dias melhores a todos; a Mélita não. Mélita era um doente que os bons agouros não fazem sorrir, porque tem consciência da inevitável progressão do seu mal. Um turco vendedor de tapetes que dizia falar todas as línguas e ter viajado todo o Mundo, imobilizara-se diante da mesa deles, a jurar pelos parentes próximos e remotos, ascendentes, descendentes, consanguíneos, afins e colaterais, que dois esposos como Mauro e Mélita precisavam de os comprar.

- Não somos casados - tinha proclamado Mélita em italiano.

Então o turco poliglota, tomado de súbito desejo da italiana loira, oferecera-lhe a própria mercadoria em troca da sua:

- Ti dançar? Ti cantar? Ti gustar muide, Ahmed Ali Kamel. Se ti dormir gom Ahmed Ali Kamel ti dar dabede durca mais bonide das suas dabede durca.

E apontando para Mauro: "

- Ti non dormir gom ausdríago: ausdríago é mabulbézeL.

- Mabulbézel?

- Esdúbido! - traduziu o turco.

E como Mélita não quisesse trair o "ausdríaco" Mauro para satisfazer o turco, o turco fora-se blasfemando como um cristão. Durante alguns minutos o rumoroso tingeltanget silenciara, para gozar a maldição do mercador decepcionado em amor, uma daquelas maldições pitorescas e volumosas dos muçulmanos, que se estendem aos antepassados e aos pósteros, sem esquecer os ramos colaterais, os pais putativos, os filhos ilegítimos, o médico da família e os vizinhos mais próximos.

Naquela noite tinham voltado para o hotel mais apaixonados que de costume, e entregaram-se até de madrugada a doces, exaustivos e inexauríveis Backerei.

Mas à fúria de Backerei, uma manhã Mélita sentiu um estranho langor, uma sensação de náusea, e o espelho revelou-lhe uma palidez insólita. Aborreceu o cheiro de pó-de-arroz, e não quis ouvir falar em marmelada de cerejas.

E o bem provido de óculos Doutor Wolf, dos dentes de ouro, sentenciara:

- Sie sind schwanger.

- Tem a certeza?

- Certeza absoluta só se tem no quarto mês, quando é sensível o movimento fetal; contudo, pode-se garantir desde já que as suas náuseas e repugnância pela marmelada de cerejas não se devem precisamente a distúrbios digestivos.

O Doutor Wolf é um tipo de vaudeville: estilizado e escovado como se cada cliente que venha ao consultório contar-lhe os seus males seja uma sua amante no primeiro encontro íntimo, recebe em salõezinhos misteriosos de móveis frívolos, de cortinados discretos, e entre uma e outra lágrima da pecadora desgraçada, oferece-lhe licores delicados, que não têm nenhum parentesco com o vulgaríssimo xarope de quina, que os nossos médicos conseguem de presente dos seus cúmplices farmacêuticos. Se no reino de Cítera o democrático rei Cupido quisesse criar o serviço sanitário, ninguém seria mais recomendável que o Doutor Volf, o qual (guardem o endereço) mora em Budapeste, na Rua Qualquer, o Grande. Trata de qualquer enfermidade resultante do amor, de imprudências no amor, de excessos em amor, de infortúnios em amor; a sua clientela compreende da menina inexperiente que, tendo querido chegar demasiado cedo ao amor, expia a sua pressa com um atraso inquietante, até o magistrado em disponibilidade, que apreciaria mais a sua vida ociosa se não fosse obrigado a vivê-la sozinho. É desnecessário acrescentar que o Doutor Wolf foi o primeiro que aplicou na capital da Hungria o processo da desmacaquização dos macacos jovens para a macaquização dos homens velhos. Muitas senhoras honestíssimas que, não querendo chegar ao casamento ignorantes, se tinham previamente exercitado na arte de parir, puderam, por obra do Doutor Wolf, caprichoso remendão de virtudes rasgadas, oferecer ao marido o mais impenetrável mistério de hermética pureza. A sua clientela que pecou por excesso de carinho, ele fala carinhosamente, em tom confortador, e não faz a menos dolorosa das operações sem ter insensibilizado a região. Em certos casos, como o de Mélita, cuja sensibilidade dolorífica era excepcional, recorre também à anestesia geral. Opera com o auxílio de um barbudo assistente, que lhe serve também de consolador da clientela macha. Todos sabem (e os que não o sabem estão ainda em tempo de fazer a experiência) que quando o especialista diz:

- Ah! Meu caro, você tem...

- Eu mato-me! - exclama o cliente, e acrescenta:

- Sou um homem arruinado, um homem acabado - e prossegue nesse tom, segundo as reservas do seu vocabulário.

Então o médico precisa de lhe dirigir um discurso que dura de meia hora a quarenta minutos, para lhe acalmar o desespero e lhe infundir coragem. Mas o Doutor Wolf, que se gaba de uma clientela demasiado numerosa para poder perder o seu tempo à razão de meia hora por vez, numa franciscana tarefa de verboso conforto, confia ao seu assistente de barba branca, figura ascética de capelão de cárceres, o encargo do discursozinho consolador.

- Rudolf - diz-lhe -, salão verde,

E Rudolf encontra no salão verde um cavalheiro mergulhado na mais profunda das poltronas.

- Não se desespere, meu caro senhor - exclama o velho Rudolf, coçando a cândida barba. - A sua é uma doença fácil de se curar e tão difundida que até os bacilos já perderam grande parte da sua primitiva virulência. Só em Budapeste encontram-se 100.000 homens nas suas condições, e estão muito bem, tratam dos seus negócios, têm família sã, e, como o senhor, estavam dispostos a matar-se, mas depois abstiveram-se e, se o tivessem feito, estariam a estas horas irremediavelmente arrependidos. Dentro de dois dias, a sua úlcera desaparecerá, e depois da terceira injecção o mal já não será contagioso. Mas a cura é demorada e deve ser feita com escrupulosa diligência; a maior parte das aortites, paralisias progressivas, gomas no fígado, encefalites luéticas, tabes dorsais, clemências paralíticas, mortes repentinas, formam-na aqueles que, depois de quinze dias de injecções, julgando-se curados, interrompem a cura. Eu mesmo, que conto setenta e oito anos, tive a sua doença, mas, graças a tratamento assíduo, estou bom, e os meus doze filhos são pais, por sua vez, de filhos robustos...

E continua neste tom, até que um toque de campainha do Doutor Wolf o chame:

- Rudolf, salão vermelho!

E no salão vermelho encontra um cliente que boceja.

- Não se desespere, a sua é uma doença fácil de se curar, meu caro senhor, e tão difundida que os espiroquetas perderam a sua virulência. Só em Budapeste...

Mauro suplicara-lhe de mãos juntas que desistisse.

- Não vás ao médico, Mélita!

- Deixar que venha ao mundo? E quem cuidaria dele?

- Eu.

- Tirar um filho a sua mãe? É um crime. E eu não posso conservá-lo comigo. Meu pai expulsar-me-ia. Meu pai tem a tremenda força do dinheiro.

- Guardemo-lo nós.

- Nós? Depois do tráfico do casamento, acusar-me-ias do da maternidade.

- Não, querida! Acabemos com essas estúpidas, formalidades do divórcio, e amemo-nos do modo mais pacífico, mais leal...

- Mais estúpido. Não poderias continuar a amar-me. É preciso que o nosso filho não nasça.

Mauro olhou para ela com grande comiseração.

- Criança, tu aburguesas-te! Desces ao nível de uma mulher qualquer. Dispões-te a abortar, como fazem todas as outras. O teu amor à realidade, à pureza sem preconceitos, acaba na mesa de operações de um obstetra.

- Meu amigo! O filho não é abstracção, mas realidade. Uma realidade que sou obrigada a eliminar para não o deixar morrer de fome. Se nascesse, meu pai não nos daria com que viver, nem a mim nem a ele. Pôr-nos-ia a ambos na rua. Mandou-me para aqui a fim de eu me divorciar, não para ter filhos. Voltarei para casa com o nome de senhora Virgili. E uma senhora de boa família conservadora não pode parir filhos. Deve matá-los antes de nascerem. É a sociedade que o quer; é a moral que o ordena. É preciso suprimir-se uma vida para que a moral seja salva!

Vestida com um claro vestido primaveril, dirigiu-se sozinha ao gabinete do Doutor Wolf, fazendo uma longa volta, a passos lentos, pelo cais cheio de um sol mortiço e de gente contente que se dirigia para os embarcadouros dos barcos-moscas que fazem o transporte de passageiros entre Peste e Buda. O Danúbio estava azul como o mar, como o Danúbio azul da sinfonia de Strauss. Numa confeitaria, comprou um cartucho de fondants, e foi triturando-os entre os dentes pequenos que subiu as escadas de mármore do Doutor Wolf.

- Sou sensível à dor. Não me faça sofrer.

O médico apoiou-lhe o estetoscópio por baixo do seio esquerdo.

- Coração normal.

- Suportarei a narcose?

- Sem dúvida. Mas creia que a narcose geral é excessiva para uma operação como esta.

- Repito-lhe, senhor doutor, que os meus nervos centuplicam as sensações, e o que nos outros é um prurido, em mim é dor; o que para os outros é dor, em mim é tortura.

- Está bem.

Quando teve no rosto a máscara de Juillard, a princípio experimentou uma sensação de frescura, de frio, de gelo misturado com o amargo do éter que se lhe volatilizava pelas narinas. As palavras do médico e do assistente deformavam-se, enfraquecendo-se, apagando-se à distância. Tudo semelhante à embriaguez, que lhe fizera sentir num bar da Cannebière o cocktail ether de um licorista americano. E os rumores faziam-se fracos e longínquos, tão longínquos que ela se sentia elevar no silêncio, para o alto, para o alto, onde não há mais nada que se mova. nada que produza som. Uma sensação de aniquilamento. Procurou falar; começou uma frase, mas uma gota mais forte trancou-a por metade. Então, pareceu-lhe que descia do alto, a grandes pulos, e que via virem-lhe ao encontro paisagens intumescidas de cor e estandartes de luz, girando em vastas espirais, e em contínua transformação; pessoas e ambientes das Mil e Uma Noites, condensados no curso de poucos minutos no cérebro de um febricitante. Os ferros, tinindo nas bacias de vidro, repetiam a canção em voga de Franz Lehar.

- Mas, senhor doutor, que espera? Quando começa a operação?

- Está terminada, menina.

Abrindo os olhos, experimentou uma estranha perturbação visual. O médico falava-lhe, mas não o via. Via somente, de encontro ao grande rectângulo luminoso da janela de vidros esmerilhados, um microscópio amarelo ajoelhado sobre um espelho redondo.

Algumas horas mais tarde, acordando num pequeno quarto branco da casa de operações, os seus olhos encontraram os olhos húmidos de Mauro, e no dia seguinte voltou com ele para o hotel, para aquele quarto altíssimo, donde a ilha de Santa Margarida parecia um compacto ramo de flores.

Mas desde então entrara-lhe no sangue uma tristeza opressiva como uma doença.

- Não terei mais filhos - disse um dia. - O meu filho era aquele. O meu único filho era o teu!

E depois murmurou algumas palavras confusas que Mauro não entendeu bem. Parecia-lhe dizer: "Fui eu que o matei."

Veio a sentença do divórcio. Mauro queria permanecer ainda alguns dias na Hungria, mas a menina loira respondeu secamente:

- Já telegrafei para casa que chego quinta-feira.

E agora, encerrada na cabina lilás, em viagem de regresso, atravessaram uma planície toda florida de um róseo primaveril, e, enlaçados como dois suicidas, repetiam trepidando os nomes das estações.

No corredor da carruagem-cama uma coreográfica ama esforçava-se por distrair um menino melancólico, cantando-lhe uma cantiga mais melancólica do que o menino, e na qual se falava com insistência em morangos.

- Os morangos de São João - explicou Mélita. - É uma delicada lenda espalhada em muitos países da Europa. No dia de São João, Nossa Senhora reúne todas as crianças que moram no Paraíso, e por encantadores caminhos floridos de lírios, guia-os até aos seus jardins, onde lhes oferece os mais belos morangos dos canteiros celestes.

- Gracioso!

- E as mães enlutadas, as mães que têm um filho no Paraíso, no dia de São João abstêm-se de morangos, por temor de que Nossa Senhora diga ao seu pequeno: "Não sobraram morangos para ti, pobrezinho, porque na terra tua mãe comeu a tua parte."

Mélita olhou através das cortinas para o menino melancólico.

- Eu também tenho um filho no Paraíso.

O comboio parou. Entraram os funcionários do fisco, que foram metendo as garras brutais na delicada roupa branca das maletas.

E finalmente o último trecho da viagem terminou. Parecia que acompanhavam um ao outro até a beira de um mar onde um tivesse de embarcar para uma viagem sem regresso. Apertavam-se as mãos, numa ternura silenciosa, como através das grades se despedem, pela última vez, a que fica a chorar e o que vai para longe cumprir longuíssima pena. Duas palavras, duas pequeníssimas palavras não pronunciadas devoram-nos interiormente; duas palavrinhas pequenas que exprimem uma coisa vasta e tremenda - o fim dilacerado pelo pesar:

- Nunca mais!

Talvez tivessem recordado, os dois, naquele instante supremo, o pequeno lago alpino, coroado de moitas de arnica amarela. "Lá em cima, outra vez irão outros amantes, e repetirão os nossos gestos; e os falcões evolucionarão sobre as suas cabeças, como evolucionaram sobre o nosso amor. Mas nós não nos veremos nunca mais!"

- Nunca mais!

Desceram. Afastaram-se chorando, e a multidão separou-os.

ILUSKA fez uma leve tentativa de rebelião.

- Casar com aquele homem que fala latim? Parece-me como dormir com um breviário!

- Que hás-de fazer sozinha pelo mundo? Tens necessidade de um homem que te guie.

Um dia recebeu uma longa carta de felicitações e votos, de uma senhora amiga da família. Outro dia, um ramo de flores, de uma prima. Um parente remoto, encontrado por acaso, perguntou-lhe para quando estava fixado o casamento.

- A lúgubre cerimónia? - perguntou ela. - Não sei.

A tia, Donata, o professor, traziam para casa grandes pacotes, preocupavam-se com os documentos, corriam ao cartório, marcavam datas.

- Mas quando disse eu que sim? - pergunta Iluska. Saía a dar voltas pela cidade, subia à colina, e voltava

para casa fatigada.

Uma manhã encontrou-se diante da casa de Mauro. Chamou. Tornou a chamar.

Passou de novo no dia seguinte.

- Raramente aparece - respondeu a porteira. Escreveu-lhe. Não teve resposta.

Em casa preparavam a exposição do enxoval e expediam convites.

Iluska estava em casa, num dia de Maio cheio de vibrações luminosas em que teria sido agradável ficar junto à janela, só, em silêncio. Mas o aposento foi invadido por senhoras maliciosas, bisbilhoteiras e homens irónicos, que, admirando o enxoval da noiva, comentavam, além da fineza dos tecidos, as dimensões do continente, para tirarem deduções sobre o conteúdo. Num ímpeto de rubor e de indignação, quisera expulsá-los de casa, mas achou mais simples sair, sem cumprimentar ninguém. Ficou o professor, feliz, a engolir os sorrisos de dois ou três colegas que, discutindo sobre os sistemas de encaixes e as ordens de botões, se congratulavam com ele, que ia ter o gosto de admirar todas aquelas coisas galantes em pleno funcionamento.

Na noite da chegada, Iluska fora levada à sua nova casa, para admirar as provas de bom gosto do noivo e apreciar a boa visão da tia. Mas suspirou de alívio quando se viu de novo na casa paterna, na sua cama laqueada de solteira.

Chegaram os presentes.

Estojos de veludo, estojos de seda, estojos de couro, 80 colherinhas, 7 lapiseiras de ouro, com 12 pontas de sobressalente cada uma (total, 84 pontas); 3 serviços de gelados, um óculo de alcance, 12 binóculos de madrepérola, 5 serviços de chá, um quadro de Donata (pequena marinha); um pequeno painel de Donata (marinha), um piano de armário, presente de um tio do noivo. Advertência: nem o noivo nem a noiva conheciam uma nota. Um piano de cauda (outro tio: vide advertência); um serviço para aspargos; um corta-frutas de prata: 3 vitrolas com discos duplos; 8 pinças de prata para açúcar; 46 entre vasinhos, frasquinhos, caixinhas de cristal, porcelana e biscuií.

O noivo ofereceu a Iluska um brilhante meio amarelento, mas belo. O pai, uma bolsa de couro e uma pelica de bisão; a tia, de sociedade com o veterinário (olá, quem é vivo sempre aparece!), uma longa corrente com uma cruz de brilhantes.

De um anónimo veio para a noiva um fiozinho vermelho com um pingo de rubi.

- Quem pode ser?

Pensou-se em todos os amigos, em todos os parentes.

E o enigma ficou sem solução.

Mélita recordava que um dia, na cabana de caça de um grande rei, enquanto ela raspava a nuca à la victime, um jovem a quem amara lhe dissera:

"com efeito, tens um belo pescoço para a guilhotina. Ficar-te-ia bem um fiozinho vermelho com uma gota de rubi gingando na cova da garganta."

E o irmão Sândor? Não escrevera uma palavra, não dera sinais de si.

- Estranho! - admirou-se Donata.

- É tão extravagante! - comentou o veterinário.

- E tu, sabes alguma coisa dele? - perguntou a tia a Iluska.

A tia sabia alguma coisa. Um dia em que estava só em casa, um montanhês de face queimada pelo gelo viera confessar-lhe entre lágrimas que o seu patrão desaparecera numa fenda. Todos os dias este ia lá como quem visita uma sepultura, e, inclinado sobre a sua beira, perscrutava o abismo, à procura do invisível. Procurava, talvez, um corpo de virgem que os gelos havia muitos anos lhe recusavam. Uma tarde não voltou. À beira do abismo, Páprika, a companheira de pêlo vermelho, soltava os seus mais dolorosos ladridos, como a chamá-lo.

- Na manhã desse dia - disse o criado de Sândor - eu voltara da planície, e levara-lhe esta carta.

A tia procurou a lente.

Era uma carta de Iluska, referindo o desespero pelo seu perdido amor, e a vergonha de ser jogada entre os braços daquele ridículo erudito, com uma fórmula que se chama casamento, e que no seu caso era a mais ignóbil das prostituições.

A tia despediu à pressa o mensageiro da morte. Era preciso que se não soubesse de nada, para não perturbar o casamento, para não entristecer a festa.

E veio a festa. Iluska entregou-se passivamente às mãos que a cingiam de véus e de flores de laranjeira. Sorriu aos homens de cartola, subiu ao carro, desceu, assinou, respondeu sim, agradeceu, deu o braço ao esposo, sentou-se à mesa.

O acontecimento produziu ruído. O gr. cav. Virgili, pai da noiva, era bastante conhecido no mundo dos negócios, sendo um daqueles patrióticos industriais que, apesar de terem confiança inabalável nos gloriosos destinos da pátria, puseram a salvo os seus rendimentos nos bancos de Londres e de Nova Iorque.

O nubente pusera o monóculo, para ter um ar mais mundano, mas para o conservar fazia o esforço dos cães que param de pé sobre as patas traseiras.

Era o tipo acabado do braquicéfalo piemontês. O rosto pálido, quadrado, listado verticalmente por duas longas colunas negras e horizontalmente pela gravata preta e os cabelos pretos, parecia uma participação fúnebre.

A gola da casaca, de talhe um pouco antiquado, levava todas as comendas, inclusive o Gafanhoto Verde do lago Titicaca, e o Grande Cinto Herniário de Maomé.

Também as testemunhas do esposo eram distinguidas por alguma condecoração humorística: cavaleiro do papa ou comendador de Montenegro, ou outras que tais honorificências de prestidigitador-ilusionista. Uma das testemunhas era um professor de Grego na Universidade, um daqueles professores camaradas, que apertam a mão da gente com as suas doces mãos em sanduíche, não reprovam ninguém, fazem durar um lápis toda a vida e têm ameaças de apoplexia toda a vez que ouvem elogiar o moderníssimo Ettore Romagnoli, representante na Itália da antiga firma Esquilo, Sófocles A C..

A outra testemunha era um robusto escritor. Chamam-se robustos escritores aqueles que erraram de vocação, por não seguirem a de carregadores.

O banquete nupcial era alecrado por quarenta intestinos.

"Quarenta pessoas", pensou a esposa, "que se empanturram pela minha felicidade."

Entre as pessoas eminentes, primavam um deputado camponês (botinas com elásticos dos lados), um cavaleiro de capa e espada, um oficial do Santo Sepulcro e um célebre médico, professor universitário, especialista em doenças dos cabelos.

Iluska olhava em torno de si como uma prisioneira. Recordava uma frase brutal, mas pitoresca, pronunciada pela actriz amante de Mauro, na montanha:

"Que repugnantes, os homens! Criaturas que nas ruas formam cortejo em torno dos mictórios!"

Mais pálida que de costume em toda aquela ridícula candura floral, sentia-se roçar de todos os lados pelos olhares dos comensais. Sentia a humilhação de se ter exibido ao público durante a cerimónia, o desfile e o almoço. Pensava:

"Vestiram-me deste modo, com a ridícula libré da pureza, para que todos saibam que esta noite esse homem poderá despir-me, palpar a minha carne, derramar no meu corpo os resultados de um tratamento reconstituinte preventivo."

- Fala - segredava-lhe a tia, tocando-a com o cotovelo. Dize alguma coisa ao teu marido.

Ela quisera gritar:

"Dás-me nojo. Todos me dão nojo. Eu também tenho nojo de mim mesma, pois nenhuma meretriz se expõe como eu aos inexpressos motejos desta gentalha que bebeu em homenagem a mim! Do que todos cuidam de ocultar mais, do amor, do acto sexual, do acto que se pratica em segredo, fazem eles assunto de palestras, motivo de votos e congratulações. Nenhum sabe o que acontecerá esta noite na casa de nenhum dos outros. Mas todos sabem o que me acontecerá a mim. Chamem-no casamento, chamem-no himeneu, chamem-no sonho realizado, de qualquer modo é um..."

E vinha-lhe à memória a palavra rigidamente científica que saía da boca blindada de ouro do simpático Doutor Wolf. Ò acto do amor, que é imoral se praticado às escondidas, sem aviso a ninguém, torna-se milagrosamente puro quando se anuncia aos quatro ventos, por carta e por jornais, e se convidam para almoçar quarenta imbecis esfomeados.

As senhoras divertiam-se com as argúcias dos cavalheiros: louvaram-se as virtudes afrodisíacas do camarão.

- Não é verdade.

- É.

- A esposinha vai ter a prova disso.

- Faço votos para que assim seja.

Elogiou-se a pureza da jovem desposada, criticou-se a sua maneira ambulatória através do Mundo, fizeram-se considerações em torno da largura da sua bacia, com, entretanto, algumas reservas sobre o volume do seio.

- Dirige a palavra ao teu marido - solicitava a tia.

Os copeiros enchiam as taças. Insolentes risadas corriam de uma extremidade a outra, as mais subtis obscenidades transmitiam-se de boca em boca, pelas costas das senhoras, mas num sussurro rumoroso, para que lhas ouvissem.

O pai de Iluska combinava uma venda de ferro velho com o vizinho.

- O teu marido está a falar contigo, e tu não respondes - insistiu a tia.

- É a emoção - explicou uma senhora, prática, limpando uma coxa de faisão.

Iluska olhava fixamente para um ponto da toalha, atormentando com as unhas um nó do tecido.

- com licença - disse o copeiro, servindo-a de morangos com rum.

- Morangos.

Olhou para o cardápio. A data: São João.

- Se gostas tanto de morangos! - encorajou-a a tia. Sempre te apeteceram!

Iluska afastou delicadamente o prato, como se o estivesse a oferecer a alguém, e pôs-se a chorar, como nunca tinha chorado na sua vida. Todos se ergueram e rodearam-na.

O esposo deixou cair o monóculo, mas levantou-o e repô-lo à guisa de vitrina no olho.

- Água.

- Sais.

- Um pouco de vinagre.

- Mas, que tem?

- Oh, coitadinha!

- É a emoção.

- Borrifem-lhe a testa.

- As têmporas.

- É preciso gelo.

- Seria bom despertá-la.

- Desmaia.

- Não é nada.

- Parece que vai passar.

- Queres sair?

- Sim.

- Estás melhor.

- Sim. "

- Podes voltar para a mesa?

- Sim.

- É o prazer, não é? !

- Sim, sim. É o prazer.

Jurara renunciar à própria personalidade.

- Far-te-ia bem um pouco de ar! - sentenciou o segundo-tenente veterinário, em uniforme de gala. - Por que não quiseste sair?

- Se saísse não voltaria mais.

- Um trago de champanhe põe tudo em ordem - espevitou-se uma provinciana que devia beber raramente.

A explosão das rolhas foi o sinal dos discursos. Após um breve prelúdio de modéstia obrigatória (primeiro o senhor, professor; não, primeiro o senhor, cavalheiro; não sei falar; a oratória não é o meu género), enquanto todos martelavam nos copos para pedir silêncio, levantou-se um senhor.

Tossezinha seca. Olhar em torno.

- Neste faustoso dia em que nos reunimos em tão grato convívio para festejar o himeneu da ciência (aplausos) com a inocência (comentários), o conúbio do erudito que tudo sabe (aprovações) com a donzela que ainda nada sabe da vida (sorrisos venenosos das senhoras; movimento de pés em baixo da mesa), neste faustoso dia, digo, lamento que as minhas singelas palavras não sejam capazes de exprimir a multidão de sentimentos que se me atropelam no coração. Não saberei proclamar dignamente os méritos daquele que hoje fecha os suados papéis da sua obra diuturna para abrir o livro do seu acariciado sonho de amor (ovações prolongadas), para apanhar a casta flor em cujo corpo se abriga uma alma imaculada (aprovações), a donzela que alia à pulcritude do semblante as mais insignes virtudes do coração e do espírito (vivíssimos aplausos em todos os pratos). Erguendo alto a minha taça a este símbolo de graça, para quem finalmente se acenderam os archotes do dia desejado, não vos será desagradável que eu entoe hinos às peregrinas virtudes que a suave donzela cingida de branco véu oferece ao seu esposo, e das quais não é a última a pureza, que é herança dos sãos princípios da família donde provém, pureza que é o penhor seguro de fidelidade e de amor (sinais de cansaço no auditório). Se não receasse abusar da vossa paciência, contaria uma anedota (mostras de atenção) que revela...

Segue a anedota. Idiota. Desatenção geral. Mas depois o calamitoso orador torna a falar em taça, nos mais profundos recessos, nos precórdios, e almeja uma vida longa, alegrada por infantes, pois só onde há prole pode existir felicidade; e o discurso termina sob a explosão de aplausos unânimes.

Apertos de mãos.

Outro orador: o robusto escritor levanta-se com dominadora solenidade.

- Insistentemente rogado para que diga duas palavras, venço a minha instintiva repulsa, e falarei.

Aprovações. Pausa. Na gesticulação hierofântica, derrama dentro de um punho um pouco de champanhe. Continua, como se procurasse as frases.

- Grave tarefa é, com efeito, usar da palavra no meio de um cenáculo de homens habituados a falar da cátedra, da tribuna parlamentar, do banco dos advogados, habituados, a formular as verdades eternas da ciência e as verdades relativas e contingentes do direito, diante de tribunais, de juizes ou de assembleias de doutos. Direi, pois, repetindo o severo Alobrogo...

E depois do severo Alobroco, foram citados o Bardo da democracia, o Guibelino exilado, o Saboiano pelos remorsos amarelado, e Turim que foi berço dos movimentos revolucionários de 21. Os convidados, a esse tempo, conversavam sobre os negócios, sobre o tratamento de Montecatini, sobre o senhorio, serviam-se de vinhos, acendiam charutos, desabotoavam os coletes, punham no bolso uma banana ou quatro tâmaras ou uma colherinha, e de vez em quando ouviam o voo de uma frase... conserva mas não doma... omnia vincit amor... amor che a mullo amato amar perdona... o lar... os prazeres santos... a família, núcleo da sociedade... e enquanto o Sol resplender sobre as desditas dos homens.

Serviam o café.

Aplausos ao "feliz improviso" preparado há quinze dias.

- Em nome dos estudantes da Universidade...

Todos se voltaram para o fundo, onde um pálido efebo, de traços delicados de sabichão onanista, levanta o cálice em nome da juventude estudiosa, a qual estava presente, em espírito, às bodas do insigne sábio, do grande artesão que no ofício adquirira músculos de aço, e que, como bem disse um filósofo, ai!, muito cedo esquecido...

Abraços entre discípulos e professor. Lágrimas sobre os bigodes merovíngios. Aplausos comovidos do público. Hilaridade entre os copeiros. Uma senhora enxuga com o guardanapo um copo de Bordeaux velhíssimo que lhe derramaram no vestido branco.

- Não mancha - decreta um professor de línguas mortas.

- Alegria! - exclama um homem de barba vermelha, que não é o marido.

A tia prescreve imediatamente uma das 1000 receitas úteis.

- Senhores...

Outro orador. É o correspondente de O Vingador de Cocconato, semanário independente. Devia-se, pelo discurso, compreender que era jornalista, pois mencionou o imperativo categórico, o agnosticismo, um primeiro tempo, um segundo tempo e o estúpido século dezanove. Para pôr em evidência o seu desembaraço oratório, embala-se maciamente , conservando uma das mãos no bolso da calça, brinca com as moedas que tinem.

Fala-se em voz baixa do esposo, velho amigo da família, que foi testemunha do primeiro casamento dela.

- Curioso! E viria a ser o segundo marido. De testemunha a...

- A réu...

- Que coisa terrível, o primeiro casamento! O marido abandonou-a ao pé da escadaria do foro.

- Mas, porquê?

- Porque era doido.

- Admito que se endoideça depois de quinze dias de experiência. Mas em seguida? Nem sequer a tocou, portanto.

- Parece que não.

Também Iluska pensava no primeiro casamento que, na sua magreza hostil, tinha sido muito mais honesto que essa ignóbil exultação de intestinos deflagrada em torno da sua dor.

- Queremos as flores de laranjeira! - intimou uma senhora.

- Tirem - resignou-se Iluska.

E entregou a cabeça loira a todas aquelas mãos que cheiravam a comestíveis.

- Reparem, queridos noivos - avisou o segundo-tenente veterinário -, que não têm tempo a perder.

E mostrou o relógio de pulso.

- São quatro. O comboio parte às seis.

Movimento de fichas e de sobretudos; trocas de chapéus; cada homem tem um cravo na lapela; as senhoras procuram folhas de papel para envolver as rosas. Não serve um jornal?

Abraços; cadeiras que se afastam, facécias do tio espirituoso. Em cada família há um tio espirituoso, que "diz cada uma!..." sempre "faz das suas", e faz presente de caixas de doces que, apertando-se um botão, tocam o hino, ou revólveres que, puxando pelo gatilho, esguicham perfume.

Em casa, as malas já estavam fechadas. Iluska tirou o véu, a cândida libré do estupro, enfiou um tailleur cinzento. O marido estava lá em baixo, no automóvel.

Empurrada pelo pudor, a tia chamou Iluska à parte e, depois de algumas reticências trepidantes, começou:

- Como já não tens mãe, toca-me desempenhar este delicado papel.

E preparou-se para lhe largar em cima aquele discurso de ocasião que é como a toilette espiritual, psicológica e genial da condenada ao casamento. É o vadenecum da deflorada. A preparação concentrada para os mistérios da alcova. O curso rápido de fisiologia sexual, que se poderia intitular: "Que é o marido, e modo de usá-lo." A moral impõe à jovem contrair casamento sem saber o que ele é; realizado o casamento, antes de ela entrar na câmara nupcial, a mãe ou quem a substitui tira-lhe a venda. Até aquele momento deve ser ignorante como os cavalos de touradas espanholas, a que costumam vendar um olho para que recebam a cornada sem ver donde vem.

Por felicidade, isto só acontece em teoria, pois, na prática, as nossas virgens, antes de chegarem ao casamento, encontram quem lhes tire a venda dos olhos e do resto.

Iluska compreendeu desde as primeiras palavras o assunto da conferência.

- Não me amoles, tia! Destas coisas, posso dar lições! Então a tia dirigiu-se ao marido, suplicando-lhe que não

maltratasse aquela pobre menina tão inocente.

Bênçãos, poesia da filha da porteira. Troca de augúrios e de gorjetas.

O motorista pisou o acelerador.

- Enfim sós! - declarou o segundo-tenente veterinário quando a portinhola do comboio se fechou.

Donata chorava vendo a irmã empoleirada lá em cima na gaiola viajante, por trás da vidraça. O professor negrejava paternalmente ao seu lado.

- Que belo dia! - clamou Donata.

- Não te exponhas ao ar!

- E não te debruces à janela!

- As chaves das malas estão na tua bolsa.

- Tomaste os sais?

- Ainda uma vez! - implorou a tia. E fixou com olhos súplices o marido.

- Vão ter um dia belíssimo.

(Esta profunda observação já tinha sido feita três vezes. Mas a culpa era do comboio, que nunca mais partia).

- Um magnífico sol!

- É de bom agouro - gorjeou a tia.

- A vossa vida - proferiu com ênfase lírica o segundo-tenente veterinário - será toda uma poesia.

- com rimas cruzadas - respondeu secamente a esposa. Numa rigidez de autómata, Iluska sorriu, glacial, enquanto o

comboio começava a deslizar numa fila de lenços esvoaçantes.

- Estás cansada, Iluska?

- Sim.

- Sentemo-nos. Não me dizes nada?

- Deixe-me tranquila.

O professor pediu emprestado a um vizinho o horário. E pôs-se a meditá-lo.

Desceram de noite numa grande cidade. Enquanto o marido dirigia a disposição das malas e as sombrinhas no ómnibus do hotel, ela contemplava o céu. Maravilhoso. Também o estúpido céu pusera um colete à fantasia todo bordado de estrelas.

- Este quarto dá para o norte - sentenciou o professor entrando.

E disse um verso de Virgílio. O camareiro pediu-lhe que enchesse a folha de indicações pessoais sobre os viajantes. Iluska, cravada numa cadeira, olhava com inveja para a mulher que lhe trazia o jarro de água quente.

Deixou-se tirar o chapéu e a blusa.

- Amor! - resmungou o marido.

Indiferente como uma autómata, respondeu sim, respondeu não a todas as perguntas.

- Comprei feitas estas camisas e paguei por elas quarenta liras, mas ficam-me bem como se tivessem sido feitas por medida.

Iluska olhou as camisas.

- Trouxe também as camisetas. Não dispenso a camiseta nem no Verão.

Iluska admirou as camisetas.

- Esta mala parece pequena, contudo... Iluska admirou a incrível capacidade da mala.

- E agora vamo-nos deitar.

A jovem esposa desabotoou-se.

- Ah! Não, este prazer quero tê-lo eu!

Deixou-se despir como por um médico. Sem pudor, sem rubor, sem resistência. Tinha perdido a vontade.

Quando ficou inteiramente nua, o professor admirou-se de um pormenor; um pormenor comum às ciganas de certa tribo. Em Paris, no estúdio de um pintor de Montparnasse, Iluska conhecera uma cigana que servia de modelo: era toda depilada, e tinha no pescoço um amuleto com um olho entre duas cruzes.. Desde então, ela também eliminava quase todos os dias a sombra animalesca do seu ventre delgado de criança.

- Não gosto, sabes, destas coisas! - respondeu com um sorriso forçado o marido. - Parece que tenhas tido certos parasitas de que Carlos iII da Inglaterra nunca se pôde livrar.

Ela não respondeu. Outro homem, à revelação daquela nudez lisa, quase assexual, que a navalha tornava infantil, ficaria encantado como ante um milagre de pureza.

Compreendendo que se excedera em severidade, o professor beijou-a na fronte.

- Amor non talia curat. O amor não repara nessas coisas. E começou a despir-se. Poisou o relógio de níquel na mesa

de cabeceira e enrolou nele as três voltas do cordão preto, com a pacata meticulosidade de um confeiteiro esteta preocupado em caligrafar uma torta. Estendeu o casaco no espaldar da cadeira.

Enquanto isso, pensava que o momento difícil chegara, e suspirava pelo tempo em que o príncipe, gozando do jus primas noctis, poupava aos seus amados súbditos o embaraço da ingrata operação.

- Que fazes? - perguntou ele, vendo Iluska descer da cama e enfiar um pijama de seda vermelha.

- Penteio-me.

Havia pouca luz perto do penteador. Ela demorava-se. Quando ficou em camisa de dormir, o professor perguntou:

- Ainda estás aí?

- Como vês.

Entre o pente e os cabelos crepitavam pequenas faíscas. Mauro, como se interessava pela electricidade dos seus cabelos! Queria penteá-la ele, naquele quarto de hotel donde se via o Danúbio, e donde a ilha de Santa Margarida parecia um ramo de flores.

- As faíscas? - disse o professor. - Bobagens. Penteias-te amanhã.

- Tira essas calças, Iluska. Não gosto de mulher de pijama. Parece pederasta.

Puxadas as cobertas até o pescoço, apertou-a entre os braços peludos de encontro ao peito peludo e roçou-lhe o rosto delicado com os terríveis bigodes merovíngios.

- Não, hoje não - gritou Iluska cruzando as pernas e trançando-as como uma corda.

- Sim - resmungou ele, sôfrego, e com o joelho procurou separar os joelhos dela.

- Deixa-me, estou cansada!

Mas ele qui-la a todo o custo, pois o dormir com uma virgem teria sido fornicação.

Só com as meninas honestas que são conduzidas ao altar e com as prostitutas que da rua nos levam para o quarto, é que se pode passar logo a vias de facto sem a ternura de um prelúdio.

Comprimida sob o peso daquela mole de carne, ela virou o rosto para o lado, a fim de se defender contra o cheiro repugnante de brilhantina rançosa que exalavam os bigodes em acento circunflexo; e enquanto ele fazia os mais desesperados esforços por se mostrar homem, ela ia lendo, na parede fronteira, um cartaz escrito em quatro línguas:

"O proprietário só se responsabiliza pelos valores entregues à caixa. Os hóspedes que não saírem antes das 14 horas, consideram-se..."

Quando acabou, o professor deixou-se cair, suado, nos lençóis frescos.

- Dormes? -? perguntou pouco depois à esposa.

Mélita recordava um lago alpino, uma grande moita de arnicas macia como um travesseiro, um admirável dossel de infinito, e um homem que a possuíra por amor, a quem se entregara por amor, num extravio completo de todos os sentidos; os seus corpos tinham-se fundido tão maravilhosamente, por virtude do amor, que se encontraram unidos num corpo só, sem saber de que modo tinham chegado a isso.

Sentira-se possuir tão intimamente que a carne de Mauro lhe parecia a sua própria carne, como se ela não fosse verdadeiramente ela e a vida só fosse verdadeiramente vida quando Mauro a fazia sua.

Suspirou.

- Em que pensas? - perguntou o professor, procurando-lhe um seio.

- Em ti.

Museus, arquivos, bibliotecas; expedição de bilhetes-postais ilustrados; compra de presentes; fotografias a dois na praça de São Marcos, com todos os pombos em roda.

Ao fim da segunda semana, estavam em casa, naquela grande casa arranjada com certo gosto, para onde o esposo levou todos os seus livros, e recebeu os colegas e os discípulos.

Uma manhã Iluska encontrou Mauro.

- Deixaste crescer os cabelos?

- Sim. Aburgueso-me. Não fumo mais. Estava pálido, exausto por uma noite de poker.

- Estás contente com teu marido?

- Bastante. E riu-se.

- Ama-te?

- Quer-me beijar sempre à mesa, enquanto come. Não suporto beijos com molho de tomate.

- São esses, todos os seus defeitos?

- Todos.

- És invejável, então. Sentes-te feliz?

- Naturalmente. E tu?

- Sou um vencido; uma figura incolor; um ser inútil. Nunca experimentei o prazer da conquista. Por isso é que eu sou um vencido. Os meus amores não foram conquistas, porque sempre suportei o amor; suportei o amor de uma actriz inquietadora; suportei o amor de uma menina puríssima.

- Contudo, gostas de mim.

- Não sei.

- Gostaste, mesmo quando dizias que me odiavas. Pode-se fingir amor, mas ódio, não. E agora que fazes?

- Levo a passeio a minha infelicidade.

- A tua infelicidade é um pouco de neurastenia, um pouco de esgotamento nervoso: doenças que se curam com duches frios e algumas cápsulas.

- Cápsulas de Smith. Não me resta mais que desaparecer.

- Desaparecer?

- Tenho desejos de me matar.

- Palavra!

- Não tenho mais nada.

- Tens toda a vida diante de ti.

- É por isso que quero matar-me. Teria toda a vida. É demasiado. Adeus.

E não o viu mais.

A casa, vinham muitos jovens pedir conselhos, expor os seus problemas científicos e as suas crises espirituais ao professor. O pálido efebo das longas melenas e de rosto afilado de estudioso onanista preparava uma tese de formatura sobre o divórcio, considerado à luz da filosofia.

- Admiro-me que o senhor seja contrário ao divórcio, professor, sendo casado com uma divorciada.

- Casei-me com uma divorciada sui generis, de um género particular - explicou o erudito estudioso de história oriental.

- O divórcio pressupõe o casamento, mas o casamento pressupõe a conjuctio maris et feminae, isto é, a união do macho e da fêmea. O casamento daquela que depois foi minha mulher realizara-se de direito, mas não de facto. A acção da união carnal não se dera. Efectivamente casei-me com uma donzela. Minha mulher, casada e divorciada, era virgem.

As declarações do orientalista espalharam-se pelo pórtico da Universidade, os rapazes transmitiram-nas às raparigas, e estas aos professores.

- Não há que rir - protestou indignado um docente de Grego. - Eu também creio que ele tenha encontrado intacta a esposa. Se assim não fosse, ter-se-ia dado conta. Um homem como Mansueto Birri, que leva o seu cepticismo, a sua dúvida científica, ao ponto de investigar a virgindade da mãe de Gengis-Khan, que viveu há 700 anos, e à distância de 700 anos conseguiu demonstrar com provas filosóficas e anatómicas que a mãe do grande conquistador mongol não era virgem, como não havia de estar em condições de julgar sobre a virgindade de uma mulher que se deita com ele na mesma cama?

PASSARAM-SE dias cinzentos, tardes monótonas, noites desoladoras.

- Quando tiveres um filho, não te aborrecerás mais! consolava-a Donata em tom de augúrio.

- Não terei filhos.

Não os queria. O seu único filho, o seu verdadeiro filho, era aquele que devia nascer do seu amor; aquele que numa branca sala de operações de Budapeste o cirurgião de dentes de ouro matara.

As modistas não a interessavam, as reuniões não a atraíam. Tudo lhe parecia tão insípido, tão gasto, tão enfastiante! Sentia-se nascida para o imprevisto, o intempestivo, o unzeitgemass.

- Um rapazinho trouxe isto para a senhora - anunciou-lhe uma tarde, ao seu regresso, a criada, entregando-lhe um gracioso cesto de vime.

Abriu-o. Uma tartaruga viva, de casco cintilante como uma cigarreira de tartaruga, agitava a cabeça assustada, fazendo trejeitos de espanto.

- Não havia carta?

- Não, senhora. Apenas o endereço. Reconheceu a letra.

- A senhora não tira o chapéu?

- Saio de novo.

Mas, quando estava para sair, agitada por fúnebre pressentimento, o marido entrava e entregava-lhe o jornal da tarde. Entre duas barras negras, saltou-lhe aos olhos um nome:

MAURO MAURI

participa a sua própria morte. - Será enterrado amanhã, às 15 horas. - Dispensa as ervas e os discursos.

A mulher apoiou-se ao portal. Noutra página do jornal descrevia-se o suicídio de um rapaz que. trepando num andaime abandonado, numa rua centralíssima, começou a cuspir sobre a multidão dominical, depois atirou o chapéu, o casaco, os sapatos. E acabou por se arremessar da altura de um terceiro andar, esfacelando-se.

Iluska quase nada sofreu com isso. Sentia-se como que um vegetal, um organismo sem alma. Tomou lições de dança, e foi a bailes num clube não excessivamente ignóbil, onde conheceu jovens mundanos e senhoras de cotação fixa (cocottes) e de cotação variável (mulheres honestas). Frequentou alguns salões de chá, adquiriu amizades superficiais, recebeu raras visitas insípidas.

- Procuram a senhora - disse uma manhã de Junho a camareira - apresentando-lhe um cartão de visita.

Iluska leu-o e devolveu-o.

- Professora Micelli? Uma professora? Deve procurar o professor.

- Não, diz que deseja falar à senhora.

- Que jeito tem?

- Meia idade, bem posta, carregada de jóias.

- Manda entrar.

A visitante atravessou o salão com uma segurança de senhora de trato e desculpou-se por ter vindo inesperadamente, sem solicitar audiência. Mas a delicadeza da missão...

- Em que posso servi-la? - impacientou-se Iluska.

A senhora falou da própria família, muito rica noutros tempos, mas depois atingida pela desventura; recitou o catálogo dos parentes diplomados, em boa posição, e riquíssimos, que lhe permitiam gabar-se de uma vastíssima rede de conhecimentos entre as melhores famílias e os homens mais sérios.

- Ocupa-se em obras de beneficência? - atalhou Iluska.

- Não é bem esse o termo.

- É patrocinadora de alguma obra pia?

- Obra pia, precisamente, não - começou a esclarecer a senhora, arredondando com gestos curvilíneos as palavras um pouco sincopadas. - Explicar-me-ei melhor.

- Prefiro isso.

- Um conhecido meu, ou antes, uma das pessoas mais "distintas" que frequentam a minha casa, um senhor cujo nome me permito calar, sente pela senhora uma grande simpatia.

- Tenho muito prazer. E foi dizê-lo à senhora?

- Certas coisas não se podem dizer à pessoa directamente interessada, quando ela tem marido, nome, posição.

- Continue.

- Este senhor é um cavalheiro, não muito jovem, mas ainda agradável, elegante e rico...

- Donde me conhece?

- Tem-na seguido várias vezes, desde quando era a senhora Mauri.

- A senhora sabe também disso?

- Pois tenho muito prazer. Mas a sua profissão parece-me bastante equívoca. Desculpe, mas...

- Diga, sem constrangimento, senhora. Todas as senhoras com quem falo assim, pela primeira vez, começam por me insultar, mas depois mudam de tom.

- Eu não mudarei. Conclusão?

- O cavalheiro de quem tive o prazer de falar gostaria imenso de a ver na minha casa, um destes dias; amanhã, às três, por exemplo. E, como faria questão de testemunhar-lhe de maneira tangível a sua simpatia, uma vez que a senhora consinta em lhe conceder uma tarde, tomaria a liberdade de lhe oferecer um mimo: um pequeno presente, um objecto artístico, uma jóia, uma bugiganga inútil. Mas, não estando seguro de acertar com o seu gosto, preferiria confiar-lhe o encargo da escolha, e para tal fim fá-la-ia receber, por meu intermédio, quinhentas liras por tarde.

Iluska ouviu sem pestanejar as palavras da senhora.

- Moro numa casa muito boa, numa rua pouco frequentada. Não há porteiros; sobe-se logo ao primeiro andar. Na porta há uma placa: "Professora Micelli, lições de ginástica rítmica." Nada mais discreto, como vê.

E tirou da pasta de couro um pequeno cartão de visita com o endereço em letra manuscrita. Amanhã, às três horas, o senhor estará em minha casa, e esperá-la-á toda a tarde.

- Diga-lhe que perde o seu tempo. Não irei.

- Seria uma decepção muito forte para ele. Não lhe direi nada. Esperará.

-? Acontece-lhe frequentemente fazer embaixadas destas?

- Muito.

- E as outras senhoras, que lhe respondem?

- O que a senhora me respondeu, com algumas variantes. Eu, então, insisto suavemente, e espero.

- Em vão?

- É difícil que deixem de ir.

- É preciso que estejam muito necessitadas.

- Não é indispensável que careçam do necessário; basta que desejem o supérfluo. Senhoras da aristocracia, mulheres de homens que exercem profissões liberais, de altos funcionários, frequentam a minha casa, e quase nunca por necessidade. Às vezes por curiosidade.

- Irão uma só vez.

- Todas pensam ir apenas uma vez, pelo gosto da novidade ou para estudar o ambiente. Mas depois voltam. Às vezes dá-me trabalho mandá-las embora.

Iluska fez um sinal apenas perceptível.

- Meu marido.

O professor entrou com um pacote de livros, solene, num colete abotoado até à laringe.

- Peço desculpa - escusou-se aproximando-se. - Não sabia que tinhas visita.

- A senhora... - balbuciou Iluska embaraçada.

- Eu precisava de uma informação - interrompeu a visitante - sobre um motorista que me constava ter estado ao seu serviço. Mas a sua esposa já me explicou o equívoco. Queiram perdoar.

E levantou-se.

Meio-dia. O professor deu corda ao relógio de níquel que havia trinta anos não parara uma única vez.

- Ordem e método até nas pequenas coisas - pregou. Para que o arroz possa estar pronto ao meio-dia, é preciso pô-lo ao lume dezoito minutos antes. Quanto aos caquis, dize ao criado que não compre mais.

- Eu gosto tanto!

- Mau. Toda a gente deve alimentar-se com frutas da sua região. Nós somos, por herança milenária, adaptados ao nosso clima e habituados aos frutos do nosso solo. Os desvios da nutrição natural equivalem a actos contra a natureza. Sem contar que os caquis custam caríssimo. A propósito, não compreendo por que, neste mês, se gastou de luz eléctrica mais do que no anterior; os dias são longos e...

- Será engano de verificação.

- Não deve haver engano. Está pronto o almoço? De agora em diante, tu, Iluska, cuidarás de que as refeições estejam prontas às dezanove.

- Às sete ainda é dia.

- Por isso mesmo.

- Se tivéssemos de ir ao teatro, eu compreenderia, mas isso nunca acontece.

O marido ajustou meticulosamente o canal da tampa esmerilhada com o sulco do conta-gotas e deixou cair no copo a dose habitual de ruibarbo e genciana.

- Uma, duas, três. Que dizes? Cinco, seis. Teatro? Oito, nove, dez. Sabes que os meus estudos... Doze, treze... não me permitem esbanjar as minhas noites em espectáculos públicos.

- Que são três horas?

- Não dedico três horas das minhas noites às coisas fúteis.

- Mas não seria justo que por isso eu me privasse delas.

- O lugar da mulher é vel in túmulo vel in tálamo: ou na sepultura ou na cama.

- Não é uma alternativa risonha.

- E este catálogo de automóveis?

- Há três meses que me prometeste uma baratinha.

- No período do noivado todos se adornam de ricas plumagens e de belas palavras. É uma lei biológica, comum a quase todas as espécies animais. Saíste?

- Sim. Fui comprar uma capa impermeável.

- Despesa inútil. Quando chove, fica-se em casa: domi mansit, lanan ecit: ficou em casa, fiou lã.

- E quando se precisa sair?

- O guarda-chuva, o tradicional guarda-chuva, instrumento tão perfeito que desde o dia da sua invenção não sofreu mudança. As minhas anidropodotecas de borracha? - perguntou à criada.

- Que é que o patrão disse?

- Anidropodotecas de borracha, aquilo que com intolerável barbarismo se chama "galochas"; sobre-sapatos. Prefiro dizer anidropodotecas. Que estejam prontas para as duas.

- Pões galochas com este sol?

- Há ameaça de chuva. É preciso prevenir.

Depois que o marido saiu, ela deu uma volta por toda a vasta habitação, rica de móveis, mas privada de intimidade, e ouviu ressoarem os próprios passos como numa casa abandonada. Desceu à rua, fez-se conduzir ao centro. Havia multidões nas ruas; as lojas estavam repletas de gente que fazia compras para a estação de praia ou de montanha. Só ela ficaria todo o Verão na cidade, ou, quando muito, iria passar alguns dias num lugarejo insípido, a meia hora de comboio, um daqueles veraneios para funcionários de estatística aposentados e para amas que fazem as próprias toucas.

Pelas vidraças esmerilhadas, em florões, de Baratti, viu as mesmas pessoas de sempre, chupando os mesmos refrescos de sempre: ambientes cada vez mais "velha Inglaterra", onde as concubinas parecem esposas legítimas, os homens dizem com os olhos às senhoras: "tenho intenções sérias", e as intelectuais de alma espiralada com o jogo da gansa ostentam os livros purgados de fina encadernação azul, pela Sociedade de Cultura Feminina.

Esteve para atravessar a soleira. Mas parou. Percorreu a galeria, parou diante das bonecas Leuci, de olhos maravilhados, que se pareciam com ela. Passou pelos fúnebres museus, e entrou na Casanova para folhear algumas revistas de modas.

De modas? Para quê?

Um rapaz seguiu-a, mas viu-lhe um rosto tão triste que abandonou a empresa.

Regressou a casa. Jantar, conversas honestas, leitura de jornais, quarto; mas, visto que não era sábado nem quinta-feira, o marido não desejou nada.

Durante a noite, não pôde dormir. O Estio punha-lhe na pele um inquietante desejo de carícias. Levantou-se, deu uma volta seminua pelo aposento, abriu uma janela que dava para o jardim, e ofereceu o peito e a garganta ao orvalho, ao ar perfumado, ao azul. Do alto de uma árvore, um rouxinol deixava cair gotas de música, que saltavam de ramo em ramo, em meio do coro das frondes pulsadas pelo vento.

E voltou para a cama cheia de anseios.

Na manhã seguinte, tornou a encontrar na sala o cartão de visita da professora de ginástica rítmica: impresso em letra manuscrita, com o endereço litografado em cursivo inglês. Uma rua que não conhecia.

À tarde saiu depois que o marido se tinha ido. Eram os dias das defesas de tese.

O Verão era suave como uma tarde de Primavera. Consultou o relógio. Três horas.

Aquela hora, a cordial professora de ginástica rítmica estava a consolar o ignoto apaixonado que a esperava.

Pobrezito! Não muito jovem, mas ainda agradável, elegante, rico.

Comprou um ramo de ciclames duplos e pregou-o à cintura.

Casais de amantes subiam em direcção à colina. Automóveis desfilavam em direcção à pista de corridas. Passou um altíssimo stage-coach com quatro cavalos, lançando estridentes buzinadas.

Que vida mundana a dela! A sua única aventura tinha sido aquela oferta de dinheiro. Prostituir-se ao desconhecido.

Contudo, uma vez só, não lhe desagradaria experimentar, para ver, saber como é, enfrentar o imprevisto.

- Todas pensam vir uma só vez - dissera com malícia a untuosa professora de ginástica rítmica - mas depois voltam; experimentar quer dizer começar.

Sentiu-se um pouco cansada, pelo sol, pela poeira, pelo tédio. Passava um carro de aluguer. Fê-lo parar levantando a sombrinha. Era melhor voltar para casa.

O homem baixou a bandeirinha do taxímetro, curvando-se para ouvir o endereço.

Iluska ia dar-lhe o da residência. Mas depois hesitou. Voltar à casa, àquelas peças esquálidas, onde os seus passos ressoavam numa horrível ausência de intimidade!

Procurou na bolsa o cartão impresso em letra manuscrita, com endereço litografado em cursivo inglês.

Não estava. Mas recordava-o muito bem.

Acomodou-se na almofada, e, em voz baixa, como de medo que o motorista a ouvisse, ordenou:

- Rua Carolina de Invernizio, 19.

 

                                                                                Pitigrilli  

 

                      

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