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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


Abduzidos / Robin Cook
Abduzidos / Robin Cook

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

Abduzidos

                 

Uma vibração esquisita despertou Perry Bergman de um sono inquie­to, e instantaneamente um estranho pressentimento o invadiu. O desa­gradável murmúrio o fez recordar unhas raspando um quadro-negro. Estremecendo, ele jogou para o lado o cobertor. Quando se ergueu, viu que a vibração continuava. Os pés descalços sobre o convés de metal lhe davam a impressão de se tratar de uma broca de dentista. Logo abai­xo era capaz de detectar o zunido normal dos geradores do navio e o ronco dos ventiladores de ar-condicionado.

— Mas que diabo?...— disse em voz alta, mesmo não vendo ninguém ao alcance de sua voz para poder lhe dar alguma explicação. Tinha vindo de helicóptero até o navio, o Benthic Explorer, na noite anterior, depois de um longo vôo de Los Angeles até Nova York e de lá até Ponta Delgada, na ilha açoreana de San Miguel. Devido à mudança de fusos horários e após ouvir uma longa exposição dos problemas técnicos que a equipe técnica de sua empresa vinha enfrentando, estava compreensivelmente exausto. Não gos­tou de ser despertado depois de apenas quatro horas de sono, ainda mais por uma vibração tão intensa.

Arrancando do gancho o receptor do intercomunicador do navio, pressionou irritado os botões, digitando o número da ponte de comando. Enquanto aguardava que a ligação se completasse, espiou pela vigia de sua cabine VIP, pondo-se na ponta dos pés. Com um metro e setenta de altura, Perry não se considerava baixo, mas simplesmente um cara que não era alto. Lá fora o sol mal havia se erguido acima do horizonte. O navio projetava uma longa sombra sobre o Atlântico. Perry estava olhando para o oeste, além de um mar enevoado e calmo, cuja superfí­cie lembrava uma vasta extensão de chumbo fundido. A água ondula­va-se sinuosamente com ondas baixas e bem separadas umas das outras. A serenidade da cena contrastava com os acontecimentos que se davam abaixo da superfície. O Benthic Explorer estava sendo mantido numa posição fixa por um sistema de posicionamento dinâmico comandado por computador, que movimentava os hélices propulsores bem como os impelidores de proa e de ré acima de uma parte da vulcânica e sismicamente ativa Cadeia Meso-Atlântica, uma cadeia de montanhas pon­tiagudas de mais de 20 mil quilômetros de extensão, que divide o oceano. Com a extrusão constante de enormes quantidades de lava, as explo­sões submarinas de vapor e freqüentes miniterremotos, a cordilheira submersa era a antítese da tranqüilidade estivai da superfície do oceano.

— Ponte — Perry ouviu uma voz entediada dizer.

— Onde está o capitão Jameson? — indagou Perry, irritado.

— Na cama dele, pelo que sei — disse a voz, tranqüilamente.

— Mas que porra de vibração é essa? — insistiu Perry.

— Sei lá, mas não está vindo do grupo gerador do navio, se é o que quer saber. Senão eu teria ouvido da sala de máquinas. É provável que seja apenas a sonda de perfuração. Quer que eu ligue para a cabine de perfuração?

Perry não respondeu; só bateu o telefone na cara do outro. Não po­dia acreditar que o sujeito lá da ponte não estivesse pensando em inves­tigar a vibração ele mesmo. Será que não estava ligando a mínima para o trabalho? Perry ficou fulo da vida com aquela falta de profissionalismo na operação do navio, mas resolveu tratar disso depois. Em vez disso tentou se concentrar em vestir sua calça jeans e blusa grossa de gola alta.Não precisava que ninguém lhe dissesse isso para saber que a vibração podia estar vindo da sonda de perfuração. Estava na cara. Afinal, tinha sido devido a dificuldades na perfuração que ele havia vindo de Los Angeles.

Perry sabia que havia apostado o futuro da Benthic Marine naquele projeto: perfurar uma câmara magmática no interior de uma monta­nha submarina a oeste dos Açores. Era um projeto independente, e por isso a empresa estava gastando em vez de receber, de forma que a san­gria de dinheiro estava sendo pavorosa. A motivação de Perry para essa empreitada estava na crença de que o feito iria chamar a atenção da opinião pública, concentrar o interesse na exploração submarina e catapultar a Benthic Marine para a dianteira da pesquisa oceanográfica. Infelizmente, parecia que o empreendimento não estava saindo como havia sido planejado.

Depois de se vestir, Perry deu uma espiada no espelho acima da pia no banheiro apertado. Alguns anos antes ele não teria se incomodado em fazer isso. Mas as coisas haviam mudado. Agora, que estava com mais de quarenta, achava que a aparência desleixada que costumava funcionar a seu favor estava fazendo com que ele parecesse velho, ou, na melhor das hipóteses, cansado. Os cabelos estavam ficando ralos, e ele precisava de óculos para leitura, mas ainda exibia um sorriso triunfante. Perry tinha orgulho de seus dentes brancos e perfeitamente ali­nhados, principalmente porque enfatizavam o bronzeado que ele fazia tudo para não perder. Satisfeito com seu reflexo, tratou de ir saindo da cabine e correr pelo corredor. Quando passou pelas portas do capitão e do imediato sentiu-se tentado a esmurrá-las para desabafar sua irritação. Sabia que as superfícies de metal iriam reverberar como timbales, des­pertando brutalmente os ocupantes adormecidos de seu pesado sono. Como fundador, presidente e maior acionista da Benthic Marine, ele esperava que as pessoas ficassem mais alerta quando ele estivesse a bor­do. Será que era o único que estava preocupado o suficiente para inves­tigar aquela vibração?Quando chegou ao convés superior, Perry tentou localizar a fonte do zunido estranho, que agora se mesclava ao som da sonda em funci­onamento. O Benthic Explorer era uma embarcação de quatrocentos e cinqüenta pés com uma sonda de perfuração de vinte andares a meia nau, sobre um poço central. Além da sonda de perfuração, o navio ga­bava-se de ter um complexo de mergulho saturado, um submersível para águas profundas e vários trenós de câmera móveis controlados remota­mente, cada um com uma impressionante série de câmeras fixas de monitoração e câmeras de televisão para gravação. Combinando-se esse equipamento com um amplo laboratório, o Benthic Explorer dava a sua empresa-mãe, a Benthic Marine, a capacidade de realizar uma extensa gama de estudos e operações oceanográficos.

Perry viu a porta da cabine de perfuração aberta. Um homem gigantesco apareceu. Bocejou e espreguiçou-se antes de erguer as alças do macacão para recolocá-las sobre os ombros e pôr na cabeça o capacete amarelo onde se lia Supervisor de Turno em letras de fôrma acima do visor. Ainda meio entorpecido de sono, ele se encaminhou para a mesa rotativa. Obviamente não estava com pressa alguma, apesar da vibração que percorria o navio.

Apressando o passo, Perry alcançou o homem exatamente no mo­mento em que dois outros operários se juntaram a ele.

— Já faz vinte minutos que está acontecendo isso, chefe — disse um dos homens de área berrando acima do barulho da sonda. Todos os três ignoraram Perry.

O capataz que supervisionava o turno resmungou ao calçar um par de pesadas luvas e atravessou todo lampeiro a estreita grade de metal sobre o poço central. O sangue-frio dele impressionou Perry. A passare­la parecia frágil e tinha apenas um corrimão baixo para evitar que al­guém caísse 15 metros e batesse contra a superfície do oceano lá embaixo. Atingindo a mesa rotativa, o supervisor curvou-se e colocou ambas as mãos enluvadas em torno do eixo em rotação. Não tentou agarrá-lo com força, mas deixou-o girar entre as mãos. Inclinou a cabeça para o lado enquanto tentava interpretar o tremor transmitido tubo acima. Levou apenas um momento fazendo isso.

— Parem a sonda! — berrou o gigante.

Um dos peões correu de volta ao painel de controle externo. Den­tro de instantes a mesa rotativa parou, estalando, e a vibração cessou. O supervisor voltou e subiu ao convés.

— Mas que merda! A broca arrebentou de novo! — reclamou ele, com uma expressão de ódio. — Isso já está parecendo até brincadeira de mau gosto.

— O engraçado foi que nós só perfuramos um metro, mais ou menos, nos últimos quatro ou cinco dias — disse o outro peão.

— Cale essa boca! — disse o gigante. — Vê se vai até ali e me iça a coluna de perfuração até a cabeça do poço!

O segundo assistente de sonda foi ajudar o primeiro. Quase imedia­tamente ouviu-se novo som de máquinas potentes enquanto os guinchos eram engatados para cumprir a ordem do capataz. O navio estremeceu.

— Como tem certeza de que a broca se quebrou? — berrou Perry, tentando se fazer ouvir apesar do barulho.

O capataz baixou o olhar para ele.

— Experiência — berrou, depois virou-se e afastou-se a passos lar­gos na direção da popa.

Perry foi obrigado a correr para alcançá-lo. Cada passada do supervisor era o dobro de uma das suas. Perry tentou fazer nova per­gunta, mas o homem não ouviu ou ignorou-o. Eles chegaram à escada meia-laranja e o supervisor começou a subir, três degraus de cada vez. Dois conveses acima, ele entrou num corredor e depois parou diante da porta de um compartimento. O nome que se lia na porta era MARK DAVIDSON, COMANDANTE DE OPERAÇÕES. O capataz bateu à porta com toda a força. A princípio, a única resposta foi um acesso de tosse, mas depois uma voz lhe disse para entrar.

Perry espremeu-se no pequeno compartimento atrás do capataz.— Más notícias, chefe — anunciou o capataz. — Acho que a broca estourou de novo.

— Mas que horas são, cara? — indagou Mark. Passou os dedos através dos cabelos arrepiados. Estava sentado na beira da cama, de cueca e camiseta. O rosto estava inchado, e a voz, grossa de sono. Sem esperar resposta, estendeu o braço para pegar um maço de cigarros. O ar no quarto estava fedendo a fumaça entranhada.

— São mais ou menos zero-seiscentos — informou o capataz.

— Meu Deus — exclamou Mark. Os olhos dele depois focaliza­ram Perry. Mostraram surpresa. Ele piscou. — Perry? O que está fazen­do acordado?

— Não tinha como dormir com essa vibração — disse Perry.

— Que vibração? — indagou Mark. Olhou outra vez para o supervisor de turno, que fitava Perry.

— Você é o Perry Bergman? — perguntou o capataz.

— Pelo menos era, da última vez que verifiquei — brincou Perry. Sentiu uma certa satisfação ao perceber o constrangimento do capataz.

— Foi mal — disse o capataz.

— Deixa pra lá — disse Perry, magnânimo.

— A coluna de perfuração estava chacoalhando? — perguntou Mark.

O capataz confirmou.

— Exatamente como das últimas quatro vezes, e talvez um pouco pior.

— Nós só temos mais uma broca de carbureto de tungstênio com diamante — lamentou Mark.

— Não precisa me lembrar disso — disse o capataz.

— Qual a profundidade? — indagou Mark.

— Não mudou muito desde ontem — respondeu o capataz. — Já descemos quatrocentos metros de tubulação. Como o fundo fica a mais ou menos trezentos metros e não há sedimento, só penetramos na ro­cha cerca de cem metros, uns centímetros a mais ou a menos.— Era isso que eu estava lhe explicando ontem à noite — disse Mark a Perry. — Estávamos indo muito bem até quatro dias atrás. Desde então não saímos do lugar, talvez tenhamos descido de sessenta centí­metros a um metro, apesar de termos acabado com quatro brocas.

— Então acha que encontrou uma camada de rocha dura? — in­dagou Perry, achando que tinha que dizer alguma coisa.

Mark riu sarcasticamente.

— Dura não é bem a palavra. Estamos usando brocas diamantadas com as ranhuras mais retas possíveis! O pior é que ainda vamos enfrentar mais trezentos metros da mesma coisa, seja lá o que for, até chegarmos à câmara magmática, pelo menos de acordo com nosso radar de penetra­ção no solo. Pelo andar dessa carruagem, vamos ficar aqui dez anos.

— O laboratório analisou a rocha que tiraram da última broca quebrada? — perguntou o capataz.

— Sim, analisou — confirmou Mark. — É um tipo de rocha que jamais haviam visto antes. Pelo menos de acordo com o Tad Messenger. Compõe-se de um tipo de olivina cristalina que ele acha que talvez possua uma matriz microscópica de diamante. Acho que podíamos tentar ob­ter uma amostra maior. Um dos maiores problemas de se tentar perfu­rar no mar aberto é que não temos um retorno dos fluidos de perfuração. É como perfurar no escuro.

— Será que não dava para mandarmos um extrator de amostras lá para baixo?

— Grande coisa conseguiríamos, se não conseguimos nem meter uma broca diamantada nessa pedra — comentou Mark.

— E que tal acoplá-lo à broca diamantada? Se conseguíssemos obter uma boa amostra dessa coisa que estamos tentando perfurar, talvez pu­déssemos traçar um plano razoável para contornarmos esse obstáculo. Já investimos dinheiro demais nessa operação, não dá para desistir sem uma boa briga.

Mark olhou para o capataz, que deu de ombros. Depois voltou a olhar para Perry.— Você é quem manda.

— Pelo menos por enquanto — disse Perry. Não estava brincan­do. Imaginava por quanto tempo iria conseguir ser o mandachuva se o projeto abortasse.

— Tudo bem — disse Mark. Colocou o cigarro na beirada de um cinzeiro já transbordante. — Icem a broca até a cabeça do poço.

— Os rapazes já estão fazendo isso — informou o supervisor.

— Peguem a última broca do estoque — orientou Mark. Pegou o intercomunicador de bordo. — Vou mandar o Larry Nelson preparar o sistema de mergulho saturado e lançar o submersível no mar. Vamos substituir a broca e ver se conseguimos uma amostra melhor do que estamos perfurando.

— Sim, senhor — disse o capataz. Virou-se e saiu, enquanto Mark erguia o receptor até o ouvido para ligar para o comandante das opera­ções de mergulho.

Perry fez menção de sair também, mas Mark ergueu a mão, pedin­do-lhe que ficasse. Depois de terminar a chamada para Larry Nelson, Mark olhou para Perry.

— Há um assunto no qual não toquei ontem à noite na palestra — disse ele. — Mas acho que devia ficar sabendo.

Perry engoliu em seco. Sua boca havia ficado seca. Não estava gos­tando do tom de voz do Mark. Parecia que estava para dar péssimas notícias.

— Talvez não seja nada — prosseguiu Mark —, mas quando usa­mos o radar de penetração no solo para estudar essa camada de rocha que estamos tentando perfurar como mencionei antes, encontramos uma coisa inesperada. Os dados estão aqui na minha escrivaninha. Quer ver?

— Vá falando — disse Perry. — Mostre-me os dados depois.

— O radar deu a entender que o conteúdo da câmara magmática talvez não seja o que pensamos a partir dos estudos sísmicos originais. Talvez não seja líquido.— Está brincando!? — Essas novas informações aumentaram os receios de Perry. Tinha sido por acaso, no verão anterior, que o Benthic Explorer havia encontrado a montanha submarina que estavam perfu­rando no momento. O impressionante na descoberta é que, como par­te da Cadeia Meso-Atlântica, a área já havia sido exaustivamente estudada pelo Geosat, o satélite de medição de densidade da Marinha norte-americana, usado para gerar mapas do fundo do oceano. Mas de algu­ma forma aquela montanha submarina em particular não havia sido detectada pelo Geosat.

Embora a equipe do Benthic Explorer andasse ansiosa para voltar para casa, haviam parado tempo suficiente para passar várias vezes aci­ma da misteriosa montanha. Com o sofisticado radar do navio, fizeram um estudo superficial da estrutura interna do guyot. Para surpresa de todos, os resultados foram tão inesperados quanto a presença da mon­tanha. Ela parecia ser um vulcão inativo de crosta particularmente fina, cujo núcleo líquido estava a apenas 120 metros do fundo do oceano. Ainda mais espantoso era o fato de que a substância no interior da câ­mara magmática possuía características de propagação do som idênti­cas às da descontinuidade de Mohorovicic, ou Moho, a misteriosa fronteira entre a crosta terrestre e o manto. Como ninguém jamais ha­via sido capaz de obter magma do Moho, embora os americanos e rus­sos houvessem tentado durante a Guerra Fria, Perry resolvera voltar lá e perfurar a montanha na esperança de que a Benthic Marine fosse a pri­meira organização a obter uma amostra do material derretido. Racioci­nou que a análise do material poderia esclarecer a estrutura e talvez até mesmo a origem da terra. Mas agora o comandante de operações do Benthic Explorer estava lhe dizendo que os dados sísmicos originais tal­vez estivessem errados!

— A câmara magmática pode estar vazia — disse Mark.

— Vazia? — gaguejou Perry.

— Bom, não exatamente vazia — corrigiu-se Mark. — Cheia de algum tipo de gás comprimido, ou talvez vapor. Sei que extrapolar dados a essa profundidade é levar a tecnologia de radar de penetração no solo além de seus limites. Aliás, muitas pessoas diriam que os resulta­dos dos quais falo são apenas especulação, meramente deduzidos, por assim dizer. Mas o fato de que os dados de radar não combinam com a sísmica me preocupa do mesmo jeito. Eu detestaria fazer esse esforço todo e só encontrar uma lufada de vapor superaquecido. Ninguém vai gostar disso, muito menos seus investidores.

Perry mordiscou a parte de dentro da bochecha enquanto refletia sobre a preocupação de Mark. Começou a desejar que jamais tivesse ouvido falar no Monte Olimpo, que era o nome que a tripulação havia dado à montanha submarina de cume achatado que estavam tentando perfurar.

— Já mencionou isso à Dra. Newell? — perguntou Perry. A Dra. Suzanne Newell era a oceanógrafa sênior do Benthic Explorer. — Ela já viu esses dados de radar dos quais está me falando?

— Ninguém os viu ainda — disse Mark. — Eu só notei a sombra na tela do meu computador ontem, quando estava me preparando para sua chegada. Estava pensando em levar os dados para sua palestra on­tem à noite, mas resolvi esperar para falar com você em particular. Caso não tenha observado, há um problema de moral lá com alguns compo­nentes da equipe. Várias pessoas já estão começando a achar que perfu­rar esse guyot é mais ou menos o mesmo que atacar moinhos de vento. As pessoas estão começando a falar em pedir demissão e voltar para casa, para as famílias delas, antes do fim do verão. Não queria botar mais lenha na fogueira.

Perry sentiu os joelhos bambos. Puxou a cadeira de Mark e sentou-se pesadamente. Esfregou os olhos. Estava cansado, faminto e desani­mado. Sentia vontade de se esganar por apostar assim o futuro da empresa todo em dados tão pouco confiáveis, mas a descoberta havia parecido extremamente fortuita. Ele se sentira compelido a agir.

— Ei, não estou a fim de bancar o estraga-prazeres — disse Mark. — Vamos fazer o que você sugeriu. Vamos tentar entender melhor o tipo de rocha que estamos perfurando. Nada de desânimos antes da hora.— É meio difícil não ficar desanimado — disse Perry—, conside­rando-se a nota preta que a Benthic Marine está desembolsando para manter o navio aqui. Talvez fosse melhor evitarmos prejuízo maior.

— Por que não vai comer alguma coisa? — sugeriu Mark. — Não adianta tomar decisões precipitadas assim, de barriga vazia. Aliás, se me esperar tomar uma ducha, eu o acompanho. Dane-se! Logo, logo va­mos ter mais algumas informações sobre esse troço que estamos tentan­do atravessar. Talvez tenhamos uma idéia mais clara do que fazer.

— Quanto tempo vão levar para trocar a broca? — indagou Perry.

— O submersível pode ser lançado em uma hora — informou Mark. — Eles vão levar a broca e as ferramentas para a cabeça do poço. Os mergulhadores levam mais tempo para descer porque precisam ser pressurizados antes de baixarmos o sino. Isso vai levar umas duas horas mais, se eles apresentarem dores devido à compressão. Trocar a broca é mole. A operação toda deve levar de três a quatro horas, talvez menos.

Perry se ergueu com certo esforço.

— Ligue para a minha cabine quando estiver pronto para ir co­mer. — Dirigiu-se à porta.

— Ei, espere aí um segundo — disse Mark, subitamente entusias­mado. — Tive uma idéia que talvez levante o seu astral. Por que não desce no submersível? Parece que o guyot lá embaixo é lindo, pelo me­nos, a Suzanne sempre diz isso. Até o piloto do submersível, Donald Fuller, ex-oficial do corpo da armada, que em geral é um sujeito assim compenetrado, objetivo, diz que a paisagem é magnífica.

— O que pode haver de tão maravilhoso em uma montanha submersa de cume achatado? — indagou Perry.

— Eu não desci lá — admitiu Mark. — Mas parece que a geologia da área é que é bonita. Sabe, esse negócio dela fazer parte da Cadeia Meso-Atlântica, e coisa e tal. Mas fale com a Newell ou o Fuller! Vou lhe dizer, eles vão ficar nas nuvens quando eu lhes pedir que desçam lá. Com as luzes de halogênio do submersível e a limpidez da água do mar, dizem que a visibilidade é entre sessenta a noventa metros.Perry concordou. Não era má idéia dar um mergulho, pois isso, sem dúvida, o faria parar de pensar um pouco na situação atual e sentir que estava fazendo algo. Além disso, só havia estado no submersível uma vez, ao largo da ilha de Santa Catalina, quando a Benthic Marine rece­bera a embarcação, e tinha sido uma experiência memorável. Pelo me­nos ele teria uma chance de ver aquela montanha que estava lhe causando tanto aborrecimento.

— A quem devo anunciar que farei parte da tripulação? — inda­gou Perry.

— Deixe isso comigo — disse Mark. Pôs-se de pé e tirou a camise­ta. — É só eu avisar ao Larry Nelson.

 

Richard Adams vestiu ceroulas de malha folgadas e compridas, tira­das do armário do navio, e fechou a porta com um pontapé. Depois de vestir a roupa de baixo, colocou, com toda a cerimônia, seu gorro preto de tricô do turno de vigia. Assim paramentado, saiu do compartimento e esmurrou as portas de Louis Mazzola e de Michael Donaghue. Am­bos responderam com uma torrente de imprecações. Os xingamentos já haviam perdido o poder de ofensa, uma vez que constituíam uma percentagem predominante do vocabulário desses tripulantes. Richard, Louis e Michael, mergulhadores profissionais, eram do tipo que gosta de encher a cara, viver perigosamente, arriscar periodicamente a vida fazendo solda submarina quando necessário, explodindo coisas como recifes, por exemplo, ou trocando brocas durante operações de perfura­ção submarina. Eram trabalhadores braçais submarinos, e se orgulha­vam disso.

Os três haviam se submetido a treinamento juntos, na Marinha norte-americana, haviam se tornado amigos do peito, bem como mem­bros bem-sucedidos da força de demolição submarina da Marinha. Todos aviam aspirado a se tornarem Navy Seals *, mas isso não estava escrito nas estrelas. A predileção deles por cerveja e pancadarias excedia de lon­ge a de seus colegas. O fato de todos haverem tido pais alcoólatras, bru­tos, violentos, preconceituosos, proletários e que gostavam de espancar as mulheres explicava o comportamento deles, mas não o justificava. Longe de ficarem constrangidos pelo exemplo paterno, os três viam suas infâncias barra-pesada como uma progressão natural até a autêntica masculinidade. Nenhum deles jamais parou para pensar num certo di­tado antigo: filho de peixe, peixinho é.

A masculinidade era uma virtude crítica para todos os três. Eram impiedosos ao punirem qualquer homem que considerassem menos macho do que eles e que tivesse a audácia de entrar num bar onde esti­vessem bebendo. Costumavam meter o malho em advogados "malan­dros" e em caras do Exército metidos a besta. Também condenavam qualquer pessoa que considerassem imbecil, um "cdf" ou homossexual. A homossexualidade era o que mais os incomodava, e, por eles, a polí­tica do "eu não pergunto, você não revela" era ridícula, uma verdadeira afronta pessoal.

Embora a Marinha tendesse a ser clemente com os mergulhadores e tolerasse comportamento que não seria admitido em outros colegas, Richard Adams e seus amigos exageraram na dose. Numa tarde quente de agosto, refugiaram-se no seu minúsculo bar de mergulhadores pre­dileto em Point Loma, em San Diego. O dia havia sido arrasador, os mergulhos, árduos. Depois de numerosas rodadas de uísque com cer­veja e um número igual de discussões sobre a temporada de beisebol que estava rolando, ficaram chocados e consternados ao verem um ca­sal de caras do Exército entrar, todo lampeiro. De acordo com os mer­gulhadores, na corte marcial, os dois foram "dar um amasso" em um dos reservados dos fundos.

O fato de um dos soldados ser oficial só tornou a sensação de ultra­je mais intensa nos mergulhadores. Eles nem pensaram em se perguntar o que um casal de oficiais do Exército estaria fazendo em San Diego, uma cidade sabidamente repleta de gente da Marinha e dos Fuzileiros. Richard, o eterno cabeça do trio, foi o primeiro a se aproximar do reser­vado. Perguntou — em tom sarcástico — se podia participar da orgia. Os homens do Exército, sem entender direito qual era a do Richard — que era expulsá-los dali —, riram, negaram que estivessem fazendo or­gias de qualquer tipo, e ofereceram pagar para ele e os amigos uma ro­dada de bebidas, para acalmar os ânimos. O resultado foi uma pancadaria unilateral que mandou os dois oficiais do Exército para o hospital naval Balboa. Também mandou Richard e os amigos direto para o xadrez, e de lá para fora da Marinha. Acontece que os homens do Exército eram do JAG, o Corpo Jurídico e Legal Geral do Exército.

— Vamos, seus babacas! — berrou Richard, quando viu que os outros ainda não haviam aparecido. Olhou de relance o relógio de mer­gulho. Sabia que o Nelson ia ficar uma fera. As ordens dele pelo intercomunicador haviam sido para irem para o centro de comando de mergulho imediatamente.

O primeiro a surgir foi o Louis Mazzola. Era quase uma cabeça mais baixo do que Richard, que tinha um metro e oitenta de altura. Richard considerava Louis um cara tipo bola de boliche. Tinha feições carnu-das, a parte inferior do rosto eternamente mais escura onde a barba havia sido cortada, e cabelos curtos e negros que caíam escorridos pela cabeça redonda. Parecia não ter pescoço; o trapézio saía em ângulo do crânio sem nenhuma reentrância.— Para que a pressa? — queixou-se Louis.

— Vamos mergulhar! — explicou Richard.

— Mais alguma novidade? — reclamou Louis.

A porta de Michael se abriu. Ele ficava num ponto entre a silhueta esquelética de Richard e a troncuda de Louis. Como os amigos, ti­nha músculos atléticos e obviamente estava em boa forma. Também era igualmente desmazelado, vestido com as mesmas ceroulas folga­das. Porém, ao contrário dos outros, estava com um boné de beise­bol do Red Sox com a viseira virada para o lado. Michael vinha de Chelsea, Massachusetts, e portanto era um ávido torcedor do Sox e do Bruins.

Michael abriu a boca para reclamar por ter sido acordado, mas Richard o ignorou e seguiu para o convés principal. Louis fez o mesmo. Michael deu de ombros e foi atrás dos outros. Quando desceram a meia-laranja principal, Louis gritou para Richard:

— ô Richard, você trouxe o baralho?

— Claro — retrucou Richard, virando a cabeça. — E você, trouxe o talão de cheques?

— Vá para o inferno — disse Louis. — Nos últimos quatro mer­gulhos, você nem chegou perto de me vencer.

— Era estratégia, cara — revelou Richard. — Andei armando uma pra você.

— Danem-se as cartas — disse Michael. — Trouxe as revistas de sacanagem, Mazzola?

— Acha que vou mergulhar sem elas? — retrucou Louis. — Nem pelo cacete! Preferiria esquecer as nadadeiras!

— Espero que tenha olhado para ver se trouxe as revistas com ga-tinhas, e não as de garotões — provocou Michael.

Louis parou de chofre. Michael esbarrou nele.

— Que porra foi essa que você disse? — rosnou Mazzola.

— Só estava querendo saber se você trouxe as revistas certas — disse Michael com um sorrisinho sarcástico. — Talvez eu queira pedi-las em-prestado, e não quero ter a péssima surpresa de ter que encarar um monte de paus.

Louis rapidamente agarrou com toda a vontade a blusa de Michael. Michael reagiu agarrando o braço de Louis com a mão esquerda e cer­rando o punho para dar-lhe um murro. Antes que a coisa ficasse mais feia, Richard interveio.

— Ei, dêem um tempo aí, seus babacas! — berrou Richard, me-tendo-se entre os dois amigos. Com um murro para cima, jogou o bra­ço de Louis para o lado. Ouviu-se um som de alguma coisa se rasgando, e a mão de Luis voltou com um pedaço arrancado da camiseta de Michael entre os dedos. Como um touro enfurecido, Louis tentou empurrar Richard para alcançar Michael. Quando viu que não conseguia, tentou agarrar a blusa de Michael por cima do ombro de Richard. Michael, soltando uma sonora gargalhada, esquivou-se.

— Mazzola, seu babaca! — gritou Richard. — Ele só está tentan­do te botar pilha. Esfria essa cabeça, pelo amor de Deus!

— Filho da puta! — disse Louis entre os dentes. Jogou o pedaço de tecido rasgado que havia arrancado da camiseta de Michael na cara do zombeteiro. Michael tornou a rir.

— Já chega! — disse Richard, com asco, enquanto continuava a percorrer o corredor. Michael abaixou-se e pegou o retalho da blusa. Quando fingiu estar colando o tecido de volta no peito, Louis não agüen­tou e teve que rir. Depois correram para alcançar Richard.

Quando os mergulhadores chegaram ao convés principal, viram que o guincho estava erguendo o tubo.

— A broca deve ter se quebrado outra vez — disse Michael. Tanto Richard quanto Louis concordaram, sem nada dizer. — Já sabemos o que vamos fazer.

Entraram na cabine de perfuração e se acomodaram em três cadeiras dobráveis perto da porta. Era ali que ficava o posto de trabalho de Larry Nelson, o homem que coordenava todas as operações de mergulho. Atrás dele, do lado direito da cabine, estendendo-se até o outro lado, ficava oconsole de mergulho. Ali se viam todos os mostradores, medidores e con­troles para operar o sistema de mergulho. Do lado esquerdo do painel se encontravam os controles e monitores dos trenós das câmeras. Também do lado esquerdo havia uma janela que dava para o poço central do na­vio. Era por esse poço central que o sino de mergulho descia.

O sistema de mergulho do Benthic Explorer era um sistema saturado, e isso significava que os mergulhadores deviam absorver o máximo possível de gás inerte durante qualquer mergulho. Ou seja, o tempo de descompressão necessário para que eles se livrassem do gás inerte seria o mesmo, por mais tempo que permanecessem na câmara hiperbárica. O sistema se compunha de três câmaras de descompressão de convés ci­líndrico, cada uma com três metros e sessenta centímetros de largura e seis de comprimento. As câmaras eram interligadas, como se fossem enormes lingüiças, com portinholas de pressão dupla entre elas, e den­tro delas se achavam quatro camas, várias mesas dobráveis, um banhei­ro, uma pia e um chuveiro.

Cada câmara também dispunha de uma porta de entrada lateral e uma escotilha de pressão no alto, onde o sino de mergulho ou a cápsula de transferência de pessoal (CTP) podia se acoplar. A compressão e a descompressão dos mergulhadores aconteciam na câmara. Depois de atingida uma pressão equivalente à profundidade na qual eles iriam tra­balhar, eles entravam na CTP, que era então destacada e baixada para dentro da água. Quando a CTP atingisse a profundidade apropriada, os mergulhadores abriam a escotilha através da qual haviam entrado no sino e nadavam para a estação de trabalho designada. Enquanto estives­sem submersos, eram atados por um cabo com mangueiras que lhes forneciam oxigênio, água quente para aquecer-lhes os trajes de neoprene, fios sensores e cabos de comunicação. Como os mergulhadores do Benthic Explorer usavam máscaras que lhes cobriam o rosto inteiro, a comunicação era possível, embora difícil, devido à distorção da voz na mistura de hélio e oxigênio que respiravam. Os fios sensores transpor­tavam informações sobre a freqüência cardíaca de cada mergulhador,freqüência respiratória e pressão do oxigênio do ar respirado. Todos es­ses três níveis eram monitorados continuamente em tempo real.

Larry ergueu os olhos da escrivaninha onde se encontrava, e con­templou sua segunda equipe de mergulhadores com desdém. Não po­dia acreditar na aparência invariavelmente desmazelada, atrevida e antiprofissional deles. Observou o boné de beisebol berrante e a cami­seta rasgada de Michael, mas nada disse. Como na Marinha, ele tolera­va nos mergulhadores comportamentos que não tolerava nos outros componentes da equipe. Três outros mergulhadores igualmente rebel­des e irritantes se encontravam ainda em uma das câmaras, descomprimindo-se do último mergulho até a cabeça do poço. Quando se mergulha a uma profundidade de quase trezentos metros, o tempo de descompressão se mede em dias, não em horas.

— Desculpem por ter acordado vocês, seus palhaços, do seu sono de beleza — disse Larry. — Como demoraram para chegar aqui, hein?

— Tive que passar o fio dental nos dentes — disse Richard.

— E eu tive que fazer as unhas — disse Louis. Balançou a mão de um jeito brusco, com o pulso bem mole.

Michael revirou os olhos, fingindo estar horrorizado.

— Ei, olha aí, pode parar! — grunhiu Louis, olhando Michael. Apontou um de seus dedos gordos para o rosto do amigo. Michael o afastou com um tapa.

— Tá legal, agora me escutem, animais! — berrou Larry. — Ten­tem se controlar. Esse vai ser um mergulho de 298 metros de profundi­dade para inspecionar e trocar a broca de perfuração.

— Ah, que novidade, hein, chefe! — disse Richard numa vozinha fina e estridente. — Já é a quinta vez que enviam mergulhadores para isso, e a terceira nossa. Vamos meter logo a mão na massa.

— Feche a matraca e escute — ordenou Larry. — Agora tem um fato novo. Vocês vão inserir um extrator de amostras atrás da broca para que possamos ver se conseguimos uma amostra decente dessa coisa que estamos tentando perfurar.— Parece maneiro — disse Richard.

— Vamos acelerar o tempo de compressão — informou Larry. — Tem um chefão aqui no navio que está com pressa de obter resultados. Vamos ver se conseguimos mandar vocês para essa profundidade em duas ou três horas. Mas, vejam bem, precisam me avisar sem demora se sentirem alguma dor nas articulações. Não quero ninguém aqui que­rendo bancar o machão. Entendido?

Todos os três confirmaram.

— Vamos comer assim que a comida chegar da cozinha — conti­nuou Larry. — Mas quero vocês nas camas para a compressão, e isso significa nada de palhaçadas nem brigas.

— Vamos jogar baralho — explicou Louis.

— Se jogarem, joguem das camas — disse Larry. — E vou repetir: nada de brigas. Se houver alguma, tiramos o baralho de vocês. Estou sendo claro?

Larry olhou cada um, e todos evitaram-lhe o olhar. Ninguém con­testou os termos do acordo.

— Vou interpretar esse raro silêncio como concordância — disse Larry. — Bom, Adams, você vai ser o mergulhador vermelho. Donaghue é o verde. Mazzola é o mergulhador do sino.

Richard e Michael deram vivas e depois se inclinaram um para o outro e se cumprimentaram batendo com as palmas das mãos uma na outra. Louis expirou, contrariado, entre os lábios apertados. O traba­lho do mergulhador do sino, durante o mergulho, era ficar dentro do CTP para manejar os cabos e mangueiras dos mergulhadores vermelho e verde e vigiar os mostradores dos instrumentos; não entraria na água, a não ser que houvesse uma emergência. Embora sua posição fosse mais segura, era desdenhada pelos mergulhadores. As indicações de quem era mergulhador verde e vermelho eram usadas para evitar confusões nas comunicações com a superfície que poderiam ocorrer caso se atribuís­sem apelidos ou sobrenomes. No Benthic Explorer, o mergulhador ver­melho era considerado o líder no local da operação. Larry pegou uma prancheta que antes estava sobre a mesa. Entre­gou-a a Richard.

— Aqui está a listagem de verificação prévia, mergulhador verme­lho. Agora tratem de ir se mandando para a Câmara 1. Quero começar a compressão em quinze minutos.

Richard pegou a prancheta e foi na frente quando saíram da cabine. Logo que saiu, Louis começou uma lengalenga sem fim, reclaman­do por ter sido escolhido para ser o mergulhador do sino, queixando-se de que havia ficado no sino no mergulho anterior também.

— Acho que o chefe considera você o melhor de nós três para fazer isso — disse Richard, enquanto piscava para Donaghue. Ele sabia que estava zombando do Louis. Mas não conseguiu resistir. Sentia-se alivia­do por não ter sido escolhido, porque era sua vez.

Quando o grupo passou pela Câmara 3, que estava ocupada, cada um deles olhou pela escotilha minúscula e mostrou o polegar erguido em sinal de positivo para os três ocupantes, que tinham pela frente ain­da vários dias de descompressão. Os mergulhadores podiam brigar entre si às vezes, mas também demonstravam grande coleguismo. Res­peitavam-se mutuamente por causa dos riscos inerentes à sua ocupa­ção. O isolamento e o perigo envolvidos em um mergulho saturado eram ironicamente semelhantes, em certos aspectos, ao de se estar em um satélite que estivesse em órbita da Terra. Caso ocorresse algum proble­ma, podiam ficar gravemente encrencados, e era difícil trazerem-nos de volta para cima.

Na Câmara 1, Richard entrou primeiro pela porta estreita e redon­da na lateral do cilindro. Para isso precisou agarrar uma barra horizon­tal de metal, erguer as pernas e meter primeiro os pés na câmara, esgueirando-se pela abertura.

O interior era bem despojado, estando os leitos numa das extremi­dades e os aparelhos de respiração de emergência pendentes das pare­des. Todos os equipamentos de mergulho, inclusive os trajes de neoprene, cintos com lastro, luvas e coifas, bem como o restante da parafernália,se encontravam amontoados entre os leitos. As máscaras de mergulho estavam no sino com todas as mangueiras e linhas de comunicação. No outro extremo da câmara ficavam o chuveiro aberto, o vaso sanitário e a pia. Mergulho saturado era um evento tipicamente comunitário. Não havia privacidade de espécie alguma.

Louis e Michael entraram logo depois de Richard. Louis subiu di­retamente para o sino de mergulho, enquanto Michael começou a ins­pecionar o material que estava no chão. Richard dizia os nomes das várias peças do equipamento em voz alta, e Louis e Michael gritavam se elas estavam presentes ou não, e Richard assinalava a parte conferida na lis­ta. O que estivesse faltando ia sendo imediatamente fornecido através da escotilha aberta, por um dos assistentes que aguardavam, do lado de fora.

Quando as quatro páginas da lista de verificação terminaram de ser conferidas, Richard fez sinal de positivo para o supervisor de mergulho através da câmera fixa no teto da câmara de compressão.

— Muito bem, mergulhador vermelho — disse o supervisor pelo intercomunicador —, fechar e travar a escotilha de admissão e prepa­rar-se para começar a pressurização.

Richard obedeceu. Quase imediatamente, ouviu-se o chiado do gás comprimido, e a agulha no mostrador analógico do manômetro come­çou a subir. Os mergulhadores olharam felizes para seus leitos. Richard tirou o baralho gasto do bolso da calça de malha.

 

Perry saiu do interior do navio e pisou na grade que formava o tombadilho a ré. Trajava um abrigo de malha grená sobre uma blusa de mangas compridas — sugestão do Mark. Ele disse a Perry que havia se vestido assim da última vez em que esteve no submersível. Como o es­paço era restrito, quanto mais confortáveis fossem as roupas, melhor, e colocar uma peça por cima da outra era bom, porque podia fazer frio. A temperatura externa da água era de apenas cerca de quatro graus centí­grados, e não era aconselhável gastar a preciosa energia das baterias com calefação.

A princípio Perry achou desagradável andar sobre a grade metálica, porque podia enxergar a superfície do oceano a uns quinze metros de distância, lá embaixo. A água tinha uma aparência gelada e verde-acinzentada. Perry tremeu apesar da temperatura agradável, e se pergun­tou, afinal, se devia mesmo acompanhar o mergulho do submarino. Aquele pressentimento esquisito que sentira ao despertar retornou, ar­repiando-lhe os pêlos da nuca. Embora ele não fosse propriamente claustrofóbico, jamais se sentia bem ao se ver confinado num espaço exíguo como o interior do submersível. Aliás, um dos momentos mais apavorantes da infância dos quais Perry se lembrava era aquele no qual ficara preso debaixo das cobertas pelo irmão mais velho. O irmão pu-lou em cima dele, em vez de afastar as cobertas, e, durante um tempo que pareceu durar uma eternidade, não o deixou sair. Volta e meia Perry ainda tinha pesadelos nos quais se via de novo naquela prisão de pano com a sensação desesperadora de que estava para sufocar.

Perry parou e ficou olhando fixamente o pequeno submarino, que estava apoiado em picadeiros bem na popa do navio. Sobre ele, inclina­do, via-se um imenso guindaste capaz de deslocar a embarcação, levan­do-a para além da amurada, acima da superfície da água, e baixá-la até lá. Em torno do submarino, operários enxameavam como abelhas ao redor de uma colméia. Perry sabia que estavam participando da verifi­cação que sempre se processava antes que o submarino submergisse.

Perry, aliviado, constatou que a embarcação parecia bem maior do que antes, quando estava na água, fato que aplacou sua claustrofobia recentemente despertada. O submersível não era tão minúsculo quanto muitos por aí. Tinha quinze metros de comprimento e vau de três metros e sessenta centímetros, e uma forma de bulbo, como uma salsicha in­chada de aço HY-140, com superestrutura em fibra de vidro. Havia quatro vigias feitas de seções cônicas de plexiglas de vinte centímetros e trinta milímetros de espessura: duas na proa e uma de cada lado. Os braços manipuladores hidráulicos, dobrados para cima sob a proa, o faziam parecer um enorme crustáceo. O casco era escarlate com dizeres em branco nas laterais da embarcação. O nome dela era Oceanus, nome do deus grego do alto-mar.

— Bonitinho, esse danado, não? — disse alguém. Perry virou-se. Mark havia se aproximado às suas costas.

— Talvez seja melhor eu ficar, afinal — disse Perry, tentando dar à voz uma entonação natural.

— E por quê? — indagou Mark.

— Não quero atrapalhar — disse Perry. — Vim aqui para ajudar, não para ser uma pedra no sapato de ninguém. Tenho certeza de que o piloto preferiria não ter um cara no pé dele, de carona, como se fosse um turista.— Mas que bobagem! — disse Mark, sem hesitar. — Tanto o Donald quanto a Suzanne adoraram saber que você vai junto. Falei com eles há menos de vinte minutos, e eles me disseram isso. Aliás, aquele ali no andaime é o Donald, que está supervisionando a conexão ao guin­daste de lançamento. Acho que ainda não foram apresentados.

Perry olhou na direção indicada com o dedo por Mark. Donald Fuller era um negro com cabeça raspada, um bigode bem fino e bem aparado e uma musculatura de dar inveja. Estava com um macacão azul-marinho impecavelmente passado a ferro, com dragonas, do qual pen­dia uma plaqueta lustrosa com seu nome. Até mesmo de onde estava Perry era capaz de perceber o porte militar do homem, principalmente quando ouvia sua voz profunda de barítono e o jeito entrecortado e compenetrado com que dava ordens. Durante aquela operação, não havia dúvidas quanto a quem era o comandante.

— Vamos — apressou-o Mark, antes que Perry tivesse tempo de reagir. — Vou apresentar você a ele.

Relutante, Perry deixou que o outro o conduzisse até o submersível. Era dolorosamente óbvio que ele não conseguiria saltar fora daque­le passeio no Oceanus sem ficar com a imagem um tantinho arranhada. Seria obrigado a admitir seus temores, e isso não iria cair nada bem. Além do mais, tinha gostado de andar no submarino da primeira vez em que submergira nele, mesmo que tivesse sido a apenas uns trezentos metros de profundidade, bem diante da enseada de Santa Catalina, bem longe do meio do Oceano Atlântico.

Depois de Donald se certificar de que a conexão do submersível com o cabo de içamento estava segura, saltou de cima do andaime e começou a andar em torno da embarcação. Embora a equipe de mergu­lho que iria monitorar a operação da superfície estivesse responsável pela verificação externa prévia ao mergulho, Donald queria verificar visual­mente ele mesmo todos os orifícios que atravessavam o casco de pres­são. Mark e Perry o alcançaram na proa. Mark apresentou Perry como presidente da Benthic Marine.Donald respondeu batendo os calcanhares um no outro e saudando-o à maneira militar. Antes que pudesse aperceber-se do que fazia, Perry retribuiu a continência. Só que não sabia fazer conti­nência como se deve; jamais havia cumprimentado ninguém desse jeito na vida. Sentiu-se ridículo diante da vergonha que devia estar passando.

— É uma honra conhecê-lo, senhor — disse Donald. Estava mui­to ereto com os lábios apertados e as narinas dilatadas. Perry achou-o parecido com um guerreiro prestes a combater.

— Prazer em conhecê-lo — cumprimentou-o Perry. Gesticulou, indicando o Oceanus. — Não quero interromper seu trabalho.

— Não há problema, senhor — retrucou Donald, na mesma hora.

— Também não é obrigado a me levar — disse Perry. — Não que­ro atrapalhar a operação. Aliás...

— Não vai atrapalhar nada, senhor — disse Donald.

— Sei que vão estar trabalhando — persistiu Perry. — Não gosta­ria de desviar a atenção de vocês do serviço que irão executar.

— Quando estou pilotando o Oceanus, ninguém desvia minha atenção do meu serviço, senhor!

— Ótimo — disse Perry. — Mas não vou me ofender se achar que eu devo ficar. Quero dizer, vou entender.

— Estou ansioso para lhe mostrar o que esse submersível pode fa­zer, senhor.

— Bom, então, muito obrigado — disse Perry, reconhecendo que seria inútil tentar saltar fora sem perder a pose.

— O prazer é meu, senhor — retrucou Donald.

— Não precisa me chamar de senhor — pediu Perry.

— Sim, senhor! — replicou Donald. Então a boca relaxou e deu um ligeiro sorriso, quando ele percebeu o que havia dito. — Quero dizer, Sr. Bergman.

— Chame-me de Perry.— Sim, senhor — disse Donald. Depois se permitiu dar um se­gundo sorriso quando viu que havia dado outro fora em menos de dois segundos. — É difícil para mim mudar meu jeito de ser.

— Já vi — disse Perry. — Acho que não seria um erro meu imagi­nar que obteve experiência nesse tipo de serviço nas forças armadas.

— Positivo — disse Donald. — Vinte e cinco anos servindo na frota de submarinos.

— Era oficial? — perguntou Perry.

— Exato. Aposentei-me comandante.

Os olhos de Perry desviaram-se para o submarino. Agora que ele já havia se conformado com o fato de que iria mesmo com eles, queria se tranqüilizar.

— Como vem sendo o desempenho do Oceanus?

— Impecável — respondeu Donald.

— Então é uma boa embarcação? — perguntou Perry. Deu tapinhas no casco de pressão de aço frio.

— A melhor — afirmou Donald. — Melhor do que qualquer ou­tra que já pilotei, e olha que já pilotei muitas.

— Isso não é só patriotismo, não? — indagou Perry.

— De jeito nenhum — respondeu Donald. — Antes de mais nada, ela consegue descer a uma profundidade maior do que qualquer outra embarcação tripulada que já pilotei. Como certamente deve saber, a profundidade de operação certificada dela é de seis mil e noventa e seis metros, sendo que a profundidade de esmagamento é só aos dez mil seiscentos e setenta metros. Mas até mesmo isso engana. Com a mar­gem de segurança com a qual trabalhamos, provavelmente poderíamos descer ao fundo da Fossa das Marianas tranqüilamente.

Perry engoliu em seco. Ao ouvir a expressão profundidade de esmaga-mento, experimentara outra vez o tremor que sentira alguns minutos antes.

— Por que não passa em revista rapidamente alguns detalhes dos equipamentos do Oceanus, para refrescar a memória do Perry? — suge­riu Mark.— Claro — disse Donald. — Aguardem só um momento. — Pon­do as mãos em concha ao redor dos lábios, berrou para um dos homens que estavam terminando a verificação pré-imersão:

— Verificaram as câmeras de filmagem internas?

— Positivo! — respondeu o subalterno. Donald voltou a atenção para Perry outra vez.

— A embarcação pesa sessenta e oito toneladas e tem espaço para dois pilotos, dois observadores e seis outros passageiros. Temos travamento elétrico para os mergulhadores e podemos nos acoplar às câmaras de vida caso seja preciso. Temos sistema de sustentação da vida para um máximo de duzentas e dezesseis horas. A energia vem de bate­rias de prata-zinco. A propulsão vem de um hélice varivec, porém a maneabilidade também melhora com empuxadores verticais e horizon­tais dirigidos por meio de alavancas geminadas com esferas de acionamento digital na parte superior. A embarcação conta ainda com sonar de varredura lateral, radar de penetração no solo, magnetômetro de prótons e termistores. O equipamento de gravação inclui câmeras de vídeo de procura de alvo com intensificação por silício. As comunica­ções se processam por meio de rádio FM de superfície e telefone sub­marino UQC. A navegação é inercial.

Donald fez uma pausa enquanto seus olhos vagueavam pelo inte­rior do submersível.

— Acho que já falei do básico. Alguma pergunta?

— Por enquanto, não — disse Perry, mais do que depressa. Tinha medo de que Donald lhe fizesse alguma pergunta. A única coisa que Perry gravou de todo aquele monólogo foi a profundidade de esmaga­mento de dez mil e seiscentos e poucos metros.

— Prontos para lançar o Oceanus! — anunciou uma voz entrecortada pela estática, através do alto-falante.

Donald conduziu Perry e Mark para longe do submarino. O cabo do guindaste esticou-se. Com um rangido, o submersível se ergueu do tombadilho. Para evitar que a embarcação oscilasse, havia múltiploscabos de lançamento atados a pontos-chave situados ao longo do casco dela. Um rangido agudo anunciou a movimentação do turco quando ele levou o submarino além da popa do navio e começou a baixá-lo até a água.

— Ah, aí vem a nossa boa doutora — comentou Mark.

Perry virou-se rapidamente para olhar atrás de si. Uma silhueta sur­giu através da porta principal que dava para o interior do navio. Perry olhou de novo, rapidamente. Só tinha visto Suzanne Newell uma vez antes, quando ela apresentou os primeiros estudos sísmicos sobre o Monte Olimpo Submarino. Mas isso foi em Los Angeles, onde não fal­tava gente bonita. Ali no meio do oceano, no utilitário Benthic Explorer, contendo quase cem homens desgrenhados, ela se destacava como um lírio em meio a um canteiro infestado de ervas daninhas. Com seus vinte e tantos anos, era vibrante e tinha uma aparência atlética. O macacão que vestia, semelhante ao de Donald, revelava exuberantes formas fe­mininas que eram a exata antítese das másculas formas do piloto. Trazia na cabeça um boné de beisebol azul-escuro, com um galão trançado dourado sobre a pala e as palavras Benthic Explorer bordadas na parte frontal. Na parte de trás do boné, justamente acima da tira de regulagem, saía um rabo-de-cavalo composto por grossos e lustrosos cabelos cas­tanhos.

Suzanne viu o grupo e acenou, depois seguiu na direção deles. Quando se aproximou, Perry começou a abrir a boca lentamente, uma reação que Mark não deixou de notar.

— Nada má, né? — comentou.

— É muito atraente — admitiu Perry.

— Sim, bom, espere alguns dias — disse Mark. — Ela fica melhor com o tempo. Está em muito boa forma para uma oceanógrafa geofísica, não é?

— Não conheci muitos oceanógrafos geofísicos — disse Perry. De repente, começou a achar que o mergulho não ia ser tão desagradável, afinal de contas.— Uma pena que não seja doutora em medicina — disse Mark, baixinho. — Até que ia gostar se ela me fizesse um exame para ver se tenho hérnia inguinal.

— Se me permitir, continuarei a preparar o Oceanus para submer­gir — disse Donald.

— Claro — disse Mark. — A broca nova e o extrator de amostras vão subir já, já, e eu vou mandar colocá-los diretamente na bandeja.

— Sim, senhor! — disse Donald, com uma continência. Voltou para a beirada do tombadilho à ré, e olhou para o submarino que descia.

— Ele é meio rígido — disse Mark —, mas é um funcionário bom pra cacete.

Perry não o ouviu. Não conseguia tirar os olhos de Suzanne. Ela caminhava de maneira inconfundivelmente rápida; tinha um sorriso amigável e acolhedor. Com a mão esquerda, trazia dois livros grossos apertados contra o peito.

— Sr. Perry Bergman! — exclamou Suzanne, estendendo a mão direita. — Adorei saber que viria aqui ao navio, e fiquei encantada quan­do me disseram que ia submergir conosco. Como vai? Deve estar se recuperando desse vôo longo.

— Estou muito bem, obrigado — disse Perry, enquanto apertava a mão da oceanógrafa. Depois inconscientemente ergueu a mão para ver se o cabelo estava bem ajeitado sobre o ponto onde a cabeça estava ficando calva. Observou que os dentes de Suzanne eram tão brancos quanto os seus.

— Depois de nosso encontro em Los Angeles não tive oportuni­dade de lhe dizer como fiquei feliz por ter decidido mandar o Benthic Explorer de volta ao monte submarino Olimpo.

— Legal — disse ele, obrigando-se a sorrir. Estava enfeitiçado pe­los olhos de Suzanne. Não sabia dizer se eram azuis ou verdes. — Só desejaria que a perfuração estivesse indo melhor.

— Também lamento — disse Suzanne. — Mas preciso admitir que, do meu ponto de vista egoísta e pessoal, estou satisfeita. O monte submarino é um ambiente fascinante, como vai ver, e os problemas de per­furação vão me levar a descer até ele. Então, não vai escutar queixas de mim.

— Estou feliz por estar contentando alguém — disse Perry. — O que há de tão fascinante nesse monte submarino em particular?

— É a geologia dele — disse Suzanne. — Sabe o que são diques basálticos?

— Não sei bem se realmente sei — admitiu Perry. — Quero dizer, além de saber que são feitos de basalto, claro. — Riu, meio sem graça, e decidiu que os olhos dela eram de um azul-claro com reflexos verdes do oceano que os cercava. Também percebeu que gostava da maquila­gem leve dela. Parecia estar usando apenas um pouquinho de nada de batom. Os cosméticos eram um assunto que despertava discussões en­tre Perry e a esposa. Ela trabalhava como maquiladora de um estúdio de cinema, e também gostava de usar bastante maquilagem, o que contra­riava Perry. Agora as filhas de onze e treze anos deles estavam seguindo o exemplo da mãe. A questão havia se tornado uma contenda bastante acirrada que Perry tinha poucas chances de vencer.

O sorriso de Suzanne aumentou.

— Os diques basálticos se compõem de basalto, mesmo. Formam-se quando o basalto fundido sai pelas fissuras da crosta terrestre. O que os torna tão intrigantes é que são geométricos a ponto de parecerem artificiais. Espere só até vê-los.

— Desculpem pela interrupção — disse Donald. — O Oceanus já está pronto para submergir, e devemos descer a bordo. Até mesmo com mar calmo é perigoso deixá-lo ancorado durante muito tempo próxi­mo ao costado do navio.

— Sim, senhor, capitão! — disse Suzanne, prontamente. Fez uma continência perfeita, porém com um sorriso zombeteiro, que não lhe saía dos lábios. Donald não achou graça. Sabia que ela o estava provocando.

Suzanne fez sinal para que Perry a precedesse na meia-laranja que levava a um misto de plataforma de mergulho e cais de lançamento.Perry começou a descer, porém hesitou quando um outro estremeci­mento involuntário lhe percorreu a espinha. Apesar do esforço que estava fazendo para se tranqüilizar acerca da segurança do submersível e apesar de estar na expectativa de aproveitar a agradável companhia de Suzanne, o pressentimento que ele tivera antes voltou como uma cor­rente de ar frio através de uma cripta subterrânea, que era o que ele pensava que se assemelhava ao interior do Oceanus. Uma voz bem den­tro dele lhe dizia que ele estava ansioso por se ver trancafiado dentro de uma embarcação já submersa no meio do Oceano Atlântico.

— Esperem aí só um segundo! — exclamou Perry. — Quanto tem­po vai durar essa operação?

— Pode ser que dure só umas duas horas — disse Donald — ou pode durar quanto tempo quiser. Costumamos ficar debaixo d'água durante o tempo em que os mergulhadores ficarem.

— Por que está perguntando? — indagou Suzanne.

— Porque... — Perry procurou uma explicação. — Porque preciso ligar para o escritório.

— No domingo? — estranhou Suzanne. — Quem estaria no es­critório no domingo?

Perry sentiu que estava ficando vermelho de novo. Entre os vôos noturnos de Nova York aos Açores, havia confundido os dias. Riu, meio sem graça, e bateu com a mão do lado da cabeça.

— Esqueci que hoje era domingo. Devo estar começando a sofrer do mal de Alzheimer.

— Vamos partir! — anunciou Donald, antes de descer até a plata­forma de submersão, lá embaixo.

Perry o seguiu, dando um passo de cada vez, sentindo-se um ridí­culo covarde. Depois, apesar de fazer o melhor que podia, arrastou-se para atravessar a prancha que balançava. Era chocante constatar quanta movimentação havia no que parecia um mar calmo.

A prancha levava direto para o alto do casco do Oceanus. O convés do submersível já estava inundado, uma vez que ele estava quase em flutuação neutra. Com uma certa dificuldade, Perry passou pela escoti­lha. Enquanto descia para o interior do submarino, foi obrigado a se espremer bem contra os degraus gelados da escada de aço.

O interior da embarcação era tão apertado quanto Mark havia pre­venido. Perry começou a duvidar da descrição segundo a qual havia lugar para dez pessoas. Elas iriam ter de ficar todas enfileiradas como sardi­nhas. Contribuindo para o atulhamento do ambiente, as paredes da frente do submarino eram repletas de instrumentos, mostradores de cristal líquido e interruptores. Não havia sequer um centímetro qua­drado que não tivesse um mostrador ou um botão. As quatro vigias pareciam minúsculas em meio à profusão de equipamentos eletrônicos. O único aspecto positivo era que o ar parecia puro. Ao fundo, Perry conseguiu distinguir o zunido de um ventilador.

Donald levou Perry até uma poltrona baixa diretamente atrás da sua, a bombordo. Diante do assento do piloto, ficavam diversos monitores de tubo de raios catódicos cujos computadores eram capazes de reproduzir virtualmente o fundo dos oceanos para ajudar na navega­ção. Donald estava usando o rádio FM para falar com Larry Nelson na cabine de controle de submersão, enquanto continuava a verificação anterior ao mergulho do equipamento e dos sistemas elétricos.

Perry ouviu a escotilha acima de si se fechar com um baque seguido por um nítido estalido de trava. Alguns momentos depois Suzanne desceu da torreta do submarino com muito mais agilidade que Perry. Conseguiu até trazer consigo os dois livros grossos, que logo foi entregando a Perry.

— Trouxe esses livros para você — disse ela. — O grosso é sobre a vida oceânica, e o outro é sobre geologia marinha. Pensei que talvez gostasse de dar uma espiada neles para identificar algumas das coisas que vamos ver. Não queremos que fique entediado.

— Foi atencioso de sua parte — comentou Perry. Mas Suzanne mal podia imaginar que ele estava nervoso demais para ficar entediado. Sen­tia-se como antes de decolar num avião: sempre havia a chance de os próximos minutos serem os últimos da sua vida.Suzanne se sentou no assento de piloto de boreste. Logo começou a acionar os interruptores e a dizer os resultados para Donald. Era óbvio que os dois formavam uma equipe. Uma vez que Suzanne começou a participar da verificação pré-imersão, ruídos assustadores de tubulações começaram a reverberar através do espaço confinado. Era um som pe­culiar que Perry associou aos filmes de submarino da Segunda Guerra Mundial.

Perry estremeceu outra vez. Fechou os olhos um instante e tentou não pensar no seu trauma de infância, no seu desespero, preso sob as cobertas pelo irmão. Mas essa tática não funcionou. Olhou pela escoti­lha à esquerda, e se esforçou por entender por que estava achando que tinha tomado a pior decisão de sua vida, fazendo aquela curta imersão de rotina. Sabia que não havia fundamento racional para essa sensação, uma vez que reconhecia que estava com profissionais para os quais aquela imersão era corriqueira. Sabia que o submersível era confiável e que havia recentemente mandado revisá-lo.

De repente, Perry teve um sobressalto. Um rosto mascarado havia literalmente se materializado diante de seus olhos. Um ganido lamen­tável e involuntário lhe escapou dos lábios antes que Perry pudesse en­tender que estava olhando para um dos operários que preparava o submarino, que tinha mergulhado, com o traje autônomo apropriado. Um momento depois, viu mais mergulhadores. Como num lento balé submarino os mergulhadores rapidamente soltaram os cabos de manu­seio. Ouviu-se uma batida do lado externo do casco. O Oceanus estava solto agora.

— Sinal de liberação recebido — disse Donald ao microfone do rádio. Falava com o supervisor da equipe de lançamento que estava lá no tombadilho a ré. — Solicitando permissão para ligar os motores e se afastar do costado.

— Permissão concedida — respondeu uma voz desencarnada. Perry sentiu um novo movimento linear acrescentar-se ao balanço, guinada e arfada passivas do submarino. Pressionou o nariz contra a vigia e viu o Benthic Explorer sair de seu campo de visão. Com o rosto ainda comprimido contra o plexiglás, olhou para as profundezas do oceano onde estava para descer. A luz solar lhe pregava ilusões de óptica, ao sofrer refração na superfície ondulante da água, abaixo dele, fazen­do-o imaginar se estaria fitando as fauces da eternidade.

Com outro estremecimento, Perry percebeu que estava tão vulne­rável quanto uma criancinha. Uma combinação de vaidade e estupidez o havia arrastado para aquele ambiente estranho, no qual ele perdera o controle de seu destino. Embora não fosse religioso, viu-se rezando para que aquele pequeno passeio submarino fosse curto, agradável e seguro.

 

— Nenhum contato — disse Suzanne, respondendo à pergunta de

Donald, que queria saber se o ecobatímetro mostrava algum obstáculo inesperado abaixo do Oceanus. Apesar de eles estarem flutuando no mar aberto, parte da verificação pré-imersão tinha sido para assegurar-se de que nenhuma outra embarcação submarina havia furtivamente pene­trado embaixo deles.

Donald pegou o microfone do rádio VHF e estabeleceu contato com Larry Nelson na cabine de mergulho.

— Estamos nos afastando do costado do navio. O oxigênio está ligado, os filtros estão ligados, a escotilha fechada, o telefone submari­no está ligado, os terras estão normais, o ecobatímetro está limpo. Soli­cito permissão para submergir.

— Acionou o radiofarol? — indagou Larry, pelo rádio.

— Positivo — respondeu Donald.

— Permissão para imergir concedida — disse Larry, acompanha­do por um pouco de estática. — A profundidade até a cabeça de poço é de trezentos e cinco metros. Boa imersão.

— Entendido, e obrigado! — disse Donald.

Donald já estava para recolocar o microfone no suporte, quando Larry acrescentou:— A câmara de vida está atingindo a profundidade, de forma que o sino vai estar descendo daqui a pouquinho. Acho que os mergulha­dores estarão no local do serviço em meia hora.

— Vamos estar esperando por eles — continuou Donald. — Des­ligo. — Pendurou o microfone no suporte. Depois, falou aos seus com­panheiros de jornada submarina: — Imergir! Imergir! Encher os tanques de lastro principais!

Suzanne inclinou-se para a frente e acionou um interruptor.

— Enchendo os tanques de lastro — repetiu, para que não hou­vesse dúvidas de que havia entendido. Donald fez uma anotação no papel que havia na sua prancheta.

Ouviu-se um som semelhante ao de uma ducha num compartimento vizinho quando a água gelada do Atlântico penetrou nos tanques de lastro do Oceanus. Dentro de alguns instantes, a embarcação começou a perder a flutuabilidade rapidamente, e depois de perdê-la totalmente, submergiu, silenciosa.

Durante os minutos seguintes, tanto Donald quanto Suzanne ficaram totalmente ocupados, certificando-se de que todos os sistemas ainda esta­vam funcionando normalmente. A conversa entre eles se limitou ao jargão operacional. Agilmente, depois, passaram em revista a maior parte da lista de verificação pré-imersão pela segunda vez, enquanto a descida do submersível se acelerava até a velocidade máxima de trinta metros por minuto.

Perry procurou se distrair olhando pela vigia. A cor da água passou rapidamente de seu azul-esverdeado inicial para o índigo. Em cinco minutos só conseguia enxergar um brilho azulado quando olhava para cima. Para baixo, tudo estava de um roxo-escuro, que se fundia com a escuridão. Estabelecendo um contraste abrupto com essas águas negras, o interior do Oceanus estava banhado pela luminosidade fria vinda dos inúmeros monitores e dispositivos de leitura de dados.

— Acho que estamos com um certo excesso de peso na proa — observou Suzanne depois de verificar todos os equipamentos eletrôni­cos com Donald.— Concordo — disse Donald. — Pode corrigir, para compensar o Sr. Bergman!

Suzanne acionou novo botão. Ouviu-se um zumbido. Perry se inclinou para a frente, entre os dois pilotos.

— Como assim, me compensar?. — A voz dele soou esquisita até para ele mesmo. Engoliu saliva para aliviar a garganta seca.

— Temos um sistema de lastro variável — explicou Suzanne. — Está cheio de óleo, e estou bombeando uma parte dele para a ré a fim de compensar seu peso, que está à frente do centro de gravidade.

— Ah! — foi tudo que Perry conseguiu responder. Recostou-se no espaldar do assento. Sua formação como engenheiro lhe permitia com­preender o princípio físico. Também ficou aliviado por saber que não estavam se referindo a sua timidez, algo que seu constrangimento lhe havia irracionalmente sugerido.

Suzanne desligou a bomba de lastro variável quando o equilíbrio do submarino a satisfez. Depois se virou para falar com Perry. Estava ansiosa para tornar a descida até o monte submarino o mais agradável possível. Depois que voltassem ao navio, ela esperava convencê-lo a realizar mergulhos puramente exploratórios ao guyot. Naquele momen­to, a única oportunidade que tinha de descer era para trocar a broca. Não tivera a sorte de persuadir Mark Davidson do valor de mergulhos puramente destinados à pesquisa.

Além da ansiedade de Suzanne, havia o boato generalizado de que a perfuração não teria sucesso devido a problemas técnicos. O monte sub­marino Olimpo seria abandonado antes que ela pudesse vê-lo mais de perto. Isso era a última coisa que ela queria, e não só por causa de seus interesses profissionais. Logo antes de participar do projeto no qual se encontravam envolvidos no momento, ela tivera o que esperava ser o rom­pimento definitivo de uma relação doentia e volátil com um ator iniciante. No momento, voltar para Los Angeles era a última coisa que queria. O surgimento súbito de Perry Bergman no local da perfuração tinha sido uma feliz coincidência. Ela poderia falar diretamente com o chefão.— Está confortável? — perguntou a ele.

— Nunca estive tão confortável em toda a vida — asseverou Perry. Suzanne sorriu, apesar do óbvio sarcasmo da resposta de Perry.  A situação não parecia nada boa. O presidente da Benthic Marine ainda estava tenso, como mostrava o jeito como agarrava os braços da poltro­na, como se estivesse para saltar dela. Os livros que ela havia feito o esforço de trazer jaziam no piso gradeado do submarino, ainda fechados.

Durante um momento, Suzanne observou o presidente rígido cujos olhos fitavam tudo, menos os seus. O que não conseguia entender era se o nervosismo de Perry se devia à apreensão de estar no submersível ou era apenas o reflexo de sua personalidade básica. Até mesmo na pri­meira vez em que vira o homem, seis meses antes, o havia considerado um sujeito ligeiramente excêntrico, vaidoso e nervoso. Obviamente não era o seu tipo, além de ser baixo o bastante para que ela o fitasse direta­mente nos olhos, de tênis. Mesmo não tendo quase nada em comum com ele, especialmente por ser ele uma combinação de engenheiro e empresário e ela, uma cientista, tinha certeza de que ele compreenderia seus argumentos. Afinal, já havia reagido positivamente à sua solicita­ção de levar o Benthic Explorer de volta até o monte Olimpo, mesmo que fosse apenas para perfurar a suposta câmara magmática.

O monte Olimpo havia sido a principal preocupação de Suzanne durante quase um ano, uma vez que ela havia topado com a existência dele ao ligar o sonar de varredura lateral do Benthic Explorer por sim­ples tédio, quando o navio seguia em direção ao porto. Inicialmente sua curiosidade envolveu apenas sua incapacidade de explicar por que um vulcão assim maciço e aparentemente extinto não teria sido detec­tado pelo Geosat. Mas agora, depois de quatro imersões no submersí­vel, estava igualmente fascinada pelas formações geológicas sobre seu cume achatado, principalmente porque só tivera a oportunidade de explorar os arredores da cabeça de poço. Mas aí o fato mais intrigante surgiu, quando ela resolveu verificar a idade da rocha trazida com a broca quebrada.Para Suzanne, os resultados foram surpreendentes, e muito mais intrigantes do que a dureza aparente da rocha. Pela posição do monte, perto da Cadeia Meso-Atlântica, ela esperava que a idade da rocha esti­vesse na faixa dos setecentos mil anos. Em vez disso, ela parecia ter quatro bilhões de anos de idade!

Sabendo que as mais antigas rochas encontradas na superfície da Terra ou no fundo do oceano eram significativamente bem menos an­tigas que essa, Suzanne havia pensado que o instrumento de datação estava fora de calibração, ou ela havia cometido algum erro no procedi­mento. Sem querer se arriscar a passar por incompetente, resolveu não divulgar os resultados.

Com um infinito cuidado, passou horas recalibrando o equipa­mento, depois verificando vezes sem conta novas amostras. Para in­credulidade sua, os resultados ficaram todos dentro da faixa de três ou quatro milhões de anos um do outro. Ainda acreditando que o instrumento devia estar com algum defeito, Suzanne pediu a Tad Messenger, o chefe dos técnicos de laboratório, para recalibrá-lo. Quando tornou a submeter a amostra ao ensaio, o resultado ficou a alguns milhões de anos do anterior. Ainda em dúvida, Suzanne se conformou em esperar até voltar a Los Angeles, para usar o equipa­mento do laboratório da universidade. Enquanto isso, os resultados ficaram trancafiados em seu armário no navio. Ela estava tentando isentar-se de ânimo, mas o interesse que sentia pelo monte Olimpo aumentava cada vez mais.

— Tem café quente naquela térmica ali atrás, se quiser um pouco — disse Suzanne. — Teria prazer em ir buscar um copo para você.

— Acho que gostaria muito mais se você ficasse aqui perto dos controles — asseverou Perry.

— Donald, que tal ligar as luzes lá de fora um instante? — sugeriu Suzanne.

— Estamos acabando de passar pelos cento e cinqüenta metros de profundidade — disse Donald. — Aqui não há nada para se ver.— É a primeira imersão do Sr. Bergman — insistiu Suzanne. — Devíamos lhe mostrar o plâncton.

— Pode me chamar de Perry — pediu o presidente da empresa. — Não há motivo para ser tão formal aqui embaixo, apinhados assim, fei­to sardinhas em lata, não é?

Suzanne recebeu com um sorriso essa permissão concedida por Perry para que o tratasse informalmente. Só sentiu pena por ele visivelmente não estar aproveitando a imersão.

— Donald, será que podia me fazer o favor pessoal de acender as luzes, sim? — pediu Suzanne.

Donald obedeceu sem fazer nenhum outro comentário. Estenden­do o braço para a frente, ligou as luminárias halógenas externas de bom­bordo. Perry virou a cabeça e lançou uma olhadela para fora.

— Parece até neve — comentou.

— São trilhões de organismos planctônicos — explicou Suzanne. — Como estamos numa zona epipelágica, provavelmente é em sua maioria fitoplâncton, ou plâncton vegetal, que pode realizar fotossíntese. Junto com as algas azul-esverdeadas, são esses seres que formam a base de toda a cadeia alimentar oceânica.

— É bom saber disso — respondeu ele. Donald desligou as luzes.

— Não adianta gastar nossa preciosa bateria para obter esse tipo de reação — cochichou no ouvido de Suzanne.

Na escuridão que se fez depois disso, Perry presenciou explosões brilhantes de um tênue verde néon e centelhas amareladas. Perguntou a Suzanne o que era aquilo.

— É a bioluminescência — explicou Suzanne.

— Vem do plâncton? — indagou Perry.

— Talvez — disse Suzanne. — Se for do plâncton, provavelmente são os dinoflagelados. É claro que também poderiam ser minúsculos crustáceos ou até peixes. Coloquei um marcador amarelo no livro sobre biologia marinha para marcar a parte que fala da bioluminescência.Perry fez um gesto de concordância, porém não fez menção de con­sultar o livro.

Boa tentativa, pensou Suzanne, murcha. O otimismo dela diante da tarefa de garantir divertimento a Perry havia se atenuado considera­velmente.

— Oceanus, aqui é o Benthic Explorer — disse a voz de Larry no alto-falante do intercomunicador. — Sugiro um curso de duzentos e setenta graus a cinqüenta ampères durante dois minutos.

— Entendido — disse Donald. Rapidamente providenciou a cor­reção do curso com as alavancas de controle e mudou a saída de potên­cia para o hélice de modo a obter os cinqüenta ampères sugeridos. Depois fez anotações no seu relatório, na prancheta.

— Larry determinou nossa posição rastreando nossos pingers e correlacionando-os com os hidrofones instalados no fundo do mar — explicou Suzanne. — Se avançarmos enquanto descemos, vamos atin­gir o fundo diretamente sobre a cabeça do poço. É como se deslizásse­mos até o alvo.

— O que vamos fazer até os mergulhadores chegarem? — pergun­tou Perry. — Ficar sentados aqui, enrolando?

— De jeito nenhum — disse Suzanne. Deu outro sorriso forçado e uma risadinha forçada. — Vamos descarregar a broca da bandeja e as ferramentas que trouxemos. Depois vamos recuar. A essa altura vamos ter uns vinte a trinta minutos para explorar o local. É essa parte que imagino que você vai realmente apreciar.

— Mal posso esperar — disse Perry, com o tipo de sarcasmo que Suzanne estava começando a temer. — Mas não quero que façam nada fora do normal por minha causa. Quero dizer, não tentem me impres­sionar. Eu já estou bastante impressionado.

De repente, o monótono ruído do sonar mudou. O submarino estava se aproximando do fundo, e o sonar de curto alcance diantei­ro recebeu um sinal bastante firme. A minúscula tela verde mostrou a cabeça do poço e o tubo que descia lá da superfície. Donald alijou vários dos pesos de descida e o mergulho deslizante da embarcação ficou mais vagaroso. Depois o capitão começou a regular cuidadosa­mente o sistema de lastro variável para atingir uma flutuabilidade neutra.

Enquanto Donald se ocupava de bombear o óleo, Suzanne, tateando atrás de si, ligou um pequeno aparelho de reprodução de discos a laser. Aquilo fazia parte do seu plano principal. De repente a Sagração da pri­mavera, de Igor Stravinsky, fez o interior do submarino vibrar. Ouvin­do a música, conforme já fora combinado, Donald inclinou-se e ligou as luzes externas.

Os olhos de Perry se arregalaram quando deu uma olhada pela vi­gia. Quase não havia mais neve planctônica, de forma que a transpa­rência da água gélida era maior do que ele tinha imaginado. Conseguia enxergar tudo num raio de várias dezenas de metros, e o que via o dei­xou perplexo. Esperava uma planície sem acidentes, semelhante ao fun­do de mar que vira quando da imersão ao largo de Santa Catalina. No máximo pensou que poderia ver alguns pepinos do mar. Em vez disso, viu-se contemplando uma meseta nebulosa que não se parecia com nada que ele já houvesse imaginado: imensas silhuetas cinza-escuro, em for­ma de colunas, com a parte superior achatada, pontilhavam a paisagem, salientando-se irregularmente como os cilindros paralisados de um motor descomunal. Aquelas formas fantasmagóricas estendiam-se até onde alcançava a visão de Perry. Alguns peixes de cauda longa e olhos gran­des preguiçosamente penetravam nelas ou nadavam em torno, ariscos. Sobre algumas das rochas, gorgônias e cnidárias ondulavam sinuosas, ao sabor da corrente.

— Santo Deus! — exclamou Perry. Estava fascinado, principalmen­te com aquela música dramática como fundo.

— Um tanto excepcional, não? — comentou Suzanne. Sentiu-se mais animada. Aquela reação de Perry ao cenário era a primeira auspiciosa que conseguia obter.

— Parece com um santuário antigo — exclamou Perry.— Como na Atlântida — insinuou Suzanne. Estava disposta a dourar a pílula tanto quanto pudesse, diante do que estava em jogo.

— Caramba, é mesmo! — exclamou Perry. — Como a Atlântida! Rapaz! Já imaginou se trouxéssemos turistas aqui e lhes disséssemos que é mesmo a Atlântida? Mas que tremenda mina de ouro isso não ia ser...

Suzanne pigarreou. Trazer turistas ali para seu precioso monte sub­marino era a última coisa que ela queria que acontecesse, mas apreciou o entusiasmo de Perry. Pelo menos ele parecia ter se deixado impressionar.

— A velocidade da corrente é de menos de um oitavo de nó — informou Donald. — Chegando à cabeça do poço. Preparar para des­carregar a broca.

Suzanne voltou-se bruscamente para desempenhar seu papel de co-piloto. Elevou a potência dos servomotores que movimentavam os bra­ços do manipulador. Enquanto isso Donald, com grande habilidade, fazia o Oceanus pousar no leito rochoso. Enquanto Suzanne se prepara­va para erguer a broca e as ferramentas da bandeja do submersível, Donald usava o telefone submarino.

— Chegamos ao fundo — informou. — Descarregando.

— Entendido — respondeu Larry, pelo alto-falante. — Achei que já haviam chegado quando escutei a música da Suzanne. Será que esse bendito CD é o único que ela tem?

— É o melhor para acompanhar o cenário aqui debaixo — inter­feriu Suzanne.

— Se fizermos mais algumas imersões vou te emprestar uns CDs de música New Age — respondeu Larry. — Não agüento essas músicas clássicas.

— São diques basálticos, aquelas coisas que eu estou vendo? — perguntou Perry.

— É o que imagino — disse Suzanne. — Já ouviu falar da Calça­da dos Gigantes?

— Não creio — respondeu Perry.— É uma formação feita de rochas naturais na costa norte da Ir­landa — disse Suzanne. — Parece um pouco com o que está vendo aqui.

— Qual o tamanho do cume desse monte? — perguntou Perry.

— Estimo que seja equivalente a quatro campos de futebol ameri­cano — disse Suzanne. — Mas, infelizmente, não passa de uma estima­tiva. O problema é que não temos tempo para ficar aqui no fundo e fazer uma pesquisa detalhada.

— Bom, acho que vamos ter que planejar isso — disse Perry. Bingo!, disse Suzanne a si mesma. Precisou resistir à tentação de berrar

perguntando se o Larry e o Mark haviam escutado o comentário de Perry pelo telefone submarino.

— O cume inteiro da montanha é igual a esse pedaço aqui? — perguntou Perry.

— Não, não é todo igual — disse Suzanne. — No trecho limita­do que pudemos explorar, há algumas áreas de formações de lava sub­marina mais típicas. Na última imersão, porém, vislumbramos o que pode ser uma falha transversal, mas fomos chamados de volta antes que pudéssemos explorá-la. A maior parte do monte permanece inexplorada.

— Onde estava a falha em relação à cabeça do poço? — indagou Perry.

— A oeste daqui — informou Suzanne. — Bem na direção para a qual está olhando agora. Está enxergando uma fileira particularmente alta de colunas?

— Acho que sim — disse Perry. Encostou o rosto no plexiglas para tentar olhar um pouco atrás do submarino. Havia uma fila de colunas bem no limite de seu campo de visão. — Seria significativo encontrar uma falha transversal? — perguntou.

— Seria assombroso — informou Suzanne. — Elas ocorrem em todo o sistema da Cadeia Meso-Atlântica, mas encontrar uma assim, a essa distância da cadeia, passando pelo meio do que presumimos ser um antigo vulcão, seria bastante peculiar.— Vamos dar uma olhada nela — sugeriu Perry. — Esse lugar aqui é fascinante.

Suzanne deu um sorriso vitorioso. Lançou um olhar rápido a Donald. Nem ele conseguiu esconder um sorriso. Estava a favor do pla­no de Suzanne, mas não levava muita fé nele.

Suzanne levou apenas alguns minutos para descarregar tudo que Mark havia colocado na bandeja do submersível. Depois que o mate­rial já se achava alinhado perto da cabeça do poço, ela dobrou os braços do manipulador, fazendo-os retornar à posição de retração.

— Serviço terminado — declarou. Desligou os servomotores.

— Oceanus para a superfície — disse Donald no microfone do intercomunicador. — Já descarregamos. Qual a posição dos mergulha­dores?

— A compressão está próxima do fundo — informou a voz de Larry pelo alto-falante. — O sino vai começar a descer em breve. O tempo estimado de chegada ao fundo é de cerca de trinta minutos, talvez cin­co a mais, talvez a menos.

— Entendido! — respondeu Donald. — Mantenha-nos informados. Vamos para o oeste investigar uma escarpa que vimos na última imersão.

— Positivo! — respondeu Larry. — Vamos informar quando o sino estiver sendo içado da câmara de vida. Também vamos informar quan­do passarem dos cento e cinqüenta metros, de forma que possam assu­mir a posição adequada.

— Entendido! — repetiu Donald. Pendurou o microfone. Com as mãos descansando de leve nas alavancas, elevou a potência do siste­ma de propulsão para cinqüenta ampères. Depois, habilmente mano­brou o submarino, afastando-o da cabeça do poço, para evitar o tubo que saía dela e subia verticalmente até o navio. Alguns momentos de­pois, o Oceanus já estava vagarosamente pairando sobre a estranha to­pografia do cume da mesa submarina.

— Minha hipótese é que estamos vendo uma parte primitiva da crosta do manto terrestre — disse Suzanne. — Mas não sei explicar como nem por que a lava esfriou formando essas formas poligonais. É quase como se fossem gigantescos cristais.

— Gostei dessa idéia de imaginar que isso pode ser a Atlântida — acrescentou Perry. O rosto dele permanecia colado à vigia.

— Estamos chegando ao local onde divisamos a falha — disse Donald.

— Deve ser logo além daquela fileira de colunas que vêm vindo — informou Suzanne a Perry.

Donald reduziu a potência. O submersível reduziu a velocidade quando passaram pela fileira de colunas.

— Uau! — comentou Perry. — Sem dúvida é uma descida bem abrupta.

— No fim das contas, não é uma falha transversal — falou Suzanne quando conseguiu ver a formação inteira. — Aliás, se fosse uma falha, teria de ser uma fossa tectônica. O outro lado é tão íngre­me quanto este.

— Que diabo é uma fossa tectônica? — indagou Perry.

— É um bloco de falha afundado em relação às rochas que o cer­cam — explicou Suzanne. — Mas isso não acontece no alto de um monte submarino.

— Parece-me um imenso buraco retangular — disse Perry. — Qual o tamanho, segundo sua estimativa? Mais ou menos trinta metros de comprimento e dez de largura?

— Diria que é isso mesmo — disse Suzanne.

— Incrível! — comentou Perry. — É como se algum gigante tives­se cortado uma fatia de rocha com uma faca exatamente do jeito como se tira um naco de uma melancia.

Donald levou o Oceanus para cima do buraco, depois todos olha­ram para baixo.

— Não consigo ver o fundo — disse Perry.

— Nem eu — disse Suzanne.— Nem o nosso sonar — disse Donald. Apontou para o monitor do ecobatímetro. Não estava obtendo sinal de retorno. Era como se o Oceanus estivesse pairando acima de um poço sem fundo.

— Minha nossa! — disse Suzanne. Estava pasma.

Donald deu um tapinha no monitor, mas nem assim obteve leitura.

— Muito estranho — disse Suzanne. — Acha que é algum defeito?

— Não sei dizer — relatou Donald. Tentou modificar as regulagens.

— Espere aí um segundo — disse Perry, nervoso. — Vocês dois estão de brincadeira comigo?

— Tente o sonar de varredura lateral — sugeriu Suzanne, ignoran­do Perry por um momento.

— Está esquisito do mesmo jeito — disse Donald. — O sinal é aberrante, a menos que queiramos interpretar que o poço só tem um metro e oitenta a dois metros e dez de profundidade. É isso que está aparecendo no monitor do sonar.

— O buraco claramente é bem mais fundo do que isso — obser­vou Suzanne.

—- É óbvio — concordou Donald.

— Ei, pessoal, qual é? — disse Perry. — Vocês estão começando a me assustar.

Suzanne virou-se rapidamente para fitar Perry.

— Não estamos tentando assustá-lo. Só estamos intrigados devi­do à reação dos instrumentos.

— Para mim tem um tremendo termoclina logo além da beirada dessa formação — disse Donald. — As ondas do sonar estão se refletin­do em alguma coisa.

— Será que dava para traduzir isso? — pediu Perry.

— As ondas sonoras se refletem quando ocorrem gradientes de temperatura súbitos — disse Suzanne. — Achamos que é esse o caso.

— Para conseguir a leitura da profundidade, teríamos que descer uns três ou quatro metros para dentro do buraco — disse Donald. —Vou fazer isso reduzindo a flutuabilidade, mas primeiro quero mudar a nossa orientação.

Dando pequenos arrancos, Donald usou o impelidor frontal de boreste para girar o submersível até ele ficar paralelo ao eixo do compri­mento do buraco. Depois manipulou o sistema de lastro variável para tornar negativa a flutuabilidade do submarino. Gradativamente, a em­barcação começou a descer.

— Talvez essa não seja uma boa idéia — disse Perry. Estava olhan­do nervoso para trás e para a frente entre o monitor de sonar de varre­dura lateral e a vigia onde se achava.

O alto-falante do UQC soou, com estalidos:

— Controle de superfície para o Oceanus. O sino está saindo da câmara de vida, enquanto falo. Os mergulhadores vão passar pelos cen­to e cinqüenta metros em cerca de dez minutos.

— Entendido, controle de superfície — disse Donald ao microfo­ne. — Estamos a cerca de trinta metros a oeste da cabeça do poço. Va­mos verificar um termoclínio aparentemente acentuado em uma formação rochosa. As comunicações talvez se interrompam momenta­neamente, mas estaremos na posição para receber os mergulhadores.

— Positivo — respondeu a voz de Larry.

— Olha só como as paredes são uniformes — comentou Suzanne enquanto o submarino afundava abaixo da beirada do enorme precipí­cio. — São perfeitamente lisas. Parece até obsidiana!

— Vamos voltar para a cabeça do poço — sugeriu Perry.

— Seria esta a chaminé de um vulcão extinto? — indagou Donald. Um ligeiro sorriso apareceu rapidamente em seu rosto contraído.

— É uma idéia — disse Suzanne, rindo. — Embora precise obser­var que jamais ouvi falar de uma chaminé de cratera perfeitamente retilínea. — Tornou a rir. — Nossa descida aqui, assim, me faz lembrar a Viagem ao centro da Terra, do Júlio Verne.

— Em que sentido? — perguntou Donald.

— Já leu esse livro?— Não leio romances — disse Donald.

— Ah, é, me esqueci — desculpou-se Suzanne. — Bom, nessa his­tória os protagonistas entraram numa espécie de mundo subterrâneo primitivo através de um vulcão extinto.

Donald sacudiu a cabeça. Os olhos continuavam colados ao mostrador de termistor.

— Que desperdício de tempo, ler uma bobagem dessas — repro­vou ele. — É por isso que não leio romances. Não dá tempo, por causa dos periódicos técnicos que nem consigo ler.

Suzanne ia responder, mas mudou de idéia. Jamais havia sido capaz de arranhar as rígidas opiniões de Donald sobre a ficção em particular e a arte em geral.

— Não quero ser inoportuno — disse Perry — mas eu...

Perry não pôde terminar a frase. De repente a descida do submari­no acelerou-se acentuadamente e Donald gritou:

— Meu Deus Todo-Poderoso!

Perry agarrou-se às laterais da cadeira com tanta força que as juntas dos dedos ficaram esbranquiçadas. O rápido aumento da velocidade em direção ao fundo o assustou, mas não tanto quanto aquela interjeição incomum de Donald. Se o imperturbável Donald Fuller estava assusta­do, a situação devia ser muito grave.

— Alijar lastros! — berrou Donald. A descida imediatamente se suavizou, em seguida parou. Donald alijou mais peso, e o submarino começou a subir. Depois ele usou o impulsor de bombordo para man­ter o submarino paralelo ao eixo do comprimento do poço. A última coisa que queria era bater naquelas paredes.

— Que diabo foi isso? — quis saber Perry quando conseguiu reco­brar a voz.

— Perdemos flutuabilidade — respondeu Suzanne.

— De repente ficamos mais pesados, ou a água ficou mais leve — disse Donald enquanto examinava os mostradores dos instrumentos.

— O que significa isso? — indagou Perry.— Como obviamente não ficamos mais pesados, a água ficou mesmo mais leve — informou Donald. Apontou para o termômetro.

— Passamos através do gradiente de temperatura que suspeitávamos existir, e era bem maior do que calculávamos, na direção oposta. A tem­peratura externa subiu mais de trinta e sete graus!

— Vamos dar o fora daqui! — gritou Perry.

— É isso mesmo que estamos começando a fazer — disse Donald, curto e grosso. Arrancou o microfone UQC do suporte e tentou estabe­lecer contato com o Benthic Explorer. Ao ver que não tinha sorte, recolocou o microfone no suporte. — As ondas sonoras não chegam até aqui, e nem conseguem passar.

— Onde estamos, numa espécie de buraco negro acústico? — per­guntou Perry, irritado.

— O ecobatímetro está mostrando alguma coisa agora — disse Suzanne. — Mas não pode ser! Por ele, esse poço aqui tem mais de nove mil metros de profundidade!

— Ora, por que estaria funcionando mal? — Donald perguntou-se. Deu no instrumento uma batida ainda mais forte com os nós dos dedos. O mostrador digital continuou mostrando nove mil, cento e oitenta e nove metros.

— Deixa o ecobatímetro pra lá — disse Perry. — Não dá para sair daqui mais rápido? — O Oceanus estava subindo, porém muito devagar.

— Jamais tive problema algum com esse ecobatímetro antes — disse Donald.

— Talvez esse poço possa conter alguma espécie de chaminé cheia de magma — disse Suzanne. — Obviamente é bem profundo, mesmo que não saibamos qual a profundidade, e a água está quente. Isso sugere contato com lava. — Ela se inclinou para a frente para olhar pela vigia.

— Será que não dava pelo menos para desligar o aparelho de som? — pediu Perry. A música estava atingindo um crescendo que apenas lhe aumentava o nervosismo.

— Ora vejam só — exclamou Suzanne. — Olhe só as paredes des­se trecho! O basalto está orientado transversalmente. Jamais ouvi falar de um dique transversal. E reparem só! Tem uma coloração esverdeada. Talvez seja gabro, não basalto.

— Estou começando a achar que vou ter de impor minha autori­dade por aqui — disse Perry com uma óbvia exasperação. Já estava cheio de ser ignorado. — Quero voltar à superfície, agora mesmo!

Suzanne virou-se abruptamente para responder, mas só conseguiu abrir a boca. Antes que pudesse emitir quaisquer palavras, uma podero­sa vibração de baixa freqüência sacudiu o submersível. Ela foi obrigada a agarrar a lateral do assento para não cair. O súbito abalo jogou objetos soltos no piso. Uma caneca de café se espatifou no chão; os cacos saí­ram rolando pelo chão junto com canetas caídas. Ao mesmo tempo, foi possível sentir um ronco baixo que parecia um trovão distante.

O abalo durou quase um minuto. Ninguém falou, embora um guincho involuntário tenha escapado dos lábios de Perry, que ficou pálido.

— Mas que raio de tremor foi esse? — indagou Donald. Rapida­mente, passou em revista os instrumentos.

— Não tenho certeza — disse Suzanne —, mas meu palpite é que foi um terremoto. Ocorrem muitos, em toda a extensão da Cadeia Meso-Atlântica.

— Terremoto!? — exclamou Perry.

— Talvez este velho vulcão esteja despertando — disse Suzanne. — Não seria fantástico presenciar isso?

— Epa — disse Donald. — Tem alguma coisa errada!

— Qual é o problema? — indagou Suzanne. Como Donald, seus olhos percorreram rapidamente os mostradores, os instrumentos e as telas diretamente no seu campo de visão. Eram aqueles os instrumentos importantes para operar o submarino. Nada parecia estar faltando.

— O ecobatímetro! — disse Donald, com uma urgência que não era comum nele.Os olhos de Suzanne voltaram-se imediatamente para o mostrador digital situado perto do chão, entre os dois assentos dos pilotos. Estava diminuindo a uma velocidade alarmante.

— O que está havendo? — indagou ela. — Acha que vem subindo lava aí por essa chaminé?

— Não! — gritou Donald. — Somos nós. Estamos afundando, e já alijei todos os pesos de imersão. Perdemos totalmente a flutuabilidade!

— Mas veja o manômetro! — berrou Suzanne. — Não está subin­do. Como podemos estar afundando?

— Deve ter se quebrado — disse Donald, frenético. — Sem dúvi­da estamos afundando. Dá só uma olhada por essa porcaria de vigia aí!

Os olhos de Suzanne rapidamente desviaram-se para a janela. Era isso mesmo. Estavam afundando. A superfície lisa da rocha estava se movimentando rapidamente para cima.

— Vou injetar ar nos tanques de lastro — gritou Donald. — A essa profundidade não vai dar muito certo, mas não temos escolha.

O som do ar comprimido abafou a Sagração da primavera de Stravinsky, porém apenas durante vinte segundos. A uma pressão da­quelas, os tanques de ar comprimido rapidamente se esgotaram. A des­cida não foi afetada.

— Faça alguma coisa! — berrou Perry quando conseguiu recobrar a voz.

— Não dá — berrou Donald. — O submarino não está obede­cendo aos controles. Não há mais nada a tentar.

 

Mark Davidson estava morrendo de vontade de fumar. O vício lhe parecia irresistível, embora Mark considerasse fácil livrar-se dele, uma vez que fumava apenas uma vez por semana. Ficava com mais vontade quando estava se distraindo, trabalhando ou nervoso, e naquele mo­mento estava mesmo uma pilha. Para ele, as operações de mergulho em grande profundidade sempre eram de alto risco; sabia, por experiência, que as coisas podiam ficar pretas de uma hora para a outra.

Ergueu os olhos para o relógio grande da empresa que estava pen­durado na parede da cabine, com seu monstruoso ponteiro dos minu­tos. Sua presença intimidadora fazia a passagem do tempo difícil de se ignorar. Agora já fazia doze minutos desde que o último contato fora mantido com o Oceanus. Embora Donald houvesse especificamente avisado que talvez ocorresse uma interrupção nas comunicações, aque­le intervalo parecia mais longo do que o razoável, principalmente por­que o submarino não havia respondido à última mensagem de Larry Nelson. Foi quando Larry tentou lhes dizer que os mergulhadores esta­vam passando pelos cento e cinqüenta metros.

Os olhos de Mark voltaram-se para o pacote de Marlboro que ele havia jogado displicentemente sobre o painel da cabine de mergulho. Era uma agonia não poder pegar o maço, tirar um cigarro e acendê-lo.Infelizmente, havia uma proibição recente na empresa quanto a fumar nas áreas comuns do navio, e o capitão Jameson era um caxias com as regras e os regulamentos.

Com alguma dificuldade, Mark desviou os olhos dos cigarros e es­quadrinhou o interior da cabine. Todos os outros presentes pareciam calmos, o que apenas fez Mark ficar mais tenso. Larry Nelson estava sentado, perfeitamente parado, na estação de monitoração de operações de mergulho, junto ao operador de sonar, Peter Rosenthal. Logo além deles estavam os dois vigilantes do turno, que se encontravam em fren­te do console de operação do sistema de mergulho. Embora os olhos deles estivessem constantemente examinando os manômetros das duas câmaras de superfície pressurizadas e o sino de mergulho, todas as ou­tras partes dos corpos deles estavam imóveis.

Diante dos vigilantes estava o operador do guincho. Ele estava encarapitado em um banco alto diante da janela que dava para o poço central. A mão dele estava pousada sobre a alavanca de câmbio do guin­cho. Lá fora, o cabo atado à manilha do alto do sino de mergulho esta­va sendo desenrolado à velocidade máxima permitida. De um tambor vizinho vinha um segundo cabo passivo que continha a linha de gás comprimido, a mangueira de água quente e os fios de comunicação.

Do outro lado da cabine, estava o capitão Jameson, que distraida­mente chupava um palito. Diante dele estavam os controles que forma­vam uma extensão da ponte. Embora os impelidores e empuxadores do sistema de posicionamento dinâmico estivessem sendo controlados por computador para manter o navio estacionário sobre a cabeça do poço, o capitão Jameson podia desativar o sistema e controlá-lo manualmen­te, caso houvesse necessidade disso durante as operações de mergulho.

— Mas que inferno! — exclamou Mark, com veemência. Bateu com um lápis que inconsciente andara torcendo de encontro ao balcão e se ergueu. — Qual a profundidade em que estão os mergulhadores?

— Passando pelos duzentos metros, senhor — respondeu o opera­dor do guincho.— Tente entrar em contato com o Oceanus de novo! — berrou Mark para Larry. Começou a andar de um lado para o outro. Estava com uma sensação ruim na boca do estômago, e ela estava piorando. Ele começou a se criticar por incentivar Perry Bergman a participar do mergulho. Sabendo do interesse da Dra. Newell pelo monte sub­marino e do desejo dela de fazer mergulhos puramente exploratórios, temia que ela tentasse impressionar o presidente para conseguir seu intento. Isso podia significar que ela pressionaria Donald a fazer coi­sas que ele talvez não fizesse normalmente, e Mark sabia muito bem que a Dra. Newell era a única pessoa do navio que potencialmente era capaz de influenciar desse jeito o normalmente correto ex-oficial da Marinha.

Mark estremeceu. Seria uma catástrofe de primeira grandeza o submersível ficar preso em uma fissura ou em uma falha onde pu­desse ter descido para examinar uma determinada característica geo­lógica de perto. Isso quase havia acontecido com o submersível Alvin, ao largo de Woods Hole, e aquela quase tragédia tinha ocorrido na Cadeia Meso-Atlântica, não muito distante do ponto onde se en­contravam.

— Continuamos sem obter resposta — disse Larry depois de vá­rias tentativas frustradas de falar com o Oceanus através do UQC.

— Algum sinal do submersível no sonar de varredura lateral? — indagou Mark ao operador de sonar.

— Negativo — disse Peter. — E os hidrofones do fundo do mar não fizeram contato com a baliza de rastreamento. O termoclínio que encontraram deve ser mesmo muito acentuado. É como se tivessem caído nas profundezas do oceano.

Mark parou de andar para um lado e para outro e olhou para o re­lógio outra vez.

— Há quanto tempo foi aquele abalo? — indagou.

— Foi mais do que um abalo — disse Larry. — Tad Messenger disse que alcançou quatro ponto quatro na escala Richter.— Não estou surpreso..., derrubou aquela pilha de tubos no con­vés — disse Mark. — E se foi assim aqui em cima, imagino que deve ter sido muito pior lá embaixo. Há quanto tempo ocorreu?

Larry consultou o diário.

— Foi há quase quatro minutos. Não acha que isso teve alguma coisa a ver com essa nossa falta de comunicação com o Oceanus, acha?

Mark hesitou, sem saber o que responder. Não era supersticioso, mas detestava expressar seus temores, como se articulá-los fosse torná-los muito mais possíveis. Porém, temia que o terremoto de 4.4 pudesse ter causado um deslizamento de rochas que houvesse prendido o Oceanus. Uma ca­tástrofe assim certamente não estaria descartada, se Donald tivesse mes­mo descido dentro de uma depressão estreita por insistência de Suzanne.

— Deixe-me falar com os mergulhadores — disse Mark. Foi até Larry e pegou o microfone. Enquanto pensava no que iria dizer, lançou uma olhadela para o monitor onde podia ver de cima para baixo a parte superior das cabeças e os corpos de três homens.

— Mas que merda, cara! — resmungou Michael. — Você acabou de chutar meus colhões! — A voz dele saiu como uma série de guinchos e gritos que teriam sido em sua maior parte ininteligíveis para os seres humanos normais. A distorção era uma função do hélio que ele estava respirando no lugar do nitrogênio.

À pressão equivalente a 980 pés de água do mar, o nitrogênio fun­cionava como anestésico. A substituição do nitrogênio por hélio resol­via o problema, mas causava mudanças acentuadas na voz. Os mergulhadores já estavam acostumados a elas. Embora a voz deles soas­se parecida com a do Pato Donald, de Walt Disney, eram capazes de se entender perfeitamente.

— Então tira os seus colhões da minha reta — disse Richard. — Estou todo enrolado para colocar essas nadadeiras.

Todos os três mergulhadores estavam apinhados dentro do sino de mergulho, cujo casco duplo era uma esfera de apenas 2,40 metros de diâmetro. Embolados junto com eles estavam todos os equipamentos de mergulho, muitas centenas de metros de mangueira enrolada e toda a instrumentação necessária.

— Saia do caminho, ele diz — zombou Michael. — O que quer que eu faça, que dê uma voltinha lá fora?

Um alto-falante estalou, dando sinal de que ia receber uma trans­missão. Estava montado bem no ápice da esfera ao lado de uma minús­cula câmera de vídeo munida de uma lente do tamanho do olho de um peixe. Embora os mergulhadores soubessem que estavam sendo cons­tantemente observados, eram totalmente indiferentes a essa vigilância.

— Por favor, um minuto de sua atenção, homens! — ordenou Mark. Em contraste com a voz dos mergulhadores, a dele parecia rela­tivamente normal. — Aqui fala o comandante das operações.

— Grande merda! — resmungou Richard sem tirar os olhos da nadadeira que estava lhe causando tanto problema. — Não admira que não consiga colocar essa porcaria. Não é a minha. É a sua, Donaghue. — Sem avisar, Richard tascou a nadadeira na cabeça de Michael. Michael se incomodou com o golpe apenas porque derrubou seu precioso boné dos Red Sox. O boné caiu no tronco da escotilha, indo parar sobre a escotilha vedada.

— Ei, peraí, ninguém se mova! — disse Michael. — Mazzola, pega meu boné pra mim! Não quero que se molhe! — Michael já estava todo vestido para o mergulho, com o traje de neoprene completo, colete de controle de flutuação e pesos de lastro. A capacidade de se curvar, como seria preciso para pegar o boné, estava fora de cogitação.

— Senhores! — a voz de Mark se fez ouvir mais alta e mais insistente.

— Vá se foder! — disse Louis. — Posso ser o mergulhador do sino mas não sou seu escravo.

— Ei, escutem aqui, seus animais! — a voz de Larry berrou do minúsculo alto-falante. O som reverberou pela esfera entulhada a um nível próximo da dor. — O Sr. Davidson quer falar com vocês, portan­to, é melhor calarem a matraca!Richard meteu a nadadeira e o outro pé nas mãos de Michael, de­pois olhou para a câmera.

— Tá legal — disse ele. — Já estamos ouvindo.

— Esperem aí um pouco — disse a voz de Larry. — Não percebe­mos que o distorcedor de voz para hélio não estava conectado.

— Então me dá minhas nadadeiras — disse Richard a Michael, enquanto aguardavam.

— Quer dizer que essas aqui que eu calcei não são minhas?

— Ai, ai, ai! — disse Richard, na base da gozação. — Como vocês está segurando as suas, imagino que não podem estar nos seus pés, ô miolo mole!

Michael se agachou desajeitadamente, prendendo as nadadeiras debaixo do braço, e arrancou as que estavam nos seus pés. Richard as tomou dele, exprimindo desdém. Aí os dois mergulhadores deram encontrões um no outro, desajeitadamente, enquanto lutavam para cal­çar suas respectivas nadadeiras ao mesmo tempo.

— Muito bem, homens — disse a voz de Larry. — Conectamos o distorcedor de voz, e podemos parar com a palhaçada e escutar! Quem vai falar agora é o Sr. Davidson.

Os mergulhadores nem se incomodaram de olhar para cima. Apoia­ram-se nas paredes do sino e assumiram expressões entediadas.

— Não conseguimos entrar em contato com o Oceanus pelo UQC, nem rastreá-lo com o sonar — disse a voz de Mark. — Estamos neces­sitando urgentemente que façam contato visual. Se não o virem ao che­gar à cabeça do poço, comuniquem a nós, que vamos lhes dar mais instruções. Entendido?

— Afirmativo — disse Richard. — Agora podemos voltar a nos preparar para o mergulho?

— Afirmativo — disse Mark.

Richard e Michael se mexeram, e dando um mínimo de liberdade de movimento um ao outro, conseguiram calçar as nadadeiras. Michael até tentou pegar o boné enquanto Richard vestia o colete de flutuação e o cinto de lastro, mas estava além do alcance dele, como temia.

Cinco minutos depois, a voz do operador do guincho lhes disse que estavam passando pelos 274 metros. Com este anúncio a descida sofreu uma boa redução de velocidade. Enquanto Richard e Michael tenta­vam abrir caminho, Louis aprontou as mangueiras. Como mergulha­dor do sino, cabia-lhe manusear as linhas.

— Acendendo as luzes externas — anunciou Larry.

Richard e Michael se contorceram o suficiente para espiar pelas duas minúsculas vigias que ficavam uma diante da outra. Louis estava ocu­pado demais para espiar por uma das duas janelas restantes.

— Estou enxergando o fundo — disse Richard.

— Eu também — disse Michael.

Com um único cabo de içamento, o sino de mergulho começou a girar lentamente, embora sua rotação fosse limitada pelos cabos de su­porte de vida. O sino girava em uma direção várias voltas, depois girava para outro lado. Quando o sino chegou à marca de trezentos metros e parou, a rotação foi cessando pouco a pouco, também, mas não antes de cada mergulhador ter tido oportunidade de examinar o terreno num raio de 360 graus.

Como o sino ficou suspenso cerca de quatro metros acima da face ro­chosa em uma das partes mais altas do pico do monte submarino, os mer­gulhadores foram capazes de ver uma área relativamente ampla limitada pelo alcance das luzes halógenas externas. A visão deles estava um tanto restrita apenas a oeste, onde havia sido bloqueada por uma elevação na rocha. Para Richard e Michael, a elevação pareceu uma série de colunas interligadas cuja crista era ligeiramente mais alta do que a linha de visão deles. Mas até mes­mo essa formação estava na periferia da esfera de luz.

— Está vendo o submarino? — perguntou Richard a Michael.

— Não — respondeu Michael. — Mas posso ver as brocas e as ferramentas perto da cabeça do poço. Estão todas empilhadas ali, como deviam estar.Richard afastou-se da vigia e inclinou o rosto para a câmera.

— Não estamos vendo o Oceanus — disse ele. — Mas eles estive­ram aqui.

— Isso significa que haverá uma mudança nos planos de mergu­lho — respondeu a voz de Larry. — O Sr. Davidson quer que os mer­gulhadores vermelho e verde vão para o oeste. Podem enxergar uma escarpa nessa direção?

— Que diabo é uma escarpa? — indagou Richard.

— É um paredão, ou penhasco — interrompeu Mark.

— Ah, é, acho que sim — disse Richard. Olhou para fora outra vez, para a fileira de colunas.

— O Sr. Davidson quer que passem sobre essa elevação — disse Larry. — Qual a altura dela em relação ao sino?

— Quase a mesma — disse Richard.

— Muito bem, passem sobre ela e vejam se conseguem enxergar o submersível. O Sr. Davidson acha que pode haver uma fenda ali. E cuidado com a temperatura. Aparentemente há um tremendo gradien­te nessa área.

— Entendido — disse Richard.

— Lembrem-se — acrescentou Larry —, estão limitados a uma profundidade de excursão de quarenta e cinco metros. Não subam mais de três metros acima do sino. Não queremos que ninguém seja acometido de mal-dos-mergulhadores e estrague o mergulho. En­tenderam?

— Entendemos — repetiu Richard. As advertências de Larry já eram praxe nos mergulhos saturados.

— Mergulhador do sino — disse Larry —, a mistura respirável deve ficar em 1,5% de oxigênio e 98,5% de hélio. Entendeu?

— Entendido — disse Louis.

— Só mais uma coisa — acrescentou Larry. — Mergulhadores vermelho e verde, não quero que nenhum de vocês banque o machão, portanto não se arrisquem, tenham cuidado.— Pode crer! — disse Richard. Mostrou a mão com o polegar vol­tado para cima para a câmera, enquanto fazia cara de deboche para Michael, dizendo: — Dizer para tomarmos cuidado aqui embaixo é que nem dizer para o seu filho para tomar cuidado antes de mandá-lo brin­car no meio de uma auto-estrada.

Michael concordou, mas não ouviu. Essa parte do mergulho era séria. Estava concentrado conectando o umbilical e outras parafernálias. Quando ficou pronto, Louis lhe entregou a máscara inteiriça engastada em um capacete de fibra de vidro de um laranja vivo. Michael segurou-o sob o braço para aguardar Richard. Apesar de toda a sua experiência, ele sempre sentia pontadas de nervosismo logo antes de entrar na água.

Richard rapidamente preparou também seu equipamento. Depois pegou duas lanternas submarinas, testou-as e entregou uma a Michael. Quando estava pronto, fez sinal com a cabeça para Michael, e ambos colocaram os capacetes ao mesmo tempo.

A primeira coisa que verificaram depois de Louis abrir o coletor foi o escoamento do gás. Depois a água quente, um acessório necessário uma vez que a temperatura externa da água era de apenas 2,22 graus. Era difícil para um mergulhador trabalhar com frio. Finalmente testa­ram os cabos de comunicações e de sensores. Depois que tudo já estava em ordem, Louis informou à superfície e pediu permissão para os mer­gulhadores irem para a água.

— Permissão concedida — respondeu a voz de Larry. — Abra a escotilha!

Com uma certa dificuldade e vários resmungos, Louis espremeu seu corpanzil pelo tronco do sino abaixo.

— Meu boné! — berrou Michael, embora sua voz estivesse abafa­da pelo sibilar do gás respirável.

Louis agarrou o boné de beisebol e entregou-o a Michael. Ele pen­durou-o cuidadosamente em uma das muitas saliências na parede do sino. Tratava-o como seu bem mais precioso. O que não admitia era que o considerava seu amuleto da sorte.Louis destravou a escotilha de pressão e, com alguma dificuldade, a ergueu. Encostou-a na parede. Abaixo, a luminosa água azul-esverdeada subiu ameaçadoramente pelo poço. Todos os três mergulhadores solta­ram um silencioso suspiro de alívio quando ela previsivelmente parou logo abaixo da borda da escotilha. Todos eles sabiam que ela pararia, mas também sabiam que, se não parasse, não haveria para onde fugir.

Richard fez um sinal de positivo com a mão para Michael. Michael retribuiu o gesto. Richard então cuidadosamente desceu para dentro do poço. Depois de se ver livre, lançou-se para fora pelo fundo do sino.

Para Richard, sair daquele sino entulhado era um alívio que compa­rava ao do nascimento. A súbita sensação de liberdade era indescritível. A única parte dele que podia sentir a baixa temperatura da água eram as mãos enluvadas. Ele esquadrinhou a área enquanto regulava a flutuabilidade. Levou apenas um momento para ver a forma escura que se deslocava exatamente na periferia da área iluminada. Não era um submersível. Era um tubarão, com olhos luminosos. O comprimento do enorme peixe era de mais de duas vezes o diâmetro do sino de mergulho.

— Temos companhia — avisou Richard, calmamente. — Manda aí o meu vergalhão, só por via das dúvidas, e mande o Michael trazer o dele. — De toda a parafernália contra tubarões do mercado, Richard preferia um simples pedaço de vergalhão de um metro de comprimen­to. Por sua experiência, os tubarões evitavam o vergalhão como o diabo foge da cruz, se fosse simplesmente apontado em sua direção. Não ti­nha tanta certeza de que isso funcionaria se estivessem atacando para se alimentar, mas nessa situação nada funcionava cem por cento.

Segundos depois, o vergalhão desceu e bateu silenciosamente con­tra a rocha. As pernas de Michael apareceram em seguida, enquanto ele procurava sair pelo poço. Depois que saiu, os dois mergulhadores fize­ram contato visual. Richard gesticulou na direção do tubarão, que ago­ra vinha vagueando na direção da luz.

— Ah, é só um tubarão da Groenlândia — disse Richard a Louis, que procurou transmitir a mensagem a Michael também. Agora Richard estava menos preocupado. O tubarão era grande, mas não perigoso. Sabia que o outro nome do tubarão era tubarão dorminhoco, por causa dos seus hábitos morosos.

Depois de Michael fazer suas regulagens, Richard apontou para a elevação. Michael concordou, e os dois seguiram para lá. Ambos seguravam as lanternas na mão esquerda, e os vergalhões na direita. Sendo nadadores tarimbados, atravessaram a distância em pouco tempo, sem pressa. A uma pressão de quase trinta atmosferas o mero trabalho de respirar o gás viscoso e comprimido já lhes esgotava as energias.

Dentro do sino, Louis manejava freneticamente ambos os conjun­tos de cabos. Não queria restringir os mergulhadores, nem lhes dar fol­ga demais, para os cabos não se embaraçarem. Até os mergulhadores começarem a trabalhar, o mergulhador do sino se mantinha ocupado. O serviço exigia concentração e reflexos rápidos. Ao mesmo tempo que manuseava os cabos e mangueiras, Louis precisava vigiar os manômetros e o mostrador digital de percentagem de oxigênio. Além disso estava em comunicação constante com cada mergulhador e com o controle do mergulho na superfície. Para manter as mãos livres, havia colocado um fone de ouvido com um minúsculo alto-falante em cada ouvido e um microfone à frente da boca.

Na água, os mergulhadores nadaram até o alto da pirambeira e pa­raram. Àquela distância do sino, a luz já era bem pouca. Richard fez gesto de usar a lanterna, e ambos ligaram cada qual a sua.

Atrás deles, o sino de mergulho cintilava estranhamente, como um satélite pousado em uma paisagem alienígena e rochosa. Uma corrente de bolhas saía do sino e subia para a superfície distante. Adiante, os mergulhadores encararam a escuridão desbotando-se até um negro retinto, com um brilho apenas tênue quando olhavam para cima, na direção da superfície, a trezentos e poucos metros acima deles. Lá bem no fundo sabiam que o enorme tubarão estava em algum ponto logo além do limite de seu campo de visão. Quando projetaram a luz da lan-terna para a frente, formaram fracos cones de luz que penetravam a es­curidão gelada apenas 12 a 15 metros adiante.

— Há um precipício além da crista — relatou Richard. — Essa deve ser a escarpa.

Louis passou a informação para a estação de mergulho na superfí­cie. Embora o controle do mergulho pudesse ouvir os mergulhadores e falar com eles, Larry preferia usar o mergulhador do sino como inter­mediário. A combinação da distorção da voz pelo hélio e o ruído do fluxo do gás respirado pelos mergulhadores tornava extremamente difí­cil a compreensão por aqueles que estavam lá em cima na cabine de mergulho, mesmo com o distorcedor de voz acionado. Era muito mais eficiente usar o mergulhador do sino, uma vez que estava acostumado às distorções de voz.

— Mergulhador vermelho — disse Louis. — O controle quer sa­ber se está vendo algum sinal do Oceanus.

— Negativo — disse Richard.

— E uma fissura, ou um buraco? — repassou Louis.

— Não nesse momento — disse Richard —, mas estamos a ponto de descer esse paredão de rocha.

Richard e Michael nadaram, ultrapassando a beirada e desceram a face do penhasco.

— A rocha é lisa feito vidro — comentou Richard. Michael con­cordou. Havia passado a mão sobre ela rapidamente.

— Estou lançando os últimos trinta metros de mangueira — avi­sou Louis. Rapidamente tirou as últimas voltas dos ganchos de armaze­nagem, já soltando xingamentos em voz baixa. Logo iria ter que enrolar tudo aquilo de novo. Os mergulhadores raramente se afastavam assim do sino, e logo quando era sua vez de ser o mergulhador do sino, eles tinham que fazer aquilo.

Richard parou de descer. Agarrou Michael para que parasse tam­bém. Richard apontou para seu termômetro de pulso. Michael olhou para o dele, e tornou a olhar, incrédulo.— A temperatura da água acabou de mudar — relatou Richard.

— Subiu quase trinta e sete graus. Corte a água quente!

— Mergulhador vermelho, está brincando comigo? — indagou Louis.

— O termômetro do Michael está indicando a mesma coisa — disse Richard. — Parece até que entramos em uma banheira de água quente.

Richard estivera dirigindo o facho de luz da lanterna para baixo enquanto desciam, procurando a base da escarpa. Agora girava-a em torno de si. Bem na periferia da área iluminada ele conseguia distinguir uma parede em frente àquela que estavam descendo.

— Epa! Parece que estamos em algum tipo de fissura descomunal

— disse. — Mal consigo enxergar o outro lado. Deve ter uns quinze metros de largura.

Michael deu um tapinha no ombro de Richard e apontou para a esquerda deles:

— Tem um fim também — disse.

— Michael tem razão — disse Richard, quando olhou. Então ele girou e apontou a luz na direção oposta. — Acho que parece um canyon tipo caixote porque não consigo ver um quarto lado, pelo menos não de onde estamos.

— Epa! — exclamou Michael. — Estamos afundando! Richard olhou a parede atrás de si. Estavam mesmo afundando — mais rápido do que teria considerado possível. Havia pouca sensação de resistência contra a água.

Richard e Michael deram algumas pernadas potentes para cima. Para seu espanto, elas de pouco valeram. Ainda estavam afundando. Comum misto de confusão e alarme, ambos reagiram por reflexo e inflaram os coletes de flutuabilidade. Quando viram que não surtiu efeito, alijaram os cintos de lastro. Ainda com flutuabilidade signifi­cativamente negativa, livraram-se dos vergalhões. Finalmente, baten­do as pernas com persistência foram parando de descer, até pararem de vez.Richard apontou para cima, e os dois começaram a nadar. Apesar da força que faziam para respirar, ainda sentiam dificuldade para nadar. O es­tranho episódio do afundamento os havia deixado nervosos, e, para piorar, eles estavam começando a sentir calor através dos trajes de mergulho.

Os dois estavam no nível do alto do penhasco quando uma repen­tina vibração constante subiu das profundezas como uma onda de cho­que. Durante alguns segundos ambos ficaram meio desorientados. Estavam tendo dificuldade para respirar e nadar ao mesmo tempo. O tremor era semelhante àquele que haviam sentido no sino de mergulho na descida, só que muito pior. Perceberam que era um terremoto sub­marino, e ambos intuitivamente sentiram que estavam perto do epicentro.

Para Louis, o abalo foi ainda mais violento. No momento do im­pacto, ele estava puxando freneticamente as mangueiras, que haviam subitamente ficado frouxas. Ele havia sido forçado a largar os cabos para evitar ser empalado em uma das muitas saliências presas às paredes.

Richard recuperou-se o suficiente para respirar, embora fosse dolo­roso. A onda de pressão devia ter lhe machucado o peito. Como nada­dor experiente, sua primeira reação foi verificar como estava o companheiro, e procurou Michael freneticamente, girando em torno de si. Durante um segundo apavorante, não conseguiu encontrá-lo. Depois olhou para baixo. Michael parecia estar tentando agarrar-se à água para subir. Richard estendeu a mão para baixo para ajudá-lo. Quan­do fez isso, percebeu que estavam ambos afundando — e rápido.

Sem nenhuma outra maneira de reduzir o peso, Richard começou a tentar nadar para cima com Michael. No seu desespero, até jogaram as lanternas fora, para ficar com as mãos livres. Mas não fizeram nenhum progresso. Até pareciam estar afundando mais rápido. Depois, caíram verticalmente, ricocheteando no paredão de rocha enquanto eram inexoravelmente sugados para o seio do abismo.

Dentro do sino, Louis havia recuperado o equilíbrio o suficiente para agarrar os cabos, ainda frouxos. Rapidamente, puxou uma alça para dentro, mas, antes que conseguisse pendurá-la no suporte, sentiu um puxão súbito para o lado oposto. A princípio tentou segurar os cabos para que não saíssem, mas foi impossível. Se os segurasse, eles o teriam puxado para fora do sino.

Louis soltou palavrões enquanto se desviava como um louco das mangueiras, que agora estavam sendo arrancadas do sino a uma veloci­dade incrível. Era como se Richard e Michael fossem iscas que houves­sem sido mordidas por um peixe gigantesco.

— Mergulhador do sino, você está bem? — indagou a voz de Larry.

— Sim, estou! — berrou Louis. — Mas está acontecendo uma coisa muito louca! As mangueiras estão saindo a duzentos quilômetros por hora!

— Estamos vendo pelo monitor — disse Larry, apavorado. — Não consegue detê-las?

— De que jeito? — indagou Louis, às lágrimas. Olhou de relance o que restava de mangueira. Não havia muita coisa. Ele gelou. Não fa­zia idéia do que o esperava. As últimas voltas saíram do sino, e por um breve momento os cabos se retesaram. Depois, para extremo terror de Louis, eles foram arrancados dos invólucros e desapareceram pelo poço, tragados pelo mar impiedoso.

— Ai, meu Deus! — gritou Louis, enquanto procurava fechar as válvulas do coletor de gás.

— O que está acontecendo lá embaixo? — inquiriu Larry.

— Sei lá! — berrou Louis. Aí, para piorar seu terror, a vibração e o ronco começaram outra vez. Freneticamente, ele se agarrou no que pôde enquanto o sino de mergulho se sacudia como se fosse um saleiro nas mãos de um gigante. Ele gritou, e, como que em resposta a suas preces, o tremor reduziu-se a uma leve vibração. Ao mesmo tempo, ele perce­beu um chiado e um brilho avermelhado que penetrava pelas vigias.

Largando o apoio da tubulação de alta pressão na qual se agarrara desesperadamente, Louis torceu-se para espiar por uma das vigias. O que ele viu o fez gelar de novo. Acima da elevação próxima, que os mergulha­dores haviam escalado tão pouco tempo antes, apareceu uma cascata surreal de lava vermelha e quente, a brilhar. A beirada dela cuspia, pipocava e fumegava enquanto transformava a água gelada em vapor.

Quando Louis se recuperou o bastante para falar, jogou a cabeça para trás, para olhar para a câmera.

— Me tirem daqui! — gritou histericamente. — Estou bem no meio de uma porra de um vulcão em erupção!

 

O interior da cabine havia ficado silencioso. Uma sensação de choque reinava no recinto. O único ruído vinha dos motores montados no con­vés que acionavam os guinchos que estavam içando o sino de mergulho e as linhas de sustentação da vida. Momentos antes, um verdadeiro pandemônio havia se estabelecido, quando ficou óbvio que haviam per­dido dois mergulhadores em algum tipo de catástrofe piroclástica. O único consolo era que o terceiro estava bem, e já estava sendo trazido para bordo.

Mark deu uma tragada longa e nervosa no seu Marlboro. Igno­rando as novas regras, havia procurado os cigarros por reflexo, aos pri­meiros sinais de problemas, e agora que toda a extensão da tragédia já se havia desenrolado, ele estava fumando um cigarro atrás do outro de pura ansiedade. Havia conseguido não só perder um submarino de cem milhões de dólares, como também dois operadores treinados, além de dois mergulhadores saturados experientes; tinha também perdido o presidente da Benthic Marine. Se ao menos não tivesse incentivado Perry Bergman a acompanhar a imersão... Por isso ele era o único res­ponsável.

— Mas que diabo vamos fazer agora? — perguntou Larry, com­pletamente atarantado. Até ele estava fumando, embora dissesse que havia parado seis meses antes. Como supervisor de mergulho, também se sentia responsável pelo desfecho desastroso.

Mark suspirou profundamente. Sentia fraqueza. Jamais perdera uma só vida no seu turno em toda a sua carreira, e isso incluía operações de mergulho complexas em locais perigosos como o Golfo Pérsico durante a operação Tempestade no Deserto. Agora perdera cinco pessoas. Era demais até pensar naquilo.

— O sino está passando pelos cento e cinqüenta metros — anun­ciou o operador do guincho para quem quisesse ouvir.

— E a operação de perfuração? — Larry perguntou-se em voz alta. Mark deu outra longa tragada no cigarro e quase queimou os dedos. Zangado, apagou o toco de cigarro, depois acendeu mais um.

— Preparem-se para lançar o trenó da câmera — disse Mark. — Vamos dar uma olhada no que está havendo lá embaixo.

— Mazzola foi muito claro — disse Larry, em voz trêmula. — Enquanto o içávamos, disse que todo o cume do monte, até onde po­dia enxergar, era lava derretida pura, borbulhando de trás da elevação. E estamos registrando tremores quase contínuos. Porra, estamos bem em cima de um vulcão ativo. Tem certeza de que quer mandar o trenó lá para aquele verdadeiro inferno?

— Quero ver tudo — disse Mark, devagar. — E quero registrar tudo. Tenho certeza de que vai haver uma investigação desgraçada so­bre essa merda toda. E quero ver a área onde fica o canyon ou o buraco onde o Oceanus desapareceu. Tenho que ter certeza de que não há chance... — Mark não terminou a frase. Sabia, bem no fundo, que não adiantava; Donald Fuller havia levado o submarino para uma chaminé de vulcão logo antes da erupção.

— Tudo bem — concordou Larry. — Vou mandar a equipe pre­parar a câmera. Mas e a perfuração? Espero que não esteja pensando em mandar mais uma equipe de mergulho depois que esse vulcão se aquietar.

— Mas claro que não, porra! — disse Mark, revoltado. — Já perdi o interesse em perfurar essa porcaria dessa montanha, principalmente agora que o Perry Bergman já não está mais entre nós. Essa era a ob­sessão imprudente dele, não minha. Se o trenó da câmera confirmar que a chaminé ou seja lá o que for está cheia de lava quente, e não conseguirmos encontrar nem vestígio do Oceanus, vamos dar o fora daqui.— Para mim está ótimo! — disse Larry. Ficou de pé. — Vou pre­parar o trenó e lançá-lo o mais breve possível.

— Obrigado — disse Mark. Inclinou-se para a frente e apoiou a cabeça nas mãos. Jamais havia se sentido pior em toda a sua vida.

 

Suzanne foi a primeira a se recobrar o suficiente do terror causado por aquela descida abrupta para conseguir falar. Hesitante, disse:

— Acho que paramos! Graças a Deus!

Durante algum tempo, que pareceu uma eternidade aos três aterro­rizados passageiros do submersível, ele havia caído como uma pedra por aquele poço misterioso abaixo. Era como se eles tivessem sido sugados por um enorme ralo no fundo do oceano. Durante a queda, o Oceanus havia deixado de responder totalmente aos comandos, fossem lá quais fossem os controles que Donald tentasse.

Embora inicialmente o mergulho tivesse sido diretamente para bai­xo, a embarcação terminou por deslocar-se em espiral, e até bater nas paredes. Uma das primeiras dessas colisões destruiu as lâmpadas halógenas externas. Uma outra arrancou o manipulador de boreste com um rangido que sugeria que ele havia sido triturado.

Perry foi o único a gritar durante aqueles momentos torturantes. Mas até mesmo ele ficou mudo depois que todos constataram a inutili­dade de qualquer ação para resolver o problema. Só pôde olhar, impo­tente, o registrador digital de profundidade subir até os milhares de metros. Os números haviam passado tão rápido que mal se podia dis­tingui-los. E quando se aproximaram os seis mil metros, ele só conseguiu pensar na estatística paralisante que havia escutado antes: a pro­fundidade de esmagamento!

— Aliás, acho que nem estamos nos movendo — acrescentou Suzanne. Ela murmurava. — O que pode ter acontecido? Será que estamos no fundo? Não senti nenhum impacto!

Ninguém moveu sequer um músculo, como se fazer isso fosse per­turbar a súbita porém bem-vinda tranqüilidade. Respiravam calmamente em inspirações curtas, e gotas de suor lhes cobriam as testas. Todos os três ainda estavam agarrados a seus assentos, temendo que o submarino voltasse a mergulhar.

— Parece que paramos, mas olha só o profundímetro — conse­guiu dizer Donald. A voz dele estava rouca de tão seca que estava sua garganta.

Todos os olhos se voltaram para o mostrador. Estava se movendo de novo, vagarosamente a princípio, porém aos poucos se acelerando. A diferença era que estava se movendo ao contrário.

— Mas não sinto nenhum movimento — disse Suzanne. Exalou profundamente e tentou relaxar os músculos. Os outros a imitaram.

— Nem eu — admitiu Donald. — Mas olha só o profundímetro! Está pirando!

O mostrador havia voltado a zunir furiosamente como antes.

Suzanne inclinou-se para diante devagar, como se pensasse que o submersível estava equilibrado precariamente, e o movimento pudesse arremessá-lo precipício abaixo. Espiou pela vigia, mas só pôde ver sua própria imagem. Sem as luzes externas, devido às colisões contra a ro­cha, a janela estava tão opaca quanto um espelho, refletindo as luzes internas.

— E agora, o que está havendo? — perguntou Perry.

— Estou boiando tanto quanto você — respondeu Suzanne. Sus­pirou profundamente. Estava começando a se recobrar.

— O profundímetro está indicando que estamos subindo — disse Donald. Olhou de relance os outros instrumentos, inclusive os monitores do sonar de curto alcance. As indicações erráticas deles sugeriam que havia muita interferência na água, afetando especialmente o sonar de curto alcance. O de varredura lateral estava um pouco melhor, com menos ruído eletrônico, porém mais difícil de interpretar. A imagem indistinta mostrava que o submarino estava parado em uma planície vasta e perfeitamente lisa. Os olhos de Donald voltaram ao profundímetro. Ficou pasmado: ao contrário do que o sonar sugeria, ele ainda estava subindo, e mais rápido do que alguns momentos antes. Mais que depressa, ele reabriu os tanques de lastro, porém não houve resultado. Depois baixou as aletas de imersão, e imprimiu mais potên­cia ao sistema de propulsão. O submarino não obedeceu aos controles. Eles porém, continuaram subindo, apesar de tudo.

— Estamos acelerando — avisou Suzanne. — Subindo assim va­mos estar na superfície em apenas dois minutos!

— Mal posso esperar — disse Perry obviamente aliviado.

— Espero que não saiamos embaixo do Benthic Explorer — disse Suzanne. — Isso seria um tremendo problema.

Os olhos de todos estavam pregados ao profundímetro. O submari­no passou pelos trezentos e cinqüenta metros sem mostrar sinal de redu­zir a velocidade. Os cento e cinqüenta metros passaram batidos. Quando o submarino passou pelos trinta metros, Donald disse, alvoroçado:

— Segurem-se! Vamos tocar em vento de muito mau jeito!

— Como assim, tocar em vento? — berrou Perry. Ele ouviu o de­sespero da voz de Donald, e isso lhe causou novo calafrio.

— Isso significa que vamos saltar para fora da água! — berrou Suzanne. Então ela repetiu a advertência de Donald. — Segurem-se!

Enquanto o zunido frenético do profundímetro atingia um cres­cendo, Perry, Donald e Suzanne voltaram a agarrar seus assentos e a se segurarem neles com toda a firmeza. Prendendo a respiração, prepara­ram-se para o impacto. O profundímetro atingiu o zero e parou.

Imediatamente após o estalido final do instrumento, ouviu-se um forte ruído de sucção em algum ponto fora da embarcação. Depois disso,até que reinou o silêncio dentro do submarino. Agora o único som era uma combinação do sistema de ventilação e um zunido eletrônico po­rém abafado do sistema de propulsão.

Quase um minuto se passou sem a menor sensação de movimento.

Finalmente Perry soltou a respiração.

— Bom — disse. — E aí, o que aconteceu?

— Não dá para estarmos no ar esse tempo todo — admitiu Suzanne. Todos soltaram as poltronas e olharam pelas respectivas vigias. Ain­da estava escuro como piche lá fora.

— Que diabo...? — questionou Donald. Voltou a examinar os instrumentos. Os monitores de sonar agora estavam emitindo ruídos eletrônicos desconexos. Ele os desligou. Também reduziu a potência do sistema de propulsão e o zunido vindo dele cessou. Olhou para Suzanne.

— Não sei de nada — disse Suzanne quando os olhos dele encon­traram os dela. — Não faço a mínima idéia do que está ocorrendo.

— Como é que está escuro lá fora, se estamos na superfície? — indagou Perry.

— Isso não faz o menor sentido — disse Donald. Olhou outra vez para os instrumentos. Inclinando-se para a frente, ele voltou a impri­mir potência ao sistema de propulsão. O zunido reapareceu, mas a embarcação não se moveu. Continuou completamente imóvel.

— Alguém me diga o que está acontecendo — exigiu Perry. A eu­foria que havia sentido momentos antes havia se dissipado. Eles obvia­mente não estavam na superfície.

— Não sabemos o que está havendo — admitiu Suzanne.

— Não há resistência ao hélice — relatou Donald. Desligou o sistema de propulsão. O zunido desapareceu pela segunda vez. Ago­ra o único som era o do sistema de ventilação. — Acho que estamos no ar.

— Como podemos estar no ar? — indagou Suzanne. — Está to­talmente escuro, e não se sente a ação das ondas.— Mas é a única explicação para o sonar não funcionar e para não haver resistência ao hélice — disse Donald. — E veja só: a temperatura externa subiu para vinte graus. Sem dúvida estamos no ar.

— Se esta é a outra vida, não estou preparado ainda — disse Perry.

— Quer dizer que estamos inteiramente fora da água? — pergun­tou Suzanne, ainda sem acreditar muito.

— Sei que parece maluquice — admitiu Donald. — Mas é a única forma de explicar tudo, inclusive o fato de que o telefone submarino não funciona. — Donald tentou depois o rádio, e não teve sorte com ele, também.

— Se estamos em terra firme — disse Suzanne —, como é que não rolamos para o lado? Quero dizer, o casco do submarino é cilíndrico. Se estivéssemos em terra, certamente rolaríamos para o lado.

— Taí, você está certa! — reconheceu Donald. — Isso, eu não consigo explicar.

Suzanne abriu um compartimento de emergência entre as duas poltronas dos pilotos e tirou de lá uma lanterna. Ligando-a, direcionou o facho de luz para a vigia do seu lado. Comprimida contra ela, do lado de fora, se via uma gosma cor-de-creme de granulação grossa.

— Pelo menos sabemos por que não rolamos — disse Suzanne. — Estamos equilibrados por uma camada de lama de globigerina.

— Pode ir explicando! — disse Perry. Havia se inclinado para ver por si mesmo.

— A lama de globigerina é o sedimento mais comum do fundo do mar — explicou Suzanne. — Compõe-se principalmente de carcaças de um tipo de plâncton chamado foraminíferos.

— Como podemos estar pousados em sedimento oceânico e estar no ar? — indagou Perry.

— Esse é que é o problema — concordou Donald. — Não pode­mos, pelo menos de nenhum jeito que eu conheça.

— Também é impossível encontrar-se lama de globigerina assim perto da Cadeia Meso-Atlântica — disse Suzanne. — Esse sedimento se encontra no meio das planícies abissais. Nada faz sentido.— Isso é absurdo! — interveio Donald. — E não estou gostando nada disso. Seja lá onde estivermos, estamos encalhados!

— Poderíamos estar completamente enterrados no lodo? — per­guntou Perry, hesitante. Se estivesse certo, não queria ouvir a resposta.

— Não! De jeito nenhum — disse Donald. — Se fosse esse o caso, haveria mais resistência ao hélice, não menos.

Durante alguns minutos ninguém disse nada.

— Há alguma chance de que pudéssemos estar dentro do monte submarino? — indagou Perry, finalmente rompendo o silêncio.

Donald e Suzanne se voltaram para olhá-lo.

— Como poderíamos estar dentro de uma montanha? — indagou Donald, irritado.

— Espera aí, estou só fazendo uma pergunta — disse Perry. — Mark me disse esta manhã que tinha alguns dados de radar segundo os quais a montanha talvez pudesse conter gás, não lava derretida.

— Ele nunca me disse isso — retrucou Suzanne.

— Não contou a ninguém — disse Perry. — Não sabia se aquilo estava certo, uma vez que vinha de um estudo superficial da camada dura que estávamos tentando perfurar. Era uma extrapolação, e ele só a mencionou de passagem.

— Que tipo de gás? — indagou Suzanne, enquanto tentava ima­ginar como um vulcão submerso poderia não conter nenhuma água. Geofisicamente isso parecia impossível, embora ela soubesse que em terra alguns vulcões efetivamente implodiam e se transformavam em caldeiras.

— Ele não fazia idéia — disse Perry. — Acho que pensou que o candidato mais promissor seria vapor contido pela camada extremamente dura que estava nos dando tanto trabalho.

— Bem, vapor acho que não é — disse Donald. — Não a uma temperatura de quase vinte graus.

— E gás natural? — sugeriu Perry.— Não consigo imaginar — disse Suzanne. — Assim perto da Cadeia Meso-Atlântica, é uma área geologicamente jovem. Não pode haver petróleo nem gás natural por aqui.

— Então talvez seja ar — disse Perry.

— Como entraria aqui? — perguntou Suzanne.

— Explique-me você — sugeriu Perry. — Você é a geofísica oceanógrafa. Não eu.

— Se for ar, não há explicação natural de que eu tenha conheci­mento — disse Suzanne. — Simplesmente isso.

Os três ficaram se entreolhando um instante.

— Acho que vamos ter de abrir uma fresta da escotilha e olhar — disse Suzanne.

— Abrir a escotilha? — questionou Donald. — E se o gás não for respirável ou até for tóxico?

— Parece-me que não temos escolha — disse Suzanne. — Estamos sem comunicações. Somos um peixe fora d'água. Temos dez dias de vida, mas, e depois disso, o que acontece?

— Nem me fale... — disse Perry nervoso. — Voto a favor de abrir­mos a escotilha.

— Certo! — concordou Donald, resignado. — Como capitão, eu tomo a iniciativa. — Levantou-se da sua poltrona de piloto e passou por cima do console central, dando um só grande passo. Perry desviou-se para que Donald pudesse passar.

Donald subiu para a torreta. Fez uma pausa, enquanto Suzanne e Perry se posicionavam logo embaixo dele.

— Por que não destrava, apenas, sem abrir? — sugeriu Suzanne. — E aí fareja, para ver se sente cheiro de alguma coisa.

— Boa idéia — disse Donald. Aceitou a sugestão de Suzanne, agar­rando o volante central e girando-o. Os parafusos de vedação se retraí­ram para dentro da escotilha.

— E aí? — disse Suzanne alguns momentos depois. — Está sen­tindo algum odor?— Só de umidade — disse Donald. — Acho que vou me arriscar a investigar melhor.

Donald abriu uma fresta da escotilha um instante e farejou melhor.

— O que acha? — perguntou Suzanne.

— Parece inócuo — disse Donald, aliviado. Abriu a escotilha cer­ca de dois centímetros e inspirou o ar úmido que penetrou pela fresta. Quando se certificou de que era tão seguro quanto era capaz de detec­tar, empurrou a tampa da escotilha toda para cima e meteu a cabeça por ela, espiando do alto do submarino. O ar tinha a umidade salina de uma praia na maré baixa.

Donald vagarosamente girou a cabeça totalmente, esforçando-se por enxergar naquela escuridão. Não via absolutamente nada, mas intuiti­vamente sabia que era um lugar muito amplo. O que via era uma escu­ridão silenciosa e estranha, tão assustadora quanto vasta.

Recuando de novo para dentro do submersível, pediu a lanterna.

Suzanne a pegou para ele, e, quando a entregou, perguntou o que ele havia visto.

— Uma boa porção de nada — respondeu Donald.

Enfiando de novo a cabeça pela escotilha, Donald lançou o facho de luz da lanterna a distância. A lama se estendia em todas as direções tanto quanto a luz podia penetrar. Algumas poças de água isoladas, se­melhantes a espelhos, refletiram a luz de volta para ele.

— Alô! — gritou Donald, colocando as mãos em forma de concha em torno da boca. Aguardou. Um ligeiro eco parecia vir da direção da proa do Oceanus. Donald berrou outra vez; um distinto eco voltou no que estimou em cerca de três ou quatro segundos.

Donald voltou ao interior do submersível depois de baixar a tampa da escotilha. Os outros olharam para ele, com expectativa.

— Essa é a coisa mais estrambótica que eu já vi — disse ele. — Estamos numa espécie de caverna que aparentemente estava cheia de água há bem pouco tempo.

— Mas agora está cheia de ar — disse Suzanne.— Definitivamente é ar — disse Donald. — Além disso, não sei o que pensar. Talvez o Sr. Bergman esteja certo. Talvez nós, de alguma forma, tivéssemos sido puxados para dentro do monte submarino.

— O nome é Perry, pelo amor de Deus — disse Perry. — Me dê a lanterna! Vou dar uma olhada. — Pegou a lanterna de Donald e desa­jeitadamente subiu a escada até a torreta do navio. Teve que passar o cotovelo por trás do último degrau e meter a lanterna no bolso para erguer a pesada escotilha em forma de cunha.

— Meu Deus! — exclamou Perry, depois de ter imitado as ações de Donald, inclusive o teste de ecos. Voltou para baixo, mas deixou a escotilha entreaberta. Entregou a lanterna a Suzanne, que também su­biu para olhar.

Depois que Suzanne voltou, os três se entreolharam e sacudiram as cabeças. Nenhum deles tinha uma explicação embora cada um esperas­se que o outro tivesse.

— Suponho que nem precise dizer — começou Donald, rompen­do um silêncio desconfortável — que estamos numa situação no míni­mo difícil. Não dá para esperarmos nenhuma ajuda do Benthic Explorer. Com a série de terremotos, eles presumiram que fomos engolfados por uma catástrofe. Talvez enviem um dos trenós de televisionamento sub­marino, mas ele não vai nos encontrar aqui, seja lá qual for esse lugar. Em suma, estamos sozinhos, sem comunicação e com pouca comida e água. Portanto... — Donald parou, como que pensativo.

— Então, o que sugere? — perguntou Suzanne.

— Sugiro que saiamos e façamos um reconhecimento da área — disse Donald.

— E se essa caverna, ou seja lá o que for, ficar inundada outra vez? — questionou Perry.

— Parece-me que precisamos arriscar — disse Donald. — Eu, por mim, vou sozinho. Vocês é que decidem se querem vir comigo ou não.

— Eu vou — disse Suzanne. — É melhor do que ficar por aqui sem fazer nada.— Eu é que não vou ficar aqui sozinho — anunciou Perry.

— Está bem — disse Donald. — Precisamos de mais duas lanter­nas. Vamos levá-las, mas apenas usar uma, para preservar as pilhas.

— Eu as pego — disse Suzanne.

Donald foi o primeiro a sair. Usou os degraus laterais da torreta e do casco para descer. Os degraus serviam para proporcionar acesso ao submersível quando estava nos picadeiros no convés de ré do Benthic Explorer.

De pé no último degrau, Donald voltou o facho da lanterna para o chão. Verificando o afundamento do Oceanus no lodo, estimou que a lama teria de quarenta a cinqüenta centímetros de profundidade.

— Algum problema? — indagou Suzanne. Foi a segunda a sair, e via que Donald hesitava.

— Estou tentando calcular a profundidade desse lodo — disse ele. Ainda agarrado a um degrau, baixou o pé direito. Ele desapareceu no lodo. Quando ele conseguiu achar chão firme, a lama já estava na altura da parte inferior da rótula dele.

— Isso não vai ser nada agradável — relatou. — A lama vai até os joelhos.

— Vamos torcer para esse ser o nosso único problema — disse Suzanne.

Alguns minutos depois, os três estavam de pé na lama. Salvo por uma tênue luz que saía da escotilha aberta do submersível, a única luminosidade vinha da lanterna de Donald. Ela projetava um fraco cone de luz naquela escuridão cerrada. Suzanne e Perry levavam lanternas também, mas, como Donald havia sugerido, elas não haviam sido liga­das. Não se ouvia nenhum som naquele vasto espaço escuro. Para con­servar as baterias do submersível, Donald havia desligado quase tudo nele, mesmo a ventilação. Havia deixado apenas uma luz acesa para ser­vir de farol que os ajudasse a encontrar o submarino de novo caso se afastassem muito.

— Isso aqui intimida a gente — disse Suzanne, com um calafrio.— Acho que eu escolheria uma palavra mais forte — disse Perry. — Qual será nossa tática?

— Está na mesa, para discutirmos — disse Donald. — Minha sugestão é que sigamos na direção para a qual o Oceanus está virado. Aquela parede parece ser a mais próxima, pelo menos pelo eco que ob­tive. — Consultou a bússola. — Fica a uma certa distância a oeste.

— Parece um plano razoável — disse Suzanne.

— Vamos — disse Perry.

O grupo partiu tendo Donald na liderança, seguido de Suzanne. Perry fechava o cortejo. Era difícil caminhar naquela lama funda, e o cheiro era ligeiramente fedorento.

Ninguém falava. Todos estavam extremamente conscientes de que a situação era bem precária, principalmente à medida que se afastavam do submersível. Depois de dez minutos, Perry insistiu para que paras­sem. Eles não haviam chegado a nenhuma parede, e a coragem dele havia desaparecido.

— Não é fácil caminhar nesse lodo — disse Perry, evitando o pro­blema verdadeiro. — E ele também fede.

— Qual a distância que acha que percorremos? — indagou Suzanne. Como os outros, já estava sem fôlego, devido ao esforço.

Donald virou-se e olhou para o submersível, que não era mais que uma mancha luminosa naquela densa escuridão.

— Não tanta assim — disse ele. — Talvez cem metros.

— Eu diria um quilômetro e meio, pela dor nos músculos das minhas pernas — comentou Suzanne.

— Quanto ainda falta para chegarmos a essa suposta parede? — perguntou Perry.

Donald tornou a berrar na direção em que iam. O eco voltou em dois segundos.

— Acho que uns trezentos metros.

Um súbito movimento e uma série de sons semelhantes a bofetadas na escuridão imediatamente à esquerda deles os fizeram dar um pulo.Donald girou a luz em torno de si e direcionou-a para o lugar de onde vinha o ruído. Um peixe encalhado deu mais alguns saltos agonizantes na lama molhada.

— Ai, meu Deus, levei um susto horrível! — admitiu Suzanne. Ela estava com a mão pressionada contra o peito. O coração estava disparado.

— Você e eu, então — confessou Perry.

— Estamos todos compreensivelmente uma pilha de nervos — disse Donald. — Se vocês dois quiserem voltar, eu vou continuar o reconhe­cimento sozinho.

— Não, vou continuar — disse Suzanne.

— Eu também — disse Perry. A idéia de voltar para o submersível sozinho era pior do que se arrastar por aquela lama até a tal parede.

— Então vamos — disse Donald. Recomeçou a avançar, e os ou­tros o seguiram.

O grupo avançou lentamente, em silêncio. Cada passo naquela es­curidão desconhecida aumentava seus temores e seu nervosismo. O submersível atrás deles estava sendo engolido pelas trevas. Depois de mais dez minutos eles estavam todos tão tensos quanto uma corda de piano a ponto de arrebentar, e foi aí que soou o alarme.

A curta emissão de som explodiu naquela quietude como um tiro de canhão. A princípio o grupo estacou de chofre, freneticamente ten­tando descobrir de onde vinha o alarme. Mas com os múltiplos ecos era impossível descobrir. No instante seguinte, todos estavam se arrastan­do de novo na direção do submersível.

Foi uma fuga num pânico total; uma corrida desesperada para a suposta segurança. Infelizmente, a lama não cooperava. Todos os três tropeçaram quase imediatamente, e caíram de cabeça naquele lodo hor­rível. Voltando a se equilibrar, tentaram correr outra vez, com o mesmo resultado.

Sem nenhuma palavra para verificar qual era o consenso, eles se con­formaram a andar mais devagar. Depois de alguns minutos, a falta de deslocamento significativo tornou evidente a futilidade da fuga. Como não houvera nenhum fluxo de água tornando a encher a caverna, todos os três estacaram a alguns passos um do outro, os peitos arfando.

Os múltiplos ecos vindos daquele alarme horrendo desapareceram, e, depois dele, a quietude sobrenatural voltou a reinar. Uma vez mais ela imperou sobre aquela escuridão retinta como o cobertor que sufo­cava Perry nos seus pesadelos.

Suzanne ergueu as mãos. O lodo, que ela sabia ser uma combina­ção de carcaças planctônicas e fezes de inúmeros vermes, escorreu-lhe pelos dedos. Ela desejou desesperadamente limpar os olhos, mas não ousou fazer isso. Donald, que estava um pouco adiante, virou-se para olhar Suzanne e Perry. A lama sujava o vidro da lanterna, reduzindo a luminosidade, de forma que os outros não conseguiam enxergá-lo. Só conseguiam distinguir o branco dos olhos dele.

— Mas que alarme foi esse, em nome de Deus Todo-poderoso? — conseguiu dizer Suzanne. Cuspiu alguns dejetos granulados. Não que­ria nem pensar no que seria aquilo.

— Tive medo que a água estivesse voltando — admitiu Perry.

— Independente do que isso realmente significa — disse Donald — para nós tem uma importância fundamental.

— Do que está falando? — indagou Perry.

— Sei o que ele está querendo dizer — disse Suzanne. — Ele quer dizer que isso aqui não é uma formação geológica natural.

— Exato! — afirmou Donald. — Deve ser um resquício da Guer­ra Fria. E como eu tinha permissão para acesso a informações ultra-secretas no serviço submarino americano, posso afirmar-lhes que não é instalação nossa. Só pode ser russa!

— Quer dizer que isso aqui é alguma base secreta? — indagou Perry. Espiou aquele buraco negro, agora mais assombrado do que assustado.

— É a única coisa que posso imaginar — disse Donald. — Algum tipo de instalação nuclear submarina.

— Acho que é possível — disse Suzanne. — E se for, nosso futuro pode estar subitamente ficando mais risonho.— Talvez sim, talvez não — disse Donald. — Primeiro, vai de­pender de se alguém ainda está trabalhando por aqui, e, se houver al­guém, nossa próxima preocupação será saber até que ponto eles querem manter esse lugar secreto.

— Não tinha pensado nisso — admitiu Suzanne.

— Mas a Guerra Fria já terminou — disse Perry. — Certamente não precisamos nos preocupar com questões do tempo desse velho ro­mance de capa-e-espada.

— Há gente entre os militares russos que pensa de outra forma — asseverou Donald. — Sei disso porque conheci esses tipos.

— Então o que acha que devemos fazer, a essa altura? — indagou Suzanne.

— Acho que essa pergunta já foi respondida para nós — disse Donald. Ele ergueu a mão livre e apontou sobre os ombros dos outros. — Olha ali, na direção em que estávamos indo antes do alarme soar!

Suzanne e Perry giraram nos calcanhares. A cerca de quatrocentos metros de distância, uma única porta estava vagarosamente se abrindo para dentro, na escuridão. Uma luz artificial brilhante jorrou do apo­sento além dela, para o interior da caverna escura, formando uma linha de reflexão que veio até os pés deles. O trio estava distante demais para ver os detalhes do interior, mas eram capazes de dizer que a luz era bem intensa.

— Isso responde à minha dúvida quanto à existência de homens aqui na instalação — disse Donald. — É óbvio que não estamos sós. Agora, resta saber se gostaram de nos ver por aqui.

— Acha que devíamos ir até lá? — indagou Perry.

— Não temos muita escolha — disse Donald. — Vamos ter de ir mesmo, no final.

— Por que eles não vêm aqui ao nosso encontro? — perguntou Suzanne.

— Boa pergunta — disse Donald. — Talvez isso tenha alguma relação com a recepção que estão reservando para nós.— Estou ficando apavorada de novo — disse Suzanne. — Tudo isso é muito bizarro.

— Nunca deixei de me sentir apavorado — admitiu Perry.

— Vamos ao encontro de nossos captores — disse Donald. — E tomara que eles não nos considerem espiões, e que conheçam os termos da Convenção de Genebra.

Endireitando a coluna, Donald seguiu na frente, parecendo não se importar com a lama que lhe sugava os pés. Passou pelos dois compa­nheiros, que não podiam deixar de admirar sua coragem e seu espírito de liderança.

Perry e Suzanne hesitaram um momento antes de seguirem o co­mandante reformado. Nenhum deles falou enquanto marchavam resig­nados atrás dele na direção da porta que os chamava. Não sabiam se atrás dela encontrariam um resgate ou piores provações, mas como Donald dissera, eles não tinham escolha, mesmo.

 

O avanço era lento. A um certo ponto, Perry escorregou e caiu de novo no lodo. Ficou coberto dele.

— A primeira coisa que vou fazer é exigir uma ducha — disse Perry, tentando levantar o moral do grupo e cuspindo lama. Não adiantou. Ninguém achou graça.

Enquanto se aproximavam da porta aberta, esperavam que suas apreensões se aliviassem. Mas ninguém apareceu para recebê-los no umbral, e a luz que saía, penetrando na escuridão, era tão brilhante que eles não conseguiam ver o interior. Era difícil até mesmo olhar para a abertura sem proteger os olhos.

Quando se aproximaram o suficiente, conseguiram notar que a porta tinha quase sessenta centímetros de espessura, com um anel de enormes parafusos embutidos na periferia. Parecia uma porta de cofre. As bordas daquele portal maciço formavam ângulos na dire­ção do interior do compartimento. Obviamente era feito de forma a suportar a enorme pressão da água do mar, quando ela invadia a ca­verna.

A cerca de oito metros da parede, Suzanne e Perry pararam. Reluta­vam em prosseguir sem uma idéia melhor do que os esperava. Exami­naram a porta, buscando pistas. Pelo que deduziram, parecia que as paredes, o piso e o teto, no interior, eram feitos de aço inoxidável, e brilhavam como espelhos.

Donald havia prosseguido sozinho, e, embora não ultrapassasse a soleira, inclinou-se, espiando o interior do aposento. Usando o braço como escudo contra a luz refletida, fez um levantamento do local.

— E aí? — perguntou Suzanne. — O que está vendo?

— É uma sala ampla, quadrada, feita de metal — berrou Donald para trás, virando a cabeça. — Há duas esferas enormes e lustrosas lá dentro, mais nada. Também não parece haver mais nenhuma outra porta além desta. E eu não sei dizer de onde vem a luz.

— Algum sinal de gente? — indagou Perry.

— Negativo — disse Donald. — Ei, acho que as esferas são feitas de vidro. E devem ter mais ou menos um metro e meio de diâmetro. Venham dar uma olhada!

Perry olhou de relance para Suzanne. Deu de ombros.

— Por que adiar o inevitável?

Suzanne cruzou os braços, agarrando-os. Estremeceu.

— Estava torcendo para que quando chegássemos aqui eu me sentisse mais tranqüila a respeito de tudo isso, mas não me sinto. Isso aqui não pode ser uma base submarina. Estamos diante de um feito de engenharia que faria a Grande Pirâmide parecer brinquedo de criança.

— Então qual a sua opinião a respeito disso? — indagou Perry.

Suzanne virou-se para olhar outra vez o submarino. A luz que vi­nha da porta aberta o iluminava, apesar da distância. Além dele, era tudo escuridão.

— Sinceramente, não faço idéia.

Quando Donald viu que Suzanne e Perry estavam olhando para o submersível, prosseguiu e atravessou a soleira da porta, entrando na sala. Imediatamente levantou as mãos para se equilibrar e evitar uma queda. A combinação da lama úmida nos seus sapatos com o metal polido tor­nava o chão escorregadio como gelo.Depois que recobrou o equilíbrio, Donald tornou a esquadrinhar a sala. Agora que seus olhos haviam se ajustado parcialmente, era ca­paz de enxergar muito melhor, inclusive centenas de reflexos de si mesmo em todas as direções. As paredes, o piso e o teto não tinham emendas. A única porta aparente era aquela pela qual haviam passa­do. Ele procurou especificamente a fonte da luz ofuscante, mas miste­riosamente não conseguiu encontrar nada. Quando as enormes esferas de vidro entraram no seu campo de visão, ele voltou atrás, para tornar a examiná-las. Agora conseguia ver que o vidro não era inteiramente opaco. Era transparente o suficiente para que se vislumbrasse o con­teúdo das esferas.

— Suzanne, Perry! — gritou Donald. — Tem duas pessoas aqui, afinal. Mas estão dentro dessas esferas. Entrem!

Um momento depois, Suzanne e Perry apareceram à porta.

— Cuidado com o piso! — avisou Donald. — É escorregadio como gelo.

Deslizando os pés em movimentos curtos como se patinassem sem patins, Suzanne e Perry vieram vacilantes até perto de Donald, ávidos por darem uma olhada melhor nas esferas de vidro.

— Minha nossa! — exclamou Suzanne. — Estão flutuando em alguma espécie de líquido.

— Reconheceu os dois? — indagou Donald.

— Devia reconhecê-los? — respondeu Suzanne.

— Acho que reconheço — disse Donald. — Acho que são dois mergulhadores nossos.

Suzanne arregalou os olhos para Donald, de puro espanto. Então, para dar uma olhada melhor, colocou as mãos em concha em torno dos olhos e encostou-se em uma das esferas, a superfície tão opalescente que refletia a iluminação feérica da sala.

— Acho que está certo — disse Suzanne. — Parece que estou en­xergando o logotipo do Benthic Explorer no traje de neoprene e na late­ral do capacete.Perry imitou Suzanne protegendo os olhos com as mãos e apertando-as contra a mesma esfera para a qual Suzanne estava olhando. Donald fez o mesmo de outro ângulo.

— Está respirando! — disse Perry. — Deve estar vivo.

— Tem um negócio parecido com um cordão umbilical vindo de uma espécie de aparelho conectado ao abdome dele — disse Suzanne. — Podem ver para onde vai?

— Vai para debaixo dele — respondeu Donald. — Até a base da esfera.

Suzanne se afastou o suficiente para que conseguisse dobrar o cor­po e olhar embaixo da esfera. Tinha uma área achatada sobre a qual se equilibrava. Suzanne não viu nenhum encaixe, e, se houvesse algum, devia vir diretamente do piso.

— Isso aqui é tão assombroso quanto a caverna — disse Suzanne, enquanto voltava à posição normal. Estendendo o braço, tocou a esfera com a ponta do dedo indicador. O material parecia vidro, mas ela não sabia o que era.

Os outros se endireitaram.

— Como diabo eles vieram parar aqui? — indagou Perry.

— São muito poucas as respostas, para tantas dúvidas — disse Donald.

— Ainda está achando que isso é alguma instalação militar? — perguntou Suzanne a Donald.

— E o que mais poderia ser? — quis saber Donald, defendendo-se.

— Se estes mergulhadores das esferas estão vivos, não posso nem imaginar que tecnologia será essa — disse Suzanne. — Eles parecem dois embriões gigantes. E tampouco tenho uma explicação para a ca­verna. Até mesmo esta sala é qualquer coisa além.

— Além de quê? — perguntou Donald.

— A porta! — berrou Perry.

Todos os olhos se voltaram para a entrada. A porta maciça estava se fechando.Freneticamente, os três tentaram correr para ela, para evitar que os prendesse lá dentro, mas o piso escorregadio impedia que conse­guissem alcançá-la. Quando chegaram perto dela, a porta já estava fechada. Encostaram-se nela e procuraram abri-la todos juntos, mas com o peso deles e o piso liso, o esforço foi vão. Com um estrondo retumbante, a porta se fechou. Depois ouviram o som mecânico aba­fado dos numerosos parafusos de travamento que deslizavam» para vedá-la.

Sentindo ainda mais pavor, os três se afastaram da porta.

— Alguém está controlando tudo isso — disse Suzanne, muito séria. Seu olhar preocupado percorreu toda a sala sem emendas. — E agora fomos aprisionados.

— Só podem ser os russos — disse Donald.

— Já chega de falar em russos! — gritou Suzanne. — Você ficou na marinha tempo demais. Vê tudo em termos das hostilidades antigas. Isso aqui não tem nada a ver com os russos.

— Como sabe? — retrucou Donald, berrando. — E não ouse de­negrir o serviço que prestei ao meu país!

— Ora, faça-me o favor! — disse Suzanne. — Não estou dene­grindo seu tempo de marinha. Mas olhe só em volta de você, Donald. Isso aqui não é coisa de terráqueos. Olhe essa luz, pelo amor de Deus! — Suzanne estendeu a mão. — Não há fonte, mas a iluminação é total­mente uniforme. E não há sombras.

Perry estendeu a mão e tentou formar sombras, mas era impossível. Donald observou, porém não tentou ele mesmo.

— É um fluxo de fótons uniforme que deve estar penetrando pelas paredes de alguma forma — disse Suzanne. — E se eu tivesse que arris­car um palpite, diria que há nele um componente significativo de radi­ação ultravioleta.

— Como sabe? — disse Perry.

— Não sei — admitiu Suzanne. — Não com certeza, uma vez que o olho humano não distingue o ultravioleta, mas para mim existe uma distorção bem visível no azul dos nossos uniformes e no marrom avermelhado do seu abrigo.

Perry olhou para baixo, para seus trajes. Para ele, a cor era a mesma que sempre havia sido.

— As esferas! — berrou Donald.

Todos os olhos se voltaram para as esferas de vidro. A opalescência delas havia súbita e dramaticamente se intensificado, de forma a torná-las incandescentes. Um momento depois, ouviu-se o ruído de algo se rachando, e as esferas abriram-se, a partir de ambos os ápices, como duas enormes flores perdendo as pétalas. Com um jorro de fluido, os mergu­lhadores foram atirados ao chão.

Donald foi o primeiro a superar o choque. Correu o mais rápido que pôde até Richard. Percebendo que o mergulhador inconsciente es­tava tentando respirar, Donald arrancou o capacete do homem e jogou-o para um lado. Richard tossiu violentamente.

Perry correu até Michael. Enquanto removia o capacete de Michael, ouviu Richard tossir. Relembrando o seu treinamento de ressuscitação, Perry soube o que fazer. Primeiro puxou Michael, afas­tando-o dos restos da esfera arrebentada, e arrastando o cabo ainda conectado a ele. Depois de uma rápida verificação para ver se a boca do mergulhador não apresentava obstruções, tampou as narinas, segurando-lhe o nariz entre o polegar e o indicador, inspirou e, pra­ticando a respiração boca-a-boca, exalou, esvaziando os pulmões dentro do mergulhador. Virando a cabeça para o lado, Perry inspi­rou outra vez. Estava para repetir o ciclo quando notou que os olhos de Michael estavam abertos.

— Mas que idéia é essa, rapaz! — indagou Michael. Empurrou para longe o rosto dele, que estava a alguns centímetros do seu.

— Estava fazendo boca-a-boca — explicou Perry. Ficou de pé. — Pensei que não estivesse respirando.

— Mas estou! — insistiu Michael. Fez uma careta de nojo e enxu­gou a boca com as costas da mão. — Pode acreditar que estou!O acesso de tosse de Richard parou subitamente, e ele piscou para livrar-se das lágrimas que ele havia ocasionado. Sua primeira preocupa­ção foi com Michael. Quando viu que o parceiro estava vivo e bem, olhou de relance a sala em torno de si antes de olhar para os outros.

— O que está havendo? — perguntou. — O que aconteceu?

— Quem responder essa, ganha um milhão — replicou Perry.

— Que raio de lugar é esse? — perguntou Richard. Os olhos dele percorreram a sala de novo, rapidamente. Sua expressão era de perplexi­dade.

— Pergunta igualmente interessante — disse Perry.

— Estavam procurando a gente? — perguntou Donald a Richard. Por um momento, Richard pareceu meramente confuso. Depois a

pergunta de Donald ajudou a resgatar suas lembranças.

— Ai, meu Deus do céu! — gritou. — Estamos num mergulho saturado de mais de trezentos metros. Não passamos pela descompressão! — Richard fez um esforço para pôr-se de pé. As pernas estavam bam­bas, principalmente naquele piso escorregadio. — Michael, precisamos ir para a câmara de descompressão!

— Calminha aí! — disse Donald. Agarrou Richard pelo braço para acalmá-lo e evitar que caísse. — Aqui não tem câmara de descompressão nenhuma. Aliás, você está perfeitamente bem. Obviamente não está com dor nas articulações.

A confusão de Richard aumentou. Ele alongou as pernas e os bra­ços para verificar as articulações. Piscando várias vezes seguidas, olhou a sala outra vez, e ao fazer isso notou o cabo que o conectava à base da esfera quebrada.

— Mas que meleca é essa? — disse, irritado. Agarrou aquele ema­ranhado todo de mangueiras e fios e imediatamente o soltou. Os lábios se retorceram, de repugnância. — Cacete, isso aqui é mole, parece que estou pegando nos intestinos de alguém!

— Deve ser algum tipo de linha de sustentação de vida — disse Suzanne, falando pela primeira vez desde que os mergulhadores haviam saído de seus invólucros. — Considerando a forma em que se encontram sem terem passado pela descompressão, diria que tem alguma relação com ela, também.

Richard tocou com todo o cuidado o dispositivo conectado a seu estômago. Era do tamanho e do formato de um cálice de desentupidor de vaso sanitário. Assim que o tocou, ele saiu. Pegando-o, olhou para o lado que antes estava conectado ao seu corpo. Para seu horror, uma sé­rie de apêndices semelhantes a vermes salientaram-se dele, as cabeças sinuosas empapadas de sangue — o seu sangue.

— Ah! — berrou Richard. Deixou cair o dispositivo, que rapida­mente entrou na base da esfera achatada como um fio de aspirador de pó que desaparece. Em pânico, Richard abriu o zíper frontal do traje de neoprene até o púbis. Quando olhou para a barriga, gritou outra vez. Havia seis feridas em forma de furos arredondados, formando um cír­culo em torno do seu umbigo.

Depois de olhar para Richard, Michael ficou de pé e fitou hesitante seu próprio abdome. Consternado, percebeu que também tinha um dispositivo semelhante conectado ao corpo. Com uma expressão seme­lhante à de Richard, tocou-o relutante, com o dedo indicador. Para seu alívio, a parafernália imediatamente se soltou, e se retraiu. Abrindo o traje de neoprene, ele também encontrou os mesmos furos em círculo emanando fluido corporal em torno do umbigo.

— Mas, será o benedito! — exclamou Michael. — Parece que en­fiaram umas tantas facadas na gente com um furador de gelo. — Tre­meu. — Não suporto ver sangue.

Richard fechou outra vez o traje de mergulho e depois tentou dar alguns passos com as pernas trêmulas. Estendeu os braços e se apoiou na parede.

— Cara, eu me sinto como se estivesse dopado.

— Eu me sinto como se tivesse sido atropelado por um tremendo caminhão — disse Michael.

— E o Mazzola? — perguntou Richard.— Não fazemos a menor idéia — disse Donald. — O que aconte­ceu durante o mergulho de vocês?

Richard coçou a parte de trás da cabeça. A princípio, só podia se lembrar de ter entrado na câmara de compressão, mas aí, com a ajuda de Michael, ambos começaram a se lembrar por alto da descida do sino e da entrada na água.

— Só isso? — indagou Donald. — Não se lembra de nada do que ocorreu depois que saíram do sino?

Richard confirmou. Michael fez o mesmo.

— E vocês todos, por que é que estão desse jeito aí, parecendo ter saído de um chiqueiro? — perguntou Richard. Não esperou a resposta. Em vez disso, examinou as paredes mais de perto. — O que é isso, al­guma espécie de hospital, ou coisa parecida?

— Não é hospital, não — disse Donald. — Só podemos dizer como chegamos aqui, mas nisso não se inclui a explicação sobre essa sujeira toda.

— Já é um começo — disse Richard. — Manda!

Donald explicou tudo enquanto os dois mergulhadores se apoia­vam na parede. Era uma história difícil de engolir, de forma que semicerraram os olhos, incrédulos.

— Ah, qual é, compadre! — zombou Richard. — Que papo é esse? Alguma brincadeira de mau gosto? — Olhou o trio de um jeito des­confiado. Só podia ser armação. Michael concordou com a cabeça.

— Não é nenhuma brincadeira — garantiu Donald.

— Olha só essa sala aqui — disse Suzanne.

— Escutem! — disse Donald, tentando ser paciente. — Será que nenhum de vocês consegue se lembrar como chegou aqui? Não viram ninguém?

Richard sacudiu a cabeça. Com o pé, empurrou os fragmentos murchos da esfera. O material agora estava mole, em vez de rígido e quebradiço.

— É verdade mesmo que estávamos dentro desse negócio aí? Dis­seram que parecia vidro. E agora não parece.— Pois parecia, há alguns momentos atrás — garantiu-lhe Suzanne.

— O que estamos achando é que isso aqui é alguma base submari­na russa — prosseguiu Donald.

— Correção! — interrompeu Suzanne. — Isso é o que você pensa.

— Russos? — repetiu Richard. — Não brinca! — Endireitou-se visivelmente. Olhou em torno com um interesse renovado, assim como Michael. Ambos colocaram as mãos sobre as paredes altamente polidas. Richard bateu na superfície lustrosa com as juntas dos dedos. — O que é esse negócio aqui, afinal? Titânio?

Suzanne começou a responder, porém foi interrompida por um chia­do. Todos olharam para os pontos onde antes se achavam as esferas. Nu­vens de vapor saíram dos orifícios expostos. Rapidamente um odor acre impregnou a câmara vedada, e os olhos de todos começaram a lacrimejar.

— Estamos numa câmara de gás! — berrou Suzanne antes de ser acometida por violentos acessos de tosse.

O grupo recuou, aterrorizado, comprimindo-se de encontro às pa­redes de metal frio, numa tentativa vã de tentar se afastar do gás. Mas logo todos estavam tossindo e espremendo os olhos fechados para se livrar da sensação de ardência.

— Deitem-se no chão! — comandou Donald.

Todos, menos Perry, se estenderam no chão, enquanto tentavam inutilmente cobrir a boca e o nariz com as mãos. Perry correu, aos tro­peções, de volta até a porta da caverna e começou a bater nela, pedindo aos gritos que a abrissem.

A porta não cedeu um milímetro, mas Perry teve a presença de es­pírito de notar alguma coisa apesar do seu pânico e de seu sofrimento físico. Não estava apagando, nem se sentindo nem um pouco zonzo. O gás parecia não ter o efeito letal que ele mais temia.

Com força de vontade, Perry procurou não tossir e conseguiu abrir os olhos um instante, apesar do desconforto. Aquele vapor semelhante a uma bruma havia inundado a sala. Perry não conseguia ver muito longe, mas notou que os braços haviam ficado subitamente nus. Curioso para ver o que poderia ter ocorrido com as mangas do abri­go, Perry semicerrou os olhos. Viu que as mangas haviam sido reduzi­das a frangalhos. Pendiam dos seus ombros esfarrapadas, como se ele houvesse mergulhado os braços em ácido.

Ciente de que agora sentia frio no corpo inteiro, Perry apalpou o peito. O abrigo — aliás, seu traje inteiro — havia tido o mesmo desti­no das mangas. O próprio tecido estava progressivamente perdendo sua integridade estrutural.

Perry tivera pesadelos antes, enquanto passava por períodos de estresse, nos quais se via nu em público. De repente se lembrou deles, quando sentiu as roupas caírem do seu corpo em tiras. Agarrou os fran­galhos e sentiu-os se desintegrando em suas mãos.

— Nossas roupas! — berrou Perry para os outros. — O gás está dissolvendo nossas roupas!

A princípio o medo impediu que os outros respondessem. Perry berrou outra vez o aviso e avançou cambaleante na neblina, quase tro­peçando em Donald.

— O gás está dissolvendo nossas roupas — repetiu. — E eu não estou sentindo nenhum efeito no sistema nervoso.

Donald ergueu-se com o auxílio dos braços e se sentou. O macacão dele teve o mesmo destino do traje de Perry. Rapidamente, ele se apal­pou para ver se estava mesmo ficando pelado. Mas não conseguiu abrir os olhos, o gás ardia demais. Mesmo sem a confirmação visual, ele se convenceu. Gritou para os outros:

— O Perry está certo!

Suzanne, como Perry, conseguia abrir os olhos intermitentemente. Viu que estava mesmo perdendo as roupas. O macacão havia literal­mente se desmanchado. Também notou que não havia sofrido nenhum efeito mental, apesar do desconforto que sentia na garganta e no peito. Aliviada, ela se pôs de pé.

Richard e Michael se apoiaram nos braços para se sentar. Com a sensação ainda forte de estarem drogados, não sabiam se o gás estava lhes afetando a consciência, mas ambos estavam tossindo muito. Para eles, o efeito respiratório foi mais difícil de superar do que para os outros.

— O meu traje de mergulho está inteirinho — conseguiu dizer Richard, entre uma tossida e outra. Mas aí ele cometeu o erro de passar a mão no ombro. Nesse instante, o neoprene sofreu uma despolimerização completa. Quando Richard tocou o traje, a borracha caiu trans­formada em milhares de microesferas.

Entre uma piscadela e outra, Michael vislumbrou o ocorrido com o traje de Richard. Olhava de quando em vez para o seu, relutando em tocá-lo ou até mesmo em se mover, mas Richard estendeu o braço e deu-lhe uma palmada forte no ombro. O efeito foi instantâneo. Num minuto o traje de mergulho parecia normal, no outro já estava escor­rendo pelo corpo de Michael abaixo, transformado em milhares de go­tas de água.

Subitamente, se ouviu um alarme, e uma luz vermelha na pare­de diante da porta da caverna começou a piscar — momentos antes, aquela mesma parede parecia inteiriça. Através do vapor cáustico, os cinco começaram a discernir os contornos de uma porta aberta debaixo da luz.

O alarme parou depois de alguns minutos, mas a luz continuou a piscar. Então eles ouviram o som de um assobio bem agudo. Começou a entrar ar comprimido por um pequeno orifício.

Perry avançou vagarosamente na direção da luz intermitente. Quan­do chegou à parede, viu que o contorno da porta já estava mais nítido. Ele apalpou-lhe as bordas. Nesse instante, sentiu uma corrente de ar constante penetrar na outra sala. Experimentou pisar do outro lado da soleira para ver se o piso era horizontal. Depois passou para a outra sala.

Sentiu um alívio quase imediato. A barreira de ar mantinha o gás acre longe do corredor no qual havia entrado. As paredes, o piso e o teto eram feitos do mesmo metal polido que a sala cheia de gás, mas o nível de iluminação era significativamente menor. Perry viu que o cor­redor dava em uma outra câmara, seis metros à frente.Retrocedendo, com a cabeça protegida do gás pela corrente de ar, chamou os outros.

— Tem outra sala aqui — gritou. — E o ar é puro. Venham!

Os outros quatro trataram de se pôr de pé e se dirigiram para o lado da luz vermelha que piscava. Suzanne teve que servir de guia para Donald; ele não conseguia sequer suportar abrir os olhos. Dentro de um minuto todo o grupo conseguiu chegar à sala nova.

O gás rapidamente se dissipou. Eles ficaram tão aliviados que nem se incomodaram pelo fato de suas roupas terem se desintegrado por completo. Todos os cinco estavam nus em pêlo, mas não podiam se preocupar com isso agora. Estavam curiosos para irem ver o que havia na sala diante deles.

— Vamos andando — disse Donald. Gesticulou para que Perry fosse na frente, pois já estava mesmo liderando o grupo.

Perry, encostando as costas na parede, fez sinal para que Donald passasse à frente.

— Acho que deve ir na frente. Você ainda é o capitão do navio. Donald concordou e foi. Perry seguiu-o, e depois dele veio Suzanne.

Os dois mergulhadores fechavam o cortejo.

— Parece óbvio o que vai acontecer agora — disse Donald.

— Ainda bem que sabe — disse Perry.

— Como assim? — indagou Suzanne.

— Estamos sendo preparados para um interrogatório — explicou Donald. — É uma técnica bastante conhecida para se acabar com o senso de identidade de uma pessoa, para que ela não ofereça resistência. Nos­sas roupas, sem dúvida, fazem parte da nossa identidade.

— Não tenho resistência nenhuma a opor — disse Perry. — Vou dizer a seja lá quem for tudo que quiserem saber.

— Quer dizer que sabe que gás era aquele, Donald? — perguntou Suzanne.

— Negativo — respondeu Donald.Donald parou no limiar da segunda porta e espiou dentro da sala. Era consideravelmente menor que a primeira, embora também estives­se revestida com o mesmo material metálico misterioso. De onde esta­va, conseguia enxergar uma porta de saída envidraçada, bem como o começo de um corredor branco com o que lhe pareceram quadros nas paredes. Dentro da câmara, ele notou que o piso se inclinava até o cen­tro, onde havia uma grade, e o teto se inclinava para cima até um ponto central onde havia outra grade.

— E aí? — indagou Suzanne. De onde estava não dava para ela ver nada disso.

— Parece tudo normal — disse Donald. — Tem um corredor apa­rentemente normal atrás de uma porta de vidro.

— Então vamos — gritou Richard, impaciente, atrás de Suzanne.

Apoiando-se com ambas as mãos no batente da porta, para se equi­librar, Donald colocou primeiro um dos pés no piso inclinado, depois o outro. Como havia previsto, começou a deslizar no momento em que soltou a porta. Deslizou cerca de um metro com as mãos a se agitar para manter o equilíbrio. Nessa altura, o piso ficava quase horizontal. Ele se virou e avisou os outros.

Todos tiveram cuidado, menos Michael. Criado em Chelsea, Massachusetts, onde jogava hóquei desde os cinco anos, não estava preocupado com o piso escorregadio. Mas a inclinação o pegou de surpresa. Os pés escorregaram no primeiro passo, e ele caiu na dire­ção dos outros como uma bola de boliche. Num instante o grupo inteiro havia se transformado em uma pilha de membros nus entre­laçados.

— Cacete! — reclamou Donald. Livrando-se, ajudou Suzanne a ficar de pé. Os outros procuraram se erguer sozinhos. Michael nem li­gou. Agora de olhos abertos, estava muito mais interessado em apreciar o corpo de Suzanne. Richard soltou um palavrão e deu um murro no alto da cabeça de Michael. Michael, para defender-se, deu um empur­rão em Richard, o que os derrubou no chão de novo.— Chega! — berrou Donald. Tomando cuidado para não cair, se­parou os dois mergulhadores. Richard e Michael obedeceram, mas con­tinuaram a se fuzilar mutuamente com os olhos.

— Meu Deus! — exclamou Suzanne. — Olhem! — Apontou para a porta atrás deles, pela qual haviam acabado de passar. Todos ficaram boquiabertos de espanto. A porta estava se vedando silenciosamente, como se o metal dela estivesse se fundindo com o da parede. Dentro de instantes a abertura já havia sumido sem deixar nenhum vestígio. A parede havia se fechado.

— Se não tivesse visto com os meus próprios olhos, jamais acredi­taria — disse Perry. — É sobrenatural, parece efeito especial de cinema.

— Não consigo entender que tecnologia será essa — comentou Suzanne. — Acho que isso elimina a hipótese de que estamos numa base russa.

Então um gorgolejar bem grave começou a vir da grade central. Todos os olhos se voltaram na direção dela.

— Ah, não! — gritou Suzanne. — E agora, qual será a surpresa?

Antes que alguém tivesse tempo de responder, um fluido transpa­rente que parecia água subiu borbulhando pela grade central do chão. O grupo recuou, depois tratou de escalar a inclinação do outro lado até a porta de vidro. O ângulo de inclinação e a superfície escorregadia do piso os obrigavam a ficar de quatro. O primeiro que chegou à porta começou a bater no vidro, desesperado, procurando uma forma de abri-la. Atrás deles, a água que entrava havia se transformado em um gêiser; o nível de água estava subindo rapidamente.

Dentro de alguns minutos, já estavam imersos até a cintura. Mo­mentos depois, já estavam todos nadando cachorrinho, horrorizando-se cada vez mais, à medida que se aproximavam do teto. Mesmo que pudessem nadar indefinidamente, em breve não teriam mais ar para respirar. Rapidamente foram obrigados a se reunirem, lutando para res­pirar o ar restante no ápice do teto. Por serem melhores nadadores, Richard e Michael se colocaram no centro, diretamente abaixo da grade e, numa tentativa desesperada de buscar mais ar, meteram os dedos pelos buracos e tentaram arrancar a grade do seu encaixe.

Seus esforços, porém, foram inúteis. A grade não se moveu sequer um milímetro, e o nível da água continuou a subir até a sala ficar cheia até o teto. Assim que todos submergiram, a água começou a sair, a uma velocidade extraordinária. Dentro de segundos já havia espaço para res­pirarem; em minutos, Donald e Richard, os mais altos dos cinco, sen­tiram os pés tocarem o chão.

Em breve se ouviu um ruído alto e grosseiro de sucção, quando o res­tante da água desapareceu no ralo, e o grupo ficou todo amontoado e encharcado na depressão central do piso côncavo. Durante algum tempo, nenhum deles se moveu. Uma combinação de puro terror, esforço motiva­do pelo pânico e o fato de terem engolido sem querer uma quantidade con­siderável do fluido, os deixou física e emocionalmente exaustos.

Donald finalmente conseguiu se sentar. Sentia-se zonzo. Teve a estranha sensação de que havia se passado mais tempo do que era ca­paz de calcular. Ocorreu-lhe que talvez tivessem sido drogados por alguma coisa que havia na água que inundou a sala. Fechou os olhos um momento, depois esfregou as têmporas. Quando tornou a abrir os olhos, olhou para os outros. Todos pareciam estar dormindo. Olhou através da porta de vidro, depois voltou a olhar para Suzanne, rapida­mente.

— Meu Deus! — murmurou Donald. Não pôde crer no que via. Suzanne estava careca! Donald passou a mão na cabeça, mas como já a raspava há anos, resolveu conferir o bigode. Ele havia sumido! Erguen­do o braço, viu que ele também estava totalmente depilado. Olhou o peito de relance. Não havia nele um só pêlo.

Donald sacudiu Perry, depois cutucou Suzanne. Quando ambos já se encontravam alertas o suficiente para entender o que Donald lhes dizia, este lhes contou o que ocorrera.

— Ah, não! — gritou Perry. Sentou-se na mesma hora. Com ambas as mãos, tocou o couro cabeludo, com todo o cuidado. Não encontrou cabelos, apenas pele nua. Afastou as mãos como se houvesse tocado al­guma coisa quente. Estava horrorizado.

Suzanne ficou mais curiosa do que desanimada. Alguma coisa os havia depilado completamente. Como aquilo havia acontecido — e por quê?

— O que está havendo? — Richard perguntou. As palavras dele soaram sonolentas. Ele se sentou, depois foi obrigado a se apoiar. — Oooooi... Estou me sentindo meio de porre...

— Eu também estou meio tonto — admitiu Perry. — Talvez hou­vesse alguma coisa nessa água. Sei que andei engolindo uns goles dela.

— Acho que fomos drogados — disse Donald.

— Todos bebemos muita água — disse Richard. — É difícil não engolir água num tormento desses. Foi pior que treinamento de fuga em submarino.

— Acho que sei o que está havendo — disse Suzanne.

— Pode crer, eu também sei — disse Perry. — Estamos sendo tor­turados e humilhados.

— Todas as técnicas de interrogatório — disse Donald.

— Acho que não vai haver interrogatório nenhum — disse Suzanne.

— Aquela luz forte estranha, o gás ardido, depois a depilação estão me fazendo deduzir uma outra coisa.

— O que quer dizer com depilação? — perguntou Richard.

— O que aconteceu com a sua cabeça — respondeu Perry. Richard piscou. Olhou Perry, estarrecido, depois tocou o alto da cabeça.

— Meu Deus, estou carequinha da silva! — olhou para Michael que ainda estava puxando o maior ronco. Depois empurrou-o. — Acorda aí, ô bela adormecida careca! Acorda!

Michael abriu os olhos com extrema dificuldade.

— Acho que estamos sendo descontaminados — disse Suzanne.

— Acho que tudo foi para isso: livrarem-se de microrganismos como bactérias e vírus. Estamos sendo efetivamente esterilizados.

Ninguém disse nada. Perry concordou ao refletir sobre o que Suzanne havia dito. Achou aquilo possível.— Ainda acho que tudo isso é para nos preparar para algum inter­rogatório — disse Donald. — Esterilizar-nos não faz sentido. Não sei se são os russos que estão fazendo isso ou não, mas alguém quer alguma coisa de nós.

— Talvez saibamos dentro de muito pouco tempo — disse Perry. Indicou com a cabeça a porta de vidro, que agora estava entreaberta. — Acho que o próximo estágio já está vindo aí.

Donald procurou esforçar-se, instável, para ficar em pé.

— Sem dúvida havia alguma espécie de droga na água — disse ele. Esperou até que passasse mais um acesso de tonteira, depois dirigiu-se à porta aberta. No ponto onde o piso escorregadio começava a subir até a porta de vidro, foi obrigado a ficar de quatro. Quando atingiu a por­ta, ficou de pé e examinou um corredor branco de quinze metros de comprimento.

— Eu me sinto meio grogue, mas também estranhamente faminta — disse Suzanne.

— Eu estava justamente pensando nisso — admitiu Perry.

— Atenção, tropa — disse Donald. — Parece que as coisas estão melhorando. Tem uns alojamentos no final desse corredor! Vamos nos mobilizar!

Suzanne e Perry, agachando-se, levantaram-se, combatendo a mes­ma espécie de tonteira transitória que Donald havia sentido.

— Acho que alojamentos significa camas — disse Suzanne. — E isso me parece pra lá de bom. Ademais, quero sair logo dessa sala, por­que aquele aguaceiro pode voltar.

— Concordo plenamente — apoiou Perry.

Richard e Michael haviam tornado a adormecer. Suzanne cutucou os dois, mas nenhum deles se mexeu. Perry ajudou-a.

— Seja lá o que for que puseram nessa água, afetou mais esses ca­ras do que nós — comentou Suzanne, enquanto sacudia Richard para obrigá-lo a abrir os olhos.— Eles se sentiram grogues depois que saíram das esferas, mesmo antes da imersão nessa água — disse Perry. Puxou Michael, que recla­mou, dizendo que o deixassem em paz, obrigando-o a se sentar.

— Vamos, tratem de ir se mexendo! — ordenou Donald. — Não quero que essa porta se feche antes de todos saírem daqui.

Apesar de estarem completamente grogues, a advertência a respeito da porta penetrou o estupor de Richard e Michael, e eles se levantaram. Enquanto se moviam, seu estado mental melhorou rapidamente. Quan­do o grupo se uniu a Donald, os mergulhadores já estavam até conver­sando.

— Isso não é nada mau — disse Richard ao inspecionar o corre­dor ainda de olhos semicerrados. Em vez de metal espelhado, as pare­des e o teto eram de um laminado branco de alto brilho. Emolduradas, gravuras tridimensionais cobriam as paredes. O piso estava revestido com um carpete branco de trama compacta.

— Esses quadros são demais — comentou Michael. — São realis­tas pra caramba. Parece que posso enxergar até quarenta quilômetros dentro deles.

— São holográficos — explicou Suzanne. — Mas jamais vi uma holografia com cores assim tão vividas e naturais. São impressionantes, principalmente nesse ambiente assim todo branco.

— Parecem todos cenários da antiga Grécia — disse Perry. — Se­jam lá quais forem nossos algozes, pelo menos são civilizados.

— Em frente, homens! — chamou Donald. Estava impaciente, aguardando logo sobre a soleira da porta seguinte. — Temos que tomar algumas decisões táticas.

— Decisões táticas — repetiu Perry, murmurando para Suzanne. — Ele nunca deixa de lado essa pose de milico?

— Quase nunca — admitiu Suzanne.

O grupo atravessou todo o corredor e parou, assombrado com o aposento diante deles. Depois daquela série de câmaras despojadas e de aparência industrial, estavam despreparados para aquele quarto suntuoso.A decoração era futurista, com muitos espelhos e mármores brancos, mas o ambiente era tranqüilo, fresco, convidativo. Uma dúzia de leitos com dosséis, semelhantes a divas, com cobertores de caxemira branca enfileirava-se rente a cada parede. Cinco dessas camas estavam com as cobertas convidativamente afastadas em direção ao pé da cama, tendo sobre cada travesseiro roupas limpas dobradas. Ao fundo, música ins­trumental suave completava o clima de repouso.

No centro da sala se encontrava uma enorme mesa baixa tendo ao seu redor cadeiras tipo espreguiçadeira com almofadas bem fofas. A mesa estava posta para uma refeição com bandejas cobertas e jarras de bebi­das geladas. Os pratos eram brancos, a toalha era branca e os talheres eram dourados.

— Se aqui for o céu, não estou preparado — disse Perry, quando se recuperou o suficiente para falar.

— Acho que o rango não cheira assim tão bem no paraíso — co­mentou Richard. — E acabei de perceber que estou mais faminto do que cansado. — Começou a avançar, seguido de perto por Michael.

— Alto lá! — disse Donald. — Não sei se devemos comer isso. A comida talvez contenha barbitúricos ou coisa pior.

— Acha mesmo isso? — disse Richard, manifestando uma decep­ção evidente. Hesitou, olhando para trás e para a frente, entre Donald e a mesa repleta de comida.

— E aqueles espelhos — disse Donald, apontando para as enormes superfícies espelhadas que compunham a extremidade da sala. — Presu­mo que tenham duas faces, o que significa que estamos sendo vigiados.

— Não estou nem aí, se eles nos tratarem bem assim — disse Michael. — Meu voto é a favor de comermos.

Os olhos de Suzanne pousaram nas vestes dobradas sobre cada cama. Ela não havia notado as roupas antes, porque eram totalmente brancas, assim como a maior parte de todo o resto, e se fundiam perfeitamente com as roupas de cama brancas. Ela se aproximou da cama mais próxi­ma. Ergueu as vestimentas e as sacudiu. Havia duas peças simples: uma túnica de mangas compridas que se abria na parte da frente e uma ber­muda. Ambas eram feitas de um cetim semelhante à seda, e curiosa­mente não tinham costuras.

— Nossa mãe! Um pijama! — comentou Suzanne. — Ora, isso já é muita gentileza. — Sem nem um momento de hesitação, Suzanne vestiu a bermuda. A túnica tinha proporções avantajadas e vinha até os joelhos, cobrindo as bermudas, sendo atada por um cordão trançado de ouro. Ao longo das laterais havia vários bolsos.

O fato de Suzanne ter se vestido despertou nos outros o constrangi­mento por estarem nus. Os quatro homens agarraram suas roupas so­bre as camas e as vestiram.

Michael olhou-se nos espelhos do fim da sala.

— Não gostei muito desse negócio aqui — comentou. — Mas é confortável.

Richard riu-se dele.

— Você está parecendo uma bicha.

— E você está parecendo o quê, também, hein, babaca — replicou Michael, agressivo.

— Podem parar por aí — alertou Donald. — Nada de brigas entre nós. Guarde essa sua agressividade para enfrentar esse pessoal que nos raptou. Aliás, devíamos estabelecer turnos de vigia.

— Mas de que raio é que está falando? — indagou Richard. — Isso aqui não é nenhum exercício militar. Vou comer e depois tirar um bom ronco. Não estou nem a fim de bancar o vigia.

— Estamos todos cansados — disse Donald. — Mas há uma por­ta que precisamos vigiar, e sobre a qual não temos nenhum controle.

Todos os olhos se voltaram para a porta no fim da sala diante dos espelhos. Era branca, como todo o resto do aposento, e não tinha ma­çaneta, nem trinco, nem dobradiças.

— Precisamos montar guarda — disse Donald. — Não quero que esses russos, ou seja lá quem for, penetrem aqui pé ante pé enquanto estivermos dormindo e façam o que quiserem conosco.— Pelo cuidado que estão tendo, nos proporcionando esse aloja­mento aqui, acho que essa sua paranóia não se justifica — replicou Suzanne. — E pensei que houvéssemos concordado que não há nenhum russo por aqui.

— Bom, continuem aí batendo boca sobre esse assunto — disse Richard. Foi até a mesa e ergueu a cobertura de uma das travessas tér­micas. O aroma delicioso encheu a sala.

— O que é? — perguntou Michael. Inclinou-se para olhar.

— Não faço a menor idéia — disse Richard. Ergueu a colher. A comida fumegante era cor-de-creme e tinha uma consistência pastosa, como mingau quente. — Parece mingau de maisena, e tem um cheiro maravilhoso — Levou a colher à boca e provou-a. — Ora, mas quem diria! Como eles descobriram? Tem gosto do meu prato predi­leto, bife.

Michael provou também.

— Bife? Você pirou, é? Parece batata-doce.

— Sai fora! — reclamou Richard. — Você e as suas batatas-doces! — Sentou-se em uma das espreguiçadeiras e serviu-se de uma concha generosa de comida. — Você vive pensando em batata-doce.

Michael sentou-se diante dele e também se serviu.

— Olha, parceiro, me perdoe — disse ele, sarcasticamente. — Mas acontece que eu gosto de batata-doce.

Suzanne e Perry se aproximaram da mesa, com a curiosidade espicaçada por aquele diálogo. Estavam com uma fome quase irresistível. Suzanne foi a próxima a provar a comida.

— Incrível — comentou. — Parece manga.

— Difícil acreditar — disse Perry. — Porque para mim parece direitinho milho verde.

Suzanne provou outra vez.

— Para mim é manga, sem dúvida. Talvez esse alimento de algu­ma forma engane nosso cérebro para que interprete o sabor de acordo com nossas predileções.Até Donald ficou intrigado. Veio até a mesa e provou um tantinho. Sacudiu a cabeça, incrédulo.

— Para mim parecem biscoitos frescos amanteigados. — Sentou-se em uma das cadeiras. — Estou com uma fome tremenda, como to­dos vocês.

Todos comeram quantidades variadas daquele alimento curioso.

Acharam difícil resistir a uma nova porção durante alguns segundos.

Também descobriram que a bebida gelada tinha um efeito variável semelhante. Tinha um gosto diferente para cada pessoa, de acordo com sua preferência.

Assim que a fome de lobo do grupo foi mitigada, o cansaço e a sonolência que sentiam antes voltaram, ainda mais fortes. Lutando para não fechar os olhos, eles se afastaram da mesa e se dirigiram cada um a sua cama. Mal afastaram as cobertas, todos, menos Donald, ferraram num sono de hibernação. Donald lutou em vão, na esperança de conti­nuar alerta, para vigiar, mas foi impossível. Dentro de minutos ele tam­bém estava dormitando.

No momento em que se fecharam os olhos de Donald, luzinhas vermelhas apareceram no dossel de cada cama. Ao mesmo tempo, um brilho emanou-se de cada dossel e envolveu o indivíduo adormecido no respectivo leito em um halo violeta.

 

As minúsculas lâmpadas vermelhas acima das camas no dormitório ficaram momentaneamente verdes, e o brilho violeta foi sumindo. Um momento depois, as luzes verdes se apagaram.

Perry foi o primeiro a despertar. Não foi uma transição gradativa, mas uma mudança súbita do sono profundo para a consciência plena. Durante alguns segundos, ficou olhando fixamente para o dossel acima de si, tentando se situar em relação àquela estrutura estranha e se orien­tar. Mas não conseguiu. Não via nada do que esperava ver ao despertar: ou seja, o teto branco da suíte supostamente VIP do Benthic Explorer.

Perry ficou confuso, mas assim que virou a cabeça, tudo lhe voltou à mente. Não tinha sido um sonho. O aterrorizante mergulho do Oceanus nas profundezas insondáveis do Atlântico tinha sido real.

Havia um cabide de roupas, simples e preto, bem ao alcance da cama. Um conjunto de bermudas e túnica de cetim branco semelhante àquele que ele vestia estava pendurado no cabide. Perry percebeu que estava se sentindo despido sob a coberta. Ergueu a beirada da manta de caxemira e olhou para o seu corpo. Não só estava nu, como também detectou o mesmo anel peculiar de feridas em torno do umbigo que vira antes em Richard e Michael quando eles emergiram das esferas.Perry soltou um grito abafado, depois saltou da cama para exami­nar as feridas mais detidamente. Esticou a pele do abdome. As feridas não eram profundas e não doíam, para grande alívio de Perry. O mais importante era que pareciam cicatrizadas.

Enquanto Perry remoia essa descoberta, levou novo choque. As pernas e a virilha estavam cabeludas outra vez! Inspecionou o antebraço e descobriu que o pêlo das axilas também havia crescido. Apalpando o alto da cabeça, deu um sorriso.

Perry agarrou as roupas no cabide de ébano e vestiu-as enquanto atravessava todo o quarto.

Seu reflexo no espelho o deixou literalmente enlevado. O couro cabeludo estava totalmente coberto de cabelos. Tinham apenas uns três centímetros de comprimento, mas eram espessos e escuros como quan­do ele estava no ginásio. Ele se sentiu como se houvesse descoberto a fonte da juventude.

Perry ouviu os outros se mexerem. Voltou-se a tempo de ver Donald e Suzanne se vestirem. Richard e Michael estavam sentados nas beira­das das camas, embasbacados com tudo. As roupas estavam empilhadas no colo deles.

— Exatamente como pensei — disse Donald, a ninguém em par­ticular. — Eu sabia que esses miseráveis iam entrar aqui e fazer gato e sapato da gente enquanto dormíamos. Era por isso que queria manter vigilância.

— Não achei nada mau — disse Perry, passeando para cá e para lá. — Nossos cabelos e pêlos voltaram! Já pensou? O meu está mais espes­so do que era antes de começar a cair.

— É, eu notei o meu cabelo — disse Suzanne, menos entusiasmada.

— Não é o máximo? — disse Perry.

— Preferia o comprimento de ontem — disse Suzanne. — Aliás, de três dias atrás.

— Como assim, três dias atrás? — indagou Perry.

— Ontem foi 21 de julho — explicou Suzanne. — Concorda?— Acho que sim — disse Perry. Não tinha certeza, por causa do vôo noturno para os Açores.

— Bom, o meu relógio, que alguém tirou do meu pulso, mas fez a grande gentileza de deixar aqui, diz que hoje é dia 24.

O relógio de Suzanne tinha sido o único que havia resistido ao gás da primeira câmara. Sua pulseira de ouro continuava inteirinha.

— Talvez a pessoa que o retirou tenha adiantado a data — sugeriu Perry. A idéia de passar três dias dormindo era perturbadora, no mínimo.

— Pode ser — disse Suzanne. — Mas duvido. Quero dizer, para ter tanto cabelo quanto cresceu em nós, teríamos que ter passado mais de três dias aqui. Talvez já estivéssemos dormindo há um mês e três dias.

Perry estremeceu.

— Um mês? — disse ele, engolindo em seco. — Não consigo ima­ginar uma coisa dessas. Além do mais, o comprimento de cabelo que temos agora deve ter vindo de algum tratamento impressionante. O meu cabelo está igual ao tempo em que eu tinha quatorze anos. Vou lhe di­zer uma coisa: como empresário, faria qualquer coisa para conhecer esse segredo. Já pensou? Que produto!

— Eles não me fizeram nenhum favor — disse Donald. — Eu não queria ter cabelo.

— Já notaram as marcas nas barrigas de vocês? — perguntou Suzanne a Perry e a Donald.

Ambos confirmaram, sem nada dizer.

— Acho que significam que colocaram algum tipo de aparelho de manutenção da vida em nós — disse Suzanne. — Talvez do mesmo tipo colocado em nossos mergulhadores naquelas esferas.

— Pensei nisso também — disse Perry. — Acho que precisaram nos dar algum tipo de nutrição, se ficamos dormindo tanto tempo assim.

— Ei, vocês aí, estão se sentindo bem? — disse Suzanne num tom mais alto para Richard e Michael, que estavam terminando de se vestir.

— Eu estou — disse Richard. — Só que queria que tudo isso fosse um pesadelo.— Drogar as pessoas viola a Convenção de Genebra — resmun­gou Donald. — Somos civis! Sabe lá o que significam esses ferimentos. Eles podem ter injetado qualquer coisa na gente, vírus da AIDS, ou soro da verdade.

— Mas, sabe de uma coisa, estou me sentindo muito bem — ad­mitiu Perry. Flexionou os braços e alongou as pernas. Era como se o corpo, assim como os cabelos, houvesse rejuvenescido.

— Eu também — disse Michael. Tocou os artelhos e depois fez corrida estacionária alguns segundos. — Sinto-me como se fosse capaz de nadar vários quilômetros.

— Meu cabelo voltou, mas minha barba não — disse Richard. — Durma-se com um barulho desses!

Os outros homens acariciaram pensativamente os queixos. Era ver­dade. Não havia pêlo nenhum nascendo ali.

— Isso está ficando cada vez mais interessante — disse Perry.

— Acho que está ficando é cada vez mais surreal — disse Suzanne. Ela olhou de perto o rosto de Perry. Antes ele exibia uma nítida zona mais escura onde a barba nascia. Agora a pele estava absolutamente clara.

— Olha aí, pessoal! — exclamou Richard. Apontou a porta na parede entre os espelhos. — Parece que abriram a porta da nossa gaiola.

Todos os olhos se voltaram para a porta, que se abria silenciosamen­te. Além dela, se via outro longo corredor branco com holografias emol­duradas. A luz que vinha da outra extremidade dele era brilhante e natural.

— Parece luz diurna — disse Suzanne.

— Não pode ser luz diurna — disse Donald. — A menos que te­nham nos transportado de alguma forma.

Perry sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha. Intuitivamente sabia que tudo que havia ocorrido até ali era preâmbulo do que estava para acontecer nos próximos minutos. O problema era que ele não fazia a menor idéia do que seria.

Richard foi até a porta para dar uma olhada melhor. Protegeu os olhos da claridade que se refletia nas paredes brancas e lustrosas.— Está vendo alguma coisa? — perguntou Suzanne.

— Quase nada — admitiu Richard. — O corredor dá para um pátio, em frente do qual há um muro. Parece que é ao ar livre. Vamos!

— Espere aí um pouquinho — disse Suzanne. Depois olhou para Donald. — O que diz? Devemos ir? Obviamente nossos anfitriões es­peram que saiamos.

— Acho que sim, mas todos juntos — disse Donald. — Devemos ficar unidos o quanto pudermos, mas talvez escolher um representante para falar por nós, caso nos defrontemos com nossos captores.

— Certo — disse Suzanne. — Escolho o Perry.

— Eu? — disse Perry, numa voz esganiçada. Pigarreou. — Por que eu? O Donald ainda é o capitão.

— É verdade — disse Suzanne. — Mas você é o presidente da Benthic Marine. Seja lá quem for que esteja nos mantendo aqui, talvez aprecie o fato de que você fala com uma certa autoridade, especialmen­te a respeito da perfuração.

— Acha que o motivo pelo qual estamos aqui embaixo é a perfu­ração?

— Foi uma idéia que passou pela cabeça — disse Suzanne.

— Mesmo assim, Donald foi militar — protestou Perry. — Eu não fui. E se isso aqui for mesmo uma base militar russa?

— Acho que não resta dúvida de que isso não é uma base russa — respondeu Suzanne.

— Não está completamente fora de questão — disse Donald. — Mas acho que o Perry é uma boa escolha, mesmo que fosse. Vai me dar uma oportunidade melhor de avaliar a situação, principalmente se as coisas engrossarem para o nosso lado.

— Richard e Michael! — chamou Suzanne. — Vocês querem vo­tar em quem acham que deve nos representar?

— Acho que o chefe deve ser o escolhido — disse Michael. Richard simplesmente concordou meneando a cabeça. Estava im­paciente para partir.— Então está decidido — disse Suzanne. Gesticulou para que Perry os liderasse corredor afora.

— Muito bem! — disse Perry, com mais entusiasmo do que real­mente sentia. Apertou o cordão dourado em torno da túnica, endirei­tou os ombros, e avançou para o corredor. Richard lhe endereçou um olhar desdenhoso quando ele passou, depois o seguiu. Os outros o se­guiram em fila indiana.

Perry reduziu a velocidade ao se aproximar do final do corredor. Ficou ainda mais certo de que a luz que entrava era solar, pois sentiu seu calor radiante. Calculou que o espaço diante deles devia ser um pátio ao ar livre com mais ou menos dois metros quadrados.

A mais ou menos um metro e meio de distância do fim do corre­dor, Perry parou e Richard deu um encontrão nele.

— Qual foi o problema? — indagou Suzanne. Avançou, ultrapas­sando Richard.

Perry não respondeu, pois não sabia muito bem por que havia parado. Vagarosamente, inclinou-se para diante, para que pudesse ver uma área progressivamente maior da parede em frente. Depois, deu mais um passo e tentou de novo. Dessa vez, pôde enxergar o alto do muro, que estimou ter cerca de quatro metros e tanto de altura. Acima dele, viu pés, tornozelos, barrigas da perna nuas e a bainha de vestes como as que trajava.

Perry se endireitou e virou-se para os outros.

— Tem pessoas no alto do muro aí em frente — murmurou. — Estão vestidos do mesmo jeito que nós.

— É mesmo? — admirou-se Suzanne. Inclinou-se para tentar ver também, mas estava muito afastada da saída.

— Não posso dizer com certeza — disse Perry —, mas acho que estão usando essas mesmas roupinhas de cetim frescas que estamos usan­do. — Ele e todos os outros haviam pensado que aqueles trajes diáfanos, estranhos, parecidos com roupas de baixo eram roupas de prisioneiro.

— Ora, qual é, meu irmão! — exclamou Richard, ainda mais im­paciente agora. — Isso eu quero ver com meus próprios olhos! Vamos!— Por que eles estariam vestidos como gregos antigos? — pergun­tou Suzanne a Donald.

Donald deu de ombros.

— Você me pegou. Vamos sair e ver nós mesmos.

Perry assumiu a dianteira. Com a mão sobre os olhos, para se pro­teger do brilho de um quadrado de céu azul, ele ergueu os olhos. O que viu o assombrou a ponto de fazê-lo parar de chofre e abrir a boca, de tão espantado. Suzanne chocou-se contra ele, e o resto do grupo deu um encontrão nela, todos igualmente pasmados.

Estavam em uma espécie de cercado. Cinco metros acima, via-se uma galeria envidraçada, contornada por uma balaustrada de mármore e sustentada por colunas caneladas cujos capitéis exibiam criaturas marinhas entalhadas. Diante do cercado, toda a galeria estava cheia de pessoas que se comprimiam contra o vidro, olhando para baixo com uma curiosidade silenciosa, intensa e imóvel. Como Perry havia dedu­zido de seu exame limitado anterior, todos estavam com a mesma túni­ca e bermuda idêntica, folgada e translúcida.

Perry não formara imagem mental específica de como seriam as pes­soas, mas nunca poderia ter imaginado o que viu, uma vez que tendia a achar que os captores teriam aparência mais truculenta. Antes de ele vis­lumbrar os trajes de cetim, havia imaginado uniformes e expressões fisionômicas severas, até abertamente hostis. Em vez disso, viu-se de olhos pregados no mais belo conjunto de pessoas que jamais vira, cujos rostos refletiam uma serenidade quase divina. Embora as idades variassem de crianças pequenas a vigorosos anciãos, a vasta maioria estava na faixa de vinte e cinco anos. Todos esbanjavam saúde, com corpos esbeltos, olhos brilhantes, cabelos lustrosos e dentes tão brancos que fizeram Perry con­siderar os seus amarelados em comparação com os deles.

— Não posso acreditar nisso — disse Richard, extasiado quando viu aquele espetáculo.

— Quem são essas pessoas? — indagou Suzanne, a voz transfor­mada em sussurro pelo assombro.— Jamais vi um grupo de pessoas assim tão bonitas — conseguiu dizer Perry. — Sem exceção! Não tem nenhum de aparência mediana no grupo.

— Eu me sinto como se fôssemos ratos em um imenso experi­mento — disse Donald, entre dentes. — Olha só como eles nos olham embasbacados! E lembrem-se de que as aparências enganam. Tenham em mente que essas pessoas andaram brincando com a gente só para se distrair. Essa beleza toda deve ser alguma espécie de armadilha.

— Mas são de uma beleza incrível — comentou Suzanne, enquanto se virava devagar para ver tudo —, principalmente as crianças, e até os idosos. Como isso poderia ser uma armadilha? Só posso lhe dizer uma coisa com certeza, vendo essas pessoas, podemos descartar a possibili­dade de estarmos em uma base submarina secreta russa.

— Bom, americanos eles também não são — disse Perry. — Não tem ninguém obeso na multidão inteira.

— Isso deve ser o paraíso — murmurou Michael, deslumbrado.

— Acho que se parece mais com um zoológico — bufou Donald. — A diferença é que os animais somos nós.

— Tente ver o lado positivo — sugeriu Suzanne. — Devo dizer que estou aliviada.

— Bom, uma coisa é certa — comentou Donald. — Pelo menos não estou vendo nenhuma arma.

— Você está certo! — disse Perry. — Isso definitivamente é pro­missor.

— Naturalmente, não precisam de armas, se estamos presos aqui embaixo e eles, lá em cima — acrescentou Donald.

— Acho que é mesmo — disse Perry. — O que acha, Suzanne?

— Não consigo pensar — disse ela. — Essa experiência toda con­tinua a ser muito surreal para mim. Estamos vendo uma nesga de céu azul ali em cima?

— Certamente se parece com o céu — disse Perry.— Acha que há chance de termos sido transportados para leste quando o Oceanus caiu por aquela fossa? — indagou Suzanne. — Que­ro dizer, será que não estaríamos em uma das ilhas dos Açores?

— O único jeito de sabermos é se eles resolverem nos contar — disse Donald.

— Que importa onde estamos — disse Michael. — Olha só as mulheres! Que corpões! Será que são de verdade, ou estamos só imagi­nando isso?

— Pensamento interessante — disse Suzanne. — Na noite passada, ou seja lá quando foi que a gente comeu, a comida se parecia com o que gostávamos. Será que isso está ocorrendo agora com nossa visão? Quero dizer, é um outro sentido. Talvez estejamos vendo o que queremos ver.

— Ah, não, para mim isso já é viajar demais na maionese — disse Perry. — Eu jamais acreditei muito no sobrenatural.

— Ei, mas que importa — disse Richard. — Olha só aquela gata de cabelos castanhos compridos. Que avião! Ei, olha, ela está olhando para mim.

Richard deu um amplo sorriso, ergueu a mão e acenou entusiasticamente. A moça sorriu e ergueu a mão, comprimindo a palma contra o vidro.

— Epa! — disse Richard, sentimental. — Ela gostou de mim! — Richard jogou beijos, o que fez a mulher sorrir ainda mais.

Incentivado pelo sucesso de Richard, Michael começou a azarar uma mulher com cabelos negros e lustrosos como breu. Ela retribuiu com­primindo a palma contra o vidro, como a moça que estava paquerando Richard havia feito. Michael enlouqueceu, pulando para cima e para baixo e acenando freneticamente com ambas as mãos. A mulher reagiu rindo a valer, embora não se pudesse ouvir o som da gargalhada por causa do vidro.

Suzanne baixou os olhos e chamou a atenção de Donald.

— Não vejo nenhum sinal de hostilidade — disse. — Eles pare­cem todos muito pacíficos.— Provavelmente é só um despiste — contestou Donald. — Uma forma de nos pegar desprevenidos.

Perry, relutante, afastou os olhos daquela gente bonita para confabular com Suzanne e Donald. Richard e Michael continuavam a fazer momices para divertimento das duas mulheres. Ambos estavam tentando improvisar uma linguagem de sinais.

— O que vamos fazer? — indagou Perry.

— Pessoalmente, não estou gostando de ficar aqui em exibição — disse Donald. — Sugiro que voltemos para o dormitório e esperemos para ver o que acontece. Obviamente a bola está no campo deles. Dei­xemos que venham até o nosso terreno, por assim dizer.

— Mas quem são essas pessoas? — questionou Suzanne. — Isso aqui é uma coisa incrivelmente bizarra, como um filme de ficção cien­tífica.

Perry estava a ponto de reagir, mas as palavras ficaram presas em sua garganta. Ele apontou para algum ponto atrás de Suzanne e Donald. Uma das paredes do cercado estava misteriosamente se abrindo. Atrás dela havia uma escadaria que levava até a galeria.

— Bom — exclamou Suzanne —, como disse, Donald, a bola está no campo deles, e acho que estamos sendo convidados para nos conhe­cermos cara a cara.

— O que devemos fazer? — indagou Perry, nervoso.

— Acho que devemos subir — disse Donald. — Mas vamos deva­gar e juntos. E, Perry, você fala em nosso nome, como decidimos.

Richard e Michael ainda não tinham visto o silencioso aparecimento da escadaria, por causa dos gestos de comunicação que haviam compe­titivamente progredido até o puro besteirol. Acima, a multidão reagia com gargalhadas às palhaçadas deles, o que apenas os incentivava a fa­zerem mais macacadas ainda. Mas quando viram de relance as escadas, correram para elas. Estavam ambos ávidos por fazerem um contato mais íntimo com as suas mais novas amigas.— Esperem! — berrou Donald. Havia se afastado para o lado para evitar a correria louca dos mergulhadores. — Unam-se a nós! Vamos todos juntos, e o Sr. Bergman vai nos representar.

— Preciso conhecer essa morena — disse Richard, ansioso.

— Vou me encontrar com aquela gracinha com cabelos negros — acrescentou Michael, sem fôlego.

Ambos os mergulhadores tentaram contornar Donald, mas ele es­tendeu a mão e agarrou-lhes os braços, apertando-os visivelmente. Ambos começaram a protestar, mas mudaram de idéia ao verem a cara de Donald. As narinas do ex-oficial da Marinha estavam dilatadas, e a boca, comprimida, formando uma linha ameaçadora e determinada.

— Acho que o encontro pode esperar uns minutos — conseguiu dizer Richard.

— Pode, claro — disse Michael. — Teremos tempo para isso. Donald largou os braços dos mergulhadores, depois fez sinal para que Perry fosse na frente.

Perry já sentiu muito mais autoconfiança ao subir as escadas, em comparação com a que tinha antes, no corredor. Encontrar-se com um grupo misto de belos indivíduos vestidos com uniformes de lingerie parecia menos intimidador do que o que sua imaginação havia previsto anteriormente. Mas as circunstâncias inéditas minaram-lhe a confiança à medida que ele subia. Viu-se imaginando se Michael não poderia es­tar certo, se tudo aquilo não seria pura alucinação, e, portanto, uma armadilha requintada, como Donald havia insinuado. Mas a natureza normalmente otimista de Perry não conseguia explicar a necessidade de uma armadilha, principalmente porque aquelas pessoas, fossem lá quem fossem, não precisavam de armadilha alguma, pois já estavam com a situação completamente dominada.

A gente bonita, como Perry os chamava, em seus confusos devanei­os, havia inicialmente corrido para a frente para se aglomerar em torno do patamar da escadaria como um grupo de adolescentes que espera o aparecimento de um astro do rock. Mas quando Perry e os outros alcançaram o topo, eles recuaram. Até mesmo isso confundiu Perry, pois eles recuaram como que amedrontados, ou, no mínimo, sentindo um res­peito cortês, como as pessoas fazem em torno de um animal amestrado porém potencialmente feroz.

Perry galgou o último degrau e parou. A três metros de distância, a multidão de pessoas bonitas estava disposta em semicírculo. Nenhuma delas se moveu. Ninguém falou. Ninguém sorriu.

Perry havia presumido que seus captores seriam os primeiros a fa­lar. Não havia planejado tomar a iniciativa, mas acabou decidindo que­brar o silêncio constrangedor que se seguiu com um tímido "Oi".

O cumprimento dele causou alguns risos na gente bonita, mas nada além disso. Perry se voltou para dar uma olhada nos colegas, buscando sugestões. Suzanne encolheu os ombros, indiferente. Donald nada su­geriu. Ainda parecia estar muito mais desconfiado do que Perry.

Perry voltou-se de novo para a multidão.

— Alguém aqui fala inglês? — perguntou, desesperado. — Um pouco de inglês, ou talvez espanhol? — Perry sabia um pouco de es­panhol.

Um casal se adiantou. Ambos pareciam ter mais ou menos vinte e poucos anos, e, como todos os outros, eram absurdamente belos. Ti­nham feições arquetipicamente perfeitas, que fizeram Perry se lembrar de imagens que havia visto em camafeus antigos. O homem tinha cabe­los louros de comprimento médio. Os olhos eram de um intenso azul-celeste. A mulher tinha cabelos de um ruivo bem vivo, como fogo, e um bico-de-viúva proeminente. Seus olhos verdes cintilavam como es­meraldas. Ambos tinham uma pele rósea, radiante e impecável. Lá em Los Angeles, não restaria dúvida: aqueles dois estariam prontinhos para serem transformados em artistas de cinema.

— Olá, amigos, como estão passando? — disse o homem, num inglês com sotaque americano perfeito. — Por favor, não se atemori­zem. Não lhes faremos mal. Meu nome é Arak, e esta é Sufa. — O ho­mem indicou a moça ao seu lado.— Eu também gostaria de lhes dizer alô — disse Sufa. — Como vocês gostariam que os chamássemos?

Perry ficou estupefato ao ouvir um inglês assim tão correto vindo de suas bocas. Era estranhamente tranqüilizador ouvir algo tão familiar, dada a aparência alienígena de tudo que haviam enfrentado desde que o Oceanus afundara.

— Que povo é esse aqui? — indagou Perry, afinal.

— Somos habitantes de Interterra — disse Arak. A retumbante voz de barítono do rapaz lembrava a de Donald.

— E que diabo de Interterra é essa? — indagou Perry. Sem querer, deixou transparecer na voz uma certa irritação. Subitamente lhe ocor­reu que talvez tudo aquilo fosse alguma piada de mau gosto, em vez do tipo de armadilha que Donald temia.

— Por favor! — disse Arak, solícito. — Sei que estão confusos e exaustos, e certamente têm direito de estar, depois de tudo que passa­ram. Sabemos bem como a seqüência de descontaminação é estressante, de forma que lhes pedimos que tentem se tranqüilizar. Ainda vão se emocionar muito daqui para a frente.

— Vocês são americanos expatriados? — indagou Perry.

Tanto Arak quanto Sufa cobriram as bocas com as mãos, num vão esforço para conterem o riso. Toda a gente bonita que estava perto o suficiente para escutar a pergunta de Perry fez o mesmo.

— Por favor, desculpem esse nosso riso — disse Arak. — Não queremos parecer grosseiros. Não, não somos americanos. Acontece que nós, interterráqueos, possuímos um conhecimento bastante apurado das línguas de vocês. Eu e Sufa, por exemplo, nos especializamos no inglês, e todas as suas variações.

Suzanne chegou perto do ouvido de Perry e murmurou:

— Pergunte a eles outra vez onde fica Interterra. Perry obedeceu.

— Interterra fica sob os oceanos — disse Arak. — Situa-se numa região que fica entre o que seu povo chama de crosta terrestre e o manto terrestre. É uma área que seus sismólogos chamam de descontinuidade de Mohorovicic.

— Este mundo aqui é subterrâneo? — deixou escapar Suzanne. Olhou para o que lhe parecia uma nesga de céu inundada de luz solar. Estava estupefata.

— Submarino, seria mais correto — interferiu Sufa. — Mas, por favor... sabemos que suas perguntas serão muitas. Serão todas respondi­das no seu devido tempo. Por enquanto rogamos que tenham resignação.

— O que é resignação? — indagou Richard.

— Significa paciência — disse Sufa. Sorriu graciosamente.

— Mas precisamos saber como devemos chamar vocês — disse Arak.

— Sou Perry, presidente da Benthic Marine — disse Perry, dando uma palmadinha no peito. Depois identificou os outros, dizendo seus nomes completos.

Arak deu um passo adiante e se apresentou diretamente a Suzanne. Era uns vinte centímetros mais alto do que ela. Manteve o braço direito estendido com a palma diante dela. Gesticulou com a outra mão, indicando-a.

— Talvez me dê a honra de cumprimentá-la como os interterráqueos fazem — disse. — Comprima a palma de sua mão contra a minha.

Suzanne, hesitante, olhou furtivamente para Perry e Donald antes de obedecer. A mão dela era bem menor que a de Arak.

— Bem-vinda, Dra. Newell — disse Arak, assim que as mãos dos dois se tocaram. — Estamos particularmente honrados com sua visita. — Curvou-se e afastou a mão.

— Bom, obrigada — disse Suzanne. Estava confusa, porém sen­tia-se lisonjeada por ter sido escolhida para um cumprimento individual.

Arak se afastou.

— Agora, meus honrados hóspedes, vocês serão levados para seus alojamentos, e tenho certeza de que apreciarão.— Ei, espere aí, Arak! — gritou Richard. Ficou na ponta dos pés. — Tem uma morena maravilhosa por aqui que está louquinha para me conhecer.

— E tem uma gata de cabelos negros como as asas de um corvo que eu preciso conhecer — disse Michael.

Os dois mergulhadores estavam esquadrinhando a multidão em busca das mulheres desde que haviam terminado de subir os degraus. Para decepção deles, não conseguiram encontrar nenhuma das duas.

— Haverá muito tempo para encontros — disse Arak —, mas agora é importante que eu os leve para os aposentos onde poderão relaxar, comer, banhar-se... Daremos uma festa para comemorar sua chegada mais tarde, à qual esperamos que todos compareçam. Portanto, sigam-me, por favor.

— Isso só vai levar uns minutinhos — disse Richard. Ele avançou, com intenção de contornar Arak e Sufa e se misturar à multidão. Mas Donald agarrou-o com a mesma força com que o agarrara quando esta­vam no pátio.

— Deixa disso, marujo! — grunhiu Donald, entre os dentes. — Vamos ficar todos juntos! Não se esqueça!

Richard fuzilou-o com o olhar um momento, lutando contra a vontade de mandar Donald para os quintos dos infernos. Estava tão perto de abordar aquela mulher lindíssima que era difícil renunciar a isso. A renúncia jamais havia sido seu ponto forte. Mas quando a inten­sidade do olhar de Donald o paralisou, ele cedeu.

— Bom, pensando bem, acho que um rango não vai cair mal, afi­nal de contas — disse, para não dar o braço a torcer.

— É melhor não sair da linha, meu irmão — replicou Donald. — Senão eu e você vamos começar a bater de frente um contra o outro rapidinho.

— Só para seu governo — retrucou Richard. — Não tenho medo de você.

 

Suzanne punha um pé adiante do outro enquanto seguia Arak e Sufa, mas se sentia desconectada, como se seus pés não estivessem plantados solidamente no chão. Não sentia tontura, mas era quase isso. Já conhe­cia o termo psiquiátrico despersonalização, e imaginava se estaria sofrendo de alguma variação dela. Tudo que estava passando era extremamente surreal. Era como se ela estivesse num sonho, embora seus sentidos parecessem muito concretamente envolvidos. Era capaz de ver, cheirar e ouvir exatamente como na vida real. Mas nada fazia sentido. Como podiam estar debaixo do oceano!?

Como oceanógrafa geofísica, Suzanne estava bem consciente de que a descontinuidade de Mohorovicic era o nome de uma camada interna específica da terra que assinalava uma mudança abrupta na velocidade do som ou das ondas sísmicas. Situava-se a aproximadamente 4 a 11km abaixo do fundo do mar e cerca de 38km abaixo dos continentes. Tam­bém sabia que seu epônimo vinha do sismólogo sérvio que a descobri­ra. Mas apesar de ter um nome, ninguém fazia nenhuma idéia do que a camada representava. Pelo que ela sabia, nem ela, nem nenhum outro geólogo ou sismólogo havia jamais considerado a possibilidade de que era uma caverna enorme e cheia de ar. A idéia era absurda demais para ser levada em consideração com seriedade.— Por favor, concedam a nossos humanos secundários a cortesia que merecem — disse Arak em alta voz a seus companheiros interterráqueos ao penetrar na multidão. — Abram alas! — Fez gesto para que as pessoas abrissem caminho, e elas, mudas, obedeceram.

— Por favor! — disse Arak, gentilmente, a Suzanne e aos outros quando indicou um caminho aberto que partia de debaixo do telhado da galeria. Avançou e fez sinal para que o seguissem. — Assim que par­tirmos do salão de chegada de estrangeiros, a viagem até suas acomoda­ções será bem curta.

Como se estivesse assistindo a si mesma em um filme, Suzanne ca­minhou entre a multidão de interterráqueos. Sentiu que Perry estava diretamente atrás dela e imaginou que Donald e os mergulhadores de­viam estar bem perto também. A situação não era mais amedrontadora. A gente bonita sorria o tempo inteiro e lançava gestos furtivos, quase tímidos, de acolhida. Suzanne se viu incapaz de não retribuir os sorrisos.

Será possível que isso está mesmo acontecendo?, ficou se perguntando, enquanto seguia Arak. Será um sonho? Tudo era certamente surreal, mas não restava dúvida de que ela podia sentir o mármore frio sob os pés nus e a carícia de uma brisa suave nas faces. Jamais havia sentido tantos detalhes sensoriais em um sonho, por mais realista que fosse.

Sufa virou-se para Suzanne.

— Vai notar que vocês são verdadeiras celebridades. Os humanos de segunda geração são extremamente estimulantes e reanimadores. É melhor lhes avisarmos que serão muito procurados.

— Como assim, "humanos de segunda geração"? — indagou Suzanne.

— Ai, ai, ai, Sufa — repreendeu Arak, de leve. — Lembre-se do que resolvemos! Esses hóspedes vão ser apresentados mais devagar ao nosso mundo do que os anteriores.

— Lembro, sim — respondeu Sufa. Depois, dirigindo-se a Suzanne, acrescentou: — Vamos debater tudo no seu devido tempo, e todas as suas perguntas serão respondidas. Eu lhe prometo.O grupo logo emergiu em uma varanda espaçosa que dava para uma caverna subterrânea estupendamente colossal, tão imensa que dava a impressão de que estavam ao ar livre. A iluminação assemelhava-se à luz diurna, embora não houvesse sol. O teto em abóbada era de um azul-claro como a cor do céu em um dia de verão nebuloso. Algumas nuvens diáfanas flutuavam preguiçosamente na brisa.

A varanda ficava na lateral de um edifício situado na periferia de uma cidade. Estendendo-se desde a balaustrada descortinava-se uma vista bucólica de colinas ondulantes, vegetação luxuriante e lagos, com al­guns povoados mais ou menos próximos. Os edifícios eram feitos de basalto negro, altamente polido e moldado em uma mistura de curvas, domos, torres e pórticos com colunas clássicas. A distância, via-se uma série de montanhas cônicas erguendo-se de amplas bases, e abrindo-se em leque sob a cúpula que as encimava, de maneira a formar colunas de sustentação de proporções colossais.

— Poderiam fazer a gentileza de aguardar um instante? — disse Arak. Depois falou baixinho no microfone minúsculo de um instru­mento que trazia no pulso.

Os cinco "humanos de segunda geração" ficaram extasiados com a beleza inesperada e as dimensões impressionantes daquele paraíso sub­terrâneo. Era algo além de qualquer coisa que suas imaginações pudessem conceber. Até os mergulhadores ficaram mudos.

— Estamos esperando um veículo aerodeslizador — explicou Sufa.

— Estamos em Atlântida? — indagou Perry, com a boca meio aberta.

— Não! — disse Sufa, meio ofendida. — Isso não é Atlântida. Essa é a cidade de Saranta. Atlântida fica a leste daqui. Mas não dá para vê-la. Fica atrás daquelas colunas que sustentam as protuberâncias que lá na superfície vocês chamam de Açores.

— Então Atlântida existe mesmo? — perguntou Perry.

— Mas é claro — disse Sufa. — Pessoalmente, porém, não a con­sidero tão agradável quanto Saranta. É uma cidade jovem, de origem recente, com gente bem atrevida, se quiserem saber. Porém, é preciso que cada um julgue por si.

— Ah, aqui está — exclamou Arak, quando uma nave coberta por uma cúpula, com aparência de disco voador, silenciosamente se mate­rializou ao pé dos degraus. Chegou tão silenciosamente que apenas os que estavam olhando na direção dela a viram.

— Desculpem a demora — disse Arak. — Devem estar procuran­do muito as naves no momento, por algum motivo. Mas, por favor, primeiro vocês. — Fez gesto para que descessem os degraus e fossem até uma porta de entrada aberta que miraculosamente aparecera na la­teral do disco.

O grupo desceu e entrou na nave, que pairava imóvel a alguns metros do solo. Tinha cerca de nove metros de diâmetro com uma parte supe­rior transparente e abobadada que parecia com o tipo de OVNIs pretensamente vistos e publicados nas primeiras páginas de tablóides sensacionalistas. Dentro dela havia uma banqueta circular com estofamento branco e uma mesa redonda central. Não se viam controles.

Arak foi o último a embarcar, e, assim que entrou, a porta desapa­receu de forma tão silenciosa e misteriosa quanto havia aparecido.

— Ah, é sempre assim — queixou-se Arak, depois de olhar de re­lance todo o interior da aeronave. — Justamente quando estamos ten­tando impressionar vocês, nos mandam uma das antigas. Esta aqui está caindo aos pedaços.

— Pare de reclamar — disse Sufa. — Este veículo está em perfeitas condições de funcionamento.

Suzanne olhou de soslaio para Donald, que ergueu as sobrancelhas bem de leve. Suzanne olhou em torno do aerodeslizador. Tinha tantas perguntas a fazer que não sabia por onde começar.

Arak colocou a mão com a palma para baixo no centro da mesa negra e se inclinou para a frente.

— Palácio dos visitantes — disse. Depois se recostou no assento e sorriu. Um momento depois o cenário lá fora começou a se deslocar. Suzanne, num ato reflexo, estendeu a mão para agarrar a borda da mesa para se equilibrar, mas não foi necessário. Não houve sensação de movimento, nem som algum. Era como se a nave estivesse parada e a cidade se movesse enquanto eles subiam algumas dezenas de metros antes de acelerar para se deslocar horizontalmente.

— Receberão instruções para chamar e utilizar estes táxis aéreos muito em breve — disse Arak. — Terão muito tempo para conhecer o lugar.

Várias cabeças concordaram. A equipe do Benthic Explorer estava assombrada com tudo que via. Pareciam estar atravessando o centro de uma metrópole movimentadíssima, com incontáveis pessoas tratando de seus negócios e milhares de outros táxis aéreos a passar, céleres, em todas as direções.

Para Suzanne, este mundo parecia cheio de contradições estranhas. A cidade e a tecnologia avançada pareciam-lhe muito futuristas, mas as árvores e a vegetação tinham um aspecto pré-histórico e assustador. A flora lembrava-lhe as espécies que haviam florescido durante o período carbonífero havia trezentos milhões de anos.

Em breve os edifícios de vários andares feitos de lustroso basalto negro foram substituídos por uma área menos densa, aparentemente residencial, com grama, árvores e piscinas. As multidões desapareceram, bem como os enxames de táxis aéreos. Agora havia apenas pessoas iso­ladas ou pequenos grupos andando nos parques. Muitos se faziam acom­panhar de curiosos animais de estimação que Suzanne achou serem uma combinação quimérica de cão, gato e macaco.

O cenário começou a andar mais devagar à medida que foram se aproximando de um magnífico complexo residencial cercado por mu­ros, que se assemelhava a um palácio. Era dominado por uma constru­ção central com cúpula sustentada por colunas dóricas negras e caneladas. Salpicados pelo local se viam inúmeros edifícios menores, ovais, feitos do basalto negro polido já conhecido. Vários caminhos sinuosos esten­diam-se contornando piscinas cristalinas, gramados e canteiros de samambaias luxuriantes.O táxi aéreo parou de se deslocar na horizontal e desceu rapidamente. Um momento depois a porta se abriu de forma tão silenciosa e misteri­osa quanto antes.

— Dra. Newell — disse Sufa. — Esse aqui é o seu chalé. Faça o favor de desembarcar, se não se importa. Eu a acompanharei para ter certeza de que está bem instalada. — Ela indicou a saída.

Suzanne, atarantada, olhou de relance de Sufa para Donald. Ela não esperava ser separada do grupo e sabia muito bem que Donald achava que deviam continuar juntos.

— E os outros? — indagou Suzanne. Tentou interpretar a fisionomia de Donald, mas não conseguiu entender o que ele esperava que ela fizesse.

— Arak tratará de suas acomodações — disse Sufa. — Cada um deles ficará no seu próprio bangalô.

— Esperávamos continuar juntos — disse Suzanne.

— Mas vão — disse Arak. — Este palácio e o terreno onde ele se encontra são apenas para os visitantes. Vocês comerão juntos e, se pre­ferirem, podem dormir juntos nos chalés.

Os olhos de Suzanne e Donald se encontraram. Donald encolheu os ombros. Presumindo que ele assim estava lhe permitindo tomar sua própria decisão, ela saiu da nave. Sufa a seguiu. Um momento depois, o disco silenciosamente atravessou o gramado e parou num chalé pró­ximo.

— Venha! — chamou Sufa. Havia começado a percorrer o cami­nho que levava ao chalé, mas havia se virado quando viu que Suzanne não estava atrás dela.

Suzanne tirou os olhos da nave e correu para alcançar a anfitriã.

— Vai se encontrar com seus amigos para uma refeição em breve — disse Sufa. — Só quero me certificar de que suas acomodações estão aceitáveis. Além do mais, achei que gostaria de dar um mergulho refrescante antes de comer. Esse foi meu primeiro desejo quando emergi da descontaminação.— Você passou pelo que nós passamos? — indagou Suzanne.

— Sim — confirmou Sufa. — Mas foi há muito tempo, mesmo. Aliás, há várias vidas.

— Como é que é? — indagou Suzanne. Achou que não tinha ouvido bem. Aquela frase, várias vidas, não tinha feito nenhum sen­tido.

— Venha! — disse Sufa. — Precisamos acomodá-la. As perguntas podem esperar. — Pegou o braço de Suzanne. Juntas elas subiram al­guns degraus que partiam do caminho e levavam ao interior do chalé.

Suzanne parou logo depois da porta, extasiada com a decoração. Em um contraste vivido com o negro exterior, o interior era quase ex­clusivamente branco: mármore branco, caxemira branca e múltiplas superfícies espelhadas. Aquilo fazia Suzanne se lembrar do alojamento onde ela havia recentemente dormido, mas numa escala muito mais requintada. Um dos detalhes acrescentados era uma piscina azul-anil que se estendia da parte interna do quarto até o exterior. A piscina era alimentada por uma cascata que saía da parede.

— Os aposentos não lhe agradaram? — indagou Sufa, preocupa­da. Estivera estudando a expressão de Suzanne e confundira seu assom­bro com insatisfação.

— Se gostei ou não, não vem ao caso — disse Suzanne. — Isso aqui é incrível!

— Mas queremos que se sinta confortável — disse Sufa.

— E os outros? — perguntou Suzanne. — Os aposentos deles são semelhantes a esse?.

— São idênticos — disse Sufa. — Todos os chalés de visitantes são iguais. Mas se precisar de mais alguma coisa, por favor, me diga. Tenho certeza de que poderemos providenciar.

Os olhos de Suzanne se deslocaram para a enorme cama redonda, que estava sobre uma plataforma de mármore no centro do quarto. Um enorme dossel se encontrava pendurado sobre ela. De toda a volta pen­diam apanhados de um tecido imaculadamente branco.— Talvez possam me dizer o que acha que está faltando — disse Sufa.

— Não está faltando nada — disse Suzanne. — O quarto é de ti­rar o fôlego.

— Então gosta mesmo dele — disse Sufa, aliviada.

— É deslumbrante — disse Suzanne. Estendendo a mão, tocou a parede de mármore. A superfície era polida a ponto de parecer um per­feito espelho, e era cálida como que aquecida por uma radiação interna.

Sufa foi até um armário que se estendia por toda a parede da direi­ta. Indicou a extensão dele.

— Aqui dentro há aparelhos de som e vídeo, roupas extras, revis­tas e livros na sua língua, uma ampla geladeira com alguns produtos alimentícios, artigos de higiene pessoal que vai reconhecer, e quase tudo de que possa precisar.

— Como devo abri-lo? — indagou Suzanne.

— Basta usar um comando de voz — disse Sufa, simplesmente. Ela apontou para uma das duas portas da parede diante do armário. — As instalações pessoais ficam logo ali.

Suzanne foi até Sufa, ficando de pé perto dela e de frente para o armário.

— O que exatamente devo dizer?

— Diga o que quer — explicou Sufa. — Depois use uma exclama­ção, como "por favor", ou "agora".

— Comida, por favor! — disse Suzanne, meio sem jeito.

Mal ela pronunciou as palavras, uma das portas do armário se abriu e mostrou uma geladeira de bom tamanho com recipientes de líquido e comida de variável consistência e cor.

Sufa se inclinou e inspecionou o interior do aparelho. Examinou alguns recipientes.

— Eu sabia — disse, endireitando a coluna. — Acho que puseram apenas a seleção padronizada, embora eu tenha pedido algumas coisas especiais. Mas não importa. Um clone operário irá trazer tudo que pos­sa desejar.— Como assim, "clone operário"? — indagou Suzanne. O termo lhe pareceu assustador.

— Os clones operários são os servos — disse Sufa. — Fazem todo o trabalho manual aqui em Interterra.

— Eu já vi algum? — indagou Suzanne.

— Ainda não — disse Sufa. — Eles preferem não ser vistos, até serem chamados. Preferem a companhia de seus iguais e suas próprias acomodações.

Suzanne fez que entendia com a cabeça, mas não era do jeito que Sufa pensava. Fez aquele meneio porque sabia que na maioria das situa­ções em que havia intolerância, o grupo dominante sempre atribuía aos oprimidos atitudes que faziam os opressores se sentirem melhor diante da opressão.

— E esses clones operários são clones mesmo? — perguntou Suzanne.

— Certamente — disse Sufa. — Já são clonados há várias eras. A origem deles foram os hominídeos primitivos, algo semelhante ao que o seu povo chama de neandertais.

— Como assim, nosso povo? — indagou Suzanne. — O que nos faz diferentes de vocês além do fato de serem tão deslumbrantes?

— Por favor... — implorou Sufa.

— Já sei, já sei — repetiu Suzanne, frustrada. — Não devo fazer nenhuma pergunta, mas suas respostas às perguntas mais simples sem­pre exigem alguma explicação.

Sufa riu.

— Você está confusa, eu sei — disse. — Mas estamos só pedindo um pouco de paciência. Como já explicamos, aprendemos com a experiência que é melhor ir devagar quando se trata da introdução ao nosso mundo.

— O que significa que já receberam visitantes como nós antes — disse Suzanne.

— É claro — disse Sufa. — Já tivemos muitos, durante os últimos dez mil anos, mais ou menos.A boca de Suzanne abriu-se devagar até ficar escancarada.

— Disse dez mil anos?

— Disse — confirmou Sufa. — Antes disso não nos interessáva­mos pela sua cultura.

— Está insinuando que...

— Por favor — Sufa interrompeu. Deu um profundo suspiro. — Chega de perguntas, a menos que sejam sobre as acomodações. Devo insistir.

— Está bem — disse Suzanne. — Vamos voltar aos clones operá­rios. Como chamo um?

— Comando de voz — disse Sufa. — É igual a quase tudo em Interterra.

— Digo apenas "clone operário"? — indagou Suzanne.

— "Clone operário" ou só "operário" — disse Sufa. — Depois, é claro, deve dizer uma palavra em tom de exclamação com a qual se sin­ta confortável. Mas a frase precisa ser exclamativa mesmo.

— Poderia fazer isso neste exato momento? — indagou Suzanne.

— Claro — disse Sufa.

— Operário, por favor — disse Suzanne. Ficou olhando nos olhos de Sufa. Nada aconteceu.

— Isso não foi uma exclamação — explicou Sufa. — Tente outra vez.

— Operário, por favor! — gritou Suzanne.

— Muito melhor — disse Sufa. — Mas não precisa falar tão alto. Não é o volume de voz que importa. É a intenção. Os humanóides pre­cisam saber sem a mínima sombra de dúvida que quer que eles apareçam. A atitude padrão deles é não vir, de modo a nos incomodarem o mínimo possível.

— Usou esse termo humanóide de propósito? — perguntou Suzanne.

— É óbvio — disse Sufa. — Os clones operários parecem muito humanos, embora sejam uma fusão de elementos andróides, partes biomecânicas interconectadas e partes de hominídeos. São meio máquinas, meio organismos vivos, que convenientemente cuidam de si próprios e até se reproduzem.

Suzanne olhou para Sufa com uma expressão de espanto que tam­bém passava descrença e consternação. Sufa interpretou-a como medo.

— Mas não tema — disse Sufa. — É muito fácil lidar com eles, e são extremamente prestativos. Aliás, são criaturas maravilhosas, como sem dúvida irá descobrir. O único problema é que, como seus antepassados hominídeos específicos, são mudos — mas nos entendem perfeitamente.

Suzanne continuou a olhá-la, assombrada. Antes que pudesse fazer nova pergunta, uma das portas à frente do armário se abriu e entrou uma mulher escultural. Suzanne viu que estava esperando um autôma­to grotesco, mas a mulher que estava diante dela era de uma beleza as­sustadora, com feições clássicas e cabelos louros, pele de alabastro e olhos escuros e penetrantes. Estava de uniforme de cetim negro, de mangas compridas.

— Eis um exemplo muito bom de clone operário feminino — dis­se Sufa. — Vai notar que ela está com brincos de argolas. Todos os usam, por algum motivo que nunca entendi, embora creia que tem alguma coisa a ver com seu orgulho ou linhagem. Também vai notar que ela é muito bonita, bem como as versões masculinas. Mas, o mais importan­te é que ela realizará todos os seus desejos. Seja lá o que for que quiser, basta lhe dizer que ela tentará contentá-la, chegando mesmo quase a se ferir.

Suzanne fitou os olhos da mulher; pareciam lagos negros. Suas fei­ções eram tão esculturais e atraentes quanto as de Sufa, mas não havia nelas indício de expressão.

— Ela tem nome? — indagou Suzanne.

— É óbvio que não — disse Sufa, soltando uma risadinha. — Isso certamente complicaria as coisas. Não íamos querer que nossa relação com os operários se tornasse pessoal. Em parte é por isso que eles nunca foram programados para falar.

— Mas ela fará tudo que eu pedir?— Sem dúvida — disse Sufa. — Qualquer coisa. Pode recolher suas roupas, lavá-las, preparar seu banho, reabastecer sua geladeira, lhe dar uma massagem, até mudar a temperatura da água da piscina. Tudo que quiser ou de que precisar.

— No momento acho que seria melhor ela ir embora — disse Suzanne, e estremeceu imperceptivelmente. A idéia de ter alguém meio ser vivo e meio máquina por perto era inquietante.

— Vá embora, por favor! — disse Sufa. A mulher se virou e saiu tão silenciosa quanto entrara. Sufa voltou a olhar Suzanne. — Natural­mente, da próxima vez que chamar um clone operário, virá um diferen­te. Vem aquele que estiver disponível.

Suzanne fez sinal de estar entendendo, mas não estava.

— De onde eles vêm?

— Do subterrâneo — disse Sufa.

— Como assim, moram em cavernas? — perguntou Suzanne.

— Acho que sim — disse Sufa, vagamente. — Nunca estive por lá, nem sei de ninguém que tenha estado. Mas já chega de clones operá­rios! Precisamos levá-la à sala de jantar! Gostaria de nadar ou tomar um banho? Você é quem decide, mas não temos muito tempo.

Suzanne engoliu em seco. A garganta estava seca. Diante de tudo que lhe haviam mostrado, ela achava difícil tomar até mesmo uma de­cisão simples. Olhou para a piscina. Sua cor, agora mais verde-azulada do que azul-anil, era tão convidativa quanto sua superfície levemente trêmula.

— Talvez um mergulho seja uma boa — disse Suzanne.

— Excelente — disse Sufa. — Há roupas limpas no armário. E sapatos também, devo acrescentar.

Suzanne assentiu.

— Vou aguardar lá fora — disse Sufa. — Tenho a sensação de que será bom que fique sozinha alguns minutos para recuperar o fôlego.

— Acho que é melhor mesmo — disse Suzanne.

 

A sala de jantar ficava em um edifício semelhante em tamanho e forma aos chalés, porém sem camas. Também era aberta para o exterior, porém dava para o impressionante pavilhão central, em vez de para os extensos gramados e moitas de samambaias. Sua longa mesa central era semelhan­te àquela que havia nos alojamentos do setor de descontaminação. As espreguiçadeiras acolchoadas pareciam as mesmas também.

O grupo havia chegado de seus alojamentos individuais mais ou menos ao mesmo tempo, em disposições de espírito visivelmente dis­tintas com relação às circunstâncias. Richard e Michael recusavam-se intencionalmente a reconhecer qualquer receio. Estavam completamente empolgados, como duas crianças soltas no parque temático dos seus sonhos, e com a intenção de aproveitar qualquer privilégio a eles conce­dido. Perry também estava entusiasmado com as possibilidades ineren­tes àquele mundo novo, mas demonstrava menos alegria do que os levianos mergulhadores. Suzanne estava mais confusa do que empolgada. Continuava a entreter a idéia de que estavam experimentando uma es­pécie de alucinação coletiva de acordo com a predileção de cada um. Ao contrário de todos os outros, Donald estava taciturno, convencido de que aquilo tudo era um delírio proposital e requintado que os leva­ria todos a algum desfecho nefando.A conversa girou em torno da viagem de disco e as maravilhas das acomodações deles. Richard e Michael eram os mais animados, espe­cialmente depois que souberam que a clone operária de Suzanne era do sexo feminino. Richard fez uma insinuação quanto aos possíveis dese­jos que uma criatura assim tão submissa poderia satisfazer.

Suzanne ficou horrorizada, e lhe disse, com a maior clareza:

— Tente agir como se pertencesse a uma raça civilizada!

O alimento era semelhante ao que haviam tomado nos aposentos da área de descontaminação, com a mesma variação curiosa no sabor percebido por cada um, embora fosse apresentado em pratos elabora­dos, para que cada um se servisse. Os pratos foram trazidos por dois homens extremamente belos, vestidos com macacões de cetim negro e mangas compridas, com zíperes frontais. Os dois usavam um brinco de argola.

De repente, Donald arremessou o garfo de ouro com força sobre o prato de ouro. O estardalhaço foi surpreendentemente alto naquela sala de mármore, ao reverberar nas paredes de pedra. Richard parou no meio de uma frase, enquanto descrevia o mergulho que havia dado em sua piscina, com a boca cheia do que insistia ser uma grande quantidade de sundae com calda quente de chocolate. Suzanne pulou de medo, e dei­xou cair o garfo também, com um ruído um pouco menos espalhafato­so, o que lhe provou mais uma vez como estava tensa. Michael engasgou-se com o que dizia ser torta de batata-doce.

— Como vocês conseguem comer nessas circunstâncias? — ber­rou Donald.

— Que circunstâncias? — indagou Richard, a boca ainda cheia de comida. Os olhos rapidamente percorreram a sala de um lado a outro, com medo que o lugar houvesse sido invadido.

Donald inclinou-se para Richard.

— Que circunstâncias? — repetiu, com um deboche evidente, enquanto sacudia a cabeça, assombrado e desdenhoso. — O que jamais vou conse­guir entender nesses mergulhadores saturados é se eles precisam ser burros para quererem fazer isso, ou se são a pressão e o gás inerte que destroem o punhado de neurônios que eles talvez tivessem quando começaram.

— De que raio você está falando? — perguntou Michael, ofendendo-se imediatamente.

— Vou lhe dizer já, já do que estou falando — retrucou Donald. — Olha só em volta de você! Onde diabos nós estamos? O que estamos fazendo aqui? Quem são essas pessoas assim vestidas como se estives­sem indo para algum baile universitário à fantasia?

Durante alguns minutos se fez silêncio. Todos evitaram o olhar fuzilante de Donald. Eles andavam evitando escrupulosamente essas perguntas.

— Eu sei onde estamos — disse Richard, afinal. — Estamos em Interterra.

— Ai, meu pai do céu — exclamou Donald, erguendo as mãos, de tão exasperado. — Nós estamos em Interterra — repetiu. — Isso expli­ca tudo. Muito bem, deixa eu te contar, isso não explica nada. Não ex­plica onde estamos, nem o que estamos fazendo aqui, nem quem são essas pessoas. E agora eles nos isolaram convenientemente em vários aposentos individuais.

— Disseram que nos contariam tudo que queremos saber — justi­ficou-se Suzanne. — Pediram-nos que fôssemos pacientes.

— Pacientes! — zombou Donald. — Vou lhe dizer o que estamos fazendo aqui... Somos prisioneiros!

— E daí? — disse Richard.

O silêncio voltou a reinar. Michael depôs o garfo, desanimado diante da explosão de Donald. Richard voltou a apreciar a sobremesa, sem des­viar os olhos de Donald, no maior atrevimento. Suzanne e Perry simples­mente assistiram a tudo, bem como os clones operários mudos.

Richard abocanhou mais um tanto da sobremesa. Com a boca ain­da cheia, disse:

— Se somos prisioneiros, quero ver como esse pessoal trata os amigos. Quero dizer, olha só esse lugar. É fantástico! Se não quiser co­mer, Fuller, então não coma! Eu gostei disso aqui, então vá se danar!Donald pôs-se de pé num salto com a intenção de alcançar Richard por sobre a mesa e acertar-lhe um murro. Perry interveio antes que eles pudessem chegar às vias de fato.

— Ei, parem aí, vocês dois — berrou Perry. — Parem de se provo­car! Nada de brigas entre nós. Além disso, estão ambos certos. Não sa­bemos nada sobre o que é isso aqui, onde fica nem por que estamos aqui, mas estamos sendo bem tratados. Talvez até bem demais.

Perry soltou o braço de Donald e quando sentiu o homem relaxar, lançou um olhar para os clones operários imóveis, imaginando se aque­la explosão momentânea os incomodaria. Mas não incomodou. Os ros­tos deles estavam tão imóveis e inexpressivos quanto haviam estado durante toda a refeição.

Donald seguiu a linha de visão de Perry enquanto ajeitava a túnica.

— Está vendo o que eu disse? — resmungou. — Eles até botam esses carcereiros para nos vigiar enquanto comemos.

— Não sei se é isso mesmo — disse Suzanne. Depois, em alta voz, acrescentou: — Operários, por favor, vão embora!

Sem darem sinal de terem tomado conhecimento da ordem de Suzanne, os clones desapareceram através de uma das três portas de saí­da da sala de jantar.

— Pronto, agora os garçons já não podem mais nos vigiar — disse Suzanne.

— Isso não significa nada — disse Donald. Os olhos dele exami­naram o lugar. — Provavelmente há microfones ocultos e câmeras em toda essa sala.

— Ora — disse Michael. — Olhando esse garfo e essa faca, fiquei pensando. Será que isso é ouro mesmo, ou não?

Suzanne pegou seu garfo para avaliar o peso.

— Estive pensando nisso antes — disse. — Surpreendentemente, acho que é ouro, sim.

— Não brinca! — disse Michael. Pegou o prato e avaliou o peso dos dois objetos. — Temos uma pequena fortuna aqui.— Estamos sendo bem tratados no momento — disse Donald, voltando ao tópico principal.

— Acha que o tratamento vai mudar? — indagou Perry.

— Pode mudar de uma hora para a outra — disse Donald, com um estalar dos dedos. — Assim que eles conseguirem o que querem, sabe lá o que vai acontecer? Estamos completamente vulneráveis.

— Pode ser que mude, mas acho que não — disse Suzanne.

— Como pode ter tanta certeza? — disse Donald.

— Não tenho certeza — admitiu Suzanne. — Mas me parece óbvio. Olhe só em torno de nós. Essas pessoas, sejam lá quem forem, são muito avançadas. Não precisam de nada que possamos lhes dar. Aliás, acho que nós é que precisamos aprender coisas extraordiná­rias com elas.

— Sei que andamos evitando o assunto — disse Perry. — Mas quando diz que são muito avançadas, está insinuando que essas pessoas são extraterrestres?

A pergunta de Perry causou novo momento de silêncio. Ninguém sabia muito bem o que pensar, muito menos o que dizer.

— Quer dizer, gente de outro planeta? — disse Michael, afinal.

— Não sei bem o que estou insinuando — disse Suzanne. — Mas todos já experimentamos aquela viagem incrível no disco. Deve repre­sentar algum tipo de tecnologia de levitação magnética da qual nenhum de nós jamais ouviu falar. E supõe-se que estamos sob o oceano, algo em que eu ainda não consigo acreditar. Mas preciso dizer a todos. A descontinuidade de Mohorovicic realmente existe, e ninguém jamais conseguiu explicá-la.

Richard descartou a idéia com um gesto de desprezo.

— Essa gente não é extraterrestre. Meu Deus, viram aquelas gati­nhas? Porcaria, eu já vi um monte de filmes sobre alienígenas, e eles certamente não se parecem com essa gente!

— Podem ter alterado a aparência para ficar de acordo com nossas preferências — disse Suzanne.— Sim — disse Michael. — Foi isso que pensei no início. Estamos sonhando que eles parecem tão bonitos.

— É por isso que não estou nem aí — disse Richard. — É o que está na minha cabeça que importa. Se os acho bonitos, então são bonitos.

— O que me preocupa são os motivos deles — disse Donald. — Não viemos parar aqui por acidente. É mais do que evidente que fomos literalmente sugados para o fundo daquela chaminé. Eles querem algu­ma coisa de nós, senão já estaríamos mortos.

— Acho que está certo quando diz que fomos trazidos para cá propositalmente — disse Suzanne. — Sufa admitiu várias coisas para mim. Primeiro, confirmou que passamos por uma descontaminação.

— Mas fomos descontaminados, por quê? — perguntou Perry.

— Ela não disse — disse Suzanne. — Mas admitiu que já vieram visitantes como nós aqui antes.

— Ora, mas que interessante — disse Donald. — Ela disse o que foi feito deles?

— Não disse, não — disse Suzanne.

— Bom, vocês podem se preocupar até caírem doentes — comen­tou Richard. Depois inclinou a cabeça para trás e gritou: — Clones operários, venham cá!

Instantaneamente apareceram dois humanóides, um de sexo mas­culino e um de sexo feminino. Richard deu uma olhada na mulher e olhou de relance para Michael, de um jeito conspirador.

— Que boazuda! — sussurrou com uma empolgação incontida.

— Richard — advertiu Suzanne —, quero que prometa que não vai fazer nada que nos constranja ou comprometa como grupo.

— Mas o que você pensa que é, minha mãe? — retrucou ele. De­pois olhou de relance para a operária e disse: — Que tal me servir mais um pouco dessa sobremesa, docinho-de-coco?

— Também quero — disse Michael. Bateu com o garfo de ouro no prato de ouro.

Donald começou a se erguer, mas Perry tornou a contê-lo.— Nada de brigas — disse Perry. — Não vai nos levar a lugar ne­nhum.

Richard sorriu provocador para Donald, curtindo a frustração e a raiva do outro.

O som delicado de sinos chineses interrompeu a música de fundo suave e ecoou na sala. Um momento depois Arak surgiu, solenemente. Estava vestido com as roupas de costume, mas com um pequeno acrés­cimo. Em torno do pescoço trazia uma fita de veludo azul simples que combinava perfeitamente com o tom de azul de seus olhos. Estava ata­da, formando um laço simples.

— Olá, meus amigos — disse, exuberante. — Suponho que a re­feição tenha sido do seu agrado.

— Estava deliciosa — disse Richard. — Mas do que é feita?, que­ro dizer, não se parece com nada do qual tenha sabor.

— É em sua maior parte constituída de proteínas planctônicas e carboidratos de origem vegetal — disse Arak. Esfregou as mãos, entusiasticamente. — E então? E a comemoração que mencionei a vocês antes? Não fazem idéia do número de pessoas aqui de Saranta que se encontram extremamente felizes com sua chegada à nossa cidade. Tive­mos que recusar a entrada a muita gente. Sabem, não estamos numa cidade que receba muitos visitantes do seu mundo: certamente não como Atlântida, ao leste, ou Barsama, a oeste. Todos estão ansiosos para conhecê-los. Isso nos leva à pergunta principal: gostariam de vir até o pavilhão, ou estão cansados demais devido à descontaminação?

— Onde ele fica? — perguntou Michael.

— Bem ali — disse Arak, apontando para a extremidade aberta da sala de jantar. — A comemoração vai ser no pavilhão aqui do palácio dos visitantes. É muito conveniente. Aliás, fica a uma distância de pou­co mais de cem metros, portanto podemos ir andando até lá. O que dizem todos?

— Conte comigo — disse Richard. — Jamais recuso um convite para uma festa.— Nem eu — disse Michael.

— Esplêndido! — disse Arak. — E o restante de vocês? Fez-se um silêncio constrangedor. Perry acabou pigarreando.

— Arak, para lhe dizer a verdade, estamos um pouco nervosos.

— Eu usaria uma palavra mais forte — disse Donald. — Franca­mente, antes de fazermos seja lá o que for, gostaríamos de ter alguma idéia de quem vocês são e por que estamos aqui. Sabemos que nossa presença aqui não foi fruto do acaso. Vou ser curto e grosso: sabemos que fomos abduzidos.

— Compreendo suas preocupações e sua curiosidade — disse Arak. Abriu as palmas das mãos viradas para cima, em um gesto conciliador. — Mas, por favor, apenas por esta noite, permitam que minha experiên­cia prevaleça. Já lidei com visitantes no nosso mundo antes, não em grande número, é verdade, e não num grupo tão grande, mas ainda as­sim o suficiente para saber o que é melhor. Amanhã responderei todas as suas perguntas.

— Por que essa espera? — quis saber Donald. — Por que não nos diz logo agora?

— Não percebe como o procedimento de descontaminação foi estressante — disse Arak.

— Pode pelo menos nos dizer quanto tempo ele durou? — inda­gou Suzanne.

— Pouco mais do que um dos meses de vocês — disse Arak.

— Ficamos dormindo por mais de um mês? — indagou Michael, incrédulo.

— Essencialmente, sim — disse Arak. — E isso é estressante para o cérebro e para o corpo. amanhã terão que absorver mais informações surpreendentes. Já aprendemos que é mais fácil absorvê-las quando nossos visitantes estão descansados. Até mesmo uma noite faz uma di­ferença tremenda. Portanto, por obséquio, relaxem hoje, seja aqui jun­tos ou sós em seus chalés, ou, o que seria ainda melhor, na nossa comemoração pela sua chegada.Perry estudou o rosto de Arak. Os olhos azuis do homem sustenta­ram-lhe o olhar e lhe transmitiram uma sinceridade que ele não pôde negar.

— Está bem — concordou. — A essa altura eu não acho que possa dormir, mesmo. Então irei, mas amanhã vou cobrar sua promessa.

— É justo — disse Arak. Olhou para Suzanne. — E a Dra. Newell, do que gostaria?

— Eu também vou — respondeu Suzanne.

— Maravilha — disse Arak. — E o senhor, Sr. Fuller? Qual é sua decisão?

— Não — disse Donald. — Sob as circunstâncias atuais, acharia muito difícil participar de uma comemoração.

— Muito bem — disse Arak esfregando as mãos outra vez, num contentamento evidente. — Isso é mesmo incrível. Estou satisfeito pela maioria de vocês vir. Haveria muita gente decepcionada se eu voltasse sozinho. Sr. Fuller, compreendo seus sentimentos e os respeito. Por favor, aprecie o seu repouso. Os clones operários o assistirão no que for preciso.

Donald concordou, mal-humorado.

— Agora, vamos — disse Arak aos outros. Dirigiu-se à extremida­de aberta da sala de jantar.

— Haverá comida nessa festa? — indagou Richard.

— Mas é claro — disse Arak. — Da melhor qualidade que Saranta puder oferecer.

— Então não vou repetir a sobremesa — disse Richard. Jogou a colher no prato, ergueu-se, espreguiçou-se e soltou um forte arroto.

Suzanne olhou-o, furiosa.

— Richard, mostre um pouco de respeito pelos outros, se não con­segue respeitar a si mesmo.

— Mas eu procuro mostrar respeito, sim — disse Richard, com um sorriso malicioso. — Evitei peidar na presença de acompanhantes tão seletos.

Arak riu.— Richard, você vai fazer um sucesso enorme. Você é maravilho­samente primitivo.

— Está me gozando? — indagou Richard.

— Não, de jeito nenhum — disse Arak. — Vão querer sua com­panhia o tempo todo. Eu lhe garanto. Vamos! Vamos apresentar vocês! — Com um gesto, Arak começou a andar na direção da extremidade aberta da sala.

— Tá legal! — disse Richard, fazendo um sinal de positivo com os polegares para Michael, entusiasmado. Michael retribuiu com exube­rância semelhante.

— Vamos cair na gandaia! — berrou Michael. Os dois mergulha­dores seguiram Arak, ávidos por diversão.

Suzanne olhou para Perry, que deu de ombros e disse:

— Isso é maluquice, ir a uma festa sob essas circunstâncias, mas talvez consigamos encarar.

Depois olhou de relance para Donald.

— Tem certeza de que não quer vir?

— Tenho — disse Donald, taciturno. — Mas se vocês dois que­rem confraternizar, fiquem à vontade.

— Eu vou porque talvez descubra mais alguma coisa — disse Suzanne. — Não para confraternizar com ninguém, como disse.

— Vamos! — disse Perry, do outro lado da sala.

— Até mais tarde — despediu-se Suzanne. Correu atrás de Perry e dos outros, que já estavam atravessando o gramado.

Donald ficou remoendo o que Arak havia dito. Só tinha certeza de que não confiava nele. Do ponto de vista de Donald, o cara era gentil demais. Toda aquela fantástica hospitalidade devia ser algum tipo de armadilha. Mas Donald não sabia ainda para que fim, a não ser baixar a defesa deles.

Donald virou-se e olhou para a extremidade da sala. O grupo já ia a meio caminho em direção ao pavilhão com colunas, as silhuetas con­trastando com o exterior iluminado do edifício. Redirecionando o olhar, Donald fitou os dois clones operários, que estavam imóveis, de pé aolado, contra a parede. Pareciam tão humanos que era difícil para Donald crer que fossem parte máquinas como Arak havia dito. Talvez fosse ape­nas mais uma mentira, pensou Donald.

— Operário, quero mais bebida — disse Donald.

O clone operário feminino imediatamente pegou a jarra na mesinha auxiliar e foi até a mesa. Seus cabelos até os ombros eram cor-de-canela. Ela tinha uma pele clara e translúcida. Inclinando-se começou a encher a taça de Donald.

Donald subitamente agarrou-lhe o pulso, sem avisar. A pele dela estava fria, sob seus dedos. Ela não pulou, nem reagiu de nenhuma for­ma. Em vez disso, continuou a despejar o líquido na taça.

Donald apertou, tentando fazê-la reagir, mas foi em vão. A mulher terminou de encher a taça, apesar do aperto de Donald. Donald ficou estupefato. A mulher era imensamente forte.

Inclinando a cabeça para trás, Donald olhou para o rosto inexpressivo dela. Ela não tentou se livrar, mas, em vez disso, retribuiu o olhar dele com um olhar vago. Donald soltou-lhe o braço.

— Qual é o seu nome? — indagou.

Ela não reagiu verbalmente, nem de nenhuma outra forma. Além do movimento rítmico de respiração não se viu nenhum outro. Ela nem mesmo piscava.

— Clone operário, fale! — ordenou Donald.

O silêncio continuou. Donald olhou para o clone operário mascu­lino, mas nem ele reagiu.

— Por que vocês trabalham e os outros, não? — perguntou Donald. Nenhum dos dois clones reagiu.

— Tá legal — disse Donald. — Operários, saiam!

Instantaneamente os dois operários foram até a porta pela qual ha­viam entrado e desapareceram. Donald se levantou e abriu a porta. Além dela, uma escadaria descia, imergindo nas trevas.

Fechando a porta, Donald foi até a extremidade aberta da sala. Contemplou a cena. A luz, que antes estava tão brilhante, havia esmaecido, como se o sol inexistente estivesse quase se pondo. Donald só conseguiu distinguir vagamente Arak e os outros se aproximando do pavilhão. Sacudiu a cabeça. Imaginou outra vez se não estaria sonhan­do. Tudo parecia tão bizarro, porém perturbadoramente real. Apalpou os braços e o rosto. Estavam normais ao toque.

Donald inspirou profundamente. Sabia intuitivamente que estava diante da missão mais difícil da sua carreira. Esperava que seu treina­mento não o deixasse na mão, sobretudo o treinamento de prisioneiro de guerra.

 

Alo vocabulário escatológico particular deles, Richard e Michael es­tavam "se cagando de medo", mas tacitamente concordavam em negar isso. Exatamente como em relação aos perigos do mergulho saturado, reagiam com bravatas machistas distorcidas, que visavam ocultar seus verdadeiros sentimentos.

— Acha que aquelas garotas que vimos antes estarão aqui na festa?

— perguntou Richard a Michael. Haviam ficado para trás dos outros alguns passos durante a caminhada para o pavilhão.

— A esperança é a última que morre — respondeu Michael. Caminharam em silêncio alguns instantes. Conseguiam escutar Arak conversando com Suzanne e Perry, mas não procuraram prestar atenção ao que eles diziam.

— Acha mesmo que ficamos dormindo durante mais de um mês? — perguntou Michael.

Richard parou de repente.

— Você não está querendo gozar com a minha cara, está?

— Não! — insistiu Michael. — Estava só perguntando. — O sono nunca havia sido para Michael o lenitivo que era para os outros. Quan­do criança, seu sono costumava ser perturbado por pesadelos. Depois que ia dormir, o pai dele chegava bêbado e espancava a mãe. Quando ele acordava, tentava interferir, mas o resultado era sempre o mesmo: Michael também acabava apanhando. Infelizmente, o processo do sono ficou inextricavelmente associado a esses episódios, de forma que, para Michael, a idéia de ficar dormindo durante um mês era fonte de um nervosismo enorme.

— Alô! — disse Richard, dando uma série de tapinhas no rosto de Michael. — Está me ouvindo?

Michael desviou os golpes irritantes de Richard.

— Pare com isso!

— Lembre-se de que não vamos nos preocupar com essa porra — disse Richard. — Tem alguma coisa de podre acontecendo por aqui, sem a menor sombra de dúvida, mas foda-se o mundo. Vamos nos di­vertir, não vamos ficar nos comportando que nem aquele babaca do Fuller. Meu Deus! Quando escuto ele falando, fico feliz por termos sido expulsos daquela bosta de marinha. Senão, íamos estar recebendo or­dens de bundões como ele.

— É claro que vamos nos divertir — insistiu Michael. — Mas eu estava só pensando, sabe como é, é muito tempo pra se ficar apagado.

— Bom, então, não pense! — disse Richard. — Senão vai pirar.

— Tá legal! — disse Michael.

Suzanne chamou-os, para que se reunissem aos outros três. Ela e os outros estavam aguardando.

— E ainda por cima, ainda temos de aturar essa dona aí bancando a mãezona — acrescentou Richard.

Os dois mergulhadores alcançaram o restante do grupo, que parou ao pé dos degraus que levavam até a entrada do pavilhão.

— Tudo bem aí? — perguntou Suzanne a eles.

— Chuchu beleza — respondeu Richard, forçando um sorriso.

— Arak acabou de nos dizer uma coisa que vocês dois podem achar interessante — disse Suzanne. — Presumo que notaram que está escu­recendo como se o sol tivesse se posto.

— Nós notamos — disse Richard, ranzinza.— Eles têm noite e dia aqui embaixo — disse Suzanne. — E apren­demos que a luz vem de bioluminescência.

Os dois mergulhadores inclinaram as cabeças para trás para olhar direto para cima.

— Estou vendo estrelas — disse Michael.

— Esses são pontos relativamente pequenos de bioluminescência azul esbranquiçada — explicou Arak. — Era nossa intenção recriar o mundo como o conhecíamos, o que certamente incluía o ciclo circadiano. A di­ferença em relação ao seu mundo é que nossos dias e noites são maiores, e têm a mesma duração o ano inteiro. É claro que nossos anos também são mais compridos.

— Então viveram no mundo exterior antes de virem para cá — disse Suzanne.

— Exato — disse Arak.

— Quando foi que se mudaram? — indagou Suzanne. Arak ergueu as mãos, defensivamente. Depois riu.

— Estamos pondo o carro adiante dos bois. Não devo incentivá-los a fazer perguntas esta noite. Lembrem-se, o dia de fazer isso é amanhã.

— Só mais umazinha — disse Perry. — É fácil de responder, te­nho certeza. De onde tiram a energia que usam aqui embaixo?

Arak suspirou, exasperado.

— É a última pergunta, eu juro — disse Perry. — Pelo menos esta noite.

— E você é homem de palavra? — indagou Arak.

— Mas sem dúvida — disse Perry.

— Nossa energia vem de duas fontes principais — disse Arak. — Primeiro, geotérmica, proveniente de uma interligação nossa com o núcleo da Terra. Mas isso gera o problema dé eliminar o calor excessi­vo, o que fazemos de duas formas. Uma delas é permitindo que o magma suba pelo o que vocês chamam de cadeia meso-oceânica, e a segunda é o resfriamento por meio de circulação de água do mar. A troca térmica com água do mar exige um grande volume de líquido, o que nos oferece oportunidade para filtrar nosso plâncton. A desvantagem é que o processo gera correntes oceânicas, mas vocês aprenderam a conviver com elas, especialmente aquela que chamam de Corrente do Golfo.

"A segunda fonte de energia provém da fusão. Cindimos as molé­culas de água, formando oxigênio, que respiramos, e hidrogênio, que fundimos. Mas esse é o tipo de debate que teremos amanhã. Hoje gos­taria que simplesmente vivenciassem nosso mundo e se divertissem, principalmente se divertissem."

— E pretendemos fazer justamente isso — disse Richard. — Mas diga lá, essa festa aí vai ser regada ou não?

— Temo que este termo não me seja familiar — disse Arak.

— Isso se refere principalmente ao álcool — disse Richard. — Vocês têm algum por aqui?

— Mas é claro — disse Arak. — Vinho, cerveja e uma bebida alcoólica particularmente pura que chamamos de cristal. O vinho e a cerveja são semelhantes aos que vocês conhecem. Mas o cristal é dife­rente, e aconselho-os a irem com calma até se acostumarem com ele.

— Não se apoquente, irmãozinho — disse Richard. — Michael e eu somos catedráticos nisso.

— Vamos cair na gandaia! — disse Michael, entusiasticamente. Perry e Suzanne tiveram que ser empurrados para prosseguirem.

Ambos estavam encantados com as explicações de Arak, especialmente Suzanne. De uma hora para outra, ela havia obtido as respostas para dois dos mistérios da oceanografia, ou seja, por que o magma sai pelas cadeias meso-oceânicas e por que existem correntes oceânicas, especial­mente a Corrente do Golfo. As respostas a ambas as perguntas haviam escapado completamente aos cientistas.

O grupo subiu as escadas com Arak à frente. Quando passaram entre duas das colunas maciças que sustentavam o teto abobadado, Suzanne divisou a expressão excessivamente entusiasmada de Richard. Preocu­pada com o comportamento que ele teria sob a influência de tudo aqui­lo, inclinou-se para ele e murmurou:— Lembre-se de se comportar.

Richard olhou-a de relance. Sua expressão era de descrença e de­boche.

— Estou falando sério, Richard — acrescentou Suzanne. — Não temos idéia do que vamos enfrentar, e não queremos nos colocar sob risco maior do que já corremos. Se não puder deixar de beber, vá com calma.

— Vá para o inferno! — disse Richard. Acelerou o passo e al­cançou Arak bem na hora em que duas enormes portas de bronze se abriram.

A primeira coisa que veio ao encontro dos visitantes foi o murmú­rio de milhares de vozes empolgadas reverberando pelo vasto interior de mármore branco do pavilhão. O patamar ao qual subiram dava em uma varanda com balaustrada que circundava o salão circular. Juntos, os componentes do grupo foram até o alto de uma grandiosa escadaria e olharam para baixo.

— Mas isso é que é festa! — gritou Richard. — Meu Deus! Deve haver umas mil pessoas aqui.

— Poderia haver dez mil, se tivéssemos espaço para isso — disse Arak a eles.

No centro do imenso salão de baile, sob a cúpula, havia uma pisci­na redonda, iluminada de forma a parecer com uma enorme jóia de água-marinha polida porém não facetada. Em torno dela havia uma borda de trinta centímetros de altura por três metros de largura. Numerosas escadas ligavam a varanda ao piso inferior.

O andar térreo do pavilhão estava apinhado. Todos estavam vesti­dos com os mesmos trajes simples de cetim branco, exceto um ou outro clone operário, sempre de preto. Os clones operários carregavam enor­mes bandejas repletas de taças douradas e de petiscos. Todos os convi­dados traziam atada ao pescoço uma fita de veludo, como a de Arak. Apenas a cor variava, não o tamanho, nem a forma, ou o jeito de atá-la. E, como antes, todos eram incrivelmente belos.A notícia de que os visitantes haviam chegado espalhou-se como fogo no mato pela multidão. As conversas pararam, e os rostos se volta­ram para o alto. Foi impressionante ver tantas pessoas mudas de expec­tativa assim.

Arak ergueu as mãos acima da cabeça com as palmas na direção da platéia.

— Sejam todos muito bem-vindos! — cumprimentou. — Tenho o prazer de anunciar que todos os nossos visitantes, menos um, digna­ram-se comparecer a nossa comemoração de sua chegada a Saranta.

A multidão irrompeu em aplausos generalizados, todos de braços erguidos, imitando o gesto de Arak.

— Venham! — disse Arak. Gesticulou para que o grupo o seguisse, descendo a ampla escadaria.

Richard e Michael dispararam na frente, sôfregos, seguidos por Suzanne e Perry, que iam mais hesitantes.

— Isso é demais! — sussurrou Richard, extasiado. — Olha só que mulheres! Parece até uma festa noturna da Victoria's Secret!

— Todas elas mereceriam ser pôster central de uma revista mascu­lina — comentou Michael.

— É difícil manter-se distante, diante de tudo isso — sussurrou Suzanne a Perry. — Sinto-me como se estivéssemos estrelando uma superprodução de Cecil B. DeMille nos anos cinqüenta.

— Entendo o que está sentindo — disse Perry. — Também me dá uma idéia do que é ser um astro do rock. Essas pessoas estão mesmo felizes da vida por nos ver. E olha só como todos são jovens! A maior parte parece ter apenas vinte e poucos anos.

— É verdade, mas tem muitas crianças — disse Suzanne. — Es­tou vendo umas que não devem ter mais que três ou quatro anos.

— Não há muitos idosos — comentou Perry.

Ao final da escada, as pessoas recuaram quando o grupo desceu, mas assim que eles atingiram o piso, a multidão avançou com as mãos para cima, as palmas para a frente.Suzanne e Perry instintivamente recuaram alguns passos, apesar da óbvia receptividade da multidão. Richard e Michael, ao contrário, se deixaram cercar de gente. Os dois mergulhadores logo perceberam que a multidão queria contato físico com as mãos deles, e alegremente se dispuseram a tocar as palmas que buscavam as suas. Era uma saudação semelhante àquela que Arak havia usado com Suzanne, logo ao che­garem.

— Eu amo todos vocês — disse Richard, bem alto, para gáudio dos interterráqueos mais próximos, mas escolheu as palmas de mulhe­res jovens e belas enquanto atravessava a multidão. Em seu entusiasmo, até agarrou algumas, beijando-as — o que fez com que a festividade parasse de repente, em meio aos gritos com que as escolhidas reagiram.

Richard olhou as mulheres que havia beijado e imaginou, durante um breve momento, se devia recuar, subindo outra vez as escadas. As mulheres, deslumbradas, passaram as mãos nos lábios, depois examina­ram os dedos, como se esperassem ver sangue neles. Claramente, o bei­jo não fazia parte do repertório de saudações normal dos interterráqueos. Richard lançou um olhar arrependido a Michael, que estava igualmen­te tenso com a mudança repentina de comportamento da multidão.

— Não pude resistir — justificou-se Richard.

Três mulheres que ele havia beijado se entreolharam, e romperam em gargalhadas. Depois todas as três se jogaram simultaneamente sobre Richard para retribuírem o gesto. A multidão aplaudiu, maravilhada, e se comprimiu em torno dos mergulhadores ainda mais. Depois de várias tentativas desajeitadas de dar beijos, as três mulheres educadamente se afastaram para dar lugar a outras.

Um sorriso malicioso surgiu no rosto de Richard.

— Parece que vamos ensinar umas coisinhas a essas meninas — disse, sorrindo. Sentiu-se incentivado o suficiente para dar maiores de­monstrações de afeto. Michael, ao ver os êxitos de Richard, tratou de imitá-lo. Mas logo as atividades deles foram interrompidas por um clone operário que havia reagido a uma sugestão de Arak de dar a seus convidados algo para beber. Os clones chegaram e meteram-lhes taças doura­das nas mãos.

Até mesmo a reserva de Suzanne e de Perry começou a ser minada diante daquela sociabilidade contagiante. Foram cercados por pessoas belas e amis­tosas, ávidas por pressionarem as palmas das mãos contra as deles. Alguns dos cumprimentos foram feitos pelas criancinhas que Suzanne havia visto quan­do chegaram. Suzanne perguntou a uma delas a idade que tinha, depois de se impressionar com o inglês impecável e a evidente inteligência dela.

— Qual a sua idade? — indagou a criança, sem responder à per­gunta de Suzanne.

Suzanne estava para responder quando um homem que poderia ter feito o papel de um deus grego no filme de Cecil B. DeMille que ela havia imaginado perguntou-lhe se ela vivia com algum companheiro. Antes que Suzanne pudesse responder a essa pergunta curiosa, um ho­mem mais velho, não menos atraente, perguntou-lhe se ela conhecia seus pais.

— Esperem aí um pouquinho — disse Arak, interpondo-se entre Suzanne e seus admiradores. — Como todos sabem, dissemos especifi­camente a nossos convidados que as perguntas deles devem esperar até amanhã. É justo que as nossas também esperem. Hoje é a noite de co­memorarmos este maravilhoso acontecimento em Saranta e de nos di­vertirmos.

— Ei, Arak! — berrou Richard do meio de um grupo de fãs. Esta­va erguendo a taça dourada. — Esse é o tal cristal de que falou?

— Sim, com efeito — disse Arak.

— É fantástico! — berrou Richard. — Adorei.

— Que bom — disse Arak.

— Mais uma coisinha — berrou Richard. — Vocês não têm uma musiquinha aí? Quero dizer, uma festa não é festa sem música...

— É isso aí — apoiou Michael.

— Operários, música! — gritou Arak, mais alto do que o vozerio. Dentro de instantes, ouviu-se música de fundo acima do ruído das vozes. Era tão suave quanto a música existente no alojamento de descontaminação.

Michael deixou escapar uma risada de deboche.

— Não estou me referindo a música de elevador — berrou Richard de novo para Arak. — Estou querendo uma coisa assim com um baixo de fundo e um ritmo legal. Uma coisa para dançar.

Arak deu outra ordem aos clones operários, e a música logo mudou.

Richard e Michael trocaram olhares perplexos. A música tinha pedal e ritmo, mas eram muito estranhos, diferentes de qualquer música que já houvessem escutado.

— Mas que raio de música é essa? — indagou Michael. Inclinou a cabeça para o lado, para ouvir melhor.

— Sei lá — disse Richard. Fechou os olhos e movimentou a cabeça, de um jeito ondulante. Ao mesmo tempo ensaiou alguns passos hesitan­tes, rebolando os quadris. Os movimentos dele causaram algumas risadinhas espremidas das moças que haviam reunido em torno de si.

— Gostaram, hein? — perguntou ele.

As mulheres concordaram, sem nada dizer.

Richard levou a taça aos lábios e jogou a bebida toda fora, para surpresa das pessoas em torno dele. Colocando o recipiente no chão, agarrou a mão da moça mais próxima e correu para a plataforma que cercava a piscina no centro da arena. Rindo a valer, a multidão abriu caminho e incentivou o casal, aos gritos. Ao chegar onde queria, Richard saltou sobre a plataforma e puxou a mulher consigo. Virou-se de frente para ela e, por instantes, ficou meio zonzo com tanta be­leza. Depois de ver tanta gente bonita, já havia começado até a se acostumar, mas ficou especialmente impressionado com a aparência daquela moça.

— Você é lindíssima! — sussurrou, as palavras ligeiramente arras­tadas.

— Obrigada — disse ela. — Você também é atraente.

— Acha mesmo? — perguntou Richard.— Você é muito divertido — disse a mulher.

— Legal — disse Richard. Depois precisou dar um passo para o lado para recuperar o equilíbrio. Por um segundo a imagem da mulher saiu de foco. Ele estava se sentindo ligeiramente tonto.

— Está se sentindo bem? — indagou a moça.

— Sim, estou bem — garantiu Richard. Sentia um formigamento nas pontas dos dedos. — Esse cristal aí que vocês bebem acaba com a gente, hein?

— É o meu predileto — disse a mulher.

— Então também é o meu — disse Richard. — Ei, quer aprender a dançar?

— O que isso significa, exatamente? — perguntou a mulher.

— Era o que eu estava fazendo — disse Richard. — Só que faze­mos juntos.

Richard fechou os olhos e repetiu os bamboleios anteriores. Aquilo só durou um segundo, porque teve que abrir os olhos para se reequilibrar uma segunda vez. A multidão reagiu com aclamações e aplausos. Pedi­ram bis.

Richard virou-se para a platéia e curvou-se exageradamente. Vie­ram mais aclamações ainda. Voltando-se para a mulher, Richard come­çou a pavonear-se, a balançar-se como no tuíste e a se sacudir o melhor que podia ao som da música. A mulher o olhava com grande interesse e achando muita graça, mas não conseguia imitá-lo. A única coisa que conseguiu fazer com relativa perfeição foi erguer as mãos para cima e movê-las como Richard estava fazendo.

— Preste bem atenção — disse Richard. Estendendo os braços, agarrou a mulher pelos quadris e tentou fazê-la rebolar-se ritmicamente. Ela não entendeu nada, mas achou hilariantes suas tentativas desen­gonçadas. A multidão também.

Suzanne e Perry observavam com uma preocupação compreensível. Suzanne disse a Perry que temia que Richard estivesse bêbado, e Perry concordou. Mas não podiam deixar de notar que a multidão adorava aquelas palhaçadas que ele estava fazendo.

— Seu amigo é muito engraçado — disse uma voz atrás de Perry. Ele se virou e viu uma jovem cuja idade estimou em 18 anos. Ela tinha olhos azuis bem vivos que lhe recordaram os de Suzanne, e um sorriso contagiante. Ofereceu-lhe a palma da mão. Perry encostou a sua palma na dela, meio constrangido; sentiu o rosto ficar corado. A mulher era perigosamente atraente, e bem mais alta do que ele.

— Meu nome é Luna — disse, numa voz que fez os joelhos de Perry ficarem bambos.

— O meu é Perry.

— Eu sei — disse Luna. — Você é muito simpático. Notei que seus dentes são mais brancos que os do Richard.

Perry ficou ainda mais corado. Concordou com a cabeça.

— Obrigado — conseguiu dizer.

Os olhos de Luna voltaram ao centro da arena.

— Sabe dançar, como o Richard?

Perry voltou a olhar de relance o mergulhador, que agora estava apresentando sua versão do break. Naquele momento, estava girando de costas no chão com as pernas para cima.

— Acho que sim, suponho — disse Perry, cauteloso. — Talvez não tão bem como Richard. Ele é um pouco mais extrovertido do que eu. Mas para lhe dizer a verdade, já faz alguns anos que não danço.

— Acho que o Richard é tão bom quanto um clone de entreteni­mento — disse Luna. Parecia estar fascinada pelo Richard, que agora estava andando sem sair do lugar, como Michael Jackson, para delírio da platéia.

— Acho que o Richard nunca recebeu esse elogio antes — disse Perry.

Sempre imitando o outro, Michael pegou a mão de uma das mu­lheres que o cercavam e uniu-se a Richard na plataforma que cercava a piscina. Mal começou a dançar, uma dúzia de outras mulheres subiu na plataforma para participar.Agora havia um enxame de lindas mulheres cercando Richard e Michael, tentando movimentar os braços e rebolar, imitando os dois mergulhadores embriagados. Mas não era fácil. Até os mergulhadores tinham dificuldade de coordenar os movimentos com o ritmo esquisi­to daquela música.

Vários dos jovens mais ousados de Interterra subiram à plataforma para tentar imitar aquela dança estranha. Richard não gostou da concor­rência. Sem interromper os bamboleios, tratou de se aproximar de cada um dos homens e com movimentos súbitos e exagerados dos quadris, derrubou-os todos, expulsando-os da plataforma. A multidão, e até os próprios homens, adoraram, achando que tudo fazia parte do exercício.

Depois de meia hora de dança ininterrupta, todos atingiram os li­mites de tolerância. Sempre liderando a todos, Richard abriu os braços e agarrou tantas mulheres quanto pôde antes de cair no chão, dando risadinhas. Michael imitou a manobra de Richard, aumentando ainda mais o monte onde pernas, braços e torsos suados cobertos por tecido fino se entrelaçaram. Os mergulhadores, mesmo caídos, continuaram pressionando a palma das mãos contra as palmas das moças, e as mu­lheres retribuíam com beijos. Atendendo a nova ordem de Arak, os clones operários trataram de providenciar mais bebida.

— Esse lugar aqui é um sonho que virou realidade — gritou Michael depois de tomar um gole do copo recém-abastecido.

— Coitado do Mazzola — disse Richard. — O coitado do mer­gulhador do sino sempre perde a festa.

— Do que acha que é feito esse tal de cristal? — indagou Michael. Espiou dentro do seu copo. O fluido era completamente transparente.

— Deixa isso pra lá — guinchou Richard, enquanto estendia um dos braços e dava um exuberante abraço em uma das mulheres que se comprimiam contra seu peito. Ao fazer isso, derramou um pouco de bebida no peito, para divertimento daqueles que notaram.

— Michael, tenho uma coisa para você — disse uma jovem de olhos azuis e cabelos bem escuros.— O quê, meu docinho? — indagou Michael. Estava deitado de barriga para cima, fitando a imagem invertida da mulher, que se encon­trava de pé perto da plataforma. Ela sorriu e mostrou um potinho.

— Quero que experimente a caldorfina — disse, enquanto abria o pote. Ofereceu-o a Michael, que usou a mão livre para retirar um pu­nhado do creme. — Isso é um pouco demais para você, mas não faz mal — observou.

— Desculpe — disse Michael —, mas o que devo fazer com ele? — Levou o creme ao nariz e o cheirou. Era inodoro.

— Esfregue-o na mão — recomendou ela. — Farei o mesmo, de­pois tocaremos a palma um do outro.

— Ei Richie — chamou Michael, rolando sobre si mesmo e sen­tando-se. — Olha só essa novidade. — Richard não reagiu. Estava tor­nando a encher o copo de cristal.

Michael esfregou o creme na palma da mão e depois olhou para a jovem atraente que o dera a ele. Ela tinha uma aparência sonolenta, os olhos estavam semicerrados. Vagarosamente, ergueu a mão, e Michael pressionou sua palma contra a dela.

A reação de Michael foi rápida e esmagadora. Os olhos se arregala­ram, depois se fecharam de puro prazer. Durante alguns minutos de êxtase arrebatado, não conseguiu se mover. Quando finalmente conse­guiu, arrancou o pote das mãos da mulher. Depois puxou insistente­mente o braço de Richard.

— Richie! — berrou Michael. — Você precisa experimentar esse troço!

Richard tentou se soltar. Mas Michael continuou a puxá-lo.

— Olha, não está vendo que estou ocupado? — disse Richard. Estava tentando beijar duas mulheres ao mesmo tempo.

— Richie, precisa experimentar essa coisa — repetiu Michael. Mostrou o pote.

— Mas que raio é isso? — disse Richard. Apoiou-se em um dos cotovelos.— É creme para as mãos — disse Michael.

— Está me interrompendo para me dizer que preciso experimen­tar creme para as mãos? — Richard não podia acreditar. — Mas qual é o seu problema, hein?

— Experimente — disse Michael. — É diferente de todos os cre­mes para as mãos que já experimentou. Estou lhe dizendo que é de ar­rebentar a boca do balão!!!

Suspirando, Richard aceitou um pouco do creme e esfregou-o nas mãos. Depois olhou para Michael.

— E agora, o que acontece?

— Aperte a palma da sua mão contra a de uma das meninas — disse Michael.

Richard chamou uma das duas que ele havia acabado de beijar, mas ela lhe pediu para esperar com um gesto. Pegou um pouco do creme e esfregou em suas próprias palmas, depois pressionou-a contra a de Richard. O resultado foi o mesmo que havia sido para Michael. Richard levou um minuto completo para conseguir sair do delírio de êxtase que o dominou.

— Ai, meu Deus — exclamou. — Isso foi tal e qual um orgasmo! Me dá mais aí!

Michael afastou bruscamente o pote da mão ávida do outro.

— Vá procurar um para você — disse.

Richard tentou pegar o pote outra vez, mas Michael deu-lhe um tapa na mão.

Perry estava no meio de uma explicação a Luna, em que tentava dar-lhe uma idéia do que era ser presidente da Benthic Marine, quando sen­tiu alguém bater de leve no seu ombro. Era Suzanne. Parecia preocupada.

— Richard e Michael estão começando a discutir — disse Suzanne. — Estou preocupada. Arak está procurando manter as taças deles cheias o tempo inteiro, e eles já estão muito bêbados.

— ô-ô! — disse Perry. — Isso pode dar confusão. — Olhou de relance na direção dos mergulhadores e os viu empurrando-se.— Acho melhor irmos lá e tentarmos controlá-los — disse Suzanne.

— Acho que está certa — disse Perry. Mas estava com uma pena enorme de sair de perto da Luna.

— Deixe-os se divertir — disse uma voz atrás de Suzanne. — To­dos estão adorando os dois. São muito animados. — Virando-se, viu o mesmo homem que lhe havia perguntado se vivia com alguém.

— Estamos achando que eles estão começando a ficar descontrolados — disse Suzanne. — Não queremos abusar de sua hospitalidade.

— Deixe o Arak se preocupar com o comportamento deles — dis­se o homem. — Como pode ver, ele os está incentivando a beber.

— Notei isso — disse Suzanne. — Não foi uma boa idéia.

— Deixe o Arak cuidar disso — disse o homem. — É função dele tomar conta dos dois, não sua. Além disso, gostaria de falar com você em particular um instante.

— Gostaria mesmo? — disse Suzanne. Ficou confusa diante da­quele pedido. Lançou novo olhar aos mergulhadores e ficou aliviada ao ver que haviam parado de bater boca e voltado ao grupo de mulheres reclinadas. Suzanne olhou para Perry, imaginando se ele teria escutado o pedido do homem. E tinha. Perry sorriu maliciosamente e cutucou Suzanne, para incentivá-la.

— Por que não? — sussurrou Perry, aproximando a boca do ouvi­do dela. — Hoje é dia de nos divertirmos, e a emergência dos mergu­lhadores já passou, por enquanto.

— Será só um instante — disse o homem.

— Como assim, "em particular"? — indagou Suzanne. Observou as feições esculturais do estranho e seus olhos líquidos, e sentiu o cora­ção dar um pulo. Jamais havia visto um homem de tamanha beleza clás­sica assim, nem falado com um.

— Bom, não é bem em particular — disse o homem com um sor­riso cativante. — Achei que podíamos apenas nos afastar alguns passos ou talvez subir as escadas até a varanda. Eu só gostaria de falar com você a sós um instante.— Bom, acho que sim — disse Suzanne. Tornou a olhar para Perry.

— Vou ficar bem aqui — disse Perry —, com a Luna. Suzanne se deixou guiar escada acima.

— Meu nome é Garona — disse o homem enquanto subiam.

— O meu é Suzane Newell — respondeu Suzanne.

— Já sei — disse Garona. — Dra. Suzanne Newell, para ser exato. Atingiram o alto da escadaria, e se recostaram na balaustrada. Lá embaixo, o baile era obviamente um sucesso: dava para se ouvirem os risos e as conversas animadas da multidão. A maioria das pessoas estava circulando em torno da área central da piscina onde os mergulhadores e seu harém eram o foco das atenções. A multidão era ordeira, educada e respeitosa. Aqueles mais próximos aos dançarinos estavam constante­mente deixando aqueles que estavam na periferia se aproximarem para verem tudo mais de perto.

— Obrigado por me conceder este momento — disse Garona. — Não é justo que monopolize seu tempo.

— Tudo bem — disse Suzanne. — É até um alívio me afastar e ter essa visão geral.

— Precisava lhe dizer que a considero irresistível — disse Garona. Suzanne estudou o rosto bonito de Garona.  Esperava ver ao menos o vestígio longínquo de um sorriso malicioso. Em vez disso, ele a fitava com uma intensidade risonha e cálida que lhe transmitia uma total sinceridade.

— Diga isso outra vez — disse Suzanne.

— Eu a acho absolutamente irresistível — repetiu Garona.

— Acha mesmo? — perguntou Suzanne. Deu uma risadinha, ner­vosa.

— Verdade — garantiu Garona.

Os olhos de Suzanne voltaram à multidão, para lhe dar uma opor­tunidade de digerir aquela confissão inesperada. Hesitou antes de vol­tar a fitá-lo.

— É muito lisonjeiro, Garona — disse ela. — Pelo menos, acho que é. Então, sinto muito se pareço cética, mas com todas essas mulheres absolutamente divinas e perfeitas, acho meio difícil crer que esteja interessado em mim. Quero dizer, conheço minhas limitações. Não sou páreo para nenhuma dessas mulheres aí em termos de irresistibilidade. O sorriso de Garona não desapareceu nem um só instante.

— Talvez seja difícil para você acreditar — disse ele. — Mas é ver­dade.

— Bom, então fico sinceramente lisonjeada — disse Suzanne. — Mas talvez possa me dizer por que me acha assim tão irresistível.

— Não é fácil explicar — disse Garona.

— Tente, pelo menos — insistiu Suzanne.

— Creio que teria que dizer que envolve sua beleza, ou sua ino­cência. Ou talvez seu fascinante primitivismo.

— Primitivismo? — repetiu Suzanne. — Foi assim que Arak qua­lificou o Richard.

— Bom, ele também tem isso, sem sombra de dúvida — disse Garona.

— E isso é um elogio, para você? — indagou Suzanne.

— Aqui em Interterra, é — disse Garona.

— O que é Interterra, exatamente? — perguntou Suzanne. — E há quanto tempo existe?

Garona sorriu, condescendente, e sacudiu a cabeça.

— Avisaram-me para não responder muitas perguntas que não fos­sem as estritamente pessoais, sobre mim mesmo.

Suzanne revirou os olhos.

— Desculpe — disse, com um quê de sarcasmo. — Foi mal.

— Não tem problema.

— Então tenho que formular umas perguntas pessoais?

— Se quiser — disse Garona.

— Bom... — disse Suzanne enquanto tentava pensar em uma per­gunta pessoal. — Sempre viveu aqui embaixo?

Garona soltou uma sonora gargalhada, alta o suficiente para atrair a atenção de dois homens que se encontravam no andar de baixo. Eles olharam para cima, acenaram ao reconhecer Garona, e começaram a se encaminhar para as escadas.

— Desculpe-me por ter rido — disse —, mas sua pergunta mostra como você é maravilhosamente inocente. É extremamente revigorante. Adoraria conhecê-la mais a fundo. Quando se cansar da festa e quiser sair, diga-me. Adoraria levá-la até o seu quarto. Podemos passar algum tempo juntos tocando nossas palmas, só você e eu. O que me diz?

A boca de Suzanne foi vagarosamente se abrindo à medida que o verdadeiro significado da proposta de Garona ia ficando claro para ela. Riu, zombeteira.

— Garona, não acredito — disse. — Há pouquíssimo tempo esti­ve a ponto de morrer. Agora estou na terra da fantasia com um cara lindo de morrer me cantando e querendo ir ao meu quarto. O que devo responder?

— Responda apenas que sim — sugeriu Garona.

— Acho que estou atordoada demais para responder assim de ime­diato.

— Posso perceber isso — disse Garona. — Mas posso animá-la e ajudá-la a relaxar.

Suzanne sacudiu a cabeça.

— Acho que não pode entender. Estou com dificuldade de tomar a decisão correta.

— Você me excita — disse Garona. — Você me encanta. Quero ficar ao seu lado.

— Olha, vou lhe dar nota dez em persistência, viu — disse Suzanne.

— Vamos conversar mais tarde — disse Garona. — Aí vêm dois amigos meus.

Suzanne virou-se para ver os dois homens que haviam se alertado com a risada de Garona subirem o último degrau da escadaria prin­cipal e se aproximarem. Não pôde deixar de observar que eram tão atraentes quanto Garona. Vinham de braços dados, como dois na­morados.— Bem-vindos, Tarla e Reesta — disse Garona. —Já conheceram nossa hóspede de honra, a Dra. Suzanne Newell?

— Ainda não — disseram os dois em uníssono. — Estávamos aguardando o momento de termos essa honra. — Ambos fizeram uma elegante reverência.

Suzanne obrigou-se a sorrir. Tudo aquilo era encantadoramente es­tranho ao extremo. Ela sentia que só podia ser tudo um sonho.

Richard sabia que estava embriagado, mas certamente já havia enchido mais a cara antes. A embriaguez dele não parecia afastar nenhuma das mulheres que ainda o cercavam. Ele via que os rostos das mulheres mudavam enquanto dançava, o que significava que havia alguma espé­cie de revezamento, mas aquilo não importava, uma vez que eram to­das tão bonitas.

Sem querer, deu um encontrão em Michael, com força suficiente para que ambos perdessem o equilíbrio. Caíram ao chão, desengonça­dos demais para se machucar. Quando viram o que havia ocorrido, ri­ram com tanta força que saíram lágrimas dos seus olhos.

— Que festança! — gritou Michael quando se recuperou o sufi­ciente para falar. Enxugou os olhos com as costas da mão.

— Ninguém vai acreditar em nós quando voltarmos para casa — disse Richard. — Principalmente quando contarmos que todas as garo­tas, sem exceção, estão disponíveis. Quero dizer, é melzinho na chupeta, uma coisa irreal.

— Os caras daqui nem se importam — disse Michael. — Ei, olha só aquela garota ali.

— Qual? — indagou Richard. Rolando sobre si mesmo, tentou seguir a linha de visão de Michael através da multidão que se movi­mentava. Os olhos dele finalmente encontraram uma ruiva escultural que andava de braço dado com um rapaz.

— Uau — exclamou.

— Eu a vi primeiro — disse Michael.— Sim, mas eu é que vou ganhar essa parada.

— Nem pensar.

— Vá se foder — disse Richard, enquanto se punha de pé. Michael, esticando-se todo, agarrou uma das pernas de Richard e o

derrubou. Ele caiu de cabeça e deslizou até a beirada da plataforma, batendo com a testa no chão. Não se feriu, mas ficou uma fera, princi­palmente quando Michael tentou passar por ele para chegar até a garota.

Richard conseguiu enfiar o pé no caminho de Michael e derrubá-lo. Quando Michael estava tentando se levantar, Richard se atirou em cima dele. Depois agarrou a frente da túnica do amigo e deu-lhe um murro no nariz.

Aquela violência súbita fez os convidados recuarem assustados. Ouviu-se um ofegar coletivo quando o nariz de Michael começou a sangrar.

Michael empurrou Richard, tirando-o de cima de si, e conseguiu se ajoelhar. Richard tentou fazer o mesmo, mas Michael deu-lhe um mur­ro na lateral da cabeça, fazendo-o estatelar-se no chão.

— Anda, seu safado! — provocou Michael. — Levante-se e lute. — O sangue lhe escorria pela frente do queixo e pingava no chão. Os­cilou, apoiando-se ora num pé, ora noutro.

Richard conseguiu ficar de quatro. Olhou para Michael.

— Você está morto — grunhiu.

— Anda logo, bobalhão! — respondeu Michael.

Richard fez força para ficar de pé, mas também não conseguia se equilibrar direito.

Arak, que estava a uma certa distância dos mergulhadores quando começou a briga entre os dois, abriu caminho através da multidão pe­trificada e muda. Colocou-se entre os dois mergulhadores bêbados.

— Por favor — disse. — Seja lá qual for o problema, podemos resolvê-lo.

— Saia da minha frente — replicou Richard. Empurrou Arak para o lado e preparou-se para golpear a cabeça de Michael. Michael esquivou-se, mas perdeu o equilíbrio ao fazê-lo, e caiu. Richard perdeu o equilíbrio quando errou o golpe.

— Clones operários, contenham os convidados! — ordenou Arak. Richard e Michael conseguiram se erguer e trocar mais diversos

golpes ineficazes antes que dois clones operários masculinos avantajados interviessem. Cada um agarrou um mergulhador, aplicando-lhe um abraço de urso. Richard e Michael continuaram tentando atingir-se mutuamente até serem afastados um do outro mais ou menos dois metros. Nesse momento Perry abriu caminho na multidão.

— Será que vocês dois se esqueceram de onde estão, seus idiotas? — ralhou Perry. — Pelo amor de Deus, não briguem! O que há com vocês?

— Foi ele quem começou — disse Richard.

— Não, foi ele — disse Michael.

— Não, foi ele.

— Não, foi ele.

Antes que Perry pudesse reagir a essa troca de acusações infantil, os mergulhadores de repente desataram a rir. Cada vez que tentavam olhar um para o outro, davam gargalhadas mais fortes. Logo, todos, menos Perry e os clones operários, estavam rindo também. Ao comando de Arak, os clones operários os soltaram, e os mergulhadores imediatamente se cumprimentaram, como se nada houvesse acontecido.

— Mas qual foi o motivo da briga? — indagou Arak a Perry.

— Cristal demais — explicou Perry.

— Talvez devamos lhes dar uma bebida menos forte — disse Arak.

— Ou isso, ou então, não lhes sirva mais nada — sugeriu Perry.

— Mas não quero estragar a festa — disse Arak. — Todos estão adorando os dois.

— A festa é sua — disse Perry.

Richard e Michael começaram a voltar para a plataforma.

— Já sei o que vou fazer — murmurou Richard a Michael. — Vamos decidir isso tirando a sorte. Vou disputar a ruiva com você.— Tudo bem — concordou Michael.

— Escolha — disse Richard. — Par ou ímpar?

— Par — escolheu Michael.

Depois de contar até três, ambos mostraram um único dedo. Michael sorriu de satisfação.

— Muito justo! — exclamou.

— Merda! — lamentou-se Richard.

— E agora, onde está ela? — indagou Michael. Os dois mergulha­dores esquadrinharam a multidão.

— Está ali — disse Richard. Apontou-a. — E ainda com aquele veadinho a tiracolo.

— Volto num instante — disse Michael. Foi direto até a mulher que observou estar vendo sua aproximação com grande interesse.

— Oi, amoreco — cumprimentou Michael, evitando olhar nos olhos do pré-adolescente que a acompanhava. — Meu nome é Michael.

— Meu nome é Mura. Está machucado?

— Ah, puxa, não — disse Michael. — Um soquinho no nariz não machuca o velho Michael. De jeito nenhum.

— Não estamos acostumados a ver sangue — explicou Mura.

— Escute! — disse Michael. — Que tal vir esfregar sua palma con­tra a minha? O nosso grupinho está ali perto da piscina.

— Adoraria tocar sua palma — disse Mura. — Mas, primeiro, permite que eu lhe apresente o Sart?

— Ah, sim, como vai, Sart — disse Michael, indiferente. — Sua mãe é muito bonita, mas por que não vai procurar uns amigos para brincar?

Tanto Mura quanto Sart soltaram risadinhas. Michael não gostou.

— O que eu disse foi engraçado, é? — indagou, irritado.

— Inesperado seria uma palavra melhor — conseguiu dizer Mura. Michael tocou o braço de Mura.

— Venha, meu bem. — E disse ao jovem: — Até já, Sart. De braço dado com Mura, Michael voltou todo empertigado, osci­lando um pouco, involuntariamente, até onde estava Richard. Richard havia escolhido duas mulheres que estavam demonstrando sua afeição por ele de forma particularmente intensa. Apresentou-as como Meeta e Palenque. Uma era loura, a outra morena, e ambas incrivelmente vo­luptuosas.

— Richie, esta aqui é a Mura — disse Michael, orgulhoso. Richard fingiu não notar a incrível ruiva. Em vez disso, apontou

para algo atrás de Michael, e perguntou quem era o pré-adolescente. Michael olhou para trás e irritou-se ao ver que o garoto os havia seguido.

— Dê o fora, rapaz — dispensou-o Michael, de um jeito brusco. Mura ignorou Michael e incentivou Sart a avançar. Apresentou-o a

Richard.

— Prazer em conhecê-lo, hein, Sart — disse Richard. — Você, também, Mura. Por que não se sentam?

— Com todo o prazer — disse Mura.

— Sem dúvida — disse Sart.

Michael revirou os olhos, numa irritação frustrada, enquanto Richard conseguia passar-lhe à frente. Por um momento, pensou em dar-lhe um murro ali mesmo.

— Ei, você também, Mikey — provocou Richard. — Vamos, amigão, sente-se e relaxe! Vai te fazer bem. Afinal, somos todos uma grande e feliz família.

Esse comentário ocasionou risadinhas de todos os interterráqueos que podiam escutá-lo, o que aumentou ainda mais o constrangimento de Michael. Ele enfiou a viola no saco e se sentou.

— Ouça, Mikey — continuou Richard. — Essa minha linda caixinha de surpresas, a Meeta, acabou de me dizer uma coisa interes­sante. Todos gostam de nadar em Interterra.

— Não brinca — disse Michael, animando-se. — Mencionou que somos profissionais?— Claro — disse Richard. — Mas não sei bem se entenderam o que eu disse. Parece que a idéia de trabalho não é lá uma coisa muito familiar para eles.

— Se trabalham nadando, então gostam de nadar? — indagou Meeta.

— Claro que gostamos de nadar — disse Michael.

— Bom, então por que todos nós não damos um mergulho? — sugeriu Meeta.

— Por que não? — concordou Mura. — Vocês estão precisando se refrescar um pouco.

— Acho uma idéia maravilhosa — disse Sart. Richard olhou a convidativa piscina verde-azulada.

— Estão querendo nadar aqui, agora? — indagou.

— E que momento seria melhor? — disse Palenque. — Estamos todos com tanto calor, tão suados...

— Mas e as roupas? — perguntou Richard. — Vamos ficar encharcados.

— Não usamos roupas quando nadamos — disse Meeta. Richard olhou para Michael.

— Esse lugar aqui está ficando cada vez melhor — observou.

— E aí? — perguntou Meeta. — O que dizem os nadadores pro­fissionais?

Richard engoliu em seco. Ficou com medo de dizer alguma coisa para não acordar.

— Digo que aceitamos — gritou Michael.

— Maravilha! — exclamou Meeta. Ela ficou de pé de um salto e ajudou Palenque a se erguer. Sart se levantou e ajudou Mura. Num pis­car de olhos os interterráqueos tiraram as túnicas e as bermudas sem a menor vergonha. Em todo o esplendor de sua majestosa nudez, todos mergulharam perfeitamente na água e nadaram até o meio da piscina com braçadas experientes e vigorosas.Richard e Michael ficaram embasbacados demais durante um mi­nuto para segui-los. Em vez disso lançaram olhares de relance às pessoas que se encontravam por perto. Ficaram mais surpresos ainda quando viram que a cena chamara a atenção apenas de Perry. Depois Richard e Michael se entreolharam.

— Mas que raio estamos esperando? — indagou Richard enquan­to dava um sorriso de bêbado.

Apressados, os dois mergulhadores, desajeitados, livraram-se das rou­pas. Ao mesmo tempo, saíram em disparada na direção da piscina. Michael teve dificuldade em tirar a bermuda, e acabou tropeçando. Richard saiu-se melhor e logo estava nadando para a parte rasa no centro da piscina.

Ao chegar Richard foi literalmente atacado por Meeta e Palenque que, de brincadeira, deram-lhe uma série de caldos. Richard aceitou o assédio das duas belas mulheres despidas com grande prazer, mas logo perdeu o fôlego. Quando Michael chegou e começou uma brincadeira semelhante com Mura, uma vez que Sart e Palenque haviam nadado para o outro lado da piscina, Richard conformou-se em ficar relaxando em um local onde ele e Meeta podiam ficar sentados com as cabeças fora da água.

— Richard, Richard, Richard — gritava Meeta, alegremente, en­quanto pressionava a palma da mão seguidamente contra a dele e lhe acariciava a cabeça. — Você é o visitante mais primitivamente atraente que jamais tivemos em Saranta. Talvez em toda a Interterra, há pelo menos vários milhares de anos.

— Achei que só a minha mãe gostava de mim — disse Richard, de brincadeira.

— Você conheceu sua mãe? — indagou Meeta. — Que esquisito.

— É claro que conheci minha mãe — disse Richard. — Você não conhece a sua?

— Não — disse Meeta, rindo. — Ninguém em Interterra conhece sua mãe. Mas não vamos falar disso. Em vez disso, por que não me leva para seu quarto?— Bom, essa aí já é uma excelente idéia — disse Richard. — Mas e a sua amiga Palenque? O que diremos a ela?

— O que queira — disse Meeta, desinteressada. — Mas é mais fácil simplesmente convidá-la. Tenho certeza de que aceitará vir conosco. E Karena. Sei que ela também está com vontade de ir.

Richard tentou parecer indiferente, mas apesar disso sua surpresa diante da sua boa sorte inesperada foi evidente. Ao mesmo tempo, diante dessa reviravolta favorável, desejou não ter bebido tanto.

 

Foi um grupo barulhento que partiu do pavilhão para o refeitório. Suzanne, Perry e os mergulhadores cantavam músicas antigas dos Beades a plenos pulmões para entreter os acompanhantes, os quais, surpreendentemente, sabiam a letra. Suzanne caminhava ao lado de Garona, Perry ia com Luna, Richard com Meeta, Palenque e Karena, e Michael com Mura e Sart.

Embora Suzanne e Perry houvessem evitado beber muito, o que beberam havia lhes subido às cabeças. Estavam longe de terem se em­briagado como Richard e Michael, mas ambos reconheciam que esta­vam de pileque. Também estavam se divertindo a valer.

Arak havia se despedido deles quando o baile acabou, e prometeu encontrá-los pela manhã. Havia lhes desejado um repouso agradável, e agradecido a eles por comparecerem à comemoração.

— Ei — gritou Richard quando terminaram de cantar sua versão de Come Together. — Vocês não conhecem alguma música aqui da sua terra?

— É claro — disse Meeta. Imediatamente os interterráqueos co­meçaram a cantar, e embora as palavras fossem em inglês, o ritmo era tão irregular quanto o da música do baile.

— Chega! — gritou Richard. — Isso é esquisito demais. Vamos cantar Beatles de novo.

— Richard, sejamos justos — disse Suzanne.

— Não tem problema — disse Meeta. — Preferimos cantar as can­ções do seu povo.— Michael! Que diabo está fazendo com as taças? — indagou Richard quando viu que o parceiro estava trazendo várias taças vazias.

— Pedi ao Arak — disse Michael. — Ele me disse que podia ficar com elas. São de ouro. Aposto que tenho aqui dinheiro suficiente para dar entrada em uma picape nova.

Richard inclinou-se e arrancou uma das taças das mãos do outro.

— Ei, me devolve isso aí! — exigiu Michael. Richard riu.

— Segura aí. Eu vou arremessar!

Michael entregou o restante das taças a Mura. Depois cambaleou para tentar pegar a taça que ia ser lançada. Richard arremessou-a como se fosse uma bola de futebol americano, e ela caiu girando nas mãos de Michael. Todos aplaudiram. Michael curvou-se, agradecendo, perdeu o equilíbrio e caiu. Todos riram e aplaudiram ainda mais.

— Temos bichos que brincam disso — disse Mura.

— Eu vi alguns bichos de estimação quando viemos para os aloja­mentos — disse Suzanne. — Eles pareciam misturas de várias criaturas.

— E são — disse Mura.

— Vocês praticam esportes aqui? — indagou Richard. Michael voltou e pegou o restante das taças.

— Não, não temos esportes — disse Meeta. — Exceto os jogos mentais, coisas assim.

— Não, nada disso! — disse Richard. — Eu me referia a jogos como o hóquei e o futebol americano.

— Não — disse Meeta. — Não temos competições físicas.

— Por que não? — indagou Richard.

— Porque não é necessário — disse Meeta. — E fazem mal à saúde. Richard lançou um rápido olhar a Michael.

— Não admira que os homens sejam assim efeminados — disse. Michael concordou.

— Que tal a gente levar Lucy in the Sky with Diamonds? — sugeriu Suzanne. — Parece bem apropriada.Alguns minutos depois, ainda cantando o refrão, o grupo entrou cambaleando no refeitório. Estava escuro, porém os interterráqueos de alguma forma acenderam as luzes. Perry estava para perguntar como faziam aquilo quando notou Donald. O ex-oficial da Marinha estava sentado no escuro, totalmente mudo. O rosto estava tão severo quanto estivera quando o grupo partiu para a comemoração.

— Meu Deus — disse Richard. — O Sr. Caxias está exatamente onde estava quando saímos.

Michael orgulhosamente depositou seu tesouro de taças de ouro sobre a mesa, com estardalhaço.

Richard jogou-se num assento diante de Donald à mesa. Arrastou consigo as três mulheres, como troféus.

— Então, almirante Fuller — disse, num tom zombeteiro enquanto o saudava de um jeito cômico. — Acho que pela nossa companhia e pelos despojos pode ver que marcou bobeira.

— Tenho certeza que sim — disse Donald, sarcástico.

— Não faz idéia de como foi incrível, seu espertalhão — disse Richard.

— Está bêbado, marujo — disse Donald, desdenhoso. — Felizmente alguns de nós tiveram autocontrole suficiente para não perder o juízo.

— Sim, bom, então vou lhe dizer o que há de errado com você — disse Richard, apontando um dedo oscilante para o rosto de Donald. — Você ainda pensa que está naquela porcaria daquela marinha. Deixa eu lhe dizer só uma coisinha. Você já saiu.

— Você não só é burro — sibilou Donald — como também é nojento.

Richard perdeu as estribeiras. Empurrou as mulheres para um lado e se jogou sobre a mesa de mármore, pegando Donald de surpresa. Apesar da embriaguez, Richard conseguiu subir em cima de Donald e lhe apli­car alguns murros ineficazes no lado da cabeça.

Donald reagiu prendendo Richard com um abraço de urso. Assim imobilizados, naquele violento abraço, ambos rolaram da espreguiçadeira onde Donald se encontrava sentado, mas mesmo assim acertaram-se mutuamente com socos curtos. Conseguiram ir parar em cima da mesa, o que fez a coleção de taças de Michael cair no chão com grande barulho. Os interterráqueos recuaram, amedrontados, enquanto Suzanne e Perry intervinham. Não foi fácil, mas conseguiram finalmente separar os dois homens. Dessa vez foi o nariz de Richard que sangrou.

— Seu miserável — exclamou Richard ao tocar o nariz e olhar o sangue.

— Sorte sua seus amigos estarem aqui — disse-lhe Donald. — Eu podia ter matado você.

— Já basta — disse Perry. — Nada mais de provocações ou brigas. Isso é ridículo. Estão ambos agindo como crianças.

— Idiota! — acrescentou Donald. Empurrou os braços de Perry, que o continham, e ajeitou a túnica de cetim.

— Escroto! — xingou Richard. Ele se afastou de Suzanne e virou-se para suas três amigas. — Vamos para o meu quarto onde não vou precisar ficar olhando a cara feia desse palerma.

Richard cambaleou até as mulheres, mas elas recuaram. Depois, sem dizerem mais nada, fugiram pela extremidade aberta da sala e sumiram na noite. Richard as perseguiu, mas parou na beira do gramado. As mulheres já iam a meio caminho do pavilhão.

— Ei! — berrou Richard, colocando as mãos em concha ao redor da boca. — Voltem aqui! Meeta...

— Acho que já é hora de ir para a cama — gritou Suzanne para ele. — Já causou bastante confusão numa noite só.

Richard virou-se para o interior da sala, decepcionado e furioso. Deu uma violenta palmada no tampo da mesa, forte o suficiente para fazer todos que ali estavam pularem.

— Merda! — berrou, para todos ouvirem.

 

Quando Perry empurrou a porta de seu chalé com a mão trêmula, que fez o possível para disfarçar, deixou Luna entrar antes dele. Já fazia muito tempo que ele ficava assim a sós com uma mulher. Não fazia idéia se seu nervosismo vinha do sentimento de culpa por estar traindo a esposa ou por reconhecer que Luna era jovem demais para ele. Ainda por cima, estava meio de pileque, mas ainda mais embriagante que o cristal era o fato de que uma jovem absolutamente deslumbrante o havia achado atraente.

Enquanto lutava para esconder seu nervosismo, foi sensível o sufi­ciente para notar que a própria Luna também estava inquieta.

— Posso lhe servir alguma coisa? — indagou Perry. — Disseram-me que tenho comida e bebida à minha disposição aqui no quarto. — Ficou olhando enquanto a moça ia até a piscina e se curvava para veri­ficar a temperatura da água.

— Não, obrigada — disse Luna. Depois começou a perambular pelo recinto.

— Você parece estar preocupada — disse Perry. Por falta de algo melhor a fazer, foi até a cama e se sentou.

— E estou — admitiu Luna. — Nunca vi uma pessoa agir como o Richard.

— Ele não é o nosso embaixador ideal — disse Perry.

— Há muitas pessoas como ele lá no seu mundo? — indagou Luna.

— Infelizmente, este tipo não é incomum — disse Perry. — Em geral, na família deles, a violência passa de geração para geração.

Luna sacudiu a cabeça.

— E de onde vem o motivo para tanta violência?

Perry coçou a cabeça. Não queria começar uma conversa sociológi­ca nem se sentia capaz disso no momento. Ao mesmo tempo sentia que precisava dizer algo. Luna o olhava, na expectativa da resposta.

— Bom, vamos ver — disse. — Não venho pensando muito nis­so, mas em nossa sociedade há muitas pessoas descontentes por terem expectativas altas demais e uma sensação de que têm direito a tudo. Poucas são as pessoas realmente satisfeitas.

— Não entendi — disse Luna.— Deixe-me dar-lhe um exemplo — continuou Perry. — Se al­guém compra um Ford Explorer, não demora muito vê uma propagan­da de um Lincoln Navigator, que faz o Explorer parecer a coisa mais feia do mundo.

— Não sei o que são essas coisas.

— São só coisas. E estamos condicionados através de uma propa­ganda infindável a sentir que nunca temos as coisas certas.

— Não entendo esse tipo de cobiça. Não temos nada parecido aqui em Interterra.

— Bom, então fica mais difícil de explicar — disse Perry. — Mas, de qualquer forma, temos lá em cima muita insatisfação que se mani­festa especialmente nas famílias pobres, que têm menos coisas que to­das as outras, e dentro das famílias as pessoas tendem a descontar umas nas outras.

— Isso é triste — disse Luna. — E assustador.

— Pode ser — concordou Perry. — Mas somos condicionados a não pensar nisso porque é isso que impulsiona a nossa economia.

— Parece estranho ter uma sociedade que incentiva a violência — disse Luna. — A violência é chocante para nós porque nunca tivemos nada disso aqui em Interterra.

— Nunca? — indagou Perry.

— Não, nunca — disse Luna. — Jamais vi ninguém bater em nin­guém. Isso me dá fraqueza.

— Então por que não se senta? — convidou Perry. Bateu levemen­te com a palma da mão sobre a cama ao seu lado, sentindo-se constrangedoramente óbvio. Mas Luna se aproximou e se sentou ao lado dele.

— Não está se sentindo zonza, está? — indagou Perry, tentando conversar agora que ela estava tão próxima. — Quero dizer, não vai desmaiar, ou coisa assim.

— Não, estou bem.

Perry olhou os olhos azuis claros de Luna. Par um momento, ficou mudo. Quando conseguiu falar, disse:— Sabe, você é muito jovem.

— Jovem? O que tem isso?

— Bom... — disse Perry, escolhendo as palavras. Não sabia bem se estava se referindo à reação dela a Richard ou à reação dele, Perry, a Luna. — Quando se é jovem, não se tem a experiência de quando se é mais velho. Talvez não tenha ainda tido tempo para presenciar cenas de vio­lência.

— Olha, não há violência aqui — disse Luna. — Resolvemos que não haveria. Além disso, não sou tão jovem quanto provavelmente ima­gina. Que idade acha que tenho?

— Sei lá — gaguejou Perry. — Mais ou menos vinte anos.

— Agora você parece aflito.

— Acho que estou mesmo um pouco — admitiu Perry. — Você poderia ser minha filha.

Luna sorriu.

— Posso lhe garantir que tenho mais de vinte. Isso o faz se sentir melhor?

— Um pouco — admitiu Perry. — Aliás, não sei por que estou tão nervoso. Tudo aqui é ótimo, mas mesmo assim um tanto enervante.

— Entendo — disse Luna. Sorriu novamente e ergueu as palmas para tocar as dele.

Constrangido, Perry colocou suas mãos contra as dela.

— Por que estamos fazendo assim com as mãos? — indagou.

— É só o jeito como mostramos amor e respeito. Não gostou?

— Para mostrar amor, eu prefiro beijos — disse Perry.

— Como Richard estava fazendo esta noite?

— De um jeito um pouco mais íntimo do que Richard — disse Perry.

— Mostre-me como é — pediu Luna.

Perry inspirou, inclinou-se e beijou Luna de leve nos lábios. Quan­do se afastou, Luna reagiu tocando os lábios de leve com as pontinhas dos dedos, como que deslumbrada pela sensação.— Não gostou? — indagou Perry. Luna sacudiu a cabeça.

— Não é isso, é que meus dedos e minhas mãos são mais sensíveis que meus lábios. Mas mostre-me mais.

Perry engoliu em seco, nervoso.

— Está falando sério?

— Estou sim — disse Luna. Aproximou-se mais dele e olhou-o com uma expressão sonhadora. — Eu o acho muito encantador, senhor presidente da Benthic Marine.

Perry envolveu-a com os braços e a puxou para sobre a colcha de caxemira branca.

 

Michael estava no sétimo céu. Mura era a mulher dos seus sonhos. Não podia ser melhor. Ele nem mesmo se importou com a contínua presen­ça de Sart. O garoto estava na piscina, deixando-o entreter-se com Mura à vontade.

Exatamente quando Michael estava para desmaiar de tanto êxtase, foi interrompido por uma batida à porta. Tentou ignorá-la, mas final­mente foi cambaleando até a entrada, nu em pêlo. Sentia-se mais em­briagado ainda quando se erguia.

— Quem é o infeliz que está aí? — berrou.

— Sou eu, seu amigo Richard. Michael abriu a porta.

— Que é que está pegando?

— Nada — disse Richard. Tentou olhar atrás de Michael. — Só achei que talvez você precisasse de uma mãozinha, se é que entendeu do que estou falando.

O cérebro embotado de Michael levou alguns segundos para en­tender a insinuação de Richard. Olhou de relance para Mura na cama redonda, depois para Richard.

— Está brincando? — indagou Michael.

— Não — disse Richard. Deu um sorriso safado.— Mura — disse Michael —, importa-se se Richard entrar e ficar com a gente?

— Só se ele prometer que vai se comportar — respondeu Mura. Michael voltou a fitar Richard com uma expressão de surpresa exa­gerada.

— Você ouviu a moça — disse com um sorriso malicioso. Abriu mais a porta e deixou Richard entrar no quarto. Quando os dois ho­mens se aproximaram da cama, Mura estendeu ambas as mãos.

— Venham, seus dois primitivos! — disse. — Adoraria pressionar minhas palmas contra as de vocês.

Os dois mergulhadores trocaram um olhar de desconfiança com­preensiva, antes de Michael subir outra vez à cama e Richard arrancar de qualquer jeito as roupas de cetim que vestia. Ao se acomodar junto a Mura, ele disse:

— Vocês gostam muito de amor livre, hein?

— É verdade — disse Mura. — Temos muito amor para dar. É a nossa riqueza.

Pouco depois, os dois mergulhadores bêbados estavam desfalecendo de prazer nos braços de Mura. Não era o sexo propriamente dito, uma vez que dopados como estavam nenhum deles era capaz de consu­mar o ato, mas mesmo assim não podiam estar mais satisfeitos.

Sart havia observado a chegada de Richard de onde estava, do ou­tro lado da piscina. Sentia-se ao mesmo tempo atraído e repelido por Richard. Mas estava acima de tudo curioso. Depois de se cansar de na­dar, saiu da água, secou-se, depois foi até o trio em êxtase. Mura sorriu para ele. Estava com os braços em torno de ambos os mergulhadores, que haviam caído num sono profundo.

Mura fez sinal para que Sart se sentasse na cama. Antes acariciava de leve as costas de ambos os mergulhadores, mas depois deixou Sart acariciar Richard. Isso permitia que ela se concentrasse em Michael.

Inicialmente, Sart só acariciou as costas de Richard, como Mura fize­ra antes, mas, cansando-se disso, começou a improvisar. Primeiro esfregou o braço e o ombro expostos de Richard. A pele de Richard pareceu-lhe estranha a ponto de ser intrigante. Não era tão firme quanto a dos interterráqueos, e tinha muitas curiosas imperfeições minúsculas. Sart transferiu suas atenções para a cabeça de Richard, onde havia notado um desbotamento pequeno, de contornos indefinidos, de um vermelho-azulado, onde nasciam os cabelos, acima da orelha. Quando Sart se incli­nou para examinar essa mancha mais de perto, tocando-a intencionalmente com a ponta do dedo, os olhos de Richard se abriram de repente.

Sart sorriu para ele com ar sonhador e voltou a acariciá-lo com ter­nura.

— Mas que merda é essa!? — berrou Richard. Deu um tabefe na mão de Sart, para afastá-la. Cambaleante da bebedeira, pulou da cama.

Sart também ficou de pé. Imaginou se a tal marca acima da orelha de Richard não estaria excessivamente sensível. Talvez não devesse tê-la tocado.

O movimento súbito de Richard foi suficiente para acordar Michael. Sonolento e atordoado, ele se sentou apesar do braço de Mura, que lhe restringia os movimentos. Viu Richard cambalear ao lado da cama, fu­zilando Sart com o olhar. Sart parecia um tanto culpado.

— Que foi, Richie? — indagou Michael com uma voz pastosa e áspera.

Richard não respondeu. Em vez disso, passou a mão sobre a cabeça enquanto continuava a fitar Sart com um ódio mortal.

— Que houve, Sart? — indagou Mura.

— Toquei na mancha de Richard — explicou Sart. — Aquela aci­ma da orelha. Não devia ter feito isso.

— Michael, venha cá! — ordenou Richard, ríspido. Com um ges­to, chamou Michael, para que se afastasse da cama, enquanto andava trôpego na direção da piscina.

Michael ficou de pé, sentindo-se zonzo daquela soneca breve. Seguiu Richard. Os dois homens cambalearam para onde não podiam ser ouvi­dos. Michael sabia que Richard estava extremamente transtornado.— O que está havendo? — indagou Michael, baixinho. Richard passou as costas da mão na boca. Ainda estava fuzilando Sart com o olhar.

— Acho que já entendi por que esses caras nem se importam com as mulheres deles — respondeu Richard, também sussurrando.

— Por quê? — indagou Michael.

— Acho que são todos um bando de veados.

— No duro? — Michael voltou a olhar para Sart. Essa possibilida­de havia lhe passado pela cabeça na festa, ao ver tantos homens andan­do de um lado para outro de braços dados, mas depois, em meio à empolgação geral, até se esqueceu.

— É, e vou te contar mais uma coisa — disse Richard. — Aquele esquisitinho daquele veadinho ali andou massageando as minhas costas e a minha cabeça. E eu o tempo todo pensando que era a mulher.

Michael riu, apesar do evidente rancor de Richard.

— Não tem graça — disse Richard rispidamente.

— Aposto que o Mazzola ia achar uma graça danada — disse Michael.

— Se contar isso ao Mazzola, eu te mato — disse Richard, entre os dentes.

— Você e mais dez outros — zombou Michael. — Mas, enquanto isso não acontece, o que pretende fazer?

— Acho que devíamos mostrar a esse veadinho o que achamos dessa raça — disse Richard. — O cara passou as mãos em mim de cima até embaixo, porra. Eu não vou deixar essa passar sem um troco. Acho que não devemos deixar nenhuma dessas pessoas aqui se iludir sobre os nossos métodos de persuasão.

— Tá legal — disse Michael. — Estou dentro. O que está tramando?

— Primeiro, dá um jeito de tirar a garota daqui — disse Richard.

— Ah, essa não! A gente precisa mesmo fazer isso?

— Mas sem sombra de dúvida — disse Richard, impaciente. — E pára com essa cara de contrariado. Pode lhe dizer que volte amanhã. O importante é dar a esse camaradinha uma lição, e não queremos nenhu­ma testemunha. Ela vai berrar feito bezerro desmamado, e a gente vai acabar encarando dois daqueles clones operários.

— Está bem — disse Michael. Respirou fundo para tomar cora­gem e voltou à cama.

— O Richard está bem? — perguntou Mura.

— Está ótimo — disse Michael. — Mas cansado. Aliás, estamos ambos cansados. Talvez exaustos seja uma palavra melhor. Além disso, estamos de cara cheia, como sem dúvida já deve ter notado.

— Isso não me incomoda — disse Mura. — Me diverti à beça.

— Que bom — disse Michael. — Mas agora estamos querendo te perguntar se dá para continuar a pressionar palmas amanhã. Quero di­zer, talvez seja hora de você se retirar.

— Mas claro — disse Mura, sem hesitar. Imediatamente saiu de cima da cama e começou a se vestir. Sart também.

— Não quero que me entenda mal — disse Michael. — Gostaria que voltasse amanhã.

— Entendo que estejam cansados — disse Mura, afável. — Não se preocupem. Vocês são nossos visitantes, e voltarei amanhã, se for esse seu desejo.

Sart atou o cordão em torno da cintura e voltou a olhar para Richard, que não havia saído de onde estava, a meio caminho da bei­ra da piscina.

— Sart — disse Michael, seguindo a linha de visão do garoto. — Por que não fica mais um pouco? Richard quer lhe pedir desculpas por amedrontá-lo quando pulou da cama daquele jeito.

Sart olhou para Mura. Ela deu de ombros.

— Você é quem sabe, amigo.

Sart voltou a olhar para Michael, que sorriu e piscou para ele.

— Se os convidados desejam que eu fique, então ficarei — disse Sart. Voltou à cama com um ar meio fanfarrão e lá se sentou.

— Maravilha — disse Michael.Mura terminou de se vestir e se dirigiu primeiro a Michael, depois a Richard, para pressionar a palma da sua mão nas mãos de cada um deles uma última vez. Disse a ambos que estar com eles lhe havia proporciona­do muito prazer, e que ansiava por encontrar-se com eles no dia seguinte. Antes de fechar a porta atrás de si, ela lhes desejou boa-noite.

Depois que o som da porta se dissipou, fez-se um breve e desconfortável silêncio. Richard e Michael ficaram olhando para Sart, e Sart fitava ora um, ora o outro homem. Sart começou a inquietar-se. Pôs-se de pé.

— Talvez eu devesse pedir mais bebidas — disse, para começar a conversa.

Richard deu um sorriso forçado e sacudiu a cabeça. Depois se apro­ximou de Sart com uma ginga que sugeria que ele não sabia bem onde estava pondo os pés.

— Que tal mais comida? — disse Sart.

Richard tornou a sacudir a cabeça. Já estava a um braço de distân­cia do garoto. Sart recuou um pouco.

— Eu e o meu amigo aqui temos uma coisa importante que quere­mos lhe dizer — disse-lhe Richard.

— É verdade — acrescentou Michael. Andou de forma igualmen­te instável, contornando a extremidade da cama para chegar perto de Richard, efetivamente encurralando Sart num canto entre a cama e a parede.

— Vou te dizer de um jeito curto e grosso para que não haja mal-entendidos — continuou Richard. — Não suportamos veados como você.

— Aliás, eles nos deixam meio malucos — disse Michael.

Os olhos de Sart deslocavam-se rapidamente de um para o outro rosto embriagado, que escarneciam dele.

— Talvez seja melhor eu ir embora — disse Sart, nervoso.

— Não antes de termos certeza absoluta de que sabe do que estamos falando — disse Richard.— Não sei o que querem dizer com veado — admitiu Sart.

— Homossexual, bicha, fresco, essas coisas — disse Richard, num tom de desprezo. — O termo não importa. O caso é que não gostamos de caras que gostam de homens. E temos a ligeira desconfiança de que você se encaixa nessa categoria.

— É claro que gosto de homens — disse Sart. — Gosto de todas as pessoas.

Richard olhou para Michael, depois olhou outra vez para Sart.

— Também não gostamos de bissexuais.

Sart disparou para a porta, mas não conseguiu fugir. Richard agar­rou um dos braços dele, enquanto Michael agarrava-lhe um tufo de cabelos.

Richard rapidamente prendeu o outro braço de Sart também, e com uma risada triunfante, segurou as duas mãos do rapaz contra suas cos­tas. Sart lutou, mas isso de nada adiantou, principalmente porque Michael ainda o segurava pelos cabelos. Depois que Sart foi imobiliza­do, Michael deu-lhe um soco no estômago que o fez dobrar-se.

Ambos os mergulhadores soltaram o rapaz, depois riram enquanto o viam dar alguns passos incertos. Sart estava tentando desesperadamente recuperar o fôlego. O rosto dele ficou roxo.

— Tá legal, mariquinha — escarneceu Richard. — Aqui vai um presentinho por você ter posto suas patas sujas em mim.

Richard ergueu o rosto de Sart com a mão esquerda e atingiu-o com a direita. Não foi um murro qualquer, mas um violento gancho no qual colocou toda sua força. Este segundo golpe pegou em cheio no rosto de Sart, esmagando-lhe o nariz e jogando-o violentamente para trás, de maneira que, perdendo o equilíbrio, acabou batendo com a cabeça na quina aguçada de uma mesinha-de-cabeceira de mármore. Infelizmen­te, a fria pedra penetrou vários centímetros na parte de trás do crânio do jovem.

Richard, a princípio, não percebeu as conseqüências fatais de seu violento golpe. Ficou preocupado demais com a dor intensa que sentiu nas juntas dos dedos, machucadas no golpe. Gemendo, apoiou a mão ferida na outra e berrou um palavrão.

Michael olhou horrorizado o corpo flácido de Sart cair inerte. Pe­daços de tecido cerebral escorriam da horrível ferida. Subitamente só­brio, Michael curvou-se sobre o garoto atingido, que produzia sons gorgolejantes.

— Richard! — gritou Michael, meio sussurrando, meio em voz alta.

— Parece que temos um problema.

Richard recusou-se a responder. Ainda sentia dor, andava de um lado para outro pela sala e sacudia a mão com os dedos bem abertos. Michael ficou de pé.

— Richard?! Meu Deus do céu! O cara morreu!

— Morreu! — repetiu Richard. Aquela palavra definitiva estilha­çou a concentração de Richard em si mesmo.

— Bom, quase. A cabeça dele está com um buraco. Bateu nessa droga dessa mesa aí.

Richard cambaleou de novo para onde Michael se achava e olhou o corpo inerte de Sart.

— Mas que merda! — exclamou.

— Que porra é que vamos fazer agora? — desesperou-se Michael.

— Por que precisava dar-lhe um murro assim tão forte?

— Foi sem querer, ouviu? — berrou Richard.

— Bom, e o que vamos fazer? — repetiu Michael.

— Sei lá — disse Richard.

Nesse momento, o corpo maltratado de Sart exalou seu último sus­piro, e o gorgolejar cessou.

— Pronto — disse Michael, estremecendo. — Ele morreu! Preci­samos fazer alguma coisa rápido!

— Talvez devamos cair fora daqui — disse Richard.

— Não dá para cair fora — retrucou Michael. — Para onde a gen­te iria? Pombas, a gente nem sabe onde está!— Tá legal, me deixa pensar — disse Richard. — Merda, não que­ria machucar o rapaz.

— Ah, não mesmo — disse Michael, sarcástico.

— Pelo menos a esse ponto, não — disse Richard.

— E se alguém entrar aqui? — indagou Michael.

— Você tem razão — disse Richard. — Precisamos esconder o corpo.

— Onde? — exigiu saber Michael, aflito.

— Sei lá! — berrou Richard. Olhou em torno, freneticamente. Depois tornou a olhar para Michael. — Acabei de ter uma idéia que talvez funcione.

— Legal — disse Michael. — O que é?

— Primeiro me ajude a levantá-lo — disse Richard. Ele se curvou sobre o corpo, rolou-o para um lado, depois meteu as mãos sob os bra­ços de Sart.

Michael segurou os pés de Sart, e juntos eles ergueram o garoto do chão.

 

O novo dia chegou de forma gradativa, exatamente como chegaria na superfície da Terra. A intensidade da luz aumentou devagar, fazendo desaparecerem as estrelas no teto escuro e abobadado. A cor dele pas­sou, em etapas, do índigo bem escuro para um rosa-vivo e finalmente para um impecável azul-celeste. Saranta começou a se movimentar.

Suzanne foi o primeiro dos visitantes vindos da superfície da Terra a acordar com a chegada da aurora artificial. Enquanto olhava seu quarto, notando o mármore branco, os espelhos e a piscina, percebeu, sobressaltada, que aquela experiência interterráquea surreal não havia sido um mero sonho.

Vagarosamente, virou a cabeça para o lado e viu, pasmada, a silhueta adormecida de Garona. Ele dormia de lado, de frente para ela. Suzanne ficou estarrecida por ter permitido que o homem passasse a noite com ela. Não era esse o seu costume. A única forma pela qual ela se refreara um pouco havia sido a terminante recusa de tirar a túnica de seda e a bermuda. Passara a noite vestida, assim como estavam antes.

Suzanne não sabia se podia atribuir sua decisão de permitir que ele ficasse à pequena quantidade de cristal que havia bebido, ou se a causa havia simplesmente sido a bela aparência e as excelentes cantadas de Garona. Por mais que detestasse admitir isso, a atração física era importante para ela na hora de se envolver com um homem. Aliás, tinha sido essa, em parte, a razão pela qual ela havia permanecido enredada em um caso passageiro com um ator em Los Angeles, muito depois da rela­ção ter ido por água abaixo.

Como que sentindo o olhar dela, Garona abriu seus olhos escuros e líquidos, e sorriu com ar sonolento. Foi difícil para Suzanne sentir-se muito arrependida.

— Desculpe se acordei você — conseguiu dizer. Ele era tão belo à primeira luz do dia quanto parecera na noite anterior.

— Por favor, não se desculpe — disse Garona. — Gostei de ter acordado, e ver que ainda estou com você.

— Como é que você consegue dizer sempre as palavras certas? — disse Suzanne. Estava sendo sincera, não sarcástica.

— Digo aquilo que gostaria que me dissessem — explicou Garona. Suzanne concordou com a cabeça, mostrando que entendia. Era uma variação sensata da Regra de Ouro.

Garona rolou na direção dela e tentou abraçá-la. Suzanne esquivou-se, passando por baixo do braço dele, e saiu da cama.

— Por favor, Garona — disse Suzanne. — Não vamos repetir a noite passada. Agora, não.

Garona se jogou na cama outra vez e ficou olhando para Suzanne, um tanto intrigado.

— Não entendo sua relutância — disse. — Será que é porque não gosta de mim?

Suzanne suspirou.

— Ora, Garona, com toda essa sua sofisticação e sensibilidade, não posso imaginar por que é tão difícil para você perceber o motivo. Como lhe disse ontem à noite, levo um certo tempo para conhecer alguém.

— O que precisa saber? — indagou Garona. — Pode me fazer qualquer pergunta pessoal que queira.

— Olha — disse Suzanne. — Eu certamente gosto de você. Só o fato de tê-lo deixado dormir aqui já é prova disso. Não costumo agir assim com homens que conheço há tão pouco tempo. Mas deixei mes­mo você ficar, e não me arrependo. Só que não pode esperar muito de mim. Pense em tudo que ainda estou tentando entender.

— Só que não é natural — disse Garona. — Suas emoções não deviam ser tão imprevisíveis.

— Eu discordo! — replicou Suzanne. — Isso se chama autoproteção. Não posso ficar por aí permitindo que desejos surgidos de impulsos momentâneos governem meu comportamento. E você devia fazer o mesmo. Afinal, não sabe nada sobre mim. Talvez eu tenha um marido, ou um namorado.

— Presumo que tenha — disse Garona. — Aliás, ficaria surpreso se não tivesse. Mas isso não me importa.

— Bonito — Suzanne apoiou as mãos nos quadris, desafiadora.

— Você não se importa, mas e eu? — Suzanne se deteve. Esfregou os olhos ainda sonolentos. Já estava ficando toda excitada, e havia desper­tado há apenas alguns minutos. — Não vamos discutir nada disso ago­ra nesse momento — disse Suzanne. — Esse dia já vai ser bastante desafiador. Arak prometeu responder às nossas perguntas, e, pode ter certeza, eu tenho muitas. — Ela se dirigiu até um dos muitos espelhos e cautelosamente entrou na linha de visão de sua imagem. Fez uma ca­reta ao ver o reflexo. Talvez estivesse completamente transtornada, mas havia uma coisa que sabia com certeza: não ficava nada bem com aque­le cabelinho de três centímetros de comprimento.

Garona sentou-se na beira da cama e espreguiçou-se.

— Vocês, humanos de segunda geração, são tão sérios!

— Não sei o que quer dizer com "segunda geração" — disse Suzanne.

— Mas acho que tenho motivo para estar séria. Afinal, não vim aqui por vontade minha. Como disse o Donald, fomos abduzidos. E não preciso lembrar que isso significa ser levado à força.

 

Como já havia prometido, Arak apareceu logo depois que o grupo já havia tomado café, perguntando se todos estavam prontos para a sessão didática.Perry e Suzanne estavam visivelmente ávidos, Donald estava menos anima­do, e Richard e Michael, completamente desinteressados. Aliás, agiram de forma tensa e moderada, bem diferente do jeito atrevido de costume. Perry presumiu que estivessem de ressaca e insinuou isso a Suzanne.

— Não duvido — respondeu Suzanne. — Bêbados como estavam, não seria de se admirar. Como está se sentindo?

— Excelente — disse Perry. — Apesar de tudo. Foi uma noite in­teressante. E seu amigo, Garona? Ficou até muito tarde?

— Ficou um tempinho — respondeu Suzanne, evasiva. — E a Luna?

— Também — disse Perry. Nenhum dos dois olhou o outro nos olhos.

Assim que o grupo ficou pronto, Arak levou-os através do gramado na direção de uma estrutura hemisférica semelhante ao pavilhão, embora em escala muito menor. Perry e Suzanne acompanhavam Arak. Donald ia alguns passos atrás deles, e Richard e Michael ainda mais atrás.

— Ainda acho que você devia contar ao Donald — insistiu Michael, baixinho. — Ele talvez tenha uma idéia do que fazer.

— Que merda acha que esse babaca vai fazer? — respondeu Richard. — O garoto morreu. O Fuller não vai ressuscitá-lo.

— Talvez ele tenha uma idéia melhor sobre onde deveríamos ocul­tar o corpo — disse Michael. — Tenho medo que o encontrem. Sabe o que estou querendo dizer. Não quero que você descubra o que fazem aqui embaixo com os assassinos.

Richard parou de repente.

— De quem está falando, de mim?

— Ora, você o matou — disse Michael.

— Você também bateu nele — disse Richard.

— Mas não o matei — disse Michael. — E a idéia foi toda sua. Richard olhou o amigo com ódio.

— Estamos nisso juntos, seu nojento. Foi no seu quarto. O que me acontecer, vai acontecer com você também. Está claro como o dia.— Venham, vocês dois — chamou Arak. Estava segurando uma porta aberta que dava para o interior do pequeno prédio hemisférico, sem janelas. Os outros componentes do grupo estavam de pé ao lado e olhando na direção dos mergulhadores.

— Deixa isso pra lá — murmurou Michael, nervoso. — O caso é que o corpo está mal escondido. Precisa perguntar ao Donald se ele consegue bolar um lugar melhor para o colocarmos. Talvez ele seja um ex-oficial babaca, mas é um cara vivo.

— Você venceu — disse Richard, relutante.

Os dois mergulhadores apertaram o passo e se reuniram aos outros. Arak sorriu amavelmente e depois entrou no prédio seguido por Suzanne e Perry. Quando Donald atravessou a soleira, Richard puxou-lhe a man­ga. Donald arrancou o braço, soltando-o e fitou Richard com rancor, mas prosseguiu.

— Ei, comandante Fuller! — sussurrou Richard. — Espere aí um momento.

Donald lançou um olhar de relance para trás, com expressão de desprezo, endereçado a Richard, e continuou a andar. Arak os guiou ao longo de um corredor curvo sem janelas.

— Queria me desculpar pelo meu comportamento de ontem à noite — disse Richard, alcançando Donald, de forma a andar logo atrás dele.

— Pelo quê? — indagou Donald, desdenhoso. — Por ser burro, por estar bêbado ou por se permitir enganar por essa gente?

Richard mordeu o lábio inferior antes de responder.

— Talvez os três. Ficamos mesmo num porre de fazer gosto. Mas não é esse o motivo pelo qual quero falar com você.

Donald parou de repente. Richard quase deu um encontrão nele. Michael efetivamente colidiu com Richard.

— O que é, marujo? — inquiriu Donald, com uma voz de quem não admitia baboseiras. — Trate de ir desembuchando. Temos uma palestra interessante a assistir que não desejo perder.— Bom, sabe o que é... — Richard começou, mas aí tropeçou nas palavras, sem saber como começar. Donald o intimidava, fazendo-o deixar de lado as fanfarronices anteriores.

— Vamos, marujo — disse Donald, de forma brusca. — Desembuche.

— Michael e eu achamos melhor sair de Interterra — disse Richard.

— Ah, para dois cabeçudos, vocês até que são inteligentes — disse Donald. — Imagino que essa súbita iluminação divina tenha ocorrido a vocês esta manhã. Bom, talvez eu deva lembrar-lhes que não sabemos onde estamos até que Arak decida nos contar. Então, uma vez que te­nhamos descoberto isso, talvez possamos conversar de novo. — Donald fez sinal de se retirar. Richard agarrou o braço dele, de puro desespero. Donald olhou a mão de Richard, furioso. — Solte-me antes que eu perca completamente o controle.

—Mas... — disse Richard.

—Pare com isso, marujo! — berrou Donald, interrompendo a conversa e dando um puxão no braço para soltá-lo das mãos de Richard. Depois, caminhando rapidamente, abaixou-se para passar por uma porta no fim do corredor, atrás dos outros.

— Por que diabos você não lhe contou? — Michael quis saber, num sussurro irritado.

— Você também não contou — salientou Richard.

— Sim, porque você disse que ia falar — disse Michael. Ergueu as mãos, frustrado. — Grande conversa! Minha avó poderia ter feito me­lhor. Agora voltamos ao ponto de partida. E você precisa admitir, aque­le corpo não está no melhor esconderijo. E se o acharem?

Richard estremeceu.

— Detesto pensar nessa possibilidade. Mas foi o melhor que pu­demos fazer, diante das circunstâncias.

— Talvez devêssemos ficar o tempo todo no quarto — sugeriu Michael.— Isso não vai resolver nada — disse Richard. — Vamos! Trate­mos ao menos de descobrir onde estamos, para vermos se conseguimos bolar um jeito de dar o fora.

Os dois homens seguiram Donald e se acharam em uma sala futu­rista e redonda com nove metros de diâmetro e teto abobadado. Não havia janelas. Uma única fileira de doze cadeiras anatômicas cercava uma área central escura e ligeiramente convexa.

Arak e Sufa estavam sentados diretamente em frente à entrada, em cadeiras com consoles de controle embutidos nos braços. Imediatamente à direita de Arak e Sufa se encontravam duas pessoas que os mergulha­dores nunca tinham visto antes. Embora esse casal estivesse de branco, como era o costume, não eram tão bonitos como os outros interterráqueos. Suzanne e Perry estavam sentados à esquerda de Arak e Sufa. Donald estava longe deles, à direita, sozinho, com montes de lugares vazios entre ele e os outros.

— Por favor, Richard, Michael — chamou Arak. — Tomem seus lugares. Qualquer um que quiserem. E aí começaremos.

Richard fez questão de passar por várias cadeiras vazias e sentar-se ao lado de Donald. Richard cumprimentou-o com a cabeça, mas Donald reagiu mudando o peso do corpo para longe do mergulhador. Michael sentou-se ao lado de Richard.

— Mais uma vez, sejam bem-vindos a Interterra — disse Arak. — Hoje vamos desafiar seus intelectos de forma muito positiva. E enquanto isso irão logo descobrir como todos vocês tiveram sorte.

— Que tal começar nos contando quando voltaremos para casa? — perguntou Richard.

— Cala essa matraca! — rosnou Donald. Arak riu.

— Richard, aprecio muito sua espontaneidade e impulsividade, mas tenha paciência.

— Em primeiro lugar, gostaríamos de lhe apresentar dois de nos­sos cidadãos de destaque — disse Sufa. — Tenho certeza de que irão achar muito útil conversar com eles, pois, como vocês, eles também vieram do mundo da superfície. Permitam-me apresentar-lhes Ismael e Mary Black.

O casal ficou de pé um momento e cumprimentou-os com uma reverência. Michael aplaudiu por hábito, mas parou de imediato ao perceber que tinha sido o único a bater palmas. Suzanne e Perry, curio­sos e de olhos arregalados, fitaram atentamente o casal.

— Mary e eu gostaríamos de lhes dar boas-vindas também — dis­se Ismael. Era um homem consideravelmente alto, com feições acentu­adas, finas e compridas e olhos bem encovados. — Estamos aqui porque passamos por aquilo pelo qual estão para passar, e por isso podemos estar em condições de ajudá-los. Como sugestão geral, eu os incentiva­ria a não tentar absorver muita coisa rápido demais.

Michael se inclinou para Richard e murmurou:

— Acha que ele está se referindo àquele creme para as mãos porreta que usamos ontem à noite?

— Calem-se! — Alertou Donald asperamente, enfatizando as síla­bas. — Se continuarem a interromper, vou ter de lhes pedir que se sen­tem longe de mim.

— Tá legal, falou — disse Michael.

— Obrigado, Ismael — disse Arak. Depois, olhando para cada um dos visitantes, acrescentou: — Espero que vocês todos aprovei­tem bem a oferta dos Blacks. Sentimos que uma divisão de trabalho poderá ajudar. Sufa e eu estaremos à sua disposição para fins de pres­tação de informações, e as questões de adaptação serão respondidas por Ismael e Mary.

Suzanne chegou mais perto de Perry. Havia em seu rosto uma nova expressão preocupada.

— Como assim, questões de "adaptação"? Quanto tempo acha que eles pretendem nos manter aqui?

— Sei lá — sussurrou Perry. Também estava perplexo diante dessa mesma insinuação.— Antes de começarmos, gostaria de dar a cada um dos senhores um telecomunicador e óculos — disse Sufa. Abriu uma caixa que trou­xera à reunião, e de lá tirou cinco pacotinhos, cada um com um nome impresso em negrito na parte de cima. Com eles nos braços, foi distribuindo-os aos seus respectivos donos. Richard e Michael rasgaram as embalagens dos seus como se atacassem presentes de Natal. Suzanne e Perry abriram os seus com cuidado. Donald deixou o dele fechado so­bre o colo.

— Parecem óculos e um relógio de pulso sem mostrador — disse Michael. Ficou decepcionado. Experimentou os óculos. Tinham for­mato aerodinâmico e lentes transparentes.

— É um sistema telecomunicador — explicou Sufa. — São ativados por comando de voz, e cada um está regulado para a voz de uma certa pessoa, não são intercambiáveis. Vamos mostrar-lhes como utilizá-los mais tarde.

— O que eles fazem? — indagou Richard. Experimentou os ócu­los também.

— Quase tudo — disse Sufa. — Conectam-se com fontes centrais cujas informações aparecem virtualmente através dos óculos. Também permitem comunicação com qualquer habitante de Interterra por visão e pelo som. Fazem até coisas corriqueiras, como chamar os táxis aéreos, mas depois falarei mais sobre eles.

— Vamos começar — disse Arak. Tocou o teclado sobre o console diante de si, e a área escura e convexa se tornou azul fosforescente.

"A primeira coisa sobre a qual devemos falar é o conceito do tempo — disse Arak. — Isso talvez seja o assunto mais difícil para gente como vocês entender, porque aqui em Interterra o tempo não é o construto imutável que aparenta ser na superfície da Terra. Seu cientista, Sr. Einstein, reconheceu a relatividade do tempo, no sentido que depende da posição de observação da pessoa. Aqui em Interterra vocês depara­rão com muitos exemplos dessa relatividade. O mais simples, por exem­plo, é a idade de nossa civilização. Do ponto de vista das referências da superfície terrestre, nossa civilização é incrivelmente antiga, ao passo que, de nosso ponto de referência, e daquele do restante do sistema so­lar, não é. Sua civilização se mede em termos de milênios, a nossa, de milhões de anos, e o sistema solar, em bilhões de anos.

— Ai meu pai do céu — reclamou Richard. — Será que vamos ser obrigados a ficar aqui ouvindo essa ladainha? Pensei que você ia nos dizer onde diabos nós estamos.

— Se não compreenderem os fundamentos — disse Arak —, o que vou lhes expor será inacreditável, até sem sentido.

— Por que não começamos do fim para o princípio? — sugeriu Richard. — Diga-nos onde estamos, depois o resto.

— Richard! — ralhou Suzanne. — Quieto aí! Richard revirou os olhos, para Michael ver. Michael mostrou sua impaciência descruzando e tornando a cruzar as pernas.

— O tempo não é uma constante — continuou Arak. — Como eu já disse, o seu astuto cientista, Einstein, reconheceu isso, mas o erro dele foi pensar que a velocidade da luz era o limite máximo do movi­mento. Não é verdade, embora seja necessária uma enorme quantidade de quanta de energia focalizada para se romper esse limite. Uma boa analogia, tirada da vida diária, é a quantidade extra de energia necessá­ria para uma mudança de fase que transforma um sólido num líquido, ou um líquido num gás. Impulsionar um objeto além da velocidade da luz é como uma mudança de fase para uma dimensão onde o tempo é plástico e tem relação apenas com o espaço.

— Cruz-credo! — disse Richard, sem pensar. — Isso é alguma piada? Donald pôs-se de pé e se sentou longe dos dois mergulhadores.

— Tente ser paciente — disse Arak. — E se concentre no fato de que o tempo não é uma constante. Pense nisso! Se o tempo é mesmo relativo, então pode ser controlado, manipulado e transformado. O que nos leva ao conceito da morte. Ouçam com toda a atenção! Na superfí­cie da Terra a morte vem sendo um acessório necessário da evolução, e a evolução é a única justificativa da morte. Mas, uma vez que a evolução gerou um ser cognitivo e sensato, a morte não é mais necessária, passa a ser um desperdício.

Diante daquela menção a morte, Richard e Michael afundaram-se mais nas poltronas. Perry ergueu a mão. Arak imediatamente lhe con­cedeu a palavra.

— Temos permissão para fazer perguntas? — indagou Perry.

— Mas é claro — disse Arak, afavelmente. — Isso aqui tem o ob­jetivo de ser mais um seminário do que uma palestra. Mas peço-lhes que apenas façam perguntas sobre o que eu já disse, e não sobre o que imaginam que eu vá dizer.

— Você falou em medir o tempo — disse Perry. — Quis dizer que sua civilização, conforme diz, antecede nossa civilização lá da superfície?

— Sem dúvida — disse Arak. — E somos mais antigos uma quan­tidade de tempo quase incompreensível para sua experiência. Nossa história interterráquea gravada remonta a quase seiscentos milhões de anos.

— Ah, espera aí! — zombou Richard. — Isso é impossível. Isso aí que você está dizendo é um monte de abobrinhas. Então vocês já exis­tiam antes dos dinossauros?

— Somos muito mais antigos que os seus dinossauros — confir­mou Arak. — E sua descrença é inteiramente compreensível. Por isso vamos devagar com essa introdução a Interterra. Não pretendo me ex­ceder ao sublinhar esse aspecto, mas é muito mais fácil adaptar-se à sua realidade atual por partes.

— Está tudo muito bem — disse Richard. — Mas que tal nos dar umas provas de todas essas lorotas? Estou começando a achar que todo esse lance é uma armação daquelas bem sofisticadas, e, francamente, não estou interessado em perder meu tempo sentado aqui.

Nem Donald, nem Suzanne reclamaram daquela interrupção de Richard. Ambos estavam alimentando reflexões semelhantes, embora Suzanne certamente não fosse capaz de manifestar seu ceticismo de um modo assim tão grosseiro. Arak, porém, permaneceu imperturbável.— Muito bem — disse Arak, pacientemente. — Vamos lhes for­necer algumas provas em relação às quais possam estabelecer um para­lelo com a história de sua civilização. Nossa civilização andou observando e registrando o progresso da sua civilização humana de segunda geração desde o tempo de sua evolução.

— O que quer dizer exatamente com ser humano de segunda ge­ração?

— Vai entender logo — disse Arak. — Em primeiro lugar, va­mos lhes mostrar algumas imagens interessantes. Como já disse, an­damos observando o progresso de sua civilização, e até cerca de cinqüenta anos atrás, pudemos fazer isso à vontade. Desde então, a sofisticação tecnológica cada vez maior de sua civilização vem limi­tando nossa vigilância, que restringimos para evitarmos ser detecta­dos. Aliás, paramos de usar a maioria de nossas portas de saída antigas, como a que usamos para trazê-los a Interterra, ou aquela de Barsama, nossa cidade-irmã, a oeste. Mandamos vedar ambas com magma, mas a inépcia burocrática dos clones operários impediu a execução do decreto.

— Meu Deus, você é mesmo um cara prolixo, hein, meu irmão — disse Richard. — Cadê as provas?

— A caverna na qual nosso submersível aportou? — indagou Suzanne.

— Correto — disse Arak.

— Ela normalmente fica cheia de água do mar? — indagou Suzanne.

— Mais uma vez correto — disse Arak. Suzanne virou-se para Perry.

— Não admira que o monte submarino Olimpo jamais tenha sido detectado pelo Geosat. O monte submarino não tem massa suficiente para ser captado por um gravímetro.

— Ora, vamos! — reclamou Richard. — Já chega de enrolação. Vamos mostrando as provas!— Certo, Richard — disse Arak, pacientemente. — Por que não sugere um período da história de vocês que gostariam de observar nos nossos arquivos de referência? Quanto mais antigo melhor, para que eu possa provar o que digo.

Richard olhou para Michael, pedindo ajuda.

— Que tal os gladiadores? — disse Michael. — Vamos ver uns gladiadores romanos.

— O combate entre gladiadores podia ser observado — disse Arak, relutante —, mas essas gravações violentas se encontram sob censura bastante severa. Para vê-las, seria necessário obter anuência especial do Conselho de Anciãos. Talvez alguma outra época seja mais adequada.

— Mas isso é pra lá de ridículo! — exclamou Richard.

— Tente se controlar, marujo — atalhou Donald.

— Deixe-me tentar entender o que você está querendo dizer — disse Suzanne. — Está insinuando que tem gravações de toda a história humana, e quer que escolhamos algum período histórico para poder­mos ver imagens dele?

— Exatamente — respondeu Arak.

— Que tal a Idade Média? — sugeriu Suzanne.

— Essa é uma era bem grande — disse Arak. — Pode ser mais es­pecífica?

— Certo — disse Suzanne — Que tal a França do século XIV?

— Mas vai cair justo na Guerra dos Cem Anos — disse Arak, sem entusiasmo. — É curioso que até a senhora, Dra. Newell, solicite ima­gens de uma época tão violenta. Mas, afinal, vocês, humanos de segun­da geração, têm antecedentes violentos.

— Mostre as pessoas se divertindo, não em guerra — disse Suzanne. Arak tocou o teclado do seu console e depois se inclinou para falar em um pequeno microfone no centro dele. Quase de imediato a ilumi­nação da sala se apagou e a tela do chão criou vida, enchendo-se de imagens borradas passando a uma velocidade incrível. Fascinados, to­dos se inclinaram sobre a mureta e ficaram assistindo.Finalmente as imagens começaram a passar mais devagar, depois pararam. A cena projetada era nítida e cristalina, com um colorido na­tural e com três dimensões holográficas perfeitas. Era de um pequeno trigal no fim do verão, gravada de uma altitude de cerca de 120 a 150 metros. Um grupo de pessoas havia interrompido a lida na colheita. As foices estavam espalhadas ao acaso em torno de várias toalhas sobre as quais se encontrava servida uma refeição modesta. O áudio era de ci­garras de verão a ciciar intermitente.

— Isso não é interessante — disse Arak depois de dar uma espia­da. — Não prova nada. Fora as vestimentas grosseiras das pessoas, não se pode identificar a época. Vamos recomeçar a busca.

Antes que alguém pudesse reagir a tela ficou borrada outra vez en­quanto milhares de imagens passavam. Olhar aquela luz intermitente e rápida dava tontura, mas logo ela foi ficando mais lenta e parou.

— Ah, essa é muito melhor — exclamou Arak. Agora a imagem era a de um castelo erigido numa proeminência rochosa, onde estava acontecendo alguma espécie de torneio. O ponto de onde as imagens haviam sido filmadas era bem mais alto que o da cena anterior. A colo­ração da vegetação em torno das muralhas do castelo indicava que esta­vam em meados do outono. O pátio estava repleto de gente turbulenta cujas vozes compunham um murmúrio atenuado. Todos estavam traja­dos com vestes medievais coloridas. Flâmulas com brasões drapejavam ao vento. Em cada extremidade de uma cerca longa e baixa que passava pelo centro do pátio, dois cavaleiros acabavam de se preparar para uma justa. Seus cavalos ajaezados com capas coloridas estavam de frente um para o outro, escavando o solo, de excitação.

— Como foi que filmaram isso? — indagou Perry. Estava hipnoti­zado pela imagem.

— É um gravador padronizado — disse Arak.

— Quero dizer, de que ponto de observação? — insistiu Perry. — De algum tipo de helicóptero?

Arak e Sufa riram.— Desculpe as risadas — disse Arak. — Helicópteros são veículos feitos com base na sua tecnologia. Não com a nossa. Além disso, um veículo assim seria invasivo demais. Essas imagens foram feitas por uma nave antigravitacional pequena, silenciosa, não tripulada, pairando a cerca de seis mil e quinhentos metros de altura.

— Ei, lá em Hollywood fazem isso o tempo todo — disse Richard.

— Grande coisa! Isso não prova nada.

— Se isso for cenário, é o mais realista que já vi — disse Suzanne. Ela se inclinou mais para ver melhor. Pelo que sabia, Hollywood não conseguiria atingir aquele grau de detalhismo.

Enquanto assistiam à cena, os escudeiros dos cavaleiros de armadu­ra recuaram, e os guerreiros baixaram as lanças. Com um cristalino som de trombetas, os dois cavalos avançaram de lados opostos da cerca de troncos. À medida que se aproximavam um do outro os aplausos da multidão aumentavam de intensidade. Aí, logo antes dos cavaleiros se tocarem, a tela ficou branca. Um momento depois voltou ao azul fosforescente inicial. Depois surgiu uma janela com a seguinte mensa­gem: "Cena censurada. Solicitar permissão ao Conselho de Anciãos."

— Droga! — exclamou Michael. — Eu já estava envolvido no lance. Quem foi que venceu afinal: o cara de verde ou o de vermelho?

— O Richard está certo — disse Donald, de repente, ignorando Michael. — Estas cenas podem ser montadas com facilidade demais.

— Talvez — disse Arak, sem se mostrar nem um pouco ofendido.

— Mas posso lhes mostrar o que quiserem. Não seríamos capazes de encenar todo o complemento da história da primeira geração condi­cionado ao desejo momentâneo de vocês.

— Que tal uma coisa mais antiga? — sugeriu Perry. — Que tal a época neolítica no mesmo ponto onde era o castelo?

— Excelente idéia! — disse Arak. — Vou fornecer as coordena­das sem uma época específica, além de, digamos, antes de dez mil anos atrás, e deixar o programa de busca verificar se há alguma imagem ar­mazenada.A tela voltou a exibir imagens que passavam em ritmo célere. Dessa vez a luz intermitente durou muito mais tempo.

Suzanne tocou o braço de Perry. Inclinou-se para ele quando ele se virou para ela.

— Acho que o que estamos vendo são imagens autênticas — disse Suzanne.

— Eu também — disse Perry. — Sabe-se lá que tecnologia se em­pregou para gravá-las!

— Não estou pensando muito na tecnologia, mas no fato de que esse lugar existe mesmo — sussurrou Suzanne. — Não estamos sonhan­do tudo isso.

— Ah! — comentou Arak. — Acho que a busca encontrou algo. E a época deve ser vinte e cinco mil anos atrás. — Enquanto falava, as imagens foram passando mais lentamente até pararem outra vez.

O cenário era a mesma saliência rochosa, mas sem o castelo. Em vez disso, no alto do morro, se via uma escarpa curta escavada no cen­tro, formando uma caverna não muito profunda. Agrupada em torno da entrada da caverna via-se um grupo de homens de neandertal, vesti­dos com peles de animais e confeccionando implementos rudimen­tares.

— Parece o mesmo lugar, sim — comentou Perry.

Enquanto todos assistiam, a imagem aumentou, mostrando mais de perto a cena doméstica.

— E as imagens são mais nítidas — acrescentou Perry.

— Naquela época não nos importávamos que vissem nossas naves — explicou Arak. — E por isso não havia problema em nos aproximar­mos até uns trinta metros, mais ou menos, para estudarmos o compor­tamento.

Enquanto todos assistiam à seqüência, um dos homens de neandertal endireitou-se depois de raspar uma pele. Enquanto se erguia, por acaso olhou diretamente para cima. Quando olhou, seu rosto animalesco fi­cou subitamente pálido, e a boca escancarou-se, num misto de surpresa e terror. A imagem da tela estava próxima o suficiente e nítida o bastan­te para revelar seus grandes dentes quadrados.

— Bem — comentou Arak —, aí está um exemplo de um caso em que nosso disco antigravitacional de controle remoto foi visto. Esse pobre coitado provavelmente pensa que está recebendo uma visita dos deuses.

— Minha nossa — disse Suzanne. — Ele está tentando chamar a atenção dos outros para que olhem para cima também!

— A linguagem deles era muito limitada — disse Arak —, mas sei que havia outra subespécie nesta mesma época e na mesma área, apro­ximadamente, à qual vocês deram o nome de Cro-Magnon. A capaci­dade lingüística deles era muito melhor.

O neandertal grunhia e pulava apontando para a câmera. Logo o grupo inteiro já estava olhando para o céu. Várias mulheres que traziam consigo filhos pequenos imediatamente os puseram no colo e desapare­ceram na caverna, enquanto outras fugiam.

Um homem mais ousado se curvou, pegou uma pedra do tamanho de um ovo e arremessou-a para o céu. O míssil foi se aproximando, depois passou pela lateral do campo de visão da câmera.

— Nada má, a pontaria do cara — disse Michael. — O Red Sox podia contratá-lo como arremessador.

Arak tocou o seu console, e a imagem desapareceu. Ao mesmo tem­po, as luzes da sala se acenderam. Todos voltaram para suas cadeiras. Arak e Sufa olharam em torno. Os visitantes estavam todos calados por enquanto, até Richard.

— Qual foi a data aproximada dessa gravação? — indagou Perry, afinal.

Arak consultou seu console.

— No seu calendário, seria o dia 14 de julho de 23.342 antes de Cristo.

— Vocês não se incomodavam de que a câmera fosse vista? — indagou Suzanne. A imagem do rosto do neandertal não lhe saía da cabeça.— Estávamos começando a nos preocupar com a possibilidade de sermos detectados — concordou Arak. — Nossa ala conservadora che­gou até a falar em eliminar os seres cognitivos da face da Terra nessa época.

— Por que vocês se incomodariam com gente tão primitiva? — indagou Perry.

— Puramente para evitar a detecção — disse Arak. — É óbvio que vinte e cinco mil anos atrás, devido ao primitivismo de sua civilização, isso não importava. Mas sabíamos que iria, com o tempo. Sabemos que nossas naves têm sido ocasionalmente avistadas até mesmo em sua épo­ca moderna e isso nos preocupa, sim. Felizmente, essas visões vêm sen­do em sua maioria encaradas com descrença, ou, então, os que acreditam imaginam que nossas naves interplanetárias vêm de algum outro lugar do universo, não de dentro da própria Terra.

— Espere aí um segundo — disse Donald, de repente.— Não gosto de jogar água fria na fervura de ninguém, mas não creio que esse espetaculozinho que vocês estão encenando aqui esteja provando algu­ma coisa. Seria moleza criar tudo isso com imagens geradas em compu­tador. Por que não pára com essa enrolação toda e simplesmente nos diz quem representa e o que quer de nós?

Durante um momento, ninguém disse nada. Arak e Sufa inclina­ram-se um para o outro e deliberaram entre si baixinho. Depois conferenciaram com Ismael e Mary. Depois de uma reunião breve aos cochichos, os anfitriões voltaram a se recostar nos encostos das cadei­ras. Arak olhou diretamente para Donald.

— Sr. Fuller, seu ceticismo é totalmente compreensível — disse Arak. — Não sabemos se os outros suspeitam de nós como o senhor. Talvez eles possam influenciar sua opinião mais tarde. Naturalmente, irão sendo apresentadas mais provas à medida que for se desenrolando esta apresentação para introduzi-los ao nosso mundo, e tenho certeza de que se convencerá. Enquanto isso, gostaríamos de solicitar que te­nha paciência durante só mais algum tempo.Donald não respondeu. Simplesmente fuzilou Arak com o olhar.

— Vamos seguir adiante — disse Arak. — E permita-me apre­sentar-lhes um resumo da história de Interterra. Para isso, precisa­mos começar no seu mundo, a superfície da Terra. A vida por lá começou por volta de quinhentos milhões de anos depois que a Ter­ra se formou, e levou vários bilhões de anos para se desenvolver. Os cientistas de seu mundo sabem bem disso. O que não sabem é que nós, humanos de primeira geração, evoluímos cerca de quinhentos e cinqüenta milhões de anos atrás, durante a primeira fase da evolu­ção. O motivo pelo qual seus cientistas não tomaram conhecimento dessa primeira fase é que quase todo o registro fossilizado dela desa­pareceu durante uma época que chamamos de Período das Trevas. Mas falaremos disso depois. Primeiro precisamos mostrar algumas imagens desses primeiros tempos de nossa civilização, mas a quali­dade não é boa.

A luz diminuiu de intensidade progressivamente. Na escuridão cres­cente Suzanne e Perry se entreolharam, mas nada disseram. A atenção dos dois se voltou em breve para a tela do chão. Depois de outro inter­valo de luz intermitente, apareceu uma cena tomada ao nível dos olhos, mostrando um ambiente semelhante ao que os visitantes haviam visto em Interterra. A principal diferença era que os edifícios eram brancos em vez de negros, embora as formas fossem semelhantes. E o povo pa­recia composto de seres humanos normais — não eram todos lindos e estavam ocupados em diversas tarefas diárias.

— Observando estas cenas, somos forçados a sorrir diante de nos­so próprio primitivismo — disse Sufa.

— Sem dúvida — concordou Arak. — Não tínhamos clones ope­rários naqueles tempos antigos.

Suzanne pigarreou. Estava tentando se situar diante de tudo que Arak estava dizendo. Como cientista terráquea estava constatando que a palestra dele entrava em conflito com tudo que ela sabia sobre evolu­ção em geral e a evolução humana em particular.— Está querendo dizer que essas imagens que estamos vendo são de quinhentos e cinqüenta milhões de anos atrás?

— Exato — respondeu Arak. Reprimiu uma risada. Ele e Sufa evi­dentemente estavam se divertindo diante das palhaçadas de um deter­minado indivíduo para erguer um bloco de pedra.

"Desculpem-nos por achar isso tão engraçado — disse ele. — Já faz um bom tempo que não assistimos a nenhuma dessas seqüências. Isso era quando tínhamos alguma coisa parecida com as nacionalidades que vocês têm, embora elas hajam desaparecido depois dos primeiros cin­qüenta mil anos de nossa história. As guerras desapareceram ao mesmo tempo, como devem estar imaginando. Como podem ver, a superfície da terra era muito diferente do jeito que é agora, e é essa aparência que recriamos aqui em Interterra. Naquele tempo havia apenas um supercontinente e um superoceano."

— O que aconteceu depois? — perguntou Suzanne. — Por que sua civilização resolveu viver debaixo da terra?

— Por causa do Período das Trevas — disse Arak. — Nossa civili­zação já tinha quase um milhão de anos de progresso pacífico até come­çarmos a perceber processos potencialmente ameaçadores ocorrendo em uma galáxia próxima à nossa. Dentro de relativamente pouco tempo, ocorreu uma série de explosões cataclísmicas que deram origem a supernovas, literalmente cobrindo a Terra com tempestades de radiação suficientes para dissipar a camada de ozônio. Podíamos ter resolvido isso, mas nossos cientistas também reconheceram que esses eventos galácticos perturbavam também o delicado equilíbrio da população de asteróides do sistema solar. Ficou óbvio que a Terra receberia chuvas de colisões de planetóides, exatamente como ocorreu quando ela se encon­trava em seu estado primordial.

— Caramba! — gemeu Richard. — Não dá mais para agüentar essa conversa.

— Cale a boca, Richard! — ordenou Suzanne rispidamente sem ti­rar os olhos de Arak. — Então Interterra se mudou para debaixo da terra.— Exato — confirmou Arak. — Sabíamos que a superfície da terra se tornaria inabitável. Foi uma era de desespero. Procuramos outro lar em todo o sistema solar, sem êxito, e ainda não havíamos desenvolvido a tecnologia do tempo, para podermos procurar em outras galáxias. De­pois, chegou-se à conclusão de que nossa única chance de sobreviver seria nos mudarmos para a zona subterrânea, ou, para ser mais exato, para de­baixo do oceano. Como detínhamos essa tecnologia, conseguimos fazer a mudança num prazo miraculosamente curto. E em pouco tempo, depois que nos mudamos, o mundo conforme o conhecemos foi consumido por uma radiação mortal, por um bombardeio de asteróides, e por movimen­tos sísmicos. Foi bastante perigoso, mesmo sob a superfície do oceano, porque a certa altura o oceano quase evaporou devido ao calor intenso. Todas as formas de vida da Terra foram destruídas, exceto algumas bacté­rias primitivas, alguns vírus e um certo número de algas verde-azuladas.

De repente a tela ficou branca, e a sala se iluminou de novo. Todos permaneceram calados.

— Bom, foi isso — disse Arak. — Uma cápsula concentrada da história e dos conhecimentos científicos de Interterra. Agora, tenho certeza de que querem fazer algumas perguntas.

— Quanto tempo durou o Período das Trevas? — indagou Suzanne.

— Pouco mais de vinte e cinco mil anos — respondeu Arak. Suzanne sacudiu a cabeça, perplexa e descrente, mas tudo aquilo fazia um pouco de sentido do ponto de vista científico. E o mais im­portante é que explicava a realidade que ela presenciava naquele mo­mento.

— Mas vocês ficaram sob o oceano — disse Perry. — Por que seu povo não voltou para a superfície da Terra?

— Por dois motivos principais — disse Arak. — Em primeiro lu­gar tínhamos tudo de que necessitávamos e havíamos nos acostumado a nosso ambiente. E o segundo motivo foi que, quando a vida na super­fície evoluiu de novo, as bactérias e os vírus que se desenvolveram eram organismos aos quais jamais havíamos sido expostos. Em outras palavras, quando o clima chegou a permitir que reemergíssemos, a biosfera era contrária a nós do ponto de vista antigênico. Talvez letal seja uma palavra melhor, a menos que quiséssemos passar por uma adaptação muito custosa. E então, ficamos aqui até hoje, muito contentes e feli­zes, principalmente porque aqui, sob o oceano, não estamos sujeitos aos caprichos da natureza. De todo universo que visitamos até agora, este pequeno planeta é o que melhor se adapta ao organismo humano.

— Agora entendo por que precisamos passar por uma descontami­nação tão exaustiva — disse Suzanne. — Tínhamos que ficar totalmen­te isentos de microorganismos.

— Exato — disse Arak. — E ao mesmo tempo precisavam adap­tar-se aos nossos organismos.

— Em outras palavras — continuou Suzanne —, a evolução ocor­reu duas vezes na Terra, sendo o resultado essencialmente o mesmo.

— Quase o mesmo — corrigiu Arak. — Houve algumas diferen­ças em algumas espécies. A princípio ficamos surpresos com isso, mas depois fez sentido, uma vez que o DNA original é o mesmo. A vida multicelular evoluiu a partir das mesmas algas verde-azuladas em am­bos os casos, aproximadamente nas mesmas condições climáticas.

— E é por isso que vocês se denominam seres humanos de primei­ra geração — disse Suzanne — e nos chamam de humanos de segunda geração.

Arak sorriu de satisfação.

— Contávamos que entendesse tudo isso tão rapidamente quanto entendeu, Dra. Newell — disse.

Suzanne virou-se para Perry e Donald.

— Estudos científicos confirmam uma parte de tudo isso — disse. — Tanto os indícios geológicos quanto os oceanográficos sugerem que houve um único continente na Terra antigamente, denominado Pangéia.

— Perdão — disse Arak. — Não tenho a intenção de interrompê-la, mas isso não corresponde a nosso continente original. Pangéia vol­tou a se formar durante a última parte das perturbações geológicas do Período das Trevas. Nosso continente sofreu uma destruição total na astenosfera antes disso.

Suzanne indicou que entendia, com a cabeça.

— Muito interessante — disse ela. — E deve ter sido esse o moti­vo pelo qual o registro fóssil da primeira evolução se perdeu.

Arak sorriu, satisfeito, uma segunda vez.

— Sua compreensão desses conhecimentos básicos é bastante encorajadora, Dra. Newell. Mas já havíamos percebido isso antes que chegasse aqui.

— Antes que eu chegasse? — indagou Suzanne. — O que quer dizer com isso?

— Nada — acrescentou Arak, mais que depressa. — Absoluta­mente nada. Talvez devêssemos recordar a seus colegas que foi o rom­pimento de Pangéia que levou à formação da configuração atual dos continentes.

— É verdade — concordou Suzanne enquanto olhava Arak, ansio­sa. Tinha a sensação incômoda de que Arak estava escondendo algo dela. Olhou para Donald e Perry e imaginou até que ponto estavam entenden­do aquilo. A apresentação de Arak estava claramente além da capacidade de compreensão de Richard e Michael. Ambos pareciam estudantes entediados.

— Bom, gente — disse Arak, procurando manifestar certo entu­siasmo esfregando as mãos uma na outra —, imagino como devem es­tar reagindo a todas essas informações. É uma experiência atemorizante ver contestadas todas as suas idéias preconcebidas e aceitas. É por isso que vimos insistindo em introduzi-los devagar no nosso mundo. Arris­caria o palpite de que já receberam bastantes informações por meio de palestra, talvez até demais. A essa altura, acho que seria melhor lhes mostrar algumas das nossas formas de viver em primeira mão.

— Quer dizer que vai nos levar à cidade? — indagou Richard.

— Se isso for do gosto de todos — disse Arak.— Estou dentro — disse Richard, ávido.

— Eu também — disse Michael.

— E o restante de vocês? — indagou Arak.

— Eu vou — disse Suzanne.

— É claro que vou — disse Perry quando Arak olhou para ele. Quando foi a vez de Donald, ele simplesmente confirmou com a cabeça.

— Maravilha — disse Arak. — Agora, se derem a mim e a Sufa alguns minutos, permanecendo em seus lugares, providenciaremos tudo. — Estendeu a mão para Sufa, e ela também se ergueu. Juntos eles pas­saram à saleta de reuniões contígua.

Perry sacudiu a cabeça.

— Estou me sentindo abalado. Essa situação inteira está ficando totalmente inacreditável.

— Não sei se devo acreditar em alguma coisa — disse Donald.

— O irônico é que tudo me parece fantástico demais para não ser verdade — disse Suzanne. — E tudo faz um certo sentido do ponto de vista científico. — Olhou para Ismael e Mary Black, que se encontra­vam sentados pacientemente.

— Por favor, gente, contem-nos sua história. É verdade que vie­ram do mundo da superfície?

— Sim, é — confirmou Ismael.

— De onde? — indagou Perry.

— De Gloucester, Massachusetts — disse Mary.

— Não brinca — disse Michael. Endireitou-se na cadeira. — Ora, eu também sou de Massachusetts, de Chelsea. Já estiveram lá?

— Já ouvi falar — disse Ismael —, mas nunca estive lá.

— Todos de North Shore já estiveram em Chelsea — disse Michael, contendo o riso. — Porque lá fica uma ponta da Ponte Tobin.

— Nunca ouvimos falar dessa Ponte Tobin — disse Ismael. Os olhos de Michael semicerraram-se de desconfiança.

— Como vieram parar aqui em Interterra? — indagou Richard.

— Tivemos muita sorte — disse Mary. — Muita sorte mesmo. Exatamente como vocês.— Estavam mergulhando? — indagou Perry.

— Não — disse Ismael. — Enfrentamos uma tormenta terrível no caminho dos Açores para a América. Era para termos morrido afogados como os outros passageiros do navio. Mas, como disse a Mary, tivemos sorte, e fomos salvos por acaso, por um veículo interplanetário interterráqueo. Literalmente fomos sugados pela mesma porta de saída que vocês, e depois ressuscitados pelos interterráqueos.

— Qual o nome do navio de vocês? — perguntou Donald.

— Chamava-se Tempest— disse Ismael —, o que se revelou bem ade­quado, considerando-se o destino que teve. Era uma escuna de Gloucester.

— Escuna? — indagou Donald, estranhando aquilo. — Em que ano isso ocorreu?

— Deixe-me ver se me lembro — disse Mary. — Eu tinha 16 anos. Então foi em 1801.

— Ai meu Deus do céu — murmurou Donald. Fechou os olhos e passou a mão na cabeça calva. Havia raspado a cabeça naquela manhã.

— E vocês ainda perguntam o motivo do meu ceticismo!?

— Mary, isso foi há uns duzentos anos — disse Suzanne.

— Eu sei — disse Mary. — É difícil crer, mas não é maravilhoso? Olha como parecemos jovens.

— Espera que acreditemos que você tem mais de duzentos anos?

— indagou Perry.

— Vão levar tempo para entender o mundo no qual se encontram agora — disse Mary. — Só posso lhes dizer que deviam tentar evitar formar qualquer opinião antes de terem visto e ouvido mais. Podemos nos lembrar de como nos sentíamos quando nos deram essas mesmas informações. E lembrem-se de que para nós tudo foi ainda mais estarrecedor, uma vez que sua tecnologia evoluiu muito nos últimos duzentos anos.

— Apóio a Mary nesse conselho — disse Ismael. — Tentem man­ter em mente o que Arak disse no início da sessão. O tempo tem um significado diferente aqui em Interterra. Aliás, os interterráqueos não morrem da mesma forma que na superfície.

— Não morrem o cacete — sussurrou Michael.

— Cale essa boca — sussurrou Richard em resposta, entre os dentes.

 

Para Perry e os outros, o táxi aéreo parecia o mesmo que haviam to­mado no dia anterior, mas Arak disse que era um modelo mais recente e muito superior. Independentemente disso, ele levou o grupo de uma forma igualmente fácil e silenciosa do terreno do palácio dos visitantes para a movimentada cidade.

— Os imigrantes em geral passam uma semana inteira na sala de conferências antes de se aventurarem a sair assim — disse Sufa. — Pode ser pesado para o intelecto, bem como para as emoções. Esperamos não estar indo rápido demais com vocês.

— Têm alguma idéia a expor a respeito disso? — indagou Arak. — Naturalmente estamos abertos a sugestões.

Os componentes do grupo se entreolharam, cada qual esperando que o outro respondesse. Como Sufa havia dito, a situação era de estarrecer, principalmente com a nuvem de outros táxis aéreos passan­do rapidamente em todas as direções concebíveis. Só o fato de não co­lidirem entre si já era qualquer coisa de espetacular.

— Ninguém tem uma opinião? — persistiu Arak.

— Tudo aqui é impressionante — admitiu Perry. — Assim, é difí­cil dar opinião. Mas creio que, do meu ponto de vista, quanto mais eu vir, melhor. O fato de meramente experimentar sua tecnologia, como viajar nesse táxi aéreo, torna tudo que disse mais aceitável.

— O que vai nos mostrar? — indagou Suzanne.

— Essa foi uma decisão difícil — disse Arak. — Por isso Sufa e eu levamos tanto tempo organizando tudo. Foi difícil resolver por onde começar.

Antes que Arak pudesse terminar, o aerodeslizador parou subita­mente, depois desceu rápido. Um momento depois, a porta de saída apareceu onde antes não havia sequer sinal dela.

— Como é que a porta se abre assim? — indagou Perry.

— É uma transformação molecular no material compósito — dis­se Arak. Gesticulou para que todos desembarcassem.

Perry inclinou-se para Suzanne quando se levantou.

— Bela explicação — reclamou.

O táxi aéreo havia deixado o grupo diante de um prédio relativa­mente baixo, sem janelas, revestido do mesmo basalto negro que os outros prédios. Seus lados tinham cerca de trinta metros de comprimento e seis metros de altura, inclinavam-se num ângulo de sessenta graus criando uma pirâmide truncada atarracada. Havia pouco movimento de pedestres. Mesmo assim, no momento em que apareceram os huma­nos secundários, começou a formar-se uma pequena multidão.

— Espero que vocês não se importem de serem celebridades — disse Arak. — Como tenho certeza de que perceberam ontem à noite, toda a Saranta está encantada com a chegada de vocês.

A multidão que estava se reunindo era turbulenta, porém educada. Os que estavam mais próximos aos visitantes estendiam as mãos ansio­sos, procurando pressionar as palmas com eles. Richard e Michael ado­raram fazer isso, principalmente com as mulheres. Arak teve que agir como guarda-costas para conseguir fazer o grupo passar pela porta, prin­cipalmente os dois mergulhadores. A multidão ficou do lado de fora, respeitosa.

— Estou gostando cada vez mais desse lugar — disse Richard.— Que bom — disse Arak.

— Todos são muito cordiais — disse Suzanne.

— Claro — disse Sufa. — É nosso modo de ser. Além disso, vocês são extraordinariamente divertidos.

Suzanne olhou de relance para Donald, para ver sua reação. Ele só meneou quase imperceptivelmente a cabeça, como se suas suspeitas se confirmassem.

Lá dentro, o grupo se viu em uma enorme sala quadrada com inte­rior negro em vez do branco de costume. Era bem simples, sem decora­ção, nem mobília, nem mesmo portas, fora a de entrada. Vários interterráqueos estavam de pé na sala, de frente para paredes despoja­das. Quando viram quem havia chegado, começaram a se movimentar.

Arak passou rapidamente com os cinco para uma parte vazia da parede e murmurou qualquer coisa no comunicador de pulso. Para es­panto do grupo, a parede diante deles se abriu da mesma forma que a porta do táxi aéreo. Arak os arrebanhou para um pequeno cubículo atrás dela.

— Um dia você precisa me explicar como funciona esse mecanis­mo de abertura e fechamento — disse Perry a Arak. Perry pousou a mão na parede assim que entrou na sala menor porém igualmente vazia. A textura e a condutividade térmica do material lhe lembraram alguma coisa semelhante à fibra de vidro.

— Certamente — disse Arak, mas estava ocupado falando no comunicador. Um momento depois, a parede vedou-se e a sala mer­gulhou.

Todos instintivamente se agarraram em quem estivesse mais próxi­mo, uma vez que tinham ficado praticamente destituídos de peso.

— Meu Deus! — deixou escapar Michael. — A sala está caindo.

— É só um elevador — disse Arak.

Todo o grupo de humanos de segunda geração riu, envergonhado.

— Ora, como é que eu ia saber? — queixou-se Michael. Achou que os outros estavam rindo dele.— Voltando à decisão do que lhes mostrar primeiro — disse Arak. — Sufa e eu resolvemos fazer o contrário do que talvez vocês fizessem na superfície. Em vez de lhes mostrar a vida do berço ao túmulo, pen­samos em mostrar-lhes a vida do túmulo ao berço. — Arak deu um sorriso malicioso ao apresentar essa inversão claramente ilógica, e Sufa imitou-o.

— Devemos estar indo para algum lugar muito profundo — disse Suzanne. Estava preocupada demais pelas cercanias para reagir ao co­mentário de Arak. Embora não houvesse ruído nem movimento per­ceptível, a imponderabilidade comparativa lhes indicava a velocidade de descida.

— Estamos mesmo indo bem fundo — disse Arak. — E, por con­seguinte, vai estar meio quente lá embaixo.

Finalmente a velocidade da descida reduziu-se, e todos instintiva­mente se prepararam. Perry pôs a mão na parede outra vez e sentiu uma onda térmica antes de sua abertura. Arak e Sufa foram na frente ao saírem.

Corredores profusamente iluminados se estendiam em três direções: diretamente à frente, e para ambos os lados. Cada um era um estudo de perspectiva. Podiam-se também ver múltiplos outros corredores orien­tados em ângulos retos.

Um pequeno veículo aberto aguardava-os próximo ao elevador. Ele parecia ser fruto da mesma tecnologia do táxi aéreo, uma vez que paira­va silenciosamente a alguns metros do chão. Arak fez sinal para que todos entrassem. Perry e Suzanne subiram com Sufa, mas Donald hesitou, efetivamente impedindo que Richard e Michael subissem. Inspecionou até onde pôde os corredores aparentemente intermináveis. Como Arak havia avisado, o ar estava quente. O alto da cabeça de Donald brilhava de suor.

— Por favor — disse Arak, indicando um lugar no pequeno ôni­bus antigravitacional.

— Isso parece uma espécie de presídio — disse Donald, desconfiado.— Não é presídio — garantiu-lhe Arak. — Não há presídios em Interterra.

Michael olhou Richard de relance e fez um sinal com o polegar para cima.

— Se não é presídio, então o que é? — indagou Donald.

— É uma catacumba — disse Arak. — Não precisam se preocu­par. É totalmente segura, e só vamos ficar aqui durante o tempo que durar nossa curta visita instrucional.

Relutante, Donald subiu no ônibus. Estava claro que ele não estava lá muito mais animado para visitar um cemitério subterrâneo do que estaria por se encontrar em uma prisão. Richard e Michael o seguiram. Depois que Arak se sentou, disse algo ao microfone do console. Dentro de segundos, já estavam disparando pelo corredor como um trem ex­presso silencioso, salvo pelo som do vento.

O motivo para usarem o veículo ficou claro depois de eles terem viajado alguns minutos. Viajando o mais rápido que podiam a uma velocidade ampliada pela proximidade das paredes, cobriram uma grande distância dentro do que se revelou uma imensa malha labiríntica sub­terrânea. Depois de um quarto de hora e meia dúzia de curvas em ân­gulo reto estonteantes, o veículo reduziu a velocidade e parou.

Várias saletas saíam de cada corredor, e em uma delas Arak entrou, conduzindo o grupo. Donald deixou claro que não estava feliz por esítar tão isolado, e ficou ao lado da porta.

As paredes da saleta estavam repletas de nichos. Arak foi até um de­terminado nicho, na altura do peito, e retirou dele uma caixa e um livro.

— Já faz muito tempo que não venho aqui — disse. Espanou a poeira de cima dos dois objetos. — Esta caixa é o meu túmulo. — Ergueu-a. Era preta e mais ou menos do tamanho de uma caixa de sapatos. — E este livro contém a lista das datas de todas as minhas mortes anteriores.

— Mas que cascata! — deixou escapar Richard. — Agora quer que acreditemos que você ressurgiu dos mortos! E não uma vez, mas várias. Ora, qual é, compadre!?Suzanne viu-se concordando com a cabeça, enquanto Richard ex­pressava a reação dela. Exatamente quando estava começando a crer em tudo que estavam lhe dizendo, Arak precisava vir com uma decla­ração que desafiava qualquer tentativa de credulidade. Ela olhou de relance para Perry para ver se ele havia reagido da mesma forma. Mas Perry estava hipnotizado pelo livro, que Arak havia colocado em suas mãos.

Arak abriu com cuidado a tampa da caixa, olhou o conteúdo, de­pois passou-o para que todos o examinassem. Suzanne espiou, relutan­te, incerta do que ia ver. Mas era apenas uma camada de cabelos.

Arak e Sufa sorriram juntos. Era como se estivessem se divertindo com a confusão dos seus hóspedes.

— Permitam-me que lhes explique — disse Arak. — Na caixa há um cacho de cabelos de cada um dos meus corpos anteriores. Os cor­pos em si foram devolvidos à astenosfera derretida, que não fica distan­te de onde nos encontramos. Como já devem ter imaginado, tudo se recicla em Interterra.

— Não entendi esse livro — disse Perry. Folheou algumas pági­nas, olhando de relance as colunas de números escritos à mão, que não faziam sentido, pois não eram datas como as do calendário gregoriano. Havia centenas delas, o que tornava tudo mais complicado ainda.

— Não pode mesmo entender — disse Arak com um sorriso brin­calhão. — Ainda não. Ou pelo menos não até subirmos para a câmara de processamento principal. — Tirou o livro de Perry e recolocou-o no nicho junto com a caixa.

Confuso, o grupo seguiu Arak para fora da saleta e voltou a subir no veículo antigravitacional. A viagem de volta pareceu levar menos tempo que a de ida, e logo chegaram ao elevador.

— Se esperam que aprendamos alguma coisa dessa visitinha, en­tão não deu certo — disse Suzanne, ao entrarem no elevador.

— Mas vai dar — garantiu-lhe Arak. — Tenha um pouco de pa­ciência.Saíram do elevador num andar apinhado de seres humanos primá­rios, e alguns clones operários. Estava tão cheio que foi difícil o grupo permanecer junto, especialmente quando alguns indivíduos reconhe­ceram os humanos secundários, da festa da noite anterior, e vieram assediá-los, na esperança de pressionar palmas com eles. Richard e Michael foram os mais procurados.

Apesar dessa multidão, Arak e Sufa acabaram conseguindo levar seus hóspedes até uma grande tela. Na tela se viam centenas de nomes de indivíduos seguidos por números de salas e horas. Arak olhou-a alguns momentos, antes de encontrar um nome conhecido.

— Ora, vejam — disse Arak a Sufa. Apontou um dos nomes. — Reesta resolveu falecer. Mas que maravilhosa conveniência! E ele reser­vou a sala trinta e sete. Não poderia ser melhor. É uma das mais novas, com a aparelhagem de transferência bem visível.

— Já era hora dele falecer — comentou Sufa. — Ele vem recla­mando muito daquele corpo, há anos.

— Será perfeito para nosso objetivo — disse Arak.

— Talvez, tendo decidido isso, eu vá ao centro de fertilização — disse Sufa. — Isso vai me dar chance de preparar as coisas e dizer aos clones que o grupo vai aparecer por lá em breve.

— Idéia maravilhosa — exultou Arak. — Devemos estar lá antes de uma hora. Veja se consegue programar para vermos uma emersão mais ou menos a essa hora.

— Vou tentar — disse Sufa. — E que tal levar o grupo para nossos aposentos depois?

— A idéia era justamente essa — disse Arak. — Só espero que te­nhamos tempo.

— Até daqui a pouco — disse Sufa, enquanto tocava palmas de leve com Arak. Depois se foi.

— Muito bem, gente — continuou Arak, voltando ao grupo —, vamos tentar ficar todos juntos. Se alguém se separar do grupo, é só perguntar onde fica a sala trinta e sete. — Arak partiu, abrindo cami­nho entre as pessoas aglomeradas que olhavam a tela.

Suzanne fez questão de ficar perto dele tanto quanto pôde.

— "Falecer" é um eufemismo igual ao do nosso mundo? — inda­gou Suzanne.

— Semelhante, seria mais correto — respondeu Arak. Os mergu­lhadores lhe chamaram a atenção, pressionando as palmas de todas as mulheres que viam. — Richard e Michael — chamou. — Por favor, mantenham-se perto do grupo! Haverá muito tempo para pressionar palmas esta noite. Vocês terão tempo de folga.

— Vamos testemunhar algum tipo de eutanásia? — indagou Suzanne, com um pressentimento.

— Meu Deus, não! — respondeu Arak.

— Ismael e Mary disseram que vocês não morrem como nós — comentou Suzanne.

— Correto — disse Arak. Depois teve que parar e voltar para onde Richard e Michael se encontravam rodeados de gente. Enquanto ele li­berava os dois mergulhadores, Suzanne chegou perto de Perry.

— Não estou preparada para presenciar nenhuma cena mórbida — disse.

— Nem eu — disse Perry.

— Talvez devêssemos ter preferido ouvir mais palestras antes dessa excursão prática — disse Suzanne, tentando fazer um pouco de graça.

Perry soltou uma risada sem graça.

Arak conseguiu fazer Richard e Michael avançarem, e ficou com eles para afastar os fãs entusiasmados. Suzanne e Perry seguiram-nos com Donald logo atrás. Nessa configuração conseguiram chegar diante da porta da sala 37.

Perry olhou para o relevo da grande porta de bronze. Reconheceu-o como o cão de três cabeças, Cérbero, que guardava o mundo dos mortos na mitologia grega. Surpreso, mencionou-o a Arak.— Não o copiamos dos seus gregos — disse Arak, com um sorri­so. — Não, foi justamente o contrário.

— Quer dizer que os gregos o copiaram de Interterra? — indagou Perry.

— Exato — disse Arak.

— Como assim? — perguntou Perry.

— Por causa de uma experiência fracassada — disse Arak. — Há milhares de anos, um contingente de indivíduos liberais de Atlântida passou pela dura adaptação à superfície com planos grandiosos de mo­dificar o desenvolvimento sociológico da superfície da Terra. Infeliz­mente, foi um fracasso. Depois de várias centenas de anos de tentativas vãs, ficou dolorosamente óbvio que não havia meio de alterar a tendên­cia dos humanos de segunda geração para a violência. Portanto, aban­donou-se toda a experiência.  Mesmo assim,  vários legados interterráqueos restaram depois que a ilha que erigiram afundou, como nossas formas arquitetônicas, o conceito de democracia e um conheci­mento superficial de nossa mitologia primitiva, inclusive o Cérbero.

— Então houve base real para a lenda de Atlântida — exclamou Suzanne.

— Mas é claro — disse Arak. — Atlântida empurrou para cima uma das portas de saída em montanhas submarinas para formar uma ilha logo diante da entrada do mar Mediterrâneo.

— Ei, espera só um pouquinho aí! — protestou Richard. — Va­mos parar com essa conversa mole! Ou a gente entra ou eu e o Mike vamos voltar para o salão principal, onde estão rolando as coisas le­gais.

— Está bem, desculpe — disse Arak. Depois, acrescentou para Suzanne: — Podemos conversar mais sobre a experiência de Atlântida em outra ocasião, se quiserem.

— Gostaria muito disso — disse Suzanne. Depois, quando Arak abriu a porta, ela se inclinou para falar com Perry. — Platão situa a ilha de Atlântida diante do Estreito de Gibraltar, nos seus Diálogos.— Verdade? — disse Perry. Mas já estava concentrado nos sons e nas imagens da cena além da porta de bronze. Estava longe de ser mór­bida, como Suzanne temia. Era uma festa bastante alegre, que fazia lem­brar aquela à qual o grupo havia comparecido na noite anterior, porém em menor escala. A sala tinha apenas o tamanho de uma sala de estar grande. As cento e poucas pessoas, mais ou menos, que se encontravam reunidas ali estavam vestidas com os trajes do costume, menos um in­divíduo que se destacava visivelmente. Estava de vermelho, em vez de branco. Nos fundos da sala, embutido na parede, havia um enorme equi­pamento em formato de rosca que lembrou a Perry uma máquina de ressonância magnética. Perto dele havia uma mesa com uma caixa e um livro semelhantes aos que Arak havia mostrado ao grupo na catacumba mais abaixo.

— Arak! — exclamou o homem de vermelho quando enxergou os novos visitantes. — Que surpresa agradável! — Imediatamente pediu licença às pessoas que estavam conversando e foi até a porta. — E trou­xe seus pupilos! Sejam bem-vindos!

— Minha nossa — sussurrou Suzanne a Perry quando o homem de vermelho se aproximou. — Eu o conheci ontem à noite. — Suzanne lembrou-se perfeitamente dele, era um dos dois homens que haviam vindo falar com ela e Garona. — Ele nem parece que está para falecer. — Para ela, ele parecia ser a própria imagem da saúde e o arquétipo de atratividade masculina com seus espessos cabelos negros, a pele impe­cável e os olhos cintilantes. Imaginou que ele talvez tivesse trinta e tan­tos anos.

— Isso aqui não parece nenhum velório — comentou Perry.

— Obrigado, Reesta — disse Arak. — Achei que não se importa­ria se nossos visitantes presenciassem sua festa. Conheceu-os na come­moração de ontem à noite?

— Tive a honra de conhecer a Dra. Newell — disse Reesta. Cum­primentou Suzanne com uma reverência e depois estendeu-lhe a palma da mão.Meio constrangida, Suzanne tocou-lhe a palma com a sua. Ele sor­riu, radiante.

— Deixe-me apresentar-lhe Perry, Donald, Richard e Michael — disse Arak. Apontou para os homens enquanto falava. Reesta reagiu fazendo uma reverência para cada um por sua vez. Richard e Michael não estavam prestando muita atenção. Estavam mais interessados nas convidadas, várias das quais já haviam visto na noite anterior.

— Sufa e eu decidimos mostrar aos nossos visitantes um pouco da nossa cultura — continuou Arak. — Estamos fazendo isso antes de dar-lhes muitas explicações. Achamos que pode reduzir a descrença com que em geral deparamos durante a orientação.

— Um plano maravilhoso — comentou Reesta. — Entrem! Por favor. — Saiu do caminho e fez um gesto gracioso para que entrassem.

"Então eles não fazem idéia do motivo dessa comemoração? — perguntou Reesta enquanto os humanos de segunda geração enchiam a sala.

— Não exatamente — disse Arak.

— Ah, mas que inocência maravilhosa — comentou Reesta. — É tão reanimador!

— Mas acabamos de visitar meu nicho — acrescentou Arak. — Só que eu, propositalmente, não lhes dei uma explicação completa.

— Abordagem magnífica — comentou Reesta, enquanto piscava e dava a Arak uma cutucada com o cotovelo. Depois olhou para o gru­po, antes de encontrar os olhos de Suzanne. — Hoje é um dia impor­tante para mim. Hoje este meu corpo vai morrer.

Suzanne não pôde evitar um recuo diante dessa notícia. Não só o homem parecia perfeitamente saudável, mas também agia como tal. O anúncio captou a atenção até mesmo de Richard e Michael.

— Ah, mas não se desesperem — disse Reesta, sorrindo do temor de Suzanne. — Aqui em Interterra é uma hora razoavelmente feliz, mais uma inconveniência ou aborrecimento. E para mim já era tempo. Este corpo aqui foi um abacaxi desde o início. Tive que substituir muitos órgãos e os joelhos duas vezes. Todos os dias parece que surge um novo problema. E acabei de ouvir esta manhã que o tempo de espera para um novo corpo caiu para quatro anos, devido à falta de demanda atual. Por algum motivo, ninguém anda morrendo ultimamente.

— Só quatro anos! — exclamou Arak. — Maravilhoso! Estava imaginando por que você decidiu tão subitamente. Na semana passada mesmo você havia dito que estava pensando em fazer alguma coisa as­sim nos próximos dois anos.

— É uma dessas coisas que nunca parece conveniente — disse Reesta. — Andava adiando isso, preciso admitir. Mas agora não posso deixar passar essa oferta momentânea de curto prazo de reencarnação.

— Me perdoe — disse Perry. — Estou confuso, mas quanto tem­po vocês vivem aqui em Interterra?

— Depende do que deseja saber — disse Reesta, com um brilho nos olhos. — Há uma grande diferença entre o corpo e a essência em termos de duração da vida por aqui.

— Cada corpo em geral dura de duzentos a trezentos anos — disse Arak. — Mas pode haver exceções.

— Como tive que aprender do pior jeito — acrescentou Reesta. — Só consegui fazer este aqui durar cento e noventa. Foi o pior que já tive.

— Está insinuando que o dualismo corpo-mente existe em Interterra? — indagou Suzanne.

— Sim, de fato — disse Arak. Sorriu como um pai orgulhoso. Depois, dirigindo-se a Reesta, acrescentou: — A Dra. Newell aprende rápido.

— Está na cara — disse Reesta.

— De que diabo vocês estão falando? — indagou Richard.

— Se ouvisse em vez de ficar aí embasbacado, teria uma idéia me­lhor — disse Suzanne.

— Perdoe-me! — disse Richard, imitando sotaque britânico.

— O que entende por "essência"? — perguntou Perry.— Refiro-me a sua mente, a sua personalidade, todo o complemen­to de seu ser espiritual e mental — disse Arak. — Tudo aquilo que faz de você o que você é. E aqui em Interterra as essências vivem para sem­pre. São transferidas intactas de um corpo antigo para um novo.

Suzanne e Perry apresentaram uma torrente de perguntas, depois Perry tentou dar a vez a Suzanne. Mas Arak ergueu as mãos para fazer ambos se calarem.

— Lembrem-se de que somos intrusos aqui — disse. — Tenho cer­teza de que têm muitas dúvidas. É esse o objetivo dessa visita. Seria falta de educação interromper esse momento particular, de forma que darei maiores explicações depois. — Depois se voltou para Reesta. — Obriga­do, meu amigo. Não incomodaremos mais. Parabéns, e bom descanso.

— Não precisa agradecer a mim — disse Reesta. — E uma honra que tenha trazido esses hóspedes. A presença deles torna a ocasião ain­da mais especial.

— Vamos nos comunicar depois — disse Arak. — Quando vai morrer? — começou a reunir o grupo, para retornarem pela porta.

— Um pouco mais tarde — disse Reesta, na maior naturalidade. — Vamos ocupar a sala durante mais algumas horas. Mas aguarde!

Arak parou e se voltou para o amigo.

— Acabei de ter uma idéia — disse Reesta, empolgado. — Talvez nossos hóspedes de segunda geração gostassem de me ver morrer.

— É uma oferta muito generosa — disse Arak. — Certamente não queremos impor nossa presença, mas seria muito instrutivo.

— Não é imposição nenhuma — disse Reesta, já animado com a idéia. —Já aproveitei bem a festa, e eles podem continuar sem a minha presença física.

— Então, aceitamos — disse Arak. Acenou para que Richard e Michael voltassem, uma vez que os mergulhadores entediados haviam ido para o corredor.

— Espero que não haja derramamento de sangue — disse Suzanne a Arak.— Certamente não, em comparação com o que vocês assistem e chamam de entretenimento lá no seu mundo da superfície — disse Arak.

Reesta usou o comunicador de pulso antes de dar uma volta pela sala e pressionar palmas com todos os presentes. Isso causou uma sensa­ção cada vez mais forte de empolgação. Depois ele se aproximou da mesa sobre a qual se encontravam a caixa e o livro. Quando fez isso a multi­dão começou a aplaudir. Primeiro ele cortou um cacho de cabelos e o colocou na caixa. Depois escreveu uma data no livro, e os aplausos co­meçaram a aumentar.

Uma porta apareceu perto da máquina semelhante a um equipa­mento de ressonância magnética, e dois clones operários entraram na sala. Ambos traziam consigo taças douradas que entregaram a Reesta. Reesta ergueu as taças e a multidão calou-se. Depois Reesta bebeu ambas, uma após a outra.

Depois a multidão aplaudiu. Reesta fez uma reverência para os con­vidados e até para os humanos secundários. Depois os dois clones o ajudaram a entrar na porta de noventa centímetros de largura do equi­pamento semelhante ao de ressonância magnética. Ele colocou primei­ro os pés e deslizou para dentro até a cabeça ficar bem além da borda. Nesse ponto um espelho foi baixado de forma que Reesta pudesse ver os convidados e os convidados pudessem ver seu rosto. Depois de um aceno final, Reesta fechou os olhos e pareceu acomodar-se como se dormisse.

Um dos clones operários foi até a lateral do equipamento e colocou a mão com a palma para baixo sobre um quadrado branco. Quase ime­diatamente ouviu-se um zunido seguido de um brilho avermelhado que encheu a abertura do aparelho. Um momento depois, o corpo de Reesta enrijeceu-se e os olhos se abriram. Esse estado tetânico durou vários minutos, depois dos quais o corpo de Reesta ficou flácido, seus olhos afundaram nas órbitas e a boca entreabriu-se, mostrando que morrera.

A multidão que murmurava ficou em silêncio. O brilho avermelhado dentro da abertura da máquina diminuiu de intensidade e o zunido foi se reduzindo. Depois se ouviu um forte som de sucção, seguido pelo barulho de uma grande válvula se fechando, e o corpo de Reesta desapareceu. Um minuto estava perfeitamente visível, no minuto seguinte já havia sumido. A multidão permaneceu parada e muda. Segundos se passaram. Suzanne estava confusa emocional e intelectualmente. A morte, em qualquer forma, a perturbava. Arriscou um olhar para Perry. Ele enco­lheu os ombros, igualmente perplexo.

— E aí, já acabou? — indagou Richard.

Arak fez sinal para que ele se calasse e aguardasse.

Michael apoiou o corpo no outro pé e bocejou.

De repente todos os comunicadores de pulso de todas as pessoas se ativaram simultaneamente, inclusive os dos humanos secundários. Embora Ismael e Mary Black tivessem lhes dado instruções simples para usar as unidades — que era apenas falar neles num tom exclamativo —, ninguém ainda os havia experimentado. Então, quan­do a voz de Reesta saiu deles, os cinco ficaram estarrecidos.

— Alô, meus amigos — disse a voz de Reesta. — Tudo foi muito bem. A morte foi bem-sucedida, e sem complicações. Vejo vocês daqui a quatro anos, mas não se esqueçam de se comunicar comigo.

Uma aclamação geral saiu da boca dos humanos primários, e ejes entusiasticamente tocaram as palmas uns dos outros, obviamente co­memorando o evento.

— A morte por aqui não é lá grande coisa — sussurrou Michael a Richard.

— É, mas acho que precisa ser desse jeito especial — sussurrou Richard.

— É um bom momento para nos retirarmos — disse Arak. Tão imperceptivelmente quanto possível, ele arrebanhou os humanos secun­dários para seguirem até o corredor e depois os liderou de volta aos ele­vadores. Suzanne e Perry estavam cheios de dúvidas, mas Arak as adiou. Estava ocupado demais procurando arrastar Richard e Michael. Donald estava impassível como sempre.Só quando eles entraram de novo no táxi aéreo foi possível conver­sar. Mesmo antes da entrada da nave se vedar, Perry começou:

— Temo que esta visita vá gerar mais perguntas que respostas. Arak concordou.

— Então ela foi eficaz — disse. Colocou a palma da mão na mesa redonda negra central e disse: "Centro de Fertilização, por favor!" Qua­se de imediato o disco vedou-se, ascendeu, depois disparou horizontal­mente.

— O que exatamente nós testemunhamos ali? — indagou Suzanne.

— A morte do corpo atual de Reesta — disse Arak. Ele se recostou e voltou a relaxar. Não estava acostumado à tensão de estar em público com um grupo tão grande e não-iniciado de humanos secundários.

— Para onde foi o corpo? — indagou Richard.

— Voltou para a astenosfera derretida — disse Arak.

— E a essência dele? — indagou Perry.

Arak fez uma pausa como se estivesse procurando palavras.

— É difícil explicar essas coisas, mas suponho que vão entender se disser que os dados da memória e a personalidade dele foram transferi­dos para nosso centro informático integrado.

— Cacete! — exclamou Michael! — Olha ali na frente daquele prédio! É uma porra de um Corvette!

Apesar do interesse intenso de todos nas explicações de Arak eles não puderam deixar de reagir ao entusiasmo de Michael e seguir o dedo que ele apontava. O que viram foi um Chevrolet Corvette antigo todo coberto por incrustações de cracas diante do que parecia uma pilha aleatória de blocos infantis.

— O que aquele Corvette está fazendo ali? — indagou Michael quando passaram zunindo por ele. — É um 62 — continuou. — Tive um igualzinho só que verde.

— Esse edifício é nosso Museu da Superfície da Terra — explicou Arak. — O automóvel é o único objeto que sentimos que simboliza sua cultura atual.— Está em péssimo estado — disse Michael. Voltou a sentar-se.

— É óbvio — disse Arak. — Já estava há um bocado de tempo debaixo da água antes que o recuperássemos. Mas voltando à pergunta de Perry. Quando o clone operário começou a seqüência de morte, todo o conteúdo mental de Reesta em termos de memória, emoções, autoconsciência e até sua forma exclusiva de pensar foram extraídos e armazenados na íntegra, disponíveis para serem totalmente recupera­dos mais tarde.

Os humanos secundários fitaram Arak com os olhos arregalados, num silêncio que revelava seu espanto.

— Não só a essência de Reesta pode ser recuperada — continuou Arak. — Pode ser consultado e se pode até conversar com ele por seu comunicador de pulso antes que seja recuperada. Ou, melhor ainda, não só é possível comunicar-se com ele, mas também pode-se vê-lo na configuração de seu último corpo através do centro de mídia em cada um dos aposentos de vocês. A Central de Informações gera uma ima­gem virtual que combine com qualquer conversa que estejam tendo.

— E se alguém morrer antes de chegar à máquina de transferên­cia? — indagou Richard.

— Isso não acontece — disse Arak. — A morte é um evento pla­nejado em Interterra.

— Isso é demais para mim — disse Perry. — O que está nos dizen­do está tão distante da credibilidade que por enquanto não sei nem o quê perguntar.

— Não estou surpreso — disse Arak. — Foi exatamente esse o motivo pelo qual eu e Sufa resolvemos começar mostrando a vocês as coisas em vez de simplesmente relatá-las.

— Tive muita dificuldade para acreditar que a mente pode ser transferida — disse Suzanne. — A inteligência, a memória e a persona­lidade estão associadas a conexões dendríticas dentro do cérebro huma­no. O número é estarrecedor. Estamos falando de bilhões de neurônios com até mil conexões cada um.— É muita informação — concordou Arak. — Mas não excessi­va, pelos padrões cósmicos. E você está certa quando diz que as cadeias de neurônios são importantes. O que nossa central de informações faz é reproduzir as cadeias dendríticas a nível molecular utilizando átomos de carbono isomerizados com duplas ligações entre si. É como uma impressão digital, chamamo-la de impressão mental.

— Estou perdido — disse Perry.

— Não se desespere — incentivou Arak. — Lembre-se de que esse é apenas o começo. Haverá tempo para que você consiga encaixar tudo isso no seu devido contexto. Além disso, nossa visita de agora ao centro de fertilização irá lhe mostrar o que fazemos com a impressão mental.

— O que tem naquele museu da Superfície da Terra pelo qual pas­samos? — indagou Donald.

Arak hesitou. A pergunta de Donald havia interrompido a seqüên­cia de seus pensamentos.

— Quero dizer, o que exibem, especificamente? — disse Donald. — Além do Corvette encharcado.

— Muitos objetos variados — disse Arak, vagamente. — Uma amostra das coisas que representam a história e a cultura dos humanos secundários.

— De onde vieram? — indagou Donald.

— A maioria do fundo do mar — disse Arak. — Além das tragé­dias marítimas e da guerra, vocês vêm usando o oceano progressiva e tolamente como lixeira. Ficariam surpresos ao verem o que o lixo revela sobre uma cultura.

— Gostaria de visitá-lo — disse Donald. Arak encolheu os ombros.

— Como queira — disse. — Você é o primeiro visitante que apre­senta esse pedido. Considerando-se as maravilhas de Interterra que agora se encontram disponíveis para você, estou surpreso por estar interessa­do nisso. Certamente não há nada ali que já não conheça por completo.

— Todos são diferentes — disse Donald, lacônico.Alguns minutos depois, o táxi aéreo depositou o grupo nos degraus da frente do centro de fertilização. Estava instalado num prédio que lembrava o Partenon, só que era negro. Quando Perry mencionou a semelhança, Arak lhe disse que outra vez era ao contrário, semelhante à adaptação grega de Cérbero, uma vez que o centro de fertilização dos interterráqueos tinha muitos milhões de anos de idade.

Como o centro de falecimentos, a estrutura se situava em uma par­te menos congestionada da cidade. Independentemente disso, logo que apareceram os humanos secundários, atraíram outra vez uma multidão, forçando Arak a dedicar-se a fazer manobras para possibilitar o avanço de Richard e Michael, para que entrassem e se pusessem fora do alcance das mãos ávidas que os humanos primários lhes estendiam.

O interior desse prédio era a antítese do interior do centro de fale­cimentos. Era brilhante e branco, como os prédios do palácio dos visi­tantes. A outra diferença era que por ali havia muitos outros clones operários, correndo atarefados de um lado para outro.

Arak levou o grupo apressadamente até uma sala lateral com um vasto número de pequenos tanques de aço inox que pareciam biorreatores em miniatura para Suzanne. Estavam unidos uns aos outros por uma tubulação emaranhada e complicada, formando o que parecia uma linha de produção de alta tecnologia. O ar era úmido e quente. Vários clones operários monitoravam diversos mostradores e medidores.

— Essa não é a parte mais interessante — disse Arak. — Mas é melhor começar do princípio. Esses tanques abrigam nossas culturas de tecido ovariano e testicular. Os óvulos e espermatozóides são seleciona­dos aleatoriamente, e seus cromossomos são escaneados para se verifi­car se há imperfeições moleculares, sendo em seguida embaralhados microssomicamente. As células germinativas reformadas são depois verificadas, antes de serem fertilizadas. Se alguém quiser dar uma es­piada, há uma janelinha disponível. — Arak apontou um dispositivo binocular ao longo da linha de montagem.Suzanne foi a única que aceitou a oferta dele. Curvou-se e espiou Dentro de uma minúscula câmara abaixo da objetiva do microscópio, pôde ver um óvulo sendo penetrado por um espermatozóide ativo. O processo aconteceu rapidamente. Um momento depois, o zigoto já se­guira adiante, e dois novos gametas foram injetados na câmara.

— Mais alguém? — indagou Arak, depois que Suzanne se ergueu. Ninguém se manifestou.

— Muito bem — disse Arak. — Vamos prosseguir para a sala de gestação e uma fase mais interessante. — Ele os guiou por toda a sala de gametas até um ambiente do tamanho de vários campos de futebol lado a lado. Ali dentro havia numerosas fileiras de prateleiras que sustenta­vam inúmeras esferas transparentes. Entre as fileiras andavam centenas de clones operários verificando cada esfera por sua vez.

— Minha nossa! — murmurou Suzanne, quando entendeu o que estava presenciando.

— Os zigotos em replicação que vêm do processo de fertilização são novamente verificados para se detectar anormalidades cromossômicas em nível molecular — explicou Arak. — Uma vez que se determine que estão isentos de qualquer imperfeição, e tenham atingido o núme­ro necessário de células, são implantados em uma esfera e podem se desenvolver.

— Podemos andar entre as esferas? — indagou Suzanne.

— Claro — disse Arak. — É por isso que estamos aqui, para que possam ver com seus próprios olhos.

Vagarosamente, o grupo foi andando por um corredor de centenas de metros de comprimento com linhas de esferas de cada lado. Suzanne estava fascinada e estarrecida ao mesmo tempo. Cada esfera continha, colada a sua base, uma placenta roxa escura e amorfa.

— Isso tudo é muito artificial — comentou Suzanne.

— Sem dúvida — disse Arak.

— Toda reprodução em Interterra é feita assim por ectogênese? — indagou Suzanne.— Claro — disse Arak. — Não queremos deixar que o acaso deci­da algo tão importante quanto a reprodução.

Suzanne parou e olhou para um embrião com não mais de doze centímetros de comprimento. Ela sacudiu a cabeça. Seus minúsculos braços e pernas se moviam como se nadasse.

— O processo a perturba? — indagou Arak. Suzanne balançou a cabeça afirmativamente.

— Isso é mecanizar um processo que, creio, deveria ser deixado a cargo da natureza.

— A natureza é impiedosa — disse Arak. — Nós podemos fazer muito melhor, e com todo o cuidado.

Suzanne encolheu os ombros. Não estava a fim de se envolver em discussões. Começou a andar outra vez.

— Parecem com as esferas em que vocês estavam — disse Perry a Richard e Michael.

— Não fode! — exclamou Richard.

— Por favor! — berrou Suzanne, irritada, para Richard. — Já es­tou ficando cansada da linguagem que vocês dois parecem sentir a obri­gação de usar.

— Desculpe ter ofendido sua majestade — replicou Richard.

— Esses recipientes são semelhantes, mas não iguais — disse Arak, depressa. A última coisa que ele queria era qualquer tipo de altercação no centro de fertilização.

Suzanne parou abruptamente e espiou dentro de uma das esferas. Ficou abestalhada com o que viu. Dentro dela havia uma criança que parecia ter pelo menos dois anos de idade.

— Por que essa criança aqui ainda está na esfera? — perguntou.

— É perfeitamente normal — garantiu-lhe Arak.

— Normal? — contestou Suzanne. — Em que idade elas são... — procurou a palavra certa — decantadas?

— Ainda dizemos que nascem — disse Arak. — Ou, usando um termo mais técnico, dizemos que emergem.— Que seja — disse Suzanne. Ver aquela criança presa na esfera cheia de fluido a fazia estremecer de náusea. Parecia tão frio, calculista e cruel. — Em que idade as crianças são libertadas?

— Preferivelmente, não antes dos quatro anos — respondeu Arak.

— Esperamos até o cérebro adquirir maturidade suficiente para receber a impressão mental. Além disso, não queremos que o cérebro fique so­brecarregado com dados desorganizados mais do que o necessário.

Suzanne trocou olhares com Perry.

— Venham — chamou Sufa. Fez sinal para que se apressassem.

— Estão para fazer uma emersão. Tentei adiá-la o quanto foi possível; precisam correr. — Sufa virou-se e disparou na direção de onde havia vindo.

Arak apressou o grupo para segui-la, na intenção de passar rapida­mente por uma sala que chamou de sala de impressão, para chegarem à sala de emersão, mais adiante. Mas Suzanne se deteve na soleira da por­ta da sala de impressão, abalada pelo espetáculo.

A sala era de um quarto do tamanho da sala de gestação. Em vez de esferas seladas com embriões, o espaço estava cheio de tanques transpa­rentes contendo crianças de quatro anos de aparência angelical. Cada criança estava suspensa em fluido, mas numa posição fixa. Os cordões umbilicais e as placentas ainda estavam presentes, apesar das idades re­lativamente avançadas das crianças.

— Não sei bem se quero ver isso — disse Suzanne quando Arak a cutucou de leve.

Os outros se reuniram silenciosamente em torno do primeiro tan­que, boquiabertos. A cabeça da criança estava imobilizada como que preparada para a cirurgia cerebral estereotática. Os olhos estavam aber­tos, assim mantidos por retratores de pálpebras, e os olhos em si se en­contravam fixados com suturas límbicas. De um aparelho parecido com um revólver, raios de luz eram disparados através da lateral do tanque transparente dentro de cada uma das pupilas da criança. Os raios pisca­vam com uma freqüência rápida e alternativa.— O que está acontecendo aqui? — perguntou Perry. Parecia até tortura.

— É perfeitamente seguro e indolor — disse Arak. Reuniu o gru­po e fez sinal para que Suzanne se juntasse aos outros.

— A criança parece estar sendo bombardeada por um revólver de videogame — disse Michael.

— Posso entender por que essa seria sua dedução a partir de sua cultura violenta — disse Arak. — Mas não poderia estar mais longe da verdade. Para ampliar a analogia anterior sobre a transferência que usei no centro de falecimento, essa criança está apenas recebendo a transfe­rência de uma impressão mental de um indivíduo cuja essência estava armazenada na Central de Informações. O que estão vendo aqui é o procedimento de recuperação da essência.

Suzanne avançou vagarosamente com a mão sobre a boca. Sentia-se como uma criança num filme de terror: com medo de olhar mas incapaz de tirar os olhos da tela. Enquanto contemplava o garotinho imobiliza­do, estremeceu. Para ela, a imagem era a corporificação do desvario biotecnológico.

— Como já viram no centro de falecimentos — continuou Arak —, levamos apenas alguns segundos para extrair a impressão mental. Mas implantá-la são outros quinhentos. Precisamos usar uma técnica primitiva de laser de baixa energia porque até hoje ninguém descobriu uma rota de melhor acesso do que a retina. Naturalmente, a rota retinal faz sentido, uma vez que a retina é embrionariamente uma evaginação do cérebro. O proces­so funciona, mas não é rápido. Aliás, pode levar até trinta dias.

— Cacetada! — comentou Richard. — O coitado do moleque tem que ficar assim amarradinho durante um mês inteiro?

— Creia-me, não sentem dor nenhuma — disse Arak.

— E a essência da criança em si? — indagou Suzanne.

— Estamos lhe dando sua essência enquanto conversamos — dis­se Arak — juntamente com uma extraordinária reserva de conhecimento e experiência. — Sorriu orgulhosamente.Suzanne meneou a cabeça, mas não para concordar. Via o processo como uma exploração danada. Para ela era uma espécie de parasitismo, incutir uma alma antiga em um recém-nascido inocente. A impressão mental estava abduzindo o corpo da criança.

— Arak! Depressa! — chamou Sufa, insistentemente, de uma por­ta do lado oposto da sala. — Estão perdendo o evento!

— Vamos! — Arak apressou o grupo. — É importante que vejam isso. É o produto acabado.

Suzanne ficou feliz por sair da frente daquela imagem inquietante da criança amarrada. Correu atrás de Arak, evitando propositalmente olhar para quaisquer outros tanques. Donald, Richard e Michael ficaram para trás, hipnotizados pela visão. Michael ergueu o dedo, e estendeu a mão com a intenção de interromper o raio laser. Donald deu-lhe um tapa na mão.

— Pára de fazer besteira, marujo! — resmungou.

— É — disse Richard. — O garoto pode perder as lições de piano dele. — E soltou uma risada.

— Isso é esquisito pra cacete — disse Michael. Contornou o tan­que para ver se podia enxergar dentro do tambor da pistola laser.

— Bom, veja o lado positivo — disse Richard. — E bem mais fá­cil do que ir à escola. Se não machuca ninguém, como o Arak diz, até que eu acho legal. Porra, eu detestava ir à escola.

Donald olhou para Richard, desdenhoso.

— Como se eu não tivesse adivinhado.

Os três correram para alcançar os anfitriões. Na sala seguinte, en­contraram Arak, Sufa, Suzanne e Perry de pé em torno de uma área revestida de um estofado de cetim na base de um escorregador de aço inox. O escorregador vinha de dentro da parede; sua extremidade supe­rior estava vedada por portas de vaivém duplas. Sentada no centro da depressão almofadada estava uma linda menina de quatro anos, já ves­tida com os trajes típicos de Interterra. Era óbvio que havia chegado recentemente, descendo pelo escorregador. Vários clones operários a estavam ajudando.— Bem-vindos, cavalheiros — disse Arak a Donald e aos mergu­lhadores. Apontou para a menininha. — Quero que conheçam Barlot.

— Oi, docinho-de-coco — disse Richard numa voz fininha, de um jeito tatibitate. Estendeu a mão para beliscar a bochecha da menina.

— Por favor — disse Barlot ao se desviar da mão de Richard. — É melhor não me tocar durante quinze a vinte minutos, porque acabei de sair do secador. Os nervos do meu integumento precisam de uma opor­tunidade de se adaptar ao ambiente gasoso.

Richard recuou.

— Esses três homens também são visitantes recém-chegados da superfície da terra — disse Arak, indicando Donald, Richard e Michael.

— Minha nossa — disse Barlot. — Mas que coisa maravilhosa! Cinco visitantes da superfície ao mesmo tempo. Estou feliz por receber tamanha honra no dia da minha emersão.

— Estávamos exatamente dando boas-vindas a Barlot, que está retornando ao mundo físico — explicou Arak.

Barlot confirmou com a cabeça.

— E é maravilhoso estar de volta. — Examinou as mãozinhas, virando-as e espichando-as. Depois deu uma espiada nas pernas e nos pés. Mexeu os artelhos. — Parece um bom corpo — acrescentou. — Pelo menos até agora. — Soltou uma risadinha espremida.

— Acho que parece um corpo esplêndido — disse Sufa. — E que olhos azuis tão lindos! Seu último corpo tinha olhos azuis?

— Não, mas o anterior ao último tinha — disse Barlot. — Gosto de variar. Às vezes permito que a cor dos olhos seja escolhida aleatoria­mente.

— Como se sente?— indagou Suzanne. Sabia que era uma per­gunta idiota, mas, sob aquelas circunstâncias, não conseguiu imaginar mais nada para perguntar. Estava impressionada com o marcante con­traste entre a voz pueril e a sintaxe adulta da garota.

— Antes de mais nada, faminta — disse Barlot. — E impaciente. Estou louca para ir para casa.— Há quanto tempo estava armazenada? — indagou Perry. — Se é que essa é a palavra certa.

— Chamamos de ficar na memória — disse Barlot. — E presumo que foram cerca de seis anos. Era o tempo de espera que divulgaram quando fui extraída. Mas, para mim, parece que foi do dia para a noite. Quando estamos na memória nossas essências não são programadas para registrar a passagem do tempo.

— Seus olhos estão doendo? — perguntou Suzanne.

— Nem um pouquinho — disse Barlot. — Creio que está se refe­rindo às hemorragias semelhantes a chamas que sem dúvida devo ter na esclerótica, não é?

— Sim — admitiu Suzanne. Os brancos de ambos os olhos de Barlot estavam vermelhos, da cor de um caminhão de bombeiros.

— Isso foi das suturas de fixação límbicas — disse Barlot. — De­vem ter acabado de ser removidas.

— Lembra-se de quando esteve no aquário? — indagou Michael. Barlot riu.

— Jamais ouvi ninguém chamar o tanque de implantação de aquá­rio. Mas, respondendo a sua pergunta, não. Minha primeira lembrança consciente neste corpo, e em todos os corpos anteriores, aliás, foi de ter despertado na esteira transportadora do secador.

— As experiências de extração, memória e recuperação são estressantes, sob algum aspecto? — perguntou Suzanne.

Barlot pensou um momento antes de responder.

— Não — disse, finalmente. — A única parte estressante é que agora vou precisar esperar até a puberdade para me divertir de verda­de... — Ela riu, assim como Arak, Sufa, Richard e Michael.

— Esta é nossa casa — disse Sufa, de um táxi aéreo que pairava en­quanto a porta de saída se materializava. Ela indicou uma construção semelhante aos chalés do palácio dos visitantes, porém sem os vastos gramados. Agrupava-se, num estilo à la Levittown, com centenas de outras exatamente como ela. — Arak e eu achamos que seria instrutivo para vocês experimentarem como vivemos e talvez fazerem uma refei­ção. Estão todos cansados demais ou gostariam de entrar para nos fazer uma visita?

— Eu aceitaria um rango — disse Richard, ávido.

— Eu adoraria ver sua casa — disse Suzanne. — É muito hospita­leiro da parte de vocês.

— Sinto-me honrado — disse Perry.

Donald simplesmente concordou com um meneio de cabeça.

— Estou morrendo de fome — disse Michael.

— Então, está decidido — disse Sufa. Ela e Arak desceram do aerodeslizador e fizeram sinal para que os outros os seguissem.

Como os alojamentos do centro de visitantes, o interior era uni­formemente branco — mármore branco com tecido branco e dezenas de espelhos. Além disso o quarto principal se abria para o exterior com uma piscina que ia do interior até o exterior. O lugar exibia poucos móveis. Vários painéis holográficos grandes, como aqueles que o gru­po havia visto no setor de descontaminação, constituíam a única de­coração.

— Entrem, por favor — disse Sufa.

O grupo entrou em fila, observando o ambiente.

— Até parece o meu apartamento de Ocean Beach — disse Michael.

— Ah, corta essa! — zombou Richard, enquanto lhe dava um tapa no alto da cabeça, de brincadeira.

— Todas as casas de Interterra são abertas assim? — indagou Perry.

— São, sim — confirmou Arak. — Por mais irônico que possa parecer, nós que moramos no seio da Terra preferimos o ar livre.

— Parece meio difícil de trancar — disse Richard.

— Não usamos trancas em Interterra — explicou Sufa.

— Ninguém rouba nada? — indagou Michael.

Tanto Arak quanto Sufa riram. Depois, envergonhados, pediram desculpas.— Não rimos por querer — disse Arak. — Mas é que vocês são muito divertidos. Nunca conseguimos prever o que vão dizer. É muito cativante.

— Creio que isso se deve ao nosso encantador primitivismo — disse Donald.

— Exato — concordou Arak.

— Não há roubos em Interterra — disse Sufa. — Ninguém preci­sa roubar, porque há bens suficientes para todos. Além do mais, nin­guém é dono de nada. A propriedade privada desapareceu bem no começo de nossa história. Nós, interterráqueos, simplesmente usamos aquilo de que precisamos.

O grupo sentou-se. Sufa chamou os clones operários, que surgiram imediatamente. Junto com eles veio um dos animais de estimação que os humanos secundários haviam visto dos táxis aéreos. De perto tinha uma aparência ainda mais bizarra, sendo uma curiosa mistura de cão, gato e macaco. O animal saltou para dentro da sala e foi direto até os visitantes.

— Sark! — berrou Arak. — Comporte-se!

O animal parou, obediente e, com seus olhos felinos, contemplou os humanos secundários com uma grande curiosidade. Quando ficou de pé nas patas traseiras, que eram simiescas, com cinco dedos, viu-se que tinha cerca de um metro de altura. Seu nariz canino torceu-se ao farejar.

— É um animal bem esquisito — disse Richard.

— É um homídio — disse Sufa. — Um homídio particularmente bonito, aliás. Ele não é adorável?

— Venha cá, Sark! — gritou Arak. — Não quero que incomode nossos convidados.

Sark imediatamente correu atrás de Arak e, de pé nas patas trasei­ras, começou a coçar a cabeça do dono.

— Bom garoto — disse Arak, satisfeito.

— Sirvam uma refeição aos hóspedes — ordenou Sufa aos clones operários, que rapidamente desapareceram.— Sark parece-se um pouco com um bando de animais mistura­dos para formar um só — disse Michael.

— É uma forma de descrevê-lo — disse Arak. — Sark é uma qui­mera desenvolvida há éons atrás e que vem sendo clonada desde então. É um animal notável. Será que alguém gostaria de ver um de seus me­lhores truques?

— Claro — disse Richard. Para ele, o animal parecia uma experiên­cia biológica frustrada.

— Eu também — disse Michael.

Arak ficou de pé e fez um gesto para Sark ir para fora. Seguiu o animal e pediu a Richard e Michael que o seguissem até o pátio. Os mergulha­dores se levantaram e foram para o jardim, onde encontraram Arak pro­curando algo nas profundezas de uma moita de samambaias.

— Muito bem, aqui está um — disse Arak. Ele se ergueu, com um pequeno graveto emborrachado na mão. Voltou ao gramado. — Vejam, vocês não vão acreditar nisso. É muito divertido.

— Anda, mostra logo! — disse Richard, meio desconfiado. Arak curvou-se e ofereceu o pau a Sark. O animal pegou-o com grande animação, tagarelando como um macaco. Depois, após descre­ver um movimento circular com o braço, jogou o graveto para o outro lado do jardim.

Arak observou o graveto até que tocasse o chão. Depois se virou para os mergulhadores.

— Grande arremesso, não acham?

— Nada mau — concordou Michael. — Pelo menos, para um homídio.

Os cantos da boca de Richard se moveram, num sorriso irônico.

— Esperem até verem o resto — disse Arak. — Só um segundo. — Arak correu até onde o graveto havia caído, pegou-o e trouxe-o de volta. Tornou a dá-lo a Sark. O animal voltou a tomar impulso com o braço e a jogar o graveto aproximadamente no mesmo local. Arak, zelo­samente, tratou de correr e pegá-lo pela segunda vez. Quando voltou estava meio sem fôlego. — Conseguem acreditar nisso? — disse.___Esse

diabinho seria capaz de fazer isso o dia inteiro. Continuará arremessando o graveto tantas vezes quantas eu for pegá-lo.

Os dois mergulhadores olharam um para o outro. Michael reviro' os olhos, enquanto Richard abafava uma gargalhada.

— A comida está na mesa! — anunciou Sufa lá de dentro. Arak ofereceu o graveto a Richard.

— Quer experimentar?

— Acho que não — disse Richard. — Além do mais, estou faminto.

— Então vamos comer — disse Arak, afavelmente. Jogou o graveto outra vez na moita de samambaia e se dirigiu para dentro de casa, se­guido por Sark.

— Este lugar está ficando cada vez mais esquisito — resmungou Richard para Michael enquanto margeavam a piscina.

— Pode apostar — disse Michael. — Não admira que eles não tenham se importado quando eu trouxe as taças ontem à noite. Nada pertence a ninguém. Estou lhe dizendo, podíamos fazer fortuna aqui embaixo que eles não estariam nem aí.

Junto com a comida, os clones operários haviam trazido uma mesa dobrável, que haviam colocado no centro de um círculo formado por sete espreguiçadeiras. Arak e os mergulhadores se reuniram aos outros. Sark subiu nas costas da cadeira de Arak e começou a coçá-lo atrás das orelhas. Todos se serviram e começaram a comer.

— Bom, é aqui que passamos a maior parte do tempo — disse Arak depois de uma pequena pausa constrangedora. Sentia que os humanos secundários estavam um pouco confusos por causa dos eventos daquele dia. — Alguém tem alguma pergunta a fazer?

— O que vocês fazem por aqui? — indagou Suzanne para come­çar a conversa. Estava mais a fim de bater papo do que de abordar as questões de maior importância que lhe passavam pela cabeça.

— Nós tiramos proveito de nossos corpos e mentes — explicou Arak. — Lemos muito e vemos muitos programas holográficos.— O povo de Interterra não trabalha? — perguntou Perry.

— Alguns sim — disse Arak. — Mas não é necessário, e aqueles que trabalham só fazem o que querem. Todo o trabalho subalterno, que cons­titui a maior parte do trabalho, é feito pelos clones operários. Todo o tra­balho de monitoração e controle é feito pelo Centro de Informações. Dessa forma, as pessoas ficam livres para tratar de seus próprios interesses.

— Os clones operários não se incomodam com isso? — indagou Donald. — Não fazem greve, nem se revoltam?

— Não, de jeito nenhum — disse Arak, com um sorriso. — Os clones são como... Bom, como seus animais domésticos. Foram feitos de modo a se parecerem com humanos por motivos estéticos, mas seus cérebros são muito menores. Têm função limitada no lobo frontal de forma que suas necessidades e interesses são diferentes. Adoram traba­lhar e servir.

— Parece exploração — disse Perry.

— Deve parecer — disse Arak. — Mas é para isso que servem as máquinas, como os automóveis, na sua cultura, que eu não creio que vocês sintam que estão explorando. A analogia seria melhor se seus au­tomóveis tivessem partes vivas ao lado das partes de máquina. Tenho certeza de que precisam usar os carros, senão eles se deterioram. O mesmo ocorre com os clones operários, só que eles não toleram o lazer. Ficam deprimidos e regridem sem trabalho nem ordens.

— É incômodo para nós — comentou Suzanne — porque pare­cem muito humanos.

— Precisam se lembrar de que eles não são humanos — replicou Sufa.

— Há tipos diferentes de clones? — perguntou Perry.

— A aparência deles é essencialmente a mesma — respondeu Arak. — Mas existem os servos, os operários e os de entretenimento, do sexo feminino e masculino. Está na programação.

— Com sua tecnologia, por que não usam robôs? — perguntou Donald.— Boa pergunta — disse Arak. — Tínhamos andróides há muito tempo, uma linhagem inteira deles, aliás. Mas as máquinas, quando não têm partes biológicas, tendem a se quebrar e precisam ser consertadas. Precisávamos ter andróides para consertar outros andróides, ad infinitum. Era inconveniente, e até ridículo. Foi só quando aprendemos a casar o biológico com o mecânico que resolvemos esse problema. O resultado definitivo dessa pesquisa e desenvolvimento foram os clones operários, e eles são muito superiores a qualquer andróide. Cuidam de si mesmos completamente, até o ponto de se consertarem e até se reproduzirem, para manter sua população num nível estável.

— Impressionante — disse Perry, simplesmente. Suzanne meneou a cabeça.

O grupo ficou calado. Quando terminaram de comer, Sufa disse:

— Acho que talvez já seja hora de levá-los todos para seus aposen­tos no palácio dos visitantes. Vocês precisam de um pouco de tempo para processar o que viram e ouviram. Além disso não queremos sobrecarregá-los no seu primeiro dia. Sempre haverá o dia seguinte. — Ela sorriu benignamente ao se erguer.

— Você está certa quando diz que precisamos de tempo — disse Suzanne, levantando-se também. — Acho que já passei do meu limite. Sem nem um pingo de dúvida, esse foi o dia mais estarrecedor, eston­teante e atordoante da minha vida.

 

Michael hesitou à porta do seu chalé. Richard estava de pé diretamente atrás dele. Eles haviam acabado de ser deixados ali por Arak e Sufa.

— O que acha que vamos encontrar? — perguntou Michael.

— Pelo amor de Deus! — queixou-se Richard. — Como é que posso saber antes de você abrir a porra da porta?

Michael agarrou a maçaneta e a puxou. Os dois mergulhadores passaram pela porta e deram um olhar de relance pela sala.

— Acha que alguém esteve aqui? — indagou Michael, nervoso. Richard revirou os olhos.— O que você acha, miolo mole? — disse. — A cama foi feita e o lugar foi limpo. Olha, alguém até empilhou todos os pratos e as taças que você trouxe do baile e do refeitório.

— Talvez tenham sido apenas os clones — disse Michael.

— É possível — disse Richard.

— Acha que o corpo ainda está lá onde nós o colocamos?

— Bem, nós certamente não vamos saber até olharmos — disse Richard.

— Tudo bem, deixa que eu vejo.

— Espere! — Richard disse, agarrando o braço de Michael. — Primeiro vou ver se a barra está limpa.

Richard olhou em torno, além da piscina, e rapidamente se satisfez. Ninguém estava por perto, e ele se reuniu ao amigo.

— Tá legal, pode ver como está o corpo.

Michael se posicionou rapidamente diante do armário que ficava em frente à cama.

— Bebidas, por favor! — ordenou.

A porta da geladeira se escancarou. O aparelho estava repleto de vários recipientes de bebida e comida.

— Parece que está como o deixamos — disse Michael.

— Isso é bom — disse Richard.

Michael curvou-se e removeu vários recipientes, expondo o rosto branco de Sart. Os olhos sem vida miravam Michael, acusadores. Michael rapidamente meteu os recipientes de volta na geladeira para ocultar aque­la horrível imagem. O corpo de Sart fora o primeiro defunto que Michael vira além do de seu avô. Mas o avô foi colocado em um caixão, vestido com um smoking. Além do mais, o velho tinha 94 anos.

— Bom, essa foi um alívio — disse Richard.

— Por enquanto — disse Michael. — Mas isso não significa que eles talvez não o encontrem esta noite ou amanhã. Talvez devêssemos levá-lo para fora e enterrá-lo em uma dessas moitas de samambaias.

— Que diabo vamos usar para cavar, colheres de chá? — indagou Richard.— Talvez então tenhamos que levá-lo para o seu chalé e colocá-lo na sua geladeira. Ficar com ele aqui me dá calafrios.

— Não vamos arriscar levá-lo de um lado para outro — disse Richard. — Deixe ele aí onde está.

— Então vamos trocar de aposentos — sugeriu Michael. — Lem­bre-se de que foi você quem o matou, não eu.

Os olhos de Richard semicerraram-se ameaçadoramente.

— Já tivemos essa conversa — disse ele, devagar. — E ficou deci­dido: estamos nisso juntos. Agora feche essa matraca e pare de falar no corpo.

— E aquela idéia de contarmos ao Fuller?

— Deixa pra lá — disse Richard. — Mudei de idéia a respeito disso.

— Como assim?

— Porque aquele caxias babaca não vai ter nenhuma idéia melhor do que fazer com o corpo. E eu não sei se temos que nos preocupar tanto assim. Ora, ninguém nem perguntou onde andava esse boiola aí o dia inteiro hoje. Além disso, Arak disse que eles não têm cadeia aqui.

— Isso é porque não há ladrões — redargüiu Michael. — O Arak não disse nada sobre assassinato, e com toda aquela papagaiada que nos mostraram sobre extração da mente, tenho o mau pressentimento de que eles vão ficar muito perturbados com isso. Talvez nos reciclem, como fizeram com o Reesta.

— Ei, calma aí! — disse Richard.

— Como posso me acalmar com um cadáver na minha geladeira? — berrou Michael.

— Cala essa boca — berrou Richard, em resposta. Depois, em voz mais baixa, acrescentou: — Meu pai do céu, todos na vizinhança vão es­cutar você! Controle-se. O principal é a gente cair fora daqui o quanto antes. Enquanto isso o Sart fica na geladeira, o que vai impedir que ele deixe o local fedendo. Vamos pensar em transportá-lo para outro lugar se alguém começar a investigar e a fazer perguntas sobre ele. Certo?

— Acho que sim — disse Michael, porém sem muito entusiasmo.

 

O teto da caverna submarina escureceu-se gradativamente, imitando um fim de tarde normal, exatamente como na noite anterior. Suzanne e Perry, maravilhados pela semelhança entre o teto abobadado e o céu da superfície, assistiram deslumbrados ao espetáculo das pseudo-estrelas que começavam a piscar no crepúsculo violeta. O eternamente tacitur­no Donald, ao contrário, olhava de mau humor as sombras crescentes sob os canteiros de samambaias. Todos os três estavam de pé no grama­do, a cerca de doze metros de distância da extremidade aberta do refei­tório. Lá dentro clones operários atarefados punham a mesa para o jantar. Richard e Michael já ocupavam seus lugares, loucos de fome.

— Isso é absolutamente incrível — disse Suzanne. Curvou o pes­coço para trás, para poder olhar direto para cima.

— As estrelas bioluminescentes? — indagou Perry.

— Tudo — disse Suzanne. — Inclusive as estrelas. — Ela acabara de chegar de seu chalé, onde havia nadado, tomado um banho e até tentado tirar uma pestana. Mas não havia conseguido dormir de jeito nenhum. A cabeça fervilhava demais.

— Há alguns aspectos que são estarrecedores — admitiu Donald.

— Não consigo encontrar uma só coisa que não seja — disse Suzanne. Olhou para o pavilhão escuro do outro lado do gramado onde fora dada a festa da noite anterior. — A começar pelo fato de que este paraíso imenso se encontra debaixo da terra, sob o oceano. Como foi estranho eu ter mencionado Viagem ao centro da Terra de Júlio Verne, quando estávamos dando início ao nosso mergulho, considerando-se que estamos realmente aqui! Perry achou graça.

— É — disse. — Foi bem oportuno.

— Oportuno e espantoso — acrescentou Suzanne. — Principal­mente agora que parece que tudo que Arak e Sufa andaram dizendo é verdade, por mais fantástico que pareça.

— É difícil negar a tecnologia que temos visto — disse Perry, em­polgado. — Mal posso esperar para aprender mais sobre os detalhes, como a biomecânica dos clones operários ou os segredos dos táxis aé­reos. Patentes de qualquer coisa dessas nos deixariam milionários. E o turismo? Já pensou a procura que haveria por uma excursão a este mun­do? Ultrapassaria qualquer previsão! — Perry tornou a soltar risadinhas.

— De uma forma ou de outra, a Benthic Marine vai se tornar a Microsoft do novo século.

— As revelações de Arak são extraordinárias — concordou Donald, contra a vontade. — Mas há umas lacunas nelas que vocês, deslumbra­dos como estão, parecem estar esquecendo.

— Do que está falando? — indagou Perry.

— Tirem os óculos cor-de-rosa — disse Donald. — Pelo que vejo, a pergunta principal ainda não foi formulada: o que estamos fazendo aqui? Não fomos salvos de nenhum naufrágio de escuna, como os Blacks. Fomos proposital e deliberadamente sugados pela tal porta de saída deles, e eu gostaria de saber por quê.

— O Donald está certo — disse Suzanne, subitamente pensativa.

— Com toda essa empolgação vivo me esquecendo de que, afinal de contas, fomos vítimas de uma abdução. Isso certamente nos leva a per­guntar o que estamos fazendo aqui.

— Eles sem dúvida estão nos tratando bem — disse Perry.— Por enquanto — disse Donald. — Mas, como eu já disse, po­deriam mudar num piscar de olhos. Não creio que vocês estejam se dando conta de como estamos vulneráveis.

— Eu sei como estamos vulneráveis — disse Perry com uma certa irritação. — Ora, bolas, com a tecnologia avançada que esses caras têm, poderiam nos desintegrar num instante. Arak falou em viagens interplanetárias, até em viagens intergalácticas e em tecnologia do tem­po. Mas eles gostam de nós. Para mim isso é evidente, mesmo que não seja para você. Acho que devíamos ser mais compreensivos e menos paranóicos.

— Gostam de nós, uma ova — disse Donald com veemência. — Nós os divertimos. Quantas vezes já ouvimos isso? Acham nosso primitivismo engraçado ou bonitinho, como se fôssemos animais do­mésticos. Estou cansado de ver gente rindo de mim.

— Não nos tratariam bem assim se não gostassem de nós — per­sistiu Perry.

— Você é ingênuo demais — disse Donald. — Recusa-se a se lem­brar de que somos prisioneiros, para todos os efeitos, que fomos abduzidos e manipulados naquele centro de descontaminação. Fomos trazidos até aqui por um motivo que ainda não nos foi revelado.

Suzanne concordou. As palavras de Donald lhe recordaram um comentário descuidado de Arak que lhe dera a impressão de que ele já esperava a chegada dela. Suzanne considerara o tal comentário per­turbador, no momento, mas depois ele fora esquecido, suplantado por revelações mais surpreendentes.

— Talvez eles estejam nos recrutando — disse Perry, subitamente.

— Para quê? — indagou Donald, intrigado.

— Talvez estejam se desdobrando tanto para nos mostrar tudo porque querem nos preparar para sermos seus representantes — disse Perry, animando-se com a idéia enquanto falava. — Talvez eles final­mente tenham decidido que já é tempo de estabelecerem relações com nosso mundo, e querem que sejamos seus embaixadores. Francamente,acho que poderíamos nos sair tremendamente bem, sobretudo se fizés­semos isso através da Benthic Marine.

— Embaixadores! — repetiu Suzanne. — Idéia interessante! Eles não querem se adaptar a nossa atmosfera por causa de sua falta de imu­nidade a nossas bactérias e vírus, e nem gostam do processo de descontaminação necessário para voltarem a Interterra.

— Exato — disse Perry. — Se fôssemos representantes deles, não teriam que fazer nada disso.

— Embaixadores? Deus me livre — resmungou Donald. Ergueu as mãos e sacudiu a cabeça, de frustração.

— E agora, qual é o problema? — indagou Perry, a irritação retornando. Donald estava começando a lhe dar nos nervos.

— Eu sabia que vocês dois eram otimistas — disse Donald —, mas essa idéia de sermos embaixadores ganhou o troféu.

— Acho que é uma possibilidade perfeitamente razoável — disse Perry.

— Escute, Sr. Presidente da Benthic Marine! — disse Donald, rís­pido, como se o título fosse vergonhoso. — Esses interterráqueos não vão nos deixar voltar. Se não fosse um otimista tão irremediável já teria entendido isso.

Suzanne e Perry ficaram calados enquanto remoíam o comentário de Donald. Nenhum dos dois queria pensar naquele assunto, muito menos debatê-lo.

— Acha que planejam nos manter aqui para sempre? — pergun­tou Suzanne, afinal. Teve de admitir que nada que Arak ou Sufa lhe haviam dito indicava que existisse algum plano para devolvê-los ao seu navio na superfície do oceano.

— Se não me engano, se eles não nos deixarem voltar, é isso que vai acontecer — disse Donald, sarcasticamente.

— Mas por quê? — inquiriu Perry. Já não havia mais raiva em sua voz.— É óbvio — disse Donald. — Essas pessoas vêm evitando que Interterra seja detectada há milhares de anos. Como poderiam se sentir bem nos deixando voltar à superfície, sabendo o que sabemos?

— Meu Deus! — murmurou Suzanne.

— Acha que o Donald está certo? — indagou Perry.

— Receio que ele tenha muitas evidências do que pensa — disse Suzanne. — Não há motivo para eles estarem menos preocupados com a contaminação agora do que no passado. E têm ainda mais motivos para ficarem preocupados agora, que nossa tecnologia está avançando cada vez mais. Talvez se divirtam com nosso primitivismo, mas descon­fio que morrem de medo da violência de nossa cultura.

— Mas continuam nos chamando de visitantes — contestou Perry.

— Este lugar onde estamos é o palácio dos visitantes. Os visitantes não ficam para sempre. — Em seguida, irracionalmente, acrescentou: — Além disso, não posso ficar aqui para sempre. Quero dizer, tenho famí­lia. Já estou preocupado por ainda não ter podido lhes dizer que estou bem.

— Esse é outro problema — disse Donald. — Eles sabem muita coisa a nosso respeito. Sabem de nossas famílias. Com toda a tecnologia deles, podiam ter nos oferecido uma oportunidade de informar aos nossos en­tes queridos que não morremos. O fato de não terem feito isso, creio eu, é mais uma prova de que pretendem nos manter aqui.

— Acho que você tem razão — disse Suzanne. Depois suspirou.

— Há só meia hora, no meu quarto, eu estava desejando ter um telefo­ne daqueles antigos, só para poder ligar para o meu irmão. Ele é o único parente que sentiria minha falta.

— Você não tem família? — indagou Donald.

— Infelizmente, não — disse Suzanne. — Essa parte da minha vida simplesmente não deu certo, e os meus pais, eu perdi há anos.

— Tenho esposa e três filhos — disse Donald. — É claro que isso não significa muito para os interterráqueos. Para eles todo o conceito de paternidade parece pitorescamente antiquado.— Meu Deus! — disse Perry. — O que vamos fazer? Precisamos dar o fora daqui. Tem que existir um jeito.

— Ei, vocês todos! — gritou Michael da sala de jantar. — O rango está na mesa. Venham comer!

— Infelizmente eles é que estão dando as cartas — disse Donald, ignorando Michael, o qual desapareceu outra vez, voltando ao refeitó­rio. — Não há nada que possamos fazer a essa altura, a não ser manter os olhos abertos.

— O que significa tirar vantagem da hospitalidade deles — disse Suzanne.

— Até certo ponto — disse Donald. — Eu nunca defenderia a idéia de confraternizar com o inimigo.

— É essa parte que me intriga — disse Suzanne. — Eles não agem como inimigos. São tão delicados e pacíficos... É difícil imaginá-los fazendo alguma coisa má contra alguém.

— Manter-me longe da minha família é uma das piores coisas que posso imaginar — disse Perry.

— Não do ponto de vista deles — disse Donald. — Com esse negócio de reprodução feita mecanicamente e a gravação da mente e da personalidade de adultos em crianças de quatro anos de idade, não há famílias em Interterra. É possível que eles não entendam os vínculos familiares.

— Que diabo vocês estão fazendo aí fora nessa escuridão? — ber­rou Michael. Ele havia voltado à parte do edifício que interligava o re­feitório e o gramado. — Os clones operários estão esperando. Não vêm comer?

— Acho que seria melhor, mesmo — disse Suzanne. — Estou fa­minta.

— Não sei se estou, depois dessa troca de idéias — disse Perry. Começaram a andar na direção da luz que saía e clareava a grama escura.

— Deve haver alguma coisa que possamos fazer — disse Perry.— Podemos evitar ofendê-los — disse Donald. — Isso pode ser crucial.

— O que poderíamos fazer que os ofendesse? — quis saber Perry.

— Não estou preocupado conosco — disse Donald. — São esses mergulhadores tapados que me preocupam.

— Que tal falar diretamente com eles sobre o assunto? — sugeriu Perry. — Por que não perguntar a Arak quando nos encontrarmos com ele amanhã se vamos poder ir embora? Então teríamos certeza.

— Pode ser arriscado — disse Donald. — Acho que não devíamos enfatizar nosso interesse em partir. Se fizermos isso, eles podem restrin­gir nossa liberdade. No momento, teoricamente, podemos chamar tá­xis aéreos com comunicadores de pulso e podemos ir e vir à vontade. Não quero perder esse privilégio. Podemos precisar dele se houver chance de sairmos daqui.

— Esse é outro pensamento interessante — concordou Suzanne. — Mas não vejo nenhum motivo pelo qual não possamos perguntar por que estamos aqui. Talvez a resposta a essa pergunta nos diga se eles esperam que fiquemos para sempre.

— Não é má idéia — disse Donald. — Eu concordo, contanto que não demos muito na vista, insistindo no assunto. Aliás, por que não faço essa pergunta amanhã na sessão que Arak disse que teremos?

— Gostei da sugestão — disse Suzanne. — O que achou, Perry?

— Não sei o que pensar, a essa altura — disse Perry.

— Vamos, apressem-se! — disse Michael, assim que os três entra­ram na sala. — Esse babaca desse clone operário aí não quer nos deixar tocar nas travessas antes de todos estarem aqui, e é mais forte que um touro.

Um clone operário estava de pé junto à mesa central com as mãos sobre as tampas dos rescaldos.

— Como sabia que ele estava nos esperando? — perguntou Suzanne ao ocupar um dos assentos.— Bom, não tínhamos certeza, né, porque esse pateta aí não fala — admitiu Michael. — Mas estamos torcendo para que seja esse o motivo. Estamos mortos de fome.

Perry e Donald se sentaram. Quase imediatamente o clone operá­rio ergueu as tampas dos rescaldos.

— Taí! — exclamou Richard.

Dentro de minutos, a refeição já estava servida. Durante algum tempo, ninguém falou. Richard e Michael estavam ocupados demais comendo; os outros estavam absortos, pensando em sua conversa recente no gramado.

— O que vocês estavam fazendo lá no escuro? — indagou Richard, irrompendo depois em voz alta: — Falando sobre algum funeral? Estão todos tão cabisbaixos!

Ninguém respondeu.

— Grupinho animado — resmungou Richard.

— Pelo menos temos modos à mesa — retrucou Donald.

— Vá para o inferno — disse Richard.

— Sabe, de repente estou achando isso estranhamente irônico — disse Suzanne.

— O quê, os modos do Richard à mesa? — indagou Michael, sol­tando um forte arroto.

— Não, nossa reação a Interterra — disse Suzanne.

— Como assim? — perguntou Perry.

— Pense no que temos aqui — disse Suzanne. — Parece o paraíso, mesmo que não seja no céu, como é nosso pensamento tradicional. No entanto, tem tudo que nós consciente e inconscientemente desejamos: juventude, beleza, imortalidade e abundância. É um verdadeiro Éden.

— A beleza nós podemos confirmar, não, Mikey? — disse Richard.

— Por que acha irônico? — perguntou Michael, ignorando Richard.

— Porque estamos preocupados achando que seremos obrigados a ficar — disse Suzanne. — Todos sonham em ir para o céu, e nós aqui, com medo de não podermos sair dele.— Como assim, sermos obrigados a ficar? — inquiriu Richard.

— Não acho irônico — disse Donald. — Se a minha família esti­vesse aqui, comigo, eu talvez ficasse. Mas não agora. Além disso, não gosto de ser forçado a fazer nada. Pode parecer piegas, mas valorizo a minha liberdade.

— Nós vamos sair daqui, não vamos? — perguntou Richard, in­sistentemente.

— De acordo com o Donald, não — disse Perry.

— Mas precisamos sair — deixou escapar Richard.

— E por que, hein, marujo? — indagou Donald. — O que faz você ficar tão ansioso para sair do paraíso da Suzanne?

— Eu estava falando de modo geral, não do ponto de vista pessoal — interrompeu Suzanne. — Francamente, conhecer a forma pela qual eles se conservam imortais me deu um pouco de náusea hoje.

— Não sei do que vocês estão falando — disse Richard. — Mas quero sair daqui o mais rápido possível.

— Eu também — concordou Michael.

Soou uma campainha suave que ninguém havia ouvido antes. To­dos se entreolharam, intrigados, mas antes que pudessem falar, a porta se abriu e entraram Mura, Meeta, Palenque e Karena. O bando de belas mulheres estava de excelente humor. Mura foi direto até Michael e lhe ofereceu a palma da mão, numa saudação típica dos interterráqueos. Depois de eles terem pressionado rapidamente as palmas uma contra a outra, ela se sentou na beirada da espreguiçadeira de Michael. Meeta, Palenque e Karena se aproximaram de Richard, que ficou de pé num salto.

— Ah, gatinhas, vocês voltaram! — gritou Richard. Tocou as pal­mas das mãos de todas as três e abraçou-as, entusiasmado. Elas cumpri­mentaram Suzanne, Perry e Donald, rapidamente, mas cobriram Richard de agrados, e o mergulhador desfaleceu de puro êxtase. Quando ele ten­tou se deixar cair para trás na espreguiçadeira, elas o impediram. Disse­ram que estavam loucas para levá-lo ao quarto dele para nadarem juntos.— Bom, sim, claro — gaguejou Richard. Fez continência para Donald antes de se retirar com seu míni-harém.

— Vamos! — Mura apressou Michael. — Vamos também. Eu lhe trouxe um presente.

— O que é? — indagou Michael. Deixou-se ser rebocado até a porta.

— Um pote de caldorfina! — disse Mura. — Ouvi dizer que gos­tou disso.

— Adorei, é o termo exato — gritou Michael. Em seguida, os dois saíram saltitando da sala.

Antes dos demais comensais poderem tecer quaisquer comentários, a campainha suave soou outra vez. Dessa feita, anunciou a chegada de Luna e Garona. Os interterráqueos pareciam estar cercando seus par­ceiros da noite anterior.

— Oh, Suzanne! — arrulhou Garona, ao pressionar a palma da mão contra a dela. — Estava louco para que chegasse a noite, para que eu pudesse vir passá-la outra vez com você!

— Perry, meu amor — disse Luna, efusiva. — O dia foi longo demais. Espero que não tenha sido cansativo demais para você.

Nem Suzanne nem Perry conseguiam decidir se ficavam mortificados ou encantados, principalmente sendo cumprimentados com pro­testos amorosos assim tão melosos. Ambos gaguejaram respostas ininteligíveis enquanto permitiam que seus respectivos parceiros os er­guessem das espreguiçadeiras.

— Acho que estamos de saída — disse Suzanne a Donald enquanto Garona a puxava, brincalhão, para a extremidade aberta do refeitório.

— E nós devemos estar indo para o mesmo lugar que eles — disse Perry a Donald enquanto Luna o arrastava.

Donald acenou, indiferente, mas nada disse. No instante seguinte, viu-se sozinho com os dois clones operários mudos.

 

Michael não se lembrava de outra ocasião em que se sentira tão excita­do. Nunca uma mulher assim tão bela e desejável parecera tão interessada nele. Por insistência dela, os dois começaram a girar enquanto avan­çavam em movimentos sinuosos pelo gramado escuro na direção do quarto dele. Com seus longos cabelos flutuando ao vento, Mura era uma visão arrebatadora para Michael, e ele teria continuado a fazer aquilo durante horas, se a tonteira não houvesse impedido.

Sentindo-se zonzo, Michael parou de girar, mas tudo a sua volta continuou girando. Ele cambaleou para sua direita, tentando em vão manter o equilíbrio. Incapaz de se firmar nas pernas, despencou de qualquer maneira. Mura também caiu com ele.

Riram juntos incontrolavelmente. Levantaram-se ainda oscilando um pouco, depois prosseguiram correndo até o chalé de Michael. De­pois de entrarem, viram-se ambos sem fôlego.

— Bem — disse Michael. Inspirou profundamente duas vezes, mas continuou se sentindo zonzo. Só de olhar para Mura naqueles trajes colantes, já tremia de desejo. — O que gostaria de fazer primeiro? Dar um mergulho?

Mura olhou Michael demoradamente, de um jeito provocador. Sa­cudiu a cabeça.

— Não, não quero nadar agora — disse ela, a voz rouca. — Na noite passada você estava cansado demais para carinhos íntimos. Man­dou-me embora antes que eu pudesse fazê-lo feliz.

— Mas isso não é verdade — protestou Michael. — Eu estava feliz.

— Quer dizer que Sart o fez feliz?

— Não, mas que inferno! — gritou Michael, ofendendo-se ime­diatamente. — Que diabo de pergunta é essa?

— Não se perturbe — disse Mura, espantada com a reação de Michael. — Não estou insinuando nada. Além disso, é perfeitamente natural ter prazer com pessoas de qualquer sexo.

— Epa, isso comigo não cola — retrucou Michael, ríspido. — Nem pelo caramba!

— Michael, por favor, se acalme — suplicou Mura. — Por que está tão nervoso?— Não estou nervoso! — replicou Michael.

— Sart fez alguma coisa que o irritou?

— Não, ele se comportou bem — disse Michael, nervoso.

— Alguma coisa o aborreceu — disse Mura. — Sart ficou aqui a noite inteira? Eu não o vi em parte alguma durante o dia.

— Não! Não! — gaguejou Michael. — Ele saiu logo depois de você. Richard só lhe pediu desculpas por ficar com raiva dele, e pronto. Ele saiu. Mas é um bom garoto.

— Por que Richard ficou com raiva dele?

— Não sei — disse Michael, irritado. — Será que vamos ficar fa­lando do Sart a noite inteira? Pensei que tivesse vindo aqui para me ver.

— E vim mesmo — disse Mura. Aproximando-se de Michael, aca­riciou-lhe o peito. Por baixo dos dedos, sentiu o coração dele se acele­rar. — Acho que você teve um dia difícil. Devíamos acalmar você, e sei exatamente o que fazer.

— O quê?

— Deite-se ali na cama — instruiu Mura. — Vou friccionar seu corpo e massagear seus músculos.

— Ah, está aí uma ótima idéia.

— E depois que você serenar, vamos pressionar palmas com a caldorfina.

— Isso me parece perfeito, gata — disse Michael, recuperando a compostura. — Vamos nessa.

— Certo, eu já volto — disse Mura. Cutucou Michael para que ele fosse para a cama. Michael obedeceu, despreocupado, deitando-se sobre a coberta macia.

Mura foi até a geladeira pegar uma bebida gelada para ambos. Deu o comando diretamente no receptor, de forma a fazê-lo o mais suave­mente possível, evitando perturbar Michael. Depois daquele pequeno acesso de fúria dele, ela havia sentido que ele estava tenso e precisava da maior consideração possível. Sabia agora como os humanos secundá­rios se perturbavam facilmente por causa das coisas mais estranhas.Mura se surpreendeu ao ver que o compartimento estava abarrotado.

— Minha nossa — disse. — O que é que puseram aqui dentro? Devido à amolação de Mura, procurando saber sobre Sart, o ardor de Michael havia se reduzido consideravelmente. Em vez de ficar te­cendo fantasias enquanto se encontrava deitado de bruços na cama, esperando a massagem que ela lhe faria, ele ficou refletindo, aflito, so­bre a conversa à mesa do jantar, a possibilidade de estarem presos em Interterra. Conseqüentemente, o comentário dela sobre a geladeira es­tar cheia nem mesmo lhe penetrou na consciência, até ele ouvir emba­lagens de alimentos e frascos de bebidas se espatifarem no chão, e depois o grito sufocado. Foi só aí que se lembrou do corpo de Sart, mas então já era tarde demais...

— Mas que merda! — sussurrou Michael ao saltar da cama. Exa­tamente como ele temia, Mura estava de pé, diante da geladeira escan­carada, com a mão sobre a boca. Sua expressão era de puro horror.

Dentro da geladeira, o rosto congelado e pálido de Sart se encon­trava emoldurado por pilhas de recipientes de alimentos.

Michael correu até Mura e a abraçou. Ela se deixou amparar por ele, e teria desmaiado, se ele não a tivesse sustentado.

— Escute aqui! Escute aqui! — disse Michael, desesperado, num murmúrio forçado. — Posso explicar.

Mura recuperou o equilíbrio e rejeitou o abraço de Michael. Com a mão trêmula, tocou a face de Sart, dentro da geladeira. Estava dura como madeira e fria como gelo.

— Oh, não! — gemeu Mura. Levando as mãos às suas próprias fa­ces empalidecidas, estremeceu como se um vento frio houvesse subita­mente atravessado o aposento. Quando Michael tentou abraçá-la de novo, ela lhe deu um empurrão para poder continuar olhando Sart. Por mais aterrorizante que fosse a imagem, ela não conseguia desviar os olhos dela.

Michael curvou-se, freneticamente, pegou os objetos caídos e me­teu-os outra vez na geladeira para ocultar o jovem morto dos olhos da moça.— Precisa se acalmar — disse, nervoso.

— O que aconteceu com a essência dele? — indagou Mura. O san­gue lhe voltou às faces, tornando-as rubras. O choque e a consternação estavam se transformando em raiva.

— Foi um acidente — disse Michael. — Ele caiu e bateu a cabeça. — Michael tentou abraçá-la outra vez, mas ela recuou e o manteve à distância de um braço.

— Mas, e a essência dele? — indagou Mura outra vez, embora no fundo já soubesse qual era a horrenda verdade.

— Olha aqui, ele morreu, caramba! — redargüiu Michael.

— A essência dele se perdeu! — conseguiu dizer Mura. Sua raiva transitória estava se transformando em pesar. As lágrimas inundaram-lhe os olhos verde-esmeralda.

— Olha, gata — disse Michael num tom entre solicitude e irritação —, infelizmente o garoto morreu. Foi um acidente. Você precisa se conter.

As lágrimas se transformaram em soluços à medida que a realidade da tragédia atingia o núcleo da essência de Mura.

— Preciso contar aos anciãos — disse ela. Virou-se e começou a se encaminhar para a porta.

— Não, espere! — disse Michael. Estava desesperado. Contornou-a para impedir que saísse. — Escute-me! — Agarrou-a com ambas as mãos.

— Largue-me! — gritou Mura. Tentou livrar-se dele. — Preciso anunciar essa calamidade.

— Não, precisamos conversar — insistiu Michael. Lutou com ela enquanto Mura tentava livrar-se.

— Largue-me! — berrou Mura, a voz se elevando entre os soluços. Conseguiu soltar um braço.

— Cale essa boca! — gritou Michael. Deu-lhe uma bofetada com a palma da mão aberta, para tentar tirá-la daquele estado de histeria. Em vez disso, ela abriu a boca e emitiu um grito de arrebentar os tím-panos. Temendo as conseqüências, Michael tapou-lhe a boca com uma das mãos, mas não bastou. Mura era alta e vigorosa, e deu um jeito de fugir dele, soltando novo grito.

Com uma certa dificuldade, Michael conseguiu tapar-lhe a boca outra vez, mas, por mais que tentasse, não conseguia mantê-la quieta. Impulsivamente, arrastou-a para o lado fundo da piscina e caiu com ela dentro d'água. Mas nem mesmo o mergulho súbito refreou os gritos dela, de modo que ele foi obrigado a segurar a cabeça da moça abaixo da superfície.

Ela continuou lutando, e quando ele a trouxe para a superfície para respirar, ela soltou um grito tão forte quanto os anteriores. Michael tor­nou a empurrá-la para debaixo da água, e dessa vez a reteve ali até a violenta movimentação dela ficar mais lenta, depois cessar.

Vagarosamente, ele foi soltando a cabeça de Mura, com medo de que ela pulasse para fora e gritasse outra vez. Em vez disso, o corpo da moça, flácido, flutuou até a superfície, o rosto voltado para dentro d'água.

Ele puxou o corpo até a beira da piscina e o ergueu, colocando-o sobre a borda de mármore. Uma mescla espumosa de muco e saliva saía-lhe do nariz e da boca entreaberta. Ao olhá-la, percebendo que estava morta, um calafrio percorreu-lhe a espinha. Seus dentes começaram a bater incontrolavelmente. Ele havia matado alguém — alguém de quem gostava muito.

Por um momento, ficou perfeitamente quieto. Imaginou se alguém teria ouvido os gritos de Mura. Graças a Deus, a noite estava tranqüi­la. Em pânico, ele a arrastou até a cama, deitou-a lá, e cobriu-a com a colcha. Depois, correndo, passou pela piscina e penetrou nas trevas noturnas.

O chalé de Richard ficava a menos de 50 metros, e Michael percor­reu essa distância em segundos. Esmurrou a porta.

— Seja lá quem for, vá embora! — ordenou a voz de Richard lá de dentro.— Richard! Sou eu! — berrou Michael.

— Não quero nem saber quem é! — respondeu Richard, aos berros. — Estamos ocupados aqui dentro.

— Não dá para esperar, Richie — insistiu Michael. — Preciso fa­lar com você.

Uma torrente de imprecações precedeu um curto silêncio. Final­mente, a porta se abriu, com violência.

— É melhor que seja urgente — rosnou Richard. Estava comple­tamente pelado.

— Surgiu um problema — anunciou Michael.

— E já, já, vai arranjar mais um — avisou Richard. Depois notou que Michael estava encharcado. — Por que mergulhou na piscina as­sim vestido?

— Você precisa vir comigo até o meu chalé — gaguejou Michael.

Richard percebeu o grau de nervosismo do amigo. Espiou o inte­rior do chalé, atrás de si, para ver se alguma das mulheres estava próxi­ma o suficiente para escutar.

— Isso tem alguma coisa a ver com o corpo do Sart? — indagou ele, sussurrando.

— Infelizmente sim — disse Michael.

— Onde está a Mura?

— Ela é que é o problema — disse Michael. — Ela viu o corpo.

— Ai, meu Jesus! — lamentou-se Richard. — Ela ficou nervosa?

— Ficou fora de si — disse Michael. — Você precisa vir!

— Tá legal! Acalme-se! Mas ela perdeu o juízo mesmo, é?

— Estou lhe dizendo, ela pirou legal. Quer fazer o favor de dar um jeito aí e vir comigo?

— Está bem, já vou — acalmou-o Richard. — Não grite! Só pre­ciso de alguns minutos. Vou ter que me livrar das minhas amigas.

Michael concordou enquanto Richard fechava a porta na cara dele. Virando-se, voltou correndo ao seu chalé. Depois de ver se o corpo de Mura estava onde ele o tinha deixado, trocou de roupa, depois ficou andando de um lado para outro, aguardando Richard.

Richard foi fiel à sua palavra, chegando em menos de cinco minu­tos. Esquadrinhou o aposento no momento em que passou pela porta. Tudo parecia bem tranqüilo. Estava esperando encontrar Mura a solu­çar incontrolavelmente na cama, mas não a viu em parte alguma.

— E aí, onde está ela? — cobrou. — No banheiro?

Michael não respondeu. Fez sinal a Richard para que o seguisse, e contornou os pés da cama. Abaixando-se, com a mão trêmula, agarrou a ponta da coberta e jogou-a para o lado, para expor o cadáver. A pele de Mura, antes cor de alabastro e translúcida, havia ficado de um azul mosqueado, e a espuma que lhe escorria da boca e do nariz vinha avermelhada.

— Mas que diabo...? — disse Richard, boquiaberto. Ajoelhou-se, procurando a carótida, para verificar a pulsação. Depois voltou a ficar de pé. O rosto dele ficou flácido devido ao choque.

— Ela morreu!

— Ela abriu a geladeira — explicou Michael. — Viu o corpo de Sart.

— Tudo bem, entendi essa parte — disse Richard. Estava olhando o amigo fixamente. — Mas por que a matou?

— Eu lhe disse, ela pirou — disse Michael. — Começou a gritar a plenos pulmões. Fiquei com medo que acordasse a cidade inteira.

— Por que diabo a deixou abrir a geladeira? — cobrou Richard, zangado.

— Me distraí por dois segundos — disse Michael.

— Claro, devia ter sido mais cauteloso — ralhou Richard.

— É fácil para você dizer isso — rebateu Michael. — Eu lhe disse que não queria esse corpo aqui. Ele devia estar na sua geladeira, não na minha.

— Tá legal, fica frio — disse Richard. — Precisamos pensar no que vamos fazer.— Não tem mais lugar na minha geladeira — disse Michael. — Vamos ter que colocá-la na sua.

Richard não gostou nada da idéia de arrastar o corpo até o seu cha­lé, mas não teve nenhuma idéia alternativa, e sabia que precisavam fa­zer alguma coisa rapidamente. Se Mura fosse encontrada, Sart seria também. De uma forma ou de outra, ele ficaria envolvido.

— Está certo — concordou Richard, relutante. — Vamos acabar logo com esse negócio.

Rapidamente eles rolaram Mura para cima da colcha, depois enrola­ram-na e, Richard sustentando a cabeça e Michael, os pés, transportaram-na pelo gramado até o chalé de Richard. Tiveram um pouco de dificuldade para fazê-la passar pela porta, uma vez que era relativamente estreita.

— Caramba — reclamou Michael. — Transportar um corpo é mais ou menos a mesma coisa que carregar um colchão. Mais difícil do que a gente pensa.

— É por causa do peso morto — brincou Richard, sorrindo do duplo sentido.

Eles jogaram o corpo em pleno chão. Enquanto Michael abria a coberta, Richard foi até a geladeira e a esvaziou. Como era a segunda vez que empreendiam a operação "cadáver-na-geladeira", sabiam exata­mente o que fazer, ou seja, para colocar Mura lá dentro precisariam re­organizar completamente o conteúdo.

— Prontinho — disse Richard. — Me dê uma mão aqui. Juntos, conseguiram meter o corpo de Mura no compartimento.

Ela era mais alta e mais pesada do que Sart, de forma que foi mais difí­cil encaixá-la lá dentro. No final, foram obrigados a deixar alguns reci­pientes de comida e bebida de fora.

Richard se ergueu depois de finalmente conseguir fechar a porta.

— Precisamos parar com isso.

— Parar com o quê? — indagou Michael.

— Parar de apagar esses interterráqueos. Já usamos todas as gela­deiras.— Muito engraçado. Mas por que não estou rindo?

— Não me obrigue a responder, seu pateta — disse Richard.

— Vou lhe dizer o que significa na verdade — disse Michael. — Precisamos dar o fora daqui de Interterra! Agora, com dois cadáveres, as chances de alguém descobrir um dobraram.

— Devia ter pensado nisso antes de apagar a dona.

— Estou lhe dizendo, não tive escolha! — berrou Michael. — Não queria acabar com a raça dela. Mas ela não calava a boca!

— Não grite! — disse Richard. — Você tem razão. Precisamos dar o fora daqui. A única coisa boa é que parece que aquele almirante de meia-tigela está pensando da mesma forma que nós.

 

Suzanne não conseguia se lembrar da última vez em que havia nadado nua, e ficou agradavelmente chocada com a sensação enquanto dava braçadas na piscina. E embora estivesse ligeiramente constrangida por estar sem roupas, principalmente diante da forma física impecável de Garona, não estava tão nervosa quanto imaginava que ficaria. Provavel­mente era porque Garona a fazia se sentir aceita como era, apesar de suas imperfeições físicas.

Depois que atingiu a extremidade oposta da piscina, Suzanne mer­gulhou para inverter a direção em que nadava, e, acelerando, voltou para onde Garona se achava, satisfeito, sentado à beira da piscina, com ape­nas os pés dentro d'água. Ela agarrou-lhe um dos tornozelos e conse­guiu puxar o rapaz para dentro da piscina. Eles mergulharam e se abraçaram sob a superfície da água.

Depois que se fartaram de trocar carícias assim submersos, nada­ram para a lateral e saíram da piscina. A leve brisa que soprava, vinda da extremidade aberta do aposento, arrepiou a parte de trás dos braços e as laterais das coxas de Suzanne.

— Gostei de você ter voltado esta noite — disse ela. Estava mes­mo feliz por vê-lo.

— Eu também gostei. Passei o dia esperando esse momento.— Não sabia se você voltaria — disse Suzanne. — Para ser franca, tive medo de que não voltasse. Acho que me comportei de um jeito imaturo na noite passada.

— Como assim?

— Devia ter deixado mais clara a minha opção. Ou não deixar você ficar, ou, deixando, agir de forma mais apropriada. Mas fiquei em cima do muro.

— Adorei cada momento, mesmo assim — disse Garona. — Nos­sa interação não tinha objetivo definido. A idéia era apenas passar al­gum tempo juntos, e foi o que fizemos.

Suzanne fitou Garona com gratidão, lamentando, sem nada di­zer, que fosse preciso viajar até um mundo mítico e surreal para en­contrar um homem assim belo, generoso e sensível. Enquanto sua mente elaborava de forma natural a idéia de levá-lo consigo ao voltar, o pensamento de que talvez não voltasse a trouxe de volta à realidade. Também trouxe à tona outra pergunta fundamental, ainda sem res­posta.

— Garona, pode me dizer por que nos trouxeram aqui para Interterra? — perguntou Suzanne, de repente.

Garona suspirou.

— Sinto muito — disse. — Não posso interferir no trabalho de Arak. Você e seu grupo estão sob a responsabilidade dele.

— Mas dizer-me por que estamos aqui seria uma interferência?

— Sim — disse Garona, sem hesitar. — Por favor, não me colo­que nessa posição. Quero muito ser aberto e sincero com você, mas nesse assunto não posso, e me sinto mal por ser obrigado a lhe negar alguma coisa.

Suzanne ficou olhando o rosto de seu novo amigo e conseguiu no­tar que estava sendo sincero.

— Desculpe perguntar — disse ela. Ergueu a mão, e ele ergueu a dele também. Vagarosamente, pressionaram as palmas uma contra aoutra. Suzanne sorriu de felicidade; estava começando a se acostumar com aquela carícia interterráquea.

— Talvez eu deva lhe perguntar como vai indo a orientação de Arak.

— Eu diria que muito bem — comentou Suzanne. — Ele e Sufa são anfitriões muito corteses.

— Mas claro — disse Garona. — Tiveram sorte em pegar um gru­po tão interessante. Ouvi dizer que já levaram vocês à cidade. Gosta­ram de lá?

— Foi fascinante. Visitamos o centro de falecimentos e o centro de reprodução, bem como a casa de Arak e Sufa.

— Mas como progrediram rápido — comentou Garona. — Estou mesmo impressionado. Jamais soube de humanos de segunda geração que houvessem progredido depressa assim. Qual a sua reação sobre o que viu e ouviu? Não consigo imaginar o quanto tudo foi extraordinário para você.

— A palavra inacreditável jamais foi tão apropriada.

— Achou algo perturbador?

Suzanne tentou descobrir se Garona estava querendo saber a verda­de, ou se queria que ela fizesse rodeios.

— Houve uma coisa que me incomodou, sim — começou Suzanne, decidindo ser franca com Garona. Passou a explicar sua reação negativa ao processo de implantação da mente.

Garona concordou.

— Entendo seu ponto de vista — disse. — É uma conseqüência natural de suas raízes judaico-cristãs, que atribuem valor tão alto ao indivíduo. Mas lhe garanto que também damos. A essência da criança não é ignorada, mas adicionada à essência implantada. É um processo onde há um benefício mútuo, uma verdadeira simbiose.

— Mas como pode uma essência de alguém que não nasceu com­petir com a de um adulto já experiente?

— Não se trata de competição — respondeu Garona. — Ambas se beneficiam, embora obviamente a criança se beneficie mais. Posso lhe garantir, como alguém que já passou por esse processo inúmeras vezes,que fui fortemente influenciado por cada essência de cada corpo que tive. É definitivamente um processo cumulativo.

— Parece uma racionalização — disse Suzanne. — Mas vou tentar manter minha mente aberta.

— Espero que tente. Tenho certeza de que Arak tenciona voltar ao assunto nas sessões didáticas. Lembre-se de que a saída de hoje não teve o objetivo de esgotar as coisas, mas de ajudar a superar a descrença cos­tumeira contra a qual nossos visitantes inicialmente lutam.

— Sei disso. Mas é verdade que tendo a esquecer-me. Então, obri­gada por me recordar.

— É um prazer — disse Garona.

— Você é um homem belo e sensível, Garona. É maravilhoso estar ao seu lado. — Ela se pegou imaginando como seria caminhar com ele numa praia em Malibu ou pegar a Auto-Estrada 1, margeando a Big Sur, no litoral da Califórnia. Havia uma coisa que Interterra não tinha, era o oceano, e, como oceanógrafa, Suzanne havia feito do oceano o centro do seu universo.

— Você é linda. É extraordinariamente divertida.

— Graças ao meu cativante primitivismo — disse Suzanne. Achou que Garona tivera a intenção de elogiá-la, mas teria preferido outra pa­lavra, em vez de divertida, principalmente depois da reclamação de Donald.

— Seu primitivismo é adorável — concordou Garona. Durante alguns segundos, Suzanne acalentou a idéia de dizer a

Garona qual era sua reação a ser chamada de primitiva, mas conteve-se. Naquela fase do relacionamento entre os dois, preferia ser positiva. Em vez disso, falou:

— Garona, há uma coisa que eu gostaria que você soubesse sobre mim. Garona aguçou os ouvidos.

— Quero que saiba que não tenho outro namorado. Tinha um, mas acabou.— Não me importo. A única coisa que me importa é que você está aqui neste momento.

— Mas eu me importo — disse Suzanne, um pouco magoada. — Eu me importo, e muito.

 

A manhã do segundo dia completo dos humanos secundários em Interterra começou da mesma forma que o primeiro dia. Suzanne e Perry partilharam avidamente um com o outro as experiências da noite ante­rior e estavam ansiosos pelo que o dia lhes traria. Donald estava menos empolgado e um pouco taciturno. Richard e Michael estavam tensos e calados, e, quando falavam, era só sobre quando iriam partir. Donald precisou mandá-los se calar quando Arak chegou.

Depois de conduzirem o grupo de volta à mesma sala de conferên­cias que haviam usado no dia anterior, Arak e Sufa se dedicaram a uma sessão educacional que se arrastou durante horas. Foi basicamente um debate científico que incluiu a forma pela qual Interterra canalizava a energia geotérmica; como se conservava o clima interterráqueo, inclu­sive o mecanismo usado para gerar a chuva noturna; como a tecnologia da bioluminescência era usada para fornecer iluminação uniforme tan­to ao ar livre quanto em ambientes fechados; como se manuseavam a água, o oxigênio e o dióxido de carbono; e como se cultivavam as plan­tas comestíveis, fotossintéticas e quimiossintéticas com a técnica da hidroponia.

Quando a imagem da tela do piso foi sumindo e a iluminação geral começou a retornar, os únicos dois humanos secundários que estavam prestando atenção eram Suzanne e Perry. Donald estava olhando para outro lado, obviamente absorto em seus próprios pensamentos. Richard e Michael estavam ferrados no sono. Quando a iluminação atingiu seu apogeu, ambos os mergulhadores acordaram, e eles e Donald tentaram fingir que haviam escutado tudo.

— Concluindo a sessão desta manhã — disse Arak, parecendo não se importar com a desatenção de certos indivíduos —, tenho certeza de que vocês têm agora uma idéia mais clara do motivo pelo qual perma­necemos aqui neste mundo subterrâneo, ou seja, além da questão microbiana. Ao contrário do que transpira na superfície terrestre, fo­mos capazes de construir um ambiente perfeitamente estável sem flutuações climáticas, tais como idades do gelo ou outros desastres rela­cionados com o tempo; energia essencialmente ilimitada, que não é fonte de poluição; e uma fonte alimentar completamente adequada, que pode ser reabastecida.

— O plâncton é sua fonte exclusiva de proteínas? — indagou Suzanne. Ela e Perry continuavam fascinados por todas aquelas revela­ções científicas.

— A fonte principal — disse Arak —, a outra fonte é a proteína vegetal. Costumávamos usar algumas espécies de peixes, mas paramos quando começamos a nos preocupar com a capacidade dos animais ma­rinhos maiores de reconstituir sua população. Infelizmente, essa é uma lição que os humanos secundários parecem não estar dispostos a aceitar.

— Especialmente no caso das baleias e do bacalhau — disse Suzanne.

— Exato — disse Arak. Olhou para os outros presentes na sala. — Mais alguma pergunta antes de voltarmos à parte prática?

— Arak, tenho uma pergunta — disse Donald.

— Pode falar — anuiu Arak. Alegrou-se. Donald, até o momento, havia demonstrado muito pouco interesse em participar.

— Gostaria de saber por que fomos trazidos para cá — disse Donald.— Esperava que fosse perguntar algo relativo ao que estivemos debatendo.

— É difícil para mim concentrar-me em questões técnicas quando não sei por que estou aqui.

— Entendo — disse Arak. Curvando-se, confabulou aos sussurros com Sufa e os Blacks. Depois, voltando a recostar-se, acrescentou:

— Infelizmente, não posso responder completamente a sua pergun­ta, pois fomos especificamente proibidos de lhes contar o motivo princi­pal pelo qual estão aqui. Mas posso lhes dizer isso: um dos motivos foi deter a tentativa de perfuração na porta de saída de Saranta, o que, devo dizer com prazer, conseguimos. Também posso lhes garantir que hoje saberão qual foi o motivo principal. Será que isso basta por enquanto?

— Acho que sim — disse Donald. — Mas se vamos saber mesmo, não vejo por que não pode nos contar agora.

— Por uma questão de protocolo — disse Arak. Donald concordou com a cabeça, relutante.

— Como oficial de carreira da Marinha, acho que posso aceitar essa resposta.

— Alguma outra pergunta sobre a apresentação de hoje? — inda­gou Arak.

— Estou meio sobrecarregado no momento — admitiu Perry. — Mas tenho certeza de que vou ter perguntas à medida que o dia for pas­sando.

— Bom, então vamos dar início à nossa excursão — disse Arak. — Com base no que ouviram esta manhã, onde gostariam de ir primeiro?

— Que tal o Museu da Superfície da Terra? — sugeriu Donald antes que qualquer dos outros pudesse responder.

— Sim! — manifestou-se Michael, entusiasticamente. — O lugar que tem aquele Corvette na frente!

— Você gostaria de ver o Museu da Superfície da Terra? — inda­gou Arak com um óbvio assombro. Lançou um olhar de relance a Sufa. A reação dela foi a mesma.— Acho que seria interessante — disse Donald.

— Eu também — disse Michael.

— Mas por quê? — indagou Arak. — Desculpem nossa surpresa, mas depois de tudo que lhes dissemos, estamos intrigados por quere­rem se voltar para o passado em vez do futuro.

Donald encolheu os ombros.

— Talvez seja só um quê de nostalgia.

— Vendo o que resolveram exibir lá, talvez tenhamos uma idéia melhor de sua reação ao nosso mundo — explicou Suzanne, esponta­neamente. Não estava tão interessada em ver o Museu quanto estava em ver os outros lugares que Arak descrevera, mas fez questão de apoiar o pedido de Donald.

— Muito bem — disse Arak, com um jeito afável. — O Museu da Superfície da Terra será nossa primeira parada do dia.

Todos se levantaram. Pela primeira vez Donald se mostrou ansioso, principalmente quando saíram do prédio. Ele pediu a Arak que lhe mostrasse como chamar um táxi aéreo, e Arak ficou satisfeito em aten­der seu pedido. Foi até mais além, mandando Donald colocar a palma da mão sobre a mesa preta central do táxi e dar o comando que deter­minava o destino do veículo.

— Isso foi fácil — disse Donald, quando a nave se elevou, silen­ciosa, sem solavancos, depois disparou na direção correspondente.

— Claro — disse Arak. — Foi feito para ser fácil, mesmo. Todos os visitantes achavam as viagens de táxi fascinantes. Nunca se cansavam de admirar a vista da cidade e a área ao redor dela. Estican­do os pescoços, tentavam ver tudo, mas era difícil; havia muito a ver, mas o veículo se movia a uma velocidade incrível. Em poucos minutos eles estavam pairando acima da entrada do museu, a uns seis metros de distância do Chevrolet  Corvette incrustado por cracas.

— Meu Deus, eu adorava aquele carro — disse Michael, com um suspiro melancólico, quando eles desceram do táxi aéreo. Ele parou e contemplou o monumento, nostálgico. — Eu namorava a Dorothy Drexler naquele tempo. Não sei qual dos dois tinha as formas mais atra­entes, se ela ou o carro.

— Os dois precisavam de uma chave de ignição para funcionar? — indagou Richard, com um sorriso malicioso.

Michael tentou acertar o amigo com a mão espalmada, mas Richard esquivou-se com facilidade. Depois dançou rapidamente, apoiado nos artelhos, como um pugilista profissional, antes de tentar retribuir o golpe.

— Nada de pancadaria — alertou Donald asperamente, metendo-se entre os dois mergulhadores.

— Seu Corvette talvez servisse para você e a Dorothy — disse Suzanne —, mas eu sinto uma vergonha danada vendo que os interterráqueos acham que isso aí representa nossa cultura.

— É, dá a impressão de que somos supersuperfíciais — concor­dou Perry. — Além de estar enferrujado e em péssimo estado de conser­vação.

— Superficiais e materialistas — disse Suzanne — o que, segundo suponho, provavelmente é verdade, quando refletimos um pouco sobre o assunto.

— Estão exagerando na interpretação do simbolismo — explicou Arak. — O motivo pelo qual o colocamos aqui na frente do museu é muito mais simples. Como agora estamos relegados a observar vocês de longe, para evitar que sejamos detectados por sua tecnologia em rápido desenvolvimento, são os automóveis que notamos mais. De uma gran­de distância, tem-se a impressão de que os carros são a forma dominan­te de vida na superfície da Terra, sendo que os humanos secundários agem como robôs ao cuidarem deles.

Suzanne teve dificuldade para conter o riso diante de uma afirma­ção tão absurda, mas quando pensava no assunto era capaz de entender por que eles viam isso de uma grande distância.

— O mais simbólico é o projeto do Museu em si — disse Arak. Todos os olhos se voltaram para o edifício. De perto, a construção

emanava uma aura inegavelmente sepulcral. Com cinco andares, compunha-se de segmentos retilíneos, superpostos ou dispostos em ângulo reto, de modo a compor uma forma complexa e bem geométrica. A maior parte dos segmentos estava repleta de janelas quadradas.

— O edifício simboliza a arquitetura urbana dos humanos secun­dários — comentou Arak.

— Parece bem feio, todo quadrado assim, feito um monte de cai­xas — disse Suzanne.

— Não agrada aos olhos — admitiu Arak. — Exatamente como a maioria das cidades de vocês, que são essencialmente aglomerados de arranha-céus semelhantes a caixas sobre plantas semelhantes a grades.

— Há algumas exceções — disse Suzanne.

— Algumas — concordou Arak. — Mas, infelizmente, a maior par­te das lições de arquitetura que os habitantes de Atlântida deram aos seus antepassados na antigüidade se perderam, ou foram ignoradas.

— É um edifício enorme — comentou Perry. Abrangia o equiva­lente a um quarteirão de uma cidade moderna.

— Precisa ser — disse Arak. — Temos uma imensa Coleção de ar­tefatos da superfície terrestre. Lembre-se de que estamos falando de um período de milhões e milhões de anos.

— Então o Museu não abrange só a cultura dos humanos secun­dários?

— Certamente que não — disse Arak. — Também abriga toda a gama da evolução atual da superfície terrestre. Naturalmente, temos nos interessado mais pelos últimos dez mil anos mais ou menos, por moti­vos óbvios. Embora esse segmento represente um mero piscar de olhos em comparação ao período como um todo, concentramos nele nossas coleções.

— E os dinossauros? — indagou Perry.

— Temos uma mostra pequena mas representativa de espécimes preservados — disse Arak. Depois acrescentou num aparte: — São criaturas de uma violência aterrorizante! — Sacudiu a cabeça como se experimentasse uma onda de náusea passageira.— Quero ver essa mostra — disse Perry, avidamente. — Estou louco para saber de que cor eram os dinossauros.

— Eram em sua maior parte de um verde-acinzentado meio inde­finido — disse Arak. — Bem feios, se quer mesmo saber.

— Vamos entrar — sugeriu Sufa.

O grupo penetrou no saguão de entrada. Era uma sala enorme, revestida com o mesmo basalto preto que o exterior. Através de abertu­ras no teto alto entravam réstias de luz. Elas se entrecruzavam na semi-obscuridade geral como fachos de luz de holofotes em miniatura, iluminando os objetos em exposição de forma impressionante. Múlti­plos corredores se originavam nesse núcleo central.

— Por que não há ninguém aqui? — indagou Suzanne. Olhou em todas as direções, e só viu corredores vazios de mármore. A voz ecoou várias vezes no silêncio sepulcral.

— É sempre assim — explicou Arak. — Este museu, apesar da importância que tem, não é particularmente popular. A maioria das pessoas prefere não se recordar da ameaça que seu mundo representa para o nosso.

— Está se referindo à ameaça de detecção? — acrescentou Suzanne.

— Exato — disse Sufa.

— Isso aqui parece um lugar onde seria fácil se perder — disse Perry. Espiou o interior de alguns dos corredores silenciosos, compridos e mal iluminados.

— Não é bem assim — disse Arak. Apontou para a esquerda. — Começando aqui, com as algas verde-azuladas, as exposições evolucionárias são cronológicas. — Depois apontou para a direita. — E desse lado temos a cultura dos humanos secundários começando com os hominídeos africa­nos mais remotos e chegando até o presente. Em qualquer lugar do museu, pode-se determinar como encontrar o caminho de volta ao saguão de en­trada, seguindo-se a direção dos espécimes progressivamente mais antigos.

— Eu gostaria de ver as exibições que buscam reproduzir nossa época moderna — disse Donald.— Certamente — disse Arak. — Siga-me. Vamos pegar um atalho através dos primeiros cinco ou seis milhões de anos.

O grupo seguiu Arak e Sufa como se fossem estudantes que estives­sem participando de uma excursão ao museu. Suzanne e Perry acharam difícil não parar e olhar cada artefato exposto, principalmente quando chegaram às salas dedicadas aos dos egípcios, gregos e romanos. Nem Suzanne nem Perry haviam visto nada igual antes. Era como se alguém tivesse voltado no tempo com carta branca para escolher os melhores objetos. Suzanne ficou particularmente encantada com o vestuário do período exposto com extremo bom gosto nos manequins de tamanho natural.

— Vão notar que há uma diferença quantitativa marcante em nossas coleções — explicou Arak. Ele havia permanecido com Suzanne e Perry enquanto os outros seguiam adiante. — Temos comparativamente pouco material moderno. Quanto mais recuamos na história, maiores são as exibições. Há muitos e muitos anos, costumávamos fazer viagens mes­mo, com vestimentas protetoras, para obter material para o museu. Naturalmente, acabamos tendo que parar com esse costume, por medo de nos expormos, logo que seus antepassados desenvolveram a escrita.

— Arak! — gritou Sufa de um ponto várias galerias à frente. — Donald, Richard e Michael estão andando rápido, então irei na frente com eles!

— Perfeito — disse Arak. — Vamos nos encontrar todos no sa­guão de entrada dentro de mais ou menos uma hora.

Sufa concordou e acenou em despedida.

— Por que se preocupavam com a exposição aos povos antigos? — perguntou Suzanne. — Eles certamente não possuíam uma tecnologia que pudesse causar problemas a vocês.

— É bem verdade — admitiu Arak. — Mas sabíamos que vocês, seres humanos secundários, teriam essa tecnologia algum dia, e não queríamos nenhum registro dessas nossas visitas. Já bastava nos preo­cuparmos com o experimento fracassado de Atlântida, embora esse não nos preocupasse tanto, já que os humanos primários envolvidos haviam desempenhado o papel de humanos de segunda geração.

Suzanne concordou com a cabeça, mas a atenção dela havia se des­viado para um antigo e elaborado vestido minóico, que deixava os seios completamente à mostra.

— Há um período na sua história moderna do qual possuímos muitos artefatos — disse Arak. — Gostariam de dar uma olhada?

Suzanne olhou para Perry, que encolheu os ombros.

— Por que não? — disse Suzanne.

Arak dobrou à esquerda e rumou a passos largos até uma galeria lateral repleta de delicadas peças de cerâmica grega. Seguido de perto por Suzanne e Perry, ele dobrou outra esquina e subiu um lance de escadas sem nada de especial. No andar acima, chegaram a uma enorme galeria cheia de peças da Segunda Guerra Mundial. Os artefatos iam de coisas tão pequenas quanto placas de identificação de cães e insígnias de uniformes até objetos tão grandes quanto um tanque Sherman, um avião B-24 Liberator e um submarino alemão intacto, com todos os tipos de objetos entre eles. Estava claro que tudo na galeria já havia estado um dia submerso no oceano.

— Minha nossa — comentou Perry enquanto andava entre as pe­ças expostas. — Isso aqui parece mais um pátio de ferro-velho do que uma exposição de museu.

— Parece que nossa última guerra mundial contribuiu substan­cialmente para o acervo do seu museu — disse Suzanne. Ela e Arak per­maneceram no patamar das escadas. Essa não era uma exposição pela qual Suzanne pudesse se interessar.

— Uma contribuição e tanto — concordou Arak. — Objetos como os que estão vendo aqui choveram no fundo dos oceanos durante mais de cinco anos. Durante as últimas centenas de anos de sua história, nossa única fonte de objetos raros foi o fundo do mar.

Suzanne olhou de relance o submarino.

— O crescimento explosivo da tecnologia dos submarinos e das suas operações preocupou vocês?— Só no tocante à tecnologia do radar — disse Arak. — Princi­palmente quando a tecnologia do sonar se combinou com a de confec­ção de mapas de perfilagem batipelágica. Essa tecnologia foi um dos motivos por que resolvemos fechar as portas de acesso como aquela pela qual você entrou.

Enquanto Suzanne e Arak continuavam a discutir o sonar e sua ameaça à segurança de Interterra, Perry perambulou por toda a largura da galeria da Segunda Guerra Mundial. Algumas peças da coleção pare­ciam estar em perfeitas condições, outros objetos estavam com incrustações de cracas como o Corvette em frente ao museu. Ao fim do corredor, ele meteu a cabeça por uma janela que dava para leste e vis­lumbrou as imensas espirais que serviam como sustentação dos Açores.

Perry relanceou os olhos pelo pátio lá embaixo e depois tornou a olhar. O Oceanus, o submersível da Benthic Marine, se encontrava apoiado so­bre o que parecia ser uma plataforma conectada a um grande táxi aéreo.

— Ei, Suzanne! — gritou Perry. — Venha ver!

Suzanne correu para se reunir a ele. Arak seguiu-a. Ambos se de­bruçaram da janela e seguiram o dedo de Perry, que indicava o subma­rino.

— Meu Deus! — disse Suzanne. — É o nosso submersível! O que ele está fazendo aqui?

— Ah, sim — disse Arak. — Esqueci de mencionar quanto inte­resse seu navio gerou junto aos curadores do museu. Creio que, com sua permissão, eles pretendem exibi-lo ao lado das outras peças.

— Ele sofreu alguma avaria? — indagou Perry.

— Nada grave — disse Arak. — Clones operários especializados repararam as luzes externas e o braço manipulador. Ele também foi descontaminado, mas sob outros aspectos está intacto. Vocês conhecem os componentes dessa embarcação?

— Um pouco — disse Perry. — Mas não de um ponto de vista operacional. Suzanne sabe mais do que eu. Eu só naveguei nele duas vezes.— Donald é que é o especialista mesmo — disse Suzanne. — Ele conhece essa embarcação como a palma da mão.

— Excelente — disse Arak. — Nós queríamos mesmo formular algumas perguntas sobre o sonar, que descobrimos ser ainda mais sofis­ticado do que havíamos imaginado.

— Ele é que pode responder a elas — disse Suzanne.

— O que é aquilo sobre o qual o submarino está apoiado? — in­dagou Perry.

— E um veículo aéreo de carga — disse Arak.

Michael fez questão de ficar ao lado de Donald, que estava atravessan­do o museu como se estivesse fazendo uma caminhada, em vez de apre­ciando os espécimes. Depois de alguns passos, Michael era sempre obrigado a correr para acompanhar as largas passadas de Donald. Donald há muito deixara Richard e Sufa para trás.

— Por que diabo está indo tão rápido? — disse Michael, sem fôle­go. — O que é isso, alguma corrida?

— Você não precisa me acompanhar — retrucou Donald. Ele do­brou outra esquina e prosseguiu. Eles passavam por uma galeria que continha esculturas e pinturas renascentistas.

— Richard e eu achamos que devíamos sair de Interterra o mais rápido possível — conseguiu dizer Michael. Estava ofegante.

— Vocês dois deixaram isso claro na hora do café — disse Donald, desdenhoso. Dobrou outra esquina e entrou em uma sala com paredes revestidas de tapetes.

— Estamos ficando meio preocupados — disse Michael, procu­rando manter-se lado a lado com o rápido ex-oficial da Marinha.

— Com o quê, marujo? — indagou Donald.

— Porque... bom... temos um problema — disse Michael, hesi­tante. — Tem a ver com um casal desses interterráqueos.

— Não estou interessado em seus problemas pessoais — disse Donald, em tom ríspido.— Mas é que aconteceu um acidente — disse Michael. — Ou, aliás, dois acidentes.

Donald parou de repente, e Michael também. Donald golpeou o ar diante do rosto de Michael. Os lábios de Donald estavam arreganhados, num sorriso de escárnio.

— Olha aqui, seu cabeça de melão! Vocês dois resolveram se en­volver com esses interterráqueos. Eu não quero saber das suas dificul­dades de relacionamento com eles. Entendeu?

— Mas...

— Nada de "mas", marujo — vociferou Donald. — Estou tentan­do achar um meio de sairmos daqui, e não quero que nem você nem seu amiguinho idiota me desviem desse objetivo.

— Tá legal, tá legal — disse Michael, levantando a mão defensiva­mente. — Estou contente por você estar trabalhando nesse sentido. Estou querendo sair daqui tão rápido quanto puder, só penso nisso. Quero dizer, vou ajudar de todas as formas que puder.

— Não vou me esquecer disso — disse Donald, ironicamente.

— Tem alguma idéia de como vamos conseguir?

— Vai ser difícil — admitiu Donald. — Vamos ter que encontrar alguém além do Arak para nos dar umas respostas válidas. O melhor, é claro, seria encontrar alguém que não esteja gostando daqui mas que já esteja aqui há tempo suficiente para saber como sair.

— Ninguém parece insatisfeito — comentou Michael. — É como se vivessem numa grande festa.

— Não estou falando dos interterráqueos — disse Donald. — Arak insinuou que várias pessoas do nosso mundo acabaram vindo parar nestas bandas. Alguns devem estar com saudades de casa e não devem ser tão amigos dos interterráqueos como Ismael e Mary parecem ser. É da na­tureza humana, ou pelo menos da natureza dos humanos secundários, resistir a quem os obriga a fazer alguma coisa. É esse tipo de pessoa que eu gostaria de encontrar.

— Como você sugere fazer isso?— Não sei — admitiu Donald. — Vamos ter que manter nossos olhos abertos para não perder a oportunidade quando ela se apresentar. Até que gosto de estar passeando pela cidade. Certamente não vamos encontrar uma pessoa assim sentados naquela droga de sala de confe­rências.

— Mas esse lugar está deserto — reclamou Michael. Os olhos dele desviaram-se momentaneamente para inspecionar os corredo­res vazios.

— Não vim aqui conhecer ninguém — disse Donald. — Vim aqui a esse museu dos infernos na esperança de encontrar algumas armas. Achei que encontraria algumas, mas ainda não vi nenhuma. Um museu sobre história humana sem armas é ridículo. O pacifismo desses interterráqueos está me fazendo subir pelas paredes.

— Armas! — comentou Michael. Concordou com a cabeça. A idéia não havia ainda entrado na mente dele, mas ficou imediatamente intri­gado. — Legal! Para lhe dizer a verdade, estava imaginando por que você queria vir aqui.

— Bom, agora você sabe, marujo? — disse Donald. — E talvez você possa até ajudar, já que esse lugar é assim imenso. Se nos dividir­mos, poderemos cobrir uma área bem maior.

Mal Donald deu essa sugestão, captou com o rabo do olho algo que ainda não tinha visto em nenhuma outra sala de exposições: uma porta fechada com as palavras Entrada Restrita numa placa presa a ela. Cu­rioso quanto ao seu conteúdo, aproximou-se dela, com Michael a se­gui-lo de perto. Quando Donald chegou mais perto, viu que havia várias outras palavras em letras menores: Solicite Permissão para entrar ao conselho de anciões..

— Que diabo é esse Conselho de Anciãos? — perguntou Michael por sobre o ombro de Donald.

— Uma espécie de órgão de governo, creio eu — disse Donald. Pousando a mão na porta, empurrou-a. Estava destrancada, como to­das as portas de Interterra.— Eureca! — disse Donald, ao vislumbrar alguns dos objetos exi­bidos na sala atrás da porta. Empurrou a porta, escancarando-a, e pas­sou pelo umbral. Michael seguiu-o e assobiou.

— Não admira que não tenhamos muitas armas — disse Donald. — Parece que ficam todas numa galeria oculta própria. — A sala era estreita em comparação às outras, mas extremamente longa. De ambos os lados se encontravam prateleiras para exposição das peças atulhadas de armas.

Os dois homens haviam ido até aproximadamente a metade da ga­leria. Na prateleira diretamente em frente à entrada estava uma besta medieval com uma aljava de quadrelos pontiagudos. Michael inclinou-se e ergueu a besta de onde se encontrava. Tornou a assobiar. Jamais havia manuseado uma arma daquelas.

— Caramba! — comentou. — Mas que troço mais assustador. — Bateu no corpo da arma com as juntas dos dedos. O som foi de uma batida sonora. Tangeu o cordel do arco. Ainda estava bom. Ergueu a arma e mirou ao longo de seu eixo. — Aposto que isso aqui ainda fun­ciona.

Donald já havia se afastado para a direita, mas logo viu que estava seguindo o sentido cronológico errado. As armas estavam ficando mais antigas. Adiante, divisou uma coleção de espadas, arcos e lanças gregos e romanos. Virou-se e passou por Michael, que estava ocupado tentan­do curvar a besta com uma manivela manual de modo a retesar o cordel e prendê-lo no seu dispositivo de travamento.

— O arco ainda tem um bocado de força — disse Michael quan­do finalmente teve êxito. Colocou um dos dardos na guia e ergueu a arma carregada para que Donald a visse. — O que acha?

— Pode ser que funcione — disse Donald, vagamente, enquanto se encaminhava no sentido contrário. Sentiu-se mais animado ao ver os primeiros exemplares de arcabuzes primitivos. — Mas eu estava espe­rando uma coisa mais definitiva que uma balestra.

— Pensei que isso aqui fosse uma besta — disse Michael.— É a mesma coisa — disse Donald sem se virar.

Michael pousou o dedo na alavanca de disparo e, sem querer, ati­rou. O dardo partiu zunindo de sua posição na guia, ricocheteou na parede de basalto com um som agudo de algo que raspa, passou como um relâmpago rente à orelha direita de Donald e se enterrou em uma das prateleiras de madeira. Donald havia sentido o deslocamento de ar do projétil quando ele passou.

— Mas será possível! — rosnou Donald. — Você quase me furou com essa porcaria aí!

— Desculpe — disse Michael. — Mal encostei no gatilho.

— Bote isso de volta no lugar antes que um de nós saia ferido — berrou Donald.

— Pelo menos sabemos como funciona — disse Michael. Donald sacudiu a cabeça, enojado, enquanto erguia a mão para ver se a orelha estava em bom estado. Graças a Deus, não havia sido ferido. A flecha havia passado perto o suficiente para tirar sangue. Resmun­gando uma série de impropérios a respeito dos palhaços que lhe haviam caído nas mãos, continuou percorrendo a galeria. Logo se viu diante de uma coleção de fuzis e revólveres da Segunda Guerra Mundial. Para sua decepção estavam em péssimo estado, depois de sofrer os efeitos corro­sivos da água do mar. Foi ficando cada vez mais desanimado, até que deu com uma Luger alemã perto do fim da sala. À primeira vista ela parecia estar em excelente estado de conservação.

Sem perceber que estava contendo a respiração, Donald pegou a pistola e avaliou seu peso. Para sua alegria, a arma parecia nova em fo­lha, mesmo após rigorosa inspeção. Com grande expectativa ele abriu o pente. Um sorriso surgiu-lhe no rosto. Estava carregada!

— Encontrou alguma coisa boa aí? — perguntou Michael. Havia seguido Donald.

Donald empurrou o pente para dentro da coronha da pistola. Ele produziu um som mecânico positivamente seguro. Ergueu a arma.

— Era isso que eu estava procurando.— Maneiro! — exclamou Michael.

Donald recolocou a Luger com todo o carinho onde a havia encon­trado.

— O que está fazendo? — perguntou Michael. — Não vai levá-la?

— Agora, não — disse Donald. — Só quando souber o que vou fazer com ela.

 

Richard parou de repente. Não conseguia acreditar no que estava ven­do. Era uma sala entupida de tesouros, a maioria antigos. Havia inú­meras taças, tigelas e até estátuas inteiras de ouro maciço, todas iluminadas com raios concentrados de luz, que enfatizavam seu brilho. A um canto, via-se uma série de baús cheios de dobrões. Era uma expo­sição deslumbrante.

O que tornava a visão ainda mais estonteante para Richard era que a coleção inteira de valor inestimável estava ao alcance de qualquer pes­soa, uma vez que os objetos estavam expostos sem vitrines protetoras como ele via em todos os museus onde já havia estado. E isso além do fato de que não havia vigias na porta do museu.

— Isso é inacreditável — disse Richard. — Meu Deus, isso é fan­tástico. O que eu não faria por um carrinho de mão cheio dessas coisas!

— Gostou desses objetos? — perguntou Sufa.

— Se eu gostei? Adorei — gaguejou Richard. — Nunca vi nada igual a isso aqui. Duvido que haja tanto ouro em Fort Knox.

— Temos salas de armazenagem abarrotadas dessas coisas — in­formou Sufa. — Há muitos anos que os navios afundam com tesouros. Posso providenciar para que enviem uma certa quantidade de objetos semelhantes ao seu quarto, para que se regale com eles, se quiser.

— Está querendo dizer coisas como as que estamos vendo aqui?

— Certamente — disse Sufa. — Prefere as estátuas grandes ou os objetos menores?

— Não sou exigente — disse Richard. — Mas e as jóias? O museu também tem jóias?— Sem dúvida — disse Sufa. — Mas a maioria delas vem da An­tigüidade da superfície da Terra. Gostaria de vê-las?

— Por que não? — concordou Richard.

No caminho para a galeria de jóias antigas, Richard vislumbrou um artefato em uma mostra de objetos raros do século XX que o fez sorrir. Em um pedestal da altura do peito, via-se um disco Frisbee cuidadosa­mente iluminado por uma réstia de luz, como se também fosse tão ines­timável quanto o ouro.

— Mas olha só que coisa! — murmurou Richard, ao parar diante do disco amarelo esverdeado. Notou algumas marcas de dentes de ca­chorro na beirada do disco. — Mas por que puseram isso aqui? — per­guntou a Sufa, que já estava lá na frente.

Sufa voltou para o ponto onde Richard se achava para ver ao que ele estava se referindo.

— Não sabemos bem o que é isso — admitiu ela. — Mas algumas pessoas sugeriram que poderia ser um modelo de um de nossos veículos antigravitacionais como nossos táxis aéreos ou nossos cruzadores interplanetários. Durante algum tempo tememos que alguém houvesse presenciado a passagem de uma das nossas naves.

Richard jogou a cabeça para trás e deu uma boa risada.

— Deve estar brincando — disse.

— Não estou, não — disse Sufa. — O formato dele é muito su­gestivo, e pode-se girá-lo de forma a capturar uma almofada de ar, imi­tando uma nave antigravitacional.

— Não é modelo de nada — disse Richard. — Não passa de um Frisbee.

— Mas para que serve? — indagou Sufa.

— Para jogar — disse Richard. — A gente o arremessa como você disse e depois alguém o pega. Deixe-me mostrar-lhe. — Richard pegou o Frisbee e jogou-o de leve, formando um ângulo com a horizontal. O brinquedo atingiu um apogeu, depois voltou. Ele o pegou na palma da mão, entre o polegar e os dedos.— É só isso — disse. — Fácil, não?

— Parece — disse Sufa.

— Deixe-me jogá-lo para você, e você o pega, como eu fiz — disse Richard. Ele recuou uns quinze metros na galeria e jogou o Frisbee para Sufa. Ela fez os movimentos como se fosse pegá-lo, mas era muito desa­jeitada. Embora o disco roçasse a mão dela, ela não conseguiu agarrá-lo; ele caiu no chão. Depois de revirar os olhos diante da falta de coordena­ção dela, Richard afastou-se e mostrou-lhe de novo como proceder. No novo arremesso ela se mostrou mais desajeitada que no primeiro.

— Vocês não têm muita atividade física, não é? — observou Richard, num tom de menosprezo. — Jamais vi alguém que não conse­guisse agarrar um Frisbee.

— Com que objetivo?

— Objetivo nenhum — retrucou Richard. — Só para se divertir. É um esporte. Jogar essa coisa de um lado para o outro dá à gente a oportunidade de se exercitar correndo.

— Parece-me uma inutilidade — disse Sufa.

— Não gostam de fazer exercício aqui em Interterra?

— Claro — disse Sufa. — Gostamos de nadar, principalmente, mas também de caminhar e brincar com nossos homídios. É claro que tam­bém praticamos sexo, como tenho certeza de que Meeta, Palenque e Karena lhe mostraram.

— Estou falando de esporte! — queixou-se Richard. — Sexo não é esporte.

— Para nós, é — afirmou Sufa. — E sem dúvida é uma atividade bem vigorosa.

— Que tal um esporte onde se tente vencer? — perguntou Richard.

— Vencer? — indagou Sufa.

— Sabe, competir! — disse Richard, chateado. — Não tem jogos competitivos por aqui?

— Mas, é claro que não! — disse Sufa. — Paramos com essa boba­gem éons atrás, quando eliminamos as guerras e a violência.— Ai meu Jesus! — extravasou Richard. — Não têm esportes! Quer dizer que não jogam hóquei, nem futebol, nem golfe! Caramba! E pen­sar que a Suzanne acha esse lugar aqui um paraíso!

— Por favor, se acalme — suplicou Sufa. — Por que está tão nervoso?

— Pareço nervoso? — indagou Richard, na maior inocência.

— Parece, sim — disse Sufa.

— Acho que estou precisando fazer um pouco de exercício — dis­se Richard. Com o Frisbee debaixo do braço, estalou as juntas dos de­dos, nervosamente. Sabia que estava tenso, e sabia por quê: vivia imaginando um clone operário encontrando o corpo de Mura encolhi­do dentro da sua geladeira.

— Por que não leva o Frisbee? — sugeriu Sufa. —Talvez Michael ou um dos outros queira jogar com você.

— Por que não? — disse Richard, sem muito entusiasmo.

 

— Muito bem, todos vocês! — anunciou Arak. O grupo havia torna­do a se reunir no terraço diante do museu depois de passar mais de uma hora dentro do prédio. Estavam todos debatendo o que haviam visto durante a visita, exceto Richard, que ficou pelos cantos, jogando o Frisbee no ar e pegando-o sem parar. Três táxis aéreos os aguardavam no final da escadaria.

— Vamos falar da programação do restante da manhã — disse Arak.

— Sufa vai acompanhar Perry até a fábrica de táxis aéreos e sua oficina de manutenção. Perry, creio, preferiu fazer essa visita.

— Exatamente, queria muito — confirmou Perry.

— Ismael e Mary vão acompanhar Donald e Michael até a Central de Informações — prosseguiu Arak.

Donald concordou.

— E você, Richard? — indagou Arak. — Qual dos dois lugares prefere visitar?

— Tanto faz — disse Richard, continuando a arremessar o Frisbee no ar.— Tem que escolher um ou outro — disse Arak.

— Tá legal, então a fábrica de táxis aéreos — disse Richard, im­passível.

— E a Suzanne? — perguntou Perry.

— A Dra. Newell irá comigo a uma reunião com o Conselho dos Anciãos — disse Arak.

— Sozinha? — Querendo protegê-la, Perry olhou de relance para Suzanne.

— Está tudo bem — tranqüilizou-o Suzanne. — Enquanto vocês visitavam o submarino na galeria da Segunda Guerra, Arak explicou que os Anciãos queriam falar comigo profissionalmente, como oceanógrafa.

— Mas por que sozinha? — indagou Perry. — E por que não que­rem que eu vá? Afinal sou presidente de uma empresa oceanográfica.

— Acho que não estão interessados no lado comercial — disse Suzanne. — Não esquenta.

— Tem certeza? — persistiu Perry.

— Absoluta — disse Suzanne. Deu tapinhas no ombro de Perry.

— Então vamos — chamou Arak. — Vamos todos nos reencon­trar no palácio dos visitantes mais tarde. — Fazendo sinal para que os outros o seguissem, ele contornou a plataforma onde se encontrava o Corvette antigo e começou a descer os largos degraus até os táxis aéreos que flutuavam ao pé da escadaria.

 

Pareceu mesmo estranho para Suzanne estar sozinha com Arak quando o táxi aéreo partiu, arrebatando-os para o seu destino. Era a primeira vez que Suzanne se afastava dos outros, exceto quando dormiu no seu chalé. Ela olhou para Arak, e ele sorriu para ela. Estar assim próxima dele a fez tomar consciência de como ele era bonito.

— Está gostando de sua orientação? — indagou Arak. — Ou está se sentindo frustrada, achando que ela está indo devagar, ou depressa demais?— Avassaladora, é a melhor descrição da minha opinião sobre ela — disse Suzanne. — A velocidade não vem ao caso, e eu certamente não estou nem um pouco frustrada.

— Seu grupo é um desafio e tanto para se criar e adaptar o melhor protocolo de orientação. Vocês são todos muito diferentes uns dos outros, um fato que nós interterráqueos consideramos não só fascinante, como também intimidador. Sabe, devido à seleção e adaptação, somos todos muito parecidos entre nós, como tenho certeza de que deve ter percebido.

— Todos são muito gentis — disse Suzanne, meneando a cabeça afirmativamente e estremecendo diante do lugar-comum. Percebeu que, até aquele comentário de Arak, ainda não havia refletido muito no as­sunto. Agora que estava pensando nisso, percebeu que era verdade. Não só eram todos atraentes no sentido clássico, mas igualmente educados, inteligentes e simpáticos. Havia pouca, senão nenhuma variação entre seus temperamentos.

— "Gentil" é uma palavra neutra demais — disse Arak. — Espero que não esteja entediada de conviver conosco.

Suzanne soltou uma risadinha curta e envergonhada.

— É difícil me entediar estando assim deslumbrada como estou — disse. — Posso lhe garantir isso, não estou entediada. — Os olhos dela vaguearam até a vista inacreditável da cidade com os enxames de táxis aéreos zunindo ao redor. A última coisa que sentia era tédio, mas de repente percebeu do que Arak estava falando. Depois de algum tem­po, Interterra talvez se tornasse um lugar cansativo devido à sua homogeneidade. Alguns dos mesmos aspectos que faziam dela um pa­raíso também a tornavam insossa.

Suzanne concentrou-se em um prédio impressionante que se desta­cava da tapeçaria que era a cidade e a tirou dos seus devaneios quando o táxi aéreo rapidamente se aproximou dele. Era uma enorme pirâmide negra com uma parte superior dourada. Quando o táxi parou e depois desceu até uma passarela que conduzia à entrada da pirâmide, ela ficou abismada ao notar como o edifício se parecia com a Grande Pirâmide egípcia de Gizé. Como já estivera em Gizé, juraria que a versão interterráquea era até mais ou menos do mesmo tamanho. Quando mencionou a semelhança a Arak, ele sorriu, com ar de superioridade.

— Esse projeto foi uma das nossas contribuições à cultura egípcia — declarou Arak. — Tínhamos grandes esperanças em relação a eles, pois, a princípio, eram uma civilização consideravelmente pacífica. Enviamos uma delegação para viver com eles nos primórdios da histó­ria egípcia com a intenção de fazê-los se destacar entre os outros povos extremamente belicosos que haviam se desenvolvido. A experiência não foi um empreendimento da mesma monta que o movimento de Atlântida, e nos esforçamos muito, mas, no final, fracassamos.

— Mostraram a eles como construir prédios e lhes forneceram os projetos? — indagou Suzanne. Para ela o mistério da Grande Pirâmide era um dos mais fascinantes do mundo antigo.

— Claro — disse Arak. — Precisamos fazer isso. Também lhes ensinamos o conceito de arco, mas eles se recusaram terminantemente a crer que funcionaria, e nunca o usaram em nenhuma construção.

O táxi aéreo parou, e a lateral se abriu.

— Primeiro você — disse Arak, gentilmente.

Depois que entraram, Suzanne percebeu que qualquer semelhança entre as duas construções havia desaparecido. O interior da pirâmide interterráquea era de mármore branco cintilante, e os espaços interio­res, grandiosos em vez de claustrofóbicos.

Quando Suzanne e Arak percorreram um corredor rumo ao centro do edifício, Suzanne teve nova surpresa. Garona saiu de um corredor lateral, surgindo bem na frente dela e lhe deu um caloroso abraço.

— Garona! — murmurou Suzanne, obviamente extasiada. Retri­buiu-lhe o abraço. — Mas que agradável surpresa! Eu não esperava te ver antes da noite. Ou pelo menos esperava vê-lo esta noite.

— É claro que teria me visto à noite — disse Garona. — Mas não consegui esperar. — Olhou-a nos olhos. — Sabia que você viria ao Conselho dos Anciãos hoje, de forma que vim esperá-la.— Pois adorei — respondeu Suzanne.

— É melhor nos apressarmos — disse Arak. — O Conselho está nos aguardando.

— Certamente — disse Garona. Parou de abraçar Suzanne e pe­gou a mão ela. Os três começaram a andar.

— Como foi sua manhã? — indagou Garona.

— Esclarecedora — disse Suzanne. — A tecnologia de vocês é es­pantosa.

— Tivemos uma palestra científica — explicou Arak.

— Alguma visita? — indagou Garona.

— Ao Museu da Superfície da Terra — contou Suzanne.

— É mesmo? — Garona pareceu surpreso.

— Foi um pedido específico do Sr. Donald Fuller — explicou Arak.

— Acharam a visita instrutiva? — perguntou Arak.

— Foi interessante — disse Suzanne. — Mas eu não teria escolhi­do esse lugar, não diante do que aprendemos na palestra científica.

Aproximaram-se de um par majestoso de portas de bronze. Em cada painel se via uma figura em relevo que Suzanne reconheceu ser um ankh, ou um antigo símbolo egípcio da vida. Era mais um lembrete para ela da evidente troca de informações dos interterráqueos com a civilização antiga dos seres humanos secundários. Aquilo a fez imaginar o que mais teria resultado dessa cultura avançada.

No momento em que o grupo chegou a elas, as portas se abriram para o interior da sala, girando em dobradiças silenciosas. Além delas se viu um salão circular com teto em cúpula, sustentado por uma colunata. Como o resto do interior da pirâmide, era em mármore branco, embo­ra os capitéis das colunas fossem de ouro.

Diante da insistência de Arak, Suzanne ultrapassou o limiar de már­more. Deu alguns passos hesitantes antes de parar. Examinou a câmara monumental. Doze cadeiras de estilo imperial se encontravam distribuí­das por sua periferia. Cada uma se situava entre um par de colunas. Todas estavam ocupadas — supostamente por membros do Conselho, cuja idade variava de 5 a 25 anos. O inesperado grupo de idades tão variadas deixou Suzanne ligeiramente confusa. Alguns dos membros eram tão pequenos que, quando sentados, seus pés nem tocavam no chão.

— Entre, Dra. Suzanne Newell — disse um dos componentes do Conselho, numa voz claramente pré-adolescente. Para Suzanne, ela parecia uma menina de dez anos. — Meu nome é Ala, e é minha vez de falar pelo Conselho. Portanto, por favor, não tenha medo! Sei que o prédio é imponente e intimidador, mas queremos apenas falar com você, se vier ao centro da sala, todos poderemos vê-la com clareza.

— Estou mais surpresa do que temerosa — disse Suzanne ao avan­çar até um ponto diretamente abaixo do ponto mais alto da cúpula. — Disseram-me que eu ia me apresentar ao Conselho dos Anciãos.

— E foi a ele que veio — disse Ala. — O fator determinante para se fazer parte do Conselho é o número de vidas que a pessoa teve, não a idade do corpo atual.

— Entendo — disse Suzanne, embora ainda considerasse perturbador estar diante de um corpo governamental parcialmente com­posto de crianças.

— O Conselho dos Anciãos formalmente lhe dá as boas-vindas — disse Ala.

— Obrigada — respondeu Suzanne, sem saber mais o que dizer.

— Trouxemos você a Interterra na esperança de que pudesse nos fornecer informações que não fomos capazes de obter monitorando suas comunicações na superfície terrestre.

— Que tipo de informações? — indagou Suzanne. Sentiu que es­tava fechando a guarda. Em sua imaginação ouviu a voz de Donald dizendo que os interterráqueos queriam algo deles, e depois que o obti­vessem, os tratariam de forma muito diferente.

— Não se alarme — disse Ala, conciliadora.

— É difícil não se alarmar — disse Suzanne. — Principalmente porque você me faz recordar que eu e meus colegas fomos abduzidos para seu mundo, o que, devo dizer, foi uma experiência aterrorizante.— Pedimos desculpas por isso — disse Ala. — E deve entender que pretendemos recompensá-los por seu sacrifício. Mas somos nós que estamos alarmados. Sabe, a integridade e segurança de Interterra são responsabilidade nossa. Sabemos que você é uma oceanógrafa de desta­que no seu mundo.

— Estão sendo muito generosos — disse Suzanne. — Na verdade, estou há relativamente pouco tempo nesse campo.

— Permita-me interrompê-la — disse um outro ancião. Era um adolescente que começava a deslanchar no seu crescimento. — Meu nome é Ponu, e atualmente sou o vice-representante. Dra. Newell, estamos cientes da alta consideração que têm pela senhora seus colegas do ramo. Cremos que esse respeito é uma prova confiável da capacida­de profissional de uma pessoa.

— Como queiram — disse Suzanne. Não estava com vontade de debater o assunto sob as circunstâncias do momento. — O que querem me perguntar?

— Em primeiro lugar — disse Ala —, gostaria de saber se lhe in­formaram que nosso ambiente é isento de bactérias e vírus comuns no seu mundo.

— Arak deixou isso bem claro — disse Suzanne.

— E presumo que entenda que a detecção de nossa civilização por uma civilização como a sua seria desastrosa.

— Posso entender a preocupação de vocês com a contaminação — disse Suzanne. — Mas não estou convencida de que seria necessaria­mente desastroso, principalmente se forem adotadas salvaguardas ade­quadas.

— Dra. Newell, não pretendemos fazer disso um debate — avisou Ala. — Mas certamente deve estar ciente do fato de que sua civilização ainda está num estágio muito inicial de desenvolvimento social. O in­teresse individual puro e simples é a força de motivação dominante, e a violência é cotidiana. Aliás o seu país mesmo é tão primitivo que per­mite que toda e qualquer pessoa porte uma arma.— Permita-me parafraseá-la — aparteou Ponu. — O que minha estimada colega anciã está afirmando é que a fome do seu mundo e a cobiça por nossa tecnologia serão tão grandes que nossas necessidades especiais seriam postas de lado.

— Exato — disse Ala. — E não podemos aceitar um risco desses. Não durante pelo menos cinqüenta mil anos, mais ou menos, para dar a vocês, humanos secundários, uma oportunidade de se tornarem mais ci­vilizados. Contanto, é claro, que não se destruam antes de chegarem lá.

— Certo — disse Suzanne. — Como está dizendo, isto não é um debate, e vocês me convenceram de que crêem que minha cultura é um risco para a sua. Partindo daí, o que querem de mim?

Fez-se uma pausa. Suzanne olhava de Ala para Ponu. Como nenhum dos dois respondeu, ela olhou de relance para os outros rostos. Nin­guém falou. Ninguém se moveu. Suzanne voltou a fitar Arak e Garona. Garona sorriu, tranqüilizando-a. Suzanne voltou a se dirigir a Ala.

— Bom, e agora? — perguntou. Ala suspirou.

— Gostaria de lhe fazer uma pergunta direta — disse. — Uma pergunta cuja resposta tememos ouvir. Sabe, seu mundo começou a fazer várias perfurações no fundo do oceano nos últimos anos, aparentemen­te de forma aleatória. Observamos esses episódios com uma preocupa­ção cada vez maior, pois não sabemos quais são seus objetivos. Sabemos que a perfuração não é para a prospecção de petróleo nem de gás natu­ral, pois esses recursos não existem nas áreas onde essa perfuração está sendo feita. Andamos monitorando as comunicações, como sempre fi­zemos, mas sem conseguirmos saber o porquê das perfurações.

— Estão interessados em saber por que o Benthic Explorer andou perfurando a montanha submarina? — indagou Suzanne.

— Estou muito interessada — disse Ala. — Vocês estavam per­furando diretamente em cima de nossas antigas portas de saída. A probabilidade disso ocorrer puramente por acaso é extremamente pe­quena.— Não foi por acaso — admitiu Suzanne. Assim que ela pro­nunciou essas palavras um murmúrio geral irrompeu entre os anciãos. — Deixem-me terminar — pediu Suzanne. — Estávamos perfuran­do a montanha para vermos se podíamos alcançar diretamente a astenosfera. Nosso ecobatímetro indicou que o monte era um vul­cão inativo com uma câmara de magma cheia de lava de baixa den­sidade.

— Por acaso a decisão de perfurar este local em particular se origi­nou de uma suspeita de que Interterra existe? — indagou Ala.

— Não! — disse Suzanne. — Definitivamente não!

— Não houve influência da suspeita da existência de uma civiliza­ção submarina no processo de decisão? — indagou Ala.

— Como já disse, estávamos perfurando puramente por motivos geológicos — disse Suzanne.

Os anciãos conferenciaram em voz alta uns com os outros. Suzanne virou-se e relanceou os olhos de novo para Arak e Garona. Ambos sor­riram para incentivá-la.

— Dra. Newell — disse Ala para redirecionar a atenção de Suzanne para si —, por acaso, em sua capacidade profissional, já ouviu dizer qualquer coisa vinda de qualquer fonte que sugerisse que alguém sus­peita da existência de Interterra?

— Não nos círculos científicos — disse Suzanne. — Mas publica­ram alguns romances sobre um mundo subterrâneo.

— Sabemos da obra do Sr. Verne e do Sr. Doyle — disse Ala. — Mas eram livros de ficção que visavam unicamente ao entretenimento.

— Certo — disse Suzanne. — Fantasia pura. Ninguém achou que as histórias deles se baseassem em fatos, embora eles provavelmente te­nham se inspirado em um homem chamado John Cleves Symmes, que realmente acreditava que o centro da Terra era oco.

Os anciãos voltaram a murmurar em voz alta, nervosos.

— As crenças do Sr. Symmes influenciaram de algum modo a opi­nião dos cientistas? — indagou Ala.— Até certo ponto — disse Suzanne. — Mas eu não me preocupa­ria muito com isso, porque estamos falando da primeira parte do século XIX.  Em 1838 a teoria dele realmente motivou uma das primeiras expe­dições científicas norte-americanas. Foi realizada sob o comando do te­nente Charles Wilkes, e seu objetivo inicial era encontrar a entrada do interior oco da Terra, que Symmes pensava ficar debaixo do Pólo Sul.

Mais murmúrios exaltados ecoaram por toda a sala.