Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A VIRGEM PRESA NO GELO / Ellis Peters
A VIRGEM PRESA NO GELO / Ellis Peters

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A VIRGEM PRESA NO GELO

 

Foi no início do mês de Novembro de 1139 que a guerra civil, mais tarde tão moderada e sem grandes incidentes, se reavivou violentamente atingindo a cidade de Worcester. Dizimou grande parte das propriedades, dos víveres e das mulheres daquela região. Os habitantes que conseguiram escapar a tempo tentaram salvar as suas vidas e fugiram para norte, buscando refúgio o mais longe possível dos assaltantes, onde quer que encontrassem um senhorio, um mosteiro, uma cidade fortificada ou um castelo suficientemente fortes para os proteger. Em meados do mês, alguns destes fugitivos alcançavam Shrewsbury e, aceitando a acolhedora hospitalidade do mosteiro ou da cidade, tratavam os seus ferimentos e carpiam as suas desgraças.

A excepção dos velhos e dos doentes, não era muito mau o estado em que chegavam, pois o Inverno não se instalara ainda completamente. Os entendidos sobre o clima garantiam que o verdadeiro frio, os fortes nevões e os violentos e prolongados gelos estariam ainda para vir, mas, de momento, a terra permanecia sombria, neblada e amena, com ventos caprichosos, mas livres de neve e de gelo.

- Agradecemos a Deus! - exclamara devotamente o irmão Edmund, o enfermeiro. - De outra forma teríamos mais de três mortos a enterrar.

No entanto, via-se aflito para arranjar, na enfermaria, camas suficientes para todos quantos delas precisavam e até no átrio de pedra havia camas de palha grossa para deitar os que já lá não cabiam.

Conseguiriam sobreviver e regressariam à cidade arruinada ainda antes do

Natal, mas, agora, exaustos e abalados com o choque, precisavam de todos os cuidados e a abadia comportava já mais pessoas do que lhe era possível suportar. Os refugiados que contavam com algum parente na cidade haviam sido encaminhados para casa destes e eram tratados com todo o carinho. Uma mulher grávida, quase no fim do tempo, e o seu marido, haviam encontrado guarida em casa de Hugh Beringar, o xerife do condado, devido à insistência da esposa, que se encontrava na cidade acompanhada pelas suas damas, pela parteira e pelo médico, já que, também ela, esperava ansiosamente dar à luz antes do Natal. Assim, estava pronta a acolher generosamente qualquer ser humano que, partilhando o seu estado, se encontrasse em dificuldades.

- Nossa Senhora não encontrou semelhante acolhimento - comentou pesarosamente o irmão Cadfael para o seu amigo Hugh.

- Ah! Senhora como a minha, só há uma! Se pudesse, Aline acolheria todos os cães vadios que encontrasse na rua. Esta pobre rapariga de Worcester vai ficar boa. Não sofre de nada que o descanso não cure. E, provavelmente, teremos dois nascimentos este Natal, pois ela não poderá deslocar-se até se ter aliviado em segurança. Contudo, julgo poder afirmar que a maioria dos seus hóspedes não tardará a vencer os seus receios e a regressar a casa.

- Na verdade, alguma já partiram - confirmou Cadfael -, e alguns dos mais resistentes partirão dentro de dias. É natural que anseiem por regressar e por reparar os danos que puderem. Dizem que o rei se encontra a caminho de Worcester com um poderoso exército. Se mantiver a cidade bem protegida durante o Inverno, eles ficarão em segurança embora tenham de procurar alimentos. Todas as reservas devem ter sido levadas.

Cadfael conhecia, por experiência própria, a desolação da paisagem e os odores de uma cidade devastada, pois, durante a juventude, fora soldado e marinheiro e vira de tudo nas terras longínquas por onde passara.

- E, para além de quererem resgatar o que resta dos seus haveres antes do Natal - continuou -, há a considerar a ameaça do Inverno que se aproxima. Se as estradas estiverem livres de assaltantes, pelo menos conseguirão regressar de pés enxutos e com um tempo suficientemente ameno. Mas quem sabe que altura poderá ter a neve daqui a um mês ou até daqui a uma semana?!

- Que as estradas estejam livres de assaltantes é coisa que não poderei garantir - afirmou Beringar pensativo e cauteloso.

- A nossa posição é segura aqui em Shropshire, pelo menos até agora. Mas os rumores que correm, quer de leste, quer de norte, são inquietantes. Para não

falar na agitação que se vive ao longo das fronteiras! Enquanto o rei se ocupa lá no sul e se preocupa em adivinhar quando será e de onde virá a réplica seguinte dos flamengos, gastando a maior parte das suas energias a correr de um posto para o outro, os mais gananciosos habitantes, dos sítios mais remotos, tentarão aumentar as honras e os brasões, construindo os seus reinos particulares. E, uma vez dado o exemplo, até os menos poderosos os imitarão.

- Numa terra dividida pela guerra, é certo que a ordem das coisas acaba por desaparecer e dar lugar à selvajaria-concordou Cadfael, sombriamente.

- Aqui nunca tal acontecerá! - garantiu Hugh com firmeza. - Prestcote mantém as rédeas firmes, e eu, como homem ao seu serviço, farei o mesmo.

Gilbert Prestcote, o xerife do rei Stephen em Shropshire, tencionava passar o Natal na casa principal do seu domínio, a norte do condado. A defesa do castelo e a manutenção da lei na parte sul ficaria, assim, a cargo de Beringar. O ataque a Worcester poderia tratar-se, afinal, de um apalpar de terreno, inicial, para futuras invasões. Todas as cidades da fronteira se encontravam em perigo, quer devido ao possível ataque inimigo, quer pela tão precária lealdade das guarnições e dos seus responsáveis. Mais de um senhor daquela terra alvoroçada transferira já a sua vassalagem, e mais o fariam no futuro, alguns, talvez, pela segunda ou terceira vez. Homens da igreja e nobres começavam a colocar os interesses pessoais em primeiro lugar e, consequentemente, punham-se ao serviço do partido que aparentemente lhes oferecia mais vantagens. E não tardaria muito até que alguns começassem a chegar à conclusão de que os seus interesses ficariam igualmente salvaguardados, se renegassem os dois pretendentes à coroa e se armassem por conta própria.

- Diz-se por aí que o castelão de Ludlow não é de muita confiança - comentou Cadfael. - Não obstante o rei Stephen o ter obsequiado com o domínio de Lacy e lhe ter confiado o castelo de Ludlow, ouvi dizer que ele voltou os olhos para a imperatriz. Segundo dizem, correríamos sérios riscos caso o rei não se encontrasse por perto e com os olhos nele.

Tudo o que Cadfael pudesse ter ouvido, certamente que Hugh o ouvira já anteriormente. Nos dias que corriam não havia um único xerife que não possuísse os seus informadores secretos em plena actividade, mantendo-o sempre informado. Se, na verdade, Josce de Dinon, instalado em Ludlow, pensara em desertar mas depois reconsiderara, Hugh limitava-se a aceitar essa presente lealdade, embora com algumas reservas, pelo que o vigiava de perto. A desconfiança, embora constituísse um dos males menores numa guerra civil, não deixaria de ser triste. Seria bom que a confiança absoluta entre amigos pudesse ainda existir. Em dias como aqueles, nenhum ser vivo estava livre de sentir a imperiosa necessidade de um braço seguro no qual se pudesse apoiar.

- Ah, bem! Com o rei Stephen e o seu exército a caminho de Worcester ninguém levantará um dedo ou mostrará a cara, até que ele se retire de novo. Apesar disso, nunca deixarei de ter os olhos e os ouvidos bem abertos.

Hugh ergueu-se do banco encostado à parede da oficina de Cadfael, o seu refúgio momentâneo para os problemas do mundo, e concluiu:

- Agora, vou para casa deitar-me na minha cama, antes de ser banido pela minha esposa e pelo meu fedelho arrogante. Mas, como pode um devoto religioso como o irmão entender as atribulações que afectam um pai?!

Na verdade, que poderia ele entender?

- Todos acabam por o admitir - comentou o irmão Cadfael complacente -, vocês os homens casados. O terceiro é sempre indesejado quando há dois que vivem em admiração mútua. Em Completas rezarei uma oração por si.

No entanto, dirigiu-se primeiro à enfermaria para verificar, juntamente com o irmão Edmund, o estado de um ou de outro doente mais lentos na convalescença da caminhada, enfraquecidos pela fome, pela pobreza ou pela idade, renovar o penso de uma facada que tardava em cicatrizar e, só então, ambos se dirigiram para Completas, onde oraram por muitos outros, para além do seu amigo, da mulher e da criança prestes a nascer, filha do Inverno.

A Inglaterra debatia-se já com um Inverno gelado que duraria anos. Cadfael tinha consciência disso. O Rei Stephen fora coroado e reinava, ainda que com pouca segurança, na maior parte do país. A Imperatriz Maud, sua rival ao trono, dominava a oeste e clamava o seu legítimo direito à coroa de Stephen. Apesar de primos, dilaceravam-se mutuamente e dilaceravam a Inglaterra. E, apesar disso, a vida tinha de continuar, a fé permanecia, o constante desafio à sorte mantinha-se na lavoura, anualmente, estação após estação, de arado a grade, da sementeira à safra e à colheita. E ali, nos mosteiros e na igreja, continuava a sementeira, a safra e a colheita das almas. O irmão Cadfael não receava pela humanidade, nem pelo futuro dos homens comuns. O filho de Hugh pertenceria a uma nova geração, a um novo começo, a uma nova afirmação.

Era a Primavera que nascia em pleno Inverno. Foi no último dia de Novembro que o irmão Herward, sub-prior do Mosteiro Beneditino de Woscester, apareceu no capítulo da casa irmã de S. Pedro e S. Paulo em Shrewsbury, onde chegara na noite anterior e fora carinhosamente recebido nos aposentos do abade Radulfus. A maioria dos irmãos ignorava a sua chegada e perguntava-se agora quem seria ele, alvo de tanta cortesia por parte do abade e sentado à sua direita. Pela primeira vez, o irmão Cadfael partilhava a total ignorância dos companheiros. O abade e o seu hóspede formavam um nítido contraste. Radulfus era alto, direito, possuía feições vigorosas, fortes e austeras e mantinha-se majestosamente calmo. Quando necessário, era capaz de explodir em chamas e os que já se haviam queimado recuavam sensatamente, embora se tratasse de um fogo sempre controlado. O homem que entrara a seu lado era descarnado, baixo e franzino de corpo, de tonsura grisalha e aparentava ainda a fadiga da viagem. No entanto, os olhos envelhecidos eram directos no olhar e as linhas da boca espelhavam paciência e determinação.

- O nosso irmão, subprior Herward, de Worcester - anunciou o abade -, veio até nós incumbido de uma missão, na qual fui incapaz de o ajudar. Como muitos de vós participaram activamente no auxílio aos infelizes que chegaram até nós, vindos daquela cidade, é possível que tenhais ouvido algo acerca deste assunto. Assim, pedi-lhe que, aqui, perante todos, repetisse a sua história.

O visitante ergueu-se para melhor ser visto e ouvido por todos os presentes.

- Fui incumbido de investigar o paradeiro de duas nobres crianças, que se encontravam sob a protecção beneditina na nossa cidade e dela fugiram, ao sermos surpreendidos pelo ataque. Não regressaram até agora. Conseguimos seguir-lhes o rastro até à fronteira deste condado, mas aí perdemos-lhes a pista. Tencionavam dirigir-se para Shresbury e, como a nossa Ordem é responsável por eles, vim verificar pessoalmente se cá tinham chegado. O abade Radulfus informou-me que não tinha conhecimento de nada, mas que havia a possibilidade de algum dos outros asilados os ter visto ou ter ouvido falar deles e talvez até os tivesse mencionado na vossa presença. Ficarei muito grato por qualquer informação que me possa conduzir até eles. A rapariga chama-se Ermina Hugonin, tem quase dezoito anos e estava a cargo das nossas irmãs do Convento de Worcester. O irmão, Yves Hugonin, tem apenas treze anos e estava connosco. São órfãos de pai e mãe e o tio, o tutor natural, há muito que andava em luta na Terra Santa e só agora regressou para deparar com a notícia do desaparecimento dos sobrinhos. Quero deixar aqui bem claro - continuou o irmão Herward secamente - que nos consideramos grandemente responsáveis pelo fracasso da nossa missão de os proteger, embora, na verdade, a culpa não seja toda nossa. O súbito desenrolar dos acontecimentos fez com que perdêssemos a possibilidade de os controlar.

- Com semelhante confusão e com o perigo eminente - apoiou Radulfus pesaroso -, seria demasiado exigir a qualquer ser humano que mantivesse tudo em ordem. Mas crianças de tão tenra idade...

O irmão Edmund perguntou então hesitante:

- Deveremos pois concluir que partiram sozinhos de Worcester?

Não fora sua intenção imprimir à voz um tom de censura, nem de incredulidade, mas o irmão Herward baixou a cabeça humildemente perante a reprovação implícita.

- Não é meu desejo desculpar-me a mim ou a quem quer que seja. Mas, a verdade é que aconteceu, embora de uma forma diferente daquela que vocês possam pensar. O ataque deu-se de manhã cedo, mas iniciou-se na parte sul e nós não nos apercebemos da sua gravidade, nem da força do invasor até mais tarde, quando estes avançaram e atacaram igualmente a norte. Acontece que nessa altura o pequeno Yves fora visitar a irmã e ficou fora do nosso alcance. Lady Ermina é, atrevo-me a afirmar, uma jovem muito determinada. De maneira que as irmãs resolveram refugiar-se na capela e evitar assim os tumultos, confiando que até os vândalos, porque devo dizer-lhes que a maioria estava bêbeda e enfurecida, respeitariam o hábito religioso e não lhes fariam mal, limitando-se talvez a roubar as coisas mais valiosas, e ali permaneceram agarradas a essa convicção. Só que Lady Ermina pensava doutra forma. Resolveu, pois, fugir da cidade seguindo o exemplo de tantos outros e procurar algures o refúgio seguro e distante. E, como ninguém conseguiu demovê-la e o irmão também ali estava, a jovem freira responsável pela rapariga ofereceu-se para os acompanhar, certificando-se, assim, de que alcançariam abrigo seguro. Mas depois... não se sabe.

O irmão Denis, o capelão, que conhecia todas as almas que transpunham os portões da abadia, afirmou pesaroso:

- Lamento ter de o dizer, mas estou certo de que eles não chegaram. Não tivemos mais hóspedes. No entanto, se quiser acompanhar-me, falaremos com os que ainda se encontram hospedados no átrio e com os poucos que restam na enfermaria. Pode ser que saibam alguma coisa que vos possa ajudar. Claro que, como não sabíamos de nada, nada lhes perguntámos.

- Pode ser até que, tendo algum parente ou algum conhecimento ou até mesmo um antigo servo aqui na cidade, tenham seguido directamente para lá e se encontrem agora em segurança - sugeriu o irmão Mathew, o despenseiro.

- É possível - animou-se Herward -, embora eu esteja convencido de que a irmã Hilária insistiria em trazê-los para aqui, para os manter debaixo da protecção da nossa ordem.

- Se aqui ninguém nos puder ajudar, o que temos de fazer é consultar o xerife. Ele conhece todos quantos se abrigaram na cidade. O irmão referiu que o tio dos dois jovens acabou de chegar da Palestina - lembrou o abade. - Existem muitos meios que ele poderia utilizar para contactar as autoridades daqui. Por que razão não se encarregou ele pessoalmente deste inquérito? Decerto não vos atribui todas as culpas.

O irmão Herward inspirou profundamente, susteve o ar no peito franzino e libertou-o, lentamente, antes de responder.

- O tio deles é um cavaleiro de sangue Angevin, os jovens são filhos de uma irmã, chama-se Laurence D'Angers. Recém-chegado das cruzadas, é certo, mas dirigiu-se directamente para Gloucester onde se reuniu ao exército da imperatriz. É igualmente verdade que só chegou após o ataque e não podemos responsabilizá-lo, já que não tomou parte em nada. Mas agora nenhum homem de Gloucester se atreve a aparecer na nossa cidade. O rei já lá se encontra poderosamente armado e tão zangado como qualquer burguês agora arruinado. A busca ficou, portanto, a nosso cargo, por força das circunstâncias. Ao fim e ao cabo, não passam de criaturas absolutamente inocentes, e é isso que terei de afirmar ao xerife.

- E terá todo o meu apoio - garantiu Radulfus. - Mas, primeiro e já que aqui ninguém parece capaz de nos ajudar...? - Interrompendo-se, olhou em volta interrogativo e, ao deparar apenas com alguns acenos negativos, continuou: - Muito bem, interroguemos então os nossos hóspedes. Os nomes, a juventude dos dois irmãos, a presença da freira são coisas que dificilmente passariam despercebidas.

Cadfael, saindo juntamente com os companheiros, não acreditava, porém, que obtivessem algum resultado com aquele inquérito. Recentemente, grande parte do seu tempo passara-o ajudando o irmão Edmund a tratar dos viandantes estafados e nunca ouvira qualquer referência ao grupo dos desaparecidos. E não faltaram as histórias sobre as peripécias de viagem, contadas para quem as quisesse ouvir. Nenhuma incluíra uma irmã beneditina ou um par de jovens nobres perdidos na estrada e desprovidos de protecção masculina.

Quanto ao tio, aparentemente, tratava-se de um homem fiel à imperatriz, tal como Gilbert Prestcote era fiel ao rei: até ao punho da espada. E a verdade é que o azedume entre os dois partidos aumentava de dia para dia, alastrando como o fogo em palha seca, e ainda mais se atiçava depois do ataque a Worcester. As perspectivas não eram boas. O abade Radulfus empenharia todo o seu poder de persuasão e todo o seu tempo à missão do hóspede, mas até que ponto poderiam obter alguma compreensão a favor de Laurence D'Angers era uma pergunta cuja resposta deixava margem para muitas dúvidas.

O xerife recebeu os dois requerentes, com cortesia e solicitude, nos aposentos do castelo e ouviu, impassível, toda a história que Herward tinha para contar. Tratava-se de um homem melancólico, de sobrancelhas e barbas negras, cuja postura natural era mais inibidora que reconfortante. Apesar de tudo, à sua maneira, possuía uma mente justa e mantinha-se sempre fiel à palavra dada e aos seus homens, desde que estes correspondessem às exigências que lhes impunha.

- Lamento muito saber desse desaparecimento - afirmou ele, quando Herward se calou. - E ainda lamento mais ter de vos informar de que procurá-los em Shrewsbury será perder tempo. Desde o dia do ataque que tenho conhecimento de todas as almas que entraram na cidade, vindas de Worcester, e esses três nunca cá entraram. Muitos regressaram já a casa, agora que Sua Graça reforçou a guarnição de Worcester. Se, tal como dizeis, o tio dessas crianças se encontra de regresso a Inglaterra, e tratando-se de uma pessoa importante, por que não se encarrega ele pessoalmente da busca?

Herward, ao expor a sua história, omitira, por fraqueza, o nome do nobre, adiando assim o momento mais desagradável. E, no entanto, o nome nada mais revelava a não ser que, realmente, se tratava de um cavaleiro distinguido na luta das Cruzadas, recém-chegado da Terra Santa, onde se vivia, de momento, uma paz relativamente estável.

- Senhor - começou Herward com um suspiro -, Laurence D'Angers está desejoso e ansioso por encabeçar a busca, mas para tal necessitará da vossa autorização ou de um aval especial de Sua Graça, o rei. A verdade é que ele regressou e, como Angevin que é, deve vassalagem à imperatriz Maud. Deste modo, ele e os seus homens reuniram-se às forças de Gloucester - e aqui Herward apressou-se a concluir o seu discurso enquanto podia, pois o xerife franzia o sobrolho numa linha dura de aço, acentuando a expressão dos olhos, agora estreitos e brilhantes perante aquela revelação. - Ele só chegou a Gloucester uma semana depois do ataque. Não tomou parte nele, não sabia de nada e, portanto, não pode ser responsabilizado por nada. Regressou apenas para descobrir que os seus parentes se tinham perdido e tudo o que deseja agora é encontrá-los e sabê-los em segurança. Mas é impossível a um homem de Gloucester aproximar-se de Worcester neste momento ou até mesmo entrar em território do rei, a não ser que possua um salvo-conduto especial.

- Então o senhor vem aqui para defender um inimigo do rei?! - acusou Prestcote, após uma pausa assustadora.

- Com o devido respeito, senhor - defendeu-se Herward, corajoso -, estou aqui a defender uma jovem donzela e um garoto de tenra idade, que nada fizeram para se tornarem inimigos quer do rei, quer da imperatriz. Não estou preocupado com os dois partidos, mas sim com o destino de duas crianças que se encontravam sob a protecção da nossa Ordem, até àquele maldito dia. Não é pois natural que nos sintamos responsáveis por eles e, assim, façamos tudo o que nos for possível para os encontrar?

- Claro que sim - condescendeu o xerife secamente - e para mais o irmão, como homem de Worcester, dificilmente poderá sentir qualquer simpatia pelos inimigos do rei, nem terá qualquer vontade de lhes proporcionar conforto ou guarida.

- Nós sofremos muito, tal como toda a cidade sofreu, senhor. O rei Stephen é o nosso soberano e como tal o reconhecemos. A única obrigação que temos neste caso é em relação às crianças. Imaginai qual não será o desânimo e a ansiedade sentidas, neste momento, pelo tutor natural dos jovens. Tudo o que ele pede, tudo o que nós pedimos para ele, é que lhe seja concedida autorização para entrar nos domínios do rei, desarmado, para tentar encontrar os sobrinhos. E não afirmo que semelhante homem, conquanto inocente do ataque criminoso, e mesmo possuindo o salvo-conduto de sua Graça, se encontrasse em perfeita segurança entre o povo do vosso condado. Mas ele está disposto a correr o risco. Se lhe conceder o salvo-conduto, ele limitar-se-á ao seu objectivo e nada mais. Seguirá sem armas e acompanhado por um ou dois homens. O seu objectivo limitar-se-á, exclusivamente, à busca dos parentes perdidos. Senhor, pelas crianças, rogo-vos que lhe concedeis a autorização.

O abade Radulfus, mais comedido, apressou-se, no entanto, a juntar-se àquele apelo.

- Para um cruzado de reputação imaculada, acredito que semelhante promessa possa ser aceite sem qualquer reserva.

O xerife reflectiu sombria e silenciosamente durante alguns minutos e, então, respondeu com deliberada frieza.

- Não. Não concederei qualquer autorização, e se o rei aqui estivesse e decidisse conceder-lha, seria eu o primeiro a tentar dissuadi-lo de tal. Após o que aconteceu, qualquer pessoa desse partido que se atreva a entrar no seu domínio será tratado como prisioneiro de guerra, se não como espião. E se ele teimar fazê-lo em qualquer circunstância arrisca-se a perder a liberdade, se não a vida, seja qual for a sua causa. Não se trata apenas de uma questão de intenções. Até um homem digno e suficientemente sincero na sua promessa poderia levar consigo informações sobre os castelos e guarnições, susceptíveis de, futuramente, colocarem o inimigo em vantagem. Para mais, e acima de tudo, é meu dever combater os inimigos do rei, reduzindo-lhes a força sempre que possível. E, se algum dia tiver a possibilidade de os privar de um bom cavaleiro, não perderei a oportunidade. Sem qualquer ofensa para Sir Laurence D'Angers, cuja reputação, tanto quanto sei, é sem dúvida imaculada, não lhe concederei o salvo-conduto e se, mesmo sem ele, resolver arriscar-se em território real a sua vida ficará em perigo. Com certeza não foi para vir apodrecer numa cadeia que ele regressou da Palestina, mas se desobedecer não poderei fazer nada.

-Mas... e a jovem Ermina-insistiu Herward desalentado - e o irmão, um simples garoto, deverão eles ficar ao abandono?

- Eu não disse isso. Claro que serão procurados por todo o lado, mas pelos meus homens. E, se forem encontrados, serão conduzidos e entregues em segurança ao tio. Enviarei instruções a todos os meus castelãos e oficiais no sentido de iniciarem as buscas e o respectivo inquérito sobre os desaparecidos. Mas não admitirei a presença de um cavaleiro da imperatriz nas terras que eu administro em nome do rei.

Nada mais conseguiriam dele e assim o entenderam pelo tom de voz e pela expressão do seu rosto. Assim, o melhor seria tirar todo o partido possível daquela proposta.

- Talvez ajudasse - sugeriu Radulfus brandamente -, se o irmão Herward vos fornecesse a descrição dos três. Embora na verdade eu não saiba se ele chegou a conhecer a rapariga e a tutora...

-Elas foram visitar o rapaz por diversas vezes-explicou Herward. - Posso descrevê-los a todos. Os vossos homens deverão procurar um rapaz, Yves Hugonin, de treze anos de idade e herdeiro de uma considerável fortuna do pai. Não é alto para a idade, mas vigoroso e bem constituído. A cara é redonda e rosada e tanto os olhos como o cabelo são de um castanho-escuro. Vi-o na manhã em que tudo aconteceu e, por isso, sei que vestia um gibão azul-claro, um manto com capuz e as meias eram cinzentas. Quanto à irmã, Hilária, a melhor forma de a reconhecer será através do seu hábito, mas devo acrescentar que é nova, não terá mais de vinte e cinco anos e trata-se de uma mulher bem-parecida, esbelta e graciosa. A jovem Ermina - e aqui o irmão Herward hesitou, fixando o olhar para lá do ombro do xerife, como se evocasse a imagem de alguém que mal conhecia, mas que no entanto lhe deixara uma imagem pormenorizadamente impressa na sua memória -, muito em breve completará dezoito anos, não sei bem em que dia. Mais morena do que o irmão, tem os olhos e os cabelos quase negros e é alta e vigorosa... É considerada como uma rapariga esperta e viva, e possui uma firme determinação.

Embora não se pudesse considerar que fizera um retrato físico pormenorizado, certo era que a conseguira delinear com surpreendente clareza. E o irmão Herward concluiu com uma expressão ausente, quase como se falasse para si próprio:

- Pode mesmo dizer-se que é muito bonita.

O irmão Cadfael teve conhecimento desta conversa através de Hugh Beringar, após os mensageiros terem passado pelos castelos e senhorios levando a notícia às cidades, para que fosse anunciada publicamente. Assim Prestcote cumprira a promessa à letra, ainda antes de se retirar para o castelo, a fim de passar o Natal com a família. Só o facto de tornar público o interesse que sentia pelos desaparecidos era suficiente para os envolver numa sombra protectora, caso alguém no condado viesse a encontrá-los. Herward regressara com uma escolta a Worcester, tendo cumprido apenas parte da sua missão.

- Muito bonita! - repetiu Hugh, sorrindo preocupada e sombriamente. - Uma criatura assim voluntariosa, elegante e atrevida, vagueando pelos campos, ameaçada pelo Inverno e pela guerra não terá dificuldade em meter-se em sarilhos.

- Afinal os subpriores também têm olhos - respondeu Cadfael serenamente, mexendo o xarope para a tosse que fervia, borbulhando, na lareira da sua oficina. - Mas dada a sua juventude, ela seria vulnerável mesmo se fosse feia. Bem, mas, tanto quanto sabemos, neste momento até podem estar a salvo num abrigo. É uma pena que esse tio pertença ao outro partido e não tenha autorização para proceder pessoalmente às buscas.

- Recém-chegado de Jerusalém - cismava Hugh -, de forma alguma pode ser culpado pelo que aconteceu em Worcester. Suponho que ele é demasiado novo para o irmão o conhecer?

- Pertence a outra geração, rapaz. Já lá vão vinte seis anos, desde que eu deixei a Terra Santa. - Cadfael retirou a caçarola do lume, colocando-a cuidadosamente no chão de terra batida, para ali arrefecer, gradualmente, durante a noite. Endireitou-se lenta e cuidadosamente. Não andava longe dos 60 anos, ainda que não os aparentasse. - Receio que muita coisa tenha mudado desde então. O fulgor depressa se atenua. De que porto vem ele?

- Segundo Herward, vem de Tripolí. Suponho que durante a sua juventude degenerada chegou a conhecer muito bem essa cidade?! Ouvi dizer que não ficou muita coisa nessa costa que você não tenha conhecido.

- OS. Symeon era o meu preferido. Havia bons artistas nos estaleiros, então. Era um porto óptimo. E Antioquia distava apenas alguns quilómetros ao longo do rio.

Tinha bons motivos para se lembrar de Antioquia, pois fora aí que começara e que terminara a longa carreira de cruzado e o seu romance com a Palestina, aquela terra de areias e desertos dourados, tão bonita e ao mesmo tempo tão cruel e hostil. Nesse porto calmo e trabalhador resolvera, por fim, lançar âncora. Agora tinha pouco tempo para pensar e recordar as aventuras da juventude, mas lembrava-se nitidamente daquela cidade, do verde viçoso do vale do rio, das ruas estreitas e agradavelmente abrigadas, da confusão do mercado. E Miriam, que vendia frutas e legumes na Rua dos Veleiros, com o seu rosto de ossos perfeitos realçados pela forte luz do sol, que os tornava de ouro e de prata, com o cabelo negro e luzidio, brilhando debaixo do véu! Ela adoçara-lhe a chegada ao oriente, era ainda um mero rapazote de dezoito anos, e adoçara-lhe igualmente a partida, transformadora, num soldado viajado e amadurecido de trinta e três anos. Miriam era uma jovem viúva apaixonada e só, uma mulher do povo, demasiado disponível, forte e desdenhosa, para agradar a qualquer um. A mágoa provocada pela morte do marido era-lhe insuportável e afogou-a no coração e na alma do jovem forasteiro, dedicando-lhe a vida, preenchendo, assim, o vazio em que vivia. Acompanhou-o durante um ano, antes de o exército da cruz avançar para Jerusalém.

Tivera outras mulheres, antes e depois dela, e recordava-as com gratidão e sem qualquer remorso. Dera e recebera prazer e ternura e nenhuma delas se queixara alguma vez. Do ponto de vista disciplinar tratava-se de uma desculpa muito pobre, no entanto era suficiente para o reconfortar. Seria um insulto arrepender-se de ter amado uma mulher como Miriam.

- Eles fizeram algumas alianças que assegurarão a paz, pelo menos por uns tempos - comentou pensativo. - Suponho que um senhor de Angevin se deve sentir mais útil aqui do que lá. Agora é a sorte da sua soberana que está em jogo. E o homem tem um bom nome, pelo que sei. É pena que a sua chegada

tenha coincidido com o período de ódio crescente deste conflito.

- É uma pena que haja motivo para ódios entre homens de bem - concordou Hugh com pesar. - Sou homem do rei e escolhi-o com consciência. Gosto de Stephen e não é provável que o abandone por qualquer outro engodo. Mas consigo entender perfeitamente por que motivo um barão de Anjou regressa apressadamente a casa para servir a sua senhora com a mesma lealdade com que eu sirvo Stephen. Como esta guerra civil deturpou todos os nossos valores, Cadfael!

- Nem todos - discordou Cadfael com firmeza. - Pelo que sei, nunca houve nenhuma época que não conhecesse os problemas da guerra. O seu filho crescerá num mundo mais ordenado. Bem, por hoje acabei o meu trabalho e deve estar quase a soar o sino.

Saíram juntos para a frescura e escuridão do jardim e sentiram na face os primeiros flocos da primeira neve daquele Inverno. O ar estava carregado com uma ameaça difusa, mas a queda era ainda leve e intercortada.

 

No quinto dia do mês de Dezembro, por volta do meio-dia, chegou um viajante vindo do sul, que pernoitara na abadia de Bromfield a cerca de vinte milhas e que, tendo tido a sorte de encontrar a estrada em condições menos más, trazia uma mensagem urgente para o abade de Shrewsbury. O prior Leonard de Bromfield fora monge ali no mosteiro até ser promovido e, como velho amigo do irmão Cadfael, conhecia bem os seus dotes.

- Durante a noite - relatou o mensageiro -, alguns homens honestos carregaram um ferido até ao mosteiro. Tinham-no encontrado na berma da estrada nu e ferido, abandonado à morte. E, na verdade, encontra-se mais morto do que vivo e o caso está mal parado. Se tivesse apanhado o gelo da noite, de manhã estaria morto de frio. O prior Leonard pediu-me para vos trazer este recado, pois embora eles tenham alguma experiência em tratar feridos este caso está fora do alcance dos conhecimentos que possuem. E, como o irmão tem a experiência de muitas guerras, eles pensam que talvez possa salvar o homem. Isto se o irmão pudesse ir até lá, olhar por ele até que se cure ou até que a pobre alma expire. Seria um grande alívio e um favor enorme.

- Se o prior e o abade mo permitirem - respondeu Cadfael preocupado -, irei com todo o gosto. Mas existem assaltantes tão perto da estrada de Ludlow? Que se passa lá no sul afinal?

- E o pobre homem é monge. Souberam-no pela tonsura. -Vinde comigo - sugeriu Cadfael. -Vamos falar com o prior

Robert.

O prior Robert ouviu o pedido com simpatia e não levantou objecções, já que não era ele que teria de cavalgar toda aquela distância em pleno Inverno. Encarregou-se de levar o pedido até ao abade e regressou, prontamente, com a autorização do seu superior.

- O irmão abade manda dizer para levar o melhor cavalo que houver no estábulo, pois irá precisar dele. Poderá ausentar-se o tempo que for preciso que nós mandaremos chamar o irmão Mark de S. Giles para o substituir. Penso que o irmão Oswin não terá ainda experiência suficiente para tratar das coisas sozinho.

Cadfael concordou pronta mas discretamente. O irmão Oswin era uma alma bem intencionada e trabalhadora, mas de forma alguma competente para tratar de todas as doenças do Inverno, na ausência do mestre. Mark iria deixar os seus leprosos lá nos arredores da cidade com uma certa mágoa, mas com ajuda de Deus seria por pouco tempo.

- Como estão as estradas? - perguntou ao mensageiro que desaparelhava o cavalo enquanto Cadfael escolhia o seu. - Chegásteis cá depressa. Também eu terei de me apressar.

- O pior é o vento, irmão, mas a estrada principal está quase limpa, à excepção de alguns sítios onde se encontra em muito mau estado. Os atalhos estão mais perigosos. Se partirdes já não tereis muita dificuldade em seguir caminho. E sempre é melhor seguir para sul do que para norte. Pelo menos, apanhais o vento de costas.

Cadfael hesitou antes de encher a sacola, pois alguns dos seus medicamentos, unguentos e antifebris não os conseguiria encontrar em mais lado nenhum, enquanto os produtos mais comuns existiriam, certamente, na ervanária de Bromfield. Quanto menos peso levasse mais depressa avançaria. Calçou umas botas fortes e embrulhou-se num espesso manto de viagem, prendendo com firmeza a sacola à volta da cintura. Se o motivo não fosse tão triste teria saboreado a perspectiva de fazer uma viagem de volta ao mundo exterior, assim como a liberdade de poder escolher a sua montada. Já viajara tanto sob frio intenso como sob o sol escaldante, por isso a neve não o assustava, embora Cadfael fosse suficientemente sensato para a respeitar e enfrentar com precaução.

Naqueles quatro dias, desde que caíra a primeira neve, o tempo seguira um padrão fixo, com o sol abrindo momentaneamente por volta do meio-dia, cobrindo-se de nuvens pouco depois, até que, com o cair da noite, principiavam de novo os nevões que se mantinham até de madrugada, gelando tudo. À volta de Shrews-bury a queda de neve fora leve e espaçada e, consoante a direcção do vento, o solo passava de branco a castanho. Mas, à medida que Cadfael avançava para sul, os campos tornavam-se cada vez mais uniformemente brancos, sem espaços limpos, e os ramos das árvores dobravam-se quase até ao chão sob o peso da neve. Pelo meio da tarde o céu cobrira-se de chumbo e para onde quer que olhasse apenas se viam farrapos de nuvens negras. Se assim continuasse, os lobos não tardariam a descer das montanhas até às povoações, atacando esfomeados e perseguindo homens e animais. Naquela altura, invejava os ouriços, que podiam hibernar sob um arbusto qualquer, e até os esquilos eram felizes esperando dentro de um buraco que o Inverno passasse, fornecidos com a sua reserva de alimentos. E o Outono fora bom para as bolotas e para as nozes.

Cavalgar era para Cadfael um imenso prazer, mesmo seguindo sozinho e debaixo de um frio intenso. Poucas vezes lhe surgia uma oportunidade destas. Fora mesmo um dos prazeres que mais lhe custara deixar ao optar pela calma do convento e pela sensação de ter descoberto o seu verdadeiro lugar no mundo. Mas não há bela sem senão e, em qualquer opção, há sempre alguns se-nãos. Endireitou vigorosamente as costas enfrentando a fúria do vento e viu os primeiros flocos que caíam finos como pó, redemoinhando à sua volta, esmagando-se contra o cavalo, enquanto ele nada sentia protegido pelo manto e pelo capuz.

Pensou no homem ferido que o aguardava. Segundo o mensageiro, tratava-se de um monge. De Bromfield? Com certeza que não. Se se tratasse de um deles teriam dito o nome. Um monge perdido e sozinho na estrada a meio da noite? Por que razão? E com que destino? Para onde iria antes de cair nas mãos dos malfeitores e dos assassinos? Outros deveriam ter passado por aquela região, fugindo do ataque a Worcester. E onde estariam agora? Talvez aquele infeliz tivesse sido atacado quando fugia do mesmo holocausto.

A neve era agora mais espessa e formava uma espécie de duas cortinas de espuma fina de cada lado do corpo em movimento, unindo-se na frente como as pontas de um lenço de gaze que se abria à medida que Cadfael avançava.

Durante a viagem encontrou apenas quatro seres humanos e todos perto de casa. Com um tempo daqueles só os desesperados se atreviam a viajar.

Era já noite quando atingiu os portões de Bromfield, depois de transpor a ponte do pequeno rio Orny. O cavalo dava sinais de cansaço e bufava, ofegante, agitando os flancos e batendo as patas com nervosismo. Foi com alívio que Cadfael se apeou sob as luzes das tochas do portão, enquanto entregava s rédeas a um noviço. A sua frente estendia-se o pátio que lhe era familiar, mais pequeno que o de Shrewsbury, e o contorno do edifício da abadia distinguia-se aqui e ali, iluminado pelas tochas. A Igreja de Santa Maria sobressaía, grande e nobre, contrastando com a modéstia do restante edifício. E, do meio das sombras, apareceu então o prior Leonard em pessoa, um homem esguio, desajeitado, alto, de nariz adunco ansiosamente espetado, agitando os braços como asas. O pátio, certamente seco, durante o dia apresentava já uma fina e macia camada de neve que, pela manhã, seria profunda e quebradiça, a não ser que o vento se encarregasse de a transportar para outro sítio.

- Cadfael?

O prior era míope e mesmo à luz do dia era obrigado a franzir os olhos, esforçando-se para ver melhor, mas, pegando na mão estendida, segurou-a e reconheceu-a.

- Graças a Deus que vieste! Receio que ele... mas semelhante viagem... Anda, entra. Tenho uma refeição pronta para ti. Deves estar estoirado e esfomeado.

- Primeiro deixa-me ir vê-lo - pediu Cadfael com vivacidade, atravessando o pátio, imprimindo no macio tapete branco as pesadas marcas das suas botas. O prior Leonard apressou-se a segui-lo, acompanhando com dificuldade o passo mais lento do companheiro mais baixo, mas sem deixar de tagarelar.

- Deitámo-lo num quarto isolado, para o manter em silêncio, e vigiamo-lo constantemente. Ele respira ruidosamente, tal como um homem com fractura de crânio. Não abriu os olhos nem disse uma palavra desde que o trouxeram. Tem o corpo negro por causa dos ferimentos, mas isso passa-lhe. Só que foi igualmente apunhalado e sangrou abundantemente, embora a ferida esteja agora a cicatrizar. Por aqui... o quarto interior é menos frio...

A enfermaria ficava um pouco afastada e era abrigada do vento pelo edifício da igreja. Entraram e fecharam a pesada porta aos rigores da noite. Leonard conduziu-o através de um pequeno corredor até uma cela apenas iluminada por uma lamparina de óleo, colocada ao lado da cama. O noviço ajoelhado ergueu-se mal os dois homens entraram, afastando-se da cabeceira do doente por forma a deixar espaço para que os recém-chegados se aproximassem.

O ferido encontrava-se deitado sobre um monte de cobertores, jazendo de costas. Era certo que respirava, mas com grande esforço e ruído, e a inspiração quase não chegava a mover o lençol que lhe cobria o peito. A cara, semioculta pela almofada, permanecia imóvel: os olhos fechados e as faces azuis e encovadas mostravam os ossos salientes. Tinha a cabeça ligada, tapando-lhe a tonsura, e a testa debaixo da ligadura estava inchada e tão disforme, que um dos olhos desaparecia sob as dobras da carne ferida. Não se podia concluir nada sobre o seu aspecto físico, mas Cadfael não teve dúvidas de que se tratava de um homem bem constituído e ainda novo: não teria mais de 35 anos.

- O espantoso é que não tem nenhum osso partido - murmurou Leonard. - A não ser, claro, o crânio... mas tu próprio o examinarás mais tarde.

- Não há melhor altura do que agora mesmo - afirmou Cadfael sensato e, libertando-se da capa, deitou mãos à obra depois de poisar a sacola no chão de pedra.

Num canto do quarto ardia um pequeno braseiro, mas, apesar disso, ao enfiar a mãos por entre os cobertores para apalpar a ilharga, a anca e os pés do ferido, sentiu a carne inerte completamente gelada. O homem estava bem embrulhado mas não era suficiente.

- Aqueçam-me tijolos na lareira da vossa cozinha - ordenou Cadfael. -Depois de quentes embrulhem-nos em flanela. Temos de o rodear de calor e substituir os tijolos sempre que arrefecerem. O frio do corpo do doente não é provocado pelo Inverno, mas sim pelos maus tratos, e temos de o fazer sair disto. De outra forma, nunca mais ele acordará. Já vi homens em estado de choque devido a horrores e crueldades virarem costas à vida e morrerem quando nada havia nos seus corpos que os pudesse matar. Tentaram dar-lhe alguma coisa para comer ou para beber?

- Tentámos dar-lhe de beber, mas ele não consegue engolir. Mesmo uma pinga de vinho acaba por lhe sair da boca.

Um queixo partido ao murro ou à cacetada. Provavelmente até teria algum dente partido. Mas não. Cadfael levantou-lhe delicadamente o lábio superior e pôde ver uns dentes fortes e brancos bem presos e seguros.

O noviço deslizara em silêncio até à cozinha para preparar os tijolos aquecidos. Cadfael destapou o corpo nu e examinou-o da cabeça aos pés. Estava coberto apenas com um lençol de linho, suficientemente macio para não irritar as inúmeras feridas e escoriações. O ferimento causado pela navalha, abaixo do coração, encontrava-se ligado com firmeza. Cadfael não retirou a ligadura. Não duvidava da escrupulosa limpeza nem do tratamento que lhe tinham feito. Contudo, fez deslizar os dedos por entre a ligadura de forma a apalpar os ossos cobertos.

- Quiseram mesmo acabar com ele, só que a faca encontrou o osso e eles não se certificaram se estava morto ou não. Deve tratar-se de um homem extremamente saudável, repara só na sua constituição. Foram precisos pelo menos três ou quatro para o porem neste estado.

A seguir, fez o que pôde pelos muitos ferimentos que aparentavam alguma supuração, tratando-os com os unguentos que trouxera e que utilizara já inúmeras vezes durante todos aqueles anos, mas não tocou nos que pareciam limpos. Dois noviços apareceram então com os tijolos aquecidos, espreitando ávida e ansiosamente enquanto os colocavam à volta do corpo, o mais próximo deste possível sem contudo lhe tocar, apressando-se a sair para, devotadamente, porem mais alguns a aquecer.

-Um bom tijolo junto aos pés grandes e magros, pois se se tem os pés frios o corpo nunca conseguirá aquecer - defendeu Cadfael.

Passou de seguida à cabeça. Retirou as ligaduras com a ajuda de Leonard, que sustentava o peso dos ombros. Apareceu a tonsura, indiscutível, espessa, com o cabelo castanho emoldurando uma careca marcada com dois ou três ferimentos escuros. O cabelo era de tal forma basto, espesso e vigoroso que até mesmo o anel que lhe rodeava a cabeça o poderia ter salvo de fractura de crânio. Cadfael apalpou delicadamente toda a cópula óssea e não descobriu nenhum sítio onde esta cedesse ao toque. Suspirou esperançado.

- O espírito deve ter ficado bastante abalado e confuso, mas estou convencido de que o crânio ficou intacto. Vamos ligá-lo de novo para ficar mais confortável e mais quente. Não descubro qualquer fractura.

Depois de o exame ter terminado, o corpo imóvel mantinha-se na mesma: não era visível qualquer alteração provocada pelo manuseamento a que fora sujeito. Mas as pedras quentes, prontamente substituídas ao arrefecerem, começavam a surtir o seu efeito. A carne sentia-se mais macia e humana ao toque, reagindo, portanto, ao calor.

- Podemos agora deixá-lo - concluiu Cadfael, olhando-o com visível preocupação. - Eu ficarei de vigia durante a noite e descansarei pela manhã, depois de verificar se melhorou ou não. Mas estou convencido de que vai sobreviver. Irmão prior, agora sim, estou pronto para a tal ceia que me prometeste. E, antes disso, como estou demasiado enferrujado para me valer sozinho, pede a um dos noviços fortes que me arranquem as botas.

O prior Leonard fez companhia ao seu convidado durante a ceia, dando largas ao alívio que sentia por ter ali um médico mais experiente.

- Sabes que eu nunca tive nem os teus conhecimentos nem os meios para os adquirir e nunca, Deus bem o sabe, tive a meu cargo uma criatura com tantos ferimentos e com tantos ossos partidos. Pensei estar a braços com um cadáver, antes mesmo de o trazerem para dentro. Tentámos conter-lhe a hemorragia e agasalhá-lo contra o frio. Se calhar, nunca viremos a saber como isto lhe aconteceu.

- Quem o trouxe para cá? - perguntou Cadfael.

- Um rendeiro nosso de Henley, Reyner Dutton, um bom camponês. Foi na primeira noite em que caiu a neve e o gelo e Reyner perdera um novilho mais aventureiro, que andou por aí às voltas e acabou por se perder e, por esse motivo, ele e mais dois andavam por aí tentando encontrá-lo. Deram com este pobre homem estendido na beira da estrada e abandonaram as buscas para o trazerem para aqui, abrigando-o o mais depressa que puderam. Estava uma noite brava, com o vento soprando forte e a neve caindo com dureza. Se tivesse ficado toda a noite na estrada, duvido que sobrevivesse ao frio.

- E essa gente que o encontrou não viu nada naquelas redondezas? Eles próprios não tiveram maus encontros?

- Nada. Mas não se via quase nada. Os assaltantes podiam até ter passado por perto que eles não dariam conta. Felizmente tiveram a sorte de não sofrerem o mesmo destino, embora, como eram três, talvez conseguissem defender-se do ataque. Conhecem a região como a palma das mãos. Qualquer forasteiro seria obrigado a aguardar em qualquer sítio que a visibilidade melhorasse. Com estes nevões, com o vento soprando forte e a neve tão espessa e seca, os caminhos aparecem e desaparecem num instante. Poderias avançar uma milha, convencido de que conhecias a paisagem que te rodeava e no caminho de volta não conseguirias reconhecê-la.

- E quanto ao ferido? Ninguém sabe quem ele é?

O prior Leonard mostrou-se surpreendido e embaraçado.

- Mas... claro que sim. Eu não te disse? Bem, o meu mensageiro estava cheio de pressa e não houve tempo para grandes explicações. Sim, trata-se de um irmão beneditino de Pershore, que veio até cá a mando do abade. Negociámos com eles a aquisição do osso do dedo de S. Eadburge, cujos restos mortais eles possuem, como tu sabes. E foi a este irmão que coube a missão de nos trazer o relicário. Assim, há alguns dias atrás, ele entregou-nos a encomenda. Chegou no dia um deste mês e ficou para assistir às cerimónias da instalação do relicário.

- Então, como é que ele foi parar no meio da neve, completamente nu, um ou dois dias depois? - perguntou Cadfael pasmado. - Leonard, estás a ficar um pouco desleixado com os teus hóspedes.

- Mas, Cadfael, ele deixou-nos. Anteontem afirmou que precisava de partir no dia seguinte, logo de manhã cedo. E ontem, mal tomou o pequeno-almoço partiu, e asseguro-te de que ia bem preparado para enfrentar a primeira etapa da viagem. Não sabemos mais do que tu sobre o motivo do ataque ainda tão próximo do nosso mosteiro e, como viste, ele não se encontra em condições de explicar seja o que for. Ninguém sabe onde ele se meteu entre a madrugada de ontem e a noite, mas não foi certamente onde o encontraram ou estaríamos agora a fazer-lhe o velório e não a tentar salvá-lo.

- Bem, pelo menos sabemos quem ele é. Que sabes sobre ele? Ele disse como se chamava?

O prior encolheu os ombros magros. Afinal o que significava um nome?

- Chama-se Elyas. Embora não tenha dito nada, suponho que não está há muito tempo no mosteiro. Trata-se de um homem particularmente taciturno, não falou de si próprio. Parecia vigiar o tempo com particular ansiedade. Achámos normal, pois ainda lhe faltava enfrentar o caminho de regresso. Mas agora tenho a impressão de que havia mais qualquer coisa, pois falou de um grupo qualquer que deixara em Foxwood, vindo de Cleobury. Alguém que ele encontrou, vindo de Worcester e que tentou trazer para cá, mas eles resolveram continuar pelos montes até Shrewsbury. Segundo ele disse, a rapariga estava determinada e era ela quem comandava o grupo.

- Rapariga! - repetiu Cadfael de atenção aguçada. - Havia uma rapariga que controlava o grupo?

- Assim parece - respondeu Leonard, pestanejando supreendido pelo interesse demonstrado por Cadfael.

- Ele disse quem acompanhava a rapariga? Não falou num garoto? Ou de uma freira? - Percebeu então que era tolice entusiasmar-se tanto só por ouvir falar numa rapariga determinada que comandava um grupo.

- Não, ele não falou em mais ninguém. Mas pareceu-me bastante ansioso e preocupado com eles, pois a neve começou a cair já ele cá tinha chegado e aquelas colinas são tão geladas. Bem, tinha motivos para se preocupar.

-Achas que ele seguiu no encalce deles? De forma a certificar-se se estavam bem e se teriam conseguido chegar em segurança a Shrewsbury? Não seria grande o desvio do seu caminho.

- Pode ser que sim - respondeu Leonard, e silenciosamente prescrutou o rosto do amigo, preocupado e aguardando que este o elucidasse.

- Perguntou... pergunto-me se ele os teria encontrado... se os quis trazer para aqui... - falava para si próprio, pois o prior continuava a olhá-lo paciente, mas sem entender nada.

E, se assim era, pensava Cadfael, em nome de Deus onde estariam os outros agora? O único que podia ajudá-los e protegê-los fora cruelmente espancado e quase morrera. Onde estariam agora os outros três? Também não havia provas de que realmente se tratava dos indefesos Hugonin e da jovem freira que os acompanhava. Muita gente, e muitas raparigas também, haviam fugido daquela cidade de Worcester.

Raparigas determinadas e mandonas? Bem, já vira jovens criadas em choupanas, oriundas de famílias ligadas à terra revelarem-se de forma não menos surpreendente do que as nascidas em castelos. As mulheres diferiam tanto como os homens.

Leonard-começou ele decidido, inclinando-se sobre a mesa-, não soubeste pelo xerife a história das duas crianças que desapareceram de Worcester juntamente com uma jovem freira?

O prior abanou a cabeça confuso.

- Não me lembro de ouvir nada disso. Queres dizer que esses... o irmão Elyas estava ansioso, lá isso estava. Achas que esses de quem ele falou são os mesmos que estão a ser procurados?

Cadfael contou-lhe tudo o que sabia sobre a fuga, sobre a busca que se iniciara a pedido do tio, ameaçado de captura e prisão caso se aventurasse a passar os limites das terras do rei para os procurar. Leonard escutava-o com crescente desalento.

- De facto poderiam ser os mesmos. Se aquele pobre irmão ao menos pudesse falar!

- Mas ele falou. Disse-vos que os deixara em Foxwood e que eles estavam decididos a atravessar os montes até Shrewsbury. Isso significa que se vão aventurar através do flanco de Clee até Godstoke, onde entrariam nas terras do mosteiro de Wenlock, ficando, portanto, em boas mãos.

-Mas com estas tempestades o caminho é tão perigoso e gelado! - murmurou o prior horrorizado. - E nevou tanto na noite seguinte!

- Não podemos ter a certeza de nada - lembrou Cadfael cauteloso. - São tudo suposições. Um quarto da população de Worcester fugiu para estes lados, tentando escapar ao ataque. O melhor será que eu me dedique ao doente em vez de estar a perder tempo com especulações, pois só ele nos poderá dizer algo mais. Para além de tudo, ele está aqui, foi-nos deixado à porta e temos de o tratar. Vai para Completas, Leonard, e reza por ele, que eu farei o mesmo à sua cabeceira. E se ele falar, não receies, estarei bem acordado para captar qualquer palavra que ele profira. Abem de todos nós!

Durante a noite deu-se a primeira alteração súbita e quase imperceptível do estado do doente. O irmão Cadfael estava já acostumado a dormir com um olho e ambos os ouvidos bem abertos. Assim, dormitava num banco ao lado da cama, tinha os braços cruzados e a cabeça pendia-lhe para o peito. Encostara um ombro à cama, por forma a sentir qualquer movimento. Mas foi o ouvido que o despertou. Imediatamente se inclinou, de respiração suspensa. Elyas acabara de realizar a sua primeira inspiração fácil, profunda e mais comprida, que lhe percorreu o corpo massacrado da cabeça aos pés. As dores intensas que imediatamente o assaltaram fizeram-no gemer. O som horrível produzido pela garganta desaparecera e, apesar do sofrimento, respirava agora profunda e avidamente como um homem esfomeado que, finalmente, tem comida.

Cadfael viu o rosto desfigurar-se com um grande espasmo e os lábios inchados afastarem-se, mostrando a ponta da língua trémula tentando humedecer os lábios, para logo se retirar devido à dor causada. Os dentes fortes descerraram-se, soltando um longo e angustiante suspiro.

Cadfael munira-se com um jarro de vinho adoçado com mel, que poisara junto do braseiro, de maneira a mantê-lo quente. Deixou cair algumas gotas por entre os lábios entreabertos e teve a satisfação de verificar que a face inconsciente se contorcia num esforço muscular, tentando engolir. Ao tocar com um dedo nos lábios do homem, de novo estes se separaram, em resposta sequiosa. Gota a gota, pacientemente, uma boa parte do líquido foi engolida e, só quando o doente deixou de reagir ao estímulo, Cadfael abandonou aquele processo. O espírito ausente e inacessível dera agora lugar ao sono reconfortante pelo aquecimento do corpo, quer exterior, quer interior. "Alguns dias de calma imobilidade, e os humores regressarão à cabeça", pensou Cadfael, "ele voltará a si e até nós."

Mas, se se conseguiria lembrar do que lhe acontecera, isso já era outra questão. Já vira homens com feridas semelhantes na cabeça capazes de recordarem todos os pormenores da infância e de anos anteriores, mas sem qualquer recordação do passado mais próximo, nem da altura em que sofreram o ataque.

Retirou o tijolo já frio dos pés da cama e substituiu-o por outro chegado da cozinha. Sentou-se, então, retomando a vigília. Não havia dúvida de que o homem agora dormia, mas um sono muito agitado, interrompido por lamúrias, gemidos e arrepios súbitos que lhe avassalavam o corpo todo. Por uma ou duas vezes, foi visível o esforço que Elyas fazia para esboçar uma palavra, forçando a garganta, os lábios e a língua, mas só conseguindo soltar sons de angústia indecifráveis ou nem sequer isso. Cadfael inclinou-se mais para ele, por forma a poder apanhar alguma palavra que pudesse ter algum significado. Mas a noite passou e não conseguiu captar nada de coerente.

Talvez os sons produzidos pelo iniciar do dia monástico tivessem tocado algum ponto mais sensível daquele corpo maltratado, pois, ao ouvir-se o toque de Primeiras, o homem quedou-se imóvel, enquanto lutava para abrir os olhos, incapaz de enfrentar a luz ainda que difusa, que entrava no quarto. A garganta soltou uns ruídos, os lábios abriram-se tentando falar. Cadfael inclinou-se e encostou o ouvido à boca que tentava falar.

-... loucura... - sussurrou Elyas, ou pelo menos assim o percebeu Cadfael. -Em Clee - continuou-... com este nevão... - voltou a cair na almofada e gemeu de dor -tão nova... tão voluntariosa. - E de novo caiu em sono profundo, mas desta vez mais calmo, sem o anterior desassossego. De súbito, numa voz esganiçada, mas claramente audível, acrescentou: - O rapaz queria vir comigo.

E foi tudo. De imediato retomou o silêncio e a imobilidade.

- Regressou à vida - anunciou o irmão Cadfael quando o prior Leonard veio saber do doente, mal o ofício terminou -, mas não devemos pressioná-lo.

Um noviço aguardava obedientemente a sua vez de vigiar o doente.

- Quando ele se mexer podes dar-lhe vinho com mel, vais ver que agora ele não o deita fora. Senta-te perto e aponta qualquer palavra que Ele profira. Duvido que possamos fazer mais alguma coisa por ele, enquanto eu vou descansar, mas está aí um jarro de água se for preciso . Se vires que ele começa a transpirar, mantém-no bem coberto e vai-lhe molhando a cara. Com alguma sorte ele conseguirá dormir. Ninguém poderá fazer tanto por ele como um bom sono.

- Estás satisfeito com o seu estado? - perguntou Leonard, ansioso, enquanto se afastavam juntos. -Achas que ele se salva?

- Vai ficar bom. Só precisa de algum tempo e de descanso - garantiu Cadfael, bocejando.

Agora, precisava de um bom pequeno almoço e da cama para descansar durante a manhã. Depois, e após uma última vista de olhos às ligaduras das costelas e da cabeça e às feridas menores que ameaçavam infectar, teria de pensar numa forma de conseguir tratar do irmão Elyas e ao mesmo tempo procurar as crianças desaparecidas.

- E ele disse alguma coisa? - perguntou Leonard. - Falou alguma coisa importante?

- Falou num rapaz e na loucura de tentar atravessar as montanhas com esta neve. Sim, estou convencido de que ele encontrou os dois Hugonin e a freira e que tentou trazê-los para aqui, para os pôr em segurança. Foi a rapariga que teimou em seguir caminho - respondeu Cadfael, amaldiçoando a obstinação daquela desconhecida que teimava em aventurar-se pelos montes em pleno Inverno e em plena guerra.

- Jovem e voluntariosa - disse ele. No entanto, ainda que tolos e levianos, aqueles inocentes não poderiam ser deixados ao abandono.

- Dá-me qualquer coisa para comer - pediu Cadfael, regressando às necessidades imediatas-e depois mostra-me uma cama. Deixemos os desaparecidos para mais tarde. Não abandonarei o irmão Elyas enquanto ele precisar de mim. Mas sabes, Leonard, podíamos verificar se algum dos teus hóspedes segue hoje para Shrewsbury e pedir-lhe que informe Hugh Beringar que possuímos informações sobre as três pessoas que ele tem procurado.

- Claro que sim - concordou o prior Leonard. - Na verdade, há um mercador que vai para casa passar o Natal. Partirá assim que acabe de comer para aproveitar o dia. Vou imediatamente dar-lhe o recado. E tu vai mas é descansar.

Antes de anoitecer, o irmão Elyas abriu os olhos pela segunda vez, e agora, embora a claridade o obrigasse a pestanejar, conseguiu mantê-los abertos. Passados alguns momentos olhava em volta com espanto. Só quando o prior se aproximou e espreitou por detrás do ombro de Cadfael, os olhos do enfermo brilharam de reconhecimento. Pelo menos aquela cara era-lhe familiar. Afastou os lábis e num murmúrio perguntou ansioso:

- Irmão prior...?

- Estou aqui irmão - respondeu Leonard tranquilizador. - Estais aqui, connosco, a salvo, aqui em Bromfield. Descansai para recuperar forças, pois estais gravemente ferido. Agora estais em segurança e entre amigos. Não vos preocupeis com nada... e pedi tudo o que for preciso.

- Bromfield... - repetiu Elyas estremecendo. - Tinha uma missão - continuou confuso, tentando erguer a cabeça da almofada. - O relicário... oh, não se perdeu...?

- Está aqui connosco, seguro - tranquilizou Leonard. - Está no nosso altar, está na nossa capela e o irmão estava presente quando o instalámos. Não vos lembrais? A vossa missão ficou cumprida. A vossa parte realizou-se.

- Mas como... dói-me a cabeça. - A voz apagou-se num suspiro, as sobrancelhas escuras uniram-se numa mistura de dor e ansiedade. - Que peso é este que sinto em cima de mim? Como vim aqui parar?

Eles contaram-lhe então, cuidadosamente, como ele deixara o mosteiro para regressar a casa, a abadia de Pershore, e como fora trazido de volta, depois de espancado e abandonado moribundo. Ao ouvir o nome de Pershore, Elyas estendeu a mão com satisfação. Sabia que era aí que morava e lembrava-se de ter partido para levar os ossos de S. Eadburge para Bromfield e de se ter desviado da perigosa estrada de Woscester, do que lhe acontecera após a partida não conseguia lembrar-se de nada. Quem quer que o tivesse agredido desaparecera completamente da sua mente magoada. Cadfael perguntou ansiosamente:

- Não os voltou a encontrar? A rapariga e o rapaz que teimaram em seguir pelas montanhas para Godstoke? Era loucura, mas a rapariga teimou e o irmão mais novo não conseguiu convencê-la...

- Que rapariga e que rapaz são esses? - perguntou Elyas confuso, unindo ainda mais as sobrancelhas escuras numa dolorosa interrogação.

- E a freira? Não vos lembrais da freira que seguia com eles? Não se lembrava. O esforço que fez ao tentá-lo provocou nova agitação, enquanto procurava na memória e só conseguia o pânico desesperado do fracasso que, na sua mente confusa, assumia proporções de remorso. Todo o tipo de obrigações não cumpridas passaram-lhe pela mente e pelos olhos ensombrados, mas nada conseguiu. O suor escorria-lhe pela fronte, e Cadfael limpou-lho delicadamente.

- Não vos aflijais, deixai-vos estar quieto e entregai tudo às mãos de Deus e, sob as suas ordens, nas nossas. Fizésteis tudo o que podíeis, por isso podeis ficar descansado.

Atenderam às necessidades físicas do doente, trataram-lhe as feridas, alimentaram-no com um caldo feito de carnes austeras, próprias para a enfermaria, com ovelha e papa de aveia, leram-lhe o ofício divino. O irmão Elyas, estendido, imóvel, continuava a perseguir as memórias que lhe fugiam. A noite, nas horas em que o espírito alcança o limiar do mundo consciente, o sono foi perturbado pelas recordações que se misturavam com os sonhos. Mas não passou de alguns murmúrios entrecortados e tão visivelmente dolorosos à medida que se intensificavam, que Cadfael, que não deixara ninguém substituí-lo durante aquele período mais perigoso, concentrou todas as energias em tentar acalmar o tumulto da alma do paciente, esforçando-se por que este regressasse a um sono calmo e saudável.

Antes da madrugada, Cadfael foi rendido e Elyas adormeceu. O corpo mantinha-se massacrado e ferido. A mente vagueava e repelia as recordações.

Cadfael dormiu até ao meio-dia e quando se levantou foi encontrar o doente descansado, acordado, tranquilo e aliviado das dores, o que não conseguira durante o sono, atentamente assistido por um irmão mais velho com larga experiência em tratar de feridos. O dia estava claro e a luminosidade era grande. Embora o gelo se mantivesse e soubessem que à noite o nevão seria inevitável, àquela hora o sol tornava as restantes horas do dia prometedoras.

- Ele está em boas mãos - afirmou Cadfael ao prior. - Posso deixá-lo durante algumas horas sem qualquer problema. O meu cavalo já descansou e os caminhos não estão maus até ao próximo nevão ou até que o vento se levante. Vou até Godstoke, perguntar se os desaparecidos lá chegaram, se continuaram caminho e em que direcção foram. Passaram já seis dias desde que ele os deixou em Foxwood. Se chegaram a salvo aos domínios do priorado de Wenlock, já podem a esta hora estar a caminho, ou de Worcester ou de Shrewsbury, e toda a aflição por eles terminará. E então poderemos respirar aliviados.

 

Godstoke, enterrado nos profundos e arborizados vales entre montanhas, pertencia ao mosteiro de Wenlock. Um terço do domínio dividia-se em propriedades, o restante encontrava-se arrendado vitaliciamente, tinha um povoamento próspero e bem fornecido em víveres e lenha. Uma vez passadas as montanhas geladas e ao entrar naquele lugar abrigado, qualquer viajante poderia descansar à vontade e continuar o seu caminho, passando de propriedade em propriedade sem sair daqueles extensos limites.

Mas o grupo desaparecido nunca chegara a Gostoke. O intendente do prior estava absolutamente certo disso.

- Já ouvimos dizer que andam a procurá-los, embora não tivéssemos motivos para pensar que viriam nesta direcção e não na de Ludlow ou noutra qualquer. Mandei investigar esta zona toda. Podeis estar certo, irmão, de que aqui eles não chegaram.

- A última vez que foram vistos - informou Cadfael - foi em Foxwood. Em Cleobury encontraram-se com um irmão da nossa ordem que tentou trazê-los até Bromfield, mas eles teimaram em seguir para norte em direcção às montanhas. Convenci-me de que teriam vindo para cá.

- Também eu pensaria o mesmo - concordou o intendente. - Mas aqui não chegaram.

Cadfael pensou um pouco. Não estava muito familiarizado com aquela região, mas conhecia-a o suficiente para se decidir. Se eles não tinham passado ali não valeria a pena ir mais além. E, conquanto fosse possível recuar e seguir o caminho que eles teriam tomado para chegarem ali e procurar alguma pista da sua passagem até Foxwood, isso teria de ficar inevitavelmente para o dia seguinte, já que este se encontrava quase no fim. Começava a anoitecer e melhor seria que tomasse o caminho de regresso mais curto.

- Bem, mantenham-se atentos, e caso saibam alguma coisa eu estou em Bromfield.

Cadfael viera pela estrada principal, que era tudo menos directa, pelo que ficara com uma ideia mais alargada sobre aquela zona.

- Se eu seguir daqui para sudoeste, suponho que seguirei em linha recta até Bromfield. Como estão os caminhos?

- Se o fizerdes tereis de atravessar a floresta de Clee, mas se vos mantiverdes sempre virado para poente, não podereis enganar-vos. E os riachos não serão obstáculo, pois estão gelados.

O intendente indicou-lhe a direcção a tomar e ficou a vê-lo dirigir-se ao vale arborizado, pelo estreito e directo caminho que atravessava as montanhas pouco escarpadas, de costas voltadas ao grandioso e corcovado pico gelado de Brown Clee e com o ombro esquerdo recortando-se contra as linhas irregulares de Tittersti-ne Clee. A luz do sol tinha desaparecido, embora aquele astro ainda fosse visível transformado numa lânguida bola vermelha, por entre a cortina de nuvens carregadas. O inevitável nevão nocturno ainda demoraria uma ou duas horas. O ar mantinha-se calmo, mas muito frio.

Decorrida uma milha, encontrava-se em plena floresta. Os ramos das árvores formavam telhados de neve gelada, apenas derretida em alguns sítios onde os raios solares haviam conseguido penetrar. O chão, coberto de folhas apodrecidas e de agulhas dos pinheiros, tornava o caminho mais fácil. As árvores pareciam manter uma atmosfera mais quente. Clee era uma floresta real, mas encontrava-se agora ao abandono, tal como acontecia com a maior parte do território inglês, abandonada ou entregue às garras dos senhores oportunistas, enquanto o rei e a imperatriz se ocupavam em lutar pela posse da coroa. Aquela era uma região deserta e selvagem, embora ficasse a menos de dez milhas de cidades e castelos. As clareiras eram agora mais raras. A caça e as coutadas eram privilegiadas, mas com o Inverno de tal modo rigoroso até os veados morreriam de fome sem a ajuda do homem. As forragens, demasiado preciosas para serem desperdiçadas, chegavam a ser fornecidas pelos senhores, que, deste modo, asseguravam a sobrevivência, numa época tão má, de um dos passatempos que mais prazer lhes proporcionava. Cadfael passou por um desses fornecimentos de comida todo pisado e espalhado pelos animais esfaimados, cuja passagem ficava por toda a parte marcada na neve. O couteiro continuava a cumprir as suas obrigações, fosse qual fosse o soberano que mais tarde reclamasse a propriedade.

O sol, que por instantes aparecera por entre as árvores, estava agora muito baixo e a noite começava a descer, pairando como uma nuvem gigantesca. Mas ainda havia luz sobre a terra. Na frente de Cadfael as árvores, agora mais espaçadas, deixavam passar os restos de um dia que terminava. Alguém desbravara aquela parte da floresta e ali construíra uma casa rodeada por um pequeno jardim. Um homem conduzia duas ou três cabras para um abrigo de vime. Levantou o olhar atento ao som produzido pelos cascos sobre as folhas. Tratava-se de um vigoroso camponês, não devia ter mais de 40 anos, envergando um fato de pano cru, bem feito e castanho, e perneiras de couro curtido em casa. Tinha feito um bom trabalho naquela propriedade tão isolada, e mal acabou de prender as cabras endireitou-se pronto a enfrentar o viajante. De olhos franzidos, observou o hábito monástico, o cavalo forte e vigoroso, a larga face enrugada emoldurada pelo capuz.

- Deus abençoe esta terra e o seu proprietário! - saudou Cadfael, puxando as rédeas em direcção à vedação de vime.

- Deus vos acompanhe, irmão! - Tinha uma voz grave e profunda, mas os olhos exprimiam uma certa cautela. - Para onde ides?

- Para Bromfield, amigo. Vou na direcção certa?

- É o caminho certo, sim. Segui em frente e meia milha mais à frente alcançareis o riacho Hopton. Atravessai-o e virai à esquerda acima dos dois ribeiros mais pequenos que lá correm. Depois do segundo chegais a uma encruzilhada. Cortai à direita, mantendo-vos junto à encosta e ireis sair na estrada depois de Ludlow, a uma milha do mosteiro.

Não perguntou qual a razão que levava um monge beneditino a cavalgar por caminhos tão desviados a uma hora tão tardia. Não perguntou nada. Colocou um sólido tronco atravessado no portão do abrigo, embora mantivesse o ar amável e a língua serviçal. Foram os olhos que denunciaram que, de qualquer forma, escondia alguma coisa e parecia reter na memória tudo o que via e ouvia como se, posteriormente, tivesse de o transmitir, fielmente. Contudo, a pessoa que construíra aquela propriedade em plena floresta não podia deixar de ser um homem prático e honesto.

- Obrigado pela vossa indicação - continuou Cadfael. - Agora, se puderdes, gostaria que me ajudásseis noutro assunto. Sou um monge de Shrewsbury e, de momento, encontro-me a tratar de um irmão de Pershore que se encontra na enfermaria de Bromfield. O nosso irmão enfermo está muito peocupado por causa de certas pessoas que se dirigiam para Shrewsbury, vindos de Worcester, fugindo do ataque àquela cidade. Não quiseram acompanhá-lo até Bromfield e preferiram seguir para norte, por aqui. Dizei-me se por acaso não sabeis nada a esse respeito.

De seguida descreveu-os, duvidando da sua intuição, até que viu o homem olhar de soslaio por cima do ombro, para a casa, e só então o encarou sem pestanejar.

-Não vi ninguém assim passar por esta floresta-respondeu com firmeza. - Por que haveriam de passar aqui? Isto não leva a lado nenhum!

- Os viajantes numa terra estranha e rodeados de neve, acabam frequentemente por chegar a lado nenhum, perdendo-se completamente - respondeu Cadfael. - Não estamos muito longe de Godstoke, onde já inquiri o mesmo. Bem, se algum deles, ou até os três juntos passarem por aqui, diz-lhes que andam a ser procurados por todo o condado, pelos mosteiros de Shrewsbury e Worcester e quando forem encontrados serão escoltados em segurança de regresso ao lar. Worcester está de novo protegida e ansiosa por saber dos seus habitantes fugidos. Se os encontrares não vos esqueçais de lho dizer.

Os olhos desconfiados miravam-no, pensativos. O homem assentiu.

- Sem dúvida que o farei. Se algum dia os encontrar.

Não se mexeu do lugar junto do portão até Cadfael pegar de novo nas rédeas e retomar o caminho. Contudo, quando Cadfael alcançou a orla das árvores e se voltou para olhar para trás, o caseiro desaparecera apressado no interior da casa, como se tivesse de fazer qualquer coisa que não podia esperar. Cadfael continuou caminho, mas num passo lento e confortável, e uma vez fora de vista parou, deixando-se estar sentado, de ouvido à escuta. Foi recompensado com um som de movimentos furtivos que lhe chegavam de detrás. Alguém o seguia tímida e furtivamente, tentando ao mesmo tempo andar depressa e não ser ouvido.

Um olhar dissimulado, por cima do ombro, proporcionou-lhe um rápido relance de um casaco azul que, imediatamente, se esquivou para o lado, escondendo-se. Continuou indolente, permitindo que o seu perseguidor se aproximasse e então, subitamente, puxou as rédeas para o lado e virou-se para trás aberta e declaradamente. Os sons cessaram imediatamente, mas os ramos inclinados de uma faia nova abanavam, soltando alguns pedaços de neve.

-Podeis avançar-convidou Cadfael suavemente.-Sou um monge de Shrewsbury, não represento uma ameaça para ninguém. O bom homem disse-vos a verdade.

O rapaz saiu do esconderijo e ficou em campo aberto, apoiado nas pernas afastadas, pronto a fugir se tal fosse preciso ou a defender-se o melhor possível. Tratava-se de um rapaz baixo e entroncado, de cabeleira castanha e emaranhada, olhos grandes castanhos e decididos. Aboca e o queixo aparentavam uma firmeza excepcional, contrastando com o formato infantil do rosto. O manto e o casaco azul encontravam-se amarrotados e sujos, como se tivesse dormido vestido no meio da floresta, o que era até muito provável. As meias cinzentas apresentavam um rasgão ao nível do joelho, mas tudo isto ele usava com dignidade e a consciência próprias da sua nobreza. Trazia um pequeno punhal à cinta, com o cabo de prata trabalhado, símbolo de riqueza suficiente para tentar muitos homens. Fosse qual fosse o seu anterior paradeiro, tinha caído em boas mãos.

- Ele disse... - começou o rapaz avançando um ou dois passos. - Ele chama-se Thurstan. Ele e a mulher foram muito bons para mim. Ele disse-me que aparecera alguém em quem eu poderia confiar, um irmão beneditino. Ele disse que têm andado à nossa procura.

- Ele disse-te a verdade. Pois tu deves ser Yves Hugonin! O rapaz respondeu:

- Sim. Posso acompanhar-vos até Bromfield?

- Yves, fico feliz do fundo do coração e serás recebido de braços abertos por todos aqueles que têm andado à vossa procura. Depois de terem fugido de Worcester, chegou o vosso tio d'Angers vindo da Terra Santa, dirigindo-se directamente para Glou-cester, para ficar a saber que vocês tinham desaparecido. Tratou logo de arranjar quem vos procurasse por todo o condado. Muito feliz irá ficar, ao saber que estão sãos e salvos.

- O meu tio d'Angers? - O rosto do garoto hesitava entre a ansiedade e a dúvida.-Em Gloucester? Mas... foram os homens de Gloucester...

- Pois foram, mas nós sabemos que ele não teve nada a ver com isso. Nunca aflijas a tua alma com as rivalidades que o impediram de vir pessoalmente no vosso encalço, pois nem tu nem eu as poderemos evitar. Foi-nos pedido que vos encaminhássemos até ele, sãos e salvos, e disso podes estar certo. Mas são três os que nós procuramos e só encontrámos um. Onde está a tua irmã e a sua acompanhante?

- Não sei. - A voz saiu-lhe num gemido. O queixo resoluto do garoto tremeu por um instante, mas logo se recompôs corajosamente. - A irmã Hilária deixei-a em Cleeton, em segurança, e espero que ainda lá se encontre, mas quanto ao que fez quando se viu sozinha... e a minha irmã... é ela a culpada de tudo isto. Fugiu com o amante durante a noite. Ele veio buscá-la. Tenho a certeza de que foi ela quem lhe mandou recado para que ele a viesse buscar. Tentei segui-lo, mas depois começou a nevar.

Cadfael respirou, simultaneamente intrigado, desanimado e aliviado. Bem, pelo menos um deles já estava em segurança, outra poderia ser encontrada, caso ainda estivesse em Cleeton e, a terceira, ainda que aparentemente tivesse cometido uma loucura, parecia estar nas mãos de alguém que a trataria com carinho e provavelmente só lhe desejava bem. Podia ser que toda aquela história ainda tivesse um final feliz. Mas, para já, tudo indicava que se tratava de uma história longa e complicada e a noite caía, o sol já desaparecera e tinham ainda de percorrer algumas milhas. O melhor que tinha a fazer era levar o garoto até Bromfield e certificar-se que este não tornaria a desaparecer.

-Vamos, vamos para casa antes que caia a noite. Conta e senta-te atrás de mim. O teu peso não incomodará este amigo. Põe o pé em cima do meu, assim... - O rapaz tinha de trepar alto. A mão que se apoiou em Cadfael era firme e ansiosa e de um salto montou, instalando-se confortavelmente. O corpo, de início tenso, descontraiu-se com um profundo suspiro.

- Agradeci e despedi-me de Thurstan - explicou numa voz macia e rouca, fazendo um rigoroso exame de consciência. -Dei-lhe metade do dinheiro que trazia, mas não foi grande coisa. Ele disse que não queria, nem precisava, e que eu seria sempre bem-vindo, mas não tinha mais nada para lhe dar e não podia vir embora sem lhe deixar uma prenda.

- Pode ser que qualquer dia cá possas vir visitá-lo - sugeriu Cadfael, tranquilizador. O garoto estava bem educado, tinha plena consciência da sua posição e das suas obrigações. Não havia nada a apontar à educação do convento.

- Bem gostaria - exclamou Yves, aconchegando-se ao calor do ombro de Cadfael. - Ter-lhe-ia oferecido o meu punhal, mas ele argumentou que por enquanto eu poderia vir a ter necessidade dele, para ele não tinha qualquer utilidade, pois nem sequer se atrevia a mostrá-lo com medo que pensassem que o roubara.

De momento, parecia ter afastado a preocupação pelas duas mulheres, perdidas na neve, agarrando-se com gratidão à possibilidade de poder aliviar o seu próprio medo. Tanto quanto sabia, ele tinha 13 anos. Tinha o direito de se sentir feliz por ter alguém a tomar conta do seu bem-estar.

- Há quanto tempo estás aqui?

- Há quatro dias. Thurstan disse que era melhor eu esperar até que alguém de confiança passasse, pois fala-se muito de um bando que ataca nas florestas e nas montanhas e, com este nevão, se eu saísse sozinho poderia perder-me novamente. Andei perdido durante dois dias-concluiu Yves, espelhando nos olhos os terrores vividos. - Dormi em cima das árvores com medo dos lobos. - E não se tratava de uma queixa, pois o tom com que dissera aquilo mais parecia uma gabarolice.

Pois bem, deixá-lo falar, ele que libertasse o coração da solidão e do medo, como um homem que, após uma jornada perigosa, descontrai os pés perante uma boa lareira. A história que ele tinha para contar poderia esperar por um momento mais oportuno. Se tudo corresse, bem podia ser até que conseguissem encontrar as duas mulheres desaparecidas. Agora, o que interessava era chegarem a Bromfield antes que fosse noite cerrada.

Sempre que a floresta o permitia, avançavam mais depressa, e a luz que ainda restava mostrava-lhes claramente o caminho. Os primeiros flocos de neve fina vogavam languidamente no ar, quando alcançaram o ribeiro de Hopton e o atravessaram, sobre a sólida camada de gelo, tendo-se Cadfael apeado para conduzir o cavalo. Depois, viraram à esquerda afastando-se gradualmente do curso de água e atingiram um dos pequenos afluentes que ali vinham parar, vindos da grande e suave encosta à direita. Toda a água se encontrava parada, gelada e manter-se-ia assim por muitos dias. O sol desaparecera e restava apenas uma luminosidade zangada a oeste, sob um manto cinzento de chumbo. O vento começara a soprar e a neve já os fustigava na face. Agora, a floresta dera lugar a propriedades espaçadas, a campos e, ocasionalmente, aparecia um abrigo para rebanhos, toscamente erguido e de costas para o vento. Os contornos começavam a transformar-se em meras sombras, com excepção de alguns raios brilhantes de luz que se reflectiam na superfície de gelo e nos aterros azulados onde a neve se mantinha imaculada.

O segundo riacho, tão parado e silencioso como tudo o resto, era pouco fundo e parecia uma serpente de prata contorcendo-se por entre o canavial. O cavalo não gostava de sentir o gelo sob as patas e Cadfael de novo desmontou para o conduzir. A larga e espelhada superfície brilhava opaca de todos os ângulos, excepto quando era observada directamente para baixo. Cadfael, à medida que avançava, verificava cuidadosamente onde punha pés, pois tinha as botas gastas e polidas. Foi então que o seu olhar captou, apenas por um momento, uma sombra pálida coberta pelo gelo do lado esquerdo, mas, como o cavalo escorregou, para de seguida recuperar, apressou-se a conduzi-lo até à erva coberta de neve, do outro lado. Cadfael demorou a perceber, demorou a acreditar no que vira. Meia hora mais tarde e não teria visto nada. Alguns passos mais à frente, ao atingirem o abrigo de uns arbustos espessos parou e, em vez de montar outra vez, como Yves esperava, passou-lhe as rédeas para a mão e disse-lhe com uma calma estudada:

- Espera por mim um momento. Não, ainda não é aqui que o atalho se divide. Foi qualquer coisa que vi lá atrás. Espera aqui.

Yves sentiu-se intrigado mas esperou obediente, enquanto Cadfael voltava ao ribeiro gelado. A sombra não fora fruto de uma visão causada por qualquer raio de luz. Ali continuava, fixa, imóvel, coberta de gelo. Ajoelhou-se, para a observar mais de perto.

Sentiu o cabelo do pescoço eriçar-se. Não se tratava de nenhum cordeiro bebé, como por instantes chegara a acreditar. Era maior, mais definido, mais alto e esguio. Na imóvel e espelhada clausura, deparou com uma face pálida, cor de pérola, olhando-o de olhos arregalados. As mãos pequenas e delicadas tinham flutuado por instantes antes de o gelo as imobilizar mantendo-se abertas e um pouco levantadas como numa prece. O branco do corpo e o branco da camisa rasgada, única peça de vestuário que o cobria, pareceram a Cadfael estarem manchados por uma qualquer cor alvitante mas tão esbatida que, ao olhá-la fixamente, esta desaparecia.

A face era frágil, delicada e jovem. Afinal era um cordeiro. Um cordeiro de Deus perdido, uma ovelha despida, violada e abatida. Dezoito anos? Sim, devia ser isso.

Aparentemente, Ermina Hugonin fora encontrada, mas perdida para sempre.

 

Não havia nada a fazer ali, àquela hora, só como estava e, se se demorasse, o rapaz ainda aparecia a investigar o motivo de tanta demora. Apressou-se a levantar e regressou ao local onde o cavalo batia os cascos impaciente, ansioso por voltar para o estábulo. O rapaz olhou-o, mais intrigado do que preocupado.

- O que foi? Passa-se alguma coisa?

- Nada que nos possa afligir.

Pelo menos por agora, pensou com um arrepio, não até que alguém tenha de to dizer. Primeiro vamos alimentar-te, aquecer-te, garantir a tua segurança e só então alguém te contará o sucedido.

- Pensei ter visto uma ovelha presa no gelo, mas enganei-me - explicou, montando e retomando as rédeas que entregara ao rapaz. - É melhor apressarmo-nos. Vamos chegar a Bromfield já noite cerrada.

Quando o caminho se bifurcou, cortaram à direita, tal como o lavrador lhe tinha dito, seguindo por um caminho directamente transversal através da encosta, fácil de percorrer. O corpo forte do garoto tornara-se mais pesado e mole no braço de Cadfael e a cabeça morena pendia, adormecida, sobre o seu ombro.

"Pelo menos a ti encontrámos-te", pensou Cadfael, mudo de ira e de desgosto, "e vamos pôr-te em segurança, já que não podemos fazer nada pela tua irmã."

- Ainda não me dissésteis o vosso nome - declarou Yves, bocejando. - Não sei como vos hei-de chamar.

- Sou Cadfael, um irlandês de Trefriw, mas agora vivo no mosteiro de Shrewsbury, onde, pelo que sei, vocês deveriam ter chegado.

- Sim, assim era. Mas Ermina, a minha irmã chama-se Er-mina, tem de levar sempre a dela avante. Eu sou muito mais sensato do que ela! Se ela me tivesse escutado, nunca nos teríamos separado e estaríamos agora todos a salvo em Shrewsbury. Eu queria vir para Bromfield com o irmão Elyas... conheceis o irmão Elyas?... e a irmã Hilária também, mas Ermina não! Tinha outros planos! Tudo isto é por culpa dela.

"E agora não havia dúvida que pagara por isso", reflectiu o irmão Cadfael infeliz, chegando-se mais ao pequeno juiz inocente que se encostava quente e confiante ao seu braço. Mas pecados assim tão pequenos não mereciam castigo tão severo, sem tempo para reconsiderar, para o arrependimento, para a penitência. A juventude que se destruía por uma loucura, quando à juventude se deveriam permitir as loucuras que conduzissem à maturidade e à sensatez!

Estavam a chegar à boa e velha estrada entre Ludlow e Bromfield.

- Graças a Deus! - exclamou o irmão Cadfael, avistando as tochas do portão, estrelas terrestres luzindo por entre a espessa cortina de neve. - Já chegámos.

Atravessaram o portão e depararam com um movimento pouco usual no pátio principal. A neve do chão estava marcada com inúmeras marcas de cascos e, à volta dos estábulos, viam-se dois ou três criados que não pertenciam à casa, ocupados em escovar os cavalos, conduzindo-os depois para dentro. Na porta do átrio principal estava o prior Leonard, conversando vivamente com um esbelto e ágil homem de meia-idade, ainda de manto e capuz e, embora estivesse de costas voltadas, Cadfael reconheceu-o imediatamente. Hugh Beringar viera pessoalmente verificar as informações sobre os desaparecidos Hugonin e parecia que trouxera consigo dois ou três oficiais.

Como sempre, tinha o ouvido apurado e, virando-se, dirigiu-se aos recém-chegados antes do cavalo parar. O abade seguiu-o, ansioso e esperançado ao ver duas pessoas regressando, quando só uma partira.

Cadfael desmontara antes de eles os alcançarem e Yves, tonto e excitado, espantara o sono e preparava-se para enfrentar com confiança aquele nobre de ar tão imponente. Agarrou com ambas as mãos a parte mais alta da sela e saltou para a neve. Era um grande salto, dada a sua pequena estatura, mas fê-lo com uma perícia acrobática, endireitando-se de imediato, perante o olhar divertido e aprovador de Beringar.

- Yves, cumprimenta Hugh Beringar, o xerife deste condado - ordenou Cadfael. - E o abade Leonard, teu hospedeiro a partir de agora.

E para Hugh, à parte, continuou febrilmente, enquanto o rapaz fazia uma vénia reverente:

- Não lhe pergunte nada por agora. Vamos ver se o levamos para dentro.

Assim, os dois, de acordo, conseguiram apressá-lo, num entendimento mútuo, rápido e fácil, adquirido com a convivência.

Yves foi levado para dentro, satisfeito, com a mão magra mas benevolente de Leonard poisada no ombro. Ia comer e aquecer-se antes de se deitar. Era jovem, necessitava de um bom sono. A educação monástica levá-lo-ia a acordar ao toque para o ofício, mas ao verificar que se encontrava em segurança poderia adormecer novamente.

- Graças a Deus! - exclamou Cadfael soltando um profundo suspiro mal o rapaz desapareceu da vista. - Vamos para algum sítio sossegado onde possamos falar. Nunca esperei vê-lo aqui em pessoa, dado o que está para acontecer em sua casa.

Beringar pegara-lhe amigavelmente pelo braço e conduziu-o para a porta dos aposentos do abade e, enquanto sacudiam a neve das botas e da roupa na soleira, não deixou de o olhar atentamente.

-Depois das notícias que lhe mandei sobre as nossas crianças, nunca pensei que se decidisse a vir cá, embora me sinta muito satisfeito por o ver.

- Deixei tudo na mais perfeita harmonia! -retorquiu Hugh. Viera ao encontro do amigo esperando encontrar notícias mais animadoras e deparou com uma gravidade que não pressagiava nada de bom.

- Se aqui algo o pode preocupar Cadfael, pelo menos pode ficar descansado em relação aos acontecimentos de Shrewsbury. No próprio dia em que nos deixou nasceu o nosso filho, um fedelho são e gordo, tão loiro como a mãe, e ambos se encontram óptimos. E, para não ficar atrás, a rapariga de Worcester presenteou o marido igualmente com um rapaz, apenas um dia depois. A casa está repleta de mulheres exultantes e nenhuma sentirá a minha falta nos próximos dias.

- Oh, Hugh! Que boas notícias! Estou muito feliz por vocês dois.

"Era normal e vinha a calhar", pensou Cadfael, "Uma vida que nasce e outra que desaparece."

- E correu tudo bem para a mãe? Não foi muito demorado?

- Oh, Aline foi agraciada. É demasiado inocente para saber que pode haver dor em algo tão maravilhoso como é o nascimento e, por isso, nada sentiu. Na verdade, mesmo que não tivesse este assunto para me ocupar estava quase a ser empurrado para fora da minha própria casa. Assim, o recado do seu abade veio mesmo a calhar. Trouxe três homens comigo e os outros vinte e dois deixei-os aquartelados em Ludlow, no castelo, com Josce de Dinan, para estarem à mão caso precise deles e para lhe pregar um susto saudável, caso ele esteja a pensar em mudar de partido. Não lhe devem ter ficado quaisquer dúvidas agora que eu o tenho debaixo de olho. E agora - concluiu Hugh, aproximando uma cadeira de lareira do quarto do abade -, tem de me contar a sua história. Sinceramente não sei o que pensar. Aqui o encontro, partilhando a sela e o cavalo com o garoto que temos procurado e, no entanto, tem o rosto mais carregado que o próprio céu, quando deveria estar exultante. E sem querer dizer uma palavra até que o garoto ficasse fora do alcance das nossas vozes. Onde o encontrou?

Cadfael recostou-se, soltando um pequeno gemido de fadiga e constrangimento depois daquela viagem gelada. Já não havia nem necessidade, nem urgência em agir. Durante a noite nunca dariam com o sítio, especialmente agora que o vento soprava forte e a neve modificava a paisagem circundante, caindo nas encostas nuas, enchendo os vales, escondendo o que ainda na véspera tinha descoberto. Podia dar-se ao luxo de se sentar e apreciar o calor que lhe aquecia as pernas, enquanto contava, à sua maneira, o que havia para contar. Nada poderia ser feito antes de o dia nascer.

- Numa clareira na floresta de Clee, acolhido em casa de um honesto camponês, que não o deixou aventurar-se sozinho pelos bosques e o aconselhou a esperar até que aparecesse alguém em quem pudessem confiar. Consideraram-me capaz de o fazer e foi de boa vontade que ele me acompanhou.

- Mas ele estava lá sozinho? Que pena! - exclamou Hugh com um esgar preocupado. - Que pena não ter encontrado também a irmã, já que estava com a mão na massa.

- Receio bem tê-la encontrado também - retorquiu Cadfael, sentindo as pálpebras pesadas devido ao calor.

O silêncio durou menos do que pareceu. O significado daquela revelação não deixava margens para muitas dúvidas.

- Morta? - perguntou Hugh sombriamente.

- E gelada. Fria como gelo, coberta de gelo. A primeira geada proporcionou-lhe um caixão de vidro, preservando-lhe a carne imaculada e inalterada, incriminando o seu carrasco.

- Conte-me - pediu Hugh atento e quieto.

Cadfael contou-lhe. Teria de repetir a história quando o prior Leonard chegasse, pois também ele deveria ajudar a manter o jovem na ignorância da perda que sofrera. Entretanto, não podia deixar de sentir um profundo alívio por poder partilhar aquele fardo, sabendo que agora a responsabilidade era tanto sua como de Hugh.

- Consegue lá voltar?

- A luz do dia, sim, encontrá-lo-ei. Na escuridão nem vale a pena tentar. Seria uma temeridade... Teremos de utilizar machados para a tirar dali, a não ser que o gelo derreta.

Claro que esta última era uma hipótese imposssível.

-Pensaremos nisso quando chegar a altura-declarou Hugh solene. - Esta noite o melhor será arrancarmos a história ao rapaz e ver se descobrimos como foi ele ali parar. E, em nome dos Céus, onde está a freira que os acompanhava?

- Yves, segundo me contou, deixou-a em Cleeton, sã e salva. E a rapariga... pobre tola! Ele diz que ela fugiu com o amante. Mas não entrei em pormenores, o dia já estava no fim e o mais urgente era conseguir salvar pelo menos aquele.

- Sem dúvida. Fez muito bem. Esperemos pelo abade e até que o rapaz esteja alimentado, quente e à vontade. Depois, nós os dois conseguiremos arrancar-lhe tudo o que sabe, ou talvez ainda mais do que ele pensa que sabe, sem o deixar perceber o que aconteceu à irmã. Embora mais cedo ou mais tarde tenha de vir a saber - concluiu Hugh pesaroso. - Quem mais conhecia a pobre rapariga?

- Esta noite não. Deixemo-lo dormir em paz. Temos muito tempo - declarou Cadfael com firmeza. - Depois de a trazermos para cá e de a compormos o melhor que pudermos, então ele já poderá vê-la.

A ceia e a certeza de que estava em segurança fizeram tanto por Yves como o seu natural poder de recuperação. Sentado nos aposentos do abade, ainda antes de Completas, encontrava-se frente a frente com Hugh Beringar, enquanto o prior Leonard e o irmão Cadfael o observavam atentamente. Contou a sua história com brevidade e alguma brusquidão.

- Ela é muito corajosa - afirmou judiciosamente, tentando ser justo para com a irmã -, mas muito obstinada e voluntariosa. Desde que saímos de Worcester que eu sabia que ela tinha algo debaixo da manga e que tentaria tirar todo o partido possível da fuga a que fomos obrigados. No princípio, tivemos de andar às voltas pois havia grupos de soldados vagueando, mesmo à distância de algumas milhas da cidade. Assim, demorámos algum tempo até conseguirmos atingir Cleobury em segurança. Ficámos aí uma noite e foi nessa noite que encontrámos o irmão Elyas, que nos acompanhou até Foxwood e que tanto insistiu para que viéssemos com ele até Bromfield, onde estaríamos em segurança. Eu concordei logo e a irmã Hilária também. Uma vez aqui, poderíamos arranjar uma escolta até Shrewsbury e o desvio não seria grande. Mas Ermina não queria ouvir falar em tal. Tinha sempre de levar a sua avante e teimou em atravessar as montanhas até Godstoke. Não valeu de nada eu argumentar, ela nunca me ouve, julga que por ser mais velha é mais esperta. E se nós resolvêssemos acompanhar o irmão Elyas ela teria continuado sozinha pelos montes. Por isso que outra coisa poderíamos nós fazer a não ser acompanhá-la? - concluiu, estendendo os lábios num sopro de desagrado.

- Certamente que não a podiam deixar - concordou Beringar compreensivo. - De maneira que continuaram e passaram a noite em Cleeton?

- Perto de Cleeton, numa terra isolada. Ermina tinha uma ama que casou com um rendeiro deste domínio, de maneira que sabíamos arranjar aí uma cama onde pudéssemos dormir. O homem chama-se Jon Druel. Chegámos a meio da tarde e mais tarde vim a recordar-me da conversa que Ermina tivera com o rapaz da casa, conversa essa que o levou a sair para só aparecer à noite. Na altura não liguei importância, mas agora tenho a certeza de que ela lhe mandou um recado. Afinal, o plano dela fora sempre esse, porque durante a noite apareceu um homem com dois cavalos e levou-a. Eu ouvi o barulho, levantei-me e olhei pela janela... Ali estavam os dois cavalos e ele a ajudá-la a montar...

- Ele? - interrompeu Hugh. - Então conhece-lo?

-Não sei como se chama, mas lembro-me dele. Quando o meu pai era vivo costumava ir visitar-nos, na época da caça, no Natal ou pela Páscoa. Tínhamos muitos hóspedes nessas alturas. Ele deve ser filho ou sobrinho de algum amigo do meu pai. Nunca reparei muito nele, nem ele reparou em mim, pois eu era então muito novo. Mas lembro-me da cara dele e acho... Acho que ele visitava Ermina em Worcester de vez em quando...

Se o fazia era sem dúvida na presença de uma irmã atenta e tratavam-se de visitas dentro da mais rigorosa decência.

- Achas então que ela lhe mandou recado para a vir buscar? -perguntou Hugh. -Não foi nenhum rapto? Ela foi de livre vontade?

-Ela ia feliz! - assegurou Yves indignado. - Ouvi-a rir. Sim, ela mandou-o chamar e ele veio. E foi essa a razão que a levou a teimar em seguir por ali. Ele deve ter o castelo aqui por perto e ela sabia que o podia contactar. Ela possui um grande dote - proclamou o herdeiro do barão, solenemente, com as faces infantis e rosadas enrubescendo perante aquela humilhação. - E a minha irmã nunca permitiria que lhe fizessem um casamento da maneira tradicional se este fosse contra a sua vontade. Não conheço nenhuma regra que ela não quebrasse desavergonhadamente...

O queixo tremeu-lhe, fraqueza que imediata e violentamente reprimiu. Quanta orgulhosa arrogância dos senhores feudais de Anjou e Inglaterra encerrava aquele pequeno invólucro! Ele amava-a tanto como a odiava, ou talvez mais e de modo algum deveria vê-la morta, violada e reduzida a uma simples camisa.

Hugh fez a pergunta seguinte com muita calma.

- E tu que fizeste?

O regresso aos factos produziu um efeito salutar:

- Mais ninguém os ouviu - continuou Yves retomando o fio à história -, a não ser o rapaz que levou o recado e esse com certeza tinha ordens para não ouvir nada. Eu continuava vestido, pois só havia uma cama, que as mulheres ocuparam, de maneira que corri para tentar detê-los. Ela pode ser mais velha, mas eu sou o herdeiro do meu pai! Sou agora o chefe da família!

- Mas a pé... - comentou Hugh, obrigando-o a voltar aos factos tristes mas reais - não conseguirias acompanhá-los. E eles afastaram-se antes de os conseguires interceptar.

- Não, não podia acompanhá-los, mas podia segui-los. Começara a nevar, eles deixariam traços e eu sabia que não iriam muito longe. Foram suficientemente longe para eu me perder - admitiu, mordendo um lábio sem saber que expressão lhe devia dar. - Segui-lhes o rasto o mais longe que consegui, mas eles enfiaram monte acima, o vento começara a soprar e nevava tanto que num instante todas as marcas ficaram cobertas. Fiquei sem saber o caminho, quer para a frente, quer para trás. Tentei seguir aquela que me parecia ser a direcção por eles tomada, mas não sei quanto tempo andei a vaguear por ali, nem sei por onde andei. Estava completamente perdido. Passei a primeira noite na floresta e na segunda Thurstan encontrou-me e levou-me para casa dele. O irmão Cadfael conhece-o. Thurstan garantiu-me que havia por ali muitos bandidos e que eu deveria ficar ali até que passasse alguém de confiança. E assim fiz. E agora não sei... - concluiu ele, retomando a insegurança própria da sua juventude - para onde é que Ermina seguiu com o amante ou o que aconteceu à irmã Hilária. Quando esta acordou e descobriu que estava só, não sei o que terá feito. Mas ela estava com John e com a mulher. Certamente que tomaram conta dela.

- Esse homem que levou a tua irmã - insistiu Hugh -, não sabes como ele se chama, mas lembras-te de ele ser hóspede em tua casa. Se realmente ele tem algum castelo nas montanhas perto de Cleeton, não teremos dificuldade em localizá-lo. Suponho que se o teu pai fosse vivo ele seria considerado um pretendente possível para a tua irmã, ainda que tudo se processasse de uma forma mais conveniente?

- Oh, sim - respondeu o jovem -, suponho que sim. Havia uma série de jovens que nos visitavam e Ermina a partir dos catorze ou quinze anos saía a cavalo e ia caçar com os melhores. Eram todos homens de posses ou herdeiros de boas propriedades. Nunca reparei qual deles ela preferia.

Nessa altura ele devia brincar aos soldadinhos e dava as primeiras quedas no seu pónei, indiferente aos admiradores que a irmã pudesse ter.

- Este é muito bem-parecido - concedeu generoso. - É mais alto que o senhor...

Isso não o tornava especial. A modesta estatura de Beringar fora muitas vezes substimada por homens que no fim não viveram para lamentarem o erro.

- Deve ter vinte e cinco ou vinte e seis anos, mas do nome não me lembro. Eram tantos que nos visitavam...

- Há ainda uma coisa que Yves poderá fazer por nós - interrompeu Cadfael -, se não se importarem que ele fique a pé mais alguns minutos. Yves, lembras-te do irmão Elyas que vos deixou em Foxwood?

Yves confirmou atento e intrigado.

- O irmão Elyas encontra-se aqui na enfermaria. Ao regressar a casa, depois de ter cumprido a sua missão, foi atacado durante a noite e ficou muito ferido. Foi trazido por um camponês que o encontrou. Estou certo de que agora está melhor, mas continua incapaz de nos contar o que lhe aconteceu. Não se lembra de nada do que se passou nestes últimos dias e é só durante o sono que parece agitar-se com alguma preocupação recalcada. Ao acordar, a memória fica em branco. Afirmou que o rapaz estava disposto a acompanhá-lo. Agora, se ele te puder ver são e salvo, pode ser que a memória lhe volte. Não te importas de vir comigo e experimentar?

Yves ergueu-se prestável, embora apreensivo, olhando para Beringar e esperando uma confirmação de que agira o melhor possível.

- Lamento que ele tenha sido ferido. Foi muito simpático... Sim, se eu puder fazer alguma coisa por ele...

A caminho do quarto do doente, sem que ninguém o pudesse testemunhar, enfiou a mão agradecido no aperto reconfortante da de Cadfael e, como uma criança assustada, manteve-a firmemente apertada.

- Não te impressiones por ele estar tão desfigurado e ferido. Garanto-te que tudo isso passará.

O irmão Elyas mantinha-se imóvel e calado, enquanto um dos noviços lhe lia a vida de S. Remigius. Parecia não sofrer dores, durante o dia já comera e, ao ouvir o som do toque para o ofício, os lábios moviam-se em silêncio com as palavras da liturgia. Os olhos abertos observaram o rapaz que acabara de entrar, não o reconhecendo, e de novo vaguearam pelos cantos ensombrados do quarto. Yves avançou até à cabeceira da cama em bicos dos pés e olhos arregalados.

- Irmão Elyas, está aqui Yves para o ver. Lembra-se dele? O rapaz que encontrou em Cleobury e deixou em Foxwood.

Nada, a não ser um impotente tremor desesperado e ansioso que lhe ensombrou o rosto massacrado. Yves aventurou-se, aproximando-se timidamente, pousou a sua na mão que repousava inerte em cima dos cobertores, mas esta manteve-se fria sem reagir aquele contacto.

- Lamento que tenhais sido atacado. Andámos juntos aqueles quilómetros e eu bem que desejava ter-vos acompanhado.

O irmão Elyas olhou-o com espanto e estremeceu.

- Não, deixemo-lo - decidiu Cadfael, suspirando. - Se o pressionarmos ele começa a agitar-se. Não tem importância, temos muito tempo. Valeu a pena tentar, mas ele ainda não está pronto. Vamos, estás a cair de sono, vamos meter-te na cama.

Cadfael, Hugh e os seus homens, levantaram-se de madrugada saindo para um mundo que mais uma vez apresentava formas novas: as valas niveladas, os vales cheios e uma cortina fina de neve esvoaçando como se fosse feita de plumas, trazida de todas as cristas, pelo vento que ainda soprava. Levavam com eles uma padiola feita com tiras de couro, que uniam dois paus, e um lençol de linho para a cobrirem. Avançavam num silêncio fúnebre, pois nenhum deles sentia vontade de dizer fosse o que fosse a não ser algo que se relacionasse com a macabra tarefa que os aguardava. O nevão parara com o raiar do dia, tal como sempre acontecia, desde aquela noite em que Yves decidira tenazmente seguir a pista da irmã fugitiva. O gelo de ferro formara-se na noite seguinte e fora nessa mesma noite que algum animal nocturno violentara e assassinara a rapariga que iam agora buscar. O gelo cobrira-a muito pouco tempo após ter sido atirada para o ribeiro. Cadfael tinha a certeza que assim era.

Depois de uma breve pesquisa na neve fresca, limparam a que caíra sobre o gelo e encontraram-na. Ali estava a rapariga presa no gelo: uma jovem numa sepultura de vidro.

- Meu Deus! - exclamou Hugh arrepiado. - Ela é mais nova que o irmão.

Tão leve e infantil se desenhava a figura ensombrada. Mas afinal estavam ali para a libertarem daquele cativeiro e levá-la, para lhe poderem dar um enterro cristão, ainda que parecesse quase um ultraje quebrar a superfície gelada perfeita que a envolvia. Fizeram-no com muito cuidado e a uma grande distância do delicado corpo prisioneiro, o que resultou num trabalho bastante difícil. Apesar do frio que se sentia, com o esforço de içar o cadáver e o seu caixão, ficaram todos a suar. Deitaram-na religiosamente nas tiras de couro da padiola, cobriram-na com o lençol de linho e, lentamente, regressaram a Bromfield. Nem uma gota caiu do bloco de gelo até o poisarem na fria e inóspita morgue da abadia. Uma vez aí, as arestas brilhantes começaram a diluir-se e a água ia deslizando pela caleira destinada a escoar a água de lavar os cadáveres.

A rapariga mantinha-se pálida e distante dentro da sua mortalha transparente e, no entanto, parecia cada vez mais humana e viva, mais ao alcance da dor, da piedade, da violência e de todos os sentimentos do homem. Cadfael não se atreveu a sair dali durante muito tempo, pois o jovem estava já a pé e activo, manifestando curiosidade em relação a tudo, e ninguém podia prever onde iria aparecer de seguida. Estava bem educado e possuía maneiras encantadoras, mas devido à arreigada convicção dos privilégios que lhe eram inerentes, acrescida da vitalidade própria dos seus 13 anos, podiam esperar pelo pior.

Passava das dez e a Missa Solene ia já a meio, quando a concha de gelo derreteu o suficiente para começar a expor o seu conteúdo. Apareceram as pontas dos dedos pálidos e as primeiras madeixas de caracóis que lhe emolduravam a bonita testa.

Foram esses mesmos caracóis que no início despertaram o olhar arguto de Cadfael. Eram curtos! Enrolou alguns fios no dedo, verificando que davam apenas uma volta. E eram tão loiros como o ouro e ficariam ainda mais loiros quando secassem. Em seguida inclinou-se, observando os olhos fixos e calmos, ainda um pouco velados pelo gelo. A cor deles lembrava-lhe a púrpura doce do arco-íris ou o cinzento mais escuro da lavanda.

Quando a missa acabou, o rosto estava já completamente liberto e assim que entrou em contacto com o ar começou a enegrecer. Os mamilos do peito pequeno quebravam o vidrado que os cobria. E agora Cadfael podia ver claramente a mancha que lhe maculava a pele e o linho, do lado direito. Numa marca vermelha, como um arranhão desmaiado, que começava no ombro e acabava no peito, reconheceu a marca do sangue. O gelo apanhara-a antes de a água poder lavar aquela mancha. Agora poderia desaparecer tal como o gelo que derretera, mas ele saberia onde a encontrara e onde deveria procurar a sua origem.

Bastante antes do meio-dia, o corpo libertara-se totalmente da sua concha. Mantinha-se macio ao tacto, jovem e esguio, a cabeça bem feita revelava-se coberta com uma auréola de caracóis loiros, fazendo-o lembrar um anjo da Anunciação. Cadfael saiu em busca do prior Leonard e juntos prepararam-na, sem no entanto lhe lavarem o corpo, para que Hugh Beringar pudesse examiná-la igualmente. Ainda assim, tentaram compor o melhor posssível aquele corpo imóvel para a eternidade. Por fim, cobriram-na com um lençol de linho até ao pescoço.

Hugh entrou e ficou de pé, silencioso, observando-a. Aparentava bem os 18 anos, tão branca, magra e tranquila. Tão fora do alcance dos humanos. E bonita como diziam? Sim, sem dúvida. Mas seria esta a morena determinada e mimada filha de nobre, que insistira em levar a sua avante apesar do tempo, do Inverno, da guerra e de tudo?

- Veja - pediu Cadfael, afastando o lençol de forma a mostrar as dobras enrugadas da camisa tal como tinham emergido do gelo. A tosca nódoa avermelhada manchava-lhe o ombro direito, a dobra da camisa e a prega acima do seio direito.

- Apunhalada? - perguntou Hugh, olhando Cadfael.

- Não tem nenhum ferimento. Agora veja. - E afastou mais o linho, expondo a carne. Apenas uma ou duas manchas lhe atingiam a pele pálida. Lavou-as e o corpo ficou limpo e sem mácula.

- Certamente, apunhalada não foi. O gelo da noite apanhou-a num instante, conservando estas marcas, ainda que esbatidas. Mas ela não sangrou. Ou, se o fez - acrescentou sombriamente -, não foi de qualquer ferimento de navalhada e não foi neste sítio. O mais provável é que ela o tenha enfrentado, a ele ou a eles, estes lobos costumam caçar em conjunto, e o tenha feito sangrar. Uma cara arranhada, talvez... ou um pulso ao tentar libertar-se. Não se esqueça deste pormenor Hugh, que também eu o guardarei na memória.

Cobriu-a de novo com reverência. O rosto de alabastro olhava o vácuo com fixidez, supremo e imóvel, e a cabeça de caracóis começava a brilhar como um halo, à medida que ia secando.

- Está a começar a queimar - comentou Hugh, passando a ponta do dedo pelo rosto e pela descoloração que lhe rodeava a boca. - Mas a garganta não tem qualquer marca. Estrangulada não foi.

- Certamente que a conseguiram dominar quando a violaram.

Estavam os três tão concentrados no cadáver da rapariga que nem ouviram os passos que se aproximavam da porta fechada e, ainda que mais atentos, a leveza dos passos era tal, que passaria despercebida ainda que não fossem propositadamente furtivos. O primeiro sinal que tiveram da entrada do garoto foi-lhes dado pelo brilho da neve, quando a porta se abriu de par em par e Yves avançou com a inocência própria de uma criança. Nada do que ele fazia era com segundas intenções. A maneira abrupta como todos o olharam e a consternação patente nos rostos fez que ele parasse e se arrependesse. Hugh e o prior Leonard apressaram-se a colocar-se entre ele e a mesa onde jazia o corpo sem vida.

- Não devias estar aqui, miúdo - afirmou o prior agitado.

- Por que não, irmão? Ninguém me disse que era proibido, procurava o irmão Cadfael.

- O irmão Cadfael vai já ter contigo lá fora. Vai para a ala dos hóspedes e espera lá por ele.

Era tarde de mais para o afastar, pois ele vira, por detrás dos ombros dos dois homens, o suficiente para perceber o que estes escondiam: o lençol de linho apressadamente reposto no lugar, a forma inconfundível do corpo e uma madeixa de cabelo loiro que o lençol, puxado à pressa, não conseguira esconder. O rosto imobilizou-se de angústia, arregalou os olhos e ficou mudo.

O prior colocou-lhe gentilmente a mão no ombro e virou-o de novo para a porta.

- Anda, tu e eu vamos juntos. Seja o que for, saberás mais tarde. Agora vamos.

Yves continuava imóvel e de olhar fixo.

- Não - exclamou de súbito o irmão Cadfael. - Deixa-o vir. E, saindo por detrás da mesa, avançou dois ou três passos em direcção ao rapaz.

- Yves, tu és um rapaz esperto, não adianta estar a mentir-te, e depois das tuas aventuras não acreditas certamente que a violência, o perigo e a crueldade sejam coisas imaginárias, ou que os homens nunca morrem. Nós temos aqui um cadáver que não conseguimos identificar. Se não te importas gostaria que olhasses para ele e nos digas se conheces esta cara. Não receies olhar.

O rapaz aproximou-se firme e determinado, olhando com piedade a figura coberta. Cadfael duvidava que lhe tivesse ocorrido a possibilidade de se tratar da irmã ou até mesmo de que se tratava de uma mulher. Vira-o olhar fixamente para os curtos caracóis loiros: Yves esperava ver um homem. Apesar de tudo, Cadfael teria abordado o assunto de outra forma se não estivesse seguro que a rapariga morta, quem quer que ela fosse, não era Ermina Hugonin. Baseava-se numa pequena suspeita, mas Yves sabê-lo-ia.

Retirou o lençol que lhe cobria a cara. O rapaz cerrou os punhos, abruptamente. Soltou um profundo gemido e foi o único som que proferiu durante largos momentos. Estremeceu um pouco. O olhar esgazeado que ergueu para o rosto inquiridor de Cadfael estava turvado pelo choque e pela incredulidade.

- Mas como é isto possível? Eu pensei... não entendo. Ela... Calou-se abanando a cabeça violentamente e de novo olhou intrigado e abatido.

- Claro que conheço, mas como pode ela estar aqui morta? Essa é a irmã Hilária que veio connosco de Worcester.

 

Entre eles, ampararam-no e conduziram-no através do pátio coberto de neve. Yves continuava atordoado, curvando-se, impotente, perante o súbito e inexplicável aparecimento de alguém que se deixou são e salvo, debaixo de um tecto amigo, a algumas milhas de distância. De início ficou demasiado surpreendido e perturbado para abarcar o total significado daquilo que vira, mas a meio do caminho para a ala dos hóspedes, caiu em si de repente. Soltou um enorme soluço e, sem saber como, desfez-se em lágrimas. O prior Leonard tê-lo-ia enfiado debaixo da asa se pudesse, qual galinha desgostosa, mas Cadfael apertou-lhe o ombro com firmeza e afirmou convictamente:

- Poupa-te às emoções, que nós vamos precisar de ti. Temos um criminoso para apanhar e uma iniquidade para vingar e quem melhor do que tu para nos guiar até ao lugar onde a deixaste? Por onde haveríamos nós de começar?

O ataque de choro cessou tão abruptamente como começara. Yves esfregou vigorosamente as faces com as mangas, olhou em volta atento a fim de ver a expressão de Hugh Beringar. Era em Hugh que ele reconhecia a autoridade. O papel dos frades era o de proteger, aconselhar, rezar, mas a lei e a justiça estava nas mãos do xerife. Não era em vão que Yves era herdeiro de um barão; sabia tudo sobre hierarquias.

- É verdade. Posso levá-los até à propriedade de John Druel, em Foxwood. Fica um pouco acima da vila de Cleeton. - E, pegando avidamente na manga de Hugh, foi suficientemente sensato para dar à voz um tom de súplica e não de exigência. - Posso ir também para vos mostrar o caminho?

- Podes, se não te afastares e fizeres o que te disserem. Cadfael certificara-se de que Hugh não levantaria obstáculos.

Seria muito melhor para o rapaz sair na companhia dos homens, mantendo-se ocupado, do que ficar ali sozinho a matutar.

- Arranjaremos um cavalo para o teu tamanho. Corre, então. Vai buscar o teu manto e vem ter aos estábulos.

Yves correu consolado, perante a perspectiva de poder fazer alguma coisa para ajudar. Beringar olhou-o pensativo e sugeriu:

- Vá com ele, irmão abade, se não se importa, e veja se ele come alguma coisa pois o dia pode ser longo e, mesmo que tenha acabado de comer, ficará esfomeado antes de a noite chegar. -E virando-se para Cadfael enquanto se dirigiam aos estábulos acrescentou:

- Quanto a si, irmão, fico sempre feliz por poder gozar a sua companhia, se os seus deveres deste e do outro mundo o permitirem. Mas as viagens tão cansativas destes últimos dias...

- Para um homem tão idoso - concluiu Cadfael.

- Não queria dizer nada disso! Apesar da sua idade, não duvido de que possa suplantar-me. E o irmão Elyas?

-Esse já não precisa de mim, a não ser uma ou duas vezes por dia para ver que nada volta atrás. O corpo está a recuperar satisfatoriamente e, quanto ao espírito ausente, não é a minha presença que o vai curar. Ele fica bem entregue. Ela não teve a mesma sorte - concluiu sombriamente.

- Como descobriu que poderia não ser a irmã? - perguntou Hugh.

- Primeiro foi o cabelo curto. Já fez um mês desde que saíram de Worcester. Tempo suficiente para aquele halo crescer. Por que haveria a outra de cortar o cabelo? E depois a cor. Segundo Herward, os olhos e o cabelo de Ermina são quase negros, mais escuros, mais escuros que os do irmão. Ora, não é o caso da nossa jovem. E, se bem me lembro, também disseram que a freira era nova, que não teria mais de vinte e poucos anos. Não, eu tinha a certeza de que ele não teria de enfrentar o pior. Pelo menos até agora - afirmou Cadfael sério. - Agora temos de a encontrar e garantir que Yves não terá de olhar para outra cara coberta e identificá-la. Também sou responsável e por isso também vou.

Até Foxwood a viagem foi fácil, já que a estrada tinha algum movimento, mas a partir daí a subida tornou-se cada vez mais acentuada e feita por caminhos acidentados e escarpados. O vasto flanco de Titterstone Clee elevava-se até ao planalto árido, cujo pico mais elevado pairava acima deles rodeado de nuvens cada vez mais baixas, à medida que a tarde avançava. Yves mantinha-se perto de Hugh, concentrado e importante.

- Podemos deixar o caminho para a vila, que segue para a direita. A propriedade fica mais acima. Depois desta serrania há um bojo, o campo de John e um redil mais acima, na colina.

Hugh puxou as rédeas subitamente e, sentado de cabeça erguida, cheirou o ar dilatando as narinas.

- Estão a sentir o mesmo cheiro que eu? Que poderá um camponês estar a queimar nesta altura do ano?

O cheiro fraco e ominoso pairava no ar transportado pelo vento, que soprava cada vez mais forte. Um dos soldados de Beringar, que seguia mais atrás, afirmou com segurança:

- Este cheiro a madeira tem três ou quatro dias e já lhe caiu neve em cima.

Hugh esporeou o cavalo em direcção ao caminho que subia, por entre arbustos carregados de neve, até ao topo onde o terreno formava um declive descendo para o pequeno vale. Aí, cresciam árvores que abrigavam do vento o estábulo, o celeiro e a casa e, em parte, escondiam a propriedade da vista. Já se viam as pedras do redil construído no declive do outro lado, mas só quando ultrapassaram a primeira fila de árvores avistaram a quinta arrendada de John Druel. Yves soltou um gemido e aproximou-se, agarrando o braço de Cadfael.

As ruínas das paredes calcinadas apareciam por entre a neve, as madeiras do telhado e do celeiro, ou o que deles restava, não passavam de escombros amontoados no sítio onde tinham caído. Era uma visão desoladora: ali nada mexia, nada vivia e até mesmo as árvores mais próximas estavam secas e queimadas. O lar de Druel estava privado de vida, de bens, de gente e tinha ardido completamente.

Aquela lastimável ruína estava mergulhada num silêncio deprimente. Os olhos de Hugh percorriam e anotavam todos os pormenores. A forte geada impedira que ao cheiro a queimado se juntassem outros, já que no pátio arrasado encontraram os corpos retalhados de dois cães da casa. E embora dois ou três nevões já tivessem caído depois do holocausto, tudo indicava que a tragédia fora provocada por um grupo de pelo menos dez ou doze fortes cavaleiros, que levaram o gado, esvaziaram o celeiro e a casa, provavelmente levando tudo o que puderam carregar. As galinhas deviam ter sido atadas pelas pernas, pois ainda se viam penas esvoaçando à volta do pátio e algumas coladas nas vigas enegrecidas.

Hugh desmontou e vagueou por entre os despojos da casa e do celeiro. Os seus homens ocupavam-se a vasculhar o terreno dentro e fora do muro, remexendo nos detritos.

- Mataram-nos - murmurou Yves quase sem voz. - Mataram o John, a mulher, Peter, o pastor, mataram-nos a todos ou então levaram-nos, tal como fizeram à irmã Hilária.

-Silêncio! -ordenou o irmão Cadfael. -Nunca penses o pior a não ser que o vejas com os próprios olhos. Sabes o que procuram eles?

Os homens regressavam trocando olhares e encolhendo os ombros juntando-se de novo no pátio.

- Cadáveres. E não encontraram nenhum. Apenas os cães, pobres criaturas. Limitaram-se a cumprir o seu dever e a dar o alarme, esperemos é que o tenham feito a tempo.

Hugh regressou, abrindo caminho pelo celeiro e batendo as palmas vigorosamente.

- Não há aqui mortos. Ou conseguiram fugir a tempo ou os assaltantes levaram-nos com eles. E eu duvido de que homens sem escrúpulos, que vivem de assaltos, se incomodassem em levar prisioneiros. Lá matar era possível, agora levar reféns de tão pouca importância, duvido muito. Pergunto-me de que lado terão eles vindo. Pelo mesmo caminho que nós usámos ou por algum caminho aberto por eles através daquela colina? Se não fossem mais de dez devem ter ficado por aqui. Não se atreveriam a atacar a aldeia.

- Está uma ovelha abatida no redil - anunciou o sargento -, no lado de lá da colina. Há um caminho que atravessa a encosta que podiam ter utilizado caso quisessem evitar Cleeton e apanhar presas mais indefesas.

- Então Druel deve ter conseguido fugir com a família em direcção à aldeia - concluiu Hugh, observando carrancudo a neve que cobrira as marcas das idas e vindas de homens e animais. - Se os cães pressentiram, as ovelhas teriam tempo suficiente. Pelo menos vamos até à aldeia e perguntamos se sabem de alguma coisa. Pode ser que os encontremos todos com vida - concluiu, dando uma palmada reconfortante no ombro de Yves -, mesmo que tenham perdido a casa e os bens.

- Mas não encontraremos a irmã Hilária - afirmou Yves, agarrando-se a uma causa que tornara sua e que tanto o magoava. - Se conseguiram fugir a tempo, por que não salvaram a irmã Hilária?

- A isso só eles poderão responder se, com a Graça de Deus, os encontrarmos vivos. Eu não esqueço a irmã Hilária. Vamos. Já vimos tudo o que aqui havia para ver.

- Só uma coisa - interrompeu Cadfael. - Quando ouviste os cavalos, Yves, durante a noite e fugiste tentando seguir a tua irmã, que direcção tomaram eles?

Yves voltou-se, encarando os tristes despojos da casa de onde saíra.

- Por ali, para a direita, por detrás da casa. Há um pequeno riacho que não estava ainda gelado e foi por aí que começaram a descer a encosta. Não em direcção ao topo da colina, mas contornando-a pelo flanco.

- Bem, poderemos seguir esse caminho noutro dia. Já acabei, Hugh, vamos.

Montaram e regressaram pelo caminho, deixando para trás aquele cenário desolado e em ruínas. Atravessaram por entre as árvores até ao cimo, seguindo pelo caminho que descia em direcção a Cleeton. Tratava-se de uma terra árida e agreste, má para a lavoura, avarenta nas colheitas, mas boa para os rebanhos, para as ovelhas, que, criadas naquele planalto acidentado, proporcionavam as carnes mais tenras e a lã mais macia. Ao longo da colina inclinada via-se uma tosca mas sólida paliçada e alguém estava ali de vigia, pois foram precedidos por um assobio agudo e estridente, que ecoou por entre o aglomerado de casas. Ao chegarem, tinham alguns homens vigorosos a aguardá-los. Hugh sorriu. Os bandidos e os fora-da-lei, a menos que fossem muito numerosos e estivessem bem armados, seriam mais sensatos se não se aproximassem de Cleeton.

Saudou-os com um bom dia e identificou-se. Dificilmente os habitantes dos lugares mais ermos esperavam qualquer protecção do rei ou mesmo da imperatriz, mas o xerife de um condado oferecia sempre uma segurança adicional à luta pela sobrevivência. Trouxeram o magistrado local e responderam ansiosamente a todas as perguntas. Sim, sabiam da destruição da propriedade de John Druel. Sim, John estava ali em segurança, abrigado e alimentado pela gente da aldeia e vivo, embora a vida fosse a única coisa que lhe restara. E todos se tinham salvo. A mulher, o filho e o pastor encontravam-se igualmente ali. Um rapazito pernalta correu, então, desenfreado a chamar Druel para que respondesse pessoalmente.

Ao ver a figura direita e portentosa do camponês que se aproximava, Yves saltou da sela abaixo ao seu encontro, incoerente no seu alívio. O homem aproximou-se então, com um braço rodeando o garoto.

- Senhor, disseram-me que vindes lá de cima... onde se encontra a minha casa. Só Deus sabe como estou grato pela bondade com que tenho sido tratado, evitando que nós todos morramos à fome agora que estamos sem casa e sem nada. Que irá ser de nós, pobres almas, que tanto trabalharam para viver e que vêem tudo desaparecer numa só noite, quando o telhado que nos abriga arde por completo? É duro viver isolado na montanha sem qualquer protecção - declarou ele sem rodeios. -Mas barbaridades como esta nunca sonhei vir a presenciar.

- Amigo - respondeu Beringar, pesaroso -, podes estar certo de que também eu nunca tal vira acontecer. Indemnização pelas tuas perdas não te posso oferecer, mas alguma coisa poderá ainda ser recuperado se conseguirmos localizar os assaltantes que tas roubaram. Este jovem, que se abrigou em tua casa e a irmã...

- E que desapareceram durante a noite - concluiu John dirigindo a Yves um olhar reprovador.

- Já sabemos isso, pois ele contou-nos e, pelo menos ele, teve boas razões para o fazer, chegando a enfrentar sérios perigos. Mas queremos que nos digas mais alguma coisa sobre o ataque que sofreram... quando foi?

- Duas noites depois de o rapaz e a irmã fugirem. Na quarta noite do mês. Já perto da madrugada. Acordámos com o barulho dos cães enraivecidos e corremos, pensando tratar-se de lobos, já que o Inverno tem sido tão rigoroso. Os cães estavam presos e, realmente, tratava-se de lobos, mas lobos de duas pernas! Quando chegámos cá fora ouvimos os carneiros a balirem na colina e o brilho das tochas. Começavam a descer a encosta, sabendo que os cães já tinham dado o alarme. Não sei quantos eram, talvez uma dúzia ou mais. Não podíamos ficar ali, tínhamos de fugir. Da crista vimos o celeiro começar a arder. O vento soprava forte e prevíamos que não tardaria para que tudo ficasse em chamas. E aqui estamos nós, senhor, derrotados, obrigados a começar tudo de novo como vilões, se algum senhor possuir um pouco de terra para arrendar. Mas graças a Deus estamos vivos.

- De modo que eles chegaram primeiro ao teu redil - concluiu Hugh. - De que lado da colina vieram eles?

- De sul - respondeu de imediato John -, não da estrada, mas mais do alto descendo a pique para nossa casa.

- E não fazes ideia de quem possam ser ou de onde virão? Não ouviram falar de mais assaltos por aqui?

-Não, não sabíamos de nada até àquela noite. Apareceram no meio da escuridão entre a noite de quatro e a madrugada de cinco.

- Uma última pergunta - declarou Hugh. - Como conseguiste trazer a família a salvo, por que não trouxeste a freira de Worcester que ficou em tua casa na noite do dia dois, juntamente com este jovem e com a irmã? Já sabemos que eles desapareceram mas... e a freira?

- Mas ela não viu nada disto - contrapôs John aliviado. - Ela já não estava connosco na noite do assalto. Partiu na véspera, pela tarde. Já era quase noite, mas não ia para longe. E levava uma boa escolta, por isso pensei que estava em segurança. Como ficou triste e pensativa, a pobre, quando descobriu que fora abandonada, sem saber onde procurar os seus protegidos! Nós também não pudemos ajudá-la, portanto, que poderia ela fazer?

- Foi alguém buscá-la? - perguntou Hugh.

- Um irmão beneditino. Ela conhecia-o, pois ele já os tinha acompanhado parte do caminho e até lhes tinha pedido que o acompanhassem a Bromfield, segundo nos contou. Como fora abandonada, ele disse-lhe que a única coisa que ela tinha a fazer era deixar que outros resolvessem o problema e pôr-se em segurança até eles serem encontrados. Ele teve de vir por Foxwood, para saber onde eles se encontravam - continuou John, justificando assim a hora do dia a que ele chegara. - Nunca vi mulher tão grata por ter um amigo em quem confiar. Foi com ele e não duvido de que tenha chegado sã e salva a Bromfield.

Yves parecia petrificado.

- Ela chegou lá - confirmou Hugh, secamente, como que falando sozinho.

Sã e salva? Sim, se entendêssemos estas palavras num sentido mais figurado, sim, ela chegara sã e salva. Imaculada, conscienciosa, corajosa, quem de momento estava mais seguro do que a irmã Hilária, uma inocente que ocupara o seu lugar no Céu?

- No entanto, aconteceu uma coisa curiosa - continuou Druel.-No dia seguinte, estávamos aqui a contar o que nos acontecera enquanto esta boa gente nos preparava um sítio que nos acolhesse, como bons cristãos que são, quando apareceu um jovem a pé, vindo da estrada e nos perguntou se sabíamos alguma coisa sobre uma jovem freira de Worcester que acompanhava dois jovens nobres, irmãos, que se dirigiam para Shrewsbury. Apesar de preocupados com os nossos problemas, contámos-lhe tudo o que sabíamos e a maneira como todos acabaram por seguir caminho antes de aquela desgraça ter acontecido. Ele ouviu-nos e depois seguiu, primeiro em direcção às ruínas da minha casa e depois não sei.

- Ninguém o conhecia? - perguntou Hugh, olhando em volta para o grupo que ali se reunira, pois até as mulheres tinham avançado, permanecendo atentas, ainda que um pouco afastadas.

- Nunca antes o víramos - declarou o magistrado decidido.

- Que tipo de homem era?

- Bem, pelo traje tratava-se de um camponês ou de um pastor, igual a qualquer um de nós, um homem moreno e simples. Não devia ter trinta anos, mas andaria à volta dos vinte e cinco, vinte e seis. Mais alto que Vossa Senhoria, mas igualmente forte e ágil. E moreno. Tinha olhos negros com um brilho doirado como um falcão. E o manto deixava entrever um cabelo igualmente negro.

As mulheres tinham-se aproximado em silêncio, de olhar fixo e ouvidos atentos. O interesse que sentiam pelo desconhecido era por demais evidente e nenhuma mencionou ou adiantou qualquer pormenor ao que fora dito. Quem quer que fosse, produzira grande efeito nas mulheres de Cleeton, que, embora não perdessem uma palavra do que se dissera a respeito dele, não pareciam dispostas a acrescentar nada ao que já fora dito.

- Moreno - continuava Druel - e afilado como um falcão. Um homem bem-parecido.

Sim, isso podia-se ler nos olhos atentos das mulheres.

- Havia qualquer coisa de lento no modo como falava, lembrei-me agora...

Hugh ficou imediatamente interessado e alerta.

- Como se não estivesse à vontade a falar inglês?

John não pensara ainda nessa hipótese e ponderou-a, impassível.

- Podia ser isso, era como se tivesse medo de mostrar qualquer falha na língua.

Bem, se o inglês não era a sua língua, qual poderia ser? Galês? Era possível, ali tão perto da fronteira, mas por que andaria um galês à procura dos fugitivos de Worcester? De Angevin, então? Ah, isso era uma hipótese muito mais prometedora.

- Se tornarem a vê-lo ou a saber dele - recomendou Hugh -, mandem-mo dizer para Ludlow ou para Bromfield e não ficarão a perder. E quanto a ti, amigo, temos de reconhecer honestamente que as possibilidades de recuperar uma grande parte dos teus haveres são poucas, mas pode ser que ainda se consiga alguma coisa, se conseguirmos apanhar os patifes no seu covil. Podes ficar certo de que tudo faremos para o conseguir.

Esporeou o cavalo e seguiu pelo caminho inclinado acompanhado pelos outros. No entanto, não se apressou pois uma das mulheres mais jovens afastara-se nessa direcção e olhava-o significativamente por cima do ombro. Quando Hugh se aproximou, ela avançou colocando-lhe a mão no estribo de cabedal. Ela sabia o que fazia, pois afastara-se da aldeia o suficiente para ficar fora do alcance dos ouvidos dos outros aldeões.

- Senhor...

Olhou-o com umas pupilas azuis profundas e a voz saiu-lhe propositadamente baixa.

- Há mais uma coisa que eu posso acrescentar acerca do homem e que mais ninguém viu. Não disse nada porque tive medo de que o perseguissem se soubessem. Ele era um homem muito atraente e eu confiei nele, ainda que na verdade não fosse o que parecia...

-De que modo?-perguntou Hugh igualmente em voz baixa.

- Ele manteve o manto ajustado ao corpo e, com o frio que está, senhor, isso não pareceu estranho. Mas quando se afastou eu segui-o por um bocado e reparei que as pregas se avolumavam do lado esquerdo. Camponês ou não, a verdade é que trazia uma espada.

- Foi daqui que eles saíram - declarou Yves, enquanto cavalgavam pela estrada principal, tentando apressar-se de modo a aproveitarem o mais possível a luz do dia.

Mantivera-se em silêncio, lutando com as revelações que o tinham confundido e angustiado, emaranhando mais a meada que enredara os acontecimentos.

- Ele regressou para nos vir buscar e só encontrou a irmã Hilária. Já era noite e foram apanhados pela escuridão e pela neve. Devem ter sido os mesmos bandidos que assaltaram e arruinaram o pobre John, que os atacaram e os condenaram à morte.

- Assim parece - concordou Hugh sombriamente. - Estamos a braços com uma praga que tem de ser exterminada antes que alastre. Mas que deveremos pensar do camponês que usa uma espada debaixo da capa?

- E andava à nossa procura! - observou Yves espantado. - Mas eu não conheço ninguém parecido.

- Como era o jovem que levou a tua irmã?

-Não era nem moreno, nem parecido com um falcão. Pelo contrário, era loiro e de pele clara. E, além disso, mesmo que viesse à procura de nós os dois, que ela abandonou, não viria pela estrada, se olharmos à direcção que tomaram quando eu os segui. E também não apareceria vestido de camponês. Nem viria sozinho.

"Tudo aquilo fazia sentido. Claro que havia outras possibilidades. Os homens de Gloucester, encorajados pelas últimas vitórias, poderiam muito bem ter enviado homens disfarçados até àquela região para detectarem pontos fracos enquanto, ao mesmo tempo", pensava Cadfael, "teriam recebido ordens para procurarem os sobrinhos de Laurence D'Angers perdidos devido ao ataque de Worcester."

- Deixemos isso por agora-concluiu Beringar quase contente, como se estivesse ansioso por ter um encontro interessante. - Certamente que voltaremos a ouvir falar no moreno desconhecido de Cleeton, se nos mantivermos calmos e não nos esquecermos de que ele existe.

Estavam a duas milhas de Ludlow quando a esperada neve, que acompanhava o anoitecer, começou a cair. Apertaram os mantos e os capuzes, avançando com determinação de cabeça baixa. Estavam tão perto de casa que não corriam qualquer risco de se perderem. Hugh separou-se do grupo à entrada de Ludlow para ir ver os seus homens, deixando no entanto dois para escoltarem Cadfael e o garoto até Bromfield. Até Yves parecia ter perdido a língua, sentindo-se um pouco tonto com o ar fresco, com o esforço físico, e esfomeado, pois passara já muito tempo desde que comera o pão e o pedaço de presunto. Seguia firmemente agarrado à sela, curvado sob o capuz e, ao descer no pátio do mosteiro, tinha o rosto rosado como uma maçã. As Vésperas tinham terminado há muito tempo. O prior Leonard vaguava por ali, atento e ansioso pelo regresso do seu pintainho, e aventurou-se a sair debaixo do forte nevão para o reclamar e para lhe servir a ceia.

Só depois de Completas, Beringar regressou e, após entregar a montada extenuada ao moço da estrebaria, foi encontrar o irmão Cadfael sentado junto à cama onde o irmão Elyas dormia um sono distante e agitado. Ao ver as linhas endurecidas do rosto de Hugh Cadfael, levando um dedo aos lábios para impor silêncio, ergueu-se, saindo para a antecâmara, onde poderiam conversar sem incomodar o doente adormecido.

- O nosso amigo de Cleeton não é a única vítima, Cadfael - declarou Hugh, recostando-se com um grande suspiro à parede apainelada -, o demónio anda à solta, não há dúvida. Ludlow está em polvorosa esta noite. Parece que um dos archeiros de Dinan tem um velho pai que mora numa aldeola a sul de Henley numa propriedade arrendada a Mortimer. Hoje, o rapaz decidiu visitá-lo para ver como o velhote se teria arranjado com este frio. A propriedade, embora isolada, não dista mais de duas milhas de Ludlow. Pois bem, encontrou tudo, tal como nós encontrámos em casa de Druel, embora não a tivessem queimado, pois o fumo e as chamas teriam sido notadas e alertariam Dinan e os soldados, que actuariam como um enxame de abelhas furiosas. Encontrou-a sem vivalma, sem comida, nada ficou. E lá as pessoas também não escaparam. Todos mortos, excepto um pobre idiota desgraçado, que o archeiro encontrou vagueando pela casa, procurando uma qualquer migalha que tivesse escapado.

O irmão Cadfael olhava-o assombrado e horrorizado.

- Como se atreveram, tão perto de uma cidade tão bem armada?

- Estão a testar as garras, desafiando uma guarnição bem provida. O único homem que sobreviveu, pois escondeu-se no bosque até os assaltantes partirem, pode ser um pouco desaparafusado, mas testemunhou tudo e fez um relato com nexo e, pelo que me diz respeito, considero-o uma testemunha importante. Ele afirma que eram cerca de vinte homens, armados com punhais, machados e espadas. Segundo disse três vinham a cavalo. Chegaram perto da meia-noite e em poucas horas roubaram tudo e partiram. Não tem bem a noção de quantos dias ficou ali só e esfomeado mas garante, e de tempo ele percebe, que o assalto se deu na noite do primeiro gelo, quando todos os ribeiros deixaram de correr.

- Entendo o que quer dizer - afirmou Cadfael, mordendo o nó dos dedos enquanto descorria furiosamente -, os mesmos lobos de duas pernas? Certamente na mesma noite. Ora o primeiro gelo. À meia-noite assaltam Henley... como se deliberadamente decidissem enegrecer a imagem de Dinan.

- Ou a minha - lembrou Hugh sombriamente.

- Ou a do rei Stephen. Bom, de maneira que partiram, terminado o saque, talvez duas horas depois da meia-noite. Não devem ter andado muito depressa, iam carregando e tinham de conduzir o gado. Não muito antes da madrugada atacaram e queimaram a propriedade de John Druel, acima de Clee. E no meio do caminho encontraram o irmão Elyas e a irmã Hilária... não acha Hugh?... e depois de tanta proeza resolveram praticar um pouco mais, deixando-os a ambos ou mortos ou moribundos. Seria possível existirem dois bandos tão semelhantes em acção numa mesma noite? A noite era de tempestade e até mesmo os vagabundos e os ladrões hesitariam em sair de casa. São homens que conhecem a região como as palmas das mãos, Hugh, e que não se atemorizam nem com a neve nem com o gelo.

- Dois bandos semelhantes? - ponderou sombriamente Hugh. - Não, isso está fora de questão. E consideremos a direcção que tomaram naquela noite. Os bandidos começaram aqui, bem debaixo dos nossos narizes, no ponto mais distante da sua rota de pilhagem. Voltaram rumo a leste, atravessando a estrada principal, pois foi por aí que o vosso irmão Elyas foi encontrado, e antes do amanhecer rodeavam a parte mais alta de Titterstone Clee, onde incendiaram a propriedade de John Druel. Podia até não estar no plano inicial, tratando-se unicamente de uma manifestação de exuberância feita por um grupo de homens embriagados pelo sucesso. Mas não há dúvidas que se encontravam de regresso a casa, evitando serem apanhados pela luz do sol, não concorda?

- Concordo sim. E, Hugh, está a pensar o mesmo que eu? Yves corre atrás da irmã para evitar que ela cometa uma loucura e, ao abandonar a casa lá no alto, segue se não o mesmo caminho, pelo menos a mesma direcção que os bandidos tomaram duas noites depois. Algures naquelas montanhas fica o castelo para onde a irmã dele se dirigiu com o amante. Não lhe parece provável que ele a tenha levado para um local demasiado perto do inferno para poder ser um lugar seguro, quer para ele quer para ela?

- Já tomei as minhas providências - assegurou Hugh com sombria satisfação -, pensando nisso mesmo. Existe uma grande extensão de planalto ali, parte em floresta parte em pedra, árido como a morte, demasiado inóspito até mesmo para ovelhas. As propriedades rendíveis não ficam para além da de Druel e, mesmo a esse nível, todas estão em sítios abrigados. Amanhã mal amanheça vou com Dinan seguir a mesma direcção que o rapaz tomou. Vamos ver se eu encontro aquilo que ele não conseguiu, o condado para onde a rapariga foi levada. Antes de mais, se for possível, temos de a pôr a salvo. Então poderemos ocupar-nos deste provocador que cospe na cara da lei, sem nos preocuparmos com reféns.

- Mas deixe ficar o rapaz - exclamou Cadfael com mais impetuosidade do que pretendia.

Hugh olhou-o com um sorriso cansado e preocupado.

- Estaremos a caminho muito antes de ele abrir os olhos. Acha que eu me iria arriscar a enfrentar o seu olhar feroz por ter de o confrontar com mais um cadáver conhecido? Não. Se a sorte estiver do nosso lado, conseguiremos trazer a irmã ou inteira ou irremediavelmente casada e então, entre eles, resolverão o assunto: ele, a irmã e o amante. Se a sorte nos abandonar, bem... aí precisaremos de si. Mas uma vez a rapariga a salvo, o resto é comigo e o irmão poderá ocupar-se do seu doente com calma.

Cadfael passou a noite ao lado do irmão Elyas e nada mais conseguiu saber. A barreira continuava irredutível. Quando um irmão acorreu solícito para o render, deitou-se na cama e adormeceu imediatamente. Tinha esse dom. Sabia que nada adiantava se ficasse acordado matutando no que poderia ter acontecido e que, inevitavelmente, teria de enfrentar quando acordasse. Havia muito que aprendera a aceitar o inevitável. De outra forma, acabava por gastar energias que posteriormente seriam necessárias.

Assim, só acordou quando o prior Leonard o chamou, a tarde ia já a meio e passavam pelo menos duas horas da hora a que tencionava levantar-se. Por essa altura, Hugh já regressara da incursão pelas montanhas, de semblante cansado e gelado e aguardava-o para o acompanhar no jantar e relatar os resultados da viagem.

- Existe um senhorio chamado Callowleas, que dista da casa de Druel cerca de um quarto do diâmetro do flanco de Clee e que se encontra mais ou menos ao mesmo nível. - Hugh hesitou e, franzindo a testa, escolheu as palavras. - Era um grande senhorio. Estava arrasado, devastado, cortado em postas como um peixe. A cena da propriedade de Druel repetiu-se, mas a outro nível, pois tratava-se de um senhorio próspero e agora não passa de um monte de ruínas cobertas de neve, os cadáveres ou estão suterrados ou gelados e não ficou ninguém para contar o que aconteceu. Trouxemos até Ludlow os primeiros corpos e deixámos alguns homens a quebrar o gelo. Não podemos prever quantos vão encontrar. Pela altura da neve parece-me que o ataque teve lugar ainda antes da primeira noite de gelo.

- Que me diz? - exclamou Cadfael, abismado. - Então foi antes dos ataques que nós já conhecíamos, antes da nossa freira ser morta e do irmão Elyas ficar naquele estado!? E agora, já tem algum lugar ou algum nome a que se possa agarrar? Dinan deve conhecer todos os seus vassalos e este deve estar sob a alçada dele, devem estar ligados pelo velho contrato senhorial.

- E está. O senhorio de Callowleas pertence a um jovem que herdou as honras do pai, há dois anos apenas. Sim, a idade, a pessoa e a fortuna condizem. Chama-se Ervard Boterel. A família não é muito importante mas é respeitada. É muito provável que seja ele o nosso homem.

- E essa propriedade fica na mesma direcção? Fica naquela que a rapariga tomou com o amante?

Era um pensamento pouco animador, mas Hugh abanou a cabeça enfática e desoladamente.

- Ah, mas espere! Nada disto é certo por enquanto. Yves não sabia o nome dele. Mas ainda que seja, como me parece o mais provável, não precisamos de enterrar já a rapariga. Dinan afirmou que Boterel possui igualmente o senhorio de Ledwyche, no vale do rio Dogditch e há um caminho que desce de Callowleas até lá, pela floresta. E trata-se de uma floresta muito densa. São cerca de três milhas entre uma propriedade e a outra. Seguimos por ela durante algum tempo, embora eu próprio tivesse poucas esperanças de encontrar alguma pista, ainda que algum criado tivesse conseguido escapar por ali no dia do assalto. Tivemos mais sorte do que eu esperava ou merecia. Veja o que encontrámos.

De dentro do seu gibão retirou um fio de filigrana trabalhada e preso num atilho de fita bordada, próprio para adornar a cabeça quando o este era penteado e atado, deixando a testa a descoberto. O laço que o prendia fora arrancado de um lado, sem no entanto se desfazer, pois fora o gatilho que cedera.

- Apanhei-o no mato mais denso a mais de meio do caminho. Quem quer que fosse seguia com pressa, pois meteram pelo meio do mato, cortando caminho pela encosta. Havia ramos partidos a comprovarem que assim foi. E falo no plural, pois, apesar de só haver um cavalo, seguiam duas pessoas em cima dele. Um ramo mais baixo apanhou-a arrancando-lhe isto da cabeça. E como nos pode restituir todas as esperanças de que a pessoa que usava a jóia tenha conseguido escapar ao terrível ataque, devemos mostrá-la a Yves e contar-lhe como a encontrámos. Se ele a reconhecer, partirei então para Ledwyche e veremos se a sorte continua do nosso lado.

Não houve qualquer dúvida. No momento em que Yves poisou o olhar no fio enrolado na palma da mão, arregalou os olhos brilhantes de esperança e de angústia.

- É da minha irmã - declarou animado. - Era bom de mais para a viagem, mas eu sei que ela o trazia. Por ele, teimou em pô-lo. Onde o encontraram?

 

Embora Yves estivesse resolvido a não contestar a decisão de Hugh, desta vez foi autorizado a acompanhá-los, em parte para evitar que se sentisse infeliz e inquieto enquanto esperava e porque na verdade ele era a única pessoa capaz de fazer uma identificação positiva do pretendente de Ermina, quando o encontrassem. E afinal, tratava-se do único membro da família, do chefe da casa e por isso tinha todo o direito de participar no resgate da irmã desaparecida, agora que a sabiam viva.

- Mas foi por aqui que viemos da casa de Thurstan! - declarou ele, depois de terem virado na ponte sobre o Corve. - Vamos continuar por aqui?

- Vamos, durante um bocado mais. Vamos passar por aquele sítio que nem tu nem eu teremos qualquer prazer em rever - respondeu Cadfael, adivinhando-lhe a angústia. -Mas não precisaremos de desviar os olhos. Não existe nada de maldito nesse lugar. Nem a água, nem o ar, nem a terra têm culpa da maldade dos homens. - E, depois de observar atenta e disfarçadamente a expressão grave do rapaz, concluiu:

- Por muito que sofras, não deves lamentar o facto de ela ter partido. Ela está em paz.

- De todos nós era a melhor - declarou Yves, subitamente eloquente. - Não podem saber como ela era. Nunca se zangou, sempre paciente, meiga e corajosa. Era muito mais bonita do que Ermina.

Apesar dos treze anos, Yves era instruído e talvez até precocemente dotado pelo que, disfrutando galantemente da companhia gentil da irmã Hilária durante todos aqueles dias, tivera oportunidade de a conhecer de perto. E, se pela primeira vez sentira o primeiro ardor de uma paixão mais madura, sem dúvida que esta fora inocente e pura e assim se mantinha agora que ela partira. Não havia motivos para preocupações. Nos últimos dois dias Yves parecia ter crescido e estava agora longe do que fora na infância.

Ao atingirem o ribeiro não afastou o olhar, mas ficou silencioso e assim permaneceu, até atravessarem o segundo curso de água. Aí, viraram à direita e encontraram-se em plena mata. A mudança na paisagem fê-lo recuperar o interesse pelo mundo que o rodeava e devolveu-lhe o brilho ao olhar. A breve luz do sol que originara os finos pingentes que adornavam os ramos já desaparecera, mas a claridade era ainda bastante e o céu mantinha-se leve. A paisagem, negra branca e verde, não deixava de ter um encanto discreto.

Atravessaram o ribeiro de Hopton, tão parado como antes, meia milha mais abaixo, do que quando se dirigiam a Godstoke.

- Mas afinal, nós devíamos estar muito perto - exclamou Yves, espantando por ter passado tão perto da irmã naquele dia sem o saber.

- Ainda falta uma milha.

- Espero que ela lá esteja!

- Também nós - respondeu Hugh.

Avistaram o senhorio de Ledwiche atingindo uma ligeira crista e, saindo do bosque, depararam com um declive pouco acentuado que descia ao encontro do rio de Ledwiche, para o qual todos os outros convergiam, correndo para sul até desaguarem no rio Tone.

Atrás do vale o solo elevava-se de novo e, aí, imediatamente à frente ainda que distante, erguia-se o vasto e árido contorno de Titterstone Clee, cujo pico se encontrava tapado pelas nuvens. O vale estava protegido do vento por todos os lados. À volta do senhorio, as árvores tinham sido cortadas, restando apenas as necessárias para a protecção da lavoura e do gado. Dali puderam observar o impressionante número de edifícios: a casa senhorial, de construção ampla, de telhado inclinado, cobrindo a cripta térrea; a paliçada completamente visível que rodeava o celeiro e os estábulos. Era uma propriedade de proporções consideráveis e seguramente uma tentação para os mais esfomeados e gananciosos que se aproveitavam daquele tempo de confusão, apesar de parecer demasiado povoado para se tornar presa fácil.

No entanto, parecia que o proprietário não se sentia muito confiante, já que, à medida que se aproximavam, verificaram que na estreita ponte que atravessara o regato em direcção à propriedade, alguns homens trabalhavam afanosamente, erguendo uma barreira de troncos, mais alta que a anterior escura paliçada de madeira. A parte voltada para leste reluzia devido à madeira recém-cortada. O senhor daquela terra resolvera reforçar as suas vedações.

- Estão aqui quase de certeza - afirmou Hugh, olhando em volta. - Trata-se de um homem prevenido que não tenciona ser apanhado de surpresa uma segunda vez.

Foi com uma esperança renovada que desceram em direcção ao portão aberto da paliçada que, para oriente, estava ainda por reforçar. No entanto, logo se ergueu um archeiro no portão, pronto a disparar, de arco esticado e, se ainda não colocara nenhuma seta, podia-se ver no seu ombro que munições não lhe faltavam.

Era um sujeito arguto e rápido a identificar o uniforme dos homens de Hugh, pois a anterior expressão preocupada deu lugar a um largo sorriso mesmo antes de Hugh se identificar.

- Senhor, sois muito bem-vindo. O xerife do reino não poderia ter chegado em melhor altura. Se o nosso senhor soubesse da vossa presença nesta zona já vos teria mandado procurar, pois ele próprio não o poderia fazer... Mas avancem, avançai, senhor, que aqui o meu garoto vai chamar o lacaio.

O pequeno encontrava-se já em pleno voo, atravessando a neve calcada do interior do muro. No momento em que alcançaram a escadaria de pedra, que conduzia à enorme porta de entrada, apareceu o lacaio para os receber. Tratava-se de um velho forte, careca e com barba avermelhada.

- Procuro Evrard Boterel - declarou Hugh, desmontando e saltando para um monte de neve. - Ele está?

- Está sim, senhor, embora não se encontre bem de saúde. Tem estado com febres muito altas, mas tem vindo a melhorar gradualmente. Eu conduzo-vos até ele.

Caminhou à frente, subindo com dificuldade os degraus altos, logo seguido por Hugh, Cadfael e Yves. Dentro, o átrio enorme que, àquela hora num dia de Inverno, se encontrava deserto, sem luz, completamente mergulhado na escuridão, era aquecido ligeiramente pelo quase extinto lume que acabava de arder nas pedras da lareira central. Todo o pessoal da propriedade deveria estar a trabalhar nas vedações. Uma matrona de meia-idade tilintou as chaves ao passar atrás do tabique e ouviam-se duas criadas a murmurar e a espreitar da cozinha.

O criado conduziu-os com uma vénia até um quarto ao fundo do corredor, onde encontraram um homem languidamente estendido num cadeirão almofadado e, sobre a mesa, colocada a seu lado, via-se um jarro de vinho e uma lamparina de óleo fumegante.

Uma das janelas pequenas encontrava-se aberta, mas a luz que por lá entrava era cada vez mais fraca e a débil chama amarelada só servia para projectar sombras ilusórias, pelo que apenas conseguiram vislumbrar uma face escura que para eles se voltou quando a porta se abriu.

- Senhor, acabam de chegar os homens do xerife, vindos de Ludlow.

O tom rude do criado transformara-se num tom mais servil, ao mesmo tempo que mais baixo, como se falasse como uma criança, ou com alguém gravemente doente.

- Lord Hugh Beringar está aqui. Teremos ajuda se for preciso. Já pode sossegar.

Uma mão longa e musculada, ainda que ligeiramente trémula, ergueu a lâmpada, de forma a que os visitantes e o dono da casa se pudessem ver melhor. Ouviu-se então uma voz baixa e agitada pela respiração acelerada:

- Senhor, a vossa presença é-nos profundamente grata. Deus sabe quanto estamos precisados dela nesta região. -E, virando-se para o criado ordenou:

- Traz mais luz e um refresco. - Com esforço, tentou erguer-se da cadeira. - Lamento que me encontrem em desalinho. Disseram-me que passei estes últimos dias a arder em febre, mas agora estou melhor apesar de me sentir fraco como nunca.

-Assim parece e lamentamos muito - declarou Hugh. -Devo dizer-lhe que eu e os meus homens viemos até aqui por outros motivos, mas acontece que passei pela vossa propriedade de Cal-lowleas. Pude ver o que vos aconteceu. Fico satisfeito, por ver que pelo menos o senhor e alguns dos vossos servos escaparam com vida ao massacre e tenciono assegurar-me pessoalmente da perseguição e da captura do bando de abutres responsáveis por tudo isto. Já vi que resolveu reforçar as vossas defesas.

- O melhor possível.

Uma mulher entrou trazendo velas e dispô-las silenciosamente nos castiçais da parede, retirando-se de seguida. A súbita claridade aproximou-os, surpreendentemente. Yves, que se mantivera imóvel e tenso ao lado de Cadfael, pronto a enfrentar o inimigo, agarrou-se-lhe de imediato à manga, descontraindo-se depois, inseguro.

O homem ali reclinado não aparentava mais de 25 anos e, como se inclinara para a frente, as almofadas tinham-lhe deslizado pelas costas. À luz, a face aparecia pálida e encovada, os olhos grandes e escuros afundavam-se em profundas olheiras e ainda estavam brilhantes da febre. O cabelo loiro, espesso, estava emaranhado no sítio onde se apoiara na almofada. Não havia dúvida de que se tratava de um homem muito atraente e elegante e, em estado de saúde normal, deveria parecer alto e atlético. Estava vestido e calçado como se tivesse saído durante o dia pois, surpreendentemente, as botas estavam molhadas e escuras devido à neve derretida. Franzindo a testa, prescutava agora, atentamente, os três visitantes e, ao olhar o garoto fixou-se nele. Não tinha a certeza. Abanou a cabeça e de novo olhou para franzir ainda mais a testa pensativo.

- Conheceis o rapaz? - perguntou Hugh, calmamente. - É Yves Hugonin, veio até aqui à procura da irmã. Se nos puder ajudar, ficaremos ambos muito aliviados. Pelo que sei, a retirada de Callowleas não foi solitária. Apanhámos isto numa árvore no meio da floresta, ao seguir o caminho que vem ter aqui.

E, dizendo isto, expôs na palma da mão o fio dourado transformado agora numa bola emaranhada de filigrama.

- Reconhecei-lo?

-Conheço bem de mais - respondeu Evrard Boterel com azedume cerrando, por um instante, as longas pestanas sobre os olhos demasiado brilhantes. Ao abri-los de novo olhou directamente para Yves.

- Então tu és o irmão mais novo? Desculpa eu não te ter reconhecido imediatamente. Acho que só te vi uma vez ainda eras uma criança. Sim, isso é dela.

- Trouxe-a então para cá - proclamou Hugh sem admitir qualquer dúvida. - Salvou-se do ataque!

- Sim, salvou-se. Sim, eu trouxe-a para cá.

O suor escorria agora em fio pela testa de Evrard, mas os olhos mantinham-se abertos e lúcidos.

- Temos andado à procura dela e dos que a acompanhavam -informou Hugh -, desde que o subprior de Worcester se dirigiu a Shrewsbury procurando-os, já que ninguém sabia deles desde que fugiram. Se ela cá está, mandai-a então chamar.

-Ela não está aqui - respondeu Evrard, com esforço. - Nem eu sei onde ela se encontra. Durante estes dias eu e os meus homens não temos feito outra coisa a não ser procurá-la. - E, apoiando com firmeza as mãos nos braços da cadeira, içou-se vacilante, pondo-se em pé. - Vou contar-vos o que se passou.

Enquanto falava ia passeando de um lado para o outro, mostrando-se um jovem bem constituído, cheio de energia impaciente, mas enfranquecido por aqueles dias de doença.

- Eu era um hóspede frequente e bem recebido em casa de seu pai. O rapaz sabe que isto é verdade. Ela cresceu em beleza e eu amei-a. Amei-a e ainda amo. Desde que ficou órfã fui três vezes a Worcester visitá-la e portei-me sempre de maneira a lá poder regressar. Nunca tive segundas intenções em relação a ela, mas tencionava pedir a sua mão logo que fosse possível, pois o tutor é agora o tio que se encontra ausente na Terra Santa. Restava-me esperar que ele regressasse. Quando ouvi falar do ataque a Worcester rezei para que ela tivesse escapado a tudo aquilo. Nunca pensei em aproveitar-me da situação, nem imaginava sequer que ela andasse por aqui, até que me mandou um garoto de Cleeton...

- Em que dia foi isso? - interrompeu Hugh com rudeza.

- No segundo dia deste mês. "Vem durante a noite", dizia ela, "vem-me buscar. Eu estou à tua espera." Nem uma palavra sobre o facto de estar acompanhada. Só fiquei a saber o que ela me contou e, de acordo com o pedido que me enviara, fui ao seu encontro levando-lhe um cavalo e trouxe-a para Callowleas. Ela apanhou-me de surpresa - declarou ele erguendo a cabeça desafiador -, mas, acima de tudo, era meu desejo casar-me e o dela também. De forma que a tratei com todas as honras e foi com o consentimento dela que mandei chamar um padre para que nos casasse. Só que, na noite seguinte, antes de ele ter chegado, fomos atacados.

- Eu vi o que eles fizeram - informou Hugh. - De que direcção vieram eles? E quantos eram?

- Eram demasiado numerosos para nós! Encontravam-se já no pátio e no interior da casa ainda nós não tínhamos percebido o que estava a acontecer. Não sei se rodearam o flanco da montanha, se desceram directamente pela encosta, mas rebentaram a paliçada atacando de cima e de ocidente. Deus sabe que eu, talvez demasiado ocupado com Ermina, desleixei um pouco a vigilância, mas como podia adivinhar? Não ouvi nada que me indicasse que nesta região pudesse andar um bando tão violento. Atacou fulminante como um raio. Não faço ideia de quantos seriam, mas pelo menos trinta deviam ser e bem armados. Nós nem netade éramos e fomos apanhados de surpresa, ainda meio adormecidos, depois da ceia. Fizemos o que pudemos e eu arranjei alguns ferimentos. Cadfael já reparara que ele mantinha um dos ombros imóvel e o braço dobrado, do lado esquerdo, onde um adversário destro procurara ferir, visando o coração.

- Eu tinha de salvar Ermina e não me atrevi a fazer mais nada. Peguei nela e fugi. O caminho da encosta mantivera-se livre. Eles não nos seguiram. Estavam demasiado ocupados - comentou, com um sorriso amargo - e chegámos aqui são e salvos.

- E depois? Como foi que a perdeu depois?

- Não podem censurar-me mais do que eu próprio me tenho censurado durante todos estes dias - declarou Evrard, sombriamente. - Tenho vergonha de encarar o rapaz e da maneira como deixei que ela me escapasse. De pouco serve como desculpa, embora seja a verdade, e devido ao sangue que perdi caí na cama demasiado fraco para me conseguir mexer. O meu médico pode confirmá-lo, embora eu nunca me perdoe. Mas, no dia seguinte, a estocada aqui do ombro começou a dar sinal e a febre apareceu. A noite, ao recuperar de novo os sentidos, mandei-a chamar. Disseram-me então que ela se sentia apavorada por causa do irmão, que deixara na casa onde eu a fui buscar. Agora que sabia da existência de semelhantes bandidos nas redondezas, não ficaria descansada enquanto não se certificasse que ele estava bem. De maneira que pegou no cavalo a meio do dia e deixou um recado, informando-me de que iria até Cleeton para o procurar. E nunca mais voltou.

-E não foi atrás dela! -acusou Yves, teso como um pau e tremendo ao lado de Cadfael. -Deixou-a partir sozinha e ficou aqui a carpir os seus arranhões.

- Nem uma coisa nem outra - respondeu Boterel gentil e calmo. - Eu não a deixei partir, pois ignorava o que ela ia fazer. E quando soube, isto a minha gente poderá confirmar, levantei-me da cama e fui atrás dela. Suponho que foi o frio daquela noite, o roçar da roupa e o esforço da cavalgada que me mantiveram aqui tanto tempo. Tenho muito pena, mas caí inanimado da sela e aqueles que me acompanhavam tiveram de me trazer de volta para casa. Não consegui chegar a Cleeton.

- Felizmente para vós - comentou Hugh, secamente -, pois nessa mesma noite a casa que ela procurava foi assaltada e incendiada e a família que lá morava teve de fugir.

- Soube-o agora.Não pensam que deixei assim as coisas sem tentar encontrá-la?! Mas ela não estava lá quando a casa foi assaltada. Se lá estiveram e falaram com a gente que os abrigou também o devem saber. Ela nunca lá chegou. Tenho homens a procurá-la desde então, ainda que eu próprio não passasse de um pobre monte de carne inerte e incapaz. Mas agora que conto novamente com as duas pernas para me deslocar vou continuar a busca. Até a encontrar! - concluiu, veemente, cerrando a boca com tanta força que os dentes entrechocaram-se.

Não havia mais nada a fazer ali. Nada a ganhar e, segundo parecia, nada a recriminar. A rapariga pusera em marcha toda uma série de fatalidades, primeiro ao tentar fugir com o amante e, depois, quando ele caiu doente, ao partir sozinha para tentar remediar o que tão triste e levianamente originara.

- Se souber aguma coisa dela - pediu Huh -, mandai-mo dizer a Bromfield, onde estou alojado ou a Ludlow onde se encontram os meus homens.

- Senhor, assim farei.

Evrard reclinou-se de novo nas almofadas tombadas e, com um espasmo doloroso, acomodou suavemente o ombro de forma a aliviar a pressão.

- Antes de partirmos, posso compor-vos a ligadura que cobre a ligadura que cobre a vossa ferida-sugeriu Cadfael.-Pelo que vejo está a incomodar-vos. Parece-me que se a parte mais sensível se colar à ligadura, poderá vir ainda a piorar. Tendes um médico para o tratar?

Os olhos encovados do jovem arregalaram-se, espantados, perante aquele interesse amigável.

- A minha sanguessuga, como eu lhe chamo. Não é médico, mas tem alguma prática e experiência. Acho que tem olhado por mim bastante bem. O irmão é perito nestas coisas?

- Tal como o vosso homem adquiri os meus conhecimentos com a experiência. Já lidei com muitas feridas infectadas. Que lhe pôs ele?

Sentia-se sempre curioso em relação aos tratamentos utilizados pelos outros e podia ver ali uma ligadura de linho lavada e um pote de argila contendo um unguento que estava poisado na prateleira da parede. Cadfael levantou a tampa e cheirou a mistura verde que este continha.

- Centáuria, suponho eu, e urtiga mansa amarela. Ambas muito próprias. Não há dúvida de que ele conhece as ervas, duvido que pudésseis ter arranjado melhor. Mas já que ele aqui não está e visto que isso tanto vos incomoda, se não vos importais, faço-vos outro penso.

Evrard manteve-se submissamente imóvel, dispondo-se ao tratamento. Cadfael desatou os atilhos do gibão do jovem e afastou cuidadosamente o ombro esquerdo da manga larga até conseguir retirar a camisa, libertando-lhe o braço.

- Hoje já saísteis. Esta ligadura está colada e seca, não admira que vos magoe. Devereis ficar quieto durante um dia ou dois e descansar.

Adoptara o tom de voz com que falava aos doentes: prático, confiante e um pouco autoritário. O paciente ouvia-o, submisso, enquanto Cadfael lhe tirava as ligaduras que envolviam o ombro e a parte superior do braço. As últimas pregas estavam manchadas, formando uma linha desde o coração até à axila, uma linha de sangue escuro que cristalizara de ambos os lados, como um fluido pálido e seco. Cadfael agia agora com toda a delicadeza, comprimindo a carne contra as pregas do linho até que estas estalaram libertas, mas tesas.

Tratava-se de uma longa estocada que o poderia ter morto se não se tivesse desviado, acabando por atingir simplesmente o músculo do braço. Não era nem fundo nem perigoso, embora fosse provável que tivesse sangrado com abundância até fechar e, como nessa mesma noite ele andara a cavalo, não admirava que a hemorragia o tivesse enfranquecido. Agora, começava a cicatrizar em ambas as pontas já limpas, mas a verdade era que qualquer porcaria que ali entrara, contaminara a ferida no meio, provocando uma supuração na carne rosada e inflamada. Cadfael comprimiu-a com um pedaço de linho e aplicou uma espessa camada do unguento de ervas. A face pálida olhava-o atentamente, sem pestanejar, através dos olhos encovados, mantendo-se intrigada e muda.

- Não tendes mais nenhum ferimento? - perguntou Cadfael enrolando uma nova ligadura. - Bem, então descansai durante um dia ou dois e não vos atormenteis, pois estamos todos decididos e empenhados na mesma causa. Apanhai um pouco de ar a meio do dia se o sol aparecer, mas fugi do frio e dai tempo ao corpo. Aí está, agora a manga... Seria melhor tirar essas botas e enfiar o roupão. Ponde-vos à vontade.

Os olhos ensombrados seguiam-lhe os movimentos, maravilhados. E ainda se ouviam os agradecimentos já eles tinham passado a porta.

- Irmão, tem umas mãos divinas. Sinto-me muito aliviado. Que Deus o acompanhe.

Dirigiram-se para os cavalos já a luz do dia quase desaparecera. Yves mantinha-se calado. Viera pronto a desafiar e, ainda que quase contrafeito, só conseguia sentir pena. A dor e a doença não lhe eram familiares. Até ao desastre de Worcester vivera protegido, intocado, uma criança inocente. Agora, sentia-se ansioso e desiludido por causa da irmã e não desejava consolações de ninguém.

- Ele disse realmente a verdade - declarou Cadfael directo, ao atingirem a crista em direcção à floresta. - Uma estocada dirigida ao coração, que mais tarde foi infectando ao ser envenenada por qualquer porcaria que entrou para a ferida. Também não há dúvida que teve febre alta que lhe gretou o corpo. Tudo confirma o que nos contou.

- E não ficámos mais perto de encontrar a rapariga - constatou Hugh.

As nuvens da noite acumulavam-se, escurecendo o céu que os cobria, e o vento ominoso começara a soprar. Seguiram o mais depressa que puderam, tentando chegar a Bromfield antes que o nevão começasse.

 

Naquela noite, depois de Vésperas, o vento levantou-se violentamente. Os flocos de neve, flutuando sem rumo no ar, esboroavam-se, transformados em vergastas como chicotes contra as paredes, amontoando-se em renovadas camadas brancas, cobrindo qualquer superfície que se encontrasse na direcção do vento. Ao terminar a ceia, o irmão Cadfael correu à enfermaria, atravessando o pátio, para visitar o seu paciente. O mundo exterior era agora uma cortina opaca feita por uma massa de flocos flutuantes cada vez maiores. A noite seria de tempestade. Os lobos talvez saíssem de novo. Conheciam o terreno extremamente bem e uma tempestade capaz de aterrorizar qualquer inocente não os amedrontava absolutamente nada.

O irmão Elyas tivera autorização para sair da cama pela primeira vez e encontrava-se reclinado na almofada, com o corpo afundado no hábito volumoso. As feridas da cabeça tinham já cicatrizado e o corpo recompunha-se, mas a alma não demonstrava o mesmo poder de recuperação. Silenciosamente submisso, obedecia a tudo quanto lhe era pedido e numa voz grave e baixa agradecia humildemente tudo o que faziam por ele. No entanto, os olhos encovados e a testa dolorosamente enrugada, mantinham-se distantes para lá das paredes da cela, tentando ver ou convencer-se, que a parte de si mesmo que fugira não voltaria mais. Só durante o sono, particularmente ao adormecer e ao despertar, se tornava agitado e ansioso, como se o acordar para a vida e o mergulhar no sono, tão parecido com a morte, destruissem o véu que lhe cobria a memória ainda não totalmente vazia.

Yves seguira Cadfael através do pátio, inquieto e ansioso. Passeava à porta do quarto do enfermo quando Cadfael saiu.

-Não são horas de ires para a cama, Yves? Tiveste um dia longo e cansativo.

- Não quero dormir já - rogou o garoto, ansioso. - Não estou nada cansado. Deixai-me ficar com ele até chegar a hora de Completas. Prefiro estar ocupado.

Sim, de facto seria melhor para ele ocupar-se em cuidar de alguém que precisava. Dar o caldo de ervas ao irmão Elyas podia ser o meio capaz de confortar, consolar e acalmar as preocupações e o desalento que ele sentia.

- Ele ainda não disse nada que nos possa ajudar? Continua sem se lembrar de nós?

- Ainda não. Mas há um nome que ele profere por vezes durante o sono, embora não seja ninguém conhecido. Ele chama-a como se se tratasse de alguém irremediavelmente perdido, expressando uma dor inconsolável sem ser ansiosa, como se esse alguém estivesse livre de toda a dor e de todo o perigo. Hunydd. Durante o sono mais profundo, chama por Hunydd.

- Um nome estranho - comentou Yves. - E homem ou mulher?

- É nome de mulher, um nome galês. Embora não tenha a certeza, julgo que se trata da mulher dele. Tão profundamente amada, que se morreu há pouco tempo não o deixou ainda encontrar a paz. O abade afirmou que ele não se encontrava há muito tempo no convento. O mais provável é que tenha tentado fugir à dor e solidão, mas deve ter percebido que mesmo rodeado pelos irmãos o sofrimento e a saudade não ficavam mais fáceis de suportar.

Yves olhava-o sério, grave e com uma expressão de adulto. Embora a saudade fosse um sentimento para ele desconhecido, conseguia compreender. Cadfael deu-lhe uma palmada amigável no ombro.

-Sim, vai-te sentar junto dele se quiseres. Depois de Completas mando alguém para te substituir. E, se precisares de mim, não estarei longe.

Elyas dormitava, abria os olhos e de novo mergulhava num sono leve. Yves mantinha-se sentado, quieto e silencioso junto à cama, atento a qualquer alteração naquele rosto forte e belo. Ficava radiante sempre que o doente pedia de beber e prontamente o atendia sempre que este precisava de ajuda para se virar ou para se instalar mais confortavelmente. Nos momentos de lucidez, o rapaz tentava corajosamente atingir uma alma que não poderia ser completamente alheia à sua existência. Timidamente, falava do dia-a-dia rotineiro daquelas paredes, do tempo, enquanto os olhos encovados o olhavam atentos, ainda que distantes.

- Estranho! - comentou Elyas de súbito, com uma voz baixa e hesitante. - Sinto que te devo conhecer. No entanto não és irmão neste convento.

- Na verdade conheces-me - respondeu Yves, ávido e esperançado. - Durante algum tempo seguimos o mesmo caminho, lembrais-vos? Viemos juntos de Cleobury até Foxwood. Chamo-me Yves Hugonin.

Não, o nome não lhe dizia nada. Apenas a cara, segundo parecia, lhe tocava algum ponto mais sensível naquela mente esvaída.

- Havia a ameaça de neve - continuou Elyas. - Tinha de entregar o relicário e disseram-me que não o podia perder. Disseram-me! Só me lembro do que eles me disseram!

-Mas haveis de lembrar! Haveis de lembrar! - animou Yves. - Tornar-se-á tudo mais claro. Deveis confiar no que vos dizem, pois ninguém vos quer enganar. Quereis que vos conte mais coisas? Coisas que eu sei que aconteceram?

O rosto, intrigado e sem esperança, olhou-o sem esboçar qualquer recusa. Yves aproximou-se e começou a falar solene e avidamente sobre o que se passara.

- O irmão vinha de Pershore, mas desviara-se para evitar a confusão de Worcester. Nós vínhamos de lá e queríamos chegar a Shrewsbury. Pernoitámos todos em Cleobury, visto o irmão insistiu para que o acompanhássemos até aqui, a Bromfield, visto ser o lugar mais perto e seguro. Eu queria acompanhar-vos mas a minha irmã recusou-se e teimou em seguir pela montanha. Separámo-nos em Foxwood.

A face poisada na almofada não reagiu, mas parecia expectante aguardando esperançada. O vento abanava a sólida portada que protegia a janela, inflitrando pequeníssimas partículas de neve para dentro do quarto, que imediatamente se derretiam. A vela tremia e o som do galo que cantava, vindo do exterior, era desolador e aflitivo.

- Mas afinal vieste aqui parar - retorquiu o irmão Elyas -, bem longe de Shrewsbury-E só. Como pode ser isso?... Separámo-nos...

Yves sentiu-se pouco à vontade, mas se o homem continuasse a fazer perguntas tão pertinentes quem sabe se as recordações perdidas não voltariam?!

O melhor seria contar-lhe o bom e o mau, já que ele não era responsável por nada, mas uma vítima inocente e as recordações devolvidas só poderiam aliviá-lo.

- Uns camponeses amáveis abrigaram-me e o irmão Cadfael trouxe-me para cá. Mas a minha irmã... andamos a procurá-la. Deixou-nos de livre vontade. - Não resistiu ao desabafo, que muito se aproximava de uma acusação. -Estou certo que a econtraremos sã e salva - concluiu, cheio de convicção.

- Mas havia uma terceira - interrompeu o irmão Elyas tão suavamente, e numa voz tão baixa, que mais parecia falar para si própria. - Havia uma freira... - Agora já não olhava para Yves, mas sim para a abóbada do tecto, enquanto a boca lhe tremia agitada e os olhos se abriam arregalados.

- A irmã Hilária - confirmou Yves, tremendo ao responder.

- Uma freira da minha ordem.

Elyas colocou as mãos na beira da cama e sentou-se abruptamente. Algo se acendera no fundo dos olhos encovados, um brilho demasiado nítido para se tratar apenas do reflexo da fraca chama da vela.

- Irmã Hilária... - repetiu, descobrindo por fim um nome que realmente significava alguma coisa na sua cabeça, mas algo de tão terrível que Yves, agarrando-lhe os ombros com ambas as mãos, tentou obrigá-lo a deitar-se de novo.

- Não deveis preocupar-vos, ela não está perdida, está aqui, o mais respeitosamente possível acomodada no seu caixão. Não devemos lamentar a sua partida, pois ela está junto de Deus.

Com certeza que já lho tinham dito só que ele não devia ter entendido. A morte não se pode esconder. Naturalmente que ele iria sofrer, mas era assim mesmo. "Não deves lamentar a partida dela", dissera-lhe o irmão Cadfael.

O irmão Elyas soltou um urro terrível de dor, tão baixo que o barulho do vento a bater na portada quase o abafou. Cerrando as mãos, começou a bater com os punhos contra o peito.

- Morta! Morta! Tanta juventude... tanta beleza... Confiou em mim. Morta? Oh, pedras desta casa caiam sobre este miserável! Sepultem-me de maneira a desaparecer...

Dificilmente se percebia o que ele dizia, pois as palavras enrolavam-se-lhe de tal maneira na língua que Yves, invadido pelo medo e confusão, mal conseguia escutá-las, ocupando-se simplesmente em tentar acalmar a tempestade, que inocentemente desencadeara. Fincou o braço no peito de Elyas, tentando acalmá-lo e encostá-lo à almofada, concentrando toda a sua força infantil na luta contra aquela exaltação vigorosa.

- Oh, vá, vá, não deveis culpar-vos assim. Deitai-vos, estais demasiado fraco para vos levantar... Oh, não, assim a assustais-me! Deitai-vos.

O irmão Elyas estava rigidamente sentado e olhava através da parede, de mãos crispadas, comprimidas de encontro ao coração, murmurando o que tanto poderiam ser preces como recriminações ou delírios de memórias entrecortadas. Contra aquela obcessão interior, toda a força que Yves conseguisse reunir seria inútil. Elyas já nem sequer tinha consciência da presença do garoto no quarto. Se falava com alguém esse alguém era Deus, ou algum ser invisível.

Yves voltou-se e correu em busca de auxílio, fechando a porta atrás de si. Atravessou a enfermaria correndo e saiu para o pátio, coberto de neve que continuava a cair, e dirigiu-se pelo claustro, para a sala aquecida onde certamente encontraria alguém àquela hora. Caiu e, tremendo, ergueu-se de um pulo parando apenas para limpar os olhos. A noite estava envolta numa tempestade de partículas frias e o vento que as movia cortava como navalhas. Tropeçando e cambaleando, chegou até à porta da igreja e aí parou, ao ouvir os cânticos vindos do interior. Era mais tarde do que julgara. Completas já tinham começado. A sua educação, no que respeitava à cortesia e às formalidades, fora demasiado cuidada para lhe permitir, sob qualquer pretexto, interromper o ofício em busca de auxílio. Estacou durante breves momentos para estabilizar a respiração e sacudir a neve do cabelo. A cerimónia não era tão demorada e podia regressar e aguentar aquele fardo até que esta terminasse. Então teria ajuda até de sobra. Bastava que conseguisse manter o irmão Elyas quieto durante um quarto de hora.

Regressou e, mal deixou o coberto ficou meio cego, lutando para ver através do nevão, esforçando ao máximo as pequenas mas robustas pernas, baixando a cabeça como um toiro enraivecido caminhando contra o vento.

A porta da enfermaria encontrava-se aberta de par em par e Yves receou ter sido ele próprio que com a pressa a deixara assim. No interior seguiu aos tropeções através do corredor, defendendo-se das paredes com as mãos, enquanto sacudia a neve que lhe cobria o rosto. Aporta do quarto do enfermo encontrava-se escancarada. Isto provocou-lhe um choque tal que quase caiu de joelhos.

O quarto estava deserto e os cobertores espalhados pelo chão. As sandálias do irmão Elyas, anteriormente poisadas lado a lado sob a cabeceira da cama, haviam desaparecido. O mesmo acontecera com o irmão Elyas, vestido tal como se levantara da cama e que, sem manto nem capuz, saíra para a noite de 9 de Dezembro, enfrentando um temporal semelhante ao da noite em que fora mortalmente espancado, enquanto a irmã Hilária era assassinada. A irmã Hilária, o único nome que conseguira alcançar o seu mundo fechado.

Yves recuou pelo corredor até à porta e de novo mergulhou na tempestade. Aí, as pegadas eram visíveis, embora não as tivesse notado quando entrara. Também não suspeitava da sua existência. As marcas ali deixadas não tardariam a desaparecer, rapidamente cobertas pela neve que caía. Para já eram nítidos os pés grandes descendo as escadas e atravessando o pátio, não em direcção à igreja, mas directas ao portão! E o irmão da portaria que fora assistir ao santo Ofício!

Os cânticos na igreja continuavam e Elyas não podia ter ido longe. Yves correu a pegar o manto pendurado no alpendre da ala dos hóspedes e disparou como uma lebre assustada aos saltos convulsivos em direcção ao portão. As pegadas depressa desapareciam e delas restavam agora uns sulcos esbatidos na alvura do solo, iluminados pela trémula luz das escassas tochas acesas. Tinham chegado ao portão e transpunham-no continuando no exterior. Aí, o mundo não passava de um manto branco em efervescência e a altura da neve dificultava a marcha das pernas curtas de Yves, mas este continuava com persistência. As pegadas viravam para a direita. Yves seguiu-as.

Algures no meio da estrada seguia às cegas, incapaz de se orientar no meio de um nevão que tornava a paisagem toda igual. No chão continuavam, levemente marcados, os sulcos escavados pela passagem de Elyas. Teve uma visão momentânea, facilitada por um momento de claridade originado pelo vento caprichoso, de uma sombra que avançava um pouco mais à frente. Fixou os olhos nessa direcção e prosseguiu com determinação.

Levou bastante tempo a alcançar a sua presa. Era incrível a velocidade com que Elyas avançava, em passadas largas e confiantes, sulcando o seu caminho de maneira que os veios que ia abrindo permitiam segui-lo sem dificuldade. De sandálias, cabeça descoberta, um homem doente... só uma força interior, originada pela paixão e desespero, poderia conceder-lhe semelhante vigor. E, o que assustava Yves ainda mais, era o facto de ele avançar, aparentemente sem destino, como se algo o obrigasse e o impelisse a alcançar um qualquer lugar desconhecido. Até ali os traços que marcara na neve seguiam em linha recta.

Ainda assim, Yves acabou por o apanhar, lutando para se aproximar a cada passo, até que conseguiu estender a mão e apanhar-lhe a manga larga do hábito negro. O braço continuava o movimento vigoroso, como se Elyas se mantivesse completamente alheio ao peso que agora arrastava. Quase conseguiu libertar-se, mas Yves fincou as duas mãos e lançou-se na frente do corpo forte, passando-lhe os braços à volta e, assim seguro, tentou bloquear-lhe a passagem com quanta força tinha. Piscando os olhos para os manter abertos sob o nevão que o cegava, olhou o rosto do outro que se mantinha inerte e rígido como uma máscara de morte.

- Irmão Elyas, regressai comigo. Tendes de vir comigo ou ainda acabais por morrer aqui!

O irmão Elyas continuava implacável, arrastando o peso que nele se enredara sem sucesso, seguindo em frente. Yves manteve-se agarrado, acompanhando-o, e ainda tentou detê-lo com rogos insistentes:

-O irmão está doente, tem de voltar para a cama. Vinde comigo! Onde quereis ir? Vamos regressar agora, deixai-me levar-vos de volta!

Talvez Elyas não se dirigisse a nenhum lugar, talvez tentasse afastar-se de alguma coisa ou de alguém ou dele próprio. Fosse o que fosse que recordara tinha-o enlouquecido como um raio destruidor. Yves continuava os seus rogos, mas em vão. Não conseguia demovê-lo ou persuadi-lo. Não havia mais nada a fazer a não ser acompanhá-lo. Firmou-se resignado à manga negra e decidiu acompanhar o passo do enfermo. Se encontrassem alguma cabana ou algum viandante tardio, poderia pedir ajuda ou abrigo. Com certeza que o irmão Elyas acabaria por cair de fraqueza e aceitaria qualquer ajuda que lhe pudessem dar. Mas quem andaria por ali com uma noite daquelas? Quem mais a não ser um pobre louco e o seu infeliz guardião? Pois bem, oferecera-se para cuidar do irmão Elyas e não o abandonaria e, ainda que não conseguisse protegê-lo contra aquele ataque de loucura, pelo menos partilharia o mesmo destino. E, ainda que estranho, a verdade é que pouco depois moviam-se os dois como se de um só se tratasse e o irmão Elyas, embora mantivesse o rosto de pedra e a mesma postura rígida, passou um braço à volta dos ombros de Yves, aconchegando-o a si. Entre ambos tinham-se criado laços mútuos e instintivos de amizade e ternura.

Yves não fazia a mínima ideia de onde se encontravam, ainda que tivesse consciência que tinham abandonado a estrada principal havia muito. Calculou que tinham atravessado uma ponte e esta só podia ser a do rio Corve. Estariam pois, algures na encosta do planalto. Tinham poucas hipóteses de aí encontrar alguma cabana, apesar de a neve ser agora menos intensa e a visibilidade maior.

Só que agora parecia que o irmão Elyas conhecia o caminho, agindo como se fosse obrigado a alcançar um sítio determinado, sem possibilidade de resistir, a fim de se penitenciar de algo que só ele conhecia. Atingiram um maciço de arbustos espinhosos carregados de neve, que se lhe prenderam à roupa, até que alcançaram uma cabana atarracada, protegida pela encosta. Yves embateu contra a superfície dura e escura, esfolando os dedos ao bater na madeira tosca. Tratava-se de uma cabana baixa, mal construída, que servia para abrigar os pastores e para guardar forragens e palha. A porta encontrava-se trancada por uma pesada tranca, mas o irmão Elyas ergueu-a e abriu a porta. Entraram e mergulharam numa escuridão abençoada. Elyas inclinou a cabeça de forma a passar na porta que o vento acabou por fechar. Não havia frestas e por isso ficaram sem ver absolutamente nada, envoltos pela calma e pelo silêncio. Depois do frio apanhado, o interior da cabana parecia quase quente e o cheiro a feno, velho mas seco, que sentia sob os pés, prometia cama e cobertores. Yves sacudiu a neve sentindo o coração aliviar-se. Aqui talvez o irmão Elyas sobrevivesse à noite. "E, antes do amanhecer", pensava o garoto, "poderei escapar-me, ponho a tranca na porta e vou à procura de alguém que me ajude ou que me leve um recado. Acompanhei-o até agora. Não, não o vou abandonar."

O irmão Elyas afastara-se dele e ouvia-se o barulho da palha a ser comprimida pelo peso de um corpo. O uivar do vento lá fora não passava de um gemido desolado. Yves avançou, de mãos estendidas, até tocar num ombro curvado, coberto de neve. O peregrino encontrara o seu estranho santuário e ajoelhara-se. Yves sacudiu a neve das pregas do hábito negro e sentiu o irmão Elyas estremecer ao contacto da mão, como se estivesse a conter, a todo o custo, soluços amargos e profundos. A total escuridão que os rodeava parecia tê-los unido ainda mais. O homem ajoelhado murmurava preces inaudíveis e, embora as palavras não fossem compreensíveis, transparecia nelas a força do desespero.

Yves acomodou-se no monte de feno ao lado, rodeou-lhe os ombros tensos com um braço, tentando obrigar o irmão Elyas a deitar-se, mas por um momento ainda longo este resistiu àquela pressão.

Por fim, o corpo acocorado cedeu e afundou-se, soltando um gemido estrangulado, que tanto podia significar obediência ao garoto, como ser fruto do estado de exaustão. Estirou-se naquela cama improvisada, apoiou a testa nas mãos, enquanto Yves amontoava feno de ambos os, lados de forma a mantê-lo o mais quente possível, antes de se deitar a seu lado.

Passado um pouco, soube pela respiração pausada e profunda que Elyas adormecera.

Yves permaneceu ali colado ao corpo do outro, firmemente determinado a não dormir. Sentia-se cansado e com frio e precisava de pensar, mas a cabeça recusava-se a obedecer-lhe confundindo-lhe o raciocínio. Não queria pensar nas palavras do irmão Elyas e muito menos perceber o que significavam, pois fosse o que fosse não podia deixar de ser horrível. De momento, tudo o que podia fazer por aquele homem arrasado, por quem sentia um afecto obstinado e involuntário e que estava sob a sua responsabilidade, era certificar-se de que ele não voltaria a escapar-se para vaguear sem destino e tentar arranjar auxílio pela manhã. Assim, tinha de se manter acordado.

Apesar desta resolução, estava quase a adormecer quando despertou subitamente ao ouvir uma voz a seu lado, que já não era um murmúrio e que lhe chegava apenas abafada pelos braços que lhe tapavam a cara.

- Irmã... minha irmã... Perdoa a minha fraqueza, o meu pecado mortal... eu fui a causa da tua morte! -Após uma longa pausa continuou - Hunydd... ela era como tu, tão quente e confiante nos meus braços... Passados seis meses de abstinência... de súbito, que desejo... não pude suportar o fogo que me queimava a alma e o corpo...

Yves mantinha-se imóvel e agarrado a Elyas, incapaz de se mexer, impotente para deixar de ouvir;

- Não, não me perdoes! Como posso atrever-me a pedir-to? Deixa que a terra me engula e me enlouqueça... Covarde, não sou digno de confiança, nem de perdão...

Seguiu-se outro silêncio prolongado. O irmão Elyas continuava adormecido e através do sono dava voz aos tormentos que o afligiam e que impiedosamente lhe vinham à memória. Dormia e contorcia-se. Nunca antes Yves se sentira confrontado com tal horror ou com piedade tão profunda.

- Ela abraçou-me... não sentia medo nenhum em estar comigo! Deus Todo-Poderoso, eu sou um homem de sangue quente. Tenho um corpo de homem, sinto os desejos da carne! - gritou o irmão Elyas num desabafo doloroso. - E ela está morta, ela que confiou em mim...

 

O irmão Cadfael saiu de Completas e foi certificar-se de que Elyas se encontrava preparado para dormir, levando cconsigo um jovem irmão para substituir Yves. Depararam com a porta escancarada, a cama revolvida e o quarto deserto.

Claro que a explicação para o facto poderia ser menos alarmante do que a que saltava à vista. Contudo, Cadfael apressou-se a regressar à porta exterior, procurando a existência de pegadas que, à entrada, lhe poderiam ter passado despercebidas. O pátio, findo o Ofício, ficara repleto de marcas de pés que, rapidamente, eram cobertas pela neve que caía. No entanto, ainda conseguiu vislumbrar os traços que seguiam em linha recta até ao portão. Não passavam de pequenos pontos cravados na imensidão branca do solo, mas eram reais. E o garoto desaparecera! O que poderia ter acontecido dentro daquele quarto capaz de espantar Elyas, obrigando-o a agir de forma tão insensata e perigosa, após toda a apatia e submissão que demonstrara? Com certeza metera-se-lhe na cabeça confusa tomar alguma atitude drástica e se nem mesmo um adulto o deteria com facilidade, era mais do que provável que Yves optasse por não abandonar o homem pelo qual se responsabilizara, ainda que temporariamente. Começava a conhecer muito bem o garoto.

- Corre à ala dos hóspedes - ordenou ao irmão que o acompanhava -, diz a Hugh Beringar o que se passa e certifica-te de que eles não se encontram dentro de casa. Eu vou procurar o abade Leonard e tratar de vasculhar os edifícios.

Leonard recebeu a notícia com preocupação e angústia, ao mesmo tempo que mandava a irmandade percorrer todo o conclave, incluindo os pátios da quinta e os celeiros. Hugh Beringar apareceu, de botas e manto, resignadamente preparado para o pior e tratando rispidamente todos os que se lhe atravessavam no caminho. As buscas levadas a cabo, quer pelos civis, quer pelos eclesiásticos, não tardaram a provar-se infrutíferas.

- A culpa é toda minha - acusava-se Cadfael com amargura. - Entreguei o pobre a um garoto pouco mais lúcido. Deveria ter mais juízo, embora como e porquê isto possa ter acontecido entre os dois, seja algo que escapa à minha compreensão. E, agora, devido à minha insensatez perdemos os dois, o par mais precioso desta casa, que deveria ser acompanhado a todo o instante.

Hugh dava orientações aos homens de que dispunha.

- Um de vocês vai até Ludlow certificar-se se eles atingiram aí os portões ou se se encontram por lá abrigados. Tu vais com ele, mas diriges-te ao castelo, recrutas dez homens e esperas por mim no portão que eu irei lá ter. Acorda Dinan, igualmente, e deixa-o preocupar-se. O garoto é filho de um homem que ele deve ter conhecido e sobrinho de outro com que ele poderá querer negociar em breve. Não me vou arriscar a enviar homens a mais de uma milha e vão todos em par. Os fugitivos não podem ter ido longe.

Voltou-se para Cadfael com igual determinação e abanou-o vigorosamente pelos ombros.

-E quanto a si, meu amigo, deixe de dizer tanto disparate presunçoso. O homem parecia calmo e inofensivo e o rapaz precisava de se entreter e é de confiança. Se algo correu mal, a culpa não é sua. Não se arrogue ao direito que pertence a Deus de julgar a culpabilidade de alguém, com tanta exaltação, ainda que esse alguém seja você mesmo. Isso também se pode considerar uma certa forma de arrogância. Agora, vamos tratar de ver se conseguimos descobrir esses dois e se os tiramos deste purgatório gelado. Mas já o aviso que aos meus homens de Ludlow vou ordenar que não demorem mais de uma hora e que não se afastem muito. Não quero perder mais ninguém esta noite. Se não os descobrirmos antes, de madrugada iniciaremos uma busca em força.

Com estas ordens enfrentaram a tempestade, seguindo aos pares, intimamente reconfortados, pelo menos Cadfael, com o facto de serem dois. Um homem só pode perecer e desistir de enfrentar o frio com mais facilidade do que tendo companhia para ajudar e incentivar mutuamente, permitindo sempre a um que se apoie, que se aqueça, que desafie a força do companheiro. Em último caso, o facto de não se estar sozinho é a maior garantia de sobrevivência.

De igual forma, a repreensão impaciente de Hugh seguira directa ao coração e não era menos reconfortante. Era demasiado fácil transformar a pura ansiedade que se sente por alguém a quem se ama, em sublimação de culpa e expiação do responsável, usurpando esse poder de Deus. Acusar alguém de não ser infalível é arrogar-se o direito àinfabilidade inerente. "Bem", concluiu Cadfael, "estamos sempre a aprender. É, talvez, uma consolação fraca, mas ainda um dia poderei precisar destes argumentos. O melhor é fixá-los bem."

Avançando quase às cegas, seguia acompanhado por um robusto e jovem noviço, em direcção ao norte e atravessou o Corve. Enquanto abriam caminho através do nevoeiro branco e gelado, estava certo de que era tempo perdido. Embora pudessem desafiar o tempo, este acabava por ser mais forte, cobrindo tudo com um manto branco sempre igual.

Resignados, reuniram-se de novo em Bromfield, onde concluíram que estavam a perder tempo numa tarefa impossível. O porteiro acendera tochas de pinho novas, colocando-as no abrigo do portão, de forma a facilitar o regresso a casa, não fosse alguém perder-se. De tempos a tempos tocavam o sino para ajudar os homens a orientarem-se. Os batedores regressaram, enregelados, cobertos de neve e de mãos vazias. Antes de se deitar, Cadfael aassistiu ainda a Matinas e Laudes. A rotina do mosteiro não deveria ser alterada, ainda que estivessem vidas correndo perigo. Nada mais poderia ser feito antes do dia nascer. Pelo menos humanamente, não podia ser feito. Mas Deus conhecia o paradeiro dos fugitivos e não prejudicaria se se concentrassem as forças na Sua direcção, num reconhecimento da limitação das capacidades humanas.

Cadfael levantou-se ao soar o toque de Primeiras e desceu com os outros para a fria e escura capela. A neve parara de cair com a aproximação do dia e a vastidão branca que ela formara reflectia luminosidade, imprimindo uma claridade pura e fantasmagórica mesmo antes de o Sol nascer. Terminado o Ofício, Cadfael dirigiu-se sozinho até ao portão. O mundo exterior transformara-se numa imensidão branca, manchada apenas pelas sombras escuras das paredes e dos edifícios. O porteiro mantivera esperançado as tochas acesas sob o arco e estas espalhavam uma luz avermelhada sobre as pedras e sobre o exterior. Para as substituir tivera de abrir a portinhola do portão, sair para o outro lado e, quando Cadfael se aproximou, estava ele de regresso, parado no abrigo a sacudir a neve, antes de entrar e fechar de novo a porta.

Aconteceu que, ocupado nesta tarefa, estava virado para dentro enquanto Cadfael se encontrava de frente para a porta e, por isso, só ele viu. A portinhola era suficientemente alta para permitir a passagem de homens montados, e o irmão porteiro era baixo e magro e estava debruçado, sacudindo dois rostos subitamente iluminados pela luz das tochas, que os tornou visíveis para Cadfael. A beleza daquela súbita aparição fê-lo suster a respiração por um momento, como se de um milagre se tratasse. Contudo, não eram visitantes divinos, mas sim habitantes terrenos cheios de vida. O capuz da rapariga escorregara-lhe da cabeça e a luz vermelha deixava ver uma cabeleira desordenada e negra, uma testa larga e limpa, umas sobrancelhas imperiosamente arqueadas e uns olhos grandes e escuros, que brilhavam demasiado para poderem ser negros, provavelmente seriam de um castanho avermelhado. Apesar das roupas simples e coçadas de camponesa, o porte da cabeça e o olhar eram de tal forma imperiosos e directos que teriam causado inveja a muitas rainhas. O rosto era graciosamente delineado e as linhas que o compunham reuniam-se nuns lábios cheios e bem desenhados. O queixo resoluto completava tão suavemente aquele conjunto, que as pontas dos dedos de Cadfael, no passado tão habituadas a acariciar, imaginaram-se a percorrê-la da sobrancelha ao pescoço, estremecendo com a lembrança de tempos antigos.

O outro rosto aparecia por cima do ombro esquerdo dela e quase lhe tocava a face. Ela era alta, mas o homem que a acompanhava era ainda mais e, como seguia inclinado, atento e protector, as cabeças quase se tocavam. O rosto era longo e largo e as sobrancelhas espessas. O nariz constituía um estupendo exemplar e a boca era arqueada e altiva. Os olhos doirados eram grandes e corajosos como os de um falcão. Trazia a cabeça descoberta, exibindo o cabelo de um negro azulado, vigorosamente encaracolado nas têmporas e puxado para trás, espesso e lustroso sobre o crânio orgulhoso. Cadfael já vira caras muito semelhantes, quase sempre adornadas com barbas pontiagudas e curtas e bigodes cuidadosamente aparados sobre os lábios desdenhosos. Essas caras vira-as no passado e pertenciam a sírios que envergavam, orgulhosos, cotas de malha e transportavam a sua linha de descendência para fora de Antioquia. Este possuía o mesmo tom de pele escura, a mesma forma bem esculpida, mas apresentava o rosto barbeado e liso, à maneira normanda, tinha o cabelo curto e vestia um fato tão grosseiro e debotado como o de qualquer camponês.

Bem, na verdade, muitos dos iluminados por Deus são agraciados ou desaventurados e nascem num mundo a que não pertencem: homens santos e sábios, que se mantém incógnitos para a humanidade, guardando porcos nas florestas; príncipes guerreiros nascidos vilões e membros mais novos de um clã faminto, que ficam destinados a afugentar os corvos das sementeiras. Do mesmo modo que há aqueles que, nascendo nos palácios reais, no fundo são tão insignificantes e incapazes como qualquer escravo, chegando frequentemente a governar homens mil vezes superiores.

Mas este não se perderia. Bastava aquele lampejo doirado nos olhos escuros para assegurar a sua determinação em abrir caminho até onde quisesse.

Tudo isto se passou em fracções de segundo, durante as quais o porteiro se ocupava em sacudir a neve das saias, pois no momento seguinte tinha já entrado, fechando a porta atrás de si e quebrando aquela visão súbita dos dois jovens, cuja proximidade levava a concluir que se dirigiam para ali.

O irmão Cadfael fechou os olhos, abriu-os esperançado e, de novo os fechou, tentando rever, confuso, a imagem que poderia não ter passado de uma alucinação. No lusco fusco da madrugada, em pleno Inverno rigoroso e tendo como incentivo a chama reconfortante de uma tocha, quem não estaria sujeito a sofrer de alucinações?

Não recuara mais de três passos lentos, ainda o porteiro não tivera tempo de alcançar a porta dos seus aposentos, quando se fez ouvir a sineta do portão.

O porteiro voltou-se, surpreendido. Concentrado em alcançar os candelabros onde as tochas estavam presas e, com a pressa de regressar ao abrigo, não vira ninguém na escuridão cada vez menos cerrada que envolvia o exterior. Na verdade, só depois de se ter virado de costas é que os dois se tinham materializado ao alcançarem a área iluminada. Encolheu os ombros resignado e voltou para trás vagarosamente, para abrir o pequeno postigo que lhe permitiria ver de quem se tratava. E o que viu ainda o surpreendeu mais, levando-o a agir imediatamente. Ergueu a pesada barra e abriu a porta.

Ali estava ela, alta, encarando-os com humildade, envergando um fato demasiado grande e feito de um tecido grosseiro e desbotado, coberto com uma capa curta com capuz, que lhe pendia à volta do pescoço, deixando a descoberto o cabelo escuro que lhe caía sobre os ombros. O contacto frio do vento rosara-lhe as faces, acentuando o branco sedoso e macio como marfim da sua pele.

- Posso entrar e abrigar-me aqui? - perguntou na voz mais meiga e humilde, embora mantivesse uma calma e confiança inabaláveis. - Devido ao tempo, aos infortúnios e às desgraças da guerra, encontro-me só. Suponho que têm andado à minha procura. Chamo-me Ermina Hugonin.

Enquanto o porteiro, excitadamente, a conduzia para dentro e acorria a informar o abade Leonard da súbita chegada da jovem desaparecida, o irmão Cadfael não perdeu tempo e, escapando-se até à entrada, olhou em volta constatando que tudo estava deserto. Havia ali muitas sombras, árvores e arbustos capazes de esconder a retirada do jovem e ágil mancebo e, ou ele resolvera esconder-se atrás de um deles, ou o falcão levantara asas e voara. Quanto às pegadas na neve, algum bom homem mais madrugador acabara de passar ali à porta, por diversas vezes, levando o gado quer para o abrigo, quer para pastar. No meio de todas aquelas marcas, quem poderia descobrir as pegadas de um homem só?

Ela não mentira, embora só tivesse contado meia verdade: entrara ali sozinha. Contudo, tinham sido dois a aproximarem-se do portão, enquanto apenas um pedira asilo. Que razões poderiam ter levado o homem a trazer a rapariga até um sítio seguro evitando ser visto? E, por que razão, ponderava Cadfael, não haveria o homem de se mostrar abertamente já que sabia que ela era procurada? Por outro lado, por que não encobri-lo até saber a explicação desse estranho comportamento? Primeiro ouviria e apreciaria o que a jovem tinha a dizer.

Pensativo, regressou ao edifício onde o porteiro se apressara a atiçar a lareira, sentando a rapariga perto do lume. Ela permanecia quieta, contraída, enquanto os sapatos e as saias começavam a fumegar devido ao calor.

- Sois também irmão nesta casa? - perguntou ela, erguendo os olhos escuros e observando-o.

- Não, sou monge em Shrewsbury. Vim para cá para cuidar de um irmão que aqui tem estado doente.

Perguntou se ela saberia do infortúnio do irmão Elyas, mas ela não parecia saber de nada sobre o monge ferido e Cadfael resolveu não mencionar o nome dele. Primeiro queria ouvir a história dela, e antes de Hugh ou o abade a ouvirem, para poder avaliá-la.

- Sabes que tens sido diligentemente procurada desde que saíste de Worcester? Hugh Beringar, o xerife deste condado, está aqui em Bromfield em grande parte por causa disso.

- Eu sei - respondeu ela -, disse-mo o camponês que me acolheu. Também por ele fiquei a saber que o meu irmão tem estado aqui, enquanto eu andava à procura dele. E só agora, que cá consegui chegar, fiquei a saber que anda de novo perdido e que passaram a noite a procurá-lo. Toda a região sabe disso. Temo que não tenham ganho muito com a troca - declarou, com súbito azedume -, tendo-me a mim e ficando sem Yves. Eu sou a responsável por todo o tempo que têm perdido e por todos os problemas.

- O teu irmão estava bem e de excelente saúde - afirmou Cadfael com firmeza -, à hora de Completas da noite passada. Não há moti vos para pensar que não seremos bem sucedidos nas buscas, pois ele não pode ter ido longe. Os homens do xerife, que se encontram em Ludlow, já tiveram as suas ordens para hoje e a esta hora já devem ter saído para o procurar e o mesmo fará Hugh Beringar assim que vos vir a salvo e depois de ouvir tudo o que tem para lhe contar.

Hugh encontrava-se já à porta. Os irmãos tinham aberto uma passagem na neve para que a rapariga não molhasse os pés ao atravessar o pátio, até à ala dos hóspedes. O próprio abade Leonard conduziu-a para junto do calor, da comida, sentando-a confortavelmente perto da lareira. Sentia-se desgostoso por não haver ali nenhuma mulher que lhe pudesse fornecer uma muda de roupa.

- Depois trataremos disso - afirmou Beringar com frieza. - Josce de Dinan tem a casa cheia de mulheres. Eu trago tudo o que for preciso. Mas, senhora, será melhor tirar essas roupas molhadas, nem que tenhais de vestir um hábito e de calçar umas sandálias. Não tendes mais nada a não ser o que trazeis vestido?

- Dei o que tinha em troca do que trago no corpo - respondeu sem perder a compostura - e em paga da hospitalidade que me deram sem pensarem em recompensa. Mas ainda tenho algum dinheiro. Poderei pagar pelo vestido.

Deixaram-na a trocar de roupa junto do fogo, depois de lhe terem arranjado um hábito e umas sandálias de noviço. Quando ela abriu a porta para os mandar entrar novamente, fê-lo com a graça de uma dama que recebe os seus convidados. Desprendera e penteara a massa de cabelo negro que, ao secar, se ia encaracolando nas pontas e que pendia como cortinas lustrosas de ambos os lados do rosto. Enfiada num hábito negro, preso e atado à cintura, voltou a sentar-se na cadeira cruzando os braços o olhando-os com aprumo, transformada no mais lindo noviço que algum dia Bromfield abrigara.

- Senhor - começou ela -, e abade prior, para ser honesta a causa de todos estes enormes problemas sou eu e sei disso. Não foi por mal, mas fui eu que os causei. Agora que estou em condições de tentar reparar o que for possível, soube que o meu irmão, até aqui em segurança e a quem eu esperava poder reunir-me, desapareceu durante a noite. Não posso deixar de reconhecer que isto, tal como o resto, é por culpa minha e lamento muito. Se houver alguma coisa que eu possa fazer para ajudar a procurá-lo...

- Só há uma coisa em que nos podeis ajudar - respondeu Hugh com firmeza-, é tirar-nos pelo menos uma preocupação de cima dos ombros, ficar aqui e não pôr os pés fora destas paredes, até encontrarmos e trazermos de volta o vosso irmão. Dai-nos pelo menos a certeza de que ficareis a salvo e que não vos perderemos de novo.

- Não era isso que eu tinha em mente, mas farei tudo o que me ordenar. Por enquanto... - acrescentou franzindo o lábio.

- Agora, há algumas coisas que eu preciso de saber rapidamente e o resto poderá esperar. A senhora é apenas uma parte da minha missão aqui. A paz do rei é igualmente da minha responsabilidade e sabe que tenho boas razões para pensar que não tem sido respeitada. Soubemos por Yves, como os deixou, a ele e à irmã Hilária, em Cleeton e como mandou recado a Evrard Boterel para que a fosse buscar, seguindo para Callowleas. Já vimos o que restou de Callowleas. Fomos a Ledwiche procurar-vos e soubemos por Boterel que chegaram lá salvos, mas que a senhora fugiu, enquanto ele lutava com a febre originada pelo ferimento que lhe foi infligido durante a luta, resolvendo ir procurar os companheiros que tinha abandonado. O que aconteceu a Callowleas pode acontecer a muitos outros e não admira que vos sentisseis preocupada.

Sentada, Ermina mordia o lábio inferior e, olhando-o com frieza, franziu as sobrancelhas escuras.

-Já que Evrard vos contou tudo só preciso de o confirmar. Suponho que ele já recuperou. Sim, fiquei preocupada com eles. Tinha bons motivos para isso.

- O que vos aconteceu? Boterel disse-nos que não chegásteis a regressar e desde que melhorou e descobriu que havíeis partido tem-vos procurado sem descanso. Foi uma asneira terdes partido sozinha.

Surpreendentemente desenhou-se-lhe nos lábios um sorriso amargo. Já devia ter reconhecido a asneira.

- Sim, estou certa que ele tem corrido tudo à minha procura. Agora já poderemos tranquilizá-lo. Não, não cheguei a Cleeton. Não conheço estes caminhos e fui surpreendida pela noite. Depois veio a neve... no escuro perdi-me irremediavelmente e caí; o cavalo fugiu. Tive a sorte de ser encontrada e acolhida por um camponês e pela mulher, e toda a vida lhes ficarei grata. Contei-lhes a minha história e os meus receios e o camponês ofereceu-se para ir a Cleeton averiguar o que acontecera e assim fez. Voltou com a notícia do que acontecera à propriedade de John, na noite a seguir a Callowleas, e como Yves se perdera ainda antes disso acontecer, na mesma noite em que eu cometi a maior asneira e a maior tolice da minha vida. - A cabeça erguera-se orgulhosa e endireitou as costas ao admitir o seu arrependimento. Com um olhar selvagem desafiou os presentes quer a corroborar a sua auto-recriminação, quer a tentar depreciá-la. - Graças a Deus que John e a família escaparam com vida. E quanto aos prejuízos, considero-os como dívidas e serão recompensados. Mas houve uma notícia que me trouxe grande alívio - continuou ela manifestando emoção e ternura -, foi saber que a irmã Hilária partiu muito antes de chegarem os assaltantes, na companhia daquele bom irmão de Pershore que voltara, ansioso pela nossa segurança, e que a levou.

O silêncio pesado que se seguiu passou-lhe despercebido, tal era a satisfação que sentia com aquela única certeza: um inocente conseguira escapar ao cataclismo que o seu coração leviano desencadeara.

-Todo este tempo que estive junto deles, mandámos procurar Yves, pois como podia eu seguir sem saber o que lhe acontecera? E só ontem de manhã soubemos que ele aqui estava abrigado. De maneira que vim.

- E mesmo a tempo - concluiu Hugh - de descobrir que ele desaparecera de novo. Bem, espero que não seja por muito tempo e se vos deixo assim sem cerimónia é porque é urgente procurá-lo.

Cadfael perguntou inocentemente:

- Vieste até aqui sozinha?

Ela virou a cabeça vigorosamente, presenteando-o com um olhar desafiador e arregalado no rosto calmo e cansado.

- Robert, o filho do camponês, indicou-me o caminho.

- Tenho igualmente umas contas a ajustar com os bandidos que se escondem algures nas montanhas e que vos assaltaram em Callowleas. Os mesmos que arrasaram a casa de Druel. Calculo ter homens em número suficiente para esquadrinhar cada palmo destas terras. Mas primeiro, há que encontrar os dois desaparecidos.

Levantou-se abruptamente e erguendo uma sobrancelha esboçou um gesto significativo com a cabeça, arrastando Cadfael para fora do quarto.

- Por aquilo que vi, a rapariga ignora o que aconteceu à irmã Hilária e ao irmão Elyas. Tenho os meus homens e aqueles que Di-nan me dispensou à espera de prosseguir esta caçada. E não posso perder tempo e estar com rodeios para lhe dar as más notícias de uma forma mais gentil. Fique aqui com ela, Cadfael, certifique-se de que ela não voltará a escapar e... conte-lhe tudo. Ela vai ter de saber. Quando mais verdades conseguirmos reunir, mais perto ficaremos de acabar com este ninho de vespas de uma vez por todas e poderei então regressar para passar o Natal com Aline e com o meu filho.

Ela estava esfomeada e Cadfael calculou que o apetite não lhe devia faltar fosse em que circunstâncias fosse. Era a actividade constante que a mantinha esguia como uma gazela. Comia com prazer, embora se mantivesse na defensiva, pensativa e distante. Cadfael deixou-a à vontade até que, com um suspiro de satisfação física, ela se recostou na cadeira. Mantinha o sobrolho franzido e o olhar parecia mais virado para dentro do que para o exterior. Então, de súbito, olhou-o com atenção redobrada.

- Foi o irmão que encontrou Yves e o trouxe para cá? Foi isso que o abade prior me disse.

- Encontrei-o por acaso - esclareceu Cadfael.

- Não foi só por acaso. O irmão foi à procura dele. - Isto recomendava-o; a expressão dela suavizou-se. - Onde foi? Ele estava muito gelado e assustado?

- Ele portou-se como um jovem cavaleiro em todos os aspectos, sempre muito seguro de si mesmo. E encontrou igualmente aquele tipo de pessoas capazes de serem hospitaleiras e amáveis sem pensarem em recompensas.

- E desde então têm andado os dois à minha procura! Enquanto eu o procurava a ele. Oh, Deus - exclamou docemente com reverência e amargura -, fui eu que originei tudo isto. E tão iludida! Nem me reconheço. Já não sou a mesma mulher!

- E já não deseja casar com Evrard Boterel? - perguntou Cadfael, placidamente.

-Não-respondeu ela simplesmente. - Isso acabou. Pensei que o amava. Pensei mesmo. Mas não passava de uma ilusão de criança. Agora este Inverno rigoroso é real, aquelas aves de rapina que vivem lá no alto são reais, a morte é real e está muito próxima a cada passo e eu coloquei o meu irmão em perigo por uma patetice. Agora sei que ele significa muito mais para mim do que algum dia Evrard significou. Mas nunca lhe digais isto. -Apressou-se a pedir. - Ele já é suficientemente vaidoso. - Foi ele que vos contou o que eu fiz?

- Foi. E também contou que ao tentar segui-la acabou por se perder e se abrigou na floresta onde o fui encontrar.

- E ele censurava-me? - perguntou Ermina.

- No lugar dele não faríeis a mesmo?

- Parece-me que foi há tanto tempo! - comentou ela. - E eu mudei tanto. Como foi possível fazer tanto mal sem querer? Pelo menos consolei-me ao saber que o bom irmão de Pershore, como lamento não lhe ter dado ouvidos, tenha regressado e tenha levado a irmã Hilária com ele. Eles ainda cá estavam quando chegou de Shrewsbury? Ela seguiu com ele ou voltou para Worcester?

Embora se tratasse de uma pergunta simples Cadfael não estava preparado para ela. O silêncio caiu como uma pedra. Ela foi muito perspicaz. Os poucos segundos que ele demorou a pensar numa resposta, foram demasiado longos. Ela endireitou-se e olhou-o de frente, apreensiva.

- Há alguma coisa que eu ainda não saiba?

Não tinha outra alternativa a não ser ir em frente.

- Há algo que não vais gostar de ouvir e que eu não vou ter prazer em contar - respondeu o irmão Cadfael com simplicidade. - Na noite em que os lobos lá de cima atacaram a casa de Druel, já tinham saqueado uma herdade solitária aqui perto, a escassas milhas de Ludlow. Entre estes dois sítios e de regresso ao covil encontraram, por um destino cruel, os dois que mencionaste. Já era noite quando estes deixaram a casa de Druel e a tempestade de neve e as rajadas de neve eram capazes de cegar. Pode ser que se tenham perdido, pode ser que se tenham tentado abrigar do pior. Foram cair no caminho daqueles ladrões e assassinos. A face dela era de mármore. As mãos crisparam-se nos braços da cadeira com tanta força que os nós ficaram sem pinga de sangue. Numa voz pouco mais alto do que um murmúrio perguntou:

- Mortos?

- O irmão Elyas foi trazido para cá, moribundo. O teu irmão encontrava-se com ele na noite passada, quando ambos desapareceram na neve, quem sabe por que razão? A irmã Hilária encontrámo-la morta.

Durante um longo momento Ermina nada disse, sem uma lágrima, sem uma explicação, sem um protesto, tentando comprimir toda a dor, todo o remorso e toda a revolta que sentia, escondendo-se desesperadamente do resto do mundo. Passado um bocado perguntou em voz baixa:

- Onde está ela?

- Está aqui na capela, no caixão, esperando ser sepultada. Com este gelo de aço é impossível quebrar o solo e pode ser que os irmãos de Worcester a queiram levar quando isso for possível. Até lá o abade prior vai tentar arranjar uma tumba na capela.

- Contai-me como foi que aconteceu - pediu Ermina, com uma ansiedade triste mas urgente. -É melhor saber tudo do que ficar a conjecturar.

Em palavras simples e directas ele contou-lhe como ela morrera. No fim, ela, saindo da longa imobilidade, perguntou:

- Levais-me até lá? Gostaria de a ver mais uma vez.

Sem uma palavra e sem hesitar ele ergueu-se e conduziu-a. Ela aceitou esta prontidão, agradecida. Cadfael sabia que a tinha conquistado. Ela não queria ser poupada ou protegida daquilo que constituía a sua expiação. Na capela, a irmã Hilária jazia numa urna nova, feita pelos irmãos ali mesmo na oficina, revestida a chumbo. Estava ali quase tanto frio como no esterior e o corpo não sofrera qualquer alteração, permanecendo belo e sereno. Ainda não estava tapada. Ermina ficou imóvel junto da mesa muito tempo, até que por fim ela própria cobriu a face delicada com a mortalha de linho branco.

- Eu amava-a muito - declarou - e destruí-a. Tudo isto é obra minha.

- Não é nada - contrariou Cadfael, com firmeza. - Não deves sentir-te mais culpada do que na verdade és. Aquilo que fizeste, isso podes lamentá-lo, confessá-lo e penitenciares-te para satisfação da tua alma, mas não deves arcar ambém com os pecados dos outros, ou usurpar o direito de Deus em ser juiz. Foi um homem que fez isto, violou e assassinou e ele, apenas ele, deve responder pelo seu gesto. Fosse ou não outra pessoa a tirá-la do seu caminho eram dele as mãos que a mataram e violentaram, dele e de mais ninguém. É a ele que devemos pedir contas.

Pela primeira vez ela foi-se abaixo e, quando tentou falar, não conseguiu controlar a voz vendo-se forçada a parar e esperar até conseguir exprimir-se com clareza.

- Mas se eu não teimasse naquele casamento pateta, se eu tivesse consentido em seguir com o irmão Elyas directamente até aqui a Bromfield, ela ainda estaria viva.

- Como o poderemos saber? Não poderiam igualmente ter caído em mãos inimigas? Criança, se os homens não tivessem feito tudo quanto fizeram nestes últimos cinco séculos, claro que as coisas teriam sido diferentes, mas será que seriam melhores? Não lucramos nada em pensar como seria se... Temos de viver com a realidade. Respondamos pelo mal que fazemos e deixemos o bem para Deus. - De súbito e sem conseguir evitá-lo, Ermina chorou, mas não queria que a vissem. Afastou-se dele e ajoelhou-se, vacilante, na frente do altar, onde ficou muito tempo. Cadfael não a seguiu, esperou pacientemente até que ela voltou para junto dele de livre vontade. E, embora tivesse o rosto desfeito pela dor, vinha calma. Parecia muito cansada, muito nova e vulnerável.

- Voltemos para junto da lareira - propôs Cadfael - Aqui apanhas muito frio.

Ela seguiu-o, docilmente, satisfeita por se sentir de novo segura. Deixou de tremer, recostou-se e semicerrou os olhos, mas assim que Cadfael fez menção de se afastar ela imediatamente os abriu.

- Irmão Cadfael, quando foram a Worcester saber de nós disseram alguma coisa sobre o regresso do meu tio D'Angers a Inglaterra?

- Disseram. Não só está em Inglaterra como se encontra em Gloucester com a imperatriz.

Era isso que ela queria saber, embora fosse cautelosa a fazer a pergunta.

- Aberta e francamente, pediu autorização para entrar no território do rei a fim de vos procurar, mas a autorização foi-lhe negada. O xerife prometeu efectuar a busca pessoalmente com os seus homens, mas não admitiu a entrada a um partidário da imperatriz.

- E se algum fosse aqui apanhado, procurando-nos, o que lhe aconteceria?

- Seria considerado prisioneiro de guerra. É dever do xerife privar os inimigos do rei dos serviços de um guerreiro que lhe venha cair nas mãos. Não há nada de extraordinário nisso. Um cavaleiro a menos ao serviço da Imperatriz é um cavaleiro que o rei ganha. - Cadfael estava atento à forma ansiosa e inquieta como ela escutava e sorriu. - É esse o dever do xerife. Não é o meu. Entre homens de honra e de vida cristã não conheço inimigos, seja de que lado for. A minha disciplina é diferente. Não tenho nada contra qualquer homem cuja missão se resuma a resgatar duas crianças a fim de as entregar ao tutor legal.

Instintivamente, ela franziu a testa ao ouvir a palavra crianças, para logo se rir com uma franqueza zangada, por aquela reacção espontânea que mais vinha comprovar a sua infantilidade.

- Então não trairíeis um homem assim, nem mesmo para o vosso melhor amigo?

Cadfael estava sentado na frente dela e instalou-se melhor, pois pelo que parecia ela tinha qualquer coisa em mente que queria desabafar.

- Já te disse que não tomo partidos e Hugh Beringar não espera que eu concorde com ele em tudo. Ele faz o seu trabalho, eu faço o meu. Mas devo avisar-te que ele já teve conhecimento da presença de um desconhecido aqui na região, que passou em Cleeton perguntando pelos três que fugiram de Worcester. Um camponês pela roupa, assim nos disseram, novo, alto e moreno, com olhos de falcão, cabelo escuro e pele morena.

Ela ouvia-o atentamente mordendo o lábio inferior e, a cada detalhe, a cor das faces ora se acentuava ora desaparecia.

- E sabe-se igualmente que debaixo do manto usava uma espada - concluiu Cadfael.

Ela mantinha-se muito quieta, tentando decidir-se. A cara que espreitava por cima do ombro, iluminada pela tocha do portão, mantinha-se ainda viva na memória de Cadfael e certamente mais ainda na dela. Por um momento pensou que ela recuaria, afastaria a imagem dele e manteria a anterior afirmação de que o guia tinha sido o filho do lenhador. Foi então que, inclinando-se, começou a falar com veemente ansiedade:

- Vou contar-vos! Vou contar-vos e nem sequer vos peço segredo, pois sei que não é preciso. Sei que não ides denunciá-lo. O que eu disse era verdade. Fui recolhida e abrigada pelo lenhador e pela mulher. Mas, no segundo dia que passei com eles, apareceu um homem novo perguntando pelo nosso grupo tal como era antes de eu acabar com ele. Vestida como eu estava quando aqui cheguei, ele reconheceu-me na mesma e eu também, pois nada poderia esconder a sua pobreza. Falou num francês fluente, embora o inglês fosse um pouco mais lento, e contou-me que o meu tio regressara encontrando-se em Gloucester com a imperatriz. Mandara-o procurar-nos em segredo e levar-nos de volta até ele. A sua missão é essa e mais nenhuma, mas aqui o perigo espreita-o a cada passo e ele sabe que pode cair nas mãos do xerife.

-Até agora tem-nos iludido-constatou Cadfael com brandura. - Pode muito bem continuar incógnito até ao fim e conseguir levar-vos até Gloucester.

- Mas não sem Yves. Não irei sem o meu irmão, ele sabe disso. Eu não queria vir para aqui, mas ele insistiu. "Pelo menos fico a saber que estás em segurança", disse ele. "Deixa o resto comigo." E eu fiz e farei o que ele quiser. Mas não suportaria que, devido à sua dedicação, ele caísse nas mãos do rei e ficasse a apodrecer na prisão.

- Nunca se deve prever o pior - animou Cadfael. - Devemos sempre esperar melhor e esperar discretamente sem nunca perder a esperança, deixando o resto a cargo de Deus. Mas... não deste nenhum nome a esse herói... mas lá rosto tinha ele e bem expressivo!

A juventude dela era bem patente. Conquanto que a dor fosse profundamente sentida, a esperança, a alegria e adoração pelo herói não o eram menos. Só de pensar nele todas as sombras da morte e da culpa se desvaneciam e quando falava no ídolo toda ela resplandecia.

- Chamam-lhe Olivier de Bretagne. Foi esse o nome que lhe deram na terra dele, devido a um parentesco. Ele nasceu na Síria e a mãe é de lá. O pai era um cavalheiro frâncico da Cruzada, oriundo de Inglaterra. Ele abraçou a fé do pai e dirigiu-se a Jerusalém para se juntar à causa do seu povo e aí ficou ao serviço do meu tio, há seis anos. É o seu escudeiro favorito. Agora regressou com ele e a quem mais poderia o meu tio confiar esta missão?

- Conhecendo tão mal a terra e tendo dificuldade em falar a língua - admirou-se Cadfael -, ele não teve medo em se aventurar nestas terras conturbadas, rodeado de inimigos do seu senhor?

- Ele não tem medo de nada. É a coragem em pessoa. Oh, irmão Cadfael, não sabeis como ele é bom. Se pudésseis vê-lo uma só vez ficaríeis imediatamente seu amigo.

Cadfael não confessou que o vira essa primeira vez por breves instantes, recordando-o como um sonho enevoado. Pensava com nostálgica ternura que alguma criatura solitária, usando a Cruz, encontrara algures naquela terra escaldante de sol, mar e areia, uma mulher a seu gosto que o amara, pois dera-lhe um filho assim. O oriente estava repleto de bastardos gloriosos e o facto de estes optarem pela religião do pai, baptizando-se na mesma religião, não era nada de admirar. Não era preciso procurar a explicação, no passado, daquele fruto exemplar.

- Tens a promessa que não chegaste a pedir - garantiu o irmão Cadfael. - Olivier comigo fica seguro. Não farei nada para o denunciar e se precisarem eu apoiá-los-ei.

 

Yves acordou de um sono involuntário, subitamente consciente de movimentos e sons embora estes lhe parecessem tão distantes e fracos que chegou a duvidar se não fariam parte do sonho. Debaixo do seu braço, o irmão Elyas dormia um sono exausto, demasiado profundo para ser perturbado por sonhos e, portanto, estava em paz. A respiração era calma e regular e Yves sentiu mais, do que concluiu, por aquele ritmo, que Elyas sobrevivera à noite que quase o matara, agarrando-se a uma vida atormentada com uma força tenaz e poderosa.

Contudo, Yves tinha a certeza de que ouvira alguma coisa, um som humano. Não podia ser o vento, pois esse parara de soprar. Sentou-se quieto, mantendo os ouvidos bem alerta, mas tudo estava em absoluto silêncio. Não há nada mais silencioso do que a neve profunda até o homem quebrar a magia. Ouviu-o de novo, curto e distante, mas bem real. Tratava-se de um vago murmúrio de vozes, simples e fragmentado, que no mesmo instante se desvaneceu. Alguns momentos depois, ali estava outra vez o som do metal, o equipamento de algum cavalo tangendo. Yves levantou-se com destreza e cuidado, para não acordar o companheiro, e abriu caminho até à porta. Estavam mergulhados na penumbra que anuncia já a madrugada, mas o manto de neve que se estendia à sua frente reflectia uma claridade sinistra. A noite ia muito avançada e já havia homens lá fora. Homens com cavalos! Yves fechou a porta do abrigo sem contudo a trancar e lutou contra a neve, apressado, não fosse aquela promessa de ajuda passar antes de ele conseguir interceptá-la.

Algures mais abaixo, na encosta, ainda fora de vista, alguém se ria e de novo se ouviu o tilintar de um estribo. Encontravam-se ainda escondidos pelo maciço de arbustos cobertos de neve e por um aglomerado de árvores arqueadas cujas copas lembravam cabeças de velhos, cansadas. Os viajantes, tal como esperava, vinham dos lados de Bromfield e Ludlow. Temendo que se pudessem afastar sem repararem no abrigo, Yves lançou-se pela encosta abaixo, tropeçando e saltando até que encontrou uma faixa que o vento descobrira parcialmente e aí desatou a correr. Atingindo os arbustos, cortou caminho pelo meio das árvores, avançando com as mãos estendidas, devido à escuridão que as árvores, tão juntas, protegiam. As vozes estavam cada vez mais próximas, falavam alto e desordenadamente e ainda que não se distinguissem as palavras, não deixavam de ser um som acolhedor. Alguém entoou uma melodia, outro alguém fez um comentário alto e ouviram-se mais gargalhadas. Yves sentiu-se um pouco desconcertado ao ouvir aquilo, quase mesmo indignado. Se aquele grupo andava a procurá-los não parecia muito preocupado com isso. Mas, ainda que se enganasse e não fossem os homens de Hugh Beringar, que importância tinha? Pelo menos eram homens e poderiam ajudá-lo. Ao alcançar a orla mais distante do arvoredo e com os olhos cada vez mais habituados ao lusco fusco, conseguiu vislumbrar, por entre as árvores, algumas sombras que se moviam. Correu para campo aberto, ficando frente a frente com a linha que eles formavam. Eram mais do que pensara, uns dez ou doze pelo menos, três cavalos e quatro burros de carga bem aviados, cuja respiração formava quatro pequenas nuvens de fumo no ar gelado. Mesmo na escuridão, conseguiu distinguir a forma das espadas, dos machados e dos arcos. Estes homens iam bem armados, mas não aparentavam a mesma disciplina ordenada dos homens de Hugh Beringar. Estavam demasiado mal vestidos, eufóricos e tresandavam a fumo. Embora distante, esalava-se deles um cheiro a queimado inconfundível e os burros estavam carregados com sacos de farinha, odres de vinho, potes e trouxas de roupa, e duas carcaças de ovelhas degoladas.

Sentiu o coração a parar. Precipitadamente, tentou recuar para se esconder, mas já fora visto e um dos homens a pé soltou um grito de desafio à caçada, enquanto corria para as árvores a fim de lhe cortar a retirada. Um outro, que escutara o grito, avançou também e agora eram dois de braços abertos e largos sorrisos que se interpunham entre o garoto e a liberdade. Um momento depois, estava rodeado por meia dúzia. Tentou escapar por entre eles, tomando a direcção oposta à do abrigo sabendo instintivamente que o que quer que lhe acontecesse não deveria trair a presença próxima do irmão Elyas. Preguiçosamente, um abraço agarrou-o pelo topo do carapuço apanhando-lhe um bocado de cabelo e arrastou-o, dolorosamente, até campo aberto.

- Bem, bem - rugiu o captor, fazendo-o virar-se pelo cabelo. - Que faz um passaroco tão pequeno por aqui a esta hora?

Yves ainda lutou, mas depressa concluiu que nada lucraria. A dignidade proibia-o de suplicar ou de se queixar. Ficou, pois, imóvel sob a mão enorme que o segurava e respondeu com convicção:

- Largai-me! Assim magoais-me. Eu não fiz nada de mal.

- Os passarocos que andam por aí de noite acabam por se magoar - comentou um, torcendo-lhe o cabelo com as mãos magras e sujas. - Sobretudo se andam por aí a picar.

Os homens a cavalo que chefiavam a coluna tinham parado e olhavam para trás. Uma voz alta e peremptória exigiu:

- Que animal apanharam vocês aí? Tragam-mo! Quero vê-lo! Não quero espiões a espalhar mentiras aí pelas cidades.

Prontamente, Yves foi agarrado e arrastado até onde o mais alto dos três cavalos estava parado. Este, quase todo branco, via-se claramente, mas o homem que o montava não passava de uma sombra imensa recortada contra o céu. Ao inclinar-se um pouco na sela para melhor observar o prisioneiro, um lampejo de luz tremulante inundou os anéis da cota de malha, reflectindo um clarão vacilante. Talvez o homem não fosse muito alto, mas a largura do peito e dos ombros e a juba felina de cabelo espesso, que lhe cobria a cabeça e lhe chegava até ao peito misturando-se com uma barba emaranhada, tornava-o imponente. Montava o cavalo como se os dois não passassem de um só corpo poderoso. O facto de a cara não passar de uma sombra tornava-o ainda mais assustador e Yves não conseguiu chegar a nenhuma conclusão sobre as suas intenções.

- Levantem-no mais - ordenou com impaciência. - Aqui nos meus joelhos. Quero vê-lo bem.

Yves sentiu o cabelo e a cabeça a serem puxados para trás, de maneira a expor-lhe a cara. Endireitou as costas e, mordendo os lábios, olhou-o em silêncio.

- Quem és tu, garoto? Como te chamas? - Aquela voz não pertencia a nenhum camponês, era sim uma voz habituada a mandar e a ser obedecida.

- Chamam-me Jeham - mentiu Yves, fazendo o possível por disfarçar a sua linguagem cuidada. - Que fazes aqui a esta hora? Estás sozinho?

- Sim, meu senhor. O meu pai guarda as ovelhas, acolá em cima - respondeu, apontando sem hesitação na direcção oposta à da cabana onde Elyas, pelo menos assim o esperava, continuava adormecido. - Ontem, algumas delas perderam-se e saímos hoje cedo para as procurar. O meu pai foi por além e mandou-me por aqui. Não sou nenhum espião. Que haveria eu de espiar? Só estamos preocupados com as ovelhas.

- Com que então um pastor, eh?... um pastor muito bonito, não há dúvidas - pronunciou secamente a voz vinda do alto. - E vestido com roupas que, em novas, foram muito caras. Agora, respira fundo e tenta outra vez. Quem és tu?

- Senhor, eu disse a verdade. Sou apenas Jeham, filho do pastor de Whitbache... - fora aquele o único nome que lhe ocorreu, pois lembrava-se que aquela propriedade ficava para oeste, perto do Corve. Não fazia a menor ideia por que razão a resposta provocara uma série de gargalhadas do grupo, que seguia atentamente a conversa, e sentiu o sangue gelar-se nas veias ao ouvir a breve e irada explosão hilariante, vinda do homem acima. O medo que sentiu enfureceu-o. Levantou o queixo e olhou a cara escondida na sombra. - Não tendes o direito de me interrogar quando eu não fiz nada de mal. Dizei aos vossos homens para me soltarem.

Em vez disso, interessado mas sem se comover, o outro ordenou rispidamente:

- Dêem-me esse brinquedo que ele traz à cintura. Vejamos qual é a moda deste ano para os pastores se defenderem dos lobos.

O manto de Yves foi afastado com rudeza e o cinto ficou exposto, exibindo o punhal brilhante. Logo umas mãos se apressaram a tirar-lho e a entregá-lo.

- De forma que agora usam prata! -comentou o homem com ironia. - E com pedras preciosas engastadas. Muito bonito! - Levantou os olhos observando os primeiros raios de luz que apareciam no céu, a nascente. -Já não temos tempo para lhe soltar a língua aqui e começo a ficar com os pés gelados. Tragam-no! Vivo! Se quiserem divirtam-se um pouco, mas não se atrevam a magoá-lo. Pode ser-nos muito valioso.

E, virando-se, esporeou o cavalo, logo seguido pelos dois companheiros que seguiam igualmente montados. Yves ficou entregue aos subalternos. Não teve a mínima hipótese de escapar. A importância que atribuíam, ou a ele, ou às ordens do senhor, era tanta que, para onde quer que se voltasse, tinha pelo menos três homens a barrar-lhe o caminho. Tiraram-lhe o cinto e ataram-lho à volta dos ombros, de forma a manietar-lhe os movimentos dos braços e, embora à cintura lhe ficasse folgado, naquele sítio tornava-se dolorosamente apertado. Arranjaram um pedaço de corda e ataram-lhe os pulsos na frente, palma com palma. Com outro pedaço, um pouco mais comprido, fizeram um nó corredio à volta do pescoço e ataram a outra extremidade à sela do burro mais recuado. Se ele parasse, o nó apertar-se-ía. Andando depressa conseguia erguer as mãos, o suficiente, para poder pegar na corda e dar-lhe uma folga, que lhe permitia respirar, mas não conseguia chegar ao nó, de forma a mantê-lo laço. Estava certo de que se caísse eles parariam para o apanhar. Tinham ordens para o entregar inteiro e sem grandes ferimentos, ao amo, quando chegassem ao destino, fosse ele qual fosse. Mas, ainda que impossibilitados de o matar, estavam dispostos a aproveitar a autorização para se divertirem como quisessem.

Tentou meter uma prega do manto entre o nó quando lho enfiaram na cabeça mas alguém, soltando uma sonora gargalhada, puxou-lhe uma orelha e removeu o obstáculo. Foi nesse momento que Yves se lembrou de que, debaixo da gola daquele mesmo manto, se escondia o broche em forma de argola que servia para o apertar. Tratava-se de uma jóia saxónica muito antiga, com um magnífico alfinete, a única arma de que dispunha e que eles não tinham descoberto.

- Agora, passaroco, podes voar! - troçou o seu captor inicial, no meio da risota geral. -Mas, lembra-te de que tens as asas cortadas. Para ti já não há céu. - E, dizendo isto, afastou-se pondo a coluna de novo em movimento, apressando-se a seguir o seu senhor.

Entre o sono, o medo e a ira, Yves permaneceu trémulo e confuso por um momento tão longo que o primeiro puxão o apanhou de surpresa. Soltando um arquejo, viu-se obrigado a correr e a agarrar-se à corda para recuperar terreno e foi aplaudido por um coro de gargalhadas.

Não tardou a descobrir que o divertimento deles dependia de si, já que a coluna avançava tão devagar que não teria dificuldade nenhuma em acompanhá-la. A carga era pesada e volumosa, e Yves, uma vez completamente desperto, seguia com leveza, até mesmo com agilidade. Nos primeiros minutos deu-lhes motivo de troça, ao cair para trás, correndo em seguida para manter o pescoço a salvo. Estas repetidas aproximações deram-lhe oportunidade de se familiarizar com o animal a que ia amarrado e com a carga que este transportava, constituída por dois enormes sacos de trigo, que balançavam em equilíbrio, e dois igualmente grandes odres de vinho. Em cima de tudo isto seguia um monte de roupa empilhada e alguns potes pendurados. Quando se aproximava, quase conseguia encostar o rosto na pele do odre amarrado daquele lado. O líquido lá dentro baloiçava de um lado para o outro. Como seguia no fim daquela procissão, sempre que se aproximava a carga escondia-o de todos quantos seguiam na frente. Quanto ao caminho, era evidente que o conheciam suficientemente bem para não se preocuparem com a neve, embora esta os obrigasse a uma marcha mais lenta. Depressa se esqueceram de olhar para trás.

Encoberto pela carga, Yves ergueu as mãos atadas o máximo possível, procurando o broche debaixo da gola. Ali ninguém o podia ver, pois mantinha-se colado à traseira do paciente animal. Os dedos febris tactearam o metal, procurando o alfinete para o abrir. Os braços, cruelmente atados, ardiam-lhe com o esforço, e as pontas dos dedos começavam a ficar insensíveis. Tenazmente, começou a desapertar o broche, segurando-o entre as mãos, aterrorizado com a possibilidade de, devido à tensão, o deixar cair quando este se libertasse das dobras do manto. Se conseguisse retirá-lo e segurá-lo com os braços para baixo, enquanto reactivava o sangue, sabia que conseguiria usá-lo.

A ponta do alfinete soltou-se e o broche redondo quase caiu. Desesperado, fechou ambas as mãos sobre ele e sentiu a ponta picar-lhe o dedo. Suportou a dor com satisfação, baixou as mãos ainda unidas e deixou que o sangue corresse através dos braços doridos até às mãos. Do sítio onde o alfinete picara brotou um fio finíssimo de sangue, que deslizou, quase sem se notar, pelo dedo. Tinha recuperado a sensibilidade das mãos. E, agora, estava na posse daquela coisa preciosa, aguçada como um punhal. Levou alguns minutos até se atrever a utilizá-lo, acariciando-o por entre as palmas fechadas, flexionando as pontas dos dedos contra ele, até as sentir ágeis e flexíveis.

O conteúdo do odre cheio chafurdava ao lado do rosto e o lus-co-fusco protegia-o. A pele, ainda que nalguns pontos se encontrasse gasta e rapada devido ao uso, era dura, mas o alfinete era forte e tinha o comprimento do dedo mínimo. Levou alguns momentos a conseguir enfiá-lo numa ponta fixa do saco oscilante, pois as pregas cediam afastando-se dele vexatoriamente. Por fim, encostou-lhe o ombro com toda a força para o manter fixo e o alfinete penetrou-o.

Quando retirou o alfinete, apareceu uma reconfortante mancha vermelha e Yves baixou os olhos esperançado, quase fascinado ao ver a mancha cor de sangue sujar a alvura do solo. Após a primeira golfada o buraco tornou a fechar, mas o peso do vinho fazia libertar um fio finísssimo que ia caindo pelo caminho. Yves concluiu que seria suficiente. Não havia o perigo de desaparecer na neve, pois o gelo era de tal forma intenso, que imediatamente cobria as manchas mantendo-as intactas. E, daquela forma, escoando tão pouco de cada vez, duraria para muito tempo. Desejou que durasse o tempo suficiente. De tempos a tempos, prevendo a hipótese de o pequeno fio se tornar impossível de ser seguido, comprimia a pele, forçando um jacto momentâneo que se transformava numa pequena poça de vinho, confirmando ser aquele o caminho a seguir.

A madrugada, cinzenta e silenciosa, transformara-se numa névoa branca que encurtava as distâncias e estava agora bem acima deles. Uma madrugada fria, perturbada apenas por alguns pássaros esfomeados que esvoaçavam desesperados. Tinham programado o regresso ao covil em segurança, antes da luz da manhã. Se agora estavam próximos, Yves esperava que a perda do vinho fosse considerada acidental. Há muito tempo que tinham começado a subir. Os planaltos inóspitos, gelados e áridos de Titterstone Clee rodeavam-nos. Mesmo através daquele nevoeiro cerrado, os homens conheciam o caminho e Yves percebeu que estavam perto, pois os bandidos apressavam as mulas de carga, ansiosos pelo abrigo, por comida e por descanso.

Yves pensou então no broche precioso e no que lhe havia de fazer, conseguindo-o esconder na bainha da camisa. Isso permitiu-lhe levar as mãos à corda, que começava a apertar-se desconfortavelmente à volta do pescoço, agora que já se sentia cansado e se deixara atrasar. Não podia estar longe. Os homens pressentiam a proximidade do covil.

Através do deserto enevoado e árido não se distinguia qualquer construção. Continuavam a subir e, de súbito, avançavam agora por entre um aglomerado de árvores baixas e, mais à frente, eram visíveis os contornos das rochas. Foram sair a um campo aberto e, ali na frente, erguia-se uma paliçada alta, com um portão estreito e, a um nível mais elevado, dominava uma torre escura, larga e atarracada. Havia homens de vigia e o portão abriu-se mal eles se aproximaram.

Lá dentro as construções eram baixas e toscas, colocadas em redor da paliçada e viam-se homens movendo-se de um lado para o outro. Por baixo da torre estendia-se um longo salão. Yves ouviu o gado a mugir e ovelhas que baliam queixosamente. Era tudo feito de madeira, tudo novo, tosco e cru, mas formidavelmente sólido. Não admirava o à-vontade com que se deslocavam durante a noite, insolentemente conscientes do seu número e da força daquela fortaleza secreta.

Antes de entrarem o portão, Yves teve o bom senso de recuar o máximo que a corda lhe permitia, distanciando-se do odre furado e avançou aos solavancos fingindo exaustão e terror. Desde que avistara a paliçada que abandonara o odre, de maneira que quando pararam junto da parede exterior coberta de neve, daquele só saía uma pinga ocasional. Um odre furado não era nada do outro mundo e pelo menos o outro estava cheio. Yves teve sorte, pois o seu primeiro captor apressou-se a desatá-lo e, pegando-lhe pela gola do casaco, afastou-o antes que tivessem notado as gotas vermelhas e lamentassem o vinho perdido pelo caminho.

Yves foi arrastado, aos tropeções, pelos degraus do salão e, aí, mergulhou numa atmosfera abafada pelo calor, pelo fumo e pelo barulho estonteante. Havia tochas nas paredes, bem afastado no meio do aposento um fogo vivo ardia, numa lareira de pedra. As vozes em coro de pelo menos vinte homens sobressaía naquela confusão, ouvindo-se altas, felizes e seguras. Havia pouca mobília, alguns bancos talhados, grandes mesas armadas em troncos mal cortados. Os homens apinhavam-se e muitos se voltaram para olhar e sorrir, à passagem do pequeno prisioneiro.

A outra extremidade do salão estava adornada por um dossel baixo e as velas encontravam-se em candelabros de pé alto. A parede estava revestida com tapeçarias e, à volta da mesa cheia de comida e de grosseiras ânforas de cerveja, três homens estavam sentados em cadeiras trabalhadas. Yves sentiu-se empurrado, sem cerimónia, por uma mão que lhe agarrara a roupa atrás do pescoço e quase foi levado em peso até junto do dossel. Aí foi atirado ao chão, ficando de joelhos aos pés do homem que ocupava a cabeceira. A queda quase o fez bater com a cara no chão, não fosse tê-lo evitado com as mãos, que continuavam amarradas. Quase ficou sem respirar.

- Senhor, aqui está o pastor tal como ordenaste: são e salvo. Estamos a descarregar a mercadoria e está tudo bem. Não se vê vivalma lá fora.

Yves reuniu todas as forças e pôs-se de pé. Levou algum tempo a recuperar o ritmo normal da respiração e a acalmar o tremer das pernas, antes de olhar para a cara do chefe daquelas aves nocturnas.

Em cima do cavalo e iluminado pela escassa luz da alvorada, o homem parecera-lhe imenso. Agora, sentado naquela cadeira, aparentava ser de estatura mediana, mas de compleição forte, ombros largos e peito chato. De uma forma selvagem até era atraente. Com a luz de cinco velas a baterem-lhe em cheio, mais do que nunca parecia um leão, com aquela espessa juba de cabelo encaracolado e a enorme e rebelde barba aloirada. Os olhos, longos mas estreitos, eram argutos e lembravam os olhos de um gato sonolento. Os lábios, que apareciam entre a imensa profusão de cabelo doirado, eram cheios, torcidos e orgulhosos.

Em silêncio, olhou Yves da cabeça aos pés e este corajosamente retribuiu-lhe o olhar, mantendo a boca fechada mais por prudência do que por medo. Afinal podia ser pior. Pelo menos, tinham acabado de regressar de uma viagem bem sucedida, carregados com os produtos do saque, comiam e bebiam cheios de confiança em si próprios. E o leão parecia estar de bom humor! E, ainda que o sorriso fosse trocista, pelo menos era um sorriso.

- Desatem-no - ordenou.

O cinto que rodeava os braços de Yves foi desapertado e a corda que lhe apertava os pulsos cortada. O sangue voltou a correr-lhe pelos braços doridos e, fixando os olhos atentos no rosto do leão, aguardou. Muitos dos homens ali presentes tinham-se aproximado e, mantendo-se na retaguarda, observavam tudo com um sorriso.

- Perdeste a tua língua pelo caminho? - perguntou o homem de barbas, amigavelmente.

- Não, meu senhor. Sei falar quando tenho alguma coisa para dizer.

- Pois o melhor será que penses rapidamente em algo para dizer, sem ser a mentira que me querias fazer engolir na floresta.

Yves não via que o descaramento o pudesse prejudicar mais do que a timidez. Respondeu com brusquidão:

- Tenho fome, meu senhor. Não há nada mais verdadeiro do que isto. E como cavalheiros que somos, parto do princípio que não negareis alimento aos vossos hóspedes.

O leão atirou a cabeça ruiva para trás e soltou uma ruidosa gargalhada que ecoou por toda a sala.

- Tomo isso como uma confissão. Com que então cavalheiros? Conta-me mais e pode ser que comas. Acabou-se a história da ovelha perdida. Quem és tu?

Ele estava determinado a sabê-lo. E, apesar da presente boa disposição, se não o satisfizesse, não hesitaria em lançar mão de outros meios para obter o que queria. Yves demorou de mais pensando na resposta e foi presenteado com uma amostra daquilo que lhe poderia vir a acontecer. Um braço comprido agarrou-o pelo ombro e, num gesto casual, fê-lo cair de joelhos. A outra mão agarrou-lhe um punhado de cabelo, forçou-lhe a cabeça para trás de forma a esta ficar virada para o rosto que continuava calmamente a sorrir.

- Quando eu pergunto, os homens sensatos respondem-me. Quem és tu?

- Deixai-me levantar e eu respondo-vos-pediu Yves, entre dentes.

-Fala, fedelho, e talvez eu te deixe levantar. Até podes ser um garnizé nobre e espevitado, mas muitos galos desses ficaram sem o pescoço por cantarem alto de mais.

Yves afastou-se um pouco para aliviar a dor, inspirou fundo para estabilizar a voz e disse o nome. Aquela não era altura para estar com heroísmos estúpidos, nem para teimosias obstinadas em nome da sua dignidade.

- O meu nome é Yves Hugonin. A minha família pertence à nobreza.

As mãos soltaram-no. O homem de barbas reclinou-se na cadeira, descontraindo-se. O rosto não se alterara, nem mostrara qualquer surpresa; o inesperado nunca interferia nos seus métodos, que eram inteiramente calculados. Os predadores nunca sentem animosidade em relação às presas, mas tão-pouco sentem piedade.

- Um Hugonin, eh? E que fazias, tu Yves Hugonin, no lugar onde te encontrámos, só, de madrugada, com um tempo tão rigoroso?

- Tentava encontrar a estrada para Ludlow - respondeu Yves, erguendo-se e afastando o cabelo despenteado do rosto. Não poderia dizer uma única palavra acerca dos outros, de forma que rodeou delicadamente a questão, mantendo-se entre a verdade e a mentira.

- Eu andava na escola dos monges de Worcester. Quando a cidade foi atacada mandaram-me embora para escapar à luta que ali se travou. Estava com outras pessoas e procurávamos chegar a uma cidade segura, mas com a tempestade perdemo-nos e separámo-nos. Fui alimentado e abrigado por camponeses e agora tentava chegar a Ludlow.

Esperava ter sido bastante convincente. Não sentia grande vontade de inventar pormenores. Ainda se lembrava do coro de gargalhadas que provocara ao mencionar o nome de Whibache e afirmara morar lá, e, pouco tranquilo perguntava-se qual seria a razão.

- Então onde passaste a noite anterior? Não foi ao ar livre!

-Numa cabana da floresta. Pensei que chegava a Ludlow antes de anoitecer, mas a neve começou a cair e eu perdi-me. Quando o vento acalmou e parou de nevar - continuou ele, tentando adiar as perguntas seguintes -, tornei a sair. E foi então que vos ouvi e pensei que me poderiam ajudar.

O homem das barbas ponderou sobre o que ouvira, olhando-o com o mesmo sorriso contente vazio de calor.

- E aqui estás, com um tecto sólido em cima da cabeça, uma boa lareira atrás de ti e comida e bebida que terás se te portares bem. Claro que haverá um preço a pagar pela cama e pelo alojamento. Hugonin! E Worcester... És filho de Geofrey Hugonin, morto há já alguns anos? Se bem me lembro a maior parte das suas terras ficavam nesse condado.

- Sou o filho e o seu herdeiro se viver para tal.

-Ah, então não haverá dificuldade em pagar pelo teubem-estar. - Os olhos estreitos brilhavam de satisfação. - Quem é o tutor da tua herança? E por que razão te deixou ele, em pleno Inverno, sem nenhum recurso e completamente sozinho?

- Ele acabou de chegar a Inglaterra, vindo da Terra Santa e não sabia de nada. Se quiser poderá agora contactá-lo em Glou-cester, pois ele pertence ao partido da imperatriz.

A isto, o leão encolheu os ombros com indiferença. Numa guerra civil ele não pertencia a nenhum partido, nem sequer se interessava pelo partido tomado pelos outros. Ele criara o seu próprio partido e não reconhecia mais nenhum. Na verdade, a extorquir um resgate, fá-lo-ia com a mesma boa disposição quer a um quer a outro.

- Ele chama-se Laurence D'Angers - continuou Yves. - É irmão da minha mãe.

Aquele nome era conhecido e foi acolhido com satisfação.

- Ele pagará generosamente para me resgatar - concluiu o garoto.

- Tens a certeza? - riu-se o homem. - Nem sempre os tios ficam assim tão ansiosos para resgatarem os sobrinhos que um dia se tornarão grandes proprietários. Conheço muitos que prefeririam deixá-los no cativeiro e, depois de os terem afastado deste mundo sem qualquer despesa, eles próprios acabariam por herdar.

- Ele nunca herdaria o que é meu - contrariou Yves. - Eu tenho uma irmã e essa não se encontra numa situação tão desesperada.

Ocorreu-lhe então, com desânimo renovado, que ignorava onde ela se encontrava naquele momento e talvez enfrentasse uma situação semelhante, mas conseguiu manter a voz firme e esconder os receios que sentia.

- E o meu tio é um homem de honra - acrescentou secamente. - Não hesitaria em pagar o resgate. Logo que me tenha de volta, vivo e inteiro - sublinhou enfático.

- Inteiro até à ponta dos cabelos - troçou o leão, rindo. - Se pagar o preço certo.

Apontou para o homem que se mantivera atrás de Yves.

- Ele vai ficar à tua guarda. Dá-lhe de comer, deixa-o aquecer-se à lareira, mas se o deixares escapar pagá-lo-ás com a vida. Quando ele acabar de comer fecha-o bem na torre. Ele vale muito mais do que todo a mercadoria que trouxemos de Whitba-che.

O irmão Elyas despertou de um pacífico sono sem sonhos para o agonizante pesadelo da realidade. Era dia, os raios finos da manhã entravam pelas frestas da cabana, frios e brancos. Estava sozinho. Mas alguém estivera ali com ele, disso lembrava-se! Havia um garoto, garoto esse que o acompanhara com decisão e se deitara no feno a seu lado, aquecendo-o. Agora não havia ali ninguém. O irmão Elyas sentiu a falta dele. No meio da neve tinham-se agarrado um ao outro, com uma ternura mútua, reconfortando-se não só do frio e da crueldade do vento. Por muito que custasse, tinha de encontrar o garoto e certificar-se que nada de mal lhe acontecera. As crianças tinham todo o direito à vida, direito esse que muitas vezes os adultos esqueciam por estupidez, por comodismo ou por pecado. Ele estava condenado, mas o garoto não devia ser obrigado a enfrentar nem o perigo nem a morte.

Elyas levantou-se e dirigiu-se para a porta aberta. Debaixo do beiral, onde o vento limpara a neve deixando apenas uma camada muito fina, as pequenas pegadas eram claramente visíveis ainda que se encontrassem cobertas com uma fina poeira branca. Viravam à direita, pela encosta abaixo e aí, na neve mais funda, um pequeno mas vigoroso corpo abrira um sulco à volta dos arbustos, até às árvores frondosas.

Elyas seguiu o mesmo caminho. Para lá do aglomerado de árvores havia um caminho batido, que subia suavemente para este. Tinham passado por ali cavalos e homens a pé, em número suficiente para limparem a estrada. Vinham de oeste. Teriam o rapaz? Não havia qualquer sinal de presença de uma criança, mas a verdade é que ele correra pela encosta abaixo para se lhes reunir.

Mergulhado num sonho, onde nem a dor, nem o frio penetravam, subsistindo apenas a recordação do rapaz, o irmão Elyas virou para este e seguiu a mesma direcção do grupo que ali passara. Apesar da neve, o caminho que tinham aberto era fácil de seguir e, embora sinuoso, tornava a subida mais fácil e possível. Tratava-se certamente de um atalho antigo, que rodeava a colina numa curva alongada. Elyas dera algumas centenas de passos quando viu na sua frente a primeira mancha encarnada, sobressaindo no branco.

Alguém sangrara. Era pouco, mas uma série de pingas cor de rubi tinham caído mais à frente e de novo viu uma mancha maior a seus pés. O sol começava agora a descobrir, ainda fraco devido ao nevoeiro que se adensara com o nascer do dia. O vermelho brilhava na superfície gelada que cobria a neve. Nem mesmo o débil sol do meio-dia conseguiria apagar aquela mancha, embora fosse possível que o vento a cobrisse de neve. O irmão Elyas continuou, seguindo pinga a pinga o caminho de alguém que sangrava. O sangue poderia exigir sangue! Se alguém levara o rapaz e o magoara, um homem já marcado pelo desespero e pela morte teria agora uma boa causa para se redimir, sacrificando-se.

Insensível ao frio, à dor e ao medo, avançando na neve gelada com umas sandálias nos pés, o irmão Elyas continuou no rasto de Yves.

 

O irmão Cadfael saiu da Missa Solene acompanhado pelo prior Leonard, enfrentando a breve e tímida luz do sol matinal e a claridade inesperada que se reflectia na brancura da neve. Alguns rendeiros da abadia tinham acorrido para ajudarem na busca aos dois desaparecidos, aproveitando a luz do dia e a trégua do nevão. O prior Leonard apontou para um deles, para um homem grande, rudemente vigoroso, de cabelo ruivo já raiado de branco, em cujo rosto, fortemente marcado pelo tempo, se viam uns olhos azuis com a expressão distante do montanhês.

- Aquele é o Reyner Dutton, o homem que nos trouxe o irmão Elyas. Envergonho-me só de pensar no que ele poderá sentir por ver que acabámos por o deixar fugir.

- Não te pode culpar de forma alguma - retorquiu Cadfael, sombrio - A culpa foi minha - confessou, observando pensativo a figura de Reyner. - Sabes, Leonard, tenho estado a pensar no que aconteceu. Claro que todos nós não pensamos noutra coisa. Parece-me que Elyas, uma vez cá fora, avançou com grande determinação. Não se tratou simplesmente de resolver ir dar uma volta por aí. Um quarto de hora depois eles já estavam bem longe. E o rapaz não conseguiu dissuadi-lo nem detê-lo, embora se resolvesse a acompanhá-lo. Elyas tinha um fim em vista. Podia não ser sensato nem razoável, mas era algo muito importante para ele. Será que de repente, ele se recordou do ataque que quase o matou e resolveu regressar ao local onde isso aconteceu? Foi lá que perdeu a memória e que quase lhe tiraram a própria vida. Com a confusão que vai naquela cabeça é provável que se tenha sentido impelido a lá voltar.

O prior Leonard concordou, embora sem grande convicção.

- Pode ser que sim. Também é provável que, não se lembrando de ter cumprido a missão que o trouxe de Pershore, resolvesse lá voltar para cumprir o seu dever. De um homem com o espírito tão perturbado tudo é possível.

- Ocorreu-me agora que nunca cheguei a ver o sítio onde Elyas foi atacado, embora não diste muito do local onde a irmã foi morta - afirmou Cadfael com veemência. -E isso continua a intrigar-me - concluiu.

No entanto, resolveu omitir por que razão se sentia intrigado, pois Leonard vivia no convento desde a adolescência, serenamente feliz e abençoadamente ditoso, e não havia necessidade de o perturbar sublinhando que Hilária fora morta numa noite de temporal tão violento como o da véspera e que a luxúria exige um abrigo mais confortável. E um abrigo era algo que não existia nas proximidades do seu sepulcro de gelo. Uma cama de neve e gelo, tendo como agasalho apenas o vento, não constitui os requisitos ideais para uma violação.

- Tinha pensado seguir com os outros - explicou Cadfael -, logo que comesse alguma coisa. Mas, e se pedisses a Reyner para me levar até ao sítio onde ele encontrou o irmão Elyas? É um ponto de partida tão bom como outro qualquer.

- Lá isso é verdade - concordou o prior. - Desde que tenhas a certeza que a rapariga fica aqui sossegada e que não vai tentar agir sozinha...

- Ela obedecerá - garantiu Cadfael, confiante. - E não lhe dará qualquer problema.

Tinha a certeza que ela o faria, embora não por ele lho pedir. Ela esperava obedientemente, porque um Olivier, um modelo de virtudes, assim lhe ordenara.

- Vamos perguntar ao teu homem se me quer servir de guia.

O prior afastou o rendeiro do grupo que se dirigia para o portão e apresentou-o a Cadfael. Era evidente que Reyner mantinha uma relação calorosa com o seu senhor e estava pronto a fazer tudo o que Leonard lhe pedisse, com alegria.

- Irmão, levo-vos lá com todo o gosto. Pobre homem, desaparecer assim, quando esteve quase à morte. E agora que estava a recuperar tão bem! Deve ter sido um momento de loucura que o levou a sair numa noite assim.

- Não será melhor levarem duas das nossas mulas? - sugeriu o prior. - O lugar pode não ser longe, mas quem sabe até onde terão de ir caso consigam alguma pista? E o teu cavalo tem sido muito forçado desde que chegaste, Cadfael. Os nossos animais estão frescos e cheios de força.

Não era oferta para se recusar. A pé ou a cavalo a viagem seria lenta, mas sempre era melhor fazê-la numa montada. Cadfael apressou-se a engolir uma refeição rápida e regressou de imediato para ajudar Reyner a selar as mulas. Partiram em direcção a leste seguindo a estrada, àquela hora já toda calcada. A melhor parte do dia duraria cerca de quatro horas mais, após o que se deveriam preparar para outro nevão e para o gradual esmorecimento da luz. Deixaram Ludlow para trás, do lado direito, e continuaram pela estrada batida. O céu mantinha-se pesado e cinzento, embora o sol pálido ainda brilhasse.

- Certamente não foi na estrada principal que o encontraste? - perguntou Cadfael, ao ver que Reyner não fazia tenção de abandonar aquele caminho.

- Muito perto dela, irmão, um pouco mais a norte. Nós tínhamos descido a encosta depois do bosque de Lacy e quase passámos por cima dele, ali deitado nu, no meio da neve. Já vos mostro - respondeu Reyner energicamente. - Ficarei muito desiludido se o perdermos agora, depois desta fuga, ele que esteve tão perto da morte quando o encontrámos, que qualquer outro homem dificilmente teria sobrevivido. Salvar um bom homem de morte certa e castigar os diabos que fizeram o possível para acabar com ele, isso sim, far-me-ía muito feliz. Bem, queira Deus que consigamos salvá-lo do pior, pela segunda vez. Ouvi dizer que há um rapaz com ele - continuou Reyner, voltando para Cadfael os olhos azuis penetrantes. - Um garoto que já andou perdido e que agora tem de ser procurado de novo. Eu digo que foi simpático, um rapaz tão novo agarrar-se assim a ele quando viu que não conseguia detê-lo. Todo o homem que se preze, agricultor ou pastor desta região, procurará os dois sem descanso. Estamos perto, irmão. Aqui deixamos a estrada e cortamos à esquerda.

Não avançaram muito mais. A alguns minutos da estrada principal depararam com um barranco baixo, rodeado de arbustos, a norte do lado superior, protegido por duas árvores baixas.

- Era ali que ele estava - declarou Reyner.

Valera a pena vir até ali, pois conseguira ver alguma luz. Sim, condizia com o resto dos acontecimentos daquela noite. Os bandidos, regressando do assalto, atravessaram a estrada a sul e, aparentemente, tinham cortado algures por ali, dirigindo-se a algum atalho conhecido, pelo qual poderiam regressar à vasta imensidão de Titterstone Clee. Fora ali que, deparando com o irmão Elyas, o tinham espancado até à morte, mais por prazer do que por receio do hábito que este envergava, embora não tivessem desprezado os escassos haveres do suposto cadáver. Fora assim que tudo se passara. Mas, onde estaria então a irmã Hilária?

Cadfael olhou para norte e avistou a encosta suave que atravessara com Yves. O ribeiro onde jazera a irmã Hilária ficava por ali, bem afastado da estrada, segundo os cálculos de Cadfael, pelo menos a uma milha para nordeste.

-Vem comigo por aqui, Reyner. Há um sítio que eu quero tornar a examinar.

As mulas subiram sem dificuldade, pois o vento limpara muita da neve caída durante a noite. Cadfael foi-se guiando pelo instinto e não tardou a encontrar o que procurava. Um estreito e pequeno riacho estalou sob o peso dos cascos que sulcavam a neve macia ali protegida pelos arbustos e árvores mais baixas. Já tinham perdido a estrada de vista, e agora, à medida que subiam, só a neve os rodeava. Alcançaram o afluente do rio Ledwyche um pouco mais abaixo do sítio onde a irmã Hilária fora sepultada e daí seguiram o leito da corrente, agora totalmente imobilizada, até que depararam com o inconfundível buraco que ali ficara, ao retirarem o caixão de gelo. Nem o nevão da noite conseguira tapar a macabra operação, ainda que tivesse atenuado um pouco as arestas mais vivas. Fora ali que os assassinos a deixaram.

"Não pode ter sido aqui", pensou Cadfael, olhando a colina em volta, íngreme, gelada, quase tão árida como o inóspito cume de Clee. "Não foi aqui que tudo aconteceu. Ela foi trazida para aqui depois." Mas porquê? Aqueles bandidos costumavam deixar as vítimas no mesmo sítio onde caíam. Nunca se preocupavam em escondê-las. E, se fora trazida para ali, de onde viera? Ninguém se atreveria a transportar um cadáver por muito tempo. Algures ali perto tinha de haver um abrigo qualquer.

- Aqui, o único gado que deve haver são ovelhas - comentou, examinando as colinas que se erguiam na frente.

- É verdade, mas agora devem estar todas guardadas. Há dez anos que não tínhamos um Inverno como este.

- Então devem haver por aqui alguns abrigos para os pastores dormirem. Não sabes onde ficará o mais próximo?

- Fica um bocado afastado, perto do atalho que vai daqui a Bromfield. Talvez a meia milha.

Se assim era devia então ficar ao longo daquele mesmo atalho que Cadfael tomara, quando trouxera Yves da casa de Thurstan na floresta e se dirigira a Bromfield. Não se lembrava de ter visto algum, mas a verdade é que a noite começava já a cair.

- Vamos por aí - decidiu, virando a mula na direcção do atalho.

Andaram uma boa meia milha até que Reyner apontou para a esquerda, chamando-lhe a atenção para uma cabana atarracada, debaixo do caminho. O telhado estava praticamente camuflado pela camada de neve que o cobria e apenas uma sombra mais escura, debaixo do beiral, denunciava a sua existência a quem passasse ali em cima.

Desceram a encosta pouco íngreme, rodeando-a pelo sul, onde se encontrava a porta e encontraram-na escancarada. Observando a neve da soleira e tendo em conta a que caíra na noite anterior puderam concluir que a porta fora aberta algumas horas antes, ainda mais que no interior do abrigo não havia neve a não ser a finíssima poeira branca que conseguira penetrar pelas frestas.

Cadfael estacou na entrada. A camada de neve que se acumulara contra a porta, enquanto esta se mantivera fechada, encontrava-se pisada em dois sítios muito próximos. Uma fila de pingentes adornava o beiral e os sucessivos raios de sol do meio dia iam-nos derretendo um pouco em cada dia, gota a gota, para de novo ficarem em gelo sempre que a noite caía. A porta, aberta para sul, encontrava-se protegida devido à elevação do terreno na parte norte. Uma gota caiu lentamente e Cadfael, que a seguira com o olhar, reparou na linha de orifícios escuros que ponteava a alvura da neve que se acumulara debaixo do telhado, numa camada fina, pois o vento nocturno afastara grande parte. Na esquina da cabana as gotas tinham cavado um pequeno buraco, descobrindo o acastanhado e redondo de algo, que não desaparecia, nem se alterava. Cadfael afastou a neve com a ponta da bota.

O gelo é um bom conservante. A luz do sol que brilhara naqueles dias não fizera mais do que furar como uma agulha muito fina, aquele monte de excremento de cavalo. A neve cobrira-o de novo e o gelo selara-o. Mas o buraco originado pelo gotejamento entrecortado era demasiado profundo para ter sido obra de um só dia de sol fraco. Sem saber exactamente quantos dias tinham passado desde que o cavalo ali estivera, Cadfael calculou que não deveria ser há mais de cinco ou seis. Amarrado? A madeira do abrigo não estava tratada e, sob o beiral baixo e saliente, viam-se algumas estacas que facilmente poderiam servir para amarrar as rédeas.

Provavelmente Cadfael não repararia no cabelo, tão claro quase branco, não fosse uma súbita lufada de vento tê-lo erguido, flutuante, mesmo na frente dos seus olhos. Saíra de entre os troncos toscos e, se não tivesse voado passaria despercebido, ali colado. Fora o vento que o agitara, sacudindo-o com o seu sopro ondulante, permitindo que o olho o captasse. Cadfael desprendeu-o cuidadosamente de entre os troncos de madeira e alisou-o na palma da mão. Tratava-se de uma madeixa áspera de cabelo, da cor das prímulas esbatidas. O cavalo ali amarrado encostara a crina contra a parede da cabana, deixando a marca da sua presença ali.

E pronto, era este o telhado mais próximo do sítio onde a irmã fora encontrada. E, com um cavalo para a transportar, não seria difícil levar o corpo da jovem assassinada àquela distância. Mas, se calhar estava a ir depressa demais. O melhor seria ver se havia mais alguma coisa a descobrir antes de tirar conclusões precipitadas e duvidosas.

Arrumou cuidadosamente a crina do cavalo no peito do hábito e entrou na cabana. O ar leve e ameno que a porta aberta não deixara escapar por completo rodeou-o, provocando-lhe uma sensação agradável, e sentiu as narinas encherem-se com o ténue aroma exalado pela pilha de feno. Mais atrás, Reyner observava-o num silêncio atento.

Alguém tivera uma boa colheita de feno na época anterior e guardara ali uma grande reserva. Sim, qualquer pessoa ficaria muito aliviada ao encontrar semelhante refúgio, com cama e coberto por um sólido telhado. Alguém o utilizara na noite anterior, pois a grande pilha de feno estava marcada pelo peso de um corpo grande. Também podia ter sido ocupada noutras noites. Também podiam ter sido dois corpos. Sim, este podia perfeitamente ser o lugar que procurava. Contudo, encontravam-se a pelo menos milha e meia do local onde o irmão Elyas fora encontrado moribundo, e os bandidos, de regresso a casa, não iriam desviar-se milha e meia pelos campos desertos.

- Pensais que os dois que procuramos passaram aqui a noite? - perguntou Reyner, observando-o. -Pois aqui alguém dormiu e há duas séries diferentes de pegadas marcadas na neve ali na entrada.

- Pode bem ser que sim - respondeu Cadfael, pensativo. - Esperemos que sim, porque quem dormiu aqui estava bem de saúde esta manhã, pelo menos assim parece, e deixou pistas que já seguiremos, depois de vermos tudo o que aqui há para ver.

- Que mais pode haver se já partiram?

Reyner continuava a observar com respeito o estado de concentração de Cadfael, esforçando-se por manter, também ele, os olhos bem abertos. Avançou, olhou em volta e espalhou a enorme pilha de feno com um vigoroso pontapé.

- Não é uma cama muito má, se realmente aqui dormiram. Afinal ainda os encontraremos bem de saúde.

O pontapé no feno fez soltar uma onda de cheiro e uma nuvem de pó, descobrindo a ponta de uma peça de roupa negra, bem enterrada entre o feno. Reyner inclinou-se e puxou pela ponta visível, emergindo então uma peça de roupa comprida, que se desenrolou ao ser puxada, manchada e cheia de pó. Segurou-a, atónito.

- O que é isto? Quem deitaria fora um manto tão bom?

Cadfael tirou-lho e sacudiu-o para melhor o examinar. Tratava-se de um manto simples, feito com o pano forte e escuro dos beneditinos. Um manto de homem, um manto de monge. O manto do irmão Elyas?

Sem palavras, deixou-o cair e afundou os braços no monte de palha, abrindo caminho até ao chão como um terrier à caça de um rato. Havia mais peças de roupa enrodilhadas e enterradas fundo, muito fundo, de forma a ficarem bem longe da vista. Trouxe a rodilha até à superfície e sacudiu-a, deixando cair uma bola amarrotada branca. Apanhou-a e alisou-a entre as mãos. Tratava-se de uma touca de freira, de linho austero, agora cheia de manchas e amarrotada. A outra peça preta, depois de examinada, provou ser um hábito estreito, amarrado com o próprio cinto, juntamente com a capa curta do mesmo tecido. E tudo ali enfiado, escondido, num sítio onde nem um pastor se lembraria de vasculhar e que só seria descoberto se todo aquele feno fosse necessário.

Cadfael inspeccionou o hábito, apalpando o ombro direito, a manga e o peito, procurando um sinal, ainda que invisível no pano preto, confiando em poder sentir com os dedos o que os olhos não conseguiam detectar.

Do lado direito do peito sentiu uma mancha do tamanho da mão de um homem, tesa e empastada, cuja crosta se esboroou em pequenos filamentos quando lhe passou a mão. As pregas do ombro e da manga tinham vestígios e partículas do mesmo género.

- Sangue? - perguntou Reyner observando-o, maravilhado. Cadfael não respondeu. Pensativo, enrolou o hábito e o manto, enfiou a touca no meio e meteu a rodilha debaixo do braço.

- Vamos, vamos ver para onde foram aqueles que aqui passaram a noite.

Não havia dúvidas quanto à direcção tomada pelos ocupantes do abrigo. A partir da fina camada de neve que cobria a soleira da porta, seguiam-se duas linhas de pegadas: umas pertencendo a uns pés grandes, a outra a uns mais pequenos, e desciam distintamente pela encosta, de início como manchas esbatidas marcadas na neve pouco funda, para depois se transformarem em sulcos da altura do joelho e do quadril, ao abrirem passagem pela neve mais profunda. Desembocaram no aglomerado de arbustos e de árvores, depois de guiarem as mulas através do estreito caminho sulcado por aqueles que ali tinham passado. Estes, rodeavam os arbustos, mas abriam caminho por entre as árvores cujos ramos sustinham grande parte da neve caída. Ali, as marcas de numerosos homens e cavalos eram claramente visíveis, vindas de oeste e dirigindo-se para leste. Cadfael olhou nessa direcção, memorizando o caminho, até as marcas perderem de vista, ao curvarem em direcção ao vale por onde passavam os ribeiros e provavelmente aí, mantendo a mesma linha recta, subindo de novo, apontando para a imensidão de Titterstone Clee.

- Atravessámos algumas marcas destas quando subimos a estrada? Estás a ver a direcção que eles tomaram? Nós viemos de baixo e estamos cá em cima, com certeza que nos cruzámos com o caminho deles.

- Na altura não procurávamos nada disto - retorquiu Reyner, sensatamente. - E o vento pode tê-las tapado aqui e ali.

- Pode ser que sim. - Na altura preocupara-se em descobrir a sepultura aberta no gelo e não em descobrir qualquer marca no chão.

- Bem, vejamos o que temos aqui. Quem quer que fossem pararam e andaram às voltas, pois aqui as marcas sobem e descem em direcção às árvores.

- Um cavalo recuou e parou aqui - declarou Reyner, avançando-, depois voltou e seguiu. E os outros também. Sigamos em frente.

A primeira flor, escarlate de sangue, apareceu-lhes debaixo dos pés, algumas centenas de passos adiante. Apartir daí, seguia-se uma série de pingas rubi e de novo uma poça maior e mais à frente a cadeia de pingas continuava claramente visível. A neve vidrada conservava bem as suas presas. O sol atingia agora o ponto mais alto e a breve claridade em breve desapareceria. No entanto, ainda os deixava antever os contornos assustadores de Clee como o fim provável daquele caminho antigo. Distante, selvagem e ermo, constituía o lugar ideal para os lobos se esconderem.

- Amigo - declarou Cadfael, fixando o olhar na ominosa figura recortada no céu -, acho que tu e eu nos separamos aqui. Por aquilo que vi, estas marcas foram feitas esta noite e significam que muitos homens e alguns cavalos aqui passaram levando algo a sangrar. Ovelhas retalhadas, talvez? Ou gente ferida? O bando que temos de seguir vem dali de cima e se ontem não saíram para mais um assalto, então estas marcas são falsas. Algures uma propriedade ficou sangrando, em ruínas ou, na melhor das hipóteses, perdeu os bens e a comida. Volta para trás Reyner, segue esta pista e vê onde atacaram ontem à noite. Corre depois a avisar Hugh Beringar, para acudir no que puder, e se ele não tiver ainda regressado, corre a Ludlow, pois Josce de Dinan tem tanto em jogo como os outros.

- E o irmão? - perguntou Reyner, desconfiado.

-Eu sigo em frente, continuo pelo caminho que eles tomaram. Quer tenham levado ou não os nossos dois amigos, esta é a nossa grande chance de descobrir onde fizeram o ninho. Oh, não te preocupes - continuou, ao ver que o companheiro hesitava em deixá-lo -, eu serei cuidadoso, não sou nenhum novato nestas coisas. Toma, leva isto e entrega ao prior Leonard para que o guarde até eu voltar - pediu Cadfael, enfiando a madeixa de crina amarela no meio da roupa dobrada, ciente da sua importância. - E diz-lhe que estarei de volta antes da noite.

Não andara mais de um quarto de milha, quando passou pelas marcas deixadas pela sua mula e pela de Reyner, ao subirem até ao ribeiro. Alguns pedaços de neve esboroada cobriam já parte dos vestígios, mas se tivesse mantido os olhos bem abertos teria concluído que um grande número de homens ali passara, embora não tivesse tirado certamente qualquer conclusão sinistra desse facto, já que a neve fresca tapara a linha ponteada a vermelho.

A partir dali o caminho começou a descer, levemente, atravessando o rio de Ledwyche e o Dogditch, seu afluente a nordeste, atravessando por entre propriedades sem contudo chegar a penetrar alguma. Começou então de novo a subir. Aquela estrada antiga mantinha um nível tão suave quanto possível, naquela terra acidentada e só começou a ser íngreme quando a isso foi obrigada, de forma a poder atingir aquele cume inóspito, extenso, rochoso, com escarpas fragmentadas e traiçoeiras, cobertas por uma turfa definhada e arrepiante.

A face de Clee vista assim de tão perto exibia os seus penhascos a pique, cujas superfícies estriadas brilhavam devido à luz ténue do sol. Ali, parecia impossível que o caminho continuasse e no entanto continuava apontando como uma seta para aquele muro de rocha. Em breve teria de virar ou à direita ou à esquerda, de forma a contornar a subida e, ao lembrar-se do ataque à propriedade de John Druel calculou que seria à direita. Nessa noite, tinham passado por ali ao regressarem a casa, evitando a aldeia de Clee, mais abaixo, por se encontrar demasiado bem guardada para poder tornar-se uma presa fácil ou rápida, a uma hora da madrugada tão avançada.

Alguns minutos depois a sua suposição provou-se acertada, pois o caminho curvava para a direita, acompanhando o curso de um pequeno ribeiro, agora imobilizado pelo gelo, que emergia, serpenteando, daquela enorme massa, espreitando nos sítios mais altos e acabando numa depressão de turfa gelada que o caminho cuidadosamente contornava. O topo rochoso do monte pairava agora à sua esquerda, mas desaparecia frequentemente da vista, devido às elevações do terreno mais próximas ou pela rara existência de árvores raquíticas. Sempre em círculos, continuou a escalada até que viu, muito abaixo, através duma depressão no terreno as ruínas desoladoras da casa e do celeiro de Druel. A curva seguinte em espiral levava-o ainda mais para alto e, as ruínas desapareceram de vista.

Na colina rochosa, à sua esquerda, apareceu subitamente uma fenda tão estreita que lhe passaria despercebida, não fosse a esbatida linha de gotas vermelhas virar nessa direcção. O vale, do outro lado, era fundo e escuro e Cadfael sentiu que, de imediato grande parte da luz desaparecera, assim como o sopro, do vento. Ali, a vegetação crescia feliz e abrigada e a terra existente era suficiente para suportar árvores fortes e viçosas. Não Podia estar longe do cume e por aquela altura estava certamente a mais de metade do circuito da montanha. O que quer que existisse no extremo daquela penosa escalada, tinha forçosamente de estar junto dos rochedos voltados a sul e o mais certo era que desse lado o acesso só fosse possível aos pássaros.

Devido à altitude o ar tornara-se rarefeito e os sons propagavam-se com facilidade. Naquele extremo da ravina, Cadfael parou para pensar no passo seguinte quando o tilintar distante de metal lhe chegou aos ouvidos, em sons regulares. Algures acima dele um ferreiro trabalhava. Depois, ténue, mas distintamente, ouviu o gado queixoso.

Se aquele era o único acesso possível deveria estar fortemente vigiado e, se ele conseguia ouvi-los, a fortaleza não Podia estar longe. Desmontou, conduziu a mula para o meio das árvores e amarrou-a. Não tinha qualquer dúvida de que descobrira o caminho que conduzia ao esconderijo dos assaltantes, que Assassinavam e pilhavam toda a região, à volta de Ludlow. Quem mais se viria esconder naquele lugar tão escuro e recôndito?

Ainda que não se aventurasse em campo aberto sempre podia avançar com cautela. Em silêncio, abriu caminho pelas árvores e por entre as copas vislumbrou o céu cinzento recortado por uma sombra escura e larga. Era o topo de uma torre de madeira, estava cada vez mais próximo da nascente do rio, que tão profundamente cavara aquela fenda, e por entre as árvores viu que na sua frente, se estendia um planalto de rocha e neve. Deparou com uma paliçada alta e comprida, a qual só deixava à mostra o topo dos telhados dos edifícios no interior: a comprida viga mestra do telhado do salão, em cujo extremo se erguia a torre. Não era uma torre muito alta, mas era de construção sólida e ampla de forma a resistir ao vento e suficientemente alta, para permitir uma visão das redondezas. A parede e a torre recortavam-se no céu. Não necessitavam de se proteger à retaguarda, a não ser dos falcões, pois atrás da fortaleza os penhascos eram a pique. Cadfael calculou que nem a torre seria visível, tão encostada estava à pedra escura na qual se apoiava.

Durante algum tempo esforçou-se por memorizar o que via e ouvia, pois Hugh precisaria de todos os pormenores que lhe pudesse fornecer. A paliçada era alta e as estacas eram aguçadas na extremidade e, pelas cabeças que avistou por entre o topo serrado, havia plataformas de vigias em intervalos frequentes ou até mesmo guardas a tempo inteiro. O som das vozes chegava-lhe distintamente do interior da paliçada, insistente, vozes de numerosas pessoas, gritando, rindo, até mesmo cantando. O ferreiro continuava o seu martelar atarefado, o gado bramia, as ovelhas baliam e o sussurro de imensas idas e vindas atarefadas produziam uma música confiante. Ali dentro sentiam-se seguros, sem medo, sentiam-se fora do alcance da lei, daquela lei tão dividida e confusa que governava o país. Quem quer que fosse, o chefe tinha-se rodeado dos homens mais cruéis, dos piores marginais e fora da lei de toda aquela região e devia congratular-se com a divisão de Inglaterra em duas partes, cujas feridas abertas o convidavam a comer.

As nuvens baixas começavam a aglomerar-se. Cadfael recuou e regressou até junto da mula, conduzindo-a com o máximo cuidado por entre as árvores. Ao atingir o descampado da ravina aguardou e escutou por momentos, antes de montar e seguir caminho. Regressou pelo mesmo caminho e não encontrou nenhum ser vivo até alcançar as terras baixas. Uma vez aí, poderia ter cortado à esquerda e descer para a estrada de Cleobury mas não o fez, preferindo continuar pela estrada utilizada pelo bando. Precisava de a fixar bem, pois a neve da noite, se caísse como era habitual, poderia disfarçá-la perigosamente.

Era noite quando abandonou a estrada, a cerca de uma milha de Bromfield e, cansado mas satisfeito, apressou-se a regressar a casa.

Hugh Beringar só regressou à hora de Completas, absolutamente esfomeado, cansado e, apesar do frio, transpirando devido ao esforço a que fora sujeito. Cadfael apressou-se a reunir-se-lhe à ceia, mal saiu da igreja.

- Então, encontrou o lugar? Reyner deu-lhe o recado sobre o sítio onde o diabo passou a noite passada?

O rosto sombrio de Hugh era só por si uma resposta.

- Também me disse que o irmão iria seguir até ao outro extremo do caminho. Nunca esperei vê-lo de regresso antes de mim. Na verdade, pelo menos, de modo algum incólume. Precisa sempre de se enfiar na boca do lobo?

- Onde foi que eles atacaram e queimaram a noite passada?

- Em Whitbache. A escassas milhas de Ludlow, entrando e saindo com tanto à-vontade como se se tratasse do próprio pátio.

Encaixava-se bem. O caminho de regresso a casa, a partir de Whitbache, passaria por baixo do abrigo, tal como Cadfael testemunhara na estrada antiga.

- Eu tinha chegado a Ludlow quando o seu homem apareceu. Fui buscar Dinan para vir comigo. Todas as casas pilhadas, todas as pessoas abatidas. Duas mulheres escaparam e fugiram para o bosque levando os seus bebés e o único mal de que sofrem é devido ao frio e ao horror. Quanto aos outros, apenas um homem e dois rapazitos feridos viverão para contar como foi. Todos os outros mortos. Transportámo-los a todos para a cidade, os mortos e os vivos. São gente de Dinan e ele tratará deles. Se puder vingará o sangue com sangue.

- Quer ele quer você, Hugh, podem agora fazê-lo - afirmou Cadfael. - Reyner Dutton encontrou o que procurava e eu também.

Hugh, que reclinara a cabeça exausta contra a parede, endireitou-se de súbito e os olhos recuperaram o brilho.

- Encontrou o covil onde esses lobos se escondem? Conte. Cadfael contou a história com todos os detalhes. Quanto mais clara fosse a sua exposição, do problema que tinham de enfrentar, mais hipóteses tinham de alcançar uma vitória sem grandes perdas. Só que isso não era fácil.

-Parece-me que só existe um caminho para lá chegar. Por detrás da fortaleza o terreno ainda sobe um pouco até ao topo do penhasco. Se a paliçada continua ou não nas traseiras, isso não consegui ver, mas com aquele precipício atrás não devem ter achado necessário continuá-la. Atrevo-me a dizer que aquelas rochas poderiam ser escaladas numa época mais seca, mas com a neve e o gelo ninguém se atreveria a fazê-lo. E, tratando-se de homens de semelhante calibre, calculo que terão uma reserva de pedras e pedregulhos prontos para atirar, caso alguém se aventure.

- O lugar é assim tão inexpugnável? Espanta-me como conseguiram construir tudo isso em segredo.

- É um sítio tão remoto e agreste! Quem quer subir até lá? Existem algumas propriedades nas encostas mais baixas, mas que iria fazer um homem honesto lá para cima? Nem sequer para pastar serve. E, Hugh, eles têm um exército lá dentro, os ofensores de Deus, conhecem bem a extensão e as potencialidades do coração de Inglaterra e deitaram mãos à obra. Têm a floresta de Clee ali ao pé e estão rodeados de pedra, a única colheita que aquele ermo permite. Sabe tão bem como eu que um castelo se pode erguer em pouco tempo, havendo madeira e o restante material necessário.

- Mas vilões fugidos que viraram ladrões, miseráveis bandidos vindos das cidades e outros que tais, não construiriam nada de tão grandioso, limitar-se iam a algumas cabanas no meio dos bosques - afirmou Hugh.

- Alguém mais importante detém ali o comando. Pergunto-me quem será. Quem poderá ser?!

- Amanhã, se Deus o permitir, sabê-lo-emos - retorquiu Cadfael.

- Nós? - perguntou Hugh, dirigindo-lhe um sorriso breve e distraído - Pensei que o irmão tinha guardado as armas. Pensa que os nossos dois desaparecidos estão lá dentro?

- Assim parece, pelas marcas que deixaram. Não é certo que aqueles que dormiram no abrigo e que depois encontraram o bando fossem Yves e Elyas, mas tratava-se de um homem e de um garoto e conhece mais algum par semelhante desaparecido na noite passada? Sim, estou convencido de que eles caíram nas mãos dos bandidos. Armado ou não, Hugh, vou convosco.

Hugh olhou-o pensativo e com franqueza disse o que pensava:

- Será que se dariam ao trabalho de levar Elyas também? O garoto sim, só as roupas são prova de que se trata de uma boa presa. Mas um monge, sem tostão, meio desaparafusado? Já uma vez o espancaram quase até à morte. Acha que hesitariam em fazê-lo segunda vez?

- Se se livrassem dele - objectou Cadfael com firmeza -, eu teria encontrado o corpo. E não encontrei. Não há outra maneira, Hugh, de conhecermos a verdade a não ser ir até lá e arrancarmos-lhes tudo o que sabem.

- E é isso que faremos - garantiu Hugh. - À primeira luz da manhã vou à cidade e recrutarei para o serviço do rei todos os homens que Josce de Dinan puder reunir, juntamente com os meus. Ele deve-me vassalagem e prestá-la-á. Não lhe aproveita mais a anarquia reinando as suas terras do que ao próprio rei Stephen.

- É pena não podermos surprendê-los de madrugada - lamentou Cadfael -, mas perderíamos um dia. E precisamos mais da luz do que eles, pois conhecem a região muito melhor que nós.

O pensamento de Cadfael estava muito longe, planeando um assalto que não era da sua responsabilidade e que havia muitos anos resolvera não voltar a enfrentar, mas com a proximidade de um combate o velho entusiasmo ainda o empolgava.

- Perdão, excedi-me, como velho degenerado que sou - retratou-se ele, mal regressou à terra e aos problemas da alma que estavam sob a sua alçada. - Tenho algo mais para lhe mostrar, embora não esteja directamente relacionada com aquele castelo demoníaco.

Trouxera consigo a rodilha de roupa negra. Desenrolou-a em cima do banco, pondo de lado a touca branca e a madeixa da crina do cavalo.

- Encontrei isto debaixo do feno no tal abrigo, bem enterrado e fora de vista e, não fora Reyner ter dado um pontapé desfazendo o monte, teria continuado no mesmo sítio. Veja o que lá estava. E isto, isto estava preso na parede exterior do abrigo e bem acima de um monte de excremento de cavalo.

Contou tudo com a mesma precisão, expondo a sua linha de raciocínio perante aquelas descobertas. Hugh ouvia e observava tudo, com atenção concentrada, rapidamente recuperado do anterior cansaço e consciente de todas as implicações.

- Dela e dele? - perguntou no fim. - Então estiveram ali juntos.

- Foi também a minha conclusão. - No entanto, ele foi encontrado longe do abrigo. Nu, sem hábito, enquanto o manto ficava na cabana. Então, se tudo isto é verdade, Elyas fugiu às cegas em direcção a esse mesmo lugar. O que o levou a fazê-lo? Com que fim o fez?

- A isso - declarou Cadfael -, não posso ainda responder. Mas com a ajuda de Deus, duvido que não seja possível vir a sabê-lo.

- E tudo escondido... bem escondido, tal como me diz. Poderiam ter ali ficado até à Primavera e, quando aparecessem, a pista estaria fria. Cadfael, alguma vez aqueles lobos se preocuparam em esconder os seus actos mais terríveis? Não me parece. O que destroem, deixam ficar no mesmo sítio.

- Assim fazem os demónios - comentou Cadfael -, aqueles que não têm vergonha.

- Mas talvez tivessem medo. No entanto, não faz muito sentido. Não consigo ver onde isto nos leva. Não estou nada satisfeito - admitiu Hugh, sombrio. - Quanto mais penso nisto pior me sinto.

- Eu também - concordou Cadfael. - Mas posso esperar. Não acredito que o mal e o bem possam coexistir de tal forma encobertos que não se consigam distinguir.

Nenhum deles ouvira a porta do quarto abrir e fechar na pequena antecâmara da ala dos hóspedes, onde Hugh tomara a refeição. Mas, quando Cadfael extraiu as peças de roupa, ela estava ali, no corredor de pedra, a rapariga alta e morena, com olhos orgulhosos reflectindo angústia e insónia sobressaindo no rosto pálido. Trazia o cabelo caído pelos ombros e Cadfael percebeu, pela urgente tensão do seu rosto, que ela entrara ali inocentemente, atraída pelo som de vozes e, ao olhar para dentro, recuara horrorizada com o que viu. Aguardou, escondida na sombra e cheia de angústia. Quando Cadfael lhe pegou pelo braço com firmeza, sentiu-a tremer e apressou-se a conduzi-la até junto do fogo, que ardia em brasas, pronto a ser reavivado no dia seguinte. A excepção da luz viva do lume, tudo estava mergulhado na escuridão. Sentiu que ela, respirando fundo, se relaxara um pouco ao abrigo da penumbra. Cadfael inclinou-se e mexeu as brasas, de forma a obter um calor rubro e agradável.

- Senta-te aqui e aquece-te, garota. Isso, encosta-te e não tenhas medo. Pela minha vida te asseguro que Yves estava vivo hoje de manhã e, se for humanamente possível, estará de volta amanhã.

A mão que lhe agarrara o braço soltou-se lentamente. Ermina encostou a cabeça contra a parede e estendeu os pés para o fogo. Vestia o fato de camponesa com que entrara pelo portão e estava descalça.

- Querida filha, por que não estás a dormir? Não podes deixar as coisas por nossa conta e nas mãos de Deus?

- Foi esse mesmo Deus que a deixou morrer - protestou Er-mina, estremecendo. - Aquilo era dela. Eu sei! Eu vi! A touca e o hábito pertenciam a Hilária. Onde estava Deus quando ela foi violada e assassinada?

- Deus tomava conta de tudo - assegurou Cadfael. - E arranjava um lugar a Seu lado para a jovem imaculada. Querias tirá-la de lá?

Cadfael sentou-se ao lado dela, sem lhe tocar, compreensivo perante a dor e o remorso. Quem mais poderia ela acusar? E quem mais necessitava de compreensão perante aquela reacção furiosa de autodestruição?

- São dela, não são? Não consegui dormir e vim saber se havia alguma novidade, quando ouvi vozes aqui. Não estava a espreitar, mas abri a porta e vi tudo.

- Não fizeste nada de mal - acalmou ele com brandura. - E vou-te contar tudo o que sei, pois tens o direito de saber. Só que mais uma vez te lembro que não deves culpar-te do mal que outro infligiu. Das tuas acções, isso sim. Agora, esta morte, seja qual for a causa, não é da tua conta. Então, queres ouvir?

- Sim - respondeu ela imediatamente, dócil e descontraída. - Mas já não devo considerar-me culpada, sou nobre e como tal exigerei vingança.

- Sempre me ensinaram que também isso está nas mãos de Deus.

- Pois a mim ensinaram-me que a vingança é um dever para com a dignidade do nosso nome.

Aquela ordem de valores era tão legítima quanto a sua e ela era-lhe tão dedicada como ele. Ali sentado, ao lado dela, Cadfael não se sentia muito seguro de que ele próprio não partilhava o mesmo compromisso apaixonado, o mesmo objectivo. Ainda que houvesse uma separação, não eram muito diferentes. O que tinham em comum, pensou ele, era a mesma sede de justiça, que ela, educada de uma forma diferente, chamava vingança. Cadfael nada respondeu. Uma devoção tão ferozmente arreigada poderia aumentar e tornar-se devastadora, ou poderia atenuar-se cedendo um pouco na sua ferocidade. Ela que encontrasse o caminho; aos dezoito anos a sua alma poderia superar a violência e a tristeza e reconciliar-se com o ser humano.

- Mostra-me? - perguntou ela quase com humildade. - Gostaria de tocar no hábito. Eu sei que o tendes aí.

Sim, quase com humildade. Ela sabia qual o melhor caminho para conseguir os seus intentos! Mas, da afeição profunda que sentia pela amiga perdida, ninguém poderia duvidar.

- Aqui está - confirmou Cadfael, desdobrando a roupa em cima do banco que os separava e pondo de parte o manto do irmão Elyas.

Ao fazê-lo, a madeixa de crina loira caiu de uma das pregas e foi parar aos pés de Ermina, ondulando pelo chão nu como se tivesse vida. Ela apanhou-a, sentou-se e examinou-a de sobrolho franzido, até que voltou o olhar intrigado para Cadfael.

- E isto?

- Um cavalo esteve amarrado sob o beiral do tal abrigo, durante algum tempo e deixou marcas na neve, enquanto isto ficou preso entre a madeira tosca.

- Nessa noite? - perguntou ela.

- Quem sabe? Mas as marcas estavam bem enterradas, não eram recentes. Poderia ter sido nessa noite.

- O lugar onde a encontrou não é perto? - continuou ela.

- Não o suficiente para que um homem pudesse carregar com o corpo, por muito desesperado que estivesse em esconder a sua culpa, sem a ajuda de um cavalo para o transportar.

- Sim - declarou Ermina -, foi o que eu pensei. Afastou delicadamente a madeixa e pegou nos hábitos com as duas mãos. Cadfael observava-a, enquanto o dobrava sobre os joelhos, tacteando ao de leve todas as pregas. Os dedos encontraram as partes mais duras, pararam sobre a mancha do peito direito, seguiram a linha que dela partia e, de novo, regressaram à original...

- Isto é sangue! - exclamou intrigada. - Mas ela não sangrou! O irmão contou-me como ela morreu.

- É verdade. Este sangue não pode ser dela. Mas que é sangue é. Havia alguns vestígios dele no corpo, embora não tivesse qualquer ferimento.

- Alguns vestígios! - exclamou Ermina, erguendo os olhos escuros para Cadfael.

Poisou a palma da mão na mancha que endurecera aquela parte do hábito, esticando os dedos, tentando abrangê-la por completo. De forma que se tratava de uma mancha feita de fora e não de dentro.

- Sangue dele? Do homem que a matou? Bem feito se ela o feriu. E no entanto... Eu ter-lhe-ia arrancado os olhos... mas ela? Tão doce, tão meiga...

Subitamente calou-se e, colocando o hábito à frente do corpo como se o vestisse, manteve-se imóvel, enquanto a chama rubra do fogo lhe iluminava o rosto reflectindo-se-lhe nos olhos. Em seguida descontraiu-se, levantou-se calmamente e, sacudindo as dobras, dobrou o hábito meticulosamente, sem o amarrotar.

 

Com a primeira luz da manhã, Hugh Beringar deslocou-se de Bromfield a Ludlow para aí recrutar os homens e o irmão Cadfael, depois de calçar as botas, atar hábito para a cavalgada e de vestir o manto, resolveu acompanhá-lo. Para além de ter que servir de guia, levava na sela os unguentos e as compressas indispensáveis ao tratamento de feridos que poderiam ser bastantes numerosos ainda antes do fim do dia.

Não viu Ermina antes de partir e tentou convencer-se que ela ainda devia estar pacificamente adormecida. Havia uma tensão e um retraimento nela que o inquietava, sem que, no entanto, conseguisse definir a razão desse mal estar. Não era o simples receio pela sorte do irmão que a atormentava, nem a culpa, nem a dor, que já confessara e que estava determinada a aceitar como penitência. Aquela calma que afivelara ao retirar-se na noite anterior, agarrrada ao hábito da irmã Hilária, ficara-lhe na memória e lembrara-lhe a determinação com que um cavaleiro virgem se banha e se equipa para enfrentar a sua primeira batalha.

Abençoado Olivier de Bretagne que, de alguma forma, encontrara maneira de a domar, expulsando-lhe do coração a fantasia de um amor imaturo, contrariando-lhe a natureza rebelde e ordenando-lhe que se mantivesse quieta, deixando que outros resolvessem aquele assunto. Mas então por que razão pensava nela alerta, armada e pronta para a luta?

Entretanto, tinham outra batalha para vencer.

Em Ludlow, encontraram Josce de Dinan saindo do castelo com o exército que Hugh requisitara. Ele próprio vinha à frente dos homens. Tratava-se de um homem grande e corpulento, cheio de carnes, de meia-idade, rosto redondo e belíssima constituição. Hugh pedira preferencialmente arqueiros e ali os tinha. Nos condados de fronteira existiam muitos homens hábeis no manejo do arco curto e Cadfael calculara que, da orla das árvores ao alto da paliçada, a distância não ultrapassaria a do alcance deles. Sob o abrigo dos ramos, poderiam encobrir a investida e apanhar qualquer inimigo que, lá dentro, subisse ao resguardo das sentinelas. Era uma pena que as árvores abarcassem apenas um quarto do planalto descoberto e, embora a ravina os protegesse do vento, a linha de ataque era muito reduzida. Aquele campo aberto preocupava Cadfael. Haveria arqueiros também no interior e estes possuíam seteiras que lhes permitiam ter uma visão do campo sem os expor aos arremessos do adversário. Não tinha qualquer ilusão quanto às intenções do inimigo. Quem quer que tivesse erguido aquela fortaleza, em semelhante lugar, sabia bem o que queria e pela despreocupada ambição existente no interior reunira uma guarnição formidável.

A marcha foi mais fácil do que esperavam. A neve nocturna começara mais tarde e terminara mais cedo do que nos dias anteriores e, sem os ventos rigorosos, puderam seguir o caminho que Cadfael tão bem memorizara. O ar calmo e gelado estava completamente limpo ali nas terras mais baixas, mas podiam ver que os cumes estavam involtos por uma névoa fina e brilhante. Esse facto poderia trazer-lhes grandes vantagens, pois quando se aproximassem do objectivo final poderia, pelo menos, proporcionar-lhes uma cobertura aos movimentos.

- Com uma manhã assim - comentou Cadfael -, ou não saíram de casa ou já se encontram de regresso e invisíveis desde cedo. Umas tréguas no mau tempo e os camponeses aproveitam logo para sair. Estas aves não se preocupam com as marcas quando atacam, mas até agora têm evitado serem vistos, excepto pelas vítimas. Aqueles que por azar se lhes atravessam no caminho são abatidos, a não ser que vivos, lhes sejam mais valiosos. No entanto, como o assalto da noite passada foi tão profícuo, naturalmente esta noite ficaram em casa. E, se assim for, estarão acordados e menos ébrios do que no fim de um assalto bem sucedido, o que é uma pena!

Cadfael seguia na frente com Hugh de um lado e Josce de Dinan do outro, este um passo mais atrás. Dinan era um grande homem em todos os aspectos e por isso não se esforçava por manter o nariz do cavalo ao nível do de Hugh, nem se ressentia por estar sob as ordens de um homem mais novo e inexperiente. Não tinha necessidade de salientar a sua importância. Cadfael gostava dele. Nunca tinha visto aquele supostamente dúbio aliado, mas tinha-o na conta de um homem a não substimar e a sua perda seria de lamentar.

- Eles podem ter homens de vigia pelo caminho - afirmou Hugh.

Cadfael considerou a hipótese e discordou:

- Quer no inicio, quer no meio da subida, os homens estariam demasiado distantes para poderem dar o alarme e demasiado isolados para estarem seguros. E a melhor defesa do desfiladeiro é que é tão estreito que passa despercebido. Eu dei por ele, porque seguia uma pista bem clara. Não me esqueço onde é. E, no meio, tudo é descampado. Suponho que contam mais com o segredo e, se for descoberto, com a força que possuem.

O mundo que os rodeava era gelado e despovoado e o enorme monte de terra em frente, envolto pelo nevoeiro, mais parecia uma sombra de aço azul. Cadfael observou os contornos do monte e seguiu o caminho que guardara na memória. Nalguns sítios a neve caída escondera as marcas do dia anterior, mas aqui e ali ainda se viam vestígios ténues. Quando se aproximaram do maciço de pedra, Cadfael abrandou e avançou de cabeça erguida, tentando ver através da névoa que escondia o topo do penhasco. Embora o contorno do penhasco se vislumbrasse através do véu, não conseguiu avistar nenhuma torre atarracada erguida acima da massa rochosa. Se não conseguia ver a torre, poderiam ter esperanças que a chegada daquele exército passasse despercebida a algum possível vigia ali instalado. O melhor seria passar aquela parte do caminho o mais depressa possível e transpuseram a primeira curva do caminho em espiral. Quando a longa subida gradualmente os conduziu até ao topo gelado e árido e atingiram a fenda no terreno rochoso que se abria à esquerda, Hugh fez parar a marcha e enviou batedores à frente. Mas não havia nenhum movimento, nenhum sinal de vida, a não ser o bater das asas de alguns pássaros que atravessavam o céu. A fenda era tão estreita que parecia que a todo o momento fecharia, sem conduzir a lado nenhum.

- Mais à frente começa a alargar - informou Cadfael. - E continua em aberto directamente até à nascente, igual a tantas outras nestas terras altas. Ha árvores ao longo do caminho embora sejam anãs.

Entraram no desfiladeiro e distribuíram os homens pelo meio das árvores de ambos os lados. O nevoeiro começava a dissipar-se, quando Hugh, do meio das árvores mais altas, examinou a concavidade espaçosa de erva alta, pedra e neve, que os separava da paliçada. Mais um passo em frente e o alarme seria dado. Daquela pequena franja de árvores em diante não havia qualquer cobertura. E a distância era maior do que pensava, constatou Cadfael com preocupação, suficientemente grande para dizimar as hostes de qualquer exército atacante, dentro daquelas paredes, houvesse arqueiros competentes e vigias capazes.

Josce de Dinan avaliou a extensão da paliçada e o volume da torre interior.

- Vais pedir-lhes formalmente que se rendam? Não vejo necessidade disso, pelo contrário existem boas razões para não o fazer.

Hugh também pensava assim. Por que haveria de desperdiçar a vantagem da surpresa se, na verdade, tinham conseguido espalhar os arqueiros e os soldados à volta do abrigo exíguo, sem serem vistos? Se conseguissem chegar, nem que fosse a meio do caminho que os separava daquelas paredes, antes dos arqueiros conseguirem entrar em acção, ao longo da plataforma de vigia, poderiam salvar-se muitas vidas.

- Não. Estes homens saquearam, violentaram e mataram sem piedade. Não preciso de lhes dar nada. Vamos dispor as nossas forças o mais vantajosamente possível e, então, atacaremos antes de eles darem por nós.

Distribuiu os arqueiros em meia lua. Os homens a pé dividiu-os em dois grupos ao longo da orla e os homens a cavalo posicionaram-se no meio, em dois grupos, de forma a convergirem para o portão e forçarem a entrada, abrindo caminho à infantaria.

Quando todos se encontravam a postos, o silêncio era total até que Hugh, do seu lugar de ponta de lança de um dos grupos de cavaleiros, esporeou o cavalo, avançou e ergueu o braço iniciando o ataque. Ele da esquerda e Dinan da direita saíram da zona coberta, carregando para o portão, logo seguidos pelos homens a pé. Os arqueiros, da orla do arvoredo, soltaram uma saraivada simultânea, para em seguida dispararem desencontrados, procurando qualquer cabeça erguida acima da paliçada.

Cadfael, que ficara para trás, junto aos arqueiros, maravilhou-se com o silêncio com que se iniciara o ataque, apenas quebrado pelos cascos dos cavalos e, mesmo estes, eram abafados pela neve. No momento imediato, ouviu-se uma grande algazarra vinda do interior da parede, numa corrida desordenada e frenética de homens tomando lugar nas seteiras, seguindo-se uma chuva de setas em resposta. Mas aquela primeira carga quase conseguira uma vitória, pois o portão fora franqueado e, quando os guardas acorreram, Hugh, Dinan e mais cinco ou seis homens, encontravam-se já junto à parede, fora da vista do inimigo e abriam caminho a todo o custo, tentanto chegar ao pátio.

Lá dentro, os homens atropelavam-se tentando segurar o portão e trancá-lo, enquanto as ordens gritadas e o tumulto confuso iam e vinham, como as ondas de um mar tempestuoso assolando um navio.

O sólido portão, entreaberto, baloiçava e os homens apinhavam-se em força para o abrirem e, assim, penetrarem no pátio.

Subitamente, lá do alto, bem acima de todas as cabeças, soou uma voz poderosa como um trovão.

- Parem já com isso aí em baixo. Homens do rei ou quem quer que sejam, levantem-se e olhem para aqui. Olhem, já disse! Larguem os meus portões ou terão de levar o cadáver desta criança convosco.

Todas as cabeças, dentro e fora dos portões, se ergueram para o topo da torre, os arqueiros de ambos os lados imobilizaram as setas nos arcos e as lanças e espadas foram baixadas. Yves baloiçava entre dois merlões de madeira crua no parapeito, apenas seguro pelas roupas que uma enorme mão agarrava. Acima dele erguia-se uma cabeça zangada e desgrenhada, de cabelo comprido e ruivo e barba flutuando ao sabor do vento que em baixo era inexistente. A outra mão encostava a lâmina de um punhal à garganta do rapaz.

- Estão a vê-lo? - rosnou o leão, olhando para baixo com os olhos faiscando fúria. - Querem-no vivo? Então recuem. Recuem para fora da vista ou eu corto-lhe a cabeça e atiro-a lá abaixo.

Hugh olhava-o, com o rosto branco e inexpressivo, guardando a espada que erguera para penetrar através da pequena abertura no portão. Yves estava direito como um tronco de madeira, sem olhar para cima, nem para baixo, fixando-se no espaço que tinham em frente. Não soltou um único som.

- Eu não sei quem sois - berrou Hugh, pausadamente -, mas eu sou o representante do rei e digo-vos que não tereis salvação, nem aqui nem em lado nenhum. Se o matares será a vossa morte. Sede sensato. Rendei-vos com os vossos homens e talvez encontrareis alguma atenuante, pois de outra forma não tereis nenhuma.

- E eu digo-vos, representante do rei, para essa gente sair para fora da minha vista, agora, sem mais conversa, ou tereis este pombo já sangrado e pronto a comer. Agora, já disse! Desapareçam! Quereis que vos mostre?

A ponta do punhal mergulhou na carne e a claridade do ar permitiu aos presentes ver o pequeno fio de sangue que logo brotou e começou a deslizar.

Hugh embainhou a espada sem mais palavra, montou e esporeou o cavalo, fazendo sinal aos homens para recuarem, abandonando a paliçada e regressarem para o meio das árvores onde ficariam fora de vista. Atrás de si, ouviu uma ruidosa gargalhada que mais parecia o rugido zangado de um leão prestes a atacar a presa.

Todos tinham recuado depois daquela ameaça. Agruparam-se em silêncio à volta das árvores. Estavam num beco sem saída, sem dúvida. Sabiam que não podiam arriscar nova tentativa e aquele animal poderoso que dominara a torre, sabia igualmente que dali não sairiam.

- Se vós não o conheceis eu conheço - declarou Josce de Di-nan. - Trata-se de um bastardo da família Lacy, fruto do filho mais novo da casa. O irmão, convenientemente nascido depois do pai ter casado, vive no meu domínio. Este, serviu alguns anos em França, pela Normandia contra Anjou. Chamam-lhe Alain le Gaucher, pois só se serve da mão esquerda.

Todos os que o tinham visto ali pela primeira vez não precisavam daquele último esclarecimento. Fora com a mão esquerda que ele encostara o punhal à garganta do rapaz, espetando friamente a ponta na pele.

Yves sentiu-se içado por uma mão que lhe agarrara com firmeza um punhado de roupa nas costas e cujos ossos lhe feriam a espinha e, violentamente, foi atirado para o chão de madeira do telhado, onde caiu sobre os pés. O choque percorreu-o dos pés à cabeça mas, arregalando os olhos, concentrou-se de tal forma em manter o silêncio que teve de morder a língua. Sentiu o sangue quente correr-lhe pelo lábio inferior, engoliu-o e firmou os pés vacilantes nas tábuas do soalho. O fio de sangue que lhe corria pelo pescoço já não o incomodava e começara a secar.

Nunca se sentira tão assustado e nunca tão maltratado. Repentinamente alguém lhe pegara pelo pescoço, arrastando-o por uma escadas escuras até chegarem ao topo, sem janelas, da torre. Finalmente, empurraram-no por uma escada vertical, obrigando-o a passar por um alçapão, até que atingiram a estonteante luz do dia no telhado. Ouvira a voz do leão berrando-lhe aos ouvidos, a mão do leão içara-o para o parapeito com uma violência furiosa, que quase o atirara abaixo. Por instinto, mordera a língua, mantendo-se em silêncio. Agora, sentia os joelhos tremerem e tentava firmá-los, indignado. Continuava mudo, sem proferir uma palavra ou um grito, consolando a dignidade com esse facto, e aguardou com determinação, esperando que o coração deixasse de bater tão depressa. Por fim, conseguiu-o com firmeza.

Alain le Gaucher, de pé, com as pãos apoiadas nos merlões, observava, sombrio, os atacantes retirarem. Os três homens que o seguiram até ali aguardavam ordens. E Yves também, esforçando-se por não tremer, quando o corpo forte e enorme se voltou e os olhos se fixaram nele com um brilho calculista.

- Pois o fedelho sempre vale alguma coisa, ainda que não seja dinheiro. Uma boa razão para o manter seguro, pois poderemos precisar dele mais vezes. Oh, eu sei que eles não vão longe, pelo menos para já, antes de tentarem todos os meios possíveis e concluírem que todas as tentativas são fracassadas, por um pequeno punhal na garganta do pombo. Agora sabemos que dançarão como nós quisermos. Diabrete, tu vales mais do que um exército para nós.

Para Yves isso não lhe serviu de qualquer consolo. Nem sequer era possível resgatá-lo, agora que o seu valor como refém aumentara significativamente com a descoberta do esconderijo. Era impossível voltar a escondê-lo e continuar a gozar, pela calada da noite, dos ataques e assaltos e matar as testemunhas tal como dantes. Por enquanto, podiam ir repetindo a ameaça de matar o prisioneiro e talvez até negociassem a liberdade em troca da sua vida, partindo para outro sítio e aí retomando as suas actividades. Mas não, Hugh Beringar não desistiria com tanta facilidade, nem abandonaria um refém nas mãos dos bandidos mais do que o tempo necessário. Ele encontraria uma forma de entrar naquele covil sem ser pelo ataque frontal. Yves fazia o possível por se convencer disso, mantendo o rosto inexpressivo e a boca fechada.

- Tu, Guarin, ficas aqui com ele. Serás substituído antes do anoitecer e ele não te dará problemas. A não ser que trepe para ali e estoire com os miolos ao saltar lá para baixo, que mais poderá tentar? Calculo que o desespero e o medo não sejam suficientes para tentar uma coisa dessas. Quem sabe se não virá a gostar de viver connosco, hem, miúdo?-riu-se ele, espetando um dedo nas costelas de Yves. - Prepara o teu punhal e se vires algum homem tentar aproximar-se, age de imediato e repete a ameaça. E, se insistirem - concluiu, batendo com os dentes enormes como se fechasse uma ratoeira -, sangra-o. Na pior das hipóteses eu mesmo trato disso. Em mim eles acreditarão.

O homem chamado Guarin assentiu e, sorrindo, desembainhou o punhal.

- Vocês vão lá para baixo, temos de tratar de outras coisas. Quero um vigia a toda a volta do nosso muro. Eles tentarão tudo antes do frio os fazer desistir. Ainda está para nascer o xerife capaz de acampar ao ar livre em pleno Inverno. Por mais de uma noite.

Para abrir a tampa do alçapão era preciso utilizar a argola de ferro ali cravada. Ele pegou-lhe com a mão enorme e içou-a como se se tratasse de uma colher, deixando-a cair para trás com um baque surdo que fez estremecer o soalho. Por debaixo da tampa, viam-se os ferrolhos de metal que serviam para a trancar e que tilintaram com o impacte.

- Vamos fechar-te aqui em cima, por uma questão de segurança. Não receies, que terás a tua comida e, ao cair da noite, o teu turno acabará. Não quero correr riscos com este franguito. É demasiado precioso para o podermos perder.

Ao passar por Yves deu-lhe uma palmada no ombro com o mesmo à vontade com que atravessara o punhal na garganta e, passando pela abertura, desceu a escada de madeira até ao andar inferior. Os homens apressaram-se a segui-lo e Guarin colocou a tampa no sítio. Ambos ouviram os ferrolhos a deslizarem nas cavilhas, mal o último homem desceu a escada.

Ficaram os dois ali, naquele tosco ninho de madeira, olhando um para o outro. Havia neve no soalho e gelo no ar que respiravam. Yves lambeu o sangue seco dos lábios e olhou em volta, procurando o melhor lugar para se instalar. A torre fora construída com a altura suficiente para permitir avistar o mais longe possível, sem que esta fosse vista acima da linha dos penhascos. A parede que a rodeava erguia-se até à altura do peito de Yves e só a partir daí começavam os merlões. Se se debruçasse e olhasse para fora, para a retaguarda, apenas avistaria a crista da escarpa acima dos penhascos a pique e, muito mais abaixo, a terra distante. O espaço em frente era demasiado vasto e vazio para ser reconfortante, com o vento e o frio a tornarem aquela experiência ainda mais amarga. E aquele dia fora melhor que os anteriores.

Dentro do seu campo de visão nada mexia, excepto a vigorosa animação que se vivia no pátio onde todo o posto de vigia estava a ser ocupado e todas as seteiras reforçadas com um arqueiro. Os homens do rei tinham desaparecido como raposas. Yves escolheu um canto sem neve, protegido contra o vento, e ali se sentou de costas contra a madeira passando os braços à volta do joelho. Qualquer contacto era bom para conseguir aquecer. E iria precisar de todo o calor que conseguisse obter. E Guarin também.

Não era dos piores, aquele Guarin. Yves conhecia bem o calibre de muitos dos homens que rodava o chefe e sabia distinguir quais os que tinham prazer em magoar, profanar e humilhar os outros seres humanos. E havia muitos assim, mas Guarin não fazia parte desse grupo. O garoto descobrira mesmo como alguns ali tinham vindo parar, conseguindo identificar os bons e os maus. Alguns eram bandidos, assassinos e ladrões porque queriam, porque assim tinham nascido. Outros não passavam de vigaristas miseráveis, vindos da cidade e que, fugindo da justiça, se refugiaram num sítio onde até os seus limitados talentos eram aproveitados. Havia vilões fugidos que se tinham revoltado contra a tirania colocando-se do outro lado da lei. Outros, mais bem nascidos eram filhos segundos e cavaleiros sem terra, que ali se consideravam soldados da fortuna. Até mesmo, homens repudiados e impossibilitados de trabalhar honestamente, por não serem precisos, ali tinham vindo parar, embora fossem poucos e encontravam-se encurralados sem pertencerem àquela guarnição. E, ainda que lamentassem o facto de ali terem vindo parar, não podiam libertar-se.

Guarin era uma alma fácil de enganar, sem crueldade. Não tinha qualquer escrúpulo em roubar ou saquear e, tanto quanto Yves pudera apreciar, desde que os outros tratassem dos assassinatos. Ele acompanhava o grupo e comportava-se em conformidade, mas se pudesse evitá-lo,não sujava as mãos de sangue. Porém, acima de tudo, cumprira as ordens que tinha, pois era a única forma de garantir o seu quinhão, a comida que necessitava, a bebida, o tecto e o calor. Se o senhor lhe ordenasse claramente que matasse, ele não hesitaria em obedecer.

À medida que o dia avançava, ia-se tornando mais claro. O tempo rigoroso, se não amenizara já, pelo menos assim o prometia. Passava do meio-dia quando alguém bateu vivamente no alçapão, puxou os ferrolhos e apareceu através do buraco da torre de madeira. Trazia um saco com pão e carne e uma ânfora de cerveja quente e aromática. Havia que chegasse para os dois e Guarin repartiu a ração com o prisioneiro. Ali, eram pródigos com a comida. Também tinham os mantimentos de, pelo menos, quatro quintas para se alimentarem.

A refeição ajudou durante um bocado, mas com o decorrer das horas, o frio tornava-se mais intenso. Guarin batia com os pés no soalho para os aquecer, enquanto passeava de um lado para o outro, vigiando as redondezas, de forma que não prestava grande atenção ao prisioneiro, limitando-se a, de vez em quando, lhe dirigir um olhar mais duro como que para o lembrar que se encontrava à sua mercê e melhor seria que não tentasse nada. Yves dormitou um sono inquieto durante um bocado, acordando tão gelado e rígido que verificou ser necessário levantar-se e bater os pés, enquanto agitava os braços vigorosamente para que o sangue circulasse de novo. O guarda riu-se e deixou-o dançar e pular à vontade. Que mal havia nisso?

A luz começava a enfraquecer. Yves acabou por seguir o guarda um pouco mais atrás, caminhando de um lado para o outro, espreitando em todos os vãos, para ver um mundo povoado apenas por inimigos. Do lado do precipício, em particular, guindou-se debruçando-se para conseguir ver para baixo, mas na sua frente nada havia do que o cume árido do penhasco e o vazio. Aquele lado da torre estava todo virado para a imensidão do céu. No canto oriental, Yves descobriu uma saliência na madeira tosca e, enquanto Guarin estava de costas, apoiou ali o pé elevando-se de modo a conseguir uma visão mais completa. Mais abaixo a orla do penhasco nivelava-se, e Yves, esticando-se, perigosamente, descobriu que pelo menos a paliçada não dava a volta completa ao castelo, terminando onde o penhasco começava. Naquele canto o precipício não era completamente a pique, pois dali conseguia ver a primeira plataforma recortada e coberta por uma camada de neve macia. A total imobilidade e a brancura despovoada daquela paisagem quase o convenceu da deserção dos seus amigos.

Mas, afinal, alguma coisa mexia naquele mundo todo branco, afinal a paisagem não se encontrava deserta! Yves piscou os olhos, não querendo acreditar no contorno de uma sombra que avançava e que, por momentos, exibira uma cabeça levantada, um rosto ensombrado que se erguera por instantes para avaliar o passo seguinte de uma escalada perigosa e solitária. No instante seguinte nada havia para ver, naquele extremo da paliçada, alguns metros abaixo do precipício, a não ser um monte de neve. Yves forçava os olhos, furioso, mas não vislumbrou qualquer outro movimento.

Um berro atrás de si fez que se apressasse a saltar dali para baixo, mesmo antes de a mão de Guarin o puxar e o.abanar violentamente.

- Que estás tu a fazer? Tolo, não podes escapar por aí - afirmou, rindo-se ao pensar nessa possibilidade, mas sem se preocupar, felizmente, em verificar para onde o rapaz estivera a olhar. - É melhor deixares que te cortem o pescoço do que esmagares os ossos lá em baixo.

Continuando a segurá-lo, obrigou-o a acompanhá-lo como se na verdade acreditasse que o prisioneiro lhe pudesse escapar através dos dedos, o que lhe sairia muito caro. Yves acompanhou-o sem resistir, pensando se não seria melhor lamentar-se um pouco sobre a sua sorte, para manter o homem ocupado.

Por agora tinha a certeza que não fora abandonado. Havia um homem ali no meio das rochas que cobrira o fato escuro com um lençol de linho branco, de forma a mover-se sem ser notado, um homem que arriscava a vida escalando a escarpa dos penhascos, rodeando o arvoredo, escondido dos olhos de todos, escalando a superfície rochosa abaixo da paliçada até atingir o pátio, daquele lado sem vigias, já que era considerado impossível alguém trepar por ali. E, agindo de uma forma tão disciplinada, movendo-se lentamente apesar do frio e do gelo, correndo o risco de enregelar e tornar-se parte da paisagem! Agora esperaria pela noite antes de se aventurar na parte mais perigosa.

Yves seguia, submisso, deixando-se guiar pela mão que o segurava, concentrando-se com toda a força na certeza que não fora abandonado, que havia heróis arriscando a vida por ele, que ele próprio seria levado a agir com o mesmo heroísmo antes de a batalha terminar, pelo que não devia vacilar.

A escuridão era cada vez maior e Guarin não parava de se queixar, até que por fim o seu substituto trepou a escada, abriu os fechos e içou o alçapão emergindo entre as tábuas. Este não pertencia ao grupo dos inofensivos, tratava-se de um carteirista de barba eriçada, cheio de cicatrizes e nariz achatado. O punho era maldoso e as unhas, imundas, gostavam de arranhar. Yves já tinha algumas marcas feitas por elas e ao vê-lo aparecer mordeu o lábio. Não sabia o nome dele. Possivelmente nem teria nenhum, apenas algum epíteto pelo qual era conhecido, sem ter família nem baptismo cristão.

Guarin também não morria de amores por ele: resmungou, vexado por aquele atraso, quando deveria ter sido substituído antes da noite. Discutiram um com o outro o que permitiu a Yves acocorar-se num canto abrigado, fora da vista e do pensamento. Podia sentir-se gelado, mas havia alguém que, no meio da noite escura, não estava longe e vinha para o ajudar.

Rezingando, Guarin apressou-se a descer a escada e Yves ouviu os ferrolhos a serem repostos no seu lugar. Tinham ordens a cumprir. Ali ficou, isolado, enfrentando aquele carniceiro imprevisível, que pararia apenas quando estivesse prestes a contrariar as ordens que tinha. Não se atreveria a matar ou a mutilar. Mas, impedido de o fazer, não hesitaria em sentir-se autorizado a magoar como lhe aprovesse.

Yves sentou-se, de costas apoiadas na parede de madeira, encolhendo-se naquele canto de costas para o vento. Imediatamente percebeu que o novo guarda não sentia qualquer boa vontade em relação à sua pessoa, culpando-o pelo desconforto a que era votado naquela noite gelada, quando poderia estar a aquecer-se num bom lume.

- Peste de fedelho! - vociferou, pontapeando-o com violência nos tornozelos, ao passar por ele - Devíamos ter-te cortado a garganta no mesmo sítio onde te encontrámos. Se os homens do rei te tivessem encontrado morto, não teriam motivo para te vir aqui procurar e continuaríamos felizes e escondidos.

Yves teve de reconhecer a verdade daqueles argumentos. Levantou-se, para de novo se sentar, acocorado no seu canto. Tentava fazer-se o mais pequeno possível e segurar a língua, mas o silêncio não acalmou o guarda, pelo contrário, antes parecia enfurecê-lo mais.

- Se dependesse de mim estarias aí pendurado a servir de pasto aos milhafres. E não penses que conseguirás escapar. Seja qual for o acordo que fizerem a teu respeito, bem podemos esquecê-lo assim que estivermos longe daqui. O que nos impede de usar a tua vida como penhor para sairmos daqui e depois devolvermos-te como cadáver? Diabos te levem! Responde-me!

De novo o pontapeou, maldosamente, na virilha. Yves apressou-se a desviar, mas não conseguiu evitar o golpe completamente, o que o fez explodir de raiva e de dor.

-O que vos impede?-berrou irado.-O facto de o teu senhor ainda ter alguns vestígios de educação e ainda prezar minimamente a sua palavra. E o melhor será que cumpras as ordens que ele te deu à risca, pois neste momento eu sou-lhe muito mais necessário do que tu. A ti pode ele pendurar-te ali, de ânimo leve, e sem ter nada a perder.

Sabia que fora insensato, mas fartara-se de ser prudente e de agir contra a vontade da sua índole. Viu o punho enorme dirigir-se-lhe para a cabeça e, mergulhando, saltou em frente. Num campo tão limitado poderia acabar encurralado, mas era mais leve e rápido do que o adversário e pelo menos o exercício mantinha-o mais quente, do que se estivesse parado. O homem veio atrás dele, suficientemente sensato para praguejar em voz baixa, pois qualquer barulho fora do normal atrairia gente a investigar o que se passava. E assim balbuciava as obscenidades, enquanto, com os braços esticados, tentava agarrar a sua presa.

- Como te atreves, franganote? Como te atreves a ser tão insolente comigo? Como te atreves a falar-me assim? A mim, que só com um braço te desfaço? Se não te posso cortar o pescoço, achas que isso me impede de te arrancar a pele? Ou de te fazer engolir alguns dentes por essa garganta abaixo?

Ao esquivar-se ao braço que o tentava agarrar, Yves reparou que atrás do ombro do inimigo, a pesada tampa do alçapão começara a erguer-se. Tinham estado tão entretidos com a luta que nem tinham dado pelo deslizar dos ferrolhos, ainda que quem os abrira não tivesse a preocupação de o fazer em silêncio. A cabeça que espreitou, embora apenas iluminada por aquele crepúsculo tardio, que lá em baixo já nem devia existir, era desconhecida para Yves, mas avançava tão furtiva e silenciosamente, que o coração deste acelerou-se esperançado. Como se pode reconhecer à primeira vista, definitivamente, que alguém nunca poderia pertencer a um bando de assassinos e ladrões? Se o guarda se virasse naquele momento ficaria de frente para o recém-chegado, que, tendo firmado os pés no chão, começava agora a endireitar-se. Aquele canalha danado não podia virar-se agora. E se Yves lhe escapasse, ele voltar-se-ia para o perseguir e agarrar.

Yves escorregou na neve gelada, ou pelo menos assim pareceu, e o punho ameaçador atingiu-o em pleno peito, atirando-o contra o parapeito. Em seguida, agarrando-lhe por um punhado de cabelo, puxou-lhe a cabeça para trás, expondo-lhe o rosto e começou a escarrar-lhe no rosto, rindo triunfante. Yves, tentando afastar-se o mais possível daquela infâmia e, impossibilitado de erguer a mão para limpar o rosto, viu que o desconhecido se tinha endireitado e, sem qualquer ruído, voltara a fechar o alçapão sem despregar os olhos do par, encostado à parede posterior. Não desprezou nenhum detalhe cauteloso para correr em seu auxílio. Foi o melhor dos elogios e Yves sentiu o coração encher-se-lhe de gratidão e respeito. Daquela maneira, o outro provara-lhe que aproveitara a sua ajuda, que entendia que ele não era uma simples vítima, mas antes um cúmplice naquela guerra secreta e grandiosa.

Viu-o dar o primeiro passo rápido e silencioso em direcção a eles e então sentiu a cabeça violentamente sacudida por um forte estalo na cara, logo seguido de outro que a virou para o outro lado. Sentia-se tonto e a desfalecer. Para maior segurança soltou um gemido, não muito alto, que chegasse apenas para encobrir os movimentos do seu aliado, que deveria estar agora muito próximo.

- Não, pare! Está a magoar-me! Deixe-me... Desculpe, desculpe... não me bata...

Havia algo de vitorioso no seu tom de voz e os pelos mantinham-se-lhe erectos, mas aquela criatura nada notou, cantando e escarejando exultante.

E ainda se ria quando um braço comprido o apanhou pela cara, tapando-lhe a boca, atirando-o ao chão de costas contra as tábuas. Depois, o corpo ágil, forte e jovem baixou-se a seu lado, mergulhou-lhe um joelho na barriga como se quisesse esvaziá-lo de todo o ar, para de seguida, afastando-lhe o capacete cónico de metal, lhe erguer a cabeça calmamente à altura necessária para o fazer bater com o crânio contra a madeira, com uma força surpreendente. Deixou-o como um peixe fora de água, mudo, quieto e com o corpo flácido.

Yves baixou-se, extasiado ao pé dos dois e, lençando-se como um falcão amestrado, inclinou-se para desfivelar o cinto que segurava o punhal e a espada do guarda. As mãos tremiam-lhe, mas, concentrando-se tenazmente naquela tarefa, soltou as armas, empurrando o cinto na direcção do desconhecido que aguardava com confiante e recomendada placidez e paciência e que, imediatamente, o apertou à volta dos ombros do guarda, ma-nietando-lhe os braços atrás das costas. Voltou-se então para examinar mais de perto o rosto do seu ajudante. Este sorria. A única luz ali existente provinha das estrelas, cujo brilho era puro e claro e tornava o sorriso inequívoco.

Levou a mão ao largo peitilho do fato castanho de camponês que envergava, extraiu uma comprida peça de linho branco e estendeu-o a Yves.

- Limpai a cara - proferiu numa voz calma e baixa, na qual se adivinhava o sorriso e o elogio -, antes de eu lha enfiar na boca para o manter caladinho.

 

Yves limpou a face e a testa conspurcadas num silêncio fascinado e irreverente, sem conseguir desviar os olhos do rosto que o encarava do outro lado do corpo inanimado do seu torturador. A luz fraca das estrelas vislumbrou o brilho de uns dentes alvíssimos e os olhos vivos que fulgiam como âmbar. O capuz caíra-lhe, descobrindo-lhe o cabelo negro ondulado, que sem se encaracolar desenhava uma curva, formando um espesso gorro que lhe emoldurava a cabeça vigorosa. Tanto as feições como a maneira como se movia, provavam a sua juventude e audácia. Ao contemplá-lo, Yves entregou-lhe o coração. Já antes tivera heróis, entre eles o próprio pai, mas este era novo, recente e, acima de tudo, estava ali.

- Devolvei-me o pano! - ordenou o seu aliado, estendendo-lhe os dedos a exigir o pedaço de linho, que Yves se apressou a entregar.

Uma ponta do pano foi bruscamente enfiada na boca aberta do guarda, o restante amarrou-o à volta da cabeça, de forma a tapar-lhe os olhos, deixando-o cego para além de mudo. A outra extremidade atou-a ao cinto que lhe imobilizava os braços. Como não havia nenhuma corda para atar as pernas do prisioneiro, num instante se desembaraçou dos atilhos de couro da sua jaqueta, apertou-lhos à volta dos tornozelos e dobrou-lhe as pernas, de forma a conseguir amarrar as mãos aos pés do prisioneiro. Por fim, este mais parecia uma encomenda bem embalada e pronta a ser transportada. Yves observava-o de olhos muito abertos, maravilhando-se com a economia de movimentos executados durante todo o processo.

No instante seguinte, olharam-se mutuamente satisfeitos. Yves ia abrir a boca para falar quando um dedo proibidor poisado nos lábios ainda sorridentes o impediu.

- Esperai - ordenou a voz serena e profunda num sussurro. Os sussurros nunca têm grandes vantagens a não ser alarmar. Aquele murmúrio, foi captado imediatamente pelos ouvidos do garoto. - Vejamos se conseguimos sair por onde eu entrei.

Yves, estremecendo, baixou-se, decidido a não se mover e a manter os ouvidos alerta. O companheiro estava estendido sobre a tampa, com o ouvido colado à madeira. Passados alguns momentos, ergueu cuidadosamente uma fresta e espreitou a escuridão que cheirava à madeira que revestia todo o interior da torre. Do exterior, do pátio e da plataforma de vigia, ao longo da paliçada, chegava-lhes o som de vozes e de movimentos, próprios de uma guarnição em estado de alerta, mas ali, imediatamente abaixo das traves, tudo era silêncio e nada se mexia.

- Podemos tentar. Segui-me de perto e fazei o que eu fizer. Levantou a tampa e deslizou pela escada, apoiando-se apenas nas mãos, ágil como um gato, e Yves apressou-se a segui-lo. Na penumbra do piso inferior, aguardaram imóveis, de costas contra a parede mais escura, mas nada se mexeu a ameaçá-los. A partir dali a escadaria era fixa e sólida, ainda que tosca. Tinham chegado a meio do lance e já ouviam o burburinho da intensa actividade no salão, ao mesmo tempo que vislumbravam o reflexo treme-luzente das tochas e da lareira que se escoava pelas frestas de uma enorme porta mais abaixo. Faltavam alguns degraus para alcançarem a base da torre, ao nível do salão, onde se encontrariam separados de Alain le Gaucher e do seu bando, por aquela simples porta. Um braço comprido estreitou Yves, obrigando-o novamente a imobilizar-se e a escutar.

A base da torre era metade de rocha, metade de terra batida e o ar que lhes chegava até ali era mais frio do que entre a madeira maciça lá em cima. Espreitando com destemido desespero o andar inferior, Yves viu, num canto mais afastado, o pé fundo de um vão de porta e sentiu a forte corrente de ar que por ali se escoava. Aquela porta estreita dava certamente para o exterior, provavelmente a mesma utilizada pelo seu salvador. Se ao menos conseguissem alcançá-la sem serem vistos, aumentariam as probabilidades de poderem regressar pelo mesmo caminho e sair daquele castelo hostil. Não sentia qualquer receio, nem mesmo de se aventurar a descer pelas rochas na escuridão, pois tinha como guia aquele ser superior. O que um fizera sozinho, certamente para dois seria mais fácil.

Foi o primeiro degrau daquele lance final que os denunciou. Até ali a escada mantivera-se sólida e silenciosa, mas mal o pé tocou na prancha de madeira solta, esta saltou e voltou a cair ruidosamente e o eco, transportando o barulho do impacte, fê-lo soar pela torre acima numa cadeia de repetições alongadas. No salão alguém berrava um alarme, ouviu-se uma corrida de passos apressados e a porta enorme escancarou-se espalhando luz e homens armados.

-Para trás! -ordenou imediatamente o desconhecido e, sem hesitações, virou-se apressando o garoto a seguir na sua frente pela escadaria que acabavam de descer. -Para o telhado, rápido!

Não havia outra alternativa de fuga e o breve impasse lá em baixo, provocado pela necessidade dos homens habituarem os olhos à escuridão, ao saírem da sala profusamente iluminada, só duraria um momento. Mal passara e logo o primeiro homem, soltando um grito de fúria e de alarme, começou a trepar as escadas com a impetuosidade de um touro.

Quando a longa escadaria terminou e se abeiraram da escada, Yves sentiu que o erguiam até metade da distância que o separava do alçapão aberto e que correspondia à altura de um homem. Agarrou-se então à escada e subiu, mas, hesitante e olhando para trás, não querendo deixar o companheiro para trás, até que este lhe ordenou com rudeza:

- Vá lá! Despachai-vos!

Yves acabou por subir aos tropeções e, deitando-se de barriga para baixo, espreitou pelo alçapão, esticando-se ansiosamente a tempo de ver, numa confusão de sombras, ainda mais acentuada pela luz das estrelas que se escoava pela abertura do alçapão, que o primeiro perseguidor chegara cambaleante ao topo da estreita escada de madeira e de espada em punho agitava-a no ar. Tratava-se de um homem grande e corpulento, que tapava da vista aqueles que o precediam.

Yves não repara ainda que, naquele momento, o seu aliado desembainhara já a sua espada. Aquela que tinham tirado ao guarda continuava estendida no telhado, embora Yves tivesse guardado o punhal orgulhosamente no cinto, em substituição do que lhe tinham tirado. O clarão breve de uma lâmina rasgou a escuridão como um raio de luz distante, que abria à força o seu caminho. O bandido soltou um grito ultrajado, quando a espada curta que empunhava lhe voou da mão indo parar junto da parede oposta. No instante seguinte, foi atingido no peito por um pé vigoroso, que o empurrou para trás antes de ter recuperado o equilíbrio. Caiu por ali abaixo, provocando um barulho longo, repetido pelo eco e levando consigo os homens que o seguiam. A escadaria era estreita e desprotegida e dois ou três foram arrastados pelo corpo pesado do homem que os chefiava, enquanto pelo menos um caía para o lado, desamparado, onde o esperava uma queda ainda maior.

Imediatamente o jovem se voltou e, saltando para o meio da escada, alcançou o telhado. No instante seguinte encontrava-se ao lado de Yves. Poisou a espada brilhante no gelo que cobria o telhado e, inclinando-se, agarrou a escada com as mãos musculosas começando a içá-la. Assim que Yves recuperou a serenidade, inclinou-se também para auxiliar o amigo a erguer aquele peso bruto, degrau a degrau. Com toda a força que fazia e com o fôlego que recuperara, arquejava exultante. A escada encontrava-se encaixada nos extremos, quer em cima, quer em baixo, mas não estava fixa. Cedeu facilmente e encontrava-se já fora do alcance do homem mais alto, muito antes de o primeiro inimigo irromper, furiosamente, no andar de baixo e tentar segurá-la.

Por fim, a parte de baixo foi levantada e a escada caiu no soalho gelado com um estalar queixoso do vidrado do gelo. As vocifera-ções irritadas chegavam-lhes pela abertura e Yves inclinou-se, erguendo a tampa para fechar o alçapão, quando o companheiro lhe fez sinal para se afastar e o garoto, enfeitiçado, apressou-se a recuar. Tudo o que o seu herói fizesse só podia estar bem feito.

O herói, sorrindo visivelmente, ainda que o sorriso se perdesse na escuridão, pegou calmamente no guarda prisioneiro que se mexia desconfortavelmente devido às mordaças, pela corda que lhe ligava os pés aos pulsos, atrás das costas, arrastou-o até à abertura, virando-o propositadamente para que a cabeça não sofresse o impacte da queda e empurrou-o quase com gentileza pelo alçapão aberto, onde caiu sobre os companheiros, deixando dois ou três estendidos sobre o soalho. Os gritos de dor e de espanto foram abafados assim que a tampa foi reposta.

- Depressa! - exclamou a voz plácida quase numa censura. - A escada para aqui, para cima da tampa. Assim. Agora instalai-vos desse lado que eu instalo-me deste e quem conseguirá agora desalojar-nos?

Yves fez tal como o outro ordenara, deitando-se de barriga para baixo sobre a escada com a cara afundada nos braços, arfando e tremendo durante algum tempo. As tábuas por baixo do corpo pulsavam com o tumulto que no andar inferior se consumia na ofensiva violenta aos cerca de seis metros que os separava do alçapão. E, ainda que arranjassem maneira de os alcançar, como poderiam erguer a tampa para entrar? Esta encaixava-se perfeitamente e não deixava qualquer fresta por onde pudesse passar espada ou lança. Ainda que conseguissem subir e abrir caminho com um machado, só ali cabia um de cada vez e os dois estariam então preparados para o receber de arma em punho. Yves continuava rigidamente estendido, desejando pesar o dobro, esticando os braços e as pernas e com a respiração suspensa. Apesar do frio cortante, estava banhado em suor.

- Levantai a cara, coração - exclamou a voz do outro lado da escada, quase alegremente. - Deixai-me ver de novo esse rosto galante ainda que machucado, mesmo desfigurado. Deixai-me ver o meu troféu.

Yves levantou a cabeça que escondera nos braços e olhou confuso para o outro lado da escada, enfrentando os olhos que fulgiam doirados e o sorriso brilhante e indulgente. O rosto jovem e oval, adornado pela espessa cabeleira negra, estava assente nuns ossos salientes. As sobrancelhas eram escuras e finas, os lábios compridos e o nariz largo e arrogantemente curvo parecia uma cimitarra. De barba lisa como um normando, a pele era femininamente macia mas de um tom brilhante azeitonado:

- Respirai fundo e deixai que eles se esfalfem. Acabarão por se cansar. Se nós não conseguirmos passar por eles, também eles não poderão chegar até nós. Isso dá-nos tempo para pensar. Não vos aproximeis do parapeito. Eles conhecem bem a casa e podem ter colocado arqueiros prontos a disparar em qualquer cabeça desavisada.

- E se resolvem deitar fogo à torre e queimar-nos vivos? - lembrou Yves, tremendo tanto pela excitação como pelo medo.

- Não são assim tão tolos. Nem o poderiam fazer, sem que o salão não ficasse igualmente condenado. Para mais, por que se hão-de preocupar se sabem que nós não podemos sair? Aqui ao frio ou lá em baixo numa cela, estamos encurralados. Assim é... por agora. Eu e o senhor Yves Hogonin temos muito em que pensar.

Baixou a cabeça, impondo silêncio com a mão erguida, para ouvir o som de vozes vindo de baixo, que agora mal passava de um murmúrio conspirativo.

- Estão satisfeitos. Concluíram que estamos aqui fechados em segurança e vão deixar-nos gelar. São necessários lá fora e ficará apenas um ou dois para vigiarem a saída. Esperarão até nos apanharem.

A serenidade com que falara atestava a sua despreocupação. No andar inferior, o sussurro conspirativo atenuara-se e desaparecera. Tal como previra, Alain le Gaucher, reconhecera a necessidade de se concentrar naquilo que era mais urgente e precisava de todos os homens junto da paliçada. Os prisioneiros que ficassem à vontade naqueles escassos metros quadrados de torre que tinham conquistado. Deixá-los gozar aquele domínio, que em breve os gelaria até ao desespero e, se preciso fosse, até à morte. Qualquer tentativa de fuga seria fracassada.

Fez-se um estranho e suspeito silêncio no andar inferior. E não havia dúvidas que o frio os fustigava cada vez mais, ameaçando gelar tudo naquela noite tão escura, tão comprida, tão mortal.

O jovem abandonou o posto de escuta e, voltando-se, estendeu o braço comprido na direcção de Yves.

- Chegai-vos para aqui. Vamos tentar aquecer-nos o mais que pudermos. Vamos! Daqui a pouco já poderemos abrandar, mas por enquanto seguraremos a escada e resolveremos o que fazer a seguir.

Yves arrastou-se, agradecido, ao longo da escada e foi acolhido pelo calor de um braço envolvente. Instalaram-se os dois juntos, apreciando conforto mútuo, encaixados num abraço que os tronava numa massa única e calorosa. Yves inspirou fundo, encostando, quase timidamente, o rosto naquele ombro acolhedor.

-Vós conheceis-me - afirmou Yves hesitante. -Mas eu não vos conheço.

- Haveis de conhecer, Yves. Ainda não tive tempo de me apresentar formal e respeitosamente a Vossa Senhoria. Para os outros, mas não para vós, meu amigo, eu sou Robert o filho de um dos lenhadores da Floresta de Clee. Dir-vos-ei quem sou na verdade, se fordes capaz de guardar um segredo sem hesitações e sem dar à língua. Sou um dos mais recentes escudeiros de vosso tio Laurence D'Angers e chamo-me Olivier de Bretagne. O meu senhor aguarda ansiosamente em Gloucester notícias vossas. Eu fui incubido de vos procurar e encontrei-vos. E podereis ter a certeza de que não vos tornarei a perder.

Yves sentiu-se sem fala, divido entre o atordoamento, a alegria, e a apreensão.

- Verdade? O meu tio mandou-vos à nossa procura para nos levares de volta? Em Bromfield disseram-me que ele pedira para nos vir procurar a mim e à minha irmã. - A lembrança de Ermina fê-lo tremer e sentir-se culpado, pois de que valia ele ser salvo se ela continuava perdida! - Ela, a minha irmã... Deixou-nos! Não sei onde se encontra! - concluiu, quase num sopro.

- Ah? Mas aí eu estou em vantagem, porque eu sei! Não vos preocupeis com Ermina. Ela encontra-se sã e salva em Bromfield. Verdade, podeis acreditar. Iria eu mentir-vos? Eu próprio a conduzi até lá. Foi nessa altura que soubemos, ainda ela não entrara no portão, que vos tinham perdido novamente.

- Não pude evitá-lo, tive de partir...

Era demasiado para assimilar assim de repente. Yves calou-se, ordenando as ideias. Agora já não era preciso preocupar-se com o paradeiro de Ermina e, apesar da situação perigosa em que se encontrava, deu por si a necessitar de alguém que o apoiasse no resentimento que sentia, por ela ter originado tantos problemas, não só a ele como a muitos outros.

- Não a conheceis! Ela não vergará! - exclamou ele indignado. - Quando descobrir que eu desapareci é capaz de qualquer coisa! Foi ela que provocou isto tudo e se bem o entender não hesitará em tornar a partir para fazer outro disparate qualquer. Não a conheceis como eu!

Yves considerou um abuso de confiança da parte de um desconhecido, o facto de Olivier se rir, ainda que suave e amistosamente.

- Ela obedecerá. Não receeis, ela estará à nossa espera em Bromfield. Mas acho que tendes uma história para me contar, antes de eu vos contar a minha. Desabafai o que vos vai no coração. Temos tempo, pois será melhor não nos mexermos. Sinto qualquer coisa a agitar-se lá em baixo.

Yves não ouvia nada.

- Sei que resolveram fugir de Worcester, sei também que a vossa irmã vos abandonou e também sei qual a razão. Ela contou-me e não fez disso segredo. E, se vos agrada saber, não, ela não casou, nem pensa fazê-lo, por agora. E reconhece a tolice do seu acto. E, agora, que vos aconteceu depois de ela ter partido?

Yves aninhou-se naquele ombro coberto pelo pano grosso e despejou a história toda, desde o momento em que se perdera na floresta, lembrando a confortável e gentil figura do Prior Leonard e do irmão Cadfael de Bromfield, a tragédia da irmã Hilária e a desesperada partida no encalço do pobre irmão Elyas.

- E lá o deixei, nunca pensando... -Yves estremeceu, pensando nas palavras que o irmão Elyas proferira quando ambos dormiam lado a lado no abrigo. O que ele dissera era algo que não poderia partilhar, nem mesmo com aquele ser formidável.

- Estou preocupado com ele. Mas deixei a porta destrancada. Achais que o conseguiram encontrar? A tempo?

- No tempo de Deus - respondeu Olivier, com convicção -, que nunca é tarde de mais. O vosso Deus vela pelos fracos de espírito e providenciará para que o perdido seja encontrado.

Imediatamente, Yves captou a estranheza daquelas palavras.

- Oh, meu Deus? - repetiu, olhando o rosto escuro tão próximo do seu, com aguda curiosidade.

- Oh, é o meu também, embora eu seja cristão quase por acaso. A minha mãe, Yves, era muçulmana, natural da Síria e o meu pai um cruzado, seguidor de Robert da Normandia, natural desta mesma Inglaterra e regressou a casa ainda eu não era nascido. Abracei a sua fé e juntei-me ao seu povo em Jerusalém, mal me tornei homem. Foi aí que encontrei serviço, sob as ordens do meu senhor, vosso tio, e quando este regressou eu acompanhei-o. Tal como vós sou cristão, eu por opção, vós por nascimento. E, Yves, cá dentro sinto uma certeza de que encontrareis o vosso irmão Elyas na mesma, apesar da noite fria que enfrentou. O melhor será concentrarmo-nos na maneira de conseguirmos sair daqui a salvo.

- Como conseguísteis entrar? - perguntou Yves. - Como sabíeis que eu aqui estava?

- Eu não sabia, até que o vosso hospedeiro, mal educado, vos pendurou ali e vos encostou a faca no pescoço. Eu vira-os à distância, passar com todo o carregamento e pensei que valeria a pena seguir semelhante grupo até ao ninho. Eles atravessaram os campos de noite... vós havíeis desaparecido durante a noite... era pois possível que levassem prisioneiros, se concluíssem poder obter algum proveito com eles.

- Então também sabeis que temos um exército de amigos lá fora - declarou Yves, animado por uma ideia maravilhosa.

-Amigos vossos, sem dúvida. Mas meus? São amigos que prefiro evitar, embora não seja culpa deles. Ainda não sabeis que estou ao serviço de vosso tio e que este é fiel à imperatriz Maud? Não estou disposto a cair nas mãos do xerife e ir malhar com os ossos nalguma prisão de Shropshire. Embora eu também lhes deva um favor, pois foi quando eles retiraram que eu consegui rodear a paliçada e chegar às rochas sem ser visto, enquanto estes vermes cá dentro corriam para o portão. E, uma vez cá dentro e coberto pela noite, quem consegue distinguir um bandido do outro a atravessar o pátio? Eu sabia onde vos tinham fechado. Vi o vosso guarda a ser rendido.

-Então sabeis também que a única razão que levou Hugh Beringar a retirar foi a ameaça à minha vida. Eu sei que ele não se afastou muito, sei que ele não desistiria com tanta facilidade. E, agora, não vedes que não há ninguém a ameaçar-nos com uma navalha e que não há razão para que não ataquem?

Olivier percebeu a ideia e olhou-o com respeito divertido. Desviou o olhar, pensativo, para a espada do guarda ali pousada e, em seguida, reparou no capacete de metal que rolara para um canto. Os olhos de âmbar, mais profundos e brilhantes do que nunca, voltaram-se então para Yves, risonhos.

- Uma pena não termos aqui trombetas para iniciar o ataque, mas utensílios para um poderoso tambor, isso arranja-se. Baixai-vos ali junto ao parapeito e tentai fazer o que puderes, enquanto eu fico aqui de guarda. Só terão alguns minutos para tentarem cá chegar, depois disso serão mais necessários lá em baixo, se os vossos amigos forem tão argutos como vós.

 

O irmão Cadfael passara o dia vagueando por entre as faixa de árvores, correndo-a de um extremo ao outro, recuando, estudando o terreno palmo a palmo, perscrutando em cada elevação do solo que os separava do muro, a mais ínfima possibilidade de esta servir de abrigo a alguém que no meio da escuridão pudesse avançar sem ser visto.

Hugh proibira os homens de se mostrarem e tiveram grande trabalho para conseguir espalhá-los o mais possível, mantendo-os ao mesmo tempo fora de vista. Alain le Gaucher não podia sair e o exército do xerife não podia entrar. Encontravam-se num impasse total, o que levara Hugh a morder os nós dos dedos de frustação. Não duvidava da quantidade de carne e de cereais roubados, existentes ali dentro. Era mais do que o suficiente para manter a guarnição inteira por algum tempo. Fazê-los sucumbir pela fome, tornar-se-ia assim um processo moroso e o garoto ficaria igualmente sujeito a ele. Le Gaucher poderia estar disposto a entregar o rapaz, se o deixassem seguir com os seus homens em liberdade, mas isso seria condenar uma outra qualquer região a sofrer o mesmo infeliz destino. Nem como último recurso! O dever de Hugh era assegurar a ordem e a justiça naquele condado e tencionava cumpri-lo.

Destacara das suas hostes uma série de homens que clamavam uma certa destreza em escalar montanhas, por terem cerscido e nascido em terras acidentadas. Levara-os até a ravina para examinarem o penhasco de ambos os lados e tentarem descobrir um sítio, por onde fosse possível trepar e penetrar, naquela fortaleza pela retaguarda, sem serem vistos. A ligeira elevação do terreno atrás da fortaleza providenciava um certo abrigo que, visto mais de perto, constatava-se que abria para uma queda a pique, na qual apenas os pássaros poderiam encontrar poiso. A única alternativa possível resumia-se a um local onde não deixariam de ser vistos, o que provocaria nova sangria no pescoço de Yves. Junto à paliçada era provável que o terreno permitisse que um homem isolado rodeasse as traseiras, desde que este tivesse boa cabeça para as alturas. Mas para isso teria de atravessar uma grande parte do terreno aberto coberto de neve e, naturalmente, só, serviria para aumentar as possibilidades de Yves ser morto, enfrentando ele próprio uma morte certa.

Mas no escuro?! Sim, talvez. Se a camada de neve dificultava os movimentos, pelo menos havia alguns sítios onde a rocha nua emergia, quebrando a brancura traiçoeira. A noite chegou por fim, demasiado tranquila, iluminada pelas estrelas e pelo brilho da neve com o céu limpo e o ar estabelecido devido ao gelo. Naquela mesma noite em que os fortes nevões e os ventos violentos poderiam dificultar a visibilidade e encobrir os fatos escuros com o seu véu protector, nem uma brisa se sentia, nem uma amostra de neve no céu. O silêncio e a quietude eram tais, que até o estalido de um ramo pisado poderia ser ouvido do lado de lá da paliçada.

O barulho que então começou provinha do telhado da torre. Alguém, ali em cima, batia insistentemente num escudo, ou nalgum gongo ainda que improvisado. Que razão poderia levar um dos bandidos a fazer semelhante alarido, de uma forma tão violenta, se nem sequer se esboçara qualquer ofensiva? E o barulho provocara outros sons dentro da paliçada, abafados, sem palavras, mas inesquivocamente carregados de fúria e de vingança. Uma voz estrondosa que só poderia pertencer a Alain le Gaucher, berrava as suas ordens. Não havia dúvidas que todas as atenções se tinham desviado do inimigo do exterior, para se concentrarem na inesperada investida vinda da torre.

Cadfael agiu quase sem pensar. Havia uma elevação na superfície rochosa a meio do caminho até ao muro, uma estreita mancha escura que quebrava a uniformidade branca. Saiu do abrigo das árvores e correu até lá, aí se deixando cair ao comprido, pois mantendo o hábito negro imóvel poderia passar despercebido a quem continuasse de vigia. Duvidava que lá continuasse alguém.

As batidas continuavam sem descanso, embora o braço de alguém devesse estar a ressentir-se. Cautelosamente, ergueu a cabeça para examinar o topo da torre que se recortava nítido contra o céu. O ritmo do tambor desafinado foi quebrado e quando parou, Cadfael viu uma cabeça espreitar cuidadosamente por entre os merlões. Ouvia-se o ominoso som de estilhaços e quedas vindos abafados pela madeira sólida da torre, como se alguém estivesse a utilizar um machado. A cabeça apareceu pela segunda vez. Cadfael acenou com o braço, a manga negra sobressaindo na neve, e gritou:

- Yves!

Duvidava que este o pudesse ouvir, embora o ar líquido transportasse os sons com meticulosa precisão. Mas certamente que fora visto. A cabeça, mal se via abrigada pelo parapeito, ergueu-se, expondo-se com cautela, por momentos, para guinchar no auge da excitação:

- Avancem! Mande-os avançar! Nós dominamos a torre. Somos dois e armados!

Logo desapareceu atrás de um merlão e, mesmo a tempo pois, pelo menos um arqueiro estivera a observar a mesma linha recortada, uma seta cravou-se no topo do vão e aí ficou baloiçando. Desafiadora, a música vinda da torre recomeçou a sua batida resoluta.

Cadfael levantou-se do ninho de pedra e sem pensar no perigo, desatou a correr em direcção às árvores. Uma seta perseguiu-o, mas caiu atrás dele e Cadfael surprendeu-se ao ouvir o sibilar extinguir-se na neve, sem o atingir. Afinal deveria ter uma corrida muito mais veloz do que pensara, pelo menos quando estava em jogo a própria vida e a de muitos outros. Sem fôlego, atingiu a área coberta e caiu nos braços de Hugh Beringar.

Pelo movimento que se estendia ao longo da orla do arvoredo, percebeu imediatamente que Hugh não perdera tempo e as hostes encontravam-se já prontas a avançar, aguardando apenas uma palavra urgente.

- Avancem! - exclamou Cadfael tentando acalmar a respiração. - Yves está-nos a fazer sinal. Diz que controlam a torre. Alguém conseguiu chegar junto dele, só Deus sabe como! O único perigo agora é o nosso atraso.

Não se perdeu mais tempo. Hugh encontrava-se em cima do cavalo no momento seguinte, ainda Cadfael não acabara de falar.

Ele da esquerda e Josce de Dinan da direita, saíram das árvores carregando contra os portões do castelo de Alain le Gaucher, logo reunidos pelos homens a pé, que empunhavam as lanças e algumas tochas que mais tarde seriam acesas para incendiar os edifícios.

O irmão Cadfael viu-se assim abandonado sem qualquer cerimónia e ali ficou tentando normalizar a respiração. Foi quase com certo ressentimento que se resignou ao facto de ter posto as armas de lado, havia tanto tempo. Ainda assim não havia nada nos seus votos que o impedisse de seguir, desarmado, o mesmo caminho dos homens armados. De maneira que avançou, determinado, através do campo coberto de neve, agora pisado por inúmeros cascos e pés, ao mesmo tempo que o assalto convergia num só ponto: na tomada do portão que lhes permitisse penetrar no interior da fortaleza.

Apesar de todo o barulho que Yves dedicadamente fazia, conseguiu ouvir a investida dos homens do xerife e sentiu a torre abanar quando estes atingiram o portão, com um martelo aguçado, e rebentaram as traves de madeira provocando uma chuva de lascas voadoras. O clamor da batalha corpo a corpo que se seguiu enchia o pátio. Nisso já não os podia ajudar. As traves do soalho balançavam, devido às machadadas furiosas que alguém em baixo desferia e Olivier, de espada em punho e pernas afastadas, mantinha a escada e a tampa do alçapão firmes, contra a violenta investida. A escada erguia-se a cada novo impacto, mas enquanto estivesse ali atravessada, a tampa não poderia ser erguida a não ser que a rachassem. E nesse caso só poderiam penetrar expondo primeiro uma mão ou uma cabeça, que em ambos os casos ficaria à mercê de Olivier. E, num caso tão extremo este, não teria piedade. Entesado dos pés à cabeça, impedia a entrada do inimigo contrapondo o seu peso, de espada pronta a cortar ou ferir a primeira carne que aparecesse.

Yves baixou o braço dorido e libertou o capacete de metal de entre os pés, mas depois, pensando melhor, tornou a apanhá-lo e enfiou-o na cabeça. Por que havia de desprezar a protecção que este lhe oferecia? Chegou mesmo a agachar-se bem abaixo do nível do parapeito, ao estender a mão aberta para agarrar o punho da espada e atravessar o telhado. Agarrando-se a Olivier, firmou os pés nas traves da escada, acrescentando assim mais peso à barricada. Os lenhos na madeira eram já visíveis e voavam lascas em todas as direcções, embora não houvesse nenhuma fresta por onde uma lâmina pudesse passar.

- Nem haverá - garantiu Olivier, seguramente convicto. - Escutai.

Ouvia-se a voz gritante de Alain le Gaucher ecoando caverno-samente por todos os recantos da torre.

- Ele está a chamar os seus mastins, pois precisa desesperadamente de todos eles lá em baixo.

O machado feriu de novo, num poderoso arremesso que rachou a já retalhada trave do soalho, deixando ver um triângulo comprido de lâmina brilhante. Mas aquela fora a última. O atacante teve dificuldade em libertar de novo a lâmina, o que o fez praguejar, mas não tentou novo ataque. Ouviram um grande alarido pela escada abaixo e então tudo ficou silencioso dentro da torre. No pátio, o tumulto da luta e o clamor das armas enchia completamente o recinto, mas ali em cima, sob a pacífica quietude do céu, os dois olharam-se, descontraindo-se, ao sentir um súbito alívio por aquela ameaça afastada.

- Não que ele se atrevesse a utilizar-vos da mesma forma - afirmou Olivier, empunhando a espada. - Isto, se chegasse a pôr-vos a mão em cima. Se perdesse tempo a tentar tirar-vos daqui, não tardaria a perder tudo o que a vossa garganta poderia salvar. Agora, terá de ganhar esta batalha, antes de poder incomodar-vos novamente.

- Ele não conseguirá ganhar! - afirmou Yves, vivamente. - Escutai! Eles já cá estão dentro. Nunca recuarão, agora que o têm encurralado.

Espreitou por entre um merlão a confusa batalha que em baixo se travava. O pátio estava completamente revestido e ocupado por homens em luta, agitando e tumultuando a noite, lembrando as vagas de uma tempestade nocturna em alto mar, apenas iluminada pela chama das tochas que ainda ardiam.

- Incendiaram a casa do portão e estão agora a tirar os cavalos e o gado e a acabar com os arqueiros da paliçada... vamos até lá dar uma ajuda?

- Não - respondeu Olivier com firmeza. - Só desceremos quando a isso formos obrigados. Se caíres agora em mãos erradas, vai tudo por água abaixo e voltaremos ao ponto de partida. O melhor que podeis fazer para ajudares os vossos amigos é manter-vos afastado e negar a este rude barão a única arma que o poderia salvar.

Era o mais sensato, embora não fosse fácil para o garoto, excitado e desejoso em mostrar as suas proezas, manter-se inactivo. Mas se Olivier assim o ordenara, Yves obedeceria.

- Podeis ser herói numa outra altura-continuou Olivier, secamente -, quando houver menos em jogo e arriscardes apenas o vosso pescoço. Para já, devereis esperar pacientemente, por muito que isso vos custe. E como agora temos tempo e não sabemos o que nos espera, escutai-me com atenção. Quando sairmos daqui e tudo estiver acabado deixar-vos-ei. Regressai para junto da vossa irmã em Bromfield, deixai que os vossos amigos gozem a satisfação de vos escoltar em segurança. Não tenho dúvidas que vos devolveriam sãos e salvos ao vosso tio em Gloucester, tal como prometeram, mas faço questão de cumprir a minha missão até ao fim e ser eu a entregar-vos pessoalmente, tal como me foi ordenado. Esta missão pertence-me. Cumpri-la-ei até ao fim.

- Mas como fareis? - perguntou Yves, inquieto.

- Conto com a vossa ajuda e de outros que sei onde encontrar. Dai-me dois dias e eu arrajarei cavalos e provisões para nós. Se tudo correr bem, daqui a duas noites, sem contar a presente, irei a Bromfield buscar-vos. Dizei à vossa irmã isto mesmo. Depois de Completas, quando os irmãos estiverem recolhidos e vós supostamente a dormir. Não pergunteis mais nada e dizei a vossa irmã que eu irei. E, caso seja obrigado a encarar os homens do xerife, ou vos sejam feitas perguntas a meu respeito, depois de eu desaparecer, dizei-me Yves, quem subiu até aqui para vos ajudar?

Yves compreendeu e respondeu de imediato:

- Robert, o filho do lenhador que levou Ermina a Bromfield e veio até aqui para me procurar. - Depois acrescentou, duvidoso. - Mas eles não deixarão de estranhar semelhante proeza vinda de um lenhador, quando todos os homens do xerife se encontravam empenhados no mesmo. A não ser - continuou, franzindo um lábio com desdém -, que eles se convençam que qualquer homem arriscaria a vida por Ermina, só por ela ser bonita. Ela é bonita - concedeu generoso. - Mas sabe-o bem de mais e serve-se disso. Nunca deixeis que ela vos iluda.

Olivier, que perscrutava o campo de batalha, onde uma comprida língua de fogo alastrava dos portões em chamas para os telhados do celeiro, sorriu-se intimamente, sem deixar que o companheiro o percebesse.

- Podeis convencê-los de que não passo de um escravo dela, se isso os contentar - declarou. - Dizei-lhes o que vos aprouver, desde que sirva os nossos intentos. Levai o meu recado e aprontai-vos à hora marcada.

- Estaremos prontos - prometeu Yves com fervor. - Farei tal como ordenaste.

Seguiram o curso do fogo, que se espalhava de telhado para telhado ao longo da paliçada, enquanto a luta continuava igualmente feroz e renhida. Na defesa da fortaleza tinham aparecido um número insuspeitado de homens e muitos deles lutadores experientes e poderosos. Daquele ponto de observação, Yves e Olivier acompanhavam atentos o alastrar das chamas que, desconfortavelmente, se pegavam à esquina do próprio salão. Se atingisse a torre, todo o seu interior ventoso e construído de madeira funcionaria como uma chaminé e eles ficariam isolados no topo de um imenso braseiro. Os estalos e as explosões da medeira incendiada quase abafavam o clamor da batalha.

- Isto está a ficar quente de mais - afirmou Olivier, preocupado. - Melhor enfrentar o diabo lá em baixo do que esperar pelo Inferno que aí vem.

Afastaram a escada e ergueram a tampa escavacada. Algumas lascas soltaram-se caindo e uma fina nuvem de fumo, pouco mais do que um sopro, atingiu o telhado da torre. Olivier não perdeu tempo a baixar a escada, enfiou-se no buraco apenas seguro pelas mãos e deixou-se cair para o andar inferior. Yves seguiu-o com valentia, foi apanhado por uma mão firme a meio da queda e, silenciosamente, poisado no chão. Olivier começou a descer a escada com a mão estendida para trás de forma a manter o rapaz seguro. O ar ali ainda era frio, mas o fumo começava a entrar com regularidade, obscurecendo a orla dos degraus, de forma que seguiam apalpando o caminho. O barulho da luta parecia agora mais distante, abafado pela solidez das paredes, transformado num zumbido incessante. Quando alcançaram o chão rochoso da torre e depararam com os contornos da grande porta do salão, agora entreaberta e escoando a luz soturna das tochas que ainda ardiam, não se ouvia um som vindo do interior. Todos os homens deviam estar no pátio, lutando para derrubar as forças do xerife, ou então era possível que já houvesse alguns a tentar furar o cerco para escapar.

Olivier dirigiu-se para a porta estreita que conduzia ao exterior, pela qual havia entrado, levantou a pesada barra de ferro e empurrou-a, mas a porta não cedeu. Fincou um pé contra a parede e empurrou de novo, mas a porta manteve-se teimosamente fechada.

-Malditos sejam! Trancaram-na por fora depois que nos apanharam. Pela sala. Colocai-vos atrás de mim.

Abriram a porta enorme apenas o suficiente para poderem deslizar para o interior da sala o mais silenciosamente possível, pois receavam poder encontrar algum bandido ferido ou medroso ali abrigado. Mas, aquela pequena fresta foi o suficiente para provocar uma corrente de ar, e logo uma súbita língua de fogo trepou pelo canto fronteiro da sala, até ao telhado, espalhando pequenas labaredas que acabaram por cair nas cadeiras forradas de Alain le Gaucher, dividindo-se noutras tantas chamas que, como que por magia, se abriam em grandes flores carmesim. Aqueles focos vermelhos e doirados eram tudo quanto conseguiam enxergar através do fumo, cada vez mais denso, à medida que o fogo alastrava. Avançaram aos tropeções devido à confusão deserta de bancos derrubados, loiça partida, candelabros caídos, tapeçarias atiradas ao chão e tochas apagadas e, a acrescentar a tudo isto, uma espessa cortina de fumo que lhes feria os olhos e lhes secava a garganta. Defronte, para lá daquela confusão selvagem, o pandemónio ruidoso da luta violenta era arrastado até ali, por uma corrente de ar gelado, que se infiltrava pela porta principal meio aberta. No alto da faixa exterior que se entrevia, uma única estrela brilhava, inacreditavelmente pura e distante. Tapando a boca e o nariz para lá se dirigiram, com os olhos a arder violentamente e lacrimejantes.

Estavam quase na porta, quando uma labareda atravessou rapidamente a superfície da trave do tecto, transformando-a numa ondulante confusão de chamas que atingiram a cortina de pano cru, destinada a calafetar a porta, protegendo-os do vento frio quando a noite caía e todos se recolhiam. O pano seco de lã imediatamente se transformou numa tocha incandescente, caiu e barrou-lhes o caminho, transformado numa bola de fogo. Olivier afastou-a com um pontapé, furioso, e atirou Yves na sua frente por entre as chamas crepitantes, em direcção à porta.

- Correi lá para fora e escondei-vos!

Se Yves lhe tivesse obedecido à letra talvez escapasse sem ser visto, mas ao alcançar o ar livre, frente às escadas e ao ruidoso tumulto do pátio, voltou-se para trás angustiadamente, temendo que o fogo, agora da altura de um homem, tivesse encurralado Oli-vier no seu interior. A pausa custou-lhe a ele e aos amigos todo o terreno ganho até ali, pois mais de metade do pátio encontrava-se já nas mãos de Hugh e o resto da guarnição vira-se obrigada a recuar, reduzindo o campo de luta a uma estreita faixa à volta da sala. Enquanto Yves se mantinha de costas para o inimigo, hesitando se deveria ou não voltar para trás para ajudar o seu amigo, Alain le Guacher, encurralado na base das escadas que conduziam ao seu próprio salão, esboçou um golpe largo na sua frente, para afastar o adversário e saltou de costas os largos degraus de madeira. Colidiram ambos, costas com costas. Yves preparava-se para fugir, mas era tarde de mais. Uma mão enorme agarrara-o pelos cabelos e um rugido de triunfo e desafio elevou-se no ar, suplantando o clamor das armas e o crepitar da madeira em chamas. Num instante, le Gaucher encostara-se à parede, impedindo assim qualquer ataque da retaguarda, colara o rapaz à frente do seu corpo e encostara-lhe a espada, já tingida de vermelho, ao pescoço.

- Quietos todos! Poisem as armas e retirem-se! - rugiu o leão, com a juba ruiva brilhando e reluzindo à luz trepidante das chamas. - Recuem! Recuem mais! Já disse! Quero um grande espaço livre na minha frente. Se algum de vocês esboça um gesto só que seja, este diabinho é o primeiro a morrer. Tenho de novo a minha garantia. Agora? Homem do rei, onde estás tu? Sabes qual é o preço que pagarás pela vida dele? Um cavalo forte, a passagem livre daqui para fora e a tua palavra de que não serei perseguido, ou corto-lhe já a garganta e deixo que o sangue dele escorra pela tua cabeça.

Hugh Beringar abriu caminho até à frente e, encarando le Gaucher ordenou, sem desviar o olhar:

- Façam como ele diz.

O círculo formado pelos homens do rei e pelos bandidos, todos à mistura, recuou centímetro a centímetro, deixando uma larga superfície coberta de neve pisada a separá-los das escadas. Hugh acompanhou-os na retirada, embora se mantivesse à frente. Que outra coisa podia fazer? A cabeça do garoto estava bem encostada ao corpo do seu captor e o aço da lâmina encostado ao pescoço esticado. Um passo em falso e ele morreria. Alguns membros do bando começaram a afastar-se da multidão, recuando até ao muro e aos portões, na esperança de conseguirem escapar enquanto todos os olhos estavam fixos no par, isolado no topo das escadas. A guarda do portão trataria deles, mas quem poderia enfrentar aquela criatura rude e desesperada? Todos recuavam perante ele. Nem todos! Passando despercebido por entre a multidão, até alcançar o campo aberto, avançou uma estranha figura isolada, caminhando vacilante e sinuosamente, mas que se dirigiu directamente e sem hesitações às escadas. O reflexo vermelho das chamas batia-lhe em cheio. Tratava-se de um homem alto e descarnado, envergando um hábito negro, cujo capuz caíra, pendendo-lhe nos ombros. Duas enormes cicatrizes atravessavam-lhe a tonsura da cabeça. Os pés, protegidos apenas por umas sandálias, estavam cobertos de sangue e à medida que avançava deixava manchas vermelhas na neve, enquanto que da testa lhe escorria um fio de sangue, devido a uma queda no terreno rochoso. Os olhos cavados tornavam-se enormes no rosto lívido e encontravam-se fixos em Alain le Gaucher. Apontou-lhe um dedo acusador.

- Solta o garoto! Vim aqui para o levar! Ele é meu! Concentrado em Hugh Beringar, le Gaucher só deu pelo recém-chegado no instante em que este falou. Voltou a cabeça, espantado por alguém quebrar assim o silêncio que impusera e se atrever a pisar o terreno neutral que definira.

O choque foi curto, mas tremendo enquanto durou e durou o suficiente. Por um momento, Alain le Gaucher viu o homem que matara avançar para ele, invulnerável e destemido, viu as feridas que ele próprio inflingira naquele corpo, ainda sangrando e o rosto que ele assassinara tão pálido como um cadáver. Esqueceu o refém. Baixou as mãos com o susto e com elas a espada. No instante imediato percebeu claramente que os mortos não se levantam e, com um grito de fúria e ódio, caiu em si, mas era tarde de mais para recuperar a anterior vantagem. Yves escorregara-lhe como uma enguia por entre as mãos, mergulhando por debaixo do braço, e correra descendo a escada, às cegas, indo colidir com um corpo sólido e quente, ao qual se agarrou ofegante e exausto. Fechou os olhos. O irmão Cadfael murmurou-lhe, então, ao ouvido:

- Calma. Agora já estás a salvo. Vem ajudar-me a tratar do irmão Elyas, pois ele não irá a lado nenhum sem ser contigo, agora que te encontrou. Anda, vamos tirá-lo daqui, tu e eu, vamos fazer o que pudermos para tratar dele.

Yves reabriu os olhos, ainda arquejando e tremendo, e voltou-se para olhar a porta da sala.

- O meu amigo está ali dentro... o meu amigo que me ajudou. Interrompeu-se de imediato, inspirando ar e soltando-o num enorme suspiro esperançado, pois, apesar de Hugh Beringar, mal viu o refém a salvo, ter avançado, alguém se lhe tinha adiantado. Saído do fumo e das profundezas da porta em chamas, surgiu Oli-vier, coberto de fuligem e chamuscado e, empunhando a espada, de um salto passou por le Gaucher e, ao fazê-lo, atingiu-o em plena face com a lâmina da espada, de forma a chamar-lhe a atenção. Ajuba alaranjada flutuou no ar quando Alain le Gaucher saltou para o enfrentar. O silêncio quebrado pelas exclamações de surpresa perante a aparição do irmão Elyas, caiu de novo como uma pedra. Toda a gente ouviu então uma voz exclamar com desdém:

- Agora, luta como um homem!

Nada poderia tirar Yves dali, pelo menos até aquele último duelo ficar decidido. Cadfael continuava a segurá-lo, embora não houvesse necessidade, já que o garoto cerrara os punhos na manga do hábito, buscando um apoio desesperado. O irmão Elyas, que perdera o rumo, olhava em volta procurando o seu menino e aproximou-se coxeando dolorosamente para lhe tocar, para confortar e ser confortado e Yves, sem desviar um só instante o olhar adorador da figura de Olivier, soltou uma das mãos da manga de Cadfael e estreitou a mão de Elyas com o mesmo fervor. Para ele tudo dependia daquela luta entre dois homens e, como adepto apaixonado, tremia dos pés à cabeça. Tanto Cadfael como Elyas se sentiam contagiados e olhavam com a mesma fixidez a figura ágil, alta e esguia, parada de pernas afastadas no topo da escada. Apesar da cara enfarruscada e do vestuário ordinário, Cadfael reconheceu-o.

Ninguém se mexeu, nem mesmo Hugh, que poderia ter intervido, como autoridade que era. Entre os seus homens e os ladrões e assassinos não haveria mais luta até que aquela terminasse. Tratava-se do tipo de desafio que impedia qualquer interferência.

A primeira vista, não parecia um combate muito equilibrado pois le Gaucher era o dobro do adversário, quer em idade, quer em experiência, se não mesmo em destreza e agilidade. Este não foi muito longo. Le Gaucher, depois de avaliar o desafiador, avançou confiante investindo violentamente e obrigando o jovem a descer alguns degraus. No entanto, após o ataque a fundo e cada vez mais furioso, o jovem, que não passava de um camponês mal treinado, pouco cedera em equilíbrio e não se desviara um único passo. Para onde quer que a lâmina atacante desferisse, ali estava a sua espada para aparar o golpe. Mantinha-se firme e aparentava grande à vontade, enquanto o adversário se enfurecia e gastava energias. Yves observava tudo com os olhos redondos suplicantes e o rosto tenso de emoção. Elyas agarrara-se em silêncio à mão que segurava e tremia devido à tensão que esta lhe transmitia. O irmão Cadfael, enquanto observava o jovem Oli-vier, relembrava disciplinas que quase esquecera, aquele método de esgrimir, nascido do conflito entre o ocidente e o oriente e que resultava numa mistura de estilos.

Nada demovia o jovem espadachim e, se agora cedia um centímetro, logo recuperava pelo menos dois. Agora era Le Gaucher que se via obrigado a descer os degraus da escadaria, enquanto continuava a desperdiçar forças em vão.

O leão investiu uma vez mais, com toda a sua força, o pé apoiara-se demasiado perto da base da escada coberta de gelo, a investida fora demasiado imprudente, pois a pressão que teve de fazer levou a que o pé lhe falhasse, perdeu o equilíbrio e teve de lutar para o recuperar. Como um leopardo a atacar a sua presa, Olivier saltou em frente e carregou o adversário com toda a força, atingindo-o com destreza no peito exposto e desprotegido. A espada enterrou-se quase até ao punho e teve de fincar ambos os pés para conseguir libertar a lâmina.

A carcaça do leão começou a tombar do lugar onde fora atingido, de braços abertos, e mergulhando de costas aterrou três degraus mais abaixo, começando a rolar lentamente com uma dignidade macabra, degrau a degrau, até se imobilizar aos pés de Hugh Beringar, deixando que o sangue que lhe restava, se misturasse com a neve revolvida.

 

Istava tudo acabado. Uma vez o chefe morto e tendo todos presenciado a sua morte, iniciou-se uma correria em todas as direcções, alguns tentando encontrar uma saída, outros resolvidos a lutar até à morte, uns poucos implorando sem resultado, enquanto os mais sensatos se rendiam e esperavam que isso lhes trouxesse alguma vantagem. Havia cerca de 60 prisioneiros para escoltar, fora os mortos para transportar, e havia que retirar os produtos que ainda não tinham ardido, alimentar e dar de beber ao gado e ao considerável rebanho roubado, até o poderem levar para outro sítio. Dinan encarregou-se dos prisioneiros, capturados dentro da sua jurisdição. Não havia motivos para duvidar da sua lealdade à lei, agora que já sentira o seu próprio domínio ser ameaçado.

O fogo continuava a alastrar e quando tudo o que era possível foi retirado, atiçaram-no propositadamente. O castelo solitário, sem qualquer vegetação à volta, construído na rocha, poderia arder até ao fim sem se tornar uma ameaça. Na sua vida curta e ignóbil fora uma nódoa que sujara aquela região e bem merecia ser reduzida a cinza na sua morte.

O mais estranho, embora na confusão geral poucos o notassem, foi que o herói desconhecido desaparecera por completo, minutos depois de vencer o castelão. Todos os olhos seguiram atentos a queda prodigiosa e, quando conseguiram libertar-se do atordoamento que esta gerara e olharam em volta, o caos da fuga e captura imperava por todo o lado e ninguém mais vira o jovem camponês desaparecer, silenciosamente, pela noite dentro.

- Apagou-se como uma sombra - comentou Hugh -, agora que eu gostava de o conhecer melhor. E nem uma palavra quanto ao sítio onde poderá ser encontrado, quando a graça do rei tem para com ele uma dívida que qualquer homem se apressaria a cobrar. Tu foste o único a falar com ele, Yves. Quem é este herói?

Meio ébrio com a languidez que o alívio lhe provocara depois de toda aquela tensão a que fora submetido e exausto pela sensação de segurança, que se seguira ao terror, Yves repetiu aquilo que lhe fora ensinado, encarando Hugh com um olhar límpido e inocente.

- Era o filho do lenhador que abrigou Ermina e a levou até Bromfield. Foi ele que me disse que ela lá estava. Eu não sabia de nada. É verdade que ela lá está?

- Está sim, sã e salva. E qual é o nome desse filho de lenhador? E mais - acrescentou Hugh -, onde aprendeu ele a arte da esgrima?

- Chama-se Robert. Disse-me que andava à minha procura, tal como prometera a Ermina, quando viu os assaltantes de regresso a casa e resolveu segui-los. Não sei mais nada sobre ele - respondeu Yves determinado e se corou, a escuridão escondeu-lhe o rubor.

- Não há dúvida que estas florestas abrigam lenhadores bem extraordinários - comentou Hugh, secamente. Mas não adiantou mais nada.

- E agora - concluiu Cadfael, desviando a conversa para as suas responsabilidades -, se me emprestar quatro homens e nos deixar levar estes cavalos, que ficarão melhor nos estábulos de Bromfield, agora que não têm tecto para dormir, eu levarei estes dois para a cama. Deixo-lhe a minha sacola. Arranjaremos uma maca para o irmão Elyas e alguns cobertores que tenham escapado do fogo, para o aquecer durante a viagem.

- Leve o que precisar - concedeu Hugh.

Havia sete cavalos folgados retirados dos estábulos, para além das mulas que Yves vira, transportando a mercadoria roubada.

- A maioria deve ser roubada - afirmou Hugh, depois de os examinar. -Vou dizer a Dinan para anunciar que aqueles que foram roubados poderão ir a Bromfield reclamar o que lhes pertence. O gado e as ovelhas levamo-las mais tarde para Ludlow, depois do amigo de Cleeton tirar o que lhe pertence. Mas o melhor é tirar daqui o mais depressa possível o irmão Elyas. Só me admiro como conseguiu sobreviver até agora.

Cadfael conduziu os seus ajudantes nos preparativos, retirando de entre os objectos salvos do fogo aqueles que lhe serviam, para embrulhar o irmão Elyas numa série de cobertores e improvisar uma maca segura que prendeu entre dois cavalos. Ocorreu-lhe ainda que seria melhor carregar também dois sacos de forragem, para o caso de aqueles sete cavalos excederem as reservas de Bromfiled. O acesso de energia autoritária que animara Elyas quando mais preciso fora, desaparecera mal terminou a sua missão e conseguira o rapaz de volta. Docilmente entregou-se às mãos de Cadfael, deixando que lhe fizessem tudo o que queriam, dividido entre a apatia e a exaustão e meio morto de frio. Cadfael olhou-o com visível preocupação. A não ser que se lhe incutisse um novo fogo interior, que tornasse a vida tão indispensável como quando Yves fora ameaçado, Elyas morreria.

Quanto a Yves, Cadfael resolveu levá-lo na sua sela, tal como da primeira vez que o encontrara, pois o garoto estava em tal estado de cansaço que já não caminhava sem tropeçar e, se o montassem num cavalo, o mais provável era que adormecesse sobre a sela. Embrulhou-o numa boa manta escocesa e, antes de terminarem a descida em espiral e atingirem as terras baixas, tão depressa quanto o terreno acidentado o permitia na escuridão, Yves encostara-lhe o queixo ao peito, a respiração era pausada e mergulhara num sono profundo. Cadfael aconchegou-o cuidadosamente à concavidade do seu ombro e Yves, agitando-se levemente, acomodou o rosto ao calor do peito de Cadfael e dormiu até chegarem a Bromfield.

Iam já a mais de meio do caminho quando Cadfael olhou para trás. O cume enorme da montanha erguia-se na escuridão, coroado por uma auréola de fogo. Hugh e Dinan levariam o resto da noite a amarrar os prisioneiros, conduzir o gado até Cleeton para que John Druel escolhesse o seu e só então partiriam para Ludlow. O terror terminara e com menos baixas do que seria de esperar. Terminara por aquela vez, pensou Cadfael. Talvez tivesse terminado naquele condado se Prestcote e Hugh conseguissem manter o mesmo punho firme no futuro. Mas, quando uma família real se dilacera mutuamente por uma coroa, homens de somenos importância aproveitam para tirar o maior partido possível desse facto, sem escrúpulos ou considerações.

E, quando isso acontece, reflectiu Cadfael, toda a espécie de vilanias ao redor de muitas milhas lhes são atribuídas, e alguns crimes, talvez injustamente. Até mesmo os bandidos deveriam arcar somente com os actos de que eram culpados. E agora, nunca Alain le Gaucher poderia falar de sua defesa e dizer: "E verdade que eu fiz isto e aquilo, mas a violação e o assassínio de uma freira, não são da minha responsabilidade."

Chegaram a Bromfield à hora de Primeiras e, passando pelo portão, desembocaram num pátio limpo. Não caíra neve durante a noite. A mudança do tempo era notável e pelo meio-dia poderia mesmo começar o degelo. Yves acordou, bocejou espreguiçando-se e lembrou-se então de tudo. Despertou imediatamente, desenvencilhou-se da manta e apressou-se a descer para judar a levar o irmão Elyas de volta ao aconchego da sua cama, enquanto os homens de Hugh conduziam os cavalos até ao estábulo. Olhando de relance para a porta da ala dos hóspedes, o irmão Cadfael vislumbrou uma porta aberta e viu Ermina espreitando para o pátio mergulhado na penumbra.

A tocha, colocada no vão da porta, reflectia-se num rosto inteiramente vulnerável a um sofrimento profundo, ora de esperança ora de desalento. Mal sentira os cavalos, correra até ao pátio tal como se encontrava, descalça e com o cabelo caído pelos ombros. Ao ver Yves, que se debruçara para desatar as correias que prendiam a maca do irmão Elyas, o semblante iluminou-se-lhe, suavizando-se e reflectindo uma alegria a gratidão tais, que Cadfael se deixou ficar ali observando-o com verdadeiro prazer. A terrível ansiedade pelo que de pior pudesse acontecer, desaparecera como um pássaro que levanta voo. Ela ainda tinha o seu irmão.

Talvez por sorte, Yves estava tão concentrado em ajudar o seu protector e protegido doente, que nem olhou na direcção dela. E Cadfael não ficou nada surpreendido ao ver que ela não se apressava a vir cumprimentá-lo e recebê-lo, antes se retirou silenciosamente para o interior da ala dos hóspedes, fechando a porta atrás de si.

Do mesmo modo, não apressou o garoto a retirar-se do pequeno quarto da enfermaria onde estava agora o irmão Elyas e Yves não correu a ser abençoado. Já lhe tinham assegurado vezes sem conta que ela se encontrava ali em segurança, esperando por ele.

Precisavam ambos de algum tempo para se prepararem para o reencontro. Só quando terminou de tratar dos pés gelados e feridos do irmão Elyas, de o aconchegar aos cobertores aquecidos, de lhe lavar a cara e as mãos e de o alimentar com uma mistura de vinho e mel, o irmão Cadfael conduziu Yves até ao quarto de hóspedes, passando-lhe um braço firme pelos ombros.

Ela estava sentada junto ao fogo, cosendo um vestido que viera de Ludlow, adaptando-o à sua medida e, a julgar pelo ar carrancudo, sem grande vontade, quando o irmão Cadfael entrou, ainda com a mão no ombro de Yves. Ermina pôs o trabalho de parte e ergueu-se. Talvez tivesse pressentido o ataque no lábio franzido do irmão e nas sobrancelhas erguidas pois, avançando bruscamente, beijou-o com uma frieza repreensiva e complacente, tipicamente feminina.

- Em que lindo rodopio puseste toda a gente por tua causa - exclamou com severidade. - Fugir assim de noite sem dizer nada a ninguém!

-Era a ti que nós devíamos dizer isso. Tu és a responsável por tudo. - retorquiu Yves suavemente. - O meu problema eu resolvi-o com sucesso, minha senhora. Agora tu fugiste durante a noite sem dizer uma palavra a ninguém e voltaste ainda mais arrogante, mas o melhor é não cantares de galo se queres que te ouçam. Temos tido outras coisas com que nos preocupar.

-Vocês devem ter imenso para dizer um ao outro-interrompeu o irmão Cadfael, propositadamente cego e surdo perante a discussão - e têm muito tempo para o fazerem. Agora, Yves deveria ir para a cama, pois as duas últimas noites que ele passou estafariam qualquer homem. Precisa de um bom dia de sono e, se ainda tenho alguma autoridade como médico aqui, assim o ordeno.

Ermina ergueu-se com alegria, embora ainda de cenho franzido. Já aprontara a cama do irmão, talvez mesmo a alisara com as suas mãos e aconchegá-lo-ia como uma galinha que cuida dos seus pintos e, quando Yves estivesse a dormir profundamente, provavelmente ali ficaria de vela, pronta a arranjar-lhe comida ao primeiro sinal de vida. Mas nunca, nunca ela iria admitir ter sofrido e chorado por causa dele, ou que já se arrependera amargamente de ter fugido. E certamente era melhor assim, pois o rapaz ficaria embaraçado e consternado se a visse de joelhos implorando-lhe perdão.

- Descansa em paz até à noite - ordenou Cadfael, satisfeito, afastando-se de seguida, deixando-os preparados para umas tréguas. Regressou ao quarto do irmão Elyas, sentou-se à cabeceira durante algum tempo, confirmou que este dormia um sono profundo e dirigiu-se para a sua própria cama. Até mesmo os médicos precisavam de remédios simples de vez em quando.

Ermina veio procurá-lo antes de Vésperas, para cujo ofício Cadfael pedira ao prior Leonard que o acordasse. Hugh Beringar não regressara ainda. Sem dúvida que se encontrava ainda em Ludlow com o grupo de prisioneiros e tratando da acomodação do gado e dos produtos roubados, que haviam trazido de Clee. Aquele era um dia dedicado ao agradecimento da Graça recebida, pelo perigo que passara, mas teria de ser também um período de preparação para as tarefas que ainda não estavam terminadas.

-Irmão Cadfael-começou Ermina, parada à porta da enfermaria, direita e calmamente solene -, Yves pergunta por vós. Há ainda qualquer coisa que o preocupa e eu sei que sobretudo a mim ele não dirá o que é. Pediu para vos chamar. Podeis vir vê-lo depois de Vésperas? Nessa altura já ele terá terminado o jantar e estará pronto para vos falar.

- Sim, irei - prometeu Cadfael.

- Tenho estado a perguntar-me - continuou ela hesitante. - Os cavalos que trouxeram esta manhã... vieram do ninho dos bandidos lá de cima?

-Vieram sim. Foram roubados nas propriedades que eles por aí atacaram. Hugh Beringar mandou recado a todos quantos sofreram perdas, para virem até cá reclamar o que lhes pertence. Os cavalos que eu trouxe estavam frescos e prontos a trabalhar. Porquê? Que vos preocupa a esse respeito?

- Há um que deve pertencer a Evrard. - Passara já muito tempo desde a última vez que Ermina pronunciara aquele nome, quase parecia estranho ouvi-la; era como se ela o recordasse passados muitos anos em que o esquecera. - Também lhe vão mandar recado?

- Certamente. Callowleas foi completamente pilhada, pode haver mesmo outras coisas que lhe pertençam.

- Se ele não souber que eu estou aqui - continuou Ermina -, gostaria que ninguém lho dissesse. Não é que me importe se ele ficar a saber que eu estou sã e salva. Desde que não seja obrigada a vê-lo!

Não havia nada de anormal naquele pedido. Ermina resolvera esquecer aquele erro e assim poderia desejar evitar o embaraço e a dor de ter de o encontrar de novo, face a face, vendo-se na obrigação de explicar e justificar algo que já estava morto.

- Duvido que lhe enviem uma mensagem diferente da dos outros - afirmou Cadfael. - "Venham recolher aquilo que vos pertence." E eles virão. É uma pena que algumas das perdas não possam ser devolvidas.

- Sim - concordou ela -, é uma pena. Não podemos restituir-lhes os mortos, apenas o gado.

Yves acordara de um longo sono sem qualquer sensação de medo, em relação a si ou à sua irmã, seguro e inteiramente confiante na capacidade de Olivier fazer qualquer milagre a que estivesse disposto. Lavou-se, penteou-se e arranjou-se como se fosse assistir a uma cerimónia de acção de graças constatando, com surpresa e satisfação, que durante o sono Ermina lhe remendara o buraco nas meias, lavara a camisa e a secara ao fogo. Embora o notasse pela primeira vez, concluiu que muitas vezes os actos da irmã não correspondiam às suas palavras.

E então, o problema do irmão Elyas veio-lhe novamente à memória, não que o tivesse esquecido, apenas o relegara para segundo plano devido às circunstâncias desesperadas. Agora, aquele pensamento tornara-se uma obcessão e assumira proporções tão monstruosamente insistentes que não conseguiu aguentar o peso daquele segredo. Tinha de o partilhar com alguém. E, embora Hugh Beringar fosse um homem acessível e justo, representava igualmente a lei e era obrigado a cumpri-la. Mas o irmão Cadfael não era a lei e sabia ouvir com o espírito aberto e compreensivo.

Yves acabara o jantar, quando Cadfael entrou e Ermina discretamente pegou na costura e afastou-se para a sala, sob o pretexto de ter ali mais luz para trabalhar, deixando-os sozinhos.

Yves não via outra forma de começar a não ser fazendo-o directamente e a recordação daquele episódio provocou-lhe um arrepio de frio e de horror.

- Irmão Cadfael - começou ele, infeliz. - Estou muito preocupado com o irmão Elyas. Tenho de vos contar. Não sei o que poderemos fazer. Ainda não contei a mais ninguém. Ele contou-me coisas... não, não me contou a mim, mas eu ouvi... não podia deixar de ouvir...

- Ainda não houve tempo para trocarmos impressões sobre os acontecimentos da noite em que fugiram - acalmou-o Cadfael -, mas agora poderás desabafar. No entanto há coisas que eu ainda não te disse e que poderão ajudar-te. Eu sei para onde ele te conduziu e sei que o deixaste no abrigo e correste a procurar ajuda, indo cair nas mãos dos bandidos. Foi no abrigo que ele disse as coisas que tanto te perturbam?

- Durante o sono - confirmou Yves, lugubremente. - Não está certo ouvir o que um homem diz durante o sono, mas não o podia evitar. Estava tão preocupado com ele. Precisava de saber se haveria alguma maneira de o ajudar... Mesmo antes, quando me sentei à beira da cama dele... Foi tudo por eu falar na Irmã Hilária e lhe dizer que ela estava morta. Nada mais o conseguiu tocar a não ser o nome dela... Foi horrível! Era como se ele ignorasse que ela morrera, mas ao mesmo tempo acusava-se da morte dela. Berrou para que as pedras da casa lhe caíssem em cima e o sepultassem. E levantou-se... não consegui impedi-lo nem segurá-lo. Corri à vossa procura, mas estavam todos em Completas.

- E quando regressaste - continuou Cadfael com brandura -, ele tinha desaparecido. De maneira que foste atrás dele.

- Tinha de ir, ele ficara ao meu cuidado! Pensei que acabaria por se cansar e eu então poderia trazê-lo de volta, mas não consegui. De maneira, que outra coisa poderia eu fazer a não ser acompanhá-lo?

- E ele conduziu-te até à cabana. Sim, nós também concluímos isso. Foi aí que ele proferiu as tais palavras que tanto te atormentam. Não receies repeti-las. Tudo o que fizeste foi para o bem dele. Acredita que também isto o será.

-Mas ele acusou-se - murmurou Yves, tremendo com o pensamento - Ele disse... ele disse que tinha sido ele que matara a irmã Hilária.

O silêncio com que Cadfael recebeu esta revelação fê-lo desatar a chorar.

- Ele estava tão angustiado... tão transtornado... como poderemos denunciá-lo como assassino? Mas como poderemos ocultar a verdade? Ele próprio o confessou. E, no entanto, estou certo que ele não é mau. Ele é bom. Oh, irmão Cadfael, que vamos fazer?

Cadfael inclinou-se por cima do banco estreito que os separava e pegou com firmeza nas duas mãos enclavinhadas.

- Olha para mim, Yves, que eu digo-te o que vamos fazer. Tens de afastar qualquer receio e tentar lembrar-te das palavras exactas que ele utilizou. De todas, se conseguires. Ele disse que matou a irmã Hilária? Ele disse mesmo isso? Ou foste tu que assim o entendeste das suas palavras? Repete-me as palavras exactas que eu, depois de as ouvir, a essas e a mais nenhumas, verei o que querem dizer. Agora, regressa àquela noite na cabana. Elyas falava enquanto dormia. Imagina-te lá outra vez. Demora o que for preciso, não temos pressa.

Yves encostou o rosto desgostoso contra o ombro de Cadfael e ergueu os olhos duvidosos, mas confiantes, para o encarar. Obediente, concentrou-se no que se passara e com o lábio a tremer começou, hesitante.

- Eu estava a dormir, embora tentasse não o fazer. Ele estava deitado de cara para baixo, mas ouvia-se-lhe a voz distintamente. Ele disse: "Minha irmã, perdoa-me o meu pecado mortal, a minha fraqueza. Eu fui a causa da tua morte", disse ele. Disto tenho a certeza palavra por palavra. "Eu fui a causa da tua morte."

Yves calou-se, receoso de que só aquilo fosse o suficiente. Mas Cadfael, segurando-lhe as mãos, assentiu e esperou.

- Sim. E depois?

- Depois... lembrais-vos como ele chamava por Hunnyd? E o irmão disse que deveria ser a mulher dele que morrera? Bem, a seguir ele disse: "Ela era como tu, Hunnyd, tão quente e confiante nos meus braços. Passados seis meses de abstinência", continuou ele, "não consegui suportar o fogo que me queimava o corpo e a alma."

As palavras ocorriam-lhe agora, naturalmente, como se lhe tivessem ficado gravadas na memória. Até ali só desejara esquecê-las. Agora que consentira em lembrá-las, ocorriam-lhe com clareza.

- Continua.

- Sim. Depois mudou de ideias e disse: "Não, não me perdoes. Faz que a terra me engula e me enlouqueça... não sou digno de confiança nem de perdão, sou fraco e inconstante". -Aqui, Yves fez uma grande pausa tal como o irmão Elyas fizera naquela noite, antes de gritar a sua vulnerabilidade como mortal. -Ele disse: "Ela abraçou-me, não tinha medo de estar comigo". E depois clamou: "Deus misericordioso, eu sou um homem de sangue quente, tenho o corpo de homem, sinto os desejos da carne. E ela está morta. Ela que confiou em mim."

Yves, cada vez mais pálido, olhou para Cadfael que, impassível, calmo e pensativo, lhe retribuiu o olhar.

- Não me acreditais? Disse-vos a verdade. Tudo o que ele disse.

- Eu acredito. Claro que ele disse isso. Mas pensa: o manto dele estava ali no abrigo, juntamente com o hábito dela. E escondido. Ela foi levada dali até ao ribeiro e ele foi encontrado a uma distância considerável. Se ele não te levasse até lá, ainda hoje ignoraríamos muita coisa. Claro que acredito no que me contas, mas também tens de acreditar e considerar aquilo que te digo. Não chega afirmar que as coisas são de determinada maneira, só porque um fragmento da verdade está descoberto, mesmo tratando-se de uma confissão, e esquecermos todas as outras pequenas verdades, só porque não conseguimos explicá-las. A resposta a uma questão de vida ou de morte tem de se encontrar na verdade.

Yves olhava-o com tristeza, compreendendo as palavras, mas sem ver onde elas os poderiam levar.

- Mas como encontraremos tal resposta? E, se a encontrarmos e for a resposta errada... - Calou-se e de novo estremeceu.

- A verdade nunca é errada. Vamos descobri-la Yves, perguntando a quem a conhece...

Cadfael ergueu-se com vivacidade, elevando Yves consigo.

- Descansa, que as coisas nunca são como parecem. Tu e eu vamos falar com o irmão Elyas.

Este, jazia fraco e mudo como antes, só que os olhos abertos eram agora janelas viradas para o mundo, inteligentes e sem ilusões, que enfrentavam um desgosto sem limites, para o qual não havia cura. Recuperara a memória, ainda que esta só lhe trouxesse sofrimento. Reconheceu-os mal se sentaram, um de cada lado da cama. Yves, receoso e desesperado temendo pelo que pudesse acontecer, Cadfael, sólido e prático, prontamente ofereceu uma bebida ao doente e mudou a ligadura que lhe cobria os pés feridos pelo gelo. A força sólida de um homem no auge da robustez salvara o irmão Elyas, pelo menos fisicamente. Nem sequer corria o risco de perder os dedos dos pés e o peito estava são. Só a mente sofredora recusava qualquer cura.

- Aqui o garoto contou-me que recuperásteis parte da memória perdida - começou Cadfael com simplicidade. - Ainda bem. Um homem deve ser dono do seu passado, é um desperdício perder nem que seja uma ínfima parte dele. Agora que sabeis o que se passou na noite em que vos abandonaram à morte, podereis regressar à vida como um todo sem fragmentos. Aqui está o vosso garoto para vos lembrar que o mundo necessitou dos vossos serviços a noite passada e continuará a fazê-lo.

Os olhos cavados olharam-no da almofada e o rosto contorceu-se num espasmo de rejeição e amargura.

- Estive na vossa cabana - continuou Cadfael -, sei que, juntamente com a irmã Hilária vos abrigásteis aí quando a tempestade atingiu o auge. Foi uma noite má. Uma das piores deste mês tão violento. Agora está a melhorar e o degelo não tardará. Mas nessa noite o gelo era de pedra. As almas desgraçadas apanhadas no meio de semelhante temporal teriam de se agarrar para sobreviverem. Foi o que vos aconteceu, para que ela se salvasse. - Os olhos escuros ardiam, animados por um fulgor selvagem e tornavam-se cada vez mais atentos. - Também eu - continuou Cadfael deliberadamente -, conheci algumas mulheres no meu tempo. Nunca sem o desejar? Nunca sem amor. Sei do que estou a falar.

Uma voz enrouquecida pelo mutismo prolongado, mas consciente, afirmou debilmente:

- Ela está morta. O garoto contou-me. Deixai-me ir com ela e cair-lhe aos pés. Tão bonita que era e confiou em mim. Pequena e macia nos meus braços, agarrando-se confiante. Oh, Deus! - rogou Elyas. -Teria sido justo pôr-me à prova, dessa maneira tão dura, eu que me sentia tão vazio e carente? Não aguentei o fogo que me queimava.

- Eu entendo isso - afirmou Cadfael -, nem eu o teria aguentado. Seria forçado a fazer o mesmo. Temendo por ela e pela minha salvação se ali continuasse, embora este último não seja o motivo mais digno, deixá-la-ia ali adormecida e sairia para a neve e para o gelo da noite, distanciando-me dela, tentando sobreviver à tempestade o melhor possível para regressar de madrugada quando pudéssemos continuar viagem. Tal como vós.

Yves aproximara-se, extasiado pelo súbito entendimento, e continha a respiração enquanto aguardava a resposta. O irmão Elyas, voltando a cabeça atormentada, gemeu alto:

-Oh, Deus, por que fui eu deixá-la só? Por que não tive a coragem e a firmeza necessárias para suportar o sofrimento? Onde está a paz que me prometeram? Eu afastei-me, deixei-a só. E ela morreu...

- A morta está nas mãos de Deus - afirmou Cadfael. - Hunnyd e Hilária estão ambos nas mãos de Deus. Não deveis desejá-las de volta. Lá, onde se encontram, velarão por vós. Hilária não se esquecerá que vós saísteis para o frio, deixando-lhe o manto para melhor a aquecer, enquanto enfrentáveis o Inverno rigoroso envergando um simples hábito, disposto a suportar todas aquelas horas até o dia nascer. Estava uma noite capaz de matar qualquer um.

A voz vinda da cama respondeu com rudeza:

- Não serviu para a salvar. Deveria ter sido suficientemente forte na minha fé para afastar a tentação e ficar ali com ela a todo o custo.

- Isso podeis dizê-lo ao vosso confessor-cortou Cadfael com firmeza. - Quando estiveres bom e regressares a Pershore. Mas deveis renegar a presunção do vos quereres culpar para além do que vos é devido. Tudo o que fizésteis foi pensando no bem dela. O que faltou poderá ser julgado. O que foi feito será aprovado. Agora, se tivésseis ficado com ela não há a certeza de que mudarias o seu destino.

- Pelo menos poderia morrer com ela - objectou o irmão Elyas.

- Mas isso quase aconteceu. A morte violenta ameaçou-vos na solidão dessa mesma noite, já que havíeis optado por enfrentar a morte pelo frio. E, se de ambas vos salvásteis e tendes agora muitos anos para sofrer-continuou Cadfael-, é porque Deus assim o quis. Não há dúvida que tudo vos aconteceu. Agora dizei à nossa frente e na presença de Deus que a deixaste viva e esperavas voltar para ela pela manhã se conseguisses sobreviver à noite e assim conduzi-la ao seu destino. Que mais poderia alguém exigir-vos?

- Mais coragem - lamentou o irmão Elyas cujo rosto, encostado na almofada, continuava contorcido numa máscara de sofrimento, mas que agora exibia um sorriso, ainda que amargo. - Tudo foi feito e desfeito tal como disseste. Foi tudo por bem. Que Deus me perdoe o mal que eu fiz.

As linhas do rosto começava a suavizar-se humildemente e o tom de voz cedera à submissão. Nada mais havia a contar ou a confessar, tudo ficara dito e entendido. O irmão Elyas descontraiu o corpo enorme, relaxando-se dos músculos da cabeça aos pés magoados, estremeceu e ficou em paz. A própria fraqueza veio em seu auxílio e adormeceu sem resistir. As espessas sobrancelhas expandiram-se, as linhas que lhe enrugavam a boca, a testa e os olhos, desapareceram. Sucumbira a um prodigioso estado de penitência e perdão.

- É verdade? - perguntou Yves num sussurro de esperança, mal transpuseram a porta e a fecharam cuidadosamente, para não perturbar o sono de Elyas.

- Claro que é. Uma alma apaixonada que exige de mais de si próprio e desvaloriza o que dá. Enfrentou a noite gelada sem manto, só para não incomodar a irmã Hilária com a presença do seu desejo. Ele viverá, reconciliando-se com o corpo e com a alma. Levará o seu tempo - concluiu Cadfael tolerante.

Se um garoto de 13 anos não podia entender aquilo muito bem, ou se esse entendimento era académico, fruto de uma ciência que apenas se conhece mas nunca se experimentou, Yves não o demonstrou. Fixara os olhos brilhantes de entendimento no rosto de Cadfael agradecido, descansado e feliz, por se livrar daquele último fardo.

-Então, afinal, sempre foram os bandidos que a encontraram - concluiu -, sozinha, depois de o irmão Elyas a deixar.

Cadfael abanou a cabeça.

- Encontraram e espancaram o irmão Elyas e suponho que tencionavam matá-lo, assim como a todos os que se lhes atravessassem no caminho e pudessem testemunhar contra eles. Mas a ela não, não me parece. Antes da madrugada dessa mesma noite ainda tiveram tempo de atacar a quinta de Druel. Não acredito que se desviassem meia milha do caminho para chegarem ao abrigo. Por que haveriam de o fazer? Ignoravam se lá estaria alguém. E além disso, não se dariam ao trabalho de transportar o corpo para outro sítio e levariam certamente os fatos bons. Não, alguém foi à cabana porque esta lhe ficava em caminho e entrou, suponho eu, para fugir à tempestade, pensando poder ali abrigar-se.

- Então poderia ter sido qualquer pessoa - exclamou Yves, indignado e desalentado por semelhante afronta à justiça - e poderemos nunca vir a saber quem foi.

Cadfael pensava naquele momento que havia pelo menos uma pessoa que teria de ser posta à prova. Mas não o confessou e em vez disso concluiu:

- Bem, pelo menos não precisas de te preocupar mais com o irmão Elyas. Ele é bom e viverá para sofrer e honrar a nossa ordem. E, se ainda não tens sono poderás ir fazer-lhe companhia. Ele reclamou o seu rapaz em bom tempo e poderás continuar a ser o seu companheiro, enquanto cá estiveres.

Ermina continuava sentada junto da lareira, tenazmente agarrada à manga do vestido. "Está a lutar contra o tempo", pensou Cadfael, quando ela olhou rapidamente e recomeçou o trabalho a que não estava habituada e que não era do seu agrado. Recebeu-o com um sorriso, ainda que grave e ensombrado.

- Já está tudo bem com Yves - informou Cadfael. - Ele estava aflito por causa de umas palavras que o irmão Elyas proferira durante o sono e que lhe pareceram uma confissão, mas afinal não eram nada disso.

Contou-lhe então a história toda. Por que não? Cada vez mais Ermina se mostrava uma mulher adulta, ciente das responsabilidades que subitamente conhecera e heroicamente aceitara.

- Agora já nada lhe perturba o coração, a não ser o medo de que o assassino possa ficar impune.

- Quando a isso ele pode ficar descansado - declarou Ermina erguendo o olhar e sorrindo de uma forma especial, ao mesmo tempo misteriosa e comprometida. - A justiça de Deus é infalível, seria pecado duvidar disso.

- Pelo menos - afirmou Cadfael sem se comprometer -, agora está pronto a partir. Está até ansioso. O vosso.Olivier tem ali um admirador que o seguiria até ao fim do mundo.

Os olhos orgulhosos e brilhantes de Ermina fixaram-se com firmeza e a luz do fogo arrancava-lhe chispas de um vermelho-vivo.

- Ele tem dois - corrigiu ela.

- E quando está prevista a saída?

- Como soubésteis? - perguntou ela, demonstrando mais curiosidade do que surpresa ou consternação.

-Algum dia um homem daqueles se contentaria em deixar as coisas a meio permitindo que outros, ainda que dignos de confiança, devolvessem aqueles que ele próprio veio buscar? Claro que será ele a terminar o que iniciou.

- Não ireis interferir? - Mal fez a pergunta rejeitou-a com um gesto da mão que segurava a agulha. -Perdão. Eu sei que não o fará. O irmão já o viu e sabe reconhecer um homem de bem. Ele mandou-me recado por Yves. Virá amanhã depois de Completas, quando todos estiverem recolhidos.

Cadfael reflectiu e então afirmou, judiciosamente.

- Eu adiaria a partida para a altura em que os irmãos se levantam, para assistirem a Matinas e Laudes. Nessa altura o portão estará sem porteiro, pois o irmão assiste sempre a esse ofício. E até Primeiras não há ninguém por ali. Vós podereis dormir um pouco antes de partir. Eu poderia acompanhar-vos ao portão em segurança. E, se ele chegar à hora de Completas posso trazê-lo para dentro até serem horas de partir. Confiais em mim para o fazer?

-Agradeço-vos-respondeu ela, sem hesitar. -Faremos como dizeis.

- E vós - continuou o irmão Cadfael observando a agulha avançar, ponto por ponto -, estareis tão pronta como Yves a deixar este lugar amanhã à noite?

De novo Ermina ergueu o olhar sem pressa nem embaraço, mas também sem confiança e a lareira cada vez mais fraca captou de novo o mesmo brilho nos olhos, ainda que o rosto se mantivesse impassível.

- Sim, estarei pronta. -respondeu ela regressando à costura que poisara no regaço concluindo: - O meu trabalho aqui estará terminado.

 

A noite passou, calma e límpida, e mal se sentia o gelo. O sol apareceu com o dia e, como era a segunda noite que não havia neve, a que cobria o mundo começava a derreter ainda antes do degelo começar. Ia derretendo gradualmente, limpando os caminhos a pouco e pouco, quase desaparecendo furtivamente sem provocar cheias. Hugh Beringar regressara ia a noite avançada, depois de se certificar que aquilo que o fogo não queimara ficaria destruído e de remover a mais surpreendente colecção de despojos.

Uma série de celas espalhadas ao longo do telheiro da paliçada produziram os restos de dois prisioneiros assassinados e torturados até cederem o que possuíam de mais valioso, e ainda outros três sobreviventes depois de um tratamento semelhante. Estavam agora a ser tratados em Ludlow, onde Josce de Dinan prendera a ferros os sobreviventes do bando. Das forças atacantes contavam-se cerca de dezoito feridos, muitos mais de menor gravidade, mas nenhum morto. Poderia ter sido muito pior.

O prior Leonard passeava alegremente pelo pátio, sob a luz brilhante ainda que fria do sol, exultante com a satisfação de saber aquela região livre de tanta maldade, com a presença, no interior das suas paredes, do par desaparecido. O irmão Elyas, miraculosamente metido na cama, destinado a viver, ditosa ou desgraçadamente, olhava-os agora com paciência e candura, aceitando a exortação e a reprovação com humildade e satisfação. Recuperada a memória, não tardaria a curar o corpo.

 

Não muito depois da Missa Solene, os reclamantes começaram a aparecer em busca dos cavalos. Tal como em Ludlow, certamente começavam a reclamar as vacas e as ovelhas. Alguns, sem dúvida, chegariam a ser reclamados por mais de um, e dariam início a longas discussões e a um desfilar de testemunhos de vizinhos identificadores dos animais disputados. Mas ali havia apenas meia dúzia de cavalos e os oportunistas não teriam grandes possibilidades de se aproveitar. Os cavalos conhecem tão bem os donos como estes conhecem as suas montadas. Até mesmo as vacas, em Ludlow, teriam alguma coisa a dizer sobre a sua origem.

John Druel foi um dos primeiros a chegar, depois de caminhar desde Cleeton. Não foi necessário proclamar o seu direito, pois o vigoroso cavalo montanhês castanho agitou-se e relinchou, chamado-o, mal ele enfiou a cara no estábulo e o reencontro firmou-se com um abraço. O cavalo soprava com doçura ao ouvido de John e este abraçou-o pelo pescoço, examinando-o da cabeça aos cascos, com as lágrimas nos olhos. Era o seu único cavalo e por isso valia uma fortuna. Yves vira-o chegar e correu a prevenir Ermina. Os dois apressaram-se então a saudá-lo, forçando-o a aceitar tudo o que ainda tinham para oferecer.

Uma mulher de Whitbache apareceu a reclamar a égua do marido morto. Um rapazito magro e grave, vindo da mesma propriedade, entrou tímida e humildemente para levar um sólido cavalo de trabalho, de origem montanhesa e este avançou para o garoto, hesitando, procurando o dono, mas reconhecendo a criança do mesmo sangue com um suspiro quase humano.

O jantar já terminara no refeitório e o irmão Cadfael saíra de novo para o sol do meio dia, quando apareceu Evrard Boterel. Este, depois de transpor os portões, desmontou e olhou em volta, procurando alguém a quem se pudesse dirigir adequadamente. Continuava um pouco pálido e abatido pela febre, mas recuperara muito do vigor de movimentos e limpidez do olhar. Estacou de cabeça erguida e olhar imperioso e um pouco carrancudo, por nenhum lacaio acorrer a pegar-lhe nas rédeas. Era um homem muito bem parecido, tão loiro como a crina do seu cavalo, perfeitamente consciente da sua elegante aparência e dominante nobreza. Aquele porte garboso bem devia agradar às mulheres! Que teria feito o aquele jovem tão dotado fisicamente para perder a noiva? Ermina explicara que a realidade rompera rudemente a sua fantasia romântica. Bem, mas seria isso suficiente?

O prior Leonard, a bondade personificada, atravessou o pátio com o seu passo desajeitado, de forma a receber o visitante polidamente e conduzi-lo ao estábulo. Um dos soldados de Hugh, pegou nas rédeas que Boterel lhe entregou com altivez, como se fosse um criado e, sem o olhar segunda vez, dirigiu-se ao encontro do prior.

Viera sozinho. Se realmente possuía um cavalo ali, teria de o conduzir pela rédea.

O irmão Cadfael olhou pensativo para a ala dos hóspedes e viu que Ermina, envergando o fato de camponesa, atravessara o caminho até à igreja rápida e levemente, levando qualquer coisa embrulhada debaixo do braço. O arco escuro do portal engoliu-a, ao mesmo tempo que as paredes cobertas do estábulo acolhiam o seu anterior pretendente. Yves deveria estar junto do irmão Elyas, zelando ciumento pelo seu protegido e paciente, a quem atendia com dedicação de proprietário. Estava, portanto, fora de vista e de perigo. Nenhuma seta ali lançada poderia atingi-lo.

Sem pressa, Cadfael avançou pelo pátio limpo, em direcção à igreja, calculando o caminho que seguia de forma a convergir com o de Boterel e de Hugh que, entretanto, tinham saído dos estábulos e se dirigiam ao portão. Também eles avançavam sem pressa. Evrard irradiava vivacidade e sorrisos, o xerife era digno de um estudo. Por detrás, um lacaio leigo conduzia uma égua baia de crina castanha.

Cadfael atingiu o ponto onde os dois caminhos se cruzavam e aí parou, defronte da porta aberta e escura da igreja, para que também eles tivessem naturalmente de parar no mesmo sítio. Boterel reconheceu o irmão que em Lewyche lhe mudara a ligadura e saudou-o galantemente.

- Vejo que vos encontreis completamente restabelecido - afirmou Cadfael polidamente.

Olhou para Hugh, curioso em saber se este teria reparado no cavalo que o soldado passeava de um lado para o outro do pátio, admirando-lhe o trote e afagando-lhe o pescoço. Pouca coisa escapava ao olhar de Hugh, contudo nada transpareceu no rosto que pudesse confirmar os seus pensamentos. Cadfael cruzou os dedos. Não tinha nada a fazer ali, no entanto o instinto empurrava-o a agir, ainda que não entendesse a totalidade do papel a desempenhar.

- Obrigado, irmão. De facto estou a melhorar, se não já restabelecido - resmungou Evrard vivamente.

- Pouco tereis a agradecer-me - retorquiu Cadfael. - Mas já agradecésteis a Deus? Seria um justo tributo pelas graças recebidas, vindo da parte de quem salvou a vida e o braço e recuperou a propriedade perdida: esta linda égua. Depois das crueldades e das maldades que levaram tantos à morte, desde homens honestos, a inocentes virgens, pela Graça de Deus entremos agora e dizei uma oração pelos menos felizes. - Cadfael, de frente para a porta da igreja, captou um súbito movimento no seu interior que de imediato desapareceu. - Até mesmo por aquela que aqui temos e que aguarda sepultura - concluiu.

Receou ter falado de mais e sentiu-se aliviado ao ver que Boterel continuava confiante e impassível e que virara para a porta com um sorriso tolerante, de alguém que condescende, perante um clérigo bem intencionado e acede a um gesto inofensivo e insignificante.

- De boa vontade, irmão.

Por que não? Foram tantos os mortos caídos às mãos daqueles ou de outros, na região de Clee, que não havia nada de estranho que um deles ali estivesse para ser enterrado. Subiu a escada com agilidade e penetrou na penumbra fria da nave, com Cadfael colado ao ombro. Hugh Beringar, de sobrancelhas franzidas, seguiu-os até à entrada e aí ficou, cortando a saída.

A radiante luminosidade da neve e o sol ficara para trás e, momentaneamente, sentiram-se meio cegos ao penetrar no escuro. A grande nave, a iluminá-la, possuía apenas uma lamparina acesa no altar, que brilhava como um olho de fogo muito pequeno e distante e as faixas pálidas da luz do sol que se escoavam através das estreitas janelas e que formavam tiras esbatidas no chão ladrilhado.

Subitamente, o olho rubro da lamparina desapareceu. Ela devia ter atravessado, muito rapidamente, os poucos metros que distavam da capela mortuária e colocara-se de permeio. Naquela breve escuridão, os seus movimentos conseguiram passar despercebidos e silenciosos. Ela começou então a avançar, deslizando na direcção de Evrard Boterel, com a mão estendida numa súplica que se transforma em acusação violenta. Ele mal percebera a causa daquela movimentação de ar, até a ver surgir sob a primeira faixa de luz, com o véu e a toca cingidas ao rosto, uma esguia freira beneditina, que envergava um hábito amarrotado e sujo da palha da cabana. O peito e o ombro encontravam-se manchados e endurecidos numa nódoa de sangue seco. A pálida luz que a apanhara revelava todas as pregas amarrotadas e até as manchas que lhe cobriam a manga eram claramente distintas, aquelas mesmas manchas feitas quando ela tentara lutar e lhe reabrira a ferida ao senti-lo em cima dela. Não proferia um som, apenas avançava deslizante, silenciosa, percorrendo os ladrilhos do chão ao encontro dele.

Evrard deu um grande salto para trás, batendo no ombro do irmão Cadfael e soltou um gemido abafado de terror, ao mesmo tempo que erguia a mão, tentando proteger o corpo daquele ataque inacreditável. Por entre o véu que lhe cobria o rosto, uns olhos grandes fitavam-no e ela continuava a avançar.

- Não. Não! Afaste-se de mim! Estás morta... -Aquele desabafo não passou de um murmúrio estrangulado na garganta, tal como a voz dela deveria ter soado sob as mãos dele: mas Cadfael ouviu-o. E era o suficiente, ainda que Evrard se tivesse recomposto no momento seguinte, num esforço para se manter firme, quando o corpo dela quase lhe tocou e a proximidade o tornou humano, tangível e vulnerável.

-Que partida disparatada é esta? Também acolhem aqui mulheres loucas? Quem é esta criatura?

Ela afastou então o véu da cabeça, tirou a touca libertando a massa de cabelo escuro que se espalhou pelos ombros manchados do hábito da irmã Hilária, descobrindo o rosto rebelde e marmóreo e os olhos faiscantes de Ermina Hugonin.

Ele estava tão preparado para este encontro, como para o anterior. Talvez a julgasse sepultada nalgum sítio, sob um qualquer monte de neve, pois nunca mais ouvira ou falara nela. Talvez concluísse não ter de recear qualquer acusação vinda dela, pelo menos neste mundo e parecia que ao outro pouca importância atribuía. Recuou, apressado, um passo, mas aí foi obrigado a parar pois Cadfael e Hugh permaneciam entre ele e a porta aberta, um de cada lado. Caiu em si e encarou-a galantemente, aparentando consternação, protestando contra aquela inexplicável encenação.

- Ermina? Que significa isto? Se estás viva por que não mo disseram? Que estás a tentar fazer-me? Será que mereço isto? Certamente sabes que eu e os meus homens não temos feito outra coisa a não ser procurar-te por todo o lado.

- Eu sei - declarou ela com a voz dura e tão gelada como a água que preservara e aprisionara o corpo da irmã Hilária. - E se me tivesses encontrado sem testemunhas eu iria pelo mesmo caminho da minha querida amiga, pois sabias que nunca me casaria contigo. Casada ou enterrada, não haveria alternativa para mim, pois de outra forma poderia abrir a boca e pôr em perigo o teu conforto e a tua honra. Nunca aqui proferi uma palavra de acusação contra ti, nem em minha defesa, pois assumi que a minha culpa é tão grande como a tua. Mas sabendo o que agora sei e por ela... sim, sim, sim, mil vezes te acuso, assassino, violador, indico-te a ti, Evrard Boterel, como o assassino da minha querida e doce Hilária.

- Não estás no teu juízo - gritou ele, avançando indignado sobre a acusadora. - Quem é a mulher de quem falas? Que sei eu dessa pessoa? Desde o dia em que me deixaste que tenho estado na cama com febre. Toda a minha gente o confirmará.

- Oh, não. Oh, não. Nessa noite não. Tu saíste atrás de mim para me recuperares e salvares a tua honra, para me silenciares quer pelo casamento quer pela morte. Não o negues! Eu vi-te! Achas que seria assim tão tola para acreditar que te poderia escapar a pé? Ou que estaria demasiado aterrorizada para perder a cabeça e correr feita uma tola em zig zag, deixando-te as marcas para tu seguires? Deixei as minhas pistas até às árvores, em direcção à estrada de Ludlow, para onde tu esperarias que eu fosse. Regressei dando a volta e escondi-me durante a noite, no meio das tábuas que mandaras cortar para erguer as tuas cobardes defesas. Eu vi-te Evrard, vi-te regressar sangrando do ferimento. Não continuei caminho até te terem metido na cama e o pior da tempestade ter passado, pois sabia que só então poderia seguir em segurança e a madrugada não tardaria a chegar. E, enquanto eu me escondia de ti, tu mataste-a! - acusou ela, inflamada como uma tempestade de relâmpagos. -Ao regressares de uma caçada infrutífera, encontraste uma mulher indefesa e foi nela que te vingaste pelo que eu te fiz e pelo que não pudeste fazer. Nós matámo-la! - gritou Ermina. - Tu e eu. Nós os dois. Sou tão culpada como tu!

- Que dizes? - ele ganhara um pouco de coragem e de confiança. Se ela se exaltara ele devia ficar calmo, solícito, seguro de si e talvez na fria certeza dela, arranjasse um buraco por onde se safar.

- Claro que saí atrás de ti, como poderia deixar-te morrer ao frio? Caí, fraco como estava e a ferida abriu-se novamente. Sim, isso é verdade. Mas o resto? Procurei-te toda a noite, todo o tempo que consegui aguentar e nunca parei de te procurar. Se voltei de mãos vazias e sangrando será motivo para me acusares? Nada sei sobre a mulher que falaste.

- Nada?-perguntou-lhe Cadfael por cima do ombro. - Não sabeis nada sobre um abrigo para pastores perto do caminho que atravessaste, vindo da estrada de Ludlow em direcção a Lewy-che? Eu conheço-o pois já o percorri na direcção contrária. Nada sabeis de uma jovem freira adormecida sobre o feno, embrulhada num manto de homem? Nada sabeis de um ribeiro perto do caminho de regresso a vossa casa? Não foi a queda que vos reabriu a ferida, foi a luta determinada de uma jovem freira em defender a sua honra no meio da noite gelada, sobre quem vós descarre-gásteis a vossa cólera e luxúria, à falta de outra vítima mais adequada às vossas ambições. Nada sabeis dos mantos e do hábito escondido na palha para poder incriminar aqueles que tanta crueldade infligiram por aí? Fizeram tudo menos isto.

A luz pálida e fria tornava todos os contornos da cor do mármore e as sombras retraídas deixavam-nos expostos. Não passava muito do meio-dia e a luz do sol brilhava lá fora. Ali dentro sentia-se o frio e tudo era branco. Ermina parecia feita de pedra de olhar fixo nos três homens à sua frente. Cumprira a sua missão.

- Isso é um disparate - declarou Evrard Boterel, convic-tamente, como se lutasse contra algo extraordinário. - Eu parti envolto em ligaduras por causa dos ferimentos que arranjei em Callowleas, regressei a casa a sangrar. E depois? A noite era de tempestade e neve e eu caíra. Mas essa mulher, essa freira, essa cabana de pastor nada me dizem, nunca lá estive. Nem sequer sei onde fica...

- Pois eu já lá estive - interrompeu o irmão Cadfael. - E encontrei na neve excremento de cavalo. De um cavalo alto que deixou ficar uma madeixa de crina entalada entre as tábuas do beiral. Aqui está - ao dizer isto extraiu os cabelos claros ondulados. - Será necessário compará-los com os do vosso cavalo que está lá fora? Será necessário colocar o hábito na vossa frente e comparar a altura da vossa ferida com as manchas de sangue? A irmã Hilária não sangrou. A vossa ferida eu já a vi e conheço-a.

Evrard ficou um longo momento imóvel, crescendo como uma boneca esticada entre a mulher na sua frente e os dois homens mais atrás. Então, estremeceu e caiu, soltando um longo gemido desesperado, ajoelhou-se nos ladrilhos da nave, levando os punhos cerrados ao coração. O cabelo loiro caíra-lhe para a cara e ficara ainda mais claro devido à faixa de luz que se reflectia no mesmo sítio.

- Oh, Deus! Perdão! Perdão! Eu só queria calá-la, não matar... não queria matar...

- Pode até ser verdade - afirmou Ermina sentada e esticada para a lareira da sala.

A tempestade de lágrimas já tinha passado e só ficara um grande cansaço.

- Ele pode não ter matado intencionalmente. O que ele diz pode ser verdade.

O que ele dissera, agitando-se no desespero de fazer o possível para salvar a vida, foi que resolvera voltar para casa e desistir da busca devido à tempestade e, vendo-se obrigado a fugir do pior, chegou à cabana, nunca pensando encontrar lá alguém. Ao deparar com uma mulher adormecida ali à sua disposição, possuíra-a rancoroso e despeitado, numa revolta contra todas as mulheres, por causa de Ermina. E quando ela acordou e lhe deu luta, reconheceu que não foi meigo. Mas nunca tencionara matá-la. Só a queria silenciar e pressionara-lhe a saia do hábito contra a cara. Foi então que ela ficou inerte e sem vida e ele, sem conseguir reanimá-la, despiu-lhe o hábito, escondendo as roupas sob o feno, e levou-a até ao ribeiro para que parecesse mais uma vítima dos assaltantes de Callowleas.

- Onde arranjou aquele ferimento tão eloquente - concluiu o irmão Cadfael, observando que o rosto pálido de Ermina se contorcia num sorriso amargo que apareceu e desapareceu num espasmo doloroso.

- Eu sei que foi isso que ele vos contou! E eu deixei que o acreditassem. A defender corajosamente a terra e a sua gente! Eu digo-vos que ele nem puxou da espada, abandonou a sua gente deixando-a ser assassinada e fugiu como um rato. E obrigou-me a segui-lo. Nenhum homem do meu sangue abandonaria a sua gente à morte! Pois foi isso que ele fez e eu não lho perdoo. E eu que pensava amá-lo! Eu conto-vos - continuou ela -, como ele arranjou a ferida que acabou por o trair. No primeiro dia que passámos em Ledwyche obrigou os homens a cortar estacas e a reconstruir barricadas e não tinha um arranhão sequer. E, entretanto, eu remoía envergonhada, e à noite, quando ele chegou, disse-lhe que não casaria com ele, que nunca casaria com um cobarde. Até ali não me tocara nunca, sempre atencioso e formal, mas quando viu que me ia perder a mim e às minhas terras, então a coisa mudou de figura.

Cadfael estava a perceber. Casamento depois do...? Depois de tudo consumado, e em privado. A maioria das famílias preferi-lo-ia a arrostar com um escândalo ou levantar um processo. Não era assim tão raro, tirar primeiro e casar depois.

- Eu tinha um punhal - continuou ela sombriamente. - Ainda o tenho. Fui eu que o feri apontando ao coração, mas a lâmina desviou-se e cortou-o do ombro ao braço. Bem, vós sabeis. - Interrompeu-se e olhou o hábito dobrado em cima do banco a seu lado. - E enquanto ele gritava, praguejava e deitava sangue e os outros acorreram a tratá-lo, escapei-me pela noite dentro e fugi. Eu sabia que ele viria atrás de mim. Não podia correr o risco de deixar-me fugir depois daquilo. Casar ou matar eram as únicas alternativas. Ele esperava que eu corresse para a estrada de Ludlow. Para onde mais poderia eu ir? Assim fiz, mas só até que o bosque escondesse as minhas marcas e ali dei a volta e regressei para me esconder. Já contei que o vi sair enfraquecido e encolerizado, tal como eu calculara.

- Sozinho?

- Claro. Não podia ter testemunhas quer para o extupro quer para o assassínio. Os de dentro cumpririam as suas ordens. E vi-o regressar sangrando através das ligaduras, embora na altura nada pensasse a não ser que se esforçara de mais - estremeceu ao pensar na razão daquele esforço. - Quando viu que tinha sido enganado descarregou o seu veneno na primeira mulher que lhe saiu ao caminho e vingou-se. Por mim nunca o teria acusado. Eu tinha o que merecia, fui eu que o procurei. Mas que fizera ela?

Era a eterna questão para a qual não existia resposta. Por que sofrem os inocentes?

- E, no entanto - continuou duvidosa -, pode ser que ele esteja a dizer a verdade. Não estava habituado a ser contrariado, e isso enlouqueceu-o. Tinha um temperamento diabólico. Deus me perdoe, mas em tempos quase o admirei por isso...

Sim, podia ser verdade que não tencionara matar e que o pânico o forçara a esconder o seu crime. Ou podia ser que tivesse concluído friamente que uma morta nunca poderia acusá-lo e assim se assegurara do seu eterno silêncio. Os juizes deste mundo que o julgassem e decidissem.

- Não digais nada a Yves - pediu Ermina. - Eu mesma o farei, quando chegar a altura certa. Mas não aqui. Não agora.

Não, não havia necessidade de dizer ao garoto uma palavra sobre a batalha que ali se travara. Evrard Boterel partira para Ludlow sob escolta armada e no pátio não havia qualquer sinal de que um criminoso acabava de ser apanhado. A paz regressou a Bromfield, suavemente, quase sem se notar. Faltava menos de meia hora para Vésperas.

- Depois do jantar deveis ir para a cama descansar algumas horas antes da viagem e Yves também. Eu ficarei atento e trarei o vosso escudeiro cá para dentro.

Escolhera bem as palavras. Parecia o degelo que se processava no exterior; ela ergueu o rosto para ele, como uma flor que desabrocha e toda a amarga tristeza, toda a culpa e todo o remorso se evaporaram. Irradiava-se dele uma tal alegria, que os olhos de Cadfael se arregalaram. Ela regressara ávida para a vida, deixando para trás a morte e o passado. Cadfael estava certo de que desta vez não cometeria qualquer erro, nem haveria nenhuma força capaz de a afastar do seu preferido.

Durante a noite, até mesmo em Completas, houve alguma afluência de gente à parte paroquial da igreja, onde uma dúzia de homens bons daquela região tinham vindo agradecer devotamente a captura dos bandidos e o fim de tanto terror. Parecia que até o tempo contribuía para aquele estado de graça, pois mal se sentia o gelo no ar e o céu apresentava-se limpo e estrelado. Não era má noite para quem seguia viagem.

Cadfael sabia quem procurava, mas ainda assim levou algum tempo a descobrir a cabeça morena que procurava. Era maravilhoso como uma criatura tão fora do comum conseguia passar tão despercebida. Terminado o ofício não se surpreendeu, ao contar os camponeses que saíam, por constatar que faltava um. Olivier não só sabia misturar-se com a gente simples como podia desaparecer numa sombra sem um som e permanecer tão quieto como as próprias pedras.

Tinham todos desaparecido: os camponeses de regresso a casa e os irmãos para a sala aquecida onde se poderiam descontrair durante meia hora, para depois se recolherem. No interior escuro e gelado da igreja tudo estava silencioso.

- Olivier - chamou o irmão Cadfael -, podeis avançar. Os vossos protegidos encontram-se a descansar até à meia-noite e confiaram-vos a mim.

As sombras ganharam vida e produziram o contorno esbelto e jovem de um corpo que imediatamente avançou até à vista. Não achara nem sensato nem próprio trazer a espada para um lugar sagrado. Avançou silencioso e ágil como um gato.

- Conheceis-me?

- Através dela fiquei a conhecer. Se o rapaz prometeu segredo, descansai que manteve a sua palavra. Ela preferiu confiar em mim.

- Então também eu poderei fazê-lo - exclamou o jovem, aproximando-se. - Sois aqui um privilegiado? Já reparei que andais por aí com total liberdade.

- Não sou irmão nesta casa, mas sim em Shrewsbury. Tenho estado a tratar de um doente, o que justifica a minha vida irregular. Já tivestes ocasião de o conhecer na batalha lá em cima: era aquela alma sofredora que arriscou a vida para que Yves pudesse fugir.

- Devo-lhe esse favor - proclamou a voz baixa e sincera - e a vós também, pois parece-me que sois o irmão para quem o rapaz correu, o mesmo de quem tanto me falou, aquele que primeiro o trouxe para esta casa. O nome que ele vos deu, desse já não me recordo.

- O meu nome é Cadfael. Esperai que eu vou ver se estão todos recolhidos.

Sob a luz cada vez mais fraca das tochas, as últimas da noite, o pátio exibia o padrão preto e branco onde os caminhos se cruzavam desertos, calmos e silenciosos.

- Vinde! - chamou Cadfael. - Podemos oferecer-vos um sítio mais quente para esperares, ainda que menos sagrado. Eu aconselhei-vos a saírem quando os irmãos assistissem a Matinas e Laudes pois o porteiro também lá estará e eu poderei conduzir-vos em paz até ao portão. Mas... e os cavalos?

- Estão perto, num abrigo - respondeu Olivier, serenamente. - Há um garoto que vai comigo, ficou órfão em Whitbache e está a tomar conta deles. Esperará até nós chegarmos. Estou pronto a acompanhar-vos, irmão Cadfael.

Pronunciou o nome com delicadeza, quase com dificuldade e estranheza. Riu-se suavemente, estendendo a mão para que o guia o conduzisse à sua vontade. Assim, de mão dada, saíram para o claustro e atravessaram o labirinto até à enfermaria.

No quarto interior, o irmão Elyas dormia imponente, calmo e esplendoroso, deitado de costas, com as mãos poisadas sobre o peito e a face serena e elegante. Parecia uma estátua esculpida, destinada a enaltecer e lisonjer um morto, só que este vivia e respirava normalmente e as pálpebras grandes e arredondadas tapavam-lhe os olhos adormecidos com tanta candura como a uma criança. O irmão Elyas reunira dentro de si a graça de curar o corpo e a mente e não teimava em culpar-se de uma acção que não lhe pertencia.

Não tinha de se preocupar mais com o irmão Elyas. Cadfael fechou a porta e sentou-se na penumbra da antecâmara, juntamente com o seu hóspede. Teriam provavelmente duas horas até que chegasse a meia-noite e Matinas começasse.

A sala pequena, nua e de pedra, estava iluminada por uma vela apenas, tornando o ambiente àquela hora secreto e íntimo. Ficaram calados, o jovem e o idoso, observando-se mutuamente com amistosa curiosidade. Os silêncios longos não os perturbavam e, quando falavam, as vozes eram baixas, meditativas e pacíficas. Poderiam ser amigos desde sempre. Desde sempre? Um deles não deveria ter mais de vinte e cinco ou vinte e seis anos e vinha de uma terra muito distante.

- A viagem apresenta ainda uns certos riscos - afirmou Cadfael -, no vosso lugar escolheria outra estrada a partir de Leominster e evitaria Hereford.

Entusiasmado, entrou em pormenores, fazendo mesmo um mapa de acordo com o que se lembrava, utilizando um pedaço de carvão na pedra do chão. O rapaz, inclinado, observava em atenta concentração, com a cabeça erguida muito próxima do rosto de Cadfael e o sorriso brilhante imediato.

Tudo nele era estranho e novo e, no entanto de vez em quando, Cadfael sustinha a respiração ao vislumbrar algo que lhe era familiar, mas tão distante que a ilusão se desvanecia antes que a conseguisse agarrar e localizar na memória a sua origem.

- E tudo isto fazeis por boa vontade - admirou-se Olivier, sorrindo, agora divertido e desafiador-, sem saber nada de mim. Como podeis ter a certeza que sou merecedor de tanta confiança e que não me aproveitarei disto tudo em favor do meu senhor e da imperatriz?

- Ah, mas eu sei algumas coisas a vosso respeito. Mais do que pensais. Sei que vos chamais Olivier de Bretagne e que vindes de Tripoli com Laurence D'Angers. Sei que vos encontrais ao serviço dele há seis anos e que sois o seu melhor escudeiro. Sei que nasceste na Síria, de mãe síria e de um cavaleiro frâncio e que fôsteis para Jerusalém desejoso de vos juntares à religião e ao povo do vosso pai.

"E sei mais", pensou Cadfael lembrando-se da expressão do rosto da jovem e da sua devoção ao falar do ídolo. "Sei que Ermi-na Hugonin, que bem merecedora é, te entregou o coração e não desistirá facilmente e pelo teu olhar de âmbar e pelo sangue que pulsa na tua fronte, calculo que não subestimarás o teu valor em comparação com o dela, nem deixarás que ninguém se meta de permeio, não importa de que maneira obscura tenhas vindo ao mundo. Entre vocês os dois só um tio muito corajoso se atreveria a meter."

- Ela confia mesmo em vós - exclamou ele, atento e solene.

- E pode fazê-lo, tal como vós. Estais aqui numa missão honrosa e desempenhaste-a com dignidade. Estou do vosso lado e do lado deles, irmão e irmã. Já os conheço por dentro tal como a vós.

- Mas apesar de tudo - protestou Olivier, descontraindo-se num sorriso arrependido -, ela enganou-o. Pois o soldado cruzado não podia deixar de ser, na imaginação dela, nada menos que um cavaleiro nobre. E a maioria não era nada disso: apenas filhos segundos fugidos, rapazes do campo, românticos, patifes fugindo da justiça por roubo, por assalto às estradas ou por arrombamento de alguma caixa de esmolas. Nem todos os senhores de cavalo e lança são como Godfrey de Mouillon ou Guimar de Massard. E o meu pai não era cavaleiro, apenas um simples soldado pertencente às hostes de Robert da Normandia. E a minha mãe uma pobre viúva com uma tenda no mercado de Antioquia. Eu sou o bastardo destes dois, apanhado entre duas fés, entre dois povos, um mestiço nascido depois da separação. Mas... apesar disso ela era linda e amante e ele corajoso e meigo e eu considero-me bem nascido de pai e mãe... e igual a qualquer homem vivo. E deixarei isso bem claro à família de Ermina e eles entenderão e terão de ma conceder.

A voz profunda e macia elevara-se e o rosto de falcão apaixonado respirou fundo e sorriu.

- Não sei por que vos conto isto, a não ser talvez por ver que gostais dela e lhe desejais um futuro promissor. Gostaria que ficásseis com boa impressão a meu respeito.

- Eu não passo de um homem comum - declarou Cadfael - e já encontrei homens bons tanto em choças como em palácios. E a mãe morreu?

- De outra forma não estaria aqui. Tinha eu catorze anos quando ela morreu.

- E o teu pai?

- Nunca o conheci, nem ele a mim. Partiu para Inglaterra, de S. Symeon, depois de um último encontro, e nunca soube que lhe deixara um filho. Eram amantes há muito tempo, desde que ele chegara à Síria. Ela nunca me disse o nome, embora falasse nele com frequência. Não pode haver nada de errado - concluiu ele -, se no fim ele lhe deixou tanta ternura e orgulho.

- Metade da humanidade se une sem o ritual abençoado - afirmou Cadfael, admirado com o rumo dos seus pensamentos. - E não necessariamente a metade pior. Pelo menos, aí o dinheiro não interfere, não há terras a ajudar a escolha da mulher.

Olivier olhou-o subitamente consciente da estranheza de tal conversa e riu-se baixinho, para não perturbar o doente adormecido.

- Irmão, estas paredes estão a ouvir confidências bem estranhas e eu aprendo que a ordem beneditina mantém um espírito muito aberto. Posso imaginar que falais por conhecimento próprio.

- Andei pelo mundo durante quarenta anos - explicou Cadfael. - Antes de optar por esta disciplina para me salvar. Fui soldado, marinheiro e pecador. Até cruzado. Pelo menos nisso fui puro, ainda que a causa desiludisse as minhas esperanças. Era então muito novo. Conheci um pouco Antioquia. Conheci Jerusalém. Agora deve estar tudo mudado, já passou tanto tempo.

Muito tempo, sim. Vinte e sete anos desde que levantara amarras. O jovem tornara-se conversador ao descobrir que o companheiro era tão conhecedor. Apesar de todas as ambições cavaleirescas e da sua dedicação à nova fé, uma parte dele recordava com saudade a terra natal. Começou por falar da cidade real e de campanhas, para perguntar avidamente por acontecimentos anteriores ao seu nascimento e gozar o encanto dos lugares conhecidos.

- No entanto, pergunto-me - admitiu Cadfael, secamente, recordando quantas vezes questionara a sua causa e quantas vezes o infiel lhe parecera o mais nobre e corajoso -, pergunto-me como, sendo nascido noutra fé, a tenhais abandonado facilmente até mesmo por um pai. - Ergueu-se, enquanto falava consciente de que o tempo devia ter passado. - Tenho de os acordar. Não deve faltar muito para o toque de Matinas.

- Não foi nada fácil - respondeu Olivier, surpreendido, pois pensava frequentemente naquilo mesmo. - Senti-me dividido durante muito tempo. Foi de minha mãe, tal como era, que recebi o sinal que fez pender o prato da balança. Apesar de em língua diferente, a minha mãe tinha o mesmo nome que a vossa Nossa Senhora...

Por detrás de Cadfael, a porta abrira-se silenciosamente. Voltou a cabeça para ver Ermina corada e rejuvenescida pelo sono, parada na ombreira.

- ... Chamava-se Miriam - concluiu Olivier.

-Já acordei Yves - informou Ermina, pouco mais alto do que um murmúrio. - Estou pronta.

Dos olhos grandes e límpidos, toda a angústia do dia desaparecera com o repouso e cravavam-se agora em Olivier. Este, ao ouvir-lhe a voz, ergueu a cabeça e correspondeu ao olhar tão abertamente como se a tivesse beijado apaixonadamente. O irmão Cadfael ficou ali especado e encantado. Não fora o nome que o rapaz pronunciara, foi o erguer rebelde da cabeça, a luz suave das faces e da testa, o olhar declaradamente apaixonado, que transformara por momentos a orgulhosa face masculina, no rosto de mulher que conhecera e lembrara durante os vinte e sete anos de ausência.

Cadfael, movimentando-se como um sonâmbulo, deixou-os juntos e foi ajudar um Yves ensonado a vestir-se e a preparar-se para a viagem.

Deixou-os no portão, enquanto os irmãos assistiam a Matinas. A rapariga despedira-se solene e dignamente, pedindo-lhe as suas orações. O garoto, ainda meio a dormir, ergueu a face para o beijo normal entre um homem idoso e uma criança de partida e o jovem, inocentemente generoso e consciente de uma despedida que talvez fosse para sempre, imitou-o, estendendo-lhe a face azeitonada. Não se admirou com o mutismo de Cadfael pois, afinal, a noite exigia silêncio e descrição.

Cadfael não ficou a vê-los afastar-se, fechou de novo o portão e regressou para junto do irmão Elyas, deixando que aquela maravilhosa sensação de triunfo o percorresse em ondas exultantes. Nunc dimittis. Não deveria falar. Não deveria colocar qualquer obstáculo no caminho que Olivier traçara para si próprio. Que necessidade tinha ele agora de um pai?

"Mas já o vi", regozijava-se Cadfael, "já lhe peguei pela mão, já me sentei com ele a conversar sobre o passado, beijei-o. Tenho motivos para estar contente com ele e terei uma razão para me alegrar o resto da vida. Há uma criatura maravilhosa no mundo com o meu sangue nas veias e o sangue de Miriam. E que importa se estes olhos nunca mais o voltarem a ver? E, no entanto, tudo é possível neste mundo. Quem sabe?"

A noite passou por ele com doçura. Adormeceu ali sentado e sonhou com dádivas extraordinárias que não merecia, até que soou o toque de Primeiras.

Pensou ser de boa política ser o primeiro a descobrir a fuga e a dar o alarme. Fez-se uma busca, mas os hóspedes tinham mesmo partido e não cabia aos irmãos persegui-los. A única ansiedade que o prior Leonard expressou relacionava-se com a própria segurança dos fugitivos e com a possibilidade de não conseguirem chegar até ao seu tutor.

De facto, Leonard aceitara tudo com semelhante placidez que Cadfael se sentiu desconfiado, acabando por atribuir essa impressão ao seu constante estado de exaltação. A descoberta de que Ermina deixara os seus anéis e o hábito da irmã Hilária cuidadosamente dobrado sobre o caixão selado, redimiram os fugitivos de qualquer ingratidão.

- Mas quanto ao que o xerife dirá, isso já não me atrevo a pensar - suspirou o prior, abanando a cabeça pensativo.

Hugh só apareceu à hora da Missa Solene e ouviu as novidades com a desaprovação conveniente ao seu estatuto, para depois as esquecer como algo secundário, face às empresas recentes que tivera de empreender e nas quais fora bem sucedido.

- Bem, pouparam-nos uma escolta e, conquanto cheguem até D'Angers em segurança, tanto melhor se à custa dele. Arrasámos o covil dos lobos e mandámos esta manhã um assassino para Shrewsbury. Dentro de uma hora seguirei os meus homens e bem que podeis seguir comigo Cadfael, pois suponho que nada vos prende agora aqui. A vossa missão, tal como a minha, está concluída.

O irmão Cadfael pensava o mesmo. Elyas já não precisava dele e, continuar no sítio de onde os três tinham partido, não tinha qualquer significado. Ao meio-dia selou o cavalo e despediu-se de Leonard, acompanhando Hugh Beringar no regresso a Shrewsbury.

O céu apresentava-se coberto mas não ameaçador, o ar, embora frio, estava calmo e límpido, era afinal um bom dia para regressar a casa depois de tudo terminado em bem. Havia muito que não viajavam juntos e sem pressa e a companhia era agradável quer seguissem em silêncio ou a conversar.

- De modo, que conseguiu mandar as crianças em segurança, sem nenhum barulho- declarou Hugh, inocente - Achei que saberia lidar com o assunto.

Cadfael concedeu-lhe um olhar avaliador e quase ressentido, mas não se surpreendeu.

- Eu devia ter calculado. E eu a pensar que agira com toda a descrição! Suponho que um xerife com a vossa reputação de argúcia não poderia passar a noite a dormir enquanto os seus reféns se escapavam calmamente para Gloucester.

Para não falar na categoria da escolta, pensou ele, mas não o disse. Hugh tivera ocasião de avaliar o suposto filho de lenhador e advinhara-lhe a origem. Só não sabia o nome da sua descendência. Algum dia, quando as guerras terminassem e a Inglaterra fosse de novo uma só, um dia contaria a Hugh aquilo que agora guardava no mais íntimo do seu coração. Mas agora não. Era ainda muito recente a sensação e não queria desperdiçar nem um pouco daquela graça miraculosa e estonteante.

- Em Ludlow - respondeu ele -, dificilmente poderia ouvir o ferrolho do portão abrir e fechar durante a noite. Então não deixou Boterel ao cuidado de Dinan?

- Não estava muito seguro de que não haveria outra fuga durante a noite - respondeu Hugh. - Ele é súbdito de Dinan. Temos a confissão, mas mesmo assim prefiro tê-lo bem fechado no castelo Shrewsbury.

- Será enforcado?

- Duvido. Mas deixaremos aos juizes o trabalho de o julgar. O meu dever é manter a região em paz e prender os assassinos. E deixar homens, mulheres e crianças de bem seguirem livremente o seu caminho, com a minha boa vontade.

Estavam a meio caminho de Shrewsbury e a luz continuava boa. Hugh apressou o passo, olhando em frente com avidez ansiando pelo primeiro sinal das colinas e dos telhados do castelo dentro das muralhas. Aline estaria à sua espera orgulhosa e amante e entretida nos preparativos para a festa do Natal.

- O meu filho deve ter-se desenvolvido muito nestes dias de ausência. Deve estar tudo bem, doutra forma Constance ter-me-ia mandado chamar. Ainda não viu o meu filho Cadfael!

"Mas vi o meu", pensou este, que seguia um pouco mais atrás em silêncio, "ainda que tu não o saibas."

- Alto e forte. Será mais alto do que o pai.

"E mais alto que o pai", exultou Cadfael. "Notavelmente mais alto. E- que criaturas lindas e galantes não nasceriam da sua união com aquela donzela imperial."

- Esperai até o veres. Um filho digno de orgulho.

Cadfael continuava silenciosamente feliz, ainda que atordoado pela maravilhosa descoberta, todo em exultação, todo humildade. Faltavam onze dias para o Natal e agora nenhuma sombra ameaçava a paz e o brilho daquela festa. Fora tempo de nascimento, tempo de criação naquele ano ricamente celebrado-o filho da jovem de Worcester, o filho de Alien e Hugh, o filho de Miriam, o filho do Homem...

Um filho de quem se podia orgulhar? Sim. Ámen.

 

                                                                                Ellis Peters  

 

 

Leia outros romances de Ellis Peters

 

 

JUSTIÇA À MODA ANTIGA

O TRIBUTO DA ROSA

 UM CORPO A MAIS  

 

 

                      

O melhor da literatura para todos os gostos e idades

 

 

              Biblio"SEBO"