Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A VOZ DOS DEUSES / João Aguiar
A VOZ DOS DEUSES / João Aguiar

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A VOZ DOS DEUSES

 

                               (ANO 84 a.C.)

 

Arcóbriga e Meríbriga são cidades mortas desde que os habi­tantes foram obrigados a descer para o vale. Abandonadas no alto dos seus outeiros, elas dominam ainda a vasta planície ondulada, mas aqui, no santuário, o deus fica-lhes sobranceiro porque este monte, que é a sua morada terrena, ultrapassa em altura todos os morros vizinhos.

Arcóbriga e Meríbriga nasceram sob a protecção divina. Tanto quanto a memória dos homens recorda, as muralhas das duas povoações nunca cederam a um ataque e mesmo quando soou a hora da derrota não houve sofrimento ou ignomínia. Por isso, os antigos habitantes, agora instalados ao longo da ribeira, continuam a trazer oferendas à divindade, pois sabem que lhe devem a vida, o pão e a segurança que lhes permite amanhar a terra, caçar, apascentar o gado e, pela tardinha, acender com toda a tranquilidade os seus fogos para preparar a refeição da noite. É o fumo desses fogos que vejo espalhar-se na planície, ao sabor do vento fresco e' forte.

Também a fogueira que me protege contra o frio se verga ao ímpeto do vento, mas quando olho em frente posso distinguir, no interior do templo, cuja porta está aberta, a chama sagrada ardendo erecta e impassível, sem que um sopro a perturbe. Mais perto de mim, ao ar livre, as flores que cobrem a ara dos sacri­fícios são varridas para o chão.

Esta é a minha hora preferida. Os ritos estão executados, as ofertas dos fiéis consagradas, os acólitos recolheram aos seus alojamentos situados na encosta, para cozinhar a ceia, e os peregrinos que desejam consultar o oráculo ainda não chega­ram. Finalmente estou só, envolvido pelo grande silêncio da terra. E este silêncio, tão profundo que nele se perdem o canto dos pássaros e o silvo do vento, liberta a minha alma. Quando nele mergulho, o deus fala-me, por vezes.

Nem sempre foi assim. Os deuses falam aos homens com vozes diferentes, conforme eles são capazes de entender. Os jovens ouvem essas vozes no estrépito das batalhas ou no acto do amor, os velhos aprendem a escutar de outra maneira. Outrora, também eu ouvi a voz dos deuses no amor, na guerra, nos sonhos e na tempestade - até mesmo na fala de outros mortais. Agora, que já passaram oitenta invernos na minha vida - se é que não deixei escapar alguns sem dar por tal- resta­-me o silêncio.

Não sinto amargura, apenas fadiga. Porém a fadiga vai-se dissolvendo, como eu próprio me dissolvo lentamente no ar puro e luminoso do santuário (quando, na Primavera passada, tôrci um tornozelo e tive de ser transportado até ao templo pelos acólitos, eles ficaram surpreendidos ao sentir o meu corpo tão leve e frágil).

Vivi bastante mais que a maioria dos homens. Durante muito tempo não compreendi por que razão os deuses conservaram uma vida que, julgava eu, havia cumprido o seu destino em plena juventude. Agora já sei, como sei muitas outras coisas: ouvi no silêncio a voz da divindade.

Por isso aqui estou sentado, gravando estas palavras em tabuinhas de cera que vou amontoando à minha frente. Além, naquele cofre reforçado com chapas de ferro, guardo o meu tesouro mais precioso, alguns rolos de papiro (o melhor papiro do Egipto) onde copiarei em forma definitiva os textos ensaiados na cera. Não temo que a morte me surpreenda a meio do trabalho, pois obedeço ao deus e ele preservar-me-á até que eu cumpra a sua vontade. Estou nas suas mãos e nada mais importa.

A história de Tongio filho de Tongétamo, sacerdote do grande deus Endovélico e guardião do seu santuário.

 

                         O ORÁCULO

Eu nasci sob o jugo de Roma. O antigo reino do Cineticum, famoso pelos seus bosques, a doçura do seu clima e as suas riquezas, é uma terra que desde sempre atraiu a presença dos deuses e a cobiça dos homens. No ano em que vim ao mundo, já as águias romanas dominavam metade da nossa costa, da foz do Anas para ocidente, e pertenciam-lhes as grandes cidades de Ossónoba, no litoral, e Conistorgis, no interior. Balsa, a minha terra natal, não é tão populosa mas no tempo dos Fenícios foi um entreposto importante e ainda hoje figura entre os principais portos do Cineticum.

Porque nasci junto ao mar, ele é uma das primeiras recordações da minha infância. Outra, por estranho que pareça, é um amuleto que a minha mãe me pendurou ao pescoço para afastar as febres e as dores quando os primeiros dentes começaram a romper. Esse amuleto - uma presa de javali, perfurada, Suspensa de um fio de couro muito fino e flexível - nunca me abandonou e deve ter sido graças a ele que, em toda a minha vida, não me lembro de ter sofrido dos dentes.

Do lado materno descendo dos Cónios, cujos reis fizeram do Cineticum um país próspero. Essa prosperidade trouxe comerciantes e invasores. Uns e outros sucederam-se ao longo dos tempos: vindos do mar ou da vizinha Bética, estabeleceram­-se entre nós e acabaram por criar laços com a população cónia. A sua vinda provocou muitas mudanças, entre elas o desapare­cimento da dinastia real que nos unificara. Mas o Cineticum soube absorver e assimilar os seus dominadores (pelo menos, até os Romanos aparecerem). Na minha família, como em todas as famílias das nossas cidades, há quase tanto sangue fenício ou turdetano como antigo sangue cónio.

As guerras e as invasões alteraram também o que parecia ser o destino imutável dos homens do meu clã. Durante muitas gerações - desde a época dos reis - nós pertencemos aos notáveis de Ossónoba; quando os guerreiros envelheciam e depunham as armas tomavam assento no Conselho dos Anciãos e ocupavam-se das terras que possuíam a leste do Promontório Sagrado. A vinda dos estrangeiros acabou por quebrar essa tradição porque os laços do clã enfraqueceram e as famílias separaram-se, espalharam-se por todo o Cineticum ou foram mais para norte, além das serras. Cada agregado passou a contar somente com os seus próprios membros ou com as amizades e alianças feitas na terra onde se instalara.

O meu bisavô foi o último a seguir a carreira das armas: alistou-se no exército cartaginês, serviu sob o comando de Aníbal Barca e tombou em Itália numa escaramuça com as legiões romanas. Os seus restos mortais nunca foram recuperados e por isso os filhos não puderam cumprir os rituais fúnebres.

Diz-se que os mortos não perdoam a quem os deixa sem sepultura e o certo é que em breve a sorte da família mudou e os quatro rapazes perderam quase todo o património que haviam herdado. O terceiro filho, porém, não aceitou passivamente a má fortuna: sem consultar ninguém, executou ele mesmo os ritos apropriados perante um sepulcro vazio que comprara, para que o espírito do defunto soubesse que lhe eram prestadas as honras exigi das, e tomando sob a sua protecção o irmão mais novo (que viria a ser o meu avõ materno), foi estabelecer-se em Balsa como mercador. Morreu cedo, antes de casar, mas o meu avô, um homem inteligente e enérgico, aprendera o ofício e soube refazer a riqueza perdida. Casou com uma jovem perten­cente à pequena nobreza local e dela teve dois filhos: Camalo, que ele iniciou nos negócios, e Camala, a minha mãe.

Do meu pai só conservo a fugidia imagem de um rapaz que me sentava sobre os joelhos e que era tão belo, de uma beleza tão resplandecente, que eu não sabia (ainda hoje não tenho a certeza) se ele era de facto o meu pai ou uma daquelas divindades luminosas que aparecem às crianças. Pensei nisso muitas vezes, mas creio que se fosse uma aparição o seu olhar não seria tão triste e ausente. A recordação tornou-se mais ténue com o rolar dos anos, porém julgo que nunca esquecerei, ao menos, aqueles olhos muito claros, de um tom verde-mar, que me fitavam quase sem atentar em mim.

Quando compreendi que já não tinha pai, procurei saber o que lhe acontecera e quem ele fora. Da minha mãe não obtive informação alguma, quase só falava dele para rezar ao seu espírito (acusando-o porém de a ter abandonado) ou para carpir a sua morte - o que acontecia sobretudo quando alguém a contrariava. Foi Camalo, o meu tio, que um dia me contou (com uma amargura que não procurou disfarçar) a história desse casamento de que eu sou o único fruto. Já nessa altura eu sabia, por intuição infantil, que a escolha da minha mãe nunca lhe agradara.

Camalo era um homem austero e reservado. Após a morte do meu avô assumira a responsabilidade de proteger a irmã, quinze anos mais nova. Enviuvara cedo, sem filhos, e decidira não voltar a casar até a jovem Camala encontrar um marido capaz de a defender em caso de perigo, pois vivia-se numa época agitada e constantemente chegavam ao Cineticum notícias de combates travados entre os governadores da Hispânia Ulterior (como os ocupantes lhe chamavam) e os povos das regiôes não subjugadas. Na Bética e na Betúria eram frequentes as incursões dos Lusitanos e os mercadores provenientes de Gadir contavam histórias inquietantes de sangrentas revoltas contra Roma. Por tudo isto, o desejo de Camalo era casar a irmã com algum sólido e influente comerciante que soubesse mantê-la ao abrigo do infortúnio. Mas os homens são bonecos nas mãos dos deuses.

A história foi-me contada quando eu tinha doze anos. Havia já algum tempo que a minha mãe, cada vez que eu fazia uma travessura própria da idade, me dizia num tom grave e pomposo:   - Tongio, não podes comportar-te como se fosses um garoto qualquer!

        - Porquê? - perguntava eu só para ganhar tempo. E a resposta, já conhecida, não se fazia esperar:

        - Lembra-te de quem és. Lembra-te de que tens sangue real.

Dizia isto e recusava-se a dar qualquer explicação. Não me foi difícil perceber que tais palavras tinham o condão de exasperar o meu tio. E percebi mais: ele e a minha mãe estavam empenhados numa luta surda em que eu era o despojo de guerra.

Um dia Camalo não resistiu e, quando a odiada frase voltou a ser proferida, ergueu-se e fez-me sinal para o seguir ao mesmo tempo que, com um olhar cuja dureza me chocou, fazia calar os protestos da minha mãe. Durante alguns instantes insuportáveis, os dois enfrentaram-se quase com raiva; depois ela cedeu e o meu tio saiu para o jardim, com o corpo ainda inteiriçado pelo esforço que fizera para se dominar. Eu fui no seu encalço.

Era um dia de Primavera, um dia doirado de sol e pairava no ar um cheiro a flores, a mel e ao pão quente que os escravos estavam a tirar do forno. Camalo deteve-se num recanto do jardim e eu esperei que ele escolhesse uma sombra e me man­dasse sentar. O seu ar grave, mais grave que o habitual, provocou em mim uma sensação desconfortável.

- Cedo ou tarde teríamos esta conversa - disse ele, quase bruscamente - e penso ter chegado a altura.

Começou então uma narrativa que eu ouvi com avidez, bebendo-lhe as palavras. Escolheu uma linguagem própria para a minha idade e omitiu certos pormenores, mas foi suficientemente claro para que mais tarde eu pudesse preencher as lacunas do relato com o meu conhecimento de homem adulto.

 

Quando a minha mãe completou quinze anos, tomou a inesperada decisão de acompanhar Camalo numa das suas viagens de negócios. O irmão deixara-a sempre à guarda de servos de confiança, mas naquele ano ela teimou em fazer a viagem a Baesuris e de lá, seguindo o curso do Anas para norte, até à cidade de Myrtilis.

O meu tio tentou recusar, mas conhecendo o temperamento da minha mãe sei que isso não era fácil. Para fazer prevalecer a sua vontade podia rebelar-se abertamente, recorrer a um sorriso humilde ou entrar em crise de choro. Em qualquer dos casos não desistia, nunca dava quartel e empregava todas as armas ao seu alcance. Assim, durante a discussão, argumentou que não haveria perigo na viagem, porque, como Camalo muito bem sabia, reinava uma certa paz na Bética e nas terras de entre Anas e Tagus, habitadas por Célticos e Lusitanos. Ainda que houvesse bandos de salteadores, acrescentou, os homens armados que protegiam a mercadoria defenderiam também aqueles que a acompanhavam.

As razões mais poderosas reservou-as para o fim: uma recusa de Camalo iria ofender a Grande Deusa. De facto, era por devoção e não por espírito de aventura que a minha mãe pretendia seguir na caravana. Tinham chegado a Balsa notícias de prodígios ocorridos algures a norte de Myrtilis. Ao que se dizia, a divindade manifestara-se ocultando a Lua, esse astro que é a sua imagem visível no céu; feitos os sacrifícios e lidos os presságios, os sacerdotes haviam anunciado que a deusa exigia a construção de um santuário. O local exacto fora indicado, os trabalhos iam já a meio e de todos os lados acorriam peregrinos. Era este santuário que a minha mãe queria absolutamente visitar.

O argumento venceu o meu tio, embora ele sacrificasse com mais vontade aos deuses dos bosques e das águas e àqueles que auxiliam os comerciantes ou voltam as suas atenções para as doenças que afligem os homens. Na verdade, ninguém é insensato ao ponto de enfrentar o temível poder dessa deusa misteriosa que já reinava durante gerações sem conta quando as outras divindades se manifestaram pela primeira vez. Por isso Camalo cedeu à insistência da irmã e, como medida de precaução, reforçou a escolta com alguns escravos seus, armados.

A viagem até Baesuris decorreu sem incidentes; fizeram uma estada de três dias nesta cidade - durante a qual o meu tio realizou alguns negócios rendosos, o que melhorou a sua disposição - e a caravana rumou para norte ao longo do Anas, que naquele troço marca a fronteira com a Bética.

Para maior comodidade acampavam sempre junto do rio. E foi a um dia de marcha de Myrtilis que, ao pôr do Sol, quando pararam no sítio escolhido para pernoitar, um dos homens da escolta, ao procurar lenha seca para a fogueira, deparou com um corpo estendido atrás de uma moita.

Trouxeram-no para junto do fogo e o meu tio, depois de o examinar com cuidado, ficou persuadido de que nada havia a fazer porque o forasteiro tinha uma grande ferida nas costas, já infectada. Pegou no punhal para evitar maiores sofrimentos ao moribundo mas uma sombra interpôs-se entre ele e o corpo inerte; era Camala, de mãos erguidas em súplica.

        - Não podemos salvá-lo - explicou ele à irmã – só podemos evitar que sofra mais ao acordar, se chegar a acordar.

        - Deixa-me tratar dele - respondeu Camala - deixa-me tentar. Se não der resultado, então...

Intrigado com tanto interesse, o meu tio atentou melhor no ferido e reparou que este era muito jovem, quase um adolescente. Encolheu os ombros e acedeu, pensando que o rapaz não sobre­viveria até à madrugada seguinte e portanto não valia a pena contrariar a irmã. Enganou-se.

Camala velou toda a noite, preparando unguentos e infu­sões - conhecia as virtudes de muitas ervas e as fórmulas má­gicas que reforçam os seus poderes. Sem atender às repetidas intimações para repousar e dormir, não abandonou o ferido um só instante e quando o Sol nasceu viram-na, com os olhos verme­lhos e pisados da vigília mas exibindo um sorriso triunfante, verter sobre a fogueira uma libação ao deus da luz. O jovem não recobrara completamente os sentidos, porém abrira os olhos durante um breve momento, bebera um caldo de carne e ador­mecera, aparentemente tranquilo. Camala vencera as trevas.

Nessa altura (tarde demais, como ele confessou), o meu tio suspeitou o que estava a acontecer. Quem pode compreender os sentimentos das mulheres? Meio morto, magro como um esqueleto, coberto de porcaria, o estrangeiro conquistara, assim mesmo, o amor da minha mãe. Nesse dia a caravana não prosseguiu o caminho e após uma discussão quase violenta foram mandados servos a Myrtilis para vender parte da mercadoria a comerciantes de confiança e comprar mais mantimentos. Entretanto, Camala mantinha-se ao pé do doente. O meu tio perdeu a paciência e declarou que se recusava a permanecer ali; a caravana regressou a Balsa.

Durante longos dias, a minha mãe lutou para arrancar o desconhecido ao poder dos espíritos da morte. Aplicou bálsamos e compressas sobre a ferida, chamou em seu auxílio todos os deuses e deusas que protegem a saúde dos mortais e, para não descurar nenhuma oportunidade, consultou os vizinhos que ela sabia terem sobrevivido a feridas semelhantes.

O enfermo voltou finalmente ao mundo dos vivos. O repou­so, o tratamento e a boa alimentação mudaram completamente o seu aspecto: era, de facto, atraente, bem proporcionado, com longos cabelos cor de cobre polido e olhos verdes. Quanto à minha mãe, devia ser muito bonita (ao crescer, eu ainda pude encontrar os vestígios dessa beleza); o sangue fenício deixara a sua marca nos traços finos e puros do rosto, no cabelo, de um negro carregado, e nos olhos também negros, enormes e com a forma harmoniosa das amêndoas.

Era impossível que não se sentissem atraídos um pelo outro. Mesmo antes de saber quem ele era, Camala decidiu que não haveria outro homem na sua vida nem na sua cama. Esse amor transformou-se numa paixão absoluta e doentia quando o rapaz, ao recuperar a consciência, pôde falar de si próprio.

Segundo disse chamava-se Tongétamo e era filho do Rei dos Brácaros, um povo que habita a Calécia, nome que dão à parte da Lusitânia situada ao norte do rio Durius. Brácara, a capital do reino, é uma cidade importante quando comparada com a maioria das povoaçôes daquela região, embora não passe de uma grande aldeia fortificada ao lado das nossas cidades.

Ainda hoje as tribos do Centro e Norte da Ibéria vivem em estado de efervescência latente; naquela época, a guerra aberta era uma situação normal e os períodos de paz uma excepção. Os pequenos reis e príncipes, mesmo os simples chefes tribais, faziam da guerra o seu ofício, por necessidade ou gosto, e quando o Inverno impedia as expediçôes ou os inimigos (isto é, todos os vizinhos que não tivessem antepassados comuns) se mostravam demasiado fortes, havia ainda o recurso à guerra civil. Eram raras as famílias reinantes da Lusitânia sem uma intermi­nável história de duelos, assassinatos e ajustes de contas.

Tongétamo, terceiro filho de Tongétamo, Rei dos Brácaros, fora um dos poucos sobreviventes da revolta que destronara seu pai e aniquilara toda a família, incluindo as mulheres e as crian­ças, mesmo as recém-nascidas. No último dia de luta, o jovem, à frente de um punhado de homens fiéis, rompera o cerco e lograra abandonar a Cidadela em chamas. O pequeno bando errara durante algum tempo pelos arredores de Brácara, escon­dendo-se nas colinas, mas o Inverno era duríssimo e os caminhos transitáveis estavam vigiados pelo inimigo. Os companheiros de Tongétamo começaram a sucumbir à fome e ao frio. Os que resistiram encaminharam-se para o Sul, atravessaram o Durius e procuraram, em vão, um local que lhes proporcionasse refúgio e repouso. Enfraquecidos, acossados pelos partidários do usurpador, eram somente quinze fantasmas esfomeados quando chegaram às margens do Tagus e antes da travessia deste rio mais cinco morreram com febres.

Quando Tongétamo chegou à região de Ebora, o grupo estava reduzido a três. Um deles teve qualquer sonho que inter­pretou como um presságio e decidiram prosseguir a marcha para Sul – até que foram atacados por um bando de salteadores. Durante a luta Tongétamo fora ferido nas costas e não se lembra­va de mais nada; os seus companheiros estavam talvez cativos, ele ficara abandonado em pleno campo, dado como morto.

Esta foi a história contada pelo estrangeiro. O meu tio, que na prática do seu ofício aprendera a desconfiar da natureza hu­mana, ouviu-o com certa incredulidade porque tudo aquilo lhe pareceu um conto feito à medida exacta para encantar donzelas: revoltas, chacinas, a Cidadela de Brácara a arder, um jovem príncipe escapando à morte no último instante... tudo lhe soava a fantasia e Camalo gostava das coisas simples, das situações nor­mais e sem surpresas. A história de Tongétamo causou-lhe um certo mal-estar.

Claro que na minha mãe ela teve o efeito oposto e depressa transpareceu que não seria possível separar Tongétamo de Ca­mala a não ser pela violência. Porque (hoje estou certo disso, apesar da opinião diferente do meu tio) também o meu pai se apaixonara profundamente pela minha mãe; não se tratava, como Camalo sempre acreditou, de uma atracção passageira.

Enfim, o meu tio vergou-se à evidência: a única forma de evitar a desonra da família e a necessária vingança era permitir o casamento e foi o que ele fez. Eu nasci exactamente duzentos e setenta dias depois da cerimónia nupcial.

 

Quando o meu pai foi encontrado ferido e inconsciente, Camalo advertira a irmã de que um regresso imediato a Balsa, abandonando o propósito de encontrar o novo santuário da Lua, equivalia a uma grave afronta à deusa. Ao menos, sugeriu, de­viam procurar saber em Myrtilis se as notícias chegadas ao Cineticum eram verdadeiras. Perdida na obsessão de regressar, a minha mãe recusara dizendo que, como mulher, sabia melhor o que podia agradar ou desagradar à deusa. E mostrou-se triun­fante quando, já em Balsa, uns amigos de Camalo garantiram que a informação não era exacta: havia, de facto, um santuário da Lua, mas já muito antigo e ficava bem longe, para lá do Tagus. De uma história velha fizera-se uma lenda nova - certamente alguns viajantes haviam falado do santuário em Ebora ou Myrtilis e talvez o desejo de atrair peregrinos e mercadores tivesse levado a gente local a deturpar o relato. Ouvindo isto, Camala declarou que fora por vontade da deusa que ela, procurando um lugar sagrado onde ele não existia, encontrara Tongétamo.

Assim tentam os mortais conhecer os desígnios dos deuses e torná-los propícios aos seus interesses, porém sem resultado. Ao regressar a Balsa, desistindo das suas intenções piedosas, a minha mãe atraíra sobre si a ira do céu. O casamento foi um desastre.

Não duvido, como afirmei, que o meu pai amasse verdadei­ramente a mulher, mas a vida no Cineticum era demasiado diferente daquela a que estava habituado e além disso não podia esquecer a chacina da família, a fuga ignominiosa. O seu desejo era regressar à Calécia, formar um exército, atacar Brácara, lavar em sangue as afrontas e crimes, tomar o poder. Mas (e nisto o meu tio teria razão no seu julgamento) faltava-lhe a força interior que faz um verdadeiro chefe. A vontade de vingança era forte, mas não o bastante para enfrentar com êxito dificuldades quase intransponíveis - estava só, o inimigo tivera tempo para conso­lidar a posição conquistada.

Depois, havia a mulher, que em breve lhe daria o primeiro filho. Uma esposa cónia, mesmo muito amada, devia ser uma novidade inquietante para um Brácaro. Entre os Lusitanos das regiões mais ao norte - e muito especialmente entre os Calai­cos - é costume as mulheres acompanharem os seus homens na guerra e combaterem ao seu lado. Tongétamo terá ficado desorientado com uma mulher que passava o dia dentro de casa, baixava os olhos ao falar e fazia da passividade uma arma para dominar o marido.

Quando eu nasci, já o meu pai devia ter compreendido que ao casar abdicara da sua liberdade, a menos que abandonasse a mulher e o filho. Essa angústia mortal leu-a Camalo no rosto do cunhado, no dia do meu nascimento.

O parto foi demorado, mas sem grandes sobressaltos; depois de me terem lavado e enfaixado, as mulheres colocaram­-me no solo, para que eu recebesse as bênçãos da Mãe Terra, e abriram a porta. O meu pai entrou, seguido do meu tio e de al­guns vizinhos, encarregados de testemunhar que Tongétamo, ao tomar-me nos braços para me entregar à esposa, reconhecia-me como seu filho verdadeiro e legítimo. O primeiro filho - um varão, continuador do seu nome e, talvez, o seu vingador... porém o meu pai olhou-me com ternura mas também com tristeza, como quem olha para uma última esperança que se desfaz em fumo.

Ao contrário do que esperava Camala, o marido nunca se adaptou à nova existência. Recusou-se com obstinação a secundar o cunhado nos negócios (para não parecer um ingrato ou um parasita, ofereceu-se como comandante das escoltas de protecção às caravanas; a minha mãe opôs-se porque isso o afastava dela e tudo voltou à mesma). Passeava, só e sombrio, pelas ruas de Balsa. O mar, que é para os Cónios a imagem viva e movente de um deus temível mas também generoso, enchia-o de mal-estar e terror. Vivia esperando novas da Lusitânia e passava longas tardes nas tabernas ou no mercado à procura de viajantes vindos da Calécia. Por respeito para com a mulher, prestava homenagem aos deuses de Balsa, mas não descansou enquanto não esculpiu de memória uma tosca imagem de Tongoenabiago, o deus tutelar de Brácara. Colocou-a no pátio, junto da fonte (tal como o deus se encontrava na sua cidade natal) e perante ela fazia os sacrifícios e libações.

À medida que o tempo foi passando mais distante e triste o meu pai se mostrava. Quando, por insistência da mulher, deixou de escoltar as caravanas de Camalo, guardou cuidadosamente as armas, uma espada e uma adaga, como se viesse a precisar delas a qualquer instante. Um dia, correram em Balsa notícias interes­santes: tribos lusitanas tinham invadido a Carpetânia e travavam uma luta vitoriosa contra o exército romano. O meu pai escutou estas notícias deliciado. Na impossibilidade de se vingar dos inimigos da sua família, dirigira o ódio contra os Romanos, que procuravam assenhorear-se de toda a Ibéria, e várias vezes entra­ra em conflito com o meu tio, obrigado pela sua condição de mercador a manter boas relações com toda a gente e, sobretudo, a não hostilizar as autoridades de Roma.

Quando os rumores sobre a guerra se tornaram mais insis­tentes, Tongétamo, uma noite, foi buscar as suas armas - só para as ver, como quem contempla a mulher amada. Esperava-o um choque.

A minha mãe sempre jurou nada ter feito, mas o certo era que o couro das bainhas fora embebido em água e tanto a espada como a adaga estavam irreconhecíveis, negras de ferrugem. Tongétamo passou o resto da noite a reparar os estragos, a afiar e olear as lâminas. Tornou-se ainda mais sombrio - e a minha mãe mais possessiva, absorvente e sofredora. Veio o Inverno, as rotas marítimas e terrestres fecharam-se e nada mais se ouviu sobre a guerra até à chegada da Primavera, altura em que se soube apenas que já não havia Lusitanos na Carpetânia.

Pouco depois, eu completei três anos de idade. No dia do aniversário, o meu pai esteve mais tempo comigo do que era habitual e ofereceu em minha intenção um sacrifício a Tongo­enabiago. À noite parecia bem disposto, quase alegre. Foi buscar a espada e colocou o punho da arma nas minhas mãos, que, de tão pequenas, não conseguiam agarrá-lo. Sorrindo, disse em voz suficientemente alta para ser ouvido pela mulher e pelo cunhado:

- Toma-a, meu filho. Já não tenho uso para ela, mas quando cresceres será tua!

A minha mãe acercou-se, intrigada com a sua atitude. Ele riu, passou-lhe o braço pela cintura e puxou-a suavemente na direcção do quarto. Na manhã seguinte os escravos encontraram­-no aos pés da estátua de Tongoenabiago; matara-se com a adaga; o sangue, ao saltar da ferida, salpicara a imagem do deus. Tinha vinte anos.

 

Camalo terminara a narrativa. De cabeça baixa, eu fingia estar muito atento a um carreiro de formigas mas sentia os seus olhos cravados em mim.

Precisava de tempo para pensar e digerir tudo quanto ouvira. Até então, estimulado pelo mistério que a minha mãe tecera à sua volta, eu imaginara o meu pai um herói abatido pelos deuses em plena glória... suponho que essa é a aspiração de todos os garotos que ficam órfãos muito cedo. A desilusão fora um choque violento, quase físico, e entretanto uma voz interior dizia-me que era preciso defender a memória desse homem de quem eu era a única semente no mundo dos vivos. E pensava: quando crescesse, teria a pesar-me nos ombros o difícil dever de vingar a minha família - porque eu, Tangia, era neto do Rei dos Brácaros... a minha cabeça estoirava com ideias novas.

        Mesmo sem levantar a cabeça, sabia que o meu tio ainda me observava. A sua voz soou muito grave e pausada:

        - Não tens nada a dizer? Nada a perguntar?

Aproximou-se; a sua mão, enorme e rija, bronzeada pelo Sol, segurou o meu queixo e, num gesto lento mas com uma força a que eu não podia resistir, forçou-me a olhar para cima.

        - Então? Nada?

Quando um homem enfrenta a morte os deuses concedem­-lhe por vezes o privilégio de encarar o destino com indiferença, submetido à sua inevitabilidade. Algo semelhante se passou comigo. «Se devo defender a memória do meu pai», pensei, «é melhor começar já, contra tudo e todos». Por isso sustentei o olhar de Camalo e respondi:

- Até agora, senhor, ouvi contar aquilo em que o meu pai falhou. Nào vejo ninguém defendê-lo. Que posso dizer, quando o seu espírito só é invocado para ouvir as censuras da viúva e as dúvidas do cunhado sobre o valor da sua palavra?

Calei-me e aguardei a tempestade, comparando-me com certo prazer (a juventude é sempre excessiva na imaginaçào) aos reis e guerreiros que oferecem a vida para resgatar o seu povo. Mas não houve tempestade. Camalo continuou a olhar-me e de repente murmurou:

- É justo que defendas o teu pai e queiras honrar a sua memória.

Agora pousara a mão sobre o meu ombro. - Mas não deves condenar-me. É verdade que o casamento dos teus pais não me agradou e só o aceitei porque fui forçado; é também verdade que me senti ofendido quando o teu pai se recusou a ajudar-me e mal disfarçou a baixa opinião que tinha dos mercadores. A nossa família nada deve ao sangue brácaro, mesmo quando é sangue real. E eu orgulho-me da herança que me foi deixada porque somos nós, os mercadores, que fazemos viver os povos e os reinos. Sem nós, os homens ficariam privados de muitas coisas, utensílios que os ajudam no seu trabalho, armas para se defenderem, roupas e adornos que tomam a vida mais agradável. E os povos não saberiam o que acontece além das suas terras: levamos-lhes mercadorias e também notícias... é verdade que ganhamos dinheiro, mas também podemos perder tudo, pois andamos ao sabor da vontade dos deuses, correndo perigos, cruzando os mares, atravessando países inteiros.

Camalo respirou fundo. O ombro começava a doer-me sob o peso da sua mão, mas não queria dar parte de fraco. Felizmente, ele afastou-se alguns passos, sentou-se de novo e recomeçou a falar.

- Espero que tenhas compreendido. Não vou mentir, não vou dizer que cheguei a gostar do teu pai. Não gostava dele. Respeitei-o porque era o marido da minha irmã e também porque mostrou grande coragem nas poucas viagens que fez comigo e em que sofremos alguns ataques; penso que, se vivesse, não seria um bom príncipe mas daria um bom guerreiro. E também ele aprendeu a respeitar-me. Nenhum de nós podia ir mais longe, pertencíamos a mundos diferentes.

O Sol ia alto e o calor apertava. Abriguei-me à sombra de uma figueira e, com o ânimo serenado, dei-me conta de que tinha fome, mas era a primeira vez que o meu tio falava comigo de igual para igual e isso enchia-me de orgulho. Perguntei:

- Porque não acreditou na palavra do meu pai? Porque não o reconheceu como príncipe?

Camalo encolheu os ombros.- Não sei bem se acreditei ou não. Sempre me pareceu que se ele fosse um príncipe voltaria a Brácara para reclamar a sua herança - ou morrer; não cederia às instâncias de uma mulher (a quem dava pouca atenção) e não preferiria matar-se. Podia ser filho de rei, mas não tinha o estofo de um príncipe... e depois - digo isto, juro, sem afronta ao espírito do teu pai - a verdade é que esses povos que vivem a norte do Tagus, especialmente os de além Durius, são pouco menos que selvagens. Quanto aos seus reis e príncipes... bem, tu não conheces as povoações fortificadas da Calécia nem a vida dessa gente. Para nós, Cónios, os pequenos reis da Lusitânia são chefes de aldeias.

(Reproduzo aqui, tão fielmente quanto a memória o permite, a opinião do meu tio. Mais tarde pude verificar que ela só era parcialmente correcta - de resto, uma das coisas que a minha longa vida me ensinou é que cada povo tende a considerar os outros como bárbaros.)

Um servo aproximava-se para anunciar que a refeição estava pronta. Camalo ergueu-se e fez um sinal ao homem, a indicar que o seguiríamos. Depois virou-se para mim:

- Amanhã, ao nascer do Sol, iremos oferecer, tu e eu, uma cabra e um porco a Tongoenabiago, para que o deus vele sobre! o espírito de Tongétamo.

 

Os deuses que me privaram de um pai deram-me em troca o meu tio Camalo. Durante a infância ele pareceu-me distante e infundiu em mim mais respeito que amor filial, mas isso foi enquanto pensou que os cuidados da minha mãe seriam pre­feríveis aos seus. Quando completei doze anos a sua atitude mudou: indiferente à furiosa resistência da irmã, encarregou-se com firmeza da minha educação e foi um verdadeiro pai e um verdadeiro amigo. Por minha causa não voltou a casar, para que eu não fosse prejudicado na herança por um filho que a segunda mulher pudesse dar-lhe.

Ao descrever a conversa em que me foi revelada a identidade do meu pai e as circunstâncias da sua morte, omiti um pormenor importante da minha própria história; aquela conversa já não se passou em Balsa, mas sim em Gadir. Um ano após o suicídio de Tongétamo, Camalo decidiu estabelecer-se na Bética, região que ele conhecia bem e onde tinha amigos.

Diversas razões o levaram a tomar essa decisão. A minha mãe definhava a olhos vistos, passava a maior parte do dia junto do sepulcro do meu pai e Camalo receava que ela se dei­xasse morrer. Por outro lado, a expansão dos negócios tomara Balsa um lugar impróprio para a sua actividade; precisava de uma cidade mais importante, com bons estaleiros onde pu­desse construir grandes barcos e um porto que os abrigasse. Mas a sua prudência dizia-lhe que as outras cidades cónias do litoral não lhe ofereciam a segurança desejada: os Romanos, que dominavam Ossónoba, não tardariam a lançar olhos gulosos sobre Lacóbriga e Portus Hannibalis; mesmo que tal não suce­desse, rumores insistentes vindos de Ebora e Myrtilis - onde eram conhecidos os movimentos das tribos célticas e lusita­nas - faziam crer no risco de uma incursão. Em qualquer dos casos, o Cineticum podia transformar-se de repente num campo de batalha.

A Bética e a costa turdetana pareciam, pelo contrário, relativamente seguras e os governadores romanos respeitavam - nos últimos tempos - as garantias dadas à cidade de Gadir. Esta era um enorme entreposto, uma base ideal para operações comerciais. O meu tio preparou a mudança com todo o cuidado, encheu-se de coragem e anunciou a decisão à irmã.

A batalha foi terrível e não teria sido ganha sem o auxílio dos imortais. Camalo ordenou dois ricos sacrifícios, um à deusa da Lua e outra à deusa Atégina - a minha mãe tinha particular devoção por ambas - e foram lidos os presságios nas veias das vítimas, à maneira dos Lusitanos (para agradar ao espírito de Tongétamo) e também nas vísceras, segundo o uso romano que se tornara já popular em Balsa. Nos dois casos a resposta foi cla­ra - devíamos abandonar o Cineticum.

 

Gadir é uma cidade magnífica, a mais antiga e rica de toda a Hispânia, o sonho dos jovens que desejam fazer fortuna e o refúgio daqueles que um crime grave obrigou a abandonar a terra ancestral. Para quem venha das serranias, deve parecer um prodígio, um local próprio para a residência de deuses.

A cidade ergue-se no extremo noroeste de uma ilha muito estreita e comprida situada na embocadura do rio Cilbus, não longe da foz do Bétis. A zona povoada, incluindo armazéns, estaleiros e oficinas, estende-se às ilhas vizinhas, das quais a mais importante é Erytheia, consagrada pelos Romanos à sua deusa Juno, e também ao continente, aliás bem próximo, pois a ilha principal, Kotinoussa, está separada dele por um estreito canal com um estádio de largura.

Em Gadir o ar vibra, respira-se uma atmosfera de actividade permanente e febril prosperidade. A reputação de opulência é merecida: ali são trabalhados e exportados os metais preciosos do interior, ali se pesca e salga o atum em grandes quantidades e se prepara o melhor garum, esse espesso e delicioso molho de peixe que os navios gaditanos levam até Óstia (de onde segue para os mercados de Roma) e mais longe ainda, para Atenas e outros portos da Hélada. Também o gado é famoso, sobretudo o que se cria na ilhota fronteira ao templo de Saturno.

Contudo, o verdadeiro orgulho de Gadir é o grande santuário de Héracles, onde repousam os restos mortais do deus. Foi também o local favorito da minha infância, estava sempre a pedir que me deixassem ir até lá. Muitas vezes a autorização era­-me recusada, porque, ao contrário do templo de Saturno, o santuário fica longe da cidade, quase no outro extremo de Kotinoussa.

Os dias em que eu lograva convencer a minha mãe ou o meu tio eram dias de festa para mim. Arranjavam-me um farnel; e Beduno, o escravo de confiança destacado para me acompanhar e vigiar, ajudava-me a subir para o dorso da mula mais pacata que havia nos estábulos. Partíamos, ele a pé, segurando as rédeas, eu tentando apressar o passo da montada. Quase sempre levava uma pequena oferenda - um pombo, um pote de mel ou incen­so - para apresentar ao imponente guardião que recebia as dádivas dos peregrinos e vigiava a entrada do recinto sagrado, onde é interdita a presença de mulheres.

Os momentos de que eu mais gostava eram os que passáva­mos junto da porta do templo, onde só os sacerdotes podem entrar. Estes infundiam respeito com o seu ar solene, as longas vestes e a cabeça rapada. Ao vê-los, eu perguntava-me qual seria a sensação de viver tão perto de um deus, no local onde o seu corpo repousa; decerto a presença divina seria uma compensação pelo sacrifício que faziam ao renunciar à descendência ­

porque em Gadir, cidade fundada por navegadores de Tiro, o deus Héracles é adorado sob o nome de Melkaart, segundo o ritual fenício, e os seus servidores são obrigados ao voto de castidade.

o santuário oferecia-me ainda um outro atractivo, o es­pectáculo dos visitantes vindos dos confins do mundo, com vestes e línguas estranhas. Os Romanos e os Gregos eram-me familiares, mas havia Egípcios de pele acobreada, Persas de longos cabelos e barba encaracolada, muitos outros... todos vinham prestar homenagem à divindade ou simplesmente admirar o santuário, sobretudo as maciças portas, onde se vêem em baixo-relevo os trabalhos impostos a Héracles-Melkaart durante a sua vida mortal, e também as duas enormes colunas de bronze que ladeiam os batentes. Os Gaditanos chamam-lhes as Colunas de Héracles e afirmam que foram ali postas pelo deus - o que é falso, como se pode verificar ao ler as inscrições fenícias gravadas no bronze. Julguei que elas fossem um hino de louvor, porém o meu tio Camalo desfez esse engano: os Tírios, construtores do santuário, têm o comércio no sangue e pensaram que a melhor homenagem que podiam prestar ao deus era inscrever nas duas colunas a relação pormenorizada dos custos da construção; é esse o teor do texto gravado.

Quanto às verdadeiras Colunas de Héracles, encontram-se, como toda a gente sabe, a leste de Gadir, uma de cada lado do estreito, marcando a entrada do que é hoje o Mar Romano.

 

Por vontade expressa do meu tio, recebi uma educação tão completa quanto as suas posses o permitiam - e ele era rico. Por isso falo e escrevo latim e grego, além de conhecer a velha escrita cónia e boa parte das línguas ibéricas. Sempre tive grande facilidade na aprendizagem de idiomas e isto satisfazia Camalo, pois preparava-me para lhe suceder à frente dos negócios. Um mercador, sustentava ele, deve conhecer um pouco de tudo e tem de saber escrever e falar o maior número possível de línguas.

Eu tinha vários companheiros de jogos, todos da minha idade, porém, o meu grande amigo (e vítima) era Beduno. Este homem, de estatura e musculatura impressionantes, era um Céltico de entre Tagus e Anas (região a que os Romanos e os Gregos chamam a Mesopotâmia, por ser limitada pelos dois rios). Nunca vi ninguém com uma aparência tão sólida e compacta: parecia uma torre de pedra e era quase tão silencioso como a pedra. Beduno afeiçoou-se-me rapidamente, a ponto de ser eu a única pessoa capaz de fazê-lo sorrir ou mesmo rir. Mas nem a mim quis contar o seu passado, apenas admitiu que já fora um homem livre.

Quando atingi os catorze anos, houve uma derradeira discussão doméstica por minha causa. Havia meses que eu recebia instrução no manejo de armas; antes disso, claro, brincara aos guerreiros e aprendera os rudimentos do combate corpo-a-corpo, mas Camalo queria-me tão destro na luta como nas contas e na escrita, porque as armas são indispensáveis ao mercador, tanto como a mercadoria. Ele próprio se encarregou do meu treino, secundado por Beduno - e se alguém pensar que os grandes comerciantes são todos gordalhudos e moles devia conhecer o meu tio. Não poderia, talvez, fazer vida como combatente, mas defendia-se muito bem e era ágil com a espada. Quanto a Beduno, até eu, na minha inexperiência, adivinhei a sua ocupação antes de perder a liberdade: fora decerto um guerreiro.

As nuvens domésticas adensaram-se quando a minha mãe soube que Beduno estava a instruir-me no uso do dardo, uma arma tipicamente lusitana, e o ambiente familiar arrefeceu substancialmente no dia em que entrei em casa com o meu dardo novo. Camala tomou-se mais sombria e o seu ar de quase permanente sofrimento foi substituído por uma brusquidão igualmente desagradável.

Por essa altura, eu já conhecia o seu temperamento suficiente­mente bem para saber o que devia fazer: se me ajoelhasse aos seus pés e perguntasse qual era a minha falta, tudo acabaria com uma grande cena de lágrimas, abraços e acusações contra o meu tio. Mas nada fiz porque a razão estava do lado dele e porque estava em jogo a minha independência, a minha entrada no mundo dos adultos.

Uma tarde, após o treino diário com o dardo, a lança e a espada, Beduno acompanhou-me aos banhos para me tirar das costas o óleo de limpeza e ajudou-me a envergar uma túnica limpa. Comentando os últimos lances do duelo à espada que acabáramos de travar, entrámos na sala onde o meu tio verificava o relatório de transacções apresentado pelo comandante de um dos seus navios. Ao ver-nos, Camalo fez um leve sorriso.

- Então? Temos aí um guerreiro?

        - Quase - respondeu Beduno com um resmungo benevolente. - Se conseguir aprender a lutar com tanta estra­tégia como fúria, talvez sobreviva à primeira escaramuça...

        Eu protestei, lembrando que o desarmara uma vez, e Beduno defendeu-se alegando ter escorregado:

        - Mesmo assim, num combate a valer havia tempo e opor­tunidade para inverter posições...

        Camalo ergueu-se, rodeou a mesa e aproximou-se de nós Com o semblante novamente sério.

- Beduno, aumenta-lhe a duração dos treinos. Vou estar ocupado demais para verificar os progressos dele... - e, virando-se para mim: - Não vem longe o dia da tua primeira viagem, portanto prepara-te. De resto, penso que é altura de te entregar uma coisa que te pertence.

Encaminhou-se para uma das grandes arcas de madeira e ferro que estavam encostadas à parede, abriu-a e retirou um objecto comprido e estreito, envolvido em panos, que trouxe para a mesa.

- Aqui está. Podes...

Nesse instante a minha mãe entrou. Aparentemente, não estivera a espreitar-nos porque não deu atenção à mesa e começou logo a falar com o irmão sobre qualquer assunto trivial. Calou-se de repente ao reparar no objecto e a sua expressão mudou. Fixou no meu tio uns olhos que faiscavam de cólera e gritou numa voz que estalava como um chicote:

- Não consinto! Não consentirei nunca!

        Mesmo habituado ao ambiente de hostilidade que reinava nos últimos tempos, estremeci. Camalo, curtido por longos anos de experiência, encolheu os ombros.

- Tongio. Tenho de falar com a tua mãe. Chamo-te depois. Beduno recuou, abriu a porta, deixou-me passar e seguiu­-me. Teria querido que a porta ficasse encostada para poder ouvir a disputa, mas ele, indiferente aos meus gestos imperiosos, cerrou com firmeza o batente e afastou-se até à janela assobiando baixinho.

- Vamos ver os cavalos novos que chegaram - pro­pôs - julgo que o teu tio vai oferecer-te um e talvez possas escolher o melhor.

Recusei: - Quero ficar aqui. Beduno, sabes o que é aquilo, metido dentro de panos? Será uma arma?

- Não sei. Eu...

Mas a discussão do outro lado da porta chegou ao auge e ouvimos a minha mãe gritar: «Claro que tenho direitos! Tenho todos os direitos! Ele é meu, fui eu que o fiz!» E logo a seguir a voz do meu tio: «Não o fizeste sem ajuda. E antes de ser teu filho ele pertence, como todos nós, à Mãe Terra, que o gerou!» De novo a minha mãe: «Sim, mas usou as minhas entranhas!»

        - Que estão eles a dizer? Estão a discutir os direitos de maternidade sobre a minha pesssoa?

        Perante o meu ar desapontado, Beduno não se conteve e riu silenciosamente.

        - Vamos embora, não devemos escutar. Entre os potros que vieram, há um...

A porta abriu-se e o meu tio apareceu, ainda um pouco alterado. Não havia mais ninguém lá dentro, a minha mãe utilizara a outra saída. Obedecendo ao gesto de Camalo, voltei a entrar com Beduno atrás de mim.

        Com o seu autodomínio recuperado, o meu tio desembrulhava o objecto falando como se nada tivesse acontecido:

        - Dizia eu que é tempo, mais que tempo, de te entregar isto, que é teu...

Os panos tombaram sobre a mesa e fiquei de respiração suspensa a olhar a magnífica espada que Camalo segurava nas mãos. A julgar pelo feitio, viera certamente de Evion. O punho era incrustado a ouro; quando o meu tio a desembainhou, a lâmina, perfeita e refulgente, parecia um raio de luz.

        - É a espada do meu pai! - exclamei.

        Camalo acenou numa afirmativa e comentou com uma Ironia um pouco ácida:

        - Sim é a espada de Tongétamo. Não a espada nobre, de príncipe, que lhe foi roubada pelos assaltantes. Esta veio de Evion e ofereci-lha eu.

Fascinado, peguei na arma e os meus dedos, instintivamente, cingiram-se ao punho - agora a minha mão já era suficientemente grande e forte para o agarrar. .. Camalo cumprira o último desejo do meu pai.

Outras coisas importantes aconteceram depois disto: recebi de presente um belo potro todo negro, de pêlo sedoso, que me empenhei em ensinar e ao qual dei o nome de TrovãO; e a minha mãe desistiu de interferir na minha vida para adoptar uma atitude de indiferença estudada que, gradualmente, se tornou real. Eu amava-a como sempre a amara, porém entre nós as pontes estavam cortadas, ela encerrara-se no passado, num mundo tortuoso e estéril onde parecia encontrar um amargo prazer.

 

Aos catorze anos recebi a minha espada, ganhei o primeiro cavalo - e tive a primeira experiência com uma mulher.

Sete anos antes fora alvo dos avanços de uma companheira de "brincadeiras com a mesma idade mas uma experiência muito maior: era filha de uma serva da casa e vira muitas coisas na ala reservada ao pessoal. Começou a dizer-me que os meus olhos eram muito bonitos, o que me enfurecia porque me fazia corar. Uma tarde, no jardim, ela pôs a mão entre as minhas pernas, fez uma carícia rápida e fugiu a rir. Passada a surpresa, percebi que aquilo era agradável. À noite senti-me excitado, censurei-me por não ter aproveitado a ocasião (embora não soubesse muito bem o que devia fazer para a aproveitar) e decidi tomar a iniciativa na próxima oportunidade.

Não houve essa oportunidade. A garota acompanhou a mãe a uma das nossas quintas, onde ia fazer provisão de géneros para a cozinha, e não sei bem o que sucedeu - talvez tenha bebido água do gado - mas quando voltou, à noitinha, já estava febril e morreu dias mais tarde. Depois dessa aventura falhada, o desejo sexual voltou a adormecer, ou quase, e o tempo foi passando sem grandes sobressaltos (os que aconteciam eram resolvidos à maneira tradicional dos adolescentes) até que apareceu Lobessa.

Lobessa tinha dezanove anos quando foi comprada para o serviço da minha mãe. Era uma rapariga alta, vigorosa, de formas fartas e bem delineadas, com uma forte parcela de sangue celta e uma influência fenícia ou cartaginesa não menos forte: o cabelo e os olhos eram negros e as suas feições tinham os traços sensuais das mulheres de origem tíria. No sorriso, que, quando ela assim escolhia podia ser impudico, havia uma promessa que evocava mais as delícias mornas de Cartago que a simplicidade das aldeias célticas.

Ao contrário do que eu pensara, Lobessa agradou inteira­mente à minha mãe: era paciente, tinha uma enorme capacidade de trabalho e apesar da sua alegria natural desempenhava todas as tarefas com rapidez e em silêncio, sem perturbar a atmosfera sombria (para não dizer deprimente) da parte da casa que fora reservada a Camala e constituía um mundo isolado.

Depressa a minha mãe transformou a nova serva na sua confidente e criada pessoal. Esta mostrou-lhe verdadeira dedi­cação, outra atitude feminina que não compreendo, porque o seu temperamento não deveria adaptar-se com facilidade ao ambiente taciturno de que a minha mãe se rodeara. Mas Lobessa mostrou-se digna da confiança da sua ama, excepto num único ponto: ainda não tinham passado quinze dias desde a sua chegada e era já evidente - para mim - que estava disposta a seduzir-me.

A princípio, não pensara nela como uma possibilidade real. Sentira uma forte atracção física, mas o desejo mantinha-se indefinido e embora fosse, nessa época, muito ignorante em matéria de mulheres, sabia que elas tendem a interessar-se por homens mais velhos. Uma escrava com dezanove anos e a aparência de Lobessa não era com certeza virgem, aliás bastava atentar nos seus olhos para ler neles todo um passado. Ao pé dela, eu sentia-me uma criança, um cachorrinho que se acaricia. E depois de fazer esta reflexão decidi não tentar nada que pudesse provocar uma recusa ofensiva para o meu orgulho. Porém, para meu embaraço e espanto, Lobessa não tirava os olhos de mim e não perdia uma ocasião para provocar um contacto físico.

Que figura ridícula devo ter feito, gaguejando, desviando os olhos, fingindo não perceber! Cheguei a pôr-me diante de um espelho de cobre, perguntando-me se era possível que Lobessa me quisesse. Eu sabia - era assunto de frequentes gracejos ­que "fazia parar as mulheres», como Beduno observava, resmun­gando por detrás da sua barba fulva. Herdara do meu pai os traços do rosto e a cor dos olhos, que eram verdes, mas o meu cabelo era tão negro como o da minha mãe, combinação que tem efeitos mágicos, ao que se diz. Era alto para a minha idade... porém, ao pensar na minha idade, ao atentar no meu vulto de adolescente espiga do e ainda frágil, não podia acreditar que as manobras de Lobessa fossem mais que uma brincadeira.

O trabalho de domar e ensinar Trovão absorveu-me durante semanas e quase esqueci esse problema. Quando finalmente pude montá-lo à minha vontade e sair com ele em passeios e correrias, tudo se varreu do meu espírito e gastei com alegria metade do dinheiro que o meu tio me dera pelo aniversário para oferecer um bode no santuário de Héracles.

Quantos dias durou essa tranquilidade? Não sei, mas fo­ram poucos. Uma bela manhã, estava eu na cavalariça a esfregar com palha seca o pêlo de Trovão, Lobessa entrou e aproxi­mou-se de mim. Não descreverei a conversa que tivemos porque as minhas recordações estão confusas ao fim de tantos anos. A sua mão direita correu pelo pescoço do cavalo, ao encontro da minha. Em redor não havia ninguém e a pouca distância de nós estava um grande monte de palha. Ela prendeu a minha cabeça entre as suas mãos e disse qualquer coisa que não compreendi porque os meus ouvidos zumbiam. De repente beijou-me na boca e foi como se um tornado me envolvesse e arrancasse do chão. Acabámos, evidentemente, no monte de palha.

Até hoje não esqueci essa primeira vez: os meus gestos ansiosos e desastrados confrontando-se com a sua experiência; o toque macio da sua pele e o calor, a suavidade rica das ancas largas. Devorei, fui devorado. Senti-me por instantes possuído pela Mãe Terra. No final, ela ficou ainda alguns momentos a acariciar-me o cabelo. Depois ouvimos passos e a magia foi quebrada.

Assim perdi a virgindade e ganhei a minha primeira amante, porque aquela ocasião repetiu-se muitas e muitas vezes. E apesar de ter conhecido outras mulheres e amado algumas delas, não esqueci Lobessa, a mestra que fez de mim um homem e que me mostrou como é santificado pelos deuses o acto do amor quando o desejo é recíproco. Esta lição também não a esqueci; por isso, nunca, em toda a minha vida - mesmo nas privações ou na euforia da guerra - tomei uma mulher à força.

 

A ligação com Lobessa marcou a última fase do período em que eu, julgando-me um homem só porque ensinara um cavalo e possuíra uma mulher, vivia no descuido da juventude sem reparar que as nuvens se acumulavam no horizonte. Nem sequer a insistência do meu tio para que intensificasse o treino de combate foi capaz de despertar em mim uma suspeita.

De facto, tudo me parecia estar em ordem no Universo quando Camalo chegou um dia a casa mais cedo, com o sobrolho carregado, trazendo uma notícia não inesperada para ele mas que me deixou estupefacto: o novo governador romano da Hispânia Ulterior, o pretor Sérvio Galba, refugiara-se no Cineticum e estabelecera quartéis de Inverno em Conistorgis depois de ter sido estrondosamente derrotado pelos Lusitanos. Toda a Bética, desde a Betúria ao litoral turdetano, voltava a ficar exposta a incursões.

Até esse momento, a guerra entre Romanos e Lusitanos parecera-me uma coisa longínqua, algo que não podia afectar­-me - ouvira falar dela como se ouve falar da trovoada ou da inundação em terras distantes. Quando eu tinha nove anos, um nome tornara-se de repente famoso e temido: Púnico. Este chefe de tribo derrotara dois exércitos romanos, aliara-se aos Vetões e acercara -se perigosamente de Gadir para atacar os Bastulofenícios. No ano seguinte retomara os seus ataques e fora morto em combate, mas os seus homens elegeram novo chefe, Césaro, e prosseguiram a campanha. Como se isso não bastasse, outra hoste vinda da Lusitânia sob o comando do Rei Cauceno invadira o Cineticum e tomara Conistorgis.

Depois dera-se uma reviravolta - o que não era raro com os Lusitanos. Césaro e Cauceno devem ter cometido erros, pois ambos foram esmagados e os Romanos conquistaram novamente Conistorgis bem como todo o território cónio arrebatado ao seu domínio. Tudo isto significava que o meu tio Camalo recebera um apreciável favor dos deuses quando estes o aconselharam a abandonar o Cineticum, porque se tivéssemos ficado em Balsa não seríamos poupados à violência de atacantes e contra­-atacantes.

A ideia da guerra acompanhara-me, portanto, mas as histórias e comentários que ouvira não tinham despertado o meu interesse - eram preocupações dos adultos que não me diziam respeito. Mesmo quando os bandos de Púnico entraram na Bética não cheguei a dar-me conta do perigo, até porque tanto: a minha mãe como Camalo e Beduno procuravam evitar que eu ouvisse demasiado. Agora, porém, o meu tio falava-me da derrota de Galba e eu compreendia que me tornara enfim um homem, com mais preocupações que prazeres.

A bem dizer, os factos não eram recentes. O pretor fora derrotado no fim do Outono, pouco antes do início de uma série de chuvadas tempestuosas que tinham interrompido as comunicações. Galba estava em quartéis de Inverno havia já algumas semanas quando os relatos chegaram a Gadir trazidos por navios vindos do Norte que o temporal forçara a aportar a Balsa.

- A situação depende agora de duas coisas - rematou Camalo. - Uma é a iniciativa dos Lusitanos assim que chegar a Primavera e a outra é a capacidade de recuperação de Galba. poderá ele contar com o auxílio das tropas da Citerior? Não sabemos; e apostaria que o próprio Galba não o sabe também.

- Mas que perigo podemos correr? - perguntei. - Os Lusitanos nunca tiveram questões com Gadir, que eu saiba.

Camalo fez um pequeno gesto de impaciência. - Não se trata de questões. Os Lusitanos atacam por dois motivos: ou por ódio a Roma ou para saquear; às vezes atacam pelas duas razões. O saque é-lhes preciso para sobreviver, sobretudo depois de um Inverno rigoroso.

- Julgava que a Lusitânia era rica - objectei. Beduno, que na juventude visitara o país, contara-me prodígios da sua ferti­lidade e da abundância de metais preciosos.

Camalo inspirou fundo como quem procura dominar a irritação.

- Esqueço-me sempre de que tu pouco ou nada sabes do país do teu pai. Sim, a Lusitânia é rica, ou melhor, algumas regiões são muito ricas, outras não. E tanto a terra como os gados são sempre herdados pelos filhos mais velhos, é um costume que vem de tempos muito antigos e os Lusitanos respeitam-no. Por isso é usual os restantes filhos de cada família juntarem-se aos mais pobres da tribo ou aos montanheses. Formam bandos que atacam as terras mais ricas... não as da Lusitânia, claro, nem as de entre Tagus e Anas, porque aí também vivem Lusitanos e Célticos seus aliados. E como os Vetões são igualmente aliados tradicionais dos Lusitanos...

- Resta a Bética! - completei. Ele fez um aceno.

- Sim, a Bética, por vezes a Carpetânia ou a Bastetânia... são as regiões mais expostas. Além disso há que contar com a aversão dos Lusitanos ao domínio de Roma. Desprezam Os povos que aceitaram esse domínio e não se importam de saquear as suas cidades e destruir tudo o que não podem levar consigo. Digeri a informação e evitei olhar para o meu tio quando perguntei:

        - Quer dizer que nós devemos apoiar os Romanos...?

Camalo respondeu: - Quero dizer que devemos estar preparados para a defesa. É Gadir que nos interessa e não Roma. O domínio romano é uma provação que os deuses nos enviaram, ainda que eu não saiba como viveríamos sem a ordem e a paz que Roma impõe. Mas foi Gadir que nos acolheu.

Como eu não respondesse, prosseguiu:

        - Calculo o que estás a pensar: que és filho de um príncipe brácaro. Mas, Tongio, se os Lusitanos entrarem na cidade não irão de porta em porta perguntando a origem dos moradores. Nunca imaginei que tivesses de usar a tua espada contra Lusitanos... enfim, não é provável que haja Brácaros entre os bandos que se encontram nas fronteiras da Betúria.

Conversámos ainda um pouco mais sobre o assunto e depois, como se aproximava a hora da refeição, retirei-me para falar com Beduno antes de me sentar à mesa. Escurecera quase por completo e os escravos andavam a acender as lâmpadas de azeite. Um vulto destacou-se da penumbra e veio na minha direcção. Era Lobessa: a nossa intimidade aumentara e ela aproveitava todos os momentos livres para me procurar - não necessariamente para fazer amor, pois às vezes só conversávamos ou trocávamos informações.

- Que estás a fazer aqui? - perguntei-lhe. Àquela hora deveria encontrar-se nos aposentos da minha mãe.

Lobessa falou em voz baixa: - A minha senhora está indisposta e já se recolheu. Mandou-me avisar que não tomaria a refeição convosco.

        Dito isto em tom mais ou menos formal, puxou-me para um vão, encostou-se a mim e sussurrou:

        - Há qualquer coisa no ar... ouvi falar em guerra... o que se passa?

- Nada, por enquanto. Galba, o governador romano, foi derrotado pelos Lusitanos, mas isso aconteceu há semanas. Falta muito para comermos?

        Lobessa não se deixou levar pela mudança de assunto. Chegou-se ainda mais e perguntou:

        - E o que vai acontecer agora?

        - Não sei. Provavelmente, nada. Os Lusitanos podem ter voltado às suas terras. Não te preocupes com eles, estão muito longe.

Um breve sorriso amargo fez-me compreender que a guerra fazia parte do seu passado. Mas não era mulher para choramingar; sacudiu a cabeça e voltou a sorrir de modo diferente, fazendo deslizar um braço sobre o meu ombro. O seu cheiro - um vago perfume captado no quarto da minha mãe e combinado com o odor próprio da sua pele - começava a excitar-me.

- Sim, eles devem estar muito longe... mas é incrível como os homens andam depressa quando pensam em guerra e em saque.

        Tentando sem muita convicção libertar-me do seu abraço, respondi:

        - É uma decisão dos deuses. Lobessa, passaste na cozinha? A ceia está pronta?

        - Porquê? Tens fome?

        Recuei um pouco, afogueado. - Tenho. Isto é, tinha... não sei. Porque estás tu a rir?

        Ainda havia algum tempo livre antes da ceia.

        Muito mais tarde, já a noite ia a meio, acordei de repente. Sentia a garganta ressequida como se tivesse atravessado um deserto, o meu coração batia com força e faltava-me o ar. Fiquei imóvel, com os olhos abertos. Pouco a pouco, fui compreendendo o que estava errado, a ideia que me assaltara em pleno sono.

Levantei-me, peguei na lâmpada apagada e saí do quarto sem ruído. A casa estava mergulhada em trevas, porém eu conhecia o caminho com os olhos fechados. Na cozinha, acendi a lâmpada aproveitando algumas brasas que ainda ardiam e matei a sede com água fresca. Enchi depois uma taça com o nosso melhor vinho e dirigi-me para o pequeno pátio resguardado do vento - aí, uma outra lâmpada ardia em frente da imagem de Atégina. A deusa fixou em mim os seus olhos de pedra onde bailavam sombras animadas pelos movimentos da chama. Diante da estátua, numa libação respeitosa, verti parte do vinho sobre a terra. Depois, recordando o que sabia das divindades que protegem as tribos da Lusitânia, fiz nova libação e orei:

- Tongoenabiago, Trebaruna e tu, Runesos-Césios, deus da guerra e Senhor dos Dardos: não permiti que a minha espada tenha de ser usada contra o meu próprio sangue...

        Regressei à cama antes que o frio da noite me trespassasse os ossos e pouco depois adormeci.

 

A notícia da derrota de Galba espalhou-se com rapidez e logo a cidade entrou em efervescência. Enquanto os cidadãos trocavam boatos e rumores nos banhos, na rua e em suas casas, o Conselho reuniu-se para debater as medidas a tomar. Gadir tinha governo próprio, porém qualquer decisão sobre política externa ou defesa precisava do consentimento do governador da Hispânia Ulterior. Mas o governador estava entrincheirado no Cineticum e a posição dos Gaditanos era melindrosa: tinham de preparar a defesa sem que os Romanos pensassem que estavam a pegar em armas contra eles. No final de acesos debates, os Anciãos mandaram instalar postos de vigia em posições estratégicas, treinar um corpo de milícias e, para evitar más interpretações, enviaram um mensageiro a Conistorgis, pedindo instruções ao pretor.

Depois da conversa com o meu tio discuti novamente o assunto com Beduno durante uma tarde que passámos nos banhos públicos. Beduno acabara de me sujeitar a uma enérgica massagem e tínhamos encontrado um recanto só para nós, onde podíamos falar à vontade.

Fiz-lhe sinal para que se sentasse ao meu lado e ele recusou; era terrivelmente formal em tudo o que marcava a sua posição de escravo. Agia assim por orgulho, por não querer aceitar nada a que não tivesse direito. Como teimasse na recusa, intimei-o dizendo que precisava de falar-lhe e era incómodo manter a cabeça levantada. Acabou por ceder.

Contei-lhe tudo,. a conversa com Camalo, as dúvidas que sentia, a prece junto de Atégina - aqui ele franziu o sobrolho porque eu lograra sair do quarto sem que se apercebesse (dormia num cubículo ao lado e gabava-se de acordar ao menor ruído). Quando acabei, comentou:

- O teu tio está na razão, claro. Se os Lusitanos atacarem não vão perder tempo a perguntar quem é Gaditano, Romano ou Brácaro. Esse é o drama de quem vive, como nós, sob o domínio de Roma... entretanto, é bem possível que não cheguem a atacar: ouvi dizer que Lúculo enviou mensagens a Galba e que mal o Inverno acabe ambos entrarão em campanha.

Lúculo - Lúcio Licínio Lúculo - era o procônsul que governava a Hispânia Citerior. Beduno estava bem informado, tinha relaçôes com escravos que pertenciam a membros do Conselho - e efectivamente, nessa mesma noite, houve a confirmação de que o procônsul se preparava para a guerra.

Este Lúculo passara a ser odiado pelos povos da Citerior quando atacara os Vaceus sem qualquer razão. Não contente com isto, depois de receber a rendição da cidade de Cauca, mandara decapitar todos os habitantes. Naquela época a Ibéria romana estava entregue a dois assassinos ávidos de ouro; Galba também viera para a península com a intenção de aumentar a sua já considerável fortuna e mostrara-se disposto a fazê-lo por qualquer preço.

Entretanto, as notícias sobre Lúculo não foram as únicas a chegar. Dias depois, um mensageiro, encharcado e coberto de lama, montado num cavalo meio morto de cansaço, chegava à costa, vindo do Norte. Recusou-se a falar com as pessoas que lhe deram guarida, afirmando que a mensagem se destinava ao Conselho. Mal tomou fôlego atravessou o estreito e desembarcou em Kotinoussa. Não foi preciso muito tempo para que todos os Gaditanos soubessem que as chuvas tinham cessado no Norte e que uma coluna de Lusitanos avançava pela Bética em direcção à sua cidade.

 

Numa cidade em perigo a vida pode manter uma aparência quase normal - porque os habitantes tentam assumir forçadamente essa normalidade, como se ela fosse capaz de esconjurar a ameaça. Assim foi em Gadir; só nos olhos das mulheres podia ler-se a angústia e o medo do futuro. Em caso de derrota a sorte delas é mais cruel que a dos homens, pois estes podem sempre morrer combatendo e em tais momentos essa é a saída mais fácil.

Todos os dias esperávamos ver as margens da foz do Cilbus cobertas de guerreiros lusitanos. Para acalmar os nervos, eu saía logo de manhã com Trovão, a pretexto de me manter em forma. Mas o meu corpo exigia mais que passeios e galopes; Lobessa dizia que ateara um fogo na floresta e não conseguia apagá-lo por muito que se esforçasse. Era a única mulher em cujos olhos eu não via o medo da guerra, no entanto, descobri no seu cubículo uma adaga. Recusou-se a dizer-me onde a arrajara mas confessou que a guardava para a usar contra si própria: «Não quero voltar a ser uma presa de guerra», murmurou beijando-me.

A Primavera chegou e um dia vimos de facto tropas junto à foz do Cilbus - mas eram Romanos. A legião acampou junto ao estreito que separa Kotinoussa do continente e o tribuno que a comandava veio à ilha para oferecer um sacrifício a Héracles e conferenciar com os membros do Conselho, ou seja, ditar-lhes a sua vontade.

Ficámos então a saber o que se havia passado nas últimas semanas e que era pouco mas significava muito: Galba saíra de Conistorgis e encontrara-se com Lúculo; os dois tinham traçado Um plano conjunto de campanha.

Os Gaditanos suspiraram de alívio, a cidade recebeu os legionários com sorrisos abertos de boas-vindas, o comércio - incluindo, já se vê, o das prostitutas - exultou com tão substancial acréscimo de clientela e o optimismo aumentou ainda mais quando se soube que a hoste lusitana em marcha para Gadir fora desbaratada por Lúculo, que abatera mil e quinhentos guerreiros e aprisionara os restantes. O procônsul saqueava agora a Lusitânia.

A dureza da repressão não perturbou os espíritos em Gadir, muito pelo contrário, e isto era natural: a cidade tremera, com a aproximação dos invasores, além disso era uma velha aliada de Roma - havia duas gerações que abandonara a causa de Cartago para se entregar voluntariamente aos Romanos. Os Gaditanos afirmam, ainda hoje, que essa decisão foi tomada por causa das injustiças cometidas pelos Cartagineses, mas quem os conhece, como eu, sabe que essas injustiças nunca seriam motivo bastante se os interesses comerciais não estivessem em jogo.

 

Todavia, nem mesmo os Gaditanos estavam preparados para ouvir com serenidade aquilo que os viajantes chegados do Norte revelaram sobre o comportamento monstruoso de Sérvio Sulpício Galba. Os sorrisos de acolhimento aos legionários tornaram-se formais e prudentes. Não era indignação, era medo.

Lobessa e Beduno contaram-me o que sabiam; nos banhos públicos ouvi uma versão mais completa dos factos; e depois procurei o meu tio para que ele confirmasse a história e a completasse com pormenores. Lúculo e Galba haviam actuado separadamente mas segundo o plano estabelecido. O primeiro explorara a vitória conseguida entrando na Lusitânia e devastando as planícies, após o que retirara carregado com despojos; foi então a vez do exército de Galba. Esgotados, sem víveres, os bandos reuniram-se e enviaram mensageiros ao pretor pedindo condições para a rendição e explicando as razões que os tinham levado a iniciar as hostilidades.

Os enviados foram recebidos no acampamento romano com uma cortesia que não era habitual; Galba, em pessoa, ouvira-os e respondera-lhes com benevolência... quantas vezes me foi citada essa resposta! Tantas, que posso ainda repeti-la palavra por palavra: É a esterilidade dos vossos campos e a vossa pobreza que vos obriga ao latrocínio. Por isso, se quereis a minha amizade, dar-vos-ei as terras de que necessitais, fixando-vos numa fértil planície, que dividirei em três partes. . .

As assembleias tribais lusitanas aceitaram de braços abertos a generosidade do pretor e muitos guerreiros chamaram as famílias para com elas ocuparem as novas terras. Formaram-se três grupos de colonos, correspondendo aos lotes prometidos. Depois, numa grande cerimónia que consagrava a paz alcançada, os bandos lusitanos ofereceram as suas armas. Não repararam que, em redor, as legiões de Galba haviam ocupado posições estratégicas; mal os Lusitanos depuseram as armas, a cavalaria romana atacou.

Num só dia foram trucidados milhares de Lusitanos. Na tarde do dia seguinte o total de vítimas passava dos nove mil e a chacina prosseguia: todos os guerreiros do primeiro grupo de «colonos» foram abatidos. Os restantes, com as famílias, foram enviados para os mercados de escravos da Gália - mais de vinte mil pessoas, incluindo mulheres e crianças. A terra e os regatos estavam ainda tintos com o sangue de dez mil mortos e já Galba recebia o produto da venda dos primeiros cativos.

Ouvi tudo sem fazer comentários. À noite, a minha cama pareceu-me feita de pedra; não conseguia dormir e acabei por sentar-me na beira do leito com os braços cruzados sobre os joelhos.

«O que se passa comigo?», perguntei a mim próprio, «porquê este sentimento de revolta? É verdade que os Romanos se portaram de forma cruel e desprezível, mas não fizeram mais que tantos outros invasores. Derramaram sangue lusitano, o meu sangue... mas o único Lusitano que vi foi o meu pai e já mal consigo recordá-lo. Eu sou um Cónio, habituado à lei de Roma, aos costumes romanos... mas esta raiva, esta vontade de combater.. .?»

A pergunta ficou em suspenso e, porque a juventude tem forças para vencer por si própria as dúvidas e angústias, momentos mais tarde senti sono. Voltei a deitar-me e adormeci rapidamente para só despertar de madrugada. Mas algo se passara durante a noite, porque acordei com uma decisão.

Quando um homem é atacado pela dúvida, deve voltar-se para os deuses que melhor podem entendê-lo e ajudá-lo. Por isso, sem me deter sequer para quebrar o jejum, saí discretamente de casa levando boa parte das minhas economias e dirigi-me para o mercado, onde comprei um cabrito branco, o mais belo que pude encontrar. À saída de Gadir, junto da estrada que leva ao porto, há um pequeno altar consagrado a Héracles onde os marinheiros costumam rezar e deixar oferendas se lhes falta o tempo para ir ao santuário. Quando lá cheguei, o sacerdote, um homem gordo e careca, com maus dentes, estava ã porta da sua casa e via-se que acabara de sair da cama. Para o convencer a atender-me sem demora disse-lhe (e talvez fosse verdade) que o deus me falara num sonho e ordenara que lhe oferecesse uma vítima ao nascer do Sol, para me conceder um favor pedido há muito. Reforcei o argumento com algumas moedas de cobre e ele não se fez rogado.

Sobre a ara colocada em frente da estátua do deus – uma velha imagem em que ele está representado com vestes fení­cias - o cabrito foi imolado no momento em que os raios do Sol douravam a pedra branca. Quando o sacerdote me entregou a taça cheia com sangue do animal, ergui os olhos para a estátua e orei pedindo a Héracles-Melkaart que recordasse a sua vida terrestre, a sua existência de guerreiro, mas sobretudo que se lembrasse de ter sido um homem sujeito às fraquezas e erros dos mortais. Depois faltaram-me as palavras; a minha súplica era ainda indecisa, tal como a vontade que a ditara. «Não importa», reflecti, «o deus saberá ler na minha alma». E fiz a libação, enquanto o sacerdote lançava ao fogo a parte do cabrito reservada a Héracles e punha de lado, com prazer evidente, a porção a que tinha direito.

O frio da madrugada dissolvera-se na luz do novo dia. Lancei para os ombros o manto em que me embrulhara e, devagar, caminhei pela estrada de regresso à cidade. Ia tão perdido em mim próprio que não ouvi o ruído do galope de um cavalo sobre a terra batida, por isso tive um sobressalto quando à minha beira soou a voz de Camalo:

- Então, o guerreiro sacrifica a Héracles?

        Era típico dele adivinhar o que eu acabara de fazer.

Desmontou e pôs-se a caminhar ao meu lado, com o cavalo seguro pela rédea.

        - Não precisavas de corar, até mesmo os homens com mais anos sentem dúvidas num momento destes.

        Houve silêncio e depois ele continuou: - Venho do porto, onde estive a verificar um carregamento de âmbar que nos chegou ontem à tarde. Alguns homens contavam histórias sobre a matança dos Lusitanos e, também a propósito de Galba, de impostos e extorsões praticadas sobre os povos aliados da República.

- Mas, tio, o que podemos fazer? O que devemos fazer?

        Camalo encolheu os ombros. - Devemos aguardar e deixar de confiar nos Romanos. Eu sou um homem de paz, todos os mercadores são homens de paz, pelo menos na terra onde estão estabelecidos, mas até um pacífico mercador conhece a honra e as leis da guerra. Temos um pretor que as desconhece ou as esqueceu deliberadamente. Toma atenção, Tongio, aproximam­-se tempos difíceis.

Não voltámos a falar até chegar a casa.

 

O terror desencadeado por Galba abriu um largo caminho às suas ambições. Antes de terminar o mandato, o governador da Hispânia Ulterior encheu os seus cofres. Além disso (melhor: para conseguir isso) ocupou as cidades do Cineticum que ainda não estavam sob o domínio romano: Lacóbriga e Portos Hannibalis caíram nas suas mãos como fruta madura e do antigo reino dos Cónios só escapou ao invasor o Promontório Sagrado, porque até Galba, apesar de não passar de um carniceiro sem escrúpulos, não ousou entrar em terra santificada com as mãos tintas do sangue de milhares de Lusitanos.

No fim desse ano o pretor regressou a Roma. Mais tarde soubemos que os seus crimes tinham revoltado os próprios compatriotas, a ponto de ele ser levado a julgamento perante o Senado, mas o ouro que roubara na Ibéria serviu-lhe para comprar a absolvição. A República é tão corrupta como Galba, murmurou o meu tio a laia de comentario.

Para nós havia preocupações mais próximas: o Governo da Ulterior esquecera-se pura e simplesmente de mandar retirar as tropas acampadas junto de Gadir e cuja presença era agora desnecessária. A chegada do novo governador não alterou a situação, talvez porque esse magistrado tivesse assuntos mais importantes e urgentes a tratar. Assim, o acampamento da legião foi adaptado a quartel de Inverno, uma cidade militar povoada por homens que se aborreciam na inactividade. Infelizmente, o seu comandante não tinha a inteligência ou a experiência necessárias para compreender os perigos de tal situação. Jogos e exercícios são um excelente meio para manter a disciplina e o moral de qualquer tropa, mas talvez o próprio tribuno que estava no comando se sentisse desmoralizado. O certo é que não tardaram a surgir atritos.

        Esses atritos multiplicaram-se e quando o Inverno chegou a tensão era tão forte que quase a podíamos ver e apalpar, como se fosse uma nuvem de bruma venenosa. Primeiro tinha havido questões sobre as prostitutas disponíveis, a seguir foram molestadas mulheres do povo e até senhoras de famílias respeitáveis. A população vivia em permanente alerta. Não eram só as mulheres que corriam perigo ao sair à rua, pois houve também casos de garotos e adolescentes seduzidos ou violados.

Com a entrada do Inverno, os abastecimentos à tropa foram frequentemente interrompidos pelo mau tempo; roubos de lojas e bancas do mercado passaram a ser coisa vulgar e não se tratava de actos de indisciplina, porque os próprios oficiais – incluindo os tribunos - ordenavam os assaltos como forma de obter alimentos e outros artigos.

Para não agravar as relações com as autoridades de Gadir as vítimas escolhidas eram preferencialmente estrangeiros: Durante semanas, os Gregos, os Tirios, nós próprios - enfim todos os mercadores estrangeiros da cidade suportaram _ escalada de abusos perante o silêncio embaraçado dos Gaditanos, até ao momento em que se tornou impossível aguentar mais. Então, os membros influentes da comunidade estrangeira convocaram uma reunião.

Camalo ordenou-me que o acompanhasse a esta assembleia, onde me apresentou como seu herdeiro e auxiliar. Não me recordo das discussões e discursos, apenas da decisão final: fo­ram eleitos três representantes - um dos quais era o meu tio­que deveriam apresentar um ultimato ao Conselho, anunciando que se não fosse assegurada a protecção dos estrangeiros estes abandonariam a cidade levando todos os seus bens.

Claro que o ultimato era mais dirigido aos tribunos militares. que aos membros do Conselho. Os termos haviam sido combinados com alguns dos Anciãos, que só esperavam mais um pretexto para justificar o envio de uma embaixada ao Senado romano. Tal atitude, ignorando ostensivamente o governador, não era inédita; muitos anos antes, embaixada semelhante fora a Roma queixar-se da quebra dos acordos firmados com Gadir e das extorsões praticadas na Ibéria pelos procônsules Blasio e Stertinio.

        Quando a reunião terminou Camalo chamou-me com um sinal:

- Tongio, preciso de falar com Eunois sobre um asssunto. Volta para casa com Beduno, porque já está a escurecer. Eunois arranja-me uma escolta de escravos seus.

Afastou-se mas voltou-se novamente para acrescentar: ­- peço-te ainda uma coisa: mesmo que estejas cansado, espera que eu volte. Preciso de conversar contigo.

Era já tarde quando ele regressou. Fui ao seu encontro e juntos passámos ao gabinete de trabalho. Camalo ordenou que trouxessem vinho e duas taças; assim que a ordem foi executada disse ao escravo que podia ir dormir depois de verificar se todas as portas e janelas estavam bem tranca das. Quando ficámos sós perguntou-me:

- Que sabes tu de Eunois?

        A pergunta era inesperada mas não difícil:

- Sei que é um Grego de Massilia... que é um dos comerciantes mais ricos de Gadir... e que temos negócios com ele.

- Exacto. Além disso é honesto: conheço-o há muitos anos e sei que é honesto. Digo isto porque, se for necessário, podes confiar nele como em mim próprio.

        Um arrepio percorreu-me as costas numa advertência de perigo.

        - Se for necessário?

        Camalo levantou-se, dirigiu-se para um estrado coberto de almofadas onde porvezs repousava e deixou-se cair pesadamente.

- Estou cansado - disse em tom de quem pede descul­pa - mas não podemos esperar até amanhã. Quero dizer que se alguma coisa me acontecer podes pedir auxílio e conselhos a Eunois. Em caso de... enfim, de qualquer infelicidade, tu assumirás a direcção dos meus negócios e então os conselhos de um homem experiente podem ser preciosos. E, se isso não te desagradasse, gostaria que - sempre nessa eventualidade ­casasses com a filha de Eunois; é uma bela rapariga, um pouco mais velha que tu, mas não tem importância. Que dizes?

Levantei-me e aproximei-me dele. - Porquê toda esta combinação com Eunois? Porquê agora?

        Mesmo sentado e olhando-me de baixo para cima, Camalo ainda me dominava.

- Porquê? Não sei como consegues andar por aí Com Os olhos e os ouvidos tapados. Toda a gente sabe que os legionários estão a agir por ordem dos oficiais, o que significa muito simplesmente isto: Gadir está a saque. Ora a última coisa que os tribunos desejam é que chegue a Roma um eco das nossas queixas... sobretudo depois do interrogatório de Galba no Senado. Temos de estar preparados para um... «incidente» amanhã, quando formos ao Conselho.

- Mas se é assim, não pode... - calei-me à procura de palavras. Compreendi, creio que pela primeira vez, até que ponto gostava do meu tio.

- Não pode correr esse risco - consegui dizer - é absurdo. Antes sair da cidade sem aviso prévio. Ou melhor ainda: incitar os Gaditanos à revolta...

- Cala-te.

O seu tom não era duro mas obedeci. E Camalo sorriu quase com ternura.

        - Estás a dizer asneiras. Incitar os Gaditanos à revolta com uma legião romana à porta? Sair de um dia para o outro?

        - Mas, tio, se eles recorrem à força...

        O sorriso de Camalo apagou-se e quando falou a sua voz era amarga:

        - Tongio. Espero a tua autorização para ser fiel à minha honra apesar de não ser um príncipe brácaro.

        Corei e baixei a cabeça. Ele ergueu-se.

        - Compreendo e aprecio o teu cuidado. Eu evitaria este risco se pudesse; bem sabes que sou um homem prudente. Mas há coisas mais importantes que a segurança ou mesmo a vida...

se Galba ainda governasse a Ulterior, não valeria a pena correr o perigo, admito. Mas não conhecemos as intenções do novo governador e os legionários também não as conhecem e isso poderá, talvez, obrigá-los a pensar duas vezes antes de tentar alguma coisa menos correcta. Agora despeço-me, é tarde e o Conselho recebe-nos amanhã ao nascer do Sol.

 

Em todas as madrugadas, desde que o mundo existe, há um momento de silêncio absoluto em que a própria Mãe Terra está a repousar. Acordei nesse instante preciso: o Sol ainda não surgira mas já se fazia anunciar e os objectos dentro do meu quarto eram perfeitamente visíveis.

Dormira mal, sentia uma tremenda dor de cabeça e só despertei por completo ao compreender que ali perto dois homens estavam a falar e reconheci a voz de Beduno. Precisei de algum tempo para aclarar as ideias e quando saí do quarto já não se ouvia o som da conversa; Beduno apareceu e saudou-me. - O meu tio?

- Já saiu. Proibiu que o acompanhasse.

- Era com ele que estavas a falar?

Beduno acenou. - Pedi-lhe que me deixasse acompanhá­-lo, armado, mas recusou.  .

Atentei na sua expressão e disse-lhe: - Vamos para o meu quarto, vou vestir-me para sair e enquanto me ajudas podes Contar-me o que sabes.

Ignorei os seus protestos e virei-lhe as costas; pouco depois ele contava-me o que conseguira apurar.

- Ontem, quando conversavas com o teu tio, voltei a sair. Havia um movimento anormal em certas ruas... enfim, aqui está: o comandante da legião foi informado do plano dos estrangeiros. Durante a noite, alguns soldados andaram a distribuir dinheiro nos bairros pobres... sei que eram soldados porque foram reconhecidos, mas não usavam uniforme. É quase certo que as moedas distribuídas foram acompanhadas de uma sugestão... Medamus, que é escravo de um dos Anciãos, contou-me que só foram contemplados os pedintes, aqueles que não têm ofício e certos homens que estariam melhor na prisão que fora dela.

Mal acabara de falar chegaram até nós os ruídos incon­fundíveis de um motim: vozearia (consegui distinguir a frase «À morte os estrangeiros!»), cascos de cavalos ferindo as lajes das ruas e retinir de metais. Armámo-nos à pressa e saímos, igno­rando as exclamações das mulheres que se precipitavam a fechar portas e janelas.

Os sons guiavam-nos e começámos a correr. Era cedo, havia pouca gente nas ruas - mesmo esses poucos apressavam-se a recolher - e soou de novo o grito «À morte os estrangeiros!», um erro de encenação, pensei, porque nunca houvera qualquer conflito entre Gaditanos e residentes estrangeiros.

Pouco depois ouviu-se o toque de carga e a rua por onde seguíamos encheu-se de gente em debandada; pelo aspecto, eram os próprios manifestantes pagos pelos legionários que fugiam de quem os comprara. Receei que não pudéssemos continuar a avançar, mas não contara com a estatura e a força de Beduno: de cenho carregado e mão crispada no punho da adaga, fendia a multidão com espantosa facilidade e os que não se afastavam eram sacudidos e atirados para o lado. Num pequeno largo fomos encontrar os legionários reconstituindo as fileiras desfeitas pela carga. Viam-se por terra cinco ou seis corpos ensanguentados. Um centurião de feições boçais, com o ar indiferente de quem termina um trabalho aborrecido, puxava a espada cravada num dos corpos; o homem estremeceu e ficou depois imóvel, enquanto o sangue começava a espalhar-se no solo, escorrendo pelo pavimento irregular.

Era o meu tio Camalo.

Um grito cortou o ar, um grito agudo mas não de mulher, e terminou com uma nota rouca de ódio. Nem eu reconheci a minha própria voz. Um véu espesso, cor de fogo, toldou os meus olhos.

Só sei o que Beduno me contou mais tarde: que tivera de empregar toda a sua força para me dominar e levar-me para longe. Nada recordo. Quando recuperei a lucidez já era noite. Olhei em volta e compreendi que me encontrava de novo em casa, no pequeno pátio consagrado a Atégina. Diante da deusa, lavado, ungido e adornado, estava o cadáver de Camalo.

 

- E agora, o que vais fazer?

- Eunois, que fizera a pergunta, olhava-me com curiosidade, sem tentar esconder que me sondava. Era um homem de meia­-idade, seco, de feições marcadas e olhos vivos.

Tinham passado três dias, durante os quais eu cumprira as minhas obrigações, comera, bebera e, quando necessário, fala­ra - mas como se fosse outra pessoa que ali estivesse em meu lugar. Mergulhado nessa semi-inconsciência assistira ao lado da minha mãe aos funerais de Camalo e recolhera as suas cinzas numa urna, mas se me perguntassem o que sucedera exactamente não saberia responder. Regressei a mim ainda a tempo de oferecer algum consolo a Camala e dispus-me a executar as vontades do morto. Para isso fora a casa de Eunois e ali estava, sujeito ao seu exame e às suas perguntas.

        - Ainda não tomei uma decisão - respondi-lhe – porque tudo depende do que acontecer nos próximos dias.

- Como assim? - Eunois acompanhou a interrogação com Um movimento rápido e elegante do braço, enchendo novamente de vinho a taça colocada na minha frente.

        - Penso seguir os conselhos do meu tio, que são as suas últimas vontades, quero dizer: tomar a direcção dos negócios da nossa casa e pedir-te que me aconselhes sempre que precisar.

- Essas são intenções excelentes e terei o maior prazer em ajudar-te, tanto mais que é preciso que os vossos empregados e escravos sintam que não vão andar à boa vida só porque o amo foi morto. Mas... a julgar pelo tom que empregaste, vês um obstáculo nesse plano?

- Sim - decidira ser franco e aquela era a melhor altura para esclarecer todas as dúvidas. - Há um obstáculo, é verdade. O homem a quem devo tudo foi assassinado por um centurião romano. Estão cumpridas as honras fúnebres mas o seu espírito pede vingança e justiça.

- E tu queres chamar a ti essa tarefa; é natural.

Eunois levantou-se e começou a passear com um ar pensativo. De repente parou diante de mim.

- Mas não se trata de um assassínio cometido por um bandido de estrada. Foi, como disseste, um centurião romano. Para começar, será difícil..

- Não - interrompi - não é difícil. Cheguei à praça quando ele arrancava a espada do corpo, vi-o perfeitamente e sou capaz de o reconhecer em qualquer altura.

- Isso facilita as coisas ou... complica-as - retorquiu Eunois. Voltou a sentar-se e inclinou-se para a frente, como para ter a certeza de que eu não perderia uma palavra:

- Como deves calcular, a morte de Camalo não foi um acaso, um gesto inconsiderado de um centurião estúpido. Foi um acto de intimidação. O motim estava preparado desde a véspera, claro, e os tribunos decidiram que seria morto, por «acidente», um mercador estrangeiro. Podia ter sido eu mesmo, já que nessa altura também estava na rua - ia ao encontro do teu tio.

O destino poupou-me à custa do meu melhor amigo. Mas, compreendes a situação? Oficialmente, tudo se resume a um acidente infeliz e ninguem quer aceitar outra versão ou mexer um dedo. É perigoso demais.

- Isso exclui a possibilidade de recorrer à justiça da cidade ou aos tribunos da legião, mas Camalo continua a exigir vingança.

Eunois acenou. - É certo... mas há outras verdades a considerar e deves pensar nelas antes de tornar decisões. Camalo sabia que. o que aconteceu podia acontecer. Tomou disposições e disse-te o que queria que fizesses. Tens de escolher: cumprir a sua vontade ou vingá-lo, não podes fazer as duas coisas. Se matares o centurião... se o conseguires... tens de sair imediatamente de Gadir com a tua mãe.

Acentuara as últimas palavras. Levantei a cabeça e fitei-o.

        - Sim. O que poderias esperar? Os legionários teriam uma óptima oportunidade, exterminar uma família estrangeira culpada de sedição contra Roma; um aviso enérgico a Gadir, feito sem afronta directa.

Deixou que as suas palavras produzissem o efeito desejado e levantou-se a dar por terminada a entrevista.

- Pensa bem. Em qualquer dos casos podes contar comigo, mas gostaria que ficasses connosco. O teu tio disse-te certamente que tenho uma filha em idade de casar. . . Eurídice. Uma rapariga linda, sai à mãe. Seria bom que a conhecesses, mas ainda é cedo para considerares esse projecto: talvez daqui a uns dias, quando tiveres reflectido.

Disse-lhe que nada me agradaria mais - uma resposta de pura cortesia; ele compreendeu e não se mostrou melindrado.

Com uma palmada familiar nas costas, perguntou-me:

- Beduno, o teu fiel cão de guarda, está lá fora?

Não, retorqui-lhe, Beduno ficara em casa a vigiar os outros escravos, mas ainda era dia e eu não precisava de protecção.

- Nada disso, já escurece e embora as ruas estejam mais seguras,. agora os legionários não gostam de andar isolados­ nunca se sabe o que pode acontecer. Dois escravos meus acompanham-te. Não, não insistas, dei as minhas ordens.

        Acompanhou-me até à porta e despediu-se com um abraço rápido e vigoroso.

        - Espero ver-te em breve. Que os deuses te indiquem o caminho a seguir, filho de Tongétamo...

A casa de Eunois não distava muito da nossa mas quando cheguei anoitecera quase por completo. Os escravos que me acompanhavam saudaram e afastaram-se rapidamente; fi­quei parado, sem vontade de entrar. Sentia a cabeça em fogo e o sangue a latejar nas veias. Movido pelo instinto, recomecei a andar. Queria respirar o ar da noite, queria fatigar o corpo e queria estar só. Vagueei ao acaso pelas ruas.

«Que os deuses te indiquem o caminho», dissera Eunois. Naquela noite, fizeram-no. Caminhando sem rumo certo, não era eu quem decidia a direcção dos meus passos. Uma força oculta impeliu-me para o local onde se cumpriria... como dizem os Gregos? - a minha moira, o traçado e realização do meu destino; mas quando finalmente parei e compreendi onde estava não sabia ainda que aquele era um momento decisivo na minha vida.

Encontrava-me no bairro das prostitutas mais famosas de Gadir. Frequentava-o raramente - preferia a companhia de Lobessa - porém conhecia uma ou duas que em certas ocasiões me haviam recebido com particular simpatia. «E porque não?» pensei, «pelo menos esquecerei tudo isto até amanhã».

Abriu-se a porta de uma casa e o ruído chamou-me a atenção. Na soleira apareceu um vulto de mulher envolvido num manto branco; segurava uma candeia levantando-a acima da cabeça e falava com alguém que estava ainda invisível. Ouvi-lhe a voz, murmurando, e depois um risinho impudico e esganiçado.

Um homem desceu os três degraus de pedra e a luz da chama bateu-lhe em cheio na cara.

Era o centurião que matara Camalo. Reconheci logo as feições brutais, o olhar insolente e estúpido, o pescoço gordo e luzidio como o cachaço de um touro. A minha mão direita apertou o punho da espada. Encostei-me à parede para ficar escondido pelas sombras.

O homem rosnou qualquer coisa incompreensível e afastou­ -se com passos não muito seguros enquanto a porta se fechava com um estalido. Deixei-o afastar-se um pouco e comecei a segui-lo. Confesso que senti a tentação de o abater no escuro não seria um assassínio, antes a simples matança de uma fera, porém contive-me porque essa morte não era digna de mim nem de Camalo. Teria de ser em luta, cara a cara. Ele tinha enormes vantagens - o treino militar, a força, o porte maciço - mas ia pesado e mole do prazer e bebera bastante. «jogo limpo», concluí, «as forças equilibram-se».

Era preciso um local propício, suficientemente iluminado e fora da cidade, para que o barulho não atraísse testemunhas, e comecei a temer que ele se dirigisse para o embarcadouro, de regresso ao acampamento, pois esse caminho não oferecia boas oportunidades. E, de facto, o Romano, ao sair da cidade, tomou a direcção do altar de Héracles. Aí, o caminho bifurca-se: quem segue pela esquerda vai até ao porto e ao embarcadouro pequeno, onde mesmo durante a noite - desde que haja luar - há sempre barqueiros dispostos a fazer o transporte para o continente; o caminho da direita leva a um bosque de oliveiras e, mais longe, entronca na estrada que serve o santuário.

O centurião parou na encruzilhada e, quarenta passos atrás, tremendo de febre e ansiedade, parei também. O silêncio era tal que podia ouvir a respiração pesada do homem que perseguia. Momentos depois ele arrotou, encolheu os ombros como se estivesse a discutir com alguém e avançou pelo caminho da direita.

Já não precisava de o seguir: sabia que ia procurar um lugar abrigado para dormir e libertar-se dos vapores do vinho. A noite estava clara e eu conhecia bem toda aquela zona, por isso foi­-me possível escolher o terreno e quando o assassino do meu tio acabou de contornar uma curva apertada que rodeava uma espessa moita encontrou-me parado barrando-lhe a passagem. Batida por um raio da Lua, a lâmina da minha espada brilhava com uma luz azulada.

        - Que há? - resmungou ele estacando - queres roubar­-me? Já viste quem sou? E reparaste nisto?

        Ouvi um ranger de metal contra metal e couro - a sua espada a sair da bainha.

        - Reparei. Não quero roubar-te, quero fazer justiça. Há três dias, mataste um homem desarmado. Esse homem era meu tio.

        Ele abriu os olhos com espanto, como se lhe fizessem uma acusação falsa.

- Há três dias? Eu? - pareceu procurar na memória e de repente soltou uma gargalhada. - Ah, sim, lembro-me, um desses porcos gaditanos!

        Ergui a arma. - Não era um homem de Gadir. E tu, ladrão romano, mataste-o quando ele estava desarmado, mas eu tenho uma espada e podia ter-te abatido pelas costas. Não o fiz, não soo Romano nem cobarde, como tu.

Atingira o alvo. O luar deixou-me ver o tom púrpura do seu rosto. Enfurecido, lançou-se contra mim.

No ar frio e seco as nossas espadas soltavam chispas ao chocar uma contra a outra; como previra, ele tinha a seu favor a experiência e uma força invulgar, mas estava toldado pelo vinho e a cólera. No entanto, só a agilidade me salvou de vários golpes mortais e o combate prolongou-se a ponto de me parecer interminável - pior que isso, estava a ficar cansado e deixara­-me dominar, também eu, pela raiva. O ódio e a sede de vingança roubavam-me a lucidez e faziam-me cometer erros. De súbito, ouvi uma voz precisa e clara dentro da minha cabeça... «Menos ardor e mais estratégia!», a voz de Beduno, a frase que ele sempre me lançava durante os treinos. E as suas lições saltaram-me à memória enquanto a névoa vermelha se dissipava diante dos meus olhos.

Bem a tempo: a espada do Romano avançava na direcção do meu ventre. Desviei-me e contra-ataquei com novas energias. Então duas coisas aconteceram ao mesmo tempo: num gesto instintivo baixei a ponta da espada; e ele tropeçou e caiu de joelhos. A zona da garganta ficou descoberta por instantes e isso bastou.

Com um grito rouco largou a arma e levou as mãos ao pescoço enquanto eu fazia recuar a lâmina e lhe aplicava um pontapé em pleno rosto. Ele caiu de costas e ficou imóvel, a arfar, meio sufocado pelo sangue que lhe saía da boca. Curvei-me: o primeiro homem a morrer às minhas mãos. Observei os seus olhos, já cobertos por uma película vítrea, e ouvi o horrível som que fazia ao tentar respirar. Rapidamente, para acabar com aquela cena repugnante, encomendei o seu espírito às divindades infernais, invoquei o meu tio Camalo; agarrei na espada com as duas mãos e vibrei-lhe um último golpe em cheio no pescoço.

        Quando tudo acabou, encostei-me ofegante ao tronco de uma árvore, incapaz de me aguentar de pé.

        - Não foi mau, mas é preciso menos ardor e mais estratégia!

        A mesma voz - agora real e não dentro da minha cabeça. Uma mão grande e rija, de pele calejada, apoderou-se da espada que eu segurava frouxamente.

        - Beduno! Aqui?!

        Em vez de responder ele acercou-se do corpo do centúrio e limpou cuidadosamente a lâmina às roupas do cadáver. Os seus gestos eram tranquilos e eficientes, como se executasse um trabalho de rotina diária. Quando acabou devolveu a arma e disse:

- Estava à tua espera, em casa. Vi-te chegar e partir novamente; segui-te.

- Assististe a tudo?

Beduno assentiu. - Não te portaste mal, mas continuas a ser muito emotivo. É preciso...

        - Já sei, menos ardor, mais estratégia... a propósito: disseste isso em voz alta enquanto eu combatia?

- Não. Decidi só intervir em última instância para evitar que ele te matasse. Era a tua vingança e tinhas direito a ela. Mas... - hesitou - houve um momento em que me preocupei e pensei com muita força que devias usar menos ardor e...

Interrompi-o: - Eu ouvi a tua voz nessa altura.

Ficámos calados durante alguns momentos ao compreender que entre nós agira uma entidade estranha a quem eu devia a vida. Mas Beduno era um homem prático e aceitava com naturalidade a intervenção dos deuses.

- Bom, foste protegido e agora vamos fazer por merecer essa protecção. Descansa ainda um pouco, eu trato de tudo.

Pegou no cadáver e foi escondê-lo num silvado. Depois, sempre com movimentos tranquilos e precisos, apagou os vestígios da luta e lançou terra e pedras sobre o local onde o sangue do Romano deixara uma larga mancha escura. Feito isto, regressámos a Gadir.

O espírito de Camalo deve ter aprovado o meu acto, apesar de ele impossibilitar o cumprimento da sua vontade. Quando me deitei senti uma grande paz, uma sensação reconfortante de ter cumprido um dever sagrado e também de ter dado o primeiro passo para a realização do meu destino.

 

Eunois ouviu o relato sem surpresa nem recriminações e quando terminei observou no tom de quem trata de um negócio qualquer:

- Parece que os deuses se encarregaram de decidir em teu lugar. Vejamos o que há a fazer. Penso que só tens uma solução: liquidar os negócios e sair da Bética; esta noite, ainda. Logo que descobrirem o corpo do centurião serás o principal suspeito.

- Sair da Bética é relativamente fácil, mas liquidar...

- Também é fácil- interrompeu ele - posso comprar os bens do teu tio. Assim terás dinheiro para refazer a vida em lugar seguro, isto é, fora do alcance dos Romanos. Já decidiste para onde vais?

        Respondi-lhe que escolhera as terras de entre Tagus e Anas, uma cidade qualquer (talvez Ebora) onde a minha mãe pudesse ter todo o conforto. E perguntei-lhe se não corria perigo comprando os bens de um proscrito.

Eunois fez um sorriso astuto: - Futuro proscrito... não te preocupes, há processos. Por exemplo, terá sido Camalo quem me vendeu os bens na véspera da morte... Esta noite entrego­-te parte do valor, em ouro e prata, juntamente com uma carta para um mercador de Baesuris, que te entregará o resto. Passarás lá a caminho da «Mesopotâmia». Entretanto, o modo mais seguro para viajares é por mar.

Fez uma pausa e cravou intencionalmente os olhos em mim.

- Só há, verdadeiramente, um problema: eu poderei enganar­-te ou trair-te. É preciso que confies em mim e essa decisão é só tua. Claro que posso comprometer-me com um juramento...

Não o deixei acabar. - Redige o contrato, Eunois. Os deuses já testemunharam o teu compromisso e o meu tio disse­ -me que podia confiar em ti. Só peço que sejas justo com os meus escravos. Beduno vai comigo. E... sim... gostaria que tivesses especial atenção com uma escrava, Lobessa; não a vendas nem a ofereças a um homem que ela não queira.

- Prometido. Volta aqui antes do pôr do Sol.

Ao chegar a casa decidi atacar o problema mais delicado: explicar a situação à minha mãe. Camala ouviu-me em silêncio e disse apenas:

- Quando devo estar pronta?

Soltei um longo suspiro (cansaço e impaciência) e supliquei:

- Mãe, não podes culpar-me, não podia... - ela fez-me calar:

- Não te culpo. E nada lamento. Há muito que deixou de me interessar o lugar onde vivo. Já és um homem, apesar de só teres quinze anos; sabes o que deves fazer, pelo menos assim o espero. - E mudando de tom: - Para onde vamos? Podemos voltar a Balsa? Seria o único lugar onde gostava de viver, perto das cinzas do teu pai.

Abanei a cabeça. - Lamento, mas é impossível. Balsa é território romano. Vamos para lá das serras do Cineticum, talvez para Ebora.

- Muito bem. Esta noite, disseste? Estarei pronta.

        Surpreendido e aliviado com a sua reacção, despedi-me e saí do aposento reflectindo como é difícil prever o comportamento das mulheres. Estava ainda a pensar nisso quando senti a minha mão presa entre as mãos de Lobessa.

        - Não te preocupes. Tongio. A minha senhora Camala e eu estaremos prontas quando chegar a hora.

- Não deves escutar às portas - respondi aborrecido ­de qualquer forma, eu contava-te mais tarde. Compreendes que é segredo? E que os outros escravos não podem saber de nada?

        - Claro.

        - E compreendes que temos de nos separar...? Mas já me assegurei de que serás bem tratada, aliás vou convencer Eunois a dar-te a liberdade e...

        -Não.

        Lobessa colocara-se diante de mim, em desafio, e compreendi que este caso seria mais difícil, afinal, que a entrevista com a minha mãe.

- Sou a tua escrava, mas não o serei de mais ninguém e não me interessa a liberdade em Gadir. Mas não te peço por mim; como julgas que a tua mãe vai suportar a viagem, uma senhora que já não é nova e nunca passou privações? É nela que deves pensar, mesmo que já não estejas interessado em mim.

- Não é isso, eu... - mas calei-me porque ela tinha razão, claro. E de resto custava-me a separação.

- Muito bem. Tudo deve estar pronto ao fim da tarde, sem que os servos da casa entendam o que se passa... não podemos levar muita bagagem.

Aproximei-me dela e puxei-a para mim. - E não penses que me desinteressei, mas outras coisas me preocupam...

Lobessa desprendeu-se e afastou-se a rir. À hora aprazada voltei a casa de Eunois, recebi o dinheiro e combinei com ele os preparativos da partida. O Grego tratara de tudo com uma rapidez que comprovava a sua influência na cidade.

- Graças sejam dadas a Poseidon - disse - o aspecto do céu promete luar e os presságios garantem uma viagem segura ao meu navio Hermes, que partiu há pouco de Gadir com destino a Balsa. Na realidade, está à tua espera numa enseada; o meu enviado conduzir-vos-á. Em Balsa, o capitão do Hermes leva-te a um homem que tratará da tua viagem até Baesuris e aí deves procurar o mercador Reburrus. Depois... que os deuses te acompanhem.

Agradeci-lhe e despedi-me, não sem primeiro o informar que Lobessa partiria connosco para continuar a servir a minha mãe. Eunois soltou uma breve gargalhada e piscou um olho:

- E também para te servir a ti, não é verdade? Acho que fazes bem, um homem precisa de uma mulher - uma, pelo menos; é a ordem natural das coisas. Lamento que o destino não permita que sejas meu genro... enfim, é a vida.

Disse-lhe que também eu lamentava, abraçámo-nos e saí da casa de Eunois, pela última vez.

 

Não é de ânimo leve que um homem, mesmo corajoso, se acerca de uma necrópole durante a noite, pois nunca se sabe que espíritos ou entidades errantes poderão andar em tais lugares. No entanto, decidi arriscar um encontro com os mortos porque os vivos, naquela altura, podiam ser mais perigosos; a praia que fica próxima da velha necrópole cartaginesa de Gadir era um lugar abrigado e solitário onde seria possível aguardar o embarque em segurança.

Bem abafados contra o ar nocturno, esperámos sentados na areia fria. O mar ali é sempre sereno e o barulho das ondas reduzia-se a um chapinhar surdo, mas o ar estava cheio de murmúrios. Mantivemo-nos calados para não atrair a atenção dos defuntos.

Finalmente, ouvimos o ruído de remos ferindo a água e uma pequena embarcação tornou-se visível e aproximou-se até encalhar quase silenciosamente. Fui ao encontro do seu único tripulante, que me olhou com atenção, como para ter a certeza de que eu era um ser de carne e osso, e pronunciou a senha combinada: «Eunois».

Respondi-lhe: «Tongio». Ele saudou, disse que quanto mais depressa nos afastássemos dali melhor seria para todos nós e ofereceu-se para carregar as bagagens com Beduno enquanto eu ajudava a minha mãe e Lobessa a embarcar. O trajecto foi mais rápido do que eu esperava porque apanhámos uma corrente a favor; apesar disso a Lua já ia alta e resplandecia no céu quando chegámos à enseada e avistámos o vulto negro e volumoso do Hermes contrastando com o mar prateado. Começava a nossa verdadeira fuga.

Balsa não me impressionou, apesar de ser a cidade onde nasci (comparada com Gadir era uma aldeia grande e nenhuma recordação me ligava directamente a ela). Uma caravana ia partir para Baesuris no próprio dia em que desembarcámos e era preciso aproveitar a protecção da sua escolta, pelo que não pudemos sequer oferecer um sacrifício junto das cinzas do meu pai.

É confusa e ténue a recordação que guardo desses dias e nem consigo mesmo lembrar-me das feições de Reburrus, o comerciante de Baesuris a quem Eunois me recomendara. A memória prega-nos partidas... por exemplo, tenho a impres­são de que tudo se passou muito depressa - chegámos, Reburrus cumpriu o pagamento que me era devido e arranjou nova escolta, depois retomámos a viagem seguindo o curso do Anas. Claro que não deve ter sido assim e que o percurso de Gadir a Baesuris não foi tão fácil como hoje me parece, mas o que sucedeu a partir de então apagou a lembrança de vicissitudes menores.

Não tardei a observar que os homens da escolta - quatro servos de Reburrus - estavam bastante mais interessados em comer, beber e descansar que em velar pela nossa segurança. Ao cabo de alguns dias falei discretamente sobre o assunto com Beduno e este confessou que pensava como eu:

- E o pior não é isso - acrescentou olhando para as costas de um dos nossos «protectores» - o pior é o ouro e a prata que trazemos: são uma tentação muito forte.

Eu aprendera a não subestimar as preocupações de Beduno mesmo quando me pareciam exageradas; forcei o meu cavalo a aproximar-se do seu e propus:

- Logo à noite, vamos dormir separados deles. Tu e eu fazemos turnos de vigia; e será sempre assim todas as noites, até encontrarmos uma povoação. Nessa altura, mando-os de volta para Reburrus.

- É melhor, sim - disse ele também em voz baixa - e... olhos abertos, mesmo durante o dia!

Nessa noite nada sucedeu, embora eu estivesse certo de que durante a minha vigília pelo menos um dos homens esteve acordado e fingiu dormir. Prosseguimos o caminho de madrugada; era o quinto dia de viagem e atravessávamos uma região desa­bitada onde um ataque traiçoeiro podia ser executado sem testemunhas, por isso a nossa atenção redobrou.

Parámos na margem do rio para a primeira refeição. Tí­nhamos ainda provisões cozinhadas mas decidimos acender uma fogueira para nos aquecermos porque o ar estava frio e nuvens pesadas corriam pelo céu e roubavam-nos o calor do Sol. Beduno afastou-se um pouco, à procura de lenha, enquanto eu ficava perto da minha mãe aparentando um ar despreocupado.

Por via das dúvidas, desembainhei a espada e olhei-a como se apenas quisesse verificar que a lâmina estava bem limpa, o que me permitiria usá-la ao primeiro gesto suspeito. Os homens de Reburrus, porém, mantinham-se quietos - demais, reflecti, e essa ideia preocupou-me e fez-me sentir inseguro. Teria compre­endido mais cedo o que se passava se a minha mãe não tivesse desmaiado, esgotada pela viagem. Foi preciso ajudar Lobessa a deitá-la sobre uma pele de carneiro, correr a um dos alforges para ir buscar vinho... e foi então que o ruído do galope de cavalos me chamou à realidade: os servos de Reburrus fugiam sem olhar para trás.

Empunhei de novo a espada, que largara, e gritei por Beduno. Acabava de ver o que os fugitivos tinham visto primeiro: quatro homens armados aproximavam-se lentamente. Um deles vinha a cavalo, os restantes a pé - e todos envergavam uniformes romanos.

Como por encanto, Beduno apareceu ao meu lado.

- A nossa escolta fugiu sem nos dar um aviso, sequer­ disse-lhe sem deixar de olhar para os recém-chegados.

- Eu sei. Vamos avançar para os impedir de se aproximarem da tua mãe e das bagagens. Afasta-te um pouco de mim, preciso de espaço para lançar o dardo.

Virei a cabeça e encarei-o. - Eles são quatro, nós somos dois e com a desvantagem de termos de proteger as mulheres. Talvez não queiram atacar-nos, talvez seja uma simples patrulha...

Beduno interrompeu-me com uma breve gargalhada feroz: - Patrulha! Há vários dias que saímos de território romano. Não vês que são desertores?

Atentei melhor nos Romanos e compreendi. Traziam a barba crescida, os uniformes estavam sujos, como sujos e mal cuidados estavam eles próprios; além disso faltavam-lhes peças do equipamento normal dos legionários. Era sabido que nas regiões montanhosas e nas fronteiras das terras sujeitas a Roma erravam bandos de desertores das legiões, que viviam da pilhagem - ou se juntavam aos bandos ibéricos hostis à presença romana.

Não havia, de resto, qualquer dúvida sobre as intenções do grupo. O homem que estava montado deu uma ordem breve e Beduno murmurou: - Vão espalhar-se. É preciso evitar isso, temos de atacar.

Fez um gesto tão inesperado que até eu me sobressaltei e o dardo que segurava na mão direita partiu com um silvo e foi cravar-se no flanco do cavalo do Romano. O animal empinou­-se e tombou para o lado arrastando o cavaleiro. Beduno e eu atacámos nesse momento.

Era uma luta sem regras porque estávamos em inferiori­dade - felizmente, o chefe do bando continuava debaixo do cavalo, o que diminuía a desvantagem. Dois dos desertores lançaram-se contra mim por julgarem que eu seria mais fácil de vencer, mas em breve o que lutava com Beduno chamou por auxílio. O «meu» Romano era um homem ainda novo, talvez com trinta anos, e tinha grande força muscular, porém eu era mais ágil. Fatiguei-o com ataques falsos e obriguei-o a mudar de posição constantemente, até ele, na ânsia de pôr fim ao combate, começar a descurar a defesa. Um grito soou atrás de mim ­

Beduno acabava de atingir um dos seus adversários. O som perturbou ainda mais o homem com quem eu lutava e pouco depois ele deu-me a oportunidade esperada: a ponta da minha espada atingiu uma fenda aberta na couraça. Ele emitiu um gemido e largou a arma enquanto eu impelia a minha lâmina para a frente, penetrando-lhe no corpo. Retirei então a espada. Ele caiu e gritei a Beduno que iria socorrê-lo.

Antes de o fazer, olhei em volta para ter a certeza de que não havia mais inimigos e reparei, só então, no chefe dos desertores, em quem não voltara a pensar: conseguira libertar-se do cadáver do cavalo, mas ficara com uma perna esmagada.

Infelizmente reparei nele tarde demais. Naquele preciso momento, soerguera-se e empunhava uma adaga celta, pronta a arremessar; Beduno estava de costas descobertas, a curta distância. Larguei um desesperado grito de aviso e senti uma náusea quando a lâmina da adaga se enterrou nas costas de Beduno; corri para ele, sem dar tempo a que fosse novamente ferido pelo único Romano ainda ileso. Este, animado pela intervenção do seu chefe, arreganhava os lábios num sorriso, como se estivesse a saborear a vitória. Mas eu tinha de o matar, nem que morresse também.

Saltei para a frente, interpondo-me entre ele e Beduno. Porém, mal cruzáramos as espadas, vi-o abrir muito os olhos num espanto incrédulo, deixar de combater e cair a meus pés. Um dardo estava alojado na parte posterior do pescoço, junto à base, e o sangue começou a jorrar fazendo lembrar água a sair de uma fonte.

Desorientado, olhei para o ponto onde Lobessa se encontrava com a minha mãe, pensando (estupidamente) que talvez ela tivesse lançado o dardo... avistei então um grupo de cavaleiros que se aproximavam devagar e reconheci logo os escudos, as armas e os capacetes: eram Lusitanos. Porém, naquele momento só me interessava Beduno, que tombara de bruços e não voltara a mexer-se. Com todo o cuidado, virei-o e amparei-o passando um braço à volta dos seus ombros. Ele abriu os olhos.

- Não combateste mal, mas vê se aprendes esta lição. Nunca se deve ignorar um inimigo que não esteja morto. Eu queria ter acabado com ele...

- Não percas as forças a falar - interrompi - chegaram cavaleiros que nos ajudaram; Lusitanos. Vamos poder levar-te daqui.

Beduno tentou um sorriso. - É inútil, Tongio. Vê se chegas a uma povoação o mais depressa possível. Agora, posso dizer­-te pela primeira vez...

Calou-se. Passei a mão pelo seu rosto para fechar-lhe os olhos e fiquei imóvel, engolindo as lágrimas e tentando habituar­-me à ideia de que ele morrera.

Uma voz disse em língua lusitana: - Táutalo, um deles ainda está vivo.

Ergui a cabeça. A poucos passos encontravam-se os desconhecidos. Larguei o corpo de Beduno e levantei-me; sentia a garganta apertada por um nó tão forte que doía, mas arranjei coragem para falar:

- Quem quer que sejais, agradeço o vosso auxílio.

Um deles, certamente aquele a quem chamavam Táutalo, respondeu: - Nada tens a agradecer, vejo que chegámos tarde demais. Entretanto, há um Romano ainda vivo e vamos, pelo menos, acabar com ele.

- Não, peço-te; sou eu quem deve fazê-lo. Mas antes, desejaria conhecer as vossas intenções... deveis compreender a minha cautela, pois estamos ainda perto do Cineticum e encontrar cavaleiros lusitanos, nestas paragens...

Táutalo cortou-me a palavra com uma gargalhada alegre que lhe modificou a expressão. Era ainda um rapaz, de rosto curtido pelo ar livre e marcado pela guerra; os seus olhos riam quando ele ria, com uma alegria comunicativa.

- Lusitanos em paragens destas significam razia, não é assim? Podes estar descansado; se quiséssemos, já nos teríamos apoderados das mulheres e das bagagens que tu defendes... oh sim, estão além, naquela moita, nós bem as vimos... não é essa a nossa intenção.

- Qual é a vossa intenção?

Táutalo fitou-me como que a avaliar o que eu poderia ser e disse numa voz tranquila:

- Se a queres conhecer, terás de perguntar ao nosso chefe. Foi ele que ordenou que viéssemos em teu auxílio, quando, naquela colina, assistimos à luta. Agora não podes vê-lo, está oculto por este outeiro mais próximo... vem devagar porque o seu cavalo coxeia. Enfim, o Romano que matou o teu amigo ainda está vivo. O que vais fazer com ele?

Caminhei até junto do último sobrevivente do bando; depois de arremessar a adaga contra Beduno, voltara a estender -se por terra, ao lado do cavalo morto. Perdera as forças, porém estava bem vivo e quando ouviu passos abriu os olhos e compreendeu pela minha expressão que não seria poupado; nem deveria esperar tal, contudo o apego à vida toldou-lhe o entendimento e começou a suplicar e a chorar.

Se ele se tivesse mostrado mais corajoso, eu teria vacila­do - era jovem e inexperiente, não estava habituado à guerra nem a matar homens a sangue-frio. Mas as lamúrias enojaram-me e além disso, a dois passos, estava o cadáver de Beduno. Ergui a espada acima da cabeça e descarreguei o golpe com toda a força. Senti a lâmina atravessar a carne, rasgar músculos e parar contra um osso. Um jacto de sangue atingiu a minha roupa. Cheio de repugnância, puxei a espada e afastei-me.

Mais três Lusitanos tinham chegado e o cavalo de um deles coxeava. No entanto, não precisei de recordar as palavras de Táutalo para saber que o seu cavaleiro era o chefe do grupo.

O que acabo de escrever é rigorosamente verdadeiro: quan­do o vi pela primeira vez, nessa tarde negra, rodeado por meia­-dúzia de guerreiros, a chama do Poder brilhava nele como se fosse uma couraça de metal. Até aqui, as minhas recordações são nítidas; não sei se a memória do que pensei e senti depois não está já deformada pelo conhecimento que hoje tenho.

De qualquer forma, estou certo de ter olhado para ele, nesse primeiro momento, e pensado: «Sim, é este o chefe...» Táutalo acabava de lhe relatar o modo como haviam cumprido as suas ordens. Ele ouviu com atenção, voltou os olhos para mim e disse: - Antes de nos apresentarmos, talvez queiras ver como se encontram as mulheres que acompanhas...?

E só então voltei a lembrar-me da minha mãe e de Lobessa. Corri para elas; Camala estava ainda deitada sobre a pele, mas com os olhos abertos. Ajoelhei.

        - Mãe, como se sente?

Não respondeu, porém Lobessa tranquilizou-me: - Vai ficar boa. Foi cansaço e o susto e... enfim, o choque, sobretudo quando... quando atingiram Beduno.

A minha mãe falou então para perguntar se Beduno morrera. Disse-lhe que sim e que fôramos socorridos por um grupo de guerreiros lusitanos, o que a fez agitar-se, ansiosa, e perguntar o que queriam de nós.

- Não sei, mas salvaram-me a vida, além disso sabem que vocês estão aqui e não mostraram interesse especial. Agora vou ter de falar com eles.

Dirigi-me mais uma vez para o grupo. O chefe, que desmontara, examinava a pata magoada do cavalo com um cuidado quase terno. Ouvindo os meus passos, voltou-se e esperou que eu falasse.

- Estrangeiro - disse-lhe - estou em dívida para contigo. Permite-me que a pague oferecendo-te o cavalo do meu escravo, morto pelos desertores romanos.

Um leve sorriso adoçou os seus traços severos e traiu, também nele, a juventude. Não teria mais de dezanove anos, embora a expressão do rosto, os gestos e a voz mostrassem inesperada maturidade.

- Agradeço-te. Falaremos disso mais tarde, quando eu souber quem és. Pela tua roupa, poderia julgar-te romano, mas conheces demasiado a nossa língua...

- Não sou romano. É verdade que tenho vivido na Ibéria que eles dominam, mas odeio Roma, sei agora que sempre a odiei. Nasci no Cineticum.

- Ah, um Cónio, portanto.

- Sim, pelo lado da minha mãe, mas o meu pai pertencia à tua raça. De facto, eu...

Calei-me e desejei poder engolir o que acabara de dizer. E se, por capricho do destino, aqueles homens fossem Brácaros, guerreiros do usurpador que destronara o meu avô? Mas as palavras tinham saído da minha boca e não podia voltar atrás ­o chefe, Táutalo e os restantes esperavam que eu acabasse de falar. Respirei fundo.

        - Peço perdão, mas tenho razões para não continuar antes de saber qual é a vossa terra e a vossa tribo.

Táutalo, impaciente, ia dar uma resposta porém o outro fê­-lo desistir com um pequeno gesto. O sorriso alargara-se um pouco mais.

- E nós temos razões para te dizer somente que somos oriundos das planícies e colinas a norte do Tagus. Isto deve chegar-te.

        - Muito bem - respondi. - Eu sou Tongio filho de Ton­gétamo, que era filho de Tongétamo, Rei dos Brácaros e...

        - E que foi destronado e morto, com a família ­completou ele. - Não sabia que um dos príncipes tinha conseguido escapar. Para te pôr completamente à vontade, vou dizer-te mais uma coisa: por muito que odeies os Romanos, não poderás odiá-los tanto como nós. Todos os homens que aqui vês escaparam, por favor dos deuses, à traição do pretor Galba. Decerto ouviste falar no sucedido...?

        Apressei-me a dizer que sim e, olhando-os com novo respeito, contei a minha história. A terminar, rematei:

- Compreendo o vosso ódio, mas o meu é igual. E agora, que me apresentei, gostaria de saber quem és, pois devo-te a vida.

Sem se apressar, o chefe tirou o capacete redondo enfeitado com três plumas e passou a mão pelos cabelos acobreados, empastados de suor e pó. Depois respondeu:

        - Eu sou Viriato filho de Comínio.

 

­Passava do meio-dia. As nuvens haviam desaparecido e a tarde tornara-se quente, como se a Primavera já tivesse chegado. Senti uma gota de suor rolar pela testa e perder-se nas sobrancelhas; finalmente dei-me conta de que estava exausto. Viriato, que continuava a observar-me, parecia ter lido os meus pensamentos porque disse:

- Precisas de repousar. Depois, poderás continuar viagem e se o teu caminho não for muito diferente do nosso contarás com a protecção dos meus homens. Mas antes disso tens de comer alguma coisa.

Abanei a cabeça. - Mais tarde, agora não sou capaz. E há uma coisa mais urgente: encomendar aos deuses o espírito de Beduno, que não só era meu escravo mas também um tutor e um amigo.

- É justo - respondeu ele. - E nós vamos ajudar-te. Entretanto, tens direito aos despojos do Romano que mataste em combate.

Recusei. Dos Romanos, agora, não queria nem as armas.

Obedecendo às ordens de Viriato, os guerreiros entraram em actividade com uma eficiência denotando larga prática. Os corpos dos desertores foram rapidamente despojados de tudo o que podia ter utilidade - armas, escudos, protecções do peito e da garganta. Ao mesmo tempo, dois homens construíram uma pira destinada a Beduno.

Por minha vontade, os cadáveres dos Romanos teriam sido lançados ao Anas ou deixados aos abutres; porém Viriato observou que nos arriscávamos a tornar aquele lugar maldito, assombrado pelos espíritos dos mortos sem sepultura, que não deixariam de perseguir os viajantes. Sugeri uma vala, mas não havia pás nem enxadas, por isso foram atirados para Um pequeno fosso natural que descobrimos ali perto e tapados com pedras traz idas da margem do rio. Quis ajudar nessa tarefa, mas Viriato declarou que eu já trabalhara o suficiente para um dia, lutando com todo um bando de Romanos, e insistiu em que repousasse.

        Fui sentar-me junto de Lobessa e da minha mãe; crivaram-me de perguntas sobre os Lusitanos, às quais não sabia responder. Finalmente, Táutalo veio dizer-me que a pira estava pronta. Levantei-me e olhei para Camala.

        - Mãe, vou executar o rito fúnebre de Beduno.

        Esperava que ela se levantasse também para me acompanhar; em vez disso, encarou-me com ar surpreendido:

        - Sim? Bem... merece alguns cuidados porque lutou valentemente, mas afinal não passava de um escravo e...

        Suponho que o meu olhar lhe cortou a palavra – pela primeira vez. Virei-me para Lobessa:

        - Vem comigo. Vou precisar de ti. Traz o cantil de vinho que está na bagagem de Beduno.

Enquanto caminhava, ia pensando: "Porque estou zangado? Ela não pode compreender. Há muito que não vivemos no mesmo mundo». Mas eu era jovem e o destino vibrara em mim um golpe inesperado.

Táutalo e outro guerreiro tinham colocado o corpo sobre a pira e esperavam, com o archote aceso. Fui buscar a espada de Beduno, que ficara no sítio onde ele a deixara cair, e coloquei­ -a ao seu lado, com o punho encostado à mão direita; aí depus igualmente o dardo arremessado contra o cavalo do Romano, que arranquei do corpo do animal. O seu cantil de barro, cheio de vinho, ficou do lado esquerdo juntamente com alguma comida que tirei da minha ração.

Lobessa tomara o archote das mãos de Táutalo e estava à minha espera. Diante da pira, estendi os braços na posição ritual e invoquei Runesos-Césios, deus da guerra, Atégina, senhora dos frutos da terra e dos reinos do Além, e Héracles, a quem Beduno fizera, comigo, tantas oferendas no santuário de Gadir. Quando me calei, a voz de Viriato soou ao meu lado, grave e profunda:

- E que o grande deus Endovélico te conduza em seguran­ça e paz até à presença dos imortais.

Não havia uma vítima para sacrificar; em voz alta, pedi desculpa ao espírito do defunto e fiz uma libação com água e outra com vinho. Lobessa entregou-me o archote e com ele incendiei o montículo de erva e ramos secos, na base da pira. O fogo alastrou e o fumo ocultou o corpo. O vento mudou de direcção; uma lufada de ar carregado com o cheiro de carne queimada soprou-me em pleno rosto. Lobessa não resistiu e recuou, mas eu permaneci imóvel. Um pequeno ruído, à minha esquerda, indicou-me que Viriato ainda estava ao meu lado.

Assim partiu Beduno, a meio de uma tarde morna, junto às margens do rio Anas, durante o quadragésimo segundo ano da sUa vida. As cinzas foram cobertas com duas grandes pedras que os Lusitanos arrastaram com o auxílio dos cavalos.

Agora eu tinha pressa de me afastar. Viriato aceitou o cavalo de Beduno, mas, insistiu, só como empréstimo, até que o seu estivesse curado. Partimos na direcção norte e só voltámos a parar quando anoitecia. Então, senti fome pela primeira vez. Juntámos as nossas provisões: os Lusitanos, habituados a uma vida frugal, apenas traziam alguns pães de bolota e uma lebre caçada naquela manhã. A isto acrescentei a minha ração de vinho, peixe salgado, um pedaço de carne de bode e um pote de garum. Antes de nos sentarmos a comer, dois guerreiros improvisaram um abrigo com ramos de árvores para Camala e Lobessa dormirem mais resguardadas.

A refeição não foi muito animada, mas quando acabei senti­-me bastante melhor; o vinho aquecera-me e dera-me ânimo, afastara as sombras da morte. Viriato - que comera pouco e só bebera água - perguntou para onde seguíamos. Sem me deixar abrir a boca, a minha mãe disse-lhe que não tínhamos um destino definido mas, se fosse possível, gostaria de se acolher ao grande santuário de Atégina, em Turóbriga.

- Infelizmente, não posso acompanhar-vos até lá ­retorquiu Viriato - nós vamos para norte e temos pressa de atravessar o Tagus.

- Nem Turóbriga seria um lugar para nós - disse eu, deixando transparecer parte da irritação que sentia. Por muito respeito que me merecesse a deusa Atégina, estava pouco disposto a passar o resto da vida rodeado pelas saias de sacerdotisas. Mais calmo, acrescentei:

- Turóbriga fica na Betúria, demasiado perto das legiões romanas. Tínhamos pensado estabelecer-nos em Ebora, mas na verdade não tomámos uma decisão. De qualquer modo, primeiro será preciso parar em alguma povoação ou cidade onde seja possível arranjar uma escolta de confiança.

Guardámos silêncio durante algum tempo, com os olhos na fogueira, até que Viriato retomou a fala:

- Tenho uma sugestão: vem connosco até Arcóbriga. Fica junto de outro santuário, o de Endovélico, e só precisamos de dois dias para lá chegar. É uma cidade fortificada e encontra-se sob a protecção do deus. Os habitantes conhecem-me, sou amigo de um dos Anciãos. Ele poderá dar-vos guarida. Então, com a tua mãe, a tua escrava e as bagagens em segurança, pensarás melhor sobre a decisão a tomar.

Agradeci e aceitei a oferta - de resto, não tinha outra alternativa. A minha mãe, que se envolvera num mutismo ofendido, retirou-se com Lobessa para o abrigo. Em breve os homens começaram a ceder à fadiga e, um a um, foram-se deitando no chão, perto do fogo, enrolados em mantos e peles. Segui-lhes o exemplo e desejei uma boa-noite a Viria to, que chamara a si o primeiro e mais longo turno de vigia.

 

Quando se é novo o sono vence os maiores desgostos. Mal me deitei, pedindo aos deuses da chuva que retivessem as águas celestes durante a noite, adormeci como se me encontrasse na minha cama em Gadir. Acordei já dia claro, quando os Lusitanos se preparavam para a partida.

O ar estava frio e pairava sobre o Anas uma densa neblina. Viriato indicou aos seus homens as posições que deviam tomar, rodeando os cavalos que transportavam as mulheres. Ele próprio colocou-se na dianteira, com Táutalo, e fez-me sinal convidando­-me a cavalgar ao seu lado direito. Sem reflectir, considerei aquele convite uma honra, como se partisse de um general famoso; era este o sentimento que ele incutia nas pessoas.

Durante muito tempo trocámos somente palavras soltas; já com o Sol bem alto, Táutalo perguntou quando pararíamos para comer e Viriato respondeu-lhe que o faríamos antes de abandonar o curso do rio. Aproveitei a ocasião para falar sem parecer impertinente.

        - Que espécie de deus é Endovélico? Que poderes são os seus? A vossa tribo também o adora?

Viriato sacudiu a cabeça numa negativa. - Endovélico não é conhecido para além do Tagus, mas quando um guerreiro viaja aprende a conhecer e respeitar os deuses dos vários lugares.

E contou-me como Endovélico se manifestara pela primeira vez, em tempos imemoriais, no topo de um outeiro que domina a vasta planície ondulada que cobre boa parte da mesopotâmia de entre Tagus e Anas. O deus, disse ele, dera sinal da sua presença a um viajante solitário perto de uma daquelas construções de pedras gigantes que ainda hoje se vêem em todas as regiões do mundo sem que se saiba ao certo quem as ergueu. O viajante teria sido, pois, o primeiro sacerdote e o fundador do santuário. Mais tarde, alguns povos ouviram falar dos poderes de Endovélico: ele ajuda a curar os enfermos, desvenda o futuro e conduz no Além o espírito dos seus servidores. Viriato rematou:

- Assim nasceu, diz-se, a cidadela de Arcóbriga, que prosperou; e quando a população já não cabia no recinto fortificado, os mais jovens construíram as suas casas num morro próximo e fundaram Menôriga. Hoje, as duas cidades vivem sob a protecção de Endovélico, mas a tradição é respeitada: o sacerdote que guarda o santuário não é escolhido entre os seus habitantes; é sempre um estranho, um viajante, que o deus designa na altura própria, quando o guardião morre ou fica incapacitado. E nota bem: o oráculo de Endovélico nunca mentiu.

- Como é esse oráculo? Posso consultá-lo?

- O deus fala durante o sono do peregrino. Mas é preciso cumprir os ritos propiciatórios e dormir no santuário.

Nesse momento Táutalo interrompeu a conversa para observar que chegara a altura de fazer uma paragem. De facto, o curso do Anas abandonava ali a direcção norte e inflectia para a nossa direita.

Chegámos às proximidades de Arcóbriga no final do segundo dia após o encontro com os Lusitanos. Era uma cidade muito pequena mas bem fortificada, com uma tripla cintura de muralhas - as duas exteriores de pedra e a interior feita de terra batida e endurecida pelos anos. Arcóbriga é muito antiga e as suas casas são pequenas e toscas; têm porém uma dignidade simples que impõe respeito. Junto ao sopé do morro passa uma ribeira bordeada de árvores que serve os Arcobrigenses e os Meribrigenses. Os deuses da água e da vegetação são honrados num templo arcaico, talhado em enormes blocos de pedra.

        Sem perder tempo, Viriato levou-nos a casa do seu amigo Tongato, um ancião imponente que se prontificou a arranjar alojamento para nós e para os guerreiros. Cheio de curiosidade, procurei descortinar o santuário, no topo do morro fronteiro, mas com o cair da tarde levantara-se neblina e só consegui distinguir o vago contorno dos edifícios.

Depois da refeição da noite, a minha mãe e Lobessa retiraram-se para os aposentos das mulheres. Viriato, Táutalo e Tongato começaram a trocar informações. Pela conversa, compreendi enfim o que faziam os Lusitanos tão longe das suas terras: quando, no ano anterior, Galba fizera exterminar as hostes lusitanas, os sobreviventes tinham-se dispersado pela «Mesopotâmia» e até pelo Cineticum. Viriato procurava encontrar e reunir os companheiros perdidos.

Tongato, vendo que os outros falavam livremente na minha presença, não mostrou reserva em dizer o que sabia. Falou dos pequenos grupos de guerreiros esfomeados, feridos ou doentes que haviam passado por Arcóbriga. Muitos, acrescentou, tinham sido tratados no santuário de Endovélico, onde o sacerdote, grande conhecedor de ervas e raízes medicinais, lhes dera acolhimento.

- O próprio deus curou alguns - acrescentou - e esses retomaram a viagem. Outros morreram aqui e nós cuidámos dos ritos fúnebres. Estão sepultados como convém a guerreiros.

Viriato agradeceu em nome dos seus e relatou então a Tongato a história que eu lhe contara, dizendo que a minha mãe e eu procurávamos um local seguro para viver, longe dos Romanos. Tongato meneou a cabeça e expressou a sua simpatia. Arcóbriga, disse, era segura e podíamos ficar ali enquanto desejássemos. Expressei-lhe a minha gratidão e declarei que tencionava consultar o oráculo de Endovélico.

- Uma excelente ideia - aprovou ele. - E agora vamos dormir, que o Sol já desapareceu há muito. Amanhã voltaremos a falar sobre os teus planos.

No dia seguinte, logo que acordei procurei a minha mãe. Encontrei-a muito pálida e fraca, esgotada pela viagem e por todas as emoções. Lobessa garantiu que ela precisava apenas de repouso; não muito convencido, sugeri que a levássemos quanto antes ao santuário e Camala concordou.

 

Nunca poderei esquecer as minhas primeiras impressões ao acercar-me da morada de Endovélico. É bem verdade que, nos locais sagrados, o ar, a vegetação e o solo são diferentes; quando me aproximei do outeiro, um arrepio percorreu o meu corpo fazendo-me sentir que era preciso caminhar com cuidado e em silêncio. Antes de subir a encosta, entreguei a um acólito a minha espada e a adaga - porque o ferro, metal impuro, não pode macular o espaço santificado. Todos os objectos religiosos, ali, são feitos de bronze ou de barro e a faca ritual que o sacerdote utiliza nos sacrifícios mais solenes tem a lâmina de pedra (é a mesma que pertenceu ao sacerdote fundador... sou eu quem a usa, agora).

Naquele tempo, o santuário tinha menos construções e era muito mais simples que hoje, mas não menos impressionante. O templo primitivo ainda se erguia isolado, pequeno e maciço: três grandes pedras formavam as paredes (um dos lados era aberto) e uma outra, tão volumosa que simples homens não a poderiam mover, servia de tecto. Dentro, estavam unicamente a ara principal e a estátua do deus, cuja antiguidade quase metia medo, como se os olhos imóveis de Endovélico contemplassem o tempo passado em que não havia homens e só as divindades habitavam o mundo.

O sacerdote também era terrivelmente velho, ou assim me pareceu então. Nunca soube o seu nome, porém lembro-me das feições e da longa barba toda branca. Recebeu-nos com simpatia e mostrou-se muito interessado pelos conhecimentos medicinais da minha mãe. Quando eu lhe disse que desejava consultar o oráculo, respondeu que deveria esperar pela nova fase da Lua, que começaria dentro de dois dias.

Viriato e os seus companheiros preparavam-se para recomeçar a viagem; sem o querer confessar a mim próprio, eu sentia antecipadamente o vazio que a sua partida iria deixar­ foi essa a primeira vez que experimentei verdadeiramente uma atracção pela vida aventurosa dos guerreiros.

Antes de partir, os Lusitanos sacrificaram aos seus deuses na margem da ribeira. Como nem todos vinham da mesma localidade ou pertenciam sequer à mesma tribo (alguns eram Igeditanos), fizeram um sacrifício múltiplo a Bandiarbariaico, a Trebaruna e aos deuses tutelares de Viriato. Por respeito e em homenagem aos meus salvadores, participei na cerimónia e depois subi com eles ao santuário para depor as oferendas devidas ao senhor da região, Endovélico.

O Sol ia alto quando Viria to veio despedir-se. Supliquei-lhe que aceitasse algum ouro, não como paga mas como auxílio para a jornada. Recusou:

- Não ficaria bem vender um auxílio que prestei de livre vontade, além disso não gosto do ouro, corrompe os guerreiros. Desejo-te felicidades, Tongio.

        Impulsivamente, respondi-lhe: - Gostaria de juntar-me aos teus homens e partir também. Que vou eu fazer aqui?

        Viriato olhou-me com ar pensativo.

- Não - disse por fim - neste momento não é possível. Tens de cuidar da tua mãe. Também eu gostaria de ter-te comigo: mostraste coragem ao lutar contra os Romanos e nós precisamos de bons guerreiros, precisamos dos guerreiros de toda a Ibéria. O momento não é propício; no entanto...

- Sim?

Ele fez um sorriso aberto e foi como se tivesse dado uma ordem: senti o sangue a correr com força, o entusiasmo que experimenta quem vai entrar em combate.

- Quem sabe? A traição de Galba não ficará por vingar, podes estar certo. Muitas coisas vão acontecer e se estiveres destinado a combater connosco, os deuses hão-de conduzir-te. Agora, adeus.

Saudámo-nos. Táutalo, já a cavalo, fez um gesto alegre de despedida e os restantes imitaram-no. Partiram a galope e fiquei a vê-los até que se perderam na distância.

 

Poder-se-á pensar que após a partida dos Lusitanos o meu primeiro desejo seria receber a mensagem do oráculo. Porém eu tinha quinze anos e a coisa mais importante nesse mo­mento era voltar a fazer amor com Lobessa. As nossas relações estavam congeladas desde a saída de Gadir, primeiro por falta de oportunidades e depois pela morte de Beduno. Durante esses dias não senti desejo físico, ou melhor, não me apercebi dele.

Tudo aconteceu como se estivesse predeterminado: a mi­nha mãe ficou no santuário a receber tratamento e o sacerdote avisou-me que ela teria de permanecer dois dias no recinto sagrado, sem acompanhantes. Lobessa e eu conduzimo-la até lá e regressámos a Arcóbriga - mas passou-se muito tempo antes que entrássemos na cidade.

Perto da ribeira, encontrámos um recanto bem abrigado (estou certo de que não fomos os primeiros a descobri-lo) e eu estendi o meu manto sobre a erva. Fosse pela abstenção prolon­gada ou pela mudança de ambiente, esse dia teve o encanto e o êxtase da primeira vez. E, como da primeira vez, ficámos deita­dos lado a lado. Recordo uma coisa que ela me disse: gostava mais de mim, agora que me vira combater. Contou como ficara surpreendida e orgulhosa, como nem chegara a sentir medo por­que tivera a certeza de que eu seria capaz de a proteger (pura ilusão; parecia esquecer a providencial chegada de Viriato e dos seus).

De qualquer modo, estas são as coisas que um rapaz gosta de ouvir. Impulsivo, disse-lhe que a protegeria sempre e que pensava pedir à minha mãe o seu acordo para lhe conceder a liberdade. Lobessa tapou-me a boca, sorriu com uma ponta de tristeza, beijou-me - e recomeçámos.

 

- Senhor Endovélico, aceita a oferenda do teu servo e dá­-lhe a tua bênção.

A voz do sacerdote era levada pelo vento forte que se levantara com o cair da tarde. De pé perante a estátua, inclinei a taça cheia com o sangue do porco acabado de sacrificar e, ao mesmo tempo que fazia a libação, repeti as palavras. Sentia-me ligeiramente entontecido e tão leve que seria capaz de voar, porque não comia desde a véspera. O rito de preparação para receber o oráculo dura dois dias inteiros e além do jejum inclui banhos com água lustral e a recitação de complicadas fórmulas e orações. Agora, que o momento se aproximava, sentia uma surda excitação misturada com o receio da presença tão próxima da divindade.

Terminado o ritual, já com o Sol a desaparecer no horizonte, segui o sacerdote até à residência, para cear na sua companhia. Estremeci involuntariamente quando um escravo trouxe uma grande peça de cabrito grelhada e uma ânfora de vinho; o cheiro do cozinhado fez-me crescer água na boca e doer o estõma­go - roas eu só poderia comer dois pães de bolota especialmen­te preparados e consagrados. O suplício era ainda maior porque não podia distrair-me a conversar; tinha de comer em silêncio, preparando o espírito para a noite que ia passar no santuário.

Escurecera por completo no exterior quando nos levantámos. Um acólito esperava-me com um archote; sempre em silêncio, fui conduzido a uma casa sem janelas, construída, tal como o templo, com grandes blocos de pedra. O homem esperou que eu abrisse a porta, entregou-me uma pequena lâmpada de bron­ze, ajudou-me a acendê-la na chama do archote e afastou-se. Apressei-me a entrar antes que o vento me deixasse enregelado.

O interior reservava-me uma desilusão: era uma divisão exígua e nua, com o chão de terra. Quatro degraus de pedra muito gastos davam acesso a um nível inferior - uma gruta onde só havia uma cama de palha coberta com mantas de lã grossa e algumas peles de carneiro. Numa reentrância da parede via-se uma estatueta de Endovélico representando o deus com um ramo de árvore apertado entre os dedos da mão direita.

Deitei-me, apaguei a candeia e puxei para cima de mim todas as mantas e peles porque o frio era intenso. Na escuridão, podia ter os olhos abertos ou fechados - em qualquer dos casos não via coisa alguma. Mentalmente, repeti as perguntas que formulara à tarde, no decorrer do ritual: «Que futuro me espe­ra? - O que devo fazer?» Depressa comecei a sentir as pálpebras pesadas e adormeci quase de repente.

A meio da noite, aconteceu uma coisa estranha. Continuava adormecido, pois não era capaz de fazer movimentos, porém estava consciente, sabendo que dormia. Uma força irresistivel puxava-me, impelia o meu espírito para fora do corpo e durante um angustiado momento julguei que ia morrer. Ouvia ruídos e estalos secos e convenci-me de que eram os sons do reino dos mortos. Então, fiquei como que repartido em dois: encontrava­ -me ainda no leito de palha, mas ao mesmo tempo flutuava encostado ao tecto da gruta e sentia mesmo a aspereza da pedra; no entanto, ao tentar bater-lhe com a mão esta penetrou dentro da rocha. Um zumbido, que já ouvira antes de abandonar o corpo, tornou-se mais forte e quase me ensurdeceu. Sem transição, dei comigo a cavalo, rodeado de homens armados, em plena batalha. Os contornos da cena eram imprecisos, contudo percebi que combatia numa hoste lusitana contra as legiões de Roma.

Ao meu lado estava um guerreiro enorme que com a espada abria largas clareiras nas filas inimigas. Eu não conseguia ver-lhe a cara por mais que me esforçasse; distinguia claramente o seu braço direito, cingido por uma víria, uma daquelas pulseiras com que os Lusitanos adornam os braços e que são o símbolo da sua hierarquia na guerra. Esta víria era de ouro e refulgia à luz do Sol.

A hoste vencia, o campo estava coberto de cadáveres de Romanos. Um porta-estandarte surgiu à nossa frente e o guerreiro gigante trespassou-o com o dardo. A águia de Roma caiu porterra; puxei as rédeas do meu cavalo e debrucei-me para a capturar. Nesse momento, o estandarte transformou-se numa cabeça decepada, um rosto conhecido - o do centurião que matara o meu tio Camalo ... os olhos, abertos e vivos, fitavam­-me. A cabeça riu num esgar trocista. Ao ver esse riso enchi-me de cólera mas senti-me impotente e possuído por uma grande mágoa, como se todas as misérias dos homens se tivessem abatido sobre mim. A cena mudou mais uma vez: a batalha desapareceu e fiquei só, na escuridão, diante de um vulto misterioso que tinha forma humana mas irradiava uma luz di­fusa.

Um grande terror se apoderou de mim ao compreender que estava na presença do senhor do santuário, Endovélico. Este abriu os braços - e eu acordei encharcado em suor frio.

Na gruta, a treva fora substituída por uma penumbra que permitia ver as paredes e a estatueta do deus no seu nicho de pedra. Fiquei imóvel, procurando retomar o contacto com as coisas que me rodeavam; enfim, levantei-me. Um fino raio de luz baça entrava por uma frincha da porta. Subi os degraus de pedra e saí. A nascente, o céu tornava­-se luminoso, anunciando a aparição do Sol. Vagueei um pouco ao acaso pelo santuário deserto, contemplando as estátuas e os ex-votos trazidos pelos fiéis. Tornava-se difícil voltar à realida­de - era como se o deus ainda estivesse presente, mas o terror fora substituído por uma grande tranquilidade.

No momento preciso em que o Sol nasceu, a porta da residência abriu-se e o sacerdote apareceu na soleira. Fui ao seu encontro e saudei-o; ele correspondeu, inquiriu se o deus se manifestara e quando lhe dei resposta afirmativa conduziu-me ao templo. Aí, ordenou-me que lhe relatasse o sonho com todos os pormenores e ouviu-me atentamente, com os seus olhos fixos nos meus. Esperei, ao acabar, que me desse a explicação do que vira, porém em vez disso declarou que eu precisava de comer e convidou-me a partilhar da sua refeição.

Um escravo serviu-nos pão de trigo acabado de sair do forno, fatias de carne de porco e cerveja. Só então, à vista da comida, voltei a dar-me conta de como estava esfomeado. No final, o mesmo escravo limpou a mesa e retirou-se. Olhei para o sacerdote numa interrogação muda. Ele, alisando a sua longa barba, perguntou:

- Não compreendeste o sonho?

- Não sei bem - respondi. - Julgo que irei combater contra os Romanos, mas não sei quando nem como.

- Isso é simples. Combaterás os Romanos ao lado de um grande general. O resultado da guerra é um segredo que o deus reserva. Mas o mais estranho... o mais estranho é que o destino final da tua vida é o próprio Endovélico. O que me contaste não deixa lugar a dúvidas.

        Perguntei-lhe o que isso queria dizer, porém ele encolheu os ombros e retorquiu que não podia explicar melhor; de qualquer forma, cedo ou tarde, o deus chamar-me-ia.

        - Mas não será já - acrescentou - porque é também muito claro que antes de tal acontecer tu serás um guerreiro.

        - O que devo fazer então? Partir à procura desse general?

O sacerdote desviou os olhos e respondeu em voz baixa: ­Não. O deus não te mostrou um caminho, portanto terás de esperar. As coisas acontecerão na altura devida; não se pode forçar o destino.

 

Já restabelecida, a minha mãe começou a ajudar a tratar dos doentes que acorriam ao santuário. O seu conhecimento das virtudes das plantas e da preparação de poções, aliado ao seu porte e a uma beleza ainda não desvanecida, criou-lhe uma aura de prestígio graças à qual os habitantes de Arcóbriga e Meríbriga aceitaram de bom grado a nossa presença. O sacerdote acabou por convidar-nos a residir numa das casas construídas junto do acesso ao recinto sagrado, para que a minha mãe não tivesse de fazer todos os dias o percurso entre Arcóbriga e o santuário.

Camala mostrou logo vontade de aceitar a proposta porque se entregara inteiramente àquela ocupação. Quanto a mim, não encontrei razões para recusar, pois não queria abusar da hospitalidade de Tongato. No entanto, pensei com secreta angústia que talvez o sacerdote se tivesse enganado na interpretação do oráculo; talvez Endovélico me quisesse chamar já ao seu serviço... e via-me passando o resto da vida ali, o que não me seduzia.

Os dias tornaram-se iguais. Fiz algumas amizades entre os jovens arcobrigenses, com quem ia à caça ou que ajudava em vários trabalhos. Outras vezes assistia ao tratamento dos peregrinos e comecei a aprender a utilizar certas ervas, cascas de árvores e folhas para aliviar dores e sarar feridas. Mas dentro de mim crescia a ansiedade e não conseguia encontrar repouso para o espírito.

As relações com Lobessa prosseguiam. Com um irritante sentimento de culpa, compreendi que o meu desejo por ela esmorecera e surpreendi-me a seguir com os olhos algumas raparigas de Arcóbriga. Muitas delas não esconderam o seu interesse, o que me perturbava ainda mais - sabia que todas ou quase todas estavam noivas de rapazes da região e a última coisa que queria era arranjar conflitos, porém perguntava-me quanto tempo conseguiria resistir.

Um dia, em que procurava plantas pedidas pela minha mãe para tratar de um homem que sofria dos olhos, saiu-me ao caminho uma jovem de Meríbriga. Era evidente que estava à minha espera e eu não podia (nem queria) escapar. No fim, quando o desejo ficou saciado e comecei a sentir uma certa preocupação pelo que fizera, ela, com a maior desenvoltura, dissipou os meus receios. Contou-me que desde que me vira quisera ser Possuída por mim, mas esperara até casar (de facto houvera recentemente uma boda em Meríbriga) para poder mostrar ao noivo que era virgem. E agora, rematou com o mais cândido dos sorrisos, se ficasse grávida de mim não haveria escândalo! Apesar do seu descaramento, respirei fundo com alívio e prometi-lhe que nos encontraríamos mais vezes.

Nessa noite, quando me deitei, pensei melhor. Estava a desonrar um homem que nem sequer conhecia e não me fizera mal algum; além disso, mais cedo ou mais tarde seríamos descobertos. E mesmo que tal não acontecesse, havia ainda o risco (com as mulheres nunca se sabe) de ela ter ciúmes e passar a exigir de mim a fidelidade de um esposo.

Decidi Cortar o mal pela raiz e evitar novos encontros.

Atravessei o Verão sem percalços e quando as primeiras chuvas começaram a cair tudo se tornou mais fácil, porque já não era possível ter escapadelas amorosas ao ar livre, nos campos.

Com a chegada do Outono a minha disposição piorou. A chuva, o vento e o frio eram deprimentes, a caça tornou-se difícil e eram raros os peregrinos que visitavam o santuário. Emcompensação, as feras aproximavam-se dos povoados.

Cedendo à minha insistência, o sacerdote consentiu que eu consultasse novamente o oráculo e voltei a dormir na gruta, porém o deus não se manifestou.

 

O Inverno foi longo mas terminou subitamente. Um dia, acordei com o cheiro da Primavera invadindo o meu quarto. E, com a mudança, os tempos de pessimismo já pareciam longínquos; participei com alegria nos festivais e ritos com que Arcóbriga e Meríbriga saudaram a renovação do mundo e o regresso das divindades da vegetação. A minha incómoda amante meribrigense não voltou a assediar-me: engravidara e quando a criança - uma rapariga - nasceu, tornou-se óbvio que não era obra minha. A mãe, dividida entre os cuidados com o bebé e o trabalho nos campos, não tinha tempo livre para aventuras extraconjugais.

Tudo me parecia correr da melhor forma; e uma haste de guerra surgiu à vista de Arcóbriga. No alto da muralha as sentinelas apuraram a vista para identificar as insígnias e saber se eram amigos ou inimigos. Em breve o alerta foi cancelado. «São os príncipes», ouvi dizer um dos vigias, com ar de alívio.

Perguntei-lhe quem eram esses chefes. Cúrio e Apuleio, res­pondeu ele, eram príncipes bastetanos fugidos da sua pátria. A Bastetânia é uma das regiões da Hispânia Ulterior onde os Romanos estão estabelecidos há mais tempo, mas, tal como nas Outras, levantam-se ali revoltas esporádicas. Após uma dessas revoltas, Cúrio e Apuleio, que eram primos (e cujos pais haviam formado alianças Com Roma), tinham partido com um punhado de homens da sua tribo para juntar-se aos Lusitanos. Participaram na expedição de Púnico e Césaro e, mais tarde, na guerra que termninara com a carnificina ordenada por Galba. Agora, veteranos da luta contra Roma, combatiam por conta própria à frente de uma hoste formada por gente de entre Tagus e Anas. O meu informador acrescentou que vários jovens de Arcóbriga lutavam sob a insígnia dos dois príncipes e havia mesmo uma aliança formal entre estes e a cidade.

A hoste acampou no vale e os comandantes vieram cumprimentar os Anciãos. Ofereceram-se sacrifícios aos deuses, celebraram-se jogos de destreza e um acaso fez com que eu me tornasse amigo de um dos guerreiros, um homem enorme chamado Indibilis, que veio ao santuário para se tratar de uma febre persistente. O seu nome soou como um presságio favorável: muitos anos antes, no país dos Ilergetas, um rei chamado Indibilis levantara o seu povo contra Roma.

O presságio cumpriu-se. Quando o meu novo amigo se livrou da febre que o atormentara, não tardou a sugerir-me que me juntasse à hoste. «A tua vida perde-se aqui», observou, «és novo de mais para passar o resto dos teus dias num santuário ­salvo o respeito devido ao Senhor Endovélico».

Aquela, compreendi, era a oportunidade esperada havia tanto tempo. Logo nesse dia, Indibilis conduziu-me à presença de Cúrio, um guerreiro de formidável aspecto, com uma barba cerrada onde só alguns fios brancos acusavam a passagem das estações. Teria uns quarenta anos, talvez.

        O príncipe olhou-me dos pés à cabeça, vagarosamente. Perguntou-me se possuía armas e se tinha boa saúde. Em seguida mandou chamar Apuleio - que era um pouco mais novo e menos imponente, mas, conforme observei mais tarde, um combatente de primeira ordem - e os dois conferenciaram a meia voz. Por fim, Cúrio anunciou-me que estava admitido. Partiríamos daí a três dias.

 

Ao subir a encosta do morro a minha euforia desvaneceu­-se: tinha de dar a notícia à minha mãe e não sabia sequer como deveria começar. O seu futuro já não me inquietava; era respeitada, o deus protegia-a e o ouro que trouxéramos assegurava-lhe todo o conforto. Mas ia separar-me dela pela primeira vez.

A recordação dessa conversa é algo que ainda hoje não gosto de evocar, talvez porque Camala não protestou nem se queixou. Disse-me que já esperava a minha partida e apenas pedia que a visitasse sempre que possível. Arrancou-me a promessa de só revelar a minha ascendência brácara a pessoas dignas de confiança e acrescentou que se alguma vez passasse em Balsa deveria sacrificar ao espírito do meu pai. Dito isto retirou-se, alegando que se sentia adoentada.

Outras coisas contribuíram para tornar penosa a minha partida. Só nessa altura me dei conta de como eram fortes as amizades que havia criado. Os três filhos de Tongato comoveram­-me quase até às lágrimas ao oferecer-me uma couraça de linho entrançado e um escudo igual aos que os Lusitanos usam ­«para termos a certeza de que sobrevives», disseram a rir. Eram todos mais velhos que eu e consideravam-me um irmão que era preciso proteger.

E depois, havia Lobessa. Ela fez o possível para facilitar a despedida. Na véspera, prometeu-me - antes que lho pedis­se - continuar a cuidar de Camala como fizera até então. Não falámos das nossas relações - ou melhor, eu fiz uma desastrada tentativa de explicação, que Lobessa interrompeu:

- Meu senhor Tongio, eu conheço-te. Precisas de viver a tua vida... não me queixo, tu não podes deixar de ser como és. Julgo que precisarás sempre de mudar; mesmo quando gostares verdadeiramente de uma mulher, precisarás, ainda assim, de mudar. Eu sei; eu aprendi a conhecer os homens pela forma como se comportam na cama.

Houve um silêncio embaraçado, que ela quebrou com uma pergunta trivial e até nos separarmos evitou cuidadosamente pronunciar a palavra «adeus». No dia seguinte, antes do nascer do Sol, despedi-me da minha mãe. Enquanto me afastava, com a garganta contraída, pensei como afinal a amava, apesar de todas as coisas que nela me exasperavam.

Trovão, o meu fiel Trovão, que acompanhara todas as minhas aventuras desde Gadir, bateu com os cascos no solo, impaciente. Descendia de uma linhagem de cavalos de batalha e a proximidade da hoste despertara nele reminiscências ancestrais. Acariciei o seu pescoço, montei e partimos a galope.

 

                                                   A INSÍGNIA DO TOURO

 

Durante a Primavera fizemos pequenas incursões na Be­túria, mais para sobreviver que para enfrentar seriamente os Romanos. Os nossos efectivos não permitiam uma ofensi­va - Cúrio e Apuleiro teriam uns dois mil homens, nessa altu­ra - e só podíamos atacar de surpresa e em terreno conhecido.

Apesar disso, ou talvez por isso mesmo, aquela Primavera foi para mim um período importante porque me habituei à vida de campanha, às longas marchas, a viver o dia-a-dia, a enfrentar o perigo constante. Habituei-me também ao lado menos brilhante da guerra, o espectáculo das aldeias saqueadas e das mulheres violentadas (coisa que nunca gostei de ver; mas alguns dos nossos eram especialistas nisso e os príncipes toleravam a prática, embora não a seguissem). Na verdade, o que menos me agradou foi sentir que éramos mais um bando de salteadores que um exército. Não havia objectivo, excepto viver à custa dos saques e matar Romanos.

Outro aspecto penoso mas inevitável da guerra é assistir à morte de camaradas com quem na véspera se partilhou uma refeição à roda da fogueira. Assim perdi o meu amigo Indibilis, que morreu durante um assalto, trespassado por uma lança. Vinguei-o matando o legionário que o atingiu. Antes de morrer, Indibilis ofereceu-me o seu capacete de bronze e pediu-me em troca que enterrasse o seu corpo. Cumpri esta vontade, fora um guerreiro corajoso e um bom amigo, sempre pronto a instruir-me no ofício da guerra.

Quando o tempo aqueceu, anunciando a chegada do Verão, um grupo de cavaleiros de além- Tagus veio até nós com mensagens para Cúrio e Apuleio. Os príncipes ouviram os recém-chegados em privado, mas logo a seguir convocaram uma assembleia de tropas. Os mensageiros, instados a repetir em público o que haviam dito aos comandantes, anunciaram que estava em preparação um ataque em larga escala, dos Lusitanos e dos seus vizinhos, Contra a província Ulterior, para vingar enfim a traição do pretor Galba. Naquele momento, acrescentaram, formava-se uma coligação de reis, príncipes e chefes tribais; entre os povos que enviariam contingentes para a nova grande hoste contavam-se os Igeditanos, os Taporos, os Túrdulos de Aeminium e Collímbriga e também os Vetões fiéis à aliança com a Lusitânia. Havia ainda muitos outros - ao todo, cerca de dez mil guerreiros. Alguns chefes, dos mais ilustres, tinham manifestado o desejo de propor a Cúrio e Apuleio que participassem na expedição e os emissários ali estavam: se a proposta fosse bem recebida deveríamos comparecer na grande assembleia que se ia realizar junto dos montes Herrnínios.

O debate foi curto porque, afinal, os comandantes já haviam decidido aceitar o convite. Os mensageiros, que nos serviriam de guias, foram honrados com um festim - não muito abundante, já que todos nós devíamos ficar suficientemente sóbrios para partir ao romper da aurora, por isso a cerveja e o vinho foram racionados. No entanto, quando me deitei sentia-me tonto; não por causa do álcool, mas pela excitação. Finalmente, Roma ia ter resposta Camalo e Beduno poderiam repousar contentes no reino dos espíritos.

Atravessámos o Tagus não longe da cidade de Aritium Vetus. O rio - um dos maiores que eu vira até então - corria engrossado ainda pelas chuvas, mas os nossos guias conheciam o ponto ideal para a travessia, que se fez sem incidentes. Apesar das palavras de amizade e aliança, progredíamos com cautela e em ordem de combate. Na Ibéria, as relações entre os povos não eram pacíficas, mesmo quando se tratava de tribos aparentadas (ainda hoje isso acontece, de resto). As guerras tribais eram muito frequentes, sobretudo na Lusitânia, onde os povos montanheses atacavam os das planícies ou se guerreavam entre si por questões de gado, mulheres ou ofensas hereditárias.

Quando os últimos homens da hoste chegaram a salvo à margem norte, oferecemos libações às divindades do Tagus, em agradecimento por nos terem permitido atravessar os seus domínios, e retomámos a marcha. Eu estava alegre como um pardal; habituara-me à minha nova vida e não sentia falta dos confortos de Gadir.

Mesmo assim, por várias vezes fiquei chocado (embora nada dissesse) quando, à medida que avançávamos para o Norte, contactávamos com as tribos serranas, cujos costumes são ainda os dos seus antepassados. Tanto os povos da Bética - sobretudo os Turdetanos - como os Cónios são educados e civilizados. Um dos antigos reis do Cineticum, Gargoris, tornou-se mesmo famoso por ter descoberto as virtudes do mel, cujo uso introduziu na alimentação e nos ritos. Agora, eu deixara esse mundo e entrara num outro, mais antigo e brutal. Descobri que era verdade o que ouvira em Balsa, ou seja, que muitas divindades das terras altas exigiam sacrifícios humanos. Numa pequena cidade fortificada que encontrámos no nosso itinerário, Os habitantes tinham acabado de ler os presságios nas veias de Um prisioneiro, um homem da planície que o sacerdote oferecera a Bandiarbariaico. O espectáculo do cadáver aberto, envolto ainda na veste de sacrifício, revoltou-me o estômago.

Três dias depois de deixarmos o Tagus, avistámos ao longe a encosta dos Hermínios, que formam a mais alta serra da parte ocidental da Lusitânia. É uma região muito bela, de uma beleza agreste, bem diferente da paisagem que me era familiar.

Começámos a encontrar grupos de guerreiros que se dirigiam, como nós, para o sopé dos Hermínios, respondendo a um apelo idêntico. As saudações trocadas eram cerimoniosas e cada corpo de homens prosseguia a marcha separadamente. Até que fosse concluída uma aliança formal, selada por juramento, não se podia falar em exército lusitano.

Compreendia-se, aliás, a razão que motivara a escolha daquele ponto de encontro. A região era um imenso vale, uma espécie de «cova» gigantesca delimitada por serranias e colinas, com espaço bastante para que várias hostes acampassem a certa distância umas das outras. Só os notáveis e as suas escoltas participariam na assembleia.

Viajámos durante mais um dia e recebemos ordens para acampar na orla de um bosque. Ficaríamos estacionados sob o comando de Apuleio, enquanto Cúrio partiria na manhã seguinte ao encontro dos outros chefes.

Fui escolhido para fazer parte da escolta que o acompanharia (uma honra que não esperava) e passei boa parte da noite a limpar as armas, o escudo e o capacete e a reparar estragos na minha couraça; além disso, tirei da bagagem a melhor das minhas duas túnicas. Sempre pensei que um guerreiro deve cuidar da sua aparência antes de participar em cerimónias ou entrar em combate, pois nessas circunstâncias ele representa, de certo modo, o povo a que pertence.

 

Enorme e alegre confusão reinava no local escolhido para a assembleia, nas margens de um regato. Escravos erguiam as tendas onde os chefes passariam a noite, enquanto bandos de mulheres com trajos coloridos, vindas das povoações próximas, preparavam as mesas para o banquete que encerraria a reunião.

A cada instante cruzavam-se as insígnias das várias tribos, empunhadas por guerreiros a cavalo que trocavam saudações e gracejos ruidosos. No lado norte do recinto, onde se viam cinco aras de pedra muito antigas, sacerdotes ocupavam-se na construção das piras para os sacrifícios.

Cúrio tinha amigos entre os chefes presentes e logo se embrenhou em conversa com eles, deixando a escolta entregue a si própria. Dispersámos; e eu, que não conhecia ali ninguém, diverti-me a observar as raparigas - algumas bastante boni­tas - que se afadigavam já em volta das fogueiras onde seriam assadas as peças de carne para o festim.

        De repente, tive a sensação de que estava a ser observado e uma voz fez-me estremecer:

        - Voltamos a encontrar-nos, filho de Tongétamo!

        Girei sobre mim próprio e deparei com Viriato; precipitei­ -me para ele e abracei-o com tanta alegria como se fosse um irmão reencontrado. Não era preciso perguntar para saber que Viriato estava ali na qualidade de comandante; a mesma aura de poder que eu notara antes continuava a revesti-lo como se fosse um manto real- no entanto, ao contrário dos outros chefes, não usava um único adorno de ouro. As vírias que lhe cingiam Os braços eram de bronze, envergava a mesma couraça de linho entrançado que vestia quando o conhecera e a única concessão aparente à solenidade da ocasião estava nas três grandes plumas vermelhas que enfeitavam o seu capacete.

Mal tinha começado a falar com ele quando uma fortíssima palmada nas costas me fez dar dois passos em frente e um berro amigo atroou os meus ouvidos:

- Olha, o nosso Coniozinho!

Era Táutalo, que já sabia por um dos meus camaradas que eu me alistara na hoste de Cúrio: «Quando me disseram que tinham arranjado um novato em Arcóbriga, percebi logo que eras tu», exclamou.

Trocámos informações, ou, melhor dizendo (já que eu não tinha notícias para dar), eles relataram-me as últimas novidades, tanto da Lusitânia e da Calécia como das terras submetidas aos Romanos. De tudo o que me disseram retive dois factos. O pri­meiro referia-se às dificuldades com que se debatia a dinastia usurpadora que governava Brácara: o descontentamento contra o rei era tão grande que este preferira manter-se na sua capital e não estaria presente na assembleia; quanto aos nobres da facção adversa, tinham receado ausentar-se deixando ao monarca o campo livre. Como resultado, a coligação que se preparava não poderia contar com os Brácaros - «o que para ti é uma boa notícia», comentou Viriato.

O segundo ponto importante era a situação no território romano, onde as autoridades não sonhavam sequer com a possibilidade de um ataque. O extermínio dos dez mil Lusitanos (sem falar dos vinte mil vendidos na Gália) era uma coisa ainda recente e criara um sentimento de segurança e a convicção de que a Lusitânia não poderia tão cedo criar problemas a Roma.         - Essa é a nossa arma mais importante - disse Táutalo ­ - porque vamos cair de surpresa sobre eles e varrê-los até ao mar!

Viriato olhou-o com ar divertido, mas logo ficou sério. ­Até ao mar, não creio. E veremos, mesmo, até onde podemos varrê-los.. .

Nesse momento vieram chamá-lo. Intrigado com o que ele dissera, perguntei a Táutalo se havia razões para duvidar do nosso êxito. Encolhendo os ombros, respondeu-me que Viriato concluíra, por conversas com outros chefes, que seria difícil chegar a um acordo para estabelecer um comando único, centralizado num só homem.

- É um velho hábito nosso - observou - nenhuma tribo quer ceder o comando a um estranho, mesmo Lusitano, salvo em casos de grande emergência.

- Mas... e Púnico? E Césaro? E Cauceno...?

- Comandavam os seus povos. Oh, bem sei, tinham alguns aliados, mas nunca puderam tomar uma decisão importante sem primeiro reunir em conselho ou assembleia para discutir longamente. É um antigo costume e todos se agarram a ele. Viriato pensa que esse sistema não resulta quando se trata de combater os Romanos.

Táutalo abordou uma rapariga que passava com uma ân­fora cheia de cerveja e tirou-lha, ao mesmo tempo que lhe lançava um galanteio. Ela riu, deu-lhe uma palmada na mão e cedeu-lhe a ânfora. Recusei a bebida que me era oferecida e perguntei ainda se Viriato ia dizer o que pensava na assembleia. Durante alguns momentos tive como única resposta o gorgolejar da cerveja, depois Táutalo limpou a boca às costas da mão e disse:

- É difícil. Viriato é conhecido e respeitado, mas não é um chefe de tribo e o nosso contingente é pequeno. Somos os melhores, disso não tenho qualquer dúvida, mas não passamos de mil cavaleiros e é preciso que nos vejam em acção para compreenderem certas coisas... entretanto, Viriato tem um aliado importante: Caturo, Rei dos Igeditanos. Cerca de trezentos homens de Igedium fazem parte do nosso grupo. E o mesmo se passa com os Vetões... mas não sei se isso basta.

Uma trompa soou chamando os chefes para a assembleia. Antes de me separar de Táutalo quis saber o que pensava ele, pessoalmente, da ideia de Viriato.

- Por mim está tudo bem desde que haja luta - disse a rir - mas o Comandante é que percebe de estratégia. E tem sempre razão. Isso é também uma coisa que os outros só compreenderão mais tarde!

 

A desordem e o barulho tinham acabado. Os chefes estavam sentados em toscos bancos de madeira, formando um vasto círculo, e atrás de cada um a respectiva escolta mantinha-se de pé, em formação. Era um espectáculo curioso: ao lado de homens da planície, como os de Aeminium, cujos nobres tinham envergado os seus melhores trajos, onde rebrilhavam ouro e jóias, viam-se ferozes guerreiros serranos com os corpos reluzentes de óleo e os longos cabelos presos atrás por uma correia, como se fossem entrar em combate logo a seguir.

Os discursos arrastaram-se, longos e inflamados, mas na sua maioria repetitivos. De vez em quando eu observava Viriato, que estava no lado oposto do círculo, quase na minha frente: quieto e calado, escutava com atenção mas não pedia a palavra. A in­sígnia da sua tribo, que representava um touro, era empunhada por Táutalo; este, colocado atrás do seu comandante como se quisesse protegê-lo de um ataque pelas costas, dava frequentes sinais de impaciência.

As suas previsões confirmaram-se. Viriato não falou mas Caturo advogou com insistência a escolha de um general que unificasse o comando das tropas. Todavia, o rei não participaria na expedição - tinha problemas nas fronteiras - e isso prejudicava os seus argumentos. No final, foram escolhidos cinco chefes Ccujos nomes já não recordo) segundo os múltiplos parentescos e alianças que uniam ou dividiam os diversos povos.

O Sol declinava quando a assembleia dispersou e todos, num ambiente de azáfama festiva, se prepararam para o banquete que estava servido. Mais tarde, quando o vinho e a cerveja haviam alegrado ainda mais os convivas e os cânticos de guerra faziam tremer as copas das árvores, consegui encontrar de novo Viriato. Mantinha-se perfeitamente sóbrio. Táutalo, perdido de bêbado, gatinhava soltando urros). Perguntei-lhe até que ponto a decisão da assembleia prejudicaria o resultado da nossa empresa. Relanceando os olhos em volta, com um ar imper­turbável, ele respondeu:

- Veremos. O que me aborrece é que o resultado, agora, vai depender dos Romanos e não de nós próprios.

Afastou-se, reclamado por um dos seus homens, e eu fiquei a pensar como gostaria de combater sob as suas ordens. Mas dera o meu compromisso aos príncipes e um homem tem de respeitar a sua palavra.

 

No dia seguinte, a parte da manhã foi dedicada às cerimónias religiosas, que se iniciaram logo ao romper do Sol. Porcos, touros, bodes e cavalos foram oferecidos aos deuses guerreiros de todas as tribos ali representadas. O número de vítimas era tão elevado que pelo meio-dia o ar tornou-se quase irrespirável com o cheiro a sangue, gordura e carne queimada que se desprendia das aras e das piras. Os presságios anunciaram muitos perigos e alguns reveses, mas também uma grande vitória. Fizeram-se então os juramentos solenes tomando os deuses por testemunhas e realizaram-se jogos: corrida, luta corpo-a-corpo e esgrima. Ganhei um prémio (uma adaga com o cabo de prata) numa das corridas. Ao fim da tarde, o vale encheu-se de luzes: milhares de homens - os vários contingentes tinham-se concentrado ­sentavam-se em torno dos fogos onde cozinhavam os alimentos para a ceia.

Quando me dirigia ao meu acampamento, alguém me chamou: Táutalo, que insistia em felicitar-me pela vitória. Acabei por sentar-me ao seu lado e bebi com ele e com os seus companheiros, todos do grupo de Viriato. Este já se retirara para a sua tenda, após ordenar que a confraternização não fosse muito longe na bebida.

- E aposto - disse Táutalo - que o Comandante se deitou vestido e armado, já pronto para a partida. Para ele, guerra é guerra, até mesmo durante a noite!

Esse comentário proporcionou-me um ensejo - que eu esperava - para lhe pedir informações sobre o passado de Viriato: que família era a sua?, como se tornara um chefe de guerra?, tinha sangue real?

Táutalo não se fez rogado; conhecia Viriato desde a infância e tal como todos os outros, sentia um imenso orgulho por cornbater sob a sua insígnia. Contou-me que o pai de Viriato, Cornínio, fora um pequeno chefe tribal do vale do Tagus. Segundo o costume lusitano, o primogénito era o único herdeiro dos bens familiares e por isso Viriato, o terceiro filho (o segundo era uma rapariga), vira-se forçado, como muitos outros jovens, a escolher a vida rude dos bandos que saqueavam as ricas terras do Sul. Sobressaíra rapidamente pelas suas qualidades; a apoiá­-las estava a experiência que tivera como criança e adolescente: aos cinco anos, o pai, antes de partir para a guerra, deixara-o com a mãe e os irmãos sob a protecção dos Igeditanos, de quem era aliado. Comínio morrera em combate e Viriato crescera entre os guerreiros de Igedium e com eles se preparara para a guerra. Andara pelas serranias, guardara rebanhos, travara relações com os montanheses e quando atingira os dezasseis anos era um homem feito, curtido pelo vento e o ar livre, com enorme resistência física e uma admirável capacidade de comando. O primeiro bando em que se integrara depressa o elegera como chefe.

- Desde essa época - concluiu Táutalo - ele é o nosso comandante e há homens que se batem para entrar no seu bando. Não só por ele ser o mais forte, não só por ser justo; os guerreiros sabem que com ele no comando têm mais probabilidades de sobreviver e de vencer. Muitos reis gostariam de ter um filho como Viriato... a começar, meu caro Tongio, pelo Rei dos Brácaros, que hoje deve amaldiçoar a hora em que a sua família destronou o teu avô Tongétamo!

- Desejo ardentemente que continue a maldizer essa hora - resmunguei. Mas no fundo estava pouco interessado nas discórdias internas de Brácara; outra coisa me preocupava.

- Não repitas isto - disse a Táutalo. - Eu próprio lamento não poder passar-me para a insígnia do touro. Dei o meu juramento a Cúrio e seria uma desonra abandoná-lo...

Ele olhou-me.

- Quem sabe? Os azares da guerra alterama nossa vida.

 

De pé sobre o topo irregular de um rochedo, fixei o olhar no casario que se destacava, recortado contra o céu vermelho, na linha do horizonte, e procurei dominar a emoção que sentia ao rever Gadir.

Tinham-se cumprido os vaticínios. A nossa hoste precipitara­-se como um furacão sobre a Bética, levando à frente as popu­lações e as guarnições romanas colhidas de surpresa. Ninguém acreditara que os Lusitanos, dizimados por Galba, seriam capazes de levantar efectivos para empreender uma expedição como aquela e o resultado desse excesso de confiança estava patente: em poucas semanas atravessáramos a Betúria e entráramos na Turdetânia, uma terra fértil e rica, prometendo abundantes des­pojos. Agora, carregados com o produto das pilhagens, estávamos à vista de Gadir e dentro de dois dias, no máximo, podíamos atacar a cidade - o que me levava a pensar na melhor forma de proteger Eunois.

Seria talvez a nossa primeira batalha, pois até então apenas traváramos curtos recontros depressa resolvidos com a chacina ou a fuga do inimigo. «Uma expedição assim nem dá gosto», comentara Táutalo, que lutava por puro prazer e se lamentava de «não ter conseguido sujar a lâmina da espada».

Nos últimos dias, eu vira-o, e a Viriato, por diversas vezes em marcha e nos acampamentos, eles e os seus homens estavam perto das tropas de Cúrio e Apuleio. Por isso pude observar, uma vez mais, a diferença que havia entre Viriato e os outros comandantes. No seu conjunto, as nossas tropas dificilmente poderiam ser consideradas um verdadeiro exército; eram uma horda repartida em vários corpos que progrediam sem ordem, segundo o desejo ou a inspiração de cada chefe. Os mil guer­reiros que cavalgavam atrás da insígnia do touro formavam, esses sim, um pequeno exército disciplinado. Quando acampavam, as tendas eram dispostas de acordo com uma ordem estabelecida; durante a marcha, os homens conheciam a posição que deviam ocupar e o que lhes competia fazer. Batedores postados na vanguarda e nos flancos da coluna vigiavam permanentemente o terreno.

Outra diferença importante estava na repartição dos despojos. Quase todos os chefes escolhiam primeiro as melhores peças e as mulheres mais jovens, o resto ficava para quem conseguisse deitar-lhe a mão e eram frequentes as rixas, não só entre guerreiros como até entre comandantes. Nada disto sucedia no acampamento de Viriato. Com uma autoridade absoluta e jamais contestada, ele distribuía os despojos segundo o valor demons­trado por cada homem e para si reservava somente alguma coisa de que tivesse necessidade: uma espada, um dardo, uma túni­ ca - por vezes, mesmo, não queria nada. Quanto às mulheres, só deixava que tocassem nas escravas e não via com bons olhos que estas fossem maltratadas.

Em consequência, a harmonia reinava sempre entre os mil cavaleiros, para quem Viriato era não só o comandante mas também o juiz, o protector e quase um deus. Homens maduros, endurecidos por anos de guerra, obedeciam-lhe sem pensar que ele poderia ser seu filho. Ao considerar tudo isto, desejei mais uma vez poder passar sem desonra para a sua insígnia.

Foi precisamente a voz de Viriato que me trouxe à realidade: - Sonhando com a infância, Tongio?

Encontrava-se na base do rochedo em que eu me empoleirara.

Em dois saltos desci e aproximei-me dele.

- Não; pensava antes na conquista de Gadir. Vive lá um homem, um Grego, que me ajudou. Gostaria que ele fosse poupado.

Viriato abanou a cabeça com ar de dúvida. - É difícil, quando os bandos entram de roldão numa cidade... mas fala a Cúrio. Talvez possas convencê-lo... isto, claro, se chegarmos a entrar em Gadir.

        Algo na sua voz me chamou a atenção. - Porque dizes isso? Pensas que não vamos conseguir?

Ele encolheu os ombros. - Não sei... penso que as coisas têm corrido bem demais. Os Romanos podem ser apanhados de surpresa, mas não desistem e tentam sempre vingar aquilo que consideram uma afronta. Além disso, são poderosos.

- Bom - objectei - nós varremos a Betúria e a Turdetânia quase sem luta!

- Precisamente. Estamos bem dentro de território sujeito a Roma, às portas da maior cidade da Ibéria. Os Romanos não podem permitir que isso aconteça. Enfim, veremos o que nos traz o dia de amanhã.

Nos acampamentos da hoste ardiam já as fogueiras para a noite e os homens preparavam a ceia. Preferi ignorar as dúvidas de Viriato e preocupei-me somente com a melhor forma de proteger Eunois quando entrássemos em Gadir. Falaria a Cúrio; um grupo dos nossos podia tentar alcançar a sua casa antes dos outros. Era o mínimo que eu devia fazer para pagar a amizade e a honestidade com que Eunois me tratara. Confiante no meu plano, comi e fui dormir.

Acordei bruscamente com o ruído de vozes soltando imprecações e o tinir de armas a serem empunhadas à pressa.

«Um ataque», pensei. Mas quando saí da tenda - a noite clareava e as fogueiras estavam quase apagadas - só vi homens correndo de um lado para outro. Num magote, avistei Táutalo, Viriato e Apuleio; Cúrio chegava nesse momento. Corri para lá.

Os homens apinhavam-se à volta dos corpos ensanguentados de dois legionários romanos. Das falas desencontradas, depre­endi que haviam sido apanhados quando passavam furti­vamente perto do nosso acampamento, seguindo na direcção de Corduba. Viriato, irritado, censurava Apuleio porque os capto­res - guerreiros sob o comando do príncipe - tinham-se apressado a trucidar os legionários em vez de os trazer vivos.

- Os emissários nunca se matam - dizia ele, forçando-se à contenção - pelo menos até revelarem as mensagens que levam. Nós precisávamos dessas informações!

        - Bem - resmungou Cúrio, mergulhando os dedos na barba - agora é tarde para os interrogar. De qualquer modo, o recado não chegará ao destino e isso já é uma boa coisa... vocês - acrescentou virando-se para os homens que haviam interceptado os Romanos - merecem pelo menos os despojos.

Fascinado sem saber porquê, fiquei a vê-los revistar e despir os corpos. Num deles encontraram algumas moedas de prata e de cobre, que logo foram repartidas. De repente, vi que um dos guerreiros tinha nas mãos um objecto que me era familiar.

Examinou-o, certificou-se de que não era feito de metal precioso e lançou-o para o chão. Involuntariamente dei um grito e precipitei-me sobre ele.

O homem que o atirara olhou-me espantado. - Que é? Isso não tem valor e se tivesse pertencia-me!

        Devagar, levantei até à altura dos seus olhos a tabuinha dupla cujas faces interiores estavam revestidas de cera gravada.

- Isto é a coisa mais preciosa dos despojos, mas não te pertence nem teria utilidade para ti. É a mensagem que eles levavam.

        Apuleio começou a falar, no tom de um garoto com birra: - E daí? Quem vai entender o que está escrito...

        Deixei de lhe prestar atenção porque alguém mais perto de mim chamou tranquilamente: - Tongio...

        Encarei Viriato, cujos olhos cintilavam.

        - Tu sabes ler, não é verdade? E falas a língua dos Romanos...?

        - Claro que sim. Perdi bastante tempo de jogos e brinca­ deiras para aprender Latim e Grego... e outras coisas.

Quebrei o selo. A luz era já suficiente para decifrar a mensagem e li-a em voz alta perante o espanto dos guerrei­ros que me cercavam, homens para quem a escrita era um mistério próximo da magia. A carta estava assinada por um tribuno militar, provavelmente o comandante da guar­nição de Gadir, e destinava-se a um pretor Caio Vetílio, em Corduba. O tribuno dizia que os Bárbaros (nós) podiam já ser avistados do alto das muralhas gaditanas; a cidade estava em perigo e pedia-lhe que avançasse urgentemente para o Sul «com as novas tropas».

- Quem é esse Caio Vetílio? Nunca ouvi falar... - rosnou Apuleio. Cúrio disse o mesmo e ambos se voltaram para Viriato como se este devesse dar-lhes uma resposta. Ele sacudiu a cabeça e disse num tom vagamente sarcástico:

- Também nunca lhe fui apresentado, mas não é difícil compreender de quem se trata. Com certeza chegou há pouco de Roma e, como é pretor, estou quase certo de que é o novo governador romano para o território que eles chamam a Hispânia Ulterior. Está em Corduba, com tropas frescas, e isso basta para alterar os planos; Cúrio... - a voz de Viriato tornou-se tensa e velada - é preciso reunir um conselho imediatamente. Já não podemos atacar Gadir.

Apuleio protestou, mas Cúrio, após reflectir um momento, gritou uma ordem e logo as trompas soaram convocando os chefes. No meio da agitação, Viriato aproximou-se de mim.

        - Táutalo contou-me - disse - que gostarias de te juntar a nós. Ainda pensas da mesma forma?

        Respondi que sim e que só o compromisso assumido peran­te Cúrio me impedia de solicitar a admissão.

Viriato deu uma leve palmada no meu ombro: - Aprecio os teus escrúpulos. Há talvez uma forma de satisfazer esse desejo sem quebra de palavra... espera uns dias, vou ver o que posso fazer.

Quis agradecer-lhe mas ele interrompeu-me: - Não o faria se não pensasse que és uma aquisição importante... sim, deixa esse ar de espanto. Sabes lutar, embora não tenhas muita expe­riência; há decerto guerreiros melhores que tu, mas nenhum deles sabe ler e poucos são os que conhecem outra língua que não seja a que aprenderam com a mãe. Qualquer coisa me diz, Tongio filho de Tongétamo, que serás muito útil.

Os comandantes tinham começado a chegar, intrigados ou irritados, segundo os seus temperamentos, com a chamada a conselho. Sobretudo os cinco chefes supremos pareciam considerar ultrajante que mais alguém se desse ao luxo de fazer uma convocação. Porém, as notícias, logo que foram conhecidas, levaram-nos a esquecer os pruridos.

Não assisti ao conselho, mas contaram-me como decorreu. Até mesmo os mais teimosos compreenderam que não era possível tomar Gadir. Arriscávamo-nos a ser atacados pelas costas durante o cerco e se entrássemos na cidade bastaria que as tropas do novo pretor chegassem entretanto para ficarmos encurralados em Kotinoussa, tendo o mar como única saída. Muitos dos nossos nunca haviam entrado num barco e, de resto, os Romanos e os Gaditanos usariam todas as embarcações disponíveis para fugir à nossa chegada.

Afastada esta ideia, restava decidir o que faríamos. Viriato propôs que nos dispersássemos em grupos e tentássemos obter mais informações sobre os reforços do inimigo; outros queriam avançar em direcção a Corduba e enfrentar Caio Vetílio, confiados na reputação de invencibilidade que ganháramos ao entrar na Betúria.

        Esta última opinião prevaleceu. Para compensar os homens pela perda da pilhagem de Gadir, decidiu-se que saquearíamos a cidade de Urso, que ficava no itinerário para Corduba.

Encontrámos as tropas de Vetílio mais cedo do que esperávamos. Um dia depois 'de termos interceptado os mensageiros de Gadir, a nossa vanguarda travou um breve recontro com cavaleiros romanos surgidos inesperadamente de um bosque.

Desta vez, o inimigo não entrou em pânico e não fugiu. Logo nos primeiros momentos de combate tornou-se claro que lutávamos com tropas bem diferentes daquelas que tínhamos encontrado até então. Sofremos bastantes baixas e o próprio Cúrio esteve em perigo; Viriato, que contra o seu hábito se aproximou e misturou os seus homens com os nossos, salvou­-lhe a vida trespassando com um dardo o decurião que o atacava pelas costas. No final, a cavalaria romana retirou em boa ordem.

Enquanto os guerreiros recuperavam os corpos dos camaradas para lhes prestarem as honras fúnebres, Cúrio foi ter com Viria to e estendeu-lhe a mão:

- Estou em dívida contigo e não gosto de ficar a dever a minha vida a alguém, mesmo quando esse alguém és tu. Se concordares, escolherás o que quiseres nos despojos que trago; ou, quando saquearmos Urso, ficarás com a minha parte.

Viriato soltou uma gargalhada. - Agradeço-te, mas falas com demasiada confiança do saque de Urso. Se queres pagar­-me, podes fazê-lo já, sem perder as riquezas que ganhaste.

Virou-se para mim e chamou: - Tongio! - aproximei-me corando, ao perceber a sua ideia.

- Este jovem guerreiro - disse Viriato - é um antigo conhecimento meu. Na verdade, devo-lhe um belo cavalo e ainda não lho paguei... dispensa-o do juramento, permite que ele passe para o meu grupo e estamos quites.

Foi a vez de Cúrio largar a rir.

- Se o queres, assim seja! Tongio, liberto-te do compromisso; a partir de agora, o teu comandante será Viriato filho de Comínio.

Ainda a rir, afastou-se. Encarei o meu novo chefe com os olhos húmidos de emoção. - Não sei o que posso dizer. Compreendo agora... porque te aproximaste tanto de Cúrio durante a luta. Pensavas...?

        - Pensava arranjar um meio de o pôr em dívida para comigo? E porque não? Disse-te já que não é difícil arranjar um bom combatente, mas conseguir um intérprete - e letrado, ainda por cima - é outra questão.

- Bem, mas espero que me deixes combater!

        O sorriso desapareceu do seu rosto. - Podes estar certo disso. Todos teremos de combater... os próximos dias não vão ser fáceis, Tongio, e continuo a pensar que é um erro prosseguir o avanço para Urso.

O meu alistamento foi saudado alegremente pelos guerreiros que eu já conhecia. Senti-me logo à vontade - mais que com os homens de Cúrio e Apuleio, que se mantinham agarrados aos seus preconceitos de tribo. As tropas de Viriato, formadas por uma mistura de Lusitanos da planície e das serras, Igeditanos e Vetões, eram mais fiéis ao espírito de corpo que à solidariedade tribal.

Nessa mesma noite, durante uma reunião com vários chefes, Viriato voltou a defender, em vão, a ideia de que deveríamos evitar um ataque a Urso. Eu estava perto e ouvi a discussão. Os cavaleiros que encontráramos, argumentou ele, eram a guarda avançada de Caio Vetílio. Tinham dado provas de experiência e disciplina superiores às dos nossos e se o exército do pretor era formado por tropas com aquela qualidade, não devíamos arriscar uma batalha campal.

Porém, a ânsia da pilhagem era mais forte que a voz do bom senso. No dia seguinte, adoptámos já, em marcha, a ordem de batalha, com a cavalaria à frente para forçar as linhas inimigas. Nesta formação, o grupo de Viriato ocupava a ala direita. Avançávamos numa região povoada em tempo de paz, mas cujos habitantes haviam fugido para as matas e cabeços fortificados, pressentindo a aproximação da guerra. Apenas algumas cabeças de gado - bois e cabras magros e doentes, que não valia a pena conservar - vagueavam desamparados pelos campos. Urso devia estar pejada de refugiados, homens e animais.

O Sol tombava a pique e muitos dos nossos tiraram os capacetes para melhor suportar o calor. Viriato, fiel ao seu costume, enviara batedores para reconhecer o terreno à nossa frente. Voltaram acompanhados por um pequeno grupo de cavaleiros armados, habitantes de Urso, que tinham decidido juntar-se a nós, ou por ódio aos Romanos ou por pensarem que éramos os mais fortes; os seus chefes, dois homens de cabelos grisalhos chamados Audax e Minuro, conferenciaram com Viriato, que antes de os enviar aos cinco generais os interrogou longamente. O exército do pretor, disseram, estava já perto, barrando o caminho para Urso; eram cerca de dez mil homens.

- Estamos em igualdade de forças - murmurou Táutalo, que cavalgava ao meu lado - mas Viriato tem razão: são legiões chegadas de Roma, frescas e bem treinadas. A brincadeira acabou... ora, tanto melhor, vamos enfim ter uma luta a valer.

O dia terminou sem que víssemos sinais dos Romanos. Nessa noite, não houve fogueiras e tivemos de contentar-nos com carne salgada e pão de bolota. De madrugada, Viriato mandou acordar os seus homens para lhes dar instruções: em caso algum deveríamos abandonar a formação, mesmo se os Romanos fugissem. Toques de trompa especiais dariam as ordens necessárias durante a batalha. E acima de tudo: não haveria tempo para sacrificar vítimas e ler presságios (Táutalo confidenciou-me, mais tarde, que o próprio Viriato fizera um sacrifício durante a noite e que os sinais eram desfavoráveis).

Como resultado, ao nascer do Sol estávamos a cavalo e em movimento, o que forçou o resto das tropas a apressar os preparativos, para grande irritação dos outros chefes. A manhã ia alta quando a formação ficou terminada. Pouco depois, avistámos as muralhas de Urso - entre elas e nós o exército romano esperava.

 

Os veteranos poderiam talvez descrever a batalha e explicar os erros que nós cometemos. Tudo me pareceu caótico logo de início, pois tanto quanto posso recordar começámos mal: os cavaleiros lusitanos, entoando os seus impressionantes hinos de guerra, precipitaram-se sobre as legiões mas fizeram-no indiscriminadamente. Antes de atingirem as linhas inimigas, uma chuva de dardos lançados pelos velites abateu-se sobre eles e dizimou-os. Depararam então com uma muralha de lanças empunhadas pelos triários e enquanto procuravam em vão abrir uma brecha os esquadrões da cavalaria romana atacaram os nossos flancos. A ala comandada por Viriato resistiu, mas o flanco oposto cedeu à pressão e em breve o combate se transformou numa terrível mortandade. De todos os corpos de tropas lusitanas, só o nosso manteve a formação, cumprindo as ordens de Viria to. Com este à frente, lançámos uma carga temerária para cobrir a fuga dos outros. Essa carga, que os Romanos já não esperavam, salvou muitas vidas, porém a derrota era completa. No campo ficaram milhares de Lusitanos e só o nosso grupo saíra ileso, por favor dos deuses - e porque ninguém fugira.

        Um trabalho esgotante estava ainda à nossa espera: tentar: reunir os fugitivos. Cúrio e Apuleio tinham conservado à sua volta algumas centenas de homens e com eles procurámos estabelecer uma linha de protecção. Ao cair da noite, cobertos de suor, de pó e de sangue, reunimo-nos num pinhal para discutir o que havia a fazer. Tínhamos já uma ideia mais ou menos exacta da situação: connosco encontravam-se dois mil homens a cavalo, alguns com ferimentos mas capazes de se mexer. Os feridos mais graves estavam condenados a receber o golpe de misericórdia dos legionários, que entretanto pareciam ter regressado às posições que ocupavam antes da batalha.

- É estranho! - exclamou Viriato limpando com a mão o suor que lhe cobria a testa - seria de esperar que nos dessem caça.

- Têm medo de se aventurar em terreno desconhecido - comentou Apuleio, que combatera como um animal feroz e acabara por quebrar a espada contra uma couraça romana ­mas agora devemos aproveitar essa vantagem para encontrar um refúgio.

Audax, um dos homens de Urso, interveio:

        - Conheço um bom lugar, uma povoação abandonada, perto daqui. As muralhas ainda estão de pé. É um lugar muito antigo e não sei se há nele alguma maldição.

- Não pode haver pior maldição que a que nos caiu hoje em cima - rosnou Cúrio. - Se apanho a jeito os sacerdotes que nos leram os presságios nos Hermínios, vou dizer-lhes umas palavrinhas que não esquecerão tão depressa!

Viriato, pensativo, acariciava o pescoço do seu cavalo. ­Mas se nos refugiarmos aí - lembrou - arriscamo-nos a ficar cercados!

        Apuleio fez um gesto de impaciência que agitou o seu manto de peles, rasgado por inúmeras espadeiradas.

        - E que outra solução resta? Precisamos de um sítio para passar a noite, para reunir os nossos e tratar dos feridos. Além disso, está a escurecer.

Decidiu-se que Audax guiaria a maior parte dos homens para a povoação deserta enquanto Viriato, com uma centena de guerreiros, procuraria encontrar mais fugitivos antes de se lhes reunir, guiado por Minuro, o amigo de Audax.

Acompanhei Viriato. Durante grande parte da noite, ilumi­nados apenas pelo luar, batemos a região. O campo de batalha estava-nos interdito porque era guardado por patrulhas romanas (quando nos aproximámos, ouvimos os gritos dos nossos companheiros caídos, que os legionários degolavam). No meio daquele pesadelo, foi ainda possível encontrar e reunir um mi­lhar de guerreiros que vagueavam pelos campos ou se escondiam nas matas. Enfim, dirigimo-nos para o refúgio.

A antiga cidade estava quase intacta, só a cintura exterior se encontrava arruinada. Um arrepio percorreu-me as costas quando vi as muralhas e as velhas casas de forma circular, testemunhando uma época morta havia muito. Que espíritos habitariam ali? Como aceitariam a nossa presença? Minuro garantiu-nos que muitos habitantes da região, quando iam à caça, pernoitavam naquele local sem serem molestados.

Quando entrámos no recinto fortificado já este se encontrava cheio de homens e cavalos. No pequeno largo fronteiro ao templo - este sem telhado nem imagens sagradas - estavam deitados os feridos, que alguns homens, conhecedores dos rudimentos da arte de curar, procuravam socorrer como lhes era possível.

Sentia-me capaz de dormir um ano inteiro, de exausto que estava; contudo, o espectáculo de Viriato e Táutalo (ambos tão fatigados como eu) organizando os turnos de vigia e procurando estabelecer um mínimo de ordem levou -me a querer mostrar que também estava à altura da emergência. Conhecia um dos homens que tratavam dos feridos, um jovem Vetão chamado Arduno, que pertencia ao nosso grupo. Fui ter com ele e ofereci os meus préstimos.

Arduno ergueu para mim os olhos surpreendidos. - Todos os dias me espantas, Tongio! Então, além de saber ler também és curandeiro?

        - Não propriamente, mas quando vivia no santuário de Endovélico ajudava a minha mãe a cuidar dos peregrinos.

- Muito bem - respondeu ele - então, ao trabalho! - e entregou-me uma servas, que fora desencantar não sei onde, para que eu fizesse com elas um unguento.

Atarefámo-nos a lavar feridas, improvisar pensos e distribuir a pouca água que havia pelos homens que ardiam em febre. Finalmente, quando tínhamos feito o que era possível fazer, parei e encostei-me a uma parede, tão cansado que tinha medo de cair. Um pequeno odre de barro surgiu debaixo do meu nariz. - Bebe - disse Táutalo - estás a precisar disto.

Era cerveja de má qualidade mas soube-me como se fosse néctar. Agradeci-lhe, devolvi-lhe o odre e perguntei:

- Já contaram os sobreviventes?

        Ele fez um gesto afirmativo. - Perdemos mais de metade dos nossos. A expedição acabou, Tongio, e teremos muita sorte se conseguirmos sair vivos daqui.

- Mas os Romanos não nos perseguem...!

- Pois não e isso pode ser mau sinal. Enfim, é uma preocupação para amanhã. Agora, vai dormir.

        Assim fiz. Dormi profundamente, mas por pouco tempo. Acordei ao romper da aurora e logo me apercebi de que alguma coisa se passava, porque tanto as muralhas como os rochedos - havia-os dentro do recinto da cidadela - estavam cobertos de homens que, em silêncio, olhavam para o exterior. Levantei­-me e subi à muralha.

A luz da manhã deixava ver os campos em redor. E para onde quer que olhasse, só via legionários romanos. Estávamos cercados.

 

Parecia que os deuses queriam fazer-nos pagar bem caro as primeiras vitórias e o avanço fulgurante até à Turdetânia. Rodeados de inimigos, apinhados num espaço exíguo, sem alimentos, éramos uma sombra da horda que fizera tremer a Bética. Para cúmulo, a água que descobrimos no poço da cidade estava envenenada e antes que nos apercebêssemos disso muitos homens e cavalos morreram torcendo-se com dores.

Os Romanos esperavam tranquilamente - e não teriam de esperar muito. Dois dias depois da derrota, a situação era já tão desesperada que alguns começaram a falar em rendição. Um a um, os feridos foram morrendo com a febre e as infecções. No terceiro dia mataram-se os cavalos mais fracos e pudemos comer; era uma medida perigosa, pois sem cavalos não poderíamos fugir, mas no fundo nenhum de nós julgava a fuga possível.

Durante todo este tempo, Viriato pouco falou e quando o fez foi para recusar com energia a ideia da rendição. Passava a maior parte do tempo no alto das muralhas (o inimigo nem se dava ao trabalho de nos alvejar) e parecia estudar com furiosa atenção as posições dos legionários. Apesar da sua expressão sombria, eu não via nele o menor sinal de receio, nem sequer de verdadeira preocupação. Dir-se-ia que aguardava.

Na noite do terceiro para o quarto dia, alguns homens desapareceram e, por certa agitação que notámos no campo romano, ao amanhecer, deduzimos facilmente que tinham ido entregar-se. Durante o dia, dois cavalos morreram de doença e foi impossível evitar que fossem comidos - os guerreiros que assim encheram o estômago vieram a morrer também.

Era demais para os Lusitanos, que são muito corajosos em combate mas suportam mal a adversidade. Só os homens de Viriato se mantinham calmos e disciplinados, como se arranjassem novas forças ao olhar para ele - que, imperturbável, não soltava uma queixa. O mesmo não poderia dizer-se dos restantes chefes, cujo moral não era superior ao dos seus subordinados. Por fim, os três comandantes supremos que haviam sobrevivido à batalha anunciaram a decisão de enviar emissários a Caio Vetílio pro­pondo uma rendição sob condições.

Os protestos foram fracos e Viriato, para minha surpresa, absteve-se de qualquer oposição. Sem saber bem porquê, cada vez mais me convencia de que ele tinha um plano e esperava somente que chegasse a altura propícia para o executar. Os emissários partiram na manhã do sexto dia e voltaram à tarde com rostos risonhos e olhos brilhantes; falaram perante uma assembleia de tropas, porque desta vez todos os guerreiros teriam direito à palavra.

O pretor recebera-os bem e não os deixara falar antes que tomassem uma refeição completa. Ouvira-os depois e aceitara as condições propostas: uma rendição honrosa e sem represálias; distribuição de terras aos guerreiros que desejassem estabelecer­-se na Bética ou na Carpetânia; salvo-conduto para os que pre­ferissem regressar às suas casas. Em troca, exigia a entrega das armas e o compromisso de não voltarmos a fazer guerra contra Roma ou os povos seus aliados. Os poucos guerreiros que se tinham rendido dois dias antes, acrescentara Vetílio, já haviam partido, felizes, para as suas novas terras.

Quando os enviados terminaram, os três generais, após uma rápida troca de palavras, anunciaram que a proposta lhes parecia justa, mas queriam ouvir a opinião de todos aqueles que desejassem falar contra ou a favor da rendição.

Houve um momento de silêncio. O chefe dos guerreiros túrdulos de Conímbriga levantou-se e pediu que considerassem a presente situação. Estávamos cercados, sem fuga possível; no entanto, a resposta do pretor vinha satisfazer os objectivos da nossa expedição. Esses objectivos, recordou, eram vingar as acções do traiçoeiro Galba e conseguir uma vida melhor. O pri­meiro fora atingido com a avançada até à Turdetânia - tanto assim que os Romanos mostravam suficiente respeito por nós para aceitar condições. O segundo objectivo seria alcançado com a distribuição de terras. O sangue dos companheiros caídos, rematou, não correra em vão.

Mal acabara, uma voz clara e vibrante cortou o ar:

- Que idade tens, Crisso?

Espantado, o Conimbrigense deu meia volta para enfrentar Viriato, que se aproximava dele.

        - Sim. Que idade tens? Serás suficientemente velho para perder a memória?

Não me enganara, afinal; aquele era o momento que ele esperava. Dirigindo-se ainda a Crisso mas voltado para a assembleia, continuou:

- Falaste no perjúrio de Sérvio Galba e não reparas, sequer, que as palavras de Caio Vetílio são iguais? Eu estive cercado por Galba, escapei à sua traição e digo-te: nunca entregarei as mi­nhas armas a um Romano.

Pergunto-te - e pergunto a vós todos: alguma vez os Romanos respeitaram a palavra dada? Se alguém tem ilusões, saiba que Roma quer uma só coisa: submeter a Ibéria inteira ao seu domínio, impor aos povos livres a sua lei e o seu tributo. Para conseguir isso, que lhe importa um ou mil perjúrios? E para que este novo pretor enriqueça à nossa custa, como Galba, só precisa de nos enganar, como Galba nos enganou. Terei de vos recordar os milhares de Lusitanos assassinados e os outros, mais numerosos ainda, vendidos como escravos na Gália?

Não era tanto o que ele dizia; era a forma como o dizia. Os cinco mil homens estavam presos da sua palavra. Viriato prosseguiu:

- Os Romanos só entendem uma linguagem, a força; só compreendem uma razão, a dos mais fortes; só aceitam um argumento, a vitória. Vitoriosos, poderíamos negociar. Mas nunca o devemos fazer enquanto nos julgarem à sua mercê.

        Pela expressão dos rostos à minha volta, podia ver que a maré mudara. No entanto, Crisso objectou ainda:

        - A verdade é que estamos à sua mercê!

- Não. Não, se todos os que se encontram aqui jurarem aceitar o meu comando. Até agora, fizemos o que os Romanos queriam. Mas há uma saída e ela depende unicamente da vossa coragem e da vossa disciplina.

O mais velho dos generais avançou alguns passos.

        - Viriato - disse de forma a que todos o ouvissem - o teu nome é bem conhecido, dentro e fora da Lusitânia. Apesar da tua juventude, sabemos que és um bom comandante e não há aqui ninguém que não te respeite. Mas tens a certeza do que dizes? Está em jogo a vida de milhares de homens.

Viriato sorriu, porém os seus olhos mantiveram-se sérios, tão brilhantes e fixos que pareciam despedir um raio capaz de fulminar o veterano.

- Que a minha vida fique como penhor, se o desejarem. A salvação está ao nosso alcance e podemos levar os Romanos a ouvir os nossos argumentos... da única forma que eles entendem. Para isso há uma condição, uma só: um único homem deve comandar. Esta guerra não é igual às que fizeram os nossos pais e avós. Lutamos contra a cidade mais forte do mundo, contra os homens que derrotaram Cartago na Ibéria. Se os enfrentamos desunidos, seremos exterminados; se formos capazes de nos entender, poderemos evitar a destruição e conservar a nossa liberdade. Agora escolhei.

Um murmúrio nasceu entre os guerreiros e foi crescendo em força e volume. Sobrepondo a sua voz ao tumulto, Crisso, o Conimbrigense, bradou: - Pelos deuses, Viriato! Se fores capaz de nos salvar, contarás comigo para sempre...

A trovoada estalou. Um grito único, entoado por cinco mil vozes, ressoou pelas velhas pedras da cidadela: "Viriato! Viriato! Viriato!.. Uma floresta de espadas e lanças ergueu-se e cada lâmina cintilava à luz do poente.

Viriato, após um momento de completa imobilidade, subiu ao ponto mais alto da muralha e abriu os braços a pedir silêncio. Quando a tempestade amainou, disse apenas:

        - Rompemos o cerco amanhã. Que todos estejam prontos ao nascer do Sol. Peço aos comandantes e chefes de grupos que se encontrem comigo na praça do templo imediatamente.

Desceu da muralha, dirigiu-se para o local onde nós, os seus homens, estávamos concentrados, e chamou: - Táutalo, Arduno, Tongio, Audax: acompanhem-me.

Seguimo-lo. À nossa volta, em lugar da apatia desalentada dos últimos dias, reinava uma actividade febril. Os homens chamavam a si as forças que lhes restavam e limpavam as armas, reuniam-se aos camaradas de grupo e procuravam as poucas ervas e verduras que ainda havia junto das muralhas para alimentar como podiam os seus cavalos.

Em frente do templo, os chefes aguardavam Viriato. Obedecendo a um gesto seu todos nos sentámos no chão ou nas pedras soltas que atravancavam a entrada do edifício. Viriato esperou que houvesse um pouco de silêncio e depois falou a meia voz:

- Antes que escureça por completo, irei mostrar-vos, do alto dos muros, os pontos mais fracos das posições romanas. São quatro; nós vamos dividir os nossos em quatro grupos e romper o cerco por esses pontos. Mas atenção: é preciso que os ataques sejam simultâneos. Quanto a vocês... - e virou-se para nós­ transmitam, durante a noite, estas instruções aos homens da minha insígnia, e só a eles: logo que haja luz, formam em ordem de batalha no lado norte, que é onde se encontra Vetílio.

Houve ainda pormenores a tratar e dúvidas a esclarecer. Basicamente, o plano era este: os mil cavaleiros de Viriato, com as escassas dezenas de Ursenses, companheiros de Audax e Minuro, atrairiam a atenção do comando romano; os restantes forçariam o cerco e dispersariam. A nova concentração seria feita mais a sul, no vale do rio Barbésula, perto da cidade de Tríbola. Viriato, que conhecia essa região, deu indicações precisas sobre a floresta onde os Lusitanos deveriam reunir-se.

Poucos dormiram nessa noite e Viriato nem se deitou. Incansável, percorreu os vários grupos falando com os chefes e os guerreiros, assegurando-se de que todos compreendiam o plano e sabiam o papel que lhes competia desempenhar. Quanto a nós, reservou-nos para o fim: no período que antecedeu a madrugada, voltou a repetir brevemente as instruções que nos eram destinadas. Os seus homens conheciam-no tão bem e estavam treinados de tal modo que não precisavam de longas explicações.

 

Quando o Sol nasceu e os vigias romanos puderam observar com nitidez a cidadela cercada, viram isto: quatro grupos de Lusitanos concentrados junto ao lado exterior da muralha; e, virado para o grosso das suas tropas, um milhar de cavaleiros com lanças em riste. Compreenderam que não haveria rendição e em breve ouvimos os seus toques de alerta, mas nesse mo­mento, Viriato, que estava à nossa frente, apeado, montou de um salto.

Este era o sinal combinado. Soltando gritos de guerra, os quatro grupos correram nas direcções previamente indicadas; ao mesmo tempo, a um gesto do Comandante, lançámo-nos à carga.

Foi uma manobra perfeita. Não esquecemos nada: o velho cântico guerreiro da tribo de Viriato atroava os ares, as trompas repetiam incessantemente o toque de carga e a distância que nos separava dos Romanos diminuía a cada instante. Numa movimentação impecável, as legiões cerraram fileiras para aguentar o embate - uma verdadeira muralha de ferro contra a qual não tardaríamos a esmagar-nos. Porém, quando os hastários dobravam o joelho e erguiam o pilum, Viriato levantou o braço direito, o toque das trompas mudou subitamente; no espaço livre que nos restava fizemos meia volta e partimos na direcção oposta, deixando atrás de nós duas legiões frustradas e desorganizadas, sem inimigo contra quem lutar. Antes que Vetílio compreendesse o que sucedera e lançasse os esquadrões de cavalaria atrás de nós, já havíamos alcançado uma floresta cerrada onde era impossível manter uma perseguição.

O pesadelo terminara mas Viriato não descansou. Destacou os melhores caçadores para assegurar provisões e enviou Audax e Minuro, por serem naturais da região, à procura de notícias. Só depois de tomar estas medidas consentiu em repousar; deitou­-se numa clareira, armado e embrulhado no seu manto. Táutalo assumiu o comando.

Continuávamos esfomeados e cansados, porém o alívio e o entusiasmo tinham levantado o nosso moral. Frutos e bagas silvestres foram a primeira refeição e pelo dia adiante chegaram os caçadores com cervos e javalis, que abundavam na floresta. Pudemos enfim matar a fome e para beber havia água fresca, límpida e deliciosa, vinda de nascentes e regatos. Ao princípio da noite, Audax e Minuro regressaram trazendo um amigo, Ditalco. Tinham-se arriscado (segundo contaram) até aos arredores de Urso, onde o encontraram. Ditalco sabia todas as informações que Viriato pretendia: os quatro grupos de Lusitanos haviam conseguido forçar as linhas romanas com um número insignificante de baixas. Vetílio preparava-se para levantar o acampamento no dia seguinte. Passámos uma bela noite em segurança e com as barrigas cheias. Mas o Comandante, ao designar os turnos de sentinela, ordenou que estivéssemos prontos para marchar às primeiras horas da manhã: iriamos atacar o acampamento do pretor.

 

O Barbésula, definhado pela estiagem, deslizava lentamente no seu leito. A margem oposta, onde pouco antes algumas mulheres lavavam a roupa de Inverno, estava agora deserta; todas haviam fugido quando nos aproximámos porque tantos cavaleiros armados eram um claro sinal de guerra.

Dois dias tinham passado. Vezes sem conta atacáramos os Romanos de surpresa para fugir em seguida. A táctica não podia manter-se indefinidamente porque o exército de Vetílio depressa se lhe adaptaria, mas durante aqueles dois dias serviu o nosso objectivo: impedir o ávanço dos legionários e dar aos nossos tempo suficiente para se concentrarem no local combinado.

E agora estávamos nós mesmos a caminho do Sul, rumo a Tríbola; cumprindo ordens expressas de Viriato, deixávamos um rasto suficientemente nítido para que Vetílio pudesse perseguir­-nos sem dificuldade. Por informações obtidas nos povoados, sabíamos que o Romano ficara louco de raiva por ter sido ludibriado pelos Bárbaros» e jurara vingar-se nem que para isso tivesse de transformar a Lusitânia num deserto. Sabíamos também que os poucos Lusitanos que haviam abandonado a cidadela para se lhe entregar (os quais não estavam ..felizes nas suas terras» e sim a ferros) tinham sido decapitados.

Mantínhamos um dia de marcha entre nós e as legiões, mas era tempo de cumprir a segunda parte do plano. Viriato, deixando os seus homens nas margens do Barbésula sob o comando de Táutalo, partiu a galope, acompanhado somente por Arduno e Minuro, para a floresta onde os Lusitanos deveriam encontrar-se. Passámos a noite sem ver sinais dos Romanos e o Comandante regressou na manhã seguinte, com o cavalo cober­to de espuma. Pouco depois os nossos postos de vigia faziam sinais de fumo: as legiões aproximavam-se.

Viriato mandou que nos aprontássemos para montar á sua ordem. Nesse compasso de espera, pude falar com ele; estava sempre pronto a ouvir os seus homens, fosse qual fosse o assunto.

- Não quero ser indiscreto - comecei - mas gostava que me explicasses uma coisa: porque deixaste passar tantos dias antes de dizer á assembleia que tinhas um plano para forçar o cerco? Eu observei-te com atenção e tenho a certeza de que pensaste em tudo muito antes de o dizeres.

Ele fitou-me, primeiro com surpresa, e logo a sua expressão se modificou.

- Ainda me esqueço de que não conheces bem os Lusitanos... vês tu, Tongio, as nossas tribos e clãs são muito agarrados à sua independência. Nunca seria possível juntá-los sem que sentissem uma necessidade extrema; se eu falasse mais cedo, cada chefe pensaria ter uma ideia melhor e ninguém se entendia. Era preciso que se entendessem para sobrevivermos.

De resto, a questão não acabou; os nossos povos e os chefes têm de compreender que os tempos mudaram.

- Por causa dos Romanos?

- Sim - retorquiu Viriato acentuando as palavras – por causa de Roma. Os Cartagineses também cobiçaram a Ibéria e fizeram injustiças e roubos, mas estavam só interessados no lucro. Roma tem fome de terras. Não desistirá enquanto não nos dominar. Se queremos ser livres e viver segundo as nossas leis, temos de lutar unidos. É difícil, mas isto foi um começo e não podemos parar.

        Nesse momento Táutalo aproximou-se para avisar que o exército de Vetílio estava à vista.

        -Muito bem -disse Viriato -todos a cavalo. Continuamos a retirar e que cada homem se lembre das ordens dadas.

        Pouco depois abandonávamos as margens do Barbésula.

 

Está ainda bem viva a memória da batalha travada nas proximidades de Tríbola. Muitos homens com quem tenho falado, ao saberem que fui um dos combatentes, olham para mim com um respeito quase religioso: sem dar por isso, passei a fazer parte de uma lenda heróica.

Ao princípio da tarde, as legiões estavam tão próximas de nós que olhando para trás podíamos distinguir as suas insígnias. A cavalaria, repartida pelos dois flancos, adiantava-se na perseguição, como se quisesse envolver-nos e cortar-nos a fuga. Esperávamos a qualquer momento a ordem de formar para combate, porém um acontecimento inesperado veio alterar os planos: o céu, que nos últimos dias se mantivera limpo, cobriu­-se de nuvens e em breve se abateu sobre os campos uma tremenda tempestade de Verão. Gritando para se fazerem ouvir acima dos trovões, Viriato e Táutalo conseguiram dominar o terror que ameaçava dispersar os nossos homens, a quem explicaram que a trovoada e a chuva eram um favor dos deuses, pois vinham facilitar-nos a vitória. Avançando devagar sob a tormenta, distanciámo-nos dos Romanos e improvisámos um acampamento.

        Durante a noite continuou a chover e pela manhã o Sol levantou-se num céu magnífico, sem uma nuvem. As legiões tinham acampado, porém estavam já prontas para avançar. Formámos em ordem de batalha e Viriato não deixou que os Romanos tomassem a iniciativa: a sua voz lançou o grito de guerra e largámos a galope. Depois, tal como fizéramos junto da cidadela, quando chegámos a poucos estádios da vanguarda romana demos meia volta e batemos em retirada.

Virei-me para trás e reparei que o dispositivo das legiões estava, desta vez, preparado para a nossa táctica: os esquadrões de cavaleiros iniciaram imediatamente a perseguição e os velites e hastários seguiram-nos. O solo, encharcado pela chuva, dificultava os movimentos de homens e cavalos, mesmo assim não tardámos a avistar a orla de uma floresta.

À nossa frente, estendia-se até às primeiras árvores uma faixa de terreno plano salpicado de poças de água; em redor desta área, pedregulhos e silvados enormes impediam o avanço dos cavalos. Sem nos determos entrámos nessa faixa de terra deixando que os Romanos, excitados pela proximidade da presa, nos alcançassem. Feriram-se os primeiros golpes entre as duas cavalarias enquanto os legionários de infantaria se engolfavam também no apertado campo de batalha. Ouviu-se então um longo toque de trompa e logo soou o ritmo compassado de um canto de guerra lusitano. Da floresta saíram milhares de guerreiros e os silvados agitaram-se quando os homens que neles estavam escondidos se mostraram para lançar nuvens sucessivas de dardos e pedras.

Pelo meio-dia, a luta cessou. O terreno era um lamaçal vermelho coberto de corpos de legionários. Num primeiro cálculo contámos perto de quatro mil cadáveres, mas a matança prosseguia enquanto os nossos davam caça aos Romanos que tentavam esconder-se na floresta.

Rodeado por Táutalo, Arduno, eu próprio e alguns chefes, Viriato inspeccionava o campo, respondendo com um vago sorriso às aclamações dos homens.

- Não haverá tempo para queimar todos estes corpos ­dizia ele olhando em volta - Precisamos de retomar a marcha. Os abutres vão ter um banquete... os corpos dos nossos já estão preparados para os ritos?

Arduno respondeu afirmativamente e acrescentou que só aguardavam a sua presença para iniciar a cerimónia. As nossas baixas não haviam ultrapassado a meia centena, enquanto o exército inimigo ficara reduzido a quase metade.

Desmontámos e dirigimo-nos para o sítio onde estavam preparadas as piras - fora difícil arranjar madeira seca, depois da chuvada - mas de repende um grito logo interrompido fez­-nos estacar. Táutalo exclamou: - Quê? Ainda há por aí Ro­manos escondidos? Era melhor, antes de mais, mandar patrulhar a área...

Sem responder, Viriato caminhou em passo rápido para o lugar de onde partira o grito. Fomos com ele e, atrás de uma moita, vimos um guerreiro ocupado a despir sossegadamente um corpo decapitado. A sua espada, com a lâmina toda vermelha, estava pousada no solo e o sangue jorrava em borbotões do cadáver.

        Viriato observou o corpo e soltou uma interjeição que fez parar o executor do Romano.

        - Sabes o que fizeste? - perguntou ele ao guerreiro. Este olhou-o com ar beligerante e respondeu:

- Matei um inimigo que capturei. E depois? Tenho esse direito, além disso não sou obrigado a dar-te explicações. Sou de Conímbriga e o meu chefe é Crisso filho de...

Mas Crisso, que estava precisamente atrás de mim, adiantou­-se e (sem esforço aparente) aplicou-lhe um murro tão poderoso que o atirou ao chão.

- Dobra a língua, verme! - ordenou o velho Túrdulo ­ o que fazes tu da minha honra e da minha palavra? Não aceitei eu livremente o comando de Viriato filho de Comínio? Não jurei que, se ele nos desse a vitória, o aceitaria sempre como general?

Viriato esperou que o homem se levantasse e voltou a falar: - Tens, talvez, a desculpa de não saber que na minha hoste não se matam os prisioneiros que se rendem. E esse homem rendeu­-se, pois está desarmado. Mas tu já tens o teu castigo - e maior do que pensas. Olha bem para esse Romano.

Ele obedeceu e todos nós olhámos. Com náusea, contemplei aquele corpo obeso que a morte transformara num monte de carnes flácidas... e fui o primeiro a compreender. Uma raiva assassina apoderou-se de mim, porém, esperei que fosse Viriato a falar.

- Olhaste bem para ele?

Amedrontado e envergonhado, o Conimbrigense acenou e resmungou: - Não percebo. Era um legionário gordo e...

- Não. Não era um legionário gordo. Era um pretorgordo. Tens de aprender a reconhecer os distintivos militares do inimigo. Acabas de matar o pretor Caio Vetílio. Calculas tu o resgate que os Romanos pagariam pelo seu comandante, pelo governador da Hispânia Ulterior? E boa parte desse resgate seria para ti, porque o capturaste. Mas vejo que te contentas com uma couraça, uma túnica suja de sangue e um gládio...

Virou-lhe as costas e afastou-se. Crisso, que o ouvira de boca aberta, deu uma gargalhada sombria e disse ainda ao seu homem (cujo rosto, agora, era um espectáculo digno de se ver):

- Se não achasse tanta graça a esta história, dava cabo de ti!

A calma de Viriato era forçada; dominara-se porque nada havia a fazer e tinha horror a explosões de cólera inútil. Porém, quando se encontrou a sós connosco, os guerreiros da sua insígnia, largou um longo suspiro:

- Por Bandioilenaico! Pelos deuses todos! Tínhamos em nosso poder Caio Vetílio! Podíamos obrigá-lo a negociar, ditar­-lhe as nossas condições, exigir um resgate que nos garantisse um Inverno com alimentos...!

Táutalo opinou: - Por mim, mandava executar aquele idiota e Crisso não levantaria objecções. Não há por aí nenhum precipício para o atirar, mas isso não é obstáculo. Podíamos...

- Não - cortou Viriato - o homem não tem culpa, é ignorante, seguiu os seus costumes e não foi treinado. Todos os seus antepassados fizeram a guerra assim... é isto que temos de modificar. E agora, os deuses exigem-nos libações e os nossos companheiros mortos querem os seus ritos. Vamos.

 

Com a derrota e a morte de Vetílio, as populações do vale do Barbésula sentiram uma súbita e entusiástica vontade de auxiliar os vencedores e não nos regatearam guarida, manti­mentos ou informações. Ficámos assim a saber que os restos das legiões do pretor - um total aproximado de seis mil homens ­tinham retirado em marchas forçadas até à costa sul para se entrincheirarem em Carteia.

Desta cidade, onde, segundo nos disseram, grassava o pâ­nico, o questor enviara mensageiros à Celtibéria pedindo reforços com urgência. Viriato rejeitou as propostas dos outros chefes, que queriam atacar Carteia, e conduziu a hoste para norte, rumo à Carpetânia. Aos que lhe perguntavam sobre os seus planos, limitava-se a responder: «É preciso ensinar os nossos homens a fazer a guerra contra Roma.» E, de facto, a disciplina e o treino que impusera aos seus cavaleiros estavam a ser alargados a todos os outros corpos. Alguns não aceitaram o novo estilo; Cúrio e Apuleio, por exemplo, preferiram regressar às terras de entre Tagus e Anas para retomar a vida de incursões e razias; porém, na sua maior parte, os contingentes adaptaram-se bem. Quando pisámos enfim o solo carpetano, a hoste era já quase um exército digno desse nome, com os chefes de grupos responsáveis perante o Comandante, a quem davam as suas opiniões - sem­pre ouvidas - e de quem recebiam as ordens.

Viriato não nos trouxera à Carpetânia só para nos exercitar em manobras militares. Conhecedor do terreno e de todas as estradas e caminhos, mandou colocar vigias nas rotas que estabeleciam a ligação com o Sul da Ibéria e deu instruções para serem capturados vivos quaisquer emissários que por elas passassem. Depois escolheu um local onde estabelecemos o acampamento e organizou jogos e competições para evitar que ficássemos inactivos.

Nenhum mensageiro foi detectado, porém ao cabo de alguns dias obtivemos as informações pretendidas interrogando uns mercadores que iam em caravana para o Sul. Duramente castigados pelos impostos que o governador da Hispânia Citerior acabara de lançar, estes homens não se fizeram rogados e contaram todas as notícias ouvidas nas cidades por onde haviam passado. O desastre sofrido pelos Romanos em Tríbola era já conhecido mas as legiões da Citerior continuavam nos aquartelamentos, certamente porque o governador temia revoltas locais. Em contra partida, havia uma grande concentração militar de Titos e Belos nas margens do Iberus. Aqueles povos celtibéricos eram aliados de Roma e isto levava a crer que estivessem a aprestar­-se para socorrer Carteia.

Viriato convocou todos os chefes e disse-lhes que deveriam redobrar, a partir daquele momento, a vigilância na região: ­

- Estou certo de que os Titos e os Belos vão para o Sul, para Carteia - declarou - e nós vamos atacá-los aqui, na Carpetânia, longe das suas terras, para que não haja povos amigos prontos a socorrê-los ou informá-los da nossa presença...

A sua expressão ficou dura ao rematar: - Não haverá prisioneiros. São povos ibéricos, povos como nós, mas aliaram­-se ao invasor romano. É preciso dar-lhes uma lição que não seja esquecida.

A lição foi terrível e não seria esquecida. Cinco dias mais tarde, as nossas patrulhas avistaram os Celtibéricos, cerca de cinco mil, avançando ao longo de um vale estreito. Caímos sobre eles de surpresa. Não foi uma batalha, quase diria que foi uma execução em massa; o vale ficou juncado de corpos trucidados. Então, Viriato ordenou que levantássemos o acampamento e partimos para o Monte da Deusa, onde o Comandante decidira estabelecer quartéis de Inverno. Entretanto, o Outono começara e as primeiras chuvas caíam já.

 

Os Romanos, que têm por hábito apossar-se não somente das terras alheias mas também dos deuses alheios, chamam-lhe «Mons Veneris», em homenagem à sua deusa Vénus. Porém, o Monte - uma serrania situada no coração da Ibéria - foi há muito consagrado à grande divindade lunar, por isso os povos da região chamam-lhe simplesmente Monte da Deusa. Ao que me dizem, começam hoje a dar-lhe a designação romana; um triste sinal dos tempos.

Essa zona é um refúgio perfeito para quem a conheça tão bem quanto Viriato a conhecia. A serra é rodeada a sul por um rio que lhe serve de fosso defensivo. Do alto dos desfiladeiros é possível vigiar o território circundante e nos povoados dispersos pela planície ou nas encostas habitam populações amigas, tão ciosas da liberdade como nós. Não são ricas mas partilham o que têm; vivendo com simplicidade, um exército pode passar ali o Inverno em segurança ou entrincheirar-se contra um inimigo superior em número.

Finalmente, pudemos repousar e reparar os estragos sofridos nas armas e couraças. Além disso, vivemos longos e regalados dias de paz, como eu já não julgava que pudessem existir. No entanto, se os homens descansavam o Comandante mantinha-se em actividade, como pude verificar ao ver partir em várias direcções pequenos grupos de mensageiros.

Táutalo, a quem perguntei o que se passava, explicou: ­

Viriato está a convocar um grande conselho de tribos lusitanas, para confirmar ou revogar a sua eleição como general. A meu ver, faz bem; se queremos continuar a resistir aos Romanos, é preciso que haja uma investidura em forma, com juramentos.

Eu conhecia agora os Lusitanos suficientemente bem para compreender as razões em que ele estava a pensar; por isso, apenas observei:

- Pergunto a mim próprio o que vai seguir-se... quero dizer, o que vai o Comandante fazer na Primavera.

Táutalo encolheu os ombros - oh, isso é fácil de prever; vai recomeçar a guerra. O que eu gostava de adivinhar é o que vai ele fazer depois de ganhara guerra-porque vai ganhá-la, estou certo. Conheço-o bem e parece-me que tem a cabeça cheia de ideias.

Embrenhámo-nos então numa conversa acerca de Viriato, da forma genial como ele nos salvara do cerco, da derrota de Vetílio e das qualidades do nosso Comandante. A certa altura, eu - que era ainda suficientemente jovem para dar importância a aspectos da conduta dos homens que hoje me parecem muito secundários - disse a Táutalo:

- Há uma coisa que não compreendo. A propósito do Comandante, quero dizer. Desde que estou convosco... nunca o vi tocar numa mulher.

Eu «tocara» em várias, sempre que a ocasião se proporcionara, mas, posso jurá-lo, nunca forçara nenhuma, pelo menos fisicamente. As escravas que me tinham calhado em sorte, na repartição dos saques, haviam-se mostrado razoavelmente conformadas e algumas, até, agradadas.

Táutalo riu baixinho: - Isso intriga-te, han? Bem, não conheces Viriato como eu. É uma coisa natural nele. Não me interpretes mal, não se trata da preferência oposta. Viriato não é um Cúrio a quem falta um Apuleio... o quê, não sabias?

Perante o meu ar espantado, emitiu uma gargalhada bem sonora. Recordei então certos pormenores em que havia reparado enquanto combatera sob a insígnia dos dois príncipes. Divertido com a minha ignorância, Táutalo disse-me aquilo que todos sabiam: Cúrio e Apuleio tinham levado mais longe os efémeros laços que por vezes se formam entre guerreiros em campanha, quando as mulheres escasseiam.

- E, para eles, é um arranjo cómodo - comentou ainda Táutalo. E logo a seguir: - Mas, voltando a Viriato: o caso é diferente. O Comandante é um homem de uma só mulher e essa está muito longe.

Contou-me então que Viriato se apaixonara, na infância, pela filha de um riquíssimo proprietário do vale do Tagus. Era um amor correspondido, mas os dois ainda não tinham podido casar porque Astolpas, o pai de Tangina, tinha um desmedido orgulho na sua fortuna e Viriato era pobre.

- Mas hão-de casar - concluiu Táutalo - porque ele consegue sempre o que quer... até lá, fica à espera. Para ele, não há outras mulheres - não é um homem como nós, deves compreender isso. A guerra e as responsabilidades do comando (tenha ele dez homens ou milhares, como agora) absorvem-no de tal modo que lhe exigem toda a energia disponível. Quando a altura chegar, Tangina vai ser uma mulher feliz. Pelo menos, não precisa de se preocupar com as infidelidades do marido... o mesmo não poderá dizer a tua esposa, malandro!

Táutalo divertia-se imenso com o meu êxito junto das mulheres. Ele próprio tinha grandes apetites (sexuais e gastronómicos) e satisfazia-os de uma maneira simples, sem preocupações sentimentais. Regra geral, as mulheres simpatizavam com ele e por isso não sentia ciúmes das conquistas dos outros.

Estivéramos a conversar junto de uma fonte à entrada do acampamento. Entretanto, chegara a altura em que Táutalo devia fazer a ronda das sentinelas (que era feita dia e noite, sem interrupção, pelos membros do estado-maior do Comandante) e por isso despediu-se. Para entreter o ócio resolvi dar um pequeno passeio, explorando as imediações do nosso campo.

 

Estava um belo dia; o ar, frio e estimulante, carregava os cheiros da terra húmida. Andei trepando pelas rochas, atravessando regatos e, sem dar por isso, aproximei-me de um dos povoados, um simples aglomerado de casas feitas de pedras justapostas. Algures, pastava um rebanho e eu podia ouvir os latidos do cão. Fui à procura do pastor para meter conversa com ele, mas descobri que o rebanho era guardado por uma garota loira, uma criança ainda. Pôs os olhos no chão quando me viu e o cão veio a correr, pronto a atacar o intruso, e só parou a uma ordem da dona; ficou a olhar para mim, desconfiado e vigilante.

- Bom dia - disse eu - não tenhas medo, não te faço mal.

Ela levantou a cabeça e sorriu. Era tão bonita que senti a respiração cortada, apesar de não passar de uma catraia - teria uns doze anos, talvez - e mal ouvi a sua resposta, dita numa voz suave:

- Ah, eu sei. És da hoste de Viriato... Porque estás a olhar assim?

Estremeci, sacudi a cabeça e procurei uma razão plausível: - Fiquei espantado ao saber que conhecias o meu Comandante.

- Nunca o vi, mas toda a gente o conhece. É um homem muito valente e muito bom, não é verdade? E ganhou muitas batalhas?

        - Sim, é verdade. Ganhou muitas batalhas, é um guerreiro muito forte, mas também muito justo.

Sentei-me numa pedra e olhei-a de novo, sentindo o mesmo prazer que experimentara da primeira vez. - Os homens da tua família haviam de gostar de combater sob as ordens de Viriato.

        O rosto da garota iluminou-se, mas a resposta agravou o meu embaraço:

        - Já não há homens na minha família. Morreram na guerra, agora só tenho a minha mãe. Por isso, guardo o nosso rebanho.

        - Como te chamas?

- Sunua. E tu?

Disse-lho e fiquei em silêncio, sem saber como continuar, mas Sunua encarregou-se da conversa e contou-me toda a sua vida - pequenos episódios, a existência simples de uma criança que nunca saiu do seu pequeno povoado natal. No entanto, não me aborrecia; achava graça aos seus movimentos, à sua voz, ao jeito com que sacudia a longa cabeleira doirada. Acabei por me esquecer do tempo, ali sentado a ouvi-la tagarelar.

O Sol deslocara-se um grande espaço no céu, tanto que reparei na mudança das sombras. Levantei-me, bati com os pés no chão para desentorpecer o corpo e despedi-me, não sem que antes Sunua me apresentasse formalmente o cão: «Chama-se Cinzento por causa da cor», explicou. E Cinzento, já tranquilizado sobre as minhas intenções, deixou-se acariciar.

Mastava-me na direcção do acampamento quando ouvi a vozinha de Sunua perguntar:

        - Vens aqui amanhã?

        Dei comigo a responder: - Sim... - sem saber porquê. E na manhã seguinte lá estava, depois de ter sonhado com ela durante toda a noite.

        Deste modo começou uma estranha amizade entre mim e Sunua - estranha porque nada havia, aparentemente, que pudesse ligar um rapaz de dezassete anos (que com orgulho se considerava um homem feito) a uma criança de doze anos de idade. Mais me perturbava ainda o facto de eu saber que não gostaria de falar dela a nenhum dos meus camaradas, nem sequer a Táutalo ou Arduno, com quem estabelecera laços de maior intimidade. Fazia daquela relação um segredo sem que tivesse razões para isso - a não ser evitar que troçassem de mim sabendo que passava os meus tempos livres na companhia de uma pastorinha. Nos primeiros dias, contudo, logrei iludir-me dizendo a mim próprio que Sunua despertara uma ternura ignorada, a ternura pela irmã que eu nunca tivera.

 

Um a um, os mensageiros regressaram trazendo respostas. Nem todos os povos haviam aceitado o chamamento, mas um grande número de chefes e notáveis compareceria no conselho convocado por Viriato. Felizmente o tempo estava seco e não se previam grandes atrasos, por isso foi possível calcular uma data. Enquanto ela não chegava, Viriato obrigou-nos a fazer exercícios e manobras que gastavam as energias acumuladas e aperfeiçoavam o nosso treino. Começaram a chegar os chefes com as suas escoltas; em redor do acampamento alastrou uma nova cidade de tendas.

Todos os dias, logo que os exercícios terminavam, eu dava um mergulho rápido na água gelada que enchia o tanque de pedra, junto da fonte, e ia à procura de Sunua. Encontrávamo­-nos às escondidas, como dois garotos que planeiam uma travessura, e passávamos o tempo a falar de coisas sem importância ou guardando grandes silêncios - mas eu voltava feliz como um rei.

Um dia, ela apareceu vestida de branco e trazendo nos braços um grande molho de plantas colhidas na margem de alguma ribeira, pois ainda vinham salpicadas de gotas de água. Parecia uma divindadezinha pisando ao de leve as ervas que cobriam o chão. Para que não sentisse frio, estendi o meu manto sobre a rocha em que se sentou.

        - Como não há flores bonitas nesta época do ano, trouxe plantas...

        - Para quê?

        Fez um ar de mistério: -Já vais ver... Tongio - continuou, ainda mais séria - queria pedir-te uma coisa.

        - Tudo o que quiseres, se eu puder.

        Sunua apontou para o meu queixo: - Não deixes crescer mais a barba...!

        Desde que me juntara à hoste de Cúrio e Apuleio, eu deixara crescer o cabelo e usava uma barba curta para não me parecer com um Romano.

- Porquê? Não gostas?

        - Não quero que fiques com ar façanhudo, cheio de pêlos, como os outros. No meu pai e nos meus irmãos, não me importava, mas contigo é diferente; não posso ver a tua cara se ela estiver coberta de pêlos... prometes?

        Fiz-lhe a vontade e senti-me corar, o que me irritou. Para afastar ideias importunas, voltei a perguntar:

        - O que está a fazer com essas folhas?

        - Não vês?

Com rapidez e habilidade, entrelaçava os caules das plantas para formar uma coroa de verdura. Acabou-a, chegou-se a mim e pousou a coroa na minha cabeça; ajustou-a com cuidado e recuou para ver o efeito.

- Fica tão bem... não, não a tires!

Eu arrancara a grinalda e, imitando os seus gestos, coloquei­-a sobre os cabelos doirados e macios.

        - Em ti fica melhor - disse - embora não sejam precisas grinaldas para tu pareceres uma deusa...

Inesperadamente, Sunua lançou os braços ao meu pescoço. - Achas? Ah, Tongio, é que tu... tu... és tão bonito!

Se ela não tivesse sorrido, eu resistiria. Mas ver aquele rosto cheio de luz tão perto do meu, sentir os seus braços a apertar­-me era superior à minha força. Abracei-a devagar, como se receasse magoá-la. Num último vislumbre de lucidez tentei imprimir ao meu abraço uma intenção fraternal e dei-lhe um rápido beijo na ponta do nariz, mas Sunua não me largou, chegou-se mais e beijou-me na boca, desajeitadamente, com uma ânsia sôfrega.

Creio (sim, ainda hoje o creio) que os deuses nos arrebataram, ou aos nossos espíritos, para fora do mundo, para um lugar reservado aos amantes. Quando, com uma ternura comovente, ela deixou deslizar a mão que segurava a minha nuca e afastou os seus lábios dos meus, parecera-me ter vivido milhares de anos... sei bem que todos os apaixonados devem experimentar algo semelhante, mas o que eu sentia era tão intenso que me assustava.

Assim a nossa amizade se transformou em outra coisa, uma ligação a que eu não sabia fugir, uma febre doce que se infiltrara no meu sangue. Foram dias de êxtase e sofrimento, dias de tortura e encanto, cheios de actos de amor não consumados; povoados de sonhos de ternura. Hoje, não sinto culpa nem remorsos. Os deuses quiseram que eu vivesse tal momento e a sua vontade cumpriu-se. Mas, porque era tão intenso, devia também ser curto.

 

O dia do conselho chegou. Falando perante os chefes, príncipes e reis da Lusitânia, Viriato recordou os crimes do invasor romano, os abusos dos pretores, a avidez dos magistrados, a duplicidade dos generais. Relatou - embora todos a co­nhecessem - a história da nossa expedição e advertiu: se os Lusitanos queriam a liberdade, esta guerra apenas começara. Roma só podia ser enfrentada com um exército e um general, não com um aglomerado de hostes desordenadas. Os outros povos ibéricos, ao ver o nosso êxito, não tardariam a juntar-se-nos numa confederação militar... era tempo de escolher um Comandante e ele, Viriato, oferecia-se, com os seus homens, para combater sob as ordens de quem fosse escolhido.

Interrompeu-o enorme clamor. Já não se tratava de um simples chefe de bando que discursava, como qualquer outro, na assembleia. Agora, ele era o salvador da expedição lusitana, o vencedor de Vetílio. Não houve debates, apenas uma aclamação espontânea. Ao fim da tarde, diante das aras levantadas em honra dos deuses da guerra, Viriato era consagrado e colocavam-lhe nos braços as vírias de ouro, símbolo do comando supremo. Cumpria-se, com estranha precisão, o significado antigo do seu nome - Viriato, "o que foi investido com as vírias»... Nós, os guerreiros da insígnia do touro, radiantes de orgulho, levámo-lo em ombros, fendendo a multidão. Os Lusitanos tinham, enfim, um chefe capaz de lutar contra o opressor e de ultrapassar a efémera glória de Púnico, Césaro e Cauceno.

Um dia depois da investidura de Viriato, começou a chover e as fontes do céu jorraram quase ininterruptamente durante mais de uma quinzena. Os nossos guerreiros viram-se obrigados a improvisar abrigos, sobretudo os montanheses, que ao descer das suas serranias natais tinham por hábito dormir ao relento cobertos com mantos de peles.

Viriato não desperdiçou este período de forçada imobilidade. Tal como treinara as tropas no campo, treinava agora os seus comandantes e esforçava-se por criar um verdadeiro estado­-maior, um grupo formado por homens que o conhecessem bem e se conhecessem entre si. Naturalmente, Táutalo era o «número dois», um bom executante, fiel até às últimas consequências, bravo no campo de batalha e capaz de impor uma disciplina; faltava-lhe a criatividade, a intuição estratégica. Eu também fazia parte do grupo, bem como Arduno, Crisso e os Ursenses, Audax, Minuro e Ditalco. Estes três últimos não me agradavam, sobretudo Audax (os outros eram dominados por ele). Admito que não lhe faltava coragem, mas pelo pouco que vira do seu comportamento era demasiado ávido de riquezas, embora se esforçasse por dissimular na presença do Comandante.

Em contrapartida, entendia-me bem com Arduno, o Vetão. Era dois anos mais velho do que eu; um rapaz inteligente e de raciocínio rápido. O que mais me atraía era a sua curiosidade. Ao longo da minha vida, no decurso das muitas viagens que fiz, encontrei homens assim, interessados em tudo o que os rodeava, sempre dispostos a observar e estudar as virtudes das plantas e o comportamento dos animais. Se Arduno soubesse ler e escrever, se vivesse em alguma das cidades que visitei, seria rico e famoso. Mas sentia-se feliz tal como era e compensava a falta da escrita com uma prodigiosa memória. Eu oferecera-me para registar algumas das suas observações, o que se revelou impos­sível porque só possuía a tabuinha capturada aos legionários, perto de Gadir, e a cera estava quase inutilizável, tanto eu me exercitara para não perder a prática.

Diariamente, ao anoitecer, reuníamo-nos com Viriato para discutir novos planos de guerra. Ele ouvia sempre as sugestões apresentadas, mas o seu projecto acabava por receber a aprovação unânime porque era o melhor. Logo que o tempo mudasse, partiríamos para o Norte e tentaríamos conseguir a adesão dos Vetões e Vaceus à nossa causa - «porque», insistia o Comandante, «é preciso levantar a Ibéria, tanto os povos livres como os aliados de Roma».

Perguntei-lhe se julgava possível convencer todos esses povos a aceitar um comandante lusitano. Ele retorquiu:

- Vai ser muito difícil. Primeiro, temos de os levar à revolta, depois se verá... a única esperança é que acabem por compreender que não há outra forma de combater os Romanos. Entretanto, temos coisas mais urgentes: derrotámos as legiões de Vetílio, mas resta o exército de Unimano.

O pretor Cláudio Unímano era o governador romano da Hispânia Citerior. Desde a derrota de Vetílio não tivéramos notícias dele nem das suas tropas e Viriato não queria correr o risco de um ataque inesperado; além disso a derrota de Unímano seria mais um argumento de peso nos seus esforços para a sublevação da Ibéria. Decidido a não perder tempo, ordenou que tudo estivesse a postos para levantar o acampamento logo que o céu o permitisse.

E, enfim, veio o dia em que as nuvens desapareceram e Os sacerdotes, após observar o voo dos pássaros e as veias das vítimas imoladas, anunciaram que podíamos partir. Fartos de inacção, os Lusitanos prepararam-se com entusiasmo.

 

Também eu acolhi com alegria o Sol e a perspectiva de novos combates, mas essa alegria era envenenada pela ideia de que seria preciso separar-me de Sunua.

Ela ouviu-me sem surpresa, fazendo o possível por se dominar. Apesar de tão jovem, conhecia a partida dos homens da tribo para a guerra e sabia como devia portar-se a esposa de um guerreiro. Senti-me submerso numa onda de ternura ao vê­-la fazendo esforços desesperados para manter essa atitude, com os olhos cheios de lágrimas e o queixo a tremer.

        No momento em que me preparava para a deixar, tirei do dedo o meu pesado anel de prata, oferta da minha mãe, e estendi-lho, pedindo que o guardasse. Sunua recusou.

- Esse anel, vais dar-mo quando voltares, porque quando voltares vamos casar... Tongio, tu queres, não queres? Se dissesses que não eu morria, tenho a certeza!

Sim, queria muito casar com ela, respondi-lhe (e era sincero) mas não sabia quando estaria de regresso. O anel seria uma recordação e um penhor do nosso noivado. Mas Sunua voltou a recusar. E depois de me beijar longamente, disse num tom solene:

- Não preciso de um anel para me lembrar de ti. E já tenho um penhor de noivado, porque espero um filho teu!

        Dei um salto e comecei a dizer-lhe que isso era impossível, porém não me deixou falar:

- Não digas nada... eu queria este filho, por ser teu. Não podia deixar-te partir de outra maneira. Vai ser um rapaz, sei que vai ser um rapaz e tu voltarás para mim e para ele!

Abracei-a com desespero. Teria querido chorar e rir ao mesmo tempo, e beijá-la e colocá-la sobre uma ara para lhe levar oferendas como se fosse uma divindade. Faltou-me coragem para lhe explicar que não tínhamos consumado o único acto de amor que transforma uma virgem numa mulher - eu não ousa­ra, por medo de a magoar, por escrúpulo e porque, estranhamente, as carícias da ternura tinham bastado, pela primeira vez.

Mas como havia de lhe dizer isto vendo a alegria e o orgulho com que ela me dera a «notícia»? Calei-me. «Um dia aprenderá», pensei, «quando eu voltar, se não morrer na próxima campanha. Agora, é ainda uma criança!»

Curvei-me sobre o rosto pequenino de Sunua, beijei-a mais uma vez e parti sem olhar para trás.

 

Dos Vetões, obtivemos a promessa de auxílio em todas as operações militares contra os Romanos e algumas centenas de homens vieram juntar-se aos seus irmãos de raça que já combatiam sob as ordens de Viriato. Arduno, que na sua qualidade de Vetão foi escolhido para iniciar as conversações, não teve muito trabalho; o seu povo era um aliado tradicional dos Lusitanos, havia uma longa história de expedições conjuntas e Viriato era admirado e respeitado.

Após muitos banquetes, jogos e cerimónias, fomos ao encontro dos Vaceus. Arduno conhecia bem este povo e contou­-me coisas curiosas. São, como os Lusitanos, apaixonados pela guerra; porém seguem costumes peculiares. Por exemplo, nem o seu rei nem os nobres possuem terras para mandar lavrar. A terra pertence a todos os homens livres e cada ano são sorteados lotes que as famílias cultivam; o produto das colheitas é armazenado em celeiros comuns e distribuído pelos chefes de família segundo o número de pessoas. O rei e os Anciãos velam para que não haja irregularidades e aquele que esconder uma parte das colheitas antes da distribuição é punido com a morte. Arduno afiançou-me que o sistema funciona bastante bem.

Os Vaceus foram para nós uma desilusão. Proclamaram a sua amizade pelos Lusitanos, o seu ódio a Roma e a sua disposição para combater - mas, disseram, só entrariam em campanha quando os seus deuses o ordenassem.

Viriato não desanimou - não estava no seu feitio desanimar. Os Vaceus, declarou, acabariam por se render à evidência. Entretanto, ordenou que fossem construídos aríetes bem fortes e, de surpresa, atacou Toletum, à beira do Tagus. Essa foi a minha primeira experiência em assaltos contra cidades, o trabalho militar que menos me agrada porque é impossível conter os excessos dos guerreiros contra a população, logo que as muralhas cedem e o exército inunda as ruas como rio mortífero. Enfim, é a guerra; acontece desde que o mundo existe. E, ao que me disseram os veteranos, qualquer cidade preferiria ser atacada por Viriato a enfrentar outro general, fosse ibérico ou romano.

Depois de Toletum atacámos Segóvia e Segóbriga, aliadas de Roma - e por isso foram castigadas com particular ferocidade.

Então, chegaram notícias do Sul, informando que um novo exército, comandado pelo substituto de Vetílio, acabava de desembarcar com a anunciada intenção de vingar a humilhante derrota sofrida em Tuoola. Viriato achou melhor que os legionários não tivessem tempo suficiente para se habituar ao solo da Ibéria e por isso passámos à margem sul do Tagus.

 

Se algum homem teve razões compreensíveis para odiar Viriato, esse homem foi sem dúvida o pretor Caio Pláucio Hipseu. Enviado para governar a Hispânia Ulterior, competia-lhe castigar os «Bárbaros», pacificar a Bética e impor um saudável respeito aos Cónios, que davam indícios de agitação. O Senado confiara-lhe para esta tarefa um exército de dez mil homens de infantaria reforçados com mil e trezentos cavaleiros.

Pláucio deve ter pensado que bastaria um passeio militar mostrando as águias das legiões; decerto não se informou bem sobre a derrota de Vetílio. De qualquer forma, Viriato fez dele o que quis: recorrendo ao ardil que nos dera já a vitória, atraiu o pretor até às margens do Tagus, simulou um ataque e bateu em retirada. Pláucio lançou em nossa perseguição um destacamento de quatro mil homens que foi completamente aniquilado numa emboscada. Depois, voltámos a atravessar o Tagus e aproximámo­-nos do «Mons Veneris», onde Viriato aguardou os acontecimentos.

Os Romanos seguiram o nosso rasto e voltaram a cair numa armadilha. Com o seu exército destroçado, aterrado pela nossa cavalaria (e sentindo-se na situação do infeliz Vetílio), Pláucio largou numa fuga desordenada. O seu pânico foi tal que só parou em Corduba, onde estabeleceu quartéis de Inverno, apesar de estarmos ainda em pleno Verão. Não voltámos a ouvir falar dele. Muitos anos depois, vim a saber que fora chamado a Roma, respondera perante o Senado e partira para o exílio. Naquela altura, porém, os nossos informadores apenas sabiam que Pláucio estava em quartéis de «Inverno», o que deixava a Viriato as mãos livres para prosseguir a guerra na Citerior.

No entanto, os emissários haviam trazido outras notícias. O Comandante, após ouvir o relato, despediu-os com agradeci­mentos e presentes e chamou-me, bem como a Táutalo, Crisso e Arduno. Fomos encontrá-lo numa clareira, sozinho, com ar preocupado.

- Cartago caiu - disse-nos abruptamente.

Houve um silêncio incrédulo e depois Táutalo gaguejou: ­

Como é isso...? Cartago...?

- A cidade, a própria cidade foi tomada e arrasada pelos Romanos - precisou Viriato - neste momento, é um monte de ruínas; Cartago acabou.

Ninguém julgaria possível uma tal coisa. A presença cartaginesa na Ibéria terminara havia muito (sem deixar grandes saudades, aliás) mas a cidade, ainda poderosa, continuara a sustentar a guerra contra a República Romana.

        A sua queda era um choque - e mais, pensei eu, alterava por completo o equilíbrio do mundo.

Viriato pensara o mesmo, pois disse: - Isto é grave, cedo ou tarde vamos sentir as consequências. Os Cartagineses eram um espinho na ilharga de Roma... agora, sem esse espinho, haverá mais tropas disponíveis para lançar contra nós.

Logo a seguir, acrescentou com uma voz diferente: - Mais uma razão para não perdermos tempo. Amanhã começamos a campanha contra as legiões da Citerior.

A guerra com o pretor Cláudio Unímano resolveu-se em duas batalhas: esmagámos as suas tropas, cujos efectivos ficaram reduzidos a metade, e capturámos estandartes - a suprema vergonha para os legionários. Carregados de despojos, empreendemos o regresso ao «Mons Veneris», mostrando, à nossa passagem pela Carpetânia, as águias tomadas aos Romanos.

 

Calcula-se como eu ansiava por reencontrar Sunua. Assim que os deveres militares mo permitiram, tomei um banho na fonte, como sempre fizera antes, vesti a minha melhor roupa e fui à sua procura.

Não a encontrei nos locais onde costumava andar com as cabras e por isso decidi-me a ir até ao povoado, o que me obrigava a fazer um caminho maior. O céu estava carregado de nuvens gordas e escuras, mas não tive ânimo para voltar para ao acampamento sem a ver primeiro; ia sorrindo para mim próprio ao recordar a sua decisão: casaríamos quando eu vol­tasse! E porque não? O tempo passara depressa, mas passara. É inacreditável como uma garota se transforma de repente numa mulher. Sunua já devia ter completado os treze anos e eu tinha agora dezoito; a diferença de idades não era afinal muito grande e acabaria por esbater-se. Casaríamos e eu poderia dar-lhe o filho que ela julgara esperar... como devia ter sido grande a desilusão! Mas tudo isso desapareceria quando nos encontrássemos.

Contudo, ao avistar as humildes casas da povoação senti-me embaraçado com a perspectiva de encontrar a mãe de Sunua e ter de lhe dizer:. - Onde está a tua filha, vou casar com ela.»

Parei ao pé de uma árvore para reflectir um pouco. Uma velhota, que ao passar resmungou uma saudação (o regresso da hoste já era conhecido em toda a serra), deu-me uma ideia: correspondi ao cumprimento e perguntei-lhe se sabia onde estava Sunua.

Ela mediu-me com os olhos e começou a dizer: «Não, que disparate! Sunua...» mas atentou melhor em mim:

- Espera, espera... tu és Tongio, guerreiro de Viriato? Bem, agora compreendo tudo... Sim, sim, compreendo tudo. Sunua (pobrezinha!) falou muito em ti. Chamou-te muitas vezes, antes de morrer.

Fiquei imóvel e gelado. Durante um longo momento deixei de ouvir a tagarelice da velha, retive só as palavras «doença» e «delírio», mais nada, até que ela percebeu que não estava a ser ouvida e calou-se. Os seus olhos devoravam-me, famintos de curiosidade.

Quis estar muito longe dali. A mulher, com o apetite aguçado para história do guerreiro-da-hoste-Iusitana-apaixonado­por-Sunua-morta, queria levar-me à aldeia, o que era demais para mim. Providencialmente, um trovão ribombou anunciando a tempestade e a velhota esganiçou-se toda numa aflita ladainha aos deuses do relâmpago. Cortei-lhe o discurso colocando debaixo do seu nariz duas moedas de prata.

- São para ti, se me fizeres um favor, mas se prometeres e não cumprires há uma maldição infalível agarrada a estas moedas. - Retirei do dedo o meu anel de prata e entreguei-lho. - Leva-o à mãe de Sunua. Eu tinha-lhe prometido este anel, quando voltasse.

        A mulher ainda tentou reter-me com agradecimentos e juras e não sei que mais, porém as primeiras gotas de chuva levaram­-na a desistir muito depressa e a partir para a aldeia.

Tomei a direcção do acampamento. Andava tão devagar que a tempestade apanhou-me ainda a meio do caminho e não me importei. Chegaria encharcado e ninguém veria que estava a chorar. Fui avançando sob a chuva forte que me batia na cara e se misturava com as lágrimas.

 

Ouvi dizer a homens experientes que a guerra cura depressa as feridas da alma: envolvido num combate, esforçando­-se por viver à custa da morte do adversário, um homem não tem tempo para sofrer. Não sei se o ditado é verdadeiro porque tal remédio foi-me recusado pelos deuses. Naquele ano, a campanha contra Unímano trouxe-nos uma vitória tão rápida que o Outono mal começara quando regressámos ao Monte da Deusa. As operações estavam suspensas até à Primavera.

Começou então uma lenta tortura. Não havia recanto da serra que não me falasse de Sunua; todas as noites ela me aparecia em sonhos, umas vezes rindo e abraçando-me, outras angustiada, gritando que perdera o nosso filho. Depois desaparecia e eu acordava coberto de suor, mas se voltasse a dormir os pesadelos recomeçavam. Uma vez, já no fim do Inverno, gritei em pleno sono, acordei com a minha voz e vi um rosto muito perto do meu: era Arduno. Obrigou-me a sair da tenda, abafado sob o seu próprio manto, conduziu-me para junto da fogueira mais próxima e sempre sem dizer palavra deu-me vinho. Não resisti e contei-lhe o meu segredo.

        Arduno era demasiado inteligente para ensaiar discursos de consolação. Ouviu-me em silêncio e quando acabei convidou­-me a ir à caça com ele pela manhã, «para afastar as sombras da morte e também para ficares em boa forma, porque vais precisar dela»... O fim da frase destinava-se, claro, a aguçar a minha curiosidade. Pedi-lhe que se explicasse e ele assim fez:

- Se não tivesses passado o dia inteiro sozinho como um urso no Inverno, saberias que chegaram notícias frescas da Bética. Frescas... isto é: o mensageiro saiu de Urso há duas semanas. A propósito, apesar de não gostares de Audax tens de admitir que ele é muito útil, na medida em que ajudou o Comandante a montar uma razoável rede de informações.

- Admito tudo quanto queiras - cortei, impaciente - mas quais são as notícias?

- Pois bem, o Senado romano enviou para a Ibéria um novo exército. E... adivinha, se podes, a «distinção» que nos foi concedida...? Roma decidiu mandar-nos um dos seus cônsules. Chama-se Emiliano, Quinto Fábio Máximo Emiliano. É o novo governador da Ulterior e já deve ter desembarcado.

- E o exército?

Arduno franziu o nariz. - Nào sabemos ainda quantas legiões traz, mas de qualquer forma é um exército consular e por isso vai dar-nos que fazer, sem dúvida. Bom, e agora, se podes, dorme um pouco mais, porque juro-te por todos os nomes de Bandua que antes de nascer o Sol venho sacudir-te. A caça está à nossa espera!

Viriato decidiu que antes de enfrentarmos o cônsul mediríamos forças com o novo magistrado da Citerior, o pretor Caio Nigídio, para não corrermos o risco de sermos apanhados entre dois exércitos romanos. Assim, mal chegou a Primavera abandonámos o «Mons Veneris», o que foi um verdadeiro alívio para mim. Ansiava por combater e esquecer o meu desgosto; além disso começara a odiar aquela terra, que me parecia maldita (digo «parecia»; hoje, claro, tenho a certeza. A Deusa deve tê-la abandonado ou então ficou ressentida por alguma ofensa que ali lhe tenha sido feita).

Caio Nigídio não era melhor general que os seus antecessores e mostrou-se incapaz de responder à táctica de Viriato, baseada, como sempre, na mobilidade e na rapidez. Deixámos o pobre pretor a braços com um território devastado e desorganizado e partimos para sul, ao encontro de Emiliano.

A rede de informações construída por Viriato (e que, ao contrário do que Arduno afirmara, estava longe de dever-se apenas aos méritos de Audax) continuava a trabalhar. Soubemos assim que o exército consular tinha dezassete mil homens, porém o grosso do efectivo era formado por recrutas sem experiência. Isto, para nós, era um mistério: se, como se afirmava (e era verdade), o simples nome de Viriato causava terror em Roma, como se explicava que enviassem para a Ibéria legiões inexperientes, quando tinham as tropas de escol que haviam tomado Cartago?

Hoje conheço a razão. O Senado era um vespeiro onde as intrigas ferviam. Emiliano fora vítima de uma das muitas conspirações em que Roma se comprazia. Porém, naquela época, a presença de um exército de novatos pareceu-nos um favor dos deuses.

E, de facto, a hoste lusitana progrediu pela Bética sem encontrar resistência digna desse nome. Emiliano, depois de estabelecer bases em Urso e Gadir, esquivou-se ao combate e limitou-se a travar pequenas escaramuças. Poderia relatá-las aqui (algumas revelaram-se verdadeiras obras-primas de astúcia por parte de Viriato), mas penso que seria enfadonho descrever uma série de vitórias sem grande importância. Nesse ano, os principais acontecimentos foram as conquistas de duas cidades: a primeira foi Itucci, um importante ponto estratégico, situada no alto de um rochedo. Tomámo-la sem luta, a população abriu-nos as portas e recebeu-nos em triunfo.

A segunda cidade foi a própria Urso, entretanto evacuada por Emiliano. Os habitantes não sofreram muito, pois a resistência foi fraca e numerosos Ursenses simpatizavam com a nossa causa. De qualquer modo, pude confirmar (e mesmo reforçar) a minha opinião sobre Audax, Minuro e Ditalco: foram eles os primeiros a propor o saque generalizado dos bens dos seus concidadãos, com o pretexto de que Urso aceitara o jugo romano. Viriato não concordou e proibiu pilhagens e violências - para grande desapontamento de Audax. Suponho que ele e os seus amigos, conhecendo as casas mais opulentas da cidade, tinham visto ali uma bela ocasião a não perder. Comentei o assunto com Táutalo, mas abstive-me de falar a Viria o, não fosse ele pensar haver questões pessoais ou intrigas entre mim e os três inseparáveis.

A entrada dos Lusitanos em Itucci e Urso, bem como a quase total passividade do cônsul, encorajaram outras cidades a ex­pulsar as guarnições romanas e proclamar-se aliadas de Viriato. Para nós, portanto, o ano terminava em glória e euforia. No entanto, o Comandante não partilhava desse entusiasmo, pelo contrário: andava mais sombrio e fechado. A meio do Outono suspendeu as operações, escolheu um local que mandou fortificar para nos servir de quartel de Inverno e convocou o estado-maior. Disse--nos então que era tempo de fazer planos para o próximo ano, que, segundo previa, iria ser muito duro.

Entreolhámo-nos sem o compreender. Crisso - que se tomava rabugento com a idade - queixou-se do seu pessimismo: que mais queria o Comandante? Não ditava a sua vontade em toda a Bética? Não tínhamos batido Nigídio e Emiliano?

Viriato ouvia-o de pé, imóvel. Um sol desmaiado de Outono arrancava reflexos dourados às virias que lhe cingiam os braços.

- Não tenho razões para me queixar dos nossos homens - disse por fim - mas há uma coisa que todos parecem esquecer: Emiliano tem o exército quase intacto, dezassete mil legionários. Tongio: vou recorrer aos teus conhecimentos. Está aqui uma mensagem escrita, que os nossos aliados de Urso interceptaram. É dirigida a Quinto Fábio Máximo Emiliano, em Gadir. Não tem nada de importante para nós, só quero que leias o princípio e digas se encontras alguma palavra estranha.

Encarei-o com surpresa e ele fez um riso breve. - Não, não aprendi a ler em segredo, não tenho tempo para isso; o que interessa na mensagem já me foi dito. Lê.

        Peguei na tabuinha, comecei a ler e logo percebi o que o Comandante desejava que eu visse.

        - Nesta carta, tratam Emiliano pelo título de «procônsul...

        - Exactamente - interrompeu Viriato - e para aqueles que não sabem, isto quer dizer que, ao contrário do habitual, o Senado de Roma vai manter Emiliano aqui, na Ibéria, durante o próximo ano, pelo menos.

O incorrígivel Crisso resmungou: - Ainda bem! Se ele fizer com as legiões o mesmo que fez até agora...

Viriato replicou no tom paciente de quem fala a uma criança: - Meus amigos, não se enganem. Emiliano é o melhor general que os Romanos mandaram para a Ibéria desde que começámos a nossa expedição. Deram-lhe um exército de recrutas - e que fez ele? O mesmo que eu próprio faria se estivesse no seu lugar; evitou os perigos maiores e foi treinando os seus homens, ensinando-os a lidar connosco. E quando o Inverno acabar, estará pronto para enfrentar-nos com dezassete mil legionários frescos e treinados. Não podemos resistir-lhe, só com a nossa haste.

Táutalo, optimista crónico, trovejou: - Bem, não vamos ficar a chorar como velhas medrosas. Era capaz de jurar que o Comandante já pensou em tudo!

Viriato considerou-o com uma ironia benevolente: - A tua fé comove-me. Mas é verdade que pensei no assunto. Temos de tomar a iniciativa, vamos atacar na Ulterior e na Citerior. Não contem com grandes vitórias; o que interessa é experimentar a capacidade dos generais romanos... há ainda outra coisa a fazer: se formos derrotados, a nossa única salvação é obrigar os Romanos a dispersar as suas tropas. É preciso que mais povos da Ibéria entrem na guerra - o maior número possível. Se não aceitarem o nosso comando, que façam a guerra sozinhos, mas que a façam!

- Têm de aceitar-te - exclamou Táutalo - É preciso!

        Viriato encolheu os ombros. - Eu sei. Roma divide os

nossos povos e esmaga-os um a um... de quem é a culpa? Como vamos nós recrutar os Vaceus, os Arevacos ou os Ilergetas se nem sequer todos os nossos aceitaram seguir-nos? Por todos os deuses, a Lusitânia podia ditar as suas condições ao Senado e ao povo de Roma!

Mudou de tom subitamente: - Isto são sonhos e não temos tempo para sonhar. Tongio: tu e Arduno serão meus emissários. Partirão para o Cineticum, de lá subirão às terras de entre Tagus e Anas e mais para norte ainda. Falarão com os povos; tentarão conhecer o seu modo de pensar. Lançarão a nossa semente. Eu próprio, logo que possível, irei para o Norte, por outro caminho: quero falar de novo com os Vetões, os Vaceus, os Calaicos ­rodos os que estiverem dispostos a ouvir-me. Marcamos encontro para começo do Outono, em Igedium. Enviarei notícias para algumas cidades do vosso itinerário.

- Uma bela viagem - comentou Arduno - mas vou sentir a falta do combate.

- O que vais fazer é tào importante como combater. Tongio conhece o Cineticum e um pouco das terras mais a norte; uma vez que atravesse o Callipus, fica perdido. Então, serás tu o guia, ele o intérprete, se necessário.

        A reunião terminou. Arduno chegou-se a mim e aplicou-me nas costas uma sonora palmada.

        - Depois da guerra, o melhor remédio para o desgosto é viajar!

 

Atravessámos o Anas por alturas de Baesuris e pernoitámos na cidade, apesar de eu sentir alguma preocupação: avistáramos numerosos contingentes romanos durante a viagem e nas proximidades de Baesuris; além disso, Reburrus, o comerciante com quem eu falara quatro anos antes, poderia reconhecer-me.

Arduno rejeitou os meus receios: passara muito tempo e eu mudara de aspecto (estava mais alto e musculado e usava barba); aliás só ficaríamos uma noite.

- Em contrapartida - acrescentou - o que me inquieta é a abundância de legionários; esperemos que os nossos disfarces os convençam.

Para viajarmos na parte do Cineticum dominada por Roma decidíramos adoptar a identidade de curandeiros ambulantes.

A ideia fora de Arduno e ele mostrava-se muito orgulhoso - e mais orgulhoso ainda ficou quando verificámos como ela fora uma autêntica inspiração, pois em todos os caminhos havia patrulhas chefiadas por oficiais altamente inquisitivos.

Não tardámos a compreender a razão. As notícias das vitórias lusitanas tinham despertado o ânimo dos Cónios e a revolta fermentava no país. A tensão era perceptível, respirava­-se no ar: Balsa parecia mais um quartel que uma cidade; Os­sónoba apresentava idêntico aspecto e, como seria de esperar, pululavam os espiões pagos pelos Romanos para detectar eventuais agitadores. Nas tabernas e hospedarias, fomos olhados com desconfiança e havia sempre alguém com ouvidos atentos... fartos daquele ambiente, Arduno e eu decidimos discutir os nossos planos longe de curiosos.

A melhor solução era sair da cidade. Numa das muitas praias próximas de Ossónoba, procurámos um local isolado e conversámos: a situação no Cineticum, declarei, parecia muito favorável, mas, ao mesmo tempo, era-nos difícil estabelecer contactos sem levantar as suspeitas das guarnições romanas. De resto, eu estava certo de que tínhamos sido seguidos por duas vezes, pelo menos.

Arduno sentara-se na areia junto da rebentação e entretinha­-se a olhar as ondas que vinham morrer a um palmo dos seus pés.

- A minha opinião - disse ele - é que devemos sair do Cineticum. Afinal, já conhecemos o estado de espírito dos Cónios; se tentássemos alguma coisa arriscávamo-nos a provocar uma revolta cedo demais. E além disso sinto um perigo no ar... um perigo para nós, quero dizer.

Eu aprendera a tomar em conta os seus pressentimentos, portanto só apresentei uma condição: a de deixar, antes de partir, uma oferenda na necrópole de Ossónoba, nos túmulos dos meus antepassados. Em Balsa, por razões de segurança, não ousara procurar o sepulcro do meu pai, mas ali ninguém estabeleceria ligações entre um obscuro curandeiro e uma família aparentemente extinta.

Arduno deixou-se convencer e disse que me acompanharia. Claro que a verdadeira razão para o fazer era o medo de que me sucedesse algum percalço, mas como detestava mostrar-se solícito preferiu argumentar que tinha curiosidade em saber como conseguiria eu descobrir os túmulos, já que nunca antes visitara a cidade.

É simples - disse-lhe enquanto o conduzia à parte da necrópole reservada às famílias dos Anciãos - olha. . .

Cada túmulo estava ornamentado com inscrições em caracteres cónios. Arduno dardejou-me um olhar exasperado e protestou: - Não vais dizer-me que também consegues ler esses sinais?

- Esses sinais - repliquei - são a primeira escrita que aprendi, antes mesmo de aprender as letras romanas. Não esqueças que sou Cónio...

Ele resmungou: - Oh, está bem, está bem. Só tenho pena de não poder juntar os teus conhecimentos aos meus, seria invencível. Entretanto... - fez uma pausa e recomeçou a falar, agora em voz baixa - entretanto, continuamos a ser seguidos e não gosto nada disto. Lamento imenso, Tongio, mas os teus antepassados devem passar sem as oferendas, esta não é ocasião para cerimónias piedosas.

De facto, dois homens que já víramos no mercado de Ossónoba passeavam-se pela necrópole ostentando um ar demasiado ocioso para ser verdadeiro.

        - Podemos armar-lhes uma emboscada, apanhá-los e torturá-los até confessarem o que andam a fazer...

Arduno replicou que nesse caso deveríamos também matá­-los, para não irem contar histórias a nosso respeito; toda essa operação podia acabar por chamar mais atenções sobre nós.

        - Então, vamos tentar sair da cidade muito inocentemente e enquanto podemos!

Assim fizemos, saindo não pela grande estrada mas pelas praias e rumando para norte logo que nos foi possível. Viajámos todo o dia a galope, apenas com as paragens indispensáveis para dar algum repouso aos cavalos, e prosseguimos no mesmo ritmo até atingir as serranias que são a fronteira natural entre o Cineticum e a «Mesopotâmia». Só então abrandámos o passo, mas ainda assim tomávamos cuidados especiais: acampávamos em lugares escondidos e comíamos refeições frias; escolhíamos os caminhos menos frequentados, sobretudo aqueles em que as emboscadas não fossem fáceis. Ao fim do quarto dia de viagem, sentimo-nos suficientemente seguros para acender uma fogueira que nos aquecesse e permitisse cozinhar. Trazíamos peixe salgado e garum, porém eu caçara uma abetarda e pudemos assim poupar as outras provisões.

Durante o jantar não falámos e só depois de oferecidas as libações aos deuses do lugar é que rompi o silêncio:

- Há agora três direcções à escolha: podemos ir em linha recta para norte, podemos procurar o curso do Anas, a leste, ou, no lado oposto, a costa ocidental. Pessoalmente, preferia seguir o Anas, podia passar no santuário de Endovélico e ver a minha mãe. Mas esse é o itinerário menos recomendável: por um lado, se os espiões apanharem o nosso rasto, vamos atrair as atenções do inimigo sobre o santuário; por outro, não há dúvidas sobre a atitude dos povos dessa região, pois são aliados de Viriato.

Arduno concordou. Mas como era a segunda vez que as circunstâncias pareciam contrariar os meus desejos (em Ossónoba não pudera prestar homenagem aos antepassados e agora devia privar-me de visitar a minha mãe) declarou que faria uma tentativa para saber se o risco era real: procuraria uma indicação no fogo.

        - É a tua vez de me surpreenderes! - disse-lhe. – Não sabia que eras capaz de ler presságios nas chamas.

        - Nunca subestimes um Vetão. Afasta-te um pouco e não fales.

Arduno lançou mais lenha na fogueira, fez uma libação e começou a recitar uma longa prece a meia voz. Depois verteu vinho sobre as chamas e ajoelhou-se rapidamente, observando as labaredas. Ao fim de algum tempo, quando eu já sentia na pele o frio da noite e desejava poder chegar-me à fogueira, ele estremeceu, assumiu o seu ar natural e disse em voz alta:

- Vipasca.

- O quê?

        - Vipasca. É por lá que devemos passar, quero dizer: seguimos directamente para norte até Vipasca. A partir daí... não sei bem, mas como é conveniente evitar o leste seria aconselhável ir para a costa. Podíamos atravessar o Callipus em Evion.

A proposta era lógica. Vipasca e Evion tinham importância para nós: na primeira das duas cidades havia minas de onde os habitantes extraíam metais para annas e utensílios; quanto a Evion, era famosa pelos seus anneiros. Uma-aliança poderia, nos dois casos, significar muito para nós.

- Agora que tomámos uma decisão - disse eu – estou pronto para dormir... ou preferes que faça o primeiro turno de vigia?

Arduno encolheu os ombros. - Tanto me faz. Dorme, se quiseres; não corremos perigo, eu invoquei todos os nomes de Bandua.

Era a segunda vez que ele dizia tal coisa e, como na primeira, não percebi. Arduno, lendo a interrogação na minha cara, voltou a encolher os ombros e explicou:

- É uma ideia minha. Cada povo tem os seus deuses e todas as montanhas, rios e florestas os têm. Mas há com certeza deuses mais poderosos que outros, que protegem várias tribos e usam nomes diferentes. Nas minhas viagens, conheci o deus Bandua. Depois, conheci também Bandiarbariaico, Bandioilenaico e Banderaeico. Não te parece que são todos o mesmo deus?

        Eu não sabia - e aquilo soava-me a blasfémia. Disse-lho e ele abanou a cabeça, a rir.

- Os deuses conhecem os nossos pensamentos. Bandua não me fulminou por eu pensar desta forma. O que interessa é honrar todos os deuses - e é isso que eu faço.

        - Muito bem - concluí - então vou dormir e espero ter a protecção de todos os deuses.

 

Os povos de entre Tagus e Anas não se mostravam tão inclinados para a guerra como os Cónios. Em nenhum lugar por onde passámos obtivemos uma adesão clara, embora muitas tribos se declarassem dispostas a fazer eventuais incursões na Bética, no momento em que os seus chefes o decidissem e os presságios fossem favoráveis.

Em Vipasca ouvimos rumores sobre a guerra - nada de concreto, porém tudo parecia indicar que Emiliano lograra melhorar a qualidade dos seus legionários e estava a obter vantagens. Dizia-se também que o novo governador da Citerior, Caio Lélio, iniciara uma campanha para secundar a acção do procônsul.

Ao sair da cidade, prosseguimos ria direcção norte. Se fôssemos directamente para Evion, conforme decidíramos, acabaríamos por atravessar a «Mesopotâmia» sem falar com a maior parte dos povos. Assim, rumámos para Ebora.

As viagens na região de entre Tagus e Anas são facilitadas pelo terreno, quase todo plano ou, quando muito, ondulado em pequenos outeiros e colinas, como na zona do santuário de Endovélico. No entanto, o calor, durante o dia, impedia-nos de avançar com a rapidez desejada. A travessia das serras do Cineticum fizera-nos perder muito tempo e o Verão já começara; esta estação é muito quente na «Mesopotâmia», onde só as florestas servem de refúgio contra os ardores do Sol. Mas os habitantes, ao longo de incontáveis gerações, têm vindo a cortar as árvores para aumentar o terreno cultivado.

Ebora, que vi pela primeira vez nessa época, era uma cidade ainda pequena e sem grande beleza, O mais notável eram os vestígios do passado, as famosas pedras gigantes; não longe da cidade, segundo nos disseram, havia um campo sagrado onde elas abundavam.

Arduno e eu fomos apresentar os nossos respeitos aos deuses locais e, como guerreiros, não deixámos de oferecer um sacrifício no templo de Runesos-Césios, deus da guerra, Senhor do Dardo. Depois procurámos os Anciãos. Um deles, amigo de Viriato, recebera um enviado com mensagens que nos eram destinadas, caso ali passássemos. Confirmavam-se os rumores pessimistas que ouvíramos em Vipasca: na Bética, Viriato fora derrotado por Emiliano e tivera de abandonar Urso e ltucci; outra cidade, Arunda, caíra também em poder dos Romanos. Na Citerior, Caio Lélio vencera uma força lusitana comandada por «um lugar-tenente» - não pudemos saber quem ele era, mas presumi que fosse Táutalo.

Neste sombrio quadro havia um único ponto brilhante: a cidade de Baikor declarara-se a nosso favor e fora para lá que Viriato retirara com todas as suas forças. Baikor tem grande importância estratégica, pois está situada perto de um desfiladeiro que domina a entrada para o vale do Bétis.

As informações serviram-nos para argumentar, perante os notáveis de Ebora, a favor de um apoio militar a Viriato. Pela minha parte, expliquei que as terras de entre Tagus e Anas não estavam a coberto de uma invasão romana, muito pelo contrário: na Bética jogava-se a sorte de toda a Ibéria livre. Se Viriato perdesse, nada se oporia às legiões de Emiliano e Lélio, que podiam ocupar a «Mesopotâmia» naquele Verão e lançar-se contra a Lusitânia e a Calécia na Primavera seguinte. A isto Arduno acrescentou que se tornava urgente uma decisão. Viriato perdera três cidades e era duvidoso que pudesse resistir a um ataque simultâneo lançado pelas legiões da Citerior e da Ulterior.

Embora não obtivéssemos uma resposta imediata, pude ver que os nossos argumentos causaram certa impressão. Despedimo­-nos, pois, deixando atrás de nós uma semente que (esperávamos) daria frutos muito em breve.

A nossa próxima escala foi Evion, onde desfrutámos da vantagem de ser portadores de notícias ainda não conhecidas. Em todo o caso, eu tinha agora pressa de chegar às terras dos Túrdulos, onde esperava melhor acolhimento, e por essa razão quis fazer o resto da viagem de barco, seguindo pelo Callipus até à foz. Porém deparei com a recusa obstinada de Arduno: garantiu que faria todo o trajecto enjoado - «não me dou bem em cima da água», explicou. O resultado foi gastarmos alguns dias mais para atingir a costa e, ainda por cima, perdemo-nos.

Quem segue por terra o curso do Callipus, na direcção da foz, tem dois caminhos: pela margem norte, acabará por chegar a Cetóbriga; se for pelo lado sul, irá dar a uma península muito alongada e plana chamada Acale, que separa o estuário do oceano. Seguimos por esta margem, quando o nosso destino imediato era Cetóbriga,

A região é bonita, com abundância de pinheiros e árvores de fruto. Na extremidade da comprida língua de areia e terra, junto de uma reentrância do estuário, há uma povoação de pescadores também chamada Acale: os habitantes vivem da salga de peixes, que vendem aos povos vizinhos. É gente pacífica e trabalhadora, sem grandes ambições; fomos recebidos com hospitalidade mas era evidente que nada tínhamos a fazer ali, portanto havia que chegar a Cetóbriga. Da enseada de Acale podíamos avistar a cidadela aninhada no alto do seu morro, mas entre nós e Cetóbriga estava o largo estuário do Callipus.

Desta vez Arduno resignou-se e nem esboçou um protesto. Voltar para trás equivalia a perder mais tempo. Contratámos dois pescadores para que levassem os cavalos sobre uma jangada; quanto a Arduno, cerrou os dentes, entrou atrás de mim num dos odiados barcos de couro - e vomitou durante toda a travessia. Ao desembarcar na outra margem, lívido, jurou que não repetiria a façanha por nenhum ouro do mundo.

Em todo o caso recuperou depressa - e ainda bem, porque precisávamos ambos de todas as nossas faculdades. Durante a viagem pelo rio, eu, que nunca enjoei sobre a água, reparei em algo que me pôs em estado de alerta: duas galeras romanas estavam ancoradas no estuário.

A presença do inimigo levantava uma interrogação: quais as relações entre os Cetobrigenses e os Romanos? Na dúvida, resolvemos não pregar a revolta em Cetóbriga e abreviar a nossa estadia tanto quanto possível - reduzi-la, de facto, ao indispensável para comprar as provisões que não lográramos obter em Acale, onde os pescadores tinham acabado de vender todas as suas reservas de pescado pouco antes da nossa chegada.

Cetóbriga é uma cidade primitiva e estranha. Não me parece que tenha à sua frente um grande futuro. Muitos dos habitantes ainda usam utensílios de pedra (que os outros povos já só utilizam nos rituais) e, além disso, o povoado está como que fechado em si próprio, no alto do outeiro, cingido pelas suas muralhas. Os jovens preferem a beira do rio, onde se estabelecem na mira da pesca e do comércio. A cidadela é cada vez mais um simples refúgio, um reduto em caso de perigo.

Com estas características, não era natural que dois estrangeiros fossem vistos com bons olhos - e de facto, mal entrámos na cidade (invocando o pretexto de oferecer um animal ao deus tutelar), sentimos à nossa volta uma atmosfera de curiosidade hostil.

Um incidente veio em nosso auxílio. Os habitantes de Cetóbriga têm um costume idêntico aos dos Lusitanos: as pes­soas que adoecem vêm para a porta das suas casas, contam os males a quem passa e se alguém conhece um remédio manda a cortesia que o recomende ao enfermo. Pois bem, mal tínhamos dado alguns passos numa das estreitas ruelas, fomos abordados por um velho que se queixava de fortes e persistentes dores no estômago. Arduno, como já referi, era perito em medicamentos; sentou-se ao lado do homem e começou a fazer-lhe perguntas: que remédios tinha experimentado, qual era a sua alimentação e coisas assim - cujo interesse eu não conseguia enxergar, aliás. No fim do interrogatório, aconselhou ao doente uma infusão de ervas e ordenou-lhe que durante os próximos dez ou vinte dias se alimentasse de caldo de carneiro sem gordura; nem peixe, salgado ou fresco, nem vinho, nem cerveja.

        - O que tu queres é matar o pobre velho à fome - se­gredei-lhe quando nos afastámos - e temos de sair daqui ainda mais depressa do que eu pensava, para fugir à vingança da família!

Arduno mostrou-se seguro de si: - Vai ficar bom. O mal dele é comer e beber demais; amanhã já está melhor, tenho a certeza.

- Bem - insisti - mas é preferível não estarmos cá amanhã para ver. Não me apetece muito ser atirado do alto das muralhas...

Estava contudo determinado que ficaríamos até ao dia seguinte. Quando pretendemos entrar no templo, encontrámos a porta fechada e a população da cidade concentrava-se em silêncio no troço da muralha virado para o estuário e o oceano. Comecei a sentir-me inquieto, pois não sabia se aquele era algum dia especial em que a nossa simples presença fosse um sacrilégio. Felizmente, Arduno, que já viajara pela costa ocidental, lembrou­-se a tempo: erguendo os olhos para o céu, murmurou: «É isso... o Sol. Está a aproximar-se o pôr do Sol».

Para muitos povos da costa, explicou-me, o momento do ocaso é sagrado e considerado com receio: eles vêem a divindade solar mergulhar nas águas do oceano e receiam que o seu fogo se extinga para sempre. Então, é preciso guardar silêncio e orar pelo regresso do deus.

Juntámo-nos aos Cetobrigenses e participámos na prece. Depois, quando o grande disco vermelho desapareceu nas águas longínquas do horizonte, fizemos menção de nos afastar - mas terminara o período de recolhimento e toda aquela gente nos cercou e todos falavam ao mesmo tempo.

Com a rapidez de um incêndio, correra pela cidade a nova da chegada de estrangeiros entendidos em doenças e tratamentos. Choviam as consultas e respondíamos como nos era possível... mas o pior estava para vir; a certa altura, uma mulher nova empurrou os que estavam à sua frente e dirigiu-se a Arduno com tanta veemência e desespero que tivemos dificuldade em compreendê-la: tinha um filho de catorze anos possuído por um mau espírito, que se alojara na cabeça do rapaz.

Um arrepio percorreu-me as costas. - Arduno - segredei, agora com maior insistência - isto é mais grave. Estômagos doridos e verrugas, dentes a sangrar e feridas, ainda vá. Mas espíritos maus...! É perigoso demais.

Ele encarou-me, sério. - Eu sei, Tongio... e também sei o que há a fazer, neste caso. Claro que é perigoso, mas já pensaste? Um rapaz de catorze anos! Vou vê-lo, pelo menos.

A resposta não me tranquilizou, mas não tive outro remédio senão acompanhá-lo. Ainda bem que o fiz, pois pude testemunhar uma coisa assombrosa, uma daquelas coisas que eu só conhecia por velhas histórias ouvidas na infância. Hoje, são muito raros os homens capazes desta proeza: abrir a cabeça de um possesso para expulsar os espíritos que se refugiaram no interior. Nem mesmo em sonhos julgaria que Arduno fosse um desses homens.

.Ele permitiu-me assistir a tudo, sob promessa do mais absoluto segredo - a operação envolve actos de magia demasiado poderosa e perigosa para que possa ser revelada. Só posso dizer que durou a noite inteira. Pela madrugada, quando Arduno terminou, esgotado, o rapazito dormia profundamente. Foi preciso esperar que ele acordasse, o que aconteceu a meio da tarde seguinte, pois fora-lhe dado a beber um forte narcótico. Ao despertar, parecia normal - e por essa altura Cetóbriga estava maravilhada. Fomos aclamados com efusão e um respeito muito próximo do receio.

O êxito de Arduno proporcionou o que mais necessitáva­mos - mantimentos. E ainda algo igualmente precioso: informações. Não, as tripulações romanas não tinham relações com Cetóbriga, compravam os seus abastecimentos em Acale. Não, os Cetobrigenses não simpatizavam com Roma e temiam o seu poder. E... sim, era frequente a passagem de barcos romanos na foz do Callipus; mas, segundo constava, era mais frequente ainda a sua presença no estuário do Tagus, perto da cidade de Olisipo.

Isto levou-nos a reflectir. Pensáramos ficar alguns dias em Olisipo, mas não tínhamos grande vontade de arriscar um contacto com a população local, tendo os Romanos à vista.

- Apesar disso -lembrou Arduno - é preciso passar nas proximidades. Podemos dormir nas antigas pedreiras, que estão abandonadas.

Dei-lhe razão. Na viagem pela «Mesopotâmia» surgira-nos uma ideia para fazer uma surpresa agradável a Viriato e compensá-lo, de certo modo, pelas derrotas sofridas; para isso teríamos de gastar alguns dias perto de Olisipo.

Decidimos rumar para Equabona e de lá inflectir para noroeste até encontrar o Tagus num ponto onde o rio fosse fácil de atravessar. Como Arduno observou, seríamos sempre obrigados ao desvio porque se recusaria absolutamente a entrar num bar­co - e ainda mais para atravessar um estuário como o de Tagus.

Deixámos Cetóbriga levando connosco as bênçãos e o reconhecimento dos seus habitantes. O garoto, embora enfraquecido, dava sinais de cura e o velho glutão declarava a toda a gente que Arduno era um enviado divino.

 

Aetapa seguinte da viagem foi longa, monótona e sem inci­dentes. Em Equabona receberam-nos bem, mas estava a decorrer uma festa estival e ninguém tinha tempo ou disposição para nos ouvir. Não querendo que nos julgassem ímpios, fizemos a nossa oferenda à divindade festejada e seguimos caminho.

Ao cabo de vários dias, já na margem norte do Tagus, avistá­mos ao longe as muralhas de Olisipo, na época um pequeno burgo concentrado no topo de uma colina fronteira ao estuário do rio. Não muito longe, ficavam as pedreiras a que Arduno se referira. Em tempos recuados, quando os homens não conheciam o bronze nem o ferro e todas as armas eram feitas de pedra, os povos da foz do Tagus tinham escavado fundas galerias num vale onde o sílex abundava. Há ainda gente que faz o mesmo, porém não em Olisipo; situada na costa, oferecendo aos navegantes um refúgio seguro, recebera muito cedo a visita dos TIrios, dos Gre­gos e dos Cartagineses e com eles aprendera a usar o cobre, o bronze e o ferro. As galerias foram abandonadas e passaram a servir de abrigo aos animais selvagens - ocasionalmente, a viajantes como nós, que primeiro deviam certificar-se de que não iriam encontrar lobos ou javalis prontos a defenderem os seus domínios.

Escolhemos uma das grutas mais pequenas. Estávamos em relativa segurança, mas apesar disso a noite foi mal dormida e inquieta, o local estava cheio de ruídos e clarões misteriosos como se nele ainda persistisse a presença dos tempos passa­dos - talvez as entidades protectoras dos antigos obreiros do sílex. Pela manhã, Arduno, que também dormira pouco, observou:

- Culpa nossa. Nem sequer prestámos homenagem a Coaranioniceus e este é o seu domínio. Ainda por cima, vamos pedir-lhe um favor!

Coaranioniceus, o deus protector de Olisipo, reside numa das colinas próximas da cidade. Aos homens da região, ele oferece, generoso, ouro e outros metais. O favor que íamos solicitar era bem diferente, tratava-se da surpresa que preparávamos para Viriato.

No sopé da colina de Coaranioniceus (a que os Olisiponenses chamam o Monte Santo) são criadas com o maior desvelo as éguas sagradas do deus, uma manada que só a ele pertence. Não há na lbéria animais tão belos e velozes no galope. Os potros são criados separadamente; uns são oferecidos à divindade nos festivais, outros utilizados ou vendidos. Um único, o mais forte, o mais puro, é designado para substituir o garanhão envelhecido, que é então enviado a Coaranioniceus. Assim, a manada sacra tem um só senhor, ao qual, desde tempos imemoriais, é dado sempre o mesmo nome: Vento. Este nome, bem como a beleza e a rapidez das éguas do Monte Santo, levaram os povos mais longínquos a julgar que elas são fecundadas pelo próprio vento.

A manada do deus é intocável, mas os potros que dela são separados acasalam com outras éguas e assim foi surgindo uma raça mista que conserva muitas das características da linhagem pura. O que nós pretendíamos era convencer os servidores do deus a vender-nos potros desta raça semidivina, com os quais Viriato poderia, em poucos anos, criar um magnífico corpo de cavalaria.

Para nos apresentarmos aos sacerdotes com a melhor aparência possível, tomámos banho na ribeira que corre perto das pedreiras e eu aparei a barba (continuava a usá-la curta, em memória de Sunua, mas durante a viagem não tivera tempo nem disposição para cuidar do meu aspecto). Comemos uma refeição ligeira - peixe salgado, oferta dos Cetobrigenses agradecidos­e dirigimo-nos para o Monte Santo.

O caminho não era longo. Toda aquela região é verdejante e fértil, uma terra que os deuses fizeram como lugar de repouso e beleza. A manhã estava submersa em silêncio e bruma; porém o Sol tocava o nevoeiro e tornava-o luminoso. Depois da noite agitada, aquele dia era uma bênção. Sem falar, para não quebrar o encanto, metemos os cavalos a passo lento. Havia muito que eu não me sentia tão calmo e feliz, como se a mão do deus estivesse aberta sobre a minha cabeça. Nas folhas das árvores e nos arbustos cintilavam gotas de orvalho transparentes e puras; apetecia-me apanhá-las para as guardar! Mas logo, ao sair de uma curva do caminho, esqueci tudo isso para ficar parado em êxtase. Diante de nós, num prado coberto de erva luxuriante e atravessado por dois ou três regatos, estava a manada de éguas sagradas.

Quem não tenha visto um tal espectáculo dificilmente pode imaginá-lo. Eram cerca de cinquenta animais - todos imacu­ladamente brancos, todos perfeitos, sem uma falha nas suas proporções. Os movimentos que faziam tinham uma graça e uma harmonia que eu julgaria impossíveis em seres mortais. Não duvidei de que a galope seriam invencíveis, rápidas como o próprio vento de que a lenda dizia serem esposas e filhas.

Depois de saciarmos os olhos, procurámos os sacerdotes e começámos por cumprir o nosso dever para com o deus, oferecendo-lhe um cabrito e um leitão na ara do santuário. Mais tarde, durante a audiência com o sumo sacerdote, as negociações ficaram a meu cargo e não me saí mal. Coaranioniceus não precisa de ouro - esse metal abunda nos seus domínios – mas aqueles que o servem têm outras necessidades em vestuário e utensílios. Combinámos um preço justo pela entrega dos melhores potros, que seriam enviados a Viriato logo que atingissem a idade conveniente. Os sacerdotes mostraram-se interessados em colaborar connosco; temiam a influência dos Romanos e os resultados que ela poderia ter na sua própria posição e importância como servidores da divindade olisiponense.

Com as negociações levadas a bom termo, tomámos uma refeição substancial e bem cozinhada (uma agradável mudança; nem Arduno nem eu éramos dotados para preparar alimentos) e pedimos informações sobre o caminho mais seguro e cómodo para a Serra da Lua.

 

É uma estranha terra, essa região que se estende entre a foz do Tagus e a Serra da Lua. Nos altos das colinas e cumeadas vivem homens que ainda sentem muito próxima a presença da Deusa e conservam, tal como em Cetóbriga, os antigos ritos ­

a exemplo dos Cetobrigenses, aqueles que vivem à vista do mar sentem a mesma devoção apreensiva pelo momento sagrado em que o Sol desaparece nas águas; os velhos afirmam, até, que se ouve por vezes uma espécie de silvo borbulhante quando o fogo e a água se tocam.

Mas ali a rainha incontestada é a Deusa-Lua, cujo esposo também é homenageado quando a poderosa consorte está au­sente dos céus. Tendo chegado à região num período de Lua Nova, Arduno e eu assistimos às festas em honra do deus lunar: nos povoados por onde passámos, as noites eram animadas por danças e cantos em que todos os habitantes participavam, indo de casa em casa e percorrendo as ruas várias vezes até caírem de cansaço. As músicas e os ritmos são tão antigos e selvagens que metem medo, como se despertassem forças há muito adormecidas.

Não me desagradou (apesar da nossa pressa) a lentidão da jornada e quando alcançámos a Serra da Lua quase esqueci a necessidade de prosseguir para norte. A Serra não é muito alta - comparada com os Hermínios, não passa de uma enfiada de colinas escarpadas - mas o que não possui em altura é compen­sado em beleza e majestade. Ali o tempo está congelado para sempre pela presença da Deusa. O ar, as pedras e as águas mur­muram eternamente na floresta densa, rompida por grandes massas de rochedos; se os homens entendessem estes murmúrios, alcançariam a divindade. Quanto ao santuário, é interdito aos fiéis e só os sacerdotes conhecem a sua localização exacta. Diz­-se que é tão antigo que já existia quando a própria Serra foi formada.

Para os rituais abertos aos devotos há um templo, também muito antigo, situado não longe do promontório a que chamam simplesmente o Cabo da Serra da Lua. Ali são oferecidos sacrifí­cios e pronunciados oráculos; foi para lá que nos dirigimos, cumprindo aliás um desejo de Viriato, que pretendia saber qual a sorte das nossas anuas na guerra contra Roma.

As respostas ditadas pela Deusa são proferidas por uma mulher que se mostra em público com o rosto velado. Os ritos preparatórios são mais simples que os do santuário de Endovéli­co - porém bastante mais sangrentos. Ali também usam uma faca de pedra, cuja lâmina está enegrecida pelo sangue de incon­táveis vítimas. Observando os sacerdotes, Ardemo cochichou: «Não me custa a crer que em certas alturas do ano as vítimas não sejam só animais...» Fiz um gesto para o calar; a ideia também me assaltara e senti um frio no estômago.

        Por fim, a sacerdotisa levantou-se do seu assento de pedra, virou-se para nós e começou a falar:

        - Estrangeiros. Vós desafiais o rio do destino. Porque sois fortes, os deuses concedem-vos grandes vitórias, mas...

Interrompeu-se. Tentei distinguir as feições da mulher por detrás do manto branco lançado sobre a cabeça; só os olhos eram visíveis, faiscantes e fixos. Houve um silêncio que ninguém ousaria quebrar enquanto durasse o transe.

- Tongio! - exclamou ela de súbito e um arrepio sacudiu­-me o corpo de alto a baixo - Tongio, semente de reis caída em terra estranha! A Deusa falar-te-á quando estiveres à sombra do Coelho! Tenho dito.

Virou-nos as costas, entrou no templo e desapareceu da nossa vista. Olhei para Arduno, cujo rosto estava contraído numa interrogação cómica; não fora a santidade do lugar, eu largaria a rir - mas lembrei-me de que a sacerdotisa, no seu transe, chamara-me «semente de reis caída em terra estranha», uma alu­são muito clara à minha origem, que eu não revelara a ninguém. O próprio Arduno a desconhecia, pois eu pedira segredo a Viriato e aos outros a quem contara a minha história.

Um dos sacerdotes adiantou-se e saudou-nos com inespe­rado respeito.

- Grande honra vos foi concedida, estrangeiros. A Deusa não oferece tal privilégio a vulgares peregrinos.

- Venerável sacerdote - respondi - deverás perdoar­-nos: somos de facto estranhos à terra e é a primeira vez que reverenciamos a deusa na sua morada e consultamos o seu oráculo, por isso não compreendemos o que acabámos de ouvir.

- É natural; aqui estou para vos explicar a mensagem. A Deusa falar-vos-á junto de uma das imagens feitas pelas suas próprias mãos... essas imagens encontram-se na Serra da Lua. Muitas representam o Coelho Sagrado; será à sombra de uma dessas que a sua voz se fará ouvir. Mas atenção: não vos é permitido abandonar a Serra antes disso.

Curvei a cabeça num gesto de obediência: - Cumpriremos. Indica-nos o caminho para uma dessas estátuas.

O velho sorriu: - Não, meu filho. Será a Deusa que vos conduzirá. Eu posso apenas mostrar-vos o caminho mais curto para a Serra. Ficai atentos: podereis passar pelas imagens e não as ver, podeis olhar para elas e ver só um monte de pedras ou um rochedo. As figuras são visíveis de um único ponto. E... um conselho... não será bom deter-vos perto das figuras que não representam o Coelho Sagrado. Algumas irradiam uma força benéfica, mas outras... enfim, é melhor evitá-las.

A entrevista terminou. Quando partimos, ainda tive de enfrentar a curiosidade indignada de Arduno, que queria saber tudo a respeito da «semente de reis» - não houve outro remédio senão contar-lhe a história do meu pai.

        Dois dias mais tarde, vagueávamos pela Serra quase sem provisões e sem ter avistado uma única figura sagrada.

        - A Deusa ri-se de nós - observava Arduno preocupado - e quem sabe se não quer reter-nos aqui para sempre?

Eu não partilhava do seu pessimismo. Sem razão aparente, sentia-me confiante e bem disposto. Andávamos ao acaso, conforme nos apetecia, parávamos para descansar e retomávamos a busca sempre atentos às grandes massas de rochedos. Naquele segundo dia, ignorando os protestos do meu companheiro, decidi evitar os pontos mais altos - que sempre nos criavam problemas por causa dos cavalos - e explorar as pequenas elevações de terreno. Depois da parca refeição, deixara-me ficar sentado à sombra de um pinheiro.

Arduno exasperou-se: - Temos de continuar! Já vimos que não há aqui grandes rochedos... que bicho preguiçoso te mordeu?

Espreguicei-me com regalo e continuei sentado. - Não é preguiça, é um grande bem-estar. Não sentes uma paz, uma...?

- Não, pelo contrário. Há qualquer coisa que me incomoda e sei o que é: fome. Já racionámos as provisões e será pior, porque não sei se reparaste: não vimos um único animal, uma só peça de caça!

        Era verdade e eu deveria sentir-me tão inquieto como ele, mas não sentia. Limitei-me a comentar:

        - Acontece o que tem de acontecer e não adianta entrar em grandes agitações.

Noutras circunstâncias Arduno ter-me-ia insultado, mas a Deusa estava presente e por isso conteve-se. Envolveu-se num silêncio ofendido e acabou por sentar-se numa pedra, olhando para o chão. Alguns instantes depois, para afastar um vago sentimento de culpa, voltei a falar:

        - Estou quase certo de que vamos encontrar o Coelho muito depressa. De resto, ainda só... - calei-me, estupefacto.

        Como referi, Arduno sentara-se numa pedra. Atrás dele havia outras, um pequeno grupo de blocos de granito irregulares em nada semelhantes aos imponentes rochedos espalhados pela Serra; o conjunto, quando observado com um pouco de atenção, evocava irresistivelmente a figura de um coelho aninhado no solo, com as orelhas deitadas para trás. Levantei-me de um salto. - Arduno! Vem aqui, depressa!

Quando ele obedeceu obriguei-o a dar meia volta. – Olha bem: estavas sentado no dorso de um dos Coelhos Sagrados!

Arduno voltou os olhos sedentos para os pedregulhos e durante alguns instantes procurou reconhecer as formas do animal. De repente inspirou fundo e libertou o ar com um longo assobio.

- Por todos os deuses do céu e da terra!

Não havia dúvida, era a configuração de um coelho. Quanto mais a olhávamos mais clara e visível nos aparecia, como se um véu se levantasse diante de nós. Dei alguns passos para a direita e a figura desapareceu, transformou-se num amontoado informe de rochas. Arduno passou à minha frente e continuou a       contornar as pedras até que se deteve e exclamou:

- É incrível, Tongio, estávamos cegos! Anda ver.

A curta distância do Coelho, no lado oposto àquele em que o animal era visível, encontrava-se um grande bloco de pedra quadrada: uma ara muito antiga, sem inscrições nem adornos mas ainda em uso, como se podia ver pelas manchas de sangue infiltrado na superfície rugosa e que a água não lavara por completo.

Levei a mão à fronte num gesto de homenagem. A Deusa conduzira-nos tão seguramente como se nos tivesse pegado na mão... devagar, rodeei mais uma vez as rochas até ver o Coelho; compreendia agora porque experimentara aquela sensação de bem-estar, a vontade de ficar ali, a intuição de ter completado a busca; fora um sinal da Deusa ou o próprio Coelho manifestando a sua presença. E pensei: «Esta é verdadeiramente uma obra moldada pela divindade...»

-Sim. Olha-a bem, porque nem todos os mortais a podem ver!

        As palavras explodiram no ar seco. Estremeci. Não conhecia aquela voz. Virei-me num movimento brusco e encarei Arduno.

        - Disseste alguma coisa?

        Não, respondeu. Estava hirto, pálido como a neve, os olhos muito abertos e vidrados.

- Que tens? Que foi? Também ouviste?

Relanceei um olhar alarmado à nossa volta e nesse instan­te ouvi uma espécie de silvo, como se fosse uma cobra, e logo a seguir a voz soou de novo - e saía da boca de Arduno, mas não era ele que falava nem era a sua voz; parecia a de uma mulher, embora o som fosse grave e a articulação dura e enérgica.

- Tongio, filho de Tongétamo, filho de Tongétamo o Brácaro. Porque fazes perguntas sobre o destino se os deuses já te disseram o que podias ouvir? À vossa frente o caminho é longo. Há vitórias e derrotas, alegria e sangue, traição e glória. A águia está ferida mas este é o tempo do seu domínio. Depois do Touro virá a Corça. Porque fazes perguntas? É tempo de combater. Só tu verás a era da Corça. Mas os deuses querem-te, os deuses surgirão no teu caminho...

A voz calou-se, Arduno estremeceu, os seus olhos ficaram baços e sem vida, as pálpebras cerraram-se. Caiu antes que pudesse alcançá-lo. Inquieto, debrucei-me sobre ele, mas tombara num tufo de ervas secas e nada sofrera. Quase imediatamente piscou os olhos e sentou-se; o espanto que se lia no seu rosto fez-me rir, mesmo sem querer.

- Eu... devo ter desmaiado. Bem te dizia que estava com fome!

 

Foi difícil convencer Arduno de que a deusa falara pela sua boca. Não conservava a mais leve recordação do transe e talvez nunca me tivesse acreditado se logo a seguir não presen­ciássemos novo prodígio: saindo bruscamente da mata uma galinhola correu na nossa direcção batendo as asas como se a perseguissem e saltou para as mãos do meu companheiro. Reagi a tempo e precipitei-me com a adaga em punho.

Deixámos sobre a ara a porção destinada à Deusa e comemos com o apetite de quem passou mais de um dia a meia ração. Arduno quis saber o que dissera durante o transe; relatei­-lho enquanto nos preparávamos para montar e fomos discutindo o significado do oráculo durante a jornada que nos afastava da Serra da Lua.

Com pressa de chegar a Igedium, não nos demorámos em nenhuma das paragens que fizemos, salvo em Scallabis e Moron, duas cidades que interessava converter à causa de Viriato, a primeira porque domina o Tagus e controla o tráfego fluvial, a segunda, que lhe fica próxima, porque está bem fortificada. Quem possuir Scallabis e Moron tem nas mãos toda a região a norte de Olisipo,

Desde a partida de Moron, só nos detivemos para comer e dormir; apesar disso levámos dez dias para alcançar o país dos Igeditanos. Os povos das colinas e serranias a norte do Tagus são avessos a contactos com estrangeiros e preferimos seguir itinerários mais longos a ter encontros desagradáveis - chegámos até a fazer desvios para não encontrar povos amigos, pois as inevitáveis cortesias e discursos só nos atrasavam. Por vezes foi impossível fugir - e recordo ainda a visita que tivemos de fazer a uma tribo aliada, por alturas de Ammaia. Era gente dos montes, rude, agarrada aos seus costumes e tradições. Quando entrámos na aldeia, os homens tinham acabado de chegar de uma expedição à Betúria; a pequena guerra correra-lhes de feição, haviam regressado com ouro, armas, gado, mulheres e prisioneiros romanos. Estes últimos, pouco antes da nossa chegada, tinham sido consagrados da maneira usual: as suas mãos direitas, dece­padas, cobriam o altar do deus da guerra e ali perto, debruçados sobre os corpos, os sacerdotes recuperavam os mantos rituais com que tinham revestido os cativos para o sacrifício. Era óbvio o que se seguiria - a leitura dos presságios, uma cerimónia longa e sangrenta a que tivemos de assistir. No final, o chefe veio ter connosco, o rosto iluminado por um largo sorriso: a posição das veias das vítimas anunciava grandes acontecimentos favo­ráveis aos Lusitanos, disse ele, pedindo que transmitíssemos a boa nova a Viria to.

Julgo ser inútil acentuar que já nessa época eu era um homem piedoso e cumpridor dos ritos, porém confesso que nunca me habituei a ver sacrifícios humanos. É uma tradição muito antiga em certos povos da Lusitânia e, como tal, respeito­-a, mas prefiro não estar perto. Viriato esforçou-se por convencer os montanheses de que é preferível oferecer cabras, porcos, touros e cavalos - as tribos das planícies nunca viram estas oferendas rejeitadas pelos deuses - e guardar os prisioneiros como reféns ou fonte de resgate. Os esforços do Comandante nem sempre foram bem sucedidos porque os velhos hábitos morrem devagar.

Arduno suportou a provação com maior indiferença; ­sendo Vetão, muitos dos seus irmãos de raça têm costumes semelhantes. Quando tudo acabou e nos dirigimos para a casa do chefe, onde seríamos convidados de honra num banquete, ele arranjou maneira de colocar nas minhas mãos um pequeno frasco:

- Toma uma boa golada. Cuidado, não bebas tudo!

        Obedeci-lhe. A bebida era alcoólica e tinha uma infusão de ervas (os Vetões são peritos em ervas); nada mais sei, a não ser que o efeito foi excelente: aguentei o banquete sem pensar nos corpos retalhados dos Romanos e nessa noite dormi bem.

Chegámos a Igedium quando o Outono dourava as folhas das árvores e dava à brisa uma frescura que nos consolava do tórrido Verão de entre Tagus e Anas. Às portas da cidade vimos um pequeno acampamento onde a insígnia de Viriato estava arvorada. Pelo conjunto, não estariam ali mais de cinquenta dos nossos homens.

Táutalo e Crisso vieram ao nosso encontro com grande alarido e deram-nos as boas-vindas. Viriato, disseram, estava em conferência com o Rei Caturo, mas Táutalo ordenou a um dos guerreiros mais jovens que o fosse avisar. Enquanto o Comandante não vinha ter connosco, trocámos novidades - Arduno e eu contámos o resultado da viagem e Táutalo descreveu a campanha do Verão: Viriato, enfrentando tropas muito superiores em número e já treinadas para a guerra na Ibéria, fora derrotado por Emiliano e tivera de recuar para Baikor. A principal razão deste revés fora a acção conjunta e coordenada das legiões da Ulterior e da Citerior.

- Sim, também perdemos com Lélio - observei. - Eras tu quem comandava, suponho...?

Táutalo atirou-me um olhar furioso. - Quê...? Nunca! Bem... é verdade que até o Comandante foi obrigado a retirar diante de Emiliano, mas na Citerior as coisas foram diferentes. Viriato cometeu um erro... Sim! (a exclamação era para Crisso, que fizera menção de falar) um erro; deu o comando a Audax.

- Mas porquê?

        Crisso conseguiu intervir:

- Porque era o único disponível. Na batalha contra Emiliano, Viriato comandava a cavalaria e Táutalo a infantaria; só ele seria capaz de manter a ordem durante a retirada. Eu estava a proteger a retaguarda. À primeira vista, não parecia ser um erro; Audax é um bom guerreiro...

- E um péssimo comandante - rematou Táutalo com energia.

Alternadamente - o que não contribuiu para a clareza da exposição - os dois contaram o sucedido. Audax cometera duas faltas: lançara o ataque sem conhecer bem o terreno e hostilizara os habitantes da região, que lhe negaram o necessário apoio.

- Viriato censurou-o - disse ainda Táutalo - mas conservou-o no estado-maior. Atribuiu a ignorância o tratamento dado aos Carpetanos... ignorância, falta de senso, que sei eu. Para mim, é mais simples: Audax sentiu o cheiro do saque.

        Discutíamos ainda o assunto quando o Comandante

apareceu. As preocupações e incertezas da malograda campanha haviam deixado marcas: emagrecera, os olhos estavam encovados e um vinco fundo sulcava-lhe a testa. No entanto, mantinha a mesma energia calma, a mesma segurança. Não era um vencido, era um estratego que ordenou a retirada para planear novo ataque.

A tarde arrefecia e em vez de falarmos ao ar livre fomos para a tenda de Viriato, onde nos sentámos no chão, muito perto uns dos outros, pois o espaço era diminuto. Fiz um relatório completo da viagem, incluindo o oráculo recebido na Serra da Lua, que eu escrevera nas minhas tabuinhas de cera para não esquecer algum pormenor importante. Quando terminei, Viriato disse:

        - Nada impede a continuação dos nossos planos, tanto mais que podemos contar com vários contingentes da Calécia. Os chefes calaicos estão prontos a aceitar o meu comando. E também temos os Lusitanos de entre Durius e Tagus...

        - Todos? perguntei.

        - Uma boa parte. No regresso a Baikor espero fazer ainda algumas visitas (ao ouvir isto Táutalo piscou-me o olho) mas de qualquer forma os efectivos não chegam, é preciso esperar pelos resultados das nossas viagens, quero dizer: é preciso esperar que todos esses povos ataquem os Romanos. Sem plano, sem estratégia e, provavelmente, sem vitórias, mas pelo menos a pressão sobre nós diminuirá e ganharemos tempo. É de tempo que precisamos.

Táutalo fez uma interjeição depreciativa e desabafou: ­Não entendo como é possível tanta estupidez. Com um só comando...

        - Um só Comando, para eles, significa um só chefe, um só rei - lembrou Viriato - e isso é difícil.

        - Impossível! - reforçou Crisso.

        Viriato fitou-o com ar pensativo. - No entanto, aí estaria a salvação. Um rei - não um pequeno chefe tribal, mas um rei que estivesse acima dos outros reis e príncipes; não para os derrubar mas para dar a todos a mesma justiça e a mesma protecção, ser aquele que responde perante os deuses...

Crisso perguntou, incrédulo: - Um rei para toda a Lusi­tânia?

Em vez de lhe responder, Viriato prosseguiu no mesmo tom: - Os Romanos são o povo mais poderoso do mundo, mas foram derrotados por nós e voltarão a sê-lo. Os seus Anciãos, esses Senadores, como lhes chamam, só pensam em enriquecer e quando um general é derrotado fica em perigo, mas se for vitorioso fica também em perigo, porque todos receiam a ambição do vizinho... Compreendem, meus amigos? O poder, em Roma, não é sagrado e quem o agarra usa-o para si... por isso os Romanos são ímpios... e por isso também, não duvidem, Quinto Fábio Máximo Emiliano será chamado a Roma antes que se torne perigoso. E essa vai ser a nossa próxima oportunidade. Mas... já pensaram? Se tivéssemos um único chefe? De boa vontade lhe cederia o meu Comando!

Crisso e Táutalo mexeram-se, pouco à vontade. Viriato deu uma breve gargalhada e acrescentou: - Para quê sonhar? Vamos voltar a Baikor. Partida amanhã, de madrugada.

Quando saímos da tenda, ouvi Crisso dizer em voz baixa: - Um rei... que ideia! O único rei que eu aceitaria acima da minha tribo, seria Viriato!

Pela primeira vez, tive a breve mas deslumbrante visão de um novo futuro, uma força nova na Lusitânia, um grande rei que levasse atrás de si os outros príncipes. Porém, é sacrilégio querer rasgar o véu que os deuses estendem sobre o futuro dos homens.

 

O tempo, que se mantivera seco e agradavelmente fresco, mudou durante a noite. De madrugada, quando montámos a cavalo, pairava rente ao solo uma neblina fria e os cavaleiros pareciam fantasmas deslocando-se entre farrapos de nevoeiro; comecei a ter saudades do forte calor estival da «Mesopotâmia», pois sentia-me enregelado e tremia debaixo do meu manto de peles. Táutalo, insensível ao frio, passou por mim e fez abrandar o trote do cavalo para dizer com um sarcasmo irritante:

        - Se não me engano, este montão de peliças é Tongio, o Cónio!

Ter-lhe-ia respondido, mas apertava os dentes para que não batessem. Só quando o Sol ganhou altura senti que seria capaz de falar e aproximei o cavalo da montada de Táutalo.

- Ontem, quando o Comandante falava da partida, piscaste­-me o olho. Suponho que não era uma alusão à temperatura do ar...?

        Ele riu e inclinou-se um pouco para poder falar a meia voz.

        - De certo modo, era uma questão de temperatura, mas não do ar. Nesta viagem para Baikor vamos fazer um desvio e passar por Aritium Vetus... é lá que se encontra Astolpas, o pai de Tangina. Viriato decidiu falar com o velho - e não só da guerra, mas também de casamento... entendes?

Claro que entendia. Viriato continuava tão pobre como antes mas era o Comandante supremo dos Lusitanos e a sua influência e poder estendiam-se para além dos vínculos de sangue. Astolpas não poderia recusar-lhe a filha, se esta quisesse o casamento.

- Julgava que Astolpas vivia a norte do Tagus - obser­vei - mas Aritium Vetus é na margem sul.

- Tem propriedades nas duas margens e ainda recolhe o ouro do rio. É muito rico... rico demais. Parece-me que o Comandante vai ter mais facilidade em conseguir Tangina que uma promessa de auxílio contra Roma. Um homem como Astolpas tem interesses demasiados e precisa de dar-se bem Com toda a gente.

Nesse momento, Viriato, à frente da coluna, voltou-se e fez um gesto chamando Táutalo, que foi ao seu encontro a galope. Arduno, que até então cavalgara à esquerda de Táutalo, passou para o meu lado e após alguns instantes de silêncio disse abruptamente:

- Vou ser indiscreto, por isso, se quiseres zangar-te, podes começar já.

Era uma introdução idiota e fiz-lho notar. Ele, imperturbável, prosseguiu: - Queria dizer-te isto: desde o começo da nossa viagem (refiro-me à viagem ao Cineticum) não te deitaste uma só vez com mulheres - que eu saiba, claro. Engano-me?

        Admiti que não se enganava (o mesmo já não se poderia dizer a seu respeito, porque aproveitara todas as oportunidades).

- Então, visto que não me enganei, devo dizer-te que isso não é normal nem saudável. Nem habitual, em ti; portanto, julgo saber a razão...

        Incomodado, cortei-lhe a palavra: - Claro que sabes, és a única pessoa que sabe.

        Arduno murmurou em tom de desculpa: - Pronto, mudemos de assunto. Só queria dizer-te que não é saudável.

        Era verdade: havia meses que não tocava numa mulher. A recordação de Sunua estava ainda viva, ela própria me acompanhava, mantendo o meu corpo e a minha alma naquele êxtase desesperado que me roubara a ânsia de consumar o acto sexual. Desde a morte de Sunua, o meu corpo adormecera.

 

O Outono ia no meio quando chegámos a Aritium Vetus. É uma cidade próspera, situada numa região fértil, boa para a agricultura e a criação de gado. Além disso é banhada pelo Tagus e este rio carrega nas suas águas grandes quantidades de ouro.

O Lusitano Astolpas era, de longe, o senhor mais rico, poderoso e influente em toda aquela vasta zona do vale do Tagus. Quando o vi (ele veio ao nosso encontro para receber Viriato) fiquei surpreendido: pelo que Táutalo me dissera, eu imaginara-o um velho gordo, com ar balofo, receoso da guerra e pronto a vergar-se perante a força; afinal, vi um homem alto, de longos cabelos brancos, já maduro mas vigoroso e com um porte digno e nobre. O oposto do que eu o julgara.

Apesar disso, via-se bem que ele e Viriato não morriam de amores um pelo outro. As saudações foram cerimoniosas e frias. Porém a necessidade pode muito e ambos estavam prontos a negociar: Viriato queria Tangina e auxílio em homens e man­timentos, Astolpas precisava da garantia de que a grande haste lusitana evitaria incursões não autorizadas nas suas terras e as protegeria contra vizinhos ávidos ou (nunca se sabe que voltas dá o destino) contra as legiões romanas, apesar da conhecida cordialidade de relações que mantinha com os magistrados da Betúria.

        As conversações não tiveram testemunhas. Ninguém soube o que Viriato disse, mas, como de costume, obteve o que pretendia: Astolpas iria fornecer provisões para o Inverno e permitiria que a hoste recrutasse voluntários entre os seus súbditos. Além disso, declarou-se honrado com o interesse que o Comandante dos Lusitanos manifestava pela sua filha Tangina, a qual certamente não poderia desejar melhor marido.

A jovem teria de ser consultada (as mulheres lusitanas têm o direito de escolher o esposo), porém a resposta era de antemão conhecida - segundo me afiançaram, Tangina apenas comentou que Viriato levara muito tempo a decidir-se; feito este remoque, declarou que o aceitava. Pude vê-la antes da nossa partida, quando veio despedir-se do noivo. Era muito bela, com os cabelos e os olhos negros e uma pele branca e fresca. Olhava e movia-se com a modéstia própria de uma donzela, mas adivi­nhava-se por detrás dessa atitude uma altivez e uma firmeza não inferiores às do futuro esposo... Viriato encontrara, de facto, uma mulher à sua altura.

Para festejar os acordos -logístico, militar, matrimonial­ Astolpas ofereceu um banquete sumptuoso na véspera da nossa partida. Embora ele e Viriato continuassem a tratar-se com distante cortesia, a atmosfera tornara-se menos pesada e o festim foi animado. Viriato, fiel ao seu hábito, bebeu pouco e comeu ainda menos; provou de todos os pratos por simples delicadeza.

Também eu comi pouco, por outra razão: uma das raparigas que nos serviam não tirava os olhos de mim e pela primeira vez desde a perda de Sunua senti que precisava de possuir uma mulher. Apresso-me a esclarecer que não havia nesta disposição qualquer influência das palavras de Arduno!

Como é ridícula a vaidade humana! Aqui estou eu, com os oitenta anos passados, a dar provas de um cómico orgulho juvenil! É claro que houve influência. Arduno despertara-me para uma realidade que eu, por apatia, preferira ignorar. Primeiro fora o choque, a ferida aberta pela morte de Sunua; depois, os dias sombrios de desespero. Enfim viera a habituação e o medo de sofrer mais perdas como aquela. Contudo, o corpo vivia e exigia-me a parte que lhe era devida.

À noite, essa dívida foi paga. Não houve êxtase nem encantamento, mas, o que é talvez igualmente importante, a des­carga de um excesso de energia, o reencontrar de algo que eu julgara não mais desejar. A moça era bonita e alegre; na cama, foi tema com simplicidade, sem pedidos ou promessas. De manhã éramos bons amigos e como tal nos separámos.

 

Entrámos em Baikor no princípio do Inverno. O tempo estava ainda seco e, segundo informações que nos esperavam, as legiões romanas mantinham-se activas, uma notícia que nos pôs em estado de alerta. Viriato dificilmente poderia conter um ataque em força; abandonar Baikor, porém, significaria perder o que lhe restava do seu domínio na Bética.

Vivemos dias de ansiedade. Tomados os presságios, a sua leitura nada revelou, apenas que não devíamos atacar nem retirar; esperámos os acontecimentos. Então, começaram a chegar boas novas: aproveitando o período de seca e procurando uma oportunidade para pilhar alimentos que substituíssem o produto das colheitas em perigo, vários dos povos por nós contactados abriram hostilidades contra Roma: Túrdulos, Vetões, Vaceus-e até Turdetanos... em poucos dias, a rebelião alastrou pela Ibéria como fogo num palheiro.

Recebemos estas notícias com um alívio fácil de calcular e o nosso moral subiu ainda mais quando chegaram a Baikor os contingentes calaicos prometidos a Viria to: tropas frescas e aguerridas (ferozes, mesmo), com uma especial aptidão para receber o treino que lhes seria imposto.

Após a chegada do último bando de guerreiros, o céu cobriu-se de nuvens e as chuvas de Inverno começaram, atrasadas mas torrenciais. A campanha daquele ano terminara.

 

O Inverno em Baikor foi agradável, com alimentos em abundância e boa lenha para queimar. Viriato dirigiu pessoalmente o treino dos Calaicos enquanto Crisso, Táutalo e eu próprio nos encarregávamos de manter em forma os veteranos da hoste, organizando jogos, exercícios e caçadas. Para compensar a população pelos inevitáveis inconvenientes trazidos pela permanência de um exército junto da cidade, fizemos escoltas de protecção às caravanas de mercadores e a outros viajantes. Não houve conflitos graves (a presença do Comandante bastava para manter a disciplina) e as eternas questões de mulheres foram resolvidas em paz e com justiça.

Por vezes, Viriato requisitava-me para o assistir no treino dos Calaicos e era um prazer ver o entusiasmo que eles mostravam - mas não gostaria de os encontrar pela frente no campo de batalha. Nasceram para a guerra; quando combatem na Calécia, as próprias mulheres, que lutam a seu lado, são tão ferozes e aguerridas como os maridos.

Entretanto, eu procurava uma ocasião (não forçada) para falar com Viriato. Ela proporcionou-se uma noite em que, depois de longa conversa em volta da fogueira, Táutalo, Arduno, Crisso e mais alguns outros se despediram para ir dormir. Viriato e eu ficámos sós. Pensei durante alguns momentos e decidi não fazer rodeios.

- Lembras-te da última noite que passámos em Igedium?

        Ele estremeceu, como se acordasse, e virou o rosto para mim. O clarão incerto das chamas avivava os seus traços, tornando-os mais duros.

- Falaste da necessidade de dar um rei aos Lusitanos. - Sim - respondeu, num tom reservado - mas isso era um desabafo. Há já muitos reis e chefes na Lusitânia.

        Tentava fugir ao assunto; porém eu começara e iria até ao fim.

- Bem sei. Tu falaste num rei que os comandasse na guerra e respondesse por todos perante os deuses. Quando te afastaste, Crisso resmungou (Crisso resmunga sempre, como sabes) que só aceitaria tal ideia se esse rei fosses tu... o que quero dizer é isto: estou certo de que muitos outros chefes pensam da mesma forma.

Viriato voltou a olhar para a fogueira.

- Talvez. Mas eu não tenho essa ambição, Tongio. O que quero é unir os Lusitanos e os outros povos contra Roma.

        - Uma coisa depende da outra. A nossa hoste não hesitaria um instante em proclamar-te rei.

        Viriato levantou-se e segui-lhe o exemplo. Muito sério, aproximou-se de mim e apertou os meus ombros com força.

- Não é um exército que faz um rei. Ele tem de ser designado e consagrado pelos deuses. Eu faço o que tenho de fazer. Se os deuses quiserem que eu seja rei, darão um sinal da sua vontade. Mas querer a realeza sem o compromisso, sem a consagração... querer a realeza assim é um acto de impiedade.

-Mas...

- Não, ouve ainda. Mal comece a Primavera, tentarei espalhar a revolta por toda a Ibéria. Quem sabe o que sucederá depois? Até lá, esperamos. A Grande Deusa, no santuário da Lua, não te disse que o homem do touro seria coroado... e agora, boa noite.

Sorriu, somente para mostrar que não estava zangado, e foi­-se embora. Eu disse ainda nas suas costas:

- Mas a Deusa também não disse o contrário!

Ele continuou a andar e eu fiquei só, sem vontade de dormir.

Quando enfim me deitei, dormi mal, tive sonhos confusos, cheios de vozes e de imagens que não conseguia fixar. Na manhã seguinte acordei fatigado e mal disposto; felizmente não haveria exercícios nem jogos - era um dia de festa em Baikor, votado aos deuses da cidade.

A cerimónia religiosa foi longa, acompanhada de cânticos entoados por rapazes e raparigas no princípio da puberdade. À medida que os ritos prosseguiam, parecia criar-se uma expectativa especial, como se o mais importante estivesse para acontecer. Não resisti à curiosidade; afastei-me alguns passos (até então estivera integrado no pequeno grupo que rodeava Viriato, a quem fora dado o lugar de honra) e detive um dos rapazes do coro quando passava, apressado, no cumprimento de qualquer tarefa, para lhe perguntar o que ia acontecer. Ele murmurou:

        - Está a chegar o momento do oráculo, a Senhora do Altar vai aparecer...

        - Quem é?

        - Ele retorquiu impaciente: - Cróvia, que pronuncia os oráculos para o novo ano!

        Desprendeu-se e continuou o seu caminho enquanto eu voltava à minha posição, à esquerda de Viriato. Ignorava que havia em Baikor uma profetiza; conhecia apenas a da Serra da Lua e ouvira falar de outra, que lia o futuro num templo de Clúnia. Na lbéria não há muitas mulheres com o dom da profecia.

Uma trompa soou. Os sacerdotes voltaram-se para a porta do templo, que se abriu logo a seguir e do interior saíram, em duas filas, dez raparigas lindas, vestidas de linho branco. Novo toque se ouviu e um vulto imponente apareceu no limiar do templo: Cróvia, a profetiza. O complicado e riquíssimo toucado, a pintura dos olhos e da boca disfarçavam quase por completo as suas feições. Pelo porte vi que era jovem, mas já não uma adolescente.

Cróvia avançou devagar, com o corpo rígido, fazendo apenas os gestos rituais. Parou diante da ara, voltada para a assistência, e ao seu encontro veio um sacerdote com a vítima nos braços, um cabritinho. O animal mostrava-se tão manso que calculei que lhe tivessem dado alguma erva especial a comer; quando o pousaram sobre a ara, ficou muito quieto, como se estivesse ao pé da mãe. Então, lentamente, a profetiza passeou o seu olhar pela multidão. Desconhecendo o ritual, eu perguntava­-me se ela teria a força suficiente para abater a vítima, mas de repente reparei que todos os olhares estavam cravados em mim. E Cróvia apontava na minha direcção.

Pela expressão de inveja que lia nas caras dos rapazes de Baikor, depreendi que me fora concedida uma grande honra, porém não sabia qual. Táutalo cortou-me as hesitações dando­-me um empurrão e sussurrando: - Anda, paspalho! Avança!

Obedeci e caminhei até junto da ara. O sacerdote mais velho entregou-me um enorme machado cuja lâmina bem afiada rebrilhava ao Sol. Compreendi então: a profetiza escolhia o sacrificador. Empunhei o machado e voltei-me para Cróvia; vendo-a de perto dei-me conta de que era extremamente bela. À distância, a pintura ocultava as linhas sensuais do rosto e o brilho húmido dos olhos. Ela fitou-me e as suas pálpebras tremeram, mas logo recuperou a expressão rígida e numa voz inexpressiva pronunciou:

- Os deuses esperam o sacrifício, estrangeiro.

        Segurei o cabo do machado com ambas as mãos, ergui-o bem acima da cabeça. Deitado sobre a ara, o cabrito expunha o pescoço ao golpe. A lâmina desceu cortando o ar com um silvo e um jacto de sangue quente inundou as minhas mãos. O animal continuou a estremecer mesmo depois de a pequena cabeça tombar no solo. Cróvia manteve-se impassível enquanto as raparigas, já treinadas, se acercaram de mim e uma delas – a mais bonita - lavou-me com água lustral.

        A profetiza começou a falar numa voz sonora e vibrante.

Falou durante muito tempo e não compreendi nada - aliás, só os sacerdotes poderiam interpretar o oráculo. Começava a sen­tir-me cansado e um pouco aborrecido quando a cerimónia chegou ao fim; pelo menos, julguei que era o fim, porém quando fiz menção de me afastar um gesto de Cróvia deteve-me. Sempre na sua pose hierática, deu meia volta e encaminhou-se para o templo... alarmado, compreendi pela atitude das acompanhantes que eu devia segui-la. Deitei um olhar apreensivo a Viriato, mas o Comandante parecia tranquilo e fez-me um pequeno sinal incitando-me a obedecer; apesar da sua habitual gravidade, acentuada ainda pela solenidade da ocasião, julguei ver nos seus olhos uma vaga expressão divertida. Respirei mais à vontade;

Viriato nunca abandonava os seus homens e se os ritos de Baikor incluíssem um sacrifício humano recusar-se-ia a entregar-me.

        O templo era pequeno e escuro. Quando a porta se fechou atrás de mim a única iluminação vinha da chama que ardia diante da imagem de um deus cujo nome desconheço - uma escul­tura arcaica, de traços grosseiros. Cróvia não se deteve, excepto para saudar a divindade. Encaminhou-se para uma porta lateral e desapareceu seguida por duas jovens. As outras rodearam-me e fizeram uma profunda vénia, após o que me conduziram para a mesma porta. Atravessámos um pátio fechado e entrámos numa sala ricamente decorada. Com movimentos hábeis, as sacerdotisas despiram-me por completo.

A um canto da sala havia um tanque, escavado no solo rochoso, que estava cheio de água tépida e perfumada. Entrei no banho e depois deixei que me secassem - só não permiti que retirassem o amuleto que trazia ao pescoço. Vestiram-me com uma túnica de linho branco, cingida com um cinturão de couro trabalhado, e levaram-me até outra porta que eu não vira antes por estar oculta atrás de uma cortina. Parei no limiar, deslumbrado.

Em minha frente encontrava-se a mulher mais bela do mundo - ou assim a julguei então. Sem a pintura, os toucados e as vestes cerimoniais, Cróvia era uma obra-prima. Admirei longamente as suas formas, os cabelos ruivos tombando em cascata sobre os ombros, os seios rijos e levantados, a pele cor de marfim. Um ruído fez-me saber que a porta se fechara nas minhas costas. Cróvia estendeu os braços.

        - Vem. O rito deve ser cumprido.

 

Voltei ao acampamento a tempo de começar o meu serviço de ronda às sentinelas. Um pouco embaraçado, vi os sorrisos à minha volta. (Táutalo perguntou-me se não queria trocar de turno, «porque deves precisar de dormir - essas olheiras!» ­recusei, claro.)

De facto, quase não dormira; o ritual fora devidamente cumprido mas depois de satisfazer os deuses fora preciso satisfazer a sua profetiza e esta era pouco menos que insaciável. À medida que a noite correra, o ambiente entre nós tornara-se menos sagrado e mais humano. Cróvia era mestra na arte do amor; raras vezes (que digo eu? Nunca!) encontrei uma mulher assim. Pouco admirava que me sentisse esgotado, vazio e ator­doado pela manhã, mas aguentei a pé firme. Quando enfim pude comer, devorei um enorme pedaço de cabrito assado, regado com cerveja, e recolhi à tenda. Dormi até tarde, um sono profundo e magnífico.

Arduno acordou-me ao pôr do Sol dizendo que o Coman­dante desejava falar comigo «quando eu estivesse recomposto». Respondi que já estava e levantei-me. Enquanto me vestia, Arduno deu-me uma pequena novidade: eu não fora o único a passar uma noite «agradável» (segundo a sua expressão); Viriato levara uma rapariga para a tenda.

- Podes dizer que a levou por cortesia, já que ela lhe foi oferecida pelos Anciãos, mas pelo ar satisfeito da moça, esta manhã, tenho a certeza de que não foi só uma concessão às leis da hospitalidade. Achas que ele vai tomar-lhe o gosto?

- Arduno, és um alcoviteiro sem vergonha. Mesmo um homem como Viriato, que se lança inteiro, de corpo e alma, numa empresa - mesmo um homem assim precisa de ceder aos sentidos, de vez em quando. E ele passou um mau ano, embora não o diga em voz alta. É natural que precisasse, ao menos por uma noite, de esquecer a hoste e o Comando. Enfim, não é da nossa conta e eu estou pronto.

Viriato estava sozinho, sentado no tronco de uma árvore abatida pelos lenhadores. Fez um gesto convidando-me a sentar­-me ao seu lado.

- Espero que a honra que te foi concedida tenha sido agradável - disse com o seu ar tranquilo - chamei-te só para te explicar que o que sucedeu foi o cumprimento de um costume de Baikor.

- O sacrifício?

        - O sacrifício e o resto. A profetiza escolhe o sacrificador e depois recebe-o no seu leito. É um acto sagrado, para garantir boas colheitas e crias saudáveis para o gado. Isto acontece desde tempos que escapam à nossa memória e é sempre a profetiza que escolhe... ou os deuses, por seu intermédio.

Recordei os olhares de inveja dos jovens de Baikor e, como pensara em voz alta, Viriato ouviu e observou:

- Sim, uma inveja natural. É grande a honra de executar o sacrifício, mas suspeito que o verdadeiro objecto de inveja era a noite sagrada, na cama da profetiza. Quando Cróvia for velha, os olhares serão de alívio. Entretanto, é possível que ela volte a chamar-te e dessa vez não será para cumprir um rito. Faz o que quiseres, és livre. Mas dentro de alguns dias, Tongio, vamos partir, a guerra vai recomeçar. E então terás de escolher...

Não o deixei continuar; indignado, protestei contra o fraco juízo que fazia de mim. Ele levantou a mão para me fazer calar e declarou:

- Nunca deixei de confiar em ti, mas conheço Cróvia e os seus artifícios, quando pretende conservar um homem que lhe agrada. Não falaremos mais deste assunto; entretanto, não esqueças o que te disse.

Nessa noite, quando ia cear, duas das jovens sacerdotisas surgiram na minha frente com archotes. Não falaram, porém eu compreendi e segui-as. Ela esperava-me no seu quarto, onde o ar era morno e carregado de aromas. Uma ceia estava servida, muito melhor que a refeição que eu deixara no acampamento. Tal como na véspera, só regressei ao amanhecer.

E o mesmo sucedeu nos dias seguintes. Agora, passados tantos anos, posso dizer que não amei Cróvia, mas na altura era incapaz de distinguir entre o amor e a paixão física, violenta e obsessiva, que ela foi capaz de despertar em mim. Não vou descrever as longas e tumultuosas noites, os actos de loucura, o prazer quase doloroso, gozado até à exaustão. As palavras são insuficientes - e depois, que importa agora tudo isso? A característica especial da paixão é arder até às cinzas e extin­ guir-se por completo. Então, as cinzas são sopradas pelo vento e nada mais resta.

 

As chuvas e o frio diminuíram de intensidade e chegaram a Baikor os cavalos prometidos pelos sacerdotes de Coaranio­niceus. Não sei que caminhos desconhecidos escolheram para viajar ou se usaram de magia, o certo é que os nossos vigias não deram pela sua aproximação.

Viriato chamou-me, e a Arduno, para nos agradecer e elo­giar publicamente a nossa ideia. Os cavalos eram magníficos; pequenos, resistentes, velozes - enfim, tinham as principais características da linhagem sagrada. Foram entregues aos cuidados dos nossos melhores cavaleiros, que se encarregaram de terminar a sua preparação. Viriato ficou tão bem impressionado com os animais que entrou em negociações com os sacerdotes de Coaranioniceus que haviam conduzido a manada e obteve a promessa da entrega, no ano seguinte, de mais uma centena.

 

Não foram só os cavalos de Olisipo que chegaram a Baikor. Mensageiros vindos do vale do Bétis e da Carpetânia trouxeram informações sobre os movimentos do inimigo. Este encontra­va-se novamente em situação delicada: os povos sublevados no princípio do Inverno prosseguiam as hostilidades e, por outro lado, os governadores romanos tinham sido substituí­dos. Conforme Viriato previra, Emiliano fora chamado a Roma e na Ulterior encontrava-se agora o propretor Quinto Pompeio. O Governo da Citerior fora entregue ao pretor Quíncio, uma retumbante nulidade, ao que se dizia.

Chegara, portanto, o momento de estabelecer novo plano de campanha. Ao contrário do que seria de esperar (pensava eu), Viriato decidiu não tentar recuperar imediatamente as posições perdidas na Bética. Em vez disso, procuraria fazer alastrar a revolta e levá-la mesmo até aos aliados de Roma.

- E quando atacarmos - anunciou o Comandante ­começamos pela Citerior. Se esse Quíncio for tão fraco general como se diz, o nosso trabalho será mais fácil e poderemos pôr à prova, sem grandes riscos, a nova cavalaria. Portanto, quero que todos se preparem para a partida; já ficámos de­masiado tempo em Baikor. Dentro de três dias, marchamos para o Norte.

As últimas palavras foram ditas a olhar para mim. Sustentei o olhar e, à noitinha, quando as duas sacerdotisas vieram buscar­-me, parti seguro de mim próprio.

Era uma confiança excessiva. Ao vê-la, no leito recoberto de peles e tecidos preciosos, gelou-se-me o sangue perante a ideia de a abandonar. Estava envenenado pelo seu corpo, pelos per­fumes da sua pele, até por aquele quarto repleto de ouro, jóias e aromas estranhos que excitavam o desejo.

Ela sabia que a hoste ia partir. Não sei se o leu nos meus olhos, se foi o seu dom profético - ou se tinha informadores, pois nada do que sucedia em Baikor lhe escapava. Fosse como fosse, disse-mo; e fê-lo como se soubesse de antemão que eu ficaria ali, aos seus pés, adorando-a. A noite foi ainda mais deliciosa, perturbante e febril que as anteriores.

Os deuses, que não gostam de ser contrariados, envia­ram-me um raio de Sol. Pela manhã, ao acordar, a luz do dia esgueirava-se para dentro do quarto através de uma fresta da ja­nela. Tinha de regressar ao acampamento; Cróvia dormia ainda e debrucei-me com cautela para a beijar sem lhe perturbar o so­no. O raio de Sol, estreito e brilhante como uma fita luminosa, batia na cama ao lado da sua cabeça. Então, ao olhá-la adormeci­da, vi o seu rosto abandonado a si próprio, tal como era, um rosto duro, ávido, não de profetiza mas de cortesã. Rugas que nunca vira antes sulcavam-no e davam-lhe uma expressão viciosa.

Foi um choque inesperado. Percorri o olhar pelo seu corpo; nos dias santificados ele era iluminado e possuído pela divindade, mas quando o deus se retirava ficava apenas uma mulher sem alma que só conhecia os seus prazeres e os seus caprichos... Eu, Tongio filho de Tongétamo, era o seu prazer e o seu capricho, nada mais.

Deslizei devagar para fora da cama, vesti-me e saí. No exterior, o ar puro e frio fez-me bem; com passos rápidos encaminhei-me para o acampamento e, num riacho próximo, tomei um banho de água gelada para me libertar do perfume que ficara agarrado à minha pele. À noite, quando as sacerdotisas vieram procurar-me, disse a uma delas:

- Transmite à Senhora Cróvia as minhas saudações e diz­-lhe que o meu coração está infinitamente triste porque não poderei ser honrado com a sua companhia. A hoste vai partir e os meus deveres militares prendem-me.

Pelo rosto da moça espalhou-se uma expressão de terror. Provavelmente, não lhe seria salutar levar um tal recado, a profetiza não era mulher para receber bem os portadores de notícias desagradáveis. Tive pena dela e perguntei-lhe:

- Receias que a tua senhora te trate mal? Queres que eu fale com ela?

O pequeno rosto oval fechou-se. Sem uma palavra, virou­ -me as costas e partiu seguida pela companheira. Desisti de a compreender; os mistérios das mulheres são sagrados e não devemos tentar desvendá-los.

Na véspera da partida, a hoste ofereceu sacrifícios aos deuses da guerra em dez aras diferentes, tantas quantas os deuses venerados pelas tribos que compunham o exército lusitano. Atrás de cada uma foi erigida a imagem do respectivo deus, com excepção da ara dos Calaicos, porque este povo não faz estátuas das suas divindades.

Oferecemos dez cavalos de batalha escolhidos entre a manada vinda de Olisipo. Todos os presságios se mostraram favoráveis.

 

Muitas coisas, verdadeiras e falsas, foram ditas sobre Viriato. Como acontece com todos os grandes homens, ele transformou­ -se numa lenda e as lendas, regra geral, são injustas mesmo para aqueles que pretendem glorificar. Por exemplo: ouvi não poucos disparates e exageros sobre a força e a bravura do Comandante (ele era um herói, não um deus); em contrapartida, ficaram esquecidos, por menos espectaculares, verdadeiros prodígios de estratégia, diplomacia e eloquência. O ano a que me refiro agora foi sem dúvida um ano de prodígios - que outro nome se poderá dar à sublevação da Celtibéria, iniciada unicamente pela palavra de Viriato?

Na Primavera, entrámos na Hispânia Citerior. Em vez de atacar as legiões de Quíncio, Viriato conduziu-nos a uma região que, julgar-se-ia, seria a última a dar-nos bom acolhimento: as terras habitadas pelos Titos e os Belos. Estes povos, submetidos a Roma desde longa data, tinham sofrido a mais humilhante der­rota às nossas mãos, quando, no primeiro ano do seu comando, Viriato fizera aniquilar a coluna de reforços enviada a pedido do exército de Vetílio, já então destroçado e refugiado em Carteia.

Nem mesmo Táutalo se sentiu feliz com esta decisão, po­rém, contra todas as previsões, a hoste avançou sem provocar a mobilização geral. É verdade que não entrámos em som de guer­ra, pelo contrário; Viriato anunciou que qualquer violência seria punida com a morte e enviou emissários aos reis e chefes da região. Suponho que a nossa chegada terá causado o pânico, e que, provavelmente, houve um alívio proporcional quando os embaixadores foram recebidos e isso operou a primeira parte do prodígio.

O efeito foi completado pela presença e a palavra de Viriato na assembleia de chefes que se reuniu depois. Não me recordo das palavras exactas, lembro-me somente de como ele conquistou a assistência apenas com a força dos seus argumentos e a magia da sua voz - quando queria, dava-lhe uma vibração especial que a tornava irresistível. Absteve-se de sugerir que Titos e Belos aceitassem integrar-se na haste lusitana, não fosse a derrota sofri­da quatro anos antes ter deixado algumas recordações mais amargas. Limitou-se a exortá-los à revolta e solicitou que coorde­nassem os seus ataques: ele iniciaria a ofensiva contra Quíncio e - garantiu - vencê-la-ia. Então, seria a vez dos Celtiberos. A proposta foi aceite sem hesitações.

Nunca apreciei tanto um banquete como o que se realizou no final da assembleia. Era o gosto da vitória que dava um sabor especial às iguarias e aos vinhos... uma vitória conseguida apenas por Viriato - e tão brilhante como as que obtivéramos em combate. Voltei a pensar como seria magnífico vê-lo aclamado rei dos povos lusitanos; nenhum outro homem lograra realizar o que ele realizara, nenhum merecera, como ele, a realeza.

A euforia era geral. Já no final do festim, o grupo dos amigos íntimos pôde reunir-se à volta de Viriato e todos queríamos saber quando atacaríamos Quíncio.

- Ainda não; mais tarde - respondeu ele. - Não acabá­mos o que viemos fazer aqui. Os Belos e os Titos são importan­tes, mas para levantar a Celtibéria é preciso conquistar a sua alma: Numância , os Arevacos.

Táutalo emitiu um pequeno assobio. - Se aderirem, Quíncio bem pode preparar a bagagem, embarcar para Roma e esconder-se debaixo da cama!

Viriato assentiu. - São os mais numerosos, os mais aguer­ridos; e a capital deles é uma fortaleza impossível de tomar. Para ganharmos esta guerra precisamos de Numância revoltada contra Roma, porque os Arevacos, e sobretudo os Numantinos, quando começam uma empresa levam-na até ao fim.

 

Precedida por dois cavaleiros ostentando os símbolos da paz, a hoste aproximou-se da cidade, fez alto e esperou que um destacamento da guarnição viesse ao seu encontro; depois recuou uns cinco estádios e ocupou o terreno indicado pelos Numantinos como local para acampar. Vieram emissários com um convite formal; o estado-maior montou a cavalo e seguiu Viriato, que para esta ocasião solene se adornara com o seu capa­cete de plumas vermelhas.

Numância impressionou-me. Não era, como Gadir, uma cidade opulenta. Gadir impõe-se pela riqueza, Numância impressionava pela força. As muralhas formavam uma compacta massa de pedra, tão espessa e formidável que eu acreditaria que remontava aos tempos das pedras gigantes levantadas pelos deuses. A grande cidade dos Arevacos nada tinha dos luxos do Sul, mas era nobre na sua dureza agreste.

Perante os Numantinos, Viriato empregou todos os seus recursos oratórios. O encontro com os Titos e os Belos não passara, afinal, de um ensaio, um exercício antes da batalha; esta era a verdadeira batalha, a grande parada do seu jogo.

Se todos os homens de Numância o tivessem escutado, ele sairia da cidade aclamado general dos Arevacos; infelizmente, Viriato não falou numa assembleia de guerreiros, só os chefes estavam presentes; mostraram-se convencidos e vibrantes de entusiasmo, mas não ao ponto de esquecer os seus próprios poderes e prerrogativas. Não chegou a haver uma possibilidade real de os fazer aceitar um comando unificado. Viriato era para eles um aliado e um amigo, nada mais.

A campanha contra Quíncio foi rápida e fulminante. Na verdade, dir-se-ia a repetição exacta do que sucedera a Pláucio: Viriato simulou uma derrota e retirou para o «Mons Veneris», escolheu as posições que mais lhe convinham e caiu de surpresa sobre o pretor. Quíncio deixou mil mortos no campo de batalha e regressou às suas bases, onde o esperavam notícias da revolta celtibera. Desesperado, fez uma última tentativa enviando con­tra nós um corpo de exército sob o comando de Caio Márcio, um Ibero renegado; Viriato não se dignou a fazer-lhe frente: um destacamento da cavalaria lusitana, conduzido por Táutalo, destroçou essas tropas. Já então Quíncio estava em marcha para Corduba, onde (tal como Pláucio) se estabeleceu precocemente em quartéis de Inverno.

Viriato voltou-se enfim para a Bética, derrotou Quinto Pompeio sem dificuldade e marchou sobre Itucci, decidido a recuperá-la por causa da sua posição estratégica. Também esta tarefa não foi difícil. Os Itucenses, ao verem o nosso exército, abriram as portas da cidade e proclamaram-se aliados do Comandante dos Lusitanos.

Deveriam conhecê-lo melhor. Viriato recebeu as boas­-vindas do Conselho dos Anciãos e depois, com o semblante muito amigável, anunciou que ia contar uma história. Desorientados, os nobres velhos de Itucci declararam que nada podia ser-lhes mais agradável.. então, o Comandante contou­-lhes a história de um homem que tivera a imprudência de arranjar duas esposas; como estas possuíam gostos diversos e o pobre do marido queria manter a paz doméstica a todo o custo, acabou na miséria. O silêncio atemorizado que se seguiu à narrativa provou que os Anciãos a tinham compreendido. Itucci abrira as portas a Viriato, quando da primeira ocupação; deixara­-se reocupar pelos Romanos com facilidade muito suspeita e agora voltava a declarar-se a nosso favor.

Após esta advertência, Viriato apressou-se a aproveitar as vantagens de tão pronta rendição e assumiu virtualmente o domínio da cidade, tendo embora o cuidado de deixar à decisão dos Anciãos todos os assuntos que não eram do âmbito militar. Nenhuma lei foi abolida ou violada, nenhum dignitário substituído; mas Itucci transformou-se numa praça-forte lusitana. Para o quo­tidiano dos habitantes, a única diferença foi passarem a contar com a protecção da hoste; Viriato recorreu aos Itucenses mais jovens, reforçou-os com efectivos nossos e fê-los ampliar e aperfeiçoar as fortificações. Mal os trabalhos terminaram, reuniu as tropas e anunciou nova campanha.

Até à chegada do Inverno multiplicámos as incursões na Bastetânia, que se nos oferecia indefesa. Nunca o poder romano estivera tão abalado na Ibéria.

 

O produto dos saques feitos na Bastetânia foi suficiente para nos mantermos durante o Inverno sem exigir demasiados sacrifícios à população de Itucci. O período das chuvas foi sossegado e repousante: tínhamos alimentos, alojamento - e informações, pois a influência de Viriato alargara-se tanto que os mensageiros afluíam quase ininterruptamente, sempre que o tempo o permitia.

Nenhuma dessas informações era discordante. Com as vitó­rias lusitanas e o levantamento dos Celtiberos, o pânico insta­lara-se em Roma, onde já se temia que os Ilergetas, invocando a memória do seu rei Indibilis, pegassem também em armas e lograssem levar o incêndio da revolta para lá das montanhas que separam a Ibéria das Gálias. O Senado votara a nomea­çào do cônsul Lúcio Cecílio Metelo, recentemente eleito, para o governo da Hispânia Ulterior e dera-lhe ordem para marchar o mais rapidamente possível. Quanto à Citerior, nada se sabia. Metelo chegou ainda em pleno Inverno e conseguiu algumas vantagens na Celtibéria. Viriato preparou nova campanha para a Primavera e, quando o dia aprazado para a partida se apro­ximou, mandou-me chamar.

- Mais uma vez, teremos de passar sem a presença do nosso guerreiro brácaro... ou melhor, neste caso deverei dizer: o nosso guerreiro cónio.

- Compreendo - retorqui - queres que faça nova tentativa no Cineticum?

Ele assentiu. - Vai ser mais fácil, agora que a vigilância romana está desorganizada. Aliás, tanto quanto me dizem os mensageiros vindos do Anas, os ânimos dos Cónios andam exaltados... é preciso apressar a decisão.

- Quando devo partir?

Ele deu alguns passos reflectindo. - O mais depressa possível. Convém, apesar de tudo, arranjares um disfarce, para qualquer emergência. Mercador: é o mais indicado. Entretanto, a caminho do Cineticum, poderias visitar a tua mãe. Também tenho interesse em que o faças, para renovar os contactos com os nossos aliados de Arcóbriga e Menôriga.

Agradeci-lhe reconhecido, tanto mais que, sabia-o bem, não era realmente necessária uma visita às duas cidades, para onde Viriato ainda recentemente mandara emissários com presentes. Havia seis anos que eu não via a minha mãe, nem Lobessa, nem os meus amigos de Arcóbriga. Para um guerreiro, sempre em risco de vida, seis anos são uma eternidade.

 

Por alguma razão profunda (que eu, na altura, desconhecia) experimentei uma sensação estranha ao atravessar o Anas e ver uma paisagem tão conhecida. Surpreendi-me a pensar: «Enfim, regresso a casa"... só que eu não tinha casa, o meu lar era uma tenda e a insígnia do touro; a minha família um exército e um comandante. Nunca antes me preocupara com isso. À me­dida que um homem amadurece, começa a reflectir em certas coisas: não temia a morte em combate, porém começava a perguntar-me se alguma vez teria uma casa e uma mulher a que pudesse chamar minhas - e filhos para perpetuar o meu nome e fazer-me as oferendas quando chegasse a hora.

Apesar destes pensamentos, encontrava-me em excelente disposição de espírito quando avistei ao longe o santuário de Endovélico no cume do seu outeiro. Foi como se voltasse ao dia em que ali chegara pela primeira vez: o silêncio, a tranquilidade, a brisa ligeira, até as nuvens que corriam pelo céu luminoso pareciam as mesmas.

A imutabilidade era aparente. Ao acercar-me do caminho sagrado que permite o acesso ao topo do morro, pude ver modificações: duas ou três casas recentes, bem como novas estátuas do deus oferecidas por peregrinos. A casa da minha mãe ficava a meio da encosta, ligada ao caminho sagrado por um carreiro estreito. Dirigi-me para lá; uma voz, pronunciando o meu nome, fez-me parar. Quase não reconheci um dos acó­litos do sacerdote, pois quando partira ele era um garoto à beira da adolescência e agora estava um homem. Mostrou-se encantado por me ver, mas não surpreendido: com o reacender das guerras na outra margem do Anas, os Anciãos de Arcó­briga e Meríbriga tinham mandado colocar vigias e estafetas escondidos ao longo dos caminhos principais. Um dos vigias reconhecera-me.

O moço contava-me isto com grande exuberância de gestos e palavras, a tal ponto que me levantou uma suspeita. Por duas vezes tentei interrompê-lo; à terceira compreendi que havia algo errado. Um berro dado no tom próprio (não era em vão que eu estava num exército em campanha há seis anos) fê-lo calar-se. Sorri, para anular um pouco o efeito, e perguntei-lhe:

- Aconteceu alguma coisa à minha mãe?

        Ele colou os olhos ao chão e nesse instante compreendi porque, ao ver-me, se apressara a pôr-se à frente de um grande carvalho, mesmo à beira do caminho, e não saía dali. Uma onda de revolta apoderou-se de mim - revolta contra mim, que nada pressentira nem fora capaz de considerar a possibilidade.

Dominei-me e disse em voz baixa:

- Percebo. Podes sair daí.

        Ele deu um passo para o lado. O túmulo era muito bom, para o nível dos artistas de Arcóbriga. Estava encostado ao tronco do carvalho de modo a ficar protegido pela folhagem. Sobre a grande laje fora gravada uma inscrição em caracteres ibéricos: Camala, de Balsa no Cineticum. Uma servidora do Senhor Endovélico. Mais abaixo havia outra frase que, a julgar pela diferença na coloração da pedra, fora acrescentada posteriormente: Uma benfeitora do santuário.

Nós nascemos para morrer, é a condição humana; seria ímpio criticar a vontade e a sabedoria dos deuses. A morte de Camala não me revoltava, o que não podia perdoar - a mim próprio - era não a ter visto mais uma vez. Para além dos ressentimentos de mulher possessiva que vê o filho escapar ao seu domínio, para além da minha ânsia de libertação, um grande amor nos ligava.

O ruído de ervas secas pisadas chamou-me à realidade. O acólito desaparecera e em minha frente estava Lobessa, que ele certamente fora chamar. Sem perder tempo com saudações, ela disse-me o que eu queria saber:

- Morreu serena, sem sofrimento. Foi há dois anos. Tinha adoecido no Inverno anterior e nunca mais ficou boa... ela sabia, Tongio; mandou fazer o túmulo, com a primeira inscrição. O sa­cerdote (não o que tu conheceste, esse já morreu) o sacerdote autorizou-a a escolher o local. Quando ela piorou...

- Falou em mim?

        - Uma só vez. Nunca deixou de amar-te, mas deves compreender que o deus a tomara nos seus braços. A minha senhora Camala serviu-o bem e ele pagou esse serviço tirando­-lhe cuidados e sofrimentos. Foi enfraquecendo; enquanto pôde, continuou a tratar dos peregrinos. Morreu muito docemente. O sacerdote, em pessoa, cumpriu os ritos e mandou acrescentar no túmulo aquela frase: Uma benfeitora do santuário. O nome da tua mãe é venerado em toda esta região.

Houve um curto silêncio que eu quebrei:

- Antes de mais, devo oferecer-lhe um sacrifício e pres­tar-lhe homenagem. Depois, Lobessa, quero falar conti­go... para já, uma pergunta: a minha mãe libertou-te antes de morrer?

Lobessa desviou o olhar e corou. Após um momento de hesitação, respondeu:

- Sim, a minha senhora foi muito bondosa. Pouco depois da tua partida, libertou-me da servidão e... ofereceu-me um dote quando casei.

O vago frio que senti no estômago envergonhou-me. O que esperava eu, afinal? Alguma vez pensara em desposar Lobessa? Esperaria que ela ficasse eternamente só, para o caso de eu passar ali? Atentei melhor nela. Continuava bonita mas tornara­-se mais pesada, as ancas estavam mais largas e perdera, compre­ensivelmente, o brilho e a bela alegria impudente dos velhos tempos. Era uma mulher casada e tranquila; se eu não estivesse abalado pela morte de Camala, teria já reparado na mudança.

Apressei-me a dizer:

        - Fico muito feliz ao saber isso, Lobessa. Espero que o teu marido seja bom para ti... quem é ele?

        - Um homem de Meríbriga. Não é rico, mas temos o suficiente para nós e para o nosso filho.

Um filho! Era de esperar, claro. Felicitei-a com toda a sinceridade e juntos subimos ao santuário. Enquanto caminhá­vamos, ela explicou-me como substituíra, até certo ponto, a minha mãe no acolhimento dos peregrinos, pois Camala trans­mitira-lhe muitos dos seus conhecimentos medicinais. Além desse trabalho, cuidava do bocado de terra que era propriedade do marido. Uma vida muito ocupada mas sem outros cuidados que não fossem o eventual alastramento da guerra à «Meso­potâmia»... essa preocupação com a guerra é a sina de todas as mulheres desde que o mundo existe.

Lobessa apresentou-me ao sacerdote, um homem vigoroso, com os seus quarenta anos. A memória e a reputação da minha mãe estavam bem vivas, como pude verificar pelo respeito e a cordialidade que ele manifestou, convidando-me a pernoitar na sua residência, onde travei conhecimento com a mulher, uma rapariga de Meríbriga com quem casara depois da sua investidura no sacerdócio de Endovélico.

As oferendas a Camala, a visita de cortesia aos Anciãos de Arcóbriga e Meríbriga e as saudações aos amigos que tinha nas duas cidades ocuparam-me dois dias inteiros, durante os quais mal pude ver Lobessa. Só voltei a falar-lhe na manhã do terceiro dia, pouco antes da minha partida para o Cineticum. Eu dissera­-lhe que gostaria de conhecer o marido e o filho, mas ela invocara sempre um impedimento qualquer - o marido estava ausente, com o gado, nas pastagens; o filho estava adoentado. Era natural, pensei, que pretendesse manter bem separados os dois períodos da sua vida: o de escrava e minha amante, o de mulher livre, casada e mãe.

Em todo o caso, na manhã desse terceiro dia, procurou-me no santuário quando eu vigiava os escravos que carregavam a mula com a bagagem e alguns tecidos destinados a completar o meu disfarce de mercador. Falámos um bom bocado sobre os tempos passados e por fim. ela disse ter algo a entregar-me: a herança da minha mãe, isto é, as jóias e o dinheiro que Camala não chegara a gastar pois levara uma vida simples e o santuário oferecera-lhe tudo quanto necessitara.

Ia responder-lhe mas fui interrompido por uma voz de criança que chamava: «Mãe!» Um garoto espigado e esguio, de belos cabelos negros encaracolados, corria na nossa direcção. Voltei-me para Lobessa e surpreendi-a fazendo um gesto evidente -­ uma ordem muda ao filho, para que se afastasse. O meu olhar paralisou-a e o rapaz, que devia ter-lhe adivinhado a inten­ção mas estava roído de curiosidade, aproveitou para se aproximar.

Lobessa, recompondo-se, ordenou-lhe que me saudasse e apresentou-me como «Tongio, filho da senhora Camala e guer­reiro de Viriato». O garoto ergueu o rosto e sorriu sem timidez. Retribuí o sorriso e disse:

        - Parabéns, Lobessa, o teu filho é um belo rapaz... - e a voz prendeu-se-me na garganta.

De facto, era um belo rapaz. Os traços do seu rosto eram delicados sem excesso. Tinha um sorriso alegre e contagioso. E os olhos eram verdes, de um verde muito claro e transparente...

        Dobrei um joelho, para que a minha cabeça ficasse ao nível da sua, e perguntei:

- Que idade tens?

- Seis anos, senhor.

        Fechei os olhos, tentando resistir a uma vertigem. Mesmo com eles fechados, sentia o medo de Lobessa. Voltei a encarar o miúdo:

- Como te chamas?

Antes que ele respondesse a voz da mãe ouviu-se numa espécie de desafio que era ao mesmo tempo uma advertência: - Amínio. É o nome do pai.

E a palavra «pai» foi acentuada com desespero.

        Pensei. Pensei muito e muito depressa. A presença do deus (estávamos em chão sagrado) ajudou-me, estou certo. Quando me endireitei já sabia o que devia fazer, embora a minha própria decisão me enchesse de cólera e de amargura.

- Amínio - disse-lhe no tom de quem fala com um adulto sobre assuntos em que as mulheres não devem meter-se ­ - Amínio, gostei muito de conhecer-te e tenho pena de não ser apresentado ao teu pai. Peço-te que o saúdes por mim; os meus deveres de guerreiro exigem que eu parta.

Ele abriu os olhos numa expressão de desapontamento: ­Mas... eu pensava que podias contar-me as batalhas contra os Romanos! E queria saber coisas de Viriato!

        - Eu sei. Prometo: logo que possa, voltarei e então hei-de contar tudo o que quiseres saber.

De novo aquele sorriso - eu sabia agora onde vira antes um igual, fora num espelho de bronze polido - e a voz tremendo de expectativa:

- Prometes?

Mentalmente penitenciei-me perante Endovélico por mentir no seu recinto.

        - Prometo. E aqui fica o penhor da minha promessa...

Indiferente aos protestos de Lobessa, retirei do dedo um dos meus anéis. Não era um anel qualquer. Em memória de Sunua eu enviara à sua mãe o meu anel de prata, mas aquele era o selo da minha família, que passara do meu pai, Tongétamo, para mim. O ouro velho luzia num brilho embaciado mostrando o emblema da antiga dinastia real de Brácara.

Amínio tinha o seu orgulho. Muito sério e também ele surdo às exclamações da mãe, disse num tom cortês: - Não posso aceitar uma oferta como essa, senhor.

- Não é uma oferta. Confio este anel à tua guarda como penhor da minha palavra. Se eu voltar, recuperá-lo-ei e falaremos da guerra, de Viriato, de tudo o que te interessar. Mas nunca se sabe o que é a vida de um guerreiro. Se não voltar, então sim, o anel será teu de pleno direito. Concordas?

        Ele acenou afirmativamente, muito grave. Porém eu não acabara. Do braço direito tirei a mais bela das minhas vírias, em cobre trabalhado, e estendi-lha.

- Isto é para ti. Para quando fores um homem e um guerreiro. Toma cuidado com ela: foi-me oferecida pelo meu Comandante.

- O teu comandante...?

- Viriato, o Lusitano.

Amínio quase deixou cair o anel para pegar na víria, olhando-a com deslumbramento. Mal conseguia falar, apenas gaguejou: - Viriato?

- Sim. Viriato, general e Comandante das hostes da Lusitânia, colocou um dia essa víria no meu braço. Agora é tua. E agora, Amínio, vamos despedir-nos porque é tempo de partir e ainda preciso de falar com a tua mãe.

Ele afastou-se num passo ligeiro - e foi como se me tirassem a luz do Sol. A minha garganta contraíra-se; quase não podia respirar. Supliquei a Endovélico que me desse coragem para vencer a mágoa.

        Lobessa e eu estávamos de novo sós; os seus olhos luziam cobertos de lágrimas e com um longo suspiro segredou:

        - Tive tanto medo! Obrigada, Tongio, obrigada pelo...

        - Uma coisa quero saber - interrompi num tom duro e espero que me digas a verdade. Quando parti, há seis anos, tu já sabias que estavas grávida?

- Não. Juro-te que não sabia. Tens de acreditar porque também juro que se o soubesse não o diria... para quê? Para te amarrar? Alguma vez o pretendi fazer? Nessa altura já estavas cansado de mim (não o negues, Tongio; e, de resto, estou certa de que partirias de qualquer maneira.

- Sem ver o meu filho?

- O filho de uma escrava. - Lobessa riu docemente. ­- Que idade tens hoje? Vinte e dois anos, eu sei. Aos vinte e dois anos, um guerreiro que ainda não casou preocupa-se com os filhos que possa ter. Mas quando partiste com dezasseis anos, sonhavas com a tua liberdade e com a guerra.

Não tive resposta para lhe dar, nem ela esperou que eu respondesse:

- Quando percebi que esperava um filho, soube que tinha de arranjar marido. Amínio andava a lançar-me olhares... é um homem bom e forte. Adora o filho... para todos os efeitos, é filho dele.

Larguei uma gargalhada pouco simpática. - Todos os efeitos! Basta olhar para o garoto e para mim; basta ver-nos juntos!

A mão de Lobessa pousou no meu braço, não para acariciar mas para suplicar.

- Eu sei. Por isso arranjei maneira de evitar que o meu marido te visse. Amínio é um homem de bom feitio - não muito inteligente, admito, mas até ele veria a semelhança... e como se sentiria, se soubesse? Tongio: eu quero que o meu filho tenha um pai.

        Revoltei-me pela última vez, embora me soubesse escravo da minha própria decisão:

        - Pelo Santo Senhor Endovélico! Falas como se ele fosse órfão! Eu estou aqui!

- O tempo necessário para aprontar a bagagem. Tongio filho de Tongétamo; Tongio, guerreiro, emissário e amigo do grande Viriato!

        Agora a sua expressão era agreste, quase feroz - a fêmea disposta a lutar pela cria. Respirei fundo porque o ar me faltava.

- Lobessa... nada tens a recear. Vou cumprir o que decidi. Mas tenta compreender: foi um choque demasiado grande. Nunca tinha pensado...

- Bem sei - retorquiu já num tom diferente. - Eu compreendo; tenta compreender, também, o que senti vendo-te ao lado dele. É o teu retrato, mais ainda do que eu imaginava.

- Lamentas isso?

Lobessa contorceu o rosto como se alguém a tivesse magoado. - Eu quis este filho por ser teu. Mas isso não muda a situação. Para ti, as coisas são mais fáceis, hás-de casar, ter outros filhos...

-Nenhum como este. Mas tens razão, claro. É melhor partir quanto antes.

A mula estava carregada e o meu cavalo batia com as patas no chão para afastar as moscas, ansioso por um pouco de exercício. Querido Trovão... seria a última viagem. Fora já ferido por duas vezes, em combate, e estava a enfraquecer. Queria poupar-lhe a ignomínia de uma velhice abandonada; no regresso do Cineticum, quando passasse em Olisipo, oferecê-lo-ia a Coaranioniceus se os sacerdotes do Monte Santo o considerassem digno.

        Lobessa falava de novo, dizendo que ia entregar-me a herança da minha mãe. Respondi-lhe que não a queria:

        - Essa herança é tua e do... teu filho. Cuidaste de Camala até ao fim, o ouro e as jóias pertencem-te.

        Ela aceitou com simplicidade, sem protestos fingidos. E no momento da partida perguntou;

        - Queres vê-lo outra vez...?

        Hesitei. Era a única coisa que queria no mundo, naquele momento, mas tinha medo.

- É melhor não. Doía ainda mais... Adeus. Que o Senhor Endovélico vos proteja.

Os meus amigos de Arcóbriga tinham-se oferecido para me escoltar até ãs serras do Cineticum - uma prova de verdadeira amizade, que aceitei mais para ter companhia que pelo desejo de protecção. Estavam já à minha espera no sopé do outeiro e eu podia ouvir as suas vozes, trazidas pelo vento. Em silêncio, montei a cavalo, puxei a arreata da mula e desci a encosta pelo caminho sagrado.

 

Despedi-me dos meus companheiros no alto de uma colina. À minha frente estendia-se a planície cónia, recoberta de florestas e pontilhada de povoações. Antes de iniciar a descida olhei aquela paisagem, banhada pela luz forte do Sol, com uma emoção nunca antes sentida. Criado em Gadir, vivendo ao acaso da guerra, sempre considerara o Cineticum com certo desprendimento, porém agora (talvez porque sabia que o meu sangue corria nas veias de uma criança) via as florestas, as casas e os rios de uma forma diferente - a terra onde nascera, onde os antepassados da minha mãe tinham vivido e onde repousavam as cinzas do meu pai. Um laço invisível de cuja existência não suspeitara ligava-me ao velho reino, que as águias de Roma dominavam ainda quase totalmente.

 

Como diria mais tarde a Viriato, o meu mérito não foi grande no que se refere à eclosão da revolta cónia; apenas levei o incentivo final. Lacóbriga, Ossónoba e Conistorgis estavam já praticamente sublevadas quando por lá passei e a notícia do ataque às guarnições romanas chegou-me quando estava em Portus Hannibalis, que não tardou a aderir. Balsa e Baesuris também se juntaram. O Cineticum sacudia o jugo.

Com a missão cumprida bem mais cedo do que ousaria esperar, restava-me partir para Olisipo, mas antes quis visitar o Promontório Sagrado, que ainda não conhecia. Não era só curiosidade: os deuses veriam com desagrado que eu voltasse a abandonar o Cineticum sem lhes prestar homenagem na sua morada. Por isso, ao sair de Portus Hannibalis, rumei para Oeste, ao longo da costa, e após um dia de viagem rápida (desfizera­-me da mula e do disfarce de mercador) avistei a terra mais sagrada da Ibéria.

O Promontório está dividido em dois grandes cabos (um dos quais é completamente plano, sem a menor elevação de terreno) que avançam pelo mar dentro como duas proas de navios. Com excepção de algumas ilhotas, simples rochedos dispersos junto à costa, só se vê o Oceano até ao horizonte: não há no mundo paisagem mais simples e grandiosa.

Poder-se-ia pensar que num local tão santificado como este abundariam as aras e os templos, servidos por um exército de sacerdotes; nada mais falso, pois a presença divina é tão forte que as construções ergui das pelos homens acabam por desaparecer rapidamente. No passado, os Tirios edificaram ali dois santuários, um em cada cabo; tal como fizeram em Gadir, consagraram-nos a Melkaart e a Beel, mas enquanto em Gadir os templos pros­peraram e passaram a receber os nomes que Gregos e Romanos dão àqueles deuses, no Promontório já pouco ou nada resta dos edifícios. A terra está nua, semeada de esparsas moitas de arbustos, e tão poderosa é a força divina que os mortais só ali podem levantar pequenos montículos de pedras. Ainda assim, ao que me afiançaram os habitantes das aldeias próximas, essas pedras mudam frequentemente de posição durante a noite, arrastadas ou lançadas para longe à passagem das divindades. Porque é de noite que as Presenças são mais fortes - e tanto, que nenhum homem, nem mesmo o sumo sacerdote, pode lá permanecer depois do pôr do Sol.

Todos os povos gostam de fabricar lendas, mas posso garantir que isto é verdade e que os habitantes da região não inventam. Eu próprio, quando pisei a terra sagrada, de manhã cedo, senti o corpo tenso, os músculos contraídos até doer e o coração apertado. As minhas mãos tremiam ao fazer a libação com água trazida da aldeia onde pernoitara (não há ali poços, nem regatos, nem fontes). E não me admirei quando fui infor­ mado pelos sacerdotes de que não poderia oferecer um sa­ crifício, por ser proibido derramar sangue sobre a terra do Promontório.

Terminada a visita, pensei na melhor forma de viajar até Olisipo. Se Arduno me tivesse acompanhado seria forçoso fazer o percurso por terra, mas como estava entregue a mim próprio procurei arranjar maneira de viajar por mar. A sorte favoreceu­-me: muito perto do Promontório há uma pequena enseada onde os barcos fazem escala para que as tripulações possam orar aos deuses pedindo bom tempo e vento de feição; aí fui encontrar um navio gaditano que se dirigia para norte e cujo capitão acedeu a transportar-me por um preço razoável. Falou também da guerra; fiquei a saber que o cônsul Lúcio Cecílio Metelo obtivera algumas vitórias na Celtibéria, onde tomara três cidades, para logo a seguir ser derrotado pelos Lusitanos. Procurava agora evitar mais batalhas e, segundo era voz corrente em Gadir, tencionava retirar para Corduba - o refúgio tradicional dos generais romanos vencidos por Viriato.

 

Se é verdade que nunca enjoei a bordo de um navio, também não sou aquilo a que se possa chamar um marinheiro e por isso fiquei contente ao pisar terra firme. Mais contente fi­cou Trovão, que se deu mal com o mar. Tive de me ocupar dele e passaram-se três dias antes que o pobre animal recuperasse e ganhasse forças. Durante esse tempo, sondei a situação em Olisipo e descobri que as relações com Roma estavam considera­velmente deterioradas. Os abusos cometidos pelas tripulações das galeras romanas e a hostilidade dos sacerdotes de Coaranioni­ceus pareceram-me ser os motivos principais. Não tive dificuldade em ser ouvido e obter a promessa de um rompimento formal.

Cinco dias após a chegada, dirigi-me enfim para o Monte Santo, onde me esperava uma surpresa agradável: a primeira pessoa que vi, montando um esplêndido cavalo, foi Arduno. Ambos saltámos para o chão e abraçámo-nos com alegria.

- Vim de propósito para te falar - explicou ele enquanto nos encaminhávamos para as residências dos sacerdotes ­porque trago uma mensagem do Comandante... ou melhor, um convite.

- Convite?

        - Sim, não adivinhas? Um convite para a boda... mas antes, as notícias e as instruções. Espera, vamos sentar-nos ali naquela pedra, depois falamos com os sacerdotes.

Sentei-me ao seu lado. Estava mais magro, tinha uma cicatriz recente na face esquerda, mas parecia de boa saúde e conservava a vivacidade habitual.

- A campanha contra Metelo? - perguntei.

- Dura, mas rápida. E decisiva. Não volta a incomodar-nos, o que é muito conveniente porque precisamos de nos refazer. A hoste leva já cinco anos de guerra e, mesmo com os novos contingentes calaicos, gostaríamos de ter mais efectivos - e des­canso. Enfim, por agora há tréguas, não oficiais mas verdadeiras.

Arduno prosseguiu contando-me que chegara ao Monte Santo havia dez dias e negociara já a compra de cinquenta cavalos, os únicos disponíveis, que deveriam ser entregues no fim do Outono em Aritium Vetus.

- Porque é para lá que o Comandante se dirige - rema­tou - e a boda vai realizar-se precisamente no fim do Outono ou no princípio do Inverno. Quanto a nós, devemos acompanhar os cavalos até Aritium Vetus. A propósito, se permites a sugestão, acho que devias escolher um para ti.

- Isso está decidido. Vou enviar o meu Trovão a coaranioniceus, para lhe agradecer a dádiva que nos fez...

- E que os seus sacerdotes vendem por bom preço - ­resmungou Arduno em voz baixa. Aconselhei-o a guardar para si tais observações para não desagradar ao deus nem aos seus servidores, de quem precisávamos.

Não sinto vergonha ao confessar que os meus olhos se encheram de lágrimas quando me despedi de Trovão. O sumo sacerdote aceitou executar ele próprio o sacrifício depois de eu lhe falar da nobreza e bravura do animal- e também, creio, por deferência para com um enviado de Viriato.

        Quando o momento chegou, aproximei-me de Trovão, que, como era seu hábito, veio encostar a cabeça ao meu ombro.

- Esta é a hora da separação - segredei-lhe baixinho ­- e eu nunca te deixaria partir se não fosses para as mãos de um deus. Se ficasses comigo, quando a idade tolhesse as tuas pernas eu não poderia cuidar de ti, andaria longe, a combater. E não posso pensar, sequer, que sofrerias maus tratos... adeus, Trovão; serve o deus com lealdade, como sempre me serviste.

Ele deu um relincho suave e deixou-se conduzir até à ara. Julgo que compreendeu as minhas palavras, pois não estremeceu quando o sacerdote brandiu a lâmina. Felizmente, era um homem vigoroso e sabia do seu ofício; um só golpe bastou. Quando o corpo caiu, limpei as lágrimas com as costas da mão e afastei-me.

O meu novo cavalo era branco, de um branco nevado e resplandecente. Fiel à linhagem sagrada, corria veloz como um dardo e por isso dei-lhe esse nome. Para que nos conhecêssemos melhor, levei-o à caça durante os dias em que permaneci no Monte Santo. Esses dias foram poucos, aliás, pois o Outono começara e não sabíamos quanto tempo seria preciso para levar a manada até Aritium Vetus.

Na véspera da partida, sucedeu uma coisa que nos perturbou. Quando os sacerdotes ofereciam a Coaranioniceus um dos cavalos que compráramos (o tributo dos Lusitanos ao deus), o animal, pressentindo a morte, empinou-se e tentou fugir. Depois do sacrifício, as veias e as vísceras confirmaram o pres­ságio desfavorável: aproximavam-se tempos difíceis para a Lusitânia. Arduno insistiu em saber pormenores - se era seca, doença, ou guerra - e a resposta foi «guerra». Assim, o nosso estado de espírito não era dos melhores quando parti­mos. Discuti com Arduno se deveríamos advertir Viriato antes ou depois do casamento e acabámos por concluir que se não houvesse notícias do inimigo esperaríamos até depois da boda.

A viagem do Monte Santo para Aritium Vetus decorreu sem outra contrariedade que não fosse uma lentidão irritante. Conduzir uma manada de cavalos não é fácil, mesmo com bom tempo e em terreno plano, mas nós apanhámos vários dias de chuva e a escolha de caminhos seguros e discretos forçou-nos a alongar o itinerário. Como se isto não bastasse, os homens que nos acompanhavam não eram simples moços de estrebaria ou pastores, eram sacerdotes, e embora estivessem no grau mais baixo da hierarquia tinham deveres religiosos a cumprir e ritos a executar, o que nos obrigava a longas paragens.

Os dias foram passando e quando avistámos Aritium Vetus o Inverno já começara e a hoste encontrava-se acampada na margem oposta do Tagus. Enquanto galopávamos ao encontro das sentinelas (Viriato colocara vigias em todos os caminhos) Arduno observou, com irónica satisfação, que Astolpas iria ter uma óptima oportunidade para ostentar a sua riqueza, alimentando um exército inteiro.

 

- Às vezes, não o compreendo. Numa ocasião destas, é o único que não parece estar satisfeito!

Crisso, o autor do comentário, lançou duas achas na fogueira para afastar o frio da noite. Olhando-o, reflecti que se parecia cada vez mais com um velho urso rabujento; no entanto, continuava a ser um bom companheiro e um combatente de respeito.

O seu desabafo tinha Viriato como alvo. Enquanto se multiplicavam os preparativos da boda, aumentava o entusiasmo dos guerreiros e dos habitantes da cidade. Era Astolpas, em pessoa, quem dirigia as operações e não havia dúvida de que a festa seria sumptuosa. Mas, fiel ao seu hábito, o Comandante não parecia mais excitado que na véspera de uma batalha - altura em que a sua tranquilidade era impressionante.

Arduno e eu tínhamos conferenciado longamente com ele. Depois, Viriato inspeccionara os cavalos e ocupara-se da sua distribuição pelos guerreiros; ao mesmo tempo, dirigia a construção de um acampamento fortificado numa colina afastada de Aritium Vetus, a norte do rio. Chegava a estar ausente da cidade dois e três dias - de resto, quando se juntava a nós, continuava a dormir numa tenda, pois recusara a casa que o futuro sogro pusera ao seu dispor. Estávamos a dois dias do casamento e a aparente falta de alegria do noivo irritava Crisso, como se fosse ele o pai de Tangina.

- Não lhe falta vontade de se casar - disse eu ao chefe túrdulo - acho antes que continua a pensar na guerra. Já devias conhecê-lo.

- Claro - replicou ele - mas até um guerreiro gosta de paz, de vez em quando, com moderação. E sobretudo em vésperas de casamento... eu, lembro-me bem...

        Um vulto apareceu junto da fogueira. Era Audax, embrulhado até ao queixo no seu manto.

- Desculpa-me interromper o discurso, venerável Crisso (ao vê-lo e ouvi-lo, percebi que a minha antipatia por ele continuava a crescer) mas o Comandante chama-vos. A todos.

Embora rejeitasse o conforto de uma casa, Viriato fora obrigado, pelo menos, a aceitar de Astolpas a oferta de uma tenda luxuosa e ampla. Nunca serviria em campanha (aliás, ele deixá-la-ia em Aritium Vetus), mas ali era muito conveniente. Viriato não delegara o Comando e a toda a hora havia problemas a resolver- e mensageiros a receber, que deviam ser interrogados longe de ouvidos indiscretos, pois a confiança do Comandante no pai da sua noiva não aumentara.

        Precisamente um desses mensageiros encontrava-se dentro da tenda com Viriato, Minuro e Táutalo.

- Meus amigos - começou Viriato - este é Magon, da Turdetânia, um guerreiro de Connobas (um príncipe turdetano que era nosso aliado). E Magon viajou durante vinte dias para nos trazer notícias - e isto. «Isto» era um pequeno rolo de papiro. Não via esse material de escrita desde que saíra de Gadir; saltaram-me à memória cenas da minha infância, as imagens de Camalo e Beduno. Para afastar o passado, sacudi a cabeça e prestei atenção a Magon.

        As tropas não saem dos quartéis de Inverno – dizia ele - a não ser para fazer patrulhas à volta das cidades e nas estradas militares. Mas anda qualquer coisa no ar. Chegaram mensageiros de Roma e um deles trazia certamente a demissão de Metelo, porque ele mandou preparar as bagagens e entregou ao questor os assuntos do governo. Outras mensagens vieram e uma delas está aqui - Magon sorriu - não há perigo de que o seu portador vá dizer em Corduba que foi interceptado, porque não ficou em estado de falar. Nem de respirar, sequer.

A um gesto de Viriato, o Turdetano entregou-me o papiro. Li-o rapidamente para poder resumi-lo em voz alta: estava assinado por um cônsul recentemente eleito (ele próprio o dizia) chamado Quinto Fábio Máximo Serviliano, a quem fora atribuído o governo da Hispânia Ulterior. A carta continha instruções destinadas ao questor de Metelo, em Corduba. As que mais nos interessavam eram as ordens para fornecer aquartelamento e alimentação ao novo exército consular, cuja chegada à Hispânia estava prevista para a Primavera. E o cônsul enumerava os efectivos: duas legiões, num total de dezoito mil homens de infantaria e mil e seiscentos cavaleiros.

        Ao chegar a este ponto da carta, ergui os olhos para Viriato, mas o seu rosto mantinha-se impenetrável e apenas perguntou:

        - É tudo?

- Não; há ainda uma outra coisa... aqui está: «O Rei Micipsa da Numídia prometeu-me trezentos cavaleiros e dez elefantes, com os seus condutores. Se esses reforços chegarem antes da minha entrada nas Hispânias, deverás também alojá-los e alimentá-los»... agora sim, é tudo.

- Elefantes? - rosnou Crisso - O que é isso de elefantes?

- Animais monstruosos - respondi - com duas grandes lanças de osso na cabeça e o focinho é uma espécie de braço poderoso. São usados na guerra.

Em Gadir, eu vira uma pintura representando esses animais. Porém Crisso olhou-me com ar céptico e declarou: - Não acredito.

Viriato interveio: - É melhor acreditares, eles existem. Nunca os vi, mas o meu bisavô combateu nos exércitos dos Barcas e viu muitos. Os Cartagineses usaram-nos contra os Romanos.

Voltando-se para Magon prosseguiu: - Agradeço-te os trabalhos que tiveste para nos trazer esta carta. Espero que honres com a tua presença a festa do meu casamento; depois, partirás quando quiseres e levarás ao príncipe Connobas as minhas saudações. A sua amizade é-nos agora mais preciosa que nunca... e a propósito: o nome desse novo cônsul é familiar... Quinto Fábio Máximo Serviliano... será parente daquele outro, Quinto Fábio Máximo Emiliano?

Magon respondeu que não sabia (na realidade, soubemo­-lo mais tarde, Serviliano e Emiliano eram irmãos adoptivos) e pediu licença para se retirar. O Comandante disse a Minuro que o acompanhasse para ordenar que lhe fosse servida uma refeição de carne e vinho.

Quando eles saíram, ficámos calados até que Viriato advertiu: - Estas informações devem manter-se secretas, não quero que os nossos homens tomem conhecimento delas, por enquanto. Logo que termine a boda, o exército partirá para o acampamento que temos estado a construir. Então, duplicaremos o treino e, antes do fim do Inverno, voltamos para Itucci. Se o novo cônsul for esperto, o seu primeiro alvo será Itucci, para nos tirar a base de operações contra a Bastetânia. De qualquer modo, pressinto que vamos ter um ano difícil.

- Ora! - exclamou Táutalo - já tivemos anos assim. E quan­to aos elefantes, aposto que não podem trepar as encostas dos montes. Aníbal usou-os, muito bem; mas nem por isso Cartago evitou a destruição.

Viriato objectou: - Há outras coisas a ter em conta. A nossa haste vai no quinto ano de guerra e somos cerca de seis mil, contando com os Calaicos. Se este Serviliano for um bom guerreiro, irá esmagando cada povo da Ibéria um a um.

- Que o faça! - bradou Crisso - quando chegar a nossa vez, estará enfraquecido e poderemos acabar com ele!

Viriato abanou a cabeça como se recusasse esta conclusão; porém, eu aprendera a conhecer os seus gestos e expressões e compreendi que ele apenas se sentia cansado e amargurado. E como não? - pensei olhando para o seu rosto, onde novas rugas tinham cavado a pele; era um homem que tinha nas mãos a liberdade da Lusitânia, senão a da Ibéria, bem como a vida de seis mil homens - apesar disso, estava terrivelmente só. Mesmo entre os seus amigos mais próximos, quem era capaz de acompanhar o seu pensamento? Táutalo, um pouco; eu próprio, talvez, mas não tinha atrás de mim uma hoste de vassalos nem influência política. Os outros eram, na melhor das hipóteses, iguais a Crisso, que fazia a guerra pelo gosto de combater e pelo saque. Se Crisso não tivesse empenhado a sua lealdade (e, a seguir, a sua amizade), continuaria a guerrear, mas talvez não os Romanos; talvez os Taporos, os Nemetatos ou os Célticos da «Mesopotâmia.., ou, quem sabe, os próprios Lusitanos. Crisso (e todos os outros eram como ele) fazia a guerra pela guerra, nunca poderia compreender Viriato nem a sua maneira de pensar. E em toda a Ibéria, os povos, desde os Numan­tinos aos Cónios, só por especial deferência para com Viriato aceitavam, por vezes, coordenar os seus ataques com a acção ­da hoste lusitana. Quem, nestas circunstâncias, não te­ria um momento de desânimo, ainda que em vésperas de casar?

Mas agora o Comandante, já com um semblante diferente, respondia a Crisso:

- Seja como for, aceitámo-los, aceitámos a sua aliança e temos de cumprir a nossa parte dos acordos. Além disso, quanto mais tempo deixarmos Serviliano manobrar à vontade, mais ele se enriquece em escravos, tributos e despojos. Custe o que custar, não podemos dar-lhe descanso... Audax, Minuro, Ditalco: depois da boda, quero que sigam para a Betúria e a partir de lá visitarão as cidades nossas aliadas: que todas se preparem para a próxima campanha. Devem contar - todas elas, repito­com a eventualidade de um cerco.

- E na Citerior? - perguntou Audax.

- Esse é um problema dos Numantinos, dos seus vassalos e aliados. Não creio que os Romanos da Citerior possam atacar­-nos enquanto Numância estiver em pé de guerra.

Com um gesto, Viriato deu a entender que a reunião terminara. Todos foram saindo, mas eu deixei-me ficar e quando me encontrei a sós com o Comandante ele perguntou:

- O que há, Tongio?

- Hesitei em dizer-to mais cedo, mas com as notícias que Magon trouxe é melhor falar já.

Contei-lhe os presságios desfavoráveis recebidos no Monte Santo. Ele ouviu-me com atenção e tranquilizou-me: não se anunciava uma derrota definitiva, mas sim grandes dificuldades, e essas vinham a caminho com Serviliano e as suas legiões. Pelo menos, sabíamos o que tínhamos pela frente.

        - E agora - rematou, num tom ligeiro - vamos procurar esquecer por uns dias essas preocupações, que são descabidas duma boda. Vai, repousa e diverte-te; bem o mereces.

Não podia ajudá-lo a suportar um fardo que só ele era capaz de carregar. Aceitei com gosto estas últimas ordens, tanto mais que havia do outro lado do rio, em Aritium Vetus, confortos, mulheres e vinho em qualidade e quantidade suficientes para as cumprir à letra.

 

O dia do casamento amanheceu frio e com o céu limpo; desde o romper da alvorada fervia a azáfama dos últimos preparativos e respirava-se uma atmosfera de expectativa alegre. Pela manhã, Viriato foi caçar com todos os seus amigos. Quando voltámos, depois do meio-dia, tudo estava pronto - e nunca, mesmo em Gadir, vi luxo mais deslumbrante, embora sem gosto.

Astolpas resolvera que o matrimónio da sua única filha legítima seria coisa falada na Lusitânia, de geração para geração, e eu acreditei que ele teria êxito. A sua residência na cidade, apesar de espaçosa, não poderia albergar todos os convidados de honra e por isso fora montado um enorme toldo ao ar livre, no local onde se erguia a ara familiar. Esta ficou no centro do recinto e em volta dispunham-se as mesas reservadas aos hóspedes mais ilustres: os do noivo eram bem poucos, apenas os chefes da hoste e o estado-maior, porém os do pai da noiva deviam ultrapassar a centena. Havia uma profusão de riquíssimas tapeçarias e nas mesas postas sob o toldo a baixela era de ouro e prata. Fora deste recinto estendia-se um vasto espaço descoberto igualmente atravancado com mesas e na outra margem, onde acampava a nossa hoste, ardiam fogueiras em torno das quais se reuniriam os guerreiros para partilhar do imenso banquete nupcial. Bois, porcos e cabritos inteiros estavam postos a assar; pirâmides de patos e capões já cozinhados erguiam-se até à altura de um homem; e não faltavam, em qualidade e número, os peixes do Tagus. Filas cerradas de ânforas a transbordar de vinho e cerveja aguardavam a sede dos convidados.

Diverti-me a observar tudo isto e depois dirigi-me para a tenda de Viriato, que devia estar a preparar-se para a grande ocasião. Ao entrar no acampamento soaram as trompas em Aritium Vetus anunciando o início da festa.

Dentro da tenda acotovelavam-se os amigos, os chefes das unidades militares e um ou outro vassalo de Astolpas. O Co­mandante estava pronto; não aceitara as vestes sumptuosas oferecidas pelo futuro sogro, preferira uma simples túnica de linho cingida ao corpo por um cinturão e o único ouro que usava era o das vírias.

Nós, os amigos, fiéis à tradição, não o poupámos aos gracejos e insinuações que é costume fazer nestas circunstâncias e ele ouvia-nos a sorrir. Enfim, levantara-se a nuvem que pairava no seu rosto, dera uma trégua a si próprio; ia receber a sua Tangina após tantos anos de espera.

Vendo-o alegre, a nossa alegria redobrou. Entre risos, farra­ pos de canções e conselhos bem-humorados oferecidos por aqueles que conheciam a vida de casado, atravessámos o rio em pequenas embarcações e dirigimo-nos para o recinto da festa, onde os convidados de Astolpas nos esperavam. E foi a meio caminho que Viriato parou subitamente. Os que iam ao seu lado seguiram-lhe o exemplo, aqueles que o precediam levaram tempo a perceber o que se passava e acabaram por voltar para trás.

- O que foi? Que aconteceu? - As perguntas e comentários cruzavam-se e todos se voltaram para Viriato. Este, com os olhos semicerrados contra a claridade do Sol, observava o recinto de honra. Àquela distância podíamos ver Astolpas, que se destacava pelo seu porte majestoso; virado para a direita, conversava sorridente com três homens cujas vestes, o corte do cabelo e os adornos não permitiam dúvidas quanto à sua origem. A meu         lado, Táutalo murmurou, incrédulo:

- Romanos...? Ele convidou Romanos para a festa?

E Ditalco, também em voz baixa: - Ontem, ouvi dizer que tinham chegado convidados da Betúria, mas nunca imaginei...

Nao chegou a acabar a frase porque Viriato girou sobre si próprio, caminhou para a margem do rio e entrou num dos barcos de couro. Chegado à outra margem, regressou à tenda. Todos o seguimos, claro, mas não ousámos entrar e durante alguns embaraçados instantes ficámos à porta até que Táutalo declarou que ia ordenar um alerta geral, porém nessa altura Viriato reapareceu. Sobre a túnica lançara uma couraça de linho entrançado; a espada e a adaga estavam presas ao cinturão e empunhava a lança na mão direita. Olhou-nos e falou num tom que bem lhe conhecíamos, aquele que empregava ao dar instruções para combate:

- Quero todos armados e com os cavalos prontos; o meu, que seja conduzido discretamente para perto do recinto... Minuro, trata já disso. Tongio, ficas ao meu lado; toma especial atenção ao que o intérprete de Astolpas vai dizer aos Romanos. Os restantes, quero-os também perto de mim. Agora, vamos.

A última frase era figurativa, pois para cumprir as ordens tivemos de correr às nossas tendas, envergar as coura­ças, reajustar os cinturões... Viriato esperou por nós. Voltámos então a atravessar o rio e aproximámo-nos do recinto coberto.

As ânforas circulavam e os outros convivas estavam animados. Astolpas adiantou-se para saudar Viriato e conduzi-lo até junto da ara. Aí, fez a sua alocução, uma oratória empolada em que através dos elogios tecidos ao futuro genro conseguiu subtilmente evidenciar a sua própria importância como o maior potentado do vale do Tagus... um intérprete, sentado ao lado dos hóspedes romanos, sussurrava-lhes com ar servil a substância do discurso e eles ouviam arvorando uma expressão benigna e complacente, bebendo pequenos goles de vinho. Senti o estômago apertado pela raiva. Como eu conhecia bem aquela gente! Podia ler os seus pensamentos tão clara e seguramente como um papiro: «Façam amigos entre os Bárbaros», dissera-lhes o magistrado da cidade onde viviam, «arranjem amizades e podemos dominar esses selvagens. Uma relação cordial é um tributo recebido sem esforço!»

Astolpas falou muito. Admito que sabia construir um discurso e nunca tropeçou nas palavras. No fim, ergueu a taça para saudar Viriato e bebeu. Todos o imitaram, porém o Comandante somente levou a sua aos lábios. Deu alguns passos e estendeu a mão direita; um escravo pressuroso veio pegar na taça. Então Viriato encostou-se à lança e começou a falar.

        - Ouvistes as palavras de Astolpas e haveis compreendido como ele é importante e rico...

Com um gesto largo, abarcou o luxo que nos rodeava: ­Ouro, jóias, estofos e tecidos preciosos. Astolpas é rico em bens e amigos... muitos amigos. Entre eles, ao que vejo, contam-se mesmo os opressores do seu povo. Um homem rico tem amizades em toda a parte, não é assim? No entanto, ele declarou­-se honrado por me dar como esposa a sua filha, apesar de eu ter como única riqueza as armas e um cavalo. Mas Astolpas, que é sábio, compreende que são as armas, as minhas e as dos meus companheiros, que lhe permitem desfrutar os tesouros que aqui vemos.

Viriato fez uma pausa. Dir-se-ia que um sortilégio transformara toda a gente em pedra; os ruídos alegres do acampamento chegavam até nós, mas sob o toldo até as respiraçôes pareciam suspensas. Astolpas empalidecera e ficara cor de cinza. Num movimento deliberado, Viriato apontou os convidados romanos:

- Sem as nossas armas, sem as vidas sacrificadas ano após ano, esses homens que Astolpas trata como hóspedes queridos estariam aqui ocupando a sua casa, pilhando as suas roupas e o seu ouro, gozando a companhia das suas concubinas. Mas Astolpas é um homem sábio - por isso me aceita como genro. Ele compreende (não é assim?) como são vãs estas riquezas, pois podem ser perdidas no instante mesmo em que se adquirem, podem ser perdidas a qualquer momento... - e apontou na direcção da hoste - bastaria, por exemplo, uma palavra minha e todas as riquezas de Astolpas, não só a sua filha, passariam a pertencer-me... é essa a maldição do ouro. Bebo à sabedoria de Astolpas.

Porém, não bebeu; o escravo, paralisado, nem se lembrou de lhe devolver a taça. Apesar da quase insuportável tensão, reprimi o riso ao observar os esforços do intérprete que traduzia para os intrigados Romanos o discurso do Comandante. O ho­mem estava a utilizar todos os recursos da sua imaginação e improvisava livremente, numa voz trémula. No entanto, talvez não fosse um cobarde; pelo menos ainda falava, enquanto os outros pareciam mortos. Astolpas, esse, não estava aterrorizado, antes sufocado pela cólera - o efeito era o mesmo, ou seja, não conseguia falar. O chefe dos seus escravos, um homem cuja voz e os gestos iriam bem a um mestre de cerimónias gaditano, resolveu salvar a situação. Chegou-se a Viriato e anunciou que o banho da hospitalidade estava pronto. A resposta, dada sem olhar para ele, foi: «Tomei banho esta manhã, no rio». Sem se desencorajar, o outro disse então que o lugar de honra esperava o ilustre hóspede. O ilustre hóspede não deu sinais de ter ouvido e virou-se para nós:

- Comam alguma coisa, porque vão viajar.

Naquelas circunstâncias, o apetite não era muito. E como Viriato não se sentava, também nós ficámos de pé. Astolpas, recomposto, fez um sinal dando início ao banquete e com isso sentimo-nos um pouco mais à vontade. Táutalo pegou num capão assado, partiu-o ao meio e passou-me uma das metades. Os outros seguiram o nosso exemplo, enquanto o Comandante comia rapidamente meio pão e um naco de porco, sem sequer pousar a lança. Quando acabou, virou-se para o chefe dos escravos (julgar-se-ia que Astolpas não estava ali) e pediu que trouxessem Tangina.

        Era um comportamento inaudito e o silêncio voltou a reinar. Só foi quebrado pela música das flautas anunciando a noiva e nessa altura Viriato segredou qualquer coisa a Táutalo, que se afastou.

Vestida com as galas do casamento, Tangina vinha linda e (como é costume dizer-se) irradiava felicidade. Reparei, porém, num pormenor interessante: entre as escravas que a rodeavam estava uma que eu vira pouco antes a servir os convidados. Quando a noiva parou diante do pai, o modo como o encarou veio confirmar a minha suspeita - Tangina já sabia o que acontecera e o sorriso com que brindou Viriato mostrava qual o campo que escolhera. Astolpas ficou mais lívido ainda.

Uma vez que a noiva entrara tão precocemente, era forçoso iniciar o rito nupcial. Foi trazida a cabra destinada ao sacrifício e Viriato imolou-a sobre a ara. Depois, ao lado de Tangina cumpriu o resto do ritual sem voltar a olhar para a multidão dos convidados. No fim, quando foram declarados esposo e esposa, prenderam os olhos um no outro e ignoraram os votos de felicidade entoados à sua volta.

Ouviu-se o resfolegar de um cavalo: era o cavalo de Viriato, que Táutalo fora buscar e que trouxera pela rédea, impassível perante o ar escandalizado da assistência. Viriato, segurando Tangina pela mão, foi ter com ele e ao passar por nós disse:

- A cavalo, todos. Táutalo: amanhã conduzes a hoste para o acampamento novo.

Fizemos a saudação militar e afastámo-nos para cumprir o que ordenara. Cinquenta guerreiros armados (sem dúvida chamados por Táutalo) estavam já montados. Quando nos reunimos a esta escolta, Viriato encontrava-se na vanguarda, com Tangina sentada na garupa do cavalo, apertando com os braços o torso do marido. Desfizera-se dos toucados e o seu cabelo negro esvoaçava solto, sacudido pela brisa. O Comandante deu a ordem de marcha - e assim abandonámos Aritium Vetus, ao som das trompas e buzinas da hoste, sob as aclamações estrondosas dos guerreiros. No recinto de honra, a festa estava irremediavelmente estragada.

 

Os homens que Viriato deixara a terminar as fortificações do acampamento de Inverno haviam ultrapassado as ordens recebidas. Com um esforço suplementar, tinham construído uma pequena casa de madeira e pedra para o Comandante e a sua mulher; por outro lado, o chefe de uma tribo da vizinhança enviara três escravas para servir Tangina.

Viriato não recusou estas ofertas, antes as agradeceu. No dia em que chegámos, foi improvisado um festim durante o qual ele se mostrou alegre e descontraído, gracejando como raras vezes fazia. Julgo que, em parte, essa disposição era simulada, para corresponder à amizade e respeito dos guerreiros. Era verdade, porém, que se sentia muito melhor ali que em Aritium Vetus.

A hoste instalou-se e preparou-se para os meses frios do Inverno. Não creio que a perspectiva de passar tão longo período numa cabana modesta, no meio de um campo militar, fosse muito risonha para Tangina, mas ela mostrou-se contente e tranquila.

Dez dias após a nossa chegada, tivemos uma surpresa: as sentinelas avistaram um grupo de cavaleiros e quando estes se aproximaram suficientemente para que as insígnias pudessem ser reconhecidas, vieram avisar que eram homens de Astolpas... na realidade, era o próprio sogro de Viriato que nos visitava. «Chegou a hora das explicações», pensei. De facto, Viriato e Astolpas embrenharam-se juntos num pinhal onde tiveram uma conversa sem testemunhas. Ninguém soube o que disseram um ao outro, mas uma coisa é certa: desde então, Astolpas cortou as relações com os seus amigos romanos e o auxílio prestado ao genro aumentou substancialmente.

Astolpas visitou a filha, participou num banquete em que lhe foi reservado o lugar de honra e partiu no dia seguinte depois de uma despedida relativamente cordial. O Inverno arrastou-se sem incidentes. Ainda as chuvas caíam com abundância quando recebemos notícias da Bética anunciando que Serviliano chegara à Ibéria e estava em movimento, com as suas legiões, na direcção de Itucci.

 

No regresso à Bética, a hoste fez uma breve paragem em Aritium Vetus, onde Tangina ficou entregue à protecção do pai. Arduno contou-me (ignoro como logrou sabê-lo) que esta decisão de Viriato provocou a primeira zanga conjugal porque Tangina pretendia à viva força acompanhar o marido durante a campanha. Compreensivelmente, Viriato recusou-se a ouvir falar em tal ideia; a tempestade não se fez esperar e foi seguida de um período de frieza, mas quando os esposos se despediram na margem do Tagus, os olhos de Tangina estavam húmidos e ansiosos. Quanto a Viriato, olhava-a com um misto de ternura e orgulho. Não aceitara a vontade da mulher, mas a prova de coragem agradara-lhe.

Cedo se esgotou o tempo das batalhas conjugais: em Itucci esperava-nos outra guerra. Serviliano aproximava-se, todos os dias chegavam mensageiros com novas sobre o seu avanço. O cônsul começara por guarnecer as praças fortes romanas e marchava agora à cabeça de seis milhares de legionários. Ignorávamos o que se passava com os elefantes e os cavaleiros núrnidas.

Viriato reuniu os chefes dos contingentes na sala de banquetes da cidadela e descreveu-lhes a situação em pormenor.

Àqueles que se mostravam mais optimistas porque Serviliano trazia consigo efectivos iguais aos nossos, o Comandante fez notar como se enganavam: para o cônsul, seis mil homens eram somente uma pequena parte do seu exército, enquanto os nossos seis mil representavam, de momento, a totalidade da hoste lusitana, pois não podíamos chamar as guarnições que tínhamos nas várias cidades que se encontravam em estado de alerta.

Quando os presentes se calaram num silêncio preocupado, Viriato - que durante a reunião se manteve de pé, a passear de um lado para outro - olhou-os um por um e, inesperadamente, sorriu.

- Espero que todos tenham compreendido a gravidade da situação; agora vou explicar o que vamos fazer.

Ouviu-se um suspiro de alívio e Crisso exclamou na sua voz de trovão: - Ah, até que enfim! Tanta tristeza deixou-me deprimido. Vamos lá saber a forma de cortar esse cônsul em bocados pequeninos!

Houve uma gargalhada geral. Viriato retomou a palavra: - Não é assim tão simples, mas se não o cortarmos aos bocados vamos pelo menos fazer-lhe alguns entalhes. Antes de mais: quero que todos os chefes de contingentes falem aos seus homens sobre os elefantes: o que são, como são, o som que fazem, tudo, enfim. Tongio, que viveu em Gadir e ouviu coisas sobre eles, dará os pormenores. É preciso que os homens estejam à espera de os ver aparecer e não entrem em pânico. Agora, quanto aos próximos dias: não vamos permitir que Serviliano se aproxime de ltucci. Amanhã, saímos da cidade e marchamos ao seu encontro.

- Deixar ltucci? - interpôs Minuro, logo apoiado por Audax - e onde encontraremos cidade com melhores fortificações?

O Comandante encolheu os ombros. - Em parte alguma. Não tenho a menor intenção de permitir que os Romanos me cerquem; são peritos em assaltos a cidades. Itucci interessa-nos como base de operações, não como reduto... não pretendo ver a nossa hoste reduzida outra vez a ter de comer os seus próprios cavalos.

Seguiu-se uma longa série de ordens e instruções e a reunião foi encerrada. No dia seguinte, quando a luz do Sol tingiu de ouro as muralhas da cidadela, saímos em formação de combate, ao som de cânticos guerreiros.

Colhemos Serviliano de surpresa quando este se encontrava já à vista de Itucci. Montámos-lhe uma emboscada em terreno propício, um espaço apertado entre ravinas e mato denso, onde não havia a possibilidade de enviar batedores para vigiar os flancos. Os nossos cavaleiros saltaram-lhe ao caminho e quando os Romanos, desorientados e ensurdecidos pela gritaria, recuaram para uma formação defensiva, a infantaria lusitana surgiu pela retaguarda. Seguiu-se um combate confuso, durante o qual eu recebi um golpe no pulso direito (felizmente sem gravidade) e Arduno ganhou mais uma cicatriz na cara. Mas do nosso lado não houve baixas e quando Viriato ordenou a retirada, para não expor demasiado a hoste, o inimigo estava desorganizado e em fuga. No terreno, deixava algumas centenas de mortos.

O cônsul - que avistei durante a batalha, montando um grande cavalo branco - percebeu que não poderia continuar a avançar nem permanecer ali. Retrocedeu, portanto, até se encontrar de novo em campo aberto.

Pensámos que tudo corria bem e que a campanha seria como as anteriores. Tínhamos esquecido os reforços prometidos a Serviliano. Quando, dias mais tarde, voltámos a ver Os Romanos, o seu número duplicara - e com eles estavam os trezentos Númidas, montando cavalos tão ágeis e rápidos como os nossos, e os famosos elefantes. Quem nunca viu esses animais em carne e osso não pode imaginar o que nós sentimos. São tão grandes e poderosos que de longe metem medo; quando correm para o combate, a terra treme e os cavalos assustam-se e fogem, sentindo que estão diante de criaturas concebidas pelas mais terríveis divindades.

Apesar disso, com orgulho o recordo, oferecemos batalha, porém a desproporção era demasiado grande. Sem descanso, Viriato atormentou o inimigo com ataques constantes, mas cada ofensiva saía-nos cara em homens e cavalos; além disso, Servi­liano recusava-se agora a abandonar os terrenos onde pudesse manobrar à vontade e não nos era possível arriscar uma batalha campal. Impotentes, assistimos ao seu avanço, vimo-lo estender um poderoso dispositivo, abrir trincheiras, erguer palissadas ­

e, enfim, construir um magnífico acampamento fortificado, a partir do qual poderia alargar a sua área de acção. O caminho para Itucci estava aberto e nada poderíamos fazer para impedir a queda da cidade. Então, o Comandante enviou um mensageiro, por caminhos desviados, dizer aos Itucenses: «Evita o derramamento inútil de sangue; dispenso-vos do vosso juramento, abri as portas aos Romano».

Assim aconteceu - e foi um golpe bem duro ver ao longe as águias romanas dominando novamente as muralhas de Itucci. Nessa mesma noite, no acampamento que tínhamos improvisado, oculto na vertente de uma enorme ravina, os chefes dos contingentes procuraram Viriato e suplicaram-lhe que ordenasse um ataque geral, não já para vencer o cônsul, mas, ao menos, para morrer com honra. Ele ouviu-os atentamente, como sempre fazia. Nunca soube (creio tê-lo referido) que houvesse general mais próximo dos seus homens. Qualquer um podia dirigir-lhe a palavra - e mais: os seus amigos, os membros do estado­-maior, estavam autorizados a entrar na sua tenda a qualquer hora da noite, acordá-lo e falar com ele.

        Viriato ouviu-os, portanto, e quando todos disseram o que pensavam retorquiu:

- Falais em morrer com honra, eu penso que podemos ainda viver com honra. E precisamos de viver, para defender a liberdade dos nossos filhos.

- Mas como? - objectou um dos chefes - este Romano, com as suas legiôes, os elefantes, os Númidas... este Romano é invencível!

- Caio Vetílio também parecia invencível e nós vencêmo­-lo. É certo que a situação é diferente. Não podemos recuperar Itucci, por agora, mas podemos fazer outra coisa. Vamos dar batalha campal...

        Levantou-se um murmúrio e foi Crisso, por uma vez, quem compreendeu o pensamento do Comandante:

        - É isso! - berrou - uma batalha como a que demos a Vetílio!

Viriato caminhou até ele e pousou as mãos nos seus ombros:

- Enfim, meu Túrdulo casmurro, enfim percebeste!

E virando-se para os outros começou a ditar ordens.

 

Três dias passaram e as tropas de Serviliano encontravam-se ­quase no local onde queríamos que estivessem. Por meio de pequenas manobras de ataque e fuga, Viriato lograra afastar o cônsul do seu campo entrincheirado e atraí-lo imperceptivelmente no seu encalço; mais uma acção desse género e poderia colocá­-lo no terreno ideal.

Na véspera dessa acção, Viriato sacrificou três cavalos aos deuses da guerra, implorando o seu auxílio e protecção para a hoste lusitana. Incapaz de dormir, passei a noite a conversar com Arduno e Táutalo, que estavam de serviço. Pela madrugada, o Comandante saiu da tenda já pronto para montar (em campanha, dormia completamente vestido e com a couraça, de modo a poder enfrentar qualquer emergência) e saudou-nos com uma tranquilidade que nos contagiou.

- Quero ver alegria em todas as caras - disse - afinal, os presságios são favoráveis, não há motivo para pensamentos sombrios!

Era verdade, porém eu sentia ainda uma ansiedade indefinível, como se uma voz dentro de mim segredasse um alerta. A voz, se existia, foi abafada pelo ruído dos preparativos de combate: o tinir do metal das espadas, o relinchar excitado dos cavalos, as vozes dos homens respondendo ao chamamento dos chefes. O dia estava claro, desanuviado, e prometia ser quente - uma vantagem para nós e uma desvantagem para os Romanos, cujo equipamento era mais pesado e acabaria por dificultar os movimentos.

Só os cavaleiros tomariam parte no ataque; os restantes deveriam ficar no campo, sob as ordens de Crisso. Porém, à última hora, este fez uma cena. Comandar retaguardas não era a sua vocação, disse em tom desdenhoso; quem o julgasse velho e fraco para combater, que o desafiasse em duelo e provaria do que era capaz. Enfim, recusando-se a ouvir os pacientes argu­mentos de Viriato, declarou que se não tomasse parte no ataque de cavalaria iria no nosso encalço, à testa da infantaria. Escasseava o tempo para discutir. Contrariado, Viriato substituiu-o por Audax no comando das reservas e deu ordem de marcha.

Assaltámos a coluna romana ao princípio da tarde. De acor­do com o plano estabelecido, não procurámos defender o nosso terreno; uma vez executada a carga, batemos em retirada - to­ dos menos Crisso e um punhado dos seus Túrdulos, que se envolveram num combate corpo-a-corpo. Olhando para trás, Táutalo viu o que se passava, rangeu os dentes de raiva e trovejou:

        - Tongio! Arduno! Tragam-me esses casmurros de volta, já! Vão deitar tudo a perder!

        Galopámos na direcção do grupo enquanto as trompas repetiam com insistência o toque de retirada.

        - Crisso! - gritei, ainda longe - são ordens do Comandante! - Retirar!

Ele combatia com ferocidade, abrindo uma clareira no meio da chusma de velites. Ouviu-me, no entanto, e acabou por puxar as rédeas ao cavalo e fazer meia volta, acompanhado pelos seus guerreiros. Uma nuvem de dardos abateu-se sobre nós - um deles assobiou junto ao meu capacete - e alguns Túrdulos caíram. Crisso veio, a galope, com o rosto sombrio e fechado; passou por mim como um furacão, enquanto Arduno o cobria de epítetos mais ou menos insultuosos.

A cavalaria lusitana desaparecera, porém conhecíamos bem o caminho para o local de concentração. Embrenhámo-nos na floresta e fomos encontrar um Táutalo ainda a fumegar de cólera incontida. Surpreendentemente, Crisso não abriu a boca nem se deteve e por isso continuámos, agora em silêncio. À entrada do nosso acampamento, Viriato aguardava, ainda montado, Com o sobrolho franzido e uma sombra no olhar, bem mais temível que a ira de Táutalo.

Todos desmontámos, excepto Crisso; o seu cavalo estacou em frente do cavalo de Viriato e durante alguns momentos os dois ficaram a olhar-se, como em desafio. Então, ouviu-se a voz do Comandante, mas não como eu esperava:

- Arduno, Tongio, depressa!

Antes que déssemos o primeiro passo, o alto e imponente vulto de Crisso curvou-se, os ombros descaíram e resvalou para a direita, caindo no solo desamparado. Em pleno ventre, através de um rasgão na couraça, entrara um dardo cuja haste se quebrara. Durante a retirada, Crisso ocultara-o com o escudo; era um prodígio ter conseguido aguentar o galope.

Mas o prodígio terminara. O sangue espalhava-se pela túnica e embebia a couraça; da boca do velho guerreiro saía um gemido rouco. Arduno ajoelhou-se, Viriato e eu seguimos-lhe o exemplo. Os nossos olhares cruzaram-se numa pergunta muda.

Arduno fez um sinal negativo. O Comandante debruçou-se e murmurou:

- Crisso, vamos dizer-te adeus e entregar-te aos deuses. Mas, se isso te for permitido, o teu espírito assistirá à vingança. Vou oferecer em tua honra uma hetacombe de legionários!

Crisso não podia responder, toda a sua energia se concentrava num derradeiro esforço para dominar a dor. Viriato fez um gesto imperioso. Obedecendo-lhe, levantei-me e desembainhei a espada enquanto Arduno agarrava com firmeza o pedaço da haste do dardo.

- Estás pronto? - perguntou-me e fiz um sinal afirmativo.

Num movimento brusco e hábil, Arduno puxou a ponta do dardo. Crisso deu um breve grito, estremeceu violentamente e ficou imóvel; não precisei de usar a minha espada.

Já Viriato se encontrava de pé, dando instruções rápidas e precisas: que ninguém, nem mesmo os guerreiros túrdulos, soltasse lamentos. Os ritos fúnebres teriam de esperar, pois se o espírito de Crisso os recebesse poderia retirar-se sem assistir ao ataque durante o qual o vingaríamos (e também, raciocinei adivi­nhando o pensamento de Viriato, os Romanos estavam próximos demais; o fogo da pira e as lamentações denunciariam a nossa posição). Após a batalha, Crisso teria as suas honras.

Os homens de Conímbriga aceitaram este argumento. O que não podia ser-lhes negado era o cumprimento da vigília: velaram toda a noite em redor do corpo do seu chefe, entoando orações fúnebres em surdina. Mas de manhã não pareciam fatigados, pelo contrário: o desejo de vingança dera-lhes novas forças e quando suplicaram a Viriato que lhes permitisse tomar a vanguarda para serem os primeiros a atacar, ele acedeu. Depois, suspirou, virando-se para mim:

- É uma questão de justiça. Mas, infelizmente, vamos perder o contingente de Conímbriga...

 

Serviliano avançava julgando perseguir-nos; na realidade, vinha ao nosso encontro. Os dois exércitos avistaram-se e fizeram alto para reconstituir fileiras e tomar posições de combate. Viriato enviou estafetas aos vários chefes, confirmando as instruções dadas na véspera. Depois ergueu a mão direita, que empunhava a lança, e deu o grito de guerra. Respondeu-lhe, em eco, o mesmo grito entoado com fúria pela hoste inteira. O ata­que iniciou-se.

O espírito de Crisso ficou satisfeito vendo os seus Conim­brigenses na primeira linha: o ímpeto da carga foi tal que rompeu a vanguarda romana e a nossa cavalaria precipitou-se pela brecha. Esta largou rapidamente sob a pressão da infantaria e os legionários começaram a ceder terreno, combatendo sempre. Durante alguns momentos (perdi a noção do tempo) entreguei-me à luta sem pensar. O meu corpo agia por si mesmo, guiado pela sabedoria instintiva dos guerreiros; o meu espírito, esse, devia repousar nos braços de alguma divindade - nunca me senti tão tranquilo num campo de batalha, apesar de comba­ter ao lado de Viriato, isto é, no ponto onde a refrega era mais encarniçada.

Um coro de urros estranhos sobrepôs-se aos brados e ao entrechocar das armas. O som desconhecido arrepiou-me, olhei à minha volta... vindos não sei de onde, os dez elefantes númidas entravam em combate. «Tudo perdido», foi a ideia que me assaltou, fria e mortal como a ponta de uma lança; à minha esquerda, Táutalo, pálido, olhava ansioso o Comandante. Nessa altura as fileiras romanas abriram por completo para dar espaço aos elefantes.

Viriato levantou o braço esquerdo e lançou um grito especial. As nossas trompas soaram dando um sinal bem conhecido «retirar simulando pânico») e a hoste obedeceu sem hesitação; toda a hoste - menos os homens de Conímbriga, exactamente como Viriato previra. Em retirada, deitei um olhar para trás e vi os elefantes em acção com as enormes patas vermelhas de sangue.

Os Conimbrigenses tinham escolhido o seu destino e agora a cavalaria romana perseguia-nos, desordenada, à rédea solta, dirigindo-se com entusiasmo e inconsciência para o local da emboscada.

Serviliano perdeu ali cerca de dois mil homens e, quando retirou, as suas provaçôes não tinham acabado. Viriato deixou novamente Audax no comando da infantaria, com o trabalho de perseguir fugitivos e recolher despojos (Audax teria de agir com lisura pois Arduno ficara também, para tratar dos nossos feridos) e conduziu a cavalaria, por atalhos que só nós conhecíamos, até às proximidades do grande acampamento de Serviliano. Quando, ao cair da tarde, o cônsul chegou, foi atacado à porta das suas próprias fortificações. Durante a noite inteira não lhe demos descanso; ao alvorecer, o exército consular tinha sofrido mais um milhar de baixas. Dos nossos postos de observação vimos os legionários abandonar o campo com armas, bagagens e elefan­tes - Serviliano retirava para Itucci.

A hoste ocupou o acampamento abandonado e incendiou­-o. Aí, nesse terreno reconquistado ao invasor, o corpo de Crisso foi queimado numa alta pira, juntamente com o seu cavalo, as armas e as jóias. Um funeral digno da bravura do velho chefe; nele só faltaram os seus próprios guerreiros, os homens de Conímbriga, que se tinham imolado no campo de batalha.

Tal sacrifício era respeitável, porém muito inconveniente. Conseguíramos a vitória, Serviliano recuara e estava refugiado em Itucci; mas depois de contados os efectivos da hoste e feita a avaliação dos víveres, tornou-se claro que não poderíamos ficar em terras da Bética. Dois dias após a batalha, Viriato conduziu as tropas de volta à Lusitânia.

 

Com uma vaga sensação de receio, contemplei as altas cristas dos montes Hermínios. Seis anos antes começara ali a grande expedição lusitana que faria de Viriato e do seu povo o símbolo da liberdade ibérica; agora estávamos de volta, ainda vitoriosos mas terrivelmente enfraquecidos, e o principal objectivo a atingir - a união de esforços contra o invasor - parecia-me um sonho cada vez mais longínquo. Os Numantinos faziam guerra e assinavam tréguas à sua maneira, os Vaceus alternavam derrotas com pequenas vitórias; nenhum dos chefes compreendera a impossibilidade de enfrentar separadamente um inimigo comum.

Enquanto progredia através da Betúria e da Lusitânia, Viriato enviara emissários a todas as tribos e povos aliados - as respostas tinham sido diversas, mas poucos se haviam apresentado para reforçar a nossa hoste. Era preciso repousar, esperar e fazer diplomacia. Entretanto, um mensageiro especial - Arduno ­correra a Aritium Vetus para informar que Viriato esperava a esposa no acampamento de Inverno.

Arduno regressou mais cedo do que pensávamos. Astolpas, contou ele, saudava cordialmente o seu genro, dava-lhe notícias da boa saúde de Tangina (que, infelizmente, não estava grávida, ao contrário dos rumores chegados até nós) e anunciava que ele próprio escoltaria a filha. Em trinta dias, no máximo, estaria connosco.

Esta resposta irritou o Comandante porque trinta dias era, de facto, muito tempo. Se os deveres lhe permitissem, partiria imediatamente para ir em pessoa buscar a esposa e discutir vcom o sogro; contudo, isso era impossível. O trabalho de Viriato duplicara: além de se ocupar da hoste, precisava de enviar e receber embaixadas, argumentar com os pequenos reis e príncipes da região, ouvir as notícias que continuavam a chegar do Sul.

E essas notícias não eram encorajadoras: após a nossa retirada, Serviliano saíra de Itucci, reconstituíra o exército e apressara-se a atacar as nossas praças-fortes na Betúria. Cinco cidades aliadas haviam sido forçadas à rendição e saqueadas sem piedade, o que significava para nós uma quase total perda de influência na região. Depois disso, o cônsul dirigira-se para o Cineticum.

- Mas o Cineticum - estranhou Táutalo - está sublevado a nosso favor! Serviliano não pode pensar em arranjar ali quartéis de Inverno seguros!

- E não pensa - ripostou Viriato. - Este cônsul é um general tão bom como Emiliano. Conhece a nossa fraqueza e vai combater durante o Inverno, enquanto puder; vai conquistar o Cineticum para assegurar a retaguarda, o que significa uma coisa: de lá, marchará para as terras de entre Tagus e Anas e a seguir entrará na Lusitânia. É uma ocupação metódica.

Calou-se, deu alguns passos e encarou-me

- Tongio, estás pronto para partir?

- Sempre. Posso chegar a Baesuris dentro de...

- Não, o Cineticum está perdido, receio bem. Mas entre Tagus e Anas deves encontrar a hoste de Cúrio e Apuleio. É tem­po - acrescentou com amargura irónica - de os nossos ilustres príncipes fazerem algo por mim. Durante estes últimos anos, têm-se divertido com os seus pequenos saques e incursões, sem quererem saber da verdadeira guerra... tu combateste com eles, tens de os convencer a atacar Serviliano antes que ele ocupe as suas próprias bases. Por Atégina, comandam agora dez mil homens, ao que me dizem! E eu ficaria feliz só com metade, como reforço... enfim, o essencial é que parem o avanço dos Romanos. Procura ser explícito: tudo depende deles.

Dardo, o meu cavalo, estava repousado e bem alimentado, as minhas armas limpas e prontas. Nesse mesmo dia, cumprindo as ordens recebidas, escolhi uma escolta de vinte homens ­ - bem gostaria de contar com Arduno, que fora enviado com mensagens para Caturo, rei dos Igeditanos. A escolta destina­va-se a evitar a necessidade de tomar por caminhos escondidos e de fugir a eventuais salteadores, pois era preciso atingir a «Me­sopotâmia» tão cedo quanto possível.

 

Os príncipes estavam em Sirpa e não me foi difícil convencê­-los a entrar em acção. Diariamente cpegavam pequenos grupos de homens e mulheres fugidos do Cineticum, posto a ferro e fogo pelas tropas consulares. Serviliano encontrava-se já nas serras e podia entrar na «Mesopotâmia» quando quisesse. Um perigo tão próximo não deixava dúvidas quanto à decisão a tomar. Cúrio perguntou-me se eu e os meus camaradas participaríamos no ataque e demos resposta afirmativa - de certo modo, a nossa presença estabelecia uma ligação entre Viriato e os príncipes, o que ia ao encontro dos desejos do Comandante.

Depois de seis anos passados a combater sob a insígnia do touro, pareceu-me ainda maior o contraste entre Viriato e qualquer outro chefe militar da Ibéria. Aquilo que o distinguia era, acima de tudo, a arte de transformar bandos guerreiros num exército-não à maneira romana, mas aproveitando as melhores qualidades dos combatentes ibéricos e anulando os seus defeitos: um exército com uma organização reduzida ao mínimo, todavia perfeitamente disciplinado, móvel, flexível e eficiente. Cúrio e Apuleio não tinham essa virtude, impunham-se pela força e a bravura. Os homens obedeciam-lhes mas não formavam um corpo unido; com eles, a guerra (se guerra se podia chamar às correrias e incursões a que se entregavam) era improvisada ao sabor dos desejos dos chefes.

Estes acusavam visivelmente a passagem dos anos e as marcas dos combates. Cúrio tinha o cabelo todo branco e movia­-se com gestos pesados; Apuleio tinha a face esquerda sulcada por uma enorme cicatriz que lhe apanhava o canto do olho. À volta dos dois comandantes, eram poucos os veteranos, aqueles com quem eu combatera: esses guerreiros mais velhos já haviam tombado.

Partimos de Sirpa no meio de uma acesa discussão estraté­gica: Apuleio, confiando nos efectivos da hoste, queria oferecer batalha campal; Cúrio mantinha-se fiel ao bem comprovado método das emboscadas, dos ataques e fugas constantes.

Cavalgando lado a lado, disputavam em altos gritos como dois velhos caturras... uma cena pouco digna, pensei; os homens da hoste, certamente já habituados a cenas semelhantes, pa­reciam divertidos e complacentes. Quanto aos meus camaradas, estavam siderados: uma tal coisa era impensável no exército de Viriato.

Voltámos a ter notícias de Serviliano: entrara na «Meso­potâmia». A discussão, que se prolongara por vários dias, tornou­-se mais agreste. Cúrio acabou por vencer, com o apoio da maioria dos homens - e Apuleio amuou. Mas no dia escolhido para o ataque apresentou-se bem disposto e activo, dando ordens na voz alegre e ríspida que (conforme eu ainda recordava) impelia os guerreiros a uma obediência imediata.

Em minha opinião, o terreno escolhido para a emboscada não era o melhor, porém os legionários iam desprevenidos e deixaram-se apanhar de surpresa. Apuleio lançou-se contra a vanguarda e fez estragos terríveis nas fileiras dos hastários, enquanto, aproveitando a confusão, Cúrio se apoderava da coluna das bagagens, onde estavam os despojos tomados por Serviliano durante a campanha no Cineticum. Cercámos rapidamente as mulas e os burros carregados com o riquíssimo saque e conduzimos os atemorizados animais para longe enquanto era dado o sinal de retirada geral. A cavalaria de Apuleio desenvencilhou-se do inimigo (este só então começava a organizar-se) e veio ao nosso encontro.

Era uma primeira vitória - límpida, bem conseguida, brilhante... até esse momento. Os dois corpos da hoste iam já reunir-se num só quando Apuleio bradou:

- Parem! Ainda não acabei!

Fez meia volta e galopou de novo contra a legião, obrigando os seus homens a segui-lo. Cúrio espumou de raiva:

- Aquele idiota; aquele maldito cão idiota! Quer ter a sua batalha campal, nem que nos perca a todos! Por Endovélico, Runesos-Césios, Atégina! pelos deuses todos, juro que o esfolo vivo!

Para esfolar Apuleio era preciso deitar-lhe a mão - e em breve o vimos cercado por Romanos. Com uma última imprecação, Cúrio acorreu em seu auxílio. A nossa carga abriu uma brecha durante o tempo suficiente para que Apuleio e os seus pudessem libertar-se - então batemos em retirada, para lugar seguro.

O meu primeiro cuidado foi reunir e contar os meus camaradas - todos estavam presentes, menos um. Os restantes não tinham ferimentos graves e eu próprio só recebera uma espadeirada mal desferida que entalhara a couraça sem chegar à pele. Só depois reparei no que se passava à minha volta, nos gritos e sinais de mágoa. Cúrio regressara da carga deitado sobre o pescoço do cavalo, com guerreiros a segurá-lo dos dois lados; recebera uma lançada no peito e estava moribundo. Apuleio, que se encontrava longe, ocupado a concentrar os seus homens e a contar as baixas, ainda não sabia de nada.

Ofereci os meus préstimos como curandeiro e levaram-me até ao príncipe mas bastou-me um breve exame para compre­ender que nada podia ser feito. Cúrio agonizava. A ponta da lança não ficara dentro da ferida e o sangue corria em abundân­cia - cobrira as crinas e o pescoço do cavalo durante a fuga, ensopara a sua roupa e espalhava-se agora pela rocha onde o tinham deitado. Pouco líquido haveria ainda dentro do seu corpo.

Apesar disso, levou mais tempo a morrer do que eu julgaria possível. Em voz baixa, fiz esta reflexão ao ouvido de um dos guerreiros que o tinham amparado na retirada e ele respondeu: - Está à espera de Apuleio.

De facto, Cúrio resistiu até ao momento em que Apuleio chegou. Os dois olharam-se num silêncio que me pareceu longo (mas não poderia sê-lo) e Cúrio arranjou forças para dizer uma palavra:

- Burro!

Tentou um sorriso; e a sua alma partiu.

        Nunca ouvi grito tão longo, tão desesperado e selvagem como o que saiu da boca de Apuleio. Trespassou o ar, vibrou nas folhas das árvores e nos rochedos, fez calar os lamentos da haste e morreu numa espécie de rugido. Logo a seguir, a mesma voz soltou outro grito, este bem articulado:

        - Ao ataque!

        Enquanto montava, pensei: «É a hora da vingança e talvez também a do desastre. . .» a fúria é a pior conselheira dos generais.

Não foi propriamente um desastre, mas perdemos os despojos. Serviliano, que viera atrás de nós, recuperou-os com facilidade porque ninguém se lembrou de levar as bagagens para as colinas e montar uma guarda. De qualquer modo, o cônsul pagou caro a desforra, pois este segundo ataque, tão inesperado quanto o primeiro, causou-lhe baixas muito elevadas. Dois ou três dias após o recontro, a legião retirou para o Anas, atravessou o rio e regressou à Bética.

Embora contristado pela morte de Cúrio, respirei fundo: o objectivo de Viriato fora alcançado. E o meu alívio ultrapassava muito as questões militares, porque - como é fácil de calcu­lar - desde a entrada de Serviliano em terras cónias eu vivia angustiado pensando em Lobessa e, sobretudo, no meu filho; chegara mesmo a enviar um mensageiro ao santuário, com palavras de advertência, e em resposta obtivera um curto e lacónico recado: que não me inquietasse, o deus falara e garantira a sua constante protecção. Mas a retirada dos Romanos dava-me novo conforto.

 

Na vasta planície, a pira construída para receber o corpo de Cúrio erguia-se como uma alta torre. A hoste formara, apeada. À frente, isolado e silencioso, estava Apuleio, com a espada, o escudo, a lança, a sua melhor couraça e todos os seus adornos. Suportava o peso das armas sem cansaço aparente, apesar de não ter comido ou dormido nos últimos dias.

Atrás dele, eu e os meus camaradas, também armados, formávamos a primeira fila. Logo a seguir a nós, a ordem tradicio­nal fora subvertida: em vez dos chefes e veteranos, perfilavam­-se, dois a dois, algumas dezenas de jovens guerreiros. A relação íntima entre Cúrio e Apuleio modificara-se com o tempo (ambos haviam casado e tinham vários filhos) mas o exemplo fora se­guido e havia agora na hoste numerosos pares de amantes. Eram eles que, assumindo natural e tacitamente um direito que nin­guém pensara contestar, se encontravam na vanguarda da formação para acompanhar Apuleio na despedida. Não falavam nem gritavam os lamentos rituais: limitavam-se a olhar para o seu comandante.

Um destes pares de guerreiros levou até à pira o cavalo de Cúrio, que deveria acompanhar o seu senhor. Apuleio executou o sacrifício com gestos precisos e sóbrios e foi também ele que empunhou o archote e lançou fogo à madeira resinosa. As chamas espalharam-se devagar antes de ganhar força e altura. Quando o fumo ocultou o cadáver, um escravo aproximou-se de Apuleio com uma taça cheia de vinho em cada mão - o que achei estranho.

O príncipe tomou uma das taças, verteu o vinho numa libação e lançou-a na fogueira (percebi que aquela era a taça de Cúrio). Estendeu novamente a mão para pegar na outra e o escravo, que estava pálido e tremia, hesitou em entregar-lha mas um olhar ameaçador forçou-o a obedecer. Apuleio pegou na taça, virou-se para trás e disse, vincando bem as palavras:

- Este homem não pode ser castigado, cumpriu ordens. Bebeu o líquido até à última gota. Devia ter escolhido um veneno muito forte, pois os seus joelhos dobraram-se mesmo antes de acabar de esvaziar a taça e caiu logo a seguir. Corri para ele, mas já estava morto. Na pira, as chamas rugiam, ateadas pelo vento.

Através das fileiras da hoste, cujos homens pareciam estátuas, alguém abriu caminho empurrando quem lhe estava pela frente com tanta facilidade como se afastasse espigas de trigo numa seara. Reconheci-o: Era Alúcio, o mais terrível e sanguinário dos veteranos. Parou junto do cadáver de Apuleio; sem se apressar, pousou lança e escudo no solo, tomou nos seus braços o corpo do príncipe e com um gesto vigoroso lançou-o sobre a pira, onde as labaredas começavam a baixar. E enquanto outros carregavam mais lenha para a fogueira, Alúcio retomou as armas e regressou ao seu lugar. Trompas e buzinas soaram numa derradeira saudação aos dois príncipes.

 

Com as mortes de Cúrio e Apuleio, a hoste dissolveu-se. Muitos guerreiros regressaram às suas terras, outros formaram pequenos bandos. Saltei sobre esta oportunidade que me permitiria levar reforços a Viriato; não me interessavam homens como Alúcio, apesar do seu incontestável valor em combate, porque veteranos assim criam mais problemas que os que ajudam a resolver, sempre prontos a disputas por causa de mulheres ou do saque; dirigi-me aos guerreiros mais jovens, capazes de aceitar e entender a disciplina e a organização que havia entre nós. Tanto e tão bem falei (com a ajuda dos deuses, pois a eloquência não é o meu forte) que logrei levar Comigo cerca de três mil homens.

Quando voltei a avistar os Hermínios, era já pleno Inverno e os cumes das serranias estavam cobertos de neve. A nossa hoste continuava acampada no mesmo local, protegendo-se como podia contra o frio. Mas não faltavam lenha nem alimentos, porque - prodígio! - Astolpas, o acomodatício Astolpas, não se limitara a escoltar a filha; viera com mil e quinhentos guerreiros (e abundantes provisões) colocar-se sob as ordens do genro. Essa era a grande novidade que me esperava - ou, pelo menos, era a melhor, a única boa notícia. As outras, que me foram relatadas por Arduno, eram bem menos agradáveis.

Durante a minha viagem de regresso, Viriato continuara a receber informações dos nossos aliados: mal Serviliano voltara as costas à Bética para entrar no Cineticum, várias cidades recém­-ocupadas tinham-se revoltado a nosso favor e aniquilado as guarnições romanas (essa foi uma das razões, afinal, que o levaram a abandonar tão apressadamente a «Mesopotâmia»

Serviliano, que estava no fim do seu consulado, marchara primeiro na direcção de Corduba até encontrar um destacamento enviado pelo questor com uma carta do Senado; este certamente lhe ordenara que continuasse no governo da Hispânia Ulterior, como procônsul, pois que, em vez de prosseguir para Corduba, recomeçara as operações militares - e com êxito. Três cidades revoltadas, Astigis, Obulcola e a própria Itucci, haviam caído novamente em poder dos Romanos. O castigo fora duríssimo: os emissários falavam em quinhentos homens decapitados de imediato, logo a seguir à rendição, e em mais dez mil execuções em massa. Depois disso, o mau tempo impedira o procõnsul de tentar novos ataques e forçara-o a entrar em quartéis de Inverno.       - Com tudo isto - perguntei a Arduno - o que vamos nós fazer?

Ele encolheu os ombros. - Continuar, penso eu. Com os reforços de Astolpas e os que tu trouxeste, é quase certo que na Primavera partimos ao encontro de Serviliano. Viriato jurou im­pedi-lo de entrar na Lusitânia.

Fiz-lhe outras perguntas: qual a resposta de Caturo? O rei prometera enviar um pequeno contingente de Igeditanos; e Tangina estava grávida? Não, que ele soubesse, mas as relações entre os dois esposos pareciam excelentes e entre Viriato e Astolpas trocavam-se palavras cordiais. «Tudo bem em casa, tudo mal fora dela», concluiu Arduno.

As suas previsões estavam correctas. Apesar do rigor da invernia, Viriato começou logo a treinar os novos efectivos. Ainda nevava quando recebemos ordem para levantar o acampamento.

Entre preparativos de homens, armas e cavalos, foram imoladas vítimas e lidos os presságios, que anunciaram muito sangue e uma vitória. Pela minha parte, desfiz-me de uma pulseira de ouro que entreguei a um sacerdote para que ele oferecesse um boi aos deuses e perguntasse o futuro do meu filho (não ficara completamente descansado, mesmo com Serviliano em Corduba). A resposta foi curta e severa: a criança estava sob protecção divina e eu não devia fazer mais perguntas.

 

A Primavera rompia quando entrámos na Betúria e soubemos que Serviliano estava em campanha; esmagara as tropas de Connobas, o nosso aliado turdetano, e encontrava-se agora, também ele, na Betúria, preparando-se para cercar Erisane.

A notícia era particularmente grave porque a derrota de Connobas fora definitiva. o príncipe rendera-se ao procônsul e era seu prisioneiro. Serviliano perdoara-lhe, mas fizera cortar a mão direita a todos os seus guerreiros, um gesto de crueldade gratuita que nos indignou. É, aliás, um traço bem típico dos Romanos, a crueldade gratuita. a corte das mãos é praticado por quase todas as tribos lusitanas, mas como oferta consagrada aos deuses, para que estes concedam o seu auxílio nos acasos e incertezas da guerra. É um costume vindo da noite dos tempos, ordenado e instituído pelas divindades que exigem esse sacrifício. Todavia, os deuses de Roma nunca o exigiram. os Romanos fazem decepar friamente as mãos dos prisioneiros só para «castigar os Bárbaros», como eles dizem - castigá-los pelo seu amor à liberdade e à terra. Usurpam um acto de piedade, transformam-no em pura selvajaria.

Entretanto, o objecto da nossa cólera estava bem perto; os defensores de Erisane enviaram-nos um apelo desesperado e a hoste agitou-se com o desejo de vingança. Quando a notícia se tornou conhecida, os chefes procuraram Viriato para discutir com ele as medidas a tomar.

        Pela primeira vez, Viriato não os recebeu, ou, melhor dizendo, não quis falar sobre o assunto.

        - Sei ao que vêm - declarou antes que alguém pudesse abrir a boca - mas agora quero estar só. Vão-se embora, preciso de pensar.

O tom não encorajava réplicas e todos obedeceram. Táutalo anunciava, em altos gritos, que ia começar a coleccionar mãos de legionários.

Viriato isolou-se completamente. À noite, recusou-se a cear e nem sequer dormiu na tenda. De madrugada, fui sacudido a meio do meu melhor sono; era ele.

- Não faças barulho e anda comigo.

Levantei-me, meio tonto, deitei a mão ao manto de peles (o ar, fora da tenda, estava gelado) e segui-o. Numa clareira fui encontrar dois cavalos arreados - um deles era o meu Dardo. o guerreiro que os tinha pelas rédeas saudou o Comandante. Este correspondeu e virou-se para mim.

- Escuta bem, Tongio; se for preciso podes passar por um Romano? Não digo um legionário, mas o filho de um colono, por exemplo...?

Pensei um pouco e respondi: - Julgo que sim, mas só durante certo tempo - até que me engane em alguma palavra...

- É só para uma emergência. Escuta: Cantios (o homem que segurava os cavalos) conhece um caminho seguro até Erisane. Como sabes, os Romanos estão a cercar a cidade e precisamos de saber em que ponto eles estão. Quando chegares à vista das muralhas, terás de ir sozinho - precisamente porque se fores apanhado poderás inventar uma história qualquer... diz­-lhes que Itálica foi atacada pelos Lusitanos, por exemplo; e que conseguiste fugir... que te perdeste, que vagueaste pelas montanhas...

- E a minha roupa?

- Naquela trouxa, presa aos arreios do teu cavalo, há roupa romana. Veste-a quando te aproximares de Erisane. Se tudo correr bem, Tongio, vamos poder dar a Serviliano uma resposta merecida e que lhe devemos há demasiado tempo!

Contra a minha expectativa, saí-me bem. Consegui aproximar­-me da cidade sem ser visto e observar a situação: o exército do procônsul estacionara em frente da porta principal, a uma distância que o punha ao abrigo das armas de arremesso. Grupos de escravos e auxiliares cavavam trincheiras e levantavam palissadas, mas o trabalho estava apenas começado. Quando ia regressar, aproximou-se uma patrulha a cavalo; escondido no alto de uma árvore, retive a respiração e rezei a todos os deuses da guerra pedindo que o ramo não cedesse e nenhum ruído chamasse a atenção dos Romanos. A patrulha afastou-se e assim que pude deixei-me escorregar ao longo do tronco e tratei de sair dali.

Cantios esperava-me no lugar aprazado e não protestou quando eu insisti em mudar de roupa (não queria envergartrajos romanos mais tempo que o estritamente necessário). O dia avan­çava; urgia regressar para levar as informações a Viriato e também para evitar que a noite nos surpreendesse a meio do caminho, pois ultimamente costumava levantar-se um espesso nevoeiro e o tempo não dava sinais de mudança.

Mais de cem vezes arriscámos uma queda mortal ao galopar pelas trilhas de montanha, à beira de precipícios, contudo chegámos sãos, salvos e inteiros. Logo que Viriato me ouviu, mandou aprontar dois mil cavaleiros e ordenou a Táutalo e Astolpas que conduzissem o grosso do exército para um vale apertado próximo de Erisane. Nenhum dos dois corpos de tropas estava autorizado a montar tendas ou fazer fogueiras e deviam progredir tão silenciosamente quanto possível; além disso, metade da palha que trazíamos para os cavalos foi distribuída em pequenas porções pelos dois mil guerreiros que ele próprio iria comandar. E com estas ordens partimos, na madrugada seguinte.

Se eu, na altura, conhecesse o seu plano, julgá-lo-ia impra­ticável e insensato. Na verdade, só resultou porque os deuses estavam connosco e Viriato só o escolheu porque os presságios haviam anunciado uma vitória depois do sangue - e este fora já vertido, em dor e ignomínia, pelos Turdetanos de Connobas.

Perto de Erisane, desmontámos e levámos os cavalos pelas rédeas. O nevoeiro apareceu, fielmente, ao anoitecer e Viriato voltou a chamar Cantios, a quem deu instruções em voz baixa. O guerreiro despojou-se das armas e da couraça, fez uma rápida libação a Durbédico, o deus da sua tribo, e desapareceu na bru­ma. Era fácil adivinhar o que ia fazer.

Quando o Sol nasceu, vieram chamar Viriato, que falava comigo e com Arduno.

- É o sinal? - perguntou erguendo-se de um salto.

Seguimo-lo até ao posto de vigia, onde, sem risco de ser avistado pelos Romanos, era possível observar Erisane. Do alto das muralhas subia para o céu limpo uma delgada coluna de fumo negro; nada que pudesse despertar atenções, podia ser uma fogueira em que se cozinhava a refeição das sentinelas ou se consumia uma vítima oferecida aos deuses. Havia um só pormenor invulgar: era o único fumo na cidade.

- Sim - murmurou Viriato com alívio - é o sinal. Cantios conseguiu entrar. Tongio, Arduno, transmitam estas ordens: não quero ouvir um só ruído, os cavalos que fiquem atrás do ro­chedo grande. Não podemos oferecer sacrifícios, mas todos os homens deverão rezar, pedindo que logo à noite haja nevoeiro...

É difícil reduzir ao silêncio um corpo de cavalaria, mas conseguimo-lo - porque Viriato assim o ordenara. E o nevoeiro respondeu à chamada, tão opaco e denso que julgaríamos poder furá-lo com a ponta de uma lança. Procedemos então aos preparativos finais: cada guerreiro envolveu as patas do seu cavalo com a palha que lhe fora distribuída e dispôs as armas de forma a que não fizessem ruído durante a marcha.

Pode imaginar-se o que é percorrer uma extensão de terreno (não me detive a contar quantos estádios) a meio da noite, avançando através da bruma, com medo de respirar e mais medo ainda de que um dos cavalos se espantasse ou resolvesse largar um relincho denunciador. Julguei que nunca mais chegaria, que nos tínhamos desviado, que iríamos acabar junto do campo romano - e quase esbarrei contra a muralha de Erisane. Uma porta com os gonzos a escorrer azeite abriu-se em silêncio e, dois a dois, entrámos.

As ordens eram claras, o barulho continuava a ser rigoro­samente proibido; Arduno, eu e três chefes encarregámo-nos de as fazer cumprir enquanto Viriato conferenciava com os Erisa­nenses. Estes (soube-o depois) insistiram em tomar parte na sortida, o que Viriato rejeitou argumentando que não seria prudente desguarnecer a cidade - uma boa desculpa para encobrir outro motivo: preferia contar somente com homens treinados e habituados ao seu comando.

Quando o nevoeiro começou a clarear quebrámos o jejum com pão de bolota e água, tudo quanto Erisane podia oferecer, pois os víveres já escasseavam, retirámos a palha das patas dos cavalos e esperámos o sinal. Um vento forte soprou e dispersou a névoa.

Viriato, de cabeça descoberta, estava no alto da muralha observando o inimigo como se esperasse alguma coisa. E, na verdade, esperava que os Romanos retomassem em pleno o trabalho nos fossos e trincheiras. Todos nós, apesar da noite passada em claro e da magra refeição, sentíamos-nos alegres e cheios de ânimo. Não era só o êxito, a entrada silenciosa em Erisane, feita, por assim dizer, nas barbas do inimigo; era sobretudo a voz e o olhar do Comandante. No ano anterior, sem perder embora a velha energia, ele mostrara-se reservado e sombrio - nada para admirar, com os revezes sofridos - e mais tarde, enquanto estiverámos no acampamento de Inverno, a sua impaciência fora visível. Agora, o rosto voltava a brilhar, tranquilo e aberto, iluminado por aquela chama irresistível que era um sinal de vitória. Quando colocou o capacete de três plumas vermelhas e montou a cavalo, senti-me recuar no tempo, voltar àquela manhã em que fizéramos uma sortida semelhante contra o exército de Caio Vetílio.

A grande porta da cidade abriu-se. Eu, que estava logo atrás da insígnia, pude ver ao longe os homens que trabalhavam nos fossos correndo para lugar seguro. Viriato lançou o grito de guer­ra, correspondido por nós e por toda a população de Erisane, e cravou os calcanhares nos flancos do cavalo.

No campo romano só houve pânico a partir do momento em que a insígnia foi reconhecida, porque todos julgavam Viriato muito longe; contavam com uma sortida dos Erisanenses, mas não com a grande hoste lusitana. E, pela primeira vez, Serviliano perdeu' totalmente o domínio dos seus homens, que foram varridos até ao vale onde se encontrava o resto do nosso exército; aí, Táutalo e Astolpas, num ataque simultâneo, comple­taram o envolvimento. À tarde, quando o Comandante ordenou uma pausa no combate, as poucas centenas de legionários que não tinham morrido ou fugido estavam concentradas no fundo do vale, em redor do procônsul. Mas não havia saída. Serviliano estava virtualmente em nosso poder.

 

Serviliano tentou, pelo menos duas vezes (se a memória não me atraiçoa), forçar uma saída, o que era completamente impossível. A haste lusitana, ocupando todas as passagens e trilhos, podia observar os menores movimentos dos legionários.

Esperávamos uma ordem para o ataque final e discutíamos se o procônsul teria coragem para se suicidar antes de nos cair nas mãos, quando um toque de buzina convocou os chefes e o estado-maior para uma reunião. Viriato subira a um grande rochedo de onde se podia ver o vale inteiro; os Romanos, numa última medida desesperada, procuravam improvisar defesas e tinham construído um muro irregular com pedras e pedaços de rochas soltas... como disse, era uma medida desesperada ou talvez Serviliano quisesse somente ocupar os legionários para lhes conservar o moral.

        Obedecendo a um gesto de Viriato, sentámo-nos espalhados pelo topo do rochedo, que era grande e quase plano.

- Meus amigos - começou - a situação é esta: o procônsul está ali, à nossa mercê. Podemos trucidá-lo com todos os seus homens, libertá-lo sob resgate, usá-lo como refém ou...

        - Ou decepar-lhe a mão direita - sugeriu um dos presentes - como ele fez a tantos dos nossos!

Não me recordo de quem disse isto, porém sei que não foi Táutalo, apesar da sua anunciada intenção de «coleccionar mãos de legionários». Táutalo estava calado e lembrei-me, então, de o ter visto pouco antes em animada conversa com Viriato.

Este, entretanto, respondia ao homem que o interrompera: - Ganharíamos pouco e perderíamos muito. Não, eu chamei­-vos para dizer que vou oferecer a liberdade a Serviliano, sob condições.

        Não me contive e exclamei: - Mas tu próprio disseste: não podemos acreditar na palavra dos Romanos!

        Sem se exaltar (nunca se exaltava quando nos ouvia) ele respondeu:

- Já falaremos sobre isso. Agora, quero que saibam aquilo em que tenho pensado nos últimos tempos: com o auxílio e a protecção dos deuses, conseguimos vencer os exércitos que os Romanos enviaram contra nós; mas quantos mais exércitos poderá Roma enviar? Todos os anos entramos em campanha e obrigamos o inimigo a recuar e todos os anos chega um novo exército. Meus amigos, não podemos esquecer que lutamos contra a cidade mais poderosa do mundo! Tentámos unir contra ela os povos da Ibéria e falhámos; os nossos campos estão talados pela guerra, a nossa hoste diminui, os homens estão fatigados e as provisões acabarão por faltar. Não podemos continuar a combater sem descanso, exército atrás de exército. Mas podemos salvar a nossa liberdade e temos agora a melhor oportunidade para isso, talvez a última.

        Falara movendo-se um pouco ao acaso (era o único que estava em pé) mas nesta altura parou diante de mim.

        - Os Romanos mentem e faltam à palavra, é certo. Mas o que vou exigir não é uma promessa e sim um tratado, firmado com juramentos perante os deuses e ratificado pelo Senado de Roma; um tratado que eles não possam violar sem cometer perjúrio; um tratado que eles não possam trair sem ofender os seus deuses. Nenhum homem, nenhum povo é louco ao ponto de faltar à palavra dada às suas divindades; o castigo seria terrível.

Ninguém objectou contra este argumento e assim, pouco depois, dois guerreiros empunhando os símbolos da paz avan­çaram lentamente na direcção do campo romano. Vimo-los, ao longe, parar a escassa distância do muro improvisado; alguns legionários, entre os quais quase certamente um intérprete, apro­ximaram-se e houve uma troca de palavras, depois os nossos homens regressaram a galope.

Não tivemos de esperar muito - os Romanos sabiam-se perdidos e deviam começar a sentir fome e sede. Um grupo de seis cavaleiros destacou-se e veio ao nosso encontro. À frente via-se o procônsul, um homem alto, de ombros largos, cabelo grisalho e rosto severo. Apesar do ódio que sentia por ele, causou-me boa impressão; dominava-se perfeitamente e se tinha medo não o deixava transparecer.

De facto, mostrou-se à altura da circunstância: apesar de Viriato se encontrar apeado e de cabeça descoberta, Serviliano, que nunca o vira de perto, dirigiu-se-lhe imediatamente num tom firme:

- Sou Quinto Fábio Máximo Serviliano. Quais são as tuas condições?

O intérprete que ele trouxera começou a traduzir, ou antes, a tentar traduzir - o seu conhecimento da nossa língua era rudimentar e os sons que articulava pareciam vagidos. Viriato olhou-me; avancei alguns passos e disse em latim:

- Viria to, filho de Comínio, Comandante das hostes da Lusitânia, deseja fazer-te uma proposta de paz.

Eles não esperavam ouvir um «Bárbaro» falar tão fluente­mente o seu próprio idioma e a surpresa que demonstraram fez-me sorrir. Viriato começou a falar e fui traduzindo o seu discurso:

- Romano, entraste nas nossas terras como invasor, fizeste correr sem piedade o sangue dos guerreiros que aprisionaste e não poupaste sequer a população das cidades que caíram em teu poder. Estás à minha mercê. Mas não quero a tua vida e sim a liberdade do meu povo. Por isso, estou disposto a deixar-te partir.

Quando acabei de traduzir a frase, Serviliano falou de novo: - Volto a perguntar quais são as condições.

- Deixar-te-ei partir e jurarei perante os deuses não levantar as minhas armas contra vós. Eis o que exijo: um tratado de paz. Exijo, não de ti mas de Roma, que reconheça a liberdade dos reis e chefes meus aliados. Exijo, em juramento, que Roma não volte a atacar-nos. Exijo, enfim, que Roma me reconheça como amigo do seu povo. Em troca, farei também um juramento: que Viriato, amigo do povo romano, honrará essa amizade. Agora, vai; espero a tua resposta até à próxima madrugada.

Logo que os Romanos se afastaram, dirigi-me ao Comandante e perguntei-lhe se pensava que Serviliano aceitaria as condições. Ele deu-me uma palmada amigável no ombro:

        - Não tem outra saída, Tongio; a menos que prefira morrer. Mas julgo que vai aceitar.

        Aproximei-me um pouco mais e baixei a voz:

- Sabes, decerto, que o título de Amicus Populi Romani só é concedido por Roma aos reis seus aliados...? - e, como ele acenasseafirmativamente, continuei: - Então... este é verdadeiramente o primeiro passo para?..

- Talvez. Se for essa a vontade dos deuses.

E pôs fim à conversa com outra palmada no meu ombro.

        O procõnsul não esperou pela manhã seguinte. A meio da tarde, os nossos vigias viram-no montar a cavalo e sair da cerca de pedras rodeado pelos seus oficiais. Viriato montou também e foi ao seu encontro, seguido pelo estado-maior. Quando os dois grupos se reuniram, Serviliano saudou Viriato gravemente (devia ser a primeira vez que saudava um Lusitano) e olhou-me como a solicitar uma tradução para as suas palavras:

- Aceito as tuas condições, mas devo prevenir-te: segundo as nossas leis, o tratado só poderá ser válido quando o Senado o aprovar em Roma. Pela minha parte, posso jurar pelos deuses do Capitólio que o respeitarei. Mas terás de confiar na minha palavra.

        Viriato fixou nele o seu olhar, que Serviliano sustentou. Depois de um breve silêncio, disse:

        - Confiarei.

 

Assim foi redigido e assinado o tratado, segundo as condições de Viriato, e fizeram-se os juramentos solenes perante os deuses, para que nenhuma das partes pudesse faltar ao acordo sem cometer sacrilégio. Depois, a nossa hoste abandonou as posições que ocupava na saída mais larga do vale e os restos do exército romano marcharam na direcção de Corduba, enquanto nós regressávamos a Erisane para festejar a vitória.

«Festejar» é um termo exagerado, porque Viriato proibiu grandes festins e anunciou que até ordens em Contrário se manteria a situação de alerta. Nessa mesma noite, em conversa com os amigos, acentuou que só deveríamos considerar-nos em paz quando recebêssemos a notícia de que o Senado ratificara o tratado; até lá, era de esperar ainda um ataque das tropas romanas da Citerior.

- E não da Ulterior? - perguntei. Ele abanou a cabeça.

        - Confio em Serviliano. Quando chegou a altura, não hesitou em jurar pelos deuses da sua cidade. É uma excepção, um Romano honesto... pena que haja tanto sangue entre nós, quase poderia ser seu amigo.

Táutalo interveio:

- Apesar de tudo o que fez?

O Comandante encolheu os ombros. - E que fizeram os outros? Para eles, «castigar os Bárbaros» é o mesmo que matar moscas no Estio. Mas Serviliano, ao contrário dos outros, apren­deu que somos homens como ele; aprendeu-o quando se viu cercado, quando esperava ter de se lançar sobre a própria espada para escapar á vergonha e à tortura. Eu atentei na cara dele quando nos encontrámos pela primeira vez - e depois, no juramento.

De facto, Serviliano manteve-se fiel à palavra. Regressou a Corduba, mandou reforçar as guarnições das suas praças-fortes, porém absteve-se de acções ofensivas - e fez mais: dois meses depois, enviou um mensageiro a Viriato, saudando-o como Amícus Populí Romaní. O Senado ratificara o tratado e a paz fora, finalmente, conquistada.

 

Devolver a espada à bainha, dormir de um sono completo, sem receio de ataques nocturnos, montar a cavalo pela manhã só para ir á caça - e pensar em arranjar uma mulher que me desse filhos... a paz teve para mim o gosto de uma bebida fresca depois de um dia quente e seco. Amei-a sem moderação; o espírito do velho Crisso deve ter ficado escandalizado.

Entretanto, havia ainda muito a fazer. Viriato dispensou todos os corpos da hoste (os homens ansiavam por rever as suas terras e as famílias que lá tinham deixado), porém os guerreiros da sua tribo e os amigos mais chegados ficaram com ele: ao todo, uns mil e quinhentos cavaleiros. Faltava agora completar a missão, transformar os Lusitanos num povo organizado, com um rei que o defendesse - e isto devia ser conseguido pela vontade livre dos chefes e príncipes da Lusitânia. Sabíamos que a tarefa seria árdua, mas a recente vitória permitia-nos todas as esperanças. Mais confiantes nos sentimos ainda ao chegarem até nós mensagens de vários povos, não só da Lusitânia mas de outras regiões: as tribos aclamavam Viriato como «Protector da Liberdade Ibérica» e como tal foi saudado durante a viagem de Erisane para Aritium Vetus, onde Tangina o esperava.

No final desse ano, soubemos de um acontecimento igual­mente importante: Serviliano terminara o mandato na Ulterior e fora substituído pelo seu próprio irmão de sangue, o procônsul Quinto Servílio Cepião. Pensámos: «Esta é a última garantia que nos faltava!» E regozijámo-nos.

 

Sim. Regozijámo-nos como crianças que vêem chegar o lobo e julgam que ele é o cão de guarda.

E por isso estávamos agora refugiados na Carpetânia; uma hoste reconstituída à pressa e logo forçada a recuar para não ser esmagada; uma pequena hoste submetida aos rigores de um Inverno impiedoso, empenhada num desesperado esforço de sobrevivência.

Servílio Cepião não perdera tempo a ocultar as suas inten­ções. Os emissários que Viriato lhe enviou com mensagens de paz e amizade foram, ao longo da jornada, sabendo de ataques romanos contra povoações livres, nossas aliadas, e ao verificar que o próprio governador comandava as incursões voltaram para trás.

Viriato era homem de reacções rápidas, porém estava preso ao juramento feito e a sua palavra era sagrada. Pensou, naturalmen­te, que Cepião agia por sua conta e risco, à revelia do Senado, para nos forçar a responder às provocações e recomeçar a guer­ra. Fugindo a essa armadilha, pediu reforços aos Vetões e Calaicos mas não abriu hostilidades, antes considerou a possibilidade de mandar um protesto ao governador da Hispânia Citerior e até mesmo ao Senado, em Roma. Entretanto, abandonou Aritium Vetus com os homens de que dispunha e encaminhou­-se para a Betúria.

Não contou com a pressa dos Romanos em trair compromis­sos. Ao entrar na Betúria, soubemos que Erisane estava cercada; quando nos aproximámos da cidade, já esta caíra em poder de Cepião - não pudera resistir muito tempo, encontrava-se praticamente desguarnecida - e dois Erisanenses, a quem o procônsul fizera cortar a mão direita, vieram transmitir-nos uma mensagem verbal: «O Senado e o povo de Roma declaravam guerra aos Lusitanos para vingar as afrontas recebidas»!

Logo a seguir, as legiões da Ulterior tinham-nos caído em cima e não houvera tempo senão para retirar. Cepião perse­guira-nos até à Carpetânia, mas como desconhecia o terreno escapámos-lhe facilmente. Ali estávamos, tratando dos feridos e procurando retomar forças. Julgávamos ainda que o procônsul mentia, que a declaração de guerra fora uma iniciativa sua; a ilusão desfez-se ao sabermos que o cônsul Popílio Lenate, governador da Citerior, recebera ordens do Senado para romper as tréguas com os Numantinos.

        Quando recebemos esta última notícia, dada por um exausto mensageiro chegado de Numância, os nossos rostos ansiosos voltaram-se para Viria to, que ouvira o homem em silêncio e com os dentes cerrados.

- Enganei-me - disse ele por fim - ao pensar que os Romanos são homens. Homens? Que homens? Qual é o povo humano capaz de tal impiedade? Que cidade é essa que faz troça dos seus próprios deuses? O mundo está a ser dominado por um povo de feras!

A sua voz subira de tom até morrer num grito. Sacudiu a cabeça e recomeçou a falar, quase num sussurro:

- E vou tratá-los como feras, sem poupar ardis, nem fingimentos, nem golpes traiçoeiros. Vamos curvar-nos, amigos; vamos até suplicar. Vamos ceder, aceitar sacrifícios e humilhações; vamos ganhar tempo - e quando o momento chegar...

Deixou a frase em meio. A sua face ganhara uma ferocidade que nunca lhe vira.

- Mas agora - prosseguiu - o tempo é de submissão e quero que todos compreendam uma coisa: os sacrifícios a que formos obrigados não devem ser tomados como vergonha. Serão para nós mais uma operação militar.

O Numantino, esgotado pela viagem, cambaleava e o Co­mandante apressou-se a pedir-lhe desculpa e ordenou a Arduno que lhe desse comida e um local para repousar. Feito isto, a reunião continuou.

- Há uma esperança - disse Viriato - e essa esperança é Popílio Lenate. Enquanto Cepião chegou à Ibéria decidido a destruir-nos, Lenate respeitou as tréguas com Numância até receber as ordens de Roma. É a ele que vamos oferecer a submissão.

 

A nossa embaixada' regressou quando o Inverno ia no fim. As condições de Lenate eram mais duras do que esperá­vamos: o cônsul exigia um tributo elevado, a entrega de desertores romanos (havia muitos, na Carpetânia, e vigorava entre eles e nós um tácito pacto de não-agressão) e também a entrega imediata dos chefes dos contingente da haste como reféns.

Viriato ouviu esta resposta, isolou-se durante um dia inteiro e chamou-nos, à noite, para junto da fogueira que ardia em frente da sua tenda.

- Temos de ceder - anunciou - não há outra solução e quanto mais depressa melhor, para que eles nos julguem desmoralizados e abatidos pela derrota. A todos vós – falava para aqueles que deveriam ser entregues - repito: esta é uma parte da guerra. As nossas bênçãos irão convosco.

Arduno aclarou a garganta e o Comandante olhou para ele numa interrogação.

- Viriato, estive a falar com os nossos emissários... há uma coisa que não te disseram - que não tiveram coragem para te dizer. O cônsul exige que Astolpas seja entregue com os outros reféns.

Alguns dos presentes soltaram interjeições, outros (entre eles, eu) suspenderam a respiração. Ninguém falou e não era preciso, todos sabiam o significado da exigência, uma arma directamente apontada contra o Comandante. Astolpas, que até esse momento estivera sentado num tronco de árvore, levantou-se.

-Não.

A voz era tranquila; não pedia para ser poupado, não tentava fugir ao infortúnio, falava como quem discute problema qualquer.

- Não, essa condição é inaceitável. Se os Romanos me quisessem só por represália, por eu ter rompido as relações que tinha com eles... com alguns deles... seria talvez admissível. Mas querem-me porque o Comandante é meu genro. Além disso, estou velho demais para o cativeiro ou para qualquer das sortes que possam reservar-me.

Viriato empalidecera tanto que receei vê-lo desmaiar e apoiara-se pesadamente à sua lança. Sentou-se perto do fogo, com os olhos postos nas chamas, e ordenou:

- Deixem-me só com Astolpas.

Partimos e eles ficaram, lado a lado, falando em voz baixa.

A noite avançou, o acampamento já dormia, porém Arduno e eu não recolhemos à tenda; escolhemos outra fogueira, afastada, e ali nos mantivemos, velando, conversando e tentando imaginar o que Viriato e Astolpas poderiam dizer um ao outro.

Entre os dois acabara por se criar certa amizade. Astolpas continuava a ser (e não mudaria) um homem orgulhoso e a ostentar a sua riqueza, mas viera juntar-se à hoste, combatia valentemente e nunca disputara a supremacia do genro, antes aceitava o seu comando como qualquer de nós; em suma, hesitara em dar a sua adesão, mas uma vez decidido tornara-se um homem de Viriato.

E agora, o que sucederia? Recusar a sua entrega era con­fessar a Lenate que a submissão dos Lusitanos não era definitiva; entregá-lo seria colocar Viriato perante o dilema de aceitar o jugo romano ou condenar o pai de Tangina a uma morte vergonhosa e dolorosa.

- Só há uma solução - murmurou Arduno. E repetiu, mais baixo ainda: - Só há uma solução.

De madrugada, as buzinas acordaram os guerreiros com a ordem de formar para combate. Contrariamente ao seu hábito, Viriato não deu instruções nem explicações - ele e Astolpas tinham recolhido às suas tendas e ninguém sabia o que iria passar-se. Quando a hoste se aprontou, ambos apareceram, armados e de cabeça descoberta, Astolpas avançando em passo firme e vagaroso, com o rosto impassível, e Viriato, ainda muito pálido, com movimentos bruscos e a testa coberta de suor, apesar do frio.

Ambos ofereceram libações aos deuses; nada mais havia para oferecer, estávamos reduzidos a comer pão e azeitonas e raízes. Depois, Astolpas chamou três dos seus guerreiros e ordenou em voz alta, de modo a ser ouvido:

        - Hoje mesmo partireis para Aritium Vetus e contareis à minha filha aquilo que vistes. Dizei-lhe que esta é a minha vontade e que o seu marido está livre de culpa.

Fez um gesto imperioso, como eram todos os seus gestos, e um escravo entregou-lhe uma taça de ouro. Astolpas bebeu rapidamente e deu-a a Viriato, que por seu turno a passou a Audax.

Infelizmente, o escravo misturara mal o veneno ou não juntara uma quantidade suficiente. Caído por terra, Astolpas torceu-se com dores e gemeu até que estendeu um braço para o genro. Não podia falar, saía-lhe da boca uma espuma roxa, mas o gesto dizia tudo. Viriato empunhou a adaga e vibrou-lhe um golpe no peito.

Afinal, os homens que levaram a mensagem para Tangina só partiram um dia mais tarde, transportando as cinzas de Astolpas, para que repousassem junto dos seus antepassados.

Lenate recebeu os nossos reféns e devolveu-os depois de lhes ter decepado a mão direita. Fê-los portadores de nova exigência: a entrega das armas.

Em resposta, Viriato emboscou uma coluna de legionários e retirou da Carpetânia, onde não lhe seria possível sustentar uma ofensiva em larga escala. Restava-nos um único refúgio seguro, o «Mons Veneris», e lá nos entricheirámos.

Uma posição defensiva, mesmo tão forte como aquela, não pode ser mantida indefinidamente quando o inimigo tem uma superioridade esmagadora e quase inteira liberdade de movimento. Faço este comentário para explicar que, apesar de nos encontrarmos fortificados no Monte, a situação não se alterara, isto é, devíamos escolher entre o ataque suicida e a rendição.

Viriato sabia-o melhor que ninguém e portanto a sua deci­são também não mudara. A emboscada na Carpetânia fora uma forma de vingar Astolpas e os reféns e de mostrar que os Lusitanos eram ainda um osso duro de roer, mas tal demonstração, na sua maneira de pensar, destinava-se a permitir-lhe negociar condições aceitáveis.

Instalada no «Mons veneris», a hoste reuniu-se em assembleia e o Comandante expôs o seu novo plano: consistia, muito simplesmente, em capitular perante Cepião, desde que este não exigisse a entrega das armas e permitisse o regresso de cada homem à sua terra de origem. Viriato acentuou de novo que um tal acordo nos daria tempo para recuperar forças e ganhar novos aliados; na primeira oportunidade, seria relativamente fácil operar nova mobilização.

Tiveram direito à palavra todos os que quiseram falar e a discussão foi cerrada. Os mais ardentes defensores da rendição eram os homens de Urso, Audax, Ditalco e Minuro, que se decla­ravam descrentes de uma guerra sem esperanças de vitória... «e sem esperanças de pilhagem», desabafei comigo próprio, incapaz de dominar a velha repugnância por aqueles três. No entanto, dei igualmente o meu voto à proposta de Viriato. Fi-lo contrariado, apenas porque me rendera aos seus argumentos. Em oposição absoluta encontrava-se Táutalo, o que não era para admirar, dado o seu temperamento fogoso. Mas quando a maioria apro­vou a proposta do Comandante, ele aceitou a derrota conformado.

Mais tarde, procurei Viriato e perguntei-lhe quem levaria a nossa proposta a Cepião; Audax e os seus amigos, respondeu ele e lendo talvez o meu pensamento, quis saber a razão da pergunta.

- És tu quem decide - disse-lhe - mas porque não mandas Táutalo, Arduno ou qualquer outro? Eu mesmo estou pronto a partir e ainda por cima sou o único capaz de discutir com Cepião na sua língua, o que torna as coisas mais fáceis... mas para ser sincero, a grande razão é que não confio nos Ursenses.

- Já reparei nisso. Tongio, eu preciso de enviados que acreditem sinceramente na minha ideia. Táutalo é fiel, claro, mas está contra ela e tanto Arduno como tu... não desmintas... também discordam, no fundo. Não quero pedir sacrifícios inúteis e não tenho razões para retirar a confiança a Audax, Minuro ou Ditalco; seria injusto.

        Compreendi que não voltaria atrás e pedi-lhe então que me deixasse ir com eles, como intérprete. Viriato recusou:

- És mais útil aqui, ainda temos feridos e Arduno não pode tratar de todos ao mesmo tempo. Que animosidade é essa contra os Ursenses, Tongio? Houve alguma questão?

Vi-me forçado a confessar-lhe que não, que a minha antipatia era instintiva; o único argumento contra eles era a sua excessiva rapacidade nos saques.

        - Não são os únicos - objectou Viriato - lembras-te de Crisso? No entanto, gostavas dele! É impossível ter um exército feito de amigos, aliás há coisas mais importantes. E se tu acompanhasses Audax e os outros, as discussões não tardariam; que figura, diante de Cepião!

Sem outras objecções para apresentar, assisti à partida dos emissários com um pressentimento de desastre, certo de que eles, em vez de regressar ao acampamento, se passariam para o inimigo deixando-nos sem contactos e sem notícias. A convicção tornou-se mais forte enquanto os dias passavam com uma lentidão enervante. Incapaz de me calar, obriguei Arduno e Táutalo a ouvir, vezes sem conta, os meus desabafos, a ponto de eles troçarem de mim - quando não me evitavam, exasperados: Audax e os amiguinhos tinham-nos traído, garantia eu, e não voltariam. E, quem sabe, não teriam indicado aos Romanos a lo­calização exacta do nosso campo? Era o mais provável, aliás a sua ausência já se prolongara para além do que seria normal... e por aí fora; todos me acharam insuportável, até eu.

Não admira, portanto, que chovessem sobre a minha cabeça galhofas e censuras quando Audax, Minuro e Ditalco regressaram ao «Mons Veneris» com o ar festivo dos portadores de boas novas e anunciaram que o procônsul aceitara as propostas de Viriato. Preparei-me para me bater com os três, certo de que alguém lhes repetiria os meus comentários - assim foi, porém Audax (era sempre ele quem decidia) respondeu que não valia a pena perder tempo com invejosos. Claro, não o disse na minha cara.

De qualquer modo, estávamos tão aliviados com o desenlace que a questão foi esquecida. Logo após o regresso dos Ursenses, Viriato anunciou que a desmobilização da hoste começaria no dia seguinte, com a partida dos vários contingentes para as suas terras de origem. Mas, advertiu, até ao nascer do Solos guerreiros lusitanos continuavam a ser um exército sujeito à disciplina habitual e, dando o exemplo, quando recolheu à tenda para dormir, deitou-se vestido e couraçado, com as armas ao alcance da mão, como era seu hábito em campanha.

Esta última noite não foi alegre. Tínhamos a vida e a honra salvas, contudo uma derrota é sempre uma derrota e o «grande projecto» acabava em nada, ao cabo de sete anos de guerra.

O meu sono foi agitado, cortado de pesadelos; despertava em sobressalto e dava comigo a fazer perguntas sobre o meu futuro, para as quais não tinha resposta.

Acordei de vez antes da madrugada, sacudido por Arduno, que queria falar-me com urgência. Saí da tenda com ele e chegámos-nos a uma fogueira; pude então ver como estava pálido e perguntei-lhe o que se passava.

- Julgo que a Deusa falou - disse numa voz entrecortada.

- Como é isso? Julgas...?

        Arduno agitou-se impaciente. - Sim, julgo... não tenho a certeza. Foi como daquela vez na Serra da Lua, só que não estava ninguém perto de mim. Sei que adormeci deitado na tenda e acordei de pé, cá fora; havia ainda um som de palavras no ar. Sei que elas saíram da minha boca, mas é tudo quanto sei. E agora?

Abri os braços num gesto de impotência. - Agora, nada; que podemos fazer? Se era um aviso, isto é, se não tiveste só um pesadelo, talvez a Deusa volte a falar. De qualquer modo, já não consigo pegar no sono; é melhor ficarmos aqui, está quase a amanhecer.

 

Apesar deste incidente, não tivemos o menor pressentimento da catástrofe. O Sol nasceu, o campo começou a encher-se de ruídos, os homens prepararam as poucas bagagens que eram toda a sua fortuna. Por mim, não tinha pressa - nem sequer decidira ainda para onde iria; não podia regressar a Arcóbriga depois do que prometera a Lobessa. A noite deixara-me fatigado e com uma fortíssima dor de cabeça que não me permitia pensar.        Táutalo veio perguntar-me se eu vira o Comandante e respondi-lhe que não.

- Caso único! - exclamou. - Ninguém o viu e começo a crer que ainda está a dormir. Nunca, em toda a sua vida, o Sol o surpreendeu na tenda.

Arduno ouvira-o e também ele se espantou: - Ou passou a noite em claro ou está doente; acho que será melhor ir ver... Tongio, anda comigo, dois curandeiros não são demais quando se trata do Comandante.

        Acabámos por ir os três e Táutalo, que nos tomara a dian­ teira foi o primeiro a entrar...

Passados tantos anos ainda preciso de fazer um esforço para vencer a repugnância que sinto ao escrever isto; e a minha mão hesita.

Táutalo estacou à entrada e lançou um grito inarticulado, um uivo que me arrepiou. Virou-se para nós a tremer, com os olhos injectados.

        - Traição. TRAIÇÃO.

        - Pelos deuses, Táutalo! - gritei. - O que aconteceu? O Comandante?

        Ele voltou a repetir «Traição» e, como se nos visse pela primeira vez, bradou:

        - Tongio! Arduno, Cantios! Todos vocês! Alerta geral! Ninguém sai do acampamento! Matem o primeiro que tentar sair!

Mas nós precipitámo-nos para a tenda, afastámo-lo do caminho e entrámos.

O sangue já secava e colara-lhe os cabelos ao rosto. O cor­po, protegido pela couraça, estava intacto, repousava como se Viriato ainda dormisse. Um só ponto vulnerável se oferecera ao assassino: o pescoço. A cabeça, cortada, separada, inclinara-se para a direita. Os olhos estavam fechados.

Os meus joelhos cederam e caí no charco de sangue enquanto à minha volta se desencadeavam as forças do caos.

 

Quando a desordem e o pânico diminuíram um pouco, quando finalmente foi possível reunir todos os guerreiros, só três homens faltaram à chamada. Audax, Ditalco e Minuro tinham desaparecido e com eles a sua bagagem e os cavalos. Durante o dia e pela noite fora, à luz de archotes, percorremos os caminhos da serra, explorámos as grutas, batemos os bosques e as aldeias, acordando os habitantes aterrorizados. Não os encontrámos. Os assassinos iam longe, a caminho da Bética, para reclamar a Cepião a paga do seu crime.

 

                                                               ENDOVÉLICO

 

Um clamor feito de milhares de vozes ressoou pelas fragas do Monte no momento em que as chamas subiram na gigantesca pira.

Em redor, centenas de outras fogueiras mais pequenas consumiam os restos dos sacrifícios - ovelhas, cabras, porcos e bois, rebanhos inteiros trazidos da planície ou das povoações serranas. O cavalo de Viriato fora imolado em primeiro lugar e deposto aos seus pés, com as armas, o escudo e o capacete.

Nada mais podíamos fazer senão lamentar a nossa perda e manifestar ao espírito do Comandante, antes que ele se afastasse, a dor que a sua morte nos causara. Enquanto o fogo devorava as madeiras, o corpo e as oferendas, formámos em ordem de batalha e desfilámos à volta da pira, soltando os gritos rituais e os lamentos fúnebres que devem saudar um grande chefe. Porém, gritos e lamentos saíam do coração dos guerreiros, não eram o simples cumprimento de um dever. Nenhum rei ibérico teve do seu povo a homenagem que a hoste lusitana e os habitantes do Monte da Deusa prestaram a Viriato.

A realeza que os deuses não lhe conferiram em vida foi-lhe reconhecida por nós todos naquele último adeus. Viriato não partiu só; nos jogos que se realizaram sobre o sepulcro que acolheu as suas cinzas, mais de duzentos guerreiros combateram até à morte, para que no Além ele tivesse a sua escolta, uma verdadeira guarda real.

 

A Ibéria estremeceu de pânico e revolta. Engrossada com bandos vindos de toda a Lusitânia, a hoste reuniu-se em assem­bleia para eleger um sucessor. A escolha recaiu, naturalmente, em Táutalo, que recebeu as vírias de ouro. O novo Comandante recolheu-se durante um dia no cimo do Monte e quando voltou ao acampamento as trompas soaram por sua ordem.

Os Lusitanos retomavam a guerra e marchavam contra Saguntum.

 

Arduno cerrara com força os dentes para não deixar escapar nenhum gemido involuntário, mas quando retirei da ferida o emplastro de ervas para o substituir por um novo, que estivera a preparar, protestou roucamente:

- Deixa-te disso! Ainda não percebeste que não quero? Eu sabia, mas tentara iludir a sua decisão de deixar-se morrer.

A expedição contra Saguntum fracassara; faltara-nos o génio, a intuição e a força vital de Viriato. Derrotados pelas tropas de Cepião, voltáramos a procurar refúgio na Carpetânia. Arduno regressara do último recontro com um golpe de espada na ilharga e cavalgara durante quatro dias sem se tratar. A ferida infectara e ele recusara-se a lavá-la ou a aplicar qualquer remédio, até que eu, tarde demais, vencera a sua resistência. Agora, consumido pela febre, estava à morte.

Pela vigésima vez perguntei-lhe a razão. Ele pediu vinho, bebeu a custo alguns goles e deixou tombar a cabeça para trás.

- A razão...? Quero escolher o tempo da minha morte. Acabou tudo - não compreendes, Tongio? O nosso mundo vai acabar. Roma vai dominar a Ibéria. Teremos que viver com os seus deuses, os seus magistrados, as leis romanas, complicadas e subtis, os prejúrios, os tributos, os impostos... não quero viver nesse mundo, Tongio; só sei viver com os deuses e as leis simples e sagradas da minha tribo.

        Afastei as moscas que tentavam pousar na ferida e guardei silêncio. Arduno tossiu, fez um esgar de dor e continuou:

        - Cada homem tem o seu destino e o meu termina aqui. Tongio, quero pedir-te um favor.

        - Não, não penses nisso.

        Arduno tentou rir, sem resultado. - Vês? Adivinhaste. Mas tens de o fazer. Esperei que a ferida me levasse depressa... se ao menos tu não tivesses posto esses emplastros idiotas... estou farto de sentir dores por tua culpa. Deves-me isso!

        Como eu não respondesse, insistiu:

- Vou dizer-te a verdade. Se não morri em combate foi porque não queria morrer às mãos de mais ninguém. E tu sabes que não tenho salvação... estás a ouvir?

Olhei em volta; três ou quatro guerreiros assistiam à cena. Um deles, Cantios, estendeu-me a sua adaga. Peguei nela com a mão a tremer.

        - Vês? - rouquejou Arduno. - Que amigo és tu se recusas o que te peço?

A adaga tremia tanto que a pousei no chão. - Os deuses sabem que não quero fazer isto... vira a cara para o lado, não consigo fazer o que queres se estiver a olhar para ti.

Apesar das dores horríveis, Arduno havia de gracejar até ao fim:

- Desde quando um guerreiro tem delicadezas dessas? Sempre disse que os Cónios não prestam... ou serão os Brácaros? Usa a adaga e acaba com isto, mas não me peças para virar a cara. Não fica bem. Ao menos, vejo uma cara amiga... detestava partir a olhar para um Romano... Tongio!

A última exclamação fora uma súplica urgente; as dores tinham aumentado. Escolhi um ponto onde a adaga, ao entrar, o matasse imediatamente. Apoiei nele a lâmina.

- Adeus, Arduno. Que o teu espírito não se ofenda comigo, porque faço isto por tua vontade.

Agarrei o punho da adaga com as duas mãos e apliquei toda a minha força - fechei os olhos quando a lâmina entrou, para não ver o rosto de Arduno. Ouvi uma espécie de soluço e mais nada.

 

Táutalo estava sentado no alto de um rochedo e olhava, absorto, para o acampamento que a hoste improvisara dez dias antes e que estava prestes a ser abandonado.

- Arduno morreu - anunciei-lhe, omitindo pormenores desnecessários. Ele não desviou a cabeça mas respondeu:

- Antes assim; para ele, acabaram os problemas... era um bom amigo e um bom guerreiro. Vou sentir a sua falta, mas não o lamento... não consigo imaginar Arduno como súbdito de Roma.

        Sentei-me em frente de Táutalo, o que o obrigou a olhar para mim.

        - É verdade, então? E que garantias há?

        Ele retorquiu com um suspiro de cansaço: - Oh, todas as garantias. Cepião começou por mandar dizer... ouve bem: «que os assassinos de Viriato filho de Comínio lhe tinham pedido uma recompensa e que ele recusara, pois Roma não paga a traidores»...

        - Canalha! Foi ele que contratou Audax e os outros, estou tão certo disso como...

- Não te canses, Tongio, eu também estou certo. Mas isto, de qualquer forma, é uma atitude conciliatória. Cepião jura que- não seremos maltratados e ainda menos escraviza­dos; aceitou estas condições e sabe que se não as respeitar terámais problemas que proveito. Além disso, oferece-nos lotes de terras no vale do Turis; ali o solo é fértil, já me informei. Em troca, exije a nossa sujeição. Tem o que queria, não pre­cisa de cometer mais perjúrios... quanto a nós, é a única solução.

        Baixei a cabeça e comentei no tom e nos termos que me pareceram mais cuidadosos:

        - Foi uma pena que não tivéssemos chegado a Saguntum. Enfim, os deuses...

        A mão de Táutalo pousou sobre o meu ombro. – Não escolhas as palavras, Tongio. Eu sei bem, soube-o sempre, que só havia um Viriato. Conheço o meu próprio valor. Nenhum de nós, ninguém, em toda a Ibéria, poderia fazer o mesmo que Viriato. Se aceitei a minha eleição como Comandante não foi porque tivesse ilusões, mas porque sabia que estava tudo         acabado e que era preciso, ao menos, cuidar dos destroços.

- Então, o ataque a Saguntum...?

- Uma jogada. Podia resultar, mas não contei com isso. Era preciso vingar Viriato e mostrar a Cepião que ainda podíamos ser incómodos, para que ele se convencesse a aceitar condições. Consegui as duas coisas e dou-me por satisfeito; é o melhor que qualquer chefe podia esperar, excepto Viriato.

Encontrei coragem para sorrir. - Como todos nós, tu mudaste muito. Em vez de um Comandante impulsivo e inflamado, vejo agora um chefe prudente e...

- E pouco brilhante - observou ele, devolvendo o sorriso - mas, de facto, prudente. É como dizes, todos nós mudámos. E tu? Vens connosco para o vale do Turis? Respirei fundo antes de lhe responder.

        - Não, Táutalo. Não tenho vocação para agricultor. Nem sei bem, afinal, qual é a minha vocação... vou à procura dela. Sei Latim e Grego, sei ler escrever, sou capaz de tratar de doentes; é quanto basta para enfrentar os caminhos da sorte. Aprendi a contentar-me com pouco.

- Quando partes?

        Levantei-me. - Imediatamente. Não quero assistir ao desmantelar da hoste. Há pouco, tive de ajudar Arduno a morrer. Isso chega-me, por hoje e para os próximos tempos.

Por acordo tácito, não nos despedimos. Quando me afastei ele continuava silencioso e só, no alto do rochedo.

 

Aos vinte e cinco anos de idade, a vida acabara para mim­foi com esta ideia que fiz uma longa jornada sem rumo, ao sabor do acaso. Muitas vezes tomei a decisão de seguir o exem­plo de Arduno e não foi por falta de vontade ou coragem que não me matei. De cada vez, no último instante, uma força superior à minha paralisou o meu braço.

Passei o primeiro Inverno da minha solidão numa gruta próxima de Ammaia, vivendo da generosidade dos pastores, a quem, em troca, dava remédios para as febres. Com a Primavera chegaram notícias - e até mesmo eu, a quem já nada interessava, tive de dar-lhes atenção: as águias de Roma voltavam a estender as garras, toda a mesopotâmia de entre Tagus e Anas caíra em seu poder; o novo procõnsul da Ulterior, Décimo Júnio Bruto, atravessara o Tagus, entrara em Olisipo, ocupara Scallabis e Moron.

«Que importa tudo isso?», pensei. No entanto, ainda não estava preparado para ver Romanos à minha beira, por isso retomei a vida errante e rumei para norte, para as terras que respiravam ainda a liberdade pela qual Viriato morrera. Percorri assim muitas regiões onde os povos, alarmados com o avanço das legiões de Bruto, se mobilizavam para a guerra. Olhei-os como se fossem já fantasmas, homens condenados a morrer sob o ferro de Roma. E um dia, chamado não sei por que voz, tomei a decisão final: abandonaria o solo da Ibéria.

A minha vida foi longa e aventurosa. Estabeleci-me em várias terras durante extensos períodos; cheguei até a casar, por duas vezes, mas as mulheres a quem me liguei morreram sem me dar filhos. Fui para a Itália; e, por suprema ironia do destino, recebi cidadania romana! Sim, tornei-me um «cidadão», usei os privilégios desse estatuto para ir arrastando uma existência em segurança. E vi, com terror mas com secreto gozo, a vingança dos deuses romanos abater-se sobre a República perjura e corrupta: o flagelo da guerra civil pairou sobre a Cidade e cobriu-a de sangue e lamentos.

        Ganhei experiência e sabedoria, fiz novas amizades – mas no fundo de mim próprio só havia um enorme vazio. Habituei­-me a ele, habituei-me a ser um simples invólucro à espera da morte. Abandonei-me ao lento desfiar dos dias.

Mas a voz dos deuses é que decide o destino dos homens, mesmo quando eles não lhe dão ouvidos. No sexagésimo nono ano da minha vida, uma vontade imperiosa impeliu-me a viajar de novo, de regresso à Ibéria, para - julgava eu - ir morrer na minha terra ou talvez em plena estrada. A caminho de Balsa, passei no santuário de Endovélico; os homens de Arcóbriga e Meríbriga viviam já no vale, depois de Décimo Júnio Bruto os ter forçado a abandonar as suas cidades fortificadas. Não reconheci ninguém. Inquiri sobre uma certa Lobessa e o seu filho Amínio; ninguém os conhecia. A ocupação romana agitara os povos como o vento da tempestade revolve as folhas secas. Perdi a esperança de rever o meu único filho.

Porém, o meu destino cumpriu-se. Quando visitei o santuário, o sacerdote morrera havia um mês. O deus indicou-me como seu novo guardião e servidor. Aqui fiquei, portanto. Preenchi os meus ócios contando a história da minha vida, para que no futuro não se apague a memória dos homens que ofereceram o seu sangue pela liberdade dos seus filhos.

Arduno tinha razão: o nosso mundo acabou... até eu me vejo obrigado a escrever tudo isto na língua do invasor, a única em que hoje sou capaz de escrever... Mas alguma coisa subsistirá do nosso mundo assassinado; os Romanos que vivem aqui perto oferecem presentes a Endovélico e solicitam os favores do deus! Recebo-os cordialmente e recebo as suas oferendas - é esse o meu dever.

Finalmente, estou em paz com todos os homens e posso ouvir, no silêncio, a voz do Senhor Endovélico. Todas as manhãs cumpro os ritos que lhe são devidos. E não me perturba a certeza de que, muito em breve, uma dessas manhãs será a última.

 

                                                           (ANO 79 a. C.)

 

De M. Hirtuleio para Quinto Sertório: Saudações. A viagem tem decorrido sem surpresas e os homens estão disciplinados e com o moral elevado. Escrevo-te de Arcóbriga, esperando que ainda te encontres em Conistorgis, para onde enviarei esta carta. Ao chegar aqui, verifiquei que muitos habi­tantes do vale tinham regressado à suas antigas casas. Expulsei­-os da cidade com a ameaça de os obrigar a demolir as muralhas à mão, se voltassem a desobedecer. Conforme ordenaste, visitei o santuário local, consagrado ao um deus bárbaro, Endovélico. Encontrei-o abandonado, pois o sacerdote morreu há cerca de um ano. As tuas instruções foram cumpridas: limpámos e ar­ranjámos o santuário, o que nos valeu a gratidão dos Bárbaros, apesar das ameaças que lhes fizera. Aliás, há cidadãos romanos que vêm prestar homenagem ao deus; alguns, com quem falei, garantiram-me que ele os tem curado de várias doenças, por isso nomeei um novo guardião.

Com esta carta, envio-te um interessante documento que fui encontrar na residência do defundo sacerdote. Esse homem, que morreu numa idade avançada, entreteve-se a escrever a história da sua vida enquanto foi companheiro daquele chefe bárbaro, Viriato, que tanto trabalho deu às nossas legiões, em tempos idos. Recomendo-te a sua leitura por duas razões: porque te ajudará a entender melhor a maneira como esta gente pensa, lUas

sobretudo porque - para minha enorme surpresa - ali Se encontra uma clara referência à tua pessoa; uma profecia em que se fala da Era da Garça... não pode ser mais claro, penso eu.

Amanhã retomaremos a marcha para a Citefior, onde espero, com a ajuda dos deuses, vencer Domício Calvino.

 

                                                                                João Aguiar  

 

                      

O melhor da literatura para todos os gostos e idades

 

 

              Biblio"SEBO"