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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A VOLTA A VELHA MANSÃO / Evelyn Waugh
A VOLTA A VELHA MANSÃO / Evelyn Waugh

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "SEBO"

 

 

 

 

   

Quando alcancei as linhas da Companhia C estacionadas no alto do morro, parei e volvi o olhar para o acampamento, que se começava a divisar lá embaixo, através da névoa cin­zenta da madrugada. Partíamos naquele dia. Na ocasião em que ocupamos o lugar, três meses antes, a neve cobria tudo; agora as primeiras folhas da primavera desabrochavam. Pen­sei comigo mesmo, então, que o futuro não nos poderia reser­var cena mais deprimente, e via que dali não levava uma única recordação agradável.

Foi ali que perdi todo o entusiasmo pelo Exército.

Naquele ponto terminavam as linhas de bonde; por isso os soldados que voltavam embriagados de Glasgow podiam cochilar, acordando no fim da viagem. Era regular a distância que ia da parada aos portões do acampamento, um quarto de milha, tempo suficiente para abotoar os blusões e endireitar os quepes antes de passar pela casa da guarda; um quarto de milha, onde o capim vinha substituir o concreto no fim da estrada. Era esse o limite extremo da cidade, onde terminava o território seguro e homogêneo das residências e dos cinemas, e começava a selva.

O acampamento estava localizado no que fora, em data recente ainda, pasto e lavoura. A casa da fazenda continuava de pé na dobra do morro, e tinha servido de secretaria ao batalhão; a hera parecia suster um pedaço de muro antigo de um vergel; meia jeira de terra atrás dos lavatórios, onde se viam velhas árvores mutiladas, representava os remanes­centes de um pomar. O lugar estava fadado à destruição, antes mesmo de ali chegar o Exército. Se a paz durasse mais um ano, nada restaria da fazenda, do muro, das macieiras. Uma estrada de concreto já se estendia numa extensão de meia milha entre barrancos de barro puro, e, de cada lado, os quadrados das valas abertas indicavam o traçado da rede de esgo­tos dos empreiteiros municipais. Mais um ano de paz e tudo aquilo seria um prolongamento do subúrbio vizinho. Tinha chegado a vez de destruir as cabanas em que nos abrigáramos durante o inverno.

 

 

 

 

 

 

No caminho, assunto de muitos comentários irônicos, o hospício municipal, meio escondido entre as grades acolhedoras, mesmo durante o inverno. O ferro trabalhado e o por­tão imponente metiam no chinelo nossas cercas toscas de ara­me. Quando fazia bom tempo, podíamos ver os loucos saraco­teando e pulando pelos caminhos bem-tratados de cascalho e lindos gramados; felizes colaboracionistas que tinham ensari­lhado armas diante da luta desigual, sem dúvidas, o dever cumprido, herdeiros de direito de um século de progresso, gozando a herança a seu bel-prazer. Quando passávamos mar­chando, os soldados costumavam saudá-los gritando através das grades: "Amigo, guarde uma cama bem quentinha para mim. Daqui a pouco estou aí". Mas Hooper, o último dos tenentes-comandantes a ingressar na companhia, reclamava contra a boa vida que eles levavam: "Hitler os mandaria para as câmaras de gás", "Bem que podíamos aprender umas coi­sinhas com ele".

Tínhamos chegado ao meio do inverno, e eu comandava homens fortes e cheios de esperança. A nossa transferência dos pântanos para a zona portuária originou o boato de que estávamos finalmente em trânsito para o Oriente Médio. À medida que o tempo passava e nós começávamos a remover a neve preparando uma praça de exercício, eu percebia que o desapontamento de meus homens se transformava em resignação. Eles farejavam o cheiro das lojas de peixe frito, fican­do de ouvido atento aos sons familiares dos tempos de paz: a sereia das fábricas e a banda de música dos bailes populares. Agora, nos dias de folga, punham-se a gingar pelas esquinas, esgueirando-se quando viam um oficial, porque tinham medo de perder o cartaz aos olhos de suas novas amantes, se fossem pilhados batendo continência.

Na secretaria da companhia, aguardando despacho, havia uma série de processos de delitos sem importância e pedidos de favor. Mal clareava o dia, começavam as lamúrias dos que pretextavam alguma incapacidade física, e via-se a fisio­nomia taciturna e o olhar parado dos que tinham alguma queixa a fazer.

E eu, que por tantos motivos deveria animá-los, como poderia ajudá-los, se não era capaz de resolver meus próprios problemas? Nessas alturas, o coronel que organizou nossa companhia foi transferido; seu substituto, mais moço e me­nos simpático, vinha de um regimento de um ponto diametralmente oposto. Do grupo primitivo, servindo junto desde o início da guerra, restavam poucos voluntários no rancho. Fosse lá de que modo fosse, quase todos tinham partido, uns por invalidez, ou então promovidos para novos batalhões, e nomeados para serviços de secretaria; outros se apresenta­ram como voluntários em casos de serviço especial, um deles morreu em um exercício de tiro, houve um que respondeu a conselho de guerra. Os recrutas vieram preencher os claros; o rádio tocava agora no vestíbulo sem cessar. Bebia-se muita cerveja antes do jantar. Não era como antes.

Ali, aos trinta e nove anos de idade, comecei a sentir-me velho. À noite, estava cansado e encarangado, não me apetecia sair do acampamento. Passei a tomar conta de certas cadeiras e jornais; bebia três copos de gim antes do jantar, sistema­ticamente, nem um a mais, nem um a menos; deitava-me logo após o noticiário das nove. Uma hora antes do toque de alvo­rada eu acordava, sempre irritado.

Nesse lugar morreu meu último amor, de maneira bas­tante banal. Pouco antes do último dia passado no acampa­mento, deitado na choupana de Nissen antes da alvorada, os olhos abertos na escuridão total, ouvindo a respiração funda e os resmungos de seus quatro ocupantes, eu pensava em minhas obrigações daquele dia. Teria indicado o nome de dois cabos para o curso de treinamento com armas? Entre os soldados cujas licenças expiravam naquele dia, e que dei­xariam de se apresentar, caberia a meus comandados a prima­zia de ser ainda o grupo mais numeroso de faltosos? Poderia contar com Hooper para levar a turma de candidatos a uma leitura de mapa no campo? Deitado no escuro, pasmei de ver que alguma coisa dentro de mim, e que há muito agoni­zava, tinha morrido de mansinho. Senti-me como o marido que, depois de quatro anos de casado, verifica de repente que não tem mais o menor desejo, carinho e respeito pela esposa outrora querida. A companhia da mulher não lhe dá mais nenhum prazer, não tem vontade de lhe agradar, ou interesse em saber o que ela pode fazer, dizer e pensar. Não tem espe­ranças de consertar as coisas, nem a menor sensação de culpa pelo desastre. Eu conhecia tudo isso, a seqüência monótona dos fatos que levam à desilusão no casamento.

Deu-se comigo e o Exército fato idêntico, passando pelo namoro insistente até chegar à fase atual, em que restavam apenas os frios laços da lei, do dever e do hábito. Eu representei todas as cenas da tragédia conjugal, e verifiquei que os arrufos dos primeiros tempos se tornavam mais freqüentes, as lágrimas menos comoventes, e que a reconciliação já não era tão doce. Daí minha indiferença, meu ceticismo, minha convicção sempre mais arraigada de que não cabia a mim a culpa, e sim ao ente amado. Eu podia descobrir a falsidade de suas palavras, aguardando essas manifestações com apreensão; conhecia o olhar vazio de incompreensão ofendida, o vinco amargo e egoísta dos cantos da boca. Fiz um estudo completo, como se fosse uma mulher com quem tivesse vivido na mesma casa, dias a fio, pelo espaço de três anos e meio. Aprendi a conhecer seus dengues, a rotina e o mecanismo de seus encan­tos, seus ciúmes e seu interesse; o cacoete nervoso de seus dedos quando mentia. Agora eu a via despida de todo encanto, descobrindo que se tratava de uma estranha por quem não sentia a menor afinidade, e a quem me ligara num instante de loucura, para sempre.

Por isso, naquela manhã, dia de nossa partida, eu sentia a mais completa indiferença quanto ao nosso destino. Con­tinuaria executando minhas tarefas apenas por dever de sub­missão. A ordem era embarcar num desvio próximo, no trem das nove horas e quinze minutos, levando na mochila os restos da ração daquele dia. Era tudo que eu precisava saber. O subcomandante partira na frente com uma pequena turma avançada. O material fora transportado na véspera, e Hooper designado para inspecionar a tropa. A companhia tinha de apresentar-se formada às sete horas e trinta minutos com o equipamento de marcha arrumado diante das choupanas. Várias vezes recebemos ordens idênticas de partida, depois de uma certa manhã, em 1940, quando, entusiasmados, chegamos a pensar que íamos em defesa de Calais. Dali por diante, trocamos de posto três ou quatro vezes por ano; desta feita, o novo comandante tomou precauções extraordinárias, e chegou mesmo a ordenar que retirássemos todos os distin­tivos de nossos uniformes e transportes. Em sua opinião, "tratava-se de treinamento muito útil em caso de serviço ativo"... "Se encontrar lá, à nossa espera, uma única dessas mulheres que parecem surgir na esteira do acampamento, já sei, alguém andou dando com a língua nos dentes".

A fumaça das cozinhas perdia-se na neblina, via-se o acampamento como um labirinto confuso de atalhos sobrepostos ao projeto residencial inacabado, como se tivesse sido desenterrado por um grupo de arqueólogos depois de muito tempo.

"As escavações de Pollock estabelecem um elo importan­te entre as comunidades escravas do século XX e a anarquia das tribos que lhes sucederam. Encontramos aqui um povo de cultura adiantada, capaz de planejar um complicado sistema de esgotos, e construir estradas duradouras, dominado por uma raça das mais primitivas."

Assim, pensava eu, escreverão os sabichões do futuro, e, virando-me, cumprimentei o sargento-ajudante: — O Tenente Hooper está por aí?

Não, senhor, ainda não o vi hoje.

Dirigimo-nos para a secretaria, já desguarnecida, onde encontrei uma janela quebrada havia pouco, depois de encerrar o relatório sobre os danos registrados no aquartelamento. — Vento da noite, capitão — disse o sargento.

(Desculpa para todos os danos materiais, quando não era "Demonstrações de sapadores, capitão".)

Hooper apareceu. Era um rapaz pálido, com o cabelo penteado para trás, sem risca. Tinha o sotaque monótono das Midlands. Estava na companhia há dois meses.

Não era querido na tropa, porque não tinha grande competência. Além disso, costumava chamar os soldados de "Geor­ge", quando se dirigia a algum deles nos momentos de des­canso, mas eu sentia por ele uma certa afeição, em grande parte devido a um incidente ocorrido na primeira noite que passou no rancho.

Naquela ocasião, fazia menos de uma semana da che­gada do novo coronel, e nós não lhe tínhamos tomado o pulso ainda. O coronel bebia algumas rodadas de gim na ante-sala e mostrava-se bastante barulhento. De repente, reparou em Hooper.

Ryder, aquele jovem oficial ali não é um de seus subordinados? — perguntou-me ele. — Precisa cortar o cabelo.

É verdade, meu coronel — respondi. E era. — Vou tomar providências.

O coronel tomou mais alguns goles, olhando para o ra­paz e dizendo de modo que o ouvissem: — Santo Deus! Mas que tipo de oficiais nos mandam agora! — Ele parecia obce­cado por Hooper naquela noite. Depois do jantar, falou alto, subitamente: — Em meu último regimento, se um jovem oficial se apresentasse assim, os outros subalternos, com todos os diabos! cortavam-lhe o cabelo.

Ninguém demonstrou o menor entusiasmo pela brinca­deira, e nossa apatia parece que teve o dom de inflamar o coronel. — Você aí — disse ele, voltando-se para um bom rapaz da Companhia A —, vá buscar uma tesoura e corte o cabelo deste jovem.

Isso é uma ordem, coronel?

Trata-se de um desejo de seu comandante, na minha opinião não pode haver outra melhor.

E foi assim, no meio de um constrangimento glacial, que Hooper se sentou numa cadeira para levar uns piques em sua cabeleira. Deixei a ante-sala quando a operação começou; mais tarde lhe apresentei minhas desculpas pela maneira como fora recebido. — Essas coisas não costumam acontecer aqui — disse eu.

Não levo a mal — retrucou Hooper. — Tenho um espírito bastante esportivo.

Hooper não tinha ilusões sobre o Exército, aliás, sobre coisa alguma de modo especial, e que se pudesse destacar no meio da neblina envolvente, através da qual ele observava o universo. Alistou-se a contragosto, por obrigação, depois de ter feito tudo dentro de seus limitados recursos para isentar- se. Conformou-se, encarando o fato como "ter sarampo", disse ele. Hooper não era um romântico. Em sua infância, não cavalgou o corcel de Rupert, tampouco sentou-se entre as fogueiras do acampamento às margens do Xantus. Na idade em que seus olhos eram cegos para tudo, exceto a poesia, esse interlúdio estóico, de aventura, que os nossos colégios parecem criar para separar as lágrimas fáceis da criança das do ser adulto, Hooper chorou muitas vezes, mas não o fez pelo discurso de Henrique no dia de São Crispim, ou do epitáfio das Termópilas. Ensinaram-lhe história citando pou­cas batalhas, mas, cm troca, deram-lhe uma profusão de de­talhes sobre leis humanas, e sobre o advento da era industrial. Galipoli, Balaclava, Quebec, Lepanto, Bannockburn, Roncesvalles e Maratona, estas e a Batalha do Oeste, onde Artur caiu, e centenas de nomes que agora, ainda em meu estado de insen­sibilidade e anarquia, soam como notas de clarim, invocando-me de maneira irresistível através dos anos, com a mesma clareza e a mesma força dos tempos de infância, não encon­travam eco em Hooper.

Ele raramente se queixava. Embora não se lhe pudesse confiar a mais simples tarefa, possuía enorme respeito pela eficiência, e, baseado cm sua modesta experiência comercial, dizia às vezes, referindo-se aos métodos empregados pelo Exército para pagamento, abastecimento e emprego de "horas- homem": "No mundo dos negócios essa história não pegava".

Dormia como um justo, enquanto eu ficava acordado, me consumindo.

Nas semanas que passamos juntos, Hooper tornou-se um símbolo da juventude inglesa para mim; por isso, quando eu lia alguma declaração pública proclamando as necessidades da juventude no futuro, e a dívida do mundo para com os jovens, procurava verificar a exatidão de tais declarações gené­ricas, substituindo "juventude" por "Hooper", para ver se continuavam plausíveis. E assim, no escuro, antes do toque de alvorada, quedava-me às vezes pensando: "Concentrações de Hooper", "Albergues para Hooper", "Cooperação Internacional de Hooper" e "A religião de Hooper". Ele fazia o papel de ácido nas reações de todas essas ligas metálicas.

Não se poderia dizer que tivesse mudado, seu aspecto talvez fosse ainda menos marcial que ao chegar de seu OCTU Naquela manhã, sob o peso do equipamento de marcha, mal parecia um ser humano. Pôs-se em posição de sentido, num arrastar de pés como se estivesse dançando, e espalmou sobre a testa a mão enfiada em uma luva de lã.

Sargento, desejo falar com o Tenente Hooper... Bem, que diabo, por onde andou você? Eu o mandei inspe­cionar as linhas.

Estou atrasado? Desculpe. Tive de dar um duro para juntar minha tralha toda.

Para isso você tem um ordenança.

Teoricamente está certo. Mas sabe como é. Ele tam­bém tinha de se arrumar. Se a gente não cair no agrado desse pessoal, é esperar pela volta.

Bem, vá fazer a inspeção das linhas agora.

Certo-o.

E pelo amor de Deus não diga... certo-o.

Desculpe. Faço o possível para "não me esquecer. Escapuliu.

O sargento voltou assim que Hooper partiu.

O comandante vem chegando, capitão — disse-me ele.

Fui ao encontro dele.

Gotas de suor molhavam os pêlos de seu pequeno bigode ruivo, lembrando piaçava.

Tudo pronto por aqui?

Acho que sim, comandante.

Acha? Mas devia saber.

Seus olhos pousaram na janela quebrada. — Isso já foi anotado no relatório dos danos do aquartelamento?

Ainda não, comandante.

Ainda não? Se eu não tivesse visto isso, imagino que ficaria assim mesmo.

Ele se sentia constrangido diante de mim, esbravejava em parte por timidez, mas nem por isso eu me deixava co­mover.

Levando-me para trás das cabanas até uma cerca de ara­me que separava a minha área da do pelotão de transporte, pulou a cerca lépido e dirigiu-se para um fosso coberto de capim, que antigamente servia de limite para as terras da fazenda. Começou a fuçá-lo com sua bengala como se fosse um porco furão; de repente soltou um grito de satisfação. Tinha descoberto um daqueles depósitos de lixo que, em sua noção de limpeza, os soldados tanto prezam. Um cabo de vassoura, a tampa de um fogão, um balde completamente enferrujado, um pé de meia, um pedaço de pão estavam es­condidos entre malvas e urtigas, no meio de pacotes de cigarro e latas vazias.

Olhe isto aqui — disse o comandante. — Bela im­pressão dará ao regimento que nos vier render.

Esse negócio está ruim — respondi.

É uma vergonha. Providencie para que tudo seja queimado antes de deixar o acampamento.

Muito bem, comandante. Sargento, envie um mensa­geiro ao pelotão de transporte e avise ao Capitão Brown que o comandante quer o fosso limpo.

Eu não sabia qual seria a reação do coronel, ele também estava perplexo. Quedou-se por alguns instantes irresoluto remexendo o lixo no fosso, depois deu meia-volta e afastou-se.

Capitão, o senhor não devia fazer essas coisas disse o sargento, meu guia e esteio desde que entrei na com­panhia. Não devia, no duro.

Esse lixo não é nosso.

Pode ser, capitão, mas sabe como é. Se a gente não cai no agrado das altas patentes, elas tiram a forra de qual­quer maneira.

Quando passamos pelo hospício, dois ou três velhos internados engrolaram qualquer coisa, amavelmente, por trás das grades.

Viva! amigo, até a vista... Daqui a pouco estamos aí... Sorria sempre até o nosso próximo encontro gritaram os soldados.

Eu marchava com Clooper à frente do primeiro pelotão.

Escute aqui, sabe para onde nós vamos?

Não.

Acha que é de verdade?

Não.

Tapeação?

Sim.

Todos estão dizendo que vamos entrar no barulho. Francamente, não sei o que pensar. Em todo caso é uma tolice, tanto exercício e treinamento para nunca entrar em combate.

Não se preocupe. Quando chegar a hora, não haverá razão para queixas.

Bem, não quero muita coisa. Apenas o bastante para dizer que estive no brinquedo.

Um trem com vagões antiquados esperava-nos no desvio; estávamos sob o comando de um oficial de transportes; uma equipe acabava de transportar o último lote de equipamentos de marcha dos caminhões para os vagões de carga. Em meia hora estávamos prontos para partir, e uma hora depois partíamos.

Tínhamos um vagão só para nós, meus três tenentes-comandantes e eu. Eles comeram sanduíches, chocolate, fuma­ram e dormiram. Nenhum deles levava um livro consigo. A princípio, durante três ou quatro horas, prestaram atenção no nome das cidades, debruçando-se nas janelas quando parávamos entre estações, o que acontecia com freqüência. Por fim, perderam o interesse. Ao meio-dia, e novamente à noite, serviram-nos chocolate morno, despejado de um recipiente para as nossas canecas. O trem arrastava-se em direção ao sul, cortando a paisagem insípida e monótona de uma via principal.

O acontecimento mais importante do dia foi a reunião de oficiais promovida pelo comandante. Reunimo-nos em seu vagão, convocados por um ordenança. Ele e seu ajudante-de- ordens estavam de capacete de aço e equipados. Foi logo dizendo: — Isto é uma reunião de oficiais. Espero que os senhores se apresentem uniformizados. O fato de estarmos num trem não vem ao caso. — Pensei que ele fosse nos mandar de volta, mas, depois de nos lançar um olhar furibundo, disse: — Sentem-se.

"O acampamento ficou num estado lastimável. Para onde quer que me virasse, encontrava provas de que os oficiais não estiveram cumprindo seu dever. O estado em que é deixado um acampamento é a melhor maneira de se julgar a eficiência dos oficiais do regimento. São fatos como este que fazem a reputação de um batalhao e de seu comandante." Teria ele dito isso, ou foi imaginação minha, diante do ressentimento estampado em sua voz e seu olhar? Não sei se terminou a frase: "Não estou disposto a ver minha reputação profissional comprometida pelo relaxamento de alguns oficiais da reserva".

Estávamos sentados de lápis e caderno de apontamentos em punho, esperando para tomar nota dos detalhes da nossa próxima missão. Uma pessoa mais perspicaz veria logo que o aparato não causara a menor impressão; talvez ele tivesse percebido, porque acrescentou num tom de voz petulante, como se fosse um mestre-escola: — Peço apenas um mínimo de cooperação honesta.

Depois, consultando suas notas, passou a ler:

— "Ordem do dia:

"'Informação: o batalhão se acha em trânsito entre pon­to A e ponto B. Trata-se de uma linha de comunicação de importância vital que pode ser alvo de bombardeio e ataques de gás inimigo.

'"Objetivo: pretendo alcançar ponto B.

'"Método: o trem chegará a seu destino às vinte e três horas e quinze minutos aproximadamente...'", e assim por diante.

O veneno estava escondido sob o título "Administração". A Companhia C, com exceção de um pelotão, deveria descarregar o trem ao chegar ao desvio. Três caminhões de três toneladas estariam lá para transportar todo o material para um depósito do batalhão no novo acampamento; o trabalho seria executado sem interrupção. O pelotão de reserva deveria providenciar uma guarda para o depósito, e sentinelas no perímetro da área do acampamento.

Tem alguma pergunta a fazer?

Poderíamos requisitar chocolate para a turma de ser­viço?

Não. Mais alguma pergunta?

Quando eu contei isso ao sargento, ele disse: — Coitada da Companhia C, com a macaca de novo. — Eu sabia que ele estava me recriminando por haver hostilizado o coman­dante.

Transmiti a notícia aos tenentes-comandantes.

Puxa — disse Hooper —, vai ser duro para o pessoal. Eles vão ficar chateados. Não sei por que ele parece nos escolher sempre para fazer o serviço pesado.

Você vai montar guarda.

Certo-o. Mas olhe aqui, como vou encontrar o perí­metro no escuro?

Pouco depois da ordem de blackout, nosso sossego foi interrompido pela presença de um ordenança de aspecto lúgubre, que percorria o trem, de ponta a ponta, com uma matraca. Um sargento, dos mais metidos à besta, gritou: — Deuxième service.

Estamos sendo contaminados com gás de mostarda, — disse eu. — Mande fechar as janelas. — Comecei a escre­ver então um relatório sobre a situação, curto e preciso, para dizer que não havia baixas, que nada fora contaminado, e que já tinha designado os soldados encarregados de executar a descontaminação da parte externa dos vagões antes de evacuarmos o trem. O comandante parece que se deu por satis­feito, e não deu mais sinal de si. Quando anoiteceu, fomos todos dormir.

Chegamos, afinal, muito tarde ao desvio. Fazia parte de nosso treinamento, em caso de segurança e de serviço ativo, evitar estações e plataformas. Pular das plataformas dos trens para o leito das ferrovias no escuro provocava desordens e danos materiais.

Reunir na estrada abaixo do embarcadouro. Capitão Ryder, a Companhia C parece lerda como de costume.

Certo, comandante. Fitamos um pouco atrapalhados com a caiação.

Caiação?

Para descontaminar a parte externa dos vagões, comandante.

Ah, não há dúvida, é muito consciencioso de sua parte. Deixe isso e apresse-se.

Nessa altura, meus soldados, sonolentos e mal-humora­dos, entravam em forma na estrada com grande alarido. Dali a pouco, o pelotão comandado por Hooper perdia-se na escuridão. Encontrei os caminhões, organizei os soldados em linha descendo pela ribanceira íngreme para passar o material de mão em mão; quando eles perceberam que estavam realizando alguma coisa de útil, ficaram mais animados. Participei do trabalho durante a primeira meia hora, depois afastei-me, dirigindo-me ao encontro do subcomandante, que voltava com o primeiro caminhão.

O acampamento não é mau informou ele. Um casarão particular com uns dois ou três lagos. Se tivermos sorte, patos não faltarão. A vila tem um boteco e um correio. Não há cidade nas vizinhanças. Consegui arranjar uma cabana para nós dois.

Às quatro da madrugada, o trabalho estava terminado. Parti no último caminhão. Seguimos por atalhos sinuosos, onde galhos caídos batiam no pára-brisa. Depois, saímos dali para desembocar em uma estrada. Em outro lugar, chegamos a uma clareira, na convergência de duas estradas, um círculo de lanternas de campanha marcava o local onde se empilhava o material. Descarregamos o caminhão aí e, afinal, sob um céu sem estrelas e uma garoa fina que começava a cair, se­guimos os guias em direção ao nosso aquartelamento.

Dormi até ser despertado pelo meu ordenança. Levantei-me cansado, vesti-me e fiz a barba em silêncio. Chegando à porta, perguntei então ao subcomandante: Como se cha­ma este lugar?

Ele me disse, e imediatamente tive a impressão de que alguém havia desligado o rádio de repente, cortando, de sú­bito, a voz que reboava em meus ouvidos sem cessar, como uma ilusão. Fez-se um silêncio profundo, vazio a princípio, mas que, à medida que eu me dominava, foi se enchendo de uma multidão de sons doces e familiares, há muito esquecidos, porque o nome pronunciado me era tão conhecido, e de tal poder evocativo, que só em ouvi-lo os fantasmas obsedantes dos últimos anos pareciam fugir.

Fora da cabana, parei assombrado, em transe. Não chovia mais, mas as nuvens pesadas estavam baixas. Era uma manhã tranqüila, e a fumaça da cozinha subia reta em direção ao céu de chumbo. Um antigo caminho de trilhos, coberto de capim e agora revirado em sulcos enlameados, contornava o morro, perdendo-se de vista na base de um outeiro; em suas margens se via uma confusão de ferragens retorcidas jogadas a esmo, de onde partiam tinidos, matraqueados, assovios, vaias, sons que lembravam um jardim zoológico e que signi­ficavam o despontar de um novo dia no batalhão. Mais adian­te, ao redor de nós, e mais familiar ainda, a paisagem delicada, feita pela mão do homem. O lugar era isolado, abrigado e fechado dentro de um único vale sinuoso. Nosso acampa­mento estava localizado ao longo de uma encosta suave; em frente, terras ainda virgens se estendiam até o horizonte pró­ximo; um regato separava as duas paisagens. Chamava-se Bride, e nascia a menos de duas milhas de distância, em uma fazenda cujo nome era Bridesprings, e aonde às vezes costumá­vamos ir tomar chá. Mas abaixo, o regato transformava-se num rio caudaloso, antes de lançar-se no Avon, que, represado naquele lugar, formava três lagos. Um nada mais era que um lençol de água entre bambus, mas os outros, mais volumosos, refletiam as nuvens e a extensão das praias em suas margens. As florestas eram todas de carvalhos e faias; os primeiros, de troncos cinzentos e nus; estas, pintadas de verde pelos botões que desabrochavam; as árvores compunham um desenho simples e caprichoso, onde se viam vastas clareiras daquele tom.

As corças ainda pastariam ali? Relanceando o olhar, via-se um templo dórico à beira da água, e um arco coberto de hera sobre a última das comportas. Tudo fora planejado e plantado há um século e meio, tendo atingido por essa época a plena maturidade. De onde eu estava não podia ver a casa, escondida por uma muralha de verdura, mas sabia exatamente como ela era, e em que lugar se encontrava, aninhada entre os limoeiros, como o gamo entre os arbustos.

Hooper apareceu deslizando e fez continência naquele seu jeito, que muitos tentavam imitar, mas que era inimi­tável. O rosto pálido após uma noite de vigília, a barba por fazer.

A Companhia B veio nos render. Dispensei o pessoal para que se arrumasse.

Está bem.

A casa fica ali em cima, depois da curva.

Sim — disse eu.

Na semana que vem o estado-maior do batalhão vai se instalar lá. É um quartel e tanto. Andei espiando. Enfei­tado demais para o meu gosto. Coisa engraçada, há uma espécie de igreja católica num puxado. Dei uma olhadela, estavam celebrando uma espécie de ofício; só havia um padre e um velho. Fiquei meio encabulado. É mais do gênero do senhor.

Eu talvez desse a impressão de não estar ouvindo, e ele falou, fazendo uma última tentativa para despertar minha atenção: — Há também uma bruta fonte em frente à escada­ria, toda de rochas, com uns animais esculpidos. O senhor nem faz idéia.

Faço, sim, Hooper. Já estive aqui antes.

As palavras pareciam reboar em meus ouvidos, como se viessem das profundezas de meu ser.

Ah, bem, então não é novidade. Vou me arrumar.

Eu já tinha estado ali antes. Não havia novidade.

 

Já estive aqui antes disse eu; já tinha estado ali antes; primeiro, com Sebastian, há mais de vinte anos, em um certo dia de junho, sem uma nuvem no céu, quando as flores de noiva pareciam flocos de algodão nas valas, e o ar estava impregnado de todos os perfumes estivais. Dia de luminosidade singular, e, apesar de ter voltado tantas vezes, em diferentes estados de espírito, era essa primeira visita que meu coração evocava.

Naquele dia, eu também ignorava meu destino. Estáva­mos na Semana da Regata. Oxford agora submersa e esque­cida, irrecuperável como Lyoness[1], as águas invasoras tinham agido com tanta rapidez era ainda uma pintura. Em suas ruas espaçosas e tranqüilas, os transeuntes caminhavam e fala­vam como nos tempos de Newman. Sua neblina no outono, sua primavera cinzenta, seus dias maravilhosos de verão iguais àquele —, quando os castanheiros floriam e os sinos tocavam notas agudas e límpidas, pairando sobre telhados e cúpulas, tudo lembrava a atmosfera amena de um convívio secular com a mocidade. Era esse silêncio monacal que fazia ressoar nossos risos, propagando-os e abafando os outros ruí­dos alegremente.

Ali, na Semana da Regata, vinha ecoar de maneira discordante a tagarelice de vozes femininas. Algumas centenas de mulheres, chilreando, esvoaçando sobre as pedras das ruas, subindo escadas, apreciando a vista, à cata de diversões, be­bendo ponche, comendo sanduíches de pepino. Esse mulherio todo era levado a passear de barco no rio, reunido em bando nos escaleres da universidade, recebido no Isis[2] e na União com brincadeiras extemporâneas, ridículas, inteiramente contristadoras, no gênero Gilbert e Sullivan[3], e por extraordiná­rios efeitos corais nas capelas da universidade. Ecos da invasão penetravam todos os recantos, e em minha faculdade aquilo não era um eco, mas autêntica fonte de sérios aborrecimentos, íamos dar um baile. Armaram estrados e toldos na quadra da frente, que era onde eu morava; cercaram o cubículo do por­teiro com palmas e azaléias; e, o pior de tudo, o assistente, cujo quarto ficava em cima do meu, um tipo fuinha, ligado às ciências naturais, cedera seus aposentos para servirem de ves­tiário das senhoras, e a menos de um palmo de minha porta via-se um cartaz estampando essa infâmia.

Ninguém andava mais aborrecido do que meu bedel.

Os cavalheiros desacompanhados terão a bondade de, na medida do possível, fazer suas refeições fora nos próximos dias — declarou ele, sorumbático. — O senhor vai almo­çar aqui?

Não, Lunt.

Dizem que é para facilitar o serviço dos empregados. Que idéia! Tenho de comprar uma almofadinha de alfinetes para o vestiário das senhoras. Para que essa história de dan­ças? Não entendo por quê. Antigamente, nunca se via baile na Semana da Regata. Bem, na colação de grau é diferente, sendo época de férias, mas na Semana da Regata, não, como se não bastassem os chás e as regatas. O senhor sabe, na minha opinião é por causa da guerra. Se não fosse isso, não teria acontecido. — Estávamos em 1923, e para Lunt, como para milhares de pessoas, o mundo nunca mais voltaria a ser igual ao que fora antes de 1914. — Bem, tomar seu vinhozinho à noite — continuou, na sua louvável forma do cos­tume, nem dentro nem fora do quarto — ou receber um ou dois cavalheiros para almoçar, está certo. Mas danças, não. Foram os rapazes que voltaram da guerra que vieram com a novidade. Já tinham passado da idade, não sabiam das coisas, nem queriam aprender. Essa c a verdade. Alguns che­gam mesmo a ir dançar com gente da cidade do Masonic, mas acabarão sendo pilhados pelos encarregados da discipli­na, o senhor vai ver... Bem, aqui está Lorde Sebastian. Não posso ficar tagarelando, uma vez que tenho de comprar almofadinhas de alfinetes.

Nisso entrou Sebastian, de terno de flanela cinza-claro, camisa de crepe da China, gravata Charvet, aliás minha, com uma estampa representando selos de correio. Charles, mas que está acontecendo em sua faculdade? Virou um circo? Só me faltou encontrar elefantes. Verdade seja dita, Oxford inteira ficou de repente esquisitíssima. Ontem à noite, formigava de mulheres. Você precisa fugir do perigo e sair daqui imediatamente. Tenho um carro e um cesto de morangos à es­pera, e uma garrafa de Château Peyraguey; você nunca provou esse vinho, por isso não vale a pena fingir. E uma delícia, com morangos.

Aonde vamos?

Visitar um amigo.

Quem é?

Chama-se Hawkins. É bom você trazer dinheiro, no caso de querermos comprar alguma coisa. O carro pertence a um certo Hardcastle. Se eu me arrebentar, devolva-lhe os cacarecos; não sou muito bom no volante.

Do outro lado do portão, além do jardim de inverno, antiga casa do porteiro, via-se um Morris-Cowley aberto, de dois lugares. O ursinho de brinquedo de Sebastian estava sen­tado na direção. Colocamo-lo entre nós dois. Cuidado para ele não enjoar e com isso arrancou. Os sinos de St. Mary badalavam nove horas; escapamos de colidir com um pastor protestante de chapéu de palha preto e barba branca, pedalando tranqüilamente na contramão na estrada; atravessa­mos Carfax, passamos a estação, e logo entramos em pleno campo, tomando a Botley Road. Naquele tempo isso era fácil.

É cedo, não é? perguntou Sebastian. O mulhe­rio todo deve estar ainda às voltas com o ritual incompreensí­vel que elas parecem seguir antes de aparecer em público. A preguiça as perdeu. Vamos embora. Deus abençoe Hardcastle.

"Seja lá quem for.

"Ele estava contando vir conosco. A preguiça perdeu-o também. Para falar a verdade, eu disse 'às dez'. É um sujeito muito sorumbático, lá da faculdade. Leva uma dupla existência. Pelo menos, presumo. Não poderia viver eternamente, dia e noite, sendo Hardcastle, não acha? Se assim fosse, mor­reria de tédio. Diz ele que conhece meu pai, mas não pode ser."

Por quê?

Ninguém se dá com papai. Ele é um pária social. Você não sabia?

Que pena nem você nem eu sabermos cantar — disse eu.

Quando chegamos a Swindon, deixamos a estrada prin­cipal e, com o sol a pino, passamos entre muros de pedra enxuta e casas de alvenaria. Por volta das onze horas, sem avisar, Sebastian embicou o carro por um caminho adentro e parou. O calor já era bastante forte a essa altura, obrigando-nos a buscar uma sombra. Num outeiro cujo formato lembrava o lombo de um carneiro tosquiado, sob um agrupamento de olmos, comemos os morangos e bebemos o vinho. Sebastian tinha razão, a combinação era maravilhosa; acendemos alenta­dos cigarros turcos e deixamo-nos ficar a esmo; Sebastian com os olhos fitos nas folhas sobre sua cabeça, eu, admirando-lhe o perfil, enquanto a fumaça cinzento-azulada se desprendia dos cigarros, sem que a mais leve brisa a tocasse, rumo às sombras verde-azuladas da folhagem, e o perfume adocicado do tabaco fundia-se com os doces perfumes estivais ao redor de nós; os vapores suaves do vinho dourado pareciam nos fazer pairar um centímetro acima da relva, mantendo-nos no ar.

O lugar ideal para enterrar um pote de ouro — disse Sebastian. — Eu gostaria de enterrar alguma coisa de valor em todos os lugares onde fui feliz; assim, quando a velhice chegasse, e eu me sentisse feio e triste, poderia voltar para desenterrar meus tesouros e recordar.

Apesar de ser meu terceiro trimestre depois da matrícula, considero a data de meu primeiro encontro com Sebastian, ocorrido por acaso no trimestre anterior, como o marco de minha carreira em Oxford. Estávamos em faculdades diferentes e vínhamos de ginásios diferentes, e eu poderia facilmente ter cursado meus três ou quatro anos de universidade sem conhecê-lo, se não fosse o fato de ele ter-se embriagado certa noite em minha faculdade e eu morar num andar térreo, na quadra da frente.

Meu primo Jasper, a única pessoa que julgara de bom alvitre orientar-me no início de minha vida estudantil, avisara-me dos perigos decorrentes dessa localização. Meu pai não me dera conselho algum. Como de costume, evitara qualquer con­versa a sério comigo. Aliás, só mencionou o assunto quinze dias antes de minha partida, dizendo, meio acanhado e com certa malícia: — Estive falando a seu respeito. Conheci o di­retor de sua futura faculdade no Athenaeum. Eu queria con­versar a respeito das idéias dos etruscos sobre imortalidade, e ele, sobre cursos de aperfeiçoamento para operários; acabamos entrando num acordo e falamos de você. Aproveitei para per­guntar quanto eu deveria dar a você de mesada. Ele me res­pondeu: "Trezentas libras por ano, não lhe dê mais em hipó­tese alguma; a maioria dos alunos ganha isso". Achei a resposta desastrosa. Nos meus tempos de estudante, minha mesada era maior do que a dos outros rapazes em geral, e, se não me falha a memória, em lugar algum do mundo, e em nenhuma fase da vida, algumas centenas de libras a mais ou a menos têm tanta importância para nossa própria popularidade. Eu estava con­siderando dar-lhe seiscentas — disse meu pai, fungando um pouco, como era seu hábito quando achava graça em alguma coisa —, mas refleti que, se o diretor viesse à saber disso, poderia tomá-lo como um acinte da minha parte. Por isso, dar-lhe-ei quinhentas e cinqüenta.

Agradeci.

— Sim, estou sendo condescendente, mas você sabe, são juros do capital... Bem, acho que este é o momento propício para dar-lhe alguns conselhos. Foi coisa que nunca recebi, seu primo Alfred foi a exceção à regra. Você sabe que no verão, antes de me matricular, ele veio especialmente a Boughton com esse intuito? E sabe o que ele me disse? "Ned, isso eu lhe peço, ande sempre de cartola nos domingos. O conceito em que é tido um aluno depende, sobretudo disso." Você sabe — continuou meu pai, fungando fundo — que eu sempre segui esse conselho à risca? Alguns alunos o faziam, outros não. Nunca percebi a menor diferença, nem ouvi o menor comentário a respeito, mas nunca deixei de usá-la. De onde se deduz a importância de um bom conselho, dado com sabedoria no momento oportuno. Gostaria de fazer o mesmo por você, mas não sei como.

Meu primo Jasper, filho único do irmão mais velho de meu pai, encarregou-se de preencher essa lacuna. Meu pai costumava referir-se ao irmão, meio a sério, como "o chefe da família". Meu primo era quartanista, e no trimestre anterior por pouco conquistou as insígnias de campeão de remo; além disso era secretário do Canning e presidente do JCR; era um sujeito importante na universidade. Logo na primeira semana que lá passei, ele apareceu para uma visita de cerimônia, fican­do para o chá. Empanturrou-se de bolinhos de mel, torradas de enchova e bolo de nozes da Fuller, depois acendeu o ca­chimbo, refestelou-se na cadeira de vime e começou a deitar as regras de conduta que eu deveria seguir. Ele fez a cobertura de quase todos os assuntos; hoje ainda, seria capaz de repetir quase tudo, tintim por tintim... "Você está cursando histó­ria? Essa disciplina é tida no melhor conceito. A mais despre­zível é literatura inglesa, c em segundo lugar vem o curso de humanidades. Você deve tirar o primeiro ou o último lugar. Não adianta outra colocação. O esforço despendido para obter um bom segundo lugar é tempo perdido. Você deve freqüentar as melhores conferências, por exemplo, as de Arkwright sobre Demóstenes, sejam elas realizadas em sua faculdade ou não... Quanto à indumentária, vista-se como o faria em uma casa de campo. Nunca ande de casaco de tweed e calças de flanela, mas sempre de terno. E vá a um alfaiate londrino, o corte é melhor e o crédito mais camarada... Quanto a clubes, entre para o Carlton agora, e para o Grid no começo do segundo ano. Se quiser candidatar-se à União, e não é mau, procure firmar sua reputação, primeiro fora, no Canning ou no Cha­tham, e comece falando sobre a dissertação... Fuja do Boar's Hill... " À nossa frente, o céu dardejava sobre os telhados, depois escureceu; pus mais carvão no fogo, acendi a luz, que revelou o ar respeitável de suas bombachas feitas em Londres e sua gravata Leander... "Não trate os lentes como se fos­sem mestres-escolas, mas da mesma forma que trataria o vigário em sua casa... Você verá que passou a metade do segundo ano desvencilhando-se das amizades indesejáveis feitas no pri­meiro... Cuidado com os anglo-católicos, são todos uns sodo­mitas de tendências duvidosas. Aliás, fuja dos grupos religiosos, só trazem aborrecimentos... "

Afinal, quase ao sair, disse: "Uma última recomendação. Mude de aposentos". Eram quartos espaçosos, com janelas embutidas, forrados de madeira pintada do século XVIII; como calouro, foi uma sorte consegui-los. "Já vi muito estudante liquidado por morar em andar térreo, na quadra da fren­te", disse meu primo, muito sério. "Começa aparecendo gente. Deixam as becas ali, depois vêm buscá-las, antes de ir para a sala de reuniões; você oferece sherry, e, sem se dar conta, aca­ba abrindo um bar gratuito para todos os indesejáveis da faculdade."

Não me lembro de, em sã consciência, ter seguido um único de seus conselhos. Pelo menos nunca mudei de aposen­tos; os goivos cresciam debaixo de minhas janelas, e sua fra­grância perfumava as noites de verão.

Em retrospecto, é fácil atribuir à nossa mocidade uma falsa precocidade e uma falsa inocência; procuramos nos ta­pear, esquecendo as datas escritas no canto da porta para marcar nosso crescimento. Eli gostava de imaginar que tinha decorado os quartos com objetos da Morris e gravuras de Arundel, que minhas estantes estavam cheias de manuscri­tos do século XVII, e de romances franceses do Segundo Império, encadernados em couro na Rússia e papel de seda. Mas a verdade era bem diferente. Na primeira tarde que ali passei, lembro-me de ter pendurado, com orgulho, uma re­produção dos Girassóis, de Van Gogh, sobre a lareira, e de ter colocado um biombo pintado por Roger Fry, representando uma paisagem provençal, que comprei barato na liquidação final da Omega. Além disso, um cartaz de McKnight Kaufier, Cadernos de poesia da Biblioteca de Poesia, e, o que dói mais, uma versão em porcelana de Polly Peachum entre dois círios negros, sobre o consolo da chaminé. Meus livros eram poucos e banais: Vision and design, de Roger Fry, A Shropshire lad, na edição da Medici Press, liminent Vietorians, alguns volu­mes da "Georgian Poetry", Sinisier street e South wind.

As primeiras amizades que ali fiz não destoavam do am­biente: Collins, estudante do Winchester College, um lente em embrião, de sólida cultura e humor infantil, e um pequeno grupo de intelectuais universitários, que representavam o meio-termo entre a cultura brilhante dos "estetas" e a dos acadêmi­cos socialistas, que se perdiam em uma busca intensiva e desor­denada dos fatos, nas pensões da Iffley Road e Wellington Square. Foi esse o círculo que me adotou em meu primeiro semestre; eles me proporcionavam o gênero de companhia que eu apreciara no ginásio, e este, por sua vez, me preparara para esse tipo de convívio. Mas, mesmo no início, apesar da excita­ção provocada pelo fato de estar em Oxford, de possuir meus próprios aposentos e meu próprio talão de cheques, eu sentia, no íntimo, que Oxford me guardava outras surpresas.

Com a aparição de Sebastian, essas figuras fantasmagóri­cas se perderam lentamente no meio da paisagem, como os carneiros entre as urzes nos cimos das montanhas envoltas na neblina.

Collins me revelara os sofismas contidos na estética mo­derna. "...Partindo do significado da forma, a argumentação inteira se mantém ou cai em massa. Se você aceita em Cézanne uma terceira dimensão aparente na dupla dimensão de suas telas, não pode negar a expressão de fidelidade estampada no olhar de um cão pintado por Landseer..." Mas só quando Sebastian, certo dia, folheando as páginas de Art de Clive Bell, leu: "Será a emoção sentida diante da beleza de uma borboleta ou de uma flor idêntica à admiração provocada por uma catedral ou um determinado quadro? Para mim é", foi que eu entendi o que aquilo queria dizer.

Eu conhecia Sebastian de vista, muito antes de lhe ser apresentado. Nem podia deixar de ser assim, porque, logo na primeira semana depois de sua chegada, ele se tornou a figura mais conspícua do ano, pela impressionante beleza, e por suas excentricidades que pareciam não ter limite. Vi-o pela primeira vez à porta do Germer, e, nessa ocasião, não foi sua beleza, mas o fato de ele segurar um grande urso de brinquedo que me chamou a atenção.

Aquele ali disse o barbeiro, enquanto eu me sen­tava é Lorde Sebastian Flyte. Um rapazinho muito di­vertido.

Parece respondi impassível.

É o segundo filho do Marquês de Marchmain. Seu irmão, o Conde de Brideshead, formou-se o ano passado. Bem, ele era muito diferente, um cavalheiro muito sossegado, pare­cia um velho, até. Imagine só o que Lorde Sebastian queria: uma escova de cabelo para seu ursinho, mas de fios bem duros, não para escová-lo, disse Lorde Sebastian, mas para ameaçá-lo de uma boa surra, quando ele se comportasse mal! Comprou uma muito bonita, com as costas de marfim, e vai mandar gra­var "Aloysius", é o nome do ursinho. Esse homem, que já devia estar cansado das maluquices dos calouros, parecia en­cantado com ele. Em todo caso, eu mantive minha atitude de desaprovação, e os encontros subseqüentes, quando o vi de tílburi, depois jantando de suíças postiças no George, não me amoleceram, apesar de Collins, que andava lendo Freud na ocasião, conhecer uma série de termos técnicos que podiam explicar qualquer situação.

Quando nos encontramos, afinal, as circunstâncias não foram mais propícias. Estávamos nos primeiros dias de março, pouco antes da meia-noite; eu tinha convidado os intelectuais da faculdade para um jantar à base de ponche adocicado. O fogo crepitava, a atmosfera em meu quarto estava carregada de fumaça e especiarias, e meu cérebro cansado de tanta metafísica. Escancarei a janela, e do pátio, lá fora, vieram os sons habi­tuais de risos de gente embriagada e de passos trôpegos. Alguém disse: "Parem", outra pessoa falou: "Vamos", e al­guém ainda: "Há muito tempo... casa... até Tom parar de tocar", e uma voz mais firme do que as outras: "Sabem de uma coisa? estou me sentindo muito mal. Preciso deixá-los por uns instantes". Nesse momento surgiu à janela o rosto que eu sabia ser de Sebastian, mas não como o vira antes, cheio de vida e brilhando de alegria. Olhou para mim por alguns instan­tes, o olhar baço, depois, debruçando-se bem para dentro do quarto, vomitou.

Era bastante comum os jantares acabarem dessa maneira; havia mesmo uma taxa reconhecida para os bedéis em ocasiões semelhantes. Pagávamos então nosso tributo a Baco, apren­dendo a beber. Por sua vez, Sebastian, escolhendo uma janela aberta em um momento crítico, parecia evidenciar um senso de ordem de certo modo alucinado, contudo simpático. De qualquer maneira, foi um encontro desastrado.

Os amigos levaram-no até o portão, e, pouco depois, o dono da festa, um amável estudante de Eton, de minha turma, voltou para pedir desculpas. Ele estava embriagado também, pôs-se a repisar as mesmas desculpas e acabou meio lacrimoso. Foi uma misturada de vinhos disse ele. A culpa não foi da qualidade nem da quantidade. Foi a mistura. Procurem entender e chegarão ao âmago da questão. Quem tudo com­preende, tudo perdoa.

Está bem respondi, mas na manhã seguinte en­frentei as reclamações de Lunt com certa apreensão.

Dois jarros de ponche adocicado para os cinco disse Lunt e é isso que acontece. Nem puderam chegar até a janela. Quem não sabe beber, não deve fazê-lo.

Não foi ninguém do grupo. Foi gente de fora.

Bem, seja lá quem for, o trabalho de limpar é desa­gradável do mesmo jeito.

Há cinco xelins no aparador.

Já vi, e muito obrigado, mas prefiro mil vezes ficar sem o dinheiro a ter de limpar essa sujeira.

Apanhei minha beca e deixei-o trabalhando. Naquele tempo ainda costumava freqüentar as aulas. Passava de onze horas quando voltei. Encontrei meu quarto cheio de flores; em todos os cantos, em todos os recipientes possíveis e inimagináveis, via-se o que deveria ser, e era, aliás, a féria do dia de uma barraca de flores do mercado. Lunt embrulhava as sobras em papel pardo antes de levá-las para casa.

Lunt, que é isso?

O cavalheiro de ontem à noite, ele deixou um bilhete para o senhor.

A nota estava escrita a crayon conte em uma folha inteira de meu papel de desenho preferido, Whatman II. P.: "Estou arrependido. Aloysius não quer falar comigo enquanto eu não for perdoado, por isso, por favor, venha almoçar hoje. Sebastian Flyte". Não pude deixar de pensar que era bem típico dele presumir que eu conhecia seu endereço, mas acontece que eu sabia.

Um cavalheiro muito divertido. Deve ser um prazer trabalhar para ele. Naturalmente, o senhor vai almoçar fora. Foi o que eu disse a Mr. Collins e Mr. Partridge, eles queriam vir almoçar com o senhor.

Sim, Lunt, eu vou.

Esse almoço, uma verdadeira festa, foi o começo de uma nova fase em minha vida.

Não me sentia muito seguro de mim mesmo, era territó­rio estrangeiro, e uma vozinha puritana e prudente, que me falava como se fosse Collins, dizia-me que era de bom-tom mostrar-me arredio. Mas naquela época eu buscava o amor, por isso fui cheio de curiosidade, com uma sensação leve e indefinida de expectativa, sentindo que, afinal, eu encontraria ali a porta baixa de um jardim encantado, que nenhuma janela devassava, mas que deveria existir em algum lugar no coração daquela cidade triste.

Sebastian morava em Christ Church, na parte alta de Meadow Buildings. Estava só quando entrei, descascava um ovo de tarâmbola tirado de um ninho de musgo enorme, que estava no centro da mesa.

Acabei de contá-los disse ele. Havia cinco para cada um, e dois de quebra; por essa razão estou comendo os dois. Sinto-me extraordinariamente esfaimado hoje. Entreguei-me cegamente nas mãos de Bolbear e Goodall; sinto-me tão entorpecido, que começo a acreditar que ontem à noite foi tudo um sonho. Por favor, não me acorde.

Ele era encantador, de uma beleza hermafrodita que na adolescência parece feita para o amor, e fenece ao primeiro sopro do vento.

Seu quarto era um amontoado de objetos estranhos: um harmônio em uma caixa em estilo gótico, um cesto de papéis feito de uma pata de elefante, uma pirâmide de frutas de cera, dois vasos de Sèvres de proporções exageradas, desenhos de Daumier emoldurados; tudo isso parecia mais extravagante ainda em contraste com o mobiliário severo da faculdade e a ampla mesa de almoço. O consolo da chaminé estava coberto de convites enviados pelas anfitriãs da sociedade de Londres.

Hobson, esse animal, colocou Aloysius no quarto ao lado — disse ele. — Talvez seja melhor assim, não sobrará nenhum ovo de carambola para ele. Sabe? Hobson detesta Aloysius. Gostaria de ter um bedel como o seu. Foi bonzinho comigo hoje de manhã; em seu lugar certas pessoas teriam sido bem severas.

Os convidados chegaram. Eram três calouros de Eton, rapazes corteses, elegantes, de ar indiferente; tinham ido a uma festa em Londres no dia anterior, e mencionavam o fato como se se tratasse do enterro de um parente próximo e pouco querido. Todos eles, ao entrar, iam direto para os ovos de carambola, depois pareciam reparar primeiro em Sebastian e depois em minha pessoa, com uma polida falta de curiosidade, como se pensassem assim: "Jamais nos passaria pela cabeça a indelicadeza de dizer que nunca fomos apresentados".

São os primeiros que aparecem este ano — disseram. — Onde você os arranja?

Mamãe me manda de Brideshead. As fêmeas sempre soem cedo para ela.

Depois de acabar com os ovos, quando estávamos na lagosta à Newburg, chegou o último convidado.

Meu caro — disse ele —, não pude sair mais cedo. Almocei com meu incrível preceptor, que achou muito estra­nho eu sair daquela maneira. Disse-lhe que precisava trocar de roupa para o futebol.

Era alto, esguio, moreno, olhos grandes, atrevidos. Nós trajávamos roupas grosseiras de tweed e mocassins, ele usava um terno macio, cor de chocolate, com escandalosas listas trancas, sapatos de camurça, gravata-borboleta de tamanho exagerado. Quando entrou no quarto, tirou as luvas de couro lavável, amarelo; em parte, gaulês; em parte, ianque; judeu, talvez; inteiramente exótico.

Não preciso dizer que se tratava de Anthony Blanche, o "esteta" por excelência, sinônimo de iniqüidade, de Cherwel Edge até Somerville. Muitas vezes ele me fora apontado nas ruas, quando passava naquele seu passo de pavão. Eu ouvira no George sua voz desafiando as convenções; mas agora, ao conhecê-lo, sob o encantamento da presença de Sebastian, per­cebi que apreciava sua companhia gulosamente.

Depois do almoço, ele se postou na sacada com um me­gafone surgido misteriosamente no meio do bric-à-brac do quarto de Sebastian e, em tons lânguidos, recitou trechos de The waste land para a multidão, que, de suéteres e bem aga­salhada, se dirigia para o rio.

"Eu, Tiresias, tudo suportei", soluçava ele das arca­das venezianas;

"Representado nesse mesmo di-di-vã ou lei-ito, Eu que me quedei sob os muros de Tebas E caminhei entre os mais desprezíveis dos mortos..."

Depois, pulando ligeiro para dentro do quarto: Que bela peça lhes preguei! Para mim, todos os re-re-madores são uns Grace Darlings[4].

Continuamos sentados bebericando Cointreau, enquanto o mais pacífico e indiferente dos estudantes de Eton cantava: "Para casa lhe trouxeram seu guerreiro morto", fazendo ele mesmo o acompanhamento ao órgão.

Quando nos separamos, já eram quatro horas.

Anthony Blanche foi o primeiro a sair. Despediu-se de cada um de nós, um por um, de maneira cerimoniosa e amável. Para Sebastian, disse: Meu caro, gostaria de espetá-lo todo com farpas, como se fosse uma almo-fa-fa-da de alfinetes. E para mim: Sua descoberta foi uma idéia genial de Sebastian. Onde você se esconde? Vou aparecer em sua toca e desenca-ca-vá-lo como a uma velha fuinha.

Os outros saíram pouco depois dele. Levantei-me tam­bém, mas Sebastian falou: Tome mais Cointreau. Por isso fiquei; mais tarde ele disse: Tenho de ir ao Jardim Botânico.

Para quê?

Para ver a hera.

Era uma idéia como outra qualquer, e fui com ele. Quan­do passamos junto aos muros de Merton, ele me tomou o braço.

Nunca fui ao Jardim Botânico — disse eu.

Oh! Charles, quanta coisa você tem de aprender ain­da! Há lá um arco maravilhoso e uma variedade de espécies de hera como jamais supus existir. Não sei o que seria de mim sem o Jardim Botânico.

Quando voltei afinal a meus aposentos, encontrando-os exatamente como os deixara pela manhã, tive uma sensação de vazio que nunca experimentei antes. Que seria? Com exceção dos girassóis, tudo parecia falso. Seria o biombo? Virei-o para a parede. Melhorou.

Foi o fim do biombo. Lunt nunca simpatizou com ele, poucos dias depois tirava-o dali, levando-o para seu refúgio escondido debaixo da escada, cheio de esfregões e baldes.

Minha amizade com Sebastian nasceu nesse dia, e assim se explica que, em certa manhã de junho, eu estivesse deitado à seu lado à sombra dos olmos gigantes, observando a fumaça que se desprendia de seus lábios, perdendo-se entre os galhos das árvores.

Dali a pouco estávamos a caminho, e uma hora depois sentíamos fome. Paramos em uma hospedaria que era ao mesmo tempo uma fazendola, comemos ovos com presunto, nozes em conserva e queijo, bebemos cerveja no pátio sombrio, onde um velho relógio batia tique-taque na sombra e um gato dor­mia perto da lareira vazia.

Seguimos de automóvel, e nas primeiras horas da tarde chegamos a nosso destino: grades de ferro trabalhado; duas casas de porteiro idênticas, em estilo clássico, nas terras da vila; uma avenida; outros portões ainda; um parque, uma curva na estrada, e de repente descortinamos uma paisagem nova, secreta. Estávamos no cimo do vale; a nossos pés, à meia milha de distância, cinza e ouro entre as folhagens de um bosque, a cumeeira e as colunas de uma velha mansão brilhavam.

Que tal? — disse Sebastian parando o carro. Via-se além da cumeeira uma cascata perdendo-se na distância; ao redor, como a guardá-la e escondê-la, os morros suaves.

Então? .

Que lugar maravilhoso para se morar! — disse eu.

Você precisa ver o jardim na frente e a fonte. — Debruçando-se, ele pôs o carro em movimento. — E ali que mi­nha família mora — e naquele mesmo instante, fascinado, senti por um momento um calafrio sinistro diante dessas palavras; não foi "essa é a minha casa", mas "é ali que minha família mora".

Não se preocupe — continuou —, estão todos fora. Você não terá de se encontrar com eles.

Mas seria um prazer.

Bem, não pode ser. Estão em Londres.

Contornamos a frente da casa e coramos em um pátio lateral. — Está tudo fechado. E melhor entrarmos por aqui — e passou pelas dependências de empregados, lembrando uma fortaleza, com chão e abóbada de pedra. — Quero que você conheça a babá Hawkins. Foi essa a razão de nossa vinda. — Subiu escadas de olmo, sem tapete e bem lisas, seguiu outros corredores de tábuas largas, tendo ao centro uma tira de droguete, atravessou corredores cobertos de linóleo, passando pelo poço de várias escadas secundárias e por muitas fileiras de bal­des contra incêndio, vermelhos e dourados, até uma última escada, fechada por um portão em sua parte superior. A cumeeira era falsa, desenhada de modo a lembrar as cúpulas de Chambord quando vistas de baixo. Seu bojo era apenas um andar anexo cheio de quartos triangulares. Ali ficavam os quartos das crianças.

A babá de Sebastian estava sentada junto à janela aberta; diante dela, a fonte, os lagos, o templo e, muito ao longe, na última curva, um obelisco coruscante. As mãos sobre o colo, segurando frouxamente um rosário, ela estava profundamente adormecida. As longas horas de trabalho em sua mocidade, a autoridade adquirida com a maturidade, o descanso e a segurança da fase atual, tinham deixado suas marcas no rosto sul­cado e sereno.

Bem — disse acordando —, mas que surpresa!

Sebastian beijou-a.

Quem é ele? — disse olhando para mim. — Não sei se o conheço.

Sebastian nos apresentou.

Você chegou mesmo em boa hora. Julia veio passar o dia. Todos estão se divertindo muito. Fica tudo triste sem eles. Só estão aqui Mrs. Chandler, duas das garotas e o velho Bert. Depois vem a debandada geral das férias, e agora a limpeza do sistema de aquecimento vai ser feita em agosto; você de partida para a Itália para encontrar-se com Sua Senhoria, e os outros por aí fazendo visitas, antes de outubro não estare­mos todos juntos de novo. Bem, afinal, Julia talvez tenha de gozar a vida como as outras moças, mas por que hão de cis­mar de ir para Londres no melhor do verão, com o jardim todo em flor, foi coisa que nunca entendi. Padre Phipps esteve aqui na quinta-feira, eu disse isso a ele acrescentou, como se sua opinião tivesse adquirido assim o beneplácito da Igreja.

Você disse que Julia está aqui?

Sim, meu querido, acho que você deve ter cruzado com ela. É a Liga Feminina. Sua Senhoria deveria recebê-las, mas não está lá muito bem. Julia não deve demorar; ela vai embora logo depois do discurso, antes do chá.

Poderemos nos desencontrar outra vez.

Não faça isso, meu querido, ela ficará surpreendida com o encontro. Bem que eu disse a ela para ficar para o chá, essas senhoras vêm por esse motivo. Bem, quais são as novi­dades? Está estudando muito?

Acho que não, babá.

Ah! já sei, joga cricket o dia todo, como seu irmão; mas ele achava tempo para estudar também. Ele não tem apa­recido desde o Natal, mas deve vir para a Agrícola, penso eu. Você leu essa notícia sobre Julia no jornal? Ela trouxe para me mostrar. Não diz nem de longe o que ela é, mas fala coisas muito bonitas. "A linda filha de Lady Marchmain, apresentada por sua mãe na presente estação... tão espirituosa como encantadora... a debutante de maior sucesso", bem, é a pura verdade, mas foi uma pena ela cortar o cabelo; uma cabeça tão linda, igualzinha à de Sua Senhoria. Eu disse a Padre Phipps que não estava certo. Ele respondeu: "As freiras fazem isso", e eu respondi: "Ora, padre, o senhor não vai querer que Lady Julia entre para o convento. Que idéia!"

Sebastian e a velha continuaram tagarelando. O quarto era encantador, de construção fora do comum, acompanhando a curvatura da cúpula. As paredes eram forradas de papel estampado com rosas e laços de fita. A um canto, um cavalo de balanço; sobre o consolo da chaminé, uma oleogravura do Sa­grado Coração; a lareira, vazia, estava escondida por um apa­nhado de juncos e erva dos pampas; arrumada em cima da cômoda e sem um grão de poeira, a coleção de pequenas lembranças trazidas em várias ocasiões pelas "suas" crianças: conchas e objetos de lava esculpidos, couro lavrado, madeira pintada, porcelana, ébano, prata marchetada, espato-flúor, ala­bastro, coral, recordações de inúmeras férias.

A babá disse por fim: — Toque a campainha, meu que­rido, para o nosso chá. Costumo descer para tomá-lo com Mrs. Chandler, mas hoje vamos tomá-lo aqui em cima. A moça que em geral me serve foi a Londres com as outras. A nova é aqui do vilarejo mesmo. No princípio não sabia fazer nada, mas está aprendendo direitinho. Toque a campainha.

Mas Sebastian disse que precisávamos partir.

E Miss Julia? Ela vai ficar aborrecida quando souber. Seria uma surpresa tão grande para ela!

Coitada da babá — disse Sebastian quando saímos dali. — Leva uma vida realmente muito triste. Tenho vontade de levá-la para Oxford, mas a questão é que passaria o tem­po todo me catequizando para ir à igreja. Precisamos partir depressa, antes de minha irmã voltar.

Você está com vergonha dela ou de mim?

Tenho vergonha de mim mesmo — disse Sebastian sério. — Não quero você metido com minha família. Eles são tão diabolicamente encantadores! Desde que me conheço, roubam-me tudo que desejo. Se você se deixar fascinar por eles, deixará de ser meu amigo para ser amigo deles, mas não vou deixar isso acontecer.

Está bem — disse eu. — Dou-me por satisfeito. Mas não me será permitido ver mais nada da casa?

Está tudo fechado. Nós viemos aqui para ver a babá. No Dia da Rainha Alexandra fica tudo em exposição por um xelim. Bem, se você quer, venha ver de uma vez...

Segui atrás dele por uma porta coberta de baeta que dava para um corredor escuro; consegui ver uma cornija dou­rada e o estuque abaulado do teto; depois, abrindo uma pesa­da porta de mogno, que girava com facilidade, ele me fez entrar em um vestíbulo sombrio. A luz filtrava-se pelas fres­tas dos postigos. Sebastian retirou a tranca de um deles e dobrou-o para trás. A luz suave do crepúsculo invadiu tudo, o chão nu, as duas enormes lareiras, idênticas, de mármore es­culpido, os frescos do teto abobadado, representando deidades e heróis clássicos; os espelhos dourados e as colunatas de scagliola, as ilhas formadas pelos móveis encapados. Tudo apenas de relance, como uma olhadela lançada do alto de um ônibus a um salão de baile iluminado; depois, rapidamente, Sebastian voltou a escurecer a sala. Você está vendo disse ele —, é assim.

Parecia outra pessoa, diferente daquela com quem eu tinha bebido vinho sob os olmos, e que dissera: "Então?" quando viramos a curva da estrada.

Você está vendo, não há nada para mostrar. O que vale a pena admirar é pouca coisa, e eu gostaria de fazer as honras em outra ocasião. Mas a capela você precisa ver. E um monumento de art nouveau.

O último arquiteto que trabalhou em Brideshead cons­truiu um peristilo flanqueado por dois pavilhões. Um era uma capela. Entramos pela porta principal (outra dava diretamente para a casa). Sebastian mergulhou os dedos na pia de água benta, persignou-se e ajoelhou-se; eu fiz o mesmo.

Por que fez isso? — perguntou-me zangado.

Boa educação, apenas.

Se é por minha causa, não é preciso. Você não queria ver a casa? Que acha disso aqui?

O interior fora completamente eviscerado, decorado e mobiliado de novo com capricho, no estilo de arte decorativa da última década do século XIX. Anjinhos de vestidos de algodão estampado, bordados com "casinhas de abelha", rosas trepa­deiras, campos cobertos de flores, carneirinhos saltitantes, tex­tos em escrita céltica, santos de armadura cobriam as paredes, formando um desenho complicado de cores claras e brilhantes. Havia um tríptico de carvalho claro esculpido de maneira a dar a estranha impressão de ter sido modelado em plástico. A lâmpada do santuário e as outras peças de metal eram de bron­ze, trabalhadas a mão, num patinado que lembrava um rosto bexigoso; os degraus do altar eram cobertos por um tapete verde-grama, semeado de margaridas brancas e douradas.

Puxa disse eu.

Foi o presente de casamento que papai deu a mamãe. Bem, se você acha que já viu bastante, podemos ir.

No caminho, cruzamos um Rolls-Royce fechado, com chofer; no assento de trás ia uma figura indefinida, de aspecto infantil, que, virando-se, olhou para nós pela janela.

Julia disse Sebastian. Escapamos na hora.

Paramos para falar com um homem segurando uma bi­cicleta. É o velho Bat disse Sebastian. Depois partimos, passando pelos portões de ferro trabalhado, as casas do porteiro, tomando o caminho de Oxford.

Sinto muito disse Sebastian depois de algum tem­po. Acho que não fui muito amável hoje à tarde. Em geral, Brideshead parece afetar-me de maneira estranha. Mas precisava apresentá-lo à babá.

Por quê? pensei eu, mas não disse nada. A vida de Sebastian era regida por uma série de imperativos iguais a esse. "Preciso ter pijamas vermelhos, da cor das caixas do correio." "Tenho de ficar na cama até o sol bater nas janelas." "Não posso deixar de beber champanhe hoje à noite!" Limi­tei-me a dizer: Comigo deu-se o contrário.

Depois de uma pausa demorada, ele falou com petulân­cia: Eu não me ponho a fazer perguntas a respeito de sua família.

Nem eu faço a respeito da sua.

Mas você assume um ar curioso.

Bem, você cria um certo mistério.

Pensei que eu fosse uma criatura muito misteriosa.

Quem sabe se eu não sinto uma certa curiosidade; você compreende, eu não tenho família. A minha se reduz a meu pai e eu. Uma de minhas tias tomou conta de mim du­rante certo tempo, mas papai tanto fez que ela acabou indo viajar. Minha mãe morreu na guerra.

Ah!... de fato, é muito extraordinário.

Ela foi para a Sérvia com a Cruz Vermelha. Desde então, meu pai não anda muito bom da cabeça. Mora sozinho em Londres, sem amigos, e enche o tempo como colecionador.

Sebastian disse: Você nem sabe do que escapou. So­mos uma família enorme. Procure a árvore genealógica no Debrett.

Não estava mais tão mal-humorado. Quanto mais nos afastávamos de Brideshead, mais ele parecia se libertar daquela inquietação, daquele desassossego, daquela irritação quase fur­tiva, que pareciam dominá-lo. Como tínhamos o sol por trás, dávamos a impressão de correr em perseguição de nossa pró­pria sombra.

São cinco e meia. Chegaremos a Godstow a tempo de jantar, tomar um aperitivo no Trout, deixar o carro de Hardcastle, e voltar a pé ao longo do rio. Não será melhor assim?

Eis aí toda a história de minha primeira e rápida visita a Brideshead. Como poderia supor, àquela época, que um capitão de infantaria maduro dela se recordasse com lágrimas nos olhos?

 

Lá para o fim do verão, naquele trimestre, recebi a últi­ma visita e "grande preleção de moral" de meu primo Jasper. Tinha acabado dc fazer os exames finais, e prestado, na tarde anterior, meu último exame de história. O terno escuro e a gravata branca de Jasper mostravam, pelo contrário, que ele ainda estava às voltas com as provas; além disso, seu aspecto de extremo cansaço e ao mesmo tempo de mágoa era o de um indivíduo que receava ter falhado na exposição de seus conhe­cimentos do orfismo de Píndaro. Se não fosse sua noção do dever, não teria vindo a meus aposentos naquela tarde, com grande sacrifício dc sua parte, e, aliás, da minha também, pois quando ele me encontrou eu estava de saída para ultimar os preparativos de um jantar que daria naquela noite. Trata­va-se de uma entre inúmeras festas realizadas em desagravo de Hardcastle, encargo que eu e Sebastian havíamos assumido ultimamente, porque tínhamos deixado seu carro ao relento, fato que o deixou seriamente enrascado com os encarregados de disciplina.

Jasper não quis sentar-se, não ia ser uma conversa ame­na, postando-se de costas para a lareira, e, em suas próprias palavras, falou-me como "um tio".

— ...nas duas últimas semanas, tentei por várias vezes comunicar-me com você. Aliás, tenho a impressão de que você anda fugindo de mim. Se é verdade, não me surpreenderia. Você pode achar que não é da minha conta, mas sinto uma certa responsabilidade. Você sabe tão bem como eu que seu... bem, desde a guerra, seu pai perdeu um pouco a noção das coisas, vivendo meio alheio. Não posso ficar de braços cruza­dos vendo você cometer erros que uma palavra oportuna po­deria evitar.

"Eu esperava que você cometesse erros no primeiro ano. Todos nós cometemos. Eu mesmo me meti com uma turma in­qualificável de estudantes da oscu, que mantinha uma espécie de missão para os colhedores de lúpulo durante as férias de verão. Mas você, meu caro Charles, conscientemente ou não, ligou-se de pés e mãos atados à pior turma da universidade. Você talvez pense que por morar em uma pensão eu ignore o que se passa no colégio, mas ouço os comentários. Aliás, até demais. Por sua causa tornei-me vítima de piadas no Dining Club. Esse Sebastian Flyte, de quem você parece inse­parável, pode ser que seja bom sujeito, não sei. Brideshead, irmão dele, era um indivíduo às direitas. Mas o seu amigo é lá meio esquisito, falam dele. Na verdade, é uma família es­quisita. Não sei se você sabe que os Marchmain vivem sepa­rados desde a guerra. Coisa curiosa, pareciam muito unidos. Depois ele foi para a França com seu regimento e nunca mais voltou. Foi como se tivesse morrido. Ela é católica, por isso não pode divorciar-se, ou então não quer, suponho. Com di­nheiro consegue-se tudo em Roma, e eles são riquíssimos. Flyte talvez escape, mas Anthony Blanche... não há desculpa pos­sível para esse tipo."

Não é inteiramente do meu agrado respondi.

Bem, ele está sempre rondando por aqui, e a turma mais grã-fina do colégio não gosta. Não o toleram na facul­dade. Ontem à noite levou outro banho. A turma que cerca você não coopera com seus próprios colégios, e é isso que importa. Eles pensam que por ter dinheiro para esbanjar po­dem fazer tudo.

"E por falar nisso, ignoro quanto meu tio lhe dá de mesada, mas aposto, na certa, que você está gastando o dobro. Tudo isso...", disse ele envolvendo em um gesto largo as provas desse esbanjamento.

Era verdade, meu quarto tinha perdido suas austeras roupagens de inverno, adquirindo bem depressa um aspecto mais rico. — Isto aqui já foi pago? (uma caixa de charutos Partagas sobre o aparador) e aquilo ali? (uma dúzia de livros frívolos adquiridos em data recente, em cima da mesa) e aquilo? (um licoreiro e copos de Lalique) e esse objeto especialmente as­queroso? (uma caveira que eu havia comprado há pouco na faculdade de medicina e que, pousada sobre um apanhado de rosas, formava a decoração principal de minha mesa. Tinha na testa a seguinte legenda: "Et in Arcadia ego").

Sim disse eu satisfeito porque poderia livrar-me de uma das acusações. Tive de pagar a caveira à vista.

Você não deve estar estudando muito. No fundo, não tem importância, sobretudo se conquistar terreno em outros setores, mas está mesmo? Já fez algum discurso na União ou em algum clube? Já se ligou a um jornal? Já conseguiu firmar- se na Ouds, pelo menos? E suas roupas! — continuou meu primo. — Quando você chegou, lembro-me que o aconselhei a se vestir como se estivesse em uma casa de campo. Sua indumentária atual parece uma combinação desastrada de um traje próprio para um sarau de arrabalde e o de um concurso coral de algum parque suburbano.

"Quanto a bebidas, ninguém dá importância ao estu­dante que toma seus dois pilequezinhos por trimestre. Aliás, isso é até recomendável em certas ocasiões. Mas ouvi dizer que você se embriaga constantemente."

Calou-se, tinha cumprido seu dever. Os exames voltavam a preocupá-lo.

Sinto muito, Jasper — respondi. — Compreendo que você fique constrangido, mas acontece que eu gosto dessa turma de gente ruim. Gosto de me embriagar no almoço, e, se ainda não gastei o dobro de minha mesada, até o fim do trimestre isso deverá acontecer. Costumo tomar uma taça de champanhe a esta hora. Está servido?

Assim, meu primo Jasper perdeu as esperanças, e vim à saber mais tarde que ele escreveu ao pai sobre minhas extra­vagâncias, o qual, por seu turno, informou meu pai sobre a situação, mas este não tomou a menor providência, em parte porque detestava meu tio há quase sessenta anos, e também porque, segundo as palavras de Jasper, depois do falecimento de minha mãe, ele vivia completamente alheio a tudo.

Desse modo, Jasper traçou em linhas gerais os fatos culminantes de meu primeiro ano. Cabe acrescentar aqui, no mesmo diapasão, alguns detalhes.

Eu tinha um compromisso anterior para passar as férias da Páscoa na companhia de Collins, mas teria quebrado minha palavra sem o menor remorso, desprezando uma amizade mais antiga, se Sebastian tivesse dado o menor sinal de si, porém ele nem se manifestou; por isso Collins e eu passamos várias semanas em Ravenna, gastando pouco e aprendendo muito. Um vento cortante soprava do Adriático entre os túmulos im­ponentes. Em um quarto de hotel, que parecia ter sido feito para uma estação mais quente, escrevi longas cartas para Se­bastian, passando todos os dias pelo correio para ver se havia alguma resposta. Fora duas, de endereços diferentes, em ne­nhuma delas havia notícias exatas sobre ele, porque seu estilo era abstrato e fantasista... "Mamãe e dois poetas de seu séquito têm três resfriados, por isso estou aqui. É dia de São Nicodemus de Thyatira, cujo martírio foi lhe cravarem no couro cabeludo uma pele de cabra, daí ser ele padroeiro dos carecas. Conte a Collins, que certamente vai ficar careca antes de nós. Aqui está cheio de gente, mas, Deus seja louvado! há um surdo com uma corneta acústica, e isso me põe de bom humor. E agora tenho de pescar um peixe. Como a distância é muito grande para mandá-lo para você, guardarei a espinha..." Fiquei irritado. Collins tomava apontamentos para uma pequena tese demonstrando a inferioridade dos mosaicos no original em relação à sua apresentação fotográfica. Ali foi lançada a semente que, germinando, seria a razão de ser de sua vida. Quando, muitos anos mais tarde, apareceu o primei­ro alentado volume de seu trabalho ainda inacabado sobre arte bizantina, fiquei comovido lendo meu nome nas duas páginas de agradecimento prefaciando a obra: " ...para Char­les Ryder, cujo olhar de lince me ajudou a contemplar pela primeira vez o mausoléu de Galla Placidia e San Vitale... "

Chego às vezes a pensar que, se não fosse Sebastian, eu talvez tivesse percorrido o mesmo caminho de Collins no car­rossel da cultura. Meu pai tentou matricular-me em Ali Souls quando era moço, mas foi um ano de concorrência feroz, e ele fracassou; mais tarde, conheceu outros sucessos e honrarias; esse primeiro fracasso, porém, marcou-o, e a mim também, por causa dele, de modo que ali cheguei formando uma idéia errada, achando que nisso consistia o verdadeiro e único objetivo da vida intelectual. Eu também teria fracassado, certamen­te, e esse fracasso talvez me levasse a outras paragens acadê­micas menos augustas. É possível, mas não creio que fosse provável, porque a torrente de fogo da anarquia subia das profundezas onde não havia terra firme, e explodia ao sol, um arco-íris em suas emanações refrescantes, com uma força que as rochas não podiam sufocar.

Na série de acontecimentos, aquelas férias da Páscoa for­mam um curto trecho de estrada plana na descida vertiginosa mencionada por Jasper. Descida ou subida? Tenho a impres­são de que me sentia cada dia mais moço, à medida que ia adquirindo hábitos adultos. Passando por uma infância solitária e uma adolescência confinada pela guerra e obscurecida pelo luto, cheguei à dureza do celibato imposto aos adolescen­tes ingleses, pela dignidade e autoridade prematuras resultan­tes do sistema escolar, juntando a tudo isso minha própria tendência à tristeza e à melancolia. No entanto, aquele tri­mestre de verão, passado na companhia de Sebastian, propor­cionou-me, de maneira fugaz, a sensação desconhecida de uma infância feliz; embora os brinquedos fossem camisas de seda, licores e charutos, e as travessuras, ofensas graves, nós con­servávamos uma certa frescura infantil, muito parecida com a alegria da inocência. No fim daquele trimestre fiz meus pri­meiros exames, e se não passasse não poderia continuar em Oxford; por isso passei. Na última semana, proibi a entrada de Sebastian em meus aposentos, e fiquei acordado até altas horas, tomando café gelado e biscoitos digestivos, enchendo- me de textos negligenciados. Hoje, não me recordo de uma única sílaba do que estudei, mas a outra lição, mais antiga, que aprendi naquele trimestre permanecerá comigo de uma ou de outra forma, até meu último alento.

"Gosto dessa turma de gente ruim e de me embriagar no almoço", naquela época isso bastava. E preciso mais agora?

Quando olho para trás, depois de vinte anos, pouca coisa eu deixaria por fazer, ou faria de outra maneira. Para enfren­tar meu primo Jasper cantando de galo, eu saberia cantar mais forte. Eu lhe diria que toda a ruindade daquela época era como o álcool misturado à uva pura do Douro, matéria cheia de ingredientes obscuros, que subia à cabeça, fazendo ao mesmo tempo amadurecer e retardar todo o processo da adoles­cência, da mesma maneira que o álcool impede a fermentação do vinho, tornando-o imprestável para o consumo, de modo que ele precisa ficar no escuro durante anos, até poder final­mente ser servido à mesa.

Poderia dizer-lhe também que conhecer e amar o pró­ximo é a própria essência de toda a sabedoria. Mas não pre­cisei recorrer a esses sofismas, sentado diante de meu primo, vendo-o vencer sua luta estéril contra Píndaro, de terno cinza-escuro, gravata branca e beca, ouvindo sua voz grave, enquan­to eu apreciava o perfume dos goivos em flor debaixo da janela. Possuía uma defesa secreta e segura, como um talismã pendurado ao peito. No momento de perigo, eu o invoquei, encontrei-o e agarrei-me a ele com firmeza. Por esse motivo, disse o que não era a pura expressão da verdade, que eu costumava tomar uma taça de champanhe àquela hora, e per­guntei se ele aceitaria uma também.

No dia seguinte à grande preleção de moral de Jasper, recebi outra, em termos diferentes e de origem inesperada.

Meus encontros com Anthony Blanche durante o trimes­tre tinham sido mais freqüentes do que seria lícito esperar, em vista de minha pouca simpatia por ele. Passava meu tempo com amigos dele, e essas situações eram forçadas mais por Blanche do que por mim, que o tinha em santo horror.

Era pouco mais velho que eu, mas naquela época parecia vergar sob o peso da experiência do Judeu Errante. Na verdade, era um nômade sem nacionalidade certa.

Tentaram transformá-lo na infância em cidadão britâ­nico; passou dois anos em Eton; depois, no meio da guerra, desafiando os submarinos, partiu ao encontro da mãe na Argentina, e assim um colegial esperto e audacioso veio juntar-se ao mordomo, à empregada, aos dois choferes, ao pequinês e ao segundo marido. Acompanhou-os através do universo, sor­vendo maldade como um pajem de Hogarth. Com a paz, vol­taram à Europa, aos hotéis e vilas mobiliadas, estações de água, cassinos e praias. Aos quinze anos, por causa de uma aposta, vestiram-no como uma moça e fizeram-no tomar parte da mesa grande do Jockey Club de Buenos Aires; jantou com Proust e Gide, e dava-se mais ainda com Cocteau e Diaguílev. Firbank enviou-lhe suas novelas com dedicatórias ardentes; foi o pomo de discórdia em três brigas sérias em Capri; ele mesmo confessou que tinha praticado magia negra em Cefalu, e que fizera uma cura para se tratar do vício de entorpecentes na Califórnia, e outra em Viena para se libertar de um com­plexo de Édipo.

Parecíamos crianças perto dele às vezes, mas nem sempre, porque Anthony conservava uma fanfarronice e uma alegria de viver, que nós havíamos perdido no recreio e salas de aula, na evolução normal de uma adolescência mais tranqüila. O desejo de escandalizar, mais que a busca do prazer, fazia desabrochar seus vícios, e, no meio de suas brilhantes exibições, eu muitas vezes me lembrava de um molequinho que encontrei em Nápoles, pulando zombeteiro, fazendo gestos obscenos e ambíguos diante de um grupo de turistas ingleses. Quando ele contava a história de uma noite passada no cassi­no, a gente podia ver, na maneira de ele revirar os olhos, exatamente o olhar sorrateiro que lançava à pilha de fichas dos convidados de seu padrasto que pareciam minguar; enquanto nós andávamos aos trambolhões na lama dos campos de fute­bol, e nos enchíamos de doces, Anthony ajudava alguma bel­dade passadota a untar-se de óleo em areias subtropicais, e tomava aperitivos em bares minúsculos e elegantes; por isso o diabo que já havíamos dominado ainda andava solto dentro dele. Além disso era de uma crueldade infantil em suas ma­nifestações, torturando insetos à toa, e de uma coragem in­consciente, agredindo às cegas os monitores da escola, dando socos com seus punhos minúsculos.

Convidou-me para jantar, e fiquei meio desconcertado quando verifiquei que seríamos só os dois. Vamos a Thame disse ele. Há lá um hotel encantador, que felizmente não é do agrado da ralé. Beberemos vinho do Reno e faremos de conta que estamos... onde? Em todo caso, não vai ser uma fa-fa-farra com Jo-jo-jorrocks. Mas, primeiro, vamos to­mar um aperitivo.

No bar do George ele pediu: Quatro coquetéis Ale­xandra, por favor —, enfileirou os copos à sua frente, gru­nhindo "um-um", chamando a atenção e provocando olhares irados. Naturalmente, você preferiria um xerez, meu caro Charles, mas não vai tomá-lo. Não é deliciosa essa mistura? Você não gosta? Então vou bebê-la por você. Um, dois, três, quatro, lá se vão eles rua abaixo. Como os estudantes ficam olhando. — Levou-me para fora até o carro que estava à nossa espera.

"Faço votos de não encontrar calouros por lá. No mo­mento não me inspiram muita simpatia. Você soube o que eles fizeram comigo na quinta-feira? Foi muito feio mesmo. Felizmente estava com meu pijama mais velho e a noite estava muito abafada, do contrário ficaria seriamente aborrecido." Anthony tinha o hábito de falar de rosto quase colado; seu hálito cheirava ao coquetel adocicado e cremoso. Afastei-me dele, encostando-me no canto do carro alugado.

"Faça uma idéia, meu caro, eu estava sozinho estudan­do. Acabara de comprar um livro de aspecto assaz proibitivo chamado Antic hay, que eu precisava ler antes de ir a Garsington no domingo, porque certamente seria o assunto obri­gatório, e é tão banal a gente dizer que ainda não leu o livro do momento, quando é verdade. Suponho que a melhor solução é não pôr lá os pés, mas só agora isso me ocorreu. Por isso, meu caro, comi uma omelete, um pêssego, bebi uma garrafa de água de Vichy, pus meu pijama e preparei-me para ler. Na verdade, estava meio distraído, mas continuava a virar as páginas, apreciando o escurecer, que em Peckwater, meu caro, é realmente digno de ver-se. As pedras parecem realmen­te desintegrar-se diante de nossos olhos com o entardecer. Lembrei-me de certas fachadas de aspecto leproso no vieux porl de Marseille, quando fui perturbado de repente por um alarido e um estardalhaço tais como você jamais ouviu, e lá embaixo, na pequena piazza, vi uma multidão de uns vinte rapazes medonhos, e sabe o que eles entoavam? "Queremos Blanche, queremos Blanche", numa espécie de ladainha. Uma declaração dessas em público! Bem, nada de Mr. Huxley na­quela noite, aliás estava tão caceteado que qualquer coisa seria um alívio. Os berros me irritaram, mas você sabe que quanto mais alto gritavam mais acanhados ficavam? Repetiam sem parar: "Onde está Boy?" "Ele é amigo de Boy Mulcaster", "Boy tem de fazê-lo descer".

"Naturalmente, você deve conhecer Boy. Ele está sempre entrando e saindo dos aposentos do nosso querido Sebastian. É a imagem que nós, gringos, fazemos de um lorde britânico. E um ótimo partido, pode estar certo disso. Todas as moças de Londres andam atrás dele. Ouvi dizer que ele se vende caro. Meu velho, ele tem medo da própria sombra. Esse Mulcaster é um idiota; além do mais, um canalha. Lá pela Páscoa apareceu em Le Touquet, e, não sei por que motivo, convidei-o para ficar conosco. Ele perdeu uma bagatela jogan­do cartas, por isso achava justo que eu o obsequiasse. Bem, Mulcaster fazia parte do grupo, eu via sua figura desajeitada andando de um para outro lado lá embaixo, e o ouvia dizer: 'Não vale a pena. Ele saiu. Vamos voltar c beber alguma coisa'. Nessa altura, pus a cabeça para fora da janela e gritei: 'Boa noite, Mulcaster, seu pau-d'água bajulador, você está se escondendo entre essas criançolas? Veio pagar-me os trezentos francos que eu lhe emprestei por causa daquela marafona que você encontrou no cassino? Era uma miséria, em comparação com o trabalho dela, e que trabalho! Suba, e venha pagar-me, seu bandido de fancaria!'

"Parece que eles criaram ânimo com isso. Subiram a escada com estrondo. Uma meia dúzia entrou no quarto, os outros continuavam vociferando do lado de fora. Meu caro, apresentavam o aspecto mais extravagante possível. Vinham de um daqueles ridículos jantares no clube, e estavam todos vestidos com casacas coloridas, uma espécie de libré. 'Meus caros', disse eu, 'vocês parecem um bando de lacaios extremamente turbulentos.' Aí, um tipinho meio picante acusou-me de vícios anormais. 'Meu caro', disse eu, 'posso ser pervertido, mas não sou insaciável. Volte sozinho.' Começaram então a blasfemar de maneira escandalosa, e, de repente, eu também comecei a me aborrecer. 'Francamente', pensei comigo mesmo, 'quando me lembro que aos dezessete anos provoquei tamanha celeuma porque o Duque de Vincennes (o velho Armand, na­turalmente, não foi Philippe) desafiou-me para um duelo — e as razões não eram puramente de ordem sentimental — em que o pivô era a duquesa (Stefanie naturalmente, não a velha Poppy), estar ali agüentando as impertinências de um bando de virgens, no pileque e com a cara cheia de espinhas... ' Bem, resolvi deixar de brincadeira e comecei a falar em termos ligei­ramente ofensivos.

"Então começaram a dizer: 'Vamos pegá-lo. Vamos levá-lo para a fonte'. Bem, como você sabe, possuo duas esculturas de Brancusi e alguns objetos de valor, não queria briga, por isso disse pacificamente: 'Meus queridos patetas, se vocês ti­vessem a mais vaga noção sobre psicologia sexual, saberiam que ser manuseado por um bando de gostosões como vocês seria o mais sublime dos prazeres para mim, um êxtase dos mais depravados. Por isso, se alguém quiser compartilhar co­migo esse prazer, venha pegar-me. Se, por outro lado, vocês querem apenas satisfazer algum instinto libidinoso obs­curo de classificação mais complicada, e me ver tomar banho, então venham comigo, meus caros valentões, sem fazer barulho'.

"Sabe? ficaram todos com um ar meio abobalhado. Desci com eles, e ninguém ousou tocar-me. Depois me meti na fonte, e, sabe? estava de fato uma delícia, por isso fiquei me diver­tindo um pouco, fiz algumas poses, até eles virarem as costas e tomarem o caminho de casa cabisbaixos, e ouvi Boy Mulcaster dizer: 'Em todo caso, nós demos um banho nele'. Você sabe, Charles, daqui a trinta anos, é isso que eles vão dizer, quando todos estiverem casados com mulherzinhas magricelas parecendo galinhas, e tiverem filhos porcinos e cretinos como eles, empilecando-se nos mesmos jantares, nos mesmos clu­bes, vestindo as mesmas casacas coloridas. Quando falarem de mim, dirão: 'Uma noite demos um banho nele', e as labregas das filhas desses indivíduos vão fazer chacota, achando que o velho era mesmo do barulho, e que é uma pena ele ter ficado tão chato. Ah! la fatigue du Nord!"

Eu sabia não ter sido esse o primeiro banho de Anthony, mas o incidente parecia preocupá-lo muito, porque voltou a falar nisso outra vez durante o jantar.

Bem, uma coisa dessas não aconteceria a Sebastian, não acha?

Não disse eu; era inconcebível.

Não, Sebastian é encantador. Ergueu o copo de vinho do Reno para a vela e repetiu: Tão encantador. Você sabe que no dia seguinte eu fui visitá-lo? Achei que ele ia gostar de ouvir a história de minha aventura noturna. E sabe quem encontrei lá, além de seu divertido ursinho de brin­quedo? Mulcaster e dois de seus companheiros da noite an­terior. Tinha um ar muito encafifado, e Sebastian, sereno como Mrs. P-P-Ponsobody-de-Tomkyns no P-P-Punch, disse: "Você conhece Lorde Mulcaster, não é?", e os dois idiotas disseram: "Ah! só viemos ver como Aloysius estava passando", pois eles acham tanta graça no ursinho de brinquedo como nós, quem sabe se um pouquinho mais ainda! E com isso saíram. E eu disse: "Sebastian, você sabe que cu fui destratado por essas les-les-lesmas ontem à noite, e teria apanhado um bru-bru-to resfriado, se o tempo não estivesse camarada?", e ele respondeu: "Pobres coitados. Deviam estar embriagados". Ele tem sempre uma palavra amável para todo mundo, você compreende; ele é tão encantador!

"Não há dúvida, meu caro Charles, ele o conquistou completamente. Bem, não é surpresa. Naturalmente, você não o conhece há tanto tempo quanto eu. Estive com ele no colégio. Você não acreditaria, mas naquela época diziam dele que era uma putinha; coisa de uns garotos pouco caridosos que o conheciam bem. Naturalmente era querido por todos na sociedade de debates, e por todos os professores. No fundo, talvez fosse inveja. Nunca se metia em barulhos. Nós outros vivíamos sendo espancados da maneira mais brutal, sob os mais frívolos pretextos, mas Sebastian, nunca. Ele foi o único menino em meu dormitório a nunca levar uma surra. Posso vê-lo ainda, como era aos quinze anos. Sabe, nunca teve uma espinha; todos os outros meninos tinham manchas na pele. Boy Mulcaster era positivamente escrofuloso. Mas Sebastian, não. Ou tinha uma, meio renitente, atrás, no pescoço? Pensando bem, me parece que sim. Narciso, com uma pústula.

Éramos ambos católicos, por isso costumávamos ir à missa juntos. Demorava tanto no confessionário, que eu ficava intrigado, porque ele não cometia más ações, ou estas não chega­vam a ser inteiramente condenáveis, pelo menos nunca foi cas­tigado. Talvez seu encanto funcionasse por anastomose. Sabe, eu saí de baixo do que se costuma chamar uma nuvem, não sei a razão de ser dessa denominação; em minha opinião, parecia antes o reflexo de uma luz indesejável; os fatos provocaram uma série de entrevistas difíceis com meu preceptor. Foi uma experiência desconcertante descobrir que um velho tão pacífico podia ser ao mesmo tempo tão observador. As coisas que ele sabia a meu respeito, e que eu ignorava fossem conhecidas, a não ser de Sebastian, talvez. Aprendi a nunca mais confiar em velhos mansos, ou, quem sabe, em colegiais encantadores?

"Vamos tomar mais uma garrafa desse vinho, ou outro qualquer? Que tal um velho borgonha cor de sangue? Você está vendo, Charles, eu sei do que você gosta. Precisamos visitar a França juntos, e beber os vinhos da terra. Iremos ao tempo das vindimas. Eu o levarei como convidado dos Vincennes. Já fizemos as pazes e ele possui o melhor vinho da França; ele e o Príncipe de Portallon, vou levá-lo lá também. Tenho a impressão de que você os acharia divertidos, e eles, naturalmente, morreriam de amores por você. Quero apresen­tá-lo a uma porção de amigos meus. Falei de você a Cocteau. Ficou encantado. Sabe, meu caro Charles, você é uma ave raríssima, um artista. Ah! sim, não fique encabulado. Por trás dessa aparência fria, britânica, fleugmática, você é um artista. Vi aqueles pequenos desenhos que você esconde em seu quar­to. São deliciosos. E você, meu caro Charles, procure compreender-me, não é delicioso; nem um pouco. Os artistas não são deliciosos. Eu sou; Sebastian também, de um certo modo, mas o artista é um tipo eterno, sólido, tenaz, observador, e, por baixo disso tudo, a-a-apaixonado, hein, Charles?

"Mas quem reconhece seu valor? Outro dia eu estava falando a seu respeito com Sebastian, e disse: 'Você sabe? Charles é um artista. Ele desenha como um Ingres jovem', e você sabe o que ele respondeu? 'É, Aloysius também tem muito jeito para desenho, mas naturalmente é um pouco mais moderno'. Tão engraçadinho; tão espirituoso.

"Naturalmente os indivíduos com grande encanto pessoal não precisam realmente ser inteligentes. Há quatro anos atrás, Stefanie de Vineennes me fez perder a cabeça; cheguei a usar até a mesma cor de verniz para as unhas dos pés. Falava com ela, imitava sua maneira de acender o cigarro, seu modo de falar ao telefone, de modo que o duque costumava ter longas e íntimas conversas comigo tomando-me por ela. Foi isso sobretudo que o levou a pensar de uma maneira antiquada em pistolas e sabres. Na opinião de meu padrasto, foi uma lição muito proveitosa para mim, contribuindo para me libertar de meus 'hábitos britânicos'. Coitado, ele é muito sul-americano. Nunca ouvi falar mal de Stefanie, a não ser o duque; ela é decididamente uma cretina."

Anthony, mergulhando nas recordações de seu antigo romance, deixou de gaguejar, mas a gagueira voltou na hora do café e do licor. Chartreuse V-v-verde legítimo, feito antes da expulsão dos frades. Ao rolar na língua distinguem-se quatro paladares diferentes. E como se a gente engolisse o espe-pe-pectro solar. Você não gostaria de ter Sebastian aqui em nossa companhia? Claro que sim. E eu? Sei lá. Vira e mexe, estamos sempre falando daquela criaturinha encantadora. Charles, você deve estar me hipnotizando. Trago-o aqui, a um lugar caríssimo, apenas para falar sobre minha pessoa, e acabo falando só de Sebastian. E estranho; na verdade, não existe o menor mistério a respeito dele, exceto o fato de ser membro de uma família tão sinistra.

"Não sei se você conhece a família dele. Não creio que venha a travar conhecimento com eles por seu intermédio. É esperto demais para isso. Naturalmente, são todos encan­tadores, e inteiramente sinistros. Você às vezes não tem a impressão de algo ligeiramente sinistro a respeito de Sebas­tian? Não? Talvez seja imaginação minha; mas é apenas por­que, às vezes, ele se parece tanto com o resto da família.

"Brideshead, por exemplo, tem qualquer coisa de arcaico, parece saído de uma caverna fechada a séculos. Lembra a obra de um escultor asteca que procurasse reproduzir os traços de Sebastian; ele é um indivíduo culto e intransigente, um bárbaro cerimonioso, um lama preso na neve... Bem, tudo o que você quiser. Mas, Julia, você sabe como ela é. Pudera! Seus retratos aparecem nos jornais ilustrados com a mesma freqüência que os anúncios de pílulas para prisão de ventre. Seu rosto possui a perfeição de uma beleza florentina do Quattrocento; um tipo que facilmente poderia descambar para a extravagância; mas com Lady Julia não há perigo; ela é tão inteligente como, bem, como Stefanie. Às vezes, me pergunto se será incestuosa. Tenho minhas dúvidas; sua única ambição é o poder. Deveria haver uma Inquisição instituída especial­mente para queimá-la. Existe uma outra irmã também, creio eu, ainda no colégio. Por ora, só se sabe a respeito dela que sua governanta enlouqueceu e se afogou no lago há pouco tem­po. Certamente deve ser detestável. Por isso, como você vê, o pobre Sebastian tinha poucas alternativas, não podia deixar de ser bonzinho e encantador.

"O maior mistério são os pais. Meu caro, um casal extraordinário. Como é que Lady Marchmain consegue isso? É um dos enigmas da nossa era. Você já a viu? Lindíssima; sem o menor artifício, os cabelos começando a embranquecer ele­gantemente em mechas prateadas, não usa ruge, muito pálida, olhos enormes, parecem incrivelmente grandes, e como as pálpebras são veiadas de azul! outra mulher qualquer não re­sistiria à tentação de pintá-los; pérolas e algumas jóias grandes e faiscantes, de família, gravações antigas, uma voz suave como uma prece e possuindo a mesma força. E Lorde March­main, bem, um pouco gordo talvez, mas um belo homem, um nobre veneziano, sensual, uma figura byroniana, displicente, de uma indolência contagiosa, não é absolutamente o tipo de homem para se deixar seduzir com tanta facilidade, e essa mon­ja de Reinhardt, meu caro, arrasou-o completamente. Ele não ousa mais mostrar sua caratonha arroxeada. É o derradeiro, histórico e autêntico caso do indivíduo alijado da sociedade. Brideshead não quer vê-lo, as meninas não podem, Sebas­tian, naturalmente, pode, porque é muito bonzinho. Ninguém mais o procura. Em setembro passado, Lady Marchmain esteve em Veneza, hospedada no Palazzo Foglieri. Para dizer a ver­dade, foi bastante ridícula. Naturalmente, nem se aproximou do Lido, sempre passeando de gôndola pelos canais em com­panhia de Sir Adrian Porson, e que poses, meu caro, parecia uma Mme Récamier; certa ocasião passei por eles e encarei o gondoleiro dos Foglieri, meu conhecido, e, meu caro, como ele piscou para mim! Ela ia a todas as festas envolta em tule, como se fosse um bicho-da-seda, ou alguma personagem de uma peça céltica, ou alguma heroína de Maeterlinck; e ia à igreja. Bem, como você sabe, Veneza é a única cidade da Itália onde ninguém jamais entrou numa igreja. Em todo caso, na­quele ano ela se tornou urna figura bastante ridícula, e quem haveria de aparecer no iate dos Malton? O pobre Lorde Marchmain. Ele alugara um pequeno palácio, mas quem disse que ele ficou lá? Lorde Malton meteu-o junto com o mordomo numa barca, meu caro, e passou-o ali mesmo para o vapor de Trieste. Nem a amante estava com ele. Eram as férias anuais dela. Ninguém soube como eles descobriram a presença de Lady Marchmain ali. E você sabe que Lorde Malton andou sumido durante uma semana como se tivesse caído em des­graça? Caiu mesmo. A Principessa Foglieri deu um baile, mas nem Lorde Malton nem seus amigos foram convidados, nem mesmo os de Panoses. Como Lady Marchmain consegue isso? Ela conseguiu convencer o mundo de que Lorde Marchmain é um monstro. Onde está a verdade? Já tinham uns quinze anos de casados quando Lorde Marchmain foi para a guerra; nunca mais voltou, arranjou uma ligação com uma dançarina de muito talento. Há milhares de casos iguais ao dele. Ela não quer conceder o divórcio porque é muito religiosa. Bem, tem havido casos semelhantes. Geralmente, as simpatias vão para o adúltero, mas nesse caso não foram para Lorde Marchmain. Até parece que o velho réprobo a torturou, dilapidou-lhe o patrimônio, expulsou-a de casa; assou, recheou e comeu os filhos, farreando por aí coroado com todas as flores de Sodoma e Gomorra; em lugar disso, deu-lhe quatro filhos saudá­veis, entregou-lhe Brideshead e Marchmain House, em St. Ja­mes, e todo o dinheiro que ela pode querer gastar, enquanto ele fica sentado com uma camisa branca como a neve, no Larue, em companhia de uma atriz madura, atraente e elegan­te, de maneira ultra-convencional, no melhor estilo eduardiano. Enquanto isso, ela mantém uma pequena camarilha de prisioneiros escravizados e macilentos para sua particular distração. Ela suga-lhes o sangue. Quando Adrian Porson toma banho de mar, podem-se ver marcas de dentes em seus ombros. E ele, meu caro, foi o maior, o único poeta de nossa era. Está exan­gue; liquidado. Há uns cinco ou seis indivíduos, de todas as idades e sexos, seguindo-a como fantasmas. Não conseguem escapar depois que ela os morde. É feitiçaria. Não há outra explicação.

"Por isso não se pode criticar Sebastian, se de vez em quando ele parece um pouco insípido, mas você não o conde­na, não é, Charles? Com uma procedência assim tão turva, não poderia fazer outra coisa senão tornar-se simples e encan­tador, sobretudo não sendo lá muito iluminado. Embora gos­tando muito dele, isso nós temos de reconhecer, não é?

"Diga-me com sinceridade, você já ouviu Sebastian dizer alguma coisa que lhe tivesse calado no espírito por mais de cinco minutos? Sabe, quando ele fala não posso deixar de me lembrar de Bolhas, aquele quadro bastante enjoado. Em minha opinião, conversar é como fazer malabarismos; atirar para o ar bolas, balões e pratos, uns por cima dos outros, a rodopiar e a pular, objetos palpáveis que as luzes da ribalta fazem brilhar e que se escorregarem cairão ao chão com estrondo. Mas, quando o nosso caro Sebastian fala, é como se fosse uma pequena bolha de sabão desprendendo-se da extremidade de um velho cachimbo de barro, sem destino, brilhando por alguns instantes com as cores do arco-íris, e depois, puf! desa­parecendo, sem deixar o menor rastro."

E então Anthony falou das experiências adequadas à vida de um artista, dos louvores, das críticas e do estímulo que ele deveria esperar receber de seus amigos, dos riscos a que deveria se expor buscando emoções, de uma coisa e outra, enquanto eu me sentia entorpecido e me perdia em divagações. E assim voltamos para casa, mas, ao virar o carro em Magdalen Bridge, suas palavras trouxeram à baila o assunto principal do nosso jantar. — Bem, meu caro, com certeza amanhã de ma­nhã a primeira coisa que você fará será correr para Sebastian para contar tudo o que eu disse a respeito dele. Mas vou desde já lhe dizer duas coisas: primeiro, não terá a menor influência sobre os sentimentos de Sebastian para comigo, e, segundo, meu caro, peço-lhe que não se esqueça disso, apesar de se ver claramente que você está supinamente caceteado, ele começará imediatamente a falar de seu divertido ursinho de brinquedo. Boa noite. Durma como um inocente.

Mas eu dormi mal. Uma hora após ter caído tonto na cama, estava novamente acordado, com sede, agitado, sentin­do ora frio ora calor, extraordinariamente excitado. Bebera demais, mas nem a mistura de vinhos nem o Chartreuse, nem o Mavrodaphne, nem mesmo o fato de ter ficado sentado imóvel, sem falar quase a noite toda, em lugar de "cozinhar a bebedeira", como fazíamos normalmente, com brincadeiras brutas, explicava a aflição daquela noite de bruxaria. Fiquei acordado, lúcido.

Repeti em surdina as palavras de Anthony, imitando sua maneira de falar, a acentuação e a cadência do seu falar; sob meus lábios fechados, eu via seu rosto pálido, iluminado à luz de vela, do outro lado da mesa. Levantei-me uma vez em plena escuridão para apanhar os desenhos na minha sala, trazendo-os para a luz, e fiquei sentado perto da janela aberta, a folheá-los. Tudo estava parado e escuro no pátio; apenas os sinos acordavam e cantavam os quartos de hora sobre os telha­dos. Bebi água gasosa, fumei c me consumi, até que a luz começou a raiar e o sopro leve da brisa me fez voltar para a cama.

Quando acordei, Lunt estava na porta aberta. — Dei­xei-o dormir disse ele. Achei que o senhor não ia à comunhão geral.

Você acertou.

Quase todos os calouros foram, e um número bem grande de segundanistas e terceiranistas. E por causa do ca­pelão novo. Antes, não havia comunhão geral, só comunhão para os que quisessem, e o ofício da tarde.

Era o último domingo do trimestre; o último do ano. Quando fui tomar banho, a praça começou a encher-se de subgraduados de beca e sobrepeliz passando da capela para as salas de reunião. Quando voltei, fumavam em grupos; Jasper viera de bicicleta de sua pensão para encontrá-los.

Como costumava fazer aos domingos, desci a Broad vazia para tomar café num salão de chá defronte de Balliol. O ar estava cheio dos sinos das torres ao redor, e o sol desenhava sombras compridas que cortavam os espaços vazios, afastando a noite tenebrosa. O salão de chá estava silencioso como uma biblioteca; alguns estudantes solitários de Balliol e Trinity, de chinelos, olharam para mim quando entrei, e depois voltaram-se para seus jornais de domingo. Comi ovos mexidos e geléia amarga com a disposição que uma noite insone provoca na mocidade. Acendi um cigarro e me quedei por ali, enquanto os estudantes de Balliol e Trinity pagavam suas contas e saíam arrastando os chinelos, atravessando a rua em direção de suas faculdades. Eram quase onze horas quando saí dali, e na mi­nha caminhada de volta ouvi parar o carrilhão e, em seu lugar, o badalar de um único sino, avisando o início dos ofícios.

Naquela manhã, só os devotos pareciam estar nas ruas; subgraduados e bacharéis, mães de família e comerciantes, caminhando naquele jeito inconfundível que têm os ingleses quando vão à igreja, nem apressado nem flanando; entre as mãos, encapadas de pelica preta e celulóide branco, as liturgias de uma meia dúzia de religiões antagônicas; a caminho de St. Barnabas, St. Columba, St. Aloysius, St. Mary, Pusey House, Blackfriars, e só Deus sabe quantas outras além dessas; ao culto restaurado dos normandos, ao gótico ressuscitado, às imi­tações de Veneza e Atenas; sob um sol de verão todos se dirigiam aos templos de sua raça. Apenas quatro pagãos proclamavam sua dissidência com orgulho; quatro indianos postados nos portões de Balliol, metidos em calças de flanela brancas recém-chegadas da lavadeira, e casacos muito bem passados; tinham na cabeça turbantes brancos como a neve, seguravam almofadas de cores vivas em suas mãos gorduchas e morenas, um cesto de piquenique e um livro de Bernard Shaw, Plays unpleasant, e dirigiam-se para o rio.

No Cornmarket, um grupo de turistas parados na escada do Hotel Claredon discutia com o motorista um mapa da es­trada; cumprimentei, em frente, quando passei pelas arcadas veneráveis do Golden Cross, um grupo de sub-graduados da minha faculdade que tinha ido ali tomar café, remanchando no pátio cheio de trepadeiras para fumar cachimbo. Um bando de escoteiros, que também se dirigia à igreja com fitas colo­ridas e distintivos alegres, passou gingando em ordem nada militar; em Carfax, encontrei o prefeito e a corporação, que, sem despertar atenção, seguiam em procissão com suas becas escarlates e correntes douradas, precedidos pelos porta-estandartes, a caminho da City Church para ouvir o sermão. Em St. Aldates, passei por uma fila de meninos cantores, de colarinho engomado e carapuças estranhas, em direção a Tom Gate e à catedral. E assim, num mundo cheio de piedade fui ao encon­tro de Sebastian.

Ele saíra. Li as cartas, nada reveladoras, que cobriam sua escrivaninha, e examinei os convites sobre a lareira; nada de novo. Fiquei lendo Lady into fox até ele voltar.

Fui à missa no Old Palace — disse ele. — Ainda não tinha ido esse trimestre, e Monsenhor Bell convidou-me duas vezes para jantar na semana passada, eu sei o que isso signifi­ca. Mamãe deve ter-lhe escrito. Por isso, sentei bem na frente, onde ele não me poderia deixar de ver, e no fim quase gritei as ave-marias; encerrou-se o assunto. Como foi o jantar com Anthony? De que falaram vocês?

Bem, ele falou o tempo todo. Diga-me, você o co­nheceu em Eton?

Ele foi expulso no meu primeiro trimestre. Lembro- me dele. Sempre chamou a atenção.

Ele ia à igreja com você?

Não me parece, por quê?

Ele conhece algum membro de sua família?

Charles, que tem você hoje? Não. Não creio.

Nem sua mãe, em Veneza?

Ela parece ter falado qualquer coisa a respeito. Não me lembro. Se não me engano, ela estava hospedada em casa de uns nossos primos italianos, os Foglieri, e Anthony apa­receu por lá com a família, ficando no hotel; parece que os Foglieri deram uma festa e não os convidaram. Acho que mamãe falou qualquer coisa quando eu disse que ele era meu amigo. Não sei por que ele haveria de querer ir a uma festa dos Foglieri, a princesa tem um tal orgulho de seu sangue inglês, que não fala noutra coisa. Em todo caso, não havia nada contra Anthony, pelo menos suponho. O problema era a mãe dele.

E quem é a Duquesa de Vincennes?

Poppy?

Stefanie.

Você deve perguntar a Antoine. Diz ele que teve um caso com ela.

É verdade?

Pode ser. Essas coisas são mais ou menos obrigatórias em Cannes. Mas por que você está tão interessado?

Só queria averiguar o que havia de verdadeiro nas histórias contadas por Anthony ontem à noite.

Nem uma palavra, creio eu. Esse é seu maior atrativo.

Você pode achar interessante. Para mim é diabólico. Você sabe que ele passou a noite toda ontem procurando me intrigar com você, e por pouco não o conseguiu?

Foi mesmo? Que tolice. Aloysius não gostaria nem um pouco disso, não é, seu urso prosa?

Nisso, Boy Mulcaster entrou no quarto.

 

Voltei para casa nas férias de verão, sem planos e sem dinheiro. Para cobrir as despesas do fim do trimestre, eu vendi a Collins, por dez libras, meu biombo Omega; restavam-me apenas quatro libras desse dinheiro; meu último cheque deixou um déficit de alguns xelins em minha conta-corrente; fui avisado que sem autorização de meu pai não poderia sacar mais nada. Antes de outubro, não receberia minha mesada. Vi-me assim diante de perspectivas pouco animadoras; pen­sando no assunto pouco faltou para que eu sentisse remorsos de minha prodigalidade nas semanas precedentes.

Comecei o trimestre com minha anuidade paga e mais de cem libras no bolso. Estava liso, e nunca paguei um penny onde podia comprar a crédito. Não havia a menor justificativa para esse esbanjamento, que não me proporcionou prazeres inefáveis; foi tudo por água abaixo. Sebastian costumava caçoar de mim: "Você gasta como um bookmaker". No entanto, tudo aconteceu por obra e culpa dele. Suas finanças andavam sempre meio emaranhadas. "Os advogados encarregam-se dis­so", dizia ele desanimado, "acho que eles devem surrupiar um bocado. Em todo caso, o que eu recebo é pouco. Naturalmen­te, mamãe me daria tudo que eu pedisse."

"Então, por que você não lhe pede uma mesada de­cente?"

"Ah! mamãe gosta de dar presentes. Ela é um amor", disse ele, acrescentando mais algumas pinceladas ao retrato que eu começava a formar em meu espírito.

Depois, Sebastian voltava-se para dentro de si mesmo, para essa vida interior, da qual me excluía; eu me sentia abandonado, triste e arrependido.

Como somos pouco generosos em nossas reminiscências, esquecendo os sentimentos puros de nossa mocidade, e recordando apenas os longos dias de verão vividos em irresponsável dissipação!

Faltará sinceridade na história de todo adolescente, se se omitir a saudade da inocência perdida, os remorsos e as boas resoluções, as horas negras, que, como o zero na roleta aparecem com uma regularidade quase previsível.

E assim passei minha primeira tarde em casa, vagando de quarto em quarto, olhando pela janela envidraçada, ora para o jardim, ora para a rua, indignado comigo mesmo.

Eu sabia que meu pai estava em casa, mas ninguém podia entrar na biblioteca, e foi só um pouco antes do jantar que ele apareceu para falar comigo. Estava com cinqüenta e tantos anos, mas tinha a mania de querer parecer mais velho; dava a impressão de ter setenta, e quando falava parecia ter quase oitenta. Dirigiu-se para mim arrastando os pés, naquele seu passo miúdo de mandarim chinês, com um sorriso tímido de boas-vindas. Quando jantava em casa, e raramente jantava fora, vestia um paletó de veludo com alamares, moda antiquada que voltou a ser usada, mas que naquela época era de um anacronismo incrível.

Meu rapaz, ninguém me disse que você estava aqui. A viagem foi muito cansativa? Serviram-lhe o chá? Você está bem? Acabo de realizar uma compra bastante extravagante no Sonerscheins, um touro em terra-cotta, do século V. Comecei a examiná-lo e me esqueci de sua chegada. O vagão estava muito cheio? Seu lugar era de canto? Viajava tão raramente, que ouvir falar nas viagens dos outros despertava sua solicitude. Hayter levou-lhe o jornal da tarde? Há falta de notícias, naturalmente, tanta bobagem.

O jantar estava servido. Meu pai, pela força do hábito, trouxe um livro consigo, e, lembrando-se então de minha pre­sença, deixou-o cair furtivamente para baixo de sua cadeira. Você quer beber alguma coisa?

"Hayter, que poderemos oferecer a Mr. Charles?"

Temos um pouco de uísque.

Temos uísque. Talvez você preferisse outra coisa? Que mais temos?

Não temos mais nada em casa, sir.

Não há mais nada. Você terá de dizer a Hayter o que gostaria de beber, ele se encarregará de arranjar. Não tenho mais vinho em casa. Estou proibido de beber e ninguém vem me visitar. Mas, enquanto você estiver aqui, beberá o que quiser. Você pretende se demorar?

Ainda não sei, papai.

As férias são muito longas — disse ele pensativo. — No meu tempo costumávamos partir nas chamadas excursões de leitura, sempre nas montanhas. Mas por quê? Por quê? — repetiu ele com petulância. — O cenário alpino é considerado propício ao estudo?

Estava pensando tomar umas aulas de modelo vivo em uma escola de arte...

Meu rapaz, estão todas fechadas. Os estudantes vão para Barbizon ou para algum desses lugares para pintar ao ar livre. No meu tempo havia um curso chamado "clube de croquis", para ambos os sexos (fungou), "bicicletas" (tornou a fungar), "bombachas sal-e-pimenta", "sombrinhas", e, segun­do a opinião geral, "amor livre" (fungou), quanta tolice! Tal­vez ainda funcionem. Você poderia experimentar.

Papai, um dos problemas das férias é a questão fi­nanceira.

Ah, eu não me preocuparia com uma coisa dessas na sua idade.

Bem, estou mais ou menos a nenhum.

Sim? — disse meu pai, sem demonstrar o menor interesse.

Aliás, não sei como me arranjarei nestes dois meses.

Bem, você não poderia encontrar pior conselheiro do que eu. Nunca fiquei "a nenhum", como você parece se re­ferir a isso com esforço. E, no entanto, que mais poderia dizer? Quebrado? Na penúria? Necessitado? Financeiramente abalado? (fungou). Na última lona? Na rua da amargura? Digamos que você está na rua da amargura, e encerremos o assunto. Seu avô me disse em certa ocasião: "Viva dentro de seu orçamento, mas, se tiver algum aperto, venha me procurar. Não procure nenhum judeu". Que tolice. Experimente. Procure esses senhores da Jermyin Street, que emprestam dinheiro dando uma simples nota de papel. Meu rapaz, não lhe darão uma libra.

Então, em sua opinião, que devo fazer?

Seu primo Melchior meteu-se em negócios arriscados e acabou numa rua bem amargurada. Foi para a Austrália.

A não ser quando descobriu, entre as páginas de um breviário lombardo, dois papiros datando do século II, nunca vi meu pai tão alegre.

Hayter, deixei cair meu livro.

O livro caído a seus pés foi apanhado e encostado à floreira. Manteve-se silencioso o resto do jantar, exceto em uma ou outra ocasião em que fungou divertido, e, em minha opinião, não era a leitura que ele achava assim tão engraçada.

Levantamo-nos da mesa e fomos nos sentar no jardim de inverno, onde ele mergulhou em seus pensamentos visivelmente esquecido da minha presença; eu sabia que ele estava longe dali, perdido em épocas remotas mais familiares, onde o tempo era medido em séculos, e os corpos não tinham rosto, e os nomes de seus amigos eram corruptelas de palavras possuindo um significado inteiramente diverso. Estava sentado de um jeito que para outra pessoa qualquer seria profundamente desconfortável, atravessado em sua cadeira de braços dura, com o livro levantado, perpendicular à luz. De vez em quando apanhava uma lapiseira de ouro pendurada na corrente de seu relógio e escrevia alguma coisa na margem. A noite de verão entrava pelas janelas abertas; só se ouvia o tique-taque do relógio, o ruído distante do tráfego em Bayswater Road, e o virar compassado das páginas. Não achei de boa política fumar um charuto enquanto me queixava de pobreza; mas em desespero de causa fui buscar um em meu quarto. Meu pai nem levantou os olhos. Furei a ponta, acendi o charuto e, sentindo-me mais confiante, disse: Papai, naturalmente você não pretende me ver passar as férias todas aqui?

Hein?

Não acha um pouco cacete ter de me aturar por tanto tempo?

Não seria capaz de demonstrá-lo, mesmo se fosse ver­dade disse meu pai com toda a calma, mergulhando no li­vro outra vez.

E assim passou-se a noite. Afinal, os relógios espalhados pelos quartos começaram a bater as onze horas em vários tons musicais. Meu pai fechou o livro e tirou os óculos. Meu rapaz, você é muito bem-vindo — disse ele. Fique o tem­po que quiser. Parou na porta e voltou-se. — Seu primo Melchior teve de trabalhar a bordo para pagar sua passagem até a Austrália, diante do mastro (fungou). Que quererá dizer "diante do mastro"?

Minhas relações com meu pai pioraram rapidamente na atmosfera opressiva da semana seguinte. Durante o dia raramente o via; passava horas a fio na biblioteca; de vez em quando aparecia e eu o ouvia chamar na escada: "Hayter, chame um cabriolé". Às vezes, ficava fora de casa meia hora ou menos tempo ainda, outras vezes, um dia inteiro; não dava explicações. Freqüentemente, fora de hora, via levarem-lhe bandejas com refeições ligeiras próprias da infância, bola­chas, copos de leite, bananas, etc. Se por acaso nos encontrá­vamos num corredor ou nas escadas, olhava-me distraído e dizia: "Ah, ah", ou "Muito calor", ou "Ótimo, ótimo", mas à noite, quando entrava no jardim de inverno com seu paletó de veludo, cumprimentava-me cerimoniosamente.

A mesa do jantar era nosso campo de batalha.

Na segunda noite levei comigo um livro para a sala de jantar. Seu olhar calmo e distraído fixou-se nele subitamente atento, e, ao passarmos pelo vestíbulo, deixou o seu furtiva­mente sobre um consolo. Quando nos sentamos, ele se quei­xou: Charles, acho que você bem podia falar comigo. Tive um dia exaustivo. Esperava ter o prazer de poder conversar um pouco.

Pois não, papai. Sobre o que falaremos?

Coisas alegres. Que me distraiam; com petulância — fale-me das últimas peças de teatro.

Mas não vi nenhuma.

Devia ter visto, sabe? Não é normal um rapaz passar todas as noites em casa.

Bem, papai, como já lhe disse, não tenho muito di­nheiro para gastar em teatros.

Meu rapaz, você não deve se escravizar assim ao di­nheiro. Ora, na sua idade, seu primo Melchior era co-produtor de uma revista. Foi uma das poucas aventuras bem-sucedidas em que se meteu. Você deveria ir ao teatro como complemen­to de sua educação. Se você ler a biografia de homens ilustres verá que foi nas galerias que a metade, pelo menos, travou conhecimento com a tragédia. Ouvi dizer que não pode haver maior prazer. Ali estão os verdadeiros críticos e os crentes. Chama-se a isso "sentar-se com os deuses". O preço é uma bagatela, e mesmo na rua, enquanto se espera para entrar, é divertido observar os saltimbancos. Uma noite dessas iremos nos sentar com os deuses. Que acha da comida de Mrs. Abel?

Não varia.

A inspiração corre por conta de sua tia Philippa. Or­ganizou dez cardápios para Mrs. Abel, que nunca mais foram alterados. Quando estou só, não reparo na comida, mas agora, com você aqui, precisamos mudar. Que gostaria de comer? Agora é tempo de quê? Você gosta de lagostas? Hayter, diga a Mrs. Abel para nos fazer lagostas amanhã para o jantar.

Naquela noite, o jantar consistia em uma sopa branca insossa, filés de linguado esturricados com um molho cor-de-rosa, costeletas de carneiro montadas numa pirâmide de purê de batatas, peras em compota em cima de uma espécie de pão-de-ló.

— É simplesmente em respeito à sua tia Philippa que o jantar tem esse número de pratos. Ela decretou que um jantar de três pratos era burguês. "Se você deixar tudo nas mãos dos empregados", disse ela, "acabará comendo todas as noites uma única costeleta." Nada me agradaria tanto. Aliás, é exatamente o que eu faço quando vou ao clube na folga de Mrs. Abel. Mas sua tia determinou que em casa eu tinha de comer uma sopa e mais três pratos; num dia, peixe, carne e um salgadinho para terminar, noutro, carne, doce, e um sal­gadinho; há uma infinidade de combinações possíveis. É ex­traordinário o dom que têm certas pessoas de ser concisas. É o que acontece com sua tia.

"Parece incrível, mas nós costumávamos jantar juntos todas as noites, como nós dois agora, meu rapaz. Bem, ela fazia tudo para despertar meti interesse. Falava-me a respeito de suas leituras. Metera na cabeça vir morar comigo. Julgava-me capaz de fazer esquisitices se ficasse só. Talvez tenha ficado esquisito. Será? Mas não deu certo. No fim, acabei mandando-a embora."

Sua voz deixava transparecer uma ameaça velada.

Minha tia Philippa era em parte responsável pela sensa­ção que eu sentia agora: a de ser um estranho em casa de meu pai. Ela veio morar conosco depois da morte de minha mãe, certamente, como bem disse meu pai, com a intenção de ficar para sempre. Naquela época, eu ignorava o suplício diário da hora do jantar. Minha tia tornou-se minha companheira, e eu achava isso natural. Durou um ano. O primeiro sinal de mudança ocorreu com sua volta a Surrey, reabrindo a casa que ela tencionava vender, e onde passou a viver enquanto eu esta­va no colégio; vinha poucas vezes a Londres, apenas para fa­zer compras ou para se divertir. Durante o verão, ficávamos em pensões à beira-mar. Depois, no meu último ano de colégio, ela saiu da Inglaterra. — Eu acabei por mandá-la embora — disse ele triunfante, fazendo troça daquela bondosa senhora, percebendo que eu tinha compreendido o desafio que me era lançado.

Quando deixamos a sala de jantar, meu pai disse: Hayter, você já falou com Mrs. Abel sobre as lagostas para amanhã?

Ainda não, sir.

Então não o faça.

Muito bem, sir.

Quando nos sentamos no jardim de inverno, ele disse: Desconfio que Hayter não pretendia falar das lagostas. É pouco provável. Sabe? Acho que ele pensou que eu estava brincando.

No dia seguinte, por acaso, surgiu uma brecha. Encontrei um velho conhecido dos tempos de colégio, Jorkins, meu contemporâneo de escola. Nunca simpatizei muito com ele. Em tempos idos, nos dias de tia Philippa, ele tinha vindo tomar chá. Para ela, podia ser um bom sujeito, no fundo, mas pouco simpático à primeira vista. Contudo, fiz-lhe muita festa e convidei-o para jantar. Ele veio; pelo jeito, não tinha mudado muito. Hayter devia ter avisado meu pai da presença de um convidado, porque em lugar do paletó de veludo pôs o fra­que, usando, como complemento, um colete preto, colarinho muito alto, e uma gravata branca muito estreita, sua indumen­tária de cerimônia; usava-a com um ar melancólico de acom­panhamento de enterro real, que ele adotou na mocidade, e conservou, porque o achava simpático. Nunca possuiu um smoking.

Boa noite, boa noite. Foi muito amável de sua parte ter vindo até aqui.

Ah, não é longe disse Jorkins, que morava na Sussex Square.

A ciência anula as distâncias disse meu pai de maneira desconcertante. Está aqui a negócios?

Bem, sou negociante, se é isso que quer dizer.

Tinha um primo negociante, não deve tê-lo conheci­do; não é do seu tempo. Ainda há pouco tempo estive fa­lando com Charles a respeito dele. Tenho pensado nele cons­tantemente. Deu com os burros n'água... — Meu pai parou para dar toda a ênfase à expressão bizarra.

Jorkins deu um risinho nervoso. Meu pai fixou-o com um olhar de censura.

Acha a desgraça alheia motivo de riso? Ou talvez eu tenha empregado uma expressão pouco conhecida; o senhor certamente diria "estrepou-se".

Meu pai estava senhor da situação. Resolveu se divertir à custa de Jorkins, fingindo tomá-lo por um americano, e pas­sou a noite toda a fazer com ele uma espécie de brincadeira de salão, na qual só meu pai tomava parte, explicando os ter­mos tipicamente britânicos surgidos durante a conversa, traduzindo libras por dólares, dirigindo-se a ele de maneira cortês, com frases deste gênero: "Naturalmente, de acordo com seus padrões..."; "Tudo isso deve parecer muito provinciano para Mr. Jorkins"; "O senhor, acostumado à vastidão..." dando a meu convidado a ligeira impressão de que havia algum enga­no a respeito de sua identidade, sem que ele pudesse esclarecer a situação. Várias vezes durante o jantar ele procurou encarar meu pai, para ver se conseguia ler em seus olhos a afirmação clara de que aquela maneira de falar era apenas uma farsa, mas diante de seu olhar tão bondoso e calmo quedou-se per­plexo.

Em minha opinião, meu pai se excedeu um pouco quando disse: Receio que, morando em Londres, o senhor sinta muita falta de seu jogo nacional.

Meu jogo nacional? perguntou Jorkins, custando a entender, mas percebendo que, afinal, tinha surgido a oportunidade desejada, e ele poderia dar uma explicação.

A expressão de meu pai transformou-se de bondade em malícia ao desviar os olhos dele para mim; depois, tomou novamente uma expressão de bonomia, voltando-se mais uma vez para Jorkins. Era a expressão de um jogador ao exibir seu four contra um fullhand. Seu jogo nacional disse ele deli­cadamente, cricket, e fungou sem se poder controlar, sacudin- do-se todo, enxugando os olhos com o guardanapo. Natural­mente, trabalhando na cidade, não lhe deve sobrar muito tempo para o jogo.

Despediu-se de nós na porta da sala de jantar. Boa noite, Mr. Jorkins disse ele. Espero que nos dê o prazer de sua visita em sua próxima travessia do "Atlântico".

Que quis dizer seu velho com isso? Ele me achou com cara de americano, parece.

Às vezes, tem lá suas esquisitices.

Refiro-me àquela história de me aconselhar a visitar a Abadia de Westminster. Parecia brincadeira.

De fato. Não percebi bem.

Cheguei a pensar que estivesse caçoando de mim disse Jorkins num tom de voz perplexo.

Meu pai desfechou seu contra-ataque alguns dias depois. Veio procurar-me e disse: Mr. Jorkins ainda anda por aqui?

Não, papai, claro que não. Veio apenas jantar.

Pena, esperava tê-lo em nossa companhia. Um rapaz tão versátil. Mas você vai jantar em casa?

Sim.

Vou dar um pequeno jantar para quebrar um pouco a monotonia de seus serões passados em casa. Você acha Mrs. Abel capaz de dar conta do recado? Não. Mas os nossos convidados não são exigentes. Sir Cuthbert e Lady Orme-Herrick são por assim dizer os convidados de honra. Espero arranjar um pouco de música para depois. Incluí alguns jovens entre os convidados, em sua homenagem.

A realidade excedeu minha expectativa a respeito dos planos arquitetados por meu pai. Enquanto os convidados se agrupavam na sala chamada com toda a simplicidade por meu pai de "a galeria", tornava-se evidente para mim que eles tinham sido escolhidos a dedo com o intuito de me aborrecer. Os "jovens" eram Miss Gloria Orme-Herrick, estudante de violoncelo; seu noivo, um moço careca do British Museum; e um editor monoglota de Munique. Podia ver meu pai fungando para mim por trás de uma vitrina de cerâmicas, enquanto fazia as honras da casa. Naquela noite ele usava, como um ca­valheiresco distintivo de batalha, um botão de rosa vermelho à lapela.

O jantar foi demorado e, como os convidados, tinha sido escolhido com requintada ironia. Não era um dos cardápios de tia Philippa; obedecia, porém, a padrões estabelecidos em priscas eras, muito antes de ele ter licença para jantar na sala. Os pratos tinham aspecto decorativo, e as cores, vermelho e branco, pareciam alternar-se com regularidade. Tanto a comida como o vinho eram igualmente insossos. Depois do jantar, meu pai levou o editor alemão para o piano, e, enquanto ele toca­va, deixou a sala para mostrar a Sir Cuthbert Orme-Herrick o touro etrusco na galeria.

Foi uma noite tétrica; quando a festa acabou, fiquei sur­preso de ver que passavam poucos minutos das onze horas. Meu pai encheu um copo de água de cevada e disse: Tenho amigos muito cacetes! Você sabe, se não fosse o estímulo de sua presença, nunca teria tido ânimo para convidá-los. Tenho negligenciado bastante meus deveres sociais nestes últimos tempos. Mas agora, com você aqui me fazendo uma visita tão demorada, vou organizar uma porção de festas como essa. Você gostou de Miss Gloria Orme-Herrick?

Não.

Não? Você implicou com o bigodinho dela ou com seus pés enormes? Acha que ela se divertiu?

Não.

Também tive essa impressão. Duvido que nossos convidados guardem boas recordações dessa noite. Fim minha opinião, aquele jovem estrangeiro tocou muito mal. Onde o terei encontrado? E Miss Constantia Smenthwick, onde a terei encontrado? Mas as regras da boa hospitalidade devem ser observadas. Enquanto você estiver nesta casa, não se aborrecerá.

Nas duas semanas que se seguiram, nossa luta foi de morte. Eu sofri mais, porque meu pai possuía reservas mais amplas, e um campo de ação mais vasto, enquanto eu ficava preso na minha cabeça-de-ponte entre as montanhas e o mar. Ele nunca declarou seus objetivos de guerra, e até hoje não sei se eram simplesmente punitivos, se na realidade tinha em estado latente alguma idéia geopolítica de me expulsar do país, assim como tia Philippa fora forçada a exilar-se em Bordighera e o primo Melchior cm Darwin, ou se, como é mais provável, combatia pelo simples prazer de combater, brilhan­do na luta.

Recebi uma única carta de Sebastian, objeto conspícuo que me foi entregue na presença de meu pai, certa ocasião em que ele almoçava em casa; vi seu olhar curioso e levei-a comi­go para ler quando estivesse só. Tinha sido escrita em papel especial para cartas de pêsames, no estilo usado em fins da era vitoriana, tarjado e brasonado de preto. Eu a li com sofreguidão.

Brideshead Castle

Wiltshire

Que dia é hoje?

Caríssimo Charles,

Descobri uma caixa com esse papel no fundo de uma escrivaninha, e preciso lhe escrever porque estou de luto por minha inocência perdida. Parecia condenada. Os médicos não tinham esperanças de salvá-la desde o início.

Breve partirei para Veneza, para visitar papai em seu palácio do pecado. Quisera que você viesse. Quisera que você estivesse aqui.

Nunca estou inteiramente só. Membros de minha família estão sempre aparecendo, apanham suas bagagens e partem de novo, mas as framboesas brancas estão maduras.

Estou pensando seriamente em não levar Aloysius para Veneza. Não quero que ele trave relações com uma porção de ursos italianos horríveis e aprenda maus hábitos.

Carinhos ou o que você quiser.

S.

Conhecia suas cartas de longa data; eu as recebera em Ravenna; não deveria ter ficado desapontado; mas naquele dia, ao rasgar a folha dura de papel pelo meio, deixando-a cair no cesto, olhei com rancor para os sujos jardins e a assi­metria daqueles fundos de ca.sa, em Bayswater; o amontoado de canos de esgoto e escadas de incêndio, os pequenos conservatórios protuberantes, e vi o rosto pálido de Anthony Blanche espiando através das folhas dispersas, como naquela ocasião em Thame, através da chama da vela. Pareceu-me ouvir niti­damente sua voz acima do burburinho do tráfego... "Você não deve condenar Sebastian se às vezes ele parece um pouco insípido... Quando ele fala, lembro-me daquele quadro bas­tante enjoativo... Bolhas."

Nos dias que se seguiram, julguei odiar Sebastian; mas certa tarde de domingo recebi um telegrama seu; os horizontes clarearam e novas nuvens escuras se formaram.

Meu pai tinha saído; quando voltou encontrou-me num estado de ansiedade febril. Parou no vestíbulo, ainda com seu panamá na cabeça, sorrindo para mim.

Você nem adivinha aonde fui hoje; ao Jardim Zooló­gico. Estava agradabilíssimo; os bichos parecem apreciar tanto o sol.

Papai, preciso partir imediatamente.

Sim?

Um grande amigo meu sofreu um acidente sério. Pre­ciso ir ao encontro dele imediatamente. Hayter já está fazendo minha mala. Há um trem daqui a meia hora.

Mostrei-lhe o telegrama, que dizia apenas: "Gravemente ferido venha imediatamente Sebastian".

Bem — disse meu pai. — Sinto muito. Pelo telegra­ma eu não diria que o acidente fosse assim tão sério como você parece pensar, senão a vítima não o teria assinado. Em todo caso, ele pode estar inteiramente consciente, mas cego ou paralítico; ter fraturado a espinha. Mas exatamente por que é tão necessária a sua presença? Você não é médico. Mão é padre. Tem esperanças de receber algum legado?

Já lhe disse, é um grande amigo meu.

Bem, Orme-Herrick é um grande amigo meu, mas eu não sairia às carreiras numa tarde quente de domingo para vê-lo em seu leito de morte. Acho que Lady Orme-Herrick não ficaria satisfeita com minha visita. Em todo caso, vejo que você não tem dúvida a respeito. Sentirei sua falta, meu rapaz, mas não tenha pressa de voltar por minha causa.

A Estação Paddington, naquela tarde de um domingo de agosto, com os raios de sol atravessando os vidros escuros de seu telhado, os balcões de livros, fechados, e os poucos passageiros andando calmamente ao lado dos carregadores, teria acalmado outro espírito menos atribulado que o meu. O trem estava quase vazio. Mandei colocar minha mala no canto de um carro de terceira classe e fui sentar-me no vagão-restaurante. — O primeiro jantar será servido depois de Reading, sir; mais ou menos às sete horas. Deseja alguma coisa? — Mandei vir gim e vermute; já saíamos da estação quando me trouxe­ram o aperitivo. Os garfos e facas começaram a chocalhar rit­madamente; pela janela via-se fugir a paisagem brilhante. Mas meu estado de espírito não podia se ater a essas coisas banais; em vez disso, o temor fazia as vezes de lê vedo em meus pen­samentos, e a fermentação trazia à superfície, em alentadas partículas de escuma, imagens fatídicas: uma espingarda car­regada segura por mãos descuidadas ao pular uma cancela, um cavalo empinando e rolando no chão, um lago sombrio com alguma estaca submersa, um galho de olmo caindo de repente na manhã calma, um carro em uma curva fechada; toda a série de ameaças que pairam sobre a vida civilizada me atormentavam. Cheguei mesmo a imaginar um homicida ma­níaco vociferando nas trevas, brandindo um pedaço de cano de chumbo. Os campos de trigo e as florestas cerradas passavam correndo, mergulhadas na luz dourada da tarde, e a vibração das rodas repetia com monotonia aos meus ouvidos: "Você chegou muito tarde. Você chegou muito tarde. Ele está morto. Ele está morto. Ele está morto".

Jantei e fiz a baldeação de trens para a linha local, e ao crepúsculo cheguei a Melstead Carbury, meu destino.

Brideshead, sir? Sim, Lady Julia está no pátio.

Ela estava sentada na direção de um carro aberto. Eu a reconheci logo; não era possível errar.

O senhor é Mr. Ryder? Pule aqui para dentro. Falava com a voz de Sebastian, e ele tinha o mesmo modo de falar da irmã.

Como está ele?

Sebastian? Ah, muito bem. Já jantou? Bem, deve ter sido um jantar pífio. Lá em casa encontrará um reforço. Sebas­tian e eu estamos sozinhos, por isso resolvemos esperar pelo senhor.

Que lhe aconteceu?

Ele não lhe disse? Deve ter pensado que o senhor não viria se soubesse. Quebrou um osso no tornozelo, tão pequeno que nem tem nome. Mas fizeram uma radiografia ontem e mandaram-no ficar um mês de perna estendida. É uma maçada para ele, atrapalhou todos os seus planos; tem feito uma cho­radeira tremenda... Os outros todos já foram embora. Tentou prender-me aqui para lhe fazer companhia. Bem, o senhor deve saber como ele pode ser comovente. Quase cedi, por fim falei: "Mas com certeza você deve conhecer alguém que possa vir", e ele respondeu que estavam todos fora ou ocupados e que, em todo caso, ninguém poderia me substituir. Concordou afinal em experimentar chamá-lo, e eu prometi ficar se o senhor não pudesse vir; nem imagina como lhe sou grata. Devo dizer que teve um gesto nobre vindo de tão longe, assim que foi chamado. Não sei se imaginei, mas julguei perceber um certo tom de desprezo em sua voz, porque eu acorri logo.

Como foi que aconteceu?

Por incrível que pareça, jogando cricket. Perdeu a paciência e tropeçou num arco. Não foi um ferimento muito honroso.

Sua semelhança com Sebastian era tão grande, que, sen­tado ao lado dela enquanto a tarde caía, eu tinha a estranha sensação de que a conhecia há muito, e, ao mesmo tempo, de que ela era uma estranha.

Assim como podemos observar uma pessoa a distância com o auxílio de um binóculo, estudar-lhe o rosto e a roupa nos menores detalhes, e ter a impressão que ela está ao alcance de nossa mão, ficando mesmo espantados porque ela não nos ouve, nem sequer olha para nós quando nos mexemos, e depois, a olho nu, lembramo-nos de repente que para ela nós somos apenas um ponto no espaço, uma figura vaga. Eu a conhecia, mas ela não sabia quem eu era. Seus cabelos negros eram pouco mais compridos que os de Sebastian, jogados para trás da mesma maneira que os do irmão; seus olhos, atentos na estrada que escurecia, lembravam os dele, eram apenas maiores; e sua boca pintada sorria para o mundo com menos simpatia. No pulso uma corrente porte-bonheur e nas orelhas pequenos brincos de ouro. Seu casaco leve deixava entrever uns dois dedos de seda estampada; naquela época as saias eram curtas, e suas pernas esticadas para a frente, pisando os pedais do carro, eram finas, de acordo com a moda, também. A única diferença palpável residia no fato de ser ela uma moça, e essa distinção entre o que me era familiar e o que eu não conhecia parecia tomar corpo e encher o espaço entre nós dois; eu sentia sua feminilidade como jamais a sentira em mulher alguma.

Tenho pavor de guiar a esta hora da noite — disse ela. — Mas lá em casa parece não ter sobrado ninguém para dirigir o carro. Sebastian e eu estamos praticamente acampa­dos aqui. Espero que não tenha vindo contando com uma recepção em grande estilo. — Debruçou-se, apanhando uma caixa de cigarros no porta-luvas.

Não, obrigado.

Quer acender um para mim?

Era a primeira vez na vida que alguém me pedia isso; quando passei o cigarro dos meus lábios para os dela, senti um frêmito de sensualidade, como um ligeiro bater de asas de morcego, e que só eu percebi.

Obrigado. O senhor já esteve aqui. A babá contou. Nós duas estranhamos que o senhor não tivesse ficado para tomar chá comigo.

Foi Sebastian.

Parece que o senhor se deixa dominar muito por ele. Não deve consentir. Não é nada bom para ele.

Tínhamos dobrado a curva da estrada; não havia mais cor nas florestas e no céu, e a casa parecia uma pintura esba­tida a esfuminho; só as portas abertas formavam uma mancha de luz no centro. Um homem esperava para levar minha bagagem.

Enfim, chegamos.

Ela subiu as escadas e levou-me para o vestíbulo, onde jogou seu casaco sobre uma mesa de mármore, parando para fazer festa em um cão que veio a seu encontro. — Sebastian é bem capaz de ter começado a jantar.

Naquele instante ele apareceu entre as colunas ao fundo, fazendo andar sua cadeira de rodas. Estava de pijama e chambre, tinha um dos pés todo bandado.

Bem, querido, aqui está seu amigo — disse ela, outra vez com um tom de desprezo quase imperceptível.

Pensei encontrar você agonizando — disse eu, com a nítida impressão de vexame em lugar de alívio, que senti quando percebi que minhas expectativas de uma grande tragé­dia tinham sido frustradas.

Também pensei. A dor era tremenda. Julia, você pe­dindo, quem sabe se Wilcox não nos daria champanhe?

Detesto champanhe, e Mr. Ryder já jantou.

Mr. Ryder? Mr. Ryder? Charles bebe champanhe a toda hora. Sabe, olhando para meu pé todo enfaixado, não posso deixar de pensar que estou gotoso, e isso me dá uma vontade danada de tomar champanhe.

Jantamos numa sala que eles chamavam "o parlatório pintado". Era de feitio octogonal, de desenho posterior ao resto da casa; suas paredes eram decoradas com medalhões enguirlandados, e, na cúpula, viam-se figuras pompeanas em atitudes pudicas, formando grupos pastorais. Isso, a mobília dourada de pau-cetim, o tapete, o candelabro de bronze, os espelhos e os nichos, eram obra de um único decorador ilustre.

Costumamos fazer nossas refeições aqui quando estamos sozinhos — disse Sebastian —, é tão aconchegante!

Enquanto eles jantavam, eu comi um pêssego e contei a história da luta com meu pai.

Ele deve ser uma delícia — disse Julia. — E agora, meninos, vou deixá-los.

Para onde vai você?

Prometi à babá jogar uma última partida de alma.

Deu um beijo no cocuruto da cabeça de Sebastian. Fui abrir a porta para ela. — Boa noite, Mr. Ryder, e adeus. Creio que não nos veremos amanhã. Vou partir cedinho. Não sei como lhe agradecer por ter vindo me substituir à cabeceira do doente.

Minha irmã está muito cerimoniosa hoje — disse Se­bastian, quando ela saiu.

Acho que ela não vai comigo — disse eu.

Acho que ela não vai com ninguém. Eu gosto dela. Ela se parece tanto comigo.

É? Você acha?

Quero dizer, fisicamente e na maneira de falar. Não gostaria de uma pessoa que tivesse o meu gênio.

Quando acabamos o nosso porto, Sebastian, em sua ca­deira de rodas, e eu dirigimo-nos para a biblioteca, passando pelas colunas do vestíbulo. Ali permaneceríamos a primeira e todas as outras noites daquele mês. Ela estava situada na parte da casa que dava para os lagos; as janelas abriam-se para as estrelas, para o ar perfumado que invadia a sala, para a paisagem do vale azul-escuro banhado pelo luar prateado, e para o ruído da água que caía na fonte.

Isso aqui será um paraíso para nós dois sozinhos — disse Sebastian; e quando, na manhã seguinte, fazendo a barba no banheiro, vi pela janela Julia partir, sem lançar um olhar para trás, a bagagem no fundo do carro, saindo do pátio e desaparecendo no alto do morro, tive uma sensação de paz e libertação, como só anos mais tarde viria a sentir depois de uma noite de vigília, ao ouvir o sinal das sirenes soando: "Tudo livre".

 

O langor da mocidade é único, é a quintessência! Tão depressa perdido, e para sempre! O entusiasmo, as amizades generosas, as ilusões, o desespero, todos os atributos próprios da mocidade, todos, menos esse, são nossos companheiros inconstantes a vida inteira. Tudo isso é a essência da vida; mas a languidez, esse relaxamento de músculos ainda em descanso, o espírito isolado e concentrado em si mesmo, isso per­tence só à mocidade e com ela morre. Quem sabe se nas mansões do limbo os heróis recebem esse dom como uma compensação pelo fato de terem perdido o gozo da visão beatífica? E isso mesmo não terá em si uma certa semelhança com essa experiência animal? Eu, pelo menos, me julgava muito perto do céu, naqueles dias lânguidos passados em Brideshead.

Por que esta casa tem o nome de "castelo"?

Porque era um castelo até mudar de lugar.

Que quer você dizer com isso?

Exatamente o que lhe digo. Nós possuíamos um cas­telo na vila a uma milha abaixo daqui. Depois, encantamo-nos com o vale, demolimos o castelo, trouxemos as pedras cá para cima e construímos uma casa nova. Ainda bem que tiveram essa idéia. Você não acha?

Se eu fosse o dono, não moraria noutro lugar.

Mas você compreende, Charles, não sou o dono. No momento atual, pode ser; em geral, o lugar está infestado de feras vorazes. Como seria bom se fosse sempre assim, um verão eterno, sem ninguém, as frutas sempre maduras e Aloysius de bom humor...

É essa a imagem de Sebastian que guardo com carinho, sua lembrança naquele verão, quando vagávamos os dois sozi­nhos naquele palácio encantado; Sebastian em sua cadeira de rodas, rolando ao longo dos caminhos da horta entre cantei­ros, procurando morangos silvestres e figos quentes; percorrendo uma infinidade de estufas, onde se sentia a diferença de vários perfumes e temperaturas, para cortar as uvas mosca­téis e escolher orquídeas para nossas lapelas; Sebastian fingin­do capengar com dificuldade, subindo para os quartos das crianças, sentado a meu lado no tapete florido e gasto, os armários de brinquedos vazios ao redor de nós, e a babá Hawkins cosendo pacificamente no canto, dizendo: "Cada um é pior que o outro; vocês são duas crianças. É isso que aprendem no colégio?"

Sebastian de bruços, apanhando sol entre as colunas, como agora, e eu, em uma cadeira dura a seu lado, procurando desenhar a fonte.

A cúpula também é de Inigo Jones? Parece ter sido feita mais tarde.

Mas, Charles, deixe de bancar o turista. Que impor­tância tem a data de sua construção, se é bonita?

Essas coisas me interessam.

Santo Deus, eu julgava que já o tinha curado dessa mania. Aquele horrível Mr. Collins.

Morar entre aquelas paredes; vagar de quarto em quarto; da biblioteca, que parecia uma obra de Soanes, até a sala chi­nesa, rebrilhando de pagodes dourados e mandarins balançan­do a cabeça; papéis pintados, obras de talha em estilo Chippendale; o vestíbulo em estilo pompeano, o grande salão coberto de tapeçarias, imutável nos seus duzentos e cinqüenta anos; ficar sentado horas a fio na sombra, olhando para o terraço, era uma verdadeira aula de arte.

Esse terraço era a obra-prima da velha mansão; formado por contrafortes de pedra maciça, dando a impressão de estar suspenso sobre os lagos a seus pés; da escadaria principal tinha-se a sensação de que se alguém se debruçasse na balaustrada e jogasse uma pedrinha, ela cairia no lago mais próximo. Era cercado por uma colunata; além dos pavilhões, viam-se alamedas de limoeiros estendendo-se até as encostas dos morros cobertas de árvores. Uma parte do terraço era lajeada, a outra ajardinada com canteiros de flores e sebes de buxo anão for­mando desenhos caprichosos; esse mesmo arvoredo crescia formando uma sebe mais alta e mais espessa de feitio oval, que, aqui e ali, era cortada em forma de nicho, e entremeada de estátuas, e, no centro, dominando o conjunto magnífico, via-se a fonte; uma fonte digna de uma piazza no sul da Itália, aliás, lugar onde fora encontrada um século antes por um dos antepassados de Sebastian; encontrada, comprada, importada e reconstruída em terra estranha mas acolhedora.

Sebastian queria que eu a desenhasse. Era um projeto ambicioso para um amador, uma bacia oval, tendo ao centro uma ilha de rochas esculpidas; nessa pedra cresciam plantas tropicais clássicas e samambaias inglesas do mato com suas ramagens naturais; entre as plantas, uma dezena de regatos imitando olhos-d'água, e, brincando à volta, fantásticas repro­duções da fauna tropical, camelos e girafas, um leão violento, tudo isso vomitando água; pousado na rocha, elevando-se até o vértice, um obelisco egípcio de pedra de cantaria. Por acaso, porque a empresa estava muito além de minhas forças, consegui realizar, graças a algumas simplificações bem-feitas e alguns requintes de técnica, um trabalho regular, no gênero de Pira- nesi. Devo dá-la a sua mãe? perguntei.

Por quê? Você não a conhece.

Por delicadeza. Estou hospedado em casa dela.

Dê-o à babá disse Sebastian.

Assim fiz, e o desenho passou a fazer parte de sua coleção em cima da cômoda. Disse ela que era bem grande a semelhan­ça, e que, embora fosse muito gabada, ela nunca achara beleza alguma naquilo.

Para mim a beleza era uma novidade.

Desde os tempos de colégio, em meus passeios de bici­cleta pelas paróquias da vizinhança, olhando as inscrições an­tigas, tirando fotografias de batistérios, eu sentia um certo pendor para a arquitetura; muito embora tivesse seguido a trajetória característica de minha geração, pulando com facili­dade do puritanismo ruskiniano para o puritanismo de Roger Fry, no fundo, minhas tendências eram insulares e medievais.

Minha conversão ao estilo barroco data dessa época. Ali, sob a cúpula soberba e ousada, debaixo daqueles forros traba­lhados; ao passar pelas arcadas e frontões partidos, até atingir a sombra da colunata; sentado diante da fonte, horas a fio, procurando decifrar o claro-escuro de suas massas, apreciando aquela exubefância de formas e de imaginação, senti nascer em mim um entusiasmo estranho, como se a água que jorrava e borbulhava entre as pedras fosse realmente a fonte da vida.

Certo dia, descobrimos em um armário um estojo de laca com tintas a óleo, ainda aproveitáveis.

Mamãe comprou-o há uns dois anos. Alguém lhe disse­que só se podia apreciar a beleza do universo pintando-o. Caçoamos muito dela por causa disso. Ela não tinha a menor noção de desenho, e por mais vivas que fossem as cores ao sair da bisnaga, quando ela acabava de misturá-las, o resultado era sempre pardacento. — Algumas pinceladas cor de lama, ressecadas, que se podiam ver ainda na palheta, corroboravam essa declaração. — Cordélia estava encarregada de limpar os pincéis. Acabamos protestando e fazendo mamãe acabar com a história.

As tintas nos deram a idéia de decorar o escritório, um quarto pequeno dando para a colunata; fora usado em tempos idos como escritório para os negócios da fazenda, mas agora estava em desuso, servindo apenas para guardar algumas peças de jogos ao ar livre e uma tina com aloés secos; via-se clara­mente que tinha sido desenhada para fins mais requintados, sala de chá ou de leitura; as paredes de estuque eram decora­das com painéis delicados estilo rococó, e o teto formava graciosa abóbada. Desenhei uma paisagem romântica em uma das molduras ovais menores, e nos dias seguintes comecei a pintá-la; por sorte minha, e também graças a meu estado de espírito, fui muito bem sucedido. De um ou de outro modo, eu parecia transmitir ao pincel meu pensamento. Era uma pai­sagem sem figuras humanas, uma cena de verão representando nuvens brancas e distâncias azuladas; em primeiro plano, ruí­nas cobertas de hera, rochas e cascatas pareciam formar um prelúdio agreste ao parque, que se estendia ao longe. Pouco sabia sobre tintas a óleo, e fui aprendendo com a prática. Quando terminei, uma semana depois, Sebastian estava ansioso para que eu iniciasse o trabalho em um dos painéis maiores. Fiz alguns esboços. Ele queria uma festa campestre com balan­ços enfeitados de laços de fita, um pajem negro e um pastor tocando flauta, mas a idéia gorou. Eu sabia que minha paisa­gem tinha sido obra do acaso, mas um pasticho rebuscado estava acima de minhas forças.

Certo dia, descemos à adega com Wilcox, vimos os esca­ninhos vazios, onde em tempos idos havia muito vinho arma­zenado; uma ala apenas se encontrava bem abastecida; alguns vinhos ali tinham cinqüenta anos de idade.

— Não houve nenhum acréscimo desde que Sua Senhoria partiu para o estrangeiro — disse Wilcox. — Uma boa parte desse vinho antigo vai se estragar se não for bebido. Deveríamos ter desistido das colheitas de 18 e 20. Tenho recebido várias cartas de comerciantes de vinhos a esse respeito, mas a duquesa diz que Lorde Brideshead é que deve decidir, e ele diz que é o duque, e Sua Senhoria manda falar com os advoga­dos. E assim, nossas reservas vão minguando. Na proporção que isso vai, teremos suprimento para dez anos, mas onde esta­remos nós?

Wilcox apreciou nosso interesse; experimentamos garra­fas de todos os escaninhos, datadas desses serões tranqüilos passados na companhia de Sebastian; minha momentosa inicia­ção na arte de beber, ali eu semeei para a abundante colheita que me serviria de arrimo em muitos anos vazios de minha vida. Ficávamos os dois sentados no "parlatório pintado", com as garrafas de vinho abertas em cima da mesa e três copos diante de cada um de nós; Sebastian descobrira um livro sobre a arte de degustar o vinho e nós seguíamos as instruções nos menores detalhes. Aquecíamos ligeiramente o copo até um ter­ço, no calor da chama de uma vela, fazíamos o líquido girar, amornando-o com o calor de nossas mãos, erguendo-o de en­contro à luz, aspirando-o, sorvendo-o, enchendo a boca de vinho, estalando a língua de encontro à abóbada palatina, fazendo-o tinir como uma moeda lançada sobre um balcão; jogávamos então a cabeça para trás, deixando-o descer gota a gota pela garganta. Enquanto discutíamos suas qualidades, íamos mordiscando biscoitos Bath Oliver, depois passávamos para outra marca, voltávamos ao primeiro, pulávamos para outro, até misturar os três e confundir a ordem dos copos; perdendo a noção das coisas, trocávamos nossos copos, e afinal os seis ficavam enfileirados; muitas vezes a troca de garrafas ocasionava uma mistura de vinhos, por isso éramos obrigados a recomeçar tendo três copos limpos diante de cada um de nós, enquanto as garrafas se esvaziavam e nossos elogios se tornavam cada vez mais malucos e exóticos.

...É um vinho leve e recatado como uma gazela.

Parece um gnomo.

Uma corça malhada na paisagem de uma tapeçaria.

Como o som de uma flauta às margens de um lago.

... Este aqui é um vinho que possui a sabedoria de um velho.

Um profeta em uma gruta.

...Um colar de pérolas num colo alvo.

Como um cisne.

Como o último dos unicórnios.

E, deixando a luz dourada das velas na sala de jantar, íamos nos sentar à beira da fonte, à luz das estrelas, mergu­lhando as mãos na água, ouvindo, embriagados, a água espa­danando e cascateando nas rochas.

Será preciso nos embriagarmos todas as noites? perguntou Sebastian certo dia.

Creio que sim.

Eu também acho.

Raramente víamos gente de fora, além do procurador, um coronel magro e pelancudo com quem cruzamos algumas vezes, e que em certa ocasião veio tomar chá. Em geral, conse­guíamos nos esquivar dele. Aos domingos, iam buscar um frade num mosteiro próximo para dizer missa e almoçar conos­co. Foi o primeiro padre que encontrei em minha vida; não pude deixar de notar a diferença entre ele e um cura, mas, como eu estava inteiramente fascinado pelo lugar, presumia que tudo e todos ali fossem diferentes: aliás, Padre Phipps era um homem afável, com cara de broa, interessado no cricket local, que fazia o possível para despertar nosso entusias­mo no jogo.

Sabe, padre, Charles e eu não entendemos patavina de cricket.

Como eu queria ver Tennyson marcar aquele tento na quinta-feira. Foi uma bela jogada. O Times escreveu um artigo muito elogioso. Você o viu jogar contra os sul-africanos?

Nunca o vi.

Nem eu. Há anos não vejo um grande jogo; desde que Padre Graves me levou para assistir a um encontro quan­do estávamos de passagem por Leeds, na ocasião da investidura do abade de Ampleforth. Padre Graves descobriu um trem que tinha três horas de espera, na tarde do jogo contra Lancashire. Que dia! Lembro-me ainda de todas as jogadas. Depois disso tive de me contentar com as resenhas esportivas. Você não costuma assistir aos jogos?

Nunca respondi, e ele me olhou com o ar de santa incredulidade que conheci mais tarde em pessoas religiosas, diante dos que se expõem aos perigos do mundo, pouco aproveitando as várias distrações que ele oferece.

Sebastian assistia sempre à missa, mas com pouca devo­ção. Brideshead não era dos mais antigos centros católicos. Lady Marchmain admitira alguns empregados católicos, mas estes, em sua maioria, assim como os colonos, quando rezavam, iam fazê-lo entre as sepulturas dos Flyte, na igreja cin­zenta perto dos portões.

Naquele tempo, a fé de Sebastian era um enigma para mim, apesar de eu achar que isso não me dizia respeito de modo especial. Eu não tinha religião alguma. Em minha infân­cia, levavam-se toda semana à igreja, e no primário ia dia­riamente à capela, mas, em compensação, quando comecei a freqüentar o ginásio fui dispensado de assistir aos serviços religiosos durante as férias. Meus professores de teologia ensi­naram-me que os textos bíblicos não eram absolutamente dig­nos de crédito. Nunca insinuaram que eu devesse rezar. Meu pai só ia à igreja em acontecimentos de família, e ainda assim fazendo troça. Acho que minha mãe era piedosa. Em tempos passados, estranhei que ela tivesse julgado ser seu dever deixar-nos, meu pai e eu, para seguir com uma ambulância para a Sérvia, e morrer de exaustão na Bósnia. Percebi, mais tarde, que eu era como ela. Só muito depois reconheci umas tantas coisas que, em 1923, nunca levei a sério; passei, então, a aceitar tanto o sobrenatural como a realidade.

Naquele verão em Brideshead eu não podia compreender tudo isso.

Depois de conhecer Sebastian, freqüentemente em con­versa, alguma palavra dita por acaso vinha lembrar-me sua condição de católico, mas eu encarava o fato como uma mania qualquer, como seu ursinho de brinquedo. Nunca discutimos o fato, mas no segundo domingo passado em Brideshead, quan­do Padre Phipps se retirou, sentados sob a colunata lendo os jornais, ele me surpreendeu com um desabafo: — Meu Deus, como é difícil ser católico!

Você acha que isso faz muita diferença?

Claro. O tempo todo.

Bem, confesso que nunca reparei nada. Você está lu­tando contra alguma tentação? Você não parece ser mais vir­tuoso do que eu.

Sou muitíssimo pior — disse Sebastian indignado.

E então?

Quem era que costumava rezar assim: "Senhor, fazei- me santo, mas já riao"?

Sei lá. Deve ser você mesmo.

Bem, na verdade, eu rezo todos os dias. Mas não é isso. — Voltando a folhear o News of the World, disse: — Outro mau escoteiro.

Naturalmente querem fazer você acreditar numa por­ção de bobagens.

Será bobagem? Antes fosse. Às vezes, tenho a im­pressão que é de um bom-senso extraordinário.

Mas, meu caro Sebastian, você não pode acreditar nisso tudo!

Por que não?

Quero dizer, essa história de Natal, a estrela, os três reis, a vaca, o burro.

Ah, sim, creio nisso. É uma idéia linda.

Mas você não pode acreditar numa coisa porque é uma idéia linda.

Mas eu acredito. É assim que eu acredito.

E nas orações? Então você acha possível alguém se ajoelhar diante de uma estátua e dizer algumas palavras, sem mesmo pronunciá-las em voz alta, mas apenas em pensamento, e com isso modificar o tempo? Ou que alguns santos sejam mais poderosos que outros, ou ainda na existência de um santo padroeiro para cada caso?

Ah, sim. Você se lembra, no trimestre passado, quan­do perdi Aloysius? Naquela manhã rezei como um louco a Santo Antônio de Pádua, e logo depois do almoço Mr. Nichols apareceu em Canterbury Gate com Aloysius debaixo do braço, dizendo que eu o deixara em seu tílburi.

Bem disse eu —, se você acredita nisso tudo e não quer ser bom, qual é a dificuldade que você encontra em sua religião?

Se você não quer ver, está acabado.

Bem, então?

Charles, deixe de ser cacete. Quero ler essa história sobre uma mulher em Hull que anda usando um instrumento.

Foi você que puxou o assunto. Eu estava começando a me interessar.

Não o mencionarei mais... levando em consideração trinta e oito casos idênticos, foi condenada a seis meses, puxa!

Contudo, tornou a mencioná-lo uns dez dias mais tarde, enquanto tomávamos banho de sol deitados no telhado, espian­do, por um telescópio, a exposição agrícola lá embaixo no parque. Era uma exposição modesta, de dois dias, servindo às paróquias da vizinhança, mais bazar de caridade e pretexto para reuniões sociais do que realmente uma mostra séria. Uma meia dúzia de barracas de tamanhos diferentes erguia-se ao redor de um círculo marcado com bandeirinhas; havia um pa­lanque para o juiz e alguns cercados para animais; a barraca maior destinava-se à venda de refrescos, era grande ali a presença dos fazendeiros. Os preparativos estavam em andamento há uma semana.

Teremos de nos esconder disse Sebastian ao se aproximar o dia.

Meu irmão estará presente. Ele é parte integrante da festa. Por isso estávamos deitados no telhado sob a balaus­trada.

Brideshead veio de trem pela manhã e almoçou com o agente, Coronel Fender.

Estive com ele durante cinco minutos no momento de sua chegada. Anthony Blanche foi extraordinariamente feliz em sua descrição.

Ele tinha o rosto dos Flyte, burilado por um asteca. Po­díamos vê-lo pelo telescópio, andando contrafeito entre os rendeiros, cumprimentando os juízes no palanque, debruçando-se nos cercados para examinar o gado com seriedade.

Sujeito esquisito, esse meu irmão disse Sebastian.

Parece bastante normal.

Ah, mas não é. Se você soubesse, é o mais louco de todos, apenas não o aparenta. Todo enovelado por dentro. Sabe, queria ser padre.

Não sabia.

Acho que ainda quer. Ao sair de Stonyhurst, quase se tornou jesuíta. Foi um choque para mamãe. Ela não podia demovê-lo do seu intento, e, naturalmente, não estava gostan­do nada da idéia. Imagine só o que diriam, logo o filho mais velho; se fosse eu, seria diferente. E papai, coitado. A Igreja já lhe causou muitos aborrecimentos, só faltava isso acontecer. Foi uma confusão, frades e monsenhores entrando e saindo de casa como camundongos, e Brideshead, sorumbático, falando da vontade de Deus. Você compreende, foi ele quem mais sen­tiu a partida de papai; muito mais do que mamãe. Persuadi­ram-no, afinal, a ir para Oxford e pensar no assunto durante três anos. Agora está procurando decidir-se. Fala em entrar para a Guarda e para a Câmara dos Comuns, e em se casar. Não sabe o que quer. Será que eu também seria igual a ele, se tivesse ido para Stonyhurst? Deveria ter ido, mas, quando pa­pai partiu para o estrangeiro, eu ainda não tinha idade sufi­ciente, e ele fez questão de me matricular em Eton.

Seu pai abandonou a religião?

Bem, de certo modo foi forçado a isso; aliás, só abra­çou a religião quando se casou com mamãe. Quando ele nos abandonou, abandonou a religião também. Você precisa conhecê-lo. É um homem muito bom.

Era a primeira vez que Sebastian se referia ao pai, falan­do a sério.

Eu disse: — A partida de seu pai deve ter sido um cho­que para todos.

Com exceção de Cordélia. Era muito criança. Na ocasião foi um choque para mim. Mamãe procurou explicar a situação para nós três, mais velhos, de modo que não lhe guardássemos rancor. Mas eu fui o único, e acho que ela teria preferido que eu o odiasse. Sempre fui o filho preferido de papai. Se não fosse por causa desse pé, estaria agora com ele. Eu sou o único a ir visitá-lo. Por que você não vem também? Você vai gostar dele.

Lá embaixo, no parque, um homem gritava os resultados do último acontecimento, usando um alto-falante. De onde nós estávamos, mal ouvíamos o que ele dizia.

Como você pode ver, em matéria de religião, nossa família é uma mixórdia. Brideshead e Cordélia são católicos fervorosos; ele não é feliz, ela, alegre como um passarinho; Julia e eu somos meio pagãos; eu sou feliz, mas tenho minhas dúvidas a respeito de Julia; todos consideram mamãe uma santa, e papai um excomungado, mas eu não saberia dizer qual dos dois é feliz. Em todo caso, seja lá como for, a felicidade não parece depender da religião, e é tudo quanto almejo... quisera gostar mais dos católicos.

Não vejo a menor diferença.

Meu caro Charles, mas eles não são como os outros, especialmente nesse país, onde são tão poucos. Além de formarem uma camarilha, aliás, quatro camarilhas, pelo menos, que passam a metade do tempo a se fiscalizar, vêem a vida sob um prisma completamente diferente; o que eles consideram importante não tem importância para os outros. Apesar de procurar esconder esse fato da melhor maneira possível, aca­bam sempre se traindo. Aliás, é perfeitamente normal que isso aconteça. Mas, você compreende, para semipagãos como Julia e eu é difícil.

Essa conversa, de uma seriedade invulgar, foi interrompida pelos gritos infantis que pareciam vir do outro lado das chaminés: Sebastian, Sebastian.

Santo Deus! disse Sebastian, puxando um cober­tor. Parece minha irmã Cordélia. Trate de se cobrir.

Onde está você?

Surgiu uma criança robusta, de uns dez ou onze anos; possuía o mesmo ar da família, mas não havia simetria em seus traços, e sua carantonha era francamente feia; duas tran­ças grossas e antiquadas desciam-lhe pelas costas.

Cordélia, vá embora. Estamos despidos.

Por quê? Vocês estão muito bem. Adivinhei que vocês estavam aqui. Você não sabia que eu estava aqui, não é? Eu vim com Bridey e fui ver Francisco Xavier. E num aparte para mim: É o meu porco. Depois almoçamos com o Coronel Fender, e agora a exposição. Francisco Xavier ga­nhou uma menção honrosa. Aquela peste do Randal ganhou o primeiro prêmio com uma porcaria de bicho. Querido Sebastian, que prazer vê-lo outra vez. Como vai seu pobre pé?

Fale com Mr. Ryder.

Ah, desculpe. Como vai? Todo o poder de sedução da família aparecia em seu sorriso. Lá embaixo estão todos meio bêbados, por isso fugi. Escute aqui, quem andou pintando o escritório? Entrei para procurar um banquinho por­tátil e vi.

Veja lá o que vai dizer. Foi Mr. Ryder.

Mas é uma beleza. É verdade mesmo? O senhor é muito habilidoso. Por que vocês não se vestem para descer? Não há ninguém.

Bridey com certeza vai convidar os juízes.

Não vai, não. Eu o ouvi dizer que não ia. Ele está muito enfezado hoje. Não queria que eu jantasse com você, mas eu dei um jeito. Andem com isso. Vou esperá-los lá nos fundos.

Naquela noite formamos um grupo pequeno e taciturno. Cordélia era a única inteiramente à vontade, apreciando a comida, o fato de ser tão tarde, e de estar na companhia dos irmãos. Brideshead era três anos mais velho do que Sebastian e eu, mas parecia pertencer a outra geração. Tinha o mesmo ar da família quando sorria, mas isso raramente acontecia; seu sorriso possuía o mesmo encanto também; o timbre de voz era idêntico, falava como os irmãos num tom sóbrio, com uma seriedade que em meu primo Jasper soaria falso e pomposo, mas nele era francamente natural e inconsciente.

Sinto muito não ter podido gozar sua visita como seria de meu agrado — disse-me ele. Está sendo bem tra­tado? Espero que Sebastian se encarregue dos vinhos. Wilcox é um tanto parcimonioso quando toma a iniciativa.

Tem sido de uma grande prodigalidade conosco.

É um prazer ouvir isso. Gosta de vinho?

Muito.

Gostaria de apreciá-lo também. É um verdadeiro traço de união ligando os homens entre si. Quando estava em Magdalen, tentei embriagar-me mais de uma vez, mas não gostei da experiência. Cerveja e uísque ainda me tentam menos. Por isso, acontecimentos como os desta tarde são para mim um verdadeiro suplício.

Eu gosto de vinho disse Cordélia.

No último boletim de minha irmã Cordélia está es­crito que, além de ser a pior aluna, não houve outra pior em toda a história do colégio, na opinião da freira mais antiga.

Isso foi porque eu recusei ser enfant de Marie. A reverenda madre disse que eu tinha de deixar meu quarto mais arrumado, do contrário não seria recebida, por isso eu respondi, muito bem, então não serei enfant de Marie, e eu não acredito que Nossa Senhora se importe nem um tiquinho se eu ponho meus sapatos de ginástica do lado esquerdo ou direito de meus sapatos de dança. A reverenda madre ficou lívida.

Nossa Senhora gosta de gente obediente.

Bridey, deixe de carolice disse Sebastian. Temos um ateu em nossa companhia.

Agnóstico disse eu.

É verdade? Há muitos como você em seu colégio? Em Magdalen tínhamos um bom número.

Para falar a verdade, não sei. Já pensava assim antes de ir para Oxford.

É coisa muito comum disse Brideshead.

Naquele dia, religião parecia ser assunto inevitável. Fala­mos durante algum tempo sobre a exposição agrícola. E, então, Brideshead disse: Estive na semana passada com o bispo em Londres. Ele quer fechar nossa capela.

Ah, mas não é possível disse Cordélia.

Mamãe não consentirá disse Sebastian.

É longe demais — disse Brideshead. — Na vizinhan­ça de Melstead existem umas doze famílias que não podem vir. Ele quer fazer rezar a missa ali.

E nós? — disse Sebastian. — Teremos de sair de carro nas manhãs de inverno?

Precisamos ter o Santo Sacramento aqui — disse Cordélia. — Gosto de ir rezar de vez em quando; mamãe também.

E eu também — disse Brideshead —, mas somos tão poucos. Não é como se fôssemos uma família católica de tradição e todo mundo na fazenda viesse assistir à missa. Ela terá de ser fechada mais cedo ou mais tarde, talvez isso aconteça depois da morte de mamãe. Resta saber se não seria melhor fechá-la agora. Ryder, como artista, qual é sua opinião sob o ponto de vista estético?

Ela é linda — disse Cordélia com lágrimas nos olhos.

É arte com A maiúsculo?

Bem, não estou entendendo o que você quer dizer — disse cautelosamente. — Em minha opinião, é um exemplo notável de sua época. Provavelmente, será muito admirada daqui a oitenta anos.

Mas não pode ser; então o que foi bonito vinte anos atrás, e será bonito daqui a oitenta anos, não é bonito agora?

Bem, talvez seja. Só quero dizer que eu não gosto muito.

Mas haverá alguma diferença entre gostar e achar be­leza em alguma coisa?

Bridey, não seja tão jesuíta — disse Sebastian, mas eu sabia que essa diferença de opinião não era apenas uma questão de palavras, e sim a expressão de uma fronteira in­transponível e profunda a nos separar; não tínhamos a menor afinidade um pelo outro, nem teríamos jamais.

Você não fez a mesma distinção a respeito do vinho?

Não. Acho que algumas vezes o vinho é usado para bons fins, para estabelecer a camaradagem entre os homens. Mas no meu caso particular o resultado é nulo, por isso não gosto, nem acho o vinho bom para mim.

Bridey, pare, por favor.

Sinto muito — disse ele —, pareceu-me um ponto de vista interessante.

Ainda bem que eu fui para Eton — disse Sebastian.

Depois do jantar, Brideshead disse: — Vou precisar de Sebastian por uma meia hora. Estarei muito ocupado todo o dia amanhã, e devo partir logo depois da exposição. Tenho aqui uma porção de papéis para papai assinar. Sebastian terá de levá-los e explicar-lhe do que se trata. Cordélia, está na hora de você ir dormir.

Preciso fazer a digestão primeiro disse ela. Não estou acostumada a me empanturrar assim de noite. Vou con­versar com Charles.

Charles? disse Sebastian. Charles? Dobre a língua, Mr. Ryder, minha filha.

Venha, Charles.

Quando ficamos sozinhos, ela perguntou: Você é mesmo agnóstico de verdade?

Mas sua família não fala noutra coisa a não ser em religião?

Nem sempre. É um assunto que vem naturalmente, não acha?

Será? Nunca aconteceu comigo antes.

Então, você talvez seja mesmo agnóstico. Vou rezar por você.

Muito obrigado.

Não posso rezar um rosário inteiro por você. Só uma dezena. Tenho uma lista enorme de pessoas. Vou seguindo a ordem, de modo que todos ganham uma dezena mais ou menos uma vez por semana.

Não mereço tanto.

Ah, tenho casos muito mais difíceis do que o seu. Lloyd George e o cáiser e Olive Banks.

Quem é ela?

Ela foi expulsa do convento no último trimestre. Não sei bem por quê. A reverenda madre descobriu umas coisas que ela andou escrevendo. Se você fosse um agnóstico, sabe que eu lhe pediria cinco xelins para comprar uma afilhada pretinha?

Para mim tudo é possível na sua religião.

É uma novidade inaugurada por um missionário no trimestre passado. A gente manda cinco xelins para umas freiras na África, e elas batizam uma criancinha com o nome da gente. Já tenho seis Cordelias pretinhas. Não é uma beleza?

Quando Brideshead e Sebastian voltaram, mandaram Cordélia para a cama. Brideshead continuou nossa discussão.

De fato, você está com a razão — disse ele. — Para você a arte é um meio e não um fim. Isso é teologia pura, mas não é comum encontrar um agnóstico que pense assim.

Cordélia prometeu rezar por mim — disse eu.

Ela rezou uma novena pelo porco — disse Sebastian.

Sabe, tudo isso é muito confuso para mim — disse eu.

Acho que estamos causando escândalo — disse Brideshead.

Naquela noite, comecei a perceber minha quase total ignorância a respeito de Sebastian, e a compreender por que ele sempre procurou me manter alheio à sua vida. Parecia uma dessas amizades travadas a bordo, em alto-mar, apenas; tínha­mos chegado ao porto de destino.

Brideshead e Cordélia partiram: desarmaram as barracas, arrancaram as bandeiras; a grama machucada começou a retomar sua cor; aquele mês, iniciado com tanta calma, terminou bruscamente. Sebastian já andava sem bengala e esquecera o acidente sofrido.

Acho melhor você ir comigo para Veneza — disse ele.

Não tenho dinheiro.

Já pensei nisso. Lá viveremos à custa de papai. Os advogados pagam minha passagem, em primeira classe com leito. É o que nos custará a viagem em terceira classe.

E, assim, partimos; primeiro, fazendo a travessia por mar, demorada e econômica, até Dunquerque, sentados a noite intei­ra no tombadilho sob um céu limpo, apreciando o nascer do sol rompendo cinzento sobre as dunas de areia; dali fomos para Paris, em bancos de madeira, e de automóvel até o Lotti; tomamos banho, fizemos a barba, almoçamos no Foyot, que estava quente e quase vazio, ficamos vagabundando sonolentos pelas lojas, fazendo hora para tomar o trem, passamos muito tempo sentados em um café; depois, na noite quente e poei­renta, dirigimo-nos para a Gare de Lyon, onde tomamos o trem vagaroso em direção ao sul; bancos de madeira outra vez, o vagão cheio de gente pobre que ia visitar a família, viajando como fazem os pobres nas regiões do norte, com uma porção de embrulhinhos e aquele ar paciente de submissão à autori­dade, e marinheiros que voltavam depois da folga. Cochilamos, entre solavancos e paradas, fizemos uma baldeação de noite, tornamos a dormir, e acordamos num vagão vazio, com flo­restas de pinheiros passando pelas janelas, vendo-se ao longe os picos das montanhas. Uniformes novos na fronteira, café e pão no balcão da estação, ao redor de nós a gente do sul, cheia de graça e alegria; depois, a planície outra vez, os vinhedos e olivais vinham substituir os pinheiros, uma bal­deação em Milão; salsichas com alho, pão e uma garrafa de Orvieto comprada numa carrocinha (gastáramos quase todo o dinheiro em Paris); sol a pino, e a terra faiscando de calor; o vagão enchendo-se de camponeses, entrando e saindo em todas as estações; o cheiro de alho no vagão quente era sufocante. Afinal, chegamos à noite em Veneza.

Uma figura taciturna estava à nossa espera. — Plender, camareiro de papai.

Fui esperar o expresso — disse Plender. — Sua Se­nhoria pensou que o senhor tivesse se enganado de trem. Esse parece que veio direto de Milão.

Viajamos de terceira.

Plender deu uma risadinha cortês. — A gôndola do palácio está à espera. Seguirei com a bagagem no vaporetto. Sua Senhoria foi ao Lido, e não tinha certeza de chegar a casa antes do senhor, isto é, pensávamos que o senhor viesse no expresso. Mas agora já deve estar em casa.

Levou-nos até o barco. Os gondoleiros usavam librés em verde e branco, com distintivos prateados no peito; sorriam, curvando-se num cumprimento.

Pelazzo. Pronto.

Si, Signore Plender.

E deslizamos sobre as águas.

Você já esteve aqui?

Não.

Eu já vim por mar. Mas assim é que se deve vir a Veneza.

Ecce el siamo, signori.

O palácio não era tão grandioso como seria de esperar, tinha uma fachada estreita no estilo de Palladio, degraus co­bertos de musgo, uma arcada escura de pedra rústica. Um dos remadores pulou para terra, amarrou o barco, tocou a campainha; o outro ficou na proa mantendo a embarcação junto à escada. As portas se abriram; um criado, meio desmazelado numa libré de verão de linho listrado, fez-nos subir, e nós saí­mos da escuridão para a claridade; o sol batia em cheio no piano nobile, fazendo resplandecer seus frescos no estilo de Tintoreto.

Nossos quartos ficavam no andar de cima; subia-se uma escada íngreme de mármore para chegar até lá; estavam fecha­dos por causa do sol da tarde; o copeiro escancarou as janelas que abriam para o grande canal; as camas tinham cortinados contra os mosquitos.

Mostica non c'è.

Além de uma cômoda abaulada, e um espelho dourado e turvo, não havia outra mobília nos quartos. O chão nu era de lajes de mármore.

Um tanto frio, não? perguntou Sebastian.

Frio? Olhe só. — Levei-o novamente até a janela para apreciar o espetáculo incomparável que se desenrolava à nossos pés e ao redor de nós.

Não, frio não é.

Uma formidável explosão levou-nos até o quarto ao lado. Descobrimos um banheiro que parecia ter sido construído dentro de uma chaminé. Não tinha teto; em lugar disso, as paredes atravessavam o andar superior em direção ao céu aberto. Quase não se podia ver o copeiro devido à fumaça de um gêiser antiquado. Sentia-se forte cheiro de gás, e um filetezinho de água pingava.

Não adianta.

Si, st, súbito, signori.

O copeiro correu até o topo da escada e começou a berrar lá para baixo; uma voz de mulher mais estridente ainda respondeu. Sebastian e eu voltamos a admirar o espetáculo que se desenrolava sob nossas janelas. A discussão acabou afinal, uma mulher e uma criança apareceram, sorriram para nós, amarraram a cara para o copeiro, e colocaram sobre a cômoda de Sebastian uma bacia e um jarro de prata com água quente. Enquanto isso, o copeiro tirou nossas roupas das malas, guar­dou-as, e, voltando a falar em italiano, começou a apregoar a eficácia não-reconhecida do tal gêiser, mas, de repente, virando a cabeça um pouco de lado, como se estivesse prestando aten­ção em alguma coisa, disse: Il signor marchese e com isso desabalou escadas abaixo.

É melhor nós nos arrumarmos antes de irmos ao en­contro de papai disse Sebastian. Não precisamos trocar de roupa. No momento, acho que ele está sozinho.

Era grande minha curiosidade em conhecer Lorde Marchmain. Quando afinal nos encontramos, o que primeiro me chamou a atenção foi sua naturalidade; com o tempo percebi que ela era estudada. Ele parecia ter noção da fama byroniana que o cercava; como a considerava de mau gosto, fazia tudo para que ela fosse esquecida. De pé, na sacada do salão, voltou-se para falar conosco; seu rosto estava na sombra. Pude perceber apenas um vulto ereto, de estatura elevada.

Meu querido papai — disse Sebastian —, você pa­rece um jovem!

Beijou Lorde Marchmain, e eu, que não beijava meu pai desde a primeira infância, quedei-me acanhado atrás dele.

Este aqui é Charles. Charles, você não acha meu pai muito bonito?

Lorde Marchmain deu-me um aperto de mão.

A pessoa que se informou a respeito do trem — disse ele, a voz era idêntica à de Sebastian — fez uma bêtise. Não existe.

Nós viemos nele.

Não é possível. Àquela hora só havia um trem misto de Milão. Eu estava no Lido. Tenho ido lá à tardinha para jogar tênis com o professor. É a única hora do dia em que não faz muito calor. Meninos, espero que vocês se arrumem da melhor maneira possível lá em cima. Essa casa parece ter sido desenhada para moradia de uma única pessoa; eu sou essa pessoa. Meu quarto é do tamanho desse salão, e meu quarto de vestir também é muito bom. Cara apossou-se do outro quarto decente da casa.

Fiquei fascinado ao ver como ele se referia à amante de maneira tão simples e natural; mais tarde tive a impressão de ter sido com o intuito de me impressionar.

Como vai ela?

Cara? Bem, creio eu. Deve voltar amanhã. Ela foi visitar uns amigos americanos no Canal Brenta. Onde vamos jantar? Poderíamos ir ao Luna, mas passou a ser muito fre­qüentado pelos ingleses. Vocês achariam muito cacete ficar em casa? Cara com certeza vai querer sair amanhã, e a cozi­nheira aqui é realmente muito boa.

Afastara-se da janela, e a luz do crepúsculo batia nele em cheio; ao fundo, as paredes de damasco vermelho. Era um rosto cheio de nobreza, controlado; aliás, parecia ser essa a impressão que ele desejava dar; um tanto blasé, irônico e sensual. Parecia estar na flor da existência; ninguém diria que ele era poucos anos mais moço do que meu pai.

Jantamos em uma mesa de mármore junto às janelas; naquela casa tudo parecia ser de mármore, veludo, ou gesso fosco e dourado. Lorde Marchmain falou: Como preten­dem vocês passar o tempo? Tomando banho de mar ou fa­zendo passeios?

Pretendemos fazer alguns passeios, pelo menos disse eu.

Cara ficará encantada; Sebastian já deve ter-lhe dito que aqui ela é a dona da casa. Mas vocês não podem fazer tudo ao mesmo tempo. Se forem ao Lido, não há escapatória, acabam no jogo, no bar, e estuporados de sol. É melhor optar pelas igrejas.

Charles gosta muito de pintar disse Sebastian.

Ah? Percebi a vaga insinuação de profundo tédio que eu conhecia tão bem em meu pai. Ah, sim? Tem alguma preferência entre os pintores venezianos?

Bellini respondi com certo arrebatamento.

Sim? Qual deles?

Não sabia que havia dois.

Três, para sermos precisos. Você vai ver que nas idades áureas a pintura se apresenta como um negócio de fa­mília. Como deixaram a Inglaterra?

Uma beleza disse Sebastian.

Ah, é? É mesmo? Para mim é uma tragédia detestar a vida de campo na Inglaterra. Deve ser uma vergonha herdar grandes responsabilidades e sentir a mais completa indiferença pelas obrigações que elas acarretam. Eu sou exatamente o que os socialistas queriam que eu fosse, e um verdadeiro entrave dentro de meu partido. Bem, meu filho mais velho com certeza mudará tudo isso, se eles lhe deixarem herdar al­guma coisa... Não sei por que os doces italianos gozam de tan­ta fama. Até a época de meu pai, sempre houve pasteleiros ita­lianos em Brideshead, mas ele tinha um austríaco muito me­lhor. E agora, naturalmente, deve andar por lá alguma ma­trona inglesa com braços parecendo dois bifes.

Depois do jantar, saímos do palácio pela porta da frente, atravessamos um labirinto de pontes, praças e vielas, e fomos até o Florian tomar café. Ficamos ali observando a multidão muito séria que passeava de um lado para outro debaixo do campanário. Não há nada no mundo igual ao povo de Veneza disse Lorde Marchmain. O país está cheio de anarquistas; mas, certa noite, uma americana tentou sentar-se aqui com os ombros de fora e acabou tendo de sair, porque todos ficavam postados diante dela fitando-a em silêncio; pareciam um bando de gaivotas voando em círculo, voltando sempre ao ponto de partida, até forçá-la a partir. Nossos compatriotas não têm a mesma dignidade quando procuram demonstrar uma atitude de condenação moral.

Nesse momento, um grupo de ingleses, que acabara de desembarcar, veio sentar-se a uma mesa junto a nós; de repente, mudaram-se para a outra extremidade, onde ficaram olhando de soslaio, cochichando.

Aquele homem ali, e a mulher dele, eu os conheci no tempo em que era político. É pessoa conceituada na sua re­ligião, Sebastian.

Naquela noite, "quando nos deitamos", Sebastian falou:

Não é ele, de certo modo, encantador?

A amante de Lorde Marchmain chegou no dia seguinte. Eu tinha dezenove anos e nenhuma experiência com mulhe­res. Seria incapaz de reconhecer uma prostituta nas ruas. Por conseguinte, o fato de viver sob o mesmo teto com um casal adúltero não me deixava indiferente, mas tinha idade suficiente para não demonstrar meu interesse. A idéia que eu fazia da amante de Lorde Marchmain provocava em mim um mundo de expectativas contraditórias, porém na ocasião fiquei decepcionado com sua presença. Ela não tinha nada de oda­lisca sensual à moda de Toulouse-Lautrec; nem era uma "fi­gurinha etérea"; mas uma mulher de meia-idade, bem-tratada, bem-vestida, de modos fidalgos, igual a muitas outras que eu encontrara várias vezes em diversos lugares públicos, e que às vezes eu viera a conhecer. Também não parecia marcada por algum estigma social. No dia de sua chegada, almoçamos no Lido, onde ela trocou cumprimentos com quase todas as pes­soas presentes.

Vittoria Corombona convidou-nos para seu baile no sábado.

Foi muito amável da parte dela. Você sabe que eu não danço — disse Lorde Marchmain.

Mas, e os meninos? O Palácio Corombona iluminado para o baile é coisa digna de se ver. Ninguém sabe no futuro quantos bailes haverá iguais a esse.

Os meninos podem fazer o que quiserem. Nós tere­mos de recusar.

E eu convidei Mrs. Hacking Brunner para almoçar. Ela tem uma filha encantadora. Sebastian e o amigo dele vão gostar dessa moça.

Sebastian e seu amigo estão mais interessados em Bellini do que em herdeiras ricas.

Mas foi isso que eu sempre quis disse Cara, mu­dando diplomaticamente sua linha de ataque. Já estive aqui tantas vezes e Alex nunca me levou nem mesmo a San Marco. Então, vamos fazer de turistas, não é?

E, assim, viramos turistas. Cara arranjou como cicerone um minúsculo nobre veneziano, que tinha o dom de abrir todas as portas, e, com ele a seu lado e um guia na mão, ela nos acompanhava, fraquejando às vezes, mas sem chegar a desistir, uma figura elegante e prosaica entre os esplendores in­calculáveis daquele lugar.

Aquelas duas semanas em Veneza passaram com rapidez e de maneira agradável, talvez até agradável demais; eu me sentia mergulhar no mel, sem veneno. Às vezes a vida parecia marchar ao compasso da gôndola, enquanto furávamos os pequenos canais, e o gondoleiro para avisar sua passagem soltava um grito semelhante ao canto dorido de um pássaro; noutras ocasiões, sulcávamos a lagoa em lanchas velozes, que deixavam uma esteira de espuma a brilhar ao sol; recordações confusas de areias castigadas pelo sol, e de mármore refrescante dentro de casa; água por todos os lados, lambendo as pedras lisas, refletindo-se em manchas de luz nos tetos pintados; a noite passada no Palácio Corombona, digna de Byron, e outra tam­bém digna do poeta, pescando camarões nos baixios de Chioggia, o rasto fosforescente do naviozinho, a lanterna balançando na proa, e a rede cheia de algas e areia e peixes pulando; melões e prosciuto na sacada, na fresca da manhã; sanduíches quentes de queijo e coquetéis de champanhe no Harry's Bar.

Lembro-me de Sebastian olhando para a estátua de Col­leoni e dizendo: É triste pensar que, aconteça o que acon­tecer, nós dois jamais poderemos ser envolvidos numa guerra.

Lembro-me de modo especial de uma conversa mantida lá para o fim de minha visita.

Sebastian tinha ido jogar tênis com o pai, e Cara acabou confessando seu cansaço. Estávamos os dois sentados à tardinha perto das janelas que davam para o Grande Canal, ela no sofá, com um bordado nas mãos, eu numa poltrona, à toa. Pela primeira vez estávamos os dois sozinhos.

Você parece gostar muito de Sebastian disse ela.

Naturalmente.

Conheço bem essas amizades românticas, características dos ingleses e alemães. Não são latinos. Acho que são muito benéficas quando não se arrastam por muito tempo. — Falou com tanta calma e tanta naturalidade, que eu não pude deixar de entender o sentido de suas palavras, mas fiquei sem resposta. Ela parecia contar com isso, porque continuou bordando, parando de vez em quando para combinar as cores das linhas tiradas de um cesto de costura a seu lado.

"É uma espécie de amor que desabrocha nas crianças antes de elas compreenderem sua significação. Na Inglaterra, parece chegar quando vocês já são quase homens; essa idéia me é simpática. Acho melhor sentir essa espécie de amor por um outro rapaz que por uma moça. Com Alex não aconteceu isso; foi uma moça, sua esposa, quem lhe inspirou esse amor. Você acha que ele gosta de mim?"

Mas, Cara, francamente, você me faz perguntas muito embaraçosas. Como posso saber? Eu presumo...

Não gosta. Nem um pouquinho. Então por que con­tinua vivendo comigo? Eu lhe direi por quê: para defender-se de Lady Marchmain. Ele a odeia; você nem pode fazer uma idéia. Ele dá a impressão de ser tão calmo, tão britânico, o milorde, um pouco blasé, sem paixão, desejando apenas viver com conforto, sem amolações, sempre buscando o sol, e con­tando comigo para cuidar daquilo que homem algum pode fazer por si. Meu amigo, Alex é um vulcão ardente. Ele não pode respirar o mesmo ar que ela respira. Não porá os pés na Inglaterra, porque é onde ela mora; mal consegue gozar a companhia de Sebastian, porque é filho dela. Mas Sebastian a odeia também.

Nesse ponto, estou certo de que você está enganada.

Ele talvez não o reconheça diante de você, nem con­sigo mesmo; mas o ódio os consome, ódio de si mesmos. Alex e sua família... Você sabe por que ele não freqüenta a sociedade?

Sempre pensei que ele tivesse sido alijado.

Meu filho, você é muito criança. Você acha que al­guém condenaria um homem bonito, inteligente e rico como Alex? Nunca na vida. Foi ele quem se afastou. Não se cansam de procurá-lo, apesar das desfeitas recebidas. Tudo por causa de Lady Marchmain. Ele será incapaz de dar a mão a quem possa ter tocado a dela. Se temos convidados, fica pensando: "Estarão vindo de Brideshead?" Ou: "Estarão a caminho de Marchmain House?" "Falarão de mim à minha mulher?" "Essas pessoas serão relações comuns, embora eu a odeie?" Mas, sinceramente, fora de brincadeira, é isso que ele pensa. Ele se enfurece. E que fez ela para provocar tamanho ódio? Nada, a não ser inspirar amor a um indivíduo imaturo. Nunca fui apresentada a Lady Marchmain, e só a vi uma única vez na vida; mas a convivência com um homem ensina a conhecer as mulheres que ele amou. Conheço Lady Marchmain muito bem. Ela é uma mulher boa e simples, vítima de um falso amor.

"Quando alguém odeia assim com tanta violência, esse ódio é um reflexo. Alex tem raiva de suas ilusões de menino; inocência, Deus, esperança. Pobre Lady Marchmain, tem de pagar por tudo isso.

"Uma mulher não possui tantas maneiras de amar.

"Contudo, Alex gosta muito de mim, e eu o protejo con­tra sua própria inocência. Vivemos bem.

"Sebastian está enamorado de sua própria infância. Isso irá causar-lhe muito sofrimento. Seu ursinho, sua babá... e tem dezenove anos..."

Mexeu-se no sofá, mudando de posição de modo a poder ver os barcos que passavam, e disse num tom de voz carinho­so, com certa ironia: Como é bom ficar sentada no escuro e falar de amor. Depois acrescentou, voltando subitamente à terra: Sebastian bebe demais.

Acho que nós dois bebemos demais.

No seu caso, não tem importância. Tenho observado vocês dois juntos. Mas Sebastian é diferente. Se não tomarem providências, ele acabará viciado. Conheci tantos casos. Alex era quase um ébrio quando nos conhecemos; está no sangue. Eu vejo na maneira de Sebastian beber. Mas com você não é a mesma coisa.

Voltamos a Londres um dia antes de começarem as aulas. Saindo de Charing Cross, deixei Sebastian no caminho em frente à casa de sua mãe. Chegamos, aqui está Marchers —, disse ele suspirando, querendo mostrar assim que as férias tinham terminado.

"Não vou convidar você para entrar, minha família deve estar toda aqui. Até Oxford, então." Atravessei o parque dirigindo-me para casa.

Meu pai deu-me as boas-vindas com aquele ar costumei­ro, de vago arrependimento.

Mal você chega disse ele e está logo de partida.

Quase não o vejo. Você talvez se aborreça aqui. Nem poderia deixar de ser assim. Divertiu-se?

Muito. Estive em Veneza.

Sim, sim. Não há dúvida. E o tempo? Estava bom? Quando fomos nos deitar, depois de um serão de estudo

silencioso, ele fez uma pausa para perguntar: E aquele seu amigo que o preocupava tanto, morreu?

Não.

Ainda bem. Você deveria ter escrito para dar-me notícias dele. Fiquei muito preocupado.

Capítulo V

Outono em Oxford. Jantar com Rex Mottram e ceia com Boy Mulcaster. Mr. Samgrass. Lady Marchmain na intimidade. "Sebastian contra mundum."

Isso é típico de Oxford disse eu —, começar o ano letivo no outono.

As folhas caíam por todos os cantos, nas pedras, no cascalho, nos gramados, e nos jardins das faculdades; a fu­maça das fogueiras vinha juntar-se à neblina úmida do rio, que o vento tocava por cima dos muros cinzentos. As lajes pareciam escorregadias sob os pés; nas janelas, ao redor da praça, as luzes se acendiam, uma a uma, formando um clarão difuso e distante; caras novas e becas novas cruzavam as arca­das ao lusco-fusco, e os sinos familiares evocavam agora as recordações do ano findo.

O espírito do outono parecia nos dominar, como se a exuberância desenfreada de junho também tivesse morrido com os goivos, cujo perfume debaixo de minhas janelas fora substituído pelo bafo úmido das folhas fumegando num canto da praça.

Era a primeira tarde de domingo do trimestre.

Tenho a impressão de estar exatamente com cem anos de idade disse Sebastian.

Ele chegara na noite anterior, um dia antes de mim, e era esse nosso primeiro encontro depois de nossa despedida no táxi.

Hoje à tarde recebi um sermão de Monsenhor Bell. Depois que eu voltei, esse é o quarto; primeiro, meu precep­tor, depois, o vice-deão, Mr. Samgrass, de Ali Souls, e agora Monsenhor Bell.

Quem é Mr. Samgrass, de Ali Souls?

Gente da confiança de mamãe. Todos dizem que co­mecei mal no ano passado, fiquei "marcado", e, se não endi­reitar, serei expulso. Como posso endireitar? Só se for ade­rindo à União da Liga das Nações, lendo o Isis todas as se­manas, e tomando café de manhã no Café Cadena, ou, então, fumando um cachimbo enorme, jogando hóquei, tomando chá no Boar's Hill, e indo assistir às conferências no Kable; ou, ainda, andando de bicicleta, carregando no quadro uma cesti­nha cheia de cadernos de nota, bebendo chocolate à noite e discutindo problemas sexuais a sério. Ah! Charles, como tudo mudou do último trimestre para cá! Sinto-me tão velho.

E eu tenho a impressão de ter quarenta anos. É muitíssimo pior. Acho que já esgotamos todas as possibili­dades de nos divertir aqui.

Quedamo-nos silenciosos junto à lareira, enquanto a noi­te caía.

Anthony Blanche saiu da universidade.

Por quê?

Ele me escreveu. Ao que parece, alugou um aparta­mento em Munique, e arranjou por, lá uma ligação com um policial.

Vou sentir falta dele.

Acho que eu também, de certo modo.

Calamo-nos outra vez, e ficamos sentados junto à lareira, tão quietos, que um colega, que tinha vindo me procurar depois de ficar parado na porta alguns instantes, foi-se em­bora pensando que o quarto estava vazio.

Isso não é jeito de começar um novo ano — disse Sebastian; mas aquele entardecer sombrio de outubro parece ter contaminado as semanas seguintes com seu ar gelado e úmido. Naquele trimestre, e no resto do ano, Sebastian e eu mergulhamos cada vez mais na escuridão, e Aloysius, o ursinho de brinquedo, como um fetiche, a princípio escondido dos missionários, e depois esquecido, ficou abandonado sobre a cômoda no quarto de Sebastian.

Nós dois estávamos mudados. Perdemos aquela sensação de novidade responsável pela anarquia do primeiro ano. Comecei a criar juízo.

De repente, comecei a sentir falta de meu primo Jasper, que, tendo terminado o curso de humanidades com distinção, se lançara atabalhoadamente a uma vida de dissipação em Londres. Eu sentia falta de sua presença, gostava de escandalizá-lo; o colégio parecia perder sua estabilidade sem a im­ponência de sua figura; não havia mais motivo de provocações para justificar as afrontas, como no verão passado. Além disso, eu me sentia saciado e bastante castigado, com a intenção de manter um ritmo mais calmo. Nunca mais eu me exporia à ironia de meu pai; uma repreensão não me convenceria de maneira tão cabal, como a perseguição maliciosa que meu pai me moveu, para ensinar-me a insensatez de viver além de minhas posses. Naquele trimestre não recebi sermão algum; eu estava em boas relações com meu preceptor, graças às notas altas obtidas em história e à média sofrível em uma das provas parciais, e não tive dificuldade em manter o statu quo.

Freqüentava esporadicamente o curso de história, escrevia minhas duas teses semanais, e de vez em quando ia a uma conferência. Além disso, comecei meu segundo ano matriculando-me na Ruskin School of Art; duas ou três vezes por semana, um bando de mais ou menos doze alunos, em que pelo menos a metade era formada por um contingente de moças de North Oxford, reunia-se pela manhã no Ashmolean Museum, no meio das cópias em gesso das obras-primas da Antiguidade; duas vezes por semana tínhamos aulas de modelo vivo em uma pequena sala por cima de uma casa de chá; as autoridades tinham procurado evitar a menor sombra de lubricidade nesses serões, e a moça que posava para nós vinha de Londres para passar o dia em Oxford, e não podia residir na cidade universitária. Lembro-me ainda de suas ancas, o lado mais próximo do fogão a óleo apresentava sempre uma co­loração rósea, o outro parecia pele de galinha depenada. Na­quele ambiente impregnado do cheiro da lâmpada de óleo, enganchados em banquinhos altos, tínhamos qualquer coisa de Trilby[5]. Meus desenhos não tinham valor; costumava fazer em meu quarto pastichos artificiais, e de vez em quando amigos meus daquela época lembram-se de exibir algum exem­plar, para meu grande desespero.

Nossas aulas eram ministradas por um aluno de minha idade mais ou menos, que nos tratava de maneira belicosa, na defensiva; usava camisas azul-escuras, gravatas amarelo-limão e óculos de aros de tartaruga, e esse exemplo foi em grande parte responsável pela mudança em minha indumentária, de modo que acabei me vestindo mais de acordo com os moldes preconizados por meu primo Jasper, e que ele considerava próprios para uma estada no campo. E assim, vestido com sobriedade, e empregando bem meu tempo, tornei-me um membro respeitável de minha faculdade.

Com Sebastian não se deu o mesmo. Aquele ano de anar­quia proporcionou-lhe a satisfação de um imperativo íntimo e profundo: a fuga da realidade, e, à medida que se via cada vez mais tolhido, em lugar de sentir-se livre como antes, ia caindo num estado de apatia e tristeza, que o dominava, mes­mo quando estava comigo.

Naquele trimestre, nós dois nos isolamos; estávamos de tal modo interessados um no outro, que não procuramos fazer novas amizades. Segundo meu primo Jasper, era natural a gente passar o segundo ano procurando desvencilhar-se dos amigos feitos no primeiro, e assim foi. Em sua maioria, eram relações travadas por intermédio de Sebastian; nós nos afastamos delas ao mesmo tempo, e não arranjamos outras. Não houve renúncia. A princípio, continuamos freqüentando as mesmas companhias; nós dois comparecíamos às festas, mas quase não retribuíamos convites. Não me interessava fazer cartaz junto aos calouros recém-chegados, que, como suas irmãs em Londres, faziam ali seu début na sociedade; em todas as festas havia caras novas, e eu, que há poucos meses apreciava tanto fazer relações novas, me sentia agora saturado; e até mesmo nosso círculo pequeno de íntimos, tão animado no verão, parecia agora diluir-se em surdina no meio da neblina envolvente, nesse lusco-fusco trazido pelo rio, e que parecia esbater e apagar em minha memória a lembrança daquele ano. Partindo, Anthony Blanche levou consigo alguma coisa; como se ele tivesse fechado uma porta, e levado a chave; todos os seus amigos, que sempre o consideraram o estranho, sentiam agora sua falta.

Eu sentia que o espetáculo terminara; o empresário abo­toara seu casaco de astracã, recebera seus honorários, e as moças da troupe, desconsoladas, perdiam o diretor. Sem ele, esqueciam as deixas e baralhavam as frases; a cortina não subia no momento certo; as luzes dos holofotes não eram focalizadas direito; ele fazia falta nos bastidores, e seu olhar dominador controlava o chefe da orquestra; sem a sua pre­sença, não havia fotógrafos da imprensa, nem propaganda organizada criando um clima propício, nem expectativa de prazer. O único elo que as unia era o trabalho em comum; as rendas de ouro e os veludos tinham sido guardados e devol­vidos ao encarregado do vestiário; em seu lugar, ficara apenas o uniforme sem brilho da roupa de todo dia. Durante as horas felizes dos ensaios, e nos instantes fugazes de encantamento durante os espetáculos, elas tinham vivido momentos sublimes, encarnando antepassados gloriosos, e personagens de quadros famosos que elas pareciam lembrar. Agora tudo isso acabara, tinham de voltar para suas casas com o raiar do dia; para o marido que vinha freqüentemente a Londres, para o amante jogador inveterado, e para o filho que crescia muito depressa.

O grupo de Anthony Blanche dispersou-se; em seu lugar ficaram apenas uns doze adolescentes lânguidos, tipicamente britânicos. E no futuro eles diriam: "Você se lembra daquele sujeito incrível lá de Oxford? Um tal Anthony Blanche? Que fim terá levado?" E assim voltaram àquela mesma carneirada de onde tinham saído por um estranho capricho do acaso, perdendo aos poucos sua personalidade. Para eles essa mudança não era tão visível como para nós, de modo que ainda vinham reunir-se de vez em quando em nossos quartos, mas nós dois deixamos de procurá-los. Passamos então a apreciar companhias mais duvidosas, freqüentando assiduamente, à noite, pequenas tabernas no estilo hogarthiano, em St. Ebb e St. Clement, e nas ruas entre o velho mercado e o canal; podíamos dar expansão ali à nossa alegria, e acho que nossa companhia também era bastante apreciada. Passamos a ser bem conhecidos nas tascas que ficavam perto do teatro, mas em uma delas corríamos o risco de encontrar outros subgraduados, boas-praças, que costumavam fazer a ronda das ta­bernas, e Sebastian adquiriu uma verdadeira fobia, igual à que parece atacar os homens de farda, fazendo-os voltar-se con­tra as próprias forças armadas; quantas vezes a aparição de um desses indivíduos veio estragar a noitada, e, sem acabar sua bebida, ele voltava macambúzio para a faculdade.

Foi esse o estado de coisas que Lady Marchmain encon­trou, quando apareceu em Oxford logo no começo do trimes­tre de Michaelmas, para uma visita de uma semana. Sebastian parecia ter-se acalmado, e a chusma de amigos que o cercava estava reduzida à minha pessoa. Considerando-me amigo de Sebastian, procurou tornar-se minha amiga também, e com isso, sem o saber, veio abalar profundamente nossa amizade. Essa é a única recriminação que lhe faço, apesar de ter-me cumulado de gentilezas.

Ela viera a Oxford para falar com Mr. Samgrass, de Ali Souls, que começava então a desempenhar um papel cada vez mais preponderante em nossas vidas. Lady Marchmain estava escrevendo um livro de memórias sobre seu irmão Ned, o mais velho de três heróis legendários mortos entre Mons e Paschendaele, para distribuir entre os amigos. Este deixara vasto material: poemas, cartas, discursos, artigos, e publicar tudo isso, mesmo tratando-se de uma edição limitada, exigia tato; havia também muitas decisões a tomar, e talvez faltasse uma certa imparcialidade no julgamento de uma irmã apaixonada. Reconhecendo isso, ela procurara um conselheiro, e Mr. Samgrass fora-lhe recomendado.

Tratava-se de um jovem assistente da cadeira de história, um homenzinho gorducho, caprichoso no vestir, meio careca, o cabelo bem alisado numa cabeça enorme; mãos cuidadas, pés pequenos, dando a impressão de extrema limpeza. Era jovial, e sua maneira de falar, cheia de idiossincrasias. Viemos a conhecê-lo muito bem.

Mr. Samgrass possuía o dom especial de ajudar os traba­lhos literários de outras pessoas; ele mesmo era o autor de uma série de livrinhos preciosos. Possuía grande habilidade para destrinçar documentos, e tinha um faro especial para anotar coisas pitorescas. Sebastian não mentiu quando disse que ele era "pessoa de confiança de sua mãe"; na verdade, ele se agregava a toda e qualquer pessoa interessante.

Mr. Samgrass, além de conhecer genealogia, era um legitimista; tinha um fraco pela realeza deposta, e sabia exatamente o grau de legitimidade das pretensões dos candidatos rivais a vários tronos; não era homem de tendências religiosas, mas podia ensinar religião a muito católico; possuía amigos dentro do Vaticano, e podia discorrer com minúcias sobre questões de política e nomeações, dizendo quais os padres mais ou menos cotados no momento, quais as hipóteses teo­lógicas suspeitas, e como tal jesuíta ou tal dominicano abor­dara temas perigosos em seu sermão da Quaresma; só lhe faltava a fé, e mais tarde assistiria com prazer à bênção na capela de Brideshead, observando as mulheres da família de cabeça baixa com suas mantilhas pretas; adorava ressuscitar escândalos esquecidos da alta sociedade, e era uma notabili­dade em ramos bastardos; dizia gostar do passado, mas sempre me deu a impressão de considerar um pouco disparatada a bri­lhante companhia de seres vivos ou mortos de sua convivência; só ele, Mr. Samgrass, realmente existia, os outros eram apenas figuras fantasmagóricas num cortejo fantástico. Ele era o tu­rista da era vitoriana, sólido e patrocinador, assistindo de camarote a essa estranha parada. Seus dons literários pare­ciam-me muito vivos, daí eu suspeitar da existência de um ditafone escondido entre os painéis de seu quarto.

A primeira vez que o vi, ele estava na companhia de Lady Marchmain; na ocasião, não pude deixar de pensar que ela não podia ter encontrado pessoa mais diferente de si, nem que mais realçasse seu encanto pessoal, que esse intelectual em embrião. Ela não se insinuava junto aos outros de maneira acintosa, mas, lá para o fim da semana, Sebastian disse, com certo ressentimento: — Você parece se entender muito bem com mamãe. — Percebi então que, rapidamente, sem sentir, começava a perder minha reserva; aliás, ela não compreendia uma amizade que excluísse um certo grau de intimidade. E, quando ela partiu, prometi-lhe passar as férias todas em Brideshead, exceto o Natal.

Uma ou duas semanas depois, eu estava de manhã nos aposentos de Sebastian, esperando que ele voltasse de uma entrevista com seu preceptor, quando Julia entrou acompanhada por um indivíduo espadaúdo, que ela apresentou como "Mr. Mottram", e a quem chamava "Rex". Tinham vindo de automóvel, depois de terem passado o fim de semana em casa de amigos, explicaram eles. Rex Mottram parecia encalorado e seguro de si, vestia um sobretudo xadrez. Julia, friorenta e um pouco encabulada, metida em peles, dirigiu-se logo para junto do fogo, encolhida, a tiritar.

Estávamos contando filar o almoço de Sebastian — disse ela. — Se isso falhar, há sempre o recurso de recorrer a Boy Mulcaster, mas tenho a impressão de que comeríamos melhor com Sebastian; estamos famintos. Quase morremos de fome em casa dos Chasms este fim de semana.

Os dois iam almoçar comigo. Venham também. — Sem se fazerem de rogados, eles aderiram à festa que eu ia dar, e essa foi uma das últimas que eu dei em meus aposentos, como nos tempos áureos. Rex Mottram fez tudo para mos­trar-se. Ele era um tipo bonitão, o cabelo preto nascia-lhe baixo, encurtando a testa, e tinha sobrancelhas pretas cerradas. Falava com um agradável sotaque canadense. Ficava-se sa­bendo logo os fatos de sua vida, que ele tinha interesse em tornar conhecidos: que era um felizardo, endinheirado, mem­bro do Parlamento, jogador, boa-praça; que jogava golfe assi­duamente com o príncipe de Gales, e que se dava com "Max", "F. E.", e "Gertie" Lawrence, Augustus John e Carpentier, enfim, parecia conhecer todas as pessoas que tinham alguma importância. Referiu-se assim à universidade: Não, nunca estive aqui. Aliás, só serve para começar a vida com três anos de atraso.

Pelo que ele dizia, sua vida começou com a guerra, onde conquistou uma merecida M. C. servindo com os canadenses, e acabou como ajudante-de-ordens de um general conhecido.

Não podia ter mais de trinta anos quando o conhecemos, mas para nós, estudantes, parecia muito velho. Julia tratava-o, como a todos, aliás, com sereno desprezo, mas com certo ar de "dona". Durante o almoço, mandou-o apanhar cigarros no carro, e uma ou duas vezes, achando que ele exagerava, procurou desculpá-lo, dizendo: "Lembre-se, Rex vem das colô­nias", e ele limitou-se a dar uma estrepitosa gargalhada como resposta.

Quando Rex partiu, perguntei a Sebastian quem ele era.

Ora, um amigo de Julia respondeu.

Qual não foi nossa surpresa quando, uma semana depois, recebemos um telegrama em que ele nos convidava, e a Boy Mulcaster também, para jantar em Londres na noite seguinte, "em homenagem a Julia".

Acho que ele não conhece gente moça; só tem amigos de negócios, uns velhos cínicos da City e da Câmara dos Co­muns disse Sebastian. Que tal? Vamos?

Depois de discutir o assunto, como a vida que então levávamos em Oxford era muito monótona, resolvemos ir.

Mas por que ele convidou Boy?

Julia e eu o conhecemos a vida inteira. Naturalmente, pensou tratar-se de um amigo, Boy estava no almoço que você deu.

Não morríamos de amores por Mulcaster, mas estávamos de muito bom humor quando tomamos o caminho de Londres no carro de Hardcastle, depois de ter conseguido licença para passar a noite fora.

Seríamos hóspedes de Marchmain House. Fomos até lá para trocar de roupa, e enquanto nos vestíamos bebemos uma garrafa de champanhe, entrando e saindo no quarto uns dos outros; estes eram contíguos e no terceiro andar, bastante miseráveis em comparação com os esplendores lá embaixo. Cruzamos com Julia, que subia para seu quarto ainda em traje de passeio.

Estou atrasada disse ela —, acho bom vocês irem andando. Formidável, vocês terem vindo.

Que festa é essa?

Uma maçada de um baile de caridade em que estou metida. Rex fez questão de oferecer um jantar por causa disso. Até já.

Rex Mottram morava perto de Marchmain House.

Julia está atrasada dissemos —, foi se vestir agora.

Então temos uma hora de espera. É melhor tomarmos alguma coisa.

Uma mulher que nos foi apresentada como Mrs. Cham­pion disse: Rex, com certeza ela preferiria que nós fôssemos andando.

Bem, vamos tomar qualquer coisa primeiro.

Rex, mas que delírio de grandeza! disse Mrs. Champion com petulância. Você é sempre exagerado.

Não será exagero para nós disse ele, segurando a garrafa e tirando a rolha.

Estavam ali duas moças da turma de Julia; todos pare­ciam fazer parte da organização do tal baile. Mulcaster conhecia-os de longa data, mas eles não pareciam muito encan­tados, pensei eu, com esse conhecimento. Mrs. Champion conversava com Rex. Sebastian e eu acabamos bebendo sozinhos como de costume.

Julia chegou afinal, descansada, encantadora, e sem re­morsos. Vocês não deviam deixá-lo ficar à minha espera disse ela. É sua galanteria de canadense.

Rex Mottram era um anfitrião pródigo, e, lá para o fim do jantar, a trinca de Oxford estava bastante alegre. Enquanto esperávamos no vestíbulo que as moças descessem, Rex e Mrs. Champion afastaram-se e puseram-se a discutir irritados em voz baixa. Mulcaster falou: Que tal darmos o fora nesse baile cacete e irmos à casa de Ma Mayfield?

Quem é Ma Mayfield?

Você sabe quem ela é. Todo mundo a conhece, lá do Number 100. Tenho lá uma pequena certa, uma bichinha man­sa chamada Effie. Vai haver o diabo se ela souber que eu estive em Londres e não fui procurá-la. Venham conhecer Effie na casa de Ma Mayfield.

Está bem disse Sebastian —, então vamos.

Mas primeiro vamos tomar mais um champanhezinho do nosso amigo Mottram, depois damos o fora nesse baile chato, e vamos ao velho Number 100. Que tal?

Não foi difícil sair do baile; as convidadas de Rex tinham muitos amigos, e depois de uma ou duas danças nossa mesa começou a encher-se; Rex Mottram não parava de oferecer bebidas; dali a pouco, estávamos os três na calçada.

Você sabe onde é esse lugar?

Claro! Número 100 da Sink Street.

Onde fica isso?

Logo depois da Leicester Square. É melhor levarmos o carro.

Por quê?

É sempre bom a gente estar de automóvel em uma ocasião dessas.

Não discutimos esse ponto de vista, e foi esse o nosso erro. O automóvel tinha ficado em frente de Marchmain House, a cerca de cem jardas do local da festa. Mulcaster pegou na direção e depois de algumas voltas levou-nos sem acidente à Sink Street. Uma entrada escura; de um lado, um porteiro, do outro, um homem de meia-idade, de smoking, virado para a parede, a cabeça apoiada nos tijolos, procurando assim refrescar os miolos, indicavam nosso destino.

Não entrem, vão envenená-los — disse o homem.

Sócios? — falou o porteiro.

Meu nome é Mulcaster — disse Mulcaster. — Vis­conde Mulcaster.

Bem, veja lá dentro se consegue passar — disse o porteiro.

Vão roubá-los e embriagá-los, vão apanhar alguma doença e roubá-los — disse o homem.

Do outro lado da porta escura havia um guiché iluminado.

Sócios? — perguntou uma mulher gorda de vestido de noite.

Essa é boa — disse Mulcaster. — Você já devia me conhecer.

Pois sim, meu bem — disse a mulher com indiferen­ça. — Dez xelins cada um.

Escute aqui, eu nunca paguei antes.

Está certo, meu bem. Mas hoje está lotado, por isso são dez xelins. E quem vier depois pagará uma libra. Vocês estão com sorte.

Deixe-me falar com Mrs. Mayfield.

Eu sou Mrs. Mayfield. Dez xelins.

Ora essa, não a reconheci nesse trinque todo. Não me conhece? Eu sou Boy Mulcaster.

Sim, queridinho. Dez xelins.

Pagamos, e o homem que nos barrava a entrada deixou-nos passar. Lá dentro estava quente e apinhado de gente; naquela época o velho Number 100 estava no auge. Encontra­mos uma mesa vazia e mandamos vir uma bebida; o garçom só abriu a garrafa depois de receber o dinheiro.

Onde está Effie? — perguntou Mulcaster.

Que Effie?

Effie, uma das pequenas que estão sempre aqui. Uma morena bonitinha.

Há uma porção de pequenas trabalhando aqui. Umas louras, outras morenas. Algumas são até bonitas. Não tenho tempo para aprender o nome delas.

Vou procurá-la — disse Mulcaster.

Quando ele saiu, duas pequenas pararam perto de nossa mesa e puseram-se a olhar curiosas para nós. — Vamos em­bora — disse uma para a outra —, estamos perdendo tempo. São veados.

Finalmente Mulcaster voltou triunfante trazendo Effie, e, sem que ninguém pedisse, o garçom trouxe-lhe imediata­mente um prato de bacon com ovos.

Ainda não comi nada esta noite — disse ela. — Aqui a única coisa que presta é o café da manhã; essa história de ficar rondando deixa a gente bamba.

São mais seis xelins — disse o garçom.

Depois de matar a fome, Effie limpou a boca e pôs-se a olhar para nós.

Já nos conhecemos, não é? — ela me perguntou.

Sinto muito, mas enganou-se.

Mas você eu conheço, não é? — para Mulcaster.

Ainda bem. Já se esqueceu daquela nossa farrinha em setembro?

Não, meu bem, claro que não. Você é aquele rapaz da Guarda que cortou o dedo do pé, não é?

Effie, deixe de brincadeira.

Não, isso foi noutra ocasião, não é? Já sei, você esta­va com Bunty aquele dia em que a polícia apareceu e nós ti­vemos de nos esconder no lugar onde guardam as latas de lixo.

Effie, você gosta de me provocar, não é? Ela está aborrecida porque fiquei muito tempo sem aparecer, não é?

Você pode dizer o que quiser, mas eu o conheço não sei de onde.

Deixe de brincadeira.

Não estou brincando. Palavra. Você quer dançar?

Já, não.

Graças a Deus. Meus sapatos estão me apertando demais.

Pouco depois, os dois estavam mergulhados numa vasta conversa. Sebastian virou-se para mim e disse: Vou convidar aquelas duas ali.

As duas, que já tinham andado nos rondando, voltavam para junto de nós. Sebastian sorriu, levantando-se para chamá-las; em breve as duas também comiam com apetite. Uma tinha uma cara de caveira, a outra parecia uma criança doente. A "cara de caveira" parecia ser minha sina. E se fizéssemos uma festinha disse ela lá em casa, só nós seis?

Está bem disse Sebastian.

Quando vocês entraram, nós pensamos que vocês eram veados.

É porque temos cara de criança.

A "cara de caveira" deu uma risadinha. Você é cama­rada disse ela.

Você é mesmo um amor disse a "criança doente".

Tenho de dizer a Mrs. Mayfield que vamos sair.

Quando saímos, era cedo ainda, passava um pouco da meia-noite. O porteiro tentou convencer-nos a tomar um táxi.

Eu tomo conta de seu carro, sir. É melhor não guiar, sir, palavra de honra.

Mas Sebastian tomou a direção, e as duas sentaram-se ao lado dele, uma no colo da outra, para mostrar o caminho. Effie, Mulcaster e eu fomos atrás. Acho que soltamos alguns vivas na saída.

Não fomos muito longe. Quando viramos na Shaftesbury Avenue em direção a Piccadilly, quase abalroamos um táxi.

Pelo amor de Deus disse Effie —, olhe para onde vai. Quer nos matar?

Que sujeito barbeiro disse Sebastian.

Você está dirigindo como um louco disse a "cara de caveira". Além do mais, devíamos estar do outro lado da rua.

É verdade — disse Sebastian, dando uma guinada brusca.

Pare aí. Prefiro andar.

Parar? Pois não.

Deu uma freada, o carro parou bruscamente, atraves­sado na rua. Dois policiais apressaram o passo em nossa direção.

Não quero encrenca — disse Effie, dando um pulo e fugindo desabaladamente.

Nós fomos apanhados.

Peço desculpas, seu guarda, se estou atrapalhando o tráfego — disse Sebastian com calma —, mas a moça insistiu para eu parar, ela queria saltar. Não quis saber de nada. Como o senhor viu, ela estava com pressa. Estava nervosa.

Deixe-me falar com ele — disse a "cara de caveira".

Seja camarada, simpático; ninguém viu nada a não ser o senhor. Os rapazes não fizeram nada de mal. Ponho-os num táxi e levo-os para casa direitinho.

Os policiais, olhando-nos de alto a baixo com calma, formavam sua própria opinião a respeito do caso. A coisa ainda poderia ter ficado por aí, se Mulcaster não tivesse se metido.

Olhe aqui, meu velho — disse ele —, não houve nada. Acabamos de sair da casa de Ma Mayfield. Ela deve pagar-lhes bom dinheiro para vocês ficarem calados; então, façam o mesmo conosco e não se arrependerão.

Isso fez com que os policiais se decidissem. Pouco depois estávamos no xadrez. Não me recordo muito bem da viagem até lá, nem como fomos parar na prisão. Acho que Mulcaster protestou com violência, acusando os carcereiros de ladrões, quando eles lhe reviraram os bolsos. Depois fomos trancafiados, e quando recobrei a noção das coisas lembro-me de repa­rar nos ladrilhos da parede, na lâmpada colocada muito alto sob um vidro espesso, no catre, e na porta que não tinha maçaneta do lado em que eu estava. A minha esquerda, Se­bastian e Mulcaster pareciam fazer o diabo. Sebastian andara até o distrito com passo firme, numa atitude bastante discreta; mas, quando se viu entre quatro paredes, ficou alucinado e começou a esmurrar a porta e a gritar: — Diabo os carregue! Não estou bêbado. Abram essa porta! Chamem um médico. Não estou bêbado. — Enquanto isso, Mulcaster, um pouco mais adiante, berrava: — Por Deus, hão de pagar por isso! Podem estar certos que estão cometendo um grande erro. Tele­fonem para o ministro do Interior. Chamem meus advogados. Quero um habeas-corpus.

Partiam das outras celas gritos de protestos de vários vagabundos e batedores de carteira, que tentavam dormir um pouco: "Irra, cale a boca!" "Não podem deixar a gente sossegar?" "Isso é um hospício ou que pinóia de prisão é essa?" E o sargento, fazendo a ronda, repreendia-os através das grades. — Se não ficarem quietos, passarão a noite toda aqui.

Sentei-me na cama acabrunhado e cochilei um pouco. O barulho serenou afinal e Sebastian chamou: — Charles, você está aí?

Estou aqui.

Isso foi o diabo.

Não podemos pagar fiança ou coisa que o valha?

Mulcaster parecia ter adormecido.

Aquele sujeito... Rex Mottram, é o homem in­dicado.

Não foi fácil localizá-lo; o policial de plantão levou meia hora para atender minha campainha. Com um ar bastante cético, acabou concordando e telefonou para o hotel onde se realizava o baile. Depois de outra espera prolongada, as portas da prisão se abriram.

De repente, sentimos o perfume forte e gostoso de um havana, aliás, de dois havanas, porque o sargento de plantão também fumava um, e que parecia filtrar-se através da atmosfera pestilenta do distrito policial, aquele cheiro acre de sujeira e desinfetante.

Rex, na sala do distrito, era a personificação, na verdade a caricatura do poder e da prosperidade; usava um sobretudo forrado de pele, e que tinha lapelas largas de astracã; além disso, uma cartola. Os policiais mostravam-se subservientes e prestimosos.

Fizemos nosso dever — disseram eles. — Fomos obri­gados a prender esses moços para protegê-los.

Mulcaster tomou um ar crapuloso e começou a queixar-se de maneira confusa, dizendo que lhe haviam negado, não só o direito de ter um representante legal, como os mais elementares direitos civis. Rex disse: — Acho bom você deixar a falação por minha conta.

Por essas alturas, eu já estava lúcido; fascinado, eu observava e ouvia tudo, enquanto Rex resolvia nossas encren­cas. Ele examinou os autos da acusação, conversou amavelmente com os homens que nos tinham prendido; de maneira quase imperceptível, abriu uma brecha para o suborno, ba­tendo em retirada quando viu que as coisas tinham ido longe demais e já tinham caído no conhecimento geral; comprome­teu-se a levar-nos ao tribunal às dez horas da manhã seguinte, e saiu conosco. Seu carro estava à nossa espera.

Não vale a pena falar no assunto agora. Onde vão ficar?

Marchers disse Sebastian.

É melhor vocês virem comigo. Posso acomodá-los por uma noite. Tomarei conta de tudo.

Ele não podia esconder sua satisfação diante de sua pró­pria eficiência.

Na manhã seguinte, o espetáculo ainda foi mais impressionante. Acordei com a estranha sensação de estar em um lugar desconhecido, e, naqueles primeiros instantes de lucidez, lembrei-me da noite anterior como se tivesse saído de um pesadelo, para afinal compreender a realidade. O camareiro de Rex esvaziava uma mala. Vendo que eu me mexia, foi ao lavatório e despejou qualquer coisa de um frasco. Acho que eu trouxe tudo lá de Marchmain House disse ele. Mr. Mottram mandou buscar isto aqui.

Bebi a droga e me senti melhor.

Um barbeiro estava à nossa espera.

Rex veio tomar café conosco. — É importante dar uma boa impressão no tribunal disse ele. Felizmente vocês não ficaram muito bombardeados.

O advogado chegou depois do café e Rex fez um resumo do caso.

Sebastian está enrascado — disse ele. Pode pegar até seis meses de cadeia por dirigir embriagado. O azar é que o juiz é Grigg. Ele costuma ser muito severo em casos como este. Tudo que vamos fazer hoje é pedir para Sebastian se apresentar daqui a uma semana e ganhar tempo para preparar a defesa; vocês dois confessam a culpa, apresentam desculpas, e pagam a multa. Vou procurar convencer os jornais da tarde. O St ar é capaz de se vender caro.

Lembre-se, é importantíssimo evitar qualquer referên­cia ao Number 100. Foi sorte aquelas ordinárias não estarem bêbadas e escaparem sem culpa no cartório, mas foram arroladas como testemunhas. Se tentarmos destruir as provas apre­sentadas pelos guardas, elas serão chamadas a depor. É coisa que precisamos evitar a qualquer preço, por isso teremos de engolir a pílula e apelar para a clemência do juiz, pedindo-lhe que perdoe uma falta natural da idade e não prejudique a carreira do rapaz. Vai dar certo. Precisamos de um atestado de boa conduta fornecido por algum assistente. Julia falou-me de um bastante cordato, chamado Samgrass. Serve. Enquanto isso, a história é a seguinte: vocês vieram de Oxford para participar de uma festa perfeitamente familiar, mas como não estão acostumados a beber, passaram da conta, e não acertaram com o caminho de casa.

Depois teremos de arranjar as coisas com as autorida­des de Oxford.

Eu disse a eles para chamarem meus advogados — falou Mulcaster —, e eles recusaram. Por conseguinte, o erro é deles, e não vejo razão para poupá-los.

Pelo amor de Deus, não vá procurar discussão. Con­fesse a culpa e pague a multa. Compreendeu?

Mulcaster resmungou um pouco, mas acabou concor­dando.

No tribunal as coisas se passaram exatamente como Rex havia predito. Às dez e meia, nós estávamos na Bow Street, Mulcaster e eu, em liberdade; Sebastian teria de apresentar-se uma semana depois. Mulcaster ficou quieto; recebemos uma advertência; pagamos cinco xelins de multa, e quinze de custas, cada um. Mulcaster estava começando a tornar-se bastante indesejável; foi com alívio que o vimos partir pretextando outros compromissos em Londres.

O advogado partiu apressado, Sebastian e eu ficamos sozinhos e desconsolados.

Mamãe vai acabar sabendo — disse ele.

"Diabo! Diabo! Diabo! Está fazendo frio. Para casa não volto. Não tenho para onde ir. O melhor é irmos para Oxford em segurança, e aguardarmos os acontecimentos."

A costumeira ralé dos freqüentadores de tribunais poli­ciais ia e vinha, subindo e descendo a escada, e nós continuá­vamos parados na esquina desabrigada, sem saber para onde ir.

Que tal se falássemos com Julia?

Eu poderia fazer uma viagem.

Meu caro Sebastian, você só vai ter de agüentar um sermão e pagar algumas libras de multa.

Está certo, mas é a chateação; mamãe, Bridey, a fa­mília toda, os professores. Antes a prisão. Se eu fugir para o estrangeiro eles não podem me fazer voltar, não é? Quem tem contas a dar à polícia trata de pôr-se ao fresco. Eu sei que mamãe vai representar o papel de mártir nessa história.

Vamos telefonar para Julia e pedir que ela marque um encontro para discutirmos o assunto.

O lugar do encontro foi no Gunter, na Berkeley Square. Julia, como a maioria das mulheres naquela época, usava um chapéu verde enterrado até os olhos, com uma seta de brilhan­tes a enfeitá-lo; debaixo do braço, um cachorrinho, quase in­visível entre as peles de seu casaco. Cumprimentou-nos com um entusiasmo fora do comum.

Grandes marotos; e estão aí com um ar tão fagueiro. A única vez que tomei um pileque fiquei de ressaca todo o dia seguinte. Vocês bem podiam ter me levado. O baile estava de morte, e eu sempre quis ir ao Number 100. Ninguém quer me levar lá. Que tal é?

Então você também sabe disso?

Rex telefonou de manhã e contou-me tudo. Que tal eram as pequenas que vocês arranjaram?

Não seja indecente — disse Sebastian.

A minha tinha uma cara de caveira.

A minha parecia tuberculosa.

Santo Deus! — Era evidente que subíramos em seu conceito por termos andado metidos com mulheres; para ela isso era o principal.

Mamãe já sabe?

Não da "cara de caveira" e da "tuberculosa". Ela sabe que vocês estiveram no xadrez. Fui eu que contei. Natu­ralmente, portou-se divinamente. Você sabe, tio Ned era uma perfeição, e ele foi preso certa ocasião por ter comparecido a um comício de Lloyd George levando um urso consigo, por isso ela encarou a história toda de maneira muito natural, e quer que vocês venham almoçar.

Santo Deus!

O único problema são os jornais e a família. Charles, sua família também é de morte?

Só tenho pai. Ele nunca virá a saber.

A nossa é tremenda. Coitada da mamãe, vai ter que agüentar o diabo. Vão escrever cartas, fazer visitas de solidariedade; enquanto isso, as opiniões estarão divididas, uns pen­sarão: "É nisso que dá criar o menino na religião católica", e os outros: "É o resultado de mandá-lo para Eton em lugar de mandá-lo para Stonyhurst". Coitada da mamãe, não con­segue acertar.

Almoçamos com Lady Marchmain. Parecia ter encarado tudo com resignação, vendo também o lado cômico da his­tória. Sua única reclamação foi esta: — Não sei por que vocês resolveram ficar com Mr. Mottram. Deveriam ter vindo falar comigo primeiro.

"Como vou explicar essa história à família?", perguntou ela. "Vão ficar tão escandalizados quando souberem que fiquei menos impressionada que eles! Você conhece minha cunhada Fanny Rosscommon? Em sua opinião, eu eduquei mal as crianças. Agora estou começando a acreditar que ela talvez tenha razão."

Quando nós saímos, eu disse: — Sua mãe não poderia ter sido mais compreensiva. Por que você estava tão preo­cupado?

— Não sei explicar — disse Sebastian sorumbático.

Uma semana depois, quando Sebastian foi julgado, pagou multa de dez libras. Os jornais fizeram alarde, e um deles escreveu um cabeçalho irônico: "Filho de marquês não está acostumado a beber". Segundo as declarações do magistrado, se não fosse a ação pronta dos guardas, ele teria cometido grave infração. "E agradeça ao feliz acaso, que o livrou da responsabilidade de um acidente sério..." Mr. Samgrass veio depor em favor de Sebastian, atestando sua boa conduta, e dizendo que seu brilhante futuro na universidade estava em jogo. Os jornais tomaram conta deste tópico também. "Em jogo a carreira de um estudante-modelo." Se não fosse o depoimento de Mr. Samgrass, disse o magistrado, ele estaria disposto a dar uma sentença exemplar, a lei era igual para todos, tanto para um sub-graduado de Oxford como para um jovem delinqüente das ruas; na verdade, a iniqüidade da ofensa estava na proporção das facilidades encontradas dentro do lar...

Mr. Samgrass mostrou que também tinha valor fora da Bow Street. Em Oxford, exibiu zelo e acuidade, apanágio de Rex Mottram em Londres. Entrevistou as autoridades universitárias, os encarregados de disciplina, o vice-reitor; convenceu Monsenhor Bell a procurar o deão de Christ Church; arran­jou um encontro entre Lady Marchmain e o próprio reitor; disso resultou ficarmos presos até o fim do trimestre; por motivos ignorados, proibiram Hardcastle de dirigir outra vez, e o caso caiu no esquecimento. O castigo, de conseqüências mais duradouras, foi a convivência obrigatória com Rex Mottram e Mr. Samgrass, mas como Rex vivia em Londres metido nos meios políticos e da alta finança, e Mr. Samgrass estava mais perto de nós, ali mesmo em Oxford, ele foi nosso pior castigo.

Não nos deixou mais em paz no final daquele trimestre. Como estávamos "presos", não podíamos passar as noites juntos, e depois das nove horas ficávamos sozinhos e inteira­mente à mercê de Mr. Samgrass. Era rara a noite em que ele não vinha visitar um ou outro de nós. Referia-se à "nossa farrinha", como se ele tivesse sido preso também, tendo conosco essa experiência em comum... Certa ocasião, pulei o muro da faculdade, e Mr. Samgrass me encontrou no quarto de Sebastian depois dos portões fechados, o que foi mais um elo a nos unir.

Por isso, quando cheguei a Brideshead, não me surpreen­di de encontrá-lo à minha espera, ao que parecia, sentado so­zinho, diante da lareira na sala chamada da "tapeçaria".

— Como vê, sou o único ocupante do lugar — disse ele, e realmente parecia o dono da sala, das cenas sombrias de caçada ao redor, das cariátides ladeando a lareira, e até de mim mesmo, ao levantar-se estendendo-me a mão num gesto de boas-vindas, como se fosse ele o anfitrião. — Tivemos hoje pela manhã — continuou — um rendez-vous de caça da matilha de Marchmain, um delicioso espetáculo arcaico, e todos os nossos jovens amigos foram à caça da raposa, até mes­mo Sebastian, que, não será surpresa para você, estava elegantíssimo no seu casaco vermelho. Brideshead tinha mais imponência que elegância; ele divide as honras de monteiro- mor com uma ridícula personagem local, chamada Sir Walter Strickland Venables. É pena os dois não poderem fazer parte dessas tapeçarias um tanto banais, dariam uma nota original.

"A nossa castelã não tomou parte na caçada, nem um dominicano que está em convalescença, e é grande leitor de Maritain, e bastante ignorante a respeito de Hegel; Sir Adrian Porson, naturalmente, e dois parentes magiares, de aspecto assustador; tentei falar em francês e alemão, mas em ambos os idiomas se mostraram igualmente desinteressantes. Foram todos visitar um vizinho. Passarei uma tarde agradável diante da lareira com o incomparável Charles. Sua chegada anima-me a pedir chá. Como poderei familiarizá-lo com essa gente toda?

Infelizmente, vão debandar amanhã. Lady Julia partirá para celebrar o Ano Novo alhures, e com ela vai-se o beau monde. Sentirei falta dessas moças bonitas, sobretudo de Celia, a irmã de nosso velho companheiro de desventuras, Boy Mulcaster, tão maravilhosamente diferente do irmão. Tem uma maneira de conversar saltitante como um passarinho, parece beliscar os assuntos pela rama, num jeito que me fascina, e veste-se como uma colegial, em um estilo que eu só poderia denominar de 'atrevido'. Sentirei sua falta, porque eu não parto ama­nhã. Amanhã, começarei a trabalhar com afinco no livro de nossa castelã, creia-me, é um verdadeiro tesouro de preciosi­dades de uma época; o retrato mais fiel de 1914."

O chá foi servido, Sebastian não tardou a aparecer; ti­nha-se perdido logo no começo da caçada, disse ele, e tratou de voltar para casa; os outros caçadores chegaram pouco de­pois, um automóvel trouxe-os de volta. Brideshead não estava presente, precisava resolver alguma coisa no canil. Cordélia o acompanhou. Os outros se espalharam pela sala comendo ovos mexidos e torradas; e Mr. Samgrass, que tinha almoçado em casa e cochilado a tarde toda diante da lareira, fez o mesmo. Lady Marchmain não tardou a voltar com seus amigos, e antes de subirmos para trocar de roupa para o jantar ela perguntou: "Quem vem à capela para rezar o rosário?"; Sebastian e Julia responderam que precisavam tomar banho logo; Mr. Samgrass, no entanto, seguiu com ela e o frade.

Dava tudo para ver Mr. Samgrass pelas costas disse Sebastian tomando banho. Já estou cansado de lhe ser agradecido.

Nas duas semanas seguintes, a antipatia que todos sen­tiam por Mr. Samgrass passou a ser um segredo de polichinelo; em sua presença, os olhos bonitos e cansados de Sir Adrian Porson pareciam procurar horizontes distantes, e seus lábios se fechavam na clássica expressão de pessimismo. Apenas os primos húngaros, que não entendiam a função do preceptor, tomavam-no por um criado de posição excepcionalmente privilegiada, e não se importavam com ele.

Do grupo reunido ali para o Natal, restavam apenas Mr. Samgrass, Sir Adrian Porson, os húngaros, o frade, Brideshead, Sebastian e Cordélia.

A religião parecia dominar o ambiente; não só em suas manifestações, a missa diária e o rosário, manhãs e tardes passadas na capela, mas em tudo mais. Precisamos converter Charles ao catolicismo disse Lady Marchmain, e, em muitas de nossas conversinhas durante minha visita, ela soube levar o assunto com delicadeza para o terreno religioso. Depois da primeira dessas conversas, Sebastian me perguntou: Mamãe andou tendo alguma "conversinha" com você? Ela não se emenda. Dava tudo para ela desistir disso!

Ninguém era convocado especialmente para uma dessas conversas, nem levado conscientemente a tomar parte nela; mas, como por encanto, quando ela desejava abrir-se com alguma pessoa, surgia a oportunidade de um encontro a sós; no verão, um passeio em algum caminho escondido ao pé dos lagos, ou em algum recanto do roseiral fechado; no inverno, em sua sala particular no primeiro andar.

Essa sala era só dela; Lady Marchmain instalou-se ali e fez tantas modificações, que, entrando naquela peça, tinha-se a impressão de estar em outra casa. O teto tinha sido rebai­xado, encobrindo a cornija cheia de arabescos, que, de um e de outro modo, parecia enfeitar todos os quartos. As paredes, que ostentavam painéis de brocado em tempos idos, tinham sido raspadas e pintadas de azul; via-se aqui e ali uma infini­dade de pequenas aquarelas de valor estimativo; o ar estava impregnado do perfume de flores frescas e da poeira de uma miscelânea de objetos; sua biblioteca, de obras sobre religião e poesia, livros lidos e relidos, encadernados em couro macio, enchia uma estante de pau-rosa; o consolo da chaminé estava coberto de pequeninas lembranças, uma madona de marfim, um São José de massa, miniaturas póstumas de seus três irmãos soldados. Sebastian e eu tínhamos respeitado esse lugar na ocasião em que ali passamos sozinhos aquele brilhante mês de agosto.

Ao me recordar dessa sala, vêm-me à memória trechos de algumas conversas. Lembro-me de ela dizer: "Quando eu era menina, não tínhamos muito dinheiro, mas, mesmo assim, nossa situação era mais folgada que a de muita gente, e quando me casei fiquei muito rica. Isso me preocupava, e chegava a achar errado possuir tantas coisas lindas, quando outros nada tinham de seu. Hoje, sei que os ricos podem pecar cobiçando os privilégios dos pobres. Os pobres sempre foram os preferidos de Deus e dos santos, mas acredito que santi­ficar todas as coisas, inclusive a riqueza, é um dos principais atributos da graça divina. A riqueza na Roma pagã tinha de ser forçosamente perversa; mas hoje é diferente".

Falei qualquer coisa a respeito do camelo e do buraco da agulha, e ela logo pegou a deixa com satisfação.

Mas claro disse ela —, é um fato extraordinário um camelo passar pelo buraco de uma agulha, mas o evangelho é simplesmente um amontoado de coisas estranhas. Não é normal uma vaca e um burro ficarem em adoração diante da manjedoura. Os bichos parecem desempenhar sempre um papel estranhíssimo na vida dos santos; tudo isso faz parte do lado poético, do lado feérico da religião.

Mas tanto sua fé como seu encanto pessoal me deixavam indiferente; não me diziam nada. Sebastian era a única coisa que me preocupava. Sentia a ameaça que pairava sobre ele, e não tinha idéia de que fosse tão grave. Ele desejava apenas ficar só.

Nas águas azuis de sua imaginação, ouvindo o farfalhar das palmeiras, mostrava-se inofensivo e feliz como um nativo; mas quando o navio grande, deixando cair âncora além do recife de coral, lançava a embarcação em terra, e o invasor sinistro, fosse ele mercador, administrador, missionário ou turista, subia a encosta dourada que jamais conhecera a marca de um pé humano, só então chegava a hora de desenterrar as velhas armas da tribo e rufiar os tambores nos morros; ou fazer o que era mais fácil, afastar-se da claridade e jazer na escuridão, onde os deuses pintados, impotentes, passavam inu­tilmente em procissão pelas paredes; então, ele procurava afogar suas mágoas na bebida.

E, como ele contava entre os invasores sua própria consciência e a falta de carinho, seus dias na Arcádia estavam contados. Nessa temporada, de calmaria para mim, Sebastian desgarrou. Eu já o tinha visto muitas vezes naquele estado de espírito, hipersensível e desconfiado, quando ele parecia um veado atento ao som distante das cornetas de caça; eu conhecia aquela atitude defensiva diante de sua família e sua religião; e verificava, agora, que ele adotara essa atitude comigo também. Não se tratava de uma desilusão amorosa, mas já não sentia mais prazer em amar, porque eu já não fazia parte de sua solidão. Quanto mais eu entrava na intimidade de sua família, mais me identificava com esse universo do qual ele procurava fugir, transformando-me, assim, em mais um elo da corrente que o prendia. Era isso que Lady Marchmain pretendia com suas conversinhas. Mas tudo isso era escuso, e em raríssimas ocasiões apenas eu suspeitava vagamente dessa trama.

Aparentemente, Mr. Samgrass era o único inimigo à vis­ta; na primeira quinzena, Sebastian e eu ficamos à vontade em Brideshead. Seu irmão ocupava-se das atividades esportivas e da administração das terras; Mr. Samgrass trabalhava na biblioteca, escrevendo o livro de Lady Marchmain. Sir Adrian Porson solicitava toda a atenção da nossa castelã. Quase não víamos ninguém, exceto à noite. Sob a cúpula do castelo havia espaço suficiente para algumas pessoas viverem de maneira diferente e independente umas das outras. No fim de quinze dias, Sebastian disse: Não agüento mais Mr. Samgrass. Vamos para Londres —, e veio assim morar comigo, preferindo hospedar-se em minha casa, em lugar de ficar em Marchers. Meu pai simpatizava com ele, dizendo-me: Acho seu amigo muito divertido, não deixe de convidá-lo sempre.

Quando voltamos para Oxford, ficamos presos outra vez naquela engrenagem que parecia começar a desintegrar-se. Sebastian, que andara muito tristonho no trimestre anterior, caiu numa espécie de melancolia, cujos efeitos até eu sentia. Alguma coisa o fazia sofrer profundamente, e eu não adivinhava o que fosse, por isso tinha pena dele, mas nada podia fazer para ajudá-lo.

Só a bebida parecia torná-lo alegre, e nessas ocasiões tinha a mania de caçoar de Mr. Samgrass. Ele compôs uma cantata, cujo estribilho dizia assim: "Olhe o seu trá-lá-lá, Samgrass, Samgrass, olhe o seu trá-lá-lá", para ser cantada com a música do carrilhão de St. Mary; e, pelo menos uma vez por semana, nós fazíamos uma serenata debaixo de suas janelas. Coube a Mr. Samgrass o privilégio de ser o primeiro assistente a possuir um telefone próprio em seus aposentos. Sebastian, quando estava de pileque, costumava telefonar, e homenageá-lo com essa canção simples. Mr. Samgrass agüen­tava tudo isso de boa maré, como se diz na gíria, sorrindo obsequiosamente sempre que nos via, mas cada vez mais confiante, como se todas essas provocações contribuíssem para aumentar seu domínio sobre Sebastian.

Nesse trimestre comecei a perceber que havia uma dife­rença bem grande em nossa maneira de beber. Eu me embria­gava freqüentemente, mas por excesso de animação, por entusiasmo de momento, e o desejo de prolongar e avivar esse entusiasmo; Sebastian bebia para esquecer. Com a idade, à medida que íamos ficando mais amadurecidos, eu passei a beber menos e ele mais. Descobri que às vezes, depois de voltar para a minha faculdade, ele continuava acordado, beben­do sozinho. Uma série de contratempos abateu-se sobre ele tão bruscamente e com uma violência tão inesperada, que seria difícil precisar o momento exato em que finalmente compre­endi a tragédia de meu amigo. Em todo caso, nas férias da Páscoa já não tinha a menor ilusão.

Julia costumava dizer: "Coitado de Sebastian. Isso é um desequilíbrio orgânico ".

Esse era o chavão da época, nascido, sabe-se lá como, de falsas noções adquiridas na ciência popular. "É uma reação puramente orgânica", diziam, para explicar uma paixão violen­ta ou um ódio mortal. Era o velho conceito do determinismo numa roupagem nova. Em minha opinião, nada havia de orgânico no caso de meu amigo.

A Páscoa em Brideshead foi uma temporada desagradá­vel, culminando num incidente sem importância, mas de triste memória. Sebastian tomou um vasto pileque antes do jantar em casa de sua mãe, marcando assim o início de uma nova era na história melancólica de sua decadência moral, nessa luta para fugir da família, causa de sua ruína.

Foi ao entardecer, no dia da partida dos convidados que tinham vindo passar a Páscoa. Apesar de ser chamada a temporada da Páscoa, na realidade só começava na terça-feira, porque os Flyte faziam retiro em um mosteiro, da quinta- feira de Endoenças até a Páscoa. Nesse ano, Sebastian declarou que não iria, mas acabou cedendo no último instante, e voltou para casa num estado de profundo desânimo, e meus esforços para conseguir animá-lo foram inúteis.

Ele já vinha bebendo muito há uma semana, só eu o sabia, e bebia de maneira enervada, furtiva, inteiramente fora de seus velhos hábitos. Nessa época de festa, havia sempre uma bandeja de bebidas na biblioteca, e Sebastian volta e meia entrava ali sem dizer nada a ninguém, nem mesmo a mim. Durante o dia a casa ficava quase deserta. Eu pintava outro painel no jardim de inverno sob a colunata. Sebastian queixou- se de um resfriado, não saiu, e manteve-se em um estado per­manente de semi-embriaguez, que passou despercebido, por­que ele estava sempre calado. Eu notei, uma ou outra vez, olhares curiosos, mas a maioria dos convidados mal o conhecia, não podendo perceber, portanto, qualquer modificação em sua aparência, e os membros de sua família ocupavam-se dos convidados.

Quando eu o censurei, ele disse: Não agüento essa gente toda —, mas só entregou os pontos depois da partida de todos os convidados, quando ficou na intimidade com a família.

Era costume colocarem uma bandeja com aperitivos na sala de visitas às seis horas, nós mesmos preparávamos nossos drinques, e, quando subíamos para trocar de roupa, retiravam as garrafas; antes do jantar havia outra rodada de coquetéis, servidos então pelo copeiro.

Sebastian tinha desaparecido depois do chá; não havia mais luz e eu ficara jogando mah-jong com Cordélia para encher o tempo. Às seis, eu estava sozinho na sala de visitas quando ele voltou; eu conhecia bem aquela expressão fechada, e, quando ele falou, reconheci a voz pastosa característica da embriaguez.

Ainda não trouxeram os coquetéis? — e puxou o cordão da campainha com gestos trôpegos.

Eu perguntei: Por onde andou você?

Lá em cima com a babá.

É mentira. Você andou bebendo por aí.

Fiquei lendo em meu quarto. Piorei do resfriado.

Quando trouxeram a bandeja, ele derramou gim e ver­mute num copo e saiu da sala. Eu subi atrás dele, mas, batendo-me a porta na cara, fechou-se à chave por dentro.

Voltei à sala de visitas apavorado e com os piores pressentimentos.

A família começou a aparecer. Lady Marchmain pergun­tou: Que fim levou Sebastian?

Foi se deitar. Está pior do resfriado.

Meu Deus, contanto que não seja uma gripe. Pareceu-me notar ultimamente um brilho febril em seus olhos. Talvez ele queira alguma coisa.

Não, pediu encarecidamente para não ser perturbado.

Fiquei sem saber se deveria falar com Brideshead, mas aquela máscara taciturna de pedra não inspirava a menor confiança. Acabei falando com Julia, quando subimos para trocar de roupa.

Sebastian está empilecado.

Não pode ser. Nem desceu para os coquetéis.

Passou a tarde toda bebendo no quarto.

Que idéia! É um chato! Você acha que ele poderá vir jantar?

Não.

Bem, então, arranje-se lá com ele. Não é da minha conta. Ele costuma fazer isso?

Tem feito ultimamente.

Que maçada.

Tentei abrir a porta do quarto de Sebastian; vendo que ela estava fechada, desejei ardentemente que ele estivesse dormindo, mas, quando voltei do banho, encontrei-o em meu quarto, sentado na poltrona diante da lareira; tinha-se preparado para descer, faltava apenas calçar os sapatos, a gravata estava torta e o cabelo despenteado; tinha o rosto muito esfogueado, e piscava um pouco. Falou engrolado.

Charles, o que você disse é a pura verdade. Não es­tive com a babá. Fiquei bebendo uísque aqui em cima. Agora, que todos foram embora, não há mais lá na biblioteca. Foram todos, menos mamãe. Estou me sentindo meio grogue. Talvez seja melhor eu comer aqui em cima, e não jantar com mamãe.

Vá se deitar — disse eu. — Direi que você está pior.

Muito pior.

Levei-o para o quarto, ao lado do meu, e procurei metê-lo na cama, mas, sentando-se diante da penteadeira, ele ficou olhando para o espelho, franzindo os olhos, procurando endireitar o laço da gravata. Sobre a escrivaninha, ao pé da lareira, uma garrafa de uísque pela metade. Apanhei-a, julgando que ele não me pudesse ver, mas, virando-se bruscamente, disse:

Deixe isso aí.

Não seja idiota, Sebastian. Você já bebeu bastante.

Você não tem nada a ver com isso. Você aqui é ape­nas um convidado, meu convidado. Bebo o que quiser na minha casa.

Naquele instante, ele seria capaz de brigar por causa da garrafa.

Muito bem — disse eu, deixando-a no mesmo lugar —, mas, pelo amor de Deus, não apareça.

Não me amole. Você veio como meu amigo; agora eu sei que está servindo de espião para minha mãe. Bem, pode dar o fora, e diga-lhe que no futuro eu escolherei meus amigos e ela seus espiões.

E assim eu o deixei e desci para jantar.

Fui ver Sebastian — disse eu. — O resfriado piorou bastante. Ele foi se deitar e disse que não quer nada.

Coitado de Sebastian — disse Lady Marchmain. — Talvez fosse melhor tomar um pouco de uísque quente. Vou dar uma espiadela.

Não, mamãe, vou eu disse Julia levantando-se.

Vou eu disse Cordélia, que naquela noite tinha tido licença especial para jantar embaixo em homenagem à partida dos convidados. E, antes que alguém pudesse retê-la, estava longe.

Julia olhou para mim com tristeza, e deu de ombros de leve.

Dali a pouco Cordélia voltava muito séria. Ele não parece precisar de coisa alguma disse ela.

Como está ele?

Bem, não sei, mas acho que está completamente embriagado disse ela.

Cordélia!

De repente a menina começou a rir. Filho de marquês não está acostumado a beber repetia ela. Ameaçada a carreira de um estudante-modelo.

Charles, é verdade? perguntou Lady Marchmain.

É.

Aí, vieram dizer que o jantar estava servido; entramos na sala de jantar e ninguém tocou no assunto.

Quando fiquei só com Brideshead, ele falou: Você disse que Sebastian estava embriagado?

Disse.

Logo agora. Você não poderia ter feito alguma coisa?

Não.

Não disse Brideshead —, não creio que pudesse ter feito nada. Uma vez vi meu pai embriagado aqui nesta sala. Deveria ter meus dez anos. Ninguém pode impedir uma pessoa de beber. Sabe, minha mãe não conseguiu controlar meu pai.

Falava naquele seu jeito esquisito, impessoal. "Quanto mais os conheço", pensei comigo mesmo, "mais os acho estra­nhos." Vou pedir a mamãe que leia hoje de noite.

Mais tarde vim a saber que era hábito pedir a Lady Marchmain para ler alto nos momentos de crise. Ela possuía uma voz maravilhosa e muita expressão. Naquela noite, leu trechos de Wisdom of Father Brown. Julia estava sentada com um tamborete coberto de apetrechos para fazer as unhas e passava esmalte com cuidado; Cordélia brincava com o pequinês de Julia; Brideshead jogava paciência; eu, sem fazer nada, apreciava aquele quadro encantador, e sentia pena de meu amigo lá em cima.

Mas o pesadelo daquela noite ainda não terminara.

Lady Marchmain, na intimidade, costumava às vezes ir à capela antes de se deitar. Mal fechou o livro, dizendo que ia rezar, a porta se abriu e Sebastian apareceu. Ainda estava vestido como eu o tinha deixado, o rosto lívido e esfogueado como antes.

Vim pedir desculpas — disse ele.

Sebastian, meu filho, volte para o quarto — disse Lady Marchmain. — Amanhã falaremos nisso.

Não é com você. Vim pedir desculpas a Charles. Fui grosseiro com ele e é meu convidado. É meu convidado e meu único amigo e fui grosseiro com ele.

Ficamos gelados. Levei-o de volta, os outros foram rezar. Quando chegamos lá em cima, reparei que a garrafa estava vazia.

Está na hora de você dormir — disse eu.

Sebastian começou a chorar. — Por que você fica do lado deles? Eu sabia que isso ia acontecer, se eu deixasse você se dar com eles. Por que você fica me espionando?

E disse outras coisas, que, ainda hoje, depois de vinte anos, não tenho coragem de me recordar. Afinal, consegui fazê-lo dormir e fui me deitar sentindo uma grande tristeza.

Na manhã seguinte, entrou cedinho em meu quarto, enquanto os outros ainda dormiam; puxou as cortinas e com o barulho acordei; dei com ele vestido, fumando, de costas para mim, olhando pela janela para onde as sombras da madrugada se projetavam sobre o orvalho, e os primeiros passarinhos chilreavam nos cimos das árvores em botão. Voltou-se ao ouvir minha voz; sua fisionomia não mostrava traços dos estragos da véspera, mas tinha a frescura e o descontentamento de uma criança desapontada.

Então? — disse eu. — Como se sente?

Meio esquisito. Acho que ainda estou um pouco empilecado. Estive nas cocheiras procurando arranjar um carro, mas estava tudo fechado. Estamos de partida.

Apanhou a bolsa de água quente ao lado do meu traves­seiro, bebendo dali mesmo, atirou o cigarro pela janela e acendeu outro; suas mãos tremiam como as de um velho.

Para onde vai?

Não sei. Londres, penso eu. Posso ficar em sua casa?

Naturalmente.

Então, vista-se. Podem mandar nossa bagagem de trem.

Não podemos partir assim.

Não podemos ficar.

Sentou-se no banco da janela, olhando para fora, sem ter coragem de me encarar. Dali a pouco disse: Está saindo fumaça da chaminé. Já devem ter aberto as cocheiras. Vamos embora.

Não posso ir disse eu. Preciso me despedir de sua mãe.

Cão fiel.

Bem, não gosto de andar fugindo.

E eu me dano. Continuarei fugindo para bem longe e o mais depressa possível. Pode inventar o que quiser para minha mãe; eu não voltarei.

Ontem à noite você também falou assim.

Eu sei. Sinto muito, Charles. Já lhe disse que estou bêbado, ainda. Se for algum consolo, tenho horror de mim mesmo.

Não é consolo nenhum.

Deveria ser, pelo menos um pouco. Bem, se você não vem, dê lembranças à babá.

Você vai mesmo?

Naturalmente.

Então, até Londres?

Claro, vou ficar em sua casa.

Ele partiu, mas não voltei a dormir; quase duas horas depois o copeiro entrou trazendo o chá com pão e manteiga, e preparou minha roupa para o dia que começava.

Naquela manhã fui procurar Lady Marchmain; estava mais fresco, por isso ficamos dentro da casa; sentei-me junto dela diante da lareira em seu quarto; ela bordava, e a tre­padeira em flor batia de encontro à vidraça.

Antes não o tivesse visto disse ela. Foi uma maldade. O que me incomoda não é o fato de ele beber. Todos os rapazes passam por essa fase. Já estou acostumada. Na idade dele, meus irmãos eram uns demônios. O que me fez sofrer ontem à noite foi o seu ar desconsolado.

Eu compreendo; nunca o vi naquele estado dis­se eu.

E logo ontem... quando todos já tinham ido embora, e estávamos só nós de casa; você vê, Charles, eu o considero como uma pessoa da família. Sebastian gosta de você... mas logo quando não havia motivo para ele querer mostrar-se alegre, e ele não estava alegre. Quase não dormi ontem; só consegui pensar nisso: como ele parecia sentir-se infeliz!

Eu não lhe podia explicar o que mal conseguia entender; contudo, pensei comigo mesmo: "Ela não tardará a compreender. Talvez já o saiba".

Foi uma coisa terrível — disse eu. — Mas, por favor, não pense que é sempre assim.

Mr. Samgrass contou-me que já no último trimestre ele andava bebendo demais.

Sim, mas nunca dessa maneira, nunca aconteceu isso antes.

Mas então por que haveria de acontecer agora? Aqui? Conosco? Passei a noite toda rezando e pensando de que maneira eu poderia tocar no assunto com ele, e já não o encontro mais aqui. Foi uma maldade da parte dele, partir assim, sem uma palavra. Não quero que ele se sinta envergonhado, é justamente por isso que tudo toma um aspecto tão conde­nável.

Ele tem vergonha de sentir-se infeliz — disse eu.

Mr. Samgrass diz que ele é turbulento e animado. Parece-me — disse ela com um ligeiro toque de malícia cla­reando o horizonte —, parece-me que vocês trazem Mr. Sam­grass num cortado. É uma ruindade. Gosto muito de Mr. Samgrass, e vocês também deviam mostrar-se seus amigos, depois de tudo quanto ele fez. Mas quem sabe se eu não faria o mesmo se tivesse sua idade e fosse homem também? Isso não tem importância, mas os acontecimentos de ontem à noite e de hoje de manhã são coisas muito diferentes. Você compreende, a história se repete.

Só posso dizer que já o vi embriagado muitas vezes e já tomamos muitos pileques juntos, mas o que aconteceu ontem foi novidade para mim.

Ah, não me refiro a Sebastian. Quero dizer, aconte­ceu há muitos anos. Já passei por tudo isso antes com outra pessoa a quem amava. Bem, você deve compreender, com o pai dele. Costumava embriagar-se assim. Disseram-me que está mudado agora. Peço a Deus que seja verdade, e agradeço-lhe do fundo do coração. Mas... estar sempre fugindo, o outro também; foi exatamente o que você acabou de dizer, ele tinha vergonha de sentir-se infeliz. Os dois se sentem infe­lizes, envergonhados, e procuram fugir de tudo. É de cortar o coração. Mas os homens de minha família — e seus olhos enormes desviaram-se do bordado que fazia para as três minia­turas no porta-retrato de couro na chaminé — não eram assim. Não posso entender isso de maneira alguma. E você, Charles?

Em parte, um pouquinho.

E, no entanto, Sebastian gosta mais de você que de qualquer um de nós. Você precisa ajudá-lo. Eu não posso fazê-lo.

Resumi em poucas palavras uma longa conversa. Lady Marchmain não era prolixa em sua maneira de falar, mas parecia atacar o assunto de modo todo feminino, como se flertasse com ele, por meio de circunlóquios, ataques, recuos e fintas; adejava à volta como uma borboleta, brincava de esconder, às vezes quase chegava a denunciar o jogo quando o interlocutor parecia virar-lhe as costas, e quedava-se imóvel ao perceber que a observavam. Sua mágoa era essa infelicidade, essa fuga, foi o que ela deixou bem claro, apesar de tan­tos circunlóquios. Levou uma hora para dizer o que pretendia. Quando me levantei para me despedir, ela disse, mudando de assunto: — Já viu o livro sobre meu irmão? Acabou de sair.

Eu respondi que tinha passado os olhos numa cópia encontrada no quarto de Sebastian.

Gostaria de oferecer-lhe um exemplar. Foram três homens extraordinários; Ned era o melhor dos três. Foi o último a morrer, e quando o telegrama chegou, conforme eu já esperava, pensei: "Agora chegou a vez de meu filho realizar o que Ned não poderá mais fazer". Naquela ocasião eu estava sozinha. Ele se preparava para entrar em Eton. Você compreenderá tudo isso, lendo o livro de Ned.

Já tinha um exemplar à mão na escrivaninha. Na oca­sião, pensei: "Ela já tinha preparado essa despedida antes mesmo de eu entrar aqui. Teria também ensaiado a entrevista toda? Se as coisas se tivessem passado de outra maneira, teria guardado o livro na gaveta?"

Escreveu os nossos nomes, o dela e o meu, a data e o lugar, na testada do livro.

Rezei por você também durante a noite — disse ela.

Fechei a porta quando saí, enterrando a carolice, o teto

baixo, os chintz, as encadernações de pelica, as vistas de Florença, os apanhados de jacinto, o pot-pourri, o petit-point, a intimidade daquele mundo feminino moderno, voltando a viver sob as arcadas e abóbadas, entre as colunas e as traves da sala central, naquela atmosfera imponente e máscula de uma época melhor.

Eu não era tolo; tinha idade bastante para compreender que tinham tentado subornar-me, e era bastante jovem para achar a experiência agradável.

Não me encontrei com Julia naquela manhã, mas, no momento de partir, Cordélia veio correndo até a porta do carro e disse: — Você vai estar com Sebastian? Por favor, diga-lhe que eu gosto muitíssimo dele. Não se esqueça, muitíssimo, sim?

No trem para Londres eu li o livro que Lady Marchmain me deu. A capa reproduzia o retrato de um jovem no uni­forme de granadeiro, e eu não pude deixar de reconhecer, na dureza dos traços, a máscara severa que parecia cobrir, no caso de Brideshead, os traços delicados do lado paterno; era o retrato de um homem das cavernas e das florestas, de um caçador, de uma figura patriarcal no conselho da tribo, do guardião das tradições rígidas de um povo em luta contra o meio ambiente. Havia outras ilustrações no livro, instantâneos dos três irmãos em férias, e todos possuíam os mesmos traços primitivos; ao me recordar de Lady Marchmain, etérea e delicada, não conseguia encontrar a menor semelhança entre ela e esses homens rudes.

Ela pouco aparecia no livro; a diferença de idade a se­pará-la do mais velho dos irmãos era de nove anos, casara e saíra de casa enquanto estes ainda eram meninos de colégio; havia mais duas irmãs; o nascimento da terceira filha resul­tara em peregrinações e doações para pedir um filho varão, pois era uma família ilustre que possuía grande extensão de terras; os filhos varões tinham chegado tarde, mas, na época, o fato de serem muitos parecia assegurar a perpetuidade da raça, o que infelizmente não se deu, e assim a linhagem termi­nou bruscamente com a morte dos três rapazes.

A história da família era típica da nobreza católica na Inglaterra; dos tempos da Rainha Elizabeth até os da Rainha Vitória, eles tinham vivido segregados no meio de seus vassalos e parentes, mandando os filhos estudar no estrangeiro, onde muitas vezes vinham a casar-se, ou então casavam-se entre si, no seio de um punhado de famílias em condições idênticas; eram excluídos de todas as honrarias, e aprendiam, com as gerações passadas, lições que ainda podiam ser lidas nas vidas dos três últimos descendentes dos homens dessa casa.

Com grande habilidade literária, Mr. Samgrass reuniu e organizou um número reduzido de obras, que formavam um conjunto bastante homogêneo, poesias, cartas, trechos de um diário, um ou dois ensaios não publicados; esses trabalhos revelavam o pensamento de um espírito indomável, sério, cavalheiresco, quase extraterreno. Além disso, algumas cartas escritas por contemporâneos dos três heróis após sua morte, e que, num estilo mais ou menos claro, narravam a mesma história; a vida de homens em pleno apogeu intelectual e físico, de grande sucesso pessoal, com um futuro prenhe de promessas brilhantes, mas tudo isso parecia ser encarado como se eles fossem uns predestinados, as vítimas escolhidas desti­nadas ao sacrifício. Esses homens precisavam morrer para criar um mundo novo para Hooper; eles eram os aborígines, os vermes que a lei inexorável condenou à morte no momento oportuno, de modo a facilitar a vida do caixeiro viajante, com seu pince-nez chanfrado, seu aperto de mão flácido e úmido, sua dentadura à mostra num sorriso alvar. E eu ia pensando, à medida que me afastava de Lady Marchmain, se ela também não estaria marcada, se ela e sua família também não estariam condenadas a desaparecer, por outros meios que não fosse a guerra. Teria ela consciência dessa maldição, teria ela visto o sinal no meio das chamas acolhedoras de sua lareira, e ouvido seu aviso no ruído da trepadeira batendo de encontro à vidraça?

Mas cheguei a Paddington; quando entrei em minha casa, encontrei Sebastian, e aquela sensação de tragédia eva­porou-se, porque ele se mostrava alegre e satisfeito como em nosso primeiro encontro.

Cordélia mandou dizer que gosta muitíssimo de você.

Você teve alguma "conversinha" com mamãe?

Tive.

Você se bandeou para o lado dela?

Na véspera eu teria dito: "Não existem dois lados"; mas naquele dia eu falei: Não, estou do seu lado, Sebastian contra mundum.

E nunca mais tocamos no assunto.

Sebastian parecia mergulhar na escuridão. Estávamos de volta a Oxford; mais uma vez os goivos floriam debaixo de minha janela, os castanheiros davam uma nota colorida às ruas, e as lajes de pedra soltavam faíscas com o calor. Mas não era mais a mesma coisa; o vento frio do inverno soprava no coração de Sebastian.

As semanas corriam; procuramos acomodações para o próximo trimestre e encontramos na Merton Street uma casa pequena, retirada e cara, que ficava perto das quadras de tênis.

Encontrando Mr. Samgrass, que agora víamos mais raramente, falei-lhe sobre nossa escolha. Ele estava numa livraria parado perto de uma mesa onde se viam as últimas edições alemãs, e já tinha separado um montinho de livros para comprar.

Vai morar com Sebastian? disse ele. Então, ele vem no próximo trimestre?

Acho que sim. Por que não haveria de vir?

Não sei; julguei que talvez não viesse. Sempre faço confusões. Gosto da Merton Street.

Mostrou-me os livros que tinha separado, mas eu não sabia alemão, e por isso não me interessei. Quando eu me des­pedi, ele falou: Não estou querendo me meter, mas, se fosse você, não tomaria providências definitivas a respeito da Merton Street, sem primeiro ter certeza.

Contei essa conversa a Sebastian, e ele disse: É ver­dade, andam tramando qualquer coisa por aí. Mamãe quer que eu vá morar com Monsenhor Bell.

Por que você não me falou nisso antes?

Porque não vou morar com Monsenhor Bell.

Mas, mesmo assim, você poderia ter mencionado o fato. Quando começou essa história?

Ora, isso vem rolando. Mamãe é muito esperta, viu que não arranjava nada com você. Com certeza foi aquela carta que você escreveu depois de ter lido o livro de tio Ned.

Mas eu não disse nada.

Por isso mesmo. Se você pretendesse ajudá-la, teria dito uma porção de coisas. Fique sabendo, tio Ned serve de teste.

Mas ela não parecia ter desistido de todo, alguns dias depois recebi um bilhetinho nos seguintes termos: "Estando de passagem por Oxford na terça-feira, gostaria de vê-los. Mas quero falar com você a sós primeiro. Seria pedir muito? Estarei em seus aposentos mais ou menos por volta do meio-dia".

Ela veio, admirou meus aposentos... — Sabe, meus ir­mãos Simon e Ned estiveram aqui. Os quartos de Ned davam para o jardim. Eu queria que Sebastian também fosse aluno desta faculdade, mas meu marido foi de Christ Church, e, como você sabe, tomou a si a educação de Sebastian. — Pôs-se a apreciar meus desenhos... — Todo mundo gostou de suas pinturas no jardim de inverno. Nós fazemos questão que você as termine. — Finalmente desembuchou: — Você já deve ter adivinhado por que estou aqui. É só isso, Sebastian continua bebendo muito?

Eu tinha adivinhado, e respondi: — Se fosse verdade, eu não responderia. Mas, no momento, posso dizer: não.

Ela disse: — Eu acredito em você. Graças a Deus! — e fomos juntos para Christ Church, onde almoçamos.

Naquela noite Sebastian cometeu sua terceira infração, e foi encontrado pelo subdiretor perambulando pela praça completamente embriagado, à uma da madrugada.

Eu o tinha deixado pouco antes da meia-noite; apesar de seu aspecto taciturno, estava em seu perfeito juízo. No espaço de uma hora ele bebeu meia garrafa de uísque. Na manhã seguinte, quando veio falar comigo, não se lembrava de muita coisa.

— Você anda bebendo assim sozinho, quando eu vou embora? — perguntei.

Aconteceu umas duas vezes; quatro, talvez. E só quan­do eles começam a me amolar. Se ao menos me deixassem em paz.

Mas, agora, acabou-se — disse eu.

Eu sei.

Nós dois não tínhamos ilusões a respeito desta nova crise. Naquela manhã não sentia o menor carinho por Sebas­tian; ele precisava de meu apoio, mas não estava em mim consolá-lo.

Francamente — disse eu —, se você vai dar para beber sempre que estiver com algum membro de sua família, é o fim.

Eu sei — disse Sebastian com grande tristeza. — Eu sei que é o fim.

Meu amor-próprio estava ferido, porque ele me fez passar por mentiroso, por isso não me sentia inclinado a lhe dar provas de amizade.

Bem, então que pretende você fazer?

Nada. Eles se encarregarão do resto.

Deixei-o partir, sem uma palavra amiga.

Aí, a velha engrenagem pôs-se em movimento outra vez, repetiu-se a mesma história de dezembro; Mr. Samgrass e Monsenhor Bell foram procurar o deão de Christ Church; Brideshead veio passar uma noite; as rodas pesadas rodaram, e as rodas menores acompanharam o ritmo. Todos ficaram com muita pena de Lady Marchmain, cujos irmãos tinham deixado o nome gravado em letras de ouro no monumento aos mortos de guerra, e cuja memória ainda era lembrada.

Lady Marchmain voltou a me procurar, e mais uma vez resumirei nossa conversa que durou a viagem de um extremo a outro da cidade, de Holywell até Parks, atravessando a Mesopotâmia, e na barca até North Oxford, onde ela ia pernoitar na companhia de um bando de freiras que pareciam estar sob sua proteção.

Juro-lhe; quando eu disse que Sebastian não estava bebendo, julguei estar falando a verdade.

Eu sei que você é muito amigo dele.

Não se trata disso. Eu estava convencido de falar a verdade. E ainda acho que em parte eu tinha razão. Não creio que ele se embriagasse mais de duas ou três vezes antes deste último incidente.

Não adianta, Charles — disse ela. — Isso significa apenas que você não tem tanta influência sobre ele, nem o conhece tão bem quanto eu pensava. É inútil nós dois pro­curarmos confiar nele. Já conheci outros viciados. O fingimen­to é uma de suas mais graves características. A primeira coisa que perdem é o amor à verdade.

"Depois daquele almoço tão agradável, quando você foi embora ele se mostrou tão meigo, tal qual era em criança, e eu cedi em tudo que ele queria. Como você sabe, eu não estava gostando muito da idéia de vocês morarem juntos. Sei que não me levará a mal. Sabe muito bem a grande amizade que lhe dedicamos, independentemente do fato de ser amigo de Sebastian. Sentiríamos muito sua falta, se deixasse de nos visitar. Mas quero que Sebastian tenha outros amigos, e não se prenda a um único. Soube por Monsenhor Bell que ele nunca procura os outros rapazes católicos e raramente vai à missa. Deus me livre de ele só se dar com católicos, mas pre­cisa conhecer alguns, pelo menos. Só uma pessoa de fé muito forte pode viver inteiramente isolada, e Sebastian não é uma fortaleza.

"Mas eu me sentia tão feliz no almoço terça-feira, que entreguei os pontos; fui ver com ele os quartos escolhidos por vocês. São lindos. Concordamos em mandar vir de Londres alguns móveis para melhorá-los. E logo naquela noite, depois de ter passado o dia comigo! Não, Charles, não há lógica nenhuma nisso."

Eu ouvia o que ela dizia, pensando comigo mesmo: "Ela aprendeu essa frase com algum membro do seu entourage de intelectuais".

Muito bem disse eu. Tem alguma sugestão a fazer?

A faculdade tem sido muito camarada. Não o expulsa­rão se for morar com Monsenhor Bell. Naturalmente não me caberia fazer uma sugestão dessas, foi o próprio monsenhor quem o sugeriu. Ele fez questão de frisar que você será sempre bem recebido. Na verdade, não há lugar para você no velho palácio, e acho que não lhe agradaria morar lá.

Lady Marchmain, se a senhora quer ver seu filho li­quidado pela bebida, esse é o melhor caminho. A senhora não compreende que para Sebastian será desastroso sentir-se vigiado?

Ah, meu Deus, nem vale a pena tentar explicar. Para os protestantes, os padres católicos não passam de espiões.

Não é isso que eu quero dizer. Tentei dar uma explicação, mas meti os pés pelas mãos. Ele precisa sentir-se livre.

Mas até agora ele sempre teve toda a liberdade, e veja no que deu.

Tínhamos chegado às barcas; estávamos num ponto mor­to. Sem dizer mais uma palavra quase, levei-a até o convento, depois tomei o ônibus de volta para Carfax.

Sebastian estava em meu quarto à minha espera. Vou telegrafar para papai, ele não vai deixar essa gente me obrigar a morar com um padre.

E se você só puder voltar sob essa condição?

Então não voltarei. Você já pensou, eu aqui ajudando missa duas vezes por semana, servindo chá a calouros católi­cos encabulados, jantando com o conferencista convidado, no Newman, bebendo vinho-do-porto com as visitas, sob o olhar vigilante de Monsenhor Bell, com medo de me ver passar da conta, e, assim que eu virar as costas, saber que estarão falando de mim, dizendo que eu sou o problema da faculdade, dado à bebida e aceito apenas em consideração à minha encanta­dora mãe?

Eu disse a ela que não daria certo respondi.

Vamos tomar um grande pifa hoje à noite?

Numa ocasião como essa, mal não faria disse eu.

Contra mundum?

Contra mundum.

Deus o abençoe, Charles. Não teremos muitas oportunidades iguais a essa.

Naquela noite, pela primeira vez depois de muito tempo, tomamos grande bebedeira; deixei-o no portão quando os sinos todos começavam a badalar meia-noite, e voltei cambaleando para o meu quarto, sob um céu estrelado que parecia girar loucamente entre as torres; adormeci vestido, coisa que não me acontecia há um ano.

No dia seguinte, Lady Marchmain partia de Oxford le­vando Sebastian em sua companhia. Brideshead e eu fomos encarregados de guardar seus pertences.

Brideshead, sério e impassível como de costume. É pena Sebastian não procurar conhecer melhor Monsenhor Bell disse ele. É uma pessoa encantadora. Morei com ele no meu último ano. Mamãe parece considerar Sebastian um ébrio inveterado. Será verdade?

Ele corre esse risco.

Eu acho que Deus prefere os bêbados a muita gente boa.

Pelo amor de Deus disse eu, naquela manhã tudo me dava vontade de chorar. Mas por que invocá-lo a todo instante?

Sinto muito. Esqueci. Mas você sabe que é uma per­gunta muito engraçada?

É mesmo?

Para mim. Para você, não.

Não, para mim não é. Sebastian poderia tornar-se um homem feliz e saudável se não fosse o problema da religião.

Pode ser disse Brideshead. Você acha que ele poderá vir a precisar desse pé de elefante?

Naquela noite atravessei a praça e fui visitar Collins. Ele estava sozinho, estudando perto da janela aberta, à luz do crepúsculo. Alô disse ele. Entre. Ainda não o vi este trimestre. Não tenho nada para lhe oferecer. Por que você abandonou a turma dos grã-finos?

Sou o indivíduo mais solitário de Oxford — disse eu.

Sebastian Flyte foi expulso.

Acabei perguntando quais eram os seus planos para as férias. Ele me contou. O programa era eacetíssimo. Então perguntei se já tinha encontrado acomodações para o próximo trimestre. Sim, respondeu ele, um pouco longe, mas muito confortável. Ia morar com Tyngate, secretário da Essay Society da faculdade.

Ainda temos um quarto vago. Era de Barker, mas, agora que ele se candidatou à presidência da União, achou melhor morar mais perto.

No fundo, pensávamos ambos que eu bem poderia substituído.

E você onde vai morar?

Eu ia morar na Merton Street com Sebastian Flyte. Agora acabou-se.

Mas nenhum de nós tocou no assunto, e a oportunidade passou. Quando me despedi, ele falou: — Espero que você encontre um companheiro de quarto para Merton Street — e eu retruquei: — Espero que você também encontre alguém para Iffley Road —, e nunca mais falei com ele.

Faltavam dez dias para terminar o trimestre; agüentei da melhor maneira possível e voltei para Londres como no ano anterior, quando as circunstâncias tinham sido bem diferentes, sem planos nem projetos.

Aquele seu amigo tão bonito — perguntou meu pai - não veio com você?

Não.

Cheguei a pensar que ele tivesse resolvido morar aqui. É pena. Gostava dele.

Papai, você faz questão que eu me forme?

Se eu faço? Santo Deus, por que haveria de querer tal coisa? Não preciso disso. Pelo que tenho visto, nem você também.

Foi isso mesmo que eu pensei. Achei que talvez fosse perder tempo voltar para Oxford.

Meu pai não estava prestando muita atenção ao que eu dizia, mas nessa altura largou o livro, tirou os óculos, e olhou-me fixamente. — Você foi expulso — disse ele. — Bem meu irmão me avisou.

Não, não fui.

Então, que conversa é essa? — perguntou de mau humor, tornando a recolocar os óculos e procurando o lugar onde fechara o livro. — Todo mundo fica pelo menos três anos na universidade. Conheci um estudante que levou sete para conseguir passar raspando em teologia.

Se eu não vou exercer uma profissão que depende de um diploma, é melhor começar agora a me dedicar à carreira que eu pretendo seguir. Quero ser pintor.

Na ocasião, meu pai não me deu resposta.

Em todo caso, a idéia parece que criou raízes em seu espírito; quando voltamos a tocar no assunto, ele já tinha opinião formada a respeito.

Um pintor precisa ter um estúdio — disse ele de re­pente, no almoço de domingo.

Claro.

Ora, aqui não há lugar. Nem mesmo um quarto que você pudesse usar para isso. Você não vai pintar na galeria.

Não. Nunca tive intenção de fazê-lo.

Nem estou disposto a ver modelos nus andando pela casa, e críticos falando numa gíria insuportável. Detesto o cheiro de terebintina. Naturalmente você vai fazer a coisa às direitas, não é? e pintar a óleo? No tempo de meu pai, os pintores dividiam-se em duas categorias, pintores sérios e ama­dores, dependendo do material que empregavam, isto é, óleo ou aquarela.

Naturalmente, no primeiro ano não irei pintar muito. De qualquer maneira, estarei estudando em uma escola.

No estrangeiro? — perguntou meu pai animado. — Se não me engano, há ótimas escolas no estrangeiro.

Os fatos precipitavam-se com mais rapidez do que eu esperava.

Aqui, ou no estrangeiro, antes de mais nada, preciso informar-me.

Procure no estrangeiro — disse ele.

Então, o senhor concorda que eu abandone os es­tudos?

Se estou de acordo? Meu rapaz, você está com vinte e dois anos.

Vinte — disse eu —, vinte e um em outubro.

Só isso? Parece há tanto tempo.

Uma carta de Lady Marchmain encerra essa fase.

"Meu querido Charles", escreveu ela, "Sebastian partiu hoje pela manhã para se encontrar com o pai. Antes de ele par­tir, perguntei se lhe tinha escrito, respondeu-me que não, por isso faço-o agora, sabendo que é difícil transmitir em uma carta o que não consegui dizer em nosso último passeio. Mas você precisa ser informado.

A faculdade suspendeu Sebastian apenas por um trimestre: ele será recebido de volta depois do Natal, sob condição de ir morar com Monsenhor Bell. Caberá a ele decidir. Enquanto isso, Mr. Samgrass muito gentilmente prontificou-se a tomá-lo sob sua guarda, e irá buscá-lo logo que terminar a temporada que ele vai passar com o pai. Os dois vão fazer uma viagem ao Oriente, onde Mr. Samgrass pretende realizar estudos sobre mosteiros ortodoxos, plano que acalenta há muito, e que, em sua opinião, poderá constituir uma nova fonte de interesse para Sebastian.

A estadia de Sebastian aqui não foi agradável.

Quando eles voltarem no Natal, meu filho com certeza vai querer estar com você, e nós também. Faço votos para que seus planos para o próximo trimestre não tenham sido muito prejudicados, e que tudo lhe corra bem.

Afetuosamente,

Teresa Marchmain.

Estive na saleta hoje pela manhã; senti tanta pena!"

 

Quando chegamos ao alto do desfiladeiro disse Mr. Samgrass —, ouvimos um tropel de cavalos atrás de nós, e dois soldados, postando-se à frente da caravana, fizeram-nos retroceder. Tinham sido enviados pelo general, e alcançaram- nos justo a tempo. A menos de uma milha de distância, um bando estava à espreita.

Calou-se; o auditório pouco numeroso quedou-se em si­lêncio, apesar de compreender que ele tinha a intenção de causar impressão, mas as pessoas presentes não sabiam como haveriam de manifestar seu interesse pela cerimônia.

Um bando?! disse Julia. Santo Deus!

Ele parecia esperar mais entusiasmo da platéia. Lady Marchmain disse, afinal: Naturalmente, as músicas nativas devem ser muito monótonas naquelas paragens.

Minha cara Lady Marchmain, era um bando de saltea­dores! Cordélia, sentada a meu lado no sofá, teve um frou­xo de riso abafado. As montanhas estão infestadas por essa gente. Soldados errantes do exército de Kemal; gregos cuja retirada foi cortada. Nem queiram saber, são homens dispos­tos a tudo.

Dê-me um beliscão disse Cordélia baixinho.

Fiz o que ela me pedia, e as molas do sofá pararam de sacudir.

Obrigada disse ela, enxugando os olhos com as costas da mão.

Então, você não conseguiu chegar ao tal lugar? perguntou Julia. Você ficou muito desapontado, Sebastian?

Eu? respondeu Sebastian, a voz parecia sair das trevas, de um outro mundo, que ficava muito além daquele abat-jour, do calor das achas crepitando na lareira, do círculo familiar, e dos retratos espalhados sobre a mesa de jogo.

"Eu? Ah, não estava presente nessa ocasião, não é, Sammy? "

Foi no dia em que você ficou doente.

Eu estava doente — repetiu como um eco —, não poderia ter chegado a tal lugar, não é, Sammy?

Isto aqui, Lady Marchmain, é a caravana no pátio da estalagem em Aleppo. E aqui está nosso cozinheiro armênio, Begebdian; eu, a cavalo; a tenda dobrada; esse era um curdo cacete que vivia nos seguindo por toda parte... Aqui estou eu no Ponto, em Éfeso, Trebizonda, Krak-deschevaliers, Samotrácia, Batum; naturalmente, ainda não tive tempo de colocá-los em ordem cronológica.

Só se vêem guias, ruínas e burros — disse Cordélia.

Onde está Sebastian?

Ele — disse Mr. Samgrass triunfante, como se aguar­dasse a pergunta e tivesse preparado a resposta — segurava a máquina. Tornou-se ótimo fotógrafo depois que aprendeu a não pôr a mão na frente do diafragma, não foi, Sebastian?

Das trevas não veio o menor sinal de vida. Mr. Samgrass meteu a mão novamente na pasta de couro de porco.

E aqui — disse ele — um grupo tirado por um fotó­grafo ambulante no terraço do Hotel São Jorge em Beirute. Vejam, aqui está Sebastian.

Mas — disse eu — não é Anthony Blanche?

É, estivemos juntos muitas vezes; encontramo-nos por acaso em Constantinopla. Ótimo companheiro. É engraçado, não me lembro nada dele. Ele nos acompanhou até Beirute.

Já tinham servido,o chá e fechado as cortinas. Estáva­mos no segundo dia depois do Natal, e era a primeira noite que eu passava ali. Sebastian e Mr. Samgrass também haviam chegado naquele dia. Para minha surpresa, encontrei Mr. Samgrass na estação à minha chegada.

Três semanas antes, eu recebi uma carta de Lady March­main, em que ela me dizia: "Acabo de receber notícias de Mr. Samgrass, informando-me que Sebastian e ele virão passar as férias de Natal em casa, como era nosso desejo. Há muito não tinha notícias de ambos, chegando a recear que estivessem perdidos, por isso não queria fazer planos, até saber algu­ma coisa. Sebastian deve estar com saudades suas. Venha pas­sar o Natal conosco, se for possível, ou então venha assim que puder".

Não podia quebrar o compromisso de passar o Natal com meu tio, por isso atravessei o país, e tomei o trem local no meio do caminho, contando encontrar Sebastian já insta­lado em casa; para minha surpresa, encontrei-o no vagão ao lado do meu, e, quando lhe perguntei o que fazia ali, Mr. Samgrass desmanchou-se em explicações tão profusas, falando da bagagem extraviada, da agência Cook fechada durante os feriados, que eu vi logo que havia alguma coisa por trás das explicações.

Mr. Samgrass estava contrafeito; apesar de conservar seu costumeiro aplomb, tinha-se a impressão de que a sensação de culpa pairava sobre ele como o cheiro de fumo impregna o fumante. A atitude de Lady Marchmain dando-lhe as boas- vindas traía uma certa expectativa. Durante o chá, ele fa­lou animado sobre a viagem, depois Lady Marchmain levou-o para cima, para uma de suas "conversinhas". Quando ele a seguiu, eu o observei com certa pena. Um jogador veria logo que ele não só blefava, como trapaceava também, foi o que eu deduzi, estudando-o durante o chá. Havia alguma coisa sobre as ocorrências daquele Natal que ele procurava ocultar, e não sabia que explicações poderia dar a Lady Marchmain. Eu desconfiava que não era só isso, havia muito que explicar, e ele não tinha intenção de fazê-lo, sobre a viagem do Oriente.

Vamos ver a babá — disse Sebastian.

Posso ir também? — disse Cordélia.

Venha logo.

Subimos para os quartos das crianças, na cúpula. Cor­délia perguntou no caminho:

Você não está contente de voltar para casa?

Claro que estou — respondeu Sebastian.

Bem, você podia ao menos mostrar-se mais satisfeito. Estava louca para ver você de volta.

A babá não gostava que puxassem conversa com ela, pre­feria que as visitas não lhe dessem atenção, deixando-a trico­tar em paz; assim, podia ficar observando e recordando o tempo em que eles eram crianças; suas ações atuais não tinham muita importância em comparação com as antigas mazelas e travessuras.

Bem — disse ela —, você está com um ar malacafento. Deve ser essa comida estrangeira que não lhe fez bem. Agora, que está de volta, precisa engordar. Pelo jeito, também andou farreando, é o que eu vejo nos seus olhos, natural­mente andou dançando. — Na opinião da babá Hawkins, a alta sociedade passava uma boa parte da sua existência nos salões de baile. Essa camisa está pedindo conserto. Acho bom você me dar essa camisa antes de ela ir para a lavadeira.

O aspecto de Sebastian era realmente de uma pessoa doente. Em cinco meses ele parecia ter envelhecido alguns anos. Estava mais pálido, mais magro, com os olhos empapuçados; a boca tinha uma expressão de desânimo, via-se no queixo a cicatriz de uma ferida; sua voz parecia ter menos ressonância, mostrava-se ora apático, ora nervoso; além disso, sua aparência era a de um indigente, a boêmia que se notava antigamente em sua maneira de vestir e em seus cabelos despenteados agora chegava a ser desmazelo; e o pior de tudo era seu olhar desconfiado. Essa desconfiança que eu já notara na Páscoa agora parecia ser sua expressão habitual.

Por causa dessa atitude desconfiada, não fiz perguntas, e passei a contar-lhe minhas aventuras daquele outono e inverno. Falei de meus quartos na lie de St.-Louis, da escola de arte; dos velhos professores, tão bons, e dos alunos, tão ruins.

Nunca chegam perto do Louvre disse eu —, e, se o fazem, é apenas porque uma de suas absurdas revistas "descobriu" de repente um velho mestre, cujos trabalhos parecem se encaixar dentro da teoria estética mais recente. Dividem-se em dois grupos: os que procuram o sensacionalismo como Picabia, e os que pretendem ganhar dinheiro fazendo anún­cios para Vogue ou decorando boates. E os professores que­rem que eles pintem à moda de Delacroix.

Charles disse Cordélia —, a pintura moderna é puro cabotinismo, não é?

Um grande cabotinismo.

Ah, ainda bem. Tive uma discussão com uma das frei­ras e ela disse que nós não devíamos criticar aquilo que não entendemos. Agora eu vou dizer que ouvi isso de um artista de verdade, e ela que se dane.

Estava na hora de Cordélia fazer a sua ceia, e nós tínha­mos de descer para os coquetéis, que eram servidos na sala de visitas. Brideshead estava só; Wilcox apareceu assim que nós entramos, e falou: Sua Senhoria mandou chamá-lo lá em cima, milorde.

Nem parece coisa de mamãe, mandar chamar alguém. Em geral, ela costuma atrair as pessoas.

Não havia sinal da bandeja com as bebidas. Depois de alguns instantes, Sebastian tocou a campainha. Apareceu um empregado. Mr. Wilcox está lá em cima com Sua Senhoria.

Está bem, não faz mal, traga os aperitivos.

Mr. Wilcox está com as chaves, milorde.

Muito bem... quando ele descer, diga-lhe para tra­zer as bebidas.

Conversamos um pouco sobre Anthony Blanche. — Em Istambul andava barbado, mas eu o convenci a raspar a barba. — No fim de dez minutos, Sebastian disse: — Bem, não faço questão de aperitivo; vou tomar banho — e saiu da sala.

Já eram sete e meia; julguei que os outros estivessem se preparando para o jantar, mas, quando ia fazer o mesmo, dei com Brideshead descendo.

Um momentinho, Charles, preciso dar-lhe uma expli­cação. Por ordem de mamãe, as bebidas não ficarão mais nas salas. Você deve compreender por quê. Se quiser tomar algu­ma coisa, chame Wilcox, de preferência quando estiver sozi­nho. Sinto muito, mas tem de ser assim.

Você acha que é preciso fazer isso?

Pelo jeito, parece que sim. Não sei se você já soube, mas Sebastian teve outra recaída, mal chegou à Inglaterra. Sumiu no Natal. Mr. Samgrass só conseguiu encontrá-lo on­tem à noite.

Era o que eu estava imaginando. Você tem certeza de que essa é a maneira mais acertada de lidar com ele?

Na opinião de mamãe, é. Você quer um coquetel, ago­ra que ele está lá em cima?

Não me passaria pela garganta.

Davam-me sempre o mesmo quarto que eu ocupara em minha primeira visita; ficava ao lado do de Sebastian, e nós tínhamos um banheiro comum, que era um antigo quarto de vestir reformado uns vinte anos antes; a cama fora substituída por uma colossal banheira de cobre, encaixada numa armação de mogno. Para enchê-la era preciso puxar uma alavanca de cobre, pesada como uma máquina de engenharia náutica; o resto continuava na mesma; no inverno, um fogareiro a carvão fica­va sempre aceso. Muitas vezes penso nesse banheiro, as aqua­relas embaçadas pelo vapor, a toalha enorme esquentando nas costas de uma poltrona forrada de chintz; que contraste com esses cubículos todos iguais, higiênicos, brilhando de cro­mados e espelhos, e que passam por ser a última palavra no mundo atual.

Fiquei de molho na banheira, enxuguei-me com toda a calma diante do fogo; enquanto isso, pensava no trágico retorno do meu amigo. Vesti meu roupão, e entrei no quarto de Sebastian sem bater na porta, eomo era meu costume. Ele estava sentado ao pé da lareira, não acabara ainda de vestir- se; virou-se zangado, pondo de lado um copo usado para escovar os dentes.

Ah, é você. Você me assustou.

Sempre arranjou seu drinque disse eu.

Não estou entendendo.

Pelo amor de Deus disse eu —, deixe de fingi­mento comigo! Você podia oferecer-me qualquer coisa.

Era um restinho que eu tinha na garrafa. Acabou.

Que está acontecendo?

Nada. Tudo. Depois eu conto.

Fui me vestir e voltei para ver Sebastian; ele continuava sentado como eu o deixara, sem acabar de aprontar-se.

Julia estava só na sala de visitas.

Então perguntei —, que está acontecendo?

Ora, mais uma encrenca de família. Sebastian tornou a se embriagar, por isso temos todos de vigiá-lo. É uma ma­çada.

E para ele também.

Bem, a culpa é dele. Por que não faz como o comum dos mortais? Falando em vigiar o próximo, que me diz de Mr. Samgrass? Charles, você não notou algo de esquisito nesse homem?

De muito esquisito. E sua mãe, terá reparado tam­bém?

Mamãe só vê o que lhe convém. Não pode mandar vigiar todo mundo. Eu também tenho dado preocupações.

Não sabia disse eu, e acrescentei com humildade: Acabo de chegar de Paris —, procurando assim dar a impressão de que seus problemas não eram do conhecimento geral.

Foi um serão extraordinariamente melancólico. Janta­mos no "parlatório pintado", Sebastian chegou atrasado, es­távamos todos apreensivos, com medo que ele fizesse uma entrada sensacional, própria de uma comédia burlesca, tro­cando as pernas e com soluços. Mas quando ele apareceu afi­nal, inútil será dizer, portou-se com toda a dignidade; desculpou-se, sentou-se no lugar vazio, sem interromper o monólogo de Mr. Samgrass, que ninguém parecia ouvir. Dru­sos, patriarcas, ícones, pulgas e carrapatos, ruínas romanescas, acepipes estranhos de olhos de cabrito e de carneiro, oficiais turcos e franceses; um verdadeiro catálogo de viagens no Oriente Próximo desfiado em nosso benefício.

Fiquei observando, enquanto serviam o champanhe ao redor da mesa.

Quando chegou a vez de Sebastian, ele falou: — Prefiro uísque — e eu vi Wilcox olhar para Lady Marchmain, que fez um sinal quase imperceptível com a cabeça. Era costume, em Brideshead, servir uísque a quem o pedisse em garrafinhas de aproximadamente um quarto de litro; estas vinham cheias e eram colocadas diante da pessoa, mas a garrafa que Wilcox trouxe para Sebastian estava pela metade. Sebastian segurou a garrafa, e acintosamente a levantou, inclinou-a, mirou-a, e sem dizer uma palavra derramou o conteúdo no copo, que deu para cobrir dois dedos no fundo. Todos começaram a falar ao mesmo tempo, menos Sebastian, de modo que Mr. Samgrass ficou pregando no deserto, contando para os candelabros a história dos maronitas; mas, pouco depois, todos se calavam, e Mr. Samgrass continuou tomando conta da conversa, até Lady Marchmain e Julia saírem da sala.

Bridey, não se demore — disse ela ao sair, como era seu costume, mas naquela noite ninguém tinha vontade de ficar remanchando. Mal encheram os cálices com o vinho-do- porto, levaram a garrafa logo de volta. Bebemos depressa e dirigimo-nos para a sala de visitas, onde Brideshead pediu à mãe para ler. Ela leu The diary of nobody com muito espírito até as dez horas; então, fechando o livro, queixou-se de um cansaço muito grande, e disse que não iria à capela na­quela noite.

Quem vai caçar amanhã? — perguntou ela.

Cordélia — disse Brideshead. — Vou levar aquele potro da Julia para amestrá-lo junto aos cães; pretendo traba­lhar com ele duas horas no máximo.

Rex pode chegar a qualquer momento — disse Julia. — É melhor eu ficar esperando.

Onde vai ser a caçada? — disse Sebastian de repente.

Aqui em Flyte St. Mary.

Então gostaria de ir, se sobrar alguma montaria para mim.

Claro. Ótima idéia. Como você nunca está disposto a sair de casa, não perguntei. Pode montar Tinkerbell. Tem se portado muito bem nesta temporada.

A idéia de Sebastian querer caçar foi recebida com alívio geral; a atmosfera se desanuviou. Brideshead tocou a campainha para pedir uísque.

Quem quer?

Eu quero — disse Sebastian, e embora não fosse Wilcox, mas outro empregado, percebi a mesma troca de olhares e acenos de cabeça entre Lady Marchmain e o empregado. Todos tinham sido avisados. Os dois drinques vieram preparados, como se fosse um pedido feito num bar, e nós seguimos a bandeja com os olhos, como cães farejando caça, numa nova brincadeira de salão.

Contudo, a euforia provocada pelo desejo manifestado por Sebastian de caçar não se desvaneceu; Brideshead man­dou um bilhete para as cocheiras, e fomos todos nos deitar bem satisfeitos.

Sebastian meteu-se logo na cama; fiquei sentado ao pé da lareira, em seu quarto, fumando cachimbo. — Bem que eu gostaria de ir caçar amanhã — disse eu. — Você não vai perder grande coisa — retrucou Sebastian. — Vou contar-lhe exa­tamente o que pretendo fazer. Dou o fora em Bridey na primeira toca, bato-me para a taberna mais próxima, e passo lá o dia inteiro bebendo sossegadamente. Se eles vão me tra­tar como um dipsomaníaco, então, com os diabos! agüen­tem. De qualquer maneira detesto caçar. — Bem, eu não posso fazer nada — respondi.

Lá isso pode, basta me dar dinheiro. Fecharam minha conta no banco no verão. Isso me tem causado sérias dificulda­des. Pus meu relógio e minha cigarreira no prego para poder passar um Natal feliz, terei de recorrer a você para financiar minhas despesas amanhã.

Não adianta. Você sabe muito bem que eu não posso.

Não adianta? Então terei de me arranjar sozinho. Aliás, ultimamente, tenho-me defendido muito bem. Tive de aprender.

Sebastian, que andaram você e Mr. Samgrass fazendo?

Ele contou no jantar. Ruínas, guias e burros, foi isso que Sammy andou fazendo. É muito simples, decidimos se­guir caminhos diferentes. Coitado de Sammy, até aqui portou-se muito bem. Eu contava que ele agüentasse a mão, mas parece que foi muito indiscreto a respeito de meu Natal feliz. Naturalmente, teve receio de perder o emprego, se fizesse um relatório muito favorável.

"Você não imagina como ele se defende. Não digo que roube. Parece-me bastante correto em questões de dinheiro. Mas tem um caderninho de notas indiscreto, onde assenta toda despesa feita com os travellers' checks, para mamãe e o advogado verem. Ele queria visitar esses lugares todos, e em lugar de viajar como os outros professores, era mais cô­modo para ele tomar conta de mim, e viajar com conforto. O único senão era ter de me agüentar, mas nós prontamente resolvemos o assunto a seu contento.

"Começamos em grande estilo, com cartas de apresen­tação para todas as pessoas importantes; fomos hóspedes do governador militar de Rodes e do embaixador de Constantinopla. Quando Sammy assumiu o posto, era isso, sobretudo que ele tinha em mira. Naturalmente, eu prejudicava seu tra­balho, e ele avisava nossos hóspedes, de antemão, que eu era irresponsável."

Sebastian!

De todo, não; e, como eu não tinha dinheiro para gas­tar, não podia fazer muita coisa. Até as gorjetas ele dava por mim; mal colocava o dinheiro na mão que lhe estendiam, anotava logo em seu caderninho. Mas em Constantinopla tive um pouco de sorte. Ganhei um dinheirinho no jogo, à revelia de Sammy. No dia seguinte, escapuli, e estava gozando as delícias de uma hora de liberdade no bar do Tokamian, quan­do Anthony Blanche surgiu barbado, rebocando um judeuzinho. Mal teve tempo para me emprestar uns cobres, e Sammy apareceu esbaforido para me apanhar. Depois disso, não me perdia de vista; o pessoal da embaixada levou-nos a bordo e esperou até a partida do navio que nos deixou no Pireu. Mas em Atenas foi fácil. Um belo dia, depois do almoço, saí calmamente da legação, troquei meu dinheiro na agência Cook, indaguei da partida dos vapores para Alexandria para despis­tar Sammy, e depois tomei um ônibus que me deixou no cais, encontrei um marinheiro que sabia falar inglês, fiquei com ele até seu navio partir, e voltei para Constantinopla, foi isso que aconteceu.

"Anthony e o tal judeu moravam num casebre muito simpático perto da zona dos bazares. Fui ficando até o frio ser muito intenso; aí, Anthony e eu tratamos de vir para o sul, onde há três semanas atrás marcamos encontro com Sam­my na Síria."

E Sammy, não fez nenhuma objeção?

Não, acho que se divertiu bastante com suas maluqui­ces; naturalmente, de maneira mais modesta. No princípio, talvez tivesse ficado um pouco preocupado. Como eu não queria que ele mobilizasse toda a frota do Mediterrâneo, tele­grafei de Constantinopla dando notícias e pedindo para man­dar dinheiro para o banco otomano. Ele veio logo que recebeu meu telegrama. Naturalmente, sua situação era bastante incômoda, eu era maior de idade, mas minha maioridade não fora reconhecida ainda, por isso não podia me mandar prender. Não podia me deixar morrer de fome e viver à minha custa, nem dizer coisa alguma a mamãe, sem cair no ridículo. Coita­do do Sammy, não tinha saída. Minha primeira idéia foi plantá-lo ali mesmo, mas Anthony mostrou-se de grande valia, dizendo ser muito melhor entrar num acordo amigável; real­mente, ele arranjou tudo muito bem. E aqui estou eu.

Depois do Natal.

É, tinha decidido passar um Natal feliz.

E passou?

Acho que sim. Não me recordo de muita coisa, e isso é sempre um bom sinal, não é?

Na manhã seguinte, Brideshead apareceu de casaco ver­melho para tomar café; Cordélia, muito elegante também, o queixo erguido acima do plastrom branco, lamuriou-se quan­do Sebastian apareceu de casaco verde: — Mas, Sebastian, você não pode aparecer assim. Vá trocar de roupa. Você fica tão alinhado em traje de montaria.

Estão guardados em algum lugar. Gibbs não conse­guiu encontrar.

É mentira. Eu mesma ajudei a preparar sua roupa antes de você ser chamado.

Falta metade das coisas.

Os Strickland-Venables é que vão gostar. Estão fi­cando muito cafajestes. Até seus moços de estrebaria não usam mais cartola.

Quando trouxeram os cavalos, faltava um quarto para as onze, mas ninguém tinha aparecido ainda; pareciam estar todos à espreita, esperando apenas que o cavalo de Sebas­tian se afastasse, para então darem o ar de sua graça.

No momento de partir, os outros já estavam a cavalo, Sebastian chamou-me no vestíbulo. Sobre a mesa, junto do chapéu, das luvas, do chicote e dos sanduíches, via-se o cantil que ele deixara para ser enchido. Tomando-o nas mãos, ele o sacudiu; estava vazio.

Você está vendo — disse ele —, não têm a menor confiança em mim. Doidos são eles, eu não. Agora você não pode deixar de me dar dinheiro.

Dei-lhe uma libra.

Mais — disse ele.

Dei-lhe outra, e ele montou a cavalo, seguindo o irmão e a irmã.

Então, como se estivéssemos representando uma cena, e aquela fosse sua deixa, Mr. Samgrass surgiu ao meu lado, segurou-me pelo braço e levou-me outra vez para perto da lareira. Primeiro aqueceu suas mãozinhas bem-tratadas, depois voltou-se para aquecer os fundilhos das calças.

Com que então Sebastian foi à caça da raposa — disse ele —, e o nosso problemazinho fica arquivado por algumas horas.

Eu não estava disposto a aturar as indiretas de Mr. Samgrass.

Ontem à noite ouvi toda a história da grandiosa ex­cursão — disse eu.

Era o que eu pensava. — Mr. Samgrass não se mos­trou surpreendido; pelo contrário, parecia aliviado de ver que seu segredo era conhecido por outra pessoa. — Não quis aborrecer nossa castelã com essas histórias. Afinal, os resultados foram muito melhores do que seria lícito esperar. Con­tudo, julguei necessário dar uma explicação dos festejos natalinos de Sebastian. Você deve ter reparado em certas precauções tomadas ontem à noite.

Reparei.

Achou-as exageradas? Também achei, sobretudo por­que nós, as visitas, sofremos um pouco com isso. Hoje de manhã estive com Lady Marchmain. Não pense que estou acordando agora. Tive uma conversinha lá em cima com nossa castelã. Se não me engano, o serão de hoje poderá trazer boas surpresas. Não seria nada agradável enfrentar outra cena igual à de ontem. Não creio que você tenha apreciado devidamente meus esforços para lhe ser agradável.

Embora me repugnasse falar de Sebastian com Mr. Sam­grass, não me pude furtar de dizer: — Tenho minhas dúvidas a respeito.

Mas por quê? Logo hoje, depois de um dia passado

no campo sob as vistas inquisitoriais de Brideshead? Poderia haver ocasião mais propícia?

Bem, na verdade, não é da minha conta.

Nem da minha, para ser exato, agora que ele está são e salvo em casa. Lady Marchmain fez-me a honra de pedir minha opinião. Mas, no momento, o que me preocupa não é tanto o bem-estar de Sebastian, e sim o nosso. Sinto falta de um terceiro cálice de vinho-do-porto; sinto falta daquela bandeja acolhedora na biblioteca. Mas você acha desaconselhável tomar essa medida hoje à noite. Não sei por quê. Sebastian não pode se meter em encrencas hoje, pela simples razão de estar sem dinheiro. Eu sei disso. Tomei providências nesse sentido. Cheguei mesmo a guardar comigo lá em cima seu relógio e sua cigarreira. Está de braços e mãos atados... isto é, se não fizerem a maldade de lhe dar... Ah, Lady Julia, bom dia, bom dia. E como está o pequinês nesse belo dia de caça?

O pequinês vai muito bem. Olhe aqui. Estou espe­rando Rex Mottram hoje. Não podemos deixar acontecer ou­tra cena igual à de ontem. Alguém tem de falar com mamãe.

Já falaram. Eu o fiz. Acho que vai dar tudo certo.

Deus seja louvado. Charles, você vai pintar hoje?

Em minhas visitas a Brideshead, era costume eu pintar ; um medalhão no jardim de inverno. Isso me convinha, pois era um bom pretexto para me afastar dos outros convidados; quando a casa estava cheia de gente, essa sala rivalizava com os quartos das crianças como refúgio temporário, onde todos vinham desabafar suas mágoas; por isso eu andava sempre bem informado dos mexericos do lugar. Já terminara três medalhões, todos bastante bonitos, cada um em seu gênero, mas infelizmente os estilos eram diferentes; minhas tendências tinham evoluído e eu adquirira um maior domínio técnico naqueles dezoito meses, depois de iniciada a tarefa. Sob o ponto de vista de decoração, era um fracasso. Como em outras ocasiões, eu tinha vindo me refugiar ali, e pus-me logo a tra­balhar. Julia veio espiar, e acabamos falando de Sebastian, assunto obrigatório de todas as conversas.

Você não se aborrece com isso? — perguntou ela. — Por que hão de fazer um tal romance sobre o caso?

Porque gostamos dele.

Bem, de certo modo, eu também gosto dele, acho eu, mas por que haveria ele de ser diferente dos outros? Já chega uma ovelha negra na família, você sabe quem é, papai. Quan­do éramos crianças, não se podia falar nele diante dos empregados, nem ele era mencionado em nossa presença. Mas, se mamãe vai querer transformar Sebastian noutra ovelha ne­gra, é demais. Se ele quer viver embriagado, então que vá para o Quênia, ou outro lugar qualquer, onde isso não tenha importância.

Por que tem menos importância ser infeliz no Quênia do que aqui?

Não se finja de tolo, Charles. Você sabe muito bem o que eu quero dizer.

Você quer dizer, onde ele não poderá criar situações embaraçosas para você? Bem, eu só estava procurando prevenida de que isso poderá acontecer hoje à noite. Ele está num estado de espírito perigoso.

"Depois de caçar o dia todo, não há mau humor que resista."

A fé inabalável que todos depositavam nos efeitos bené­ficos de uma caçada era comovente. Nem mesmo Lady Marchmain, que me veio visitar na parte da manhã, deixou de dizer suas famosas piadinhas.

Sempre detestei as caçadas — disse ela —, parecem exercer uma influência nefasta sobre as melhores pessoas do mundo. Não sei o que é, mal terminam de se enfarpelar e montar a cavalo, transformam-se logo num bando de prussia­nos. E como ficam cheios de si, depois do fato consumado. A quantos jantares eu compareci, e assisti espantada à transformação de homens e mulheres que eu conheço, que pareciam cair em transe, tornando-se brutos, cabeçudos, maníacos de idéias fixas!... Mas, você sabe, deve ser algum atavismo se­cular, esse alívio que eu sinto quando penso que Sebastian está com outros lá fora. "Ele é perfeitamente normal, ele foi caçar", digo comigo mesma, como se isso fosse a resposta às minhas preces.

Ela me perguntou o que eu fazia em Paris. Falei-lhe do lugar onde morava e da vista sobre o rio, das torres de Notre- Dame. — Estou contando com a visita de Sebastian quando eu voltar.

Seria ideal — disse Lady Marchmain num suspiro, como se fosse uma quimera.

Mas conto com ele em Londres.

Charles, você sabe que é impossível. Londres é o pior lugar. Ele conseguiu escapar até de Mr. Samgrass. Nesta casa não há segredos. Ele esteve desaparecido durante o Natal. Mr. Samgrass só o descobriu porque ele não tinha dinheiro para pagar sua hospedagem e então telefonaram para nossa casa. Nem quero pensar. Não, Londres está fora de cogitações; se nem aqui conosco ele é capaz de se dominar... O melhor é prendê-lo aqui por algum tempo, caçando, até ele se mostrar mais contente e com melhor disposição, depois disso mandá-lo noutra viagem em companhia de Mr. Samgrass... Você com­preende, já passei por tudo isso.

A resposta que eu não dei ficou no ar, mas nós dois a conhecíamos bem: "A senhora não pôde prendê-lo, ele fugiu. E Sebastian fará o mesmo, porque ambos a odeiam".

No vale, a nossos pés, soou a trompa de caça e o grito de largada do batedor. Lá vão eles seguindo o rasto. Deus queira que ele se divirta.

Se a situação com Julia e Lady Marchmain chegou a um impasse, não foi por incompreensão das partes interessadas, mas porque nós não tínhamos ilusões. Com Brideshead, que veio almoçar em casa e tocou no assunto comigo porque o assunto era obrigatório, parecia o fogo nas caldeiras de um navio, a arder debaixo da linha d'água, cortando a escuridão com suas línguas vermelhas, desprendendo-se em tiras acres de fumaça, que se enroscavam pelas escadas, rastejavam entre os tombadilhos, escapavam pelas escotilhas, formavam guirlandas em volta dos escolhos à flor da água, e irrompiam brus­camente pelas escotilhas e chaminés —, com Brideshead eu me sentia perdido num mundo estranho, num mundo morto para mim, no meio de uma paisagem lunar de lava estéril, numa planície onde a altura tornava a respiração difícil.

Ele falou: Espero que se trate de um caso de dipsomania. É uma grande desgraça, mas nós todos devemos ajudá- lo. O meu receio era que ele se embriagasse de propósito, quando lhe desse na veneta, pelo prazer de beber.

Mas era isso exatamente o que ele... o que nós fa­zíamos. E ainda faz quando está sozinho comigo. Se sua mãe tivesse confiança em mim, eu não o deixaria passar da conta. Mas se vocês vão atormentá-lo com guardas e tratamentos, dentro de poucos anos sua saúde estará conprometida.

Doença não é pecado. Ninguém tem obrigação moral de ser diretor dos correios ou monteiro-mor, ou bater dez milhas a pé aos oitenta anos.

Pecado disse eu. Obrigação moral, lá está você falando de religião.

Mas se eu nunca deixei de encarar as coisas por esse prisma disse Brideshead.

Você sabe, Bridey, que se algum dia eu quisesse me converter ao catolicismo, bastaria conversar com você cinco minutos para desistir da idéia? Você tem o dom de transformar as coisas mais sensatas em rematada tolice.

É engraçado ouvir isso de você. Não é a primeira vez que me dizem. Por essas e outras, não me parece que eu teria sido um bom padre. Deve ser minha maneira de ra­ciocinar.

Durante o almoço, Julia só conseguia pensar em seu convidado, cuja chegada era aguardada para aquele dia. Foi esperá-lo na estação e estava de volta com ele à hora do chá.

Mamãe, olha só o presente de Natal que Rex me deu.

Era uma tartaruguinha, tendo na carapaça as iniciais do

nome de Julia incrustadas em brilhantes. Esse animal asqueroso, deslizando impotente sobre as tábuas enceradas, andan­do em cima da mesa de jogo, arrastando-se sobre os tapetes, encolhendo-se mal tocavam nele, ou então esticando o pescoço a balançar a mirrada cabeça antediluviana, tornou-se o símbolo daquela noite; uma dessas recordações banais que ficam na memória quando fatos mais importantes estão em jogo.

Meu Deus disse Lady Marchmain —, será que ela se alimenta como uma tartaruga comum?

Que fará você quando ela morrer? perguntou Mr. Samgrass. Será possível adaptar a carapaça a outra tartaruga?

Rex estava a par dos problemas de Sebastian, aliás, só assim poderia agüentar a tensão do ambiente, e tinha uma solução prontinha. À hora do chá, ele expôs seu projeto aber­tamente, com animação, e, depois de passar um dia inteiro a cochichar, foi um alívio poder discutir o assunto. — Mande-o para Borethus, em Zurique. Borethus é o homem indicado. Ele faz verdadeiros milagres em seu sanatório. A senhora sabe como Charlie Kilcarney costumava beber.

Não disse Lady Marchmain, com sua conhecida e sutil ironia. Infelizmente não sei.

Julia não gostou da piada dirigida a seu namorado, e ficou olhando de cara amarrada para a tartaruga, mas Rex Mottram não percebeu a fina malícia da resposta.

Duas de suas esposas acabaram desistindo — disse ele. — Mas quando Charlie ficou noivo de Silvia, ela exigiu que ele fizesse um tratamento em Zurique. E deu resultado. Depois de três meses, ele estava outro. E nunca mais bebeu, embora Silvia o abandonasse.

Mas por que ela fez uma coisa dessas?

Bem, o pobre Charlie ficou bastante chato depois que deixou de beber. Mas não é essa a história.

É, desconfio que não. Aliás, no fundo, a história deve ser mesmo animadora.

Julia olhava de cara feia para a tartaruga enfeitada de brilhantes.

Aliás, ele aceita casos de anomalias sexuais também.

Santo Deus, coitado de Sebastian, vai travar relações muito esquisitas em Zurique.

É preciso reservar lugar com meses de antecedência, mas, se eu pedir, talvez ele dê um jeito. Eu poderia telefonar daqui, hoje à noite.

Quando Rex queria dar demonstrações de carinho, mos­trava-se tão açambarcador, que parecia estar impingindo um aspirador de pó a uma dona-de-casa renitente.

Vamos pensar no assunto.

E ainda estávamos pensando no caso, quando Cordélia voltou da caçada.

Julia, que é isso? Que horror!

É o presente de Natal de Rex.

Ah, desculpe. Estou sempre cometendo gafes. Mas que maldade! Deve ter doído muito.

Elas não sentem.

Quem disse? Duvido.

Beijou a mãe, era a primeira vez que se viam naquele dia, falou com Rex, e tocou a campainha para pedir os ovos.

Tomei chá com Mr. Barney, telefonei de lá pedindo o carro, mas ainda estou com fome. Foi formidável. Jean Strickland-Venables caiu na lama. Cavalgamos de Bengers a Upper Eastrey sem desnortear a caça. Devem ser umas cinco milhas, não é, Bridey?

Três.

Da maneira como ele galopava... — E entre garfadas de ovos mexidos, ela ia nos contando a caçada... — Vo­cês deviam ter visto Jean toda suja de lama.

Onde está Sebastian?

É uma vergonha. — Essas palavras pronunciadas em voz clara e infantil soavam como o badalar de um sino, mas ela continuou: — Aparece assim, naquele casaco incrível, com uma gravata grosseiríssima, como se fosse um tipo qualquer saído da Academia de Montar do Capitão Morvin. Eu nem o reconheci no rendez-vous de caça, e faço votos que os ou­tros também não o tenham reconhecido. Ele ainda não che­gou? Quem sabe se está perdido.

Quando Wilcox veio apanhar as coisas do chá, Lady Marchmain perguntou: — Lorde Sebastian ainda não apareceu?

Não, milady.

Deve estar tomando chá em algum lugar. Não é nada de seu feitio.

Meia hora depois, quando Wilcox trouxe a bandeja com os aperitivos, falou:

Lorde Sebastian acabou de telefonar para irem buscá-lo em South Twining!

South Twining? Mas quem mora lá?

Ele estava falando do hotel, milady.

South Twining? — disse Cordélia. — Santo Deus, então ele está perdido mesmo!

Quando ele chegou, estava esfogueado e tinha no olhar um brilho febril; vi logo que estava bastante embriagado.

Meu filho — disse Lady Marchmain. — Como você está bem disposto! Fez-lhe bem passar o dia todo ao ar livre. As bebidas estão sobre a mesa; tome qualquer coisa.

Suas palavras nada tinham de extraordinário, e sim o fato de ela dizê-las. Seis meses antes, ela não o teria feito.

Obrigado — disse Sebastian. — Aceito.

Ao sentar-me diante de Sebastian naquela noite, à me­sa do jantar, ao ver seu olhar baço e seus movimentos trôpe­gos, ao ouvir sua voz pastosa rompendo de maneira inoportu­na silêncios penosos, tive a sensação de receber uma pancada já esperada e que me atingia num lugar ferido, mas sem provocar abalo ou surpresa, apenas uma dor surda e incômoda, sem saber se seria capaz de suportar outra igual. Quando Lady Marchmain, Julia e os empregados saíram, Brideshead falou: — Sebastian, é melhor você ir para a cama.

Vou tomar vinho-do-porto primeiro.

Está bem, se você quer. Mas não entre na sala de visitas.

Estou completamente bêbado — disse Sebastian, sem poder suster a cabeça.

Antigamente era assim. Os cavalheiros sempre iam ao encontro das damas completamente embriagados.

E, você sabe, não é absolutamente verdade — disse Mr. Samgrass, tentando puxar conversa comigo sobre o caso, mais tarde. — Não era assim antigamente. Eu me pergunto onde estará a diferença. Na falta de bom humor? De senso de camaradagem? Você sabe, desconfio que ele andou beben­do hoje. Onde terá arranjado dinheiro?

Sebastian já subiu — disse Brideshead, quando che­gamos à sala de visitas.

Já? Querem que eu leia?

Julia e Rex jogavam bezigue; a tartaruga metera-se na sua concha para livrar-se das brincadeiras do pequinês; Lady Marchmain leu em voz alta o Diary of nobody, mas interrompeu a leitura cedo, dizendo que estava na hora de ir dormir.

Mamãe, posso ficar jogando mais um pouquinho? Só três partidas?

Está bem, meu amor. Mas venha falar comigo antes de deitar-se. Não vou dormir.

Mr. Samgrass e eu compreendemos que Julia e Rex que­riam ficar sozinhos, por isso saímos também; mas Brideshead não entendeu, e sentou-se para ler o Times, que ainda não tivera tempo de ver naquele dia. Quando nos dirigíamos para nossos quartos, Mr. Samgrass falou: — Não era nada assim antigamente.

Na manhã seguinte eu disse a Sebastian: — Diga-me com franqueza, você quer que eu fique aqui?

Não, Charles, acho que não.

Não adianta?

Não.

Por isso fui apresentar minhas despedidas à mãe dele.

Charles, quero fazer-lhe uma pergunta. Você deu di­nheiro a Sebastian ontem?

Dei.

Apesar de saber o que ele faria?

Sim.

Não posso compreender — disse ela. — Não consigo entender tamanha maldade e cinismo.

Ela fez uma pausa, mas não parecia esperar uma resposta, penso eu; aliás, qualquer coisa que eu dissesse seria repisar a mesma sempiterna discussão.

Não vou censurá-lo disse ela. Não seria eu a atirar a primeira pedra. As culpas de meus filhos recaem sobre mim. Mas não posso compreender. Não posso compreender tamanha crueldade, quando você se mostrou tão gentil. Não entendo como nós gostávamos tanto de você. Você sempre nos odiou? Não sei o que fizemos para merecer uma coisa dessas.

Eu não me comovi; sua mágoa deixava-me insensível. Era a mesma sensação que a gente devia ter ao ser expulso do colégio. Não me surpreenderia se ela dissesse: "Já es­crevi para informar a seu desditoso genitor". Mas quando parti, virando-me no carro para lançar o que eu julgava ser meu derradeiro olhar àquela casa, tive a impressão de deixar ali um pouco de mim mesmo, alguma coisa cuja falta eu sen­tiria e buscaria em vão em minhas andanças; assim como os fantasmas voltam a freqüentar os lugares onde enterraram seus tesouros materiais, sem os quais não poderão pagar seu tributo na viagem para o além.

"Nunca mais voltarei", pensei comigo mesmo.

Era uma porta que se fechava; aquela porta pequena no muro, que eu procurara e encontrara em Oxford, mas, se a abrisse agora, não descobriria nenhum jardim encantado.

Após longo cativeiro nos palácios de coral e nas florestas ondulantes do oceano, onde jamais se via o sol, eu emergia à tona, bebendo a luz do dia e a brisa do mar.

Que deixara eu ali? A mocidade? A adolescência? Ro­mance? Essas coisas que parecem passes de mágica, "O com­pêndio do jovem prestidigitador"; aquela caixa arrumada onde a varinha de ébano tem seu lugar ao lado das enganadoras bolas de bilhar, da moeda que se parte ao meio, das flores de penas que cabem dentro de uma vela oca.

"Perdi a ilusão", pensei comigo mesmo. "Daqui por diante viverei num mundo de três dimensões, com o auxílio de meus cinco sentidos."

De lá para cá, aprendi que o universo não é assim, mas naquele momento, quando o carro virou e perdi a casa de vista, tudo isso me parecia líquido e certo, à minha espera no fim da avenida.

E assim voltei a Paris, aos amigos que lá deixara, e aos hábitos que formara. Julguei nunca mais ter notícias de Brideshead, mas a vida não comporta separações tão drásticas. Menos de três semanas depois eu recebia uma carta de Cor­délia naquela caligrafia afrancesada de convento.

"Meu querido Charles", dizia ela. "Fiquei tão descon­solada quando você foi embora. Você podia ao menos ter vin­do dizer adeus!

Já soube que você não está mais nas boas graças da fa­mília, e estou escrevendo para dizer que eu também não. Sur­rupiei as chaves de Wilcox e roubei uísque para Sebastian, mas fui apanhada. Ele estava tão aflito. Foi um barulho tre­mendo e ainda não acabou.

Mr. Samgrass já foi (felizmente!), e eu acho que o pres­tígio dele também está meio abalado, mas não sei por quê.

Mr. Mottram tem muita cotação com Julia (infelizmen­te), e vai levar Sebastian (péssimo!) a um médico alemão.

A tartaruga de Julia desapareceu. Nós achamos que ela se meteu na terra como as tartarugas costumam fazer, e lá se foi uma 'bolada' (expressão usada por Mr. Mottram).

Eu estou muito bem.

Com todo o carinho,

Cordélia."

Mais ou menos uma semana depois de ter recebido essa carta, encontrei Rex à minha espera ao voltar para casa de tarde.

Foi por volta das quatro horas, porque naquela época do ano escurecia cedo no estúdio. Quando a zeladora me disse que eu tinha uma visita, vi logo pela sua expressão que era gente importante; ela possuía o dom de exprimir de maneira realista as diferenças de idade e circunstâncias; aquela expres­são significava tratar-se de pessoa de suma importância, e Rex, na verdade, justificava sua atitude, pensei eu, ao vê-lo metido num amplo sobretudo de viagem, tapando a janela que dava para o rio.

Ora viva — disse eu.

Cheguei hoje de manhã. Disseram-me onde você costumava almoçar, mas não o encontrei. Ele está com você?

Nem era preciso perguntar de quem se tratava. — Então, ele também lhe deu o fora?

Chegamos ontem à noite e devíamos partir hoje para Zurique. Deixei-o no Lotti depois do jantar, porque ele disse que estava cansado, e fui ao Travellers para jogar.

Chamou-me a atenção o fato de ele procurar desculpar-se até comigo, como se estivesse preparando seu álibi. "Porque ele disse que estava cansado", essa era boa. Não via Rex deixando de jogar por causa de um rapaz que costumava andar empilecado.

E ao voltar você não o encontrou mais?

Nada disso. Antes fosse. Encontrei-o à minha espera. Eu estava numa maré de sorte e peguei uma bolada no Tra­vellers. Sebastian levou-me tudo enquanto eu dormia. Só me deixou as duas passagens de primeira classe para Zurique pre­sas no canto do espelho. Bandido! Eu tinha quase trezentas libras!

E agora, por onde andará ele?

Sei lá. Você não o estará escondendo, por acaso?

Não. Não tenho mais relações com essa família.

As minhas estão apenas começando disse Rex. Escute aqui, tenho muita coisa para contar, e prometi a um cara no Travellers uma revanche hoje à tarde. Quer jantar comigo?

Está bem. Onde?

Costumo ir ao Ciro.

Por que não o Paillard?

Não conheço. O convite é meu.

Eu sei. Deixe-me escolher o jantar.

Muito bem. Como é mesmo o nome do lugar? Escrevi o nome para ele. É um desses lugares típicos?

Sim, pode ser incluído nessa categoria.

Bem, será uma novidade. Encomende uma comida gostosa.

É o que pretendo fazer.

Cheguei vinte minutos antes de Rex. Já que teria de passar a noite em sua companhia, pelo menos seria à minha moda. Lembro-me bem desse jantar, sopa de oseille, um lin­guado feito de maneira simples num molho de vinho branco, caneton à la presse, um soufflé de limão. À última hora, temendo que fosse simples demais para Rex, acrescentei caviar aux blinis. Quanto aos vinhos, incluí por conta dele uma garrafa de Montrachet de 1906, que naquela ocasião tinha atingido todo o seu bouquet, e um Cios de Bèze de 1904 para acompanhar o pato.

Naquela época a vida era fácil na França; ao câmbio da época, minha mesada dava para muita coisa e eu vivia folgada­mente. Contudo, raramente jantava assim, e meus sentimen­tos para com Rex eram de boa paz, quando finalmente ele chegou e entregou seu casaco e seu chapéu com o ar de quem nunca mais esperava vê-los. Passeou o olhar desconfiado pela pequena sala escura, como se esperasse encontrar apaches ou um bando de estudantes bêbados. Mas havia apenas quatro senadores comendo no mais completo silêncio com os guardanapos amarrados por baixo das barbas, já o via contando mais tarde na roda de seus amigos do comércio: " ... um conhecido meu, sujeito interessante; estudando pintura em Paris. Levou-me a uma tasca, uma'espécie de restaurante, um desses lugares por que a gente passa sem reparar, mas onde comi como poucas vezes em minha vida. Encontrei lá uma meia dúzia de senadores; como vocês vêem, o lugar era bem freqüentado. Nada barato, também".          

Alguma notícia de Sebastian? perguntou ele.

Só dará sinal de si disse eu quando precisar de dinheiro.

Foi um azar dar um fora desses. Tinha esperanças de ser bem sucedido nesse caso, e assim melhorar minha posição noutro setor.

Era evidente que ele desejava falar de seus próprios problemas; mas o assunto podia esperar, pensei eu, a hora do conhaque, aquele instante de tolerância e satisfação, quando a atenção fica embotada, e o espírito funciona apenas pela metade. Mas no momento culminante em que o maitre d'hotel virava os blinis na frigideira, e dois empregados menos gra­duados preparavam as grelhas, falaríamos sobre minha pessoa.

Você ficou muito tempo em Brideshead? Falaram de mim depois que eu parti?

Se falaram de você? Meu velho, fiquei saturado. A marquesa dizia ter "remorsos" da maneira como o tratara. Ela não o poupou, segundo me consta, no momento da des­pedida.

Chamou-me mau e cínico.

Palavras duras.

Desde que não me chamem de empadão de pombo, e me comam, que me importa?

Quê?

É um ditado.

Ah! — A mistura do creme e da manteiga quente pa­recia transbordar, e as contas verde-mar do caviar nadavam naquele molho branco salpicado de manchas douradas de manteiga.

Gostaria de um pouquinho de cebola picada com isso — disse Rex. — Um sujeito entendido falou-me que dá mais gosto.

Experimente primeiro sem — disse eu. — E conte-me o que falaram de mim.

Bem, naturalmente, Greenacre, ou coisa que o valha, aquele professor infecto, caiu no ostracismo. A satisfação foi geral. Depois que você foi embora, ele ficou sendo o favorito. Desconfio que foi ele quem levou nossa castelã a dar-lhe o bilhetinho azul. Nós tínhamos de agüentá-lo, mas Julia acabou ficando tão saturada que o desmascarou.

Julia fez isso?

Bem, você compreende, ele começou a se intrometer em nossa vida. Julia descobriu que ele era um impostor, e, uma tarde em que Sebastian estava alto, aliás, era esse seu estado habitual, ela conseguiu arrancar-lhe toda a história da tal viagem. E foi esse o fim de Mr. Samgrass. Depois disso, a marquesa começou a achar que talvez tivesse sido injusta com você.

E a encrenca com Cordélia?

Isso eclipsou tudo o mais. Aquela pirralha é um fenô­meno. Havia uma semana que ela vinha arranjando uísque pa­ra Sebastian debaixo do nosso nariz. Ninguém conseguia descobrir aonde ele ia buscá-lo. Foi aí que a marquesa entregou os pontos.

Depois dos blinis, a sopa estava uma delícia, quente, magra, picante, leve.

Charles, vou contar-lhe uma coisa que mamãe Marchmain ainda não disse a ninguém. Ela está muito doente. Pode empacotar a qualquer momento. George Anstruther a examinou no outono e deu-lhe dois anos de vida.

Como é que você sabe?

Por ouvir dizer. Mas nas trapalhadas atuais em que a família dela anda metida, eu não lhe daria um ano. Conheço em Viena o homem indicado para o caso dela. Ele pôs Sônia Bamfshire de pé, quando todos, inclusive Anstruther, tinham dado o caso como perdido. Mas mamãe Marchmain não quer tomar providências. Deve ser por causa de sua maluquice religiosa, não quer cuidar do corpo.

O linguado fora preparado com tão rara simplicidade, que passou despercebido de Rex. Comemos ao som do chiar da grelha, dos ossos roídos, do gotejar do sangue e do tutano, do bater da colher ao regar as fatias finas de peito. Fizemos então uma pausa de um quarto de hora, enquanto eu bebia meu primeiro cálice de Cios de Bèze e Rex fumava seu pri­meiro cigarro. Recostando-se, ele soprou a fumaça por cima da mesa e observou: Você sabe, a comida aqui é bem re­gular; era o caso de alguém patrocinar o lugar e transformá-lo.

Depois, voltou a falar dos Marchmain:

Vou contar-lhe outra coisa também; se não tomarem cuidado, não tardarão a ficar com as finanças abaladas.

Julguei que fossem riquíssimos.

Bem, são ricos, mas o dinheiro deles está parado. O dinheiro se desvaloriza, gente nessas condições está mais pobre agora que em 1914, e os Flyte não compreendem isso. Os advogados que administram os bens da família parecem achar mais prático dar todo o dinheiro que eles pedem, e calarem-se. Veja a vida que levam: mantendo Brideshead e Marchmain House com todo o luxo; matilhas de cães de caça, os aluguéis não são aumentados, não despedem ninguém, empregados an­tigos às dúzias sem fazer nada, tendo por sua vez criados para servi-los, e, além disso, o velho mantendo outra casa, e com o mesmo estadão.

"Você sabe quanto eles devem?"

Claro que não.

Só em Londres vai a perto de cem mil. Ignoro o montante de suas dívidas em outros lugares. Bem, você com­preende, é um bocado de dinheiro para quem não sabe empre­gá-lo. Em novembro passado subia a noventa e oito mil. São essas as histórias que eu ouço contar.

Era isso que ele ouvia, pensei eu, falar de doenças mor­tais e dívidas. Deliciei-me com o borgonha.

Lembrava-me o que Rex parecia ignorar, a idade e be­leza do universo, a sabedoria adquirida pela humanidade em luta contra suas paixões. Por acaso, tornei a encontrar esse mesmo vinho durante o primeiro outono da guerra, quando almoçava com meu importador de vinhos na St. James Street; com o passar dos anos ficara mais suave e mais fraco, mas conservava ainda a pureza e o sabor dos tempos áureos, e transmitia ainda a mesma mensagem de esperança.

Não quero dizer com isso que eles venham a ficar na miséria; o velho terá sempre uma renda de seus trinta e tan­tos milhões por ano, mas o negócio está para estourar, e quan­do a alta sociedade resolve fazer economias, são as moças que pagam. Gostaria de resolver a questão do dote antes de isso acontecer.

Ainda não chegáramos ao conhaque, e já estávamos fa­lando a respeito dele. Eu me dispunha a ouvi-lo, mas queria uma trégua de uns vinte minutos ainda. Por isso, procurei dar-lhe o mínimo de atenção possível, e preparei-me para apre­ciar a comida; mas frases esparsas vinham atrapalhar meu bem-estar, fazendo-me voltar a esse mundo cruel e ganancioso em que Rex vivia. Em resumo, ele desejava uma mulher, mas queria o melhor partido que pudesse encontrar, e não estava disposto a pagar um preço muito alto.

...Mamãe Marchmain não vai comigo. Não me in­teressa. Não é com ela que eu quero casar. Ela não tem cora­gem de dizer abertamente: "Você não é um gentil-homem, mas apenas um aventureiro das colônias". Diz que vivemos em mundos diferentes. Está certo, mas Julia gosta do meio em que eu vivo... Depois vem com essa história de religião. Nada tenho contra a dela; no Canadá não ligamos muito aos católicos, mas isso é diferente; aqui na Europa há católicos muito prosas. Está bem, Julia pode ir à igreja sempre que quiser. Não serei eu a impedi-la. Aliás, ela não liga dois caracóis, mas eu acho bom uma moça ter princípios religiosos. E eu ainda concordo que ela eduque os filhos na religião católica. Farei todas as "promessas" que eles quiserem... Depois vem com essa história de meu passado. "Mal o conhecemos." Aliás, ela sabe até demais. Você talvez saiba que eu tenho um caso já há uns dois anos.

Eu não o ignorava. Aliás, quem conhecia Rex ficava logo a par de sua ligação com Brenda Champion. Essa era a expli­cação para a diferença que existia entre a carreira de Rex e a dos outros corretores; a razão de ser de suas partidas de golfe com o príncipe de Gales, do seu título de sócio do Bratt, e de suas relações cordiais com membros da Câmara dos Co­muns. Em sua primeira aparição, os chefes de seu partido não se referiram a ele como: "Olhe, aquele ali é o jovem e futuroso representante de North Gridlev, que fez um discurso tão brilhante sobre congelamento de aluguéis", mas: "Lá vai o último caso de Brenda Champion". Isso contribuiu muito para au­mentar-lhe o prestígio entre os representantes de seu sexo; quanto ao sexo frágil, ele não tinha dificuldade em conquistá- lo com seu encanto pessoal.

Bem, está tudo acabado. Mamãe Marchmain muito delicadamente não tocou no assunto, limitou-se a dizer que "falavam de mim". Que espécie de genro queria ela? Um monge de fancaria como Brideshead? Julia sabe de tudo e não se importa; logo, ninguém tem nada a ver com isso.

Depois do pato, veio uma salada de agrião e chicórea, com um leve tempero de alho verde. Procurei concentrar minha atenção na salada. Consegui durante algum tempo pen­sar apenas no soufflé. Chegou enfim a hora do conhaque, o momento apropriado para confidências. — ... Julia está com quase vinte anos. Não quero esperar pela maioridade. De qualquer maneira, pretendo fazer a coisa às direitas... um casamento em grande estilo... Tenho de defender os interes­ses dela na questão do dote. Por isso, se a marquesa se fizer de tola, eu vou catequizar o velho. Segundo dizem, ele estará de acordo com tudo que possa vir a aborrecê-la. No momento, ele está em Monte Carlo. Tinha planejado ir até lá depois de deixar Sebastian em Zurique. Por isso é que estou danado com seu desaparecimento.

Rex não gostou do conhaque. Era transparente e claro, e a garrafa não veio suja nem tinha algarismos da era napoleônica. Devia ser um ou dois anos mais velho que Rex, e fora engarrafado há pouco tempo. Serviram-no em cálices muito finos do feitio de tulipas, de proporções modestas.

Sou entendido em conhaque — disse Rex. — Este não tem boa cor. Além disso, não consigo sentir o gosto neste dedal.

Trouxeram-lhe um balão do tamanho de sua cabeça. Ele fez com que o aquecessem sobre uma lamparina de álcool. Depois rodou o vinho delicioso, mergulhou o rosto no vapor e declarou que em casa dele poria soda num conhaque daquela marca.

Então, envergonhados, trouxeram num carrinho lá de seu esconderijo um garrafão mofado reservado para clientes do tipo de Rex.

Isto sim — disse ele, despejando o conteúdo até dei­xar marcas escuras na borda do copo. — Eles têm sempre uma reservazinha escondida, que mostram apenas quando a gente faz barulho. Sirva-se.

Estou satisfeito com este aqui.

Se você não é mesmo apreciador, seria um crime bebê-lo.

Acendeu o charuto, e refestelou-se na cadeira com um ar de profunda satisfação; eu também estava satisfeito, mas por motivos diferentes. Estávamos ambos contentes. Ele fala­va de Julia, sua voz parecia vir de muito longe, confusa, como o latido de um cão perdido na distância numa noite silenciosa.

O noivado foi anunciado no começo de maio. Ao ver a nota no Continental Daily Mail, presumi que Rex tivesse catequizado o velho. Mas as coisas não se passaram de acordo com os planos estabelecidos. Depois disso, no meio de junho, li uma notícia sobre o casamento realizado na Savoy Chapel com toda a simplicidade. A realeza não se fizera representar; nem o primeiro-ministro comparecera; nem os parentes de Julia. Não parecia ter sido em "grande estilo", mas só anos mais tarde vim a saber toda a história.

 

Já é tempo de falar de Julia, que na tragédia de Sebas­tian desempenhou até aqui um papel secundário e bastante enigmático. Naquela época, era essa a impressão que ela me dava, e o mesmo pensava ela de mim. Nós dois tínhamos em mira alvos diferentes, que nos aproximavam, embora continuássemos vivendo como dois estranhos. Ela me confessou depois que, de certo modo, ficara impressionada comigo; co­mo se, ao procurar um determinado livro numa prateleira, sua curiosidade fosse despertada por outro, e, então, tomando-o nas mãos, desse uma olhadela no título, pensando consi­go mesma: "Quando tiver tempo, eu o lerei também", e, recolocando-o no lugar, continuasse a procurar o primeiro. Meu interesse era maior ainda por causa da semelhança física entre os dois irmãos, e que, repetindo-se em atitudes e cir­cunstâncias diversas, sempre me chocava; mas à medida que Sebastian, em sua decadência, parecia apagar-se e desintegrar- se de dia para dia, a figura de Julia adquiria maior nitidez.

Naquela época ela era magra, de pernas compridas, chata como uma tábua; só tinha pernas e braços, e pescoço; parecia uma aranha, sem corpo. Mas sua semelhança com as figurinhas da época parava aí, porque o corte de cabelo, os chapéus, o olhar abobado daquela época, e o ruge colocado no alto das maçãs do rosto, à moda dos palhaços, não conseguiam transformá-la num tipo caricato.

Quando a vi pela primeira vez, na plataforma da estação, naquele verão de 1923, à hora do crepúsculo, ela tinha dezoito anos e acabava de fazer seu début na sociedade londrina.

Na opinião de algumas pessoas, fora a estação mais bri­lhante depois da guerra; diziam que as coisas voltavam ao normal. Julia estava no centro dos acontecimentos. Naquela época, talvez existissem em Londres umas seis mansões que poderiam ser qualificadas de "históricas"; Marchmain House, em St. James, era uma delas, e o baile de apresentação de Julia, apesar das roupas hediondas daquela época, foi um lin­do espetáculo em todos os sentidos. Sebastian compareceu, e meio a contragosto insinuou que eu fosse com ele; recusei, e depois me arrependi, porque foi o último realizado ali, fechando com chave de ouro um passado brilhante.

Como poderia adivinhar? Naquela época parecia haver tempo de sobra; o mundo se me abria e eu podia explorá-lo com calma. Naquele verão eu andava tão enfronhado na vida de Oxford, que Londres ficaria para depois, pensava comigo mesmo.

As outras mansões pertenciam a parentes ou amigos de infância de Julia; além dessas, havia ainda um certo número de residências imponentes, em Mayfair e Belgravia, regurgitando de gente e todas iluminadas, noite após noite. Os forasteiros, voltando a seus postos dos desertos de sua procedência, escreviam para casa dizendo que naquele lugar ti­nham a impressão de vislumbrar um universo que, entre lama e arame, eles julgavam para sempre perdido. Naquelas sema­nas paradisíacas, Julia brilhava e resplandecia, como uma par­cela de sol entre o arvoredo, como a chama das velas refletindo-se nos espelhos, de modo que para os mais velhos, mergulhados em suas recordações, ela era a própria encarnação do pássaro azul.

"É a filha mais velha de Bridey Marchmain", diziam. "Pena ele não estar aqui para vê-la."

Naquela e nas noites seguintes, onde quer que ela fosse, sempre no círculo limitado de seus íntimos, criava um instante de felicidade, idêntica à sensação profunda provocada pelo brilho súbito do alcíone cortando as águas do rio.

Foi essa criatura, nem criança nem mulher, que me con­duziu naquele crepúsculo de verão, indiferente ao amor, assombrada com o poder de sua própria beleza, hesitando diante do frio limiar da vida; uma pessoa que, de repente, se vira preparada para a luta, sem saber como: heroína de um conto de fadas, virando em suas mãos o anel encantado; bastava-lhe esfregá-lo com as pontas dos dedos, para a terra abrir-se a seus pés e vomitar o escravo gigantesco, monstro servil que tudo lhe daria, mas, talvez, não da maneira desejada.

Naquela tarde eu não a interessava; os gênios roncavam nas profundezas, mas não seriam invocados; Julia vivia em um pequeno mundo à parte, centro de um sistema de esferas concêntricas, como aquelas bolas chinesas de marfim esculpido. Um problema sem importância parecia preocupá-la, pelo menos era o que ela pensava, encarando-o de maneira abstrata e simbólica. Ela estudava sem paixão, e inteiramente divor­ciada da realidade, quem deveria escolher para marido. Da mesma maneira que os estrategistas hesitam debruçados sobre o mapa a respeito da mudança de alguns alfinetes e linhas tra­çadas a giz colorido, porque fora daquela sala, longe das vistas dos oficiais estudiosos, um milímetro de diferença poderá acar­retar a ruína do passado, do presente e do futuro; ou a vida. Ela se via como um verdadeiro símbolo, não era criança, nem mulher; para ela a vitória ou a derrota significavam mudanças de alfinetes e de linhas traçadas a giz; ela nada entendia das artes da guerra.

"Se ao menos vivêssemos no estrangeiro", pensava ela, "onde essas coisas são combinadas entre os pais e os ad­vogados."

Casar o mais depressa possível, e fazer um bom casamen­to, era esse o fim que todas as suas amigas tinham em vista. E se ela pensava nas conseqüências do fato em si, era apenas para considerar o casamento como o marco de sua indepen­dência; o batismo de fogo, o ponto de partida para a verda­deira conquista da vida.

Ela ofuscava todas as outras moças de sua idade, mas, no mundo fechadíssimo em que vivia, Julia sabia que havia graves restrições feitas à sua pessoa. Os mais velhos, sentados nos sofás rente às paredes, punham-se a dissecar reputações, e contavam os prós e os contras. Havia o escândalo de seu pai; essa pequena mancha que ela herdara parecia empanar o brilho que a cercava, e qualquer coisa em sua maneira de ser, seu temperamento caprichoso e voluntarioso, e mais indisciplinado que o da maioria das outras moças, contribuía também para afastá-la de honrarias mais altas; mas se não fosse isso, quem sabe?...

Para as senhoras sentadas nos sofás, havia um assunto de suma importância; quais seriam as noivas escolhidas pelos jovens príncipes? A adolescência de Julia era das mais nobres, e poucas candidatas seriam mais encantadoras; mas a existência dessa pequena mácula tornava-a indigna de alcançar tal prêmio; havia ainda outro problema, o de sua religião.

Um casamento real estava inteiramente fora de suas cogitações.

Ela sabia o que queria, e não era isso, ou, pelo menos, assim pensava ela. Mas para onde quer que ela se virasse, sua religião parecia criar barreiras intransponíveis para a conquista de seu ideal.

Para ela, o caso parecia sem solução. Se abjurasse sua religião, tendo sido criada na Igreja Católica, iria para o infer­no, enquanto as outras moças protestantes de suas relações, vivendo numa ignorância beatífica, podiam casar-se com os filhos mais velhos, viver em paz, e chegar ao céu antes dela. Ela não poderia aspirar a um primogênito, e, quanto aos filhos mais moços, embora tivessem sua razão de ser, e fossem até certo ponto necessários, estavam fora de cogitações. Os filhos mais moços não possuíam os privilégios do anonimato; sua função precípua consistia em permanecer na sombra até sobre­vir alguma calamidade que os colocasse na posição antes ocupada por seus irmãos mais velhos, e, sendo essa sua única função, era recomendável que se mantivessem inteiramente disponíveis para perpetuar a linha de sucessão. Numa família de três ou quatro rapazes, talvez não houvesse oposição ao casamento do mais moço com uma jovem católica. Havia ainda, naturalmente, os próprios rapazes católicos, mas esses rara­mente apareciam no círculo fechado freqüentado por Julia; e os que o faziam eram parentes de sua mãe, e ela os achava sinistros e excêntricos. Entre a nobreza católica de dinheiro, representada por umas doze famílias, não havia naquela oca­sião herdeiros de sua idade. Quanto aos estrangeiros, e eram muitos na família de sua mãe, eram espertos em questão de dinheiro, extravagantes em seus hábitos, e, para a moça ingle­sa que se casasse com eles, isso seria o mesmo que passar um atestado de fracasso matrimonial. E então?

Esse era o problema que preocupava Julia depois de ter feito tanto sucesso em Londres. Ela sabia que o problema tinha solução. Devia haver, pensava ela, muita gente fora de seu círculo de relações, e que poderia entrar para seu grupo; o que a aborrecia era ela ter de procurá-los. Era-lhe negado o prazer cruel e caprichoso de escolher seus pretendentes, de consagrar-se com calma às artimanhas de salão. Ela não era uma Penélope; mas a caçadora na floresta.

E, assim, acabara criando em sua imaginação uma figura fantástica, o homem de seus sonhos; em sua fantasia, ele era um diplomata inglês, cuja beleza, sem ser muito máscula, chamaria a atenção; devia estar servindo no exterior, e possuir uma casa não tão grande quanto Brideshead, porém mais próxima de Londres; devia ser velho, uns trinta e dois ou trinta e três anos; viúvo de data recente, vítima da fatalidade; Julia achava preferível que fosse um homem amadurecido pela dor; com um futuro brilhante diante de si, mas que a solidão tornara apático. Ela tinha suas dúvidas se ficaria bem incluir nesse retrato que ele corria o risco de cair nas mãos de alguma aventureira estrangeira sem escrúpulos; enfim, ele precisava da influência de sangue novo para levá-lo à embaixada em Paris. Agnóstico não muito convicto, seria simpático às demonstrações do culto católico, e concordaria de bom grado que seus filhos fossem educados dentro da Igreja; con­tudo acharia mais prudente limitar sua família a dois meninos e uma menina, que deveriam nascer com um intervalo regular entre cada um, num período de doze anos, e não exigiria, como um marido católico poderia fazer, um filho por ano. Além do ordenado, possuiria ainda uma renda anual de doze mil libras, e não teria parentes próximos. Um homem assim seria o ideal, pensava Julia, e ela andava à sua procura, quan­do me encontrou pela primeira vez na estação. Eu não corres­pondia ao retrato. Foi o que ela me disse, sem pronunciar uma palavra, quando tirou o cigarro de minha boca.

Essas coisas todas eu vim a saber pouco a pouco, assim como se descobre o passado da mulher amada, pensando então que isso é uma preparação que nos faz participar de sua vida anterior, dirigindo-a por caminhos tortuosos para nós mesmos.

Sebastian e eu ficamos em Brideshead, e Julia foi para Cap Ferrat, onde se hospedou na vila de sua tia, Lady Rosscommon. Durante toda a viagem pensou em seu problema. Resolveu batizar seu diplomata viúvo com o nome de "Eustace", e daí por diante isso passou a ser uma piada que só ela entendia; e assim, quando finalmente seu sonho se tornou realidade, embora não fosse um diplomata, mas um sorum­bático major da Guarda, apaixonado e pronto a satisfazer seus secretos anseios, ela mandou-o embora mais caprichosa e pen­sativa que nunca; naquela ocasião, ela viera a conhecer Rex Mottram.

A idade de Rex o favorecia muito, porque entre as ami­gas de Julia havia uma espécie de preciosismo gerontófilo; elas achavam os rapazes mais moços acanhados e perebentos. Era considerado muito mais elegante almoçar a sós no Ritz, o que em todo caso, naquela época, era dado a poucas moças fazer; as amigas íntimas de Julia estavam nesse grupo, e isso era condenado pelos mais velhos, que tagarelavam da vida alheia pelos sofás dos salões de baile; era, portanto, mais ele­gante almoçar a sós no Ritz na mesa da esquerda à entrada, com um velho farrista engomado e encarquilhado, e que já gozava de má reputação no tempo da mãe delas, do que no centro, em companhia de um grupo barulhento de frangui­nhos. Aliás, Rex nada tinha de engomado ou encarquilhado; na opinião de seus chefes, ele era um jovem cavador bastante cafajeste; mas Julia reconhecia sua elegância natural, a fra­grância das bebidas e dos charutos finos, a amizade com o príncipe de Gales, a importância da mesa principal no Spor­ting Club, da segunda dose e do quarto charuto; de deixar o chofer ficar esperando horas a fio, sem remorso, o que suas amigas invejariam. Sua posição social era sui generis; tinha um ar de mistério, e mesmo qualquer coisa de sinistro; diziam que andava armado. Julia e suas amigas sentiam um verda­deiro horror a tudo que elas consideravam "suburbano"; colecionavam frases que mereciam reprovação, falavam numa gíria incompreensível, e muitas vezes o faziam em público. Para elas, era "suburbano" usar anel com brasão ou oferecer bombons no teatro; ou dizer durante uma festa: "Em que poderia servi-la?" Rex poderia ter todos os defeitos, menos ser "suburbano". Ele saíra do bas-fond diretamente para o mundo de Brenda Champion, e esta por sua vez também era o centro de um círculo fechadíssimo. Talvez Julia sentisse que dentro de uns doze anos suas amigas e ela mesma seriam outras tantas Brendas Champion; seria difícil explicar de outra maneira o antagonismo existente entre as duas. O fato de ele estar agregado a Brenda Champion aguçava ainda mais o interesse de Julia por Rex.

Rex e Brenda Champion estavam hospedados na vila vizinha em Cap Ferrat, que naquele ano estava alugada a um magnata da imprensa, e era freqüentada por políticos. Em circunstâncias normais, não seria provável que eles viessem freqüentar a roda de Lady Rosscommon, mas, pelo fato de morarem perto, os dois grupos começaram a andar juntos, e Rex começou logo a fazer prudentemente sua corte.

Ele se sentia inquieto aquele verão. A aventura com Mrs. Champion tinha chegado a um impasse; no princípio, fora tudo muito excitante, mas agora os grilhões começavam a irritar. Ele descobrira que Mrs. Champion vivia muito britanicamente, num círculo fechadíssimo; Rex ansiava por hori­zontes mais amplos. Desejava consolidar sua posição; arriar a bandeira negra, descer em terra, pendurar o alfanje em cima da chaminé e pensar na colheita. Tinha chegado a hora de pensar em casamento; ele também andava à procura de um "Eustace", mas, nos lugares onde andava, não tinha ocasião de encontrar moças solteiras. Tinha ouvido falar de Julia; ela era a debutante de maior sucesso, valia a pena conquistá-la.

Mas em Cap Ferrat, sob o olhar frio de Mrs. Champion, escondido atrás de óculos escuros, Rex teve de contentar-se em estabelecer uma camaradagem, que mais tarde poderia transformar-se num sentimento mais profundo. Nunca conseguiu ficar a sós com Julia, mas manobrava para que ela fosse incluída em quase todos os programas; ensinou-a a jogar chemin-de-fer, arrumava as coisas de maneira a tê-la em seu carro quando iam a Monte Carlo ou Nice; enfim, fez o bastante para que Lady Rosscommon escrevesse qualquer coisa a Lady Marchmain, e para Mrs. Champion antecipar a ida de ambos para Antibes.

Julia foi encontrar-se com a mãe em Salzburgo.

Soube por tia Fanny que você andou saindo muito com Mr. Mottram. Não creio que seja boa pessoa.

Também acho — disse Julia. — Mas não sei se eu gosto de gente boa.

A origem de sua fortuna é um segredo que a maioria dos novos-ricos não costuma desvendar; ninguém sabe como eles conseguem juntar o primeiro milhão. Contudo, o sucesso que passam a desfrutar junto às mulheres, caso consigam sobreviver, é devido às qualidades que demonstraram no começo, antes de se tornarem tiranos, quando tinham de conquistar cada homem de per se, e só a fé os sustinha, e do mundo nada esperavam além do que pudessem alcançar com seu encanto pessoal. Na liberdade relativa de sua vida em Londres, Rex transformou-se num escravo de Julia; seus planos eram reali­zados de acordo com os dela, ia aos lugares onde poderia en­contrá-la; insinuou-se junto às pessoas que poderiam influir sobre ela a seu respeito; tomou parte em várias organizações de caridade para estar em contato com Lady Marchmain; ofe­receu seus préstimos a Brideshead para conseguir-lhe uma cadeira no Parlamento, mas Brideshead recusou o oferecimen­to; demonstrou grande interesse pela Igreja Católica, até verificar que não era esse o caminho mais acertado para con­quistar Julia. Estava sempre disposto a levá-la em seu Hispa­no a qualquer lugar; levou-a juntamente com grupos de amigos seus para assistir às lutas sensacionais, reservando as melhores cadeiras, apresentando seus convidados aos pugilis­tas; jamais lhe falou de amor. Tornou-se agradável e acabou sendo indispensável; no princípio ela sentia orgulho em exi­bir-se com ele em público, depois começou a ficar meio aca­nhada, mas por essa época, entre o Natal e a Páscoa, ele já era indispensável. De repente, sem saber como, descobriu que estava apaixonada.

Essa revelação perturbadora e indesejada aconteceu numa tarde de maio, em que Rex lhe dissera que estaria ocupado no Parlamento, e, descendo a Charles Street por aca­so,- ela o viu sair da casa de Brenda Champion. Ficou tão sentida e zangada, que mal conseguiu manter as aparências durante o jantar; retirou-se logo que pôde, foi para casa, e chorou amargamente por dez minutos; depois sentiu fome, lastimou não ter comido mais no jantar, mandou vir pão e leite, e foi para cama dizendo: — Quando Mr. Mottram tele­fonar de manhã, seja a que horas for, digam que eu não posso falar.

No dia seguinte, como de costume, tomou café na cama, leu os jornais, telefonou para suas amigas. Finalmente, per­guntou: — Por acaso Mr. Mottram telefonou?

Sim, milady, quatro vezes. Devo chamá-la se tocar outra vez?

Sim. Não. Diga que saí.

Quando ela desceu, havia um recado na mesa do vestí­bulo. "Mr. Mottram espera Lady Julia no Ritz à uma e meia." — Vou almoçar em casa hoje — disse ela.

Naquela tarde fez compras com a mãe; tomaram chá com uma tia e voltaram às seis horas.

Mr. Mottram está à sua espera, milady. Está na biblioteca.

Mamãe, não vou perder meu tempo com ele. Man­de-o embora.

Julia, isso não é delicado. Estou cansada de dizer que ele não é o meu preferido entre seus amigos, mas já estou acostumada e até gosto dele. Você não pode fazer amizades e depois cortá-las assim, sobretudo tratando-se de pessoas como Mr. Mottram.

Mas, mamãe, tenho mesmo de falar com ele? Vamos ter uma cena.

Que tolice, Julia, você faz dele o que quer.

E assim Julia entrou na biblioteca, para sair de lá uma hora depois, noiva.

Oh, mamãe, eu avisei a você que isso iria acontecer, se eu fosse falar com ele.

Você não disse nada. Falou apenas que ia haver uma cena. Nunca poderia imaginar uma coisa dessas.

Em todo caso, você gosta dele. Você disse.

Ele tem-se mostrado muito dedicado. Mas não o con­sidero um bom partido para você, de maneira alguma. Todo mundo dirá o mesmo.

Quero que os outros se danem.

Não sabemos nada a respeito dele. Pode até ser des­cendente de negros; aliás, tem um moreno suspeito. Meu amor, isso tudo é inteiramente fora de propósito. Não sei como pôde fazer tal loucura.

Mas, então, que direito tenho eu de zangar-me com ele, porque continua andando com aquela velha? Você acha formidável salvar as mulheres perdidas; muito bem, para variar, estou salvando um homem perdido.

"Estou impedindo que Rex cometa um pecado mortal."

Julia, não seja irreverente.

Não é pecado mortal dormir com Brenda Champion?

Ou indecente.

Ele prometeu não tornar a vê-la. Se eu não confes­sasse que gostava dele, como iria pedir-lhe isso?

Graças a Deus, a moral de Mrs. Champion não é da minha conta. Mas a sua felicidade é. Se você quer saber minha opinião, considero Mr. Mottram um amigo bondoso e útil, mas não tenho a menor confiança nele, e os filhos dele com certeza serão intragáveis. É a lei da hereditariedade. Estou certa de que você não tardará a arrepender-se. Enquanto isso, não tomaremos a menor providência. Ninguém deve saber ou mesmo suspeitar de coisa alguma. Você não poderá mais almoçar com ele em público. Naturalmente, poderão encontrar-se aqui em casa, mas em público, não. O melhor é você dizer para ele vir falar comigo. Quero ter uma conversinha com ele a respeito disso.

E assim começou para Julia um noivado secreto que du­rou um ano; foi um período de grande tensão, porque pela primeira vez, naquela tarde, Rex deu expansão a seu carinho; e não foi uma experiência igual a outras que ela tivera antes com um ou dois rapazinhos tímidos e sentimentais; alguma coisa dentro dela parecia corresponder àquela paixão. Ficou assustada, e certo dia, ao voltar do confessionário, resolveu pôr um ponto final.

Do contrário não poderei continuar a vê-lo — dis­se ela.

Rex tomou logo uma atitude respeitosa, como ele fizera tantas vezes no inverno, sentado em seu grande automóvel, esperando no frio.

Se ao menos pudéssemos casar logo — disse ela.

Durante seis semanas os dois se mantiveram a uma dis­tância cerimoniosa, beijando-se na entrada e na despedida. Ficavam sentados longe um do outro, falando de seus projetos e da possibilidade de Rex conquistar um subsecretariado. Julia sentia-se feliz, apaixonada, sonhava com o futuro. E, então, um pouco antes do término da legislatura, ela veio a saber que Rex passara o fim de semana com um corretor em Sunningdale, quando dissera ter ficado em seu distrito, e que Mrs. Champion também estivera presente.

Na noite em que ela soube disso, quando Rex apareceu como de costume em Marchmain House, os dois tiveram uma cena igual àquela outra dois meses antes.

Que quer você? — disse ele. — Com que direito exige tanto, se dá tão pouco em troca?

Ela levou seu problema à Farm Street para discuti-lo em termos gerais, não no confessionário, mas num parlatório pequeno e escuro reservado para entrevistas como essa.

Mas, padre, será errado eu cometer um pecado venial para livrá-lo de cometer um pecado mortal?

Mas o velho e bondoso jesuíta manteve-se firme como uma rocha. Ela quase não prestava atenção no que ele dizia; ele lhe recusava o que ela pedia, era tudo quanto queria saber.

Ao terminar, ele disse: — Agora é melhor você fazer sua confissão.

Não, obrigada — respondeu ela, como se recusasse uma mercadoria dentro de uma loja. — Hoje, não estou com vontade — e zangada, foi a pé para casa.

Depois disso, ela manteve-se surda aos apelos da religião.

E Lady Marchmain, percebendo o que se passava, preparou-se para carregar mais outra cruz; além de Sebastian, sua dor mais recente, e a outra mais antiga, que era seu marido, e seus padecimentos físicos; diariamente ela ia rezar na igreja, seu coração parecia transpassado pelas espadas cravadas no coração da imagem, um coração vivo irmanado com o outro de gesso e tinta. Só Deus sabe se ela recebia algum conforto.

Assim, passou-se um ano, e a notícia do noivado secreto; espalhou-se de confidência em confidência, como as ondas na areia, até aparecer nos jornais. Lady Rosscommon, como dama de honra da rainha, foi abordada; então foi preciso tomar providências. Depois de Julia recusar comungar no Natal, Lady Marchmain, vendo-se traída, primeiro por mim, depois por Mr. Samgrass e Cordélia, resolveu agir nos primeiros dias cinzentos de 1925. Proibiu qualquer alusão ao noivado; proibiu Julia e Rex de se verem; fez planos de fechar Marchmain House durante seis meses e levar Julia em visita aos parentes no estrangeiro. Mas, mesmo numa crise como aquela, um re­moto atavismo bem típico de seu temperamento, que parecia aliar uma certa insensibilidade à delicadeza, fazia com que ela achasse perfeitamente natural deixar Sebastian entregue aos cuidados de Rex na viagem até o Dr. Borethus. Rex, depois de ter falhado nesse particular, dirigiu-se a Monte Carlo, onde acabou de derrotá-la. Lorde Marchmain não levou em consideração as boas qualidades de Rex; em sua opinião, isso com­petia à filha. Rex parecia um indivíduo duro de roer, saudável, próspero, cujo nome já lhe era familiar pela leitura dos noti­ciários políticos; jogador inveterado, mas prudente; bem rela­cionado; com um belo futuro; Lady Marchmain não gostava dele. Em resumo, Lorde Marchmain ficou muito satisfeito pela escolha acertada de Julia, e deu seu consentimento para casarem logo.

Rex entregou-se aos preparativos com satisfação. Com­prou-lhe um anel, não no Cartier, como ela esperava; mas numa sala de fundos em Hatton Garden, de um homem que exibia pedras preciosas guardadas em saquinhos dentro de um cofre, e que as espalhou em cima de uma escrivaninha para ela ver; depois outro homem, noutra sala de fundos, fez os desenhos para a gravação, com um coto de lápis numa fo­lha de papel de notas; e, depois de pronto, suas amigas se extasiaram com o anel.

— Rex, como é que você descobriu isso? — perguntou ela.

Ela estava sempre se surpreendendo com o que ele sabia ou deixava de saber; mas, naquela ocasião, essas coisas só serviam para aumentar seus atrativos.

A casa dele na Hertford Street era suficientemente grande para os dois, e fora mobiliada e decorada recentemente pela firma mais careira. Julia declarou que não pensava ainda em ter uma casa de campo; quando quisessem sair da cidade, poderiam alugar uma casa mobiliada.

Surgiram dificuldades a respeito do dote, mas Julia não se dignava discutir o assunto. Os advogados se desesperavam. Rex queria receber o dote sem ônus.

Que vou fazer com títulos gravados? — perguntava ele.

Não sei, meu amor.

Eu faço o dinheiro trabalhar para mim — disse ele. — E tem de render quinze ou vinte por cento. É perder di­nheiro, gravar um capital a três e meio.

Deve ser, meu amor.

Esses camaradas falam como se eu quisesse roubar você. Mas são eles os ladrões. Estão roubando dois terços da renda que eu poderia lhe dar.

Rex, que importância tem? Nós somos muito ricos.

Rex estava querendo tomar conta do dote todo de Julia e administrá-lo em benefício próprio. Os advogados insistiam em gravá-lo, mas não conseguiam de Rex que ele concorresse com a sua parte. Finalmente, ele concordou de má vontade em fazer um seguro de vida, depois de levar muito tempo explicando aos advogados que isso era apenas uma forma de mudar dos seus para os bolsos alheios uma parte de seus próprios lucros. Mas, como ele estava ligado a uma companhia de seguros, a sangria não foi tão penosa, porque ele pôde abiscoitar a comissão do agente, cobiçada também pelos pró­prios advogados.

Por último, e não era assunto de menor importância, ha­via a questão da religião de Rex. Certa ocasião, ele assistira a um casamento real em Madri e queria, no seu casamento, alguma coisa de parecido.

Para isso, sua religião serve — disse ele —, sabe fazer as coisas com grande encenação. E os cardeais são um espe­táculo sem par. Quantos são eles aqui na Inglaterra?

Um só, meu amor.

Só um? Não poderíamos contratar outros no estran­geiro?

Foi-lhe então explicado que um casamento misto era muito simples.

Misto, por quê? Que história é essa? Não sou um negro ou coisa parecida.

Não é isso, meu amor. Quer dizer um casamento en­tre um católico e um protestante.

Ora, é isso? Se é só, não será difícil remediar. Eu me converterei ao catolicismo. Que é preciso fazer?

Lady Marchmain ficou espantada e perplexa diante desse novo problema; era inútil procurar, com espírito de caridade, convencer-se de que Rex agia de boa fé; ela se recordava de outro noivado e de outra conversão igual àquela.

Rex disse ela. Eu me pergunto às vezes se você compreende toda a extensão do que vai fazer, abraçando a fé. Será grave erro tomar essa decisão, se você não estiver sinceramente convicto.

Ele sabia lidar com ela como ninguém.

Não vou fingir que sou muito devoto disse ele —, nem grande teólogo, mas isso eu sei, não é de boa política ter duas religiões numa família. A religião é uma necessidade. Se Julia foi educada segundo os princípios religiosos da se­nhora, eu também os adotarei.

Muito bem disse ela —, vou tomar providências para sua instrução religiosa.

Escute aqui, Lady Marchmain, não tenho tempo. Não adianta querer instruir-me. Basta me dar o formulário e eu o assinarei direitinho.

Geralmente leva meses, às vezes uma vida inteira.

Bem, sou bom estudante. Experimente.

Assim é que Rex foi enviado ao Padre Mowbray, na Farm Street, conhecido por seus retumbantes sucessos junto a catecúmenos impenitentes. Depois da terceira entrevista, ele veio tomar chá com Lady Marchmain.

Então, que acha de meu futuro genro?

Nunca encontrei um neófito tão difícil de converter.

Santo Deus, pensei que ele fosse tão cordato.

É isso mesmo. Não consigo romper a barreira que o cerca. Ele parece desprovido da mais elementar curiosidade intelectual e piedade natural.

"No primeiro dia eu quis verificar que espécie de vida religiosa ele tivera até aqui, por isso lhe perguntei o que entendia por oração. Foi essa sua resposta: 'Eu não entendo nada. O senhor é que tem de me dizer'. Procurei fazê-lo em poucas palavras. 'Está bem. Isso quanto à oração. E depois?'

Dei-lhe o catecismo para levar. Ontem perguntei se Nosso Senhor tinha mais de uma natureza. Eis sua resposta: 'Quantas o senhor quiser, padre'.

"Tornei a perguntar: 'Suponhamos que o papa olhasse para o céu e visse uma nuvem, e dissesse: Vai chover, isso teria fatalmente de acontecer?' 'Oh, sim, padre.' 'E se não chovesse?' Pensou por alguns instantes e respondeu: 'Bem, devia estar chovendo espiritualmente, apenas; como somos muitos pecadores, não víamos nada'.

"Lady Marchmain, ele não parece corresponder a ne­nhum dos graus de paganismo conhecido pelos missionários."

Julia — disse Lady Marchmain, quando o padre saiu —, você tem certeza de que Rex não está fazendo isso só para nos agradar?

Nem lhe passa pela cabeça, acho eu — disse Julia.

Sua conversão é realmente sincera?

Mamãe, ele está seriamente decidido a se tornar cató­lico — enquanto isso, dizia consigo mesma: "Não será a única conversão esquisita na longa história da Igreja. Não creio que o exército inteiro de Clóvis tivesse espírito cristão. Uma a mais não fará diferença".

Na semana seguinte o jesuíta voltou para tomar chá. Foi nas férias da Páscoa, e Cordélia também estava presente.

Lady Marchmain — disse ele. — A senhora devia ter escolhido um padre mais moço para esta tarefa. Estarei morto e enterrado muito antes de Rex se converter.

Santo Deus, pensei que tudo estivesse indo tão bem.

Num certo sentido, estava. Ele se mostrava excepcionalmente dócil — disse o padre —, aceitava tudo que eu lhe dizia, lembrava-se de alguns trechos, não fazia perguntas, mas não me sentia muito satisfeito com ele. Não demonstrava o menor senso de realidade, mas, como eu sabia que ele ia ficar sob uma sólida influência católica, estava disposto a aceitá-lo. Às vezes é preciso arriscar, como, por exemplo, no caso dos semi-imbecis. Nunca se sabe, exatamente, o grau de compre­ensão que eles possuem. Mas, quando se sabe que eles estarão sob vigilância, deve-se correr esse risco.

Ah, Rex aqui para ouvir isso! — disse Cordélia.

Mas ontem tomei um certo susto. O mal da educação moderna é não se poder saber o grau de ignorância das pessoas. Num indivíduo de mais de cinqüenta anos, tem-se quase certeza do que ele aprendeu ou deixou de aprender. Mas essa mocidade de hoje tem uma cultura superficial, quando o verniz estala de repente, aparece lá no fundo um verdadeiro caos de que nem se suspeitava. Ontem, por exemplo, ia tudo muito bem. Ele aprendera de cor alguns trechos do catecismo, o padre-nosso e a ave-maria. Perguntei-lhe, como de costume, se tinha alguma dúvida, e, olhando manhosamente para mim, ele disse: "Olhe aqui, padre, o senhor não está sendo correto co­migo. Eu quero e vou entrar para a sua Igreja, mas o senhor está escondendo muita coisa". Perguntei-lhe o que queria di­zer com isso e ele respondeu: "Tive uma longa conversa com um católico, muito devoto e educado, e aprendi certas coisas. Por exemplo, que é preciso dormir com os pés virados para leste, por ser a direção do céu; por isso, se a gente morrer dormindo, é só andar até lá. Por mim, isso depende de Julia, mas o senhor acha que um homem feito vai acreditar nessa história de ir para o céu andando? E o papa que nomeou cardeal um de seus cavalos? E aquela caixinha na porta da igreja para depositar esmolas, e se a gente colocar uma nota e escrever o nome de uma pessoa nela, essa pessoa vai para o inferno. Não pretendo negar o fato de existir talvez uma razão mais forte para justificar tudo isso", disse ele, "mas o senhor deveria ter falado nessas coisas, e não me deixar descobrir tudo isso por mim mesmo".

Coitado, o que quereria ele dizer? disse Lady Marchmain.

Ainda tem um longo caminho a percorrer, como a se­nhora vê disse o Padre Mowbray.

Mas com quem andou ele falando? Terá sido um so­nho? Cordélia, que é?

Mas que cabeça de pau! Oh, mamãe, que bobão!

Cordélia, foi você!

Mas, mamãe, quem poderia imaginar que ele fosse acreditar nisso tudo? Eu lhe contei muito mais ainda. Falei dos macacos sagrados do Vaticano, uma porção de coisas.

Bem, você dificultou consideravelmente meu traba­lho disse o Padre Mowbray.

Coitado do Rex disse Lady Marchmain. Para mim, essa ingenuidade tem um certo encanto. Padre Mow­bray, o senhor deve tratá-lo como a uma criança abobada.

E, assim, a catequese continuou, e uma semana antes do casamento, o Padre Mowbray consentiu em receber Rex na Igreja.

Eu pensei que eles ficassem radiantes com a minha conversão — queixou-se Rex. — Posso fazer muito por eles; no entanto, até parecem aqueles sujeitos que distribuem as entradas nos cassinos. O pior — acrescentou — é essa confusão provocada por Cordélia, já não sei mais o que está no catecismo ou o que é invenção dela.

As coisas estavam nesse pé três semanas antes do casa­mento; os convites já tinham sido expedidos, os presentes chegavam, as demoiselles d'honneur estavam encantadas com os vestidos. E então estourou o que Julia chamava "a bomba de Bridey".

Com uma insensibilidade bem característica de seu temperamento, ele fez a surpreendente revelação de chofre, inter­rompendo uma alegre reunião de família. Os presentes eram guardados na biblioteca de Marchmain House; Lady Marchmain, Julia, Cordélia e Rex estavam desembrulhando e catalo­gando os presentes, quando Brideshead entrou e ficou parado olhando para eles.

Vasos chineses de tia Betty — disse Cordélia. — De segunda mão. Lembro-me deles lá na escada em Buckborne.

Que é isso? — perguntou Brideshead.

Mr., Mrs. e Miss Pendle-Garthwaite, um serviço pa­ra tomar chá de manhã. Grosseiríssimo.

Tratem de embrulhar tudo outra vez.

Bridey, que quer você dizer com isso?

Muito simplesmente que não haverá mais casamento.

Bridey!

Como ninguém parecia se interessar, resolvi tomar informações a respeito de meu futuro cunhado disse Brideshead. Recebi agora de noite a resposta. Ele casou-se em Montreal, em 1915, com uma certa Miss Sarah Evangeline Cutler, que ainda vive naquela cidade.

Rex, é verdade?

Rex ficou parado com um dragão de jade na mão; parecia examiná-lo com atenção; depois colocou-o cuidadosamente em seu pedestal de ébano, e virou-se para os outros com um sor­riso aberto e o ar mais inocente do mundo.

Claro que é verdade disse ele. E daí? Por que estão todos tão espantados? Ela nada significa para mim. Aliás, não tinha boas intenções. De qualquer maneira, eu era uma criança. Foi um erro como outro qualquer. Meu divórcio data de 1919. Nem sabia onde ela estava morando até Bridey falar agora. Por que tanto barulho?

Mas por que você não me falou nisso? — disse Julia.

Você nunca me perguntou. Palavra de honra, há anos que nem lembro dela.

Ele parecia tão sincero, que eles resolveram sentar-se e discutir calmamente o assunto.

Mas você não vê, seu tolinho — disse Julia —, que, sendo católico, não pode casar-se, se tiver outra mulher?

Mas eu não tenho. Não acabei de dizer que estamos divorciados há seis anos?

Mas um católico não pode se divorciar.

Eu não era católico e me divorciei. Os papéis estão guardados em algum canto.

Mas o Padre Mowbray não lhe falou a respeito do sacramento do matrimônio?

Ele disse que eu não poderia me divorciar de você. Nem eu quero. Não posso me lembrar de tudo que ele me disse, macacos sagrados, indulgências plenárias, as quatro úl­timas coisas; se fosse me lembrar de tudo que ele me disse, não sobraria tempo para mais nada. E aquela sua prima ita­liana, Francesca, não se casou duas vezes?

Foi anulado.

Muito bem, então arranjarei uma anulação. Quanto custa? Quem arranja isso? O Padre Mowbray tem alguma coi­sa contra anulação? Não quero fazer nada errado. Não me disseram nada.

Custou muito convencer Rex da existência de um impedimento sério à realização de seu matrimônio. Discutiram até a hora do jantar; fez-se uma trégua na presença dos emprega­dos, mas tudo recomeçou, mal ficaram a sós, e a discussão prolongou-se até depois da meia-noite. O assunto foi contor­nado de todo jeito e feitio, mas sem resultado prático; repisa­vam os mesmos argumentos, como se fosse uma gaivota voan­do em círculos, ora mergulhando no mar, ora perdendo-se entre as nuvens, ou pousando por alguns instantes na ilha formada pelos detritos que boiavam à deriva.

Que quer você que eu faça? A quem devo me diri­gir? — Rex repetia essas frases sem parar. — Deve haver alguém capaz de dar um jeito.

Não tem jeito, Rex — disse Brideshead. — Isso quer dizer simplesmente que o casamento não poderá ser realiza­do. Para todos nós, é pena ter acontecido tão de repente. Mas você nos deveria ter avisado.

Olhe aqui — disse Rex. — Talvez você tenha razão; pode ser que não seja inteiramente correto eu me casar, mas a catedral já está tomada para a cerimônia; lá ninguém sabe de nada, o cardeal também; o Padre Mowbray, idem. Só nós sabemos. Então por que fazer tanto barulho? O melhor é ficar quieto e deixar o barco correr, como se não houvesse nada. Quem vai perder com isso? Talvez eu me arrisque a ir parar no inferno. Pois bem, eu vou arriscar. Os outros não têm nada com isso.

E por que não? — disse Julia. — Esses padres não sabem tudo. Não acredito que alguém vá para o inferno por coisas assim. Aliás, não acredito mesmo no inferno. Em todo caso, a responsabilidade é nossa. Não queremos a condenação eterna de vocês todos, mas pedimos apenas que não se metam.

Julia, eu a odeio! — disse Cordelia, saindo da sala.

Estamos todos cansados — disse Lady Marchmain.

Se é que ainda há alguma coisa a dizer, eu proponho que se deixe para amanhã de manhã.

Mas não há mais nada a discutir — disse Brideshead —, a não ser a maneira mais discreta de encerrar o incidente. Mamãe e eu decidiremos isso. Publicaremos um aviso no Times e no Morning Post; os presentes terão de ser devolvidos. Não sei o que acontecerá com os vestidos das demoiselles d'honneur.

Esperem um pouco — disse Rex. — Esperem aí. Vocês podem não querer consentir no nosso casamento na ca­tedral. Pois então, bolas! nós nos casaremos numa igreja pro­testante.

Não consentirei nisso também — disse Lady March­main.

Mamãe, eu acho que você vai deixar — disse Julia.

Porque há já algum tempo sou amante de Rex, e, casada ou não, não pretendo mudar minha maneira de agir.

Isso é verdade, Rex?

Não, com os diabos! não é verdade. Antes fosse.

Estou vendo que teremos de recomeçar tudo de novo amanhã — disse Lady Marchmain desanimada. — Agora não agüento mais.

Foi preciso seu filho ajudá-la a subir a escada.

Mas por que você disse uma coisa dessas a sua mãe? — perguntei anos depois, quando Julia contou-me a cena.

Foi exatamente isso que Rex me perguntou. Talvez porque julgasse ser verdade. Não em toda a extensão da pa­lavra. Mas você precisa lembrar-se, eu tinha apenas vinte anos e a experiência da vida não se aprende por ouvir dizer; naturalmente, não me passou pela cabeça o significado exato da palavra. Mas não sabia como expressar-me. Quero dizer, Rex e eu tínhamos chegado a um ponto que eu não podia mais dizer "foi desmanchado o contrato de casamento... " e ficar por isso mesmo. Queria entrar para o rol das mulheres ho­nestas. Pensando bem, não tenho querido outra coisa.

E depois?

Depois o falatório continuou. Coitada da mamãe. Os padres se meteram, as tias também. Estudaram todas as solu­ções possíveis; mandar Rex para o Canadá; o Padre Mowbray para Roma para ver se havia razões que anulassem o casa­mento; de me mandar viajar durante um ano. No meio disso tudo, Rex limitou-se a telegrafar a papai: "Julia e eu preferi­mos cerimônia protestante. O senhor concorda?" Ele respon­deu: "Encantado", de maneira que mamãe não pôde mais tomar providências legais para impedir o casamento. Depois disso, começaram a apelar para os meus bons sentimentos. Mandaram-me conversar com padres, freiras e tias. Rex não se deu por achado; de um jeito mais ou menos discreto, continuou a realizar os preparativos.

"Charles! Que casamento sórdido! Naquela época, os casais divorciados costumavam casar-se na Savoy Chapei, um lugar apertado, bem diferente do que Rex sonhara. Eu teria preferido comparecer à pretoria de manhã cedo, levando duas empregadas por testemunha, e acabar com aquilo tudo de uma vez. Mas Rex queria demoiselles d'honneur, flores de laranjei­ra, e marcha nupcial. Foi tétrico.

"Coitada da mamãe, tomou uma atitude de mártir e insis­tiu, apesar dos pesares, para que eu usasse o véu de rendas da família. Bem, não tive outro remédio, o vestido foi dese­nhado para combinar com ele. Minhas amigas foram ao casa­mento, e também os estranhos cúmplices de Rex, que ele cha­mava 'seus' amigos; os outros convidados formavam um grupo disparatado. Naturalmente, da família de mamãe não foi ninguém; da família de papai, uns gatos pingados. O pessoal emproado, como os Anchorage, os Chasm, e os Vanbrugh, não compareceram, e eu pensei comigo mesma: 'Graças a Deus, de qualquer maneira, sempre fizeram pouco de mim', mas Rex ficou furioso; ao que parece, ele fazia questão justamente da presença dessa gente.

"Houve um momento em que cheguei a desejar que não se fizesse recepção alguma. Mamãe não quis ceder-nos Marchmain House, e Rex andou querendo telegrafar a papai e inva­dir a casa com os decoradores comandados pelo advogado da família. Finalmente decidiu-se fazer uma exibição dos presen­tes na véspera, porque o Padre Mowbray disse que isso era permitido. Como todos gostam de ver seus presentes em ex­posição, a festa foi um sucesso, mas a recepção que Rex ofereceu aos convidados no Savoy no dia seguinte foi um fracasso.

"Os colonos também criaram um caso complicado. Foi Bridey quem acabou indo até lá, e organizou um jantar com fogos de artifício, mas eles esperavam muito mais em troca da terrina de prata que tinham oferecido de presente. Coitada da Cordélia, foi quem mais sofreu. Ela queria tanto ser minha demoiselle d'honneur, quantas vezes falamos sobre o assunto, eu ainda nem era débutante, e, além do mais, ela era muito religiosa. No começo, nem falava comigo. Mas, na manhã do dia de meu casamento, eu me mudara na véspera para a casa de tia Fanny Rosscommon, tinham achado melhor assim, ela apareceu em meu quarto, quando eu ainda estava deitada; tinha estado na Farm Street; debulhou-se em lágrimas, e pediu que eu não me casasse; abraçou-me; deu-me um brochezinho lindo que ela comprara, e disse-me que rezara para eu ser sempre feliz. Sempre feliz, Charles!

"Foi um casamento muito criticado. Como de costume, todo mundo tomou as dores de mamãe, não que isso lhe adiantasse grande coisa. Em toda a sua vida, parece que os estranhos sempre ficaram do lado de mamãe, só os que lhe eram caros não souberam compreendê-la. Na opinião geral, eu procedi muito mal com ela. Coitado de Rex, acabou vendo que sua esposa era uma ovelha negra, isso não estava nada de acordo com seus planos.

"Como você vê, as coisas começaram mal. O princípio já foi azarado. Mas eu ainda estava louca por Rex."

É engraçado pensar nisso agora, não é?

Você sabe que o Padre Mowbray viu logo quem era Rex, mas eu levei um ano para descobrir. Era como se faltasse uma parte de sua personalidade. Não era um ser humano na posse completa de suas faculdades. Parecia uma amostra, uma anomalia; o produto vivo de uma experiência de laboratório. Eu pensava que ele fosse um homem primitivo, mas, pelo contrário, ele era moderníssimo, a última palavra; só uma civilização medonha como a nossa poderia gerar seres iguais a ele. Um pigmeu fingindo-se de gigante.

Bom, agora acabou-se.

Foi assim que ela me contou a história, quando dez anos depois viemos a nos encontrar no meio do Atlântico durante uma tempestade.

 

Voltei a Londres na primavera de 1926, em plena greve geral.

Era o assunto do dia em Paris. Como de costume, os franceses estavam radiantes com o desapontamento de seus antigos amigos, e no seu feitio positivo traduziam em termos precisos as noções vagas que nós tínhamos dos acontecimentos ocorridos do outro lado da Mancha, e profetizavam revoluções e guerras civis. Todas as tardes se viam nos quiosques cabe­çalhos arrasadores estampados nos jornais, e nos cafés os conhecidos cumprimentavam-nos meio irônicos, dizendo: "Olá, amigo, aqui as coisas andam melhores, não é?" As coisas che­garam a tal ponto, que eu e vários amigos meus, em condições idênticas, acabamos convencidos de que a pátria estava em perigo, e era nosso dever voltar à nossa terra. Um futurista belga, que atendia pelo nome de Jean de Brissac la Motte, para mim isso era nome de guerra, aderiu também, porque esse dizia que tinha o direito de pegar em armas onde quer que se lutasse em defesa das classes menos favorecidas.

Fizemos a travessia juntos, um bando de rapazes alegres, esperando encontrar em Dover as cenas tantas vezes repetidas ultimamente, quase iguais, e tão conhecidas na Europa inteira, que eu, pelo menos, já tinha uma concepção nítida do que fosse uma revolução. Bandeiras vermelhas nos correios; bon­des virados; cabos e sargentos bêbados; prisões abertas, os criminosos soltos perambulando pelas ruas aos bandos; o trem da capital que nunca chegaria a seu destino. Nos últimos seis ou sete anos, a descrição dessas cenas apareceu com tanta freqüência em jornais, cinemas, foi tão comentada em mesas de cafés, que se tornou uma experiência comum em segunda mão, como a lama de Flandres ou as moscas da Mesopotâmia.

Mas, quando pusemos pé em terra, esbarramos com a velha rotina da alfândega, a pontualidade das barcas; carre­gadores alinhados ao longo das plataformas da Estação Victoria, precipitando-se para os vagões de primeira classe; a fila comprida dos táxis à espera.       

"Cada um por si", dissemos, "dá-se uma batida por aí.

Encontramo-nos à hora do jantar para trocar idéias", mas no fundo já sabíamos que não havia nada, pelo menos que justificasse nossa presença.

Santo Deus — disse meu pai, esbarrando comigo na escada —, mas que prazer vê-lo por aqui outra vez em tão pouco tempo — fazia quinze meses que eu estava fora. — Vo­cê veio em má hora. Vai rebentar outra greve daqui a dois dias, uma idiotice, não sei quando você poderá sair daqui.

E eu tive saudades de outro entardecer, das luzes se acendendo ao longo do Sena, da companhia amável que lá deixara; naquela época andava interessado em duas americanas emanci­padas que moravam juntas numa garçonnière em Auteuil e lastimei ter vindo.

Naquela noite jantamos no Café Royai. Ali o aspecto era mais belicoso, o café estava abarrotado de estudantes que faziam o serviço militar. Um grupo de estudantes de Cambridge, que naquela tarde se apresentara ao Serviço de Trans­porte, estava de costas para outro grupo numa mesa ao lado; este fazia parte da polícia especial. De vez em quando, um grupo lançava desafios ao outro, mas como não é fácil entrar numa briga séria quando os contendores se dão as costas, o negócio ficava, por isso mesmo, em grande troca de gestos, copázios de cerveja em punho.       

Eu queria que você visse a entrada de Horthy em Budapeste — disse Jean. — Aquilo, sim, foi um acontecimento de importância política. 

Naquela noite havia uma festa em Regent's Park em honra dos Pássaros Negros, recém-chegados à Inglaterra. Um dos rapazes do nosso bando recebera um convite e nós todos fomos de cambulhada.           

Para nós, freqüentadores do Bricktop e do Bal Nègre, na Rue Blomet, o espetáculo nada tinha de extraordinário; assim que entrei, ouvi logo uma voz inconfundível, que parecia ressuscitar de um passado longínquo, e que assim falava: — Não, Mulcaster, não são bichos num jardim zoológico, para ; você ficar aí olhando de olhos esbugalhados. São artistas, meu caro, artistas geniais, que merecem respeito.

Anthony Blanche e Boy Mulcaster estavam perto da mesa das bebidas.  

Até que enfim vejo uma cara conhecida — disse Mulcaster, quando fui falar com eles. — Uma pequena me trou­xe aqui. Não sei onde ela se meteu.

Ela lhe deu o fora, meu caro, sabe por quê? Porque você parece um peixe fora d'água. Mulcaster, isso não é festa para você; você não deveria estar aqui, vá embora, vá para o velho Number 100, ou alguma festa lúgubre em Belgravia Square.

Estou saindo de uma delas — disse Mulcaster. — Ainda é cedo demais para ir ao Number 100. Vou ficando por aqui. As coisas podem melhorar.

Execrável criatura — disse Anthony. — Charles, va­mos conversar.

Armados de garrafa e copos, descobrimos um canto nou­tra sala. A nossos pés cinco membros da orquestra dos Pássa­ros Negros jogavam dados de cócoras.

Aquele ali, mais clarinho — disse Anthony —, nou­tro dia acertou o coco de Mrs. Fricyheimer, com uma garrafa de leite.

Era fatal, começamos logo a falar de Sebastian.

Meu caro, ele é inteiramente cretino. Foi morar co­migo em Marselha quando você se descartou dele o ano passa­do, e, francamente, me encheu. Bebia o dia inteiro como uma megera. E como é ladino. Meu caro, minhas coisas viviam sumindo, objetos de que eu gostava bastante; certa ocasião, desapareceram dois ternos que tinham acabado de chegar naquela mesma manhã de Lesley and Roberts. Naturalmente, eu ignorava que fosse Sebastian, porque, meu caro, no meu apartamento entravam e saíam uns tipinhos muito esquisitos. Você conhece como ninguém meu fraco por esses tipinhos. Bem, meu caro, finalmente descobrimos a loja onde Sebastian punha as coisas no prego, e, depois disso tudo, os talões não estavam com ele; havia também um leilão de penhores no bistrô.

"Meu caro Charles, você não precisa olhar para mim com esse ar puritano e reprovador, não fui eu quem o desen­caminhou. Aliás, um dos traços menos simpáticos do caráter de Sebastian é justamente esse, dar a impressão de seguir os outros como um cava-va-linho de circo. Mas você pode ter certeza de que eu fiz tudo. Fartei-me de lhe dizer: 'De que adianta beber assim? Se você quer se embriagar, há outras coisas que produzem sensações muito mais fortes'. Levei-o ao que há de melhor no gênero; bem, você conhece esse sujeito tão bem quanto eu; Nada Alopov, Jean Luxmore e 'todos os nossos conhecidos' há muitos anos são seus fregueses. Ele está sempre no Bar Regina, mas isso também trouxe aborrecimentos, porque Sebastian deu um cheque sem fundos, e uma porção de indivíduos muito mal-encarados invadiram o apar­tamento; meu caro, eram uns verdadeiros assassinos, e Se­bastian que não dizia coisa com coisa; foi desagradabilíssimo."

Boy Mulcaster veio vindo em nossa direção, e, embora não fosse convidado, sentou-se a meu lado.

Lá dentro as bebidas estão acabando — disse ele, e esvaziou nossa garrafa. — Não há uma cara conhecida; só dá preto.

Anthony nem ligou e continuou falando. — Por isso saí­mos de Marselha e fomos para Tânger, e aí, então, Sebastian encontrou seu novo amigo. Como poderei descrevê-lo? Parecia o lacaio daquela fita Warning shadows; um alemão gigantesco, bronco, que esteve na Legião Estrangeira, de onde saiu por ter dado um tiro no dedão grande do pé. O ferimento ainda não tinha sarado. Sebastian encontrou-o faminto, como alco­viteiro de uma das casas do casbá, e levou-o para morar conos­co. Tudo quanto havia de mais macabro. Por isso, meu caro, voltei para a nossa velha Inglaterra. Nossa velha Inglaterra — repetiu a frase, fazendo um gesto largo, que parecia abranger, ao mesmo tempo, os negros jogando a nossos pés, Mulcaster, o olhar parado, e nossa anfitriã de pijama, que vinha apresen­tar-se.

Não os conheço — disse ela. — Nem os convidei. E que estão fazendo aqui todos esses brancos infectos? Até parece que entrei na casa errada.

Num momento de emergência nacional — disse Mul­caster —, tudo pode acontecer.

Que tal a festa? — perguntou nervosa. — Vocês acham que Florence Mills será capaz de cantar? Eu o conheço — disse ela para Anthony.

Há muito tempo, mas você não me convidou para esta festa.

Meu Deus, talvez eu não goste de você. E eu que julgava gostar de todo mundo.

Não seria uma boa piada dar o sinal de alarma de incêndio? perguntou Mulcaster quando nossa anfitriã se afastou.

Sim, Boy, corra e toque o telefone.

Talvez animasse o ambiente.

É isso mesmo.

Por isso Mulcaster saiu à procura do telefone.

Tenho a impressão de que Sebastian e seu companhei­ro capenga foram para o Marrocos francês Anthony continuou a contar. Quando os deixei, estavam às voltas com a polícia em Tânger. A marquesa tem-me azucrinado o espírito desde que cheguei a Londres, quer que eu os localize. Coitada dessa mulher! Tem passado o diabo! Isso mostra a justiça inerente das coisas.

Dali a pouco, Miss Mills começou a cantar, e, com exceção dos jogadores de dados, todo mundo se aglomerou na sala ao lado.

Aquela ali é a minha pequena disse Mulcaster. Ali com aquele preto. Eu vim com ela.

Acho que ela se esqueceu de você.

É. Antes não tivesse vindo. Vamos espairecer por aí.

Dois carros de bombeiros chegavam quando nós saíamos,

e os capacetes de metal foram juntar-se à multidão lá em cima.

Aquele sujeito, aquele Blanche disse Mulcaster —, não presta. Uma ocasião dei um banho nele.

Percorremos vários cabarés. Mulcaster parecia ter reali­zado em dois anos seus sonhos modestos — tornar-se uma figura popular e 'querida nesses antros. No último cabaré, Mulcaster e eu fomos tomados de um grande entusiasmo patriótico.

Nós dois disse ele éramos muito jovens para ir para a guerra. Mas outros combateram, e morreram aos milhares. Nós, porém, não. Agora eles vão ver. Os mortos verão que nós também sabemos lutar.

Foi por isso que eu vim disse eu. Atravessei o oceano para atender ao chamado da pátria em perigo.

Como os australianos.

Como os pobres australianos que morreram.

Em que serviço você se alistou?

Por enquanto em nenhum. A guerra ainda não co­meçou.

Só há uma coisa a fazer; alistar-se no grupo de Bill

Meadow, no Defence Corps[6]. Pessoal todo bom. Estão treinando no Bratt.

Vou aderir.

Você é sócio do Bratt?

Não. Mas vou cuidar disso também.

É isso mesmo. Todo sujeito decente gosta dos heróis mortos.

Por isso aderi ao grupo de Bill Meadow, uma esquadrilha volante que protegia as entregas de víveres nos distritos pobres de Londres. Primeiro, alistei-me no Defence Corps, fiz o juramento, e recebi capacete e cassetête; depois apresentei minha proposta de sócio para o Bratt's Club; fui aceito com outros recrutas numa reunião extraordinária realizada para esse fim. Ficamos uma semana postados no Bratt, e três vezes por dia saíamos de caminhão à frente de um comboio de caminhões de leite. Zombavam de nós, e às vezes éramos carim­bados com esterco, mas só uma vez entramos em combate.

Estávamos fazendo hora depois do almoço quando Bill Meadow voltou radiante, depois de falar ao telefone.

Vamos disse ele. Há uma luta formidável na Commercial Road.

Partimos à toda, e, ao chegarmos ao local da luta, demos com um cabo de metal esticado entre lampiões, um caminhão virado de rodas para o ar, e um policial solitário na calçada, que recebia pontapés de uma meia dúzia de garotos. De cada lado, e a certa distância desse foco de agitação, haviam-se formado dois grupos. Quando descemos do caminhão, vimos outro policial perto de nós, sentado na calçada, tonto, segurando a cabeça entre as mãos, o sangue a escorrer-lhe por entre os dedos; dois ou três simpatizantes pareciam socorrê-lo; do outro lado do cabo, via-se um bando de estivadores em atitude belicosa. Lançamo-nos ao ataque com alegria, fomos em so­corro do policial, e já nos preparávamos para investir sobre o grosso do inimigo, quando colidimos com um grupo de repre­sentantes do clero local e de vereadores, que, chegando ao mesmo tempo por outro caminho, vinham tentar um acordo. Foram nossas únicas vítimas, porque, enquanto eles caíam, ouvia-se um "Cuidado! Tiras!" e um caminhão da polícia cheio de guardas apareceu à nossa retaguarda.

A multidão se dispersou e desapareceu. Apanhamos os pacificadores, só um estava seriamente ferido, patrulhamos as ruas das redondezas na esperança de encontrar barulho, mas estava tudo calmo; finalmente voltamos ao Bratt. No dia seguinte terminou a greve geral em todo o país, exceto nas minas de carvão, e tudo voltou à normalidade. Foi como se um ani­mal de ferocidade lendária tivesse resolvido dar uma demons­tração de força pelo espaço de uma hora, e, ao sentir o perigo, batesse em retirada para sua toca. Não valeu a pena ter saído de Paris.

Jean, que se alistou em outra companhia, teve de se hospitalizar por uma semana; uma viúva idosa, em Camden Tow, atirou-lhe um vaso de samambaia na cabeça.

Por causa de minha inclusão na esquadrilha de Bill Meadow, Julia veio a saber que eu estava na Inglaterra. Telefo­nou-me para dizer que sua mãe desejava muito falar comigo.

Ela está muito mal — disse ela.

Logo na manhã seguinte, depois de a greve terminar, dirigi-me a Marchmain House. Sir Adrian Porson cruzou co­migo no vestíbulo, ele saiu quando eu entrei; enxugava o rosto com um lenço de seda, procurando às cegas seu chapéu e sua bengala; estava debulhado em lágrimas.

Levaram-me para a biblioteca, Julia não tardou a apare­cer. Apertou-me a mão com uma delicadeza e uma seriedade que eu não lhe conhecia; na escuridão da sala ela parecia um fantasma.

Você foi um amor em ter vindo. Mamãe tem per­guntado muito por você, mas agora não sei se ela poderá vê-lo. Acabou de dizer adeus a Adrian Porson e ficou muito cansada.

Adeus?

Sim. Ela está morrendo. Pode durar uma ou duas semanas ainda, ou pode morrer a qualquer momento. Está tão fraca! Vou perguntar à enfermeira.

Já se sentia naquela casa o frio da morte. A biblioteca em Marchmain House nunca era usada. Em ambas as casas era a única sala pouco acolhedora. As estantes de carvalho em estilo vitoriano continham os Anais do Parlamento de Hansard, e enciclopédias obsoletas que ninguém lia; a mesa nua de mogno parecia aguardar a chegada dos membros de alguma assembléia; a sala dava a impressão de ser uma coisa pública, e ao mesmo tempo de ser pouco freqüentada; lá fora, o pátio, as grades, o beco tranqüilo.

Julia voltou dali a pouco.

Infelizmente você não pode falar com ela; está dor­mindo. E pode ficar assim muito tempo; mas posso transmitir-lhe seus cumprimentos. Vamos para outro lugar. Detesto esta sala.

Atravessamos o vestíbulo em direção à saleta, onde os convidados costumavam reunir-se antes do almoço, e sentamo-nos cada um de um lado da lareira. Os tons vermelhos e dou­rados das paredes pareciam emprestar um pouco de cor à palidez de Julia.

Em primeiro lugar, eu sei que mamãe queria pedir-lhe perdão por tê-lo tratado tão mal naquele último encontro. Muitas vezes falou nisso. Ela agora compreende que estava enganada a seu respeito. Mas você deve ter compreendido e com certeza não levou a mal; porém mamãe nunca poderia esquecer uma coisa dessas, não era seu feitio proceder daquela maneira.

Por favor, diga-lhe que não levei a mal.

Quanto à outra coisa, você já deve ter adivinhado. É Sebastian. Ela quer vê-lo. Não sei se isso será possível. Acha que sim?

Pelo que ouvi dizer, ele está em maus lençóis.

Nós também já ouvimos isso. Telegrafamos para o último endereço, mas não obtivemos resposta. Talvez ele ainda chegue a tempo. Assim que ouvi dizer que você estava em Londres, pensei logo em você como a única solução. Poderia ir buscá-lo? Sei que é pedir muito, mas Sebastian ficaria satisfeito também, se soubesse.

Farei o possível.

Não poderíamos pedir urna coisa dessas a mais nin­guém. Rex anda tão ocupado!

Eu sei. Já chegou a meus ouvidos tudo que ele tem feito para organizar o serviço de gás.

Ah, é — disse Julia, e havia qualquer coisa da antiga rispidez em sua voz. — Ele se beneficiou bastante com a greve.

Depois falamos um pouco da esquadrilha do Bratt. Ela me contou que Brideshead não quis se alistar em nenhum serviço público, porque não estava convencido da legitimida­de da causa; Cordélia estava em Londres, mas naquele momento tinha ido descansar, passara a noite à cabeceira da mãe. Disse-lhe que me especializara em desenho arquitetônico, e que gostava daquilo. Mas essa conversa era para encher tempo; o principal já fora dito logo no começo; saí logo depois do chá.

A Air France mantinha uma linha de aviação precária para Casablanca; ali tomei o ônibus para Fez, saí de madru­gada e cheguei à noite. Do hotel telefonei para o cônsul britânico e naquela mesma noite jantei com ele; morava numa casa pitoresca junto às muralhas da cidade velha. Era um homem bom e sério.

Ainda bem que mandaram alguém para tratar do caso desse rapaz Flyte disse ele. Para nós aqui tem sido um caso espinhoso. Este lugar não serve para indivíduos reinci­dentes. Os franceses absolutamente não o compreendem. Para eles, quem não é comerciante é espião. Nem por isso a vida que ele leva é a de um lorde. As coisas aqui são difíceis. Talvez o senhor não acredite, mas combate-se a menos de trinta milhas desta casa. Agora mesmo, na semana passada, passaram por aqui uns malucos de bicicleta; iam se apresentar como voluntários no exército de Abdul Krim.

"Além disso, os mouros são safados; eles não ligam para bebida, e nosso jovem amigo, não sei se o senhor sabe, passa o dia bebendo. Por que ele veio parar aqui? Estaria muito melhor em Rabat ou Tânger, onde tratam os turistas com muitos salamaleques. Ele alugou uma casa na parte da cidade habitada pelos nativos. Procurei demovê-lo de seu intento, mas acabou ficando mesmo com a casa que foi de um francês do Departamento de Arte. Não vou dizer que ele seja um mau sujeito, mas é uma dor de cabeça. Um alemão horroroso da Legião Estrangeira vive a explorá-lo. Em resumo, é uma turma brava. Isso vai acabar mal.

"É preciso que se diga, eu gosto de Flyte. Vejo-o rara­mente. Costumava vir tomar banho aqui antes de sua casa ficar pronta. Era sempre muito delicado, e minha mulher acabou por se afeiçoar a ele. O que ele precisa é ter uma ocupação."

Contei-lhe o motivo de minha visita.

Deve estar em casa agora. Nesta terra não há nada para se fazer de noite. Se quiser posso mandar o porteiro mostrar-lhe o caminho.

E, assim, pus-me a caminho depois do jantar, seguindo atrás do porteiro do consulado, que ia na frente, de lanterna na mão. O Marrocos era para mim uma terra estranha e desconhecida. Viajando de automóvel à luz do dia, milha após milha, pela estrada suave e estratégica, passei pelos vinhedos e postos militares; pelas povoações recentes, todas brancas; pelas primeiras colheitas que já se erguiam alto nos vastos campos abertos; pelos cartazes anunciando mercadorias francesas: Dubonnet, Michelin, Magasin du Louvre; então tudo me pareceu muito suburbano e ultramoderno. Mas, sob a luz das estrelas, na cidade murada, onde as ruas tranqüilas eram escadas poeirentas, espremidas entre muros sem janelas, que pareciam tocar-se por cima de nossas cabeças, para depois abrir-se deixando passar a luz das estrelas; onde a poeira se acumulava entre as pedras lisas do calçamento, e vultos embuçados em vestes brancas, caminhando descalços ou com chinelas macias, esgueiravam-se silenciosamente; e o ar parecia impregnado do perfume de cravo e incenso, e lenha queimada, então eu compreendi a estranha fascinação daquele lugar, e por que Sebastian se deixara ficar ali tanto tempo.

O porteiro do consulado caminhava na frente com arro­gância, balançando a lanterna e batendo com força sua enorme bengala; às vezes, ao passar por uma porta entreaberta, via-se sob uma luz dourada um grupo silencioso sentado ao redor do braseiro.

Gente imunda disse o porteiro com desdém, fa­lando para trás. Sem educação. Francês deixar eles sujos. Não como gente inglesa. Minha gente disse ele sempre como inglês.

Como ele pertencia à polícia sudanesa, encarava esse lu­gar, célula mater de sua civilização, como um neozelandês jul­garia Roma.

Finalmente chegamos à última porta chapeada, numa série interminável de portas, e o porteiro bateu nela com sua bengala.

Casa do lorde inglês disse ele.

Uma cara escura, iluminada pela luz de uma lâmpada, apareceu através das grades. O porteiro do consulado falou grosso; tiraram a tranca, e nós entramos num pátio pequeno, tendo ao centro um poço encimado pelos galhos de uma videira.

Eu esperar aqui disse o porteiro. O senhor vai com nativo.

Entrei, desci um degrau, e estava na sala. Dei com um rapaz sentado entre um gramofone e um fogareiro a óleo. Depois, olhando ao meu redor, percebi outras coisas mais agradáveis; tapetes no chão; nas paredes, panos de seda bor­dada; traves esculpidas e pintadas no teto; a lâmpada pesada e furada pendendo de uma corrente, e que lançava as sombras recortadas de seus desenhos pela sala. Mas, assim que entrei, essas três coisas chamaram minha atenção: o gramofone, por causa do barulho; tocava um disco francês de jazz band; o fogareiro, por causa do cheiro; e o rapaz por causa de sua cara de ave de rapina. Estava esparramado numa cadeira de vime, tinha um dos pés enfaixado e esticado em cima de um caixote; vestia uma roupa leve, dessa espécie de imitação de tweed da Europa central, e uma camisa esporte desabotoada; no pé são, um sapato de lona marrom. A seu lado, uma bandeja de cobre pousada num tripé de madeira; sobre ela, duas garrafas de cerveja, um prato sujo, e um pires cheio de pontas de cigarro; tinha um copo de cerveja na mão; na boca, um cigarro que ficava grudado no lábio inferior quando ele falava. Seus cabelos louros eram compridos e penteados para trás, não reparti­dos, e o rosto extraordinariamente sulcado para uma pessoa visivelmente jovem. Faltava-lhe um dos dentes da frente, por isso às vezes sibilava, outras vezes assoviava de maneira des­concertante, o que ele procurava disfarçar com um risinho; os dentes encardidos de fumo e muito espaçados.

Não havia dúvida, ele era o tal indivíduo que o cônsul tinha em tão mau conceito, o tal lacaio de cinema na descrição de Anthony.

Onde está Sebastian Flyte? Não é aqui que ele mora? falei, gritando para abafar o som da música dançante, e ele me respondeu mansamente num inglês bastante fácil, como se estivesse bem familiarizado com a língua.

S-sim. Mas ele não está. Estou sozinho.

Vim da Inglaterra para tratar de um assunto impor­tante com ele. Onde posso encontrá-lo?

O disco acabou. O alemão trocou o lado, deu corda no gramofone, e só respondeu depois de a música começar a tocar.

Sebastian está doente. Os frades levaram-no para a enfermaria. Talvez deixem o s-senhor falar com ele, não sei. Eu também preciso ir até lá fazer curativo no pé. Vou perguntar. Talvez o senhor possa falar com ele quando ele melho­rar, não sei.

Sentei-me na outra cadeira. Como eu manifestasse minha intenção de ficar ali, o alemão ofereceu-me um pouco de cerveja.

O senhor é irmão de S-Sebastian? disse ele. Um primo, talvez? Casou com a irmã dele?

Sou apenas um amigo. Cursamos a universidade juntos.

Eu tinha um amigo na universidade. Estudávamos história. Meu amigo era mais inteligente que eu; um sujeito fraquinho, eu costumava agarrá-lo e sacudi-lo quando ficava zangado, mas ele era inteligente demais. Certo dia nós falamos assim: "Que diabo! Não há trabalho na Alemanha. A Alema­nha vai por água abaixo", por isso dissemos adeus a nossos professores e eles nos disseram: "É isso mesmo, a Alemanha vai por água abaixo. Os estudantes não têm o que fazer aqui", então nós partimos, e andamos, andamos, até chegar aqui. Aí falamos assim: "A Alemanha não tem Exército, mas nós temos de ser soldados", por isso nos alistamos na Legião. Meu amigo morreu de disenteria no ano passado combatendo nos Atlas. Quando ele morreu, eu falei assim: "Que diabo!", por isso dei um tiro no pé. Agora está cheio de pus, mas isso aconteceu no ano passado.

Está bem disse eu. Isso tudo é muito interes­sante. Mas o problema imediato é Sebastian. Talvez fosse melhor você me falar a respeito dele.

Sebastian é um sujeito muito bom. Não tenho queixa dele. Tânger era um lugar infernal. Ele me trouxe para cá. A casa é boa, a comida também, o criado também. Não tenho queixa a fazer; pelo menos penso que não. Gosto daqui.

A mãe dele está muito doente disse eu. Vim para lhe dar essa notícia.

Ela é rica?

Sim.

Então por que não lhe dá mais dinheiro? Poderíamos morar em Casablanca, quem sabe? num bom apartamento. O senhor é muito amigo dela? Não poderia dar um jeito para ela mandar mais dinheiro?

Que é que ele tem?

Não sei. Acho que bebe demais. Os frades vão cuidar dele.

"Ele está num lugar muito bom. Os frades são bons su­jeitos. É muito barato."

Bateu palmas e pediu mais cerveja.

Viu? Tenho um bom criado para me servir. Está tudo certo.

Quando consegui descobrir o nome do hospital, fui embora.

Diga a Sebastian que ainda estou por aqui e que está tudo bem. Acho que ele está preocupado comigo.

O hospital que visitei na manhã seguinte consistia em uma série de bangalôs entre a cidade velha e a nova. Era mantido por franciscanos. Para chegar à sala dos médicos, tive de passar por uma multidão de mouros doentes. O médico era um leigo de cara raspada, metido num avental branco e engomado. Conversamos em francês e ele me disse que Sebastian estava fora de perigo, mas não agüentaria a viagem. Estava convalescendo de uma gripe, e tinha um pulmão meio afetado; estava muito fraco; não tinha resistência; mas isso era de se esperar, tratando-se de um alcoólatra. O médico falava com uma indiferença quase brutal, como às vezes os cientistas cos­tumam fazer, limitando-se a citar fatos de modo geral, disse­cando sua obra a ponto de reduzi-la a um trabalho estéril. Mas a história contada pelo frade barbado, descalço, a quem ele me recomendara, homem sem pretensões científicas, que realizava os misteres mais baixos na enfermaria, era muito diferente.

Ele é tão paciente! Nem parece um homem tão moço. Fica atirado por aí sem se queixar, e não faltam motivos de queixa. Não temos material. O governo só nos dá as sobras do Exército. E ele é tão bom! Temos aqui em tratamento um rapaz alemão, coitado, portador de uma sífilis secundária, e que tem uma ferida no pé que não cicatriza. Lorde Flyte encontrou-o quase morto de fome em Tânger, tomou conta dele e deu-lhe um lar. Um bom samaritano em toda a acepção da palavra.

"Santa ingenuidade", pensei eu, pobre toleirão. "Deus me perdoe!"

Sebastian estava na ala reservada aos europeus; ali as camas eram separadas por repartições que formavam pequenos cubículos, o que permitia um certo isolamento. Deitado com as mãos pousadas sobre as cobertas, ele olhava fixamente para a parede, que tinha como único enfeite uma óleo-gravura com um motivo religioso.

Seu amigo — disse o frade.

Ele virou-se devagar.

Ah! pensei que fosse Kurt. Charles, como você veio parar aqui?

Sua magreza era extrema; Sebastian parecia fenecer com a bebida, que em geral torna os indivíduos gordos e corados. O frade foi embora, e eu me sentei na beira da cama, puxando conversa a respeito de sua doença.

Fiquei uns dois dias inconsciente — disse ele. — Ti­nha a impressão de estar de volta a Oxford. Você esteve em minha casa? Que tal? E Kurt ainda está aí? Não lhe vou perguntar se gostou dele. Ninguém gosta de Kurt. É engraça­do, eu não poderia viver sem ele.

Dei-lhe então as notícias sobre sua mãe. Ficou calado por alguns minutos, olhando para a óleo-gravura das Sete Dores. Depois:

Coitada da mamãe. Foi, em toda a expressão da pa­lavra, uma femme fatale, não foi? — Seu hálito matava.

Telegrafei a Julia dizendo que Sebastian não poderia via­jar, e passei uma semana em Fez, indo diariamente ao hospital até ele poder andar. Em minha segunda visita, ele pediu conhaque; foi esse o primeiro sintoma de melhora. Já no dia seguinte, não sei como arranjou a bebida e escondeu a garrafa debaixo das cobertas.

O médico falou: — Seu amigo continua bebendo. Isso não é permitido. Que vou fazer? Este lugar não é um reformatório. Não posso policiar as enfermarias. Estou aqui para curar doentes, e não para corrigir ninguém, nem ensinar o próximo a se controlar. No momento atual, o conhaque não lhe fará mal. Mas vai minando sua resistência orgânica, até que um dia, puf! a menor complicação poderá vir a ser fatal. Esta casa não é um sanatório para alcoólatras inveterados. Ele só pode ficar até o fim da semana.

O irmão-converso disse: — Seu amigo está com outra cara hoje, parece uma transfiguração.

"Pobre frade simplório", pensei eu, "que tolo." Mas ele continuou: — Sabe por quê? Tem uma garrafa escondida na cama. É a segunda que eu descubro. Mal tiro uma, ele arranja logo outra. É muito travesso. Os árabes fornecem-lhe a bebida. Mas é um consolo vê-lo novamente feliz, ele andava tão triste!

Na última tarde que passei ali, eu perguntei: — Sebastian, agora que sua mãe morreu recebêramos a notícia na­quela manhã —, você pensa em voltar à Inglaterra?

De certo modo, seria o ideal disse ele —, mas você acha que Kurt gostaria da idéia?

Mas, pelo amor de Deus! disse eu você não vai passar o resto da existência com esse Kurt, vai?

Não sei. Mas ele parece que tem a intenção de ficar comigo para sempre. Talvez dê certo para ele, não sei disse Sebastian imitando a maneira de Kurt falar, depois con­tinuou: Você sabe, Charles, é uma sensação bem agradável ter alguém que dependa da gente, quando se passou a vida inteira dependendo dos outros. Mas só mesmo um caso per­dido precisaria de mim. Se eu tivesse prestado atenção a essas palavras, teria encontrado então a solução do problema, mas na hora limitei-me apenas a ouvir, e, embora elas tivessem ficado gravadas em minha memória, não lhes dei a menor importância.

Antes de minha partida, consegui endireitar as finanças de Sebastian. Ele vivia se encalacrando; depois telegrafava aos advogados para pedir mais dinheiro. Fui falar com o gerente da filial do banco, providenciei para que ele recebesse a mesada de Sebastian enviada de Londres, e lhe entregasse uma certa quantia por semana, para as despesas diárias, deixando de lado uma reserva para os extraordinários. Essa quantia deveria ser entregue a Sebastian pessoalmente, e somen­te quando o gerente estivesse de acordo com a aplicação dada ao dinheiro. Sebastian concordou com tudo isso de boa vontade.

Do contrário disse ele —, numa de minhas bebe­deiras, Kurt é capaz de me fazer assinar um cheque para retirar o dinheiro todo, e depois se meter em alguma encrenca.

Levei Sebastian para casa quando ele saiu do hospital. Sentado na cadeira de vime, parecia ainda mais fraco do que quando o vi deitado na cama. Os dois doentes, Kurt e Sebas­tian, estavam sentados, um diante do outro; no meio, o gramofone.

Já não era sem tempo disse Kurt. Sinto falta de você.

É mesmo, Kurt?

Talvez. Quando a gente está doente, não é muito agradável ficar sozinho. Aquele sujeito é preguiçoso, está sem­pre sumindo quando preciso dele. Uma ocasião passou a noite fora; quando acordei, não tinha ninguém para me fazer café. Não é brincadeira um pé cheio de pus. Às vezes durmo mal. De outra vez, dou o fora também, e vou procurar quem trate de mim. — Bateu palmas, mas o criado não apareceu. — Está vendo? — disse ele.

Que quer você?

Cigarros. Estão na bolsa, debaixo da minha cama.

Sebastian começou a levantar-se da cadeira com esforço.

Deixe que eu vou — disse eu. — Qual é a cama dele?

Não, é minha obrigação — disse Sebastian.

É — disse Kurt —, acho que é obrigação de Sebas­tian.

E assim eu o deixei com seu amigo, naquela casa minús­cula, cercada de muros, lá no fim do beco. Nada mais podia fazer por Sebastian.

Tinha planejado voltar diretamente para Paris, mas por causa dessa história da mesada de Sebastian fui obrigado a ir a Londres para falar com Brideshead. Viajei por mar, tomei o navio em Tânger, e em princípios de junho cheguei à Inglaterra.

Você acha que a amizade de meu irmão por esse alemão é normal? — perguntou Brideshead.

Não. Não tenho certeza. Apenas dois náufragos que procuram nadar contra a corrente.

Mas você não disse que ele é um criminoso?

Falei apenas em "criminoso potencial". Esteve numa prisão militar, e foi expulso por incapacidade moral.

E, na opinião do médico, Sebastian está se suicidando com a bebida?

Está se enfraquecendo. Não está tuberculoso, nem tem cirrose.

Ele está louco?

Claro que não. Apenas encontrou um companheiro a quem se afeiçoou, e um lugar em que lhe apraz morar.

Nesse caso, ele receberá sua mesada, mas da maneira proposta por você. Não há dúvida a respeito.

Sob certos aspectos, Brideshead era um indivíduo compreensivo. Tinha um temperamento positivo, que o fazia tomar decisões rápidas e incisivas.

De repente, perguntou: — Você gostaria de pintar esta casa? Um quadro vendo-se a frente; outro, os fundos dando para o parque; outro da escadaria; e um da sala de visitas.

Quatro quadros pequenos a óleo; é esse o desejo de meu pai, para guardar como lembrança em Brideshead. Não conheço nenhum pintor. Julia me disse que sua especialidade é arquitetura.

Pois sim disse eu. Com muito prazer.

Você sabe que a casa vai ser demolida? Papai vai vendê-la. Para construir um bloco de apartamentos. Vão con­servar o mesmo nome, ao que parece; nada podemos fazer contra isso.

Que pena.

Também acho. Mas que acha você do ponto de vista arquitetônico?

É uma das casas mais bonitas que conheço.

Não concordo. Sempre me pareceu bastante feia. Seus quadros talvez me convençam do contrário.

Foi essa a primeira encomenda que recebi; o tempo era escasso, os empreiteiros esperavam apenas assinar a escritura para começar a demolição. Apesar da pressa, e talvez pór isso mesmo, porque tenho a mania de levar muito tempo retocando meus trabalhos, esses quadros são os meus preferidos; e o fato de terem causado tão boa impressão, não só no meu caso par­ticular, como junto a outras pessoas também, fez com que eu me decidisse na escolha de minha carreira.

Comecei pela sala de visitas, porque tinham pressa de retirar os móveis, que ali estavam desde a construção da casa. A sala era comprida, cheia de enfeites, simétrica, em estilo Adam, com duas janelas envidraçadas dando para o Green Park. A luz do sol poente, entrando naquela tarde em que eu come­cei a pintar, parecia ter adquirido das árvores novas lá fora um tom verde reluzente.

Fiz o esboço a lápis, desenhando os detalhes com minú­cia. Custei a usar as tintas, como uma pessoa à beira d'água hesitando em mergulhar; mas, quando mergulhei, senti-me leve, alegre. Em geral eu era um pintor vagaroso e minucioso; mas naquela tarde, e nos dias seguintes, trabalhei com sofreguidão. Tudo dava certo. Ao terminar cada uma das fases do quadro, parava nervoso, com medo de atacar outra parte da pintura, como o jogador receoso de arriscar a pilha de fichas noutra jogada. Aos poucos o quadro ganhou vida. Não sentia a menor dificuldade; as nuanças de luz e cor fundiam-se num todo, parecia encontrar a cor desejada já pronta na palheta; cada pincelada, antes de secar, já estava em seu lugar certo.

Na última tarde, ouvi uma voz dizer atrás de mim: — Posso ficar aqui olhando?

Era Cordélia.

Pode, se não falar — disse eu, continuando a traba­lhar, esquecendo-me de sua presença, até ser obrigado a guar­dar os pincéis, porque o sol começava a desaparecer.

Como deve ser bom pintar assim.

Nem me lembrava mais dela.

E é mesmo.

Tinha pena de deixar o quadro, embora o sol tivesse desaparecido e o quarto parecesse esbater-se num tom neutro. Tirei o quadro do cavalete, levei-o até a janela, recoloquei-o no lugar e retoquei uma sombra. Depois, sentindo a cabeça e os olhos pesados, as costas e o braço doridos, desisti e voltei-me para Cordélia.

Nessa ocasião ela tinha quinze anos, e crescera muito em um ano e meio, atingindo quase que seu desenvolvimento completo. Não prometia ser uma grande beleza como Julia, que parecia sair de um quadro da Renascença; tinha qualquer coisa de Brideshead, visível no nariz alongado, e nas maçãs salientes do rosto; estava de luto pela mãe.

Estou cansado — falei.

Não duvido. Já acabou?

Quase. Mas terei de fazer outros retoques amanhã.

Você sabe que já passou muito da hora do jantar? Agora não há mais empregados aqui para cozinhar. Cheguei hoje, e não fazia a menor idéia do estado lastimável das coisas por aqui. Você quer me levar a algum lugar para jantar?

Saímos pela porta do jardim, atravessamos o parque, e caminhamos no lusco-fusco até o Ritz Grill.

Você esteve com Sebastian? Ele não vai voltar, nem mesmo agora?

Até aquele momento não tinha percebido que ela estava perfeitamente a par da situação. E foi o que eu lhe disse.

Bem, é a pessoa de quem mais gosto no mundo. É uma pena Marchers acabar, não é? Você sabe, vão fazer um bloco de apartamentos, e Rex queria ficar com o que ele chama "a mansarda", no último andar. Só mesmo Rex. Coitada de Julia. Não agüentou. E não houve meio de ele compreender; na opinião de Rex, Julia haveria de gostar de morar no lugar onde sempre viveu. Tudo acabou tão depressa, não foi? Parece que papai já estava endividado há muito tempo. A venda de Marchers equilibrou suas finanças, e com isso economizou não sei quanto por ano de impostos. Mas é uma pena demolirem a casa. Julia diz que antes isso do que ver estranhos morando lá.

Com quem você vai ficar?

Eu? Há várias hipóteses. Tia Fanny Rosscommon quer que eu fique com ela. Julia e Rex falam de tomar metade de Brideshead e morar lá. Papai não quer voltar. Pensamos que ele talvez o fizesse, mas ele não quer.

"Fecharam a capela em Brideshead, Bridey e o bispo; a missa de réquiem rezada por mamãe foi o último ofício reli­gioso realizado ali. Depois do enterro, o padre veio, acho que não me viu, eu estava sozinha; tirou a pedra do altar, e colocou-a em sua maleta; queimou os algodões com os santos óleos, e jogou fora as cinzas; esvaziou a pia de água benta, apagou a lâmpada do santuário, deixando-o aberto e vazio, como se daqui por diante estivéssemos sempre na Sexta-Feira da Paixão. Pobre Charles, como agnóstico, você não deve compreender patavina! Esperei que ele saísse, e de repente não era mais a capela, mas uma sala qualquer, arranjada de maneira esquisita. Não posso explicar-lhe o que senti. Você já assistiu ao ofício de trevas?"

Nunca.

Bem, se tivesse assistido ficaria sabendo o que os judeus sentiram ao ver o templo. "Quomodo sedei sola civitas..." é um cântico maravilhoso. Vale a pena você ir só uma vez, para ouvi-lo.

Cordélia, você ainda está tentando me converter?

Oh! não. Isso já passou também. Sabe o que papai disse quando se converteu? Mamãe contou-me uma ocasião. Ele lhe disse: "Você fez com que minha família voltasse à fé de seus antepassados". Muito pomposo. Cada qual reage a seu modo; contudo, a família não tem permanecido fiel, não é? Ele desertou, Sebastian também, e Julia. Mas você verá, Deus não os deixará longe do aprisco por muito tempo. Você se lembra daquela história que mamãe nos leu a primeira vez em que Sebastian se embriagou? Eu me refiro àquela noite terrível. "Padre Brown", disse mais ou menos isso, "eu o apanhei (o ladrão) com um anzol invisível preso a uma linha também invisível, mas bastante comprida, de modo a permitir que ele se afastasse até os confins do universo; mas bastaria recolher a linha para trazê-lo de volta."

Pouco falamos da mãe dela. Enquanto conversávamos, ela ia comendo com um apetite voraz. De repente, disse:

Você viu o poema de Sir Adrian Porson no Times? É esquisito, ninguém a conheceu melhor que ele; Sir Adrian gostou dela a vida inteira, e, no entanto o poema não tem nada a ver com ela.

"De nós todos, era eu que melhor compreendia mamãe, mas não creio que tivesse realmente gostado dela. Pelo menos, não como ela esperava e merecia. É esquisito, porque sou carinhosa por natureza."

Eu nunca cheguei a compreender sua mãe — disse eu.

Você não gostava dela. Às vezes chego a pensar que quem não queria amar a Deus odiava mamãe.

Cordélia, que quer você dizer com isso?

Bem, você compreende, ela era uma santa criatura, mas não era santa. Ninguém pode odiar um santo, não é? Nem se pode odiar a Deus de verdade. Quando alguém quer ter ódio de Deus e de seus santos, tem de criar uma imagem à seme­lhança de Deus para voltar seu ódio contra essa pessoa. Você deve estar achando tudo isso uma tolice.

Já ouvi, de alguém muito diferente de você, qualquer coisa de parecido.

Mas eu estou falando a sério. Pensei muito no caso. Coitada de mamãe, talvez seja essa a explicação.

E, então, essa criança extraordinária atirou-se ao jantar com maior prazer ainda.

Esta é a primeira vez que me convidam para jantar a sós num restaurante — disse ela.

Depois: — Quando Julia ouviu falar da venda de Marchers, disse: "Coitada de Cordélia, afinal de contas, seu pri­meiro baile não será mais realizado ali". Eram coisas que costumávamos falar, como eu ser sua demoiselle d'honneur. Isso também gorou. No baile de Julia tive licença de descer por uma hora, e fiquei sentada num canto com tia Fanny, e ela falou: "Daqui a seis anos será a sua vez..." Gostaria de ter vocação religiosa.

Não sei o que isso quer dizer.

Quer dizer que eu poderia ser freira. Se a gente não tem vocação, não adianta querer, e, se a gente tem vocação, não adianta fugir, por mais que se odeie a idéia. Bridey pensa ter e não tem. Eu costumava pensar que Sebastian tinha, mas não queria, mas agora não sei. De repente mudou tudo.

Essa conversa de convento me irritou. Naquela tarde eu sentira o pincel correr sozinho sobre a tela; sentira em minha mão o poder criador. Naquela noite eu era um artista da Renascença, a Renascença de Browning. Eu que caminhara nas ruas de Roma em vestes de veludo genovês, e olhara as estre­las pelo telescópio de Galileu, e desprezara os monges e seus alfarrábios empoeirados, e seus olhos fundos, cheios de inveja, e seu falar azedo e sutil.

Um dia você virá a gostar de alguém — disse eu.

Deus queira que não. Escute aqui, posso comer outro desses merengues deliciosos?

 

Recordar é meu leitmotiv, lembranças trazidas nas asas da fantasia, e que vieram povoar meu cérebro numa manhã cinzenta em plena guerra.

Essas recordações, minha razão de ser, porque só o pas­sado nos pertence, nunca me abandonaram. Como os pombos na Praça de São Marcos, pareciam estar em todo canto; a meus pés, pavoneando-se aos pares ou em bandos gárrulos; mexendo a cabeça; piscando; alisando a penugem do pescoço; pousando em meu ombro, se eu ficava parado. Mas à tardinha, quando o tiro do canhão soava com estrondo, num abrir e fechar de olhos, com grande alarido e bater de asas, o chão ficava limpo e o céu coberto por uma multidão de aves. Fora assim naquela manhã durante a guerra.

Depois dessa conversa com Cordélia, seguiu-se um ma­rasmo de quase dez anos, em que fui rolando por uma estrada aparentemente cheia de incidentes e mudanças, mas com exceção de raros instantes que ocorriam sempre com menor freqüência, quando eu pintava, nunca mais me senti vibrar como na época de minha amizade com Sebastian. Eu julgava que estava perdendo a mocidade e não a vida. Meu trabalho me sustinha, porque minha escolha fora acertada, eu pintava com habilidade crescente, e com prazer. Acidentalmente, naquela época ninguém se dedicava a esse gênero de pintura. Tornei-me pintor de arquitetura.

Apesar de apreciar o trabalho dos grandes arquitetos, eu gostava muito mais ainda das casas que pareciam crescer silenciosamente com os séculos, absorvendo as melhores quali­dades das gerações que por elas passavam, e onde a pátina do tempo quebrara o orgulho do artista e apagara a vulgaridade, suavizando o trabalho grosseiro do operário boçal. A Ingla­terra estava cheia de casas assim, e os ingleses, na última dé­cada de sua grandeza, pareciam se aperceber pela primeira vez daquilo a que se haviam acostumado, dando valor àquelas construções que já estavam fadadas à destruição. Essa foi a razão de minha prosperidade, muito acima de meu merecimen­to; a técnica cada vez mais apurada, meu entusiasmo pelo assunto, e minha independência diante dos conceitos vulgares, eram os únicos atributos que recomendavam meu trabalho.

O colapso financeiro verificado naquela época, deixando muitos pintores sem trabalho, contribuiu no entanto para aumentar meu sucesso, o que em si já era um sintoma de deca­dência. Quando os olhos-d'água secam, os viajantes procuram beber a miragem. Depois da minha primeira exposição, recebi chamados de todas as partes do país para pintar quadros de casas que estavam para ser abandonadas ou relegadas a funções menos nobres. Aliás, minha chegada era um mau pressá­gio, parecia preceder de pouco a entrada do leiloeiro.

Publiquei três infólios: Mansões rurais de Ryder, Lares britânicos de Ryder e Arquitetura provinciana e de aldeia de Ryder, vendidas a cinco guinéus cada, em edições de mil exem­plares. Era difícil não agradar, meus clientes e eu estávamos de acordo, tínhamos o mesmo objetivo.   

Mas, com o passar dos anos, eu tinha a impressão de ter perdido alguma coisa, aquela sensação experimentada em Marchmain House, e depois raramente sentida, feita de paixão, sinceridade e convicção de realizar um trabalho transcen­dente, em uma palavra, a inspiração.

Em busca dessa miragem, resolvi fazer uma viagem de dois anos; parti de acordo com os moldes clássicos, carregado de material de pintura, e fui refrescar minhas idéias estudando a arte de outros povos. Mas a Europa não me interessava, seus tesouros estavam muito bem guardados, abrigados com carinho pelas mãos dos peritos, o respeito que inspiravam parecia ofuscar seu brilho. A Europa poderia ficar para depois, era cedo ainda, pensava eu, não tardaria a chegar o dia em que eu viria a precisar da ajuda de outra pessoa para armar o cavalete e carregar a caixa de tintas, e onde eu não ousaria afastar-me muito de um bom hotel, nem poderia viver sem a frescura da brisa e o calor do sol; nesse dia eu iria descansar meus velhos olhos na Alemanha e na Itália. Mas agora, enquanto tivesse forças, iria para as terras selvagens, onde o homem abdicara de seus direitos, e a selva voltara a imperar sobre seus antigos domínios.

Assim, atravessei o México e a América Central, em etapas lentas, mas nem por isso com facilidade, num universo diferente, que parecia corresponder a todos os meus anseios, longe dos parques e das velhas mansões; essa mudança deveria bastar como estímulo e cura para o meu desajustamento interior. Eu buscava inspiração entre as ruínas dos palácios, mos­teiros cobertos de mato, e igrejas decrépitas, onde os morce­gos pendurados no teto pareciam favas secas, e o único sinal de vida era dado pelas formigas no seu incessante vaivém cavando túneis nos canteiros fartos; cidades aonde nenhuma estrada ia dar, e mausoléus que serviam de abrigo contra a chuva para uma única família de índios batendo os dentes com calafrios. Foi nesse lugar que, em meio às maiores dificuldades, doenças e às vezes com perigo, eu realizei os primeiros dese­nhos para a América Latina de Ryder. Após algumas semanas de descanso, eu vinha para a zona comercial e de turismo para recuperar-me, instalava o estúdio, passava a limpo os esboços, e, quando as telas ficavam prontas, empacotava-as febrilmente, despachava-as para meu agente em Nova York, e voltava então para a selva com o meu reduzido séquito.

Não fazia muita questão de estar em contato com a In­glaterra. Meu itinerário era traçado de acordo com os conse­lhos da própria gente do lugar, e não obedecia a um plano preestabelecido, por isso perdi uma grande parte de minha correspondência, e o resto se acumulava de tal maneira, que seria impossível ler tudo de uma só assentada. Costumava meter um punhado de cartas na sacola para ler quando me sentisse disposto, mas naquelas circunstâncias estapafúrdias, a balançar numa rede, ou debaixo de um mosquiteiro à luz de uma lanterna; descendo um rio de canoa, escarrapachado no meio da embarcação, enquanto os moleques atrás de mim, ma­nobrando com preguiça, procuravam evitar as margens para não encalharmos, e as águas escuras nos seguiam pari passu na sombra verde; as árvores enormes erguendo-se majestosas, e os macacos guinchando no crepúsculo, lá no alto entre as flo­res no cimo da floresta; ou na varanda de algum rancho hospi­taleiro, onde o barulho do gelo nos copos tinia tanto como o chocalhar dos dados, e uma oncinha brincava com a corrente no gramado aparado; aquelas cartas pareciam vir de tão longe, que não tinham a menor significação; como uma conversa de caixeiros viajantes num trem na América, parecia entrar por um ouvido e sair pelo outro.

Mas, apesar desse isolamento, e de uma temporada tão longa em terra estranha, eu continuava o mesmo, ainda era só uma pequena parte de mim mesmo que fingia ser o todo. Descartei-me da experiência adquirida nestes dois anos junto com minha indumentária tropical, e voltei a Nova York exata­mente como de lá saíra. Os resultados tinham sido compen­sadores, onze quadros e uns cinqüenta desenhos, e, quando finalmente exibi meus trabalhos em Londres, os críticos, que, até aquela ocasião, em grande parte haviam-se mostrado bene­volentes acompanhando meu sucesso popular, descobriram no­vas qualidades em minha pintura. "Mr. Ryder", escreveu a meu respeito o crítico mais conceituado, "parece um filhote de truta pulando fora d'água para receber uma injeção hipodérmica de uma cultura nova, revelando uma faceta brilhante no horizonte de suas possibilidades... Ao dirigir a bateria francamente convencional de sua elegância e erudição sobre o maelstrom da barbaria, Mr. Ryder finalmente descobriu sua vocação."

Palavras simpáticas, mas infelizmente muito pouco verdadeiras. Minha mulher, que viera encontrar-me em Nova York, ao ver exposto ali no escritório de meu agente o fruto da nossa separação, resumiu melhor a situação dizendo: "Bem, não há dúvida, os trabalhos são brilhantes, e têm uma certa beleza, um pouco sinistra, mas, contudo, não é bem seu gênero ".

Na Europa, minha mulher passava às vezes por america­na, por causa de sua elegância vistosa, e também pelo seu tipo de beleza, que tinha um certo ar saudável; na América, ela adotava uma atitude britânica cheia de delicadeza e discrição. Chegara uns dois dias antes de mim e estava no cais à minha espera.

Há quanto tempo — falou carinhosamente quando me viu.

Minha mulher não me acompanhou nessa viagem, dizen­do aos nossos amigos que o lugar era inóspito, e, além disso, tinha de cuidar do filho. E agora tinha mais uma filha, frisou ela; lembrei-me então de ter ouvido falar qualquer coisa a esse respeito antes de partir, e isso era mais uma razão para pren­dê-la em casa. Em suas cartas também tocava no assunto.

Acho que você não leu minhas cartas — falou minha mulher, já tarde da noite, quando finalmente, depois de um jantar comemorativo e de algumas horas perdidas num cabaré, ficamos sozinhos no quarto do hotel.

Algumas se perderam. Lembro-me distintamente de você me contar que os narcisos no pomar estavam uma beleza, que a babá era uma pérola, e a cama de baldaquim, estilo Regência, um achado, mas francamente não me recordo de ter lido o nome do novo rebento. Mas por que você lhe deu o nome de Caroline?

Foi tirado de Charles, naturalmente.

Ah!

Convidei Berta van Halt para madrinha, contando com um bom presente. Sabe o que ela deu?

O pão-durismo de Berta van Halt é conhecido. E então?

Um "livro do bebê", de quinze xelins. Agora que Johnjohn tem uma companheira...

Quem?

Seu filho, meu bem. Esqueceu-se dele também?

Pelo amor de Deus — disse eu —, por que lhe deu esse apelido?

Ele mesmo o inventou. Você não acha um amor? Agora que Johnjohn tem uma companheira, é melhor espe­rarmos um pouco, você não acha?

Como você quiser.

Johnjohn fala muito em você. Ele reza toda noite para você voltar são e salvo.

Ia conversando enquanto se despia, esforçando-se por parecer natural; depois sentou-se à penteadeira, passou um pente nos cabelos, e com as costas nuas voltadas para mim, olhando-se ao espelho, disse: — Posso pôr meu rosto para dormir?

Era uma frase familiar que me desagradava; o que ela queria dizer com isso era o seguinte: podia tirar a maquilagem, passar creme no rosto e pôr a rede no cabelo?

Não — respondi —, já não.

Então ela sabia o que eu queria. Nesse particular, tinha métodos higiênicos e de bom gosto também, mas seu sorriso acolhedor demonstrava uma sensação de alívio e triunfo.

Separamo-nos depois, e ficamos fumando em nossas ca­mas separadas, a um metro de distância, mais ou menos.

Olhei meu relógio, eram quatro horas, mas nós não tí­nhamos sono, porque naquela cidade há uma psicose no ar, que seus habitantes tomam por energia.

Charles, acho que você não mudou nada.

É, também acho.

Você gostaria de mudar?

É o único sinal de vitalidade.

Mas você poderia mudar tanto a ponto de não gostar mais de mim.

Há esse perigo.

Charles, você não gosta mais de mim?

Você mesma disse que eu não mudei.

Bem, estou começando a pensar que sim. Eu não mudei.

Não — disse eu —, estou vendo.

Você não estava um pouco apreensivo com o nosso encontro?

Nem um pouco.

Você não tinha receio de que eu me apaixonasse por outra pessoa?

Não. Você se apaixonou?

-— Você sabe que não. E você?

Não. Não estou apaixonado.

Minha mulher parece que se deu por satisfeita com essa resposta. Casara comigo seis anos antes por ocasião de minha primeira exposição, e desde então trabalhara muito por nossos interesses. No consenso geral ela era a "autora" de meu sucesso, embora ela própria reconhecesse ter contribuído apenas com um ambiente simpático; minha mulher acreditava pia­mente no meu talento, no "temperamento artístico", e no seguinte princípio: fazer tudo às claras.

De repente ela falou: — Você está contente por voltar para casa? — Eu recebi de meu pai como presente de casa­mento o dinheiro para comprar uma casa, e decidira-me por um antigo presbitério no lugar onde minha mulher nascera. — Tenho uma surpresa para você.

Ah, é?

Transformei o celeiro num estúdio, assim você não será perturbado pelas crianças ou pelas visitas. Emden fez o projeto. Todos gostaram muito. Saiu até num artigo do Country Life, trouxe-o para você ver.

Mostrou-me o artigo... "Um exemplo feliz de um plano bem-arquitetado... a adaptação inteligente realizada por Sir Joseph Emden de uma casa antiga às necessidades moder­nas..."; havia algumas fotografias; tábuas largas de carvalho cobriam agora o chão de terra batida; e na parede, do lado norte, via-se uma janela envidraçada, alta, numa moldura de pedra, e o telhado enorme de vigas de madeira, que antiga­mente não se podia ver por causa da escuridão, agora saltava à vista, bem iluminado, o reboco imaculadamente branco entre as vigas; parecia a sala de reuniões do Conselho na vila. Ainda me lembrava do cheiro característico daquele lugar, mas que agora não seria mais sentido.

Eu gostava bastante daquele celeiro disse eu.

Mas você poderá trabalhar ali, não é?

Depois de pintar agachado sob uma nuvem de mosqui­tos disse eu —, sob um sol causticante que queimava o papel onde eu desenhava, poderia trabalhar no teto de um ônibus. Talvez o vigário peça o lugar emprestado para realizar suas partidas de whist.

Trabalho é que não lhe falta. Prometi a Lady Anchorage que você faria Anchorage House logo que chegasse. Tam­bém vai ser demolida, lojas embaixo, e apartamentos de duas peças em cima. Charles, quem sabe se essa pintura exótica não vai prejudicar seu trabalho agora?

Por quê?

Bem, é tão diferente. Não se zangue.

É outra selva a desbravar.

Meu bem, eu compreendo perfeitamente. A Georgian Society fez tanto barulho, mas que podíamos fazer... Você recebeu minha carta a respeito de Boy?

Não sei. O que dizia?

Boy Mulcaster era irmão de minha mulher.

Falava do noivado dele. Agora não tem importância, porque foi desmanchado, mas papai e mamãe ficaram tão aborrecidos! Ela era uma mulherzinha horrível. No fim, foi preciso lhe dar dinheiro.

Não, não soube de nada a respeito de Boy.

Johnjohn é muito agarrado com ele. É uma delícia ver os dois juntos. Quando Boy aparece lá em casa, a primeira coisa que faz é ir direto ao velho presbitério. Vai entrando, não dá bola para ninguém, e vem berrando: "Onde está meu amigo Johnjohn?" Johnjohn despenca escadas abaixo, e lá se vão os dois juntos brincar no bosque horas a fio. Quando con­versam parecem duas crianças. Aliás, foi Johnjohn quem aca­bou convencendo Boy da tolice que ia fazer; é verdade mesmo, ele é muito esperto. Deve ter prestado atenção em minha conversa com mamãe, porque logo depois, na primeira aparição de Boy, ele disse: "Titio Boy não vai casar com moça feia e deixar

Johnjohn". Foi nesse dia que Boy fez um acordo para não ir a juízo, e pagou duas mil libras. A admiração de Johnjohn por Boy é tremenda, e ele procura imitá-lo em tudo. Isso é muito bom para ambos.

Levantei-me, dirigi-me mais uma vez ao aparelho de calefação para diminuir o calor, mas sem resultado; bebi água gelada, abri a janela, mas o ar da noite era cortante e do quarto ao lado vinha o som de música de rádio. Fechei a janela e voltei para perto de minha mulher.

Dali a pouco ela recomeçou a falar, a voz era arrastada... — O jardim está ficando muito bonito... As sebes que você plantou cresceram cinco polegadas o ano passado... Mandei vir gente de Londres para endireitar as quadras de tênis... Temos agora uma cozinheira ótima...

Quando a cidade lá embaixo começou a despertar, nós dois adormecemos, mas não dormimos por muito tempo; o telefone tocou e uma voz de sexo indefinido falou com alegria forçada: Savoy-Carlton Hotel. Bom dia. São quinze para as oito.

Não pedi para me chamarem.

Como?

Não faz mal.

Seja bem-vindo.

Enquanto fazia a barba, minha mulher, dentro da banhei­ra, falou: — Exatamente como nos velhos tempos. Charles, já estou tranqüila.

Ótimo.

Estava com um medo danado que esses dois anos fizessem alguma diferença. Agora vejo que retomamos a vida no ponto em que a deixamos.

Parei de fazer a barba.

Como é? perguntei. Que história é essa?

Quando você partiu, lógico.

Você não está se referindo a outra coisa, um pouco antes?

Oh, Charles, isso é história antiga. Não tinha impor­tância. Nunca teve. Está tudo acabado e esquecido.

Eu só queria saber disse eu. Então estamos como estávamos no dia em que parti, não é?

E assim, naquele dia, retomamos o fio da meada partida dois anos antes, com minha mulher debulhada em lágrimas.

A suavidade e a discrição britânica de minha mulher, seus dentes miúdos, muito brancos e certos, suas unhas rosa­das e bem-tratadas, seu ar inocente de colegial travessa, sua maneira juvenil de vestir-se; suas jóias modernas, que custavam caro e davam a impressão de serem feitas em série; seu sorriso simpático e sempre pronto; o respeito com que ela me tratava, e sua dedicação ao cuidar de meus interesses; seu ca­rinho maternal demonstrado pelos telegramas diários enviados à babá; em resumo, seu encanto extraordinário conquistou os americanos, de modo que no dia de nossa partida a cabine es­tava cheia de embrulhos em papel celofane, flores, frutas, bombons, livros, brinquedos para as crianças, tudo isso envia­do por amigos de uma semana apenas. Os camareiros de bordo são como as enfermeiras de uma casa de saúde, costumam jul­gar os passageiros pelo volume e importância desses troféus, por isso iniciamos a viagem cercados de grande consideração.

A primeira preocupação de minha mulher ao chegarmos a bordo foi tomar conhecimento da lista de passageiros.

Uma porção de conhecidos — disse ela. — Vai ser uma viagem divertida. Vamos dar um coquetel hoje.

Mal arrearam as escadas de bordo e ela já estava ao telefone.

Julia. Aqui é Celia, Celia Ryder. Que surpresa agra­dável encontrá-la a bordo. Que fim você levou? Venha tomar um coquetel hoje à tarde e conte-me as novidades.

Quem é essa Julia?

Mottram. Há anos não a vejo.

Nem eu; aliás, desde o dia do meu casamento, desde o dia do vernissage de minha exposição, não falava com ela. Naquela ocasião as quatro telas de Marchmain House, cedidas por Brideshead, tinham ficado lado a lado, chamando muita atenção. Esses quadros representavam o fim de minhas relações com os Flyte; depois de uma intimidade tão grande durante uns dois anos, nossas vidas tinham seguido rumos diferentes. Eu sabia que Sebastian ainda estava fora; às vezes ouvia falar que Rex e Julia não eram felizes. A carreira de Rex não pro­gredira de acordo com os prognósticos feitos a seu respeito; ele continuava nos bastidores do governo, mas numa situação bastante escusa. Embora vivesse no meio de milionários, seus discursos denunciavam tendências revolucionárias, namorando tanto os comunistas como os fascistas. Às vezes, em conversa, ouvia falar dos Mottram; seus retratos apareciam de vez em quando no Tatler, eu os via então, quando folheava impaciente algum número da revista, enquanto fazia hora. Mas eu os perdera de vista, como só mesmo na Inglaterra isso pode acontecer; planetas de um mesmo sistema girando em órbitas diferentes; talvez na física se encontre uma metáfora mais apropriada, pelo menos em meu fraco entender, nas partículas de energia que se agrupam e tornam a reagrupar-se para for­mar sistemas magnéticos independentes. Para o conhecedor do assunto, essa metáfora é feita de encomenda, mas para mim, não. Só posso dizer que na Inglaterra era comum se formarem esses pequenos círculos fechados, de modo que, no nosso caso, Julia e eu podíamos morar na mesma rua em Londres, apreciar às vezes o mesmo pôr-do-sol no campo, separados por uma pequena distância, sentir grande simpatia um pelo outro, e uma certa curiosidade a respeito um do outro, e chegar mesmo a lastimar o fato de vivermos separados, sabendo que seria bastante um de nós pegar no telefone e, com a cabeça no travesseiro, gozar de um instante de intimidade, no momento em que o sol entrava no quarto e nos traziam o suco de laranja.

No entanto, a força centrípeta de nossos universos dife­rentes e o espaço sideral gelado a separá-los não nos permitia tirar o fone do gancho.

Minha mulher, trepada nas costas do sofá e cercada de celofane e fitas de seda, continuava a telefonar, percorrendo alegremente a lista de passageiros... "Claro, traga-o também, ouvi dizer que é um amor... Sim, finalmente consegui trazer Charles de volta à civilização; não é ótimo?... Que surpresa agradável encontrar seu nome na lista! O sucesso da viagem está garantido. . . meu bem, nós também estávamos hospedados no Savoy-Carlton; não sei como não nos encontramos..." De vez em quando virava-se para mim e dizia: Quero ver se você ainda está aí. Ainda não me acostumei com a idéia.

Saí, subindo ao convés, enquanto o navio descia o rio lentamente, e fui espiar por trás dos vidros onde os passageiros ficavam vendo a terra se afastar. "Tantos conhecidos", dissera minha mulher. Mas para mim eram estranhos; a emoção das despedidas começava a acalmar-se; alguns passageiros ainda se mostravam turbulentos depois de ficar bebendo até o último instante em companhia dos amigos que tinham vindo despedir-se; outros estudavam a colocação de suas cadeiras no tombadilho; ninguém prestava atenção à banda de música to­cando, todos estavam irrequietos como formigas.

Percorri algumas salas do navio; eram grandes mas sem pompa, pareciam ter sido desenhadas para um trem de luxo e ampliadas em proporções gigantescas. Transpus portões enormes de bronze, com figuras de bichos em estilo assírio, finos como papel, pulando. Caminhei sobre tapetes da cor de mata-borrão; os painéis pintados das paredes eram de tonalidade idêntica também, pareciam pintura de criança, os tons sujos e baços, e entre as paredes se estendiam quilômetros de madeira da cor de biscoito, virgem de qualquer instrumento de carpin­taria; essa madeira parecia ter sido unida de maneira invisível, pedaço por pedaço, revestindo as quinas, trabalhada e polida; espalhadas sobre o tapete da cor de mata-borrão, mesas que pareciam saídas da prancheta de um engenheiro sanitarista; cubos estofados, com buracos quadrados servindo de assento, e que também eram estofados de mata-borrão; a luz da sala era difusa e provinha de centenas de cavidades, dando um brilho homogêneo, sem sombras; a sala inteira parecia zunir com o ruído de seus cem ventiladores, e vibrar com o movi­mento dos motores possantes embaixo.

"Eis-me de volta, deixando a selva e as ruínas para trás", pensei eu. "Aqui, onde a riqueza não tem mais grandeza e o poder perdeu a dignidade. 'Quomodo sedet sola civitas'." Fazia quase um ano que eu ouvira um coro de mestiços na Guatemala cantar esse lamento genial, citado por Cordélia certa ocasião na sala de visitas em Marchmain House.

Um camareiro veio falar comigo.

O senhor deseja alguma coisa?

Uísque e soda, sem gelo.

Sinto muito, mas a soda está toda gelada.

A água também?

Também, sim, senhor.

Não faz mal.

Foi-se embora, intrigado, silencioso no meio do burbu­rinho.

Charles.

Olhei para trás. Julia estava sentada num dos blocos de mata-borrão, as mãos trançadas no colo, tão quieta que passei por ela sem vê-la.

Soube que você estava aqui. Celia me telefonou. Que bom.

Que está fazendo?

Ela espalmou as mãos vazias no colo, num gesto muito explicativo. — Esperando. Minha empregada está desarruman­do as malas; anda tão mal-humorada desde a nossa partida da Inglaterra! Agora está se queixando da cabine. Não sei por quê. Eu acho um sonho.

O camareiro voltou com o uísque e dois jarros, um com água gelada, e outro com água quente; misturei-as até obter a temperatura desejada. Ele observou a manobra e falou:

Já sei como o senhor gosta.

Quase todos os passageiros tinham sua mania; e ele era pago para satisfazer seus caprichos. Julia pediu uma xícara de chocolate quente. Sentei-me perto dela no outro bloco.

Não sei onde você se mete — disse ela. — Não sei por que eu nunca encontro as pessoas de quem gosto.

Mas ela falava como se fosse uma questão de semanas, e não de anos; e como se tivéssemos sido amigos íntimos antes da separação. Era exatamente o contrário do que costuma acontecer em tais ocasiões, quando o tempo já cavou suas trincheiras, camuflou os pontos vulneráveis, e plantou um campo de minas em quase todo o percurso, exceto em alguns caminhos bem conhecidos, de modo que, quase sempre, só nos resta acenar por trás do arame farpado para a pessoa do outro lado. Por ironia da sorte, esse encontro estabeleceu a mais completa intimidade entre nós, embora jamais tivéssemos sido amigos antes.

Que andou fazendo na América?

Levantando a cabeça lentamente, seus olhos maravilho­sos fitando os meus, ela disse: — Você não sabe? Algum dia eu lhe contarei tudo. Fui uma idiota. Julguei estar apaixonada, mas enganei-me. — Lembrei-me então daquela tarde, em Brideshead, dez anos atrás, quando aquela criança linda e ainda sem formas, que parecia ter saído de seu quarto, abespinhada com o pouco-caso dos mais velhos, falara assim: "Você sabe, eu também tenho dado preocupações", e naquele instante, embora eu fosse um fedelho também, tinha de reconhecê-lo, não pudera deixar de pensar: "Como essas pequenas tomam um ar importante por causa de uma paixonite boba".

Mas agora era diferente; ela falava com humildade e candura.

Eu queria mostrar-me digno de sua confiança, queria dar uma demonstração qualquer, mas os últimos anos de minha vida, tão acidentados e ao mesmo tempo tão insípidos, não tinham o menor interesse para ela. Comecei então a falar de minhas experiências na selva, dos tipos engraçados que encon­trei, e dos lugares remotos que visitei, mas, nessa atmosfera de velha camaradagem, a história perdeu o interesse e termi­nou bruscamente.

Estou louca para ver os quadros disse ela.

Celia queria me fazer desencaixotar alguns trabalhos para enfeitar a cabine para o coquetel que ela vai dar. Mas eu não podia fazer isso.

Não... Celia ainda está muito bonita? Das debutan­tes que apareceram comigo, para mim ela sempre foi a mais encantadora.

Ela não mudou.

Mas você, Charles, mudou. Está tão magro, tão sério; não parece mais aquele rapazinho bonito, amigo de Sebastian. Mais duro, também.

E você ficou mais suave.

É, também acho... e muito paciente.

Ainda não tinha trinta anos, mas a beleza que ela prome­tia ser alcançara todo o esplendor. Perdera aquele jeito an­guloso de moça moderna; naquela época, sua cabeça lembrava-me uma figura da Renascença, e não parecia corresponder ao seu tipo, mas agora formava um conjunto harmonioso, e nada tinha de florentino. Não fazia mais pensar em obras de arte, em pintura; era a expressão de sua personalidade; seria inútil tentar dissecar e analisar sua beleza, era seu apanágio, um dom seu, e eu não tardaria a descobri-la em meu amor por ela.

O tempo produzira outras modificações também; apa­gando de seus lábios o sorriso sonso e complacente de Giocon­da; os anos deram-lhe um ar tristonho. Ela parecia dizer: "Olhem para mim. Fiz minha parte. Sou linda. Minha beleza é fora do comum. Fui criada para o prazer. Mas o que ganhei eu com isso? Onde está minha recompensa?"

Em dez anos, essa era a única diferença; na verdade, nisso consistia a recompensa; essa tristeza misteriosa, alucinante, que parecia ir diretamente ao coração e inspirar silêncio, e que era o complemento de sua beleza.

Tem um ar mais tristonho também disse eu.

É, sim, muito mais triste.

Quando voltei à cabine duas horas depois, minha mulher estava esfuziante.

Tive de fazer tudo. Que tal?

Recebêramos, sem ter de pagar mais por isso, um apar­tamento enorme, aliás um dos quartos tinha dimensões tão avantajadas, que raramente era ocupado, a não ser pelos diretores da companhia, e segundo dissera o comissário, na maioria das vezes ele o cedia às pessoas a quem desejava homena­gear. Minha mulher tinha um jeito especial para conseguir pequenas vantagens iguais a essa; primeiro, com sua elegância e minha celebridade, procurava impressionar as pessoas su­gestionáveis, e, depois de dominar a situação, tomava rapida­mente uma atitude afável de quase namoro. Para demonstrar sua gratidão, ela convidara o comissário para nossa festa, e este, por sua vez, em agradecimento, enviara como arauto de sua presença um cisne de gelo no tamanho natural, recheado com caviar. Essa imponente pièce-montée dominava o ambien­te, numa mesa ao centro, derretendo aos poucos, o bico pin­gando na salva de prata. As flores entregues pela manhã escon­diam na medida do possível os painéis de madeira, porque o quarto era uma miniatura do pavoroso vestíbulo lá em cima.

Você tem de se vestir já. Onde andou esse tempo todo?

Estive conversando com Julia Mottram.

Você a conhece? Ah, é verdade, era amigo daquele irmão dela que deu para beber. Meu Deus, como ela está glamourosa!

Ela também acha você muito bonita.

Ela era namorada de Boy.

Não é possível.

Pelo menos ele sempre disse isso.

Você já pensou como seus convidados vão comer o caviar? — perguntei.

Já. Não tem jeito. Mas com tanta coisa! — e apontou para algumas travessas com salgadinhos de aspecto brilhante. — Em todo caso, os convidados sempre dão um jeito de comer alguma coisa nas festas. Você lembra como nós comemos aqueles camarões em escabeche com uma faca de cortar papel?

É mesmo?

Meu bem, foi na noite que você me pediu em casamento.

Se não me falha a memória, foi você quem me pediu.

Então, na noite em que ficamos noivos. Mas você ainda não disse se gostou da arrumação.

A arrumação, além do cisne e das flores, consistia num camareiro irremediavelmente preso num canto por trás de um bar improvisado, enquanto outro camareiro em relativa liber­dade circulava com travessas na mão.

Parece o sonho de um artista de cinema — disse eu.

Artista de cinema — disse minha mulher; — era disso mesmo que eu queria falar.

Entrou comigo no meu quarto de vestir e continuou falando enquanto eu mudava de roupa. Devido ao meu inte­resse pela arquitetura, ocorreu-lhe ser minha verdadeira voca­ção desenhar cenários para fitas de cinema e por isso convidara dois magnatas de Hollywood cujas boas graças pretendia conquistar em meu favor.

Voltamos à sala.

Meu bem, acho que você implicou com o meu cisne. Não diga nada diante do comissário. Foi um gesto tão simpá­tico da parte dele! Além do mais, se você tivesse lido a descri­ção de um banquete em Veneza, no século XVI, diria logo que valia a pena ter vivido naquela época.

Só que na Veneza seiscentista ele teria um feitio di­ferente.

E aqui está Papai Noel em pessoa. Estávamos justa­mente apreciando o cisne.

O comissário entrou e deu um violento aperto de mão.

Minha cara Lady Celia — disse ele —, ponha seus agasalhos mais pesados e venha amanhã fazer uma excursão no frigorífico, eu lhe mostrarei uma verdadeira Arca de Noé de bichos como este. O ponche para o brinde não demora. Está sendo aquecido.

Ponche! — disse minha mulher, como se não fosse possível imaginar iguaria mais fina. — Charles, você ouviu? Um ponche!

Os convidados não demoraram a aparecer; não havia ra­zão para chegarem atrasados. "Celia", iam logo dizendo, "que esplêndida cabine e que beleza de cisne!", e apesar de a cabine ser uma das maiores do navio, dali a pouco estava tão cheia, que os convidados começaram a apagar os cigarros nas poças de água gelada em volta do cisne.

O comissário, como todo marinheiro que se preza, causou sensação ao anunciar uma tempestade próxima. — Como pode ser tão mau assim? — perguntou minha mulher, querendo adular o comissário e insinuando que não só a cabine e o ca­viar, mas as ondas também estavam sob seu comando. — Em todo caso, uma tempestade não abala um navio como este. Não é?

Mas pode nos atrasar um pouco.

E poderemos ficar enjoados?

Depende de quem for bom marinheiro. Desde me­nino, enjôo sempre numa tempestade.

Não acredito. Isso é sadismo. Venha cá, quero mos­trar-lhe uma coisa.

Era o último retrato das crianças. — Charles ainda nem conhece Caroline. Não é sensacional para ele?

Não encontrei amigos meus, mas conhecia pelo menos um terço das pessoas presentes, e comportei-me bastante bem. Uma senhora idosa falou comigo: — Então, você é Charles? Celia fala tanto em você, que tenho a impressão de conhecê-lo intimamente.

"Intimamente", pensei eu. "Não, minha senhora, é ir longe de mais. Então a senhora pode penetrar nos recônditos de meu ser, onde eu busco em vão encontrar-me? Minha cara Mrs. Stuyvesant Oglander, se não me engano, foi esse o nome pronunciado por minha mulher, poderá por acaso a senhora dizer-me por que, enquanto fico aqui a conversar com a senho­ra sobre minha próxima exposição, não penso noutra coisa a não ser na chegada de Julia? Por que posso falar assim com a senhora, e com ela não? Por que razão eu já a isolei do resto da humanidade, e já construí para nós dois um mundo à parte? Que estará acontecendo no íntimo de meu ser, enquanto a senhora abusa dessa palavra? Mrs. Stuyvesant Oglander, que está acontecendo?"

Mas Julia não vinha, e o barulho feito por aquelas vinte pessoas num quarto tão pequeno, e tão grande que ninguém desejava alugá-lo, parecia o fragor de uma multidão.

Então aconteceu uma coisa curiosa. Eu vi um homenzi­nho ruivo que parecia não conhecer ninguém, um sujeito espalhafatoso, bem diferente do comum das relações de minha mulher. Já estava há uns vinte minutos postado perto do ca­viar e comia com a rapidez de um coelho. Passou um lenço na boca e, obedecendo a um impulso incontido, debruçou-se para enxugar o bico do cisne, tirando assim o pingo d'água que aumentava sempre, ameaçando cair. Depois olhou furtiva­mente para ver se alguém o observava, encarou-me, e deu uma risadinha nervosa.

Já estou há uma porção de tempo louco para fazer isso

disse ele. — Aposto como o senhor não sabe quantos pin­gos caem por minuto. Eu sei, estive contando.

Não tenho a menor idéia.

Adivinhe. Meio xelim, se perder; meio dólar, se ga­nhar. É justo.

Três — disse eu.

Puxa, o senhor é esperto. Também andou contando.

Mas não fez menção de pagar a dívida. Em lugar disso, falou: — Adivinhe essa. Sou inglês, nascido e criado na Inglaterra, mas essa é a minha primeira viagem pelo Atlântico.

Talvez tenha voado?

Não, nem por mar nem por ar.

Então deve ter feito a volta ao mundo pelo Pacífico.

Não há dúvida, o senhor é esperto mesmo. Já ganhei várias apostas discutindo isso.

Qual foi o seu itinerário? — perguntei, procurando ser amável.

Ah, isso é uma história comprida. Bem, tenho de ir andando. Até a vista.

Charles — disse minha mulher —, este senhor é Mr. Kramm, da Interastral Films.

Então o senhor é Mr. Charles Ryder — disse Mr. Kramm.

Sou.

Ora, ora — fez uma pausa; eu esperei. — O comis­sário diz que vamos ter mau tempo. Que acha o senhor?

Sei menos que o comissário.

Desculpe-me, Mr. Ryder, não entendi.

Quero dizer, estou menos informado que o comissá­rio.

Ah, é isso? Ora, ora. Gostei muito de conversar com o senhor. Espero que a conversa se repita.

Uma inglesa falou: — Meu Deus, aquele cisne! Depois de passar seis semanas na América fiquei com uma verdadeira fobia de gelo. Diga-me, como se sentiu ao encontrar Celia depois de dois anos? Se fosse comigo sentir-me-ia indecentemente em lua-de-mel. Também, Celia nunca deixou de ser a eterna noivinha, não é?

Outra mulher disse: — Não é uma delícia a gente se despedir de alguém sabendo que dali a meia hora irá se en­contrar com essa pessoa, e que a mesma coisa acontecerá dias a fio?

Os convidados começaram a sair, e na saída pareciam mencionar vagos compromissos num futuro próximo, aos quais eu teria de comparecer levado por minha mulher. Parecia ser o tema daquela noite, nossos futuros encontros, mais um daqueles sistemas moleculares, exemplificados pelos físicos. Finalmente levaram o cisne também, e eu disse à minha mulher: — Julia não veio.

Não, ela telefonou. Não consegui entender o que di­zia, o barulho era infernal. Falou qualquer coisa a respeito de um vestido. Foi melhor assim, não havia lugar para um alfine­te. A festa foi ótima, não foi? Você se aborreceu muito? Portou-se divinamente bem, e tinha um ar muito distinto. Quem era aquele seu amigo ruivo?

Não era meu amigo.

Que graça! Você falou com Mr. Kramm alguma coisa a respeito de ir trabalhar em Hollywood?

Claro que não.

Oh, Charles, você me preocupa. Não basta tomar um ar distinto e bancar o mártir da arte. Vamos jantar. Estamos na mesa do comandante. Não creio que ele compareça hoje, mas é de boa educação manter uma certa pontualidade.

Quando chegamos, os outros convidados já tinham to­mado seus lugares à mesa. Julia e Mrs. Stuyvesant Oglander sentaram-se cada uma de um lado da cadeira vazia do comandante; além das duas havia um diplomata inglês e sua mulher, o Senador Stuyvesant Oglander, e um padre americano, que no momento estava ilhado entre duas cadeiras vazias. Esse padre mais tarde se apresentou, ao que parece com certo exa­gero, como um bispo episcopal. Aqui as mulheres se sentavam ao lado de seus respectivos maridos. Minha mulher teve de tomar uma decisão rápida, e, embora o camareiro procurasse manobrar de modo a dar-nos outros lugares, ela deu um jeito de ficar junto do senador, deixando-me ao lado do bispo. Julia fez um aceno discreto em nossa direção, como se quisesse manifestar sua aprovação.

Estou muito aborrecida por causa da festa — disse ela —, a peste da minha criada desapareceu com todos os meus vestidos. Só voltou agora há meia hora. Estava jogando pingue-pongue.

Estive dizendo ao senador o que ele perdeu — falou

Mrs. Stuyvesant Oglander. — Em qualquer lugar que esteja, Celia sempre se dá com gente bem.

Aqui, à minha direita — disse o bispo —, vamos ter um casal bem. Costumam fazer todas as refeições na cabine, exceto quando são avisados com antecedência da presença do comandante.

Formávamos um grupo disparatado; até minha mulher, cujo traquejo social era notório, sentia-se perdida. De vez em quando, eu ouvia pedaços da conversa de minha mulher.

...um homenzinho ruivo, incrível. O Comandante Foulenough em pessoa.

Mas, Lady Celia, se não compreendi mal, a senhora disse que não o conhecia.

Quero dizer, ele parecia com o Comandante Foule­nough.

Ah, estou compreendendo; então fingiu ser esse ami­go da senhora para ir à sua festa.

Não, não. O Comandante Foulenough é um tipo ca­ricato.

Mas esse tal indivíduo não parecia ser nada divertido. Por acaso esse amigo da senhora é comediante?

Não, não. O Comandante Foulenough é apenas uma figura criada pela imaginação de um jornalista inglês. Assim como o seu Popeye.

O senador pousou o garfo e a faca. — Recapitulando: um impostor apareceu na sua festa, e a senhora o recebeu porque julgou ver nessa pessoa uma certa semelhança com o protótipo de um herói de uma história em quadrinhos.

É, pensando bem, talvez fosse essa a razão.

O senador olhou para sua mulher como a dizer: "Gente bem, hein?"

Do outro lado da mesa, Julia procurava explicar ao diplo­mata o grau de parentesco dos primos húngaros e italianos. Os brilhantes que ela ostentava nos cabelos e nos dedos pare­ciam soltar faíscas, mas suas mãos traíam seu nervosismo fa­zendo bolinhas de pão, e ela abaixava a cabeça aureolada de brilhantes em sinal de desespero.

O bispo falou-me da missão de boa vontade que o levava a Barcelona... — É, Mr. Ryder, um trabalho preliminar de limpeza, de grande valor, já foi realizado. Agora chegou o momento de lançar bases mais amplas para o trabalho de reconstrução. Eu assumi comigo mesmo o compromisso de procurar reconciliar os ditos anarquistas e os ditos comunistas, e, tendo isso em mira, tanto eu como meus associados lemos toda a literatura conhecida sobre o assunto. Nossa conclusão foi unânime, Mr. Ryder. Não existe divergência fundamental entre as duas ideologias. Trata-se simplesmente de uma ques­tão de temperamento, Mr. Ryder, e pode haver reconciliação onde houve separação por divergências de temperamento...

Do outro lado da mesa, eu ouvi alguém dizer: Se não é indiscrição de minha parte, quais foram as instituições que patrocinaram a viagem de seu marido?

A mulher do diplomata resolveu encher-se de coragem e puxar conversa com o bispo, apesar da distância que os separava.

Que língua o senhor vai falar quando chegar a Bar­celona?

A linguagem da razão e da fraternidade, minha se­nhora. E, virando-se para mim: A língua falada no século vindouro será expressa em pensamentos e não em palavras. O senhor não concorda, Mr. Ryder?

Sim, sim disse eu.

Que valor têm as palavras? disse o bispo.

Sim, qual o seu valor?

Meros símbolos convencionais, Mr. Ryder, e a nossa era com razão mostra-se cética em relação aos símbolos convencionais.

Estava atordoado; depois de ter agüentado o falatório da festa de minha mulher, e sentir emoções profundas e igno­radas naquela tarde; depois de uma temporada agitada em Nova York seguindo minha mulher em sua febre de diversões; depois de meses de solidão passados no calor das selvas, à sombra verde da floresta, aquilo era demais. Sentia-me como o Rei Lear entre as urzes, como a Duquesa de Malfi encurralada por loucos. Invoquei cataratas e trombas-d'água, e, como num passe de mágica, minhas preces foram logo ouvidas.

Já vinha sentindo há algum tempo, embora no momento não soubesse dizer se se tratava de uma simples impressão nervosa, uma espécie de balanço que se repetia e parecia aumentar sempre, como se aquela sala de jantar colossal se levan­tasse e estremecesse como o peito de um homem profunda­mente adormecido. Dali a pouco minha mulher se virava para mim e dizia: Ou eu estou meio empilecada, ou o mar está ficando bravo e, antes mesmo de ela terminar de pronunciar essas palavras, nós dois nos inclinávamos na cadeira para não perder o equilíbrio; ouviu-se o barulho e o tinir dos talhe­res caindo perto da parede, e na nossa mesa todos os copos de vinho tombaram; enquanto isso cada um de nós tratou de segurar seu prato e seu garfo. Nos olhares que se cruzaram podiam-se ler as mais diversas emoções, desde o terror estam­pado na fisionomia da mulher do diplomata, até a expressão de alívio do rosto de Julia.

Fechados e isolados como estávamos, não percebemos a tempestade que já há uma hora crescia lá fora, silenciosa, invisível, imponderável, e agora desabava e caía em cheio sobre nós.

Ao estrondo seguiu-se um silêncio, e depois ouviu-se o cacarejar de risos histéricos. Os camareiros cobriram as manchas de vinho entornado com guardanapos. Tentamos continuar nossas conversas, mas, como o homenzinho ruivo a espiar as gotas que se formavam e caíam do bico do cisne, nós está­vamos todos à espera do próximo solavanco forte; e, quando veio, foi mais forte que o primeiro.

E aqui me despeço por hoje — disse a mulher do diplomata, levantando-se.

Seu marido levou-a para a cabine. A sala de jantar não demorou a ficar vazia. Dali a pouco, apenas minha mulher, Julia e eu continuávamos sentados à mesa, e Julia, como se fosse por telepatia, falou: — Parece o Rei Lear.

Só que cada um de nós representa o papel dos três ao mesmo tempo.

Como é? — perguntou minha mulher.

O Rei Lear, Kent e o Bobo.

Não é possível, até parece o qüiproquó daquela con­versa a respeito de Foulenough. Não procure explicar coisa alguma.

Nem sei se poderia — disse eu.

O mar cresceu mais uma vez; depois veio outra vasta queda. Os camareiros apressavam-se, amarravam coisas, fecha­vam outras, removiam para lugar seguro os enfeites perigosos.

Bem, acabamos de jantar e demos uma bela demons­tração de fleuma britânica — disse minha mulher. — Vamos ver o que está acontecendo.

A caminho da sala de estar, tivemos de nos agarrar a uma coluna; ao chegarmos, vimos a sala quase deserta; a banda tocava, mas ninguém dançava; as mesas estavam arrumadas para jogar loto, mas ninguém comprara cartões, e o oficial, cuja especialidade era cantar os números, apesar do tamborilar da chuva na terceira coberta: "Dezesseis em flor, nem um beijo deu, chave na porta, vinte mais um", conversava calmamente com seus colegas; algumas pessoas liam; poucas mesas de bridge; na sala de fumar, alguns bebedores de conha­que; mas dos nossos companheiros de duas horas atrás, nem sombra.

Nós três ficamos sentados por pouco tempo no salão de baile vazio; minha mulher fazia milhões de planos para trocar de mesa na sala de jantar sem ferir suscetibilidades. É uma tolice comermos no restaurante disse ela —, e pagar mais caro pelo mesmíssimo jantar. De qualquer maneira, só é freqüentado por artistas de cinema. Não vejo razão para fazermos o mesmo.

Finalmente falou: Estou com dor de cabeça; além do mais, sinto-me cansada. Vou me deitar.

Julia acompanhou-a. Fiz a volta do navio numa das co­bertas fechadas onde o vento uivava e a espuma parecia saltar da escuridão batendo de encontro ao vidro, ora branca, ora marrom; marinheiros postados à entrada dos tombadilhos impediam o acesso dos passageiros a eles. Então, acabei por descer também.

No meu quarto de vestir, todas as coisas que podiam quebrar tinham sido guardadas, a porta da cabine estava pre­sa para trás, e lá de dentro minha mulher falou com voz chorosa.

Estou me sentindo muito mal. Nunca pensei que um navio deste tamanho jogasse tanto disse ela, seu olhar consternado e cheio de ressentimento era o de uma mulher grávida na hora do parto, ao ver que, embora a casa de saúde fosse das mais luxuosas e o médico dos mais caros, contudo a dor era inevitável; e o balanço do navio acontecia com a mesma regularidade que as dores do parto.

Eu dormi no quarto ao lado; isto é, nem cheguei a dor­mir, nem fiquei propriamente acordado. Numa cama de beli­che estreita, num colchão duro, talvez fosse possível descansar, mas ali as camas eram largas e fofas; apanhei todas as almofadas que encontrei, procurando calçar-me com elas, mas a noite inteira eu me virei de um lado para outro acompanhando o balanço do navio, que agora se fazia nos dois sentidos, e minha cabeça estalava com o fragor das ondas.

Uma hora antes do amanhecer, minha mulher apareceu como um fantasma, segurando-se com as duas mãos nos um­brais da porta, e disse: — Você está acordado? Não pode fazer alguma coisa? Não pode pedir qualquer coisa ao médico?

Toquei a campainha para chamar a camareira da noite, que já tinha uma beberagem preparada; com isso ela melhorou um pouco.

A noite inteira, dormindo ou acordado, eu pensava em Julia; nos meus sonhos fugazes ela aparecia sob as formas mais fantásticas, terríveis e obscenas, mas ao acordar ela vol­tava a ter aquela fisionomia triste e luminosa que eu vira no jantar.

Quando o dia começou a raiar, eu consegui dormir por umas duas horas, depois acordei lúcido, com uma estranha sensação de alegria.

O vento amainara um pouco, disse-me o camareiro, mas ainda ventava forte e o mar estava muito agitado — ...e para os passageiros é o que há de pior. Muito pouca gente pediu café hoje de manhã.

Dei uma espiada para ver minha mulher, e como ela es­tava dormindo, fechei a porta de comunicação entre os dois quartos; depois comi um kedgeree de salmão e presunto frio, e telefonei para o barbeiro pedindo que viesse fazer-me a barba.

Há uma porção de coisas na sala para a senhora — disse o camareiro; — não é melhor deixar tudo lá, por en­quanto?

Eu fui ver. Era uma segunda remessa de pacotes em­brulhados em celofane, procedentes das lojas de bordo. Em alguns casos, eram encomendas feitas por telegrama por amigos nossos de Nova York, cujas secretárias não se ha­viam lembrado a tempo de nossa partida; outros tinham sido enviados por nossos convidados depois do coquetel. O dia não era propício para arrumação de flores em vasos; disse-lhe para deixá-las no chão, e de repente, numa súbita inspiração, tirei o cartão das rosas que Mr. Kramm mandara, e enviei-as a Julia com todo o meu carinho.

Ela telefonou enquanto eu fazia a barba.

Mas que idéia incrível, Charles! Não é seu gênero!

Não gostou das rosas?

Mas o que vou fazer com elas num dia desses?

Aspirar seu perfume.

Fez-se um silêncio e ouvi um barulho de papel amassado. — Não têm o menor perfume.

Que comeu você agora de manhã?

Uvas moscatel e melão.

Quando posso vê-la?

Antes do almoço. Antes disso estou presa com a massagista.

Massagista?

É, não é esquisito? Nunca me dei a esse luxo antes, exceto quando machuquei o ombro numa caçada. Por que será que a bordo todo mundo tem vontade de bancar artista de cinema?

Eu não.

E essas rosas extraordinariamente incômodas?

O barbeiro trabalhava com habilidade incrível e com agilidade até, porque às vezes parecia um esgrimista dançan­do um balé, ora na ponta de um pé, ora no outro, sacudindo a espuma da navalha com destreza, e lançando-se sobre meu queixo quando o navio tornava a se aprumar; eu não teria ; tido coragem de me barbear com uma navalha.

O telefone tocou outra vez.           

Era minha mulher. 

Charles, como você está se sentindo?

Cansado.     

Você não vem me ver?     

Já fui. Mas voltarei de novo.         

Levei-lhe as flores da sala; pareciam dar o toque final no ambiente que ela parecia ter criado na cabine, o de um quarto em uma maternidade; a camareira tinha o aspecto de uma parteira, postada ao lado da cama, um verdadeiro monu­mento de linho engomado e domínio de si mesma. Minha mulher virou a cabeça no travesseiro e sorriu desanimada; esticou o braço nu tocando com a ponta dos dedos o papel celofane e as fitas de seda do maior dos buquês. — Como são amáveis — disse ela com voz fraca, como se a tempestade fosse uma desgraça pessoal e o universo, em sua infinita bon­dade, se compadecesse dela.

Pelo que vejo, você não vai se levantar.

Oh, não, Mrs. Clark tem sido tão boa! — Minha mulher tinha o dom de descobrir logo o nome dos empre­gados. — Não se incomode. Venha de vez em quando contar-me as novidades.

Fique quietinha disse a camareira —, quanto menos se mexer, melhor.

Minha mulher conseguia transformar até um simples enjôo num verdadeiro ritual feminino sagrado.

Eu sabia que a cabine de Julia ficava mais ou menos embaixo da nossa. Fui esperá-la perto do elevador, na primei­ra coberta; quando ela apareceu, demos uma volta no convés; eu segurava o corrimão, ela tomou-me o outro braço. Andá­vamos com dificuldade, víamos através do vidro embaçado um mundo disforme, onde o céu era cinza e negro o mar. Quando o navio jogava muito, eu fazia com que ela se virasse de modo a poder segurar o corrimão com a outra mão; o rugir do vento ficava amortecido, mas o navio inteiro estalava com violência. Demos uma volta, depois Julia falou: Não adian­ta. Aquela mulher bateu-me com vontade, e, de qualquer maneira, eu estou bamba. Vamos nos sentar.

As gigantescas portas de bronze da sala de estar tinham-se soltado dos ganchos, abrindo-se e fechando-se com o balan­ço do navio; seu movimento era regular e quase matemático, ora uma, ora outra, rodando nos batentes, parando ao fim de cada semicírculo, recomeçando sempre, devagar no princípio e aumentando a velocidade até se encontrarem numa batida sonora. Não era perigoso passar por elas, a não ser que se tropeçasse; corria-se então o risco de ficar preso naquela rápida batida final; havia tempo de sobra para passar com calma entre os portões, mas aquelas duas peças pesadas de metal, completamente soltas, batendo de um lado para outro, tinham um ar bastante assustador, que poderia fazer um indivíduo medroso recuar ou esgueirar-se às pressas; dando o braço a Julia, passei satisfeito, porque sua mão não tremia e eu sabia que ela não tinha o menor receio.

Bravo falou um homem sentado ali por perto. Confesso que dei a volta pelo outro lado. Não fui muito com a cara desses portões. Passaram a manhã inteira tentando prendê-los.

Não se via muita gente naquele dia, e os poucos que se atreviam a sair pareciam compartilhar de uma camaradagem baseada no respeito mútuo; limitavam-se a ficar sentados pelas poltronas com ar sorumbático, bebendo às vezes, ou então congratulando-se pelo fato de não estar enjoados.

A primeira moça que vejo hoje é a senhora disse o tal homem.

Tenho muita sorte.

Nós temos muita sorte disse ele, começando a fazer uma reverência que terminou numa queda, ajoelhando-se quando o chão de mata-borrão pareceu sumir a nossos pés. O balanço do navio arrastou-nos para longe dele, agarramo-nos um ao outro, sem cair, e sentamo-nos depressa no lugar aonde fôramos parar, na outra extremidade, onde ficamos isolados. Cabos de segurança cortavam a sala de estar forman­do uma verdadeira teia de aranha, e nós parecíamos pugilistas dentro de um ringue.

O camareiro veio falar conosco. — O mesmo de sempre, sir? Uísque com água misturada, se não me engano. E a se­nhora? Talvez um champanhezinho?

O pior, você sabe, é que o champanhe me apeteceria muito? disse Julia. Isso é mesmo gozar a vida, rosas, meia hora nas mãos de uma massagista, e agora champanhe!

Acho bom você parar com essa história das rosas. Em primeiro lugar, a idéia não foi minha. Foram enviadas a Celia.

Então a história é muito diferente. Você está ino­cente. Mas o caso da minha massagem piorou muito.

Fiz a barba na cama.

Estou muito contente por saber das rosas disse Julia. Para falar francamente, tive um choque. Cheguei a pensar que começávamos o dia numa situação ambígua.

Compreendi o que ela quis dizer, e naquele instante tive a impressão de sacudir um pouco do pó e do resíduo deixado por dez anos de aridez; dali por diante, eu compreenderia sempre, fosse qual fosse sua maneira de expressar-se, em frases inacabadas, palavras soltas, expressões estereotipadas de gíria moderna, em movimentos quase imperceptíveis dos olhos, lábios ou mãos; embora seu pensamento fosse confuso, superficial e brilhante, ou profundo, como muitas vezes lhe acontecia pegar um assunto pela rama e imediatamente aprofundar-se nele, eu compreenderia; e mesmo naquele dia, no limiar da paixão, eu compreendi o que ela quis dizer.

Bebemos os aperitivos e dali a pouco o nosso novo amigo veio cambaleando em nossa direção, rente ao cordão de se­gurança.

Permitem? Nada como um temporal para estabelecer a intimidade entre estranhos; é a minha décima travessia e nunca vi coisa igual. Vejo que essa moça não é marinheiro de primeira viagem.

Sou. Aliás, nunca tinha viajado por mar, isto é, antes de vir a Nova York, e naturalmente a travessia da Mancha. Graças a Deus não enjoei, mas sinto-me cansada. A princípio julguei que fosse só a massagem, mas agora estou vendo que é o navio.

Minha mulher nem se agüenta. E tem tarimba. É para ver como são as coisas.

Na hora do almoço veio juntar-se a nós, sua presença não me incomodava; ele se mostrava visivelmente encasque­tado com Julia, e pensava que éramos casados; o qüiproquó e sua galanteria pareciam ter o dom de nos aproximar ainda mais. Eu os vi ontem à noite na mesa do comandante disse ele —, no meio daquela grã-finada.

Uns grã-finos muito cacetes.

Se querem saber minha opinião, é o mal de todos eles. Agora, num temporal destes, as pessoas se mostram co­mo realmente são.

O senhor parece ter uma certa predileção pelos bons marinheiros.

Bem, para falar a verdade, não sei. O que eu quero dizer é que é mais fácil estabelecer camaradagem entre bons marinheiros.

Compreendo.

No nosso caso, por exemplo. Se não fosse isso, talvez nunca nos tivéssemos encontrado. Nos meus bons tempos tive encontros bem românticos a bordo. A senhora não me leve a mal, mas gostaria de contar-lhe uma pequena aventura que tive no golfo de Leão quando era mais moço.

Estávamos ambos cansados; maldormidos; o barulho incessante e o esforço despendido para fazer qualquer movimento deixaram-nos esgotados. Passamos a tarde separados, cada um em sua cabine. Adormeci, e quando acordei o mar continuava revolto, o céu toldado de nuvens escuras, os vi­dros escorrendo água; mas enquanto eu dormia acabei me acostumando com a tempestade, com o balanço das ondas, a ponto de fazer parte dela; de tal modo, que me levantei bem disposto, cheio de confiança, e encontrei Julia já levantada e no mesmo estado de espírito.

Sabe de uma coisa? disse ela. Aquele homem vai dar uma festa hoje à noite na sala de fumar, uma reunião de todos os bons marinheiros. Pediu-me que levasse meu ma­rido.

E nós vamos?

Claro... Não sei se eu deveria me sentir como aquela senhora que o nosso amigo encontrou a caminho de Barcelona. Mas não sinto nada, Charles.

Éramos dezoito na tal reunião; nada tínhamos em co­mum a não ser nossa imunidade contra o enjôo. Bebemos champanhe, e finalmente nosso anfitrião falou: — Vou contar-lhes uma coisa, tenho uma roleta. O diabo é que não po­demos jogar em minha cabine por causa da patroa, e não se pode jogar em público.

Por isso o grupo se bateu para minha sala de estar, onde fizemos um jogo baratinho até tarde da noite; finalmente Julia se retirou, e nosso anfitrião, que passara da conta, não estranhou o fato de estarmos em conveses diferentes. Depois de todos terem saído, ele ferrou no sono na cadeira, e eu o deixei sossegado. Nunca mais o vi, e o camareiro me contou, quando voltou depois de entregar a roleta na cabine do tal indivíduo, que este tivera uma queda no corredor e fraturara o fémur, tendo sido internado no hospital de bordo.

No dia seguinte Julia e eu ficamos juntos o tempo todo; conversamos, quase não saímos do lugar, presos em nossas cadeiras por causa do balanço do navio. Depois do almoço, os últimos passageiros destemidos foram descansar, e nós ficamos sozinhos; parecia que todos se tinham eclipsado, como se o universo inteiro tivesse resolvido sair nas pontas dos pés, numa formidável demonstração de tato, para nos deixar en­tregues um ao outro.

Finalmente, conseguiram prender as portas de bronze da sala de estar, mas só depois de dois marinheiros terem sido acidentados e levados para a enfermaria. Tinham recorrido a vários expedientes; tentaram amarrá-las com cabos, e quando eles romperam empregaram correntes de aço; mas parecia impossível prendê-las. Acabaram metendo uma cunha de madeira por baixo, aproveitando o ponto morto, aquele instante em que elas ficavam escancaradas, e as cunhas agüentaram.

Quando, antes do jantar, Julia foi à cabine se aprontar, naquela noite ninguém trocara de roupa, eu a segui sem que ela me convidasse, ou se opusesse a isso, antes como se o esperasse. Depois, fechando a porta, tomei-a nos braços e beijei-a pela primeira vez, era o arremate final daquela tarde. Ao pensar no caso mais tarde, rolando na cama acompanhando o ba­lanço do navio, na modorra daquela noite interminável, solitária, lembrei-me de outros amores naqueles dez anos pas­sados e mortos; quando ao dar o laço na gravata antes de sair, colocando uma gardênia na lapela, eu fizera meus planos para a noite, imaginando o momento propício, e a oportunidade de desfechar o ataque fossem quais fossem as conseqüências. "Esta fase da luta já durou bastante", pensava eu, "preciso chegar a uma decisão qualquer." Mas no caso de Julia não havia fases, nem avanços, nem tática alguma.

Mas naquela noite, quando ela foi deitar-se e eu a acompanhei até a porta, ela não me deixou entrar.

Não, Charles, ainda não. Nunca, talvez. Não sei. Não sei se quero amar.

E então algum fantasma renitente desses dez anos pas­sados, porque não se pode morrer, mesmo um pouco, sem perder alguma coisa, me fez dizer: — Amar? Mas eu não estou pedindo amor.

Oh, sim, Charles, é isso que você quer — disse ela, acariciando-me o rosto; e fechou a porta.

Cambaleando, eu desci o corredor comprido, vazio, de luzes suaves, tocando ora numa parede, ora noutra; a tem­pestade parecia formar um anel; o dia inteiro navegávamos tranqüilamente no centro; mas agora recebíamos de novo em cheio a fúria do vento; naquela noite o mar ficaria ainda mais bravo que na noite anterior.

Falamos dez horas seguidas; e o que tínhamos a dizer? Na maior parte do tempo falamos de fatos passados, o relato de nossas vidas, há tanto tempo separadas, e que agora se iam reunir numa só. A noite toda, durante o temporal, eu recordara suas palavras; ela não era mais nem o Demônio nem a visão radiosa da noite anterior; ela me fizera seu confidente. Contou-me, como eu também já narrei antes, a história do seu noivado e do seu casamento; falou-me de sua infância, como se virasse com carinho as páginas de um livro de contos de fada, e eu revivi com ela os longos dias ensolarados nos campos, em companhia da babá Hawkins no seu banquinho portátil e Cordélia dormindo no carrinho; dormi noites tranqüilas sob a cúpula, com os quadros esmaecidos de santos ao redor do berço, enquanto a luz bruxuleava e as cinzas caíam na grade. Falou-me de sua vida com Rex, e da fuga secreta, condenável e desastrada que a levara a Nova York. Ela tam­bém contava em sua vida anos perdidos. Falou-me de suas discussões intermináveis com Rex a respeito de ter ou não ter filhos; a princípio ela o queria, mas ao fim de um ano veio à saber que teria de se submeter a uma operação; e aí os dois já não se entendiam mais, mas ele ainda insistia para que ela lhe desse um filho, e, depois de ela se ter submetido a seu desejo, a criança nasceu morta.

Rex nunca me fez mal por querer — disse ela. — Mas não é possível tratar-se com uma pessoa que não existe; ele parece possuir algumas faculdades masculinas hiperdesenvolvidas, mas falta o resto. Não podia compreender por que eu ficara tão sentida ao descobrir dois meses depois de estar­mos em Londres, na volta de nossa lua-de-mel, que ele ainda era amante de Brenda Champion.

Fiquei satisfeito ao descobrir que Celia me engana­va — disse eu. — Assim, não precisava ter remorsos, porque não gostava dela.

Ela não é fiel? Você não gosta dela? Ainda bem. Também não gosto dela. Por que você casou com Celia?

Atração física. Ambição. Todos acham que ela é o tipo ideal de mulher para casar com um pintor. Solidão, sentia falta de Sebastian.

Você gostava dele, não é?

Gostava. Ele foi o precursor.

Julia compreendeu.

O navio parecia estalar, tremer, subir e cair. Minha mu­lher chamou-me do quarto ao lado: — Charles, você está aí?

Estou.

Dormi tanto! Que horas são?

Três e meia.

O tempo melhorou?

Está pior.

Em todo caso, sinto-me um pouco melhor. Se eu tocar a campainha, você acha que me dão chá ou outra coisa qualquer?

Pedi ao camareiro da noite que lhe trouxesse chá com biscoitos.

Você passou uma noite divertida?

Todo mundo está enjoado.

Coitado. A viagem ia ser tão divertida! Amanhã tal­vez melhore. — Apaguei a luz e fechei a porta de comunica­ção entre os dois quartos. Dormindo ou acordado, sentindo a pressão, os estalidos e os balanços, naquela noite interminá­vel, deitado de costas, com os braços e as pernas abertos para me firmar na cama, os olhos abertos na escuridão, eu pensava em Julia.

— ...Pensamos que papai talvez voltasse à Inglaterra depois da morte de mamãe, ou tornasse a se casar, mas conti­nua vivendo da mesma maneira. Rex e eu vamos visitá-lo freqüentemente. Hoje quero-lhe um bem enorme... Sebastian es­tá completamente desaparecido... Cordélia anda pela Espanha com uma ambulância... Bridey vive lá à sua maneira. Ele queria fechar Brideshead depois da morte de mamãe, mas, por um motivo qualquer, papai não consentiu, por isso Rex e eu moramos lá agora, e Bridey ocupa dois quartos no andar de cima, na cúpula, perto da babá Hawkins. Parece uma personagem de Tchékhov. Às vezes o encontramos saindo da bi­blioteca ou nas escadas; nunca sei quando ele está em casa, e de vez em quando aparece de repente para jantar, como um fantasma.

"...Ah! As festas de Rex! Dinheiro e política. Só pensam em dinheiro; se forem passear em volta do lago, farão apostas para acertar o número de cisnes nadando... ter de ficar acor­dada até de madrugada, divertindo as pequenas de Rex, es­cutando os potins, jogando partidas intermináveis de back-gammon, enquanto os homens jogam cartas e fumam charutos. E a fumaça dos charutos. De manhã, ao acordar, ainda sinto o cheiro nos meus cabelos; e, à noite, nos meus vestidos. Ainda estarei impregnada desse cheiro agora? Você acha que a mas­sagista também o sentiu ao me esfregar a pele?

"...No princípio passava temporadas com Rex em casa dos amigos dele. Mas agora ele não faz mais questão que eu vá. Quando viu que eu não correspondia às suas expectativas, passou a se envergonhar de mim; ao mesmo tempo se envergonhava de ter sido blefado. Eu não era absolutamente o que ele pretendia. Nunca me entendeu, mas, quando resolve me aceitar tal qual sou, aparece alguém, homem ou mulher, que ele tem em grande consideração, e essa pessoa resolve se en­cantar comigo; aí então fica muito surpreso, e descobre que há um milhão de coisas que ignora, mas que nós conhecemos. ...ficou muito sentido quando eu parti. Ficará encantado com minha volta. Eu nunca o enganei até essa última história que aconteceu agora. Não há nada como uma boa lição. Você sabe que o ano passado, quando julguei estar esperando um filho, resolvi educá-lo na religião católica? Estava afastada da religião, e depois disso continuei do mesmo jeito, mas, no momento de a criança nascer, pensei comigo mesma: 'Isso ao menos eu lhe posso dar. Comigo não deu muito certo. Mas minha filha será católica'. É interessante, eu queria dar o que tinha perdido. No fim, nem isso eu lhe pude dar; porque nem a vida lhe dei. Nunca vi a criança; estava muito mal para saber o que se passava, e depois, durante muito tempo até hoje, não tenho podido falar nela; era uma menina, por isso Rex não se incomodou muito com sua morte.

"Em parte foi castigo, por causa de meu casamento com Rex. Você compreende, não posso esquecer tudo isso: morte, juízo final, céu, inferno, babá Hawkins, o catecismo. Se a gente aprende tudo isso em criança, fica gravado para o resto da vida. E, no entanto, era o que eu desejava para minha fi­lha... e terei de pagar pelo meu último erro. Talvez seja essa a razão de estarmos juntos aqui, assim. . . faz parte de um plano."

E com essas palavras: "parte de um plano", descemos e eu a deixei à porta de sua cabine.

No dia seguinte o vento tornou a amainar, e voltamos a singrar os mares. Falava-se mais de ossos fraturados que de enjôo; algumas pessoas tinham andado aos trambolhões durante a noite, ocorrendo vários acidentes de conseqüências desagradáveis provocados pelas quedas nos banheiros.

Nesse dia, porque na véspera faláramos muito, e o que tínhamos a dizer podia ser dito em poucas palavras, quase não conversamos. Lemos; Julia descobriu uma brincadeira que a divertia. Quando dizíamos alguma coisa depois de um silêncio prolongado, verificávamos que estávamos pensando a mesma coisa.

Eu falei: Você está montando guarda à sua tristeza.

É o meu capital. Você disse isso ontem. E os juros.

Uma promissória a ser descontada pela vida.

Ao meio-dia parou de chover; à tarde, as nuvens se dispersaram e o sol rompeu por trás de nós de repente, inundan­do a sala de estar onde estávamos sentados, ofuscando as outras luzes com seu brilho.

O pôr-do-sol disse Julia; nosso dia terminou.

Levantou-se, e apesar de o navio continuar jogando da

mesma forma, ela resolveu subir ao convés. Passou o braço pelo meu, colocando sua mão na minha, que eu tinha enfiado no bolso do sobretudo. O convés estava enxuto e vazio, corria nele apenas o vento provocado pela velocidade do navio. Andando com dificuldade, fugindo das fagulhas que pareciam voar da chaminé, éramos atirados um de encontro ao outro, depois separados violentamente, enquanto ficávamos de braços e mãos enlaçados, eu segurando a grade, e Julia agarrando-se a mim. E íamos andando assim, até que um balanço mais forte me atirou sobre ela, e eu a imprensei de encontro à grade, meus braços ao mesmo tempo que me separavam dela a mantinham prisioneira; e, naquele instante em que o navio parece ficar parado para recobrar fôlego, nós ficamos abraça­dos, à luz do dia, os rostos colados, seus cabelos batendo nos meus olhos. A massa d'água revolta, com reflexos dourados, parecia escurecer o horizonte e quedar-se imóvel sobre nossas cabeças, depois desabou descendo a tais profundezas que eu pude ver o céu cor de ouro através dos fios negros dos cabelos de Julia, e ela foi jogada de encontro ao meu peito, manten­do assim o rosto ainda colado ao meu, enquanto eu a sustinha, as mãos agarradas à grade.

Nesse instante, com os lábios colados ao meu ouvido, o hálito quente no ar salgado, Julia falou, embora eu nada tivesse dito: — Sim, agora — e enquanto o navio se apru­mava navegando águas tranqüilas, ela desceu, levando-me para longe do crepúsculo. Mas não era aquela a ocasião propícia para as delícias do prazer, este viria mais tarde com a volta das andorinhas e das flores de laranjeira. Naquele momento, navegando o mar bravio, havia apenas uma formalidade a cumprir, como se um ato de posse tivesse sido assinado e selado por suas coxas finas. Eu assegurava assim o meu direi­to, para depois usufruir dele com lazer.

Naquela noite jantamos em cima, no restaurante, e vi­mos pelas janelas as estrelas aparecerem no céu, como há mui­to tempo eu as vira brilhar sobre as torres e cumeeiras de Oxford. Os camareiros garantiram que a banda tocaria de novo na noite seguinte, e o restaurante ficaria cheio. Seria me­lhor reservarmos logo nossos lugares, diziam, se quiséssemos arranjar uma mesa boa.

— Ah, meu Deus — disse Julia —, nós dois, órfãos da tempestade, onde nos esconderemos quando chegar a bonança?

Não pude separar-me dela naquela noite, mas cedo, na manhã seguinte, ao descer novamente o corredor, vi que ca­minhava sem dificuldade; o navio quase não jogava no mar tranqüilo, e eu compreendi, então, que não poderíamos mais viver isolados do mundo.

Minha mulher falou alegremente de sua cabine: — Char­les, Charles, sinto-me tão bem disposta! Imagine o que estou comendo!

Fui ver. Ela comia um bife.

Marquei uma hora no cabeleireiro, e você sabe que só podem me atender às quatro horas, porque de repente fi­caram cheios de trabalho? Por isso só vou aparecer à noite, mas teremos uma porção de visitas hoje de manhã. Também convidei Miles e Janet para almoçar aqui na cabine. Nestes últimos dois dias não representei muito bem o papel de boa esposa. Que andou fazendo por aí?

Uma noitada alegre — disse eu —, jogamos roleta até as duas aqui em nossa sala, e o anfitrião tomou um pileque.

Santo Deus. Parece ter sido uma grande farra. Char­les, você saiu da linha? Não andou arranjando alguma se­reia por aí?

As mulheres sumiram. Fiquei com Julia quase todo o tempo.

Ótimo. Sempre quis que vocês se conhecessem. Eu sabia que você se daria bem com ela. E esse encontro deve ter sido para ela uma verdadeira bênção divina. Ultimamente passou por grandes aborrecimentos. Naturalmente, não deve ter falado nisso... — e minha mulher começou a contar o boato que corria a respeito da viagem de Julia a Nova York. — Vou convidá-la para tomar um coquetel agora de manhã — disse ela encerrando o assunto.

Julia veio, e eu, agora, já me contentava em ficar jun­to dela.

Ouvi dizer que você andou tomando conta de meu marido na minha ausência — disse minha mulher.

É, fizemos boa camaradagem. Ele, eu e um homen­zinho desconhecido.

Mr. Kramm, que aconteceu com seu braço?

Caí no banheiro — disse Mr. Kramm, explicando a queda com detalhes.

Nessa noite o comandante compareceu ao jantar, e o círculo estava completo, porque os ocupantes das cadeiras à direita do bispo apareceram, dois japoneses que se mostra­ram profundamente interessados nos seus projetos de frater­nidade universal. O comandante fez blague da coragem de­monstrada por Julia durante a tempestade, propondo engajá-la como marinheiro; os anos passados no mar, em várias traves­sias, tinham contribuído para formar seu vasto cabedal de anedotas. Minha mulher, que acabara de sair do cabeleireiro, nem parecia ter passado três dias tão mal, e para muitas pessoas sua beleza chegava a ofuscar a de Julia, que não tinha mais aquela expressão de tristeza, mas um ar tranqüilo, e uma felicidade interior que só eu podia perceber. Nós dois, separados por aquela gente toda, continuávamos tão juntos, e isola­dos em nossa intimidade, como se ainda continuássemos dormindo nos braços um do outro.

Naquela noite o navio tinha um ar de festa. Embora todos tivessem de se levantar de madrugada para fazer as ma­las, ninguém queria deixar de aproveitar a última noite a bordo, porque se sentiam logrados pela tempestade. Não ha­via lugar onde se pudesse ficar só. Gente por todo canto; física de dança, o barulho de conversas animadas em voz .a, camareiros correndo de um lado a outro com bande­jas e copos na mão, a voz do oficial encarregado do loto: "Vinte e dois, patinhos na lagoa; e agora vamos sacudir o saco"; Mrs. Stuyvesant Oglander com um chapéu de papel, Mr. Kramm e suas ataduras, os dois japoneses jogando ser­pentina cerimoniosamente e assobiando como gansos.

Naquela noite não consegui falar com Julia a sós.

Vimo-nos no dia seguinte por alguns instantes do lado boreste do navio, enquanto todos se comprimiam a bombor­do para assistir à chegada dos funcionários da alfândega e para apreciar a vista das costas de Devon, que pareciam ver­des a distância.

Quais são seus planos?

Pretendo ficar um pouco em Londres — disse ela.

Celia vai logo para casa. Quer ver as crianças.

Você também?

Não.

Então, até Londres.

Charles, você viu? Aquele homenzinho ruivo, o tal Foulenough. Foi levado por dois policiais vestidos à paisana.

Não, não vi. Havia tanta gente daquele lado.

Já me informei a respeito dos trens e mandei um te­legrama. Devemos chegar em casa para o jantar, e as crianças estarão dormindo. Mas, só por hoje, acho que poderemos acordar Johnjohn.

Você pode ir — disse eu. — Mas eu terei de ficar em Londres.

Mas, Charles, você tem de vir. Ainda não conhece Caroline.

Ela vai mudar muito em uma ou duas semanas?

Meu bem, ela muda de dia para dia.

Então não vale a pena eu ir agora. Sinto muito, que­rida, preciso desencaixotar os quadros e ver em que estado chegaram. Além disso, tenho de tomar providências imedia­tas para a exposição.

Você precisa mesmo ficar? — disse ela, mas eu sabia que, apelando para os mistérios de minha profissão, minha mulher cessaria toda oposição. — Estou muito desapontada. Também não sei se Andrew e Cynthia terão deixado o apar­tamento. Ele estava alugado até o fim do mês.

Posso ficar num hotel.

Mas isso é tão aborrecido! Não me agrada a idéia de você ficar sozinho logo na sua chegada. Eu irei amanhã.

Você não deve desapontar as crianças.

É verdade. — Os filhos dela e a minha carreira ar­tística, os dois mistérios de nossas profissões.

Você vem no fim da semana?

Se for possível.

Façam o favor, os passaportes ingleses para a sala de fumar — disse o camareiro.

Pedi àquele diplomata encantador, nosso companhei­ro de mesa, que fôssemos despachados junto com ele — disse minha mulher.

 

A idéia de realizar o vernissage numa sexta-feira foi de minha mulher. — Chegou a hora de conquistar os críticos — disse ela. — Já não é sem tempo, eles têm de levá-lo a sério e sabem disso. Nós lhe daremos agora essa oportunidade. Se o vernissage for na segunda-feira, os críticos, em sua maioria, estarão voltando de suas casas de campo, de maneira que mal terão tempo de escrever alguns parágrafos antes do jantar; só estou pensando nos semanários, é claro. Mas se tiverem o fim de semana para pensar no assunto, eles estarão num esta­do de espírito favorável depois de passar o domingo ao ar livre. Aí então vão pôr-se a trabalhar com vontade depois de um bom almoço, e escreverão com vagar um artigo amável, um verdadeiro ensaio que mais tarde enfeixarão num livrinho interessante. Desta feita, ou tudo ou nada.

Os preparativos para a exposição duraram um mês, e durante esse tempo minha mulher ia e vinha, fazendo a revi­são da lista de convidados e ajudando a pendurar os quadros.

Na manhã do vernissage eu telefonei para Julia e disse: — Já estou farto dos quadros e nunca mais quero saber deles, mas, naturalmente, não posso deixar de fazer um ato de presença.

Você quer que eu vá?

Prefiro que você não venha.

Celia enviou-me um cartão, e escreveu em tinta ver­de: "Traga seus convidados". Quando nos veremos?

No trem. Você podia apanhar minha bagagem.

Se você arrumar a mala depressa, posso levá-lo tam­bém até a galeria. Tenho de experimentar um vestido ao lado, ao meio-dia.

Quando cheguei à galeria, minha mulher estava perto da janela olhando para a rua. Atrás dela, uma meia dúzia de ilustres desconhecidos, apreciadores de pintura, ia de tela em tela, de catálogo na mão; pessoas que, por terem comprado uma xilogravura, passaram a fazer parte da lista dos clientes da galeria.

Ainda não chegou ninguém — disse minha mulher. — Estou aqui desde as dez horas, está cacetíssimo. De quem era o carro em que você veio?

De Julia.

Julia? Mas por que você não a fez entrar? Por coin­cidência, estive falando sobre Brideshead com um homenzi­nho engraçado, que parecia nos conhecer muito bem. Chamava-se Mr. Samgrass. Aparentemente, ele é um dos jovens de meia-idade que Lorde Copper mantém no Daily Beast. Tentei impingir-lhe um pouco de propaganda, mas ele parece conhecer você melhor que eu. Disse lembrar-se de mim em Bride­shead. Que pena Julia não ter vindo; assim poderíamos saber quem ele é.

Lembro-me dele muito bem. É um patife.

Isso se vê logo. Andou falando do que ele chama "a turma de Brideshead". Rex Mottram parece ter transfor­mado o lugar num verdadeiro antro de perdição. Você sabia? Que diria Teresa Marchmain?

Vou lá hoje de noite.

Charles, hoje, não. Todos estão à sua espera lá em casa. Você prometeu ir assim que a exposição estivesse pron­ta. Johnjohn e Nanny escreveram num cartaz: "Seja bem-vindo". E você ainda não conhece Caroline.

Sinto muito, mas já está tudo combinado.

Além disso, papai vai achar esquisito. E Boy vem pas­sar o domingo em casa. E você ainda não viu o novo estúdio. Você não pode ir hoje. Eu não fui convidada?

Foi; mas eu sabia que você não poderia ir.

Agora não posso. Se você me tivesse falado antes, te­ria dado um jeito. E vontade não me falta de conhecer a "turma de Brideshead" na intimidade. Você é uma peste, mas não podemos brigar aqui. Os Clarence prometeram vir antes do almoço; podem chegar a qualquer instante.

Contudo, nossa conversa foi interrompida não pela apa­rição de representantes da realeza, mas por uma repórter de um diário, a quem o gerente nos apresentou. Ela não viera apreciar os quadros, mas escrever uma reportagem sobre o "lado humano", isto é, os perigos que eu enfrentara no decorrer da viagem. Deixei-a entregue à minha mulher, e no dia seguinte li no jornal: "Charles Ryder, o pintor das mansões senhoriais, abandona o roteiro traçado no mapa. Na opinião de Ryder, artista grã-fino que trocou as mansões de gente importante pelas ruínas da África equatorial, as cobras e vampiros da selva não levam vantagens sobre Mayfair..."

As salas começaram a se encher, e eu tive de bancar o amável. Minha mulher parecia estar em toda parte; cumpri­mentava os recém-chegados, fazia apresentações, e com habi­lidade transformava aquela multidão heterogênea numa reu­nião mundana. Eu a vi levando pessoas amigas, umas atrás das outras, à mesa onde estavam colocadas as listas com os pedidos do livro A América Latina de Ryder; e ouvi quando ela disse: Não, meu bem, não foi a menor surpresa para mim, mas você queria que eu me surpreendesse? Você compreende, Charles não vê outra coisa na vida, a não ser o Belo. Mas acho que acabou se cansando dessa beleza feita sob me­dida encontrada na Inglaterra; tinha de descobri-la e criá-la por si mesmo. Precisava conquistar novos horizontes. Afinal, ele já disse tudo o que tinha a dizer como pintor de mansões campestres, não é? Não quero dizer com isso que tenha desis­tido do gênero. Não deixará de atender ao pedido de um ou outro amigo.

Apareceu um fotógrafo, juntou todo mundo, acendeu a lâmpada na cara de todos, e depois deixou-nos dispersar.

De repente as pessoas começaram a recuar, e fez-se aque­le silêncio característico que acompanha a entrada de pessoas da família real. Vi minha mulher fazendo uma reverência e ouvi quando ela disse: Oh, sir, Vossa Alteza é muito amá­vel. Então fui levado até o centro do espaço vazio e o Duque de Clarence falou: Devia fazer muito calor por lá.

De fato, sir, fazia.

É extraordinário como o senhor conseguiu dar a im­pressão de calor. Chego a sentir-me mal no meu sobretudo.

Ah, ah.

Depois de eles partirem, minha mulher disse: Santo Deus, vamos chegar atrasados para o almoço. Margot dá esse almoço em sua homenagem. E no táxi: Tive uma idéia. Por que você não escreve pedindo licença à duquesa para lhe dedicar a América Latina?

Por quê?

Ela ficaria encantada.

Não estava pensando em dedicá-lo a ninguém.

Está vendo, Charles. Isso é bem do seu feitio. Por que não aproveitar a ocasião que se oferece para fazer uma gentileza?

Éramos doze pessoas no tal almoço, e embora minha mulher e a anfitrioa declarassem com satisfação ser ele em minha homenagem, eu tinha certeza de que a metade das pessoas presentes não ouvira falar de minha exposição, e viera apenas por causa do convite e por não terem outro compro­misso. Durante o almoço só falaram de Mrs. Simpson, mas, depois, quase todos nos acompanharam de volta à galeria.

A hora de maior movimento era depois do almoço. Apareceram representantes da Tate Gallery, Chantrey Bequest e National Art Collections Fund, todos prometeram voltar de­pois com outros colegas, e, nesse ínterim, reservaram alguns quadros para estudo. O crítico mais importante, que em tem­pos passados falara de mim superficialmente, fazendo elogios ferinos, agora, segurando-me o braço, os olhos escondidos por um chapéu de abas largas e metido num cachecol de lã, falou: — Eu sabia que você tinha talento. Eu sentia isso; esperava o momento da revelação.

Ouvia frases esparsas, elogiosas, pronunciadas por grã- finos e cafajestes. Alguém falou: — Se você me perguntasse quem era o autor, eu nunca iria me lembrar de Ryder. São trabalhos tão másculos, tão vibrantes.

Todos eram unânimes em descobrir qualidades novas em minha pintura. Que diferença de minha última exposição realizada ali mesmo antes de viajar. Naquela ocasião havia indí­cios inegáveis de tédio. As casas e as anedotas sobre seus proprietários provocavam mais comentários que minha pessoa. Lembrava-me de ter visto esta mesma senhora, que agora aplaudia tão entusiasticamente minhas qualidades pictóricas, másculas e vibrantes, postada diante de uma tela trabalhada com grande esforço, comentar bem perto de mim: "Tão fácil".

Recordo-me dessa exposição por outro motivo também; naquela semana descobri que minha mulher me enganava. Na­quela ocasião, como agora, ela era uma anfitrioa incansável, e eu a ouvi dizer: — Hoje, quando vejo uma coisa bonita, uma casa, por exemplo, ou uma linda paisagem, penso comigo mesma: "Foi Charles quem pintou. Foi ele quem me ensinou a ver. Para mim, ele representa a própria Inglaterra".

Eu ouvi suas palavras; ela costumava dizer coisas assim. Quantas vezes em nossa vida de casados senti o sangue ferver ao escutar suas observações. Mas, naquele dia, nesta mesma galeria, eu fiquei impassível, e compreendi de repente que ela não poderia mais me atingir; eu era um homem livre; com esse pequeno deslize da parte dela, eu conquistara minha carta de alforria; os chifres que me cresciam na testa me torna­vam rei da floresta.

No fim do dia, minha mulher disse: Meu bem, pre­ciso ir andando. Foi um grande sucesso, não? Arranjarei uma desculpa qualquer para dar lá em casa, mas eu não queria que terminasse assim desta maneira.

"Então ela sabe", pensei eu. "Ela é muito esperta. Desde a hora do almoço anda desconfiada, e agora descobriu."

Deixei-a sair na frente e dispunha-me a sair também, as salas estavam quase vazias, quando ouvi à entrada uma voz que há muitos anos não ouvia, falando num gaguejar estudado e inesquecível, ralhando de modo cadenciado e ríspido ao mesmo tempo.

Não. Eu não tenho convite. Nem sei se o recebi. Não vim para uma reunião social; não me interessa fazer relações com Lady Celia; nem faço questão de ver meu retrato no Tatler; não estou aqui para exibir-me. Vim para ver os qua­dros. Quem sabe se o senhor ignora a presença de quadros aqui? Acontece que eu tenho um interesse particular pelo artista, se acaso essa palavra lhe diz alguma coisa.

Antoine disse eu —, entre.

Meu velho, este mon-mons-tro aqui pensa que eu sou um pe-pe-netra. Cheguei ontem a Londres, e soube de sua exposição por acaso, em conversa agora no almoço, por isso me precipitei impetuosamente ao templo para prestar minha homenagem. Você acha que eu mudei? Você me reconheceria? Onde estão os quadros? Vou interpretá-los para você.

Anthony Blanche era o mesmo, não mudara desde a últi­ma vez em que estivéramos juntos, aliás, desde o dia em que o conheci. Atravessou a sala com um passinho ligeiro, e foi postar-se diante da tela mais importante, uma paisagem das selvas; parou um instante, virou a cabeça de lado como um cachorrinho inteligente e perguntou: Meu caro Charles, onde você descobriu essa folhagem exuberante? Em alguma estufa? Que agiota extravagante criou essa fronde para seu deleite?

Depois fez a volta das duas salas; deu um ou dois sus­piros profundos, mantendo-se silencioso o resto do tempo. Quando terminou, deu um suspiro ainda mais fundo, e disse: — Meu caro, pelo menos, vejo que você está apaixonado e feliz. E isso é tudo, não é? Ou quase tudo.

São tão ruins assim?

Anthony segredou num tom cortante: — Meu caro, não exponhamos diante dessa gente boa e simples esse seu pequeno embuste —, e olhando com ar de quem estivesse em altas conspirações, para os últimos visitantes que ainda estavam ali: — Não estraguemos um prazer tão inocente. Nós dois sabemos que tudo isso é uma droga. Vamos embora para não ofender os connoisseurs. Conheço um barzinho suspeito bem perto daqui. Vamos até lá conversar sobre suas outras con-con-quistas.

Era preciso que essa voz do passado viesse me acordar; a babel confusa dos elogios ouvidos naquele dia tão cheio tinham tido sobre mim o mesmo efeito dos anúncios coloca­dos ao longo da estrada entre os álamos, quilômetros após quilômetros, recomendando algum hotel novo; de modo que, ao fim da jornada, chegando a nosso destino, empoeirados e com os membros entorpecidos, somos levados inevitavelmen­te a entrar no pátio do tal hotel, onde se lê o nome que a prin­cípio nos aborreceu, depois nos irritou, e acabou tornando-se companheiro inseparável de nosso cansaço.

Segui atrás de Anthony, saímos da galeria, e descemos uma ruazinha até chegarmos a uma porta onde se lia o seguin­te: "Blue Grotto Club. Só é permitida a entrada de sócios", e que estava colocada entre um agente de publicidade e um farmacêutico, ambos de aparência infecta.

Naturalmente, não é bem seu ambiente, meu caro, mas o meio onde costumo viver. Afinal de contas, você passou o dia todo no seu mundo.

Descemos uma escada cheirando a gatos, para entrar num recinto que cheirava a gim, cigarros apagados, e onde se ouvia o som de um rádio.

Foi um velho sujo do Boeuf sur le Toit quem me deu o endereço. Fiquei-lhe muito grato por isso. Passei tanto tempo fora da Inglaterra! e antros simpáticos como este não duram muito tempo. Ontem foi a primeira vez que eu vim aqui, e já estou inteiramente à vontade. Boa noite, Cyril.

Olá, Toni, outra vez? — disse o jovem por trás do bar.

Vamos apanhar as bebidas e arranjar um cantinho para ficar. Meu caro, não se esqueça, sua presença aqui chama tanto a atenção, e, desculpe a expressão, é tão anormal como a minha seria no B-B-Bratt.

A sala era pintada da cor de cobalto; o linóleo no chão era da mesma cor. No teto e nas paredes viam-se peixes de papel dourado e prateado colados aqui e ali. Uma meia dúzia de rapazelhos andava por ali bebendo e mexendo na máquina caça-níqueis; um sujeito mais velho, sestroso, de aspecto crapuloso, parecia tomar conta do lugar; o grupo reunido perto da máquina começou a cochichar e dar risinhos, e então um dos rapazotes dirigiu-se para nós e perguntou: — Seu amigo gostaria de dançar uma rumba?

Não, Tom, ele não quer, e eu não vou pagar nenhum drinque; pelo menos agora. Meu caro, esse rapazinho é muito safado, uma verdadeira cavadora de ouro.

E então, que há de bom? — disse eu, procurando tomar uma atitude displicente que estava longe de sentir na­quele antro. — Que andou você fazendo durante todos esses anos?

Meu caro, nós vamos falar é de você. Tenho seguido sua carreira. Sou muito constante, e não o perdi de vista. — À medida que ele falava, o bar, o garçom, a mobília de palha pintada de azul, as máquinas caça-níqueis, o gramo­fone, a dupla de rapazelhos dançando sobre o linóleo, os ou­tros a fazer chacota perto do caça-níqueis, o homem maduro de veias saltadas, vestido de maneira impecável a beber no canto à nossa frente, enfim, o ambiente sórdido e escuso da­quele antro, tudo parecia desaparecer e eu estava novamente em Oxford, e olhava para os terrenos de Christ Church atra­vés de uma janela do mais puro estilo gótico-ruskiniano. — Visitei sua primeira exposição — disse Anthony; — achei-a encantadora. Havia um interior de Marchmain House, muito britânico, muito distinto, mas bem interessante. "Charles lavrou um tento", disse eu; "mas ele poderá fazer muito mais ainda."

"Mas, apesar de tudo, eu ainda tinha minhas dúvidas. E achava sua pintura um tanto refinada para o meu gosto. Não se esqueça, eu não sou inglês; não entendo essa mania de querer mostrar educação. O esnobismo inglês, em minha opinião, ainda é mais fúnebre que a moralidade britânica. Contudo, disse eu, 'Charles realizou algo de encantador. Que fará depois disso?'

"Então, travei conhecimento com o seu bonito livro, Arquitetura provinciana e de aldeia, não era esse o nome? Um livro e tanto, meu caro, e que encontrei? Novamente o mesmo estilo encantador. 'Não é bem o meu gênero', pensei; 'britâ­nico demais para o meu gosto.' Você compreende, gosto de coisas picantes, não aprecio a sombra dos cedros, sanduíches de pepino, o jarro de prata para cremes, as roupas que as mo­ças inglesas usam para jogar tênis, nem isso, nem Jane Austen, nem M-M-Miss M-M-Mitford. Foi aí que, para ser franco, meu caro Charles, comecei a perder a confiança em você. 'Sou um gringo degenerado', disse eu, e, Charles, estou falando de sua arte, meu caro, parece a filha de um diretor de colégio num vestido de gaze estampada.

"Imagine o meu assanhamento no almoço hoje. Todos falavam de você. Minha anfitrioa, uma Mrs. Stuyvesant Oglander, amiga de minha mãe; e sua amiga também, meu caro. Que velha coroca! Nunca pensei que você se desse com gente assim. Em todo caso, apesar de terem todos visto a exposição, só falavam na sua pessoa, que você fugira, meu caro, para os trópicos, transformara-se num Gauguin, num Rimbaud. Ima­gine a satisfação deste seu velho amigo.

" 'Coitada de Celia', diziam, 'depois de tudo quanto fez por ele.' 'Ele deve tudo a ela. É uma pena.' 'E logo com Julia', diziam, 'depois do que ela andou fazendo na América.' 'Ago­ra que ela ia voltar para a companhia de Rex.'"

E os quadros — disse eu; — fale-me sobre eles.

Bem, os quadros, disseram, "são esquisitíssimos". "Nada que se pareça com o seu trabalho até aqui." "Têm mui­ta força." "Muito selvagens." "Em minha opinião, são sim­plesmente desagradáveis", disse Mrs. Stuyvesant Oglander.

"Meu caro, nem podia ficar quieto na cadeira. Eu que­ria deixar aquela sala depressa, meter-me num táxi, e dizer: 'Leve-me logo para ver os quadros desagradáveis de Charles'. Bem, lá fui eu, mas, depois do almoço, a galeria cheia de mulheres incríveis com uns chapéus que mereciam ser comidos, por isso fiquei descansando um pouco, aqui com Cyril e Tom, e esses safadinhos. Voltei às cinco da tarde, porque não era a hora elegante, com água na boca, meu caro, e que encontrei? Uma brincadeira de mau gosto, mas de muito efeito. Lem­brei-me muito do meu querido Sebastian quando ele tinha a mania de usar suíças postiças. Mais uma vez, aquele gênero delicado, britanicamente encantador, com um aspecto selva­gem de fancaria.

Você tem toda a razão — respondi.

Claro que tenho. E tinha, quando há anos atrás, e é preciso que se diga, nós dois não mostramos a passagem dos anos, eu o aconselhei a acautelar-se contra os perigos do en­canto. Cheguei a convidá-lo para jantar avisando-o, de manei­ra especial e com abundância de detalhes, acerca dos Flyte. O "encanto" é a grande praga do povo inglês. Não existe além das fronteiras desta ilha úmida. Deixa sua marca mortal em tudo que toca. Mata o amor, a arte, e eu receio muito que você, meu caro Charles, tenha sido uma de suas vítimas.

O tal rapazinho chamado Tom tornou a aproximar-se de nós. — Toni, não seja mau; pague-me um drinque. — Lem­brei-me de que tinha de tomar o trem e deixei Anthony com ele.

Parado na plataforma junto do vagão-restaurante, eu vi passar minha bagagem e a de Julia, seguida pela empregada de Julia sempre de cara amarrada, caminhando ao lado do por­teiro. Julia chegou quando já começavam a fechar as portas dos vagões, e sentou-se calmamente à minha frente. Eu reser­vara uma mesa para dois. O horário desse trem era muito conveniente; saía uma meia hora antes do jantar, e chegava meia hora depois; em lugar de fazer baldeação, como se costumava fazer no tempo de Lady Marchmain, tomávamos o carro no ponto onde se fazia baldeação. Quando saímos de Paddington, já era noite; deixamos as luzes da cidade para trás, passamos pelos subúrbios, onde se viam luzinhas esparsas, e acabamos mergulhando na escuridão dos campos.

Tenho a impressão de que não nos vemos há muito tempo — disse eu.

Seis horas, e estivemos juntos o dia todo ontem. Você está muito abatido.

Foi um verdadeiro pesadelo. Multidões, críticos, os Clarence, um almoço oferecido por Margot; acabei num bar de tarados, onde durante meia hora ouvi críticas desabusadas e inteligentes sobre meus quadros... Acho que Celia já sabe de tudo.

Bem, ela teria de vir a saber.

Acho que todos sabem. Esse meu amigo veado já sabia de tudo, vinte e quatro horas depois de ter chegado a Londres.

Os outros que se danem.

E Rex?

Rex não é ninguém — disse Julia; — é como se não existisse.

Corríamos na escuridão, os garfos e facas tiniam sobre a mesa; nos copos, com o balanço do trem, o gim e o vermute ora formavam um círculo perfeito, ora se alongavam até for­mar um oval, chegando à borda, pulando de volta, sem entor­nar. Eu começava a esquecer as atribulações daquele dia. Julia tirou o chapéu, jogou-o para cima da prateleira, e sacudiu seus cabelos negros como a noite com um suspiro de satisfa­ção; um suspiro que pedia um travesseiro, o fogo morrendo na lareira, um quarto, onde a janela aberta deixasse entrar a luz das estrelas e o sussurro das árvores.

Como é bom ter você aqui, Charles; como nos velhos tempos.

"Como nos velhos tempos?", pensei comigo mesmo.

Nessa época, Rex andava pelos quarenta anos. Seu as­pecto era pesadão, sanguíneo; perdera o sotaque canadense, falava em tom alto e roufenho, idêntico ao de seus amigos, que pareciam ter de viver eternamente aos gritos para serem ouvidos acima da multidão. Sentindo a mocidade fugir, eles não podiam mais esperar a oportunidade de falar, de ouvir, de responder; era hora de rir, um riso rouco, sem alegria, vil moeda corrente da boa vontade.

Havia uma meia dúzia desses amigos reunidos na sala das tapeçarias; políticos, "jovens conservadores" nos seus qua­renta e poucos anos, carecas e hipertensos; um socialista das minas de carvão, que já falava no mesmo tom de voz, e mas­tigava os charutos, e cuja mão tremia quando segurava a gar­rafa para se servir; um colunista apaixonado, o único que não falava, olhando fixamente com ar soturno para a única mulher presente; um financista que parecia ser o mais velho do grupo, e também o mais rico, a julgar pela maneira como era tratado pelos demais; uma mulher, a quem chamavam "Grizel", uma libertina sabida, e que no fundo todos temiam um pouco.

Todos tinham medo de Julia também, inclusive Grizel. Julia cumprimentou os presentes, desculpou-se por não estar em casa para recebê-los, e fê-lo com tanta cerimônia, que eles se calaram por alguns instantes; mas, quando ela veio sentar-se comigo junto à lareira, rompeu o falatório outra vez reboan­do a nossos ouvidos...

"Claro que ele pode casar-se com ela amanhã e fazê-la rainha."

"Perdemos a nossa oportunidade em outubro. Por que não pusemos a frota italiana no fundo do Mare Nostrum? Por que não fizemos Spezzia voar pelos ares? Por que não desembarcamos em Pantelleria?"

"Franco não passa de um agente alemão. Eles tentaram convencê-lo a construir bases aéreas para bombardear a França. Pelo menos esse blefe acabou."

"Com isso a monarquia voltaria a ser uma potência, co­mo nunca mais foi desde a época dos Tudor. O povo o apóia."

"A imprensa também."

"Eu também."

"Quem liga hoje em dia a essa história de divórcio, a não ser algumas solteironas que nem casadas são?"

"Se ele adotar uma atitude enérgica com aquela camba­da, eles fugirão como, como ..."

"Por que não fechamos o canal? Por que não bombar­deamos Roma?"

"Não seria preciso. Um ultimato enérgico ..."

"Um discurso enérgico."

"Uma atitude enérgica."

"De qualquer maneira, Franco não tardará a voltar para o Marrocos. Acabo de encontrar um sujeito recém-chegado de Barcelona ..."

"... um sujeito recém-chegado de Fort Belvedere..."

"... um sujeito recém-chegado do Palazzo Venezia..."

"Só queremos uma atitude enérgica."

"Uma atitude enérgica com Baldwin."

"Uma atitude enérgica com Hitler."

"Uma atitude enérgica com essa cambada..."

"...Nunca pensei ver a minha terra, a terra de Clive e Nelson..."

" ...Minha terra de Hawkins e Drake."

"...Minha terra de Palmerston... "

Quer me fazer o favor de parar com isso? disse Grizel ao colunista, que, meio embriagado, procurava torcer- lhe o pulso; não estou achando graça.

O que será pior disse eu —, Celia com sua mania de arte e elegância ou Rex com sua política e dinheiro?

Mas por que pensar neles?

Meu bem, por que será que o amor me faz odiar o mundo? Em geral dizem que é o contrário. Tenho a impres­são de que toda a humanidade e Deus também conspiram contra nós.

E conspiram mesmo.

Mas apesar de tudo somos felizes; neste momento go­zamos nossa felicidade. Eles não nos podem fazer mal, não é?

Nesta noite, não; agora não.

Mas quantas noites teremos ainda?

Capítulo III A fonte.

Você se lembra — disse Julia, na noite tranqüila, perfumada pelas laranjeiras —, você se lembra da tempes­tade?

As portas de bronze batendo?

As rosas embrulhadas em papel celofane?

O homem que deu a festa de confraternização, e nun­ca mais foi visto?

Você se lembra de como o sol apareceu naquele últi­mo entardecer, como fez hoje também?

Durante toda a tarde, nuvens baixas e aguaceiros de verão toldaram o céu, que ficava tão escuro a ponto de não me deixar trabalhar, e então eu tinha de tirar Julia da espé­cie de transe em que ela caía; posara para mim tantas vezes, eu nunca me cansava de pintá-la, era uma fonte de inspiração e de eterna beleza. Finalmente, subíramos cedo para tomar banho, e ao descermos vestidos para o jantar, à hora do crepúsculo, tudo se transformara; o sol aparecera; o vento amai­nara, e a brisa suave agitava docemente as flores de laranjei­ra, levando seu perfume, que ainda recendia a chuva, a se misturar com a fragrância delicada dos buxos e da pedra que começara a secar. A sombra do obelisco projetava-se no terraço.

Eu levara duas almofadas, tirando-as da varanda sob a colunata, e colocara-as à beira da fonte. Julia sentou-se; vestia uma túnica apertada de lamê e uma sobre-túnica branca; mergulhou uma das mãos na água, virando o anel de esmeralda para captar os raios do sol; os animais esculpidos pareciam formar uma auréola de musgo verde, de pedra reluzente, e sombras profundas sobre sua cabeça; a água, batendo nas pedras, brilhava, gorgolejava, e parecia formar escamas de fogo.

...Quantas recordações — disse ela. — Desde en­tão, quantos dias nós passamos longe um do outro; cem?

Não foram tantos assim.

"Dois Natais... Aquelas incursões anuais e frias nos domínios da decência. Boughton, residência de minha família, a casa de meu primo Jasper; ao voltar ali, ao ver seus corre­dores de pinho e suas paredes minando água, eu era assalta­do pelas recordações desagradáveis da infância. Meu pai e eu, num estado de animosidade latente, sentados lado a lado no carro de meu tio, seguíamos o caminho que nos levaria a meu tio, minha tia Philippa, meu primo Jasper, e nos últimos anos lá estavam, também, a mulher e os filhos de meu primo, e ainda minha mulher e meus filhos, que talvez já tivessem chegado ou estivessem para chegar a qualquer momento. Esse sacrifício anual nos reunia; ali, entre o azevinho e o agárico; o pinheiro cortado; os jogos de salão realizados como se fos­sem um ritual; a manteiga com conhaque; e as ameixas de Carlsbad; o coro da vila a cantar na galeria dos trovadores; cordões dourados; papel de embrulho estampado; ali, nós éramos, para todos os efeitos, marido e mulher, apesar dos boatos maldosos que corriam a nosso respeito. 'Temos de manter as aparências a qualquer preço, por causa das crianças', dizia minha mulher.

"Sim, dois Natais... E aqueles três dias em que pro­curamos manter uma atitude discreta antes de nos encon­trarmos em Capri."

Nosso primeiro verão.

Você se lembra de como eu fiquei perambulando em Nápoles, até a hora de partir, e o encontro que nós marcamos no caminho do morro, e como ficamos desapontados?

Eu voltei à vila e disse: "Papai, imagine quem está no hotel?", e ele respondeu: "Deve ser Charles Ryder". E eu disse: "Por que você foi se lembrar dele?", e papai res­pondeu: "Cara voltou de Paris com a novidade de que vocês dois eram inseparáveis. Ele parece ter um fraco pelos meus filhos. Contudo, traga-o para cá; arranjaremos lugar para ele ficar".

E também quando você teve icterícia e não queria que eu a visse.

E quando eu tive gripe e você ficou com medo de vir me visitar.

Inúmeras visitas ao distrito de Rex.

E na Semana da Coroação, quando você fugiu de Londres. Sua missão de boa-vontade junto a seu sogro. Aquela ocasião em que você foi a Oxford pintar aquele quadro de que não gostaram. Ora, sim, foram bem uns cem dias.

Cem dias perdidos em dois anos e pouco... nem uma briga, desconfiança ou desilusão.

Nunca.

Quedamo-nos silenciosos; só os passarinhos chilreavam lá fora entre as laranjeiras; só as águas cantavam na rocha esculpida.

Julia tirou meu lenço do bolso e enxugou a mão; depois acendeu um cigarro. Eu tinha medo de quebrar aquele encantamento trazido pelas recordações, mas por uma vez nossos pensamentos se desirmanaram, porque, quando Julia falou afinal, ela disse com tristeza: Quantos ainda? Mais cem?

A vida inteira.

Charles, eu quero me casar com você.

Algum dia. Mas por que agora?

A guerra disse ela —, este ano, o ano que vem, mas que seja logo. Gostaria de gozar um ou dois dias de verdadeira paz com você.

E isto não é paz?

O sol desaparecia atrás das florestas além do vale; a encosta fronteira já estava imersa no lusco-fusco crepuscular, mas os lagos a nossos pés flamejavam; a luz parecia ter mais força e esplendor ao morrer, desenhando sombras alongadas no pasto, e caindo em cheio sobre as pedras da casa, darde­jando sobre os vidros das janelas, brilhando sobre as cornijas, a colunata e a cúpula, pondo à mostra toda a riqueza de cor e perfume, armazenadas na terra, nas pedras e nas folhas, aureolando a cabeça e os ombros da mulher que estava a meu lado.

Se isto não é paz, então o que é?

Muito mais que isso e passando a falar num tom de voz seco, desprendido, continuou: Casamento não é coisa que se decida conforme a veneta. Em primeiro lugar, é preciso conseguir o divórcio, dois divórcios. Precisamos fazer planos.

Planos, divórcio, guerra, numa noite como essa.

Às vezes disse Julia tenho a impressão de sentir o passado e o futuro tão próximos, que não há lugar para o presente.

Nesse momento, Wilcox desceu as escadas e veio dizer que o jantar estava servido.

No parlatório, os postigos estavam levantados, as cor­tinas abertas, as velas dos candelabros acesas.

Olá, três lugares na mesa.

Lorde Brideshead chegou há meia hora, milady. Dei­xou recado para a senhora não esperar por ele, porque poderá chegar um pouco atrasado.

Nem sei há quanto tempo ele não aparece — disse Julia. — É um mistério o que ele faz em Londres.

Isso era motivo para freqüentes especulações de nossa parte, e nós dávamos asas à fantasia, porque Bridey era um mistério; um ser subterrâneo; um animal de focinho duro, que gostava de ficar entocaiado; hibernante, que fugia da luz. Sua vida de adulto decorrera da maneira mais inexpressi­va possível, seus projetos de entrar para o Exército, para o Parlamento, ou para um convento, não deram em nada. Só uma coisa ele parecia ter realizado, uma coleção de caixas de fósforos, e isso veio a ser conhecido, porque, na falta de as­sunto, um jornal estampou um artigo intitulado: "Passatem­po curioso de um representante da nobreza". Ele montava as caixas sobre tábuas, catalogava-as, e com o passar dos anos elas começaram a ocupar um espaço cada vez maior em sua pequena casa em Westminster. A princípio ele ficou enca­bulado com a publicidade feita em torno do assunto pelo jor­nal, mas depois mostrou-se bastante satisfeito, porque com isso estabeleceu contato com outros colecionadores no mun­do inteiro, passando então a corresponder-se e trocar duplica­tas com outros colecionadores. Fora disso, ninguém lhe co­nhecia outros interesses. Continuava sendo monteiro-mor de Marchmain, e ia caçar religiosamente duas vezes por semana nos dias marcados, quando estava em casa; não caçava nunca com a matilha vizinha, a quem cabiam as terras de caça mais abundante. No fundo, não era muito esportivo, e naquela estação não chegara a caçar umas doze vezes; tinha poucos amigos; visitava suas tias; comparecia a jantares públicos em benefício de instituições católicas. Em Brideshead ele cumpria como castelão as obrigações estritamente necessárias, comparecendo aos palanques, às festas, às salas de reunião, com um ar ligeiramente distante e atabalhoado.

Na semana passada, encontraram em Wandsworth uma moça estrangulada com um pedaço de arame farpado — disse eu, ressuscitando uma velha brincadeira.

Deve ter sido Bridey. Ele é mau.

Depois de estarmos à mesa uns quinze minutos, Bridey apareceu, entrando na sala com imponência, metido num casaco de veludo verde-escuro, que ele deixava em Brideshead, e usava sempre ali. Aos trinta e oito anos, pesadão e careca, parecia ter quarenta e cinco.

Ora, ora disse ele —, só estão vocês dois aqui; pensei encontrar Rex.

Muitas vezes pensei, intrigado, que opinião ele faria de mim, e como explicaria minha presença habitual ali; ele parecia me considerar pessoa da casa, e não demonstrava a menor curiosidade a meu respeito. Por duas vezes nestes dois últimos anos, surpreendeu-me ao me dar o que parecia ser uma demonstração de apreço; no Natal enviou-me seu retrato nas vestes de Cavalheiro de Malta, e pouco depois convidou-me para jantar num clube. Em ambos os casos havia uma explicação: tinha mandado fazer tantas cópias do retrato que não sabia o que fazer com elas; e tinha grande orgulho de seu clube. Era uma congregação surpreendente de ho­mens de alguma projeção profissional, que se reuniam uma vez por mês para passar a noite realizando uma cerimônia bufa; todos tinham um apelido, Bridey era "Irmão Nobre", e possuíam uma jóia desenhada especialmente para simbolizar o apelido, e que fazia as vezes de comenda; tinham botões de lapela com insígnias do clube e um ritual complicado para a iniciação dos convidados; depois do jantar liam um discurso e faziam arengas bufas. Havia uma certa rivalidade na apre­sentação de convidados famosos, e, como Bridey tinha pou­cos amigos e eu alguma fama, fui convidado. Nessa noitada alegre, eu pude verificar ainda que meu anfitrião parecia criar ao redor de si um ambiente anti-social de cons­trangimento geral, ao qual ele ficava completamente in­diferente.

Sentou-se à minha frente, inclinando sua careca rosada sobre o prato.

Então, Bridey, quais são as novidades?

Na verdade disse ele —, eu tenho uma novidade. Mas não há pressa.

Conte logo.

Ele fez uma careta, como a dizer "na frente dos em­pregados, não", e falou: Como vão as pinturas, Charles?

Que pinturas?

O trabalho que você está fazendo.

Comecei um croqui de Julia, mas a luz hoje não esta­va boa.

Julia? Julguei que você já tivesse pintado seu re­trato. Bem, deve ser bom variar, não é arquitetura, mas deve ser muito mais difícil.

Sua conversa era entrecortada por longos silêncios, e nesses intervalos seu cérebro parecia não funcionar; mas ele voltava ao assunto interrompido exatamente no ponto em que o deixara, para grande susto dos interlocutores. Depois de alguns instantes, ele falou: O universo está cheio de assuntos os mais variados.

Você tem toda a razão, Bridey.

Se eu fosse pintor disse ele —, escolheria sempre um assunto inteiramente diferente; motivos de ação intensa, como... — Outra pausa. Que viria por aí, pensei eu. O Escocês Voador? A Carga da Brigada Ligeira? A Regata de Henley? E então, para grande surpresa nossa, ele falou: — ... como Macbeth. Pensar em Bridey como pintor de movimento era supinamente absurdo; ele era sempre absurdo, contudo conseguia manter uma certa dignidade por sua atitude distante e imponderável; ainda era um pouco infantil, e ao mesmo tempo meio veterano; parecia ser de outra era; possuía uma espécie de integridade maciça, uma imunidade e uma indiferença ao universo em geral que inspiravam respeito. Embora muitas vezes caçoássemos dele, nunca era inteiramente ridículo; em certas ocasiões chegava mesmo a ser im­pressionante.

Falamos das notícias sobre a Europa central quando, interrompendo subitamente um assunto tão árido, Bridey perguntou: Onde estão as jóias de mamãe?

Isso era dela disse Julia —, e isso, Cordélia e eu ficamos com o que era dela. As jóias de família estão no banco.

Há tanto tempo não vejo essas jóias, nem sei se conheço todas elas. Quantas são? Alguém me falou de uns rubis famosos.

Sim, é um colar. Mamãe o usava muito, você não se lembra? E as pérolas, ela sempre as guardava consigo. Mas o resto ficava no banco anos seguidos. Lembro-me de umas pavorosas agrafes de brilhantes, e uma gargantilha de brilhantes do tempo da Rainha Vitória, mas completamente fora de moda. Há uma porção de pedras boas. Por quê?

Gostaria de vê-las.

Meu Deus, papai não vai pô-las no prego, vai? Está endividado de novo?

Não, não é nada disso.

Bridey comia muito e devagar. Julia e eu o observáva­mos, olhando por entre as velas. Finalmente, ele falou: Se eu fosse Rex Bridey parecia estar sempre fazendo con­jecturas como essa: "Se eu fosse o arcebispo de Westminster", "Se eu fosse diretor da estrada de ferro Great Western", "Se eu fosse uma atriz", e dava a impressão de que isso só não acontecia por mero acaso, podendo acordar uma bela manhã na pele da personagem invocada —, se eu fosse Rex iria morar em meu distrito.

Mas Rex diz que, não morando lá, ele ganha quatro dias de trabalho na semana.

É uma pena ele não estar aqui. Tenho alguma coisa a declarar.

Bridey, deixe de mistério. Diga logo.

Ele fez a tal careta que parecia dizer: "Não na frente dos empregados".

Quando ficamos os três sozinhos e o vinho-do-porto foi colocado sobre a mesa, Julia disse: Não saio daqui sem saber o que é.

Bem disse Bridey recostando-se na cadeira e olhan­do fixamente para o copo. Espere até segunda-feira e você terá o preto no branco, a notícia sairá nos jornais. Estou noivo. Espero que você esteja satisfeita.

Bridey. Mas... é formidável! Quem é ela?

Bem, você não conhece.

É bonita?

Propriamente bonita, não é; eu diria simpática. É uma mulher vistosa.

Gorda?

Não, vistosa. Chama-se Mrs. Muspratt; seu nome é Beryl. Conheço-a há muito tempo, mas até o ano passado seu marido era vivo; agora enviuvou. Por que você está achando graça?

Desculpe. Não tem graça nenhuma. Mas foi uma surpresa tão grande. E ela... tem a sua idade?

Acho que sim. Tem três filhos, o mais velho acaba de entrar para Ampleforth. Não tem dinheiro nenhum.

Mas, Bridey, onde foi que você a encontrou?

O falecido Almirante Muspratt colecionava caixas de fósforos — disse ele com toda a seriedade.

Julia estava quase estourando na gargalhada, mas con­seguiu dominar-se e perguntou: — Você não vai casar com ela por causa das caixas de fósforos, vai?

Não; ele legou a coleção inteira à Falmouth Town Library. Gosto muito dela. Apesar de todas as suas dificul­dades, é muito animada, é uma mulher de ação. Trabalha para a Catholic Players' Guild.

Papai já sabe?

Recebi uma carta hoje de manhã consentindo no nos­so casamento. Ele já vem há muito tempo insistindo para eu me casar.

De repente, Julia e eu percebemos, ao mesmo tempo, que estávamos mostrando apenas curiosidade e surpresa; por isso, procurando ser mais amáveis e menos irônicos, demos-lhe nossos parabéns.

Muito obrigado — disse ele —, muito obrigado. Tive muita sorte.

Mas quando iremos conhecê-la? Voc&ec